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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UMA PROPOSTA BILIONÁRIA / Leanne Banks
UMA PROPOSTA BILIONÁRIA / Leanne Banks

 

 

                                                                                                                                   

 

 

 

1° livro - UMA PROPOSTA BILIONÁRIA

 

 

O bilionário Gannon Elliot foi educado para competir e ganhar, assim como todos os ou­tros homens da dinastia Elliot. Agora, ele se vê diante de um desafio e, para vencer, precisa da ajuda de sua ex-namorada Erika Layven. Ela queria um filho mais do que qualquer ou­tra coisa, e Gannon, por quem era perdida­mente apaixonada, oferecia a oportunidade perfeita. Erika não pode, nem deseja, abrir mão da grande chance de sua vida.

 

                       0 Diário de Maeve Elliot

 

Ano Novo

À meia-noite, na presença de todo o clã Elliot, meu marido anunciou que iria se aposentar. Muitos dizem que Patrick é um leão destemido e que eu sou a única mulher capaz de domar a fera. Mas hoje à noite, nem eu pude convencê-lo de que estava fazendo uma besteira. Ele desafiou os filhos e netos a entrarem numa batalha pela presidência da editora Elliot.

Ainda lembro da alegria que senti quando Patrick me seqüestrou da Irlanda para que me casasse com ele e que fosse a mãe de seus filhos. Agora, como matriarca, é o que quero para minha família, meus filhos e meus netos. Principalmente, Gannon. Esse menino tem que aprender que só trabalho não vai aquecê-lo nas noites gélidas do inverno de Nova York, como a de hoje. Esse tipo de calor só pode ser proporcionado pelo amor de uma mulher e de um filho.

As pessoas acham que a dinastia Elliot significa riqueza, sucesso e poder. Mas eu digo que significa amor e família. Esse é o verdadeiro legado dos Elliot. E quem sabe disso melhor do que eu?

 

 

— Tenho uma novidade para contar — disse Patrick Elliot para o grupo de Elliot ao seu redor, inter­rompendo o burburinho de conversas paralelas entre os quase quinze membros da família presentes para a fes­ta de ano novo. Patrick supôs que apenas os familia­res e respectivos companheiros estariam presentes.

O anúncio devia ser importante, pensou Gannon Elliot ao se posicionar ao lado do irmão, Liam. Cu­rioso, Gannon ficou estudando o avô, que se prepara­va para contar a novidade no centro da sala, na man­são de Nova York, em Hampton. A decoração de Na­tal só seria retirada no dia seguinte e as luzes da árvo­re de natal iluminavam três cômodos da enorme e an­tiga casa, que havia sido mobiliada com amor pela avó e proporcionado aconchego e segurança para as diferentes gerações; que havia testemunhado nasci­mentos e mortes e o crescimento constante de poder e dinheiro de Patrick Elliot e seus herdeiros.

O avô de Gannon era um imigrante irlandês e de­via ter uns 77 anos, mas continuava forte como um touro, física e mentalmente. Dominava o mundo edi­torial como se fosse brincadeira de criança. Suas revistas cobriam temas que iam desde assuntos sérios a fofocas, moda e entretenimento.

— Mas ainda não é meia-noite vovô — retrucou Bridget, a irmã mais nova de Gannon. — Você está de folga hoje à noite. Esqueceu que é reveillon?

— Impossível esquecer com você por perto — brincou Patrick.

Sorrindo, Bridget, baixou a cabeça e ajeitou a ar­mação dos óculos. Gannon balançou a cabeça e be­beu um pouco do uísque. A caçula adorava bancar a esperta com o avô.

Patrick fez uma pausa e olhou para Maeve, sua pe­quenina esposa há mais de cinqüenta anos. Patrick era um viciado em trabalho que havia passado a vida erguendo seu império. Maeve era seu refúgio, a única mulher capaz de sossegar a fera.

O amor e a admiração que emanavam na troca de olhares dos dois sempre emocionavam Gannon, cau­sando-lhe um certo frio na barriga, uma vaga sensa­ção de insatisfação que ele se recusava em explorar. Mentalmente, fechou a porta que havia aberto em sua cabeça e olhou para a avó Maeve, com a expressão de carinho ao acenar para o marido.

Patrick olhou para a família reunida ao seu redor.

— Decidi me aposentar.

Gannon quase deixou cair o copo de uísque. Acha­va que o avô venerava tanto seu conglomerado que faria negócios até os últimos minutos na terra. Mur­múrios e suspiros surpresos ecoaram pelo local.

— Nossa...

— Não pode ser!

— Está doente?

Patrick balançou a cabeça e ergueu o braço, silen­ciando os demais.

— Não estou doente. É que chegou a hora. Tenho que escolher um sucessor e, já que todos vocês fize­ram um ótimo trabalho nas várias revistas, é uma de­cisão muito difícil de tomar. Então, resolvi dar a cada um a oportunidade de mostrar seu potencial.

— O que será que ele está aprontando agora? — sussurrou Bridget.

— Está sabendo alguma coisa sobre isso? — Gan­non perguntou ao irmão Liam que trabalhava diretamente com o avô. Todos sabiam que Liam era o neto que tinha mais intimidade com Patrick.

Liam fez que não com a cabeça, e parecia estar tão surpreso quanto os demais.

— Não faço a menor idéia.

Gannon, assim como o resto da família, sabia que as quatro principais revistas eram presididas pelos fi­lhos de Patrick. O pai de Gannon, Michael, era o editor-chefe da revista Pulse, uma publicação conhecida pelas matérias sérias e inovadoras.

— Vou escolher um dos editores das revistas com maiores vendas. O editor da revista que tiver maior lucro, proporcionalmente, tomará o reinado da editora Elliot.

Um silêncio retumbante tomou conta do ambiente. Uma bomba não teria sido tão eficaz.

Três segundos se passaram e Gannon viu o assom­bro passar pela face dos tios e primos. Do outro lado da sala estava o pai que parecia ter sido atingido com um porrete.

Bridget deu um murmuro desgostoso.

— Isso é loucura! Como isso pode funcionar? Per­cebe que trabalhando para a revista Carisma eu vou competir contra meu próprio pai?

Liam deu de ombros.

— E por acaso isso é pior que colocar irmão contra irmão, irmão contra irmã?

— Shane contra Finola? — acrescentou Bridget, incrédula, ao mencionar o tio e a tia. — Elas são gê­meas! Alguém tem de falar com o vovô e mostrar para ele a besteira que está fazendo.

Finola se aproximou de Bridget e balançou a cabe­ça na direção do pai.

— Ele não vai mudar de idéia. Dá para ver pela cara dele que ele não vai voltar atrás por nada nesse mundo. Já vi isso antes.

— Mas não é justo — disse Bridget.

— Ele tem uma definição própria do que é justiça — disse Finola calmamente, mas de repente caiu em si e sorriu para Bridget. — Ainda bem que você está no meu time.

Gannon nunca foi de evitar uma boa briga, e não iria desistir dessa também.

— Que ganhe o melhor Elliot — disse a Finola, mesmo sabendo que as consequências podiam ser sé­rias demais. — A gente se fala depois — disse para Bridget, Liam e Finola, e foi até o pai. Estava con­fiante de que faria qualquer coisa para ajudar o pai a tornar a revista deles, Pulse, a melhor e mais vendida da Editora Elliot.

Ele era um Elliot, nascido e criado para competir, destacar-se e ganhar. Todos os Elliot presentes ti­nham nascido com o mesmo gene e as expectativas eram grandes sobre todos. Astuto como sempre, o avô sabia muito bem disso quando lançou o desafio à família, pensou Gannon. Independente de quem ga­nhasse — e Gannon estava mais do que determinado a garantir que o pai fosse o vencedor —, Patrick ha­via acabado de se assegurar de que sua Editora ia ter um ano próspero, de muitos lucros.

O tio Daniel parou Gannon no meio do caminho.

— Está parecendo um homem com uma missão.

— Acho que todos nós — Gannon respondeu seca­mente, e apertou o ombro do tio. — Ele não ia sair sem dar uma temperada no último ano como presi­dente.

— Boa sorte.

— Para você também — Daniel respondeu, e deu alguns passos antes de chegar onde estavam o pai e a mãe.

Girando o copo de conhaque, o pai olhou para Gannon.

— Devia ter desconfiado que um terremoto estava próximo.

— Quem podia ter previsto isso? — a mãe, a pessoa mais tranquila que Gannon conhecia, comentou. Ela olhou para o filho e sorriu. — Vejo que você não só já se recuperou do susto como já está pronto para a briga.

— Está no sangue — respondeu Gannon.

— Já tem algumas idéias em mente? — o pai per­guntou, claramente satisfeito.

— Mas é claro. — Gannon sabia quem seria a pri­meira pessoa a colocar na equipe de Pulse para o combate: Erika Layven, a mulher com quem havia terminado um namoro havia um ano.

 

Erika Layven revia a edição de abril da revista Casa & estilo com um olhar crítico enquanto tomava um gole de seu chocolate quente com marshmallow. Esfregando um pé no outro por debaixo da mesa, es­tudava as flores da primavera, tema da edição, numa mistura multicolorida de rosas, margaridas, alfazemas e violetas. As cores contrastavam fortemente com o céu cinza e frio de janeiro que Erika via, na­quele instante, pela janela do décimo quinto andar do prédio onde trabalhava, em Manhattan, Nova York.

Aquele clima a fazia sentir fria e velha. O último relatório dado por seu médico também não havia aju­dado muito. Para completar, a festa de ano novo que passou com um homem facilmente esquecível, com beijos ainda mais esquecíveis, a deixava ainda mais taciturna e rabugenta.

No entanto, tinha um monte de motivos para se sentir bem. Como a editora-chefe da revista Casa & estilo, da editora Elliot, estava tendo a oportunidade não só de criar e dar asas à imaginação como tam­bém, e principalmente, de tornar a fantasia realidade nas páginas da revista. Estava fazendo o que sempre sonhou. Bem diferente de quando trabalhava para a Pulse. Estava muito melhor agora, pois nesse mundo era ela quem dava as cartas.

Alguém bateu na porta e Erika olhou para o reló­gio na parede do escritório. Já passava das seis e meia da tarde de uma quinta-feira. Quase todos os empre­gados já haviam saído.

— Sim?

— É o Gannon — disse antes de acrescentar. — Gannon Elliot.

Erika sentiu o estômago revirar e por alguns se­gundos tentou recuperar o fôlego. O que ele queria? Retirou os fios encaracolados que lhe caíam no rosto e se recompôs.

— Pode entrar — respondeu num tom frio, para disfarçar seu mal-estar.

A porta se abriu e aquele homem de quase dois metros de altura, cabelos pretos, olhos verdes e um corpo maravilhoso entrou na sala de Erika. Ela orde­nou duramente a seus hormônios que se comportas­sem, às palmas das mãos que parassem de suar e ao coração que diminuísse a velocidade das batidas.

— Gannon, que surpresa!

— Pois é, faz um bom tempo que a gente não se vê... — Foi você quem quis assim, pensou, mas preferiu não levar a conversa para esse lado.

— Tenho estado tão ocupada com a revista...

— Estou sabendo. Você está fazendo um trabalho fabuloso.

— Obrigada. — Erika não pôde deixar de sentir orgulho, pois Gannon era do tipo durão e raramente fazia elogios. — Parece que a Pulse também vai mui­to bem, como sempre.

Ele fez que sim com a cabeça.

— O que achou da série que fizemos sobre o que fazer para evitar vírus da Internet?

— Excelente. Gostei muito da matéria sobre um dia com um soldado de segurança da Internet. Fasci­nante — fez uma pequena pausa. — Talvez pudesse ter acrescentado alguns elementos que aproximas­sem o assunto ao dia-a-dia do leitor.

Gannon sorriu.

— Essa é uma das coisas que sempre admirei em você. Você consegue reconhecer um bom artigo, mas está sempre procurando melhorá-lo.

— Obrigada — disse Erika, curiosa com tantos elogios. — Mas você ainda não me contou o motivo da sua visita.

Ele desviou o olhar para a mesa dela e tentou ler o que estava escrito em uma das páginas da revista.

— Você gosta muito daqui?

Confusa com a pergunta, ela o fitou. Gannon esta­va se comportando de um jeito estranho.

— Como poderia não gostar? Aqui estou fazendo tudo que sempre sonhei.

Ele a encarou bem nos olhos e Erika sentiu o cora­ção parar. Gannon sorriu e se voltou para a xícara de chocolate quente sobre a mesa.

— Chocolate com marshmallow. Pelo visto, você quer dormir cedo hoje à noite. — O tempo em que fo­ram amantes fez com que Gannon conhecesse certas particularidades de Erika, um fato que ela tentava es­quecer havia um ano. — Uma boa noite de sono ajuda a manter a mente e o corpo sãos.

Ela concordou e ele fez uma pausa.

— Sente alguma falta da Pulse?

— Claro que sim, o ritmo alucinado, sempre no li­mite. Tinha adrenalina, agitação, todos os dias.

— E aqui não tem isso — ele concluiu.

— Casa & estilo oferece outro tipo de satisfação.

— E se você tivesse a oportunidade de voltar para a Pulse, com uma promoção e um aumento de salá­rio?

Erika foi pega de surpresa. A chance de voltar a trabalhar para uma das melhores revistas do mundo era algo tentador. Não havia nada na Pulse que fosse relaxado ou tranquilo. A época em que trabalhava lá foi a que demandou mais energia mental e criativa de Erika. Ela foi forçada a crescer e se superar. Além disso, estava sempre cercada de pessoas ambiciosas e brilhantes.

Lá, também, conhecera o homem que havia arrui­nado sua vida afetiva, fechando-a para outras rela­ções amorosas.

— Tenho de admitir que a proposta é tentadora.

— Quero você de volta no time da Pulse — disse Gannon. — Me diga o que preciso fazer para você aceitar meu pedido, e eu farei.

Erika ficou sem reação. Quando os primeiros boa­tos sobre a relação dos dois começaram a aparecer na empresa, ele terminou tudo e passou a tratá-la fria­mente, como apenas mais um membro da equipe. Aquela atitude magoou e desconcertou Erika com tanta força que ela percebeu que não poderia conti­nuar trabalhando com ele. A posição na Casa & estilo apareceu como a oportunidade perfeita para se ver longe de Gannon.

— Preciso de um tempo para pensar no assunto — ela, finalmente, respondeu.

Ele demonstrou surpresa e Erika sentiu certa satis­fação. Ele estava acostumado a sempre ouvir um sim como resposta, não um talvez. Ele trincou os dentes, o que a surpreendeu. O que estava acontecendo com ele?

— Acho justo. Passo para conversar com você amanhã depois do horário de trabalho.

Desculpe, mas amanhã não vai dar. Tenho um compromisso às quatro da tarde e depois não volto mais para o escritório.

Ele fez uma cara de irritado.

Tudo bem. Vai trabalhar neste fim de semana?

De casa. — Ela olhou o calendário. — Por que não passa aqui na terça que vem?

— Segunda-feira à tarde — ele disse, num tom ás­pero que intimidou Erika.

— Segunda-feira à tarde — ela confirmou.

— Ótimo, a gente se vê, então — ele disse, enca­rando-a por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Segundos que tiraram o ar dos pulmões de Erika e que só se recuperaram depois que ele se vi­rou e se retirou do escritório.

Na mesma hora, ela se sentou à mesa e cobriu o rosto com as mãos.

— Droga! — Ele ainda mexia muito com ela, pensou. Não gostava nada disso. Aliás, detestava o fato de que Gannon ainda exercia tanto poder sobre ela.

 

Erika apoiou as mãos nos joelhos para recuperar o ar depois de dez jogos de um contra um. Tinha levado uma surra nos últimos seis. Olhou para a adolescente de 14 anos que a humilhou na quadra de basquete e balançou a cabeça.

— Você podia mostrar um pouco de pena pelos mais velhos.

Erika havia escolhido ser a mentora de Tia Rogers, uma menina muito bonita, alta e magra, de olhos cas­tanhos cor de chocolate. A menina deu de ombros e se aproximou de Erika.

— Tu não é velha. O problema é que fica o dia in­teiro com a bunda sentada numa cadeira.

— "Você" não é velha e não "tu" — Erika corri­giu a garota, sentindo-se uma coroa aos 32 anos. — Ganhar para ficar sentada o dia inteiro não é tão ruim assim. E não é só isso o que eu faço. Por falar nisso, como andam as aulas de álgebra?

— Não gosto — Tia respondeu com uma careta.

— Quanto você tirou na última prova?

— B menos.

— Está melhorando — Erika deu um tapinha nas costas da menina e apanhou os casacos que estavam em cima do banco. Um grupo de rapazes invadiu a quadra em seguida. As duas foram andando rumo ao elevador.

— Preciso de um A — Tia finalmente respondeu com uma voz tristonha. — Preciso de vários As se quiser ganhar a bolsa de estudos para ir à faculdade.

— Você vai conseguir a bolsa — Erika respondeu antes das duas saírem do edifício no meio da noite fria.

Tia soltou um palavrão e cuspiu na calçada.

— Como você sabe?

Erika demorou a responder. Ela devia ser uma men­tora, inspirar e ajudar Tia a ser uma pessoa melhor, Tia, que morava com a tia porque a mãe estava presa por abuso de drogas, havia sido escolhida pelo progra­ma "Mentor" porque participava do jornal da escola.

— Por que não se livra do mau hábito de xingar e cuspir?

— Todo mundo xinga e cospe — retrucou Tia, num tom desafiador.

— Você não é todo mundo. Você é diferente, tem talento, tem cérebro, tem bom senso, e o mais impor­tante, você tem sonhos, ambições.

Tia a olhou de um jeito que expressava esperança, mas mantinha uma pitada de incredulidade. Era fun­ção de Erika alimentar a esperança e a força de von­tade de Tia, e não queria decepcioná-la.

— Foi isso que te levou a conseguir o emprego ba­cana no escritório que me mostrou na semana passa­da? Ouvi dizer que sem contato ninguém chega a lu­gar nenhum.

Erika respirou fundo e, ao expirar, dava para ver o vapor saindo, devido ao frio.

— Trabalho numa empresa familiar e a maioria dos chefes são parentes e eu não faço parte da família.

Tia sorriu.

— Então você tem que ralar muito para conseguir alguma coisa.

— Pode-se dizer que sim.

De repente, a ima­gem de Gannon invadiu os pensamentos de Erika. Não conseguia tirar Gannon da cabeça desde a visita inesperada do dia anterior. Ainda não tinha resolvido se ia aceitar ou não a proposta. Ergueu o braço para chamar um táxi.

— Minha tia fica me perguntando por que você não tem um homem.

As duas entraram no táxi e Erika deu ao motorista o endereço de Tia.

— Não tenho um homem porque... — calou-se. Por que não tinha um homem? Por culpa de Gannon. — Porque me apaixonei por um cara que me deu um chute e me dispensou.

— Uau — disse Tia. — Por que ele fez isso? Você é bem bonita para a sua idade. Você ainda dá um bom caldo.

Erika não gostou nada do comentário sobre a idade.

— Acho que vou considerar isso um elogio. Obri­gada. Por que ele não me quis? Deve ser porque ele achou que eu não era a mulher certa para ele.

Tia soltou outro palavrão.

— Você devia se vingar. Arranja outro cara. Al­guém melhor que ele.

— Eu sei — Erika respondeu, lembrando que era exatamente isso que andava tentando fazer havia mais de um ano.

Uma hora depois, Erika entrava em seu apartamen­to, tirando os sapatos e vestindo as pantufas de coelhinho. Olhou para os chinelos acolchoados, cor-de-rosa, e sorriu. Eles sempre causavam graça em Erika.

Esforçou-se mentalmente para tomar coragem e lavar a roupa de ginástica e foi até a cozinha. Deu uma olhada na correspondência. Contas e mais con­tas... Parou ao ver um cartão-postal com a foto de um navio no Caribe. Sentiu saudade do calor, do pôr-do-sol, das margaritas e do som tropical dos tambores.

Deu um suspiro, e parou de sonhar. Ligou o som e se serviu de uma taça de vinho. Foi até a secretária eletrônica e ouviu as mensagens do dia.

A primeira era de uma das melhores amigas, con­vidando-a para ir a um novo bar da moda. A segunda mensagem era de sua mãe, querendo saber notícias de Erika. A terceira era de Doug. Era gente fina, mas um chato de galocha.

O telefone começou a tocar naquele instante e Eri­ka atendeu em seguida.

— Alô?

— Erika, finalmente. Custa você me dar sinal de vida, filha?

— Desculpa, mãe. Ando muito ocupada no traba­lho e ainda arrumei um trabalho voluntário como mentora de uma adolescente. Como você está?

— Eu e seu pai fomos jogar bridge ontem e fica­mos em segundo lugar. Amanhã à noite a jogatina vai ser aqui em casa. Que história é essa de ser mentora de uma adolescente? Querida, você não está achando que isso vai satisfazer a necessidade de ser mãe, está?

Erika sentiu um aperto no peito.

— Não, mas acho que é uma atividade que faz bem para mim e, além disso, estou sendo útil para outra pessoa, acho.

— Querida, se você fosse menos cabeça-dura en­contraria um par ideal num piscar de olhos. Aí, teria o marido e o filho que sempre sonhou.

Erika franziu a testa.

— Vamos fazer um trato, mãe. Saio com dois ca­ras na semana que vem se você prometer parar de to­car nesse assunto durante toda a semana que vem.

— Só quero o melhor para você, filha. Você sem­pre quis ser mãe.

— Eu sei.

— Por que fica adiando esse momento?

— Mãe!

— Tudo bem, não vou te importunar mais com isso.

Erika adorava a mãe e sabia que ela só queria o seu bem, mas, às vezes, se metia demais na vida pessoal de Erika.

— Eu te amo, mãe. Divirtam-se amanhã à noite.

Ao desligar o telefone, Erika sorriu ao visualizar os pais jogando cartas na casa em Indiana, que anos atrás ela havia deixado para ir estudar numa faculda­de da costa leste dos Estados Unidos. Ela sempre lembrava da pequena cidade onde havia passado toda sua infância e adolescência com certo tédio. Parecia que nada acontecia lá. O ritmo era lento demais, pou­co agito, pouca ação e nada de desafio, coisas que ela sempre quis.

Lembrou-se do aroma delicioso da comida caseira cheia de colesterol que a mãe fazia sempre que ela voltava de visita. E dos biscoitinhos de chocolate an­tes dela ir embora.

Lembrou-se de quando brincava de fazer artesana­to com a mãe nos dias de chuva, e das inúmeras vezes em que fez o trabalho de casa com a ajuda dos pais. O pai a ensinou a jogar basquete e a ter orgulho de sua altura, já que Erika era mais alta do que a maioria das coleguinhas de sua idade.

Achava os pais os melhores do mundo. Mas tam­bém sabia que um dia teria que deixá-los se quisesse voar mais alto.

E ela aprendeu bem a voar nas alturas, pelo menos profissionalmente. Sempre determinada, atingiu qua­se todos seus objetivos: terminou a faculdade, entrou no mercado de trabalho e cresceu na carreira. Só fica­va faltando o marido e a família.

Mesmo antes de terminar a faculdade, Erika já queria um filho, mas achou melhor não cair na bestei­ra de engravidar e casar antes que tivesse uma carrei­ra sólida. Sempre foi muito disciplinada, mas em vá­rias ocasiões, em dias chuvosos, sonhou brincar de corte e colagem com uma criança que fosse sua, uma criança para cuidar e amar.

O trabalho era animador e gratificante, mas algo faltava na vida de Erika, um vazio que nenhum traba­lho poderia preencher.

Suspirou, abriu os olhos e pegou um dos exames que havia feito recentemente. Tinha endometriose. Por isso, sentia cólicas tão terríveis. Por isso, tinhas grandes chances de perder a fertilidade. Por isso, de­veria começar a pensar em ter um filho sem marido. Uma produção independente.

 

Exatamente às cinco e trinta e um, Erika ouviu al­guém bater à porta de seu escritório. O estômago a alertou, mas ela o ignorou. Hoje ela estava preparada para o que quer que fosse acontecer.

Foi até a porta e a abriu. Gannon estava prestes a dar outro toque na porta. Vestido de terno preto de lã com listras azuis claras, ele deixaria qualquer mulher hipnotizada por onde passasse. No elevador, no escri­tório, na rua. Erika visualizou um bando de mulheres salivando e se derretendo pelos cantos.

O olhar esverdeado dele passeou por Erika até se fixar nos olhos dela por alguns segundos.

— Entra — Erika disse, voltando para trás de sua mesa. Preferia ter algo que a separasse de Gannon naquele momento, apenas desejou que sua mesa fos se um pouco maior. — Como vai?

— Bem, e você?

— Bem, obrigada. — Agora era melhor ir direto ao assunto. — Pensei na sua proposta. Eu amei ter trabalhado para a Pulse. Foi o emprego mais desafia­dor e criativo que tive. Amava aquele ritmo alucinan­te de trabalho e adorava trabalhar com mentes tão brilhantes. — Fez uma pausa e respirou fundo, recor­dando-se que estava fazendo aquilo para o próprio bem. — Mas estou muito feliz e me sentindo produti­va onde estou. Tenho uma relação ótima com todos que trabalham comigo. O clima aqui é ótimo e é onde quero estar agora.

Ele permaneceu em silêncio.

Droga, ele ia forçá-la a dizer as palavras. Ela teria preferido ter feito isso via e-mail ou fax.

— Então, Gannon, muito obrigada pela proposta, que é realmente indecorosa, mas infelizmente, não posso aceitar.

Ele a olhou por alguns segundos e acenou a cabe­ça, lentamente. Aproximou-se da mesa de Erika e apanhou a caneca que estava pela metade.

— Seu trabalho na Casa & estilo é como essa xíca­ra de chocolate quente com marshmallow. É gostoso, reconfortante. Alguns desafios de vez em quando. Tem que decidir se vai dar destaque para ponto-cruz ou crochê, encontrar enfeites de natal, escolher a de­coração para a primavera.

Erika não gostou da ironia.

Tem razão, enfeites e tricô não vão mudar o mundo, mas fazem o mundo um pouco melhor, mais agradável...

— Foi como eu disse, como chocolate quente. O problema, Erika, é que você tinha o maior estimulan­te do mundo para trabalhar, quando estava na Pulse. Sabe como é chegar ao trabalho com a certeza de que vai ter adrenalina garantida? A adrenalina de saber que a história que vai contar e o jeito como vai contar pode fazer a diferença no mundo? Você pode até ten­tar, mas nós dois sabemos que por trás do chocolate quente com marshmallows e das pantufas de coelhinho, existe uma jornalista sagaz e insaciável.

Aquele discurso a acertou em cheio. Erika se sen­tiu desafiada. Odiava o fato de ele a conhecer tão bem e de tê-la deixado com tanta facilidade e tão de re­pente. Mas não poderia dizer a ele que essa era a ra­zão por que ela não iria voltar para a Pulse.

— Quero que você reconsidere minha proposta.

— Já pensei muito sobre isso e minha resposta é não.

Ele torceu os lábios, que logo formaram um sorri­so que ela já havia visto antes. Um sorriso que mos­trava que Gannon estava numa batalha que mal havia começado e na qual ele tinha certeza que seria vito­rioso. Um sorriso que assustou Erika.

— Eu não aceito sua resposta. Quero que você re­considere. E meu pai também.

Que ótimo, pensou desanimada. Dois Elliots con­tra ela era covardia.

— Já disse, estou feliz aqui.

— Vamos garantir que você esteja ainda mais feliz na Pulse. — Ele abriu um folder que estava seguran­do desde que entrou no escritório. Abriu-o e disse: — Como gostaria de contar essa história?

Erika viu fotos de bebês e o coração dela parou. Ela se curvou para ver as fotos mais de perto. "Como fazer o bebê perfeito: o novo mundo da manipulação genética." Ela leu o título e olhou para Gannon.

Ele sorriu.

— Sabia que isso iria chamar sua atenção. Sempre adorou a combinação entre ciência e assuntos de inte­resse humano. Vai ser uma matéria de capa com seu nome. Esse é o tipo de história que pode ganhar prê­mios. Fazer a diferença.

