Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
P A P I L L O N
O Homem que Fugiu do Inferno
Segunda Parte
A VIDA EM ROYALE
Assim que entramos no pátio do campo, todos os forçados começam a nos tratar com uma atenção amigável. Reencontro Pierrot le Fou, Jean Sartrou, Colondini, Chissilia. Temos que ir os três para a enfermaria, informa o guarda. Assim, escoltados por uns vinte homens, atravessamos o pátio até a enfermaria. Em alguns minutos, Maturette e eu temos na nossa frente uma dúzia de maços de cigarros e de fumo, café com leite bem quente, chocolate feito com cacau puro. Cada um quer dar alguma coisa para a gente. Clousiot ganha do enfermeiro uma injeção de óleo canforado e uma de adrenalina para o coração. Um preto muito magro diz:
— Enfermeiro, dê as minhas vitaminas para ele, precisa mais do que eu.
É realmente comovedora esta demonstração de bondade solidária para com a gente.
Pierre, o bordelês, diz para mim:
— Você quer gaita? Antes da saída de vocês para Royale, dá tempo para fazer uma vaquinha.
— Não, muito obrigado, tenho dinheiro. Mas como você sabe que eu vou para Royale?
— Foi o contador que disse. Vão os três. Acho até que vão os três para o hospital.
O enfermeiro é um bandido das montanhas da Córsega. Se chama Essari. Depois eu o conheci muito bem, mais tarde contarei toda a história dele, é muito interessante. As duas horas na enfermaria passam muito depressa. Comemos e bebemos bastante. Repletos e satisfeitos, partimos para Royale. Clousiot ficou o tempo todo de olhos fechados, a não ser quando eu me aproximava e botava a mão na testa dele. Então, abria os olhos já mortiços e dizia:
— Amigo Papi, somos verdadeiros amigos.
— Mais do que isso, somos irmãos — respondia eu.
Ainda com um guarda só, descemos. No meio, a maca com Clousiot, Maturette e eu de cada lado. Na porta do campo, todos os forçados se despedem da gente e nos desejam boa sorte. Agradecemos os presentes e não queremos aceitá-los, embora eles não nos ouçam. Pierrot le Fou botou no meu pescoço uma sacola cheia de fumo, cigarros, chocolate e latas de leite Nestlé. Maturette também ganhou uma. Não sabe quem lhe deu. Somente o enfermeiro Fernandez e um guarda nos levam até o cais. Ele entrega a cada um uma ficha para o hospital de Royale. Adivinho que são os forçados enfermeiros Essari e Fernández que, sem pedir nada ao médico, nos hospitalizam. A canoa está aí. Seis remadores, dois guardas atrás armados com mosquetões e mais um no leme. Um dos remadores é Chapar, do caso da Bolsa de Marselha. Bom, vamos. Os remos penetram no mar e, remando, Chapar fala para mim:
— Tudo bem, Papi? Você sempre recebeu o coco?
— Não nos últimos quatro meses.
— Eu sei, houve um acidente. O sujeito foi direito. Ele só conhecia a mim, mas não me entregou.
— O que aconteceu com ele?
— Morreu.
— Não é possível! Morreu de quê?
— Parece, pelo que diz um enfermeiro, que fizeram estourar o fígado dele com um pontapé.
Desembarcamos no cais de Royale, a mais importante das três ilhas. No relógio da padaria são 3 horas. Este sol da tarde é muito forte, me ofusca e me esquenta demais. Um guarda pede dois homens para a maca. Dois forçados, corpulentos, impecavelmente vestidos de branco, cada um com o pulso fortalecido por uma pulseira de couro, levantam Clousiot como se fosse uma pena e nós andamos atrás dele, Maturette e eu, Um guarda, com alguns papéis na mão, anda atrás da gente.
O caminho, de mais de 4 metros de largura, é de cascalho. É difícil de subir. Felizmente, os dois homens param de vez em quando e esperam por nós. Sento no braço da maca, do lado da cabeça de Clousiot e passo levemente a mão na testa dele. Toda vez que faço isso ele sorri, abre os olhos e diz:
— Meu velho Papi!
Maturette pega a mão dele.
— É você, pequenino? — murmura Clousiot.
Ele parece ter uma felicidade inefável ao sentir a gente perto dele. Damos uma parada, quase na chegada, e encontramos uma turma que vai para o trabalho. São quase todos forçados do meu comboio. Todos, na passagem, têm uma palavra amável para a gente. Chegando ao planalto, na frente de um prédio quadrado e branco, vemos, sentados na sombra, as mais altas autoridades das ilhas. Nos aproximamos do comandante Barrot, alcunhado “Coco Seco”, e dos outros chefes da penitenciária. Sem levantar e sem cerimônia, o comandante diz:
— Então, não foi dura demais a reclusão? E aquele na maca, quem é?
— É Clousiot.
Olha para ele e diz:
— Leve todos para o hospital. Quando saírem, bote um aviso para que eles me sejam apresentados antes de entrar no campo.
No hospital, numa grande sala muito bem iluminada, nos botam em camas bem limpas, com lençóis e travesseiros. O primeiro enfermeiro que vejo é Chatal, o enfermeiro da sala de alta vigilância de Saint-Laurent-du-Maroni. Ele toma logo conta de Clousiot e da ordens a um guarda para chamar o médico. Este chega lá pelas 5 horas. Depois de um longo e minucioso exame, vejo que ele balança a cabeça, com ar insatisfeito. Escreve a receita e comenta:
— Não somos bons amigos, Papillon e eu — diz para Chatal.
— Estranho, pois é um bom cara, doutor.
— Talvez, mas ele tem birra comigo.
— Por causa do quê?
— Por causa de uma consulta que tivemos na reclusão.
— Doutor — digo —, o senhor chama isso de consulta, auscultar pelo postigo?
— É ordem da administração: nunca abrir a porta de um condenado.
— Muito bem, doutor, espero que o senhor esteja apenas emprestado a esta administração e que não pertença a ela.
— Falaremos disso mais tarde. Vou tentar fortalecê-los, a você e seu amigo. Quanto ao outro, receio que seja tarde demais.
Chatal me conta que, suspeito de estar preparando uma fuga, ele foi internado nas ilhas. Conta também que Jesus, aquele que me traiu na minha fuga, foi assassinado por um leproso. Ele não sabe o nome do leproso e pergunto para ele se não será um daqueles que nos ajudaram com tamanha generosidade.
A vida dos forçados nas Ilhas da Salvação é completamente diferente do que se pode imaginar. Em sua maioria, os homens são extremamente perigosos, por vários motivos. Primeiro, todo mundo come bem, pois se negocia tudo: álcool, cigarros, café, chocolate, açúcar, carne, verduras frescas, peixe, lagosta, coco, etc. Portanto, todo mundo goza de perfeita saúde, num clima muito sadio. Apenas os condenados temporários têm a esperança de serem libertados, mas os condenados à prisão perpétua — perdido por perdido! — são todos perigosos. Todos estão envolvidos nessas negociatas diárias, forçados e guardas. É uma mistura difícil de entender. Esposas de guardas procuram jovens forçados para trabalhos domésticos — e muitas vezes elas os tomam como amantes. São chamados “moços de serviços”. Alguns são jardineiros, outros cozinheiros. É essa a categoria que serve de ligação entre o campo e as casas de guardas. Os “moços de serviços” não são antipatizados pelos outros forçados, pois é graças a eles que se pode negociar de tudo. Mas eles não são considerados puros. Nenhum homem da autêntica malandragem aceitaria se rebaixar a esses servicinhos. Não concordaria em ser chaveiro, nem em trabalhar no refeitório dos guardas.. Por outro lado, os presos pagam caríssimo pelas ocupações nas quais não tenham relação com os guardas: limpadores de latrinas, varredores de folhas secas, condutores de búfalos, enfermeiros, jardineiros da penitenciária, açougueiros, padeiros, remadores, carteiros, guardas do farol. Todos esses empregos são ocupados pelos verdadeiros duros. Um verdadeiro duro nunca trabalha na manutenção dos muros de contorno das estradas, das escadas, nem planta coqueiros; quer dizer, nunca trabalha nas tarefas ao sol ou sob a vigilância dos guardas. A gente trabalha das 7 horas ao meio-dia e das 2 às 6. Isso dá uma idéia do ambiente criado pela mistura de pessoas tão diferentes que vivem juntas, forçados e guardas, verdadeira aldeia em que se comenta tudo, se julga tudo, em que todo mundo observa a vida dos outros.
Dega e Galgani vieram passar o domingo comigo no hospital. Comemos maionese com peixe, sopa de peixe, batatas, queijo, café, vinho branco. Esta refeição, nós a fizemos no quarto de Chatal, ele, Dega, Galgani, Maturette, Grandet e eu. Pediram-me que conte toda a minha fuga, nos menores detalhes. Dega não vai tentar mais nada para fugir. Aguarda da França uma redução de cinco anos em sua pena. Com os três que ele já fez na França e mais três aqui, só faltará cumprir quatro. Se resignou a cumpri-los. Quanto a Galgani, acha que um senador corso está cuidando do caso dele.
Quando chega a minha vez, pergunto quais os lugares mais propícios, aqui, para uma fuga. É um espanto geral. Para Dega, é uma idéia que nem lhe passou pela cabeça; Galgani também não pensa nisso. Por sua vez, Chatal acha que um jardim deve ter suas vantagens para preparar uma jangada. Quanto a Grandet, ele me informa que é ferreiro numa oficina onde, pelo que está dizendo, há de tudo: pintores, carpinteiros, ferreiros, pedreiros, encanadores — 120 homens. Ele trabalha na manutenção dos prédios da administração. Dega, que é contador geral, me ajudará a obter o lugar que eu quiser. Será só escolher. Grandet me oferece a metade do seu cargo de controlador de jogo, de modo que, com o que eu ganhar sobre os jogadores, poderei viver bem sem gastar o dinheiro do meu canudo. Mais tarde, vou ver que o negócio é muito interessante, mas extremamente perigoso.
O domingo passou com uma rapidez espantosa.
— Já são 5 horas — diz Dega, que está com um lindo relógio —, temos que voltar para o campo.
Na saída, Dega me dá 500 francos para jogar pôquer, pois às vezes há boas partidas na nossa sala. Grandet me dá uma magnífica faca de mola da qual ele mesmo temperou o aço. É uma arma terrível.
— Fique sempre armado, dia e noite.
— E se eles me revistarem?
— Quase todos os guardas que revistam são árabes. Quando um homem é considerado perigoso, eles nunca encontram a arma, nem que a toquem.
— A gente vai se encontrar no campo — diz Grandet.
Antes de sair, Galgani me diz que já guardou um lugar para min no seu canto e que ficaremos juntos numa patota, repartindo as coisas. Quanto a Dega, não dorme no campo, mas num quarto do prédio da administração.
Já faz três dias que estamos aqui, mas, como passo as noites perto de Clousiot, ainda não me dei muito bem conta da vida desta sala de hospital, onde somos uns sessenta. Depois, Clousiot piorou muito, foi isolado num quarto onde já estava um enfermo grave. Chatal o entupiu de morfina. Receia que não agüente a noite.
Na sala ficam trinta camas de cada lado de uma passagem de 3 metros, quase todas ocupadas. Pois lampiões de petróleo iluminam o conjunto. Maturette diz:
— Lá no fundo estão jogando pôquer.
Eu vou até os jogadores. São quatro.
— Posso ser o quinto?
— Pode, sente. O cacife é de 100 francos. Para começar a jogar, precisa compra três cacifes, quer dizer, 300 francos. Aqui tem 300 francos de fichas.
Dou 200 para Maturette guardar. Um parisiense chamado Dupont diz para mim:
— Jogamos com o regulamento inglês, sem curinga. Conhece?
— Conheço.
— Então dê as cartas, é você que começa.
É incrível a rapidez com que estes homens jogam. A parada tem que ser muito rápida, senão a aposta é considerada “fora de tempo” e o jeito é agüentar firme. Aí é que descubro uma nova classe de forçados: os jogadores. Vivem do jogo, para o jogo, no jogo. Nada interessa a eles, a não ser jogar. Esquecem tudo: o que eles foram, sua pena, o que eles poderiam fazer para modificar sua vida. Que o parceiro seja um bom sujeito ou não, uma única coisa interessa: jogar
Jogamos a noite inteira. Paramos no café. Ganhei 1 300 francos. Vou para a minha cama, quando Paulo se aproxima de mim e me pede emprestados 200 cobres para continuar a jogar belote de dois. Ele precisa de 300 cobres e só tem 100.
— Toma 300. Depois a gente divide.
— Obrigado, Papillon, você é mesmo o sujeito de quem ouvi falar. Vamos ser amigos.
Estendo a mão, aperto-a, e ele vai embora todo contente. Clousiot morreu hoje de manhã. Num momento de lucidez, na véspera, tinha pedido a Chatal para não lhe dar morfina:
— Quero morrer consciente, sentado na minha cama, com meus amigos a meu lado.
É estritamente proibido penetrar nos quartos de isolamento, mas Chatal se responsabilizou e o nosso amigo pôde morrer nos nossos braços. Fechei os olhos dele. Maturette estava transtornado pela dor.
— Lá foi ele, o companheiro da nossa bela aventura. Vai ser jogado aos tubarões.
Quando ouvi estas palavras, “vai ser jogado aos tubarões”, fiquei gelado. De fato, não existe cemitério para os forçados nas ilhas. Quando um forçado morre, eles o jogam no mar, às 6 horas, quando o sol se põe, entre Saint-Joseph e Royale, num lugar infestado de tubarões.
A morte do meu amigo me torna o hospital insuportável. Mando dizer a Dega que vou sair depois de amanhã. Ele me manda um bilhete: “Peça a Chatal que consiga para você quinze dias de descanso no campo, assim terá tempo para escolher o emprego que convier”. Maturette vai ficar mais algum tempo. Talvez Chatal consiga tomá-lo como enfermeiro-assistente.
Assim que saio do hospital, me levam para o prédio da administração, me apresentam ao comandante Barrot, o “Coco Seco”.
— Papillon, antes de botá-lo no campo, eu quis conversar um pouco com você. Você tem aqui um amigo precioso, meu contador geral, Louis Dega. Ele sustenta que você não merece as informações que nos chegam da França. Como ele considera você um condenado inocente, acha natural que você esteja num estado permanente de revolta. Devo dizer que não concordo muito com ele a esse respeito. O que eu gostaria de saber é qual é, atualmente, o seu estado de espírito.
— Primeiro, meu comandante, para poder responder, pode me dizer quais são as informações do meu processo?
— Veja você mesmo.
E ele me passa uma cartolina amarela onde leio mais ou menos o seguinte:
“Henri Charrière, dito Papillon, nascido a 16 de novembro de 1906, em..., Ardèche, condenado por homicídio voluntário aos trabalhos forçados perpétuos, pelo tribunal do Sena. Perigoso de todos os pontos de vista, deve ser vigiado com muita cautela, não poderá se beneficiar dos empregos de favor.
“Central de Caen: Condenado incorrigível. Capaz de fomentar uma revolta. Deve ser vigiado constantemente.
“Saint-Martin-de-Ré: Indivíduo disciplinado mas certamente possuidor de muita influência sobre os colegas. Tentará fugir de qualquer lugar.
“Saint-Laurent-du-Maroni: Cometeu uma agressão selvagem contra três guardas e um auxiliar da administração para fugir do hospital. Volta da Colômbia. Bom comportamento na preventiva. Condenado a uma pena leve de dois anos de reclusão.
“Reclusão de Saint-Joseph: Bom comportamento até a libertação”.
— Com isso, meu velho Papillon — diz o diretor quando lhe devolvo a ficha —, a gente não se sente muito seguro quando tem você como pensionista. Você quer fazer um acordo comigo?
— Por que não? Depende do acordo.
— Você é um homem que, sem dúvida, vai fazer tudo para fugir das ilhas, apesar das grandes dificuldades que existem para a fuga. É possível até que você seja bem sucedido. Quanto a mim, me faltam apenas cinco meses na direção das ilhas. Sabe o que custa uma evasão para o comandante das ilhas? Um ano de soldo normal. Quer dizer, a perda completa do tratamento colonial; férias adiadas de seis meses e reduzidas de três. E, conforme as conclusões do inquérito, se houve desleixo por parte do comandante, a possível perda de um galão. Está vendo que o negócio é sério. Se eu fizer o meu trabalho honestamente, não é porque você é capaz de fugir que tenho o direito de botá-lo numa cela ou numa masmorra. A não ser que eu invente delitos imaginários. E isso não quero fazer. Então, eu gostaria que você me desse a sua palavra de que não tentará fugir até a minha saída das ilhas. Cinco meses.
— Comandante, eu lhe dou a minha palavra de honra de que não vou partir enquanto o senhor estiver aqui, se isso não ultrapassar seis meses.
— Parto dentro de um pouco menos de cinco meses, é absolutamente certo.
— Muito bem, pergunte a Dega, ele dirá ao senhor que sou homem de palavra.
— Acredito.
— Mas, em compensação, peço outra coisa.
— O quê?
— Que, durante os cinco meses que tenho que passar aqui, eu possa ter já os empregos dos quais eu poderia me beneficiar mais tarde, e talvez até mudar de ilha.
— Então está certo. Mas que isso fique estritamente entre nós.
— Sim, meu comandante.
Ele manda vir Dega, que o convence de que o meu lugar não é junto com os presos “bem comportados”, mas com os homens da zona da malandragem, no prédio dos perigosos, onde se encontram todos os meus amigos. Recebo um saco completo com os trastes de forçado e o comandante manda acrescentar algumas calças e algumas japonas brancas pedidas aos alfaiates.
É assim, com duas calças de um branco impecável, novinhas, e três japonas, um chapéu de palha de arroz, que me encaminho, acompanhado por um guarda, para o campo central. Para ir do pequeno prédio da administração até o campo, é necessário atravessar o planalto inteiro. Passamos em frente do hospital dos guardas, ao seguir um muro de 4 metros que faz a volta completa da penitenciária. Depois de ter feito a volta quase completa desse imenso retângulo, se chega à porta principal. “Penitenciária das Ilhas — Seção de Royale”. A imensa porta de madeira é toda aberta. Tem cerca de 6 metros de altura, com dois postos de guarda e quatro guardas em cada um. Sentado numa cadeira, um graduado. Nada de mosquetão: todos estão com revólver. Vejo também cinco ou seis serventes árabes.
Quando chego debaixo do pórtico, todos os guardas saem. O chefe, um corso, diz:
— Chegou um novo, de gabarito.
Os serventes se preparam para me revistar, mas ele os interrompe:
— Não chateiem, não precisam tirar a tralha toda. Vamos, entre, Papillon. No bloco especial, parece que você tem muitos amigos. Eles estão esperando por você. Meu nome é Sofrano. Boa sorte nas ilhas.
— Obrigado, chefe.
E entro num pátio imenso, onde se erguem três grandes blocos. Sigo o guarda que me leva até um deles. Em cima da porta, uma inscrição: “Bloco A — Grupo Especial”. Em frente da porta toda aberta, o guarda grita:
— Vigia do compartimento!
Surge então um velho forçado.
— Chegou um novo — diz o chefe e vai embora.
Entro numa sala retangular, muito grande, onde vivem 120 homens. Como no primeiro prédio de Saint-Laurent, uma barra de ferro percorre cada um dos lados maiores, interrompida apenas no espaço das portas; é uma grade que só se fecha de noite. Entre a parede e a barra estão esticadas, muito bem estendidas, lonas que servem de cama e às quais se dá o nome de rede, embora não sejam realmente redes. Essas redes são bem confortáveis e higiênicas. Em cima de cada uma estão afixadas duas tábuas para nós guardarmos nossas coisas: uma para a roupa, a outra para a comida, a tigela, etc. Entre as fileiras de redes, uma passagem de 3 metros de largura, a “avenida”. Aqui, também, os homens vivem em pequenas organizações, as patotas. Há patotas de dois homens, mas também de dez.
Assim que chegamos, de todos os lados chegam forçados vestidos de branco: “Papi, venha para cá”. “Não, venha com a gente.” Grandet pega a minha sacola e diz:
— Ele vai ficar de patota comigo.
Vou seguindo Grandet. Instalam a lona, bem esticada, que me servirá de cama.
— Tome um travesseiro de penas, meu chapa — diz Grandet.
Reencontro uma porção de amigos. Muitos corsos e marselheses, alguns parisienses, todos amigos da França ou sujeitos encontrados na Santé, na Conciergerie ou no comboio. Mas, espantado por encontrá-los aqui, pergunto:
— Vocês não estão trabalhando numa hora dessas?
Aí é uma gargalhada geral.
— Ah! essa é boa! Neste prédio, quem trabalha não trabalha mais de uma hora por dia. Depois, a gente volta logo para cá.
Esta recepção é realmente calorosa. É de se desejar que continue assim. Mas logo entendo alguma coisa que não tinha previsto: apesar dos dias passados no hospital, preciso aprender de novo a viver numa comunidade.
Vejo algo que eu nunca teria imaginado. Um sujeito entra, vestido de branco, com uma bandeja encoberta por um pano branco limpíssimo e grita:
— Bife, bife, quem quer bife?
Pouco a pouco vem se aproximando da gente, pára, levanta o pano branco e aparece, como num açougue da França, uma bandeja cheia de bifes cuidadosamente empilhados. Percebo que Grandet é freguês constante, pois o rapaz nem pergunta se ele quer bifes, pergunta apenas quantos quer que deixe.
— Cinco.
— Contrafilé ou alcatra?
— Contrafilé. Quanto é? Me dê as contas, porque agora temos um a mais, então vai mudar.
O comerciante de bifes puxa uma caderneta e começa a calcular:
— Dá 135 francos, tudo incluído.
— Cobre e agora recomeçamos de zero.
Depois de o homem ter ido embora, Grandet me diz:
— Aqui, sem tutu você se arrebenta. Mas tem um sistema para ter sempre tutu: a viração.
Para os duros, a viração é o modo de cada um se virar para conseguir dinheiro. O cozinheiro do campo vende bifes feitos com a própria carne destinada aos prisioneiros. Quando ele recebe a carne na cozinha tira mais ou menos a metade. Conforme os pedaços, prepara bifes, carne para ensopado ou para cozinhar. Uma parte é vendida aos guardas, através das esposas, a outra aos forçados que têm meios para comprar. Claro que o cozinheiro dá uma parte do que ganha ao guarda encarregado da cozinha. O primeiro prédio onde se apresenta com a mercadoria é sempre o do grupo especial, bloco A: o nosso.
Então, a viração é o cozinheiro que vende a carne e a gordura; o padeiro que vende pão fino ou pão de metro bem branco, destinado aos guardas; o açougueiro que, por sua vez, vende carne; o enfermeiro que vende injeções; o contador que recebe dinheiro para fazer com que a gente seja designado para tal ou tal cargo, ou então simplesmente para nos dispensar de uma tarefa; o jardineiro que vende hortaliças frescas e frutas; o forçado empregado no laboratório que vende resultados de análises e chega até a inventar tuberculosos, leprosos, enterites, etc; os especialistas do roubo no pátio das casas dos guardas, que vendem ovos, frangos; os moços de serviços que negociam com a dona da casa onde trabalham, e que trazem o que a gente pedir: manteiga, leite condensado, leite em pó, latas de atum ou de sardinha, queijos e, naturalmente, vinhos e bebidas alcoólicas (tanto assim, que na minha patota tem sempre uma garrafa de Ricard e cigarros ingleses ou americanos); aqueles também que têm o direito de pescar e vendem o peixe ou as lagostas.
Mas a melhor viração, a mais perigosa também, é ser controlador de jogo. A regra é que não pode nunca haver mais de três ou quatro controladores de jogo por prédio de 120 homens. Aquele que quiser cuidar dos jogos se apresenta de noite e diz: “Quero um lugar como controlador do jogo”. Alguém responde: “Não”.
— Todos dizem não?
— Todos.
— Então escolho fulano para tomar o lugar.
Aquele que foi designado entendeu. Levanta-se, vai até o centro da sala e os dois fazem um duelo de faca. Aquele que ganha fica com o lugar. Os controladores cobram 5 por cento em cada lance vitorioso.
Os jogos servem também para outras pequenas virações. Há aquele que prepara os cobertores bem esticados no chão, aquele que aluga bancos pequeninos para os jogadores que não podem sentar com as pernas cruzadas debaixo do traseiro, o vendedor de cigarros. Este coloca em cima do cobertor várias caixas de charutos vazias, nas quais ele põe cigarros franceses, ingleses, americanos e até feitos a mão. Cada um tem um preço, o jogador se serve ele mesmo e coloca cautelosamente na caixa o dinheiro correspondente ao preço marcado. Há também aquele que prepara os lampiões de querosene e toma cuidado para que eles não façam fumaça demais. São lampiões feitos com latas de leite cuja tampa foi furada para deixar passar um pavio que mergulha no querosene e que deve ser aparado com freqüência. Para os que não fumam, há bombons e bolos feitos com viração especial. Cada prédio tem um ou dois cafeteiros. O café feito à moda árabe é mantido quente a noite inteira, com dois sacos de estopa que o cobrem. De vez em quando, o cafeteiro passa pela sala e oferece café ou chocolate quente numa espécie de bule norueguês de fabricação caseira.
Finalmente, há as bugigangas. É uma espécie de viração artesanal. Alguns trabalham com a casca das tartarugas capturadas pelos pescadores. Uma tartaruga de escama possui treze chapas, cada uma com até 2 quilos. Com isso, o artista faz pulseiras, brincos, colares, piteiras, pentes e ornamentos para escovas. Cheguei a ver uma caixinha de escama clara, verdadeira maravilha. Outros trabalham com cocos, chifres de boi, de búfalo, ébano ou outras madeiras das ilhas. Alguns fazem trabalhos de marcenaria de alta precisão, sem um prego, tudo com uma chanfradura. Os mais hábeis trabalham com bronze. Sem esquecer os pintores.
Pode acontecer que vários destes talentos se juntem para realizar um só objeto. Por exemplo, um pescador pega um tubarão. Ele ajeita as mandíbulas de modo a que fiquem abertas, com os dentes bem polidos e bem retos. Um marceneiro faz o modelo reduzido de uma âncora, de madeira bem lisa e de grão fechado, suficientemente larga para que se possa fazer alguma pintura no centro. As mandíbulas são fixadas nesta âncora, em que um pintor pinta as Ilhas da Salvação cercadas pelo mar. O tema mais freqüentemente usado é o seguinte: se vê a ponta da Ilha Royale, o canal e a Ilha Saint-Joseph. No mar azul, o sol declinando lança raios fulgurantes. Na água, um barco com seis forçados em pé, peito nu, os remos verticais, e três guardas atrás, de metralhadoras na mão. Na frente, dois homens erguem um caixão donde escorrega, embrulhado num saco de farinha, o corpo de um forçado morto. Tubarões aparecem na superfície da água, esperando o corpo com a goela aberta. Embaixo, à direita do quadro, está escrito: “Enterro em Royale” com a data.
Estes trabalhos de artesanato são vendidos nas casas dos guardas. As peças mais belas são freqüentemente compradas com antecipação ou feitas a pedido. O resto é vendido a bordo dos navios que passam pelas ilhas. É o domínio dos remadores. Há também os brincalhões que pegam uma velha caneca esburacada e gravam nela: “Esta caneca pertenceu a Dreyfus — Ilha do Diabo — data”. A mesma coisa com as Colheres e as tigelas. Para os marinheiros bretões, há um truque que funciona na certa: qualquer coisa com o nome de “Sezenec”.
Esse negócio permanente traz muito dinheiro para as ilhas e os guardas têm interesse em tolerá-lo. Entregues aos seus afazeres, os homens são mais fáceis de manejar e se acostumam à nova vida.
A pederastia toma um caráter oficial. Todo mundo (inclusive o comandante) sabe que fulano é a mulher de sicrano e, quando um deles é mandado para outra ilha, providencia-se para que o outro siga logo, se é que já não foram transferidos juntos.
Entre todos estes homens, não chegam a trezentos os que pensam em fugir. Até entre os que têm condenação à prisão perpétua. O único esforço é no sentido de tentar, por todos os meios, ser desinternado e mandado para o continente, para Saint-Laurent, Kourou ou Caiena. O que só interessa aos internados temporários. Para os condenados à prisão perpétua, não há saída fora do assassinato. De fato, quando se mata alguém, eles mandam a gente a Saint-Laurent para ser julgado pelo tribunal. Mas com esse recurso para ir para lá — é necessário esclarecer —, a gente se arrisca a pegar cinco anos de reclusão disciplinar por assassinato, sem saber se se poderá aproveitar a breve permanência no quartel de Saint-Laurent (três meses no máximo) para fugir.
Pode-se tentar também o desinternamento por motivos de saúde. Quem é declarado tuberculoso é mandado ao campo para tuberculosos, chamado Novo Campo, a 80 quilômetros de Saint-Laurent.
Existem também a lepra e a enterite crônica. É relativamente fácil chegar a este resultado, mas o risco é muito grande: a coabitação num pavilhão especial, isolado, durante quase dois anos, com os doentes do tipo escolhido. De querer ser falso leproso a pegar a lepra, de ter pulmões fortes pra burro e sair tuberculoso, vai só um pequeno passo, que se dá com freqüência. Quanto à disenteria, é ainda mais difícil escapar ao contágio.
Aqui estou eu, instalado no bloco A, com os meus 120 colegas. É necessário aprender a viver nesta comunidade na qual a gente é rapidamente classificado. É necessário primeiro que todo mundo saiba que é perigoso atacar você. Uma vez temido, tem que se fazer respeitar pela maneira como se comporta em relação aos guardas, não aceitar determinados cargos, recusar certas tarefas, nunca reconhecer a autoridade dos serventes, nunca obedecer com humildade, mesmo correndo o risco de ter um incidente com o guarda. Depois de ter jogado a noite inteira, não se deve atender à chamada. O guarda da choça (este bloco é chamado “a choça”) grita:
— Doente, deitado.
Nas duas outras choças, os guardas vão às vezes procurar o doente e o obrigam a assistir à chamada. Nunca no bloco dos violentos. Conclusão: o que eles procuram antes de mais nada, do maior ao menor, é a tranqüilidade da prisão.
Meu amigo Grandet, com quem estou associado e reparto as coisas, é um marselhês de 35 anos. Muito alto, magro como um prego, mas muito forte. Somos amigos desde a França. A gente se dava em Toulon, bem como em Marselha e Paris.
É um célebre perfurador de cofres-fortes. É bom, mas pode ser muito perigoso. Hoje estou quase sozinho nesta imensa sala. O chefe da choça varre e passa um pano no chão de cimento. Estou vendo um homem consertando um relógio, com um troço de madeira no olho esquerdo. Em cima da sua rede, uma tábua onde estão dependurados uns trinta relógios. Este rapaz tem os traços de um homem de trinta anos e cabelos inteiramente brancos. Aproximo-me dele e o observo trabalhar, depois tento bater um papo. Nem levanta a cabeça e permanece mudo. Afasto-me um pouco, ofendido, saio para o pátio e me sento perto do tanque. Encontro Titi la Belote, que está treinando com um baralho completamente novo. Seus dedos ágeis baralham constantemente as 52 cartas com uma rapidez incrível. Sem interromper o jogo de suas mãos de prestidigitador. diz:
— Então, velho, tudo bem? Está se dando bem em Royale?
— Sim, mas hoje estou na fossa. Preciso trabalhar um pouco; resolvi sair um pouco da choça. Quis bater um papo com o sujeito que está dando uma de relojoeiro, ele nem abriu a boca.
“Não se incomode, Papi, este sujeito não liga para ninguém. Para ele, só existem os relógios. Para o resto, bolas! É verdade que, depois do que aconteceu para ele, tem o direito de ser gira. Até por menos. Imagine que este rapaz — pode-se dizer que ele é um rapaz, não tem ainda trinta anos — era condenado à morte, no ano passado, porque ele teria estuprado a mulher de um guarda. Lorota! Fazia tempo que ele trepava com a dona, a esposa de um guarda-chefe bretão. Como ele trabalhava na casa deles como moço de serviços, cada vez que o bretão tinha plantão de dia, o relojoeiro comia a garota. Só que eles cometeram um erro: a dona nem o deixava mais lavar e passar a roupa. Era ela mesma que fazia tudo, e o cornudo do marido achou estranho, começou a desconfiar, porque sabia que ela era preguiçosa. Mas não tinha prova de seu infortúnio. Então bolou alguma coisa para pegar os dois em flagrante e matá-los. Ele não contava com a reação da dona. Um dia, ele deixa o plantão duas horas depois de ter começado e pede a um guarda para acompanhá-lo até em casa, alegando que queria lhe dar um presunto que tinha recebido de sua terra. Sem barulho, passa pelo portão; mas, assim que abre a porta da casinha, um papagaio se põe a berrar: ‘Chegou o patrão!’, como costumava fazer toda vez que o cara voltava para casa. Logo a mulher se põe a gritar: ‘Socorro! É uma curra!’ Os dois guardas entram no quarto na hora em que a mulher escapa dos braços do forçado que, surpreendido, pula pela janela, enquanto o cornudo atira nele. Levou um tiro no ombro; a dona, por sua vez, arranhou ela mesma os peitos e a face e rasgou o chambre. O relojoeiro caiu, ferido, e, na hora em que o bretão ia acabar com ele, o outro guarda lhe tirou a arma. É verdade que o outro era um corso e entendeu logo que o chefe lhe tinha contado uma lorota, estupro ali era chifre em cabeça de cavalo. Mas o corso não podia falar com o bretão e fingiu que acreditava no estupro. O relojoeiro foi condenado à morte. Até aí, meu velho, nada de extraordinário. É depois que o caso se torna interessante.
“Em Royale, no quartel dos punidos, tem uma guilhotina, cada peça bem guardada num lugar especial. No pátio, tem cinco lajes para erguê-la, bem cimentadas e niveladas. Toda semana, o carrasco e seus assistentes, dois forçados, montam a guilhotina com a faca e o troço todo e cortam um ou dois troncos de bananeira. Assim, ficam certos de que está sempre em bom estado.
“O relojoeiro saboiano estava numa cela de condenado à morte com quatro outros, três árabes e um siciliano. Eles esperavam resposta ao pedido de indulto, feito por guardas que os defenderam.
“Numa manhã, eles montam a guilhotina e abrem bruscamente a porta do relojoeiro. Os carrascos se jogam sobre ele, lhe amarram os pés com uma corda, ligam os pulsos com a mesma corda dos pés. Com tesouras, aparam o colarinho e ele, em passos estreitos, na semi-obscuridade da alvorada, percorre uns 20 metros. Você sabe, Papillon, que, quando se chega diante da guilhotina, a gente se encontra frente a frente com uma tábua em pé na qual eles amarram o sujeito com correias presas na tábua. Amarram o cara, começam a deitar a tábua, a cabeça de fora, quando chega o atual comandante, o ‘Coco Seco’, que tem que assistir obrigatoriamente à execução. Leva na mão um enorme lampião de querosene e, na hora em que ele ilumina a cena, percebe que os putos dos guardas se enganaram: eles iam cortar a cabeça do relojoeiro, que, naquele dia, não tinha nada a ver com a cerimônia.
“— Parem, parem! — grita Barrot.
“Fica tão perturbado, que parece até que não consegue mais falar. Deixa cair o lampião, empurra todo mundo, os guardas, os carrascos, e ele mesmo desamarra o relojoeiro saboiano. Finalmente consegue dar uma ordem:
“— Leve-o de volta para a cela, enfermeiro. Trate dele, fique com ele, dê-lhe rum. E vocês, cretinos, vão buscar rápido Rencasseu, é ele que executamos hoje!
“No dia seguinte, o saboiano estava com os cabelos inteiramente brancos, tal como você o viu hoje. Seu advogado, um guarda de Calvi, fez um novo pedido de indulto ao ministro da Justiça, contando-lhe o incidente. Á pena do relojoeiro foi comutada e transformada em prisão perpétua. Desde então, ele passa o tempo todo consertando os relógios dos guardas. É a sua paixão. Ele controla os relógios durante muito tempo; é por isso que tem tantos dependurados no seu painel de observação. Agora dá para entender que o sujeito tem o direito de estar um pouco doido, sim ou não?”
— Não tem nem dúvida; depois de um choque desses, ele tem o direito de não ser muito amável. Sinceramente, tenho dó dele.
A cada dia, aprendo um pouco mais sobre esta nova vida. A choça A é realmente uma concentração de homens terríveis, tanto por causa do passado deles como pela maneira de eles reagirem na vida cotidiana. Não trabalho ainda: espero um lugar de limpador de latrinas. É um posto que, depois de 45 minutos de trabalho, me deixará livre sobre a ilha, com direito de ir pescar.
Hoje de manhã, na chamada para a tarefa de plantação de coqueiros, designam Jean Castelli. Ele sai da fileira e pergunta:
— O que é isso? Estão me mandando para o trabalho, eu?
— Sim, você — responde o guarda encarregado da tarefa. — Vai, pega essa picareta!
Friamente, Castelli olha para ele:
— Olhe um pouco pra mim, meu chapa. Você é um caipira de Auvergne. Não está vendo que é preciso ter nascido numa aldeola como a tua para saber usar um instrumento desses? Eu sou corso e marselhês. Na Córsega, a gente joga para muito longe os instrumentos de trabalho, e em Marselha a gente nem sabe que eles existem. Fique você com a picareta e me deixe em paz.
O jovem guarda, que ainda não estava a par da situação, pelo que vim a saber mais tarde, levanta a picareta contra Castelli, cabo para cima. Numa voz só, os 120 homens urram:
— Carniceiro, não toque nele ou você está morto.
— Dispersem! — grita Grandet e, sem levar em conta as posições de ataque tomadas por todos os guardas, voltamos todos para a choça.
A choça B desfila, indo para o trabalho. A choça C também. Doze guardas vêm chegando e, coisa rara, fecham a porta gradeada. Uma hora mais tarde; quarenta guardas estão de cada lado da porta, de metralhadora na mão. Comandante adjunto, vigia-chefe, guarda-chefe, guardas, todos estão aqui, com exceção do comandante, que saiu às 6 da manhã, antes do incidente, para inspecionar a Ilha do Diabo:
O comandante adjunto diz:
— Dacelli, chame os homens, um por um.
— Grandet?
— Presente.
— Saia.
Ele sai, no meio dos quarenta guardas. Dacelli diz para ele:
— Vai trabalhar.
— Não posso.
— Recusa?
— Não, não recuso, estou doente.
— Desde quando? Você não se declarou doente na primeira chamada.
— Hoje de manhã, eu não estava doente, mas agora estou.
Os sessenta primeiros chamados respondem exatamente a mesma coisa, um depois do outro. Apenas um vai até a franca recusa de obediência. Ele tinha provavelmente a intenção de ser mandado a Saint-Laurent, passar pelo conselho de guerra. Quando lhe dizem:
— Recusa?
Ele responde:
— Sim, recuso, três vezes.
— Três vezes? Por quê?
— Porque vocês me enchem o saco. Recuso categoricamente trabalhar para sujeitos tão fodidos como vocês.
A situação era muito tensa. Os guardas, principalmente os jovens, não agüentavam ser humilhados assim pelos presos. Só esperavam uma coisa: um gesto de ameaça que lhes permitiria entrar em ação com suas metralhadoras, aliás dirigidas para o chão.
— Todos aqueles que foram chamados, pelados! Em marcha para as celas!
À medida que as roupas iam caindo, ouvia-se às vezes o ruído de uma faca que batia sobre o asfalto do pátio. Aí chega o médico.
— Bom, esperem. O médico está chegando. Podia, doutor, examinar estes homens? Aqueles que não forem reconhecidos como doentes irão para as celas. Os outros ficarão na choça.
— Há sessenta doentes?
— Sim, doutor, com exceção deste, que se recusou a trabalhar.
— O primeiro — diz o médico. — Grandet, o que é que você tem?
— Uma indigestão de carcereiro, doutor. Somos todos homens condenados a longas penas, e a maioria à prisão perpétua, doutor. Nas ilhas não há esperança de fuga. Por isso, o pessoal só agüenta esta vida se houver uma certa elasticidade e compreensão no regulamento. Mas, hoje de manhã, um guarda tomou a liberdade, na frente da gente, de querer bater com um cabo de picareta num colega estimado por todos. Não era um gesto de defesa, já que este homem não tinha ameaçado ninguém. Ele disse que não queria usar uma picareta, nada mais. Essa é a razão da nossa epidemia coletiva, Agora, o senhor que julgue.
O médico abaixa a cabeça, fica pensando por mais de um minuto e diz:
— Enfermeiro, escreva: “Em virtude de uma intoxicação alimentar coletiva, o guarda-enfermeiro fulano tomará as providências necessárias para purgar com vinte gramas de sulfato de sódio todos os transportados que se declararam doentes neste dia. Quanto ao prisioneiro X, que ele seja posto sob observação no hospital, para que se verifique se a sua recusa de trabalho foi feita em posse de todas as suas faculdades mentais”.
Ele dá a volta e vai embora.
— Todos para dentro! — grita o segundo-comandante. — Peguem as suas coisas e não esqueçam as facas.
Neste dia, todos ficam na choça. Ninguém pôde sair, nem o portador de pão. Pelo meio-dia, no lugar da sopa, o guarda-enfermeiro, acompanhado por dois forçados-enfermeiros, chegou com um balde de madeira, cheio de purgativo de sulfato de sódio. Três apenas tiveram que engolir o purgante. O quarto caiu em cima do balde, fingindo uma crise de epilepsia perfeitamente imitada, jogando assim o purgante, o balde e a concha para todos os lados. Assim se encerrou o episódio, com o trabalho que teve o chefe da choça para enxugar o líquido derramado no chão.
Passei a tarde conversando com Jean Castelli. Ele veio comer com a gente. Ele vive associado a um sujeito de Toulon, Louis Gravon, condenado por roubo de peles. Quando lhe falei da fuga, seus olhos brilharam. Disse:
— No ano passado, quase fugi, mas a coisa gorou. Tinha certeza de que você não era daqueles que ficam quietos aqui. Só que falar em fuga nas ilhas é o mesmo que falar hebreu. Por outro lado, acho que você não entendeu ainda os forçados das ilhas. Tais como você os está vendo, 90 por cento se acham relativamente felizes. Se o cara mata alguém, nunca tem uma testemunha; se rouba, a mesma coisa. Qualquer coisa que um sujeito faça, todos se solidarizam para defendê-lo. Os forçados das ilhas têm medo de uma única coisa: que uma fuga dê certo. Porque, aí, sua relativa tranqüilidade fica abalada: investigações constantes, nada de baralho, nada de música — os instrumentos são quebrados nas investigações —, nada de jogo de xadrez e de damas, nada de livros, quer dizer, mais nada! Nada de artesanato, também. Tudo, absolutamente tudo é suprimido. Revistam sem parar. Açúcar, óleo, bife, manteiga, tudo isso desaparece. Os que conseguiram fugir das ilhas sempre foram presos no continente, perto de Kourou. Mas, para as ilhas, a fuga deu certo: os sujeitos puderam sair da ilha onde estavam. De modo que vêm sanções contra os guardas, que se vingam em cima de todo mundo.
Estou ouvindo com a máxima atenção. Nem estou acreditando. Nunca eu tinha pensado no assunto por esse lado.
— Conclusão — diz Castelli —, no dia em que você quiser preparar uma fuga, tome todas as precauções. Antes de conversar com qualquer cara, se não for um amigo íntimo, pense dez vezes.
Jean Castelli, assaltante profissional, é de uma vontade e de urna inteligência fora do comum. Ele detesta a violência. A alcunha dele é “O Antigo”. Por exemplo, ele só se lava com sabão e, se eu me lavei com Palmolive, ele me diz:
— Mas que cheiro de viado, seu! Você se lavou com sabão de mulher!
Infelizmente, ele já tem 52 anos, mas dá prazer ver sua energia de ferro. Ele me diz:
— Você, Papillon, parece que é meu filho. A vida das ilhas não lhe interessa. Você come bem porque é necessário se manter em boa forma, mas nunca vai se acostumar a viver nas ilhas. Parabéns. Entre todos os forçados, somos apenas uma meia dúzia os que pensam assim. Há, é verdade, uma quantidade de homens que pagam fortunas para serem desinternados e poder ir para o continente, pensando em fugir. Mas, aqui, ninguém acredita na fuga.
O velho Castelli me dá conselhos: aprender inglês e, sempre que puder, falar castelhano com um cara que fale essa língua. Ele me emprestou um livro para aprender o castelhano em 24 lições. Um dicionário francês-inglês. Ele é amigo de um marselhês, Gardès, que entende de tudo a respeito de fugas. Já fugiu duas vezes. A primeira, de uma prisão especial portuguesa; a segunda, da Terra Grande. Ele tem sua opinião a respeito da fuga das ilhas; Jean Castelli, também. Gravon, o cara de Toulon, vê também as coisas ao modo dele. Nenhuma dessas opiniões estão de acordo. A partir de agora, tomo a decisão de estudar a situação por mim mesmo e de não falar mais em fuga.
É duro, mas é assim. O único ponto sobre o qual eles concordam é que o jogo só interessa para ganhar dinheiro e que ele é muito perigoso. A qualquer momento, a gente pode ter que entrar numa rixa de faca com o primeiro valentão que encontrar na esquina. Os três são homens de ação e são realmente formidáveis, para a idade que têm: Louis Gravon está com 45 anos e Gardès com quase cinqüenta.
Ontem à noite, tive a oportunidade de mostrar a quase toda a nossa sala a minha maneira de ver as coisas e de agir. Um nanico de Toulouse é desafiado à faca por um cara de Nimes. O sujeito pequeno de Toulouse é alcunhado Sardinha e o corpulento de Nimes, Carneiro. Carneiro está no meio da passagem, de faca na mão:
— Ou você me paga 25 francos por partida de pôquer ou você não joga.
Sardinha responde:
— Nunca se pagou a ninguém para jogar pôquer. Por que é que você vem contra mim e não vai contra os controladores de jogo à marselhesa?
— Não tem que saber por quê. Ou você paga, ou você não joga. Ou então briga.
— Não, não vou brigar.
— Está com medo?
— Estou. Por que vou me arriscar a levar uma facada ou até morrer por causa de um valentão da sua espécie, que nunca tentou fugir? Eu sou um homem de fuga, e não estou aqui para matar nem para me deixar matar.
Todos estamos na expectativa do que vai acontecer. Grandet me diz:
— É verdade que é corajoso, o pequeno, e é um homem de fuga. Pena que não se possa dizer nada.
Abro minha faca e boto debaixo da perna. Estou sentado na rede de Grandet.
— Então, medroso, você vai pagar ou parar de jogar? Responda!
Ele dá um passo na direção do Sardinha. Aí eu grito:
— Feche a matraca, Carneiro, e deixe esse sujeito em paz!
— Você está louco, Papillon? — me diz Grandet.
Sem me mexer, sempre sentado com a faca aberta debaixo da perna, a mão no cabo, digo:
— Não, não estou louco e prestem todos atenção ao que eu vou dizer. Carneiro, antes de lutar com você, o que vou fazer se você exigir, mesmo depois de eu ter falado, deixe que eu diga a você e a todos que, desde que eu cheguei a esta choça, onde somos mais de cem, todos da zona, eu me dei conta com vergonha de que a coisa mais bela, mais honrada, a única verdadeira — a fuga — não é respeitada. Qualquer homem que mostrou que é um homem de fuga, que ele tem peito para jogar a sua vida numa fuga, deve ser respeitado por todos acima de qualquer outra coisa. Quem é que diz o contrário? (Silêncio.) Em todas as leis de vocês, falta uma, fundamental: obrigação para todo mundo, não só de respeitar, mas também de ajudar, de amparar os homens de fuga. Ninguém está obrigado a ir embora e aceito que quase todos vocês tenham decidido ajeitar a sua vida aqui. Mas, se vocês não tiverem a coragem de tentar viver novamente, respeitem pelo menos os que o merecem, os homens de fuga. E, aquele que esquecer esta lei de homem, que espere graves conseqüências. Agora, Carneiro, se você ainda quiser brigar, vamos!
E pulo no meio da sala, de faca na mão. Carneiro joga a sua faca para o lado e diz:
— Você está certo, Papillon, por isso não quero brigar de faca com você, mas vamos sair na mão, para você saber que não sou um covarde.
Deixo minha faca com Grandet. Brigamos durante quase vinte minutos. No fim, com uma cabeçada bem acertada, ganho por pouco. Juntos, nas privadas, lavamos o sangue que pinga das nossas caras. Carneiro diz:
— É verdade que o pessoal se embrutece nestas ilhas. Faz quinze anos que estou aqui e não cheguei a gastar 1 000 francos para tentar ser desinternado. É uma vergonha.
Quando volto para junto dos amigos, Grandet e Galgani me xingam.
— É uma loucura provocar e insultar todo o pessoal, como você fez! Não sei por que cargas d’água ninguém pulou na passagem para pegar na faca contra você.
— Não, meus amigos, não é de espantar. Qualquer homem do nosso meio, quando vê que alguém está realmente certo, concorda com ele.
— Bom — diz Galgani. — Mas, sabe, é melhor não brincar demais com este vulcão.
A noite toda, homens vieram falar comigo. Aproximam-se de mim como por acaso, falam de qualquer coisa e antes de se retirar dizem:
— Estou de acordo com o que você disse, Papi.
Este incidente fortaleceu a minha situação junto aos homens.
A partir de então, os meus colegas me consideram provavelmente como um homem do meio deles, mas me vêem como uma pessoa que não se dobra diante das coisas sem analisá-las e discuti-las. Me dou conta de que, quando sou eu o controlador dos jogos, há menos brigas. E percebo que, quando dou uma ordem, obedecem logo.
O controlador do jogo, como já disse, retira 5 por cento em cada lance vitorioso. Fica sentado num banco, encostado na parede, para se proteger contra um assassino sempre possível. Um cobertor nos joelhos esconde uma faca aberta. Em volta dele, em círculo, trinta, quarenta e às vezes até cinqüenta jogadores de todas as regiões da França, muitos estrangeiros, inclusive árabes. O jogo é muito fácil: há o banqueiro e o cortador. Toda vez que o banqueiro perde, ele passa as cartas para o vizinho. Joga-se com 52 cartas. O cortador divide o maço e guarda uma carta escondida. O banqueiro tira uma carta e descobre. Aí fazem as apostas. Joga-se tanto para o corte, como para a banca. Quando as apostas são depositadas em montinhos, começa-se a tirar as cartas uma por uma. A carta que tem o mesmo valor que uma das duas em cima da mesa perde. Por exemplo, o cortador escondeu uma dama e o banqueiro tira um cinco. Se sair uma dama antes de um ‘5, o corte perde. Se for o contrário e sair um 5, é a banca que perde. O controlador do jogo deve conhecer a importância de cada aposta e lembrar-se de quem é cortador ou banqueiro, para saber para quem vai o dinheiro. Nada fácil. £ necessário defender os fracos contra os fortes, que estão sempre tentando abusar do prestígio. Quando o controlador de jogos toma uma decisão a respeito de um caso duvidoso, essa decisão tem que ser aceita sem piscar.
Durante a noite mataram um italiano chamado Carlino. Vivia com um rapaz que lhe servia de mulher. Os dois trabalhavam num jardim. Ele devia saber que sua vida estava em perigo, já que, quando dormia, o rapaz ficava de vigia, e vice-versa. Debaixo da rede, eles tinham colocado latas vazias, para que ninguém pudesse se aproximar deles sem fazer barulho. E assim mesmo foi assassinado. Ao seu grito seguiu-se imediatamente um barulhão horrível de latas vazias chutadas pelo assassino.
Grandet dirigia uma partida de marselhesa, com mais de trinta jogadores em volta dele. Eu estava batendo papo perto do jogo. O grito e o barulho das latas vazias interromperam o jogo. Todos se levantam e perguntam o que foi que aconteceu. O jovem amigo de Carlino não viu nada e Carlino deixou de respirar. O chefe da choça pergunta se deve chamar os guardas. Não. Dá para avisá-los amanhã na chamada; já que está morto, não há mais nada a fazer por ele. Grandet fala:
— Ninguém viu nada. Você também não, menino — diz ao colega de Carlino. — Amanhã, quando acordar, você se dará conta de que ele está morto.
E pronto! Vamos, o jogo continua. Os jogadores, como se nada tivesse acontecido, recomeçam a grita: “Cortador! não, banqueiro!”, etc.
Aguardo com impaciência para saber o que acontece quando os guardas descobrem um assassinato. Às 5 e meia, primeiro toque de sino. Às 6 horas, segundo toque e café. Às 6 e meia, terceiro toque e saímos para a chamada, como todo dia. Mas hoje é diferente. No segundo toque, o chefe da choça diz ao guarda que acompanha o distribuidor de café:
— Chefe, mataram um homem.
— Quem é?
— Carlino.
— Está bem.
Dez minutos mais tarde, chegam seis guardas:
— Onde está o morto?
— Aí.
Eles notam o punhal fincado nas costas de Carlino através da lona. A arma é removida.
— A maca. Podem levar ele.
Dois homens o levam numa maca. O dia desponta. O terceiro sino toca. Sempre com a faca ensangüentada na mão, o guarda-chefe manda:
— Todo mundo fora, em fila, para a chamada. Hoje não aceitamos doentes deitados.
Todo o pessoal sai. Na chamada da manhã, os comandantes e os guardas-chefes estão sempre presentes. Fazem a chamada. Chegando a Carlino, o chefe da choça responde:
— Morto durante a noite, foi levado para o necrotério.
— Está bem — diz o guarda que faz a chamada.
Depois de todo mundo ter respondido presente, o chefe do campo levanta a faca para cima e pergunta:
— Alguém conhece esta faca?
Ninguém responde.
— Alguém viu o assassino?
Silêncio absoluto.
— Então, ninguém sabe de nada, como de costume. Passem na minha frente, com as mãos estendidas, e depois cada um vai para o trabalho. É sempre a mesma coisa, meu comandante, não dá para saber quem fez o negócio.
— Assunto arquivado — diz o comandante. — Guarde a faca, prenda nela uma ficha indicando que foi usada para matar Carlino.
É só. Entro na choça e deito para dormir, pois não preguei o olho a noite toda. Quase adormecendo, penso que um forçado não é grande coisa. Mesmo se foi assassinado covardemente, ninguém quer se chatear para saber. Para a administração um forçado não é absolutamente nada. Menos que um cachorro.
Decidi começar segunda-feira meu trabalho de limpador de latrinas. Às 4 e meia da madrugada, vou sair com um colega para esvaziar as latrinas do bloco A, as nossas. O regulamento exige que, para esvaziá-las, sejam levadas até o mar. Mas, pagando um condutor de búfalos, ele nos espera num lugar do planalto, de onde um estreito canal cimentado desce até o mar. Então, rapidamente, em menos de vinte minutos, a gente esvazia todas as tinas neste canal e, para empurrar a matéria, joga-se 3 000 litros de água do mar, trazidos num enorme barril. O transporte da água custa 20 francos por dia, pagos ao condutor de búfalos, um preto das Antilhas simpático. A descida da matéria é ajudada com uma vassoura muito dura. Por ser meu primeiro dia de trabalho, carregar as tinas com duas barras de madeira me cansou os pulsos. Mas vou me acostumar rapidamente.
Meu novo colega é muito prestativo, mas Galgani me informou que é um homem extremamente perigoso. Teria cometido, parece, sete assassinatos nas ilhas. A viração dele é vender merda. De fato, cada jardineiro tem que fazer seu estrume. Para isso, ele cava uma fossa, bota dentro folhas secas e capim e o meu amigo das Antilhas leva clandestinamente uma ou duas tinas ao jardim indicado. Claro que isso não pode ser feito por uma pessoa só, e tenho que ajudá-lo. Mas sei que é uma falta grave, pois pode haver contaminação das verduras e difundir a disenteria tanto entre os guardas como entre os presos. Resolvo que um dia, quando conhecê-lo melhor, vou impedi-lo de fazer isso. Evidentemente, vou pagar-lhe o que ele perder por interromper seu comércio. Além disso, ele trabalha chifres de boi. No que diz respeito à pesca, ele me diz que não pode fazer nada, mas que, no cais, Chapar ou algum outro podem me ajudar.
Pronto, virei limpador de latrinas. Acabado o serviço, tomo um bom banho, boto um calção e vou todo dia pescar em liberdade onde bem entendo. Só tenho uma obrigação: estar ao meio-dia no campo. Graças a Chapar, não me faltam nem varas nem iscas. Quando volto com peixes enfiados pelas brânquias num arame, é raro que, das casinhas, as esposas dos guardas não me chamem. Todas sabem o meu nome:
— Papillon, me vende 2 quilos.
— Está doente?
— Não.
— Está com uma criança doente?
— Não.
— Então não vendo meu peixe.
Consigo pegar grandes quantidades de peixe que dou aos amigos do campo. Troco por pão de metro, verduras ou frutas. Meus amigos comem peixe pelo menos uma vez por dia. Um dia; estou de volta com uma dúzia de grandes lagostas e 7 ou 8 quilos de peixe, passo em frente da casa do comandante Barrot. Uma mulher bastante gorda me diz:
— Você teve sorte na pesca, Papillon. O mar está ruim e ninguém consegue pegar nada. Já faz quinze dias que não como peixe. É pena que você não venda. Meu marido me disse que você se recusa a vender às esposas dos guardas.
— É verdade, senhora. Mas com a senhora pode ser diferente.
— Por quê?
— Porque está gorda e é possível que carne seja ruim para a senhora.
— É verdade, me disseram que só devia comer verduras e peixe cozido. Mas aqui não é possível.
— Pronto, senhora, tome estas lagostas e estes peixes.
E dou para ela mais ou menos 2 quilos de peixe.
A partir desse dia, toda vez que fazia uma pesca grossa, dava para ela o necessário para fazer um bom regime. Ela, que sabe que tudo se vende nas ilhas, nunca me disse nada a não ser “obrigada”. Teve razão, pois adivinhou que, se me oferecesse dinheiro, eu levaria a mal. Mas freqüentemente ela me convida para entrar na casa dela. Oferece-me um licor ou um copo de vinho branco. Quando recebe “figatelli” da Córsega, ela me dá. Nunca a senhora Barrot fez perguntas sobre o meu passado. Apenas uma frase, um dia, lhe escapou, a respeito dos trabalhos forçados:
— É verdade que não dá para fugir das ilhas, mas é melhor estar aqui, num clima sadio, do que apodrecer como um bicho na prisão da Terra Grande.
Foi ela quem me explicou a origem do nome das ilhas: numa epidemia de febre amarela em Caiena, alguns padres e as freiras de um convento se refugiaram nas ilhas e todos se salvaram. Daí veio o nome de Ilhas da Salvação.
Graças à pesca, vou para qualquer lugar. Já faz três meses que sou limpador de latrinas è conheço a ilha melhor do que ninguém. Vou observar os jardins, a pretexto de oferecer meu peixe em troca de verduras e frutas. O jardineiro de um jardim localizado perto do cemitério dos guardas é Matthieu Carbonieri, que faz parte da minha patota. Ele trabalha sozinho e pensei que, mais tarde, a gente poderia enterrar ou preparar uma jangada no jardim dele. Mais dois meses e o comandante irá embora. Aí vou poder agir livremente.
Estou organizado: limpador titular das latrinas, saio como se fosse Para fazer a limpeza, mas quem faz no meu lugar é o cara das Antilhas, mediante dinheiro, é claro. Travei relações de amizade com dois cunhados condenados à prisão perpétua, Narric e Quenier. São chamados “os cunhados do carrinho”. Contam que foram acusados de ter transformado em bloco de cimento um cobrador que tinham assassinado. Testemunhas teriam visto eles transportarem num carrinho de mão um bloco de cimento que teriam jogado no Marne ou no Sena. O inquérito estabeleceu que o cobrador foi até a casa deles para receber uma duplicata e, depois, ninguém mais o viu. Eles negaram a vida toda. Até na prisão, eles se diziam inocentes. Embora o corpo nunca tenha sido encontrado, foi achada a cabeça embrulhada num lenço. E na casa deles havia lenços do mesmo tecido e da mesma linha, “conforme os peritos”. Mas os advogados e eles mesmos provaram que foram feitos lenços com milhares de metros dessa fazenda. Todo mundo tinha lenços iguais àquele. Finalmente, os dois cunhados pegaram a prisão perpétua e a mulher de um dos dois, irmã do outro, pegou vinte anos de reclusão.
Consegui travar relações com eles. Já que são pedreiros, eles têm entrada e saída livres na oficina de trabalho. Eles poderiam talvez, peça por peça, tirar o necessário para fazer uma jangada. Agora tenho que convencê-los.
Ontem me encontrei com o médico. Levava um peixe de pelo menos 20 quilos, de carne delicada, chamado cherna. Ele e eu caminhamos na direção do planalto. Na metade do caminho, sentamos num murinho. Ele me diz que com a cabeça desse peixe se faz uma sopa deliciosa. Ofereço-lhe a cabeça, com um grande pedaço de carne. Fica espantado com meu gesto e diz:
— Você não guarda ressentimento, Papillon.
— Quer dizer, doutor, este gesto meu, confesso que não o faço por mim. Sou grato ao senhor porque fez o possível para o meu amigo Clousiot.
A gente conversa um pouco e ele me diz:
— Bem que você gostaria de fugir, não é? Você não é um forçado. Parece que você é outra coisa.
— O senhor tem razão, doutor, não pertenço aos trabalhos forçados, estou aqui apenas de passagem.
Começa a rir. Aí ataco:
— Doutor, o senhor acredita que um homem possa se regenerar?
— Acredito.
— O senhor admitiria a idéia de que eu possa viver na sociedade, sem ser um perigo para ela, e me transformar em cidadão honesto?
— Acredito sinceramente que sim.
— Então, por que o senhor não me ajudaria para chegar a isso?
— Como?
— Fazendo com que eu seja mandado ao continente como tuberculoso.
Ele confirma, então, alguma coisa de que eu já tinha ouvido falar:
— Não é possível e lhe aconselho a nunca fazer isso. É perigoso demais. A administração só desinterna um homem por doença depois de ele ter ficado pelo menos um ano no pavilhão correspondente à doença.
— Por quê?
— É um pouco vergonhoso dizer isso, mas penso que é para que o sujeito em questão, se for um simulador, saiba que ele tem toda a probabilidade de ser contaminado pela coabitação com os outros doentes e que ele adoeça mesmo. Portanto, nada posso fazer por você.
Desse dia em diante, ficamos bastante camaradas, o curandeiro e eu. Até o dia em que o meu amigo Carbonieri quase foi morto por causa dele. De fato, Matthieu Carbonieri, de comum acordo comigo, tinha aceito ser cozinheiro dos guardas-chefes. Era para ver se dava para roubar três barris de vinho, óleo ou vinagre e achar um meio de amarrá-los e sair para o mar. Isso, claro, depois da saída de Barrot. As dificuldades eram muitas, pois era necessário, na mesma noite, roubar os barris, transportá-los até o mar sem que ninguém nos visse nem ouvisse, e juntá-los com cabos. O que só seria possível numa noite de tempestade, com vento e chuva. Mas, com vento e chuva, o mais difícil seria botar essa jangada no mar, que forçosamente estaria muito agitado.
Carbonieri é agora cozinheiro. O chefe do refeitório dos guardas lhe dá três coelhos para preparar para o dia seguinte, um domingo. Carbonieri manda, sem a pele felizmente, um coelho para o irmão, no cais, e dois para a gente. E então ele mata três grandes gatos e faz um guisado fantástico.
Infelizmente para ele, no dia seguinte, o médico é convidado para comer e, saboreando o coelho, diz:
— Senhor Filidori, dou-lhe os parabéns pelo cardápio, este gato é uma delícia.
— Não brinque comigo, doutor, estamos comendo três ótimos coelhos.
— Não — diz o médico, teimoso como uma mula. — São gatos. Está vendo as costelas que estou comendo? Elas são achatadas e as dos coelhos são redondas. Portanto, não há erro possível: estamos comendo gato.
— Virgem, mãe de Cristo! — diz o corso. — Estou com um gato na barriga.
E saí correndo para a cozinha, bota o revólver na cara de Matthieu e diz:
— Por mais que você seja napoleonista como eu, eu vou te matar porque você me fez comer um gato.
Tinha o olhar de um louco e Carbonieri, sem saber como a coisa viera à tona, responde:
— Se o senhor acha que aquilo que me deu é gato, não é culpa minha.
— Eu lhe dei coelhos.
— Então foram coelhos que eu cozinhei. Olhe, as peles e as cabeças ainda estão aqui.
Perplexo, o guarda olha para as peles e as cabeças dos coelhos.
— Então o médico não sabe o que diz?
— É o médico que está dizendo isso? — pergunta Carbonieri, aliviado. — Ele está brincando com o senhor. Diga que isso não é brincadeira que se faça.
Acalmado, convencido, Filidori volta para a sala de jantar e diz ao médico:
— Pode falar, pode falar quanto quiser, curandeiro. É o vinho que lhe subiu à cabeça. Achatadas ou redondas as suas costelas, eu sei que foi coelho que eu comi. Acabo de ver os três ternos deles e as três cabeças.
Matthieu tinha escapado por pouco. Mas ele achou melhor se demitir do cargo de cozinheiro alguns dias mais tarde.
Aproxima-se o dia em que vou poder agir. Mais algumas semanas e Barrot irá embora. Ontem fui visitar sua gorda esposa, que, diga-se de passagem, emagreceu muito graças ao regime de peixe cozido e verduras frescas. Essa mulher simpática me convida para entrar na casa dela e me oferece uma garrafa de vermute. Na sala há várias malas que estão arrumando. Estão preparando a viagem. A comandanta, como todo mundo a chama, me diz:
— Papillon, não sei como agradecer a sua gentileza comigo nesses últimos meses. Eu sei que, em alguns dias de pesca fraca, você me deu tudo o que conseguiu pescar. Agradeço muito. Graças a você, estou me sentindo muito melhor, emagreci 14 quilos. O que poderia fazer para retribuir?
— Uma coisa difícil para a senhora. Me conseguir uma boa bússola. Pequena, mas de precisão.
— O que você está pedindo Papillon, não é muita coisa e, ao mesmo tempo, é. E, em três semanas, isso vai ser muito difícil.
Oito dias antes da partida, esta nobre mulher, aborrecida por não ter conseguido uma boa bússola, teve a gentileza de tomar um barco costeiro e ir até Caiena. Quatro dias depois, ela voltava com uma magnífica bússola antimagnética.
O comandante e a comandanta Barrot saíram hoje pela manhã. Ontem, ele entregou o comando a um oficial da mesma patente dele, da Tunísia, chamado Prouillet. Boa notícia: o novo comandante manteve Dega no seu cargo de contador geral. É muito importante para todo mundo, principalmente para mim. No discurso que fez para os forçados reunidos em formação no pátio grande, o novo comandante deu a impressão de ser um homem muito enérgico, mas inteligente. Entre outras coisas, ele disse:
— A partir de hoje, assumo o comando das Ilhas da Salvação. Depois de ter verificado que os métodos do meu predecessor tiveram resultados positivos, não vejo motivos para alterar o que existe. Se, pelo seu comportamento, vocês não me obrigarem a isso, não vejo razão para modificar o seu modo de viver.
Foi com uma alegria bem justificada que vi partirem a comandanta e seu marido, embora estes cinco meses de espera forçada tenham passado com uma rapidez incrível. Esta falsa liberdade de que gozam quase todos os forçados das ilhas, os jogos, a pesca, as conversas, as novas relações, as discussões, as brigas são derivativos poderosos e a gente não tem tempo para se aborrecer.
Mas não me deixei realmente envolver por este ambiente. Toda vez que adquiria um novo amigo, eu me fazia a seguinte pergunta: “É candidato à fuga? Poderia ajudar um outro a preparar uma evasão, se ele mesmo não quiser partir?”
Vivo só para isto: fugir, fugir, sozinho ou acompanhado, mas fugir. É uma idéia fixa, da qual não falo com ninguém, conforme o conselho de Jean Castelli, que sigo à risca, E, sem fraquejar, cumprirei o meu ideal: fugir.
AS ILHAS DA SALVAÇÃO (continuação)
UMA JANGADA DENTRO DE UM TÚMULO
Com cinco meses, já cheguei a conhecer mesmo os menores recantos da ilha. E agora estou convencido de que o jardim junto ao cemitério onde trabalhava meu amigo Carbonieri — agora, ele não está mais lá — é o ponto mais seguro para preparar uma jangada. Então peço a Carbonieri que volte ao trabalho do jardim, sem ajudante. Ele concorda. Graças a Dega, confiam-lhe outra vez o jardim.
Hoje de manhã, quando passo em frente à casa do novo comandante, com uma enfiada de pescados num arame, ouço um jovem forçado, moço de serviços, dizer à mulher dele, ainda moça:
— É este aqui, senhora comandanta, que trazia peixe todo dia Para a Sra. Barrot.
E ouço a bonita morena, de tipo argelino, pele bronzeada, responder:
— Então, o Papillon é ele? Ela se vira para mim e diz:
— Comi as lagostas deliciosas que você pescou, foi a Sra. Barrot que me deu. Entre aqui em casa. Aceite um copo de vinho e um pouco de queijo de cabra, que eu recebi há pouco tempo da França.
— Não, obrigado, minha senhora.
— Por quê? Quando era a Sra. Barrot, você entrava; por que, agora que sou eu, você não quer entrar?
— É que o marido dela tinha dado autorização para eu entrar.
— Papillon, meu marido é comandante no campo, na casa quem manda sou eu. Pode entrar sem medo.
Percebo que aquela morena bonita, tão decidida, pode ser ou útil ou perigosa. Entro.
Na mesa da sala de jantar, ela me serve um prato de presunto defumado com queijo. Sem fazer cerimônia, ela se senta à minha frente, me oferece vinho, depois café e um delicioso rum da Jamaica.
— Papillon — me diz ela —, apesar dos rebuliços da mudança dela e da nossa chegada, a Sra. Barrot teve tempo de me falar de você. Sei que ela era a única mulher das ilhas que ganhava peixe de você. Espero que você me faça a mesma gentileza.
— É que ela estava doente, mas a senhora está com boa saúde, pelo que vejo.
— Não sei mentir, Papillon. É verdade, tenho boa saúde, mas vim de uma cidade de porto e adoro peixe. Eu sou de Oran. Mas fico sem jeito porque sei também que você não vende seu peixe. E isso é pena.
Em suma, ficou entendido que eu traria peixe para ela.
Eu estava fumando um cigarro, depois de dar a ela 3 bons quilos de salmonetes e seis lagostins, quando chega o comandante. Ele me vê e diz:
— Já disse, Juliette, que, fora o moço de serviços, nenhum preso pode entrar aqui em casa.
Levanto, mas ela diz:
— Fique sentado. Este preso é o homem que a Sra. Barrot me recomendou quando foi embora. Portanto, você não tem nada a objetar. Ninguém mais além dele vai entrar aqui. Por outro lado, ele vai me trazer peixe quando eu precisar.
— Está bem — diz o comandante. — Como é que você se chama?
Vou me levantando para falar com ele, mas Juliette põe a mão no meu ombro e me faz sentar outra vez:
— Aqui — diz ela — é a minha casa. O comandante não é mais o comandante, é meu marido, o Sr. Prouillet.
— Obrigado, minha senhora. Meu nome é Papillon.
— Ah! Ouvi falar de você e de sua fuga há mais de três anos do hospital de Saint-Laurent-du-Maroni. Aliás, um dos vigias que você atacou naquela fuga é simplesmente sobrinho meu e da sua protetora.
Diante disso, Juliette começa a rir, um riso jovem cheio de frescor, e diz:
— Então foi você que atacou Gaston? Isso não altera nada nas nossas relações.
O comandante, que continuava em pé, me diz:
— É incrível a quantidade de morte e de assassinatos que se cometem todos os anos nas ilhas. Em muito maior número do que na Terra Grande. A que você atribui isso, Papillon?
— Aqui, senhor comandante, como os homens não podem fugir, vivem cheios de raiva. Vivem uns por cima dos outros há longos anos e é claro que se formam ódios e amizades indestrutíveis. Além disso, só menos de 5 por cento dos assassinatos é que são esclarecidos, o que deixa os assassinos quase certos da impunidade.
— Sua explicação é lógica. Há quanto tempo você pesca, e que trabalho você faz para ter esse direito?
— Sou limpador de latrinas. Às 6 da manhã, já acabei o serviço e posso pescar.
— O resto do dia inteiro? — pergunta Juliette.
— Não, ao meio-dia tenho que estar de volta ao campo e só posso sair outra vez das 3 às 6. Isso é chato, porque, conforme as horas da maré, às vezes eu perco a pesca.
— Você vai dar a ele uma autorização especial, não é, querido? — diz Juliette, virando-se para o marido. — Das 6 da manhã às 6 da tarde, assim ele poderá pescar à vontade.
— Está certo — responde ele.
Vou embora, contente comigo mesmo por ele ter concordado, pois essas três horas, do meio-dia às 3, são preciosas. É a hora da sesta e quase todos os vigilantes dormem nessas horas, a vigilância é afrouxada.
Juliette tomou conta de nós, de mim e da minha pesca. Ela chega ao ponto de mandar o moço de serviços ver onde eu estou pescando, para vir buscar os peixes. Muitas vezes, ele chega me dizendo: “A comandanta mandou buscar tudo o que você pescou, porque ela tem convidados para as refeições e quer fazer um cozido de peixes”. Enfim, ela toma conta de minha pesca e até chega a me pedir que pesque este ou aquele peixe ou que mergulhe para pegar lagostins. Isso atrapalha muito o menu da cozinha dos amigos, mas em compensação sou protegido como nenhum outro. Ela também me faz gentilezas: “Papillon, a maré é à 1 hora?” “É sim, senhora.” “Venha comer em casa, assim você não tem que ir até o campo.” E eu como na casa dela, nunca na cozinha, sempre na sala de jantar. Sentada à minha frente, ela me serve a comida e a bebida. Não é tão discreta como a Sra. Barrot. Muitas vezes, ela me faz perguntas sutis sobre o meu passado. Desvio sempre a conversa do assunto que a interessa mais, que é a minha vida em Montmartre, e conto minha juventude e minha infância. Nessa hora, o comandante dorme em seu quarto.
Uma manhã, depois de ter feito uma boa pesca, bem cedo, e de ter apanhado uns sessenta lagostins, passo pela casa dela às 10 horas. Encontro-a sentada, com um roupão branco, e uma outra moça enrolando o cabelo dela. Cumprimento-a e ofereço-lhe uma dúzia de lagostins.
— Não — diz ela —, me dê todos. Quantos você tem?
— Sessenta.
— Ótimo, ponha-os ali, por favor. Quantos peixes você precisa guardar para você e os seus amigos?
— Oito.
