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PECADOS CONJUGAIS / Irving Wallace
PECADOS CONJUGAIS / Irving Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PECADOS CONJUGAIS

 

     Sábado à noite

     Tudo começou com um beijo casual dado no vestíbulo que levava ao quarto. O que aconteceu a seguir durou uma semana, Mas pareceu um ano. Foi um inferno.

     Quando tinham comprado aquele bongalow em Ridgewood Lane, havia já seis anos, Philip Fleming gostava muito de tomar o pequeno-almoço e o almoço na cozinha. A vista que se abria diante das grandes janelas, em frente da mesa, era incomparável. Haviam já passado muitos anos, quando, durante a lua-de-mel, ele e Helen tinham feito, de automóvel, o percurso de Paris a Roma, contornando as montanhas, acima das nuvens, vira, entre Rapallo e Spezia, o que então julgara ser a vista mais esfuziante do Mundo. Mas quando se tinham mudado para Ridgewood Lane, apercebeu-se de que só um snob apegado aos nomes prestigiosos poderia afirmar que a grande massa de edifícios alabastrinos minúsculos ao sol, que se estendiam de West Hollywood até Los Angeles, era menos bela.

     Mas isso fora seis anos antes. Desde então, Philip deixara de olhar conscientemente pela janela e de se extasiar perante aquela paisagem que era sua. Mas hoje tinha consciência dela. Apercebia-se de que, cada vez mais, ia vendo e gozando cada vez menos. Talvez porque agora estivesse a olhar, com frequência cada vez maior, para dentro de si.

     Era uma tarde vazia de sexta-feira, bastante cedo ainda, e estava sentado à mesa da cozinha, perto da grande janela, a comer o almoço que ele mesmo preparara e a ler distraidamente uma biografia de Ruskin. Gostava de estar só. Assim ninguém exigia nada de si. Logo que entrava em casa uma criança, o isolamento tornava-se raro. Mas Danny estava a brincar em casa dos Cochran, mais para o fundo do quarteirão. Helen estava no cabeleireiro. E ainda tinha mais quinze minutos para estar só.

     Prometera a Bill Markson ser pontual. Bill era franzino, calvo, instável como um catavento, e sofria do fetiche do tempo. Bill considerava o tempo como algo de pessoal e muito seu, e se uma pessoa não respeitava as horas, se não chegava a tempo, isso só podia significar que não se importava com ele, que não gostava dele. Mas a verdade é que gostava mesmo muito de Bill. Principalmente porque Bill gostava dele, era uma companhia agradável, e as suas anedotas eram tão intermináveis que não era preciso ouvi-las com muita atenção.

     Quando na manhã desse dia Bill telefonara a convidá-lo para irem às corridas de cavalos, aceitara com alacridade. Estava ainda na fase de descontracção do seu último trabalho para os estúdios e não sentia grande vontade de trabalhar. Confrontado com uma máquina de escrever num dia de semana, sem encomendas e sem directivas, teria de se enfrentar a si mesmo. E não estava com disposição para tal. A verdade é que já estava arrependido de ter aceitado o convite. O longo percurso até ao hipódromo, numa bicha interminável de carros, era cansativo, e a longa espera entre corridas era muito maçadora. Nas corridas, aquilo de que mais gostava era o momento excitante em que os animais arrancavam do gradeamento de partida e o súbito entusiasmo dos animais esforçando-se por passar em boa posição na primeira curva. Noutros tempos, gostava também da excitação das apostas. Agradava-lhe o aspecto Klondike de tudo aquilo: a possibilidade de ficar rico assim de repente, num grande bolo, e de satisfazer todas as suas fantasias. Mas, como era demasiado conservador para apostar grandes quantias com probabilidades duvidosas, a promessa excitante ficava em nada. Acabava por não valer o frete das esperas intermináveis.

     Deu uma olhadela ao relógio. Cinco minutos. Acabou rapidamente o café, meteu uma marca entre as páginas de Ruskin e dirigiu-se ao quarto para ir buscar um casaco. Do guarda-fato podia ver um pedaço do relvado da frente, rodeado por uma sebe baixa e sombreado pela folhagem do ulmeiro chinês, e o grande cartaz pregado junto à parte de tijolo: “PARA VENDA. NÃO INCOMODE OS OCUPANTES. DIRIJA-SE À AGÊNCIA BURDOCK.” Aquele cartaz irritava-o ligeiramente e, lá bem no fundo de si próprio, encolerizava-o contra Helen. A grande casa nova em Windsor, “The Briars”, fora ideia dela. Ela tinha a certeza de que não lhes havia de ser difícil vender aquela. Para maior segurança, tinham comprado a casa de Windsor fazendo uma hipoteca a longo prazo, mas a verdade é que já lá iam quatro meses e ainda não tinham vendido a casa e em breve teriam de se mudar para a nova e pagar um depósito bastante pesado. Ficar sobrecarregado com as despesas de duas casas obrigá-lo-ia a recorrer ao banco e essa ideia desagradava-lhe profundamente. E desagradava-lhe ainda mais a rejeição diária daquela casa que tão perfeitamente reflectia o seu gosto, as suas coisas.

     Enfiou o casaco, pegou na carteira e nas chaves que estavam em cima da mesa-de-cabeceira e dirigiu-se apressadamente para a porta. Já tinha a mão no puxador quando o telefone tocou. Se respondesse, poderia atrasar-se e ter de enfrentar a agitada censura de Bill. Se não atendesse, ficaria toda a tarde preocupado a magicar quem lhe teria querido falar. Levantou o auscultador.

     - Está lá!

     - É o Sr. Fleming? - A voz, na outra extremidade da linha, parecia a de um passarinho. - Aqui Sr.a Burdock, da agência. Como está?

     - Estou com pressa. A voz baixou de tom.

     - Oh! Espero que não vá sair. A Sr. a Fleming está?

     - Estou sozinho em casa.

     - Sr. Fleming, ia agora mesmo para aí, a fim de mostrar a casa. Tenho uma pessoa muito interessada. Está aqui mesmo a meu lado.

     Embora desencorajado acerca do assunto, da casa, sabia que não poderia deixar passar uma pessoa interessada.

     - Bom... quanto tempo precisa para chegar até aqui?

     - Estou nas proximidades. Tenho andado a mostrar à Sr. a Degen várias casas da minha lista... e de repente lembrei-me de que a sua é precisamente aquilo que ela quer. Estamos aí dentro de um minuto.

     - Está bem. Mas tente demorar pouco tempo. Desligou, depois voltou a levantar o auscultador e ligou para Bill Markson.

     - Bill? Fala Philip. Ia mesmo a sair a porta quando a mulher da agência me telefonou. Vem aí com uma pessoa para ver a casa. Não demoro muito.

     - Ora bolas, Phil, assim perdemos a primeira corrida.

     - Havemos de chegar a tempo.

     - O Ted está aqui com um grande palpite para a primeira corrida. Vê se te despachas.

     - Prometo.

     Colocou o auscultador no descanso e deitou uma olhadela crítica à sala de estar. Tudo parecia estar em ordem. O jogo de basebol de Danny estava aberto em cima da mesa de café. Reuniu apressadamente os dados, o bloco de marcações, o tabuleiro de jogo, os jogadores em miniatura e encafuou tudo dentro da caixa multicolorida. Começou a dirigir-se ao quarto de Danny, mas de repente deteve-se e dirigiu-se às estantes. Tirou dali dois livros: uma biografia ilustrada de Miro foi colocada como que por acaso em cima do aparelho de alta-fidelidade e o Kafka foi colocado em cima da mesinha de café. Este montar do cenário deixava-o sempre um pouco envergonhado, mas justificava-se perante si mesmo dizendo-se que uma casa devia ter um ar habitado e culto. Nunca se sabe quem vai aparecer e, às vezes, estas pequeninas coisas contam.

     Estava no quarto de Danny a encafuar o jogo de basebol numa prateleira já atafulhada de jogos e brinquedos quando tocou a campainha da porta. Deteve-se o tempo bastante para pegar no cachimbo, enchê-lo e acendê-lo rapidamente - de certo modo, um homem com um cachimbo aceso nunca parece ansioso -, e só então se dirigiu à porta.

     O rosto alongado, demasiado visto, da Sr. a Burdock

     - “Dá a impressão de que a mãe dela se assustou ao ver um Modigliani”, dissera ele a Helen quando a vira pela primeira vez - saudou-o com o seu esforçado sorriso profissional. Atrás dela vinham mais duas mulheres. Neste par, a que mais chamava a atenção era alta, ou melhor, dava a impressão de ser alta e esbelta. O cabelo, cortado curto, à maneira italiana, era escuro, em vincado contraste com os olhos verde pálido e a brancura imaculada da pele. O nariz era pequeno, arrebitado, sardento. Lábios generosos, de um vermelho-vivo. Por cima do ombro da Sr.a Burdock, Philip pasmou para aquele rosto jovem e sério, com a sensação de o ter visto algures, e logo se lembrou onde: num livro acerca de Marie Duplessis, a jovem cortesã francesa que inspirara a criação de Camille. Um fragmento da descrição de Marie Duplessis atravessou-lhe o cérebro, e ele aferiu-a em relação à jovem que ali estava: “Alta, muito esbelta, cabelos negros e uma pele branca e rosada. A cabeça era pequena; tinha longos olhos esmaltados, como os de uma japonesa, mas cintilantes e vivos. Os lábios eram mais vermelhos do que cerejas, e os dentes, os mais lindos do mundo; parecia uma estatueta de porcelana de Dresda.”

     Mal ouviu a voz de ave da Sr.a Burdock a apresentá-los:

     - A Sr.a Peggy Degen, o Sr. Philip Fleming. E esta senhora é uma amiga da Sr. a Degen...

     Forçou-se a olhar para a mulher mais madura que estava ao lado da Sr.a Degen. Viu uma massa confusa de cabelo castanho empilhado no topo de um rosto pesado, de feições largas; o fato caro, feito por medida, não ficava bem naquele vulto atarracado e imaginou que ela devia recortar todas as novas dietas para emagrecer que apareciam nas revistas femininas.

     - A Sr.a Dora Stafford.

     - Façam favor de entrar.

     Afastou-se e a Sr.a Burdock entrou, seguida pela Sr.a Stafford e pela Sr.a Degen. Quando esta última se cruzou com ele, deixou atrás de si o aroma delicado de um bom perfume francês, que evocou nele a imagem de uma estreita loja de vidros de Place Vendôme e de paris de raparigas a passearem de mãos dadas sob as árvores dos Campos Elíseos. Marie Duplessis. Fechou a porta.

     A Sr. a Burdock deteve-se no meio da sala e fez um gesto largo com o braço:

     - Então isto não é estupendo? É mesmo feito para receber com estilo!

     Peggy Degen observava a sala em silêncio. Philip não se mexia, mirava-a. Afinal, era mais baixa do que ele. E muito jovem. Uns vinte e seis anos, talvez. Trazia um sweater negro, bastante justo, que lhe deixava os ombros descobertos e lhe acentuava os seios pequenos mas firmemente pontiagudos. Uma saia rodada de algodão castanho, com cinto largo, sublinhava-lhe a cintura fina. Tinha uma postura magnífica.

     Ela virou-se de repente e apanhou-o a observá-la.

     - Foi muito amável da sua parte deixar-nos vir, Sr. Fleming. Mas sei que está com pressa...

     - Não... não... de modo nenhum...

     - Teria adiado para outro dia... mas tenho de decidir este fim-de-semana.

    - Ainda bem que vieram. Levem o tempo que for preciso. - Queria dizer algo mais, mas não sabia o que havia de ser. - A Sr. a Burdock já vos deve ter dito... os cortinados estão incluídos na venda. E as carpetas são novas. - Aquilo era palermice. Calou-se. - Bom... então, se me dão licença...

     Sentiu-se desajeitado ao atravessar a sala. Tinha a sensação de que os olhos dela o seguiam. Quando chegou ao vestíbulo, olhou para trás. Ela aproximara-se do aparelho de alta-fidelidade e estava a pegar na biografia de Miro.

     No atravancado escritório, sentou-se em frente da máquina de escrever, sentindo-se vagamente perturbado. Chegavam-lhe aos ouvidos, indistintamente, as vozes das mulheres que transitavam na sala de estar para a de jantar. Estava ansioso por se ir juntar a elas, mas ficou a brincar com o lápis. A Sr. a Peggy Degen. Perguntava a si mesmo se seria casada com alguém que trabalhasse nos estúdios. Talvez até já a tivesse encontrado antes, mas era pouco provável. Ter-se-ia lembrado, com certeza. Peggy Degen. Havia nela uma limpeza de linhas, um ar de sair da lavandaria, que ele achava atraente.

     Isso e os olhos ajaponesados, assim como aquela maneira de encaracolar uma das extremidades dos lábios como se fosse senhora de um segredo qualquer que lhe dissesse respeito.

     Tentou imaginar que impressão teria causado nela. Não que ela tivesse reparado nele. Virou-se na cadeira e espreitou-se ao espelho pendurado na outra parede. Tinha uma espessa cabeleira negra, prematuramente raiada de branco nas têmporas, muito invejada pelos homens da sua idade, que penteavam desesperadamente as derradeiras farripas tentando cobrir as cúpulas calvas, em que deixavam crescer, esperançadamente, espessas patilhas. As mulheres de outros homens estavam sempre a dizer a Helen que ele tinha um rosto triste. Sabia bem que isso era o resultado do desenho especial dos seus olhos: de pálpebras pesadas, castanhos, ligeiramente míopes. Quando não estava à secretária, raramente usava óculos, o que dava aos seus olhos aquela expressão fixa e ao mesmo tempo melancólica que as mulheres achavam interessante. Tinha um nariz direito que lhe agradava. Nos últimos anos, o seu único problema, quanto ao físico, era o peso. Tinha um metro e oitenta de altura e pesava oitenta e quatro quilos. Nesse momento desejava ter uns cinco ou sete quilos a menos. Não gostava de ser maciço, queria antes ser angulosamente atraente, como os rapazes diziam sempre. E era assim que gostava que Peggy Degen o tivesse visto.

     Ouviu passos que, vindos da cozinha, atravessavam o vestíbulo. Virou-se rapidamente para a secretária, fingindo rabiscar notas num bloco de apontamentos.

     - Oh, desculpe!...

     Levantou os olhos. Peggy Degen estava sozinha junto à porta.

     - Não sabia que estava a trabalhar. Philip sorriu.

     - Não estava... fingia apenas... para não dar a impressão de estar por aí a espiar.

     - Mas se tinha que sair...

     - Nada de importante, sério...

     - A Sr. a Burdock anda a mostrar a cozinha à Dona... a Sr. a Stafford, armário por armário. Confio essa parte à Dora. Não percebo nada de cozinhas.

     - Então como é que o seu marido almoça e janta?

     - Não tenho marido. Morreu num acidente de viação há mais de um ano.

     - Peço desculpa.

     - Não tem de quê. É difícil de explicar, mas dá-me a impressão de ter acontecido há milhões de anos.

     Ele observava-lhe os lábios a falar. Nunca vira lábios tão bem desenhados. Ou talvez fossem os olhos que tornavam aqueles lábios tão belos: uma morena clara de olhos verdes.

     Deu-se subitamente conta do que ela acabava de dizer e ficou momentaneamente sem saber quais seriam as palavras correctas para continuar a conversa.

     - Esteve casada muito tempo? - perguntou.

     - Não. - Depois acrescentou, precipitadamente: Além disso, sempre tivemos criada, e, por isso, eu não tinha de cozinhar. Acho que devia aprender.

     - Não é indispensável. Cozinhar é uma especialização. Ser decorativa é outra.

     - Julguei que isso tinha passado de moda desde os dias de Nora Helmer.

     - Nora Helmer?

     - A esposa-boneca de Ibsen.

     Philip olhou-a cautelosamente. Depois acrescentou:

     - Se Ibsen vivesse hoje, e escrevesse a continuação, acho que teria feito regressar Nora. Ela já estaria fartinha de todo de igualdade e de independência. Talvez já lhe agradasse regressar outra vez à função ornamental. Não acha?

     - Não estou bem certa.

     - Siga o meu conselho. Evite as mãos gretadas da lavagem da louça. Fique como está.

     Ela riu-se, evidentemente agradada. Depois voltou a ficar séria.

     - A Sr.a Burdock disse-nos que o senhor é um escritor famoso.

     Philip ficou embaraçado.

     - A Sr.a Burdock pertence àquela escola para quem todos os carros são “espadas”, todos os lares elegantes e todos os escritores famosos. Lamento desmentir a Sr.a Burdock... mas não sou famoso.

     - Mas é escritor?

     - Sim, acho que sim. Enfim... trabalho para os estúdios. - Estava ansioso por lhe causar uma boa impressão. - Costumava trabalhar muito para as revistas. Durante algum tempo fui correspondente estrangeiro, e uma vez até escrevi um livro.

     - Bem me parecia que já tinha visto o seu nome algures...

     - Mas não no livro. Aí só o viram umas duas mil e quatrocentas pessoas.

     - Como é que se chamava o livro?

     - O Círculo de Byron.

     - Biografia?

     - Mais ou menos... Acerca dos amigos... e das mulheres... na vida de Byron. Conhece o género. Jackson, o campeão de pesos-pesados que costumava combater com ele. Esse tipo de livro.

     - Quem mais havia?

     - Bem... o Dr. Jotin Polidori, que era seu médico quando foi para a Europa, William Fletcher, o seu criado de quarto, Lady Caroline Lamb...

     - Doida, má, perigosa de conhecer - citou ela.

     - Essa mesma. Conhece a última frase que acrescentou no seu diário?

     Peggy Degen acenou negativamente com a cabeça. Philip hesitou, mas depois prosseguiu:

     - Aquele lindo rosto pálido é o meu destino.

     - E conseguiu uma bela frase.

      - É precisamente o que torna escrever tão irritante... é que haja tantos amadores com talento para o fazer. É desanimador.

     - Um dia gostaria de ler o seu livro.

     - Com a casa fornece-se um exemplar gratuito. Nenhum deles desejava acabar aquela conversa. Ela fez um esforço para continuar.

     - E, alem disso, foi correspondente? Ele acenou afirmativamente.

     - E como se decidiu a trocar o estrangeiro para vir viver aqui?

     - Há muitos anos que faço a mim mesmo a mesma pergunta. É claro que sei muito bem a resposta. Dinheiro. Não sei o que a senhora sabe acerca de escritores, Sr. a Degen, mas aquela história das obras-primas escritas numas águas-furtadas passou de moda há muito tempo.

     Ela sorriu.

     - Sei bastante acerca de escritores, Sr. Fleming. O meu marido era agente literário em Nova Iorque. Tinha-se mudado para aqui, para arranjar emprego melhor, pouco antes de morrer. - Fez uma pausa. - Os escritores sempre me impressionaram.

     Era essencial que ela soubesse tudo a seu respeito.

     - É claro que tenho andado a tomar notas para novo livro... - a familiaridade desta desculpa embaraçou-o. - Mas suponho que também já tenha ouvido esta desculpa.

     - Mas espero que escreva mesmo outro livro... a sério.

     - Escreverei. - Durante um momento ele próprio acreditou nisso como nunca antes acreditara.

     Ela inspeccionou com os olhos o escritório.

     - É uma boa sala para livros. E bem preciso de uma. Tenho pilhas de livros.

     Ele já sabia que seria assim. Ela apontou para a estante mais próxima.

     - Incluindo Stendhal.

     - Isso surpreende-me!

     - Porquê?

     - Bem, em França é o centro de todo um culto, mas aqui parece não ter pegado.

     - Tem razão. - Ela ficou um momento a pensar.

     - Acho que é por ser, como pessoa, demasiado complexo e intrincado. Todo cinzentos, e mais cinzentos, e sombreados, nada de preto e branco. Os Americanos não gostam disso. A maioria, pelo menos.

     - Serei franco consigo. Li, é claro, os romances, mas estou mais interessado nele do que na obra. A maioria desses livros são diários, cartas, biografia. Sinto o mesmo em relação a Byron, a Rossetti. Interessam-me os homens, não o que escreveram.

     Ela meditou um pouco.

     - Sabe, acho que sinto o mesmo. Tenho muitas vezes pensado nisso quando ajudo o Steve a arrumar os cartões de basebol. Steve é o meu filho. Leio com avidez as cotas dos cartões. Pode perguntar-me tudo acerca dos Black Sox de 1919, ou do jogo em que Rogers Hornsby marcou 424, ou de como Tinker e Evers e Chance nunca falavam uns com os outros fora do campo, e fico fascinada. Mas o jogo em si deixa-me completamente fria. Gosto mais das pessoas e dos factos do que do jogo.

     Ele ficou encantado. Ela começou a dirigir-se para a porta.

     - É melhor ir ver o que se passa na cozinha. Ele não queria que o deixasse ali sozinho.

     - Gostaria que lhe mostrasse o resto da casa?

     - Não o quero incomodar. A Sr. a Burdock...

     - Eu mostro-lha melhor do que a Sr. a Burdock. Até sou capaz de lhe mostrar onde há uma vidraça rachada e um respiradouro quebrado.

     Ela sorriu e disse:

     - Então mostre-me.

     Levou-a através do vestíbulo até ao quarto de Danny. Ficaram ambos junto à porta e ele, subitamente, sentiu-se desgostoso com a enorme desarrumação dos brinquedos e dos jogos.

     - Nunca deitamos nada fora - disse ele. - Ainda hoje temos para aí a sua primeira roca. - Ela era esperta de mais para engolir aquela. - Não, não é bem isso - acrescentou ele. - Compro-lhe coisas de mais. Sai mais barato do que dar-lhe tempo. Receio que me não possam considerar o melhor dos pais.

     Ela foi simpática.

     - Todos andamos muito ocupados. - Depois observou o quarto com atenção. - É perfeito para o Steve. Tem quatro anos. Que idade tem o seu filho?

     - Sete.

     - Posso ver o quarto principal?

     - Com certeza.

     Pegou-lhe no braço para a encaminhar. O contacto físico enviou-lhe através do corpo uma sensação de calor. Largou-a depressa e caminharam juntos para o quarto, vasto e bem iluminado pelo sol.

     Ela deteve-se junto da cama exageradamente larga.

     - Isto deve ser divertido - disse em tom de provocação.

     Ele ficou sem saber o que havia de responder. Se dissesse que sim, que era divertido, implicaria que era divertido ter relações sexuais com a sua mulher, o que seria uma deslealdade para com Peggy Degen. Pior ainda, podia indicar que se sentia muito feliz com o que tinha. Se dissesse que não, que não era divertido, isso podia implicar uma rejeição secreta do sexo.

     - Mandei-a fazer especialmente. Gosto de me virar na cama sem cair dela.

     - Cobiço-a. Todos passamos tanto tempo na cama que devia ser o objecto mais confortável de uma casa. Terá de me dizer onde a mandou fazer.

     - Quando quiser.

     Deu um passo na direcção do primeiro armário e abriu-o. Era o armário de Helen. Uma profusão de camisolas, blusas e saias quase se desmoronou sobre eles.

     - A sua mulher e eu parecemos ter gostos semelhantes nas roupas.

     Mas ele queria dissociá-la de Helen.

     - Não me parece. Não conhece a Helen. - Desviou-a dali rapidamente. - Há aqui mais dois armários...

     Ela atravessou o quarto, examinou-os apressadamente e depois deteve-se um momento do outro lado da cama, com os olhos baixos para o retrato, emoldurado em prata, de Helen. O retrato fora tirado meia dúzia de anos atrás, logo após o nascimento de Danny, quando o cabelo de Helen ainda era de um louro-pálido. A lente do fotógrafo esfumara-lhe as feições mais bruscas.

     - É a sua mulher?

     - É.

     - É muito bonita.

     - Hei-de dizer-lhe que a achou bonita.

     A Sr. a Burdock entrou excitadamente no quarto.

     - Oh, está aqui - disse ela, dirigindo-se a Peggy Degen. - A Sr. a Stafford ficou completamente louca com o pátio das traseiras. Diz ela que é perfeito para o seu filho...