Olhando as fotos das carinhas encantadoras dos bebês, ela sentiu um nó na garganta ao engolir em seco. Será que ele sabia o quanto ela desejava um fi­lho? Como ele podia saber? Nunca haviam conversa­do sobre isso.

Erika forçou um sorriso.

— Muito tentador, mas já tomei minha decisão.

Ele fez uma pausa como se tivesse sido surpreen­dido por ela.

— Tudo bem, mas você não se incomoda em dar uma olhada no tema e expor algumas idéias, se inco­moda? Volto aqui na quarta.

 

O bar era novinho em folha e estava abarrotado de gente provando o amplo cardápio com mais de cem tipos de martínis. Só foram necessárias duas doses para que as melhores amigas de Erika, Jéssica e Pau­la, conseguissem fazer com que ela confessasse o que a estava deixando tão distraída.

— Quero ter um filho e meu ginecologista disse que ou tenho agora ou talvez não possa ter nunca mais.

— Que horrível, amiga — Jéssica acariciou a mão da amiga.

— Por que não arranja um gato ou um cachorro? — sugeriu Paula.

— Quero um filho, não um bicho de estimação, Paula.

Paula levantou a taça e fez um brinde.

— Você vai mudar de idéia depois que o bebê fofo atingir a puberdade ou quando tiver que vender a alma para juntar dinheiro para pagar a faculdade dele.

Erika balançou a cabeça.

— Sempre quis ter um filho, não adianta que não vou mudar de idéia agora.

— Pode esperar até achar o príncipe encantado e adotar uma criança — Jéssica aconselhou. — Algum príncipe em vista?

A figura de Gannon passou rapidamente pela men­te de Erika.

— Não.

— E se você tentasse inseminação artificial?

Paula fez cara de horrorizada.

— Ficar grávida sem ter um homem para culpar pelo resto da vida?

— Pode ser divertido — opinou Jéssica.

— Para quem? — perguntou Paula. — Erika vai engordar, ficar parecendo uma baleia por nove meses e depois dar à luz a um monstrinho.

— Mas você não tem nenhum instinto maternal, mesmo. Estou falando que pode ser divertido para nós duas. A gente ia organizar o chá de bebê e ir para as aulas de grávidas com ela. Podíamos participar do parto.

— De jeito nenhum! — Paula fez uma careta.

— E nós seríamos titias — completou Jéssica com um sorriso. — Estou gostando da idéia. Até posso ir com você no banco de esperma se quiser, Erika.

— Não tenho nenhuma intenção de ter um filho por inseminação anônima. Tenho medo de acabar ar­ranjando o esperma de um louco.

— Eles devem ser bem exigentes na hora de selecionar o esperma.

— Não tem como ter certeza — disse Erika.

— Nunca se sabe. A não ser que se faça um estudo dos genes da família, pais, tios, avós.

Erika pensou nos Elliots.

— Seria ótimo se a gente pudesse escolher.

— É, podíamos começar por aquele gatão louro sentado do outro lado do balcão.

— E se ele for uma anta de tão burro?

— Podemos adicionar inteligência na lista. Mas esse gostosão poderia muito bem fazer milhões como modelo sem ter que abrir a boca.

— Que lista? — perguntou Erika, meio tonta pela bebida.

— Estamos fazendo uma lista de demandas para um potencial doador de esperma — respondeu Jéssica, séria, e pegou uma caneta da bolsa e um guarda­napo da bancada do bar. — Estamos fazendo isso para o bem do seu futuro bebê.

— Quero inteligência — disse Erika, aceitando entrar naquela brincadeira de bêbadas. — Só beleza não é suficiente.

— Eu concordo — disse Paula. — E nada de doen­ças sérias ou vícios.

— Bem lembrado — concordou Erika. — Senso de humor também é importante. Isso é genético?

— Acho que a falta de senso de humor, sim, é ge­nético — Paula disse, e acenou para o garçom mais próximo. — Três martínis de chocolate.

— Chocolate? Mas eu já estou na minha terceira dose — reclamou Erika.

— Não podemos ir embora sem experimentar o de chocolate — argumentou Paula. — Vamos voltar à lista. Tem alguma preferência pela cor dos olhos ou do cabelo?

— Gosto de cabelo preto — respondeu Erika, bê­bada o suficiente para não se dar conta do ridículo de toda aquela conversa.

— Cor dos olhos?

— Verdes, se possível.

— Muito bem — Jéssica disse com um aceno para o garçom quando ele deixou os três copos na mesa. — Temos nossa lista. Agora o que temos que fazer é ficar de olhos abertos. O pai do filho da Erika pode estar por perto. Um cara alto, inteligente, de cabelos pretos e olhos verdes. Saudável, sem vícios e tem que ter senso de humor.

— E o que fazemos quando encontrarmos esse ho­mem? — perguntou Paula

— Isso é fácil — respondeu Jéssica com uma risa­da debochada. — Pedir a ele para doar um pouco de espermatozóides para a Erika.

Erika engasgou no martíni de chocolate.

— Ele vai achar que você é maluca. — Ela balançou a cabeça.

— É para isso que ele tem que ter senso de humor.

 

Na manhã seguinte, Erika acordou tarde, sentindo como se tivesse sido atropelada por um trem. Por sor­te, não tinha nenhuma reunião ou compromisso na­quela manhã. Não se lembrava da última vez que ha­via sentido uma ressaca como aquela. Ah, quer dizer, se lembrava sim. Tinha sido no ano anterior, no ano novo, quando Gannon terminou com ela. A desvanta­gem de se ter tido um caso passional e louco com o chefe era que não podia contar nada para ninguém, nem mesmo Paula ou Jéssica.

Ter guardado esse segredo havia ajudado a inten­sificar a relação. Dizia a si mesma que se tivesse podido conversar sobre ele com as amigas, talvez não houvesse sofrido tanto.

O toque do telefone soou como dezenas de sinos dentro da cabeça de Erika. Ela tirou do gancho a contra­gosto.

— Alô.

— Erika, é a Cammie. Você está bem?

— Estou bem — respondeu Erika. — É que como não tinha nenhum compromisso hoje de manhã, deci­di chegar um pouco mais tarde ao trabalho.

— Tudo bem, é que o Gannon Elliot já ligou duas vezes.

Droga.

— Se ele ligar de novo, diga, por favor, que entro em contato hoje à tarde.

— Ele mencionou alguma coisa sobre marcar de almoçar com você.

— Para quê? — Erika perguntou, desconfiada.

— Ele não me disse.

Erika deu um suspiro.

— Vou ligar para ele.

Com a testa franzida, Erika ligou a cafeteira e foi para o chuveiro. Resolveu não usar o secador e pôs um gel no cabelo antes de fazer um rabo de cavalo. Pôs um pouco de maquiagem, vestiu um terno preto de arra­sar e botas. Apanhou o casaco, a caneca térmica com café e saiu de casa. Ao acenar para o táxi na rua, esta­va confiante e destemida.

No táxi, rumo ao trabalho, pegou o celular e ligou para a central telefônica da editora Elliot.

— Olá, sou Erika Layven e estou retornando uma ligação de Gannon Elliot — disse à assistente que atendeu ao telefone.

— Passo para ele agora mesmo.

— Oi Erika, por onde andava? — Gannon disse com uma voz embriagante e envolvente.

— Me disseram lá na revista que você pediu para marcarmos um almoço de negócios. Minha tarde está super ocupada. O que você queria marcar?

— Estava pensando de a gente comer alguma coisa aqui na Pulse. O assunto sobre a matéria que dei para você vai estar em pauta. Adoraria se você pudesse vir. Acho que suas idéias e opiniões vão ser muito válidas.

Erika pensou na idéia da matéria por um instante. Era um tema que a fascinava. Leu e releu o texto algu­mas vezes depois que Gannon saiu do escritório dela.

— Não sei. Vou estar realmente muito ocupada hoje à tarde.

— Você só precisa ficar durante a discussão, de­pois pode ir.

— Está bem, contanto que fique claro que vou continuar na Casa & estilo.

— Ótimo. Vejo você mais tarde.

 

Erika entrou na sede da revista Pulse pouco antes do horário combinado. Na sala de reunião, havia uma enorme mesa repleta de caixas de comidas trazidas da delikatessen da esquina. Erika já podia sentir o cli­ma de agitação no ambiente.

— Ótima escolha, Lena — Erika disse para a as­sistente de Gannon.

Lena, uma jovem que já tinha gêmeos, abriu um largo sorriso ao ver Erika.

— Quando Gannon me disse que você vinha, ca­prichei no lanche. Dentro das caixas têm sanduíche de galinha, sopa de legumes, salada de frutas e torta de limão.

— Você é boa demais para ser verdade. Não quer trabalhar para mim, não? — brincou Erika. — Eu sou muito mais agradável que ele. E não lato.

Ela olhou para a garrafa de café.

— É expresso?

— Quem disse que eu lato? — perguntou Gannon por de trás de Erika.

Erika sentiu o sangue ferver ao ouvir aquela voz e corou por ter sido flagrada falando dele. A voz de Gannon sempre tinha esse efeito sobre ela, deixando o coração e os hormônios em ebulição. Mas não po­dia dar o braço a torcer.

— Me dá um café, por favor, Lena. — Só então se virou para Gannon. — Bom dia. Sua assistente arran­jou um banquete para a gente.

O olhar sedutor de Gannon estava particularmente desafiador naquela tarde. Ele olhou para a mesa e se voltou novamente para ela.

— Pois é. Ela vetou os hambúrgueres e as batatas fritas quando soube que você vinha.

— Obrigada, Lena — Erika agradeceu e apanhou a xícara de café oferecida pela assistente.

— Você não estava tentando roubar minha assis­tente, estava?

— Apenas a lembrei que ela tem opções — Erika respondeu, sorrindo.

— E quem disse que eu lato?

— Todo mundo — ela respondeu sem pestanejar. Ele olhou para a xícara na mão de Erika.

— Está bem forte?

Ela fez que sim com a cabeça e deu um gole.

— Ah, entendi. Café preto, chegando mais tarde ao trabalho. A noite foi boa ontem? Foi dormir tarde?

— Não — era verdade. Tinha ido dormir cedo, bê­bada por algumas doses de Martíni.

— Saiu com a dupla dinâmica? — ele questionou, referindo-se a Paula e Jéssica.

Ela havia se aberto demais a Gannon durante o tempo que tinham estado juntos, e se arrependia.

— Exatamente. E como vai sua família? — falou a primeira coisa que pensou para mudar de assunto.

— Estão bem, sem novidades.

— Vago, como sempre — provocou Erika.

Ele se aproximou e Erika sentiu o coração disparar.

— Pode saber mais se voltar para a Pulse — disse em voz baixa, enquanto quatro pessoas entravam na sala.

Michael Elliot, o editor-chefe da Pulse e pai de Gannon, foi até Erika cumprimentá-la.

— Bom vê-la de volta. Sentimos sua falta.

— Prazer em vê-lo também, senhor Elliot — disse ela, apertando a mão do pai de Gannon.

— Erika, que bom que voltou — Jim Hensley, chefe de redação, disse ao entrar na sala com o resto da equipe.

— Legal te ver — disse Barb.

Howard acenou com a mão.

Os cumprimentos fizeram bem a ela. Poucos mi­nutos depois, Lena serviu café e água a todos.

Michael foi quem chamou a todos para começar a reunião.

— Vamos ao que interessa, pessoal. Você começa, Gannon.

— Gostaria de começar com a matéria dos bebês, já que a Erika vai ter que sair mais cedo. Erika, quais são suas idéias?

— Eu sugiro que sejam incorporados vários pon­tos de vista. Opiniões de cientistas, de um casal que tenha escolhido o sexo do bebê, chamar a atenção para todo o processo que envolve a concepção e dos custos também. Seria legal também, se possível, en­contrar um casal que pensou em escolher o sexo do bebê, mas que mudou de idéia. Seria interessante descobrir qual o sexo preferido entre os futuros pais. Por último, falar das técnicas caseiras que funcionam e das que não funcionam.

— Gostei de tudo — Michel Elliot disse, entusias­mado. — E você é a encarregada dessa missão.

— Perdão, não entendi — Erika estava confusa.

— Já que está voltando para a Pulse — disse o pai de Gannon —, você devia tomar as rédeas dessa ma­téria. Vai ser uma história e tanto e pode até ganhar prêmios. Você é a pessoa perfeita para a matéria.

Erika olhou para Gannon com apreensão e dúvida.

— Foi exatamente o que pensei — ele continuou. — Vamos entrar em contato com alguns cientistas, mas conhecendo você, já deve ter alguns em mente. Sempre arranja as melhores fontes.

— Ei — disse Barb. — Se continuar enchendo a bola da Erika desse jeito vai acabar fazendo a gente se sentir um bando de incompetentes.

Erika olhou com cara de desconfiada para Gannon. A reunião estava sendo de longe a mais calorosa e ani­mada de todas as que costumavam ter um ano antes. Além disso, Michael Elliot nunca foi do tipo efusivo. Se Gannon havia posto o pai e os principais executivos da revista para seduzi-la a voltar para a Pulse era por­que algo sério e grande estava por trás disso.

— Vocês estão sendo bons demais comigo — Eri­ka disse, e olhou para o relógio. — Pena que já está na minha hora de voltar para a terra da Casa & estilo. Foi muito bom rever todos vocês.

Gannon se levantou.

— Preciso ter uma palavrinha com a Erika. Por que vocês não começam o almoço?

— Sem problemas — respondeu Michael. — Mas não demorem muito.

Lena entregou uma bolsa de papel para Erika.

— Não esqueça o seu almoço. Erika sorriu.

— Sim, mamãe. Obrigada. — Ao sair da sala, sen­tia que Gannon estava bem atrás.

Do lado de fora, Erika se virou para Gannon.

— Acho que está havendo um engano aqui.

— Que engano? — ele respondeu com a cara mais lavada do mundo.

— Seu pai e o resto da equipe me passaram a im­pressão de que acham que vou voltar para a Pulse.

— Pode admitir, Erika, você não consegue resistir à história dos bebês. Está tão tentada a voltar para a Pulse que tem medo de ficar aqui por mais cinco mi­nutos.

— A matéria é realmente muito interessante, mas não é suficiente para me trazer de volta.

— Então, o que é? Precisamos de você nessa equi­pe mais do que nunca. Então, dê o seu preço.

 

Gannon havia dado a Erika um dia para pensar no que ele devia fazer para que ela voltasse para a Pulse. O processo de negociação havia se saído mais difícil do que ele havia imaginado. No passado, apesar de apreciar a originalidade e o espírito aventureiro de Eri­ka, sempre pensava nela como uma pessoa flexível e cooperativa.

Mesmo no final da relação, ela não fez qualquer escândalo ou tentativa de reatar quando ele terminou tudo abruptamente. Até hoje sentia remorso por sua atitude. Sempre tinha sido muito cuidadoso para evi­tar relacionamentos no trabalho. Sabia muito bem que o avô não perdoaria qualquer escândalo dentro da empresa. Gannon sabia que as promoções que ti­nha ganhado até chegar à posição que estava era de­vido a sua total dedicação aos negócios da família e à ética. Não tirava férias havia dois anos e sua boa re­putação era incontestável.

Erika havia sido seu único deslize. Ela tinha uma combinação de beleza natural com mente destemida e ambiciosa que havia chamado a atenção de Gan­non. Nunca antes havia encontrado uma mulher com quem se sentisse tão à vontade em conversar. Ao mesmo tempo, sabia que por trás dos ternos pretos e da postura de mulher de negócios havia uma mulher incendiária. Já a havia visto nua, sentido todo o corpo de Erika contra o seu, se perdido em puro prazer den­tro dela ao penetrá-la profundamente.

Sentiu seu sexo rijo e excitado só de lembrar dos momentos passionais que tiveram. Soltou um pala­vrão em voz baixa, ajeitou a gravata e abriu a porta do escritório, encontrando, para sua surpresa, o pai do outro lado.

— Vim em má hora? Está de saída?

— Estava indo finalizar um negócio. Precisa de al­guma coisa?

O pai deu uma risada curta.

— Engraçado, parece que está indo para uma bata­lha.

— Nada que eu não possa resolver — respondeu Gannon, sentindo certo desconforto pela observação do pai.

— Vou sair mais cedo hoje para levar sua mãe para jantar.

Gannon fez uma breve investigação mental.

— Deixe-me ver. Não é aniversário de casamento de vocês, nem seu aniversário, nem da mamãe. Qual o motivo para comemorar?

O pai franziu a testa.

— E por acaso precisa de um motivo especial? Es­tar casado com sua mãe já é um motivo e tanto. Por falar nisso, já está na hora de você arrumar alguém para dizer o sim, não acha?

Gannon balançou a cabeça.

— Já estou casado com meu trabalho. Minha dedi­cação, no momento, é para ganhar essa disputa e ver você como presidente da editora Elliot.

O pai sorriu e apertou um dos ombros de Gannon.

— Você é um oponente formidável, filho. Ainda bem que está na minha equipe.

Mesmo já sendo um homem crescido de 33 anos, Gannon adorava as demonstrações de afeto do pai que o enchiam de orgulho.

— Você não teria outra escolha, mesmo.

— Vê se não fica até tarde trabalhando, se não sou eu quem tem de ficar ouvindo os sermões da sua mãe.

— Bom jantar e dá um beijo na mamãe por mim — Gannon disse e em seguida foi para o elevador, aper­tando no andar onde ficava Erika.

Ao chegar à Casa & estilo, viu que a secretária de Erika já havia ido embora, então bateu na porta.

— Entre — disse Erika.

Gannon entrou e viu que ela estava ao telefone. Fechou a porta e ficou observando o escritório. Gos­tava do estilo de Erika, que optava por uma decora­ção pessoal e minimalista.

Lá no fundo, Gannon tinha verdadeira admiração por Erika. Era linda, com as curvas nos lugares certos. Sem qualquer desconforto com a altura, usava salto alto e raramente tentava domar os longos e re­beldes cachos castanhos, que Gannon já havia tido o prazer de tocar diversas vezes e intimamente. Ela desligou o telefone e olhou para ele.

— Desculpe, era um produtor nervosinho de uma exposição de decoração que estamos promovendo.

— Conseguiu acalmá-lo?

— Espero que sim. — Ela apontou para a cadeira mais próxima. — Sente-se, por favor.

Aquele era um bom sinal, pensou ele. Pelo menos, ela estava disposta a conversar. Desabotoou o terno e se sentou.

— O que você quer?

Ela o encarou por alguns longos e silenciosos se­gundos, o que o deixou um tanto nervoso.

— Primeiro, quero saber por que essa necessidade repentina de me ter de volta na Pulse. Já estou na Casa & estilo há um ano. E você não deu um pio quando fui embora. Por que a pressa agora?

— As circunstâncias mudaram. Posso te dizer porquê, mas preciso que você prometa que vai guardar segredo.

— Claro.

Ele confiava em Erika. Era uma mulher discreta e tinha provado isso, na época em que tiveram o ro­mance secreto.

— Meu avô decidiu se aposentar e escolheu um jeito meio excêntrico para selecionar quem será o novo presidente. As quatro mais importantes revistas da editora Elliot vão competir entre si durante um ano. O editor-chefe da revista que tiver o maior nú­mero de vendas, proporcionalmente, será o novo pre­sidente do império Elliot.

Erika ficou olhando para ele, boquiaberta, por al­guns instantes.

— Uau... Isso quer dizer que você está se empe­nhado para que essa pessoa seja o seu pai.

— É por isso que vim te procurar, e por isso estou oferecendo uma promoção, aumento de salário e o que mais for possível dar para você voltar a trabalhar para nós.

Ela deu um breve sorriso e desviou o olhar.

— Sendo assim, vou te dizer o que eu quero.

Ela pegou o folder que Gannon havia deixado com ela dias antes e abriu na página onde estavam estam­padas as fotos dos bebês.

Ela queria a matéria? Mas era fácil demais, pensou ele sentindo-se vitorioso.

— Temos um acordo. A matéria já é sua.

— Não estou falando só da matéria, Gannon. Que­ro escrever essa reportagem, mas também quero um bebê.

Gannon a olhou com cara de bobo e balançou a ca­beça.

— Acho que não ouvi bem. Você quer um bebê?

— Você ouviu muito bem. Quero um bebê.

— E o que isso tem a ver comigo?

— Você tem genes excelentes e eu os quero para o meu filho.

A mulher havia ficado louca. Totalmente, pensou ele. Ele sacudiu a cabeça e abriu a boca para dizer o quanto ela era maluca, mas Erika ergueu a mão para que ele se calasse.

— Escuta. Não vai ser nada difícil para você. A gente pode assinar um acordo. Não vou exigir nenhu­ma ajuda financeira da sua parte ou qualquer outro tipo de suporte. Só o que quero é o seu espermatozóide. A gente não precisa nem ir para a cama. Pode doar para um laboratório. Se quiser, posso até comprar uma revista masculina para você levar. Tudo o que quero é seu espermatozóide.

Ele a encarou por um momento de intenso silêncio e então se levantou.

— Você perdeu a razão. Por que eu? Por que não arranja outro cara? Arranja um marido? Sei lá.

— Já disse. Você é alto, inteligente, não tem ne­nhuma doença séria, genes ótimos. Se quiser ter fi­lhos, preciso engravidar logo.

— Por quê? Hoje tem mulheres engravidando de­pois dos 40 anos.

— Eu não posso. — Ele pôde ver o desespero no fundo dos olhos de Erika. — Meu médico disse que tenho um problema que afeta na minha fertilidade e quanto mais tempo esperar, menos chances vou ter de conseguir engravidar. Sempre quis ter um filho e o momento é agora.

— Por que não adota uma criança?

— Já me informei sobre isso. É muito caro e de­mora demais, por causa da burocracia.

Gannon ainda estava perplexo.

— Não acho que seja... — passou as mãos pelos cabelos e viu o olhar decidido a agoniado de Erika. — Vou ter que pensar sobre isso.

— Eu entendo. Vou ficar esperando sua resposta.

— Você levaria em consideração a possibilidade de trabalhar meio período na Pulse enquanto penso sobre... — ele engasgou —, doar meu esperma?

Ela fez uma pequena pausa.

— Não.

— Mas posso garantir o aumento do seu salário, uma promoção. Como pode recusar isso?

— Quero um filho. Não vai precisar me oferecer tanto se aceitar me dar esse filho. E quero um con­trato.

Gannon engoliu em seco. O que havia acontecido com a doce Erika em um ano?

— Entro em contato — disse, e se retirou da sala.

— Obrigada e boa noite para você também — murmurou Erika.

 

Gannon entrou no elevador xingando todos os no­mes que lhe passavam pela cabeça. Como poderia aceitar uma proposta daquelas? Já podia imaginar a discussão que teria com o advogado sobre isso. O avô, então, teria um enfarte.

Gannon havia sido instruído tanto pelo pai quanto pelo avô para que desse o exemplo de discrição e in­tegridade irrepreensíveis. Como iria explicar à famí­lia aquela loucura? Saiu do elevador e foi direto para o escritório. Fechou a porta, afrouxou a gravata e foi para a janela.

Olhou as luzes da cidade abaixo e descansou as mãos sobre a cintura, enquanto a mente maquinava incansavelmente. Só porque Erika havia feito um pe­dido bizarro, não significava que ele ainda não a qui­sesse na equipe. Tinha de haver outra saída.

 

Parecia até com os velhos tempos, pensou Erika ao entrar num dos bares próximos ao trabalho. Ela e Gannon haviam se encontrado várias vezes em bares como aquele, durante o romance que tiveram. Sentiu um friozinho na espinha ao se lembrar, mas ignorou a sensação. Torceu para que o lugar servisse bons martínis, pois estava precisando.

Olhou ao redor e viu que Gannon já estava lá. Ele acenou e Erika foi ao seu encontro, sentindo-se uma adolescente em um primeiro encontro amoroso. Ele era puro pecado. Impressionante como conseguia es­tar tão lindo e impecável do início ao fim do dia.

A barba bem feita e o aroma de colônia costuma­vam deixá-la desconcertada.

— Obrigado por ter vindo — ele disse. — Tinha muito trânsito no caminho para cá?

— Congestionado, como sempre. Tive sorte de pe­gar um táxi antes dos primeiros pingos de chuva co­meçarem a cair.

— Aluguei um carro hoje. Se quiser te dou uma carona.

— Acho que vou aceitar.

— Quer jantar?

— Vou beliscar alguma coisa e tomar um drinque.

— O de sempre? Martíni de maçã? — ele pergun­tou num tom sexy e intimista que reconfortou Erika.

Ela balançou a cabeça.

— De pêssego, com champanhe no topo.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Mudou?

— Estava precisando de mais efervescência.

O garçom se aproximou e Gannon fez o pedido dela e depois o seu:

— Uma dose de uísque e uma porção de asa de frango. Picante.

— Espero que tenha trazido um antiácido — disse ela sem conseguir conter um sorriso. — Ouvi dizer que com a idade o estômago fica mais sensível.

— Está me chamando de velho?

Ela deu de ombros.

— Nenhum de nós dois está ficando mais jovem. — Então mudou de assunto. — Por que me chamou aqui?

— Pensei na sua proposta e acho que a gente pode chegar a um acordo comum, com algumas modifica­ções.

— De que tipo? — ela perguntou, ansiosa.

Não po­dia acreditar que ele tinha realmente considerado a condição dela. Depois que ele saiu do escritório de Erika, ela se perguntou se não estava mesmo ficando meio maluca. Porém, se havia aprendido alguma coi­sa era que quem não arriscava não petiscava.

— Em duas semanas posso conseguir um contra­to do departamento jurídico com os termos da sua contratação, incluindo a promoção e o aumento de salário.

— E uma sala com janela e uma porta que possa ser fechada.

Ele sorriu.

— Minha nossa, como você ficou exigente durante esse último ano.

— Foi um ano de muito aprendizado — ela contes­tou. Um ano de aprendizado, de sofrimento, e de su­peração para esquecê-lo. Ainda estava trabalhando no último quesito.

— Que bom para você — comentou ele, enquanto tomava um gole do uísque recém servido.

Erika tomou um gole do martíni, pensando que não havia motivo para ficar nervosa. Tinha um cargo ótimo e ficaria mais do que feliz se permanecesse onde estava na Casa & estilo. Pulse seria mais excitante, animado e, com Gannon por perto, mais disper­sivo e desconcertante.

— Com relação ao outro assunto — ele disse fin­gindo indiferença, em voz baixa.

— A doação dos seus espermatozóides.

Ele deu outro gole do uísque.

— Esse contrato, vou ter que fazer com meu advo­gado particular. Meu avô teria um treco no coração se soubesse que tem um acordo desses num contrato da empresa.

Então ele estava realmente aceitando o pedido, Erika não podia acreditar.

— Isso vai exigir, de nós dois muita discrição. Ninguém pode ficar sabendo. O problema é que terei que esperar meu advogado voltar de viagem. Ele está fora do país.

— Quando ele volta? — Erika perguntou com cer­to ceticismo.

— Duas semanas. Está num cruzeiro, no Mediter­râneo, comemorando sua segunda lua-de-mel.

Ela respirou fundo.

— Então, o que vamos fazer? Começo a trabalhar na Pulse depois que ele voltar?

Gannon fez que não com a cabeça.

— Não, eu te disse que a Pulse precisa de você o mais rápido possível.

Ela riu.

— Mas isso vai levar algum tempo. Primeiro preci­so avisar sobre minha saída da Casa & estilo e esperar até que eles arranjem alguém para me substituir...

— Já sugeri que a Donna Timoni te substituísse. Você pode começar a trabalhar na Pulse no final da semana que vem.

Erika ficou sem reação. Apesar de concordar que Donna Timoni seria a mais indicada para ser sua su­cessora, ela não estava preparada para assumir aquela responsabilidade tão de repente.

— Nossa, que pressa!

— Já esqueceu? Na Pulse, a pressa é amiga da per­feição.

Ela fez que sim com a cabeça, lembrando que aquele era o mantra da revista.

— E quanto aos contratos?

— Como disse, consigo o contrato com a empresa dentro de uma ou duas semanas. O outro, vai demorar um pouco mais.

— Tudo bem. Mas só tem mais uma condição nes­se acordo. Posso voltar para onde estava a qualquer momento.