— Então pegue os seus oito e dê o resto ao rapaz, que ele vai colocá-los em lugar fresco.
Fico sem saber o que dizer. O jeito como ela me tratou foi de uma intimidade que nunca tivera antes, e ainda por cima na frente de outra mulher, que sem dúvida irá correndo comentar isso por aí. Viro-me para ir embora, sentindo um forte encabulamento, mas ela diz:
— Fique aqui à vontade, sente-se e tome um pouco de licor. Você deve estar com calor.
Essa mulher autoritária me deixa tão sem jeito, que sento e fico. Saboreio devagar o licor, fumando um cigarro e observando a outra jovem que penteia a comandanta e que de vez em quando dá uma olhada para mim. A comandanta, que está com um espelho na mão, percebe isso e diz à outra:
— É bonitão, este meu xodó, hem, Simone? Vocês estão todas com ciúmes de mim, é ou não é?
E ambas começam a rir. Eu fico que não sei onde me esconder. Como um bobo, digo:
— Felizmente o seu xodó, como a senhora diz, não tem nada de perigoso e, na situação em que está, não pode ter xodó por ninguém.
— Não venha me dizer que você não tem um xodó por mim — diz a argelina. — Ninguém conseguiu domar um leão como você, mas eu faço o que quero com você. Não pode ser sem motivo, hem, Simone?
— Eu não sei qual o motivo — diz Simone —, mas o que sei é que você, Papillon, é um bicho do mato com todo o mundo, menos com a comandanta. Tanto assim, que na semana passada você estava carregando mais de 15 quilos de peixe, como me contou a mulher do guarda-chefe, e se negou a vender a ela dois peixinhos de nada, que ela estava com uma vontade louca de comprar porque não havia carne no açougue.
— Ah, essa que você está me contando é a maior, Simone!
— E você sabe o que ele disse à Sra. Kargueret outro dia? — continua Simone. — Ela vê ele passar com uns lagostins e uma moréia grande: “Me venda essa moréia, ou a metade dela, Papillon. Você sabe que nós da Bretanha sabemos fazer um prato muito gostoso com esse peixe”. E ele: “Não é só na Bretanha que se aprecia a moréia, minha senhora. Muita gente, inclusive o pessoal de Ardèche, sabe muito bem, desde o tempo dos romanos, que a moréia é uma iguaria fina”. E continuou andando sem lhe vender nada.
Elas se torcem de rir.
Volto para o campo furioso e à noite, na choça, conto a história toda.
— Muito cuidado — diz Carbonieri. — Essa dona põe você em perigo. Vá lá o menos possível e só quando tiver certeza de que o comandante está em casa.
Todo mundo é da mesma opinião. Resolvo fazer isso mesmo.
Descobri um marceneiro de Valence. Praticamente conterrâneo meu. Ele matou um guarda-florestal. É jogador apaixonado, sempre endividado: passa o dia fabricando peças de artesanato e a noite perdendo o que ganhou. Muitas vezes, ele fica de fornecer um objeto que ainda vai fazer para compensar o que pede emprestado e perde. Então, abusam dele, e por uma caixinha de pau-rosa de 300 francos pagam-lhe 150 ou 200 francos. Resolvi falar com ele.
Um dia, na lavanderia, eu digo a ele:
— Quero falar com você hoje à noite, espero nas privadas. Faço um sinal.
À noite nos encontramos a sós, para falar sossegados. Digo a ele;
— Bourset, somos conterrâneos, sabe?
— Essa não! Como assim?
— Você não é de Valence?
— Sou.
— E eu sou de Ardèche, por isso somos conterrâneos.
— Bem, e daí?
— Daí que eu não quero que o explorem quando você fica devendo dinheiro e eles querem te pagar a metade do valor de um objeto que você fez. Traga o objeto para mim, eu consigo o preço justo. Só isso.
— Obrigado — diz Bourset.
A toda hora entro em cena para ajudá-lo. Ele tem sempre problemas com seus credores. Consigo arranjar sempre tudo bem, até o dia em que ele tem uma dívida com Vicioli, bandoleiro da Córsega, que é um dos companheiros com quem me entendo bem. Fico sabendo do caso através de Bourset, que vem me contar que Vicioli lhe faz ameaças se ele não pagar os 700 francos que deve, que no momento está fabricando uma pequena escrivaninha quase acabada, mas não sabe quando poderá acabá-la porque é um trabalho escondido. Realmente, não se tem autorização para fazer móveis muito grandes por causa da quantidade de madeira de que necessitam. Respondo a Bourset que vou pensar no caso. E, em combinação com Vicioli, armamos uma história.
Caberá a Vicioli fazer pressão sobre Bourset e mesmo ameaçá-lo do pior. Aí caberá a mim entrar em cena e salvar Bourset. E assim fazemos. Desde esse caso — que, para Bourset, fui eu que resolvi —, Bourset só acredita em mim e me devota uma confiança absoluta. Pela primeira vez na sua vida de forçado, ele pode dormir descansado. Então, resolvo arriscar algo com ele.
Uma noite, digo a ele:
— Dou 2 000 francos se você fizer o que eu lhe pedir: uma jangada para dois homens, feita em peças desmontadas.
— Escute, Papillon, eu não faria isso para ninguém, mas por você me disponho a arriscar dois anos de reclusão, se me pegarem. Só tem uma coisa: não posso tirar peças de madeira tão grandes da marcenaria.
— Já tenho quem vai se encarregar disso.
— Quem?
— Os caras do carrinho, Naric e Quenier. Qual é o teu plano de trabalho?
— Primeiro é preciso fazer um desenho com escala, depois as peças uma por uma, com chanfraduras para que tudo se encaixe perfeitamente. O difícil é achar madeira que flutue bem, porque nestas ilhas tudo é madeira dura, que não flutua.
— Quando é que você me dá uma resposta?
— Daqui a três dias.
— Você quer ir embora comigo?
— Não.
— Por quê?
— Tenho medo dos tubarões e de me afogar.
— Você me promete fazer tudo o que puder para me ajudar?
— Juro que sim, pela vida dos meus filhos. Só tem uma coisa, é que vai demorar um bocado.
— Escute bem: desde já, eu vou lhe preparar uma defesa para caso de imprevisto. Vou copiar o desenho da jangada eu mesmo numa folha de caderno. Embaixo eu escrevo: “Bourset, se você não quiser ser assassinado, fabrique uma jangada igual à do desenho acima”. Mais tarde, eu vou lhe dar por escrito as ordens para a execução de cada peça. Cada peça que terminar, você deposita no local que eu vou lhe dizer. A peça será levada embora. Não procure saber por quem, nem quando (com isso, Bourset parece aliviado). Assim eu evito que você seja torturado, se pegarem, e você só arrisca um mínimo de uns seis meses.
— E se for você que eles pegarem?
— Então será o contrário. Eu confesso que sou o autor dos bilhetes. Você, é claro, guarde bem as ordens escritas. Está prometido?
— Está.
— Você não está com medo?
— Não, não me assusto mais, e fico contente de ajudar você. Eu ainda não disse nada a ninguém. Primeiro espero a resposta de
Bourset. E é só uma longa e interminável semana mais tarde que consigo falar com ele a sós, na biblioteca. Não há mais ninguém. É um domingo de manhã. Na lavanderia, no pátio, o jogo está no auge. Uns oitenta jogadores e outro tanto de curiosos.
Imediatamente ele me enche o coração de sol:
— O mais difícil era ter certeza de conseguir madeira leve e seca em quantidade suficiente. Resolvi o problema bolando uma espécie de armação de madeira que será forrada de cocos secos, sem tirar a casca de fibra, é claro. Não há nada mais leve que essa fibra e a água não consegue penetrar nela. Quando a jangada estiver pronta, fica a seu cargo conseguir um número suficiente de cocos para pôr dentro. Então, amanhã faço a primeira peça. Vai me levar uns três dias. A partir de quinta-feira, ela pode ser retirada por um dos cunhados, logo na primeira calmaria. Eu nunca começarei uma nova peça antes que a anterior tenha sido retirada da oficina. Está aqui o desenho que eu fiz, copie e me escreva a carta que você prometeu. Você já falou com os caras do carrinho?
— Não, ainda não, eu estava esperando a sua resposta.
— Pronto, a minha resposta é sim.
— Obrigado, Bourset, não sei como lhe agradecer. Olhe, tome 500 francos.
Aí, então, me olhando bem nos olhos, ele me diz:
— Não, guarde o seu dinheiro. Se você chegar à Terra Grande, vai precisar dele para depois você dar o fora de lá também. A partir de hoje, eu não vou mais jogar até que você tenha ido embora. Com alguns trabalhos, sempre dá para eu pagar os cigarros e o de comer.
— Por, que você não aceita?
— Porque eu não faria isso nem por 10 000 francos. Estou arriscando alto, mesmo com as precauções tomadas. Só que, de graça, se faz. Você me ajudou, você é o único que me estendeu a mão. Mesmo se me dá medo, fico contente de ajudar você a voltar a ser livre.
Vou fazendo a cópia do desenho numa folha de caderno e sinto vergonha diante de tanta nobreza ingênua. Nem passou pela cabeça dele que minhas ações a favor dele eram interesseiras e com segunda intenção. Sou obrigado a dizer a mim mesmo, para subir no meu Próprio conceito, que preciso fugir a qualquer preço, e mesmo, se for o caso, ao preço de situações difíceis e nem sempre bonitas. Durante a noite, falo com Naric, apelidado de “Boa-Praça”, o qual, mais tarde, ficou de pôr o seu cunhado a par da história. Ele me diz sem hesitar:
— Pode contar comigo para retirar as peças da oficina. Só que a gente não pode se apressar, porque só dá para retirar quando se sai com uma quantidade grande de material para fazer um trabalho de marcenaria na ilha. Em todo caso, prometo que não vamos perder nenhuma oportunidade.
Certo. Falta falar com Matthieu Carbonieri, porque é com ele que eu quero cair fora daqui. Ele concorda cem por cento.
— Matthieu, já encontrei o homem que vai me fabricar a jangada, já encontrei o homem que vai retirar as peças da oficina. A seu cargo fica descobrir no seu jardim o local para enterrar a jangada.
— Não, é perigoso num canteiro de legumes, porque de noite alguns guardas vão roubar legumes e, se passam por cima e sentem que está oco por baixo, acabamos apanhados como fujões. Vou fazer um esconderijo numa parede de sustentação, retirando uma pedra grande e fazendo uma espécie de pequena gruta. Assim, cada vez que me chega uma peça, é só eu levantar a pedra e recolocá-la depois de esconder a madeira.
— É para levar as peças diretamente para o seu jardim?
— Não, seria perigoso demais. Os caras do carrinho não têm nada de justificável a fazer no meu jardim, o melhor é combinarmos que de cada vez eles a depositem em um lugar diferente, não muito longe do meu jardim.
— Entendido.
Tudo parece estar acertado. Só faltam os cocos. Vou ver como é que poderei, sem chamar atenção, preparar uma quantidade suficiente.
A essa altura, sinto-me renascer. Só me falta falar com Galgani e com Grandet. Não tenho o direito de me calar, porque eles podem ser acusados de cumplicidade. Normalmente, eu deveria me separar deles oficialmente para viver sozinho. Quando digo a eles que vou preparar uma fuga e que devo me separar deles, eles me xingam e recusam categoricamente:
— Prepare a sua fuga o quanto antes. Quanto a nós, a gente se arranja por aqui mesmo. Até lá, fique com a gente, não será a primeira vez.
Já faz um mês que a fuga está se armando. Já recebi sete peças, das quais duas grandes. Fui ver a parede de sustentação onde Matthieu cavou o esconderijo. Não se vê que a pedra foi mexida, porque ele toma o cuidado de pregar musgo em volta. O esconderijo é perfeito, mas a cavidade me parece muito pequena para abrigar tudo. Enfim, por enquanto tem lugar.
O fato de estar armando uma fuga me dá um moral formidável.
Como mais do que nunca, e a pesca me mantém em forma física perfeita. Além disso, todas as manhãs pratico mais de duas horas de cultura física nos rochedos. Faço funcionarem sobretudo as pernas, porque a pesca já me faz funcionarem os braços. Descobri um troço bom para as pernas: avanço até mais longe do que faço para pescar e as ondas vêm bater contra as minhas coxas. Para agüentá-las e manter o equilíbrio, contraio os músculos. O resultado é excelente.
Juliette, a comandanta, continua sempre muito amável comigo, mas percebeu que só entro na casa dela quando o marido está. Ela me disse isso francamente e, para me deixar mais à vontade, me explicou que no dia do penteado ela estava brincando. Mas a moça que lhe serve de cabeleireira fica me espiando muitas vezes quando volto da pesca, sempre com umas palavras gentis sobre a minha saúde e o meu moral. Portanto, vai tudo às mil maravilhas. Bourset não perde ocasião de me fazer uma peça. Já há dois meses e meio que começamos.
O esconderijo está repleto, conforme; eu havia previsto. Só faltam duas peças, as mais compridas: uma de 2 metros, outra de 1 metro e meio. Essas peças não vão caber na cavidade.
Olhando para os lados do cemitério, avisto um túmulo recente, é o túmulo da mulher de um vigia, que morreu na semana passada. Um maço vagabundo de flores murchas está em cima. O guarda do cemitério é um velho forçado meio cego que chamam de Papá. file passa o dia inteiro sentado à sombra de um coqueiro no canto oposto do cemitério e, de onde está, não dá para ele ver o túmulo nem para ver se alguém chega perto. Então, reflito sobre a idéia de me servir desse túmulo para montar a jangada e meter dentro da armação feita pelo marceneiro o maior número possível de cocos. Mais ou menos uns trinta a 34 cocos, muito menos do que se pensava. Espalhei mais de cinqüenta em diferentes lugares. Só no quintal de Juliette tem uma dúzia. O moço de serviços vai pensar que eu os armazenei assim para um dia fazer óleo de coco.
Quando fico sabendo que o marido da morta foi embora para a Terra Grande, resolvo esvaziar uma parte da terra do túmulo, até a altura do caixão.
Matthieu Carbonieri, sentado em cima de uma parede; fica de sentinela. Na cabeça pôs um lenço branco com quatro nós nos cantos. Junto dele está um lenço vermelho, também com quatro nós. Enquanto não houver perigo, ele fica com o branco. Se aparecer alguém, quem quer que seja, ele põe o vermelho.
Esse trabalho muito arriscado não me leva mais do que uma tarde e uma noite. Não tenho que tirar terra até o caixão, porque fui obrigado a alargar o buraco para que ele tenha a largura da jangada: 1 metro e 20 mais uma folga. As horas me pareciam intermináveis e o gorro vermelho apareceu várias vezes. Afinal, hoje de manhã acabei. O buraco está coberto de folhas de coqueiro trançadas, que formam uma espécie de assoalho bem resistente. Por cima, uma pequena camada de terra. Quase não se vê. Meus nervos estão a ponto de estourar.
Já faz três meses que está em andamento esta preparação de fuga. Amarrados e numerados, tiramos os paus do esconderijo. Repousam sobre o caixão da dona, bem escondidos debaixo da terra que recobre as esteiras. Na cavidade da parede pusemos três sacos de farinha e uma corda de 2 metros para a vela, um garrafão cheio de fósforos e de coisas para riscá-los, uma dúzia de latas de leite, e é só.
Bourset está cada vez mais excitado. Até parece que é ele que vai embora e não eu. Naric está arrependido de não ter dito que ia também, no começo. Era só planejar uma jangada para três, em vez de dois.
Estamos na temporada das chuvas, chove todo dia, o que favorece as minhas idas ao túmulo onde eu quase já acabei de montar a jangada. Faltam as duas peças laterais do esqueleto. Aos poucos fui trazendo os cocos para mais perto do jardim do meu amigo. Podem ser apanhados facilmente e sem perigo no viveiro descoberto dos búfalos. Nunca meus amigos me perguntam em que ponto está o negócio. Apenas de vez em quando me dizem: “Tudo bem?” — “Sim, tudo bem.” — “Demora, não?” — “Não dá para andar mais depressa sem arriscar demais.” Só isso. Eu estava levando os cocos depositados na casa de Juliette, ela viu e me deu um medo enorme.
— Então, Papillon, vai sair esse óleo de coco? Por que você não faz aqui no quintal? Você tem um martelo para abrir os cocos e eu emprestaria um caldeirão para você pôr a polpa.
— Prefiro fazer o óleo no campo.
— Esquisito, no campo deve ser mais complicado.
Depois pensa um instante e acrescenta:
— Quer saber de uma coisa? Não acredito que você, logo você, vá fazer óleo de coco.
Fico gelado. Ela continua:
— Em primeiro lugar, por que você iria fazer isso, se eu posso lhe dar quanto óleo de oliva você quiser? Esses cocos são para outra coisa, não é?
Fico suando em bagas, desde que ela começou a falar, e só espero que pronuncie a palavra “fuga”. Fico sem fôlego; Digo a ela:
— Comandanta, é um segredo, mas vejo que a senhora está tão interessada e curiosa, que vai acabar descobrindo a surpresa que eu queria lhe fazer. Mas só vou lhe dizer que eu escolhi esses grandes cocos para esvaziar a polpa deles e depois fabricar um objeto muito bonito para lhe presentear. Eis a verdade.
Consegui despistá-la, pois ela responde:
— Papillon, não quero lhe dar trabalho, e principalmente eu proíbo você de gastar dinheiro para me fazer qualquer coisa de especial. Agradeço sinceramente, mas não o faça, eu lhe peço.
— Bem, vou ver.
Ufa! E imediatamente peço a ela para tomar um licor, iniciativa que nunca tomo. Ela não percebe minha atrapalhação, felizmente. Deus está do meu lado.
Todo dia chove, sobretudo de tarde e de noite. Fico com medo de que a água se infiltre na fina camada de terra e deixe a descoberto as esteiras de coqueiro. Matthieu continuamente repõe a terra que escorreu. Por baixo, o troço deve estar alagado. Com a ajuda de Matthieu, tiro as esteiras: a água quase escondeu o caixão, o momento é crítico. Perto há o túmulo de duas crianças mortas muito tempo atrás. Um dia, descerramos a laje, entro dentro e, com uma barra curta, ataco o cimento, o mais baixo possível, do lado do túmulo da jangada. Uma vez quebrado o cimento, assim que enfio a barra na terra, a água jorra forte. A água escorre do outro túmulo e entra no buraco. Saio para fora quando ela já me chega aos joelhos. Recolocamos a laje e a calafetamos com uma massa branca que Naric me arranjou. Esta operação reduziu a água à metade no nosso túmulo-esconderijo. À noite, Carbonieri me diz:
— Não acabam nunca os problemas que temos com essa fuga.
— Já estamos quase no fim, Matthieu.
— Quase, espero.
É verdade que estamos como que pisando sobre brasas.
De manhã, desci até o cais. Pedi a Chapar para me comprar 2 quilos de peixe, voltarei para buscá-los ao meio-dia. Combinado. Volto ao jardim de Carbonieri. Assim que chego perto, vejo três capacetes brancos. Por que há três guardas no jardim? Estão fazendo uma revista? Isso é novidade. Eu nunca tinha visto três vigias duma só vez no jardim. Espero mais de uma hora e não agüento mais. Resolvo avançar, para ver o que está acontecendo. De cara, vou diretamente pelo caminho que leva ao jardim. Os guardas me olham chegar. Estou desconfiado, estou a uns 20 metros deles, aí Matthieu põe seu lenço branco na cabeça. Respiro aliviado e consigo me refazer antes de chegar até o grupo.
— Bom dia, senhores vigilantes. Bom dia, Matthieu. Vim buscar o mamão que você me prometeu.
— Sinto muito, Papillon, mas me roubaram o seu mamão hoje de manhã, quando eu fui buscar as varetas para a minha trepadeira de ervilhas. Mas daqui a quatro ou cinco dias vai ter mais mamão maduro, já estão amarelando. E os senhores, seus guardas, não querem umas alfaces, uns tomates, rabanetes para levar para as suas senhoras?
— Você cuida bem do seu jardim, Carbonieri, parabéns — diz um deles.
Eles aceitam tomates, alfaces e rabanetes e vão embora. Eu voa embora ostensivamente um pouco antes deles, levando umas alfaces.
Passo pelo cemitério. O túmulo está meio descoberto pela chuva que lavou a terra. A dez passos já dá para eu ver as esteiras. Deus está mesmo do nosso lado, se não nos descobriram depois dessa. O vento sopra feito louco toda a noite, varrendo o planalto da ilha com rugidos raivosos, muitas vezes junto com chuva. É o tipo do tempo ideal para partir, mas não para o túmulo.
A maior de todas as tábuas, a de 2 metros, chegou sã e salva a seu domicílio. Foi juntar-se às outras peças da jangada. Eu até já montei a peça: ela se encaixou maravilhosamente, sem dificuldade nenhuma, nas chanfraduras. Bourset chegou ao campo correndo, para saber se eu recebi essa peça de importância primordial, mas um bocado grande para transportar. Fica todo contente ao saber que tudo deu certo. Até parecia que ele duvidava que ela pudesse chegar a seu destino. Procuro saber alguma coisa através dele:
— Você tem dúvidas? Acha que alguém está percebendo? Contou alguma coisa a alguém? Responda.
— Não, não e não.
— No entanto, você me dá a impressão de que alguma coisa o preocupa. Fale.
— Uma impressão desagradável que tive por causa de um olhar cheio de curiosidade interessada, de um cara chamado Bébert Celier. Tenho a impressão de que ele viu Naric tirar a peça e enfiá-la debaixo da bancada da marcenaria, dentro de um barril de cal, e depois levá-la. Os dois cunhados iam caiar um prédio. Era por isso que eu estava preocupado.
Pergunto a Grandet:
— Esse Bébert Celier é da nossa choça; então, será que é um dedo-duro?
Ele me diz:
— Esse homem é liberto das Obras Públicas. Já viu tudo: batalhão de sentenciados da África, etc. É um desses soldados cabeçudos que passaram por todas as prisões militares do Marrocos e da Argélia, briguento, bom na faca, pederasta apaixonado por mocinhos e jogador. Nunca foi civil. Conclusão: não nos interessa para nada, é um cara extremamente perigoso. Passou a vida inteira nos trabalhos forçados. Se você está com dúvidas sérias sobre ele, pegue a dianteira, assassine ele hoje à noite, assim ele não terá tempo de te denunciar, se tiver essa intenção.
— Não há nenhuma prova de que ele seja dedo-duro.
— Isso é certo — diz Galgani —, mas também não há nenhuma prova de que ele seja um bom rapaz. Você sabe muito bem que forçados desse tipo não gostam de fugas. Elas perturbam demais a vidinha tranqüila e organizada deles. Para qualquer outra coisa, eles não dedam de jeito nenhum, mas, uma fuga, quem é que vai saber?
Consulto Matthieu Carbonieri. A opinião dele é que devemos matar Celier hoje à noite. Quer fazer o serviço ele mesmo. Cometo o erro de impedi-lo. Assassinar ou deixar matar alguém a partir de meras aparências é coisa que me repugna. E se Bourset fantasiou a história que contou? O medo poderia fazê-lo ver as coisas pelo avesso. Procuro saber alguma coisa através de Naric:
— Boa-Praça, você reparou alguma coisa de suspeito por parte de Bébert Celier?
— Eu, não. Saí com o barril nas costas para que o guarda-chaves da porta não enxergasse nada dentro. O plano combinado era que eu ia me plantar justo na frente do guarda-chaves, sem arriar o barril, esperando que meu cunhado chegasse. Era para o árabe sentir que eu não estava com nenhuma pressa de sair e assim evitar qualquer desconfiança dele, para ele não revistar o barril. Mas mais tarde meu cunhado me disse que teve a impressão de que Bébert Celier estava observando a gente atentamente.
— Qual a sua opinião?
— Que, em virtude do tamanho da peça, logo se vê que é para uma jangada e meu cunhado estava nervoso e com medo. Ele está imaginando que viu mais do que viu mesmo.
— Também acho. Não se fala mais nisso. Na hora da última peça, antes de agir, vocês localizem onde se encontra Bébert Celier. E com ele tomem as mesmas precauções que tomam com um guarda.
A noite inteira eu passei jogando um jogo animadíssimo, a marselhesa. Ganhei 7 000 francos. Quanto mais eu jogava a olho, mais eu ganhava. Às 4 e meia, saio, a pretexto de fazer o meu trabalho. Deixo o antilhano fazendo o trabalho para mim. A chuva parou e lá pelo meio da noite, ainda bem escuro, vou até o cemitério. Conserto a terra com os pés, porque não acho o ancinho, mas, com os sapatos que uso, o negócio fica bem ajeitado. Às 7 horas, quando desço para a pesca, já está um sol maravilhoso. Encaminho-me para o extremo sul de Royale, onde tenho a intenção de lançar a jangada na água. O mar está alto e forte. Não sei, mas tenho a impressão de que não vai ser fácil se afastar da ilha sem ser jogado nos rochedos por uma onda. Ponho-me a pescar e logo apanho uma grande quantidade de peixes. Num instante, apanho mais de 5 quilos. Paro, depois de lavá-los com água do mar. Estou preocupado e cansado, depois dessa noite passada num jogo louco. Sentado à sombra, me recupero, e digo a mim mesmo que esta tensão em que vivo há mais de três meses está chegando ao fim e, pensando no caso de Celier, torno a concluir que não tenho o direito de assassiná-lo.
Vou falar com Matthieu. Do muro do seu jardim se vê bem o túmulo. Pelo caminho tem terra. Ao meio-dia, Carbonieri vai varrê-la. Passo pela casa de Juliette, dou a ela metade dos peixes. Ela diz:
— Papillon, tive sonhos maus com você; vi você cheio de sangue e depois acorrentado. Não faça besteiras, iria me doer demais se lhe acontecesse alguma coisa. Estou tão transtornada com esse sonho, que nem tomei banho nem me penteei. De binóculo, procurava o lugar onde você estava pescando e não achei. Onde você apanhou este peixe?
— Do outro lado da ilha. Por isso é que a senhora não me via.
— Por que vai pescar tão longe, onde eu não posso ver você de binóculo? E se uma onda o leva? Ninguém vai ver, ninguém vai ajudar você a escapar vivo dos tubarões.
— Ora, não exagere!
— Você acha que eu exagero? Eu proíbo você de pescar atrás da ilha e, se me desobedecer, eu mando retirar a sua autorização de pesca.
— Ora, vamos, seja sensata, minha senhora. Para que a senhora fique satisfeita, eu vou dizer ao moço de serviços o local onde eu vou pescar.
— Está bem. Você está com jeito de estar cansado.
— É, vou subir para me deitar no campo.
— Certo, mas estou à sua espera às 4 horas, para tomar café. Você vem?
— Sim, senhora. Até logo.
Só me faltava mais essa para me intranqüilizar: o sonho de Juliette. Como se eu já não tivesse bastante problemas concretos, precisava ainda de mais alguns, sonhados!
Bourset conta que se sente realmente observado. Já faz quinze dias que esperamos pela última peça de 1 metro e meio. Naric e Quenier dizem que não vêem nada de anormal, no entanto Bourset persiste em não querer fazer a peça. Se ela não tivesse cinco chanfraduras que têm de se encaixar sem 1 milímetro de folga, Matthieu teria fabricado ela no jardim. Realmente é nela que precisam se encaixar as cinco outras nervuras da jangada. Naric e Quenier estão encarregados de reformar a capela, e assim tiram e trazem facilmente muito material da oficina. E, ainda por cima, utilizam às vezes uma carreta puxada por um pequeno búfalo. Era preciso aproveitar estas circunstâncias.
Bourset, pressionado por nós, contra a sua vontade, faz a peça. Um dia, ele nos jura que, quando ele vai embora, mexem na peça e depois a recolocam no lugar. Falta talhar uma chanfradura na extremidade. Decidimos que Bourset talhe a chanfradura e depois coloque a madeira debaixo da sua bancada; ele deverá colocar em cima um fio de cabelo, para verificar depois se ela foi mexida: Ele faz a chanfradura e, às 6 horas, é o último a sair da oficina, após verificar que não há mais ninguém lá dentro, além do guarda. A peça está em seu lugar com o fio de cabelo. Ao meio-dia estou no campo, à espera da chegada dos trabalhadores da oficina, oitenta homens. Naric e Quenier estão Já, mas nada de Bourset. Um alemão vem para o meu lado e me entrega um bilhete bem fechado e colado. Verifico que não foi aberto. Leio: “O fio de cabelo desapareceu, quer dizer que mexeram na peça. Pedi ao guarda para ficar trabalhando durante a hora da sesta, para terminar uma caixinha de pau-rosa que estou fazendo. O guarda me deu autorização. Vou retirar a peça e colocá-la no lugar das ferramentas de Naric. Avise eles. É preciso que às 3 horas eles saiam imediatamente com a peça. Talvez a gente possa fazer isso antes de chegar o cara que mexe na peça”.
Naric e Quenier concordam. Estão entre os primeiros que esperam a hora da entrada na oficina. Na hora em que a turma vai começar a entrar na oficina, dois caras vão começar a brigar na frente da porta. Pedimos esse favor a dois conterrâneos de Carbonieri, dois corsos de Montmartre: Massani e Santini. Eles não perguntam por que, e isso é bom. Naric e Quenier deverão aproveitar o momento para tornar a sair depressa, com um material qualquer, como se estivessem preocupados em chegar logo a seu local de trabalho e não ligassem a mínima para o incidente. Todos concordamos que ainda temos uma oportunidade. Se der certo, eu é que devo ficar bem quietinho durante um mês ou dois, pois não resta dúvida de que alguém ou vários estão sabendo que uma jangada está sendo preparada. Eles que descubram quem a tem e onde a colocou.
Afinal, são 2 e meia, os homens se preparam. Entre a chamada e a saída para os trabalhos, temos meia hora. Partem. Bébert Celier está mais ou menos no meio da coluna das vinte fileiras de quatro.
Naric e Quenier estão na primeira fila, Massani e Santini na 12.a, Bébert Celier na décima. Considero que está bom assim, porque, no momento em que Naric pegar madeiras, barras e a peça, os outros ainda não terão acabado de entrar. Bébert terá chegado quase à porta da oficina ou talvez até um pouco adiante. Quando estourar a briga, como os dois vão urrar como bezerros, automaticamente todo mundo, e Bébert também, vai se virar para olhar. Quatro horas, tudo correu bem, a peça está debaixo de um monte de material na igreja. Eles não puderam retirá-la da capela, mas lá é um ótimo lugar para ela,
Vou falar com Juliette, ela não está em casa. Quando subo de volta, passo pela praça onde fica a administração. Na sombra, em pé, vejo Massani e Jean Santini esperando para entrar na cadeia. Com isso a gente já contava. Passo junto deles e pergunto:
— Quanto?
— Oito dias — responde Santini.
Um guarda corso diz:
— Que vergonha, dois conterrâneos brigarem!
Volto para o campo. Seis horas, Bourset retorna muito feliz:
— Até parece — me diz ele — que eu tinha um câncer e depois o médico me informa que era engano dele, que não tenho nada.
Carbonieri e meus amigos estão triunfantes e me dão parabéns pela maneira como organizei a operação. Naric e Quenier também estão satisfeitos. Vai indo tudo muito bem. Durmo a noite toda, embora, no fim do dia, os jogadores me tivessem convidado. Faço de conta que estou com uma tremenda dor de cabeça. O que eu tenho, na verdade, é que estou morto de sono, mas contente e feliz por estar tão perto da solução. Pois o mais difícil está feito.
Hoje de manhã, a peça foi colocada provisoriamente por Matthieu na cavidade da parede. De fato, o guarda do cemitério faz a limpeza das alamedas, pelos lados do túmulo-esconderijo. Não seria prudente chegar perto agora. Todas as manhãs, ao nascer do sol, às pressas, eu pego um ancinho de madeira e vou arrumar a terra em cima do túmulo. Com uma vassoura limpo a alameda; depois, e sempre às pressas, volto ao meu serviço, deixando a vassoura e o ancinho junto com o meu material de limpeza.
Agora já faz quatro meses justos que a fuga está sendo preparada, e nove dias que afinal recebemos a última peça da jangada. Já não chove mais de dia e às vezes nem durante a noite. Todas as minhas faculdades estão em estado de alerta, para as duas horas H: primeiro, para a hora de tirar do jardim de Matthieu a famosa peça e montá-la na jangada, com cada nervura bem encaixada nela. É uma operação que só se pode fazer de dia. Depois, para a hora da partida. Ela não poderá ser imediata, porque, depois de tirarmos a jangada de seu esconderijo, vai ser preciso recheá-la com os cocos e guardar dentro os víveres.
Ontem contei tudo a Jean Castelli e em que pé estão as coisas. Ele ficou contente por mim, de ver que eu estou quase alcançando o meu objetivo.
— A lua — disse-me ele — está em quarto crescente.
— Bem sei. Por isso, à meia-noite, ela não me atrapalha. A maré vazante é às 10 horas, a melhor hora para embarcarmos seria entre 1 e 2 da manhã.
Carbonieri e eu resolvemos precipitar os acontecimentos. Amanhã de manhã, às 9 horas, colocação da peça. Durante a noite, a partida.
No dia seguinte de manhã, em ações bem coordenadas, indo para o cemitério, passo pelo jardim e pulo o muro com uma pá. Enquanto retiro a terra que está por cima das esteiras, Matthieu desloca sua pedra e vem para o meu lado com a peça. Juntos, levantamos as esteiras e as colocamos ao lado. Surge a jangada bem ajeitada, em perfeito estado. Suja de barro, mas perfeita: Tiramos a jangada da cova porque, para encaixar a peça, é preciso espaço dos lados. Encaixamos as cinco nervuras, cada uma bem ajeitada em seu lugar. Para fazê-las entrar, somos obrigados a martelar com uma pedra. No instante em que finalmente terminamos e estamos recolocando a jangada em seu lugar, aparece um guarda, de carabina na mão:
— Nem um movimento ou estão mortos!
Deixamos cair a jangada e levantamos as mãos para o alto. Esse guarda, eu o reconheço, é o guarda-chefe da oficina.
— Não façam a besteira de opor resistência, estão presos. Reconheçam a situação em que estão e, pelo menos, salvem as suas peles, que estão por um fio, com a vontade que tenho de passar fogo em vocês. Vamos, andem, de mãos para o alto! Para o comando!
Ao passar pela porta do cemitério, encontramos um árabe servente. O guarda diz a ele:
— Mohamed, obrigado pelo favor. Passe pela minha casa amanhã de manhã, eu lhe dou o que prometi.
— Obrigado — diz o canalha. — Irei sem falta, mas diga, chefe, Bébert Celier também tem que me pagar, não é?
— Acerte com ele — diz o guarda.
Aí eu digo:
— Foi Bébert Celier que nos dedou, chefe?
— Não fui eu que lhe disse isso.
— Tanto faz quem disse, é bom saber.
O guarda, sempre com a mira da carabina em cima da gente, diz:
— Reviste eles, Mohamed.
O árabe tira a faca enfiada na minha cintura e a faca de Matthieu. Digo a ele:
— Mohamed, você é bem esperto. Como é que você nos descobriu?
— Eu trepava no alto de um coqueiro todo dia, para ver onde vocês tinham enfiado a jangada.
— Quem lhe mandou fazer isso?
— Primeiro foi Bébert Celier; depois foi o vigilante Bruet.
— Vamos — diz o guarda —, já houve conversa demais. Agora, vocês podem baixar as mãos e andar mais depressa.
Os 400 metros que tínhamos de percorrer para chegar ao comando me pareceram o caminho mais comprido de toda a minha vida. Eu estava arrasado. Tanta luta, para nos deixarmos apanhar como uns fodidos.
Meu Deus, como sois cruel contra mim!
Foi um belo escândalo a nossa chegada ao comando. Pois, à medida que íamos avançando, encontrávamos mais guardas e vigilantes que se juntavam ao nosso, que continuava nos ameaçando com a carabina. Ao chegar, tínhamos uns sete ou oito guardas atrás de nós.
O comandante, prevenido pelo árabe que viera correndo na nossa frente, está à soleira da porta do prédio da administração, bem como Dega e cinco guardas-chefes.
— O que está acontecendo, Sr. Bruet? — pergunta o comandante.
— Está acontecendo que apanhei em flagrante delito estes dois homens escondendo uma jangada que me parece estar pronta.
— Papillon, o que tem a dizer?
— Nada, deixo para falar na instrução.
— Meta-os na cela.
Colocam-me numa cela que dá, pela sua janela tapada, para o lado da entrada do comando. A cela é completamente escura, mas ouço as pessoas que falam na rua do comando.
Os acontecimentos se precipitam. Às 3 horas nos tiram e nos põem algemas.
Na sala, uma espécie de tribunal: comandante, subcomandante, guarda-chefe. Um guarda funciona como escrivão. Sentado, mais afastado, diante de uma mesinha, Dega, com um lápis na mão, tem provavelmente a incumbência de anotar na hora e fielmente as declarações.
— Charrière e Carbonieri, ouçam o relatório que o Sr. Bruet fez contra vocês: “Eu, Bruet Auguste, guarda-chefe, diretor da oficina das Ilhas da Salvação, acuso de roubo, desvio de material pertencente ao Estado, os dois forçados Charrière e Carbonieri. Acuso de cumplicidade o marceneiro Bourset. Acredito também poder responsabilizar por cumplicidade Naric e Quenier. Acrescento que surpreendi em flagrante delito Charrière e Carbonieri, que estavam violando a sepultura da Sra. Privat, a qual sepultura servia de esconderijo para ocultar a jangada deles”.
— Que tem você a dizer? — pergunta o comandante.
— Em primeiro lugar, que Carbonieri não tem nada a ver com isso. A jangada é planejada para levar um único homem, eu. Eu o obriguei a me ajudar na retirada das esteiras de cima do túmulo, operação que eu não podia fazer sozinho. Portanto, Carbonieri não é culpado de desvio e roubo de material pertencente ao Estado, nem de cumplicidade na evasão, uma vez que a evasão não se efetivou. Bourset é um pobre coitado que agiu sob ameaça de morte. Quanto a Naric e Quenier, são indivíduos que eu mal conheço. Afirmo que eles não têm relação nenhuma com o caso.
— Não é nada disso que me contou meu informante — diz o guarda.
— Esse tal de Bébert Celier, que é o seu informante, pode muito bem servir-se deste caso para se vingar de alguém, comprometendo-o falsamente. Quem é que pode confiar num dedo-duro?
— Em suma — diz o comandante —, você é oficialmente acusado de roubo e de desvio de material pertencente ao Estado, de profanação de sepultura e de tentativa de fuga. Queira ter a bondade de assinar o documento.
— Só assino se se acrescentar minha declaração a respeito de Carbonieri, Bourset e os dois cunhados Naric e Quenier.
— Concordo. Acrescente isso no documento.
Assino. Não consigo exprimir com clareza tudo o que se desenrola dentro de mim desde esse fracasso de última hora. Estou como louco dentro desta cela, mal como, não ando, mas fumo, sem parar, um cigarro atrás do outro. Por sorte, Dega me abastece fartamente de fumo.
Todos os dias, fazemos uma hora de marcha pela manhã, ao sol, no pátio das celas disciplinares.
Hoje de manhã, o comandante veio falar comigo. Coisa curiosa, ele, que seria o mais prejudicado se a fuga tivesse sido levada a efeito, é quem tem menos raiva de mim.
Fala-me, sorrindo, que sua esposa disse que era normal que um homem, se não está podre, tente fugir. Com muita habilidade, ele procura ver se confirmo a cumplicidade de Carbonieri. Tenho a impressão de que o convenci, de que lhe expliquei bem que era praticamente impossível Carbonieri recusar-me ajuda por alguns momentos, para retirar as esteiras.
Bourset mostrou o bilhete de ameaça e o desenho feito por mim. Quanto a Bourset, aliás, o comandante está completamente convencido de que as coisas se passaram assim mesmo. Pergunto a ele a quanto pode, na sua opinião, chegar essa acusação de roubo de material. Ele me diz:
— No máximo, dezoito meses.
Em suma, recomeço a subir a encosta do abismo em que afundara. Recebi um recado de Chatal, o enfermeiro. Avisou-me que Bébert Celier está em quarto isolado, no hospital, com perspectiva de ser desinternado com um diagnóstico raro: abscesso no fígado. Deve ser um estratagema combinado entre a administração e o médico, para proteger Celier contra represálias.
Nunca revistaram nem a minha cela nem a mim. Aproveito para mandar vir uma faca. Mando dizer a Naric e a Quenier que requeiram uma acareação entre o vigia da oficina, Bébert Celier, o marceneiro e eu, e solicitem ao comandante que, após esse confronto, tome a decisão que achar mais justa em relação aos dois cunhados: ou prisão preventiva, ou punição disciplinar, ou liberdade limitada ao interior do campo...
Durante o passeio de hoje, Naric me disse que o comandante aceitou. A acareação vai ser feita amanhã, às 10 horas. A essa audiência assistirá um guarda-chefe que funcionará como instrutor. Passo a noite inteira tentando racionalizar minhas emoções, pois tenho intenção de matar Bébert Celier. Não consigo raciocinar. Não, seria injusto demais que esse homem fosse desinternado após ter prestado esse serviço, e que depois, da Terra Grande, ele se vá embora numa bela fuga, como recompensa por ter impedido uma outra fuga. Sim, mas eu, eu posso ser condenado à morte, podem me acusar de premeditação. Pois que seja. É a minha conclusão, tão desesperado estou. Quatro meses de esperança, de alegria, de medo de ser apanhado, de inventivas e, afinal, quando estava a ponto de conseguir, acabar tudo tão lamentavelmente pela língua de um dedo-duro. Aconteça o que acontecer, amanhã eu vou ver se mato Celier!
A única maneira de não ser condenado à morte é fazer que ele puxe a faca dele. Para conseguir isso, é preciso que ostensivamente eu o faça ver que estou com a minha faca aberta. Aí, é certo que ele puxe a dele. Seria preciso fazer isso um pouco antes, ou imediatamente depois da acareação. Não posso matá-lo durante a acareação, me arrisco a que um guarda me dê um tiro de revólver. Conto com a negligência crônica dos guardas.
Passo a noite inteira lutando contra essa idéia. Não consigo vencê-la. Existem verdadeiramente na vida coisas imperdoáveis. Sei que não se tem direito de fazer justiça com as próprias mãos, mas isso é coisa para gente de outra classe social. Como admitir que não se possa pensar em punir inexoravelmente um indivíduo tão abjeto? Não lhe fiz mal algum, a esse rebotalho de caserna, ele nem mesmo me conhece. Portanto, ele me condenou à reclusão sem ter nada contra mim. O que ele fez foi tentar me enterrar para poder renascer. Não, não e não! É impossível eu deixar ele aproveitar esse seu ato nojento. Impossível. Sinto que estou perdido. Perdido por perdido, que ele o seja também, e ainda mais do que eu. E se me condenarem à morte? Seria bem estúpido morrer por um personagem tão ignóbil. Consigo chegar a prometer a mim mesmo uma única coisa: se ele não puxar a faca dele, não o mato.
Não dormi nem um pouco a noite inteira, fumei um maço inteiro de cigarros. Restam-me dois cigarros quando chega o café da manhã, às 6 horas. Tamanha é a minha tensão, que, mesmo diante do guarda — embora seja proibido —, digo ao distribuidor de café:
— Você podia me arranjar uns cigarros ou um pouco de fumo, com a permissão aqui do chefe? Estou em ponto de bala, Sr. Antartaglia.
— Tá bom, dá para ele, se você tem aí. Eu não fumo. Sinceramente, Papillon, tenho pena de você. Eu, que sou corso, aprecio os homens, detesto a falta de caráter.
Quinze para as dez, estou no tribunal à espera da hora de entrar na sala. Naric, Quenier, Bourset, Carbonieri estão presentes. O guarda que nos vigia é Antartaglia, o mesmo do café. Conversa em corso com Carbonieri. Entendo que ele está dizendo que é uma pena o que lhe aconteceu, a Carbonieri, que bem pode pegar três anos de reclusão. Nesse momento, a porta se abre e entram na sala o árabe do coqueiro, o árabe guarda da porta da oficina e Bébert Celier. Assim que me vê, ele faz um movimento de recuo, mas o guarda que o acompanha lhe diz:
— Entre e coloque-se à parte, aqui à direita. Antartaglia, não deixe eles se comunicarem.
Pronto, estamos a menos de 2 metros um do outro. Antartaglia diz:
— É proibido falar entre os dois grupos.
Carbonieri continua sua conversa em corso com seu conterrâneo que vigia os dois grupos. O guarda ajeita o nó do cordão do sapato, faço um sinal a Matthieu, para ele vir um pouco mais para a frente. Ele imediatamente entende a situação, olha para o lado de Bébert Celier e escarra nessa direção. Quando o guarda se levanta, Carbonieri começa a falar com ele sem parar e monopoliza sua atenção tão completamente, que dou um passo para a frente sem que o guarda perceba. Abro a faca na palma da minha mão, de jeito que só Bébert Celier possa ver. E, com uma rapidez inesperada, ele puxa a sua faca, que estava aberta dentro da calça, e me dá um golpe que me abre fundo o músculo do braço direito. Eu, que sou canhoto, com um único golpe enfio-lhe a faca no peito até o cabo. Um grito de animal: “A-a-ah”. Ele cai como saco de batatas. Antartaglia, de revólver em punho, me diz:
— Sai daí, rapaz, sai daí. Não bate nele no chão, senão sou obrigado a lhe dar um tiro e isso não quero.
Carbonieri se aproxima de Celier e com o pé mexe a cabeça dele. Diz uma frase em corso. Entendo que ele diz que o outro está morto. O guarda repete:
— Me dá a sua faca, rapaz.
Eu dou, ele guarda o revólver no estojo, vai para a porta de ferro e bate. Um guarda abre e ele diz ao outro:
— Mande trazer uma maca, para levar um morto.
— Quem está morto? — indaga o guarda.
— Bébert Celier.
— Ah! Pensei que fosse Papillon.
Mandam-nos de volta para as celas. Está suspensa a acareação. Carbonieri me diz, antes de entrar no corredor:
— Papi, meu filho, desta vez você entrou pelo cano mesmo.
— Certo, mas eu estou vivo e ele está morto.
O guarda volta só, abre a porta bem devagar e me diz, ainda meio abalado:
— Bata na porta, fale que você está ferido. Foi ele que atacou primeiro, eu vi bem.
E fecha a porta novamente, bem devagar.
Esses guardas corsos são incríveis; ou completamente maus ou completamente bons. Bato na porta e grito:
— Estou ferido, quero que me levem para o hospital, para fazer curativo.
O guarda volta com o guarda-chefe do setor disciplinar.
— O que é que você tem? Pra que tanto barulho?
— Estou ferido, chefe.
— Ah! Você está ferido? Eu pensava que ele não tinha feito nem um arranhão, quando atacou você.
— Estou com o músculo do braço direito cortado.
— Abra — diz o outro guarda.
A porta se abre, eu saio. Realmente, há um grande corte no músculo.
— Ponha as algemas nele e leve ao hospital. Não saia de perto dele lá no hospital. Traga ele de volta para cá depois de tratar do ferimento.
Na hora em que saímos, há mais de dez guardas com o comandante. O guarda da oficina me diz:
— Assassino!
Antes de qualquer resposta minha, o comandante diz a ele:
— Cale-se, guarda Bruet. Papillon foi atacado.
— Não é fácil de acreditar — diz Bruet.
— Eu vi tudo e sou testemunha — diz Antartaglia. — E saiba, Sr. Bruet, que um corso não mente.
No hospital, Chatal chama um médico. Ele costura meu braço sem anestesia, nem mesmo anestesia local, depois me põe oito grampos, sem me dirigir uma palavra. No fim. ele diz:
— Eu não pude fazer anestesia local, não tenho mais injeções de anestesia.
E acrescenta:
— Não está certo o que você fez.
— Ah, que nada! De qualquer jeito, ele não ia continuar vivo muito tempo, com aquele abscesso no fígado.
Minha resposta inesperada deixou o homem embasbacado.
A instrução prossegue. A responsabilidade de Bourset é completamente eliminada. Admitem que ele estava aterrorizado e eu colaboro para fazer aceitarem esta versão. Quanto a Naric e Quenier, também se safam, por inexistência de provas. Sobramos eu e Carbonieri. Para Carbonieri, eliminam a acusação de roubo e desvio de material pertencente ao Estado. Fica a acusação de cumplicidade em tentativa de evasão. Não lhe podem dar mais de seis meses. Quanto a mim, as coisas se complicam. Com efeito, apesar de todos os testemunhos a meu favor, o encarregado da instrução não quer admitir a legítima defesa. Dega, que viu o dossiê inteirinho, me diz que, apesar dos esforços do instrutor, é impossível que me condenem à morte, pelo fato de eu ter recebido um ferimento. Uma coisa em que se apóia a acusação para me arrasar é que os dois guardas árabes declaram que fui eu que puxei a faca primeiro.
A instrução terminou. Aguardo o momento de descer até Saint-Laurent, para passar pelo tribunal militar. Só fico fumando, quase não ando. Deram-me o direito de um segundo passeio de uma hora, durante a tarde. Nunca o comandante nem os guardas, salvo aquele da oficina e o da instrução, demonstraram hostilidade para comigo. Todos me falam sem rancor e me deixam mandar vir quanto fumo eu quiser.
A minha partida está marcada para sexta-feira, hoje é terça. Na quarta de manhã, às 10 horas, estou no pátio já faz umas duas horas, quando o comandante me manda chamar e diz:
— Venha falar comigo.
Saio com ele, sem escolta. Pergunto para onde vamos, ele pega o caminho da casa dele. A certa altura, ele me diz:
— Minha esposa quer falar com você antes da sua partida. Não quero impressioná-la, por isso não mandei vir junto nenhum guarda armado. Espero que você se comporte corretamente.
— Sim, meu comandante.
Chegamos à casa dele.
— Juliette, eu lhe trouxe o seu protegido, conforme prometi. Você sabe que preciso levá-lo de volta antes do meio-dia. Você tem quase uma hora para conversar com ele.
E ele se retira discretamente.
Juliette se aproxima de mim e põe a mão no meu ombro, olhando-me nos olhos. Os olhos dela brilham ainda mais assim cheios de lágrimas, que felizmente ela contém.
— Você está louco, meu amigo. Se você tivesse me dito que queria ir embora, eu acho que poderia ter sido capaz de facilitar as coisas. Pedi a meu marido que ajudasse você o mais possível e ele me disse que isso não depende dele, infelizmente. Mandei buscar você, em primeiro lugar, para ver como está. Dou-lhe parabéns pela sua coragem, você está com um aspecto melhor do que eu esperava. E também para dizer que eu quero lhe pagar o peixe que você tão generosamente me deu durante tantos meses. Olhe, tome 1000 francos, é tudo o que eu posso lhe dar. Lamento não poder fazer mais por você.
— Olhe, minha senhora, não estou precisando de dinheiro. Eu lhe peço, por favor, compreenda que eu não devo aceitar; isso seria, na minha opinião, manchar a nossa amizade.
E afasto com um gesto as duas notas de 500 francos que ela me oferecia tão generosamente.
— Não insista, lhe peço, por favor.
— Como você preferir — diz ela. — Aceita um pouco de licor?
E, durante mais de uma hora, essa mulher admirável conversa comigo, uma conversa encantadora. Ela considera que eu serei certamente absolvido pela morte daquele canalha e que vou pegar talvez de dezoito meses a dois anos pelo resto.
No instante da despedida, ela me aperta a mão entre as suas, demoradamente, e me diz:
— Até breve, boa sorte.
Explodem os soluços.
O comandante me leva de volta à cela. No caminho, digo a ele:
— Comandante, o senhor tem a mulher mais nobre do mundo.
— Eu sei, Papillon, ela não é feita para viver aqui, é cruel demais para ela. E, no entanto, o que fazer? Afinal, daqui a quatro anos, me aposento.
— Aproveito este momento em que estamos sós, comandante, para lhe agradecer, porque graças ao senhor recebi o melhor tratamento possível. Sei que poderia ter prejudicado seriamente o senhor, se eu tivesse conseguido o meu intento.
— É verdade, você poderia ter-me causado grandes aborrecimentos. Apesar disso, quer saber de uma coisa? Você merecia ter conseguido.
E, já às portas do bloco das celas disciplinares, ele acrescenta:
— Adeus, Papillon. Que Deus lhe proteja, você vai precisar.
— Adeus, comandante.
Ah! sim, bem que era necessária a proteção de Deus para mim, porque o tribunal militar presidido por um oficial de quatro galões foi inexorável. Três anos por roubo e desvio de material pertencente ao Estado, profanação de sepultura e tentativa de evasão, e mais cinco anos, sem prejuízo da primeira pena, pela morte de Celier. Total: oito anos de reclusão. Se eu não tivesse sido ferido, é garantido que me condenavam à morte.
Esse mesmo tribunal, tão severo comigo, foi mais compreensivo ante um polaco da cavalaria francesa, chamado Dandosky, que tinha matado dois homens. O tribunal o condenou a apenas cinco anos e, no entanto, no caso dele havia premeditação indiscutível.
Dandosky era um padeiro encarregado de fazer somente o fermento. O horário dele era apenas das 3 às 4 da manhã. Como a padaria ficava no cais, diante do mar, ele passava todas as suas horas de folga pescando. Era um tipo tranqüilo, falava mal o francês e não se dava com ninguém. Esse condenado aos trabalhos forçados perpétuos dedicava todos os seus sentimentos de ternura a um belo gato preto de olhos verdes, que praticamente vivia com ele. Os dois dormiam juntos, o gato o seguia como um cachorro ao trabalho, para lhe fazer companhia. Em resumo, era uma grande estima entre ele e o bichinho. O gato o acompanhava na pesca, mas, quando fazia calor demais e não havia uma sombrinha por perto, voltava sozinho até a padaria e se deitava na rede de seu amigo. Ao meio-dia, quando batia o sino, saía ao encontro do polaco e pulava para pegar o peixinho com que o homem o atiçava, até o gato o agarrar.
Os padeiros moram todos juntos numa sala pegada à padaria. Um dia, dois forçados chamados Corrazi e Angelo convidam Dandosky a comer um guisado de coelho preparado por Corrazi, como ele fazia pelo menos uma vez por semana. Dandosky senta-se à mesa com eles e comem juntos; para a refeição, Dandosky levara, por sua vez, uma garrafa de vinho. À noite, o gato não voltou para casa. O polaco procurou o gato por toda parte em vão. Passa uma semana inteira e nada do gato. Triste com a perda do companheiro, Dandosky não se interessa mais por nada. Era mesmo triste que o único ser que Dandosky amava e que tão bem lhe retribuía esse amor tivesse desaparecido misteriosamente. A esposa de um vigia, quando soube da imensa dor de Dandosky, deu-lhe de presente um filhotinho de gato. Dandosky expulsou o gatinho, indignado, e perguntou à mulher como é que ela podia conceber que ele pudesse gostar de outro gato que não o dele; seria, dizia ele, uma grave ofensa à memória do amado desaparecido.
Um dia, Dandosky agrediu um aprendiz de padeiro que era também distribuidor de pão. O aprendiz não morava na mesma sala dos padeiros, mas com ele e lhe diz:
— Quer saber de uma coisa, o coelho que Corrazi e Angelo te fizeram comer era o teu gato.
— Cadê a prova? — grita o polaco, agarrando o outro pelo pescoço.
— Debaixo da mangueira que fica atrás dos canoeiros, um pouco mais para lá, eu vi Corrazi, quando ele estava enterrando a pele do seu gato.
Como um louco, o polaco vai verificar e realmente encontra a pele. Recolhe a pele, já meio podre, a cabeça em decomposição. Lava-a com água do mar, estende-a ao sol para que seque, depois a envolve num pano muito limpo e enterra-a num local seco, bem fundo, para que as formigas não a comam. Foi isso que ele me contou.
De noite, à luz de um lampião de petróleo, Corrazi e Angelo um ao lado do outro, sentados num banco de tábuas muito grossas, na sala dos padeiros, jogam cartas com mais dois parceiros. Dandosky é um homem de uns quarenta anos, estatura mediana, entroncado, largo de ombros, muito forte. Prepara um grande porrete de pau-ferro, aliás tão pesado como esse metal; aproxima-se por trás e sem uma palavra vibra um fortíssimo golpe na cabeça de cada um dos dois. Os crânios se abrem como duas granadas e escorrem os miolos pelo chão. Possuído de raiva furiosa, Dandosky não se satisfaz simplesmente com a morte dos dois, ele pega os miolos e os esmaga contra a parede da sala. Fica tudo borrado de sangue e miolos.
Se eu, por um lado, não encontrei compreensão por parte do comandante da gendarmaria, presidente do tribunal militar, Dandosky, por outro lado, embora tivesse cometido dois assassinatos com premeditação, encontrou tanta compreensão, que foi condenado a apenas cinco anos.
SEGUNDA RECLUSÃO
Amarrado ao polaco, eu fui levado para as ilhas. Não demoramos muito no presídio de Saint-Laurent. Chegamos numa segunda-feira, passamos pelo tribunal militar na quinta, e na sexta de manhã nos embarcavam de volta para as ilhas.
Vão nesta viagem para as ilhas dezesseis homens, dos quais doze para a reclusão. A travessia se faz com um mar muito agitado, muitas vezes o passadiço é varrido por um vagalhão mais forte que os outros. Meu desespero é tanto, que chego a desejar que esse barco afunde. Não falo com ninguém, vou concentrado, preocupado comigo mesmo, por causa desse vento molhado que me fustiga o rosto. Não protejo o rosto, pelo contrário. De propósito deixo voar meu chapéu, não vou precisar dele durante meus oito anos de reclusão. Com o rosto virado de frente para o vento, aspiro até perder o fôlego esse ar que me açoita. Primeiro, desejei o naufrágio; depois, consigo novamente pôr as idéias no lugar: “Bébert Celier foi devorado pelos tubarões; eu tenho trinta anos e oito a passar na reclusão”. Mas será que é possível sobreviver oito anos na devoradora de homens?
Segundo a experiência que já tenho, acredito que seja impossível. Quatro ou cinco anos devem ser o limite extremo da resistência possível. Se eu não tivesse matado Celier, teria apenas três anos a cumprir, talvez mesmo só dois, porque a morte dele agravou todas as outras coisas, inclusive a evasão. Eu não devia ter matado aquele crápula. Meu dever de homem para comigo mesmo não é de fazer a minha justiça; é, em primeiro lugar e acima de tudo, viver, viver para fugir. Como é que eu pude cometer tamanho erro? Sem contar que, por pouco, era ele que me matava, aquele merda. Viver, viver, viver é o que deveria ter sido e deverá ser a minha única religião.
Entre os guardas que escoltam o grupo de forçados, há um que eu já conheci na reclusão. Não sei como ele se chama, mas estou louco de vontade de perguntar uma coisa a ele.
— Chefe, queria lhe perguntar uma coisa.
Espantado, ele chega mais para perto de mim e diz:
— O quê?
— Você sabe de algum homem que conseguiu passar oito anos na reclusão?
Ele fica pensativo durante uns momentos e depois me diz:
— Não, mas já vi muitos que passaram cinco anos, e até um cara, me lembro muito bem, que saiu com uma saúde razoável e bem equilibrado após seis anos. Eu estava na reclusão quando ele foi liberado.
— Obrigado.
— De nada — diz o guarda. — Você, se não me engano, vai para ficar oito anos?
— Certo, chefe.
— Você só pode sair dessa se não pegar nenhuma punição, nenhuma vez.
E ele se afasta.
Essa frase é muito importante. É verdade, só saio vivo se não for punido nenhuma vez. Isso porque, como as punições são na base de suprimir parte ou toda a alimentação durante algum tempo, em seguida a isso, mesmo voltando ao regime normal, a gente não se recupera nunca mais. Certas punições mais fortes impedem que se resista até o fim, a gente se acaba antes do fim. Conclusão: não devo aceitar cocos nem cigarros, nem mesmo escrever ou receber bilhetes.
Durante todo o resto da viagem rumino incessantemente essa decisão. Nada, absolutamente nada, nem com o exterior nem com o interior. Ocorre-me uma idéia: o único jeito de receber apoio, sem arriscar a comida, é que do exterior alguém pague aos distribuidores de sopa para que eles escolham um dos maiores e melhores pedaços de carne no almoço. É fácil, porque há um que serve o caldo e outro que vem atrás, com uma bandeja, e põe na tigela um pedaço de carne. É preciso que ele remexa até o fundo do ensopado e me dê uma concha com o máximo possível de legumes. Só o fato de eu ter tido essa idéia já me reanima. Realmente, assim eu poderia muito bem comer o suficiente para matar a fome e quase que satisfatoriamente, se esse esquema for bem montado. E eu, por minha vez, que trate de sonhar e de me ausentar o mais possível, escolhendo temas agradáveis, senão fico louco.
Chegamos às ilhas. São 3 horas da tarde. Assim que desembarco, vejo o vestido amarelo claro de Juliette, ela ao lado do marido. O comandante se aproxima de mim rapidamente, antes mesmo que a turma tenha tido tempo de se pôr em fila, e me diz:
— Quanto?
— Oito anos.
Ele volta para junto da esposa e fala com ela. Emocionada, com certeza, ela se senta numa pedra. Completamente prostrada. Seu marido a segura pelo braço, ela se levanta e, depois de me lançar um sombrio olhar com aqueles seus imensos olhos, os dois vão embora sem se virar mais.
— Papillon — pergunta Dega —, quanto?
— Oito anos de reclusão.
Ele não responde nada e não tem coragem de olhar para mim. Galgani se aproxima e, antes que ele fale, eu digo:
— Não me mande nada e nem me escreva nada. Com uma pena assim longa, eu não posso me arriscar a uma punição.
— Compreendo.
Em voz baixa, acrescento apressadamente:
— Dê um jeito para que eles me sirvam o melhor possível no almoço e no jantar. Se você conseguir isso, talvez a gente volte a se ver um dia. Adeus.
Voluntariamente me dirijo para a primeira canoa que vai nos levar para Saint-Joseph. Todo mundo me olha como se olhasse um caixão que está baixando para a sepultura. Ninguém fala nada. Durante a curta viagem, eu repito a Chapar o que disse a Galgani. Ele me responde:
— Acho que dá pra arranjar isso. Coragem, Papi.
E acrescenta:
— E Matthieu Carbonieri?
— Me desculpe, eu tinha me esquecido dele. O presidente do tribunal militar solicitou que seja feita uma complementação de informação sobre o caso dele antes de tomar uma decisão; isso é bom ou mau sinal?
— É bom sinal, acho eu.
Sou dos primeiros na pequena coluna de doze homens que escala a encosta para chegar à reclusão. Subo rápido, tenho pressa, engraçado, de me ver só na minha cela. Apresso tanto o passo, que o guarda me diz.
— Mais devagar, Papillon. Até parece que você está com pressa de chegar nessa casa donde você saiu há tão pouco tempo.
Estamos chegando.
— Sentido! Apresento-lhes o comandante da reclusão.
— Lamento que você tenha voltado para cá, Papillon — diz ele.
E em seguida:
— Reclusos, para cá, etc. Faz seu discurso habitual:
— Prédio A, cela 127. É a melhor, Papillon, porque você fica em frente da porta do corredor e assim tem um pouco mais de luz e é sempre ventilado. Espero que você mantenha uma boa conduta. É muito tempo, oito anos, mas quem sabe, pode ser que, com um excelente comportamento você venha a merecer uma comutação de um ou dois anos na sua pena. É o que eu lhe desejo, porque você é um homem corajoso. .
Pronto, estou na 127. Realmente, ela fica bem em frente de uma grande porta gradeada que dá para o corredor. Embora sejam quase 6 horas, ainda há uma certa claridade. À cela também não tem aquele sabor e aquele cheiro de podre da minha primeira cela. Isso me anima um pouco:
“Meu velho Papillon”, digo a mim mesmo, “eis aqui as quatro paredes que vão ficar olhando você durante oito anos. Negue-se a contar os meses e as horas, é inútil. Se você quiser tomar uma unidade de medida aceitável, é de seis em seis meses que você deve contar. Dezesseis vezes seis meses e você estará livre outra vez. De qualquer jeito, você tem uma vantagem. Se esticar as canelas aqui e se for de dia, terá pelo menos a satisfação de morrer na luz. É muito importante. Não deve ser muito divertido morrer no escuro. Se você ficar doente, pelo menos aqui o médico vai enxergar a sua cara. Você não tem nada que se arrepender por ter tentado viver novamente por meio de uma fuga e, aliás, verdade seja dita, nem por ter matado Celier. Imagine só o quanto torturaria você, ficar pensando que, enquanto está aqui, ele fugiu. O tempo dirá. Pode ser que aconteça uma anistia, uma guerra, um terremoto, um furacão que destrua esta fortaleza. Por que não? Pode surgir um homem de caráter, que volte para a França e consiga comover os franceses e estes, por sua vez, obriguem a administração penitenciária a suprimir esta forma de guilhotinar gente sem usar a guilhotina. Quem sabe se um médico, revoltado, não vai contar tudo isso a um jornalista, a um padre, sei lá eu quem mais?... De qualquer jeito, Celier há muito tempo que foi digerido pelos tubarões. Eu não, eu estou aqui e, se for digno de mim mesmo, tenho de sair vivo deste sepulcro”.
Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta; um, dois, três, quatro, cinco, outra meia volta, começo a andar e reencontro imediatamente a posição da cabeça, dos braços, e a medida exata da passada, para que o passeio funcione com precisão. Resolvo andar apenas duas horas de manhã e duas horas de tarde, até saber se posso contar com uma alimentação privilegiada em quantidade. Nada de começar a desperdiçar energia inutilmente com esse nervosismo dos primeiros dias.
Sem dúvida, é lamentável ter fracassado na etapa final. Claro que era só o primeiro episódio da fuga, além disso era preciso fazer uma travessia bem sucedida de mais de 50 quilômetros, com aquela frágil jangada. E, depois que aportássemos na Terra Grande, talvez precisássemos executar de novo uma evasão. Se a partida funcionasse bem, a vela de três sacos de farinha teria impelido a jangada a mais de 10 quilômetros por hora. Em menos de quinze horas, talvez doze, nós tocaríamos a terra. Isso, claro, se chovesse durante o dia, porque apenas com chuva podíamos nos arriscar a içar vela. Se bem me lembro, no dia seguinte ao dia em que me fecharam na cela, choveu. Não tenho muita certeza. Procuro encontrar falhas ou erros cometidos. Encontro só dois. O marceneiro quis fazer uma jangada muito bem feita demais, segura demais, e por isso, para encaixar os cocos, precisou fazer uma armação especial; praticamente, eram duas jangadas, uma dentro da outra. Daí, havia um número grande demais de peças a fabricar, e ele precisava de tempo demais para fabricá-las com todas as precauções.
Em segundo lugar, o mais grave: logo à primeira dúvida séria sobre Celier, na mesma noite, eu devia ter matado ele. Se eu tivesse feito isso, quem sabe onde estaria agora! Mesmo se a coisa desse certo ao chegarmos à Terra Grande ou se eu fosse apanhado na hora do embarque, só pegaria três anos e não oito, e me ficaria a satisfação da ação realizada. Onde eu estaria agora, se tudo tivesse dado certo, nas ilhas ou na Terra Grande? Quem é que vai saber? Talvez conversando com Bowen, em Trinidad ou protegido em Curaçau pelo Bispo Irénée de Bruyne. E, então, só se tornaria a partir depois de estarmos seguros de que tal ou tal outro país nos receberia. Em caso contrário, me seria fácil voltar sozinho, diretamente, num barco pequeno, para Guajira, para a minha tribo.
Adormeci muito tarde, consegui dormir um sono normal. Essa primeira noite não foi tão deprimente. Viver, viver, viver. Devo repetir cada vez que estiver a ponto de me entregar ao desespero, três vezes, essa palavra de esperança: “Enquanto há vida, há esperança”.
Passou-se uma semana. Desde ontem notei modificação das porções da minha comida. Um espetacular pedaço de carne cozida no almoço, e no jantar uma tigela de lentilhas puras, quase sem água. Como criança, digo a mim mesmo: lentilhas tem ferro, que é muito bom para a saúde.
Se continuar assim, vou poder andar dez a doze horas por dia, e à noite, então, bem cansado, estarei em estado propício para viajar pelas estrelas. Não, não é delírio, estou com os pés na terra, bem na terra, penso em todos os casos de forçados que conheci nas ilhas. Cada um tem a sua história, antes e durante. Penso também nas lendas que correm de boca em boca nas ilhas. Uma dessas lendas, que tenho intenção de verificar se é verdadeira, caso eu volte às ilhas, é a lenda do sino.
Conforme já contei, os forçados não são enterrados, são jogados ao mar entre Saint-Joseph e Royale, num ponto infestado de tubarões. O morto é envolvido em sacos de farinha, tendo aos pés uma corda amarrada a uma grande pedra. Um caixão retangular, sempre o mesmo, é instalado na horizontal, na parte dianteira do barco. Uma vez chegados ao local designado, os seis forçados remadores levantam os remos horizontalmente, à altura da bordagern. Um homem inclina o caixão e outro abre uma espécie de alçapão. Então o corpo desliza para dentro da água. É certo, e não há margem para nenhuma dúvida, que os tubarões imediatamente cortam a corda. Nunca dá para um morto afundar muito. Volta á superfície e os tubarões começam a disputar esse manjar de festa. Ver comer um homem, segundo aqueles que já assistiram a esse espetáculo, é impressionante, porque, além de tudo, quando os tubarões são muitos, conseguem levar a mortalha com seu conteúdo para fora da água, e então, dilacerando os sacos de farinha, carregam grandes nacos do cadáver.
Tudo se passa exatamente conforme descrevi, mas há uma coisa que não pude verificar. Os condenados, sem exceção, contam que o que atrai os tubarões àquele local é o som do sino que tocam na capela quando há um morto. Dizem que às vezes a gente pode ficar na ponta do quebra-mar de Royale às 6 da tarde sem ver um único tubarão. Quando batem o sino da igrejinha, na mesma hora o local se infesta de tubarões à espera do cadáver. Além do sino, não há nada que explique por que eles acorrem a esse ponto nessa hora precisa. Esperemos que eu não venha a servir de prato do dia para os tubarões de Royale em semelhantes condições. Que eles me devorem vivo durante uma fuga, pouco ligo, pelo menos terá sido durante uma iniciativa minha na luta pela liberdade. Mas, depois de uma morte por doença numa cela, isso não, isso não pode acontecer.
Podendo comer bastante, graças à organização montada pelos meus amigos, estou em perfeita saúde. Ando das 7 horas da manhã às 6 da tarde sem parar. Dessa forma, a tigela do jantar, cheia de legumes secos, feijão, lentilha, ervilha seca ou arroz na gordura, fica vazia em pouco tempo. Como sempre tudo sem ter de me esforçar. Andar me faz bem, o cansaço que isso dá é sadio e consigo me transformar noutro homem enquanto ando. Ontem, por exemplo, passei o dia todo nos campos de uma aldeia de Ardèche que se chama Favras. Muitas vezes, depois que minha mãe morreu, eu ia passar umas semanas na casa da minha tia, irmã da minha mãe, professora primária do lugarejo. Pois bem, ontem eu estava virtualmente nesse bosque de castanheiros, colhendo cogumelos, e depois ouvia meu pequeno amigo, o pastor, dar ordens a seu cachorro treinado, que obedecia com grande eficiência trazendo de volta uma ovelha desgarrada ou castigando uma cabra muito passeadeira. E, mais ainda, cheguei até a sentir na boca o sabor fresco da fonte ferruginosa, me deliciei com as leves cócegas das bolhas minúsculas que me subiam ao nariz. Essa capacidade tão autêntica e verdadeira de reencontrar momentos passados há mais de quinze anos, essa faculdade de revivê-los sentidamente com tanta intensidade só podem ser conseguidas numa cela, longe de tudo quanto é barulho, no silêncio mais completo.
Chego a ver a cor amarela do vestido de tia Outine. Ouço o murmúrio do vento nos castanheiros, o ruído seco que faz a casca da castanha ao cair no chão seco e macio, quando mergulha num tapete de folhas. Um enorme javali apareceu por entre as esbeltas giestas e me deu um medo tão grande, que saí correndo, deixando cair pelo caminho grande parte dos cogumelos colhidos. Sim, passei — enquanto andava — o dia inteiro em Favras com a titia e meu coleguinha, o pastor Julien. Essas lembranças revividas, tão doces, tão límpidas, tão precisas, não há ninguém que possa me impedir de me refugiar nelas, de buscar nelas a paz que é necessária ao meu espírito atormentado e magoado.
Para a sociedade, estou em uma dessas inúmeras celas da devoradora de homens. Na realidade, roubei-lhes um dia inteiro, que passei em Favras, nos campos, entre os castanheiros, e até mesmo bebi água mineral na fonte chamada do Pessegueiro.
Já passaram os seis primeiros meses. Eu me determinara a contar por unidades de seis meses; mantive meu propósito. Só hoje de manhã diminuí de dezesseis para quinze. . . Mais quinze vezes seis meses.
Vamos fazer o balanço da situação. Nenhum incidente pessoal nestes seis meses. A comida é sempre a mesma, mas, por outro lado, a ração que recebo é bem razoável e assim minha saúde não vai se prejudicar. À minha volta, muitos suicidas e loucos furiosos, que felizmente logo são levados embora. É deprimente ficar ouvindo gritarem, gemerem ou se queixarem durante horas, ou dias inteiros. Bolei um recurso bom, só que faz mal para o ouvido. Corto um pedaço de sabão e enfio nos dois ouvidos, para não ouvir mais esses gritos horripilantes. Infelizmente, o sabão me prejudica os ouvidos, que começam a doer muito daí a um ou dois dias.
Pela primeira vez desde que estou nos trabalhos forçados, me rebaixo a pedir uma coisa a um guarda. Acontece que um guarda que traz a sopa é de Montélimar, perto da minha terra. Eu o conheci na Ilha Royale e peço a ele para me arranjar uma pequena bola de cera, para me ajudar a suportar a barulheira que fazem os loucos antes de serem levados embora. No dia seguinte, ele me traz uma bola de cera do tamanho de uma noz. É incrível o alívio que dá não ouvir mais esses infelizes.
Já tenho bastante prática com as grandes lacraias. Em seis meses, só fui mordido uma vez. Resisto muito bem, quando acordo e há uma passeando pelo meu corpo nu. A gente se acostuma com qualquer coisa, é só questão de se controlar, porque as cócegas que fazem as patas e as antenas das lacraias são muito desagradáveis. Mas, se a gente pega a lacraia de mau jeito, ela morde. Vale mais a pena esperar que desça espontaneamente de cima da gente e, aí sim, ir para cima dela e matá-la. Em cima do meu banco de cimento há sempre dois ou três pedacinhos de pão fresco. Forçosamente, o cheiro do pão as atrai e elas vão para lá. Então eu as mato.
