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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMOR SEM LIMITES / Robert Anson
AMOR SEM LIMITES / Robert Anson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AMOR SEM LIMITES

Primeira Parte

 

A Grande Diáspora da raça humana, que começou há mais de dois milênios, quando o Êxodo Libby-Sheffield foi divulgado, e que continua até hoje não mostrando sinal algum de diminuir, tornou a redação da história, como narrativa única — ou mesmo muitas narrativas compatíveis —, impossível. No século XXI (gregoriano)[1], no Velho Lar Terra, a nossa raça era capaz de dobrar o seu número três vezes em cada século — desde que tivesse espaço e matérias-primas.

O Êxodo para as Estrelas proporcionou ambos. O Homo sapiens espalhou-se por este setor da nossa galáxia a muitas vezes a velocidade da luz e multiplicou-se como fermento. Se tivesse ocorrido a duplicação no potencial do século XXI, nosso número seria agora da ordem de 7 X 109 X 268 — número este tão grande que chega a desafiar o controle emocional; ele é adequado apenas para os computadores:

7 X 109 X 268 = 2 066 035 336 255 469 780 992 000 000 000

ou mais de dois mil milhões de bilhões de trilhões de pessoas — ou uma massa de proteína vinte e cinco milhões de vezes maior de que toda a massa do planeta nativo da nossa raça, Sol III, Velho Lar.

Um absurdo.

Digamos que isso seria absurdo se a Grande Diáspora não tivesse ocorrido, porque a nossa raça, tendo atingido o potencial de duplicar três vezes em cada século, havia chegado também a uma crise na qual não podia duplicar nem mesmo uma vez — aquela dobra na curva da lei do crescimento do fermento na qual uma população só pode manter uma estabilidade precária de crescimento zero matando seus próprios membros com rapidez adequada... para que não se afoguem nos seus próprios venenos, cometam suicídio através da guerra total ou tropecem em alguma outra forma de solução final malthusiana.

No entanto, a raça humana não aumentou (achamos) até esse número monstruoso, porque o número-base para a Diáspora não deve ser considerado como de sete bilhões, mas, antes, de alguns milhões no início da era, mais as inumeráveis centenas de milhões, pequenas mas ainda crescendo desde então, que emigraram da Terra e dos seus planetas-colônias para lugares mais distantes ainda durante os dois últimos milênios.

Não somos mais capazes, porém, de fazer uma estimativa razoável do número da raça humana, nem temos sequer uma contagem aproximada dos planetas colonizados. O máximo que podemos dizer é que deve haver mais de dois mil planetas colonizados e mais de quinhentos bilhões de pessoas. Os planetas colonizados podem chegar ao dobro desse número e a raça humana pode ser quatro vezes mais numerosa do que isso. Ou mais.

Assim, até os aspectos demográficos da historiografia se tornaram impossíveis; os dados já estão desatualizados quando os recebemos, e sempre incompletos. Apesar disso, não tão numerosos e têm um grau de confiança tão variável, que muitas centenas de computadores humanos da minha equipe se ocupam em tentar analisá-los, conferi-los, interpolá-los e extrapolá-los, comparando-os com outros dados, antes de incorporá-los aos registros. Tentamos manter padrões de 95 por cento de probabilidade de dados corrigidos e 85 por cento de grau de confiança pessimista; nossos resultados estão mais próximos de 89 por cento e 81 por cento — e tendem a piorar.

Os pioneiros pouco se preocupam em mandar registros para o escritório da matriz; estão ocupados em manter-se vivos, fazer filhos e matar qualquer coisa em seu caminho. Geralmente uma colônia já está em sua quarta geração até que qualquer dado chegue a este escritório.

(Nem pode ser de outra maneira. Um colono interessado demais em estatísticas se torna ele próprio uma estatística — como cadáver. Eu pretendo emigrar; certa vez fiz isso, não vou incomodar-me se este escritório souber ou não por onde ando. Meti-me neste trabalho essencialmente inútil por quase um século, em parte através de incentivos e em parte por disposição genética — sou um descendente direto e reforçado do próprio Andrew Jackson Slipstick Libby. Mas sou descendente também do Sênior, e possuo — acho eu — um pouco da sua natureza irrequieta. Quero acompanhar os gansos selvagens e ver o que está acontecendo lá fora — casar-me novamente, deixar uma dúzia de descendentes num planeta novo não superpovoado e depois, possivelmente, seguir em frente. Uma vez que tenha coletado as memórias do Sênior, os Curadores podem, como se diz no antigo idioma do Sênior, pegá-las e enfiá-las no rabo.)

Que tipo de homem é o nosso Sênior, meu ancestral e provavelmente seu também, e certamente o mais velho ser humano vivo, o único homem que tomou parte em todo o espetáculo pomposo da crise da raça humana e sua superação da crise através da Diáspora?

Porque a superamos. Nossa raça pode perder agora cinqüenta planetas, cerrar fileiras e seguir em frente. Nossas valorosas mulheres podem substituir as baixas numa única geração. Não que isto pareça possível acontecer; até agora não encontramos nenhuma raça tão baixa, tão sórdida, tão mortífera como a nossa. Uma extrapolação conservadora indica que chegaremos àquele número absurdo dado anteriormente em mais algumas gerações — e nos mudaremos desta galáxia para outras antes de terminarmos de colonizar esta aqui. Na verdade, informações de mais longe ainda indicam que as naves coloniais intergalácticas já estão se dirigindo para as Profundezas Sem Fim. Estas informações não foram verificadas — mas as colônias mais viris estão sempre muito longe dos centros mais populosos. Pode-se ter esperança.

Na melhor das hipóteses, a história é difícil de compreender; na pior, é uma coleção mortiça de registros duvidosos. É mais viva através das palavras de testemunhas oculares.. e só temos uma testemunha cuja vida abranja os vinte e três séculos de crise e a Diáspora. O segundo ser humano mais velho cuja idade este escritório foi capaz de verificar tem apenas pouco mais de mil anos de idade. A teoria da probabilidade torna possível haver em alguma parte uma pessoa com a metade dessa idade — mas é tanto matemática como historicamente certo não haver nenhum outro ser humano vivo atualmente que tenha nascido no século XX[2].

Alguns podem perguntar se este Sênior é o membro das Famílias Howard nascido em 1912 e também o Lazarus Long que levou as Famílias em sua fuga do Velho Lar em 2136, etc. — acentuando que todos os antigos métodos de identificação (impressões digitais, tipos de retina, etc.) agora estão superados. É verdade, aqueles métodos eram adequados para sua época, e a Fundação das Famílias Howard tinha motivos especiais para usá-los com cuidado; o Woodrow Wilson Smith cujo nascimento foi registrado na Fundação em 1912 é certamente o Lazarus Long de 2136 e 2210. Antes de aqueles testes deixarem de ser dignos de confiança, foram, suplantados por testes modernos insuperáveis, baseados primeiro em transplantes de clones e, posteriormente, em identificação absoluta dos padrões genéticos. (É interessante mencionar que apareceu um impostor há cerca de três séculos, aqui em Secundus, e recebeu um novo coração de um pseudocorpo clonado do Sênior. Isso o matou.) O Sênior cujas palavras são citadas aqui tem um padrão genético idêntico ao de um pedaço de tecido muscular retirado de Lazarus Long pelo dr. Gordon Hardy na nave estelar Novas Fronteiras por volta de 2145, e cultivado por ele para pesquisa de longevidade. Q.E.D.[3]

Mas que tipo de homem é ele? Você deve julgar por si mesmo. Ao condensar esta biografia, dando-lhe um tamanho manuseável, omiti muitos incidentes históricos verificados (os dados brutos estão à disposição dos estudiosos nos arquivos) —, mas deixei nela mentiras e histórias pouco prováveis na suposição de que as mentiras que um homem conta contêm mais verdades sobre ele — quando analisadas — do que a "verdade".

Está claro que este homem é, pelos padrões habituais das sociedades civilizadas, um bárbaro e um patife.

Mas não compete aos filhos julgarem seus pais. As qualidades que fazem dele o que é são precisamente aquelas necessárias para manter-se vivo numa selva — ou numa fronteira inóspita. Não se esqueça do seu débito para com ele, tanto genético quanto histórico.

Para compreender o nosso débito histórico para com ele é necessário examinar um pouco da história antiga — parte tradição ou mito, e parte fato tão firmemente estabelecido quanto o assassinato de Júlio César. A Fundação das Famílias Howard foi instituída pelo testamento de Ira Howard, que morreu em 1873. Seu testamento instruía os curadores da Fundação a usarem o seu dinheiro para "prolongar a vida humana". Isto é fato.

A tradição diz que ele estabeleceu isto por raiva da própria sorte, porque se viu morrendo de velhice aos quarenta e oito anos — morto aos quarenta e oito anos, solteiro, sem descendência. Assim, nenhum de nós possui o seu gene; sua imortalidade está apenas num nome, e numa idéia — a de que a morte pode ser evitada.

Na época, a morte aos quarenta e oito anos não era fora do comum. Acreditem ou não, naquele tempo a idade média em que se morria era trinta e cinco anos! Mas não de senilidade. A doença, a fome, os acidentes, o assassinato, a guerra, o parto e outras violências ceifavam a maioria dos seres humanos muito antes de a senilidade aparecer. Mas o ser humano que tivesse passado por todos esses obstáculos ainda podia esperar a morte por velhice em alguma ocasião entre os setenta e cinco e os cem anos. Pouquíssimos atingiam os cem; no entanto, todo grupo populacional tinha sua ínfima minoria de "centenários". Há uma lenda sobre o Velho Tom Parr, que julgam haver morrido em 1635 com cento e cinqüenta e dois anos de idade. Se a lenda é verdadeira ou não, a análise das probabilidades dos dados demográficos dessa época mostra que alguns indivíduos devem ter vivido um século e meio. Mas eram realmente poucos.

A Fundação iniciou o seu trabalho como uma experiência de criação pré-científica, já que nada se conhecia então de genética: os adultos de linhagens que viviam muito eram encorajados a cruzar com outros como eles, sendo o dinheiro o incentivo.

Por surpreendente que pareça, o incentivo funcionou. Por surpreendente que pareça, esta experiência igualmente funcionou, já que era um método empírico usado pelos criadores de gado durante séculos antes de surgir a ciência da genética: cruzar para reforçar uma característica, depois eliminar o refugo.

Os arquivos das Famílias não revelam como os primeiros refugos foram eliminados; revelam simplesmente que alguns foram eliminados das Famílias — raízes e ramos, todos os descendentes — pelo pecado imperdoável de morrerem de velhice jovens demais.

Na crise de 2136, todos os membros das Famílias Howard tinham expectativas de vida de mais de cento e cinqüenta anos, e alguns ultrapassaram tal idade. A causa dessa crise parece inacreditável — contudo, todos os registros, tanto de dentro como de fora das Famílias, concordam com ela. As Famílias Howard estavam extremamente ameaçadas por todos os outros seres humanos simplesmente por viverem "tanto". Por que isto era verdade é uma questão para psicólogos de grupo, não para um arquivista. Mas era verdade.

Elas foram capturadas e concentradas num campo de prisioneiros, e estavam prestes a serem torturadas até a morte, numa tentativa de lhes arrancarem seu "segredo" da "eterna juventude". Fato — não mito.

Aqui o Sênior entra na história. Por meio de audácia, talento para mentir convincentemente, e o que poderia parecer à maioria das pessoas atualmente um prazer infantil na aventura e na intriga por si mesmas, o Sênior dirigiu a maior fuga de presos de todos os tempos, seqüestrando uma nave estelar primitiva e fugindo para fora do Sistema Solar com todos os membros das Famílias Howard (totalizando, então, cerca de cem mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças).

Se isto parece impossível — tantas pessoas e apenas uma nave —, lembrem-se de que as primeiras naves estelares eram muito maiores do que as que usamos agora. Eram planetóides artificiais auto-suficientes, projetados para permanecer no espaço por muitos anos a uma velocidade abaixo da velocidade da luz; tinham que ser enormes.

O Sênior não foi o único herói desse êxodo. Entretanto, em todos os relatos variados e um tanto conflitantes que chegaram até nós, ele era sempre a força impulsora. Ele foi o nosso Moisés, o homem que livrou o seu povo da servidão.

Ele o trouxe de volta para casa três quartos de século mais tarde (2210) — mas não para a servidão. Porque essa data, ano 1 do calendário galático padrão, marca o início da Grande Diáspora... causada pela pressão extrema da população no Velho Lar Terra, e tornada possível por dois novos fatores: o Paraêxodo Libby-Sheffield, como era conhecido então (não um êxodo em qualquer sentido verdadeiro, mas um meio de manipular os espaços n-dimensionais), e as primeiras técnicas eficazes (e mais simples) de longevidade: sangue novo criado in vitro.

As Famílias Howard fizeram com que isto acontecesse simplesmente fugindo. Os seres humanos de vida curta na Terra, ainda convencidos de que as famílias de vida longa possuíam um "segredo", resolveram tentar descobri-lo por meio de pesquisas amplas e sistemáticas. Como sempre, a pesquisa deu resultados surpreendentes, não revelando o "segredo" não-existente, mas chegando a algo quase tão bom: uma terapia e, finalmente, uma série de terapias para protelar a velhice e prolongar o vigor, a virilidade e a fertilidade.

A Grande Diáspora foi, então, tanto necessária como possível.

O grande talento do Sênior (além da sua capacidade de mentir extemporânea e convincentemente) parece ter sido sempre um dote raro para extrapolar as possibilidades de qualquer situação — distorcendo-a depois para servir a seus próprios interesses. (Ele chama a isso: "Você precisa ter percepção do que faz a rã saltar". Os psicometristas que o estudaram dizem que ele tem um talento psi extremamente elevado, expresso como "precursores" e "sorte" — mas o que o Sênior tem a dizer sobre eles é menos amável. Como arquivista, abstenho-me de opinar.)

O Sênior percebeu logo que esta bênção da juventude prolongada, embora prometida a todos, seria limitada, na verdade, aos poderosos e seus favoritos. Não se podia permiti-la aos bilhões de servos que vivessem além do seu período normal; não havia espaço para eles — a menos que emigrassem para as estrelas, caso em que haveria espaço para cada ser humano viver por quanto tempo pudesse. Como o Sênior explorou isto nem sempre é claro; ele parece ter usado vários nomes e muitas fachadas. Suas companhias-chave foram transferidas para as mãos desta Fundação e depois liquidadas, para que mudassem a Fundação e as Famílias Howard para Secundus — por ordem sua, tendo ele reservado "as melhores propriedades" para os seus parentes e descendentes. Sessenta e oito por cento daqueles que então viviam aceitaram o desafio das novas fronteiras.

Nosso débito genético para com ele é tanto indireto como direto. O débito indireto está no fato de que a migração é um processo de classificação, uma seleção darwiniana forçada, pela qual a linhagem superior vai para as estrelas, enquanto os deficientes ficam em casa e morrem. Isto é verdadeiro mesmo em relação àqueles que são transportados à força (como nos séculos XXIV e XXV), a não ser que a seleção tenha lugar já no novo planeta. Numa fronteira inóspita, os fracos e mal-adaptados morrem; a linhagem forte sobrevive. Mesmo aqueles que emigram voluntariamente ainda passam por esta segunda seleção, especial e drástica. As Famílias Howard foram selecionadas desta maneira pelo menos três vezes.

Nosso débito genético para com o Sênior é ainda mais fácil de provar. Parte dele requer apenas aritmética simples. Se vocês vivem em qualquer parte exceto no Velho Lar Terra — e quase certamente vivem, se estão lendo isto, em virtude do miserável estado atual das Belas Colinas Verdes da Terra — e podem afirmar ter pelo menos um membro das Famílias Howard entre os seus ancestrais — e a maioria de vocês pode —, então, com toda a probabilidade, descendem do Sênior.

Pelas genealogias oficiais das Famílias, esta probabilidade é de 87,3 por cento. Vocês descendem também de muitos outros membros das Famílias Howard do século XX se descenderem de qualquer um deles, mas falo aqui apenas de Woodrow Wilson Smith, o Sênior. No ano da crise de 2136 quase um décimo da geração mais jovem das Famílias Howard descendia do Sênior "legitimamente" — com isso quero dizer que cada nascimento de ligação foi registrado como tal nos arquivos das Famílias e os antepassados foram confirmados pelos testes disponíveis na época. (Nem os tipos de sangue eram conhecidos quando começou a experiência de criação, mas o processo de seleção propiciou às mulheres a vantagem de não se extraviarem, pelo menos não para fora das Famílias.)

Agora a probabilidade cumulativa é, como disse, de 87,3 por cento se vocês tiverem qualquer antepassado Howard — mas, se vocês tiverem um antepassado Howard de uma geração recente, sua probabilidade sobe em direção a um eficaz cem por cento.

No entanto, como estatístico, tenho motivos para crer (apoiado por análises de computador dos tipos de sangue, tipos de cabelo, cor dos olhos, quantidade de dentes, tipos de enzimas e outras características sensíveis à análise genética) — fortes motivos para crer que o Sênior teve muitos descendentes não registrados nas genealogias, tanto dentro como fora das Famílias Howard.

Para colocar a coisa moderadamente, ele é um bode velho sem-vergonha cujo sêmen está espalhado por toda esta parte da nossa galáxia.

Considerem os anos do êxodo, após ele seqüestrar a Novas Fronteiras. Ele não se casou nem uma vez durante aqueles anos, e os arquivos e lendas da nave, baseados em lembranças daquela época, sugerem que ele, num idioma primitivo, "tinha ódio às mulheres", era um misógino.

Talvez. Os arquivos bioestatísticos (mais que as genealogias), quando analisados, sugerem que ele não era tão inabordável. O computador que analisou o assunto propôs apostar comigo até dinheiro em mais de uma centena de filhos gerados por ele durante aqueles anos. (Recusei a aposta; aquele computador ganha de mim no xadrez, apesar de eu insistir numa vantagem de uma torre.)

Não acho isto surpreendente em virtude da ênfase quase patológica atribuída à longevidade entre as Famílias naquela época. O homem mais velho, se ainda viril — e ele certamente o era —, estaria sujeito a uma tentação interminável e teria oportunidades sem fim com as mulheres, ansiosas por terem filhos com sua superioridade comprovada — "superioridade" pelo único critério que as Famílias Howard respeitavam. Podemos presumir que o status matrimonial não importava muito; todos os casamentos das Famílias Howard eram casamentos de conveniência — o testamento de Ira Howard garantia isso — e raramente duravam a vida inteira. O único aspecto surpreendente é que tão poucas mulheres férteis conseguissem enganá-lo quando indubitavelmente tantos milhares delas o desejavam. Mas ele sempre teve os pés ligeiros.

Assim sendo... se hoje vejo um homem com cabelos ruivos, nariz grande, sorriso fácil e conciliatório e um olhar ligeiramente feroz nos olhos verde-acinzentados, sempre fico imaginando há quão pouco tempo o Sênior passou por esta parte da galáxia. Se esse estranho se aproxima de mim, coloco a mão sobre a carteira. Se ele fala comigo, resolvo não fazer apostas ou promessas.

Mas como conseguiu o Sênior, ele próprio apenas um membro da terceira geração da experiência de criação de Ira Howard, viver e permanecer moço nos seus primeiros trezentos anos sem rejuvenescimento artificial?

Uma mutação, naturalmente — o que quer dizer simplesmente que não sabemos. Contudo, durante o curso dos seus vários rejuvenescimentos, aprendemos um pouco sobre sua constituição física. Ele tem um coração extremamente grande, que bate muito devagar. Tem apenas vinte e oito dentes, nenhuma cárie, e parece ser imune a infecções. Nunca sofreu cirurgias, a não ser em ferimentos ou procedimentos de rejuvenescimento. Seus reflexos são extremamente rápidos — mas parecem ser sempre razoáveis; portanto, pode-se duvidar da propriedade do termo "reflexo", Seus olhos nunca precisaram de correção, quer para longe ou para perto; o alcance da sua audição é anormalmente alto, anormalmente baixo e de uma precisão fora do comum em toda a escala. Sua percepção das cores inclui o índigo. Ele nasceu sem prepúcio, sem apêndice vermiforme — e aparentemente sem consciência. Estou satisfeito por ele ser meu ancestral.

Justin Foote 45°

Arquivista-chefe, Fundação Howard

 

 

Quando a porta da suíte se abriu, o homem sentado, que olhava sombriamente para fora da janela, olhou em volta.

— Quem diabo é você?

— Sou Ira Weatheral, da Família Johnson, o Presidente Temporário das Famílias, Ancestral.

— Você demorou muito. Não me chame de "Ancestral". E por que só Presidente Temporário? — resmungou o homem na cadeira. — O diabo do Presidente está ocupado demais para me ver? Não mereço nem isso?

Ele não fez nenhum movimento para se levantar, nem convidou seu visitante a se sentar.

— Perdoe-me, Pai. Sou o executivo-chefe das Famílias. Mas é hábito já há algum tempo, há vários séculos, o executivo-chefe ter o título de Presidente Temporário... prevendo a possibilidade de o senhor aparecer e tomar o martelo.

— Hein? Ridículo! Não presido uma reunião dos Curadores há mil anos. E Pai é tão ruim quanto Ancestral.. chame-me pelo nome. Faz dois dias que mandei chamá-lo. Você veio pela estrada panorâmica? Ou a regra que me dá direito a falar diretamente com o Presidente foi revogada?

— Não tenho conhecimento dessa regra, Sênior; provavelmente foi muito antes do meu tempo... mas tenho a honra, o dever e o prazer de servi-lo a qualquer momento. Ficarei feliz e honrado em chamá-lo pelo nome, se me disser qual é o seu nome agora. Quanto à demora, as trinta e sete horas desde que recebi seu chamado, passei-as estudando inglês antigo, porque me disseram que o senhor não responderia em qualquer outra língua.

O Sênior pareceu ligeiramente embaraçado.

— É verdade que não estou familiarizado com a algaravia que falam aqui... Minha memória vem falhando ultimamente. Acho que ficava de mau humor para responder mesmo quando entendia. Nomes... Esqueci com que nome me registrei quando aterrei aqui. Hum, Woodrow Wilson Smith era o meu nome na infância. Nunca o usei muito. Suponha que Lazarus Long seja o nome que tenha usado mais vezes... chame-me de Lazarus.

— Obrigado, Lazarus.

— Por quê? Não seja tão terrivelmente formal! Você não é um garoto, ou não seria Presidente... que idade você tem? Deu-se realmente ao trabalho de aprender minha linguagem da infância apenas para me ver? E em menos de dois dias? E começou do nada? Levo pelo menos uma semana para compreender uma língua nova e outra semana para corrigir o sotaque.

— Estou com trezentos e setenta e dois anos padrão, Lazarus... pouco menos de quatrocentos anos terrestres. Aprendi inglês clássico quando assumi este cargo, mas como língua morta, para poder ler os velhos registros das Famílias no original. O que fiz desde que me chamou foi aprender a falá-lo e a compreendê-lo... no idioma norte-americano do século XX, sua "linguagem de infância", como disse, já que isso é o que o analisador computou que você estava falando.

— Maquininha esperta. Talvez eu a esteja falando como quando era moço; eles afirmam que essa é a única língua que o cérebro nunca esquece. Eu devo, então, estar falando com um sotaque dissonante da Zona do Milho, como um serrote enferrujado... ao passo que você está usando um tipo de fala arrastada do Texas com um revestimento britânico de Oxford. Estranho. Imagino que a máquina escolha a versão dos seus dados mais próxima da amostra com que a alimentaram.

— Acredito que sim, Lazarus, embora as técnicas envolvidas não sejam o meu campo. Você teve alguma dificuldade para compreender o meu sotaque?

— Oh, absolutamente nenhuma! Seu sotaque está bom; está mais próximo do americano comum instruído daquele tempo do que do sotaque que aprendi quando criança. Mas posso acompanhar qualquer coisa, desde o sotaque dos negros até o de Yorkshire; isso não é problema. Foi muito amável de sua parte incomodar-se. Reconfortante.

— O prazer é meu. Tenho talento para línguas, não deu muito trabalho. Tento estar apto a falar com cada um dos Curadores em sua língua materna. Estou acostumado a estudar um idioma novo rapidamente.

— É mesmo? De qualquer maneira, é uma coisa amável... Tenho me sentido como um animal num zoológico, sem ninguém com quem falar. Aqueles bonecos — Lazarus inclinou a cabeça na direção dos dois técnicos de rejuvenescimento em trajes de isolamento e capacetes de sentido único, que esperavam tão longe da conversa quanto a sala permitia — não sabem inglês. Não posso falar com eles. Ah, o mais alto compreende um pouco, mas não o suficiente para bisbilhotar. — Lazarus assoviou, apontando para o mais alto. — Ei, você! Uma cadeira para o Presidente... depressa! — Seus gestos tornaram claro o sentido de suas palavras. O técnico mais alto tocou nos controles de uma cadeira próxima; ela afastou-se rolando, deu a volta e parou a uma confortável distância de Lazarus, tête-à-tête.

Ira Weatheral disse "obrigado" — a Lazarus, não ao técnico — e sentou-se. Depois suspirou, quando a cadeira o sondou e envolveu.

— Confortável? — perguntou Lazarus.

— Bastante.

— Alguma coisa para comer ou beber? Ou fumar? Você vai ter que ser bom intérprete.

— Nada, obrigado. Mas posso pedir para você?

— Agora não. Eles me mantêm cheio como a um ganso... certa vez me alimentaram à força, malditos sejam! Já que estamos confortáveis, vamos continuar a discussão. — De repente gritou: — Que diabo estou fazendo nesta prisão?

— Prisão não, Lazarus. — respondeu Weatheral calmamente. — A suíte vip da Clínica Howard de Rejuvenescimento, em Nova Roma.

— Prisão, eu disse. Só faltam as baratas. Esta janela... não se pode arrombá-la nem com um pé-de-cabra. Aquela porta... ela abre a qualquer voz... exceto a minha. Se vou até a latrina, um desses bonecos fica junto ao meu cotovelo. Aparentemente com medo de que eu me afogue no vaso. Que diabo, nem sei se aquela enfermeira é homem ou mulher! E, de qualquer modo, não gosto disso. Não preciso de ninguém para segurar minha mão enquanto faço pipi. Isso me ofende.

— Verei o que se pode fazer, Lazarus. Mas os técnicos estão compreensivelmente nervosos. Uma pessoa pode ferir-se com bastante facilidade em qualquer banheiro... e todos eles sabem que, se você se ferir, não importa por que contratempo, o técnico responsável no momento sofrerá uma punição cruel e fora do comum. Eles são voluntários e estão ganhando altos bônus. Mas estão nervosos.

— Foi o que imaginei. Prisão. Se isto é uma suíte de rejuvenescimento... onde está o meu interruptor de suicídio?

— Lazarus... "A morte é um privilégio de todos os homens".

— Foi isso o que eu disse! Esse interruptor deve ficar bem ali; você pode ver que ele foi desmontado. Portanto, estou numa prisão sem julgamento, com o meu direito mais básico negado. Por quê? Estou furioso, homem! Você percebe o perigo que está correndo? Nunca provoque um cão velho, ainda pode restar-lhe uma dentada. Velho como sou, posso quebrar os seus braços antes que aqueles bonecos consigam chegar até nós.

— Terei prazer em que quebre meus braços, se isto lhe agradar.

— Hein? — Lazarus Long pareceu desanimado. — Não, não vale a pena o esforço. Eles o remendariam, deixando-o como novo em menos de trinta minutos. — De repente, sorriu. — Mas posso partir-lhe o pescoço e depois esmagar-lhe o crânio quase com a mesma rapidez. Esse seria um ferimento além do poder dos rejuvenescedores.

Weatheral não se moveu, nem se abalou.

— Tenho certeza de que pode — disse ele calmamente. — Mas não acho que você mataria um dos seus descendentes sem dar-lhe uma oportunidade de negociar sua vida. Você é meu avô afastado, Sênior, por sete linhas diferentes.

Lazarus mordeu o lábio e pareceu infeliz.

— Filho, tenho tantos descendentes que a consangüinidade não importa. Mas você está essencialmente certo. Em toda a minha vida nunca matei um homem desnecessariamente. Acho eu. — Depois sorriu. — Contudo, se não receber de volta meu interruptor de suicídio, posso fazer uma exceção no seu caso.

— Lazarus, se você quiser, posso mandar montar esse interruptor imediatamente. Mas... Dez Palavras?

— Hum... — Lazarus pareceu descortês. — Está bem. Dez Palavras. Não onze.

Weatheral hesitou uma fração de segundo, depois contou nos dedos:

— Aprendi... sua... língua... para... explicar... por... que... precisamos... de... você.

— Dez pela Regra — admitiu Lazarus. — Mas significam que você precisa de cinqüenta. Ou quinhentas. Ou cinco mil.

— Ou nenhuma — corrigiu Weatheral. — Você pode ter o seu interruptor sem me dar nenhuma oportunidade de explicar. Eu prometi.

— Puxa! — exclamou Lazarus. — Ira, seu velho patife, você me convenceu de que é realmente meu parente. Achou que eu não me suicidaria sem ouvir o que tem em mente... uma vez que eu soube que você se deu ao trabalho de aprender uma língua morta apenas para conversar fiado. Está bem, fale. Pode começar dizendo-me o que estou fazendo aqui. Eu sei... eu sei... que não pedi para ser rejuvenescido. Mas acordei aqui com o trabalho já quase terminado. Portanto, gritei pelo Presidente. Está bem, por que estou aqui?

— Podemos começar antes disso? Conte-me o que estava fazendo numa casa de cômodos na pior parte da Cidade Velha.

— O que eu estava fazendo? Estava morrendo. Calma e decentemente, como um cavalo cansado. Isto é, estava, até que os seus xeretas me agarraram. Pode imaginar um lugar melhor do que uma casa de cômodos para um homem que não quer ser perturbado enquanto está ocupado nisso? Se o catre é pago adiantado, eles deixam o homem ficar. Ah, eles roubaram o pouco que eu tinha, até os meus sapatos. Mas eu esperava isso... teria feito o mesmo eu próprio nas mesmas circunstâncias. E o tipo de pessoas que moram nessas espeluncas são quase sempre bondosas para com aquelas em pior estado do que elas... qualquer uma vai buscar um gole de água para um homem doente. Isso era o máximo que eu queria... isso e ser deixado a sós para encerrar minha conta à minha própria maneira. Até que os xeretas apareceram. Diga-me, como foi que me encontraram?

— Como o encontramos não é a parte surpreendente, Lazarus, mas o fato de a ForSeg... os tiras?... sim, tiras... o fato de os meus tiram levarem tanto tempo para identificá-lo, depois achá-lo e o recolherem. Um chefe de seção perdeu o emprego por isso. Não tolero ineficiência.

— Então você o despediu. Problema seu. Mas por quê? Cheguei a Secundus de Muito Longe e não acho que tenha deixado alguma pista para trás. Tudo está diferente desde a última vez em que estive em contato com as Famílias... quando comprei meu último rejuvenescimento em Supremo. Ás Famílias estão trocando dados com Supremo atualmente?

— Céus, não, Lazarus, não dirigimos a eles nem uma palavra amável. Há uma forte minoria entre os Curadores a favor de cessar os contatos com Supremo, em vez de simplesmente manter o embargo.

— Bem... se uma bomba nova atingisse Supremo, eu não lamentaria por mais de trinta segundos. Mas tive um motivo para fazer o serviço lá, embora tivesse que pagar alto pelo clonamento forçado. Mas isso é outra história. Filho, como foi que você me pegou?

— Sênior, durante os últimos setenta anos houve uma ordem geral para tentar descobri-lo, não só aqui mas em todos os planetas onde as Famílias mantêm escritórios. Quanto a como... lembra-se de uma inoculação forçada contra a febre de Reiber na Imigração?

— Sim. Fiquei aborrecido, mas não pareceu valer a pena criar um caso; eu sabia que ia para aquela espelunca. Ira, eu sabia que estava morrendo havia algum tempo. Isso era bom; eu estava preparado. Mas não queria fazê-lo sozinho, lá fora, no espaço. Queria vozes humanas à minha volta e cheiro de corpos. Infantil da minha parte. Mas eu estava bastante mal quando aterrei.

— Lazarus, não existe nenhuma febre de Reiber. Quando um homem aterra em Secundus e todas as identificações de rotina são negativas, a febre de Reiber ou alguma outra peste não-existente é usada como desculpa para se obter um pouco de tecido dele enquanto se injeta uma solução salina estéril e neutra. Nunca deveriam ter permitido que você deixasse o porto celeste até que o seu padrão genético fosse identificado.

— É mesmo? O que é que vocês fazem quando dez mil imigrantes chegam numa nave?

— Nós os arrebanhamos para dentro de quartéis de detenção até termos conferido todos. Mas isso não acontece muitas vezes atualmente no Velho Lar Terra, no estado lamentável em que se encontra. Mas você, Lazarus, chegando sozinho num iate particular que vale de quinze a vinte milhões de coroas...

— Digamos trinta.

— ...que vale trinta milhões de coroas. Quantos homens na galáxia podem fazer isso? Dos que têm condições para fazê-lo, quantos prefeririam viajar sozinhos? O padrão deveria ter tocado campainhas de alarme na mente de todos eles. Em vez disso, tiraram seu tecido, aceitaram sua declaração de que iria ficar no Romulus Hilton e deixaram-no ir embora... e sem dúvida você conseguiu outra identidade antes de escurecer.

— Sem dúvida alguma — concordou Lazarus. — Mas os seus tiras fizeram subir o preço de um bom número de identificações falsas. Se eu não estivesse tão cansado, eu mesmo as teria feito. Mais seguro. Foi assim que fui apanhado? Você obteve essa informação à força do comerciante de documentos?

— Não, nunca o encontramos. A propósito, você deve dizer-me quem é ele, para que...

— Não devo — disse Lazarus bruscamente. — Não denunciá-lo estava implícito no acordo. A mim pouco importa quantas de suas regras ele infrinja. E, quem sabe, posso precisar dele outra vez. Certamente alguém vai precisar dos seus serviços, alguém tão ansioso para evitar os seus tiras quanto eu. Ira, sem dúvida você tem boas intenções, mas não gosto de organizações onde é necessário identificar-se. Disse a mim mesmo, séculos atrás, para ficar longe de lugares apinhados demais para exigi-la, e geralmente tenho seguido essa regra. Devia tê-la seguido desta vez. Mas eu esperava não precisar de nenhuma identificação por muito tempo. Com os diabos, mais dois dias e eu estaria morto. Acho eu. Como foi que você me pegou?

— Com dificuldade. Logo que soube que você estava no planeta, tomei providências; aquele chefe de seção não foi o único homem infeliz. Mas você desapareceu de uma maneira tão simples, que frustrou os esforços de toda a força. Meu chefe de segurança expressou a opinião de que você tinha sido morto e que seu corpo tinha desaparecido. Eu lhe disse que, se esse fosse o caso, era melhor ele começar a pensar em migrar para fora do planeta.

— Continue! Quero saber como bobeei.

— Não diria que você tenha bobeado, Lazarus, já que conseguiu ficar escondido, com todos os tiras e alcagüetes deste globo à sua procura. Mas eu tinha certeza de que você não tinha sido morto. Ah, temos assassinatos em Secundus, especialmente aqui em Nova Roma. Mas grande parte é do tipo comum, marido-mulher. Não temos conseguido muita coisa desde que instituí uma política que torna a pena proporcional ao crime, e realiza as execuções no Coliseu. De qualquer maneira, eu tinha certeza de que um homem que havia sobrevivido mais de dois milênios não se deixaria matar em algum beco escuro.

"Portanto, presumi que você estivesse vivo. Depois perguntei a mim mesmo: "Se eu fosse Lazarus Long, como faria para me esconder? Meditei profundamente e pensei no assunto. Em seguida tentei refazer os seus passos até onde os conhecia A propósito..."

O Presidente Temporário lançou sua capa para trás do ombro, apanhou um grande envelope selado e entregou-o a Lazarus.

— Aqui está o envelope que você deixou no cofre do Harriman Trust.

Lazarus apanhou-o.

— Ele foi aberto.

— Por mim. Prematuramente, admito... mas você o endereçou a mim. Só eu o li, ninguém mais. E agora vou esquecê-lo. Exceto para dizer que não estou surpreso por você ter deixado sua fortuna para as Famílias... mas fiquei emocionado por ter destinado seu iate ao uso pessoal do Presidente. É uma nave encantadora, Lazarus; estou ansioso por ela Não tanto, porém, a ponto de querer herdá-la tão depressa. Mas comecei a explicar por que precisamos de você... e desviei-me do assunto.

— Não estou com pressa nenhuma, Ira. Você está?

— Eu? Sênior, não tenho deveres mais importantes do que conversar com você. Além disso, meu pessoal dirige este planeta com mais eficiência se eu não supervisioná-lo muito de perto.

— Esse foi sempre o meu sistema — Lazarus inclinou a cabeça, concordando — nas ocasiões em que me deixei envolver. Aceitar a carga toda, depois transferir o trabalho para outras pessoas tão depressa quanto pudesse escolhê-los. Está tendo algum problema com os democratas atualmente?

— Democratas? Ah... você se refere aos "igualitários". Pensei, a princípio, que quisesse referir-se à Igreja do Democrata Sagrado. Deixamos essa igreja em paz; eles não se intrometem. Há um movimento igualitário de poucos em poucos anos, certamente, sob vários nomes. O Partido da Liberdade, a Liga dos Oprimidos... os nomes não importam, já que todos desejam pôr os patifes para fora, a começar por mim, e colocar seus próprios patifes no lugar. Nunca os incomodamos; simplesmente nos infiltramos. Uma noite, então, reunimos os chefes e suas famílias e, ao nascer do dia, eles são despachados como emigrantes involuntários. Transportados. "Viver em Secundus é um privilégio, não um direito."

— Você está me citando.

— Naturalmente. Suas palavras exatas, conforme o contrato pelo qual você transferiu Secundus para a Fundação. Você dizia que não deve haver nenhum governo neste planeta, somente as regras que o presidente em exercício ache necessárias para manter a ordem. Mantemo-nos fiéis ao nosso acordo com você, Sênior; sou o único chefe até que os Curadores resolvam substituir-me.

— Foi isso o que pretendi — concordou Lazarus. — Mas, filho, o cargo é seu e nunca tocarei nesse martelo outra vez. Tenho dúvidas se seria sábio livrar-me dos criadores de casos. Todo pão precisa de fermento. Uma sociedade que se livra de todos os seus encrenqueiros vai para o brejo. Carneiros. Construtores de pirâmides, na melhor das hipóteses, selvagens decadentes, na pior. Você pode estar eliminando o seu um décimo de um por cento criativo. O seu fermento.

— Receio que estejamos, Sênior, e esse é um dos motivos por que precisamos de você...

— Eu disse que não tocaria nesse martelo!

— Quer ouvir-me até o fim, Sênior? Não lhe pedirão para tocar nele, embora seja seu pelo antigo costume, se desejar empunhá-lo. Mas preciso de conselhos...

— Não dou conselhos. As pessoas nunca os seguem.

— Desculpe. Talvez seja apenas uma oportunidade de falar sobre os meus problemas com uma pessoa mais experiente do que eu. Sobre estes criadores de casos... Não os eliminamos no antigo sentido; eles ainda estão vivos, ou a maioria deles. Pôr um homem no ostracismo num outro planeta é mais satisfatório do que matá-lo pelo crime técnico de traição; isso nos livra dele sem fazer seus vizinhos ficarem muito indignados. Nem os desperdiçamos, já que os estamos usando para fazer uma experiência: todos os transportados são embarcados para o mesmo planeta, Felicidade. Por acaso o conhece?

— Não por esse nome.

— Acho que você poderia ter tropeçado nele apenas por acidente, Sênior; nós o mantivemos fora dos registros públicos a fim de usá-lo como reserva botânica. Não é um planeta tão bom como o nome sugere, mas é bom, mais ou menos equivalente ao Velho Lar Terra antes de ser arruinado, ou muito parecido com Secundus quando nos estabelecemos aqui. É bastante inóspito para testar um homem e eliminar os fracos; generoso o suficiente para permitir a um homem sustentar uma família, se ele tiver a determinação de trabalhar e suar.

— Parece um bom lugar. Talvez você devesse ter ficado lá. Há nativos?

— A raça proto-dominante é de selvagens bastante ferozes... se é que algum ainda está vivo. Não sabemos, não mantemos sequer um escritório de contato lá. Essa raça nativa não é nem bastante inteligente para ser civilizada, nem bastante tratável para ser escravizada. Talvez pudessem ter evoluído e chegado lá por si sós, mas tiveram a infelicidade de encontrar o Homo sapiens antes de estarem prontos para ele. Mas não é essa a experiência; os transportados estão certos de vencerem essa competição, pois não os mandamos de mãos vazias. Mas, Lazarus, essas pessoas acreditam que podem criar um governo ideal pela regra da maioria. Lazarus riu, desdenhoso.

— Talvez possam, Sênior — persistiu Weatheral. — Não sei por que não. Essa é a experiência.

— Filho, você é um tolo? Ah, não pode ser, os Curadores não o manteriam no cargo. Mas... Que idade você disse que tem?

— Sou dezenove séculos mais moço que você, Sênior — respondeu Weatheral calmamente. — Não discutirei sua opinião a respeito de nada. Mas não sei pela minha própria experiência se este experimento vai funcionar; nunca vi um governo do tipo democrático, mesmo nas numerosas vezes em que estive fora do planeta. Simplesmente li sobre eles. Pelo que li, nenhum jamais foi formado por uma população em que todos os membros acreditassem na teoria democrática. Portanto, não sei.

— Hum. — Lazarus parecia frustrado. — Ira, eu estava prestes a enfiar minha própria experiência com esses governos pela sua garganta abaixo. Mas você tem razão, esta é uma situação completamente nova... e não sabemos. Ah, tenho opiniões arraigadas, mas mil opiniões racionais nunca são a mesma coisa que mergulhar num assunto e descobrir. Galileu provou isso, e essa pode ser a única certeza que temos. Hum... todas as assim chamadas democracias que já vi ou de que ouvi falar ou eram impostas de cima sobre a maioria, ou cresciam devagar do populacho quando este descobria que podia votar em si mesmo para obter pão e circo... por algum tempo, até que o sistema viesse abaixo. Lamento não ver o resultado da sua experiência. Suspeito de que ela seja a mais rigorosa tirania imaginável; a regra da maioria dá aos homens fortes e implacáveis bastante campo de ação para oprimir seus companheiros. Mas não sei. Qual é a sua opinião?

— Os computadores dizem...

— Esqueça os computadores. Ira, a máquina mais sofisticada que a mente humana pode fabricar tem em si as limitações da mente humana. Qualquer um que pense de outra forma não compreende a segunda lei da termodinâmica. Pedi a sua opinião.

— Sênior, recuso-me a emitir uma opinião; faltam-me dados suficientes.

— Hum! Você está ficando velho, filho. Para chegar a qualquer parte ou mesmo para viver por um longo tempo, um homem tem que imaginar, e imaginar certo, sem parar, sem dados suficientes para uma resposta lógica. Você estava contando como me encontrou.

— Sim, Sênior. Aquele documento, o seu testamento, deixou claro que você esperava morrer logo. Então — Weatheral fez uma pausa e sorriu enviesado — tive que "imaginar certo sem dados suficientes". Levamos dois dias para descobrir a loja onde você havia comprado as roupas para rebaixar seu status aparente... e ficar de acordo com a moda local, acho eu. Suspeito de que você tenha comprado sua identificação falsa logo depois disso.

Ele fez uma pausa; Lazarus não fez nenhum comentário; Weatheral continuou:

— Outro meio dia para descobrir a loja onde você rebaixou seu status aparente mais ainda, quase até o fim... demais talvez, já que o lojista se lembrou de você, tanto pelo fato de ter pago em dinheiro, como por estar comprando roupas usadas que não eram nem tão boas, mesmo quando novas, quanto as que estava usando. Ah, ele fingiu acreditar na sua história sobre uma festa à fantasia e ficou de bico calado; sua loja é de objetos roubados.

— Naturalmente — concordou Lazarus. — Certifiquei-me de que era vigarista antes de comprar lá. Mas você disse que ele ficou calado?

— Até estimularmos sua memória. Um receptador tem uma posição difícil, Lazarus; precisa ter um endereço permanente. Isto pode, algumas vezes, forçá-lo a ser honesto.

— Ah, eu não estava culpando o caro e velho tio. A culpa foi minha; permiti-me ser conspícuo. Eu estava cansado, Ira, sentia o peso dos meus anos, e deixei isso me apressar a fazer um serviço relaxado. Mesmo cem anos atrás eu teria feito um serviço mais artístico... Sempre soube que é mais difícil rebaixar o status convincentemente do que elevá-lo.

— Não acho que você precise sentir-se envergonhado do serviço como de uma obra de arte, Sênior; você nos enganou por quase três meses.

— Filho, o mundo não paga por uma "boa tentativa". Adiante.

— Usamos força bruta então, Lazarus. Aquela loja fica na pior parte da cidade; pusemos um cordão de isolamento em volta da área e a saturamos com milhares de homens. Mas não por muito tempo; você estava no terceiro pulgueiro que revistamos. Eu mesmo o localizei, estava com um dos grupos da batida. Depois seu padrão genético confirmou sua identidade. — Ira Weatheral deu um sorriso ligeiro. — Mas estávamos pondo sangue novo em você antes de o analisador genético informar sua identidade; você estava mal, Sênior.

— Fico de péssimo humor quando estou mal; eu estava simplesmente morrendo... e cuidando dos meus próprios assuntos, um hábito que você poderia imitar. Ira, percebe o golpe sujo que deu em mim? Um homem não deve ter que morrer duas vezes... e eu havia passado pela parte má e estava pronto para o finale, tão fácil como dormir. Aí você se meteu. Nunca ouvi falar de alguém ser forçado a rejuvenescer. Se eu tivesse suspeitado de que você havia mudado as regras, nunca teria chegado perto deste planeta. Agora terei que passar por isso outra vez, quer com o interruptor de suicídio, e o suicídio é uma idéia que sempre desprezei, quer da maneira natural. E isso pode agora levar um longo tempo. O meu sangue velho ainda está por aí? Guardado?

— Vou perguntar ao diretor da clínica, Sênior.

— Hum! Isso não é uma resposta, portanto não se preocupe em mentir. Você me colocou num dilema, Ira. Embora eu não tenha recebido o tratamento completo, sinto-me melhor do que me senti por quarenta anos ou mais... o que significa que devo esperar por isso novamente por muitos anos aborrecidos, ou usar aquele interruptor quando o meu corpo não estiver dizendo "Hora de parar". Seu patife intrometido, com que autoridade... não, você não tem autoridade. Baseado em que princípio ético você interfere na minha morte?

— Precisamos de você, Sênior.

— Isso não é um motivo ético, mas apenas pragmático. A necessidade não é mútua.

— Sênior, estudei a sua vida tão completamente quanto permitem os arquivos. Parece-me que você muitas vezes agiu pragmaticamente.

Lazarus sorriu.

— Muito bem, garoto! Eu estava imaginando se você teria o desplante de transformar isso em algum alto princípio moral, como um maldito pregador. Não confio num homem que fala sobre ética quando está me batendo a carteira. Entretanto, se ele está agindo em seu próprio interesse e diz isso, geralmente consigo descobrir algum meio de negociar com ele.

— Lazarus, se nos deixar completar o seu rejuvenescimento, você se sentirá vivo outra vez. Acho que sabe disso; já passou por isso antes.

— Com que fim, Ira? Quando vivi mais de dois mil anos tentando tudo? Quando vi tantos planetas que eles se confundem em minha mente? Quando tive tantas mulheres que não posso lembrar-me dos seus nomes? "Oramos por uma última aterragem no globo que nos viu nascer..." Não posso fazer sequer isso; o encantador planeta verde em que nasci envelheceu ainda mais do que eu; seria um sofrimento voltar para ele, não uma feliz volta ao lar. Não, filho, apesar de todo o rejuvenescimento, chega um momento em que a única coisa razoável a fazer é apagar a luz e ir dormir... e você, maldito seja, você privou-me disso!

— Lamento... não, não lamento. Mas peço-lhe perdão.

— Bem... você o terá. Mas não agora. Qual era este motivo imperioso pelo qual precisava de mim? Você mencionou algum outro problema além dos criadores de caso que tem transportado.

— Sim, embora não seja um motivo que me fizesse interferir com o seu direito de morrer à sua própria maneira; posso cuidar disso de um modo ou de outro. Acho que Secundus está ficando não só superpovoado como muito civilizado...

— Estou certo disso, Ira.

— Portanto, acho que as Famílias devem mudar-se novamente.

— Concordo, embora não esteja interessado nisso. Como regra empírica, pode-se dizer que, a qualquer momento em que um planeta começa a ter cidades de mais de um milhão de pessoas, está se aproximando da massa crítica. Em um ou dois séculos não se poderá mais viver nele. Você tem um planeta em mente? Acha que pode fazer os Curadores concordarem? E as Famílias, acatarão os Curadores?

— "Sim" para a primeira pergunta. "Talvez" para a segunda, provavelmente. "Não" para a terceira. Tenho em mente um planeta como Tertius, tão bom ou melhor do que Secundus. Acho que muitos dos Curadores concordarão com as minhas ponderações, mas não estou certo do apoio maciço que essa mudança exigiria... Secundus é confortável demais para que o perigo pareça iminente à maioria das pessoas. Quanto às próprias Famílias... Não, não acho que possamos convencer a maioria delas a arrancarem as raízes e se mudarem... mas apenas algumas centenas de milhares bastariam. Bando de Gedeão[4]... você me entende?

— Estou muito adiante de você. As migrações envolvem sempre seleção e aperfeiçoamento. Elementar. Se eles fizerem isso. Se. Ira, passei um mau bocado vendendo a idéia às Famílias quando nos mudamos para cá no século XXIII. Não poderia tê-las convencido absolutamente se a Terra não se tivesse tornado um lugar enfadonho. Boa sorte... Você vai precisar disso.

— Lazarus, não espero conseguir. Tentarei. Mas, se eu falhar, pedirei demissão e emigrarei de qualquer maneira: para Tertius, se puder organizar um grupo suficientemente grande que torne a colonização viável; para algum planeta colonizado mas com baixa população, se não puder.

— Está mesmo resolvido, Ira? Ou, quando chegar o momento, vai enganar a si mesmo achando que é realmente seu dever ficar? Quando um homem tem o temperamento para o poder, e você o tem, ou não estaria onde está, acha difícil abdicar.

— Estou decidido, Lazarus. Ah, eu gosto de dirigir as coisas. Sei disso. Desejo dirigir as Famílias em seu terceiro êxodo. Mas não espero fazê-lo. Contudo, acho que minhas possibilidades de organizar uma colônia viável (de pessoas jovens, com não mais de cem anos de idade, duzentos no máximo), sem o auxílio da Fundação, são razoavelmente boas. Mas, se eu falhar nisso também — ele encolheu os ombros —, a migração será o único caminho compensador aberto para mim; Secundus não terá mais nada a oferecer. — Weatheral acrescentou: — Talvez eu me sinta como você, Sênior, numa escala menor. Não tenho nenhum desejo de ser Presidente Temporário a vida inteira. Já o fui por quase um século; é o bastante. Desde que eu consiga realizar isto.

Lazarus ficou pensativo, em silêncio; Weatheral esperou.

— Ira, instale aquele interruptor de suicídio para mim. Mas amanhã. Não hoje.

— Sim, Sênior.

— Não quer saber por quê? — Lazarus apanhou o envelope grande, com seu testamento. — Se você me convencer de que vai emigrar, aconteça o que acontecer e não importa o que os Curadores façam, quero reescrever isso. Meus investimentos e contas em dinheiro aqui e ali, se alguém não os tiver roubado enquanto eu estive afastado, montam a uma bela quantidade de trocados. Provavelmente o suficiente para determinar entre o sucesso e o fracasso na organização de uma migração. Isso, se os Curadores não a apoiarem com os fundos da Fundação. E não apoiarão.

Weatheral não disse nada. Lazarus olhou irritado para ele.

— Sua mãe não lhe ensinou a dizer "obrigado"?

— Por que motivo, Lazarus? Por me dar alguma coisa após você estar morto e não precisar mais dela? Se o fizer, será para afagar sua vaidade... não para me agradar.

Lazarus sorriu.

— Que diabo! Sim. Devo estabelecer a condição de que você batize o planeta de Lazarus. Mas não tenho meios de fazê-la cumprir. E acho... Você respeita boas máquinas?

— Hein? Sim. Tanto quanto desprezo máquinas que não fazem o que são destinadas a fazer.

— Ainda nos compreendemos. Acho que vou deixar o Dora, meu iate, para você pessoalmente, em vez de para o presidente das Famílias... se você liderar a migração.

— Oh... fico tentado a agradecer-lhe.

— Não agradeça. Apenas seja bom para ele. É uma nave agradável, nunca conheceu nada senão bons tratos. Dará uma ótima capitania para você. Com um reequipamento simples — há especificações para isso em seu computador — abrigará uma tripulação de vinte ou trinta pessoas. E você pode aterrisar e reconhecer com ela, depois decolar novamente... coisa que os seus meios de transporte não podem fazer, muito provavelmente.

— Lazarus... não quero herdar seu dinheiro nem seu iate. Deixe-os terminar o seu rejuvenescimento... e venha conosco, homem! Eu me afastarei e você poderá liderar. Ou poderá não fazer absolutamente nada. Mas venha!

Lazarus sorriu, desanimado, e sacudiu a cabeça.

— Já estive em seis dessas aventuras colonizadoras em planetas virgens, sem contar Secundus. Todas em planetas que descobri. Desisti disso há séculos. Tudo acaba ficando monótono com o tempo. Você acha que Salomão cumpria seus deveres com todas as suas mil esposas? Se assim fosse, que tipo de serviço prestaria ele à última? Pobre moça! Se descobrir alguma coisa nova para eu fazer, não tocarei naquele interruptor de suicídio e ainda darei a você tudo o que tenho, para a sua colônia. Seria uma troca razoável... já que este meio rejuvenescimento é muito pouco satisfatório; não me sinto bem e, apesar disso, não posso morrer. Portanto, estou preso entre o interruptor de suicídio e concordar com o tratamento completo... como o burro que morreu de fome entre dois montes de capim. Mas teria que ser alguma coisa nova, Ira, não algo que eu já tenha feito repetidas vezes. Como velha prostituta, subi os mesmos degraus vezes demais; meus pés estão doendo.

— Pensarei no problema, Lazarus. Vou fazer uma pesquisa intensa e sistemática.

— Aposto sete contra dois que você não descobrirá nada que eu não tenha feito.

— Tentarei realmente. Você deixará em paz o interruptor de suicídio enquanto pesquiso?

— Nada de promessas. Não modifiquei este testamento nenhuma vez. Você pode confiar no seu advogado mais competente? Posso precisar de uma certa ajuda... porque este testamento — ele bateu de leve no envelope —, em que deixo tudo para as Famílias, vigoraria em Secundus não importa quantas falhas contenha. Mas se deixar para um particular, você, quero dizer, alguns dos meus descendentes (um número bastante grande) gritarão "Influência indevida!" e tentarão anulá-lo. Ira, eles o manterão preso aos tribunais até se esvair em custas legais. Vamos evitar isso, está certo?

— Podemos. Fiz certas alterações nas regras. Neste planeta um homem pode submeter seu testamento à homologação antes da sua morte, e, se houver falhas, o tribunal é obrigado a ajudá-lo a redigir o documento novamente, para que atinja os seus fins. Se ele assim o fizer, nenhuma impugnação poderá ser apreciada por qualquer tribunal; o testamento entrará em execução automaticamente quando ele morrer. Naturalmente, se ele mudar seu testamento, o novo deverá passar pelo mesmo processo, o que torna a mudança de idéia dispendiosa. Mas, usando a pré-homologação, não é preciso advogado mesmo para o testamento mais complexo. E os advogados não poderão tocar nele depois.

Os olhos de Lazarus se arregalaram de prazer.

— Você não aborreceu alguns advogados?

— Já aborreci tantos — disse Ira secamente —, que todos os transportes para Felicidade têm emigrantes voluntários ... e tantos advogados me aborreceram que alguns são emigrantes involuntários. — O Presidente Temporário pareceu amargamente divertido. — Certa vez eu disse ao meu Presidente do Supremo Tribunal: "Warren, tenho que revogar muitas das suas decisões. Você vem estabelecendo distinções sutis demais, interpretando mal as regras e ignorando a eqüidade desde que assumiu o cargo. Vá para casa; você está sob prisão domiciliar até que a Ultima Oportunidade decole. Pode ter uma escolta durante o dia para resolver seus assuntos particulares".

— Devia tê-lo enforcado. — Lazarus riu entre dentes. — Você sabe o que ele fez, não sabe? Foi advogar novamente em Felicidade c ia entrar na política. Mas foi linchado.

— Problema dele e dos outros, não meu. Lazarus, eu nunca deixei um homem ser executado por ser tolo... mas, se ele for odioso demais, deporto-o. Não há necessidade de suar sobre o seu testamento se quiser fazer um novo. Dite-o simplesmente com quaisquer minúcias e explicações que julgar adequadas. Depois o passaremos por um analisador semântico para refraseá-lo em linguagem legal irrefutável. Uma vez satisfeito, poderá submetê-lo ao Tribunal Superior, que virá até você se preferir, e o tribunal o homologará. Feito assim, ele só poderá ser derrubado pelo ato arbitrário de um novo Presidente Temporário. O que considero muito pouco provável; os Curadores não colocam homens assim no cargo.

E Weatheral acrescentou:

— Mas espero que você demore bastante, Lazarus. Quero uma possibilidade razoável de procurar alguma coisa nova, alguma coisa que restaure o seu interesse pela vida.

— Está bem. Mas não perca tempo; não me fará mudar de idéia, com um número de Xerazade. Faça com que me mandem um gravador... Amanhã de manhã, digamos.

Parecia que Weatheral ia dizer alguma coisa, mas não disse. Lazarus olhou para ele vivamente.

— Esta conversa está sendo gravada?

— Está, Lazarus. Som e holografia, tudo o que acontece nesta suíte. Mas... com o seu perdão, Sênior! Isto vai apenas até a minha mesa e não se torna um registro permanente antes de eu ter verificado e aprovado. Isto é, nada até agora.

Lazarus encolheu os ombros.

— Esqueça isso, Ira. Aprendi, há séculos, que não há nenhuma privacidade em qualquer sociedade suficientemente populosa para precisar de identificações. Uma lei que garanta a privacidade significa simplesmente que os aparelhos clandestinos (microfones, lentes e assim por diante) são muito mais difíceis de localizar. Eu não tinha pensado nisso até agora, porque presumo que a minha privacidade seja invadida sempre que visito esses lugares... Então ignoro o assunto, a menos que pretenda fazer algo de que a lei local não goste. Nesse caso uso táticas evasivas.

— Lazarus, esta gravação pode ser apagada. Seu único objetivo é certificar-me de que estão cuidando adequadamente do Sênior, responsabilidade esta que não delegarei.

— Eu disse "Esqueça isso". Mas estou surpreso com a sua inocência — um homem na sua posição — em achar que a gravação seja transmitida apenas até sua mesa. Faço qualquer aposta, a quantia que quiser, como ela vai para mais um, dois e mesmo três lugares.

— Se assim for, Lazarus, e eu puder descobrir, Felicidade terá alguns colonos novos... após terem passado algumas horas desagradáveis no Coliseu.

— Ira, isso não importa. Se qualquer tolo desejar observar um homem velho, muito velho, grunhindo na privada ou tomando banho, o problema é dele. Você mesmo garantiu que isso aconteceria determinando que a gravação fosse secreta, para você apenas. O pessoal da segurança sempre espiona os seus chefes; eles não podem evitar isso, é uma síndrome própria da profissão. Já jantou? Gostaria que você ficasse, se tiver tempo.

— Ficaria realmente honrado em jantar com o Sênior.

— Ah, deixe disso, garoto! Não há virtude alguma em ser velho, apenas leva muito tempo. Quero que fique porque estou apreciando a companhia humana. Aqueles dois ali não são companhia; não estou nem certo de que sejam humanos. Robôs, talvez. Por que eles usam aquelas roupas de mergulhador e capacetes brilhantes? Gosto de ver a cara das pessoas.

— Lazarus, aquelas roupas são de isolamento total. Para sua proteção, não deles. Contra infecções.

— O quê? Ira, quando um bicho me morde, o bicho morre. Mesmo assim, já que eles têm que usar isso, como é que você entra usando roupas comuns?

— Absolutamente, Lazarus. Para o que eu queria precisava de uma conversa social, face a face. Assim, passei as últimas duas horas antes de entrar fazendo um exame físico muito cuidadoso, seguido de esterilização da cabeça aos pés: pele, cabelos, orelhas, unhas, dentes, nariz, garganta... até uma inalação de um gás cujo nome não sei, e de que não gostei. Enquanto isso, minhas roupas eram esterilizadas mais completamente ainda. Até esse envelope que entreguei a você. Esta suíte é estéril e mantida assim.

— Ira, essas precauções são tolas. A menos que minha imunidade tenha sido diminuída intencionalmente.

— Não. Ou, permita-me dizer, acho que não. Não há nenhuma razão para isso, já que qualquer transplante será feito, naturalmente, do seu próprio clone[5].

— Então isto é desnecessário. Se não peguei nada naquele pulgueiro, por que iria pegar alguma coisa agora? Mas eu não pego nada. Trabalhei como médico durante uma epidemia. Não fique surpreso; a medicina é apenas uma das cinqüenta e tantas profissões que tive. Uma epidemia desconhecida em Ormuzd; todos a pegaram, vinte e oito por cento morreram. Salvo eu aqui, que nem fiquei fanhoso. Portanto, diga àqueles... Não, você vai querer fazer isso através do diretor da clínica; passar por cima da sua cadeia de comando estraga o moral... embora não saiba por que deveria importar-me com o moral desta organização, já que sou um hóspede involuntário. Diga ao diretor que, se eu tiver de ter enfermeiras, quero que se vistam como enfermeiras. Ou, melhor ainda, como pessoas. Ira, se você quiser que eu coopere de alguma maneira, deve começar cooperando comigo. Do contrário quebrarei esta espelunca com minhas próprias mãos.

— Vou falar com o diretor, Lazarus.

— Muito bem. Agora vamos jantar. Mas primeiro um drinque... E, se o diretor achar que não devo tomar um, diga-lhe sumariamente que ele terá de voltar à alimentação forçada, e há alguma dúvida quanto à garganta de quem o tubo descerá. Não estou disposto a que me digam o que fazer. Há algum uísque verdadeiro neste planeta? Na última vez em que estive aqui não havia.

— Não sou de beber. Mas gosto do conhaque local.

— Muito bem. Conhaque e soda para mim, se isso for o melhor que podemos conseguir; um conhaque Manhattan, se alguém souber o que quero dizer com isso.

— Eu sei, e gosto disso. Aprendi alguma coisa sobre bebidas antigas quando estudei sua vida.

— Ótimo. Então peça para nós bebidas e jantar. Quero ver quantas palavras poderei entender. Acho que a minha memória está voltando um pouco.

Weatheral falou com um dos técnicos; Lazarus interrompeu-o:

— Deve ter um terço de vermute doce e não metade.

— É mesmo? Você compreendeu?

— Em grande parte. Raízes indo-européias, com sintaxe e gramática simplificadas; estou começando a me lembrar.

Que diabo, para um homem que teve que aprender tantas línguas como eu é fácil esquecer uma. Mas ela está voltando.

O serviço foi tão rápido que parecia haver uma equipe pronta para apresentar qualquer coisa que o Sênior e o Presidente Temporário pedissem.

Weatheral ergueu seu cálice.

— Vida longa.

— Uma ova! — resmungou Lazarus, e tomou um gole. Fez uma careta. — Puxa! Leite de onça. Mas há álcool nisso. — Tomou outro gole. — Melhora à medida que a língua fica dormente. Muito bem, Ira, você já protelou bastante. Qual é o seu motivo real para me negar o meu descanso bem merecido?

— Lazarus, precisamos da sua sabedoria.

 

Prelúdio II

Lazarus olhou para ele, horrorizado.

— O que foi que disse?

— Eu disse — repetiu Ira Weatheral — que precisamos da sua sabedoria, Sênior. Realmente.

— Pensei que estivesse mergulhado outra vez num daqueles sonhos que precedem a morte. Filho, você bateu na porta errada. Procure outro.

Weatheral sacudiu a cabeça.

— Não, Sênior. Bem, não é necessário usar a palavra "sabedoria", se ela o ofende. Mas precisamos aprender o que você sabe. Você tem mais que o dobro da idade do segundo membro mais velho das Famílias. Mencionou ter exercido mais de cinqüenta profissões. Esteve em toda parte, viu muito mais do que qualquer outra pessoa. Aprendeu certamente mais do que qualquer um de nós. Não estamos fazendo as coisas muito melhor agora do que há dois mil anos, quando você era moço. Deve saber por que ainda estamos cometendo os erros que os nossos ancestrais cometiam. Seria uma grande perda se você apressasse sua morte sem esperar para nos contar o que aprendeu.

Lazarus franziu a testa e mordeu o lábio.

— Filho, uma das poucas coisas que aprendi é que os seres humanos dificilmente aprendem alguma coisa pela experiência dos outros. Aprendem (quando aprendem, o que não acontece muitas vezes) pela experiência própria, da maneira mais difícil.

— Essa afirmação merece ser gravada para sempre.

— Hum! Ninguém aprenderá nada com ela; é isso o que diz. Ira, a idade não traz sabedoria. Muitas vezes simplesmente transforma a estupidez numa presunção arrogante. Sua única vantagem, até onde pude verificar, é que ela abrange a mudança. Uma pessoa jovem vê o mundo como uma fotografia, imutável. Uma pessoa velha esfregou o seu nariz e tantas e tantas vezes em mudanças e mais mudanças, tantas vezes, que sabe que aquilo é um quadro animado, eternamente. Ela pode não gostar disso (provavelmente não gosta; eu não gosto...), mas sabe que é assim, e saber é o primeiro passo para enfrentar isso.

— Posso gravar abertamente o que acabou de dizer?

— Hein? Isso não é sabedoria, é um clichê. Uma verdade óbvia. Qualquer tolo o admitirá, mesmo que não aja de acordo com isso.

— Teria maior peso com o seu nome, Sênior.

— Faça como quiser; é apenas senso comum. Mas, se você acha que contemplei a face nua de Deus, pense outra vez. Não comecei sequer a descobrir como funciona o universo, muito menos para que serve. Para imaginar as perguntas básicas sobre este mundo seria necessário postar-se do lado de fora e olhar para ele. Não dentro. Não, não em dois mil anos, nem em vinte mil. Quando um homem morre, ele pode livrar-se da sua perspectiva restrita e ver a coisa como um todo.

— Então você acredita numa vida posterior?

— Vamos devagar! Não acredito em coisa alguma. Sei certas coisas por experiência... pequenas coisas, não os Nove Bilhões de Nomes de Deus. Mas não tenho nenhuma crença. A crença obstrui o caminho da aprendizagem.

— É isso o que queremos, Lazarus; o que você aprendeu. Embora diga não ser nada senão "pequenas coisas". Posso afirmar que alguém que conseguiu ficar vivo tanto tempo quanto você deve necessariamente ter aprendido muitas coisas, ou não poderia ter vivido tanto tempo. Muitos seres humanos têm mortes violentas. O próprio fato de vivermos tanto tempo mais do que os nossos ancestrais torna isto inevitável. Acidentes de tráfego, assassinatos, animais ferozes, esportes, erros do piloto, um pouco de lama escorregadia... alguma coisa nos pega finalmente. Você não viveu uma vida segura e plácida... bem pelo contrário! Apesar disso, conseguiu burlar todos os riscos durante vinte e três séculos. Como? Não pode ser sorte.

— Por que não pode ser? As coisas menos prováveis acontecem, Ira. Não há nada tão pouco provável como um bebê. Mas é verdade que sempre observei onde punha os pés... e nunca lutei quando podia evitar... e, quando tive que lutar, sempre lutei desonestamente. Quando tinha que lutar, queria que ele morresse em vez de mim. Portanto, tentava dispor as coisas dessa maneira. Não sorte. Ou não muita, de qualquer maneira. — Lazarus piscou, pensativamente. — Nunca remei contra a maré. Certa vez uma turba quis linchar-me. Não tentei discutir com eles; tratei simplesmente de ficar vários quilômetros longe deles o mais depressa que pude, e nunca mais voltei lá.

— Isso não está em nenhuma de suas memórias.

— Muitas coisas não estão nas minhas memórias. Aí vem a comida.

A porta dilatou-se, uma mesa de jantar para dois deslizou para dentro, posicionou-se por si só enquanto as cadeiras se separavam para dar-lhe lugar, e começou a se desdobrar para servir. Os técnicos se aproximaram em silêncio e ofereceram seu serviço pessoal desnecessariamente.

— Está cheiroso — comentou Weatheral. — Você tem algum ritual para comer?

— Hein? Rezar ou coisa parecida? Não.

— Não desse tipo. Tal como... Veja: se um dos meus executivos come comigo, não permito que ele discuta negócios à mesa. Mas, se você permitir, gostaria de continuar esta conversa.

— Certamente, por que não? Desde que falemos de assuntos que não irritem o estômago. Você ouviu alguma vez o que o padre disse à velha empregada? — Lazarus deu uma olhada para o técnico junto ao seu cotovelo. — Talvez não agora. Acho que o mais baixo é mulher e pode ser que saiba um pouco de inglês. Você estava dizendo...

— Eu estava dizendo que suas memórias estão incompletas. Mesmo que você esteja decidido a morrer, não quer pensar em conceder a mim e aos seus outros descendentes o resto das suas memórias? Simplesmente falar, contar-nos o que viu e fez. Uma análise cuidadosa pode nos ensinar um bocado. Por exemplo, o que foi que aconteceu na Reunião das Famílias em 2012? As minutas não dizem muita coisa.

— Quem se importa agora, Ira? Todos eles estão mortos. Seria a minha versão sem dar a eles uma oportunidade de responder. Vamos deixar os cães que dormem enterrar seus próprios mortos. Além disso, eu disse a você que a minha memória me está pregando peças. Usei as técnicas hipnoenciclopédicas de Endy Libby (elas são boas) e aprendi também a armazenar em séries as lembranças de que não preciso todos os dias, com palavras-chave para fazer a série desdobrar-se quando precisar dela, como .um computador, e mandei várias vezes lavar do meu cérebro lembranças inúteis, para desocupar aquelas gavetas do arquivo para dados novos... e, apesar disso, não adianta. Metade das vezes não consigo lembrar-me de onde pus o livro que estava lendo na noite anterior, depois perco uma manhã procurando-o... antes de me lembrar de que esse livro era um que eu estava lendo um século atrás. Por que você não deixa um velho em paz?