     A Sr. a Degen começou, obedientemente, a dirigir-se para a porta.

     - Tenho de ir vê-lo?

     - O Sr. Fleming já lhe mostrou este lado da casa?

       - Foi o perfeito anfitrião. Está muito bem.

     A Sr. a Burdock acenou com um dedo na direcção de Philip.

     - O senhor está a tornar-se demasiado competente no meu ofício, Sr. Fleming, mas olhe que eu não divido consigo a minha comissão.

     - Uma caixa de uísque me basta.

     A Sr. a Burdock segurava Peggy Degen pelo braço.

     - O seu filho e os amigos vão viver permanentemente naquele pátio. É um paraíso.

     Peggy Degeri deitou a Philip um olhar doloroso. Ele respondeu-lhe com uma careta. Durante um momento sentiu-se muito perto dela.

     Depois de as mulheres terem saído para o pátio, Philip ficou a passear pelo quarto, incapaz de ficar quieto, com o cachimbo apagado entre os dentes. Pensava em Peggy Degen e no marido, que estava morto. Ela não parecia uma viúva, no verdadeiro sentido de viuvez. É claro, ela mesma dissera que não estivera casada durante muito tempo, e ele magicava quanto tempo teria sido. Pôs-se a fazer cálculos. O filho tinha quatro anos. Provavelmente teria casado aí há uns cinco anos. Dissera que perdera o marido havia mais de um ano. Isso queria dizer que estivera casada com ele três anos e alguns meses. Não sabia bem que diferença é que isso lhe fazia. Excepto que lhe sabia bem pensar que não estivera casada muito tempo.

     Começou a dirigir-se para a sala. Da janela do estúdio ainda olhou para o pátio das traseiras, brilhante com o sol do princípio do Verão. Dali podia ver as três mulheres reunidas à volta dos pássaros. Era a Sr. a Burdock que falava. Depois a Sr. a Stafford. Peggy Degen estava de costas para ele. De repente deu por si a imaginar como seria ela de soutien e de calcinhas. Depois imaginou como ficaria sem o soutien, depois sem as calcinhas. Nesse momento deteve-se e dirigiu-se para a sala.

     Regressaram daí a cinco minutos. A Sr. a Burdock foi a primeira a entrar, quase a correr, ofegante e sorridente.

     - Ela quer a casa - sussurrou com ardor para Philip. - Quer comprá-la. - Peggy Degen entrou com a Sr. a Stafford. Pareciam ter estado a discutir as duas. Ele ainda ouviu as últimas palavras da Sr. a Stafford:

     - Não deves ser tão impulsiva, Peggy. A Sr. a Burdock virou-se para elas.

     - Já disse ao Sr. Fleming.

     Peggy Degen olhou para Philip.

     - Pelo que depreendi, está disposto a aceitar trinta e cinco mil.

     A Sr. a Burdock tentou explicar-lhe.

     - Eu disse à Sr. a Degen que já lhe tinham oferecido essa quantia uma vez, mas que a recusara... mas que agora talvez reconsiderasse essa oferta.

     Philip hesitou.

     - Bom, temos estado a pedir quarenta e dois, e já descemos a quarenta, mas... - Prometera a Helen que não iria abaixo de trinta e oito mil. Mas agora parecia-lhe deselegante regatear por uns meros três mil dólares. Não queria discutir dinheiro com Peggy Degen. Como podia discordar dela? E desejava muito que ela ficasse com a casa. De repente era-lhe extremamente importante que ela ficasse com a casa. Sem saber porquê, sentia que isso os havia de aproximar mais. Teriam de se ver outra vez - suponho que talvez pudesse concordar com os trinta e cinco, se lhe for possível entrar com o depósito.

     Ela acenou com a cabeça.

     - Posso... Mas há outra coisa, Sr. Fleming. Teria de ser uma transferência rápida. Tenho de me mudar dentro de uma semana. Não tenho onde viver.

     - Talvez seja possível, pois já temos outra casa. Podemo-nos mudar para lá quando quisermos. - Mas sabia que o melhor era andar com mais cuidado. Sempre teria de enfrentar Helen. - O único problema é a minha mulher. É ela que terá de fazer a maior parte da mudança. O melhor é perguntar-lhe primeiro se lhe será possível.

     - Quando saberá a resposta?

     - Ela está no cabeleireiro. - Deu uma olhadela ao relógio de pulso. - Deve estar de volta dentro de uma hora. Gostaria de esperar?

     A Sr. a Burdock bateu as palmas.

     - Tenho uma ideia melhor. - Pegou no braço de Peggy Degen. - Nós as três vamos até ao meu escritório e pomos os papéis em ordem. Depois vamos tomar um café... e entretanto terá passado a tal hora.

     Peggy Degen concordou.

     - Parece-me bem. - Virou-se para a Sr. a Stafford.

     - Não te faz diferença o tempo, Dora?

     - Claro que não. O Irwin pode tomar conta da loja.

     Peggy Degen estendeu a mão a Philip.

     - Cá estaremos outra vez, daqui a uma hora. Espero que consiga convencer a sua mulher. - Ele pegou-lhe na mão, e o aperto que ela lhe deu pareceu-lhe privado e íntimo.

     - Hei-de convencê-la. Gosto de fazer negócio consigo.

     Ela sorriu.

     - E eu... consigo.

     Depois de elas terem saído, dirigiu-se para a janela da sala e viu-as atravessar o passeio de tijoleira até ao descapotável amarelo-canário da Sr. a Burdock. Ficaram agrupadas em frente do carro cerca de um minuto. Depois a Sr. a Burdock deu a volta ao carro para se ir colocar atrás do volante. A Sr. a Stafford abriu a porta que lhe ficava mais próxima e deslizou desajeitadamente para o assento. Depois foi a vez de Peggy Degen. Durante um momento, enquanto se recostava, ficou com as pernas separadas, uma já dentro do carro, a outra ainda de fora. A saia subira-lhe um pouco acima do joelho. Quando puxou a outra perna para dentro do carro, antes de fechar a porta, Philip subitamente fixou-se na imagem que durante a última meia hora lhe ocupara intermitentemente o cérebro.

     Peggy Degen estava deitada de costas, nua, numa cama exageradamente grande. Ele aproximava-se da beira da cama e ajoelhava-se ao lado dela. Sorrindo, ela erguia os braços a chamá-lo. Ele juntava-se-lhe, a ternura a ceder perante o desejo.

     Virou bruscamente as costas à janela e com dificuldade atravessou a sala. Foi buscar outra vez o cachimbo. Tinha as mãos a tremer. Começou a enchê-lo.

     Eram uma insensatez, aquelas fantasias, aquele turbilhão quente lá dentro. Tudo aquilo era insensato. Deixaria a Helen uma nota pormenorizada acerca da combinação já feita e deixaria que fosse ela, sozinha, a tratar com Peggy Degen: ele iria às corridas. Dirigiu-se para o telefone e marcou o número de Bill.

     Mas, mesmo enquanto marcava o número, a imagem de Peggy Degen voltou a ocupar-lhe o cérebro.

     - Bill? Aqui fala Philip. Desculpa ter-te demorado, mas é-me impossível sair. Estamos a fechar o negócio da venda da casa, por isso tenho de ficar aqui.

     Passara meia hora.

     O escritório estava cheio de um espesso fumo azulado. Tinha andado a passear sem descanso - a puxar fumaças do cachimbo, todo entregue à imagem luxuriante de Peggy Degen. Agora, pela primeira vez desde que ela saíra, a imagem começava a afastar-se, a tornar-se demasiado esfumada para que a pudesse focar, enquanto se aproximava o momento do regresso de Helen. Tentou preparar-se para a enfrentar. Como sempre ser-lhe-ia possível descrever a cena, um dos seus desportos favoritos. Ela chegaria do cabeleireiro com o cabelo descolorido de fresco, com os caracóis ainda demasiado apertados, e, de certo modo, demasiado duro e curto. Perguntar-lhe-ia como o achava. Ele diria que o achava curto de mais. Ela ficaria contrariada e lembrar-lhe-ia que todas as mulheres estavam a usar o cabelo assim, que era essa a última moda. Ele responderia, cansadamente, que achava que ficaria bem depois de ela o ter penteado. Ela ficaria um pouco mais bem disposta e dar-lhe-ia um beijo passageiro na face, dizendo que apenas queria ficar bonita para ele. Ele insistiria que ela era bastante bonita sem precisar da ajuda do cabeleireiro. Ela dirigir-se-ia ao chuveiro - tomava banho de chuveiro duas ou três vezes por dia - e ele detê-la-ia a meio caminho com a novidade. “Helen”, diria ele, “a casa está vendida”.

     Após a primeira reacção de excitação viria a cólera. O seu sentido holandês de poupança, uma reserva privada do seu cérebro que fora intensificada pelos anos em que trabalhara como empregada de arquivo com dezoito dólares por semana, ficaria ofendido. E o ultimato para mudar de casa dentro de uma semana, levá-la-ia a uma explosão histérica de resistência. Ela berraria, com raiva, ele procuraria oferecer-lhe argumentos racionais. Ele acabaria por ganhar porque conhecia bem os seus receios primitivos. Até ter ido pela primeira vez ao psicanalista, e aprendido que a sua necessidade básica era a necessidade emocional de ser querida e amada, medira sempre a sua segurança pelos dígitos da conta bancária. Esse maço intangível de notas, escondido num cofre escuro, algures nas caves de um banco, era ainda a sua barreira de segurança contra todos os terrores. A psicanálise modificara mas não conseguira eliminar esse sentimento de insegurança financeira. Bastaria a Philip apontar que essa barreira ficaria ameaçada se ele não conseguisse vender a casa por causa dessa diferença de três mil dólares entre o preço limite que haviam fixado e a oferta recebida, ou por causa de ela não ser capaz de o ajudar a arrumar as coisas em caixas de cartão dentro de uma semana. Com a carga de duas casas e sem comprador para a primeira, o tal maço de notas ir-se-ia desgastando, e a face do terror ficaria de novo à vista. Ele acabaria por ganhar. Mas só depois de uma luta.

     Tinham lutado com azedume na noite anterior. Já passava da meia-noite e ele estava a ler e a acabar o seu quarto conhaque na sala, quando viu a luz do seu quarto piscar. Fechou o livro, arrumou a garrafa no bar portátil e dirigiu-se para o quarto. Despiu-se rapidamente, atirou as roupas para as costas de uma cadeira e enfiou-se na cama ao lado de Helen.

     Ela estava com uma camisa de noite cor-de-rosa, toda enrodilhada, de costas viradas para ele.

     - Olá, miúda. - Passou a mão por cima do braço dela e agarrou-lhe um seio com a palma. - Amo-te.

     Empurrou-lhe a mão, muito zangada.

     - Estás é bêbedo. Ele sentiu-se ofendido.

     - Não estou nada bêbedo. Caramba, o que é que se passa contigo? Não estou nada bêbedo.

     Ela virou-se de costas e perscrutou-o na escuridão.

     - Quantos bebeste?

     - Um... talvez dois.

     - Aposto.

     - Queres que traga uma declaração do notário?

     - Apenas quero que não bebas. Não gosto de sentir que precisas de beber para vires para a cama comigo.

     - Não tem nada que ver uma coisa com a outra. Caramba, quem te ouvisse havia de julgar que sou um alcoólico...

     - Não estou a dizer isso. Estou simplesmente a pedir-te que uma noite, pelo menos, venhas ter comigo sóbrio.

     - Muito bem...

     - Foi o que tu prometeste a noite passada, e a noite antes dessa, e há um mês, e há dois meses...

     - Bolas, dá-me uma oportunidade!

     Ficaram em silêncio, a ruminar no escuro, sem trocar uma palavra. Ele olhou para ela, que jazia ali, rígida, com os olhos no tecto. Uma das alças da camisa de noite descaíra-lhe do ombro, expondo à sua vista um dos seios amplos. A sua cólera foi-se dissipando com a paixão que crescia. Estendeu-se ao lado dela e percorreu-lhe a coxa com a mão. Ela agarrou-lhe o pulso e afastou-o de si.

     Ficou outra vez zangado.

     - É então isso que sentes?

     - É isto que sinto.

     Sentou-se na cama, ajustou a alça no ombro, inclinou-se para a mesinha-de-cabeceira e acendeu a luz do candeeiro. Ambos pestanejaram com a luz súbita. Ele afastou-se dela e sentou-se também.

     - Não gosto de fazer amor quando discutimos disse ela.

     - Nem eu. Mas se fosse esse o critério, nunca fazíamos amor.

     - Não digas isso. É horrível.

     - Mas é verdade. Estamos sempre a discutir.

     - Não estamos nada. É só à noite. Se me amasses mais...

     - Desejo-te, Isso não prova que te amo?

     - O amor é mais do que isso. Tu mesmo o disseste. Um homem pode excitar-se praticamente com qualquer mulher e ir para a cama com ela... mas sem a amar. O amor é mais do que isso.

     - Não me faças prelecções. Ela estava desesperada.

     - Queres outro filho. Estás sempre a insistir nisso. Mas como é que podemos ter outro filho se nem sequer sabes tomar conta daquele que tens? E não se trata apenas de ser bom pai. Mas de ser bom marido, adulto, portares-te como um homem...

     “Cá vamos nós outra vez”, pensou ele. “Castração, castração. Aquele estupor do psicanalista”. Sentou-se mais direito, com as pernas cruzadas, sem a ouvir, enquanto ela continuava. Às vezes, passado um bocado, ela desabafava e o estímulo das palavras trocadas e das discordâncias fazia-a desejá-lo, e depois conseguiam reunir-se, eliminar a ira numa fusão de ardor, esquecendo as palavras amargas nas doces palavras do amor, e de manhã sentiam-se bem. No entanto, com mais frequência, ela continuaria, com ele a ouvi-la distraidamente, e depois ele fá-la-ia calar-se quando ela saía com alguma palavra mais azeda e contundente, e ele ripostaria no mesmo tom, e assim ficariam até que, finalmente, ambos se cansavam. Ela levantava-se e ia à casa de banho tomar um seconal e ele ia até à sala beber mais um cálice de conhaque. Dormiam separados, um sono pesado, artificial. Na noite anterior, lembrava-se, fora assim.

     Olhou para o relógio. Helen estaria em casa daí a quinze minutos. Começou a tossir, engasgado pelo fumo, e, depois de se libertar da tosse, caminhou até à sala. Ficou para ali a andar de um lado para o outro. Olhou para o Kafka e para o Miro e, detestando-se, pegou em ambos os livros e foi arrumá-los nas estantes. Sentou-se no sofá, voltou a encher o cachimbo, acendeu-o, içou os pés para cima da mesinha de café e deixou os seus pensamentos saltitar, ao acaso, ao longo dos seus anos de casado.

     Como eram erroneamente retratados os casamentos falhados, na maioria dos romances e peças de teatro, assim como em quase todos os filmes! Na ficção, geralmente, atribuía-se uma única razão para um casamento que não funcionava bem. Como escritor que era, compreendia a necessidade dessa simplificação. Uma única razão de discórdia podia ser mais bem dramatizada do que muitas, e era mais fácil de fazer compreender as audiências com sensibilidades e níveis de compreensão variados. Todavia, como eram falsos esses quadros do estado matrimonial. O seu próprio casamento funcionava, mas não funcionava bem. Tinha dias bons, encantadores, maravilhosos, e dias negros, dilacerantes. Mas quando corria mal, não corria mal por uma razão única, mas por uma dúzia delas. Eram tantas, e tantas vezes tão indirectamente relacionadas com qualquer discordância imediata que tinha muitas vezes dificuldade em associá-las a qualquer discussão específica.

     Nos estúdios cinematográficos havia um cliché, tão falso como os produtores que persistentemente o repetiam: que, se um autor não podia contar a história que queria contar numa só frase, não valia a pena transformar a história em filme. “Dá-me a tua ideia numa só frase, pá”, diziam eles. “Se não podes, é que não está lá ainda”. Isto era a estupidez mais completa. Gostava de imaginar Charles Dickens, sentado no escritório de um produtor cinematográfico, a esforçar-se por comprimir o seu último romance numa só frase, estéril, sem significado, pretensiosa. Todavia o cliché atraía precisamente porque tantalizava. Tentava muitas vezes aplicar esse princípio aos seus anos de casado. Não numa frase, mas num cento delas, mais uma menos uma. Como é que ele e Helen tinham chegado àquela situação de conflito permanente?

     Conhecera Helen, e casara com ela, simplesmente porque um dia decidira visitar a inacreditável República de Andorra. Era então bastante jovem. Tinha vivido sempre no Midwest, com os pais, e já publicara O Circulo de Byron, produto de meses de horas felizes passadas em bibliotecas. Quase ninguém reparara no livro. Em desespero, começara a escrever artigos para revistas nacionais. Fora imediatamente bem sucedido. Continuou a escrever para eles, viajando até Tóquio e Hong-Kong, regressando a casa, viajando depois até Paris e Madrid. Fora em Espanha que ouvira falar de Andorra, esse minúsculo estado independente encravado nos Pirenéus orientais. Essa democracia de montanha, cuja principal indústria é o contrabando, apelara imediatamente para o seu sentido do exótico. Tomou um comboio até Barcelona, depois uma camioneta incrivelmente velha até Encamp e passara um dia nessa nação microscópica, regressando depois a Barcelona para escrever o artigo. Seria publicado com honras de capa num semanário de circulação nacional. Foi lido e apreciado por muitos, especialmente um produtor num dos estúdios de Hollywood que estava a planificar um filme musical romântico num reino mítico do tipo Anthony Hope. Dentro de um mês, Philip Fleming encontrava-se em Hollywood.

     Estava quase no fim do seu argumento sobre a Mauritânia quando do escritório do produtor lhe telefonaram a informá-lo de que um publicista do estúdio o viria visitar depois do almoço. O estúdio estava a preparar um livro para a imprensa sobre o filme e achavam que a visita de Philip a Andorra poderia dar uma ligação colorida à restante informação. À uma e meia dessa tarde, quando Philip regressava do barulhento almoço na cantina foi encontrar Helen Tilman sentada no seu gabinete, a fumar um cigarro.

     Ficou imediatamente impressionado. O cabelo era louro e comprido e estava constantemente a afastá-lo dos olhos quando se inclinava sobre o bloco-notas. Os olhos eram azuis e muito vivos, as feições regulares e bem definidas. Era uma rapariga pequena, de 20 e poucos anos. Os seios bem desenvolvidos retesavam-lhe o vestido cinzento, muito justo. As ancas eram largas e femininas. As pernas, curtas mas perfeitas. Era rápida, esperta, ria-se de maneira agradável, tinha um bom sentido do absurdo e uma maneira discreta de ser defensivamente sarcástica.

     Philip veio a saber que ela não se encontrava em Los Angeles há muito mais tempo do que ele. O pai era um corretor de apostas pouco abastado de Newark. Dali escapara para um emprego de escritório com uma firma de roupas feitas em Manhattan. Mas era boa de mais para tal emprego. Em breve encontrara uma colocação modesta na publicidade da sede do estúdio, na Rua Quarenta e Quatro, e os seus textos distinguiam-se de tal forma que foi logo transferida para a secção de publicidade em Hollywood. Isso sucedera havia apenas quatro meses. Vivia sozinha, num apartamento moderno, em Sunset Boulevard.

     Ela ficou encantada com a romântica visita de Philip a Andorra, com as suas viagens, com o seu livro, com os seus olhos melancólicos. Era uma ouvinte agressiva, inquiridora, e já eram quatro horas quando se viu obrigada a partir e a regressar à sua mesa de trabalho. Quando ela se despedia, Philip perguntou-lhe se a poderia ver outra vez. Não lhe desagradou a proposta.

     Foi buscá-la duas noites depois. Jantaram num restaurante pseudo-francês, depois foram a pé até um night-club, para tomarem qualquer coisa e dançarem, regressando ao apartamento dela à meia-noite. Ela disse-lhe, casualmente, que o telhado servia de miradouro e mostrou-lhe o caminho até lá. Ficaram ali, muito acima da cidade, com os braços à volta da cintura um do outro, a olharem as luzes coruscantes lá em baixo. Ele puxou-a para si e beijou-lhe os lábios e o pescoço, sentindo um desejo avassalador de lhe beijar os seios. Quando ela lhe perguntou o que é que ele tinha, ele disse-lho sem rodeios. Ela trazia um vestido de cocktail de tecido fino, justo e decotado. Sem uma palavra, baixou as alças e pôs a mão atrás das costas para desapertar o soutien. O resultado foi estranho. Os seios jovens, mas desenvolvidos, subitamente libertos, quase caíram em cascata sobre o rosto dele. Ele tinha as mãos sob o soutien agora solto e nelas aqueles seios carnudos e quentes. Beijou-os repetidas vezes, sentindo no seu pescoço o bafo dela. Disse-lhe que queria deitar-se com ela e, com certa relutância, ela disse que não. Ele insistiu, mas ela manteve-se firme. Finalmente, ela voltou a cobrir os seios e a apertar o soutien. Apesar da insistência apaixonada de Philip, ela recusou-se a deixá-lo entrar em casa.

     Depois disso viram-se com regularidade. Passaram horas juntos naquele telhado húmido. Conversavam, abraçavam-se, ele beijava-lhe os seios abundantes, mas ela mantinha-se suficientemente controlada para não deixar que as coisas fossem mais longe. Três meses depois, embora tivesse acabado o seu trabalho no estúdio, abandonara qualquer intenção de regressar a leste, dada a sua crescente obsessão em levar Helen para a cama. Escrevera entretanto um argumento original, que conseguira vender por uma quantia apreciável e, finalmente, decidiu-se a pedir a Helen que casasse com ele.

     Era uma noite quente de Agosto e tinham saído juntos para festejar a sua venda; estavam à porta do apartamento dela quando ele lhe fez a proposta. Ela olhou-o fixamente, com o rosto cansado muito sério, e depois, sem ter respondido, abriu a porta e entrou. Ele seguiu-a, fechando a porta atrás de si. A sala única daquele apartamento de solteira era pequena e novinha. Ela parou junto da cama, com as costas viradas para ele. Ele aproximou-se e virou-a para si.

     - Tu não me respondeste.

     Ela respondeu com voz brusca:

     - Sabes bem que quero casar contigo.

     - Então di-lo. Diz sim...

     - E como é que sabes que nos vamos dar bem?

     - Como é que sei? Temos estado juntos... conhecêmo-nos.

     - Ainda não nos amámos.

     - A culpa não é minha, querida.

     - Como é que sabes que vais gostar de mim?

     - Porque sei. Tenho de gostar.

     Ela olhou para ele e depois, subitamente, abraçou-o. A voz dela soou pequenina e nervosa.

     - Verifiquemos.

     Ele estendeu a mão para a parede, apagou a luz e, muito lentamente, começou a despi-la. Ela ficou ali, sem o ajudar, sem se mexer. Quando ela só tinha as calcinhas brancas de nylon, e nada mais, ele inclinou-a para cima da cama. Ela ficou muito quieta, com a cabeça virada para ele em cima da almofada. Quando finalmente ele conseguiu despir a camisa e as calças, a sua excitação tornara-se tão avassaladora que nem sabia se seria capaz de se dominar.

    Ela fechou os olhos quando ele trepou para a cama, para se estender a seu lado, e começou a beijar os grandes montes brancos que eram os seus seios. Quase instantaneamente ele teve consciência da rápida aceleração da respiração dela e, logo a seguir, do ritmo curto da sua.

     Ela só falou uma vez.

     - Phil - disse ela - E, eu... eu nunca... não sei o que tenho de fazer...

     - Eu ajudo - disse ele. - Eu ajudo. Amo-te, Helen. Quero-te para sempre.