— Negócio fechado — ele respondeu sem titu­bear. — Não vai querer voltar, Erika. Se for honesta com você mesma vai admitir que morreu de saudades da Pulse.

Os instintos que ele tinha com relação a ela eram desconcertantes. Nenhum homem a tinha conhecido tão bem. Dentro ou fora da cama. Conteve um suspi­ro. Só porque ia conseguir o esperma dele, não signi­ficava que teria o coração de Gannon. Ou mesmo o corpo, já que ele iria a um laboratório.

Trabalhar com ele todos os dias, provavelmente, não a faria nada bem. Teria que gastar todas as ener­gias na busca de um homem que pudesse superar Gannon Elliot.

A comida chegou e, naturalmente, os dois muda­ram de assunto. Erika perguntou pela avó de Gannon, Maeve Elliot.

— Sempre me fascinou a história de como seus avós se conheceram.

— O alfaiate rico que a sequestrou na Irlanda.

— Como ela aguentou seu avô durante todos esses anos?

— Ele é louco por ela. Além disso, ela é uma santa. Não dá para não adorá-la. Ela compensa todo o carinho que meu avô tem tanta dificuldade em demonstrar.

— Ela é pessoa da sua família que sempre quis co­nhecer. — Erika se arrependeu da confissão, no mes­mo instante. — Teria sido uma boa capa para a Casa & estilo: "Tomando um chá com Maeve Elliot".

— Nada mal para a Pulse, na seção Personalida­des.

— Você é um verdadeiro ladrão de idéias.

— Erika, você agora está na minha equipe, esque­ceu?

O tom possessivo fez bem ao ego de Erika. Lem­brou das vezes em que ele a fez se sentir a mulher mais especial do mundo. Ele tentou convencê-la a co­mer uma das asas de frango, enquanto perguntava so­bre as melhores amigas de Erika. Ele sabia de Paula e Jéssica, mas elas não sabiam nada sobre ele.

Terminaram os drinques e os petiscos e Erika olhou para o relógio.

— Minha nossa, já são dez horas da noite!

— Não, seu relógio deve estar errado.

— Que horas são no seu?

Ele olhou para o relógio e ficou espantado.

— Caramba! É, a gente nunca teve muito proble­ma em preencher o nosso tempo juntos.

Ela gelou com aquele comentário sobre o passado.

— É verdade.

O olhar de Gannon se demorou alguns instantes so­bre ela antes que ele desviasse os olhos e desse um sus­piro. Podia ser fruto da imaginação de Erika, mas po­dia jurar que havia algo de saudosista naquele suspiro.

— Quer uma carona?

— Vou aceitar, obrigada.

Ele pagou a conta e os dois saíram. Do lado de fora, estava o carro esperando, com o motorista. Ao entrar no carro, Gannon perguntou:

— Continua morando em Park Slope?

— Mesmo endereço. — Os dois estavam bem pró­ximos e ela podia sentir o perfume da colônia de Gannon mesclada com cheiro de uísque e do couro, do as­sento do carro. Ele a tocou no ombro e Erika o encarou.

— O que foi?

— Disse para não esquecer de colocar o cinto de segurança. Não me ouviu?

Erika sorriu.

— Acho que não devia ter tomado a segunda dose de martíni.

O carro fez uma curva brusca, jogando Erika para cima de Gannon. O rosto foi parar bem no peito de Gannon e ele a envolveu com o braço. Ao erguer o rosto, viu que estava a poucos centímetros do rosto de Gannon e ficou olhando para aqueles olhos ver­des, enquanto prendia a respiração. Ele direcionou o olhar para os lábios de Erika, esquentando cada partí­cula do corpo dela.

— A gente bem que podia relembrar os velhos tempos, não acha? — A voz de Gannon era rouca e sedutora. — Vai ser bom para ajudar a esfriar os âni­mos. — As mãos dele tocaram com delicadeza o pes­coço de Erika.

Ela podia ter se esquivado, resistido. Mas não o fez.

 

Erika prendeu o fôlego. O coração pareceu entrar em estado de inércia. Ela havia esperado tanto por aquele momento, por ele. Foram milésimos de segundos que duraram uma eternidade.

Finalmente, os lábios de Gannon tocaram os dela. Ele aumentou a intensidade e ela soltou um suspiro abafado. Os lábios se acariciavam com desejo e quando a língua de Gannon tocou a de Erika, ela sen­tiu o hálito delicioso e quente, tão familiar apesar do tempo sem experimentá-lo.

            A massagem no pescoço amoleceu Erika ainda mais que se curvou, entregando-se aos braços de Gannon. Os seios tocaram o peito de Gannon e Erika deixou escapar um curto gemido. Não havia imagina­do que seu corpo responderia tão rápido ao contato de Gannon.

Ele desceu uma das mãos até a altura dos seios de Erika, que se arrepiou dos pés à cabeça. Desejou que ele a acariciasse, a agarrasse de jeito. Queria toda a mão de Gannon sobre seu seio. Ficou em chamas ao imaginar os dois no máximo de intimidade que pode­riam chegar um homem e uma mulher.

Gannon intensificou o beijo e Erika sentiu que sua cabeça estava como um caleidoscópio, cheio de cores e formas girando e se transformando. Estava tonta de tanto prazer.

O som de alguém tossindo penetrou o ambiente. O som se repetiu, obrigando Gannon a interromper o que estava fazendo.

— Desculpe-me, senhor Elliot — disse o motorista encabulado. — Não quis interromper, mas já estamos parados aqui há três minutos e o policial do outro lado da esquina está olhando com cara feia.

O desejo agora brigava com o constrangimento dentro de Erika. Lambeu os lábios sentindo o último vestígio do gosto de Gannon. Olhou pela janela e de­pois cobriu os olhos para tentar se recompor. Sentiu vergonha pelo seu estado de excitação. Provavelmen­te, ele devia achar que ela estava disposta a fazer tudo ali mesmo no banco de trás, não importando a presen­ça do chofer ou do policial do outro lado da rua.

Ajeitou o cabelo e a jaqueta.

— Bem, obrigada pela carona. A gente se vê no trabalho, então.

— Eu te levo até a portaria — ele disse.

— Não precisa. Não quero que você acabe levando uma multa. — Precisava sair de perto dele o mais rápi­do possível, para conseguir respirar e pensar melhor.

— Cari, por favor, dê uma volta no quarteirão. Vou ficar esperando aqui. — Após dizer aquilo, ele saiu do carro com Erika e levou-a até a porta. Ela es­tava com vergonha de olhar para ele.

— Obriga...

Ela não conseguiu terminar, pois ele a segurou pelo queixo, fazendo com que ela o encarasse.

— Não tinha me dado conta, até agora, do quanto havia sentido sua falta — ele sussurrou.

Mal sabia ele que Erika se dava conta do quanto sentia a falta dele todos os dias desde que haviam se separado.

— Eu não devia ter te beijado — ele continuou.

— Acho que tem toda a razão.

— Nós dois vamos ter que nos esforçar para man­ter essa relação o mais profissional possível. Não po­demos deixar que aconteça o que aconteceu no ano passado.

— Concordo plenamente — ela disse com firme­za. — Então, pare de me olhar como se quisesse fazer amor comigo aqui mesmo, contra essa porta.

Ele deu um suspiro contido e foi para cima dela, agarrando-a contra a parede do prédio.

— Contanto que você pare de me olhar como se quisesse fazer amor comigo aqui mesmo, contra essa porta.

— Por mim tudo bem — ela sussurrou no ouvido dele.

— Combinado, então.

O beijo veio logo em seguida. Um beijo que era puro erotismo, um convite ao sexo selvagem e sem li­mites.

 

Quatro dias depois, Erika tomava outra xícara de café, depois de quatorze horas de trabalho, somando o tempo na Casa & estilo e na Pulse.

Michael Elliot estava sentado na cabeceira da mesa de reuniões, com Gannon à sua esquerda e Teagan, mais conhecido como Tag e filho mais novo de Michael, à direita. Erika deu um breve aceno para Gannon, mas fez questão de não olhá-lo nos olhos. Havia se convencido que teria que evitar Gannon se quisesse fazer um bom trabalho na Pulse. Sentou-se do lado oposto a Gannon.

— Bom ver você, Erika — disse Michael.

— Obrigada, senhor Elliot. Bom vê-lo também.

— Por quanto tempo mais acha que vai ter que continuar dividindo seu tempo entre a Casa & estilo e a Pulse? — Ele falou com a firmeza de um expe­riente homem de negócios. — Precisamos de cem por cento das suas energias aqui conosco.

— Sei disso, senhor Elliot, e pode acreditar, não vejo a hora disso acontecer. Mas em breve, vou parar de ter que ficar subindo e descendo do décimo quinto para o décimo segundo andar.

— Quando? — perguntou Gannon.

Erika ficou tensa. Não gostava de ser pressionada daquele jeito. Além disso, Gannon havia deixado cla­ro que ela estaria trabalhando para o pai, não para ele. Ignorou Gannon e olhou diretamente para Michael.

— Tenho a esperança de que em duas semanas já terei resolvido todas as pendências na Casa & estilo.

— Que bom — respondeu Michael. — É que esta­mos ansiosos pela sua presença animada e estimulante.

— Obrigada — respondeu ela com um sorriso.

Alguém bateu na porta e Michael respondeu com certa irritação.

— Quem é?

A porta se abriu e Bridget, a filha de Michael, en­trou.

— Nossa, que cara feia — disse ao pai. — Dá até para pensar que acabei de interromper uma reunião que vai decidir o futuro do planeta Terra. — Olhou ra­pidamente ao redor da mesa e se fixou em Erika. — Ah, claro, não o futuro do planeta, mas o destino da editora Elliot. Muito traiçoeiro de vocês terem arras­tado a Erika para cá. A gente andou procurando por ela para trabalhar para a Carisma. Finola vai ficar muito desapontada. Espero que tenham te prometido a lua, Erika, porque é o que você vale.

Erika não conteve o sorriso. Sempre admirou Bridget pelo aguçado senso de humor que tinha. Fi­nola era irmã de Michael e editora-chefe da revista Carisma. Bridget trabalhava para a tia como editora de fotografia. Michael Elliot devia sentir-se bastante desconfortável com o fato de que a própria filha esta­va trabalhando contra ele.

— Bem, me prometeram algo parecido — disse Erika. — Por favor, diga a Finola que agradeço por ela ter lembrado de mim.

— Irmã querida, o que está fazendo aqui? — per­guntou Gannon, visivelmente contrariado.

Bridget piscou os olhos melindrosamente.

— Não está feliz em me ver?

— Bridget — disse o pai, num tom reprovador, pronto para acabar com aquela palhaçada.

— Só vim avisar que não vou poder jantar com vo­cês hoje. Diga para a mamãe que sinto muito, mas Fi­nola me pediu para ficar até mais tarde hoje.

— Sua mãe vai ficar muito desapontada — res­pondeu o pai, com tranqüilidade.

— Eu sei — disse ela, e lhe lançou um beijo e deu um sorriso maroto. — Depois arranjo um jeito de me redimir. Boa sorte para vocês.

Michael não conteve um sorriso divertido. Bridget fechou a porta e Michael limpou a garganta.

— Vamos voltar ao trabalho?

A reunião terminou uma hora depois e Erika foi direto para o elevador. Foi só tocar o botão do décimo quinto andar, que Gannon apareceu e entrou rapida­mente no elevador.

— Se incomoda se a gente der uma paradinha na cafeteria para discutir um pouco mais sobre a sua his­tória? Tive uma idéia.

Erika balançou a cabeça.

— Não posso. Tenho que dar uma olhada numas fotos para a Casa & estilo.

A porta do elevador se abriu e Gannon a seguiu até o escritório. Erika ficou um pouco irritada. Ele era altamente perturbador e tudo que ela não precisava na­quele momento era distração.

— Adoraria poder conversar com você agora, mas realmente não posso, Gannon.

— Tudo bem. Que tal um drinque mais tarde?

— Não — disse de impulso e depois acrescentou — Obrigada.

Ele ficou olhando-a por um longo instante.

— Isso tudo é por causa do que aconteceu na outra noite?

— Quer dizer, as preliminares na porta do meu prédio? Tudo bem que a gente tem um acordo com respeito ao meu projeto pessoal, mas não posso dei­xar que isso interfira na nossa vida profissional.

— E isso não vai acontecer.

Para ele era fácil, pensou ela.

— Prefiro manter certas fronteiras, Gannon. Já que estou trabalhando para o seu pai, acho que não vai ser difícil limitar nosso contato para quando seja estritamente necessário.

— Mas eu acho — contestou ele. — Estamos na mesma equipe e o clima na Pulse é intenso.

— Eu sei. Mas é para isso que servem os e-mails.

Gannon deu uma risada.

— Erika, uma das razões por que insisti para você fazer parte da Pulse foi por causa do dinamismo que você acrescenta para as discussões, mesmo quando o assunto não é a sua matéria. — Ele então se aproximou bem dela. — Sim, existe química entre nós. Mas não é nada que eu não possa controlar.

Ela mordeu a bochecha. Do jeito que ele falava pa­recia tudo tão fácil. No entanto, para ela estar ao lado dele e não sentir vontade de se jogar em seus braços era a tarefa mais difícil do mundo.

— Muito bem. Só peço que evite ficar a sós comi­go e sempre fique a pelo menos dois passos de distân­cia e eu darei conta do recado.

— Dois passos?

— Pelo menos — ela disse secamente. — Admi­ro você por conseguir separar negócios de emoção — ou nesse caso talvez devesse dizer hormônios. Mas, infe­lizmente, ao contrário de você, sou uma pobre mortal e manter a distância vai me ajudar, de verdade.

— E quando chegar a hora da contribuição para o seu pequeno projeto?

— Achei que a gente tinha combinado de que você faria isso num laboratório.

— Se você não mudar de idéia — ele disse com um sorriso cheio de ironia e luxúria que deixou os joe­lhos de Erika bambos.

— Você é realmente muito convencido.

— Vamos esperar para ver. Já que você está muito ocupada, passo aqui amanhã à noite.

Gannon se retirou antes que ela tivesse tempo de responder qualquer coisa. Trincou os dentes e chegou a rosnar. Que cara implicante. O pior de tudo era que ele tinha razão. Desejou que tivesse um antídoto con­tra os poderes de Gannon sobre ela.

 

No dia seguinte, Erika mandou um e-mail para Gannon avisando que não poderia se encontrar com ele, pois tinha um encontro com uma adolescente de quem era mentora. O que era verdade. Tia havia pedi­do para reagendar o encontro, porque tinha um jogo de basquete que não podia faltar.

Erika arranjou um táxi para pegar Tia em casa para as duas comerem alguma coisa juntas. Depois do lan­che, levou Tia para seu escritório, pois queria mostrar à menina alguns trabalhos da revista.

— É bonitinho, mas meio chato. Eu ia preferir es­crever alguma coisa mais legal que arranjo de flores — disse Tia.

Erika não comentou nada, mas concordava plena­mente.

— Esse trabalho me deu a chance de assumir responsabilidades maiores. Tive que aprender a tomar decisões importantes em tempo recorde. Também aprendi a ver como o ambiente a nossa volta pode in­fluenciar nas nossas atitudes e emoções.

— Que nem quando chove e a gente sente vontade de faltar da escola.

— Mas ou menos isso — respondeu Erika. — Da mesma forma como um quarto de cor parda causa cansaço.

Tia concordou.

— Minha sala de matemática precisa ser repinta­da. Morro de sono sempre que vou para aquela aula.

— Deixa de gracinha, viu? — disse Erika, sem conseguir conter um risinho.

Ela balançou a cabeça.

— Não, é sério. A parede está descascando e a cor é pálida. Ninguém gosta daquela sala.

— Quem sabe a Casa & estilo não pode patrocinar uma reforma na sala de aula? — disse Gannon da porta semi-aberta. — Não pude evitar e escutei a conversa.

Tia o olhou de cima a baixo e se voltou para a Erika.

— Quem é esse?

— Tia Rogers, esse é Gannon Elliot, editor execu­tivo da revista Pulse — disse Erika. — Elliot, Tia está me ensinando a ser uma mentora.

— Ela tem se saído muito bem até agora — disse Tia enquanto respondia ao braço estendido de Gan­non. — Achei que o presidente da empresa fosse um cara mais velho. Você nem é tão velho assim.

Erika quase engasgou.

— Patrick Elliot é o presidente da editora Elliot e é o avô de Gannon.

— Ah — respondeu Tia. — Não quero ofender, Eri­ka, mas a Pulse é bem mais legal que a Casa & estilo.

Gannon sorriu.

— Obrigado. Eu sou suspeito para dar minha opi­nião. E a senhorita Layven está se mudando permanen­temente para nossa equipe, em breve.

Tia olhou para Erika com entusiasmo.

— Nossa, isso é muito maneiro.

— Se quiser que a sua sala de aula seja redecorada é bom pedir agora — brincou Gannon.

— Você está falando sério? — Erika o olhou com cara de espanto.

— Claro, serviço à comunidade, decoração, cida­dania. Posso até me arriscar a dar umas pinceladas.

— Não sabia que pintava.

— Não é tão difícil quanto parece.

— Mas você tem alguma experiência? — Erika perguntou desconfiada. Afinal, Gannon havia nasci­do milionário.

— Já tive. Eu, Teagan, Liam, Cullen pintamos o galpão onde ficavam os barcos durante todo um fim de semana. Minha avó achou que fosse ser instrutivo.

— E foi?

— Aumentou minha vontade de estudar e tirar boas notas para não precisar trabalhar como pintor para o resto da vida.

Erika gostou de saber um pouquinho mais da his­tória de Gannon e sorriu sem se dar conta.

— Lá vem esse papo de nota. Parece até a Erika.

— Bom saber que a gente concorda em algumas coisas — murmurou ele. — Quanto tempo vocês pre­tendem ficar aqui?

— Já estamos de saída — disse Erika. — Vamos tomar um chocolate quente e depois vou pôr a Tia num táxi. Ela tem que acordar cedo amanhã e eu tam­bém.

— Se incomodam se for junto? — Gannon pergun­tou. — Posso dar uma carona.

— Legal — disse Tia. — É uma limusine?

— Não, desculpe, só um carro com chofer — res­pondeu Gannon, achando graça da pergunta.

— Tudo bem. Vai dar para tirar uma onda, mesmo assim, quando eu chegar no meu bairro num carro com chofer — ponderou Tia.

— Não precisa, Gannon — retrucou Erika, ao lem­brar da volta, quando estaria a sós com ele novamen­te. Como ia conseguir respeitar as regras recém-criadas com respeito a Gannon?

— Imagina. Assim, discutimos melhor a reforma da sala de aula e depois eu e você podemos conversar um pouco sobre a Pulse na volta.

 

A conversa com chocolate quente foi muito agra­dável. Gannon respondeu às perguntas de Tia com bom humor e a encorajou a estudar e pediu alguns conselhos com relação à decoração da sala de aula.

— Precisa ter a cor certa para deixar a gente bem acordado — disse Tia. — Amarelo...

— Alguns estudos mostram que o amarelo faz os bebês chorarem mais e que as pessoas ficam mais emotivas — disse Erika.

Gannon lançou-lhe um olhar de interrogação.

— Como sabe isso dos bebês?

Ela deu de ombros.

— Li em algum artigo da Casa & estilo. Verme­lho, por exemplo, é uma cor estimulante, mas estudos indicam que também está associado à agressividade.

Tia revirou os olhos.

— Não, obrigada. A gente já tem bastante agressi­vidade lá na escola. Tem briga todos os dias.

— O que você acha de rosa? — perguntou Erika.

— Rosa? — Gannon perguntou com uma cara de quem não estava acreditando na pergunta.

— Será que consegue ignorar seu lado machista por um minuto? — Erika o reprovou.

Tia fez que não com a cabeça.

— De jeito nenhum. Os garotos não iam me deixar em paz se pintasse a sala de rosa.

— Os estudos dizem que estudantes têm melhores performances em locais de cor rosa. Além disso, me­lhoram de astral.

Todos ficaram em silêncio no carro.

Gannon olhou para Erika e em seguida para Tia.

— Acho que você pode fazer uma pesquisa sobre o efeito que as cores têm nas pessoas e depois escre­ver um pequeno artigo. Se a senhorita Layven apro­var, Casa & estilo pode publicar sua matéria na re­portagem sobre a reforma na sua sala de aula. Você escolhe a cor e explica o porquê da sua escolha.

Tia ficou de boca aberta.

— Eu? Escrever um artigo para a Casa & estilo! Ter meu nome publicado na revista? Não posso espe­rar para contar para os meus amigos!

Erika não pode deixar de se emocionar com a ale­gria de Tia.

— Nossa! Quer dizer, ia ser bem mais legal se fos­se para a Pulse ou a Snap ou a Carisma — disse Tia, listando as revistas mais famosas da editora Elliot. — Mas isso é bem legal, mesmo assim! — Ela balançou a cabeça sem conseguir acreditar. — Meu nome numa revista nacional.

— Primeiro você precisa fazer uma pesquisa — alertou Erika.

— Eu vou fazer, pode deixar!

— E a senhorita Layven será sua editora. Vai ter que estar preparada para reescrever seus textos algu­mas vezes.

— Tudo bem, não me incomodo. — O carro parou em frente à casa de Tia e a menina olhou primeiro para Erika e depois para Gannon. Estendeu a mão para ele e disse — Muito obrigada, senhor Elliot, não vou te desapontar!

Voltou-se para Erika e a abraçou.

— Erika, você foi a melhor coisa que me aconteceu.

Surpresa com a reação afetuosa de Tia, Erika hesi­tou alguns segundos até que pudesse retribuir o abraço.

— Tenho certeza que você vai fazer um ótimo tra­balho, Tia.

— E vou mesmo! — Tia respondeu antes de sair do carro e mostrou o polegar. — Podem contar comi­go. Tchau!

Erika e Gannon esperaram até que a menina en­trasse no prédio e então Gannon informou ao moto­rista o endereço de Erika.

As emoções fizeram com que Erika ficasse calada durante um bom tempo. Uma parte dela desejava que Gannon não tivesse sido tão bacana e charmoso, tão generoso. Teria sido mais fácil na sua luta para es­quecê-lo. No entanto, a sugestão dele de permitir que Tia escrevesse um artigo tocou no calcanhar de Aqui­les de Erika. Na tentativa de evitar se jogar nos bra­ços de Gannon novamente, ela colocou a bolsa, sepa­rando-os. Precisava de um obstáculo. Um muro de ferro teria sido melhor.

— Foi brilhante e muito generoso da sua parte. Obrigada. Por mim e por Tia. Pela Casa & estilo...

— De nada — ele disse. — Agora, você fica me devendo essa.

 

Você fica me devendo essa.

Erika ficou confusa e sentiu a boca secar.

— Eu fico te devendo?

— É — ele disse com um sorriso sensual. — Ago­ra, vai ter que jogar vôlei comigo no sábado à tarde.

— Como assim?

Ele deu de ombros.

— Sei que você tem jeito e é alta. A família tem um campeonato com os empregados de todas as re­vistas. A Pulse está precisando de uma mulher na equipe. Só podemos chamar um integrante que não seja da família e tive muito trabalho para encontrar uma mulher com uma altura boa.

Erika são sabia se achava graça, se ficava ofendida ou irritada.

— Foi por isso que levou a gente para tomar cho­colate quente e prometeu à Tia uma matéria? Isso foi baixo demais!

— Há dois minutos atrás, eu tinha sido brilhante e ge­neroso.

— Isso foi antes de descobrir que você queria algo em troca.

— Nem é um preço tão alto a pagar. Qual o proble­ma? Não custa nada passar uma tarde no banco.

— Por que teria que ficar num banco?

— Você vai ficar de reserva, claro.

— Como assim? Joguei vôlei na faculdade. Jogo direitinho.

— Foi por isso que te escolhi.

— Para ficar sentada num banco?

— Sabe como é... Os homens são muito fominhas e acabam ficando meio violentos — ele se explicou. — É só um jogo, mas eu não quero que você se machu­que.

Ela balançou a cabeça.

— Então, eu vou ficar de fantoche feminino para enfeitar o banco de reserva? Se as mulheres da sua fa­mília escutassem isso, te comeriam vivo. Pode ima­ginar o que a Finola e a Bridget diriam?

— Bridget está no time da Finola. Não posso con­vidá-la. Além disso, o jogo que vem vai ser Snap con­tra Pulse. — Gannon deu um suspiro. — Você se lembra da Athena Wainright?

— Lembro, por quê?

— Ela deixou a Pulse para voltar para a terra dela em Idaho. Agora, estou cercado de anões.

Ela o estudou, percebendo um certo ar de apreen­são naquele rosto tão bonito.

— Não lembrava de você ser tão competitivo com a sua própria família.

Os olhos verdes de Gannon escureceram dando um toque ainda mais sensual a sua face.

— Quando estávamos juntos, não tinha tempo para perder em jogos de vôlei com a família.

Erika sentiu as bochechas ficarem vermelhas de calor e de vergonha.

— Com uma condição.

— Qual?

— Você me deixa jogar os primeiros quinze minu­tos. Se não jogar bem, aí você pode me mandar para o banco de reservas.

Ele fez uma pausa e concordou.

— Fechado.

— Alguma notícia do seu advogado? Já voltou da lua-de-mel?

— Ainda está fora — ele respondeu. — Assim que ele chegar, eu te aviso. — Nem bem disse essas pala­vras, o carro chegou à casa de Erika. — Deixa eu te levar até à porta:

— De jeito nenhum! — Erika agarrou a bolsa e destrancou a porta.

— Não confia em mim?

Erika não respondeu, porque a verdade era que não confiava em si mesma.

 

Erika jogou nos três jogos do campeonato. O tio Daniel e a prima Cullen estavam claramente empe­nhados em ganhar.

Erika cortou e a bola chegou a tocar na rede antes de tocar a quadra, dando mais um ponto para Pulse.

O irmão de Gannon, Tag, ficou sem fôlego.

— Que boa idéia ter trazido a Erika. Parece que Daniel e Cullen resolveram trazer um parente do Zé grandão para o jogo — disse, referindo-se a Margo, uma mulher de mais de dois metros de altura que es­tava no time rival.

Gannon pensou que a única desvantagem de ter Erika no time era que frequentemente ele se distraía com o corpo delicioso de Erika movimentando-se pela quadra. Era difícil se concentrar na bola com tanta tentação no jogo. Ele se lembrava claramente de como ela era nua, e só de imaginar sentia instintos primitivos que nada tinham a ver com vôlei.

Cullen sacudiu Gannon pela gola da camisa, do ou­tro lado da quadra, por debaixo da rede.

— Que eu saiba, a Erika ainda não é funcionária da Pulse. Podia jurar que vi quando ela saltou no décimo quinto andar.

— Está com medo? — Gannon perguntou retoricamente enquanto levantava a bola.

A bola foi para o outro lado e Daniel revidou jogando-a na direção de Erika. Qualquer outra teria se esquivado, mas Erika rebateu com a cabeça. Tag correu e alcançou a tempo de mandar a bola para o outro lado. Cullen cortou na direção de Erika e dessa vez ela rebateu com os pu­nhos, levantando para Gannon cortar.

Daniel rosnou.

— Gannon, está agindo como se estivesse compe­tindo pelo cargo de presidente.

— E não estamos? — Gannon respondeu, enquan­to sacava.

Cinco minutos depois, Erika fazia mais um ponto.

— Muito bem! — Tag bateu a mão na de Gannon e se virou para a Erika. — Você salvou a pátria!

— Que exagero — ele respondeu com um sorriso e sem fôlego. — Mas obrigada, mesmo assim.

Gannon levantou a mão para que Erika batesse, mas quando as mãos se tocaram, ele a segurou por al­guns segundos. O torso de Erika estava rosado e o rosto estava molhado de suor. Alguns fios de cabelo úmidos de suor caiam-lhe no rosto. Aquela imagem lembrou Gannon da primeira noite de amor que tive­ram.

— Como consegue continuar linda mesmo toda suada? — ele perguntou, em voz baixa.

As bochechas ficaram ainda mais rosadas e ela re­tirou a mão.

— Valeu a tentativa, mas quem me deve agora é você.

Gannon não conseguiu decifrar o que ela quis di­zer, mas preferiu perguntar depois.