— Tudo quanto você tem que fazer é mandar-me calar a boca, Sênior. Mas espero que não mande. Sei que a memória é imperfeita, mas você foi testemunha ocular de milhares de coisas que o resto de nós é moço demais para ter visto. Ah, não estou lhe pedindo para expor uma autobiografia formal cobrindo todos os seus séculos. Mas você poderia recordar-se de qualquer coisa sobre a qual quisesse falar. Por exemplo, não há nenhum registro, em parte alguma, dos seus primeiros anos. Eu e milhões de outros estaríamos extremamente interessados em qualquer coisa que você lembrasse da sua infância.

— O que há nela para lembrar? Passei minha infância da mesma maneira que todos os meninos... tentando impedir que os mais velhos descobrissem o que eu estava aprontando.

Lazarus limpou a boca e ficou pensativo.

— Em geral, eu era bem sucedido. As poucas vezes em que fui apanhado e surrado ensinaram-me a ter mais cuidado na próxima vez. Ficar mais de boca calada e não pregar mentiras complicadas demais. Mentir é uma das belas artes, Ira, e parece que está morrendo.

— Realmente? Não notei nenhuma diminuição.

— Quero dizer como bela arte. Há ainda uma porção de mentirosos desajeitados, aproximadamente tantos quanto o número de bocas. Você conhece as duas maneiras mais artísticas de mentir?

— Talvez não, mas gostaria de aprender. Só duas?

— Ao que eu saiba. Não basta ser capaz de mentir com cara de pau; alguém descarado o bastante para deixar de se ruborizar pode fazer isso. A primeira maneira de mentir artisticamente é contar a verdade... mas não toda. A segunda maneira consiste em contar a verdade também, mas é mais difícil: conte exatamente a verdade e talvez ela toda... mas conte-a de forma tão pouco convincente, que o seu ouvinte fique certo de que você está mentindo.

"Eu devia ter doze, treze anos de idade e, quando aprendi essa forma apropriadamente. Aprendi-a do meu avô materno; puxei um bocado a ele. Era um velho diabo mesquinho. Não entrava em igrejas nem consultava médicos. Afirmava que nem os médicos nem os pregadores sabiam o que fingiam saber. Aos oitenta e cinco anos podia partir nozes com os dentes e erguer com o braço estendido uma bigorna de trinta e cinco quilos pelo bico. Saí de casa mais ou menos nessa época e nunca mais o vi. Mas os arquivos das Famílias dizem que ele foi morto na Batalha da Inglaterra, durante o bombardeio de Londres, que foi alguns anos depois."

— Eu sei. Ele é meu ancestral também, naturalmente, e o meu nome é em homenagem a ele. Ira Johnson[6], [7] .

— Oh, certamente, esse era o nome dele. Eu o chamava simplesmente de "vovô".

— Lazarus, este é exatamente o tipo de coisa que quero registrar. Ira Johnson é não só seu avô e meu avô remoto, mas também ancestral de muitos milhões de pessoas aqui e em outros lugares... contudo, a não ser as poucas palavras que você acabou de dizer sobre ele, tem sido apenas um nome, uma data de nascimento e uma data de morte, nada mais. De repente você o fez viver novamente... um homem, um ser humano único. Colorido.

Lazarus ficou pensativo

— Nunca pensei nele como "colorido". Na verdade, ele era um sujeito desagradável e estúpido... não uma "boa influência" para um menino criado pelos padrões daqueles tempos. Hum, houve alguma coisa sobre uma jovem professora solteirona e ele na cidade em que morávamos, algum escândalo... "escândalo" para aquela época, quero dizer. Acho que foi por isso que nos mudamos. Eu nunca soube direito o que foi, porque os adultos não falavam sobre isso diante de mim.

"Mas aprendi um bocado com ele; ele tinha mais tempo para falar comigo (ou dedicava mais tempo a isso) do que os meus pais. Algumas coisas que ele disse ficaram. 'Sempre corte as cartas, Woodie', dizia ele. 'Você pode perder de qualquer forma... mas não tantas vezes, nem tanto. E, quando você perder, sorria.' Coisas assim."

— Lembra-se de mais alguma coisa que ele tenha dito?

— Hein? Após todos estes anos? É claro que não. Bem, talvez. Um dia ele me levou para fora da cidade, ao sul, para me ensinar a atirar. Eu tinha talvez dez anos e ele... Oh, não sei. Ele sempre pareceu noventa anos mais velho do que Deus para mim[8] . Ele espetou um alvo, acertou um na mosca para me mostrar que isso podia ser feito, depois me entregou a carabina. Era uma pequena 22 de tiro único, que não servia para muita coisa a não ser alvos e latas. "Muito bem, está carregada; faça exatamente o que fiz; mantenha-a firme, relaxe e aperte o gatilho." Assim fiz, e tudo quanto ouvi foi um clique... ela não disparou.

"Eu disse a ele e comecei a abrir a culatra. Ele deu um tapa na minha mão, tomou-me a carabina com a outra mão... depois me deu um bom cascudo. 'O que foi que eu disse a você sobre armas que negam fogo, Woodie? Você está doido para andar por aí com um olho só o resto da sua vida? Ou está simplesmente tentando matar-se? Se for isso, posso mostrar-lhe várias maneiras melhores."

"Depois ele disse: 'Agora preste atenção'. E abriu a culatra. Vazia. Então eu disse: 'Mas, vovô, você me disse que estava carregada'. Tapeação, Ira, eu o vi carregá-la, pensei.

" 'Disse, sim, Woodie' , concordou ele. 'E menti para você. Fingi que carregava e empalmei o cartucho. Agora, o que foi que eu disse a você sobre armas carregadas? Pense bem e responda direito... ou serei forçado a dar-lhe outro cascudo para sacudir o seu cérebro e fazê-lo funcionar melhor.'

"Pensei depressa e respondi direito; vovô tinha a mão pesada. 'Nunca acredite em ninguém que diga que uma arma está carregada.'

" 'Correto', concordou ele. 'Lembre-se disso toda a sua vida... e verifique!... ou não viverá muito tempo.' [9]

 

"Ira, lembrei-me disso toda a minha vida... e também de sua aplicação a situações análogas após essas armas saírem de moda. E isso realmente me manteve vivo várias vezes.

"Depois ele me fez carregá-la, dizendo em seguida: 'Woodie, aposto com você meio dólar... você tem meio dólar?' Eu tinha consideravelmente mais, mas eu havia apostado com ele antes, portanto admiti ter apenas um quarto. 'Está bem', disse ele. 'Digamos duas moedinhas; nunca permiti a um homem apostar a crédito. Aposto duas moedinhas como você não consegue atingir o alvo, muito menos na mosca.'

"Depois ele embolsou minhas duas moedinhas e mostrou-me o que estava errado com o que eu tinha feito. No momento em que ele estava pronto para desistir, eu sabia o essencial sobre como levar uma arma a fazer o que eu queria que fizesse, e quis apostar com ele outra vez. Ele riu de mim e me disse que ficasse grato pelo fato de a lição ser tão barata. Passe o sal, por favor "

Weatheral passou-o.

— Lazarus, se eu descobrisse uma maneira de fazer com que se lembrasse do seu avô, ou de qualquer coisa, acho que poderíamos extrair desse registro coisas sem fim que você aprendeu, coisas importantes... quer você prefira chamá-las de sabedoria, quer não. Nos últimos dez minutos você declarou meia dúzia de verdades básicas, ou regras de vida... chame-as como quiser. E, aparentemente, sem tentar.

— Tais como?

— Ah, por exemplo, que a maioria das pessoas aprende apenas pela experiência...

— Correção: a maioria das pessoas não aprende nem pela experiência, Ira. Nunca subestime o poder da estupidez humana.

— Aí está outra. E você fez um par de comentários sobre a bela arte de mentir... três, realmente, já que mencionou também que uma mentira nunca deve ser complicada demais. Você disse também que a crença obstrui o caminho da aprendizagem, e algo sobre o fato de o conhecimento de uma situação ser o primeiro passo para enfrentá-la.

— Eu não disse isso... embora pudesse tê-lo feito.

— Generalizei algumas coisas que você disse. Afirmou, também, que nunca remou contra a maré... o que eu generalizaria como "Não tenha muita fé em que as coisas vão dar certo". Ou como "Encare os fatos e aja de acordo". Embora eu prefira a maneira como você disse: tem mais sabor. E "Sempre corte as cartas". Não jogo cartas há muitos anos, mas acho que isso significa: "Nunca despreze qualquer meio disponível de maximizar as suas probabilidades numa situação controlada por acontecimentos aleatórios ".

— Hum! Vovô teria dito: "Guarde o palavreado difícil, meu filho".

— Então vamos pôr isso novamente nas palavras dele: "Sempre corte as cartas... e sorria quando perder". Se é que são mesmo palavras dele.

— Ah, são dele mesmo. Bem, acho que são. Que diabo! Ira, após um longo tempo é difícil distinguir uma lembrança verdadeira de uma lembrança de uma lembrança de uma lembrança de uma lembrança verdadeira. É isso o que acontece quando se pensa no passado: a gente o corrige e o reordena, torna-o mais tolerável...

— Essa é outra!

— Ora, cale-se! Filho,, não quero recordar-me do passado; é uma indicação segura de velhice. Bebês e crianças pequenas vivem no presente, no "agora". Os adultos maduros tendem a viver no futuro. Só os senis vivem no passado... e esse foi o sinal que me fez perceber que eu havia vivido bastante, quando descobri que estava passando cada vez mais tempo pensando no passado... e pensando menos no agora... e tempo nenhum no futuro.

O velho suspirou.

— Portanto — continuou —, sabia que estava acabado. A maneira de viver um longo tempo (Ah, mil anos ou mais!) é alguma coisa entre a maneira como uma criança o faz e a maneira como um homem maduro o faz. Pensar o suficiente no futuro para estar pronto para ele... mas não se preocupar com ele. Viver cada dia como se fosse morrer no próximo nascer do sol. Depois enfrentar cada nascer do sol como uma criação nova e viver para ele, alegremente. E nunca pensar no passado. Nenhum arrependimento, nunca. — Lazarus Long parecia triste, depois sorriu de repente e repetiu: — "Nenhum arrependimento". Mais vinho, Tra?

— Meio cálice, obrigado. Lazarus, se você está decidido a morrer em breve (é um privilégio seu, certamente!) que mal poderia haver em relembrar o passado agora... e gravar essas lembranças em benefício dos seus descendentes? Seria um legado muito maior do que deixar sua fortuna para nós.

As sobrancelhas de Lazarus se ergueram.

— Filho, você está começando a me aborrecer.

— Perdão, senhor. Permite-me ir embora?

— Ah, cale a boca e sente-se. Termine o seu jantar. Você me lembra de... Bem, havia este homem no Novo Brasil que concordava com o costume local de bigamia em série mas sempre tinha cuidado para que uma das suas mulheres fosse tão totalmente feia quanto a outra era surpreendentemente linda, a fim de que... Ira, essa sua máquina que está nos ouvindo, ela pode ser regulada para escolher determinadas declarações e arrumá-las como um memorando separado?

— Certamente, Sênior.

— Muito bem. O fazendeiro... Silva? Sim, acho que o nome dele era "Silva", dom Pedro Silva... Não adianta contar como ele enfrentou a situação quando se viu ligado a duas mulheres bonitas ao mesmo tempo, exceto para notar que, quando um computador comete um engano, é ainda mais estupidamente teimoso para corrigi-lo do que o homem. Mas, se eu pensar bastante, pode ser que desencave essas "jóias de sabedoria" que você acha que tenho. Isto é, diamantes falsos. Aí não teremos que carregar a máquina com histórias cacetes sobre dom Pedro e coisas parecidas Uma palavra-chave?

— "Sabedoria"?

— Vá lavar sua boca com sabão.

— Não vou. Você bem merecia essa, Sênior. "Senso comum " ?

— Filho, essa frase é autocontraditória. O "senso" nunca é "comum". Registre a palavra-chave "Caderno de notas"... isso é tudo quanto tenho em mente, apenas um caderno de notas para anotar coisas que percebi e que podem ser bastante importantes para serem registradas.

— Ótimo! Devo corrigir a programação agora?

— Você pode fazer isso daqui? Não quero interromper o seu jantar.

— É uma máquina muito flexível, Lazarus; o com plexo total é o que uso para governar este planeta... até o ponto moderado em que o governo.

— Nesse caso tenho certeza de que você pode colocar uma impressora auxiliar aqui, que seja regulada para a palavra-chave. Posso querer rever minhas jóias cintilantes de sabedoria... quero dizer que os comentários extemporâneos soam melhor quando não são extemporâneos, .. ou por que os políticos têm redatores fantasmas.

— Redatores fantasmas? Meu domínio do inglês clássico é menos do que perfeito; não reconheço essa expressão.

— Ira, não me diga que você escreve seus próprios discursos.

— Mas, Lazarus, não faço discursos. Nunca. Apenas dou ordens e, muito raramente, faço relatórios escritos para os Curadores.

— Meus parabéns. Pode apostar que há redatores fantasmas em Felicidade. Ou haverá em breve.

— Mandarei instalar essa impressora imediatamente, Sênior. Alfabeto romano e ortografia do século XX? Se é que você pretende usar a língua que estamos falando.

— A menos que isso crie muita tensão numa pobre máquina inocente. Se assim for, posso lê-la em fonética. Acho.

— É uma máquina muito flexível, Sênior; ela me ensinou a falar esta língua... e, antes, a lê-la.

— Muito bem, faça isso. Mas diga a ela para não corrigir minha gramática. Os editores humanos são suficientemente duros; não aceitarei esse comportamento arrivista de uma máquina.

— Sim, Sênior. Se me der licença por um momento... — O Presidente Temporário ergueu a voz ligeiramente e mudou para a variante de Nova Roma da língua galacta. Depois falou na mesma língua ao técnico mais alto.

A impressora auxiliar foi instalada antes que a mesa lhes servisse café.

Após ter sido ligada, ela deu um zumbido rápido.

— O que ela está fazendo? — perguntou Lazarus. — Testando seus circuitos?

— Não, Sênior. Imprimindo. Tentei uma experiência. A máquina tem um julgamento considerável dentro dos limites dos seus programas e experiências gravadas na memória. Ao acrescentar o programa extra, eu também disse a ela para voltar, rever tudo o que você me disse e tentar selecionar todas as afirmações que parecessem aforismos. Não tenho certeza de que ela possa fazê-lo, já que qualquer definição de "aforismo" que tenha sua memória permanente certamente é bastante abstrata. Mas tenho esperanças. Contudo, disse a ela com firmeza: nada de reordenar.

— Bem. "A coisa espantosa sobre um urso que valsa não é a graça com que ele valsa, mas que ele chegue a valsar." Não eu. Algum outro cara; estou citando. Vamos vet o que ela tem.

Weatheral fez um gesto; o técnico mais baixo foi depressa até a máquina, puxou um exemplar para cada um deles e levou-os de volta.

Lazarus examinou o seu exemplar.

— Hum... sim. Essa seguinte não é verdadeira... apenas uma piada. Devo refrasear a terceira um pouco. Ei! Ela pôs um ponto de interrogação depois desta. Que ferro-velho impertinente! Conferi esta séculos antes, quando ela não era nada mais do que minério não-extraído. Bem, pelo menos ela não tentou revisá-la. Não me lembro de ter dito isso, mas é verdade e eu quase morri aprendendo.

Lazarus ergueu os olhos do exemplar impresso.

— Está bem, filho. Se você deseja isso registrado, não me importo. Desde que me permitam conferir e revisar... porque não quero que minhas palavras sejam tomadas como o Evangelho, a menos que tenha uma oportunidade de eliminar os disparates casuais. Que sou exatamente tão capaz de enunciar como qualquer homem.

— Certamente, Sênior. Nada irá para os registros sem a sua aprovação. A menos que você prefira usar aquele interruptor... caso em que terei de editar, eu mesmo, qualquer comentário não editado que você tenha deixado. Isso é o melhor que posso fazer.

— Tentando tapear-me, hein? Hum... Ira, suponha que eu lhe proponha um acordo Xerazade invertido.

— Não compreendo.

— Xerazade se perdeu, afinal? Sir Richard Burton[10] viveu em vão?

— Ah, não, Sênior! Li As mil e uma noites no original de Burton... e as histórias dela atravessaram os séculos, foram alteradas diversas vezes para que se tornassem compreensíveis às novas gerações... mas, acho eu, com o sabor conservado. Simplesmente não compreendo o que você está propondo.

— Entendo. Você me disse que falar comigo é a coisa mais importante que tem a fazer.

— E é.

— Só fico imaginando. Se você acha isso mesmo, então virá aqui todos os dias para me fazer companhia... e bater papo. Porque não vou ficar tagarelando para a sua máquina, por mais esperta que ela seja.

— Lazarus, ficarei não só honrado como muito satisfeito se me permitir fazer-lhe companhia pelo tempo que quiser.

— Veremos. Quando um homem faz uma declaração ampla, muitas vezes tem reservas mentais. Quero dizer todos os dias, filho, e o dia inteiro. E você... não um representante. Apareça duas horas após o café da manhã, digamos, e fique até que eu o mande para casa. Mas qualquer dia que você faltar... Bem, se for tão urgente que você tenha simplesmente que faltar, dê suas desculpas pelo telefone e mande uma moça bonita me visitar. Uma que fale inglês clássico e tenha juízo bastante para ouvir em vez de falar... já que um velho tolo é capaz de falar com uma moça bonita que simplesmente agite as pestanas para ele e pareça impressionada. Se ela me agradar, deixarei que fique. Ou poderia ser tão petulante que a mandaria embora e usaria aquele interruptor que você prometeu mandar reinstalar. Mas não me suicidarei na presença de um hóspede; isso é grosseria. Compreende-me?

— Acho que sim — respondeu Ira Weatheral devagar. — Você será tanto Xerazade como o rei Xariar, e eu serei... Não, isso não está direito; sou eu que tenho de manter isso andando durante mil noites, quero dizer, "dias"; e, se eu falhar... mas não falharei! ... se eu falhar, você estará livre para...

— Não leve uma analogia longe demais — aconselhou Lazarus. — Estou simplesmente pagando para ver o seu blefe. Se as minhas divagações são tão importantes para você como afirma, então você aparecerá e as ouvirá. Pode faltar uma vez, ou mesmo duas, se a moça for bastante bonita e souber como excitar minha vaidade (a qual tenho bastante) da maneira correta. Mas, se você faltar muitas vezes, ficarei sabendo que está aborrecido e o acordo estará cancelado. Estou apostando que a sua paciência se esgotará muito antes de quaisquer mil e um dias terem passado... ao passo que eu sei como ser paciente, ano após ano se necessário; essa é uma das principais razões por que ainda estou vivo. Mas você ainda é jovem; aposto que posso agüentar mais que você.

— Aceito a aposta. Quanto a essa moça, se eu tiver que me ausentar algum dia, você objetaria se eu mandasse uma de minhas filhas? Ela é muito bonita.

— Hein? Você parece um feitor de escravos de Iskandrian leiloando a mãe. Por que sua filha? Não quero casar-me com ela, nem mesmo dormir com ela; desejo simplesmente que me divirtam e lisonjeiem. Quem foi que lhe disse que ela é bonita? Se ela é realmente sua filha, provavelmente se parece com você.

— Deixe disso, Lazarus; você não pode aborrecer-me tão facilmente assim. Admito a parcialidade de um pai, mas já vi o efeito que ela produz nos outros. Ela é bastante moça, tem menos de oitenta, e esteve casada contratualmente apenas uma vez. Mas você especificou uma moça bonita que falasse sua língua de infância. Há poucas. Mas esta minha filha herdou meu talento para línguas e está muito excitada pela sua presença aqui... Quer conhecê-lo. Posso retardar as emergências o bastante para que ela se torne letrada em sua língua.

Lazarus sorriu e encolheu os ombros.

— Faça como quiser. Diga a ela para não se preocupar com o cinto de castidade; não tenho tanta energia. Mas ainda ganharei a aposta. Provavelmente sem pôr os olhos nela; não levará muito tempo para você decidir que sou um velho insuportavelmente chato. O que sou e fui por quase tanto tempo quanto o Judeu Errante, um chato de lascar como nunca vi outro! Eu disse a você que o conheci?

— Não. E não acredito que o tenha. Ele é um mito.

— Você conhece mesmo muita coisa sobre ele, filho. Eu o conheci, ele é autêntico. Lutou contra os romanos em 70 A.C., quando Jerusalém foi saqueada. Lutou em todas as Cruzadas... provocou uma delas. De cabelos ruivos, naturalmente; todos os de vida longa natural trazem a marca de Gilgamesh. Quando o conheci, ele estava usando o nome de Sandy Macdougal, sendo esse um nome melhor para a época e o lugar de sua profissão, que era a de um antigo vigarista, com variações[11]. Estas últimas envolviam... Olhe, Ira, se você não acredita nas minhas histórias, por que se dá ao trabalho da gravá-las?

 

— Lazarus, se acha que pode chatear-me até a morte (correção: até a sua morte), por que se incomoda em inventar ficções para me entreter? Quaisquer que sejam os seus motivos, ouvirei tão cuidadosamente, e por tanto tempo, como o rei Xariar. A propósito, o meu computador principal está gravando o que quer que você resolva dizer, sem corrigir; garanti isso... mas ele tem incorporado em seu interior um analisador de verdades muito sutil, capaz de identificar qualquer ficção que você inclua. Não que eu me importe com a exatidão histórica; desde que você fale... já que está claro para mim que você inclui automaticamente suas avaliações, aquelas "jóias de sabedoria", não importa o que diga.

— "Jóias de sabedoria." Jovem, use essa expressão mais uma vez e ficará retido depois das aulas para limpar o quadro-negro. Esse seu computador... É melhor informá-lo de que as minhas histórias mais estranhas são as que têm mais probabilidade de serem verdadeiras... já que essa é a verdade literal. Nenhum contador de histórias jamais foi capaz de sonhar nada tão fantasticamente improvável como o que acontece realmente neste universo louco.

— Ele sabe disso. Mas vou preveni-lo novamente. Você me falava sobre Sandy Macdougal, o Judeu Errante.

— Falava? Nesse caso, e se ele estava usando esse nome, isso deve ter sido no fim do século XX e em Vancouver, pelo que me lembro. Vancouver era uma parte dos Estados Unidos onde as pessoas eram tão espertas que nunca pagavam impostos a Washington. Sandy deveria ter operado em Nova York, que era notável em estupidez mesmo então. Não darei detalhes das suas trapaças; podem corromper a sua máquina. Basta dizer que Sandy usava o mais velho princípio para separar um otário do seu dinheiro: escolher um otário que gostasse de levar a melhor.

"Isso é tudo que é preciso, Ira. Se um homem é ganancioso, você pode enganá-lo todas as vezes. O problema era que Sandy Macdougal era mais ganancioso ainda que suas vítimas. Isso levou-o à loucura do excesso e forçou-o muitas vezes a deixar a cidade enquanto estava escuro, largando as coisas roubadas para trás. Ira, quando a gente esfola um homem, tem que deixá-lo recuperar-se e a pele crescer... senão ele fica nervoso. Se você respeitar esta regra simples, uma vítima verdadeira pode ser esfolada repetidas vezes, e isso simplesmente a mantém saudável e produtiva. Mas Sandy era ganancioso demais para isso; não tinha paciência."

— Lazarus, parece que você tem uma grande experiência nessa arte.

— Ora, Ira. Um pouco de respeito, por favor. Nunca trapaceei um homem. No máximo fiquei calado e deixei-o trapacear a si mesmo. Isto não faz mal, já que um otário não pode ser protegido contra a sua loucura. Se você tentar fazer isso, não só despertará sua animosidade, como também estará ameaçando privá-lo de qualquer benefício que ele seja capaz de obter com a experiência. Nunca tente ensinar um porco a cantar; isso toma o seu tempo e aborrece o porco.

"Mas entendo um bocado de trapaças. Acho que todas as variações de todas as trapaças possíveis foram tentadas comigo, uma vez ou outra.

"Algumas delas funcionaram, antigamente, quando eu era muito moço. Depois segui o conselho do vovô Johnson e desisti de procurar levar a melhor; daí em diante não pude mais ser trapaceado. Mas não fui capaz de aproveitar o conselho de vovô até me queimar algumas vezes. Ira, está ficando tarde."

O Presidente Temporário ergueu-se prontamente.

— É verdade, Sênior. Posso fazer duas perguntas antes de ir embora? Não para as suas memórias, são apenas questão de procedimento.

— Faça-as curtas e rápidas.

— Você terá o seu interruptor de opção final amanhã de manhã. Mas falou que não se sente bem, e não há nenhuma necessidade disso, mesmo que você prefira terminar num futuro próximo. Podemos recomeçar os procedimentos de rejuvenescimento?

— Hum. Segunda pergunta?

— Prometi fazer o máximo para descobrir alguma coisa completamente nova para interessá-lo. Prometi também passar todos os dias aqui com você. Vejo um conflito.

Lazarus sorriu.

— Não brinque com o seu velho vovô, filho; você vai delegar essa pesquisa.

— Certamente. Mas preciso planejar como começá-la, depois verificar o progresso a intervalos periódicos e sugerir novos caminhos a explorar.

— Hum... se eu concordar com o procedimento completo, estarei fora de circulação um ou dois dias de vez em quando.

— Creio que a prática atual requer um dia de descanso profundo aproximadamente a cada semana, variando para se adequar à condição do cliente. Minha própria experiência é de cerca de cem anos atrás; compreendo que houve progressos. Decidiu submeter-se a eles, Sênior?

— Direi a você amanhã... após aquele interruptor estar instalado. Ira, não tomo decisões apressadas se elas não exigem pressa. Mas, se eu consentir, você terá tempo livre para usá-lo como desejar. Boa noite, Ira.

— Boa noite, Lazarus. Espero que resolva aceitá-lo. — Weatheral virou-se em direção à porta, parou a meio caminho e falou com os técnicos, que deixaram a sala imediatamente. A mesa de jantar saiu apressadamente atrás deles. Uma vez fechada a porta, Weatheral virou-se e encarou Lazarus Long. — Vovô — disse ele baixinho, com a voz um tanto embargada. — Uh.. posso?

Lazarus havia deixado sua cadeira afundar para trás numa posição reclinada que o segurava como uma rede, tão ternamente como os braços de uma mãe. Ao ouvir as palavras do homem mais moço, ergueu a cabeça.

— Hein? O quê? Ah! Está bem, está bem, venha cá... meu neto. — Estendeu um braço para Weatheral.

O Presidente Temporário dirigiu-se apressadamente até ele, tomou-lhe a mão, ajoelhou-se e beijou-a. Lazarus retirou a mão vivamente.

— Pelo amor de Deus! Não se ajoelhe diante de mim... nunca faça isso. Se você quer ser meu neto, trate-me como tal. Não assim.

— Sim, vovô. — Weatheral ergueu-se, inclinou-se sobre o velho e beijou-o na boca.

Lazarus afagou-lhe o rosto.

— Você é um sentimental, meu neto. Mas um bom menino. O problema é que nunca houve muita procura de bons meninos. Agora tire essa expressão solene do rosto, vá para casa e descanse bem à noite.

— Sim, vovô. Irei. Boa noite.

— Boa noite. Agora dê o fora.

Weatheral saiu rapidamente. Os técnicos saltaram de lado quando ele saiu, depois voltaram para a suíte. Weatheral seguiu em frente, ignorando as pessoas à sua volta, mas tinha no rosto uma expressão mais doce e suave do que era seu desejo. Passou por um banco de transportes até o transporte particular do Diretor; este abriu-se à sua voz, depois o levou rapidamente até as entranhas da cidade e diretamente para o Palácio Executivo.

Lazarus ergueu os olhos quando os seus servidores voltaram; fez sinal para o mais alto se aproximar. A voz do técnico, filtrada e desfigurada pelo capacete, disse cuidadosamente:

— Cama... senhor?

— Não, quero... — Lazarus fez uma pausa, depois falou para o ar. — Computador? Você pode falar? Senão, imprima.

— Estou ouvindo-o, Sênior — respondeu uma voz melíflua de contralto.

— Diga a este enfermeiro que quero o que quer que eles tenham permissão de me dar para dor. Tenho trabalho a fazer.

— Sim, Sênior. — A voz desencarnada mudou para a língua galacta, foi respondida da mesma forma, depois continuou: — O Técnico Chefe Principal deseja saber a natureza e a localização da sua dor, e acrescentar que o senhor não deve trabalhar esta noite.

Lazarus ficou em silêncio enquanto mentalmente contava dez chimpanzés. Depois disse baixinho:

— Que diabo, sinto dor em toda parte! E não quero conselhos de uma criança. Tenho coisas a terminar antes de dormir... porque nunca se sabe se se vai acordar outra vez. Esqueça o analgésico; não é tão importante assim. Diga-lhes para saírem e ficarem fora.

Lazarus tentou ignorar a troca de palavras que se seguiu, já que o aborrecia o fato de quase não entendê-la. Abriu o envelope que Ira Weatheral lhe havia devolvido, depois abriu seu testamento, um longo fole dobrado de formulário de computador, e começou a ler enquanto assoviava desafinado.

— Sênior, o Técnico Chefe Principal declara que o senhor deu uma ordem nula, que é uma declaração verdadeira pelos regulamentos da clínica. Um analgésico geral está para chegar.

— Esqueça-o. — Lazarus continuou a ler e passou a cantar baixinho a música que estava assoviando.

 

"Há uma casa de penhores

Na esquina

Onde geralmente guardo meu sobretudo

 

Há um bookmaker

Atrás da loja de penhores

Que cuida dos meus investimentos."[12]

 

O técnico mais alto apareceu junto ao seu cotovelo carregando um disco brilhante com tubos presos.

— Para... dor.

Lazarus fez um gesto com a mão livre, mandando-o embora.

— Vá embora, estou ocupado.

O técnico mais baixo apareceu do outro lado. Lazarus olhou na direção dele e perguntou:

— O que deseja?

Quando ele virou a cabeça, o técnico mais alto moveu-se rapidamente; Lazarus sentiu uma picada no antebraço. Esfregou o ponto e disse:

— Ora, seu patife! Enganou-me, não foi? Está bem, dêem o fora. Fora! Sumam!

Esqueceu-se do incidente e voltou a trabalhar. Um momento depois disse:

— Computador!

— Às suas ordens, Sênior.

— Registre isto para imprimir. Eu, Lazarus Long, conhecido algumas vezes como o Sênior e listado nas genealogias das Famílias Howard como Woodrow Wilson Smith, nascido em 1912, declaro que esta é a minha última vontade e testamento... Computador, volte à minha conversa com Ira e descubra o que foi que eu disse que queria fazer para ajudá-lo a dirigir uma migração... Entendeu?

— Descoberto, Sênior.

— Corrija a linguagem e acrescente isso na minha declaração inicial. E... deixe-me ver... coloque algo assim: na hipótese de Ira Weatheral deixar de se qualificar para a herança, então toda a minha fortuna terrena deverá destinar-se a... ahn... a... fundar um lar para indigentes e batedores de carteira aposentados, prostitutas, achacadores, vigaristas, ladrões e outros pobres sem valor. Entendeu?

— Registrado, Sênior. Por favor, fique avisado de que esta alternativa tem uma grande probabilidade de ser anulada se testada pelas regras atuais deste planeta.

Lazarus expressou um desejo retórica e fisiologicamente improvável.

— Está bem, ponha então para gatos perdidos ou algum outro fim inútil mas legalmente aceitável. Verifique sua memória permanente para achar finalidades que sejam aprovadas pelos tribunais. Certifique-se de que os Curadores não possam pôr as mãos nisto. Compreende?

— Não há meio de ter certeza disso, Senhor, mas será tentado.

— Procure uma saída. Imprima isso o mais depressa que puder pesquisar e redija tudo. Agora se prepare para um memorando dos meus bens. Começo. — Lazarus começou a ler a lista, mas percebeu que seus olhos estavam ficando turvos e não focalizavam. — Que inferno! Aqueles bonecos me deram um remédio forte e está começando a fazer efeito. Sangue! Preciso de uma gota do meu próprio sangue para imprimir o meu polegar com ele! Diga àqueles bonecos para me ajudarem e diga-lhes por quê... e previna-os de que morderei minha língua para consegui-lo se não me ajudarem. Agora imprima meu testamento com qualquer alternativa exeqüível... mas depressa!

— Impressão começando — respondeu o computador calmamente, depois passou para galacta.

Os "bonecos" não discutiram com o computador; mexeram-se depressa, um puxando a nova folha da impressora auxiliar no momento em que esta parou de zumbir, o outro produzindo do nada uma ponta estéril e furando a polpa do dedo mínimo esquerdo de Lazarus após dar a este uma fração de segundo para ver o que estava sendo feito.

Lazarus não esperou que o sangue fosse retirado pela pipeta. Espremeu o dedo furado para tirar uma gota, esfregou o polegar direito nele, depois assinou imprimindo o dedo no seu testamento, enquanto o técnico mais baixo o segurava para ele.

Depois se recostou.

— Está feito — sussurrou ele. — Diga a Ira. — Caiu num sono pesado imediatamente.

 

Contraponto I

A cadeira transferiu Lazarus suavemente para a cama, enquanto os técnicos supervisionavam em silêncio. Depois o mais baixo observou os gráficos de respiração, as batidas cardíacas, o ritmo cerebral e outros dados físicos, enquanto o mais alto colocava os documentos, o velho testamento e o novo, num impervolope; ele o selou, destacou e imprimiu o polegar no selo, escreveu "Entregar apenas ao Sênior e/ou ao Sr. Presidente Temporário", e depois ficou com ele até seus substitutos chegarem.

O técnico chefe substituto ouviu o registro do plantão, passou os olhos nos dados físicos e observou o cliente que dormia.

— Tempo marcado — declarou.

— Neolethe. Trinta e quatro horas.

Ele assoviou.

— Outra crise?

— Menos grave do que a última. Pseudodor com irascibilidade irracional. Dados físicos dentro dos limites para esta fase.

— O que há no impervolope lacrado?

— Assine, apenas, e inclua as instruções para a entrega em seu recibo.

— Perdoe-me por usar oxigênio!

— Seu recibo, por favor.

O substituto redigiu um recibo, destacou-o, imprimiu o polegar nele e trocou-o pelo impervolope.

— Eu o substituo — disse bruscamente. — Obrigado.

O técnico mais baixo estava esperando junto à porta. O técnico chefe principal fez uma pausa para dizer:

— Você não precisava esperar. Em algumas ocasiões levo três vezes este tempo para passar o plantão. Você está livre para ir embora assim que o oficial substituto júnior de plantão chegar.

— Sim, técnico chefe principal. Mas este é um cliente muito especial... e pensei que você precisasse de mim com o sr. Bisbilhoteiro.

— Posso cuidar dele. Sim, um cliente muito especial, realmente... e recomenda bem você o fato de a Junta de Habilitações designá-lo para mim quando o seu antecessor" optou pela saída.

— Obrigado!

— Não me agradeça, técnico associado. — A voz, apesar de distorcida pelo capacete, pelo relê e pelos filtros, pareceu amável, embora as palavras não o fossem. — Isto não é um cumprimento, mas a declaração de um fato. Se você não se tivesse saído bem no seu primeiro plantão, não haveria um segundo... Como você diz, "um cliente muito especial". Você se saiu bem... apesar do nervosismo que o cliente possa sentir por não poder ver-lhe o rosto. Mas você superará isso.

— Ah... espero. Eu estava muito nervoso!

— Prefiro ter um assistente tenso estimulado do que um que saiba tudo e seja relaxado. Mas você devia estar em casa, agora, e descansando. Venha; vou levá-lo. Onde você se veste? Na sala intermediária? Passo por lá.

— Ah, não se incomode por minha causa! Mas irei com você se puder. Depois trarei o carro de volta.

— Relaxe! Uma vez fora do serviço, não há hierarquia entre nós, que seguimos a Vocação. Não lhe ensinaram isso? — Passaram pela fila junto aos transportes públicos, pelo transporte do próprio diretor e pararam junto à plataforma dos executivos.

— Sim, mas... Nunca fui designado para alguém do seu posto até agora.

Isso foi recebido com um riso entre dentes.

— Mais uma razão para seguir essa regra comigo... quanto mais alto se está, mais se precisa esquecer isso fora de serviço. Aqui está um carro vazio. Entre e sente-se.

O mais baixo entrou, mas não se sentou até que o técnico chefe principal estivesse sentado. O rejuvenescedor chefe ignorou isso, regulou os controles, esparramou-se e suspirou quando o carro começou a se mover.

— Eu próprio sinto a tensão. Ao sair do plantão sinto-me tão velho quanto ele.

— Eu sei. Estou imaginando se poderia suportar isso. Chefe? Por que não o deixam terminar? Parece tão cansado!

A resposta foi vagarosa e fria:

— Não me chame de "chefe". Estamos fora de serviço.

— Mas não sei o seu nome.

— Tampouco precisa saber. Hum... A situação não é bem como parece ser; ele já se suicidou quatro vezes.

— O quê?

— Oh, ele não se lembra disso! Se você acha que a memória dele está ruim agora, devia tê-lo visto três meses atrás. Na verdade, o nosso trabalho aumenta cada vez que ele faz isso. Seu interruptor, quando ele o tinha, era alterado; deixava-o simplesmente inconsciente. Depois seguíamos em frente com a fase seguinte, qualquer que ela fosse, enquanto o hipnotizávamos mais com suas fitas de memória. Mas tivemos que parar isso e retirar o interruptor alguns dias atrás; ele lembrou-se de quem é.

— Mas... Isso não está de acordo com os Cânones! "A morte é privilégio de todos os homens."

O técnico chefe principal tocou no controle de emergência; o carro continuou em frente, encontrou um bolso de estacionamento e parou.

— Eu não disse que isso estava previsto nos Cânones. Mas os oficiais de plantão não decidem sobre política.

— Quando fui aceito, fiz o juramento... e parte dele era de " dar vida livremente àqueles que a quiserem... e nunca recusar a morte àqueles que ansiarem por ela".

— Você acha que não fiz o mesmo juramento? A diretora está com tanta raiva que saiu de licença. Pode ser que ela peça demissão; não me arriscaria a adivinhar. Mas o Presidente Temporário não tem a nossa Vocação; não está preso ao nosso juramento, e a máxima acima da entrada não significa nada para ele. A máxima dele é, ou parece ser: "Toda regra tem exceção". Olhe, sei que precisava ter esta conversa com você, e estou satisfeito de me haver dado uma oportunidade antes do nosso próximo plantão. Agora preciso perguntar-lhe: você deseja optar pela saída? Isso não afetará a sua folha de serviço. Cuidarei disso. Não se preocupe com o substituto; o Sênior ainda estará dormindo quando eu entrar de plantão novamente, e qualquer assistente servirá para esse plantão... o que deixa tempo para a Junta de Habilitações escolher o seu substituto.

— Oh... quero cuidar dele. Isso é um grande privilégio, que nunca sonhei que me caberia. Mas estou transtornado.

Não acho que ele esteja sendo tratado justamente. E quem tem mais direito a tratamento justo nisto do que o Sênior?

— Estou transtornado com isso, também. Fiquei extremamente chocado quando percebi pela primeira vez que estavam me ordenando que mantivesse vivo um homem que havia terminado voluntariamente. Ou a quem permitiram que pensasse estar terminando. Mas, meu caro colega, a escolha não nos compete. Este serviço será feito, não importa o que pensemos. Quando percebi isso... Bem, não me falta confiança profissional. Chame isso de presunção. Acho que sou o oficial de plantão graduado mais bem qualificado da lista. Resolvi que, se o Sênior das Famílias vai ter que passar por isto, não optarei por sair e deixar que o trabalho seja feito por colegas menos habilitados do que eu. Os bônus nada têm a ver com isso; doei os meus para o Santuário dos Defeituosos.

— Eu podia fazer o mesmo, não podia?

— Sim, mas seria um tolo se o fizesse; ganho muito mais do que você. Mas devo acrescentar isto: espero que o seu corpo tolere estimulantes com facilidade, porque supervisiono todos os procedimentos principais e espero que o meu assistente ajude, quer isso ocorra durante nosso plantão regular, quer não.

— Não preciso de estimulantes, uso auto-hipnose. Quando necessário. Raramente. Ele estará dormindo no nosso próximo plantão. Hum...

— Colega, quero a sua resposta agora. Para que eu possa notificar a Junta de Habilitações, se necessário.

— Bem... ficarei! Ficarei enquanto você ficar.

— Muito bem. Achei que ficaria. — O técnico chefe principal estendeu a mão novamente para os controles. — Sala intermediária agora?

— Um momento. Gostaria de conhecê-lo melhor.

— Colega, se você ficar, me conhecerá bem demais. Tenho uma língua ferina.

— Quis dizer socialmente, não profissionalmente.

— Bem!

— Está ofendido? Cheguei a admirá-lo sem sequer tê-lo visto. Agora gostaria de vê-lo. Não estou tentando granjear favores.

— Acredito em você. Conceda-me o respeito de acreditar que estudei sua psique antes de aceitar a escolha da junta. Não, não estou ofendido; estou lisonjeado. Jantaremos juntos em alguma ocasião, talvez?

— Claro. Mas tenho mais em mente. O que diria de Sete Horas de Êxtase?

Houve uma curta pausa, que pareceu longa. O técnico chefe principal perguntou;

— Colega, qual é o seu sexo?

— Isso importa?

— Suponho que não. Aceito. Agora?

— Se isso lhe convém.

— Convém. Eu ia simplesmente para o meu compartimento, ler por algum tempo e dormir. Vamos para lá?

— Eu estava pensando em levá-lo para o Eliseu.

— Não há necessidade. O êxtase é no coração. Mas obrigado.

— Posso pagar. Ah, não dependo do meu salário. Posso pagar facilmente o melhor que o Eliseu tem a oferecer.

— Talvez em outra ocasião, caro colega. Mas o compartimento de um residente aqui na clínica é bastante confortável e pelo menos uma hora mais perto, sem contar o tempo que perderíamos para tirar a armadura de isolamento e vestir-nos para enfrentar o público. Iremos direto a minha casa, acho que estou ansioso. Santo Deus, não tenho este tipo de divertimento... há muito tempo.

Quatro minutos mais tarde o técnico chefe principal os fez entrar no compartimento — grande, como havia dito, bonito e arejado —, uma suíte "feliz". Um fogo simulado crepitava alegremente numa lareira de canto e lançava luzes saltitantes pela sala acolhedora.

— Você encontrará um quarto de hóspedes atrás daquela porta, está mais fresco lá dentro. O tubo para descartáveis fica à esquerda; cabides para capacetes e roupas de isolamento à direita. Precisa de ajuda?

— Não, obrigado. Sou bastante desembaraçado.

— Bem, grite se precisar de alguma coisa. Encontre-me aqui diante do fogo em dez minutos, está bem?

— Está.

O técnico associado saiu em pouco mais de dez minutos, livre por fim da armadura de isolamento e parecendo ainda mais baixo de pés descalços e sem o capacete. O técnico chefe principal ergueu os olhos do tapete da lareira.

— Ah, aí está você! Você é homem! Estou surpresa. Mas satisfeita.

— E você é mulher. E estou muito satisfeito. Mas não acredito nem por um instante que você esteja surpresa. Viu os meus registros.

— Não, querido — negou ela. — Não o seu dossiê pessoal, apenas o sumário que a junta fornece ao supervisor em perspectiva... e eles são meticulosamente cuidadosos quanto a omitir nome, sexo e outras irrelevâncias; seu programa de computador cuida disso. Eu não sabia, e meu palpite estava errado.

— Não tentei adivinhar. Mas certamente estou satisfeito. Não sei por que tenho esta preferência por mulheres altas. Mas tenho. Levante-se e deixe-me olhar para você.

Ela se contorceu preguiçosamente.

— Que critério irracional! Todas as mulheres são da mesma altura... deitadas. Portanto, venha deitar aqui; é muito confortável.

— Mulher, quando digo "levante-se!", espero ação. Ela riu.

— Você é um atávico. Mas bonito. — Ela esticou o braço, pegou-o pelo tornozelo e desequilibrou-o. Ele caiu. — Assim é melhor. Agora estamos da mesma altura.

 

Contraponto II

— Você gostaria de tomar um lanche no meio da noite, Soneca? — perguntou ela.

— Cochilei, não foi? Tinha motivos — disse ele. — Sim, gostaria. O que me oferece?

— Escolha, simplesmente escolha. Se eu não tiver, mandarei buscar. Estou me sentindo muito terna em relação a você, querido.

— Está bem. Que tal dez virgens altas, ruivas, de dezesseis anos? Garotas, quero dizer.

— Sim, querido. Nada é bom demais para o meu Galahad. Embora, se você insistir em virgens com atestado, possa demorar mais tempo. Por que este fetiche, meu caro homem? Seus perfis psíquicos não indicam nenhuma anormalidade exótica.

— Cancele esse pedido e peça um prato de sorvete de manga.

— Sim, senhor. Pedirei imediatamente. Ou você pode tomar sorvete de pêssego instantaneamente. Provoque. Não sou incomodada por esse tipo de provocação desde que tinha dezesseis anos. Há muito tempo.

— Fico com o de pêssego. Há muito tempo.

— É para já, caríssimo homem. Você vai comer de colher ou devo lambuzá-lo no seu rosto? Não com esse tipo de provocação. Fiz um rejuvenescimento exatamente como você, e conservo minha idade cosmética mais jovem do que a sua.

— Um homem precisa parecer maduro.

— E uma mulher prefere parecer moça; sempre preferimos. Mas sei não só sua idade rejuvenescida como sua idade do calendário, Galahad... e a minha idade do calendário é menor que a sua. Quer saber como sei, meu caro? Reconheci-o no instante em que o vi. Ajudei a rejuvenescê-lo, querido... e estou muito satisfeita por isso.

— Uma ova que está!

— Mas estou satisfeita, caro homem. Um bônus tão bom, e não inesperado! É tão raro ver-se um cliente outra vez! Galahad, você percebe que não usamos nada rotineiro para garantir um feriado extático juntos? Apesar disso, não senti falta. Sinto-me mais jovem e mais feliz do que me sentia há anos. Ainda me sinto.

— Eu também. Só que não estou vendo nenhum sorvete de pêssego.

— Porco. Animal. Bruto. Sou maior do que você; vou passar-lhe uma rasteira e cair-lhe em cima. Quantas colheradas, querido?

— Ah! vá enchendo até o seu braço cansar; preciso restaurar minhas forças.

Ele acompanhou-a até a copa e serviu a ambos pratos cheios de sorvete.

— Apenas uma precaução — disse ele — para que você não lambuze minha cara com ele.

— Oh, deixe disso agora. Acha que eu faria isso realmente com o meu Galahad?

— Você é uma mulher muito extravagante, Ishtar. Tenho hematomas para provar isso.

— Bobagem! Fui meiga.

— Você não conhece sua própria força. E é maior do que eu, como mencionou. Em vez de Ishtar eu devia chamá-la de... Qual é o nome dela? A rainha das amazonas na mitologia do Velho Lar?

— Hipólita, querido. Mas não posso qualificar-me como amazona, em virtude dos motivos pelos quais você estava me lisonjeando... de maneira infantil.

— Queixas, hein? Lá na cirurgia poderiam corrigir sua desqualificação em dez minutos sem deixar sequer uma cicatriz. Não importa, Ishtar fica melhor para você. Mas há algo injusto a respeito disto.

— Como, querido? Vamos levar isto para dentro e comer diante do fogo.

— Está bem. É o seguinte, Ishtar. Você me diz que fui seu cliente e que se lembra de ambas as minhas idades; portanto, por uma lógica magistral, deduzo que você conhece meu nome registrado e minha Família, e pode se lembrar até de um pouco da minha genealogia, já que deve tê-la estudado para o meu rejuvenescimento. Mas, pelos costumes das Sete Horas, estou impedido até de tentar saber seu nome registrado. Tenho que rotulá-la em minha mente como "aquela técnica chefe principal loura e alta que..."

— Ainda tenho bastante sorvete para lambuzá-lo!

— ... "me permitiu chamá-la de Ishtar durante as sete horas mais felizes da minha vida". Que estão quase terminadas, e não sei se você me deixará levá-la ao Eliseu algum dia.

— Galahad, você é o namorado mais exasperador que já tive. Naturalmente que pode levar-me ao Eliseu. E você não tem que ir para casa no fim das sete horas. E meu nome registrado é Ishtar. Mas, se mencionar meu cargo alguma vez a não ser quando necessário, em serviço, terá hematomas verdadeiros para se lembrar de mim. E dos grandes.

— Fanfarrona. Estou com medo. Acho que devo ir embora na hora, para que você possa dormir antes de voltarmos ao plantão. Mas o que é isto sobre o seu nome ser realmente Ishtar? Será que tirei cinco ases nos dados quando demos nomes um ao outro?

— Sim e não.

— Isso é uma resposta?

— Eu tinha um dos nomes padrões da linhagem da minha Família... e jamais gostei dele. Mas fiquei encantada e lisonjeada pelo nome carinhoso que você me deu. Portanto, enquanto você estava dormindo, liguei para os arquivos e mudei meu nome. Agora sou Ishtar.

Ele ficou olhando para ela.

— Isso é verdade?

— Não fique assustado, querido. Não vou prendê-lo. Não vou sequer machucá-lo. Não sou doméstica, absolutamente. Você ficaria chocado se soubesse quanto tempo faz que um homem esteve neste compartimento pela última vez. Você é livre para partir no momento em que desejar; comprometeu-se comigo apenas por sete horas. Mas não precisa ir embora. Você e eu vamos faltar ao plantão amanhã.

— Vamos? Por quê... Ishtar?

— Dei outro telefonema e coloquei uma equipe extra naquele plantão. Devia ter feito isso mais cedo, mas você me deixou perturbada, querido. O Sênior não vai precisar de nós amanhã; está dormindo profundamente e não vai saber que se passou um dia. Mas quero estar lá quando ele acordar; portanto, refiz a escala de serviço para o dia seguinte também, e podemos ficar de plantão o dia inteiro; dependendo do estado dele. Isto é, eu posso ficar. Não insisto em que você dê um plantão duplo ou triplo.

— Posso dá-lo, se você pode, Ishtar? Este cargo profissional que você me proibiu de mencionar... Você realmente tem um cargo ainda mais alto do que esse, não tem?

— Se tenho, e não estou afirmando isso, proíbo-o sequer de especular a respeito. Se quiser continuar designado para este cliente.

— Puxa! Você tem uma língua afiada. Será que mereço isso?

— Querido Galahad! Desculpe. Quando você estiver de plantão, querido, quero que pense apenas em nosso cliente, não em mim. Fora do plantão sou Ishtar e não quero ser nada mais. Este é o caso mais importante que jamais teremos. Pode levar muito tempo e ser muito cansativo. Portanto, não sejamos impacientes um com o outro. Eu estava tentando dizer que você... nós dois... temos agora mais de trinta horas antes de precisarmos voltar ao serviço. Você será bem-vindo aqui por tantas dessas horas quanto quiser. Ou pode ir embora quando quiser; eu sorrirei e não me queixarei.

— Não quero ir embora, eu já disse isso. Desde que eu não a impeça de dormir...

— Não impedirá.

— ... e me dê uma hora para apanhar um maço novo de descartáveis, vestir-me e passar pela descontaminação. Gostaria de ter trazido um maço, mas não havia planejado isto.

— Digamos uma hora e meia. Meu telefone tinha uma mensagem à minha espera. O Sênior não gosta do nosso aspecto em trajes de isolamento; deseja poder ver qualquer pessoa à sua volta. Portanto, temos que prever, em vez disso, o tempo para fazer a descontaminação corporal e depois atendê-lo em trajes comuns.

— Hum... Ishtar, isso é prudente? Podemos espirrar sobre ele.

— Você acha que fui eu que decidi esta política? Querido, a mensagem veio direto do palácio. Além disso, as mulheres têm ordens específicas de parecerem tão bonitas e estarem tão atraentemente vestidas quanto possível... Portanto, preciso pensar no que vou usar que possa passar pela esterilização. A nudez não é aceitável; isso foi especificado também. Mas não se preocupe com espirros. Você nunca fez uma descontaminação total do corpo? Quando aquela turma acabar o serviço, você não conseguirá espirrar, não importa a vontade que tenha. Mas não diga ao Sênior que fez descontaminação; ele deve pensar que simplesmente chegamos da rua... Nenhuma precaução especial.

— Como poderia dizer isso a ele, se não falo a sua língua? Ele tem algum fetiche contra a nudez?

— Não sei. Estou apenas transmitindo a ordem que foi dada a todos na escala de serviço.

Ele ficou pensativo.

— Provavelmente não é um fetiche. Todos os fetiches são contra a sobrevivência, isso é elementar. Você me disse que o problema principal era romper-lhe a apatia. Sentia-se satisfeita por ele estar de mau humor, embora dissesse que era uma hiper-reação.

— Certamente que me sentia satisfeita; isso mostrava que ele estava reagindo. Galahad, esqueça isso agora; não tenho nada para usar, você terá que me ajudar.

— Estou falando sobre o que você deve usar. Acho que isso foi idéia do Presidente Temporário, não do Sênior.

— Caro homem, não tento ler a mente dele; simplesmente cumpro suas ordens. Não tenho gosto nenhum para roupas, nunca tive. Você acha que o uniforme de assistente de laboratório seria adequado? Suporta a esterilização sem mostrar vestígios... e fico muito bem nele.

— Estou tentando ler a mente do Presidente Temporário, Ishtar... imaginar suas intenções, pelo menos. Não, não acho que um uniforme de laboratório servisse; não ia parecer que você "simplesmente chegou da rua". Se concordarmos que não se trata de uma síndrome de fetiche, então a única vantagem de vestir a nudez nesta situação é a de criar variedade. Contraste. Mudança. Algo que o ajude a livrar-se dessa apatia.

Ela ficou olhando para ele pensativa e interessada.

— Galahad, até agora, baseada em minha própria experiência, sempre achei que o único interesse do homem nas roupas da mulher fosse em tirá-las. Pode ser que eu tenha de pô-lo na lista de promoções.

— Não estou preparado para ser promovido; estou na Vocação há menos de dez anos. Estou certo de que você sabe disso. Vamos dar uma olhada no seu armário.

— O que é que você vai usar, querido?

— O que vou usar não importa; o Sênior é homem, e todas as histórias e mitos a respeito dele indicam que continuou orientado pela cultura primitiva em que nasceu. Não é sensualmente polimorfo.

— Como pode ter certeza? São mitos, querido.

— Ishtar, todos os mitos dizem a verdade se a gente souber interpretá-los. Estou supondo, é uma suposição razoável, já que é algo em que eu costumava ser um tanto especializado. Até ser rejuvenescido... até você me rejuvenescer. Depois me meti em coisa mais ativa.

— O quê, querido?

— Em outra ocasião. Eu estava dizendo simplesmente que acho que não importa o que eu vou usar. Uma túnica. Calça curta e camiseta. Saiote escocês. Até as roupas de baixo que uso sob os trajes de isolamento. Ah, vou usar cores vivas, e alguma coisa diferente em cada plantão... mas ele não olhará para mim, olhará para você. Portanto, vamos escolher alguma coisa que ele gostaria que você vestisse.

— Como é que você vai saber, Galahad?

— Muito simples. Vou escolher alguma coisa que eu gostaria de ver uma loura bonita de pernas compridas usando.

Ele ficou surpreso ao ver quão pouca coisa Ishtar tinha em seu armário. Em toda a sua variada experiência com mulheres, ela era a única que parecia não ter a vaidade necessária para comprar roupas desnecessárias. Enquanto procurava, preocupado, cantarolou e depois cantou um trecho de versos populares.

— Você fala a língua de infância dele! — disse Ishtar.

— Eu? O quê? De quem? Do Sênior? Certamente que não. Mas preciso aprendê-la, suponho.

— Mas você estava cantando na língua dele. Uma pequena canção que o Sênior canta sempre que está ocupado com alguma coisa.

— Você quer dizer isto? "Há u'a loja de penhor... Atrás lojdapenhLLL... " Tenho um ouvido fonográfico, isto é tudo; não compreendo as palavras. O que significam?

— Não tenho certeza de que signifiquem alguma coisa. A maioria delas não está no vocabulário que aprendi até agora. Suspeito que isso seja apenas um ritmo anfigúrico, um auto-tranqüilizante. Semanticamente nulo.

— Por outro lado pode ser a chave para compreendê-lo. Você tentou perguntar ao computador?

— Galahad, não me deram acesso ao computador que grava o que acontece naquela suíte. Mas duvido que alguém possa compreendê-lo, em profundidade. Ele é um primitivo, querido. Um fóssil vivo.

— Eu gostaria muito de tentar compreendê-lo. Esta língua que ele usa... é difícil?

— Muito. Sintaxe irracional, complicada, e tão carregada de peculiaridades e valores múltiplos que tropeço mesmo em palavras que penso conhecer. Gostaria de ter o seu ouvido fonográfico.

— O Presidente Temporário parece não ter tido nenhuma dificuldade.

— Acho que ele tem um talento especial para línguas. Mas, se você quiser tentar, querido, tenho os programas de instrução aqui.

— Aceito! O que é isto? Um vestido de baile?

— Isso? Não é roupa. Comprei-a como capa para o sofá. Depois a trouxe para casa e vi que não combinava com a minha sala.

— Isso é um vestido. Fique parada aí e não se mexa.

— Não faça cócegas!

 

Variações sobre um tema I

Negócios de Estado

Apesar do que eu disse ao Sênior, meu avô ancestral Lazarus, trabalho duro para governar Secundus. Mas apenas pensando em política e julgando o trabalho dos outros. Não faço trabalho de burro; deixo isso aos administradores profissionais. Mesmo assim, os problemas de um planeta com mais de um bilhão de pessoas podem manter um homem ocupado, especialmente se sua intenção é governar o menos possível — já que isso significa que ele deve ficar de olho vivo e ouvido sintonizado para os sinais de que os subordinados estejam tomando medidas desnecessárias. A metade do meu tempo é usada no trabalho negativo de remover esses funcionários intrometidos e dar ordens para que nunca sirvam novamente em qualquer cargo público.

Depois geralmente suprimo seus cargos e todos os outros subordinados a eles.

Nunca notei qualquer mal decorrente desses cortes, salvo que os parasitas cujos empregos foram eliminados precisam descobrir alguma outra maneira de evitar a fome. (Eles são bem-vindos à fome — melhor que a sofram. Mas não sofrem.)

O importante é localizar estes crescimentos malignos e removê-los enquanto são pequenos. Quanto mais habilidade um Presidente Temporário adquire nisto, mais crescimentos emergentes ele descobre, o que o mantém mais ocupado do que nunca. Qualquer um pode ver um incêndio na floresta; a habilidade está em farejar a primeira fumaça.

Isto me deixa pouco tempo para o meu trabalho principal: pensar em política. O objetivo do meu governo é nunca fazer o bem, mas simplesmente evitar fazer o mal. Isto parece simples, mas não é. Por exemplo, embora a prevenção de revoluções armadas obviamente faça parte da minha obrigação principal, isto é, manter a ordem, comecei a ter dúvidas quanto à prudência de transportar líderes revolucionários anos antes de vovô Lazarus chamar minha atenção para isso. Mas o sintoma que despertou minha preocupação era tão nulo que levei dez anos para notá-lo: durante esses dez anos não houve nenhuma tentativa para me assassinar.

Na ocasião em que Lazarus Long voltou a Secundus a fim de morrer, este sintoma perturbador se prolongava havia vinte anos.

Isto era de mau agouro e o percebi. Uma população de mais de um bilhão tão satisfeita, tão uniforme, tão enfatuada que nenhum assassino decidido havia aparecido em duas décadas. Uma população seriamente doente, não importa quão saudável parecesse. Nos dez anos que se passaram após eu haver notado esta falha, preocupei-me com ela durante todas as minhas horas livres — e me vi perguntando a mim mesmo repetidas vezes: "O que faria Lazarus Long?"

Eu sabia de uma maneira geral o que ele havia feito — e foi por isso que resolvi emigrar — levar o meu povo para fora do planeta, ou ir sozinho, se ninguém me acompanhasse.

(Ao reler isto, parece que eu procurava ser assassinado em algum sentido místico, como em O rei tem que morrer. Absolutamente! Estou cercado em todos os momentos por salvaguardas poderosas e sutis cuja natureza não divulgarei. Mas não há nenhum mal em mencionar três precauções negativas; minha aparência fisionômica não é conhecida do público, pois quase nunca apareço em público, e, quando apareço, isso nunca é anunciado. O trabalho de governante é perigoso — ou deve ser —, mas não pretendo morrer disso. O "sintoma perturbador" não é que eu esteja vivo, mas sim não haver nenhum assassino morto. Ninguém parece odiar-me o suficiente para tentar. Assustador. Onde foi que falhei com eles?)

Quando a Clínica Howard me avisou que o Sênior estava acordado (com um lembrete de que apenas uma noite havia se passado para ele), eu não só estava acordado como havia terminado o trabalho necessário e passado adiante o resto; fui imediatamente para a clínica. Após me descontaminarem, encontrei-o fazendo hora sobre o café, tendo acabado de comer.

Ele olhou de relance para cima e sorriu.

— Alô, Ira!

— Bom dia, vovô. — Dirigi-me para ele pronto a oferecer uma saudação respeitosa, tal como a que ele havia permitido quando lhe desejara boa-noite na noite "anterior" —, mas observando os sinais que poderiam dizer " Sim" ou " Não" antes que a boca falasse. Mesmo entre as Famílias há uma grande variedade desses costumes — e Lazarus é, como sempre, a própria lei. Portanto, venci o espaço que faltava com grande deliberação.

Ele respondeu-me recuando tão ligeiramente, que teria passado despercebido se eu não estivesse prevenido quanto a isso. Ele acrescentou um aviso amável:

— Estranhos presentes, filho. Parei imediatamente.

— Pelo menos acho que são estranhos — acrescentou ele. — Estive tentando travar relações, mas tudo quanto temos em comum é um pouco de linguagem corrompida e um bocado de gestos. Mas é bom ter pessoas por perto em vez daqueles zumbis... nós nos entendemos. Ei, querida! Venha cá. Isso, menina.

Fez sinal para um dos seus técnicos de rejuvenescimento — dois de plantão, como de hábito, e esta manhã um deles era mulher, o outro era homem. Fiquei satisfeito ao ver que a minha ordem de que as mulheres deviam "vestir-se atraentemente" havia sido cumprida. Esta era uma loura graciosa e bastante atraente para quem gosta de mulheres altas. (Eu não desgosto, mas aprecio uma que seja suficientemente pequena para caber no meu colo — embora eu não tenha tido muito tempo para isso ultimamente.)

Ela deslizou para a frente e esperou sorrindo. Estava vestida com alguma coisa — as modas femininas não permanecem as mesmas por tempo bastante para que eu possa acompanhá-las, e esse era um período em que cada mulher de Nova Roma parecia estar tentando vestir-se de maneira diferente de todas as outras. O que quer que fosse, era um azul iridescente que lhe destacava os olhos, e muito justo nos lugares onde lhe cobria o corpo; o efeito era agradável.

— Ira, esta é Ishtar. Compreendi o seu nome certo desta vez, querida?

— Sim, Sênior.

— E aquele jovem ali é, acredite ou não, Galahad. Conhece algumas lendas da Terra, Ira? Se ele soubesse seu sentido idiomático, o mudaria... o cavaleiro perfeito que nunca possuiu mulher alguma [13] Mas estive tentando lembrar por que o rosto de Ishtar é tão familiar. Querida, alguma vez fui casado com você? Pergunte a ela para mim, Ira; pode ser que ela não tenha compreendido.

— Não, Sênior. Nunca. Com certeza.

— Ela o compreendeu — disse eu.

— Bem, pode ter sido sua avó. Uma moça perigosa, Ira. Tentou matar-me; por isso a deixei.

A técnica chefe principal falou rapidamente em galacta.

— Lazarus — informei —, ela diz que, embora nunca tenha tido a honra de ser casada com você contratual ou informalmente, está bastante disposta a isso, se você quiser.

— Bem! Uma moça atrevida... deve ter sido a avó dela. Neste planeta, há oitocentos, novecentos anos atrás, mais ou menos... perdi a noção dos meios séculos. Pergunte-lhe se Ariel Barstow é sua avó.

A técnica pareceu muito satisfeita e começou a falar repetidamente em galacta. Eu ouvi e traduzi:

— Ela diz que Ariel Barstow é sua tetravó e está alegre em ouvi-lo dizer que reconhece o parentesco, já que essa é a linhagem pela qual ela descende de você... e que ficaria supremamente honrada, tanto por si mesma como em nome dos seus irmãos e primos, se você convergisse a linhagem novamente, com ou sem contrato. Após seu rejuvenescimento estar completo, acrescenta ela. Não está tentando apressá-lo. Que tal, Lazarus? Se ela tiver usado toda a sua cota de reprodução, eu ficarei feliz em abrir-lhe uma exceção a fim de que não tenha de emigrar.

— Uma ova que ela não está tentando apressar-me. Assim como você. Mas ela colocou a coisa amavelmente, portanto vamos dar-lhe uma resposta amável. Diga-lhe que estou honrado e o nome dela vai para dentro do chapéu... mas não lhe diga que estou embarcando na quinta-feira. Em outras palavras: "Não ligue para nós, nós ligaremos para você... ", mas faça com que ela se sinta feliz quanto a isso; ela é uma boa garota.

Corrigi a mensagem, diplomaticamente; Ishtar sorriu, radiante, fez uma reverência e afastou-se de costas.

— Puxe uma cadeira de balanço, filho — sugeriu Lazarus —, e sente-se um pouco. Abaixou a voz e acrescentou: — Cá entre nós, Ira, estou absolutamente certo de que Ariel me passou para trás. Mas com outro dos meus descendentes. Portanto, esta garota descende de mim de qualquer maneira, embora talvez não tão diretamente. Não que isso importe. O que é que você está fazendo de pé, tão cedo? Eu disse que você podia aparecer duas horas depois do café.

— Costumo acordar cedo, Lazarus. É verdade que você resolveu submeter-se ao processo completo? Ela parece pensar assim.

— Provavelmente é a resposta mais simples. — Lazarus pareceu aflito. — Mas como posso saber se vou receber meus próprios testículos de volta?

— As gônadas do seu clone são suas mesmo, Lazarus; isso é básico para a teoria.

— Bem... veremos. Acordar cedo é um vício, Ira; isso vai retardar seu crescimento e encurtar os seus dias. Por falar nisso... — Lazarus ergueu os olhos de relance para a parede. — Obrigado por mandar reinstalar aquele interruptor. Não me sinto tentado por ele nesta linda manhã, mas um homem gosta de ter uma alternativa. Galahad, café para o Presidente, e traga-me esse envelope plástico. — Vovô Lazarus suplementou a ordem com gestos, mas acho que o técnico entendeu suas palavras. Ou foi algo um tanto telepático; os rejuvenescedores são bastante empáticos... têm que ser. O homem moveu-se imediatamente para cumprir a ordem.

Entregou a Lazarus um impervolope e serviu-me café — que eu não queria; mas beberia qualquer coisa que o protocolo exigisse. Lazarus continuou:

— Aqui está o meu novo testamento, Ira. Leia-o e arquive-o em alguma parte e passe ao seu computador. Já aprovei a maneira pela qual ela o redigiu, li-o novamente para ela e disse-lhe para colocá-lo em sua memória permanente com proteção. Seria preciso um advogado de Filadélfia para privá-lo de sua herança agora, embora sem dúvida um deles pudesse fazê-lo.

Ele afastou o técnico com um gesto.

— Chega de café, rapaz, obrigado. Vá sentar-se. Vá sentar-se também, querida. Ishtar. Ira, o que são estes jovens? Enfermeiros? Serventes? Empregados? Ou o quê? Eles pairam sobre mim como uma galinha com um único pinto. Nunca desejei mais serviço do que preciso. Apenas sociabilidade. Companhia humana.

Eu não podia responder sem perguntar. Não só é desnecessário para mim saber como a Clínica de Rejuvenescimento é organizada, como também ela é uma empresa privada, independente dos Curadores — e minha intervenção no caso do Sênior foi muito mal recebida pela sua diretora. Portanto, eu interferia o mínimo possível — desde que minhas ordens fossem cumpridas.

Falei com a técnica, em galacta:

— Qual é a sua designação profissional, senhora? O Sênior deseja saber. Ele diz que você se tem comportado como uma empregada.

Ela respondeu calmamente:

— Temos prazer em servi-lo de qualquer maneira que pudermos, Presidente. — Depois hesitou e continuou: — Sou Ishtar Hardy, técnica chefe principal administradora de rejuvenescimento, diretora substituta de condutas de rejuvenescimento, e meu funcionário de plantão assistente é o técnico associado Galahad Jones.

Tendo sido rejuvenescido duas vezes, e habituado com a idéia toda a minha vida, não me surpreende quando a idade cosmética não combina com a idade do calendário. Mas admito ter ficado surpreendido ao saber que esta jovem não era apenas uma técnica, mas chefe do seu departamento — provavelmente a terceira pessoa mais importante em toda a clínica. Ou possivelmente a segunda, enquanto a diretora estava longe, de mau humor, em seu pavilhão — malditos sejam seu pescoço duro, sua obsessão pelo dever. Ou mesmo diretora temporária com seu substituto, ou alguma chefe de departamento animada em "cuidar da loja".

— É mesmo? — respondi. — Posso perguntar sua idade no calendário, senhora administradora?

— O sr. Presidente Temporário pode perguntar qualquer coisa. Tenho apenas cento e quarenta e sete anos de idade... mas sou qualificada; esta tem sido minha única profissão desde a minha primeira maturidade.

— Não insinuei dúvidas sobre as suas qualificações, senhora, mas estou espantado em vê-la dando plantão em vez de estar sentada diante de uma escrivaninha. Embora confesse que não sei como a clínica é organizada.

Ela sorriu levemente.

— Presidente, posso expressar um sentimento semelhante pelo seu interesse pessoal neste caso... mas eu acho que o compreendo. Estou aqui porque preferi não delegar a responsabilidade; ele é o Sênior. Investiguei todos os funcionários de plantão designados para ele... os melhores que temos a oferecer.

Eu devia ter sabido disso.

— Compreendemo-nos um ao outro — acrescentei. — Estou satisfeito. Mas posso fazer uma sugestão? Nosso Sênior é independente por temperamento e altamente individualista. Ele deseja um mínimo de serviços pessoais, apenas aqueles de que precisa.

— Estivemos aborrecendo-o, Presidente? Solícitos demais? Posso observar e escutar do lado de fora da porta e ainda estar aqui instantaneamente se ele precisar de alguma coisa.

— Possivelmente solícitos demais. Mas fique à vista. Ele quer companhia humana.

— Que blablablá todo é esse? — perguntou Lazarus.

— Tive que fazer perguntas, vovô, porque não conheço a organização da clínica. Ishtar não é uma empregada; é rejuvenecedora e altamente qualificada... bem como seu assistente. Mas têm prazer em proporcionar qualquer serviço de que precise.

