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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PAIXÕES DESENFREADAS / Carole Mortimer
PAIXÕES DESENFREADAS / Carole Mortimer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

-Mas por que ele mesmo não procura uma esposa, papai? — ex­plodiu Caroline. — E por que eu?

— Porque prometi apresentá-lo a você, só por isso. Não se faça de difícil, Caroline. Convidei-o para passar o fim de semana conosco e espero que seja, no mínimo, educada. Depois, tenho certeza de que vai gostar dele; todas as mu­lheres gostam!

— O senhor quer dizer: a maioria gosta! E. se ele tem tantas admiradoras assim, por que não se casa com uma delas? Pode ter certeza de que eu não serei nenhum empecilho!

Olhou indignada para o homem irredutível sentado diante dela. Seu pai costumava ter ideias malucas, mas essa, po­sitivamente, era demais. Ninguém, em juízo perfeito, espe­raria que ela concordasse com um plano tão ridículo... a não ser ele, claro!

— Pelo amor de Deus, Caroline! Ninguém está sugerindo que você se case com ele... ainda. Só estou pedindo que o conheça e veja se gosta dele. Por que tanto barulho por causa de uma coisa tão simples?

— Porque conheço muito bem o senhor. Se duvidar, já pla­nejou a festa! Mas pode desistir, papai, porque não vou aceitar sua decisão. Além disso, que espécie de homem é esse que encarrega outra pessoa de escolher uma esposa para ele?

Matt Rayner encontrou o olhar rebelde da filha e resolveu esquecer por uns tempos o assunto Greg Fortnum.

— Greg é muito homem, ouviu? Mas também é muito ocupado, e precisa urgentemente de uma esposa. Está bem! Não vou mais tocar neste assunto... por enquanto. Mas exijo que o trate bem,quando ele vier nos visitar.

— Claro que vou tratá-lo bem! — Caroline pegou a bolsa, pronta para sair. — Só não entendo essa amizade repentina com alguém que o senhor mesmo, muitas vezes, acusou de arrogante e impiedoso.

 

 

 

 

— É um homem de negócios — explicou Matt. — Nos negócios, é realmente arrogante e inflexível. Mas fora do escritório...

— É a mesma coisa — completou Caroline. — Não sou tão burra assim, papai. Não tenho coragem nem de repetir as coisas que li sobre esse homem... E é com um indivíduo desses que o senhor quer que sua filha se case! — exclamou, exaltada, saindo da sala.

— Não disse que quero que se case com ele! Só acho que não seria má idéia... — Matt foi andando atrás dela.

— Fico imaginando o que ele deve pensar de mim — interrompeu Caroline. — Aposto como o senhor me descre­veu como uma pobre moça, desesperada para arranjar um marido. Não tente negar, porque conheço muito bem seu papo de vendedor e posso imaginar as histórias que contou ao sr. Fortnum. Tenho até pena dele!

— Bem, já é alguma coisa...

— Quantas vezes vou precisar repetir que não concordo com seus planos? Além disso, vou viajar este fim de semana, e o senhor terá que entreter seu convidado sozinho.

— Caroline! Você não pode fazer isso. O que Greg vai ficar fazendo aqui um fim de semana inteiro? — Matt passou a mão pelos cabelos prematuramente grisalhos.

— Com sua esperteza, acho que não será difícil encontrar uma solução — comentou com um sorriso cheio de ironia, antes de sair.

Caroline deu a partida no seu carro esporte, último tipo, e afastou-se velozmente do elegante prédio que pertencia a seu pai. Respirou aliviada, como se tivesse tirado um peso insuportável dos ombros. Não conseguia acreditar que seu pai tivesse a capacidade de lhe fazer uma proposta tão ri­dícula. Agora entendia a compreensão dele quando lhe co­municou o fim do namoro com Anthony. Claro, ele já tinha outro pretendente em mente!

Nos últimos dois anos, Matt tinha tentado impingir a ela vários jovens respeitáveis, mas com Greg Fortnum o caso era totalmente diferente.

Como um dos homens mais ricos do mundo, Greg podia se dar ao luxo de fazer exigências e não se parecia em nada com os outros pretendentes que seu pai manipulava à vontade. Não era do tipo "sim, senhor" e não se dobraria facilmente aos desejos de Matt Rayner. Por que, então, essa insistência? Alguma razão devia haver, e Caroline ia descobrir qual era.

Outra coisa que a intrigava era Greg Fortnum concordar com o plano. Mesmo que fosse feio e corcunda, devia haver alguma mulher interessada nele, pois uma fortuna como aquela não era de se desprezar. E, pelo que ouvia dizer, ele não tinha nada de monstro. Como era mais velho, e frequentava outra turma, nunca haviam se encontrado. Mas Caroline sabia que ele estava sempre acompanhado por mu­lheres lindíssimas e que, há pouco tempo, tinha tido um caso tempestuoso com uma atriz famosa. Por que não se casava com ela, se precisava tanto assim de uma esposa?

Na verdade, não tinha assumido nenhum compromisso para o fim de semana. Mas decidiu que arranjaria um. Nin­guém, nem mesmo seu pai, iria obrigá-la a se casar com um homem que não amava.

Esther já estava à sua espera, no restaurante onde com­binaram almoçar juntas. Eram amigas há muitos anos, des­de a época de colégio, e não deixaram de se ver mesmo depois do casamento de Esther, há dois anos.

— Oi! — cumprimentou Esther, — Algum problema?

Caroline achava incrível a capacidade da amiga de per­ceber seu estado de espírito, antes mesmo de trocarem a primeira palavra. Tentou sorrir, embora sem vontade.

— Papai! — respondeu com um suspiro.

Esther já estava acostumada às constantes discussões de Caroline com o pai. Os dois tinham gênios muito parecidos, eram pessoas fortes e independentes, embora Caroline não possuísse a dureza que fazia de seu pai um bem-sucedido homem de negócios.

— Papai apareceu com outro pretendente para mim — desabafou, sorrindo para o garçom que colocava a bebida diante dela. — Só que desta vez ele foi longe demais. Sabe quem é o eleito? Greg Fortnum!

Esther quase engasgou. Matt Rayner tinha ido mesmo longe demais. Só podia estar louco, para querer que Caroline se casasse com um dom-juan daqueles.

— Mas por quê? Por que ele não deixa que você escolha seu próprio marido?

— Porque, na opinião dele, todos os homens de quem eu gosto só estão interessados no meu dinheiro.

— Não entendo seu pai. O último candidato dele, o Anthony, não conseguia nem disfarçar que estava atrás de dinheiro!

— Eu sei. E papai também sabia. Mas Anthony era fácil de ser controlado e por isso, inclusive, não fazia a menor diferença eu gostar ou não gostar dele. Papai tem tanto pavor de que eu escolha o homem errado, que decidiu que só vou me casar com alguém escolhido, antes, por ele. Mas Greg Fortnum, tenha paciência! — disse desanimada, olhan­do fixo para o copo.

— Você tem razão — concordou Esther. — Mas não acho Greg Fortnum um tipo que se deixe dominar por alguém.

— Pois é! — suspirou Caroline. — Aliás, deve haver alguma coisa estranha por trás disso tudo. Dezenas de moças agar­rariam com unhas e dentes a oportunidade de casar com Greg Fortnum, se soubessem que ele está precisando de uma esposa.

— Hum... — murmurou Esther, pensativa. — Talvez elas não sejam bem o tipo de esposa que ele procura. É possível que queira uma mulher bonita e, ao mesmo tempo, desem­baraçada e agradável socialmente. Sem modéstia, você tem que admitir que possui essas qualidades, Caroline.

— Você está falando como papai.

— E claro que não!

— No mínimo, Greg vai querer que eu fique em casa, humilde e conformada, enquanto ele sai com a amante. Não, obrigada, não é esse o casamento dos meus sonhos. Não é como o seu, por exemplo.

Esther riu alto, chamando a atenção das mesas vizinhas.

— Fico contente por considerar meu casamento um exem­plo, mas até John e eu discutimos às vezes. Quanto a você ficar humildemente em casa, enquanto seu marido caí na farra, é algo tão impossível que nem consigo imaginar. Não está pensando em se casar com ele, está?

— Claro que não! Já disse a papai que vai ter que cuidar sozinho do hóspede dele. Vou passar o fim de semana fora. Eu nem estava pensando nisso, mas acho que vou ter que ir para a nossa casa de campo. Faria qualquer coisa para não dar de cara com esse homem.

— Para a casa de campo com esse tempo? — Esther se referia à chuva torrencial que caía lá fora. — Caroline, aquilo lá é gelado nesta época do ano. Por que não passa o fim de semana conosco?

— Não, é melhor eu sair da cidade, assim não corro o risco de papai me achar. Hum, este bife está uma delícia... E, depois, acendendo a lareira o chalé fica bastante acolhedor.

— Acho que é melhor você ficar conosco. Por que não convida Nick para um programa a quatro? John e eu des­cobrimos um restaurante delicioso, tenho certeza de que você vai adorar.

Nick, irmão de Esther, era um companheiro ótimo. Mas não passava de um grande amigo, quase um irmão.

— Não, Esther, Obrigada, mas quero estar bem longe de papai. A sua casa seria o primeiro lugar onde ele iria me procurar.

— Tem razão — concordou Esther. — Mas por que tanto medo de se encontrar com o homem? Afinal, uma simples apre­sentação não precisa se transformar num compromisso sério.

— Não quero dar esse prazer a papai. O melhor que tenho a fazer é me afastar, até que ele esqueça Greg Fort­num e esse casamento.

Ficou pensando no chalé e no quarto que o pai havia trans­formado em estúdio. Gostou da idéia. Lá poderia trabalhar e pensar com tranquilidade, longe de todos os problemas.

Logo depois, chegou John, que tinha prometido levar Esther para fazer compras naquela tarde. Caroline ficou mais um pouco com os dois e saiu. Queria chegar ainda naquele dia.

Entrou sorrateiramente no apartamento e descobriu, ali­viada, que seu pai tinha saído. Colocou numa sacola de mão duas calças compridas e algumas malhas de lã, e era tudo o que precisava para ficar agasalhada naquela região fria. Esther tinha razão, não era o mês ideal para viajar para o campo, mas qualquer coisa era melhor do que ceder aos caprichos do pai. Caroline conhecia muito bem seu poder de persuasão. Infelizmente o chalé tinha telefone e ela não ia ficar totalmente fora do alcance de Matt. Decidiu, então, que não atenderia nenhum chamado enquanto estivesse lá.

Deixou um bilhete, dizendo que telefonaria nos próximos dias, e que voltaria quando Greg Fortnum já tivesse ido em­bora. Estava se preparando para sair, quando o telefone tocou. Irritada, hesitou alguns instantes mas achou melhor atender. Se fosse seu pai, fingiria que era Maggie, a governanta.

— Alô — disse com voz seca, recitando automaticamente o número do telefone.

— Boa tarde — cumprimentou uma voz quente. — Gos­taria de falar com o sr. Rayner. Ele está?

— Ele não está, no momento — respondeu Caroline. Não sabia quem era, mas a voz, sem dúvida, era muito atraente. — O senhor quer deixar algum recado?

— Peça a ele que me telefone, quando voltar. Meu nome é Greg Fortnum, ele sabe o número.

Caroline olhou horrorizada para o fone, como se tivesse nas mãos uma cobra venenosa. Greg Fortnum! A última pessoa com quem ela queria falar!

— Alô? Ainda está aí?

— Claro. Estou ouvindo. Disse Greg Fortnum?

— Isso mesmo. — Ele já estava começando a ficar im­paciente. — Algum problema?

Ela quase caiu na gargalhada. Algum problema. Todos os problemas! Como podia estar conversando tão calma­mente com o homem que queria se casar com ela como quem faz um negócio?

— Não, senhor — respondeu, educada, tentando imitar a empregada. — Direi ao sr. Rayner que o senhor telefonou.

— Muito obrigado. — E desligou.

Muito bem! Então aquele era o famoso Greg Fortnum. A voz, apesar de um pouco ríspida, não deixava de ser atraente e sensual. Será que o físico combinava com a voz? Pelo prestígio que tinha com as mulheres, era bem provável. Mas não estava interessada em nenhum conquistador, por mais atraente que fosse.

Apanhou a mala, decidida, e saiu depressa, para não cair na tentação de ficar para conhecer o dono de uma voz tão quente. A curiosidade era grande, mas o que ganharia? E se não resistisse aos encantos dele e acabasse concordando com o casamento? Não, não aceitaria jamais ser apenas a anfitriã perfeita para os amigos do marido! Suas ambições eram maiores. Queria ser a coisa mais importante da vida do homem com quem se casasse.

Já era quase noite, quando chegou ao chalé. Deixou o carro na garagem coberta, apanhou a mala e os mantimentos que tinha comprado no caminho e entrou na casa fria. Es­fregou as mãos geladas, dando graças a Deus por encontrar madeira seca ao lado da lareira. Assim que o ambiente es­tivesse aquecido, poderia preparar uma sopa.

Foi até o andar de cima e trouxe dois lençóis, que sacudiu e estendeu diante do fogo para esquentar. Depois de uma noite de sono na cama macia e quentinha, sem dúvida iria se sentir melhor. Por enquanto, ainda estava um pouco nervosa e agitada.

Apesar do conforto do quarto aquecido, Caroline não con­seguia dormir. Os ruídos lá de fora, aumentados pela chuva, a impressionavam. E, de repente, ela teve a impressão de ouvir um barulho de porta de carro batendo. Levantou-se, sobressaltada. Estaria sonhando? O que faria um carro ali àquela hora da noite? E só podia ser mesmo ali pois não havia nenhuma outra casa por perto.

Caminhou com cuidado até a janela e espiou por uma . fresta da veneziana. Uma figura alta estava saindo de den­tro de um carro desconhecido e indo até o porta-malas. O coração de Caroline quase saltou do peito quando o homem olhou para cima. Será que a tinha visto? Provavelmente não, porque voltou a mexer no porta-malas. Não adiantava nada ficar ali parada. Decidiu descer e telefonar para al­guém, pedindo socorro.

Os degraus rangeram alto sob seus pés e Caroline rezou para que o estranho não tivesse ouvido. Já estava perto do telefone quando a porta se abriu e as luzes se acenderam. Piscou, ofuscada, e fechou depressa o penhoar quase trans­parente. O homem parado na entrada, moreno e arrogante, estava desagradavelmente surpreso por vê-la.

Apesar do medo, Caroline ficou com raiva. Quem seria aquele pretensioso, que a olhava como se ela fosse a intrusa? Recuperando o controle, olhou-o diretamente nos olhos.

O homem chegou mais para perto da luz, que produziu re- flexos intensos nos seus cabelos negros, e, com dois penetrantes olhos verdes mediu-a da cabeça aos pés. Era alto, forte e sua calça justa realçava os músculos das coxas longas.

— É a empregada, suponho — comentou, delicado.

— Claro que não! — retrucou Caroline, furiosa, odiando o olhar penetrante. — Quem é você? — Pelo menos, não parecia um ladrão.

— Isso não tem a menor importância — respondeu, co­locando a mala no chão e acendendo um cigarro que tirou de uma cigarreira de ouro. — O que me interessa, no mo­mento, é saber quem é você. Pela sua atitude, suponho que seja uma das amigas da antipática da filha.

— Antipática da filha? — repetiu, irritada. — Que filha? Ele fechou a porta e se aproximou, com movimentos se­guros, do fogo que morria na lareira.

— A antipática da filha de Matt. Cynthia, Catherine, ah!, qualquer coisa assim.

— Ah! — exclamou Caroline, perplexa. Antipática? Será que era mesmo antipática? — É, somos amigas, mas quem é você?

— Por que não sobe e veste alguma coisa mais discreta, antes de conversarmos? Gostei do seu corpo, mas não cos­tumo conversar com mulheres semidespidas.

— Não mesmo? — perguntou Caroline, com ironia, ten­tando revidar a agressão.

— A não ser que sejam escolhidas por mim — acrescentou, malicioso —, e não é esse o seu caso.

Caroline olhou para ele, furiosa, e saiu da sala, explodindo de raiva. Que homem grosseiro! Mas quem seria ele, afinal? Com certeza, um dos amigos de seu pai, mas quem? E como se atrevia a chamá-la de antipática, se nem sabia direito o nome dela? "Cynthia ou Catherine"! Que atrevido! Tam­bém, não ia contar a ele que era a filha de Matt! Não depois de tamanho desaforo!

Voltou cinco minutos depois, de jeans e suéter verde de lã grossa, sentindo o cheiro gostoso de café fresco.

— O café está sem açúcar — ele avisou, saboreando o dele com prazer. — Agora já pode me dizer o que está fa­zendo aqui? — acrescentou, colocando a xícara sobre a mesa.

— Eu? E você, o que significa sua presença aqui?

— Fui autorizado a passar alguns dias aqui — informou, desdenhoso. — E você?

— Não acha óbvio? Minha... minha amiga me cedeu o chalé para o fim de semana. Você deve ter visto que há um estúdio aqui.

— Estúdio? Que espécie de estúdio?

— Um estúdio de pintura,

— Ah, sei! — O desprezo era tão nítido na voz dele que a raiva de Caroline aumentou.

— Quem é você? — perguntou impaciente.

— Meu nome é André... André Gregory — explicou, sem tentar disfarçar que não tinha gostado do tom da pergunta.

— André? Você não tem nada de francês. O nome é fran­cês, não é?

— Tenho sangue francês, por parte de mãe. E você, como se chama?

— Caroline... — hesitou. — Caroline Rawlings. — Por que tinha mentido? Será que ele ficaria desconcertado se soubesse que ela era a filha de Matt, ou não se abalaria nem um pouco? Não parecia aborrecido por terem que passar a noite juntos. Aliás, parecia um homem que não se des­controlava nunca. O rosto dele era uma máscara, que não deixava transparecer o menor sentimento.

— Bom, srta. Rawlings, parece que nós dois temos in­tenção de dormir aqui. Eu podia ser cavalheiro e deixar a casa para você. Mas como as boas maneiras nunca foram o meu forte, não tenho a menor intenção de fazer isso. Con­cordo com sua presença, embora nada me garanta que seja mesmo amiga da filha de Matt.

— Você também pode estar mentindo — argumentou Caroline.

— Está bem, então vamos aceitar que nós dois tivemos permissão para usar a casa. O que vamos fazer agora?

— Eu não pretendo fazer nada. Cheguei aqui primeiro, por isso acho que quem deve sair é você.

— Mas por que um de nós deve ir embora? A casa tem dois quartos, não é mesmo? Considerando que vivemos hoje num mundo mais livre não acredito que você se recuse a dividir a casa com um membro do sexo oposto.

— Não me considero assim tão livre — respondeu Caroline,   corando de vergonha e raiva. E de fato não pertencia ao meio que ele frequentava, apesar dos esforços de alguns de seus amigos. Muitos dos homens do seu círculo de amizades até a consideravam frígida, o que absolutamente não os impedia de tentar por todos os meios levá-la para a cama. Certamente por causa do dinheiro de seu pai, pensava ela, sem se dar conta de que era muito bonita e atraía muito os homens.

— Sendo amiga da srta. Rayner, isso me surpreende.

— O que quer dizer com isso? — interrompeu, furiosa.

— O que você ouviu. Pelo que dizem, aquela garota não é das mais recatadas, e já que você convive com ela... bem, seria de admirar se fosse tão inocente quanto quer parecer.

— Sr. Gregory! — ela explodiu, se levantando. — O que pensa ou deixa de pensar não tem a menor importância para mim. Tenho consciência do que sou e isso me basta.

— Ótimo. — Por um instante, os olhos verdes de André revelaram respeito e admiração, mas só por um instante. Logo, o sorriso desdenhoso voltou aos lábios dele. — Em que quarto vou ficar?

— Se vai mesmo ficar, fique no da direita, porque já ocupei o outro.

— Se quisesse, ficaria no quarto da esquerda, mas não quero. — Ele mesmo sorriu com a provocação. — Prefiro o da direita. Concorda?

— Faria alguma diferença, se eu não concordasse?

— Nenhuma. Sua opinião não tem a menor importância para mim. — Passou a mão pelos cabelos negros, num gesto cansado. — E acho bom que esteja falando a verdade, jovem. Caso contrário, vai se ver fora daqui antes de um piscar de olhos.

— E como pretende saber se estou mentindo? — Os olhos dela brilhavam de ódio.

— Sabe que existe um aparelhinho chamado telefone? — André Gregory sorriu, zombeteiro. — Importa-se que eu o use?

— A vontade — respondeu, indiferente.

— Acho que já está na hora de lhe dizer boa-noite... ou bom-dia... — disse ele, apanhando a mala que havia deixado no chão.

— Não vai continuar com essa encenação, vai? — Caroline se assustou com tanta calma. — Olhe, não é assim tão tarde — tentou argumentar, desesperada. — Por que não vai para um hotel? Existe um ótimo, na vila.

— Se é assim tão bom, por que não vai você? Não tenho a menor intenção de sair daqui. Pelo amor de Deus, garota! — exclamou, impaciente, percebendo a ansiedade dela. — Não estou propondo dormirmos na mesma cama. Só que compartilhemos da mesma casa. Ou está aborrecida porque não tentei levá-la para a cama comigo?

— Talvez outras mulheres o achem fascinante, senhor Gregory. Mas, para mim, é simplesmente desprezível. — A raiva e o desprezo apareciam nitidamente no rosto de Caroline, que ergueu a cabeça com dignidade. —Já que insiste em ficar aqui, acho que vai precisar de roupas de cama. Sabe onde estão?

André Gregory examinou descaradamente as curvas do corpo dela, como se tentasse adivinhar o que havia por baixo da roupa grossa. Caroline precisou se controlar para não esbofeteá-lo, principalmente depois que reparou no sorriso cínico que dançava nos lábios dele.

— Adivinhou. Não sei, mas se me der algum tempo posso descobrir sozinho. Num lugar tão pequeno, não vai ser muito difícil.

— Acontece que as roupas de cama ficam no meu quarto. E não tenho a menor intenção de permitir que entre lá.

— Por que não? Podia até ser divertido.

— Não para mim — Caroline cortou logo a conversa. — Venha, vou lhe mostrar o quarto, talvez possa dormir um pouco.

— Não já, ainda vou tomar um banho. A viagem me deixou sujo e exausto.

— É sempre tão grosseiro, ou fui contemplada com um ataque de indelicadeza? — perguntou, irónica. — Depois do susto que me deu, chegando de repente no meio da noite... depois de me acusar de intrusa... Ainda pretende me manter acordada por mais tempo, só para tomar um banho! E o cúmulo!

— Srta. Rawlings!, se é que é esse mesmo o seu nome, o que duvido, não me pareceu nem um pouco assustada. Melhor seria dizer... furiosa. E vamos esclarecer as coisas. Não a acusei de intrusa. Só disse que podia ser, o que é diferente, — Encolheu os ombros largos. — Quanto ao ba­nho, pretendo tomá-lo com ou sem a sua aprovação. Lamento muito se isso a incomoda.

Caroline não perdeu tempo em responder. Ele era tão obstinado quanto ela.

Subiu a escada com determinação, consciente dos passos firmes atrás dela. Levou-o até o quarto normalmente usado por seu pai, nas raras vezes em que vinha com ela até o chalé. Era todo azul e branco: tapete azul, móveis brancos e papel de parede estampado em azul, branco e preto.

— Se foi sua amiga quem decorou o quarto, teve muito bom gosto — comentou André, satisfeito, colocando a mala sobre o criado-mudo ao lado da cama de casal.

— Foi — respondeu Caroline, que permanecia na porta, nervosa e indecisa. — Ela tem muito senso estético.

— Por isso o estúdio?

— Exatamente. O banheiro fica no corredor. Deve estar acostumado a ter banheiro, mas como aqui só existe um, vamos ter que compartilhá-lo.

— E se eu quiser andar por aí sem roupa? — O tom era de provocação.

— Isso é problema seu — respondeu, fria — Mas preferia que se controlasse, se possível. Não estou acostumada a ver homens estranhos andando nus pela casa.

— Mas está acostumada com os conhecidos?

— Não seja mal-educado! Está me insultando, sr. Gre­gory. Se prefere, posso dizer de outra maneira: não estou acostumada a ver nenhum homem despido. Satisfeito?

— Meu nome é André. — Sorriu. — Como pretendo cha­má-la de Caroline, sugiro que também me chame pelo pri­meiro nome. Quanto a estar satisfeito, vai depender de você.

Caroline se deu conta de como era precária sua situação, ali dentro do quarto dele.

— Vou buscar as roupas de cama — disse apressadamente.

— Ótimo! — Ele riu, jogando o casaco sobre a cama e começando a tirar a malha de lã grossa.

Ela saiu correndo, antes que ele tivesse tempo de tirar mais alguma peça de roupa. Demorou bastante para pegar os lençóis e cobertores, temendo encontrá-lo nu.

Na volta, bateu de leve na porta. Como ele não respondeu, achou que devia estar no banho e resolveu entrar. Recolheu as roupas espalhadas pela cama, dobrou-as e colocou-as numa das cadeiras, antes de arrumar a cama. Estava terminando de estender os lençóis quando ele voltou para o quarto.

Virou-se, apreensiva, quando ouviu a porta se abrir, mas ficou tranquila ao ver que ele estava de roupão. Interrom­pendo a arrumação, Caroline se afastou um pouco e ficou ali parada, nervosa, sem saber o que fazer.

— Já arrumei sua cama — disse, mas logo se arrependeu, de tão óbvio.

— Estou vendo. — Os olhos verdes tinham uma expressão de zombaria. — E como concessão à sua alegada modéstia, vesti este roupão. — Atirou a toalha sobre as roupas. — Mais alguma coisa?

— Não, claro que não. — Ela apanhou a toalha molhada. — Assim vai estragar suas roupas. Vou estender a toalha no banheiro, para secar.

— Obrigado.

— De nada. Bem, vou dormir. Boa noite — Saiu depressa, fugindo da risada zombeteira.

Com André Gregory no quarto ao lado, não foi fácil pegar no sono. Ouviu-o andando de cá para lá e ficou imaginando o que estaria fazendo. Estranho! Embora a presença dele a irritasse, ao mesmo tempo dava a ela uma certa segurança. Precisava telefonar para o pai, no dia seguinte, e perguntar quem era esse amigo, Também precisava pedir a ele que confirmasse sua história, caso André telefonasse.

 

Caroline acordou com os raios suaves do sol entrando pela janela. Piscou, sonolenta, e deu uma olhada no relógio. Quase oito e meia! Se não ligasse para o pai nos próximos quinze minutos, não o encontraria mais em casa. Correu para o banheiro, mas o encontrou fechado.

— Está aí, sr. Gregory? — perguntou, forçando a maçaneta.

— O que é que você acha? Que tal voltar para o seu quarto e esperar até que eu termine de me barbear? — A voz que vinha do outro lado da porta era profunda e envolvente.

— Já teve tempo suficiente... Estou com pressa e vou ficar aqui até você sair — observou, teimosa.

— Está bem, fique à vontade! Mas, devo preveni-la... não me preocupei em vestir o roupão.

Caroline corou violentamente e foi forçada a voltar para o quarto. Ele sabia perfeitamente que ela não tinha coragem de enfrentar um homem despido.

— Está bem — admitiu a derrota. — Vou descer e es­quentar água para o café... — e telefonar para papai, quis acrescentar, mas ficou calada.

— Vejo que já está mais mansa — ele zombou.

Ela não se deu ao trabalho de responder e desceu a escada correndo, satisfeita peta oportunidade de conversar com o pai a sós, antes que André descesse.

— Alô, papai?

— Caroline? — A voz do pai era ríspida. — É você, Caroline?

— Quem mais chama você de papai? — brincou, tentando quebrar a tensão.

— Onde você está? — perguntou, sem rodeios. Ela podia imaginar o rosto contraído do pai, que detestava ser contrariado.

— Eu... estou no chalé — explicou, depois de um instante de hesitação.

— Você está onde? — explodiu. — Que diabos está fazendo aí nesta época do ano? Com esse frio. como vai conseguir madeira e carvão para a lareira?

— Ainda há madeira e carvão suficientes para alguns dias. Além disso, não estou sozinha. Há um homem aqui comigo, que pode cortar mais lenha, se necessário. — Não conseguiu conter um sorriso, antecipando a cólera de Matt.

— Há o que aí com você? O que está fazendo aí com um homem? Como tem coragem de me dizer, com essa calma, que está no chalé com um namorado? — A voz dele tremia.

— Calma, papai. Não disse que é meu namorado, é apenas um homem.

— Dá no mesmo — interrompeu Matt. — Não vou per­mitir que..

— Papai! Quer me deixar explicar? O homem que está aqui se chama André Gregory e diz que é seu amigo.

— Gregory? André... André! Meu Deus! — suspirou, des­controlado. — Ele chegou muito tarde, ontem à noite?

— De madrugada; como sabe?

— Porque disse a ele que podia ficar no chalé o tempo que quisesse. Não me passou pela cabeça que você fosse tomar uma atitude tão infantil. Volte para casa imediatamente!

— Não! Não vou voltar! Estou na minha casa. Você não disse que o chalé é meu? E fique sabendo que não tomei nenhuma atitude infantil — exclamou, magoada. — Você me forçou a sair de casa, quando convidou aquele homem para passar o fim de semana conosco.

— Greg não vem, de maneira que você pode voltar para casa sem susto.

— Não vai? Quer dizer que toda aquela conversa de ven­dedor foi inútil? Ele nem se deu ao trabalho de aparecer? — Caiu na gargalhada. — Essa é boa!

— Ainda bem que você acha. Agora, que tal vir para casa?

— Não! Vim passar o fim de semana aqui e não pretendo mudar meus planos. O senhor tem alguma objeção?

— Todas — respondeu, impaciente. — Só que agora não tenho tempo de enumerá-las, porque estou atrasado. Assim que chegar no escritório, telefono outra vez.

— Está bem. Mas, papai, se o sr. Gregory atender, não diga que sou sua filha. Mande chamar Caroline.

— Escute aqui, menina, não sei o que está se passando por aí, mas exijo que esteja de volta quando eu chegar do escritório esta tarde — ordenou, sem entender coisa alguma. — Está me ouvindo, Caroline? Exijo que volte para casa, está entendendo?

— Estou — concordou calmamente. — Só que não vou obedecer. Tenho todo o direito de ficar aqui.

— Caroline, se já viu André, deve ter percebido que ele não é de confiança quando se trata de mulheres. Embora você garanta que não se impressionou com os encantos dele, tenho certeza de que não vai demorar muito a se render, como as outras. Tenho ou não razão?

— Não, não tem — negou categoricamente. — Ainda não conheci nenhum homem que tivesse me impressionado as­sim. E pelo visto, não é o sr. Gregory que vai realizar essa façanha. É egoísta, arrogante e... — parou ao ouvir um ruído na porta. Encostado à parede, André olhava para ela. Há quanto tempo estaria ali, escutando a conversa?

— Não se preocupe comigo, senhorita — disse, caminhando com uma lentidão enervante até diante da lareira, onde se sen­tou. —Até aqui, a conversa foi bastante esclarecedora. Continue, não se acanhe. — E grudou nela os olhos zombeteiros.

Só então ela notou a lareira acesa. Com certeza André Gregory tinha descido antes dela.

— Caroline? Caroline! — a voz do pai soava do outro lado, zangada. — Caroline, o que está acontecendo aí?

— Ahnn... — Ela estava desconcertada por causa de An­dré. — É uma pena que sua filha não esteja, sr. Rayner! Gostaria muito de falar com ela ainda hoje. Pode pedir a Cynthia que me telefone?