     Durou vários minutos, intensos, eléctricos, pontuados com grandes promessas de paixão, e acabou-se. Ela tapou os olhos, chorou, depois ele chorou também, depois os corpos nus apertaram-se num longo abraço. Ela quis saber se ele ainda a amava e ele respondeu-lhe que a amava mais do que nunca. Discutiram quando casariam, onde passariam á lua-de-mel, que fariam quando encontrassem um lar. Passado um bocado levantaram-se da cama, vestiram-se parcialmente e ela foi fazer café. Sentaram-se em frente um do outro, imensamente aliviados, cada um considerando o outro com olhos felizes, possessivamente. Conversaram durante horas, sem pretensões e sem tensão, e depois voltaram para a cama para dormir abraçados um ao outro. Com o romper da aurora ele acordou; isso acordou-a e, sem palavras, com imensa naturalidade, fizeram amor outra vez.

     Agora, dez anos passados, na sala, à espera do regresso de Helen, Philip reparava que tudo tinha sido muito mais agradável do que geralmente se lembrava. Então onde é que as coisas tinham começado a asnear? Ou tinha sido asneira desde o início?

     Ao tentar deslindar a meada, nos anos transcorridos, fora capaz de discernir dois ressentimentos ilógicos. Em primeiro lugar, ela forçara-o a casar-se cedo de mais. Ao fazê-lo, sentira que tinha abandonado os seus pais. Toda a vida a mãe e o pai haviam sofrido necessidades económicas. Trabalhavam juntos na sua pequena mercearia, sempre ligeiramente endividados e reduzidos às necessidades da modesta classe média. Tinham apoiado e financiado a sua carreira de escritor durante os longos anos do seu aprendizado sem nunca lhe pedirem nada. Mas, instintivamente, ele sabia que esperavam a sua ajuda quando estivesse em posição de os ajudar. Depois, precisamente no momento em que ganhava as primeiras quantias substanciais de dinheiro, quando poderia partilhar com eles e erguê-los acima da pobreza, casara. Agora, o que era seu também era de sua mulher. Não podia partilhá-lo inteiramente com os pais. Podia apenas fazer donativos de tempos a tempos, e isso ele fazia com generosidade, sem que Helen fizesse a mais pequena queixa, mas ele sabia que isso não era suficiente para satisfazer o sentimento que vivia no seu espírito de obrigação para com os seus pais. E, assim, esse sentimento de culpa foi-se prolongando durante os primeiros anos do seu casamento.

     O outro ressentimento dizia respeito à sua vida sexual. Sentia que tinha casado cedo de mais e por isso sentia-se ludibriado. É verdade que tivera algumas experiências com mulheres antes de Helen, mas não as bastantes para o satisfazer. Uma vez, em Paris, numa esplanada de café, conhecera uma rapariga de grandes seios e olhos amendoados, meio árabe, meio francesa, que acompanhara até à margem esquerda e com quem dormira todas as noites durante uma semana. E isso fora bom. Uma vez, em Nova Iorque, tinha havido uma enfermeira hospedada no mesmo hotel, e em Los Angeles, pouco antes de conhecer Helen, houvera uma candidata a estrela de cabelos amarelos que parecia ter saído de um calendário Petty. A pseudo-estrela, que entrara em poucos filmes, vivia com uma tia rica, um tanto ou quanto surda. Ele visitava com frequência o apartamento delas no hotel. Mas como a pseudo-estrela era bastante exuberante quando entregue às relações sexuais, todo esse amor tinha de ser guardado até horas tardias, depois de a velha tia ter retirado o aparelho auditivo e estar a dormir. Então, lembrava-se Philip com nostalgia, a pseudo-estrela sentava-se-lhe no colo, de frente para ele. E a velha tia nunca tinha acordado.

     Mas agora, quando olhava para trás, essas memórias eram em número muito reduzido. Para Philip, era causa constante de irritação saber que depois de ter dinheiro no bolso e certa estatura como argumentista nos estúdios, e, portanto, toda uma galáxia de mulheres atraentes à sua disposição, não podia experimentar os deleites conhecidos da maioria dos homens, apenas por se ter casado cedo de mais. É claro que muitos dos seus amigos casados lá conseguiam uma aventura ocasional à margem do matrimónio. Mas, em dez anos, Philip nem uma só vez fora infiel a Helen. As oportunidades tinham sido frequentes, mas nem uma só vez ele tinha aproveitado as ocasiões que lhe surgiam. Dizia a si mesmo que o esforço era demasiado exaustivo, os perigos muitos, o envolvimento demasiado complexo. Mas nunca dissera a si mesmo que tinha medo.

     Sete anos antes chegara Danny. E ele desejara Danny, sentira-se orgulhoso ao tê-lo, mas o seu ressentimento aumentara. Sentira-se preso numa armadilha pela necessidade adulta de suportar uma família. Detestava os argumentos irreais, manufacturados, que fazia para o estúdio, aquela presença diária de homens crescidos em brincadeiras de crianças. E ia sentindo um tédio crescente em relação a Helen. Como necessitava de dedicar cada vez mais tempo ao filho, ela tinha menos tempo para se interessar pelo trabalho dele. Raramente lhe perguntava o que andava a escrever - ou com esperanças de escrever. E tinha-se cansado dela na cama, embora nunca admitisse isso consigo mesmo. Ela era, principalmente, uma recebedora passiva de amor, sabia agora. Mas dava pouco, gerava pouco. Parecia achar que lhe bastava estar ali. O mero facto de se oferecer parecia-lhe dádiva bastante. Durante um período muito breve, logo a seguir a ter começado a ir ao psicanalista uma vez por semana, para tentar deter os ciclos cada vez mais frequentes de depressão, pareceu ter adoptado uma nova atitude em relação ao sexo. Tornou-se extremamente agressiva, trabalhando teimosamente as preparações amorosas, tentando demonstrar mais paixão nas suas reacções, passando a utilizar cada vez mais, na cama, palavras obscenas. Mas a novidade desta recente libertação foi desaparecendo com o tempo e ela voltou a cair no seu velho padrão de passividade.

     Philip já não se conseguia recordar com exactidão de quando começara a beber. O hábito começara com um único copo de uísque ao regressar do estúdio, antes do jantar, e um cálice de conhaque à noite, antes de ir para a cama. Agora já eram três uísques antes do jantar e quatro ou cinco conhaques à noite. Durante o dia, só muito raramente bebia. E, durante a noite, fazia agora amor com Helen com muito menos frequência, constantemente absorvido pelas suas próprias frustrações e planos para escrever um livro e escapar-se, para poder dedicar mais tempo a Danny. Helen sentia-se infeliz com ele, e ele sentia-se infeliz consigo mesmo. Queria ir-se embora, e não podia. Inconscientemente, queria também mais filhos, uma família numerosa (a imagem de Franklin D. Roosevelt, rodeado todos os Natais pela sua grande família, a ler alto a História de Natal, de Dickens, acompanhava-o sempre, mas Helen resistia. Fora Helen quem insistira para que tomassem a nova casa em Windsor. Sentia que a casa lhes daria novas cargas e ajudaria a mantê-los ocupados. A casa dera-lhe, a ela, uma nova carga, e mantinha-a ocupada. Quanto a ele. apenas se sentira mais frustrado e mais ludibriado.

     Os passos no caminho e o ruído da chave na fechadura fizeram-no empertigar-se no sofá onde se sentara. Dando uma olhadela ao relógio, verificou que Helen estava dez minutos atrasada. Esvaziou o cachimbo, voltou a enchê-lo e esperou. Helen entrou. O cabelo estava arranjado em caracóis apertados, cortado muito curto, descolorido. A sua irritação foi imediata.

     Ela ficou surpreendida por o ver ali.

     - Pensei que ias hoje às corridas!

     - Tencionava ir... mas tinha de esperar por ti.

     - Tinhas?... Porquê?

     - A casa... vendi-a.

     - O quê?

     - Vendi-a.

     - Oh, Philip, que estupendo! - Dirigiu-se para ele a correr, abraçou-o, beijou-o. - Eu bem te disse que havíamos de a vender.

     - A Sr. a Burdock trouxe uma mulher. Ela gostou da casa, e pronto.

     - Não me podias dar melhor notícia. - Subitamente calou-se. A sua voz era ansiosa. - Por quanto?

     Ele preparou-se:

     - Trinta e cinco mil.

     - Philip... não! Como pudeste fazer uma coisa dessas? Sabias perfeitamente... disseste-me que o não farias... concordámos...

     Acendeu calmamente o cachimbo e escutou-a. Já estava preparado.

     Ganhou, é claro. Quando se chegou à ideia de rejeitar completamente a oferta e arcar com ambas as casas sem perspectivas de vender a antiga, Helen capitulou. Mas de má mente. Disse-lhe que estava irritada de mais para ficar à espera e discutir o descalabro com a tal Degen e com a Sr. a Burdock. Deixá-lo-ia a ele para tratar dos pormenores. Saiu para ir buscar Danny a casa dos Cochran.

     Philip ficou de pé por detrás da janela da sala, a olhar para a rua e a temer o regresso de Peggy Degen. No seu cérebro fizera dela muito mais do que ela era, ou jamais poderia vir a ser, e sabia que num segundo encontro ficaria desapontado. Mas quando o descapotável da Sr. a Burdock parou em frente da porta e ele viu Peggy Degen seguir a Sr. a Burdock e a Sr. a Stafford pelo carreiro, e quando abriu a porta da frente para a deixar entrar uma vez mais, verificou que nunca poderia ficar desapontado com ela.

     Lá estava ela na sua sala, e era muito mais do que ele vira da primeira vez e de que se recordava com tanta nostalgia. Os seus olhos verdes, quase trocistas, e os seus lábios cheios, arrebitados num meio sorriso, eram tudo promessas e sensualidade. Quando a convidou a sentar-se e ela atravessou a sala na direcção do sofá, fê-lo com uma graça felina, as pernas compridas a moverem-se e a cruzarem-se sob a saia roçagante, até que só pensar nelas lhe dava um aperto na garganta.

     Sentando-se, procurando depois um cigarro na mala de mão, levantou os olhos para ele. Tinha um olhar aberto e sério, e como ele pensava que ela apenas desejava falar de negócios, sentiu-se subitamente embaraçado. Embaraçado porque, nessa última hora, tinha sido tão íntimo e tão profano com ela - na imagem que se formara no seu cérebro - e sem o seu próprio conhecimento. E, todavia, respondendo-lhe ao olhar, tentando ler-lhe os olhos, perguntava a si mesmo se também ela não teria pensado nele depois de sair dali. No descapotável da Sr. a Burdock, no escritório da agência, no café, teria ela também ouvido distraidamente a conversa das outras duas enquanto o seu cérebro se afastava para se deter na imagem privada que fazia dele? Lembrava-se de ter lido algures, com grandes pormenores clínicos, que as mulheres não tinham as mesmas fantasias sexuais que os homens. Ou, melhor, que as mulheres se sentiam estimuladas por factores muito diferentes dos que estimulavam os homens. Não obstante, sentiu-se menos embaraçado. Tinha o pressentimento de que ela retribuía o interesse que ele sentia por ela. Se isso era verdade, ela devia ter pensado nele. Sentiu-se melhor em relação a tudo aquilo, tinha o direito à sua imagem.

     - A Sr. a Fleming está em casa? - perguntava a Sr. a Burdock.

     - Não - disse ele -, teve de ir buscar o nosso filho. Mas já discutimos o assunto.

     A Sr. a Burdock tentou ler-lhe a expressão do rosto. Peggy Degen esperou calmamente. Ele virou-se para Peggy Degen.

     - Não posso dizer que tenha ficado muito satisfeita com o preço - disse num tom ligeiro. - Mas usei todo o meu charme.

     - Muito obrigada - disse Peggy Degen.

     - Os trinta e cinco mil são aceitáveis. E podemos completar rapidamente a transferência. Estaremos fora na próxima sexta-feira.

     - Isso é maravilhoso - disse Peggy Degen. Toda a Sr. a Burdock sorria.

     - Bom, toda a gente deve estar contente. - Depois mergulhou a mão na sua mala enormíssima. - Tenho aqui o cheque da Sr. a Degen. E os documentos todos. Podemos utilizar a mesa da casa de jantar?

     - Com certeza.

     A Sr. a Stafford tocou o braço de Peggy Degen.

     - Fico satisfeita por te ver satisfeita, Peggy.

     - E estou mesmo.

     - O Irwin e eu ajudamos-te a fazer a mudança. Fechamos a loja...

     - Não consinto tal coisa. - Olhou para Philip e explicou: - A Sr.a Stafford e o marido são os donos da livraria Pegasus, em Beverly Hills.

     Ele lembrava-se mais ou menos da pequena loja, de fachada estreita e muito colorida, ao lado de uma alfaiataria de luxo. Era uma livraria de vanguarda. Na montra havia sempre uma gravura abstracta, um E. E. Cummings, um Ezra Pound, um livro ilegível por qualquer jovem irado ou uma revista de preço e conteúdo exagerados. O tipo de loja onde jovens de barbas ruivas discutem Sartre e onde os nomes de Pearl Buck e de Yerby são considerados obscenos. Olhou com mais atenção para Dora Stafford.

     - Bom, então não fechamos a loja - dizia a Sr. a Stafford a Peggy Degen. - Arranjamos alguém que nos substitua. Mas insistimos em ajudar-te a partir algumas das tuas velharias.

     A Sr.a Burdock encontrara os papéis.

     - Vou pôr tudo em ordem. - Dirigiu-se para a sala de jantar. Os olhos de Philip estavam em Peggy Degen. Apetecia-lhe conversar com ela. A Sr. a Stafford percebeu. Sem uma palavra, seguiu a Sr. a Burdock para a sala de jantar. Peggy Degen não fez qualquer movimento para abandonar também a sala. Tirou um cigarro da mala de mão. Philip apressou-se a ir acendê-lo, abrigando cuidadosamente a chama súbita para que esta não pudesse chamuscar-lhe as longas pestanas.

     Ela inalou.

     - Obrigada.

     Ele sentou-se ao lado dela.

     - Espero que seja tão feliz nesta casa como eu fui.

     - Foi feliz aqui?

     - Com a casa, fui - disse ele cuidadosamente. Ela olhou em volta da sala.

     - Se gostou de viver aqui, tenho a certeza de que também gostarei. - Os olhos dela encontraram os dele.

     - Parece-me que os nossos gostos são semelhantes. Vai-se mudar para muito longe daqui?

     - The Briars - disse ele. - Cerca de vinte minutos de carro.

     De repente ela disse:

     - Fiquei satisfeita por não encontrar a sua mulher.

     - Porquê?

     - Quando conheço um homem e gosto dele... sentia isto já quando era casada... gosto de pensar nele tal como o conheci. E uma esposa vem mudar a imagem. Ela ou o apaparica ou adeja à volta dele, ou tenta diminuí-lo, ou... não sei bem. Faça por esquecer. Não faz sentido nenhum.

     - Compreendo muito bem - disse ele.

     - Em todo o caso, hoje foi divertido falar consigo. Estou realmente muito satisfeita por ficar com a sua casa. Não sei porquê, até me apetece celebrar.

     Ele acenou com gravidade.

     - Devíamos celebrar, ambos. Nós tínhamos de vender. Você tinha de comprar. E duas pessoas tão simpáticas...

     - É exactamente o que sinto.

     - Isto nem parece fazer negócio. Se o negócio é isto, então a arte que vá para o diabo.

     - Organizemos uma festa - disse ela.

     - Uma festa?

     - Uma festa de saída de casa - entrada em casa. Eu organizo a festa, mas podemos fazê-la em conjunto.

     - Quando?

     O rosto dela era como a manhã de Natal.

     - Na próxima sexta-feira... não, estaremos todos muito cansados... no sábado... no próximo sábado, à noite. Depois do jantar. Vem você e a sua mulher. Tragam alguns amigos. Eu convido alguns dos meus. Celebramos aqui mesmo.

     A perspectiva era imensamente agradável.

     - Eu trago o uísque - disse ele.

     - E eu também.

     Ele estendeu-lhe a mão.

     - Está combinado.

     Ela apertou-lha com ar solene.

     - Combinado.

     A voz da Sr. a Burdock erguia-se na sala de jantar.

     - A papelada está pronta.

     Ele levantou-se, apontando-lhe a porta da sala de jantar com uma vénia trocista:

     - Sigo-a, Peggy.

     - Obrigada... Philip.

     Ele ofereceu-lhe o braço. Ela tomou-lho. E assim entraram na sala de jantar.

     Não voltou a vê-la até ao fim da manhã de segunda-feira.

     Quando entraram no banco, ela estava sentada numa cadeira de couro verde, na Secção de Escrituras e Hipotecas, com os dedos finos a brincarem com um cigarro apagado, a escutar a Sr. a Burdock. Trazia um vestido desportivo de jersey estampado, todo em tons de violeta e azul.

     - Olá - disse ele. - Apresento-lhe a minha mulher... Peggy Degen... Helen Fleming.

     As duas mulheres baixaram cortesmente as cabeças considerando-se apresentadas.

     - Fico-lhes muito grata por me deixarem mudar depressa - disse Peggy, dirigindo-se a Helen. - Estava terrivelmente atrapalhada. Steve... o meu filho... e eu fomos despedidos da casa de renda onde estávamos. O prédio foi vendido e o novo dono quer-se mudar para lá... e estava a ser muito difícil encontrar uma casa adequada.

     Helen falou num tom amigável.

     - Ainda bem que lhe agradou a nossa casa. - Depois observou melhor Peggy Degen. - Não sei porquê... eu... esperava que fosse uma pessoa muito mais velha.

     - Foi essa a ideia que o Sr. Fleming lhe deu? perguntou Peggy Degen, lançando a Philip um sorriso rápido e trocista.

     Philip protestou com grande seriedade.

     - Não fiz nada disso.

     - Não - disse Helen, - mas mencionou o facto de ser viúva. Deve ter sido isso que me iludiu. Bom, espero que a casa lhe agrade. É uma casa para gente nova. - Apoderou-se possessivamente da mão de Philip. - Pelo menos nós assim a vemos.

     Philip teria desejado que ela não lhe tivesse pegado na mão. Libertou-se.

     - Bom, vamos fechar o negócio?

     A Sr. a Burdock estava junto à divisória, a falar com um homem ainda novo, mas muito rígido, com óculos de aros de tartaruga. Voltou para junto deles.

     - Leva apenas um minuto. Não podem garantir que sejam capazes de ter a transferência completamente pronta na sexta-feira...

     - Já lhe disse que pela minha parte isso não tem importância - disse Peggy Degen.

     - Bom, é apenas um minuto. - A Sr. a Burdock voltou para junto da divisória para ali esperar como um gaio azul empoleirado.

     Peggy Degen sentou-se descontraidamente, observando a actividade do banco. Helen observou-a e depois sentou-se numa cadeira a seu lado.

     - O Philip disse-me que queria dar uma festa...

     - Bem, pensava que tínhamos decidido dar a festa juntos...

     Philip interrompeu-a, um tanto ou quanto irritado com Helen.

     - Eu disse-te que seria uma celebração conjunta - disse para a mulher. - A velha ordem dando lugar à nova. Até já convidei os Markson.

     - E eu já convidei dois casais - disse Peggy Degen.

     Helen objectara contra a ideia da festa logo que ele lha mencionara. Não conhecia a Sr. a Degen. Não conhecia os amigos dela. Estaria ocupada com as arrumações da nova casa, e, exausta, não queria voltar à casa antiga. Mas ele insistira. Fora um projecto espontâneo e seria para ambos uma maneira de se descontraírem. Helen acabara por consentir, ainda rabujando, com a condição de não ficarem até muito tarde.

     Agora ela dizia a Peggy Degen:

     - Apenas receava que estivéssemos todos muito cansados...

     - Podemos transformar a ideia numa festa de pijamas- disse Peggy Degen jovialmente.

     Helen riu-se.

     - Está bem, será divertido. - Depois desviou os olhos. A Sr. a Burdock continuava à espera. Helen procurou a carteira.

     - Parece-me que gostava de ir ao toilette. Quer vir comigo, Sr.a Degen?

     Peggy Degen seguiu Helen ao longo do corredor. Philip teria desejado que ela ficasse.

     Mais tarde, depois de cumpridas as formalidades da transferência, quando subiam de carro o Sunset Boulevard perguntou a Helen de que é que ela e Peggy tinham falado.

     - Quando?

     - Quando foram juntas ao toilette.

     - Oh, de nada. Ela tem um miúdo. Nós temos um miúdo. Dessas ninharias. Parece-me simpática.

     - Sim.

     - E é muito nova para ser viúva. Disse-me que ainda só vai fazer vinte e sete anos para o mês que vem.

     “Vinte e sete”, pensou ele. “Trinta e cinco. Oito anos”.

     - Ela é muito bonita - ia dizendo Helen. - Não achas?

     A ratoeira. Helen não tinha qualquer interesse estético, impessoal, pela beleza.

     - Bom... se se gosta daquele género. - Sorriu para a mulher. - Por mim, prefiro as louras.

     Helen ignorou o piropo.

     - Tem um corpo magnífico - insistiu ela.

     - Como é que sabes?

     - Palerma, estive na casa de banho com ela. Barriga plana, ancas estreitas e que pernas...

     - Não reparei.

     - Estou admirada de não ter voltado a casar.

     - Tenho a certeza de que se governa.

     - Acho que sim. - Ia a espreitar pela janela. - Philip, aquela loja de candeeiros bonitos e caros não é aqui, algures? Gostaria de parar um bocadinho.

     - Diz-me quando lá chegarmos.

     Barriga plana. Ancas estreitas. Pernas. Pernas longas. Gradualmente, a imagem encheu-lhe o cérebro. Foi conduzindo em silêncio. Sentia-se morto e vivo por dentro. Tinha um segredo.

     Foi uma semana de caixas de cartão. Encontrá-las. Enchê-las. E o melhor que tinha a semana é que cada dia que passava mais o aproximava de sábado. Não se passara uma única hora sem que no seu cérebro não se formasse uma imagem de Peggy Degen. O absurdo da sua devoção de devaneio perturbou-o uma ou duas vezes. Afinal, só vira a rapariga três vezes, e, de qualquer delas, por uns breves momentos. Nada sabia dela. Acima de tudo, não tinha a menor prova de que ela se interessasse por ele, para além do seu papel de dono da casa que comprara. Todavia, parecia ter-lhe dado alguma atenção. E a festa. Ao” fim e ao cabo, fora ela que a sugerira. Seria apenas por se sentir sozinha e querer companhia? Ou seria o seu método para os reaproximar mais uma vez? Se era esta segunda hipótese, então o quê? Não permitia a si mesmo pensar para além deste ponto em termos realistas. A imagem, que o mantinha em cio permanente, era uma coisa. Era um sonho maometano do Paraíso e podia deleitar-se nele como se ele realmente existisse. Mas quanto à realidade! Inclinou-se outra vez sobre as caixas de papelão.

     Mal chegou a pensar no seu trabalho até mesmo antes do jantar de quarta-feira, quando Nathaniel Horn lhe telefonou. Nathaniel Horn era o agente que tratava do trabalho cinematográfico de Philip. Na realidade, era muito mais do que isso. Era um autêntico amigo de Philip e um crítico honestíssimo do seu trabalho. Horn tinha uma combinação vaga de representação do agente nova-iorquino de Philip, e os dois agentes dividiam a comissão de todos os clientes vindos através do escritório do Leste.

     Philip reflectira muitas vezes que as profissões, ou ofícios, deixavam muitas vezes as suas marcas nos homens que a elas se dedicavam. A maioria dos médicos tinha o ar que um médico deve ter, e os lenhadores vê-se mesmo que são lenhadores, e os agentes literários, é claro, parecem-se com agentes literários. A razão deste fenómeno, provavelmente, é que a maioria dos homens que se treinam para uma profissão têm à sua frente um retrato idealizado da aparência que deve ter um membro distinto dessa profissão. E depois vazam-se no molde desse protótipo. Nathaniel Horn era a excepção a essa regra. Parecia ser tudo menos um agente. O agente típico de Hollywood divide-se em duas grandes categorias: ou é o tipo que morde charutos, fala alto, mas secretamente é um sentimental todo coração, com o escritório debaixo do chapéu, a úlcera básica, e um só ente com um grande nome; ou é um jovem muito sério e muito elegante, moldado na mesma forma dos seus concorrentes, cabelo cortado curto, gravata de lã preta, fato escuro de Dacron, um fornecimento regular de anedotas obscenas e coscuvilhices, empregue por qualquer vasta e tristonha fábrica de talentos. Horn não cabia em qualquer desses grupos. Era essa raridade: o inconformista letrado e sofisticado que não era um parasita.