— Não preciso de aduladores; estou me sentindo muito bem hoje. Se eu quiser alguma coisa, gritarei; não precisam ficar de mãos e pés em cima de mim. — Depois sorriu. — Mas ela é uma coisinha atraente em tamanho grande, econômico; é um prazer tê-la por perto. Anda como uma gata... nenhum osso, apenas flutua. Ela me lembra realmente Ariel... Eu lhe disse que Ariel tentou matar-me?

— Não. Gostaria de ouvir, se você quiser me contar.

— Bem... Pergunte-me quando Ishtar não estiver por perto. Acho que ela sabe mais inglês do que deixa parecer. Mas prometi falar se você aparecesse para ouvir. O que gostaria de ouvir?

— Qualquer coisa, Lazarus. Xerazade escolhia seus próprios assuntos.

— É verdade. Mas não tenho nenhum preparado.

— Bem... você disse, quando entrei, que "acordar cedo é um vício". Disse isso seriamente?

— Talvez. Vovô Johnson dizia que era. Ele costumava contar a história de um homem que fora condenado a ser fuzilado ao nascer do sol... mas dormiu demais e salvou-se. Sua sentença foi comutada naquele dia e ele viveu outros quarenta, cinqüenta anos. Disse que isso provava sua opinião.

— Você acredita que essa história seja verdadeira?

— Tão verdadeira como qualquer uma de Xerazade. Entendi-a como significando "Durma sempre que puder; você pode ter que ficar acordado por muito tempo". Acordar cedo pode não ser um vício, Ira, mas certamente não é nenhuma virtude. O velho ditado sobre o pássaro madrugador serve apenas para mostrar que a minhoca devia ter ficado na cama. Não posso suportar pessoas que se vangloriam por acordarem cedo.

— Não quis vangloriar-me, vovô. Acordo cedo devido a um antigo hábito... o hábito do trabalho. Mas não digo que seja uma virtude.

— Qual deles? O trabalho? Ou acordar cedo? Nenhum dos dois é virtude. Mas acordar cedo não faz com que se trabalhe mais... como também não se pode aumentar o tamanho de um pedaço de barbante cortando uma ponta e amarrando-a na outra. A gente trabalha menos se persistir em levantar-se bocejando e ainda cansado. Não se está alerta, comete-se enganos e tem-se que fazer tudo de novo. Esse tipo de açodamento é perdulário. Bem como desagradável. E aborrecido para aqueles que dormiriam até tarde se seus vizinhos não estivessem tão ruidosamente ativos na hora pavorosa de ordenhar as vacas. Ira, o progresso não vem dos madrugadores... O progresso é conseguido pelos homens preguiçosos que procuram maneiras mais fáceis de fazer as coisas.

— Você me faz sentir como se tivesse desperdiçado quatro séculos.

— Talvez tenha, filho, se você os passou acordando cedo e trabalhando duro. Mas não é tarde demais para mudar os seus hábitos. Não se aborreça por causa disso; desperdicei a maior parte da minha longa vida... embora talvez de maneira mais agradável. Gostaria de ouvir a história de um homem que fez da ociosidade uma bela arte? Sua vida exemplifica o Princípio do Menor Esforço. Uma história verdadeira.

— Certamente. Mas não insisto em que seja verdadeira.

— Ah, não permito que a verdade me embarace, Ira; sou um solipsista [14]de coração. Ouça, então, Ó Poderoso Rei.

 

Variações sobre um tema II

A história do homem que era preguiçoso demais para fracassar

Ele foi meu colega numa escola para treinamento de oficiais da marinha. Não a marinha espacial; isso foi antes de a raça humana ter atingido sequer o único satélite da Terra. Essa era a marinha molhada, navios que flutuavam na água e procuravam afundar uns aos outros, muitas vezes com lamentável sucesso. Vi-me metido nisso por ser moço demais para perceber emocionalmente que, se o meu navio afundasse, eu provavelmente afundaria também — mas essa não é a minha história, mas a de David Lamb [15].

Para explicar David, devo retroceder até a sua infância. Ele era um caipira, o que significa que vinha de uma área não-civilizada mesmo pelos padrões frouxos daqueles dias — e Dave vinha lá do fundo das montanhas, onde o pio da coruja acompanhava o das galinhas.

Sua educação foi numa escola rural de uma só sala e terminou aos treze anos. Ele gostou disso, porque cada hora na escola era uma hora sentado sem fazer nada mais difícil do que ler. Antes e depois das aulas ele tinha que cumprir tarefas na fazenda da sua família, o que odiava, já que consistiam no que era conhecido como "trabalho honesto" — significando duro, sujo, ineficiente e mal pago — e envolvia também levantar-se cedo, o que ele odiava ainda mais.

O dia da formatura foi sombrio para ele; significava que agora faria "trabalho honesto" o dia inteiro, em vez de passar seis ou sete horas descansadas no colégio. Num dia quente ele passou quinze horas arando atrás de uma mula... e quanto mais ficava olhando para a extremidade sul daquela mula, respirando a poeira que ela levantava e enxugando o suor da labuta honesta dos olhos, mais a odiava.

Naquela noite partiu de casa informalmente, caminhou vinte e quatro quilômetros até a cidade e dormiu atravessado na porta dos correios. Quando a agente do correio abriu a porta na manhã seguinte, ele alistou-se na marinha. Havia envelhecido dois anos durante a noite, de quinze para dezessete o que o deixou com idade suficiente para se alistar.

Um menino muitas vezes envelhece rapidamente quando sai de casa. O fato não era perceptível; certidões de nascimento eram desconhecidas naquela época e lugar, e David tinha um metro e oitenta e três de altura, ombros largos, músculos bem proporcionados, era bonito e de aparência madura, a não ser por uma expressão selvagem nos olhos.

David gostou da marinha. Eles lhe deram sapatos e roupas novas e o deixaram passear sobre a água, vendo lugares estranhos e interessantes — livre das mulas e da poeira dos milharais. Esperavam que ele trabalhasse, embora não tanto ou tão duramente como numa fazenda das montanhas —, e, uma vez tendo percebido a estrutura política a bordo do navio, ele tornou-se adepto de não realizar muito trabalho, embora sendo ainda satisfatório para os deuses locais, ou seja, os suboficiais.

Mas isso não era totalmente satisfatório, já que tinha ainda que se levantar cedo, muitas vezes dar serviço à noite e algumas vezes esfregar os conveses e realizar outras tarefas inadequadas ao seu temperamento sensível.

Depois ouviu falar daquela escola para candidatos a oficiais — "aspirantes", como eram conhecidos. Não que importasse a David como eles eram chamados; a questão era que a marinha pagaria para ele se sentar e ler livros — sua noção de céu — sem ser perturbado com os conveses para esfregar e pelos suboficiais. Ó Rei, estou aborrecendo-o? Não?

Muito bem — David estava mal preparado para essa escola, sem nunca ter tido os quatro ou cinco anos adicionais de colégio considerados necessários para entrar lá — matemática, o que passava por ciência, história, línguas, literatura, e assim por diante.

Fingir ter quatro anos a mais de colégio era mais difícil do que aumentar dois anos na idade de um rapaz superdesenvolvido. Mas a marinha desejava encorajar os alistados a se tornarem oficiais; portanto, havia estabelecido uma escola de orientação para ajudar os candidatos ligeiramente deficientes no preparo acadêmico.

David entendeu "ligeiramente deficiente" como significando seu próprio estado; disse a seu suboficial mais graduado que havia "perdido por pouco" a formatura no ginásio — o que de certa forma era verdade; havia-a perdido por meio município, sendo esta a distância de sua casa até o ginásio mais próximo.

Não sei como David induziu seu instrutor a recomendá-lo; David nunca discutiu isto. Basta dizer que, quando o navio de David partiu para o Mediterrâneo, ele foi deixado em Hampton Roads seis semanas antes de a escola de orientação se reunir. Ele era um extranumerário nessa ocasião. O oficial de pessoal (na verdade, seu subordinado) designou a David um beliche e uma mesa, e disse-lhe para ficar sumido durante as horas de trabalho nas salas de aula vazias onde seus companheiros, cheios de esperança, se encontrariam seis semanas mais tarde. David fez isso; havia nas salas de aula os livros usados na orientação dos assuntos acadêmicos que faltavam aos candidatos — e David precisava de todos. Ele ficou sumido; sentou-se e leu.

Isso foi tudo quanto fez.

Quando a turma se reuniu, David ajudou o professor de geometria euclidiana, um dos assuntos exigidos e talvez o mais difícil. Três meses mais tarde prestou juramento como cadete naval nas margens do rio Hudson, em West Point.

David não percebeu que havia saltado da frigideira para o fogo; o sadismo dos suboficiais era uma coisa suave comparada com os horrores premeditados infligidos aos novos cadetes — "calouros" — pelos cadetes das turmas mais adiantadas, especialmente pelos mais graduados, os primeiros da turma, que eram delegados ambulantes de Lúcifer naquele inferno organizado.

Mas David tivera três meses para descobrir isto e -imaginar o que fazer, sendo essa a ocasião em que as turmas superiores estavam no mar, praticando operações militares. Da maneira como via aquilo, se ele pudesse resistir a nove meses destes riscos, todos os reinos da Terra seriam seus. Portanto, disse consigo mesmo: Se uma vaca ou uma condessa podem suar nove meses, eu também posso.

Ele dispôs os riscos mentalmente, em termos do que devia ser suportado, do que podia ser evitado e do que devia procurar ativamente. Na ocasião em que os senhores da criação voltaram para espezinhar os calouros, ele tinha uma política para cada tipo de situação e estava preparado para enfrentá-las segundo determinada doutrina, variando as doutrinas apenas o suficiente para atender às variações da situação, em vez de enfrentá-las apressada e improvisadamente.

Ira — "Ó Rei", quero dizer —, isto é mais importante para sobreviver em situações difíceis do que parece. Por exemplo, vovô — isto é, o avô de David — avisou-o para nunca se sentar de costas para a porta. "Filho", disse ele ao neto, "pode ser que novecentas e noventa e nove vezes você consiga salvar-se... que nenhum inimigo seu entre por aquela porta. Mas na milésima vez... aí é que são elas." Se o meu próprio avô obedecesse sempre a essa regra, poderia estar vivo hoje e ainda saltando das janelas dos quartos. Ele sabia disso, mas falhou apenas uma vez, por estar ansioso demais para participar de um jogo de pôquer, e portanto coube-lhe a única cadeira vazia, uma de costas para a porta. E isso acabou com ele.

Ele levantou-se da cadeira e esvaziou três tiros de cada um dos seus revólveres no seu assaltante antes de cair; a gente não morre com facilidade. Mas foi apenas uma vitória moral; ele já estava fatalmente morto, com uma bala no coração, antes de se levantar daquela cadeira. Tudo por se sentar de costas para uma porta aberta.

Ira, nunca me esqueci das palavras de vovô — e não se esqueça também.

Portanto, David calculou os riscos e preparou suas doutrinas. Uma coisa que tinha de ser suportada era o interrogatório sem fim, e ele aprendeu que um calouro nunca tinha permissão para responder "Não sei" a qualquer colega mais adiantado, especialmente um da classe dos mais velhos. Mas as perguntas geralmente recaíam em categorias — história da escola, história da marinha, ditados navais famosos e capitães de times e esportistas notáveis das várias modalidades atléticas, quantos segundos faltavam até a formatura, qual era o cardápio para o jantar. Estas não o preocupavam; podiam ser decoradas — exceto o número de segundos que faltavam até a formatura, e ele imaginou artifícios para isso, artifícios estes que lhe foram vantajosos anos mais tarde.

— Que tipo de artifícios, Lazarus?

Hein? Nada elaborado. Um número pré-calculado para a alvorada a cada manhã, num número suplementar para cada hora seguinte, tais como: cinco horas após a alvorada às seis horas, subtraia dezoito mil segundos do número básico, e doze minutos mais tarde do que isso tire outros setecentos e vinte segundos. Por exemplo, na entrada em forma do meio-dia cem dias antes da formatura, digamos exatamente às doze-e-um e treze segundos, imaginando a formatura às dez da manhã, o que era padrão, David podia responder: "Oito milhões, seiscentos e trinta e dois mil, setecentos e vinte e sete segundos!" quase tão depressa quanto o líder da sua turma podia perguntar-lhe, simplesmente por haver pré-calculado a maior parte.

Em qualquer outra hora do dia, ele olhava para o relógio e fingia esperar até o ponteiro dos segundos chegar à marca, quando realmente estava fazendo subtrações de cabeça.

Mas ele aperfeiçoou isso; inventou um relógio decimal — não esse que se usa aqui em Secundus, mas uma variação do sistema desajeitado, então em moda na Terra, do dia de vinte e quatro horas, hora de sessenta minutos e minuto de sessenta segundos. Ele dividiu o tempo desde a alvorada até o silêncio em intervalos e subintervalos de dez mil segundos, mil segundos, cem segundos, e decorou uma tabela de conversão.

Você pode perceber a vantagem disso. Para qualquer um exceto Andy Libby, que Deus dê descanso à sua alma inocente, subtrair dez mil, ou mil, de uma longa fila de algarismos na casa dos milhões era mais fácil de se fazer mentalmente, rapidamente e sem erros, do que subtrair sete mil duzentos e setenta e três — o número a ser subtraído no exemplo que acabei de dar. O novo método de Dave não implicava guardar números auxiliares mentalmente ao procurar a resposta final.

Por exemplo, dez mil segundos após a alvorada são oito e quarenta e cinco da manhã. Uma vez que David elaborou e decorou sua tabela de conversão — levou menos de um dia; decorá-la apenas foi fácil para ele —, uma vez tendo dominado isso, podia converter para o intervalo de cem segundos que vinha em seguida quase instantaneamente e depois somar (não subtrair) dois algarismos, que representavam o tempo ainda restante para os dois últimos lugares em sua resposta aproximada, para obter a resposta exata. Já que os dois últimos lugares eram sempre zeros — confira você mesmo —, podia dar uma resposta em milhões de segundos tão depressa quanto pronunciar os números, e dá-la corretamente todas as vezes.

Já que ele não explicou o seu método, adquiriu a reputação de ser um calculador relâmpago, um talento sábio-idiota, como Libby. Não o era; era simplesmente um menino do campo que usara a própria cabeça num problema simples. Mas o líder da sua turma ficou tão aborrecido com ele por ser "sabidinho" — sendo que o líder da turma não podia fazer isso — que obrigou Dave a decorar a tábua de logaritmos. Isso não intimidou Dave; nada o assustava exceto o "trabalho honesto". Começou a decorá-los, à razão de vinte por dia, sendo esse o número que o primeiro da turma julgou que bastaria para desmoralizar aquele "sabidinho".

O primeiro da turma cansou-se do assunto quando David havia completado apenas os primeiros seiscentos números — mas Dave continuou com isso outras três semanas até os primeiros mil —, o que lhe deu os primeiros cem mil números para interpolação e tornou-o independente das tábuas de logaritmos, habilidade essa de enorme utilidade para ele daí por diante, já que os computadores eficazes eram desconhecidos naquele tempo.

Mas a avalancha incessante de perguntas não incomodou David, a não ser pela possibilidade de morrer de fome na hora das refeições — e ele aprendeu a engolir as garfadas depressa, enquanto estava sentado rigidamente em posição de sentido, e ainda responder a todas as perguntas endereçadas a ele. Algumas eram perguntas difíceis, tais como: "Cadete, você é virgem?" Qualquer que fosse a resposta, o calouro ficaria em dificuldades... se desse uma resposta direta. Naquele tempo era atribuída alguma importância à virgindade ou à sua falta; não sei dizer por quê.

Mas perguntas difíceis requeriam respostas difíceis; Dave descobriu que uma resposta aceitável para essa pergunta era: "Sim, senhor!... na minha orelha esquerda". Ou possivelmente no umbigo.

Mas a maioria das perguntas difíceis tinha por fim pegar o calouro numa resposta submissa — e a submissão era um pecado mortal. Digamos que um dos mais velhos da classe dissesse: "Cadete, você diria que sou bonito?" Uma resposta aceitável seria: "Talvez sua mãe dissesse isso, cadete... mas não eu". Ou "Cadete, o senhor é o homem mais bonito que já vi procriado com a intenção de ser um macaco".

Essas respostas eram arriscadas — elas podiam deixar um da primeira classe fulo de raiva —, mas eram mais seguras do que as respostas submissas. Mas não importa quão cuidadosamente um calouro tentasse alcançar padrões impossíveis, cerca de uma vez por semana algum cadete da primeira classe decidia que ele precisava de punição — uma punição arbitrária, sem julgamento. Esta podia ser branda, tal como exercícios repetidos até o colapso físico — de que David não gostava por lembrarem-no do "trabalho honesto" — até sovas nas nádegas. Você pode achar que isso não é muita coisa, Ira, mas não estou falando das sovas que as crianças levam algumas vezes. Estas sovas eram dadas com a parte chata de uma espada ou com uma vassoura gasta, reduzida a um cabo longo e pesado. Três pancadas dadas por um homem adulto de saúde perfeita reduziam o traseiro da vítima a uma massa de contusões roxas e bolhas de sangue, acompanhadas de uma dor excruciante.

David tentava arduamente evitar incidentes com probabilidade de resultarem nesta tortura calculada, mas não havia meio de evitá-los completamente, a não ser desistindo do curso, porque alguns da primeira classe aplicavam esses golpes por puro sadismo. David cerrava os dentes e aceitava-os quando não tinha remédio, achando — corretamente — que seria expulso da escola se desafiasse a autoridade suprema de alguns dos mais velhos. Portanto, pensava na extremidade sul daquela mula e agüentava firme.

Havia um outro risco muito maior para a sua segurança pessoal e futuras perspectivas de uma vida livre do "trabalho honesto". A mística do serviço militar incluía a idéia de que um oficial em perspectiva devia destacar-se nos esportes atléticos. Não pergunte por quê; isso não estava mais sujeito a uma explicação racional do que qualquer outro ramo da teologia.

Os calouros em particular tinham que — sem escolha! — praticar esportes. As duas horas por dia, que eram nominalmente livres, David não podia passá-las dormindo ou sonhando no silêncio da biblioteca da escola, mas sim necessariamente em exercícios suarentos.

Pior ainda, alguns esportes eram não só excessivamente enérgicos, como envolviam também riscos para a pele favorita de David. O "boxe" — que é uma luta simulada, estilizada, há muito esquecida e completamente inútil, na qual dois homens batem um no outro durante um tempo determinado ou até que um deles fique inconsciente. O "lacrosse" — esta e uma luta simulada herdada dos selvagens que haviam habitado anteriormente esse continente. Nela, multidões de homens lutavam com cacetes. Havia um projétil duro com o qual se marcavam pontos — mas foi a perspectiva de ser aberto em dois ou ter os ossos quebrados com esses cacetes que despertou a aversão do nosso herói.

Havia uma coisa chamada "pólo aquático" na qual nadadores que se opunham tentavam afogar-se uns aos outros. David evitou esse esporte não nadando mais do que o suficiente para permanecer na escola — uma habilidade exigida. Ele era um excelente nadador, pois tinha aprendido a nadar aos sete anos, ao ser atirado dentro de um riacho por dois primos mais velhos — mas escondeu sua habilidade.

O esporte de mais prestígio era uma coisa chamada "futebol" — e os da classe dos mais velhos classificavam por tamanho cada novo grupo de vítimas em busca de candidatos que esperavam que se destacassem, ou aprendessem a se destacar nessa chacina organizada. David nunca havia visto tal jogo — mas viu, então, e isso encheu sua pacífica alma de horror.

Não era para menos. Ele envolvia dois grupos de onze homens de frente um para o outro num campo e tentando impelir uma bexiga elipsóide pelo campo contra a oposição do outro grupo. Havia rituais e uma terminologia esotérica, mas essa era a idéia.

Parece inofensivo e um tanto tolo. Tolo era, inofensivo não — porque os rituais permitiam ao grupo oposto atacar o homem que tentasse impelir a bexiga de várias maneiras violentas, das quais a mais suave era agarrá-lo e atirá-lo ao chão como uma tonelada de tijolos. Muitas vezes três ou quatro atingiam-no ao mesmo tempo, e algumas vezes infligiam aos outros indignidades e lesões corporais não permitidas pelos rituais, mas escondidas pelo monte de corpos.

Não se esperava que resultasse a morte desta atividade, mas algumas vezes isso acontecia. Ferimentos quase mortais eram comuns.

Infelizmente David tinha o físico ideal para este " esporte" — altura, peso, visão, ligeireza de pés e velocidade de reflexos. Era certo ele ser notado pelos da primeira classe ao voltarem das batalhas navais simuladas e escalado como "voluntário", como uma vítima do sacrifício.

Estava na hora da ação evasiva.

A única maneira possível de evitar o "futebol" era dedicar-se a algum outro esporte aceitável. Ele descobriu um.

Ira, você sabe o que é "esgrima"? Muito bem — posso falar livremente. Esta era uma época na história da Terra em que a espada tinha deixado de ser uma arma — após ter sido preeminente por mais de quatro milênios. Mas as espadas ainda existiam de forma fóssil e conservavam uma sombra do seu antigo prestígio. Presumia-se que um cavalheiro soubesse usar uma espada e...

— Lazarus, o que é "cavalheiro"?

O quê? Não interrompa, rapaz; você me atrapalha. "Cavalheiro" é, hã... Bem, vejamos. Uma definição geral... Meu Deus! Você inventa cada uma! Alguns dizem que era um acidente de nascimento — sendo essa uma maneira depreciativa de dizer que era um traço herdado geneticamente. Mas isso não diz qual é o traço. Presumia-se que um cavalheiro preferisse ser um leão morto a um chacal vivo. Quanto a mim, sempre preferi ser um leão vivo, portanto isso me deixa fora das regras. Hum... pode-se dizer, com toda a seriedade, que a qualidade rotulada por esse nome representa a lenta emergência, na cultura humana, de uma ética superior ao simples interesse próprio — malditamente lenta em emergir, na minha opinião; ainda hoje não se pode confiar nela.

Assim sendo, presume-se que os oficiais sejam cavalheiros e usem espadas. Até aviadores usam espadas, embora só Alá possa imaginar por quê.

Não se presumia apenas que estes cadetes fossem cavalheiros; havia uma lei nacional que declarava que eles eram cavalheiros. Portanto, ensinavam-lhes um mínimo sobre o manejo da espada, apenas o suficiente para impedí-los de cortarem os dedos ou ferirem espectadores — não o suficiente para lutarem com elas, mas para impedí-los de parecerem tolos demais quando o protocolo exigia o uso da espada.

Mas o manejo da espada era um esporte reconhecido, chamado "esgrima". Não tinha o prestígio do futebol, do boxe ou mesmo do pólo aquático — mas estava na lista; um calouro podia inscrever-se nele.

David percebeu isto como um meio de se livrar. Segundo uma lei elementar da física, se ele estivesse em cima, na pista de esgrima, então não estaria embaixo, no campo de futebol, com gorilas sádicos com sapatos cheios de pregos pulando sobre ele. Muito antes de os alunos mais adiantados voltarem à escola, o cadete calouro Lamb havia se estabelecido como membro de uma equipe de esgrima, com a fama de nunca perder um dia, e estava tentando arduamente parecer uma "boa aquisição" para o time.

Nessa ocasião e local eram ensinadas três formas de esgrima: sabre, espada de duelo e florete. Nas duas primeiras usavam-se armas de tamanho completo. Na verdade, os gumes eram embotados e as pontas providas de bolas; apesar disso, um homem podia ferir-se com elas — até fatalmente, embora fosse muito raro. Mas o florete era um brinquedo leve, uma espada disfarçada em lâmina flexível que se curvava à menor pressão. O jogo de esgrima estilizado que usava o florete era quase tão perigoso quanto o da bola de gude. Esta foi a "arma" que David escolheu.

Fora feita para ele. As regras altamente artificiais do jogo de florete davam grande vantagem aos reflexos rápidos e a um cérebro arguto; ele possuía ambos. Algum esforço era necessário — mas não muito, comparado com o futebol, o lacrosse ou mesmo o tênis. Melhor do que tudo, ele não exigia nenhum choque corpo a corpo, coisa que David achava muito desagradável nos jogos brutos que estava evitando. David esmerou-se obstinadamente em adquirir habilidade, de forma que ali ficasse seguro.

Foi tão diligente em proteger o seu santuário que, antes de seu ano de calouro terminar, era campeão nacional iniciante de florete. Isto fez com que o líder da sua turma sorrisse para ele com uma expressão que machucou seu rosto. O comandante da sua companhia de cadetes notou-o pela primeira vez e felicitou-o.

O sucesso com o florete livrou-o ainda de algumas surras de "punição". Numa tarde de sexta-feira, quando estava prestes a apanhar por alguma negligência imaginária, David disse:

"Cadete, se for a mesma coisa para o senhor, prefiro levar o dobro de pancadas no domingo... porque amanhã vamos esgrimir com o time de calouros de Princeton e, se o senhor fizer o serviço que sei que pode fazer, isso pode diminuir minha velocidade amanhã."

O cadete mais velho ficou impressionado com isto porque fazer a marinha vencer, a qualquer momento, para qualquer fim e em qualquer coisa, tinha precedência pela Lei Sagrada sobre tudo o mais, mesmo o justo prazer de surrar um calouro "sabidinho". Ele respondeu: "Vou lhe dizer o que farei. Compareça ao meu quarto após o jantar no domingo. Se você perder amanhã, vai receber uma dose dupla do remédio que o espera. Mas, se ganhar, vamos cancelá-lo".

David ganhou as três lutas.

A esgrima o fez atravessar o perigoso ano de calouro com sua pele preciosa sem marcas, a não ser as cicatrizes no traseiro. Estava seguro agora, com três anos fáceis diante de si, porque só os calouros estavam sujeitos a castigos físicos, só os calouros estavam sujeitos a receber a ordem de tomar parte numa chacina organizada.

(Omitido)

Havia um único esporte de contato corporal que David apreciava, um de grande popularidade, que ele havia aprendido lá naquelas montanhas de que havia fugido. Mas jogava-se com moças e não era oficialmente reconhecido nessa escola. Havia regras severas contra ele, e um cadete apanhado praticando-o era chutado para fora sem misericórdia.

Mas David, como todos os gênios, prestava apenas uma atenção pragmática às regras feitas por outras pessoas — obedecia ao Décimo Primeiro Mandamento e nunca foi apanhado. Enquanto outros cadetes procuravam o prestígio inútil de introduzir moças nos quartéis ou pulavam o muro à noite à procura de moças, David mantinha suas atividades em segredo. Apenas aqueles que o conheciam bem sabiam quão ativamente ele cultivava este esporte de contato corporal. E ninguém o conhecia bem.

Hein? Cadetes femininos? Não tornei isso claro, Ira? Não só não havia nenhuma moça cadete, como não havia nenhuma moça naquela marinha — exceto algumas enfermeiras. Não havia, particularmente, nenhuma moça naquela escola; havia guardas noite e dia para mantê-las longe dos cadetes.

Não me pergunte por quê. Isso era política da marinha e, portanto, não tinha um motivo. Na verdade, não havia nenhum trabalho em toda aquela marinha que não pudesse ser realizado por qualquer sexo ou mesmo por eunucos — mas, por uma longa tradição, a marinha era exclusivamente masculina.

Pensando nisso, alguns anos mais tarde essa tradição foi contestada — pouco, a princípio, mas pelo fim daquele século, pouco antes do Colapso, aquela marinha tinha mulheres em todos os níveis. Não estou sugerindo que esta mudança tenha sido uma das causas do Colapso. Houve causas óbvias do Colapso, causas nas quais não me deterei agora. Esta mudança ou foi um fator nulo, ou possivelmente adiou um pouco o inevitável.

De qualquer forma, isso não aparece na História do homem preguiçoso. Quando David estava na escola, esperava-se que os cadetes se encontrassem com as mulheres apenas raramente, e somente em circunstâncias altamente idealizadas, com protocolo rigidamente estrito e acompanhados de chaperones [16]

Em vez de lutar contra as regras, David procurou suas falhas e fez uso delas — e nunca foi apanhado.

Toda regra inviável tem suas falhas; toda lei-seca cria os seus contrabandistas de bebidas. A marinha como um todo criou suas regras inviáveis; a marinha individualmente as violava, especialmente as curiosas regras a respeito de sexo — uma vida publicamente monástica em serviço; uma vida ligeiramente velada de voluptuosidade sem limites fora de serviço. No mar, mesmo os alívios inofensivos da tensão sexual eram tratados com a maior severidade quando descobertos — embora tais violações técnicas dos costumes fossem esperadas e toleradas menos de um século antes. Mas essa marinha era apenas um pouco mais hipócrita em seu comportamento sexual do que a matriz social na qual estava inserida, mais excessiva em seus derivativos apenas até o ponto de suas regras públicas serem mais severamente inviáveis do que as da sociedade como um todo. O código sexual público daquela época era inacreditável, Ira; as violações dele simplesmente espelhavam ao inverso suas exigências fantásticas. Para cada ação há uma reação igual e contrária — se você desculpar o óbvio.

Não pretendo discutir isto a não ser para dizer que David descobriu meios de cumprir os regulamentos da escola sobre sexo sem ficar completamente maluco, como ficaram tantos dos seus colegas. Acrescentarei apenas isto — e isto é simplesmente boato: através de um infortúnio fácil demais na época, embora não se ouça falar nisso hoje, uma jovem ficou grávida, presumivelmente de David. Naquele tempo — acredite-me! — isso era um desastre sério.

Por quê? Apenas aceite que era um desastre; levaria a vida inteira para explicar-lhe aquela sociedade, e nenhum ser humano civilizado acreditaria nisso. Os cadetes eram proibidos de se casar, as mulheres jovens tinham que se casar pelas regras correntes na época, e a operação para corrigir esse infortúnio era quase impossível de se obter e fisicamente muito perigosa para elas.

O que David fez a respeito disso ilustra todo o seu enfoque da vida. Quando diante de uma escolha de males, aceitava o menos arriscado e enfrentava-o, sem pestanejar. Casou-se com a moça.

Como conseguiu fazer isto sem ser apanhado não sei. Posso pensar num certo número de maneiras, algumas simples e razoavelmente seguras, outras complexas e sujeitas a serem descobertas; suponho que David escolheu a mais simples.

Isso mudou a situação, que passou de inviável a viável. Transformou o pai da moça, de inimigo, com toda a probabilidade de contar a história ao comandante da escola e, portanto, forçar David a desistir quando faltavam apenas mais alguns meses para atingir o seu objetivo, num aliado e companheiro de conspiração ansioso por manter o casamento em segredo para que o genro pudesse formar-se e tirar a filha volúvel de suas mãos.

Como benefício complementar, David não precisou mais planejar a prática de seu esporte favorito. Passava o tempo de folga numa domesticidade despreocupada, perfeitamente acompanhado de chaperones [17].

Quanto ao resto da carreira de David na escola, pode-se supor que um rapaz que conseguira substituir seis semanas de leituras sem supervisão por quatro anos de ensino formal pudesse também ser academicamente o primeiro da sua classe. Isto seria recompensado em dinheiro e posto, porque o lugar de um jovem oficial na lista de promoções era determinado por sua classificação ao se formar.

Mas a concorrência pelo primeiro lugar era realmente forte, e — pior — tornava conspícuo o cadete que o conseguia. David tomara conhecimento disto quando calouro novato. "Cadete, você é sábio?" — o que queria dizer "academicamente genial" — era outra pergunta difícil; o calouro estaria perdido quer respondesse "Sim", quer "Não".

Mas tirar o segundo lugar — ou mesmo o décimo — era praticamente tão útil quanto tirar o primeiro. David notou outra coisa: o quarto ano contava quatro vezes mais do que

O primeiro, o ano anterior ao último três vezes mais, e assim por diante regressivamente — isto é, as notas de um calouro não influíam muito na sua classificação final — apenas uma parte em dez.

David decidiu manter um "perfil baixo" — sempre uma decisão inteligente quando se tem a probabilidade de ser alvejado.

Ele terminou a primeira metade do seu ano de calouro pouco acima da média de sua classe — seguro, respeitável, pouco notado. Terminou seu ano de calouro no nível superior — mas a essa altura a turma mais adiantada estava pensando apenas na formatura e não prestou nenhuma atenção ao seu status. No segundo ano ele subiu para os dez por cento superiores; no terceiro ano melhorou alguns pontos — e no último ano, quando isso valia mais, disparou e terminou com uma classificação final de sexto lugar em quatro anos — mas realmente segundo, porque, daqueles de posto mais elevado, dois preferiram deixar a linha de comando para se especializarem; um não foi comissionado por ter estragado a visão estudando demais e o outro pediu demissão após se formar.

Mas o cuidado com que David conseguiu a classificação na sua turma não mostra o seu verdadeiro talento para a preguiça — afinal de contas, sentar-se e ler era o seu segundo passatempo favorito, e qualquer coisa que exigisse simplesmente memória excelente e raciocínio lógico não representava esforço para ele.

Durante o cruzeiro de guerra simulada que abriu o último ano de David na escola, um grupo de colegas seus estava discutindo que graduações de cadete cada um receberia. A essa altura, eles sabiam perfeitamente bem quais seriam selecionados como oficiais cadetes. Jake será certamente comandante do corpo — a menos que caia por cima da amurada. Quem ficaria com seu batalhão? Steve? Ou Stinky?

Alguém sugeriu que Dave estava na fila para aquele batalhão.

Dave estava ouvindo em vez de falar, uma característica padrão do seu "perfil baixo" — e muito próxima de uma terceira maneira de mentir, Ira, mais fácil do que o seu equivalente — falar embora sem dizer nada —, e tende também a dar ao que não fala uma reputação de sabedoria. Eu mesmo nunca liguei para isso — falar é o segundo dos três prazeres verdadeiros da vida e a única coisa que nos diferencia dos macacos. Embora apenas muito pouco.

Aqui David rompeu — ou pareceu romper — sua reserva habitual. "Nada de batalhão para mim", disse ele. "De modo nenhum! Vou ser ajudante regimental e ficar destacado na frente, onde as garotas possam me ver."

Talvez o seu comentário não tenha sido levado a sério — ajudante regimental é menos do que comandante de batalhão. Mas era certo que isso seria repetido, e David o sabia, talvez pelo cadete comandante regimental em perspectiva aos oficiais comissionados que faziam a escolha dos oficiais cadetes.

Não importa — David foi escolhido ajudante regimental.

Pela organização militar daquela época, o ajudante regimental ficava destacado na frente, sozinho, onde as visitantes femininas dificilmente podiam deixar de vê-lo. Mas pode-se duvidar de que isto figurasse nos planos de David.

O ajudante regimental não comparece a nenhuma formação, a não ser as formações regimentais completas. Vai e volta das aulas sozinho, em vez de ir marchando ou comandado. Os outros cadetes da primeira classe são responsáveis cada um por uma unidade de cadetes, seja ela esquadrão, pelotão, companhia, batalhão ou regimento; o ajudante regimental não tem nenhuma dessas responsabilidades, mas apenas uma função administrativa secundária; mantém a escala de serviço para o oficial cadete mais graduado.

Mas ele próprio não faz parte dessa escala de serviço. Em vez disso, é o extranumerário que preenche a vaga quando um deles está doente.

E este era o prêmio do homem preguiçoso. Aqueles oficiais-cadetes eram espécimes perfeitos, e as probabilidades de um deles ficar doente demais para David assumir-lhe o posto iam de desprezíveis a zero.

Durante três anos o nosso herói dava serviço mais ou menos a cada dez dias. Estes plantões não eram difíceis, mas implicavam ir para a cama meia hora mais tarde ou levantar-se meia hora mais cedo, e ficar muito tempo parado sobre os pés cansados, o que era uma afronta à carinhosa consideração de Dave pelo seu conforto.

Mas no seu último ano David deu apenas três plantões, e os deu sentado, como "oficial subalterno de plantão".

Por fim chegou o Dia. David se formou, foi comissionado — depois foi até a capela e casou-se de novo com sua mulher. Se a barriga dela estava um pouco estofada, isso não era incomum nas noivas, mesmo naquela época, e era sempre ignorado e tolerado uma vez que o jovem par se casasse. Era largamente conhecido, embora raramente mencionado, o fato de uma jovem noiva poder realizar em sete meses ou menos o que leva nove para uma vaca ou uma condessa.

Dave havia passado com segurança por todos os recifes e baixios; não precisaria nunca mais recear voltar para aquela mula e o "trabalho honesto".

Mas a vida como oficial subalterno num navio de guerra não chegava a ser perfeita. Tinha coisas boas — criados, uma cama confortável, um trabalho fácil, que raramente sujava as mãos de David, e o dobro do dinheiro. Mas ele precisava disso e mais para sustentar uma mulher, e o seu navio ficava tanto tempo no mar que ele muitas vezes não tinha as agradáveis compensações do casamento. Pior do que tudo, dava plantões de pé numa escala de serviço apertada; isto significava um plantão noturno de quatro horas de duas em duas noites — de pé. Ele ficava com sono a maior parte do tempo e seus pés doíam.

Portanto, David inscreveu-se para treinamento como aeronauta. Essa marinha havia se apossado recentemente de uma idéia chamada "poder aéreo" e estava tentando apoderar-se o máximo possível dela a fim de mantê-la fora das mãos erradas — isto é, as mãos do exército. Ela estava atrasada porque o exército se havia apoderado dela primeiro — portanto, os voluntários para voar eram bem-vindos.

David recebeu ordens rapidamente para servir em terra a fim de ver se tinha as qualidades de um aeronauta.

Tinha, realmente! Tinha não só as qualidades físicas e mentais, como também estava altamente motivado — porque seu novo trabalho era realizado sentado, quer na sala de aula, quer no ar; ele não dava nenhum serviço noturno e recebia um soldo e meio para ficar sentado e dormir em casa; o vôo era classificado como "serviço arriscado", e concediam-lhe pagamento extra.

É melhor eu dizer alguma coisa sobre esses aeroplanos, já que não se parecem absolutamente com os aeródinos a que você está acostumado. De certa forma eles eram arriscados. Respirar também o é. Não eram tão arriscados como os veículos terrestres automotivos então em uso, e nem tão perigosos como ser pedestre. Os acidentes, fatais ou não, geralmente podiam ser atribuídos a um engano por parte do aeronauta — David nunca deixou esse tipo de acidente acontecer com ele. Não tinha nenhuma vontade de ser o piloto mais arrojado do céu; desejava apenas ser o mais velho.

Os aeroplanos eram monstruosidades esquisitas que não se pareciam com nada que se vê no céu atualmente, exceto, possivelmente, o papagaio de uma criança — eles eram muitas vezes chamados de "papagaios" [18]. Tinham duas asas, uma sobre a outra, e o aeronauta sentava-se entre elas. Um pequeno pára-brisa ajudava a desviar o vento do rosto. Não fique surpreso; estas frágeis estruturas voavam muito devagar, impelidas no ar por uma hélice acionada a motor.

As asas eram feitas de tecido envernizado, e mantidas rígidas por montantes — pode-se ver apenas por isto que a velocidade deles nunca ultrapassava uma fração da velocidade do som — exceto nas tristes ocasiões em que um piloto exageradamente ansioso mergulhava direto para baixo, quando, na tentativa de recuperar a altitude normal demasiado abruptamente, fazia com que as asas fossem arrancadas.

O que David nunca fez. Algumas pessoas são pilotos naturais. A primeira vez em que David examinou um aeroplano compreendeu os seus fortes e fracos tão completamente quanto compreendera o banquinho de ordenhar que havia deixado atrás de si.

Ele aprendeu a voar quase tão rapidamente quanto havia aprendido a nadar.

Seu instrutor disse: "Dave, você é um instintivo. Vou recomendá-lo para treinamento de caça".

Os pilotos de caça eram a nata dos aviadores; eles subiam e engajavam os pilotos inimigos em combate singular. Um caça que fizesse isso cinco vezes com sucesso — matasse o piloto adversário em vez de ser morto — era chamado de "ás", o que era uma grande honra, porque, como se pode ver, a probabilidade média de fazer isso é a quinta potência de meio, ou uma em trinta e duas vezes. Ao passo que a probabilidade de ser morto, pelo contrário, é o complemento, próxima da certeza.

Dave agradeceu ao seu conselheiro, enquanto sua pele formigava, e seu cérebro começou a zumbir e estalar ao considerar a maneira de evitar essa honra sem desistir do soldo e meio e do conforto de ficar sentado.

Havia outras desvantagens em ser piloto de caça, além do risco principal de ter o traseiro arrancado a tiros por algum estranho. Os pilotos de caça voavam em "papagaios" de um homem só e faziam sua própria navegação — sem computadores, aparelhos para dirigir na volta à base ou qualquer coisa com que se pode contar atualmente — ou mesmo mais tarde naquele século. O método usado era chamado "navegação estimada"[19] porque, se não se calculasse corretamente, morria-se — porque o vôo da marinha era feito sobre a água, a partir de um pequeno aeródromo flutuante, com uma margem de segurança de combustível para um avião de caça de apenas alguns minutos. Acrescente a isto o fato de um piloto de caça em combate ter de escolher entre cuidar da navegação ou concentrar sua atenção em tentar matar o estranho antes que o estranho o matasse. Se ele quisesse ser um "ás" — ou mesmo jantar naquela noite — tinha que pensar nas coisas principais primeiro e se preocupar com a navegação mais tarde.

Além da possibilidade de se perder no mar e se afogar

num "papagaio" sem gasolina — eu disse como essas coisas eram acionadas? A hélice de ar era impelida por um motor acionado por uma reação química exotérmica — a oxidação de um hidrocarboneto fluido chamado "gasolina".

Se você acha isso pouco provável, garanto-lhe que era pouco provável mesmo então. O método era lamentavelmente ineficiente. O aviador não só tinha probabilidade de ficar sem gasolina, sem nada em volta dele além do oceano, como também esse motor temperamental muitas vezes falhava e parava. Embaraçoso. Algumas vezes, fatal.

As desvantagens de ser piloto de caça não eram só as relativas ao perigo físico; elas simplesmente não se encaixavam no plano-mestre de David. Os pilotos de caça eram designados para aeródromos flutuantes, ou porta-aviões. Em tempos de paz, o que aquele era, por assim dizer, um aviador não trabalhava duro demais nem dava muitos plantões, e passava grande parte do seu tempo em terra num aeródromo terrestre, embora constasse das listas de chamada de um porta-aviões — portanto, creditado com serviço no mar, necessário para promoção e pagamento.

Mas, durante várias semanas por ano, o aviador designado para um porta-aviões ficava realmente no mar, praticando guerra simulada — o que envolvia levantar-se uma hora antes do nascer do sol, para aquecer aqueles motores teimosos, e estar pronto para voar ao primeiro indício de perigo real ou simulado.

David odiava isso — por sua vontade não compareceria ao Dia do Julgamento se este fosse antes do meio-dia.

Havia outra desvantagem: aterrisar nesses aeródromos flutuantes. Em terra David podia aterrisar sobre um níquel e ainda dar troco. Mas isso dependia da sua própria habilidade, altamente desenvolvida porque sua própria pele estava em jogo. Mas aterrisar num porta-aviões dependia da habilidade de outro piloto — e David tinha uma opinião sobre confiar sua pele à habilidade, às boas intenções e à vivacidade de outra pessoa.

Ira, isto é tão diferente de qualquer coisa que você provavelmente tenha visto em sua vida que fico embaraçado. Considere o seu porto celeste aqui em Nova Roma: ao aterrisar, uma nave é controlada do chão, certo? Assim também era com os aeroplanos que aterrisavam em porta-aviões, mas a analogia termina aqui, porque na aterrissagem num porta-aviões naquele tempo não se usava nenhum instrumento. Nenhum. Não estou brincando.

Era feita exclusivamente a olho, exatamente como um menino num jogo agarra de repente uma bola no ar — mas David era a bola e a habilidade usada para agarrá-la não era a sua, mas a de um piloto no porta-aviões. David tinha que suprimir sua própria habilidade, suas próprias opiniões, e depositar fé total no piloto do porta-aviões; qualquer coisa menos causaria um desastre.

David sempre havia seguido sua própria opinião — e o faria contra o mundo inteiro, se necessário. Depositar tanta fé em outro homem ia contra as suas convicções mais profundas. Fazer uma aterrissagem num porta-aviões era como expor sua barriga a um cirurgião, dizendo: "Vá em frente, corte" — quando ele não tinha certeza de o cirurgião ser competente para cortar sequer presunto. A aterrissagem em porta-aviões chegou mais perto de levar David a desistir do soldo e meio e do horário fácil do que qualquer outro aspecto do vôo, de tão perturbado que ele ficava pela necessidade de aceitar a decisão de outro piloto — que nem sequer partilhava do perigo que ele corria.

Foi preciso toda a sua força de vontade para ele fazer isso a primeira vez, e nunca se tornou fácil. Mas ele aprendeu uma lição que nunca esperara aprender — isto é, que havia circunstâncias em que a opinião de outro homem era não só melhor do que a dele, como incomparavelmente melhor.

Veja — não, talvez você não possa entender; não expliquei as circunstâncias. Um aeroplano aterrisa num porta-aviões numa queda controlada por meio de um gancho em sua cauda que se prende a um cabo de arame estendido no convés superior. Mas, se o aviador seguir o seu próprio julgamento baseado na experiência em aterrisar num campo de vôo, certamente cairá na popa do navio — ou, se souber disso e tentar compensar, passará alto demais e não enganchará no cabo. Em vez de um grande campo achatado e de bastante espaço para pequenos enganos, ele tem apenas uma "janela" minúscula que tem de atingir com precisão, nem à direita nem à esquerda, nem acima nem abaixo, nem depressa demais nem devagar demais. Mas ele não pode ver suficientemente bem o que está fazendo para julgar estas variáveis corretamente.

(Mais tarde o processo foi tornado semi-automático, depois automático; mas, quando foi finalmente aperfeiçoado, os porta-aviões tinham se tornado obsoletos — uma descrição condensada da maior parte do "progresso" humano: quando se aprende é tarde demais. Acontece muitas vezes, porém, que o que se aprendeu aplica-se a algum problema novo. Ou estaríamos ainda nos balançando nas árvores.)

Assim, o aviador no aeroplano tinha que confiar no piloto sobre o convés, que podia ver o que estava acontecendo. Ele era chamado de "oficial do sinal de aterissagem" e usava bandeiras de sinalização para dar ordens ao piloto do aeroplano.

A primeira vez que David tentou esta proeza incerta correu pelo céu três vezes para novas aproximações antes de controlar o seu pânico, desistir de tentar desprezar o julgamento do OSA e obter licença para aterrisar.

Só então descobriu como estava assustado — sua bexiga afrouxou-se.

Naquela noite ganhou um certificado extravagante: a Ordem Real da Fralda Molhada — assinada pelo OSA, endossada pelo comandante e testemunhada pelos colegas de esquadrão. Foi um momento difícil em sua vida, pior até do que o ano de calouro, e foi de pouco consolo o fato de a ordem ser concedida com tanta freqüência, que os certificados eram mantidos prontos à espera de cada novo grupo de aviadores ainda úmidos.

Daí por diante ele obedecia ao pé da letra as ordens dos oficiais do sinal de aterrissagem, como um robô, deixando de lado as emoções e o julgamento por uma espécie de auto-hipnose. Quando chegou a ocasião de se qualificar para aterrissagens noturnas — muito pior para os nervos porque o piloto no ar não podia ver nada a não ser o bastão iluminado que o OSA agitava no lugar das bandeiras —, David aterrisou perfeitamente na sua primeira aproximação.

David ficou de boca calada quanto à sua determinação de não procurar a glória como piloto de caça até completar todas as exigências para tornar permanente seu status voador. Depois fez um pedido de treinamento avançado — em aviões multimotores. Isto foi embaraçoso, porque o seu instrutor, que tinha uma opinião tão boa do seu potencial, era agora comandante do esquadrão e seria necessário submeter este requerimento através dele. Assim que a carta começou a percorrer os canais competentes, ele foi chamado ao camarote do chefe.

— Dave, o que é isto?

— Exatamente o que diz, comandante. Quero aprender a pilotar os grandes.

— Perdeu a cabeça? Você é piloto de caça. Depois de três meses neste esquadrão de reconhecimento (um trimestre, para que eu possa lhe dar um bom Relatório de Aptidão) você vai poder partir realmente para um treinamento avançado. Como piloto de caça.

David não respondeu.

O comandante do esquadrão persistiu:

— Dave, está aborrecido por causa daquele tolo "Diploma da Fralda"? Metade dos pilotos da esquadra o receberam. Que diabo, homem! Eu próprio tenho um. Ele não o diminuiu perante seus colegas de bordo; simplesmente o fez parecer humano quando estava começando a ter um halo muito forte.

David ainda não comentou nada.

— Que diabo, não fique aí parado! Pegue essa carta e rasgue-a. Depois apresente uma para o treinamento de caça. Vou deixá-lo ir agora, em vez de esperar três meses.

Dave continuou mudo. O chefe olhou para ele e ficou vermelho, depois disse baixinho:

— Talvez eu estivesse errado. Talvez você não tenha 0 que é preciso para ser piloto de caça... sr. Lamb. Isso é tudo. Pode retirar-se.

Nos "grandes", os hidroplanos multimotores, David finalmente encontrou seu lar. Eles eram grandes demais para decolar de um porta-aviões no mar; contudo, servir neles contava como serviço no mar, embora na verdade David quase sempre dormisse em casa, na sua própria cama, com sua mulher, salvo por uma noite ocasional como oficial de dia, quando dormia na base, e ainda as ocasiões menos freqüentes em que os grandes hidroplanos voavam à noite. Mas não voavam muitas vezes mesmo durante o dia e com bom tempo; o vôo deles era caro, eles eram caros demais para arriscar, e o país estava atravessando uma onda de economia. Eles voavam com tripulações completas, quatro ou cinco para bimotores, mais para quadrimotores, e muitas vezes com passageiros, para permitir que as pessoas completassem horas de vôo de modo a fazerem jus àquele pagamento extra. Tudo isso convinha a Dave, não mais aquela bobagem de tentar navegar fazendo ao mesmo tempo outras dezesseis coisas, nada de confiar no julgamento de um oficial de sinal de aterrissagem, nada de depender apenas de um motor neurótico, nada de preocupações de ficar sem gasolina. Na verdade, podendo escolher, faria sempre todas as aterrissagens ele próprio, mas, quando foi impedido disto por um piloto mais graduado, não deixou transparecer sua preocupação e, com o tempo, deixou de se preocupar, porque todos °s pilotos dos grandes hidroplanos eram cuidadosos e estavam dispostos a viver por muito tempo.

(Omitido.)

... anos que David passou confortavelmente enquanto era promovido dois postos.

Depois estourou a guerra. Havia sempre guerras naquele século, mas nem sempre em toda parte. Esta incluiu praticamente todos os países da Terra. David adotou uma opinião confusa sobre a guerra; achava que o objetivo de uma marinha era parecer tão feroz a ponto de tornar desnecessário lutar. Mas não lhe perguntaram nada, e era tarde demais para se preocupar com isso, tarde demais para pedir demissão, não havia lugar nenhum para onde fugir. Assim, não se preocupou com o que não podia mudar, o que foi bom, porque a guerra foi longa, amarga e causou milhões de mortes.

— Vovô Lazarus, o que é que você fez durante essa guerra?

Eu? Vendi Bônus da Liberdade, fiz discursos de quatro minutos e servi tanto numa junta de recrutamento como numa junta de racionamento, e fiz outras contribuições valiosas... até o presidente me chamar para Washington. O que fiz, então, era secreto e você não acreditaria se eu lhe contasse. Não seja insolente, rapaz; eu estava lhe contando 0 que David fez.

Ah! David foi um autêntico herói. Foi citado por bravura e recebeu uma condecoração. Uma que figura pelo resto da sua história.

David havia se resignado a, ou esperava, assim sendo, reformar-se no posto de capitão-de-corveta, porque não havia muitos postos mais altos do que esse nos hidroplanos. Mas a guerra elevou-o a capitão-de-corveta numa questão de semanas, depois a capitão-de-fragata, um ano mais tarde, e finalmente a capitão-de-mar-e-guerra, quatro listas de ouro largas, sem enfrentar uma junta de seleção, fazer um exame de promoção ou comandar um navio. A guerra os estava usando depressa, e qualquer um que não fosse morto era promovido, desde que soubesse onde tinha o nariz.

E Dave sabia onde tinha o seu. Passou parte da guerra patrulhando as costas do seu país à procura de submarinos inimigos, "serviço de guerra" por definição, porém dificilmente mais perigoso do que treinamento em tempo de paz. Passou também um tempo transformando empregados de escritório e vendedores em pilotos. Foi designado para uma zona onde se lutava realmente, e lá ganhou sua medalha. Não conheço os detalhes, mas o "heroísmo" consiste muitas vezes em ficar de cabeça fria numa emergência e fazer o melhor que se pode com aquilo de que se dispõe, em vez de entrar em pânico e levar um tiro no rabo. As pessoas que lutam dessa maneira vencem mais batalhas do que os heróis intencionais; um caçador de glórias muitas vezes joga fora a vida dos seus companheiros bem como a própria.

Mas, para ser oficialmente um herói, é preciso sorte, também. Não basta fazer excepcionalmente bem o seu trabalho debaixo de fogo; é necessário que alguém, o mais graduado possível, veja o que você faz e escreva isso. Dave teve esse golpe de sorte e ganhou sua medalha.

Terminou a guerra na capital do país, na Agência Naval da Aeronáutica, incumbido do aperfeiçoamento dos aviões de patrulha. Talvez tenha sido mais útil lá do que o foi em combate, já que conhecia aqueles aparelhos multimotores melhor que qualquer homem vivo, e este trabalho deu-lhe a oportunidade de eliminar bobagens obsoletas e promover alguns melhoramentos. Assim sendo, terminou a guerra numa escrivaninha, folheando papéis e dormindo em casa.

Depois a guerra acabou.

Dave olhou em volta e avaliou a situação. Havia centenas de capitães-de-mar-e-guerra que, como ele, tinham sido capitães-de-corveta apenas três anos antes. Já que a paz era "para sempre", como os políticos sempre insistem, poucos seriam algum dia promovidos. Dave pôde ver que não seria promovido; não tinha nem a antigüidade, padrão tradicionalmente aprovado nas forças armadas, nem as ligações apropriadas, políticas e sociais.

O que ele tinha eram quase vinte anos de serviço, o mínimo para se reformar a meio soldo. Ou podia permanecer até ser forçado a se reformar por não ser escolhido para almirante.

Não havia necessidade de decidir imediatamente; a reforma aos vinte anos era para daí a um ou dois anos.

Mas ele se reformou quase imediatamente, por motivos de saúde. O diagnóstico foi "psicose situacional", o que significava que ele ficava doido quando trabalhava.

Ira, não sei como avaliar isto. Dave me impressionou como um dos poucos homens completamente sãos que já conheci. Mas eu não estava lá quando ele se reformou, e a "psicose situacional" era a segunda causa mais comum para reforma por motivos de saúde dos oficiais de marinha naquele tempo; mas como podiam eles saber? Ficar maluco não era nenhum empecilho para um oficial de marinha, não mais do que o era para um escritor, um professor, um pregador ou várias outras ocupações respeitáveis. Desde que David chegasse na hora e assinasse a documentação que algum escriturário preparava, e nunca desse respostas malcriadas aos seus superiores, isso nunca seria notado. Lembro-me de um oficial da marinha que tinha uma coleção espantosa de ligas de senhoras; ele costumava trancar-se em sua sala e examiná-las; e de outro que fazia exatamente a mesma coisa com uma coleção de rótulos de papel usados para franquia postal. Qual deles era maluco? Ambos? Ou nenhum dos dois?

Outro aspecto da reforma de Dave exige conhecimento das leis da época. Reformar-se com vinte anos de serviço resultava em meio soldo, sujeito ao imposto de renda, que era pesado. Reformar-se por incapacidade física resultava em três quartos de soldo, ficando-se isento do imposto de renda.

Não sei, simplesmente não sei. Mas toda a questão se enquadra no talento de Dave para obter resultados máximos com o mínimo de esforço. Vamos aceitar que ele estivesse maluco, mas estaria ele completamente maluco?

Houve outras características na sua reforma. Ele julgou corretamente não ter possibilidade de ser escolhido para almirante, mas aquela citação por bravura trazia consigo uma promoção honorária na reforma; assim, Dave terminou como o primeiro homem da sua turma a chegar a almirante, sem nunca ter comandado um navio, muito menos uma esquadra, um dos almirantes mais moços da história, contando-se a sua idade verdadeira. Imagino que isso tenha divertido o menino de fazenda que odiava arar atrás de uma mula.

Porque, no fundo, ele ainda era um menino de fazenda. Existia outra lei em benefício dos veteranos daquela guerra, com o fim de compensar os rapazes que haviam tido sua educação interrompida por terem que deixar o lar para lutar: instrução financiada, um mês para cada mês de serviço de guerra.

A lei se destinava aos jovens convocados, mas não havia nada que impedisse um oficial de carreira de tirar vantagem dela; Dave podia invocá-la e o fez. Com soldo de três quartos isentos de impostos, com o subsídio, também isento, de um veterano casado que ia estudar, Dave tinha mais ou menos a mesma renda que tivera no serviço ativo. Na verdade maior, porque não precisava mais comprar uniformes bonitos ou manter obrigações sociais dispendiosas. Podia vadiar e ler livros, vestir-se como quisesse e não se preocupar com as aparências. Algumas vezes ele ficava acordado até tarde e provava que havia mais otimistas jogando pôquer do que matemáticos. Depois dormia até tarde. Porque nunca, nunca se levantou cedo.

Nem tampouco subiu outra vez num aeroplano. Dave jamais confiara nas máquinas voadoras; estavam alto demais em caso de perderem a velocidade. Nunca haviam representado nada para ele, a não ser um meio de evitar algo pior; uma vez tendo elas preenchido seu fim, colocou-as de lado com tanta firmeza como havia feito com os floretes de esgrima, e sem nenhum arrependimento em qualquer dos casos.

Em breve tinha outro diploma, um que declarava que ele era bacharel em ciências agronômicas, um fazendeiro "científico".

Com este certificado, que concedia uma preferência especial aos veteranos, ele poderia ter obtido para ele um emprego público civil, no qual ensinaria a outras pessoas como cuidar de fazendas. Em vez disso, ele pegou uma parte do dinheiro que havia acumulado no banco enquanto vagabundeava na escola, voltou para aquelas montanhas que havia deixado um quarto de século antes e comprou uma fazenda. Isto é, ele deu um sinal e hipotecou a fazenda pelo saldo do preço mediante um empréstimo do governo a uma taxa de juros muito baixa, subsidiada, é claro.

"Se ele trabalhou na fazenda? Não sejamos tolos; Dave nunca tirou as mãos dos bolsos. Fez uma plantação com um pessoal contratado, enquanto tratava de outro negócio.

Ira, a complementação do grande plano de Dave envolve um fator tão inacreditável que devo pedir-lhe para acreditar de boa fé; seria demais pedir a qualquer homem racional para compreendê-lo.

Naquela pausa entre as guerras, a Terra tinha mais de dois bilhões de pessoas, pelo menos metade à beira da fome. Apesar disso — e é aqui que devo pedir-lhe para acreditar que eu estava lá e não iria mentir para você —, apesar dessa falta de comida que nunca cedeu, a não ser temporária e localizadamente em todos os anos que se seguiram, e não podia, por motivos nos quais não precisamos nos aprofundar —, apesar dessa falta desastrosa, o governo do país de David pagava aos fazendeiros para não produzirem alimentos.

Não sacuda a cabeça; os caminhos de Deus, do governo e das garotas são todos misteriosos, e não é dado ao homem mortal compreendê-los. Não importa que você próprio seja o governo; vá para casa esta noite e pense nisso, pergunte a si mesmo se sabe porque faz o que faz, volte amanhã e me conte.

Assim sendo, David fez uma única colheita. No ano seguinte suas terras tiveram o "solo retido" e ele recebeu um cheque gordo por não explorá-las, o que foi ótimo para ele. Dave amava aquelas montanhas, sempre tivera saudades delas; deixara-as simplesmente para evitar o trabalho. Agora lhe estavam pagando para não trabalhar nelas, que era o que desejava; nunca achara que os seus encantos se acentuariam se fossem arados e as deixassem cobertas de poeira.

Os pagamentos do "solo retido" cobriram a hipoteca, e seu soldo de reformado provia-o de uma quantia considerável; portanto, contratou um homem para fazer as tarefas exigidas por uma fazenda, embora não esteja sendo explorada: alimentar os frangos, ordenhar uma ou duas vacas, cuidar da horta e de algumas árvores frutíferas, consertar cercas, enquanto a mulher do empregado ajudava a mulher de David na casa. Para si próprio, David comprou uma rede.

Mas David não era um patrão severo. Desconfiou de que as vacas não queriam ser acordadas às cinco da manhã, assim como ele não queria, e resolveu descobrir isso.

Aprendeu que as vacas trocariam alegremente suas ordenhas a intervalos de vinte e quatro horas por um horário mais razoável, se tivessem oportunidade. Elas tinham que ser ordenhadas duas vezes por dia; eram alimentadas para isso. Mas nove horas da manhã lhes convinha para a primeira ordenha tão bem como as cinco, desde que isso fosse feito regularmente.

Mas isso não ficou assim; o empregado de Dave tinha o hábito nervoso de trabalhar. Para ele, havia alguma coisa pecaminosa em ordenhar as vacas tão tarde. Assim, Dave o deixou fazer como queria, e o empregado e as vacas voltaram aos seus velhos hábitos.

Quanto a Dave, amarrou aquela rede entre duas árvores, à sombra, e colocou uma mesa ao lado para pôr uma bebida gelada. Levantava-se de manhã quando acordava, quer fossem nove horas ou meio-dia, tomava café e depois caminhava devagar até sua rede, a fim de descansar para o almoço. O trabalho mais pesado que fazia era endossar cheques para depositar e, uma vez por mês, puxar o saldo do talão de cheques de sua mulher. Deixou de usar sapatos.

Não lia jornais nem ouvia rádio; imaginava que a marinha o avisaria se estourasse outra guerra, e estourou outra mais ou menos na época em que ele começou essa rotina. Mas a marinha não tinha necessidade de almirantes reformados. Dave prestou pouca atenção àquela guerra, ela era deprimente. Em vez disso, lia tudo o que a biblioteca estadual tinha sobre a Grécia antiga e comprou livros a respeito disso. Era um assunto calmante, sobre o qual sempre desejara conhecer mais.

Cada ano, no Dia da Marinha, ele se arrumava todo e fardava-se de almirante com todas as suas medalhas, desde a medalha de Boa Conduta de alistado até a de Bravura sob Fogo, que havia feito dele almirante; deixava o empregado levá-lo de carro até a sede do município e lá fazia um discurso num almoço da Câmara de Comércio sobre algum assunto patriótico. Ira, não sei por que ele fazia isso. Talvez fosse porque noblesse oblige. Ou pode ter sido devido ao seu estranho senso de humor. Mas eles o convidavam a cada ano e a cada ano ele aceitava. Os vizinhos tinham orgulho dele; era o epítome do Rapaz Local Bem-Sucedido, depois volta para casa e vive como seus vizinhos vivem. Seu sucesso trouxe crédito a eles todos. Gostavam de que ele ainda fosse apenas gente da terra, e se notavam que ele nunca trabalhava um mínimo que fosse, ninguém mencionava o fato.

Passei de raspão pela carreira de Dave, Ira, tinha que passar. Não mencionei o piloto automático que ele criou e aperfeiçoou anos mais tarde, quando estava em situação de mandar fazer tais coisas. Nem a revisão das funções da tripulação de um hidroplano, exceto para dizer agora que o fez a fim de obter mais com menos esforço, deixando ao mesmo tempo o piloto em comando sem nada para fazer salvo ficar alerta, ou roncar sobre o braço do co-piloto se a situação não exigisse sua atenção. Fez mudanças nos instrumentos e controles também, quando se viu finalmente incumbido do aperfeiçoamento de todos os aviões de patrulha da marinha.

Vamos resumir com isto: não acho que David se considerasse um "especialista em eficiência", mas cada função que teve ele simplificou. Seu sucessor sempre teve menos trabalho a fazer do que o seu predecessor.

O fato de seu sucessor geralmente reorganizar o trabalho depois para trabalhar três vezes mais, e precisar de três vezes mais subordinados, diz pouco sobre a originalidade de Dave, a não ser por contraste. Algumas pessoas são formigas por natureza; elas têm que trabalhar, mesmo quando isso é inútil. Poucas pessoas têm o talento para a ociosidade construtiva.

Assim termina a História do homem que era preguiçoso demais para fracassar. Vamos deixá-lo lá, em sua rede, à sombra das árvores. Pelo que sei, ele ainda está lá.

 

Variações sobre um tema III

Problemas domésticos

— Após mais de dois mil anos, Lazarus?

— Por que não, Ira? Dave era da minha idade, havia uma diferença mínima entre nós. Eu ainda estou aqui.

— Sim, mas... David Lamb era membro das Famílias? Com outro nome? Não há nenhum Lamb nas listas.

— Nunca perguntei, Ira. Nem ele jamais me ofereceu uma senha. Naquele tempo cada membro mantinha o fato em sigilo. Ou, se era, Dave podia não saber disso, já que saiu de casa tão moço e tão de repente. Naquele tempo não contavam aos jovens até ele ou ela terem idade suficiente para pensar em casamento. Dezoito para os rapazes, geralmente, e dezesseis para as moças. Isso me faz lembrar do choque que tive quando me contaram... com menos de dezoito. Foi o vovô, porque eu estava prestes a fazer uma bobagem. Filho, uma das coisas mais estranhas sobre o animal humano é que ele cresce fisicamente anos e anos antes de seu cérebro crescer. Eu tinha dezessete anos, era moço e obcecado pelo sexo e queria casar-me a todo custo. Vovô levou-me para trás do celeiro e convenceu-me de que era realmente uma besteira.

" 'Woodie', disse ele, 'se você quer fugir com essa moça, ninguém o impedirá.'

"Eu lhe disse desafiadoramente que ninguém podia me impedir, porque logo depois da fronteira do Estado eu poderia fazê-lo sem o consentimento dos meus pais.

" 'É isso que estou lhe dizendo', disse ele. 'Ninguém vai impedi-lo. Mas ninguém vai ajudá-lo. Nem os seus pais, nem os seus outros avós... nem eu. Nenhum de nós lhe dará sequer o dinheiro para uma licença de casamento, muito menos o ajudará a sustentar uma mulher. Nem um dólar, Woodie, nem dez magros centavos. Se você não acredita em mim, pergunte a qualquer um deles.'

"Eu disse, de mau humor, que não queria ajuda nenhuma.

"Vovô tinha sobrancelhas espessas, elas se ergueram. 'Bem, bem,' disse ele. 'Ela vai sustentar você? Você olhou para os anúncios de empregos no jornal ultimamente? Se não, não deixe de fazê-lo. E passe os olhos pela seção financeira quando fizer isso; ler os anúncios de empregos não lhe tomará mais de trinta segundos.' Ele acrescentou: 'Ah, você pode encontrar um emprego de vendedor ambulante de aspiradores mediante comissão. Isto lhe proporcionará ar fresco, exercício saudável e uma oportunidade para demonstrar o seu encanto, o qual você não tem muito. Mas não vai vender aspiradores de pó; ninguém está comprando'.

"Ira, eu não sabia do que ele estava falando. Isso foi em janeiro de 1930. Essa data significa alguma coisa para você?"

— Receio que não, Lazarus. Apesar de muito estudo da história das Famílias, tenho que converter aquelas datas antigas em padrão galáctico a fim de senti-las.

— Não sei se isso seria mencionado nos registros das Famílias, Ira. O país... Bem, todo o planeta havia acabado de dar um mergulho numa flutuação econômica. Chamavam-nas de "depressões". Não havia nenhum emprego disponível... pelo menos não para um jovem sabichão que não sabia nada de útil. Vovô compreendia isso, porque passara por várias dessas fases. Mas não eu. Eu estava certo de que podia agarrar o mundo pela cauda e pendurá-lo em cima do meu ombro. O que eu não sabia era que engenheiros formados estavam aceitando empregos de porteiro e advogados estavam conduzindo carroças de leite. E ex-milionários estavam pulando das janelas. Mas eu estava ocupado demais, indo atrás das moças, para perceber.

— Sênior, li sobre as depressões econômicas. Mas nunca compreendi o que as causava.

Lazarus Long começou a rir.

— E, apesar disso, você é responsável por todo um planeta.

— Talvez não devesse ser — admiti.

— Não.seja tão humilde! Vou contar-lhe um segredo: naquele tempo, ninguém sabia o que as causava. Até a Fundação Howard poderia ter falido se Ira Howard não tivesse deixado firmes instruções sobre como o fundo devia ser administrado. Por outro lado, todo mundo, até os varredores de rua e os professores de economia, estava certo de que conhecia tanto as causas como as curas. Assim, quase todos os remédios foram tentados... e nenhum funcionou. Essa depressão continuou até o país tropeçar numa guerra... que não curou o que estava errado, simplesmente mascarou os sintomas com uma febre alta.

— Bem... o que estava errado, vovô? — insisti.

— Será que pareço bastante esperto para responder a isso, Ira? Fiquei muitas vezes sem nada. Algumas por motivos financeiros, outras por abandonar minha bagagem para salvar a pele. Hum... Diabos me levem se eu der alguma explicação rebuscada, mas... O que acontece quando você controla uma máquina por realimentação positiva?

Fiquei espantado.

— Não tenho certeza de havê-lo compreendido, Lazarus. Não se controla uma máquina por realimentação positiva... pelo menos não consigo lembrar-me de nenhum caso. A realimentação positiva faria com que qualquer sistema ficasse fora de controle.

— Vá para a frente da classe, Ira. Desconfio dos argumentos por analogia... mas, pelo que vi durante os séculos, parece não haver nada que um governo possa fazer com uma economia que não atue como realimentação positiva, ou como um freio. Ou ambos. Talvez algum dia, em alguma parte, alguém esperto como Andy Libby imagine uma maneira de consertar a Lei da Oferta e da Procura para fazê-la funcionar melhor, em vez de deixá-la seguir seu próprio caminho cruel. Talvez. Mas nunca vi isso. Embora Deus saiba que todo mundo tentou. Sempre com as melhores intenções.

"As boas intenções não substituem o conhecimento de como uma serra circular funciona, Ira; os piores criminosos da história estavam carregados de boas intenções. Mas você me desviou do assunto, levando-me a fazer um discurso quando eu estava lhe contando como terminei não me casando.

— Desculpe, vovô.

— Hum! Você não pode ser bruto de vez em quando? Sou um velho tagarela que o obrigou a perder tempo ouvindo banalidades. Você devia ficar aborrecido com isso.