— Cynthia? Sr. Rayner? — A perplexidade de seu pai era evidente. — Que diabo está acontecendo aí? Por que você... Ah, já sei. André entrou na sala, não é?

— Exatamente — ela concordou, aliviada. — Ficarei mui­to agradecida se der o recado a ela.

— Está bem, você venceu. Telefono mais tarde para es­clarecermos toda essa confusão.

André Gregory aproximou-se e estendeu a mão para o fone.

— Gostaria de falar um instante com Matt, se não se importa.

— Claro. O sr. Gregory vai falar agora, sr. Rayner. — Passou o telefone e cruzou os dedos, torcendo para que seu pai não a traísse.

— É uma conversa particular — disse secamente.

— Parece que você não respeitou minha privacidade, quando eu estava ao telefone. — Os olhos de Caroline chis­pavam de raiva. — Nem tentou fingir que não estava pres­tando atenção ã conversa.

— Você não me pediu que saísse! — ele alegou, paciente. — Agora... quer me dar licença?

Como não tinha outra alternativa, Caroline virou as cos­tas e saiu da sala, batendo a porta. Tornou a subir e, ao passar pelo quarto dele, viu que a cama ainda estava por fazer. Devia ter um sono muito agitado, pois os lençóis es­tavam completamente remexidos. Levou um tempo razoável para recolher os travesseiros e alisar os lençóis.

— Como amiga da filha de Matt, não pensei que fosse   eficiente numa atividade tão prosaica como arrumar camas. Pelo visto, me enganei. — Disse isso no tom cínico de sem­pre, que já estava começando a cansar.

— Como você não me pareceu capaz de fazer isso sozinho... — Sou perfeitamente capaz de arrumar minha própria

cama. — Aproximou-se dela perigosamente. — Minhas... amigas podem confirmar isso.

— Não estou interessada na sua vida sexual. — Caroline afastou-se. — Agora, com licença.

André se pôs na frente dela, barrando a passagem. Olhou para ela com ar de desafio, o rosto contraído.

— Não estava falando de minha vida sexual — fez uma pausa significativa. — Mas, já que tocamos nesse assunto, de qual dos Rayner você é amiga?

— O que é que está querendo insinuar?

— O que você acha? — Olhou para ela com desprezo. — Matt não lhe poupou elogios, agora há pouco, mas nem falou na filha. Além disso, pediu que me afastasse de você, o que, na minha opinião, só pode significar uma coisa. Gostaria muito de saber o que é que a antipática da filha dele pensa dessa sua amizade com o pai dela. Se é que ela sabe, lógico!

Caroline mal podia acreditar no que estava ouvindo. Olhou para ele, horrorizada.

— Como tem coragem de dizer coisas tão terríveis de um homem de quem se diz amigo? Se os amigos do... do sr. Rayner são todos como você, ele jamais vai precisar de inimigos!

— Ora, vamos, menina! — O olhar dele estava carregado de sarcasmo. — Matt é meu amigo, mas também é homem.

— Olhou-a de alto a baixo, com ar de aprovação. — E você não é de se jogar fora...

— Muito obrigada! — explodiu, tentando passar por ele, mas foi agarrada pelo braço. — Quer fazer o favor de soltar meu braço?

— E se eu lhe disser que é linda, vai ficar mais calma?

— Com a outra mão, levantou o queixo de Caroline, num gesto de posse.

— Não, não vou! — Afastou a mão dele, com raiva. — Como vê, não costumo ceder a conquistadores como você. E, quanto aos insultos que dirigiu ao sr. Rayner e a mim, não vejo razão para convencê-lo de que está redondamente enganado. O sr. Rayner é um homem muito respeitável e tem idade suficiente para ser meu pai.

— Eu também tenho... ou quase. Nem por isso meus sen­timentos em relação a você são paternais. Você não é o tipo de moça que desperta nos homens instintos paternais... muito pelo contrário. Especialmente vestida assim, como está agora. Aliás, suas roupas, nas duas ocasiões em que nos encontramos, dificilmente inspirariam uma simples amizade.

— Não estou interessada na sua amizade — afirmou Ca-roline, categórica. — Mas se minhas roupas o ofendem, vou imediatamente trocá-las.

— As suas roupas não me ofendem! Pelo contrário, acho-as até bastante... estimulantes. Mas não tenho a menor intenção de invadir os domínios de Matt.

— Não sou domínio de homem algum, muito menos do sr. Rayner. E agora, saia da minha frente!

— Que coisa feia, Caroline. — As mãos dele a apertavam com mais força, fazendo-a gemer de dor. — Peça desculpas por ter sido indelicada comigo.

— Não! Não tenho por que lhe pedir desculpas!

— Tem sim, porque eu lhe disse que vai pedir desculpas!

— O rosto dele se contraiu, ameaçador, e seus olhos bri­lharam como duas esmeraldas. — Se há uma coisa que não suporto são garotinhas mal-educadas, que não levaram surras necessárias, nos momentos adequados. No fim, quem, sofre são os pobres dos homens que se casam com elas.

— Fala por experiência própria, sr. Gregory?

— Não. — Riu com amargura. — Tive o bom senso de não me deixar envolver! Mas conheço as esposas de vários amigos meus, e sei do que estou falando.

— Conhecimento íntimo, sem dúvida! Não, sr. Gregory?

— Em alguns casos. — Soltou-a de repente, e ela perdeu o equilíbrio. Tentou se apoiar em alguma coisa e, quando se deu conta, estava nos braços dele, sentindo seu hálito morno nos cabelos.

— Solte-me! — gritou, lutando desesperadamente para se livrar daquele abraço. — Tire as mãos de mim!

André Gregory soltou-a imediatamente.

— Estou começando a acreditar que não é namorada de Matt. Pelo jeito, não suporta ser tocada por um homem, não? Ou é só por mim que sente aversão?

— Gostaria de dizer que é só pelo senhor, mas infeliz­mente não é. — Se encolheu, num gesto defensivo, sem se importar com os cabelos que caíam no rosto, despenteados.

— Ainda não conheci o homem capaz de me levar ao auge da paixão ou às profundidades do desespero... se é que tais sentimentos existem.

Incapaz de sustentar o olhar dela, André Gregory dirigiu a atenção para os objetos que enfeitavam a mesa, pegando um ou outro e fingindo examiná-los com atenção.

— Talvez tenha razão. Acredito nas grandes paixões, mas nunca experimentei um grande desespero. Sou como você: nunca deixei uma pessoa me dominar, tão completamente, a ponto de transformar minha vida num mar de felicidade ou num inferno de agonias.

— Até nisso somos diferentes. Você não tem apenas uma pessoa na vida; tem várias, enquanto eu não tenho nenhuma.

— Nunca imaginou que, com várias pessoas, nos prote­gemos do domínio de uma?

— Não acredito nisso. Agora, com licença, preciso me vestir.

— Não se esqueça de que ainda não me pediu desculpas!

— Nem vou pedir.

— Vai sim. — Segurou novamente o braço de Caroline, — E já. Vamos, seja uma boa menina e peça desculpas.

Os olhos de Caroline brilharam de indignação. Que ou­sadia! Quem ele pensava que era? Com raiva, quase contou a ele que era a dona da casa, mas resistiu à tentação. Ainda não era a hora, ele ainda não a tinha insultado o suficiente para ficar envergonhado quando soubesse que estava diante da filha de Matt Rayner, e não de sua amante. Lembrando a ofensa à reputação do pai, a raiva de Caroline redobrou.

— Não tenho motivos para lhe pedir desculpas. E queira sair do meu caminho, por favor.

— Isso não foi um pedido, foi uma ordem! E detesto que me desobedeçam, mocinha. — Os dentes dele brilharam, muito brancos, num sorriso mau. — Estou esperando.

— Pois vai continuar esperando, porque não vou me des­culpar jamais. Jamais!

André Gregory continuou a encará-la. Seus olhos brilha­vam como aço, como se quisessem fulminá-la.

— Vai sim. Você não está em condição de discutir. Não se esqueça que, vestida, ou melhor, despida assim, num lugar isolado como este, está completamente à minha mercê. É claro que eu não gostaria de me aproveitar da situação, mas...

— Ah, você não ousaria!

— Será que não? É, talvez tenha razão. Afinal, Matt é meu amigo e você é...

— Propriedade dele — completou Caroline, agressivíssi-ma. — Está enganado, sr. Gregory. Está bem, está bem, — suspirou — se isso satisfaz seu ego machista, eu peço desculpas. Satisfeito?

— Por um instante, achei que ia admitir seu envolvimento com Matt — comentou, soltando-a. — Mas parece que você não é o tipo de mulher que sai por aí se vangloriando de. suas conquistas.

— Conquista! — murmurou com desprezo, esfregando o pulso que ele tinha acabado de soltar. — Ser amante de um executivo de meia-idade... chama isso de conquista? Eu chamaria de...

— Posso imaginar, senhorita puritana. Que mal há em proporcionar um pouco de alegria a alguém? Ou também não admite isso? Santo Deus, quanto recato! Estranho como consegue combinar com leviandade.

— Leviandade? Mas eu não...

— Estou falando de Cynthia, ou seja lá que nome tenha. Também condena o comportamento dela?

— Somos grandes amigas e posso garantir que ela não tem nada de leviana.

— Quer dizer que é mentira tudo o que dizem por aí?

— Não sei o que dizem por aí, sr. Gregory — levantou a cabeça, ofendida —, mas aconselho-o a não dar ouvidos a fofocas maldosas. O senhor, mais do que ninguém, devia saber que aquilo que as pessoas não sabem, elas inventam.

— Eu, mais do que ninguém? Ah, sim, refere-se ao meu relacionamento com as esposas dos meus amigos. Talvez, em parte, você tenha razão. Mas acontece que recebi essas informações de fonte autorizada.

— E quais são essas fontes?

— Isso não vem ao caso — replicou, irritantemente calmo, olhando-a com sensualidade. — E, se não sair logo do meu quarto, posso considerar sua relutância um convite...

— Não se entusiasme, sr. Gregory! Eu não o convidaria para ir a parte alguma, muito menos para minha cama! — Antes que ele resolvesse obrigá-la a se desculpar por isso também, saiu depressa e se fechou no banheiro. Encostou o ouvido na porta, tentando ouvir os movimentos dele, mas percebeu, decepcionada, que ele assobiava alegremente. Será que nada abalava aquela calma irritante? Não se cha­mava Caroline se não descobrisse o ponto fraco daquele homem e não lhe desse uma boa lição.

Quando desceu a escada, depois de se trocar, sentiu no ar o cheiro gostoso de bacon... o seu bacon, sem dúvida alguma. Era mesmo um cara-de-pau, aquele André Gregory!

— Olá! — cumprimentou alegre, sem demonstrar seu descontrole. — A comida dá para mim também?

Se ele ficou surpreso com a mudança de atitude dela, não demonstrou nem de leve. Olhou-a demoradamente, an­tes de continuar a fritura.

— Se quiser... — respondeu, indiferente.

— Obrigada. — Caroline apoiou o queixo nas mãos e olhou para ele cheia de malícia, mas não foi notada. — O ar do campo me deixa faminta. A você, não?

— Acho que deixa — concordou, lacônico. — Nunca passei muito tempo no campo, para saber. — Virou-se para ela.

— Quando vai embora?

A pergunta quase fez Caroline perder o controle, mas ela manteve a tranquilidade.

— Embora? — repetiu, como se não estivesse entendendo.

— Não vou embora — explicou, suave. — Existem dois quar­tos na casa, e prometo não aborrecê-lo, se você também não me aborrecer.

— Está falando sério? — perguntou, depois de analisá-la por um instante.

— Claro — respondeu, bem-humorada. — Por que não? Podíamos nos dar muito bem, se fizéssemos as pazes.

— Caroline, vim aqui para ter um pouco de paz e tranquilidade. Como vou conseguir isso, com você andando por aí o dia todo com essas roupas provocantes?

— Está querendo dizer que me acha atraente, sr. Gregory?

— Não, não quis dizer isso. Mas qualquer homem se perturbaria com a sua aparência. — Colocou diante dela um prato com bacon e ovos mexidos. — Vamos tentar outra vez... quando vai embora?

— Pela segunda vez, não vou embora. — Atacou com en-tusiasmo o desjejum. — Escute, sr. Gregory... André — per-cebeu uma leve surpresa nos olhos dele, e sorriu. — Pretendo passar a maior parte do tempo no estúdio e não vou atrapalhar em nada suas atividades. Não é uma boa idéia?

— É uma ótima idéia, só que não concordo. Vim para cá para me livrar de... mulheres insinuantes corno você e não para me aborrecer. Mas por que essa mudança súbita? Até alguns minutos atrás, não via a hora de se livrar de mim.

— Estive pensando, enquanto me trocava, e cheguei à conclusão de que não há motivo para toda essa hostilidade. O espaço é suficiente para nós dois... um não precisa in-terferir na vida do outro, não é?

— E Matt, o que vai achar disso?

— Já contei a ele. Está surpreso? Contei sim... disse a Matt que ia ficar uns dias aqui, e acho que você deve ter dito a mesma coisa. Ele não ficou muito satisfeito, mas concordou. Disse que talvez apareça por aqui, uma hora dessas.

— Não tenho dúvidas de que vai aparecer. — Sorriu, sarcástico. — Sabe muito bem como atraí-lo, não é mesmo? Ora, termine de comer, depois conversamos — acrescentou, impaciente.

Caroline obedeceu, saboreando com prazer sua refeição. Ele que quebrasse a cabeça para descobrir o porquê da mu-dança. Tinha vestido aquela calça comprida, tão justa, de propósito. E deixou os longos cabelos loiros soltos, certa de que ele não deixaria de notar. Feliz da vida, percebeu que o truque tinha dado certo. Isso mesmo, André Gregory! Di­virta-se, porque a brincadeira está só começando e você não vai demorar muito a se render. Sim, seu pretensioso, sua hora está chegando!, jurou mentalmente.

Ela se instalou no estúdio para trabalhar. Fazia muito tempo que não vinha ao chalé, mas sentia que ali conseguia relaxar e pintar melhor que em qualquer outro lugar. Só que nesse dia alguma coisa bloqueava sua criatividade, e só podia ser André Gregory e os ruídos que ele fazia lá embaixo. Estava justamente pensando nele, quando ouviu que ele a chamava.

— Caroline! Caroline! Matt está chamando você ao telefone.

— Matt? — perguntou, correndo para a porta, quase sem fôlego.

— Ele mesmo, e parece que é urgente! — respondeu André lá da sala.

— Quer passar a ligação aqui para cima, por favor? E só apertar o botão que fica ao lado do telefone.

— Importa-se que eu ouça?

— Claro que sim! Minha conversa com o sr. Rayner é particular.

— E ainda tem coragem de dizer que não existe nada entre vocês dois? — Sorriu com desprezo e virou as costas para ela.

Caroline quase voou escada abaixo para lhe dar umas bofetadas, mas o toque do telefone fez com que voltasse à realidade. Pegou o fone com as mãos trêmulas. Ia ser mais difícil do que imaginava, manter uma aparência descontraí­da diante daquele homem desconcertante.

— Alô — atendeu, ríspida.

— Algum problema, Caroline? — perguntou a voz preo­cupada do pai.

— O arrogante do seu amigo! Mas, nada sério... — res­pondeu, rindo.

— Você ainda não conhece o André. — Agora foi a vez de Matt rir. — Se pensa que pode dobrá-lo, cuidado. Muitas mulheres tentaram, mas nenhuma conseguiu até hoje.

— Não se preocupe, papai! Não pretendo me casar com o homem, só quero é lhe dar uma boa lição.

— Caroline! Você não me entendeu, ou não está querendo entender? André não é homem para esse tipo de brincadeira!

E pode me explicar por que tenho que pedir para falar com Caroline e não com minha filha?

— Porque, no momento, para o seu amigo, eu posso ser muitas coisas, menos sua filha.

— Que coisas?

— Sua... amante, por exemplo.

— Minha o quê?

— Sua amante. — Riu do susto dele. — Além de ser uma leviana.

— Maldito! — gritou, furioso.

— Ora, papai, coloque-se no lugar dele. Nessas circuns­tâncias, você não ia achar a mesma coisa?

— Não, não ia.

— Papai!

— Bom... pode ser. Mas ele foi muito atrevido, dizendo uma coisa dessas. O que é que ele pensa que eu sou? Um sedutor de menores?

— Você tem quase a mesma idade que Greg Fortnum e nunca achou que ele era velho demais para mim — ela argumentou. — Mas André disse que eu não devia me en­vergonhar por alegrar um pouco a vida de alguém... a sua.

— Canalha!

— Também acho. Por isso mesmo quero lhe dar uma boa lição. Pretendo acabar com a empáfia daquele pretensioso.

— Caroline, talvez seja melhor...

— Não se preocupe, papai. Vou embora assim que seu amigo tiver perdido um pouco da sua arrogância.

— Bem, já que você insiste... mas saiba que não concordo. E não se esqueça de que você pode virar assunto do dia se essa história se espalhar.

— Ninguém vai saber, não se preocupe.

— Está bem, mas não deixe de manter contato comigo — concordou a contragosto.

— Pode ficar tranquilo. Só que não vou telefonar muitas vezes, senão meus planos podem falhar. Como vou seduzi-lo, se ele acha que estou envolvida com você?

— Seduzi-lo? — repetiu com voz trêmula. — Olhe, Ca­roline, isso não vai acabar bem...

— Por que não? Garanto que não corro o menor risco de me apaixonar por aquele conquistadorzinho pretensioso e arrogante. Tudo o que quero é acabar com ele.

— Boa sorte, então. — o pai riu.

Caroline olhou longamente para o fone, antes de colocá-lo no gancho. Felizmente, seu pai não tinha sido totalmente contra o plano. Mas precisava agir com cautela, para não colocar tudo a perder. Decidiu que aquele era o melhor mo­mento para entrar em ação.

A futura vítima estava estendida confortavelmente diante das chamas alegres da lareira, parecendo completamente absorvida na leitura de um livro.

Caroline se sentou no tapete, diante dele, recebendo com prazer o calor das chamas.

— É bom o livro? — perguntou sem preâmbulos.

— Muito bom — respondeu ele, baixando o livro e olhan­do-a com indiferença.

— Por que não conversa comigo? — perguntou Caroline.

— E sobre o que vamos conversar? Não temos nada em comum.

— Não é verdade, temos Matt — respondeu com um sorriso cativante. — Já é um começo, não acha?

— Pode ser. — Um leve sorriso apareceu nos lábios dele. — Embora não seja um grande começo.

Ela se levantou com entusiasmo.

— Por que não vem me ajudar a cortar lenha?

— O quê?

— Cortar lenha! — Tirou o livro das mãos dele e tentou puxá-lo. — Vou preparar um bife delicioso para você, com minhas próprias mãos — insistiu, provocante, ao perceber que ele relutava.

— Isso é para me encorajar? — perguntou, seco.

— Sei fazer um bife divino.

— Tenho minhas dúvidas. — Ele se levantou devagar, enfiando a camisa para dentro do jeans desbotado.

— Pode acreditar.

— Está bem, acredito. Vá buscar um casaco.

— Ótimo! — Caroline alegrou-se.

— Por que esse súbito interesse pela minha companhia?— perguntou André, desconfiado. — Matt não lhe disse que sou perigoso, quando encorajado?

— E quando não é encorajado também — brincou. — Como você é a única pessoa aqui, não posso me interessar por ninguém mais.

— É verdade. — Jogou fora o cigarro. — Como Matt encara o fato de você estar sozinha aqui comigo?

— Ele me desejou boa sorte.

— O que ele quis dizer com isso?

— Não faço a menor idéia — mentiu. — Mas acho que estava sugerindo que eu me comportasse. Não que eu precise dessa espécie de conselho, claro...

— Sem dúvida — disse ele, seco. — Afinal, não há mal algum em que jovens inocentes, como você, permaneçam em chalés isolados com estranhos, não é?

Caroline se esforçou incrivelmente para não perder a pa­ciência. Fez uma careta brincalhona.

— Mas você não é um estranho.

— Claro, tinha me esquecido de que você é amante de um dos meus melhores amigos! Isso nos aproxima, não é mesmo?

— Não está sendo muito gentil — reclamou.

— Não.

— Sabe que não.

— Pode ser. — André pegou o casaco e vestiu-o. — Mas não confio em pessoas que não se ajustam à primeira im­pressão que faço delas.

— E eu não me ajusto?

— Infelizmente, não. — O olhar de André percorreu admi­rado o corpo bem-feito de Caroline. — Uma hora, você arranha como um gato-do-mato; outra, ronrona como uma gatinha.

— Pensei que os homens gostassem de variar. — Os olhos dela brilharam maliciosamente.

— Gostamos — concordou, empurrando-a para fora da sala —, mas não com a mesma mulher.

Ela engoliu uma resposta azeda e subiu para apanhar o casaco, enquanto ele calçava os sapatos.

Ele acompanhou com os olhos o movimento sensual dos quadris perfeitos de Caroline enquanto ela subia as escadas.

 

Saíram do supermercado com os braços cheios de compras.

— Acho que temos comida suficiente para alimentar um batalhão durante uma semana inteira. — Caroline riu.

— Parece — concordou André, olhando-a por cima de um pacote repleto de comida. — Não devia ter-me obrigado a sair com o estômago vazio.

— Já com fome? — Caroline se admirou. — Você tomou seu café há menos de duas horas! — provocou-o!, brinca­lhona. Por mais incrível que pudesse parecer, ela tinha se divertido muitíssimo ao lado do desconhecido. Estavam tão entretidos que só na saída, no caixa, é que perceberam a quantidade de comida que tinham comprado. André insistiu em pagar, já que quem ia fazer a comida era ela.

— Olhe! — exclamou Caroline, apontando o balcão de sorvetes. — Posso tomar um?

— Está bem — a expressão dele era tolerante e diver­tida —, mas antes vamos nos livrar destes pacotes.

Ele não quis sorvete e pediu um café. Caroline escolheu uma enorme banana split, que devorou feliz.

— É bem coisa minha. — A hostilidade tinha sido momen­taneamente esquecida, e os olhos dela revelavam calor e con­fiança. — Com todo aquele frio lá fora, eu aqui tomando sorvete.

— Coisa típica de mulher — foi o único comentário dele.

— E o seu, sr. Gregory, foi um comentário tipicamente machista.

— Por que toda essa formalidade? Afinal, estamos vivendo juntos — comentou, irônico, enquanto Caroline olhava para os lados, temendo que alguém estivesse ouvindo aquele absurdo. — Ninguém ouviu, não se preocupe. Mas se sou-bessem que estamos hospedados na mesma casa, tirariam suas conclusões, não acha?

— Isso prova.que as aparências podem enganar.

— Sei disso, mas será que Matt gostaria dessa espécie de publicidade?

— Não entendi e não pretendo entender o que você quis dizer com isso.

— Se eu negar que existe alguma coisa entre nós dois, eles vão estranhar a sua posição. Claro que você pode dizer que é amiga da filha de Matt! Mas será que alguém vai achar normal ficarmos aqui, juntos, mesmo nessas circunstâncias?

— E bem provável que não, mas a opinião dos outros não me importa. Ou existe alguém especial na sua vida que possa fazer objeções à nossa estada aqui? — Prendeu a respiração, à espera de uma resposta, mas logo caiu em si e considerou ridícula a própria ansiedade.

— Sim, existe alguém, mas não acredito que ela se im­porte — respondeu, depois de um longo silêncio.

— Ela não se importa?

— Tenho quase certeza que não.

— Por quê? Ela não é possessiva ou não corresponde aos seus sentimentos? — Embora não acreditasse na última hipótese, teve que admitir que ele era devastadoramente, atraente. Mesmo sem gostar dele, ficava com o coração des-controlado quando ele a olhava. Como se sentiria uma mu- lher que o amasse, diante daquele olhar?

— Resolveu fazer um interrogatório hoje, Caroline?

— Desculpe. — Ficou confusa. — Não tive essa intenção.

— Teve sim — garantiu sem agressividade. — E a res­posta certa é a segunda. Ela mal toma conhecimento da minha existência. — Ele percebeu a emoção e a curiosidade no rosto dela e sorriu, mas mudou de assunto. — Vejo pelo seu olhar que tem muitas perguntas a fazer, Caroline, mas não vou satisfazer sua curiosidade feminina. Prefiro deixar que imagine e tire suas próprias conclusões,

— Tenho mais em que pensar — retrucou, procurando mostrar indiferença. — Mas sou curiosa — admitiu. — Pen­sei que nenhuma mulher... — calou-se, percebendo que ia agredi-lo outra vez.

— Conseguisse escapar das minhas garras, não é? — Pagou a conta e levantou-se.

— André, eu... — Ficou vermelha.

— Não tem importância. — Como ela protestasse por causa do pagamento, tranquilizou-a. — Você paga da pró­xima vez.

— Mas você só tomou um café! E quem disse que vai haver uma próxima vez?

— Eu. Não podemos passar o tempo todo trancados na­quele chalé. Vamos precisar descansar, de vez em quando.

— Descansar... um do outro?

— Não necessariamente. Até que achei você bem diver­tida. Vou esperar com ansiedade o próximo lance.

Na volta, Caroline percebeu que estar ao lado dele a perturbava intensamente. Assustada, afastou-se um pouco, mas não conseguiu desviar a atenção dos movimentos se­guros de André, que dirigia admiravelmente bem.

— Que lance? — perguntou, inocente.

— A próxima explosão. Você muda de humor como quem muda de roupa, por isso não tenho dúvida de que logo vai perder a paciência e me agredir como um gatinho-do-mato.

— Não sou geniosa.

— Mas age como se fosse.

— Está tentando me provocar, André?

— Não preciso me esforçar para isso. Parece que provoco você naturalmente — respondeu, sorrindo por ter sido cha­mado pelo primeiro nome. Parou o carro bem diante do chalé e desceu para pegar os pacotes. Ela também apanhou algumas compras e caminhou com segurança até a despensa, passando na frente dele.

— Você parece conhecer muito bem isso aqui.

Caroline olhou-o, desconfiada, tentando descobrir se ha­via duplo sentido naquelas palavras.

— É — hesitou um pouco. — Venho sempre aqui.

— Com Matt?

— E a filha dele.

— Aqui só há dois quartos — observou André. — Em qual deles fica? No de Matt ou no da filha?

— Você é desprezível! — Os olhos dela soltaram chispas de ódio. Jogou uma lata sobre a mesa, com força. — O sr. Rayner é um homem decente!

— Está bem, está bem! — Estendeu a mão, conciliador. — Estou cansado de discutir com você, mas tenho o direito de tirar minhas próprias conclusões. — Chegou até a porta da cozinha e virou-se para ela. — De minha parte, não condeno Matt.

— Obrigada! — gritou, enquanto ele se afastava, rindo. Bateu a porta, com raiva, e começou a preparar o almoço.

— Onde estão os bifes? — André correu os olhos do prato de sanduíches para o rosto dela.

— São para o jantar — respondeu, seca, mordendo com raiva um dos sanduíches.

— Vamos jantar à luz de velas?

— Se você quiser — respondeu, ferina. — Algum proble­ma com os sanduíches?

— Não, estão ótimos. Quer uma cerveja? — Não, obrigada.

Ele levantou, pegou duas latas de cerveja e instalou-se outra vez diante da lareira, sem olhar para ela. Caroline esqueceu imediatamente o bom humor e ficou ali parada, olhando-o com rancor, até que finalmente ele percebeu e levantou os olhos.

— Qual é o problema? — perguntou, intrigado.

— Nenhum — sacudiu a cabeça. — Só que você não é uma companhia muito agradável.

— Não estou aqui para entreter uma adolescente vinte e quatro horas por dia.

— Seria um pouco difícil entreter uma mulher vinte e quatro horas por dia — ironizou Caroline, ignorando a re­ferência à sua idade. — Por que não conversa comigo?

— Até que não seria tão difícil — suspirou, impaciente. — Está bem. O que seus pais acham de você estar vivendo com um homem?

— Não é verdade! E só tenho pai, minha mãe morreu.

— E uma pena que ele não cuide de você como devia — foi o único comentário de André.

— Ele cuida perfeitamente bem de mim, só que já tenho idade suficiente para dirigir minha própria vida.

— Quantos anos tem?

— Não é gentil perguntar a idade de uma mulher.

— Você disse que não é completamente mulher... ainda? Então qual é o problema de eu saber sua idade?

— Vinte.

— Vinte? — Riu, desdenhoso.

— Não vejo nada de mais em ter vinte anos. Você também já teve essa idade.

— É... — Sorriu de leve. — E agora tenho trinta e sete. Devo parecer um Matusalém, para um bebê como você.

— Não, gosto de homens mais velhos — disse com sinceridade.

André caiu na gargalhada.

— Carol, querida! Se não conhecesse bem você, diria que está tentando me paquerar.

Caroline baixou os olhos e cravou as unhas no tapete. Seu nome, dito por ele daquela maneira, lhe deu uma de­liciosa sensação de intimidade, que jamais teria esperado daquele homem.

— Talvez esteja — brincou.

— Duvido. — André ficou sério. — Não comece uma coisa que não pretende levar até o fim Carol. Não sou um rapazinho que você pode provocar à vontade e depois mandar passear.

— É isso que pensa de mim? Que gosto de provocar os homens? — Ficou magoada com aquelas palavras.

— E não gosta? As vezes não pode nem me ver; depois, procura desesperadamente minha companhia. Por mim, não se preocupe, porque não a levo a sério. Mas não se esqueça de que outros infelizes podem levá-la.

— Você é detestável! — Levantou-se, zangada, apanhou o casaco e saiu correndo do chalé, batendo a porta. Que homem insuportável! Então não estava errada na primeira impressão que teve dele.

O ar estava fresco e revigorante e, sem perceber, ela caminhou muitos quilómetros. Era a primeira oportunidade que tinha de fugir da agitação de Londres, por isso apro­veitou cada instante de liberdade no campo. Embora as árvores estivessem praticamente nuas, e a paisagem incolor, Caroline adorou o lugar. Sentada no alto de uma pequena colina, observou a beleza da região, tomada por uma paz que nunca tinha experimentado na vida.

Ouvia com prazer todos os ruídos da mata, mas ficou impressionada com um grito agudo, parecido com o de um animal ferido. Levantou e começou a procurar de onde vi­nham os lamentos. Já ia desistir quando percebeu um mo­vimento no meio de umas folhagens, e viu uma gatinha tão pequena que mal conseguia andar. O bichinho parecia não se alimentar há dias, era só orelhas e olhos.

— Oi, gatinha — chamou, suave, estendendo a mão bem devagar para não assustá-la. A criaturinha arrepiou-se toda, como se fosse ser atacada, mas aos poucos a voz doce de Caroline a acalmou. Pegando-a no colo, sentiu as costelinhas finas que quase atravessavam a pele frágil. — Pobrezinha — murmurou, penalizada. — Esta morrendo de fome, não é, queridinha? — Olhou em volta, à procura de alguma casa onde pudesse conseguir um pouco de comida, mas não en­controu nada.

A gatinha, percebendo que finalmente tinha encontrado pro-teção, ronronou e enrolou-se nos braços de Caroline, confiante. Não tinha o pêlo macio e brilhante, como seria de esperar, mas opaco e ralo, por causa da fome de muitos dias.

— Gostaria de ir para casa comigo, Susí?

Como resposta, a bichinha suspirou e fechou os olhos, embalada pelo andar de Caroline, que caminhava de volta para o chalé. Protegida do vento pelos braços da moça, só voltou a se mexer um pouco quando entraram no calor gos­toso da casa.

A porta da sala se abriu com violência, e a figura amea­çadora de André Gregory apareceu diante de Caroline.