Preciso afastar uma idéia fixa que me persegue. Por que não matei Bébert Celier no mesmo dia em que tive dúvidas sobre sua função nefasta? Então, incessantemente, argumento e contra-argumento comigo mesmo: quando é que se tem o direito de matar? Em seguida, me defino: o fim justifica os meios. O fim, para mim, era lograr a fuga, eu tive a oportunidade de terminar uma jangada bem construída, de escondê-la em local seguro. O embarque seria dentro de alguns dias. Uma vez que eu estava a par do perigo que Celier representava — e isso na época da penúltima peça, que, por milagre, chegara a seu destino — deveria ter executado o homem sem hesitação. E se eu estivesse enganado, se as aparências fossem falsas? Teria matado um inocente. Que horror! Mas é ilógico que eu me coloque um problema de consciência, eu, um condenado aos trabalhos forçados perpétuos. Pior do que isso, condenado a oito anos de reclusão no meio de uma pena perpétua!
E o que é que você pretende, que é você, sobra de lixo, tratado como uma imundície da sociedade? Só queria saber se os doze jurados de merda que o condenaram se perguntaram, uma vez que fosse, se achavam que verdadeiramente, conscientemente, fizeram bem em condená-lo a uma pena tão dura. E se o promotor (ainda estou escolhendo com qual instrumento vou arrancar a língua dele) se perguntou se não foi um pouco exagerado no seu requisitório. Com certeza, nem mesmo os meus advogados se lembram mais de mim! Na certa aludem em termos gerais a “aquele caso infeliz do Papillon” no julgamento de 1932: “Vocês sabem, prezados colegas, naquele dia eu não estava lá muito em forma e, para meu azar, o promotor Pradel estava num de seus melhores dias. Ele ganhou esse caso para a acusação de forma magistral. É verdadeiramente um adversário de grande classe”.
Visualizo e ouço tudo isso como se estivesse ao lado do Dr. Raymond Hubert, no meio de uma conversa entre advogados, ou em uma reunião mundana, ou mais precisamente nos corredores do Palácio da Justiça.
Um único homem, sem sombra de dúvida, tem uma posição de magistrado probo e honesto, o presidente do tribunal, Bévin. Este, sim, pode muito bem, homem imparcial que é, discutir entre colegas ou numa reunião mundana o perigo que existe em fazer julgar um homem por jurados. Sem dúvida ele deve dizer, evidentemente que com palavras bem adequadas, que os doze sacanas do júri não estão preparados para uma tal responsabilidade, que eles se impressionam demais pelo brilho da acusação ou da defesa, conforme uma das duas domina esse torneio de oratória; que eles absolvem depressa demais, ou condenam sem saber muito bem como, conforme a atmosfera positiva ou negativa que consegue criar o mais forte dos dois partidos.
Isso quanto ao presidente, e também à minha família, mas a minha família talvez tenha ficado com raiva de mim, por causa dos problemas que criei para ela. Só um, papai, meu pobre pai, é que não deve ter-se queixado da cruz que seu filho lhe pôs nos ombros, tenho certeza. Essa cruz tão pesada, ele a carrega sem acusar seu menino, sem censurá-lo, e isso apesar de, como professor primário, ser respeitador da lei e até ensine a compreendê-la e a aceitá-la. Tenho certeza de que, do fundo do seu coração, ele exclama: “Seus sórdidos, vocês mataram meu filho, fizeram pior, condenaram ele a morrer aos pouquinhos, com 25 anos!” Se meu pai soubesse onde anda agora o menino dele, o que fizeram com o menino dele, era capaz de virar anarquista.
Hoje à noite, a devoradora de homens esteve mais do que nunca à altura da sua fama. Percebi que houve dois enforcados e um que se sufocou enfiando trapos de pano na boca e nas narinas. A cela 127 fica perto do lugar onde os guardas fazem o revezamento de horário e, as vezes, ouço pequenos trechos das conversas deles. Hoje de manhã, por exemplo, eles falaram bem baixinho, para eu não ouvir o que diziam sobre os acontecimentos da noite.
Mais seis meses passaram. Faço um balanço da situação e acabo de gravar na madeira um belo “14”. Tenho um prego que uso apenas de seis em seis meses. Faço o balanço: a saúde continua boa e o moral vai muito bem.
Graças às minhas viagens por entre as estrelas, é muito raro que eu tenha crises demoradas de desespero. Bem depressa eu as supero, e armo com todos os detalhes uma viagem real ou imaginária que afugenta as idéias sombrias. A morte de Celier me ajuda muito a sair vitorioso desses momentos de crises agudas. Digo a mim mesmo: “Eu estou vivo, estou vivo, estou vivo e preciso continuar vivo, viver, viver para um dia reviver livre. Ele, que me impediu de fugir, ele está morto e nunca vai ser livre como eu vou ser um dia, é certo, é garantido. De qualquer maneira, se eu sair com 38 anos, não é ainda a velhice, e a próxima fuga vai ser definitiva, tenho certeza”.
Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta; um, dois, três, quatro, cinco, outra meia volta. Já faz alguns dias que minhas pernas estão pretas e me sangram as gengivas. Deveria me declarar doente? Aperto com o polegar a minha perna perto do calcanhar e a marca fica estampada. Tenho a impressão de que estou cheio de água. Já faz uma semana que não posso mais andar dez ou doze horas por dia, fico muito cansado só com seis horas de marcha, em duas vezes. Quando limpo os dentes, não posso mais esfregá-los com a toalha felpuda embebida em sabão, porque as gengivas doem e sangram muito. E até um dente me caiu, sem mais nem menos, ontem, um incisivo do maxilar superior.
É com uma verdadeira revolução que terminam os seis meses seguintes. Efetivamente, ontem nos mandaram pôr a cabeça para fora e passou um médico que levantava os lábios de cada um de nós. E, hoje de manhã, depois de exatamente dezoito meses que estou nesta cela, a porta se abriu e me disseram:
— Saia, encoste-se na parede e fique esperando.
Eu era o primeiro ao lado da porta, saíram uns setenta homens.
— Meia volta, esquerda.
Sou agora o último de uma fila que se alonga até a outra extremidade do prédio e sai para o pátio.
São 9 horas. Um jovem doutorzinho, com camisa cáqui de mangas curtas, está sentado ao ar livre, junto a uma mesa de madeira. Ao lado dele, dois forçados enfermeiros e um guarda enfermeiro. Todos eles, e o médico também, me são desconhecidos. Dez guardas, de carabina em punho, fazem a cobertura do cerimonial. Comandante e guarda-chefe, em pé, contemplam a cena em silêncio.
— Todo mundo nu — grita o guarda-chefe. — A roupa debaixo do braço. O primeiro. Seu nome?
— X...
— Abra a boca, as pernas. Arranque estes três dentes dele. Álcool iodado primeiro, azul-de-metileno depois, xarope de cocleária duas vezes por dia, antes das refeições.
Sou o último.
— Seu nome?
— Charrière.
— Puxa, você é o único que está com um corpo apresentável. Você chegou há pouco tempo?
— Não.
— Há quanto tempo está aqui?
— Faz hoje dezoito meses.
— Por que você não está magro como os outros?
— Não sei.
— Bom, eu vou lhe dizer por quê. É porque você come melhor do que eles, salvo se você se masturba menos. A boca, as pernas. Dois limões por dia: um de manhã, um na hora do jantar. Chupe os limões e passe o suco nas gengivas, você está com escorbuto.
Limpam-me as gengivas com álcool iodado, depois me pincelam com azul-de-metileno, me dão um limão. Meia volta, sou o último da fila e volto para a minha cela.
O que acaba de acontecer é uma verdadeira revolução, levar para fora os doentes até o pátio, deixá-los ver o sol, mostrá-los ao médico, de perto. Isso nunca se viu na reclusão. O que estará acontecendo? Será que, afinal, um médico se recusou a ser cúmplice calado desse famoso regulamento? Este médico, que mais tarde vai se tornar meu amigo, se chama Germain Guibert. Morreu na Indochina. Sua esposa me contou isso, muitos anos depois desse dia, numa carta que me escreveu para Maracaibo, na Venezuela.
De dez em dez dias, consulta no sol. Sempre a mesma receita: álcool iodado, azul-de-metileno, dois limões. Meu estado não piora, mas também não melhora. Duas vezes eu pedi xarope de cocleária e duas vezes o médico me negou, e isso começa a me irritar, porque continuo sem poder andar mais de seis horas por dia, a parte de baixo das minhas pernas está preta e inchada.
Um dia, ao esperar a minha vez de consulta, percebo que a pequena árvore raquítica que me protege um pouco contra os raios do sol é um limoeiro sem limões. Arranco uma folha e a mastigo e, em seguida, maquinalmente, corto fora um pequeno ramo com algumas folhas, sem idéia preconcebida. Quando o médico me chama, meto o ramo no traseiro e digo a ele:
— Doutor, não sei se é culpa dos seus limões, mas olhe só o que me brotou atrás.
E me viro com o meu raminho cheio de folhas no traseiro.
Os guardas primeiro caem na gargalhada e depois o guarda-chefe diz:
— Você terá uma punição, Papillon, por falta de respeito ao médico.
— De jeito nenhum — diz o médico. — Este homem não deve ser punido, uma vez que eu não fiz queixa. Você não quer mais limões? É isso que você quis dizer?
— É isso, doutor, já chega de limões, isso não me cura. Quero experimentar o xarope de cocleária.
— Não lhe receitei porque tenho muito pouco e economizo para os doentes graves. Mas vou lhe receitar uma colherada por dia e vamos continuar com os limões.
— Doutor, já vi índios comerem algas do mar, e sei que existem as mesmas algas na Ilha Royale. Deve ter também na Ilha Saint-Joseph.
— Você me deu uma idéia brilhante. Vou mandar distribuir para vocês todo dia uma certa alga que realmente eu também já vi na praia. Os índios a comem crua ou cozida?
— Crua.
— Está bem, obrigado. Meu comandante, espero que este homem não seja punido, confio no senhor.
— Certo, capitão.
Um milagre aconteceu. Sair toda semana para o sol por duas horas, ou ficar à espera do momento da consulta, espiando a consulta dos outros, ver caras de gente, murmurar algumas palavras; quem poderia sonhar que uma coisa tão maravilhosa pudesse acontecer. É uma transformação fantástica para todos: os mortos se erguem e caminham sob o sol; esses enterrados vivos, afinal, podem dizer algumas palavras. É uma botija de oxigênio que insufla vida nova a cada um de nós.
Claque, claque, infinidades de claques abrem todas as portas das celas uma quinta-feira de manhã, às 9 horas. Todo recluso recebe ordem de ficar de pé na soleira de sua porta.
— Reclusos — grita uma voz —, inspeção do governador.
Acompanhado por cinco oficiais, sem dúvida todos médicos, um homem alto, elegante, cabelos grisalhos prateados, passa lentamente ao longo do corredor, diante de cada cela. Ouço que lhe indicam quais os de pena mais pesada e os motivos delas. Antes de chegar à altura da minha cela, levantam um homem que não teve forças para esperar por tanto tempo em pé. É um dos antropófagos Graville. Um dos militares diz:
— Mas é um cadáver ambulante, esse aí!
O governador responde:
— Estão todos em estado deplorável.
A comissão chega até a minha cela. O comandante diz:
— Este aqui tem a pena mais pesada da reclusão.
— Como se chama? — pergunta o governador.
— Charrière.
— Sua pena?
— Oito anos por roubo de material do Estado, etc, morte, três e cinco anos, com distinção entre as penas.
— Quanto já cumpriu?
— Dezoito meses.
— Seu comportamento?
— Bom — diz o comandante.
— De saúde?
— Sofrível — diz o médico.
— Que tem a declarar?
— Que este regime é desumano e pouco digno de um povo como o da França.
— Os motivos?
— Silêncio absoluto, nenhuma saída ao pátio e até poucos dias nenhum cuidado médico.
— Mantenha-se em boa conduta e talvez a sua pena seja comutada, se eu continuar no cargo de governador.
— Obrigado.
A partir desse dia, por ordem do governador e do médico-chefe vindos da Martinica e de Caiena, todos os dias, uma hora de saída ao pátio e banho de mar, em uma espécie de piscina improvisada onde os banhistas são protegidos dos tubarões por grandes blocos de pedra.
Às 9 horas, toda manhã, em grupos de cem, descemos da reclusão, completamente nus, para o banho. As esposas e os filhos dos vigias tem ordem de ficar dentro de casa, para a gente poder ir nu.
Já faz um mês que as coisas estão assim. As caras dos homens se transformaram completamente. Essa hora de sol, esse banho em água salgada, o fato de poder falar uma hora por dia, tudo isso transformou radicalmente a manada de reclusos, doentes física e moralmente.
Um dia, no caminho de volta da piscina para a reclusão, estou entre os últimos, quando se ouvem gritos desesperados de mulher e dois tiros de revólver. Percebo:
— Socorro! Minha filha está se afogando!
Os gritos vêm do cais, que não passa de um declive cimentado que entra pelo mar adentro e onde encostam as canoas. Mais gritos:
— Os tubarões!
E mais dois tiros de revólver. Como todo mundo se virou para o lado dos gritos e tiros de revólver, sem pensar duas vezes eu empurro um guarda e saio correndo todo nu para o cais. Quando chego, vejo duas mulheres gritando como duas perdidas, três vigias e uns árabes.
— Entrem na água! — grita a mulher. — Ela não está longe! Eu não sei nadar, senão eu ia. Corja de covardes!
— Os tubarões! — diz um guarda.
E dá outro tiro.
Uma menina com seu vestido azul e branco flutua no mar, levada devagar por uma correnteza fraca. Ela vai sendo levada diretamente para a confluência das correntezas que serve de cemitério para os forçados, mas ainda está muito longe desse ponto. Os guardas atiram sem parar e sem dúvida acertaram vários tubarões porque há umas reviravoltas perto da menina.
— Parem de atirar! — grito eu.
E, sem pensar duas vezes, me atiro na água. Com a ajuda da correnteza, me dirijo rapidamente para o lado da menina, que continua flutuando por causa de seu vestido, batendo os pés com toda a força, para espantar os tubarões.
Só me faltam uns 30 ou 40 metros para alcançá-la, quando chega uma canoa que veio de Royale e que viu a cena de longe. Alcança a menina antes de mim, agarra-a e a põe a salvo. Choro de ódio, sem nem pensar nos tubarões. Por minha vez, também sou pescado para bordo. Arrisquei a vida por nada.
Era isso pelo menos o que eu pensava, porque um mês depois, como uma espécie de recompensa, o Doutor Germain Guibert obtém uma suspensão da minha pena de reclusão, por motivo médico.
A VOLTA A ROYALE
OS BÚFALOS
É assim, por um verdadeiro milagre, que estou de volta a Royale, para cumprir uma pena normal. Deixei a ilha com uma pena de oito anos de reclusão disciplinar e, por causa de uma tentativa de salvamento, estou de volta dezenove meses depois.
Reencontro os amigos: Dega sempre contador, Galgani carteiro, Carbonieri, que foi absolvido no caso de minha fuga, Grandet, Bourset, o carpinteiro, e os homens do carrinho: Naric e Quenier. Também Chatal na enfermaria e meu cúmplice na primeira fuga, Maturette, que continua em Royale, como enfermeiro-ajudante.
Os bandidos corsos continuam todos aqui: Essari, Vicioli, Cesari, Razori, Fosco, Maucuer e Chapar, por causa de quem La Griffe foi para a guilhotina, no caso da Bolsa de Marselha. Todas as vedetes da crônica policial dos anos 27 a 35 estão aqui.
Marsino, o assassino de Dufrêne, morreu na semana passada de miséria fisiológica. Nesse dia, os tubarões tiveram uma refeição privilegiada. Deram a eles um dos peritos em pedras preciosas mais bem conceituados de Paris.
Também está aqui Barrat, apelidado “a Comediante”, milionário campeão de tênis em Limoges, que assassinou um motorista e seu amiguinho íntimo, íntimo demais; Está tuberculoso. Barrat era chefe do laboratório e farmacêutico no hospital de Royale. A gente vira tuberculoso, nas ilhas, por contágio através das coxas, segundo um médico brincalhão.
Enfim, a minha chegada em Royale é um verdadeiro terremoto. Quando entro de novo no bloco dos violentos, é um sábado de manhã. Quase todo mundo está lá, e todos, sem exceção, me recebem de braços abertos e manifestam a sua amizade. Até o sujeito dos relógios, que não fala nunca desde aquela famosa manhã em que quase o guilhotinaram por engano, se manifesta e vem me cumprimentar.
— Então, meus velhos, todo mundo vai bem?
— Sim, Papi, seja bem-vindo.
— Você continua com o seu lugar aqui — diz Grandet. — Ficou vago desde o dia em que você foi embora.
— Obrigado para todos. O que há de novo?
— Uma boa notícia.
— O quê?
— Esta noite, em frente, na sala dos “bem comportados”, acharam morto o servente que denunciou você, dando a sua pista de cima do coqueiro. Foi provavelmente coisa de algum amigo, que não quis que você o encontrasse vivo e lhe poupou o trabalho.
— Sem dúvida, bem que eu gostaria de saber quem é para agradecer.
— Um dia, talvez, ele venha a lhe dizer. Acharam o homem hoje de manhã, na chamada, com uma faca fincada no coração. Ninguém viu nem ouviu nada.
— É melhor assim. E o jogo?
— Tudo bem. O seu lugar está aí.
— Bom. Então recomeçamos a viver nos trabalhos forçados a pena de prisão perpétua. Um dia vamos saber como e quando vai acabar esta história.
— Papi, ficamos realmente todos chateados quando soubemos que você tinha oito “cajus” para mastigar na solitária. Agora que você voltou, acho que não há nas ilhas um único homem capaz de lhe negar ajuda para qualquer coisa que seja, mesmo correndo grandes riscos.
— O comandante está chamando você — diz um servente.
Saio com ele. No posto de guarda, vários guardas me cumprimentam gentilmente. Sigo o servente e me encontro com o Comandante Prouillet.
— Tudo bem, Papillon?
— Tudo bem, comandante.
— Estou feliz por você ter sido indultado e lhe dou os parabéns pelo seu ato de coragem com a filhinha do meu colega.
— Obrigado.
— Vou botá-lo como vaqueiro, aguardando que você possa voltar à limpeza de latrinas, com o direito de pescar.
— Se isso não o comprometer demais, ótimo.
— Isso é da minha conta. O guarda da oficina não está mais aqui e eu, daqui a três semanas, vou para a França. Bom, então você volta ao seu lugar amanhã.
— Não sei como agradecer ao senhor, comandante.
— Esperando um mês antes de tentar uma nova fuga — sugere Prouillet, rindo.
Na sala vejo os mesmos homens, o mesmo modo de viver que antes de partir. Os jogadores, categoria à parte, só pensam e vivem em função do jogo. Os homens que têm garotos vivem, comem e dormem com eles. Verdadeiros casais em que a paixão e o amor entre homens tomam conta de todos os pensamentos, noite e dia. Cenas de ciúme, paixões desenfreadas em que a “mulher” e o “homem” se vigiam mutuamente e que provocam crimes inevitáveis se um deles se cansa do outro e bate asas para outros ninhos.
Pela bela Charlie (Barrat), um preto chamado Simplon matou na semana passada um sujeito que se chamava Sidero. É o terceiro que Simplon mata por causa de Charlie.
Faz apenas duas horas que estou no campo e já dois sujeitos vêm falar comigo.
— Diga, Papillon, queria saber se Maturette é o seu garoto.
— Por quê?
— Problema meu.
— Escute bem. Maturette fez uma fuga comigo de 2 500 quilômetros e ele procedeu como homem, é tudo o que lhe posso dizer.
— Quero saber se ele está com você.
— Não, não conheço Maturette pelo sexo. Gosto dele como um amigo, o resto não é da minha conta, salvo se alguém o prejudicar.
— Mas, se um dia ele fosse a minha mulher?
— Então, se ele está de acordo, não vou me intrometer. Mas, se você o ameaçar para que ele se torne o seu garoto, vai ter que acertar contas comigo.
Que os pederastas sejam passivos ou ativos, dá na mesma, tanto uns como os outros afundam na sua paixão sem pensar em outra coisa.
Achei o italiano daquela história do comboio. Veio me cumprimentar. Digo a ele:
— Você ainda aqui?
— Fiz tudo. Minha mãe me mandou 12 000 francos, o guarda tomou 6 000 de comissão, gastei 4 000 para me fazer desinternar, consegui que me mandassem tirar chapa em Caiena e não pude fazer nada. Depois, fiz com que me acusassem por ter ferido um amigo, você o conhece, Razori, o bandido corso.
— Conheço, e então?
— Combinamos que ele faria uma ferida na barriga e fui para o conselho de guerra com ele, ele como acusador e eu como culpado. Nem conseguimos ficar lá. Em quinze dias estava tudo acabado. Fui condenado a seis meses, que curti na reclusão no ano passado. Você nem soube que eu estava lá. Papi, não agüento mais, tenho vontade de me suicidar.
— É melhor que você morra no mar, numa fuga, pelo menos você morrerá livre.
— Estou pronto para qualquer coisa, você tem razão. Se planejar alguma coisa, me avise.
— De acordo.
A vida em Royale recomeça. Agora estou de vaqueiro. Tenho um búfalo chamado Brutus. Pesa 2 000 quilos, é um assassino de búfalos. Já matou dois outros machos.
— É a última oportunidade dele — me diz o guarda Angosti, que cuida desse serviço. — Se matar mais um, vamos abatê-lo.
Hoje de manhã, travo conhecimento com Brutus. O preto da Martinica que o guia deve ficar comigo uma semana para me ensinar. Tornei-me imediatamente amigo de Brutus, mijando no focinho dele: sua grande língua adora recolher o mijo salgado. Em seguida, dei a ele algumas mangas verdes que apanhei no jardim do hospital. Desço com Brutus preso no timão de uma carroça digna do tempo dos reis gauleses, de tão rústica que ela é, e na qual se acha um barril para 3 000 litros de água. Meu trabalho e o do meu chapa Brutus consiste em ir até o mar encher o barril de água e subir esta terrível encosta até o planalto. Aí, abro a torneira do barril e a água escoa pelas valetas, levando tudo o que sobrou da limpeza das latrinas feita na parte da manhã. Começo às 6 horas e lá pelas 9 já acabei.
Depois de quatro dias, o preto da Martinica declara que posso me virar sozinho. Só há um problema: de manhã, às 5 horas, tenho que nadar no laguinho à procura de Brutus, que se esconde, pois não gosta de trabalhar. Como ele tem o focinho muito sensível, prendeu-se nele uma argola de ferro na qual uma corrente de 50 centímetros fica pendurada o tempo inteiro. Quando encontro Brutus, ele se afasta, mergulha e reaparece mais longe. Às vezes levo mais de uma hora para pegá-lo nesta água estagnada e nojenta, cheia de bichos e vitórias-régias. Enfureço-me sozinho: “Fodido! Filho da mãe! Teimoso como um bretão! Você vai sair daí, sim ou não? Seu merda!” Mas ele só reage à puxada na corrente, quando consigo pegá-lo. Às ofensas, ele nem liga. Quando, finalmente, ele sai da água, então se torna meu chapa.
Tenho dois barris de gordura vazios, que enchi de água doce. Começo por tomar um banho, limpar-me bem desta água viscosa do, lago. Depois de eu ter-me ensaboado e enxaguado bem, sobra em geral mais da metade de um barril de água doce. Aí lavo Brutus com água e gordura de coco. Esfrego bastante as partes sensíveis e o borrifo, para limpá-lo. Brutus esfrega então a cabeça nas minhas mãos e, sozinho, vai se colocar na frente do timão da carroça. Nunca o pico com o dardo, como fazia o cara da Martinica. Brutus é grato, pois anda mais depressa comigo do que com ele.
Há uma linda bufalazinha que está apaixonada por Brutus; ela nos acompanha, andando ao nosso lado. Não a mando embora, como fazia o outro vaqueiro, antes pelo contrário. Deixo que ela beije Brutus e nos acompanhe aonde quer que a gente vá. Por exemplo, não os incomodo quando eles se beijam e Brutus fica agradecido, pois sobe os 3 000 litros de água a uma velocidade incrível. Parece que ele quer compensar o tempo que me fez perder nas suas sessões de língua com Marguerite, já que a búfala se chama Marguerite.
Ontem, na chamada das 6 horas, houve um pequeno escândalo por causa de Marguerite. O preto da Martinica, parece, desaparecia todos os dias para os lados onde costumava ficar a búfala. Apanhado em flagrante por um guarda, pegou trinta dias de cana. “Coito com animal”, motivo oficial. Pois ontem, na chamada, Marguerite chegou ao campo, passou na frente de mais de sessenta homens e, chegando à altura da do preto, deu um pequeno mugido de reconhecimento, parou, virou-se e ficou à espera. Foi uma gargalhada geral, e o preto ficou cinzento de vergonha.
Tenho que fazer três viagens de água por dia. O que mais demora é os dois carregadores de baixo encherem o barril, mas é relativamente rápido. Às 9 horas já acabei e vou pescar.
Fiz um acordo com Marguerite para tirar Brutus da água. Coçando-a no ouvido, ela emite um som parecido com o de uma égua no cio. Aí Brutus sai sozinho. Embora não tenha mais que me lavar, continuo a lhe dar banho, melhor do que antes. Limpinho e sem o cheiro nauseabundo da água nojenta onde ele passa a noite, agrada mais ainda a Marguerite e fica numa alegria imensa por causa disso!
Voltando do mar, na metade da encosta, há um lugar achatado com uma grande laje. Brutus tem o hábito de tomar fôlego aí durante uns cinco minutos; calço então a carroça e assim ele descansa melhor. Mas hoje de manhã, um outro búfalo, Danton, tão grande quanto ele, nos esperava escondido atrás de pequenos coqueiros que ainda só têm folhas, pois ali é um viveiro de plantas. Danton surge e ataca Brutus, que se afasta; o golpe é desviado, e o outro bate na carroça. Um dos chifres dele penetra no barril. Danton faz esforços desmedidos para se livrar; eu liberto Brutus dos arreios. Então Brutus toma distância, do lado mais alto, pelo menos 30 metros, e a galope se precipita contra Danton. O medo ou o desespero fazem com que este, antes que o meu búfalo o tenha atingido, se livre do barril, deixando nele um pedaço de chifre, mas Brutus não consegue brecar em tempo e bate na carroça, que vira.
Aí assisto a uma coisa muito curiosa. Brutus e Danton encostam os chifres sem se empurrar, esfregam apenas seus imensos chifres um no outro. Parece que estão conversando e, no entanto, eles não berram, resfolegam apenas. Em seguida, a búfala sobe lentamente a encosta, seguida pelos dois machos, que, de vez em quando, param e voltam a esfregar e entrelaçar os chifres. Quando demoram demais, Marguerite geme lânguida e continua em direção ao planalto. Os dois mastodontes, um ao lado do outro, prosseguem na caminhada. Depois de três paradas com a mesma cerimônia, chegamos ao planalto. Damos na parte que está diante do farol, uma praça vazia de aproximadamente 300 metros de comprimento. No fundo, o campo dos forçados; à direita e à esquerda, os prédios dos dois hospitais: para prisioneiros e para militares.
Danton e Brutus continuam seguindo a vinte passos. Marguerite, por sua vez, vai tranqüilamente até a parte central da praça e pára. Os dois inimigos chegam até ela. De vez em quando, ela solta o seu gemido, longo e positivamente sexual. Eles tocam novamente os chifres, mas desta, vez tenho realmente a impressão de que estão se falando, pois ao resfôlego se misturam sons que devem significar alguma coisa.
Depois dessa conversa, um deles sai pela direita, lentamente, e o outro pela esquerda. Vão se colocando nas extremidades da praça. Há, portanto, entre eles, 300 metros. Marguerite, sempre no meio, espera. Entendi: vai haver um duelo nos devidos termos, aceitos pelas duas partes, tendo a jovem búfala como troféu. Aliás, a garota búfala está de acordo, orgulhosa porque os dois apaches vão lutar por ela.
A um berro de Marguerite eles se atiram um sobre o outro. Na trajetória que cada um pode percorrer, cerca de 150 metros, é inútil dizer que os seus 2 000 quilos se multiplicam pela velocidade que eles chegam a alcançar. O choque das duas cabeças é tão violento, que os dois ficam nocauteados durante mais de cinco minutos. As pernas de ambos amoleceram. O mais rapidamente refeito é Brutus, que, a galope, volta a seu lugar. A batalha se prolonga por duas horas. Alguns guardas queriam matar Brutus, mas me opus a isso e, num dado momento, num choque, Danton quebrou o chifre que ele já tinha estragado contra o barril. Fugiu, perseguido por Brutus. A batalha-perseguição se prolongou até o dia seguinte. E por onde passaram — jardins, cemitério, lavanderia — destruíram tudo.
Só depois de terem brigado a noite inteira é que, na manhã seguinte, lá pelas 7 horas, Brutus conseguiu encurralar Danton contra a parede do açougue, que está à beira-mar, e aí enfiou um chifre inteiro na barriga do outro. Para acabar com ele definitivamente, Brutus girou duas vezes sobre si mesmo, a fim de que o chifre também girasse dentro da barriga de Danton. E, no meio de um riacho de sangue e tripas, este caiu vencido, agonizante.
Essa batalha de colossos enfraqueceu Brutus a ponto de eu ter que livrar o seu chifre, para ele poder se levantar. Cambaleando, ele se afastou pelo caminho à beira-mar e lá Marguerite se pôs a andar ao lado dele, amparando com sua cabeça sem chifres o pesado pescoço dele.
Não assisti à noite de comemoração da vitória, pois o guarda responsável pelos búfalos me acusou de ter soltado Brutus e, então, perdi o meu lugar de condutor de búfalos.
Pedi para falar com o comandante a respeito de Brutus.
— Papillon, então, o que foi que aconteceu? Brutus deve ser abatido, ele é perigoso demais. Já são três os belos machos que ele mata.
— Vim aqui justamente para pedir ao senhor para salvar Brutus. Este guarda encarregado dos búfalos não entende nada do assunto. Deixe-me contar para o senhor como Brutus agiu em legítima defesa.
O comandante sorri:
— Estou ouvindo.
— ... Portanto, o senhor entendeu, meu comandante, que meu búfalo foi agredido — concluí, depois de ter contado todos os detalhes. — Ainda mais, se eu não tivesse soltado Brutus, Danton o matava preso, incapaz, logo, de se defender, já que ele estava atado à carroça.
— É verdade — diz o comandante.
Nisso, o guarda chega.
— Bom dia, comandante. Estava procurando você, Papillon, pois hoje de manhã você saiu como se fosse trabalhar, mas você não tinha nada para fazer.
— Saí, Sr. Angosti, para ver se conseguia parar essa batalha; infelizmente, eles estavam enfurecidos.
— Sim, é possível, mas agora não terá mais que guiar o búfalo, como eu já disse. Aliás, domingo de manhã, vamos abatê-lo, isso vai dar carne para a penitenciária.
— Não vão fazer isso.
— Não é você que vai me impedir.
— Eu não, mas o comandante. E, se não bastar, o Dr. Germain Guibert, a quem vou pedir para intervir e salvar Brutus.
— Em que você está metendo o nariz?
— Naquilo que é da minha conta. O búfalo, sou eu que o guio e ele é meu camarada.
— Seu camarada? Um búfalo? Você está brincando?
— Olhe, Sr. Angosti, quer me deixar falar um pouquinho?
— Deixe-o tomar a defesa do búfalo dele — diz o comandante.
— Bom, fale.
— O senhor acha, Sr. Angosti, que os bichos falam entre si?
— Por que não? Acho que eles se comunicam.
— Então Brutus e Danton fizeram um duelo de comum acordo.
E de novo explico tudo, do início até o fim.
— Cristacho! — diz o corso —, você é um sujeito curioso, Papillon. Faça um acordo com Brutus, mas, no próximo que ele matar, ninguém o salva, nem o comandante. Ponho você de novo no cargo de vaqueiro. Dê um jeito para o Brutus trabalhar .
Dois dias mais tarde, consertada a carroça pelos operários da oficina, Brutus em companhia de sua legítima esposa, Marguerite, voltava a transportar diariamente água de mar.
REVOLTA EM SAINT- JOSEPH
As ilhas são extremamente perigosas por causa dessa pseudoliberdade de que gozamos. Sofro ao ver todo mundo confortavelmente acomodado numa vida sem problemas. Uns esperam o fim de sua pena e nada mais, enquanto chafurdam nos seus vícios.
Esta noite, estou esticado na minha rede. No fundo da sala há um jogo infernal, a tal ponto que meus dois amigos, Carbonieri e Grandet, foram obrigados a se juntar para controlá-lo. Um só não dava. Quanto a mim, tento fazer aparecer lembranças do meu passado. Elas se negam a vir: parece que o tribunal nunca existiu. Por mais que eu faça força para esclarecer as imagens difusas deste dia fatal, não consigo ver nenhum personagem nitidamente. Apenas o promotor se apresenta com toda a sua cruel verdade. Meu Deus! Pensava ter vencido você definitivamente quando me vi em Trinidad, na casa de Bowen. Qual é a praga que tu me rogaste, nojento, para que seis fugas não me tenham dado a liberdade? Na primeira, quando tu recebeste, dos trabalhos forçados, a notícia, pudeste dormir tranqüilo? Bem que eu gostaria de saber se tu tiveste medo ou apenas raiva, ao saber que tua presa escapara ao caminho da podridão no qual a jogaras quarenta dias antes. Eu tinha estourado a gaiola. Que fatalidade me perseguiu para que eu tivesse de voltar aos trabalhos forçados onze meses depois? Talvez Deus me tenha punido por eu desprezar a vida primitiva mas tão bela que poderia ter levado pelo tempo que quisesse?
Lali e Zoraima, meus dois amores, esta tribo sem polícias, sem outra lei que a maior compreensão entre os seres que a constituem, sim, estou aqui por culpa minha, mas tenho que pensar numa única coisa: fugir, fugir ou morrer. Quando soubeste que eu fora preso novamente e voltara para os trabalhos forçados, se tu tiveste de novo o teu sorriso de vencedor do tribunal, pensando: “Tudo está bem assim, ele está de novo no caminho da podridão onde o coloquei”, tu te enganas. Jamais minha alma ou meu espírito pertencerão a este caminho degradante. Tu tens só o meu corpo: teus guardas, teu sistema penitenciário constatam todo dia, duas vezes por dia, que estou presente e isto te basta. Seis horas da manhã: “Papillon?” — “Presente.” Seis horas da tarde: “Papillon?” — “Presente.” Está tudo bem. Já há seis anos que nós o seguramos, ele já deve ter começado a apodrecer e, com um pouco de sorte, num dia próximo, o sino chamará os tubarões para recebê-lo com todas as honras, no festim diário que lhes oferece gratuitamente o teu sistema de eliminação por desgaste.
Tu te enganas, teus cálculos não estão certos. Minha presença física nada tem a ver com a minha presença moral. Queres que eu te diga uma coisa? Não pertenço aos trabalhos forçados, não assimilei nada dos hábitos dos meus colegas, nem dos hábitos dos meus amigos mais íntimos. Sou candidato permanente à fuga.
Estou conversando com meu acusador, quando dois homens se aproximam da minha rede:
— Está dormindo, Papillon?
— Não.
— Queríamos falar com você.
— Falem. Falando baixinho, aqui não dá para ninguém ouvir.
— Bem, estamos preparando uma revolta.
— Seu plano?
— Mataremos todos os árabes, todos os guardas, todas as esposas dos guardas, com as crianças, porque são sementes de tiras. Para isso, eu, Arnaud, e meu amigo Hautin, com a ajuda de quatro homens que estão de acordo, atacaremos o depósito de armas do comandante. Estou trabalhando lá para manter as armas em bom estado. Tem 23 metralhadoras e mais de oitenta fuzis, carabinas e Lebel. A ação será feita de...
— Pare, não diga mais nada. Me nego a topar. Agradeço a confiança, mas não estou de acordo.
— A gente pensava que você acreditaria ser o chefe da revolta. Deixa eu lhe dar os detalhes que estudamos e vai ver que não tem fracasso possível. Faz cinco meses que estamos preparando o golpe. Já temos mais de cinqüenta homens de acordo.
— Não me dá nenhum nome, me nego a ser o chefe e mesmo a atuar nesse golpe.
— Por quê? Você nos deve uma explicação, depois da confiança que tivemos em lhe dizer tudo.
— Não pedi para você contar os seus projetos. Depois, só faço na vida o que quero e não o que os outros querem. Além disso não sou um assassino em série. Posso matar alguém que me fez algo de grave, mas não mulheres e crianças que não me fizeram nada. O mais grave, vocês não estão vendo e eu vou dizer a vocês: mesmo que a revolta der certo, vocês vão fracassar.
— Por quê?
— Porque a coisa principal, fugir, não é possível. Vamos admitir que cem homens sigam a revolta, como é que vão partir? Há apenas dois barcos nas ilhas. No máximo, não agüentam mais de quarenta presos, as duas. O que vão fazer com os outros sessenta?
— Nós estaremos entre os quarenta que vão partir com os barcos.
— È o que você está imaginando, mas os outros não são mais cretinos que vocês, estarão armados como vocês e, se eles tiverem um pouco de miolo na cabeça, depois de eliminar aqueles de que você falou, vocês vão começar a atirar uns contra os outros, para ter o direito de subir num barco. O mais importante é que, estes dois barcos, nenhum país vai querer recebê-los, os telegramas vão chegar antes de vocês em todos os países para onde poderiam ir, ainda mais com uma legião de mortos deixados atrás de vocês. Em qualquer lugar a que cheguem serão presos e devolvidos à França. Vocês sabem que voltei da Colômbia, sei muito bem o que estou dizendo. Dou a minha palavra de que, depois de um golpe desse, eles devolvem a gente de qualquer lugar.
— Bom. Então, você recusa.
— Recuso.
— É a última palavra?
— É a minha decisão irrevogável.
— Então, vamos, não temos mais nada a fazer aqui.
— Espere um pouco. Peço para vocês não falarem desse projeto com nenhum dos meus amigos.
— Por quê?
— Porque sei de antemão que eles vão recusar; então, não adianta.
— Muito bem.
— Acham que não podem abandonar este projeto?
— Sinceramente, não, Papillon.
— Não entendo o ideal de vocês, já que, muito seriamente, estou explicando que, mesmo que a revolta dê certo, vocês não vão ficar livres.
— Queremos sobretudo nos vingar. E agora que você explicou que é impossível chegar a um país que receba a gente, então entraremos no mato e organizaremos uma turma na selva.
— Dou a minha palavra de que não falarei disso nem ao meu melhor amigo.
— Disso estamos certos.
— Bom, uma última coisa: me avisem oito dias antes para eu ir para Saint-Joseph, a fim de que eu não esteja aqui quando a coisa acontecer.
— Você será avisado em tempo para mudar de ilha.
— Não posso fazer nada para que vocês mudem de idéia? Querem combinar outra coisa comigo? Por exemplo, roubar quatro carabinas e numa noite atacar o posto que guarda os barcos, sem matar ninguém, tomarmos um barco e fugirmos juntos.
— Não, sofremos demais. O principal para a gente é a vingança, mesmo que nos custe a vida.
— E as crianças? E as mulheres?
— Tudo isso é a mesma coisa, o mesmo sangue, tudo isso tem que morrer...
— Não falemos mais nisso.
— Você não nos deseja boa sorte?
— Não. Digo para vocês: desistam, há coisas melhores para fazer do que esta porcaria.
— Você não admite que a gente tenha o direito de se vingar.
— Admito, mas não com inocentes.
— Boa noite.
— Boa noite. Não falamos nada, certo, Papi?
— Certo, caras!
E Hautin e Arnaud vão embora. Essa não, curiosa história! São dois doidos esses sujeitos e, além disso, dizem que têm cinqüenta ou sessenta comprometidos e na hora H mais de cem! História de doido! Nenhum dos meus amigos tocou no assunto, parece certo que os dois caras só falaram com gajos que estão por fora. Não é possível que homens da autêntica malandragem estejam nesse golpe. E isso ainda é mais grave porque na malandragem tem verdadeiros assassinos, mas é fora dela que estão os facínoras capazes desse tipo de coisa.
Esta semana, discretamente, tomei informações sobre Arnaud e Hautin. Arnaud foi condenado, parece que injustamente, à prisão perpétua, por um negócio que não merecia nem dez anos. Os jurados o condenaram tão severamente porque no ano anterior o irmão dele tinha sido guilhotinado por ter matado um tira. O promotor falou mais do irmão que dele mesmo, para criar uma atmosfera de hostilidade, e ele foi condenado a essa pena terrível. Além disso, contam que foi horrivelmente torturado quando o prenderam, sempre por causa do que o irmão tinha feito.
Hautin nunca conheceu a liberdade, está na cadeia desde os nove anos de idade. Antes de sair de um reformatório, aos dezenove anos, matou um sujeito, na véspera do dia em que ia ser libertado para entrar na marinha, onde se alistara para sair do reformatório. Deve estar um pouco louco, pois seu projeto era, parece, chegar à Venezuela, trabalhar numa mina de ouro e fazer explodir a perna para receber uma grande indenização. Sua perna está paralisada por causa de uma injeção de não sei que produto, que ele fez voluntariamente em Saint-Martin-de-Ré.
Grande lance teatral. Hoje de manhã, na chamada, convocaram Arnaud, Hautin e o irmão de meu amigo Matthieu Carbonieri. Jean, o irmão dele, é padeiro, portanto fica no cais, perto das barcas.
Foram enviados a Saint-Joseph sem explicação e sem motivo aparente. Tento saber. Não transpira nada; no entanto, Arnaud estava a quatro anos na manutenção das armas e Jean Carbonieri há cinco anos era padeiro. Pode ser um simples acaso. Deve ter havido uma traição, mas que tipo de traição e até onde?
Resolvo falar com meus três amigos íntimos: Matthieu Carbonieri, Grandet e Galgani. Nenhum dos três sabe de nada. Portanto, estes Hautin e Arnaud só procuraram presos que não eram do meu meio.
— Por que falaram comigo, então?
— Porque todo mundo sabe que você quer fugir a qualquer preço.
— Mas não a este preço.
— Não perceberam a diferença.
— E seu irmão Jean?
— Não sei como é que ele foi suficientemente estúpido para se envolver nessa história.
— Pode ser que aquele que fez o serviço o tenha envolvido sem que ele tenha nada a ver com o caso.
Os acontecimentos se precipitam. Esta noite assassinaram Girasolo na hora em que ele estava entrando nas privadas. Acharam sangue na camisa do vaqueiro da Martinica. Quinze dias depois de uma instrução excessivamente rápida e com base nas declarações de um outro preto que foi posto no isolamento, o antigo vaqueiro foi condenado à morte por um tribunal especial.
Um velho forçado, chamado Garvel e apelidado “o Saboiano”, vem falar comigo no tanque do pátio.
— Papi, estou com um problema, pois fui eu que matei Girasolo. Gostaria de salvar o pretão, mas estou com medo de ser guilhotinado. A este preço, não me apresento. Mas, se achasse um meio para pegar apenas três ou cinco anos, me entregaria.
— Qual é a sua pena de trabalhos forçados?
— Vinte anos.
— Já fez quantos?
— Doze.
— Ache o meio de pegar a prisão perpétua, assim você não ira para a reclusão.
— Como fazer isso?
— Me deixe pensar, hoje à noite lhe digo.
A noite chega. Digo a Garvel:
— Você não pode ser denunciado e depois confessar os fatos.
— Por quê?
— Você corre o risco de ser condenado à morte. O único meio para escapar à reclusão é pegar a prisão perpétua. Você tem que denunciar a si mesmo. Motivo: você não pode, em boa consciência, deixar guilhotinarem um inocente. Escolha um guarda corso como defensor. Direi a você o nome depois de ter falado com ele. Temos que agir depressa. Seria pena se eles liquidassem rápido demais o crioulo. Espere dois ou três dias.
Falei com o guarda Collona, ele me dá uma idéia fantástica: eu mesmo o levo até o comandante e digo que Garvel me pediu que o defendesse e o acompanhasse para confessar; que eu assegurei a ele que, após um gesto de dignidade desses, era impossível que o condenassem à morte; que, no entanto, o caso era gravíssimo e que devia contar com uma condenação à prisão perpétua.
Deu tudo certo. Garvel salvou o pretão, que foi posto em liberdade na hora. A falsa testemunha da acusação recebeu um ano de cadeia. Robert Garvel pegou a prisão perpétua.
Isso se deu faz dois meses. Garvel, só agora que tudo acabou, me explica o resto. Girasolo era o homem que, depois de ter sabido dos pormenores da conspiração para a revolta, da qual tinha aceito participar, denunciou Arnaud, Hautin e Jean Carbonieri. Não sabia, felizmente, de mais nenhum nome.
Diante da enormidade da denúncia, os guardas não acreditaram. No entanto, por medida de precaução, mandaram para Saint-Joseph os três presos delatados, sem dizer nada para eles, nem interrogá-los, nem nada.
— Que explicação você deu, Garvel, para o assassinato?
— Que ele tinha roubado meu canudo. Que eu dormia na frente dele, o que era verdade, e que de noite eu tirava o meu canudo do rabo e o escondia debaixo do cobertor que me serve de travesseiro. Uma noite, fui à privada; quando voltei, o meu canudo tinha desaparecido. Acontece que, em volta de mim, só um homem não estava dormindo, era Girasolo. Os guardas acreditaram na minha explicação, nem me disseram que ele tinha denunciado uma revolta.
— Papillon! Papillon! — gritam no pátio, chamando.
— Presente.
— Pegue suas coisas. Embarque para Saint-Joseph.
— Ah! que merda!
A guerra acaba de estourar na França. Trouxe uma disciplina nova: os chefes de serviço responsáveis por uma fuga serão destituídos. Os prisioneiros capturados em fuga, condenados à morte. As autoridades considerarão que a fuga é motivada pelo desejo de se juntar às forças francesas que traem a pátria. Tolera-se tudo, menos a fuga.
O Comandante Prouillet foi embora faz mais de dois meses. Não conheço o novo comandante. Nada feito. Despeço-me dos meus amigos. Às 8 horas tomo a barca para Saint-Joseph.
O pai de Lisette não está mais no campo de Saint-Joseph. Ele foi para Caiena com a família, na semana passada. O comandante de Saint-Joseph se chama Dutain, é do Havre. É ele que me recebe. Chego só, aliás, e no cais sou entregue ao guarda de serviço pelo guarda-chefe da barca, com alguns documentos que me acompanham.
— Você é o Papillon?
— Sim, comandante.
— Você é um curioso personagem — diz ao consultar o meu processo.
— Por que curioso?
— Porque você é dado como perigoso, de todos os pontos de vista, principalmente numa anotação com tinta vermelha: “Em contínuo estado de preparação para a fuga”. Mas, depois, há uma adenda: “Tentou salvar a filha do comandante de Saint-Joseph no meio dos tubarões”. Eu tenho duas netas, quer vê-las?
Ele chama as gurias de três e cinco anos, que, loirinhas, entram na sala acompanhadas por um jovem árabe, todo vestido de branco, e uma mulher morena, muito bonita.
— Querida, está vendo este homem? Foi ele que tentou salvar a sua afilhada, Lisette.
— Oh! me deixe apertar-lhe a mão — diz a moça.
Apertar a mão de um forçado é a maior honra que se possa lhe fazer. Nunca se dá a mão a um forçado. Fico comovido com a sua espontaneidade e com seu gesto.
— Sim, eu sou a madrinha de Lisette. Somos muito ligados com os Grandoit. O que você vai fazer por ele, querido?
— Primeiro, ele vai para o campo; depois, você vai me dizer o emprego que você quer que eu lhe dê.
— Obrigado, comandante, obrigado, minha senhora. Pode me dizer o motivo por que me mandaram aqui para Saint-Joseph? É quase uma punição.
— A meu ver, não há motivo. Só que o novo comandante receia que você fuja.
— Não está errado.
— Aumentaram as sanções contra os responsáveis por uma fuga. Antes da guerra, era possível que o oficial viesse a perder um galão; agora, é automático, sem falar do resto. É por isso que ele mandou você para cá. Prefere que fuja de Saint-Joseph, onde ele não tem responsabilidade, do que de Royale, que fica exatamente sob a sua jurisdição.
— Quanto tempo o senhor deve ficar aqui, comandante?
— Dezoito meses.
— Não posso esperar tanto tempo, mas vou encontrar um meio de voltar a Royale, para não prejudicar o senhor.
— Obrigado — diz a mulher. — Estou feliz por saber que é tão nobre. Se precisar de qualquer coisa, venha aqui com toda a confiança. Você, papai, dê a ordem ao posto de guarda do campo para que deixem Papillon me visitar quando ele pedir.
— Vou pedir, querida. Mohamed, acompanhe Papillon até o campo, e você, Papillon, escolha a choça para a qual quer ser designado.
— Oh! para mim, é fácil: o bloco dos perigosos.
— Não é difícil — diz rindo o comandante.
Prepara um documento, que entrega a Mohamed.
Deixo a casa que serve de moradia e de escritório ao comandante, à beira do cais, a antiga casa de Lisette, e, acompanhado pelo jovem árabe, chego ao campo.
O chefe do posto de guarda é um velho corso muito violento e assassino conhecido. Chama-se Filissari.
— Então, Papillon, é você que está chegando? Você sabe que eu sou inteiramente bom ou inteiramente ruim. Não tente fugir comigo porque, se fracassar, mato você que nem um coelho. Daqui a dois anos, vou ter a aposentadoria, não quero que me aconteça nada agora.
— O senhor sabe que sou amigo de todos os corsos. Não vou dizer ao senhor que não vou fugir, mas, se fugir, vou dar um jeito para que seja numa hora em que o senhor não esteja de serviço.
— Assim está bom, Papillon. Então, não vamos ser inimigos. Os jovens, você entende, eles podem agüentar melhor os aborrecimentos de uma fuga, mas eu, já viu! Na minha idade e na véspera da aposentadoria, não dá pé. Então, está entendido? Vai para o bloco que lhe indicaram.
Estou no campo, numa sala exatamente igual à de Royale, de cem a 120 detentos. Lá estão Pierrot le Fou, Hautin, Arnaud e Jean Carbonieri. Logicamente eu deveria ficar na patota de Jean, já que é o irmão de Matthieu, mas Jean não tem o nível do irmão e, por causa da amizade dele com Hautin e Arnaud, não me convém. Por isso, deixo-o de lado e vou me instalar perto de Carrier, o bordelês, alcunhado Pierrot le Fou.
A Ilha de Saint-Joseph é mais selvagem que Royale, um pouco menor, mas parece maior por ser mais comprida. O campo se acha a meia altura da ilha, pois ela é composta de dois planaltos superpostos. No primeiro, o campo; no planalto lá de cima, a temível reclusão. Entre parênteses: os reclusos continuam a ir tomar banho todo dia durante uma hora. Esperemos que isso prossiga sempre assim.
Todo dia, ao meio-dia, o árabe que trabalha na casa do comandante me traz três marmitas superpostas, presas num ferro achatado que acaba com um cabo de madeira. Ele deixa as três marmitas e leva as da véspera. A madrinha de Lisette me manda todo dia exatamente a mesma coisa que ela preparou para a família.
Domingo, fui visitá-la para agradecer. Passei a tarde falando com ela e brincando com as crianças. Ao acariciar estas cabecinhas loiras, pensei que às vezes é difícil saber qual é o nosso dever. É terrível o perigo que paira sobre as cabeças desta família, caso os dois trouxas ainda estejam com as mesmas idéias. Depois da denúncia de Girasolo, em que os guardas não acreditaram (não os isolaram, apenas os transferiram para Saint-Joseph), se eu abrir a boca para que os isolem, confirmo a veracidade e a gravidade da primeira delação. E qual seria, então, a reação dos guardas? É melhor calar.
Na choça, Arnaud e Hautin quase não falam comigo. Ê melhor assim, as nossas relações são amáveis, mas sem familiaridade. Jean Carbonieri não fala comigo, ficou magoado porque não topei me instalar junto dele. Nós somos uma patota de quatro: eu, Pierrot le Fou, Marquetti, segundo prêmio de Roma no violino (que freqüentemente toca horas a fio, o que me deixa melancólico) e Marsori, um corso de Seta.
Não falei nada com ninguém e me parece que ninguém está informado da preparação da revolta abortada em Royale. Continuarão com as mesmas idéias? Os três trabalham num serviço pesado. Eles devem puxar, ou melhor, levantar grandes pedras com uma correia. Estas pedras servem para fazer uma piscina no mar. Uma grande pedra é presa com correntes, prende-se nela uma outra corrente comprida de 15 ou 20 metros e, pela direita e pela esquerda, cada forçado, com sua correia em volta do busto e dos ombros, pega com um gancho um elo da corrente. E, então, de uma vez só, exatamente como animais, puxam a pedra até o seu destino. No sol, é um serviço muito pesado e principalmente deprimente.
Tiros de fuzil, de mosquetão, de revólver, do lado do cais. Entendi: os loucos passaram à ação. O que acontece? Quem venceu? Sentado na sala, não me mexo. Todos os presos dizem:
— É a revolta!
— A revolta? Que revolta?
Ostensivamente, quero que fique claro que não sei de nada.
Jean Carbonieri, que não foi trabalhar hoje, vem para perto de mim, branco como um morto, apesar do rosto queimado pelo sol. Baixinho, ouço:
— É a revolta, Papi.
Friamente, respondo:
— Que revolta? Não estou a par.
Os tiros de fuzis continuam. Pierrot le Fou entra correndo na sala.
— É a revolta, mas parece que fracassaram. Que turma de loucos! Papillon, puxa a tua faca. Pelo menos vamos matar o maior número possível antes de morrer!
— Vamos — repete Carbonieri —, vamos matar quantos pudermos!
Chissilia tira uma navalha. Todo mundo pega uma faca aberta na mão. Digo para eles:
— Não sejam estúpidos. Quantos somos?
— Nove.
— Que sete joguem a arma fora. Mato o primeiro que ameaçar um guarda. Não tenho vontade de ser fuzilado nesta sala como um coelho. Você está nesse golpe?
— Não.
— E você?
— Nem eu.
— E você?
— Não sabia de nada.
— Bem. Aqui somos todos homens da malandragem, ninguém sabia nada dessa revolta dos porra-loucas. Entenderam?
— Sim.
— Cada um de nós precisa compreender que abrir a boca é reconhecer que está a par de alguma coisa. Os que fizerem isso serão abatidos. Não vai haver vantagem nenhuma para aquele que for imbecil a ponto de falar. Joguem as armas na latrina, eles não vão demorar a chegar.
— E se foram os presos revoltados que ganharam?
— Se foram os presos, eles que dêem um jeito para completar a vitória com uma fuga. Mas eu, a este preço, não quero, e vocês?
— Nós também não — dizem juntos os oito, inclusive Jean Carbonieri.
Não disse uma palavra do que eu sei, ou seja, que o tiroteio parou, os presos perderam. De fato, o massacre previsto não poderia já estar acabado.
Os guardas chegam feito loucos, empurrando com coronhadas, pauladas, pontapés os trabalhadores do serviço de pedras. Obrigam-nos a entrar no bloco ao lado, no qual todos se precipitam. Os violões, as mandolinas, os jogos de xadrez e de damas, as lâmpadas, os banquinhos, as garrafas de óleo, o açúcar, o café, as roupas brancas, tudo é espezinhado com raiva, destruído e jogado fora. Eles se vingam sobre tudo o que não é regulamentar.
Ouvem-se dois tiros, com certeza de revólver.
Há oito blocos no campo, eles fazem a mesma coisa em todos e, de vez em quando, com violentas coronhadas. Sai um homem pelado, correndo para as celas disciplinares, furiosamente espancado pelos guardas encarregados de levá-lo para a masmorra.
Eles vão em frente, à direita, ao nosso lado. Agora se encontram na sétima choça. Só falta a nossa. Estamos os nove aqui, cada um no seu lugar. Dos que estavam fora trabalhando, nenhum voltou. Cada um de nós está petrificado no seu lugar. Ninguém fala. Estou com a boca seca, pensando: “Oxalá um fodido qualquer não aproveite a oportunidade para me abater impunemente!”
— Estão chegando — diz Carbonieri, morto de medo.
Eles se atiram para dentro, mais de vinte, todos de fuzil ou revólver, prontos para disparar.
— Como — grita Filissari — ainda não estão pelados? O que estão esperando, monte de lixo? Vamos fuzilar vocês. Fiquem pelados, não estamos com vontade de tirar a roupa dos cadáveres.
— Senhor Filissari...
— Cale a boca, Papillon! Agora não dá mais para pedir perdão. O que vocês tentaram fazer é grave demais! E, nessa sala de perigosos, vocês estavam todos na jogada, com certeza!
Os olhos lhe pulam da cara, estão injetados de sangue, com reflexos assassinos, não há engano possível.
— Temos direito de defesa — diz Pierrot.
Resolvo arriscar a bolada toda de uma vez:
— Me espanta que um napoleonista como o senhor queira assassinar inocentes. Quer atirar? Pois muito bem, nada de discurso, não nos interessa. Atire, mas merda, atire depressa! Eu achava que você era um homem, velho Filissari, um verdadeiro napoleonista, me enganei. Não faz mal. Vamos, nem quero ver você quando atirar, eu vou lhe dar as costas. Todos, dêem as costas a estes guardas, para que não possam dizer que a gente ia atacar.
E todos, como se fossem um homem só, voltaram as costas. Os guardas ficam espantados com a minha atitude, ainda mais que (soubemos depois) Filissari tinha fuzilado dois infelizes nas outras choças.
— O que é que você ainda tem para dizer, Papillon?
Ainda de costas, respondo:
— Esta história de revolta, não acredito nela. Por que uma revolta? Para matar os guardas? E fugir? Para ir aonde? Eu sou um homem de fuga, volto de muito longe, da Colômbia. Pergunto: qual é o país que daria asilo a assassinos fugidos? Como se chama este país? Não sejam estúpidos, nenhum homem digno deste nome pode estar envolvido numa história como essa.
— Você talvez, mas Carbonieri? Ele está, tenho certeza, porque hoje de manhã Arnaud e Hautin estranharam que ele não tinha se declarado doente, para não ir ao trabalho.
— Simples impressão, tenho certeza.
Viro-me para ele:
— Vai entender logo. Carbonieri é meu amigo, ele conhece todos os detalhes de minha fuga, não dá para ele continuar a ter ilusões, ele sabe qual é o resultado final de uma fuga depois de uma revolta.
Aí chega o comandante. Fica do lado de fora. Filissari sai e o comandante diz:
— Carbonieri!
— Presente.
— Levem eles para a cela, sem brutalidade. Guarda fulano, acompanhe-o. Saiam todos, que fiquem aqui apenas os guardas-chefes. Vamos, tragam todos os presos dispersos na ilha. Não matem ninguém, tragam para o campo todos, sem exceção.
Na sala entram o comandante, o subcomandante e Filissari, que volta com quatro guardas.
— Papillon, acaba de acontecer algo muito grave — diz o comandante. — Como comandante da penitenciária, devo assumir uma responsabilidade muito importante. Antes de tomar certas medidas, quero obter rapidamente algumas informações. Eu sei que, numa ocasião tão crucial, você se teria negado a falar em particular comigo, por isso vim aqui. Foi assassinado o guarda Duclos. Tentaram tomar as armas depositadas na minha casa; trata-se, portanto, de uma revolta. Só tenho alguns minutos, confio em você: sua opinião?
— Se tivesse havido uma revolta, será que não estaríamos a par? Por que não nos teriam informado? Quantas pessoas estariam comprometidas? A estas três perguntas que faço, comandante, vou responder, mas antes quero que o senhor me diga quantos homens se mexeram, depois de terem matado o guarda e tomado a arma dele.
— Três.
— Quem são?
— Arnaud, Hautin e Marceau.
— Entendi. Qualquer que seja o seu ponto de vista, concluo que não houve revolta.
— Você mente, Papillon — diz Filissari. — Esta revolta devia se dar em Royale, Girasolo a tinha denunciado, mas nós não acreditamos. Hoje, percebo que tudo o que ele disse era verdade. Portanto, você está nos enganando, Papillon!
— Mas, então, se são vocês que têm razão, eu sou um frouxo e Pierrot le Fou também e Galgani e todos os bandidos corsos de Royale e os homens da zona. Apesar do que aconteceu, não acredito. Se tivesse havido uma revolta, os chefes seríamos nós e nenhum outro.
— Não posso aceitar o que você está me dizendo. Ninguém está envolvido nisso? Impossível.
— Onde está a ação dos outros? Além desses três loucos, alguém se mexeu? Será que alguém mais teve um gesto, esboçado que seja, para tomar o posto de guarda onde se encontram quatro guardas armados, mais o chefe, o Sr. Filissari, com carabinas? Quantos barcos há em Saint-Joseph? Só uma chalupa. E então: uma chalupa para seiscentos homens? Nós somos doidos, somos? E matar para fugir! Vamos supor que vinte consigam fugir; é só para se fazerem prender em qualquer lugar e serem devolvidos. Comandante, ainda não sei quantos homens os seus guardas ou o senhor mesmo mataram, mas estou quase certo de que eram todos inocentes. E, agora, o que significa isso, destruir as poucas coisas que possuímos? Sua ira parece justificada, mas não esqueça que o dia em que não deixar um mínimo de vida agradável para os forçados, neste dia, então sim, pode ocorrer uma revolta, a revolta dos desesperados, a revolta de um suicídio coletivo; morrer por morrer, morreremos todos juntos: guardas e forçados. Sr. Dutain, falei de coração aberto, acredito que o senhor mereça de nós toda a franqueza, pelo simples fato de ter vindo até a gente para se informar antes de tomar decisões. Deixe-nos em paz.
— E aqueles que estão comprometidos? — fala de novo Filissari.
— Vocês que os procurem. Nós não sabemos de nada, não podemos ser úteis para vocês a esse respeito. Repito, esta história é uma loucura de porra-loucas, nada temos a ver com isso.
— Senhor Filissari, depois dos homens entrarem na choça dos perigosos, mande fechar as portas até nova ordem. Dois guardas na porta, nenhuma sevícia contra esses homens e nada de destruir o que lhes pertence. Vamos.
E foi embora com os outros guardas.
Ufa! Livramos por pouco. Ao fechar a porta, Filissari me sai com esta:
— Você teve sorte que eu seja napoleonista!
Em menos de uma hora, quase todos os homens do nosso bloco já entraram. Faltam dezoito: os guardas percebem que, na sua precipitação, os fecharam em outros blocos. Quando eles se juntam a nós, ficamos sabendo o que aconteceu, pois estes homens estavam no serviço. Um ladrão me conta baixinho:
“Imagine, Papi, que a gente tinha puxado uma pedra de quase 1 tonelada durante 400 metros mais ou menos. O caminho onde içamos as pedras não tem trechos muito íngremes e chegamos até um poço a mais ou menos 50 metros da casa do comandante. Este poço sempre serviu de parada. Está à sombra dos coqueiros e na metade do caminho que a gente tem que fazer. Então, paramos, como de costume, puxamos um grande balde de água fresca e bebemos. Alguns molharam o lenço para botar na cabeça. Como a parada é de uns dez minutos, o guarda também se sentou na beirada do poço. Ele tirou o capacete e estava enxugando a testa e a cabeça com um grande lenço, quando Arnaud se aproximou por trás com uma enxada na mão sem levantá-la, assim ninguém podia gritar para avisar o guarda. Levantar a enxada e abater o gume bem no meio da cabeça do guarda foi um movimento que durou só um segundo. Com a cabeça aberta em dois, o guarda se esticou sem um grito. Assim que ele caiu, Hautin. que estava naturalmente colocado na frente dele, apanhou o fuzil e Marceau lhe tirou o cinturão com o revólver. De revólver na mão, Marceau se voltou para a turma toda e disse: “É uma revolta. Quem estiver com a gente, que nos siga”. Nenhum dos serventes se mexeu, nem gritou, e nenhum dos homens da turma de serviço manifestou a intenção de segui-los. Arnaud nos olhou a todos — prossegue o cara — e nos diz: “Corja de covardes, vamos mostrar para vocês o que é ser homem!” Arnaud tomou o fuzil das mãos de Hautin e os dois correram na direção da casa do comandante. Marceau ficou aí, um pouco afastado. Ele tinha na mão o revólver grande e dava ordens: “Não se mexam, não falem, não gritem. Vocês, árabes sujos, deitem de cara no chão”. De lá onde estava, vi tudo o que aconteceu.
“Quando Arnaud estava subindo a escada para entrar na casa do comandante, o árabe que trabalha lá, nesse momento preciso, abriu a porta com duas crianças, com uma no colo e dando a mão à outra. Os dois ficaram espantados, o árabe com a guria no colo deu um pontapé em Arnaud. Este quis matar o árabe, mas o cara se defendeu botando a criança na frente dele. Ninguém gritou. Nem o árabe, nem os outros. Quatro ou cinco vezes, o fuzil foi dirigido de ângulos diversos contra o árabe. Toda vez, ele botava a guria na frente do cano. Sem subir a escada, Hautin segurou a bainha das calças do árabe. Ele estava para cair e, aí, de uma vez só, jogou a guria contra o fuzil de Arnaud. Desequilibrando-se na escada, Arnaud, a guria e o árabe, que Hautin puxava pela perna, caíram embolados. Aí surgiram os primeiros gritos, no início das crianças, depois do árabe, seguidos pelos insultos de Arnaud e Hautin. O árabe pegou no chão, mais rápido do que eles, a arma que tinha caído, mas segurou-a com a mão esquerda e apenas pelo cano. Hautin pegou novamente a perna dele nas mãos. Arnaud lhe segurou o braço direito e lhe deu uma chave de braço. O árabe jogou o fuzil a mais de 10 metros.
“No momento em que os três se precipitavam para apanhá-lo, houve o primeiro tiro, foi um guarda do serviço de folhas secas. O comandante apareceu pela janela e começou a dar tiros, um em cima do outro, mas, com medo de ferir o árabe, atirou no lugar onde estava o fuzil. Hautin e Arnaud fugiram na direção do campo pela estrada à beira-mar, perseguidos pelos tiros. Hautin, com sua perna dura, corria mais devagar e foi abatido antes de chegar ao mar. Arnaud entrou na água, você sabe, entre a piscina em construção e a dos guardas. Lá está sempre cheio de tubarões. Arnaud foi cercado pelos tiros, já que um outro guarda veio ajudar o comandante e o guarda das folhas secas. Arnaud estava atrás de uma grande pedra.
“— Se entregue — gritaram os guardas — e nós poupamos a sua vida!
“— Nunca — respondeu Arnaud —, prefiro servir de bóia para os tubarões, assim nunca mais verei suas caras de fodidos.
“E entrou no mar, direto no lugar dos tubarões. Acho que ele levou um tiro, porque, num determinado momento, parou. Apesar disso, os guardas continuaram a atirar. Ele continuou caminhando, sem nadar. O peito dele ainda não tinha afundado todo na água, quando os tubarões atacaram. Vimos muito bem quando ele deu um soco num tubarão que, metade fora da água, se jogou sobre ele. Depois, foi totalmente esquartejado pelos tubarões, que puxavam por todos os lados, sem cortar os braços nem as pernas. Em menos de cinco minutos, tinha desaparecido.
“Os guardas deram pelo menos cem tiros de fuzil na massa constituída por Arnaud e os tubarões. Só morreu um tubarão, cujo corpo chegou na praia de barriga para cima. Como tinham chegado guardas por todos os lados, Marceau pensou em salvar a pele jogando a arma no poço, mas os árabes se levantaram e, com pauladas, com pontapés e com os próprios punhos, o empurraram na direção dos guardas, dizendo que ele estava metido no golpe. Embora estivesse cheio de sangue e com as mãos para cima, os guardas o mataram com tiros de revólver e fuzil e, para acabar com ele, um guarda lhe esmagou a cabeça com uma coronhada de carabina usada como tacape.
“Todos os guardas descarregaram os revólveres sobre Hautin. Cada um tinha 36 tiros; morto ou vivo, ele levou quase 150 tiros. Os sujeitos que foram mortos por Filissari são homens que os árabes denunciaram como se tivessem tentado, no início, seguir Arnaud e que depois desistiram por medo. Mentira pura, porque, se tinha cúmplices, ninguém se mexeu.”
Já faz dois dias que estamos todos trancados nas salas correspondentes a cada categoria. Ninguém sai para trabalhar. Na porta, as sentinelas se revezam a cada duas horas. Proibido falar de um bloco para o outro. Proibido aproximar-se das janelas. É da passagem formada pelas duas fileiras de redes que, ficando um pouco recuado, pela porta gradeada, um preso pode ver o pátio. Como reforços, chegaram guardas de Royale. Nenhum preso sai. Os árabes também estão controlados. Todo mundo está trancado. De vez em quando, sem grito, sem brutalidade, vê-se passar um homem pelado que, seguido por um guarda, se dirige para as solitárias. Pelas janelas laterais, os guardas olham com freqüência para dentro da sala. Na porta, uma à direita, uma à esquerda, ficam as duas sentinelas. A duração do plantão é curta, duas horas, mas não se sentam nunca, nem botam a arma a tiracolo: a carabina fica encostada no braço, pronto para atirar.
Resolvemos jogar pôquer em pequenos grupos de cinco. Nada de marselhesa, nem de jogos com muita gente, são muito barulhentos. Marquetti, que tocava uma sonata de Beethoven no violino, foi obrigado a parar.
— Pára com esta música. Nós, guardas, estamos de luto.
Uma tensão pouco comum paira não só na choça, mas no campo inteiro. Nada de café. Nada de sopa. Uma bola de pão pela manhã, corned-beef ao meio-dia, corned-beef à noite, uma lata para cada quatro homens. Como aqui não destruíram nada, temos café e algum alimento: manteiga, óleo, farinha, etc. As outras choças não têm mais nada. Quando a fumaça do fogo para fazer café saiu das privadas, um guarda mandou apagar o fogo. Era um velho de Marselha, velho duro, chamado Niston, que estava fazendo café para vender. Teve o peito de responder ao guarda:
— Se você quiser que se apague o fogo, venha apagá-lo você mesmo.
Então, o guarda atirou várias vezes pela janela. Café e fogo foram rapidamente destroçados.
Niston recebeu uma bala na perna. Tamanha é a tensão, que a gente pensou que eles começavam a nos fuzilar e nos jogamos todos de bruços no chão.
O chefe do posto de guarda, neste momento, ainda é Filissari. Ele corre feito louco, acompanhado por seus quatro guardas. O guarda que atirou explica o que aconteceu, é um tipo de Auvergne. Filissari o insulta em corso, e o outro, que não entende bulhufas, não sabe o que responder:
— Não entendo...
Voltamos para as nossas redes. A perna de Niston sangra.
— Não diga que estou ferido, podem acabar comigo lá fora.
Filissari se aproxima da grade. Marquetti fala com ele em corso. Ele diz:
— Faça seu café, o que acaba de acontecer não se repetirá.
E vai embora.
Niston teve a sorte de a bala não ter ficado dentro: penetrou na parte inferior do músculo e saiu na metade da perna. Amarram a perna dele para estancar o sangue e fazem um curativo com vinagre.
— Papillon, saia.
São 8 horas da noite, portanto já está escuro.
O guarda me chama, não o conheço, deve ser um bretão.
— Por que vou sair a esta hora? Não tenho nada para fazer aí fora.
— O comandante quer falar com você.
— Diga para ele vir aqui. Eu não saio.
— Recusa?
— Sim, recuso.
Meus amigos me cercam. Fazem um círculo à minha volta. O guarda fala da porta fechada. Marquetti vai até a porta e diz:
— Não deixaremos Papillon sair sem a presença do comandante.
— Mas é ele que o manda buscar.
— Diga para vir ele mesmo.
Uma hora depois, dois jovens guardas aparecem na porta. Estão acompanhados pelo árabe que trabalha na casa do comandante. Aquele que o salvou e que impediu a revolta.
— Papillon, sou eu, Mohamed. Venho buscá-lo, o comandante quer falar com você, ele não pode vir até aqui.
Marquetti me diz:
— Papi, o sujeito está armado com um fuzil.
Saio então do círculo dos meus amigos e me aproximo da porta. De fato, Mohamed tem um fuzil debaixo do braço. Nos trabalhos forçados acontecem as coisas mais incríveis. Um forçado oficialmente armado de fuzil!
— Venha — me diz o árabe —, estou aqui para lhe proteger e defender, se for necessário.
Custo a acreditar.
— Venha conosco!
Saio, Mohamed se coloca ao meu lado e os dois guardas atrás. Vou falar com o comandante. Passando pelo posto de guarda, na saída do campo, Filissari me diz:
— Papillon, espero que você não tenha nada contra mim.
— Nem eu, pessoalmente, nem ninguém na choça dos perigosos. Nos outros lugares, não sei.
Descemos até o comando. A casa e o cais estão iluminados com lâmpadas de carbureto que tentam espalhar luz à sua volta, sem conseguir. No caminho, Mohamed me dá um maço de cigarros. Ao entrar na sala fortemente iluminada com duas lâmpadas de carbureto, vejo, sentados, o comandante de Royale, o subcomandante, o comandante de Saint-Joseph, o da reclusão e o segundo-comandante de Saint-Joseph.
Fora, entrevi, vigiados por guardas, quatro árabes. Reconheci dois que estavam no serviço em questão.
— Chegou Papillon — diz o árabe.
— Boa noite, Papillon — diz o comandante de Saint-Joseph.
— Boa noite.
— Sente aqui, nessa cadeira.
Estou de frente para todo mundo. A porta da sala está aberta para a cozinha, onde a madrinha de Lisette me faz um aceno amistoso.
— Papillon — diz o comandante de Royale —, você é considerado pelo Comandante Dutain como um homem digno de confiança, redimido pela tentativa de salvamento da afilhada de sua esposa. Eu só o conheço pelas anotações oficiais que apresentam você como perigoso, de todos os pontos de vista. Quero esquecer essas anotações e acreditar no meu colega Dutain. Vamos ao assunto: vai chegar, sem dúvida, uma comissão de inquérito e todos os presos de todas as categorias terão de declarar o que sabem. É certo que você e mais alguns outros têm uma grande influência sobre todos os condenados e eles seguirão fielmente as instruções de vocês. Queremos saber qual é a sua opinião sobre a revolta e também se, mais ou menos, você está prevendo o que atualmente a sua choça, primeiro, e depois as outras, poderiam declarar.
— Eu não tenho nada a dizer, não tenho que influenciar os outros. Se a comissão vem com a intenção de fazer realmente um inquérito, nessa atmosfera de agora os senhores serão todos destituídos.