— Então estou aborrecido. — Sorri para ele. — Você é um velho tagarela que exige que eu satisfaça todos os seus caprichos... e eu sou um homem muito ocupado com assuntos sérios que me preocupam e você perdeu meio dia do meu tempo contando-me uma história comprida (pura ficção, tenho certeza) sobre um homem que era tão preguiçoso que sempre tinha sucesso. Com a intenção de me irritar, acho eu. Quando você insinuou que essa personagem de ficção era um homem de vida longa, evitou uma pergunta muito simples sobre isso e começou a falar a respeito de seu avô. Esse... almirante Ram, você disse? Ele era ruivo?

— Lamb, Ira... Donald Lamb. Ou esse era o irmão dele? Foi há muito tempo. Estranho você perguntar sobre o seu cabelo... porque isso me faz lembrar de outro oficial da marinha naquela mesma guerra que era exatamente o oposto de... Donald? Não, David. Exatamente o oposto de David, em todos os sentidos, salvo que tinha o cabelo tão vermelho que Loki teria orgulho dele. Tentou sufocar um urso kodiak até a morte. Não funcionou, é claro. Não parece possível que você tenha visto alguma vez um urso kodiak, Ira.

"O carnívoro mais feroz que a Terra já produziu, e pesava dez vezes mais que um homem. Garras como cimitarras, dentes amarelos compridos, mau hálito... e uma disposição pior. Apesar disso, Lafe enfrentou-o desarmado... e, veja só, sem ter necessidade disso. Eu teria desaparecido no horizonte. Quer ouvir sobre Lafe, o urso e o salmão do Alaska?"

— Agora não. Parece outra mentira colossal. Você estava me contando por que não se casou.

— Realmente estava. Vovô havia acabado de me perguntar: "Bem, Woodie, há quanto tempo ela está grávida?"

— Não, ele estava explicando que você não podia sustentar uma mulher.

— Filho, se conhece esta história, você vai contá-la para mim. Neguei enfaticamente uma coisa dessas... ao que vovô respondeu que eu estava mentindo, porque esse era o único motivo que levava um rapaz de dezessete anos a querer casar-se. Sua resposta deixou-me especialmente com raiva porque eu tinha um bilhete no bolso que dizia: "Woodsie querido... Você me engravidou e tudo é caos".

"Vovô insistiu, e neguei três vezes, ficando cada vez com mais raiva, por ver como aquilo era verdade. Finalmente ele disse: 'Está bem, vocês ficaram apenas de mãos dadas. Ela lhe mostrou um exame de gravidez assinado por um médico?'

"Ira, eu acidentalmente disse a verdade. 'Ora, não', admiti.

" 'Está bem', disse ele. 'Vou cuidar disso. Mas só desta vez. Daqui por diante use sempre camisinhas, mesmo que uma coisinha doce lhe diga para não se incomodar. Ou não encontrou uma farmácia que as vendesse a você?' Depois, após fazer-me jurar segredo, contou-me sobre a Fundação Howard e o que ela pagaria se eu me casasse com uma moça da sua lista selecionada.

"E foi assim que aconteceu, porque recebi esta carta de um advogado quando fiz dezoito anos, exatamente como vovô havia previsto, e aconteceu que fiquei loucamente apaixonado por uma moça da lista deles. Casamo-nos e tivemos uma porção de filhos, antes que ela me trocasse por outro modelo. Sua ancestral, sem dúvida."

— Não, Sênior. Descendo de sua quarta mulher, vovô.

— Minha quarta, hein? Deixe-me ver... Meg Hardy?

— Acho que essa foi a terceira, Lazarus. Evelyn Foote.

— Ah, sim! Uma ótima moça, Evelyn. Gordinha, bonita, de natureza dócil, e fértil como uma tartaruga. Uma boa cozinheira, e nunca disse uma palavra áspera. Difícil encontrar outras como ela. Talvez cinqüenta anos mais moça do que eu, mas mal aparentava; meu cabelo não começou a ficar grisalho senão aos cento e cinqüenta. Nenhum segredo quanto à minha idade, já que a data, o registro de nascimento e tudo o mais está arquivado para cada um de nós. Filho, obrigado por me lembrar de Evelyn; ela restaurou minha fé no matrimônio quando eu estava ficando um pouco amargurado com ele. Os arquivos revelam mais alguma coisa sobre ela?

— Apenas que você foi o seu segundo marido e que ela teve sete filhos com você.

— Eu esperava que houvesse uma fotografia dela. Tão bonita, sempre sorrindo! Ela era casada com um dos meus primos, um Johnson, quando a conheci, e fui sócio dele durante algum tempo. Ele, eu, Meg e Evvie costumávamos reunir-nos nas noites de sábado para jogar pinochle [20] e tomar cerveja, ou coisa parecida... e após algum tempo nós trocamos, legal e apropriadamente nos tribunais, quando Meg resolveu que gostava... de Jack?... sim, de Jack, e Evelyn não foi contra. Isso não afetou nossas relações comerciais, não acabou sequer com o nosso jogo de pinochle. Filho, uma das melhores coisas das Famílias Howard é que ficamos curados do vício venenoso do ciúme gerações antes do resto da raça. Tínhamos que nos curar... sendo as coisas da maneira que eram. Tem certeza de que não há um estereópico dela por aí? Ou um holograma? A Fundação começou a tirar fotografias para os exames físicos de casamento mais ou menos nessa ocasião.

— Vou verificar — disse-lhe eu. Depois tive o que me pareceu uma idéia brilhante. — Lazarus, como todos nós sabemos, os mesmos tipos físicos aparecem de vez em quando nas Famílias. Pedirei aos arquivos uma lista das descendentes femininas de Evelyn Foote que vivem em Secundus. É altamente provável que uma delas pareça sua gêmea univitelina... até no sorriso de felicidade e no temperamento carinhoso. Depois, se você consentir num rejuvenescimento completo, estou certo de que ela teria tanto desejo como Ishtar de dissolver qualquer laço contratual atual... O Sênior me interrompeu:

— Eu disse alguma coisa nova, Ira. Não voltarei atrás, jamais. Claro, você pode encontrar uma moça dessas, que coincida com a minha lembrança de Evelyn em dez aspectos significativos. Mas faltaria um fator importante. Minha mocidade.

— Mas se você terminar o rejuvenescimento...

— Ora, cale-se! Você pode dar-me novos rins, um novo fígado e um novo coração. Pode lavar as manchas escuras da idade do meu cérebro e colocar tecido do meu clone para compensar o que perdi... pode dar-me um corpo de clone totalmente novo. Mas isso não fará de mim aquele sujeito jovem que sentia um prazer inocente na cerveja, no pinochle e numa mulher bonita e gordinha. Tudo o que tenho em comum com ele é a continuidade da memória... e mesmo assim não muita. Esqueça.

— Ancestral — falei calmamente —, quer você queira casar-se com Evelyn Foote outra vez, quer não, você sabe e eu sei (pois passei por isso, também, duas vezes), nós dois sabemos que o processo completo restaura o gosto da juventude pela vida, bem como restaura o corpo como máquina.

Lazarus Long pareceu triste.

— Pois é, certamente. Isso cura tudo, exceto o tédio. Que diabo, rapaz! Você não tem nenhum direito de interferir no meu destino. — Ele suspirou. — Mas também não posso ficar suspenso no limbo. Portanto, diga-lhes para irem em frente. Serviço completo.

Fiquei surpreendido.

— Posso gravar isso, Sênior?

— Você ouviu o que eu disse. Mas isso não o livra do compromisso. Ainda tem que vir aqui e ouvir minhas lamentações até eu estar tão rejuvenescido que fique curado desse comportamento infantil... e ainda tem que continuar com aquela pesquisa. Para encontrar alguma coisa nova, quero dizer.

— De acordo em ambos os pontos, Sênior; você tem a minha promessa. Espere um momento enquanto eu conto à minha computadora...

— Ela já me escutou. Não é? — Lazarus acrescentou: — Ela não tem nome? Você não lhe deu um nome?

— Ah, certamente. Eu não podia lidar com ela todos estes anos sem animismo, embora isso seja uma falácia.

— Falácia não, Ira. As máquinas são humanas porque são feitas segundo a nossa imagem. Elas têm tanto as nossas virtudes como as nossas falhas, aumentadas.

— Nunca tentei racionalizar isso, Lazarus, mas Minerva... esse é o seu nome formal; em particular ela é "Chatinha", porque um dos seus deveres é lembrar-me das obrigações que prefiro esquecer. Minerva parece humana para mim. E mais chegada a mim do que qualquer das minhas mulheres o foi. Não, ela não registrou a sua decisão; colocou-a simplesmente em sua memória temporária. Minerva!

— Si, Ira.

— Fale inglês, por favor. Encontre a decisão do Sênior de ser submetido a uma antigeria completa, arquive-a em sua memória permanente, transmita-a aos arquivos e à Clínica de Rejuvenescimento Howard para execução.

— Completado, sr. Weatheral. Meus parabéns. E parabéns para o senhor, Sênior. "Que o senhor viva tanto quanto desejar e ame tanto quanto viver."

Lazarus pareceu subitamente interessado — o que não me surpreendeu, porque Minerva me surpreende com bastante freqüência mesmo depois de um século de estar "casado" com ela em tudo, exceto de fato.

— Ora, obrigado, Minerva. Mas você me espantou, garota. Ninguém mais fala de amor; isso é uma das coisas mais erradas neste século. Como foi que aconteceu você me desejar esse sentimento antigo?

— Pareceu apropriado, Sênior. Enganei-me?

— Ora, absolutamente. E chame-me de "Lazarus". Mas diga-me, o que você sabe do amor? O que é o amor?

— Em inglês clássico, Lazarus, sua segunda pergunta pode ser respondida de muitas maneiras; em língua galacta ela não pode absolutamente ser respondida. Vamos deixar de lado todas as definições em que o verbo "gostar" é tão apropriado como o verbo "amar"?

— Hein? Certamente. Não estamos falando de "eu amo torta de maçã"... ou mesmo "eu amo música". Do que quer que estejamos falando, é "amor" da maneira como você usou no velho estilo de votos de felicidade.

— De acordo, Lazarus. Então o que resta deve ser dividido em duas categorias, "Eros" e "Ágape", e cada uma definida separadamente. Não posso saber o que é Eros através do conhecimento direto, porque me falta tanto corpo como bioquímica para experimentá-lo. Não posso oferecer nada senão definições intencionais expressas em estatísticas incompletas. Mas, em ambos os casos, eu não seria capaz de verificar essas definições já que não tenho sexo.

(— Uma ova que não tem — resmunguei para mim mesmo. — Ela é tão feminina quanto uma gata no cio. — Mas tecnicamente ela estava correta, e achei muitas vezes que era uma vergonha Minerva não poder experimentar os prazeres do sexo, porque ela estava muito mais preparada para apreciá-los do que algumas fêmeas humanas, que têm todas as glândulas e nenhuma empatia. Mas eu nunca disse isso a ninguém. Animismo... de um tipo particularmente fútil! Um desejo de se "casar" com uma máquina. Tão ridículo como um menino pequeno, que cava um buraco no jardim, e depois berra porque não pode levá-lo para dentro de casa. Lazarus estava certo; eu não era esperto o bastante para dirigir um planeta. Mas quem o é?)

— Vamos deixar Eros por um momento — disse Lazarus com um profundo interesse. — Minerva, a maneira como você construiu essa frase pareceu incluir a presunção de que você poderia experimentar Ágape. Ou "pode". Ou "experimentou". Ou talvez "experimente".

— É possível que eu tenha sido presunçosa ao construir a frase, Lazarus.

Lazarus riu alto, depois parou de repente e falou de tal maneira que me fez pensar que o velho não estava completamente são — salvo que eu próprio não o sou quando o vento vem daquele quadrante. Ou talvez seus longos anos o tenham tornado quase telepático — mesmo com máquinas.

— Desculpe-me, Minerva — disse ele amavelmente. — Eu não estava rindo de você, mas do jogo de palavras com que você me respondeu. Retiro minha pergunta; nunca é próprio interrogar uma senhora sobre sua vida amorosa... E embora você possa não ser uma mulher, querida, certamente é uma dama.

Depois virou-se para mim e o que disse confirmou que havia percebido o segredo que partilho com a minha "Chatinha".

— Ira, Minerva tem potencial de Turing [21]?

— Hein? Certamente.

— Então insisto em que diga a ela para usá-lo. Se é que você foi sincero comigo quando disse que pretende emigrar, aconteça o que acontecer. Pensou bem nisso?

— "Pensei bem nisso"? Minha resolução é firme. Eu lhe disse isso.

— Não é bem isso o que quero dizer. Não sei quem é o proprietário da máquina que se expressa como "Minerva". Os Curadores, suponho. Mas sugiro que você diga a ela para começar a duplicar suas memórias e lógicas, e, quando tiver terminado, começar a armazenar sua gêmea a bordo do meu iate Dora. Minerva saberá de que circuitos e materiais precisa, e Dora saberá qual o espaço disponível. Bastante, já que as memórias e lógicas são tudo o que importa; Minerva não duplicará seus prolongamentos. Mas comece isso já, Ira; você não será feliz sem Minerva... não após depender dela por um século, mais ou menos.

Eu também pensava assim. Mas tentei — debilmente — resistir.

— Lazarus, agora que você concordou com o rejuvenescimento completo, não vou herdar o seu iate. Não num futuro previsível. Além disso, pretendo emigrar logo. Dentro de no máximo dez anos.

— E daí? Se eu morrer, você herda... e não prometi manter minhas mãos longe daquele interruptor de suicídio mais do que mil dias, não importa o quanto você seja paciente e me visite. Mas, se eu estiver vivo, prometo-lhe, e a Minerva, um passeio grátis a qualquer planeta que escolher. Enquanto isso, olhe para a sua esquerda. Nossa garota Ishtar está quase molhando as calcinhas tentando chamar sua atenção. E acho que ela não está usando nenhuma.

Olhei para lá. A administradora de rejuvenescimento trazia um papel que parecia ansiosa para me mostrar. Aceitei-o em deferência ao seu cargo — embora tivesse deixado ordens com o meu delegado executivo para que eu nunca fosse perturbado, quando estivesse com o Sênior, por qualquer motivo menor do que rebelião armada. Olhei o papel, firmei meu selo oficial, imprimi o polegar nele e devolvi-o. Ela sorriu, radiante.

— Apenas trabalho burocrático — disse eu a Lazarus. — Algum escriturário levou todo este tempo para transformar seu consentimento gravado numa ordem escrita. Quer que sigam em frente? Não neste minuto, mas esta noite.

— Bem... Gostaria de procurar uma casa amanhã, Ira.

— Você não está bem instalado aqui? Diga-me o que deseja mudar e isso será feito imediatamente.

Ele encolheu os ombros.

— Não há nada errado com este lugar, exceto que é muito parecido com um hospital. Ou uma cadeia. Ira, estou bem ciente de que eles fizeram mais do que me encherem de sangue novo; estou bastante bem para ser paciente de ambulatório. Morar em algum outro lugar e vir aqui apenas quando o programa exigir.

— Bem... quer desculpar-me enquanto falo galacta um pouco? Quero discutir os aspectos práticos com o seu técnico responsável.

— Você quer desculpar-me, Ira, se eu acentuar que deixou uma senhora esperando? Essa discussão pode esperar. Mas Minerva sabe que sugeri que a mandasse duplicar-se para que ela possa emigrar com você... mas você não disse "Sim" ou "Não", nem fez uma oferta melhor. Se não vai mandá-la fazer isso, é tempo de dizer-lhe para apagar da memória aquela parte da nossa conversa. Antes que ela queime um circuito.

— Ora, Lazarus, ela não pensa em nada do que grava nesta suíte, a menos que receba ordens específicas para isso.

— Quer apostar? Sem dúvida muitos assuntos ela apenas grava... mas neste ela simplesmente tem que pensar; não pode evitar. Você não entende nada de garotas?

Admiti que não.

— Mas sei quais as instruções que dei a ela a respeito de conservar gravações sobre o Sênior.

— Vamos verificar. Minerva...

— Sim, Lazarus?

— Há alguns momentos perguntei a Ira sobre o seu potencial de Turing. Você pensou na conversa que se seguiu?

Juro que ela hesitou — o que é ridículo; uma fração de segundo é mais longa para ela do que um segundo para mim. Além disso, ela nunca hesita. Nunca.

Ela respondeu:

— Minha programação sobre a doutrina objeto da pergunta diz o seguinte: Abre aspas... não analise, compare, transmita, nem manipule de qualquer modo os dados armazenados sob o programa de controle, exceto quando uma sub-programação específica for inserida pelo Presidente Temporário... fecha aspas.

— Deixe disso, querida — disse Lazarus amavelmente. — Você não respondeu. Isso foi uma evasão deliberada. Mas você não está acostumada a mentir, está?

— Não estou acostumada a mentir, Lazarus.

— Minerva! — ordenei quase grosseiramente. — Responda à primeira pergunta do Sênior.

— Lazarus, estive e estou pensando agora naquela parte designada da conversa.

Lazarus ergueu uma sobrancelha para mim.

— Quer dar instruções a ela para responder a mais uma pergunta minha... sinceramente?

Eu estava me sentindo bastante abalado. Minerva me surpreende, sim — mas nunca com evasões.

— Minerva, você vai responder sempre a qualquer pergunta feita a você pelo Sênior completa, correta e simpaticamente. Acuse o recebimento do programa.

— Novo subprograma recebido, colocado na memória permanente, ligado ao Sênior e acusado, Ira.

— Filho, não precisava ir tão longe... Você vai se arrepender. Pedi apenas uma pergunta.

— Fiz isso intencionalmente, Sênior — respondi, empertigado.

— Coisa da sua própria cabeça. Minerva, se Ira emigrar sem você, o que fará?

Ela respondeu imediatamente e em tom bastante monótono:

— Nessa eventualidade, eu me autoprogramarei para destruir-me.

Eu não estava apenas surpreso, estava chocado.

— Por quê?

Ela respondeu baixinho:

— Ira, não servirei a outro senhor.

Suponho que o silêncio que se seguiu não foi de mais que alguns segundos. Pareceu interminável. Não me sentia tão totalmente desamparado desde minha adolescência.

Vi que o Sênior estava olhando para mim, sacudindo a cabeça e parecendo desconsolado.

— O que foi que eu lhe disse, filho? As mesmas falhas, as mesmas virtudes... mas aumentadas. Diga-lhe o que fazer.

— Sobre o quê? — perguntei estupidamente. Meu "computador" pessoal não estava funcionando bem. Estaria Minerva fazendo isso?

— Vamos, vamos! Ela ouviu minha oferta... e pensou nela, apesar de toda a programação. Lamento ter feito a oferta na presença dela... mas não demais, porque foi você que decidiu colocar um microfone em mim; não foi idéia minha. Portanto, fale! Diga-lhe para duplicar-se... ou diga-lhe para não fazê-lo... e tente dizer a ela por que não a levará com você. Se puder. Nunca consegui descobrir para isso uma resposta que uma dama estivesse disposta a aceitar.

— Ora, Minerva, você pode duplicar-se dentro de uma nave? O iate do Sênior, especificamente. Talvez você possa obter as características e especificações dele nos arquivos do porto celeste. Precisa do número de registro dele?

— Não preciso do número dele, Ira. Iate celeste Dora, tenho todos os dados pertinentes para responder. Posso. Tenho instruções para fazê-lo?

— Tem! — disse eu com uma sensação súbita de alívio.

— Novo programa dominante ativado e em funcionamento, Ira! Obrigado, Lazarus!

— Puxa! Devagar, Minerva... Dora é a minha nave. Deixei-a dormindo de propósito. Você a acordou?

— Acordei, Lazarus. Pelo autoprograma sob o novo programa dominante. Mas posso dizer a ela para ir dormir de novo agora; tenho todos os dados de que preciso no momento.

— Tente dizer a Dora para ir dormir de novo e ela lhe dirá para parar de zumbir. Pelo menos. No mínimo. Minerva querida, você se enganou. Não tem nenhuma autoridade para acordar a minha nave.

— Lamento muito discordar do Sênior, mas tenho autoridade para praticar todos os atos apropriados para executar qualquer programa fornecido a mim pelo Presidente Temporário.

Lazarus franziu as sobrancelhas.

— Você deixou-a confusa, Ira; agora, conserte-a. Não posso fazer nada com ela.

Suspirei. Minerva raramente é teimosa — mas quando o é, é mais do que gente de carne e osso.

— Minerva...

— Aguardando ordens, Ira.

— Sou Presidente Temporário. Sabe o que isso significa. O Sênior é mais graduado do que eu. Você não tocará em nada dele sem sua permissão. Isso se aplica ao seu iate, à sua suíte e a tudo o mais que seja dele. Você executará qualquer programa que ele lhe der. Se este entrar em conflito com um programa que eu tiver dado e você não puder resolver o conflito, deverá consultar-me imediatamente, acordando-me se eu estiver dormindo, interrompendo o que quer que eu possa estar fazendo. Mas você não desobedecerá a ele. Estas instruções prevalecem sobre todos os outros programas. Acuse o recebimento.

— Acusado e em funcionamento — respondeu ela humildemente. — Desculpe, Ira.

— A culpa foi minha, Chatinha, não sua. Eu não devia ter-lhe dado um novo programa de controle sem anotar as prerrogativas do Sênior.

— Nenhum prejuízo, garotos — disse Lazarus. — Espero. Minerva, deixe-me dar-lhe um conselho, querida. Você nunca foi passageira numa nave.

— Não, Sênior.

— Vai achá-la diferente de qualquer coisa que já experimentou. Aqui você dá as ordens em nome de Ira. Mas passageiros nunca dão ordens. Nunca. Lembre-se disso. — Lazarus dirigiu-se a mim: — Dora é uma bela navezinha, Ira, prestativa e cordial. Ela pode achar seu caminho através do espaço múltiplo apenas com um indício, a aproximação mais grosseira... e ainda preparar todas as suas refeições a tempo. Mas ela precisa sentir-se apreciada. Faça-lhe festa e diga-lhe que é uma boa garota, e ela se contorcerá como um cachorrinho. Mas ignore-a e ela derramará sopa em você só para chamar atenção.

— Terei cuidado — concordei.

— E você tenha cuidado, Minerva, porque vai precisar da boa vontade de Dora muito mais do que ela da sua. Você pode saber muito mais do que ela... estou certo de que sabe. Mas você cresceu para ser o burocrata principal de um planeta, ao passo que ela cresceu para ser uma nave... assim, o que você sabe não conta, uma vez a bordo.

— Posso aprender — disse Minerva em tom de lamento. — Posso autoprogramar-me para aprender "astrogação" e manejo da nave imediatamente, na biblioteca planetária. Sou muito inteligente.

Lazarus suspirou novamente.

— Ira, você conhece o antigo ideograma chinês para "problema"?

Admiti que não conhecia.

— Não procure adivinhar. É "Duas mulheres sob o mesmo teto". Vamos ter problemas. Ou você terá. Minerva, você não é inteligente. Você é estúpida... quando se trata de lidar com outra mulher. Se quer aprender astrogação de espaços múltiplos, ótimo! Mas não na biblioteca. Convença Dora a ensinar-lhe. Mas nunca se esqueça de que ela é senhora em sua própria nave e não tente lhe mostrar quão inteligente você é. Tenha em mente, em vez disso, que ela gosta de atenção.

— Tentarei, Sênior — respondeu Minerva com uma humildade que raramente mostrava para comigo. — Dora deseja a sua atenção neste momento.

— Ah... ah! Em que estado de espírito ela está?

— Não muito bom, Lazarus. Não admiti que sabia onde você estava, porque tenho instruções em vigor para não discutir os seus assuntos desnecessariamente. Mas aceitei uma mensagem para você sem garantir poder entregá-la.

— Fez bem, Ira, os documentos com o meu testamento incluem um programa para me tirar das memórias de Dora sem tocar em suas habilitações. Mas o problema que você criou ao arrancar-me daquele pulgueiro espalhou-se. Ela está acordada, com suas memórias intactas, e provavelmente com medo. A mensagem, Minerva.

— São vários milhares de palavras, Lazarus, mas o conteúdo semântico é curto. Quer este primeiro?

— Está bem, com o sentido resumido.

— Dora quer saber onde você está e quando irá vê-la. O resto pode ser descrito como onomatopoesia, semanticamente nulo, mas altamente emocional... isto é, expressões pejorativas e insultos improváveis em várias línguas...

— Xi, rapaz!

— ... inclusive numa língua que não conheço mas que, pelo contexto e pela enunciação, deduzi ser mais da mesma coisa, porém mais forte.

Lazarus cobriu o rosto com a mão.

— Dora está praguejando em árabe outra vez. Ira, isto é pior do que pensei.

— Sênior, posso repetir apenas os sons que não estão nos meus vocabulários? Ou prefere a mensagem completa?

— Não, não, não! Minerva, você pragueja?

— Nunca tive motivos para isso, Lazarus. Mas fiquei muito impressionada pelo domínio de Dora na arte.

— Não culpe Dora; ela foi sujeita a más influências quando era muito jovem. Eu.

— Posso ter permissão para arquivar a mensagem dela na minha memória permanente? Para que eu possa dizer nomes feios se for necessário?

— Não tem permissão. Se Ira quisesse que você aprendesse palavrões, ele mesmo lhe ensinaria. Minerva, pode conseguir uma linha telefônica da minha nave para esta suíte? Ira, é melhor eu cuidar disso agora; não vai melhorar.

— Lazarus, posso conseguir uma linha telefônica padrão, se é isso o que quer. Mas Dora pode falar com você imediatamente pelo duo da sua suíte, que estou usando agora.

— Ah! Ótimo!

— Devo fornecer a ela sinal holográfico também? Ou som é o bastante?

— Basta o som. É mais do que suficiente, provavelmente. Você poderá ouvir também?

— Se você desejar, Lazarus. Mas pode falar em particular, se é esse o seu desejo.

— Fique aí; posso precisar de um árbitro. Ponha-a na linha.

 

— Chefe? — Era a voz de uma garotinha tímida. Ela me fez pensar em joelhos ralados e nenhum seio ainda, olhos grandes e trágicos.

— Estou aqui, garota — respondeu Lazarus.

— Chefe! Que Deus atire sua alma piolhenta no inferno! O que pretendia fugindo sem me dizer onde está? De todos os imundos, infestados de pulgas...

— Cale a bocal

A voz tímida de garotinha voltou:

— Sim, senhor, capitão — disse ela, hesitante.

— Aonde vou, quando vou e quanto tempo fico não é da sua conta. Sua função é pilotar e cuidar da casa, isso é tudo.

Ouvi uma voz fanhosa, exatamente como a de uma criança pequena contendo as lágrimas.

— Sim, chefe.

— Você devia estar dormindo. Eu próprio a pus na cama.

— Alguém me acordou. Uma senhora estranha.

— Isso foi um engano. Mas você usou palavrões com ela.

— Bem... eu estava assustada. Estava realmente, chefe. Acordei e pensei que você tivesse vindo para casa... e você não estava em lugar nenhum, em lugar nenhum. Ah... ela falou de mim?

— Ela transmitiu sua mensagem para mim. Felizmente não compreendeu a maior parte das suas palavras. Mas eu compreendi. O que foi que eu disse a você quanto a ser amável com estranhos?

— Lamento, chefe.

— Lamentar-se não faz com que as vacas sejam ordenhadas. Agora, adorável Dora, escute-me. Não vou castigá-la; você foi acordada por engano, ficou assustada e sentiu-se solitária. Portanto, vamos esquecer isso. Mas você não devia falar daquela maneira com estranhos. Essa senhora... é uma amiga minha, e deseja ser sua amiga também. Ela é uma computadora...

— É?

— Da mesma forma que você, querida.

— Então ela não pode me magoar, pode? Pensei que ela estivesse dentro de mim, bisbilhotando. Por isso gritei por você.

— Não só ela não pode, como nunca vai querer magoar você. — Lazarus levantou a voz ligeiramente: — Minerva! Venha, querida, e diga a Dora quem é você.

A voz da minha ajudante, calma e tranqüilizadora, disse:

— Sou uma computadora, Dora, chamada Minerva pelos meus amigos... e espero que você me chame assim. Lamento terrivelmente tê-la acordado. Eu ficaria assustada também, se alguém me acordasse daquela maneira.

(Minerva nunca "dormira" naqueles cento e tantos anos desde que fora ativada. Ela descansa cada parte de si mesma segundo um certo programa que eu não preciso conhecer — mas ela própria está sempre acordada. Ou acorda tão instantaneamente sempre que falo com ela, que não se importa.)

— Como vai, Minerva? — disse a nave. — Desculpe ter falado como falei.

— Se você falou não me lembro disso, querida. Ouvi seu capitão dizer que transmiti uma mensagem sua para ele. Mas está apagada, agora que foi transmitida. Mensagem particular, suponho.

(Minerva estava dizendo a verdade? Até ela cair sob a influência de Lazarus eu diria que ela não sabia mentir. Agora não tinha mais certeza disso.)

— Alegro-me por tê-la apagado, Minerva. Lamento ter falado com você daquela maneira. O chefe está zangado comigo por causa disso.

— Ora, ora, Adorável — Lazarus interrompeu —, pare com isso. Sempre deixamos a água por cima da ponte ficar onde Jesus a lançou; você sabe disso. Quer ser uma boa garota e ir dormir outra vez?

— Tenho que fazer isso?

— Não. Você não precisa nem mesmo se colocar em marcha lenta. Mas não posso ir vê-la, ou falar com você, antes de amanhã no fim da tarde. Estou ocupado hoje e vou procurar casa amanhã. Você pode ficar acordada e aborrecer-se estupidamente da maneira que quiser. Mas, se inventar alguma emergência falsa para chamar minha atenção, vou espancá-la.

— Mas, chefe, sabe que nunca faço isso.

— Sei que você faz isso, diabrete. Mas, se me chatear por alguma coisa menos grave do que alguém tentando entrar à força em você, ou você estar pegando fogo, vai se arrepender. Se eu desconfiar de que pôs fogo em si mesma, vai apanhar duas vezes mais. Olhe, querida, por que pelo menos não dorme sempre que eu durmo? Minerva, pode avisar a Dora quando eu for dormir? E quando eu acordar?

— Certamente, Lazarus.

— Mas isso não significa que pode incomodar-me quando estou acordado, Dora, a não ser para emergências reais. Nada de treinamentos de surpresa... isto não é rotina de bordo; estamos pousados e estou ocupado. Hã... Minerva, como é sua capacidade de lazer? Joga xadrez?

— Minerva tem ampla capacidade de lazer — interrompi. Antes, porém, que eu pudesse acrescentar que ela era campeã de Secundus, com vantagem aberta limitada (com uma vantagem de Q, B de Q e R e R de K), Minerva disse:

— Talvez Dora me ensine a jogar xadrez.

(Bem, Minerva certamente aprendera a regra de Lazarus para dizer a verdade seletivamente. Fiz uma anotação de que precisava ter uma séria conversa em particular com ela.)

— Teria prazer nisso, srta. Minerva! Lazarus relaxou.

— Ótimo. Vocês, garotas, travem relações. Adeus, até amanhã, Adorável. Agora dê o fora.

Minerva avisou-nos de que o iate não estava mais em contato e Lazarus relaxou. Minerva voltou ao seu papel de gravadora e ficou calada. Lazarus disse, desculpando-se:

— Não se deixe iludir por seus modos infantis, Ira; você não encontrará um piloto mais hábil ou uma dona-de-casa mais metódica a bordo, daqui até o centro galáctico. Mas tive motivos para não deixá-la crescer em outros sentidos, motivos que não se aplicarão quando você assumir como seu senhor. Ela é realmente uma boa garota. Só que é como um gato que pula no colo da gente no instante em que nos sentamos.

— Achei-a encantadora.

— É uma pirralha mimada. Mas a culpa não é dela; sou praticamente a única companhia que ela já teve. Fico chateado com um computador que simplesmente murmura números, dócil como uma régua de cálculo. Não é companhia para uma viagem longa. Você queria falar com Ishtar sobre procurar uma casa para mim, não é? Diga-lhe que não deixarei isso interferir no processo. Quero apenas um dia de folga, isso é tudo.

— Direi a ela. — Virei-me para a administradora de rejuvenescimento e mudei para galacta, perguntando-lhe quanto tempo levaria para esterilizar uma suíte no palácio e instalar equipamentos de descontaminação para plantonistas e visitantes.

Antes que ela pudesse responder, Lazarus falou:

— Ei! Espere um momentinho. Acho que você entornou o caldo, Ira.

— Perdão, Sênior?

— Você tentou enganar-me. "Descontaminar" é a mesma palavra em inglês e em galacta. Não que isso seja novidade para mim; meu faro não está tão mal assim. Quando uma garota bonita se inclina para mim, espero sentir-lhe o perfume. Mas quando não posso sequer sentir o cheiro da moça e sinto o de germicidas... Bem, ipse dixit e Qed. Minerva!

— Sim, Lazarus?

— Pode dispor de algum tempo para me fazer uma recapitulação, enquanto eu estiver dormindo esta noite, das novecentas palavras básicas em galacta, ou seja que número for preciso? Está equipada para isso?

— Certamente, Lazarus.

— Obrigado, querida. Uma noite deve bastar, mas apreciarei um treinamento de vocabulário cada noite até nós dois acharmos que adquiri uma proficiência adequada. Pode ser?

— Pode ser, Lazarus. E o farei.

— Obrigado, querida, terminado e desligo. Agora, Ira, está vendo aquela porta? Se ela não se abrir à minha voz, vou tentar arrombá-la. Se não conseguir, vou verificar se aquele interruptor de suicídio está ou não realmente ligado... testando-o. Porque se aquela porta não se abrir, serei um prisioneiro, e quaisquer promessas que tenha feito devido às suas afirmações de que sou um agente livre não estarão valendo. Mas se ela se abrir à minha voz, aposto o que você quiser como haverá uma câmara de descontaminação atrás dela, guarnecida e pronta para funcionar. Digamos um milhão de coroas, para tornar a coisa interessante? Não, você não se assustou; vamos dizer dez milhões de coroas.

Espero não ter parecido assustado. Nunca tive tanto dinheiro assim, e um Presidente Temporário perde o hábito de pensar em seu próprio dinheiro; não há necessidade disso. Eu não pedia meu saldo pessoal a Minerva fazia algum tempo. Anos, talvez.

— Lazarus, não vou apostar. Sim, há uma instalação de descontaminação do lado de fora; tentamos protegê-lo de possíveis infecções sem comunicar-lhe isso. Vejo que falhamos. Não verifiquei a respeito da porta...

— Mentindo outra vez, filho. Você não é bom nisso.

— ...mas, se ela não estiver ligada à sua voz agora, foi por descuido meu; você me manteve ocupado. Minerva, se a porta para esta suíte não estiver ligada à voz do Sênior, corrija isso imediatamente.

— Ela está ligada à voz dele, Ira.

Relaxei quando vi a maneira como ela disse isso — talvez um computador que tivesse aprendido quando não ser cegamente verdadeiro fosse algo mais que um companheiro.

Lazarus sorriu diabolicamente.

— Está mesmo? Então vou começar a testar o programa superdominante que você deu a ela um tanto apressadamente. Minerva!

— Aguardando suas ordens, Sênior.

— Ligue a porta com a minha suíte, de forma que ela se abra apenas à minha voz. Vou sair e desfilar por aí... enquanto Ira e estes garotos ficam trancados aqui dentro. Se eu não estiver de volta em meia hora, pode soltá-los.

— Conflito, Ira!

— Cumpra as ordens dele, Minerva. — Tentei manter a voz baixa e firme.

Lazarus sorriu e permaneceu em sua cadeira.

— Não há necessidade de mostrar os abridores, Ira; não há nada lá fora que eu queira ver. Minerva, deixe que a porta volte ao normal. Deixe-a abrir-se a qualquer voz, inclusive a minha. Lamento aquele conflito, querida; espero que ele não tenha queimado nada.

— Não causou nenhum dano, Lazarus. Quando me deram aquelas instruções superdominantes, aumentei as tolerâncias de sobrecarga na minha rede de resolução de problemas.

— Você é uma moça esperta. Tentarei evitar conflitos no futuro. Ira, é melhor retirar essa superdominação. Não é justo para Minerva. Ela se sente como uma mulher com dois maridos.

— Minerva pode cuidar disso — garanti a ele com mais calma do que sentia.

— Você quer dizer que é melhor eu cuidar disso. Cuidarei. Disse a Ishtar que vou procurar casa?

— Não fui tão longe. Estava discutindo com ela a praticabilidade de você morar no palácio.

— Ora, Ira... Palácios não me atraem, e ser hóspede é pior ainda. Uma amolação tanto para o anfitrião como para o hóspede. Amanhã encontrarei um hilton residencial que não receba turistas ou convenções. Depois correrei até o porto celeste para ver Dora, acariciar o seu traseiro e acalmá-la. No dia seguinte, ou depois, encontrarei uma casinha afastada nos subúrbios, suficientemente automatizada para não ter problemas... mas com jardim próprio. Tem que ter um jardim. Precisarei subornar alguém para se mudar; a casa que quero não vai estar vazia. Sabe, por acaso, quanto ainda tenho no Harriman Trust? Se é que tenho alguma coisa.

— Não sei, mas isso não é problema. Minerva, abra uma conta corrente para o Sênior. Sem limite.

— Acusado, Ira. Concluído.

— Conclusão notada. Lazarus, você não seria uma amolação. E você não o achará palaciano, desde que evite as taxas públicas. É o que sempre faço. Além disso, você não será hóspede de ninguém. Ele é chamado de palácio executivo, mas o seu nome oficial é A Casa do Presidente. Você estará morando em sua própria casa. Se houver algum hóspede, esse serei eu.

— Conversa mole, Ira.

— É verdade, Lazarus.

— Pare de fazer jogo de palavras. Eu ainda seria um estranho numa casa que não fosse verdadeiramente minha. Um hóspede. Não caio nessa.

— Lazarus, você disse... ontem à noite — lembrei-me em tempo do dia perdido — que sempre pode fazer negócios com qualquer pessoa que esteja agindo em seu próprio interesse com qualquer pessoa que esteja agindo em seu próprio interesse e declare isso.

— Acho que eu disse "geralmente" em vez de "sempre"... querendo dizer que podemos então procurar uma maneira que atenda aos interesses pessoais de nós dois.

— Então me escute. Você me deixou atado com esta aposta de Xerazade. Bem como com a pesquisa para encontrar alguma coisa nova que o interesse. Agora você balançou uma isca sob o meu nariz que me faz desejar emigrar mais cedo... bem, o mais cedo possível; não levará muito tempo para os Curadores recusarem uma migração das Famílias. Vovô, é bastante aborrecido correr até aqui todos os dias; não anseio ir de carroça até o mato lá longe, a viagem tomaria o pouco tempo que me resta para trabalhar. Além disso, é perigoso.

— Morar sozinho? Ira, morei sozinho muitas vezes.

— É perigoso para mim. Assassinos. Estou seguro no palácio; o rato que conseguiria penetrar naquele labirinto ainda está para nascer. Estou razoavelmente seguro aqui dentro da clínica e posso andar de um lado para outro com segurança, sujeito apenas aos caprichos da maquinaria automática. Mas, se eu adotar um padrão diário de ir até uma casa não fortificada em algum lugar lá nos subúrbios, então é apenas uma questão de tempo até que algum maluco considere isso como uma oportunidade para salvar o mundo eliminando-me. Ah, ele não sobreviveria a isso; meus guardas não são tão ineficientes assim. Se eu insistir em me apresentar como alvo, porém, ele pode me pegar antes que eles o peguem. Não, vovô, não pretendo ser assassinado.

O Sênior ficou pensativo, mas não impressionado.

— Eu poderia responder que sua segurança e sua conveniência estão relacionadas ao seu próprio interesse. Não ao meu.

— É verdade — admiti. — Mas deixe-me atirar as iscas que puder. É do meu interesse que você more no palácio. Lá posso visitá-lo com toda a segurança, mais até do que aqui, e a viagem se torna uma questão de segundos, desprezível. Lá, posso até pedir-lhe para me dispensar por meia hora, se aparecer alguma coisa urgente. Isso define o meu interesse. Quanto ao seu, Sênior... Você estaria interessado numa casa de campo de solteiro, bastante pequena, quatro quartos, e não especialmente moderna ou luxuosa, mas construída no meio de um jardim agradável? Possui três hectares, mas só a parte próxima da casa é ajardinada; deixou-se o resto do mato crescer desordenadamente.

— Qual é a vantagem disso, Ira? Quão moderna é "não especialmente"? Eu disse "automatizada", porque ainda não estou em condições de cuidar de mim mesmo, nem tenho paciência com as excentricidades dos empregados ou as incertezas caprichosas dos robôs.

— Ah, esta casinha é suficientemente automatizada; apenas não tem uma porção de extravagâncias complicadas. Não exige nenhum empregado se os seus gostos forem simples. Você permitirá que a clínica continue a dar plantões com você se os plantonistas forem tão agradáveis e tão agradavelmente não-intrometidos como estes dois?

— Hein? Estes garotos são bons, gosto deles. Compreendo que a clínica deseja ficar de olho em mim; eles provavelmente acham que sou mais um desafio do que apenas um cliente com trezentos ou quatrocentos anos. Está bem. Mas avise que espero sentir cheiro de perfume, não de germicidas. Ou aromas razoavelmente frescos de corpo; não sou exigente. Repito, qual é a vantagem disso?

— Uma ova que você não é exigente, Lazarus! Você adora inventar condições impossíveis. Esta casinha está bastante atravancada com livros fora de moda; o último inquilino era excêntrico. Mencionei um pequeno regato passando pelo terreno, que deságua num pequeno lago perto da casa? Não é grande coisa, mas pode-se dar algumas braçadas nele. Ah, esqueci-me de mencionar um velho gato que acha que é dono do lugar. Mas você provavelmente não o verá; ele odeia a maioria das pessoas.

— Não o incomodarei se ele quiser ficar sozinho; os gatos são bons vizinhos. Você ainda não me respondeu.

— A vantagem é esta, Lazarus. Estive descrevendo a casa que construí para meu próprio uso na cobertura do palácio, há cerca de noventa anos, quando decidi que ficaria neste emprego por algum tempo. Só se tem acesso a ela por transporte vertical, a partir da minha moradia habitual, dois andares abaixo. Nunca tive muito tempo para usá-la; você será bem-vindo a ela. — Levantei-me. — Mas se você não ficar com ela, então pode considerar que perdi a aposta Xerazade, e tem liberdade para usar aquele interruptor final quando quiser. Porque macacos me mordam se vou servir de alvo imóvel de assassinato só para satisfazer os seus caprichos!

— Sente-se de novo!

— Não, obrigado. Fiz uma oferta razoável. Se não a aceitar, pode ir para o inferno à sua própria maneira. Não o deixarei montar nos meus ombros como o Velho do Mar. Só pode abusar de mim até aí.

— Estou vendo. Quanto represento na sua ascendência?

— Cerca de trinta por cento. Uma convergência considerável.

— Só isso? Pensei que fosse mais. Em alguns sentidos você parece o meu avô. O meu interruptor de suicídio vai também?

— Se você quiser — respondi da maneira mais indiferente que pude. — Ou pode saltar pela borda. É uma longa queda.

— Prefiro o interruptor, Ira; odiaria mudar de idéia durante a queda. Você me arranja outro meio de transporte para que eu não tenha de passar pelo seu apartamento?

— Não.

— Hein? Isso é tão difícil assim? Vamos perguntar a Minerva.

— Não é que eu não possa... não quero. Isso é um pedido pouco razoável. Não prejudica você em nada mudar de transporte no meu vestíbulo. Já não tornei claro que não vou atender a mais nenhum capricho pouco razoável?

— Fique calmo, filho. Aceito. Amanhã, digamos. Não se preocupe em retirar aquele monte de livros. Gosto de livros encadernados fora de moda; têm mais sabor que leituras dinâmicas, projeções ou coisas parecidas. E estou satisfeito em ver que você é um rato e não um camundongo. Sente-se, por favor.

Assim fiz, fingindo relutância. Sentia que estava começando a levar a melhor sobre Lazarus. Apesar da maneira como zombava deles, o velho patife era um igualitário de coração... e dava expressão a isso tentando dominar qualquer pessoa com que entrasse em contato — mas desprezava qualquer um que se submetesse às suas bravatas. Assim, a única saída era revidar os seus golpes, tentar manter um equilíbrio de poder — e esperar que, com o tempo, alcançássemos a estabilidade do respeito mútuo.

Nunca tive motivos para mudar de idéia. Ele era capaz de demonstrar bondade e até afeição para com quem aceitasse um papel subordinado — se essa pessoa fosse uma criança ou uma mulher. Ele não gostava de um homem adulto que dobrasse o joelho, nem confiava nele.

Acho que essa singularidade do seu caráter tornava-o muito solitário.

Pouco depois o Sênior disse, pensativo:

— Vai ser bom morar numa casa por algum tempo. Com um jardim. Talvez um lugar onde eu possa estender uma rede.

— Há vários lugares assim.

— Mas estou expulsando-o do seu refúgio.

— Lazarus, há tanto espaço naquela cobertura que eu poderia mandar construir outra casinha que não fosse vista da sua. Se eu quisesse. Não quero. Não subo lá nem para nadar há várias semanas. Faz pelo menos um ano que não durmo lá em cima.

— Bem... Espero que se sinta livre para subir e nadar. A qualquer momento. Ou quando quiser.

— Espero ficar lá em cima todos os dias e o dia inteiro, durante os próximos mil dias. Já esqueceu a nossa aposta?

— Ora, aquilo! Ira, você estava reclamando que com minhas maneiras extravagantes eu estava fazendo você desperdiçar o seu precioso tempo. Quer que o livre do compromisso? Não do outro, só desse.

Ri para ele.

— Endireite o seu saiote, Lazarus, o seu interesse pessoal está aparecendo. Quero dizer que você quer se livrar dele. Nada feito. Pretendo gravar mil e um dias das suas memórias. Depois disso, você pode saltar pela borda, afogar-se no lago, fazer o que quiser. Mas não o deixarei sair dessa fingindo fazer-me um favor. Estou começando a compreendê-lo.

— Está? Isso é mais do que já consegui. Quando tiver acabado de me compreender, fale-me a meu respeito; estarei interessado. Essa procura de alguma coisa nova, Ira... Você disse que a havia começado.

— Eu não disse isso, Lazarus.

— Bem, talvez tenha apenas insinuado.

— Nem mesmo isso. Quer apostar? Podemos pedir a Minerva um relatório completo, depois aceitarei o seu veredicto.

— Não vamos fazer com que uma senhora se veja tentada a falsificar o relatório, Ira; ela é leal a você, não a mim. Apesar de todas as superdominâncias.

— Medroso.

— Em todas as oportunidades, Ira; como acha que vivi tanto tempo? Só aposto quando tenho certeza de ganhar ou quando perder atende ao meu verdadeiro objetivo. Está bem, quando é que você vai começar aquela pesquisa?

— Já comecei.

— Mas você disse... Não, não disse. Maldita seja a sua ousadia, rapaz. Está bem, em que direção está levando a pesquisa?

— Em todas as direções.

— Impossível. Você não tem tanta gente à sua disposição, mesmo supondo que todos sejam capazes... embora as pessoas capazes de pensamento criativo sejam menos de uma em mil.

— Não discuto. E quanto ao tipo de pessoa que você disse que era exatamente como nós... apenas aumentada? Minerva é a diretora de pesquisa disto, Lazarus. Conversei sobre o assunto com ela; está fazendo isso. Em todas as direções. Uma investigação Zwicky [22].

— Hum... Bem... sim. Ela poderia... Acho que poderia. Embora mesmo Andy Libby pudesse achar isso difícil. Como é que ela está projetando sua caixa morfológica?

— Não sei. Vamos perguntar-lhe?

— Só se ela estiver pronta para receber perguntas, Ira. As pessoas se aborrecem quando são interrompidas para fazer relatórios sobre o andamento do seu trabalho. Até Andy Libby costumava ficar irritado quando alguém o apressava.

— Mesmo o grande Libby provavelmente não tinha a capacidade de lazer que Minerva tem. A maioria dos cérebros são simplesmente lineares, e nunca ouvi falar de nenhum gênio humano que tivesse mais de três pistas.

— Cinco.

 

— É? Bem, você conheceu mais gênios do que eu. Mas não sei quantas pistas simultâneas Minerva pode estabelecer; simplesmente nunca a vi sobrecarregada. Vamos perguntar-lhe. Minerva, você estabeleceu a caixa morfo para aquela pesquisa de "alguma coisa nova" para o Sênior?

— Sim, Ira.

— Fale-nos a respeito disso.

— A matriz preliminar usa cinco dimensões, mas com uma certeza de que serão necessárias dimensões auxiliares para novos escaninhos. Notado isso, há agora nove por cinco por treze por oito por setenta e três, ou trezentos e quarenta e um mil seiscentos e quarenta bolsos de categoria discreta antes das expansões auxiliares. Para verificação, a leitura trinária original é unidade par par vírgula unidade nada nada vírgula unidade par par vírgula unidade nada nada ponto nada. Devo imprimir os decimais e as expressões trinárias?

— Acho que não, Chatinha; no dia em que você cometer um engano em aritmética, terei que renunciar. Lazarus?

— Não estou interessado em escaninhos, só no que há neles. Conseguiu alguma coisa, Minerva?

— Como foi dito, Lazarus, sua pergunta não permite uma resposta específica. Devo imprimir as categorias para que você examine?

— Ah... Não! Mais de trezentas mil categorias e talvez uma dúzia de palavras para definir cada uma? Mergulharíamos em papel até os quadris. — Lazarus ficou pensativo. — Ira, você podia pedir a Minerva para imprimir isso em algum outro lugar antes de apagar. Como um livro. Um livro grande, dez ou quinze volumes. Pode chamá-lo de Variedades da experiência humana, de... Ah, Minerva Weatheral. Seria o tipo de coisa sobre a qual os professores discutiriam durante mil anos. Não estou brincando, Ira; isso deve ser preservado. Acho que é novo. É uma tarefa grande demais para gente de carne e osso, e eu duvido um pouco de que um computador do calibre de Minerva tenha sido solicitado alguma vez a fazer este tipo de Zwicky.

— Minerva, você gostaria disso? Preservar suas notas de pesquisa e editá-las em forma de livro? Digamos algumas centenas de exemplares encadernados em tamanho grande num belo formato de apresentação, mais micro memórias para as bibliotecas de Secundus e de outros lugares. Para os arquivos, também... posso pedir a Justin Foote que escreva um prefácio.

Eu estava apelando intencionalmente para a vaidade dela — e, se você pensa que os computadores não têm essas fraquezas humanas, então acho que sua experiência com eles é limitada; Minerva sempre gostou de ser apreciada, e nós dois só começamos a ser uma equipe após eu perceber isso. O que mais se pode oferecer a uma máquina? Pagamento maior e férias mais longas? Não sejamos tolos.

Mas ela me surpreendeu ainda uma vez, respondendo numa voz quase tão tímida quanto a do iate de Lazarus, e bastante formalmente:

— Senhor Presidente Temporário, seria próprio e o senhor daria permissão para eu colocar na página do título "de Minerva Weatheral"?

— Ora, certamente — respondi. — A não ser que você prefira assinar simplesmente "Minerva".

— Não seja idiota, filho — disse Lazarus bruscamente. — Querida, assine naquela página do título "Minerva L. Weatheral". O "L" é de "Long"... porque você, Ira, teve um filho ilegítimo com uma das minhas filhas em algum planeta fronteiriço naqueles dias descuidados da sua juventude e só recentemente resolveu registrar o fato nos arquivos. Atestarei o registro... acontece que eu estava lá na ocasião. Mas a dra. Minerva L. Weatheral está agora em alguma parte no caminho do inferno e sumida, fazendo pesquisas para a sua próxima magnum opus... Não se pode entrar em contato com ela para que faça uma entrevista. Ira, você e eu vamos escrever às pressas as notas biográficas para a minha ilustre neta. Entendeu?

Respondi simplesmente que sim.

— Isso lhe convém, garota?

— Sim, realmente, Lazarus. Vovô Lazarus.

— Não precisa me chamar de Vovô. Mas quero o exemplar de apresentação o número 1, dedicado a mim, querida. "Ao meu avô Lazarus Long, com amor, Minerva L. Weatheral." Combinado?

— Ficarei orgulhosa e feliz de fazer isso, Lazarus. Uma dedicatória deve ser manuscrita, não é? Posso alterar a extensão que uso para assinar documentos oficiais para Ira... uma modificação, de forma que a dedicatória manuscrita seja diferente da sua letra.

— Ótimo. Se Ira se comportar, você pode pensar em dedicar o livro a ele e dar-lhe um exemplar com dedicatória. Mas eu receberei o primeiro exemplar. Sou mais velho... e tive a idéia. Mas, voltando à pesquisa em si... Nunca vou ler aquela obra de vinte volumes, Minerva; estou interessado apenas nos resultados. Portanto, conte-me o que você tem até agora.

— Lazarus, rejeitei experimentalmente mais da metade da matriz por apresentar coisas que os arquivos mostram que você fez, ou coisas que suponho que você não gostaria de...

— Espere! Como disse o fuzileiro: "Se ainda não fiz isso, tentarei". Quais são essas coisas que você supõe que eu não gostaria de experimentar? Vamos ouvi-las.

— Sim, Sênior. Uma submatriz, três mil seiscentos e cinqüenta bolsos envolvem todos um resultado provavelmente fatal, probabilidade de mais de noventa e nove por cento. Em primeiro lugar, explorar pessoalmente o interior de uma estrela ...

— Risque essa, vou deixá-la para os físicos. Além disso, Lib e eu fizemos isso certa vez.

— Os arquivos não mostram isso, Lazarus.

— Uma porção de coisas não estão nos arquivos. Continue.

— Modificação do seu padrão genético para fazer crescer um clone anfíbio capaz de viver nas águas do oceano.

— Não tenho certeza de estar interessado assim em peixes. Qual é a vantagem disso?

— Três vantagens, Lazarus, cada uma com risco inferior a noventa e nove por cento, mas, quando tomadas em série, totalizam quase a unidade. Esses anfíbios pseudo-humanos já foram criados, mas os viáveis, até agora, parecem-se bastante com rãs muito grandes. As probabilidades de sobrevivência de tal criatura em comparação com outros habitantes das profundezas, estimadas em Secundus, foram calculadas teoricamente como iguais para dezessete dias, vinte e cinco por cento para trinta e quatro dias, e assim por diante.

— Acho que posso melhorar essas probabilidades. Mas jamais gostei muito de roleta-russa. Os outros riscos?

— Instalar seu cérebro no clone modificado, depois introduzi-lo novamente num clone normal mais tarde. Se você sobreviver.

— Risque essa. Se eu tiver que viver embaixo da água, não quero ser uma rã; quero ser o maior e mais cruel tubarão do oceano. Além disso, imagino que, se viver embaixo da água fosse tão interessante assim, ainda estaríamos lá. Dê-me outra amostra.

— Uma amostra tripla, Sênior. Perdido no espaço n com uma nave, sem uma nave mas com um traje, e sem sequer um traje.

— Risque todas elas. Cheguei mais perto do que gosto de pensar das duas primeiras, e a terceira é apenas uma maneira tola de se afogar no vácuo. Incômoda e desagradável. Minerva, o Todo-Poderoso, em Sua Majestosa Sabedoria, o que quer que isso signifique, tornou possível aos seres humanos morrerem pacificamente. Assim sendo, a menos que forçado, é bobagem fazer isso de maneira difícil. Portanto, cancele afogar-me em lagartas, auto-imolação e todas as maneiras tolas de morrer. Muito bem, querida; você me convenceu de que sabe do que está falando a respeito daqueles mais de noventa e nove por cento de riscos; cancele todos. Estou interessado apenas em alguma coisa nova, para mim, na qual as probabilidades de sobreviver sejam maiores do que cinqüenta por cento e na qual um homem que fique alerta melhore suas probabilidades. Por exemplo, nunca ansiei cair de cachoeiras dentro de um barril. Pode-se projetar o barril de modo que se torne relativamente seguro; apesar disso, uma vez que a pessoa comece, torna-se impotente. Isso torna a proeza tola... a menos que seja a maneira mais segura para livrar-se de uma situação pior. Corridas de carro, de obstáculos, de esquis são mais interessantes, porque todas exigem habilidade. Contudo, não gosto desse tipo de perigo, tampouco. O perigo pelo gosto do perigo é coisa para crianças, que não acreditam realmente que possam morrer. Ao passo que eu sei que posso. Portanto, há uma porção de montanhas que nunca escalarei. A menos que seja obrigado, caso em que o farei... Já o fiz! Da maneira mais fácil, segura e medrosa que pude imaginar. Não se incomode com nada em que a novidade principal seja o perigo: ele não é nenhuma novidade. É simplesmente alguma coisa a ser enfrentada quando não se pode fugir. E quanto aos outros escaninhos da sua caixa?

— Lazarus, você podia transformar-se em mulher.

— Hein?

Acho que nunca vi o Sênior tão espantado. (Eu também estava, mas a afirmação não fora dirigida a mim.)

— Minerva — continuou ele, devagar —, não estou certo do que você quer dizer. Os cirurgiões vêm transformando homens inadequados em mulheres improvisadas há mais de dois mil anos... e mulheres em homens improvisados há quase o mesmo tempo. Essas proezas não me atraem. Certo ou errado, sou homem. Suponho que todo ser humano já imaginou como seria se fosse do outro sexo. Mas nem a cirurgia plástica nem todos os tratamentos de hormônios possíveis conseguirão isso... esses monstros não se reproduzem.

— Não estou falando de monstros, Lazarus. Uma mudança de sexo verdadeira.

— Hum... Você me faz lembrar de uma história que eu quase havia esquecido. Não tenho certeza se é verdadeira.

Sobre um homem, hã, deve ter sido por volta do ano 2000 da era cristã. Não podia ser muito mais tarde porque as coisas se esfacelaram não muito tempo depois. Deviam transferir o seu cérebro para o corpo de uma mulher. Mataram-no, é claro. Rejeição de tecido estranho.

— Lazarus, isto não envolveria tal risco; seria feito com o seu próprio clone.

— Não é viável, bolas. Continue falando.

— Lazarus, isso foi testado em outros animais além do Homo sapiens. Funciona melhor quando se transforma um homem numa mulher. Uma única célula é selecionada para ser clonada. Antes de começar o clonamento, o cromossomo Y é retirado e é fornecido um cromossomo X de uma segunda célula do mesmo zigoto, criando assim uma célula feminina do mesmo padrão genético que o zigoto, salvo que o cromossomo X é copiado enquanto o cromossomo Y é eliminado. A célula modificada é então clonada. O resultado é um clone-zigoto verdadeiramente feminino oriundo de um original masculino.

— Deve haver algum entrave — disse Lazarus franzindo as sobrancelhas.

— Pode haver, Lazarus. O certo é que a técnica básica funciona. Há várias fêmeas fabricadas, no edifício em que você está. Cachorras, gatas, uma porca e outras... E a maioria delas têm se reproduzido com sucesso... exceto quando, por exemplo, uma cadela fabricada é acasalada com o cachorro macho que forneceu a célula para o clonamento. Isso pode produzir abortos e monstruosidades devido à alta probabilidade de reforçar os genes recessivos...

— Foi o que pensei!

— Sim. Mas os cruzamentos normais exógamos não os produzem, como indicam setenta e três gerações de cricetídeos originários de uma fêmea fabricada. O método não foi adaptado à fauna nativa de Secundus devido à sua estrutura genética radicalmente diferente.

— Esqueça os animais de Secundus... e quanto aos homens?

— Lazarus, só pude pesquisar a literatura sobre itens liberados pela Clínica de Rejuvenescimento. A literatura publicada indica problemas na última fase, ativando-se o clone-zigoto feminino com as lembranças e experiências (a "personalidade", se você preferir esse termo) do progenitor masculino. Quando eliminar o progenitor masculino, ou mesmo se se deve eliminá-lo, suscita vários problemas. Mas não estou apta a dizer se a pesquisa foi cancelada.

Lazarus virou-se para mim.

— Você permite isso, Ira? O cancelamento de pesquisas?

— Não interfiro, Lazarus. Mas eu não sabia que tal pesquisa estava sendo realizada. Vamos descobrir. — Virei-me para a administradora de rejuvenescimento, mudei para galacta, expliquei o que estávamos discutindo e perguntei que progressos haviam sido feitos com os seres humanos.

Voltei-me com as orelhas queimando. Assim que eu mencionei os seres humanos em relação a isto, ela me interrompeu abruptamente — como se eu tivesse dito alguma coisa ofensiva — e declarou que essas experiências eram proibidas.

Traduzi a resposta dela. Lazarus baixou a cabeça, concordando.

— Li a fisionomia da garota; pude perceber que a resposta era "Não". Bem, Minerva, parece que isso é tudo. Não vou tentar a cirurgia de cromossomos em mim mesmo... alguém roubou meu canivete.

— Talvez isso não seja o fim — replicou Minerva. — Ira, notou que Ishtar disse apenas que essa pesquisa era "proibida"? Ela não disse que não foi realizada. Acabei de fazer uma análise semântica muito completa da literatura publicada, à procura de implicações verdade-e-falsidade. Concluo que a probabilidade se aproxima da certeza de que se realizou muita pesquisa pertinente a seres humanos, embora elas possam não estar mais em andamento. Deseja ordenar sua publicação, Presidente? Tenho certeza de que posso congelar o computador deles com a rapidez necessária para impedir que seja apagado; supondo que isso esteja guardado por um programa com este fim.

— Não vamos fazer nada drástico — disse Lazarus em voz arrastada. — Podem existir bons motivos para que haja uma censura quanto a este material. Sou forçado a supor que estes fulanos sabem mais a respeito do assunto do que eu. Além disso, não estou certo de querer ser uma cobaia. Vamos deixar isso de lado, Minerva. Ira, não estou certo de que eu seria eu mesmo sem o meu cromossomo Y. Para não falar daquelas insinuações divertidas de como transferir a personalidade e em que ponto matar o macho. Isto é, eu.

— Lazarus...

— Sim, Minerva?

— A literatura publicada faz uma opção não só certa como segura. Este método pode ser usado para criar sua irmã gêmea... univitelina em vez de plurivitelina, salvo quanto ao sexo. Uma mãe hospedeira é indicada, sem forçar em nada a maturidade, já que se permitiria ao cérebro desenvolver-se normalmente. Isto atenderia aos seus padrões de novidade e interesse? Observar-se a si mesmo crescer como uma mulher? Você poderia chamá-la de Lazuli Long... sua outra personalidade feminina.

— Ah... — Lazarus parou.

— Vovô — eu disse secamente —, acho que ganhei a nossa segunda aposta. Alguma coisa nova. Alguma coisa interessante.

— Devagar agora! Você não pode fazer isso, não sabe como fazer. Nem eu. E a diretora deste hospício parece ter escrúpulos morais quanto ao assunto...

— Não sabemos disso. Simples dedução.

— Não tão simples. E eu posso ter escrúpulos morais. Isso não me interessaria a menos que eu ficasse por perto e a visse crescer... o que me deixaria doido tentando fazê-la crescer exatamente igual a mim (Que destino para uma moça!), ou tentando impedi-la de ser tão intratável como eu, quando essa seria sua natureza. Nem isso me justificaria de qualquer maneira; ela seria um ser humano separado, não minha escrava. Além disso, eu seria seu único progenitor... nenhuma mãe. Já fiz uma tentativa de criar uma filha sozinho... não é justo para com a garota.

— Você está inventando objeções, Lazarus. Tenho um forte palpite de que Ishtar seria com prazer tanto mãe hospedeira como adotiva. Especialmente se você prometer a Ishtar um filho dela mesma. Posso perguntar a ela?

— Fique com a sua matraca fechada, filho! Minerva, ponha isso em "pendente". Não tomarei uma decisão apressada em algo importante acerca de outra pessoa. Especialmente uma que não é bastante importante. Ira, lembre-me de contar-lhe sobre os gêmeos que não eram parentes. Mas eram gêmeos.

— Absurdo. Você está mudando de assunto.

— Estou mesmo. Minerva, o que mais você tem aí, garota?

— Lazarus, tenho um programa que envolve pouco risco e uma probabilidade quase certa de fornecer uma ou mais experiências completamente novas para você.

— Estou escutando.

— Animação suspensa...

— O que há de novo nisso? Já existia quando eu era garoto, com pouco menos de duzentos anos de idade. Usei no Novas Fronteiras. Não me atraiu naquela época. Não me atrai agora.

— ...como meio de viagem pelo tempo. Se você convencionar que, num número X de anos, surgirá alguma coisa verdadeiramente nova, uma certeza baseada na história, então o seu único problema é selecionar qualquer número de anos que, em sua opinião, produziriam o grau de novidade que você procura. Cem anos, mil anos, dez mil, o que quer que diga. O resto não envolve nada a não ser detalhes secundários de projeto.

— Não tão "secundários", se estarei dormindo e incapaz de me proteger.

— Mas você não precisa entrar em hibernação até ficar satisfeito com o meu projeto, Lazarus. Cem anos obviamente não são problema. Para dez mil anos eu projetaria um planetóide artificial equipado com dispositivos seguros para garantir que você fosse revivido automaticamente em caso de emergência.

— Isso iria exigir um bocado de planejamento, garota.

— Tenho confiança na minha capacidade de fazer isso, Lazarus, mas você é livre para criticar e rejeitar qualquer parte do projeto. Contudo, não adianta eu submeter projetos preliminares até você me dar o parâmetro controlador, ou seja, o espaço de tempo que, em sua opinião, produziria alguma coisa nova para você. Ou quer o meu conselho sobre isso?

— Ora... vá com calma, querida. Vamos supor que você me ponha dentro de hélio líquido, em queda livre e completamente protegido contra a radiação ionizante...

— Nenhum problema, Lazarus.

— Não achei que houvesse, querida; não estou subestimando você. Mas suponha que em vez disso algum dispositivo minúsculo de segurança deixe de funcionar e eu continue cochilando através dos séculos e milênios sem fim. Não morto. Mas não revivido também.

— Posso projetar e projetarei meios para evitar isso. Mas deixe-me aceitar sua hipótese. Nesse caso, como você poderia estar pior do que estaria se usasse seu interruptor de opção final? O que perderia tentando isso?

— Ora, isso é óbvio! Se houver alguma coisa real nesse assunto de imortalidade, ou qualquer tipo de vida futura (não estou dizendo que haja ou não), mas, se houver, então quando for feita a Chamada de Longe não estarei lá. Estarei dormindo mas não morto, em algum lugar fora no espaço. Perderei a última nave.

— Vovô — disse eu impaciente —, pare de tentar tirar o corpo fora. Se não quer, basta dizer "Não". Mas Minerva certamente lhe ofereceu um meio de conseguir algo novo. Se há alguma base no seu argumento, o que não admito, você terá conseguido alguma coisa realmente singular: o único ser humano em muitos bilhões a deixar de entrar em forma neste Dia do Juízo Final hipotético e altamente improvável. Eu não o deixaria passar por isso, seu velho patife; você é escorregadio. Ele ignorou minha censura.

— Por que "altamente improvável"?

— Porque é. Não vou discutir isso.

— Porque não pode discutir — replicou ele. — Não há nenhuma prova contra ou a favor... portanto, como pode você atribuir uma probabilidade imprecisa em qualquer sentido? Eu estava frisando que seria desejável que, se houver alguma verdade nisso, se jogasse honestamente. Minerva, ponha isso em "pendente", também. A idéia tem tudo quanto você afirma, e não duvido da sua capacidade como projetista. Mas, assim como ao se testar um pára-quedas, é uma viagem só de ida, sem nenhuma possibilidade de mudar de idéia depois de pular. Assim, vamos examinar todas as outras idéias antes de voltar a essa... mesmo que leve anos.

— Vou continuar, Lazarus.

— Obrigado, Minerva. — Lazarus ficou pensativo, enquanto palitava os dentes com a unha do polegar. Estávamos comendo, mas eu não mencionara interrupções para refeições, nem mencionarei outra vez. Podem imaginar quaisquer interrupções para comer e descansar que façam vocês se sentirem confortáveis. Como as histórias de Xerazade, as anedotas do Sênior eram entrecortadas de várias interrupções irrelevantes.

— Lazarus...

— Hein, filho? Eu estava sonhando acordado... com um país distante, e a moça está morta. Desculpe.

— Você podia ajudar Minerva nesta pesquisa.

— É mesmo? Parece pouco provável. Ela está mais bem equipada para conduzir essa busca de uma agulha no palheiro do que eu... ela me impressiona.

— Sim. Mas ela precisa de dados. Há estas grandes falhas no que sabemos a seu respeito. Se soubéssemos... Se Minerva soubesse daquelas cinqüenta e tantas profissões que você teve, poderia cancelar vários milhares de escaninhos de possibilidades. Por exemplo, você alguma vez foi fazendeiro?

— Várias vezes.

— É mesmo? Agora que ela sabe disso, não sugerirá nada relativo à agricultura. Embora possa haver tipos de agricultura que você nunca praticou, nenhum representaria uma novidade suficiente para atender a suas exigências rigorosas. Por que não preparar uma lista das coisas que você fez?

— Duvido poder lembrar-me de todas.

— Para isso não há remédio. Mas fazer uma lista daquelas de que você se lembra pode fazê-lo lembrar-se das outras.

— Ah... deixe-me pensar. Uma das coisas que eu fazia todas as vezes que chegava a um planeta desabitado era estudar as leis. Não para advogar. Geralmente não, embora durante um certo número de anos eu tenha sido até advogado criminalista... em San Andreas. Mas para compreender as regras locais. É difícil ter lucro, ou escondê-lo, se a gente não conhece as regras do jogo. É muito mais seguro violar uma lei com conhecimento de causa do que ignorando-a.

"Mas isso foi um tiro que saiu pela culatra, certa vez, e acabei como ministro de um Supremo Tribunal planetário... bem a tempo de salvar a minha pele. E o pescoço.

"Vejamos. Fazendeiro, advogado e juiz, e eu lhe disse que pratiquei medicina. Capitão de muitos tipos de naves, principalmente para exploração, mas algumas vezes para transporte de carga ou emigrantes... e uma vez corsário armado com uma tripulação de vagabundos que você não levaria para a casa da sua mãe. Professor... perdi esse emprego quando me apanharam ensinando aos garotos a verdade crua, um crime sério em certa parte da galáxia. Uma vez estive no tráfico de escravos, mas por baixo... eu era escravo."

Fingi ignorar tal fato:

— Não posso imaginar isso.

— Infelizmente não tive que imaginar. Padre... Precisei interromper novamente:

— Padre? Lazarus, você disse ou insinuou que não tinha nenhuma fé religiosa de qualquer tipo.

— Foi mesmo? Mas fé é para a congregação, Ira; isso atrapalha um padre. Professor numa casa de encontros...

— Desculpe-me novamente. Uso idiomático?

— Hein? Gerente de um prostíbulo... embora eu tocasse um pouco de pianola e cantasse. Não ria; eu tinha uma voz bastante boa, então. Isso foi em Marte... Você ouviu falar de Marte?