— Tenho que ir — disse Margo. — Que pena que não foi dessa vez, senhor Elliot — desculpou-se com Daniel.

— Você jogou muito bem. Detesto ter que admitir, mas acho que eles tiveram mais raça. Obrigada por ter vindo. Ei, Erika — Daniel a chamou. — Tenho certeza que podemos arranjar um lugar para uma mu­lher talentosa como você na Snap.

Gannon sentiu uma pontada de irritação.

— Sai fora. — E se pôs na frente de Erika.

— Uau — disse Cullen, intrometendo-se na con­versa com um sorriso irônico. — Possessivo, ele! Está achando que ela vai levar seu pai para a presi­dência da editora?

— Quem levou uma surra da Pulse hoje? — Gannon provocou com senso de humor.

— Não sejam infantis — interrompeu Erika. — Isso é um jogo de vôlei e vocês são uma família, caso tenham esquecido.

— A gente só tem um espírito competitivo aguça­do — respondeu Daniel.

Gannon riu e deu um tapinha nas costas do tio.

— As batalhas mais importantes só vão terminar no final do ano — relembrou Daniel.

— Onze meses e duas semanas e meia, para ser mais exato — precisou Gannon. — Mas quem está contando? — brincou ele.

Daniel e Cullen fizeram cara de desentendidos.

— Infelizmente não vai dar para a gente tomar aquele chopinho — disse Cullen. — Já tenho um programa.

— Também não vou poder — disse Tag.

— Isso me dá uma boa desculpa para tomar um bom banho de banheira com água fervendo e fingir que os meus joelhos não estão me matando — disse Daniel. — A gente se vê. Até mais. Erika, foi um pra­zer conhecê-la.

Gannon apanhou uma toalha e enxugou o rosto.

— Que tal se a gente tomasse uma chuverada e eu te levo para jantar como forma de agradecimento pela sua participação? — perguntou a Erika.

— Em outras palavras, agradecimento por ter sal­vado sua pele — corrigiu Erika, descansando as mãos na cintura.

Gannon balançou a cabeça e atirou a toalha em cima de Erika, mas errou de propósito.

— De jeito nenhum. Mas, mesmo assim, te levo para jantar.

Ela o fitou por alguns instantes e suspirou.

— Não acho que seja uma boa idéia.

Ele fez cara de surpreendido.

— Por quê?

Ela deu de ombros.

— Não quero que a história se repita.

— Não estou te pedindo para ir para cama comigo. Além disso, você quer ter um filho meu, não quer?

— Não quero um filho seu, quero os seus genes. O filho vai ser meu — objetou Erika, contrariada.

Gannon sentiu o orgulho ferido, mas se recompôs, logo em seguida.

— Se você quer os meus genes, é porque gosta de algumas coisas em mim.

Ele deu um suspiro.

— Infelizmente — ela murmurou e deu a volta. — Preciso ir embora.

Ele a pegou pelo braço.

— Espera, você disse que eu estava te devendo.

— Certo. Mais uma razão para você me doar seus genes. Até segunda, Gannon.

Vendo-a partir fez Gannon sentir impaciência e algo mais que não conseguia identificar. Franziu a testa ao descobrir o que era. Ainda desejava Erika em sua cama. Ela ficaria ofendida se soubesse que causa­va nele uma necessidade sexual de conquistá-la e possuí-la.

Ela o tentava demais, mas ele precisava controlar seus hormônios. Como havia muito tempo não ti­nham contato físico, Gannon tinha achado que a atração entre os dois tinha diminuído, mas só de estar perto de Erika, o lembrava de como a relação dos dois havia sido quente e passional. Estar ao lado dela o deixava frustrado sexualmente.

Ele soltou um palavrão abafado. Erika tinha razão quando disse que a história poderia se repetir. A voz do avô dizendo que Gannon devia dar o exemplo às futuras gerações de Elliot martelou na cabeça dele. Não era mais um adolescente. Além disso, já havia conseguido controlar suas emoções por Erika antes. Não havia razão por que não conseguiria novamente. Apenas precisava mergulhar no trabalho como sem­pre fazia.

 

Erika aceitou um convite repentino de Jéssica e Paula para jantar. As três se encontraram num restau­rante de frutos do mar.

Erika pediu um martíni e prometeu que seria o pri­meiro e único.

— Pleno sábado à noite e nenhuma de nós tem um encontro amoroso. Existe algo mais patético?

— Fale por você mesma — retrucou Jéssica. — Meu namorado está trabalhando.

— Ah, o médico de pé — zombou Paula. — Como anda nosso amigo Bill?

— Podólogo — corrigiu Jéssica. — Vai bem. Mas a novidade é que arranjei um potencial doador para o bebê da Erika.

Erika engasgou.

— O quê?

— Ele é inteligente e tem senso de humor. Um ver­dadeiro MABS.

Paula sorriu, pois sabia o que Jéssica queria dizer com aquela sigla: Moreno, Alto, Bonito e Sensual.

— Podemos falar sobre isso depois que pedirmos a comida — disse, ao ver o garçom se aproximar. — Estou morrendo de fome.

— Eu também. Acho que gastei umas mil calorias jogando vôlei hoje. — Erika se perguntou se não de­veria contar às amigas que já tinha encontrado seu moreno, alto e lindo candidato.

— Onde? — perguntou Paula.

— Um campeonato do pessoal da empresa — res­pondeu Erika, lembrando de como foi difícil recusar o convite de Gannon para jantar. Ela tinha se coloca­do na posição mais esquisita ao pedir a um dos ho­mens mais atraentes do mundo para doar seu esperma e ainda assim rejeitar qualquer tipo de envolvimento sexual ou emocional. — Às vezes, queria ser mais masculina — murmurou.

— O quê? — perguntou Jéssica.

— Nada. Vou pedir camarão empanado — des­conversou e fechou o cardápio. Paula e Jéssica fize­ram seus pedidos em seguida.

Jéssica se voltou para Erika.

— Você queria ser mais masculina?

— Queria conseguir separar a emoção da razão, às vezes. Não ser tão sensível para certas coisas — ex­plicou Erika.

— Que nem eu — disse Paula.

— Exatamente — Erika sorriu.

— Bem, você não vai precisar separar nada com esse cara que achei para você. Ele é alto, morenaço, gatão, inteligente e tem um ótimo senso de humor.

— Onde foi que achou ele?

— É um amigo do Bill — respondeu Jéssica. — Depois que você conhecê-lo, a gente pode até sair em casalzinho, que tal?

— Outro médico de pé? — provocou Paula. — Aposto que tem fetiche em pé.

— Não tem nada a ver. Bill não tem nenhum feti­che em pé. — Jéssica ignorou Paula e virou para Eri­ka. — Esse cara, o nome dele é Gerald, é muito boni­to mesmo e já falei de você para ele.

Erika ficou alarmada.

— O que exatamente você falou para ele, Jéssica?

— Que você é linda e interessante e que ele devia ligar para você.

— Você deu o número do meu telefone para ele? Por acaso disse que quero o esperma dele?

— Não, porque acho que talvez você queira mais do que o esperma dele.

A primeira reação de Erika foi recusar a idéia. Aqui­lo só ia complicar ainda mais seus planos com Gannon. Era ele quem seria o pai da sua criança. Já tinha até concordado. Só precisavam assinar o contrato.

Pensou em como Gannon ainda mexia com ela e tomou outro gole do martíni. O problema era que ain­da se deixava impressionar pelo charme de Gannon. Mas e se houvesse outro homem capaz de fazê-la es­quecê-lo? E se o amigo de Jéssica fosse bom mesmo? Não precisava recusar aquela possibilidade sem an­tes conhecer o cara.

— Ei, se não der certo — disse Paula — pelo menos pode tentar ganhar uma consulta grátis com o calista.

 

Erika resolveu não almoçar e foi direto para a Pul­se na segunda à tarde. Estava com emoções confusas de ter que deixar a Casa & estilo, onde se sentia segu­ra e confortável.

Pulse era um mundo mais agreste, mais competiti­vo. Pelo visto, ia ter que providenciar uma tigela per­manente de bombons e jarras de chocolate quente para dar conta do estresse. Nesse dia, teria a primeira entrevista com um dos casais que seriam personagens da matéria dos bebês.

Quando voltou para o escritório, estava faminta, mas ainda queria digitar algumas notas que havia fei­to da entrevista. Submersa no trabalho, se viu obriga­da a responder à pessoa que batia na porta.

— Desculpa, mas estou muito ocupada. — Não importava quem fosse, precisava pôr no papel aque­las últimas idéias.

— Comida de primeira e de graça — Gannon disse do outro lado da porta.

O estômago de Erika roncou.

— Me dá dois minutos — ela gritou, e rapidamen­te, escreveu algumas palavras-chave e frases para que a ajudassem a se lembrar do que queria quando voltasse para escrever o artigo. Precisava comer. Além disso, tinha planos para o final da tarde, o que a manteria livre de qualquer tentação.

Olhou para o relógio e ficou surpresa com a hora. Pôs as botas, se levantou e se espreguiçou.

— Os dois minutos se esgotaram — disse Gannon, abrindo a porta e flagrando Erika se esticando. Ele carregava duas caixas grandes e uma pequena. O ca­belo escuro estava suavemente despenteado, a grava­ta frouxa e o último botão da camisa aberto. As man­gas estavam dobradas, deixando a mostra os braços musculosos. Ela não tinha certeza do que era mais tentador: ele ou a comida. — Parece que só sobramos eu e você nessa revista.

— É mesmo? — Erika perguntou, surpresa. — O que você tem aí? E como conseguiu?

— A editora da seção de comida recebeu essa en­comenda, hoje à tarde. Ela me disse que está de dieta e me pediu para dar para alguém. E então, a gente está aqui para comer ou para conversar?

— Tomara que não seja nada congelado que preci­se ir para o forno — ela disse.

— Acho que é um monte de frutas da estação — ele disse, abrindo uma das caixas. — Pode começar.

— Obrigada. Não tive tempo de almoçar — ela disse, se servindo. — Nossa, que chique. Ostras, aba­cate, banana com calda de chocolate. Que banquete! — Ela então leu a etiqueta na caixa. — Que combina­ção é essa?

— Comida afrodisíaca.

Erika tirou a mão da caixa, como se tivesse se queimado. Olhou para Gannon com desconfiança.

— E por que a editora de comida te deu isso? — E por que ele estava dando para ela comer?

— Geraldine Kanode tem 63 anos. Ficou super constrangida de me oferecer a comida, mas teve pena de jogar fora. O restaurante é ótimo. — Ele então tor­ceu os lábios para não rir. — Ela também disse que não queria levar para casa, para não correr o risco do marido se animar e ia sobrar para ela. Se quiser, pos­so jogar fora.

O estômago de Erika resmungou. A fome era mais forte que a desconfiança.

— Não, não. Não gosto de desperdício. — Ela vol­tou para a mesa e ele se sentou em frente. — E você, por que ainda está aqui a essa hora?

— Nunca é tarde para um editor estar trabalhando — ele respondeu. — Você sabe disso.

— Tenho que concordar com você. Pode comer as ostras. Não sou muito chegada em comida crua.

— Está querendo aumentar a quantidade dos meus espermatozóides?

Erika ruborizou, mas não perdeu a pose.

—- Não tinha pensado nisso, mas já que mencio­nou, não é ma idéia. — Pegou uma colher e um guar­danapo.

— Abacate com molho de manjericão — Gannon ofereceu.

— Está com uma cara boa. Vou aceitar — disse ela e provou uma colherada. — Uma delícia. Será que é mesmo afrodisíaco?

— Simboliza o testículo masculino — ele disse antes de comer uma ostra.

Erika engoliu outro pedaço com dificuldade.

— Nunca tinha pensado nisso — disse olhando para o abacate. Terminou sua parte e deu de ombros.

— Quem podia imaginar?

— Champanhe? — ofereceu ele, abrindo uma gar­rafa. Ela fez que sim com a cabeça e ele serviu duas taças. Havia um bilhete grudado à garrafa. — Aqui diz que a gente tem que beber com um grão de bauni­lha — ele disse, depois de ler o recado.

— Por quê?

— Algo relacionado a uma deusa mexicana da fertilidade — Gannon explicou antes de dar um gole.

— Nada mal, mas ainda prefiro o autêntico uísque es­cocês.

— Por que será que não estou surpresa? — Ela cheirou o copo e tomou um gole. — Delicioso. E o que é que tem na caixa pequena?

Gannon abriu e olhou o conteúdo.

— Figos frescos.

— Frescos? — Era algo raro em Nova York.

— É, e são meus — ele disse, pegando um e o abrin­do. — Você sabe qual a conotação sexual do figo, não sabe? — ele disse, mordiscando a polpa da fruta.

Sentindo uma onda repentina de calor, Erika ficou observando-o se deliciar com as pequenas camadas do figo.

— Posso imaginar.

— O figo se parece com a...

— Já entendi — interrompeu ela.

— A parte genital feminina.

A expressão dos olhos de Gannon era claramente erótica, deixando as partes íntimas de Erika em ebu­lição. Sentiu o sangue ferver de desejo. Os mamilos ficaram duros e doloridos no contato com o sutiã. O que ele estava fazendo com ela? O que queria provar com aquilo?

Ela tinha que pôr um fim naquele joguinho incon­sequente e mandá-lo ir embora e levar aquela comida dali.

— Acho que vou ficar com a banana com calda de chocolate.

— Um símbolo fálico — ele disse enquanto comia Erika com os olhos.

Ela deu uma mordida, fingindo indiferença.

— A quantidade de chocolate é a ideal. E a banana está madura sem estar muito molenga. — Deu outra mordida. Encorajada pelos olhos verdes de Gannon que estavam fascinados pela cena, ela passou a língua pela calda de chocolate.

A respiração ofegante de Gannon soou como mú­sica para os ouvidos de Erika. Fechou os olhos e ter­minou o que restava da primeira banana.

— Ummm. Essa banana está deliciosa. — Abriu os olhos. — Quer um pedaço?

Ele salivou e olhou para dentro da caixa.

— Acho que vou provar os morangos e as fram­boesas — ele disse e olhou para ela. — São as frutas que lembram os seios da mulher. — Apanhou uma framboesa e chupou com gosto.

A lembrança de Gannon beijando seus mamilos deixou Erika quente e ofegante. Mordeu os lábios e tentou se concentrar. Sempre achara que Gannon era muita areia para o seu caminhãozinho.

Tinha que acabar com aquilo de uma vez. Mas de­pois de terminar a segunda banana com chocolate. Lambeu os dedos e se deu conta de que ele a observa­va outra vez.

Ela pôde perceber que ele estava tão excitado quan­to ela. Ele então pegou duas raízes de alcaçuz.

— Alcaçuz? — Erika perguntou com curiosidade.

— Sempre achei que fosse comida de criança.

— Os chineses usam alcaçuz como erva medicinal — ele disse olhando para o rótulo na caixa. — Ele é conhecido por provocar amor e luxúria. O resultado é mais eficaz nas mulheres.

Erika sabia que ele não precisava de nada daquilo, pois era uma máquina sexual naturalmente. Ele pró­prio era um afrodisíaco para ela.

— Bem, vou ter que ver se isso funciona mesmo — disse ela, olhando para o relógio. — Tenho um en­contro marcado com um MABS daqui a uma hora.

Ele franziu a testa.

— Um MABS?

— Ah, desculpa — disse, apanhando a jaqueta e se levantando. — MABS é a sigla para Moreno, Alto, Bonito e Sensual.

Ele se levantou, olhando-a com cara de pateta.

— Você vai sair com um cara?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Vou.

A testa ficou ainda mais enrugada.

— Achei que você quisesse que eu — então semicerrou os olhos. — Te desse meu esperma.

— E quero. Isso não significa que tenha que parar de procurar o príncipe encantado. Obrigada pela co­mida — disse ela. — Vai ajudar bastante.

 

Gannon folheou o contrato de trabalho de Erika e ve­rificou a hora no relógio de pulso. Já passava das cin­co. Ela ainda devia estar no escritório. Disposto a en­tregar o documento pessoalmente, foi até lá e bateu na porta antes de entrar.

Sentada à mesa, ela ergueu a cabeça e ele sentiu um choque imediato na boca do estômago quando os olhares se cruzaram. Foi até ela e gentilmente deixou o contrato sobre a mesa de Erika.

— Eu disse que não ia demorar muito.

Ela apanhou o documento e deu uma rápida olhada.

— Foi bem rápido mesmo.

— Você pode tirar qualquer dúvida que tiver du­rante o jantar.

— Acho que vou ler isso com calma antes e tirar as dúvidas amanhã, no escritório.

— Está com medo de jantar comigo? — Algo em Erika fazia Gannon sentir vontade de tomá-la nos braços.

Ela o olhou com determinação.

— Não estou com medo, estou apenas me preca­vendo.

— Se está com medo dos boatos, a gente pode.

Ela ergueu a mão.

— A gente já se escondeu demais no ano passado.

Ele sentiu um aperto no peito e o desconforto se evidenciou no olhar de Gannon.

— O que a gente sentia um pelo outro era pessoal. Eu só quis que permanecesse assim.

— Não deu muito certo, deu? — ela perguntou com um sorriso seco.

— Nenhum dos dois estava pronto para um rela­cionamento mais sério — ele se defendeu.

— E não mudou nada. Continuamos despreparados.

Não tinha como ele discordar. Ainda mais com a disputa pela presidência da editora acontecendo.

— Mas você não pode fingir que não existe uma química forte entre a gente.

— Não posso negar que existe, mas aprendi a lição da última vez. Só porque um homem sente tesão por alguém não significa que haja sentimento envolvido.

— Falando assim você me faz parecer um calhor­da insensível.

— Você só é pragmático. Mesmo com relaciona­mentos.

— Só estava sendo prático. E se não tivesse sido honesto com você desde o início, você agora não es­taria falando comigo nem teria voltado para a Pulse.

— Acho que a sua teoria está bem equivocada, principalmente com relação às mulheres. Mas resolvi adotar seu sentido prático de ser quando decidi voltar para a Pulse. Eu te ofereço algo que você quer e em troca você me dá o que eu quero.

O espermatozóide dele. Gannon estava começan­do a se sentir como um touro premiado. Ele sabia que aquela não era a melhor hora para tentar convencê-la a desistir daquela idéia maluca. Havia considerado a hipótese mais de uma vez, porém, sabia que devia fa­zer: postergar o contrato da doação o quanto fosse possível até que Erika voltasse à razão.

Na noite anterior, voltou para casa agoniado, de­pois de ter se esforçado tanto para excitar Erika e des­cobrir que ela ia se encontrar com outro homem.

— Como foi o encontro com o MABS, ontem?

Ela olhou para ele com a maior naturalidade.

— Muito interessante. Gostei dele.

— Os afrodisíacos funcionaram?

— Isso não é assunto seu.

— Depende do ponto de vista. Não gosto de deixar uma mulher em chamas para esquentar outro homem.

Ela o encarou sem dizer uma palavra. Depois caiu na gargalhada.

— Foi a coisa mais ridícula que já ouvi você dizer.

— Ah é? Por quê? — Ele não sabia se ficava irri­tado com ela ou consigo mesmo.

— Odeio ter que encher a sua bola, mas quase to­das as mulheres dessa empresa têm fantasias sexuais com você. Será que não desconfia que elas se excitam às suas custas e depois vão liberar suas frustrações e desejos com o primeiro sortudo que aparece?

Ele a olhava incrédulo. Ela cruzou os braços.

— O que quero dizer é que se te incomoda a idéia de que você esquenta a comida para outro comer é melhor ir se acostumando com a realidade.

Ele passou a mão sobre a cabeça.

— Ninguém nunca tinha me dito algo parecido.

— É a mais pura verdade.

— Pode ter certeza que nunca tinha parado para pensar nisso.

— Claro que não. Está ocupado demais sendo o galã, sensual e profissional para reparar em qualquer outra coisa.

— Não entendi se isso foi um elogio ou uma ofensa.

— Os dois e nenhum dos dois. Estou apenas sendo prática, como você. Dizendo a verdade.

Gannon ficou olhando fundo nos olhos de Erika por um bom tempo. Ele tinha se transformado numa mulher forte, no período que estiveram separados. Mais perspicaz. Pragmática. Sentiu a faísca do desa­fio se acender dentro dele. Sensação parecida com a qual tinha se entregado um ano antes. Por ela. Só que parecia mais forte dessa vez. Erika sempre conseguia tirá-lo do sério, instigá-lo como nenhuma mulher ja­mais havia conseguido. Ela o atraía como imã.

Mesmo sabendo que se envolver com Erika podia acabar causando uma crise familiar e na empresa, ainda assim, enfrentava grande dificuldade em resistir ir atrás dela. Nada nem ninguém, com exceção da sua carreira e o trabalho, ocupava tanto o pensamento de Gannon quanto Erika. Já tinha violado as regras com ela uma vez e não podia negar que queria repetir a dose.

Gannon foi consumido pelo desejo de seduzi-la, dobrar aquele aparente ceticismo até vê-la gemendo, com ele dentro dela. Tentou dar um tom profissional ao dizer:

— Bem, se tiver alguma dúvida, me avise.

— Pode deixar. Vou dar uma lida, hoje à noite.

— Ótimo. Mais uma coisa. Meu pai quer que qua­tro representantes da Pulse compareçam num coquetel que o embaixador indiano das Nações Unidas vai oferecer, amanhã à noite. Está interessada?

Ele viu nos olhos dela que estava mais do que inte­ressada. Brilhavam como estrelas cadentes.

— Claro — respondeu. — Posso levar um acom­panhante.

Gannon fez uma pausa, sentindo uma sensação desconfortável que preferiu não identificar.

— Sem problema. Contanto que ele passe pela se­gurança. É só dar o nome para minha secretária.

 

Na manhã seguinte, Nova York amanheceu com um metro de neve. A editora liberou os funcionários mais cedo, devido à ameaça de cortes de luz e o au­mento de acidentes de trânsito ao longo do dia. Erika aproveitou o clima tranqüilo na empresa para terminar alguns trabalhos para a Casa & estilo. Depois co­meçou a editar três artigos para a Pulse que haviam deixado em sua mesa pela manhã.

Um e-mail enviado pela secretária de Gannon di­zia que o coquetel havia sido adiado por causa do mau tempo. O que, no final das contas, não era uma má notícia, pois não tinha certeza se queria ver Gerald, o podólogo, outra vez.

Quando o conheceu o achou lindo, inteligente, di­vertido. Mas a cada hora que passava, não sabia bem porque, seu interesse por ele diminuía.

Fez uma careta e voltou a atenção para o artigo que estava lendo. Às cinco horas, olhou para o relógio e de­cidiu buscar uma xícara de chocolate quente, antes de ir embora para casa. Foi até a cafeteria esquentar um pouco de água. Ao passar pelo corredor, notou que a porta de Gannon estava entreaberta e a luz acessa.

Pensou em parar para dar um oi, mas desistiu em seguida e continuou andando rumo a sua sala.

— Não vai oferecer, não, é?

A voz grossa de Gannon rompeu o silêncio, quando ela estava prestes a virar a esquina do corredor. Ela pa­rou e ia continuar andando e fingir que não tinha ouvi­do nada. Mas demorou demais para se decidir.

Gannon já estava atrás dela e Erika podia sentir o hálito quente arrepiar os pêlos de todo seu corpo.

— Sei que essa garrafa térmica está cheia de cho­colate quente. Com uma nevasca lá fora e só nós dois nesse andar, você vai se recusar a dividir esse choco­late quente comigo?

Sabia que ele estava de brincadeira, mas se sentiu uma egoísta.

— Vem comigo. Tenho um saquinho de marshmal­low no escritório. O que não entendo é por que você quer meu chocolate solúvel, quando pode ter o verda­deiro chocolate quente na cafeteria da direção.

— Você está mais perto — ele respondeu enquan­to a seguia até a sala. — Além disso, a cafeteria está fechada.

— Podia pedir, muito bem, para sua secretária pe­gar para você.

— Podia. Se ela estivesse aqui. E mesmo que ela fizesse isso, ia me achar um explorador machista por pedir para ela me servir um chocolate quente.

Erika não conteve o sorriso.

— E por acaso você não é?

Ele a olhou de cara feia.

— Já conheceu minha irmã e minha tia Finola. Não há a menor chance de um homem da família Elliot ser machista.

Erika riu com vontade.

— Que caneca vai me dar? A de Nova York com os arranha-céus?

A habilidade que ele tinha de relembrar dos peque­nos detalhes impressionava Erika. Depois que ele ter­minou com ela tão abruptamente, ela tinha certeza que não devia significar nada para ele.

— Desculpa, mas acho que um dos serventes que­brou a caneca dos arranha-céus, sem querer.

Ele fez cara de preocupação.

— Você não vai me dar a caneca da TPM, vai?

Erika deu outra gargalhada.

— Não. Tenho uma perfeita para você. — Tirou uma caneca da caixa. Ainda não tinha usado essa. — Ganhei de brinde num evento da Casa & estilo. Acho que está faltando um zero, mas dá para o gasto.

Ele olhou para a caneca e deu um sorriso enigmá­tico. Tinha o desenho de uma nota de um milhão de dólares.

— Eu aceito essa.

Ela despejou um envelope de chocolate em pó e de­pois água fervendo, mexendo com uma colher de plás­tico que havia pegado da cafeteria comunitária. Por úl­timo, jogou três bolinhas de marshmallow por cima.

— Pode pegar emprestado — ela disse. — Mas tem que me devolver depois.

— Obrigado. Tem se mostrado cada vez mais pos­sessiva com o passar do tempo.

— Estou apenas marcando território, delimitando fronteiras para não virar bagunça — disse ela, en­quanto se servia um pouco de chocolate e água. E marshmallow, claro.

— Tem ido ao psicólogo ou lido muito livro de auto-ajuda?

— Paula é analista. Tem me ajudado bastante.

— Foi ela quem te arranjou o MABS? Ele também tem te ajudado?

— Por enquanto, não tenho do que reclamar — ela disse, surpreendida com a pergunta e sem nenhuma vontade de falar no assunto. Afundou a cara na cane­ca e deu um gole do chocolate.

Ficaram em silêncio alguns segundo.

— Só isso? Não tem do que reclamar?

Ela fez que sim.

— Hum-hum. E você? Como vai sua vida amorosa?

Ele desviou o olhar.

— Não é uma prioridade. Estou ocupado demais com a revista para pensar nisso.

— Essa é a sua resposta-clichê? — Ela não pode resistir em provocá-lo. — Porque desde que te co­nheço você dá essa resposta.

Ele voltou a olhar para ela e balançou a cabeça, dando um rápido gole da bebida.

— Já houve um tempo que minha posição e nome te intimidavam.

Isso foi antes de você partir meu coração e jogá-lo na lata de lixo.

— Isso foi antes de você tentar me chantagear a te dar um pouco de chocolate quente do meu esconderijo.

— Não tentei. Consegui.

— É verdade. Bem, se não se incomodar vou con­tinuar a editar esses artigos.

Ele tentou ler o artigo mais próximo.

— Qual é esse?

— Sobre o aumento do número de mulheres inte­ressadas em praticar esportes.

— Achei que ia agradar ao seu lado feminista.

— É uma grande conquista, mas o caminho ainda é longo até as mulheres conseguirem ganhar os mesmos salários que os homens no esporte. Ainda há muitas barreiras para serem quebradas. — Fez uma pausa. — Acho que seria interessante falar sobre al­gumas mulheres que quebraram essas barreiras, com algumas informações pessoais sobre elas.

Ele sorriu e ergueu a caneca para um brinde.

— A matéria está boa, mas eu sabia que você ia en­contrar um jeito de melhorar.

— Obrigada. — O elogio a aqueceu quase tanto quanto o chocolate quente. Ao se perder no verde dos olhos de Gannon, Erika não conseguia achar a super­fície, já estava perdendo o fôlego. — Se você me dá licença, preciso terminar isso...

— Essa é uma indireta para eu ir embora.

— Como você é esperto.

— Obrigado pelo chocolate quente.

— De nada — ela se esforçou para continuar com os olhos na tela do computador quando ele saía da sala. — Depois eu pego a caneca de volta com você.