     Horn era um homem alto e magro, com cabelo castanho, liso, olhos cansados, com grandes olheiras, e um rosto ossudo mas atraente. Formara-se em Harvard, no Harry's Bar, e no clube social de Polly Adler de recente memória. Tinha lido Proust no original. Estava casado e era feliz com uma mulher esplêndida, antiga actriz, e tinham quatro crianças normalíssimas. Passava regularmente as férias num centro piscatório do México e a sua grande paixão era o pugilismo.

     A sua voz seca tinha, nesse momento, um tom reconfortante.

     - Phil, meu rapaz, que andaste a fazer durante toda a semana?

     - A enriquecer. Vendemos a casa.

     - Estupendo. Conseguiste o preço que querias?

     - Quase. E tenho estado até às virilhas em pacotes e caixotes. Que se tem passado pela grande cidade?

     - Tudo muito lento. Mas parece-me que tenho uma coisa para ti.

     - Sim?

     - O Herman Ritter quer-te.

     - Estás a brincar?

     Philip ficou impressionado. Herman Ritter era o principal produtor da Master Pictures. Ritter, um gnomo de rosto vermelhusco, com um vício por primeiras edições, carros de desporto e louras corpulentas, abandonara a UFA e o nacional-socialismo para se tornar produtor em Hollywood. O seu primeiro filme, uma vigorosa biografia filmada de Victor Hugo, fora um clássico crivado de prémios e garantira-lhe a reputação. Com o seu êxito fulgurante e o negócio dos filmes em ascensão, os administradores de Master Pictures tinham oferecido a Ritter um contrato a longo prazo de seis mil dólares por semana. Ritter contratara uma bateria de advogados para tornar os termos do contrato o mais seguros possível e só depois é que assinara. Mas com a ascensão da televisão e a consequente recessão no negócio dos filmes, os administradores do estúdio começaram a achar o salário de Ritter muito alto. Tentaram convencê-lo a consentir numa redução, mas ele resistira com teimosia teutónica. Depois começaram a fazer planos para quebrar o contrato. Uma das histórias favoritas acerca dessa tentativa, provavelmente apócrifa, dizia respeito a uma altura em que os administradores fizeram Ritter trabalhar como guia de turistas. Tinham espiolhado minuciosamente o contrato e descoberto que tinham o direito de o empregar em qualquer capacidade. Ritter, dizia-se, assumira as suas tardes a guiar grupos de visitantes através dos estúdios e dos laboratórios. Numa dessas ocasiões um dos turistas, um banqueiro do Leste, acompanhado pela família, fazia parte do grupo que financiava o estúdio. Admirado com os profundos conhecimentos demonstrados pelo guia, o banqueiro cumprimentou Ritter no fim da visita. “Vou lá acima dizer-lhes que o senhor merece um aumento de salário”, disse-lhe o banqueiro. “Diga-me, quanto lhe pagam?” E Ritter respondera: “Seis mil dólares por semana.”

     Desde então Ritter não mais deixara de ser produtor. E a perspectiva de trabalhar para esse homem entusiasmava Philip.

     - E que género de trabalho é, Nat?

     - Um western. Philip resmungou.

     - Ouve, Phil, bem sei... Mas eles não estão a dar a Ritter nada melhor... e é tudo o que se arranja. Em todo o caso ele quer que faças parte da equipa.

     - Mais outra coboiada!

     - Está bem, não te dá nenhum Oscar. Pelo menos são mil por semana e a oportunidade de trabalhar com um tipo decente. Tens uma nova casa, não tens?

     - Está bem, não precisas de me fazer uma lavagem ao cérebro.

     - Sabes bem que não é isso. Pensa nisso esta noite, Phil, e amanhã discutimos os pormenores. Vem cá por volta das onze. Para falar com franqueza, há ainda outro assunto que quero discutir contigo.

     - Está bem, Nat. Até amanhã.

     Na manhã seguinte, às cinco para as onze, Philip estacionava o carro em frente do bloco de escritórios com fachada estilo colonial em que Horn instalara o seu apartamento de Beverly Hills. Philip parou um instante na papelaria para comprar os jornais profissionais e depois subiu as escadas até ao 2.  andar. Viola, a simpática secretária de Horn, estava ausente. A porta para o escritório privado de Horn estava aberta. Horn estava recostado na cadeira giratória, a beber uma cola por um copo de papel e a ler a página desportiva da edição aérea do New York Times. Sentou-se mais direito na cadeira logo que Philip entrou.

     - Bom dia, Phil. Estava agora a ler o relato do combate de ontem à noite. Viste aquele miúdo mexicano levar uma tareia na televisão?

     - Não, estava a empacotar pratos. Mas também podes contar dez sobre o meu cadáver se aceitar mais algum western. De que se trata?

     - Ritter não me contou grande coisa. Um livro qualquer horrível com uma única ideia. Acho que se chama A Estrela Enferrujada. Ou coisa parecida. - Horn engelhou a testa, tentando lembrar-se. - Enfim, uma família do Midwest, a heroína é a filha, dirige-se para a Califórnia em duas carroças...

     - Parece original - disse Philip com azedume. - e encontram uma diligência a fumegar, depois de uma emboscada. Só havia um sobrevivente. Um homem ferido com uma estrela, um xerife, preso pelas algemas ao seu prisioneiro...

     Philip levantou a mão.

     - Mas acontece, afinal, que o sobrevivente não é realmente o xerife, mas sim o preso, um tipo com a cabeça a prémio por assassínio. Assim que recuperar, espera dar o pinote, mas a maneira como aquela família o tratou, especialmente a rapariga, levam-no a mudar de ideias. Decide ir resolver o crime de que o acusaram injustamente. Certo?

     Horn riu-se.

     - Bastante parecido. Mas já tenho ouvido pior.

     - Mas não há por aí mesmo mais nada?

     - Pouca coisa. Bom, é a outra possibilidade que te queria mencionar. Um certo produtor, cujo nome fica em suspenso...

     - Quem?

     - Ainda não, Phil. Em todo o caso, um dos grandes independentes. Telefonou-me ontem. Anda a brincar com uma ideia para uma biografia e anda à procura de argumentista que lhe sirva. Quer o Ernie Ives... alguém na classe dos dois a três mil dólares, por isso lhe mando o Ives. Mas também pus uma palavrinha a teu respeito.

     - De que se trata?

     - Prefiro não dizer nada, por enquanto. Não quero dar-te muitas esperanças. Mas tenho uma ideia de que é algo de muito melhor do que um western.

     - Achas que tenho alguma probabilidade?

     - Não sei. Dei-lhe uma coisa tua a ler. Mas não penses nisso. Pensa no Ritter.

     - Quando é que tens de responder ao Ritter?

     - No princípio da semana que vem, o mais tardar.

     - Fez rodopiar a cadeira e olhou Philip com ar preocupado. - Ouve, Phil, eu sei como te sentes acerca de toda essa trampa que tens de escrever a metro. Já te disse isso umas cem vezes. Se eu soubesse que te podias dar a esse luxo, seria o primeiro a dizer que mandasses para o diabo os westerns e os melodramas e toda essa sucata. Dir-te-ia que fosses para La Jolla e que escrevesses outro livro, ou uma peça, que fosses fazer o que devias estar a fazer. Mas não tens dinheiro para isso. E por aí não abundam os mecenas.

     - E porque é que eu não tenho dinheiro? Mil dólares por semana durante não sei quantos anos... Para onde é que vai isso tudo?

     - Tu não sabes. É por causa disso que ele desaparece.

     - Nada disso faz sentido.

     - O que sei é que tens as tuas despesas básicas. E, por isso, tenho de cumprir o meu dever. E o meu dever é garantir-te um ordenado.

     Philip levantou-se da cadeira com ar resignado.

     - Está bem. A menos que apareça outra coisa, aceitamos o western.

     Foi conduzindo lentamente através de Beverly Hills, na direcção da casa, mas, no segundo cruzamento, em vez de continuar a direito, virou à esquerda. Nem ele saberia dizer por que é que virara. Possivelmente porque ainda se não sentia com disposição de regressar a casa. Ou, possivelmente, porque queria procurar alguém.

     Havia um espaço para estacionar o carro não muito longe da Livraria Pegasus, e foi aí que se enfiou. Esticou-se para se olhar no espelho retrovisor, e depois, mergulhando a mão no bolso à procura de trocos, abriu a porta. Estava a meter a segunda moeda no parquímetro quando viu emergir da porta da livraria uma mulher ainda nova, mas pesada, encimada por uma grande trunfa de cabelo castanho.

     Moveu-se precipitadamente para a interceptar.

     - Bom dia, Sr. a Stafford.

     Dora Stafford ergueu os olhos para ele sem dar mostras de o reconhecer imediatamente. Mas logo sorriu.

     - Sr. Fleming! Que anda a fazer pela nossa reserva?

     - Vim apenas para folhear.

     - Só Deus sabe que bem precisamos de todos os clientes que nos apareçam. O meu marido está lá dentro. Ele atende-o.

     - Vai sair para almoçar?

     - Apenas comer uma sanduíche ao virar da esquina. Se a ptomaína o não incomoda, porque não vem comigo?

     - Era exactamente por esse convite que eu esperava.

     - Então venha. Não tenho o dia todo.

     Falaram acerca do negócio dos livros enquanto encontravam uma mesa apertada num canto, encomendaram hambúrgueres mal passados e café e depois discutiram um dos best-sellers do momento. Ela contou-lhe algumas histórias divertidas acerca de autores que apareciam uma vez por semana para apaparicar as suas publicações mais recentes. Ela falava com grande à-vontade, com uma volubilidade descontraída e ele chegava a ter dificuldade em acompanhá-la. Ao pé dela, a sua maneira de conversar parecia trabalhada, empertigada.

     Quando estavam a acabar os hambúrgueres e a receber a segunda dose de café, Dora Stafford levantou os olhos de repente e disse:

     - Muito bem, Phil... Vou passar a tratá-lo por Phil... já chega de chachadas periféricas. Tenho só mais dez minutos, por isso não percamos tempo. Porque está aqui?

     - Porque...

     - A pergunta era retórica. Sei muito bem por que está aqui. Não porque esteja interessado numa velha pesadona como eu, ou no Irwin, ou na livraria. Você quer falar acerca da Peggy.

     - Como é que se lhe meteu tal ideia na cabeça?

     - A expressão do seu rosto no momento em que entrámos pela primeira vez na sua sala. Como se tivesse acabado de pôr os olhos na Nell Gwynn ou na Agnes Sorel. Já vi aquela expressão umas cem vezes... na cara de cem homens que a viram.

     - Não era consciente...

     - Uma cara de quem a queria comer. - Meditou um instante. - E talvez ela se não queixasse. - Soltou uma gargalhada rouca.

     Philip sentiu-se perturbado.

     - Parece estar a querer dizer que ela tem uma data de homens atrás dela!

     - Bom, e você o que é que acha?

     Ele não sabia o que pensar, mas tinha de saber.

     - Tem?

     - Eu é que devia ter essa sorte. Zumbem à volta dela como abelhas à volta do mel. Já o faziam quando ela ainda era casada.

     - Não me surpreende. É muito atraente. - Depois hesitou um pouco. - E sai com muitos deles?

     Dora Stafford sorriu abertamente.

     - O que você quer saber é se ela se mete na cama com eles? Não me parece. Talvez com um ou dois. Mas nem disso tenho a certeza. Peggy não é exactamente do tipo que faz confidências... pelo menos acerca dos seus hábitos privados. - Beberricou o café. - São aqueles estupores daqueles olhos dela. A expressão nata de boudoir. Levam toda a gente a pensar que ela quer saltar direitinha para a cama. Dão uma impressão errónea, acho eu. Mas é demasiado cerebral para poder ser realmente promíscua.

     Philip acendeu-lhe o cigarro e tentou um tom casual.

     - Que tal era o marido dela?

     - Bernie? Um ratinho nervoso. Enfim, talvez fosse atraente, à sua maneira, mas demasiado ansioso acerca do seu trabalho. Aposto que não dormia com ela mais do que uma vez por mês. Sempre a correr. Corre, corre. Queria ser um grande sucesso. - Depois pensou um momento. - Deve ter sido muito pouco divertido na cama.

     - Porque é que ela se casou com ele?

     - Quem sabe? Porque é que as pessoas fazem o que fazem? Ela era muito gentil. Ainda o é. O pai dela é um tipo graúdo nesses negócios esquisitos lá no Congresso, em Washington. E a mãe é pessoa importante na alta sociedade. E um dos manos é diplomata. Ela queria libertar-se daquilo tudo. Por isso foi para Nova Iorque, para escrever...

     - Isso não sabia eu.

     - Mas não foi capaz de escrever nem o nome dela. Finalmente, acabou por entrar para uma agência de publicidade e foi aí que encontrou Bernie Degen. O nome dela era Peggy Laughlin.

     - O que é que ela fez depois de ele morrer?

     - Bom, todos nós tentámos mantê-la ocupada... animá-la... e ela não se importava com o facto de estar sozinha. É uma leitora- ávida... Os melhores amigos dela são o Horace e a Rachel Trubey. São umas jóias. Enjoativamente normais. É o editor da secção de viagens daquele grande magazine da Califórnia...

     - Pois claro...

     - Têm-lhe feito muito bem. Levaram-na com eles nas últimas férias, com o miúdo dela e os deles. Bom, agora já ela está outra vez de pé. Recebeu uma boa maquia do seguro e queria comprar uma casa própria... E é tudo!

     Philip esfregou o fornilho do cachimbo com o polegar.

     - Acha que ela casará outra vez?

     - Está nas cartas. Peggy não é uma mulher de carreira. Foi moldada para que alguém tome conta dela e nela se deleite.

     O coração dele deu um pulo com esta última frase. Queria saber tudo acerca de Peggy. Tudo. Não podia saber o bastante. Dora Stafford continuava.

     - Um dia aparecerá alguém...

     - Há alguém de momento?

     - Alguns, mas nada de grandes paixões. Ela pode ter quantos quiser... mas, como ela mesma me disse, é mais cansativo ter de os afastar para longe dela do que estar sozinha a virar as páginas de um livro. Enfim, há um que anda atrás dela mais a sério. Um jovem celibatário, Jake Cahill, que andou na escola com o marido dela. É economista. Sempre a correr o país de ponta a ponta para um desses projectos secretos do Governo. Sempre a fazer estimativas de custo disto ou daquilo. Seja o que for, não deve ser nada de bom para as pessoas. É um tipo muito sério e solene, mas o cachimbo dele não se ajusta. Nunca percebo uma palavra do que ele diz. É como se fosse sânscrito. E eu sou esperta. Talvez não esteja a ser justa com o rapaz. Na realidade, Jake interessa-se por muita coisa. Quando vem à cidade, leva-a a concertos e a piqueniques. Suponho que talvez até fosse bom para ela, embora o ache um pouco chato.

     Subitamente calou-se e olhou para Philip.

     - Está com ideias de a voltar a ver?

     - Bom, é claro, na festa, depois de amanhã...

     - Sabe muito bem o que quero dizer.

     - Não sei se sei. Sou casado...

     - Deixe-se de parvoíces. Pois então é casado. - Ela ficou um momento pensativa e depois acrescentou:

     - Ela gosta de si.

     Não lhe foi possível disfarçar a rapidez da sua pergunta.

     - Foi ela quem lho disse?

     - Não. Nunca o diria. Nunca o diz. Mas a maneira como ela evita falar de si, ao mesmo tempo que o seu nome vai aparecendo na conversa dela, revela muito mais do que ela supõe. - Sorriu-lhe. - Vale uma tentativa, Phil. Peggy tem muita coisa lá dentro. E não vai ficar para sempre a guardá-lo.

     A mudança de Ridgewood Lane para Windsor foi realizada com um mínimo de questiúnculas e algum esforço, e logo a seguir era sábado à noite.

     Philip e Helen seguiam de carro por Sunset Boulevard. Pisava com força o acelerador, porque já estavam meia hora atrasados e porque há tanto tempo ansiava por aquela festa.

     - Isto vai ser uma festa mesmo parva - dizia Helen.

     Ia sentada ao lado dele, com a estola de visão a cobrir casualmente um vestido de noite cor-de-rosa. Bill e Betty Markson iam atrás. Bill ia a cantarolar alto uma cantiga futebolística da universidade. Betty, uma loura pouco atraente, com ar um pouco parado, tentava fazê-lo calar-se.

     - Por favor, Bill, não consigo ouvir uma palavra daquilo que a Helen está a dizer. - Depois olhou para Helen, com ar desesperado. - Está na sua fase maníaca. As acções subiram. - Bill calou-se. - Que ias tu a dizer? - perguntou Betty a Helen.

     - Disse que isto vai ser uma festa parva. Não conhecemos ninguém.

     Philip franziu a testa.

     - Conhecemos a Peggy Degen.

     - É a rapariga que comprou a casa - explicou Helen a Betty. - É muito bonita.

     - Que ouço eu? - exclamou Bill, parecendo acordar no assento de trás. - Tens-me andado a esconder qualquer coisa, Phil?

     - Eu inscrevo-te para uma dança.

     - Bonita, hem? Não se me dava uma mudança de paisagem...

     - Bruto - disse Betty. - Os homens são todos uns animais - acrescentou com um tom jovial, dirigindo-se a Helen.

     Bill voltou a cantarolar. Philip acelerou ainda mais.

     Dez minutos depois estavam à espera que abrissem a porta. Por fim alguém a abriu. Ela lá estava, com um copo de uísque na mão, a pestanejar devagarinho para ele com aquele ar das pessoas que têm estado a beber. O cabelo cortado à italiana estava encantador e dava-lhe uma aparência curiosa de abandono boémio. Vestia um vestido informal, preto e muito justo, bastante curto e juvenil. Expostas pelo decote largo, as clavículas estavam ligeiramente salientes e a pele parecia veludo branco.

     Ergueu com ar alegre a bebida que trazia na mão.

     - Que seja bem-vindo o meu senhorio preferido - disse ela. Depois baixou a cabeça para Helen. - Olá, Helen. Dê uma vista de olhos à sua casa.

     - Já tenho saudades dela - disse Helen entrando. Philip apontou para Bill e Betty.

     - Dois dos meus melhores amigos... Bille Betty Markson... Peggy Degen.

     Consideraram-se apresentados. Betty atravessou a porta. Bill agarrou o braço de Philip.

     - Que tal... - sussurrou num tom apreciativo. Entraram na sala.

     A sala parecia cheia, e, com a mobília de outra pessoa, tinha um ar estranho. O mobiliário de Peggy era tradicional, com algumas antiguidades, e a impressão geral dada pela sala era mais escura, mais formal, mas atraente. Philip reconheceu Dora Stafford e acenou-lhe.

     - Deixem-me apresentá-los a toda a gente - dizia Peggy. - E, depois, o melhor é ir preparar umas bebidas, Philip. Não se esqueça de que é anfitrião comigo.

     - Não esqueço.

     As apresentações foram feitas de maneira muito vaga. O homem franzino e de olhos salientes, que estava ao lado de Dora Stafford, era o marido, Irwin. O outro casal era Horace e Rachel Trubey. Philip lembrava-se de que eram os melhores amigos de Peggy e que ele era editor estrangeiro, ou redactor, ou lá o que era. Horace Trubey usava o cabelo cortado curto, um fato curto e um sorriso perpétuo. Rachel Trubey era uma mulher ainda nova, bastante grande, macilenta e directa.

     - Estou a preparar as bebidas - disse Horace. Que é que você bebe?

     - Caramba, deixei a minha metade da festa no carro - lembrou-se Philip. - Trouxe o bastante para pôr a flutuar os Alcoólicos Anónimos. Prepare-me um uísque com água. Bem servido. - Queria recuperar o atraso em relação a Peggy. Viu-a conduzir Helen e Betty para o quarto. Apressou-se a sair.

     Quando regressou, meio dobrado pela caixa cheia de bebidas e de salgados, estava toda a gente apinhada à volta da mesa de café, e o zumbir das conversas já atingira um tom sustentado. Peggy estava sentada entre Horace e Bill.

     - Quer ajuda? - perguntou ela a Philip.

     - Cá me arranjo.

     - A sua bebida está na cozinha - gritou-lhe Horace.

     Passada uma hora ele já tinha na mão o seu terceiro uísque e cirandava de um grupinho para outro. A festa estava a ser muito agradável. Afinal, supunha que era como a maioria daquelas festas, nem melhor, nem pior, com as habituais conversas mortíferas acerca da banalidade da televisão, algumas anedotas hostis dirigidas contra os psicanalistas, mas por qualquer motivo parecia-lhe muito agradável.

     Ficou de pé por cima de Horace, Bill, Betty e Helen, a ouvir Horace discutir Paris.

     - Devia ser transformada num parque internacional

     - dizia Horace. - Ainda um dia hei-de escrever um artigo sobre isso. Todas as nações do Mundo se deviam quotizar para construir um enorme gradeamento à volta de Paris, e os comerciantes, as lojas e as instituições lá dentro deviam ser mantidos por um fundo mundial. E pessoas de todo o Mundo teriam de pagar para entrar em Paris e divertir-se e recarregar as baterias. Paris não devia estar sujeita às regras e costumes que governam as cidades vulgares. Crises económicas. Capital contra trabalho. Política. Problemas habitacionais. Toda essa porcaria. Paris devia ser conservada como parque de recreio de toda a humanidade, a Cidade do Sol, Shangri-La. isenta das guerras e dos cuidados quotidianos. Paris preservada... Eis a minha cruzada.

     Toda a gente gostou da tirada e Philip ficou a gostar muito de Horace. Helen disse a Horace:

     - Fez-me lembrar o Philip. Horace olhou para cima.

     - Pode entrar para a minha comissão, Phil. Philip sorriu.

     - Há anos que ando secretamente ao seu serviço. Sempre fui agente da Paris Preservada. Caramba, que terra!

     A conversa continuou. Sentiu que alguém olhava para si. Virou a cabeça e os seus olhos encontraram os de Peggy. Ela estava sentada entre Dora e Rachel. Irwin estava sentado no braço do sofá, a escutar Dora.

     Peggy levantou-se de repente.

     - Desculpem.

     Depois pegou num tabuleiro de salgadinhos que estava na beira da mesinha de café.

     Ele aproximou-se dela.

     - Posso ajudá-la?

     - Coma qualquer coisa.

     Ele pegou nuns palitos de queijo. Estavam um metro ou dois afastados dos outros.

     - A Dora disse-me que tinha ido almoçar com ela.

     - Falava em voz baixa. - Faz isso muitas vezes?

     - Queria fazer-lhe perguntas a seu respeito.

     - Ah, pois...

     - Palavra.

     - A melhor pessoa a quem fazer perguntas a meu respeito sou eu!

     - Sentia-me tímido. Mas não me hei-de esquecer. Ela dirigiu-se ao grupo que rodeava Horace e apresentou os salgadinhos. Toda a gente estava demasiado ocupada a conversar. Voltou a colocar o tabuleiro em cima da mesa e depois, sem olhar para Philip, começou a dirigir-se para o vestíbulo.

     Ele aproximou-se da mesa de café, escolheu uma azeitona embrulhada numa tirinha de bacon e mordiscou-a. Levantou os olhos. Ela estava de pé, um pouco instável, no corredor que levava ao quarto, e olhava directamente para ele. Quando ele a viu, ela desviou rapidamente os olhos e caminhou para o vestíbulo, desaparecendo da vista.