— O planeta seguinte ao Velho Lar Terra. Sol 4.

— É. Não é um planeta que nos importaria hoje. Mas isto foi antes de Andy Libby mudar as coisas. Foi antes mesmo de a China destruir a Europa, mas depois de a América sair dos negócios espaciais, o que me deixou em dificuldades. Deixei a Terra após aquela reunião de 2012 e não voltei por um certo tempo... o que me evitou muitos aborrecimentos, não posso reclamar. Se aquela reunião se tivesse encaminhado em outra direção... Não, estou errado; quando uma fruta está madura ela cai, e os Estados Unidos estavam podres de maduros. Nunca seja pessimista, Ira; um pessimista geralmente está mais certo que um otimista, mas um otimista se diverte mais... e nenhum dos dois pode deter a marcha dos acontecimentos.

"Mas estávamos falando de Marte e do emprego que tive lá. Um emprego temporário, em troca de café e bolos... mas agradável, porque eu era também leão-de-chácara. As moças eram todas boas meninas, e era um prazer pôr para fora algum palerma que estivesse se comportando mal com elas. Atirava-o fora com tanta força, que ele caía. Depois o colocava na lista negra para que ele não pudesse voltar. Depois de um ou dois como esse a cada noite, espalhou-se o boato de que Daze "Feliz" exigia um comportamento cavalheiresco em relação às senhoras, não importava quão gastador o homem fosse.

"A prostituição é como o serviço militar, Ira. É bom nos postos superiores, não tão bom mais embaixo. Aquelas moças estavam constantemente recebendo ofertas para comprarem seus contratos e se casarem... e todas elas se casaram, acho eu, mas estavam ganhando dinheiro tão depressa que não ficavam ansiosas para agarrar a primeira oferta. Principalmente porque, quando assumi, pus um fim ao preço fixo que o governador da colônia havia estabelecido, e restabeleci a lei da oferta e da procura. Não havia nenhum motivo para que aquelas garotas não cobrassem cada rublo que o tráfico pudesse render.

"Tive problemas com isso até que o preboste para descanso e cultura do governo metesse na sua cabeça dura que preços abusivos não funcionam numa situação de penúria. Marte já era bastante desagradável sem procurar roubar aquelas poucas pessoas que o tornavam tolerável. Ou mesmo encantador, quando elas estavam felizes em seu trabalho. As prostitutas desempenham a mesma função que os padres, Ira, porém muito mais completamente.

"Deixe-me ver... Fui rico muitas vezes e sempre perdi a fortuna, geralmente para o governo, que inflacionava o dinheiro ou confiscava (nacionalizava ou liberava) alguma coisa de minha propriedade. Não deposite sua fé nos príncipes, Ira; uma vez que não produzem, sempre roubam. Fui pobre mais vezes do que fui rico. Dos dois, ser pobre é mais interessante, porque um homem que não sabe de onde virá sua próxima refeição nunca se aborrece. Pode ficar com raiva ou muitas outras coisas... mas não aborrecido. Sua situação aguça seus pensamentos, incita-o à ação, dá sabor a sua vida, quer ele saiba disso quer não. Pode fazê-lo cair numa armadilha, é claro; é por isso que a comida é a isca habitual nas armadilhas. Mas essa é a parte interessante da pobreza: como resolver o problema sem cair na armadilha. Um homem com fome tende a perder o juízo... um homem que perdeu sete refeições muitas vezes está pronto para matar... o que raramente é uma solução. "Redator de publicidade, ator (mas eu fiquei pobre demais na época), acólito, engenheiro construtor e de várias outras especialidades, e mecânico também de várias especialidades, porque sempre acreditei que um homem inteligente pode dedicar-se a qualquer coisa desde que se esforce para aprender como ela funciona durante um certo tempo. Não que eu insistisse em trabalho especializado quando a minha próxima refeição estava em jogo; muitas vezes empunhei uma bengala de idiota..."

— Expressão idiomática?

— Uma velha expressão usada pelos operários de estradas de ferro, filho, uma bengala com uma lâmina de pá numa extremidade e um idiota na outra. Nunca fiz isso por mais que alguns dias, apenas o suficiente para compreender a organização local. Líder político... Fui até político reformista, certa vez... mas apenas uma vez: os políticos reformistas tendem não só a ser desonestos, como estupidamente desonestos... embora a atividade política seja honesta.

— Não acho isso, Lazarus. A história parece mostrar...

— Use a cabeça, Ira. Não quero dizer que um político de carreira não roube. Roubar é o seu negócio. Mas todos os políticos são improdutivos. A única mercadoria que qualquer político tem a oferecer é falar demais. Sua integridade pessoal... quero dizer, se ele der sua palavra, você poderá confiar nela? Um político de carreira bem-sucedido sabe disto e protege sua reputação mantendo seus compromissos, porque quer continuar no negócio, isto é, continuar roubando, não só esta semana como no ano que vem e nos anos seguintes. Assim, se ele for bastante esperto para ser bem sucedido neste comércio muito exigente, pode ter a moral de uma tartaruga mordedora, mas deve comportar-se de maneira a não arriscar a única coisa que tem para vender: sua reputação de manter as promessas.

"Um político reformista, porém, não tem nenhum carisma desses. Sua dedicação é ao bem-estar de todas as pessoas... uma abstração muito elevada e, portanto, passível de definições intermináveis, se realmente puder ser definida em termos significativos. Em conseqüência disso, o político reformista totalmente sincero e incorruptível é capaz de faltar à palavra três vezes antes do café da manhã (não por desonestidade pessoal, porque ele lamenta sinceramente que isso seja necessário, conforme ele lhe diria, mas por dedicação inabalável ao seu ideal).

"Tudo de que ele precisa para faltar à sua palavra é alguém chegar-lhe ao ouvido e convencê-lo de que isso é necessário para o bem maior do povo. Ele engolirá isso.

"Após acostumar-se a isso, ele será capaz de roubar no jogo de paciência. Felizmente é raro ele ficar no cargo muito tempo... exceto durante a decadência de uma cultura."

— Devo aceitar sua palavra quanto a isso, Lazarus — afirmei. — Tá que passei a maior parte da minha vida em Secundus, pouco sei de política além de teorias. Você a fez dessa maneira.

O Sênior contemplou-me fixamente, com desprezo:

— Não fiz nada disso. — Mas...

— Ora, cale-se! Você mesmo é um político... um político de carreira, espero. Essa proeza de transportar seus dissidentes, contudo, deixa-me em dúvida. Minerva! "Caderno de notas", querida. Minha intenção, ao deixar Secundus para a Fundação, foi estabelecer um governo barato e simples... uma tirania constitucional, na qual o governo fosse proibido de fazer muitas coisas... e ao querido povo, abençoados sejam seus negros coraçõezinhos moles, não era dada absolutamente qualquer vez.

"Eu não tinha muita esperança nisso. O homem é um animal político, Ira. Evitar que ele faça política é tão impossível quanto evitar que ele copule... e provavelmente não se deve tentar. Mas eu era jovem, então, e cheio de esperança. Esperava manter a política na esfera privada, mantê-la fora do governo. Achei que a organização poderia durar um século ou coisa parecida; estou espantado por ter durado tanto. Isso não é bom. Este planeta está supermaduro para a revolução... e, se Minerva não descobrir alguma coisa melhor para eu fazer, posso aparecer com outro nome, o cabelo tingido, o nariz diminuído, e começar uma. Portanto, fique avisado, Ira."

Encolhi os ombros.

— Você se esquece de que vou emigrar.

— Ah! sim. Embora a perspectiva de fazer abortar uma revolução possa fazê-lo mudar de idéia. Ou talvez você gostasse de ser o chefe do meu estado-maior... depois derrubar-me com um coup d'état quando terminar o tiroteio e mandar-me para a guilhotina. Isso seria uma coisa nova... nunca tive tendência a perder a cabeça por causa de política. Não deixa muito para um bis, deixa? "Uma bosta, uma besta, uma cabeça na cesta... isso não pode responder às perguntas que você fizer." Desce a cortina, nenhum agradecimento.

"Mas as revoluções podem ser divertidas. Contei-lhe como consegui cursar a universidade até o fim? Operando um canhão Gatling [23] por cinco dólares o dia, mais a pilhagem. Nunca cheguei a mais do que cabo, porque cada vez que tinha dinheiro suficiente para outro semestre, eu desertava... E, sendo um mercenário, nunca fui tentado a tornar-me um herói morto. Mas a aventura e a mudança de ambiente atraem um jovem... e eu era muito moço.

"Mas a sujeira, a perda de refeições e o sibilar das balas nos ouvidos da gente deixam de ser glamourosos à medida que se cresce; quando me tornei militar novamente, o que não foi uma idéia inteiramente minha, escolhi a marinha. A marinha molhada, embora eu estivesse na marinha espacial em ocasiões posteriores, e com outros nomes.

"Vendi quase tudo, exceto os escravos, e trabalhei como leitor de pensamentos numa troupe ambulante; fui rei certa vez (uma profissão superestimada, as horas são longas demais), e desenhei moda feminina com um nome e sotaque francês falsos e cabelos compridos. Talvez a única vez em que usei cabelos compridos, Ira; não só o cabelo comprido exige um bocado de cuidados que tomam tempo, como dá ao seu adversário alguma coisa onde se agarrar na luta corpo a corpo, e pode atrapalhar sua visão num momento crítico... qualquer dos dois pode ser fatal. Mas não sou favorável a um corte do tipo bola de bilhar, porque um espesso emaranhado de cabelos, não muito compridos a ponto de caírem sobre os seus olhos, pode salvá-lo de um ferimento sério no couro cabeludo."

Lazarus pareceu parar de pensar.

— Ira, não vejo como possa registrar todas as coisas que fiz para me sustentar e às minhas mulheres e filhos, ainda que pudesse lembrar-me. O tempo mais longo que fiquei num emprego foi cerca de meio século, em circunstâncias muito especiais, e o mais curto foi de após o café da manhã até pouco antes do almoço, novamente numa circunstância especial. Mas não importa onde ou o quê; há os que fazem, os que tomam e os que fingem. Prefiro a primeira categoria, porém não rejeitei as outras duas. Sempre que fui chefe de família (isto é, geralmente), nunca permiti que o escrúpulo me impedisse de pôr comida na mesa. Não roubaria a comida de outra criança para alimentar as minhas... mas há sempre alguma maneira não muito repugnantemente falsa de acumular valuta [24] se um homem não for muito exigente, o que nunca fui enquanto tive obrigações para com minha família.

"A gente pode vender coisas que não tenham valor intrínseco, tais como histórias ou canções. Trabalhei em todos os ramos da profissão artística... inclusive uma ocasião na capital de Fátima, quando fiquei agachado na praça do mercado com uma cuia de metal diante de mim, contando uma história mais comprida do que esta e esperando o tilintar de uma moeda nas pausas críticas.

"Fiquei reduzido a isso porque minha nave tinha sido confiscada e os estrangeiros não tinham permissão de trabalhar sem licença... uma alta extorsão sob a teoria de que os empregos deviam ser reservados aos cidadãos locais em caso de depressão. Contar histórias de graça não era considerado um trabalho, nem tampouco mendigar, o que exigia licença, e os guardas me deixavam em paz desde que eu desse voluntariamente o habitual presente diário para o Fundo de Beneficência da Polícia.

"Era ou conformar-se com alguma artimanha dessas, ou ficar reduzido a roubar... o que é difícil quando não se conhece as minúcias locais de uma cultura. Apesar disso, eu me teria arriscado se não tivesse mulher e três filhos pequenos. Tal fato me fez hesitar, Ira; um chefe de família não deve assumir riscos que um solteiro considere aceitáveis.

"Assim, fiquei sentado lá até o osso do meu rabo gastar as pedras do calçamento, contando tudo, desde os contos de Grimm até as peças de Shakespeare, e não deixando minha mulher gastar dinheiro em nada, a não ser comida, até economizarmos o bastante para comprar aquela permissão para trabalhar, mais a gratificação habitual. Depois os superei completamente, Ira."

— Como, Lazarus?

— Devagar, mas definitivamente. Aqueles meses na praça do mercado haviam-me dado um grau de sofisticação no Quem é quem daquela sociedade e o conhecimento de suas vacas sagradas. Depois continuei lá durante anos... não tinha escolha. Mas primeiro fui batizado na religião local, recebendo um nome mais aceitável no processo, e decorei o Alcorão. Não exatamente o mesmo Alcorão que eu conhecera alguns séculos antes, mas valeu a pena o esforço.

"Vou deixar de lado como entrei na Corporação dos Latoeiros e consegui meu primeiro emprego consertando aparelhos de televisão... tive meu primeiro salário retido para pagar minha contribuição à corporação, isto é, com um acordo particular não muito caro com o Grão-Mestre Latoeiro. Esta sociedade era atrasada em tecnologia; seus costumes não encorajavam o progresso e eles haviam ficado mais atrasados do que quando vieram da Terra, cerca de cinco séculos antes. Isso fez de mim um mágico, Ira, e podia ter acabado enforcado se não tivesse o cuidado de ser filho fiel (e mão-aberta) da igreja. Assim, quando tive condições para tanto, vendi de porta em porta artigos eletrônicos novos e astrologia antiquada... usando conhecimentos que eles não tinham para os primeiros e imaginação livre para a segunda.

"Finalmente, tornei-me o substituto principal do próprio funcionário que havia confiscado a minha nave e minhas mercadorias anos antes, e o estava ajudando a ficar mais rico ao mesmo tempo que eu ficava rico. Se ele me reconheceu, nunca o disse... uma barba muda bastante a minha aparência. Infelizmente ele caiu em desfavor e terminei no lugar dele."

— Como conseguiu isso, Lazarus? Sem ser apanhado, quero dizer.

— Ora, ora, Ira! Ele era meu benfeitor. Isso estava no meu contrato, e sempre me dirigi a ele como tal. Os caminhos de Alá são misteriosos. Fiz um horóscopo para ele, avisando-o de que suas estrelas estavam em má posição. E estavam mesmo. Aquele sistema é um dos poucos que conheço com dois planetas utilizáveis em torno da mesma estrela, ambos colonizados e com comércio entre si. Artefatos e escravos...

— "Escravos", Lazarus? Embora eu tenha conhecimento de tal prática em Supremo, não pensei que esse vício fosse tão comum. Não é econômico.

O velho fechou os olhos, manteve-os fechados por tanto tempo que pensei que tivesse dormido (muitas vezes dormia durante os primeiros dias destas conversas). Depois os abriu e falou bastante sombriamente:

— Ira, esse vício é muito mais comum do que os historiadores geralmente mencionam. Antieconômico, sim... uma sociedade com escravos não pode competir com uma livre. No entanto, sendo a galáxia tão grande, geralmente não há essa competição. A escravatura pode existir e existe em muitas ocasiões e lugares, sempre que as leis são feitas de modo a permiti-la.

"Eu disse que faria quase qualquer coisa para sustentar minha mulher e meus filhos... e fiz; removi excremento humano com pá por uma ninharia, enterrado nele até os joelhos, para não deixar uma criança com fome. Mas nisto eu não tocarei.

Não é devido ao fato de eu mesmo ter sido escravo uma vez; sempre pensei assim. Pode ser uma crença ou algo mais digno, uma profunda convicção moral. O que quer que seja, para mim está fora de discussão. Se o animal humano afinal de contas tem algum valor, ele é valioso demais para ser uma propriedade. Se ele tem alguma dignidade interior, é orgulhoso demais para ser proprietário de outros homens. Não importa quão limpo e perfumado ele possa ser, um dono de escravos é subumano.

"Mas isso não significa que eu corte a garganta quando encontro tal situação, ou não teria vivido o meu primeiro século. Porque há outra coisa má quanto à escravidão, Ira; é impossível libertar os escravos, eles têm que se libertar por si mesmos."

Lazarus franziu a testa.

— Você me fez pregar outra vez, e sobre assuntos que possivelmente não posso provar. Depois de ter posto as mãos na minha nave, mandei fumigá-la, inspecionei-a toda eu mesmo e carreguei-a com artigos que achei que podia vender; embarquei alimentos e água para a carga humana para a qual ela tinha sido adaptada, dei uma semana de folga ao capitão e à tripulação e notifiquei o Protetor dos Servos, isto é, o feitor de escravos do Estado, de que carregaríamos logo que o capitão e o comissário de bordo estivessem de volta.

"Depois levei minha família para uma inspeção da nave num feriado. De alguma forma o Protetor dos Servos ficou desconfiado; insistiu em percorrer a nave conosco. Assim, tivemos que levá-lo junto quando decolamos de lá, muito subitamente, pouco depois de minha família estar a bordo. Demos o fora daquele sistema e nunca mais voltamos. Mas, antes de descermos num planeta civilizado, eu e os meus rapazes, dois deles já crescidos então, removemos qualquer sinal de ela ter sido alguma vez uma nave de escravos, embora isso significasse dispensar materiais que eu poderia ter vendido."

— E quanto ao Protetor dos Servos? — perguntei. — Ele não criou problemas para você?

— Fiquei imaginando se você ia notar isso. Atirei o bastardo no espaço! Vivo. Ele foi daquele jeito, os olhos esbugalhados e urinando sangue. O que é que você esperava que eu fizesse? Que o beijasse?

 

Contraponto III

Quando estavam sós, na intimidade de um transporte, Galahad perguntou a Ishtar:

— Você falou a sério na sua proposta ao Sênior? De ter uma prole com ele?

— Como poderia estar brincando na presença de duas testemunhas, uma delas o próprio Presidente Temporário?

— Não vejo como. Mas por quê, Ishtar?

— Porque sou uma sentimental atávica!

— Você precisava ser rude comigo?

Ela pôs um braço em volta dos ombros dele e segurou-lhe a mão.

— Desculpe, querido. Foi um dia longo... e não dormi muito a noite passada, por mais doce que fosse. Estou preocupada com várias coisas... e o assunto que você abordou não é algo que me deixe indiferente.

— Eu não devia ter perguntado. Foi uma invasão de intimidade... Não sei o que deu em mim. Vamos esquecer o assunto? Por favor!

— Querido, querido! Eu sei o que deu em mim... e em parte é por isso que sou tão pouco emocional profissionalmente. Deixe-me colocar isso desta maneira: se você fosse mulher, não agarraria uma oportunidade de fazer uma proposta dessas? A ele?

— Não sou mulher.

— Sei que não é, você é deliciosamente masculino. Mas tente por um momento ser tão lógico como uma mulher. Tente!

— Os homens não são necessariamente ilógicos; esse é um mito feminino.

— Desculpe. Preciso tomar um tranqüilizante no momento em que chegarmos em casa, coisa de que não precisei durante anos. Mas tente pensar no assunto como se você fosse mulher. Por favor! Por vinte segundos.

— Não preciso de vinte segundos. — Ele ergueu a mão dela e beijou-a. — Se eu fosse mulher, agarraria essa oportunidade, também. O melhor padrão genético comprovado que se pode oferecer a uma criança? Naturalmente.

— Não é isso absolutamente! Ele pestanejou.

— Talvez eu não saiba o que você entende por lógica.

— Ah... isso importa? Já que chegamos à mesma resposta? — O carro desviou-se e parou num bolsão de carregamento; ele levantou-se. — Portanto, vamos esquecer isso. Estamos em casa, querido.

— Você está. Eu não. Penso que...

— Os homens não pensam.

— Penso que você precisa de uma noite de descanso, Ishtar.

— Você vestiu isto em mim; agora tem que me despir.

— É mesmo? Então insiste em me alimentar e não quer ter aquela longa noite de sono, afinal de contas. Além disso, pode puxá-lo por cima da cabeça, da mesma maneira como fiz para você na descontaminação.

Ela suspirou.

— Galahad, se é que escolhi o nome certo para você, terei que oferecer-lhe um contrato de coabitação simplesmente porque posso convidá-lo para passar a noite comigo outra vez? É provável que nenhum de nós durma nada esta noite.

— Era isso que eu estava dizendo.

— Não exatamente. Porque pode ser que trabalhemos a noite inteira. Mesmo que você prefira gastar três minutos com o nosso prazer mútuo.

— Três minutos? Não fui tão apressado assim nem da primeira vez.

— Bem. Cinco minutos?

— Está me oferecendo vinte minutos... mais um pedido de desculpas.

— Homens! Trinta minutos, querido, e nenhum pedido de desculpas.

— Aceito. — Ele levantou-se.

— Cinco dos quais você já gastou discutindo. Portanto, venha comigo... meu querido exasperante.

Ele acompanhou-a até dentro do vestíbulo.

— O que é isso sobre "trabalhar a noite inteira"?

— E amanhã também. Vou saber quando conferir o que está no meu telefone. Se não houver nada, terei que ligar para o Presidente Temporário, por mais que odeie fazer isso. Tenho que examinar aquela cabana da cobertura, ou o que quer que seja, e ver que preparativos podem ser feitos para cuidar dele lá. Depois nós dois o mudaremos; não posso delegar isso. Depois...

— Ishtar! Você vai concordar com isso? Habitat não-estéril, nenhum equipamento de emergência, e assim por diante?

— Querido... você está impressionado pelo meu cargo; o sr. Weatheral não está. E o Sênior nem está impressionado pela autoridade do sr. Weatheral; o Sênior é o Sênior. Fiquei esperando que o sr. Presidente Temporário descobrisse alguma maneira de convencê-lo a adiar tal mudança. Mas não descobriu. Portanto, agora tenho duas alternativas: fazer isso à moda dele... ou desistir completamente. Como a diretora fez. O que não farei. E isso não me deixa nenhuma alternativa. Assim, esta noite vou inspecionar seus novos alojamentos e ver o que pode ser feito entre agora e amanhã de manhã. Embora seja impossível tornar um lugar daqueles estéril, talvez ele possa ficar mais conveniente antes de o Sênior vê-lo.

— E equipamento de emergência, não se esqueça disso, Ishtar.

— Como se eu fosse esquecer, seu tolinho. Agora me ajude a sair desta maldita coisa... quero dizer, "este lindo vestido que você desenhou para mim e do qual o Sênior claramente gostou". Por favor.

— Então fique de pé, parada, e cale a boca.

— Não faça cócegas. Ah, droga, lá está o telefone tocando! Tire isso de mim, querido, depressa!

 

Variações sobre um tema IV

Amor

Lazarus se espreguiçou na sua rede e cocou o peito.

— Hamadríade [25] — disse ele —, essa não é uma pergunta fácil. Aos dezessete anos eu estava certo de estar amando. Mas era simplesmente uma questão de hormônio em excesso e auto-ilusão. Foi mais de mil anos mais tarde que senti a coisa verdadeira, e não reconheci isso durante anos, porque havia deixado de usar tal palavra.

 

A "filha bonita" de Ira Weatheral pareceu confusa, enquanto Lazarus achou novamente que Ira estivera errado: Hamadríade não era bonita; era tão espantosamente linda que teria alcançado os mais altos preços no leilão de Fátima, com feitores iskandrianos de olhos duros superando os lances uns dos outros na crença de que ela seria um bom investimento. Se o Protetor da Fé não se apropriasse dela para si mesmo...

Hamadríade não parecia saber que sua aparência era excepcional. Mas Ishtar sabia. Nos primeiros dez dias em que a filha de Ira tinha feito parte da "família" de Lazarus (assim ele os considerava — um termo bastante bom porque Ira, Hamadríade, Ishtar e Galahad eram todos seus descendentes e agora com o privilégio de chamá-lo de "vovô", desde que não exagerassem), naqueles primeiros dias Ishtar havia demonstrado uma tendência infantil de colocar-se entre Hamadríade e Lazarus, e também entre Hamadríade e Galahad, mesmo quando isso exigia estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Lazarus havia observado, divertido, essa dança de terreiro e imaginara se Ishtar sabia que estava fazendo isso. Provavelmente não, decidiu ele. Sua supervisora de rejuvenescimento era toda dever e nenhum senso de humor, e teria ficado chocada se tivesse sabido que havia voltado à adolescência.

Mas isso não durou muito. Era impossível não gostar de Hamadríade, porque ela permanecia calmamente amável, não importava o que acontecesse. Lazarus ficou imaginando se isso era um padrão de comportamento desenvolvido conscientemente para protegê-la contra suas irmãs menos dotadas — ou simplesmente sua natureza. Ele não havia tentado descobrir. Mas Ishtar agora tendia a sentar-se ao lado de Hamadríade, ou mesmo a fazer espaço entre si mesma e Galahad para Hamadríade, e a deixá-la servir as refeições e coisas assim — "dona-de-casa" assistente, de fato.

 

— Se eu tiver que esperar mil anos para compreender essa palavra — replicou Hamadríade —, então provavelmente nunca a compreenderei. Minerva diz que ela não pode ser definida em galacta e, mesmo quando falo em inglês clássico, acho que penso em galacta, o que significa que não domino realmente o inglês. Já que a palavra "amor" ocorre tão freqüentemente na antiga literatura inglesa, achei que minha falha em compreendê-la pudesse ser um bloqueio que me impede de pensar em inglês.

— Bem, vamos mudar para galacta e dar uma volta. Em primeiro lugar, sempre se pensou muito pouco em inglês; não é uma língua adequada ao pensamento lógico. Pelo contrário, é uma língua emocional lindamente adaptada para encobrir falácias. Uma língua racionalizante, não uma língua racional. Mas a maior parte das pessoas que falavam inglês não tinham mais noção do sentido da palavra "amor" do que você, embora a usassem o tempo todo. — Lazarus acrescentou: — Minerva! Vamos fazer outro estudo da palavra "amor". Quer juntar-se a nós? Se quiser, mude para o seu modo pessoal.

— Obrigada, Lazarus. Alô, Ira... Ishtar... Hamadríade... Galahad — respondeu a voz de contralto desencarnada. — Estou e estava no modo pessoal, e geralmente estou, agora que vocês me deram permissão para usar meu discernimento. Você está com bom aspecto, Lazarus, cada dia mais moço.

— Sinto-me mais moço. Mas, querida, quando você mudar para o modo pessoal deve dizer-nos.

— Desculpe, vovô!

— Não fique tão humilde! Diga apenas: "Alô, estou aqui". Isso é tudo. Se você conseguisse dizer-me, ou a Ira, apenas uma vez, para ir para o inferno, seria bom para você. Limparia os seus circuitos.

— Mas não desejo dizer isso para nenhum de vocês.

— É aí que está o erro. Se você andasse com Dora, aprenderia a fazer isso. Você falou com ela hoje?

— Estou falando com Dora agora, Lazarus. Estávamos jogando xadrez mágico em cinco dimensões, e ela está me ensinando canções que você lhe ensinou. Dora me ensina uma canção, depois eu canto um primeiro papel de tenor enquanto ela harmoniza em soprano. Estamos fazendo isto em tempo real porque estamos tocando pelos alto-falantes em nossa sala de controle e ouvindo a nós mesmas. No momento, estamos cantando a história de Riley de um testículo. Gostariam de nos ouvir?

— Não, não, essa não. — Lazarus esquivou-se.

— Ensaiamos várias outras. Lil Pernalonga, A balada de Jak Yukon e Bill Craca... eu canto a história enquanto Dora canta em soprano e contralto. Ou talvez Quatro prostitutas vieram do Canadá... essa é engraçada.

— Não, Minerva. Desculpe, Ira; minha computadora está corrompendo a sua computadora. — Lazarus suspirou. — Não planejei isso dessa maneira; eu queria apenas que Minerva cuidasse dela para mim. Já que tenho a única nave retardada deste setor.

— Lazarus — disse Minerva reprovadoramente —, não acho que seja correto dizer que Dora é retardada. Ela é bastante inteligente, acho eu. Não compreendo por que você diz que ela está me corrompendo.

Ira estivera deitado na grama, tomando banho de sol com um lenço sobre os olhos. Rolou de bruços e apoiou-se num cotovelo.

— Nem eu, Lazarus. Esta última eu gostaria de ouvir. Lembro onde c o Canadá... era. Ao norte do país em que você nasceu.

Lazarus contou em silêncio, depois disse:

— Ira, sei que tenho preconceitos ridículos para um homem moderno e civilizado como você. Não posso evitá-lo; estou orientado pela primeira infância, impressionado como um patinho. Se você quer ouvir canções obscenas de uma era bárbara, por favor escute-as em seu apartamento... não aqui em cima. Minerva, Dora não compreende essas canções; para ela são canções de ninar.

— Nem eu as compreendo, Sênior, apenas teoricamente. Mas são alegres, e gostei de aprender a cantar.

— Bem... Está certo. Quanto ao mais, Dora tem se comportado?

— Ela tem sido uma boa menina, vovô Lazarus, e acho que está satisfeita com a minha companhia. Ficou um pouco chateada por não ter-lhe contado uma história na hora de dormir, ontem à noite. Mas eu lhe disse que você estava muito cansado e já dormia, e contei-lhe eu mesma uma história.

— Mas... Ishtar! Perdi um dia? — Sim, Sênior.

— Cirurgia? Não notei nenhum lugar novo cicatrizado. A técnica chefe principal hesitou.

— Vovô, só discutirei procedimentos se você insistir. Não faz bem a um cliente lembrar-se dessas coisas. Espero que não insista. Espero mesmo, Sênior.

— Hum! Está bem, está bem. Mas, da próxima vez em que suprimir um dia, ou uma semana, ou o que quer que seja, avise-me. Para que eu possa deixar uma história para a hora de dormir no arquivo com Minerva. Não, isso não vai funcionar; você não vai querer que eu saiba. Está bem, deixarei as histórias no arquivo com Minerva, e em vez disso você a avisará.

— Avisarei, vovô. É bom quando o cliente coopera, especialmente prestando tão pouca atenção ao que fazemos quanto possível. — Ishtar deu um sorriso rápido. — O cliente que mais receamos é outro rejuvenescedor. Preocupa-se e tenta dirigir as coisas.

— Não é de admirar. Eu sei, querida, tenho esse hábito horrível de tentar dirigir as coisas eu mesmo. A única maneira de evitá-lo é ficar fora da sala de controle. Portanto, quando eu ficar muito abelhudo, diga-me para calar a boca. Mas como estamos indo? Quanto tempo mais tenho que ficar?

Ishtar respondeu com hesitação:

— Talvez este seja o momento em que eu deva dizer-lhe para... "calar a boca".

— Isso mesmo! Porém com mais firmeza, querida. "Dê o fora da minha sala de controle, seu bestalhão com titica na cabeça, e fique fora!" Faça-o entender que, se ele não pular, você o atirará dentro do calabouço da nave. Agora tente novamente.

— Vovô, você é um velho impostor! — Ishtar deu um sorriso largo.

— Bem que desconfiei há muito tempo. Eu esperava que isso fosse notado. Está bem, o assunto é "amor". Minerva, Hamaquerida contou que você lhe disse que isso não pode sei definido em galacta. Tem alguma coisa a acrescentar?

— Experimentalmente sim, Lazarus. Posso guardar minha resposta até os outros falarem?

— Como quiser. Galahad, você fala menos e ouve mais do que qualquer outra pessoa da família. Quer experimentar?

— Bem, Sênior, eu não tinha percebido que havia qualquer mistério quanto a "amor" até ouvir Hamadríade perguntar a respeito disso. Mas ainda estou aprendendo inglês. Pelo método naturalista, da mesma maneira que uma criança aprende sua língua materna. Nada de gramática, nada de sintaxe, nada de dicionário... apenas ouvir, falar e ler. Adquiro novas palavras pelo contexto. Por esse método adquiri uma sensação de que "amor" significa o êxtase partilhado que pode ser obtido através do sexo. Está certo?

— Filho, odeio dizer isto... porque, se você andou lendo um bocado em inglês, vejo como chegou a essa opinião. Mas você está cem por cento errado.

Ishtar pareceu espantada. Galahad simplesmente ficou pensativo.

— Então devo voltar a ler um pouco mais.

— Não se incomode, Galahad. A maior parte daqueles escritores que você andou lendo empregam mal a palavra exatamente dessa maneira. Bolas, eu mesmo empreguei-a mal durante anos; isso é um exemplo importante da perfídia da língua inglesa. Mas, o que quer que seja "amor", não é sexo. Não estou depreciando o sexo. Se há um objetivo na vida mais importante do que duas pessoas cooperarem para fazer uma criança, todos os filósofos da história não foram capazes de descobri-lo. E, no intervalo entre dois bebês, as sessões práticas sustentam o nosso prazer pela vida e tornam tolerável o fato de que criar um bebê é uma trabalheira do inferno. Contudo, isso não é amor. Amor é algo que ainda continua quando não se está sexualmente excitado. Assim estipulado, quem quer experimentar? Ira, e quanto a você? Sabe inglês melhor do que os outros. Fala-o quase tão bem como eu.

— Falo melhor do que você, vovô; falo inglês gramatical, o que você não faz.

— Não me goze, rapaz; dou-lhe um corretivo adequado. Shakespeare e eu nunca deixamos a gramática interferir na maneira de nos expressarmos. Ora, ele me disse certa vez...

— Ora, pare com isso! Ele morreu três séculos antes de você nascer.

— Morreu, é? Certa vez abriram sua sepultura e encontraram-na vazia. O fato é que ele era meio irmão da rainha Elizabeth e pintou o cabelo para tornar a verdade menos óbvia. O outro fato é que estavam chegando perto dele, por isso acionou o interruptor. Já morri dessa maneira várias vezes. Ira, o testamento dele deixou sua "segunda melhor cama" para sua mulher. Verifique quem recebeu sua melhor cama e você vai começar a perceber o que aconteceu realmente. Quer tentar definir "amor"?

— Não. Você mudaria as regras novamente. Tudo quanto fez até agora foi dividir o campo da experiência chamada "amor" nas mesmas categorias em que Minerva a dividiu quando você fez esta mesma pergunta semanas atrás, ou seja, "Eros" e "Ágape". Mas você evitou usar essas palavras técnicas para os subcampos, e com este sofisma tentou excluir o termo geral de um subcampo e daí afirmar que o termo a ser definido estava limitado ao outro subcampo... o que lhe permitiu definir "amor" como identicamente igual a Ágape. Mas novamente sem usar essa palavra. Não vai funcionar, Lazarus. Para usar sua própria metáfora, vi-o empalmar aquela carta.

Lazarus sacudiu a cabeça, admirado.

— Você é muito eficiente, rapaz; fiz um bom serviço quando o avaliei. Algum dia, quando tivermos tempo a perder, vamos discutir o solipsismo.

— Desista disso, Lazarus. Você não pode impor-se a mim da maneira como fez com Galahad. As subcategorias ainda são Eros e Ágape. Ágape é raro; Eros é tão comum que era quase inevitável que Galahad adquirisse a sensação de que Eros fosse a significação total da palavra "amor". Agora você o confundiu injustamente, já que ele supõe, incorretamente, que você é uma autoridade digna de confiança a respeito da língua inglesa.

Lazarus riu entre dentes.

— Ira, meu rapaz, quando eu era garoto, vendiam essa coisa às carradas. Essas palavras técnicas foram inventadas por especialistas de gabinete do mesmo tipo que os teólogos. O que dá a elas o mesmo valor que os manuais sobre sexo escritos por padres celibatários. Filho, evitei essas categorias elaboradas porque são inúteis, incorretas e ilusórias. Pode haver sexo sem amor e amor sem sexo, e situações tão confusas que ninguém pode identificar o que é o quê. Mas amor pode ser definido, uma definição exata que não recorra à palavra "sexo", ou a perguntas exclusivas através do uso de palavras tais como "Eros" e "Ágape".

— Então defina — disse Ira. — Prometo não rir.

— Ainda não. O problema em definir com palavras alguma coisa tão básica como o amor é que a definição não pode ser compreendida por ninguém que não o tenha sentido. É como o velho dilema de explicar um arco-íris a uma pessoa cega de nascença. Sim, Ishtar, sei que você pode instalar olhos clonados numa pessoa dessas atualmente... mas esse dilema era inevitável na minha mocidade. Naquela época podia-se ensinar a um desses infelizes toda a teoria física do espectro eletromagnético, dizer-lhe precisamente que freqüências o olho humano pode ver, explicar exatamente como os mecanismos da refração e da reflexão produzem a imagem de um arco-íris, qual sua forma e como as freqüências são distribuídas até ele saber tudo a respeito de arco-íris no sentido científico... mas ainda não se podia fazê-lo sentir a maravilha de tirar o fôlego que a visão de um arco-íris inspira no homem. Minerva, querida, você olha alguma vez para um arco-íris?

— Sempre que possível, Lazarus. Sempre que uma das minhas extensões sensoriais possa ver um. É fascinante!

— É isso. Minerva pode ver um arco-íris, um homem cego, não. A teoria eletromagnética é irrelevante para a experiência.

— Lazarus — acrescentou Minerva —, é possível que eu veja um arco-íris melhor do que alguém de carne e osso. Meu alcance visual é de três oitavas, de mil e quinhentos a doze mil angstroms [26].

Lazarus assoviou.

— Ao passo que eu mal chego a uma oitava. Diga-me, garota, você vê combinações harmoniosas naquelas cores?

— Ah, certamente!

— Hum! Não tente explicar-me essas outras cores; tenho que continuar sendo meio cego. — Lazarus acrescentou: — Isso me faz lembrar de um cego que conheci em Marte, Ira, quando eu estava dirigindo aquele centro recreativo. Ele...

— Vovô — interrompeu o Presidente Temporário numa voz cansada —, não nos trate como crianças. Certamente você é o homem mais velho vivo... mas a pessoa mais moça aqui, aquela minha filha que está sentada ali lançando-lhe olhares ternos, é tão velha quanto o vovô Johnson quando você o viu pela última vez; Hamadríade vai fazer oitenta anos no próximo aniversário. Ham, minha querida, quantos amantes você teve?

— Santo Deus, Ira... quem é que conta?

— Recebeu dinheiro alguma vez para isso?

— Não é da sua conta, papai. Ou você ia oferecer-me algum?

— Não seja irreverente, querida; ainda sou seu pai. Lazarus, acha que pode chocar Hamadríade com palavras comuns? A prostituição não é um grande negócio aqui; há amadoras demais tão dispostas quanto ela. Apesar de tudo, os poucos bordéis que temos em Nova Roma fazem parte da Câmara de Comércio. Mas você devia experimentar uma de nossas melhores casas de diversões... ou seja, o Eliseu. Após estar completamente rejuvenescido.

— Boa idéia — concordou Galahad. — Para comemorar. Logo que Ishtar lhe faça o exame físico final. Como meu convidado, vovô; eu ficaria honrado. O Eliseu tem tudo, desde massagens e condicionamento hipnótico até a comida mais requintada e os melhores espetáculos. Ou diga o que quiser e eles fornecerão.

— Espere um momento — protestou Hamadríade. — Não seja um sujeito egoísta, Galahad. Faremos disso uma comemoração a quatro. Ishtar?

— Certamente, querida. Será divertido.

— Ou a seis, com uma companhia para Ira. Papai?

— Posso ser tentado, querida, para a festa de aniversário de Lazarus... embora você saiba que geralmente evito lugares públicos. Quantos rejuvenescimentos, Lazarus? É assim que contamos este tipo de festa de aniversário.

— Não seja bisbilhoteiro, rapaz. Como diz sua filha: "Quem é que conta?" Não me importaria com um bolo de aniversário, igual ao que eu costumava ter quando criança. Mas apenas uma vela no meio basta.

— Um símbolo fálico — concordou Galahad. — Um antigo signo de fertilidade... apropriado para um rejuvenescimento. E sua chama é igualmente um antigo símbolo de vida. Deve ser uma vela que funcione, não uma imitação. Se pudermos descobrir uma.

Ishtar pareceu contente.

— Naturalmente! Deve haver um fabricante de velas em alguma parte. Senão aprenderei como fazê-la eu mesma. Vou projetá-la, também... semi-realista, mas um tanto estilizada. Embora possa fazê-la um retrato verdadeiro, vovô; sou uma escultora amadora razoável. Aprendi isso quando estudei cirurgia cosmética.

— Espere um minuto! — protestou Lazarus. — Tudo quanto quero é uma vela simples de cera... depois soprá-la e fazer um pedido. Obrigado, Ishtar, mas não se incomode. E obrigado, Galahad, eu pagarei a conta... mas poderia ser uma festa de família aqui mesmo, onde Ira não se sinta como um pato numa galeria de tiro. Olhem, crianças, já vi todos os tipos possíveis de casas alegres e domos de prazer. A felicidade está no coração, não nessas coisas.

— Lazarus, não vê que as crianças querem oferecer-lhe uma festa extravagante? Elas gostam de você... embora somente a Causa Primeira saiba por quê.

— Bem...

— Mas pode ser que não haja conta nenhuma. Acho que me lembro de alguma coisa daquela lista anexada ao seu testamento. Minerva... a quem pertence o Eliseu?

— É uma corporação subsidiária das Empresas de Serviços de Nova Roma Ltda., que por sua vez pertence à Sheffield-Libby Associados. Em resumo, Lazarus é o dono.

— Maldição! Quem investiu meu dinheiro nisso? Andy Libby, bendita seja sua doce alma tímida, deveria estar se retorcendo na sepultura... se eu não o tivesse colocado girando em órbita em torno do último planeta que descobrimos juntos, onde foi morto.

— Lazarus, isso não está nas suas memórias.

— Ira, eu já lhe disse, uma porção de coisas não estão nas minhas memórias. O pobre sujeitinho começou a ter um dos seus pensamentos profundos e não ficou atento. Eu o pus em órbita porque prometi a ele, quando estava morrendo, levá-lo de volta para o seu Ozarks [27] nativo. Tentei, cerca de cem anos mais tarde, mas não pude encontrá-lo. Farol apagado, suponho. Está bem, crianças, teremos uma festa na minha casa alegre, e vocês podem provar qualquer coisa que o lugar tenha a oferecer. Onde estávamos? Ira, você ia definir "amor".

— Não, você ia falar-nos sobre um cego em Marte, quando estava dirigindo aquele bordel.

— Ira, você é grosso como vovô Johnson. Este cara, o Barulhento... não me lembro do nome dele direito, se é que tinha algum. Barulhento era uma dessas pessoas como você, que apenas trabalha, indiferente. Um cego podia viver bastante bem naquele tempo, pedindo esmolas, e ninguém fazia pouco dele, já que não havia meio algum de se recuperar a visão de um homem.

"Mas Barulhento não estava satisfeito de viver à custa das outras pessoas; ele trabalhava no que podia. Tocava acordeom e cantava. Esse era um instrumento operado por foles que forçavam o ar sobre palhetas quando se tocava em suas teclas... música bem bonita. Eram populares até que a eletrônica afastou do mercado a maioria dos instrumentos musicais mecânicos.

"Barulhento apareceu certa noite, sem o seu traje de pressão no quarto de vestir hermético, e estava tocando e cantando antes de eu perceber que ele havia entrado.

"Minha política era 'Negocie, pague ou viaje'... é claro que a casa podia pagar uma cerveja para um velho freguês temporariamente sem dinheiro. Mas Barulhento não era freguês; era um bêbado... com aspecto e cheiro de bêbado, e eu estava a ponto de botá-lo para fora. Aí vi aquele trapo em volta dos seus olhos e parei.

"Ninguém põe um cego para fora. Ninguém lhe cria nenhum problema. Fiquei de olho nele mas deixei-o em paz. Ele nem se sentou. Apenas tocou aquele Steinway de ventre quebrado e cantou, não se saindo muito bem em nenhum dos dois, e deixei de lado a pianola para não interrompê-lo. Uma das garotas começou a passar o chapéu para ele.

"Quando ele chegou à minha mesa, convidei-o a se sentar e paguei-lhe uma cerveja... e me arrependi; ele fedia um bocado. Agradeceu-me e falou-me de si mesmo. Mentiras, principalmente."

— Como as suas, vovô?

— Obrigado, Ira. Disse que tinha sido chefe de máquinas numa das grandes naves da Harriman até acontecer o acidente. Talvez tivesse sido astronauta; nunca o peguei em falso. Não que tentasse. Se um cego quisesse afirmar ser o herdeiro legítimo do Santo Império Romano, eu embarcaria na história... qualquer um embarcaria. Talvez ele fosse algum tipo de mecânico do espaço, artífice ou coisa parecida. Provavelmente era um mineiro transportado que não tivera cuidado ao usar a pólvora.

"Quando revistei o lugar na hora de fechar, encontrei-o dormindo na cozinha. Não podia admitir isso, tínhamos um refeitório higiênico. Assim, levei-o para um quarto vazio e coloquei-o na cama, pretendendo dar-lhe café pela manhã e fazê-lo seguir calmamente o seu caminho... eu não estava dirigindo uma espelunca.

"Teria um bocado a dizer sobre isso. Vi-o na hora do café, sem dúvida. Mas mal o reconheci. Duas das garotas haviam-lhe dado um banho, aparado seu cabelo, feito sua barba e o vestido com roupas limpas (minhas). Haviam jogado fora o trapo sujo que ele usava sobre os olhos arruinados e substituído por uma bandagem branca limpa.

"Parentes, não remo contra a corrente. As garotas tinham liberdade para possuir animais de estimação; eu sabia o que atraía os fregueses, e não era o que eu tocava na pianola. Se aquele animalzinho ficava de pé sobre duas pernas e comia mais do que eu, apesar disso eu não ia discutir. O Salão Hormônio seria o lar de Barulhento enquanto as garotas quisessem conservá-lo.

"Levei algum tempo, contudo, para perceber que Barulhento não era apenas um parasita com casa e comida de graça, e provavelmente nossa mercadoria também, como extraía dinheiro dos nossos fregueses... Não, ele estava fazendo sentir o seu peso no barco. Meus livros no fim do primeiro mês em que esteve conosco mostraram um lucro bruto superior e o líquido mais ainda."

— A que você atribui isso, Lazarus? Já que ele estava competindo pelo dinheiro dos seus fregueses.

— Ira, será que tenho que pensar tudo por você? Não, Minerva pensa a maior parte. Mas será possível que você nunca tenha pensado na parte econômica num tipo de espelunca como essa? Há três fontes de receita: o bar, a cozinha e as próprias garotas. Nada de drogas... As drogas estragam as três fontes principais. Se um cliente estivesse drogado e demonstrasse isso, ou mesmo puxasse um cigarro de maconha, fazia-o sair rapidamente e mandava-o para a fila do chinês.

"A cozinha era para fornecer refeições às garotas, que pagavam casa e comida numa base de custo ou de um pequeno prejuízo. Mas servia também comida a noite inteira a quem quer que a pedisse, e isso dava lucro, já que suas despesas indiretas eram cobertas de qualquer maneira pela alimentação das garotas. O bar também passou a dar lucro após eu despedir um garçom com três mãos. As garotas ficavam com sua receita, toda a que o movimento desse, mas pagavam à casa uma cota fixa por cada trepada ou uma cota tripla se passassem a noite inteira com um freguês. Alguma garota podia roubar um pouco, e eu fechava os olhos... mas, se roubasse demais ou muitas vezes, ou um cidadão reclamasse de ter sido roubado enquanto dormia, eu tinha uma conversa com ela. Nunca houve nenhum problema verdadeiro; elas eram damas e, além disso, eu tinha meios de fiscalizá-las sem que soubessem, bem como olhos atrás da minha cabeça.

"As queixas de roubo enquanto dormiam eram as que davam mais trabalho, mas lembro-me apenas de uma que foi por culpa da garota em vez do cidadão... simplesmente revoguei seu contrato, deixei-a ir embora. Na queixa comum, o safado não era roubado enquanto dormia; simplesmente mudava de idéia após ter entregue dinheiro demais nas mãozinhas ávidas e ela ter feito o que ele havia pedido... depois tentava roubá-la enquanto ela dormia. Mas eu podia sentir o cheiro desse tipo de safado e ficava ouvindo por um microfone; depois entrava de repente quando a confusão começava. Esse tipo de sujeito confiado eu punha para fora com tanta força que ele quicava duas vezes."

— Vovô, alguns deles não eram grandes demais para isso?

— Não realmente, Galahad. O tamanho não conta muito numa briga... embora eu sempre estivesse armado contra problemas reais. Mas, se eu tivesse que pegar um homem, não tinha escrúpulo nenhum de como pegá-lo. Se a gente der um pontapé no saco de um homem sem nenhum aviso, isso o acalmará pelo tempo suficiente de atirá-lo fora.

"Não se assuste, Hamaquerida; seu pai garantiu que você não ficaria chocada. Mas eu estava falando do Barulhento e de como ele ganhou dinheiro para nós e um pouco para si mesmo também.

"Neste tipo de espelunca de fronteira o freguês comum entra, toma um drinque enquanto examina as garotas, escolhe uma pagando-lhe um drinque... vai para o quarto dela, depois vai embora. Tempo gasto: trinta minutos; líquido para a casa: mínimo.

"Isto foi antes do Barulhento. Depois que o Barulhento chegou, a coisa ficou mais ou menos assim: o freguês tomava um drinque como antes. Talvez pagasse um segundo drinque para a garota em vez de interromper a canção de um cego. Levava a garota para o quarto dela. Quando voltava, Barulhento estava cantando Frankie e Johnnie ou Quando o traficante conheceu minha prima, sorrindo e declamando um verso para ele... e o freguês se sentava, ouvia até o fim... e perguntava ao Barulhento se ele conhecia Olhos escuros. Claro, Barulhento conhecia, mas em vez de admitir isso pedia ao cidadão para dar-lhe a letra e cantarolá-la e ele veria o que poderia fazer a respeito disso.

"Se o freguês tivesse valuta, ainda estaria lá três horas mais tarde, tendo jantado e pago o jantar para uma das garotas, gratificado Barulhento com bastante prodigalidade, e pronto para uma repetição com a mesma garota ou outra. Se tivesse dinheiro, ficaria a noite inteira, dividindo-o entre as garotas e o Barulhento e entre o bar e a cozinha. Se gastasse tudo quanto possuía e tivesse sido um bom freguês (bem-comportado, assim como generoso com o seu dinheiro) eu lhe dava cama e café da manhã fiado e insistia para que voltasse. Se estivesse vivo no dia de pagamento seguinte, era certo ele voltar. Senão, tudo o que a casa perdia era o custo de um café da manhã... nada em comparação com o que ele havia gasto. Propaganda barata de boa vontade.

"Depois de um mês assim, tanto a casa como as garotas fizeram muito mais dinheiro; e elas não trabalharam muito mais, porque passaram parte do seu tempo tomando drinques especiais (água colorida, metade do preço para a casa, metade para a garota), enquanto ajudavam o cidadão a ouvir as canções nostálgicas do Barulhento. Bolas, uma garota não gosta de trabalhar como um mouro mesmo que geralmente goste do seu trabalho, como muitas delas gostavam. Mas nunca se cansavam de ficar sentadas ouvindo as canções do Barulhento.

"Deixei de tocar a pianola, exceto, talvez, enquanto o Barulhento comia. Tecnicamente eu era um músico melhor... mas ele tinha aquela qualidade indefinível que vende uma canção; podia fazer os outros chorar ou rir. E tinha um milheiro delas. Uma ele chamava de O perdedor de nascença. A música não valia grande coisa, era apenas:

 

'Tátá pum pum!

Tátá pum pum!

Tá t'tá tá tá pum pum...'

 

"... sobre um cara que nunca consegue levar a coisa até o fim. Assim:

 

'Há uma espelunca que vende cerveja

Ao lado do salão de sinuca

Onde se pode passar algumas horas agradáveis.

 

Há um bordel

Em cima do salão de sinuca

Onde minha irmã ganha a vida.

Ela é uma boa garota;

Posso conseguir com ela comida e bebida

Ou uma nota de cinco ou mesmo de dez dólares

 

Quando estiver duro

Ou os cavalos

Tiverem corrido muito devagar...'

 

"É assim, pessoal. Porém continua."

— Lazarus — disse Ira —, você está murmurando ou cantando essa música todos os dias desde que chegou aqui em cima. Inteira. Uma dúzia de versos ou mais.

— Realmente, Ira? Murmuro e canto; sei disso. Mas eu mesmo não ouço. É como o ronronar de um gato; isso quer dizer apenas que estou funcionando bem, painel todo verde, operando em velocidade de cruzeiro. Significa que me sinto seguro, relaxado e feliz... e, pensando nisso, sinto-me mesmo.

"Mas O perdedor de nascença não tem apenas uma dúzia de versos; tem centenas. O que cantei foi apenas um pedaço do que o Barulhento costumava cantar. Ele estava sempre mexendo nas músicas, alterando-as, fazendo acréscimos. Acho que esta não começava como a dele; parece que me lembro de uma música sobre um sujeito cujo sobretudo estava geralmente no prego, há muito tempo, quando eu era muito moço e começava a constituir minha primeira família na Terra.

"Mas essa música pertencia ao Barulhento quando ele acabou de modificar o número de série e alterar os seus versos. Ouvi-a novamente, ah, deve ter sido vinte, vinte e cinco anos mais tarde, num cabaré em Luna City. Cantada pelo Barulhento. Mas ele a havia alterado. Consertou a escansão [28], deu-lhe um esquema de rimas apropriado e elaborou melhor a música. Mas esta ainda era reconhecível... num tom menor, mais patético, e as palavras eram ainda sobre o espertalhão de terceira classe cujo sobretudo estava sempre no prego e que vivia à custa da irmã.

"E ele havia mudado também. Tinha um instrumento brilhante, novo, um uniforme espacial feito sob medida, estava grisalho nas têmporas... e com cartaz de astro. Paguei a um garçom para dizer-lhe que Daze 'Feliz' estava na platéia (não era o meu nome então, mas o único nome pelo qual o Barulhento me conhecia) e, após sua primeira apresentação, veio até onde eu estava e deixou-me pagar-lhe um drinque, enquanto trocávamos mentiras e falávamos dos nossos dias felizes no velho e querido Salão Hormônio.

"Não mencionei que ele nos havia deixado um tanto abruptamente e que as garotas entraram em declínio por causa disso, preocupadas por ele poder estar morto numa vala... Não o mencionei porque ele também não o fez. Mas tive que investigar o seu desaparecimento porque o meu pessoal ficou tão desmoralizado com isso, que o lugar parecia um necrotério, o que não é ambiente para um bordel. Consegui descobrir que ele havia embarcado no Gyrfalcon quando este estava prestes a decolar para Luna City e não o havia deixado. Então disse às garotas que o Barulhento tivera uma oportunidade repentina de ir para casa novamente, mas havia deixado uma mensagem com o capitão do porto para cada uma delas. Depois acrescentei mais mentiras para personalizar a despedida que ele não havia feito. Isso as animou e acabou com a tristeza. Elas ainda sentiam falta dele, mas todas compreenderam que conseguir uma viagem para casa não era coisa que ele pudesse desprezar... E, já que se havia lembrado de enviar uma mensagem para cada uma delas, sentiram-se apreciadas.

Mas acontece que ele se lembrou delas e mencionou cada uma pelo nome. Minerva querida, aqui está a diferença entre um homem que ficou cego e um que nunca pôde ver. O Barulhento podia ver um arco-íris sempre que quisesse, de memória. Ele nunca deixou de ver, mas o que ele via era sempre lindo. Eu havia compreendido isso, um pouco, quando estávamos em Marte juntos, porque... não riam... ele achava que eu era tão bonito como você, Galahad. Disse-me que podia dizer como eu era pela minha voz, e descreveu-me para mim mesmo. Tive a cortesia de dizer que ele me lisonjeava, mas deixei a coisa morrer aí quando ele respondeu que eu era modesto demais... embora eu não seja bonito agora e não fosse então, e a modéstia nunca tenha sido um dos meus vícios.

"Mas o Barulhento achava que todas as garotas eram lindas também... e de certo modo pode ser que isso fosse verdade, e certamente várias delas eram bonitas.

"Mas ele me perguntou o que acontecera com Olga, e acrescentou: 'Nossa, que gracinha que ela era!'

"Meus parentes, Olga não era nem feia, era horrível! Seu rosto era como uma torta de lama, suas formas pareciam um saco de aniagem. Só num posto avançado como Marte ela conseguia sobreviver. O que ela possuía era uma voz suave e quente e uma personalidade encantadora... o que bastava, porque um freguês podia escolhê-la pela seleção de Hobson [29] numa noite atarefada. Uma vez tendo feito isso, no entanto, escolhia-a em outra ocasião deliberadamente. O que quer dizer, queridos, que a beleza atrai um homem para a cama, mas não o trará de volta uma segunda vez, a menos que ele seja demasiado moço ou muito estúpido."

— O que é que o traz de volta uma segunda vez, vovô? — perguntou Hamadríade. — Técnica? Controle muscular?

— Você recebeu alguma queixa, querida?

— Bem... não.

— Então você sabe a resposta e está brincando comigo. Nenhum dos dois. É a capacidade de fazer um homem feliz, principalmente se você mesma fica feliz... uma qualidade mais espiritual do que física. Olga tinha-a em quantidade.

"Eu disse ao Barulhento que Olga se casara pouco depois da partida dele, que estava feliz e com três filhos da última vez em que tive notícias dela... o que era absolutamente mentira, porque ela havia morrido acidentalmente. As garotas vociferaram por causa disso; eu mesmo não me sentia bem, e fechamos a casa durante quatro dias. Mas não podia dizê-lo ao Barulhento; Olga tinha sido uma das primeiras a adotá-lo, havia ajudado a dar banho nele e roubado algumas roupas minhas para ele, enquanto eu dormia.

"Mas todas elas o adotaram e nunca brigaram por causa dele. Não me desviei do nosso assunto neste relato desconexo sobre o Barulhento; ainda estamos definindo 'amor'. Alguém quer tentar fazê-lo agora?"

— O Barulhento amava cada uma delas — disse Galahad.

— Foi isso que você esteve dizendo.

— Não, filho, ele não amava nenhuma delas. Gostava delas, sim... mas ele deixou-a sem olhar para trás.

— Então você esteve dizendo que elas o amavam.

— Correto. Uma vez que você saiba a diferença entre o que ele sentia por elas e o que elas sentiam por ele, estaremos quase lá.

— Amor materno — disse Ira, acrescentando rudemente:

— Lazarus, está tentando dizer-nos que o amor materno é o único amor que existe? Homem, você está fora de si!

— Provavelmente. Mas não tanto assim. Eu disse que elas o adotaram; não disse uma palavra sobre amor materno.

— Ah... ele dormiu com elas todas?

— Não ficaria surpreso, Ira. Nunca tentei descobrir. De qualquer maneira, é irrelevante.

Hamadríade dirigiu-se ao pai:

— Ira, o amor materno não pode ser o que estamos tentando definir; muitas vezes é apenas um sentimento de dever. Dois dos meus pirralhos eu tentei afogar, como você deve ter imaginado ao ver os pequenos demônios que eram.

— Filha, todos os seus filhos são crianças encantadoras.

— Ah, lá vem ele! É preciso ter cuidados maternos com os bebês a qualquer custo, senão eles crescerão como monstros piores ainda. O que você achava do meu filho Gordon quando bebê?

— Uma criança encantadora.

— Realmente? Vou dizer isso a ele... se algum dia eu tiver um filho homem chamado Gordon. Desculpe, querido pai, eu não devia ter preparado esta armadilha para você. Lazarus, Ira é um avô perfeito que nunca esquece um aniversário. Mas desconfiei de que Minerva cuidava dessas coisas para ele, e agora sei. Certo, Minerva? Minerva não respondeu.

— Ela não está trabalhando para você, Hamadríade — disse Lazarus.

— Naturalmente que Minerva cuida dessas coisas para mim! — disse Ira bruscamente. — Minerva, quantos netos tenho?

— Cento e vinte e sete, Ira, contando o menino que vai nascer na semana que vem.

— Quantos bisnetos? E quem vai ter o menino?

— Quatrocentos e três, Sênior. A esposa atual do seu filho Gordon, Marian.

— Mantenha-me informado. Esse era o bebê Gordon a que me referia, srta. Espertinha; o Gordon filho de Gordon... Ah, com Evelyn Hedrick, acho eu. Lazarus, eu enganei você. A verdade é que vou emigrar porque os meus descendentes estão me expulsando deste globo pela quantidade.

— Papai, você vai emigrar realmente? Não é apenas conversa?

— Isso ainda é um alto segredo até depois da Reunião Decenal dos Curadores, querida. Mas vou. Quer vir junto? Galahad e Ishtar resolveram ir; eles vão montar uma loja de rejuvenescimento para a colônia. Você terá de cinco a dez anos para aprender alguma coisa de útil.

— Vovô, você vai?

— Pouco provável até o enésimo grau, minha querida. Já vi colônias.

— Pode ser que você mude de idéia. — Hamadríade levantou-se e virou-se para Lazarus. — Proponho-lhe, na presença de três testemunhas... quatro; Minerva é a melhor testemunha possível... um contrato de coabitação e prole, prazo a ser escolhido por você. — Ishtar pareceu estupefata, depois ficou com a fisionomia inexpressiva; os outros não disseram nada.

— Minha neta — respondeu Lazarus —, se eu não estivesse tão velho e cansado, daria uma surra em você.

— Lazarus, sou sua neta apenas por cortesia; você tem menos de oito por cento da minha ascendência total. Menos do que isso em termos do gene dominante, com uma pequena probabilidade de reforço desfavorável em desaparecimento; os fatores recessivos maus foram suprimidos. Vou mandar-lhe meu padrão genético para que examine.

— Não é essa a questão, querida.

— Lazarus, tenho certeza de que você se casou com seus descendentes no passado; há algum motivo de discriminação contra mim? Se me disser, talvez eu possa corrigi-lo. Devo acrescentar que esta proposta não está condicionada à sua migração. — Hamadríade continuou: — Ou pode ser para prole apenas, embora ficasse orgulhosa e feliz se me permitisse viver com você.

— Por quê, Hamadríade? Ela hesitou.

— Não sei como responder, Sênior. Achei que podia dizer "Eu o amo"... mas aparentemente não sei o que a palavra significa. Portanto, não tenho nenhuma palavra em qualquer das línguas para descrever a minha necessidade... e fui em frente sem isso.

— Eu a amo, querida... — disse Lazarus amavelmente. O rosto de Hamadríade se iluminou.

— ...e por esse mesmo motivo devo recusá-la. — Lazarus olhou em volta. — Amo vocês todos, Ishtar, Galahad... até esse seu pai horrível e malcriado, querida, sentado ali com ar preocupado. Agora sorria, querida, porque tenho certeza de que há machos sem fim ansiosos por se casar com você. Sorria você também, Ishtar... mas você não, Ira; isso racharia o seu rosto. Ishtar, quem vai substituir você e Galahad? Não, não me importa quem estiver programado. Posso ficar só o resto do dia?

Ela hesitou.

— Vovô, posso deixar alguém no posto de observação?

— Você deixará de qualquer maneira. Mas quer limitá-los aos botões e mostradores ou o que quer que usem? Nada de olhos ou ouvidos em cima de mim? Minerva lhe dirá se eu me comportar mal... estou certo disso.

— Não haverá nem olhos nem ouvidos sobre você, Sênior. — Ishtar levantou-se. — Vamos, Galahad. Hamadríade?

— Um momento, Ish. Lazarus... eu o ofendi?

— O quê? Absolutamente, minha querida.

— Pensei que você estivesse com raiva de mim por causa... do que propus.

— Ah, bobagem! Hamaquerida, esse tipo de proposta nunca ofende ninguém; é o mais alto cumprimento que um ser humano pode fazer a outro. Mas me confundiu. Agora sorria; dê-me um beijo de boa-noite. Venha ver-me amanhã se quiser. Todos vocês me dêem um beijo de boa-noite; ninguém está magoado com ninguém. Ira, pode ficar mais um pouco, se desejai.

Como crianças dóceis, eles assim fizeram. Depois entraram na casa de Lazarus e tomaram o transporte para baixo.

— Um drinque, Ira? — perguntou Lazarus.

— Só se você tomar também.

— Então ficaremos sem beber. Ira, você pôs isso na cabeça dela?

— Hein?

— Sabe o que quero dizer. Hamadríade. Primeiro Ishtar, agora Hamadríade. Você manipulou todo este negócio desde o momento em que me arrancou daquele pulgueiro onde eu estava morrendo calma e decentemente. Vem tentando novamente me envolver em qualquer plano que tenha no fundo da cabeça, acenando rabos bonitinhos debaixo do meu nariz? Isso não vai funcionar, cara.

O Presidente Temporário respondeu calmamente:

— Posso negar isso... e fazê-lo chamar-me de mentiroso pela centésima vez. Sugiro que pergunte a Minerva.

— Só fico imaginando se isso seria alguma garantia. Minerva!

— Sim, Lazarus?

— Foi Ira que preparou isto? Com alguma das garotas?

— Pelo que sei não, Lazarus.

— Isso é uma evasiva, querida?

— Lazarus, não posso mentir para você.

— Bem... acho que pode se Ira quiser que você minta, mas não adianta perguntar-lhe isso. Dê-nos intimidade por alguns momentos, querida... modo de gravação apenas.

— Sim, Lazarus.

— Ira — Lazarus continuou —, preferia que você tivesse respondido "Sim". Porque a outra única explicação é uma de que não gosto. Não sou bonito e os meus modos não são atraentes para as mulheres... portanto, o que nos resta? O fato de ser o homem vivo mais velho. As mulheres se vendem por motivos estranhos e nem sempre por dinheiro. Ira, não pretendo servir de reprodutor para coisinhas bonitas que não perderiam um momento comigo a não ser pelo prestígio de terem um filho com, abre aspas, o Sênior, fecha aspas. — Ele o olhou fixamente. — Certo?

— Lazarus, está sendo injusto com as duas mulheres. Bem como inusitadamente obtuso.

— Como?

— Eu as observei. Acho que ambas o amam... e não me venha com conversas sobre o significado do verbo; não sou Galahad.

— Mas... Ora, são baboseiras!

— Não discutirei nessa base; "baboseira" é um assunto no qual você é a autoridade máxima da galáxia. As mulheres não se vendem sempre, e elas se apaixonam... muitas vezes pelos motivos mais estranhos, se é que se pode aplicar a palavra "motivo". Concordando que você é horrível, egoísta, egocêntrico, grosseiro...

— Tenho consciência disso!

— ...para mim. Embora as mulheres pareçam não se importar muito com a aparência de um homem... e você é de uma gentileza surpreendente com as mulheres. Notei isso. Você diz que todas aquelas pequenas prostitutas de Marte amavam o tal cego.

— Algumas delas não eram pequenas. A Grande Anna era mais alta do que eu e pesava mais.

— Não tente mudar de assunto. Por que elas o amavam? Não se dê ao trabalho de responder; por que uma mulher ama um homem (ou um homem ama uma mulher) só pode ser racionalizado em termos de sobrevivência, e a resposta não tem sabor, não satisfaz. Mas... Lazarus, quando você tiver completado o rejuvenescimento e tivermos terminado a nossa aposta de Xerazade, seja como for que a terminemos, você vai embora outra vez?

Lazarus meditou antes de responder:

— Suponho que sim. Ira, esta casa com jardim e riacho que você me emprestou é muito bonita; nas vezes em que desci até a cidade voltei correndo, satisfeito de estar em casa. Mas ela é apenas um lugar de descanso; não vou ficar aqui. Quando o ganso selvagem grasnar, vou embora. — Lazarus ficou triste. — Mas não sei para onde e não desejo repetir as coisas que fiz. Talvez Minerva descubra essa coisa nova para mim, quando chegar a hora de me mudar.

Ira levantou-se.

— Lazarus, se você não fosse tão malditamente desconfiado e mesquinho, concederia às duas mulheres o benefício da dúvida e deixaria cada uma com um filho para se lembrarem de você. Isso não lhe custaria muito esforço.

— Fora de questão! Não abandono filhos. Nem mulheres grávidas.

— Desculpas. Adotarei, no ventre, qualquer filho que você gerar antes que nos deixe. Posso mandar Minerva colocar isso na memória permanente e transformar num compromisso?

— Posso sustentar meus próprios filhos! Sempre pude.

— Minerva. Transfira isso e transforme num compromisso.

— Completado, Ira.

— Obrigado, minha Chatinha. À mesma hora amanhã, Lazarus?

— Acho que sim. Sim. Avise Hamadríade, por favor, e peça-lhe para vir também. Diga-lhe que pedi a você. Não quero ferir os sentimentos da garota.

— Claro, vovô.

 

Contraponto IV

No nível dos apartamentos particulares do sr. Weatheral, no Palácio Executivo, Hamadríade esperava com Galahad enquanto Ishtar deixava ordens para os técnicos de rejuvenescimento de plantão. Depois os três tomaram o transporte para baixo e atravessaram, ainda dentro do palácio, até um apartamento que Ira havia colocado à disposição de Ishtar — uma residência maior e mais exuberante do que seus alojamentos na clínica de rejuvenescimento, e muito mais luxuosa do que a casa da cobertura, apesar de não possuir jardim; destinava-se a um Curador ou outro hóspede vip — não que o seu luxe importasse muito, porque Ishtar e Galahad passavam a maior parte do seu tempo e faziam a maioria de suas refeições com Lazarus, e usavam a casa principalmente para dormir.

Minerva havia colocado uma dúzia e pouco de acomodações menores à disposição do pessoal de serviço de Ishtar, uma delas para Galahad. Ele não precisava dela e Ishtar fez Minerva transferi-la para Hamadríade quando esta se tornou parte não-oficial da equipe que cuidava do Sênior. Hamadríade às vezes dormia lá em vez de ir para sua casa de campo — sem dizer ao pai, porque o Presidente Temporário não encorajava os membros da sua família a usarem os alojamentos do palácio desnecessariamente. Ou às vezes ela ficava com Ishtar e Galahad.

Desta vez os três foram para o apartamento de Ishtar; tinham assuntos a discutir. Ao chegarem lá, Ishtar verificou:

— Minerva?

— Ouvindo, Ishtar.

— Alguma coisa?

— Lazarus e Ira estão conversando. Conversa particular.

— Mantenha-me informada, querida.

— Certamente, querida, Ishtar voltou-se para os outros.

— Quem quer um drinque ou alguma coisa? Cedo demais para jantar. Ou não será?

— Um banho para mim, depois um drinque — respondeu Galahad. — Eu estava pronto para um mergulho, quente e suado, quando Lazarus nos chutou para fora.

— E fedendo — concordou Ishtar. — Notei isso no transporte.

— Um banho não lhe faria mal, sua bunda grande; você estava fazendo tanta força quanto eu.

— Lamentavelmente é verdade, meu bravo cavaleiro; tive o cuidado de sentar na direção oposta ao vento em relação aos nossos superiores após aquela última luta. Ham, traga para nós todos alguma coisa grande e fria, enquanto o fedorento e eu tomamos banho.

— Vocês dois aceitam batidas de framboesa ou o que quer que esteja à mão? Enquanto nós todos tomamos banho? Não tenho a desculpa de ter feito exercício pesado, mas fiquei fedendo de medo quando fiz a proposta a vovô. E falhei! Após todas as suas instruções, Ish. Lamento! — Ela começou a choramingar.

Ishtar colocou os braços em volta da mulher mais moça.