— Raios, onde é que você... — reparou no pequeno mon-tinho de pêlos. — O que é isso?

— Uma gatinha — respondeu em voz baixa, para não acordá-la. — Acho que está quase morta.

André se aproximou e observou o minúsculo bichinho.

— Onde a encontrou?

— Nas colinas. — Olhou para ele, mal conseguindo conter as lágrimas. — Ela não vai morrer, não é, André?

— Não sei. — Delicadamente, ele pegou a gatinha do colo dela, para examiná-la mais de perto. — Vá buscar um pouco de leite quente para reanimá-la. — Como a moça não se mexesse, insistiu: — Carol, vá buscar o leite! Seja uma boa menina.

Ela correu para a cozinha e, na volta, encontrou a gatinha adormecida diante da lareira, sendo acariciada por André. Ele pegou a vasilha fumegante das mãos dela e colocou-a diante do pequenino focinho preto. A gatinha não se moveu.

— Vou acordá-la — comunicou André. — No momento ela precisa mais de comida que de sono. — O pequeno fo­cinho se contraiu, mas a gatinha não fez o menor movimento para beber o leite.

— André! — gritou Caroline. — Ela não vai conseguir!

— Não se descontrole. Caroline. — Acariciou distraidamen-te a cabecinha do gato, recebendo como retribuição umas lam-bidinhas fracas. — Já sei! — exclamou de repente. — Uma vez assisti a um filme que tinha uma cena parecida. — Mer­gulhou os dedos no leite e aproximou-os da boca da gatinha, que a princípio fez algumas tentativas fracassadas, mas logo lambeu todo o leite. Aproximou mais a vasilha e viu com satisfação que a linguinha cor-de-rosa lambia o líquido com entusiasmo. — Está vendo? — Levantou-se e sorriu.

— André, André! — Atirou-se nos braços dele, abraçan­do-o com força. — Muito obrigada!

— Ei! — exclamou surpreso, afastando-a delicadamente. — Já esqueceu que me detesta?

Caroline se afastou, um pouco sem graça.

— Agora não sou mais tão detestável? — Ele estava es- tranhamente doce, e Caroline ergueu os olhos, curiosa. Não conseguiu encarar aqueles olhos verdes penetrantes, onde, por um breve instante, percebeu uma chama de desejo. Mas foi tão breve que logo desapareceu sem deixar vestígio. — Por que desapareceu daquela maneira?

— Não me diga que ficou preocupado!

— Um pouco — admitiu. — E o nosso jantar?

— Hoje não pode ser. Preciso voltar à vila para comprar . peixe para a gatinha.

— Faça o jantar, que eu vou à vila.

— Por acaso está com fome?

— Faminto! — Acariciou o queixo da gatinha. — E não vou demorar.

— Está bem.

Caroline começou a preparar o jantar, invadida por uma estranha sensação de felicidade. Como não entendia o por­quê desse sentimento, achou que era por causa da delicadeza de André com a gatinha, que estava se recuperando. Mas por que a delicadeza de André a deixava feliz? Intrigada, mas sem muita vontade de descobrir a resposta, mudou o rumo dos pensamentos.

Para acompanhar o bife, preparou um molho de cogume­los, salada e batatas cozidas. Como sobremesa, teriam que se contentar com queijo e bolachas. Afinal, não tinha assim tanta prática de cozinha.

Estava terminando de se vestir quando ouviu o ruído do carro de André. Deu uma olhada no espelho e achou que estava muito bem com o conjunto de veludo azul, de calça comprida e colete, sem blusa por baixo, pois a casa era bem aquecida. O tom da roupa realçava o azul dos seus olhos, tornando-os ainda mais profundos. E destacava o dourado dos cabelos.

Quando entrou na cozinha, encontrou André alimentando a gata e pôde observá-lo durante alguns instantes antes que ele a visse. Não havia a menor dúvida de que era um homem excepcionalmente atraente, cuja virilidade e segu­rança deviam ter atraído muitas mulheres. Com todo aquele charme, e trinta e sete anos de idade, devia ter tido dezenas de experiências amorosas. Ele mesmo tinha admitido isso no primeiro dia.

André ergueu os olhos de repente e, surpresa, ela corou. Sem dizer nada, ele olhou para ela de alto a baixo, demo­rando longamente o olhar nos seios bem-feitos, acomodados perfeitamente no colete. No ultimo verão, Caroline tinha perdido o hábito de usar sutiã e agora não se acostumava mais com ele. Sentiu que a ausência do sutiã não tinha passado despercebida aos olhos observadores de André e, pela primeira vez na vida, envergonhou-se diante de um olhar masculino.

— A que devo o prazer dessa roupa tão provocante? E quando digo prazer, quero dizer prazer mesmo — comentou, sem tirar os olhos dela.

Caroline ficou embaraçada, tentando entender o que estava se passando com ela. Que fim tinha levado sua autoconfiança?

— Não entendi — respondeu, fingindo inocência. — Não é normal as pessoas se trocarem para o jantar?

— Claro. — Os olhos dele brilharam com um calor sen­sual. — Mas não foi uma mudança muito brusca?

— Não seja bobo — murmurou, nervosa. — Estou usando uma calça e uma blusa, como sempre.

— Se você insiste... — Deu um passo em direção a ela. — Cuide da comida do gato enquanto vou me trocar também. Não quero passar vergonha diante de você.

— Tenho certeza de que isso jamais aconteceria — res­pondeu Caroline com voz suave, levantando a gatinha e tentando colocá-la numa caminha improvisada. — O jantar só vai demorar mais uns quinze minutos.

— Dentro de dez minutos estarei de volta — prometeu André, subindo os degraus de dois em dois.

Estava acabando de tirar os bifes da chapa, e já ia co-locá-los nos pratos, quando André desceu. Ficou tão sur­presa, ao vê-lo, que mal conseguiu disfarçar. Completamente de preto, da camisa de seda à calça muito justa, lembrava um demônio de olhos brilhantes como esmeraldas e pele sensualmente bronzeada.

— Não costuma usar sapatos? — perguntou com voz trê­mula, só para dizer alguma coisa. O fato de ele estar descalço tornava o relacionamento de ambos estranhamente íntimo.

—Não, se posso evitar. — Sorriu. — Isso incomoda você?

— E se incomodasse, mudaria alguma coisa?

— Talvez — respondeu, enigmático. — Incomoda?

— Não. — Caroline passou a mão pelos cabelos, ansiosa. — Podemos jantar agora?

— Quando você quiser. O cheiro está delicioso.

— Obrigada — agradeceu, tímida. — Sente-se, que já trago a comida em um minuto. — Assim que recuperar o controle, pensou. O pai tinha razão quando a preveniu para tomar cuidado com aquele homem. Uma pequena distração e se apaixonaria por ele. Não! Isso não podia acontecer!

Surpresa, descobriu que André tinha falado sério sobre o jantar à luz de velas. Na penumbra da sala, duas velas acesas lançavam sombras suaves sobre a mesa. Um ambiente român­tico como aquele seria ótimo, se o acompanhante fosse outro. Mas a ideia de ficar a sós com André num clima tão íntimo amedrontava-a estranhamente. De qualquer maneira, não podia protestar, ou ele perceberia o poder que tinha sobre ela.

Serviu a refeição em silêncio, evitando tocar o corpo quen­te de André, cujos olhos verdes acompanhavam com ironia todos os movimentos dela. Cada vez mais perturbada com o perfume viril que exalava dele, concentrou toda a atenção no próprio prato.

— Para acompanhar esta refeição deliciosa — disse An­dré, servindo-a de vinho.

— Deliciosa? Como sabe, se ainda não provou?

— Você não teria me dito que é boa cozinheira, se não fosse realmente.

— Por que acha isso?

— Conheço você melhor do que pensa. — Provou a carne suculenta. — Deliciosa! Onde aprendeu a fazer esse molho? Está divino.

— Tínhamos aulas de culinária na escola. — Intimamen­te, estava satisfeita com o elogio, mas fingiu indiferença.

— Foi lá que conheceu a filha de Matt?

— Conheço... Cynthia desde pequena. Sempre estuda­mos juntas.

— Mas duvido que ela saiba cozinhar como você. — Sor­riu, desdenhoso. — Ela deve ter coisas melhores para fazer que aprender a cozinhar.

— Pensei que não conhecesse Cynthia — observou Ca­roline, esforçando-se para esconder a irritação.

— Quase cheguei a conhecê-la, algum tempo atrás.

— Por que "quase"? — Não entendia por que o pai nunca tinha falado nele antes, já que pareciam ser tão amigos.

— Fiz o possível para evitar. Matt, parece ansioso demais para encontrar um marido para a filha, o que me fez concluir que a pobrezinha não deve possuir muitos atrativos — res­pondeu, rindo. — E bem possível que tenha sardas e use aparelho nos dentes.

— Não seja ridículo!

— Está bem, desculpe. Como ela é?

— Ela... — Caroline hesitou. — É muito parecida comigo.

— Impossível. Não pode haver duas como você.

— O que quer dizer com isso?

— Boa pergunta. — Olhou-a intensamente por alguns instantes. — Você tem uma beleza rara, uma beleza que não pode ser imitada.

— Cabelos loiros e olhos azuis não têm nada de original aqui — respondeu, corando. Sentia-se cada vez menos à vontade, percebendo como era perigosa sua posição, sozinha num chalé com um homem estranho. — Se não o conhecesse bem, sr. Gregory, diria que está me paquerando — brincou, repetindo as palavras dele.

Ele praticamente a devorava com o olhar.

— Talvez esteja — respondeu, como ela tinha feito antes. Não era exatamente a resposta que ela esperava, e, para afastar o nervosismo, levantou-se e foi examinar a gatinha que dormia diante do fogo. Não estava conseguindo enfren­tar o charme devastador de André Gregory e temia pelas consequências daquele jantar que havia começado tão ino­centemente. Só então percebeu que uma situação como aque­la jamais poderia ser inocente e que corria perigo.

— Acha que Susi vai ficar boa? — perguntou, tentando mudar o rumo dos acontecimentos.

André pegou os dois copos de vinho e foi se sentar ao lado dela, perto da lareira. Estendeu a ela o copo ainda cheio.

— Susi?

— A gatinha.

— Ah, sei. Está tentando mudar de assunto.

— Você estava levando a conversa para um terreno muito pessoal — respondeu, seca.

— Não foi isso que a assustou. — A voz de André era suave; seu olhar, quente e acariciante à luz das velas. — Você não se incomodou com coisas muito mais pessoais que eu disse antes. Fica aborrecida quando eu digo que a acho atraente?

— Não é isso que me aborrece. Mesmo porque, não acre­dito. Acontece que você está tentando me seduzir com esses elogios falsos.

— Seduzi-la com elogios falsos? Que bobagem! Você é linda, e acho estranho que não tenha consciência disso. Seu cabelo é uma mistura da luz do sol e da lua ao mesmo tempo, e nunca vi nada mais suave que sua pele. E seus olhos, então! Qualquer homem perderia a própria alma nesses dois lagos azuis.

— Não. — Caroline cobriu os ouvidos com as mãos. — Não quero ouvi-lo.

— Por que não? — perguntou, suave.

— Porque... porque você não está sendo sincero. André colocou o copo sobre a mesa, levantou-se e veio para perto dela, sem afastar por um só instante o olhar cheio de paixão. Estendendo uma das mãos, tocou de leve o rosto afogueado de Caroline.

— Estou sendo sincero, Carol — murmurou com doçura. E antes que ela pudesse dizer alguma coisa, inclinou o rosto até tocar os lábios dela, beijando-os voluptuosamente, fa­zendo com que se abrissem, sem resistência. Por longos instantes ela tentou resistir àquela paixão devastadora, mas a urgência dos lábios e das mãos dele derrubaram suas defesas, obrigando-a a retribuir as carícias.

Os lábios de André percorriam seu pescoço, seu ombro, e Caroline tremeu quando eles tocaram seu colo quente e macio.

— Carol — ele gemeu, acariciando suas costas e trazendo seu corpo de encontro ao dele, para que ela sentisse a força do seu desejo. — Não me deixe continuar. Pelo amor de Deus, não me deixe continuar!

Caroline, perdida na loucura da paixão, compreendeu que tinha sido tola em não perceber que toda aquela agressão ia acabar nisso, inevitavelmente.

— Eu também não quero — ela sussurrou, alucinada, desabotoando inconscientemente a camisa de seda negra de André e escorregando as mãos ávidas por sua pele quente.

Com um gemido, André procurou de novo os lábios dela, enquanto desabotoava os quatro botões de pérola, única proteção do colete azul. Caroline não opunha mais qualquer resistência.

— Carol, Carol — André murmurava sem parar. Aluci­nado de desejo, ele beijava e esmagava, com mãos e lábios possessivos, os seios firmes de Caroline.

Aquela indescritível sensação de prazer fazia Caroline gemer repetidamente, o que deixava André mais e mais excitado, e agora suas carícias já eram muito mais ávidas... muito mais íntimas.

De repente, o som estridente do telefone quebrou a magia. André murmurou qualquer coisa e levantou, mas Caroline continuou estendida no tapete, incapaz de agir, totalmente dominada pela onda de paixão.

— Alô? — atendeu André, a voz alterada, os olhos ainda mornos de desejo. — Um momento — respondeu mal-hu-morado, atirando o fone cm cima da mesa. — É para você — dirigiu-se a ela com rispidez. — Seu namorado.

— Namorado... — Com as mãos trêmulas, ela tentava inutilmente fechar o zíper e abotoar os botões de pérola.

— Matt — disse André, quase gritando. — Não pode falar com ele assim, toda descomposta, recém-saída dos bra­ços de outro homem,

— Precisava ser tão cruel... logo agora? — Mal conseguia conter as lágrimas.

— O que quer que eu faça? Que mande Matt para o diabo, como tenho vontade de fazer? E depois? Vamos con­tinuar de onde paramos?

— Alô. — Pegou o telefone com as mãos trêmulas, diri­gindo a André um olhar magoado. Mal conseguia falar, ainda excitada pelo que tinha acabado de acontecer. E se seu pai não... Bem, mas ele tinha telefonado. E a tempo!

— Caroline! — Seu pai parecia preocupado. — Interrompi alguma coisa?

Olhou para André, já completamente recomposto, a ex­pressão impenetrável, servindo-se de vinho.

— Não — respondeu, trêmula. — Não interrompeu nada.

— Percebeu que André movimentou bruscamente a cabeça, com raiva. — Nada importante — acrescentou, maldosa.

— É que André parecia meio alterado.

— André acaba de perder uma coisa, mas não é nada importante. — Evitou olhar para ele. — Tenho certeza de que logo vai arranjar outra para substituí-la.

— Diabos! Do que é que você está falando, Caroline?

— Nada que interesse — respondeu evasiva. — Quer alguma coisa?

— Só saber se minha filha ainda não perdeu a virgindade

— respondeu com frieza. — Espero que não — acrescentou, ansioso.

— Em qual dos dois você não confia? — Tentou forçar uma risada.

— Escute, Caroline, estou preocupado com você. Não está acostumada com homens do tipo de André.

Gostaria de dizer muita coisa para tranquilizá-lo, mas teria que mentir. Além disso, havia André, e resolveu calar.

André era diferente de todos os outros homens que já conhe­cera, e tinha descoberto isso à própria custa, há poucos ins­tantes, e por culpa dela mesma. Deu um suspiro profundo.

— Tem razão, mas prometo ser mais cuidadosa daqui por diante.

— Daqui por diante? Isso quer dizer que já aconteceu alguma coisa?

— Não — negou depressa, talvez até depressa demais.

— Nada que eu não possa controlar. — Encontrou os olhos rancorosos de André e desviou o rosto. — Está ficando tarde, vou desligar.

— Está bem, mas quero que me telefone amanhã.

— Certo, mas não sei a que horas vou ligar.

— Não tem importância, desde que telefone — concordou o pai, resignado.

Depois que desligou, houve um longo silêncio na sala.

— Desculpe — murmurou nervosa, torcendo as mãos.

— O quê? — André explodiu, furioso.

— Não consigo dizer outra vez.

— Então por que disse? Por que diabos está pedindo desculpas? Por ter me beijado? Pela interrupção do seu na­morado? Ou por ter deixado aquilo acontecer?

— Eu... não sei! — gritou, angustiada. — Nunca tinha me acontecido nada assim, antes.

— Ah, é? Então por que o sermão de Matt agora há pouco? Naturalmente, não foi por ciúme, foi?

— Não... claro que não. Já disse a você que meu rela­cionamento com Matt não é como pensa.

— Então por que toda aquela história sobre eu ter perdido não sei o quê? — Colocou o copo sobre a mesa com violência.

— Se não tem um caso com Matt, o que a impede de...

— De dormir com você? — completou. — Já disse que não estou acostumada. Não quero ter relacionamentos assim com ninguém.

— Se o telefone não tivesse tocado, sabe o que podia ter acontecido, não sabe?

— Acho que teria tido o bom senso de parar antes. — Ficou com o rosto afogueado de vergonha.

— Para o diabo o que você acha! — Andou até a porta furioso. — Não se esqueça de dar comida ao gato e ver se está aquecido. Vou dormir... o ambiente aqui embaixo é puro demais para meu corpo devasso.

— André, eu não...

— Vá para a cama e esqueça o que aconteceu, Caroline. Esquecer... como podia esquecer? Chorando incontrola-

velmente, recolheu a louça suja, lavou-a e colocou-a no es-corredor. Em seguida, deu comida à gatinha e levou-a para o quarto. O bichinho parecia tão confortável e tão inocente! Inocente! Ela jamais recobraria sua própria inocência.

 

Já era tarde quando Caroline acordou. Foi uma noite agitada. Tinha se virado na cama até alta madrugada, incapaz de dormir. Só de madrugada caiu finalmente no sono, exausta.

Se pudesse, dormiria durante uma semana, mas os mia­dos da gatinha a trouxeram de volta à realidade. Virando-se na cama, encontrou o olhar triste da bichinha.

— Qual é o problema, menina? Está com fome? — Afastou as cobertas e levantou-se.

Pegando a gatinha, desceu até a cozinha, onde preparou um desjejum para ambas. Só quando viu o animalzinho comendo, faminto, é que percebeu como a casa estava si­lenciosa. Onde estaria André? Quase em pânico, correu até a sala e, depois, vasculhou todo o chalé, mas não o encontrou em parte alguma.

Correu até a porta para ver se o carro dele ainda estava lã. Não estava! Deus do céu! Será que ele tinha ido embora sem se despedir? Só de pensar nisso sentiu uma angústia estranha, e foi obrigada a admitir que se tornara excessi­vamente dependente dele naqueles poucos dias.

André não podia ter ido embora, simplesmente não podia! Não depois da noite passada. Como pôde pedir a ela que esquecesse tudo o que tinha acontecido? Jamais poderia es­quecer os beijos apaixonados e o toque possessivo das mãos dele. Envergonhada, relembrou o abandono com que tinha se entregado às carícias dele. Como estariam agora, se o telefone não tivesse tocado? Sem dúvida teriam passado a noite juntos, onde quer que fosse. Mas, e agora? Onde será que ele estava?

Subiu devagar a escada, os pensamentos girando louca-mente. Se André tivesse ido embora, certamente teria dei-xado um bilhete para ela. Talvez... bem, talvez não tivesse partido! Talvez tivesse resolvido apenas passar o dia fora... afinal, não devia satisfações a ela, não era dela.

Discou para o pai, com as mãos trêmulas.

— Caroline! Sabe que não gosto que telefone para o escritório.

— Desculpe, papai, só queria saber se teve notícias do André.

— Por que eu deveria ter notícias do André? Já é bem crescido para fazer o que quiser sem me pedir permissão. Qual é o problema? Vocês não conversam um com o outro?

— Não sei, papai. Ele desapareceu.

— Desapareceu? Como assim? Vocês brigaram?

— Não... não exatamente. — Caroline corou.

— Como assim? Ou brigaram, ou não brigaram. Ontem à noite aconteceu alguma coisa importante?

— Não, claro que não; mas não consigo encontrá-lo em parte alguma. — Não podia contar ao pai o que tinha acon-tecido na noite anterior. — Pensei que talvez ele tivesse telefonado para você. — Mas que tolice estava dizendo! Por que André iria telefonar para Matt, especialmente se achava que eles tinham um caso?

— Ora, Caroline, não está querendo que o coitado faça um relatório para você cada vez que vá sair! Vai ver, saiu para passar o dia fora.

— Sem me dizer? — Disse isso sem querer e se arre- pendeu imediatamente.

— Caroline, André é meu convidado e tem todo o direito de ir para onde quiser.

— Eu sei, papai, mas...

— Então, deixe o homem em paz, pelo amor de Deus! E você? Se resolvesse passar o dia fora, comunicaria a ele?

— Não... mas eu...

— Está vendo? Então pare com isso. Aliás, você estava muito estranha no telefone, ontem à noite. O que é que estava acontecendo quando telefonei?

— Nada — mentiu. — Tínhamos acabado de jantar e... — calou-se, envergonhada.

— E o quê? — insistiu o pai.

— E depois que você telefonou fui para a cama.

— Sozinha?

— Claro, papai! O que pensa que eu sou?

— Minha filha. — Suspirou. — Mas tenho certeza de que, se André significasse alguma coisa para você, a au­sência de uma aliança não faria a menor diferença.

— Papai!

— Pare de fingir que ficou chocada, Caroline. Já está bem crescidinha para me aparecer de repente com um aman­te. Por que não André?

— Porque não gosto dele! — falou sem pensar e assus­tou-se com as próprias palavras. Não era verdade, não o odiava mais. Como podia dizer que odiava um homem a quem tinha se entregado com tanta paixão na noite anterior? Corrigiu a contragosto: — Pelo menos, não muito. E não vou aparecer com amante nenhum!

— Acho que conheço você melhor que você mesma. É como sua mãe: terna e generosa.

Caroline não tinha conhecido a mãe, que morreu quando ela nasceu. Mas sabia que o pai a amara muito e por isso não tinha se casado outra vez.

— Obrigada, papai — agradeceu de coração.

— Mas também é teimosa e obstinada — prosseguiu —, como eu. Sabia que essa mistura é muito perigosa numa mulher. Tenho pena de André. Por que não volta para casa e o deixa em paz? Ele não deve estar se divertindo muito com você aí, tentando seduzi-lo o tempo todo.

— Não estou tentando seduzir ninguém!

— Não mesmo?

— Claro que não. Não costumo usar essa tática. Só estou tentando ser gentil com ele.

— Caroline!

— Mas, papai, eu... — calou-se ao ouvir um ruído na porta de trás. — Olhe, acho que André está chegando, pre­ciso desligar.

— Mas, Caroline...

Sem dar atenção, ela desligou o telefone e correu até a entrada. André estava lá; encharcado, tirando a capa de chuva. Eles se olharam e ela baixou os olhos, confusa.

— Bom dia. — Ele foi frio e formal. — Está horrível lá fora!

— Onde esteve? — Ela se preocupando feito uma boba e ele fazendo comentários sobre o tempo! — Como se atreve a sair sem me dizer onde vai ou se vai voltar?

— Desculpe — respondeu com voz perigosamente suave —, mas não me lembro de ter autorizado você a controlar meus movimentos.

— Mas, mas... — A frieza na voz era tanta, que Caroline chegou a tremer.                                                                

— Então não fale comigo desse jeito! Não sei que espécie de liberdade você tem com Matt, mas não vou admitir que faça a mesma coisa comigo. Pode ser que ele goste disso; eu não!

— Entre você e ele não há comparação...

— Graças a Deus! Caroline... Você já ia trocar de roupa ou está me fazendo outro convite? — perguntou, sarcástico.

— Outro convite? — Ela ficou vermelha de raiva.

— Exatamente. O primeiro foi ontem à noite, não foi? O que há com você? Não consegue passar sem homem nem por alguns dias?

— O que... quer dizer com isso?

— O óbvio. — Ele passou a mão pelo cabelo molhado. — Os homens são indispensáveis na sua vida, não são? Eu quis dizer homens mesmo, no plural. Nunca achei que Matt pudesse satisfazer seus apetites.

— Você é detestável!

— Por que a rejeitei? — Sorriu com desprezo. — Não seja ridícula, Caroline. Pensa que vou me sujeitar a ser o segundo? Ou Matt está ficando velho demais e tudo o que você quer é encontrar outro idiota que sustente seus gostos caros?

— Não, não é nada disso! — Arregalou os olhos, perplexa. — Jamais pensei numa coisa dessas. O que eu queria era...

— Me fisgar — completou, seco. — E se isso a deixa satisfeita, fique sabendo que não é difícil. Não consigo deixar de me sentir atraído por você.

— Partindo de você, não deixa de ser significativo...

— Tem toda razão! Só que não vai funcionar, nem agora nem nunca! Sou cético demais com relação às mulheres para me deixar envolver pelo seu jogo.

— Quer dizer que o que aconteceu ontem não significou nada para você? Só estava me testando?

— E se estivesse?

Caroline passou reta por ele, pretendendo ir até o quarto se trocar. Mas não conseguiu chegar nem ao segundo degrau. Ele segurou seu braço, obrigando-a a parar.

— Tire as mãos de mim — pediu, incrivelmente calma.

— Só depois que responder minha pergunta.

— Está bem! — Virou-se e encarou-o. — Se tinha essa intenção, conseguiu: foi terrivelmente cruel.

— Está bem, então sou cruel — concordou, dando de ombros, — E acho que vai me achar cruel também pelo que vou dizer agora.

— O quê?

— Encontrei o dono da gata.

—- Susi? Descobriu o dono dela?

— Andei perguntando e descobri que numa fazenda aqui perto nasceram quatro gatinhos, quatro semanas atrás. An­teontem deram pela falta de um deles.

— Não! — gemeu Caroline, desesperada. — Então eles querem Susi de volta?

— Querem. Parece que o dono tem uma menina que ficou muito triste com o desaparecimento da gatinha. Os outros filhotes já tinham sido prometidos a outras pessoas. Mas Susi era da garotinha.

— E isso alegra você, não é? Tirar Susi de mim.

— Não seja criança! Só fui procurar o dono porque era lógico que ela devia ter um. Debbie, a menina, ficou felicíssima quando soube que tínhamos achado a gata. Tenho certeza de que não vai ficar tão triste de devolver Susi, quando conhecer a menina.

— Muito obrigada — ironizou. — Reconheço que tem razão. Afinal, você sempre tem, não é?

— Ora, Caroline, seja adulta! Por que um simples gato ia significar tanto para você? Peça a Matt que lhe dê outro.

— Não é só a gatinha que me entristece — murmurou, mal conseguindo conter as lágrimas. — Podia ter-me levado com você, em vez de tramar tudo pelas minhas costas.

— Não tramei nada! — respondeu, contendo a raiva.

— Tramou sim. Não sou burra, sei que não podia levar a gatinha para o meu apartamento. Pretendia fazer exata-mente o que você fez, mas você precisava tomar a iniciativa, como se eu fosse um bebê ou coisa parecida?

— Levantei cedo esta manhã, porque não conseguia dormir. — Suspirou. — Saí para pensar um pouco e só no meio do caminho é que me ocorreu a idéia de procurar o dono da gata.

— É mesmo?

— É mesmo — respondeu André, impaciente. — E não tenho que lhe dar explicações. O que faço, e quando faço, não lhe interessa. Disse a eles que íamos lá hoje à tarde. Mas, se não quiser ir...

— Eu vou — ela respondeu com firmeza. — Também quero que Susi volte para a família dela.

— Ótimo. Agora, pelo amor de Deus, vá vestir alguma coisa e pare de se exibir. Você vive semidespida! — Olhou-a com desprezo.

— Hum... pretensioso! Não gosto de você, viu?

— Ninguém pediu que gostasse. Não preciso do seu amor para poder passar bem o dia.

— Em que trabalha, sr. Gregory? — perguntou, indiscreta. — Se precisa se relacionar com pessoas, não creio que tenha muito sucesso, já que sente tanto desprezo por elas.

— Sou um homem de negócios e muito bem-sucedido, obrigado — explicou, sorrindo. — Os clientes se interessam por integridade, não por gentilezas.

— Integridade? Não pensei que essa fosse uma de suas qualidades — acrescentou, ferina, correndo escada acima. Queria ofendê-lo, mas pelo sorriso que viu nos lábios dele percebeu que não tinha conseguido o objetivo.

Sentou-se na cama ainda por fazer, pensando, desconso­lada, que jamais tinha conhecido alguém como André Gre­gory e, por isso, não sabia como manejá-lo. Seu pai estava certo. Correria perigo se insistisse em lhe dar uma lição, mas pretendia ir até o fim. Tinha muito mais direito que ele, de estar ali; mas ele não ia saber disso tão cedo.

Passou a manhã no estúdio, recusando a gentileza de André, que se ofereceu para preparar e levar lá seu almoço. Foi fazer ela mesma um sanduíche. Quando passou por André, indo para a cozinha, ele a ignorou completamente. Continuou lendo o livro que tinha nas mãos.

— Está pronta para irmos lá? — perguntou de repente.

— Estou. — E olhou imediatamente para a coisinha que dormia no seu colo.

André pegou a gatinha e colocou-a com delicadeza na caixa que Caroline tinha preparado.

— Não precisa ir, se não quiser. Eu cuidarei bem dela.

— Eu sei. Não gosto muito de você, mas não acredito que tenha coragem de maltratar um bichinho indefeso. De qualquer forma, eu quero ir. Você se importa?

— Não — foi a única resposta.

A fazenda não ficava longe e em poucos minutos eles estavam lá. André abriu a porta do carro para ela e foi andando na frente até a porta da casa.

Quem abriu a porta foi uma moça alta, de cabelos longos e negros, puxados para trás, o oposto da tradicional esposa de fazendeiro. Caroline, que esperava uma mulher rude, de rosto lavado e vestido de flores, ficou intrigada. A mulher era indescritivelmente bela, elegante e estava impecavel­mente arrumada. Alta e segura de si, sorriu ao ver André. Caroline correu para se juntar a eles.

— Sr. Gregory! — saudou, abrindo a porta. O interior da casa surpreendeu ainda mais Caroline. Móveis de ma-deira clara, tapetes onde os pés afundavam e um sofá de três lugares, forrado de couro finíssimo. Seu chalé parecia uma pobre choupana, perto daquilo. A mulher estendeu a mão e pegou a caixa da gatinha.

— Debbie vai ficar tão contente! Não imaginam como somos gratos a vocês! — Percebendo finalmente a presença de Caroline, apressou-se em pedir desculpas. — Desculpe! — Sorriu. — Meu nome é Eve Gresham.

— O meu é...                                                                  

— Eve! — Uma voz masculina chamou a anfitriã, antes que um homem de mais ou menos trinta anos entrasse apressado na sala. — Ah, sr. Gregory, achei mesmo que era o senhor.

— Desta vez ele trouxe a esposa também.                  

— Não — protestou Caroline. — André e eu não somos casados!

— Oh! Nós pensamos... — Ela olhou para André e de novo para Caroline. — O sr. Gregory disse que estavam hospedados no chalé dos Rayner.

— Estamos — confirmou Caroline.

O homem corou violentamente e chegou a abrir a boca para dizer alguma coisa, mas ficou calado.

— Estamos hospedados no chalé — apressou-se a explicar André. — Mas isso é tudo o que temos em comum. Nos conhecemos há apenas alguns dias, mas foi pura coincidên-cia termos decidido vir para cá na mesma ocasião. Somos ambos convidados do sr. Rayner.

— Claro. — O dono da casa sorriu, meio sem jeito. — É um prazer conhecê-los. Meu nome é Brian Wells — acrescentou, estendendo a mão para Caroline.