— O que você está dizendo, Papillon? Impedi a revolta, eu e meus colegas de Saint-Joseph!
— Talvez o senhor possa se salvar, mas não os chefes de Royale.
— Explique-se!
E os dois comandantes de Royale se levantam e sentam logo em seguida.
— Se continuarem a falar oficialmente em revolta, estão todos perdidos. Se aceitarem as minhas sugestões, todos se salvarão menos Filissari.
— Que sugestões?
— Primeiro, que a vida retome seu curso normal, imediatamente, a partir de amanhã de manhã. Só se a gente puder conversar é que se pode ter influência sobre todo mundo, a respeito do que os caras devem declarar à comissão. Correto?
— Sim — diz Dutain. — Mas por que nós, segundo você, estamos numa situação delicada?
— Vocês, de Royale, não são apenas os chefes de Royale, mas também chefes das três ilhas.
— Sim.
— Acontece que receberam uma denúncia de Girasolo delatando uma revolta em preparação. E indicando os chefes: Hautin e Arnaud.
— Carbonieri também — acrescenta o guarda.
— Não, isto não é verdade. Carbonieri era inimigo pessoal de Girasolo desde Marselha, então ele o incluiu gratuitamente na história. Mas a revolta, os senhores não acreditaram nela. Por quê? Porque ele disse que a revolta tinha como objetivo matar mulheres, crianças, árabes e guardas, coisa que parecia impossível. Por outro lado, haveria só duas chalupas para oitocentos homens em Royale e um para seiscentos em Saint-Joseph. Nenhum homem sério podia aceitar se envolver numa história dessas.
— Como é que sabe tudo isso?
— Problema meu. Mas, se continuarem a falar em revolta, nem que me façam sumir, e mais ainda se o fizerem, tudo isso será dito e provado. Então aparecerá a responsabilidade de Royale, que mandou estes homens a Saint-Joseph, mas sem separá-los um do outro. Embora reconheça que era difícil acreditar nessa história de loucos, a medida lógica era mandar um deles para a Ilha do Diabo e o outro para Saint-Joseph. E, se o inquérito descobrir isso, vocês não escaparão a sanções graves. Se falarem em revolta, continuo insistindo, vão se afundar. Então, devem aceitar as minhas sugestões: primeiro, como já disse, que a partir de amanhã a vida recomece normalmente; segundo, que todos os homens encarcerados nas celas por serem suspeitos de ter conspirado saiam imediatamente, e que não sejam interrogados sobre a sua cumplicidade na revolta, já que ela não existiu; terceiro, que imediatamente Filissari seja enviado a Royale, para a sua segurança pessoal, porque, se não houve revolta, como justificar o assassinato dos três homens? E também porque esse guarda é um assassino nojento e, quando agiu durante o incidente, estava com um medo louco e queria matar todo mundo, inclusive a gente lá na choça. Se aceitarem estas sugestões, farei com que todo mundo declare que Arnaud, Hautin e Marceau agiram de modo a fazer todo o mal possível antes de morrer. O que eles fizeram era imprevisível. Eles não tinham nem cúmplices, nem confidentes. Afinal de contas, são sujeitos que resolveram se suicidar desse modo, matar o maior número possível de pessoas antes de serem mortos eles mesmos, o que provavelmente estavam querendo. Se quiserem, eu vou ficar na cozinha e poderão assim discutir para me dar uma resposta.
Entro na cozinha e fecho a porta, A Sra. Dutain me aperta a mão, me dá um café e conhaque. O árabe Mohamed diz:
— Você não disse nada em meu favor?
— Isso é da conta do comandante. Já que ele lhe deu uma arma, é que tem a intenção de lhe fazer indultar.
A madrinha de Lisette me diz, baixinho:
— Você mandou brasa no pessoal de Royale.
— Claro, para eles era fácil demais aceitar uma revolta em Saint-Joseph, onde todo mundo devia estar informado, menos o seu marido.
— Papillon, ouvi tudo e logo entendi que você queria nos favorecer.
— É verdade, Sra. Dutain.
A porta se abre.
— Entre, Papillon — diz um guarda.
— Sente, Papillon — diz o comandante de Royale. — Após deliberação, concluímos por unanimidade que você tinha provavelmente razão. Não houve revolta. Os três forçados tinham resolvido se suicidar, matando antes a maior quantidade possível de gente. Portanto, amanhã a vida continua como antes. O Sr. Filissari será transferido hoje mesmo para Royale. Seu caso é da nossa conta e a este respeito não lhe pedimos nenhuma colaboração. Esperamos que você mantenha a sua palavra.
— Contem comigo. Até logo.
— Mohamed e os guardas, levem Papillon à sala. Façam entrar Filissari, ele vai conosco a Royale.
No caminho, digo a Mohamed que espero que ele seja posto em liberdade. Ele me agradece.
— Então, o que queriam os guardas?
Num silêncio absoluto, conto em voz alta, palavra por palavra, exatamente o que aconteceu.
— Se houver alguém que não está de acordo ou que pensa poder criticar este acordo que fiz com os guardas em nome de todos, que o diga.
Em coro, todos estão de acordo.
— Você acha que eles acreditaram que não tem mais ninguém envolvido?
— Não, mas se não quiserem cair, eles têm que acreditar. E nós, se não quisermos aborrecimentos, também temos que acreditar.
Hoje de manhã, às 7 horas, esvaziaram todas as celas do bloco disciplinar. Havia mais de 120 homens. Ninguém saiu para o trabalho, mas todas as salas foram abertas e o pátio está cheio de forçados que, em liberdade, falam, fumam, tomam sol, ou ficam na sombra, à vontade. Niston foi para o hospital. Carbonieri me diz que tinham colocado a indicação “Suspeito de cumplicidade na revolta” em pelo menos oitenta das cem portas das ceias.
Agora que estamos todos reunidos, ficamos sabendo a verdade. Filissari só matou um homem, os dois outros foram mortos por jovens guardas, ameaçados por homens que, encurralados e pensando que os outros fossem matá-los, investiam de faca aberta, para tentar matar pelos menos um antes de morrer. E foi assim que uma verdadeira revolta — que, felizmente, fracassou no nascedouro — se tornou o original suicídio de três forçados, tese aceita por todo mundo: administração e condenados. Ficou uma lenda ou uma história verdadeira, não sei exatamente, algo entre estas duas palavras.
Dizem que o enterro dos três mortos do campo, além de Hautin e Marceau, foi feito do modo seguinte: como há apenas um caixão com corrediça para jogar os cadáveres no mar, os guardas os botaram todos na canoa e os cinco de uma vez foram jogados ao mar. Isso foi feito na suposição de que os últimos teriam o tempo de afundar com as pedras nos pés, enquanto seus amigos eram devorados pelos tubarões. Disseram-me que nenhum dos cadáveres conseguiu desaparecer no mar e que os cinco, à noitinha, dançaram um bailado de mortalha branca, verdadeiros bonecos animados pelo focinho ou pelo rabo dos tubarões neste festim digno de Nabucodonosor. Os guardas e os remadores teriam, inclusive, fugido diante de tanto horror.
A comissão veio e ficou quase cinco dias em Saint-Joseph e dois em Royale. Não me fizeram interrogatório especial, foi igual aos outros. Pelo Comandante Dutain, soube que tudo correu do melhor modo possível. Deram licença a Filissari até a aposentadoria, portanto ele não vai voltar. Mohamed foi indultado. O Comandante Dutain recebeu um galão a mais.
Como há sempre insatisfeitos, um bordolês me perguntou ontem:
— E o que é que nós ganhamos por ter feito um acordo com os guardas?
Olho o sujeito:
— Quase nada: cinqüenta ou sessenta forçados não vão fazer cinco anos de reclusão disciplinar por cumplicidade na revolta, você acha que isso não é nada?
Essa tempestade felizmente se acalmou. Uma espécie de tácita cumplicidade entre guardas e forçados descontrolou completamente a famosa comissão que, talvez, só queria isso: que tudo se ajeitasse da melhor maneira.
Eu, pessoalmente, não ganhei nem perdi nada, a não ser que meus colegas me agradeceram por terem escapado a uma vida que certamente ia ser mais severa. Pelo contrário, a vida agora até melhorou: chegaram até a suprimir a tarefa de içar pedras. Esse horrível serviço foi abolido. Agora são búfalos que puxam as pedras e os forçados as botam no lugar. Carbonieri voltou para a padaria. Por mim, procuro voltar para Royale. De fato, aqui não há oficina, é portanto impossível construir uma jangada.
A chegada de Pétain ao governo fez piorarem as relações entre forçados e guardas. Todo o pessoal da administração declarou bem alto que é petainista, a ponto de um gualda normando me dizer:
— Quer que eu lhe diga uma coisa, Papillon? Eu nunca fui republicano.
Nas ilhas, ninguém tem rádio e não se recebem notícias. Além do mais, dizem que, na Martinica e em Guadalupe, abastecemos os submarinos alemães. Há sempre polêmicas.
— Merda, quer que eu lhe diga, Papi? É agora que a gente precisa se revoltar para dar as ilhas aos franceses de De Gaulle.
— Você acha que o Grand Charles precisa dos forçados? Para quê?
— Eh! Para conseguir mais 2 000 ou 3 000 homens!
— Leprosos, trouxas, tuberculosos, doentes de disenteria? Você está brincando! Este sujeito não é um fodido para se meter com os forçados.
— E os 2 000 que ainda estão sadios?
— Isso já é outra coisa. Mas nem por serem homens sadios são bons para a guerra. Você acha que a guerra é um assalto a mão armada? Um assalto dura dez minutos; a guerra dura anos. Para ser um bom soldado, é preciso ter a fé do patriota. Que você goste disso ou não, a verdade é que não vejo aqui um sujeito capaz de dar a vida pela França.
— E por que a gente dana a vida pela França, depois de tudo o que ela nos fez?
— Então, está vendo que tenho razão. Ainda bem que o Grand Charles tem outros homens além de vocês para fazer a guerra. Fico doente só de pensar que esses alemães nojentos estão na nossa casa! E pensar que há franceses colaborando com os boches! Os guardas aqui, sem exceção, declaram que estão com Pétain.
O conde de Berac diz:
— Seria uma maneira de um condenado se redimir.
Aí se dá o seguinte fenômeno: nunca antes um sujeito falava em se redimir. E agora todo mundo, homens da malandragem e da periferia, todos esses coitados estão vendo um clarão de esperança.
— Para ser incorporados às fileiras de De Gaulle, Papillon, não devemos fazer esta revolta?
— Lamento muito, mas não tenho que me redimir aos olhos de ninguém. Estou me lixando para a justiça francesa e seu capítulo Reabilitação. Já me declarei reabilitado eu mesmo, meu dever é fugir e, depois de livre, ser um homem normal que vive numa sociedade sem ser um perigo para ela. Não acho que um sujeito possa provar essa coisa de um outro modo. Estou, portanto, a favor de qualquer ação voltada para uma fuga. Tomar as ilhas para De Gaulle é coisa que não me interessa e tenho certeza de que a ele também não. Além disso, se você fizer um negócio desses, sabe o que vão dizer os caras importantes? Que vocês tomaram as ilhas para se libertarem, e não para fazer um gesto em favor da França livre. E, além disso, quem tem razão? De Gaulle ou Pétain? Não sei absolutamente de nada. Sofro como um pobre fodido porque meu país foi invadido, penso nos meus, em meus pais, minhas irmãs, minhas sobrinhas.
— Não devemos ser bestas, não é para se preocupar tanto por causa de uma sociedade que não teve nenhuma piedade pela gente.
— Mas isso é normal, porque os tiras e o sistema judiciário francês, e estes policiais e estes guardas, nada disso é a França; é uma gang feita de pessoas com mentalidade completamente deformada. Quantos destes caras não estão dispostos hoje a se tornar criados dos alemães? Quer apostar que a polícia francesa prende compatriotas para entregá-los às autoridades alemãs? Bom. Eu digo e repito, não topo uma revolta, qualquer que seja o motivo. Topo uma fuga, mas que fuga?
Discussões muito graves se travam entre os clãs. Uns são a favor de Pétain, os outros estão com De Gaulle. No fundo, não se sabe nada porque não temos, como já disse, nenhum rádio, nem com os guardas, nem com os prisioneiros. As notícias chegam pelos barcos que passam e trazem um pouco de farinha, de legumes secos e de arroz. Para nós, a guerra, vista de tão longe, é difícil de entender.
Teria chegado a Saint-Laurent-du-Maroni, parece, um aliciador das forças livres. Nos trabalhos forçados, não se sabe de nada, a não ser que os alemães ocuparam a França toda.
Um incidente divertido: chegou um padre em Royale e fez um sermão depois da missa. Disse:
— Se as ilhas forem atacadas, vocês receberão armas para ajudar os guardas a defender a terra da França.
É autêntico. Engraçado, esse padre, e só podia pensar muito mal da gente! Pedir aos prisioneiros para defender sua cela! Só faltava essa, nos trabalhos forçados!
A guerra, para nós, se traduz no seguinte: dobrado o efetivo de guardas, desde o simples vigilante ao comandante e guarda-chefe; muitos fiscais, alguns com um sotaque alemão ou alsaciano muito forte; muito pouco pão: recebemos quatrocentos gramas; muito pouca carne.
Enfim, a única coisa que aumentou é o preço da fuga fracassada: condenado à morte e executado. Pois, na acusação, acrescentam: “Tentou passar para as fileiras dos inimigos da França”.
Estou em Royale já faz quase quatro meses. Tornei-me amicíssimo do médico Germain Guibert. Sua esposa, uma senhora excepcional, me pediu que lhe fizesse uma horta para ajudá-la a viver com esse regime de cinto apertado. Fiz uma horta com alfaces, rabanetes, vagens, tomates e berinjelas. Ela está encantada e me trata como um bom amigo.
Esse médico nunca apertou a mão de um guarda, de qualquer patente, mas freqüentemente apertou a minha ou a de alguns forçados que ele soube conhecer e estimar.
Depois de devolvido à liberdade, entrei novamente em contato com o Dr. Germain Guibert, por intermédio do Dr. Rosenberg. Ele me enviou uma fotografia dele e de sua esposa na Canebière, em Marselha. Estava de volta de Marrocos e me dava os parabéns por me saber livre e feliz. Morreu na Indochina, ao tentar salvar um ferido que tinha ficado para trás. Era um indivíduo excepcional e sua mulher era digna dele. Quando fui à França, em 1967, tive vontade de visitá-la. Mas desisti, porque ela tinha deixado de me escrever, depois que eu lhe pedi um atestado em meu favor, o que ela fez, aliás. Mas, depois, nunca mais deu sinal de vida. Não sei a causa desse silêncio, mas guardo na minha alma, para os dois, a mais alta gratidão pelo modo como me trataram no seu lar em Royale.
Depois de alguns meses, consegui voltar para Royale.
SAINT- JOSEPH
MORTE DE CARBONIERI
Ontem, meu amigo Matthieu Carbonieri levou uma facada em pleno coração. Este assassinato vai desencadear uma série de outros. Ele estava no banheiro, se lavando, e foi com o rosto cheio de sabão que levou essa facada, Quando a gente toma banho, tem o hábito de abrir a faca e deixá-la sob as roupas, a fim de ter tempo de pegá-la se alguém que a gente pensa ser inimigo se aproxima subitamente. Não ter feito isso foi um erro que custou a vida dele. Quem matou meu amigo foi um armênio, um tipo perigoso.
Com a autorização do comandante, ajudado por um outro, desci meu amigo até o cais. Ele é pesado e, descendo o costão, tive que descansar três vezes. Fiz com que lhe amarrassem uma grande pedra aos pés e, em lugar de corda, um fio de ferro. Assim, os tubarões não poderão cortá-lo e ele afundará no mar sem ser devorado por eles.
O sino toca e chegamos ao cais. São 6 horas da tarde. O sol se deita no horizonte. Entramos no bote. No famoso caixão, que serve para todo mundo, abaixada a tampa, Matthieu dorme para sempre Acabou-se para ele.
— Para a frente! Empurrem aí! — grita o guarda à turma.
Em menos de dez minutos, chegamos à corrente formada pelo canal entre Royale e Saint-Joseph. E então, de repente, minha garganta se aperta. Dezenas de barbatanas de tubarões saem da água, girando velozmente num espaço restrito de menos de 400 metros. Aí estão os come-condenados, chegaram ao encontro na hora, no lugar exato.
Que o bom Deus faça com que não tenham tempo de apanhar meu amigo. Os remos são erguidos, em sinal de adeus. Suspendemos a caixa. Enrolado nos sacos de farinha, o corpo de Matthieu escorrega, puxado pelo peso da grande pedra, e rapidamente toca o mar.
Horror! Assim que entrou na água e eu penso que desapareceu, ele torna a subir, erguido no ar por, não sei, sete, dez ou vinte tubarões — quem pode saber? Antes que o bote se afaste, os sacos de farinha que o envolvem são arrancados e então acontece uma coisa inexplicável. Matthieu aparece, cerca de dois ou três segundos, de pé em cima da água. O antebraço direito já foi amputado. Com metade do corpo fora da água, ele avança direto para o bote; depois, no meio de um torvelinho mais forte, desaparece para sempre. Os tubarões passaram sob nosso bote, esbarrando no fundo. Um homem perde o equilíbrio e quase cai na água.
Todo mundo está petrificado, inclusive os guardas. Pela primeira vez, eu tive vontade de morrer. Faltou pouco para que eu me atirasse aos tubarões, a fim de desaparecer para sempre deste inferno.
Lentamente, subo do cais ao barracão. Ninguém me acompanha. Pus a padiola no ombro e chego à planície onde meu búfalo Brutus atacou Danton. Paro e me sento. A noite caiu, são apenas 7 horas da tarde. A oeste, o céu é um pouco iluminado por algumas línguas do sol, que desapareceu no horizonte. O resto é negro, furado por instantes pelo pincel do farol da ilha; tenho o coração pesado.
Merda! Você queria ver um enterro e, ainda por cima, o enterro do seu amigo, não queria? Pois bem, viu e bem visto! Com sino e tudo o mais! Está satisfeito? Sua curiosidade doentia foi satisfeita.
Só falta abotoar o cara que matou seu amigo. Quando? Esta noite. Por que esta noite? É muito cedo, o cara vai estar mais alerta do que nunca. São dez na curriola dele. Não posso me afobar e ter pressa demais nesse golpe. Vejamos, com quantos homens posso contar? Quatro, mais eu: cinco. Está bem. Liquidar o cara. Sim, e, se possível, vou tratar de me mandar. Dessa vez, nada de jangada, de preparação, nada; dois sacos de cocos e me enfio pelo mar. A distância até a costa é relativamente curta, 40 quilômetros em linha reta. Com as ondas, os ventos e as marés, isso deve se transformar em 120 quilômetros. É só uma questão de resistência. Sou forte e devo poder agüentar dois dias no mar, montado a cavalo nos sacos.
Pego a padiola e subo para o barracão. Quando chego à porta, revistam-me, coisa extraordinária. Isso nunca acontece. O guarda em pessoa tira-me a faca.
— Querem que me matem? Por que me desarmam? Sabem que me mandam para a morte, fazendo isso? Se me matarem, a culpa será de vocês.
Ninguém responde, nem os guardas, nem os carcereiros árabes. Abrem a porta e eu entro na sala.
— Não se enxerga nada aqui, por que uma lâmpada só em lugar de três?
— Papi, venha por aqui — Grandet me puxa pela manga.
A sala não está muito ruidosa. Sente-se que alguma coisa grave vai acontecer ou já aconteceu.
— Não tenho mais minha mudinha (faca). Tiraram-me na revista.
— Não vai precisar dela esta noite.
— Por quê?
— O armênio e seu amigo estão na privada.
— Que estão fazendo lá embaixo?
— Estão mortos.
— Quem esfriou eles?
— Eu.
— Andou depressa. E os outros?
— Restam quatro na curriola deles. Paulo me deu sua palavra de homem que não iam se mexer e que esperariam para saber se você está de acordo em parar a coisa por aí.
— Dê-me uma faca.
— Tome, pegue a minha. Fico neste canto. Vá falar com eles.
Avanço para a curriola deles. Agora, meus olhos se acostumaram à pouca luz. Enfim, consigo distinguir o grupo. De fato, os quatro estão de pé diante de suas redes, colados uns aos outros.
— Paulo, você quer falar comigo?
— Sim.
— Só, ou na frente dos seus amigos? Que é que você quer? Deixo, prudentemente, 1 metro e 50 entre mim e eles. Minha faca está aberta dentro da manga esquerda e o cabo está bem colado na palma da minha mão.
— Eu queria lhe dizer que acho que o seu amigo foi suficientemente vingado. Você perdeu seu melhor amigo, nós perdemos dois. Na minha opinião, isso devia parar por aí. Que acha?
— Paulo, tomo nota da sua oferta. O que podemos fazer, se você estiver de acordo, é que as duas curriolas se comprometam a não fazer nada durante oito dias. Enquanto isso, veremos o que se deve fazer. De acordo?
— Está bem.
Afasto-me.
— Então, que foi que eles disseram?
— Que acham que Matthieu, com a morte do armênio e de Sans-Souci, foi suficientemente vingado.
— Não foi, não — diz Galgani.
Grandet não diz nada. Jean Castelli e Louis Gravon estão de acordo em fazer um pacto de paz.
— E você, Papi?
— Primeiro, é preciso lembrar quem matou Matthieu? Foi o armênio. Bem. Propus um acordo. Dei minha palavra a eles, e eles toparam, que durante oito dias ninguém vai fazer nada.
— Não quer vingar Matthieu? — Diz Galgani.
— Velho, Matthieu já foi vingado, dois morreram por ele. Por que matar os outros?
— Pelo menos eles sabiam? Isso é que precisamos descobrir.
— Boa noite a todos, desculpem-me. Vou dormir, se puder. Tenho necessidade de ficar sozinho e me deito em minha rede.
Sinto uma mão que desliza por mim e retira suavemente a faca. Uma voz cochicha docemente na noite:
— Durma se puder, Papi, durma tranqüilo. Nós, de qualquer jeito, cada um por sua vez, vamos ficar de guarda.
A morte de meu amigo, tão brutal, repugnante, aconteceu sem motivo sério. O armênio matou-o porque, à noite, no jogo, ele o obrigara a pagar uma aposta de 170 francos. Aquele corno se sentiu diminuído porque foi obrigado a tomar uma atitude diante de trinta ou quarenta jogadores. Com receio de ser atacado dos dois lados por Matthieu e Grandet, não pudera deixar de obedecer.
Covardemente, matou um homem que era o tipo do aventureiro limpo e direito em seu meio. Esse golpe me atingiu fortemente e não tive senão uma satisfação, a de que os assassinos não viveram mais do que algumas horas depois de seu crime. É bem pequena.
Grandet, como um tigre, com a rapidez digna de um campeão de florete, cortou-lhes o pescoço, antes que tivessem tempo de se pôr em guarda. Imagino: o lugar onde caíram deve estar inundado de sangue. Penso, bestamente: “Tenho vontade de perguntar quem os atirou na privada”. Mas não quero falar. Com as pálpebras fechadas, vejo o sol tragicamente vermelho e violeta, clareando com seus últimos raios esta cena dantesca: os tubarões disputando meu amigo... E aquele tronco de pé, já com o antebraço amputado, avançando para o bote!... Então, é verdade que o sino chama os tubarões e que aqueles sujos sabem que vão lhes servir a bóia quando o sino toca... Vejo ainda aquelas dezenas de barbatanas, lúgubres reflexos prateados, passar como submarinos, girando em círculo... Realmente, eram mais de cem... Para Matthieu, para o meu amigo, acabou-se: o caminho da podridão fez seu trabalho até o fim.
Morto com uma facada, por uma bagatela, aos quarenta anos! Pobre amigo. Eu, por mim, não posso mais. Não. Não. Não. Quero que os tubarões me digiram, mas vivo, arriscando-me pela liberdade, sem sacos de farinha, sem pedra, sem cordas. Sem espectadores, nem forçados, nem guardas. Sem sino. Se tenho que virar bóia, pois bem... vão me apanhar vivo, lutando contra os elementos para chegar a alcançar a Terra Grande.
Acabou-se, bem acabado. Nada de fuga muito bem montada. A Ilha do Diabo, dois sacos de cocos e deixar tudo, seja como for, nas mãos de Deus.
Afinal, não vai passar de uma questão de resistência física. Quarenta e oito ou sessenta horas? Será que um tempo tão longo de imersão na água do mar, e mais o esforço dos músculos das coxas, contraídos sobre os sacos de cocos, não vão em certo momento paralisar minhas pernas? Se tenho a chance de ir à Ilha do Diabo, farei as tentativas. Primeiro sair de Royale e ir à Ilha do Diabo. Depois verei.
— Você está dormindo, Papi?
— Não.
— Quer um pouco de café?
— Se você quiser trazer...
Sento-me sobre a rede, aceitando o quarto de café quente que Grandet me estende com um cigarro aceso.
— Que horas são?
— Uma hora da manhã. Entrei de guarda à meia-noite, mas, como vi que você não parava de se mexer, achei que não estava dormindo.
— Tem razão. A morte de Matthieu me transtornou, mas seu enterro com os tubarões me afetou ainda mais. Aquilo foi horrível, sabe?
— Não me diga nada, Papi, suponho o que possa ter sido. Você não devia ter ido.
— Pensava que a estória do sino era conversa. Depois, com um fio de ferro segurando a grande pedra, eu jamais teria acreditado que os tubarões iam ter tempo de apanhá-lo na queda. Pobre Matthieu, vou continuar a ver aquela horrível cena pelo resto da minha vida. E você, como fez para eliminar tão depressa o armênio e Sans-Souci?
— Eu estava na ponta da ilha, colocando uma porta de ferro no açougue, quando soube que ele tinha matado o nosso amigo. Era meio-dia. Em lugar de subir para o barracão, fui para a oficina com a desculpa de consertar a fechadura. Pude encaixar um punhal, afiado dos dois lados, num tubo de 1 metro. O cabo do punhal era oco e o tubo também. Entrei no barracão, às 5 horas, com o tubo na mão. O guarda me perguntou que era aquilo, respondi que a travessa de madeira de minha cama quebrara e que eu ia utilizar aquele tubo naquela noite. Ainda era dia quando entrei na sala, mas havia deixado o tubo no lavatório. Antes da chamada, tornei a pegá-lo. A noite começava a cair. Rodeado por nossos amigos, encaixei rapidamente o punhal no tubo. O armênio e Sans-Souci estavam de pé em seus lugares, diante de suas redes, Paulo um pouco para trás. Você sabe, Jean Castelli e Louis Gravon são muito valentes, mas são velhos e falta-lhes agilidade para lutar num tumulto bem organizado.
— Eu queria agir antes que você chegasse, para evitar que se metesse naquilo. Com seus antecedentes, se fôssemos apanhados, você ia pegar o máximo. Jean foi ao fundo da sala e apagou um dos lampiões; Gravon, do outro lado, fez a mesma coisa. A sala estava quase sem luz, só com um lampião no meio. Eu tinha uma grande lanterna de bolso, que Dega me deu. Jean saiu na frente, eu atrás. Quando chegou perto deles, ergueu o braço e acendeu a lanterna. O armênio, ofuscado, levou o braço esquerdo aos olhos, eu tive tempo de atravessar-lhe o pescoço com minha lança. Sans-Souci, também ofuscado, atirou a faca para a frente, sem saber bem para onde, no vazio. Dei-lhe um golpe tão forte com minha lança, que o transpassei de lado a lado. Paulo se atirou de barriga no chão e rolou para baixo das redes. Como Jean apagara a lanterna, desisti de perseguir Paulo sob as redes, foi o que o salvou.
— E quem os arrastou para a privada?
— Não sei. Acho que foram os rapazes da curriola deles mesmo, para evitar maiores encrencas.
— Mas devia haver um mar de sangue desgraçado...
— Isso mesmo. Completamente degolados, devem ter-se esvaziado de toda a resina. O golpe da lanterna me ocorreu enquanto eu preparava a minha lança. Um guarda, na oficina, estava trocando as pilhas da dele. Isso me deu a idéia e logo falei com Dega para que me arranjasse uma. Eles podem fazer uma revista em regra. A lanterna já saiu daqui e foi devolvida a Dega por um carcereiro árabe, o punhal também. Portanto, nada de bomba por esse lado. Nada tenho a me reprovar. Eles mataram nosso amigo com os olhos cheios de sabão, eu os matei com os olhos cheios de luz. Estamos quites. Que acha, Papi?
— Você fez muito bem e não sei como lhe agradecer por ter agido tão depressa para vingar nosso amigo e, ainda por cima, por ter tido a idéia de me manter afastado dessa história.
— Não falemos nisso. Fiz o meu dever: você sofreu muito e quer tanto ser livre... Eu é que tinha de agir.
— Obrigado, Grandet. Sim, quero ir embora, mais do que nunca. Ajude-me, também, para que esse negócio pare por aí. Com toda a franqueza, ficaria muito surpreendido se o armênio tivesse posto sua curriola a par antes de agir. Paulo não teria aceitado um assassinato tão covarde. Ele sabia as conseqüências.
— Também penso assim. Só Galgani acha que todos eles são culpados.
— Vamos ver o que vai acontecer às 6 horas. Não vou sair para fazer limpeza nas latrinas. Vou fingir que estou doente, para assistir aos acontecimentos.
Cinco horas da manhã. O guarda do barracão se aproxima de nós:
— Rapazes, vocês acham que devo avisar o posto de guarda? Acabo de descobrir dois caras sangrados na privada!
Esse velho condenado de setenta anos quer nos fazer acreditar, logo nós, que desde às 6 e meia da tarde, hora em que os caras haviam sido esfriados, ele não sabia de nada. A sala deve estar cheia de sangue, pois obrigatoriamente os homens, andando, pisotearam a mancha, que fica bem no meio da passagem.
Grandet responde, no mesmo tom do velho:
— Como? Há dois defuntos na privada? Desde que horas?
— Sei lá! — diz o velho. — Eu estava dormindo desde as 6 horas. Só agora, quando fui mijar, escorreguei numa poça viscosa, quase quebrei a cabeça. Acendi meu isqueiro, vi que era sangue e encontrei os caras na privada.
— Avise e vamos ver.
— Vigilantes! Vigilantes!
— Por que está gritando tão alto, velho resmunguento? Pegou fogo na sua choça?
— Não, chefe. Há dois defuntos estirados na privada.
— Que quer que eu faça? Que os ressuscite? São 5 e 15, às 6 horas a gente vê isso. Não deixe ninguém se aproximar das privadas.
— Isso que você está querendo é impossível. A esta hora, perto do levantar geral, todo mundo vai mijar ou cagar.
— É verdade, espere, vou avisar o chefe da guarda.
Voltam, três guardas, um vigilante-chefe e outros dois. A gente pensa que vão entrar, mas não, ficam na porta gradeada.
— Você disse que há dois mortos na privada?
— Sim, chefe.
— Desde que horas?
— Não sei, acabo de encontrá-los, quando fui mijar.
— Quem são?
— Não sei.
— Está bem, velho cabeçudo, vou lhe dizer. Um é o armênio. Vá ver.
— De fato, são o armênio e Sans-Souci.
— Bem, vamos esperar a chamada — e eles vão embora.
Seis horas, o primeiro sino toca. Abrem a porta. Os dois distribuidores de café passam de lugar em lugar, atrás seguem os distribuidores de pão.
Seis e meia, o segundo sino. O dia nasceu e o corredor está cheio de marcas dos pés que pisaram no sangue esta noite.
Os dois comandantes chegam. O dia já vai alto. Oito vigilantes e o médico os acompanham.
— Todo mundo em pêlo, em posição de sentido, diante de suas camas! Mas é um verdadeiro açougue, há sangue por todo lado!
O segundo comandante é o primeiro a entrar nas latrinas. Quando sai, está branco como linho:
— Eles foram completamente degolados. Claro, ninguém viu nada, ninguém ouviu nada, não é?
Silêncio absoluto.
— Você, velho, é o guarda da sala; estes homens estão numa fria. Doutor, há quanto tempo eles estão mortos, aproximadamente?
— Oito a dez horas — diz o médico.
— E você os descobriu só às 5 horas? Não viu nada, não ouviu nada?
— Não, eu sou duro de orelha, quase não enxergo, e ainda por cima tenho setenta anos nas costas, dos quais quarenta de prisão. Então, o senhor compreende, durmo bastante. Às 6 horas estava dormindo e foi a vontade de mijar que me acordou às 5 horas. Foi uma sorte, porque de hábito só acordo com o sino.
— Tem razão, foi uma sorte — diz, ironicamente, o comandante. — Para nós, também. Então todo mundo dormiu tranqüilo a noite toda, vigilantes e condenados. Padioleiros, retirem aqueles dois cadáveres e levem-nos para o anfiteatro. Quero que lhes faça autópsia, doutor. E vocês, um por um, saiam para o pátio, todos nus.
Um de cada vez, passados diante dos comandantes e do doutor. Examinam minuciosamente os homens, todas as partes do corpo. Ninguém tem ferimentos, vários têm Salpicos de sangue. Explicam que escorregaram ao irem à privada. Grandet, Galgani e eu somos examinados mais minuciosamente que os outros.
— Papillon, qual é o seu lugar? — remexem toda a minha mochila. — E a sua faca?
— Minha faca foi tomada às 7 horas da noite, na porta, pelo vigilante.
— É verdade — diz o guarda. — Ele fez um barulhão, dizendo que queríamos que o assassinassem.
— Grandet, esta faca é sua?
— É, sim, está no meu lugar, portanto é minha — ele examina escrupulosamente a faca, limpa como um centavo novo, sem uma mancha.
O médico volta das privadas e diz:
— Foi um punhal com fio duplo que serviu para degolar aqueles homens. Foram mortos de pé. Não dá para compreender. Um condenado não se deixa degolar como um coelho, sem se defender. Deveria haver alguém ferido.
— O senhor mesmo está vendo, doutor, ninguém tem nem mesmo um arranhão.
— Aqueles dois homens eram perigosos?
— Demais, doutor. O armênio devia ser, seguramente, o assassino de Carbonieri, que foi morto ontem no lavatório, às 9 horas da manhã.
— Negócio claro — diz o comandante. — De qualquer modo, guardem a faca de Grandet. Para o trabalho, todo mundo, menos os doentes. Papillon, você se declarou doente?
— Sim, comandante.
— Não perdeu tempo em vingar o seu amigo. Não sou pateta, você sabe. Infelizmente, não tenho provas e sei que não as encontraremos. Ainda uma última vez, ninguém tem nada a declarar? Se um de vocês pode esclarecer esse duplo crime, dou minha palavra que será solto e enviado para a Terra Grande.
Silêncio absoluto.
Toda a curriola do armênio declarou-se doente. Vendo isso, Grandet, Galgani, Jean Castelli e Louis Gravon também dizem que não se sentem bem, no último momento. A sala fica vazia de seus 120 homens. Ficam cinco da minha curriola e quatro da curriola do armênio, mais o relojoeiro, o guarda-rancho, que reclama sem parar por causa da limpeza que vai ter de fazer, e dois ou três outros duros, um dos quais é um alsaciano, o grande Sylvain.
Esse homem vive sozinho entre os duros, não tem amigos. Autor de um ato pouco comum que lhe rendeu vinte anos, é um homem de ação muito respeitado. Sozinho, atacou um vagão postal, no rápido Paris—Bruxelas, matou os dois guardas a pancadas, jogou os sacos postais pela janela e, recolhidos por cúmplices ao longo da via, eles renderam uma soma importante.
Sylvain, vendo as duas curriolas cochichando, cada qual em seu canto, e ignorando que havíamos feito o acordo de não agir uma contra a outra, permitiu-se tomar a palavra:
— Espero que vocês não vão se bater em tumulto arranjadinho, gênero dos três mosqueteiros?
— Por hoje não — diz Galgani. — Ficará para mais tarde.
— Por que mais tarde? Não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje — diz Paulo —, mas eu não vejo razão para nos matarmos. Que acha, Papillon?
— Uma pergunta só: vocês sabiam o que o armênio ia fazer?
— Minha palavra de homem, Papi, não sabíamos de nada e quer saber o que lhe digo? Não sei como receberia a notícia se o armênio não tivesse morrido.
— Então, se é assim, por que não parar essa história para sempre? — diz Grandet.
— Nós estamos de acordo. Apertemos as mãos e não se fala mais nesse triste negócio.
— Entendido.
— Sou testemunha — diz Sylvain. — Fico satisfeito por ver isso acabado.
— Não se fala mais.
À noite, às 6 horas, o sino toca. Não me posso impedir, ao escutá-lo, de rever a cena da véspera, e meu amigo com metade do corpo erguido, vindo para o bote. A imagem é tão impressionante, mesmo 24 horas depois, que não desejo, nem por um segundo, que o armênio e Sans-Souci sejam levados pela horda dos tubarões.
Galgani não diz uma palavra. Ele sabe o que aconteceu com Carbonieri. Olha para o nada, balançando as pernas que pendem à direita e à esquerda de sua rede. Grandet ainda não voltou. 0 dobre de finados terminara bem há uns dez minutos quando Galgani sem me olhar, sempre balançando as pernas, diz à meia voz:
— Espero que nenhum pedaço daquele armênio sujo seja comido por um dos tubarões que engoliram Matthieu. Seria péssimo se eles, separados em vida, fossem se encontrar na barriga de um tubarão.
Vai ser realmente um vazio para mim a perda desse amigo nobre e sincero. É melhor que eu vá embora de Royale e aja o mais depressa possível. Todos os dias me repito isto.
UMA FUGA DOS LOUCOS
— Como estamos em guerra e as punições foram reforçadas em caso de evasão falhada, não é o momento de arriscar uma fuga, não é, Salvidia?
O italiano do plano do ouro do comboio e eu discutimos no banho, depois de termos lido o cartaz que nos comunica as novas disposições em caso de evasão. Eu lhe digo:
— Mas não é porque isso nos arrisca a sermos condenados à morte que vai me impedir de partir. E você?
— Eu, Papillon, não agüento mais e vou fugir. Aconteça o que acontecer. Pedi para trabalhar no asilo de loucos como enfermeiro. Sei que na despensa do asilo há dois tonéis de 225 litros, o suficiente para fazer uma jangada. Um está cheio de óleo de oliva, o outro de vinagre. Bem ligados um ao outro, de modo a não poderem se separar em caso algum, parece que assim haveria uma boa chance de alcançar a Terra Grande. Não há vigilância por trás do muro que rodeia o pavilhão dos loucos. Lá dentro há apenas a vigilância permanente de um guarda-enfermeiro, ajudado por duros, sobre os que se fazem de doentes. Quer ir comigo lá para cima?
— Como enfermeiro?
— Impossível, Papillon. Você sabe que nunca lhe darão um emprego no asilo. Sua localização afastada no barracão, sua pouca vigilância, tudo faz com que não mandem você para lá. Mas poderia ir para lá como louco.
— Isso é muito difícil, Salvidia. Quando um doutor classifica você de biruta, está lhe dando praticamente o direito de fazer qualquer coisa que queira. De fato, você é reconhecido como irresponsável por seus atos. Percebe a responsabilidade que um médico assume quando admite isso e assina o diagnóstico? Você pode matar um duro, até mesmo um guarda ou a mulher de um guarda, ou um filho. Você pode fugir, cometer não importa qual delito, a Justiça não tem mais nenhum recurso contra você. O máximo que poderiam lhe fazer é enfiá-lo em uma cela acolchoada, em pêlo, com a camisa-de-força. Esse regime não pode durar mais do que um certo tempo, um dia eles têm que suavizar o tratamento. Resultado: por não importa qual ação muito grave, inclusive fuga, você não paga coisa alguma.
— Papillon, tenho confiança em você, gostaria de fugir com você. Faça o possível para ir ficar junto comigo, como louco. Como enfermeiro, eu poderia ajudá-lo a preparar o golpe o melhor possível e aliviá-lo nos momentos mais duros. Reconheço que deve ser terrível encontrar-se, não estando doente, no meio daqueles seres tão perigosos.
— Vá para. o asilo, Romeo, eu vou estudar o caso a fundo, vou procurar me informar sobre os primeiros sintomas de loucura, para conseguir convencer o médico. Não é má idéia fazer com que o médico me considere irresponsável.
Começo a estudar seriamente a coisa. Não há nenhum livro sobre o assunto na biblioteca da prisão. Cada vez que posso, discuto com homens que foram doentes durante um tempo mais ou menos longo. Consigo, aos poucos, obter uma idéia bastante clara:
1.° Todos os loucos têm dores atrozes no cérebro;
2.° Freqüentemente têm zumbido nas orelhas;
3.° Como são muito nervosos, não podem ficar muito tempo deitados na mesma posição sem serem sacudidos por uma verdadeira descarga de nervos que os acorda e os faz sobressaltarem-se, com o corpo todo tenso a ponto de quebrar.
Portanto, é preciso fazer com que descubram esses sintomas sem os indicar diretamente. Minha loucura deve ser justamente o bastante perigosa para obrigar o doutor a tomar a decisão de me mandar para o asilo, mas não violenta a ponto de justificar os maus-tratos dos vigilantes: camisa-de-força, surras, supressão de alimento, injeção de brometo, banho frio ou quente demais, etc. Se eu representar bem o papel, devo conseguir embrulhar o médico.
Há uma coisa em meu favor: por que, qual seria a razão para eu me tornar um simulador? Se o médico não encontrar qualquer explicação lógica para esta pergunta, é provável que eu possa ganhar a partida. Não há outra solução para mim. Recusaram-se a me mandar para a Ilha do Diabo. Não posso mais suportar o barracão depois do assassinato de meu amigo Matthieu. Para o inferno as hesitações! Está decidido. Segunda-feira vou à consulta. Não. Não devo eu mesmo me apresentar como doente. É melhor que um outro faça isso e que esse outro esteja de boa-fé. Tenho que fazer uma ou duas cenas anormais na saia. Então, o chefe da choça vai falar com o guarda e ele próprio marcará minha consulta.
Há três dias que não durmo, não me lavo e não me barbeio. Masturbo-me várias vezes por noite e como muito pouco. Ontem, perguntei ao meu vizinho por que tirou de meu lugar uma fotografia que jamais existiu. Ele jurou por todos os deuses que não havia tocado em minhas coisas. Inquieto, mudou de lugar. Quase sempre, a comida fica numa tina alguns minutos antes de ser distribuída. Acabo de me aproximar da tina e, na frente de todo mundo, mijei lá dentro. A coisa esfriou o ambiente, mas minha cara deve ter impressionado todo mundo, ninguém murmurou uma palavra, só meu amigo Grandet me disse:
— Papillon, por que fez isso?
— Porque esqueceram de pôr sal — e sem prestar atenção em mais ninguém fui buscar minha tigela e estendi-a para o chefe da choça, para que me servisse.
Num silêncio total, todo mundo me olhou comer minha sopa.
Esses dois incidentes bastaram para que nesta manhã eu me encontre diante do médico, sem ter pedido.
— Então, vai ou não vai, doutor? — repito minha pergunta.
O médico, estupefato, me olha. Eu o encaro com olhos deliberadamente muito naturais.
— Vai, sim — diz o médico. — E você, está doente?
— Não.
— Então, por que veio para consulta?
— Por nada. Disseram-me que o senhor estava doente. É um prazer ver que isso não é verdade. Até logo.
— Espere um pouco, Papillon. Sente-se aí, na minha frente. Olhe para mim.
E o médico me examina os olhos com uma lanterna que emite um pequeno feixe de luz.
— Você não viu nada, médico. Que esperava descobrir? Sua luz não é bastante forte, mas assim mesmo acho que você compreendeu, não é? Diga-me, você viu eles?
— O que? — diz o médico.
— Não banque o trouxa, porra! Você é doutor ou veterinário? Não vá me dizer que não teve tempo de vê-los antes que se escondessem, ou me toma por um idiota completo.
Tenho os olhos brilhantes de fadiga. Meu aspecto, nem barbeado, nem lavado, pesa a meu favor. Os guardas escutam, assombrados, mas não faço nenhum gesto violento que possa justificar sua intervenção. Conciliando e entrando no meu jogo para não me excitar, o médico se levanta e põe a mão no meu ombro. Continuo sentado.
— Sim, eu não queria lhe dizer, Papillon, mas tive tempo de vê-los.
— Está mentindo, médico. (Mantenho o sangue-frio.) Porque você não viu nada, absolutamente! O que eu pensei que você estivesse procurando são os três pontinhos pretos que tenho no olho esquerdo. Só consigo vê-los quando olho para o vazio ou quando leio. Quando pego um espelho, vejo nitidamente meu olho, mas nem sinal dos três pontos. Eles se escondem mal eu pego o espelho para vê-los.
— Levem-no para o hospital — diz o médico. — Levem-no imediatamente, sem que ele volte ao barracão. Papillon, você disse que não está doente? Talvez seja verdade, mas acho-o muito fatigado, por isso vou pô-lo alguns dias no hospital, para descansar. Você quer?
— Isso não me incomoda. No hospital ou no barracão, tudo a mesma coisa: são as ilhas.
O primeiro passo está dado. Meia hora depois, encontro-me no hospital, numa cela bem iluminada, uma boa cama bem limpa, com roupas brancas. Na porta, um cartão: “Em observação”. Pouco a pouco, sugestionado a fundo, me transformo em palerma. É um jogo perigoso: o tique de entortar a boca e apertar o lábio inferior entre os dentes, esse tique estudado num caco de espelho escondido, eu o trabalhei tão bem, que chego a me surpreender fazendo-o sem ter tido a intenção. É preciso não se divertir muito tempo nessa brincadeira, Papi. À força de se obrigar a se sentir virtualmente desequilibrado, isso pode ser perigoso e deixar taras. No entanto, é preciso fingir a fundo, se quiser conseguir resultado. Entrar no asilo, ser classificado como irresponsável e depois empreender a fuga com meu amigo, não vai ser fácil. Fuga! Essa palavra mágica me transporta, já me vejo sentado sobre os dois tonéis, impelido para a Terra Grande em companhia de meu amigo, o enfermeiro italiano.
O médico passa todos os dias para visita. Examina-me longamente, sempre nos falamos polida e gentilmente. Ele está perturbado, o cara, mas ainda não está convencido. Portanto, vou informá-lo de que tenho pontadas na nuca, primeiro sintoma.
— Como vai, Papillon? Dormiu bem?
— Sim, doutor. Obrigado, vou indo. Obrigado pelo Match que me emprestou. Quanto a dormir, isso é outra coisa. De fato, atrás da minha cela há uma bomba, certamente para regar não sei o quê, mas o pam-pam que o braço da bomba faz a noite inteira chega até a minha nuca e parece que faz eco lá dentro: pam-pam! E isso a noite inteira. É impossível dormir. Eu agradeceria se me mudasse de cela.
O médico volta-se para o guarda-enfermeiro e murmura rapidamente:
— Há alguma bomba?
O guarda faz sinal que não com a cabeça.
— Vigilante, mude-o de cela. Aonde quer ir?
— O mais longe possível dessa maldita bomba, no fim do corredor. Obrigado, doutor.
A porta se fecha, eu me encontro só em minha cela. Um ruído quase imperceptível me alerta, estão me observando pelo visor, certamente é o médico, pois não ouvi os passos se afastarem quando eles se retiraram. Então, depressa, estendo o punho para a parede que esconde a bomba imaginária e grito, não muito alto: “É melhor parar, sua máquina suja! Não vai acabar de regar nunca, jardineiro de meia tigela?” E deito-me na cama, a cabeça escondida sob o travesseiro.
Não ouvi o pequeno pedaço de cobre se fechar sobre o visor, mas percebi passos que se afastavam. Conclusão: o cara do visor era mesmo o médico.
À tarde me mudaram de cela. A impressão que dei nesta manhã deve ter sido boa, pois, para me acompanhar alguns metros, até o fim do corredor, vieram dois guardas e dois enfermeiros; Como não me dirigiram a palavra, também não falei. Limitei-me a acompanhá-los, sem dizer uma palavra. Dois dias depois, o segundo sintoma: ruídos nas orelhas.
— Como vai, Papillon? Terminou a revista que lhe mandei?
— Não, não consegui ler, passei o dia inteiro e uma parte da noite tentando sufocar o mosquito ou mosca que fez um ninho na minha orelha. Enfiei um pedaço de algodão, não adiantou. O barulho das asas dele não pára: zum-zum-zum... E, ainda mais, faz umas cócegas desagradáveis, e o zumbido é contínuo. Isso acaba enervando, doutor. Que acha? Como não consegui asfixiá-lo, talvez consiga afogá-lo. Que me diz?
Meu tique da boca não pára e vejo que o médico já, o notou. Segura-me a mão e olha-me bem nos olhos. Eu sinto que esta perturbado e aflito.
— Sim, meu caro Papillon, vamos afogá-lo. Chatal, mande fazer-lhe uma lavagem nas orelhas.
Toda manhã, essas cenas se repetem com variantes, mas o doutor não está com jeito de se decidir a me mandar para o asilo.
Chatal, por ocasião de uma injeção de brometo, avisou-me:
— Tudo bem, por enquanto. O médico está seriamente abalado, mas ainda pode demorar muito até que ele o mande para o asilo. Mostre ao médico que você pode ser perigoso, se quiser que ele se decida logo.
— Como vai, Papillon? — o médico, acompanhado por guardas-enfermeiros e por Chatal, cumprimenta-me gentilmente, abrindo a porta de minha cela.
— Pare seu carro, doutor — minha atitude é agressiva. — Sabe muito bem que não vou bem. E quero saber quem de vocês é cúmplice do cara que me tortura.
— Quem o tortura? Quando? Como?
— Primeiro, quero saber se você conhece os trabalhos do Dr. d’Arsonval?
— Sim, eu espero...
— Sabe que ele inventou um oscilador de ondas múltiplas para ionizar o ar em volta de um doente atacado de úlceras duodenais? Com esse oscilador, pode-se enviar correntes elétricas aonde se quiser. Pois bem, imagine que um inimigo meu instalou um aparelho desses no hospital de Caiena. Cada vez que estou dormindo bem tranqüilo, ele aperta um botão, a descarga me atinge em plena barriga e nas coxas. Eu me distendo de repente, dando um salto de mais de 10 centímetros de altura em minha cama. Como quer que eu possa agüentar tudo isso e dormir? Esta noite o troço não parou. Assim que começo a fechar os olhos, pam!, a corrente chega. Todo o meu corpo se distende, como uma mola que se solta. Não posso mais, doutor! Avise a todo mundo que o primeiro que eu descobrir que é cúmplice do cara vai ser esfriado. Não tenho arma, é verdade, mas tenho bastante força para estrangulá-lo, seja ele quem for. Para bom entendedor, meia palavra basta! E deixe-me em paz com seus “bons dias” hipócritas e seus “como vai, Papillon?” Repito, doutor: pare seu carro!
O incidente deu resultado. Chatal me disse que o médico avisou aos guardas para prestarem muita atenção. Que nunca abrissem a porta de minha cela sem serem dois ou três, e que falassem sempre gentilmente comigo. Ele está sofrendo de mania de perseguição, disse o médico, é preciso mandá-lo o quanto antes para o asilo.
— Acho que, com um vigilante, eu posso me encarregar sozinho de levá-lo para o asilo — propôs Chatal, para evitar que me enfiem a camisa-de-força.
— Papi, você comeu bem?
— Sim, Chatal, estava bom.
— Quer vir comigo e com o Sr. Jeannus?
— Aonde nós vamos?
— Até o asilo, levar uns remédios. Assim, você dará um passeio.
— Vamos.
E nós três saímos do hospital a caminho do asilo. Enquanto andamos, Chatal fala; depois, a certo momento, quando estamos quase chegando, diz:
— Você não está cansado de ficar no barracão, Papillon?
— Oh, sim. Estou cheio, principalmente depois que meu amigo Carbonieri não está mais lá.
— Por que não fica alguns dias no asilo? Assim, o cara do aparelho talvez não o encontre para lhe dar choques.
— É uma idéia, meu caro, mas acha que vão me aceitar, mesmo eu não sendo doente da cabeça?
— Deixe comigo, eu falo por você — diz o guarda, todo feliz ao ver que eu caí na falsa armadilha de Chatal.
Enfim, eis-me no asilo, com uma centena de loucos. Não é mole viver com malucos! Em grupos de trinta a quarenta, tomamos ar no pátio, enquanto os enfermeiros limpam as celas. Todo mundo vive completamente nu. Felizmente faz calor. Para mim, deixaram-me a cueca.
Acabo de receber um cigarro aceso do enfermeiro. Sentado ao sol, penso em que já estou ‘ali há cinco dias e não consegui entrar em contato com Salvidia.
Um louco se aproxima de mim. Sei a história dele, chama-se Fouchet. Sua mãe havia vendido a casa para enviar-lhe 15 000 francos por um vigilante, a fim de que ele se evadisse. O guarda devia ficar com 5 000 e entregar-lhe 10 000. O tal guarda embolsara tudo e depois partira para Caiena. Quando Fouchet soube, por outra via, que a mãe tinha lhe enviado a grana e perdera tudo inutilmente, tornara-se louco furioso e no mesmo dia atacara os vigilantes. Dominado, não tivera tempo de causar mal a ninguém. Desde esse dia, há três ou quatro anos, ele está com os loucos.
— Quem é você — olho esse pobre homem, jovem, cerca de trinta anos, plantado diante de mim e que me interroga.
— Quem sou? Um homem como você, nem mais, nem menos.
— Sua resposta é besta. Vejo que é um homem, pois você tem um pau e culhões: se você fosse mulher, teria um buraco. Estou perguntando quem é você. Quer dizer, como se chama.
— Papillon.
— Papillon? Você é uma borboleta? Coitado de você. Uma borboleta voa e tem asas, onde estão as suas?
— Perdi.
— Trate de encontrá-las, assim você poderá fugir. Os guardas não têm asas. Com as suas asas, você vai sacanear eles. Me dê o cigarro.
Antes que eu tenha tempo de dá-lo, ele o arranca de meus dedos. Depois, senta-se à minha frente e fuma com delícia.
— E você, quem é? — pergunto-lhe.
— Eu, eu sou o pato. Cada vez que eles têm que me dar alguma coisa que me pertence, me fazem de bobo.
— Por quê?
— Porque fazem. Também, eu mato guardas o mais que posso. Esta noite, enforquei dois. Mas não conte nada a ninguém.
— Por que você os enforcou?
— Porque eles roubaram a casa de minha mãe. Imagine só, minha mãe me mandou a casa dela e eles, como a acharam bonita, ficaram com ela e moram lá dentro. Não fiz bem em enforcá-los?
— Tem razão. Assim eles não podem aproveitar a casa da sua mãe.
— Aquele guarda gordo, que você está vendo lá embaixo, atrás das grades, está vendo? Ele também mora na casa. Eu vou acabar com ele também, pode confiar no que digo.
Nesse ponto, ele se levanta e vai embora.
Ufa! Não é divertido ser obrigado a viver no meio de loucos, e é perigoso. À noite, há gritos de todos os lados; e, quando há lua cheia, os loucos ficam mais excitados do que nunca. Como a lua pode influir na agitação dos loucos? Não posso explicar, mas constatei isso uma porção de vezes.
Os guardas fazem relatórios sobre os loucos em observação. Comigo, fazem experiências. Por exemplo, esquecem-se de me levar para o pátio, de propósito. Esperam para ver se eu reclamo. Ou, então, não me dão uma das refeições. Tenho uma vara com um barbante e faço os gestos de um pescador.
— Estão mordendo a isca, Papillon?
— Não podem morder! Imagine que, sempre que eu pesco, há um peixinho que me acompanha por todo lado e, quando um grande vai morder, o pequeno adverte: “Dê o fora, não morda, é Papillon que está pescando”. Por isso, nunca consigo pescar nada. Mas continuo assim mesmo. Talvez, um dia, apareça um peixe que não acredite nele.
Ouço o guarda dizer ao enfermeiro:
— Então, ele está bem ruinzinho!
Quando me fazem comer na mesa comum do refeitório, jamais posso acabar o prato de lentilhas. Há um gigante, de 1 metro e 90, pelo menos, com braços, pernas e tronco peludos como os de um macaco, que me escolheu como vítima. Primeiro, senta-se sempre a meu lado. As lentilhas são servidas muito quentes; então é preciso esperar que esfriem, para a gente poder comer. Com uma colher de madeira, pego um pouco, assoprando, e consigo comer algumas colheradas. Ele, Ivanhoé — ele pensa que é Ivanhoé —, pega seu prato, põe as mãos em funil, e engole tudo num piscar de olhos. Depois, pega o meu, rispidamente, e faz a mesma coisa. Depois de limpar o prato, joga-o de maneira ruidosa à minha frente, olhando-me com os enormes olhos injetados de sangue, com o ar de quem diz: “Viu como se come lentilhas?” Começo a ficar chateado com Ivanhoé e, como ainda não fui classificado como louco, decidi usá-lo para dar o golpe final. Estamos de novo num dia de lentilhas. Ivanhoé não me tapeará mais. Está sentado a meu lado. Seu rosto de idiota está radiante: saboreia antecipadamente a alegria de comer suas lentilhas e as minhas. Puxo para a minha frente um jarro pesado e grande, cheio de água. Assim que o gigante pega meu prato, ergue-o e começa a deixar as lentilhas caírem em sua garganta, levanto-me e, com toda força, quebro o jarro de água na cabeça dele. O gigante desaba com um grito de animal. No mesmo instante, todos os loucos começam a se atirar uns contra os outros, armados com pratos. Desencadeia-se uma balbúrdia espantosa. O tumulto coletivo é orquestrado por gritos de todos os tipos.
Carregado, encontro-me logo na minha cela, onde quatro fortes enfermeiros me puseram depressa e sem contemplações. Grito como um perdido que Ivanhoé me roubou a carteira com a cédula de identidade. Desta vez, consegui! O médico decidiu me classificar como irresponsável por meus atos. Todos os guardas estão de acordo em reconhecer que sou um louco pacífico, mas que tenho momentos muito perigosos. Ivanhoé está com um belo curativo na cabeça. Parece que a abri em mais de 8 centímetros. Felizmente, ele não passeia nas mesmas horas que eu.
Pude falar com Salvidia. Já conseguiu a duplicata da chave da despensa onde os tonéis estão guardados. Está tentando reunir fio de ferro suficiente para uni-los. Digo-lhe que tenho medo de que os fios de ferro rebentem devido à pressão que os tonéis irão fazer no mar; que seria melhor ter cordas, seriam mais elásticas. Vai tentar arranjá-las, deve haver cordas e fios de ferro. É preciso que ele faça, também, três chaves: uma da minha cela, uma do corredor que dá para ela e uma da porta principal do asilo. As rondas são pouco freqüentes. Um só guarda para cada turno de quatro horas. Das 9 horas à 1 hora da manhã e da 1 às 5 horas. Dois dos guardas, quando estão de vigia, dormem o tempo todo e não fazem nenhuma ronda. Contam com o condenado-enfermeiro que fica de turno com eles. Portanto, tudo vai ser questão de paciência. Um mês, no máximo, para darmos o golpe.
O guarda-chefe me deu um cigarro ruim, aceso, quando entrei no pátio. Mesmo ruim, ele me parece delicioso. Olho esse rebanho de homens nus, cantando, chorando, fazendo gestos desordenados, falando sozinhos. Todos molhados ainda do banho que cada um toma antes de entrar no pátio, seus corpos martirizados por surras recebidas ou por pancadas que eles mesmos se deram, marcas dos cordões da camisa-de-força apertada demais. É bem o espetáculo do fim do caminho da podridão. Quantos desses loucos foram reconhecidos como responsáveis por seus atos pelos psiquiatras da França? Titin — a gente o chama de Titin — é do meu grupo de 1933. Matou um cara em Marselha, depois pegou um fiacre, pôs sua vítima dentro, mandou que o cocheiro tocasse para um hospital e, ao chegar lá, disse: “Tomem, cuidem dele, acho que está doente”. Preso na mesma hora, os jurados tiveram o descaramento de não lhe reconhecer nenhuma atenuante, nem ao menos a da irresponsabilidade. No entanto, é preciso que a gente já esteja biruta para fazer um negócio desses. O mais imbecil dos caras, normalmente, saberia que ia ser fisgado. Aí está Titin, sentado a meu lado. Tem uma disenteria permanente. É um verdadeiro cadáver ambulante. Olha-me com seus olhos cinzentos, sem inteligência. Diz:
— Tenho macaquinhos na barriga, companheiro. Há uns que são maus. Eles me mordem os intestinos e é por isso que cago sangue, quando eles estão zangados. Outros, uma raça de peludos, bem cheios de pêlos, têm as mãos suaves como a pluma. Eles me acariciam docemente e impedem que os macacos maus me mordam. Quando esses macaquinhos bons querem me defender, não cago sangue.
— Você se lembra de Marselha, Titin?
— Puxa, se me lembro de Marselha. Muito bem, até. A praça da Bolsa com os botecos e a rapaziada...
— Você lembra do nome de alguns? O Ange, o Lucre? O Gravat? Clement?
— Não, não me lembro de nomes, só me lembro de um cocheiro sacana que me levou ao hospital com um amigo doente e que disse que eu era o causador da doença do meu amigo. É só.
— E os seus amigos?
— Não sei.
Pobre Titin, dou-lhe minha ponta de cigarro e me levanto com uma imensa piedade no coração por esse pobre ser que vai morrer como um cão. Sim, é muito perigoso coabitar com loucos, mas o que fazer? Em todo caso, é o único modo, suponho, de preparar uma fuga sem condenação.
Salvidia está quase pronto. Já tem duas das chaves, só falta a da minha cela. Arranjou também uma corda muito boa e, além disso, fez uma outra com os fios do tecido da maca que, segundo me disse, são formados por cinco outros fios. Por esse lado, tudo vai bem.
Tenho pressa de passarmos à ação, pois é realmente duro continuar desempenhando meu papel nesta comédia. Para ficar na parte do asilo em que se encontra minha cela, tenho que arranjar uma crise de vez em quando.
Arranjei uma tão bem representada, que os guardas-enfermeiros me puseram numa banheira com água muito quente e me deram duas injeções de brometo. A banheira é coberta por um tecido muito resistente, de modo que não posso sair. Só minha cabeça fica de fora, por um buraco. Estou nesse banho há mais de duas horas, com essa espécie de camisa-de-força, quando entra Ivanhoé. Fico terrificado pelo modo como aquele bruto me olha. Tenho um medo tremendo de que ele me estrangule. Não posso sequer me defender, já que estou com os braços debaixo do pano.
Ele se aproxima de mim, seus grandes olhos me fitam atentamente, tem o ar de procurar saber onde já viu essa cabeça que emerge dali como de um buraco de guilhotina. Seu hálito e seu cheiro de podridão me inundam o rosto. Tenho vontade de gritar por socorro, mas temo torná-lo ainda mais furioso com meus gritos. Fecho os olhos e espero, certo de que ele vai me estrangular com suas grandes mãos de gigante. Não vou esquecer tão cedo esses segundos de terror. Enfim, ele se afasta de mim, anda pela sala, depois vai até os registros da água. Fecha a água fria e abre inteiramente a água fervente. Berro, como um perdido, pois estou a ponto de cozinhar completamente. Ivanhoé sai. Há vapor na sala inteira, sufoco-me respirando-o e faço esforços sobre-humanos, em vão, para tentar rebentar este pano miserável. Enfim, chegam em meu socorro. Os guardas viram o vapor que saía pela janela. Quando me tiram daquela água fervente, tenho queimaduras horríveis e sofro como um danado. Principalmente nas coxas e nas partes onde a pele saiu. Besuntado de ácido pícrico, deitam-me na pequena sala de enfermaria do asilo. Minhas queimaduras são tão graves, que resolvem chamar o doutor. Algumas injeções de morfina me ajudam a passar as primeiras 24 horas. Quando o médico me pergunta o que aconteceu, digo-lhe que um vulcão surgiu na banheira. Ninguém compreende o que aconteceu. E o guarda-enfermeiro acusa o que preparou o banho de ter regulado mal as saídas de água.
Salvidia acaba de sair, depois de me untar com pomada pícrica. Está pronto e me faz reparar que é uma sorte eu estar na enfermaria, pois, caso a fuga fracasse, poderemos voltar para essa parte do asilo sem sermos vistos. Ele deverá fazer rapidamente uma chave da enfermaria. Acaba de tirar o molde num pedaço de sabão. Amanhã teremos a chave. Eu é que devo dizer o dia em que me sentir suficientemente curado para aproveitar o primeiro turno de um dos guardas que não fazem ronda.
Marco para esta noite, durante a guarda da 1 às 5 horas da manhã. Salvidia não está de serviço. Para ganhar tempo, ele vai esvaziar o tonel de vinagre às 11 horas da noite. O outro, o de óleo, vamos rolá-lo cheio, pois o mar está muito ruim e talvez o óleo possa nos servir para acalmar as vagas quando o derramarmos na água.
Tenho uma calça de sacos de farinha cortada nos joelhos e um blusão de lã, uma boa faca na cintura. Tenho também um saco impermeável que vou pendurar no pescoço; nele estão cigarros e um isqueiro de estimação. Salvidia preparou uma mochila impermeável com farinha de mandioca embebida em óleo e açúcar. Mais ou menos uns 3 quilos, me disse ele. Ê tarde. Sentado em minha cama, espero meu companheiro. Meu coração dá fortes pancadas. Dentro de alguns instantes, a fuga vai começar. Que a sorte e Deus me favoreçam! Que eu consiga sair para sempre do caminho da podridão!
É estranho: dedico ao passado apenas um pensamento rápido, que vai para meu pai e minha família. Nenhuma imagem do tribunal, dos jurados ou do promotor.
No momento em que a porta está se abrindo, relembro, a contragosto, Matthieu carregado de pé pelos tubarões.
— Papi, a caminho!
Sigo-o. Rapidamente, ele fecha a porta e esconde a chave num canto do corredor.
— Depressa, vamos.
Chegamos à despensa, a porta está aberta. Tirar o tonel vazio é uma brincadeira. Ele envolve o tonel com cordas, eu com fios de ferro. Pego a mochila de farinha e na noite preta começo a rolar meu tonel para o mar. Ele vem atrás, com o tonel de óleo. Felizmente, ele é muito forte e consegue controlá-lo com facilidade nesta descida quase vertical.
— Devagar, devagar, tome cuidado para que ele não pegue velocidade.
Espero-o, para o caso dele soltar seu tonel, que assim seria forçado a parar, ao bater contra o meu. Desço de costas, eu na frente e o tonel atrás. Sem qualquer dificuldade, chegamos lá embaixo. Há um pequeno acesso ao mar, mas primeiro devemos transpor rochedos que são difíceis de ultrapassar.
— Esvazie o tonel. Não vamos poder passar pelos rochedos com ele cheio.
O vento sopra com força e as vagas rebentam raivosamente contra os rochedos. Pronto, está vazio.
— Enfie a rolha, bem apertada. Espere, ponha esta placa de lata por cima. Os buracos estão feitos. Enfie bem as pontas.
Com o barulho do vento e das vagas, as pancadas não podem ser ouvidas.
Bem presos um ao outro, não é fácil erguer os dois tonéis acima dos rochedos. Cada um deles é de duzentos e vinte e cinco litros. São volumosos e difíceis de manejar. O lugar escolhido por meu amigo para entrarmos no mar não facilita as coisas.
— Empurre para cima, em nome de Deus! Erga um pouco. Cuidado com essa onda!
Nós dois fomos derrubados, com tonéis e tudo, e jogados com força contra o rochedo.
— Cuidado! Eles podem rachar. E nós podemos quebrar a perna ou um braço!
— Acalme-se, Salvidia. Passe na frente, para o mar, ou venha aqui por trás. Lá, está bem localizado. Puxe para você, de uma vez, assim que eu gritar. Vou empurrar, ao mesmo tempo, e certamente vamos nos distanciar dos rochedos. Mas, para isso, é preciso primeiro nos mantermos firmes no lugar, mesmo quando a onda nos cobrir.
Gritando essas ordens ao meu companheiro, no meio da barulhada do vento e das ondas, creio que ele as entendeu: um enorme vagalhão cobre completamente o compacto bloco que formamos, os tonéis, ele e eu. É então que, raivosamente, com todas as minhas forças, empurro a jangada. Ele também puxa, seguramente, pois de repente nos encontramos soltos e levados pela onda. Ele sobe nos tonéis antes de mim e, no momento em que subo, por minha vez, uma enorme vaga nos apanha por baixo e nos atira como uma pluma sobre um rochedo pontudo, mais avançado que os outros. A espantosa pancada é tão forte que os tonéis se desmancham, os pedaços se espalham por todos os lados. Quando a vaga se retira, leva-me a mais de vinte metros do rochedo. Nado e deixo-me levar por uma outra vaga, que rola direto sobre a costa. Aterrisso, praticamente sentado, entre dois rochedos. Tenho tempo de me agarrar antes de ser arrastado de novo. Contundido por toda parte, consigo sair dali, mas quando piso em seco, percebo que meu amigo foi arrastado para mais de cem metros cio ponto em que havíamos entrado no mar.
Sem precauções, grito: “Salvidia! Romeo! Onde você está?” Nada me responde. Aniquilado, deito-me no chão, tiro as calças, o blusão de lã e me encontro nu, só com a cueca. Meu Deus, meu amigo, onde está ele? E grito de novo, o mais alto que posso: “Onde você está?” Apenas o vento, o mar, as vagas me respondem. Fico ali, sem saber quanto tempo, atônito, completamente aniquilado, física e moralmente. Depois, choro de raiva, jogando para longe o saquinho com cigarro e isqueiro que pendurara ao pescoço, gentileza fraternal feita pelo meu amigo, pois ele não fumava.
De pé, rosto ao vento, encarando aquelas vagas monstruosas que acabavam de destruir tudo, ergo meu punho e insulto os céus: “Sujos, porcos, nojentos, pederastas, vocês não têm vergonha de se encarniçar assim contra mim. Pervertidos, sujos, filhos da puta”. E não chega. Continuo contra Deus: “Um bom Deus, você? Nunca mais pronunciarei o seu nome! Você não merece!”
O vento abaixa e essa calma aparente me faz bem e me traz de volta à realidade.
Vou tornar a subir para o asilo e, se puder, vou entrar de novo na enfermaria. Com um pouco de sorte, vai ser possível.
Subo o costão com uma única idéia: entrar e tornar a me deitar em meu colchão. Nem visto, nem reconhecido. Sem aborrecimentos, chego ao corredor da enfermaria. Saltei o muro do asilo, pois não sei onde Salvidia pôs a chave da porta principal.
Sem procurar muito, encontro a chave da enfermaria. Entro e fecho a porta atrás de mim, com duas voltas. Vou à janela e jogo a chave bem longe, ela cai do outro lado do muro. E eu me deito. A única coisa que poderia me denunciar é minha cueca molhada. Tiro-a e vou torcê-la na privada. Com a colcha cobrindo-me o rosto, vou me esquentando aos poucos. O vento e a água do mar me puseram gelado. Será que meu amigo se afogou, realmente? Talvez tenha sido carregado para mais longe do que eu e conseguido se agarrar na ponta da ilha. Será que não voltei depressa demais? Devia ter esperado mais um pouco. Reprovo-me por ter admitido muito depressa que meu companheiro estava perdido.
Na gaveta da mesinha de cabeceira há dois comprimidos para dormir. Engulo-os sem água. Minha saliva basta para fazê-los descer.
Estou dormindo quando, sacudido, vejo o guarda-enfermeiro diante de mim. A sala está cheia de sol e a janela aberta. Três doentes olham lá de fora.
— Então, Papillon? Você dorme como uma pedra. São 10 horas da manhã. Ainda não tomou seu café? Está frio. Olhe, beba.
Mal desperto, percebo que, no que concerne a mim, parece que não há nada de anormal.
— Por que me acordou?
— Porque, como suas queimaduras já sararam, precisamos da cama. Você vai voltar para a cela.
— Está bem, chefe.
E eu o sigo. Ao passar pelo pátio, ele me deixa lá. Aproveito para secar minha cueca ao sol.
Há três dias que a fuga fracassou. Não se falou nada. Vou de minha cela para o pátio, do pátio para minha cela. Salvidia não apareceu mais, portanto ele morreu, coitado, certamente arrebentado contra os rochedos. Eu mesmo escapei de boa e seguramente me salvei porque estava atrás ao invés de estar na frente. Como saber? É preciso que eu saia do asilo. Vai ser difícil fazer com que acreditem que estou curado ou, pelo menos, apto a voltar ao barracão; vai ser mais difícil do que foi vir para o asilo. Agora preciso convencer o doutor de que estou melhor.
— Sr. Rouviot (é o enfermeiro-chefe), sinto frio à noite. Prometo não sujar minhas roupas. Por que não me dá uma calça e uma camisa, por favor?
O guarda está estupefato. Olha-me, muito espantado, depois me diz:
— Sente-se aqui comigo, Papillon. Conte-me, que há?
— Estou surpreendido, chefe, de me encontrar aqui. É o asilo; portanto, estou entre os loucos? Será que, por acaso, perdi o rumo? Por que estou aqui? Diga-me, chefe, por gentileza.
— Meu velho Papillon, você esteve doente, vejo que está com ar de estar melhor. Quer trabalhar?
— Sim.
— Que quer fazer? — Qualquer coisa.
E eis-me vestido, ajudo a limpar as celas. Nesta noite deixaram minha porta aberta até as 9 horas e foi somente quando o guarda da noite começou seu turno que me fecharam.
Um cara de Auvergne, condenado-enfermeiro, falou comigo pela primeira vez ontem à noite. Estávamos a sós no posto de guarda. O guarda ainda não havia chegado. Eu não conhecia esse cara, mas ele me conhecia bem, e disse:
— Não vale a pena continuar a luta, meu chapa.
— Que quer dizer?
— Deixe disso! Pensa que não manjei a sua jogada? Sou enfermeiro de birutas há sete anos e desde a primeira semana percebi que você era um simulador.
— Então, e daí?
— Daí, lamento sinceramente que tenha fracassado em sua fuga com Salvidia. Para ele, isso custou a vida. Sinceramente, tenho pena, porque era um bom amigo, apesar de ele não ter me dito nada, mas não o quero mal por isso. Se precisar de alguma coisa, é só me dizer, ficarei contente em lhe ser útil.
Seus olhos têm um olhar tão franco, que não duvido de sua retidão. E, se não ouvi ninguém falar bem dele, também não ouvi falar mal; portanto, deve ser um bom rapaz.
Pobre Salvidia! Deve ter havido um barulhão quando perceberam que ele sumiu. Encontraram os pedaços dos tonéis devolvidos pelo mar. Têm certeza que ele foi devorado pelos tubarões. O médico fez um barulho dos diabos por causa do óleo jogado fora. Diz que, com a guerra, não é fácil de se conseguir óleo.