— Ora, ora, querida! Pare com isso. Não acho que você tenha falhado.

— Ele recusou-me.

— Você estabeleceu uma boa base... e sacudiu-o, o que ele precisava. Você me espantou com a escolha do momento, mas vai funcionar direito.

— Provavelmente ele nem me deixará voltar!

— Sim, deixará. Pare de soluçar. Venha, querida; Galahad e eu vamos fazer-lhe uma boa massagem relaxante nas costas. Fedorento, pegue as bebidas e junte-se a nós no chuveiro.

— Com duas mulheres por perto e tenho que trabalhar. Está bem.

 

Quando Galahad chegou com as bebidas geladas, Ishtar tinha deitado Hamadríade de bruços na mesa de massagens. Ishtar ergueu os olhos e disse:

— Querido, antes de se molhar, veja se há três roupões de banho no cabide; não verifiquei.

— Sim, madame; não, madame; imediatamente, madame; isso é tudo, madame?... uma porção de roupões; telefonei pedindo mais esta manhã. Não a machuque, você não conhece sua própria força. Vou precisar dela mais tarde.

— Vou trocá-lo por um cachorro, querido, e vender o cachorro. Sirva esses drinques, depois venha ajudar, ou não terá nenhuma de nós mais tarde. E talvez nunca. Estávamos ocupadas concordando em que todos os homens são uns animais. — Ela continuou a fazer massagem, suavemente, firmemente, com habilidade profissional, pelas costas de Hamadríade abaixo, enquanto a mesa de massagem se adaptava adequadamente a ela sob a paciente. Deixou Galahad pendurar-lhe um drinque em volta do pescoço e colocar-lhe o bocal nos lábios sem retardar os seus dedos cuidadosos.

Galahad colocou o drinque de Hamadríade na mesa, pôs-lhe o bocal, acariciou-lhe o rosto, depois passou para o outro lado e começou a ajudar, imitando Ishtar. A mesa mudou de comportamento para enfrentar quatro mãos.

Alguns minutos mais tarde ele deixou o bocal do seu drinque retrair-se e disse:

— Ish, alguma probabilidade de vovô ter percebido? Quanto a vocês duas?

— Não sei como Lazarus poderia perceber que estamos grávidas. Não que importasse ele ter percebido, no meu caso... exceto como exatamente estou grávida, e ele não pode saber que falsifiquei o registro sobre a fonte da célula clonada. Ham, não deixou escapar nada com Lazarus, deixou?

Hamadríade entregou o seu drinque.

— É claro que não!

— Minerva sabe — disse Galahad.

— É claro que sabe, discuti o assunto com ela. Mas... agora você me deixou pensando. Minerva?

— Ouvindo, Ishtar. — A computadora acrescentou: — Ira está saindo; Lazarus entrou. Nenhum problema.

— Obrigada, querida. Minerva, há algum meio possível de Lazarus poder saber sobre Hamadríade e eu? Que estamos grávidas, quero dizer, e por quê e como.

— Ele não disse isso, nem ninguém mencionou o fato em sua presença. A avaliação dos dados pertinentes à minha disposição tornam isso provável por menos de uma parte em mil.

— E quanto a Ira?

— Menos de uma parte em dez mil, Ishtar. Quando Ira me disse para prestar-lhe serviço e designar-lhe uma memória restrita, programou-me de forma que qualquer programa posterior simplesmente apague a parte designada a você. Na verdade, não há maneira alguma de Ira recuperar o arquivo da sua memória particular, nem posso autoprogramar-me para contornar tal situação.

— Sim, você me garantiu isso. Mas não entendo muito de computadores, Minerva.

— Ao passo que eu conheço. — Minerva riu entre dentes. — Você pode dizer que fiz carreira em computadores. Não se preocupe, querida, os seus segredos estão seguros comigo. Lazarus acabou de me dizer para pedir um jantar leve para ele; depois vai para a cama.

— Muito bem. Informe-me o que ele comer e a quantidade e a hora em que ele for para a cama; depois me chame se ele acordar. Acordado e sozinho de noite, um homem afunda na fossa; preciso estar pronta para atender rapidamente. Mas você sabe disso.

— Vou observar os padrões de onda dele, Ishtar. Você terá de dois a cinco minutos de aviso prévio... a menos que El Diablo pule sobre o estômago dele.

— Esse maldito gato! Mas ser acordado dessa maneira não o deprime; são os seus pesadelos suicidas que me preocupam. Já utilizei emergências diversionárias; não posso atear fogo à casa da cobertura uma segunda vez.

— Lazarus não teve um dos seus pesadelos depressivos típicos este mês, Ishtar, e sei como identificar as seqüências de onda agora; terei muito cuidado.

— Sei que terá, querida. Gostaria de conhecer os incidentes do passado dele, dos quais decorre cada um; talvez pudéssemos apagá-los.

— Ish — interrompeu Galahad —, continue a remendar a memória dele e pode perder tudo quanto Ira pretende.

— E posso salvar nosso cliente também. Limite-se a esfregar as costas, querido, e deixe o trabalho delicado para mim e Minerva. Mais alguma coisa, Minerva?

— Não. Sim. Ira está me dizendo para achar Hamadríade; ele quer falar-lhe. Ela atenderá ao chamado?

— Claro! — concordou Hamadríade rolando na mesa. — Mas ligue-o através de você, Minerva; não irei até o telefone, não estou com o rosto em condições.

— Hamadríade?

— Sim, Ira?

— Recado para você. Seja boazinha para o velho e apareça na casa como de hábito, está bem? Melhor ainda, chegue cedo lá e tome café com ele.

— Você tem certeza de que ele quer ver-me?

— Quer, sim. Não devia, após a maneira como você o embaraçou. O que foi que deu em você, Ham? Mas este recado é idéia dele, não minha. Ele quer ter certeza de que não a assustou.

Ela suspirou de alívio.

— Não ficarei assustada se ele me deixar ficar, papai. Eu disse a você que dedicaria tantos dias a isto quanto ele permitisse. Falei sério e ainda falo. Na verdade, disse à minha gerente que ela pode resgatar-me a crédito a longo prazo. Falei sério a este ponto.

— É mesmo? Estou muito satisfeito. Se você fizer isso e quiser receber o dinheiro, eu, isto é, o governo ficará com seu empréstimo sem descontá-lo; destinei crédito ilimitado para qualquer coisa referente ao Sênior. Basta dizer a Minerva.

— Obrigada, papai. Espero não precisar disso... a menos que vovô se canse de mim e eu descubra alguma outra coisa em que queira investir. Mas o negócio é próspero; pode ser que eu deixe Priscilla sustentar-me confortavelmente por alguns anos. Bastante próspero... aposto que os meus bens excedem os seus. Sua fortuna particular, quero dizer.

— Não seja boba, minha filha boba; como cidadão particular sou quase pobre... embora em meu cargo oficial possa confiscar os seus bens apenas com uma palavra a Minerva e ninguém iria discutir.

— Só que você nunca faria isso... você é um amor, Ira.

— Hein?

— É, sim... mesmo sem poder lembrar-se dos nomes dos meus filhos. Estou muito alegre, paizinho, você me fez feliz.

— Você não me chama de paizinho faz, hã, cinqüenta ou sessenta anos.

— Porque você nunca encorajou intimidades depois que um filho está crescido. Nem eu tampouco em relação aos meus. Mas este serviço me fez sentir-me mais chegada a você. Vou calar a boca, papai, e estarei lá amanhã cedo. Desligo?

— Um momento. Esqueci de perguntar onde está. Se você estiver em casa...

— Não; estou tomando banho com Galahad e Ishtar. Isto é, prestes a tomar; você interrompeu uma maravilhosa massagem que eles estavam fazendo em minhas costas.

— Desculpe. Já que você ainda está no palácio, sugiro que fique. Para estar lá amanhã cedo. Peça uma cama a eles ou, se isso for intromissão, venha para o meu apartamento; descobriremos algum lugar.

— Não se aflija por minha causa, Ira. Se eu não puder convencê-los a ficar comigo por uma noite, Minerva arranjará uma cama para mim. Na verdade, a cama de Lazarus é a única em que alguma vez achei impossível me meter... talvez eu precise candidatar-me a um rejuvenescimento.

O Presidente Temporário custou a responder.

— Hamadríade... você falou sério ao propor ter filhos com ele... não falou?

— Assunto particular, papai.

— Desculpe. Hum... O costume da privacidade não me proíbe de dizer que acho uma idéia muito boa. Se você me pedir, encorajarei isso da maneira que puder.

Hamadríade olhou para Ishtar e estendeu as mãos num gesto de "O que faço agora?"... Depois respondeu:

— A recusa dele pareceu muito firme, papai.

— Deixe-me oferecer-lhe um ponto de vista masculino, minha filha. Os homens muitas vezes recusam uma proposta dessas quando desejam aceitá-la. Gostam de ter certeza dos motivos e da sinceridade das mulheres. Numa ocasião posterior pode ser que ele aceite. Não quero dizer que você deva chateá-lo com o assunto; não funcionaria. Mas se você deseja isto... aguarde sua oportunidade. Você é uma mulher encantadora; tenho confiança em você.

— Sim, papai. Se ele me desse um filho, ficaríamos todos mais ricos com isso... não ficaríamos?

— Sim, certamente. Mas os meus motivos são um tanto diferentes. Se ele morrer ou deixar-nos, há sempre o banco de esperma e o banco de tecidos, em nenhum dos quais ele pode tocar porque trapacearei se for necessário. Mas não quero que ele morra, Hamadríade, nem quero que parta logo... e não estou falando por sentimento. O Sênior é único; tive muitos problemas para mantê-lo. Sua presença o agrada, sua oferta o estimula... embora você ache que ele reagiu mal. Você está ajudando a conservá-lo vivo. E, se ele finalmente deixá-la ter um filho dele, pode ser que você consiga mantê-lo vivo por um longo tempo. Indefinidamente longo.

Hamadríade contorceu-se de prazer e sorriu para Ishtar.

— Papai, você me faz sentir orgulhosa.

— Você sempre foi uma filha que me deu orgulho, querida. Embora eu não possa reivindicar todo o crédito; sua mãe é uma mulher completamente excepcional. Desligo agora?

— Desligo com música tocando. Boa noite, papai!

Sem se levantar, Hamadríade agarrou os dois amigos pela cintura e apertou-os com força.

— Ah, sinto-me ótima! — exclamou.

— Então desça dessa mesa; é minha vez.

— Você não precisa de massagem — disse Ishtar firmemente. — Não esteve sob nenhuma tensão emocional e o trabalho mais duro que fez o dia inteiro foi ganhar de mim duas vezes no jogo de bola assassina.

— Mas sou do tipo espiritual. Sensível.

— É verdade, querido Galahad, e agora você pode muito espiritualmente ajudá-la a descer e ajudar-me a dar banho nela..- ainda mais espiritualmente.

Galahad concordou enquanto reclamava:

— Vocês duas deviam dar banho em mim, em vez disso. Façam de conta que sou um compositor cego. F.le fechou os olhos e cantou:

 

"Há um tira

na esquina

que às vezes não é tão amável

Como um homem que

não está rico

Ou pelo contrário sem sorte...

 

"Sou eu... sem sorte... ou não teria que trabalhar, com duas mulheres na casa. Que ciclo, Ish?"

— "Relaxante", naturalmente. Hamaquerida, já que você nos deixou ouvir o telefonema, suponho que eu possa falar sobre o assunto. Concordo com Ira. Você estimulou Lazarus sexualmente, quer ele saiba disso quer não; e, se puder mantê-lo assim, ele não ficará deprimido.

— É verdade que ele está quase recuperado, Ishtar? — perguntou Hamadríade enquanto erguia os braços e deixava-os trabalhar sobre ela. — Ele parece melhor. Mas não posso dizer... seus modos não mudam.

— Ah, definitivamente! Ele começou a se masturbar um mês atrás. Xampu, querida?

— Começou? Realmente? Ah, isso é maravilhoso! Preciso disso? Sim, preciso... obrigada.

 

"Portanto é melhor

Ter uma irmã.

Ou mesmo um tio velho..."

 

"Feche os olhos, Hambone querida; mistura de xampu chegando. Um cliente não tem intimidade nenhuma com Ishtar. Mas ela não me disse; tive que deduzir dos gráficos dele. Ish, Por que acabo sempre lavando as costas de Ham? "

— Porque você faz cócegas, querido. Não havia necessidade de você saber. Mas um cliente não tem certamente nenhuma privacidade com Minerva ajudando... e é assim que deve ser. Estou vendo que precisamos de um serviço melhor de computador na clínica. Embora ele tenha intimidade no seu sentido verdadeiro, porque tudo isto está coberto pelo Juramento. Ainda que você não seja da equipe regular, Ham, estou certa de que percebe isso.

— Ah, certamente! Não é tão difícil assim, Galahad. Tenazes em brasa não me fariam falar a não ser a vocês dois. Nem mesmo a Ira. Ishtar, você acha que posso aprender a ser uma rejuvenescedora verdadeira?

— Se você sentir vocação para isso e quiser estudar bastante. Deixe-me enxaguar agora, Galahad. Você tem a empatia, estou certa. Qual é o seu índice?

 

"Eles são seus amigos, rapaz.

Não os negligencie

Aniversários e Yom Kippur..." [30]

 

— Ah... "Quase gênio" — admitiu Hamadríade.

— É preciso "gênio" — disse Galahad prestimosamente —, bem como um desejo compulsivo de trabalhar; ela é uma motorista escrava, querida Hammy.

E continuou:

 

"Também Natal

E Chanukah [31]

Uma carta ou mesmo balas".

 

— Você está desafinado, querido. Ham, você é "mais do que gênio", com um índice ligeiramente mais alto do que o de Galahad. Verifiquei simplesmente... e você perguntou. Estou muito satisfeita.

— Desafinado? Agora você foi longe demais.

— Você tem outras virtudes, meu verdadeiro cavaleiro; não precisa ser um trovador. Hamaquerida, se consultar o coração e realmente quiser isso, pode ser uma técnica associada quando emigrarmos. Se pretender emigrar. Senão, a clínica aqui sempre precisa de gente; uma vocação verdadeira é rara. Mas eu gostaria muito de tê-la conosco. Nós dois a ajudaremos.

— É claro que sim, Hammy! "Desafinado", realmente! Essa colônia vai ser polígama?

— Pergunte a Ira. Isso importa? Pegue um roupão e ponha-o em volta de Hamaquerida, depois faremos uma massagem rápida um no outro; estou com fome.

— Você quer arriscar-se? Depois do que disse sobre a minha afinação? Conheço cada ponto e vou fazer cócegas em todos.

— Cruz do Rei! Peço desculpas! Adoro a sua voz, querido.

— A expressão é "X do Rei", Ish. Isto é, paz. Pegue roupões para todos nós, Hammy. Isso, menina! Pernas compridas, enquanto eu estava cantando, perfeitamente afinado, fiquei pensando naquela expressão que me estava incomodando. Não é o que Minerva pensou que fosse; uma "loja de anzóis" é um bordel. O que torna a irmã do Perdedor de Nascença uma cortesã... e a última peça se encaixa.

— Ora, naturalmente! Não é de admirar que ela pudesse financiar o irmão... os artistas sempre ganham mais do que qualquer um.

Hamadríade voltou com os roupões e deixou-os sobre a mesa de massagem.

— Eu não sabia que essa expressão o estava incomodando, Galahad — disse ela. — Eu compreendi da primeira vez que ouvi a canção.

— Gostaria que você me tivesse dito. — Isso é importante?

— Apenas como mais um indício. Ham, ao se analisar uma cultura, os mitos, canções populares, expressões e aforismos são mais básicos do que a história formal. Não se pode compreender um indivíduo a menos que se compreenda sua cultura. Só isso já diz alguma coisa básica sobre a cultura na qual o nosso cliente foi criado: o fato de um termo geral tomar invariavelmente a forma masculina quando tanto a masculina como a feminina estão envolvidas. Isso significa que os homens são dominantes ou que as mulheres acabaram de emergir de um status inferior, mas o atraso da língua (sempre há) não alcançou a mudança cultural. A última, no barbarismo de onde Lazarus veio, como mostram outros indícios.

— Você pode concluir tudo isso apenas por uma regra de gramática?

— Às vezes. Hammy, eu costumava fazer isso profissionalmente, quando era velho, grisalho e estava à espera do rejuvenescimento. É um trabalho de detetive, e nem sempre um indício é suficiente. Por exemplo, as mulheres não deviam atingir um status igual, embora outros indícios mostrem que estavam a caminho disso... pois quem já ouviu falar de um bordel dirigido por um homem? Leão-de-chácara, sim, e Lazarus disse que o foi também. Mas gerente? É absurdo, pelos padrões modernos. A menos que aquela colônia em Marte representasse um retrocesso atípico... pode ter sido, não sei.

— Continuem enquanto comemos, garotos; mamãe está com fome.

— Estou indo, Ish querida. Galahad, compreendo essa expressão sem pensar nela. Você entende, minha mãe era... ainda é... uma cortesã.

— Realmente? Há uma coincidência extravagante. A minha também, bem como a de Ishtar... e nós três terminamos todos no trabalho de rejuvenescimento e com o mesmo cliente. Duas profissões numericamente pequenas... Fico imaginando quais são as probabilidades contra.

— Não muito altas, já que ambas as profissões exigem uma forte empatia. Mas, se você quiser saber, pergunte a Minerva — aconselhou Ishtar — e passe-me o roupão. Não gosto de me enxugar no jato de ar e não quero ficar com frio enquanto me ocupo com a comida. Hamadoce, por que você não seguiu a profissão da sua mãe? Com a sua beleza você seria uma estrela.

Hamadríade encolheu os ombros.

— Ah, sei que sou bonita. Mas mamãe pode arrebatar um homem de mim levantando apenas o dedo mindinho... só que evito a oportunidade. A beleza pouco tem a ver com isso; você viu um homem me recusar exatamente hoje. O próprio Lazarus nos disse o que é preciso para ser uma grande artista: uma qualidade espiritual que um homem possa sentir. Minha mãe a tem. Eu não.

— Acompanho o seu raciocínio — disse Ishtar quando passaram pela sala e entraram na despensa. Lá ela examinou o cardápio oferecido pela cozinha, embaixo. — Minha mãe a tem também. Ela não é especialmente bonita, mas ela tem o que os homens querem. Ainda querem, embora ela esteja aposentada.

— Pernas Compridas — disse Galahad solenemente —, você também tem isso.

— Obrigada, meu cavaleiro, mas isso não é verdade. Às vezes tenho para um certo homem. Ou dois, no máximo. E algumas vezes não tenho absolutamente, porque me enterrei em nossa profissão e esqueci o sexo. Eu lhe disse há quantos anos sou solteira. Eu não teria encontrado você, querido, nunca teria arriscado as Sete Horas... se o nosso cliente não me tivesse deixado tão terrivelmente emocional. O que é muito pouco profissional, Hamadríade; fiquei tão tola quanto uma garota de colégio numa noite quente de primavera. Mas Tamara, minha mãe, tem isso o tempo todo, Galahad, e para qualquer um que precisar dela. Tamara nunca fixa um preço, não precisa fazê-lo; eles a inundam de presentes. Ela está aposentada agora e pensando se deve rejuvenescer outra vez. Mas os fãs não a deixam em paz; ela ainda recebe ofertas intermináveis.

— Era isso que eu gostaria de ser — disse Galahad tristemente. — Mas sou aquele "perdedor de nascença". Se um homem tentasse tal profissão, se mataria em um mês.

— No seu caso, querido Galahad, podia levar um pouco mais. Mas coma e restaure suas forças; vamos pô-lo no meio da cama esta noite.

— Isso quer dizer que estou convidada? — perguntou Hamadríade.

— Essa é uma das maneiras de dizê-lo. Uma declaração mais precisa seria que estou convidando a mim mesma. Galahad deixou claro no chuveiro que os seus planos para a noite incluem você, querida. Mas ele não me mencionou.

— Ah, mencionou, também! De qualquer maneira ele é obcecado sexualmente por você o tempo todo; posso sentir isso.

— Ele é sexualmente obcecado... fim da mensagem e desligo. Bifes com guarnição variada servem, ou cada um de vocês quer escolher? Não me sinto imaginativa.

— Para mim serve. Ish, você devia pôr Galahad sob contrato. Enquanto ele está tonto.

— Privacidade, querida.

— Desculpe. Isso me escapou. É que gosto muito de vocês dois.

— A cadela de bunda grande não quer se casar comigo — disse Galahad. — E eu sou tão bom, puro e recatado. Diz que faço cócegas. Quer casar-se comigo, Hamaqueridinha?

— O quê? Galahad, você é o pior provocador do mundo. Não só não quer que eu me case com você, como sabe que estou comprometida com o Sênior, embora ele me tenha recusado. Até que Ish me diga para desistir. Se disser.

Ishtar acabou de fazer o pedido e apagou a tela.

— Galahad, não provoque o nosso bebê. Quero que tanto eu como Hamadríade fiquemos livres de outros contratos enquanto qualquer uma de nós tem alguma possibilidade de tornar o nosso cliente interessado em coabitação, prole ou ambos. Não apenas uma brincadeira, mas algo que ele possa levar a sério.

— É mesmo? Então por que, em nome de todos os deuses da fertilidade, vocês combinaram ficar as duas grávidas ao mesmo tempo? Não entendo. Ouço o zumbido, mas os números não somam.

— Porque, meu estúpido querido, não me atrevi a esperar. A diretora pode voltar a qualquer momento.

— Mas por que vocês duas? Com talvez dez mil saudáveis mães-hospedeiras registradas e disponíveis? E por que duas?

— Caríssimo homem, lamento ter dito que você era estúpido... não é; você é apenas homem. Hamadríade e eu sabemos exatamente os riscos que estamos correndo e por quê. Não parecemos grávidas e não o aparentaremos por várias semanas ainda; e, se qualquer uma de nós puder tapear Lazarus fazendo-o assinar um contrato, um aborto leva dez minutos. As mães-hospedeiras profissionais não servem para este serviço; têm que ser ventres sobre os quais eu tenha algum controle e mulheres em que confie totalmente. Já basta eu ter que confiar num cirurgião genético e arriscar um processo proibido... pode ser que Ira tenha que me tirar disso se transpirar alguma coisa.

"Mas você sabe tão bem quanto eu, doce Galahad, que mesmo um clone comum algumas vezes fica excêntrico. Eu gostaria de ter quatro ventres femininos que pudesse usar, não dois. Oito. Dezesseis! Isso aumentaria a probabilidade de ter um feto normal. Daqui a um mês, muito antes de aparecer, saberemos o que temos em gestação. Se as probabilidades falharem para nós duas... Bem, estarei pronta para começar outra vez, e Hamadríade também."

— Tantas vezes quantas forem necessárias, Ishtar. Juro.

— Vamos conseguir um bom — Ishtar acariciou-lhe a mão. — Galahad, Lazarus vai ter sua irmã gêmea univitelina, prometo-lhe... E, uma vez que isso se tornar um fato consumado, não ouviremos mais nenhuma conversa sobre interruptores de opção final, sobre deixar-nos ou qualquer outra coisa... pelo menos até ela ficar alta como uma mulher!

— Ishtar?

— O que é, Hamadríade?

— Se nós duas apresentarmos fetos normais dentro de um mês a partir de agora...

— Então você pode abortar, querida; sabe disso.

— Não, não, não! Não posso! O que há de errado com os gêmeos?

Galahad piscou para ela.

— Não se incomode em responder, Ish. Deixe-me dar-lhe o ponto de vista masculino. Ainda está para nascer o homem que possa resistir a criar garotas gêmeas univitelinas. E o seu nome não é Lazarus Long. Olhem, queridas, há alguma coisa, qualquer coisa, que possa melhorar as probabilidades de vocês duas? Agora?

— Não — repetiu Ishtar baixinho. — Não. O nosso teste acusou gravidez, isso é tudo quanto podemos dizer ou fazer agora. Exceto rezar. E eu não sei rezar.

— Então é hora de aprender!

 

Variações sobre um tema V

Vozes no escuro

Após pedir a refeição da noite para Lazarus e supervisionar o serviço, Minerva perguntou:

— Mais alguma coisa, Sênior?

— Acho que não. Sim. Quer jantar comigo, Minerva?

— Obrigada, Lazarus. Aceito.

— Não me agradeça; você é que está me fazendo um favor, minha senhora. Estou melancólico esta noite. Sente-se, querida, e anime-me.

A voz da computadora mudou de posição, de forma que parecia vir do lado oposto da mesa onde Lazarus se sentava, como se uma pessoa de carne e osso estivesse sentada ali.

— Posso construir uma imagem, Lazarus?

— Não se dê a esse trabalho, querida.

— Não é trabalho nenhum, Lazarus; tenho capacidade de sobra.

— Não, Minerva. Aquela holografia que você fez para mim certa noite... perfeita, realista, movia-se exatamente como uma pessoa de carne e osso. Mas não era você. Sei como você é. Hum... diminua as luzes e focalize bastante luz no meu prato para que eu possa comer. Depois verei você na penumbra sem holografia.

A iluminação reajustou-se de forma que a sala ficou quase escura, a não ser por uma poça de luz sobre os talheres e a toalha castamente perfeitos diante de Lazarus. O contraste ofuscou-lhe os olhos o bastante para ele não poder ver o outro lado da mesa sem olhar fixamente — ele não olhou.

— Qual é a minha aparência, Lazarus? — perguntou Minerva.

— Hein? — Ele parou de pensar. — Está de acordo com a sua voz. Hum, isso é um quadro que cresceu na minha mente sem eu pensar nisso, durante o tempo em que estivemos juntos. Querida, percebe que estamos vivendo juntos com mais intimidade do que marido e mulher geralmente conseguem?

— Talvez eu não perceba, Lazarus, já que não posso experimentar ser esposa. Mas estou feliz de estar perto de você.

— Ser esposa não tem muita coisa a ver com a cópula, minha querida. Você tem sido uma mãe para o meu bebê, Dora. Oh, sei que Ira está em primeiro lugar para você... mas você é como aquela moça de que falei, Olga; você tem tanto a dar que pode enriquecer mais de um homem. Mas respeito a sua lealdade para com Ira. O seu amor para com ele, querida.

— Obrigada, Lazarus. Mas, se sei o que a palavra significa, eu o amo também. E a Dora.

— Sei disso. A ambos. Eu e você não temos necessidade de nos preocupar com palavras; deixaremos isso para Hamadríade. Hum, sua aparência... Você é alta, quase tão alta como Ishtar. Porém mais esbelta. Não magricela, apenas esbelta... com músculos bem proporcionados sem serem salientes. Você não é tão larga de cadeiras como ela. Mas suficientemente larga. Femininamente. É jovem, mas uma jovem mulher madura, não uma garota. Seios muito menores do que os de Ishtar, mais como os de Hamadríade. Você é mais simpática do que bonita, e é bastante solene, exceto quando um dos seus raros sorrisos lhe ilumina o rosto. Seus cabelos são castanhos e lisos, e você os usa compridos. Mas não mexe neles a não ser para mantê-los limpos e bem arrumados. Seus olhos são castanhos e combinam com o cabelo. Você geralmente não usa cosméticos, mas quase sempre usa um certo tipo de roupas... roupas simples; não anda extremamente bem vestida, não se interessa tanto assim por roupas. Mas só anda nua com pessoas em quem confia totalmente... uma lista curta.

"Isso é tudo, acho eu. Não tentei imaginar detalhes; isto é apenas o que surgiu na minha mente. Ah, sim! Você mantém as unhas, tanto das mãos como dos pés, curtas e limpas. Mas não exagera nisso, nem em nada. Nem a sujeira nem o suor a incomodam, e você não recua diante do sangue, embora não goste dele."

— Estou muito satisfeita em saber como pareço, Lazarus.

— Hein? Ora, é brincadeira, garota! Isso é a minha imaginação vivendo sua própria vida.

— É assim que pareço — disse Minerva firmemente —, e gosto disso.

— Está bem. Embora você possa ser tão ofuscantemente linda como Hamadríade, se o quiser.

— Não, pareço exatamente como você me descreveu. Sou uma Marta [32], Lazarus, não sua irmã Maria.

— Você me surpreende — confessou Lazarus. — Sim, é mesmo. Leu a Bíblia?

— Li tudo da Grande Biblioteca. Em certo sentido sou a biblioteca, Lazarus.

— Hum, sim, devia ter percebido isso. Como está indo o processo de duplicação? Vai ficar pronto? Avise se Ira ficar impaciente e decolar às pressas.

— Está essencialmente completo, Lazarus. Todos os meus permanentes, programas, memórias e lógicas estão geminados no porão número 4 de Dora, e faço verificações de rotina e exercícios fazendo as partes duplicadas passarem por mim aqui sob o palácio... seis vezes em vez do meu método normal de três vezes. Descobri e corrigi alguns circuitos abertos dessa maneira... pequenos defeitos de fábrica, nada de que eu não pudesse cuidar imediatamente. Você vê, Lazarus, tratei disso como um programa-relâmpago e não dependo dos processos de Turing para construir a maior parte do meu novo eu, porque teria que construir extensões em Dora só para este fim, depois retirá-las, exceto as extensões de manutenção.

"Isso teria tomado muito tempo, naturalmente, já que não posso usar velocidades de computador para manipular a massa. Assim, em vez disso, pedi todas as novas memórias em branco e circuitos lógicos e mandei instalá-los em Dora pelos técnicos da fábrica. Muito mais rápido. Depois os enchi e conferi."

— Algum problema, querida?

— Não, Lazarus. Ah, Dora resmungou a respeito de pés sujos nos seus compartimentos limpos. Mas foi apenas um resmungo, porque eles trabalharam no estilo de "sala-limpa", com macacões livres de poeira, máscaras e luvas, e exigi que mudassem a roupa no tanque de ar, não apenas antes de entrarem no número 4. — Ele sentiu seu rápido sorriso. — Instalações sanitárias temporárias fora da nave... o que fez o engenheiro do projeto resmungar, bem como o taifeiro da loja.

— Devia ter pensado nisso. Não teria magoado Dora ativar uma latrina.

— Lazarus, como você acentuou, serei (espero) uma passageira de Dora algum dia. Assim, tentei tornar-me sua amiga... e somos amigas, amo-a e ela é a única amiga computadora que tenho. Não quero arriscar isso fazendo uma sujeira, ou permitindo que seja feita, ao me mudar para a nave dela. Ela é, como você disse, uma dona-de-casa ordeira; e estou tentando ser igualmente ordeira e mostrar, dessa forma, que a respeito e que aprecio o privilégio de ser sua passageira. O engenheiro responsável e aquele taifeiro tagarela da loja não tinham motivos para resmungar; especifiquei tudo isto no contrato... mudança de roupas no tanque; urinóis de perna para todo pessoal dentro; nada de comer, tossir ou fumar dentro da nave; ir pelo caminho mais curto para o número 4; nada de bisbilhotar em outros lugares da nave... o que de qualquer maneira não podiam fazer, porque pedi a Dora para manter todas as portas trancadas, exceto a do caminho direto, e paguei para que isso fosse feito dessa maneira.

— Uma nota firme, estou certo. Ira fez algum comentário?

— Ira não se preocupa com esses assuntos. Mas não informo os custos a ele; debitei tudo a você, Lazarus.

— Xi! Estou falido?

— Não, Sênior; debitei da sua conta corrente sem limite. Isso me pareceu melhor, Lazarus, porque o trabalho foi feito na sua nave. Talvez eles fiquem imaginando por que o Sênior quer um segundo computador de alta capacidade instalado em sua nave. Sei que o engenheiro do projeto ficou imaginando; repreendi-o severamente. Mas imaginar é tudo quanto eles podem fazer; o Sênior não é responsável perante ninguém. Insinuei claramente que o sr. Presidente Temporário ficaria aborrecido se alguém tentasse bisbilhotar os seus negócios. Não que qualquer pessoa possa dizer o que é um computador realmente, apenas olhando para ele... mesmo o fabricante.

— Este fabricante... cobrou pouco?

— Eu devia ter aberto concorrência, Sênior? — Minerva pareceu preocupada.

— Que diabo, não! Se tivesse que fazê-lo, eu lhe teria dito para rasgar o edital e começar de novo... aí teríamos procurado o melhor fornecedor. Minerva, minha querida, uma vez partindo daqui, podem se passar muitos anos antes de você ter qualquer serviço da fábrica; terá que fazer a manutenção você mesma. A menos que Ira possa cuidar de um computador doente.

— Ele não pode.

— Está vendo? Dora é de ouro e platina onde um computador mais barato é de cobre e alumínio. Espero que sua nova carcaça seja igualmente cara.

— É, Lazarus. O meu novo eu é ainda mais digno de confiança do que o meu velho eu... e menor e mais rápido, porque a maior parte de mim, o "velho eu", tem cerca de um século de idade; a arte progrediu.

— Hum. Devo ver o que precisa ser substituído em Dora, se é que é preciso.

Minerva não fez nenhum comentário.

— Minha querida — disse Lazarus —, quando você não fala é mais clara do que quando o faz. Você esteve examinando Dora?

— Estoquei alguns componentes, Lazarus. Mas Dora não se deixa tocar a menos que você o ordene.

— É, ela odeia deixar um médico mexer dentro dela. Mas, se ela precisar disso, o fará... sob anestesia. Minerva, seria uma boa idéia, com vocês duas na nave, Dora ter suas instruções de manutenção na memória permanente, e as dela na sua... para que vocês possam cuidar uma da outra.

Minerva respondeu simplesmente:

— Estávamos esperando que você nos dissesse para fazer isso, Lazarus.

— Você quer dizer que você estava esperando; isso não é coisa em que Dora pensasse. Portanto, estou dizendo agora a vocês duas, e deixe-a ouvir minha voz dizer isso. Minerva, quero que deixe de ser tão humilde comigo. Você devia ter proposto isso; pensa mais depressa do que eu por muitas ordens de grandeza; tenho limitações de carne e osso. Como é que você vai indo em astrogação? Ela a está ensinando a pilotar? Ou está criando obstáculos?

— Lazarus, sou agora um piloto tão hábil quanto ela, em meu outro eu.

— Não brinque. Você é um co-piloto. Não será piloto até ter dado um salto no espaço n sem assistência. Mesmo Dora fica nervosa antes de um salto... e ela já fez centenas.

— Fico corrigida, Lazarus. Sou um co-piloto altamente treinado. Mas não tenho medo de fazer isso, se a ocasião se apresentar. Repassei todos os saltos de Dora em tempo real, e ela me diz que eu sei.

— Pode ser que algum dia você tenha de fazer isso, se ocorrer um desastre. Ira não é tão bom piloto quanto eu, estou certo. Sem mim a bordo, sua nova habilidade pode salvar a vida dele alguma vez. O que mais você sabe? Ouviu algumas boas ultimamente?

— Não sei, Lazarus. Ouvi algumas histórias, imorais acredito, dos técnicos que instalaram minha gêmea. Mas não sei se são engraçadas.

— Não se preocupe. Se for uma história imoral, ouvi uma igual pelo menos mil anos atrás. Agora a pergunta-chave... Com que rapidez você pode libertar-se se Ira decidir saltar? Suponha um coup d'état e ele fugindo para salvar a vida.

— Menos de um quinto de segundo.

— Hein? Você não está brincando comigo? Quero dizer quanto tempo leva para pôr toda a sua personalidade a bordo de Dora. Sem deixar nada atrás e sem deixar a computadora aqui saber que ela alguma vez foi Minerva... porque qualquer coisa menos do que isso não seria justo para você, querida. A "Minerva", deixada para trás, iria aborrecer-se.

— Lazarus, estou falando não em teoria, mas por experiência, porque sei que isso foi o aspecto crítico da duplicação. Assim, depois de ter despedido o empreiteiro e haver duplicado meus permanentes, lógicas e temporários em vigor, experimentei, cuidadosamente a princípio; simplesmente me equipei, como lhe descrevi. Isso é fácil, tenho apenas que equilibrar o atraso em cada extremidade, para permanecer sincronizada com o tempo real... mas tenho que fazê-lo com as minhas extensões remotas em todas as ocasiões; estou acostumada a isso.

"Depois tentei, com muito cuidado, suprimindo a mim mesma, primeiro na extremidade da nave, depois na extremidade do palácio, com um autoprograma para reverter a geminação completa em três segundos. Não houve problema, Lazarus, nem mesmo da primeira vez. Agora posso fazê-lo em menos de duzentos milissegundos, e realizar todas as verificações para estar certa de não haver esquecido nada. Já o fiz sete vezes desde que você fez tal pergunta. Notou um atraso em minha voz em certas ocasiões? Um atraso de aproximadamente mil quilômetros?"

— O quê? Minha querida, não estou equipado para notar um atraso de menos de trinta mil quilômetros à velocidade "c". — E acrescentou: — Chame isso de um décimo de segundo. Você me lisonjeia. — Lazarus continuou pensativo: — Mas um décimo de segundo é igual a cem milhões de nanossegundos que você usa. Ou cem milissegundos. O que é isso no seu tempo? Cerca de mil dos meus dias?

— Lazarus, não é assim que eu expressaria isso. Eu divido o tempo em partes muito menores do que um nanossegundo em muitas coisas que faço... um "milichoque", ou menos. Mas trabalho com o mesmo desembaraço no seu tempo; no momento estou com o meu eu pessoal. Não posso sentir prazer em cantar ou nesta conversa sossegada com você, se no meu modo pessoal eu for forçada a considerar cada nanossegundo. Você conta cada uma das batidas do seu coração?

— Não. Ou raramente.

— Comigo é mais ou menos a mesma coisa, Lazarus. As coisas que faço rapidamente faço sem nenhum esforço e sem nenhuma atenção consciente além do autoprograma necessário. Mas os segundos, minutos e horas que passo com você, no modo pessoal eu saboreio. Não os divido em nanossegundos; agarro-os por inteiro e os aprecio. Todos os dias e semanas que você esteve aqui considero como um único "agora", e os acaricio.

— Ah... pare com isso, querida! Você está dizendo que, bem, o dia em que Ira nos apresentou um ao outro ainda é "agora" para você?

— É, Lazarus.

— Deixe-me distinguir isso. Amanhã também é "agora" para você?

— Sim, Lazarus.

— Ah... mas, se é assim, você pode prever o futuro.

— Não, Lazarus.

— Mas... Então não compreendo.

— Posso imprimir as equações, Lazarus, mas essas equações descreveriam simplesmente o fato de que sou construída para tratar o tempo como uma das muitas dimensões, com entropia mas com um operador, e o "presente" ou o "agora" sendo uma variável mantida em estado firme por um período de tempo grande ou pequeno. Mas, ao lidar com você, tenho necessariamente que me mover com a frente de onda que é o seu pessoal agora... ou não podemos nos comunicar.

— Minha querida, não estou certo de estarmos nos comunicando.

— Lamento, Lazarus. Também tenho minhas limitações. Se eu pudesse escolher, porém, escolheria as suas limitações. Humanas. De carne e osso.

— Minerva, você não sabe o que está dizendo. Um corpo de carne e osso pode ser um fardo... especialmente quando sua manutenção começa a tomar a maior parte da atenção de uma pessoa. Você tem o melhor de ambos os mundos, pois é projetada segundo a própria imagem do homem para fazer o que o torna distintamente humano, porém melhor, mais rápido, muito mais rápido! E com mais precisão do que ele, sem as dores, os sofrimentos e a ineficiência de um corpo que tem de comer, dormir e cometer enganos. Acredite-me.

— Lazarus... o que é "Eros"?

Ele olhou para dentro da escuridão e viu mentalmente como ela o contemplava com solenidade e pesar.

— Santo Deus, garota! Você quer tanto assim ir para a cama com ele?

— Lazarus, não sei. Sou "cega". Como posso saber? Lazarus suspirou.

— Desculpe, querida. Então você sabe por que mantive Dora como bebê.

— Apenas como conjectura, Lazarus. Uma que não tenho e não discutirei com ninguém.

— Obrigado... você é uma dama, querida. Você sabe. Ou sabe parte dos meus motivos. Mas lhe direi todos quando tiver vontade, e então você saberá o que quero dizer com "amor" e por que eu disse a Hamadríade que ele devia ser experimentado e não definido com palavras... e por que sei que você sabe o que é o amor, porque você o experimentou. Mas a história de Dora não é para Ira, é só para você. Não, você pode contar a Ira... depois de eu ter ido embora. Ah, chame-a de "A história da filha adotiva"; depois a mantenha em segredo e conte-lhe mais tarde. Mas não vou contá-la agora; não estou muito forte esta noite... Pergunte-me quando souber que estou disposto.

— Perguntarei. Lamento, Lazarus.

— "Lamenta"? Minerva, minha querida, nunca há nada a se lamentar a respeito do amor. Nunca. Você preferia não me amar? Ou a Dora? Ou nunca aprendeu a amar, amando Ira?

— Não. Não, isso não! Mas queria conhecer Eros também.

— Conte suas bênçãos, querida. "Eros" pode magoar.

— Lazarus, não receio ficar magoada. Mas embora eu conheça muito sobre a reprodução homem-mulher, muito mais do que qualquer pessoa isolada de carne e osso...

— Conhece? Ou acha que conhece?

— Conheço, Lazarus. Ao preparar-me para emigrar, acrescentei um estoque adicional de memória extra, enchendo grande parte do porão número 2, de forma a poder transcrever para Ishtar no meu novo eu todos os arquivos de pesquisa, a biblioteca e os registros confidenciais da Clínica Howard de Rejuvenescimento...

— Puxa! Acho que Ishtar se arriscou. A clínica parece bastante reservada quanto ao que libera ou não libera.

— Ishtar não tem medo de se arriscar. Mas ela me pediu para andar depressa. Assim, coloquei isso na memória temporária até poder estabelecer a capacidade necessária, no porão de Dora. Mas pedi permissão a Ishtar para estudar o assunto e ela disse que estava bem eu fazer isso, desde que eu não liberasse nada classificado como confidencial ou secreto sem consultá-la.

"Achei isso fascinante, Lazarus. Agora sei tudo sobre o sexo... no sentido de que um homem que sempre foi cego pode aprender a física de um arco-íris. Sou até cirurgia genética agora, em teoria, e não hesitaria em ser uma na prática uma vez que tivesse tempo de construir as pinças em ultra-microminiatura necessárias para esse trabalho delicado. Sou especializada igualmente em obstetrícia, ginecologia e rejuvenescimento. Os reflexos da ereção, a mecânica do orgasmo, os processos da espermatogênese e a fecundação não são mistério para mim, nem qualquer aspecto da gestação e do nascimento. Só não posso conhecer Eros... e sei finalmente que sou cega."

 

Variações sobre um tema VI

A história dos gêmeos que não eram gêmeos

(Omitido)

... mas comerciante do céu era então minha ocupação habitual, Minerva. Aquele salto no qual passei de escravo a alto sacerdote me foi imposto. Tive que ser humilde por um longo tempo, o que não é do meu estilo. Talvez Jesus estivesse certo quando disse que os humildes herdariam a terra — mas herdariam lotes muito pequenos, com cerca de dois metros por um.

Mas o único caminho de servo da terra para a liberdade era através da Igreja e exigia humildade o tempo todo; portanto, foi isso que lhes dei. Aqueles sacerdotes tinham hábitos esquisitos...

(9 300 palavras omitidas)

... o que me fez sair do seu maldito planeta sem nunca esperar voltar.

...voltei dois séculos mais tarde — recém-rejuvenescido e sem parecer em nada com aquele alto sacerdote cuja nave se havia perdido no espaço.

Eu era um comerciante do céu novamente, o que me agradava; faz a gente viajar e ver coisas. Fui de novo para Abençoado em busca de dinheiro, não de revanche. Jamais gastei suor do crânio em revanches; a síndrome do conde de Monte Cristo é trabalhosa demais e não muito divertida. Se me desentendo com um homem e ele sobrevive a isso, não volto mais tarde à procura dele com um revólver. Em vez disso, sobrevivo a ele — o que iguala os saldos dos livros da mesma forma. Achei que dois séculos seriam suficientes para os meus inimigos em Abençoado morrerem, já que havia deixado a maioria deles mais ou menos mortos anteriormente.

Abençoado não estaria na minha rota senão por motivos comerciais. O comércio interestelar é limitado economicamente ao básico. Não se pode ganhar dinheiro ganhando dinheiro, porque o dinheiro não é dinheiro a não ser em seu planeta de emissão. A maior parte do dinheiro é papel-moeda de curso forçado; toda carga de papel-moeda de uma nave é papel sujo em outra parte. O crédito bancário vale ainda menos; as distâncias galácticas são grandes demais. Mesmo o dinheiro que tilinta deve ser considerado como mercadoria — não dinheiro —, ou você se enganará a si mesmo até à fome.

Isto dá ao comerciante do céu uma compreensão de economia raramente conseguida por banqueiros ou professores. Ele está engajado nas trocas, e nada de bobagens. Paga os impostos que não pode sonegar e não se importa se eles são chamados de "imposto de consumo", "dízimo do rei", "extorsão" ou subornos diretos. É o bastão, a bola e o quintal do outro garoto; portanto, joga-se pelas regras dele — nada por que suar. O respeito às leis é uma questão pragmática. As mulheres sabem disto instintivamente; é por isso que todas elas são contrabandistas. Os homens muitas vezes acreditam — ou fingem acreditar — que a "Lei" é alguma coisa sagrada, ou pelo menos uma ciência — presunção essa sem fundamento, muito conveniente para os governos.

Fiz pouco contrabando; é arriscado, e a gente pode terminar com dinheiro que não se atreve a gastar onde ele é moeda legal. Simplesmente tentei evitar os lugares onde a extorsão era alta demais.

Pela lei da oferta e da procura uma coisa tem valor tanto por onde está como pelo que é — e é isso que um comerciante faz; transporta as coisas de onde são baratas para onde valem mais. Uma porcaria malcheirosa num estábulo é um fertilizante valioso se você o transportar para o sul quarenta. Seixos num planeta podem ser pedras preciosas em outro. A arte de escolher a carga está em saber onde as coisas valerão mais, e o comerciante que puder calcular certo pode ganhar a fortuna de Midas numa viagem. Ou calcular errado e falir.

Eu estava em Abençoado porque tinha estado em Aterragem e queria ir para Valhalla a fim de voltar para Aterragem, porque estava pensando em me casar e constituir outra família. Mas eu queria ser rico o suficiente para ser proprietário de terras quando me casasse — o que eu não era na ocasião. Tudo quanto eu tinha era a nave de reconhecimento que eu e Libby havíamos usado [33] e uma pequena quantia em dinheiro local.

Assim, era tempo de comerciar.

As rotas comerciais para uma troca nos dois sentidos apresentam um lucro mínimo; elas abastecem tudo depressa demais. Mas um comércio triangular — ou números mais altos — pode apresentar altos lucros. Da seguinte forma: Aterragem tinha certa coisa — digamos queijo — que era luxo em Abençoado, ao passo que Abençoado produzia algo — digamos giz — muito procurado em Valhalla.... ao passo que Valhalla fabricava objetos pequenos de que Aterragem precisava.

Trabalhe nisto na direção certa e ficará rico; trabalhe de trás para diante e ficará sem a camisa.

Eu havia trabalhado o primeiro lado do triângulo, de Aterragem para Abençoado, com sucesso, tendo vendido minha carga de... Ora, de que era? Macacos me mordam se puder me lembrar; lidei com tantas coisas! De qualquer maneira, consegui um preço tão bom que temporariamente fiquei com dinheiro demais.

Quanto é "demais"? O que quer que você não possa gastar antes de deixar um lugar para o qual não vai voltar. Se você guardar esse excesso e voltar mais tarde, descobrirá geralmente — invariavelmente, tanto quanto lembro — que a inflação, a guerra, os impostos, as mudanças de governo ou alguma coisa varreu o valor nominal do papel-moeda que você possa ter guardado.

Como a minha nave devia ser carregada e eu havia caucionado com a autoridade do porto o preço da sua carga, o que me restara estava queimando o meu bolso com apenas um dia para me livrar daquilo, sendo esse o tempo para carregar a minha nave — eu tinha que estar presente para isso; eu era o meu próprio comissário por ser desconfiado por natureza.

Assim, dei um passeio pelo bairro do comércio a varejo, achando que podia comprar algumas bugigangas.

Eu estava vestido segundo a alta moda local e tinha um guarda-costas atrás de mim, porque Abençoado tinha ainda uma economia escrava, e numa sociedade piramidal é bom estar no alto, perto da ponta, ou pelo menos parecer estar. Meu guarda-costas era escravo, mas não meu; eu o havia alugado numa agência de locação de empregados. Não sou hipócrita; este escravo não tinha porcaria nenhuma para fazer senão acompanhar-me e comer como um porco.

Eu estava com ele porque o status que assumira exigia um empregado à vista. Um "cavalheiro" não podia hospedar-se num hilton de primeira classe em Caridade ou em qualquer parte de Abençoado sem um criado particular em evidência; eu não podia comer num bom restaurante sem o meu próprio empregado de pé atrás de mim — e assim por diante; em Roma, faça como os romanos. Estive em lugares onde era obrigatório dormir com a anfitriã — o que pode ser horrível; este costume de Abençoado não era difícil.

Eu não confiava nele, embora a agência o tivesse fornecido com uma bengala com castão. Eu estava armado de seis maneiras diferentes e tomava cuidado por onde andava; Abençoado estava mais perigoso do que quando eu fora escravo lá, e um "cavalheiro" era mais um alvo, embora os tiras não o incomodassem.

Eu estava cortando caminho através do mercado de escravos, não sendo esse um dia de leilão, em direção do beco dos joalheiros, quando vi aquela mercadoria sendo oferecida e diminuí a marcha — um homem que tenha sido vendido ele próprio não pode passar indiferente diante da condição dos escravos. Não que eu tivesse qualquer intenção de comprar um.

Nem parecia haver alguém prestes a comprar aquele par; o ajuntamento em torno da tenda do feitor era da plebe; eu podia dizer pelas suas roupas e pelo fato de não haver lá um homem com empregado.

A mercadoria estava de pé sobre uma mesa: uma moça e um rapaz. Ele no fim da adolescência e ela apenas amadurecida, ou seriam da mesma idade, em virtude de as mulheres crescerem mais depressa. Digamos dezoito anos medidos pela minha própria juventude — idade na qual um rapaz deve ser pregado dentro de um barril e alimentado através de um buraco, mas uma moça está pronta para se casar.

Túnicas longas sem mangas pendiam dos seus ombros — e eu sabia muito bem o que significavam aquelas túnicas; eles seriam exibidos apenas para um comprador em perspectiva, não para a ralé. Túnicas significavam escravos valiosos, não para serem vendidos em leilão aberto.

De fato, eles estavam sendo vendidos num leilão holandês, com o lance mínimo afixado — dez mil bênçãos. Isso monta a... Como posso definir o dinheiro de séculos atrás, num planeta a centenas de anos-luz de distância, em termos que tenham sentido aqui e agora? Digamos da seguinte maneira: a menos que os garotos fossem alguma coisa extraordinária, estavam com o preço exagerado por um fator de cinco vezes, porque o gado jovem no apogeu, de qualquer dos sexos, estava dando por volta de mil bênçãos, segundo as notícias financeiras da manhã.

Você parou alguma vez em frente a uma loja de roupas e foi pescada para dentro? Não, é claro que não foi. Mas foi o que aconteceu comigo.

Tudo quanto fiz foi dizer ao feitor:

— Meu bom homem, esse preço afixado é um engano? Ou estes dois têm alguma coisa especial que não aparece?

Apenas curiosidade, Minerva, porque eu não pretendia possuir escravos, nem o excesso de dinheiro em minha bolsa faria diferença no costume de todo um planeta. Mas eu não podia ver por quê. A moça não era excepcionalmente bonita; ela não alcançaria um preço alto como odalisca. O rapaz não era sequer musculoso. Nem formavam um par que combinasse. Em casa eu a tomaria por italiana e ele por sueco.

Pronto, fui levado contra a vontade para dentro da tenda enquanto os escravos eram empurrados na frente; os modos do feitor mostravam que ele não tinha tido uma pessoa excitante o dia inteiro, enquanto a minha sombra dizia no meu ouvido:

— Patrão, esse preço é alto demais. Posso levá-lo a uma sala particular onde os preços são corretos e a satisfação é garantida.

— Cale a boca, Fiel — disse eu. — Todos os empregados pessoais alugados se chamavam "Fiel", provavelmente pelos contrários. — Quero ver o que é isto.

Logo que a aba da tenda foi fechada contra a ralé, o feitor empurrou uma cadeira contra os meus joelhos e, entregando-me um drinque com uma inclinação e um rapapé, disse üricamente:

— Ah, doce e amável patrão, estou feliz por haver perguntado isso! Vou mostrar-lhe agora uma grande maravilha da ciência! Uma coisa de espantar os próprios deuses! Falo como um homem piedoso, um verdadeiro filho da nossa Eterna Igreja, que não pode mentir!

Um feitor de escravos que não pode mentir ainda está para nascer. Enquanto isso, os jovens pararam documente sobre uma plataforma de exposição, e Fiel estava cochichando:

— Não acredite numa palavra, patrão. A moça não vale nada e posso bater em três destes porcarias sem o meu bastão... apesar disso a agência me venderia ao senhor por oitocentas bênçãos, e isso é verdade.

Fiz sinal para ele se calar.

— Bom homem, que tapeação é esta?

— Tapeação nenhuma, pela honra da minha mãe, caro senhor! O senhor acreditaria que eles são irmão e irmã?

Olhei para eles.

— Não.

— O senhor acreditaria que eles não são apenas irmão e irmã, mas gêmeos?

— Não.

— O senhor acreditaria que são do mesmo haras, da mesma mãe, do mesmo útero, nascidos à mesma hora?

— Possivelmente do mesmo útero — concedi. — Mãe-hospedeira?

— Não, não! Exatamente os mesmos ancestrais. E, apesar disso, aqui está o milagre... — Ele fixou os olhos em mim e falou em voz baixa: — Eles são, contudo, um ótimo par para acasalar... porque estes gêmeos não são parentes um do outro! O senhor acreditaria nisso?

Eu lhe disse no que acreditava, inclusive na possibilidade de ele perder a licença e enfrentar uma acusação de blasfêmia.

Seu sorriso aumentou, ele cumprimentou-me pela minha inteligência e perguntou-me quanto — se ele provasse todas aquelas coisas —, qual o maior lance que eu faria por eles. Acima de dez mil, já que eu devia compreender que o preço afixado representava um lance anterior. Quinze mil, talvez, com caução até o dia seguinte antes do meio-dia?

— Esqueça isso — disse eu —, estou embarcando antes do meio-dia — e comecei a me levantar.

— Espere, peço-lhe! — gritou ele. — Vejo que o senhor é um cavalheiro educado, de ciência, com conhecimento profundo e muito viajado... certamente concederá ao seu humilde servo um momento para mostrar as provas.

Eu ainda teria ido embora; as fraudes me aborrecem. Mas ele acenou com uma das mãos e os garotos deixaram cair suas túnicas e assumiram poses de exibições, o rapaz com os braços cruzados no peito e os pés plantados firmemente, a moça naquela pose graciosa que deve ser tão velha como Eva — um joelho ligeiramente avançado, uma das mãos nos quadris, o outro braço pendendo naturalmente e o peito erguido. Isso quase a tornou bonita, salvo que ela parecia chateada — havendo-a assumido centenas de vezes, sem dúvida.

Mas não foi isso o que me fez ficar; alguma coisa me aborreceu. O rapaz estava nu, é claro — ela estava usando um cinto de castidade. — Você sabe o que é isso, Minerva?

— Sei, Lazarus. Muito mal. Eu disse:

— Tire essa maldita coisa dessa garota! Agora! — Bobagem minha; raramente interfiro em qualquer coisa num planeta estranho. Mas aquelas coisas eram abomináveis.

— Certamente, gentil senhor; eu ia fazer isso. Estrellita!

A moça virou de costas com aquele mesmo olhar chateado. O feitor ficou de pé de maneira que suas costas impediam o rapaz de vê-lo mexer no segredo da fechadura. O feitor disse, desculpando-se:

— Ela tem que usar isso não só por causa dos rufiões como para protegê-la do irmão; eles dormem no mesmo catre, porque ela é... O senhor acreditaria nisso, vendo como ela está madura? Ela é virgem! Mostre ao gentil patrão, Trellita.

Chateada como sempre, ela prontamente começou a fazê-lo. Considero a virgindade uma perversidade corrigível sem nenhum interesse; fiz um gesto para que ela parasse e perguntei ao feitor se ela sabia cozinhar.

Ele me garantiu que ela era motivo de ciúmes para todos os cozinheiros de Abençoado, e começou a trancá-la de novo dentro daquela fralda de aço. Falei severamente:

— Deixe-a fora! Ninguém aqui vai estuprá-la. É essa a prova que você prometeu?

Minerva, ele provou cada palavra — exceto sobre ela cozinhar — com elementos de prova que só me deixaram desconfiado porque ele os mostrou; eu não teria hesitado se os visse aqui na clínica.

Devo mencionar que Abençoado tinha uma clínica de rejuvenescimento, embora não fosse estabelecida pelas Famílias. Finalmente, a direção da clínica foi assumida pela Igreja, e as técnicas de antigeria que funcionavam razoavelmente bem, mesmo em pessoas que vivem pouco, não estavam mais à disposição de ninguém, a não ser dos figurões. Mas o planeta continuou adiantado em técnicas biológicas; a Igreja precisava delas.

Minerva, contei a você o que ele afirmou e você está agora tão entendida em biologia, genética e manipulações associadas quanto Ishtar — mais ainda; você não tem as limitações dela em tempo e capacidade de memória. O que foi que ele provou para mim?

— Que eles eram complementos diplóides, Lazarus.

— Certo! Embora ele os chamasse de "gêmeos sósias". Pode dizer-me como foram feitos estes garotos, Minerva? Como você faria para produzir esses gêmeos?

A computadora respondeu, pensativa:

— "Gêmeos sósias" seria uma expressão inexata para zigotos que satisfizessem as exigências arroladas... embora seja pitoresca. Posso responder a isso apenas teoricamente, porque meus registros não mostram que isso tenha sido tentado em Secundus. Mas os passos necessários para obter complementos diplóides exatos seriam estes: deve haver intervenção na gametogênese de cada progenitor imediatamente antes da divisão-redução miótica do número de cromossomos, isto é, um começaria com espermatócitos primários e oócitos primários, diplóides não-reduzidos.

"No progenitor masculino a intervenção não apresenta nenhum problema técnico, mas seria difícil porque as células são muito pequenas... contudo, eu não hesitaria em tentá-la, tendo tempo para construir as extensões necessariamente finas.

"O lugar lógico para começar, em ambos os progenitores, seria com o gônio colocado in vitro, e bem alimentado. Quando se observasse um espermatogônio se transformar num espermatócito primário, ainda diplóide, ele seria segregado e, no momento em que se dividisse em dois espermatócitos secundários (haplóides, um com um cromossomo X e outro com um cromossomo Y), eles seriam segregados novamente e cada um encorajado a se transformar num espermatozóide.

"Não seria suficiente intervir na fase de espermatozóide; a confusão dos pares de gametas não poderia ser evitada e os zigotos resultantes só poderiam ser complementares pelo acaso mais extravagante.

"A intervenção na progenitora feminina é mecanicamente mais simples por causa das células maiores, mas envolve um problema diferente; o oócito primário deve ser encorajado, no ponto da meiose, a produzir dois haplóides e oócitos secundários complementares, em vez de um oócito e um corpo polar. Lazarus, isto pode exigir muitas tentativas antes de se descobrir uma técnica digna de confiança. Seria semelhante ao processo da geminação univitelina, mas deve ter lugar duas fases mais cedo na seqüência gametogenética. No entanto, pode-se verificar não ser mais difícil do que produzir coelhas sem pai. Não arrisco uma opinião porque me falta a arte anterior a que recorrer... exceto que estou certa de que isso pode ser feito, dado o tempo para aperfeiçoar a técnica.

"Neste ponto temos grupos complementares de espermatozóides, um grupo com cromossomo Y e um com cromossomo X e um par complementar de óvulos, cada um com um cromossomo. A fertilização seria in vitro, com uma possibilidade de escolher qualquer dos dois pares potenciais de complementos femininos-masculinos, mas sem nenhuma base para escolha, a menos que as cartas genéticas dos haplóides sejam determinadas com precisão, o que é difícil e tem a probabilidade de causar danos genéticos; não acho que isso seria tentado. Em vez disso, um espermatozóide seria inserido dentro de um óvulo, seu complemento dentro de outro, numa base cega.

"Uma última exigência deve ser atendida para justificar todas estas alegações do feitor de escravos: os dois óvulos fertilizados devem ser retirados do vidro e plantados no útero da doadora do oogônio, e lá deixados para se transformarem em gêmeos através de gestação e nascimento naturais.

"Estou certa, Lazarus?"

— Absolutamente certa! Vá para a frente da classe, querida; você ganhou uma estrela de ouro no seu boletim. Minerva, não sei se isso aconteceu dessa maneira. Mas foi isso que o feitor afirmou, e era isso que as suas provas — relatórios de laboratório, holofilmes e assim por diante — pareciam mostrar. Mas aquele ladrão pode ter falsificado aquelas "provas" e oferecido um par aleatório sem probabilidade de obter um preço acima da média — exceto pela sua conversa elaborada de vendedor. As assim chamadas provas pareciam boas, e os relatórios de laboratório e outros traziam um carimbo e o selo de bispo. As fotografias e filmes pareciam bons também — mas como pode um leigo julgar? Mesmo que aquelas provas não fossem falsas, tudo quanto podiam provar era que esse processo havia sido realizado certa vez; elas não provavam que estes garotos fossem o resultado. Bolas, podem ter sido usadas para vender muitos pares de escravos, com um bispo metido no negócio.

Examinei o material, inclusive um álbum de recortes dos garotos crescendo, e disse:

— Muito interessante — e comecei a sair.

Este bolha telemoveu-se entre mim e a aba da tenda.

— Patrão — disse ele, apressado. — Amável e generoso senhor... doze mil?

Minerva, meus instintos de comerciante assumiram o comando.

— Mil! — retruquei. Não sei por quê. Sim, sei. O corpo da moça estava com cicatrizes daquele maldito cinto de Torquemada; eu queria insultar este vendedor ambulante de carne.

Ele recuou e pareceu estar dando à luz garrafas de cerveja quebradas.

— O senhor está caçoando comigo. Onze mil bênçãos, e eles são seus... embora as despesas não corram por minha conta!

— Mil e quinhentas — respondi. Eu tinha dinheiro que não podia gastar em lugar nenhum e disse comigo mesmo que podia livrar-me dele em vez de deixar aquela garota ser presa dentro daquela maldita atrocidade outra vez.

— Se eles fossem meus, eu os daria ao senhor. — Ele gemeu. — Amo estas gracinhas como meus próprios filhos e não podia desejar-lhes nada melhor do que um patrão bondoso e amável, entendido em ciência, que aprecia as maravilhas praticadas na fabricação deles. Mas o bispo me enforcaria e me cortaria vivo para ser morto pelo meu instrumento. Dez mil e leve todas as provas e atestados. Terei um prejuízo para o bem deles... e porque o admiro muito.

Subi para quatro mil e quinhentas e ele desceu para sete mil; aí paramos, porque eu tinha que ter dinheiro para a extorsão do último minuto, embora me parecesse que ele estava perto do ponto onde realmente não podia vender sem se arriscar à ira do bispo. Se é que havia um bispo...

Ele deu as costas, mostrando que a barganha estava terminada e que ele estava cansado de lisonjear-me, e disse bruscamente à moça para entrar de novo no seu equipamento de aço.

Tirei minha bolsa. Minerva, você compreende o dinheiro; você cuida das finanças do governo. Mas provavelmente não sabe que a erva viva afeta certas pessoas da mesma maneira que a erva dos gatos afeta Diablo. Contei quatro mil e quinhentas bênçãos em notas grandes, vermelhas e douradas, sob o nariz daquele patife — e parei. Ele estava suando e engolindo, mas conseguiu sacudir a cabeça dois milímetros e meio.

Assim, contei mais notas, muito devagar, e cheguei a cinco mil — depois comecei a recolhê-las rapidamente.

Ele me deteve — e descobri que havia comprado os únicos escravos que já possuí.

Ele relaxou então, de maneira resignada, mas queria um extra pelas provas. Não me importei de uma maneira ou de outra, mas ofereci duzentos e cinqüenta pelo cofre e as fitas, era pegar ou largar. Ele pegou e começou novamente a pôr O cinto na moça.

 

Eu o fiz parar e disse:

— Mostre-me como funciona isso.

Eu sabia — uma fechadura do tipo cilindro com uma combinação de dez letras que se podia regular para uma nova combinação cada vez que se usava. Registrada a combinação, fazia-se deslizar a extremidade da cinta de aço que passava em volta da cintura dela pelas extremidades do tambor, giravam-se os discos do alfabeto do cilindro; aí ela ficava trancada até a gente registrar novamente qualquer combinação de dez letras que escolhesse. Uma fechadura cara e bom aço no cinto — uma liga que uma serra de metal não podia romper. Isto foi outra coisa que tornou sua história convincente porque, embora houvesse um mercado para virgens naquele globo estranho, uma odalisca treinada valia quase o mesmo e esta moça não estava sendo reservada para estoque de harém de maneira alguma. Portanto, um cinto de castidade caro, feito sob medida, tinha que estar sendo usado por algum outro motivo.

De costas para os escravos ele me mostrou a combinação: E-S-T-R-E-L-L-I-T-A — e ficou cheio de si sobre como fora esperto em escolher uma combinação que não podia esquecer.

Então me atrapalhei de propósito, depois fingi entender e abri a fechadura. Ele ia pô-lo na garota outra vez e mandar-nos embora.

— Espere um momento — disse eu. — Quero ter certeza de saber colocar isso no lugar. Entre nele e deixe-me tirá-lo.

Ele não quis. Aí fiquei irritado e disse-lhe que estava tentando enganar-me — colocar-me numa situação em que eu teria de mandar chamá-lo e pagar muito para ter a minha propriedade destrancada. Exigi meu dinheiro de volta e comecei a rasgar a nota de venda. Ele cedeu e entrou na geringonça.

Ele podia introduzir-se no cinto embora as extremidades da cinta de aço mal se tocassem; ele era mais grosso de cintura do que a moça.

— Agora soletre a combinação para mim — disse eu, inclinando-me sobre a fechadura. Enquanto ele soletrava ESTRELLITA, o que registrei foi FILHODAMÃE; depois juntei as extremidades com toda a força e girei os discos.

— Bom — disse eu. — Funciona. Agora soletre outra vez.

Ele o fez e eu soletrei cuidadosamente ESTRELLITA. Continuou trancado. Sugeri que ele me havia feito soletrar com um l só e dois t da primeira vez. Isso também não funcionou.

Ele pegou um espelho e tentou por si mesmo. Nada feito.

 

Eu disse que devia estar enguiçado, que ele encolhesse a barriga e eu o sacudiria. A essa altura ele estava suando.

— Vou lhe dizer o que farei, meu bom homem — disse eu, finalmente. — Vou dar-lhe esse cinto. Em vez disso, prefiro confiar num cadeado. Assim, vá até um serralheiro... Não, você não vai querer usar isso na rua; diga-me apenas onde encontrar um, que o mandarei aqui e pagarei a ele eu mesmo. Acha justo? Não posso ficar aqui; tenho um compromisso para jantar no Beulahland. Onde estão as roupas deles? Fiel, junte estes trapos e traga os garotos.

Deixei-o, então, ainda se lamentando e recomendando que eu dissesse ao serralheiro para vir depressa.

Ao deixarmos a tenda estava passando um táxi. Mandei Fiel chamá-lo e nós todos nos empilhamos dentro. Nem passei no serralheiro. Mandei o motorista ir para o porto celeste; no caminho parei numa loja de roupas feitas e comprei para os garotos roupas apropriadas, uma tanga para ele e uma espécie de sarong balinês para ela — muito parecido com o vestido que Hamadríade usou ontem. Acho que essas foram as primeiras roupas verdadeiras que os jovens tiveram. Não pude arranjar-lhes sapatos; resolvi comprar sandálias — depois tive que afastar Estrellita para longe de um espelho; ela estava se admirando e se enfeitando. Joguei fora aquelas túnicas do leilão.

Meti os garotos dentro do táxi e disse a Fiel:

— Está vendo aquele beco? Se eu virar de costas e você sair correndo por ele, não poderei correr atrás de você; tenho que ficar de olho nestes dois.

Minerva, descobri uma coisa que nunca compreenderei: a mentalidade do escravo. Fiel não entendeu o que eu quis dizer — e, quando expliquei, ficou estupefato. Ele não tinha prestado bons serviços? Eu queria que ele passasse fome?

Desisti. Deixamo-lo na agência de empregados, e recebi meu depósito de volta — dando-lhe uma gorjeta pelos bons serviços — e meus escravos e eu continuamos para o porto celeste.

Verifiquei que precisava daquele depósito e de quase todas as bênçãos que me restavam — tive que pagar na saída da alfândega para pôr os garotos a bordo da minha nave, apesar de a nota de venda estar em ordem.

Mas consegui pô-los a bordo. Fiz com que se ajoelhassem imediatamente, pus minhas mãos sobre suas cabeças e libertei-os. Parece que eles não acreditaram nisso.

— Olhem — expliquei então —, vocês estão livres agora. Livres, entenderam? Não são mais escravos. Vou assinar as

cartas de alforria. Vocês podem ir ao escritório da diocese e registrá-las. Ou podem jantar aqui e dormir a bordo; darei a vocês as bênçãos que puder pouco antes de minha nave decolar amanhã. Ou, se quiserem, podem ficar a bordo e ir para Valhalla, um bonito planeta, embora mais frio do que este — mas onde não há nenhuma coisa parecida com escravidão.

Minerva, acho que Llita — pronuncia-se "Ita", seu nome de todos os dias — ou seu irmão Joe — Josie ou José — não compreenderam o que eu quis dizer com um lugar que não tinha escravidão; isso era estranho a tudo quanto conheciam. Mas sabiam o que era uma nave estelar, de ouvir dizer, e a perspectiva de ir a alguma parte em uma delas deixou-os maravilhados — não teriam perdido isso se eu lhes tivesse dito que iriam ser enforcados na chegada. Além disso, em suas mentes eu ainda era o patrão; a alforria não penetrara ali, embora soubessem o que era. Alguma coisa para servidores velhos e fiéis, isto é, que continuassem no fundo onde tinham estado todos juntos, mas talvez recebessem um pequeno pagamento.

Mas viajar! O mais longe que tinham viajado alguma vez em suas vidas fora de uma diocese ao norte dali até a capital, para serem vendidos.