— Caroline... Rawlings — apresentou-se Caroline, estra­nhando que os sobrenomes dele e da mulher fossem diferentes. — Minha irmã me disse que devemos agradecer a você por ter encontrado a gata. — Sorriu para ela. — Debbie ficou tão triste com o desaparecimento da bichinha!

Irmã! Eve Gresham era irmã dele! Isso explicava muita

coisa. Caroline olhou para André, desconfiada, mas desviou o rosto depressa ao perceber a expressão de zombaria que havia naqueles olhos verdes.

— Fico feliz em poder devolvê-la à garotinha — garantiu. Brian Wells olhava para ela com indisfarçável admiração, sem dúvida seduzido pelo corpo atraente da moça. Era ainda bastante jovem, trinta anos no máximo, tinha cabelos ondu­lados e a pele bronzeada de tanto andar ao ar livre. Caroline não deixou de apreciar os olhares daquele homem bonito.

— Por que não vamos juntos entregar a gatinha à mãe? — Sorriu para Caroline. — Debbie já deve estar lá. Sempre passa pelo depósito na volta da escola.

— Com todo prazer.

Ao sair, ergueu a cabeça, muito digna, consciente do olhar zombeteiro de André. O depósito onde entraram poucos mi­nutos depois era quente e protegido, um ótimo abrigo para a gata e os gatinhos, que se aninhavam num monte de palha, muito juntos. Caroline tirou Susi da caixa e colocou-a junto da família.

Uma garotinha de mais ou menos seis anos entrou na­quele instante, correndo na direção deles. Era muito pare­cida com Eve Gresham; os mesmos cabelos negros, os mes­mos olhos azuis, a mesma pele delicada.

— Tio Brian — exclamou, alegre, agachando-se ao lado deles. — Você trouxe o Bobby de volta para mim!

Caroline não conseguiu conter um sorriso. Como é que tinha trocado o sexo do bichinho? A excitação que viu no rosto da garotinha compensou a perda.

— Foi a srta. Rawlings que encontrou Bobby, Debbie — explicou Brian Wells. — Não vai dizer muito obrigada a ela?

— Claro! — Debbie sorriu com timidez. — Muito obrigada, srta. Rawlings.

— Por que não me chama de Caroline? — sugeriu, sorrindo.

— Agora vá para casa, Debbie — disse o tio. — Diga à mamãe que já vamos.

A garotinha foi embora muito feliz, agora que já tinha visto Susi-Bobby de volta.

— É muito parecida com a mãe — comentou Caroline, observando-a correr para a porta.

— Muito — concordou Brian, — Minha irmã é viúva —explicou. — O marido dela morreu quando Debbie tinnha apenas dois anos. A menina adora a fazenda, mas Eve leva uma vida muito entediada aqui.

A curiosidade de Caroline agora estava satisfeita. Não era de admirar que André Gregory estivesse ansioso para voltar à fazenda! Era óbvio que estava interessado na viúva.

— É um lugar magnífico para uma criança crescer — observou Caroline, depois de algum silêncio.

— É o que nós achamos, por isso elas continuam aqui. Se não fosse pela filha, Eve já teria se mudado para a cidade. Mas, vamos falar um pouco de você. Veio passar férias aqui?

— Mais ou menos.

— E o sr. Gregory?

— A mesma coisa, eu acho. — Na verdade, não sabia o que dizer, pois tudo que sabia de André é que ele era amigo de Matt; e bastante íntimo, pois tinha sido convidado para passar férias no chalé. Percebeu que tinha ficado muito zangada com ele e não teve chance de conhecê-lo melhor.

— Sei. — Ele não parecia muito à vontade. — Vocês não estão... juntos?

— Não! — respondeu com firmeza, acentuando a negativa com um gesto de cabeça.

— Nesse caso, que tal irmos jantar um dia desses? Há um ótimo restaurante a poucos quilómetros daqui, onde fa­zem os melhores assados que já provei.

— As Três Ferraduras? Já estive lá com... um amigo. — Ia dizer que tinha estado lá com o pai, mas achou melhor não. Para não cair em contradição, o melhor era contar a todo mundo a mesma história que tinha contado para André. — Concordo com você. A comida lá é excelente.

— Então você aceita?

— Claro, com prazer! — Ele parecia ser uma pessoa sim­pática. Além disso, ela precisava se afastar um pouco das ironias de André Gregory.

— Esta noite?

— Pode ser.

— Às oito, está bem?

— Ótimo.

Quando voltaram, teve a impressão de que havia um brilho especial nos olhos de Eve Gresham e uma expressão especial no rosto de André. Tomou seu chá, mal conseguindo disfarçar tanta impaciência. Também não podia compreen­der porque estava tão nervosa. Por que não gostou de ver Eve Gresham interessada em André? Seu pai já não tinha dito para ela não esperar nada daquele homem, cujo poder sobre as mulheres era tão intenso?

— Você está muito calada — comentou André no caminho de volta. — Algum problema?

— Não, nenhum.

— Não parece! O que foi? Não gostou dos nossos vizinhos?

— Achei todos muito simpáticos.

André estendeu a mão esquerda e segurou com força o queixo de Caroline, obrigando-a a olhar para ele.

— Se achou todos tão simpáticos, por que tanta pressa em vir embora? — perguntou com voz suave.

— Não estava com pressa...

— Estava sim. — Continuou segurando o queixo dela com força. — Ciúme, Carol?

Os olhos dela soltaram chispas. Tentou tirar o queixo, virando o rosto, mas falhou redondamente. A revolta morreu de repente e ela ficou estranhamente calma. André soltou seu queixo e correu os dedos suavemente pelos lábios dela. Era a oportunidade que esperava: abrindo a boca, cravou os dentes no dedo dele.

Ele tirou a mão, sem demonstrar o menor sinal de dor, mas com os olhos perigosamente contraídos.

— Sua cachorrinha! — Continuou olhando fixamente para a estrada. — Vai me pagar!

— Promessas, promessas... — provocou-o.

— Não são promessas. — Olhou rápido para ela. — É ameaça, e vou cumpri-la.

— Estou morrendo de medo, sr. Gregory. — Mas, apesar da displicência, ela estava mesmo um pouco assustada.

— Acho bom que esteja — sussurrou ele. — Porque não pretendo esquecer minha ameaça.

— É o que você diz.

Sem esperar que ele abrisse a porta, saltou do carro e entrou no chalé. Tudo parecia estranhamente silencioso sem a presença da gata, como se o único tema para as poucas palavras gentis que trocavam fosse o animalzinho. Agora provavelmente voltariam às agressões de antes.

— Não conte comigo para o jantar — anunciou com dis­plicência. — Vou sair esta noite.

— Brian Wells?

— Com ciúme, André?

— Nem um pouco. — Olhou-a de alto a baixo, como se quisesse arrancar cada peça de sua roupa. — Por falar nisso, também vou sair.

— Acho que não preciso perguntar com quem.

— Errou. Quem iria ficar com a menina? — respondeu, provocante.

— Quer dizer que vai passar a noite na fazenda dos Wells? É! Lá vão ficar bem à vontade...

— Você tem uma língua muito afiada, Caroline, e não está respeitando a moral da sra. Gresham. Sei muito bem o que pensa de mim, mas não vejo razão alguma para que seja grosseira com Eve. Ela não fez absolutamente nada para merecer suas acusações.

— Claro, nada! Só se derreteu toda para você.

— Coisa que você jamais faria, não é, Caroline? Essa sua cabecinha fria encara tudo com muita lógica, não é? A mesma lógica com que encara o relacionamento com Matt. Tenho certeza de que não o ama, caso contrário não teria feito o que fez comigo.

— Amo-o muitíssimo. — Encarou-o, desafiante. — E vai ser preciso mais que desejo físico para mudar isso.

André deu um passo em direção a ela; mas notando que se afastava, riu divertido.

— O que vejo nos seus olhos não é bem medo, é medo do que posso fazer a você. Nas ocasiões apropriadas posso fazer um bocado de coisas, não é?

— Você é detestável! Ainda bem que vou ficar livre esta noite. Por que não vai infligir a sua presença a outra pessoa?

— Ninguém está prendendo você aqui. — Bocejou, dis­plicente. — Pode ir embora quando quiser, vai até me dar muito prazer.

— Sem dúvida! Agora que já encontrou quem se impres­sione com a sua maldita arrogância... Mas tenho todo o direito de ficar aqui, por isso não pretendo voltar. Agora, com licença, preciso tomar um banho e trocar de roupa.

— À vontade. Vai me dar muito prazer.

— Idiota pretensioso! — Os olhos dela faiscaram.

— Foi só maneira de falar — respondeu com ironia.

— Sei. — Subiu correndo a escada e bateu com força a porta do quarto. Que audácia! Como ousava falar daquela maneira!

Pobre Eve Gresham, que teria que suportar aquele pre­tensioso. Girou pelo quarto, tonta, abrindo e fechando ga­vetas, procurando uma roupa apropriada para aquela noite.

De repente, não conseguiu mais continuar se enganando. Sentou na cama e ficou curtindo o próprio ciúme. Estava, sim! Estava morta de ciúme da mulher que ia passar a noite com ele. Não porque gostasse muito dele, claro! Mas porque André estaria a sós com Eve, como estivera com ela na noite anterior.

Maldito! Também, por que ficar só pensando nele? Ia sair com Brian e se divertir muito. Afinal, ele era jovem, simpático, e não havia a menor razão para que não se di­vertissem juntos.

Brian era o extremo oposto de André, tanto na aparência quanto no caráter. Era louro, corado, de olhar amistoso e não tinha nem uma pontinha da arrogância de André. Era simples e sem complicações, exatamente o que ela estava precisando depois de um par de dias com André.

Ficou no quarto até que ouviu os dois homens conversando lá embaixo. Deu uma última olhada no espelho, para ver se estava mesmo mais bonita que nunca. Tinha escolhido um vestido godê, acinturado, de manga comprida e gola alta, que, junto com a bota de cano alto, deixava pouco do seu lindo corpo à mostra. Mas o delineava muito bem! Que-ria mostrar a André Gregory que aguardava com ansiedade Brian Wells.

Os dois se levantaram quando ela entrou na sala. Brian estava muito atraente, com um paletó azul-marinho, camisa também azul, de tom mais claro, e calça cinza; mas foi André quem chamou mais a sua atenção. A camisa negra estava aberta até a cintura, exibindo o peito bronzeado, coberto de pêlos. Caroline desviou imediatamente o olhar, ao perceber que ele observava suas reações. Para seu maior constrangimento, ele estava de novo sem sapatos. Será que não podia ser um pouco mais educado, sabendo que Brian ia lá? Não custava nada se vestir mais decentemente.

— Espero não ter feito você esperar muito — dirigiu-se a Brian, sorrindo, enquanto lançava um olhar ressentido a André.

— De jeito nenhum. — Brian retribuiu o sorriso. — Mesmo que tivesse, teria valido a pena. Não concorda, sr. Gregory?

— Ora, Brian! Vale a pena esperar por Carol horas e horas — respondeu, suave.

— Carol? — Brian franziu a testa, confuso.

— É como a chamo — respondeu, displicente.

— Ah, sei... — Virou-se para olhar para ela..— Está pronta, Caroline?

— Podemos ir quando você quiser. — Tinha vontade de esbofetear André, por dar a entender que entre eles havia uma intimidade especial.

— Divirtam-se, crianças — murmurou no ouvido de Ca­roline, entregando-lhe a bolsa que estava sobre a mesa. Não faça nada que eu não faria, Carol.

— Quer dizer então que posso fazer tudo que tiver von­tade! — respondeu, furiosa.

— Mais ou menos. Quer que fique acordado, esperando?

— Não me amole! — murmurou por entre os dentes.

— Mas você pode me amolar, doçura, quanto quiser.

— Tem sempre que dizer a última palavra?

— Com você... sim.

— Ora, saia da minha frente!

— Vou ficar acordado esperando por você... para ter certeza de que chegou bem. Nunca se sabe, ele pode ficar violento!

Caroline olhou disfarçadamente para Brian, e viu que ele estava olhando, perplexo. Ficou constrangida.

— Não seja ridículo! E não me espere, porque posso voltar tarde... bem tarde.

— De qualquer jeito, vou esperar.

 

A raiva dominou Caroline até chegarem ao restaurante, onde finalmente percebeu que não estava sendo gentil com Brian. Afinal, ele não tinha culpa se André insistia em irritá-la.

— É um lugar agradável, não é? — perguntou Caroline. Sentaram-se em uma mesa de canto, iluminada por uma pequena lâmpada vermelha, que proporcionava luz suave e romântica.

— Muito — Brian apressou-se em concordar. — Mas acho que não é como os lugares a que você está acostumada.

— Por quê?

— Você mora em Londres — explicou Brian, em tom de desculpa. — Nós aqui não temos o padrão que vocês têm lá.

— Está chateado, Brian?

— Bem, eu... — Ele se mexeu, nervoso. — Não gostei dos modos daquele homem! Vocês dois garantem que não têm nada mas... ele é tão possessivo com você!

— Não é nada disso, Brian. Só nos conhecemos há dois dias e, para falar a verdade, não temos nos dado muito bem.

— Não foi essa a impressão que eu tive.

— Ele disse alguma coisa?

— Insinuou que vocês eram amantes — ele confessou, desajeitado.

— Você deve ter entendido mal. — Sacudiu a cabeça com energia. — André não diria uma coisa dessas, isso não tem o menor fundamento.

— Se você diz... — aceitou com relutância. — Vamos pedir a comida?

Aliviada, Caroline deixou o assunto morrer ali mesmo, pois o que mais desejava era tirar aquele homem da cabeça pelo resto da noite. Estava tentada a acabar logo com aquela men­tira, dizendo quem era mas ainda não tinha ido até onde desejava. Haveria de retribuir cada insulto, cada humilhação feita por André. Iria acabar com aquela maldita arrogância!

Brian revelou-se um excelente companheiro, alegre, di­vertido, gentil, e a noite passou voando. O churrasco estava delicioso e o vinho, bem no ponto que Caroline gostava.

Após o jantar, foram para o bar e sentaram-se ao lado da lareira. Depois dos dias de tensão ao lado de André, Caroline estava deliciosamente relaxada e em paz junto de Brian. — Foi uma noite deliciosa — comentou, sorrindo.

— Para mim também. — Brian retribuiu com um sorriso tímido. — Precisamos sair outras vezes.

— Ainda não sei até quando vou ficar no chalé — co­mentou Caroline.

— A presença do sr. Gregory não restringe suas atividades? — Brian tentava expiorar o terreno.

— De jeito nenhum. — Mordeu o lábio, pensativa. — Quando vim para cá, não pretendia ficar tanto tempo. Mas estava divertido e fui ficando.

— Depois que nos despedimos ontem, fiquei pensando e tive a impressão de que já vi você antes. Não andou pas­seando pelo campo com o sr. Rayner num carro esporte azul, no verão passado?

— É possível — admitiu com relutância, temendo que Brian tirasse conclusões precipitadas, como André. — Eu tenho um carro esporte e estive aqui no verão.

— Tenho certeza de que era o sr. Rayner — continuou Brian. — Já nos encontramos algumas vezes.

— Então provavelmente éramos nós. Costuma vir sempre a este restaurante? — perguntou, ansiosa para mudar de assunto.

Depois disso passaram a conversar sobre outras coisas, num clima tão descontraído, que Caroline se assustou quando olhou no relógio. Brian tinha sido um companheiro pouco exigente, revelando nas atitudes tímidas sua origem cam­ponesa. Tendo trabalhado duramente na terra durante dez anos, agora começava a colher os frutos da sua dedicação achando que todo o esforço tinha valido a pena.

— Para uma mulher, é uma vida dura — comentou na volta. — Não entendo como Eve consegue estar sempre com aquela aparência tão descansada.

Caroline também já tinha pensado nisso. Tendo que cui­dar de uma filha, da casa e do irmão, como conseguia se manter tão arrumada?

— Ela deve gostar da vida que leva — comentou. — Até certo ponto. Ainda é jovem e gostaria de se casar outra vez, mas não existem muitos homens disponíveis por aqui Caroline ia dizer que André era um bom partido, mas achou que Brian não ia gostar muito. Além disso, não con­seguia imaginar André casado. O lema dele parecia ser "ame-as e deixe-as".

— Tive a impressão de que ela estava feliz — insistiu.

— Não me interprete mal, ela se sente feliz, mas é só por causa de Debbie, — Calou-se e olhou para ela na semi-obscuridade do carro. — Quer sair comigo outra vez?

— Gostaria muito. — Já estavam diante do chalé e Ca­roline percebeu que a luz da sala ainda estava acesa. Será que André tinha tido a ousadia de esperar por ela?

— Amanhã? — insistiu Brian.

— Amanhã talvez eu não possa. — Gostava dele, mas não o bastante para querer um relacionamento sério. — Que tal depois de amanhã?

— Ótimo. Podemos ir a algum lugar tomar alguma coisa.

— Está bem — concordou. — Telefone para combinarmos.

Estava furiosa quando entrou em casa. Atirou a bolsa numa cadeira e foi direto até André, que estava parado ao lado da lareira.

— Posso saber o que está fazendo ainda acordado?

— Tomando o uísque de Matt — respondeu com calma,   mostrando o copo que segurava. — Pensei que fosse óbvio.

— Não seja fingido! Estava me espionando!

— Para ver se haveria despedidas entusiásticas? — Cami­nhou pela sala, displicente. — Acha que eu seria capaz disso?

— Não foi isso que...

— Além disso, não acho que valha a pena ficar acordado até esta hora só para ver os beijinhos que trocou com Brian Wells — provocou, tomando um bom gole de uísque.

— Beijinhos? — perguntou, indignada.

— Brian Wells é o que se pode chamar de "cavalheiro" e não teria coragem de se aproveitar de você. Além disso, ele não é suficientemente bom para você.

— E quem é suficientemente bom para mim? Você?

— Sem dúvida. Posso fazer de você o que quiser, mas não tenho essa intenção.

— Não terá chance, isso sim!

— Segunda chance...

— Segunda? Miserável! Você é asqueroso!

— Você fica excitante quando zangada, Carol. Não ima­gina quanto.

— Ora, me deixe em paz! — gritou Caroline, assustada com o brilho sensual que viu nos olhos dele. — Não chega me espionar? Precisa ficar pondo sua virilidade à prova?

— Se alguém aqui precisa provar alguma coisa, esse al­guém é você. Qual é o problema, Carol? As atenções de Matt estão esfriando?

— Quer parar com essas acusações estúpidas sobre... so­bre o sr. Rayner? — explodiu, quase cedendo à tentação de dizer que era filha de Matt Rayner e acabar de uma vez com a farsa. Mas o desejo de vingança foi mais forte. Só assim conseguiria dar uma boa lição naquele pretensioso. — Elas não têm o menor fundamento.

— Não mesmo? — Encolheu os ombros e pegou o casaco de couro que estava sobre uma cadeira. — Bem, se quer se enganar, pensando que o relacionamento que tem com Matt é inocente e romântico, quem sou eu para duvidar? Acredita mesmo que isso justifica seu comportamento diante de sua amiga? — André, que desde o começo da conversa esteve calmo e zombeteiro, começava a se exaltar.

— Meu comportamento não precisa de justificativas, o que não acontece com o seu — respondeu, agressiva.

— Mas sua amiga com certeza não aprova seu relacio­namento com o pai dela! A diferença de idade entre vocês duas é muito grande?

— Somos da mesma idade. Bem, já que não temos mais Susi, que era o único tema de conversa calma entre nós, vou para a cama, porque não pretendo ficar aqui ouvindo seus insultos. — Virou-se para sair.

— Ótimo. — A resposta veio rápida. — Acho que vou com você.

— O que pensa que eu sou? — Virou-se para ele, furiosa.

— Ainda não cheguei a uma conclusão — admitiu com um sorriso. — Mas se me der mais tempo, vou descobrir. E o que eu quis dizer agora há pouco foi que ia para a minha cama, não para a sua.

— Sei. — Caroline ficou confusa por ter interpretado mal as palavras dele.

— Sua opinião sobre o poder que exerce sobre os homens é um pouco exagerada — acrescentou, passando por ela e subindo a escada de dois degraus. — Você é bonita, reco­nheço, mas isso não significa que todos os homens morram de vontade de ir para a cama com você. Pode ir dormir tranquila, que não vou invadir seu quarto no meio da noite para satisfazer minhas paixões desenfreadas.

— Não fale comigo como se eu fosse criança!

— Então não aja como criança.—Dessa vez os olhos dele revelavam ódio profundo. — Boa noite! — E bateu a porta do quarto com força.

— Boa noite.

Os desenhos não estavam saindo bons, embora o estúdio estivesse bem tranquilo. Caroline não conseguia se concen­trar. Só pensava em André Gregory, que surgia diante dela a cada novo esboço que começava. Arrancou mais uma folha e atirou-a no chão, irritada, ao lado das outras tantas que já tinha jogado fora.

Por que aquele homem não saía da sua cabeça? Baixou os olhos para a décima segunda tentativa, mas o que viu foi o rosto dele. Jogando o lápis e o bloco no chão, foi se esticar no sofá.

Onde estaria ele? Será que pensava nela também? Caroline duvidava. Se aquele homem misterioso era um próspero exe­cutivo, então por que nunca tinha ouvido falar nele? Quem seria realmente André Gregory? E por que nem seu pai nem seus amigos jamais tinham mencionado o nome dele?

De repente imaginou uma loucura. E se ele tivesse ten­tado fazer amor com ela na noite anterior para forçá-la a ir embora? Se ela fosse mesmo amante de Matt, seria na­tural não se arriscar com outro homem. A não ser, claro, que estivesse à procura de novas sensações, como André tinha sugerido. E se fosse mesmo tão inocente quanto afir­mava, não ia querer continuar, na mesma casa, com um homem que não fazia segredo do seu desejo por ela e da sua intenção de levá-la para a cama.

Mas, apesar de tudo, ela não tinha ido embora. Tinha a vantagem de saber que era a dona da casa e de poder man­dá-lo embora quando ultrapassasse os limites. Suspirou. Continuava sem saber onde ele estava, ou com quem estava. Talvez fosse melhor nem saber.

— Carol! Carol!

Saltou da cadeira, agitada, ao ouvir seu nome. André! Um sorriso iluminou seu rosto, e, de repente, se sentiu ex­traordinariamente feliz.

— Aqui no estúdio — gritou, abrindo a porta.

— Hum, nada mau — aprovou André, que tinha acabado de entrar e examinava um dos desenhos pendurados na parede. — Foi Cynthia quem fez? — Sentou-se na poltrona, sem tirar os olhos dela.

— Não. Fui eu. — Quase esquecia quem era Cynthia.

— Quer dizer que também penduraram suas pinturas aqui. — Franziu a testa. Você é como um membro da família, não? Por que Matt não se casa logo com você?

— Ele nunca se casará comigo. — Tentou tirar o desenho da mão dele, mas não conseguiu.

— Está muito bom — elogiou, depois de examiná-lo por alguns segundos. Os olhos dele pareciam revelar um pouco mais de respeito. — Estudou desenho? — pergun­tou, interessado.

— Um pouco, na escola. Era a única matéria que me interessava.

— Duvido que consiga ganhar a vida como retratista, é honesta demais para isso. As pessoas não gostam de se ver como realmente são e parece que você não mente nos seus retratos.

— Aborreceu-se porque mostrei sua arrogância com essa poucas linhas? — perguntou, ofendida.

— Não, seu desenho não me aborreceu. É muito bom, você me revelou exatamente como sou.

— Também acho. Queria alguma coisa? — perguntou, suave.

— Vou pescar — ele respondeu, afastando os papéis do chão com o pé. — Vim saber se não quer ir junto, para tomar um pouco de ar fresco. — Inclinou-se, apanhou várias folhas amassadas, desamassou-as e estudou-as criticamen­te. — E, a última é mesmo a melhor.

Caroline arrancou as folhas de sua mão e rasgou-as. — Não pedi sua opinião! — Deu as costas para ele. — Pretende mesmo pescar nesta época do ano?

— Por que não? Os peixes estão lá o ano todo. Matt me disse que existe um lago aqui perto.

— Existe... mas você não tem cara de pescador.

— Não sou, mas Matt disse que eu podia usar os ape­trechos dele e agora me deu vontade. Deve ser repousante.

— Deve ser. Meu... Matt parece ter dito um bocado de coisas para você. Não pensei que o conhecesse tão bem.

André se levantou e flexionou os braços várias vezes.

— Há muitos anos que o conheço. Só porque é a namorada dele, não é obrigada a conhecer todos os amigos dele.

Ele teria razão, se o relacionamento dela com Matt fosse aquele. Mas, sendo quem era, achava bastante estranho nunca ter ouvido falar daquele homem. Precisava pedir ao pai mais informações sobre André. Aliás, era estranho que Matt ainda não tivesse telefonado.

— Vive no exterior ou coisa parecida? Não foi aqui na Inglaterra que adquiriu esse bronzeado. — Se morasse ou tivesse negócios no exterior, então estaria explicado.

— Passo muito tempo nos Estados Unidos e na Austrália. Tenho negócios nos dois países. Acabei de voltar da Aus­trália, onde passei três meses. Está respondida a pergunta?

— Está. — Arrumou o estúdio, rasgando e jogando no lixo todos os esboços que havia feito dele, inclusive o último, mas evitou encará-lo.

— E você? Pelo que sei, não é uma das mulheres mais comentadas do país.

Embora ele não soubesse, ela era. As colunas sociais dos jornais estavam sempre ligando o nome dela a vários ho­mens, especulando qual seria o eleito de uma das mulheres mais ricas do mundo.

— E não sou mesmo — mentiu.

— Matt também nunca me falou de você.

— Você falaria, se estivesse no lugar dele?

Percorreu-a com os olhos, conferindo cada curva do cor­po delineado sensualmente pela camiseta justa e pela cal­ça de brim.

— Acho que falaria. Talvez Matt não queira correr o risco de perdê-la.

— Ele nunca vai me perder.

— Otimo. Afinal, vem ou não vem pescar comigo?

— Bom, como você nunca pescou antes, acho que vou tam­bém, assim posso dar umas boas risadas se cair na água.

— Muito obrigado!

— Pensando bem, gostaria muito que acontecesse isso. — Deu um sorriso.

André também riu.

— Se eu cair, não tenha dúvidas de que você vai comigo, nem que precise sair da água para buscá-la.

— Que falta de gentileza!

— Também acho — concordou André, brincalhão.

— Escute... — Caroline mordeu o lábio, nervosa. — Quer mesmo que eu vá junto? Ontem à noite...

— Ontem à noite foi ontem à noite.

— E hoje de manhã — acrescentou, magoada.

— Ah, isso foi culpa sua. — Puxou-a para fora do estúdio e empurrou-a até o quarto. Como ela parecesse nervosa, ele suspirou. — Santo Deus, como você é desconfiada! Se vai pescar precisa vestir uma roupa mais quente! Lá fora está um frio de lascar. Esqueça o que aconteceu hoje de manhã — tentou acalmá-la. — Você estava de mau humor.

— Não estava! Eu...

— Caroline! — exclamou, impaciente. — Não sou muito compreensivo, mas gostaria de começar tudo de novo com você. Se não quer, paciência! Posso muito bem continuar vivendo sem sua amizade.

— Quer dizer que o convite para pescar é uma espécie de lenço branco da paz?

— Mais ou menos. — Andou até a porta. — Tem cinco minutos para se aprontar. Vou esperar no carro.

— Quer que prepare um lanche? — Caroline pegou um casaco numa das gavetas.

— Não precisa. Podemos passar num restaurante e al­moçar, antes de irmos para o lago. Não vou querer comer, depois de andar mexendo em minhocas.

— Minhocas? —- Caroline fez uma careta. — Por que não usa outra coisa como isca? Pa... Matt costuma usar queijo.

— O querido Matt até que tem boas idéias, às vezes. Pelo menos consegue pegar alguma coisa para compensar o frio que passa lá fora?

— Costuma pegar peixes bem grandes. Não sei os nomes porque não estou acostumada a pescar.

— Acho que queijo está bom. Para falar a verdade, não estava com muita vontade de mexer em minhocas. Aliás, não fiei nem se vou gostar de pescar.

— Pelo menos pode dizer que tentou — brincou, embora não acreditasse muito que ele tivesse paciência para ficar imóvel ao lado do rio durante horas a fio. Seu pai não aguen­tava mais que duas horas.

Cinco minutos depois, estavam saindo. Tinham decidido não almoçar já, deixando a refeição para mais tarde. O lago não ficava longe, mas se tivessem que carregar nos braços toda aquela parafernália, Caroline não teria ido. Tinha con­cordado em acompanhá-lo porque já estava cansada de ficar sozinha.

Ajudou-o a descarregar o carro e ficou observando, di­vertida, enquanto ele tentava inutilmente colocar a linha na vara.

— Onde foi hoje de manhã? — perguntou, fingindo desinteresse.

André olhou para ela disfarçadamente, mas não percebeu a ansiedade com que esperava a resposta.

— Fui buscar isso. — Tirou do bolso um papel e atirou-o para ela

— Ah... — murmurou, desapontada, depois de examinar a licença para pescar.

— Onde achava que eu tinha ido? — Deu um sorriso malicioso e ficou esperando a resposta.

— Não sei.

— Não fui ver Eve Gresham, se é isso que queria saber. Para falar a verdade, não a vi mais.

— Mas e ontem à noite?

— Ontem à noite, você tirou suas próprias conclusões. Fui jantar sozinho. Se prestasse atenção ao que digo, se lembraria de que eu disse que não ia me encontrar com a senhora Gresham.

— Eu pensei...

— Pensou que, só por que Eve é uma mulher bonita e gosto de mulheres bonitas, eu ia tentar conquistá-la. As coisas não são exatamente como você pensa. Não estou di­zendo que não acho Eve atraente, só estou dizendo que não estou interessado nela. Não gosto de me envolver com... crianças, o que elimina você completamente — brincou.

— André!

— Calma. — Estendeu a mão em sinal de paz. — Estava só brincando, você é muito sensível. Os dezessete anos de diferença que há entre nós não fazem a menor diferença. Aliás, se continuar esperta como vem sendo nos últimos dias, logo, logo vai me passar para trás.

— André! Você disse que queria começar tudo outra vez... — Não sei se será possível. Ainda não consegui esquecer de como você se sentiu nos meus braços. Me dê mais alguns dias e talvez eu consiga superar isso.

Caroline ficou em silêncio, pois não queria entrar em detalhes sobre aquela noite, quando quase se entregara a ele. Desde aquele dia vinha evitando pensar na sua própria reação, mas nem mesmo o beijo de Brian conseguiu fazê-la esquecer. Talvez por isso as provocações de André a dei­xassem com tanta raiva. Afinal, ele tinha razão.

— Você precisa? — perguntou Caroline depois de um longo silêncio.

— Preciso o quê? — Estava totalmente concentrado nas borbulhas que dançavam alegres sobre a água, à espera de um sinal que indicasse que um peixe tinha mordido a isca.

— Superar o que aconteceu? — Evitou os olhos dele.

— Acho que sim, nem que seja por lealdade a Matt. Acaso sabe o que é lealdade?

— Sei perfeitamente. E se eu lhe dissesse... — Respirou fundo para criar coragem. — Se eu dissesse que não há nada entre Matt e eu, o que acharia?

— Que está mentindo. Não se esqueça de que testemunhei o interesse dele por você.

— E se eu lhe dissesse que ele quer se afastar de mim, mas é bom demais e não tem coragem para isso?

— Aí mesmo é que teria certeza de que está mentindo — respondeu, convicto. — Matt não é nenhum tolo, e se não quisesse continuar com você, diria isso com toda a ho­nestidade. E, depois, por que eu devia me preocupar com isso? O que houve entre nós não passou de um incidente não muito inocente, mas sem significado.