Concentrou-se no artigo por uns trinta minutos, então, se espreguiçou e olhou o relógio. Olhou pela janela e viu que o tráfego na rua estava mais tranqüi­lo. Com sorte, conseguiria pegar o último trem para casa. Vestiu o cachecol, a jaqueta e um chapéu. Apa­nhou a bolsa, apagou a luz e saiu da sala.

Não pode resistir passar pelo escritório de Gan­non, no caminho para o elevador.

— Boa noite — disse sem parar na sala dele.

— Se você esperar uns minutos, te dou uma carona.

A oferta a fez parar no meio do caminho. Em dias normais, teria recusado a possibilidade de ficar a sós com Gannon num carro. Mas em meio a uma nevasca e com a temperatura abaixo de zero, não podia recu­sar a oportunidade ser entregue na porta de casa, num carro quentinho com chofer, em vez de andar dois quarteirões do trem até em casa no meio da neve.

— Obrigada. Vou ficar esperando aqui fora.

Gannon saiu do escritório vestindo um sobretudo de lã e um cachecol de caxemira.

— Acabei de falar com meu motorista. Ele disse que está faltando luz por toda a parte. Ainda bem que esse prédio tem gerador elétrico.

— É raro ter apagão lá em casa. E quando acontece não dura mais de duas horas. Não me incomoda a fal­ta de energia. Se bem que hoje, gostaria de dormir com meu cobertor elétrico.

— O MABS não pode resolver esse problema para você? — ele provocou, apertando o botão do elevador.

— Tenho certeza de que sim, se convidasse ele — ela respondeu, incomodada com as repetitivas referên­cias a Gerald, já que Gannon nem sabia quem Gerald era. — Mas o coquetel foi cancelado e ele aceitou se encontrar outro dia. Por que está tão interessado nele?

O elevador chegou ao andar deles e os dois entra­ram.

— Só para puxar papo. Por quê? Incomoda-te fa­lar do MABS?

— Não — respondeu sem muita convicção. Então resolveu revidar. — Como vai a Lídia?

— Lídia?

— É? Não foi com ela que namorou depois que me deu o fora?

— Eu não te dei um fora.

— Claro que deu — ela insistiu. — Se quiser pos­so repetir o discurso de despedida, palavra por pala­vra, para refrescar sua memória. "Os boatos sobre nós dois estão chegando aos meus ouvidos. Acho me­lhor a gente deixar as coisas esfriarem. Essa história não ficaria bem para a nossa reputação".

O elevador chegou ao térreo e os dois saí­ram.

— O carro está logo ali. A gente pode continuar essa conversa depois — ele disse.

Dentro do carro a temperatura não poderia ser mais agradável. Um jazz tocava ao fundo. Erika não se incomodaria em passar a noite num lugar tão acon­chegante. Teria sido impossível encontrar um táxi naquele caos que estava a cidade e ter que andar no meio da neve teria sido uma tortura.

Gannon se virou para Erika.

— Alguma vez passou pela sua cabeça que eu ter­minei tudo mais por você do que por mim? — ele per­guntou em voz baixa.

O olhar dela era de surpresa.

— Não — respondeu com tranqüilidade, porém com franqueza. — Desde o início, você me dizia que tínhamos que ser discretos porque seu avô não tolera­va nenhum tipo de envolvimento de Elliots com fun­cionários da empresa.

— Exato. E por acaso, parou para pensar que ia se sair mais prejudicada se nossa relação se tornasse pú­blica?

Ela abriu a boca, mas fechou em seguida.

— Não — admitiu.

— Quem você acha que ia sair mais prejudicado? Eu? Um Elliot? Ou você?

— Uma não-Elliot — ela respondeu. — Uma Zé-ninguém.

— Não queria a imprensa se metendo na minha vida particular.

— Mas e a Lídia? — ela o interrogou. — O seu nome e o dela estavam em todas as revistas depois que você me chutou.

— Isso não é problema seu, mas eu nunca me en­volvi com a Lídia. Ela não trabalha para a editora Elliot e adora aparecer na imprensa.

— Ela é bem bonita. Vocês dois fazem um lindo casal — ela disse, de um jeito que não escondia sua mágoa.

— Você ainda não entendeu nada, não é? — Gannon balançou a cabeça, indignado. — Comecei a sair com a Lídia depois de você e terminei com ela para desviar qualquer atenção que pudesse cair em cima de você. Há muito tempo que aprendi que a última coi­sa que quero é a mídia falando da minha vida pessoal. De pessoas por quem me preocupo. Então preservo a privacidade das pessoas que gosto.

Ela ficou olhando para ele com cara de boba, ten­tando digerir tudo que tinha acabado de ouvir. Ele es­tava dizendo que se importava com ela? Que a rela­ção dos dois tinha significado alguma coisa para ele?

— Desde que me formei na faculdade, minha meta é me casar com uma mulher antes que a mídia tenha tempo de suspeitar quem fosse.

Erika balançou a cabeça.

— Acho difícil, Gannon. A sua família está no meio dos holofotes. Sua meta me parece impossível.

Gannon deu um sorriso maroto.

— Pode ser, mas o impossível é o que os Elliots sa­bem fazer de melhor.

Erika ainda estava em êxtase com as últimas reve­lações. Olhou pela janela, tentando disfarçar seu estado de agitação. Quando o motorista virou na rua dela, o bloco inteiro estava sem luz.

— Pelo visto, seu cobertor elétrico vai ter de es­perar — comentou Gannon.

— Parece que sim — ela concordou e deu de om­bros. — Não deve demorar muito.

— Provavelmente, não.

Ficaram num silêncio incômodo por alguns longos segundos.

— Se quiser, pode vir para minha casa — ele disse. Imediatamente rejeitou a idéia para seu próprio bem.

— Muito obrigada, mas não precisa. Daqui a pou­co volta a energia. Tenho uma televisão a pilha que meu pai me deu de Natal. Além disso, tenho meias de lã e colchas bem quentinhas.

— Eu sei — ele disse numa voz embargada de sen­sualidade. — Eu me lembro.

Erika sentiu um frio na boca do estômago. Foi tão forte que ela teve que passar a mão sobre a barriga para se certificar que não era nada sério.

Ignorou o comentário e abriu a porta do carro.

— Obrigada, de verdade, pela carona. Foi uma mão na roda.

— Só por curiosidade, por que você aceitou minha carona e não quer aceitar esperar o apagão passar lá em casa?

— Bem, porque tem duas coisas que você não pode recusar nunca. Uma é uma carona num carro aquecido, no meio de uma tempestade, contanto que não esteja pegando carona com um assassino em série ou coisa do gênero.

— E a segunda?

— Uma viagem para o sul da Flórida, durante o in­verno em Nova York.

— Mas você recusou o convite de um apartamento quentinho e com luz, enquanto sua casa deve estar gelada e na escuridão. E não foi um assassino em sé­rie que fez o convite.

— Não, nesse caso, foi o lobo mau — ela respon­deu com um sorriso. — Boa noite, Gannon. Obrigada outra vez.

Saiu do carro e tentou manter a pose até chegar à portaria. Depois se virou para acenar e foi surpreen­dida com uma bolada de neve no ombro.

Gannon começou a rir e foi se aproximando dela.

— O que você está fazendo?

— Desculpe. — Ele não soou nem um pouco sin­cero. — Não foi minha intenção. Ia jogar nas suas costas, mas você se virou.

Ela se afastou quando.

— Que covardia. Atirar pelas costas!

— Briga de bola de neve é sempre injusta. Queria só chamar a sua atenção. Você está sendo teimosa e boba.

— Como assim?

— Está sim. Estou oferecendo meu apartamento com calefação e você prefere passar frio num aparta­mento sem energia. Isso é teimosia burra. — Ele er­gueu os braços. — Não vou tocar um dedo em você.

A declaração tocou de leve no ego de Erika.

— A não ser que você me implore — ele acrescen­tou num tom sensual e descontraído, que devia ter de­sarmado as defesas de Erika.

No entanto, ela não era ingênua a esse ponto. Sabia que Gannon era irresistível. Ela nunca precisou im­plorar para que ele a tocasse, porque era ele quem sempre tomava a iniciativa antes de terminar com ela. Depois, Erika estava magoada demais para tentar qualquer aproximação.

— Não sou muito boa para implorar as coisas.

— Orgulhosa demais — ele concluiu.

— Não, apenas nunca achei necessário implorar nada a ninguém. — Virou-se e continuou andar para dentro do prédio. Ele a segurou pelo ombro e o cora­ção de Erika disparou. — Deixa disso, Erika. É só até voltar a luz. E os meus genes de cavalheiro nunca permitiriam deixar uma dama como você sozinha no escuro e no frio.

— Não precisa ficar culpado, porque a dama já disse que não. Ela vai ficar bem. — Ela se virou para encontrar o olhar de Gannon. O olhar era o mesmo que ele havia dado algumas vezes no passado, que a fazia se sentir a mulher mais fascinante do mundo, um olhar que dizia que com ela, ele era insaciável.

Devia começar a correr rumo ao seu frio e escuro apartamento, dizia, naquele instante para os seus pés. Agora.

Os pés, no entanto, não se moveram nem um cen­tímetro.

 

Gannon via nos olhos de Erika o duelo que ela estava travando consigo mesma. Uma das coisas que sempre fascinava Gannon com relação a Erika era a capaci­dade que os olhos tinham de contar histórias sobre o que estava ocorrendo no interior dela. Tinha a sensa­ção que, se prestasse bem atenção, ia acabar conse­guindo ler o que se passava com Erika, como se ela fosse um livro. Ela era um livro que ele queria ler e reler inúmeras vezes.

Haver terminado o romance tinha sido uma atitude necessária e ele havia sido vitorioso em tirar Erika da cabeça, principalmente, depois que ela foi trabalhar na Casa & estilo. Ela não pensou duas vezes ao tomar a decisão, pois acreditava que tinha sido o melhor para os dois. Porém quando o avô lançou o desafio, no Ano Novo, para toda a família, na disputa pela pre­sidência da Elliot, a imagem de Erika foi a primeira que passou pela mente de Gannon. Profissionalmente, Erika tinha a perfeita combina­ção de ambição e concepção clara da natureza huma­na. Pessoalmente, ela conseguia confortar e instigar Gannon. Algo que nenhuma outra mulher havia con­seguido.

— Se você não vier para o meu apartamento — ele disse, retirando flocos de neve que haviam ficado presos no cabelo de Erika —, vou acabar desconfian­do que você não consegue resistir aos meus encantos.

Erika olhou para ele zangada.

— Você é mesmo muito metido. Só porque você é montado no dinheiro e lindo de morrer, não quer di­zer que é o rei da cocada preta.

— Me diz o que falta para que não me amem? — brincou ele.

O rosto de Erika ficou sério.

— Chega um momento que para ser amado é pre­ciso saber amar também.

Aquelas palavras soaram como um soco no estô­mago de Gannon.

— Mas talvez seja porque você não encontrou a garota certa, ainda. — Sorriu para não dar na pinta. — Eu vou para o seu apartamento, mas preciso apa­nhar umas coisas lá em casa, primeiro.

— Você vai lá, no meio da escuridão?

— Não terá sido a primeira vez — disse ela, enquanto destrancava a porta de entrada. — Nem a última.

— Um minuto — disse Gannon. — Cari, você po­dia pegar a lanterna que fica no porta-luvas, por fa­vor? — O motorista levou a lanterna, em seguida. — Pode dar umas voltas no quarteirão, se precisar. Vol­tamos em cinco minutos.

— Voltamos? — perguntou Erika.

— Faz tempo que não vou ao seu apartamento. Es­tou curioso para ver como está.

Ela abriu a porta e testou a luz, em vão.

— Fiz umas mudanças com a ajuda de um decora­dor que colabora para a Casa & estilo. Não ficou nada mal. Mas você não vai conseguir ver direito por causa da escuridão.

— Tudo bem, estava querendo mesmo era sentir o cheiro — disse ele inspirando o aroma de baunilha, pêssego e biscoito que estava no ambiente.

— Sentir o cheiro?

— Sempre adorei o cheiro da sua casa. Às vezes, cheirava à canela e maçã. Outras vezes, tinha cheiro de frutas tropicais. Sempre me dava vontade de en­trar, sentar e ficar um tempo, de bobeira.

— Mas nunca muito tempo — ela murmurou sem abrir muito a boca. — Velas. Você pode ter essa mes­ma experiência na sua casa. É só comprar velas.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela se retirou da sala para a cozinha.

— Mas já que você é podre de rico, pode, muito bem, pagar alguém para deixar sua casa bem cheiro­sa. — Ela abriu uma das prateleiras. — Pode iluminar aqui dentro, por favor?

Ao iluminar o interior do armário, Gannon a viu retirar uma caixa de chocolate em pó e uma garrafa de licor.

— Por isso que você quis subir. Chocolate em pó.

— E licor de chocolate também — acrescentou ela. — Maçãs e uns biscoitinhos. Se não me falha a memória, nunca tem comida na sua casa.

— Nunca estou lá. Acaba estragando. Mas meu bar está bem estocado.

— Mas você não tem licor de chocolate — disse e saiu da cozinha.

Ela tinha razão, ele não tinha. De repente, ouviu o barulho de algo caindo no banheiro.

— Opa. Preciso de luz — disse Erika.

Quando chegou ao banheiro a encontrou de joe­lhos procurando pela escova de dente. Ela ergueu o rosto e sorriu.

— Não saio de casa sem ela. — Quando se levan­tou tinha numa das mãos uma bolsinha, cheia de coi­sas de banheiro. Com a outra mão pegou a lanterna de Gannon. — Vou precisar pegar isso emprestado um minutinho. Você espera aqui.

— Por que não posso ir com você?

— Porque não — ela respondeu e saiu do banheiro.

— Isso quer dizer que está procurando uma lingerie bem sexy para me fazer uma surpresa?

— Não. — Um minuto depois, Erika estava de volta. Ela carregava uma pequena mala e uma bolsa. — Estou pronta.

O que ela estava levando naquela mala? Ele pegou a lanterna de volta e guiou os dois até a porta da saída.

— Se você fosse para uma ilha deserta, que quatro coisas não deixaria de levar?

— Celular.

— Isso só serve se você tiver cobertura por satélite.

— Que nem você.

Ele se virou de repente e Erika caiu por cima dele.

— Está de ironia por causa da minha grana?

Ela só podia ver o brilho nos olhos de Gannon.

— Estou.

Algo dentro de Gannon ateou fogo e não sentiu ne­nhuma vontade de extravasar o que sentiu. Em vez disso, pegou Erika pelos cabelos, inclinou o queixo dela e a beijou com vontade.

A respiração oscilante de Erika aumentou a tem­peratura dele. Podia sentir a excitação nos lábios dela. Acariciou-a com os lábios até que ela cedesse e deixasse que Gannon a explorasse sua boca com a língua. Ela recebeu a língua voraz, porém suave, como se o abraçasse intimamente.

O beijo sensual deixou Gannon completamente excitado. Tinha o sexo rijo.

Erika interrompeu o beijo e se afastou.

— Uau — sussurrou. — Achei que ia ter que im­plorar para você me tocar.

Gannon estava ofegante.

— E não implorou? Posso jurar ter escutado você me implorando... Mas eu não quebrei minha promes­sa, mesmo que você não tenha me pedido. — Havia uma tensão muito forte no ar. Era mais que sexo. Era algo mais profundo, que ele não conseguia nomear.

Ela o encarou. Os olhos estavam escuros pelo de­sejo.

— Como não?

— Estamos na sua casa, não na minha. Eu disse que não ia te tocar no meu apartamento, a não ser que você me implorasse.

Ela olhou para ele desconfiada.

— E como posso acreditar que você não vai pôr as manguinhas de fora, depois disso?

— Pode confiar. Eu lhe dou a minha palavra.

 

Uma hora e meia depois, já haviam comido um pizza congelada e Erika estava ajeitando a cozinha. Gannon estava sentado, confortavelmente, em sua poltrona de couro, em frente à lareira, com um copo de uísque. Só faltava um pequeno detalhe para com­pletar aquele momento com chave de ouro.

Se Erika fizesse um strip-tease, ali mesmo, e o en­chesse de beijos e carícias, a noite ficaria perfeita.

Em vez disso, estava embrulhada num casaco de moletom, tomando seu inseparável chocolate quente e bem distante dele.

— Ainda bem que você me convenceu a vir — ela disse, sentando-se no sofá. — Minha vizinha ficou de me ligar quando a luz voltasse e até agora nada. Ima­gina o frio que ia sentir se estivesse lá.

— Está se sentindo agradecida?

Erika o encontrou olhando para ela e entendeu a mensagem não pronunciada. Mexeu a cabeça sutilmente.

— Pode deixar, vou preparar uns cookies para você um dia desses.

Ele não queria cookies. Por que será que ela o fazia lembrar que há séculos não fazia amor? Por que ela mexia tanto com ele? Ela era bonita, mas não era ne­nhuma beldade. Com certeza, passava o mínimo de tempo possível cuidando da aparência. Isso devia ser porque, certamente, tinha coisas mais importantes para fazer.

Ela preferiria que não pensasse tanto nela. Precisa­va tirá-la do seu sistema nervoso. Era mais do que uma necessidade de tê-la sexualmente, apesar de ser bastante forte. Estava gostando só de ter a presença dela no apartamento. Ter Erika por perto causava tranqüilidade e volúpia, ao mesmo tempo. Gostava do fato de ela não ceder aos charmes dele, apesar de sa­ber que Erika o admirava e se sentia atraída por ele. Com certeza, ela gostava dos genes dele, pensou, franzindo a testa ao se lembrar do momento em que ela pediu para ele doar seu esperma. Aquela sim era uma situação complicada. Daquelas que ele sempre havia feito questão de evitar.

— Você acabou não me contando quais as quatro coisas que levaria para uma ilha deserta.

— Ah — ela deu outro gole do chocolate quente e pensou por um momento. — Um MP3 com uma bate­ria que durasse para sempre.

— E que tipo de música?

— Todo o tipo. Rock, clássico, pop, blues e um rit­mo tropical para os dias de baixo astral.

— Você tem uma atração especial pelo clima tro­pical, não é?

— Tenho, mesmo. Adoro o calor, a areia, a água do mar.

— Estão faltando duas coisas.

— Chocolate quente com marshmallow. Ia ficar muito triste sem meu chocolate quente. E algumas centenas de livros para preencherem o meu dia.

— Nenhum secador de cabelo?

Ela deu de ombros.

— Para quê? De que adianta um cabelo escovado numa ilha deserta?

— Maquiagem?

— Sabão não seria nada mal. Acho que quero tro­car o celular pelo sabão. E você? Tudo bem que no seu caso, um Elliot, o celular funcionaria normal­mente. Além disso, se você fosse parar numa ilha de­serta, um bando de gente ia sair te procurando por to­dos os cantos do mundo até te encontrar.

— Mais uma vez está sendo irônica por causa da minha fortuna.

— Estou só falando a verdade. Cinco coisas, va­mos lá.

— Um rádio que pegasse um canal de esporte, com pilhas extras. A coleção completa de Leon Tolstoi, uma garrafa de uísque e uma mulher.

Ela piscou, surpresa.

— Uma mulher? Quem?

— Uma mulher que satisfaça meu corpo e mente tão completamente que vai me fazer não querer sair da ilha nunca mais.

— Que ambicioso — respondeu ela, erguendo as sobrancelhas, com ceticismo.

Ele a estudou toda e se lembrou de como era linda nua, dos gemidos sensuais que fazia no ato de amor. Estavam os dois ali, livres e desimpedidos. Que des­perdício. Segurou um palavrão na ponta da língua e tomou um bom gole do uísque.

Ela pegou o jogo de palavras cruzadas de Gannon e ele ganhou na primeira rodada. Ela ganhou a segun­da, porque ele não conseguia parar de pensar numa maneira de convencer Erika a tornar o jogo de pala­vras cruzadas mais picante. Pouco depois da meia-noite, o licor de chocolate começou a fazer efeito e Erika bocejava. Ele se deliciava com o jeito que ela ficava com sono, os olhos fechadinhos e o cabelo despenteado.

— Se incomoda de dormir no seu sofá, hoje?

— Tenho um quarto de hóspedes.

— Mas está tão gostoso aqui, pertinho da lareira.

— É verdade — ele concordou, se sentindo um idiota por ter prometido não tocá-la a não ser que ela implorasse.

— Pode ir dormir se quiser.

— Não estou com pressa. Vou pegar um travessei­ro e um cobertor para você. — Gannon se levantou foi até o quarto de hóspedes pegar um travesseiro e até o armário pegar um cobertor. Ao voltar para sala, encontrou Erika deitada no sofá em posição fetal, olhando para a lareira.

— Sempre me perguntei por que você nunca teve uma empregada doméstica ou várias, todo o tempo.

— Privacidade — ele respondeu. — Esse é um dos poucos lugares onde posso ficar totalmente sozinho se quiser. A faxineira vem e limpa quando não estou.

Erika ficou pensativa.

— Em que está pensando?

— Besteira — ela respondeu.

— Me conta — ele insistiu sentando-se ao lado dela.

— Você disse que tenta deixar as pessoas que são especiais para você longe da mídia. Estava pensando em quantas mulheres você manteve afastadas do as­sédio da imprensa.

Ela a fitou.

— Não muitas.

— "Não muitas" não é um número.

— Três.

Ela o olhou, surpresa.

— Eu achava que fossem mais.

— Achava errado.

— Interessante. Você ainda mantém contato com alguma?

— Com todas. Meus namoros sempre terminam de forma civilizada. Uma acabou de se casar. A outra está morando em Paris.

— E a terceira mulher?

— Está ao meu lado. — Ele a encarou e sentiu a eletricidade perpassando os olhares que se cruzaram.

— Nenhuma fez escândalo.

— Não.

— Eu bem que poderia — ela confessou. — Esta­va tão magoada, ferida, que queria gritar, bater na pa­rede, quebrar pratos, jogar uma taça de cristal cheia de champanhe em você, uma torta na sua cara...

Ele a olhou com espanto.

— Você está brincando. É uma das mulheres mais civilizadas e racionais que conheço.

— É, mas acho que você tem o dom de despertar meu lado irracional e primitivo.

Ele tentou visualizá-la quebrando coisas, esper­neando, mas não conseguiu.

— Você é madura demais para isso.

Erika deu um suspiro.

— Pode ser. Talvez seja o efeito do licor. Mas você sabe, para tudo há um yin-yang, um claro e um escuro. — Ela riu com ironia. — Te assustei?

— Não chegou nem perto — ele respondeu, sen­tindo a temperatura aumentar.

Sempre procurava se relacionar com mulheres que sabia que poderia con­trolar, no final das contas. No ano passado, tinha as­sumido o controle da situação com Erika. Não tinha tanta certeza que seria tão fácil agora e nunca iria se perdoar se acabasse ainda mais gamado por ela do que antes. Que instinto autodestrutivo era aquele? Onde ia parar?

— Acho que chegou a minha hora. Vou deixar você dormir.

— Obrigada, boa noite.

Ele foi andando para o quarto, pensando em como desejava arrancar toda a roupa dela e fazer amor com ela, lá mesmo, no sofá. Aquela cena o manteve acor­dado durante horas.

 

Erika acordou cedo e deixou um bilhete agrade­cendo por tudo, com uma caixa de chocolate em pó para Gannon. Ao pegar o táxi, sentia uma avalanche de emoções. Todas por ele. Queria estar com ele, morria pela atenção e carinho dele e se odiava por es­tar se metendo naquela enrascada novamente. Já não tinha aprendido a lição? Entra naquele jogo com Gannon Elliot era como dançar descalça em carvão quente. Não tinha como não se queimar.

No entanto, era tão gostosa a sensação antes da brasa e da queimadura. Ela amava o jeito como ele olhava para ela, implicava com ela, e mesmo, jogava palavras cruzadas com ela. Sabia que ele a desejava ardentemente e essa certeza a enlouquecia. Gannon era o ho­mem mais atraente que ela já havia conhecido em toda a sua vida. Aquela sedução toda combinada com genes superiores era a razão pela qual queria Gannon para ser o pai do seu filho. Mesmo que a fertilização acontecesse num tubo de ensaio.

O problema era que Erika, por experiência própria, sabia que a fertilização pelo processo natural seria tão mais agradável e prazerosa.

Deu um suspiro agoniado e entrou no edifício de casa, dizendo a si mesma que tinha de controlar os hormônios. A sorte voltou a sorrir para Erika e o au­tocontrole voltou quinze minutos depois. Entrou no chuveiro, recarregou as energias e se preparou para um longo e pesado dia de trabalho. Ia se concentrar integralmente nas tarefas profissionais, não em Gan­non.

O celular tocou quando estava se maquiando. Ela se assustou ao ver quem era no identificar de chama­das. Gerald. Atende, disse para si mesma.

— Alô.

— Oi Erika, como conseguiu sobreviver ao tem­poral de ontem? Fiquei preocupado quando ouvi que faltou luz no seu bairro todo.

Que gentil da parte dele, pensou ela, sentindo re­morso, por ter passado a noite toda com Gannon.

— Eu consegui chegar em casa, por sorte. A ener­gia já voltou. E aí?

— Aqui em casa, não tive problema de energia, ainda bem. Queria saber se o nosso encontro podia ser remarcado para hoje à noite. Queria te levar para jantar. Só que vai ter que ser um pouco tarde.

Erika fez uma pausa e segurou a vontade de recu­sar. Por que não queria aceitar o convite? Gerald era um cara muito legal e um príncipe em potencial. Além disso, se qualquer coisa desse errado, poderia ser inclusive um doador em potencial.

— Que horas, mais ou menos?

— Oito. Sei que é tarde, mas vou escolher um lu­gar que valha à espera.

Fofinho, pensou.

— Gostei da idéia.

— Que bom. Ligo para você mais tarde, depois que confirmar a reserva.

— Vou ficar esperando. Até mais tarde.

— Quero muito te ver... Até mais. Um beijo.

Erika franziu a testa ao desligar o telefone. Ela também queria sentir vontade de ver Gerald. Quem sabe, se ficasse falando para si mesma que queria vê-lo também, não acabaria acreditando.

— Quero muito ver o Gerald hoje — ficou repetin­do em voz baixa, durante o caminho para o trabalho.

Mal chegou a sua sala e tirou a jaqueta, o telefone tocou. Erika atendeu.

— O senhor Elliot está na linha 1 — a secretária avisou do outro lado da linha.

— Qual deles?

— O senhor Michael Elliot.

— Ah, obrigada — Erika sentiu-se aliviada. — Olá, senhor Elliot.

— Pode me chamar de Michael, apesar de suspei­tar que vá me chamar de outras coisas no final do dia.

Erika sentiu exasperação na voz dele.

— Algum problema?

— Temos duas matérias de capa que precisam ser impressas, mas estão um desastre. Quero que você e Gannon cuidem disso para mim.

— Gannon?

— É. Espero que você não tenha feito nenhum pla­no para hoje.

— Claro que tinha planos, mas isso é urgente. Pos­so remarcar os outros compromissos.

— Que bom. Já falei com Gannon. Você pode tra­balhar no escritório dele.

— Sim, senhor. — Desligou o telefone, com uma pulga atrás da orelha.

Será que Gannon tinha armado aquilo, com a cumplicidade do pai, para que eles fi­cassem juntos? Claro que não, pensou. Estava fican­do paranóica ou até se valorizando demais. Gannon não precisava desse tipo de artimanha para que uma mulher ficasse com ele. Apanhou uma caneta e um bloco de notas e foi para o escritório dele.

Quando chegou, a secretária de Gannon acenou para que ela entrasse na sala. A mesa de Gannon es­tava empilhada de papéis e fotografias.

— Como isso foi acontecer? — Erika perguntou.

— As matérias ficaram prontas em cima da hora. Foram feitas por um repórter substituto, o fotógrafo é novo. — Ele balançou a cabeça, irritado. — A boa notícia é que o fotógrafo tirou muitas fotos. Alguma deve prestar.

— Por onde começo? — perguntou Erika, se sen­tando ao lado de Gannon.

 

Erika e Gannon trabalharam sem intervalo e nem al­moçaram, reescrevendo e editando os textos. Erika fez algumas ligações para checar as fontes e tirar al­gumas dúvidas. Gannon enviou as fotos escolhidas para o editor de fotos.