— Que me aconselha a fazer?
— Vou fazer com que nomeiem você para o grupo que sai do asilo todos os dias para ir buscar víveres no hospital. Será um passeio. Comece a se comportar bem. E, em dez conversas, mantenha oito dentro do bom senso. Nunca se deve sarar muito depressa.
— Obrigado. Como é seu nome?
— Dupont.
— Obrigado. Não vou esquecer seus bons conselhos.
Faz quase um mês que tentei a fuga. Seis dias depois encontraram o corpo do meu companheiro flutuando. Por um acaso inexplicável, os tubarões não o comeram. Mas outros peixes devoraram, parece, suas entranhas e uma parte da perna, segundo me conta Dupont. Seu crânio estava quebrado. Devido ao adiantado grau de decomposição, não fizeram autópsia. Pergunto a Dupont se há possibilidade de eu mandar uma carta. Seria preciso fazê-la chegar às mãos de Galgani, para que a enfie dentro do saco do correio na hora de selá-lo.
Escrevo para a mãe de Romeo Salvidia, na Itália:
“Minha senhora, seu filho morreu sem ferros nos pés. Morreu no mar, corajosamente. Morreu livre, lutando valentemente para conquistar sua liberdade. Prometemo-nos mutuamente escrever às nossas famílias se alguma desgraça acontecesse a um de nós. Cumpro este doloroso dever, beijando-lhe filialmente as mãos.
Um amigo de seu filho,
Papillon”.
Depois de cumprido o meu dever, decido não pensar mais nesse pesadelo. É a vida. Resta sair do asilo, chegar à Ilha do Diabo, custe o que custar, e tentar outra fuga.
O guarda nomeou-me jardineiro de seu jardim. Há dois meses que me comporto bem e fiz com que ele me apreciasse de tal maneira, que o viado do guarda não quer me largar mais. O cara de Auvergne disse que, em sua última visita, o médico queria me fazer sair do asilo para me por no barracão em “saída de experiência”. O guarda se opôs, dizendo que seu jardim jamais estivera tão bem cuidado.
Então, hoje de manhã, arranquei todos os morangueiros e joguei-os no lixo. No lugar de cada morangueiro, plantei uma pequena cruz. Tantos morangueiros, tantas cruzes. Contar o escândalo não vale a pena. O gordo e pesado guarda-chefe quase estourou, tão grande foi sua indignação. Ele babava e bufava, querendo falar, mas os sons não queriam sair. Finalmente, sentado num carrinho de mão, ele chorou lágrimas verdadeiras. Fui um tanto pesado, mas o que fazer?
O médico não levou a coisa para o lado trágico. Esse doente, insiste, deve ser posto em “saída de experiência” e ir para o barracão, a fim de se readaptar à vida normal. Foi de estar sozinho no jardim que lhe veio essa idéia bizarra.
— Diga-me, Papillon, por que arrancou os morangueiros e pôs cruzes no lugar?
— Não posso explicar essa ação, doutor, e peço desculpas ao vigilante. Ele gostava tanto dos morangueiros, que estou realmente desolado. Vou pedir ao bom Deus que lhe dê outros.
Eis-me no barracão. Reencontro meus amigos. O lugar de Carbonieri está vazio, ponho minha rede ao lado desse espaço vazio, como se Matthieu continuasse lá.
O doutor me fez bordar em meu blusão: “Em tratamento especial”. Ninguém, a não ser o médico, pode me dar ordens. Ele me ordenou que catasse folhas, das 8 às 10 horas da manhã, diante do hospital. Bebi o café e fumei alguns cigarros em companhia do médico, em uma poltrona, diante da casa. Sua mulher está sentada conosco e o médico tenta fazer com que eu fale de meu passado, ajudado pela sua mulher.
— E então, Papillon, e depois? Que foi que lhe aconteceu depois que deixou os índios pescadores de pérolas?...
Passo todas as tardes com essas duas pessoas admiráveis.
— Venha me visitar todos os dias, Papillon — disse-me a mulher do doutor. — Primeiro, porque quero vê-lo; depois, para ouvir as histórias que lhe aconteceram.
Todo dia, passo algumas horas com o médico e sua mulher, às vezes só com a mulher dele. Obrigando-me a contar minha vida passada, eles estão persuadidos de que isso contribui para me equilibrar definitivamente. Decidi pedir ao médico que me mande à Ilha do Diabo.
Está feito: devo partir amanhã. Esse doutor e sua mulher sabem por que vou à Ilha do Diabo. Foram tão bons comigo, que não quis enganá-los:
— Doutor, não agüento mais esta prisão, faça com que me mandem para a Ilha do Diabo, faça com que eu escape ou estoure, mas que isto acabe!
— Eu o compreendo, Papillon. Este sistema de repressão me desgosta, esta administração é podre. Então, adeus e boa sorte!
A ILHA DO DIABO
O BANCO DE DREYFUS
É a menor das Ilhas da Salvação. Aquela que fica mais ao norte, também, e a mais batida pelo vento e pelas ondas. Depois de uma baixada estreita que se estende ao longo do mar por todo o litoral, eleva-se rapidamente até um planalto onde estão instalados o posto de guarda dos vigilantes e uma única enfermaria para os presos, uns dez mais ou menos. Para a Ilha do Diabo, oficialmente, não são mandados os condenados comuns, mas apenas os presos e deportados políticos.
Vivem cada um numa casinha coberta de folhas-de-flandres. Às segundas-feiras recebem os víveres crus para a semana e todos os dias recebem um pão. São uns trinta. O enfermeiro é o Dr. Léger, que envenenou toda a família em Lyon ou aí por perto. Os políticos não se dão com os comuns e às vezes escrevem para Caiena, queixando-se de um ou outro preso comum da ilha. Então, este é removido e levado de volta a Royale.
Um cabo liga Royale à Ilha do Diabo, porque muito freqüentemente o mar está agitado demais para que o barco de Royale possa aportar numa espécie de pontão de cimento.
O chefe dos guardas do presídio (são três) chama-se Santori. É um grandalhão sujo e muitas vezes fica com uma barba de oito dias.
— Papillon, espero que você se porte bem na Ilha do Diabo. Não me encha o saco e eu vou deixar você sossegado. Suba para o presídio, vejo você lá.
Na enfermaria encontro seis forçados: dois chineses, dois negros, um sujeito de Bordéus e um de Lille. Um dos chineses me conhece bem, estava junto comigo em Saint-Laurent, preso preventivamente por assassinato. É um indochinês, um sobrevivente da revolta do presídio de Poulo Condor, na Indochina.
Pirata de profissão, atacava os barcos e às vezes assassinava toda a tripulação com a família. Excessivamente perigoso, tem no entanto uma maneira de viver em comum com os outros presos que capta a confiança e a simpatia.
— Como vai, Papillon?
— Bem. E você, Chang?
— Vai indo. Aqui a gente está bem. Você comer comigo. Você dormir lá, perto de mim. Eu cozinhar duas vezes por dia. Você pegar peixe. Aqui bastante peixe.
Santori chega:
— Ah, já se instalou? Amanhã de manhã, você vai com Chang dar de comer aos porcos. Ele leva os cocos e você parte os cocos com um machado. Precisa separar os cocos moles para os leitões que não têm dentes. À tarde, às 4 horas, a mesma coisa. Excetuadas estas duas horas, uma de manhã e outra de tarde, você está livre para fazer o que quiser na ilha. Cada pescador tem que levar 1 quilo de peixe para meu cozinheiro, ou de lagostim. Assim, todo mundo fica satisfeito. Está certo?
— Certo, Sr. Santori.
— Sei que você é um fujão inveterado, mas, como daqui a fuga é impossível, nem vou ligar. De noite, você fica trancado, mas eu sei que há alguns que fogem assim mesmo. Você podia ficar como guarda dos deportados políticos. Todos eles têm um facão de mato. Se você chegar perto das casas deles, vão pensar que você vai roubar um frango ou ovos. Eles podem até matar ou machucar você, porque eles enxergam você, e você não os vê.
Depois de dar de comer a mais de duzentos porcos, fiquei andando pela ilha o dia todo, acompanhado por Chang, que a conhece a fundo. Um velho, com uma longa barba branca, cruzou conosco na picada que dá volta à ilha pela praia. É um jornalista de Nova Caledônia que, durante a guerra de 1914, escrevia contra a França, a favor da Alemanha. Vi também o porco que mandou fuzilar Edith Cavell, a enfermeira inglesa ou belga que salvou os aviadores ingleses em 1917. Este repugnante personagem, grande e gordo, tinha um pau na mão e sovava um peixe enorme, de mais de 1 metro e 50 de comprimento e grosso como a minha coxa.
O enfermeiro também mora numa dessas casinhas que deveriam ser somente dos presos políticos.
O Dr. Léger é uma ótima pessoa. Sujo e atarracado, dele só o rosto é limpo, um rosto emoldurado de cabelos grisalhos e muito compridos sobre o pescoço e as têmporas. Suas mãos estão avermelhadas de feridas mal cicatrizadas, provavelmente provocadas pelo atrito com as asperezas das rochas do mar.
— Se precisar de alguma coisa, venha aqui, que eu arranjo para você. Venha só se estiver doente. Não gosto de que venham me procurar e menos ainda de me procurar para bater papo comigo. Vendo ovos e de vez em quando um frango ou uma galinha. Se matar um leitão escondido, traga um pernil e eu lhe dou um frango e seis ovos. Já que você está aqui, leve este vidro com 120 cápsulas de quinino. Você veio aqui para fugir, se por milagre você conseguir, vai precisar disso na mata.
Pesco quantidades astronômicas de salmonetes de manhã e de noite. Mando de 3 a 4 quilos todos os dias para a cozinha dos guardas. Santori está radiante, nunca ganhou tanta variedade de peixe e de lagostim. Às vezes, mergulhando na maré baixa, pego trezentos lagostins.
O médico Germain Guibert veio ontem à Ilha do Diabo. Como o mar estava bom, veio o comandante de Royale e a Sra. Guibert. Esta mulher admirável é a primeira a pôr os pés nesta ilha. De acordo com o comandante, jamais um civil botou os pés aqui. Pude falar mais de uma hora com ela. Foi comigo até o banco onde Dreyfus sentava olhando para o mar, em direção à França que o rejeitara.
— Se esta pedra polida pudesse contar os pensamentos de Dreyfus... — diz, acariciando a pedra. — Papillon, esta é seguramente a última vez que nós nos vemos, porque todos dizem que daqui a pouco você vai tentar nova fuga. Vou rezar para você conseguir. E eu lhe peço que, antes de partir, fique um minuto nesse banco que eu acariciei e peço que você o acaricie também ao se despedir dele.
O comandante me deu a autorização para mandar pelo cabo, sempre que eu quiser, lagostins e peixe para o doutor. Santori concordou.
— Adeus, doutor, adeus senhora.
Despeço-me deles o mais naturalmente possível antes que a chalupa se afaste do pontão. Os olhos da Sra. Guibert se fixam em mim, imensos, francos, como para dizer: “Lembre-se sempre de nós, e nós não esqueceremos de você nunca mais”.
O banco de Dreyfus fica bem no. alto da ponta norte da ilha. Domina o mar a mais de 40 metros.
Não fui pescar hoje. Num viveiro natural, tenho mais de 100 quilos de salmonetes e, numa pipa de ferro presa por uma corrente, mais de quinhentos lagostins. Assim, não preciso me ocupar com a pesca. Tenho o suficiente para mandar para o médico, para Santori, para o chinês e para mim.
Estamos em 1941, há onze anos que estou na cadeia. Tenho 35 anos. Passei os dez anos mais bonitos da minha vida na cela ou na masmorra. Tive apenas sete meses de liberdade completa com a minha tribo de índios. Os filhos que fui obrigado a ter com minhas duas mulheres índias estão agora com oito anos. Que horror! Como o tempo passou depressa! Mas, olhando para trás, contemplo estas horas, estes minutos, e recordo como custaram a passar quando os’ suportava, como cada um deles ficou integrado nesse calvário.
Trinta e cinco anos! Onde estão Montmartre, a Praça Blanche, Pigalle, o salão de baile do Petit Jardin, o bulevar de Clichy? Onde está Nenette, com seu rosto de madona, verdadeiro camafeu, Nénette que, com seus grandes olhos negros, desesperada, gritou no tribunal: “Não se preocupe, meu querido, estarei com você até lá”? Onde está Raymond Hubert com seu “Seremos absolvidos”? Onde estão os doze viados do júri? E os guardas? e o promotor? Que é feito de meu pai e das famílias que minhas irmãs constituíram sob o jugo alemão?
Quantas fugas! Vejamos, quantas?
A primeira, quando fugi do hospital, depois de derrubar os guardas a cacetadas.
A segunda na Colômbia, em Rio Hacha, A mais bonita. Lá, eu tinha sido completamente vitorioso. Por que fui deixar minha tribo? Um estremecimento de desejo percorre meu corpo. Tenho a impressão de sentir ainda dentro de mim as sensações dos atos do amor com as duas irmãs índias.
Depois a terceira, a quarta, a quinta e a sexta em Barranquilla. Quanto azar nessas fugas! O golpe da missa, tão desgraçadamente malogrado! A dinamite que explodiu! Clousiot, que ficou pendurado pelas calças! E a demora do narcótico!
A sétima, em Royale, onde aquele puto do Bébert Celier me denunciou. Aquela teria dado certo, claro, se não fosse por ele. Se ele tivesse calado a boca, eu estaria livre com meu pobre amigo Carbonieri.
A oitava, a última, a do asilo. Um erro, um grande erro da minha parte, ter deixado o italiano escolher o lugar de entrar no mar. Duzentos metros mais para baixo, perto do matadouro, teríamos certamente mais facilidade para soltar a jangada.
Este banco — onde Dreyfus, condenado inocente, encontrou a coragem de continuar a viver apesar de tudo — deve servir-me para alguma coisa. Nunca me darei por vencido. Tentarei outra fuga.
Sim, esta pedra lisa, polida, em cima desse precipício, onde as ondas batem enraivecidas sem parar, será para mim um apoio e um exemplo. Dreyfus nunca se deixou abater e sempre, até o fim, lutou pela sua reabilitação. É verdade que ele teve Émile Zola com seu famoso Eu Acuso para defendê-lo. Todavia, não fosse um homem de muita fibra, diante de tanta injustiça teria se jogado com certeza no abismo, deste mesmo banco. Ele agüentou o golpe. Não devo ser menos forte do que ele e preciso largar de lado essa idéia de tentar uma nova fuga com a alternativa: vencer ou morrer. Preciso esquecer a palavra morrer, para pensar somente em vencer e ser livre.
Nas longas horas que passo sentado no banco de Dreyfus, meus pensamentos vagueiam, sonham com o passado e constroem um futuro cor-de-rosa. Meus olhos ficam freqüentemente ofuscados por tanta luz, pelos reflexos da crista das ondas. De tanto olhar sem realmente enxergar este mar, conheço todos os caprichos possíveis e imagináveis das ondas que acompanham o vento. O mar, inexoravelmente, sem jamais se cansar, ataca os rochedos mais avançados da ilha. Ele os escava, corrói as rochas, parece dizer à Ilha do Diabo: “Vá embora, você precisa desaparecer, você me estorva quando eu me lanço sobre o continente, você barra o meu caminho. É por isso que cada dia, sem parar, eu arranco um pedacinho de você”. Quando há tempestade, o mar se entrega à loucura e não apenas raspa, arrancando o que consegue destruir, mas ainda procura penetrar em todos os cantos para, pouco a pouco, minar por baixo esses gigantes de pedra, que parecem dizer: “Por aqui não se passa”.
Então descubro uma coisa importantíssima. Justo embaixo do banco de Dreyfus, diante de imensas rochas em forma de ferradura, as ondas atacam, arrebentam e se retiram com violência. As toneladas de água não podem se dispersar, porque ficam presas entre esses dois penedos que formam uma ferradura de cerca de 5 ou 6 metros de largura. À frente fica o penhasco, portanto a água das ondas não tem outra saída senão voltar para o mar.
Isso é muito importante porque, se na hora em que a onda bate e volta, eu me jogar do rochedo com um saco de cocos, mergulhando diretamente dentro dela, sem sombra de dúvida ela me arrastará consigo ao se retirar.
Eu sei onde posso pegar muitos sacos de juta; no mangueirão há sacos à vontade, para o recolhimento dos cocos.
A primeira coisa a fazer é uma experiência. Quando há lua cheia, a maré é mais alta e portanto as ondas são mais fortes. Vou esperar a lua cheia. Um saco de juta bem costurado, cheio de cocos secos com sua casca de fibra, fica bem escondido numa espécie de gruta: para entrar nela, é preciso mergulhar e passar debaixo da água. Descobri essa gruta mergulhando para apanhar lagostins. Eles ficam grudados no teto da gruta, que só recebe ar quando a maré está baixa. Num outro saco, que amarrei ao saco de cocos, coloquei uma pedra que deve pesar 35 ou 40 quilos. Como vou partir com dois sacos de cocos em vez de um e peso 70 quilos, a proporção é a mesma: um saco para 35 quilos.
Estou excitadíssimo com a experiência. Este lado da ilha é tabu. Ninguém jamais poderá imaginar que alguém vá escolher o local mais batido pelas ondas, e portanto o mais perigoso, para fugir.
E, no entanto, é o único lugar de onde, se eu conseguir me afastar da costa, serei levado para o largo e não poderei de maneira alguma ir me espatifar na Ilha Royale.
É deste lugar que eu tenho que sair.
O saco de cocos e a pedra são muito pesados e nada fáceis de carregar. Não consegui empurrá-los para cima do rochedo. A rocha é escorregadia e está sempre molhada pelas ondas. Chang, com quem falei, vai me ajudar. Ele pegou todos os apetrechos de pesca, linhas de fundo, porque, se formos surpreendidos, vamos dizer que fomos colocar as linhas para apanhar tubarões.
— Vamos, Chang. Um pouco mais e vai dar.
A lua cheia clareia a cena como em pleno dia. O barulho das ondas me ensurdece. Chang pergunta:
— Você está pronto, Papillon? Jogue naquela lá.
A onda, de uns 5 metros de altura, levanta-se e se precipita como louca contra o rochedo, vai quebrar debaixo da gente, mas o choque é tão violento, que a crista passa por cima do rochedo e nos molha inteiramente. Apesar disso, a gente joga o saco no momento exato em que ela forma um redemoinho antes de se retirar. Carregado como uma palha, o saco entra no mar.
— Aí, Chang, está bem.
— Espere para ver se saco não voltar.
Menos de cinco minutos depois, desanimado, vejo chegar o saco empoleirado na crista de um imenso vagalhão, de 7, 8 metros de altura ou mais. A onda levanta o saco de cocos e a pedra, e carrega-os em cima da crista, um pouco antes da espuma. E, com uma força espantosa, os devolve para o lugar de onde partiram, um pouco à esquerda. A coisa se espatifa sobre a rocha em frente. O saco se abre, os cocos se espalham e a pedra rola para o fundo do abismo.
Ensopados até os ossos, porque a onda nos molhou inteiramente e praticamente nos derrubou — felizmente para trás, em terra —, esfolados e chateados, Chang e eu, sem olhar mais para o mar, afastamo-nos o mais depressa possível desse lugar maldito.
— Nada bom, Papillon. Nada bom esta idéia de fugir da Ilha do Diabo. É melhor Royale. Do lado sul, você pode sair melhor do que daqui.
— É, mas em Royale a fuga pode ser descoberta em duas horas no máximo. No saco de cocos, só com o impulso da onda, posso ser facilmente apanhado de novo pelas três lanchas da ilha. Ao passo que aqui, para começar, não existem barcos; em segundo lugar, com certeza tenho toda a noite pela frente antes de o pessoal perceber a fuga; depois, podem pensar que eu me afoguei pescando. Na Ilha do Diabo não há telefone. Se eu fugir com mau tempo, não existe chalupa capaz de chegar até aqui. Portanto, é aqui que preciso partir. Mas como?
Sol a pino ao meio-dia. Um sol tropical que quase faz ferver o cérebro dentro do crânio. Um sol que calcina todas as plantas que conseguiram brotar, mas não conseguiram crescer até se tornarem bastante fortes para resistir a ele. Um sol que faz evaporar em algumas horas toda poça de água do mar não muito profunda e deixa uma película branca de sal. Um sol que faz dançar o ar. Sim, o ar se mexe, na verdade se mexe diante dos meus olhos e a reverberação de sua luz sobre o mar queima minhas pupilas. Entretanto, outra vez no banco de Dreyfus, tudo isso não me impede de estudar o mar. E, então, percebo que sou um verdadeiro idiota.
O vagalhão, duas vezes maior que todas as outras ondas, que vomitou o saco sobre os rochedos, esmigalhando-o completamente, só se repete a cada sete ondas.
Do meio-dia ao por do sol, fiquei observando se isso era automático, se não havia mudanças bruscas, se não havia alguma alteração na periodicidade e na forma dessa onda gigantesca.
Não, nem uma vez o vagalhão apareceu antes ou depois. Seis ondas de uns 6 metros depois, formando-se a mais de 300 metros da costa, o vagalhão. Aproxima-se reto como um I. Conforme vem vindo, aumenta de volume e altura. Quase sem espuma na crista, ao contrário das outras seis. Muito pouca. Faz um ruído particular, como uma trovoada que rola e vai se extinguindo ao longe. Quando bate nos dois rochedos e se precipita na passagem entre eles e vem chocar no penhasco, a massa de água, muito maior que a das outras ondas, comprime-se, rodopia várias vezes dentro da cavidade, e são necessários dez ou quinze segundos para que o redemoinho, como um turbilhão, encontre novamente a saída e se afaste, arrancando e rolando consigo grandes pedras que não param de ir e vir, com um estrondo parecido ao de centenas de carroças de pedras descarregadas brutalmente.
Coloco uns dez cocos no mesmo saco, enfio uma pedra de mais ou menos 20 quilos e assim que o vagalhão se quebra jogo o saco.
Não consigo acompanhá-lo com os olhos, porque há muita espuma branca dentro do abismo, mas posso vê-lo por um segundo quando a água, como que sugada, se precipita em direção ao mar. O saco não voltou. As seis outras ondas não tiveram força suficiente para devolvê-lo à costa e, quando a sétima se forma, a cerca de 300 metros, o saco já deve ter passado do ponto onde ela nasce, porque não o vejo mais.
Cheio de alegria e de esperança, volto para o presídio. Aí está, descobri uma largada perfeita. Nada de aventuras nesse golpe. Vou fazer mesmo um ensaio mais sério, com os dados exatos: dois sacos de cocos bem amarrados um ao outro e, em cima, 70 quilos de peso, divididos entre duas ou três pedras. Falo com Chang, o chinês, meu camarada de Poulo Condor, que escuta minhas explicações com os ouvidos bem abertos.
— É bom, Papillon, Acho que você descobriu. Eu ajudar você no ensaio de verdade. Esperar maré alta de 8 metros. Logo equinócio.
Ajudado por Chang, aproveitando a maré do equinócio, de mais de 8 metros, jogamos na famigerada onda dois sacos de cocos carregados com três pedras que devem ter uns 80 quilos.
— Como chamar a menina que você quis salvar em Saint-Joseph?
— Lisette.
— Nós chamar a onda que um dia levar você: Lisette. Certo?
— Certo.
Lisette chega com o estrondo de um trem entrando na estação. Formou-se a mais de 250 metros e, aprumada como um penhasco, avança crescendo a cada segundo. É realmente muito impressionante. Ela arrebenta com tanta força, que Chang e eu somos varridos do rochedo e, sozinhos, os sacos caíram dentro do abismo. Percebendo imediatamente numa fração de segundo que não podíamos ficar em cima do rochedo, jogamo-nos para trás, não escapamos do jato de água, mas também não caímos no abismo. Fazemos este ensaio às 10 da manhã. Não há perigo, porque os três guardas estão ocupados no outro lado da ilha com uma vistoria geral. O saco foi embora, distingue-se claramente, bem longe da costa. Será que foi jogado mais longe do ponto onde nasce a onda? Não temos indicação para saber se foi mais longe ou mais perto. As seis ondas que vêm depois de Lisette não chegam a pegá-lo no seu impulso. Outra vez, Lisette se forma e torna a vir. Não traz mais os sacos consigo. Portanto, eles saíram de sua zona de influência.
Subindo depressa no banco de Dreyfus para conseguir enxergá-los mais uma vez, temos a alegria de vê-los por quatro vezes; apareceu muito longe, na crista das ondas, não na direção da Ilha do Diabo, mas indo para o oeste. Indiscutivelmente, a experiência e positiva. Partirei para a grande aventura no dorso de Lisette.
— Lá está, olhe.
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis... e lá vem Lisette.
O mar fica sempre agitado na ponta do banco de Dreyfus, mas hoje está particularmente de mau humor. Lisette avança com seu barulho característico. Parece mais enorme ainda, deslocando, sobretudo na base, ainda mais água do que habitualmente. Essa massa monstruosa vai atacar o rochedo mais rapidamente e mais aprumada do que nunca. E, quando rebenta e se precipita no espaço contra as enormes pedras, o golpe parece ainda mais ensurdecedor do que em todas as outras vezes.
— É lá que você diz que a gente vai se jogar? Bom, companheiro, você escolheu o lugar a dedo. Eu não vou. Quero sair daqui, é verdade, mas não me suicidar.
Sylvain fica muito impressionado com a apresentação de Lisette, que acabo de lhe fazer. Está na Ilha do Diabo há três dias e, naturalmente, propus a ele partirmos juntos. Cada um numa jangada. Assim, se ele aceitar, terei um camarada para prosseguir a fuga no continente. No mato, sozinho, não é nada divertido.
— Não tenha medo antes do tempo. Reconheço que, à primeira vista, qualquer um dá para trás. Mas é a única onda capaz de levar a gente bastante longe, de maneira que as outras ondas que vêm atrás não terão a força de nos jogar de novo sobre os rochedos.
— Calma, olhe, nós experimentamos, diz Chang. E certo, depois que você for, não pode voltar à Ilha do Diabo, nem chegar a Royale.
Levei uma semana para convencer Sylvain. Um sujeito cheio de músculos, 1 metro e 80, bem proporcionado em todo o seu corpo de atleta.
— Bom. Admito que vamos ser arrastados para bem longe. Depois, em quanto tempo você acha que a gente chega à Terra Grande, com as marés?
— Francamente, Sylvain, não sei. A deriva pode ser mais ou menos longa, vai depender de muita coisa. O vento quase não vai influir, vamos estar muito dentro da água. Mas, se houver mau tempo, as ondas serão mais fortes e nos levarão mais depressa para a mata. Com sete, oito, ou dez marés, no máximo, devemos ser jogados na praia. Portanto, vai levar de 48 a sessenta horas.
— Como é que você calcula?
— Das ilhas direto até a costa, não são mais de 40 quilômetros. À deriva, é como a hipotenusa de um triângulo retângulo. Veja o sentido das ondas. Mais ou menos, precisamos fazer de 120 a 150 quilômetros, no máximo. Quanto mais a gente se aproximar da costa, mais diretamente as ondas vão nos dirigir e jogar sobre ela. Ã primeira vista, você não acha que um destroço a esta distância da costa vai a 5 quilômetros por hora?
Ele me olha e ouve atentamente minhas explicações. Este rapagão é muito inteligente.
— Não, você não esta falando besteira, reconheço. Se não fosse pelas marés baixas, que vão nos fazer perder tempo, porque são elas que vão nos levar ao largo, com certeza a gente chegaria em menos de trinta horas à costa. Com as marés baixas, acho que você tem razão: entre 48 e sessenta horas, a gente chega à costa.
— Você se convenceu, vai comigo?
— Quase. Suponhamos que a gente está no continente, no mato. O que é que a gente faz?
— Precisamos chegar perto de Kourou. Lá tem uma aldeia bastante importante de pescadores, seringueiros e garimpeiros. É preciso aproximar-se com cuidado, porque tem também uma colônia penal estrangeira. Deve ter certamente umas picadas no mato para chegar até Caiena e até um presídio de chineses, chamado Inini. Precisamos pegar um preso ou um civil negro e obrigá-lo a levar a gente até Inini. Se o cara se portar bem, damos para ele 500 pratas — e que desapareça. Se bancar o durão, vamos obrigá-lo a fugir conosco.
— Que é que vamos fazer em Inini, nesse presídio especial para indochineses?
— O irmão de Chang está lá.
— É, meu irmão estar lá. Ele fugir com vocês, ele encontrar com certeza barco e comida. Se vocês encontrar Cuic-Cuic, vocês ter tudo para fuga. Um chinês nunca faz jogo polícia. Também qualquer chinês vocês encontrar no mato, vocês falar com ele e ele avisar Cuic-Cuic.
— Por que é que chamam seu irmão de Cuic-Cuic? — diz Sylvain.
— Não sei, os franceses batizar ele Cuic-Cuic.
E continua:
— Atenção. Quando vocês quase chegar Terra Grande, vocês encontrar areia. Nunca pisar na areia, ela não boa, ela chupar vocês. Esperar que outra maré leve vocês dentro do mato para poder agarrar cipós e galhos árvores. Senão, vocês fodidos.
— Ah! é, Sylvain. Nunca pisar na areia, nem bem perto da costa. Precisamos esperar até alcançar um galho ou um cipó.
— Tá bom, Papillon. Resolvi.
— Fazendo as duas jangadas iguais, mais ou menos, como temos o mesmo peso, com certeza não vamos ficar muito longe um do outro. Mas nunca se sabe. No caso de a gente se perder, como é que vamos nos encontrar de novo? Daqui não se vê Kourou. Porém quando estava em Royale, você deve ter reparado que à direita de Kourou, aproximadamente a 20 quilômetros, há umas rochas brancas que se enxergam bem quando o sol bate nelas.
— Sei.
— São os únicos rochedos de toda a costa. À direita e à esquerda, até o infinito, é só areia. Essas rochas são brancas por causa da merda dos pássaros. Como ninguém jamais vai até lá, é um esconderijo para se refazer antes de afundar na mata. A gente pode comer ovos e os cocos que levar. Não se pode acender nenhum fogo. O primeiro que chegar espera o outro.
— Quantos dias?
— Cinco. É impossível que em menos de cinco dias o outro não chegue no lugar combinado.
Fazemos as duas jangadas. Usamos sacos duplos, para que sejam mais resistentes. Pedi dez dias a Sylvain para ficar o maior tempo possível treinando a montar a cavalo num saco. Ele faz a mesma coisa. Percebemos que, quando os sacos estão a ponto de virar, é necessário um esforço suplementar para o montador ficar em cima. Sempre que possível, vai ser preciso deitar em cima do saco. Cuidado para não dormir, porque a gente pode perder o saco, caindo na água e não conseguindo mais agarrá-lo. Chang costurou um saquinho impermeável que vou prender no pescoço com uns cigarros e um isqueiro. Vamos ralar dez cocos cada um para levar. Sua polpa nos permitirá agüentar a fome e também matar a sede. Parece que Santori tem uma espécie de bexiga de couro para pôr vinho. Ele não usa isso. Chang, que às vezes vai até a casa do guarda, tentará passar a mão nela.
Vai ser domingo às 10 da noite. A maré, com a lua cheia, terá 8 metros. Lisette estará pois em toda a sua força. Chang vai dar de comer sozinho aos porcos domingo de manhã. Eu vou dormir sábado o dia todo e todo o domingo. Partiremos às 10 horas da noite, a vazante deve começar duas horas depois,
É impossível que meus dois sacos se separem um do outro. Estão amarrados com cordas de cânhamo trançado, arame, e costurados um ao outro com uma linha grossa para velas. Encontramos sacos maiores que os outros e a boca de um está encaixada na boca do outro. Os cocos não vão escapar.
Sylvain não pára de fazer ginástica e eu me deixo massagear as coxas pelas ondas pequenas, que batem sobre elas durante longas horas. Com os golpes repetidos da água sobre minhas coxas e as contrações que sou obrigado a fazer para resistir a cada onda, criei pernas e coxas de ferro.
Num poço abandonado da ilha há uma corrente de cerca de 3 metros. Prendi-a às cordas que seguram meus sacos. Um parafuso de ferro passa através dos anéis. Se por acaso não agüentar mais, eu me amarro aos sacos com a corrente. Talvez assim eu possa dormir sem correr o risco de cair na água e perder minha jangada. Se os sacos virarem, a água vai me despertar e eu os colocarei novamente na posição certa.
— Então, Papillon. Mais três dias.
Sentados no banco de Dreyfus, olhamos para Lisette.
— É, mais três dias, Sylvain. Eu tenho fé que a gente vai conseguir. E você?
— É certo, Papillon. Terça de noite ou quarta de manhã, vamos estar no mato. E então vai ser sopa.
Chang vai ralar dez cocos para cada um. Além das facas, levamos dois sabres roubados do depósito de ferramentas.
O presídio de Inini fica a leste de Kourou. Somente andando de manhã, contra o sol, vamos ter certeza de seguir a direção certa.
— Segunda de manhã, Santori vai ficar bobo — diz Chang. — Eu não falar que você e Papillon desaparecidos antes de segunda 3 horas da tarde, quando guarda acabar sesta.
— E por que é que você não pode chegar correndo e dizer que uma onda carregou a gente enquanto a gente pescava?
— Não, eu nada complicações. Eu dizer: “Chefe, Papillon e Stephen não vir trabalhar hoje. Eu sozinho dei comer aos porcos”. Só isso.
A EVASÃO DA ILHA DO DIABO
Domingo, 7 horas da noite. Acabo de acordar. Propositalmente, durmo desde sábado de manhã. A lua só sai às 9. Lá fora, a noite está negra. Poucas estrelas no céu. Grandes nuvens carregadas de chuva passam correndo em cima de nossas cabeças. Acabamos de sair do barracão. Como muitas vezes vamos pescar clandestinamente de noite ou mesmo passear pela ilha, todos os outros acham a coisa natural.
Um rapaz entra com seu amante, um árabe forte. Com certeza acabaram de fazer o amor num canto qualquer. Olhando-os enquanto levantam a tábua para voltar à enfermaria, penso que, para o árabe, poder fazer o amor com seu amigo duas ou três vezes por dia é o auge da felicidade. Poder satisfazer à saciedade suas necessidades eróticas é coisa que transforma a prisão num paraíso para ele. Para o garoto bonito é o mesmo. Deve ter uns 23 ou 25 anos. Seu corpo é o de um adolescente. Por mais que viva na sombra para conservar sua pele cor de leite, já deixou de ser um Adônis. Na prisão, contudo, tem mais amantes do que poderia pretender se estivesse em liberdade. Além do amante do coração, o árabe, ele pega clientes a 25 francos cada um, exatamente como uma puta da Rua Rochechouart, em Montmartre. Além do prazer que os clientes provocam nele, ganha dinheiro suficiente para ele e seu “homem” viverem comodamente. Eles e seus clientes se dedicam obstinadamente ao vício e, desde o dia em que puseram os pés na prisão, sua cabeça só teve um ideal: o sexo.
O procurador que os fez condenar fracassou na tentativa de castigá-los, colocando-os no caminho da corrupção. É nesta corrupção que eles encontraram a felicidade.
Descida a prancha na bunda do viadinho, ficamos sós, Chang, Sylvain e eu.
— Vamos andando.
Logo estamos no norte da ilha.
Tiramos as duas jangadas da gruta. Logo ficamos os três molhados. O vento sopra com os uivos característicos do vento desencadeado do alto-mar. Sylvain e Chang me ajudam a puxar minha jangada até o alto do rochedo. Na última hora, resolvo prender o pulso esquerdo à corda do saco. Tenho medo, de repente, de perder o saco e de ser carregado sem ele. Sylvain sobe no rochedo em frente, com a ajuda de Chang. A lua já está bem alta, enxerga-se muito bem. Enrolei uma toalha em volta da cabeça. Temos que esperar seis ondas. Leva tempo.
Chang chega perto de mim. Envolve-me o pescoço, depois me, abraça. Deitado sobre a rocha e abaixado numa depressão da pedra, ele vai segurar minhas pernas para ajudar-me a agüentar a arrebentação de Lisette.
— Mais uma — grita Sylvain —, a outra é a nossa!
Fica na frente da sua jangada, para cobri-la com o corpo e protegê-la contra a água que vai passar sobre ela. Estou na mesma posição e, além disso, para me segurar, tenho as mãos de Chang, que no nervosismo me enfia as unhas na barriga da perna.
Está chegando, a Lisette que vem buscar a gente. Vem empinada como a torre de uma igreja. Com seu costumeiro estrondo ensurdecedor, quebra-se sobre os dois rochedos e afunda em direção ao penhasco.
Atirei-me uma fração de segundo antes de meu companheiro, que parte imediatamente, e nas duas jangadas, coladas uma à outra, Lisette nos arrasta ao largo com uma rapidez vertiginosa. Em menos de cinco minutos estamos a mais de 300 metros da costa. Sylvain ainda não subiu na sua jangada. Eu já estava em cima dela no minuto seguinte. Com um pano branco na mão, empoleirado no banco de Dreyfus, onde teve que trepar depressa, Chang manda seu último adeus. Já faz cinco minutos que saímos do lugar perigoso onde as ondas se formam para ir direto contra a Ilha do Diabo. Aquelas que nos levam são bem mais compridas, quase sem espuma, e tão regulares que vamos à deriva, formando um só corpo com elas, sem balançar e sem que a jangada corra o perigo de virar.
Subimos e descemos estas ondas profundas e altas, levados suavemente para o largo com a vazante.
Ao subir na crista de uma dessas ondas, ainda uma vez, virando completamente a cabeça, posso enxergar o pano branco de Chang. Sylvain não está muito longe de mim, a uns 50 metros em direção ao alto-mar. Várias vezes, ele levanta o braço e o agita em sinal de alegria e de vitória.
A noite não foi dura e sentimos fortemente a mudança de atração do mar. A maré com a qual partimos nos atirou ao largo, esta nos empurra agora para a Terra Grande.
O sol se levanta no horizonte, são portanto 6 horas. Estamos muito junto da água para conseguir avistar a costa. Vejo que estamos bastante longe das ilhas, pois, embora o sol as ilumine completamente, mal se distinguem e não se percebe que são três. Vejo uma massa, só isso. Não podendo distinguir os detalhes, penso que estão a pelo menos 30 quilômetros.
Tenho um sorriso de triunfo; pelo êxito total.
E se eu sentasse na jangada? O vento me empurraria melhor, batendo nas minhas costas.
Pronto, sentei. Desenrolo a corrente e dou uma volta em torno da minha cintura. Com o parafuso bem engraxado, é fácil fechar a porca. Levanto as mãos no ar para secá-las no vento. Vou fumar um cigarro. Pronto. Longamente, profundamente, aspiro as primeiras tragadas e assopro a fumaça docemente. Não tenho mais medo. Porque é inútil descrever a dor de barriga que eu tive antes, durante e depois dos primeiros momentos de ação. Não, não tenho medo, de modo que, terminado o cigarro, resolvo comer um pouco de coco ralado. Como um belo punhado, depois fumo outro cigarro. Sylvain está bastante longe, agora. De tempos em tempos, quando nos encontramos no mesmo momento sobre a crista de uma onda, conseguimos nos enxergar furtivamente. O sol bate com uma força dos diabos sobre o meu crânio, que começa a ferver. Molho minha toalha e enrolo-a na cabeça. Tirei a malha de lã. Apesar do vento, sufoco com ela.
Meu Deus, minha jangada virou e quase me afoguei. Bebi dois bons goles de água salgada. Não conseguia, apesar dos meus esforços, virar os sacos e tornar a subir em cima deles. A culpa é da corrente. Meus movimentos não são bastante livres por causa dela. Enfim, fazendo-a deslizar sempre no mesmo sentido, consegui nadar ao lado dos sacos e respirar profundamente. Experimento livrar-me completamente da corrente, meus dedos procuram inutilmente desaparafusar a porca. Irrito-me e, talvez por estar muito nervoso, não tenho força suficiente nos dedos para desemperrá-la.
Ufa! Enfim, aqui está! Passei um mau pedaço. Fiquei completamente louco, pensando na impossibilidade de me livrar da corrente.
Não me preocupo em endireitar a jangada. Sinto-me esgotado, não tenho bastante força. Subo em cima da jangada. Que importa que a parte de baixo esteja virada para cima? Nunca mais vou ficar amarrado, nem com a corda nem com nada. Já percebi a besteira que fiz na hora da saída, prendendo meu pulso. Isso me servirá de experiência.
O sol, inexoravelmente, queima os meus braços, as minhas pernas. Meu rosto está em fogo. Molhá-lo é pior, acho, porque imediatamente a água se evapora e queima mais ainda.
O vento diminui bastante e, se a viagem é mais cômoda, porque agora as ondas são menos altas, em compensação avanço menos rápido. Muito melhor, portanto, o vento e o mar agitado do que a calmaria.
Tenho cãibras tão fortes na perna direita, que grito, como se alguém pudesse me ouvir. Com o dedo, faço umas cruzes sobre a cãibra, lembrando-me de que minha avó dizia que isso faz a dor passar. O remédio da boa avó fracassa miseravelmente. O sol desceu bastante a oeste. São aproximadamente 4 da tarde, é a quarta maré depois da partida. Parece que esta maré montante puxa com mais força do que a outra em direção à costa.
Agora vejo sempre Sylvain e ele também me vê muito bem. Ele desaparece muito raramente, porque as ondas são pouco profundas. Tirou a camisa e está de peito nu. Sylvain me faz uns sinais. Está mais de 300 metros à minha frente, mas mais para o largo. Parece que está remando com as mãos, pela leve espuma em volta dele. Parece que quer segurar a jangada, para que eu chegue perto dele. Deito em cima dos sacos, mergulhando os braços na água, e remo. Se ele brecar e eu empurrar, será possível diminuir a distância entre nós?
Escolhi bem meu cúmplice nessa evasão, está à altura, cem por cento.
Paro de remar com as mãos. Sinto-me cansado. Preciso guardar minhas forças. Vou comer e tentar virar a jangada. A sacola da comida está embaixo e também a garrafa de couro com a água doce. Estou com sede e com fome. Meus lábios já estão partidos e queimam. A melhor maneira de virar os sacos é pendurar-me neles, na frente da onda, e depois empurrar com os pés na hora em que estão no alto da onda.
Depois de cinco tentativas, tenho a sorte de virar a jangada de uma vez só. Estou esgotado, pelo esforço que acabo de fazer, e subo com dificuldade nos sacos.
O sol está alto no horizonte e em pouco tempo vai desaparecer. É perto de 6 horas. Esperemos que a noite não seja muito agitada, porque vejo que são as longas imersões que me tiram as forças.
Bebo na bolsa de couro de Santori um bom gole de água, depois de comer dois punhados de polpa de coco. Satisfeito, as mãos secas Pelo vento, tiro um cigarro e fumo, deliciado. Antes que escureça, Sylvain agita sua toalha e eu a minha, em sinal de boa noite. Está sempre longe de mim. Estou sentado, com as pernas esticadas. Torço o mais possível minha malha de lã e a visto. Estas malhas, mesmo molhadas, esquentam; e, desaparecido o sol, começo logo a sentir frio.
O vento refresca. Somente as nuvens a oeste estão banhadas de luz rosa no horizonte. Todo o resto, agora, está mergulhado na penumbra do crepúsculo, que se acentua de minuto em minuto. A leste, de onde vem o vento, nenhuma nuvem. Portanto, não há perigo de chuva para a noite.
Não penso absolutamente em nada. Não me pergunto se é bom eu me segurar, não me molhar inutilmente, nem me pergunto se seria preferível, caso o cansaço me vença, amarrar-me aos sacos, ou se isso é muito perigoso depois da experiência que eu tive. Então percebo que eu me sentia preso nos movimentos porque a corrente era muito curta, uma extremidade ficava inutilizada, enrolada nas cordas e nos arames do saco. Esta ponta é facilmente recuperável. Vou ter, então, os movimentos mais livres. Arrumo a corrente e prendo-a de novo na cintura. A porca cheia de graxa funciona sem dificuldade. Não preciso apertá-la demais, como da primeira vez. Assim, me sinto mais tranqüilo, porque tenho um medo louco de pegar no sono e perder a jangada.
É, o vento aumentou e as ondas também. A jangada funciona otimamente, mas com as diferenças de nível cada vez mais acentuadas.
É noite completa. O céu está cravejado de milhões de estrelas e o Cruzeiro do Sul brilha mais que todas as outras,
Não vejo meu companheiro. Esta noite que começa é muito importante, porque, se a sorte permitir que o vento sopre durante toda a noite com a mesma força, vou andar bastante até amanhã de manhã.
Mais a noite avança, mais forte sopra o vento. A lua sai lentamente do mar, está de um vermelho pardacento e, quando, enfim livre, se apresenta enorme, inteira, distingo claramente suas manchas negras, que lhe dão o aspecto de um rosto.
Já são mais de 10 horas da noite. A noite fica cada vez mais clara. À medida que a luz se levanta, o clarão lunar fica mais intenso. As ondas ficam platinadas e sua estranha reverberação queima meus olhos. Não é possível deixar de olhar esses reflexos prateados, mas realmente machucam e queimam meus olhos, que já estão irritados pelo sol e a água salgada.
Por mais que eu mesmo ache que estou exagerando, não tenho vontade de resistir e fumo três cigarros seguidos.
Nada de anormal com a jangada, que, num mar fortemente agitado, sobe e desce sem problemas. Não posso ficar por muito tempo com as pernas esticadas sobre o saco de cocos, porque a posição sentada me dá logo cãibras horríveis.
Estou permanentemente molhado até a cintura. O peito está quase seco, o vento secou a malha, as ondas não me molham acima da cintura. Meus olhos ardem cada vez mais. Fecho-os. De vez em quando, pego no sono. “Você não pode dormir.” Fácil dizer, mas não agüento mais. Merda! Luto contra estes entorpecimentos. É, cada vez que retomo o senso da realidade, sinto uma dor aguda no cérebro. Tiro o isqueiro. De vez em quando me queimo, encostando a chama no braço direito ou no pescoço.
Sinto uma angústia horrível que procuro afastar com toda a minha energia. Será que vou dormir? E, se cair na água, o frio vai me acordar? Fiz bem de me prender de novo com a corrente. Não posso perder esses dois sacos, eles são a minha vida. Vai ser mesmo o diabo se, ao cair na água, eu não acordar mais.
Depois de alguns minutos estou de novo todo molhado. Uma onda rebelde, que com certeza não queria seguir na direção normal das outras, veio chocar em mim do lado direito. Não só ela me molhou mas ainda me jogou de atravessado, e duas outras ondas normais me cobriram completamente, da cabeça aos pés.
A segunda noite está bem adiantada. Que horas poderão ser? Pela posição da lua, que começa a descer a oeste, devem ser mais ou menos 2 ou 3 horas da manhã. Há cinco marés, trinta horas, que estamos na água. Ficar molhado até os ossos me serve para alguma coisa: o frio me acordou completamente. Estou tiritando, mas conservo os olhos arregalados sem esforço. As pernas ficam endurecidas e resolvo dobrá-las, colocando os pés debaixo das nádegas. Levantando-me com as duas mãos, uma de cada vez, consigo sentar-me em cima das pernas. Os dedos dos pés estão gelados, quem sabe se agora vão esquentar.
Fico bastante tempo assim, sentado com as pernas cruzadas. Mudar de posição me fez bem. Tento ver Sylvain, pois a lua ilumina bastante o mar. Só que ela já desceu e, com ela de frente, não consigo distinguir direito. Não, não enxergo nada. Ele não tinha nada para se amarrar aos sacos, será que está ainda em cima deles? Procuro por ele desesperadamente, é inútil. O vento está forte, mas é regular, não muda de repente, e isto é muito importante. Acostumei-me com seu ritmo e meu corpo forma um só volume com os sacos.
De tanto procurar em volta, só tenho uma idéia fixa na cabeça: ver meu companheiro. Seco os dedos no vento e assobio com todas as minhas forças, com os dedos na boca, Escuto. Ninguém responde. Será que Sylvain sabe assobiar com os dedos? Não sei. Devia perguntar para ele antes de partir. Podíamos até fazer dois apitos. Reprovo-me por não ter pensado nisso. Depois coloco as duas mãos diante da boca e grito: “Hu-Hu!” Só o barulho do vento me responde e o chuá-chuá das ondas.
Então, sem me importar mais, levanto-me e, de pé em cima dos sacos, levantando a corrente com a mão esquerda, fico me equilibrando enquanto cinco ondas me carregam na sua crista. Quando chego lá em cima fico completamente de pé e, para descer e tornar a subir, fico agachado. Nada à direita, nada à esquerda, nada pela frente. Será que ele está atrás de mim? Não tenho coragem de ficar de pé e olhar para trás. A única coisa que tenho a impressão de ter visto, sem nenhuma dúvida, é uma linha preta marcada nesta noite de lua. Com certeza é a floresta.
De dia vou ver as árvores, isso me faz bem. “De dia, você vai ver a floresta, Papi! Se Deus quiser, você vai ver também seu companheiro!”
Estiquei de novo as pernas depois de ter esfregado os dedos dos pés. Depois resolvo secar as mãos e fumar um cigarro. Fumo dois. Que horas serão? A lua está bastante baixa. Não lembro mais em quanto tempo antes do nascer do sol ela desapareceu na noite passada. Tento me lembrar com os olhos fechados, recordando as imagens da primeira noite. Inútil. Ah, é! De repente vejo claramente o sol levantar-se a leste e, ao mesmo tempo, uma ponta da lua ainda visível na linha do horizonte, a oeste. Então, devem ser quase 5 horas. A lua é bastante vagarosa para cair no mar. O Cruzeiro do Sul desapareceu há muito tempo, a Ursa Maior e a Ursa Menor também. Somente a estrela Polar brilha mais que todas as outras. Depois que o Cruzeiro do Sul sumiu, a Polar é a rainha do céu.
O vento parece aumentar. Pelo menos está mais denso, por assim dizer, do que durante a noite. Agora, as ondas estão mais fortes e mais profundas; e, na sua crista, a espuma branca é maior do que no começo da noite.
Há trinta horas que estou no mar. Preciso reconhecer que, por enquanto, as coisas vão mais bem do que mal e que o dia mais duro vai ser o que começa.
Ontem, por ter ficado exposto diretamente ao sol das 6 da manhã às 6 da noite, fiquei tremendamente cozido e assado. Hoje, com o sol batendo de novo em cima de mim, não vai ser fácil atravessar o dia. Meus lábios já estão rachados e, no entanto, estou ainda no frescor da noite. Ardem tanto quanto os olhos. Os braços e as mãos, a mesma coisa. Se puder, não vou descobrir os braços. Se for possível agüentar a malha de lã, vou ficar vestido com ela. O que me arde terrivelmente, também, é entre as coxas e o ânus. Nesse lugar, não é por causa do sol, mas da água salgada e da fricção em cima dos sacos.
De qualquer maneira, meu caro, queimado ou não, você está fugindo e, para estar onde está, vale bem a pena agüentar isto e muito mais. As perspectivas de chegar vivo na Terra Grande são 90 por cento positivas e isto é alguma coisa, é ou não é? Nem que eu chegue completamente esfolado e vivo pela metade, não é preço caro por uma viagem dessas e um resultado desses. Imagine que não vi um único tubarão. Estão todos de férias? Você não pode negar que é um cara de muita sorte. Desta vez, você vai ver, vai dar certo. De todas as fugas muito estudadas, muito preparadas, afinal, a fuga bem sucedida vai ser a mais idiota. Dois sacos de cocos e depois o vento e o mar levam você. Não precisa sair de Saint-Cyr para saber que todo destroço volta para a praia.
Se o vento e as ondas continuarem durante o dia com a mesma força desta noite, com certeza vamos chegar à terra durante a tarde.
O monstro dos trópicos surge atrás de mim. Parece bastante decidido a torrar tudo hoje, porque sai com todo o fogo. Ele expulsa a noite de lua em dois tempos. Não espera nem sair completamente de seu leito, para já se impor como o dono, o rei indiscutível dos trópicos. O vento num instante já ficou quase morno. Em uma hora vai fazer calor. Uma primeira sensação de bem-estar se desprende de todo o meu corpo. Mal os primeiros raios me tocam, um doce calor me percorre da cintura até a cabeça. Levanto a toalha feito um capuz, expondo o rosto ao sol, como se estivesse diante de um fogo de lenha. O monstro, antes de me queimar, quer me fazer sentir que ele é a vida antes de ser a morte.
O sangue corre fluido nas minhas veias e até minhas coxas molhadas sentem a circulação deste sangue vivificador.
Vejo claramente a floresta, o topo das árvores. Tenho a impressão de que não está muito longe. Vou esperar que o sol suba mais um pouco, para ficar de pé em cima dos sacos e ver se consigo enxergar Sylvain.
Em menos de uma hora, o sol já está alto. É, vai fazer calor, diabo! Meu olho esquerdo está meio fechado e grudado. Pego um pouco de água nas mãos em concha e esfrego. Arde. Tiro a malha: fico de peito nu alguns instantes antes que o sol me queime demais.
Uma onda mais forte que as outras me carrega por baixo e me leva bem para o alto. Na hora em que ela engrossa, antes de descer, vejo meu amigo por um segundo. Está sentado de peito nu sobre sua jangada. Não me viu: Está a menos de 200 metros de mim, um pouquinho para a frente, à esquerda. O vento está sempre forte e, para me aproximar dele, que está à minha frente, quase que na mesma linha, resolvo enfiar a malha só nos braços, levantá-los no ar e segurar a parte de baixo com a boca. Certamente este tipo de vela vai me empurrar mais rápido do que ele.
Mantenho a vela durante cerca de meia hora. Mas a malha me machuca os dentes e as forças que preciso gastar para resistir ao vento me esgotam depressa demais. Quando paro, contudo, tenho a sensação de ter andado mais rapidamente do que se tivesse me deixado carregar pelas ondas.
Hurra! Acabei de ver o meu amigo. Está a menos de 100 metros. Mas o que é que está fazendo? Não parece estar preocupado em saber onde estou. Quando outra onda me levanta bastante, torno a vê-lo uma, duas, três vezes. Notei distintamente que ele estava com a mão direita sobre os olhos, observando o mar. Olhe para trás, seu idiota! Deve ter olhado para o meu lado, de certo, mas não conseguiu me ver.
Fico de pé e assobio. Subindo do fundo da onda, vejo Sylvain de pé na minha frente. Levanta a malha no ar. Dissemo-nos bom dia pelo menos umas vinte vezes antes de tornar a sentar. Cada onda que sobe, acenamos um para o outro; e por sorte ele sobe ao mesmo tempo que eu. Nas duas últimas ondas, ele estende os braços em direção à floresta, que agora podemos distinguir muito bem. Estamos a menos de 10 quilômetros. Perdi o equilíbrio e caí em cima da jangada. Ao ver meu camarada e a mata tão próxima, uma alegria imensa me invade, uma emoção tão grande, que choro como uma criança. Nas lágrimas que limpam meus olhos purulentos, vejo mil cristais de todas as cores e penso bestamente: parecem os cristais de uma igreja. Deus está com você hoje, Papi. É no meio dos elementos monstruosos da natureza, o vento, a imensidão do mar, a profundeza das ondas, a abóbada verde imponente da floresta, que a gente se sente infinitamente pequeno relativamente a tudo que nos cerca e, talvez, sem procurá-lo, encontramos Deus, tocamos nele. Assim como o sentia de noite nas mil horas que passei nas masmorras lúgubres onde estava enterrado vivo sem um raio de luz, toco nele hoje, neste sol que se levanta para devorar aquilo que não tem força suficiente para suportá-lo, toco realmente em Deus, sinto-o em volta de mim, dentro de mim. Ele sussurra mesmo no meu ouvido: “Você sofre e vai sofrer mais ainda, mas desta vez resolvi ficar com você. Você será livre e vencerá, prometo”.
Nunca ter recebido instrução religiosa, não conhecer o a-bê-cê da religião cristã, ser ignorante ao ponto de não saber quem é o pai de Jesus e se sua mãe era realmente a Virgem Maria e seu pai um carpinteiro ou um cameleiro, toda essa ignorância crassa não nos impede de encontrar Deus quando realmente o procuramos, e chegamos a identificá-lo com o vento, o mar, o sol, a mata, as estrelas, até com os peixes que ele teve que semear em profusão para que o homem se alimente.
O sol subiu rapidamente. Devem ser mais ou menos 10 horas da manhã. Estou completamente seco da cintura até a cabeça. Molhei a toalha e tornei a colocá-la como um capuz em volta da cabeça. Coloco a malha porque meus ombros, meus braços e minhas costas queimam horrivelmente. Até minhas pernas, que, no entanto, são freqüentemente molhadas pela água, estão vermelhas como camarões.
Com a costa mais próxima, a atração é mais forte e as ondas se dirigem quase que perpendicularmente na sua direção. Vejo os detalhes da floresta, o que me faz supor que hoje de manhã, em quatro ou cinco horas, nos aproximamos de um modo estranhamente rápido. Graças à minha primeira fuga, sei calcular as distâncias. Quando se distinguem bem os detalhes das coisas, a gente está a menos de 5 quilômetros; percebo a diferença de distância entre os troncos das árvores e, da crista de uma onda mais alta, posso distinguir bem claramente uma árvore imensa caída, atravessada, molhando sua folhagem no mar.
Olhe, golfinhos e pássaros! Espero que os golfinhos não se divirtam a empurrar a jangada. Ouvi dizer que eles costumam empurrar em direção à costa os destroços ou os homens e que, além disso, os afogam com os golpes de seu focinho com a melhor das intenções, procurando ajudá-los. Não, eles dão voltas e mais voltas, são uns três ou quatro, vieram farejar, ver o que é, mas vão embora sem ao menos roçar na minha jangada. Ufa!
Meio-dia, o sol está bem em cima da minha cabeça. Está mesmo com a intenção de fazer um assado comigo. Meus olhos supuram sem parar e a pele dos meus lábios e do nariz já foi embora. As ondas são mais curtas e raivosamente se precipitam, com um ruído ensurdecedor, em direção à costa.
Vejo Sylvain quase continuamente. Ele não desaparece quase nunca, as ondas não são mais muito profundas. De vez em quando, ele se vira e levanta o braço. Está sempre de peito nu, a toalha em cima da cabeça.
Não são mais ondas grandes, são pequenas ondas que nos levam para a costa. Existe uma espécie de barra onde elas chocam com um ruído espantoso; depois, vencida a barra cheia de espuma, afundam, atacando a floresta.
Estamos a menos de 1 quilômetro da costa. Percebo os pássaros brancos e rosados, com suas plumas aristocráticas, que passeiam ciscando na areia. São milhares.. Quase nenhum deles voa a mais de 2 metros de altura. Estes pequenos vôos curtos são para não se molharem com a espuma. Há muita espuma e o mar está de um amarelo lamacento, nojento. Estamos tão perto, que enxergo nos troncos das árvores a linha suja que a água deixa na sua altura máxima.
O barulho das ondas não chega a cobrir os gritos agudos desses milhares de aves pernaltas de todas as cores. Pam! Pam! Mais 2 ou 3 metros. Pluft! Toquei o fundo, estou a seco, sobre a areia. Não há água suficiente para me levar. Pelo sol, são 2 horas da tarde. Há quarenta horas que parti. Foi anteontem, às 10 da noite, depois de duas horas de maré vazante. Portanto, é a sétima maré e é normal que eu esteja no seco: é a maré baixa. A maré alta vai começar lá pelas 3. De noite, vou estar no mato. Guardo a corrente, para não ser arrancado dos sacos, porque o momento mais difícil será aquele em que as ondas vão começar a passar em cima de mim, por falta de fundo, e vão me levar consigo. Não vou poder flutuar antes de pelo menos duas ou três horas de montante.
Sylvain está à minha direita, na frente, a mais de 100 metros. Olha para mim e faz uns gestos. Penso que ele quer gritar alguma coisa, mas sua garganta parece que não pode emitir som algum, senão eu ouviria. As ondas desapareceram, estamos em cima da areia, sem nenhum outro ruído para nos perturbar a não ser os gritos das aves pernaltas. Eu estou mais ou menos a 500 metros da floresta, e Sylvain a 100 ou 150 metros de mim, na minha frente. Mas o que é que está fazendo esta grande besta? Está de pé e abandonou a jangada. Está louco? Ele não pode andar, senão vai afundar um pouco a cada passo e talvez não consiga mais voltar até a jangada. Quero assobiar, não posso. Tenho ainda um pouco de água, esvazio a bolsa, depois tento gritar para ele parar. Não consigo emitir nenhum som. Da lama saem algumas bolhas de gás, é apenas uma crosta fina, embaixo está o lodo, e o sujeito que se deixar apanhar está mesmo frito.
Sylvain vira de novo para mim, me olha e faz sinais que não compreendo. Eu faço grandes gestos para ele, querendo dizer: não, não, não se mova da jangada, você nunca vai chegar até a floresta! Como está atrás dos seus sacos de cocos, não sei se está perto ou longe da jangada. No começo penso que deve estar bastante perto e que, no caso de afundar, ele pode se pendurar nela.
De repente, percebo que ele se afastou bastante e que está afundado na lama sem poder se desgrudar e voltar para a jangada. Um grito chega até onde estou. Então, deito-me de bruço sobre meus sacos e afundo as mãos na areia, puxando com todas as minhas forças. Os sacos avançam e eu chego a deslizar mais de 20 metros. É então que, andando em linha oblíqua à esquerda, quando me ponho de pé, vejo, sem ser mais atrapalhado pelos sacos, meu companheiro, meu amigo, enterrado até a barriga. Está a mais de 10 metros de sua jangada. O terror me devolve a voz e eu grito: “Sylvain! Sylvain! Não se mexa, deite na areia! Se puder, solte as pernas!” O vento leva as minhas palavras e ele as compreende. Abaixa e levanta a cabeça para dizer sim. Fico de novo de bruços e arranco a lama fazendo deslizar os sacos. A raiva me dá forças sobre-humanas e bastante rapidamente avanço na sua direção mais de 30 metros. Demorei mais de uma hora certamente, mas estou bastante perto dele, talvez a 50 ou 60 metros. Enxergo mal.
Sentado, com as mãos, os braços, o rosto cheio de lodo, tento enxugar o olho esquerdo, pois entrou lama salgada que arde e me impede de ver, não só desse olho, mas também do outro, do direito. Para ajudar, meu olho direito começa a chorar. Enfim, vejo-o; não está mais deitado, está de pé, só o seu peito se ergue acima da lama.
A primeira onda acaba de passar. Pulou por cima de mim, sem todavia me desgrudar, e foi se espalhar mais longe, cobrindo a areia com sua espuma. Passou também por cima de Sylvain, que está ainda com o peito de fora. Rapidamente penso: “Mais as ondas vão chegando, mais a lama vai ficar mole. Preciso chegar até ele, custe o que custar”.
Uma energia de animal que vai perder sua cria apodera-se de mim e, como uma mãe que quer arrancar seu filho do perigo iminente, puxo, puxo, puxo sobre esta lama para chegar até ele. Ele me olha sem uma palavra, sem um gesto, seus olhos grudados nos meus, que o devoram. Meus olhos cravados nele só se preocupam de não largar seu olhar e se desinteressam completamente de ver onde afundo as mãos. Arrasto-me um pouco, mas, por causa de duas outras ondas que passaram em cima de mim, cobrindo-me completamente, a areia ficou menos consistente e eu avanço muito menos rapidamente do que uma hora atrás. Uma onda enorme acaba de passar, quase me afogou e quase me desprendeu. Sento para ver melhor. Sylvain está na lama até as axilas. Estou a menos de 40 metros dele. Ele me olha intensamente. Percebo que ele sabe que vai morrer, afundado lá dentro, como um pobre imbecil, a 300 metros da terra prometida.
Torno a deitar e a arrancar esta lama que agora está quase líquida. Meus olhos e os seus estão fixos uns nos outros. Ele me faz sinal como para dizer que eu não insista, para não fazer mais esforços. Continuo, mesmo assim, e estou a menos de 30 metros quando chega uma onda grande que me cobre com sua massa de água e quase me arranca dos sacos, que, desprendendo-se, avançam 5 ou 6 metros.
Quando a onda passa, olho. Sylvain desapareceu. A lama, recoberta de uma leve camada de água espumosa, está completamente lisa. Nem mesmo a mão do meu pobre amigo aparece para me dar um último adeus. Minha reação é horrivelmente bestial, repugnante, o instinto de conservação acaba com qualquer sentimento: “Você está vivo. Você está sozinho e quando estiver no mato, sem amigo, não vai ser mole conseguir fugir”.
Uma onda que se quebra nas minhas costas, porque estou sentado, chama-me à ordem. Dobrou-me em dois e o golpe foi tão forte, que perco a respiração durante alguns minutos. A jangada desliza ainda alguns metros e somente então, olhando a onda morrer perto das árvores, choro Sylvain: “Estávamos tão perto! Se você não tivesse se movido... A menos de 300 metros das árvores! Por quê? Mas, me diga, por que você fez uma besteira dessa? Como você podia supor que essa crosta seca era bastante firme para permitir que você chegasse a pé até a costa? O sol? A reverberação? O que sei eu? Você não conseguia mais resistir a esse inferno? Diga-me por que um homem como você não conseguiu agüentar assar-se algumas horas mais?
As marolas se sucedem sem parar com um barulho de trovoada. Chegam cada vez mais próximas umas às outras e sempre maiores. Toda vez fico inteiramente coberto e toda vez deslizo mais alguns metros, sempre sobre a lama. Lá pelas 5 horas, as marolas se transformam de repente em ondas, eu desencalho e flutuo. As ondas, agora, quase não fazem barulho. A trovoada das marolas acabou. O saco de Sylvain já entrou no meio da vegetação.
Chego, não muito depressa, e sou depositado a apenas 20 metros da floresta virgem. Quando a onda se retira, estou de novo a seco, sobre a areia, e plenamente resolvido a não me mexer de meu saco até ter um galho ou um cipó nas mãos. Uns 20 metros. Levo mais de uma hora antes de chegar a um lugar bastante fundo e ser novamente levantado e levado para dentro do mato. A onda que me empurrou, rugindo, me jogou sobre as árvores. Solto o parafuso e me livro da corrente. Não vou jogá-la fora, pode ser que eu precise dela.
NA FLORESTA
Rápido, antes que o sol se ponha, penetro no mato meio nadando, meio caminhando, porque lá também há lama que suga a gente. A água penetra muito longe dentro do mato e, quando a noite cai, eu ainda não estou no seco. Um cheiro de podre chega até o meu nariz e tem tanto gás que meus olhos ardem. Estou com as pernas cheias de capim e folhas. Ainda empurro o saco de cocos. Cada vez que dou um passo, meus pés apalpam antes o terreno debaixo da água, e é só quando este não afunda que vou em frente.
Passo minha primeira noite em cima de uma grande árvore caída. Um monte de bichos passa em cima de mim. Meu corpo arde e queima. Acabo de colocar a malha, depois de amarrar bem o saco de cocos, que puxei para cima da árvore e prendi dos dois lados. Nos sacos está a vida, porque os cocos abertos me permitirão comer e agüentar o rojão. Meu facão está preso ao pulso direito. Estico-me, esgotado, em cima da árvore, no ponto onde dois galhos formam uma espécie de nicho grande, e adormeço antes de ter tempo de pensar em nada. Talvez tenha murmurado duas ou três vezes “Pobre Sylvain!”, antes de cair no sono como uma pedra.
São os gritos dos pássaros que me acordam. O sol penetra muito longe dentro da floresta, chega horizontalmente; deve ser então 7 ou 8 da manhã. Em volta de mim está cheio de água, o mar deve estar na montante. É, talvez, o fim da décima maré.
Sessenta horas desde que saí da Ilha do Diabo. Não percebo se estou longe do mar. De qualquer maneira, vou esperar que a água se retire, para ir à beira do mar secar-me e tomar um pouco de sol. Não tenho mais água doce. Restam ainda três punhados de polpa de coco, que como deliciado; passo um pouco de coco também sobre minhas feridas. A polpa, graças ao óleo que contém, abranda minhas queimaduras. Depois fumo dois cigarros. Penso em Sylvain, desta vez sem egoísmo. Antes de tudo, será que eu não devia ter fugido sem um amigo? Eu tinha mesmo a pretensão de me safar sozinho. Então, nada está mudado, só uma grande tristeza aperta o meu coração e eu fecho os olhos, como se isso pudesse me impedir de ver a cena do afundamento do meu pobre amigo. Para ele, está tudo acabado.
Firmei bem os sacos dentro do nicho e começo a tirar um coco. Consigo descascar dois, batendo-os com todas as minhas forças contra a árvore, no meio das pernas. Preciso bater na ponta, para que a casca se abra. É melhor do que com o facão. Como um coco fresco inteirinho e bebo o pouco de água muito açucarada que ele contém. Rapidamente, o mar se retira e posso andar na areia com facilidade e chegar até a praia.
O sol está brilhante e o mar de uma beleza sem igual. Demoradamente olho para o lugar onde suponho que Sylvain desapareceu. Minhas roupas ficam secas depressa e também meu corpo, que lavei com água salgada tirada de um buraco. Fumo um cigarro. Ainda um último olhar para o túmulo do meu amigo e entro na floresta, caminhando sem muita dificuldade. Com o saco em cima do ombro, lentamente, vou me enfiando debaixo das árvores. Em menos de duas horas encontro finalmente um terreno que nunca fica inundado. Nenhuma marca aos pés das árvores, para indicar que a maré chega até aqui. Vou acampar aqui e descansar bem durante 24 horas. Vou abrir os cocos aos poucos, retirar a polpa para colocá-la toda dentro do saco, pronta para eu comer quando quiser. Posso acender um fogo, mas acho que não é prudente.
O resto do dia e da noite se passou sem histórias. O barulho dos pássaros me acorda ao nascer do sol. Acabo de tirar a polpa dos cocos e, com uma pequena trouxa no ombro, dirijo-me para o oeste.
Lá pelas 3 da tarde encontro uma picada. É um caminho de apanhadores de borracha natural, madeireiros ou fornecedores dos garimpeiros. A picada é estreita mas limpa, sem galhos atravessados, deve ser usada continuamente. De vez em quando, algumas pegadas de burro ou de mula sem ferradura. Em alguns buracos de barro seco, percebo marcas de pés de homem, o dedão distintamente moldado na lama. Resolvo caminhar até anoitecer. Vou mascando coco, isso me alimenta e ao mesmo tempo tira a sede. Algumas vezes, com esta mistura bem mastigada, cheia de óleo e de saliva, esfrego o nariz, os lábios e o rosto. Meus olhos ficam muitas vezes colados e estão cheios de pus. Assim que puder, vou lavá-los com água doce. No saco, junto com os cocos, eu tinha uma caixa vedada com um pedaço de sabonete, um aparelho de barbear Gillette, doze lâminas e um pincel. Recuperei-a intata.
Caminho com o facão na mão, mas não preciso usá-lo porque o caminho está livre de obstáculos. Percebo até, nas beiradas, cortes recentes de galhos. Por esse caminho passa gente, preciso ir com cuidado.
A floresta não é a mesma que eu conheci na minha primeira fuga, a de Saint-Laurent-du-Maroni. Essa tem duas camadas e não é tão cerrada como a do Maroni. A primeira vegetação vai até 5 ou 6 metros de altura e, mais para cima, a abóbada da floresta fica a mais de 20 metros. É dia só do lado direito do caminho. Do lado esquerdo, é quase noite.
Caminho rapidamente, às vezes encontro alguma clareira, formada por um incêndio provocado pelo homem ou por um raio. Percebo alguns raios de sol. Sua inclinação mostra que não está muito longe de se pôr. Dou-lhe as costas, dirigindo-me para o leste, em direção à aldeia dos negros de Kourou ou à penitenciária do mesmo nome.
De repente, é noite. Não posso andar de noite. Vou entrar na floresta e procurar um lugar para me deitar.
A mais de 30 metros da picada, bem abrigado debaixo das folhas lisas de uma espécie de bananeira, deito em cima de um montão dessas folhas, que cortei com o facão. Vou dormir imediatamente, no seco, e tenho sorte de não estar chovendo. Fumo dois cigarros.
Não estou muito cansado nesta noite. O coco me sustenta. Só a sede seca minha boca e não consigo ter saliva facilmente.
A segunda parte da fuga começou e esta é a terceira noite que passei sem incidentes desagradáveis na Terra Grande.
Ah, se Sylvain estivesse aqui comigo! Não está, meu caro Papillon, o que é que você pode fazer? Para agir, você nunca na vida precisou de alguém que lhe desse conselho ou apoio. Você é homem ou não é? Não seja besta, Papillon, apesar do desgosto natural pela perda de seu amigo, apesar de estar sozinho no mato, você não deixa de ser forte. Estão muito longe os caras de Royale, Saint-Joseph e da Ilha do Diabo, há seis dias que você os deixou. Kourou deve estar informada. Os guardas do presídio dos estrangeiros, os negros da aldeia, todos já devem saber. Deve haver um posto de polícia ali também. Será conveniente ir até a aldeia? Não conheço nada dos arredores. O presídio fica entre a aldeia e o rio. É tudo o que sei de Kourou.
Em Royale, tinha pensado em agarrar o primeiro cara que aparecesse e obrigá-lo a me levar às proximidades do presídio de Inini, onde se encontram os chineses e portanto Cuic-Cuic, o irmão de Chang. Para que mudar o plano? Se na Ilha do Diabo concluíram que nós nos afogamos, não há perigo nenhum. Mas, se acharam que houve uma evasão, Kourou se torna perigosa. Como há um presídio de estrangeiros, deve estar cheio de árabes e, portanto, de caçadores de homens em quantidade. Cuidado, Papi! Nada de erros. Não se deixe apanhar. Você tem que enxergar o cara, seja quem for, antes que ele veja você. Conclusão: não devo andar pela picada e sim pelo mato, ao lado do caminho. Você cometeu um grande erro correndo o dia todo por esta picada, tendo o facão como única arma. Não foi leviandade, não: foi uma loucura. Então, amanhã vou andar pelo mato.
Levanto cedinho; acordado pelos gritos dos animais e dos pássaros que saúdam o nascer do dia, desperto junto com a floresta. Para mim, também começa um outro dia. Engulo um punhado de coco bem mastigado. Passo um pouco no rosto e me ponho a caminho.
Bem perto da picada, mas no meio das árvores, caminho com bastante dificuldade, porque, apesar de os cipós e os galhos não serem muito grandes, preciso afastá-los para seguir em frente. De qualquer maneira, fiz bem em sair do caminho, porque ouço um assobio. Na minha frente, a picada segue reta por uns 50 metros. Não vejo a pessoa que assobia. Ah, aí vem ela! É um negro do Sudão. Carrega um fardo no ombro e um fuzil na mão direita. Está com uma camisa cáqui e um short, as pernas nuas e os pés descalços. Com a cabeça abaixada, não tira os olhos do chão, as costas dobradas pelo peso do fardo volumoso.