Caroline mordeu o lábio. Conseguiria dar uma lição naquele homem, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida. Ele não era tão indiferente a ela como vivia repetindo e acabaria se convencendo disso. Iria levar tempo, mas valeria a pena.

Como ela tinha imaginado, a pescaria não entusiasmou André, cuja única façanha foi pegar dois peixinhos pequenos. Duas horas depois já estavam de volta.

— Parece que esse não é o meu esporte favorito. — Olhou para ela, sorrindo. — Mas, não se preocupe, vou preparar ura almoço especial para nós. Não se pode dizer que esse lugar seja pródigo em divertimentos. O que costuma fazer quando vem para cá? Não... esqueça a pergunta. É óbvio que faz mais alguma coisa do que desenhar e pintar.

— Puro engano. Matt raramente vem para cá. Quem vem com frequência é a filha dele.

— Ele não disse. Teria sido bem desagradável se a en­contrasse aqui, em seu lugar.

Chegaram ao chalé.

— Mais desagradável do que ter-me encontrado?

— Imagine o que os jornais não inventariam: "Famoso executivo vive caso de amor com uma garota". Eu não ia gostar nem um pouco.

Muito menos ela! Não via nada de mal nesse pequeno jogo particular com André, mas não gostaria que outras pessoas soubessem que estavam vivendo na mesma casa. Acontece que alguém mais sabia: seu pai! Claro! Agora per­cebia por que Matt não tinha insistido para que fosse em­bora: ia fazer chantagem para ela se casar com Greg Fort-num! Se o escândalo viesse à tona, não causaria o menor dano à reputação do pai, mas poderia arruinar a dela. Aque­le velho diabólico!

Mas não podia condená-lo totalmente por tirar vantagem da situação, afinal tinha exigido que ela voltasse para casa. Ela é que havia se recusado a obedecer. Mas, pensando bem, aquela raposa velha sabia que ela não ia obedecer!

André já tinha descido e aberto a porta do carro para ela há muito tempo.

— Ei, vai ficar aí sentada o dia todo? E por que o sorriso? Ela desceu e olhou para ele, distraída.

— Nada, estava só pensando. — Pensamentos agradáveis?

— Só pensamentos.

— Bom, vamos entrar. Prometo que vou preparar o me­lhor sanduíche que você já provou em toda sua vida.

Ele cumpriu a palavra e Caroline mal conseguia andar depois de comer um gigantesco sanduíche de carne, cebola, alface e tomate. André tentou comer dois, mas quando ter- minou estava a ponto de explodir.

Quando o telefone tocou, imaginou logo que fosse seu pai e foi atender, mas André chegou antes dela.

— É para você. — Estendeu-lhe o fone. — Wells.

— Brian! — O rosto dela se iluminou. — O que posso fazer por você?

— Muita coisa — comentou André, em voz alta.

— Quer parar com isso? — pediu, cobrindo o fone com a mão.

— Continue, não se preocupe comigo.

— Não pretendo me preocupar. — Deu as costas a André. — Maravilhoso, Brian. A que horas? Às sete? Ótimo. Vejo você amanhã, então. — Despediu-se e desligou.

— Muito bem — ironizou André. — Está ficando popular!

— E você também. Fomos convidados para jantar amanhã. Aceitei por nós dois — explicou com um sorriso doce.

— Às vezes eu lamento que o telefone tenha sido inventado — comentou, pensativo.

— Estou certa de que a sra. Gresham preferia ter feito o convite diretamente.

— Pode ser. — André tornou a se sentar, estendendo os pés descalços sobre o aparador da lareira. — Ah, esta é a vida que pedi a Deus. Se ficasse mais tempo, ia ficar mal-acostumado.

— Está pensando em ir embora? — O coração de Caroline disparou.

— Por enquanto não.

Ela tentou não demonstrar satisfação, mas sabia que, se ele fosse embora, os dias ali perderiam a graça.

Observou-o à luz da lareira, impressionada com os tra­ços fortes e dominadores daquele rosto, com o verde pro­fundo dos olhos e com a brancura dos dentes. Impossível esquecer aquele rosto. No fundo da memória, Caroline sabia que já o havia visto antes. Sentiu um desejo intenso de fazer o retrato dele.

— Gostaria de posar para mim? — Olhou para ele, esperançosa.

— Quer me pintar? — Franziu a testa.

— Gostaria.

— Por quê?

— Você tem um rosto interessante — admitiu, constran­gida. — Muito marcante.

— E o que faria com o retrato?

Boa pergunta. Na verdade, não tinha a menor idéia do que faria com um retrato dele, sabia apenas que queria pintá-lo.

— Talvez você queira ficar com ele.

— Comprar, você quer dizer?

— Não. Não costumo vender minhas pinturas. Não são suficientemente boas. E, depois, não preciso de dinheiro.

— E eu não preciso de retrato.

— Ora, vá passear! — Caroline levantou-se, zangada.

— Que gatinha-do-mato você é! — Sorriu da irritação dela. — Está bem, se não tem nada para fazer, então pode me pintar, mas não pense que vai me obrigar a ficar parado horas a fio... Faça uns esboços e depois trabalhe nele. Não gosto de me sentir preso... seja de que maneira for.

— Geralmente trabalho mesmo a partir de esboços. Tenho um retrato grande de Matt, quer ver? — perguntou, ansiosa.

— Se faz questão...

— Se não quer, não tem importância!

— Ora, vá buscá-lo, menina. Se não se acostumar logo com meus modos pouco delicados ainda vai haver muita discussão por aqui nos próximos dias. — Virou-se e olhou para ela. — Vá logo! Ou prefere que eu suba com você?

Como o quadro ocupava lugar de honra no quarto dela, achou melhor ele não subir.

— Não, volto num instante.

Não levou muito tempo para subir e tirá-lo da parede. Era um dos seus melhores trabalhos, mostrando claramente as feições determinadas do pai. Além disso, tinha sido feito com amor, e revelava isso. Só esperava que André não fizesse comentários a respeito.

— Muito bom — aprovou. — Você tem talento. Talvez eu até compre o meu, no fim. Posso guardá-lo para meus descendentes, se é que terei algum.

— Claro que terá, tenho certeza. Vou dá-lo de presente à você, só que vou demorar alguns meses para terminá-lo. Sou muito lenta e meticulosa, preciso de muitos esboços. Quero de­senhá-lo sob diversos ângulos, antes de decidir qual vou escolher.

— Quando pretende começar?

— Que tal agora? — Não queria perder tempo, pois não. sabia se ele pretendia ir embora logo.

— Aqui mesmo ou prefere no estúdio?

— Aqui mesmo está bom. Num instante trago meu estojo de desenho. Só que vou ter que confiar na memória para acertar a cor dos olhos e o tom da pele — murmurou, pensativa.

— Não pensei que tivesse reparado na cor dos meus olhos — comentou quando ela voltou ã sala. — Por que não estuda um pouco mais a cor deles, antes de começar?

— Não será necessário — respondeu, seca. — Já sei exa-tamente de que cor são.

— Ora, que cabeça! — André levantou-se e começou a desabotoar a camisa.

— O que está fazendo? — perguntou Caroline, preocu­pada, quando ele começou a tirá-la.

— Tirando a roupa — respondeu, tranquilo. — Estava pensando num nu, deitado no sofá.

— Não pretendo pintá-lo assim! — O rosto de Caroline estava pegando fogo. — Nunca vi um homem nu.

— Nunca? — Ele já ia desabotoar a calça, mas parou.

— Nunca.

Ele riu e tornou a vestir a camisa.

— Se pudesse se ver, Carol! Esqueci de dizer que sou muito bem-humorado e não pretendia tirar a roupa de ver­dade. Você fez uma cara tão engraçada!

— Muito obrigada! Ainda bem que posso me divertir um pouco à sua custa! — Caroline bateu a porta com raiva e subiu para o quarto.

 

André bateu na porta pela segunda vez.

— Ora, vamos, Carol! Foi só uma brincadeirinha à toa, não pude resistir.

A voz chegava nitidamente até Caroline, através da porta, mas ela o ignorou de propósito. Como tinha coragem de zombar dela daquele jeito! Senso de humor... falta de ver­gonha, isso sim!

— Não seja infantil, Carol. Avisei que ia me vingar da­quela mordida no dedo, agora estamos quites. Tenha mais espírito esportivo.

Ela começou a fraquejar diante dos argumentos dele. Afi­nal, tinha mordido a mão dele e merecia o troco. Relembrou a imagem dele sem camisa e teve que admitir que possuía um lindo corpo, bronzeado e forte, extremamente atraente.

— Carol — insistiu André.

— Está bem. — Abriu a porta. — Quer parar de me chamar de Carol?

— Não gosta do apelido? — Pela expressão de riso nos olhos dele, dava para perceber que ainda estava se divertindo.

— Não é isso. Parece... dá uma impressão errada sobre nós.

— A quem, a Brian Wells? — perguntou, irônico. — Cha­mo você como bem entender. Carol é melhor que Caroline.

— Está bem! — Caroline suspirou. — Já percebi que você só faz o que quer. Nunca vi ninguém tão teimoso!

— Não tanto quanto você e acho que é por isso que dis­cutimos. — Puxou-a pelo braço, — Estou pronto para os esboços e, agora, prometo não brincar.

Caroline percebeu que ele mal conseguia disfarçar o riso e teve que rir também.

— Até onde teria ido se eu não o tivesse feito parar?

— Não sei. — Ele parecia sincero. — Realmente, não sei. Mas como você me obrigou a parar, acho que a resposta, não importa muito. Agora, para ser honesto, preciso dizer que não senti vergonha de mostrar meu corpo.

Não era de admirar, com um corpo daqueles, músculoso e em perfeita forma, sem nenhuma das gordurinhas extras que tanto atormentavam Matt.

— Como quer que eu fique? — perguntou André, se sen­tando na poltrona.                                                    

Ela fez uma careta irônica, mas evitou qualquer comentário.

— Aja normalmente, não gosto de poses estudadas. Com traços firmes e fortes, começou a dar forma ao rosto de André Gregory.

— Quer ouvir música?

Ela encolheu os ombros, profundamente concentrada.

— Tanto faz. Se isso o ajuda a relaxar, pode ligar a vitrola. — Não estou tenso. — Levantou-se. — Só achei que seria

bom ouvir música romântica.

Ela se contraiu ao ouvir a palavra romântica, mas se descontraiu quando percebeu que ele estava concentrado na pilha de discos. A voz de Bob Dylan invadiu a sala e Caroline sorriu de prazer, pois aquela era uma das suas canções favoritas. Música perfeita para uma noite relaxante, muito apropriada para namorados. Só que eles não eram namorados, nem nunca seriam!

— Acho que já basta por hoje. — Caroline se sentou e deu um suspiro. — Amanhã, quando eu estiver mais des­cansada, continuamos. Quer ver? — Mostrou os quatro es­boços que tinha feito.

— Está bem. — Aproximou-se para olhar. Num dos es­boços, aparecia rindo; em outro, simplesmente sorrindo; no terceiro, sério e pensativo; no último, finalmente, com uma expressão de profunda raiva. Ele riu ao ver o último. — Sou mesmo parecido com isso?

— Quando está zangado, é. Dá até medo.

— Hum... — Analisou os desenhos por mais alguns ins­tantes, sentado no braço da cadeira e descansando o braço no ombro dela. — Não admira que alguns concorrentes pa­reçam um pouco assustados quando conversam comigo. Não sabia que assustava as pessoas.

— Eu sabia, já estive do outro lado — respondeu, pro­curando disfarçar a aflição pelo contato com o corpo dele.

— Hum... — Com um gesto distraído, ele começou a aca­riciar o pescoço de Caroline. — Quer que peça desculpas pelo meu comportamento de ontem à noite? — perguntou, suave, olhando para Caroline, que mantinha a cabeça abaixada.

— Está se sentindo culpado? — Amaldiçoou-se pelo tre­mor da própria voz. Por que ele não parava com aquelas carícias que provocavam sensações tão estranhas?

— Não, mas é sempre bom pedir desculpas. — Disse isso bem junto do ouvido dela. Ela tremeu quando sentiu os lábios quentes de André no pescoço.

— Pare com isso, André — suplicou, tentando se afastar.

— Devia ter dito isso naquela outra noite — murmurou ele. — Talvez então eu tivesse tomado consciência de você. Neste exato momento, só consigo ter consciência do meu próprio desejo e ele me diz para continuar beijando você.

— Por favor, André, não! — Na verdade, não queria que ele parasse, estava adorando a sensação provocada por aque­les lábios firmes e seguros, que sabiam encontrar exata-mente as suas áreas mais sensíveis. — Pare! — repetiu

sem convicção.

— Só mais um pouquinho — sussurrou com a voz en­trecortada, tirando o braço do ombro dela para que ficassem ainda mais juntos. — Wells beijou você assim? — Tentou abrir os lábios dela. — Ou assim? — Desabotoou a blusa dela para poder sentir melhor os bicos rosados dos seus seios, que apareciam através do tecido transparente.

— Não... — respondeu com voz quase inaudível. — Nunca Ninguém me beijou assim.

— Ninguém? — Tornou a procurar os lábios dela, prendendo-os e soltando-os em seguida, afastando-se delibera-damente para ver como ela reagia.

— Ninguém — respondeu Caroline com impaciência, sem vontade de falar.

— Gosta? — Ele a beijava no pescoço, cheio de paixão.

— Gosto. — Os olhos dela imploravam os beijos daqueles lábios tão próximos. Sabia que André tinha consciência do poder que exercia sobre ela, e que ele parecia gostar de evidenciar a fraqueza dela. Mesmo sabendo disso, Caroline não conseguia resistir; não conseguia ocultar o prazer que as carícias dele provocavam nela. Mais uma vez tinham chegado a um ponto perigoso e mais uma vez ela não tinha forças para parar.

Aproximou-se ainda mais, ronronando de prazer sob o corpo dele, que a pressionava sobre o sofá, impedindo-a de se mover.

André descobriu um dos seus ombros e correu os lábios de leve sobre a pele suave, seguro de que era isso que ela queria.

— Isso pode se tornar um hábito — murmurou.

— Isso o quê? — Caroline mal ousava respirar para não quebrar a paixão de André.

Ele se afastou um pouco para olhá-la. Os cabelos úmidos de suor caíam em sua testa, sensuais.

— Isso. Isso que há entre nós e que me confunde. Não sei se bato em você ou se faço amor com você. Não consigo imaginar qual das emoções vai prevalecer.

— Qual você quer que prevaleça?

— O que você acha?

— Não sei... — Envergonhada, evitava o olhar dele. Ele deu uma risada gutural e mordeu o lóbulo da sua orelha.

— Assim, próximos do jeito que estamos, acho que não há dúvida quanto ao que desejo fazer com você. Mas não vim aqui para me entregar a um caso de amor. Um de nós dois precisa ir logo embora, antes que a situação escape do nosso controle:

O encanto se quebrou e a realidade surgiu de novo diante dela.

— Sempre deixa que a situação escape do seu controle?

— Sempre que quero.

— Nunca deixa que nada aconteça espontaneamente, André? André se levantou e foi até a lareira, dando as costas

para ela.

— Sou um homem, Caroline, não um garoto. Sei controlar meus impulsos. Claro que existe um ponto de onde não é mais possível voltar, mas nunca permito que as coisas che­guem a esse ponto. A não ser, é claro, que saiba exatamente onde quero chegar.

— Mas você... você deve ter feito amor... deve ter muita experiência!

— Confesso que sim, e desde o começo já fico sabendo o

que vai acontecer.

— Você fala de maneira tão... tão fria!

— Não. — Virou-se e olhou para ela. — É divertido, muito divertido. Mas se uma mulher deixa claro que não quer essa espécie de relacionamento, não a forço. Jamais desejei alguém a ponto de me descontrolar.

— Mas eu... eu não sugeri que fôssemos até o fim!

— Não, claro que não. Mas eu a desejo até o fim, e é por isso que estou dizendo que um de nós deve ir embora.

— Eu não vou — afirmou Caroline, teimosa. — E acho que você não devia deixar que esses dois incidentes atra­palhassem nosso relacionamento.

— Incidentes? — sacudiu a cabeça. — Não foram inci­dentes. Durante todo o tempo, era só isso o que eu queria! E você também não ajuda em nada, se exibindo e discutindo a maior parte do tempo.

— Foi você quem me procurou hoje à tarde, não tive culpa alguma — defendeu-se Caroline.

— Mas você aceitou. Só porque o convite não partiu de você acha que está livre da responsabilidade?

— Escute aqui, não distorça os acontecimentos...

— Caroline! — André suspirou. — Quer se acalmar? Não sei se serei capaz de enfrentar esse relacionamento, que às vezes parece amor, às vezes parece ódio. Tente deixar seu emocional de lado por algum tempo.

— Vá para o diabo!

— Mais café, André? — Eve Gresham sorriu para ele.

— Sim, obrigado.

Depois do jantar, os quatro se sentaram na sala de estar. A refeição tinha sido deliciosa: frango com batatas, ervilhas e ce­nouras, queijo, doces variados e café cremoso, para terminar.

Logo nos primeiros minutos de conversa, abandonaram as formalidades de senhor e senhora, e Caroline até relaxou, pois esquecia sempre quem era a srta. Rawlings. Ela e André mal se falaram, por causa da noite anterior.

Podia ser que, no fim, ela acabasse vencendo. Por en­quanto, perdia o controle cada vez que André a tomava nos braços. Suspeitava de que acontecesse o mesmo com ele, mas não tinha certeza.

André estava mais atraente que nunca, de calça preta, camisa de gola alta, também preta, e paletó malhado, creme. O efeito era devastador e Caroline sentiu o coração disparar, quando o viu. Tinham vindo no carro dele e, apesar de não terem trocado uma palavra, Caroline sentiu o tempo todo a proximidade dos dois corpos.

— Caroline?

Olhou para Eve Gresham, parada diante dela com o bule de café.

— Não... obrigada.

— Você parece distraída — comentou Eve, sorrindo.

Caroline retribuiu o sorriso com sinceridade. Gostava da­quela mulher, embora sentisse um pouco de ciúme pelo in- teresse que ela demonstrava por André. Caroline observava disfarçadamente cada movimento de André, tentando des­cobrir se o sentimento da viúva era correspondido, mas não conseguiu confirmar suas suspeitas. Ele tratava os três com a mesma cortesia, caprichando nas gentilezas com Caroline, o que não deixava de ser natural.

— Estava pensando na pescaria de André — comentou Caroline, maliciosa, olhando para ele de soslaio.

— Foi pescar hoje? — perguntou Brian.

— Ontem — respondeu, calmo. — Foi a primeira e última

tentativa.

— É questão de hábito. — Eve riu. — Brian também não é muito fã de pescarias, mas papai gostava bastante.

— Gostaria de ver o gatinho? — perguntou Brian a Ca-roline em voz baixa, mas a irmã ouviu.

— Lá fora está frio e escuro — preveniu.

— Mas lá no depósito, não. — Brian sorriu. — Debbie não deixaria seus preciosos gatos no frio. Obrigou-me a co­locar um aquecedor para eles!

— Mas aí fora está frio — insistiu a irmã. — E o depósito fica muito longe. Por que não vem vê-los amanhã?

— Parece uma boa idéia — comentou André. — Daqui a pouco preciso ir embora e Caroline vai comigo.

— Mas ainda é cedo. — Eve parecia desapontada. — Fiquem um pouco mais.

— Sinto muito, mas estou esperando um telefonema im­portante às dez e meia.

Caroline olhou para ele, surpresa. Pelo que sabia, André nào tinha falado com ninguém, desde sua chegada, a não ser com Matt. De quem seria o telefonema tão importante? Provavelmente de alguma das suas mulheres, o que a an­gustiava profundamente.

— Posso levá-la para casa mais tarde, Caroline — ofe­receu Brian, ansioso. — Eve tem razão, ainda é cedo.

— A noite estava deliciosa, mas também preciso ir. — Estava curiosa a respeito do telefonema de André.

— Vamos? — perguntou André, se levantando. — Já são quase dez horas e não quero perder a hora. — Virou-se para os anfitriões. — Obrigado pelo jantar, Eve, e desculpe por sairmos tão cedo.

— Não tem importância. — Sorriu. — Mas precisam pro­meter que vão voltar.

— Claro que sim — concordou André, gentilmente.

— Vem amanhã? — perguntou Brian a Caroline, em par­ticular. — Para ver Bobby — acrescentou, persuasivo.

— Está bem — aceitou. — Amanhã à tarde.

O silêncio no carro estava se tornando opressivo.

— Não acha que foi um pouco indelicado? — perguntou Caroline, quebrando o silêncio.

— Ninguém forçou você a vir embora — replicou Andr — Wells teria o maior prazer em levá-la para casa mais tarde... para uma despedida mais prolongada.

— Você parece enciumado — retrucou Caroline, maliciosa.

— Não seja ridícula! — explodiu, furioso. Caroline sur­preendeu-se com aquela reação tão violenta a uma simples brincadeira. — Estou apenas cuidando dos interesses de Matt.

— Tenho certeza de que ele ficaria feliz... embora não espere isso de você.

— E o que é que ele espera? — perguntou com voz peri­gosamente suave. — Conheço Matt há muito tempo e sei que é ardiloso, esperto e sabe manipular as pessoas segundo os próprios interesses. Então por que nos deixou juntos no chalé? Por que não exige que um de nós vá embora? Se você fosse minha, jamais a deixaria ao alcance de outro homem.

— Ele exigiu que um de nós fosse embora: eu — respon­deu, ofendida com a ofensa ao seu pai. — Só que eu recusei.

— Sei que você chegou aqui primeiro, mas por que ele não veio até aqui e não a forçou a ir embora com ele?

Ela sorriu, tentando sem sucesso visualizar o pai numa atitude de violência física.

— Matt não é o tipo de pessoa que resolve os problemas por meio da violência, e você sabe disso. Pelo menos devia saber, se o conhece assim tão bem.

— Conheço, sim — respondeu André, sombrio. — Existem alguns detalhes nisso tudo que me intrigam. Matt poderia esclarecê-los, se quisesse... mas parece não querer.

— Nada disso justifica sua indelicadeza com Eve Gre-sham e o irmão.

— Não fui indelicado, só estava um pouco tenso. Não gosto de cenas domésticas, com crianças e animais. Já estava sen­tindo o nó matrimonial se apertando em torno do meu pescoço.

— Agora você é que está sendo ridículo. Eles queriam ape­nas ser gentis. Talvez Eve tenha sido um pouco... um pouco...

— Um pouco exagerada no seu interesse por mim — completou por ela.

— Bom... um pouco talvez — admitiu Caroline.

— Muito, na minha opinião. Sendo tão bonita e atraente, não devia se oferecer daquela maneira. — Parou diante do chalé. — Deve haver muitos homens que considerariam uma sorte ter uma esposa como ela.

— Mas não você — ironizou Caroline.

Já em casa, Caroline resolveu preparar uma bebida quen­te para eles.

— Não é preciso, prefiro um uísque — recusou André, brusco. Foi até a sala e voltou com dois copos.

Tomou o primeiro uísque de um só gole e partiu para o segundo. Aos poucos a tensão foi diminuindo e os músculos do corpo dele começaram a relaxar.

— Não eu — disse depois de muito tempo, voltando ao assunto dos pretendentes de Eve. — Casamento é coisa que não me interessa. — Colocou de lado o copo vazio, com raiva. — Eve Gresham não esconde que está à procura de um marido que a tire deste lugar. Não gosto de me envolver com esse tipo de mulher.

— Claro que não! — Caroline sorriu com desprezo. — Gosta só das fáceis, não é?

— Não é isso, Carol — murmurou, passando as mãos pelos cabelos, num gesto de desânimo. — Não percebeu o jogo de Eve? Se eu tivesse concordado em ficar até mais tarde, apesar de todos os protestos, ela acabaria sugerindo que você e Brian fossem ver os gatos. Não quis demonstrar que queria ficar a sós comigo, por isso armou toda aquela cena.

— E você naturalmente não queria ficar a sós com ela! — O coração de Caroline batia, acelerado, feliz porque André a tinha chamado pelo apelido. Toda vez que ele estava zangado charnava-a de Caroline. Logo, talvez quisesse fazer as pazes.

— Não, não queria. Acha que estou errado?

— Não é problema meu.

— É claro que é problema seu! — Chegou tão perto dela que seus corpos quase se tocaram. — Estamos vivendo aqui juntos e você é atraente... muito atraente, muito bonita. E me atrai, como já sabe. Enquanto estivermos aqui, juntos, não vou conseguir pensar em ninguém, a não ser em você. — Riu do espanto dela. — Pensou que eu fosse incapaz de sentimentos espontâneos? Não sou, embora isso não me agrade.

— Mas você disse...

— Sim, eu disse, mas disse também que com você eu podia perder o controle da situação, e acho que estou prestes a perder...

Abraçou-a e procurou seus lábios com selvagem intensi­dade. Presa nos braços dele, incapaz de se mover, Caroline ainda tentou resistir, mas logo se entregou à loucura da­queles lábios sensuais. Retribuiu o beijo, cedendo. Não podia mais negar que estava apaixonada por aquele belo desco­nhecido, tão apaixonada que não conseguia nem pensar com clareza. Não adiantava lutar, sabia que estava perdida.

— Oh, Carol —- murmurou junto aos lábios dela. — Por que me atrai desse jeito? — Brincou com os lábios dela por longos e agonizantes segundos antes de pressioná-los outra vez com paixão redobrada. — Vestiu essa roupa de propósito — sussurrou. — Sabe que fica tentadora com ela.

Era um vestido de seda, preto, de tecido macio, que acen­tuava todas as formas do seu corpo. Sabia que ficava bem com ele e não via mal algum nisso.

— Não foi de propósito — negou, sentindo intensamente os lábios que deslizavam por seu pescoço.

— Talvez não, você fica bem com qualquer roupa. — Tinha descido o zíper do vestido e acariciava os ombros dela. — Está disposta a enfrentar as consequências?

— Consequências? — Caroline estava perdida na torrente da própria paixão, os sentidos inflamados pelo desejo.

— Dentro de poucos minutos vou carregá-la por aquela escada até meu quarto, fechar a porta, colocá-la na cama e ficar com você lá até amanhã, se é que vou deixá-la sair amanhã.

— Eu... Molhou os lábios repentinamente secos.

— Não discuta, Carol. Foi avisada ontem e teve tempo suficiente para sair, agora é tarde. Não posso mais resistir, Carol, passei do ponto de onde ainda era possível voltar.

Nunca tinha feito amor antes e a idéia a aterrorizava... e a excitava, é verdade, mas também a aterrorizava.

— Mas... mas Matt! Ele...

André já estava indo para a porta, segurando-a firme­mente pela mão.

— Se acontecer, fica a seu critério contar a ele ou não. E, se depois quisermos continuar, eu mesmo explico a ele o que se passou — sugeriu com tranquilidade.

— Não, eu... eu não... — Foi interrompida pelo telefone.

— Deixe, Carol. Quero você agora.

— Pode ser o telefonema que você estava esperando. — Afastou-se dele.

— Não estou esperando nenhum telefonema, aquilo foi só uma desculpa para poder vir embora.

— Mas eu... preciso atender. — Pegou o fone. — Aqui é Caroline... Rawlings.

— É do chalé do sr. Rayner? — Voz feminina, suave e sexy. Caroline sentiu um frio na espinha ao entregar o fone a André. — Para você — disse sem entusiasmo. — Menti­roso! Então não havia nenhum telefonema, não é?

Ele arrancou o fone das mãos dela, brusco.

— Olá, Sylvia. Não, não esqueci que você ia telefonar. Quem atendeu o telefone? — Olhou para Caroline. — A moça com quem estou dividindo o chalé. Não, não é nada disso. — Deu uma risada. — Por que está sempre pensando o pior?

Caroline ia sair da sala, quando ele a chamou.

— Onde vai? — perguntou, impaciente. Tinha a mão sobre o fone e olhava para ela com os olhos ainda infla­mados de paixão.

— Para o meu quarto, dormir. Sozinha.

— Já vou desligar, espere um pouco...

— Você é mesmo cara-de-pau! — gritou, furiosa. — Pode continuar falando com a sua namorada e não me amole!

— Carol! — Suspirou.

Ela saiu sem responder. Que descaramento! Era muita pretensão da parte dele pensar que ela ia esperar ele falar com uma das namoradas...

Estava na cama há mais ou menos cinco minutos quando ouviu os passos dele na escada. Sem bater ou chamá-la, ele foi entrando, sem dar a mínima confiança para a indignação dela. Caroline atirou o livro que estava lendo sobre o cria- do-mudo e sentou-se, na defensiva.

— O que está fazendo aqui? — A voz soou enérgica, mas por dentro ela estava tremendo de medo.

Ele olhou em volta, interessado, e, depois de examinar cada detalhe do quarto, cravou os olhos nela.

— O que você acha que estou fazendo aqui? — perguntou com voz suave.

— Já disse que não quero, especialmente depois...

— Depois de uma conversa sem importância com a minha secretária. Sylvia é minha secretária, sim, e muito compe­tente, aliás. Sabia que ela ia telefonar qualquer dia, mas não esperava que fosse agora à noite. Parece que tentou falar comigo o dia todo.

— Que importância tem isso agora? Aconteceu e pronto. O encanto se quebrou.

— Sua covarde! — Sorriu com desprezo. — Por que não admite que não iria mesmo para a cama comigo e que, de qualquer jeito, arranjaria um meio de escapar? Uma pro­vocadora, isso é o que você é!

— Mentira! Nunca disse, nem dei a entender, que iria para a cama com você!

— Nem precisava. Nem por um momento você resistiu. Não admira que Matt não esteja se preocupando comigo, ele sabia que eu não ia conseguir nada com você. Você provoca os homens, enche-os de desejo e depois esfria. — Olhava para ela com desprezo. — Não sente nada, não é, Caroline? Tem uma beleza e um corpo tentadores, mas quando chega o mo-mento não tem nada para dar a um homem, é fria como gelo!

Caroline ouvia, boquiaberta.

— Costuma explicar sempre assim suas incapacidades Acusando a mulher?

— Não tente inverter as coisas — disse, paciente. — Não me convence. Confesse que ficou aterrorizada quando disse que ia levá-la para o quarto.

— Não é verdade — mentiu, cobrindo-se com a colcha. — Você está apressando os acontecimentos, não consigo ir tão depressa quanto você. Não é porque lhe dei alguns beijos que preciso ir correndo para a cama com você.

— Não foram apenas beijos, e sabe muito bem disso!

— Não seja pretensioso, André. — Tentava se mostrar confiante, mas, aparentemente, não estava conseguindo — a expressão de André não se alterava.

— Nesse caso, esses incidentes precisam acabar. Não sou nenhum menino e não me satisfaço com o pouco que tem para me dar.

— Agora acho que estamos começando a nos entender. — Engoliu em seco. — Sairei do seu caminho se você sair do meu.

— Dissemos a mesma coisa no começo, mas parece que não funcionou, — Sorriu com ironia.

— Tem razão. Está bem, você ganhou. — Tomou uma decisão, percebendo que não conseguiria contornar a situa­ção, agora que tinha consciência do amor que sentia por aquele homem. — Vou embora. Me dê um ou dois dias para me recompor e depois saio da sua vida.

— Excelente. — Ele saiu e fechou a porta, com toda a delicadeza.

— Bobby parece mais feliz junto dos irmãos — observou Caroline, sorrindo para Brian.

— Fiquei contente por você ter vindo hoje.