O tempo voou. Se ela tivesse parado para pensar em quão bem os dois trabalhavam juntos — como se fossem uma mesma pessoa com dois cérebros — te­ria ficado ainda mais assustada. Mas estava ocupada de mais para perceber.

Com tanta coisa para concertar e aprimorar, não deveria ter nem reparado em Gannon. Mas reparou. O perfume da colônia pós-barba a fazia querer chegar mais perto de Gannon, se embriagar do cheiro dele. Ele tocava os cabelos e ela sentia vontade de acari­ciá-los.

Acidentalmente, ele esbarrou a mão sobre a dela e Erika ficou eletrizada. Quando os olhares se cruzavam, o coração parava pelo que via no fundo dos olhos de Gannon. Como se ambos soubessem que não poderiam bai­xar a guarda, desviavam o olhar e fingiam que nada estava acontecendo. No final do dia, ela já não conseguia ficar sem olhar para os lábios de Gannon, en­quanto ele falava.

Às seis e meia, quando finalmente terminaram o que consideravam ter sido uma missão impossível, Erika sentia-se tonta. Gannon desabou na cadeira e tirou a gravata que já estava frouxa havia horas. Ele encontrou-a olhando para ele e deu de ombros.

— Parabéns para nós!

Ele sorriu em resposta.

— Parabéns para nós. Só falta uma garrafa de champanhe para comemorar.

— Tenho uma! — Foi até a mini-geladeira do ou­tro lado do amplo escritório e apanhou uma pequena garrafa de champanhe. — Cristal.

Ela olhou com uma expressão de dúvida.

— Não acha um pouco extravagante?

— Está querendo dizer que não merecemos? — perguntou ele, retirando o lacre da garrafa. Pegou uma toalha e retirou a rolha.

— De qualquer forma, é tarde demais para debater sobre isso agora. — Erika se levantou. — Tem copos?

— Na prateleira de baixo — respondeu ele apon­tando com os olhos o local.

Erika foi até o armário e, ao abri-lo, avistou duas taças de cristal.

— Nossa, são lindas!

— Minha mãe que me deu. Acho que foi uma indireta. — Ele serviu primeiro a Erika e depois encheu sua taça. — Senta — ele disse, apontando para a ca­deira mais próxima. Os dois se sentaram.

— Um brinde — ela disse, erguendo a taça. Gosta­va do terno preto que ele estava vestindo. Na verdade gostava ainda mais dele sem nada.

Eles brindaram.

— À nossa amizade.

Ela deu um gole e outro.

— Muito bom. Claro.

— Delicioso.

— Que indireta sua mãe quis dar?

— Que está na hora de eu sossegar e casar.

— Ah. E o que disse para ela?

— O que sempre digo quando ela vem com essa história. Quando o tempo e a mulher certa chegarem, eu me caso.

Ela deu outro gole, com uma sensação estranha que a incomodava.

— Também tenho que passar por isso com a minha mãe.

— E o que diz a ela?

— Mudo de assunto e pergunto como vão as parti­das de bridge. — Pensou no contrato que ia fazer com Gannon que não ficava pronto nunca.

— Boa saída. Vou lembrar dessa para as próximas vezes que minha mãe vier com esse papo. — Ele le­vantou o copo. — Vamos ter que terminar essa garra­fa. Não podemos desperdiçar.

— E acabar de ressaca? Não sei. Se bem que é um Cristal. Talvez valha à pena.

Deu mais um gole e sentiu os primeiros efeitos.

— Uau. Estou de estômago vazio. Isso não vai prestar.

— Posso cuidar disso — ele disse de um jeito que a fez pensar que havia várias outras coisas das quais ele poderia cuidar por ela.

O desejo começou a tomar conta e Erika fechou os olhos antes de dar mais um gole.

— Nossa que dia. Estou exausta. Acha que seu pai vai ficar satisfeito?

— Vai ficar extasiado. — Ele fez uma pausa. — Do jeito dele, é claro.

Ela sorriu, achando graça do tom seco de Gannon e abriu os olhos.

— Ele não é do tipo que pula de alegria e dá cam­balhotas quando está feliz, é?

— Não, mas sempre faz questão de mostrar quan­do está feliz ou descontente.

— E está quase sempre satisfeito com o que você faz — ela arriscou.

— Algumas vezes eu o deixei bem desapontado. Mas, eu sou o mais velho. A cobrança é sempre maior.

Ela entendia, pois era a mais velha também.

— Eles criam muitas expectativas em cima da gente.

Gannon concordou e então tocou o rosto de Erika.

— E você?

Ela devia ter se esquivado, pensou. Mas gostava do toque dela em sua pele.

— Também sou a mais velha dos irmãos, mas te­nho sorte. Não trabalho para meu pai ou minha mãe. Ao mesmo tempo, você pode tirar a garota de India­na, mas Indiana não sai da Garota.

Ele sorriu.

— Coração frágil por detrás do terninho preto. Chocolate quente. Sente falta dos seus pais?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Às vezes. Mas também acho que ficar longe um pouco faz bem.

— Não posso discordar.

— Mas você também não sai debaixo da asa dos seus pais.

Ele deu de ombros.

— Nunca pensei em outra alternativa. Nunca quis outra coisa.

— Nunca? Nunca teve uma fase rebelde, na ado­lescência ou na juventude?

— Tudo bem — ele ponderou. — Teve uma vez, por uma semana ou duas, que pensei seriamente em me tornar um professor de pesca em Montana.

Ela caiu na risada.

— Estou tentando visualizar você de galochas em vez desse terno de marca.

Ele moveu a mão para a boca de Erika, tocando o lábio inferior com os dedos.

— Está zombando de mim outra vez? Também teve uma vez, quando estava no segundo grau que de­cidi que ia fazer parte de uma banda de rock.

— Não sabia disso. Nunca comentou isso comigo, quando a gente... — Erika se calou de repente. — Quando estávamos juntos. Tem muita coisa que não sei de você.

— Você não parece feliz com isso — ele murmu­rou, os olhos fixos nos lábios de Erika.

Não, não estava e aquela pergunta a irritou.

— Não há muito que possa fazer a respeito.

— Pode mais do que imagina — ele disse e se in­clinou na cadeira para terminar o resto do champanhe na taça.

Que comentário obscuro, pensou ela, observando os músculos do pescoço de Gannon enquanto ele en­golia o líquido. Lembrou que ele gemia de prazer quando ela o beijava no pescoço. Os sons que ele fa­zia durante o sexo a deixavam morta de vontade de dar prazer a ele.

Gannon apanhou a garrafa de champanhe e voltou a encher ambas as taças.

— Falta pouco. — Ele a olhou e se curvou para perto. Mais perto. Estava tão próximo que a visão de Erika ficou turva.

— Eu vou te beijar.

— Não estou implorando. — Foi a única resistên­cia que demonstrou.

— Não estamos no meu apartamento. — Desceu o rosto até que seus lábios estivessem na altura dos de Erika.

Ela sentiu os pulmões se esvaziando. Ele a beijou sem pressa, acariciando-a com a boca, explorando cada centímetro dos lábios de Erika. A língua de Gannon a fez abrir a boca, convidando-o a entrar.

Ele ofegou e Erika se derreteu toda, ficando úmida subitamente.

— Tome um pouco do champanhe. Quero provar na sua boca.

Uau. UAU. Com a mão que não estava nem um pouco firme, levou a taça até a boca e deu um gole.

Ele a pegou pelo queixo e voltou a beijá-la, usando a língua para sentir os lábios e a língua de Erika.

O beijo se estendeu por um tempo que ninguém se preocupou em contar e Erika sentia como se estivesse dopada por alguma droga que a fazia se mover em câmera lenta. Nada se movia em ritmo acelerado, a não ser seu coração. Sentiu a taça ser retirada de sua mão.

Sem parar de beijá-la, Gannon agarrou Erika e a colocou em seu colo. Os dispositivos de defesa logo se ativaram.

— Acha mesmo que é uma boa idéia?

— A gente só está se beijando.

Contudo, o corpo queria mais, pensou ela. Muito mais. Ele levou as mãos à nuca de Erika e tornou o beijo ainda mais picante.

Automaticamente, as mãos de Erika se perderam nos cabelos de Gannon. Ele respirava ofegante e, quando Erika se deu conta, as mãos dele já estavam rentes aos seios. Os mamilos ficaram duros, na mes­ma hora. Um, dois, três segundos se passaram, e ela sentiu os primeiros toques de Gannon em seus seios.

As pernas de Erika ficaram bambas e entre elas ha­via um rio de desejo.

— Quer mais? — ele sussurrou.

A oferta proibida a deixou irresistivelmente ten­tada.

— Não consigo raciocinar com você me tocando desse jeito.

— Isso é bom ou ruim?

— Os dois — ela murmurou, mordendo os lábios, enquanto ele massageava seus mamilos com o polegar.

— Me diz que quer que eu pare — ele a provocou parando o que estava fazendo.

Agora era o momento para se comportar como uma adulta. Ser responsável. Mas não queria pensar. Só queria senti-lo, de todas as formas, em todas as partes. Fechou os olhos.

— Não posso dizer que quero que você pare — ad­mitiu com uma voz fraca.

Ele tomou os lábios de Erika novamente e a beijou como se tomasse uma bebida proibida, mas irresistí­vel. Num passe de mágicas, ele desabotoou a blusa de Erika e tirou seu sutiã. Com mãos vorazes, ela arran­cou sua camisa. Faltava a camiseta que estava por de­baixo.

Rapidamente, ele retirou a camiseta e Erika não perdeu tempo em explorar os músculos do peito e do abdômen de Gannon. Ele parecia que ia desmaiar quando ela parou as mãos na altura da cintura dele.

Ele mergulhou o rosto nos seios dela, tomando um deles com a boca. A língua atiçando e acariciando os mamilos causaram em Erika uma febre que deixou todo seu corpo queimando de volúpia. Não conseguia fi­car quieta, mexendo-se sensualmente no colo de Gannon, roçando no sexo rijo, que pedia para ser li­bertado.

Ele soltou um gemido que mais parecia um rugido.

— Você me deixa tão... — Ele se levantou e a pôs de pé, puxando a meia-calça e depois a saia de Erika. Ela já estava descalça, pois havia tirado a bota horas antes.

Gannon retirou do bolso da calça uma camisinha, sem tirar os olhos famintos de cima dela. Tirou o cin­to e desceu a calça e a cueca. Voltou a se sentar na ca­deira e a acomodou em seu colo.

Beijou-a, enquanto os dedos encontravam o local mais quente e úmido de Erika.

— Molhadinha e gostosa — murmurou em estado de êxtase. Com a língua fazia o mesmo movimento que os dedos que acariciavam a parte mais íntima de Erika.

Erika estava tão excitada que mal conseguia respi­rar. Estava ansiosa para ser possuída por ele.

— Quero você dentro de mim — sussurrou, com a voz embargada. — Isso é loucura — disse, mais para si mesma do que para ele.

Gannon a levantou pela cintura, encaixando Erika onde queria, penetrando-a. Ele estremeceu.

— Não tem idéia de como é marav...

Ela se levantou e voltou a descer, deslizando para baixo e para cima, sentindo os nervos à flor da pele.

— Posso imaginar — disse sensualmente.

Quando ela fez o movimento para baixo, Gannon fez um movimento contrário, entrando fundo em Erika, com força. Alternava os beijos e a língua de um seio para o outro, chupando-os, mordiscando-os. Erika estava enlouquecida de prazer.

Com uma das mãos, tocou o seio dela e com a outra desceu por entre as pernas de Erika e a acariciou no ponto mais sensível e erótico. Erika sentiu uma ex­plosão por dentro. Continuou se movendo até que todo o seu corpo se tencionou, chegando ao clímax.

Escutou ao longe, Gannon murmurar alguma coi­sa, porém não soube identificar se era um palavrão ou uma prece. Ou os dois. Ele subiu a cintura, penetran­do fundo em Erika, em êxtase, até que desabou, rela­xando completamente.

Agarrou com força as nádegas de Erika e aí sim soltou um palavrão abafado.

— Uau. Isso foi incrível. — O olhar dele para ela era de satisfação e desejo. — Você é demais. De­mais...

Gannon foi interrompido por uma batida na porta. Erika ficou em estado de choque. Foi como uma bal­de de água fria.

— Ai, não...

Ele tapou a boca de Erika com o dedo indicador e balançou a cabeça. Outra batida.

— Senhor Elliot? O serviço de limpeza está aqui para limpar seu escritório.

— Me dê 15 minutos, por favor. Obrigado. Estou quase terminando um projeto.

A culpa logo se apossou de Erika. Que diabos es­tava fazendo? Não tinha aprendido nada? Já havia se apaixonado por Gannon antes e ele a tinha magoado tanto que não tinha conseguido se envolver com ou­tro homem desde então.

Mas aquilo havia ido longe demais. Nunca tinham estado tão íntimos no trabalho.

Sendo consumida pelo arrependimento, se levan­tou de repente e quase se desequilibrou. Gannon se levantou e a segurou.

— Você está bem?

Ela evitou olhá-lo de frente.

— Já estive melhor. É melhor me vestir.

Ele foi até à porta e a trancou.

— Está tudo bem. Ninguém viu a gente.

— Mas podiam ter visto — ela respondeu, contra­riada, vestindo-se rapidamente. — E eu aqui transan­do como chefe e...

— Tecnicamente, não sou seu chefe — Gannon respondeu. — Fiz questão de deixar isso claro, quan­do você voltou para a Pulse.

Ela olhou com cara feia para ele.

— Podia ter sido qualquer outra pessoa atrás da­quela porta. E se tivessem aberto a porta?

— Ninguém entra na minha sala sem bater.

— E o seu pai? E os seus vários primos ou sua irmã? Ou seu irmão? — Ela tentou controlar a histe­ria no tom da voz.

Ele vestiu a calça e estava rapidamente recompos­to, ao contrário de Erika, que tinha as mãos trêmulas e estava à beira de um ataque de nervos. Estava tendo problemas em fechar o zíper das bo­tas e Gannon a segurou pelas mãos.

— Você precisa se acalmar, Erika. Não aconteceu nada. Eu ia te proteger, mesmo assim. O que existe entre a gente... — ele deu de ombros. — A gente per­deu as rédeas. É só ficar entre nós e tudo bem.

— Não há nada para ficar entre nós. Já passei por isso antes — ela respondeu, impaciente.

— Mas você quer um filho meu.

Ela ficou sem fala e desviou o olhar.

— Quero os seus genes. Afinal, nós dois sabemos que não é a hora certa e que eu não sou a mulher certa.

O silêncio que imperou em seguido tornou-se qua­se insuportável para Erika.

— Será que a gente sabe mesmo? — ele perguntou.

A pergunta paralisou o coração de Erika. Acendeu uma luz de esperança que ela preferia não ter para seu próprio bem.

— Sabemos que não é a hora certa e se fosse a mu­lher certa, a mulher da sua vida, qualquer hora seria a hora certa. — Finalmente, conseguiu fechar as botas.

— Erika — ele disse, tocando-a nos ombros.

Ela fechou os olhos, se controlando para não chorar.

— Não Gannon, para você não passa de uma atração louca e divertida, com sexo passional. Eu vejo completamente diferente. — Ela olhou para o reló­gio. Sete e quinze. De repente lembrou-se do encon­tro com Gerald. Soltou um palavrão e começou ajun­tar seus pertences. — Mas que ótimo. Era só o que me faltava.

— O que foi?

— Tenho um encontro marcado para daqui a 45 minutos.

Gannon não disse uma palavra.

— Você não vai sair com esse cara depois que a gente...

Ela mordeu os lábios e acenou com a mão.

— Vou sobreviver. — Sem conseguir encará-lo, engoliu em seco. — Bem, a gente se vê na segunda.

Ele foi atrás dela e ela se desvencilhou.

— Não. Por favor, não me toque. Preciso ir embora.

 

— Sim, Jéssica, tive que cancelar meu encontro com o Gerald. Desculpa, mas não deu para ir. Tive um imprevisto no trabalho. — Uma idiotice aconte­ceu na última hora e Erika se mortificou durante todo o fim de semana por ter deixado Gannon entrar na vida dela daquele jeito novamente. E no escritório dele.

Erika revirou os olhos, desgostosa. A única coisa boa que tinha para contar sobre aquela segunda-feira era que não tinha esbarrado nenhuma vez com a ra­zão da sua insensatez.

— Mas você vai voltar a sair com ele, não vai? — Jéssica perguntou. — Fiz o maior sacrifício para con­vencer o cara a sair com você sem nem te conhecer, Erika. Precisa tirar proveito disso. Ele é médico.

Erika não conseguia se animar com a idéia de sair com Gerald outra vez. Tinha medo que toda vez que olhasse para ele fosse lembrar do motivo por que ti­nha dado um bolo nele e, consequentemente, lembrar de quão idiota havia sido.

— Não sei, Jéssica. As coisas aqui no trabalho es­tão uma loucura. Ando super ocupada e...

— Ai, Erika, pára de usar o trabalho como desculpa. Gerald já está achando que você não quer nada com ele. E, francamente, o que é que você não gosta nele? Ele é um perfeito MABS com cérebro e senso de humor!

— Eu sei, Jéssica, mas...

Ouviu alguém batendo na porta e, em seguida, o rosto de sua secretária apareceu.

— Desculpa incomodar, mas tem uma senhora no telefone que diz ser a tia da menina de quem você é mentora. Ela parece estar meio nervosa.

O coração de Erika se comprimiu de preocupação.

— Jéssica, tenho que ir. A gente se fala depois. — Desligou e trocou de linha. — Alô.

— Senhorita Layven, Tia foi atropelada por um caminhão — a mulher falou com voz de choro. — Ela não vai poder encontrá-la hoje.

Erika entrou em pânico.

— Meu Deus! O que aconteceu? Onde vocês estão?

— Foi hoje de manhã, quando ela estava indo para a escola. Estou na sala de emergência. Não sei o que vai acontecer. Ninguém me diz nada.

— Me diga exatamente onde você está que vou para aí assim que puder.

 

Gannon soube que Erika não estava na empresa quando pediu à secretária que fosse levar uma pro­posta de matéria para ela.

— Quanto tempo ela vai ficar fora? — ele pergun­tou, preocupado pela ausência dela.

A secretária deu de ombros.

— Não tenho certeza, mas Rose disse que ela só deve voltar amanhã.

Gannon ficou preocupado. Erika nunca faltava ao trabalho. Depois de uma reunião com um dos colu­nistas da revista, ele deu o braço a torcer e foi até a sala de Erika.

— Queria uma opinião da Erika sobre uma maté­ria. Sabe me informar quando ela volta? — pergun­tou à secretária, Rose.

— Não. Ela foi para o hospital. Disse para anotar os recados e que no final do dia ela voltaria aqui, se tivesse tempo.

— Hospital? — ele perguntou alarmado.

— Pelo que entendi alguém chamada Tia foi atro­pelada por um caminhão.

Gannon lembrou da menina que Erika estava acon­selhando.

— Sabe como ela está?

Rose balançou a cabeça com uma expressão triste.

— Não, mas ser atropelada por um caminhão deve ser algo grave.

Gannon franziu a testa.

— Por acaso, ela mencionou o nome do hospital?

— Anotei em algum lugar. Um instante. — Bus­cou entre os blocos que tinha sobre a mesa até encon­trar o papel. — Aqui está. Hospital São José.

— Obrigado — disse, memorizando o nome.

Voltou para o escritório e se sentou, tentando não pensar no estado de desespero no qual Erika devia es­tar. No entanto, não conseguia pensar em outra coisa. Pegou o telefone e ligou para o celular dela. Ninguém respondeu. Não era um bom sinal. Mas não era problema seu, o lado pragmático de Gannon lhe dizia. Checou sua agenda no computa­dor. Tinha vários compromissos durante todo o dia.

 

Tia Brenda não agüentou ver a sobrinha sangran­do, então, Erika ficou ao lado de Tia antes da cirur­gia. Depois ficou andando de um lado para outro no corredor da sala e abraçando Brenda.

— A culpa foi minha. Estava com pressa para le­var Jason para a creche e saímos correndo. Perdi a hora e estava atrasada.

Erika pôs a mão sobre o ombro da jovem tia.

— Pare de ficar se culpando. Você não podia ter feito nada. O próprio policial disse que o motorista estava bêbado — Erika tentou consolá-la, porém ela mesma estava uma pilha de nervos.

— Só espero que ela fique boa. É uma boa menina. Inteligente. Tem todo um futuro pela frente.

— Como ela está? — perguntou uma voz masculi­na por detrás das duas.

Erika reconheceu a voz de Gannon. Mas não podia ser. Estava imaginando coisas. Precisava comer algu­ma coisa.

— Erika? — a voz insistiu.

Ela se virou e ficou chocada ao vê-lo.

— Gannon?

— Sua secretária me disse que você estava aqui e fiquei preocupado.

Ainda sem conseguir acreditar em seus olhos, olhou para o relógio.

— São três horas da tarde. Você nunca sai do tra­balho cedo.

— Achei que pudesse ser sério e resolvi vir.

Erika estava surpresa demais para conseguir pen­sar com clareza. A preocupação nos olhos de Gannon emocionou Erika e a pegou desprevenida.

— Quem é? — perguntou Brenda.

— Me desculpa — disse Erika. — Brenda Rogers, tia da Tia, esse é meu... Esse é Gannon Elliot. Traba­lha comigo.

Brenda ergueu as sobrancelhas como se reconhe­cesse o sobrenome de Gannon. Elliot.

— Já ouvi falar desse nome antes?

— A família Elliot é dona de várias revistas.

Gannon estendeu a mão para cumprimentá-la.

— Sinto muito pelo que aconteceu com sua sobri­nha.

— Estou um caco, mas Erika tem sido um anjo.

— Tenho certeza que sim. E como está Tia?

Erika achou melhor responder.

— Quebrou uma perna. Sofreu uma fratura expos­ta. Além disso, está com uma contusão e alguns cor­tes que vão precisar levar pontos. Foi um milagre ela ter sobrevivido.

— Foi um caminhão?

O motorista estava bêbado. Às oito da manhã Erika respondeu com raiva.

Mas ela vai ficar bem?

Parece que sim. O médico ficou de falar conosco depois da cirurgia.

Eu só quero saber que ela vai ficar boa — Bren­da disse, retorcendo as mãos. — E que o seguro-saúde do meu novo emprego pague a conta do hospital. — Deu um suspiro agoniado. — Preciso tomar um pouco de ar fresco. Nunca gostei de hospitais. Por fa­vor, me avise se o médico der notícias — ela disse à Erika e depois se virou para Gannon. — Muito prazer e obrigada por ter passado aqui.

Erika ficou olhando a mulher se retirar.

— Estou com uma pena dela — disse. — Está cui­dando da filha da irmã, que está presa, e aí acontece uma tragédia dessas.

Gannon pôs as mãos nos bolsos do sobretudo.

— E com relação ao seguro-saúde?

— Acho que eles não vão querer pagar, porque a Brenda está a pouco tempo nesse emprego.

— Avise-me se tiver algum problema. Posso arcar com as despesas.

Ela o olhou, boquiaberta.

— Por quê? Você mal a conhece?

— Mas você a conhece bem e ela é importante para você.

O estômago de Erika revirou como se estivesse numa montanha-russa. Aquelas palavras indicavam, claramente, que ela era importante para ele.

— Não sei o que dizer, a não ser, muito obrigada.

— Brenda Rogers — Uma voz soou no ambiente.

Erika se virou para o médico.

— Ela foi lá fora, mas já volta. Vou chamá-la.

Erika foi correndo ao primeiro andar em busca de Brenda. Ao voltarem, encontraram Gannon conver­sando com o médico.

— Tia está com um quadro estável — disse o mé­dico. — Vai precisar de algumas sessões de fisiotera­pia, mas em uma ou duas semanas já deve estar an­dando. Ficariam impressionados com a rápida recu­peração da menina — disse com um sorriso. — Ela está meio grogue por causa da anestesia, mas tenho certeza que adoraria receber visitas.

— Graças a Deus — disse Brenda aliviada e deu a mão a Erika. — Você vai comigo?

— Claro — e olhou para Gannon.

— Me liga mais tarde — ele disse.

Ela fez que sim com a cabeça, ainda confusa com a vinda dele. Nunca quis supervalorizar sua impor­tância na vida de Gannon. Pelo visto, havia se equi­vocado redondamente.

 

Quando saiu do hospital já era meia-noite e estava um trapo humano. Pegou um táxi e checou as mensa­gens no celular. A secretária havia deixado uma série de mensagens e Jéssica tinha ligado para voltar a fa­lar sobre Gerald.

Gannon havia deixado duas mensagens. Uma à tarde e outra havia duas horas, em que dizia para ela ligar quando chegasse em casa. Erika ouviu as mensagens dele duas vezes e fechou os olhos ao ouvir sua voz. Adorava a voz de Gannon, grossa e um pouco rouca.

Olhou para o relógio e balançou a cabeça. Já pas­sava da meia-noite. Não podia ligar para Gannon Elliot àquela hora.

No dia seguinte, se arrastou para fora da cama, li­gou para o hospital para saber de Tia e tomou três xí­caras de café. Nem se preocupou com o cabelo e o deixou todo encaracolado e rebelde. Pôs um blush, um batom e um rímel. Vestiu um suéter vermelho e uma calça preta. Saiu de casa e foi para a estação de trem.

Já no escritório, ouviu alguém batendo na porta e, em seguida, Gannon entrou. O coração deu um salto ao vê-lo.

— Você não me ligou.

— Era quase uma da manhã quando saí do hospital.

— Podia ter ligado, assim mesmo.

— Você estava acordado? — ela perguntou, sur­presa. — Eu adoraria estar dormindo a essa hora. No caminho para casa, ontem, acabei caindo no sono, no táxi.

Ele abriu um sorriso tímido.

— Estava tão cansada?

Ainda estou. Hoje à tarde vou estender meu col­chão de yoga no chão, um aviso de "não perturbe" na porta e tirar um cochilo.

— Achei que yoga fosse para meditar.

— Nesse caso, vou meditar nos meus so­nhos.

— E como está a Tia?

— Estava um pouco assustada. Tentou se fazer de forte na frente da Brenda, o que partiu meu coração. Fiquei lá até ela adormecer.

— Você tem um coração de ouro.

Ele a estava tratando de um jeito diferente e ela não sabia como reagir. Aquelas palavras e a atitude de Gannon estavam fazendo com que Erika acreditasse que havia mais do que apenas química rolando entre eles. Olhou para o chão e tentou não pensar nisso.

— Pode soar estranho, mas a Tia me inspira. Ela vem de uma realidade dura e traumática, com a mãe na cadeia, sem pai e uma tia que se sacrifica para criá-la com dignidade. Mas sei que Tia quer crescer, quer uma vida melhor. Tem trabalhado exaustiva­mente no artigo para a Casa & estilo. É uma guerreira e não tem medo de ir atrás do que quer. Não é admi­rável?

— Talvez você veja um pouco de si nela?

Ela abriu a boca e voltou a fechar sorrindo.

— Obrigada pelo elogio. Mas tive oportunidades que Tia nunca teve na vida.

— Mas você tem o espírito guerreiro e um grande coração.

O olhar de Gannon estava causando estranhas sen­sações em Erika. Desviou o olhar novamente.

Obrigada. Obrigada, também, por ter se ofere­cido a pagar qualquer despesa que o seguro da Tia não queira cobrir. Isso vai significar muito para a Brenda.

Não há de quê. Quais são seus planos para hoje à noite?

— Trabalho, depois hospital.

— Quanto tempo ela vai ficar no hospital?

— Mais uns dois dias. Depois que ela voltar para casa, vou tentar ficar com Tia, à tardinha, para a Brenda descansar um pouco.

— Me liga, e estou falando sério — ele disse com uma voz severa. — Mando meu carro te buscar e te levar para casa.

— Não precisa. Você não tem nada... — ela deu de ombros. — Com isso.

— Deve nevar hoje à noite. Vai recusar uma ca­rona?

O que estava fazendo com ela? Querendo deixá-la mais confusa ainda? Deixá-la louca? Porque era isso que ele estava fazendo.