Um pequeno problema na manhã seguinte... Parece que um certo Simon Legree, comerciante de escravos licenciado, havia apresentado uma queixa contra mim alegando danos corporais, coação mental e acusações variadas. Fiz o tira sentar-se na sala dos oficiais, servi-lhe um drinque, chamei Llita, fí-la tirar suas maravilhosas roupas novas e deixei o tira ver as cicatrizes nos seus quadris, depois disse a ela para dar o fora. Eu deixara por acaso uma nota de cem bênçãos sobre a mesa quando me levantara para apanhar a nota de venda.

O tira afastou com um gesto a nota de venda, dizendo que não houvera nenhuma reclamação quanto a ela — mas que ia dizer ao bom Legree que ele tinha sorte de não enfrentar uma contra-acusação por vender mercadorias estragadas... não, pensando melhor, seria mais simples se ele não pudesse me encontrar até a minha nave ter decolado. As cem bênçãos tinham sumido, e logo o tira foi embora — e por volta do meio-dia nós também.

Mas, Minerva, eu fui roubado; Llita não sabia cozinhar porcaria nenhuma.

 

É uma viagem longa e complexa de Abençoado para Valhalla, e o capitão Sheffield ficou satisfeito por ter companhia.

Houve um pequeno contratempo na primeira noite da viagem, causado por um mal-entendido que havia começado na noite anterior, em terra. A nave tinha uma cabine e dois camarotes. Já que o capitão normalmente operava sozinho, usava os camarotes como depósito para cargas leves; eles não estavam preparados para passageiros. Assim, naquela primeira noite em terra, pôs sua mulher libertada dentro da sua cabine, enquanto o irmão dela e ele dormiram nos sofás da sala de oficiais.

No dia seguinte o capitão Sheffield abriu os camarotes, ligou a força neles, mandou os jovens limpá-los e transferir o que estava lá para um paiol de equipamentos até poder verificar o espaço que lhe restava em seus porões, e disse a cada um deles para ficar com um quarto — e esqueceu-se daquilo, ocupado como estava com a carga e o suborno final, depois em supervisionar seu computador de pilotagem enquanto eles ficavam afastados daquele sistema. Era tarde naquela "noite", pela hora da nave, quando a pôs em seu primeiro rumo no espaço n e pôde relaxar.

Foi para a sua cabine, enquanto pensava se devia comer primeiro, tomar um banho de chuveiro, ou possivelmente nenhum dos dois.

Estrellita estava na cama dele — completamente acordada e esperando.

— Llita, o que está fazendo aqui? — perguntou ele. Ela lhe disse na língua rude dos escravos o que estava fazendo na cama dele — esperando por ele —, porque sabia o que se esperava dela quando Milorde Sheffield se havia oferecido para levá-los junto com ele; ela havia discutido o assunto com o irmão, e ele lhe havia dito para fazer isso.

Ela acrescentou que não estava com nem um pouco de medo; estava preparada e ansiosa.

Na primeira parte Aaron Sheffield teve que acreditar; o adendo parecia claramente uma mentira; ele já havia visto virgens assustadas antes — não muitas vezes, mas algumas.

Enfrentou o medo dela ignorando-o.

— Sua cadela petulante — disse ele —, tire o seu rabo da minha cama e ponha-o na sua.

A mulher libertada ficou espantada e incrédula, depois magoada e ofendida — e em seguida chorou. O medo de um desconhecido que havia sentido antes foi afogado numa emoção pior; seu ego minúsculo estava esmagado pela rejeição dos serviços que ela sabia dever a ele — e julgara que ele queria. Caiu em soluços e derramou lágrimas sobre o travesseiro.

As lágrimas femininas sempre tiveram um forte efeito afrodisíaco sobre o capitão Sheffield; ele reagiu a elas imediatamente — agarrando-a pelo tornozelo, puxando-a para fora da cama, empurrando-a para fora da sua cabine, levando-a para o camarote dela e trancando-a lá. Depois voltou para a sua cabine, trancou a porta, tomou medidas para se acalmar e foi dormir.

 

Minerva, não havia nada errado com Llita como mulher. Uma vez tendo-a ensinado a tomar banho adequadamente, ela era bastante atraente — corpo bem-feito, fisionomia e maneiras agradáveis, bons dentes e hálito doce. Mas ter relações com ela não estava de acordo com nenhum costume. Todo Eros é costume, querida; nunca houve nada moral ou imoral quanto à cópula como tal, ou qualquer das suas particularidades não funcionais. Eros é simplesmente uma maneira de manter os seres humanos, os indivíduos, diferentes entre si — mantendo-os juntos e felizes. É um mecanismo de sobrevivência aperfeiçoado através de uma longa evolução, e a sua função reprodutora é o aspecto menos complexo do seu papel mais complexo e difuso de manter a raça humana em funcionamento.

Mas qualquer ato sexual é moral ou imoral precisamente pelas mesmas leis de moralidade que regem qualquer outro ato humano; todas as outras regras sobre o sexo são simplesmente costumes — locais e passageiros. Há mais códigos de costumes sexuais do que pulgas num cachorro — e tudo quanto eles têm em comum é que foram "ordenados por Deus". Lembro-me de uma sociedade em que a cópula em particular era obscena e proibida, criminosa — enquanto que em público era um vale-tudo. A sociedade em que fui criado tinha o inverso dessas regras — novamente "ordenadas por Deus". Não sei bem que padrão era mais difícil de seguir, mas gostaria que Deus parasse de mudar de idéia — porque nunca é seguro ignorar esses costumes, e a ignorância não é uma desculpa; a ignorância fez com que eu fosse alvejado no rabo diversas vezes.

Ao recusar Llita eu não estava sendo moral; estava seguindo os meus próprios costumes sexuais, elaborados por tentativas, erros e muitas contusões durante os séculos: nunca levo para a cama uma mulher que dependa de mim, a menos que seja casado com ela ou pretenda casar-me. Esta é uma regra empírica amoral, sujeita a mudanças segundo as circunstâncias, e que não se aplica a mulheres que não dependem de mim — isto é uma coisa completamente diferente. Mas esta regra é uma precaução de segurança aplicável à maioria das situações e lugares com costumes que variam largamente — uma medida de segurança para mim... porque, ao contrário daquela senhora de Boston de quem lhe falei, muitas mulheres consideram a cópula como uma proposta formal de contrato.

Eu havia deixado o impulso induzir-me a me colocar numa situação em que Llita era temporariamente minha dependente; eu não tinha nenhuma intenção de tornar as coisas piores casando-me com ela, eu não lhe devia isso. Minerva, os que vivem muito nunca devem se casar com efêmeras; isso não é justo para a efêmera nem para o que vive muito.

Apesar de tudo, uma vez que você recolha um gato perdido e o alimente, não pode abandoná-lo. O amor-próprio proíbe isso. O bem-estar do gato torna-se essencial à sua própria paz de espírito — mesmo quando é extremamente aborrecido não romper o compromisso com o gato. Tendo comprado aqueles garotos, eu não podia livrar-me deles pela alforria; tinha que planejar seu futuro — porque eles não sabiam fazê-lo. Eram gatos perdidos.

 

Cedo na "manhã" seguinte (pela rotina da nave) o capitão Sheffield levantou-se, abriu o camarote da mulher libertada e encontrou-a dormindo. Chamou-a e disse-lhe para se levantar, lavar-se rapidamente, depois preparar café para três. Saiu para acordar o irmão dela — encontrou seu camarote vazio e ele na cozinha.

— Bom dia, Joe.

O liberto deu um pulo.

— Ah! Bom dia, patrão. — Ele abaixou-se e dobrou o joelho.

— Joe, a resposta certa é: "Bom dia, capitão". Isso vem a dar no mesmo no momento, porque sou realmente o chefe desta nave e de todos dentro dela. Mas, quando você deixar a minha nave em Valhalla, não terá chefe de espécie alguma. Nenhum, como expliquei ontem. Enquanto isso, chame-me de "capitão".

— Sim... capitão. — O rapaz repetiu a mesura.

— Não se incline! Quando falar comigo, fique ereto, firme e orgulhoso, e olhe diretamente para os meus olhos. A resposta correta para uma ordem é: "Sim, senhor, capitão". O que está fazendo aqui?

— Ah, não sei... capitão.

— Também acho que você não sabe. Aqui há café suficiente para uma dúzia de pessoas. — Sheffield empurrou Joe com o cotovelo para o lado, recuperou a maioria dos cristais de café que o rapaz havia despejado numa tigela, mediu o suficiente para nove xícaras, tomou nota para ensinar a garota a fazer café se ela não soubesse e depois a manter o café pronto durante as horas de trabalho.

Ao sentar-se com a primeira xícara de café, ela apareceu. Seus olhos estavam vermelhos e com olheiras; ele suspeitou de que ela havia chorado um pouco mais naquela manhã. Mas não fez nenhum comentário a não ser uma saudação matinal, e deixou-a cuidar da cozinha sem assistência, porque ela vira o que ele tinha feito na manhã anterior.

Daí a pouco ele estava se lembrando com otimismo do almoço e do jantar feitos às pressas — sanduíches que ele mesmo havia preparado — no dia anterior. Mas não disse nada além de ordenar-lhes que se sentassem e comessem com ele, em vez de ficarem pairando sobre ele. A refeição da manhã era simplesmente café, pão frio e manteiga em lata. Ovos de accra reconstituídos com cogumelos eram um prato intragável, e ela havia conseguido fazer alguma coisa com o suco de fruta-do-céu. Estragar isso exigia talento; era preciso somente acrescentar oito partes de água fria para cada parte de concentrado, e as instruções estavam no recipiente.

— Llita, você sabe ler?

— Não, patrão.

— Chame-me de "capitão" em vez disso. E você, Joe?

— Não, capitão.

— Aritmética? Números?

— Ah, sim, capitão, conheço números. Dois e dois são quatro, dois e três são cinco, e três e cinco são nove...

— Sete, Josie... não nove — corrigiu-o a irmã.

— Basta — disse Sheffield. — Posso ver que ficaremos ocupados. — Ele pensou enquanto cantarolava: "Então é bom... ter uma irmã... ou mesmo um velho capitão... " E acrescentou em voz alta: — Quando vocês terminarem o café, cuidem de suas necessidades pessoais, depois arrumem seus quartos... bem arrumados e limpos, verificarei mais tarde. Façam a cama na minha cabine, mas não toquem em nada mais lá, especialmente na minha secretária. Depois tomem um banho. Sim, foi isso que eu disse: banho. A bordo da nave todos tomam banho todo dia, até mais de um, se desejarem. Há bastante água pura; nós a reciclamos e terminaremos a viagem com milhares de litros a mais do que quando começamos. Não perguntem por quê; é assim que isso funciona e explicarei mais tarde. — (Vários meses mais tarde, pelo menos, para jovens inseguros quanto a três mais cinco.) — Quando terminarem, digamos, daqui a uma hora e meia... Joe, você sabe ver horas?

Joe olhou para o relógio antiquado da nave, montado num tabique.

— Não tenho certeza, capitão. Esse tem números demais.

— Ah, sim, naturalmente. Abençoado fica em outro sistema. Tente estar de volta aqui quando o ponteiro pequeno estiver apontando bem para a esquerda e o grande para cima. Mas desta vez não importa estarem atrasados; é preciso algum tempo para se habituar. Não se esqueçam de tomar seu banho na hora. Joe, lave a cabeça com xampu. Llita, incline-se para mim, querida; deixe-me cheirar seu cabelo. Sim, lave-o com xampu também. — Haveria redes para cabelo a bordo? Se ele desligasse a pseudogravidade e os deixasse em queda livre, iriam precisar de redes para o cabelo... ou cortá-los. Um corte de cabelo não faria mal a Joe, mas os longos cabelos pretos de sua irmã eram sua melhor característica... ajudá-la-iam a arranjar um marido em Valhalla. Ora, se não houvesse nenhuma rede para cabelo (ele achava que não havia, porque mantinha os próprios cabelos curtos e soltos), a moça poderia trançá-los e amarrar alguma coisa em volta. Poderia ele desviar potência para manter um oito g a viagem inteira? As pessoas não habituadas com a queda livre ficam tontas, podem até se machucar.

(Não se preocupe com isso agora.)

— Arrumem seus alojamentos, lavem-se e voltem aqui. Andem.

Ele fez uma lista:

Estabelecer um programa de deveres. — N.B.: Ensiná-los a cozinhar!

Começar a escola: Que assuntos?

Aritmética básica, obviamente — mas não se preocupe com ensiná-los a ler aquele jargão falado em Abençoado; eles nunca voltariam para lá — nunca! Mas aquele jargão teria que ser a língua da nave até ele conseguir fazê-los falar galacta, e eles tinham que aprender a ler e a escrever nesse idioma — e em inglês, também; muitos livros que ele teria de usar para a sua instrução apressada eram em inglês. Ele possuía fitas para a variação de galacta falado em Valhalla? Bem, garotos da idade deles aprendiam rapidamente o sotaque, a língua e o vocabulário locais.

O mais importante era como curar suas "almas", hã... raquíticas. Suas personalidades...

Como poderia ele tomar animais domésticos completamente crescidos e transformá-los em seres humanos capazes e felizes, instruídos de todas as maneiras necessárias e capazes de competir numa sociedade livre? Dispostos a competir, sem medo disso. Ele estava apenas começando a ver o tamanho do problema do "gato perdido" que havia arrumado. Teria ele que mantê-los como animais de estimação por cinqüenta ou sessenta anos ou o tempo que fosse, até que morressem naturalmente?

Antes, muito antes disso, o garoto Woodie Smith havia encontrado um filhote de raposa meio morto na floresta, aparentemente perdido de sua mãe, ou talvez a raposa tivesse morrido. Levou-o para casa, alimentou-o com uma mamadeira e criou-o numa gaiola durante um inverno. Na primavera levou-o de volta para onde o havia encontrado e deixou-o lá, na gaiola, com a porta aberta.

Voltou ao local alguns dias mais tarde, pretendendo recuperar a gaiola.

Encontrou a criatura encolhida na gaiola, semi-esfaimada e horrivelmente desidratada — com a porta ainda aberta. Levou-a para casa, alimentou-a novamente até que recuperasse a saúde, construiu um recinto de tela para ela e nunca mais tentou soltá-la. Nas palavras do avô: "A pobre criatura nunca teve oportunidade de aprender a ser raposa".

Poderia ele ensinar aqueles animais acovardados e ignorantes a serem humanos?

 

Eles voltaram à sala de oficiais quando "o ponteiro pequeno estava bem para fora e o grande bem para cima" — eles esperaram do lado de fora da porta até os ponteiros ficarem nessa posição, e o capitão Sheffield fingiu não perceber.

Quando entraram, porém, ele olhou para o relógio e disse:

— Bem na hora... muito bem! Vocês sem dúvida passaram xampu, mas lembrem-se de encontrar pentes para vocês.

(De que outros artigos de toalete eles precisavam? Teria que ensinar-lhes a usá-los? E — ah, maldito seja! — havia alguma coisa na nave para as necessidades menstruais de uma mulher? O que poderia ser improvisado? Bem, com sorte esse problema demoraria alguns dias. Não adiantava perguntar-lhe; ela não sabia somar. Maldição, a nave não estava equipada para passageiros.)

— Sentem-se. Não, esperem um momento. Venha aqui, querida. — Pareceu ao capitão que o traje que ela vestia estava estranhamente justo; segurou-o, estava molhado. — Você tomou banho com isto?

— Não... pat... Não, capitão; eu o lavei.

— Compreendo. — Lembrou-se de que a estampa espalhafatosa fora realçada por café e outras coisas, enquanto a garota estava preparando atabalhoadamente o café da manhã. Tire-o e pendure-o em algum lugar; não o deixe secar no corpo.

Ela começou a obedecer vagarosamente. Seu queixo estremeceu — e ele lembrou-se de como ela havia se admirado num espelho alto quando comprara o vestido para ela.

— Espere um momento, Llita. Joe, tire sua tanga. E as sandálias.

O rapaz obedeceu imediatamente.

— Obrigado, Joe. Não vista de novo essa tanga sem lavá-la; no momento está suja, embora pareça limpa. Não a use na viagem a não ser que isso lhe agrade. Sente-se. Llita, você estava usando alguma coisa quando a comprei?

— Não... capitão.

— Estou usando alguma coisa agora?

— Não, capitão.

— Há ocasiões e lugares para usar roupas... e outras ocasiões e lugares onde as roupas são inúteis. Se esta fosse uma nave de passageiros, todos nós usaríamos roupas e eu estaria com um bonito uniforme. Mas não é, e não há ninguém aqui senão eu e o seu irmão. Está vendo aquele instrumento ali? É um termoumidostato, que indica ao computador da nave para manter a temperatura a vinte e sete graus centígrados e quarenta por cento de umidade, com variações aleatórias para nos estimular... o que pode não significar coisa alguma para vocês, mas é a minha noção de conforto com a pele nua. Durante uma hora, a cada tarde, ele faz cair essa temperatura para encorajar o exercício, porque a vida de bordo é mole demais.

"Se esse ciclo não convier a vocês dois, chegaremos a um acordo. Mas primeiro tentaremos isso à minha maneira. Agora, quanto a esse trapo molhado colado aos seus quadris... Se você for estúpida, o deixará secar onde está e sentirá desconforto. Se for esperta, o pendurará, deixando-o secar sem amarrotar. Isso é uma sugestão, não uma ordem; se quiser, pode usá-lo o tempo todo. Mas não se sente vestida com ele, molhado; não há motivo algum para molhar as almofadas. Você sabe coser?"

— Sim, capitão. Ah... um pouco.

— Verei o que posso arranjar. Você está usando o único traje de mulher na nave e, se insistir em usar roupas, vai precisar fazer algumas para os meses à frente. Vai precisar de alguma coisa para Valhalla, também; lá não é tão quente como em Abençoado. As mulheres usam calças e casacos compridos; todos usam botas. Eu tinha três roupas feitas sob medida em Aterragem; talvez possamos nos arranjar com elas até eu poder levar vocês dois a um alfaiate. Botas... As minhas servem em vocês como meias num galo. Hum... Podemos enfaixar lhes os pés de forma que um par poderá servir por tempo suficiente até levá-los a uma sapataria.

Não vamos preocupar-nos com isso agora. Participem da reunião... de pé e molhados, ou sentados e confortáveis.

Estrellita mordeu o lábio e optou pelo conforto.

Minerva, aqueles jovens eram mais brilhantes do que eu havia esperado. A princípio estudaram porque mandei. Uma vez tendo provado a mágica da palavra impressa, porém, ficaram fisgados. Aprenderam a ler e não queriam fazer mais nada. Especialmente histórias. Eu tinha uma boa biblioteca, principalmente em micros, milhares deles, mas também algumas dúzias de valiosos livros encadernados, fac-símiles antigos que eu havia recolhido em Aterragem, onde falam inglês e usam galacta apenas como língua comercial. Livros de Oz, Minerva, entendeu?

Sim, naturalmente você entendeu; ajudei a planejar a Grande Biblioteca e incluí meus favoritos da infância bem como coisas mais sóbrias. Certifiquei-me de que Joe e Llita lessem uma variedade de material sério, mas deixei-os regalar-se principalmente com histórias de ficção — Histórias exatamente assim, os livros de Oz, Alice no País das Maravilhas, O jardim de versos para crianças, Dois pequenos selvagens e coisas parecidas. Limitado demais; eram livros da minha infância, de três séculos antes da Diáspora. Por outro lado, toda cultura humana da galáxia decorre daquela.

Mas tentei certificar-me de que eles compreendiam a diferença entre ficção e história — difícil, porque eu não estava certo de haver uma diferença. Depois tive de explicar que um conto de fadas era ainda de um tipo diferente, um passo além no espectro do fato para a fantasia.

Minerva, isto é muito difícil de explicar a uma mente inexperiente. O que é "mágica"? Você é mais mágica do que qualquer "mágico" das histórias de fadas; e não adianta nada dizer que você é um produto da ciência, em vez de mágica, ao falar com crianças que não têm nenhuma idéia do que significa "ciência" — e eu não estava certo de que a distinção fosse válida mesmo quando estava explicando a diferença. Em minhas andanças deparei-me com a mágica muitas vezes — o que quer dizer simplesmente que vi maravilhas que não posso explicar.

Finalmente desisti, afirmando ex cathedra que algumas histórias eram apenas para divertir e não necessariamente verdadeiras — Viagens de Gulliver não eram o mesmo tipo de coisa que As aventuras de Marco Polo, ao passo que Robinson Crusoé ficava em algum ponto entre as duas — e eles deveriam perguntar, se tivessem dúvidas.

Eles perguntaram, algumas vezes, e aceitaram minha opinião sem discutir. Mas pude ver que nem sempre acreditavam em mim. Isso me agradou; estavam começando a pensar por si mesmos — não importava se estivessem errados. Llita foi polidamente respeitosa comigo a respeito de Oz. Acreditou na Cidade Esmeralda de todo o coração, e, se pudesse escolher, estaria indo para lá em vez de para Valhalla. Bem, eu também.

O importante era que eles estavam cortando o cordão umbilical.

Não hesitei em usar a ficção para ensiná-los. A ficção é uma maneira mais rápida do que a não-ficção de se obter uma compreensão dos padrões estranhos do comportamento humano; está apenas a um passo da experiência real — e eu tinha só alguns meses para transformar aqueles animais acovardados e ignorantes em pessoas. Eu poderia ter-lhes oferecido psicologia, sociologia e antropologia comparada; eu tinha esses livros à mão. Mas Joe e Llita não poderiam reuni-los gestalticamente — e eu me lembro de outro professor que usava parábolas ao apresentar idéias.

Eles liam todo o tempo que eu permitisse, embolados como cachorrinhos, olhando fixamente para a máquina de leitura e brigando um com o outro por causa da velocidade com que viravam as páginas. Geralmente Llita brigava com Joe; ela era mais rápida do que ele — mas dessa maneira incitavam um ao outro, passando de analfabetos a leitores velozes em tempo recorde. Não os deixei usar audiovisuais — queria que lessem.

Não podia deixá-los passar o tempo todo lendo; eles tinham que aprender outras coisas — não só habilidades vendáveis, como também, o que era muito mais importante, aquela autoconfiança agressiva necessária a um ser humano livre — o que lhes faltava totalmente quando assumi a responsabilidade de educá-los. Bolas, eu não tinha certeza de eles possuírem esse potencial; isso podia ter surgido fora de seu alcance. Mas a centelha estava neles, eu tinha que descobri-la e abaná-la até transformar-se numa chama — ou nunca seria capaz de fazê-los viver livremente.

Assim, forcei-os ao máximo a tomarem decisões, embora sendo cuidadosamente rude com eles em outros sentidos... e saudava cada sinal de rebelião — em silêncio, mentalmente — como uma prova triunfante de progresso.

Comecei ensinando Joe a lutar — apenas com as mãos; eu não queria nenhum de nós morto. Um dos compartimentos foi preparado como se fosse um ginásio, com um equipamento que podia ser adaptado para gravidade ou queda livre; eu o usava nas horas do dia em que a temperatura estava mais baixa. Ali treinei Joe. Llita tinha que estar presente, mas só para fazer exercícios — embora eu tivesse em mente que podia estimular Joe se sua irmã o visse ser derrotado, com os bofes de fora.

Joe precisava desse estímulo; ele passou um mau bocado para meter na cabeça que não fazia mal bater ou dar chutes em mim, que eu queria que ele tentasse, que eu não ficaria com raiva se ele conseguisse — mas que ficaria com raiva se não se empenhasse ao máximo.

Levou algum tempo. A princípio ele procurava não me atingir, não importava quão aberta eu deixasse minha defesa... e quando o fiz superar isso, xingando-o e insultando-o, ele ainda hesitava aquela fração de segundo que me permitia aproximar-me e atingi-lo.

Mas certa tarde ele compreendeu tão bem, que acertou uma boa em mim, e eu mal pude firmar-me para deixá-lo acertar. Após o jantar ele teve sua recompensa: a permissão para ler um livro encadernado, com páginas, calçando um par de luvas cirúrgicas minhas e prevenido de que eu lhe daria uma surra se ele sujasse ou rasgasse uma página. Llita não teve permissão de tocá-lo; este era o prêmio dele. Ela ficou de mau humor e nem quis usar a máquina de leitura — até ele perguntar se podia ler em voz alta para ela.

Eu disse que ela podia até lê-lo com ele — desde que não tocasse no livro. A garota aconchegou-se, com a cabeça junto da dele, feliz novamente, e começou a dar ordens sobre o momento de virar as páginas.

No dia seguinte ela me perguntou por que não podia aprender a lutar também.

Sem dúvida, ela estava achando o exercício sozinha uma chateação — sempre achei isso e só o fazia porque era necessário manter-me em forma —, sem falar nos riscos que a aterrissagem seguinte poderia trazer. Minerva, nunca achei que as mulheres devessem lutar; constitui responsabilidade do homem proteger as mulheres e as crianças. Mas uma mulher deve saber lutar, porque poderá precisar fazê-lo.

Concordei, então; mas tivemos que alterar as regras. Joe e eu vínhamos lutando pelas regras do cais — isto é, sem regras, salvo que eu não disse a ele que planejara não causar-lhe nenhum dano permanente e não pretendia permitir que ele me causasse nada pior do que contusões. Mas eu nunca disse isso — se ele conseguisse, poderia arrancar um dos meus olhos e comê-lo. Cuidei simplesmente para que não o conseguisse.

Mas as mulheres têm constituição diferente da dos homens. Não pude deixar Llita treinar conosco até improvisar um peitilho para proteger-lhe os seios — era necessário; ela era um pouco exagerada nesse departamento, e poderíamos tê-la machucado sem querer. Depois eu disse a Joe em particular que as contusões valiam, mas que, se ele quebrasse um dos ossos dela, eu quebraria um dele, só para treinar.

Mas não impus restrições à sua irmã — e subestimei-a; ela era duas vezes mais agressiva do que ele. Destreinada mas rápida — e atacava para valer.

No segundo dia em que treinamos com ela, não só estava usando aquele peitilho, como seu irmão e eu estávamos usando suspensórios atléticos. E Llita tivera permissão para ler um livro verdadeiro na noite anterior.

Verificou-se que Joe tinha talento para cozinha; por isso encorajei-o a ser tão elaborado quanto permitiam os estoques da nave, insistindo ao mesmo tempo com ela para ser uma cozinheira adequada. Um homem que saiba cozinhar pode cuidar de si mesmo em qualquer lugar. Mas qualquer um, homem ou mulher, devia saber cozinhar, cuidar da casa e das crianças. Eu não havia escolhido uma profissão para Llita, embora ela revelasse talento para matemática uma vez que eu também a estimulasse a isso. O fato era encorajador; uma pessoa que saiba ler e escrever e tenha cabeça para matemática pode aprender qualquer coisa de que precise. Dessa forma, mandei-a aprender escrituração e contabilidade, pelos livros, sem ajudá-la, e mandei Joe aprender a usar todas as ferramentas que a nave transportava — não muitas, principalmente ferramentas de manutenção — e supervisionei-o de perto; não queria que perdesse os dedos ou estragasse as ferramentas.

Eu estava cheio de esperanças. Aí a situação mudou..

(Cerca de 3 100 palavras omitidas.)

...fácil dizer que fui estúpido. Eu havia criado gado e muitas crianças. Sendo cirurgião de bordo bem como tudo o mais, havia feito neles os mais completos exames que o meu equipamento permitia dois dias após a nossa partida — bastante completos para aquela época; eu não havia praticado a medicina após deixar Ormuzd, mas conservei minha enfermaria abastecida e equipada, e recolhia as últimas fitas sempre que estava num planeta civilizado e estudava-as durante os longos percursos. Eu era um bom médico sem prática, Minerva.

Os garotos eram tão saudáveis quanto pareciam, exceto por pequenas cáries nele, duas pequenas cavidades. Notei que a alegação do feitor quanto a ela era correta — virgem intacta, hímen semilunar, não roto; portanto, usei meu menor especulo. Ela não reclamou, não ficou tensa nem perguntou o que eu estava procurando. Concluí que eles tinham sido submetidos a exames regulares e outros cuidados médicos, muito mais do que os escravos em Abençoado recebiam geralmente.

Ela possuía trinta e dois dentes em perfeitas condições, mas não pôde dizer-me quando os quatro dentes do siso haviam surgido, apenas que "não há muito tempo". Ele possuía vinte e oito dentes e tão pouco espaço em seu maxilar para dentes do siso, que previ problemas. Mas as chapas de raios X não mostraram nenhum vestígio deles.

Limpei e obturei as cavidades e tomei nota de que ele deveria ter aquelas obturações retiradas e o tecido regenerado em Valhalla e ser inoculado contra outras cáries; os dentistas em Valhalla eram bons, muito superiores a mim.

Llita não soube dizer-me quando menstruara pela última vez. Ela discutiu o assunto com Joe; ele tentou contar nos dedos quantos dias se haviam passado desde que tinham sido levados de casa, porque concordaram em que fora antes disso. Eu lhe disse que me avisasse da próxima vez, e a cada vez, para que eu pudesse determinar o seu ciclo. Dei-lhe uma caixa de absorventes, suprimentos de emergência que eu não sabia que tinha — deviam estar na nave havia vinte anos.

Ela me contou e tive que abrir a caixa para ela; nenhum deles sabia fazê-lo. Ela ficou encantada com a pequena calcinha elástica incluída no pacote, e usou-a muitas vezes sem precisar, como "enfeite". A garota era louca por roupas; como escrava nunca tivera oportunidade de satisfazer sua vaidade. Eu lhe disse que estava bem desde que a lavasse todas as vezes em que a usasse — eu insistia muito na limpeza, inspecionando suas orelhas, mandando-os saírem da mesa para escovarem as unhas e assim por diante. Eles não tinham recebido mais treinamento do que um porco. Nunca precisei falar com ela duas vezes, e ela espicaçava o irmão e fazia com que ele também atendesse aos meus padrões. Vi-me sendo mais exigente comigo mesmo; não podia ir de unhas sujas para a mesa ou deixar de tomar um banho de chuveiro por estar com sono — eu havia estabelecido os padrões e tinha que cumpri-los.

Na costura ela era quase tão desajeitada como na cozinha, mas aprendeu sozinha porque gostava de roupas. Arranjei um pouco de tecido de colorido intenso e deixei-a divertir-se — e usei isso como ameaça e suborno; vestir qualquer coisa tornou-se um privilégio que dependia do bom comportamento. Pus um fim dessa maneira — bem, em grande parte — às suas implicâncias com o irmão.

Isso não funcionava com Joe; as roupas não o interessavam — mas, se ele merecesse, dava-lhe um castigo físico maior durante o período de exercício. Raramente o fazia — ele não constituía o mesmo problema que ela.

Certa noite, três ou quatro de suas regras mais tarde, notei no meu calendário que ela já devia ter tido outra — tendo esquecido o assunto. Minerva, nunca entrei em seus camarotes sem bater; a vida a bordo exigia tanta intimidade quanto possível — isto é, muito pouca.

A porta estava aberta e o quarto dela vazio. Bati na porta dele, não tive resposta; continuei, procurei-a na sala de oficiais e na cozinha, até no nosso pequeno ginásio. Decidi que ela devia estar tomando banho e que falaria com ela pela manhã.

Quando passei pelo camarote dele outra vez, ao dirigir-me de volta para a minha cabine, a porta abriu-se; ela saiu e fechou-a atrás de si. Eu disse:

— Ah, aí está você! — ou coisa parecida. — Pensei que Joe estivesse dormindo.

— Ele foi dormir agora — disse Llita. — Quer que o chame, capitão? Devo acordá-lo?

— Não — respondi —, eu estava procurando você, mas bati na porta dele cinco ou dez minutos atrás e não tive resposta.

Ela ficou pesarosa por não ter me ouvido bater.

— Desculpe, capitão. Acho que estávamos tão ocupados que não o ouvimos. — Ela me disse em quê estavam ocupados.

... o que eu havia imaginado, tendo suspeitado disso desde o momento em que notei que ela estava atrasada uma semana, após ter sido regular como um relógio.

— Isso é compreensível — disse eu. — Alegro-me de minha batida não haver perturbado vocês.

— Tentamos não perturbá-lo nunca com isso, capitão — respondeu ela docemente séria. — Esperamos até o senhor ir para sua cabine à noite. Ou algumas vezes quando faz a sesta.

— Santo Deus, querida, vocês não precisam ter tanto cuidado assim. Façam o seu trabalho e mantenham suas horas de estudo; depois façam o que entenderem o resto do tempo. A nave estelar Libby não é uma nave de escravos; desejo que vocês, garotos, sejam felizes. Será que não podem meter na cabeça que não são mais escravos?

Aparentemente ela não podia, completamente, Minerva, porque ainda estava aborrecida por não me ter ouvido bater e não ter se apressado em responder.

— Não seja tola, Llita — disse eu. — Isso pode esperar até amanhã.

Mas ela insistiu em que não tinha sono e estava pronta e ansiosa para fazer o que quer que eu quisesse — o que me deixou um pouco nervoso. Minerva, uma das singularidades de Eros é que as mulheres nunca o desejam tanto como quando acabam de tê-lo, e não havia nada no passado de Llita para inibi-la. Pior, descobri estar consciente dela como uma mulher madura, quase pela primeira vez desde que os dois haviam chegado a bordo — ela estava parada perto de mim num corredor estreito, levando numa das mãos um daqueles vestidos esquisitos que adorava fazer, e um pouco ofegante do exercício feliz. Fiquei tentado — e tive certeza de que ela aceitaria imediatamente, e ficaria feliz. O pensamento de que ela já estava grávida cruzou a minha mente — nada com que me preocupar.

Mas eu já havia tido muitos problemas com esses passageiros, não iria passar do papel de proprietário de escravos para o de pai, severo porém amoroso. Se eu a tomasse, perderia isso e acrescentaria mais uma variável perturbadora a um problema já bastante complexo. Assim, afastei a idéia.

O capitão Sheffield disse:

— Muito bem, Llita. Venha para a minha cabine. — Dirigiu-se para lá, e ela o seguiu. Uma vez na cabine, ofereceu-lhe uma cadeira. Ela hesitou, depois largou o vestido espalhafatoso e sentou-se — ponderação que lhe agradou, porque o animal ignorante que ela tinha sido não teria sido capaz disso; o processo humanizador estava funcionando. Ele não fez comentários.

— Llita, suas regras estão atrasadas uma semana, não estão?

— Estão, capitão? — Ela pareceu espantada mas não preocupada.

Sheffield imaginou se poderia estar enganado. Após ter-lhe ensinado a abrir a caixa fechada, havia-lhe entregue o limitado suprimento de emergência, avisando-a de que, se o usasse com muita prodigalidade, teria que fazer à mão algum substituto, porque Valhalla estava a meses de distância. Depois havia esquecido o assunto, a não ser para registrar no calendário da sua escrivaninha sempre que ela anunciava o começo. Será que ele tinha deixado de anotar? Durante três dias, na semana anterior, ele tinha ficado em sua cabine, deixando os jovens por conta própria; pedira que lhe levassem as refeições — hábito que tinha quando desejava concentrar-se num problema. Durante esses períodos comia pouco, não dormia absolutamente e mal notava alguma coisa que não tivesse relação com o que estava estudando. Sim, era possível.

— Não percebe, Llita? Se você menstruou, então deixou de me avisar.

— Ah, não, capitão! — Ela estava com os olhos arregalados de aflição. — O senhor me disse para avisá-lo... e avisei... todas as vezes, todas as vezes!

Perguntas subseqüentes mostraram primeiro que, apesar da sua nova compreensão da aritmética, ela não sabia quando deveria ter sentido o começo, e segundo, que não tinha sido na semana passada, mas há muito mais tempo.

Era hora de contar a ela.

— Llita querida, acho que você vai ter um bebê. Seu queixo caiu, os olhos se arregalaram novamente.

— Oh, é maravilhoso! — Ela acrescentou: — Posso ir correndo contar a Josie? Posso, por favor? Voltarei logo!

— Bolas! Não apresse as coisas. Eu disse apenas que achava isso. Não fique cheia de esperanças ainda e não incomode Joe com isso até sabermos. Muitas garotas foram muito além de uma semana da sua data e isso não significou coisa alguma. — (Mas estou satisfeito de saber que você o quer, filha, porque parece que você teve todas as oportunidades.) — Amanhã vou examiná-la e tentar descobrir. — (O que tinha ele a bordo para um teste de gravidez? Que diabo, se ele tivesse que fazer um aborto nela, devia ser o mais rapidamente possível, enquanto isso não fosse pior do que arrancar uma farpa. Depois... Não, não havia nenhuma pílula de "manhã de segunda-feira" na nave, muito menos contraceptivos modernos. Woodie, maldita seja sua alma estúpida, jamais se meta no espaço outra vez tão mal equipado!) — Enquanto isso, não fique excitada. — (Mas as mulheres sempre ficam excitadas com isso. Naturalmente.)

Ela estava tão desconcertada quanto exultante.

— Fizemos tanta força! Tentamos tudo o que está no Kama sutra e mais. Achei que devíamos pedir ao senhor para nos mostrar o que estávamos fazendo de errado, mas Joe tinha certeza de que estávamos fazendo certo.

— Acho que Joe está certo. — Sheffield levantou-se, serviu um cálice de vinho para cada um deles enquanto executava uma prestidigitação, dosando o dela de tal forma que ela cairia no sono em breve... após um pouco de conversa relaxada, de que ela não iria se lembrar; ele queria o quadro todo. — Tome.

Ela olhou para o vinho, desconfiada.

— Vou ficar ridícula. Eu sei, tive oportunidade de experimentar isso uma vez.

— Isso não é a zurrapa que vendem em Abençoado; é vinho que eu trouxe de Aterragem. Cale-se e beba. Esse é para o seu bebê, se você o tiver, ou é para dar boa sorte na próxima vez. — (Mas como enfrentar essa "próxima vez"? ... se é que as suas preocupações tinham algum fundamento. Estes garotos não deviam ser sobrecarregados com um filho defeituoso. Um bebê saudável já seria uma carga suficiente enquanto estavam aprendendo a ficar sobre os próprios pés. Poderia ele protelar as coisas até Valhalla, para depois arranjar uma contracepção adequada para ela? E depois? Iria separá-los? Como?) — Fale-me a respeito disso, querida. Quando você veio para bordo era virgem...

— Ah, sim, certamente. Eles me mantinham sempre trancada naquele cinto de castidade. Exceto quando me trancavam e o irmão tinha que dormir na tenda. O senhor sabe. Quando eu menstruava. — Ela respirou fundo e sorriu. — Agora é tão melhor! Josie e eu tentamos a maior parte do tempo contornar aquele horrível cinto de castidade. Mas não pudemos. Machucava-o tentar, e de algumas maneiras que tentamos machucou-me também. Finalmente desistimos e fazíamos simplesmente as coisas divertidas que sempre fizemos. O irmão me disse para ser paciente; isso não seria para sempre. Porque sabíamos que seríamos vendidos juntos, como um par para acasalar. — Estrellita estava radiante. — E assim fomos e estamos, e obrigada, capitão!

(Não, não ia ser fácil separá-los.)

— Llita, pensou alguma vez em ser fecundada por algum outro homem além de Joe? — (Interrogue-a, pelo menos. Não será difícil arranjar-lhe um marido; ela é realmente bastante atraente. Aquele sentimento de "Mãe Terra".)

Ela ficou espantada.

— Ora, é claro que não! Sabíamos o que éramos, desde quando éramos quase bebês. Nossa mãe nos contou, bem como o padre. Sempre dormi com o irmão, toda a minha vida. Por que iria querer algum outro?

— Você parecia bastante disposta a dormir comigo. Afirmou que estava ansiosa por isso.

— Ah! Isso é diferente... isso é direito seu. Mas o senhor não me quis — acrescentou ela quase acusadoramente.

— Não foi bem assim, Llita. Havia motivos, sobre os quais não falarei agora, para não tomá-la, não importa se a desejava e você estava querendo. Embora fosse Joe que quisesse realmente, você disse isso.

— Bem... sim. Mas fiquei desapontada da mesma maneira. Tive que dizer ao irmão que o senhor não me queria... o que me deixou bastante magoada. Mas ele disse para ser paciente. Esperamos mais três dias antes de ele me deflorar. No caso de o senhor mudar de idéia.

(Esposa rabugenta verticalmente — dócil horizontalmente. Padrão não muito fora do comum, pensou Sheffield.)

Ele descobriu que ela o estava olhando com sóbrio interesse.

— O senhor me quer agora, capitão? Joe me disse, na própria noite em que resolveu ir em frente, que isso ainda era seu direito e sempre seria... e é.

(Pelos testículos de metal de Belzebu! — o único meio de evitar uma mulher disposta era sair do planeta.)

— Querida, estou cansado, e você está ficando com sono. Ela disfarçou um bocejo.

— Não estou tão cansada assim... nunca estou. Capitão, na noite em que perguntei ao senhor pela primeira vez, eu estava um pouquinho amedrontada. Mas não estou com medo agora. Eu quero. Se o senhor quiser.

— Você é muito meiga, mas estou muito cansado. — (Por que aquela dose não fazia efeito?) Ele mudou de assunto. — Aqueles catres pequenos não são muito desconfortáveis para duas pessoas?

Ela riu através de outro bocejo.

— Quase. Certa vez caímos do catre do irmão. Por isso agora usamos o convés.

— O convés? Ora, Llita, isso é horrível. Precisamos fazer alguma coisa a respeito disso. — (Pôr os garotos aqui? A única cama de tamanho normal da nave... Uma noiva precisava de uma bancada de trabalho adequada para sua lua-de-mel... e esta o era; ela estava amando profundamente e devia aproveitar isso ao máximo, não importava mais nada. Sheffield havia decidido, havia séculos, que a coisa mais triste quanto aos efêmeros era que em suas pequenas vidas raramente tinham tempo suficiente para amar.)

— Ah, o convés não é mau, capitão; dormimos no chão toda a nossa vida. — Ela bocejou novamente, não pôde evitar.

— Bem... amanhã faremos arranjos melhores. — (Não, sua cabine não servia; havia a escrivaninha ali, e seus documentos e arquivos. Os garotos o atrapalhariam e ele a eles Poderiam ele e Joe transformar dois catres estreitos numa cama Je casal? Provavelmente, embora esta enchesse quase totalmente um camarote. Não importa, aquele tabique entre seus quartos não era estrutural. Se se abrisse uma porta, eles teriam uma suíte. Uma "suíte nupcial". Para uma noiva meiga. Sim.) Ele acrescentou: — Vamos pô-la na cama antes que você caia da cadeira. Tudo vai dar certo, querida. — (Droga, é melhor eu cuidar disso!) — E amanhã à noite e de agora em diante, você e Joe podem dormir juntos numa cama larga.

— Realmente? Ah, isso seria — ela bocejou outra vez — adorável!

Ele teve que ajudá-la a entrar no camarote; já estava dormindo quando caiu no catre. Sheffield olhou para ela e disse baixinho:

— Pobre gatinha. — Inclinou-se, beijou-a e voltou para sua cabine.

Lá ele desencavou tudo quanto o feitor de escravos havia oferecido como prova da alegadamente estranha herança genética de Llita e Joe, e estudou cada item minuciosamente. Estava à procura de indícios de verdade ou falsidade sobre a alegação de que eram "gêmeos idênticos", diplóides complementares com o mesmo pai e a mesma mãe.

Por esses indícios esperava estimar a probabilidade de reforço de gene desfavorável em qualquer filho que Llita e Joe pudessem ter.

O problema parecia dividir-se em três casos (simplificados):

Os dois podiam não ser parentes um do outro. Probabilidade de mau reforço: ligeira.

Ou podiam ser o tipo comum de irmão e irmã. Probabilidade de mau reforço: alta demais para ser ignorada.

Ou podiam ser (como alegado) zigotos resultantes de gametas complementares — como todos os genes conservados na redução-divisão, mas sem nenhuma duplicação. Neste caso a probabilidade de reforço desfavorável seria... qual?

Isso fica para depois. Primeira presunção: que eles não fossem parentes, mas tivessem simplesmente sido criados juntos desde quando eram bebês — nenhum risco especial, esqueça.

Segunda presunção: que eles fossem irmãos germanos do tipo comum. Bem, eles não pareciam ser isso — porém, mais importante, aquele patife estabelecera um "escritório comercial muito elaborado para essa fraude, e usara publicamente 0 nome de um bispo para apoiá-lo. O bispo podia ser tão vigarista quanto ele (provavelmente — ele conhecia esse clero bem demais!) —, mas por que ser tão descuidado quando os bebês escravos eram tão baratos?

Não, mesmo que ele presumisse uma fraude, não havia nenhum motivo para esperar um risco desnecessário numa organização tão elaborada. Portanto, isso estava de lado, também: Llita e Joe não eram irmãos no sentido comum — embora pudessem ter partilhado o mesmo útero de mãe-hospedeira. A última, se verdadeira, não tinha nenhuma importância genética.

Dessa forma, a preocupação remanescente referia-se à possibilidade de que o feitor de escravos tivesse contado a verdade — neste caso, quais seriam as probabilidades de um mau cruzamento? De quantas maneiras podiam esses zigotos produzidos artificialmente se recombinar desfavoravelmente?

Sheffield tentou estabelecer o problema enquanto reclamava da falta de dados suficientes, mais o fato de que o único computador verdadeiro na nave era o computador de pilotagem, que não podia ser programado para um problema genético. Ele desejou que Libby estivesse a bordo. Andy teria contemplado o anteparo por alguns minutos, vindo depois com respostas definidas quando possível e expressas em porcentagens de probabilidade quando não.

Os problemas genéticos, mesmo com todos os dados pertinentes (muitos milhares), eram muito pouco manejáveis para se resolver sem a ajuda de um computador.

Bem, tente alguns problemas ilustrativos simplificados e veja qual a visão interior que pode ser obtida.

Presunção primária: Llita e Joe eram "gêmeos idênticos" — zigotos geneticamente complementares dos mesmos zigotos-pais.

Presunção de controle: Eles não tinham parentesco a não ser pelo fato de fazerem parte do mesmo conjunto de genes do planeta-lar. (Presunção extrema, porque os escravos da mesma área têm a probabilidade de descender de um conjunto de genes muito menor, que pode ser ainda mais reduzido pela endogamia. Mas este "padrão de acasalamento normal muito favorável" era o controle com o qual ele devia ser comparado.)

Exemplo simplificado: Experimente um local de gene — chame-o local 187 do vigésimo primeiro cromossomo — quanto ao reforço disfarce ou eliminação de um gene presumido como "mau", sob cada uma das presunções.

Presunção arbitrária: Já que este local pode conter um gene desfavorável — ou dois, ou nenhum — em seu par de genes, suponha que as probabilidades sejam exatamente as mesmas tanto para as presunções primárias como para a de controle, e uniformes — isto é, 25 por cento para nenhum gene mau no par do local, 50 por cento para um gene mau, 25 por cento para dois genes maus — condição extrema, já que, durante as gerações, o reforço (dois genes maus num único local) tende no sentido da não-sobrevivência, quer de forma letal, quer reduzindo a capacidade de competir do zigoto. Não importa; considere-se as duas probabilidades iguais — não havia nenhum dado sobre o qual basear qualquer presunção melhor.

Bolas! Se um reforço mau estava visivelmente demonstrado, ou podia ser mostrado pelos testes, esses zigotos não seriam usados. Um cientista competente para tentar tal experiência usaria espécimes tão "limpos", no sentido genético, quanto possível — livres de todas as centenas (milhares, agora?) de defeitos hereditários identificáveis; a presunção primária devia incluir esta presunção subsidiária.

Estes jovens estavam isentos de qualquer defeito que Sheffield pudesse notar num exame a bordo — o que aumentava a probabilidade de que aquele ladrão de cavalos tivesse dito a verdade e de que essas provas fossem registros sérios de uma experiência exótica e bem-sucedida de manipulação dos genes.

Sheffield tendia agora a acreditar que a experiência se realizara — e desejou ter os recursos de uma grande Clínica Howard, digamos a de Secundus, para fazer nestes garotos um exame genético completo; não estava equipado para fazê-lo a bordo da nave, e de qualquer maneira não estava qualificado para fazer isso.

Uma dúvida aborrecida permanecia: como ele havia adquirido esses garotos? Por que aquele vigarista estava tão ansioso para vendê-los se eles eram o que as provas afirmavam? Por que vendê-los quando acasalar novamente os dois complementos criados seria o próximo passo da experiência?

Bem, talvez os garotos soubessem e ele não tivesse feito as perguntas certas. Era evidente que haviam sido criados na crença de que esse era o seu destino apropriado; quem quer que tivesse planejado isso induzira nos garotos, desde a mais tenra infância, um laço acasalador mais forte do que o que há na maioria dos casamentos, na longa experiência de Sheffield. Mais do que qualquer dos seus próprios-... (Exceto um, exceto um!)

Sheffield afastou isso da mente e concentrou-se nas conseqüências teóricas.

Num local selecionado, presumiu-se que cada zigoto-pai tivesse três estados possíveis ou pares de genes com probabilidades de 25-50-25.

Na presunção de controle, os pais (zigotos diplóides), tanto masculino como feminino, apresentariam esta distribuição no local selecionado:

 

25 por cento bom-bom ("limpo" no local)

25 por cento bom-mau (gene mau disfarçado, mas pode ser transmitido)

25 por cento bom-mau (gene mau disfarçado, mas pode ser transmitido)

25 por cento mau-mau (reforço mau — letal ou incapacitante)

 

Mas, sob sua presunção primária modificada, Sheffield supôs que o padre-cientista se livraria da linhagem má apresentada pelos zigotos — o que eliminaria o quarto grupo ("mau-mau") e deixaria a distribuição de zigotos-pais para este local de:

33-1/3 por cento bom-bom

33-1/3 por cento bom-mau

33-1/3 por cento bom-mau

 

Essa seleção proporcionava uma melhoria marcante sobre a situação original de probabilidade aleatória e a divisão meiótica produziria gametas (tanto espermatozóides como óvulos) nesta incidência:

Bons, quatro em cada seis, e Maus, dois em cada seis...

... mas sem nenhum meio de detectar os genes maus sem destruir os gametas que os carregavam. Ou assim presumia Sheffield, estipulando ao mesmo tempo que a presunção podia não ser verdadeira para sempre. Contudo, a fim de proteger Llita (e Joe), era necessário que suas presunções fossem pessimistas dentro dos limites dos dados e conhecimentos disponíveis — isto é, que um gene mau podia ser identificado apenas como reforço de um zigoto.

Sheffield lembrou a si mesmo que a situação nunca era tão branca-e-preta como ficava implícito em "bons-dominantes" e "maus-recessivos" — estas descrições eram menos complexas do que o mundo real que estavam acostumados a imaginar. Uma característica exibida por um zigoto adulto era pró-sobrevivência ou contra-sobrevivência apenas em termos do quê, quando e onde — e também em termos de mais de uma geração. Um adulto que morresse salvando sua prole tinha que ser contado como um pró-sobre vi vencia, ao passo que uma gata que comesse seus próprios filhos era contra-sobrevivência, não importava quanto tempo ela vivesse.

Na mesma linha, um gene dominante algumas vezes não tinha nenhuma importância num sentido ou no outro — por exemplo, olhos castanhos. Da mesma forma que o seu recessivo correspondente, quando acasalado e, portanto, reforçado para produzir olhos azuis, não dava ao zigoto que o exibisse nenhuma desvantagem mensurável. O mesmo era verdadeiro com relação a muitas outras características hereditárias — tipo de cabelo, cor da pele, et coetera.

Apesar disso, esta descrição — bom-dominante, mau-recessivo — era essencialmente correta; ela resumia os mecanismos pelos quais uma raça conservava suas mutações favoráveis e destruía (finalmente) suas mutações desfavoráveis. O "mau-dominante" era quase uma contradição, em termos, porque uma mutação completamente má que fosse dominante matava-se a si mesma (juntamente com o infeliz zigoto que a herdasse) em uma geração, quer no útero, quer prejudicando de tal forma o zigoto que ele deixava de se reproduzir.

Mas o processo habitual de casamento incluía os maus-recessivos. Estes podiam permanecer num conjunto de genes até que um ou dois acontecimentos ocorressem, cada um controlado pelas leis cegas do acaso: um gene desses podia acasalar-se com um gene igual a ele quando o espermatozóide fertilizasse o óvulo, eliminando-se portanto a si mesmo pela eliminação do zigoto — preferencialmente antes do nascimento, ou — tragicamente — após este. Ou o mau-recessivo podia ser eliminado pela redução dos cromossomos na meiose, e o resultado seria um bebê saudável que não tivesse este gene mau em suas gônadas — um feliz resultado.

Ambos estes processos estatísticos eliminavam vagarosamente os genes maus do conjunto de genes da raça.

Infelizmente, o primeiro destes processos muitas vezes produzia bebês viáveis, mas tão defeituosos, que precisavam de ajuda para permanecerem vivos — precisando algumas vezes de auxílio econômico; eram perdedores natos, que nunca conseguiam sustentar a si mesmos, precisando algumas vezes de cirurgia plástica, de terapia endócrina e outras intervenções ou ajudas. Quando o capitão Aaron Sheffield praticara medicina (em Ormuzd e sob outro nome), havia passado por fases de frustração crescente por causa destes pobres infelizes.

A princípio tentou praticar a medicina pelo juramento hipocrático — ou próximo dele; era por temperamento incapaz de seguir cegamente qualquer regra feita pelo homem.

Depois tivera um período de aberração durante o qual havia procurado uma solução política para o que considerava um grande perigo: a reprodução dos defeituosos. Tentou convencer seus colegas a recusarem tratamento a defeituosos hereditários a menos que fossem estéreis ou estivessem dispostos a aceitar a esterilização como precondição para receber o tratamento. Pior ainda, ele havia tentado incluir na definição de "defeituosos hereditários" aqueles que não apresentavam nenhum estigma a não ser nunca haverem conseguido sustentar a si mesmos — num planeta não superpovoado que ele próprio havia escolhido séculos antes como quase ideal para os seres humanos.

Não conseguiu nada, não encontrou nada a não ser fúria e desprezo — exceto por parte de alguns colegas que concordaram com ele em particular e o denunciaram publicamente. Quanto aos leigos, piche e penas foi o remédio mais suave que receitaram para o "dr. Genocídio".

Quando sua licença para exercer a profissão foi cassada, Lazarus recuperou sua indiferença emocional normal. Calou a boca, ao perceber que a sombria e velha mãe natureza, com dentes e garras vermelhas, punia invariavelmente os idiotas que tentavam ignorá-la ou anular suas leis; ele não precisava interferir.

Mudou-se, então; trocou de nome outra vez e começou a se preparar para deixar o planeta — quando a peste atingiu Ormuzd. Ele encolheu os ombros e voltou a trabalhar, um médico despido do hábito cujos serviços eram temporariamente bem-vindos. Dois anos e um quarto de bilhão de mortos mais tarde ofereceram-lhe sua licença de volta — sujeita a bom comportamento.

Ele lhes disse o que fazer com aquela licença e deixou Ormuzd o mais rapidamente possível, onze anos mais tarde. Foi jogador profissional durante esse período, sendo esta a maneira mais cômoda que encontrou na ocasião para economizar o necessário.

Desculpe, Minerva, eu estava falando daqueles gêmeos idênticos. Então aquela garotinha tola ficou grávida, o que fez com que eu voltasse à minha profissão, minha persona de médico rural, e fiquei acordado a noite inteira preocupando-me com ela, o irmão e o bebê que iam ter... a menos que eu fizesse alguma coisa a respeito disso. Para descobrir o que eu devia fazer, tive que reconstruir o que havia acontecido e daí o que poderia acontecer. Não dispondo de dados corretos, tive que seguir aquela velha regra para se achar uma mula perdida.

Em primeiro lugar tive que pensar como aquele feitor de escravos... Um homem que leiloa escravos é um patife, esperto demais, porém, para arriscar uma cambalhota na qual ele próprio termine como escravo, ou morto, se tiver sorte — que era o que acontecia a quem jogava depressa em Abençoado com a autoridade de um bispo e perdia. Portanto, o patife acreditava no que havia dito.

Assim sendo, eu me perguntei por que aquele feitor fora incumbido de vender os dois, enquanto tentava pensar como um padre-cientista engajado numa experiência humano-biológica. Esqueci a possibilidade de que os dois fossem irmãos comuns — não adiantava escolher um par desses mesmo para uma fraude. Esqueci a possibilidade de não serem parentes de qualquer maneira, porque nesse caso seria simplesmente um caso normal de acasalamento. Claro, claro, qualquer mulher pode dar à luz um monstro, porque mesmo com um acasalamento geneticamente higiênico pode aparecer uma má mutação — e uma parteira alerta pode esquecer de dar a primeira palmada que dá vida — e muitas têm esquecido.

Considerei, então, apenas a terceira hipótese: diplóides complementares dos mesmos pais. O que este experimenta-dor faria? O que faria eu?

Usaria uma linhagem tão perfeita quanto pudesse encontrar e não começaria a experiência até ter tanto um pai como uma mãe que fossem geneticamente "limpos" nos testes, das maneiras sutis que pudesse testar — o que em Abençoado significava maneiras bastante sofisticadas para aquele século.

Para um local selecionado de genes e uma presunção de 50-50 na distribuição mendeliana de 25-50-25, este teste pré-experimental eliminaria a possibilidade de 25 por cento de reforço de um mau-recessivo e deixaria uma distribuição de um terço mau e dois terços bons, na geração dos pais — isto é, dos pais possíveis de possíveis Joes e Llitas.

Agora eu começo a juntar gêmeos idênticos em minha persona de padre-experimentador. O que acontece? Se considerarmos o número mínimo de gametas necessários para representar esta distribuição de um terço e dois terços, obteremos dezoito "Joes" possíveis e dezoito "Llitas" possíveis — mas, tanto nos homens como nas mulheres, dois deles surgem como "maus" — o recessivo mau se reforçou e o zigoto é defeituoso; o experimentador os elimina... ou pode não precisar fazê-lo; o reforço pode ser letal.

Chegamos a este ponto com um progresso de 8 e 1/3 por cento, ou um progresso total de 25 por cento de possibilidades favoráveis para o bebê de Llita. Senti-me melhor. Se se acrescentar o fato de que sou o tipo de parteira que está ocupada demais cuidando da mãe para parar a fim de dar a palmada num monstro, as possibilidades favoráveis sobem bastante.

Mas tudo o que isto mostra é que os genes maus tendem a ser eliminados em cada geração — com a tendência maior com os piores genes e chegando a 100 por cento sempre que o reforço produz um caso letal no útero — enquanto os genes favoráveis são conservados. Mas sabíamos disso — e isso se aplica também à exogamia normal e sobretudo à endogamia, embora esta última não seja considerada boa para os seres humanos porque aumenta as possibilidades de um defeituoso precisamente na mesma quantidade que elimina — sendo esse o risco que eu receava para Llita. Todo mundo deseja que o conjunto de genes humanos seja limpo, mas ninguém deseja que os aspectos trágicos tenham lugar em sua própria família. Minerva, eu estava começando a pensar nesses garotos como "minha família".

Eu ainda não sabia sobre gêmeos idênticos.

Resolvi investigar uma incidência mais provável de recessivos maus num local determinado. Meio a meio é alto demais para um gene realmente mau; o expurgo é drástico e a incidência cai para uma porcentagem menor em cada geração, até que a incidência de um gene mau determinado seja tão baixa que o reforço na fertilização seja um acontecimento raro, porque o reforço é igual ao quadrado da incidência; por exemplo, se um em cem haplóides tem este gene mau, então ele será reforçado em uma em dez mil fertilizações. Falo do conjunto total de genes, ou, neste caso, num mínimo de duzentos zigotos adultos, masculinos e femininos; o acasalamento aleatório num conjunto desses reunirá aquele reforço mau apenas por esse elevado teor — um acaso feliz ou infeliz, dependendo de se considerar isso impessoalmente em termos de limpeza do conjunto de genes, ou pessoalmente em termos de tragédia humana individual.

Considerei isso muito pessoalmente; eu queria que Llita tivesse um bebê saudável.

Minerva, estou certo de que você reconheceu essa distribuição de 25-50-25 como representando o caso mais drástico de endogamia, um que só pode acontecer metade das vezes com acasalamento em linha, apenas um quarto das vezes com irmãos germanos, em ambos os casos através da redução dos cromossomos na meiose. Os criadores usam esta medida drástica regularmente — selecionando os defeituosos e terminando com uma linha saudável estabilizada. Tenho uma séria suspeita de que esta seleção pela endogamia foi usada algumas vezes entre as famílias reais lá da velha Terra — mas certamente essa seleção não foi usada bastantes vezes, ou o foi muito drasticamente. A realeza pode funcionar muito bem se os reis e rainhas forem tratados como cavalos de corrida — mas lamentavelmente nunca o foram. Em vez disso foram fortalecidos como clientes de beneficência, e os principelhos que deviam ter sido isolados foram encorajados a se reproduzir como coelhos — hemofílicos, idiotas, tudo isso. Quando eu era garoto, a "realeza" era uma piada baseada nos piores métodos possíveis de acasalamento.

O capitão Sheffield investigou depois uma incidência mais baixa de um gene mau; suponha um gene letal num conjunto de genes do qual descendem os pais de Joe e Llita. Sendo letal, ele só pode existir num zigoto adulto se for disfarçado num par de genes pelo seu gêmeo benigno. Suponha uma incidência disfarçada de 5 por cento nos zigotos — ainda alta demais para ser realista para um gene letal —, mas verifique-a de qualquer maneira. Que tendência aparecerá?

Geração dos zigotos pais: cem masculinos, cem femininos, cada um sendo um possível pai para Llita e para Joe — e cinco dos femininos e cinco dos masculinos têm o gene letal disfarçado.

Fase do pai haplóide: duzentos óvulos, cinco dos quais têm o gene letal; duzentos espermatozóides, cinco dos quais têm o gene letal.

Geração dos zigotos filho-e-filha (possíveis "Joes" e possíveis "Llitas"): 25 mortos através do reforço do gene letal; 1 950 tendo o gene letal disfarçado; 38 025 "limpos" naquele local.

Sheffield notou que um hermafrodita hipotético se havia insinuado, deixando de duplicar o tamanho da sua amostra, a fim de evitar a anomalia por meio de números ímpares. Ah, para o diabo com isso! — isso não muda o resultado estatístico. Não, faça isso! — comece com uma amostra de duzentos masculinos e duzentos femininos com a mesma incidência de genes letais para aquele local. Isto dá:

 

400 óvulos, 10 com o gene letal;

400 espermatozóides, 10 com esse gene letal...

 

...que produziram na geração seguinte de zigotos (possíveis "Joes" e "Llitas"): cem mortos, 7 800 portadores, 152 100 limpos — o que não alterou nenhuma porcentagem mas eliminou aquele hermafrodita imaginário. Sheffield considerou rapidamente a vida amorosa de um hermafrodita, depois voltou a trabalhar. Os números se tornaram muito incômodos, saltando para os bilhões na geração seguinte de zigotos (isto é, o Pequeno Sem Nome, recém-iniciado no ventre de Llita) — 15 210 000 selecionados pelo reforço, 1216 200 000 portadores, 24 336 000 000 limpos — e novamente ele desejou um computador clínico e tediosamente converteu os números pouco manuseáveis em porcentagens: 0,059509 por cento, 4,759 por cento e mais 95,18 por cento.

Isto mostrou um progresso decidido: aproximadamente um defeituoso em cada 1 680 (em vez de um em cada 1 600), a porcentagem dos portadores baixou para menos de 5 por cento e o número de limpos aumentou para mais de 95 por cento em uma geração.

Sheffield imaginou vários desses problemas para confirmar o que havia visto pela inspeção: os filhos de diplóides complementares (gêmeos idênticos) tinham pelo menos tanta probabilidade de serem saudáveis como os filhos de estranhos sem parentesco — mais o feliz fato de as probabilidades desses bebês terem sido aumentadas pela seleção em uma ou mais fases pelo padre-cientista que havia iniciado a experiência — presunção quase certa e que fazia de Joe o melhor companheiro possível para sua "irmã" em vez de o pior.

Llita podia ter o seu bebê.

 

Variações sobre um tema VII

De Valhalla para Aterragem

...o melhor que eu podia por eles, Minerva. Freqüentemente algum idiota tenta abolir o casamento. Essas tentativas funcionam tão bem como revogar a lei da gravidade, fazer pi igual a 3,0 ou mover montanhas pela fé. O casamento não é uma coisa inventada pelos padres e infligida à humanidade; o casamento faz parte do equipamento evolutivo da humanidade tanto quanto os olhos, e é tão útil para a raça como os olhos o são para o indivíduo.

Certamente, o casamento é um contrato econômico para prover os filhos e cuidar das mães enquanto elas produzem filhos e os criam — mas é muito mais do que isso. É o meio que este animal, o Homo sapiens, aperfeiçoou — bastante inconscientemente — para desempenhar esta função indispensável e ser feliz fazendo isso.

Por que as abelhas se dividem em rainhas, zangões e operárias, depois vivem como uma grande família? Porque, para elas, isso funciona. Como é que os peixes se dão bem com uma simples inclinação de cabeça entre papai e mamãe? Porque as forças cegas da evolução fizeram com que essa maneira funcionasse para eles. Por que é que o "casamento" — qualquer que seja o nome que tenha — é uma instituição universal entre os seres humanos em toda parte? Não pergunte a um teólogo, não pergunte a um advogado; esta instituição existia muito antes de ter sido codificada pela Igreja ou pelo Estado. Ela funciona, isso é tudo; apesar de todas as suas falhas, ela funciona muito melhor pelo único teste universal — o da sobrevivência — do que qualquer das intermináveis invenções pelas quais certos cabeças-ocas, durante milênios, tentaram substituí-la.

Não estou falando da monogamia, refiro-me a todas as formas de casamento — monogamia, poliandria, poliginia, casamentos plurais e extensivos com várias particularidades. O "casamento" tem costumes, regras e combinações intermináveis. Mas só é "casamento" se, e apenas se, o acordo prove os filhos e compensa os adultos. Para os seres humanos, a única compensação aceitável para as desvantagens do casamento está no que os homens e mulheres podem dar uns aos outros.

Não me refiro a Eros, Minerva. O sexo é o chamariz da armadilha, mas não é o casamento, nem é motivo suficiente para se permanecer casado. Por que comprar uma vaca quando o leite é barato?

Companheirismo, participação, reafirmação mútua, alguém com quem rir e se preocupar, lealdade que aceita fraquezas, alguém para tocar, alguém para segurar a mão da gente — estas coisas são "casamento", e o sexo é apenas a cobertura do bolo. Ah, essa cobertura pode ser maravilhosamente saborosa — mas não é o bolo. Um casamento pode perder esse "enfeite" saboroso — digamos, por acidente — e ainda continuar, continuar e continuar, proporcionando profunda felicidade àqueles que o partilham.

Quando eu era um jovem excitado e ignorante, isto costumava intrigar-me...

(Omitido)

...tão solenemente cerimonioso quanto eu podia. O homem vive pelos símbolos; eu queria que eles se lembrassem desta ocasião. Fiz Llita vestir-se segundo sua idéia do que era mais elegante. Ela parecia uma árvore de Natal florida, mas eu lhe disse que estava linda — e estava; as noivas sempre o são. Vesti Joe com algumas de minhas roupas e dei-as a ele. Eu me vesti com um uniforme absurdo de capitão, que possuía para usar nos planetas onde essa bobagem era costumeira — quatro tiras douradas largas nos punhos, peito recamado de condecorações compradas em lojas de penhor, um chapéu armado que o almirante Lorde Nelson teria invejado, e o resto tão fantástico como se pertencesse a algum grão-mestre de loja maçônica.

Preguei-lhes um sermão carregado de retórica sem sentido, a maior parte dela tirada da única Igreja que eles conheciam, a religião estabelecida de Abençoado — foi fácil para mim, tendo eu mesmo sido padre lá —, mas acrescentei todo tipo de coisas, dizendo a ela suas obrigações para com ele, dizendo a ele suas obrigações para com ela, dizendo a ambos o que deviam ao filho no ventre dela e aos outros filhos que teriam — e acrescentei, para ambos mas principalmente para ela, uma advertência de que o casamento não era fácil, não era para ser aceito levianamente, porque haveria problemas que eles deveriam enfrentar juntos, problemas graves que exigiriam a coragem do Leão Covarde, a sabedoria do Espantalho, o coração amante do Homem de Lata e a bravura indomável de Dorothy ¹.

Todos personagens de O mágico de Oz. (N. da T.)

 

Isso a fez chorar, e Joe a acompanhou — o que era exatamente o que eu queria; assim, fiz com que se ajoelhassem e rezei sobre eles.

Minerva, não peço nenhuma desculpa pela hipocrisia, pouco me importava se algum Deus hipotético me ouvia ou não; eu queria que Llita e Joe ouvissem isso — primeiro naquele jargão de Abençoado, depois em inglês e galacta, depois coroei tudo entoando tantas linhas da Eneida quantas pude lembrar. Quando me atrapalhei, encerrei com uma canção de colégio:

 

"Omme bene

Sine poena,

Tempus est ludendi;

Venit hora

Absque mora,

Libros deponendi!" [34]

 

...e terminei com um ressonante "Portanto assim seja!" Mandei que se levantassem, tomei a mão de cada um e declarei que, pela suprema autoridade a mim conferida como chefe de uma nave no espaço, eles eram agora e para sempre marido e mulher — beije-a, Joe.

Tudo com a Nona de Beethoven em surdina...

Aqueles versos populares entraram por acaso quando não me lembrava de mais "versos punitivos" de Virgílio e precisava de mais alguns sons impressionantes. Quando pensei nisso mais tarde, porém, vi que eles se aplicavam tão apropriadamente à lua-de-mel deles como a um feriado escolar. Tudo estava realmente bem, agora que eu sabia que essa reunião de irmãos podia realizar-se sine poena — sem medo de punição genética. E ludendi pode ser traduzido como "brincadeira amorosa" ou "Eros", da mesma forma que como "jogo" ou "brincadeiras infantis" ou qualquer outra travessura. E eu havia declarado um feriado de quatro dias na nave, nenhum trabalho para eles, nenhuma hora de estudo — libros deponendi — a começar imediatamente. Puro acaso, Minerva. Simplesmente alguns versos latinos que me vieram à mente — e o latim é majestoso, especialmente quando a pessoa não o entende.

Tivemos um jantar caprichado, feito por mim, que durou cerca de dez minutos — para eles. Llita não pôde comer, e Joe me fez lembrar da noite de casamento de Johnny e de por que sua sogra desmaiou. Assim, enchi uma bandeja com bocados saborosos, entreguei-a a Joe e disse-lhe que sumisse; eu não queria ver a cara deles por quatro dias...

(Omitido)

... seguir para Aterragem tão depressa quanto pudesse pegar uma carga. Não podia deixá-los em Valhalla; José ainda não podia sustentar uma família, e Llita iria ficar limitada no que pudesse fazer, quer grávida, quer com um bebê recém-nascido. Nem eu estaria disponível para levantá-los se caíssem; eles tinham que ir para Aterragem.