     Ele então pousou a bebida na mesa e disse alto para Bill:

    - Toma conta do meu copo... Tenho de ir à dos rapazes.

     Atravessou a sala, com a intenção de ir à casa de banho, mas apenas com esperança de a ver. Logo que entrou no vestíbulo, viu-a. Estava na zona mais obscura, entre a casa de banho e o quarto, encostada à parede, com o copo na mão, a observá-lo. Ele dirigiu-se para ela.

     - Pensei que fosse dar uma olhadela ao seu filho - disse ele. - E também queria vê-lo.

     - Ficou esta noite em casa de uns amigos disse ela.

     Ela olhou-o em silêncio e ele encontrou-lhe os olhos. Os olhos dela eram de um verde lúcido. Os cantos dos lábios ergueram-se-lhe num sorriso parcial.

     - Está a encantar toda a gente - disse ela. A Dora e a Rachel estão abismadas.

     - Não disse uma palavra!

     - É claro que disse.

     - Talvez me convide para todas as suas festas? Ela teve a expressão de uma criança ansiosa.

     - Gostaria muito de o fazer.

     Os olhos dele, enquanto ela falava, fixaram-se nos lábios vermelhos. O seu coração batia furiosamente.

     - Porque tive eu de o conhecer agora? - perguntou ela, petulante. - Amo-o.

     - Bom - respondeu ele num tom ligeiro. - Também a amo a si.

     Ela observou-o uns momentos, muito solene. Depois perguntou:

     - E não me vai beijar?

     Sem esperar pela resposta dele, endireitou-se, ergueu uma das mãos, fria do contacto com o copo de uísque, até ao rosto dele, e colou-lhe aos lábios os seus lábios cheios. A boca dela era húmida, e quente, e ele sentiu-lhe o contacto repercutir-se até à base da espinha.

     - Aí está - disse ela, afastando-se dele. Virou-lhe as costas e caminhou pelo vestíbulo até entrar na sala.

     Ele ficou ali, imóvel. “Está bêbeda”, disse para si mesmo. “Um beijo casual dado num corredor. Que diabo, hoje em dia toda a gente se beija. Por toda a parte. Mas uma pessoa não se sente assim. “ Foi até à casa de banho e deteve-se em frente do lavatório. Observou o seu rosto no espelho, abriu a torneira e lavou o bâton que tinha nos lábios com água fria. Depois secou-se na toalha de fantasia ali posta para os convidados e voltou à sala, à procura do copo.

     Já era quase meia-noite. Sentia-se bem, levitado, e deu por si a falar com um grupo que incluía Horace, Rachel e Irwin.

     - Eu vos digo o que está errado - dizia ele. É todo o nosso sistema educacional, é o que é. Se fosse dono de um colégio, obrigava-os a ensinar aos miúdos a serem uns estupores...

     - Não que eles já não sejam isso mesmo - interrompeu Horace.

     Rachel deu uma risadinha de apreço. Mas Philip continuou, entusiasmado:

     - Mas estupores a sério. É isso que está errado nas nossas escolas. Ensinam aos miúdos essa treta do ama o teu próximo, pratica boas acções, e sê honesto e desinteressado, e faz aos outros... E depois eles saem para o frio mundo real e têm de fazer exactamente o contrário para sobreviverem... Têm de competir e não de cooperar... Têm de mentir, e fazer batota, apunhalar pelas costas, lutar contra tudo e contra todos para conseguir alguma coisa. Entre o que lhes ensinaram a fazer e o que têm de fazer há contradição permanente. É por isso que temos uma sociedade neurótica. No tal meu colégio, haveria cursos de “Como Fazer Feliz a Mulher do Patrão”, “Como lixar Âmagos e Obter Promoções”, “Como Mentir à Mulher e Escapar”, etc. Garanto-lhes: os licenciados da minha escola seriam os mais normais da história.

     - Muito bem - apoiou Horace.

     - Quero já matricular-me - disse Betty.

     Irwin começou a expor as suas ideias acerca de educação superior. Philip deu uma olhadela ao outro grupo. Teria desejado reunir-se a eles, mas não queria parecer demasiado óbvio. Helen era muito observadora. Mas Helen estava agora de costas viradas para ele, Bill estava a contar qualquer coscuvilhice do estúdio. Peggy estava num fundo sofá, de frente para ele, do outro lado da mesinha de café. Escutava Bill com um sorriso parado, desatenta.

     Philip tentou observá-la. Não queria que ela o considerasse um idiota ou um parvo. Várias vezes moveu a cabeça na direcção da conversa de Irwin, acenando mas sem o conseguir ouvir. Voltou a olhar para ela. Tinha as pernas juntes, ligeiramente de lado. Eram extraordinariamente longas e as meias estavam muito direitas. A saia, muito justa e alta, alongava-se até aos joelhos. Agora, como sorrisse um pouco mais à anedota que Bill contava, sentou-se mais profundamente na cadeira e então, num gesto automático, feminino, inclinou-se para a frente para repuxar a saia e cruzar as pernas. Durante um brevíssimo instante entreviu a parte de dentro da meia, por baixo da saia, e um luzir da coxa branca.

     Estava a alisar o vestido quando levantou os olhos na direcção dele, sabendo que estava a olhar para ela e querendo que ele soubesse que ela sabia. A expressão dela nada disse. Era absurdamente jovem e angélica. Pareceu suspender brevemente a respiração e os seios pequenos subiram e desceram agitadamente. Voltou a dirigir a sua atenção para Bill. No momento em que Bill acabou, ela estendeu a mão para o copo.

     - Volto já. - Passou pela frente de Philip, na direcção da cozinha.

     Os olhos dele seguiram-na. Espreitou para dentro do seu copo e acabou-o precipitadamente.

     - Preciso de reabastecer - disse, sem se dirigir a ninguém em especial. Helen ouviu-o.

     - Querido, podes trazer-me uma pedra de gelo? Ele pegou-lhe no copo e dirigiu-se à cozinha.

     Ela estava lá, de costas para o lava-louças, de braços cruzados, à espera. Ele pousou os dois copos e dirigiu-se para ela.

     - Como é que sabias que eu vinha atrás de ti? perguntou ele.

     - Porque tu sabias que eu estaria à tua espera. Ficaram um momento a olhar um para o outro, em silêncio. Ele reparou que ela estava a respirar mais depressa do que o normal e sentiu um aperto no peito. Inclinou-se para a frente e, sem a agarrar, encostou os seus lábios aos dela. O estremecimento estava nos lábios, e uma fome, e ele sentiu apoderar-se de si uma sensação que já não experimentava há anos. Ele interrompeu o beijo para recuperar o fôlego. Os olhos dela não largaram os seus. Ainda tinha os lábios entreabertos. Fechou os olhos. Ele voltou a inclinar-se para ela e a reencontrar-lhe os lábios. As línguas tocaram-se. Agarrou-lhe os braços com força no momento em que os seus lábios se afastavam dos dela. Ficaram a fitar-se mutuamente.

     De repente ela abanou a cabeça num gesto desanimado:

     - Porque havias tu de ser casado? Ou já disse isto antes?

     Ele libertou-lhe os braços.

     - Também funciona às avessas.

     - Também?

     - Cada vez que olho para ti, desejo ter-te encontrado há anos.

     - Bom... mas não nos encontrámos.

     - Mas encontrámo-nos agora. Já é qualquer coisa.

     - Suponho que sim - concordou ela.

     Nunca na sua vida falara naqueles termos a qualquer mulher, a não ser de brincadeira, em perfeita segurança. Estava convencido de que ela aceitaria o que ele dissesse. Sentia uma necessidade envolvente, apaixonada, de estar com ela, de apertá-la com o seu próprio corpo. Sentia-se como que inebriado, irresponsável.

     - Quero ver-te outra vez, Peggy. Os olhos dela fixaram os dele.

     - Está bem.

     - Quando?

     - Quando quiseres. Amanhã... amanhã à noite. Nem sequer pensou que dia era amanhã ou se teria já alguma coisa marcada ou se lhe seria possível comparecer. Disse apenas:

     - Cá estarei.

     Ela passou por ele em direcção à porta da cozinha, hesitou, voltou-se:

     - Amo-te - disse num tom muito sóbrio Depois saiu da cozinha.

    

     Domingo à noite

     A água do chuveiro fustigava-o. Nem se deu ao trabalho de se ensaboar. Ali se deixou ficar, de pé, sobre os ladrilhos, molhados, a absorver na pele as frias agulhas de água. Nunca se sentira tão vivo.

     Acordara já tarde nessa manhã de domingo, mas de repente, sem ressaca, antes com um intenso sentimento de excitação que o chuveiro não conseguira dissipar. Tentou recordar-se de quando desfrutara pela última vez de semelhante sensação de aventura.

     Uma noite de memória já desvanecida, em que só conseguira adormecer de madrugada, porque o pai prometera levá-lo no dia seguinte a Chicago para ver pela primeira vez jogar Babe Ruth. Essa fora uma das vezes. Um meio-dia esbraseado no México, em que se sentara escarranchado numa dura crista de gelo e erguera para a testa os óculos de neve para piscar, lá do cume da grande montanha, através dos farrapos de nuvens, para a paisagem verde-musgo que se estendia 5500 mais abaixo. Essa fora outra vez. Uma primeira noite barulhenta em Paris, numa cave fumarenta onde se tocava jazz, perto do Boulevard Saint-Germain, onde admirara essa delicada figura de animal moreno da mulata de seios nus que dançava e onde mais tarde dançara com ela, agora com um vestido coleante de cetim branco sem nada por baixo. E depois fora convidado a ir ao apartamento dela. Essa fora ainda outra vez.

     Mas todas essas ocasiões haviam acontecido num enevoado que acontecera já há muito tempo, e aquela noite fora agora.

     Apertou bem a torneira do chuveiro até não cair nem um pingo e depois saltou para cima do tapete castanho da casa de banho. Puxou do toalheiro um enorme lençol de banho branco e começou a secar-se lentamente. Queria saborear a sua solidão e os seus pensamentos privados antes de o dia começar e de ser arrastado, pela rotina dominical, para as intermináveis conversas e actividades.

     Para onde quer que virasse os seus pensamentos, lá o esperava Peggy Degen. Às vezes com o vestido negro, muito justo, de grande decote. Às vezes trazia apenas a parte debaixo do vestido, segurava os seios com as mãos e sorria-lhe. Às vezes não tinha nada vestido, estava estendida em cima da cama, a convidá-lo.

     Ela dissera-lhe:

     - Amanhã... amanhã à noite. Ele dissera:

     - Cá estarei. Ela concluíra:

     - Amo-te.

     Lembrava-se do primeiro beijo no corredor que levava ao quarto. O seu rosto pequeno, quando a surpreendera a olhar para ele. O sorriso dela. O cruzar das pernas longas e aquela visão momentânea do interior muito branco da coxa. Os olhos verdes postos nele, a fecharem-se, enquanto os lábios se lhe abriam. Aquela língua saltitante.

     - Foi uma festa estupenda - dissera ela à porta.

     - Sei que vou ser feliz nesta casa. - Helen murmurara os seus agradecimentos pelo serão e virara-se para partir, mas ele atrasara-se para pegar na mão de Peggy.

     - Boa noite, Philip - dissera ela baixinho. A mão dela estava fresca. - Felicidades - respondera ele, e sorrira.

     - Até muito breve. - E afastara-se.

     Nessa noite deter-se-ia em frente daquela mesma porta. Só. À espera. E ela abriria a porta. E tê-la-ia só para si. Sem a Sr. a Burdock. Sem Dora Stafford. Sem Helen. Daria um passo para dentro de casa, ela fecharia a porta, ele virar-se-ia para ela e dir-lhe-ia: “Amo-te.”

     - Phil, estás pronto? - A voz de Helen, agitada, soara do outro lado da porta da casa de banho.

     - Só mais um minuto...

     - Bom, despacha-te. Quero que fales com o teu filho. Não quer comer. Estou farta de ralhar com ele.

     - Vou já.

     Pendurou o lençol de banho no rebordo da banheira e começou a vestir-se à pressa. Uma vez ainda deitou uma olhadela ao relógio cor de marfim da casa de banho: eram dez horas e trinta e dois minutos. “Ainda faltam nove horas”, pensou.

     O caminho entre o quarto principal e a cozinha, sobre o fofo tapete cinzento, era bastante longo. Tinha consciência da vastidão da nova casa pela primeira vez desde que para ali se haviam mudado. Saindo de um corredor curto para outro mais longo, dava de caras com o escritório. Lá dentro, o ar de desarrumação, errado pelas caixas cheias de livros que ainda não tinham sido colocados nas prateleiras, era completado pela presença de vários jogos de Danny, que estavam espalhados à volta do aparelho de televisão. Esquecera-se de os arrumar na noite anterior. Philip decidiu que precisava de falar com o rapaz sobre o sentido de responsabilidade e de arrumação. O escritório tinha as cortinas corridas por causa da luz. Philip atravessou-o com cuidado, para não tropeçar nas caixas, afastou as cortinas, e o sol brilhante inundou o aposento. Lá fora, para lá do acesso em semicírculo, a extensão de relva da entrada, orlada de árvores e arbustos, deu-lhe brevemente uma sensação de orgulho de proprietário, o sentido da sua posição social. “Yasnaya Polyana”, pensou. “O Conde Leo Nikolayevich Tolstoi dirige-se ao pequeno-almoço”.

     Continuou a atravessar a casa de um só piso, a larga sala de estar, com a sua enorme janela (como uma imensa lente que mantinha em foco o pátio brilhante, o roseiral cor-de-rosa, o tapete verde e curvo do jardim das traseiras), e entrou na cozinha.

     - Ora então muitíssimo bom dia, amigos - disse jovialmente.

     Helen levantou os olhos do fogão onde estava a preparar ovos mexidos e disse-lhe:

     - Fala tu com ele.

     - Bom dia, pai - saudou Danny da mesa, onde já começara a ver a secção de quadradinhos do jornal de domingo.

     - Olá, rapaz. - Sentou-se em frente de Danny, beberricou o sumo de laranja e contemplou o filho. Danny era de estatura normal para a sua idade, mas tinha um ar delicado, ossos finos. Philip tinha esperança de que não permanecesse sempre tão delicado. Philip não gostaria que ele se tornasse um desses adultos frágeis e quebradiços que amadurecem interiormente mas se encolhem perante qualquer manifestação de violência externa. Danny tinha cabelo felpudo, cor de avelã - era como se as hormonais hereditárias tivessem sido incapazes de se decidir entre o cabelo louro de Helen e o seu cabelo escuro e tivessem assentado num compromisso - e rosto pálido, de expressão indecisa. Tinha os olhos melancólicos do pai e tanto parentes como amigos os admiravam muito. Tinha também um tique nervoso permanente, que lhe agitava a parte inferior do olho esquerdo, um tique que ia e vinha e que irritava Philip. Nessa manhã o tique estava ausente.

     Philip acabou de beber o sumo de laranja e fez o seu gesto habitual de quem quer manter a harmonia paternal.

     - Porque é que não comes? - perguntou acusadoramente a Danny.

     - Não me apetece. - O rapaz baixou a cabeça atrás do jornal para se furtar ao olhar severo do pai.

     - Só os animais é que fazem exclusivamente o que lhes apetece.

     Peggy Degen apareceu sub-repticiamente na sua mente. Afastou-a dali com firmeza.

     - Se queres ter músculos - continuou - e queres vir a ser jogador de râguebi, tens de comer. Vamos, acaba lá o cereal.

     - Não me interessa ser jogador de râguebi - disse Danny.

     “Olá”, pensou Philip, “atitude antiamericana. Em que é que se irá transformar este miúdo? Talvez num coca-bichinhos míope e distraído!

     Helen aproximou-se com os ovos.

     - Eu já lhe disse que se não comer não vai ao cinema no próximo sábado.

     - Ouviste o que disse a tua mãe - disse Philip, a Danny.

     Danny lamentou.

     - Mas não posso comer o dobro ao almoço?

     - Não! - disse Helen.

     - Come esse cereal - insistiu Philip.

     - Está bem! - Voltou a puxar a tigela de cereal, já espapaçado, para junto de si e começou a experimentá-lo com a ponta da colher.

     Philip comeu os ovos mexidos em silêncio. Passado um bocado, disse a Danny:

     - Quando acabares o pequeno-almoço quero que vás ao escritório e que arrumes os teus jogos.

     - Não posso fazer isso depois de ter brincado com eles mais um bocado?

     Philip, para conservar a paz doméstica, concedeu: tinha a certeza de que isso pouco importava. Peggy introduzira-se de novo no seu cérebro.

     Danny limpou a tigela, saltou da cadeira e dirigiu-se a correr para o escritório. Helen aproximou-se da mesa, equilibrando nas mãos duas chávenas de café. Foi colocar uma em frente de Philip e outra num lugar a seu lado.

     - Ele apenas precisa que lhe digam o que tem de fazer - disse ela.

     - Bem sei - disse ele, soprando o vapor de cima da chávena. - Uma forte imagem paterna.

     - Vá. Faz troça.

     Depois dirigiu-se à porta da cozinha, fechou-a, regressou à mesa e sentou-se.

     - Tenho estado à espera de uma oportunidade para te falar a sós.

     - Acabemos primeiro o pequeno-almoço.

     - Não! - disse Helen em tom firme. Ele bebeu um gole de café e esperou.

     - Estive a discutir o caso do Danny com o Dr. Wolf - disse ela por fim.

     O Dr. Judius Wolf era o psicanalista de Helen. Oitenta dólares por mês. Quando Helen começara a frequentá-lo, ficara aterrorizada com a ideia do divã e das associações livres. Ouvira falar em psicoterapia e dissera que era isso que ela queria. E assim, desde então, sentava-se uma vez por semana numa cadeira em frente do Dr. Wolf e fazia perguntas e discutia e crucificava os pais (que teriam ficado espantados se a ouvissem) e castigava Philip e continuava a odiar-se. Philip encontrara-se uma vez com o Dr. Wolf, a pedido deste, quando Helen começara as consultas. Lembrava-se dele como um homem sorridente, careca, de óculos, com rosto de Lua cheia e um gosto pronunciado por frases quilométricas. Perante o Dr. Wolf, Philip procurara ser encantador, aberto, todo consideração, num esforço consciente de provar que não era o monstro que Helen provavelmente fizera dele. Mas, mais tarde, sentira que talvez o Dr. Wolf tivesse percebido precisamente isso, e essa situação divertira-o. Philip ficara a detestar o Dr. Wolf. Nunca gostara das pessoas que se julgavam superiores à sua própria superioridade ou que se riam dele. De início Helen desafiara esse antagonismo, mas havia já muito tempo que entrara em tréguas e deixara de mencionar o Dr. Wolf na presença de Philip.

     - Que é que há para discutir acerca do Danny? perguntou. - Não lhe falaste já bastante acerca do Danny?

     - Sim, de vez em quando. Quando vinha a propósito. Mas tenho andado tão preocupada que na quinta-feira falei do Danny.

     - Um miúdo não quer comer o pequeno-almoço e lá vão vinte dólares por água abaixo.

     - Cala-te. Não tolero quando começas a ser estúpido.

     - Está bem. estou a ser estúpido. Falaste do Danny.

     - O Dr. Wolf acha que o Danny precisa de ajuda. Recomendou-me um psiquiatra infantil, um amigo dele, chamado Dr. Robert Edling.

     Philip olhou-a com ar realmente zangado.

     - Não consinto que entregues uma criança indefesa a um tipo desses. Estás doida, ou quê?

     - Como é que um homem tão insensível pode ser um escritor?

     - Não consinto que um filho meu, de sete anos, vá a um psiquiatra. Seria dar-lhe uma bela recordação da sua juventude dourada... lembro-me muito bem do papá, da mamã e do meu psiquiatra...

     - Phil... por favor... o assunto é sério. Não o põem num divã. É pequeno de mais para isso. O psicanalista dá-lhe brinquedos, barro e coisas e senta-se no chão ao lado dele e brinca com ele. E assim consegue descobrir o que está a preocupar a criança. Não é mais do que isso.

     - Pois não!

     - O Dr. Wolf diz que o Danny precisa de ajuda. Antes que ele a pudesse interromper, ela prosseguiu:

     - Sei que não gostas muito do Dr. Wolf. Mas é um médico, um psiquiatra, um homem treinado para descobrir quando alguma coisa não está certa. Conhece a nossa situação...

     - A tua versão.

     - A minha versão - concedeu ela. - Mas é suficientemente esperto para ver, através dela, o teu lado também.

     - Ah, é...

     - Não acha que seja um problema muito sério. Acha que o Dr. Edling irá direito à raiz do problema.

     - Mas à raiz de quê! - perguntou irritadíssimo. Os olhos dela imploravam.

     - Phil... O Danny não anda a comportar-se como um rapazinho normal. Não me refiro a coisas sem importância, comer, tudo isso. Refiro-me a coisas importantes. Quando tivemos problemas com a escola, disseste que esperávamos até às férias de Verão. Que ele adoraria ir para o acampamento. Bom, bem viste como ele adora o acampamento. Tivemos sorte em conseguir empurrá-lo para a camioneta uma vez em três semanas. Todas as outras crianças gostam de ir. Vão sem discutir. Divertem-se. E! e recusa-se a ir. Tem medo. Nem sabe o que é divertir-se.

     Philip sentiu-se menos seguro, um pouco perturbado.

     - Nem todas as crianças são iguais...

     - Mas em certos aspectos devem ser. Se ele não quisesse nadar, ou jogar a bola, ou andar de bicicleta, ou qualquer outra dessas coisas, eu não me preocuparia. Mas não querer fazer nenhuma delas! Tem medo de tudo! O miúdo não sai. Mete-se no seu quarto a brincar. E choraminga, e agarra-se. Meu Deus, se eu nem posso ir à casa de banho sem que ele se agarre a mim como se nunca mais me fosse ver!

     - É uma fase - Philip teimou, mas enfraquecendo.

     - Sente-se um pouco inseguro... temos discutido... tenho andado muito ocupado, talvez... e agora esta mudança...

     - Phil, o miúdo está perturbado - disse Helen em tom definitivo. - Precisa de ajuda e vou tomar as providências necessárias para que a receba. Já marquei a consulta com o Dr. Edling. - Ela olhou-o de frente, toda maternidade em desafio.

     - Esplêndido! Então para que te dás ao trabalho de me pedir a opinião?

     - Porque o Dr. Wolf me disse que os psicopediatras muitas vezes querem também falar com os pais. O Dr. Edling vai-me receber. E pode também querer falar contigo.

     A perspectiva era desagradável, sem dúvida, mas não imediata. Philip sentiu que se podia dar ao luxo de ser cooperativo.

     - Se o homem quiser falar comigo, então irei vê-lo.

     - Vou lá com o Danny amanhã, ao meio-dia.

     - Talvez apanhes uma surpresa. Verás que é perfeitamente normal.

     - Oxalá. O Dr. Edling quer falar primeiro com ele. Depois quer falar comigo...

     A porta da cozinha abriu-se. Era Danny.

     - Já arrumei os jogos - disse para Philip.

     - Bonito rapaz.

     Danny dirigiu-se a Philip e encostou-se-lhe ao joelho.

     - Pai, o que é que vai fazer hoje?

     - Ainda não sei. Como está um dia bonito, talvez comecemos por nos sentar no novo pátio a ler os jornais. Queres que te leia as histórias para crianças?

     - Se quero!

     - Depois disso, veremos. Talvez possamos ir a casa dos Barlow... podias brincar com a Liz e o Tony. Queres?

     - Se quiser - respondeu Danny.

     Philip pegou no volumoso jornal de domingo e dirigiu-se para o pátio com o filho. Fez rodar as duas cadeiras de repouso para perto uma da outra e instalou-se na almofada quente da maior, enquanto Danny amarinhava para a outra e ficava à espera, com ar ansioso. Philip inclinou a folha do jornal para que Danny pudesse ver os quadradinhos e foi lendo o que diziam os balões. Os olhos de Danny devoravam os bonecos. Meia hora depois tinham acabado.