Ao mesmo tempo, de jeito nenhum, recusaria uma carona num carro quentinho com uma nevasca cain­do. Além disso, sabia que estaria exausta quando saís­se da casa de Tia.

— Muito obrigada.

— De nada — ele respondeu e se retirou, deixan­do-a curiosa.

 

Por duas noites, o carro de Gannon, como num passe de mágicas, apareceu para levar Erika para casa. Ela disse a si mesma para não se acostumar. Mas, o assento era tão gostoso e a música a relaxava. Na segunda noite, quando Cari, o motorista, ofereceu-lhe uma taça de vinho, ela aceitou. Tinha falado com Gannon nas duas noites.

Quando Tia saiu do hospital, na quinta-feira, ele foi com Erika visitá-la em casa. Erika percebeu que ele conversava com Brenda, enquanto Erika jogava palavras cruzadas com Tia. Ao ouvir Brenda excla­mar algo, olhou para os dois e viu a tia de Tia dar um abraço em Gannon.

Perguntou a ele de que se tratava, no carro.

— Disse para ela não se preocupar com as despe­sas do hospital e que ia providenciar uma enfermeira para auxiliar Tia nas próximas semanas.

— Quando resolveu fazer isso?

— Ei, sei ser generoso, às vezes.

— Sei disso. Você ajuda uma dúzia de fundações.

— Na verdade, são nove. Mas nesse caso, tenho segundas intenções.

O coração de Erika disparou.

— Quais são elas?

— Estou preocupado com seu desempenho na Pul­se. Meu pai precisa de você cem por cento empenhada na Pulse para ganhar a disputa que meu avô inventou.

— Mas eu estou empenhada no trabalho — Erika respondeu indignada.

— E o colchão de yoga?

— Eu estava brincando — respondeu irritada. Ele sorriu.

— Eu sei.

Erika franziu a testa.

— O que você está fazendo?

— Vai admitir que está ficando exausta com a du­pla jornada no trabalho? Depois ainda ter de ficar com a Tia.

Erika não respondeu.

— Sabia que não ia admitir. Tudo bem, quero que Tia tenha alguém para cuidar dela e assim você tem mais tempo comigo.

A sinceridade de Gannon a deixou sem ar. Sentiu que perdia o equilíbrio.

— Achei que a gente tinha combinado que não ia voltar a fazer isso. — Ela olhou para o teto. — Não devíamos ter feito aquilo. Muito menos na sua sala.

Ele a tomou pelas mãos.

— Isso é mais do que sexo, Erika. Quero ficar com você. Sem interrupções. Sem ter que disfarçar ou me esconder.

Ela mordeu os lábios.

— Como? Não posso acreditar que agora você queira aparecer comigo em público.

— Não — respondeu ele. — Não quero expor ne­nhum de nós. Alguma vez comentei que tenho uma casa de praia em South Beach?

— South Beach, em Miami?

Ele fez que sim.

— Acho que a gente podia passar um fim de sema­na lá?

Erika ficou zonza.

— Que fim de semana?

— Amanhã.

— Amanhã?

— A gente pode ir com o meu jatinho particular.

Ela só conseguiu ficar olhando para ele com cara de boba. Simplesmente, não conseguia digerir aque­las palavras.

Ele a pegou no queixo.

— Você disse que nunca recusaria um convite para o sul da Flórida, durante o inverno.

Não sabia o que pensar. Praia, calor, sol, Gannon Elliot todinho para ela. Mas sabia que poderia ser um erro fatal, principalmente, porque era apaixonada por ele, e a dor seria ainda mais insuportável se ele a ma­goasse outra vez.

O contrato de doação de espermatozóide estava vi­rando uma novela. Toda a vez que Erika tocava no as­sunto, Gannon dizia que seu advogado estava cuidan­do de tudo, mas que ia demorar, devido à nature­za incomum do acordo.

Às vezes, Erika não sabia o que era pior: não poder ficar com Gannon ou ter que aceitar a doação de um completo estranho.

 

Nenhuma fila, nada de revistarem tudo, nada de co­mida congelada ou espera. Ao olhar pela janela do ja­tinho de Gannon, Erika sabia que aquela era uma das vantagens que a riqueza trazia, que não a incomodava nem um pouco. Ao contrário.

— Só por curiosidade — Erika disse, enquanto lia um artigo. — Quando foi a última vez que viajou em vôo comercial?

— Quando fui à Austrália, há dois anos — ele dis­se. — Não, espera. Londres, no ano passado. Foi uma viagem rápida.

— Fora do país não conta. — Sabia que em vôos internacionais havia primeira classe e todo o conforto que um milionário precisava.

Ele curvou as sobrancelhas, pensativo.

— Acho que ainda estava na faculdade...

Erika balançou a cabeça.

— Como você é mimado!

Ele pegou-a na nuca e a trouxe para perto.

— Não o suficiente.

Ela sorriu.

— É mesmo?

— Estar ao seu lado sem poder estar com você me deixa... — Ele fez uma pausa.

— Mal humorado? — ela arriscou.

Ele fez um som que parecia estar rosnando.

— Me deixa louco de desejo o tempo inteiro.

A revelação deixou-a um pouco emocionada e ela sorriu novamente.

— Por mim?

— Por você. — Mal terminou de pronunciar a últi­ma sílaba e a beijou.

Erika se entregou ao beijo quente e aconchegante e suspirou. Envolveu-o, com um abraço e se encostou a ele. Quanto mais longe ficava de Nova York, mas à vontade se sentia naquela fuga temporária. Estava cansada de saber que, quanto mais envolvida por aquele feitiço, mais machucada ficaria no futuro, caso Gannon decidisse terminar outra vez... Ou sim­plesmente perdesse o interesse por ela.

Ficou grudada nele, como se estivesse presa por uma cola especial. Naquele momento, a única coisa que importava era estar com ele, senti-lo, curti-lo.

Afastou-se um pouco, apenas o suficiente para po­der olhar para ele.

— Me fala da sua casa. É perto da praia?

— Não é bem perto da praia. É numa praia particu­lar. É um refúgio delicioso.

— Vai lá com freqüência?

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Comprei três há poucos anos como investimen­to. Acabei vendendo duas e fiquei com essa. Uns pri­mos meus já foram algumas vezes. Só fui uma vez, quando tive que ir a Miami a trabalho. Minha secre­tária já ligou para providenciar que não falte comi­da, vinho, nem cerveja.

Erika ficou preocupada.

Ela sabe com quem você...

Ela só sabe que alguém está usando minha casa em South Beach, nesse fim de semana. Mandei avisa­rem ao meu pai que volto na segunda-feira e que se quiser falar comigo, é para me ligar no celular. Eu pro­videnciei o jatinho pessoalmente.

— Então vou ter que passar bastante protetor solar no rosto para não ter problemas depois, né?

— É, mas não quero que você fique muito queima­da em outros lugares também. Assim, posso te tocar toda sem arder.

O jeito como ele olhou para ela dizia que tinha pla­nos pecaminosos para ela.

— Sabia que nunca estive em South Beach?

— Vou te mostrar os melhores lugares, melhores restaurantes, martínis e...

— E?

— E, quem sabe, vou deixar você enlouquecida, do jeito que gosto.

Como se ele já não tivesse conseguido isso.

A sorte os tinha acompanhado. Uma mudança no tempo havia trazido altas temperaturas, apesar da noite fria. A casa de Gannon combinava sofisticação com conforto, criando um ambiente aconchegante vista para o mar deixou Erika encantada. A varanda era enorme e perfeita para um banho de sol. Gannon foi até a varanda onde ela estava.

— Por que não se arruma? Hora de jantar?

— A gente vai sair? — ela perguntou com cara de cachorro abandonado, olhando para a vista magnificente.

— Prometi que ia te levar para o melhor restauran­te de South Beach, não prometi?

Erika foi para o quarto e pôs um vestido de malha preto e um casaco de algodão. Gannon vestia um suéter preto que realçava os músculos do ombro e do ab­dômen. Outra vista que a fascinava, pensou Erika.

Ele a levou para jantar num restaurante chiquérrimo, com vista para o mar e música ambiente. Depois foram para o bar Delano's, famoso pelos martínis que servia.

— Você está me mimando demais — ela recla­mou. — Como vou agüentar voltar para Nova York depois disso?

— Não pense nisso. Vamos fazer um trato. Nin­guém fala de trabalho ou de voltar para Nova York, até o domingo à tarde.

— Acho arriscado — ela murmurou. — Tudo isso é muito arriscado.

— Por quê?

Erika balançou a cabeça.

— Não sei explicar. Mas já que estamos aqui, queria perguntar umas coisas que não tive coragem, quando estavámos juntos, no ano passado.

Por que você não quis me perguntar naquela época?

Eu estava muito impressionada com você, tinha medo de te ofender, de te assustar.

Não te impressiono mais? — ele perguntou, com as sobrancelhas arqueadas.

Deixa de ser vaidoso. É sério. Quando te conhe­ci fiquei completamente embasbacada. Achava você o máximo, ainda me deixa... — buscou as pala­vras certas.

— Deixa o quê?

— Sem ar, zonza — disse, um pouco arrependida de revelar tanto sobre seus sentimentos por ele. — Vários outros sentimentos, mas não muda de assunto. Quero saber: o que um milionário, como você, espe­ra da vida?

— Paz na terra — respondeu sem titubear.

Ela riu e tocou nas mãos dele.

— Pessoalmente, profissionalmente?

— Pergunta difícil, essa. — Ficou em silêncio por um longo instante. — Não estou me esquivando da sua pergunta...

— Ainda bem.

Então deu um sorriso zombeteiro.

— Mas eu não costumo perder tanto tempo pen­sando no que eu quero.

— Porque já tem tudo?

Ele semicerrou os olhos, pensativo.

— Não sou um homem de muitas reflexões. Sou um homem de ação.

— Mas se tivesse que pensar sobre isso, o que ia querer?

— Não penso sobre isso. Suponho que um dia vou ter uma família. Quando meu pai se aposentar, devo tomar o lugar dele, se não tiver outro posto antes disso.

— Você gostaria de ser o presidente da editora Elliot, um dia?

— Claro que a idéia é atraente — confessou. — A possibilidade de ter tanta influência sobre a mídia é sedutora. Imagina o impacto das suas decisões em termos mundiais.

— Uma grande responsabilidade também.

— É por isso que checamos as fontes, fatos, cinco vezes. Um deslize, e toda uma nação pode ser afetada.

— Essa é uma das coisas que sempre admirei em você.

— O quê?

— Você exige mais de você do que do resto das pessoas.

Ele brincou com os dedos dela e demonstrou timi­dez, algo impensável para um Elliot.

— Você me contou dos seus planos profissionais. Ainda não falou muito dos seus sonhos pessoais, a não ser que quer ter uma família... Um dia.

— Ai, você está me fazendo pensar demais — se queixou. — Quando tenho tempo para pensar, e procuro estar ocupado o suficiente para que isso não ocorra com freqüência, me dou conta de que nunca há tempo para que eu amadureça uma relação do jeito que idealizo.

Ela ficou perturbada com aquela revelação, mas manteve a calma.

Um namoro duradouro?

Ele fez que sim.

— Uma relação precisa de tempo, precisa de cui­dados, atenção. Sou um cara ocupado demais para me dedicar a uma relação séria.

Ela retirou as mãos das de Gannon.

— Obviamente, disse alguma coisa errada.

— É que você parece tão confuso, perdido. Não gosto de fazer parte disso.

Ele deu de ombros.

— Você mexe comigo, é verdade. Deixa-me com a cabeça virada. Mas ficar com você me faz bem. Quando estamos juntos no escritório, tenho a maior dificuldade de conseguir ficar com as mãos longe de você. E não estou falando de sexo, sinto vontade de tocar a sua mão, quero compartilhar alguma piada ou situação engraçada. Tenho medo das pessoas perce­berem que existe alguma coisa entre nós. Isso seria um problema tanto para mim quanto para você. E a última coisa que quero é ver você voltando para a Casa & estilo.

— Não vou voltar para a Casa & estilo, enquanto você mantiver o trato. Por falar nisso, o que aconte­ceu com o contrato de doação.

Ele abriu a boca, mas voltou a fechá-la. Terminou o martíni.

— Bem lembrado. Vou dar outro telefonema para o meu advogado na segunda-feira, sem falta. — Acenou para o garçom. — Um martíni de maçã para a se­nhorita.

— Ainda não terminei o primeiro — ela protestou.

— Termina, então.

— Não está tentando me embebedar, está? — ela perguntou, sorrindo.

— Não, mas já fui bastante interrogado por hoje. Agora, você me diz. O que a senhorita Erika quer profissionalmente e pessoalmente, além de um bebê?

— Estou construindo minha carreira num lugar onde posso ter mais flexibilidade.

— Seguindo a filosofia de se tornar insubstituível até que eles façam tudo para você não ir embora. Pos­so dizer que já alcançou esse objetivo.

— Jura? Isso quer dizer que devia ter pedido mais dinheiro? — ela brincou.

— Você vai longe — ele disse. — E os planos pes­soais?

— Um homem. Um marido. Preferia ter um mari­do antes de um filho, mas não imaginei que fosse ter problemas para engravidar.

— Esse problema é grave?

Ela mordeu os lábios.

— Grave o suficiente para ter mudado os meus planos. Já até entrei numa associação de mães soltei­ras. Mas tenho que ver o lado bom das coisas. Minhas amigas já se voluntariaram para ser tias.

— Contou para elas?

— Durante uma noite regada a martíni — disse, lembrando da ressaca que tivera no dia seguinte.

E você nem terminou o primeiro, comigo.

Mas esse é tão grande que eu podia nadar den­tro dele.

Quer dizer que é só te dar bastante martíni para você começar a falar?

Encher-me de quatro taças de martíni, com cer­teza, e ressaca no dia seguinte. Aquela foi uma noite muito doida com as meninas.

Contou para elas de mim?

Não — ela respondeu com a testa franzida. — Elas nem sabe que temos alguma coisa. Se bem que, no ano passado, elas ficaram desconfiadas.

— Por quê?

— Porque estava deprimida.

Ele a calou com o dedo.

— Nada de assuntos tristes.

 

Gannon levou Erika a uma discoteca da moda, mas não teve nenhum problema em despistar os fotógra­fos que estavam atrás das várias estrelas de cinema, loucas para posarem para as câmeras. Teria sido mais inteligente ter transferido a festa particular dos dois para a casa de praia, mas Gannon nunca havia visto Erika dançando. Os dois martínis que ela havia tomado já estavam fazendo efeito, e Erika estava bem mais desinibida. Ele também queria tirar alguns se­gredos da boca de Erika antes de saborear seu corpo.

Sabia que se a levasse para casa, a levaria direto para a cama — e não dormiriam.

Ela riu quando ele a agarrou pela cintura, no meio da pista de dança.

— Este lugar está lotado!

— Acho que é de propósito para ficar bem perti­nho de mim — disse enquanto cheirava a nuca de Erika. O perfume que ela usava era delicioso. — Você tem um cheiro maravilhoso.

— Você também — ela respondeu. — Sua colônia pós-barba me tira do sério.

— É mesmo? — ele sussurrou, colocando as mãos em seus quadris.

Ela moveu-se sutilmente, fazendo-o reconsiderar a idéia de ficar um pouco mais ali. Ela fez que sim e lambeu os lábios, antes de beijá-lo. Parecia uma descarga elétrica tomando todo o cor­po de Gannon.

— Amo seu cheiro, o gosto que você tem, sua pele, adoro o jeito como você pensa, na maioria das vezes — ela confessou. — Adoro sua voz.

— Minha voz?

— É tão sexy.

Ele não conseguiu esconder um sorriso, achando que talvez dois martínis tivessem sido demais para ela. Erika fechou os olhos e o envolveu pelo pescoço.

— Pena que seu coração seja tão fechado.

Ele olhou confuso.

— O quê?

— Talvez seja eu. Quando estou quase convencida de que você não tem coração, você me surpreen­de, aparecendo no hospital, como no outro dia. — Abriu os olhos e o encarou — Não devia ter feito aquilo. Esse tipo de coi­sa é que pode acabar fazendo eu me apaixonar por você.

Ah! — exclamou ele, pensando que não se inco­modaria nem um pouco se ela se apaixonasse por ele. Talvez ele também tivesse tomado martínis demais.

— Isso não é bom.

— Por quê?

— Porque já me apaixonei antes e foi horrível quando você resolveu parar de sair comigo. — Ela brincava com as mechas do cabelo dele. — Provavel­mente, nem devia estar aqui, mas você apareceu no hospital e foi tão generoso que fiquei toda derretida e acabei perdendo a razão.

— Gosto de ser o cara que te derrete toda e faz você perder a razão.

— Mas isso tem conseqüências — ela o alertou. — Você acha que pode agüentar as conseqüências?

Ela estava tão sexy e provocante, que ele achou que ia explodir de tesão.

— Acho que posso.

— Então, o que estamos fazendo no meio dessa gente em vez de estar na sua casa?

Ela não precisou dizer duas vezes. Ele a arrastou para fora da discoteca e foi direto para casa. Assim que chegaram à porta de casa, ela o beijou de um jeito tão quente que o fez transpirar. A língua voraz e ousada o deixou fervendo de desejo. Erika deslizou os dedos pe­los cabelos dele com erotismo e sensualidade.

Ela era pura tentação. O cheiro, o andar, o gosto. Ele não podia mais de tanta avidez. Agarrou as coxas de Erika com vontade. O desejo era tanto que chega­va a ser doloroso.

— Você me deixa... — Ela não terminou o pensa­mento, pois calou a ambos com um beijo incendiário.

Ele deslizou as mãos por entre as pernas de Erika e descobriu que ela estava repleta de prazer. Foi a des­coberta mais excitante, mas ele sabia que havia mais por vir.

— Eu te deixo o quê?

— Tão excitada — ela respondeu com um sussurro.

Ele estava tão excitado quanto ela, e abriu a porta correndo, assim que conseguiu se concentrar mini­mamente para enfiar a chave na fechadura.

Ela arrancou o suéter dele e Gannon abriu o zíper do vestido de Erika, abaixando-o com sofreguidão, levando junto a calcinha. A urgência de possuir Erika o deixou enlouquecido.

Tirou a calça e a cueca, jogou longe os sapatos e pôs o corpo dela contra o dele. Erika o agarrou com as pernas, tocando seu sexo úmido e excitado na pele de Gannon.

Seu inconsciente pedia que ele não esquecesse da camisinha. Pela primeira vez na vida, ele hesitou. Ela queria um filho e ele a desejava como nunca antes. Sentia uma vontade irresistível de tê-la por inteiro, ela apenas dele. Algo primitivo e perigoso.

Ele deu um suspiro frustrado e a colocou no sofá.

— Já volto. — Apanhou a calça jogada no chão e apanhou uma camisinha.

Ao se voltar para Erika, a encontrou deitada com os cabelos soltos, os bicos dos seios rijos como cerejas no creme chantilly, e as per­nas afastadas, revelando toda a sua feminilidade.

Você não tem idéia de como é maravilhosa — ele disse. — Mas vou te provar isso.

Foi até os seios de Erika e os beijou com avidez. Foi descendo até o umbigo e mais ainda, até chegar à conclusão de que sua excitação era uma das sensa­ções mais viciantes que ele já experimentara. Erika se curvou e retribuiu as carícias.

— Quero você dentro de mim, agora — ela sussur­rou. — Agora.

Ele colocou a camisinha e abriu ainda mais as per­nas de Erika, mergulhando dentro dela. Ela soltou um gemido e ele rosnou.

— Cuidado — ela disse, enquanto ele a penetrava com força e desespero. — Não quero me apaixonar tanto como da última vez.

Mas ele era um homem ganancioso, queria tudo que pudesse de Erika: seu corpo, sua mente, seu amor. E experimentou tudo que ela oferecia, dando, em troca, mais do que pretendia.

 

O problema de ficar com uma mulher como Erika, percebeu Gannon quando voltavam para Nova York, era que podia se tornar um vício. Não sabia bem como ela conseguia ser tão suave e estimulante ao mesmo tempo.

Apesar de já terem se encontrado na parte da ma­nhã, Gannon estivera ocupado demais e não ar­ranjou tempo para conversar com Erika. Na hora do almoço, não pôde recusar o convite insistente da mãe para comer com ela e os irmãos.

Apesar da sugestão de comer na cafeteria da presi­dência, a mãe preferiu um restaurante na esquina da empresa para que pudessem conversar com calma.

— Belo bronzeado — comentou a mãe, arqueando as sobrancelhas ao ver que o filho não se pronunciou.

— É mesmo — disse Bridget. — Deve ser mara­vilhoso poder se dar ao luxo de escapar um fim de semana para a Flórida, em pleno inverno Nova Yorquino.

— Você também poderia se não estivesse traba­lhando para a versão feminina do carrasco — Gannon zombou da irmã por trabalhar com a tia Finola.

— Você vai mudar seu tom de voz quando vir-la se tornar a nova presidente da editora Elliot — implicou Bridget.

— Já esqueceu que tem um pai ou quem ele é? — Rebateu Gannon, entrando no jogo competitivo da irmã.

— Isso só está começando — murmurou Liam. — Vamos ter que agüentar um ano inteiro disso.

A mãe levantou a mão e balançou a cabeça.

— Chega de discussão. Tenho o direito de ter um almoço agradável com meus filhos.

— Desculpa, mãe — disse Tag.

— Vamos voltar ao bronzeado de Gannon — disse Bridget. — Levou alguém?

— Ninguém que te interesse. — Gannon respon­deu bruscamente.

— Hum... Deve ser importante, porque não saiu nada na imprensa — concluiu a mãe.

Karen Elliot era bastante desligada para muitas coi­sas, mas quando o assunto era o marido e os filhos, era a pessoa mais perspicaz e atenta de todas. Gannon a olhou por um instante. Estava relutante em admitir que estivera quase todo o almoço distraído, pensando em Erika. No entanto, ao olhar para a mãe, percebeu que ela estava mais preocupada do que o normal. As mãos estavam fechadas e as sobrancelhas arqueadas.

— O que há com você, mãe?

Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha nervosamente.

— Nada demais. O de sempre. Trabalho voluntá­rio, clube de leitura, visitas a Maeve. — Olhou para o relógio. — Por falar nisso, tenho um compromisso agora. Queria contar para vocês que estou indo ao hospital para fazer uns exames.

Gannon sentiu um frio na espinha.

— O quê?

— Exames? — Tag perguntou. — Que exames?

— Na minha idade, é normal fazer exames de roti­na. — Karen estava com 54 anos.

— Mas é apenas rotina? — perguntou Liam.

— Já disse tudo que precisava dizer — respondeu a mãe decidida.

— Mas, mãe — reclamou Bridget. — Você não pode soltar essa notícia assim e fazer suspense.

— Preferiria que não tivesse contado nada?

— Mãe, a gente se preocupa com você — disse Tag. — Você é muito importante para todos nós. A gente tem o direito de saber tudo que está acontecen­do. — Ele pegou na mão da mãe.

Ela deu um tapinha na mão do filho e sorriu.

— Vocês também são muito importantes para mim. Mas tenho mesmo que ir. Gannon pode pagar a conta, por favor?

— Sem problema. — Ele se levantou a abraçou. — Sabe que pode contar comigo para qualquer coisa.

— Me dar netos, por exemplo?

— Devia ter desconfiado que fosse dizer algo do gê­nero.

— Vê se não me faz esperar muito. Tchau, queri­dos — ela disse e beijou um por um antes de sair.

Os quatro ficaram em silêncio por alguns minutos.

— Que história esquisita — disse, finalmente, Bridget. — Fiquei preocupada.

— Ela não quer nos deixar preocupados.

— O que você acha que é? — perguntou Tag a Gannon.

— Não sei.

— O papai comentou alguma coisa com você?

— Nem uma palavra.

— Não estou gostando nada disso — disse Brid­get, mas pela expressão no rosto dos demais, ela não era a única.

 

Erika mergulhou no trabalho que tinha acumulado durante sua ausência na sexta-feira. A manhã se es­tendeu em tarde antes que Júlia tivesse tempo de fa­zer um intervalo e se espreguiçar. Escutou uma leve batida na porta e viu Gannon entrar.

O coração de Erika disparou.

— Que bom ver você.

— Sou quem digo — ele respondeu, abraçando-a por trás da cadeira. — Não tem a sensação que amon­toaram dois dias em um?

— Sem dúvida. Mas valeu pelo fim de semana. Foi maravilhoso — ela disse, desfrutando os braços de Gannon envolvendo-a.

— Parece loucura, mas estava sentindo saudades. — Então, a beijou deixando-a tonta e quente. Ela se moveu sutilmente e o olhou. — Nossa, parece até que tomei dois martínis com o estômago vazio.

Ele deu um sorriso tímido e Erika notou que ele es­tava estranho. O dia havia sido super estressante, mas Gannon estava mais tenso do que o normal.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele desviou o olhar.

— Nada. Dor de cabeça. Não foi fácil voltar de­pois de passar dois dias no paraíso com a garota dos meus sonhos.

Erika ficou vermelha.

— Obrigada pela cantada.

— É mais do que uma cantada — respondeu olhando-a com cobiça.

— Obrigada — ela disse acariciando o queixo de Gannon. — Garoto dos sonhos.

Ele tensionou o queixo suavemente. Ela franziu a testa preocupada.

— Não quero ser intrometida, mas acho que tem alguma coisa errada com você. Não precisa me con­tar se não quiser, mas que tem, isso tem.

Ele fechou os olhos, respirou fundo e depois sol­tou o ar.

— Minha mãe está indo ao hospital para fazer uns exames. E não quer contar para os filhos o que é. Nem meu pai. Coloquei-o contra a parede, mas ele não me disse nada.

Erika ficou penalizada pela voz triste de Gannon.

— Ai, sinto muito. Você deve estar morrendo de preocupação.

Ele balançou a cabeça.

— Meu pai acha que é o pilar da família. É resis­tente como um touro. Mas minha mãe é quem une a todos. Não sei o que vai ser da gente se acontecer al­guma coisa. — Ele não conseguiu terminar e voltou a sacudir a cabeça.

— Não pode pensar assim, sem saber o que real­mente está acontecendo.

— Tenho que saber tudo — ele disse com a voz mais rouca do que o normal.

— Você odeia não ter o controle da situação, não é?

Ele fez que sim.

— Eu não entendo por que ela quer fazer segredo com os filhos.

— Ela deve ter as razões dela.

— Mas ela é uma das pessoas mais sensatas que conheço.

— Então, você vai ter que respeitar a decisão dela.

— Mas os filhos não gostam de ser excluídos.

— Eu entendo, mas você acha que ela vai contar para vocês, depois que saírem os resultados dos exa­mes?

— Acho que sim.

— Então, tudo bem. Você pode tomar as providên­cias necessárias, depois. Como posso ajudar?

Ele a olhou no fundo dos olhos de Erika.

— Você já está ajudando.

Foi um olhar de tirar o fôlego. A fez se sentir mui­to especial. Seria isso possível vindo de Gannon.

Depois da viagem, Gannon e Erika passavam to­das as noites juntas. Foi como se tivessem encontra­do as peças que faltavam entre eles para completar o quebra-cabeça. Nenhum dos dois queria questionar as razões e sim curtir o momento.

Gannon ia com Erika visitar Tia, levava café na cama para ela, faziam amor todas as noites e ela ador­mecia em seus braços.

No entanto, o fato de que o contrato ainda não havia sido preparado incomodava Erika. Ela falou sobre isso com ele várias vezes, mas ele desconversava, dizendo que logo estaria pronto. Ela resolveu ser paciente, pois, com sorte, conseguiria o homem e o filho. Só de pensar nisso, Erika ficava nervosa de felicidade.

Gannon se reunia com a família nos fins de sema­na à noite, mas sempre ia para a casa de Erika de­pois. Ela sabia que cada dia ficava mais e mais apai­xonada.

Numa segunda-feira, ambos terminaram seus afa­zeres e à tardinha quando se encontraram, ele a sur­preendeu com uma rosa. Na terça-feira à tarde, Gan­non entrou na sala de Erika com uma expressão som­bria. Ele fechou a porta e ajeitou a gravata.

Erika se alarmou, em seguida.