— Vim para me despedir. Vou embora amanhã. — Sentia realmente ter que se afastar de Brian, tinha passado bons momentos com ele.

— Por que vai embora? — Brian agarrou-a pelos ombros. — Pensei que estivesse de férias.

— Não é bem isso, vim só por alguns dias. Só que... bom, não está dando certo dividir o chalé com André, não estamos nos entendendo bem.

— Sei. — Ele ficou pensativo por uns momentos, depois abriu a porta da cozinha para ela. — Ontem à noite, tive a impressão de que estavam um pouco irritados um com o outro.

— Um pouco não... muito. Tentei ignorá-lo, mas não con­segui. — Não só não conseguia ignorá-lo como sentia que ele estava se tornando parte de sua vida, uma parte à qual não queria renunciar. Mas renunciaria! De volta a Londres faria o possível para tirá-lo da sua vida, voltaria a sair com os antigos amigos e recomeçaria tudo outra vez.

— Precisa mesmo ir embora? Você podia... ficar aqui co-nosco — sugeriu Brian, ansioso. — Eve ficaria feliz por ter companhia e eu... eu...

— Obrigada, Brian. — Tocou de leve o braço dele. — Mas não posso aceitar. Preciso mesmo voltar a Londres, tenho alguns compromissos lá.

— Mas vai voltar aqui?

— Não sei, duvido.

Voltou para o chalé mergulhada em profundos pensa­mentos a respeito de André Gregory, Não entendia como ele tinha conseguido atingir o coração dela. O tempo todo que passaram juntos, ou brigavam como cão e gato ou es­tavam nos braços um do outro. Isso podia servir de base para o amor? De qualquer maneira, nunca tinha sentido por homem algum o que sentia por ele, e nada do que tinham feito juntos parecia errado aos olhos dela.

Até a noite anterior, não conseguiria admitir isso. mas agora precisava reconhecer que era como massa de moldar nas mãos dele, e que não podia contar com sua força de vontade. Se ele a abraçasse outra vez, iria reagir da mesma forma.

Pelo menos, desde que tinha decidido ir embora, ele vinha se mostrando educado. Seco, mas educado. Caroline tinha esperanças de que ele mudasse de idéia e pedisse a ela para ficar, mas as atitudes dele não indicavam nada disso. Na verdade, o clima entre eles estava tão tenso pela manhã que Caroline achou melhor sair para visitar Brian.

Entrou depressa no chalé, pois lá fora estava frio e ventando. Havia completo silêncio na casa, a não ser por um leve ruído de papel na sala. Será que devia entrar lá, correndo o risco de encontrar André? Ora, por que não? Ia embora mesmo!

Ele estava sentado diante da mesa, cercado de papéis.

— Está trabalhando? — perguntou, interessada.

— Parece.

— Pensei que tivesse vindo para descansar. — Tentou parecer zangada.

— Vim, mas Sylvia me pediu estes papéis com urgência. Já acabei. — Começou a recolher os papéis.

— Não precisa recolher os papéis por minha causa — desculpou-se. — Não pretendo lê-los.

— Não acharia nada interessante, mesmo que lesse. Pre­ciso levá-los para minha secretária ainda hoje.

— Estive na casa de Brian.

— É mesmo?

— Fui me despedir.

— Já me disse que vai embora. — Fingiu estar ocupado com os papéis.

— E, já. — Estava magoada pela indiferença dele, mas tentou não demonstrar.

— Então queria ver Wells antes de partir. — André co­meçou a guardar os papéis na pasta.

Caroline observava os movimentos dele quando notou as iniciais de ouro na pasta. A.G.F. Mordeu o lábio.

— Sua pasta. — Apontou para ela.

— O quê?

— As iniciais não são as suas.

— Não são? — André olhou para a pasta.

— Não.

— Claro que são.

— Não pode ser, seu nome é André Gregory.

— André Gregory não é meu nome completo.

— Não? — Teve um estranho pressentimento, como se a resposta não fosse agradá-la. — E qual é seu nome completo?

— André Gregory Fortnum — respondeu, tranquilo.

 

-G reg Fortnum. — Caroline quase engasgou.

Ele continuou arrumando os papéis, sem perceber que tinha acabado de atirar uma bomba no pequeno mundo de Caroíine.

— Isso tem alguma importância? — Fechou a pasta e foi se sentar diante dela.

Se tinha importância! Primeiro sentiu que o sangue gelava em suas veias; depois, que queimava como brasa; e, agora, uma estranha sensação de vazio invadia seu corpo. Aquele então era Greg Fortnum, o homem com quem Matt queria que ela casasse, o homem de quem tinha fugido. Durante cinco dias tinha compartilhado o mesmo chalé com o temido Greg Fortnum! E seu pai sabia disso! Olhou para André, des­confiada. Será que ele sabia que estava vivendo com Caroline Rayner? A descontração do rosto dele dizia que não.

— Caroline? — repetiu. — Tem importância?

— Claro que tem! Me enganou esse tempo todo, Greg Fortnum! E Matt também! — O que a enfurecia mais era a atitude do pai, que sabia com quem ela estava convivendo todos esses dias e não disse nada.

— Eu pedi a ele para não dizer. Vim aqui para descansar, mas parece que ninguém deixa Greg Fortnum descansara por isso omiti meu verdadeiro nome. Acho que funcionou.

— É, funcionou — respondeu, zangada. — Não tinha o direito de fazer isso.

— Por que não? Não prejudiquei ninguém e consegui a privacidade que necessitava. —   Sorriu. — Além disso, fiquei livre de conhecer a filha de Matt... teria feito qualquer coisa para não encontrá-la.

A pergunta já estava respondida, ele ainda não sabia quem ela era. Mas isso não tinha mais importância, agora que Caroline sabia que o homem por quem estava se apai­xonando era Greg Fortnum. Quando voltasse a Londres, Matt ia pagar pelo golpe sujo em que envolveu os dois.

— Você não gosta mesmo dela, não é?

— Não gosto do que ouvi falar — corrigiu André. — Como não a conheço pessoalmente, não posso dar uma opinião concreta. Mas tenho a impressão de que é uma garota mi­mada que precisa de uma boa lição.

— E acha que é o homem certo para isso? — pergun­tou, sarcástica. Com efeito, onde ele teria obtido aquelas informações?

— Por que não? Nas circunstâncias apropriadas.

— Imagino quais sejam essas circunstâncias...

— Bem, isso não importa agora. Escute, o fato de eu ser Greg Fortnum faz alguma diferença para você?

— Claro, fica muito mais fácil ir embora. Sua reputação não é das melhores e não gostaria de virar alvo de comentários.

— Que diferença faz o meu nome? De qualquer forma, você passou cinco dias com um estranho, o que dá na mesma. Isso não parecia preocupá-la antes.

— Claro que me preocupava — respondeu, indignada. — Só não aceitava era ter que ir embora por sua causa. Mas você precisava manter sua reputação, não é?

— O que quer dizer com isso?

— Todas as suas mentiras, a insinuação de que comigo podia ser diferente.., era tudo um jogo. Aposto como diz a mesma coisa a todas as novas conquistas,

— Geralmente não preciso fazer isso. — Parecia entediado.

— Imagino! Só que desta vez não funcionou, André... Greg... Ah, droga! Não gostava de você antes e gosto menos ainda agora. Greg Fortnum!

— André está bem, é meu nome mesmo...

— Por que me preocupar com Greg, então, não é? — ironizou.

— É o nome que meus clientes usam, mas minha família e alguns amigos chegados ainda me chamam de André.

— Como não me incluo em nenhuma das duas categorias, de agora em diante vou chamá-lo de Greg. — Desviou o olhar.

— Não vai ter muitas oportunidades de dizer meu nome, já que vai embora, esqueceu?

— Cl... claro...

— Tinha esquecido?

— Momentaneamente. Afinal, não é todo dia que surge um Greg Fortnum em minha vida... foi um choque. Não imaginava que alguém como você viesse passar férias num lugar como este. Pensei que as Bahamas fossem mais apropriadas.

— Lá não tenho privacidade. Quando Matt sugeriu este chalé, achei que seria o lugar ideal. Mas todo paraíso tem sua serpente...

— Não seja grosseiro!

— Desculpe — respondeu displicente.

— Vou arrumar as malas — anunciou Caroline, se levantando.

— Ninguém está segurando você.

Depois de hesitar um pouco entre esbofeteá-lo ou sair correndo da sala, optou pela segunda alternativa. Era mais seguro. Um homem como ele poderia devolver os bofetões.

Dez minutos depois, estava de volta com as malas. An­dré... Greg estava lendo diante da lareira.

— Já vou — anunciou Caroline.

— Boa viagem — disse Greg, virando a página do livro.

— Faz alguma diferença para você se minha viagem não for boa?

— Claro, tenho muito respeito pela vida humana.

— Mais nada? — insistiu.

— O que mais você queria? — Suspirou e deixou o livro de lado. — Se quer ir embora, desejo-lhe uma boa viagem. O que mais quer que eu diga?

— Nada, eu acho. — Caroline já ia abrir a porta quando sentiu que ele tinha se aproximado.

— Carol... — Segurou-a pelos ombros e fez com que se virasse para ele. — Quer mesmo ir?

— Preciso ir.

— Não precisa fazer nada que não queira. Se quer ficar, fique; se quer ir, vá. Mas não espere que eu suplique a você que fique.

— Nem esperava isso de você.

— Vá ou fique, mas, pelo amor de Deus, decida logo. — Tirou as mãos dos ombros dela e se afastou um pouco. — Nunca vi você tão insegura para tomar uma decisão. Desde o começo, decidiu que não gostava de mim; e acho que não fiz nada para mudar isso.

— Não, não fez. — Ele não tinha feito nada, mas ela sim. Tinha se apaixonado por ele!

— Então é melhor ir.

Caroline foi, acelerando furiosamente o carro antes de colocá-lo em movimento. Como conseguiu encontrar o ca­minho de casa, não sabia, pois só percebeu onde estava quando estacionou diante do apartamento.

Jã estava escuro, embora ainda fossem seis horas. Era mui­to cedo para encontrar o pai em casa. Talvez fosse até melhor. Ainda estava muito nervosa e não queria despejar toda a raiva em cima do pai assim que ele colocasse o pé na porta.

Maggie, ouvindo a porta, veio ver quem era.

— Sou eu, Maggie. A filha pródiga retorna à casa.

— Caroline! — A velha governanta ficou felicíssima. — Graças a Deus você voltou.

— Papai tem sido mais insuportável do que já é? — Pelo alívio de Maggie, Caroline podia imaginar. Geralmente era Caroline que interferia nos desentendimentos dos dois. E, embora o pai vivesse ameaçando mandar a governanta em­bora, tinha certeza de que ele jamais faria isso. Os dois a amavam demais para viver sem ela.

Maggie sorriu. Seu rosto, apesar de envelhecido, ainda guardava os belos traços da juventude. Maggie era a mãe que ela nunca teve, e foi para o colo dela que correu quando viu fracassar seu primeiro caso amoroso, aos doze anos de idade. Foi também para ela que exibiu orgulhosa, o primeiro vestido de baile e o primeiro namorado de verdade.

— Seu pai tem estado um pouco irritado com a sua au-sência. Disse que você estava no chalé.

Caroline entrou no quarto e atirou a mala em cima da cama.

— É muito frio lá, nesta época. — Maggíe tremeu. — O que ficava fazendo de divertido?

Caroline segurou a gargalhada. Divertimento era o que não tinha faltado àquele passeio.

— Conheci um casal que vive numa fazenda vizinha. Saí com o rapaz algumas vezes.

Maggie franziu a testa e veio ajudar Caroline.

— A esposa dele não fez objeções?

— Ela não era esposa dele. — Dessa vez, Caroline riu com vontade, divertida com a expressão escandalizada de Maggie. — Maggie, tenha dó! Era irmã dele.

— Ah, claro. É que seu pai estava fazendo ameaças hor­ríveis a um homem,outro dia, e pensei...

— Devia estar se referindo ao sr. Fortnum, Maggie. Você sabe dos planos de papai.

— Por que ele não deixa que você mesma escolha com quem quer se casar? — Cruzou os braços. — Não pude deixar de dizer a ele o que pensava.

— Você fala demais, Maggie. — Caroline sorriu. — É por isso que discutem tanto.

— Discutimos porque ele é muito teimoso.

— E você é muito teimosa. — Era bom estar de volta à vida de sempre, bom estar longe de Greg Fortnum.

— Pode ser, mas tenho certeza de que ele vai ficar con- tente com a sua volta. Eu também estou muito feliz. Não

é nada divertido cozinhar para uma pessoa só, muito menos para alguém tão enjoado como seu pai.

Sim, realmente era muito bom estar de volta. Caroline sorriu para Maggie.

— Não conte com isso, ele não vai ficar nem um pouco satisfeito em me ver de volta.

— Não?

— Não. — Não a perdoaria por ter atrapalhado seus planos.

— Bom, se você está dizendo... — Deu uma olhada no relógio. — Ele vai chegar logo. Vou terminar o jantar.

— Não se preocupe comigo, Maggie, não estou com muita fome. — Tinha perdido o apetite e achava que seu pai tam­bém não ia ter muita fome depois que ouvisse o que ela

tinha para dizer.

— Vai comer o que eu puser na sua frente — ordenou Maggie, severa. — Aqui não servimos refeições ligeiras.

— Está bem, Maggie.

— E nada de caretas. Estou contente que tenha voltado, mas não admito seus absurdos.

— Está bem, Maggie.

Maggie não conseguiu ficar séria.

— Sempre consegue de mim o que quer, não é?

— É, Maggie. — Caroline também riu.

Estava sentada na sala, tomando um licor, quando ouviu o ruído da porta.

— Caroline! — Matt parou, admirado.

— Caroline primeira e única. — Sorriu, tensa.

— Mas eu... — Olhou em volta. — Está sozinha?

— Com quem eu deveria estar? — perguntou, irónica.

— Com ninguém. É que pensei...

— Pensou o quê?

— Você disse que ainda ia ficar lá por mais algum tempo.

Fiquei surpreso, só isso.

— E ficou satisfeito também?

— Precisa perguntar isso a seu pai? — Olhou para ela,

curioso.

— Não é de se estranhar, já que nem me deu um abraço. Ele se aproximou timidamente para abraçá-la e beijá-la.

— Estou contente de ver você, amor. Mas por que não me disse que vinha hoje? Podia ter folgado à tarde.

— Não havia necessidade. — Caroline afastou-se, esqui­va. — E, depois, foi uma decisão repentina.

— Compreendo. — Mordeu o lábio, pensativo.

— Compreende mesmo?

Matt notou o rosto contraído e os olhos brilhantes de Caroline. Suspirou.

— Quer falar claro, Caroline? Já estou muito velho para adivinhações.

— Não fale como se tivesse cem anos. Você só tem cin­quenta e dois. — Sorriu, irónica. — E sabe muito bem por que estou zangada, droga!

— Não xingue, Caroline. Sabe muito bem que não gosto.

— Não mude de assunto, papai. Você é um velho traiçoeiro e falso, e eu devia odiá-lo por isso.

— Mas não odeia — comentou, sorrindo. — Agora diga o que foi que eu fiz, mas com calma, por favor.

— Você sabe muito bem o que fez. Greg Fortnum!

— Greg? — Fez um ar de espanto inocente. — O que houve com ele?

— Papai! Tenho vontade de bater em você! Escondeu de mim o verdadeiro nome dele. André Gregory! Sabia muito bem o que é que eu achava daquele homem!

— Sei que você não queria que eu bancasse o cupido, e não banquei. Como poderia se eu estava a quilómetros de distância?

— Não se faça de inocente! Podia ter-me dito quem ele era. Assim eu não ia bancar a idiota!

— Bancou a idiota?

— Claro. Só hoje de manhã é que descobri quem era ele. — Ainda não estava recuperada do choque.

— Foi por isso que voltou tão depressa? — insinuou, observando-a com atenção.

— Não, já tinha decidido voltar, antes de saber. — Des­viou o rosto. — Saber que ele era Greg Fortnum só apressou as coisas.

— Quer dizer que não gostou dele?

— Não, não gostei! — negou com veemência, talvez com veemência demais. — Ele é tudo o que eu imaginava: pre­tensioso, arrogante, seguro. Seguro demais. Você não devia ter feito isso.

— Isso o quê?

— Deixar que eu descobrisse como descobri. — Evitou olhar para ele.

— Só não contei a você porque Greg me pediu que não contasse.

— Por causa disso ele achou que eu era sua amante. — Suspirou, desanimada. — Sou sua filha; podia ter-me dito!

— Podia — admitiu. — Mas não vi razão para isso. Você foi embora sem dizer nada, me deixando mal com meu hós­pede. Por que eu iria contribuir para tornar sua estada no chalé mais agradável?

— Não foi agradável!

— Estou vendo. — Riu. — Mas que diferença faz saber que André é Greg Fortnum? Qualquer que seja o nome, é o mesmo homem.

— Teria feito muita diferença — respondeu, furiosa. — Eu teria vindo embora na primeira oportunidade.

— Acho que foi por isso que me calei. Greg Fortnum deu a você a lição que andava merecendo.

— Ele não me deu lição nenhuma! Aquele homem não pode ensinar boas maneiras a ninguém, já que não sabe o que é isso. Foi grosseiro comigo desde o primeiro minuto. Ainda acha que ele me causou boa impressão?

— Ele jamais tenta causar boa impressão. Se não gostou dele, é pena.

— Não gostei!

— Se continuar esbravejando desse jeito, Caroline, vou começar a achar que gostou.

— Pois está completamente enganado. — Não gostava do homem, amava-o. — Não tente se fazer de inocente, papai. Não me contou quem ele era por sua própria causa, não porque ele pediu. Você queria que eu me apaixonasse por ele, que eu casasse com ele. Pois bem, não me apaixonei nem vou me casar. E, por falar nisso, alguma vez já per­guntou a ele se queria se casar? — Caminhava de um lado para o outro, agitada. — A vontade que ele tem de casar é tão grande quanto a minha.

— Pensei que você pudesse fazer Greg mudar de idéia.

— Não fiz e nem faria.

— Está bem, então. Assunto encerrado. Não se fala mais nisso. Vamos continuar vivendo nossas vidas.

Caroline desejava poder esquecer o assunto com a facilidade do pai, mas não conseguia. Não conseguia esquecer André. E nem pensava nele como Greg. Para ela, seria sempre André.

Nos seis dias que se seguiram, tentou desesperadamente esquecê-lo, indo a festas e saindo para fazer compras. Há quatro dias da sua chegada, já não aguentava de saudade e tudo que queria era voltar para o chalé. A maquilagem já não conseguia esconder a palidez do seu rosto, nem as olheiras profundas.

— Pela sua aparência, Caroline, está precisando urgente­mente de umas férias — dizia Esther, preocupada com a amiga.

— Acabei de voltar de umas férias — respondeu Caroline, tomando um gole de café.

— Que pelo jeito não ajudaram muito. Parece cansada e desinteressada de tudo. Por que não pede a seu pai que a mande passar uns tempos nas Bahamas? Você precisa de sol.

— Preciso do André! — gritou Caroline, derrubando a xícara.

— André? — Caroline tinha se recusado a falar dos dias que passou no chalé, mas Esther sentia que a amiga estava com problemas sérios.

— André Gregory Fortnum! — explodiu Caroline, cuja raiva não tinha diminuído.

— Greg Fortnum?

— Isso mesmo.

— E daí?

— Estive com ele no chalé. — Não conseguia mais es­conder a verdade da amiga.

— No chalé?

— Foi tudo culpa de papai — continuou, zangada. — Ele exigiu que eu voltasse para casa, porque sabia que eu faria exatamente o contrário. E durante todo o tempo soube que eu estava lá com aquele odioso Greg Fortnum. Nunca vou perdoá-lo!

— Explique desde o começo, Caroline — interrompeu Es­ther, com delicadeza. — Não estou entendendo nada.

Ouviu com paciência a explicação nem sempre muito clara de Caroline e, no final, tinha os olhos arregalados.

— Então ficou todo o tempo com Greg Fortnum?

— Não o chame assim! — Contraiu-se, como se aquele nome a ferisse. — O nome dele é André.

— O que sente por ele agora? — Esther tentou não parecer muito interessada na resposta.

— O que acha que posso sentir por ele? — gemeu Caroline.

— Você sabe minha opinião sobre Greg Fortnum. Eu não queria nem conhecê-lo. É um devasso, um completo devasso!

— E André?

— André... — Depois do espanto, Caroline deu de ombros.

— Eles são a mesma pessoa.

— Não para você. — Esther sorriu. — Seja razoável, Caroline. Sei que é difícil, mas tente! Se não conhecesse a reputação dele por intermédio de outras pessoas, o que pen­saria de André? Todo seu conhecimento dele, afinal, se ba­seia na opinião de outras pessoas.

— Ora, nada...

— Então... — raciocinou Esther, satisfeita.

— Mas papai vive dizendo que ele é impiedoso.

— Claro que é, todos os homens de negócios são. Seu pai também, mas isso não impede que você o ame.

— Não amo An... Greg Fortnum!

— Eu sei. Mas... e André?

Caroline parou de fingir e admitiu a derrota.

— Tem razão, eu o amo... gosto muito dele. É tão diferente dos outros! Mas discutimos quase o tempo todo. E não foram discussões agradáveis, não.

— Isso é natural, já que ambos têm personalidade forte.

— Isso ele tem. — Sorriu, triste. — Mas também é muito atraente.

— Já vi fotografias dele.

— Quem dera que eu tivesse visto também! Evitaria todo esse sofrimento. Teria vindo embora assim que o visse. E pensar que só fiquei lá para dar uma lição àquele maldito! Não sei quem lhe deu as informações, mas tem uma péssima impressão de mim.

— Você também tem uma péssima impressão dele, por­tanto... Acho que vocês conseguiram as informações no mes­mo lugar. Foi por causa da opinião que ele tinha de você, que trocou de sobrenome?

— Foi. — Caroline mordeu um biscoito, distraída. — Não disse a ele quem eu era. Achei que não valia a pena.

— Pois eu acho que era muito importante. Ora, Caroline! — repreendeu-a. — Não percebe que ele desprezava você, porque imaginava que fosse outro seu relacionamento com Matt? E depois, eu não acredito que era só isso que ele sentia por você. — Riu.

Caroline lembrou das confidências que tinha feito à amiga e corou.

— Não... acho que não. Mas não ia dar certo, Esther. Você sabe minha opinião sobre o amor e o casamento! Não admito ter um caso com alguém, não importa o quanto ele seja atraente. Quero um casamento normal e feliz como o seu. Foi por isso que nunca tive nenhum desses casos su­perficiais que a maioria das pessoas acha tão divertidos.

— Tem certeza de que ele só queria ter um caso com você? Pelo que me contou, ele parecia achar você... irresistível.

— A atração era mútua, e ele praticamente disse que se uma mulher não estivesse disposta a lhe dar tudo, então não queria nada.

— Não acredito.

— Foi exatamente o que ele disse, Esther — insistiu Caroline.

— Exatamente?

— Bom... quase. A diferença foi pequena. Portanto, aqui estou eu de volta a Londres e detestando cada minuto.

— Por que não volta ao chalé e conversa francamente com ele?

— Acho que não temos mais nada a dizer. Já dissemos até demais.

— Não é melhor tentar do que ficar aqui sofrendo?

— Não posso, eu acabaria fazendo o que não quero. Você não sabe como ele é persuasivo... Eu me derretia nas mãos dele, cada vez que me beijava. É tão... tão arrasador!

— Acredito — disse Esther. — Percebi pelas fotos e até já cheguei a me entusiasmar um pouco por ele.

— Acho que John não gostaria de saber disso. Eu... Alguém entrou inesperadamente na sala e a expressão

indignada de Esther iluminou-se ao ver o irmão.

— Nick! O que está fazendo aqui?

— Que bela recepção! — brincou, antes de dar um beijo em cada uma. — Minhas duas mulheres favoritas.

Sem querer, Caroline riu daquela tirada espontânea. Com vinte e sete anos, Nick Hall não escondia seu amor pela vida e por tudo que ela tinha para oferecer. Era relativa­mente alto, tinha cabelos escuros e pele morena, e se vestia impecavelmente.

— O que está fazendo aqui a esta hora? — perguntou sua irmã, curiosa.

— Mas que abelhuda, não é mesmo, Caroline? — Não se perturbou com a curiosidade da irmã. — Meu cunhado John me deu a tarde de folga.

— Isso quer dizer que você inventou um pretexto qualquer para sair, e ele não teve coragem de negar, como sempre. — Franziu a testa, reprovando-o. — Quer dizer também que ele vai voltar tarde para casa — acrescentou, zangada. O marido e o irmão de Esther dividiam o escritório, mas John conseguia um número muito maior de clientes do que Nick.

— Acalme-se, irmãzinha. — Acariciou-a no rosto. — John mandou dizer que estará em casa às cinco e meia, como sempre.

— Ele sabia que você vinha aqui?

— Claro que sabia. — Nick se serviu de café e bolacha. — Não estava muito ocupado, e como sabia que Caroline vinha aqui hoje, resolvi dar uma chegadinha. Há séculos que não nos vemos. — Sorriu para Caroline.

— Não exagere, Nick. Nós nos encontramos na festa de Hazel outro dia.

— Não é assim que gosto de me encontrar com você. Por que não jantamos juntos para conversar um pouco?

— Eu acho que não...

— Seria bom para você, Caroline — interrompeu Esther.

— John e eu conhecemos um ótimo restaurante outro dia...

— Obrigado, Esther — o irmão interrompeu-a, seco. — Caroline e eu podemos decidir sozinhos. Já pensei num res­taurante que vai agradar a ela.

— Não mesmo, Nick. — Sacudiu a cabeça. — Não vou ser boa companhia e não quero estragar sua noite.

— Você não vai estragar minha noite. Sou a pessoa in­dicada para animá-la, se está deprimida — insistiu.

Os quatro já tinham passado ótimos momentos juntos, em­bora ultimamente não se vissem muito. Nick era um ótimo amigo, por isso não queria inflígir-lhe uma noite desagradável.

— Não se ofenda, Nick. Não sei se estarei na cidade amanhã.

— Afinal, por que tinha dito aquilo? Não tinha a menor in­tenção de viajar... pelo menos não tinha, até alguns minutos atrás. O inconsciente parecia ter tomado a decisão por ela. E por que não? Por que negar que queria ver André de novo?

— Não pode viajar outro dia? — O rosto de Nick revelava desapontamento. — Há tanto tempo que quero ver você.

— Está me vendo agora, seu bobo. — Riu do interesse dele. — Não vou para casa agora.

Conversaram por mais duas horas e, depois, Caroline se despediu, recusando o convite para jantar com eles. Agora que tinha decidido voltar ao chalé, não via a hora de partir. André não tinha pedido a ela que fosse embora, ela que quis ir. Portanto, não havia por que não voltar.

Teve problemas para aclamar a própria consciência, E se André insistisse em ir para a cama com ela, teria forças para resistir? Agora, já duvidava. Afinal, tinha acabado de dizer a Esther que não ia voltar ao chalé e já tinha mudado de idéia. E isso vinha acontecendo nos últimos seis dias; mudava de idéia a todo momento, sem saber jamais o que queria realmente.

Até a hora do jantar, já tinha mudado de idéia umas doze vezes. Percebeu o olhar curioso do pai e deu um sorriso feliz, o que só contribuiu para aumentar a preocupação dele. — Qual é o problema, Caroline?

— Problema? — Ela fez força para parecer surpresa. — Que problema?

— É o que quero saber. — Suspirou. — Não tente des­conversar, quero uma resposta direta.

— Não sei do que está falando — fingiu. — Estou ótima.

— É mesmo? — Sorriu com ironia. — É por isso que não tem comido nada e passa as noites em claro?

— Tenho dormido e comido muito bem. — Ficou vermelha com a mentira.

— Claro, você sempre comeu como um passarinho e sem­pre se satisfez com duas ou três horas de sono, não é? Vamos, Caroline! Está falando com seu pai, não com Maggie ou Esther, que acreditariam nas suas desculpas. Conheço você muito bem e não sou cego, não está em seu estado normal desde que voltou do chalé.

— Não invente coisas. — Evitou o olhar dele. — É o tempo que está me deixando deprimida.

— Em outra ocasião, acreditaria em você. Mas agora não. O problema é com Greg, não é? Alguma coisa aconteceu no chalé e você está com medo de me contar.

— Claro que não! Não fiz nada de que possa me enver­gonhar, nada! — Os olhos dela brilharam, zangados. — Vim embora assim que soube quem ele era.

— Quem ou o que ele é não tem nada a ver com o que você sente por ele. O que sente por ele, Caroline? Diga a verdade.

— O que posso sentir por ele? — Empurrava a comida pelo prato, sem conseguir comer. — Ele é Greg Fortnum, um canalha e totalmente imoral.

— E daí? — Matt riu. — Isso não impede que as mulheres se apaixonem por ele.

— A mim impede.

— Está me enganando e está se enganando também. Gosta dele muito mais do que quer admitir.

— Não gosto!

— Gosta sim, Caroline. Seja sincera para...

— Está bem — disse ela com firmeza.

— Ótimo. Gosto de Greg, mas não vou permitir que se aproveite da minha filha. Eu o aceitaria como genro, mas qualquer outro relacionamento está fora de questão.

— Casamento também está. — A conversa estava come­çando a ficar embaraçosa. — O que acharia se eu voltasse ao chalé por uns dois dias? — Mal conseguia respirar, aguar­dando a resposta.

— O mesmo que da outra vez. — Encolheu os ombros, — Lá faz frio demais nesta época do ano. Fora isso, não faço objeções.

— E André?

— O que tem André?

— Não se importa que eu fique com ele?

— Não vai ficar, ele não está mais lá há muito tempo. Viajou para a Europa e depois vai para os Estados Unidos. Telefonou agradecendo pelo chalé e pelas amenidades... acho que incluiu você nas amenidades — acrescentou, sombrio.

 

A noite com Nick não foi exatamente um sucesso, como ela previa. Como podia rir e se

divertir, sabendo que, para o homem que amava, era apenas uma amenidade? Foi um choque para Caroline descobrir que André não estava mais no país. Se continuasse hospedado no chalé, sempre haveria a possibilidade de ir até lá ao encontro dele. Mas agora as esperanças estavam todas mortas.

Seguiu Nick até a mesa, depois de dançarem toda uma seleção,

— Isto aqui está lotado hoje.

— Tem razão. — Nick correu os olhos pela multidão que lotava a boate. — Fez uma careta de desagrado. — Se sou­besse que tinha se transformado num lugar tão movimen­tado, não teria trazido você aqui.

— Não tem importância. — Tocou de leve a mão dele. — Adorei o restaurante. — Era um restaurante italiano, muito especial.

— Está muito quieta esta noite, Caroline — comentou Nick, tomando um gole de champanhe.

— Não, estou ótima. — Na verdade, estava um pouco melhor.

— Ora, Carol, conheço você e...

— Não me chame de Carol! — Quase se descontrolou e seus olhos brilharam de raiva. — Não me chame de Carol, Nick — repetiu, mais calma. — Nunca me chamou assim antes e não gosto do apelido.

— É mesmo? — Ele a observava atentamente. — Pois me pareceu o contrário.

— Não comece um interrogatório!

— Agora tenho certeza de que alguma coisa está errada com você. — Nick deu uma risada. — Não minta, quem mais a chama de Carol?

— Ninguém. — Desviou o rosto.

— Está bem, quem costumava chamá-la?

— Por favor, Nick. — Apertou a cabeça entre as mãos. — Estou com dor de cabeça, será que podemos ir?

— Seu eu prometer não tocar mais no assunto você fica mais um pouco?