Escondido atrás de uma árvore grande, na beirada mesmo do caminho, espero, com o facão preparado, que ele chegue perto de mim. Na hora em que ele passa na frente da árvore, caio em cima dele. Minha mão direita agarra no ar o braço que segura o fuzil e, torcendo-o, obrigo-o a largá-lo. “Não me mate! Tenha dó de mim, pelo amor de Deus!” Está de pé, com a ponta da minha faca encostada do lado esquerdo de seu pescoço. Abaixo e agarro o fuzil, uma velha espingarda de um cano só, mas que deve estar carregada de pólvora e chumbo até o pescoço. Armo o gatilho e, afastando-me 2 metros, ordeno:
— Ponha de lado o fardo, deixe-o cair. Não tente fugir correndo, porque eu o mato.
O pobre negro, aterrorizado, obedece. Depois olha para mim.
— O senhor é um foragido?
— Sou.
— Que é que o senhor quer? Tudo que eu tenho, pode pegar. Mas, por favor, não me mate, tenho cinco filhos. Pelo amor de Deus, me deixe vivo.
— Cale a boca. Como é que você se chama?
— Jean.
— Aonde vai?
— Levar mantimentos e remédios aos meus dois irmãos, que estão cortando lenha no mato.
— De onde você vem?
— De Kourou.
— Você é da aldeia?
— Nasci lá.
— Conhece Inini?
— Conheço, às vezes faço uns biscates com os chineses do presídio.
— Está vendo isso?
— O que é?
— Uma nota de 500 francos. Você escolhe: ou faz o que eu mando e eu lhe dou de presente esses 500 francos e devolvo o fuzil; ou você recusa, ou tenta me enganar, e então eu o mato. Escolha.
— O que é que eu tenho que fazer? Vou fazer tudo que o senhor mandar, mesmo sem ganhar nada.
— Você precisa me levar sem nenhum risco até perto do presídio de Inini. Depois que eu tiver entrado em contato com um chinês, você pode partir. Entendido?
— Está certo.
— Não tente me enganar, senão você é um homem morto.
— Não, eu juro que vou ajudar o senhor, honestamente.
Ele tem leite condensado. Tira seis latas e dá para mim, e também um pão de 1 quilo e toicinho defumado.
— Esconda seu saco no mato, pode pegar mais tarde. Olhe, aqui está uma marca na árvore que eu fiz com o facão.
Bebo uma lata de leite. Ele me dá também uma calça comprida novinha, um macacão de mecânico. Visto-o, sem largar a espingarda.
— De agora em diante, Jean, tome cuidado para ninguém ver a gente, porque, se alguém nos descobrir, a culpa é sua e, então, pior para você.
Jean sabe andar no mato melhor do que eu e custo a ir atrás dele, tão facilmente ele se desvia dos galhos e dos cipós. Esse desgraçado anda completamente à vontade no mato.
— O senhor veja, em Kourou ficamos sabendo que dois condenados fugiram das ilhas. Também quero ser honesto com o senhor: vai ser muito perigoso quando a gente passar perto do presídio de Kourou.
— Você parece bom e honesto, Jean. Espero não estar me enganando. Como você acha que é melhor para a gente ir a Inini? Pense que a minha segurança é a sua vida, porque, se os guardas ou os caçadores de homens me apanharem, vou ser obrigado a matar você.
— Como devo chamar o senhor?
— Papillon.
— Bom, Sr. Papillon, precisamos entrar completamente dentro do mato e passar bem longe de Kourou. Garanto que eu levo o senhor até Inini pela floresta.
— Confio em você. Vá pelo caminho que você achar mais seguro.
No interior da floresta, andamos com muita cautela, mas, depois que deixamos as proximidades da picada, percebo que o negro está mais calmo. Não sua mais tanto e sua fisionomia está menos contraída; ele se sente como que tranqüilizado.
— Parece que você tem menos medo agora, Jean.
— Sim senhor, Sr. Papillon. Perto do caminho era muito perigoso para o senhor, e então era perigoso para mim também.
Avançamos rapidamente. Esse preto é inteligente, nunca se afasta mais de 3 ou 4 metros de mim.
— Pare, quero fazer um cigarro.
— Tome um maço de Gauloises.
— Obrigado, Jean, você é um bom sujeito.
— Sou mesmo, muito bom. Veja o senhor, sou católico e sofro de ver como vocês presos são tratados pelos guardas brancos.
— Você viu muitos? Onde?
— No presídio estrangeiro de Kourou. Dá dó de ver eles morrendo aos poucos, destruídos por este trabalho de cortar a lenha, pela febre e a disenteria. Nas ilhas, vocês estão melhor. É a primeira vez que eu vejo um condenado como o senhor em perfeita saúde.
— É, a gente está melhor nas ilhas.
Sentamos um pouco num grande galho de árvore. Ofereço-lhe uma de suas latas de leite, Ele recusa e prefere mastigar a polpa do coco.
— Sua mulher é jovem?
— É, tem 32 anos. Eu tenho quarenta. Temos cinco filhos, três meninas e dois meninos.
— Você ganha bem a vida?
— Com o pau-rosa, a gente se defende mais ou menos e minha mulher lava e passa a roupa para os guardas. Isso ajuda um pouquinho. Somos muito pobres, mas dá para matar a fome e os meninos vão para a escola. Eles têm sempre sapatos para pôr.
Pobre negro que acha que, porque seus filhos têm sapatos, está tudo bom. É quase do meu tamanho, seu rosto de negro não tem nada de antipático. Pelo contrário, seus olhos mostram claramente que é um homem dotado de sentimentos, trabalhador, sadio, bom pai de família, bom marido, bom cristão.
— E o senhor, Papillon?
— Eu, Jean, estou tentando tornar a viver. Estou enterrado vivo há dez anos, nunca paro de fugir para chegar um dia a ser como você, livre com uma mulher e filhos, sem fazer mal a ninguém nem com o pensamento. Você mesmo disse, esta prisão é podre e um homem de respeito deve fugir desta sujeira.
— Vou ajudar honestamente o senhor a conseguir isso. Vamos andando.
Com um maravilhoso senso de orientação, sem nunca hesitar no seu caminho, Jean me leva diretamente aos arredores do presídio dos chineses, onde nós chegamos quando a noite já caiu há umas duas horas. De longe ouvem-se uns disparos, não se vê luz alguma. Jean explica que, para chegar mesmo perto do presídio, precisamos evitar um ou dois postos avançados. Resolvemos parar para passar a noite.
Estou morto de cansaço, tenho medo de pegar no sono. E se eu estiver enganado a respeito do negro? Se for um farsante e me tomar a espingarda enquanto eu estiver dormindo e me matar? Ele ganharia em dobro me matando: livra-se do perigo que represento para ele e recebe uma recompensa por matar um fujão.
É, ele é muito inteligente. Sem falar, sem esperar, deita para dormir. Tenho ainda minha corrente e o parafuso. Tenho receio de prendê-lo, porque acho que ele pode desaparafusá-lo tão bem quanto eu e, agindo com precaução, se eu estiver dormindo, não vou perceber nada. Logo, vou tentar não dormir. Tenho um maço inteiro de Gauloises. Vou fazer tudo para não dormir. Não posso confiar nesse homem, que, além de tudo, é honesto, e naturalmente me considera um bandido.
A noite é completamente negra. Ele está deitado a 2 metros de mim, eu só enxergo o branco da planta de seus pés nus. A floresta tem os ruídos característicos da noite: ouço sempre o berro do macaco de papo grande, grito rouco e possante que se ouve a quilômetros. É muito importante, pois se for regular é porque seu bando pode comer ou dormir tranqüilo. Não revela terror nem perigo, portanto não há animais ferozes nem homens fazendo a ronda.
Completamente tenso, agüento sem muito esforço o sono, ajudado por algumas queimaduras de cigarros e sobretudo por uma nuvem de mosquitos absolutamente decididos a me sugar todo o sangue. Poderia livrar-me deles passando saliva misturada com fumo. Se passar este suco de nicotina, fico livre dos mosquitos, mas sem eles sinto que vou pegar no sono. Só posso esperar que esses mosquitos não sejam portadores de malária ou de febre amarela.
Aqui estou eu, saído, provisoriamente talvez, do caminho da podridão. Quando entrei nele, tinha 25 anos, em 1931. Estamos em 1941. São dez anos. Foi em 1932 que Pradel, o promotor sem coração, conseguiu, por meio de um requisitório impiedoso e desumano, jogar-me jovem e forte nesse poço que é a penitenciária; fossa cheia de líquido visguento, que deveria me dissolver lentamente e me fazer desaparecer. Consegui, enfim, a primeira parte da fuga. Saí do fundo desse poço e estou na boca. Preciso mobilizar toda a minha energia e a minha inteligência para ganhar a segunda parte.
A noite corre lentamente, mas vai passando e eu não durmo. Nem larguei o fuzil. Fiquei tão acordado, ajudado pelas queimaduras e pelas picadas dos mosquitos, que nem uma vez a arma caiu da minha mão. Posso ficar satisfeito comigo mesmo, não arrisquei minha liberdade capitulando sob o peso de tanto esforço. O espírito foi mais forte do que a matéria e eu me felicito quando ouço os primeiros gritos dos pássaros que anunciam o próximo nascer do dia. Os que “se levantam mais cedo que os outros” são o prelúdio do que não se faz esperar por muito tempo.
O negro senta-se, depois de ter-se espreguiçado com todo o corpo, e começa a coçar os pés.
— Bom dia, o senhor não dormiu?
— Não.
— Que besteira, já falei para o senhor que não precisava ter medo de mim. Decidi ajudar o senhor, para que tenha êxito no seu plano.
— Obrigado, Jean. O dia vai demorar a penetrar na floresta?
— Ainda mais de uma hora. Somente os bichos percebem tanto tempo antes de todo mundo que o dia vai nascer. Nós vamos ver um pouco de claridade daqui a uma hora. Empreste-me a sua faca, Papillon.
Sem hesitar, dou a faca para ele. Ele anda dois ou três passos e corta um galho de uma planta gorda. Dá um pedaço grande para mim e guarda o outro.
— Beba a água que está dentro e passe um pouco no rosto.
Nessa estranha bacia, bebo e me lavo. O dia já chegou. Jean devolve a faca. Acendo um cigarro e Jean também fuma. Vamos andando. É lá pelo meio do dia, depois de ter patinhado muitas vezes dentro de grandes poças de lama muito difíceis de atravessar, que, sem nenhum encontro, bom ou ruim, chegamos aos arredores do presídio de Inini.
Chegamos perto de uma verdadeira estrada de acesso ao presídio. Uma estreita linha de estrada de ferro corre ao lado desse amplo terreno desbravado. “São trilhos”, diz ele, “por onde passam somente os carros empurrados pelos chineses. Esses carros fazem um barulho terrível, a gente ouve de longe.” Assistimos à passagem de um deles, em cima está um banco onde ficam sentados dois guardas. Atrás, dois chineses com longas varas de madeira freiam o vagão. Saem faíscas das rodas. Jean explica que as varas têm uma ponta de aço e que servem para empurrar ou para brecar.
A estrada é muito movimentada. Passam uns chineses carregando nos ombros rolos de cipós, outros um porco-do-mato; e outros, ainda, montes de folhas de coqueiro. Todas essas pessoas parecem dirigir-se ao presídio. Jean diz que há muitas razões para ir ao mato: caçar, procurar cipós para fazer móveis, folhas de coco para fazer esteiras que protegem os legumes da horta do calor do sol, caçar borboletas, abelhas, cobras, etc. Certos chineses têm permissão para ir ao mato durante algumas horas, depois de terminar a tarefa imposta pela administração. Todos têm que voltar antes das 5 da tarde.
— Tome, Jean. Aqui estão os 500 francos e a sua espingarda (que antes eu descarreguei). Tenho a minha faca e o meu facão. Pode ir. Obrigado. Deus lhe pague melhor do que eu por ter ajudado um desgraçado a tentar viver de novo. Você foi honesto, obrigado mais uma vez. Espero que, quando contar essa história a seus filhos, você diga: “Aquele condenado parecia um bom rapaz, não me arrependo de tê-lo ajudado”.
— Sr. Papillon, é tarde, não vou poder andar muito antes da noite. Fique com a espingarda, fico com o senhor até amanhã de manhã. Gostaria, se o senhor quiser, de chamar eu mesmo o chinês que o senhor escolher para avisar o seu amigo. Ficará com menos medo de mim do que se ele encontrar um branco foragido. Deixe que eu vá pela estrada. Mesmo um guarda, se aparecer, não vai estranhar a minha presença. Direi que vim procurar pau-rosa para o entreposto de madeira Symphorien de Caiena. Tenha confiança em mim.
— Então, tome seu fuzil, vão achar estranho ver um homem desarmado no mato.
— É verdade.
Jean está plantado no caminho. Vou assobiar de leve quando aparecer o chinês que eu escolher.
— Bom dia, sinhô — diz em patoá um velhinho chinês que carrega no ombro um tronco de bananeira, certamente um palmito, delicioso de comer. Assobio, porque este velho educado que cumprimentou Jean (foi o primeiro a cumprimentar) me agrada.
— Bom dia, chinês. Pare, eu falar com você.
— Que querer, sinhô? — e pára.
Falam por uns cinco minutos. Não ouço a conversa. Dois chineses passam, carregam uma corça grande enfiada numa vara. Está pendurada pelos pés, sua cabeça raspa o chão. Passam sem cumprimentar o negro, mas falam alguma coisa em chinês para o seu patrício, que responde com duas ou três palavras.
Jean manda o velho entrar no mato. Chegam até onde estou. Aproximando-se, ele estende a mão.
— Você fugiu?
— E.
— De onde?
— Da Ilha do Diabo.
— Bom — ele ri e me olha com seus olhos puxados. — Bom, como você chamar?
— Papillon.
— Eu não conhecer.
— Eu, amigo Chang, Cang Vauquien, irmão Cuic-Cuic.
— Ah! Bom — e me dá novamente a mão. — Que querer você?
— Avisar Cuic-Cuic que eu espero ele aqui.
— Impossível.
— Por quê?
— Cuic-Cuic roubar sessenta patos chefe de presídio. Chefe querer matar Cuic-Cuic. Cuic-Cuic fugiu.
— Há quanto tempo?
— Dois meses.
— Foi por mar?
— Não sei. Eu ir presídio falar outro chinês amigo íntimo Cuic-Cuic. Ele resolver. Você não sair daqui. Eu voltar essa noite.
— A que horas?
— Não sei. Mas eu voltar trazer comida para você, cigarros, você não acender fogo aqui. Eu assobiar La Madelon. Quando você ouvir, você sair na estrada. Compreender?
— Compreendi.
E ele vai embora.
— O que é que você acha, Jean?
— Nada está perdido porque, se o senhor quiser, nós voltamos para trás até Kourou e eu arranjo para o senhor um barco, comida e uma vela para partir por mar.
— Jean, eu vou muito longe, é impossível ir completamente só. Obrigado pela oferta. No pior dos casos pode ser que eu aceite.
O chinês deu um pedaço grande de palmito para a gente. Comemos. É fresco e delicioso, com um gosto pronunciado de avelã. Jean vai ficar vigiando, confio nele. Passo suco de fumo no rosto e nas mãos, porque os mosquitos começam a atacar.
— Papillon, alguém está assobiando La Madelon.
Jean me acorda.
— Que horas são?
— Não muito tarde, talvez 9 horas.
Saímos na estrada. A noite está negra. Aproxima-se aquele que está assobiando, eu respondo. Ele se aproxima, está bastante perto, eu ouço mas não enxergo. Sempre assobiando, um de cada vez, chegam perto da gente. São três. Cada um deles toca na minha mão. A lua vai aparecer logo mais.
— Vamos sentar na beira da estrada — diz um deles em francês perfeito. — Na sombra ninguém vai ver a gente.
Jean veio para perto de nós.
— Coma antes, depois pode falar — diz o letrado do bando.
Jean e eu comemos uma sopa de legumes bem quente. Esquenta a gente e resolvemos guardar o resto da comida para mais tarde. Bebemos chá açucarado, quente, com sabor de hortelã; é delicioso.
— Você é o amigo íntimo de Chang?
— Sou, ele me disse que viesse procurar Cuic-Cuic para fugir com ele. Eu já fugi uma vez, fui muito longe, até a Colômbia. Sou um bom marinheiro, é por isso que Chang quer que eu leve seu irmão. Ele confia em mim.
— Muito bem. Quais são as tatuagens de Chang?
— Um dragão no peito, três pontos na mão esquerda. Ele me disse que estes três pontos são a marca de que ele foi um dos chefes da revolta de Poulo Condor. Seu melhor amigo é outro chefe da revolta, chama-se Van Hue. Tem um braço cortado.
— Sou eu — diz o intelectual. — Você é mesmo amigo de Chang; portanto, é nosso amigo. Escute bem: Cuic-Cuic ainda não conseguiu partir por mar porque não sabe dirigir um barco. Além disso, está sozinho, está na floresta, a uns 10 quilômetros daqui. Faz carvão de lenha. Uns amigos vendem o carvão e levam o dinheiro para ele. Quando tiver guardado bastante, vai comprar um barco e procurar alguém para fugir pelo mar com ele. Onde está, não há perigo nenhum. Ninguém pode chegar na espécie de ilha onde ele está, porque é cercada de areia movediça. Qualquer um afunda no barro, se se aventurar sem saber. Virei buscá-lo de madrugada, para levá-lo até Cuic-Cuic. Venha conosco.
Seguimos pela beira da estrada, porque a lua surgiu e está bastante claro para enxergar a uns 50 metros. Chegamos a uma ponte de madeira e ele diz:
— Desça para debaixo da ponte. Durma lá, virei procurar você amanhã de manhã.
Apertamos as mãos e eles partem. Andam sem se esconder. Se forem apanhados, dirão que foram verificar umas armadilhas colocadas no mato durante o dia. Jean diz:
— Papillon, você não dorme aqui. Você dorme no mato, eu durmo aqui. Quando ele vier, eu chamo você.
— Tá.
Volto para o mato e adormeço feliz, depois de fumar alguns cigarros, a barriga cheia de sopa gostosa.
Van Hue chega antes do nascer do dia. Para ganhar tempo, seguimos pela estrada até amanhecer. Caminhamos depressa durante mais de quarenta minutos. De repente, o dia desponta e ouve-se ao longe o ruído de um carro que avança sobre a linha. Entramos no meio das árvores.
— Adeus, Jean, obrigado e boa sorte. Que Deus o abençoe, você e sua família.
Insisto para que ele aceite os 500 francos. Explicou-me, no caso de não dar certo a coisa com Cuic-Cuic, como chegar até a sua aldeia contorná-la e voltar pelo caminho onde eu o encontrei. Ele precisa passar por lá duas vezes por semana. Aperto a mão deste nobre negro da Guiana e ele pula para a estrada.
— Para a frente — diz Van Hue, penetrando no mato.
Sem hesitar, orienta-se e nós avançamos bastante depressa, porque a floresta não é impenetrável. Ele evita cortar com seu facão os galhos ou os cipós que o atrapalham; prefere afastá-los.
CUIC-CUIC
Em menos de três horas, estamos diante de um charco de lama. Nenúfares em flor e grandes folhas verdes estão presos no barro. Seguimos pela borda do banco de lama.
— Cuidado para não escorregar, senão você desaparece sem nenhuma esperança de sair — adverte Van Hue, que acaba de me ver escorregar.
— Vá indo, eu sigo você e vou prestar mais atenção.
Na nossa frente, uma ilhota, a uns 150 metros. Do meio da minúscula ilha sai um pouco de fumaça. Deve ser da carvoaria. Vejo um jacaré dentro do barro, só aparecem os olhos. Do que será que se alimenta nesse barro o crocodilo?
Depois de andar mais de 1 quilômetro pela margem dessa espécie de lago de lama, Van Hue pára e começa a cantar em chinês aos berros. Um sujeito se aproxima da borda da ilha. É baixo e veste somente um short. Os dois chinas conversam. Demoram e começo a perder a paciência, quando, finalmente, eles param.
— Não vamos lá — diz Van Hue.
Sigo-o, voltamos pelo mesmo caminho.
— Está tudo bem, é um amigo de Cuic-Cuic. Cuic-Cuic foi caçar, não vai demorar para voltar, precisamos esperar aqui.
Sentamos. Menos de uma hora depois, Cuic-Cuic chega. É um Sujeitinho seco, amarelo, com dentes muito polidos, olhos inteligentes e francos.
— Você é amigo de meu irmão Chang?
— Sou.
— Está bem. Você pode partir,. Van Hue.
— Obrigado — diz Van Hue.
— Tome, leve essa perdiz.
— Não, obrigado.
Aperta minha mão e vai embora.
Cuic-Cuic me leva atrás de um porco que anda à sua frente. Ele o segue de perto.
— Preste bem atenção, Papillon. O menor passo em falso e você afunda. Se acontecer um acidente, não podemos nos ajudar um ao outro, porque então não é um, mas dois que desaparecem. O caminho para atravessar nunca é o mesmo porque a lama se mexe, mas o porco encontra sempre uma passagem. Uma vez tive que esperar dois dias para passar.
De fato, o porco preto fareja e rapidamente se embrenha na lama. O chinês fala com ele na sua língua. Fico desconcertado de ver esse animalzinho que lhe obedece como um cão. Cuic-Cuic observa e eu arregalo os olhos, assombrado. O porco chega do outro lado sem nunca afundar mais do que alguns centímetros. Rapidamente, meu novo amigo se embrenha por sua vez e diz:
— Ponha os pés nas marcas dos meus. Precisa andar bem depressa, porque os buracos que o porco deixou se apagam imediatamente.
Atravessamos sem dificuldade. Nunca cheguei a ficar com a lama acima da barriga da perna e, mesmo assim, só no final.
O porco fez dois desvios compridos, o que nos obrigou a andar em cima dessa crosta firme por mais de 200 metros. O suor escorre de todos os lados. Não posso dizer que sentia somente medo, estava realmente aterrorizado.
Na primeira parte do trajeto, perguntava-me se meu destino queria que eu morresse como Sylvain. Tornava a ver o coitado no seu último instante e, embora estivesse bem acordado, enxergava seu corpo, mas seu rosto parecia ter os meus traços. Que impressão me produziu essa passagem! Não vai ser fácil esquecê-la.
— Dê-me a mão.
Cuic-Cuic, o Sujeitinho que é só pele e osso, ajuda-me a pular na beirada.
— Bom, meu caro, não vai ser aqui que os caçadores de homens vão procurar a gente.
— Ah, quanto a isso, pode ficar sossegado!
Penetramos na ilhota. Um cheiro de gás carbônico me pega a garganta. Tusso. É a fumaça das duas carvoarias que queimam. Aqui não tem perigo de que venham os mosquitos. A sota-vento, envolvida na fumaça, uma choça, um casebre com telhado de folhas e as paredes também igualmente de folhas, trançadas como esteiras. Uma porta e, na frente dela, o pequeno chinês que vi antes de Cuic-Cuic.
— Bom dia, sinhô.
— Fale francês com ele e não patoá, é um amigo de meu irmão.
O china, um homem de tamanho reduzido, me examina da cabeça aos pés. Satisfeito com sua inspeção, me estende a mão, sorrindo com uma boca desdentada.
— Entre, sente.
É limpo o único cômodo desse casebre. Alguma coisa cozinha no fogo, num caldeirão. Só existe uma cama feita de galhos de árvores, a 1 metro do chão pelo menos.
— Ajude-me a fazer um lugar para ele dormir essa noite.
— Tá bom, Cuic-Cuic.
Em menos de meia hora, meu catre está pronto. Os dois chineses põem a mesa e nós comemos uma sopa deliciosa, depois arroz com carne e cebolas.
O sujeito, amigo de Cuic-Cuic, e aquele que vende o carvão de lenha. Não mora na ilha, por isso, quando escurece, ficamos sozinhos, Cuic-Cuic e eu.
— Pois é, roubei todos os patos do chefe do presídio e é por isso que fugi.
Com os nossos rostos iluminados por alguns instantes pelas chamas do pequeno fogo, sentamos um em frente ao outro. Examinamo-nos e, falando, cada um de nós procura conhecer e compreender o outro.
O rosto de Cuic-Cuic não é bem amarelo. Com o sol, seu amarelo natural ficou cor de cobre. Seus olhos bastante oblíquos, de um preto brilhante, olham bem de frente quando ele fala. Fuma uns cigarros compridos feitos por ele mesmo com folhas de fumo preto.
Eu continuo fumando um cigarro enrolado num papel de arroz que o maneta trouxe.
— Então tive que fugir, porque o chefe, o dono dos patos, queria me matar, faz três meses. O azar é que perdi no jogo, não só o dinheiro dos patos, mas também o do carvão das duas carvoarias.
— Onde é que você joga?
— No mato. Toda noite, tem o jogo dos chineses do presídio de Inini e dos libertos que vêm de Cascade.
— Você resolveu embarcar?
— Mal consigo agüentar a espera e, quando vendi o carvão de lenha, pensei em comprar um barco, em encontrar um sujeito que saiba lidar com ele e que queira ir comigo. Mas, em três semanas, com a venda do carvão, a gente vai poder comprar o barco e ir embora, já que você sabe dirigir.
— Eu tenho algum dinheiro, Cuic-Cuic. Não precisamos esperar a venda do carvão para comprar o barco.
— Então está bom. Existe um bom barco para vender por 1500 francos. É um negro, cortador de lenha, que vende.
— Bom, você já viu?
— Vi.
— Quero ver também.
— Amanhã vou ver Chocolat, é o nome dele. Conte-me a sua fuga, Papillon. Achava que era impossível fugir da Ilha do Diabo. por que é que meu irmão não saiu com você?
Falo da fuga, da onda Lisette, da morte de Sylvain.
— Entendi por que Chang não quis partir com você. É mesmo arriscado. Você é um homem privilegiado pela sorte, é por isso que conseguiu chegar vivo até aqui. Fico contente,
Há mais de três horas que eu e Cuic-Cuic conversamos. Dormimos cedo, porque ele quer ir de madrugada procurar Chocolat. Depois de colocar um galho enorme no fogo para durar a noite toda, deitamos. A fumaça me faz tossir e me fecha a garganta, mas tem uma vantagem: nem um mosquito.
Esticado no meu catre, coberto com uma boa coberta, bem quentinho, fecho os olhos. Não consigo pegar no sono. Estou excitado demais. É, a fuga está indo bem. Se o barco for bom, antes de oito dias estou no mar. Cuic-Cuic é baixo, seco, mas deve ter uma força fora do comum e uma resistência a toda prova. Com certeza é honesto e correto com seus amigos, mas deve ser também muito cruel com seus inimigos. É difícil ler o rosto de um asiático, não exprime nada. Todavia, seus olhos depõem a seu favor.
Adormeço e sonho com um mar banhado de sol, meu barco vencendo alegremente as ondas, no caminho da liberdade.
— Quer café ou chá?
— O que é que você está tomando?
— Chá.
— Quero chá.
O dia está nascendo, o fogo ficou aceso desde ontem, a água ferve numa panela. Um galo canta seu alegre cocorocó. Os pássaros não cantam à nossa volta, com certeza a fumaça das carvoarias os espanta. O porco preto está deitado embaixo da cama de Cuic-Cuic. Deve ser um preguiçoso, porque continua dormindo. Uns biscoitos feitos de farinha de arroz assam na brasa. Depois de me servir de chá, meu amigo corta pela metade um biscoito, besunta-o de margarina e dá para mim. Comemos bastante. Como três biscoitos bem assados.
— Vou sair, acompanhe-me. Se alguém gritar ou assobiar, não responda. Não tem perigo, ninguém consegue vir aqui. Mas, se você aparecer na beira da lama, podem matar você com um tiro de fuzil.
O porco se levanta aos gritos de seu dono. Come e bebe, depois sai, nós vamos atrás dele. Vai direto pela areia adentro. Bastante longe do lugar de onde viemos ontem, desce. Depois de andar uns 10 metros, volta. Não gostou da passagem. Depois de três tentativas, consegue passar. Cuic-Cuic, imediatamente e sem susto, percorre a distância até a terra firme.
Cuic-Cuic vai voltar só à noitinha. Comi sozinho a sopa que ele colocou no fogo. Depois de apanhar oito ovos no galinheiro, fiz uma pequena omeleta de três ovos com margarina. O vento mudou de direção e a fumaça das duas carvoarias na frente da cabana se dirige para o outro lado. Ao abrigo da chuva que caiu à tarde, deitado calmamente na minha cama de madeira, não fui incomodado pelo gás carbônico.
De manhã, dei uma volta na ilha. Quase no centro, há uma clareira bastante grande. As árvores caídas e a lenha cortada indicam que é dali que Cuic-Cuic tira a lenha para fazer carvão. Vejo também um monte enorme de argila branca, de onde ele tira certamente a terra necessária para cobrir a lenha, para que ela se queime sem chama. As galinhas vão ciscar na clareira. Um rato enorme foge debaixo dos meus pés e, uns metros mais além, encontro uma cobra morta de uns 2 metros de comprimento. Sem dúvida foi o rato que acabou de matá-la.
Durante todo esse dia passado sozinho na ilhota, fiz uma série de descobertas. Por exemplo, encontrei uma família de tamanduás. A mãe e três filhotes. Um enorme formigueiro estava em revolução à volta deles. Uns dez macacos minúsculos pulam de árvore em árvore na clareira. À minha chegada, os sagüis gritam de partir o coração.
Cuic-Cuic volta à tardinha.
— Não vi Chocolat nem o barco. Ele teve que procurar mantimentos em Cascade, a aldeia onde fica a casa dele. Você comeu bem?
— Comi.
— Quer mais?
— Não.
— Trouxe dois pacotes de fumo pardo, é fumo grosso, de soldado, mas só tinha esse.
— Obrigado, tanto faz. Quando Chocolat sai, quanto tempo fica na aldeia?
— Dois ou três dias, mas eu vou amanhã mesmo e pretendo insistir todos os dias, porque não sei quando ele foi.
No dia seguinte, cai uma chuva torrencial. Mesmo assim, Cuic-Cuic parte, nu em pêlo. Carrega suas roupas debaixo do braço, embrulhadas num plástico. Não o acompanho.
— Não vale a pena você se molhar — ele me diz.
A chuva acabou. Pelo sol, deve ser entre 10 e 11 horas. Uma das duas carvoarias, a segunda, desmoronou com a violência da chuva. Aproximo-me para ver o desastre. O dilúvio não conseguiu apagar completamente a lenha. Ainda sai fumaça do monte disforme. De repente, esfrego os olhos antes de olhar de novo, tão inesperado é o que estou enxergando: cinco sapatos se destacam da carvoaria. Percebo em seguida que estes sapatos estão, cada um, acompanhados de um pé e uma perna. Então, há pelo menos três homens assando dentro da carvoaria. Nem preciso descrever minha primeira reação: dá um certo arrepio nas costas descobrir uma coisa dessas. Debruço-me e, empurrando com o pé um pouco de carvão de lenha meio calcinado, descubro o sexto pé.
O Cuic-Cuic é fogo: ele incinera em série os caras que ele liquida. Fico tão impressionado, que logo me afasto da carvoaria e vou até a clareira para apanhar um pouco de sol. Preciso de calor. Pois é, nessa temperatura sufocante, de repente sinto frio e tenho necessidade de um raio do bom sol dos trópicos.
Ao ler isso, vão pensar que é ilógico, que eu devia suar depois de uma descoberta semelhante. Bom, não suo: estou enregelado de frio, congelado moral e fisicamente. Só muito tempo depois, mais de uma hora, as gotas de suor começam a escorrer da minha testa, porque, quanto mais penso, mais me convenço de que, depois de falar para ele que eu tinha bastante dinheiro no canudo, é um milagre se ainda estou vivo. Ou será que ele está me guardando para me colocar numa terceira carvoaria?
Lembro-me de que seu irmão Chang me contou que ele foi condenado por pirataria e assassinato a bordo de um junco. Quando eles atacavam um navio para pilhá-lo, suprimiam toda a família, em nome de razões políticas. São sujeitos já acostumados aos assassinatos em série. Por outro lado, eu estou prisioneiro aqui. É uma situação tremenda.
Vejamos, vamos fazer os cálculos. Se eu matar Cuic-Cuic na ilhota e o colocar também na carvoaria, ninguém vai saber de nada.
Mas o porco não vai me obedecer, não entende nem francês, esse desgraçado desse porco manso. Então, nada de sair da ilha. Se eu capturar o china, ele vai me obedecer, mas, depois de obrigá-lo a me tirar da ilha, vou precisar matá-lo em terra firme. Se eu o jogar dentro da areia, vai desaparecer, mas deve haver uma razão para ele queimar os caras e não jogá-los dentro da areia como seria mais fácil. Pelos guardas, nem me incomodo; mas, se os chineses amigos dele descobrem que o matei, vão se transformar em caçadores de homens e, com seu conhecimento do mato, vai ser fogo ter os caras na traseira.
Cuic-Cuic tem só um fuzil de um cano, desses que são carregados pela boca. Nunca larga ele, nem para fazer a sopa. Dorme com ele e o carrega até quando se afasta da cabana para ir à latrina. Preciso estar sempre com a minha faca pronta, mas preciso também dormir. Bom, e eu que o escolhi como sócio para fugir!
Não comi o dia todo. Ainda não tomei uma decisão, quando ouço cantarem. É Cuic-Cuic que vem voltando. Escondido atrás dos galhos, vejo-o chegar. Carrega um pacote na cabeça e só quando ele está bem perto da margem é que eu apareço. Sorrindo, ele me passa o fardo enrolado num saco de farinha, pula ao meu lado e rápido dirige-se para o casebre. Vou atrás dele.
— Boas notícias, Papillon, Chocolat voltou. Tem ainda o barco. Diz que pode levar uma carga de mais de 500 quilos sem afundar. O que você está levando aí são sacos de farinha para fazer a vela e um cutelo. É a primeira carga. Amanha vamos levar os outros, porque você irá comigo para ver se o barco serve.
Tudo isso, Cuic-Cuic explica sem se virar. Caminhamos enfileirados: primeiro o porco, depois ele e em seguida eu. Penso rapidamente que ele não parece ter planejado me torrar na carvoaria, já que amanhã vai me levar para ver o barco e começa a fazer despesas para a fuga. Comprou até os sacos de farinha.
— Olhe, uma carvoaria despencou. Foi a chuva, sem dúvida. Caiu um tamanho pé-d’água, que não é de espantar.
Não vai nem ver a carvoaria e entra direto na cabana. Não sei mais o que dizer, nem que decisão tomar. Fazer de conta que não vi nada é pouco aceitável. Pode parecer estranho que durante o dia todo eu não tenha chegado perto da carvoaria, que fica a 25 metros da cabana.
— Você deixou apagar o fogo?
— Deixei, não reparei.
— Mas você não comeu?
— Não, não estava com fome.
— Está doente?
— Não.
— Então, por que é que não comeu a sopa?
— Cuic-Cuic, sente-se, preciso falar com você.
— Espere eu acender o fogo.
— Não. Quero falar com você já, enquanto ainda é dia.
— O que que tem?
— Tem que a carvoaria despencou e, quando isso aconteceu, apareceram três homens que você estava assando lá dentro. Quero uma explicação.
— Ah, é por isso que eu estava achando você esquisito!
E, sem se emocionar nem um pouquinho, olha bem para mim:
— Depois desta descoberta, você não ficou sossegado. Eu compreendo você, é natural. Tive até muita sorte de você não ter me esfaqueado pelas costas. Escute, Papillon, esses três sujeitos eram três caçadores de homens. Bom, faz uma semana, ou dez dias, eu vendi uma boa quantidade de carvão para Chocolat. O chinês que você viu me ajudou a tirar os sacos da ilha. É uma história complicada: com uma corda de mais de 200 metros, puxamos uma fileira de sacos, que deslizam na lama. Enfim, daí até um riacho onde estava a barca de Chocolat, deixamos um bocado de marcas. Uns sacos meio arrebentados deixaram cair uns pedaços de carvão. Foi então que o primeiro caçador de homens começou a rodear. Pelos gritos dos bichos, percebi que tinha alguém no mato. Vi o sujeito sem que ele me visse. Atravessar do lado oposto onde ele estava e surpreendê-lo por trás não foi difícil. Morreu sem mesmo ver quem o matou. Eu sabia que a lama devolve os cadáveres, que, depois de afundar, voltam à superfície no fim de alguns dias; então, eu o trouxe para cá e o botei na carvoaria.
— E os outros dois?
— Foi três dias antes de você chegar. A noite era escuríssima e silenciosa, o que é muito raro na floresta. Aqueles dois estavam em volta do brejo desde o anoitecer. Um deles, quando a fumaça ia na sua direção, tinha às vezes acessos de tosse. Foi esse ruído de tosse que me anunciou a presença dele. Antes do amanhecer, tentei passar pela lama do lado oposto ao local onde eu tinha percebido a tosse. Para encurtar a história, vou lhe dizer que degolei o primeiro caçador de homens. Não teve tempo nem de gritar. O outro, armado com um fuzil de caça, estava tão empenhado em espiar através da vegetação da ilha para ver o que que se passava lá dentro, que se descobriu. Derrubei ele com um tiro de espingarda e, como não estava morto, enterrei minha faca no coração dele. São esses, Papillon, os três caras que você descobriu na carvoaria. Eram dois árabes e um francês. Atravessar a lama com um deles nas costas não foi fácil. Tive que dar duas viagens porque pesavam demais. Enfim, consegui colocá-los na carvoaria.
— Foi isso mesmo que aconteceu?
— Foi, Papillon, juro.
— Por que é que você não botou eles na areia?
— Já falei para você, a lama devolve os cadáveres. Às vezes caem lá dentro uns veados grandes e uma semana depois sobem à superfície. A gente sente o cheiro de carne podre até que os corvos os devoram. Logo, seus gritos e vôos chamam a atenção dos curiosos, Papillon, eu juro, comigo você não precisa ter medo de nada. Tome, para você ter mais certeza, pegue o fuzil se quiser. Pode ficar com ele.
Tenho uma vontade louca de aceitar a arma, mas me domino e o mais naturalmente possível digo:
— Não, Cuic-Cuic. Se estou aqui, é porque me sinto com um amigo, em segurança. Amanhã, você precisa queimar os sapatos dos homens, pois não sabemos o que pode acontecer quando a gente for embora daqui. Não estou com vontade de ser acusado, mesmo ausente, de três assassinatos.
— Tá, vou tornar a queimá-los amanhã. Mas fique sossegado, nunca ninguém vai botar os pés nesta ilha. É impossível passar sem afundar.
— E com uma balsa de borracha?
— Não tinha pensado nisso.
— Se alguém trouxer a polícia até aqui e eles encasquetarem de vir até a ilha, acredite que com uma balsa eles vão poder passar, e por isso que precisamos sair o mais rápido possível.
— De acordo. Amanhã vamos acender de novo a carvoaria, que aliás não está nem apagada. Só é preciso fazer duas chaminés de ventilação.
— Boa noite, Cuic-Cuic.
— Boa noite, Papillon. E repito, durma bem, pode confiar em mim.
Puxo uma coberta até o queixo, aproveito o calor que ela me dá. Acendo um cigarro. Menos de dez minutos depois, Cuic-Cuic está roncando. Seu porco ao seu lado respira com força. O fogo não tem mais chamas, mas o tronco da árvore — cheio de brasas que ficam avermelhadas quando a brisa penetra no casebre — dá uma impressão de paz e de serenidade. Saboreio esse conforto e adormeço com um pensamento: ou amanhã eu acordo e então tudo irá bem entre Cuic-Cuic e eu, ou o chinês é um artista melhor do que Sacha Guitry para esconder suas intenções e contar histórias, e então não verei mais o sol, porque sei coisas demais a seu respeito e isso pode incomodá-lo.
Com uma caneca de café na mão, o especialista em assassinatos em série me acorda e, como se nada tivesse acontecido, deseja-me um bom dia com um sorriso magnificamente cordial. O dia desponta.
— Tome, tome o seu café, pegue uma bolacha, já está com margarina.
Depois de comer e beber, me lavo lá fora, apanhando a água dentro de um tonel que está sempre cheio.
— Você quer me ajudar, Papillon?
— Quero — digo sem maiores perguntas.
Puxamos pelos pés os cadáveres meio queimados. Reparo, sem dizer nada, que os três têm a barriga aberta: o simpático china deve ter procurado nas tripas deles se tinham algum canudo. Será que eram mesmo caçadores de homens? Por que não seriam caçadores de borboletas ou de animais? Ele os matou para se defender ou para roubá-los? Enfim, chega de pensar nisso. São de novo colocados num buraco da carvoaria, bem cobertos de lenha e de argila. Duas chaminés de ventilação são abertas e a carvoaria volta às suas duas funções: fazer carvão de lenha e transformar em cinzas os defuntos.
— Vamos andando, Papillon.
O porquinho encontra uma passagem em pouco tempo. Como carneirinhos, atravessamos a lama. Sinto uma angústia insuportável na hora de me arriscar a passar por cima dela. O afundamento de Sylvain deixou em mim uma impressão tão forte, que não posso me aventurar despreocupadamente. Enfim, pingando suor frio, caminho atrás de Cuic-Cuic. Cada um dos meus pés pisa na marca dos seus. Não há problema: se ele passa, devo passar.
Mais de duas horas de caminhada nos levam ao lugar onde Chocolat corta lenha. Não encontramos ninguém na floresta e portanto não precisamos nos esconder.
— Bom dia, sinhô.
— Bom dia, Cuic-Cuic.
— Como vai?
— Vai indo.
— Mostre o barco ao meu amigo.
O barco é muito forte, uma espécie de barcaça de carga. É muito pesada, mas firme. Enfio minha faca em todo lugar. Não penetra em nenhum ponto mais de meio centímetro. O fundo também está intato. A madeira com a qual o barco foi fabricado é de primeira qualidade.
— Por quanto quer vender?
— Dois mil e quinhentos francos.
— Dou dois mil.
Negócio fechado.
— Este barco não tem quilha. Pago 500 francos mais, mas você precisa pôr uma quilha, um leme e um mastro. A quilha deve ser de madeira de lei, o leme também. O mastro tem que ter 3 metros de madeira leve e flexível. Quando vai ficar pronto?
— Daqui a oito dias.
— Aqui estão duas notas de 1 000 e uma de 500 francos. Vou rasgá-las em dois, dou a outra metade na entrega. Guarde as três metades das notas com você. Entendeu?
— Está certo.
— Quero permanganato, um tonel de água, cigarros e fósforos, comida para quatro homens por um mês: farinha, óleo, café e açúcar. Estes mantimentos vão ser pagos à parte. Você vai me entregar tudo no rio, o Kourou.
— Sinhô, não posso acompanhar o senhor na embocadura.
— Não pedi isso. Falei para você me entregar o barco no rio e não na enseada.
— Aqui estão os sacos de farinha, uma corda, agulhas e linha para vela.
Voltamos, Cuic-Cuic e eu, para o nosso esconderijo. Chegamos tarde da noite, sem aborrecimentos. Na volta, ele carregou o porco nas costas, porque o bicho estava cansado.
Hoje estou sozinho de novo, costurando a vela, quando ouço uns gritos. Escondido no meio das árvores, aproximo-me da lama e olho do outro lado: Cuic-Cuic discute com o chinês intelectual e gesticula. Tenho a impressão de que ele quer atravessar até a ilha e Cuic-Cuic não quer. Cada um deles está com um facão na mão. O mais exaltado é o maneta. Espero que não me mate Cuic-Cuic. Resolvo me mostrar. Assobio. Eles se viram na minha direção.
— O que é que está acontecendo, Cuic-Cuic?
— Quero falar com você, Papillon — grita o outro. — Cuic-Cuic não quer me deixar passar.
Depois de mais dez minutos de discussão em chinês, o porco os precede e chegam os dois à ilha. Sentados na cabana, cada um com uma caneca de chá na mão, espero que decidam falar.
— É isso — diz Cuic-Cuic. — Ele quer a todo custo fugir com a gente. Eu explico que não tenho nada com esse negócio, que é você que paga e manda em tudo. Não quer acreditar em mim.
— Papillon — diz o outro —, Cuic-Cuic é obrigado a me levar com ele.
— Por quê?
— Foi ele, dois anos atrás, que me cortou o braço numa briga por uma questão de jogo. Me fez jurar que eu não o matava. Jurei, com uma condição: toda a vida vai ter que me sustentar, ou pelo menos enquanto eu exigir. Agora, ele vai embora, nunca mais vou ver ele em toda a minha vida. Por isso, ou ele deixa você partir sozinho, ou me leva também.
— Essa é boa! Acontece cada coisa comigo! Escute, concordo em levar você. O barco é bom e grande, podemos partir juntos, os três. Se Cuic-Cuic estiver de acordo, eu levo você.
— Obrigado — diz o maneta.
— O que é que você diz, Cuic-Cuic?
— Se você quer, eu concordo.
— Uma coisa importante. Você pode sair do presídio sem ser declarado desaparecido e procurado por evasão e chegar ao rio antes da noite?
— Não tem problema. Posso sair desde 3 horas da tarde e. em menos de duas horas, estou na beira do rio.
— De noite, você pode achar o lugar, Cuic-Cuic, para a gente embarcar seu amigo sem perder tempo?
— Posso, sem dúvida nenhuma.
— Venha daqui a uma semana, para saber o dia da saída.
O maneta vai embora alegre, depois de apertar a minha mão. Vejo-os quando se despedem na outra margem. Eles apertam as mãos antes de se deixarem. Está tudo bem. Quando Cuic-Cuic está de novo na cabana, eu começo outra vez:
— Você fez um contrato muito gozado com o seu colega: aceitar sustentá-lo a vida toda é um truque fora do comum. Por que é que você cortou o braço dele?
— Uma briga de jogo.
— Era melhor que você tivesse matado ele.
— Não, porque é um grande amigo. No conselho de guerra a que fui levado por causa disso, ele me defendeu de todo jeito, dizendo que me atacou e que eu agi em legítima defesa. Eu aceitei livremente o acordo, preciso respeitá-lo com muita honestidade. A única coisa é que eu não tinha coragem para contar o negócio para você, porque você é que está pagando toda a fuga.
— Está certo, Cuic-Cuic, não falemos mais nisso. Quando estiver livre, se Deus quiser, você pode fazer o que bem entender.
— Vou manter minha palavra.
— O que pensa fazer, se um dia ficar livre?
— Um restaurante. Sou um ótimo cozinheiro e ele é especialista em chow mein, uma espécie de espaguete chinês.
Este incidente me deixou de bom humor. Essa história é tão gozada, que não consigo deixar de provocar Cuic-Cuic.
Chocolat manteve a palavra: cinco dias mais tarde está tudo pronto. Com uma chuva forte, fomos ver o barco. Não preciso fazer nenhuma crítica. Mastro, leme e quilha foram adaptados perfeitamente, com material de primeira qualidade. Numa espécie de cotovelo do rio, o barco espera a gente com o tonel e os mantimentos. Falta avisar o maneta. Chocolat se encarrega de ir até o presídio para falar com ele. Para evitar o perigo de se aproximar até a margem para apanhá-lo, ele mesmo vai levá-lo diretamente a um lugar seguro.
A saída do rio Kourou está marcada por dois faróis. Se chover, podemos sair sem risco nenhum bem no meio do rio, sem içar as velas, bem entendido, para não sermos vistos. Chocolat deu para a gente tinta preta e um pincel. Vamos pintar na vela um grande K e o número 21. Esse K 21 é a matrícula de um barco de pesca que, às vezes, sai para pescar de noite. No caso de sermos vistos desenrolar a vela na saída para o mar, vão pensar que é o outro barco.
Vai ser amanhã à noite, às 19 horas, uma hora depois do anoitecer. Cuic-Cuic afirma que vai encontrar o caminho e assegura que me levará direto para o esconderijo. Vamos deixar a ilha às 5 horas, para aproveitar uma hora de dia para andar.
A volta à choupana é alegre. Cuic-Cuic, sem se virar, porque eu caminho atrás dele, carrega o porquinho no ombro e não pára de falar:
— Enfim, vou deixar a colônia. Graças a você e a meu irmão Chang, estarei livre. Talvez um dia, quando os franceses saírem da Indochina, eu possa voltar ao meu país.
Em suma, ele confia em mim; e, sabendo que gostei do barco, está contente como uma criança. Durmo pela última noite na ilha, minha última noite na terra da Guiana, espero.
Se sair do rio e entrar no mar, será a liberdade, na certa. O único perigo é o naufrágio, porque desde a guerra não devolvem mais os foragidos de nenhum país. Quanto a isso, pelo menos, a guerra serve para alguma coisa, tem uma vantagem para a gente. Se nos apanham, somos condenados à morte, é verdade, mas vão precisar primeiro nos prender. Penso em Sylvain: estaria aqui comigo, perto de mim, se não tivesse cometido aquela imprudência. Adormeço redigindo um telegrama: “Senhor promotor Pradel — Enfim, definitivamente, venci o caminho da podridão onde o senhor me jogou. Foram necessários nove anos”‘.
O sol está bastante alto quando Cuic-Cuic me acorda. Chá e bolachas. Está tudo cheio de caixas. Vejo duas gaiolas de vime.
— O que é que vai fazer com essas gaiolas?
— Vou pôr as galinhas para a gente comer na viagem.
— Você é doido, Cuic-Cuic! Não vamos levar as galinhas.
— Eu quero levar.
— Está doente? Se por causa da vazante saímos pela manhã e as galinhas e os galos resolvem gritar e cantar no rio, você não percebe o perigo?
— Mas não vou jogar fora as galinhas.
— Asse-as e coloque-as na gordura e no óleo. Ficarão conservadas e nos três primeiros dias a gente papa elas.
Finalmente convencido, Cuic-Cuic parte em busca das galinhas, mas os gritos das primeiras quatro que ele conseguiu apanhar devem ter feito sentir o cheiro da fumaça às outras, porque o chinês não conseguiu agarrar mais nenhuma, foram todas se esconder na floresta. Mistério: os animais pressentiram, não sei como, o perigo.
Carregados como burros, atravessamos a lama atrás do porco. Ele me suplicou para levar o porco com a gente.
— Você garante que ele não vai gritar?
— Juro que não. Ele fica quieto quando eu mando. Mesmo quando um tigre duas ou três vezes perseguiu a gente, e ficava dando voltas para nos pegar, ele não gritou. E, no entanto, estava com todos os pêlos do corpo em pé.
Convencido da boa fé de Cuic-Cuic, concordo em levar seu porco querido. Quando chegamos ao esconderijo, já é noite. Chocolat está lá com o maneta. Duas lâmpadas elétricas me permitem verificar tudo. Não falta nada: as argolas da vela passadas no mastro, o Cutelo arrumado no seu lugar, pronto para ser içado. Cuic-Cuic faz duas ou três vezes a manobra que eu indico. Rapidamente, ele fica sabendo o que eu espero dele. Pago o negro, que foi tão correto. Ele é tão simples, que trouxe fita colante e as metades das notas. Pede para eu colar para ele. Nem por um instante pensou que eu poderia tirar o dinheiro dele. As pessoas que não têm maus pensamentos em relação às outras são boas e direitas. Chocolat era um homem bom e honesto. Depois que viu como tratam os forçados, não teve nenhum remorso em ajudar três deles a fugir desse inferno.
— Adeus, Chocolat. Boa sorte para você e sua família.
— Muito obrigado.
O ADEUS À PRISÃO
FUGA DOS CHINESES
Embarco por último e, empurrado por Chocolat, o barco avança para o rio. Nada de vela, mas dois bons remos, um manejado por Cuic, na frente, o outro por mim. Em menos de duas horas entramos no rio.
Chove há mais de uma hora. Um saco de farinha tingido me serve de chapéu; Cuic igualmente tem um e o maneta também. O rio é rápido e sua água cheia de turbilhões. Apesar da força da corrente, em menos de uma hora estamos no meio do curso de água. Ajudados pela vazante, três horas depois passamos entre dois faróis. Sei que o mar está próximo, pois os faróis ficam bem no ponto da embocadura. Vela e cutelo no ar, saímos do Kourou sem nenhum aborrecimento. O vento nos pega de lado com uma tal força, que sou obrigado a fazê-lo deslizar sobre a vela. Entramos no mar duramente e, como uma flecha, passamos o canal, afastando-nos rapidamente da costa. Diante de nós, a 40 quilômetros, o farol de Royale nos indica a rota.
Há treze dias eu estava por trás daquele farol, na Ilha do Diabo. Esta saída de noite no mar, esse rápido afastamento da Terra Grande, não é saudado por uma explosão de alegria por meus amigos chineses. Esses filhos do céu não têm a mesma maneira de exteriorizar seus sentimentos que temos nós. Uma vez no mar, Cuic-Cuic diz apenas, em voz normal:
— Saímos muito bem.
O maneta acrescenta:
— Sim, entramos no mar sem nenhuma dificuldade.
— Estou com sede, Cuic-Cuic. Passe-me um pouco o cantil. Depois de me ter servido, eles também tomam um bom gole de rum.
Parti sem bússola, mas em minha primeira fuga eu havia aprendido a me orientar pelo sol, pela lua, as estrelas e o vento. Portanto, sem hesitar, com o mastro apontado para a Polar, enfio-me pelo alto-mar. O barco se comporta bem: sobe nas ondas com leveza e quase não balança. Como o vento era forte, já de manhã nos vemos muito longe da costa e das Ilhas da Salvação. Se a operação não fosse muito arriscada, eu teria me aproximado da Ilha do Diabo para, rodeando-a, contemplá-la à vontade de longe.
Durante seis dias, tivemos um tempo agitado, mas sem chuva e sem tempestade. O vento muito forte nos empurrou depressa para o oeste. Cuic-Cuic e Hue são admiráveis companheiros. Nunca se queixam, nem do mau tempo, nem do sol, nem do frio da noite. Só tem um problema: nenhum deles quer pegar o leme e dirigir o barco durante algumas horas, para que eu possa dormir. Três a quatro vezes por dia, fazem comida. Todos os frangos e galos já foram comidos. Ontem, brincando, eu disse a Cuic:
— Quando vamos comer o porco?
Ele ficou na maior infelicidade.
— Esse animal é meu amigo e, antes de alguém matá-lo para comer, vai ter que me matar primeiro.
Meus camaradas cuidam bem de mim. Não fumam para que eu possa fumar o quanto quiser. Constantemente há chá quente. Fazem tudo, sem que seja preciso eu lhes dizer nada.
Há sete dias que partimos. Não posso mais. O sol bate com tal ardor, que até mesmo os chineses estão cozidos como camarões. Vou dormir. Amarro o leme e deixo só um pedacinho de vela. O barco vai como o vento sopra. Durmo como uma pedra por mais de quatro horas.
Sou despertado, em sobressalto, por uma sacudidela muito forte. Quando passo água no rosto, fico agradavelmente surpreendido ao constatar que Cuic me barbeou enquanto eu dormia e não senti nada. Meu rosto está também untado de óleo, pelo cuidado dele.
Desde ontem à tarde eu faço oeste-quarto-sul, pois acho que subi muito para o norte. Esse barco pesado tem a vantagem, além de se manter bem no mar, de não derivar facilmente. Acho que é por isso que subi demais, contei com a deriva e quase não houve. Olhe, um balão dirigível! É a primeira vez em minha vida que vejo um. Não parece estar vindo na nossa direção e está longe demais para que se perceba seu tamanho.
O sol que se reflete em seu metal de alumínio dá-lhe reflexos prateados e tão brilhantes, que não se pode fixar o olhar. Mudou de rota, dir-se-ia que se dirige para nós. De fato, ele cresce rapidamente e em menos de vinte minutos está sobre nós. Cuic e o maneta estão surpreendidos por ver tal engenho e não param de papaguear em chinês.
— Falem francês, em nome de Deus, para que eu os entenda!
— Salsicha inglesa — diz Cuic.
— Não, isso não é uma salsicha. É um dirigível.
O aparelho é enorme, pode-se vê-lo bem, agora que está baixo e gira ao nosso redor, em círculos estreitos. Aparecem bandeiras e fazem sinais. Como não compreendemos nada, não podemos responder. O dirigível insiste, passando ainda mais perto de nós, ao ponto de podermos distinguir as pessoas na carlinga. Depois vão direto para a terra. Menos de uma hora depois, chega um avião que passa várias vezes em cima de nós.
O mar engrossa e de repente o vento se torna mais forte. O horizonte está claro de todos os lados, não há perigo de chuva.
— Olhe — diz o maneta.
— Onde?
— Lá embaixo, naquele ponto, na direção do lugar onde deve estar a terra. Àquele ponto preto é um navio.
— Como é que você sabe?
— Acho que é. E digo mais: é um caçador rápido.
— Por quê?
— Porque não solta fumaça.
De fato, boa hora depois, distinguimos nitidamente um navio de guerra cinzento, que está com todo jeito de se dirigir diretamente para nós. Ele cresce — portanto deve avançar com uma velocidade prodigiosa —, com a proa voltada para nós, a tal ponto que eu começo a ter medo de ele chegar perto demais. Seria perigoso, pois o mar está forte e sua esteira contrária às ondas poderia fazer a gente virar.
É um torpedeiro de bolso, o Tarpon, podemos ler quando, esboçando um semicírculo, ele se mostra em todo o seu comprimento. Bandeira inglesa tremulando na proa, o caçador, depois de fazer o semicírculo, vem para cima de nós, lentamente, por trás. Cuidadosamente, mantém-se à mesma altura que nós, na mesma velocidade que nós.. Uma parte da tripulação está na ponte, vestida com o uniforme azul da Marinha inglesa. Da passarela, com um alto-falante à boca, um oficial de branco grita:
— Stop. You stop!
— Desça as velas, Cuic!
Em menos de dois minutos, vela e cutelo são arriados. Sem vela, ficamos quase parados, só as ondas nos empurram. Não posso ficar muito tempo assim, sem correr perigo. Um barco que não tem impulso próprio, motor ou vento, não obedece ao leme. Isso é muito perigoso, quando as ondas são altas. Servindo-me das mãos como amplificador, grito:
— O senhor fala francês, capitão?
Um outro oficial pega o alto-falante do primeiro:
— Sim, capitão, eu entendo francês.
— Que é que vocês querem?
— Subir o barco de vocês a bordo.
— Não, é muito perigoso. Não quero que rebentem meu barco.
— Somos um barco de guerra que vigia o mar, vocês têm que obedecer.
— Pouco me importa, nós não estamos fazendo guerra.
— Vocês não são náufragos de um navio torpedeado?
— Não. Nós somos evadidos do bagne francês.
— Que bagne, que é isso? Que quer dizer bagne?
— Prisão, penitenciária; Convict em inglês. Hard labour.
— Ah! Sim, sim, compreendo. Caiena?
— Sim, Caiena.
— Para onde vão?
— Honduras britânica.
— Não é possível. Têm que rumar para sul-quarto-oeste e ir para Georgetown. Obedeçam, é uma ordem.
— O.K.
Digo a Cuic para subir as velas e partimos na direção dada pelo torpedeiro.
Ouve-se um motor atrás de nós, é uma chalupa que saiu do torpedeiro e nos alcança depressa. Um marinheiro, com o fuzil em bandoleira, está de pé na proa. A chalupa vem pelo lado direito, encosta-se a nós completamente, sem parar nem pedir que a gente pare. Com um salto, o marinheiro passa para o nosso barco. A chalupa continua e volta para o caçador.
— Good afternoon (boa tarde) — diz o marinheiro.
Avança para mim, senta-se a meu lado, depois pega o leme e dirige o barco mais para o sul do que eu estava fazendo. Abandono-lhe a responsabilidade de dirigir, observando seu modo de trabalhar. Ele sabe manobrar muito bem, não há dúvida nesse ponto. Apesar de tudo, fico em meu lugar. Nunca se sabe.
— Cigarros?
Ele pega três maços de cigarros ingleses e dá um a cada um de nós.
— Com certeza — diz Cuic — deram-lhe os maços de cigarros quando ele desembarcou, pois ele não deve andar por aí com três maços.
Rio da reflexão de Cuic, depois observo o marinheiro inglês, que sabe manejar o barco melhor do que eu. Tenho toda a liberdade para pensar. Desta vez, a fuga deu certo para sempre. Sou um homem livre, livre. Um calor sobe-me à garganta; acredito mesmo que lágrimas saem dos meus olhos. É verdade. Estou definitivamente livre, uma vez que, com a guerra, nenhum país devolve evadidos.
Antes que a guerra termine, terei tempo de me fazer estimar e conhecer, não importa em que país eu me estabeleça. O único inconveniente é que com a guerra eu talvez não possa escolher o país em que quiser ficar. Isso não tem importância, não interessa onde eu viva, terei tempo de ganhar a estima e a confiança da população e das autoridades por meu modo de viver, que deverá ser irrepreensível. Até melhor: exemplar.
A segurança de ter, enfim, vencido o caminho da podridão é tal, que não penso em outra coisa. Enfim, você ganhou, Papillon! Ao fim de nove anos, você é de novo vencedor. Obrigado, meu Deus, talvez você não tenha podido fazê-lo antes, mas seus caminhos são misteriosos, não me queixo de você, pois graças à sua ajuda ainda sou jovem, sadio e livre.
É pensando no caminho percorrido nesses nove anos de trabalho forçado, mais os dois anos de cadeia cumpridos na França, antes (num total de onze), que sigo o braço estendido do marinheiro, que me indica: “a terra”.
Às 17 horas, depois de contornar um farol apagado, entramos num enorme rio, o Demerara. A chalupa reaparece, o marinheiro me devolve o leme e vai se colocar à frente. Recebe pelo ar uma grossa corda, que amarra no banco da frente. Ele mesmo desce as velas e, suavemente puxados pela chalupa, subimos uma vintena de quilômetros nesse rio amarelo, seguidos pelo torpedeiro a uns 200 metros. Depois de um cotovelo, uma grande cidade surge:
— Georgetown — grita o marinheiro inglês.
De fato, é na capital da Guiana Inglesa que entramos, suavemente puxados pela chalupa. Muitos cargueiros e navios de guerra. Canhões sobre pequenas torres estão alinhados à beira do rio. Há todo um arsenal, tanto nas unidades navais como em terra.
É a guerra. No entanto, há mais de dois anos que estamos em guerra, mas eu não havia sentido. Georgetown, a capital da Guiana Inglesa, porto importante no Rio Demerara, está cem por cento em pé de guerra. Uma cidade em armas me causa uma impressão esquisita. Assim que encostamos num embarcadouro militar, o torpedeiro que nos seguia aproxima-se lentamente e também encosta. Cuic com seu porco, Hue com uma trouxinha na mão e eu sem nada, subimos os três para o cais. Nenhum civil nesse embarcadouro, reservado para a Marinha. Somente marinheiros e militares. Um oficial chega, reconheço-o. É aquele que me falou em francês do torpedeiro. Gentilmente, ele me estende a mão e diz:
— Você está com boa saúde?
— Sim, capitão.
— Perfeito. No entanto, tem que passar pela enfermaria, onde vai tomar várias injeções. Seus amigos também.
GEORGETOWN
A VIDA EM GEORGETOWN
A tarde, depois de termos tomado diferentes vacinas, fomos transferidos para a Central de Polícia da cidade, uma espécie de comissariado gigantesco, onde centenas de policiais entram e saem sem parar. O superintendente da polícia de Georgetown, primeira autoridade da polícia, responsável pela tranqüilidade desse porto importante, recebe-nos imediatamente em seu escritório. Ao redor dele, oficiais ingleses vestidos com uniforme cáqui, impecáveis em seus shorts e meias brancas. O coronel nos faz sinal para sentarmos diante dele e, num excelente francês, nos diz:
— De onde vinham quando os encontraram no mar?
— Da penitenciária da Guiana Francesa.
— Queira me dizer o ponto exato de onde se evadiram.
— Eu, da Ilha do Diabo. Os outros, de um campo semipolítico de Inini, perto de Kourou, Guiana Francesa.
— Qual a sua condenação?
— Prisão perpétua.
— E o motivo?
— Assassinato.
— E os chineses?
— Assassinato, também.
— Condenação?
— Prisão perpétua.
— Sua profissão?
— Eletricista.
— E eles?
— Cozinheiros.
— Você é por De Gaulle ou Pétain?
— Não sabemos nada disso. Somos homens prisioneiros e procuramos voltar a viver honestamente em liberdade.
— Vamos dar-lhes uma cela que ficará aberta o dia inteiro e à noite. Ficarão em liberdade depois que examinarmos suas declarações. Se nos disseram a verdade, nada têm a temer. Compreendam, estamos em guerra e temos que tomar mais precauções do que em tempo normal.
Logo, oito dias depois, somos postos em liberdade. Aproveitamos esses oito dias passados na Central de Polícia para adquirir roupas decentes. Foi corretamente vestidos que meus dois amigos chineses e eu nos encontramos, às 9 horas da manhã, na rua, munidos de um cartão de identidade com nossas fotografias.
A cidade, de 250 000 habitantes, é quase toda de madeira, construída à inglesa: ao nível do solo, cimento; o resto em madeira. As ruas e avenidas estão cheias de gente de todas as raças: brancos, gente cor de chocolate, negros, hindus, marinheiros ingleses e americanos, nórdicos, coolies. Estamos um pouco embriagados por nos encontrarmos nessa multidão tão matizada. Há uma alegria transbordante em nós, tão grande em nossos corações, que deve ser percebida em nossos rostos, mesmo nos dos chinas, pois muitas pessoas nos olham e nos sorriem gentilmente.
— Para onde vamos? — diz Cuic.
— Tenho uma indicação. Um policial negro me deu o endereço de dois franceses, em Penitence River.
Segundo as informações, é um bairro onde vivem exclusivamente hindus. Vou a um policial vestido de branco, impecável. Mostro-lhe o endereço. Antes de responder, ele nos pede as carteiras de identidade. Orgulhosamente, eu a entrego. “Muito bem, obrigado.” Então, ele nos põe num bonde, depois de ter falado com o condutor. Saímos do centro da cidade e, vinte minutos depois, o condutor nos faz descer. Deve ser ali. Na rua, perguntamos. “Frenchmen?” Um rapaz nos faz sinal para segui-lo. Nos leva diretamente a uma casa baixa. Assim que me aproximo, três homens saem da casa, com gestos acolhedores:
— Como, você aqui, Papi?
— Não é possível! — diz o mais velho, de cabelos todos brancos.
— Entre. Esta é minha casa. Os chineses estão com você?
— Estão.
— Entrem, sejam bem-vindos.
O velho forçado chama-se Guittou Auguste, vulgo Le Guittou, é um tipo bem característico de Marselha, estava no mesmo grupo que eu no La Martinière, em 1933, há nove anos. Depois de uma fuga mal sucedida, foi dispensado da sua pena principal e ficou cumprindo uma pena acessória; foi nesta situação que tornou a fugir, há três anos, disse-me ele. Dos outros dois, um é Petit-Louis, um cara de Aries, e o outro é um sujeito de Toulon, o Julot. Eles também partiram depois de terminar suas penas principais, mas deveriam ter ficado na Guiana Francesa o mesmo número de anos a que haviam sido condenados, dez e quinze anos (esta segunda pena chama-se duplicata).
A casa tem cinco cômodos: dois quartos, uma cozinha, uma sala de jantar e um escritório. Eles fazem calçados em balata, uma espécie de borracha natural recolhida no mato, que, trabalhada com água quente, torna-se maleável e modela-se bem. O único defeito é que, se fica muito exposto ao sol, o negócio se derrete, porque não é borracha vulcanizada. Procuram evitar isso intercalando folhas de tecido entre as camadas de balata.
Maravilhosamente recebidos, com o coração que o sofrimento enobreceu, Guittou nos arranja um quarto para os três e nos instala nele sem hesitar. Só há um problema, o porco de Cuic, mas Cuic afirma que ele não vai sujar a casa, que irá fazer suas necessidades lá fora.
Guittou diz;
— Bem, vamos ver; por enquanto, pode ficar com ele.
Provisoriamente, preparamos três camas no chão com velhas cobertas de soldado.
Sentados diante da porta, todos os seis fumando alguns cigarros, conto a Guittou todas as minhas aventuras de nove anos. Seus dois amigos e ele escutam com atenção e vivem intensamente minhas aventuras, pois as sentem em suas próprias experiências. Dois conheceram Sylvain e lamentam sinceramente sua horrível morte. Diante de nós passam e repassam pessoas de todas as raças. De vez em quando, entra alguém que compra sapatos ou uma vassoura, pois Guittou e seus amigos também fazem vassouras para ganhar a vida. Fico sabendo por eles que entre forçados e exilados há uns trinta evadidos em Georgetown. Encontram-se à noite num bar do centro, onde bebem juntos rum ou cerveja. Todos trabalham para suprir suas necessidades, conta Julot, e a maioria se comporta bem.
Enquanto tomamos a fresca na sombra, diante da porta da casinha, passa um chinês e Cuic o interpela. Sem me dizer nada, Cuic vai com ele e o maneta também. Não devem ir longe, pois o porco sai atrás. Duas horas depois, Cuic volta com um asno puxando uma pequena carroça. Orgulhoso como Artaban, pára o burrico, com quem fala em chinês. O asno tem jeito de compreender essa língua. Na carroça estão três camas de ferro desmontáveis, três colchões, travesseiros, três malas. A que ele me dá está cheia de camisas, cuecas, malhas, mais dois pares de sapatos, gravatas, etc.
— Onde encontrou isso, Cuic?
— Meus compatriotas me deram. Amanhã iremos visitá-los, você quer?
— Está combinado.
Esperamos que Cuic volte para devolver o asno e a carroça, mas nada disso. Ele desatrela o asno e amarra-o no pátio.
— Eles me deram também o asno e a carroça de presente. Com isto, disseram, eu posso ganhar a vida facilmente. Amanhã de manhã, um conterrâneo meu vai vir para me ensinar.
— Esses chineses andam depressa.
Guittou concorda em que o asno e a carroça fiquem provisoriamente no quintal. Tudo muito bem para nosso primeiro dia livre. À noite, todos os seis ao redor da mesa de trabalho, comemos uma boa sopa de legumes feita por Julot, e um bom prato de macarrão.
— Um de cada vez vai lavar a louça e fazer a limpeza da casa — diz Guittou.
Essa refeição em comum é o símbolo de uma primeira pequena comunidade cheia de calor. Esta sensação de se saber ajudado nos primeiros passos dados na vida livre é bastante reconfortante. Cuic, o maneta e eu somos real e plenamente felizes. Temos um teto, uma cama, amigos generosos que, em sua pobreza, encontraram nobreza bastante para nos ajudar. Que pedir de melhor?
— Que quer fazer esta noite, Papillon? — diz-me Guittou. — Quer ir à cidade, a esse bar onde vão todos os foragidos?
— Eu preferia ficar por aqui esta noite. Vá, se você quiser, não se preocupe por mim.
— Sim, eu vou, pois preciso encontrar uma pessoa.
— Eu ficarei com Cuic e o maneta.
Petit-Louis e Guittou se vestiram, engravataram-se e foram para o centro. Só Julot ficou, para terminar alguns pares de sapatos. Meus camaradas e eu damos uma volta pelas ruas próximas para conhecer o bairro. Tudo aqui é hindu. Muito poucos negros, quase nenhum branco, alguns raros restaurantes chineses.
Penitence River (é o nome do bairro) é um canto das Índias ou de Java. As moças são admiravelmente belas e os velhos usam longos mantos brancos. Muitos andam com os pés nus. É um bairro pobre, mas todo mundo está vestido limpamente. As ruas são mal iluminadas, os bares onde se come e bebe estão cheios de gente, por todo lado há música hindu.
Um negro lustroso, vestido de branco e engravatado, me detém:
— O senhor é francês?
— Sim.
— É um prazer encontrar um compatriota. Quer aceitar um gole?
— Se o senhor quiser, mas estou com dois amigos.
— Não tem importância. Eles falam francês?
— Falam.
Eis-nos os quatro instalados numa mesa de bar, junto da calçada. Esse martiniquenho fala um francês mais elegante do que o nosso. Diz para tomarmos cuidado com os negros ingleses porque, diz ele, são todos mentirosos. “Não são como nós, os franceses: nós temos palavra, eles não.”
Sorrio comigo mesmo ao ver esse negro do Sudão dizer “nós os franceses” e, depois, sinto-me realmente perturbado. Perfeitamente, esse senhor é um francês, um francês mais puro do que eu, penso, pois reivindica sua nacionalidade com calor e fé. Ele é capaz de se deixar matar pela França, eu não. Portanto, é mais francês do que eu. Eu sou o comum.
— É um prazer encontrar um compatriota e falar minha língua, pois falo muito mal o inglês.
— Eu me exprimo correntemente em inglês. Se lhe puder ser útil, estou à sua disposição. Está há muito tempo em Georgetown?
— Oito dias, não mais.
— De onde veio?
— Da Guiana Francesa.
— Impossível! É um fugitivo ou um guarda da penitenciária que quer se passar para De Gaulle?
— Não. Sou um fugitivo.
— E seus amigos?
— Também.
— Senhor Henri, não quero saber o seu passado, é o momento de ajudar a França e de se redimir. Eu estou com De Gaulle e espero embarcar para a Inglaterra. Vá me ver amanhã no Martiner Club, aqui está o endereço. Ficarei feliz se o senhor se juntar a nós.
— Como é seu nome?
— Homère.
— Sr. Homère, não posso me decidir assim de repente, tenho primeiro que me informar sobre minha família e, também, antes de tomar uma decisão tão séria, preciso analisar a situação friamente. Na verdade, St. Homère, a França me fez sofrer muito, tratou-me de modo desumano.
O martiniquenho, com uma flama e um calor admiráveis, procura me convencer com todo o seu coração. É realmente emocionante escutar os argumentos desse homem em favor da França.
Muito tarde, voltamos para casa e, deitado, penso em tudo que me disse esse grande francês. Preciso refletir seriamente sobre sua proposta. Afinal de contas, os tiras, os dedos-duros, os imbecis, a administração penitenciária, isso não é a França. Sinto, bem dentro de mim, que não deixei de amá-la. E dizer que há boches por toda a França! Meu Deus, como devem estar sofrendo os meus e que vergonha para todos os franceses!
Quando acordo, o asno, a carroça, o porco, Cuic e o maneta desapareceram.
— Então, meu chapa, dormiu bem? — perguntam Guittou e seus amigos.
— Sim, obrigado.
— Olhe, quer café com leite ou chá? Café e fatias de pão com manteiga?
— Obrigado — enquanto como, fico olhando eles trabalharem.
Julot prepara a massa de balata no tamanho e medida necessários, põe os pedaços duros na água quente e amassa até ficar mole.
Petit-Louis prepara pedaços de tecido e Guittou faz as solas.