     - Foi giro - disse Danny, recostando-se, com ar feliz.

     - Quando eu era pequeno, as histórias de quadradinhos tinham muitas coisas engraçadas. Agora são sérias de mais...

     - Eu gosto delas.

     - Bom, é isso que interessa.

     Depois sugeriu a Danny que fosse buscar o barco de piratas e a escuna e que fizesse ali, ao ar livre, uma batalha naval, na relva, enquanto ele acabava de ler o jornal. Danny concordou. Philip reorganizou as secções do jornal da mesma maneira que o fazia há muitos anos: secção noticiosa, páginas desportivas, páginas literárias e teatrais, magazine, atirando o resto para o lado.

     Danny foi fazendo a sua guerra simulada no relvado e Philip leu o jornal. Quando acabou, já passava do meio-dia. Tinha o rosto quente e o seu cérebro não se sentia mais esclarecido. Endireitou-se na cadeira, reuniu as folhas do jornal numa pilha bem arrumada e ficou a olhar distraidamente para as figurinhas de borracha a tombar das amuradas dos navios para a relva. Magicou como seria o filho de Peggy Degen, que ainda não vira, e depois pensou em Peggy Degen.

     Mais cedo ou mais tarde teria de planear a maneira de sair de casa depois do jantar. Normalmente sair só não constituía problema, pois Helen confiava plenamente nele. Diria apenas que estava irrequieto e que lhe apetecia sair um bocado no carro, guiar sozinho, e ela mal levantaria os olhos do que estava a fazer quando ele voltasse. Ou diria que queria ir ver a nova papelaria à beira da cidade, o que, com as viagens, levaria uma hora ou duas, ou que iria visitar Bill Markson, o que às vezes levava o serão todo, e Helen raramente objectava ou lhe fazia perguntas. Mas nessa noite teria de ser diferente. Temia que ela suspeitasse de qualquer coisa e considerasse a sua atitude pouco habitual. Além disso, não queria ficar com a saída limitada a uma ou a duas horas. Queria ter o máximo de tempo possível. Bill Markson seria o melhor pretexto para se demorar. Mas depois, se Helen tivesse um pretexto qualquer para telefonar para lá? Poderia dizer que se ia encontrar com Bill em Beverly Hills para beber qualquer coisa. Mas se Helen telefonasse à Betty e soubesse que o Bill estava em casa? Além do mais, isso obrigava-o a fazer de Bill cúmplice na conspiração e Philip não se sentia, por enquanto, pronto para tanto.

     - Bom, o que é que tu achas do novo pátio? Helen estava encostada à ombreira da porta da sala de jantar. - Não é estupendo?

     Até à hora do jantar havia de descobrir qualquer coisa.

     - Magnífico. É sensacional para barbecues.

     - Estava a pensar nisso mesmo... Danny, deixa-me pôr-te um bocado de creme por causa do sol.

     Danny abanou a cabeça e continuou a brincar. Helen deu uns passos no pátio e inalou aquele ar que era seu.

     - Nem imaginas como me agrada a nossa casa nova. Vais hoje aos Barlow?

     - Acho que sim. Vou telefonar ao Sam. Queres vir?

     - Tenho muito que fazer. É melhor ficar em casa para continuar a desempacotar as coisas. Ainda nem sequer encontrei as roupas de cama e a cozinha...

     - Não preciso de sair. Queres que te ajude?

     - Não. Até trabalho melhor sem o Danny aqui.

     - Bom, nós não nos demoramos. - Philip levantou-se e espreguiçou-se. - Vou telefonar ao Sam.

     Dirigiu-se para dentro de casa e telefonou a Sam Barlow. Perguntou-lhe o que estavam a fazer e Sam disse que não estavam a fazer nada. Depois convidou-o a passar por lá com o Danny, depois do almoço. Philip desligou, satisfeito com a maneira como as coisas corriam. Cerca de uma vez por mês ele ou os Barlow visitavam-se assim, informalmente, por causa das crianças. A criança mais velha dos Barlow, Liz, que era adoptada, era apenas um pouco mais velha do que Danny e complacente como um vegetal. Danny também gostava do rapazinho Barlow, Tony, porque era mais novo e mais pequeno e podia mandar nele. Sam Barlow era outra atracção: embora fosse mais velho do que Philip, baixava-se até ao chão e brincava entusiasticamente com as crianças, com toda a seriedade, com uma absorção que Philip invejava, e Philip sentia que Danny cria nele e se sentia seguro na sua companhia. Liz Barlow começara a 2.ª classe juntamente com Danny e Heleo encontrara os Barlow várias vezes em reuniões da Associação Parentes-Professores. Isso acabara por levar a um convite para jantar e agora, por intermédio das respectivas crianças, eram amigos.

     Depois de almoço, com Danny a seu lado no assento da frente, Philip conduziu por entre o apinhado tráfego domingueiro até Bel-Air, onde os Barlow viviam numa dispendiosa casa de dois andares no topo da colina. Philip e Danny começaram a jogar “castores” logo que viraram para Sunset Boulevard. Philip jogava casualmente, pois o seu cérebro estava ocupado noutra coisa, mas Danny entregava-se ao jogo com grande concentração.

     - Castor - berrou Danny, puxando o braço do pai.

     - Cuidado - disse Philip. - Não me puxes o braço. Ainda nos levas a um choque.

     - Castor... castor... - cantarolava Danny apontando para uma station que se aproximava.

     Philip supunha que todas as crianças de sete anos brincavam aos castores. Não era um jogo inventado para encorajar uma condução cautelosa, pois para o jogar bem era preciso desviar os olhos da estrada. O objectivo do jogo era ver e identificar primeiro que o opositor todas as station-wagons encontradas no caminho; cada nova station que se via era um castor e cada castor identificado marcava um ponto.

    - Estou a ganhar oito a um! - gritou Danny.

     - Ainda te hei-de apanhar- disse Philip, satisfeito com a exuberância normalíssima do filho, cada vez mais certo de que não seria um paciente a mais para o Dr. Robert Edling.

     Danny instalou-se melhor para perscrutar o horizonte frutífero. Philip voltou a pensar nos Barlow.

     Sam Barlow era pequeno, e gordo, e financeiramente muito próspero. Fisicamente era pouco atraente. Tinha uma cabeça pequena de mais, uns olhos demasiado estreitos e o cabelo era uma escova áspera, cinzenta. Não tinha pescoço. O corpo, em forma de pipa, apoiava-se numas pernas atarracadas. Mas tinha uma maneira de falar suave e gentil. Ocasionalmente saía com uma graça subtil, quase sempre dirigida contra si mesmo. E era um ouvinte delicado. Todos os que o encontravam pela primeira vez eram repelidos pelo seu aspecto físico, mas, logo que passavam mais algum tempo com ele, verificavam que tinha uma personalidade quente muito atractiva e que o aspecto físico parecia desvanecer-se.

     Era esta a única explicação de Tina, pois Tina tinha vinte anos a menos do que Sam. Tina era lindíssima. Podia com facilidade ter encontrado marido mais atraente. Contudo, após um noivado relativamente longo, devia ter esquecido a sua aparência física, atraída como fora pela sua personalidade. Era essa a única explicação: isso e a fortuna.

     Sam era esse fenómeno de uma era comercial: um dentista de supermercado, um homem que conseguira aplicar à Medicina as técnicas da produção em série. Sam era proprietário de oito consultórios florescentes, disseminados por toda a área de Los Angeles, e neles instalara jovens formados nas escolas de odontologia. Pagava-lhes bons salários e dava-lhes bónus. Apesar dos protestos escandalizados das associações médicas, Sam fazia publicidade aos seus consultórios, publicava declarações assinadas acerca das suas extracções sem dor, servia pacientes doridos como descontos e anunciava o seu plano de “pague conforme se trata”. Sam, pessoalmente, havia muitos anos que nem sequer mexia numa broca. Limitava-se a gerir a organização.

     Estomatologista por grosso pagara as despesas daquela residência de luxo, com sua piscina em forma de rim, na área exclusivíssima de Bel Air. E pagara também a aquisição de Tina.

     Tina Barlow era “a mulher do outro”, favorita de Philip. Às vezes, depois de festas, Philip e Helen discutiam os esposos e esposas dos seus amigos. Era um assunto de almofada fascinante. “Qual das esposas”, perguntava Helen, “agradava mais a Philip, para fazer amor. “ Ele já conhecia o jogo de cor e jogava-o bem. Assumia um ar pensativo, meditava, e depois dizia que, na realidade, nenhuma delas lhe agradava dessa maneira. Helen ficava satisfeitíssima, e insistia. Mas não havia uma, pelo menos uma, que ele achasse fisicamente atraente? Meditava um pouco mais. Bom, havia várias atraentes, enfim, isto é, de um ponto de vista técnico. Betty Markson era atraente. E Greta Unger. E Marie Valetti. Mas dormir com elas? Não, obrigado. Essas eram as melhores noites passadas com Helen.

     Na realidade, nunca lhe passou pela cabeça dormir com a mulher de um amigo íntimo. Essa relação pessoal tornava-as automaticamente neutras. Havia como que um tom de incesto. Com mulheres de simples conhecimentos estava certo, mas com mulheres de amigos, nunca. Tina Barlow era a excepção a essa regra.

     Trinta anos de idade, um corpo esbelto, a firmeza' de uma deusa. Tinha o cabelo de um tom acobreado muito suave, e, a maior parte das vezes, usava-o repuxado para trás e atado em forma de rolo. A pele era clara, de um rosado-claro. Os olhos grandes e redondos davam-lhe um ar de virgem espantada. Tinha um nariz clássico, uma boca sensual. Na face direita, como um golpe, havia uma covinha longa que se mostrava quando sorria. Tinha as linhas de mulher madura, com grandes seios, um torso carnudo e roliço, grandes quadris femininos. Tudo nela era provocante: o seu olhar, o seu caminhar, o seu falar.

     Nesse momento tentava imaginá-la ao lado de Peggy Degen. Era difícil. Ambas eram sexualmente prometedoras, mas de modos diferentes. Tina era uma mulher, Peggy, uma rapariga. Agora o que ele queria era a Peggy, mas durante todo o ano anterior, desde que pela primeira vez lhe pusera os olhos em cima, desejara Tina. Também nisso havia uma diferença. O seu desejo por Peggy fora súbito, agudo, profundo, obsessivo. O seu velho desejo por Tina fora uma coisa descansada, devaneante, passageira e contemplativa. Faltara-lhe poder de permanência. Mas lá estivera, latente, até aparecer Peggy. E Tina sentira-lhe a presença, e, de certo modo, provocara-o e cultivara-o. O âmbito dela em relação a ele raramente variara: declarações directas de paixão, proclamadas publicamente, mas num tom ligeiro; admiração constante e franca da sua pessoa; convites persistentes mas indefinidos para desfrutar da sua companhia. E ele colaborara nesse flirt. nesse joguinho amoroso. Mas, para além de um beijo breve ou de um apertão passageiro no decorrer de uma festa, nunca fizera qualquer tentativa. Não era um sedutor ou um amante experimentado. As complexidades de uma ligação amorosa com a mulher de um bom amigo horrorizavam-no. Com Tina era possível controlar-se. Com Peggy, apenas podia agir de acordo com o que sentia.

     Tinham atingido a área de estacionamento asfaltada em frente do alpendre-garagem dos Barlow.

     - Dez a um - disse Danny. - Desta vez ganhei-te bem.

     Philip bateu com a porta do carro, fingindo-se arreliado.

     - Hei-de derrotar-te completamente a caminho de casa.

    Tina esperava-os.

     - Ouvi-os chegar. - Lá estava ela, emoldurada no vão da porta, sorrindo, Trazia um fato de banho muito justo, azul-claro. O saiote estava arregaçado vários centímetros acima das virilhas. Estava encostada à ombreira, com as pernas carnudas e rosadas cruzadas.

     - As tuas orelhas não arderam na noite passada? - perguntou ela quando ele se aproximava com Danny.

     - A que horas?

     - Às três da manhã. Sonhei contigo. O bastante para dar ao Sam motivos válidos para divórcio em qualquer Estado... e havias de ter visto o nosso estado.

     - Ainda bem que te divertiste - respondeu ele com um ar ironicamente descoroçoado.

     Beijou-a no rosto e ela apertou-lhe a mão com calor. Depois olhou para Danny e despenteou-o com os dedos.

     - E como está hoje o meu Danny?

     - Bem.

     - A Liz e o Tony estão na piscina com o pai. Queres ir nadar?

     - Não - respondeu Danny.

     - Então vai até lá vê-los - disse Philip.

     Danny partiu a correr. Tina pegou na mão de Philip e assim caminharam paulatinamente através da casa espaçosa e moderna na direcção da piscina. Olhou para Philip.

     - Onde está a Helen?

     - A arrumar a mobília. Acabámos de nos mudar para a casa nova.

     - Já? Pensei que só se mudavam para o mês que vem.

     - Foi tudo muito rápido. Encontrámos comprador.

     - Quando é que somos convidados?

     - Em breve.

     - Assim espero. Já começava a pensar que me não amava, Sr. Fleming.

     - Amo-a até muito, Sr. a Barlow. Tu, eu e o Sam constituímos o meu triângulo favorito.

     - Quadrângulo, Helen.

     - Está bem, Helen.

     Tinham chegado junto do bar e podia ver dali Sam a boiar na piscina, como uma tartaruga exausta, com as crianças a chapinhar à sua volta. Danny estava à beira da piscina a bater palmas.

     - Queres dar um mergulho? - perguntou ela.

     - Nem trouxe calções!

     - Para que são precisos os calções? Até tiro o meu fato de banho, se assim te sentires mais à vontade.

   - Isso é que eu gostava de ver!

     - Isso é que eu gostava que tu visses - replicou ela, fazendo deslizar a própria mão, provocadoramente, pela coxa abaixo.

     Saiu para o exterior e Philip seguiu-a.

     - Olá, Sam. Sam acenou.

     - Serve-te de uma bebida, Phil.

     - Ainda é cedo.

     Ficou a olhar Tina a aproximar-se da piscina. O fato de banho apenas cobria partes das nádegas e a carne que sobressaía movia-se com o seu andar para a prancha de saltos. “Era uma visão deliciosa”, pensou Philip, mas logo emendou: “As mulheres são uma paisagem deliciosa.”

     Instalou-se preguiçosamente numa funda cadeira de verga, esticou as pernas para a frente, descontraiu-se na sombra, puxando fumaças do cachimbo. Tina estava à beirinha da prancha. “Voluptuosa”, era a palavra que ocupava agora a mente de Philip. Mergulhou com elegância e depois atravessou a piscina em braçadas fortes e bem marcadas. Sam continuava a flutuar. “Tartaruga não”, decidiu Philip, “uma bóia de salvação esticada. “ Liz e Tony brincavam na parte pouco funda, guinchando, enquanto atiravam uma bola molhada na direcção de Danny, que corria à volta da piscina e a devolvia, todo contente.

     Philip observava a cena com satisfação e depois inspeccionou o cenário. “Remoto e idílico”, pensou.

     O pátio e a piscina tinham sido construídos numa escarpa alta, muito acima dos cuidados do mundo e dos olhos curiosos. Para a esquerda, para lá da prancha de saltos, havia duas cabanas brancas pintadas de fresco. Do outro lado da piscina corria uma sebe de madeira com quase dois metros de altura, ali erguida para impedir que as crianças se afastassem, mas que resultava decorativa com as suas rosas brancas e a vinha trepadeira. Inclinando-se para a direita, as filas cerradas de papoilas cor-de-laranja alongavam-se com o soprar da leve brisa.

     Durante um brevíssimo instante as vozes esganiçadas das crianças e o espadanar da água desapareceram. Philip sentia-se desligado de qualquer compromisso que o ligasse aos seus semelhantes, com excepção de Peggy, que ali pairava com ele, igualmente desligada de tudo o mais, e, ao pensar nela, pensou na noite que se aproximava. Que desculpa poderia arranjar para sair de casa durante todo o serão? Considerou Sam. As vozes e o esparrinhar da água aumentaram de volume. Poderia contar com a colaboração de Sam? Tentou avaliar qual seria a reacção dele. Sam nunca contava histórias picantes e ria com pouco à-vontade quando alguém as contava na sua presença. Mobilizar Sam como colaborador numa empresa que envolvia infidelidade talvez não o deixasse muito feliz. Tinha a certeza de que Sam acederia. Mas com relutância. Mas quem mais havia? percorreu mentalmente uma parada de conhecidos. Os conhecidos eram mais seguros do que os amigos. Havia aquele grupo de gente do estúdio com quem costumava jogar póquer uma vez por mês. Mas já não jogavam desde o Natal anterior. Mesmo assim, talvez pudesse fingir que tinham recomeçado as partidas. Bom, isso podia ficar para medida de emergência, se não conseguisse inventar nada de melhor.

     Os Barlow saltitaram e brincaram dentro e fora de água durante três quartos de hora. Tina içou-se para fora da piscina e dirigiu-se, a água a escorrer ao longo do corpo, nas pontas dos pés, para fora do relvado como uma bailarina, para a cabana branca mais próxima. Alguns minutos depois Sam tirou as crianças da água e conduziu-as para a segunda cabana. Danny voltou para junto de Philip.

     - Acho que tu devias recomeçar as lições de natação- disse Philip.

     - Não gostei delas - disse o miúdo.

     - Estás a perder um grande divertimento.

     - Não me ralo.

     Philip levantou-se da cadeira e, sentindo-se irrequieto, dirigiu-se até ao bar, com Danny a segui-lo de perto. Philip pegou numa rolha e atirou-a a Danny, que lha devolveu. Estavam assim a brincar quando Sam, vestido com umas enormes calças de ganga azul, apareceu com Li e Tony.

     - Vem daí, Danny- disse ele. - Liz tem um jogo novo. Vamos buscá-lo. - Começou a afastar-se com as crianças, e depois, por cima do ombro, disse a Philip:

     - Abri ainda há pouco uma nova garrafa de uísque, Phil.

    Philip deu uma olhadela ao relógio de pulso. Eram três e meia. Um pouco cedo de mais, mas sentia-se nervoso. Entrou no bar no momento em que Tina, com um colete de pintinhas, que lhe deixava à mostra os topos dos seios abundantes, e calções brancos muito justos, reapareceu na sala.

     - Prepara um para mim também - disse ela. - Volto já.

     Colocou dois copos em cima do balcão do bar, abriu o frigorífico e tirou de lá o tabuleiro do gelo, soltando alguns cubos. Pelo arco podia ver Sam, que entrara na sala com uma caixa de cartão, sentar-se no chão com as crianças a volta.

     Philip concentrou-se no ritual de preparar as bebidas. Encontrou a nova garrafa de uísque na extremidade do balcão, mediu uma golada para cada copo e depois acrescentou mais meia medida.

     Preparava-se para pegar no jarro de água quando sentiu uma mão percorrer-lhe a parte de dentro da perna. Sobressaltou-se, virou-se um pouco e olhou para baixo. Tina estava agachada atrás do bar, a esfregar, brincalhonamente, a sua perna com uma das mãos enquanto com a outra abria o armário inferior para procurar uma garrafa de água tónica. Alarmado, deitou uma olhadela através do arco. Sam estava entretido a explicar o novo jogo aos filhos e a Danny.

     Philip agachou-se rapidamente ao lado de Tina.

     Ela sorriu-lhe.

     - Tens umas pernas bem feitas.

     - E tu também.

     - Fora de brincadeiras, Philip, porque é que não apareces por aí durante a semana?

     - Olha que te arrependes! Eu posso pegar-te na palavra!

     - É isso mesmo que eu quero.

     - O Sam não havia de gostar muito.

     - O Sam anda por fora durante todo o dia. Fico aqui muito sozinha. Podíamos nadar... conversar...

     - Posso fazer isso tudo com a minha mulher.

     - Há muitas coisas que eu faço melhor do que a tua mulher.

     Philip tentou manter o tom da conversa o mais ligeiro possível.

     - Agora começas a interessar-me.

     Ela fitou-o muito séria. De repente tomou o rosto dele nas mãos e de lábios entreabertos, beijou-o. Era exactamente o que Peggy fizera na noite anterior no corredor.

     - Se queres o resto... vem buscá-lo - murmurou ela. Pegou na garrafa de água tónica, levantou-se e começou a abri-la com ar concentrado. Ele continuou agachado ao lado das coxas dela. Ergueu os olhos para a linha fugidia dos curtos calções brancos. Sentiu um impulso irresistível de introduzir a mão debaixo daqueles calções. Magicava como é que ela reagiria. Em vez disso, provocadoramente, percorreu-lhe a perna nua com as pontas dos dedos, como ela lhe fizera.

     Ela não se mexeu nem olhou para ele, continuando a servir-se da água tónica. Era quase como quem diz: “Atreve-te. “ Ele levou os dedos mais acima. Mesmo assim ela não se mexeu. Ele parou. Levantou-se. Ela não olhou para ele.

      - Cobardolas! - disse ela, zangada. Ele tentou ler-lhe a expressão.

     - Da próxima vez não serei - ciciou-lhe.

     Deitou água na sua bebida e deixou o bar para se ir juntar a Sam e às crianças.

     Quando chegou a casa, com Danny, depois de ter sofrido pelo caminho outra volumosa derrota em castores por oito a três, foi encontrar Helen, na cozinha, a escrever-lhe uma nota, que rasgou ao vê-lo.

     - Estava a deixar-te um recado - disse ela. - Ia sair para fazer umas compras. O Nathaniel Horn telefonou.

     - Que é que ele queria?

     - Não me disse. Quer que lhe telefones.

     - Qualquer coisa acerca daquela coboiada, suponho.

     - Levo o Danny comigo às compras - disse ela. Como estavam o Sam e a Tina?

     - Como de costume. Ela perguntou-me quando é que os convidávamos. Quer ver a casa.

     - Temos de nos reorganizar primeiro. - Helen abanou a cabeça. - Que confusão...

     - Acho até tudo muito bem. Tens andado a arrumar este tempo todo?

     - Sem parar, como uma possessa - disse ela. - Estou exausta. A lixarada que uma pessoa vai acumulando! Nem fazes ideia. Que diabo andamos nós a fazer ainda com o teu velho uniforme da tropa, capacete e tudo? E para que é que guardamos cartões de Natal com oito anos de idade e cerca de mil National Geographics? E sapatos que tu já não calças desde a nossa lua-de-mel? Vou fazer uma limpeza sem dó nem piedade. Vou carregar um desses camiões do Exército de Salvação até eles berrarem “Basta” e depois juro que nunca mais vamos ter tanta porcaria. - Helen olhou em volta. - Onde está o Danny?

     - Na casa de banho.

     - Como se portou?

     - Muito bem. Brincou com os miúdos. Sem problemas.

     - Foi nadar?

     Philip franziu a testa.

      - Não lhe apeteceu e eu não insisti.

     - Daqui a um ano já nadará. Vais ver.

     Saiu à procura de Danny. Houve uma discussão breve e indistinta. Depois de lhe terem prometido uma barra de chocolate e um livro de histórias de quadradinhos, Danny, finalmente, apareceu, seguido por Helen. Saíram pela porta de serviço na direcção da garagem. Philip dirigiu-se ao bar portátil que se encontrava na sala de jantar e serviu-se de duas medidas de uísque. Levou o copo até junto do frigorífico, tirou deste um tabuleiro de plástico de cubos de gelo, torceu-o para libertar os cubos, tirou dois e deixou-os cair para dentro do copo. Depois, com a mão livre, pegou no telefone, levou-o para a mesa da cozinha e marcou o número de Nathaniel Horn.

     Enquanto na outra extremidade o telefone tocava, sentou-se e começou a bebericar. Passado um momento a ligação estava feita.

     - Está? - Reconheceu a voz de Nathaniel Horn.

     - Nat? Philip.

     - Ainda bem que telefonaste. Chegaram notícias há cerca de meia hora...

     - Queres dizer uma encomenda?