— O que foi? Algo a ver com a sua mãe? — Cor­reu para ele, mas Gannon fez um gesto com a mão. — Não, não tem nada a ver com a minha mãe.

— Então, o que foi?

Ele pôs as mãos nos bolsos e suspirou.

— Os boatos recomeçaram. Uma editora comen­tou com um estagiário que nos viu juntos. Deve ter sido quando fomos passear à noite.

Erika ficou apreensiva.

— Você não vai me dispensar outra vez — ela disse.

Ele balançou a cabeça.

— Não, não é nada disso. Acho que devemos ir devagar.

— Ou seja, parar de se ver.

— Ou seja, que devemos evitar nos encontrar fora do trabalho por um tempo.

Erika sentiu um nó na garganta.

— E por um tempo, quer dizer quanto?

Ele deu de ombros.

— Não sei, Erika. Talvez, a gente devesse dar um tempo até acabar essa disputa pela presidência da Elliot.

Ela ficou boquiaberta.

— Isso vai levar um ano inteiro!

Ele tensionou o queixo, em sinal de desgosto.

— É, mas talvez seja o melhor a fazer.

— O melhor para quem?

— Para todo mundo — ele respondeu impaciente. — Não é o que eu quero.

— É, mas você tomou a decisão bem rápido. Apos­to que foi na sua cama, hoje de manhã.

— Por favor, Erika. Esse é um momento difícil. Tenho que me concentrar na Pulse e conseguir ajudar o meu pai a ganhar a presidência da editora. Gosto de você, mas só que não é o momento certo.

Sentindo-se uma completa idiota, sentia muita rai­va e vontade de chorar. Sentiu-se totalmente traída. Ele não havia prometido nada, era verdade, mas isso não importava. Ela havia se entregado àquela rela­ção. Estava completamente fragilizada.

Ela quase não tinha voz.

— Não sei o que dizer. Não esperava isso de você. Mais uma vez.

— Agora é diferente.

— É, eu sei. — Ela balançou a cabeça, como se tentasse clarear suas idéias. Precisava se cuidar. — Não posso continuar na Pulse.

— O quê?

— Não posso continuar trabalhando aqui.

— Você não vai usar isso como chantagem para me fazer aparecer em público com você, vai?

Aquela acusação foi com um tapa na cara de Erika.

— Isso não tem nada a ver com você. Tem a ver com meu bem-estar emocional. Sei que você não en­tende nada sobre isso. Não quero ter que vê-lo todos os diase...

— Podemos fazer umas mudanças para a gente não ter que interagir tanto quanto agora.

Ela balançou a cabeça.

— Não, não quero estar no mesmo andar que você. Não vou me torturar desse jeito. Estou voltando para a Casa & estilo imediatamente.

— Você não pode.

— Posso. Você nunca assinou o contrato e nele di­zia que eu podia voltar para a Casa & estilo quando bem entendesse.

Ele ficou olhando para ela, incrédulo.

De repente, Erika foi tomada por uma suspeita.

— Você nunca cogitou me doar seu espermatozóide, não é?

— Era uma idéia completamente maluca, achei que ia acabar te convencendo...

— De que eu estou louca — ela completou. — Sim, eu posso e vou voltar para a Casa & estilo. Você vai se livrar de mim, Gannon. Prometo que nunca mais vou causar problemas.

 

Gannon ficou acordado até o sol nascer, perambu­lando por seu enorme e solitário apartamento de dois andares. Ainda podia sentir o perfume de Erika, escu­tar a risada gostosa dela. Não queria sentar no sofá, porque ela não estava lá sorrindo para ele.

Enquanto observava pela janela o nascer do sol, iluminado a cidade fria e cheia de neve, pensava numa forma de conseguir manter Erika em sua vida. Claro que a queria na Pulse, mas a queria mais ainda depois do trabalho.

Na verdade, o querer estava muito perto de se tor­nar uma necessidade. Mais do que apenas sexual, apesar de que ele não conseguia parar de pensar nas noites de amor com Erika.

Tinha de haver uma maneira de resolver aquele impasse. Para tudo havia um jeito.

 

Controlando a onda de fúria e se recusando a ceder à dor, Erika chegou cedo ao trabalho e removeu seus pertences de volta para o escritório da Casa & estilo. Sua sala ainda estava ocupada, então Erika deixou a caixa com suas coisas na parede ao lado da porta.

Deixou um recado para Michael na mesa da secre­tária dele, dizendo que estava voltando para a Casa & estilo, porque o cargo lá a satisfazia mais. Havia ar­ranjado uma transferência para a mulher que a tinha substituído numa posição das mais cobiçadas. Ela não podia ter sido prejudicada, apenas por que Erika não tinha se adaptado na Pulse.

Começou a se adaptar à nova rotina e a arrumar suas coisas.

Ao meio-dia, recebeu um e-mail de Gannon. Só de ver o nome dele na tela do computador, Erika ficou nervosa. Revoltada consigo mesma pela reação, fi­cou na dúvida se deveria ou não apagar a mensagem sem ler antes. No entanto, não pôde resistir à curiosi­dade.

Ele estava surpreso com a mudança repentina para o outro andar. Dizia que precisavam conversar; que um ano não era tanto assim.

Talvez não para ele, pensou ela, antes de apagar a mensagem.

Disse para si mesma que estava bem. Mas bastou sair da sala e praticamente esbarrar em Gannon para que seus pulmões ficassem vazios de nervoso.

— Oi — ele disse.

— Oi — ela pronunciou com dificuldade.

— Precisamos conversar.

Conversar com Gannon seria um perigo. Olhar para ele seria um perigo.

— Estou ocupada — disse e saiu andando, igno­rando-o por completo.

Na quarta-feira, Erika recebeu um convite inespe­rado. Chá à tarde com Maeve Elliot, a esposa de Patrick Elliot, o presidente da editora Elliot. Câmeras e gravadores estavam permitidos.

Estava tão ansiosa e entusiasmada que mal conse­guia ficar sentada. Havia tentado aquela entrevista por meses, porém, a secretária de Maeve sempre in­ventava uma desculpa.

Não podia nem acreditar. Imediatamente, come­çou a planejar a entrevista, escrevendo notas, pergun­tas e providenciando o melhor fotógrafo da revista. Tentou se convencer de que o fato de Maeve ser a avó de Gannon não era um fator a mais para aumen­tar sua curiosidade. Seu interesse era estritamente profissional.

 

No dia seguinte, trocou de roupa três vezes e levou uma muda para o trabalho, caso deixasse derramar al­guma coisa antes da entrevista.

Meia hora antes da entrevista, ela e o fotógrafo to­maram um táxi para a casa de Maeve. Gannon já ha­via comentado que o lugar era enorme mesmo para os parâmetros da cidade de Manhattan, com três anda­res. Erika também sabia que Maeve e Patrick tinham duas netas gêmeas que moravam com eles, desde que ficaram órfãs.

O táxi estacionou em frente à entrada, onde havia um portão de ferro maciço, coberto de trepadeiras. O prédio era cinza com detalhes em branco e a porta da entrada vermelha.

O fotógrafo, Tom, deu um assobio.

— Que lugar bacana.

— É lindo. É melhor não tirarmos foto da entrada para manter a privacidade deles.

Ele concordou.

— Já estou com o flash pronto para começar a fo­tografar a parte de dentro.

— Vou ter que pedir permissão para ela antes — ela disse, sentindo uma mistura de nervosismo e euforia.

— Vamos entrar?

Ele fez que sim, saiu do carro e a ajudou a sair.

— Obrigada — ela disse. — Um verdadeiro cavalheiro. Uma das razões por que escolhi você para essa tarefa.

Ele sorriu.

— Minha mãe vai adorar saber disso. Tocaram a campainha e uma mulher atendeu.

— A senhora Maeve vai tomar seu chá na bibliote­ca — ela informou e os deixou esperando no hall de entrada. A ampla entrada possuía um teto de vidro, de onde se via o céu.

Erika espiou o piano que se via no outro cômodo. Ouviu o sutil clicar da câmera de Tom, quando entra­ram na biblioteca. O lugar emanava conforto e estava repleto de antiguidades.

Uma bandeja de prata com chá, mini-sanduíches e biscoitos já havia sido posta na biblioteca. A mesa es­tava disposta com pratos de uma delicada louça chi­nesa e talheres para três pessoas.

— Quem será que...

— Oi, Erika — uma voz familiar soou na entrada. Gannon. Ela o olhou, completamente surpreen­dida.

— O que está fazendo aqui? — sussurrou Erika. Ele riu.

— Vim tomar um chá com a minha avó.

Foi então que a ficha caiu.

— Foi você quem armou isso.

— Foi. Gostou?

A vontade que tinha era de ir embora dali, mas se­ria extremamente rude da parte dela. Além disso, não podia perder a oportunidade de conhecer Maeve, mesmo com Gannon lá.

Ele se virou e estendeu a mão.

— Vó, essa é a Erika Layven, a editora-chefe da nossa nova revista, a Casa & estilo.

Uma senhora mignon e magrinha, com os cabelos grisalhos, entrou na biblioteca. Estava com um vesti­do muito elegante, provavelmente, de um costureiro famoso. Mas o que chamou a atenção de Erika foi o brilho no olhar da senhora e o sorriso alegre.

— Erika, muito prazer em conhecê-la. Gannon já me disse que você é uma menina muito inteligente, competente e que tem um bom coração. Também me contou que faz parte de um programa de ajuda a me­ninos carentes.

Erika cumprimentou Maeve, encabulada.

— Obrigada por me convidar para esse chá. É uma honra.

— Por favor, sente-se, para tomarmos nosso chá — ela disse, apontando para as cadeiras. — Você também Gannon. Faz tempo que não toma um chá com sua avó.

Gannon sorriu.

— É verdade, não posso negar. Geralmente, a essa hora, estou tomando um café para me preparar para outra jornada.

— Chá é mais saudável para você — ela disse e se virou para Tom. — Quer tirar umas fotos agora?

— Sim, obrigado — ele respondeu e começou tirar fotos.

— Tire algumas da senhora Elliot com Gannon, por favor, Tom — disse Erika.

Maeve ficou exultante.

— Adoro tirar fotos com meu neto bonitão.

Gannon olhou para Erika de maneira interrogativa.

— Vai me deixar ver essas fotos antes de imprimi-las.

— Claro — ela respondeu, emocionada ao perce­ber que Gannon tratava a avó com tanto respeito e ca­rinho. Queria fazer parte daquele mundo dele. Mas isso nunca iria acontecer.

Tom tirou mais algumas fotos.

— Está bom — disse Maeve ao fotógrafo. — Vou pedir para a Annie preparar um lugar para você na mesa para começarmos o chá.

Tom olhou para Erika com expressão desesperada. Estava obviamente intimidado de ter que tomar chá com a senhora Elliot.

— Ele adoraria ficar — respondeu Erika. — Mas, infelizmente, já tem outra sessão de fotos esperando por ele.

— É verdade, senhora Maeve, sinto muito — disse Tom.

— Imagina, não tem problema. Vai, meu filho, não queremos atrapalhar seu trabalho.

— Obrigado. Muito prazer — Tom respondeu an­tes de se retirar da biblioteca.

— Que menino educado — comentou Maeve. — Não é muito comum nos dias de hoje. Vou pedir para a Annie servir o chá.

Erika foi muito simpática durante toda a visita, controlando-se para não xingar Gannon por ter sido um intruso. Não queria ninguém para distraí-la. E Gannon era pura distração. Não gostou de perceber como ele se comportava diferente com a avó. Preferi­ria vê-lo como o homem pragmático de sempre e as­sim se proteger.

— Conte para a Erika como você e o vovô se co­nheceram — disse Gannon à avó.

— Era costureira na Irlanda e ele veio para uma vi­sita de trabalho. Eu tinha 19 anos e Patrick era alto, moreno, de olhos azuis como o mar. E muito determi­nado. Quando ele resolve fazer alguma coisa, não de­siste enquanto não conseguir — ela disse, balançan­do a cabeça. — Naquela época, eu tinha cabelos lon­gos e ruivos e tinha alguns rapazes que queriam pedir a minha mão em casamento, mas Patrick foi mais rápido que todos eles. Me sequestrou e me levou em­bora da Irlanda. — Maeve ficou um pouco pensativa, com um sorriso nos lábios. — Patrick era bonito de­mais. Parecido com esse aqui — apontou para Gan­non. — Mas foi a personalidade dele, o amor pela vida que me conquistaram. — Maeve sorriu nova­mente. — E que ainda me encantam. — De repente o sorriso se desfaleceu. — Tivemos algumas perdas muito dolorosas. Mas também fomos muito felizes. — Ela olhou para Gannon e apertou a mão dele. — Que bom ver você meu neto. Devíamos tomar chá mais vezes.

— É verdade — ele disse e a beijou na bochecha. — Obrigada pela tarde maravilhosa.

— Adoro ver meus netos. E você tinha razão com relação à Erika. Doce e inteligente. Dá para ver que tem um bom coração.

— Obrigada, senhora Elliot. Foi uma honra e um grande prazer conhecê-la.

— Posso te dar uma carona — disse Gannon. — Meu carro está esperando.

Erika abriu a boca para protestar, mas não quis soar mal-educada e ingrata na frente de Maeve. Mor­deu a língua.

— Obrigada.

Maeve os levou até à porta e se despediu. Assim que Erika saiu do edifício, foi andando rapidamente pela rua. Estava chovendo.

— Ei, espera! — disse Gannon, correndo atrás dela. — Onde está indo? — ele perguntou, enquanto ela erguia o braço para chamar um táxi.

— Vou pegar um táxi.

— Já te disse que darei uma carona.

— Não quero pegar carona com você — ela disse, meio mareada.

— Não seja ridícula. É hora do rush. Vai levar ho­ras para conseguir um táxi e ainda vai pagar uma for­tuna por causa do trânsito.

Ela continuou com o braço para cima, vários táxis passaram, mas nenhum parou, pois estavam todos ocupados. Gannon ficou esperando. A frustração tomou conta de Erika ao constatar que seria impos­sível.

— Está bem — Erika disse. — Obrigada. Estava indo para o trabalho, mas acho que vou para casa.

Gannon abriu a porta e ela entrou, sentando-se do lado oposto do assento e colocando a bolsa entre os dois, como uma espécie de barreira.

— Achei que fosse gostar de ter conhecido minha avó.

Ela cruzou os braços e ficou com os olhos fixos para frente.

— Eu gostei. Obrigada por ter conseguido a entrevista para mim. Não sabia que você ia estar lá.

— Teria desistido da visita se soubesse que ia estar lá?

— Teria pensado seriamente sobre isso — ela murmurou.

— Mesmo assim teria ido — ele disse. — Porque estava louca para conhecê-la.

— A entrevista vai dar uma matéria incrível para a Casa & estilo.

— O que achou dela?

Ela desejou que ele parasse de bajulá-la. Mas pelo menos, não estava falando da relação dos dois. Ou da não-relação dos dois. Erika sentia como se tivesse um nó na garganta. Chegava a doer quando respirava.

— Maeve é uma senhora muito calorosa e doce. Aposto que sempre foi uma avó dedicada e cari­nhosa.

Ele fez que sim.

— É verdade.

— Então o que deu em você? — a pergunta esca­pou da boca de Erika e ela se arrependeu em seguida.

— Isso é uma pergunta ou uma provocação?

— Nem uma nem outra. Esquece.

— Não, eu quero que você me explique.

— Bem, nem sempre conseguimos o que quere­mos. Sei que é difícil aceitar, mas isso serve para você também.

O silêncio invadiu o carro e Erika sentiu um des­conforto doloroso.

— Você sente a minha falta?

— Tanto quanto de uma dor de dente — ela res­pondeu, recusando-se a deixar transparecer seus reais sentimentos.

— Eu sinto a sua falta — ele disse. — Não quero ficar sem você.

O coração de Erika disparou.

— Foi você quem quis assim, não eu.

— Eu só disse que a gente precisava esfriar um pouco as coisas.

O ressentimento cresceu dentro de Erika, como um vulcão em erupção.

— Para você é tudo tão fácil, não é?

— Não — ele respondeu, com os olhos mudando de cor como um mar turbulento. — Ainda queimo de desejo por você e tenho certeza que você também.

Ele inclinou a cabeça, a beijou cheio de lascívia e sentimento de posse. Erika sentiu o impacto do beijo, uma emoção que a deixou toda arrepiada. As carícias que vieram em seguida demoliram por completa a frágil barreira que ela havia criado e o desejo exalou de seus poros, como um vulcão prestes a entrar em erupção.

Ele se afastou um pouco e sussurrou contra os lá­bios dela.

— Você que me quer, sei disso.

Ela se afastou bruscamente, com raiva de si mes­ma por haver cedido tão facilmente.

— Só porque te quero, não significa que vou ficar com você. Pode acreditar. Já estou acostumada a te querer sem poder te ter.

 

A multidão vibrou quando o time de baseball Knicks fez outro ponto, deixando o time da casa seis pontos para trás. Gannon se levantou, em seguida, mas não demonstrou muito entusiasmo.

Gannon nunca havia perdido nada que realmente fosse importante para ele, mas estava começando a achar que a sorte se havia voltado contra ele. Tinha um mau pressentimento com relação aos resultados médicos da mãe. O pai andava distraído nos últimos dias e continuava se recusando a discutir sobre o as­sunto com Gannon.

Também havia Erika.

Ou melhor, não havia Erika. Sempre que pensava nela, sentia o coração encolher e ficar tão pequeno que chegava a doer.

Depois de dar uma carona a ela, depois do chá com a avó, ele havia ligado algumas vezes, mas ela não atendia, nem retornava os telefonemas. Ela até podia gostar dele ainda, mas havia desistido.

Essa constatação o alarmava demais. Desacostu­mado a esse tipo de sentimento, deu de ombros, com uma sensação de vazio por todo o corpo. Tinha achado que iria arranjar uma saída, conse­guir negociar com Erika, mas ela havia batido a porta na cara dele todas as vezes.

Mesmo agora, sentado na cadeira vip do Madison Square Garden, assistindo ao seu time favorito, com o tio e os primos, Gannon se sentia desanimado e dis­traído.

Na hora do intervalo, o tio Daniel deu um tapinha nas costas de Gannon.

— Você está com cara de que está precisando de uma cerveja — disse. — Vamos para a lanchonete vip.

Ele abriu a boca para dar uma desculpa, mas Da­niel o interrompeu:

— Não. Não vamos deixar você aqui sozinho com essa cara de cachorro abandonado.

Relutante, Gannon se levantou e foi com os primos e o tio para a lanchonete. No bar, todos pediram uma cerveja.

— Você vai me contar o que está acontecendo? — perguntou o tio.

Gannon balançou a cabeça.

— Então deixa a tristeza de lado por enquanto e vamos comemorar. Finalmente, convenci a bruaca da minha mulher a aceitar o divórcio.

Surpreendido, Gannon ergueu o copo, na mesma hora. Todos na família sabiam que Shanon, a segunda esposa de Daniel, mantinha aquele casamento por status e interesses materiais, apesar de que já havia anos que Daniel estava pedindo o divórcio.

— Que boa notícia. Como conseguiu a proeza?

— Paguei. Finalmente, ela se deu conta de que era o melhor para todo mundo. Um conselho para você, não deixe seu pai escolher sua esposa. Escolha você mesmo. Porque, no final das contas, quem tem que morar com ele é você e não o seu pai.

Aquelas palavras ficaram marcadas na mente de Gannon. Apesar de que o pai de Gannon nunca esco­lheria uma mulher para o filho, Gannon estava adian­do ficar com a mulher que o fazia o homem mais feliz do mundo por causa da aversão que o avô tinha de es­cândalos na empresa e devido à disputa pela presi­dência.

Daniel tomava sua cerveja e observava o sobrinho.

— Agora, você está com cara de que levou um murro no queixo.

— Algo parecido — Gannon respondeu, sentindo um turbilhão de emoções dançando dentro dele.

Daniel fez cara de desconfiado.

— Isso está me cheirando à mulher.

Gannon fez que sim, com a cabeça.

— Acho que é a primeira vez que te vejo assim por causa de mulher — disse Daniel. — Nunca é tarde — brincou e riu.

— Mas, com certeza, é no momento errado.

— Sempre é num momento errado. Pior que isso é ser a mulher errada. Pode acreditar. Sei disso por ex­periência própria.

Gannon engoliu um gole da cerveja com dificul­dade.

— Como assim?

— Porque estou me divorciando do segundo casa­mento, tenho um conselho muito simples. Se um dia encontrar uma mulher que o faça sentir-se pleno, faça o que tiver for necessário para não a deixar escapar.

 

Na terça-feira, cinco para as dez da manhã, uma dúzia de rosas vermelhas foram entregues na sala de Erika. Não havia nenhum cartão anexado.

Erika suspeitou que Gannon fosse o responsável. A falta de cartão fazia bem o estilo dele, para manter o anonimato e não correr riscos.

Uma raiva se apossou de Erika e ela sentiu vontade de jogar o buquê pela janela. Mas as rosas eram tão lindas e tinham um perfume tão gostoso.

Podia fingir que outra pessoa as havia mandado.

Às dez e meia da manhã outro buquê chegou. Ne­nhum cartão.

O terceiro buquê chegou às onze. Sem autoria. Um quarto buquê chegou às onze e meia e um quinto ao meio-dia.

Erika começou a ficar apreensiva. Sua sala estava parecendo uma floricultura e as pessoas que passavam não resistiam e entravam para ver os arranjos de rosas espalhados por toda a parte.

Outra dúzia de rosas chegou ao meio-dia e meia. Furiosa com Gannon por estar fazendo-a passar por aquilo, Erika ligou para ele. Quando a secretária atendeu, ela pediu para que o chamasse.

— Desculpa, ele está numa outra ligação. Vou pe­dir para ele ligar de volta, assim que puder.

Alguém bateu na porta e Erika trincou os dentes de raiva. A secretária, Cammie, pôs a cabeça para den­tro, com uma cara de alegria.

— Chegou outro buquê.

Erika xingou um palavrão, em silêncio.

— Quero que leve essas flores para o hospital mais próximo.

A secretária a olhou desapontada.

— Mas são para você. E são tão lindas.

— Já tenho o bastante — respondeu Erika. As flo­res a estavam deixando nervosa. Rosas vermelhas significavam amor, daquele que dura para sempre e estar cercada por tantas só fazia recordá-la de que Gannon não a amava como ela o amava. — Por favor, ligue para o hospital e pergunte se têm quatro pessoas precisando de flores para animá-los.

Cammie deu um suspiro desanimado.

— Está bem, se prefere assim.

— Eu prefiro assim — respondeu Erika com fir­meza.

Alguns segundos depois, ouviu batidas na porta novamente. Estava começando a ficar realmente irri­tada. Outra interrupção. Provavelmente era outra co­lega de trabalho, curiosa para ver a montanha de flo­res. Abriu a porta pronta para fazer uma reclamação, quando deu de cara com Gannon, que estava acompa­nhado de um homem que ela não conhecia, sua secre­tária e a dele.

Ficou sem voz. Se fosse apenas Gannon, já teria soltado algum impropério. Mas o resto das pessoas a deixou encabulada. Foi obrigada a deixar a bronca para depois.

— Posso ajudá-los em alguma coisa?

— Na verdade, sim — respondeu Gannon.

A ex­pressão de Gannon a deixou perturbada. Muito per­turbada.

— Estou ocupadíssima, mas...

— Só vai levar alguns minutos — ele disse e en­trou na sala de Erika com os demais. — Rosas bo­nitas.

— São lindas — disse Erika. — Mas acho que quem quer que tenha mandado exagerou na dose. Não acha?

Ele ensaiou um sorriso.

— Concordo plenamente, por isso, trouxe meu advogado, Harold Nussbaum, minha secretária, Lena e a sua. Quero testemunhas.

Completamente confusa, Erika não sabia o que pensar. Será que ele havia mudado de idéia com relação à doação dos espermatozóides? E ia deixar que toda a empresa ficasse sabendo? Ela olhou para a porta aberta.

— Não é melhor fechar a porta? Ele fez que não com a cabeça.

— Quanto mais gente, melhor. — Ele se moveu para bem perto de Erika, olhando-a intensamente.

O coração dela disparou.

— Estou aqui para te dizer na frente das testemu­nhas que eu te amo.

A secretária de Erika, Cammie, fez um ruído de as­sombro.

O coração de Erika foi parar na boca. Só conse­guiu olhar para ele com cara de tacho.

— Você me faz sorrir, você me faz pensar. Você me faz sentir bem comigo mesmo. Quero ficar com você o tempo todo. Quero a chance de poder te amar para sempre. Acho que você entende mais dessas coi­sas de amor do que eu, mas se tiver paciência comigo, sei que posso aprender.

Uma emoção muito forte deixou o peito de Erika dormente. Ela não conseguia respirar. Estava tendo alucinações? Aquilo estava mesmo acontecendo?

Ele se ajoelhou em frente a ela e Erika achou que fosse desmaiar. Devia estar sonhando.

Ele ergueu a mão na direção dela, como que pedin­do que ela retribuísse dando as mãos para ele. No entanto, Erika não tinha condições de fazer mais nada além de olhar para ele, cheia de assombro.

— Me dá sua mão — ele sussurrou.

Erika, obedeceu, pondo a mão fria e trêmula sobre a palma da mão quente de Gannon. As mãos dele en­volveram a dela e os dois se olharam.

— Eu te amo, quero ficar com você para o resto da minha vida. Quer casar comigo?

Erika podia jurar que todos os relógios do mundo haviam parado naquele instante. Porém, não sabia explicar porque, ainda sentia medo. Será que estava imaginando coisas?

— Você podia repetir a pergunta?

— Eu disse, quer casar comigo?

— Tem certeza que é isso que você quer? — ela per­guntou ignorando os outros presentes na sala, como se só estivessem ela e Gannon.

— Nunca tive tanta certeza de algo na minha vida.

— Por quê? Por que tem tanta certeza?

— Porque encontrei a mulher dos meus sonhos, você. E não quero perder nem mais um minuto da mi­nha vida sem você.

As palavras tocaram em Erika como uma brisa quente e fresca. As mãos quentes de Gannon nas suas e o olhar dele a asseguraram que aquilo não era um sonho, não era uma ilusão. Ele era real, bem como o amor que tinha por ela.

Os olhos de Erika arderam, pelas lágrimas que saíam sem pedir licença.

— Sinto como se tivesse esperado por esse mo­mento, por você, toda a minha vida.

— Obrigado por ter me deixado entrar na sua vida antes que fosse tarde de mais — ele disse. — Você vai me deixar?

— Sim, sim, sim.

As secretárias vibraram de alegria, quando ele se levantou e tomou Erika nos braços.

— Isso foi bem melhor do que se você tivesse dei­xado cartões nos buquês — ela disse. — Mas não pre­cisava ter trazido testemunhas.

— Ah, não? — ele a abraçou com força.

— Não, mas gostei da surpresa. Se depois achasse que fosse um sonho teria pessoas para quem perguntar.

— Era só perguntar para mim — ele disse antes de retirar uma caixa de veludo do bolso do terno. Ele abriu a caixa e Erika pôde ver um anel de ouro com um enorme diamante no meio. Gannon tirou o anel da caixa e o pôs no dedo de Erika.

— Essa pedra é grande demais — murmurou Eri­ka, encantada.

— Queria uma lembrança significante desse mo­mento.

Erika estava nas nuvens, repleta de alegria, espan­to e amor.

— Quero que você seja minha lembrança signifi­cante.

— Meu amor, pode ter certeza de que serei para sempre — ele disse e a beijou.

Um bando de funcio­nários se amontoou atrás da porta da sala de Erika para ver o que estava acontecendo. Erika nem ligou. A pessoa mais importante do mundo havia acabado de se declarar para ela, dizendo que a amava. Só isso importava.

Um pergunta absurda passou pela cabeça de Erika.

— Para qual revista vou trabalhar? Casa & estilo ou Pulse?

— Para qual você quiser. Contanto que você não se esqueça que teremos de trabalhar juntos toda a noite para fazer nosso bebê.

Cada célula de Erika sorria.

— Alguma coisa me diz que você não vai me dei­xar esquecer.

 

                                                                                Leanne Banks 

 

 

                      

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