— Não, estou com dor de cabeça mesmo, Nick.

— Está bem, então vamos. — Levantou-se e fez um sinal ao garçom para trazer o casaco de Caroline,

— Desculpe se estraguei sua noite — disse Caroline, já no carro. — Eu o preveni antes.

— É. — Sorriu. — Quem é o homem?

— Você prometeu que não ia tocar mais no assunto.

— Só se você tivesse ficado um pouco mais... lembra-se? Não fuja do assunto, sou quase seu irmão. Qual é o problema?

— Parece que várias pessoas resolveram me dizer isso nos últimos dias. — Sorriu com tristeza.

— Minha irmãzinha? — desconfiou. — Interrompi alguma conversa importante de vocês, naquele dia? Pelos olhares que ela me lançou, acho que cheguei num momento bastante impróprio.

— E possível — admitiu Caroline.

— Disse a Esther quem é o homem misterioso? Duvido que ela me conte.

— Não há nenhum mistério em Greg Fortnum, Parece até que é muito popular.

— Greg Fortnum? — Nick assobiou. — Então é ele o homem! Pensei que ele tivesse um caso com Lisa Young.  

— Pode até ter. — Caroline se retraiu. — Mas eu não sabia.

— Diabos! Que falta de tato a minha! Claro que você não devia saber sobre a... a... amiga dele. — Tropeçou nas palavras.

— Se ia dizer amante, Nick, pode dizer. Sei que Greg já é bem crescidinho e tem um bocado de experiência.

— Ainda bem. — Deu um suspiro de alívio. — Não sabia que você o conhecia. Já conversei com ele umas duas vezes... é um sujeito formidável.

— Vivi com ele cinco dias — explicou Caroline, tranquila, rindo do espanto de Nick, — Mas não em pecado, pode ficar tranquilo. — acrescentou com displicência, e ia explicar como tinha conhecido André.

— Do jeito que você fala, a coisa parece muito inocente — observou Nick. — É mesmo?

— Mais ou menos.

— Para mais ou para menos?

— Mais para mais — admitiu Caroline, — Mas voltei intacta. — Mas não de coração intacto. Tenho a impressão de

que está apaixonada.

— Pode ser.

— Onde é que ele está agora? Não acredito que tenha deixado uma beleza como você escapar.

— Deve estar em algum lugar da Europa.

— Vão se encontrar quando ele voltar? — Parou o carro diante do apartamento dela e desligou a chave.

— Acho que não, infelizmente.

Ele inclinou-se e beijou-a nos lábios.

— Não se preocupe, amor, você ainda me tem. Santo Deus, isso deixaria qualquer moça deprimida!

— Obrigada pela noite, Nick — agradeceu, rindo. — E obrigada por ter me ouvido.

— Ainda bem que não chorou.

— Não, mas não tenha dúvida de que vou chorar, quando estiver na cama. Nos últimos dias não tenho feito outra coisa. — Beijou-o no rosto.

Depois da noite desastrosa com Nick, decidiu não sair enquanto não recuperasse o autocontrole. O que havia acon­tecido à confiante Caroline Rayner, que até duas semanas atrás não se deixaria afetar por homem algum? O que tinha acontecido à Caroline, fria e racional, que sempre enfrentava os problemas de cabeça erguida? Tinha se recolhido para uma concha, dentro dela mesma. Mas iria lutar contra aque­la angústia que a dominava. Sentia uma pontada no coração cada vez que pensava em André. Tinha se apaixonado pela primeira vez na vida e não ia ser fácil esquecer esse amor.

Passava horas no estúdio, trabalhando no retrato de An­dré. Estava ficando bom e ela precisava reconhecer que era o melhor que já tinha feito. Ainda guardava na memória o tom exato da pele e dos olhos dele e vivia perseguida pelos traços fortes daquele rosto irônico.

Mais uma vez Caroline cobriu a tela com um pano e deu as costas àqueles olhos verdes que pareciam penetrá-la. Mal­dito Greg Fortnum! Iria tirá-lo da cabeça, nem que levasse a vida inteira.

Ela estava sentada na sala, vendo televisão, quando seu pai chegou do escritório. Estava mais atrasado que normalmente, mas Caroline não fez nenhum comentário e continuou olhando para a tevê, que na verdade não a interessava nem um pouco.

— Boa noite, Caroline. Não se preocupa mais nem com pequenos hábitos de educação?

— Boa noite, papai — respondeu, obediente, sem ao me­nos levantar a cabeça.

Ele bateu a porta com força e ela levantou a cabeça, assustada. O rosto dele estava contraído.

— Até que enfim consegui que me olhasse, embora quase tenha destruído a porta! Não acha que já é tempo de voltar ao reino dos vivos? Já estou ficando cansado de olhar para a sua carranca.

— Desculpe — murmurou Caroline, levantando. — Vou para o meu quarto.

— Vai sentar e me ouvir! — explodiu o pai. Percebeu, satisfeito, que ela obedecia. — Já jantou? — perguntou, notando que a roupa da filha estava mais larga na cintura.

— Não estava com fome.

— Você nunca mais teve fome. Exijo que pare com isso, Caroline. Tem andado pela casa como um fantasma o dia todo. Não saí mais, não vê ninguém, deixou totalmente de lado a vida social. Já basta, não quero que isso continue.

— É mesmo? — Não havia o menor interesse na voz dela, seus olhos tinham perdido o brilho de antes.

— É — respondeu com firmeza. — Agora vai jantar co-migo e depois vamos sair.

— Sair? — espantou-se.

— Sair.

— Onde é que vamos?

— Babs vai dar uma festa esta noite.

— Você não gosta dessas festas.

— Sei — concordou, impaciente. — Mas, se é a única forma de tirá-la de casa, eu vou. Além disso, gosto de Babs.

— Ela também gosta de você.

— Nada de bancar o cupido esta noite, Caroline! — Matt suspirou. — Desde os seis anos de idade, quando percebeu que não tinha mãe, como todas as outras meninas, vem tentando encontrar uma mulher para mim. Não preciso de mulher e acho que já é um pouco tarde para pensar em mãe para você. Embora no momento você pareça estar precisando de uma!

— O que quer dizer? — Ficou sem jeito e afastou o cabelo que caía sobre a testa, desarrumado.

— Olhe para o seu estado! — Se serviu de uma dose de uísque. — Não se cuida mais e há séculos não a vejo bem vestida e maquilada. Veja esse cabelo, parece uma vassoura!

— Está sujo.

— Então lave-o! Vamos, Caroline, mexa-se. Temos que sair no máximo dentro de uma hora, e não pretendo levá-la a parte alguma com essa cara.

— Não quero ir, estou muito bem aqui.

— Não me interessa se está bem ou não, você vai comigo! Vá lavar —a cabeça e depois venha jantar.

— Mas, papai, eu...

— Vá, Caroline! Já estou perdendo a paciência com você. Vai sair esta noite e não tem discussão. Agora mexa-se.

Caroline subiu. Conhecia muito bem o pai e sabia que não valia a pena discutir com ele quando estava de mau humor. E talvez ele tivesse razão. Analisou o próprio rosto no espelho: parecia um fantasma. O cabelo não via água e escova há muitos dias e o rosto precisava de uma boa lim­peza e de um hidratante.

Por que estava se destruindo daquele jeito? Está certo amava André, mas não era com essa aparência que ia con­quistá-lo, se é que algum dia ia vê-lo outra vez. Nunca tinha se encontrado com ele nas reuniões que costumava frequentar, por que iria encontrá-lo agora?

O pai abriu a porta do banheiro e encontrou-a parada na frente do espelho.

— Ande logo, Caroline. Não adianta fazer hora, porque vai comigo de qualquer jeito, nem que precise esperá-la até meia-noite.

— Não serei boa companhia, papai.

— Pode ficar sentada num canto a noite toda, se quiser. Mas vai comigo.

— Está bem, papai — suspirou, resignada.

— Não há... — hesitou um pouco. — Não há nada que queira me dizer, não é?

— O quê, por exemplo?

— Bem... não está doente... ou coisa parecida? — Parecia não ter coragem de encará-la.

— Doente? — A princípio não entendeu, mas depois per­cebeu que ele estava querendo saber se estava grávida. — Não, não estou doente...

— Desculpe, mas eu tinha que perguntar — Matt se desculpou, confuso. — Pensei que você estivesse com medo de me contar, afinal, não é assunto para uma moça discutir com o pai.

— Não aconteceu nada, papai — ela garantiu.

— Então até já. — Ele sorriu, aliviado.

Uma hora mais tarde, estava mais parecida com a antiga Caroline. Os cabelos, já limpos, caíam em ondas suaves sobre os ombros e em torno do rosto. Usava um vestido preto de chifon, sem alças, que caía muito bem sobre sua pele bronzeada. A perda de peso tinha acentuado seu busto, dando-lhe um ar ainda mais sensual.

— Você está linda, boneca — murmurou o pai, quando já iam entrando na casa de Babs, num dos bairros mais elegantes de Londres.

— Vou melhorar, papai, não precisa se preocupar. — Sem dúvida alguma, estava se sentindo melhor, e estava grata ao pai por isso. — Toda moça sempre tem uma paixão não correspondida na vida.

— Mas, no seu caso, foi culpa minha. Podia ter evitado todo esse sofrimento se tivesse dito a você quem era André. Fui arrogante e egoísta, pensando que tudo sairia conforme os meus planos e que vocês gostariam um do outro.

— Vamos esquecer isso, papai. — Virou-se para ajeitar a gravata dele. — Vamos enfrentar a multidão.

Riu da expressão dele, que geralmente se recusava a ir a essas festas. Provavelmente não encontraria muitos ami­gos ali, pensou Caroline, já que a festa era promovida por Babs Lerner, mulher quase da idade do pai. Caroline gos­tava muito dela e há tempos já tinha perdido a esperança de tê-la como madrasta.

Foi ainda dando risada do mau humor do pai que se viu frente a frente com André. Um André diferente, vestido de maneira mais formal, com um terno creme e camisa mar­rom. Daí a um instante ele também a viu e pareceu querer

atravessá-la com o olhar.

O sorriso morreu nos lábios de Caroline, que empalideceu sob a maquilagem. E pensar que acreditava que jamais iria vê-lo outra vez! Agarrou o braço do pai, desesperada, per­cebendo a ligeira inclinação de cabeça com que ele cumpri­mentou o amigo.

— Sabia que ele estaria aqui? — gaguejou, zangada, des­viando os olhos do rosto zombeteiro de André.

— Como é que eu podia saber?

— Sabia, não tente negar — repetiu, vendo que o rosto do pai estava ligeiramente corado. — Não consegue esconder de mim quando está mentindo, você agora está na defensiva.

— Pode ser que esteja na defensiva, mas porque sou inocente — insistiu, sorrindo para as pessoas que passavam.

— Não é nem um pouco inocente — afirmou com segurança.

— Como pôde me fazer uma coisa dessas? — perguntou com a voz entrecortada. — E depois de me pedir desculpas!

— Não faça cena, Caroline. — Pegou dois copos de um garçom que passava e estendeu um a Caroline, — Beba um pouco de champanhe para acalmar os nervos. Vou pro­curar a anfitriã para cumprimentá-la.

— Mas... — Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, se viu sozinha e à mercê dos próprios pensamentos. Ficou gelada só de pensar que, a qualquer momento, podia dar de cara com André. Que crueldade!

Antes mesmo de vê-lo, sentiu a presença dele como uma corrente elétrica. — Caroline.

Virou-se para cumprimentá-lo, um sorriso assustado nos lábios.

— André.

— Que progresso! Da última vez que nos vimos jurou que jamais me chamaria de André!

— É mesmo? Não posso me lembrar de todas as conversas que tivemos! — Sabia que estava dizendo uma mentira, uma grande mentira.

— Eu me lembro — afirmou André calmamente, acen­dendo um cigarro. — Veio com Matt?

— Você nos viu entrar juntos.

— Não foi isso que perguntei. Veio até aqui com ele? — repetiu, impaciente.

— Vim.

— Tem estado com ele desde que voltou? — perguntou em tom de desafio.

— A maior parte do tempo, mas...

— Então voltou correndo para ele, como uma criança assustada. Ficou assustada porque desejei você e não pro­meti nada em troca do seu corpo delicioso. Então voltou para o seu amante.

— Está enganado, ele não é...

— Compreendo perfeitamente., só gostaria de poder tirar você da minha cabeça.

— Eu posso explicar...

— Greg, querido! — Uma morena alta, que Caroline re­conheceu como sendo a famosa atriz Lisa Young, aproxi­mou-se dele. Sorriu para ele. — Vamos embora, Greg?

— Pode ser. — Continuava olhando para Caroline.

— Você prometeu que não íamos ficar muito tempo —-insistiu Lisa.

Que belo par eles formavam, pensou Caroline. Lisa era alta, muito mais alta que Caroline, e atraía a atenção dos homens com o vestido vermelho vivo que usava. Provavelmente essa era mesmo a intenção dela, pensou Caroline, maldosa.

— Greg. — A atriz praticamente implorava. — Vamos embora, ainda quero encontrar o pessoal no clube.

— Não vê que estou conversando, Lisa? — perguntou, irritado. — Espere só mais uns minutos. Já vamos.

Dois profundos olhos castanhos examinaram Caroline de alto a baixo.

— Já nos conhecemos? — perguntou com frieza.

— Não creio — respondeu Caroline, com a mesma frieza.

— Você me parece familiar — insistiu a atriz, pensativa. — Eu deveria conhecer você?

— Não — mentiu Caroline. Era só o que faltava, deixar que essa mulher descobrisse quem era. Pretendia dizer pes­soalmente a André que era Caroline Rayner, pois se ele soubesse por terceiros teria ainda mais raiva dela.

— Está bem. — Lisa Young perdeu o interesse, — Acho que me enganei.

— Vamos, Lisa. — André segurou-a pelo ombro. — Até logo, Caroline.

Observou-os sair, tão perdida na própria tristeza que nem notou a aproximação do pai.

— Qual é o problema. — perguntou ele preocupado.

— André foi embora — explicou com voz apagada.

— Pensei que isso fosse alegrá-la.

— Falou comigo antes de sair. — Sentiu um calafrio, embora o ambiente estivesse bem aquecido. — Estava com Lisa Young.

— Humm... Eles são amigos há algum tempo. — Segu­rou-a pelo braço. — Venha cumprimentar Babs, ela per­guntou por você.

— Quero... quero ir embora.

— Não precisa! André não está mais aqui.

— Eu... eu...

— Vamos ficar, Caroline. Pensei que tivesse lhe ensinado boas maneiras. Você ainda nem cumprimentou a dona da casa — insistiu, zangado.

— Por favor, papai!

— Lembre-se de onde está Caroline — ele advertiu. — Lembre-se de quem é.

— Está bem — suspirou. — Você ganhou. Onde está Babs? Matt sorriu, triunfante. O choque que ela tinha sofrido

ao ver André já estava se desvanecendo, e talvez agora tudo voltasse ao normal. Aquele encontro tinha sido necessário para obrigá-la a reagir. Embora Matt não tivesse certeza da presença de André, tinha bons motivos para acreditar que ele estaria na festa.

Um conjunto tocava na outra sala e, depois de cumpri­mentar Babs, Caroline aceitou um convite para dançar. Co­nhecia o rapaz e já haviam se encontrado umas duas vezes. Embora sem muita vontade, dançou com ele e com mais alguns. Aceitou o convite de um rapaz desconhecido, mas logo se arrependeu, percebendo que ele tinha bebido demais. Ele a segurava com força e passava a mão úmida pelas costas nuas de Caroline, que, por mais força que fizesse, não conseguia afastá-lo. Tinha a força de doze homens, e Caroline já estava ficando desesperada quando alguém o arrancou dos braços dela com violência.

Levantou os olhos e viu André, visivelmente irritado. Mas a raiva e o desprezo que lia no rosto dele não importavam. Tudo que interessava a Caroline era que André estava de volta, e sozinho!

 

-V á tomar um pouco de café, Danville — ordenou André ao rapaz. — E pare de aborrecer a moça.

— Não sabia que estava invadindo seu território, Greg, meu velho — gaguejou Dan, assustado com a fúria do outro. — Pensei que seu caso fosse Lisa.

— Agora já sabe que não é — murmurou André por entre os dentes. — Vá logo tomar seu café.

Caroline esperou que o rapaz se afastasse e virou-se para André.

— Precisava humilhá-lo daquele jeito? — perguntou, indignada.

André a segurou com força pelo braço e conduziu-a para longe dos olhares curiosos que tinham se voltado para eles durante a discussão. Felizmente seu pai não estava por perto, ele não teria gostado nem um pouco do episódio.

— Se não estivéssemos num lugar público, teria feito bem mais que humilhá-lo. Como é que você permite que ele tome tais liberdades? E Matt, onde está que não toma uma atitude?

— Está por aí, conversando com Babs — respondeu, dis­plicente, observando disfarçadamente o rosto de André, con­traído de raiva.

— Pois devia vigiar melhor o que é dele. E você, como pode permitir que aquele rapazinho passe as mãos pelas suas costas daquela maneira?

— Ele estava muito bêbado, mas tenho certeza de que vai se desculpar da próxima vez que nos encontrarmos.

Ele correu o olhar pelo corpo sensual de Caroline, enfu-recendo-se ainda mais.

— E esse maldito vestido. Não é de admirar que metade dos homens desta festa estejam com os olhos pregados em você.

— Só a metade? — perguntou, provocante. Como resposta a mão dele apertou com força o braço dela.

— Você devia ser presa — murmurou no ouvido dela.—

Presa num lugar onde só eu pudesse vê-la. — Arrastou-a em direção à porta. — Vamos embora.

— Não posso — protestou Caroline. — Vim com... Matt. — Aquele não era o local nem o momento apropriado para contar que era filha de Matt. — Não posso sair sem dizer a ele onde vou... ou com quem vou.

— Carol! — No olhar dele Caroline percebeu um brilho de paixão. — Quero ficar a sós com você — insistiu.

— Preciso dizer a Matt que vou embora, caso contrário ele ficará preocupado.

— Está bem, está bem — concordou, impaciente. — Então vamos logo, para podermos sair daqui de uma vez.

— Não sei se devo ir, André. — Parou outra vez, — Seu estado de espírito não parece dos melhores.

— Estado de espírito?

— Está zangado e aborrecido com alguma coisa e não quero servir de bode expiatório. O que foi que aconteceu? Lisa Young chamou sua atenção por conversar comigo?

— Do que está falando, Caroline? O que é que Lisa tem com isso?

— Tudo, eu acho. — Não conseguia conter o ciúme. — Não é sua namorada?

— Era — respondeu, seco. — Não vou explicar nada no meio dessa multidão. Lá está Matt. — Fez um sinal com a cabeça em direção à sala de estar.

Quando encontraram Matt, Caroline já aceitava resigna­da à idéia de ir com ele, pois sabia que André não era homem de desistir diante dos obstáculos.

— Matt — chamou. Os olhos do pai se arregalaram de espanto ao ver os dois juntos, — Matt. Caroline vai embora comigo.

— Agora? Caroline, o que acha disso? — perguntou, te­cendo que a filha estivesse indo contra a vontade.

— Bem, eu... — Olhou para o rosto firme de André duvidando.

— Ela vai comigo, Matt — insistiu André, decidido.

— Caroline é perfeitamente capaz de decidir — respondeu Matt, lançando um olhar frio a André.

Caroline olhou de um para outro, sem saber o que decidir. Queria ir com André, mas ao mesmo tempo tinha medo.

— Eu...

— Não é obrigada a ir, Caroline — observou o pai, solícito. — Veio comigo e pode voltar comigo.

Naquele momento Caroline chegou à conclusão mais im­portante da sua jovem existência. Durante toda a vida tinha dependido do pai, e, apesar das brigas e discussões, era para ele que corria sempre que precisava de apoio. Essa depen­dência não podia continuar para sempre. Precisava começar a tomar suas próprias decisões e aquela era uma boa ocasião.

— Vou com André — anunciou.

— Está bem — concordou o pai. — Se é o que quer, não faço objeções.

— Obrigado! — André não parecia nem um pouco satis­feito com a atitude de Matt. Quando soubesse que Matt era pai de Caroline, talvez entendesse melhor.

Sorriu para o pai, constrangida, antes de ser praticamen­te arrastada para fora. Durante o caminho até o aparta­mento, Caroline rezou para que a raiva de André ameni­zasse, caso contrário teria que enfrentar maus bocados quando lhe contasse a verdade, como planejava.

— Quer café? — perguntou Caroline, já em casa.

— Lindo apartamento — comentou André, que examinava tudo com atenção. — Pago por Matt, sem dúvida — afirmou, irónico.

— André, Matt...

— Não vim aqui para falar de Matt.

— Mas...

— Não me interessa, Caroline!

— Mas é importante! Ele...

— Pelo amor de Deus, Caroline! — explodiu. — Não per­cebe que este não é o momento para falar disso? Seu rela­cionamento com Matt não me interessa.

— Mas é o nosso relacionamento que é importante — insistiu, desesperada. — Matt não é...

— Quer ficar quieta, garota? — Abraçou-a, obrigando-a a se calar. — Quero fazer amor com você e não ouvir quem é Matt ou quem deixa de ser.

— Por favor, André — gemeu. — Deixe-me explicar! — Não. Quero que me beije agora como se sua vida de­pendesse disso — ordenou. — Porque a minha depende.

Inclinou a cabeça à procura dos lábios dela e encontrou-os abertos e vibrantes. Devorou-a com a boca, fazendo-a es­quecer todas as explicações cuidadosamente planejadas, as desculpas pelas mentiras, obrigando-a a pensar só nele, a sentir intensamente as mãos que lhe acariciavam o corpo. Afastou ura pouco a cabeça para olhar para ela, os olhos cheios de paixão, as mãos possessivas apertando aquele cor­po submisso.

— Estou faminto, Carol — sussurrou com voz entrecor­tada. — Faminto por você!

Caroline comprimiu o corpo contra o dele e sentiu-o tre­mer. Os dois se ajustavam como se tivessem sido feitos um para o outro.

Os lábios envolventes de André tornaram a descer pelo pescoço e pelo colo nu de Caroline, que gemeu baixinho e deixou ele deitá-la no sofá. Depois de apagadas as luzes, só a luz fraca do luar os iluminava. André se deitou ao lado dela, a camisa completamente desabotoada, tocando-a com o peito nu, exigindo carícias mais exaltadas e mais profundas. — Meu Deus, como você é bonita! — sussurrou com o rosto mergulhado nos cabelos dela. — Desde que veio em­bora, não pensei em ninguém mais a não ser em você. Em mais nada, a não ser na última vez que tive você nos braços. Amaldiçoei Sylvia um milhão de vezes pela interrupção. Se ela não tivesse telefonado naquele momento, tudo isso podia ter sido meu. — Enquanto dizia isso abria devagar o zíper do vestido dela. fazendo-a tremer de excitação.

— Por favor, André, não faça isso.

Ele ignorou o pedido, beijando seus seios nus até ela esquecer os protestos e se entregar completamente às emo-ções provocadas por aquele contato.

— Não devia ter-me deixado — insistiu. — Podíamos ter ficado juntos no chalé dias ou semanas, o tempo que quisésse-

mos. Você sabia que era inevitável, que eu iria possuí-la. Então por que nos fez esperar, por que nos fez sofrer este tormento?

— Não tive culpa, André. Você me assustou, me apressou.

— Não vou aceitar um não como resposta.

— E quem disse que eu vou dizer não? — respondeu com a voz exaltada de paixão.

Ele riu.

— E pensar que eu disse que você não tinha nada para oferecer a um homem! Você pode me dar tudo...

O ruído de uma chave na porta fez com que ele interrom­pesse a frase no meio. Adivinhando que era Matt, Caroline puxou o vestido para cima, desesperada, mas não conseguiu fechar o zíper. Os dois piscaram quando as luzes foram acesas.

O choque estava estampado no rosto de Matt, que mal conseguia falar.

— Meu Deus, meu Deus! — murmurou com voz quase inaudível. — O que vocês pensam que estão fazendo?

André se levantou, o cabelo despenteado, as roupas em desalinho.

— O que está fazendo aqui, Matt? — perguntou friamen­te, abotoando calmamente a camisa.

— Eu moro aqui — informou Matt, igualmente frio.

— Você o quê? — A pergunta era dirigida a Matt, mas André olhava para Caroline.

— Eu moro aqui. — Matt deu alguns passos. — Este apartamento é meu. — Dava para ver a raiva estampada aos olhos dele.

— Sua cadelinha! — Dois olhos cheios de fúria e desprezo Pousaram sobre ela. André apanhou o casaco e caminhou para a porta. — Meu Deus! — murmurou. — Sua cadelinha de primeira classe! — repetiu, batendo a porta.

Sentada na sala absolutamente limpa do hospital, Caro. line se sentia inútil e queria poder fazer alguma coisa pelo pai, que tinha sido trazido para ali cerca de uma hora antes Em completo pânico, ela tinha percebido que o pai precisava de atendimento médico imediato, ou poderia morrer ali mes­mo na sala do apartamento.

Pela respiração irregular e o tom azulado em torno da boca de Matt, Caroline chegou à conclusão de que aquilo não era um simples desmaio. Alguma coisa estava errada, tão errada que ela não tinha sido capaz de reanimá-lo. Quando chegaram ao hospital, uma equipe médica já estava à espera.

E ali estava ela, uma hora mais tarde, sentada na sala de espera do hospital, com a sensação de que uma espada estava prestes a descer sobre sua cabeça. Será que Matt conseguiria sobreviver? Ela sabia que a situação era muito séria, embora ninguém ali pudesse dar informações precisas, talvez por não terem ainda dados completos.

Levantou-se pela milésima vez, esperançosa, quando uma enfermeira passou sem sequer olhar para ela. Por que não lhe diziam alguma coisa, qualquer coisa? Sentia-se a ponto de des­falecer cada vez que pensava que o pai podia morrer a qualquer instante. Isso não podia acontecer, não havia de acontecer!

Depois de muito tempo, ouviu alguém vindo na direção dela. Empalideceu de medo e sentiu que o coração disparava quando notou que a porta se abria e um homem entrava. Seriam boas ou más notícias?

— Tio David! — Levantou-se de um salto, enquanto lá­grimas de alívio por ver um rosto conhecido lhe corriam pela face. Atirou-se nos braços dele. — Oh, tio David! — gritou, o corpo sacudido pelos soluços.

Ele deixou que ela chorasse até ficar mais calma, limi­tando-se a acariciar seu cabelo. Era um homem de meia idade, alto, grisalho e muito simpático, cuja condição de médico da família há anos tinha criado quase um laço de parentesco entre eles. Como especialista em coração, David Clarke tinha sido o médico da mãe de Caroline, durante a doença que a levou à morte.

— Tio David? — indagou, ansiosa, ao se dar conta de que ele era um especialista em coração. — E papai? — murmurou com voz indistinta.

— Estive com ele agora — respondeu o médico, sacudindo-a de leve para afastar o início de histeria que percebeu na voz dela. — Teve um ataque do coração, mas vai ficar bom.

— Graças a Deus! — Abraçou-o de novo. — Obrigada, meu Deus! — sussurrou.

— Ele vai ficar bom — repetiu o médico. — Mas tem uma longa batalha pela frente. Nada mais vai ser como antes,

— Contanto que ele fique bom, não importa o que pre­cisaremos fazer. — Tentou sorrir.

— Quando digo que nada mais vai ser como antes, falo sério, Caroline. Seu pai precisa de repouso completo, longe de preocupações.

— Vou cuidar disso — prometeu ela. — Posso ver papai agora?

David obrigou-a a se sentar.

— Sente aí e escute o que vou dizer. Como seu pai está dormindo, mais dois minutos não farão diferença. Quero que entenda a seriedade da situação, Matt...

— Eu entendo, tio David — garantiu com voz entrecor­tada, — Estava com ele quando aconteceu, lembra-se.

— Sei disso. — Sentou-se ao lado dela e segurou uma das suas mãos, com carinho. — Deve ter sido terrível para você, mas quero que saiba que podia ter acontecido a qual­quer momento. Já tinha prevenido Matt de que precisava diminuir o ritmo, mas ele estava sempre tão ocupado, tinha tantos compromissos. Agora está numa cama de hospital, conforme eu tinha previsto.

—Já havia prevenido papai? — Arregalou os olhos, surpresa.

— Várias vezes, nos últimos anos. — Suspirou. — Mas ele não tinha tempo para me ouvir. — Balançou a cabeça.

Caroline sentiu um calafrio na espinha. Olhou para Da­vid, incrédula.

— Quer dizer... — não teve forças para continuar. — Quer dizer que papai sabia que tinha problemas no coração?

— Sabia, Caroline — confirmou, delicado. — Ele sabia que, se não trabalhasse menos ou passasse o controle das empresas Rayner para outra pessoa, isso aconteceria, cedo ou tarde. Apostou na sorte... e perdeu.

O choque era quase insuportável. Matt sabia que estava doente, mas tinha continuado a viver normalmente, e nem tinha dito nada a ela, sua própria filha!

— Não posso acreditar.

— Acredite, Caroline. Matt agora não tem escolha, a em­presa vai ter que continuar sem ele. Ele não pode voltar à vida de antes.

— Ele não precisa trabalhar, tem mais dinheiro do que você imagina.

— Não é pelo dinheiro que ele insistia em continuar. A empresa é dele, não podia suportar a idéia de vê-la nas mãos de outra pessoa, com idéias diferentes das dele. Pode imaginar o que ele sentiria se visse o trabalho de toda sua vida ruir em pedaços? E perfeitamente possível que isso aconteça, se a direção da empresa não for entregue a uma pessoa competente.

— Mas John Buck, o assistente dele, podia perfeitamente levar as empresas adiante. Sob a orientação dele, é claro.

— Só por algum tempo, jamais como solução permanente. Matt não vai poder continuar orientando Buck. — Calou-se. — Bem, Caroline, acho que já falei muito por hoje. Deve estar ansiosa para ver Matt.

Nas semanas seguintes, o choque provocado pela doença do pai e por ter sido a última a saber perseguiram Caroline sem descanso. Ele tinha ficado na unidade de terapia in­tensiva vários dias, só podendo ser transferido para um quarto particular depois de muito esforço médico.

A pedido do próprio Matt, a notícia sobre sua doença tinha ficado em segredo, pois com uma divulgação indevida seus negócios poderiam sofrer um colapso. Mesmo assim, os amigos mais chegados foram informados, e entre eles, André.

Foi um choque para Caroline, ao abrir os diversos tele­gramas, descobrir um de André. Tinha sido enviado da Amé-rica e os votos de pronto restabelecimento pareciam sinceros.

Tinha evitado pensar nele, nas últimas semanas, tentando em vão tirar da memória o último encontro que tinham tido. Se por um lado a interrupção do pai tinha sido providencial, evitando que ela fizesse algo de que viesse a se arrepender mais tarde, por outro, ele só estava naquela situação por causa da cena que havia presenciado. Tio David tinha insistido muito em afirmar que a causa do ataque foram as preocupações acumuladas durante meses, mas isso não contribuiu em nada para aliviar a consciência de Caroline.

— Caroline! — A voz forte do pai interrompeu seus pen­samentos. Depois de muitos dias entre a vida e a morte, o rosto dele finalmente vinha perdendo aquele tom acinzen­tado que tanto a assustava.

— O que é, papai? — Sorriu e caminhou até o lado dele. A tensão dos últimos tempos também tinha afetado Caro­line, que estava mais magra, muito pálida e nervosa.

Ele bateu na cama, indicando a ela que se sentasse ao seu lado.