— Vocês produzem muito?
— Não. Trabalhamos para ganhar 20 dólares por dia. Com 5 pagamos o aluguel e a comida. Restam 5 para cada um, para gastos variados, para se vestir, etc.
— Vendem tudo?
— Não. Às vezes é preciso que um de nós saia vendendo sapatos e vassouras nas ruas de Georgetown. É duro, a pé, em pleno sol, sair vendendo mercadoria.
— Se for preciso, eu vou de boa vontade. Não quero ser um parasita aqui. Preciso contribuir para ganhar comida.
— Está bem, Papi.
Passeei o dia inteiro pelo bairro hindu de Georgetown. Vejo um grande cartaz de cinema e sinto um desejo louco de ouvir e ver, pela primeira vez em minha vida, um filme falado, em cores. Vou pedir a Guittou que me traga ao cinema esta noite. Andei pelas ruas de Penitence River a manhã toda. A polidez das pessoas me agradou enormemente. Eles têm duas qualidades: são limpos e muito educados. Este dia passado sozinho nas ruas desse bairro de Georgetown é para mim ainda mais grandioso do que minha chegada a Trinidad, há nove anos.
Em Trinidad, no meio de todas as maravilhosas sensações nascidas de me misturar à multidão, eu tinha uma interrogação constante: um dia, antes de duas semanas, no máximo três, eu teria que tornar a partir pelo mar. Qual seria o país que iria me querer? Haveria uma nação para me dar asilo? Qual seria o futuro? Aqui é diferente. Sou definitivamente livre, posso mesmo, se quiser, ir para a Inglaterra e me engajar nas forças francesas livres. Que devo fazer? Se me decidir a ir com De Gaulle, não irão dizer que fui porque não tinha onde me enfiar? No meio de pessoas sadias, não vão me tratar como um forçado que não encontrou outro refúgio e que, por isso, está com eles? Dizem que a França está dividida em duas partes, Pétain e De Gaulle. Como é que um marechal da França não sabe onde está a honra e o interesse da França? Se um dia eu entrar para as forças livres, não vou ser obrigado, mais tarde, a atirar contra franceses?
Aqui vai ser duro, muito duro, conseguir alcançar uma situação aceitável. Guittou, Julot e Petit-Louis estão longe de ser imbecis e trabalham por 5 dólares por dia. Primeiro, preciso aprender a viver em liberdade. Desde 1931 — e estamos em 1942 — sou prisioneiro. Não posso, no primeiro dia da minha liberdade, resolver todas essas incógnitas. Não conheço sequer os primeiros problemas que se apresentam a um homem para abrir caminho na vida. Sou um pouquinho eletricista, mas qualquer operário eletricista sabe mais do que eu. Devo prometer apenas uma coisa a mim mesmo: viver limpamente, pelo menos o mais possível de acordo com uma moral minha.
São 6 horas quando volto para casa.
— Então, Papi, é bom saborear os primeiros bocados de ar da liberdade? Você passeou bastante?
— Sim, Guittou, fui e vim por todas essas ruas deste grande subúrbio.
— Viu os chineses?
— Não.
— Estão no quintal. Seus amigos são vivíssimos. Já ganharam 40 dólares e queriam, a todo custo, que eu ficasse com vinte. Recusei, bem entendido. Vá vê-los.
Cuic está cortando uma couve para seu porco. O maneta lava o asno, que se deixa lavar, alegre.
— Tudo bem, Papillon?
— Sim, e vocês?
— Nós estamos bem contentes, ganhamos 40 dólares.
— Que foi que fizeram?
— Saímos às 3 horas da manhã pelo campo, junto com um conterrâneo nosso, para nos mostrar. Ele havia trazido 200 dólares. Com isso, compramos tomates, alface, berinjelas, enfim, toda espécie de legumes verdes e frescos. Algumas galinhas, ovos e leite de cabra. Fomos ao mercado perto do porto da cidade e vendemos um pouco a pessoas do lugar, primeiro, e depois vendemos tudo aos marinheiros americanos. Ficaram tão contentes com o preço, que amanhã nem vou precisar entrar no mercado: eles me disseram para esperar diante da entrada do porto. Eles vão comprar tudo. Tome, olhe o dinheiro. É sempre o chefe que deve guardar o dinheiro.
— Você sabe, Cuic, que tenho dinheiro e não preciso desse.
— Guarde o dinheiro ou não trabalhamos mais.
— Escute, os franceses vivem com mais ou menos 5 dólares. Nós vamos ficar cada um com 5 dólares e dar 5 à casa, para comida. O resto, a gente põe de lado para devolver aos seus conterrâneos os 200 dólares que eles emprestaram.
— Entendido.
— Amanhã, eu vou com vocês.
— Não, você vai dormir. Se quiser, encontra com a gente às 7 horas, na frente da porta grande do porto.
— Está bem.
Todo mundo está feliz. Primeiro nós, por sabermos que podemos ganhar a vida e não ser uma carga para nossos amigos. Depois Guittou e os outros dois, que, apesar de todo o seu bom coração, deveriam estar se perguntando em quanto tempo nós estaríamos em condições de ganhar nossa vida.
— Para festejar essa verdadeira façanha dos seus amigos, Papillon, vamos fazer 2 litros de pastis.
Julot vai e vem com álcool branco de cana-de-açúcar e ingredientes. Uma hora depois, bebemos pastis como em Marselha. O álcool ajuda, as vozes se elevam e os risos da alegria de viver são mais fortes do que de hábito. Vizinhos hindus, que ouvem que está havendo festa na casa dos franceses, vêm sem cerimônia, fazem-se convidar, três homens e duas moças. Trazem espetinhos de carne de galinha e de porco, bem temperados e apimentados. As duas moças são de uma beleza pouco comum. Vestidas inteiramente de branco, pés nus, com braceletes de prata nos tornozelos esquerdos. Guittou me diz:
— Não cometa gafes. São verdadeiras moças de família. Não vá dizer alguma palavra ousada demais só porque elas estão com os seios descobertos sob o véu transparente. Para elas, isso é natural. Eu não me meti a sebo, porque sou muito velho. Mas Julot e Petit-Louis tentaram, logo no começo, quando viemos para cá, e fracassaram. Elas ficaram muito tempo sem voltar aqui.
Essas duas hindus são de uma beleza maravilhosa. Um ponto tatuado no meio da testa lhes dá um ar estranho. Falam-nos gentilmente e o pouco de inglês que sei me permite compreender que nos desejam boas-vindas a Georgetown.
Esta noite, Guittou e eu fomos ao centro da cidade. Dir-se-ia uma outra civilização, completamente diferente desta em que vivemos. A cidade ferve de gente: brancos, negros, hindus, chineses, soldados e marinheiros em fardas militares e vários marinheiros civis. Um grande número de bares, restaurantes, cabarés e boates iluminam as ruas com suas luzes cruas, como em pleno dia.
Depois da tarde em que assisti pela primeira vez em minha vida à apresentação de um filme colorido e falado, ainda todo aturdido por essa nova experiência, sigo Guittou que me arrasta para um enorme bar. Mais de vinte franceses ocupam um canto da sala. A bebida: cuba-libre (rum e coca-cola).
Todos esses homens são evadidos, forçados. Uns partiram depois de terem sido libertados, haviam terminado suas penas e deveriam fazer a duplicata em regime de livramento condicional. Morrendo de fome, sem trabalho, mal vistos pela população oficial e também pelos civis da Guiana Francesa, preferiram partir para um país onde acreditavam poder viver melhor. Mas é duro, comentam.
— Eu corto lenha no mato por 2 dólares e 50 por dia, para John Fernandes. Desço todos os meses a Georgetown, para passar oito dias. Estou desesperado.
— E você?
— Eu faço coleções de borboletas. Vou caçar no mato e, quando tenho uma boa quantidade de borboletas diversas, arranjo-as numa caixa com vidro e vendo a coleção.
Outros são descarregadores no porto. Todos trabalham, mas mal ganham o suficiente para viver. “É duro, mas a gente é livre”, dizem eles. “A liberdade é tão boa!”
Esta noite, um exilado vem nos ver: Faussard. Paga bebida para todo mundo. Estava a bordo de um navio canadense que, carregado de bauxita, foi torpedeado à saída do rio Demerara. Ele é survivor (sobrevivente) e recebeu dinheiro por ter naufragado. Quase toda a tripulação se afogou. Ele teve a sorte de poder embarcar numa chalupa de salvamento. Conta que o submarino alemão subiu à superfície e que os boches falaram com eles. Perguntaram quantos navios estavam no porto à espera de sair, cheios de bauxita. Responderam que não sabiam e o homem que os interrogava começou a rir: “Ontem”, disse ele, “eu estava em tal cinema em Georgetown. Olhe a metade da entrada”. Abrindo a jaqueta, disse-lhes: “Esta roupa é de Georgetown”. Os incrédulos protestaram contra a potoca, mas Faussard insiste e deve ser verdade. O submarino até mesmo os avisara de que tal barco iria recolhê-los. Efetivamente, foram salvos pelo barco indicado.
Cada um conta sua história. Estou sentado com Guittou ao lado de um velho parisiense de Halles: se apresentou como Petit-Louis da Rua dos Lombards.
— Meu velho Papillon, eu havia arranjado um jeito de viver sem fazer nada. Quando aparecia no jornal o nome de um francês na rubrica “morto lutando pelo rei”, ou a rainha, não lembro mais, procurava um marmorista e mandava fazer a foto de uma lápide tumular em que estava escrito o nome do navio, a data em que fora torpedeado e o nome do francês. Depois, apresentava-me nas ricas mansões dos ingleses e lhes dizia que era preciso que contribuíssem para a compra de uma lápide para o francês morto lutando pela Inglaterra, a fim de que houvesse no cemitério uma lembrança dele. Isso foi assim até a semana passada, quando um filho da puta de Breton, que havia sido dado como morto num torpedeamento, apareceu bem vivo e bem disposto por aí. Visitou algumas bondosas senhoras, justamente algumas daquelas às quais eu havia pedido 5 dólares, cada uma, para o túmulo desse morto que berrava por todo lado que estava bem vivo e que eu jamais em minha vida comprara uma lápide do marmorista. Vou ter que arranjar outra coisa para viver, pois na minha idade não posso mais trabalhar.
Com a ajuda do cuba-libre cada um se exterioriza em altas vozes. Convencidos de que só nós compreendemos o francês, surgem as histórias mais inesperadas.
— Eu, eu faço bonecas de balata — diz um outro — e punhos para bicicletas. Infelizmente, quando as meninas esquecem as bonecas ao sol, no jardim, elas se derretem ou deformam. Imagine o estouro quando me esqueço de que já vendi em tal rua. Dentro de um mês, não posso mais passar de dia pela metade de Georgetown. As bicicletas, a mesma coisa. Quem a deixa no sol, quando torna a pegá-la, fica com as mãos coladas nos punhos de balata que vendi.
— Eu — diz outro — faço chicotinhos com cabeça-de-negra, também de balata. Aos marinheiros, digo que sou um sobrevivente de Mers el-Kébir e que são obrigados a comprar, pois é por culpa deles que estou como estou. Oito em dez compram.
Esse pátio dos milagres moderno me diverte e, ao mesmo tempo, me faz ver que efetivamente não é fácil ganhar o pão.
Um tipo liga o rádio do bar: ouvimos um apelo de De Gaulle. Todo mundo escuta essa voz francesa que, de Londres, encoraja os franceses das colônias e de além-mar. O apelo de De Gaulle é patético, absolutamente ninguém abre a boca. De repente, um dos forçados que bebeu cuba-libre demais se levanta e diz:
— Ah, merda, os caras! Isso até que é bom! De repente aprendi inglês, estou entendendo tudo que ele diz, o Churchill!
Todo mundo rebenta de rir, ninguém se dá ao trabalho de explicar ao cara que ele estava fazendo uma dupla confusão, de língua e de pessoa.
Sim, preciso fazer as primeiras tentativas para ganhar minha vida e, pelo que vejo com os outros, não vai ser fácil. Não estou preocupado. De 1930 a 1942, perdi completamente a responsabilidade e a habilidade para me conduzir sem ninguém. Um ser que foi prisioneiro por tanto tempo, sem ter que cuidar da comida, de um apartamento, de se vestir; um homem que se manietou, virou, revirou, que habituaram a não fazer nada por si mesmo e a executar automaticamente as ordens mais diversas sem analisá-las; esse homem que em algumas semanas se encontra, de repente, numa grande cidade, que tem de reaprender a andar pelas calçadas sem esbarrar em ninguém, a atravessar uma rua sem se deixar esmagar, a achar natural que a seu comando lhe sirvam de beber ou de comer, este homem tem que reaprender a viver. Por exemplo, tem reações inesperadas. No meio de todos esses forçados que fugiram e exilados clandestinos, misturando em seu francês palavras de inglês ou espanhol, escuto com interesse os casos, e eis que de repente, nesse canto de bar inglês, tenho vontade de ir à privada. Pois bem, é inconcebível, mas durante um quarto de segundo procurei o vigilante ao qual deveria pedir autorização. Foi muito rápido, mas também muito esquisito quando percebi isso: Papillon, agora você não tem que pedir autorização a ninguém se quiser mijar ou fazer outra coisa. No cinema, também, no momento em que a lanterninha procurava lugares para nos sentarmos, tive, num relâmpago, vontade de lhe dizer: “Por favor, não se incomode por mim, não passo de um pobre condenado que não merece nenhuma atenção”. Andando na rua, voltei-me várias vezes no trajeto do cinema ao bar. Guittou, que conhece essa tendência, me disse:
— Por que você se vira tanto para olhar para trás? Está olhando para ver se o guarda o segue? Aqui não há guardas, meu velho Papi. Você os deixou nas ilhas.
Na língua figurada dos presos, a gente diz que é preciso se despojar da casaca dos forçados. É mais do que isso, pois a roupa de um sentenciado não é mais do que um símbolo. É preciso não apenas se despojar da casaca, é preciso também arrancar da alma e do cérebro a marca a fogo de uma matrícula de infâmia.
Uma patrulha de policiais negros ingleses, impecáveis, acaba de entrar no bar. Mesa por mesa, eles vão exigindo os documentos de identidade. Quando chegam ao nosso canto, o chefe olha atentamente todos os rostos. Encontra um que não conhece, o meu.
— Sua carteira de identidade, por favor, senhor.
Eu a dou, ele dá uma olhada, devolve-a e acrescenta:
— Desculpe-me, eu não o conhecia. Seja bem-vindo a Georgetown — e se retira.
Paul, o saboiano, acrescenta, depois que ele vai embora:
— Esses rosbifes são maravilhosos. Os únicos estrangeiros nos quais eles confiam cem por cento são os forçados que fogem. Poder provar às autoridades inglesas que você é um evadido da prisão de forçados é obter a liberdade imediatamente.
Se bem que tenhamos voltado muito tarde para casa, às 7 horas da manhã estou na porta principal do porto. Menos de meia hora depois, Cuic e o maneia chegam com a carroça cheia de legumes frescos, cortados de madrugada, ovos e alguns frangos. Estão sozinhos. Pergunto onde está o conterrâneo que lhes ensinou o trabalho. Cuic responde:
— Ele nos mostrou ontem, é o suficiente. Agora não precisamos de mais ninguém.
— Você foi muito longe buscar isso?
— Sim, a mais de duas horas e meia daqui. Saímos às 3 horas da madrugada e chegamos agora.
Como se fizesse assim há vinte anos, Cuic toma chá quente e bolachas. Sentados no passeio, perto da carroça, comemos, esperando os fregueses.
— Acha que eles vão vir, os americanos de ontem?
— Espero que sim, mas, se não vierem, outros virão.
— E os preços? Como você faz?
— Eu não digo: “Isto custa tanto”. Eu digo: “Quanto me oferece?”
— Mas você não sabe falar inglês.
— É verdade, mas sei mexer os dedos e as mãos. Assim é fácil.
— Primeiro vai você, que fala o suficiente para vender e comprar — me diz Cuic.
— Sim, mas primeiro eu quero ver como você faz.
Não demora muito, chega um automóvel grande, chamado carro de comando. O motorista, um suboficial e dois marinheiros descem. O suboficial sobe na carroça, examina tudo: alfaces, berinjelas, etc. Depois de inspecionar cada coisa, apalpa os frangos.
— Quanto, tudo? — e começa a discussão.
O marinheiro americano fala pelo nariz. Não compreendo nada do que ele diz; Cuic fala uma mistura de chinês e francês. Vendo que não conseguem se entender, chamo Cuic de lado.
— Quanto você gastou?
Ele remexe os bolsos e encontra 17 dólares.
— Cento e oitenta e três dólares.
— Quanto ele está oferecendo?
— Acho que duzentos e dez, não é o bastante.
Eu me aproximo do oficial. Ele me pergunta se falo inglês. Um pouquinho.
— Fale lentamente — digo-lhe.
— O.K.
— Quanto o senhor paga? Não, não é possível, não podemos vender por 210 dólares; 240.
Ele não quer.
Ele faz que vai embora, depois volta, torna a ir, sobe no carro, mas eu sinto que é uma comédia. No momento em que torna a descer, chegam minhas duas belas vizinhas, as hindus, semiveladas. Certamente observaram a cena, pois fingem não nos conhecer. Uma delas sobe na carroça, examina a mercadoria e dirige-se a nós:
— Quanto, tudo?
— Duzentos e quarenta dólares — respondo. Ela diz: “Está bem”.
Mas o americano tira os 240 dólares e dá-os a Cuic, dizendo às hindus que já havia comprado. Minhas vizinhas não se retiram e olham os americanos descarregarem a carroça e carregarem o carro de comando. No último instante, um marinheiro pega o porco, pensando que ele faz parte do negócio. Cuic não quer que levem o porco, é claro. Começa uma discussão, não conseguimos explicar que o porco não estava incluído na venda.
Tento fazer as hindus entenderem isso, mas é muito difícil. Elas não compreendem. Os marinheiros americanos não querem deixar o porco, Cuic não quer devolver o dinheiro, a coisa vai virar bagunça. O maneta já pegou uma tábua da carroça, quando passa um jipe da polícia militar americana. O suboficial apita. A polícia militar se aproxima. Eu digo a Cuic para devolver o dinheiro, ele não quer ouvir nada. Os marinheiros estão com o porco e não querem devolvê-lo. Cuic está plantado diante do carro deles, impedindo-os de ir embora. Um grupo de curiosos, bastante numeroso, formou-se em torno da cena barulhenta. A polícia americana dá razão aos americanos e, aliás, não entendem nada do que falamos. Pensam, sinceramente, que quisemos enganar os marinheiros.
Não sei mais o que fazer, quando me lembro de que tenho o número do telefone do Mariner Club, com o nome do martiniquenho. Dou-o ao oficial de polícia, dizendo: “Intérprete”. Ele me leva até um telefone. Ligo e tenho a sorte de encontrar meu amigo gaullista. Peço-lhe que explique ao policial que o porco não estava à venda, que é domesticado, que é como um cachorro para Cuic e que havíamos esquecido de dizer aos marinheiros que ele não entrava no negócio. Depois, passo o telefone para o policial. Três minutos bastam para que ele compreenda tudo. Ele mesmo pega o porco e o devolve a Cuic, que, todo feliz, toma-o nos braços e coloca-o na carroça. O incidente acaba bem e os meus amigos amarelos riem como crianças. Todo mundo vai embora, tudo terminou bem.
A noite, em casa, agradecemos às hindus, que riem bastante deste caso.
Estamos em Georgetown há três meses. Hoje nos instalamos na metade da casa de nossos amigos hindus. Dois quartos claros e espaçosos, uma sala de jantar, uma pequena cozinha com fogão a carvão de lenha e um quintal imenso com um canto coberto de zinco para estábulo. A carroça e o asno estão abrigados. Vou dormir sozinho numa grande cama, comprada a preço de ocasião, com um bom colchão. No quarto ao lado, cada um numa cama, ficam os meus dois amigos chineses. Temos também uma mesa, seis cadeiras e dois tamboretes. Na cozinha, todos os utensílios necessários para cozinhar. Depois de ter agradecido a Guittou e seus amigos pela hospitalidade, tomamos posse da nossa casa, como diz Cuic.
Diante da janela da sala de jantar que dá para a rua está uma poltrona de junco, como um trono, presente das hindus. Na mesa da sala de jantar, num jarro, algumas flores trazidas por Cuic.
Esta impressão de meu primeiro lar, humilde mas limpo, esta casa clara e asseada que me rodeia, primeiro resultado de três meses de trabalho em equipe, me dá confiança em mim e no futuro.
Amanhã é domingo, não há mercado, portanto a gente está livre o dia inteiro. Assim, nós três decidimos oferecer um almoço em nossa casa a Guittou, seus amigos, às hindus e seus irmãos. O convidado de honra será o chinês que ajudou Cuic e o maneta, aquele que lhe deu de presente o asno e a carroça e que nos emprestou os 200 dólares para que pudéssemos iniciar nosso comércio. Em seu guardanapo, ele encontrará os 200 dólares e um bilhete de agradecimento, da nossa parte, escrito em chinês.
Depois do porco, que ele adora, sou eu que tenho toda a amizade de Cuic. Ele tem constantes atenções para comigo: sou o mais bem vestido dos três e freqüentemente ele chega em casa com uma camisa, uma gravata ou uma calça para mim. Tudo isso, ele compra com seu dinheiro. Cuic não fuma, também quase não bebe, seu único vício é o jogo. Só sonha com uma coisa: ter bastante economia para ir ao clube dos chineses e jogar.
Para vender nossos produtos comprados de madrugada, não temos nenhuma dificuldade séria. Já falo bastante bem o inglês para comprar e vender. Cada dia, ganhamos de vinte a 35 dólares os três. É pouco, mas estamos muito satisfeitos por termos encontrado tão depressa um meio de ganhar nossa vida. Não vou sempre com eles comprar, se bem que obtenha melhores preços do que eles, mas agora sou sempre eu que vendo. Muitos marinheiros americanos e ingleses que são destacados para vir à terra fazer compras para seus navios me conhecem. Gentilmente discutimos a venda, sem botar muito calor na discussão. Há um bom cara, cantineiro ítalo-americano de um rancho de oficiais americanos, que sempre fala comigo em italiano. Fica feliz da vida por eu lhe responder em sua língua e só discute para se divertir. No fim, acaba sempre comprando pelo preço que pedi no começo da conversa.
Entre as 8 e meia e as 9 horas da manhã, a gente está de volta a casa. O maneta e Cuic deitam-se depois de nós três termos comido uma refeição ligeira. Eu vou ver Guittou ou minhas vizinhas vêm à nossa casa. Nada de muita faxina a fazer: varrer, lavar roupa, arrumar as camas, manter a casa limpa, as duas irmãs fazem tudo isso para nós, por quase nada, 2 dólares por dia. Aprecio plenamente isso de ser livre sem angústia pelo futuro.
MINHA FAMÍLIA HINDU
O meio de locomoção mais empregado nesta cidade é a bicicleta. Portanto, comprei uma bicicleta para ir a qualquer lugar sem problema. Como a cidade é plana, assim como seus arredores, pode-se percorrer longas distâncias sem esforço. Na bicicleta há dois porta-bagagens muito fortes, um na frente e outro atrás. Posso, portanto, como muitos nativos, levar facilmente duas pessoas.
Pelo menos duas vezes por semana, dou um passeio de uma hora ou duas com minhas amigas hindus. Elas ficam loucas de alegria e começo a perceber que uma delas, a mais moça, está quase apaixonada por mim.
Seu pai, que eu nunca tinha visto, veio ontem. Não mora muito longe da minha casa, mas nunca tinha vindo nos visitar e eu só conhecia seus irmãos. É um velho grande, com barba muito longa, branca como a neve. Seus cabelos também são platinados e descobrem uma fronte inteligente e nobre. Só fala hindu, sua filha traduz. Convida-me para ir visitá-lo em sua casa. Não é longe, de bicicleta, manda que a princesinha, como ele chama a filha, me diga. Prometo-lhe que irei visitá-lo logo.
Depois de comer alguns doces, tomando chá, ele vai embora, não sem que eu tenha notado que examinou os menores detalhes da casa. A princesinha está toda feliz por ver seu pai ir embora satisfeito com a visita e conosco.
Tenho 36 anos e estou com muito boa saúde, sinto-me jovem ainda e todo mundo, felizmente, me considera jovem: não aparento mais de 30 anos, dizem todos os amigos. Ora, essa pequena está com dezenove anos e tem a beleza de sua raça, calma e cheia de fatalismo em seu modo de pensar. Seria para mim um presente do céu amar e ser amado por essa moça esplêndida.
Quando nós três saímos, ela sempre senta no bagageiro da frente e sabe muito bem que ficando bem sentada, com o busto ereto, quando eu tenho que forçar os pedais, preciso me inclinar um pouco para a frente e fico muito próximo de seu rosto. Se ela joga a cabeça para trás, vejo toda a beleza de seus seios nus sob o véu, melhor do que se não estivessem cobertos por gaze. Seus grandes olhos negros brilham intensamente por ocasião dessas quase apalpadelas e sua boca, vermelho-escuro na pele mate, entreabre-se com vontade de ser beijada. Dentes admiráveis e de brilhante beleza completam essa boca maravilhosa. Ela tem um jeito de pronunciar certas palavras, de fazer aparecer uma pontinha da língua rosa na boca entreaberta, que tornaria libertinos os santos mais santos que nos deu a religião católica.
Devemos ir ao cinema, hoje à noite, só nós dois. Sua irmã está com dor de cabeça, dor de cabeça essa que me parece simulada para nos deixar a sós. Ela chega com um vestido de musselina branca que vai até os tornozelos, os quais, quando ela anda, aparecem nus, rodeados por três aros de prata. Está calçada com sandálias cujas tiras douradas passam pelo grande artelho. Isso torna seu pé muito elegante. Na narina direita, ela colocou uma conchinha minúscula de ouro. O véu de musselina na cabeça é curto e cai-lhe ligeiramente abaixo das espáduas. Uma fita dourada o mantém preso ao redor da cabeça. Da fita até o meio da testa pendem três fios guarnecidos com pedras de todas as cores. Linda fantasia. Quando balança, é claro, deixa ver a tatuagem muito azul da fronte.
Toda a família hindu e a minha, representada por Cuic e o maneta, nos olha partir, com rostos felizes por nos verem exteriorizar nossa felicidade. Todos têm ar de saber que vamos voltar noivos do cinema.
Bem sentada sobre a almofada no bagageiro de minha bicicleta, rodamos os dois para o centro. É num longo trecho de uma avenida mal iluminada que essa moça esplêndida, por iniciativa própria, me aflora a boca num beijo rápido e furtivo. Era tão inesperado que ela tomasse a iniciativa, que eu quase caí da bicicleta.
Mãos nas mãos, sentados no fundo da sala, eu lhe falo com os dedos e ela responde. Nosso primeiro dueto de amor, nessa sala de cinema, onde passava um filme que não vimos, foi completamente mudo. Seus dedos, suas unhas longas, bem cuidadas e esmaltadas, as pressões das palmas das mãos cantam e me comunicam bem melhor do que se ela falasse todo o amor que tem por mim e o desejo de ser minha. Ela reclinou a cabeça em meu ombro, o que me permite dar-lhe beijos no rosto tão puro.
Esse amor tão tímido, tão demorado em desabrochar, transformou-se depressa em paixão total. Eu lhe expliquei, antes que ela fosse minha, que não podia me casar com ela, pois já era casado na França. Isso deixou-a contrariada durante um dia. Uma noite, ficou comigo, em minha casa. Por causa de seus irmãos, disse-me, e por causa de certos vizinhos e vizinhas hindus, preferia que eu fosse morar com ela na casa de seu pai. Aceitei e instalei-me na casa de seu pai, que mora só com uma jovem hindu, uma parenta afastada, que o serve e cuida da casa. Não fica muito longe da casa em que Cuic mora, 500 metros, mais ou menos. Meus dois amigos vêm me visitar todos os dias e passam uma boa hora conosco. Muitas vezes comem conosco.
Continuamos, sempre, nossa venda de legumes no porto. Saio às 6 e meia e quase sempre minha hindu me acompanha. Uma grande garrafa térmica cheia de chá, um pote de geléia e um pão torrado num grande saco de couro vêm comigo e ficam esperando Cuic e o maneta, para que tomemos o chá juntos. Ela mesma prepara esse lanche e faz questão absoluta do ritual: tomarmos os quatro juntos a primeira refeição do dia. Em sua bolsa há todo o necessário: uma pequena toalha bordada e com renda que, muito cerimoniosamente, ela estende sobre o passeio, que varre antes com uma escova, e sobre a qual põe as quatro xícaras de porcelana com seus pires. E, sentados no passeio, muito seriamente, tomamos nossa primeira refeição.
É gozado estar no passeio, tomando chá, como se estivéssemos numa sala, mas ela acha isso natural e Cuic também. Aliás, eles não fazem caso algum das pessoas que passam, e acham normal agir assim. Não quero contrariá-la. Ela fica tão contente por nos servir e passar geléia nas torradas, que, se eu não quisesse, iria deixá-la triste.
Sábado passado aconteceu uma coisa que me deu a chave do mistério. De fato, há dois meses que estamos juntos e, freqüentemente, ela me dá pequenas quantidades de ouro. São sempre pedaços de jóias quebradas: a metade de um anel de ouro, um brinco só, um pedaço de corrente, um quarto ou metade de uma medalha ou moeda. Como não tenho necessidade disso para viver, se bem que ela me diga para vendê-lo, guardo-os em uma caixa. Tenho quase quatrocentos gramas. Quando lhe pergunto de onde vem aquilo, ela me arrasta, me beija, ri, mas não dá nenhuma explicação.
Pois bem, sábado, às 10 horas da manhã, minha hindu me pediu que levasse seu pai, já não lembro mais para onde, de bicicleta: “Meu pai”, disse-me ela, “indicará o caminho. Vou ficar em casa para arrumá-la um pouco”. Intrigado, penso que o velho quer fazer uma visita longe e de bom grado concordo em levá-lo.
Sentado no bagageiro da frente, sem falar, pois ele apenas fala hindu, tomo os caminhos que ele me aponta. É longe, há mais de uma hora que eu pedalo. Chegamos a um bairro rico, perto do mar. Nada além de belas mansões. A um sinal do “sogro”, eu paro e observo. Ele tira uma pedra redonda e branca de sob a túnica e se ajoelha no primeiro degrau de uma casa. Rolando a pedra sobre o degrau, canta. Passam-se alguns minutos, uma mulher vestida de hindu sai da casa, aproxima-se dele e lhe dá alguma coisa, sem dizer uma palavra.
De casa em casa, ele repete a cena até as 16 horas. É uma cena longa e não consigo compreendê-la. Na última mansão, é um homem vestido de branco que vem até ele. Faz com que se levante e, com um braço enfiado no dele, leva-o para a casa. Fica lá dentro mais de um quarto de hora e torna a sair, acompanhado pelo senhor, que, antes de deixá-lo, beija-lhe a testa ou, antes, os cabelos brancos. Voltamos para casa, eu pedalo o mais depressa que posso, para chegar logo, pois passa das 4 e meia.
Antes do anoitecer, felizmente, estamos em casa. Minha linda hindu, Indara, primeiro leva o pai, depois salta-me ao pescoço e cobre-me de beijos, arrastando-me para o chuveiro, para que eu tome um banho. Roupa limpa e fresca está à minha espera e, lavado, barbeado e trocado, sento-me à mesa. Ela mesma me serve, como de hábito. Quero interrogá-la, mas ela se mexe para lá e para cá, bancando a muito ocupada, para adiar o maior tempo possível o momento das perguntas. Ardo por saber. Sei, no entanto, que não se deve jamais forçar um hindu ou um chinês a dizer qualquer coisa. Há sempre um tempo a respeitar antes de interrogar. Então, eles falam por si sós, pois adivinham, sabem que a gente espera uma confidência deles e, se acham o cara digno, fazem-na. Foi isso que aconteceu com Indara.
Depois que, deitados, fizemos longamente o amor, quando ela, satisfeita, pousou no vão de minha axila nua o rosto ainda ardente, falou, sem me olhar:
— Sabe, querido, quando papai vai buscar ouro, ele não age mal, ao contrário. Chama os espíritos para que protejam a casa em que rola sua pedra. Para agradecer, em geral, dão-lhe um pedaço de ouro. É um velho costume de nossa terra, em Java.
É o que a minha princesa me conta. Mas, um dia, uma de suas amigas conversa comigo no mercado. Nessa manhã, nem ela nem os chineses haviam chegado ainda. A bonita moça, de Java também, contou-me uma outra coisa:
— Para que você trabalha, uma vez que vive com a filha do feiticeiro? Ela não tem vergonha de fazer você se levantar tão cedo, mesmo quando está chovendo? Com o ouro que o pai dela ganha, você poderia viver sem trabalhar. Ela não sabe amá-lo, pois não devia deixá-lo levantar-se tão cedo.
— E o que o pai dela faz? Explique-me, pois eu não sei de nada.
— O pai dela é um feiticeiro de Java. Se quiser, ele chama a morte para você ou sua família. O único jeito de escapar ao sortilégio que ele faz com sua pedra mágica é dar-lhe bastante ouro, para que a faça rolar em sentido contrário daquele que chama a morte. Então, desfaz todos os malefícios e chama, ao contrário, a saúde e a vida para você e todos os que moram em sua casa.
— Isso não é nada parecido com o que Indara me contou.
Prometo a mim mesmo fazer uma verificação, para saber qual das duas tem razão. Alguns dias depois, eu estava com meu “sogro” de longa barba branca na beira de um riacho que atravessa Penitence River e deságua no Demerara. A atitude dos pescadores hindus me esclareceu amplamente. Cada um lhe oferecia um peixe e se afastava o mais depressa possível da margem. Compreendi. Não há mais necessidade de perguntar nada a ninguém.
Para mim, meu sogro feiticeiro não me incomoda em nada. Ele só me fala em hindu e acha que já compreendo um pouco. Não chego jamais a apreender o que ele quer dizer. Isso tem seu lado bom: não se pode estar sempre de acordo. Ele me arranjou trabalho, apesar de tudo: tatuo as frontes de todas as mocinhas de treze a quinze anos. Algumas vezes, ele me descobre os seios delas e tatuo neles folhas ou pétalas de flores em cor, rosa e azul, deixando o bico surgir como o pistilo de uma flor. As corajosas, pois é muito doloroso, fazem-se tatuar em amarelo-canário o círculo negro em volta do bico do seio e algumas, mais raramente, querem o bico do seio em amarelo.
Diante da casa, ele colocou uma tabuleta escrita em hindu onde está anunciado, parece: “Artista tatuador — Preço módico — Trabalho garantido”. Esse trabalho é bem pago e tenho duas satisfações: admirar os lindos seios das javanesas e ganhar dinheiro.
Cuic encontrou um restaurante à venda, perto do porto. Todo orgulhoso, ele me conta a novidade e propõe que o compremos. O preço está acertado, 800 dólares. Vendendo o ouro do feiticeiro, mais as nossas economias, podemos comprar o restaurante. Vou vê-lo. Fica numa rua pequena, mas muito perto do porto. Lá fervilha de gente a toda hora. Uma sala bastante grande, quadriculada em branco e preto, oito mesas à esquerda, oito à direita, no meio uma mesa redonda onde podem ser expostos os antepastos e as frutas. A cozinha é grande, espaçosa, bem iluminada. Dois grandes fornos e dois fogões imensos.
RESTAURANTE E BORBOLETAS
Fizemos o negócio. Indara mesmo vendeu todo o ouro que possuíamos. O papai primeiro ficou surpreendido por eu jamais haver tocado nos pedaços de ouro que ele dava à filha para nós dois. Disse:
— Eu os dei a vocês para que aproveitassem. São de vocês dois, não têm que me perguntar se podem dispor deles. Façam o que quiser.
Meu “sogro-feiticeiro” não é nada mau. Ela é uma coisa à parte, como amante, como mulher e como amiga. Nunca corremos o risco de brigar, porque ela sempre responde sim a tudo que digo. Só se arrepia um pouco quando tatuo as maminhas de suas compatriotas.
Portanto, eis-me dono do restaurante Victory, na Rua Water, em pleno coração do porto da cidade de Georgetown. Cuic ficará na cozinha, ele gosta disso, é a sua profissão. O maneta fará as compras e o chow mein, uma espécie de macarrão chinês. É feito da seguinte maneira: farinha de trigo misturada e amassada com quantidades de gemas de ovos. Sem água, essa massa é trabalhada dura e longamente. É uma massa dura como pedra, ao ponto de ele ter que trabalhá-la pulando com a coxa em cima de um bastão bem polido, fixado no centro da mesa. Com uma coxa à cavalo por cima do bastão, que ele segura com sua única mão, corre, saltando num só pé, ao redor da mesa, surrando assim a massa, que, trabalhada com essa força, torna-se logo uma massa leve e deliciosa. Por fim, um pouco de manteiga acaba de lhe dar um gosto exótico.
Esse restaurante, que fora à falência, rapidamente adquire fama. Ajudada por uma jovem hindu muito bonita, chamada Daya, Indara serve os numerosos clientes que acorrem para degustar a comida chinesa. Todos os forçados fugitivos vêm. Os que têm dinheiro pagam; os outros comem de graça. “Dá sorte dar de comer aos que têm fome”, diz Cuic.
Um só inconveniente: a atração das duas garçonetes, uma das quais é Indara. As duas exibem os seios nus sob o ligeiro véu de seus vestidos. E mais, abriram os vestidos, dos tornozelos até os quadris. Quando fazem certos movimentos, descobrem a perna toda e a coxa, até bem em cima. Os marinheiros americanos, ingleses, suecos, canadenses e noruegueses comem, alguns duas vezes por dia, para gozar o espetáculo. Meus amigos chamam meu restaurante de restaurante dos olheiros. Eu represento o patrão. Para todo mundo, eu sou o boss. Não há caixa registradora, as garçonetes me trazem o dinheiro, que ponho no bolso, e dou troco quando é necessário.
O restaurante abre às 8 da noite e fica aberto até 5 ou 6 horas da manhã. Não vale a pena dizer que, ali pelas 3 horas da manhã, todas as putas do bairro que fizeram uma boa noite vêm comer, com seu homem ou com um cliente, um frango ao curry ou uma salada de feijão. Também tomam cerveja, principalmente inglesa, uísque, rum de cana-de-açúcar do país, muito bom, com soda ou coca-cola. Como se tornou o ponto de encontro dos franceses em fuga, sou o refúgio, o conselheiro, o juiz e o confidente de toda a colônia de forçados e exilados.
Isso às vezes me traz encrencas. Um colecionador de borboletas me explica sua maneira de caçar no mato. Corta um papelão em forma de borboleta, depois cola sobre ele as asas da borboleta que quer caçar. O papelão é afixado na ponta de um bastão de 1 metro. Quando caça, ele segura o bastão com a mão direita e faz movimentos de modo que a falsa borboleta pareça estar voando. Enfia-se pelo mato, sempre em clareiras onde o sol penetra. Sabe as horas de aparição de cada espécie. Há espécies que não vivem mais de 48 horas. Então, quando o sol banha essa clareira, as borboletas que acabam de sair do casulo precipitam-se para a luz, procurando fazer o amor o mais depressa possível. Quando percebem a isca, vêm de longe para se precipitar sobre ela. Se a falsa borboleta é um macho, é um macho que vem para lutar. Com a mão esquerda, onde segura a redinha, rapidamente ele o apanha.
A bolsa tem um estreitamento, que permite que o caçador continue a apanhar borboletas sem temer que as outras escapem,
Se a isca for feita com as asas de uma fêmea, os machos vêm para beijá-la e o resultado é o mesmo.
As mais belas borboletas são as da noite, mas, como batem freqüentemente em obstáculos, é difícil encontrar uma com as asas intatas. Quase todas têm as asas esfrangalhadas. Para apanhar essas borboletas noturnas, ele sobe no alto de uma grande árvore e faz um quadrado com pano branco, que ilumina por trás com luz de carbureto. As grandes borboletas da noite, com 15 a 20 centímetros da ponta de uma asa à outra, vêm colar-se ao pano branco. Basta, então, asfixiá-las, comprimindo-lhes bem depressa e com bastante força o tórax, sem esmagá-lo. Não se pode deixar que se debatam, porque estragariam as asas, perdendo parte do valor.
Tenho sempre numa vitrina pequenas coleções de borboletas, de moscas, de pequenas serpentes e de vampiros. Há mais compradores do que mercadoria. Assim, os preços são altos.
Um americano me desenhou uma borboleta com as asas de trás de um azul-aço e as superiores de um azul-claro. Ofereceu-me 500 dólares se eu encontrasse uma borboleta dessa espécie. Trata-se, aliás, de uma borboleta hermafrodita.
Falando com o caçador, ele me disse que uma vez tivera uma nas mãos, muito bonita, que lhe haviam pago 50 dólares e que ficara sabendo depois, por um colecionador sério, que aquela espécie valia quase 2 000 dólares.
— O americano está querendo embrulhar você, Papillon — disse-me o caçador. — Está pensando que você é idiota. Mesmo que a peça valesse só 1 500 dólares, ele estaria se aproveitando sordidamente da sua ignorância.
— Tem razão, ele é um sujo. E se nós o tapearmos?
— Como?
— Teríamos que fixar numa borboleta fêmea, por exemplo, as asas de um macho ou vice-versa. O difícil é descobrir como fixá-las, sem que se perceba.
Depois de várias tentativas infelizes, conseguimos colar perfeitamente, sem que se note, duas asas de um macho num magnífico exemplar de fêmea: introduzimos as pontas numa minúscula incisão, depois colamos com leite de balata. Segura bem, a ponto de se poder erguer as asas coloridas. Pomos a borboleta sob o vidro, junto com outras, numa coleção qualquer de 20 dólares, como se eu jamais a tivesse visto. Assim que o americano a percebe, tem o topete de vir com uma nota de 20 dólares na mão, para comprar a coleção. Eu digo que ela já estava prometida, que um sueco encomendou uma caixa e que aquela é para ele.
Em dois dias, o americano pegou aquela caixa nas mãos pelo menos umas dez vezes. Enfim, não agüentando mais, ele me chama.
— Compro a borboleta do meio por 20 dólares e você fica com a coleção.
— O que essa borboleta tem de extraordinário? — e ponho-me a examinar; depois me espanto: — Veja só, mas é uma borboleta hermafrodita!
— Que está dizendo? Sim, é verdade. Antes, eu não tinha muita certeza — diz o americano. — Através do vidro não se via bem. Dá licença? — examina a borboleta de todos os lados e diz: — Quanto quer por ela?
— Um dia não me disse que um exemplar assim tão raro vale 500 dólares?
— Repeti isso a vários caçadores de borboletas e não quero me aproveitar da ignorância do que apanhou este aqui.
— Então, 500 dólares ou nada.
— Compro-a, guarde-a para mim. Tome, aqui estão 60 dólares que tenho comigo, como sinal de que a compra está feita. Dê-me um recibo, amanhã eu trarei o resto. E, principalmente, tire-a dessa caixa.
— Está bem, vou guardá-la noutro lugar. Aqui está seu recibo.
Bem, na hora de abrir a casa, o descendente de Lincoln lá está. Examina de novo a borboleta, dessa vez com uma pequena lupa. Tenho um medo terrível quando ele a vira do outro lado. Satisfeito, faz o pagamento, põe a borboleta numa caixa que trouxe, pede-me outro recibo e vai embora.
Dois meses depois sou levado pela polícia. Chegando ao comissariado, o superintendente da polícia explica-me em francês que fui preso por ter sido acusado de trapaça por um americano:
— É o sujeito da borboleta na qual você colou asas — diz o comissário. — Graças a esse estratagema, vendeu-a por 500 dólares.
Duas horas depois, Cuic e Indara lá estão com um advogado. Ele fala muito bem o francês. Explico-lhe que nada sei de borboletas, que não sou caçador, nem colecionador. Vendo as caixas para ajudar os caçadores, que são meus clientes, que foi o americano que ofereceu 500 dólares, não eu que os pedi, e que, aliás, ele a examinara para ter certeza de que ela era o que pensava, que o ladrão, então, era ele, pois nesse caso a borboleta valeria cerca de 2 000 dólares.
Dois dias depois, passo ao tribunal. O advogado me serve também de intérprete. Repito minha tese. Em seu favor, o advogado tem um catálogo com preços de borboletas. Um espécime parecido está cotado no livro a acima de 1 500 dólares. O americano é duramente criticado pelo tribunal. Terá, ainda por cima, que pagar os honorários do meu advogado, mais 200 dólares.
Todos os duros e hindus estão reunidos, festejamos a libertação com pastis feito em casa. Toda a família de Indara foi ao tribunal, estão orgulhosos de ter na família — depois da absolvição — um super-homem. Pois eles não eram patetas, e duvidavam muito de que eu não tivesse colado as asas.
Pronto, fomos obrigados a vender o restaurante, isso devia acontecer. Indara e Daya eram bonitas demais e aquela espécie de strip-tease delas, sempre apenas esboçado sem jamais continuar, desvairava ainda mais aqueles marinheiros sanguíneos do que se fosse um desnudamento integral. Tendo reparado que, quanto mais colocavam suas maminhas embaixo do nariz dos marujos, mais recebiam de gorjeta, bem inclinadas sobre a mesa, nunca acabavam de fazer a conta ou encontrar o troco certo. Depois desse tempo de exposição bem calculado, endireitavam-se e diziam: “E a minha gorjeta?” — “Ah!” Os pobres caras eram generosos e aqueles amorosos acesos, sem jamais serem apagados, não sabiam bem onde estavam com a cabeça.
Um dia, aconteceu o que eu previa. Um enorme diabo de um ruivo cheio de sardas não se contentou em ver apenas a coxa inteira descoberta: a uma aparição fugaz da calcinha, ergueu a mão e seus dedos de bruto, mantendo a minha javanesa presa como que a um torno. Como ela estava com um jarro de vidro na mão, não levou muito tempo para quebrá-lo na cabeça dele. Com o golpe, ele larga a calça e desaba. Corro para erguê-lo. Os amigos dele pensam que eu vou espancá-lo e, antes que eu diga ui, recebo um soco magistral em pleno olho. Talvez o marinheiro-boxeador tenha mesmo querido defender seu chapa. Ou queria surrar o marido da linda hindu, responsável pelo que não podia acontecer com ela? Sabe-se lá! De qualquer modo, meu olho recebe o direto bem em cheio. Ele conta muito depressa com sua vitória, pois se coloca em guarda de boxe diante de mim e grita: Boxe, boxe, man! Com um pontapé nas partes, seguido por uma cabeçada à Papillon, o boxeador se estende ao comprido.
A balbúrdia se torna geral. O maneta sai da cozinha em meu socorro e distribui golpes de bastão, usando o porrete que serve para fazer macarrão especial. Cuic chega com um longo garfo nos dentes e mergulha na confusão. Um vagabundo parisiense, aposentado dos bailes de gaita da Rua da Lappe, serve-se de uma cadeira como clava. Achando-se certamente desprotegida pela perda de sua calcinha, Indara se retira da batalha.
Conclusão: cinco americanos seriamente feridos na cabeça, outros com dois furos do garfo de Cuic em várias partes do corpo. Há sangue por todo lado. Um policial negro coloca-se à porta, para que ninguém saia. Felizmente, pois chega um jipe da polícia militar. Polainas brancas e bastão erguido, eles querem entrar à força e, vendo todos os seus marinheiros cheios de sangue, certamente têm intenção de vingá-los. O policial negro os repele, depois coloca o braço e o bastão atravessados na porta e diz: “Her Majesty Police” (Polícia de Sua Majestade).
Só quando chegam os policiais ingleses é que nos deixam sair e subir no tintureiro. Somos levados ao comissariado. Além de mim, que tenho o olho preto, nenhum de nós está ferido, o que faz com que não queiram acreditar em nossa legítima defesa.
Oito dias depois, no tribunal, o presidente aceita nossa tese e nos põe em liberdade, salvo Cuic, que pega três meses por pancadas e ferimentos. Era difícil encontrar uma explicação para os múltiplos furos duplos distribuídos em profusão por Cuic.
Como, para completar, em menos de quinze dias ele tivera seis encrencas, não podíamos mais apoiá-lo. Os marinheiros decidiram não considerar essa briga como terminada e, como há gente que vem todo dia com novidades, como saber se são amigos ou inimigos?
Portanto, vendemos o restaurante, pelo mesmo preço que havíamos pago. É verdade que, com a má fama que tinha adquirido, não havia fila de compradores.
— Que vamos fazer, maneta?
— Enquanto esperamos que Cuic saia, vamos descansar. Não podemos recuperar a carroça e o asno, porque os vendemos junto com a clientela. O melhor é não fazer nada, descansar. Depois, a gente vê.
Cuic saiu. Diz que foi bem tratado: “O único aborrecimento”, conta, “foi que fiquei perto de dois condenados à morte”. Ora, os ingleses têm um hábito sujo: avisam ao condenado, 45 dias antes da execução, que ele vai ser enforcado, numa corda bem alta e curta, a tal dia e tal hora, porque a rainha recusou sua graça. “Então”, conta Cuic, “todas as manhãs os condenados gritam um para o outro: ‘Um dia a menos, Johnny, só restam tantos dias!’ E o outro não parava de insultar seu cúmplice o dia inteiro.” Fora isso, Cuic estava tranqüilo e com boa aparência.
A CABANA DE BAMBU
Pascal Fosco desceu das minas de bauxita. É um dos homens que haviam tentado um ataque a mão armada contra o correio de Marselha. Seu cúmplice foi guilhotinado. Pascal é o melhor de todos nós. Bom mecânico, não ganha mais do que 4 dólares por dia; mas, mesmo com isso, sempre arranja um jeito de ajudar um ou dois forçados em dificuldades.
Essa mina de terra de alumínio fica bem longe, no mato. Uma cidadezinha se formou em torno do acampamento, onde vivem operários e engenheiros. No porto carrega-se sem cessar, o minério em numerosos cargueiros. Tenho uma idéia: por que não iríamos montar um cabaré naquele povoado perdido na mata? As pessoas de lá devem se aborrecer demais à noite.
— É verdade — me diz Fosco —, lá não há nenhuma distração. Lá não tem nada.
Indara, Cuic, o maneta e eu, alguns dias depois, estamos num barco, que em dois dias de navegação nos leva pelo rio até Mackenzie, nome da mina.
O acampamento dos engenheiros, dos chefes e dos operários especializados é limpo, claro, com casinhas confortáveis, todas munidas de tela metálica para proteger dos mosquitos. O povoado, em si, é uma nojeira. Nenhuma casa de tijolo, de pedra ou cimento. Nada mais do que taperas feitas de barro e bambus, tetos de folhas de palmeiras selvagens ou, as mais modernas, de folhas de zinco. Quatro bares horríveis regurgitam de clientes. Os marinheiros lutam para conseguir uma cerveja quente mesmo. Nenhum estabelecimento tem geladeira.
Pascal tem razão, há o que fazer nesse povoado. Afinal de contas, estou em fuga, é aventura, não posso viver normalmente como meus companheiros. Trabalhar para ganhar apenas o indispensável para viver, isso não me interessa.
Como as ruas ficam pegajosas de barro quando chove, escolho um lugar mais elevado, um tanto retirado do centro do povoado. Estou certo de que não vai ser inundado quando chover, nem por dentro, nem ao redor da construção que pretendo fazer.
Em dez dias, ajudados por carpinteiros negros que trabalham na mina, construímos uma sala retangular de 20 metros de comprimento por 8 de largura. Trinta mesas de quatro lugares permitirão que 120 pessoas se sentem comodamente. Um estrado onde se exibirão os artistas, um bar da largura da sala e uma dúzia de banquinhos altos. Ao lado do cabaré, uma outra construção com oito cômodos, onde poderão viver muito bem dezesseis pessoas.
Quando desci a Georgetown para comprar material, cadeiras, mesas, etc, contratei quatro jovens negras esplêndidas para atender aos clientes. Dava, que trabalhava no restaurante, resolveu ir conosco. Um coolie vai martelar o velho piano que aluguei. Falta o espetáculo.
Depois de muita confusão e blá-blá-blá, consegui convencer duas javanesas, uma portuguesa, uma chinesa e duas morenas a abandonarem a prostituição e a se tornarem artistas de strip-tease. Uma velha cortina vermelha comprada de um vendedor de bugigangas servirá para começar e encerrar o espetáculo.
Subo com todo mundo, numa viagem especial que um velho pescador chinês concorda em fazer para mim com sua barcaça. Uma casa de bebidas forneceu-me toda espécie imaginável de líquido a crédito. Confia em mim: pagarei a cada trinta dias, por tudo que for sendo vendido. Em compensação, ela me fornecerá as bebidas que forem necessárias. Um velho fonógrafo e discos usados darão a música quando o pianista parar de martirizar o piano. Toda espécie de vestidos, saias, meias pretas e coloridas, ligas, soutiens, ainda em bom estado e que escolhi, por suas cores berrantes, na casa de um hindu que havia recolhido dos despojos de um teatro ambulante, formarão o “guarda-roupa” de minhas futuras “artistas”.
Cuic comprou todo o material de madeira e o que era necessário aos quartos; Indara, os vidros e todo o necessário para um bar; eu. me encarrego das bebidas e cuido da parte artística. Para conseguir isso tudo em uma semana, foi preciso se virar. Enfim, está pronto, material e pessoas ocupam o barco todo.
Dois dias depois, chegamos ao acampamento. As dez moças produzem uma verdadeira revolução nesse povoado perdido no meio da mata. Cada um carregando um embrulho, subimos à “Cabana de Bambu”, nome que demos à nossa boate. Os ensaios começaram. Ensinar minhas “artistas” a se porem nuas em pelo não é coisa fácil. Primeiro, porque falo muito mal o inglês e minhas explicações não são bem compreendidas; depois, em toda a sua vida, elas se despiram depressa, para despachar logo o cliente. Ao passo que agora tudo é ao contrário: quanto mais lentamente elas o fazem, mais sexy é a coisa. Para cada moça há uma tática diferente a empregar. Esse modo de agir deve, também, aproveitar bem as roupas.
A marquesa de espartilho cor-de-rosa e vestido de crinolina, com grandes calças de rendas brancas, despe-se lentamente, escondida por um biombo, diante de um grande espelho no qual o público pode admirar pouco a pouco cada pedaço de carne que ela descobre.
Depois, há a Rápida, uma moça de ventre liso, morena, cor de café com leite muito claro, magnífico exemplar de sangues misturados, certamente filha de um branco com uma negra já clara. Sua tez de grão de café apenas dourada ao fogo faz sobressair suas formas perfeitamente bem equilibradas. Longos cabelos negros caem, naturalmente ondulados, pelas espáduas divinamente arredondadas. Seios cheios, altos e arrogantes, apesar de seu peso, dardejam duas pontas magníficas um pouquinho mais escuras do que a carne. Essa é a Rápida. Todas as peças de sua roupa abrem-se com zíper. Ela se apresenta em calças de vaqueiro, com um chapéu muito amplo na cabeça e uma blusa branca cujos punhos terminam por franjas de couro. Ao som de uma marcha guerreira, ela aparece em cena e se descalça, fazendo cada sapato voar do pé de cada vez. A calça se abre dos dois lados das pernas e cai de repente aos seus pés. A blusa se abre em dois pedaços, por um fecho de correr em cada braço.
Para o público, o golpe é violento, pois os seios nus aparecem como em cólera por terem estado fechados durante tanto tempo. Com as coxas e o busto nus, ela abre as pernas, olha o público bem de frente, tira o chapéu e joga-o a uma das primeiras mesas.
A Rápida não faz trejeitos, nem gestos de pudor para tirar as calcinhas. Desabotoa ao mesmo tempo os dois lados da pequena peça e mais a arranca do que retira. Em traje de Eva, seu sexo aveludado aparece e, no mesmo momento, uma outra moça lhe passa um enorme leque de plumas inteiramente aberto com o qual ela se esconde.
A Cabana de Bambu está cheia de rebentar no dia da inauguração. O estado-maior da mina está lá inteirinho. A noite termina com o pessoal dançando e o dia já vai alto quando os últimos clientes vão embora. É um verdadeiro sucesso, não se podia esperar melhor. Temos despesas, mas os preços são muito altos, isso compensa, e o cabaré em plena mata terá em muitas noites, acredito sinceramente, mais clientes do que espaço a oferecer.
Minhas quatro garçonetes negras não conseguem dar conta do serviço. Com vestidos muito curtos, decote bem aberto, um turbante vermelho na cabeça, também impressionaram de modo favorável a clientela. Indara e Daya supervisionam cada qual uma parte da sala. No bar, o maneta e Cuic cuidam de atender aos pedidos da sala. E eu, em toda parte, corrigindo o que está errado ou ajudando quem esteja atrapalhado.
— Eis um sucesso certo — diz Cuic, quando garçonetes, artistas e patrão se encontram finalmente sozinhos na grande sala.
Comemos todos juntos, como uma família, patrão e empregados, mortos de fadiga, mas felizes com o resultado. Todo mundo vai se deitar.
— Então, Papillon, você não vai levantar?
— Que horas são?
— Dezoito horas — me diz Cuic. — Sua princesa nos ajudou. Há duas horas que ela está de pé. Tudo está em ordem, pronto para recomeçar a noite.
Indara chega com uma bacia de água quente. Barbeado, lavado, fresco e disposto, eu a pego pela cintura e entramos na Cabana de Bambu, onde sou recebido por mil perguntas.
— Estava bem, boss?
— Eu me despi direitinho? Ou acha que não estava bem?
— Estou cantando certo? O que vale é que, felizmente, o público é fácil.
Essa nova equipe é verdadeiramente simpática. Essas putas transformadas em artistas levam o trabalho a sério e parecem felizes por terem deixado sua profissão anterior. O negócio vai bem, não se pode querer melhor. Apenas uma dificuldade: para tantos homens solitários, muito poucas mulheres. Todos os clientes queriam ficar acompanhados, se não a noite inteira, pelo menos algum tempo, por uma moça, principalmente uma artista. Isso desperta ciúmes. De vez em quando, por acaso, duas mulheres estão na mesma mesa e há protestos por parte dos clientes.
As negrinhas são também solicitadas, primeiro porque são bonitas e depois porque nesse mato não há mulheres. Por trás do bar, de vez em quando, Daya passa a servir e conversa com todos. Pouco mais de uma vintena de homens gozam da presença da hindu, realmente uma beleza rara.
Para evitar ciúmes e reclamações dos clientes para ter uma artista em sua mesa, instituí uma loteria. Depois de cada número de nu ou de canto, uma grande roda numerada de 1 a 32, um número por mesa e dois números para o bar, decide onde a moça deve ficar. Para participar da loteria, é preciso comprar um bilhete que custa o preço de uma garrafa de uísque ou de champanha.
Esta idéia (eu pensava) tem duas vantagens. Primeiro, evita qualquer reclamação. Quem ganha aproveita a companhia da boneca durante uma hora em sua mesa, pelo preço da garrafa de bebida que é servida da seguinte maneira: enquanto a artista, completamente nua, é escondida pelo imenso leque, faz-se girar a roda. Quando sai o número, a moça sobe a um grande prato de madeira pintado de cor de prata, quatro rapazes o erguem e levam-no à feliz mesa ganhadora. Ela mesma abre o champanha, toma um gole, sempre nua, desculpa-se e, cinco minutos depois, vai sentar-se, de novo vestida.
Durante seis meses, tudo correu bem, mas a estação de chuvas passou e chegou uma clientela nova. São os catadores de ouro e diamantes que vasculham livremente esta terra tão rica de aluviões. Procurar ouro e brilhantes com meios arcaicos é excessivamente duro. Assim, todo mundo anda armado e, quando têm um saquinho de ouro ou um punhado de brilhantes, os caras não resistem à tentação de gastá-los loucamente. As moças, em cada garrafa, recebem uma grande porcentagem. Daí, beijando o cliente, elas derramarem no balde de gelo o champanha ou uísque, para que a garrafa acabe mais depressa. Alguns, apesar do álcool ingerido, percebem a coisa e suas reações são tão brutais, que fui obrigado a mandar pregar mesas e cadeiras.
Com a nova clientela, aconteceu o que tinha de acontecer. A gente chamava uma das moças de “Flor de Canela”. Efetivamente, sua pele tinha a cor da canela. Essa nova boneca, que tirei dos antros de Georgetown, deixava os clientes completamente loucos com seu modo de se despir.
Quando era sua vez de entrar, trazíamos um canapé de cetim branco para o palco e não apenas ela se punha em pelo com uma ciência perversa pouco comum, mas também, depois de ficar nua como um verme, deitava-se no canapé e acariciava a si mesma. Seus longos dedos afilados deslizavam por toda a carne nua, brincando com o próprio corpo, dos cabelos às pontas dos pés. Nenhuma parte escapava às suas apalpadelas. Inútil dizer qual era a reação desses homens, frustrados pela mata e cheios de álcool.
Como era muito interesseira, ela exigira que, para participar de sua loteria, os jogadores deveriam pagar o preço de duas garrafas de champanha e não só de uma, como faziam para as outras. Depois de jogar inutilmente várias vezes, tentando a sorte e se esforçando por ganhar Flor de Canela, um mineiro atarracado, portador de uma barba negra bem espessa, não encontrou outro jeito, quando minha hindu passou vendendo os números do último strip de Flor de Canela, senão o de comprar os trinta números da sala. Só restaram, portanto, os dois números do bar.
Certo de ganhar, depois de ter pago as sessenta garrafas de champanha, o barbudo esperava, confiante, o desnudamento de Flor de Canela e a extração da loteria. Flor de Canela estava muito excitada, por ter bebido muito nessa noite. Eram 4 horas da manhã quando começou sua última apresentação. Com a ajuda do álcool, ela foi mais sensual do que nunca e seus gestos ainda mais ousados do que de costume. Rrrrran! Fizemos girar a roleta, que, com seu pequeno indicador de chifre, vai mostrar o ganhador.
O barbudo baba de excitação, depois de ter visto a exibição da boneca Flor de Canela. Espera, está certo de que ela vai lhe ser servida, em pêlo, sobre o prato prateado, coberta com o famoso leque de plumas e, entre suas magníficas coxas, as duas garrafas de champanha. Catástrofe! O cara dos trinta números perde. É o 31 que ganha; é o bar, portanto. Primeiro, ele não entende bem a tragédia e só percebe completamente quando vê a artista ser erguida e colocada no balcão. Então, o barbudo fica louco, derruba a mesa que está à sua frente e em dois saltos está no bar. Sacar o revólver e dar três tiros na moça foi coisa que não durou três segundos.
Flor de Canela morreu em meus braços. Eu a pegara depois de pôr aquele animal a dormir com um golpe de cassetete da polícia americana, que trago sempre comigo. Por estar repreendendo uma garçonete, por causa da sua bandeja, me atrasei na minha intervenção, o que deu tempo para o animal cometer a loucura. Resultado: a polícia fechou a Cabana de Bambu e voltamos para Georgetown.
Eis-nos de novo em nossa casa. Indara, como uma verdadeira hindu, fatalista, não muda de caráter. Para ela, essa ruína não tem nenhuma importância. A gente faz outra coisa, é tudo. Os chineses, do mesmo jeito. Nada muda em nosso harmonioso grupo. Nem uma reprovação por minha idéia barroca de tirar as moças na sorte, idéia que, no entanto, foi a causa do nosso fracasso. Com nossas economias, depois de ter pago escrupulosamente todas as nossas dívidas e dar uma soma em dinheiro à mãe de Flor de Canela, não ficamos de mau humor. Todas as noites, vamos ao bar onde os forçados se reúnem. Passamos noites encantadoras, mas Georgetown, por causa das restrições da guerra, começa a me cansar. Quanto ao mais, minha princesa nunca foi ciumenta e eu sempre tive toda liberdade. Mas, agora, ela não me larga um só instante e fica horas sentada a meu lado, em qualquer lugar onde eu esteja.
As probabilidades de comerciar em Georgetown se complicam. Assim, um belo dia, sinto vontade de partir da Guiana Inglesa para outro país. Não é nada arriscado, há a guerra. Nenhum país nos devolverá, pelo menos é o que suponho.
FUGA DE GEORGETOWN
Guittou está de acordo. Ele também acha que devem existir países melhores e mais fáceis de se viver do que a Guiana Inglesa. Começamos a preparar uma fuga. De fato, sair da Guiana Inglesa é um delito muito grave. Estamos em tempo de guerra e nenhum de nós tem passaporte.
Chapar, que se evadiu de Caiena depois de ser desinternado, está aqui há três meses. Trabalha, por 1 dólar e 50 por dia, fazendo doces numa confeitaria chinesa. Ele também quer ir embora de Georgetown. Um forçado de Dijon, Deplanque, e um bordelês também são candidatos à fuga. Cuic e o maneta preferem ficar. Sentem-se bem aqui.
Como a saída do Demerara é extremamente vigiada e está sob o fogo dos ninhos de metralhadoras, dos lança-torpedos e de canhões, copiaremos exatamente um barco de pesca inscrito em Georgetown e sairemos, fazendo-nos passar por ele. Eu me recrimino por não ter reconhecimento para com Indara e não corresponder como deveria ao seu amor total. Mas não posso fazer nada, ela se gruda tanto a mim, que isso me irrita; agora, ela me enerva. Os seres simples, claros e sem inibições em seus desejos, não esperam que a pessoa que amam os solicite para fazer amor. Essa hindu reage exatamente como as irmãs índias de Guajira. No momento em que sentem vontade de se expandir, oferecem-se e, se a gente não as toma, a ofensa é muito grave. Uma dor verdadeira e tenaz germina no mais profundo de meu eu e isso me irrita, pois, mais do que às irmãs índias, não quero fazer Indara sofrer e tenho que me esforçar para que ela goze o mais possível em meus braços.
Ontem, assisti à coisa mais linda que se pode ver, do ponto de vista mímico, como expressão do que a gente sente. Na Guiana Inglesa existe uma espécie de escravatura moderna. Os javaneses vêm trabalhar nas plantações de algodão, de cana-de-açúcar ou de cacau com contratos de cinco e dez anos. O marido e a mulher são obrigados a sair todos os dias para o trabalho, a menos que estejam doentes. Quando o médico não os considera doentes, eles têm que dar um mês de trabalho suplementar ao fim do contrato. E outros meses se acrescentam, ainda, por delitos menores. Como todos são jogadores, endividam-se até o pescoço na plantação e, para pagar seus credores, assinam, para receber um prêmio, um prolongamento de um ou vários anos.
Praticamente, não saem mais. Para eles, que são capazes de apostar suas mulheres e cumprir escrupulosamente a palavra, uma só coisa é sagrada: os filhos. Fazem tudo para mantê-los frees (livres). Passam as maiores dificuldades e privações, mas muito raramente um de seus filhos assina um contrato com a plantação.
Pois bem, hoje é o casamento de uma moça hindu. Todo mundo está vestido com mantos compridos: as mulheres de voal branco e os homens com túnicas brancas que descem até os pés. Muitas flores de laranjeira. A cena, depois de várias cerimônias religiosas, desenrola-se no momento em que o noivo vai levar sua mulher. Os convidados ficam à esquerda e à direita da porta da casa. De um lado, mulheres; do outro, homens. Sentados na soleira da porta aberta, o pai e a mãe. Os noivos beijam seus parentes e passam entre as duas fileiras, que têm alguns metros de comprimento. De repente, a noiva escapa do braço do marido e corre para sua mãe. A mamãe tapa os olhos com uma das mãos e com a outra manda-a de volta ao marido.
Este estende os braços e chama, ela faz gestos com os quais demonstra que não sabe o que fazer. Sua mãe deu-lhe a vida e, muito bem, ela representa uma criança saindo do ventre de sua mãe. Depois, a mãe lhe deu o seio. Ela vai esquecer isso tudo para seguir o homem que ama? Talvez, mas não seja apressado, diz ela com gestos, espere mais um pouco, deixe-me contemplar ainda estes pais tão bons que, até eu encontrar você, foram a razão de minha vida.
Então, ele também faz mímica, com a qual faz compreender que a vida exige que ela seja, também, esposa e mãe. Tudo isso ao som de cantos de jovens e rapazes que lhes respondem. Por fim, depois de ter escapado mais uma vez dos braços do marido, é ela própria quem dá alguns passos, correndo, salta nos braços do marido, que a leva bem depressa para a carroça, com guirlandas de flores, que os espera.
A fuga é minuciosamente preparada. Um barco grande e comprido, com uma boa vela, uma bujarrona e um leme de primeira qualidade, são preparados com precauções para que a polícia não perceba.
No rio Penitence, o riozinho que desemboca no grande rio, o Demerara, escondemos o barco num trecho que passa pelo nosso bairro. Está exatamente pintado e numerado como um barco de pesca de chineses matriculado em Georgetown. Iluminada pelos faróis, apenas a tripulação é diferente. Para dar bem a impressão que queremos, não podemos ficar de pé, pois os chineses do barco copiado são pequenos e magros, nós somos altos e fortes.
Tudo se passa sem maiores complicações e saímos calmamente do Demerara para entrar no mar. Apesar da alegria de termos saído e de termos evitado o perigo de sermos descobertos, uma só coisa me impede de saborear completamente esse êxito: é o fato de ter partido como um ladrão, sem ter avisado minha princesa hindu. Não estou contente comigo mesmo. Ela, seu pai e sua raça não me fizeram mais do que o bem e em troca eu lhes paguei com o mal. Não procuro encontrar argumentos para justificar minha conduta. Acho que é pouco elegante o que fiz e não estou nada contente comigo. Ostensivamente, deixei 600 dólares em cima da mesa, mas o dinheiro não paga essas coisas recebidas.
Devemos navegar durante 48 horas na direção norte-norte. Retomando minha antiga idéia, quero ir para as Honduras britânica. Para isso, teremos que pegar dois dias em alto-mar.
A fuga é formada por cinco homens: Guittou, Chapar, Barrière (um bordelês), Deplanque (um cara de Dijon) e eu, Papillon, capitão, responsável pela navegação.
Mal completamos trinta horas de mar, somos apanhados por uma tempestade espantosa, seguida de uma espécie de tufão, um ciclone. Relâmpagos, trovões, chuva, vagalhões enormes e desordenados, vento de furacão turbilhonando no mar levam-nos, sem que possamos resistir, numa louca e dramática cavalgada sobre um mar que eu jamais havia visto ou imaginado. Pela primeira vez, em minha experiência, os ventos giram mudando de direção, ao ponto de os alísios serem completamente anulados, e a tormenta nos fazer valsar em direção oposta. Se isso durasse oito dias, voltaríamos aos trabalhos forçados nas ilhas.
Esse tufão, aliás, foi memorável, eu soube depois em Trinidad, pelo Sr. Agostini, o cônsul francês. O tufão derrubou mais de 6 000 coqueiros da sua plantação. Esse tufão em forma de verruma serrou, completamente, os coqueiros à altura de um homem. Casas foram arrancadas e levadas pelos ares para muito longe, caindo na terra ou no mar. Perdemos tudo: víveres e bagagens, assim como os tonéis de água. O mastro se quebrou, ficando com menos de 2 metros, sem vela, e, o mais grave, o leme se quebrou. Por milagre, Chapar salvou um pequeno remo e é com esse pequeno pau que tento dirigir o barco. Para completar, ficamos todos nus em pêlo para confeccionarmos uma espécie de vela. Usamos tudo, paletós, calças e camisas. Nós cinco estamos de cuecas. Essa vela, fabricada com nossas roupas e costurada com um rolinho de arame que havia a bordo, quase nos permite navegar com o mastro quebrado.
Os ventos alísios retomaram seu curso e aproveito para tentar ir direto ao sul, para alcançar não importa que terra, até mesmo a Guiana Inglesa. A condenação que nos espera por lá será bem-vinda. Meus camaradas se comportaram dignamente durante e depois, eu não diria mais essa tempestade, pois não seria o bastante, mas sim esse cataclismo, esse dilúvio, esse ciclone, melhor.
É somente no fim de seis dias, dos quais dois de completa calmaria, que vemos terra. Com o pedaço de vela que o vento enfuna, apesar dos furos, não podemos navegar exatamente como queremos. O pequeno remo não é suficiente para dirigir firmemente a embarcação. Estando em pêlo, temos queimaduras ardentes em todo corpo, o que diminui nossa força para lutar. Nenhum de nós tem pele sobre o nariz, os narizes estão em carne viva. Os lábios, os pés, as entrecoxas e as coxas também estão com a carne completamente à mostra. A sede nos atormenta a tal ponto, que Deplanque e Chapar chegaram a beber água salgada. Depois dessa experiência sofrem mais ainda. Há, apesar da sede e da fome que nos atazanam, algo de bom: ninguém, absolutamente ninguém, se queixa. Nenhum de nós jamais dá um conselho a outro. O que quer beber água salgada, o que joga água do mar em seu corpo, dizendo que isso refresca, logo percebe sozinho que a água salgada abre chagas e queima ainda mais pela evaporação.
Sou o único a ter os olhos completamente abertos e sãos, todos os meus camaradas estão com os olhos cheios de pus, que se colam constantemente. Os olhos precisam ser lavados, custe o que custar, apesar da dor, porque faz bem abrir os olhos e enxergar direito. Um sol de chumbo nos ataca as queimaduras com tal intensidade, que é quase irresistível. Deplanque, meio louco, fala em se atirar na água.
Há mais de uma hora me parecia distinguir terra no horizonte. Bem entendido, eu me dirigi imediatamente para ela sem dizer nada, pois não tinha certeza. Pássaros chegam e voam ao nosso redor; portanto, não me enganei. Seus gritos advertem meus camaradas, que, embrutecidos pelo sol e pela fadiga, deitaram-se no fundo do barco, protegendo o rosto do sol com os braços.
Guittou, depois de enxaguar a boca para conseguir fazer sair algum som, me diz:
— Está vendo terra, Papi?
— Estou.
— Em quanto tempo acha que podemos chegar?
— Cinco ou sete horas. Escutem, meus amigos, eu não posso mais. Além das mesmas queimaduras que vocês, estou com as nádegas em carne viva por causa do atrito na madeira do banco e por causa da água do mar. O vento não está muito forte, estamos avançando tão lentamente, que meus braços têm cãibras constantemente e minhas mãos estão adormecidas de apertar durante tanto tempo o remo que nos serve de leme. Querem aceitar uma coisa? Vamos retirar a vela e estendê-la sobre o barco, para nos abrigarmos desse sol de fogo até a noite. O barco irá à deriva, sozinho, para a terra. É preciso fazer isso, a menos que algum de vocês queira tomar meu lugar ao leme.
— Não, não, Papi. Vamos fazer isso e dormir todos, menos um, à sombra da vela.