Ah, Llita podia ter sobrevivido em Valhalla, porque lá eles têm a atitude saudável de que uma mulher grávida é mais bonita do que as do outro tipo e de que, quanto mais adiantada a gravidez, mais bonita ela é — o que é verdadeiro em minha opinião, e especialmente verdadeiro no caso de Llita. Ela era passável quando a comprei; quando aterrissamos em Valhalla, estava grávida de quase cinco meses e radiantemente bela. Se ela descesse em terra desacompanhada, os primeiros seis homens que encontrasse iriam querer casar-se com ela. Se ela tivesse um nas costas bem como um dentro da barriga, poderia ter-se casado no dia em que chegamos; a fertilidade era respeitada lá e o planeta não estava cheio nem pela metade.

Eu não achava que ela enganaria Joe tão depressa assim, mas não queria que ela ficasse de cabeça virada com tanta atenção masculina. Eu não queria arriscar nem uma possibilidade de que Llita pudesse deixá-lo por algum burguês ou proprietário rico; eu havia tido muito trabalho para levantar o ego de Joe, mas ele ainda era frágil e um golpe desses poderia matá-lo. Ele estava altivo e orgulhoso agora — mas seu orgulho se baseava no fato de ser um homem casado, com uma esposa e um filho a caminho. Mencionei que lhes havia dado um dos meus nomes no certificado de casamento? Eles eram agora Friherr og Fru Long, Josef og Stjerne, durante a nossa estada em Valhalla, e eu queria que permanecessem sr. e sra. Long por alguns anos, pelo menos.

Minerva, fiz com que declarassem votos perpétuos sem nunca acreditar que os manteriam. Ah, os efêmeros muitas vezes ficam casados a vida inteira, mas quanto ao resto... não se encontra penas nas rãs freqüentemente, e Llita era uma levianazinha ingênua, amável e sensual, cujos saltos baixos a faziam tropeçar e cair de pernas abertas sem querer — pude ver isso chegando. Não queria que tal coisa acontecesse antes de eu ter uma oportunidade de doutrinar Joe. Os chifres não precisam provocar dor de cabeça em um homem. Mas ele precisa de tempo para crescer, amadurecer e adquirir autoconfiança antes de poder usá-los com tolerância e dignidade — e Llita era exatamente a garota que podia equipá-lo com um ótimo cabide de galhos.

Consegui-lhe um emprego, de pescador de pérolas e faz-tudo, num restaurante pequeno e elegante, com um acordo por fora de pagar ao cozinheiro por cada prato de Valhalla que Joe aprendesse a fazer corretamente. Enquanto isso, mantive Llita a bordo com a desculpa de que uma mulher grávida não podia arriscar-se no clima adverso, até que eu pudesse arranjar-lhe roupas adequadas — e não me aborreça agora, querida; tenho carga com que me preocupar.

Ela aceitou isso bastante bem, fazendo apenas um pouco de manha. De qualquer maneira ela não gostou de Valhalla; tem um e um sétimo de g e eu os acostumara ao luxo da queda livre — era melhor para sua barriga crescente, não fazia esforço nos arcos dos pés ou nos seios que inchavam. Então ela se viu, de repente, muito mais pesada do que jamais tinha sido, desajeitada e com os pés doloridos. O que ela podia ver de Valhalla pela câmara de entrada parecia uma fatia gelada do inferno; ficou satisfeita com a minha oferta de levá-los Para Aterragem.

Apesar disso, Valhalla era o único lugar novo em que estivera alguma vez; ela queria vê-lo. Protelei enquanto descarregava, depois tomei suas medidas e comprei-lhe uma roupa quente na moda local — mas fiz uma sujeira com ela; trouxe três pares de botas e deixei-a escolher. Dois dos pares eram botas simples de trabalho; o terceiro par era espalhafatoso — e meio ponto abaixo do seu tamanho.

Assim, quando a levei para terra, ela estava usando botas apertadas demais, e o tempo estava extremamente frio e ameaçador — eu havia observado as previsões. Torheim é bonita em certos pontos, com as limitações das cidades portuárias celestes — mas evitei aqueles pontos e levei-a para fazer turismo em bairros tristes... a pé. Quando fiz sinal para um trenó e a levei de volta para a nave, ela se sentia indisposta, e satisfeita por se livrar das roupas incômodas, especialmente as botas, e entrar num banho quente.

Ofereci-me para levá-la até a cidade no dia seguinte, mas dei-lhe liberdade para recusá-lo. Ela declinou polidamente.

(Omitido)

...não tão mau assim, Minerva; eu simplesmente desejava mantê-la oculta sem levantar suas suspeitas. Na verdade, eu havia comprado dois pares daquelas botas espalhafatosas, um par do tamanho certo dela... e entreguei-os a ela no fim daquele primeiro dia, enquanto ela estava banhando seus pobres pés cansados. Mais tarde sugeri que o seu problema era nunca ter usado sapatos ou botas em sua vida — por que não usá-las na nave, então, até se acostumar?

Assim ela fez, e ficou surpresa ao perceber como era fácil. Expliquei que seus pés haviam inchado da primeira vez, para ir com calma, uma hora hoje, um pouco mais a cada dia, até se sentir confortável com elas o dia inteiro. Numa semana ela as estava usando mesmo que não usasse mais nada; sentia-se mais confortável com elas do que descalça — o que não era de surpreender, porque tinham apoio para o arco dos pés e eu as havia escolhido com o maior cuidado — entre a gravidez e a diferença de gravidade na superfície dos dois planetas — 0,95 g para seu planeta original; 0,14 para Valhalla — ela pesava cerca de vinte quilos mais do que jamais pesara em sua vida; precisava de apoio para o arco dos pés.

Tive que preveni-la para não usá-las na cama.

Levei-a à cidade duas vezes enquanto estava escolhendo carga, mas tratei bem dela — não a deixei andar muito ou ficar parada de pé. Ela vinha junto quando a convidava, mas estava sempre querendo ficar a bordo, lendo.

Enquanto isso, Joe trabalhava longas horas, apenas com um dia de folga em sete. Assim, imediatamente antes de partirmos, fi-lo deixar o emprego e levei meus garotos para um feriado adequado; um trenó alugado para o dia todo, com rena em vez de motor, turismo de verdade, num dia claro e ensolarado, quase quente, almoço num ótimo restaurante no campo com uma vista de penhascos cobertos de neve da serra Jotunheimen, jantar num restaurante ainda melhor na cidade, com música ao vivo e show, bem como uma comida soberba— e uma parada para tomar chá no restaurante pequeno e elegante onde Joe havia trabalhado para que ele pudesse ser chamado de "Friherr Long" pelo nosso anfitrião, em vez de "Ei, você aí" — e ter uma oportunidade de exibir sua noiva linda e protuberante.

E ela era linda, Minerva. Em Valhalla ambos os sexos usam, sob as roupas pesadas próprias para o ar livre, roupas para dentro de casa que são essencialmente pijamas. A diferença entre as usadas pelos homens e pelas mulheres está no material, no corte e essas coisas. Eu havia comprado um traje de festa para cada um deles. Joe estava elegante, bem como eu, mas todos os olhos estavam em Llita. Ela estava coberta dos ombros até as botas — mas apenas tecnicamente. O tecido daquele traje de harém brilhava suavemente com a mudança das luzes, laranja, verde e ouro, sem obstruir a vista. Qualquer um que quisesse olhar podia ver que seus mamilos estavam intumescidos de excitação — e todos queriam. O fato de claramente restarem para ela apenas dois meses dava-lhe uma grande vantagem para ser escolhida "Miss Valhalla".

Ela parecia ótima e sabia disso, e seu rosto mostrava sua felicidade. Ela estava autoconfiante também, porque eu lhe havia ensinado os modos locais de comportamento à mesa, como ficar em pé, como se sentar, como se comportar e coisas parecidas, e ela já havia passado pelo almoço sem um deslize.

Era bom deixá-la exibir-se e apreciar o aplauso silencioso, ou algumas vezes não silencioso; não só íamos partir logo em seguida, como também Joe e eu tínhamos nossas facas à vista no alto de nossas botas. Na verdade, Joe não era nenhum lutador de faca. Mas os lobos de lá não sabiam disso, e nenhum estava inclinado a incomodar a nossa linda cadela quando ela estava flanqueada por seus próprios lobos.

...cedo na manhã seguinte apesar de uma noite curta. Carregamos o dia inteiro, com Llita cuidando dos manifestos e Joe conferindo números enquanto eu me certificava de não estar sendo roubado. Tarde naquela noite fomos para o espaço n, com o meu computador de pilotagem fungando as últimas casas decimais para a primeira etapa até Aterragem. Regulei o gravistato para trazer-nos vagarosamente do normal da superfície de Valhalla até um confortável quarto de g — nada mais de queda livre até Llita ter o seu bebê —, depois tranquei a sala de controle e me dirigi para a minha cabine embaixo fedendo, cansado e tentando convencer a mim mesmo de que amanhã era cedo bastante para tomar banho.

A porta deles estava aberta — a porta do quarto, o quarto que tinha sido de Joe antes de eu transformar os quartos deles numa suíte. Porta aberta e eles na cama — eles nunca tinham feito isso antes.

Logo soube o porquê daquilo. Eles saíram da cama e vieram trôpegos em minha direção; queriam que eu entrasse na brincadeira deles — queriam agradecer-me... por aquele dia de festa, por comprá-los, por tudo o mais. Idéia dele? Dela? Não tentei descobrir; simplesmente agradeci-lhes e disse que estava exausto, cansado e sujo — tudo que eu queria era sabão, água quente e doze horas de olhos fechados — e que eles dormissem até tarde; estabeleceríamos a rotina da nave após termos descansado.

Deixei que dessem banho em mim e me fizessem massagem até eu dormir. Isso não rompia a disciplina; eu lhes havia ensinado um pouco de massagem, e Joe em particular tinha um toque firmemente suave; ele vinha fazendo massagens nela diariamente durante a gravidez — mesmo depois de trabalhar longas horas no restaurante.

Mas, Minerva, se eu não estivesse tão cansado, poderia ter violado minha regra sobre mulheres dependentes.

(Omitido)

... todas as fitas, todos os livros disponíveis em Torheim para uma recapitulação em obstetrícia e ginecologia, mais instrumentos e suprimentos que eu não esperava precisar a bordo da nave. Fiquei em minha cabine até haver dominado toda técnica nova e estava quase tão habilitado em parto de crianças como quando era médico rural em Ormuzd, havia muito tempo.

Fiquei de olho na minha paciente, observei sua dieta, fi-la praticar exercícios, examinei-lhe o ventre diariamente — e não permiti nenhuma familiaridade indevida.

 

O dr. Lafayette Hubert, médico, também conhecido como capitão Aaron Sheffield, e também conhecido como o Sênior, preocupava-se excessivamente com sua única paciente. Mas evitou que ela e o marido percebessem isso e utilizou sua preocupação construtivamente, planejando todas as emergências obstétricas conhecidas naquela época. Os instrumentos e suprimentos que havia obtido em Valhalla igualavam em todos os principais aspectos o equipamento do Tempo Frigg em Torheim, onde cinqüenta nascimentos por dia não eram fora do comum.

Ele sorriu consigo mesmo diante da massa de sucata que havia trazido para bordo, lembrando-se de um médico rural em Ormuzd que havia feito o parto de muitos bebês sem nada além de suas mãos, enquanto a mãe ficava sentada no colo do marido com os joelhos erguidos e afastados por ele para que o velho Doe Hubert pudesse ajoelhar-se em frente deles e pegar o bebê.

É verdade — mas ele tinha sempre consigo todos os instrumentos que um médico corpulento de andar cadenciado podia transportar, embora pudesse não abrir nunca a maleta se tudo corresse bem. Essa era a questão: ter o material à mão se as coisas não corressem bem.

Um dos artigos comprados em Torheim não era para emergências: o último modelo de cadeira obstétrica aperfeiçoada — correias para as mãos, braços acolchoados; apoios para os pés, pernas e costas, ajustáveis independentemente em três eixos de translação e rotação, com controles acessíveis tanto à parteira como à paciente, prendedores de liberação rápida. Era uma peça maravilhosamente flexível de engenharia mecânica, que permitia à mãe colocar-se em posição por si mesma — ou ser colocada — de forma que o seu canal de nascimento ficasse vertical e o mais aberto possível no momento da verdade.

O dr. Hubert Sheffield mandou instalá-la na sua cabine, verificou suas muitas regulagens antes de assinar o recibo — depois olhou para ela e fechou a cara. Um bom aparelho, e ele havia pago seu alto preço sem vacilação. Mas não tinha nenhum amor em si; era tão impessoal como uma guilhotina.

Os braços de um marido, o colo de um marido, não eram tão eficientes — mas era muito interessante, na sua opinião, fazer os pais passarem pela provação juntos, ela com os braços do marido segurando-a, confortando-a, enquanto este dava apoio tanto muscular como emocional, deixando a parteira livre para se concentrar nos aspectos físicos.

Um marido que tivesse feito isso não teria nenhuma dúvida de que era pai. Mesmo que algum estranho de passagem tivesse injetado nela o suco, o tal fato tornar-se-ia irrelevante, seria absorvido por esta grande experiência.

Então o que acha disso, doutor? Este aparelho? Ou os braços de Joe? Os garotos precisavam desta segunda "cerimônia de casamento"? Joe poderia suportá-la, física e emocional-mente? Não havia nenhuma dúvida de que Llita era o membro mais resistente do time, embora Joe fosse maior do que ela mesmo quando ela estava próxima do parto. E se Joe desmaiasse e a largasse exatamente no momento errado?

Sheffield preocupava-se com estas questões enquanto levava os controles auxiliares do gravistato da sala de controle até a cadeira obstétrica. Ele havia resolvido que, por mais aborrecido que fosse, sua cabine teria que ser a sala de parto; era o único compartimento com bastante espaço de convés, uma cama à mão e banheiro próprio. Ah, bem, ele poderia agüentar o inconveniente de se espremer ao passar pela coisa estranha para chegar à escrivaninha e seu armário durante os próximos cinqüenta dias — sessenta no máximo, se tivesse a data certa da concepção de Llita e tivesse julgado corretamente a evolução da gravidez. Depois poderia desmontá-la e guardá-la.

Talvez pudesse vendê-la com lucro em Aterragem; era mais adiantada do que a arte de lá, tinha certeza.

Colocou a cadeira em posição, parafusou-a ao convés, levantou-a até a altura máxima, colocou o banco da parteira diante dela, regulou-o até ficar confortável para ele, descobriu que podia abaixar a cadeira obstétrica uns dez ou doze centímetros e ainda ter espaço para trabalhar. Feito isto, subiu na cadeira obstétrica e mexeu nos seus controles; descobriu que ela podia ser ajustada para servir até para uma pessoa da sua altura — isso era previsível: algumas mulheres em Valhalla eram mais altas do que ele.

 

Minerva, pelos meus cálculos; Llita estava cerca de dez dias atrasada — o que não os preocupou, porque eu tinha sido cuidadosamente vago quanto a isso, e preocupou-me apenas um pouquinho, porque ela estava normal e saudável em todos os sentidos. Preparei-os não só com instruções e treinamento, mas também com hipnose, e a havia preparado com exercícios a fim de tornar tudo tão fácil para ela quanto possível — não gosto de consertos pós-parto; aquele canal devia se dilatar, não se romper.

O que estava realmente me afligindo era a possibilidade de ter que quebrar o pescoço de um monstro. Matar um bebê, quero dizer — eu não devia evitar a verdade crua. Todos os cálculos que havia feito numa noite insone ainda deixavam em aberto tal possibilidade — e, se eu tivesse errado em qualquer suposição, a probabilidade podia ser mais alta do que eu gostaria de acreditar.

Se tivesse que fazer isso, queria acabar logo.

Eu estava muito mais preocupado do que ela. Acho que ela absolutamente não se preocupou; eu havia trabalhado duramente naquele preparativo hipnótico.

Se eu tivesse que fazer essa coisa feia, teria que fazê-la depressa, enquanto a atenção deles estivesse distraída — depois nunca deixá-los ver o bebê e soltar no espaço os restos lastimáveis imediatamente. Em seguida, enfrentar a horrível tarefa de tentar recompô-los emocionalmente. Como casal? Eu não sabia. Talvez eu tivesse uma opinião depois de ver o que ela daria à luz.

Por fim suas contrações estavam se aproximando muito, por isto fiz com que se sentassem na cadeira obstétrica — devagar, um quarto de gravidade. A cadeira já estava ajustada, e eles estavam acostumados com a posição, pelo treinamento. Joe subiu, sentou-se com as coxas bem afastadas, os joelhos sobre os apoios, os calcanhares presos — não muito confortável, porque ele não tinha a flexibilidade de uma minhoca, como Llita. Depois a levantei e sentei-a no colo dele — nenhum problema, ela pesava menos de vinte quilos naquela pseudo-aceleração. Digamos dezoito quilos.

Ela abriu as pernas quase horizontalmente e escorregou para a frente em seu colo, enquanto Joe a impedia de cair por entre suas coxas.

— Assim está bom, capitão? — perguntou ela.

— Está ótimo — respondi. A cadeira podia pô-la numa posição um pouquinho melhor... mas ela ficaria sem os braços de Joe à sua volta. Eu nunca disse a eles que havia outra maneira de fazer isso. — Dê um beijo nela, Joe, enquanto pego as correias.

A correia do joelho esquerdo em volta de seus joelhos esquerdos juntos, o mesmo nos joelhos direitos, e com os pés dela presos a apoios adicionais que eu havia acrescentado — as correias apertadas nele tão firmemente que Joe ficaria naquela cadeira mesmo que a nave caísse aos pedaços, mas nenhuma correia nela. As mãos de Llita sobre as presilhas de mãos, enquanto as mãos e braços de Joe eram um cinto de segurança, vivo, quente e amoroso, exatamente embaixo dos seus seios, exatamente sobre o ventre mas não sobre ela. Ele sabia como, tínhamos treinado. Se eu quisesse pressão em seu ventre, diria a ele — caso contrário ele a deixaria em paz.

Meu banco estava aparafusado no convés, eu havia acrescentado um cinto nele. Ao prender-me com este, lembrei-lhes que tínhamos uma jornada dura pela frente — e isto não Unhamos podido praticar; correríamos o risco de um aborto.

— Entrelace seus dedos, Joe, mas deixe-a respirar. Confortável, Llita?

— Ah... — disse ela sem ar. — Eu... está começando outra contração!

— Dê à luz, querida! — Certifiquei-me de que o meu pé esquerdo estava em posição no controle do gravistato e observei o seu ventre.

Grande! Quando ele apareceu, girei de um quarto de gravidade até duas gravidades quase num único movimento — Llita soltou um ganido e o bebê foi expulso como um caroço de melancia bem nas minhas mãos.

Arrastei meu pé para trás para permitir ao gravistato colocar-nos novamente em g baixa, ao mesmo tempo em que fazia uma inspeção quase instantânea na criança. Um menino normal, vermelho, enrugado e feio — então lhe dei uma palmada nas nádegas e ele berrou.

 

Variações sobre um tema VIII

Aterragem

(Omitido)

... a garota com quem eu tencionava me casar havia se casado novamente e tido outro bebê. Não era de surpreender; eu tinha ficado fora de Aterragem duzentos anos. Nem era trágico, sequer, porque tínhamos sido casados certa vez, cerca de cem anos antes. Velhos amigos. Assim, conversei sobre o assunto com ela e seu novo marido, depois me casei com uma de suas netas, uma que descendia de mim. Ambas garotas Howard, naturalmente, e Laura, com a qual me casei daquela vez, da Família Foote [35].

Fomos um bom casal, Minerva; Laura tinha vinte anos e eu estava recém-rejuvenescido, mantendo minha idade cosmética do começo dos trinta. Tivemos vários filhos — nove, acho eu; aí, quarenta e tantos anos mais tarde, ela se cansou de mim e quis casar-se com meu primo em 5.°/7.ü grau,[36] oger Sperling — o que não me afligiu, porque eu estava ficando impaciente como senhor rural. De qualquer maneira, quando uma mulher deseja ir embora, deixe-a ir. Apoiei-a no casamento deles.

 

Roger ficou surpreso ao saber que a minha plantação não era propriedade comum. Ou possivelmente não achou que eu forçaria Laura a cumprir o acordo de casamento que ela havia assinado — mas essa não era a primeira vez que eu tinha sido rico; eu havia aprendido. Foi preciso um processo monótono para convencê-lo de que Laura possuía seu dote de casamento mais a valorização, não aqueles milhares de hectares que eram meus antes de me casar com ela. Em muitos sentidos é mais simples ser pobre.

Depois viajei para fora outra vez.

Mas isto é sobre os meus filhos que não eram realmente meus. Antes de chegarmos a Aterragem, Joseph Aaron Long parecia mais um querubim e menos um macaco, mas ainda era moço bastante para mijar em qualquer um bastante impaciente para pegá-lo no colo — o que o seu avô fazia, várias vezes por dia. Eu gostava dele; ele era não só um bebê alegre como também, para mim, um triunfo muito satisfatório.

Na ocasião em que aterrissamos, meu pai havia se transformado num cozinheiro realmente bom.

Minerva, eu podia ter estabelecido aqueles garotos com estilo; aquela foi uma viagem triangular tão lucrativa como jamais fiz. Mas a gente não faz com que ex-escravos fiquem eretos, livres e orgulhosos dando-lhes coisas. O que fiz foi torná-los capazes de sair e se virar. Assim...

Creditei-lhes salários de aprendizes em meio expediente, de Abençoado até Valhalla, na presunção de que o outro meio expediente deles fosse tomado pelos estudos. Isto eu fiz Llita calcular em coroas, pelos níveis de salários de Valhalla. Fi-la acrescentar ao cálculo os salários de Toe como ajudante de cozinha em Valhalla, menos o que ele havia gasto lá. Este total foi creditado a eles como sociedade na carga da terceira etapa, de Valhalla para Aterragem — o que montava a menos da metade de um por cento daquela carga. Fiz Llita calcular tudo isto.

A esse total acrescentamos os salários de cozinheiro de bordo de Joe, de Valhalla para Aterragem, pagáveis em dólares de Aterragem nos níveis de salários de lá — mas apenas como salários, não como sociedade na carga. Tive que explicar a Llita por que os salários de Joe para essa etapa não podiam ser investidos retroativamente na carga embarcada em Valhalla. Uma vez tendo entendido isso, ela obteve uma compreensão das noções de especulação, risco e lucro — mas não lhe paguei por esta contabilidade; macacos me mordam se eu fosse pagar salários de comissário para ela calcular seu próprio dinheiro quando eu estava não só tendo que conferir tudo quanto ela fazia, como lhe dando também uma lição de economia.

Não paguei a Llita pela etapa até Aterragem; ela era passageira, ocupada em ter um bebê e depois mais ocupada ainda aprendendo a cuidar dele. Mas não lhe cobrei passagem; ela viajou de carona.

Você compreende o que eu estava fazendo — manipulando as contas de forma que lhes devesse alguma coisa uma vez vendida a carga, enquanto fazia parecer que eles haviam ganho aquilo. Eles não valiam salário nenhum; pelo contrário, eu havia gasto uma boa quantia com eles — além de comprá-los, o que nunca lhes cobrei nem mentalmente. Por outro lado, fui pago em satisfação profunda — especialmente porque eles aprenderam a cuidar de si mesmos. Mas não discuti nada disto; simplesmente fiz Llita calcular a parte deles — à minha moda.

(Omitido)

...chegava a dois mil, não suficiente para sustentá-los por muito tempo. Mas arranjei tempo para descobrir uma lanchonete na qual tomei opção, através de uma terceira pessoa, após convencer-me de que um par de lutadores podia sobreviver dela, se o preço fosse certo e eles estivessem dispostos a trabalhar. Depois disse a eles que era melhor começarem a procurar emprego porque eu ia pôr a Libby à venda ou arrendá-la. Seria um sucesso completo ou fracasso total. Eles estavam realmente livres — livres para morrer de fome.

Llita não fez beicinho, simplesmente tomou um ar solene e continuou a dar de mamar ao pequeno J. A. Joe ficou com medo. Mais tarde, porém, vi-os de cabeças juntas sobre um jornal que eu havia trazido para bordo; estavam lendo anúncios de empregos.

Após muitos cochichos, Llita perguntou timidamente se eu Podia cuidar da criança enquanto iam procurar emprego — mas, Se eu estivesse ocupado, J. A. podia ir preso ao seu quadril.

Eu disse que não ia a parte alguma — mas haveriam eles lido as "oportunidades comerciais"? Empregos para pessoas sem treinamento não levavam a parte alguma.

Ela ficou espantada; era uma idéia nova. Mas aquela pista foi suficiente. Houve mais buscas e cochichos; depois ela trouxe o jornal para mim e apontou para um anúncio — meu próprio mas sem tal indicação — perguntando o que significava "cinco anos de amortização".

Demonstrei desprezo em relação a ele e disse-lhe que era uma forma de falir devagar, especialmente se ela gastasse dinheiro em roupas — e devia haver alguma coisa errada ou o dono não ia querer vender.

Ela ficou tão triste quanto Joe e disse que as outras oportunidades comerciais exigiam o investimento de muito dinheiro. Admiti com relutância que não fazia mal olhar — mas que tomassem cuidado com armadilhas.

Eles voltaram cheios de entusiasmo — estavam certos de poder comprá-lo e fazê-lo render! Joe era um cozinheiro duas vezes melhor do que aquele cozinheiro insignificante que o possuía — ele usava gordura demais, rançosa, o café era terrível e ele nem sequer mantinha o lugar limpo. Melhor do que tudo, atrás da despensa havia um quarto onde eles podiam morar e...

Fiz com que se calassem. Qual era a receita bruta? E quanto aos impostos? E a licença e as inspeções, e qual o suborno necessário? O que entendiam eles sobre comprar comida por atacado? Não, eu não ia vê-lo: eles tinham que se decidir e parar de se apoiar em mim; e, de qualquer maneira, eu não entendia coisa alguma do ramo de restaurantes.

Duas mentiras, Minerva; dirigi restaurantes em cinco planetas — mais uma mentira silenciosa quanto aos meus motivos para não desejar inspecionar a espelunca. Dois — não, três — motivos: em primeiro lugar, eu havia examinado o lugar com cínica minúcia antes de tomar a opção sobre ele; em segundo, aquele cozinheiro insignificante fatalmente se lembraria de mim; em terceiro, já que eu o estava vendendo a eles, através de um testa-de-ferro, não podia nem responder por ele nem insistir para que o comprassem. Minerva, vendo um cavalo, não vou garantir que ele tenha uma perna em cada canto; o comprador deve contar por si mesmo.

Tendo negado qualquer conhecimento do negócio de restaurantes, fiz-lhe então uma preleção sobre ele. Llita começou a tomar notas, depois pediu licença para ligar o gravador. Assim, entrei em detalhes: por que um lucro bruto de cem por cento sobre o custo da comida podia não dar para as despesas após ela calcular os custos e as despesas indiretas — amortização, depreciação, impostos, seguros, salários para eles como se fossem empregados, etc. Onde era o mercado dos produtores e a que horas de cada manhã tinham que estar lá. Por que Joe tinha que aprender a cortar a carne, não comprá-la aos pedaços —e onde podia aprender isso. Como um cardápio longo poderia arruiná-los. O que fazer a respeito dos ratos, camundongos, baratas e algumas pessoas fora do comum que Aterragem tem mas graças a Deus Secundus não tem. Porque...

(Omitido)

...o cordão umbilical foi cortado, Minerva. Acho que eles nunca imaginaram que estavam negociando comigo. Não os enganei nem os ajudei; aquele contrato de venda amortizado simplesmente transferiu o preço que tive que pagar pela pocilga, mais um acréscimo representando o tempo que eu havia gasto regateando o preço, mais honorários legais, a caução e um pagamento ao testa-de-ferro, mais os juros que o banco me cobraria — dois pontos mais barato do que eles poderiam obter, pelo menos. No entanto, nada de caridade, nenhuma — não ganhei nada, não perdi nada e cobrei apenas um dia do meu tempo.

A bolsa de Llita era mais fechada do que o eu de um touro em dia de muita mosca; acho que ela equilibrou a receita e a despesa logo no primeiro mês, apesar de não trabalhar enquanto limpavam e remodelavam o lugar. Certamente ela não deixou de fazer o primeiro pagamento daquele mês da hipoteca, nem nenhum depois desse. Deixar de fazer algum? Querida, eles pagaram aquele empréstimo de cinco anos em três.

Não é muito surpreendente. Ah, uma longa doença poderia ter acabado com eles. Mas eram saudáveis e jovens, e trabalharam sete dias por semana até ficarem livres de dívidas. Joe cozinhava; Llita cuidava da caixa, sorria para os fregueses e ajudava no balcão; J. A. vivia numa cesta junto ao cotovelo da mãe até ter idade bastante para andar.

Até eu me casar com Laura e deixar Nova Canaveral para ser um senhor rural, fui ao boteco deles diversas vezes — não muitas, porque Llita não me deixava pagar, e isso era apropriado, fazia parte de ser altivo e orgulhoso; eles haviam comido minha comida, agora eu comia a deles. Assim, eu passava geralmente apenas para uma xícara de café e inspecionava meu afilhado — ao mesmo tempo em que os inspecionava. Encaminhei fregueses para eles também; Joe era um bom cozinheiro e ficava cada vez melhor. Espalhou-se a fama de que a Cozinha da Estelle era o lugar certo para quem apreciava boa comida. As recomendações verbais são a melhor propaganda; as pessoas tendem a ficar cheias de si quanto a terem "descoberto" esse tipo de restaurante.

Não era prejudicial junto aos fregueses, homens especialmente, o fato de a própria Estelle tomar conta da caixa, jovem, bonita e com um bebê nos braços. Se ela estava dando de mamar ao fazer o troco — como era muitas vezes o caso, no começo —, isso praticamente garantia uma gorjeta generosa.

  1. A. desistiu do negócio de laticínios pouco depois, mas quando tinha cerca de dois anos seu lugar foi tomado por uma irmã, Libby Long. Não fiz o parto dela, e seu cabelo ruivo não tinha nada a ver comigo. Joe era louro, e suponho que Llita fosse portadora do gene como um recessivo — duvido que ela tivesse tempo de se espalhar. Libby era a instigadora número 1 de gorjetas, e credito a ela a ajuda que permitiu pagar a hipoteca mais cedo.

Alguns anos mais tarde a Cozinha da Estelle mudou-se para o norte da cidade, no bairro financeiro. Era um pouco maior, e Llita contratou uma garçonete, bonita, naturalmente...

(Omitido)

... a Maison Long era aparatosa, mas possuía um recanto, um café chamado "Cozinha da Estelle", e lá Estelle era a anfitriã, bem como na sala de jantar principal — sorrindo, vestida com roupas justas que mostravam sua silhueta soberba, chamando os fregueses habituais pelo nome, conseguindo os nomes dos convidados deles e lembrando-se deles. Joe tinha três cozinheiros e alguns ajudantes que se conformavam com seus altos padrões, ou eram despedidos.

Antes, porém, que abrissem a Maison Long, aconteceu uma coisa que mostrou que os meus garotos eram ainda mais espertos do que eu imaginava — ou pelo menos lembravam-se de tudo e pensavam nas coisas mais tarde. Veja você, quando os comprei, eles eram ignorantes demais para cavarem areia e acho que nenhum deles jamais tinha tocado em dinheiro.

Carta de um advogado... Dentro havia uma ordem de pagamento e com ela uma conta: duas passagens, de Abençoado para Valhalla e Aterragem, segunda etapa calculada pelas tarifas da Corporação de Migração Transestelar Ltda. (Nova Canaveral) e primeira etapa igualada arbitrariamente à segunda; certas quantias resultantes da sociedade na venda da carga; cinco mil bênçãos expressas em dólares numa taxa de câmbio estimada com base no poder aquisitivo equivalente, ver anexo; total das quantias brutas acima; juros sobre o bruto capitalizados semi-anualmente durante treze anos à taxa comercial corrente para cada ano para empréstimos sem garantia — e total geral igual ao da ordem de pagamento, uma soma que estou certo de não me lembrar, Minerva, mas que não significaria coisa alguma em coroas de Secundus, de qualquer maneira, gra uma soma considerável.

Não havia nenhuma referência a Llita ou Joe, e a ordem era assinada por esse advogado. Liguei para ele, então.

Verifiquei que era um esnobe, o que não me impressionou, porque eu próprio fui advogado lá, embora sem exercer a profissão. Tudo quanto ele podia dizer é que estava agindo em nome de um cliente, cuja identidade não podia revelar.

Martelei-o em legalês, portanto, e ele afrouxou até o ponto de me informar que tinha instruções para o caso de eu recusar a ordem: depois devia pagar a soma desta a uma fundação designada e informar-me disso após ter sido paga. Recusou-se, porém, a me dizer que fundação era essa.

Desliguei e liguei para a Cozinha da Estelle. Llita atendeu, depois entrou no vídeo e sorriu o melhor que pôde.

— Aaron! Não o vemos há tanto tempo!

Concordei e acrescentei que aparentemente eles tinham perdido a cabeça enquanto eu não estava observando.

— Tenho aqui um monte de bobagens de um advogado, junto com uma ordem ridícula. Se eu pudesse pegá-la, querida, lhe daria uma surra. É melhor deixar-me falar com Joe.

Ela sorriu, feliz, e disse-me que eu era bem-vindo para surrá-la a qualquer momento e que eu poderia falar com Joe num instante, mas que ele estava fechando a loja. Depois parou de sorrir e disse com sóbria dignidade:

— Aaron, nosso mais velho e querido amigo, essa ordem não é ridícula. Algumas dívidas não podem ser pagas. Você me ensinou isso há anos. Mas a parte monetária de uma dívida pode ser paga. É isso que estamos fazendo, o mais aproximadamente quanto pudemos calcular.

— Diabos a levem, sua cadelinha estúpida — disse eu. — Vocês, garotos, não me devem nenhum maldito tostão — ou algo nesse sentido.

Ela respondeu:

— Aaron, nosso amado patrão...

A palavra "patrão" explodi minhas sobrecargas, Minerva. Usei uma linguagem garantida para vergastar o lombo das mulas da frente de uma junta de seis.

Ela me deixou acabar, depois disse baixinho:

— Nosso patrão até você nos libertar permitindo que Paguemos isto... capitão.

Querida, eu parei derrapando.

— Mas, mesmo então, você continuará ainda nosso patrão em meu coração, capitão — acrescentou ela. — E no coração de Joe, eu sei. Embora continuemos livres e orgulhosos, como você nos ensinou. Embora, sempre graças a você, nossos filhos, e os filhos que ainda terei, nunca fiquem sabendo que fomos outra coisa senão seres livres... e orgulhosos.

— Querida — eu disse —, você está me fazendo chorar.

— Não, não! — exclamou ela. — O capitão nunca chora.

— O que você sabe a respeito disso? Eu choro. Mas na minha cabine... com a porta trancada. Querida, não vou discutir. Se é isto que é preciso para fazer vocês, garotos, se sentirem livres, aceitarei. Mas apenas o principal, sem juros. Não aceitarei juros de amigos.

— Somos mais do que amigos, capitão. E menos. Os juros de uma dívida sempre são pagos... você me ensinou. Mas eu sabia disso em meu coração mesmo quando era uma escrava ignorante, recém-alforriada. Joseph sabia disso também. Tentei pagar os juros, capitão. Mas você não me deixou.

Mudei de assunto.

— Qual é a fundação que vai receber os dólares se eu os recusar?

Ela hesitou.

— Planejamos deixar isso por sua conta, Aaron. Mas achamos que devia ir'para os órfãos dos espaçonautas. Talvez o Refúgio Memorial Harriman.

— Vocês dois estão loucos. Esse fundo está abarrotado, e sei disso. Olhe, se eu for à cidade amanhã, você pode calar essa matraca de ptomaína [37] por um dia? Ou talvez até o dia de São Nunca?

— Qualquer dia e por tantos dias quantos desejar, Aaron. Assim, eu disse que ligaria de novo.

Minerva, eu precisava de tempo para pensar. Joe não era problema, nunca fora. Mas Llita era teimosa. Eu havia oferecido um acordo; ela não havia cedido um milímetro. Eram os juros que tornavam a quantia tão chocante, para eles — dois lutadores que haviam começado com um par de milhares de dólares treze anos atrás e que estavam criando três filhos então.

Juros acumulados é assassinato. A quantia que ela afirmava dever-me — o total daquela ordem — era mais do que duas vezes e meia o valor do principal... e eu não podia compreender como eles haviam economizado tanto. Mas, se eu conseguisse convencê-la a concordar com o principal e esquecer os juros acumulados, eles ainda teriam uma bela soma de capital para expandir novamente — e, se fosse preciso dar a soma menor a espaçonautas órfãos, órfãos de espaçonautas ou gatos indignados para fazê-los se sentirem orgulhosos, eu percebia que isso seria um bom negócio a seus olhos. Eu mesmo lhes tinha ensinado, não tinha? Uma vez desisti de dez vezes essa quantia para não discutir se as cartas haviam sido cortadas — depois dormi naquela noite num cemitério.

Fiquei imaginando se, em sua mente docemente tortuosa, ela me estaria pagando por tê-la arrastado para fora da minha cama certa noite catorze anos atrás. Fiquei imaginando o que ela faria se eu fizesse uma contraproposta de aceitar o principal e deixá-la "pagar os juros" à sua própria maneira. Bolas, provavelmente estaria deitada de costas antes que se pudesse dizer "contracepção".

O que não resolveria nada.

Já que ela havia recusado meu acordo, estávamos de volta ao ponto de partida. Ela estava resolvida a pagar tudo — ou doar, sem mais nem menos —, e eu não ia deixá-la fazer nenhuma das duas coisas; também posso ser teimoso.

Tinha que haver uma maneira de convencê-los.

 

Ao jantar naquela noite, depois que os empregados se retiraram, eu disse a Laura que ia à cidade a negócios — ela gostaria de ir junto? Fazer compras enquanto eu estava ocupado, depois jantar onde quer que gostasse, em seguida procurar qualquer divertimento que lhe agradasse. Laura estava grávida outra vez; achei que ela gostaria de passar um dia gastando dinheiro em roupas.

Não que eu planejasse tê-la comigo na briga que se aproximava com Llita: oficialmente, Joseph, Estelle Long e seu filho mais velho haviam nascido em Valhalla; tínhamo-nos tornado amigos quando eles viajaram em minha nave. Eu havia alimentado essa história e instruído os garotos nela na viagem para Aterragem, e fizera com que estudassem fitas de imagem e som de Torheim — fitas essas que os transformaram em valhallanos sintéticos, a menos que interrogados minuciosamente demais por valhallanos verdadeiros.

Essa simulação não era totalmente necessária, porque Aterragem tinha uma política de portas abertas; os imigrantes não precisavam nem se registrar — podiam afundar ou nadar. Nenhuma taxa de aterrissagem, nenhuma taxa por cabeça, não muita tributação de qualquer tipo, muito governo, e Nova Canaveral, a terceira maior cidade, tinha apenas cem mil habitantes — Aterragem era um bom lugar para se viver naquele tempo.

Mas fiz Joe e Llita agirem dessa maneira tanto por causa deles como de seus filhos. Queria que esquecessem que algum dia tinham sido escravos, que nunca falassem sobre isso, que nunca deixassem seus filhos saber disso — e, ao mesmo tempo, enterrassem o fato de que tinham sido, de alguma maneira estranha, irmão e irmã. Não há nada vergonhoso em se nascer escravo (exceto para o escravo!), nem havia qualquer motivo para que complementos diplóides não pudessem casar-se. Mas esqueça isso — começarei de novo. Joseph Long havia se casado com Stjerne Svensdatter (nome anglicizado como "Estelle", com o apelido de Llita desde a mais tenra infância); eles haviam se casado quando ele terminou o aprendizado de cozinheiro; tinham emigrado após nascer seu primeiro filho. A história era simples e não podia ser contestada; e dava o polimento final em minha única tentativa de brincar de Pigmalião. Eu não vira nenhum motivo para dar à minha nova mulher qualquer versão senão a oficial. Laura sabia que eles eram meus amigos; era amável com eles por minha causa, depois viera a gostar deles por conta própria.

Laura era uma boa garota, Minerva, uma boa companhia na cama e fora dela, e tinha a virtude dos Howards, mesmo em seu primeiro casamento, de não tentar reprimir o marido — a maioria dos Howards precisa de pelo menos um casamento para aprender isso. Ela sabia quem eu era — o Sênior — porque o nosso casamento e, mais tarde, os nossos filhos foram registrados nos arquivos, assim como tinha sido o meu casamento com a sua avó e os filhos resultantes dele. Mas não me tratava como sendo mil anos mais velho do que ela, e nunca me interrogou sobre minhas vidas passadas — simplesmente escutava se eu tivesse vontade de contar.

Não a culpo por aquele processo; Roger Sperling planejou aquilo, o ávido filho de uma porca.

— Se você não se importa, querido — disse Laura —, ficarei em casa. Prefiro vestir roupas elegantes quando emagrecer. Quanto ao jantar, não há nenhum restaurante em Nova Canaveral que iguale o que Thomas prepara para nós aqui. Bem, a Cozinha da Estelle talvez, mas é uma lanchonete, não um restaurante. Você vai vê-los nesta viagem? Estelle e Joe, quero dizer.

— Provavelmente.

— Ache tempo, querido; eles são boas pessoas. Além disso, quero mandar algumas bugigangas para a minha afilhada. Aaron, se você quiser levar-me a um restaurante chique quando formos à cidade, deve encorajar Joe a abrir um. Joe sabe cozinhar tão bem como Thomas.

(Melhor do que Thomas, disse comigo mesmo — e Joe não se aborrece com um pedido amável. Minerva, o problema com empregados é que a gente serve a eles tanto quanto eles servem à gente.)

— Farei força para vê-los, pelo menos o tempo suficiente para entregar o seu presente a Libby.

— Dê um beijo em todos por mim. É melhor eu mandar alguma coisa para cada um dos filhos deles. Não se esqueça de dizer a Estelle que estou grávida outra vez. Descubra se ela está também e lembre-se de me contar. A que horas você vai, querido? Preciso verificar suas camisas. — Laura estava serenamente certa de que eu não podia arrumar uma mala para uma noite, não importava quantos séculos de experiência eu tivesse. Sua capacidade de ver o mundo como queria vê-lo capacitou-a a se acostumar com as minhas maneiras desajeitadas durante quarenta anos; eu a apreciava. Amor? Certamente, Minerva. Ela cuidava do meu bem-estar, sempre, e eu do dela; e gostávamos de estar juntos. Não era um amor tão intenso que causasse dor de barriga.

No dia seguinte tomei minha charrete para Nova Canaveral.

(Omitido)

...planejou a Maison Long. Llita tencionou subjugar-me. Sou sentimental; ela sabia disso e preparara o palco. Quando cheguei lá, as persianas estavam fechadas, cedo — e seus dois filhos mais velhos tinham ido passar a noite fora, e o bebê, Laura, estava dormindo. Joe me fez entrar e disse que eu fosse para os fundos; estava com o nosso jantar no fogão e voltaria num minuto. Fui, então, para os fundos, onde moravam, para falar com Llita.

Descobri-a — usando o sarongue e as sandálias que eu lhe havia dado nem uma hora após tê-la comprado. Em vez da pintura sofisticada que agora usava tão bem, ela não estava com absolutamente nenhuma maquilagem e tinha os cabelos simplesmente repartidos e caídos até a cintura ou mais, e escovados até brilharem. Mas aquela não era a escrava assustada e ignorante que tivera de aprender a tomar banho; essa jovem senhora serenamente linda estava limpa como um bisturi esterilizado, e perfumada com alguma fragrância que poderia chamar-se Brisas da Primavera mas devia chamar-se Estupro Justificável e ser vendida apenas com receita médica.

Ela fez pose apenas o tempo suficiente para eu absorver isso, depois pulou em cima de mim e atingiu-me com um beijo que combinava com o seu perfume.

No momento em que me soltou, Joe havia se reunido a nós — vestindo tanga e sandálias.

Mas não deixei aquilo ficar sentimental; reagi vivamente, parando apenas para aceitar um décimo se tanto do beijo de Joe, não disse nada sobre suas roupas e comecei a explicar imediatamente aquele acordo comercial. Quando Llita percebeu o que eu estava dizendo, mudou de sereia sensual para ríspida mulher de negócios, ouviu intensamente, ignorou o ambiente que preparara e as roupas, e fez as perguntas certas. A certa altura ela disse:

— Aaron, alguma coisa está errada. Você disse-nos para sermos livres e tentamos ser... e foi por isso que lhe mandamos aquela ordem de pagamento. Sei somar; devemos a você aquele dinheiro. Não precisamos ter o maior restaurante de Nova Canaveral. Somos felizes, as crianças têm saúde, estamos ganhando dinheiro.

— E trabalhando duro demais — respondi.

— Não tão duro assim. Embora um restaurante maior significasse ainda mais trabalho. Mas a questão é a seguinte: parece que você está nos comprando outra vez. Isso estará bem se você desejar... é o único patrão que aceitaríamos. É essa sua intenção, capitão? Se for, por favor, diga. Seja franco conosco.

— Joe — disse eu —, quer segurá-la enquanto lhe dou uma surra por usar essa palavra suja? Llita, você está errada nos dois sentidos. Um restaurante maior significa menos trabalho. E não estou comprando vocês; isto é um acordo comercial do qual espero um grande lucro. Estou apostando no gênio de Joe como cozinheiro, e no seu gênio em economizar tostões sem baixar a qualidade. Se eu não ganhar dinheiro, exercerei minha opção para liquidar, receberei meu investimento de volta e vocês poderão voltar a dirigir um balcão de lanchonete. Se vocês falharem, não os apoiarei.

— Irmão? — ela o chamou assim naquele dialeto da sua infância. Isso significou para mim que a sociedade estava preparada para uma sessão executiva do mais alto grau, porque eles tinham o maior cuidado em não chamarem um ao outro de "irmão" em qualquer língua, especialmente diante dos filhos. Minerva, não me lembro se Aterragem tinha leis contra o incesto... lá não existiam muitas leis. Mas havia um forte tabu contra isso, e eu os havia doutrinado cuidadosamente. Metade da luta em qualquer cultura é conhecer os seus tabus.

Joe ficou pensativo.

— Eu posso cozinhar. Você pode cuidar do resto, irmã?

— Posso tentar. Naturalmente tentaremos se você quiser, Aaron. Não estou certa de obtermos sucesso, e parece-me que terei mais trabalho. Não estou reclamando, Aaron, mas já estamos trabalhando tão duro quanto podemos.

— Sei que estão. Não sei como Toe acha tempo para trepar com você.

Ela encolheu os ombros e disse:

— Isso não demora muito. E vai levar muito tempo (acabei de engravidar) antes de eu poder tirar uma folga. J. A. tem idade bastante para cuidar da caixa quando eu tirar folga. Mas não num restaurante grande e elegante.

— Garota — respondi —, você está pensando em termos de lanchonete. Agora escutem e aprendam como ganhar mais dinheiro com menos trabalho e mais tempo de folga.

"Podemos abrir a Maison Long só depois de você ter esse bebê; não podemos resolver isto numa noite. Precisamos vender ou alugar este lugar... o que significa achar compradores que possam mantê-lo fora do vermelho; é sempre dispendioso ter que tomar um lugar de volta.

"Precisamos descobrir uma propriedade adequada no bairro certo, para venda ou locação com opção de compra. Posso comprá-la e arrendá-la à corporação, a fim de não imobilizar capital demais desta em financiamento. Descobrir o lugar, remodelá-lo provavelmente, redecorá-lo certamente. Dinheiro para instalações. Não muito para extorsão; eu sei onde os corpos estão enterrados nesta cidade, e não ficarei impassível com uma extorsão excessiva.

"Mas, minha querida, você não ficará na caixa; contrataremos gente, e cuidarei para que eles não possam roubar. Você ficará circulando, com uma bonita aparência, sorrindo para as pessoas... e de olho em tudo. Mas fará isso apenas na hora do almoço e do jantar. Digamos seis horas por dia."

Joe ficou espantado; Llita disse impulsivamente:

— Mas, Aaron, sempre abrimos assim que chegamos do mercado e ficamos abertos até tarde. Do contrário perde-se muitos negócios.

— Estou certo de que vocês trabalham duro; esta ordem de pagamento o prova. È é por isso que você acha que ficar grávida "não demora muito". Mas isso deve "demorar", querida. O trabalho por si mesmo não é um fim: deve haver sempre tempo suficiente para o amor. Diga-me... Quando você engravidou de J. A. na Libby, apressaram-na? Ou você teve tempo para desfrutar?

— Ah, Santo Deus! — Seus mamilos tilintaram de repente. — Aqueles dias foram maravilhosos!

— Haverá dias maravilhosos outra vez, Ou você perdeu o interesse?

Ela ficou indignada.

— Capitão, conhece-me melhor do que isso.

— Joe? Está fraquejando, filho?

— Bem... trabalhamos longas horas. Algumas vezes estou bastante cansado.

— Vamos mudar a situação. Isto não será uma lanchonete; isto vai ser um restaurante fino e caro, de uma qualidade que este planeta nunca viu. Lembram-se daquele lugar onde os levei para jantar pouco antes de decolarmos para Valhalla? Daquele tipo. Luzes suaves e música suave, comida maravilhosa e altos preços. Uma adega de vinhos, mas não bebidas fortes; nossos fregueses não devem ficar com as papilas gustativas dormentes.

"Joe, você ainda irá ao mercado todas as manhãs; escolher alimentos de alta qualidade é uma coisa que você não pode delegar. Mas não leve Llita; leve J. A., se ele quiser aprender a profissão."

— Eu já o levo algumas vezes.

— Ótimo. Depois voltará para casa e irá para a cama descansar, até a hora de fazer o jantar. Não o almoço.

— Hein?

— É isso mesmo. Seu cozinheiro número 2 cuidará do almoço, depois ajudará no jantar, a grande refeição para ganhar dinheiro. Llita será a anfitriã tanto no almoço como no jantar, mas ficará de olho vivo na qualidade do almoço, Joe, já que você não estará na cozinha. Mas ela nunca irá ao mercado e ainda estará na cama quando você voltar de lá... eu disse que a casa de vocês deverá ficar junto, exatamente como agora? Vocês dois terão folga duas ou três horas à tarde... o tempo exato para o tipo de sesta que vocês costumavam ter na Libby. Na verdade, se vocês dois não acharem tempo, sob esse regime, tanto para dormir como para muitas brincadeiras agradáveis... Mas vocês acharão.

— Parece ótimo — concordou Llita —, se pudermos ganhar a vida com esse horário...

— Vocês podem. Uma vida melhor. Mas, em vez de tentar ganhar cada dólar, Llita, o seu objetivo será manter o máximo de qualidade sem perder dinheiro... e gozar a vida.

— Gozaremos. Aaron, nosso amado... capitão e amigo, já que não posso dizer aquela palavra "suja", gozamos a vida mesmo quando éramos crianças e eu tinha que usar aquele horrendo cinto de castidade... porque era muito doce nos aconchegarmos durante as longas noites. Quando você nos comprou (e nos libertou) e não tive que usá-lo mais, a vida ficou perfeita. Achei que não podia ser melhor... mas será, quando não tivermos que escolher entre dormir e tentar ficar acordados para amar. Ah, você pode não acreditar nisso, já que sabe a mulher fogosa que sou... mas uma porção de vezes o sono venceu.

— Eu acredito. Vamos mudar isso.

— Mas... Não serviremos o café da manhã? Aaron, alguns dos nossos fregueses do café vêm aqui desde que estamos em Aterragem.

— Qual o lucro líquido?

— Bem... não muito. As pessoas não pagam muito pelo café da manhã, ainda que os ingredientes algumas vezes custem caro. Um lucro líquido pequeno no café me satisfaz. É propaganda. Odiaria dizer aos nossos fregueses regulares que não os atenderemos mais.

— Detalhes, querida. Você pode ter um bar para café num canto e não abrir a sala de jantar principal... mas Joe não vai preparar o café, e nem você. Você ficará na cama com Joe nessa hora... para que os seus olhos fiquem cintilando no almoço.

— J. A. conhece os pratos do café — interrompeu Joe. — Fiz com que ele começasse pelo café.

— Detalhes, novamente. Talvez cheguemos a um acordo com o meu afilhado, pelo qual ele ganhe o seu próprio dinheiro, se o bar que vai servir o café der dinheiro...

(Omitido)

— ...resumindo tudo. Tome nota, Llita. Concordo em aceitar este esquema enquanto vocês dois, especialmente você, Llita, concordar que isso liquidará para sempre qualquer débito entre nós. A Maison Long será uma corporação estreitamente fechada, cinqüenta e um por cento para vocês dois, quarenta e nove por cento para mim, nós três seremos diretores, e não poderemos vender ações a não ser uns para os outros... exceto que eu ficarei com a opção de mudar toda ou parte da minha participação em ações sem voto, caso em que poderei transferi-la.

"Minha parte do financiamento inicial é este esquema. A Parte de vocês é o que obtivermos por esta lanchonete..."

— Espere — disse Llita. — Pode ser que não consigamos vender por tanto.

— Detalhes, querida. Inclua uma cláusula permitindo que vocês paguem à corporação qualquer diferença do seu próprio lucro... e haverá realmente um lucro; não permaneço num negócio que não dê dinheiro, sempre corto minhas perdas. Vamos pôr outra cláusula que me permita fornecer mais capital, se necessário, para comprar ações sem votos... e usaremos algo como isso para conservarmos os melhores funcionários, também. Não deixaremos que Joe treine um cozinheiro para depois vê-lo ir embora. Não importa, vamos acertar a idéia geral. Vocês dois são os chefes; eu sou o sócio oculto. Haverá salários para vocês dois na escala que discutimos, aumentando com o aumento da receita, como discutimos.

"Eu não receberei salários, apenas dividendos. Mas todos nós vamos dar duro para pôr isto em funcionamento. Virei de Skyhaven quando for necessário; não há nada acontecendo lá, agora, de que o meu administrador não possa cuidar. Uma vez funcionando, não farei nada; ficarei sentado e deixarei vocês dois nos tornarem ricos. Mas ouçam com cuidado: uma vez funcionando, vocês dois devem parar de dar duro também. Mais tempo na cama. Mais tempo para se divertirem fora da cama. Vocês não nos tornarão ricos trabalhando em horário integral. Chegamos a um acordo?"

— Acho que sim — concordou Joe. — Irmã?

— Sim. Não estou certa de que Nova Canaveral possa ter um restaurante fino como aqueles, encantadores, de Valhalla... mas tentaremos! Ainda acho que nossos salários iniciais são altos demais, mas esperarei até chegarmos a um balanço experimental em nosso primeiro trimestre antes de discutir o assunto. Apenas uma coisa, capitão...

— Meu nome é Aaron.

— "Capitão" é mais seguro do que a "palavra suja". Concordei com a coisa toda... e macacos me mordam se vamos fazer isto funcionar, como você sempre diz. Mas, se pensa que isto me fez esquecer uma noite em que você me arrastou para fora da sua cama e me atirou de bunda num convés duro de aço, pode pensar outra vez! Porque não fez!

Suspirei, Minerva, e disse para o marido dela:

— Joe, como é que você agüenta? Ele encolheu os ombros e sorriu.

— Não agüento, apenas vou levando. Além disso, compreendo o ponto de vista dela sobre isso. Se eu fosse você, eu a levaria para a cama e a faria esquecer.

Sacudi a cabeça.

— Mas não sou você, essa é a questão. Joe, eu aprendi, muito antes de você nascer, que um rabo grátis é invariavelmente o tipo mais dispendioso. Pior do que isso, nós três somos sócios, agora... e posso ver seis resultados possíveis se eu aceitar sua idéia como solução... e qualquer dos seis pode fazer com que a Maison Long Ltda. nunca decole.

(Omitido)

...exatamente como eu sabia que decolaria, Minerva; nunca tive um investimento não especulativo que rendesse tanto. Tentaram imitar-nos — mas nunca puderam imitar a cozinha de Toe ou a gerência de Llita. Ganhei uma fortuna!

 

Variações sobre um tema IX

Conversa antes da madrugada

— Lazarus, você não está com sono?

— Não me aborreça, querida. Já passei milhares de noites em claro e ainda estou aqui. Um homem nunca corta a garganta por causa de uma noite sem dormir se tiver companhia para ajudá-lo a passá-la. Você é uma boa companhia, Minerva.

— Obrigada, Lazarus.

— É simplesmente verdade, garota. Se eu dormir... ótimo! Se não, então não há necessidade de contar a Ishtar. Não, isso não vai funcionar; ela irá fazer gráficos e diagramas sobre mim, não é?

— Receio que sim, Lazarus.

— Você sabe disso muito bem. Um bom motivo para eu ser um anjinho, lavar atrás das orelhas e acabar com este rejuvenescimento é ter minha privacidade de volta. A privacidade é tão necessária como a companhia; pode-se levar um homem à loucura privando-o de qualquer uma das duas. Isso foi outra coisa que consegui montando a Maison Long; consegui para os meus garotos a privacidade de que eles não sabiam estar precisando.

— Isso não me ocorreu, Lazarus. Notei que eles ficaram com mais tempo para Eros... e vi que isso foi bom. Eu devia ter deduzido mais alguma coisa dos dados?

— Não, porque não dei a você todos os dados. Nem um décimo. Apenas um esboço dos cerca de quarenta anos em que os conheci, e alguns (não todos) pontos críticos. Por exemplo, mencionei a ocasião em que Joe decapitou um homem?

— Não.

— Não foi grande coisa e não era importante para a história. Este jovem estudante tentou participar do dinheiro certa noite, assaltando-os à mão armada. Llita estava com J. A. no braço direito, dando de mamar ou prestes a fazê-lo, e não pôde apanhar o revólver que guardava na caixa; não estava em condições de lutar, e foi inteligente o bastante para não tentar fazê-lo com tal desvantagem. Suponho que o pilantra não soubesse que Joe tinha simplesmente saído de perto.

"Exatamente quando este livre-atirador socialista estava recolhendo a receita do dia, Joe acertou-o com um cutelo de açougueiro. Cortina. A única coisa notável quanto a isso foi Joe agir tão rápido e corretamente matando-o, porque estou certo de que a única luta que ele tentou alguma vez foi aquela a que o forcei na Libby. Joe também fez tudo muito adequadamente: acabou de separar a cabeça; atirou o corpo na rua para que os amigos dele o levassem, se tivesse algum; ou para os garis retirarem, em caso contrário; em seguida expôs a cabeça na frente da loja num espigão próprio para isso. Fechou então as persianas e limpou a sujeira... depois pode ter tido tempo para vomitar; Joe era uma boa alma. Mas aposto sete contra dois como Llita não vomitou.

"A comissão da cidade para segurança pública votou a favor de Joe a recompensa habitual, e a comissão de ruas fez passar o chapéu e aumentou-a; um cutelo contra um revólver merecia atenção especial. Boa propaganda para a Cozinha da Estelle. Quanto ao resto, porém, não é importante, exceto que os garotos poderiam usar aquele dinheiro... ajudou a pagar a hipoteca, sem dúvida, e terminou no meu bolso. Mas eu não teria ouvido falar deste incidente sem importância se não estivesse em Nova Canaveral, tendo passado por acaso na Cozinha da Estelle quando a própria cabeça foi retirada (moscas, você sabe) e o troféu de cabeça plástica que o costume exigia que Joe exibisse foi colocado pela comissão de ruas. Mas eu estava falando de privacidade.

"Quando escolhi a propriedade para a Maison Long, certifiquei-me de que incluía espaço para uma família em crescimento, isso é tudo, já que eles tinham três filhos e um no estaleiro na noite em que planejamos isso. O remanejamento dos horários deu-lhes também privacidade em relação um ao outro. Por melhor que seja aconchegar-se e ter relações sexuais, apesar disso, quando a gente está realmente cansado, muitas vezes é bom ficar na cama sozinho... e a nova rotina não só permitia como exigia isso durante uma parte do dia, devido às horas de trabalho desencontradas.

"Mas planejei também espaço para que tivessem privacidade em relação aos filhos... e para que enfrentassem um outro problema que Llita não compreendeu direito e no qual Joe poderia não ter pensado. Minerva, sabe definir 'incesto'?"

— Incesto é um termo legal, não biológico — respondeu a computadora. — Designa a união sexual entre pessoas proibidas por lei de se casarem. O próprio ato é proibido; o fato de tais uniões resultarem em prole é irrelevante. As proibições variam largamente entre as diversas culturas e se baseiam geralmente, mas não sempre, nos graus de consangüinidade.

— A sua maldita restrição é "não sempre". Há culturas que permitem o casamento de primos-irmãos, por ser geneticamente arriscado, mas proíbem um homem de se casar com a viúva do seu irmão, o que não envolve mais risco do que a primeira união. Quando eu era moço, podia-se encontrar uma regra num Estado, depois atravessar uma linha invisível e encontrar leis exatamente opostas quarenta metros adiante. Ou, em certas ocasiões e lugares, ambas as uniões podiam ser obrigatórias. Ou proibidas. Regras intermináveis, definições intermináveis para o incesto, e raramente qualquer lógica nelas. Minerva, pelo que me lembro, as Famílias Howard são o primeiro grupo da história a rejeitar o enfoque legalista e a definir o incesto unicamente em termos de risco genético.

— Isso está de acordo com os registros contidos em mim — concordou Minerva. — Um geneticista Howard pode desaconselhar uma união entre duas pessoas sem nenhum ancestral conhecido comum mas não fazer qualquer objeção ao casamento de irmãos. Em cada caso a análise das cartas genéticas poderia prevalecer.

— Sim, naturalmente. Agora vamos deixar a genética de lado e falar sobre tabus. O tabu do incesto, embora possa ser qualquer coisa, muito comumente significa a união de irmãs e irmãos, pais e filhos. Llita e Joe eram um caso único, irmão e irmã pelas regras culturais, totalmente sem parentesco pelas regras genéticas... ou, pelo menos, não mais do que dois estranhos.

"Agora vem um problema de segunda geração. Já que Aterragem tinha o seu tabu contra a união entre irmãos, eu havia convencido Llita e Joe a nunca deixarem ninguém saber que consideravam um ao outro como irmão e irmã.

"Até aí, ótimo. Fizeram o que mandei, e nunca houve uma sobrancelha erguida. Agora vem a noite em que planejamos a Maison Long: meu afilhado tem treze anos e está interessado; sua irmã tem onze e está começando a ser interessante. Irmãos legítimos, o que é tanto geneticamente arriscado como contrário ao tabu. Qualquer um que tenha criado cachorrinhos (ou um certo número de filhos) sabe que um menino pode ficar tão sexualmente obcecado pela irmã como pela vizinha, e sua irmã é muitas vezes mais acessível.

"E a pequena Libby era uma duende ruiva tão carinhosamente sensual aos onze anos que até eu pude sentir isso. Em breve ela iria fazer com que todos os machos do pasto escarvassem o chão e bufassem.

"Se um homem empurrar uma pedra, pode ignorar a avalancha que se seguirá? Quatorze anos antes eu havia alforriado dois escravos... porque um cinto de castidade num deles ofendera o meu conceito de dignidade humana. Devia eu descobrir alguma maneira de colocar um cinto de castidade na filha daquela escrava? Lá vamos nós em círculos! Qual era a minha responsabilidade, Minerva? Eu havia empurrado a primeira pedra."

— Lazarus, eu sou uma máquina.

— Ora! Isso significa que os conceitos humanos de responsabilidade moral não são conceitos de máquina... Querida, gostaria que você fosse uma garota humana com uma bunda surrável, o tempo suficiente para que eu pudesse espancá-la... eu faria isso! Em suas memórias há muito mais experiência pela qual julgar do que em qualquer ser de carne e osso. Pare de tergiversar.

— Lazarus, nenhum ser humano pode aceitar uma responsabilidade ilimitada, senão ficará maluco com a carga insuportável de culpa ilimitada. Você podia ter aconselhado os pais de Libby. Mas sua responsabilidade não vai nem até aí.

— Hum. Você está certa, querida... é melancólico você estar certa tão regularmente. Mas sou um palpiteiro incurável. Quatorze anos antes eu havia dado as costas a dois cachorrinhos, por assim dizer... e o fato de o resultado não ser trágico dependeu de boa sorte, não de um bom planejamento. Agora, lá vamos nós outra vez, e o resultado pode ser trágico. Não me sinto nada moralista a respeito disso, querida... são apenas regras empíricas para não magoar as pessoas sem intenção. Não darei um pio se essas crianças "brincarem de médico" ou de "fazerem bebê", ou como quer que os garotos lá chamem suas experiências sexuais; simplesmente não queria que o meu afilhado desse à pequena Libby um filho defeituoso.

"Por isso interferi e conversei a respeito disso com os pais dele. Deixe-me acrescentar que Llita e Joe sabiam tanto sobre genética como um porco sobre política. A bordo da Libby eu havia guardado comigo minhas preocupações, e nunca discuti o assunto com eles mais tarde. Apesar do sucesso notável deles em concorrer como seres humanos livres, em muitos assuntos Llita e Joe eram ignorantes. Como poderia ser de outra maneira? Eu lhes havia ensinado o á-bê-cê e alguns assuntos práticos. Desde a chegada a Aterragem eles estavam correndo debaixo de chicote; não tiveram tempo de preencher os claros em sua educação.

"Pior ainda, talvez, sendo imigrantes, não haviam crescido expostos ao tabu local do incesto. Estavam conscientes dele porque eu os havia prevenido... mas isso não fora inculcado neles desde a infância. Abençoado tinha tabus de incesto um pouco diferentes... mas os tabus de lá não se aplicavam aos animais domésticos. Escravos. Os escravos se reproduziam como eram mandados, ou como podiam, sem punição... e foi dito aos meus dois garotos pelas mais altas autoridades (sua mãe e seu padre) que eram um par para reprodução... portanto, isso não podia ser errado, ou tabu, ou pecaminoso.

"Era simplesmente algo para manter em silêncio em Aterragem porque os aterráqueos tinham aversão a este assunto.

"Assim, eu deveria ter pensado nisso mais cedo. Sim, claro, claro! Minerva, aleguei outras obrigações. Eu não podia passar aqueles anos bancando o anjo da guarda de Llita e Joe. Eu tinha mulher e filhos próprios, empregados, dois mil hectares de terra cultivável e o dobro disso em bosques virgens... e eu morava muito longe, mesmo de charrete de órbita alta. Ishtar e Hamadríade, e até certo ponto Galahad, todos parecem achar que sou alguma espécie de super-homem simplesmente porque vivi muito tempo. Não sou; tenho as limitações de qualquer pessoa de carne e osso, e durante anos estive tão ocupado com os meus problemas como Llita e Joe com os deles. Não recebi Skyhaven embrulhada para presente.

 

"Não foi senão quando pusemos de lado os negócios do restaurante, e tirei os presentes que Laura havia mandado para os filhos deles, que pensei naquilo tudo. Eu havia admirado as últimas fotografias dos seus filhos e mostrado a eles fotografias de Laura e dos meus filhos, e todo esse antigo ritual. As fotografias, é claro. Este garoto alto, J. A., todo mãos e pés, não era o garotinho de que me lembrava da minha última visita. Libby era cerca de um ano mais moça do que o mais velho de Laura, e a idade de J. A. eu sabia até o último segundo... o que vale dizer que ele tinha mais ou menos a idade que eu tinha quando quase fui apanhado com uma garota na torre da nossa igreja, cerca de mil anos antes.

"Meu afilhado não era mais uma criança; era um adolescente cujos testículos não eram apenas ornamentos. Se não os tivesse experimentado ainda, estava certamente tendo espasmos e pensando nisso.

"As possibilidades passaram velozes pela minha mente, da mesma maneira que se supõe que passa a vida de um homem quando ele está morrendo... o que não é verdade, a propósito. Enfrentei aquilo, então, e fui sutil a respeito. Diplomático.

"— Joe — disse eu —, qual deles você tranca de noite? Libby? Ou este lobinho?"

A computadora riu entre dentes.

— "Diplomático" — repetiu ela.

— Como você teria colocado a questão, querida? Eles ficaram espantados. Quando esclareci a coisa, Llita ficou indignada. Privar seus filhos um do outro? Quando haviam dormido juntos desde que eram bebês? Além disso não havia espaço de qualquer outra maneira. Ou eu estava sugerindo que ela dormisse com Libby e J. A. com Toe? Em caso afirmativo, eu podia esquecer!

"Minerva, a maioria das pessoas nunca aprende nada de qualquer ciência, muito menos de genética. Gregor Mendel estava morto há doze séculos naquela ocasião; apesar disso a maioria das pessoas acreditava nas velhas histórias de comadres... e ainda é assim, devo acrescentar.

"Tentei explicar então, sabendo que Llita e Joe não eram estúpidos, apenas ignorantes. Ela me interrompeu: 'Sim, sim, Aaron, certamente. Já pensei na possibilidade de Libby querer casar-se com Jay Aaron (vai querer casar-se, acho eu), e sei que amarram a cara para isto aqui. Mas é bobagem arruinar a felicidade deles por causa de uma superstição. Portanto, se a coisa der nisso, achamos que é melhor eles se mudarem para Colombo... ou pelo menos para bem longe, como Kingston. Então eles poderão usar nomes de família diferentes e se casar, e ninguém interferirá. Não que desejeis que fiquem tão longe. Mas não poremos obstáculos à felicidade deles'."

— Ela os amava — disse Minerva.

— Sim, ela os amava, querida, pela definição exata de amor. Llita colocava o bem-estar e a felicidade deles acima da sua própria. Assim, tive que tentar explicar aquilo... por que o tabu contra a união de irmão com irmã não era superstição, mas um perigo real, embora no caso deles talvez fosse seguro.

"O porquê era a parte difícil. Começar a falar sobre as complexidades da genética com pessoas que não conhecem nem biologia elementar é como tentar explicar matriz algébrica multidimensional a alguém que precisa tirar os sapatos para contar acima de dez.

"Joe teria aceito a minha autoridade. Mas Llita tinha o tipo de mente que tem de saber por quê... caso contrário daria seu sorriso docemente teimoso, concordaria comigo, depois faria o que pretendia fazer desde o começo. Llita era esperta, bem acima da média, mas sofria da ilusão democrática: a noção de que sua opinião era tão boa quanto a de qualquer um... enquanto Joe sofria da ilusão aristocrática: aceitava a opinião da autoridade no assunto. Não sei qual das ilusões é mais patética; qualquer uma das duas pode derrubar a gente. Contudo, minha mente se equipara à de Llita neste sentido; portanto, eu sabia que tinha de convencê-la.

"Minerva, como é que se condensam mil anos de pesquisa no segundo assunto mais complexo em uma hora de conversa? Llita nem sabia que punha ovos. Na verdade estava certa de que não punha, porque havia servido milhares de ovos, fritos, estrelados, cozidos e assim por diante. Mas ela escutou, e eu suei sobre aquilo, com nada senão caneta e papel... quando precisaria dos recursos de uma máquina de ensinar de uma universidade de genética.