     - Lembras-te de quando aqui vieste, na quinta-feira? Mencionei um grande produtor independente com uma ideia para um filme biográfico? Ele queria o Ernie Ives, mas eu disse-te que lhe tinha dado uma coisa tua para ler?

     - Lembro-me.

     - Bom, tratava-se do Alexander Selby. Telefonou-me há cerca de meia hora. Quer encontrar-se contigo.

     Na indústria cinematográfica o nome Alexander Selby e a palavra “classe” são sinónimos. Philip já encontrara Selby várias vezes, em reuniões mundanas e políticas - uma vez, lembrava-se, num jantar para obter fundos para o Partido Democrático -, e tinha a certeza de lhe não ter produzido qualquer impressão.

     Selby só se ocupava de um ou de dois filmes por ano e para esses contratava sempre os escritores mais caros e mais famosos. Para trabalhar para Selby, era preciso estar à cabeça na lista dos best-sellers ou ter tido recentemente uma estreia sensacional na Broadway. Selby era um esteta magro e de fala arrastada, com um rosto que lembrava giz, que servia chá no escritório, às quatro horas da tarde, e falava de valores temáticos com uma ligeira sugestão de pronúncia inglesa, que adquirira durante dois anos que trabalhara em Londres para J. Arthur Rank. Corria o boato de que era homossexual, embora Selby se tivesse promovido de assistente de direcção a produtor por meio de um casamento inteligente com a enteada do presidente de um estúdio. Os frutos desse matrimónio eram um filho e um negócio financeiro independente. O filho demonstrava que Selby era, pelo menos, heterossexual; a companhia independente provava que Selby tinha certo talento como administrador e organizador. Não era um produtor criativo. Ideias novas e atrevidas não brotavam do seu cérebro. Uma revista semanal comentara até: “Tornou-se um sucesso ao empregar apenas os que já eram sucessos.” Os seus filmes eram sempre baseados em propriedades dispendiosas, conhecidas. Estas eram sempre montadas com opulência pelos melhores especialistas e técnicos no mundo dos espectáculos. As estrelas eram sempre nomes garantidos de bilheteira (para ir buscar tais nomes aos principais estúdios, Selby fora o primeiro a oferecer aos actores e actrizes participação nos lucros das suas empresas). Com raras excepções, todos os seus filmes amealhavam lucros consideráveis. Era muitas vezes incompreendido, creditado com virtudes que não possuía, e criticado por faltas que nem sequer existiam. Não era por caridade desinteressada que punha tanto do seu tempo à disposição dos doentes e dos necessitados, mas por desejo de imortalidade. Não era por vaidade que empregava dois grupos de agentes de imprensa para o servir (e telefonar-lhe diariamente), mas por solidão. Esse Inseguro e autocultivado raramente empregava os Philip Fleming sem certificados da sua indústria, e era isso que fazia Philip admirar-se.

     - Mas para que diabo me quer ele? - perguntou Philip a Nathaniel Horn. - Não publiquei recentemente nenhum best-seller...

     - Mas escreveste O Círculo de Byron - disse Horn com simplicidade.

     - Não me digas que ele ouviu falar nisso?

     - Leu-o ontem à noite. Ofereci-lhe o meu exemplar...

     - Mas porquê?

     - Porque o grande filme biográfico que está a planear... diz respeito a Lady Caroline Lamb...

     A voz de Philip reflectia o seu espanto.

     - Um filme sobre Caroline Lamb.

     - Uns três milhões de dólares de fita a filmar em Inglaterra. É um argumento para três dos maiores nomes em Hollywood e Londres... E, segundo o que ele me disse, o drama já lá está... A tempestuosa Lady Caroline apanhada entre o amor pelo marido, Lorde Melbourne, mais tarde primeiro-ministro, e pelo amante, Lorde Byron, a figura mais romântica da sua época...

     - Pareces um cartaz publicitário.

     Mas Philip já estava a ver o produto acabado.

     - Estou apenas a citar Alex. Seja como for, lembrei-me de que havia no teu livro um capítulo sobre Lady Caroline. Disse ao nosso amigo que o lesse. Ele leu o capítulo, depois leu o livro todo, ontem à noite. Ficou bem impressionado. E quer falar contigo.

     - Quererá empregar-me?

     - Não sei, Phil. Deve estar interessado, ou não se daria ao trabalho de te ver. Tudo o que ele me disse foi que gostaria de conhecer-te... Que tinha umas ideias vagas que gostava de te apresentar...

     - Achas que isso implicaria uma viagem?

     - Pode muito bem acontecer. Alex gosta de fazer as coisas como deve ser.

     - Caramba, isso seria alguma coisa! - Seria mais do que alguma coisa, Philip sabia bem. Aquilo poderia catapultá-lo da classe western, dos créditos medíocres, para uma nova e mais exaltada posição na indústria cinematográfica. Todavia, nem sequer essa possibilidade dava agora a Philip um acréscimo de excitação. Reconhecia o que isso poderia significar para si: dólares e cêntimos. Mas continuava a ser um argumento cinematográfico. Cento e vinte a cento e cinquenta páginas de diálogo e acção, salpicadas de dissolves, para servir de base imensamente maleável a cem ou mais indivíduos que o modificariam, o torceriam, o deturpariam, o tornariam seu. Não era o que ele queria, mas talvez fosse o que ele precisava.

     - Marquei o encontro para o almoço - ia dizendo Hoorn. - Acho que será melhor eu ir também, para ajudar a quebrar o gelo. Ao meio-dia e meia, no Panaro.

     - Lá estarei.

     - É melhor passares este serão a rever os teus conhecimentos sobre Caroline Lamb.

     “Este serão! “ Philip sorriu. Nessa noite estaria ocupado com coisas melhores do que Caroline Lamb.

     - Não te preocupes - disse a Nathaniel Horn. - Hei-de impressioná-lo.

     Quando desligou sentiu-se subitamente contente, não por saber que ia entrar em contacto com Alexander Selby, mas por reparar que, finalmente, encontrara uma razão válida para sair nessa noite.

     Esperando impacientemente que Helen regressasse, pegou no copo de uísque e levou-o para o escritório. Andou à procura por entre as caixas, até encontrar aquela em que escrevera, com grandes letras de marcador, “Pegar com cuidado”. Continha dez exemplares de O Círculo de Byron. Abriu a caixa e tirou um volume. Mais uma vez o livrinho lhe pareceu substancial e importante na mão, exactamente como nessa longínqua manhã mágica em que recebera do editor os primeiros exemplares. Dirigiu-se ao cadeirão de couro cor de ferrugem, afundou-se nele, colocou o copo na pequena mesa, voltando entre as mãos o livro de capa vermelha e cinza.

     Começou a folhear o livro até encontrar o capítulo que pretendia. Depois instalou-se melhor para o ler, e ficou imediatamente surpreendido ao verificar como estava bem escrito. Os dados de genuína erudição eram reservados e discretos, o estilo era vivo e a atitude autoral aparecia impregnada de compreensão e de percepção.

     Enquanto lia, ia arquivando na cabeça os factos mais salientes. Lady Caroline Ponsonby Lamb, nascida a 13 de Novembro de 1785. Aos vinte anos, em 1805, casara com William Lamb, que mais tarde seria Lorde Melbourne. Colapso histérico no dia do casamento. Um filho, um filho imbecil. Em 1812 encontra Lorde Byron. Durante um momento deixou de arquivar factos para ler o que em tempos escrevera:

     “Caroline recebia Byron com regularidade nos seus aposentos de Melbourne House. Chegava para o fim da manhã e ficava o dia quase todo. Quase sempre ele falava e ela escutava. Estavam ambos profundamente apaixonados, mas nenhum deles dava um passo para consumar esse amor. Byron, nas fases iniciais, caminhou com cautela. Se os talentos dela eram agradáveis, eram também, como ele mesmo lhe disse, “infelizmente associados a uma ausência total de regras de conduta... O teu coração, minha pobre Caro (que pequeno vulcão!), extravasa lava para as tuas veias”. Quando ela lhe ofereceu as jóias para que ele se libertasse das dívidas, recusou a oferta, retribuindo-lhe em troca um raríssimo botão de rosa acompanhado de uma nota: “A senhora, dizem-me, gosta de tudo o que é novo e raro - durante uns momentos”. Mas aquilo não podia continuar assim. Dentro de poucas semanas eram amantes. Começava agora a ignorar por completo os factos em si mesmos, absorvidos pela torrente de palavras com que contava a breve mas apaixonada ligação, as tentativas de Byron para a quebrar, o comportamento indisciplinado de Caroline depois. Continuou a ler, quase esquecendo que as palavras tinham saído um dia do seu cérebro e tinham sido escritas pela sua mão.

     Deixou cair o livro em cima dos joelhos e pensou acerca da linda, caprichosa e patética Caroline Lamb. Como é que não reparara nisso anos antes? Era a figura-tipo perfeita para uma dramatização. Numa só loura neurótica encontravam-se todos os elementos necessários para encher a bilheteira: nobreza, inconformismo, beleza, sexo. Alexander Selby era um génio.

     Estava prestes a recomeçar a ler quando ouviu abrir a porta da rua.

     - Philip! - era Helen.

     Voltou a enfiar precipitadamente o livro na caixa e dirigiu-se à pressa para o vestíbulo. Helen vinha carregada com dois pacotes de provisões, precariamente equilibrados, a chave ainda nos dedos. Aliviou-a de uma das embalagens, manteve o guarda-vento aberto para que Danny entrasse, sobrecarregado com uma dúzia de laranjadas, e depois seguiu-os até à cozinha.

     Ajudou-a a tirar as coisas dos pacotes. Ela esquecera-se por completo da chamada de Nathaniel Horn. Era melhor lembrá-la.

     - Telefonei ao Nat Horn - disse ele, colocando os pacotes de bolachas na prateleira.

     - Era alguma coisa importante? - Ela estava no alpendre de serviço, junto à arca frigorífica.

     - Pode ser - disse ele. - Esperou que ela regressasse. - Nat ouviu dizer que o Alex Selby estava a projectar um grande filme sobre a Caroline Lamb.

     - Quem é a Caroline Lamb? - perguntou Helen, procurando ruidosamente uma frigideira.

     Isto irritava-o sempre.

     - Se tivesses lido o meu livro, lembravas-te. A amante de Byron.

     Ela mostrou-se logo contrita.

     - É claro que me lembro, mas já li o livro há tanto tempo que quase me esquecia. E ele vai fazer um filme acerca dela?

     Philip acenou afirmativamente.

     - Parece que sim. E leu o meu livro, e gosta do que eu escrevi.

     - Então vais ser contratado?

     - Ainda é cedo para ter a certeza. Selby quer encontrar-se comigo amanhã, mas entretanto o Nat quer discutir comigo alguns pormenores esta noite. Para eu ir preparado.

     Ficou à espera. Ela vinha do frigorífico para o fogão com a manteiga.

     - O Nat vem cá esta noite?

     - Não. Prometi ir ter com ele à baixa, depois do jantar.

     Ela estava a pôr algo na frigideira.

     - Bom, não fiques até muito tarde ou de manhã andas arrasado.

     Estava feito. Tinha sido quase fácil de mais.

     Domingo à noite chegara.

     Estacionou em frente da casa de Ridgewood Lane, puxou bem para trás o travão de mão, desligou a ignição e enfiou a chave no bolso do casaco. Inclinou-se sobre o assento corrido da frente, espreitando pela janela do carro na direcção da casa. As luzes da sala estavam acesas. Deitou uma olhadela para trás, a fim de verificar se estava à vista algum dos seus antigos vizinhos. Mas a rua estava deserta.

     Endireitando-se, deitou uma derradeira olhadela ao espelho retrovisor. Tinha o cabelo em ordem. Tinha tomado banho de chuveiro, tinha-se barbeado, tinha-se vestido com meticuloso cuidado. Trazia o fato de que mais gostava e o que melhor lhe ficava: um casaco e calça desportivos cinzento-escuros, uma camisa cinzento-clara e uma gravata de lã azul.

     Pegou nas prendas, brilhantemente embrulhadas, que trazia no assento ao seu lado. O frasco de Arpège enfiou-o no bolso do casaco, mas levou nas mãos as garrafas de uísque e de conhaque. Desceu do carro e começou a caminhar pelo chão de pavimento de tijolo. Premiu duas vezes o botão da campainha e esperou. Passado um momento ouviu-lhe os passos. A porta abriu-se e ela ali estava. Tinha estado meio à espera que ela lhe sorrisse e o beijasse quando entrasse na casa dela, mas em vez disso, ela estava com ar sério e reservado.

     - Um grego portador de dádivas - disse ele, apresentando-lhe as garrafas quando entrava.

     - Não era preciso - disse ela, fechando a porta. Ali parados, no vestíbulo, ficaram calados e pouco à-vontade. Percorreu-lhe o corpo com os olhos, de alto a baixo, e fez com a cabeça um gesto exagerado de aprovação.

     - Muito bonito - disse ele. Ela trazia uma blusa muito simples de seda branca, que deixava adivinhar o soutien de renda e uma saia travada azul-ultramarina. Não trazia meias.

     Ela inclinou a cabeça numa cortesia.

     - Obrigada. - Depois indicou uma cadeira. - Senta-te. Vou meter o Steve na cama.

     Ele acenou com as garrafas no ar.

     - Vou pô-las na cozinha. Apetece-te uma bebida?

     - Com certeza. Que queres beber?

     - Uísque?

     - Serve.

     Ela desapareceu na direcção do quarto de Steve e ele foi para a cozinha preparar as bebidas.

     Quando regressou à sala, ela já ali o esperava, acompanhada pelo filho. O ar frágil dela e o facto de o marido também ter sido pequeno, tinham-no levado a pensar que o filho seria tão delicado como o seu Danny. Mas, de pijama, aquele bonito rapazinho parecia um bloco de granito. Tinha cabelo muito claro e os olhos e o nariz eram os da mãe.

     - Este senhor é o Sr. Fleming, Steve. Foi ele que nos vendeu esta casa.

     Steve estendeu-lhe a mão.

     - Como está? Philip apertou-lha.

     - Olá, Steve. - Depois olhou para Peggy. - Tens aqui um verdadeiro cavalheiro - disse ele, recordando os encontros do seu filho com amigos, tantas vezes acanhados e sem termos.

     - Acredito em boas maneiras - disse Peggy com simplicidade. - Não acredito nessa ideia da excessiva permissividade. Detesto escolas progressivas.

     Philip ficou irritado.

     - Eu mando o Danny para uma escola progressiva. Acredito numa certa autoridade, é claro, mas não gosto de disciplina só pela disciplina. Esse princípio produziu um par de gerações perfeita mente horrorosas.

     - Estás ofendido - disse ela.

     - Não. - Mas estava, e era incapaz de o ocultar. A cabecita de Steve movia-se de um para o outro, admirada. Philip virou-se para ele.

     - Que idade tens tu, meu jovem?

     - Tenho quatro anos.

     - Tenho um rapazinho mais velho do que tu, com sete. Tens de o conhecer um dia destes.

     Peggy pegou na mão do filho.

     - Horas de ir para a cama. Diz boa-noite.

     Steve deu as boas noites com relutância e, caminhando ao lado da mãe, lá foi para a cama. Philip sentou-se na cadeira e começou a beber o uísque. Nem o sabor forte da bebida conseguiu libertá-lo de uma crescente sensação de desapontamento. Não lhe agradara aquela discordância trivial que o opusera a Peggy. Mas, mais fundo e mais irritante, sabia-o bem, era a sensação de ter esperado de mais daquele encontro. Esperava que ela o aguardasse e recebesse com os braços abertos, cheia de calor e de exclamações afectuosas, respondendo ardentemente aos seus ardentes beijos. Em vez disso, ela aparecera-lhe distante, recebendo-o com a mesma formalidade com que teria recebido um estranho. Estaria ela arrependida de o ter convidado?

     Entretanto regressou à sala a repuxar os cabelos para trás.

     - Que dia! - exclamou ela. - O Steve a desempacotar coisas. E a Dora e o Irwin a tentarem ajudar. - Pegou na sua bebida e sentou-se no sofá, na frente dele, do outro lado da mesinha de café. - Imagino que a Helen deve ser estupendamente eficiente.

     - Nem por isso. Por volta desta hora, todos os dias, começa a ter aspecto de quem esteve durante o dia todo a lutar com um gigante.

     - Bom... e tu, tiveste um bom dia?

     - Assim-assim. Andava inquieto. Estava demasiado ansioso por que chegasse esta noite.

     Ela fez de conta que não ouviu.

     - E amanhã, que farás? Em que é que estás a trabalhar?

     - Ainda não sei. O meu agente telefonou-me hoje. Já ouviste falar de Alex Selby?

     - Com certeza.

     - Bom, ele quer fazer uma fita sobre Lady Caroline Lamb...

     - Mas isso é uma ideia estupenda!

     - Também acho. Enfim, leu o meu livro, há lá um capítulo sobre Caroline... ou eu já te tinha dito isso? Gostou e quer falar comigo amanhã.

     - Faço votos para que corra tudo bem. - Ela apontou para um volume, aberto e de páginas para baixo, em cima da mesa de café. Era o Do Amor, de Stendhal. - Vieste reavivar o meu interesse pelo Stendhal. Tinha começado agora mesmo a lê-lo. Para falar com franqueza, acho-o mal escrito, colegial. Mas divertidíssimo. Era tão criança. Podiam-se escrever cinco volumes sobre o que ele não sabia do amor.

     - Quem é que sabe! Cada um tem apenas os seus conhecimentos pessoais.

     - Então acerca das mulheres, não sabia mesmo nada de mulheres. Só sabia acerca de si mesmo.

     Discutiram Stendhal durante bastante tempo e depois de terem esgotado o assunto tinham também chegado ao fim das bebidas. Philip dirigiu-se à cozinha para preparar outras. Fê-las duplas. Quando regressou, Peggy fumava. Lembrou-se então do presente que trazia no bolso. Pegou nele e entregou-lho sem uma palavra.

     - Que é isto?

     - Um presente para ti.

     - Mas mal me conheces... - Mas abriu-o e ficou encantada. - Retiro o que disse. Talvez me conheças até muito bem.

     - Sinto que sim.

     - Aposto que eras capaz de fazer uma amante feliz. Mimá-la. Estragá-la com mimos. Pareces desse tipo.

     - Talvez.

     - Também dás presentes à tua mulher?

     - Nos dias de anos. E também em certos aniversários, no Dia da Mãe, na Páscoa, no Natal... e, é claro, no Dia da Bandeira.

     - Tonto. - Colocou o frasquinho de perfume em cima da mesa e pegou no copo. Provou e olhou para ele.

     - Que é que puseste aqui? Estás a ver se me embebedas?

     - Estou.

     Ela encolheu os ombros. - Se isso te faz feliz. - Voltou a beber. - Tiveste dificuldades em sair esta noite?

     Acenou negativamente.

     - Não. Estou a fazer investigações acerca de Caroline Lamb.

     - Estás?

     - Até certo ponto.

     - Que pensaria a Helen? Já fizeste isto antes?

     - Nunca.

     - Não acredito.

     - Nunca o quis fazer... a sério. És a primeira. Vi-te uma vez e tinha de voltar a ver-te.

     Ela voltou a puxar o cabelo para trás.

     - Não sei bem se é o que tu dizes ou se é o efeito da bebida... mas agrada-me o som. - De repente perguntou-lhe: - Não estás aqui comigo por eu ser viúva?

     - Que diabo queres dizer com isso?

     - Numa festa, um homem uma vez disse-me que garanhões à solta gostam de sair com viúvas novas. São as mais fáceis.

     - Isso é ridículo.

     - Disse-me que perderam todo o sentimento de segurança e solidez, e continuidade. Que a sua armadura moral enfraqueceu. Além disso, precisam de alguém, sentem-se sós.

     - Disso não sei nada.

     - Mas é verdade - disse ela. Depois acrescentou:

     - Embora não me pareça que me possa considerar típica. Sou capaz de viver sozinha e de gostar.

     - Dora disse-me que tens muitos admiradores.

     - Palmas à Dora. Tenho alguns.

     - Alguém a sério?

     - O que tu queres dizer é se eu sinto a sério acerca de algum?

     - É.

     Ficou um momento a pensar.

     - Acho que não. Talvez um.

     - Jake Cahill? - perguntou ele. Ela pareceu ficar surpreendida.

     - Onde ouviste falar dele?

     - Dora.

     - Bom... ele quer casar comigo, sem dúvida. Mas não sei. Vai passar por cá no próximo fim-de-semana. - Atirou aquilo quase como um desafio. Ele assim o percebeu e aceitou-o imediatamente. Franziu a testa.

     - E queres tu dizer que eu terei de deixá-lo ver-te?

     - Receio bem que sim.

     - Talvez eu não consinta.

     - Pareces extremamente possessivo para um homem casado.

     - Quero duas mulheres - disse ele.

     - E eu quero um homem - disse ela. Passou-lhe o copo vazio. - Apetece-me mais um, mas não me embebedes.

     Philip acabou de esvaziar o seu copo e foi para a cozinha com os dois copos. Deitou uns cubos de gelo em cada um, serviu o dela com medida e meia e o seu com novo duplo. Encheu os copos com água e regressou à sala.

     Ela aceitou o copo e começou imediatamente a beber. Ele queria sentar-se ao lado dela, mas não havia espaço. Instalou-se na cadeira que se encontrava na frente dela e bebeu.

     A conversa era espasmódica. Ele fez-lhe perguntas acerca da família dela e ela respondeu-lhe. Ela fez-lhe perguntas acerca da dele e ele satisfez-lhe igualmente a curiosidade. Discutiram Nova Iorque. Recordaram peças que ambos tinham visto. Falaram de viagens. Com excepção de um passeio a Cuba, ela nunca saíra dos Estados Unidos. Ele falou-lhe de Paris. Tentou pessoalizá-la para ambos, atraí-la ao seu sonho secreto, mas ela conservou a distância.

     Acabou a bebida. Apesar do que já tinha bebido, parecia tensa e reservada e ele sentia-se confuso.

     Já estavam em silêncio havia quase um minuto quando ele, por fim, decidiu dizer o que pensava.

     - Pareces arrependida de me teres convidado.

     - Talvez esteja.

     - Porquê?

     - É tudo tão complicado. Tu és casado... Não sei bem...

     A voz dela enfraqueceu, esvaiu-se.

     - Mas, apesar de saberes isso, disseste-me que viesse.

     - Não me pude conter. - Pareceu suster a respiração. - Amo-te.

     Ele pôs-se de pé, impulsivamente, sem pensar. Rodeou a mesinha de café, e ela esperava-o, tensa. Depois, ajoelhando no sofá, ao lado dela, baixou-se e beijou-a. De início, ela limitou-se a aceitar-lhe o beijo, mas depois, com o ritmo da respiração a acelerar, retribuiu-lhe o beijo, procurando-lhe o braço onde o músculo se retesara, agarrando-se-lhe desesperadamente.

     Ele baixou-se lentamente, metade sobre o sofá, metade sobre ela, sem descolar os lábios apaixonados da boca dela. Os braços dela rodeavam-no. Ele tinha uma das mãos por detrás da cabeça dela, puxando-a para si. A outra mão deslizara até aos joelhos, depois insinuara-se debaixo do vestido. Fez correr os dedos sobre aquela coxa nua, desconhecida, até tocar a orla das calcinhas de renda. Ia-a acariciando levemente, interminavelmente.

     Subitamente ela afastou os lábios dos dele e empurrou-lhe os braços. Um pouco desarranjada, conseguiu levantar-se.

     - Porque não?

     Ele observava-a. Ela olhou para ele, ainda meio sentado, meio deitado, sobre o sofá.

     - Queres fazer amor comigo?

     - Que queres tu dizer com isso?

     - Se queres fornicar?

     A palavra saída daquele rosto tenso, quase acriançado, pareceu-lhe despropositada e chocante. Philip não era um puritano, excepto talvez lá muito no íntimo, mas as implicações primitivas da palavra abalaram-no e amedrontaram-no. O facto de ela conhecer e usar a palavra implicavam relações sexuais cruas, sem romance, e uma experiência superior sem limites. Tudo isto lhe atravessou a mente enquanto se punha de pé num salto.