É ao sol, às 13 horas, que faço tomarem essa decisão. Com uma satisfação animal, deito-me no fundo do barco, enfim à sombra. Meus camaradas cederam-me o melhor lugar para que, na frente, eu possa receber o ar de fora. O que está de guarda fica sentado, mas abrigado à sombra da vela. Todo mundo, mesmo o homem de guarda, mergulha rapidamente no nada. Rendidos de fadiga e gozando essa sombra que enfim nos permite escapar ao sol inexorável, adormecemos.
Um berro de sirena acorda todo mundo de repente. Afasto a vela, é noite lá fora. Que horas podem ser? Quando me sento em meu lugar, ao leme, uma brisa fresca acaricia todo meu pobre corpo pelado e imediatamente sinto frio. Mas que sensação de bem-estar não ser queimado!
Erguemos a vela. Depois de ter limpado os olhos com água do mar — felizmente, só um deles é que está ardendo e supurado —, vejo terra nitidamente à minha direita e à minha esquerda. Onde estamos? Para qual das duas devo me dirigir? Mais uma vez, ouve-se o uivo da sirena. Compreendo que o sinal vem da terra da direita. Que diabo quer dizer?
— Onde você acha que estamos, Papi? — diz Chapar.
— Francamente, não sei. Se essa terra não for isolada e se isso for um golfo, talvez estejamos na ponta da Guiana Inglesa, a parte que vai do Orinoco (grande rio da Venezuela, que faz fronteira). Mas, se a terra da direita é cortada por uma grande distância da que está à esquerda, então esta terra é uma ilha e é Trinidad. À esquerda seria a Venezuela, portanto estaríamos no golfo de Paria.
Minhas lembranças das cartas marítimas, que tive ocasião de estudar, dão-me essa alternativa. Se é Trinidad à direita e Venezuela à esquerda, qual das duas vamos escolher? Essa decisão põe o nosso destino em jogo. Não vai ser muito difícil, por causa desse gostoso vento fresco, nos dirigirmos para a costa. Por enquanto, não vamos nem para uma, nem para outra. Em Trinidad estão os rosbifes, mesmo governo da Guiana Inglesa.
— Temos certeza de sermos bem tratados — diz Guittou.
— Sim, mas que decisão vão tomar por termos deixado, em tempo de guerra, seu território sem autorização e clandestinamente?
— E a Venezuela?
— Não sabemos como é por lá — diz Deplanque. — Na época do Presidente Gómez, os forçados eram obrigados a trabalhar nas estradas em condições extremamente penosas, depois eram devolvidos à França.
— Sim, mas agora não é assim. Estamos em guerra.
— Eles, segundo o que ouvi dizer em Georgetown, não estão em guerra, são neutros.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Então é perigoso para nós.
Distinguimos luzes na terra da direita e também na da esquerda. Mais uma vez a sirena, que desta vez dá três uivos em seguida. Sinais luminosos aparecem na costa da direita. A lua acaba de sair, está bastante longe de nós, mas em nossa trajetória. Em frente, dois imensos rochedos negros e pontudos emergem do mar, muito altos. Deve ser esse o motivo da sirena: avisam-nos de que é perigoso.
— Olhe, bóias flutuantes! Há uma porção delas. Por que não esperamos o dia agarrados a uma delas? Baixe a vela, Chapar.
Ele desce imediatamente aqueles trapos de calças e camisas que pretensiosamente eu chamo de vela. Contendo o barco com o remo, amarro a uma das bóias a ponta da embarcação que, felizmente, ficou com um bom pedaço de corda pendurado no gancho, um pedaço que o tufão não conseguiu arrancar. Pronto, estamos amarrados. Não diretamente nessa estranha bóia, porque ela não tem nada em que possa ser amarrada a corda, mas ao cabo que a liga a outra bóia. Estamos bem amarrados ao cabo dessa delimitação de um canal, sem dúvida. Sem nos preocuparmos com os uivos que a costa da direita continua a emitir, deitamo-nos todos no fundo do barco, cobertos com a vela, para nos protegermos do vento. Um doce calor invade-me o corpo transido pelo frio e o frescor da noite e certamente sou um dos primeiros a começar a roncar.
O dia é claro quando acordo. O sol está saindo de sua cama, o mar está um pouco agitado e seu azul-verde indica que o fundo é de coral.
— Que vamos fazer? Decidimos ir à terra? Estou morrendo de fome e sede.
É a primeira vez que alguém se queixa depois desses dias de jejum, exatamente sete dias, hoje.
— Estamos tão perto da terra, que não vai ser difícil alcançá-la — foi Chapar que falou.
Sentado em meu lugar, vejo claramente diante de mim, depois dos dois rochedos que surgem no mar, a fratura da terra. Portanto, à direita é Trinidad, à esquerda a Venezuela. Sem nenhuma dúvida, estamos no golfo de Paria e, se a água está azul e não amarelada pelos aluviões do Orinoco, é porque estamos na corrente do canal que passa entre os dois países e se dirige para o largo.
— Que vamos fazer? É melhor voltarmos, pois é muito grave a decisão que vamos tomar. À direita, a ilha inglesa de Trinidad; à esquerda, a Venezuela. Por força das condições do barco e do nosso estado físico, temos que ir o mais depressa possível para a terra. Há dois liberados entre nós: Guittou e Corbière. Nós três, Chapar, Deplanque e eu, estamos numa situação mais perigosa. Cabe a nós decidirmos. Que dizem?
— O mais certo é ir para Trinidad. A Venezuela é o desconhecido.
— Não temos necessidade de tomar decisões. Essa lancha que vem chegando vai decidir por nós — diz Deplanque.
Uma lancha, de fato, avança rapidamente para nós. Lá está, pára a mais de 50 metros. Um homem pega um alto-falante. Percebo uma bandeira que não é inglesa. Cheia de estrelas, muito bonita, eu nunca vi essa bandeira em minha vida. Mais tarde, essa bandeira vai ser a “minha bandeira”, a da minha nova pátria, para mim, o símbolo mais emocionante, o de ter, como todo homem normal, reunidas num pedaço de pano, as qualidades mais nobres de um grande povo, meu povo.
— Quién sois vosotros? (Quem são vocês?)
— Somos franceses.
— Están locos? (Estão loucos?)
— Por quê?
— Porque son amarrados a minas. (Porque estão amarrados a minas.)
— É por isso que não se aproximam?
— Sim. Desamarrem, depressa.
— Pronto.
— Em três segundos, Chapar desfaz o nó da corda. Estávamos nem mais, nem menos, amarrados a uma cadeia de minas flutuantes. Um milagre não termos saltado pelos ares, explica-me o comandante da lancha à qual somos amarrados. Sem subir a bordo, a tripulação nos passa café, leite quente bem açucarado, cigarros.
— Vão para a Venezuela, serão bem tratados, eu lhes asseguro. Não podemos rebocá-los para terra porque temos que ir buscar com urgência um homem gravemente ferido no farol de Barimas. Principalmente, não tentem ir a Trinidad, pois há nove chances em dez que vocês choquem em uma mina, e então. . .
Depois de um “Adiós, buena suerte” (Adeus, boa sorte), a lancha vai embora. Deixaram-nos 3 litros de leite. Arranjamos a vela. Já às 10 horas da manhã, o estômago quase estourando por causa do café com leite, um cigarro à boca, sem tomar nenhuma precaução, dirijo-me para a areia do fim de uma praia, onde umas cinqüenta pessoas reunidas esperavam para ver quem chegava na estranha embarcação, encimada por um mastro quebrado e uma vela de camisas, calças e paletós.
A VENEZUELA
OS PESCADORES DE IRAPA
Descubro um mundo, gentes, uma civilização para mim inteiramente desconhecida. Esses primeiros minutos no solo venezuelano são tão emocionantes, que seria necessário um talento superior ao pouco que tenho para explicar, expressar, pintar a atmosfera do caloroso acolhimento que nos foi dado por esse povo generoso. A população é constituída de brancos ou pretos, a grande maioria de cor muito clara, do tom de uma pessoa de raça branca que passou muitos dias exposta ao sol; quase todos os homens têm as calças enroladas até a altura do joelho.
— Pobres rapazes, em que estado vocês estão! — exclamam os homens.
A aldeia de pescadores aonde chegamos chama-se Irapa, município de um Estado denominado Sucre. As moças, todas bonitas, de estatura pequena mas muito graciosas, as mulheres maduras, bem como as velhas, sem exceção, se transformam em enfermeiras, irmãs de caridade ou mães extremosas.
Reunidos no galpão de uma casa, onde penduraram cinco redes de lã e colocaram mesa e cadeiras, fomos lambuzados com manteiga de cacau da cabeça aos pés. Nem um centímetro de carne viva foi esquecido. Mortos de fome e de canseira, nosso jejum tão prolongado provocou-nos desidratação, e essa boa gente do litoral sabe que precisamos dormir, mas também comer em pequenas quantidades.
Enquanto estamos bem acomodados nas redes, dorme, não dorme, as enfermeiras improvisadas vão enfiando bocados de comida em nossas bocas, como se fôssemos criancinhas. Eu estava tão entregue, tão completamente desprovido de força quando me estenderam na rede, minhas chagas em carne viva bem besuntadas de manteiga de cacau, que me sentia como que derretendo, dormindo, comendo, bebendo, sem me dar conta exatamente do que se passava.
As primeiras colheradas de um pirão parecido com a nossa tapioca não foram aceitas pelo meu estômago vazio. Isso aconteceu também com os outros. Todos nós vomitamos, várias vezes, uma parte ou toda a comida que as mulheres introduziam em nossas bocas.
Os habitantes dessa aldeia são muito pobrezinhos. Contudo, cada um deles, sem exceção, contribui para nos ajudar. Dentro de três dias, graças aos cuidados dessa boa gente e graças à nossa juventude, estamos quase de pé. Deixamos as redes durante longas horas e, sentados no rancho coberto de folhas de coqueiro que proporcionam uma sombra fresca, meus camaradas e eu conversamos com esse povo. Não são bastante ricos para nos vestir todos de uma só vez. Formaram pequenos grupos de ajuda. Um se ocupa sobretudo de Guittou, outro de Deplanque, etc. Mais ou menos umas dez pessoas cuidam de mim.
Nos primeiros dias, eles nos vestiram com algumas roupas usadas, mas rigorosamente limpas. Agora, cada vez que podem, compram para nós uma camisa nova, uma calça, uma cinta, um par de chinelos. Entre as mulheres que tratam de mim estão algumas moças muito novas, de tipo índio mas já misturado com sangue espanhol ou português. Uma se chama Tibisay e a outra Nenita. Compraram para mim uma camisa, uma calça e um par de chinelos, que elas chamam aspargate. É uma sola de couro sem salto, com um tecido trançado para cobrir o pé. Só o peito do pé fica coberto, os dedos permanecem de fora e uma tira do tecido prende o calçado ao calcanhar.
— Não é preciso perguntar de onde vocês vêm. Pelas tatuagens, sabemos que vocês são fugitivos da penitenciária francesa.
Isso me emociona ainda mais. Como! Sabendo que somos homens condenados por delitos graves, evadidos de uma prisão cuja severidade eles conhecem pelos livros ou jornais, essas humildes criaturas acham natural nos socorrer e nos ajudar? Vestir alguém quando a gente é rica ou abastada, dar de comer a um estrangeiro que tem fome quando nada falta em casa para a família e para si próprio, é de qualquer maneira uma demonstração de bondade. Mas dividir em dois um pedaço de broa de milho ou de mandioca, espécie de torta cozida no forno, preparada por suas próprias mãos, e que não é bastante para si mesmo e para os seus, repartir a refeição frugal, que mais serve de subalimentação que de nutrição, com um estrangeiro e, ainda mais, um fugitivo da justiça, isto é admirável!
Hoje de manhã, toda a gente, homens e mulheres, está silenciosa. Eles parecem estar contrariados e preocupados. Que se passa? Tibisay e Nenita estão perto de mim. Pela primeira vez nestes últimos quinze dias pude fazer a barba. Já há oito dias somos hóspedes dessa gente que tem o coração na mão. Havendo-se formado uma pele muito fina sobre as minhas queimaduras, arrisquei-me a raspar a barba. Por causa da barba, as mulheres só faziam uma vaga idéia da minha idade. Agora estão satisfeitas de verem que sou jovem e o dizem sem rebuços. Tenho 35 anos, mas aparento só 28 ou trinta. Sim, estou percebendo que todas essas mulheres e esses homens hospitaleiros estão preocupados por nossa causa.
— Que está acontecendo? Fale, Tibisay, que foi que houve?
— Estamos esperando as autoridades de Güiria, uma aldeia vizinha de Irapa. Aqui não há chefe civil (comissário), mas, não se sabe como, a polícia soube que vocês estão aqui, e está para chegar.
Uma preta forte e bonita se aproxima, acompanhada por um moço de torso nu, calça branca enrolada nos joelhos, de corpo hercúleo e bem proporcionado. Chama-se Negrita — é um modo carinhoso de chamar as mulheres de cor, muito usado na Venezuela, onde não existe nenhum preconceito racial ou religioso.
— Señor Enriquez — diz Negrita —, a polícia vai chegar. Não sei se é para seu bem ou para seu mal. Você não quer se esconder por algum tempo na montanha? Este meu irmão pode levá-lo para uma casinha onde ninguém poderá encontrá-lo. Tibisay, Nenita e eu levaremos todo dia comida para você e comunicaremos as notícias.
Muito emocionado, quero beijar a mão dessa boa mulher, mas ela não deixa e, com muito gentileza, me dá um beijo na face.
Chegam uns cavaleiros a galope. Todos trazem um machete, espécie de facão que serve para cortar a cana-de-açúcar e que fica pendurado no lado esquerdo da cinta, como se fosse uma espada; do lado direito, um revólver dentro de sua capa. Eles apeiam. Um homem de cara mongólica, olhos oblíquos de índio, pele bronzeada, alto e seco, de seus quarenta anos, com um grande chapéu de palha de arroz na cabeça, aproxima-se de nós.
— Bom dia. Eu sou o chefe civil (o delegado de polícia).
— Bom dia, meu senhor.
— Vocês aí, por que não avisaram antes que tinham cinco fugitivos de Caiena? Já faz oito dias que estão aqui, pelo que me disseram.
— É que estávamos esperando que pudessem andar e estivessem curados das queimaduras.
— Viemos buscá-los e levá-los para Güiria. Um caminhão vai chegar mais tarde.
— Um cafezinho?
— Pois não, muito obrigado.
Sentados em círculo, todos tomam café. Olho para o comissário da polícia e seus ajudantes. Eles não têm cara de ruins. Tenho a impressão de que estão obedecendo a ordens, contrariados.
— Vocês são evadidos da Ilha do Diabo?
— Não, viemos de Georgetown, na Guiana Inglesa.
— Por que não ficaram por lá?
— A vida lá é muito dura.
Sorrindo, ele diz:
— Vocês pensaram que estariam melhor aqui do que com os ingleses?
— É verdade, porque somos latinos que nem vocês.
Um grupo de sete ou oito homens se aproxima do nosso círculo. À sua frente está um homem de cinqüenta anos, cabelos brancos, 1 metro e 75 ou mais de altura, pele cor de chocolate claro. Olhos imensos, negros, denotando inteligência e ânimo pouco comuns. Sua mão direita está colocada sobre o cabo de um machete pendurado na cinta.
— Chefe, que vai fazer com esses homens?
— Vou levá-los para a prisão de Güiria.
— Por que não os deixa viver aqui conosco? Cada família tomará conta de um.
— Não é possível, é ordem do governador.
— Mas eles não praticaram nenhum delito em território venezuelano.
— Sei disso. Mas, apesar de tudo, são homens muito perigosos; para terem sido condenados ao presídio de Caiena, devem ter cometido crimes muito graves. Além disso, são fugitivos sem documentos de identidade e a polícia francesa certamente vai pedir a extradição deles, quando souber que estão na Venezuela.
— Nós queremos que fiquem aqui com a gente.
— Não é possível, é ordem do governador.
— Tudo é possível. Que é que o governador sabe da vida desses desgraçados? Um homem nunca está completamente perdido. Qualquer que seja o mal que ele possa ter feito no passado, em certo momento da sua vida ele tem uma chance de se recuperar e de se transformar num homem bom e útil à sociedade. Não é verdade, digam vocês todos?
— É verdade — respondem os homens e as mulheres em coro. — Deixem os coitados aqui com a gente, vamos ajudá-los a refazer a vida deles. Em oito dias, já os conhecemos bem e estamos certos de que são bons rapazes.
— Gente mais civilizada do que nós colocou eles no calabouço, para que não pudessem mais praticar o mal — diz o comissário.
— Chefe, o que é que o senhor chama de civilização? O senhor pensa que, porque nós temos elevadores, aviões e trens subterrâneos, isso prova que os franceses são mais civilizados do que essa gente que nos recebeu e tratou? Pois fique sabendo que na minha opinião há mais civilização humana, mais riqueza de alma, mais compreensão em cada membro desta comunidade, que vive com simplicidade no meio da natureza, embora desprovida dos benefícios da civilização mecânica. Mas, se eles não têm o conforto do progresso, têm o sentido da caridade cristã muito mais desenvolvido que os pretensos civilizados do mundo. Prefiro um analfabeto deste povoado a um doutor em letras da Sorbonne de Paris, se este tiver um dia a alma do promotor que me fez condenar. O primeiro é sempre um homem, o segundo esqueceu que é.
— Eu compreendo, mas tenho que executar ordens. Está chegando o caminhão. Por favor, me ajude, tenha uma atitude sensata, para que tudo se passe sem incidentes.
Cada grupo de mulheres abraça aquele de que elas trataram. Tibisay, Nenita e Negrita me abraçam chorando. Cada homem nos aperta a mão, demonstrando assim o seu sentimento de tristeza pela nossa volta à prisão.
Até logo, gente de Irapa, gente nobre que teve a coragem de enfrentar e censurar as próprias autoridades para defender uns pobres-diabos até ontem desconhecidos. O pão que comi com vocês, o pão que vocês tiveram a coragem de tirar da própria boca para nos dar, esse pão, símbolo da fraternidade humana, foi para mim o sublime exemplo dos tempos antigos: “Não matar, fazer o bem aos que sofrem mais, mesmo à custa de privações. Ajudar sempre quem é mais infeliz do que você”. E, se mais tarde eu alcançar a liberdade, ajudarei os outros cada vez que puder, conforme me ensinaram os primeiros venezuelanos que encontrei.
E encontrei muitos outros depois.
O PRESÍDIO DE EL DORADO
Duas horas mais tarde, chegamos a uma grande aldeia, porto de mar que tem a pretensão de ser cidade: chama-se Güiria. O chefe civil (espécie de prefeito de departamento na França) nos entrega ele mesmo ao comandante da polícia. No comissariado; não nos tratam mal, mas nos submetem a longo interrogatório; e o encarregado, sujeito tapado, não quer de modo nenhum acreditar que tenhamos vindo da Guiana Inglesa, onde éramos livres. Além disso, quando nos pede para explicar o motivo da nossa chegada à Venezuela num estado de nudez e de esgotamento, depois de uma viagem tão curta de Georgetown ao golfo de Paria, ele diz que estamos caçoando dele com a nossa história do furacão.
— Dois grandes transportes de banana se perderam totalmente nesse tornado, um cargueiro carregado de minério de bauxita afundou com toda a equipagem e vocês, numa embarcação de 5 metros, aberta às intempéries, conseguiram se salvar? Quem vai acreditar nessa história? Nem mesmo o mendigo débil mental que pede esmola no mercado. Vocês estão mentindo, há qualquer coisa suspeita nesse negócio.
— O senhor pode pedir informações em Georgetown.
— Não quero bancar o idiota diante dos ingleses.
Esse escrivão ou investigador, sujeito cretino e cabeçudo, incrédulo e cheio de si, faz não sei que espécie de relatório, destinado não sei a quem. De qualquer maneira, certa manhã somos acordados às 5 horas, acorrentados, carregados num caminhão, com destino desconhecido.
Conforme expliquei, o porto de Güiria fica no golfo de Paria, diante de Trinidad. Tem a vantagem de estar na proximidade da foz do Orinoco, rio enorme, quase tão grande como o Amazonas.
Acorrentados num caminhão, onde estamos cinco camaradas mais dez policiais, rodamos para Ciudad Bolivar, importante capital do Estado do mesmo nome. A viagem, toda feita em estradas de terra, foi muito cansativa. Polícias e presos, apertados, sacudidos dentro do caminhão, pulavam mais do que numa montanha russa. A viagem durou cinco dias. À noite, dormíamos dentro do próprio caminhão e, de madrugada, partíamos novamente, numa corrida louca para um destino desconhecido.
A mais de 1 000 quilômetros do mar, numa floresta virgem cortada por uma faixa de estrada que vai de Ciudad Bolivar a El Dorado, foi que terminamos nossa viagem arrasadora.
Tanto prisioneiros como soldados se achavam bastante machucados quando chegamos à povoação de El Dorado.
Mas o que é El Dorado? A princípio, foi a esperança dos conquistadores espanhóis: vendo que os índios vindos dessa região traziam ornamentos de ouro, acreditaram cegamente que naquele lugar havia uma montanha de ouro, ou, pelo menos, metade ouro, metade terra. Resultado: hoje, El Dorado não é mais que uma aldeia à beira de um rio cheio de caribes ou piranhas, peixes carnívoros que em alguns minutos devoram um homem ou um animal; um rio também repleto de peixes-elétricos, ali chamados tembladores, que, girando em volta da sua presa, homem ou bicho, matam a vítima por meio de descargas elétricas e, a seguir, chupam o corpo em decomposição. No meio desse rio há uma ilha e, bem no centro, um verdadeiro campo de concentração. São as galés venezuelanas.
Essa colônia de trabalhos forçados é a coisa mais dura que já vi em toda a minha vida, a mais selvagem e a mais desumana, onde as bordoadas chovem constantemente sobre os presos. É um quadrado de apenas 150 metros de lado, cercado por fios de arame farpado. Cerca de quatrocentos homens dormem ali ao relento, pois não há mais que algumas folhas de zinco servindo de abrigo em volta do campo.
Sem que nos tenham dado qualquer palavra de explicação, sem justificarem essa decisão, somos incorporados ao presídio de El Dorado às 3 horas da tarde, quando ali chegamos, esgotados pela viagem, sempre acorrentados no caminhão. Às 3 e meia, sem que se faça a chamada ou o registro dos nossos nomes, os guardas acenam para nós e entregam uma pá para dois de nós e uma picareta para os outros três. Cercados por cinco soldados, de fuzil e nervo de boi na mão, comandados por um cabo de esquadra, somos levados, sob ameaça de pancadas, ao local de trabalho. Compreendemos logo que é uma espécie de demonstração de força, encenada pela guarda dessa penitenciária. Seria perigosíssimo não obedecermos, no momento. Mais tarde, veremos o que se pode fazer.
Chegando ao lugar onde os sentenciados estão trabalhando, mandam-nos abrir uma trincheira ao lado da estrada que estão construindo na floresta virgem. Obedecemos sem dizer palavra e trabalhamos sem levantar a cabeça, cada um de acordo com sua capacidade. Isso não nos impede de ouvir os insultos e as pancadas selvagens que os demais prisioneiros recebem a todo momento. Nenhum do nosso grupo recebe uma só chicotada. Essa sessão de trabalho forçado, que nos proporcionaram logo após a nossa chegada, era sobretudo destinada a nos fazer ver como são tratados os prisioneiros.
Era um sábado. Depois do trabalho, cobertos de suor e de poeira, fomos incorporados a esse campo de prisioneiros, sem o menor registro ou formalidade.
— Os cinco caienenses, por aqui — é o cabo dos presos que está falando. É um mestiço de 1 metro e 90 de altura. Tem o seu nervo de boi na mão. Esse imundo brutamontes é o encarregado da disciplina no recinto do campo.
Indicaram-nos o lugar onde devemos pendurar as redes, perto da porta de entrada do campo, ao ar livre. Mas ali, pelo menos, há um teto de folhas de zinco e, assim, estaremos mais ou menos abrigados da chuva e do sol.
A grande maioria dos prisioneiros é colombiana e os restantes são venezuelanos. Nenhum dos campos disciplinares das penitenciárias francesas pode se comparar com o horror desta colônia de trabalho. Um burro morreria com os maus-tratos suportados por esses homens. Contudo, quase todos aparentam saúde, porque há uma coisa: a alimentação destinada aos sentenciados, aqui, é muito farta e apetitosa.
Nosso grupo reúne-se num pequeno conselho de guerra. Se um de nós for espancado por um soldado, o melhor a fazer é parar de trabalhar, debruçar-se no chão e, seja qual for o tratamento infligido, não se levantar. De qualquer maneira, terá que aparecer uma autoridade, à qual poderemos perguntar como e por que estamos neste campo de trabalhos forçados sem ter cometido qualquer delito. Os dois libertos, Guittou e Barrière, dizem que vão pedir para serem devolvidos à França. A seguir, decidimos chamar o cabo dos presos. Sou eu que devo falar com ele. Ele é chamado de “Negro Blanco”. Guittou vai procurá-lo. O carrasco chega, sempre de chicote na mão. Nós cinco, franceses, colocamo-nos em círculo em volta dele.
Sou eu quem toma a palavra:
— Queremos dizer a você umas poucas palavras: comprometemo-nos a não cometer jamais qualquer infração ao regulamento, assim você não terá motivo para esbordoar qualquer um de nós. Mas, como reparamos que você agride qualquer um sem o menor motivo, nós chamamos você para avisar que, no dia que você espancar um de nós, é um homem morto. Está entendido?
— Sim — diz o Negro Blanco.
— Mais uma advertência.
— O que é? — diz ele, com voz rouca.
— Se você tiver que repetir o que acabamos de dizer, diga isso a um oficial e não a um soldado.
— Está entendido — e ele se retira.
Esta cena se passa no domingo, dia de folga dos presos. Aparece um sujeito cheio de galões.
— Como é que você se chama? — diz ele para mim.
— Papillon.
— É você o chefe dos caienenses?
— Somos cinco e todos são chefes.
— Por que foi você que tomou a palavra para falar com o cabo dos presos?
— Porque sou eu quem fala melhor espanhol.
Agora é um capitão da guarda nacional que fala comigo. Diz que não é ele o comandante da guarda. Há dois chefes mais graduados que ele, mas não estão aqui. Desde que chegamos, é ele quem está no comando. Os dois mais graduados chegarão terça-feira.
— Você ameaçou, em seu nome e no dos seus companheiros, matar o cabo dos presos se ele batesse num de vocês. É verdade?
— É verdade, e vocês têm que nos levar a sério. Mas também disse a ele que não daríamos qualquer pretexto para justificar um castigo corporal. O senhor sabe, capitão, que nenhum tribunal nos condenou, pois não cometemos nenhum delito na Venezuela.
— Nada sei a respeito. Vocês chegaram no campo sem qualquer papel, apenas com uma nota do diretor que está na aldeia: “Pôr esses homens para trabalhar assim que chegarem”.
— Pois, senhor capitão, já que é militar, deve ser bastante justo para, enquanto aguarda a chegada dos chefes, dar ordem aos soldados para nos darem um tratamento diferente do que dão aos outros presos. Afirmo mais uma vez que não somos nem podemos ser condenados, porque não cometemos nenhum delito na Venezuela.
— Vou dar ordens nesse sentido. Espero que não tenham me enganado.
Tenho tempo de observar os presos toda a tarde desse primeiro domingo. A primeira coisa que me espanta é que todos estão bem de saúde. Em segundo lugar, as pancadas se tornaram tão rotineiras, que eles se acostumaram com elas; hoje, por exemplo, domingo, dia de descanso, em que poderiam facilmente evitar as bordoadas comportando-se bem, parece que eles encontram um prazer masoquista em brincar com o fogo. Não param de fazer coisas proibidas: jogar dados, ter contato sexual com uns jovens nas privadas, roubar um companheiro, dizer obscenidades às mulheres que vêm da aldeia trazer doces ou cigarros aos presos. Elas também fazem trocas. Uma cesta trançada, um objeto esculpido, por algum dinheiro ou pacotes de cigarros. Pois bem, há alguns presos que dão um jeito de pegar através do arame farpado aquilo que a mulher oferece para vender e saem correndo sem lhe entregar o objeto negociado, escondendo-se no meio dos outros. Conclusão: os castigos corporais são aplicados tão indiscriminadamente e por motivos fúteis, que o couro dos presos está completamente curtido pelos chicotes; reina o terror no campo de concentração, sem qualquer benefício para a ordem ou a sociedade, e a brutalidade de nada serve para reeducar esses desgraçados.
Contudo, a reclusão na Ilha de Saint-Joseph, com o seu silêncio obrigatório, é bem mais terrível do que isto. Aqui, o medo é momentâneo e o fato de poder conversar à noite, fora das horas de trabalho, bem como a alimentação, rica e abundante, permitem que um homem chegue ao fim da sua pena, que em nenhum caso pode ultrapassar cinco anos.
Passamos o domingo fumando e tomando café, sempre conversando só entre nós. Alguns colombianos se aproximam, mas nós os afastamos, com boas maneiras porém com firmeza. É preciso que nos considerem prisioneiros à parte, do contrário estamos fritos.
No dia seguinte, segunda-feira, às 6 horas, depois de haver comido fartamente, vamos para o trabalho com os outros. Eis como se prepara o trabalho: duas fileiras de homens, frente a frente, cinqüenta prisioneiros, cinqüenta soldados. Um soldado para cada preso. Entre cada fileira, cinqüenta ferramentas: picaretas, pás ou machados. As duas filas de homens se observam: os prisioneiros, angustiados, e os soldados, nervosos e sádicos.
O sargento grita: “Fulano, picareta!”
O desgraçado se abaixa às pressas e, no momento em que agarra a picareta para lançá-la ao ombro e partir correndo para o trabalho, o sargento grita: “Número”, o que eqüivale a dizer: “Soldado, um, dois, etc.” O soldado pula atrás do coitado e’ o açoita com seu nervo de boi. Essa cena horrorosa repete-se duas vezes por dia. No caminho entre o campo e o local de trabalho, a gente tem a impressão de que são tropeiros, tocando seus burros a chicote.
Estávamos gelados de pavor e apreensivos, aguardando a nossa vez. Felizmente, conosco foi diferente.
— Os cinco caienenses, por aqui! Os mais moços peguem estas picaretas e vocês, os mais velhos, estas duas pás.
Sem correr mas em marcha batida, vigiados por quatro soldados e um cabo, vamos para o campo de trabalho, uma clareira na floresta. Esta jornada foi mais longa e mais desesperadora que a primeira. Alguns homens especialmente manjados, no limite das suas forças, gritavam como loucos e imploravam de joelhos que não lhes batessem mais. À tarde, deviam limpar os restos de uma queimada, juntando numa só pilha os tocos e os galhos ainda fumegantes. Outros deviam roçar atrás deles. E, assim, umas oitenta ou cem fogueiras já quase consumidas deviam se transformar num único braseiro no centro do campo. A golpes de nervo de boi, cada soldado espancava seu prisioneiro para que recolhesse os resíduos e os levasse correndo para o meio da área. Essa corrida diabólica provocava em alguns deles verdadeira crise de loucura e, na sua precipitação, eles agarravam às vezes os galhos pelas pontas ainda em brasa. As mãos queimadas, estupidamente açoitados, pisando descalços sobre galhos ou brasas ainda fumegantes, essa fantástica cena durou três horas. Nenhum de nós foi convidado a participar da limpeza dessa clareira recém-desmoitada. Foi melhor assim, porque havíamos decidido, trocando curtas frases, sem levantar a cabeça, enquanto trabalhávamos na enxada, que saltaríamos sobre os cinco praças, inclusive os cabos, que os desarmaríamos e daríamos tiros nessa súcia de brutos.
Hoje, terça-feira, não saímos para o trabalho. Fomos chamados ao escritório dos dois majores da guarda nacional. Os dois oficiais estão muito surpresos por estarmos em El Dorado sem qualquer documento que comprove a decisão de algum tribunal. De qualquer maneira, eles nos prometem pedir amanhã explicações ao diretor da colônia penal.
Não demorou muito. Esses dois majores da guarda da penitenciária são certamente muito severos, pode-se mesmo dizer que exageram na repressão, mas são corretos, pois exigiram que o diretor da colônia viesse pessoalmente nos dar explicações.
Aqui está ele, diante de nós, acompanhado pelo seu cunhado, Russian, e pelos dois oficiais da guarda nacional.
— Franceses, eu sou o diretor da colônia de El Dorado. Vocês quiseram falar comigo. Que desejam?
— Em primeiro lugar, qual foi o tribunal que, sem nos ouvir, nos condenou a cumprir uma pena nesta colônia de trabalhos forçados? Por quanto tempo e por qual delito? Chegamos por mar a Irapa, na Venezuela. Não cometemos o menor delito. Então, o que estamos fazendo aqui? E como se justifica que sejamos obrigados a trabalhar?
— Em primeiro lugar, estamos em guerra. Portanto, precisamos saber exatamente quem vocês são.
— Muito bem, mas isto não justifica a nossa incorporação neste presídio.
— Vocês são fugitivos da justiça francesa. Por isso, precisamos saber se vocês estão sendo reclamados por ela.
— Certo; mas volto a insistir: por que nos trata como se tivéssemos uma pena a cumprir?
— Por enquanto, vocês estão aqui devido a uma lei sobre vagabundos e meliantes; vocês estão aqui em depósito, aguardando esclarecimentos e documentação.
A discussão poderia ter durado muito tempo, se um dos oficiais não houvesse dado a sua opinião e resolvido o caso:
— Diretor, honestamente, não podemos tratar esses homens como os outros presos. Sugiro que, enquanto Caracas não está a par do assunto, encontremos um meio de empregá-los em outra coisa que não seja a construção da estrada.
— São homens perigosos. Eles ameaçaram matar o cabo de presos se este batesse neles. É ou não é verdade?
— Sim, senhor diretor, não somente o ameaçamos, mas qualquer um que queira se divertir batendo em nós será assassinado..
— E se for um soldado?
— A mesma coisa. Nada fizemos para ter de agüentar um regime desses. Nossas leis e nossos regimes penitenciários são talvez mais horríveis e desumanos que os seus, mas sermos esbordoados como animais é uma coisa que não podemos aceitar.
O diretor, virando-se triunfalmente para os oficiais, diz:
— Os senhores vêem que esses homens são muito perigosos!
O major da guarda mais idoso hesita um ou dois segundos e, para grande espanto de todos, declara:
— Esses fugitivos franceses têm razão. Nada na Venezuela justifica que eles sejam obrigados a cumprir uma pena e a obedecer aos regulamentos desta colônia. Dou razão a eles. Por isso, das duas, uma: ou o senhor arranja para eles um trabalho separado dos outros presos, ou eles não saem para trabalhar. Misturados com os outros, serão um dia agredidos por um soldado.
— Vamos tratar do assunto. No momento, eles que fiquem no campo. Amanhã direi o que se deve fazer.
E o diretor se retira, acompanhado pelo cunhado.
Agradeço aos oficiais. Eles nos dão cigarros e nos prometem ler, no relatório da noite, uma nota aos oficiais e soldados, advertindo-os de que não devem nos bater, sob qualquer pretexto.
Já estamos aqui há oito dias. Não trabalhamos mais. Ontem, domingo, passou-se uma cena pavorosa. Os colombianos tiraram a sorte para saber quem deveria matar o cabo Negro Blanco. A sorte caiu sobre um homem de trinta anos. Deram-lhe uma colher de ferro, com o cabo afiado sobre o cimento em forma de punhal pontiagudo e corte nos dois lados. Corajosamente, o homem manteve o pacto. Acaba de dar três estocadas, visando o coração do Negro Blanco. O cabo é levado com urgência para o hospital, enquanto o agressor é amarrado a um poste no meio do campo. Enlouquecidos, os soldados revistam tudo, procuram em toda parte outras armas. Desvairado, um deles, como eu não tirasse a calça bastante depressa, me deu uma lambada na coxa com a sua chibata. Barrière agarra um banco e o balança sobre a cabeça do soldado. Outro soldado lhe dá um golpe de baioneta que lhe atravessa o braço e, no mesmo momento, eu derrubo a sentinela que me bateu, com um pontapé na barriga. Já agarrei o fuzil no chão, quando se ouve uma ordem gritada com força:
— Parados! Não toquem nos franceses. Francês, largue o fuzil!
É o capitão Flores, aquele que nos recebeu no primeiro dia, que acaba de berrar essa ordem.
A intervenção desse oficial chegou no exato momento em que eu ia atirar no miserável. Se não fosse isso, teríamos matado um ou dois soldados mas também perdido a vida, estupidamente, no sertão da Venezuela, no fim do mundo, nesse presídio onde nada tínhamos que fazer.
Graças à enérgica intervenção do capitão, os soldados se afastam do nosso grupo e vão saciar mais adiante o seu desejo de carnificina. É então que assistimos à cena mais abjeta que se possa imaginar.
O infeliz amarrado ao poste no centro do campo é moído de pancadas, sem interrupção, por três homens ao mesmo tempo, um cabo e dois soldados. O suplício dura das 5 horas da tarde até o dia seguinte, às 6 da manhã. É muito demorado matar um homem somente com pancadas no corpo. O massacre foi interrompido algumas vezes, por alguns segundos, unicamente para perguntarem ao infeliz quem eram seus cúmplices, quem lhe fornecera a colher afiada. O homem não denunciou ninguém, nem mesmo com a promessa de pararem o suplício se falasse. Perdeu muitas vezes os sentidos. Atiraram-lhe baldes de água para reanimá-lo. O cúmulo da selvageria foi às 4 horas da manhã. Percebendo que a pele já não reagia sob os golpes, nem mesmo por contrações, os carrascos pararam de bater.
— Ele está morto? — pergunta um oficial.
— Não se sabe.
— Desamarrem ele e ponham de quatro.
Seguro por quatro homens, ele está mais ou menos de quatro patas no chão. Então um dos carrascos lhe manda uma pancada de nervo de boi justamente no rego das nádegas e a ponta do látego atinge e rasga as partes sexuais. Esse golpe magistral do refinado torturador consegue arrancar ao desgraçado um urro de dor.
— Continuem — diz o oficial —, ele não está morto.
Bateram nele até o raiar do dia. Essa tortura medieval, que teria matado um cavalo, não conseguiu liquidar com o homem. Depois de uma hora de descanso e vários baldes de água fria, ele consegue levantar-se, ajudado por dois soldados. Chega a ficar de pé sozinho, por um momento. O enfermeiro chega com um copo na mão:
— Beba esse purgante — diz o oficial —, você ficará bom.
O sujeito hesita, mas logo engole o purgante de uma só vez. Um minuto depois, ele desmorona para sempre. Agonizante, sai-lhe da boca uma frase:
— Imbecil, eles te envenenaram.
Inútil dizer que nenhum dos prisioneiros (nem os do nosso grupo) teve coragem de mexer um dedinho que fosse. Todo mundo, sem exceção, estava aterrorizado. Foi a segunda vez na minha vida que tive vontade de morrer. Durante alguns minutos fui tentado por um fuzil que um soldado segurava distraidamente não longe de mim. O que me reteve foi o pensamento de que seria certamente morto antes de poder manobrar a culatra e atirar na súcia de vândalos.
Um mês depois, o Negro Blanco era novamente, e mais do que nunca, o terror do campo. Contudo, estava escrito o seu destino, que era o de ser assassinado em El Dorado. Um soldado da guarda, certa noite, apontou-lhe a arma, quando passava perto dele:
— Fique de joelhos — ordena o soldado.
Negro Blanco obedece.
— Faça uma oração, você vai morrer.
Deixou-o fazer uma curta oração e o abateu com três baías de fuzil. Os prisioneiros diziam que o soldado o havia matado porque estava enojado de ver o carrasco bater como um tarado nos pobres prisioneiros. Outros contavam que Negro Blanco havia denunciado o soldado aos seus superiores, dizendo que o conhecera em Caracas como ladrão, antes do serviço militar. Foi enterrado não longe do homem que tentara matá-lo, ladrão certamente, mas homem de coragem e de valor pouco comuns.
Todos esses acontecimentos impediram que se tomasse uma decisão a nosso respeito. Aliás, os outros prisioneiros ficaram quinze dias sem sair para trabalhar. O golpe de baioneta que Barrière recebeu foi muito bem tratado por um médico da aldeia.
No momento, somos respeitados. Chapar partiu ontem para a aldeia, para trabalhar como cozinheiro do diretor. Guittou e Barrière foram libertados, pois chegaram da França informações sobre nós todos. Como eles já haviam cumprido a pena, foram postos em liberdade. Eu tinha dado um nome falso, italiano; mas veio a ficha com meu verdadeiro nome, impressões digitais e indicação da minha pena de prisão perpétua; também a informação de que Deplanque e Chapar estão condenados a vinte anos. Muito orgulhoso, o diretor nos comunica as notícias recebidas da França:
— Todavia — diz ele —, já que vocês não cometeram nenhum delito na Venezuela, vamos segurar vocês durante algum tempo e depois libertá-los. Mas, para isso, vocês precisam trabalhar e comportar-se bem: vocês estão em período de observação.
Conversando comigo, os oficiais haviam-se queixado várias vezes da dificuldade de obter legumes frescos na aldeia. A colônia tem um campo de agricultura, mas não produz legumes. Só cultiva arroz, milho, feijão preto e nada mais. Ofereço-me para fazer uma horta, se me derem as sementes. Eles aceitam.
Primeira vantagem: saímos do campo. Deplanque e eu, e, como chegaram mais dois deportados presos em Ciudad Bolivar, eles se juntam a nós. Um é parisiense, chama-se Totó, e o outro é natural da Córsega. Trabalhando em equipe de quatro, fazemos duas casinhas bem construídas em madeira e cobertas de folhas de palmeira. Numa delas, moramos Deplanque e eu; na outra, moram os dois companheiros.
Totó e eu construímos umas mesas bastante altas, cujas pernas são mergulhadas em latas cheias de gasolina, para evitar que as formigas subam e comam as sementes. Logo dispomos de brotos robustos de tomates, berinjelas, melões e ervilhas verdes. Começamos a replantá-los em canteiros comuns, pois agora os brotos são bastante fortes para resistir às formigas. Para plantar os novos tomateiros, cavamos em volta uma espécie de fosso, que será mantido cheio de água. Dessa maneira, a terra ficará sempre úmida e os parasitas, muito numerosos nesta terra virgem, não poderão chegar até as nossas plantas.
— Ora veja, o que é isto? — diz Totó. — Olhe como brilha esta pedrinha.
— Lave bem ela, meu chapa.
E ele me passa a pedra. É um pequeno cristal do tamanho de um grão-de-bico. Depois de lavado, brilha ainda mais no lado em que a sua ganga está quebrada, pois a pedra está recoberta por uma espécie de casca de arenito muito dura.
— Será que não é um diamante?
— Cale essa boca, Totó. Não é hora de falar, se for um brilhante. Você já pensou se a gente tivesse a sorte de encontrar uma mina de diamantes? Vamos esperar até de noite e esconderei esse troço.
À noite, estou dando lições de matemática a um cabo (hoje coronel, que se prepara para o exame de oficialato. Esse homem, dotado de nobreza de alma e retidão a toda prova (que me demonstrou durante mais de 25 anos de amizade), é agora o Coronel Francisco Bolagno Utrera.
— Chico, o que é isto? É um cristal de rocha?
— Não — diz ele, após examinar minuciosamente a pedra. — É um diamante. Esconda bem e não deixe ninguém ver. Onde foi que você encontrou?
— Na minha plantação de tomates.
— Isso é meio esquisito. Será que você não o pegou quando tirava água do rio? Você não arrasta o balde e tira um pouco de areia com a água?
— Justamente, é o que acontece.
— Então é isso. Você tirou do rio Caroni esse brilhante. Você pode procurar, mas preste atenção para ver se não pegou outras pedrinhas, porque a gente nunca encontra uma pedra preciosa isolada. Onde se encontra uma, é garantido que há outras mais.
Totó se põe a trabalhar com afinco.
Nunca trabalhou tanto em sua vida. Os nossos dois companheiros, a quem nada havíamos contado, diziam para ele:
— Pára de trabalhar, Totó! Você quer se rebentar, trazendo tantos baldes de água do rio! E você ainda traz areia com a água!
— É para que a terra fique mais leve, meu chapa — respondia Totó. — Misturando com areia, ela filtra melhor a água.
Totó, apesar das brincadeiras de nós todos, continua a carregar baldes de água sem parar. Certa vez, era meio-dia, ele tropeça e se esparrama diante de nós que estamos sentados na sombra. E, no meio da areia derramada, aparece uma pedra com duas vezes o tamanho de um grão-de-bico. A ganga, mais uma vez, está quebrada; se não fosse isso, não se veria a pedra. Mas Totó se trai, escondendo a pedra muito depressa.
— Ora, ora — diz Deplanque, será que não é um diamante? Uns soldados me disseram que esse rio tem muito ouro e diamantes.
— É por isso que eu carrego tanta água! Vocês vêem que não sou tão cretino como vocês pensam! — diz Totó, satisfeito de poder finalmente explicar por que motivo ele trabalha tanto.
Encurtando a história, em seis meses Totó reúne de 7 a 8 quilates de brilhantes. Quanto a mim, tenho uma dúzia deles, além de mais de trinta pedrinhas menores, e o negócio está-se tornando “comercial”, segundo a gíria dos mineradores. E um belo dia encontro uma pedra de mais de 6 quilates, a qual, lapidada mais tarde em Caracas, rendeu mais ou menos 4 quilates. Essa pedra está ainda comigo e eu a trago sempre no dedo, nunca a tiro. Deplanque e Antartaglia também conseguiram juntar algumas pedras preciosas. Ainda estou de posse do canudo que usava na penitenciária e coloquei as pedras dentro dele. Também os meus companheiros fabricaram umas imitações de canudos em chifre de boi, dentro dos quais eles guardam suas pequenas fortunas.
As autoridades não sabem de nada, salvo o futuro coronel, o cabo Francisco Bolagno. Os tomates e as outras plantas cresceram. Os oficiais pagam escrupulosamente pelos legumes que levamos todos os dias à sua mesa.
Gozamos de relativa liberdade. Trabalhamos sem qualquer vigilante e dormimos em nossas duas casinhas. Nunca mais vamos para o campo de trabalho. Somos respeitados e bem tratados. Naturalmente, sempre que se apresenta a oportunidade, insistimos com o diretor para que nos ponha em liberdade. Cada vez, ele responde “logo mais”, porém já estamos aqui há oito meses e nada acontece. Começo então a falar de fugir. Totó não quer saber de nada. Os outros também. Para estudar o rio, arranjei uma linha de pesca e uma isca. Assim também posso vender peixe, especialmente as famosas piranhas, peixes carnívoros que chegam a pesar 1 quilo e cujos dentes estão dispostos como os dos tubarões, e são tão terríveis como os deles ou ainda mais.
Hoje deu-se um alarma geral. Gaston Duranton, o Torto, fugiu, carregando 70 000 bolívares do cofre do diretor. Esse duro tem uma história original.
Ainda criança, achava-se no reformatório da Ilha de Oléron e trabalhava como sapateiro na oficina. Um dia, rebenta-se a correia de couro que segura o calçado sobre o joelho e passa por baixo do pé. O menino desloca o quadril. Mal tratado, o quadril solda-se pela metade e ele fica torto por toda a sua vida de menino e parte de sua vida adulta, como veremos mais adiante. Vai para a colônia penal aos 25 anos. Não é de admirar que, depois de longas temporadas em reformatórios de menores, ele tenha se transformado em experimentado ladrão.
Toda a gente o chama de Torto. Quase ninguém conhece seu verdadeiro nome, Gaston Duranton. Torto ficou, Torto é chamado. Apesar de manquitola, ele consegue escapar do presídio e chegar à Venezuela. Deu-se isto no tempo do tirano Gómez. Poucos fugitivos sobreviveram à sua repressão. Houve algumas exceções: por exemplo, o Dr. Bougrat, porque ele salvou toda a população da ilha das pérolas margarita, ameaçada por uma epidemia de febre amarela.
O Torto, detido pela “sagrada” (era o nome da polícia especial do ditador Gómez), foi mandado trabalhar nas estradas da Venezuela. Os prisioneiros franceses e venezuelanos eram mantidos acorrentados a bolas de ferro que traziam gravada a flor-de-lis das galés de Toulon. Quando os franceses se queixavam, os guardas diziam: “Mas estas correntes, estas algemas, estas bolas vêm do seu país! Vejam só a flor-de-lis!” Para encurtar, o Torto evadiu-se do campo volante onde trabalhava na abertura da estrada. Foi recapturado em alguns dias e devolvido ao presídio ambulante. Diante de todos os presos, deitam-no pelado, de bruços, e o condenam a receber cem golpes de nervo de boi.
É muito raro que um homem resista a mais de oitenta golpes. A sorte que ele tem é de ser magro, pois, deitado de bruços, as pancadas não podem lhe atingir o fígado, órgão que rebenta se for atingido diretamente. É costume, depois dessa flagelação, em que as nádegas ficam retalhadas, jogar sal sobre a carne lanhada e deixar o homem esticado ao sol. Contudo, cobrem-lhe a cabeça com uma folha de bananeira ou outra planta, pois admitem que o homem morra de pancadas, mas não de insolação.
O Torto sai vivo desse suplício digno da Idade Média e, quando se levanta pela primeira vez, verifica, muito surpreso, que não está mais torto. As pancadas quebraram-lhe a soldadura mal feita e lhe colocaram a anca exatamente no lugar. Soldados e prisioneiros gritam “Milagre!”, ninguém compreende o que aconteceu. Nesse país supersticioso, acreditam que foi Deus que o recompensou por ter resistido dignamente às torturas. A partir desse dia, tiram-lhe os ferros e a bola. Passa a ser protegido e fica encarregado da distribuição de água aos trabalhadores forçados. Ele então se desenvolve fisicamente e, comendo bastante, transforma-se num rapaz grande e atlético.
A França veio a saber que os sentenciados fugidos trabalhavam na construção de estradas na Venezuela. Pensando que essas energias seriam melhor aproveitadas na Guiana Francesa, o Marechal Franchet d’Esperey foi enviado como embaixador especial para solicitar ao ditador — muito feliz com essa mão-de-obra gratuita — a devolução desses homens à França.
Gómez aceita e, em Puerto Cabello, um navio vem buscá-los. Aí acontecem brincadeiras terríveis e de mau gosto, pois há homens que procedem de outros campos de trabalho e não conhecem a história do Torto.
— Eh! Marcel, como vai?
— Quem é você?
— O Torto.
— Você está rindo, não deboche — respondiam todos os outros, vendo esse rapaz forte, bem aprumado, sobre pernas firmes.
O Torto, que era moço e brincalhão, durante todo o tempo que durou o embarque, não deixou de interpelar todos os seus conhecidos. E todos, hem entendido, não podiam compreender como o Torto se havia endireitado. De volta à Guiana, fiquei sabendo da história pela sua própria boca e outros presidiários confirmaram o episódio na Ilha Royale.
Evadido de novo em 1943, veio parar em El Dorado. Como já vivera na Venezuela — e certamente não contou que fora como prisioneiro —, arranjou logo o lugar de cozinheiro, substituindo Chapai”, que passou a jardineiro. Trabalhava na casa do diretor, na aldeia situada na outra margem do rio.
No escritório do diretor se achava o cofre e o dinheiro da colônia. Naquele dia, roubou 70 000 bolívares, que correspondiam então a mais ou menos 20 000 dólares. Foi isso que provocou a algazarra em nossa horta: o diretor, o cunhado do diretor, os dois majores da guarda nacional. O diretor queria nos mandar imediatamente para o campo de concentração. Os oficiais recusaram, talvez interessados no fornecimento de legumes e verduras. Conseguimos finalmente convencer o diretor de que nada sabíamos do caso; se tivéssemos sabido, teríamos fugido com o Torto, talvez, mas afinal de contas o nosso objetivo era ficar na Venezuela e não na Guiana Inglesa, único lugar para onde ele poderia ter fugido. Poucos dias depois, guiados pelos urubus que o devoravam, os policiais encontraram o seu cadáver a mais de 70 quilômetros dentro da mata, bem perto da fronteira inglesa.
A primeira versão, a mais cômoda, foi que ele fora assassinado pelos índios. Muito mais tarde, um homem foi preso em Ciudad Bolivar. Estava trocando notas de 500 bolívares, novas demais. O banco que havia entregue o dinheiro ao diretor da colônia penal de El Dorado anotara os números, o que comprovou que se tratava das mesmas notas. O sujeito confessou e deu o nome de dois cúmplices, que nunca foram encontrados. Essa foi a vida e foi assim que acabou meu bom amigo Gaston Duranton, alcunhado Torto.
Reservadamente, alguns oficiais mandaram uns prisioneiros procurar ouro e brilhantes no rio Caroni. Os resultados foram positivos, não espetaculares, mas suficientes para estimular as pesquisas. Na parte baixa da minha horta, dois homens trabalham o dia todo com a bateia, uma espécie de chapéu chinês invertido, a ponta para baixo e a beirada para cima. Enchem a bateia de terra e vão mexendo. Como o diamante é mais pesado que os demais elementos que o cercam, ele fica no fundo do “chapéu”. Já houve um morto: estava roubando seu “patrão”. Em conseqüência desse pequeno incidente, foram suspensos os trabalhos nessa “mina” clandestina.
No campo, há um sujeito com o torso todo tatuado. No pescoço está escrito: “Merda para o barbeiro”. É paralítico do braço direito. Sua boca torta e a língua quase sempre pendente e babosa indicam claramente que sofreu um ataque de hemiplegia. Onde foi que isso aconteceu? Ninguém sabe. Estava aqui antes da nossa chegada. O certo é que é um sentenciado ou um deportado que se evadiu. No peito está tatuado “Bat d’Af” (Batalhão Penitenciário da África). Esta tatuagem e a tal de “Merda para o barbeiro” que se lê na nuca comprovam, sem qualquer dúvida, que se trata de um duro.
Ele é chamado Picolino. pelos guardas e pelos presos. É bem tratado e recebe escrupulosamente a sua comida, três vezes ao dia, ganhando também cigarros. Seus olhos azuis são muito expressivos e seu olhar nem sempre é triste. Quando olha para alguém de quem gosta, suas pupilas brilham de alegria. Compreende tudo o que lhe dizem, mas não pode nem falar nem escrever: o braço direito paralisado não o permite, e na mão esquerda faltam o polegar e mais dois dedos. Esta ruína humana fica grudada nos fios de arame farpado, esperando para me ver passar com os legumes, pois é o caminho que tomo para ir à cantina dos oficiais. Por isso, toda manhã, quando passo com meus legumes, paro um pouco para conversar com Picolino. Encostado nos fios de arame, ele me olha com seus belos olhos azuis cheios de vida, brilhando num corpo quase morto. Eu lhe digo umas palavras amáveis e ele, com a cabeça ou as pálpebras, me faz compreender que “pegou” toda a conversa. Seu pobre rosto paralisado ilumina-se por um momento e seus olhos brilham, parecendo querer dizer muitas coisas. Levo sempre para ele alguns petiscos: uma salada de tomate, alface ou pepino, bem preparada com molho vinagrete, um pequeno melão ou um peixe assado na brasa. Ele não tem fome, porque a comida é abundante no presídio colombiano, mas assim pode variar um pouco o cardápio. Também sempre lhe dou alguns cigarros. Esta rápida visita ao Picolino se transformou em rotina, tanto que os soldados e os presos já estão chamando ele de “filho do Papillon”.
A LIBERDADE
É uma coisa esquisita, mas os venezuelanos são tão simpáticos, tão cativantes, que resolvi acreditar neles. Não quero mais fugir. Embora prisioneiro, aceito essa situação anormal, esperando um dia fazer parte desse povo. Pode parecer um paradoxo. A sua maneira selvagem de tratar os presos não deveria me encorajar a viver nessa terra, mas percebo que eles acham coisa normal os castigos corporais, tanto os presidiários como os soldados. Se um soldado comete uma falta, também recebe umas chicotadas. E, alguns dias depois, esse mesmo soldado conversa com o mesmo cabo, sargento ou oficial que o havia espancado, com a maior naturalidade.
Esse bárbaro sistema é uma reminiscência da ditadura Gómez, que assim tratou o povo venezuelano durante longos anos. O costume sobreviveu, de modo que um chefe civil ainda castiga os habitantes que estão sob a sua jurisdição dessa maneira, isto é, com algumas chibatadas.
É graças a uma revolução que estou em vésperas de ser libertado. Um golpe de Estado, meio civil e meio militar, derrubou da sua poltrona o presidente da República, General Angarita Medina, um dos maiores liberais que a Venezuela conheceu. Era tão bom, tão democrata, que não soube ou não pôde resistir ao golpe de Estado. Ao que dizem, recusou-se categoricamente a derramar o sangue de seus patrícios para se manter no poder. É certo que esse grande militar democrata não estava a par do que se passava em El Dorado.
De qualquer maneira, um mês após a revolução, todos os oficiais são substituídos. É aberto inquérito a respeito daquele infeliz que foi morto por um “purgante”. O diretor do presídio e o seu cunhado desaparecem e são substituídos por um antigo diplomata e advogado.
— Sim, Papillon, vou pô-lo em liberdade amanhã, mas gostaria que você levasse consigo o pobre Picolino, por quem tanto interesse tem demonstrado. Ele não possui qualquer identidade, mas vou conseguir uma carteira para ele. Quanto a você, aqui está uma carteira de identidade, perfeitamente em ordem e com seu nome verdadeiro. As condições são as seguintes: você tem que viver numa cidadezinha do interior durante um ano, antes de poder se estabelecer numa grande cidade. Será uma espécie de liberdade provisória, não vigiada, mas que nos permitirá ver você viver e observar a maneira como você se defende na vida. Se no fim de um ano, como acredito, o chefe civil da localidade lhe der um atestado de boa conduta, então ele próprio dará fim ao seu confinamiento. Creio que Caracas será para você a cidade ideal. De qualquer maneira, você está autorizado a viver legalmente neste país. Seu passado, para nós, não interessa. Fica a seu cargo demonstrar que você está à altura da oportunidade que lhe damos de se transformar em homem respeitável. Espero que, antes de cinco anos, você se tornará meu patrício, mediante uma naturalização que lhe dará nova pátria. Que Deus o acompanhe! Obrigado por concordar em tomar conta desse destroço que é o Picolino. Só posso libertá-lo se alguém assumir por escrito a responsabilidade de tratar dele. Esperemos que num hospital ele consiga ficar bom.
É amanhã às 7 horas que vou poder sair em plena liberdade, na companhia de Picolino. Uma onda de calor invade meu coração; finalmente, deixei para sempre o caminho da podridão. Estamos em agosto de 1944. Há treze anos que estou esperando este dia.
Quis ficar sozinho na minha casinha da horta. Pedi desculpas aos meus companheiros, preciso estar só. A emoção é muito forte e muito bela para que eu a possa mostrar aos outros. Viro e reviro nas mãos a carteira de identidade que me foi entregue pelo diretor: minha fotografia no canto esquerdo, em cima o número 1 728 629, emitida em 3 de julho de 1944. Bem no centro, meu sobrenome; embaixo, meu nome de batismo. Atrás, a data do nascimento, 16 de novembro de 1906. O documento de identidade está perfeitamente em ordem; está mesmo assinada e carimbada pelo diretor da Identificação. Minha situação na Venezuela: “Residente”. É formidável, essa palavra “residente” significa que sou domiciliado na Venezuela. Meu coração bate descontroladamente. Gostaria de me pôr de joelhos e agradecer a Deus, mas não sei rezar e não fui batizado. A que Deus vou me dirigir se não pertenço a nenhuma religião? Ao bom Deus dos católicos? dos protestantes? dos judeus? dos muçulmanos? Qual deles vou escolher para lhe dedicar a oração que vou ser obrigado a inventar em todas as palavras, já que não sei nenhuma oração completa? Mas por que procuro hoje o Deus a quem me dirigir? Pois em toda a minha vida, quando o chamei ou o amaldiçoei, não pensei nesse Deus menino Jesus em sua manjedoura, ao lado do boi e do burro? Será que no meu subconsciente ainda guardo rancor às boas freiras da Colômbia? E. então, por que não pensar somente no único, no sublime bispo de Curaçau, Dom Irénée de Bruyne, ou, ainda mais longe, no bom padre da Conciergerie?
Amanhã estarei livre, completamente livre. Dentro de cinco anos serei venezuelano naturalizado, pois estou certo de não cometer nenhuma falta nesta terra que me deu asilo e me renovou a confiança. Preciso ser, na vida, duas vezes mais honesto que qualquer um.
De fato, se sou inocente do homicídio de que me acusaram, e pelo qual um promotor, alguns tiras e doze jurados cretinos me despacharam para os duros, isto só pôde acontecer porque eu era um vagabundo, um marginal. Foi porque eu era um aventureiro que puderam facilmente tecer em torno de mim aquele amontoado de mentiras. Abrir os cofres dos outros não é profissão muito recomendável e a sociedade tem o direito e o dever de se defender. Se fui lançado, finalmente, no caminho da podridão foi porque, devo reconhecê-lo honestamente, eu era candidato permanente a ser para lá enviado algum dia. Se o castigo não foi digno de um país como a França, se uma sociedade tem o dever de se defender, mas não de se vingar tão sordidamente, isso é outra questão. Meu passado não pode ser apagado com uma simples esfregadela de esponja, preciso me reabilitar aos meus próprios olhos e, a seguir, aos olhos dos outros. Agradeça portanto, Papi, ao bom Deus dos católicos, prometa-lhe fazer algo muito importante.
— Meu Deus, perdoe se não sei rezar, mas olhe dentro de mim e verá que não tenho palavras bastantes para expressar minha gratidão por você ter me conduzido até aqui. A luta foi dura, a subida desse calvário que me foi imposto pelos homens não foi fácil e, por certo, se consegui ultrapassar todos os obstáculos e continuar a viver com saúde até este dia bendito, foi porque você tinha a mão sobre mim para me ajudar e proteger. Que posso fazer para provar que estou sinceramente agradecido pela sua bondade?
— Renunciar à vingança.
Será que ouvi, ou pensei ter ouvido essa frase? Não sei, mas ela me atingiu tão brutalmente (como se fosse uma bofetada), que quase acredito que a escutei realmente.
— Oh, não! Isso não! Não me peça isso. Essa gente me fez sofrer demais. Como é que você quer que eu perdoe os tiras corruptos, a falsa testemunha, Polein? Como vou desistir de arrancar a língua do promotor desumano? Não é possível. Você está pedindo muita coisa. Não, não e não! Sinto muito contrariá-lo, mas por preço nenhum deixarei de executar minha vingança.
Saio, tenho medo de fraquejar, não quero abdicar. Dou alguns passos na minha horta. Totó está arranjando as hastes de feijão para que subam e se enrolem nas estacas. Os três se aproximam de mim: Totó, o parisiense esperançoso das “bocas do lixo” da Rua de Lappe, Antartaglia, batedor de carteira, nascido na Córsega, mas que durante muitos anos “aliviou” os bolsos dos parisienses, e Deplanque, natural de Dijon, que matou um cafetão seu colega. Olham para mim, seus rostos mostram alegria pela minha liberdade. Logo será a vez deles, decerto.
— Você não trouxe da aldeia uma garrafa de vinho ou de rum para festejar a partida?
— Me desculpem, mas eu estava tão emocionado, que nem pensei nisso. Me perdoem o esquecimento.
— Mas não, nada temos a perdoar, vou fazer um bom café — diz Totó.
— Você está contente, Papi, porque você está definitivamente livre depois de tantos anos de luta. Estamos felizes por você.
— Espero que logo chegará a vez de vocês.
— Certo — diz Totó —, o capitão me disse que a cada quinze dias vai sair um de nós. O que vai fazer quando estiver em liberdade?
Hesitei um ou dois segundos, mas, corajosamente, embora receando parecer um pouco ridículo diante desse degredado e dos dois duros, respondi:
— O que vou fazer? Ora, não é complicado: vou começar a trabalhar e hei de ser sempre honesto. Neste país que me abriu um crédito de confiança, eu teria vergonha de cometer um delito.
Em vez de uma resposta irônica, fico surpreendido, porque todos os três dizem, quase ao mesmo tempo:
— Eu também decidi viver corretamente. Você tem razão, Papillon, vai ser duro, mas vale a pena e esses venezuelanos merecem o nosso respeito.
Não acredito no que ouço. Totó, o malandro do submundo do bairro da Bastilha, agora com essas idéias? É realmente assombroso! E Antartaglia, que viveu toda a vida esvaziando os bolsos dos outros, falando desse jeito? É maravilhoso. E Deplanque, cafetão inveterado, renunciando aos seus projetos de achar uma mulher para explorá-la? Isso é ainda mais espantoso. Todos começamos a rir juntos.
— Puxa! Esta história então vale ouro e, se você voltar amanhã a Montmartre, aparecer na Place Blanche, e contar ao pessoal, ninguém vai acreditar!
— Os homens da nossa laia vão acreditar, sim. Eles compreenderiam, meu chapa. Os que não podem admitir isso são os burgueses decadentes. A grande maioria dos franceses deformados não admite que uma pessoa possa, com o passado que temos, se transformar num homem de bem em todos os sentidos. Aí está a diferença entre o povo venezuelano e o nosso. Eu lhes contei a opinião daquele sujeito de Irapa, um pobre pescador, explicando ao chefe civil que um homem nunca está perdido para sempre, que é preciso lhe dar uma chance e ajudá-lo para que se transforme em pessoa honesta. Esses pescadores quase analfabetos do golfo de Paria, no fim do mundo, perdidos no imenso estuário do Orinoco, têm uma filosofia humanista que falta a muitos dos nossos concidadãos. Excesso de progresso mecânico, vida agitada, sociedade que só tem um ideal: novas invenções mecânicas, vida sempre mais fácil e melhor. Saborear as descobertas da ciência como se lambe um sorvete é coisa que provoca uma sede de conforto ainda maior e o desejo de lutar constantemente para o conseguir. Tudo isso mata a alma, destrói a compaixão, a solidariedade, a compreensão e a nobreza. Não há tempo para cuidar dos outros, e muito menos dos que já sofreram alguma condenação. Até mesmo as autoridades deste sertão são diferentes das nossas, pois elas são responsáveis pelo sossego público e, apesar disso, se arriscam a graves aborrecimentos, só por estarem convencidas de que vale a pena arriscar um pouco para salvar um homem. E isso é uma coisa magnífica.
Ganhei um belo terno azul-marinho, oferecido pelo meu aluno, hoje coronel. Ele partiu faz um mês para a escola de oficiais, classificado entre os três primeiros no concurso. Estou satisfeito em ter contribuído para o seu sucesso, com as aulas que lhe dei. Antes de partir, ele me ofereceu roupas quase novas que me vão muito bem. Vou sair decentemente vestido graças a ele, Francisco Bolagno, cabo da guarda nacional, casado e pai de família.
Esse oficial superior, hoje coronel da guarda nacional, me honrou durante 26 anos com a sua amizade nobre e indestrutível. Simboliza realmente a retidão, a nobreza e os sentimentos mais elevados que um homem pode possuir. Apesar da sua alta posição na hierarquia militar, nunca deixou de me testemunhar a sua fiel amizade, nem de me ajudar em tudo e por tudo. Devo muito ao Coronel Francisco Bolagno Utrera.
Sim, vou fazer o impossível para me tornar e permanecer honesto. O único inconveniente é que nunca trabalhei, não sei fazer nada. Terei que fazer qualquer coisa para ganhar a vida. Não há de ser fácil, mas tenho certeza de que conseguirei. Amanhã serei um homem igual aos outros. Promotor, você perdeu a partida: saí definitivamente do caminho da podridão.
Viro-me e reviro-me na rede, no nervosismo da última noite de minha odisséia como prisioneiro. Levanto-me, atravesso a horta, que trabalhei tão bem nestes últimos meses. A lua ilumina tudo como se fosse dia. A água do rio corre sem ruído para a embocadura. Não se ouvem pássaros, estão dormindo. O céu está cheio de estrelas, mas a lua brilha tanto, que é preciso ficar de costas para ela, para poder ver as estrelas. Ã minha frente, a floresta virgem, com apenas uma clareira, onde se ergue a aldeia de El Dorado. Descanso nessa profunda paz da natureza. Minha agitação diminui aos poucos e a serenidade do momento dá a calma de que necessito.
Consigo imaginar muito bem o lugar onde, amanhã, desembarcarei da chata para pisar a terra de Simón Bolívar, o homem que libertou este país do jugo espanhol e que legou aos seus filhos os sentimentos de humanidade e de compreensão, graças aos quais tenho hoje a possibilidade de recomeçar a minha vida.
Estou com 37 anos, sou ainda moço. Meu estado tísico é perfeito. Nunca estive seriamente doente e posso afirmar que meu equilíbrio mental é perfeitamente normal. O caminho da podridão não deixou marcas degradantes em mim porque, na realidade, acredito que nunca me adaptei a ele.
Nas primeiras semanas da minha liberdade, terei que achar um modo de ganhar a vida, e terei ainda que tratar e fazer viver o pobre Picolino. Foi uma grande responsabilidade que assumi. Contudo, apesar de constituir um fardo pesado para mim, vou cumprir a promessa feita ao diretor e não abandonar esse infeliz até que possa interná-lo num hospital, entregue a mãos competentes.
Vou comunicar a meu pai que estou livre? Há muitos anos que ele não tem notícias minhas. Como vou saber onde está morando? As únicas notícias que teve a meu respeito foram as visitas da polícia, em cada uma das minhas evasões. Não, não adianta ter pressa. Não tenho o direito de remexer na ferida que talvez os anos transcorridos já cicatrizaram. Vou escrever para ele quando estiver bem de vida, quando tiver adquirido uma situação modesta mas estável, livre de problemas, e quando lhe puder dizer: “Paizinho, teu filho está livre, tornou-se homem bom e honesto. Vive deste ou daquele jeito. Não precisas mais baixar a cabeça quando falam dele, e é por isso mesmo que te escrevo, e para te dizer que te amo e que te venero sempre”.
Estamos em plena guerra mundial. Quem sabe se os alemães se instalaram em minha pequena aldeia natal? O departamento de Ardèche não é uma região muito importante da França. A ocupação ali não deve ser muito rigorosa. Que é que os alemães iriam fazer lá, a não ser colher castanhas? Sim, só vou escrever para casa quando estiver com a vida em ordem.
E agora, para onde vou? Acho que ficarei nas minas de ouro, num lugar chamado Callao. Aí poderei passar o ano que me pediram para viver numa pequena comunidade. Que vou fazer ali? Quem é que sabe! Mas não quero levantar problemas antes tia hora. Mesmo que tenha de cavar a terra para ganhar meu pão, estou disposto a fazer isso mesmo. A primeira coisa a fazer é aprender a viver em liberdade. Não vai ser fácil. Faz treze anos — com exceção daqueles poucos meses em Georgetown — que não tenho a preocupação de saber de onde vem a comida. Todavia, em Georgetown, eu soube me defender. A aventura continua, tenho que inventar uns truques para viver, naturalmente sem fazer ma! a ninguém. Vamos ver o que acontece. Amanhã, então, Callao.
São 7 horas da manhã. Belo sol tropical, céu azul sem nuvens, passarinhos cantando sua alegria de viver, meus amigos todos reunidos à porta da nossa horta, Picolino vestido à paisana e bem barbeado. Parece que a natureza, os bichos e os homens respiram contentamento e festejam a minha libertação. Um tenente se acha entre os meus amigos, ele vai nos acompanhar até a aldeia de El Dorado.
— Mais um abraço — diz Totó, — e vá embora. É melhor para todo mundo acabar logo com isso.
— Adeus, meus chapas. Quando vocês passarem por Callao, venham me procurar. Se eu tiver uma casa, ela estará aberta para vocês.
— Adeus, Papi, boa sorte!
Dirigimo-nos rapidamente para o embarcadouro e subimos na chata. Picolino caminha muito bem. Ele está paralisado só dos quadris para cima, as pernas se mexem bem. Em menos de quinze minutos, atravessamos o rio.
— Vamos, aqui estão os papéis de Picolino. Boa sorte, franceses. Vocês estão livres a partir deste momento. Adiós!
Pois, vejam, não foi difícil largar as correntes que carregávamos havia treze anos! “Vocês estão livres a partir deste momento.” Viram as costas para você e abandonam a vigilância. E nada mais. O caminho de pedregulhos que sobe do rio é logo transposto. Só temos um pacotinho com três camisas e uma calça para trocar. Estou com o terno azul-marinho, uma camisa branca e uma gravata azul para combinar.
Mas é claro que não se reconstrói uma vida como se costura um botão de calça. E se hoje, 25 anos depois, sou casado, tenho uma filha, vivo feliz em Caracas como cidadão venezuelano, isso se deve a muitos outros acontecimentos, a sucessos e fracassos, mas sempre como homem livre e cidadão correto. Talvez um dia eu venha a contar estas últimas aventuras, bem como algumas outras histórias um pouco banais que não couberam nesta narrativa.
Henri Charrière
Henri Charrière tornou-se famoso da noite para o dia, como Papillon, ao escrever um livro sobre a extraordinária aventura de sua vida — a fantástica história que se iniciou quando ele foi condenado, aos 25 anos, em 1932, à prisão perpétua, que o levou ao presídio de Cayena, do qual, depois de várias tentativas, conseguiu fugir.
Seu livro, que teve por título a sua alcunha, “Papillon”, alcançou, ao ser traduzido para as mais diversas línguas, mais de catorze milhões de exemplares. Coro as suas sucessivas edições, os lucros do autor se elevaram a cerca de quatro milhões de dólares, afora seiscentos mil dólares que recebeu pela adaptação cinematográfica da obra. Esse um aspecto de seu sucesso editorial. Mas ele obteve outros tipos de consagração, como a conferência que pronunciou, em 1969, na Faculdade de Direito da Universidade da Sorbonne, em Paris. Cidade em que também se realizou uma “Noite da Borboleta”, em homenagem a “Monsieur” Henri Charrière, ou antes, Papillon (Borboleta). À festa compareceram mais de quinhentas personalidades, entre escritores, políticos, juristas, artistas, etc. Papillon havia-se transformado numa atração da sociedade parisiense.
O livro “Papillon” pode ser considerado como um exemplo típico de literatura “oral”; suas aventuras foram narradas com emoção e clareza. A verdade é que ele — indomável, jovial, inteligente, espontâneo, falador e sensível — soube estabelecer uma adequação perfeita entre o homem Henri Charrière e o personagem (verdadeiro) Papillon. Havia uma razão bastante profunda para isso: ambos nasceram, literariamente, de um só sofrimento, de uma só esperança de liberdade e de um mesmo amor, entranhado, à vida. Foi por isso, disse ele, que escreveu “Papillon”, nele “colocando toda a sua alma”. Henri Charrière faleceu em julho de 1973.
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