— Acho que já é tempo de termos uma conversa, Caroline — começou, sério.

— Conversa? — Desviou os olhos. — Mas não fizemos outra coisa nas últimas semanas! Hoje é seu primeiro dia em casa, podíamos fazer alguma coisa melhor do que conversar.

Matt olhou com ironia para a cama bem arrumada.

— Acho que no momento não tenho outra alternativa senão conversar. E, embora tenhamos conversado muito no hospital, não tocamos no assunto que mais nos preocupa.

— Não sei do que está falando, papai. — Caroline tentou dar uma risada descontraída. — Já falamos de todos os assuntos possíveis.

— Eu sei. — Acariciou a mão dela. — Foi muito boazinha, vindo me visitar todos os dias.

— Não seja bobo! — Olhou-o, escandalizada. — Você é meu pai, minha obrigação é ficar a seu lado. Além disso — acrescentou, brincando —, eu não tinha nada para fazer.

— Muito obrigado! — Ele riu. — Mas sei que isso não é verdade. Tenho certeza de que Esther tem feito o possível para levá-la a vários lugares, enquanto estou aqui.

— Porque você pediu a ela que fizesse isso — respondeu sorrindo. — Sei muito bem que você telefonou a Esther e pediu que saísse comigo.

— Felizmente você é esperta. — Suspirou. — É, pedi a ela que fizesse companhia a você, Caroline. Está tão pálida ulti­mamente. Às vezes, quando me visitava, parecia que quem devia estar na cama era você. Por isso, que tal conversarmos?

Caroline levantou-se e foi até a enorme janela que dava para o rio.

— Conversar sobre o quê? — perguntou, sem olhar para ele.

— André é tão bom quanto qualquer outro — começou, cuidadosamente.

— André? — repetiu, zangada. — O nome dele é Greg.

— O nome dele é André — insistiu o pai. — Daqui para a frente, é assim que pretendo chamá-lo.

— Quando vai nos acusar de ter provocado o seu ataque? — perguntou, interrompendo-o. — Não se dê a esse trabalho, papai. Sei muito bem que...

— E, você, quer fazer o favor de ficar quieta e me deixar falar? Primeiro, você não fez nada para provocar meu ataque. Eu mesmo fiz isso sozinho, trabalhando em excesso, sem dar importância às advertências de David. Segundo, quero que saiba que foi apenas por me preocupar com o seu futuro que insisti em apresentá-la a alguns solteirões amigos meus. Tinha esperança de que um deles despertasse seu interesse e pudesse cuidar de você, se alguma coisa me acontecesse.

— Papai!

— Não faça essa cara! Sei que não sou imortal e essa doença está aqui para provar. Queria ter certeza de que minha filha seria feliz sem mim.

— E André?

— É, André. — Agora foi Matt quem desviou os olhos. — No caso dele, eu não estava sendo nem um pouco desprendido.

— Acho que não, papai — concordou Caroline.

— Sou seu pai, Caroline, mas também sou dono de uma grande e próspera empresa. André, na minha opinião, é o homem mais esperto e inteligente que já conheci. Se as Empresas Rayner fossem dele, estariam em muito boas mãos.

— As Empresas Rayner não estão à venda — observou, seca.

— Certo, mas não me importaria de dá-las de presente à minha filha e ao meu genro.

— Então é isso! — explodiu, zangada. — Não admira que não tenha me obrigado a vir embora do chalé! Estáva­mos fazendo exatamente o que você queria, não é? Deve ter se divertido um bocado!

— Era conveniente, só isso. Como deve ter percebido, André

tinha tanto interesse em casamento quanto você. Ele também não queria conhecê-la e usou a desculpa de ir descansar no chalé para não vir passar o fim de semana aqui em casa. Mas eu esperava que se sentissem atraídos um pelo outro, quando se conhecessem. Afinal, os dois são bonitos.

— Isso não leva necessariamente à atração mútua.

— Eu sei, mas neste caso levou. Vocês se sentiram atraí­dos um pelo outro desde o princípio, confesse. — Olhou-a, esperançoso.

— Não desde o princípio — negou, sorrindo do desapon­tamento dele. — Foi depois. Acho que sempre percebi o poder de atração de André, mas no começo ele me aborrecia tanto que eu não tinha tempo para reparar em mais nada.

— Compreende por que eu gostaria que ele conduzisse as Empresas Rayner?

— Sem dúvida, mas por que não as vende a ele? Seria tão simples! Ele não precisa se casar comigo. Tem dinheiro suficiente para comprar a empresa.

— Queria manter a empresa na família.

— Em outras palavras, quer ter o direito de dar palpites nos negócios, mesmo que não pertençam mais a você. — Deu uma risada tensa. — Agora entendo por que não insistiu no meu relacionamento com Antony, ele não seria capaz de gerir seus negócios.

— Muito fraco — concordou.

— E André tem personalidade forte demais para permitir que você interfira nos negócios dele. Devia saber disso, pa­pai. Não ia dar certo.

— Daria, se ele se apaixonasse por você. E sei muito bem como você consegue virar a cabeça dos homens.

— Não de alguém como André. Homens como ele não se apaixonam, têm casos. — Sabia disso muito bem, pois quase tinha iniciado um com ele. Mais alguns minutos e teria me submetido de corpo e alma.

— Foi a sua mentira que deu a ele uma impressão errada de você. Quando saíram juntos da festa, pensei que tivesse contado a verdade a ele. — Suspirou. — Quando cheguei em casa, mais tarde, e André reagiu com tanta violência, percebi que estava enganado. Ele estava furioso, Caroline. Achou mes­mo que você o tinha trazido ao apartamento do seu amante.

— Ele não quis me escutar. Tentei, mas ele não quis me ouvir. — Esfregou as mãos, nervosa.

— Está bem, não se preocupe. Este telegrama não diz quan­do ele vai voltar dos Estados Unidos. Mas acho que deve se encontrar com ele e explicar tudo, assim que for possível.

— Eu não... não posso vê-lo de novo! Não depois das coisas que ele me disse.

— Foram palavras suaves, comparadas com o que ele não disse. Nessa situação, eu também teria agredido você.

— Talvez ele tivesse mesmo me agredido, se não estivesse tão furioso.

— Bem, fico satisfeito em saber que vai sair esta noite. Vai lhe fazer bem.

— Sabe muito bem que não quero ir. Só concordei porque você insistiu. Gostaria de ficar em casa com você, na sua primeira noite. — Os olhos dela imploravam.

— Vai sair, sim senhora. — Matt tornou a se deitar. — Vou descansar um pouco, agora. Essa conversa me cansou.

— Como sou inconsciente! — Num instante estava ao lado dele. — Agora deite-se, que vou buscar...

— Não vai buscar nada. Maggie está aqui, louca para fazer alguma coisa.

— Mas eu...

— Por favor, Caroline! Não tenho mais forças para dis­cutir com você. Está se aproveitando da minha fraqueza.

— Está bem, eu vou. Mas faça o favor de descansar. E nada de trabalhar escondido, como fez no hospital.

— Vou descansar, pode ficar sossegada — respondeu, rindo.

 

Caroline saiu com Esther, John e Nick, coisa que não fazia há muito tempo. O clube estava lotado, como sempre, mas Nick não teve dificuldade em con­seguir uma mesa, dizendo que era amigo do gerente. E parecia mesmo, pelo tratamento preferencial que receberam.

Adorou a noite e dançou quase todas as músicas, liberando as tensões acumuladas nas últimas semanas. Foi muito soli­citada pelos dois homens, já que Esther preferiu ficar sentada.

— Algum problema? — perguntou Caroline a Esther, num instante em que ficaram a sós.

— Está tudo ótimo. — Esther sorriu, alegre. — Perdoe John se ele se mostrar mais atirado que o normal, hoje. Acabei de comunicar a ele que vai ser pai.

— É mesmo, Esther? Que maravilha!

Os quatro fizeram tantos brindes ao bebê durante a noite, que Caroline estava tonta quando chegou em casa. Estava totalmente despreparada para a visão que a aguardava.

— André! — Deu um passo atrás, encostando na porta fechada.

Estava atraente como sempre, embora mais bronzeado devido ao sol da América. Uma camisa de malha, justa, moldava seus ombros largos.

— Boa noite, Caroline — cumprimentou, formal. Caroline respirou fundo, jogou o abrigo e a bolsa na mesa

e foi indo na direção dele.

— Quando chegou? — perguntou Caroline, ajeitando o cabelo diante do espelho.

— Umas duas horas depois que você saiu para se encon­trar com seus amigos — observou, irónico.

— E por que ainda está aqui? — A pergunta foi agressiva, revelando que estava chocada com o encontro inesperado. Não estaria livre dele em parte alguma?

— Não para vê-la, pode ter certeza — respondeu, igual­mente agressivo. — Matt acaba de dormir. Vim buscar meu casaco e já ia sair.

— Fique tranquilo. Não acho que viria roubar a prataria da família — respondeu Caroline, sarcástica. — Greg Fort-num não precisa da prataria dos outros.

— Pelo amor de Deus, por que essa implicância com o meu nome?

— Implicância? Não é implicância nenhuma. Você men­tiu, me enganou deliberadamente.

— Está bem, eu menti. Mas foi só para ter um pouco de paz e sossego. — Passou a mão pelos cabelos, agitado. — Não consigo entender como Matt ainda mantém você aqui, depois de nos encontrar juntos! Eu teria posto você na rua, se estivesse no lugar dele.

— Ele não fez isso, mas teve um ataque cardíaco.

— Ele teve o quê?

— Você ouviu. Não passou pela sua cabeça que nós pro­vocamos esse ataque... você, eu, a situação em que ele nos encontrou? Acha que eu não teria ido atrás de você, se alguma coisa muito grave não tivesse me impedido?

— Como é que eu podia saber? Achei que não tínhamos mais o que dizer um ao outro. Quer dizer que Matt teve o ataque assim que saí?

Ela fez que sim com a cabeça. Durante os últimos dias, Caroline tinha mantido o controle, para não preocupar ainda mais o pai. Mas sentiu que suas defesas se desmoronavam diante de André.

— Oh, André! — Seus ombros eram sacudidos pelos so- luços. — Foi terrível, não pode imaginar como me senti quando o vi cair no chão, frio e arroxeado.

— Nós não tivemos culpa. — Parecia preocupado, mas as lágrimas dela não o emocionavam. — Acabo de ter uma longa conversa com Matt, e ele não parece me considerar culpado.

— Ele jamais faria uma coisa dessas, é educado demais. — Assoou o nariz num lenço.

— Matt é de uma honestidade brutal. Se tivesse alguma coisa contra mim, não hesitaria em dizer. Na verdade, nem mencionamos seu nome.

— N... não? — Arregalou os olhos. Então seu pai não tinha contado nada a André, deixando esse fardo para ela. Por um momento, duvidou que tivesse coragem.

— Ele só me disse que você tinha saído com alguns amigos. Acho incrível ele ainda se preocupar com você, depois de ter passado cinco dias com um estranho, de ter encontrado você nos braços desse mesmo estranho e depois de ver que você prefere passear com os amigos a lhe fazer companhia,

— Pa... Ele que insistiu, eu não queria ir.

— Pela sua aparência, não parece ter ficado num canto a noite toda. Está até meio bêbada.

— Não estou. Estivemos brindando ao futuro bebê.

— Bebê? — Fuzilou-a com o olhar.

— Uma grande amiga minha está esperando bebê — explicou, magoada com a suspeita que viu nos olhos dele.

— Bem, acho que já vou. Não quero deixar Matt ainda mais enciumado. Não nas condições em que ele está.

— André, eu... eu...

— O que é? — perguntou, ríspido, vestindo o casaco.

— Tenho uma coisa para lhe dizer. — Estava incrivel­mente nervosa, agora que o momento tinha chegado. André não era exatamente um homem compreensivo, e aquele não era um assunto agradável. Tinha levado muito longe a men­tira e agora hesitava em ser sincera.

— De que se trata? — insistiu André.

Parecia tão pouco interessado que Caroline mal conseguiu

Conter a raiva.

— É importante — preveniu-o, tentando retardar o mo­mento da verdade.

— Já é tarde, Caroline, e não estou com o melhor dos humores. Diga logo o que tem a dizer. Acabo de voltar dos Estados Unidos e preciso descansar.

— Não... não é fácil.

— Parece que nada é fácil para você — murmurou.

— Se pretende ser grosseiro... — Como era covarde! Por que não falava logo de uma vez?

— Não sou sempre assim?

— É — respondeu, áspera. —Eu... Matt não é meu... aman­te. — Percebeu o olhar de incredulidade nos olhos dele. — E meu nome não é Rawlings, como você já suspeitava. — Res­pirou fundo. — Meu nome é Rayner, e Matt é meu pai.

As palavras foram saindo quase sem ela sentir, e o rosto de André foi se contraindo. Jamais o tinha visto tão furioso como agora, os olhos brilhando de raiva, os lábios pálidos, o rosto contraído.

— Por favor, André, diga alguma coisa!

Ele continuou calado, caminhando até o outro lado da sala, como se tivesse medo de agredi-la.

— Meu Deus! — murmurou, por fim. — Filha de Matt!

— Eu... bem... sou. — O que mais podia dizer?

— Eu devia ter percebido! — Virou-se para ela, acusador. — Devia ter percebido que você era a filhinha mimada de Matt. Como pude ser tão cego, tão estúpido?

— Você não podia saber. Foi aquela horrorosa opinião que tinha a meu respeito, sem nem me conhecer, que me obrigou a mentir,

— Não seja mentirosa! — sorriu com desprezo. — Matt não fazia segredo dos planos que tinha para mim e para a filha dele. E sabia muito bem que eu não estava de acordo. Aí, resolveu mandar você para o chalé, sabendo que eu estava lá.

— Ele não seria capaz de uma coisa dessas!

— Está bem, talvez você tenha decidido sozinha. Mas você estava lá, não estava? Desde o princípio tentou me atrair... não negue, pois sabe muito bem que estou falando a verdade.

— Não nego, mas,.. — Era verdade, mas não do jeito que ele estava imaginando.

— Meu Deus! — gritou. — E eu, que caí direitinho na sua armadilha. Não admira que Matt tenha me aconselhado a viajar... esperava que me interessasse por você. Ele não precisava fazer isso...

— Está enganado, André. Por favor, acredite em mim.

— Não, Caroline, eu não me casaria com você em hipótese alguma. Acho você atraente e excitante, mas não casaria com você. Matt pode lhe dar tudo com o dinheiro dele, mas não pode me comprar.

Esperava que ele reagisse com raiva, mas não com esse desprezo.

— André, por favor... — Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Durante todo o tempo você sabia quem eu era — acu­sou-a, cheio de desprezo. — Pode parar de fingir, agora. Não vai impressionar ninguém com essa farsa. Não quero vê-la nunca mais.

— Por favor...

— Adeus, srta. Rayner.

Caroline parecia muito mais saudável. As longas semanas de descanso sob o sol de Barbados fizeram muito bem a ela, que exibia um bronzeado maravilhoso e, embora ainda estivesse um pouco magra, já não tinha mais olheiras.

O maior responsável pela mudança, de fato, tinha sido seu pai, que devolveu a ela a confiança perdida nas mãos impie­dosas de André. Tinha até conseguido livrá-la da culpa por seu ataque cardíaco, garantindo que o responsável era ele mesmo, que não tinha ligado às recomendações do médico.

Tinham ido para Barbados e levado Maggie. Pelo visto, estava "aposentado", pois sua saúde jamais seria a mesma e o melhor que pôde fazer foi passar adiante os negócios.

Caroline teve que ir até Londres buscar o possível com­prador e trazê-lo até Barbados. Tinham recebido várias pro­postas e aquela parecia a mais conveniente. Mesmo porque o comprador parecia disposto a manter o quadro de funcio­nários. A princípio, ela tinha se recusado, não vendo neces­sidade de ir pessoalmente ao encontro daquele homem. Mas Matt tinha argumentado que, naquele tipo de negócio, o toque pessoal era muito importante. Acabou concordando. E depois, queria mesmo fazer algumas compras.

O apartamento parecia curiosamente vazio, sem a presença de Maggie e do pai. Fazia dois dias que Caroline estava em Londres e ia se encontrar com o possível comprador no aero­porto, para seguirem juntos até Barbados. Matt lhe deu um guarda-roupa completo em troca do aborrecimento, mas ainda assim ela preferia ter ficado em Barbados. Não tinha visto André e preferia que as coisas continuassem assim.

Suspirou e desviou o olhar de sua imagem no espelho. Pen­sar em André ainda era estranhamente doloroso para Caroline. Seus sentimentos continuavam os mesmos, e se odiava por ainda pensar num homem que nem sequer queria vê-la.

Deu uma olhada no relógio. Estava quase na hora de ir ao encontro do senhor Andrews. Nunca tinha visto o homem, mas Matt garantiu que ele a reconheceria, e brincou dizendo que um rosto bonito como o dela não poderia deixar de ser notado. Caroline era a própria imagem da autoconfiança, sentada na sala de espera do aeroporto. Usava um conjunto de lã, pois o clima da Inglaterra ainda não justificava uma roupa de verão, como costumava usar em Barbados.

— Está pronta para partir, Caroline. — perguntou uma voz familiar.

Pálida de espanto, ela se virou para olhar para ele. Quan- do ouviu aquela voz, pensou que estivesse imaginando coisas. Mas, não... era mesmo André quem estava junto dela! Não tinha mudado nada, desde a última vez. Estava só um pouco mais magro. De resto, continuava o mesmo, com o mesmo sorriso irônico e o mesmo brilho provocante nos   olhos. Impecável em seu terno cinza-escuro, aparentava realmente ser o bem-sucedido homem de negócios que era.

— André... — murmurou Caroline, incrédula.

— Eu mesmo. — Apontou para a bagagem dela. — É só isso que vai levar?

— S... sim. — Era a última pessoa que esperava encontrar

e não conseguia tirar os olhos dele.                                  

— Vamos embora. Já providenciei para que a sua baga­gem seja retirada do avião.

— Mas... mas eu não posso ir embora... estou esperando uma pessoa — protestou Caroline, sem entender o que es­tava acontecendo.

— Essa pessoa sou eu. — Pegou seu braço com força e levou-a para fora do aeroporto.

Só depois que se viu sentada no carro, ao lado dele, é que Caroline pôde dizer alguma coisa. O choque tinha sido tão grande que ela não conseguia pensar com clareza. Depois de um grande esforço, encontrou forças para comentar:

— Você? Mas seu nome não é Andrews.

— Bem observado, Caroline — respondeu André, fechan­do o cinto de segurança para ela.

— Então o que significa isso? Não posso ficar aqui com você. Meu pai está esperando...

— A mim — insistiu ele. — Sou o sr. Andrews.

— Não pode ser — gemeu Caroline, desesperada.

— Mas sou. Agora fique calma, que no momento apropriado você vai entender tudo. Até lá, sugiro que aprecie a paisagem.

— Não estou gostando nada disso. Quero uma expli­cação agora.

— Vai ter que esperar, mocinha. Não sou seu pai e não pretendo ceder aos seus caprichos de menina mimada.

Ele permaneceu irredutível o resto da viagem, insistindo para que ela ficasse catma e observasse a paisagem. O que mais irritava era saber que tinha sido enganada de novo pelo pai. Ele sabia que ela não queria mais ver André. Ar-quitetou aquele plano só para obrigá-la a se encontrar com ele. O pai que se preparasse: ia ouvir umas boas verdades assim que chegasse a Barbados.

Não demorou muito para ela descobrir para onde es­tavam indo.

— Vamos para o chalé?

— Está muito esperta hoje. Caroline.

— E você continua irônico como sempre — respondeu, zangada. — O que vamos fazer no chalé? Por que está fin­gindo que é o sr. Andrews?

— Ainda não é a hora. Já disse que só vou dar explicações quando chegarmos ao nosso destino. Tenha um pouco mais de paciência. Sei que não é uma das suas virtudes, mas...

— Ora, não seja irritante!

— Vejo que já conhece meus numerosos defeitos, Carol e talvez isso seja bom, nestas circunstâncias...

— Circunstâncias?

— Explicações, só mais tarde.

Olhou para ele, furiosa, sabendo por experiência própria que não conseguiria vencer aquela teimosia. Quando final­mente chegaram ao chalé, Caroline estava fervendo de raiva. Raiva do pai, raiva de André e, principalmente, raiva dela mesma, por ter permitido que André fizesse aquilo com ela. Não teria ido a parte alguma com ele, se ele não fosse tão dominador, tão petulante, tão...

— Chegamos, Caroline — comunicou André. Desceu e foi abrir a porta para ela.

Ela o seguiu automaticamente até dentro do chalé. Eram quase nove horas da noite, mas ainda estava claro lá fora. André examinou a sala com satisfação.

— Não mudou nada — comentou, satisfeito.

— Esperava que tivesse mudado?

— Não tinha certeza. — Encolheu os ombros. — Faz quase seis meses que estivemos aqui.

— Não parece que foi há tanto tempo. — Ergueu o queixo, orgulhosa. — E agora, se já terminamos a visita ao passado, vamos voltar. Preciso pegar um avião para Barbados.

— Você não vai a parte alguma. Não antes de termos uma conversa séria, como dois adultos racionais, o que não parece ser nada fácil para nós.

— Eu diria que é impossível.

— Se ao menos você não se irritasse com tanta facilidade...

— Me irritar? Eu? Já esqueceu que nas duas últimas vezes que nos encontramos foi o senhor quem perdeu a paciência?

— Com boas razões — observou André, ríspido.

— Boas razões coisa nenhuma! A culpa foi da sua maldita arrogância.

— Sua linguagem não me parece muito feminina, Caro­line — observou, a voz perigosamente suave.

— Está parecendo meu pai!

— Não é de admirar, estou me sentindo como ele, agora. Você precisa de umas boas palmadas, Caroline.

— Que tal explicar essa história de sr. Andrews agora?

— Qualquer dia... — murmurou, displicente. — Santo Deus, como você é cabeça-dura! — Passou a mão nos cabelos. — Usei esse nome porque seu pai e eu pensamos que você não iria me encontrar se soubesse quem eu era.

— Pois pensaram certo. Então está interessado nas em­presas de papai?

— Isso mesmo.

— E daí? Não precisa da minha aprovação. Aliás, não precisa da minha aprovação para nada.

— Preciso sim, Carol, preciso muito de você. — Aproxi­mou-se dela e suavizou a voz.

Olhou para ele, surpresa, percebendo finalmente o motivo daquele encontro.

— Meu Deus! Pensei que só meu pai pudesse ser tão frio e calculista. Mas você também é um bastardo de primeira classe!

— Do que é que está falando agora, Caroline?

— Decidiu aceitar a oferta tentadora de papai, não? E por que não? Afinal, você é um homem de negócios... Por que se dar ao trabalho de comprar uma coisa que pode ganhar de presente? Basta casar com a filha mimada do amigo. Bem, só tem um pequeno senão nesse plano... eu. Não concordo. Entendeu?

— Acha mesmo que eu me casaria com você só para pôr as mãos nas empresas de Matt? — Os olhos dele brilhavam de raiva.

— Por que não? Papai é antiquado; é casamento ou nada. Se nos casarmos, ele vai entregar as empresas a você numa bandeja de prata.

— Comprei as empresas de Matt dois meses atrás — disse André, calmamente. — Paguei um preço justo e fiz do seu pai um dos membros da diretoria.

— Você... comprou? — Caroline mal podia acreditar no que ouvia.

— Comprei. Não acha que deve me pedir desculpas?

— Não sei... não sei mais nada. O que é que eu estou fazendo aqui? Por que me trouxe aqui?

— Já disse. Preciso de você.

— Mas já tem a companhia de papai e da última vez que nos encontramos disse que não queria me ver de novo..

— Você sabe por que disse aquilo. Você é uma Rayner e precisei de tempo para me acostumar com isso. Ainda mais depois das coisas que lhe disse.. — Sorriu. — Acho que, finalmente, aceito você como filha de Matt.

— E...

— Mantive contato com ele todos esses meses, tratando da transação. Tivemos longas conversas a seu respeito.

— É?

— Quer parar de dizer "é"? Seu pai me contou que você fez um retrato meu, bem razoável.

— Fiz, mas rasguei. — Num acesso de raiva, ela tinha destruído o retrato que levou tanto tempo para terminar.

— Por quê? — Ele olhava como se tivesse sido agredido fisicamente.

— Eu não o queria mais.

— Entendo.

— Entende mesmo? — A última coisa que desejava era que ele soubesse que o amava.

— Acho que sim. Você me odeia... e talvez tenha razão, depois das coisas que eu disse, das acusações que eu lhe fiz. Mas quero que saiba por que a tratei daquele jeito; por que a provoquei até você não conseguir olhar mais para mim. Desde a primeira vez que vi você, senti uma atração irresistível, mas não queria aceitar.

— Você pensou que eu fosse a empregada — relembrou-o.

— A empregada mais linda que eu já tinha visto até aquele dia. Desejei você desde o primeiro instante. Quando disse que havia alguém na minha vida, esse alguém era você. Desejei-a muito. Mas então aconteceu uma coisa que abalou as estruturas do meu mundo tão seguro. — Fez uma pausa, como se achasse difícil prosseguir.

Se Caroline não o conhecesse tão bem, diria que o confiante André estava inseguro. Impossível!, devia ser imagi­nação. Ele era sempre tão seguro, tão confiante...

— O que foi que aconteceu? — perguntou, mais por obri­gação que por curiosidade em ouvir a resposta.

— Eu me apaixonei por você — confessou, humilde. Ele falou num tom tão suave que ela chegou a duvidar

do que estava ouvindo.

— O que foi que disse?

— Acho que me ouviu, Carol. — Os olhos verdes brilha­vam de irritação.

— Mas... não acredito! — Ficou de costas para que ele não visse as lágrimas que brilhavam em seus olhos. — Está querendo é me atormentar. O que quer de mim? Uma de­claração de amor, para poder atirá-la na minha cara? Não vai ter o que deseja, garanto.

— Santo Deus, como você me odeia, Caroline! Mas não tem importância. Sei que sente atração por mim e aceito apenas isso, se não pode me dar mais. Amo você, Carol. — Aproximou-se dela,.um brilho de paixão nos olhos. — Quero desesperadamente que seja minha esposa.

— Quer casar comigo?— gaguejou, sem acreditar no que ouvia.

Ele estava tão perto dela que seus corpos se tocavam.

— Quero me casar com você! Acho que vou enlouquecer se não tiver você logo. — Inclinou a cabeça e beijou-a no pescoço, apaixonadamente.

— Não precisa casar comigo para ter o que quer. — Sentiu outra vez que seu corpo se rendia ao contato das mãos e dos lábios dele.

— Nada menos do que a vida toda pode me satisfazer. Quero que seja a mãe dos meus filhos, quero muito, mui­tíssimo. Não vamos falar mais, Carol, quero amar você, sentir você, sentir seus lábios.

Caroline não resistiu quando André a abraçou com força e deixou seu corpo colar no dele, num total abandono, e abriu os lábios para receber aquele beijo enlouquecedor, desejado há tanto tempo. Sentia que pertencia a André e que sempre pertenceria, pois a vida sem ele não valia a pena ser vivida.

André tirou o casaco, sem largá-la, e foi, lentamente encaminhando-a até o sofá. Os dois se deitaram, abraçados e André abandonou os lábios dela para beijar seu queixo seu pescoço, enquanto sua mão desabotoava habilmente a blusa de Caroline e voltava, depois, para acariciar seus seios firmes. Caroline tremia inteira.

— Meu Deus, meu Deus — gemeu André, se controlando para não possuí-la naquele mesmo instante. — Como eu a amo Carol. Sei que não acredita em mim, mas me sinto tão vulnerável perto de você! Sempre tive medo de me sentir assim, mas acabo de descobrir que é maravilhoso. Não sei se um casamento pode dar certo, quando se baseia apenas no amor de uma das partes. Mas vou tentar enquanto tiver forças, se você me aceitar. — Aqueles olhos tão sarcásticos agora imploravam.

— André, eu...

— Não me rejeite, Carol, não vou suportar. Estou em suas mãos; vai me ferir, vai me ferir profundamente. Não faça isso, amor. — De repente, o rosto dele era uma máscara de desespero. — Não vou deixar que se afaste de mim. Se me rejeitar, juro que vou segui-la por toda parte, até que tenha piedade e me aceite.

Então ele a amava mesmo! André, o homem arrogante e impiedoso, sempre acima desses sentimentos, estava real­mente apaixonado por ela. E queria se casar a qualquer preço. O mínimo que podia fazer diante de um amor tão intenso era confessar que também o amava e que desejava ser dele, com ou sem casamento.

— Sou sua, André. Agora, se quiser. Não precisa se casar comigo, sou toda sua.

— Não pode se oferecer assim — protestou, incrédulo. — Eu quero me casar com você!

— E eu estou dizendo que não precisa chegar a esse extremo, que me entrego a você espontaneamente, sem exi­gir que se junte a mim por toda a vida. — Sorriu, feliz.

— Quero que seja minha para toda a vida. Amar você significa querer você ao meu lado para sempre, dividindo todos os momentos bons e maus. Não sou tolo, e sei que teremos maus momentos. Nós dois somos muito teimosos! Mas é casamento ou nada — exigiu, inflexível. — Não podemos ter as duas coisas? — brincou Caroline, suave. — As duas?

— É! Casar e... fazer amor, agora?

— Você quer mesmo?

— Quero, André. Também amo você! Amo tanto que os últimos seis meses foram um inferno para mim. Não ima­gina como me sinto! — A voz de Caroline tremia de emoção.

Foi como se uma luz tivesse se acendido naqueles olhos cor de esmeralda, e ele deu um suspiro de alívio.

— Então você me ama de verdade?

A resposta de Caroline foi abraçá-lo e entregar os lábios a ele num jeito apaixonado. Depois do primeiro momento de surpresa, André retribuiu o beijo ardorosamente e suas mãos quentes e possessivas percorreram o corpo de Caroline até ela gemer de prazer. Depois, ele se afastou um pouco, amor­tecido pelo desejo, e apoiou a cabeça entre os seios dela.

— Minha — murmurou. — Toda minha. Vamos voltar a Londres amanhã para providenciar uma licença — decidiu. — Dentro de quatro dias estaremos casados.

— Casados... — repetiu Caroline, feliz.

— Sim — respondeu ele, à maneira do antigo André, que ela preferia. — E depois vamos voltar e ficar aqui umas duas semanas, só nós dois, antes de irmos encontrar seu pai. Concorda?

— Claro!

— Não vou permitir que saia de perto de mim, dia e noite. Quero você ao meu lado todos os minutos do dia, mesmo depois que estivermos casados. Se não puder me acompanhar nas viagens de negócios, então eu também não vou. Nos seis meses em que estivemos separados descobri que a vida sem você não tem sentido. — Olhou para o corpo sedutor que tinha nos braços.

— Agora você acredita que não armei nenhum plano para obrigá-lo a se casar comigo?

— Acredito. Matt me explicou algumas coisas. Agi como um idiota.

— E eu como uma garotinha mimada, pretensiosa a ponto de achar que era a pessoa adequada para lhe dar uma lição.

— Hum... — De novo os lábios dele passeavam pelo pes­coço de Caroline. — Nossa vida jamais será monótona. Mal posso esperar.

— Nem eu. — Ansiava pelos longos dias e noites que passaria nos braços de André.

— Quanto a mim, quero começar agora mesmo a cuidar de você. — Parecia hipnotizado pelos seios dela e suas mãos recomeçaram a acariciá-los.

— Não, não me importo nem um pouco — respondeu, devolvendo as carícias. — Oh, André, André...

 

 

                                                                  Carole Mortimer

 

 

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