     - Mesmo muito! - disse ele, abraçando-a.

     Ela libertou-se outra vez. Fitou-o intensamente, com os lábios crispados numa expressão decidida.

     - Dá-me só um minuto para eu me preparar - disse ela, quase irada.

     Dirigiu-se para a casa de banho. Inexplicavelmente sentiu um arrepio e começou a tremer. Mas não percebia porque é que estava a reagir daquela maneira. Não era precisamente isso que ele secretamente desejara e esperara? Não seria! Não sabia. Procurou qualquer coisa no meio da confusão em que se encontrava. E depois soube. Esperara chegar até à beirinha do abismo, como já acontecera algumas vezes antes, mas não precipitar-se nele. Tinha desejado outras mulheres, mas nunca, nem uma só vez, fora infiel a Helen. Tinha sido agradável estar ali a conversar com Peggy, e, momentos antes, entregar-se àquelas carícias preparatórias que o estimulavam, imaginando sempre um acto de amor selvagem e terno, tão perfeito, tão interminável que não podia existir. Agora, subitamente, por detrás da porta da casa de banho, estava a despir as roupas, a blusa simples, o soutien, a saia travada azul, as calcinhas de renda. Dentro em pouco, completamente nua, suplantaria a imagem que ele dela fazia estendida sobre a cama. E ele estaria ali ao seu lado, de pé. E o tal acto de amor teria de ser perfeito, no que lhe dizia respeito.

       Dirigiu-se quase cegamente, à cozinha, desenroscou a tampa da garrafa de uísque e despejou uma porção no copo. Nem sequer se preocupou em pôr gelo e água. Bebeu uma grande golada, sentindo a queimadura do uísque puro na garganta e no peito, desesperadamente à espera de se perder, imediatamente, na segurança da intoxicação. Implorava que aquela sensação de frio e de medo desaparecesse. Mas tal não aconteceu.

     Acabou de beber o que tinha no copo e, lentamente, dirigiu-se ao vestíbulo. Ouviu a água correr na casa de banho e imaginou as libações místicas que ela naquele momento praticava. Continuou a caminhar, agora apressadamente, na direcção do quarto.

     Puxou a colcha para os pés da cama e libertou as abas do cobertor. Tirou a gravata, desabotoou a camisa e pendurou-as nas costas da cadeira. Depois, sentando-se, pouco à vontade, desatacou os sapatos, tirou-os, descalçou as peúgas e encafuou-as bem dentro dos sapatos. Abriu o fecho de correr das calças e tirou-as, atirando-as também para cima da cadeira. Hesitou, mas depois sentou-se na beira da cama, ainda em cuecas. Dali podia ouvir a água que continuava a correr na casa de banho.

     Fora a rapidez de tudo aquilo que o petrificara. Desde que pusera os olhos em Peggy Degen que começara a fantasiar aquele momento, não pensara mesmo noutra coisa. Mas, lá bem no fundo de si próprio, nem por um momento esperara que viesse a acontecer. Ou seria que tivera esperança de que tudo aquilo não acontecesse? Pensou no marido dela ainda vivo. Bernie Deggen. Bernie tê-la-ia satisfeito? Seria um homem bem constituído e viril? Teria sido capaz de aguentar o acto durante muito tempo? E os homens que conhecera depois dele? Quantos teriam procedido da mesma maneira? Quantas vezes sucedera? E seriam bons? O que é que ela sabia? O que é que ela esperava?

     Ouviu o estalido da porta da casa de banho a abrir-se. Sentiu o arrepio da frialdade ceder perante uma faixa de calor que ia tomando conta do seu corpo. E, de repente, sentiu-se excitado, desejoso de admirar a beleza da sua nudez, de sentir o calor da sua carne nua sob a palma da sua mão.

     Ela apareceu na moldura da porta, com a luz do vestíbulo atrás de si, e achou-a extraordinariamente bela. Tudo aquilo que esperara e imaginara era verdade. Sentiu-se orgulhoso pelo facto de ela poder aparecer assim à sua frente, privadamente. A confusão que antes sentira dissolveu-se perante o irreprimível desejo. Desejo que agora o fez pôr de pé: ser amante dela, explorar em profundidade as suas emoções mais íntimas, latentes e invisíveis, conhecer a sua reacção.

     Trazia vestida uma camisa de noite azul-pálida, transparente, com o corpete debruado a renda e a saia pregueada verticalmente a partir da cintura. A luz do vestíbulo por detrás dela via-se através do tecido, de forma a recortar perante os seus olhos os contornos embriagadores, daquele corpo esbelto, bem feito, mais feminina ainda do que imaginara.

     - Gostas? - perguntou ela, abrindo um pouco em leque a saia da camisa, para lha mostrar melhor. - É a primeira vez que a visto.

     Antes que ele pudesse responder, ou interceptá-la, conforme planeara, ela passara por ele para o outro lado da cama e sentara-se. Fez rodopiar as pernas para cima da cama, aproximou-se do meio da cama, quase até estar por baixo dele, e só então deixou cair a cabeça para cima da almofada. Olhou-o sem constrangimentos.

     Ele ajoelhou-se na cama, depois estendeu o seu corpo nu ao lado do dela. Ela olhou para ele com uma expressão doce, solitária.

     - Que hás-de tu pensar de mim? - disse ela.

     - Amo-te - garantiu-lhe ele. - Amo-te de todo o coração.

     E sentia com todo o coração aquilo que dizia. Beijou-lhe os cabelos, aquele cabelo castanho, macio e brilhante, depois foi depositando beijos breves pelo rosto dela, na arcada do nariz, pelas altas maçãs do rosto, atingindo finalmente a boca, que beijou, à volta e por dentro, encontrando com a sua língua a língua dela. Com uma das mãos fez deslizar a alça de um dos ombros e ela, condescendente, ergueu o braço para a deixar cair. O seio, pequeno mas alto, o grande mamilo acastanhado, duro e muito direito, ficaram expostos.

     Beijou-a mesmo abaixo do mamilo e depois apoderou-se dele com os lábios. A sensação deliciosa misturava-se com o bater acelerado do coração dela contra o seu rosto.

     Com a mão agora livre, inclinou-se para baixo e começou a tentar puxar a saia da levíssima camisa de noite. De repente sentiu as mãos dela no seu rosto.

     Com suavidade, ela empurrou-o. Surpreendido, afastou-se e olhou-a. Ela dobrou-se e pegou no rolo da camisa de noite com as mãos. Depois, endireitando-se num só movimento, fê-la passar por cima da cabeça. Apoiado num cotovelo, continuava a observá-la, sentindo como que um temor, misturado com um crescente orgulho de posse. As pernas dela eram as mais longas que jamais vira, ou assim lhe pareciam. A barriga, com excepção da brevíssima depressão do umbigo, era perfeitamente plana.

     Atirou com a camisa de noite para o lado, abanou os cabelos e estendeu-lhe os braços abertos, e ele meteu-se neles, abraçando-a também. Estavam meio sentados, carne contra carne, os seios dela duros contra o seu peito, os dedos dela a brincar-lhe ao longo da espinha. Ele apertou-a mais no abraço e deixaram-se cair ambos sobre a almofada.

     - És maravilhosa - disse ele, sem fôlego -, maravilhosa...

     - Amo-te. Nem estou arrependida. Quero-te. Preciso de ti.

     - Eu amo-te mais.

     Ele baixou a cabeça para lhe voltar a beijar os seios, depois desceu com os lábios até lhe roçar o umbigo, acariciando-a insistentemente com a mão, e ela começou a rodar as ancas, suspirando, suspirando...

     Com um dos braços, de repente, cobriu os próprios olhos. A expressão do seu rosto reflectia, simultaneamente, êxtase e dor.

     - Philip - murmurou com dificuldade -, Philip... agora... tenho de acabar... agora... vá...

     Ela soergueu o corpo para o mover para melhor posição.

     Ele moveu-se também para a possuir, mas, de repente, reparou que era inútil. O medo que tinha estado a crescer dentro de si, que ele empurrara para longe mas que ficara lá, atingia-lhe agora o baixo ventre e agarrava-o ali. Nem precisou de olhar para saber que era inútil.

     Olhou para ela: ainda tinha o antebraço a cobrir o rosto, os lábios entreabertos. Era aquele o momento ideal de a possuir. Com todas as suas emoções, desejava possuí-la, mas o seu corpo recusava-se.

     Ali estava ela deitada, suplicante e pronta, de olhos fechados, com o seio a arfar ritmicamente.

     O pânico apoderou-se dele por completo. Sabia que tinha de agir. “Faz qualquer coisa, seja o que for”, dizia para si mesmo. Talvez resultasse, talvez resultasse.

     Ergueu-se e colocou-se sobre ela, as coxas mal sentindo a pressão das dela, pensando apenas que aquilo tinha de acontecer, como sempre acontecera antes.

     Deixou cair o seu peso todo sobre aquele corpo maleável e complacente e esperou, esperou, mas nada aconteceu. Passado um momento, ela abriu os olhos com uma ruga de incompreensão na testa. Fitou-o. Ele não sabia o que dizer.

     - Suponho que não estou ainda pronto - disse ele.

     - Fiz alguma coisa que não devia? - perguntou ela.

     - Não! - respondeu ele num tom profundamente infeliz.

     Deixou-se deslizar e ficou estendido na cama, ao lado dela.

     - Desculpa - pediu ele - e sê paciente comigo...

     Voltou a beijá-la, mas a paixão parecia tê-los abandonado. Ela aceitava-lhe os beijos, mas não os retribuía. Uma espécie de espanto apoderara-se dela, e dele apoderara-se o desespero. Encontrou os lábios dela, a língua, e, gradualmente, o ardor dela renovou-se até que a sua respiração voltou a acelerar-se. Continuou a acariciá-la, mas sem sentir nada dentro de si, excepto o já familiar arrepio e uma vacuidade desconcertante. Ela abraçava-o outra vez, ressuscitada e reagindo. Ele guiou-lhe a mão que, quase com relutância, sem jeito ou arte, o acariciou também, mas ele continuava a não sentir qualquer reacção.

     Passado um momento a mão dela parou. Os seus olhos procuraram os dele, deslocaram-se brevemente para o seu corpo, depois afastaram-se, e ele ficou com a certeza de que ela sabia. Lentamente, procurando às apalpadelas o cobertor, virou-lhe as costas.

     Com uma sensação desencantada de futilidade, mecanicamente e sem emoção, ele voltou a tentar. Mas os preparativos amorosos, desta vez, não a reavivaram. E a ele não faziam a menor diferença.

     Finalmente estendeu-se de costas na cama, com os olhos fitos no tecto, sem a ver, segurando-lhe a mão muito apertada e à espera de um milagre. Mas era inútil. Nenhum deles disse uma palavra.

     Depois do que pareceu uma eternidade, virou a cabeça e espreitou o relógio luminoso que se encontrava ao lado da cama. Eram quase duas horas da manhã. Tinha prometido a si mesmo que estaria em casa por volta da meia-noite. Não seria fácil justificar uma hora mais tardia pela simples menção de Nathaniel Horn. E uma hora mais tardia ainda poderia dar origem a sarilhos sérios. De início ainda pensou: “Que a Helen vá para o diabo. “ Arriscaria todas as consequências possíveis em casa e ficaria ali a noite inteira até as coisas correrem bem. Mas, de repente, sentiu-se cansado de tudo aquilo, queria abandonar aquela cama e aquele corpo nu que o apoucavam, fugir para lugar seguro. Sentou-se na beira cama.

     - São duas horas.

     - Sim.

     - É melhor ir para casa.

     Ela não respondeu. Ele olhou-a um momento, sem uma palavra, curiosamente distante. Aquele corpo magnífico era, agora, uma visão familiar, e sabia que ainda o desejava, mas já não sabia se o desejava por a amar ou se apenas por se odiar a si mesmo. A necessidade de possuir aquele objecto nu apoderou-se dele e cresceu dentro dele como uma fogueira. Num impulso estendeu a mão, procurando-a, tocando-lhe a coxa. Ela apertou as pernas numa atitude de reprovação, pegou-lhe no pulso e afastou-lhe a mão com firmeza.

     - Estou cansada - disse num tom frio. Procurou de novo o cobertor e cobriu-se.

     - Peggy, desculpa. Não sei o que hei-de fazer. Não consigo explicar tudo isto.

     - Não há nada que explicar.

     - É claro que há - disse ele, agastado. - Não percebo o que me aconteceu. - É a primeira vez que me acontece uma coisa destas. Já tenho dormido com outras mulheres. - Teve o cuidado de não mencionar Helen.

     - Sempre correu tudo bem.

     - Talvez tenhas bebido de mais.

     - Talvez seja isso - disse ele sem convicção. Perscrutou-lhe o rosto angélico. - És linda, Peggy.

     - É melhor ires para casa. Quero dormir. Tenho de levar o Steve para a escola de manhã bastante cedo.

     Ele não queria perder o pouco que tinham.

     - Amo-te, Peggy. Amo-te mais do que a qualquer outra pessoa no mundo.

     Ela nada respondeu.

     Levantou-se da cama e, atordoado, vestiu-se. Quando estava pronto olhou para ela. Estava deitada de lado, de costas para ele. Podia ver dali a linha curva da espinha, à luz que vinha do corredor. Inclinou-se sobre ela e beijou-lhe os cabelos.

     - Telefono-te amanhã.

     Ela continuou sem responder.

     - Foste muito amável comigo - disse ele ainda. - Amo-te.

     Caminhou pela casa silenciosa, abriu devagarinho a porta e fechou-a atrás de si, achando-se na rua. O ar estava frio. Caminhou como um autómato até junto do carro. Abriu a porta e enfiou-se atrás do volante, sentindo-se de novo mais seguro naquele interior que lhe era familiar. Parecia-lhe que já saíra daquele carro pela última vez há anos, com os braços cheios de presentes e o seu espírito cheio de excitação e de esperança.

     Afinal, porque é que viera ali?

     Sentia os braços demasiado pesados para os mexer. Estava esvaziado da cabeça aos pés. Não com a fraqueza morna e maravilhosa que se segue ao orgasmo ou a uma longa tarefa cumprida, mas a fraqueza odienta da cólera consigo próprio, da frustração, depois de sair de uma discussão acerba, ou de uma bebedeira suicida, ou de uma noite indefinida de depressão mental. Sentia dentro de si, lá bem fundo, uma dor profunda e perfurante. Sentia o coração pesado. Um cliché, bem o sabia, mas que se tornara um cliché porque era uma descrição exacta e verdadeira. Sentia o coração pesado.

     Em toda a sua vida, nunca, nem uma só vez, se sentira tão profundamente envergonhado.

     Pôs o carro em movimento e, como cego, conduziu-o instintivamente até casa.

    

     Segunda-feira à noite

     Helen era uma dessas pessoas que detestam acordar de manhã cedo. Conseguiam até ter o ar de quem pensa que Deus e Philip haviam conspirado para inventar, só para ela, esse monstruoso calvário. Acordava sempre aos poucos e poucos, tacteando cheia de ansiedade, e, logo que abria definitivamente os olhos, sentia-se ofendida e mal-disposta. O Dr. Wolf tinha ganho várias centenas de dólares a escutar os pormenores iracundos desta conspiração entre a Natureza e o marido.

     Philip nunca conseguira vencer a estupefacção que lhe causava saber que fazia parte dessa resistência de Helen para enfrentar um novo dia. Ela gostava de atribuir a responsabilidade por tal resistência à sua infelicidade conjugal, a qual, por seu turno, e ainda segundo ela, era causada pela falta de consideração de Philip. “Que diabo tenho eu que esperar de um novo dia? perguntava cansadamente. Por seu lado, Philip tinha uma explicação mais simples. Helen tinha relutância em acordar, porque a irritava o facto de ele acordar também. Ele acordava quase sempre vivo e bem-disposto, já com a disposição que iria sentir a melhor parte do dia, Helen era incapaz de compreender esse fenómeno e Philip tinha a certeza de que ela o odiava por isso.

     Nessa manhã, quando acordou, a cama a seu lado estava desalinhada e vazia, dizendo-lhe que Helen estava já na cozinha, com Danny, a preparar-se para as infindáveis horas que tinha de enfrentar. O sol, filtrando-se pelas cortinas diáfanas, batia-lhe no rosto e durante um momento sentiu-se envolto pelo sentimento confortável e familiar da vida que se estendia à sua frente e das surpresas que o esperavam. Então, de repente, lembrou-se. E já inteiramente acordado percebeu pela primeira vez o que Helen sentia todas as manhãs.

     Ficou imóvel como uma pedra, relembrando aquelas horas nocturnas, toda a humilhação que sentira. Passou em revista cada movimento, cada palavra, cada pensamento. E à luz clara do dia tudo lhe pareceu ainda mais vergonhoso, do que na noite anterior. O seu cérebro como que se dirigiu para Peggy, contrito, apiedado, perguntando-se com que disposição teria ela acordado nessa manhã. Teria ficado deitada, na cama que ele abandonara há tão pouco tempo, sufocada pela vergonha da sua nudez, do facto de se ter oferecido e ter sido rejeitada pela sua incapacidade? Que lhe teria passado pela cabeça durante essa manhã? Que poderia pensar dele?

     Philip sabia que tinha de tomar uma decisão. O seu instinto, contudo, não o impelia a enfrentar a situação, ou a enfrentá-la a ela, mas a virar-lhe as costas, a fugir-lhe. Não lhe telefonaria, nem a procuraria. Tentaria antes expulsar do seu cérebro a imagem do desagradável episódio. Recusar-se-ia a olhá-la, até que o tempo se encarregasse de lhe diminuir a importância.

     Mas, por fim, quando saiu da cama para nela ficar pesadamente sentado, com o pijama amarrotado, empurrando os pés nus para dentro dos gastos sapatos de quarto, compenetrou-se de que não lhe seria possível ignorar o acontecimento. A realidade do dia obrigara-o a rever a velha imagem, colocando em seu lugar uma outra, que agora pairava vividamente em frente dos seus olhos: Peggy, nua, deitada de costas, bela e convidativa, esperando para receber a sua paixão, e ele, sobre ela, impotente, incapaz de lha dar.

     Ali sentado, ruminando no seu fiasco, uma coisa o roía por dentro. Ela, tão desejada por tantos homens, fizera uma escolha: escolhera-o a ele para união e satisfação sexual. E ele falhara. Em circunstancias semelhantes, qualquer outro homem lhe teria dado qualquer coisa, Talvez não a coisa perfeita, mas qualquer coisa. Bernie Degen, Jake Cahill, Bill Markson. Até aquele franzino Irwin Stafford. Até Sam Barlow. E Kip Carston, o seu único amigo actor, o seu amigo actor de nome improvável e incrível reputação - oh, como Kip teria explorado aquela oportunidade, utilizando-a para a satisfazer. Qualquer homem teria conseguido qualquer coisa. Só ele falhara completamente.

     Viu com toda a clareza que já não se tratava simplesmente de a desejar. Agora era também uma questão de provar a sua masculinidade. Disso não tinha dúvidas, mas havia ainda algo mais do que apenas sentia vagamente: que, após uma longa jornada, chegara a uma encruzilhada emocional. Não tinha dúvidas de que falhara com Helen, que persistentemente atacava a sua masculinidade, não num sentido sexual estrito, mas num sentido mais lato, mais compreensivo - no sentido em que Freud se referira ao sexo como algo de bastante mais que simples sexo. Depois havia também o problema de Danny, a prova viva de que faltava maturidade às suas relações com o filho. E a sua carreira, outro monumento de indecisão. Em tudo vacilara, falhara, se evadira. Peggy era um símbolo de todos os seus fracassos e se agora fugisse dela, nunca mais, mas nunca mais mesmo, deixaria de fugir. “Ora aí está”, pensou. “Aí está a situação explicada em termos que uma audiência de doze anos de idade seria capaz de compreender. “ “Mas qual é o tema? “, perguntavam sempre os produtores. “Qual é a moral da história? Que é que se pretende dizer?”

     E, melhor ou pior, era sempre preciso apresentar-lhes a história em termos simples lineares. “Passados dois terços do filme, o herói é colocado face a face com este problema, simbolizado por esta mulher. É este o momento de decisão. Tem duas opções: enfrentá-la ou fugir. Bom, como é o herói, enfrenta-a, tem a sua luta e ganha-a, e isto resolve-lhe os problemas todos da vida, e pode então voltar para a sua rapariga, e daí seguimos para a música do foram-felizes-para-sempre.”

     Philip sabia bem que na vida real nunca era bem assim. Suponhamos que ele não virava as costas ao episódio? Suponhamos que não tentava esquecê-lo? Suponhamos que decidia enfrentar Peggy e consumar o seu amor? Isso iria resolver tudo? Depois do triunfo final, desse espasmo, modificar-se-ia miraculosamente a sua vida com Helen, e com Danny, e com o seu trabalho?

     Contudo, sabia que algo de vital se modificaria com certeza: a maneira como se sentia por dentro.

     Arrastou os pés até à casa de banho, tomou um duche rápido, e depois, distraidamente, secou-se. Observou o seu corpo no espelho e apercebeu-se então do que sentia. Afinal, tudo se reduzia ao órgão masculino, a problemas básicos de virilidade primitiva. Sentia-se como o tema de uma dessas fotografias que publicam nas revistas nudistas e naturistas, onde homens nus e mulheres nuas parecem seres neutros porque os seus órgãos estão expostos ao ar livre. Ali, no espelho, via perfeitamente que estava fisicamente intacto, que era perfeitamente normal. Mas, apesar disso, sentia-se neutro. Aquilo que possuía parecia-lhe tão inanimado como um fóssil. Apoderou-se dele o velho mal-estar, a consabida vergonha. Sentia-se, como homem, uma mentira.

     Vestiu-se apressadamente, ansioso por se esconder de si mesmo e da sua obsessiva flagelação. Uma vez completamente vestido, conseguiu readquirir uma certa sensação de segurança, como se tivesse fugido de si mesmo. Mas, ao dirigir-se para a cozinha, os pormenores do seu fiasco voltaram a ocupar-lhe a mente, com uma nova imagem de Peggy deitada na cama, e ficou, finalmente, a saber que não havia fuga possível. Teria de a procurar outra vez.

     Helen, com um casaco de quarto, estava sentada à mesa da cozinha a ler o jornal da manhã e a beberricar o café.

     - Bom dia - disse ele. Depois olhou à sua volta.

     - Onde está o Danny?

     - O rapazinho que mora defronte veio cá e apresentou-se. Convidou o Danny para ir a casa dele. Danny, como de costume, não queria ir, mas lá o convenci. Atravessei a rua com eles e deixei-os lá.

     Philip aproximou-se do fogão e serviu-se de uma chávena de café. Abriu a lata do pão, tirou duas fatias de pão dietético, muito branco, e introduziu-as nas fendas da torradeira.

     - Que é que queres? - perguntou Helen.

     - Nada. Não tenho fome.

     Ela observou-lhe atentamente o rosto.

     - Estás com um aspecto horrível. Tens os olhos vermelhos. Estiveste a beber?

     - Claro que bebi. Ou julgas que bebemos leite?

     - A que horas voltaste? Tomei uma pílula para dormir e nem te ouvi chegar.

     Aliviado, respondeu:

     - Julguei que te tivesse acordado. Já passava um pouco da meia-noite.

     - O Natt tinha alguma notícia encorajadora?

     - Nem por isso. - Lembrou-se de repente que combinara almoçar nesse dia com Alexander Selby e Nathaniel Horn. Perguntou a si mesmo se lhe seria possível adiar o encontro.

     - Bom, então de que estiveram a falar?

     - Esteve a industriar-me acerca do Alex Selby. Deve ser um tipo muito estranho. - O pão saltou da torradeira automática. Pegou nas torradas quentes e no café e foi reunir-se a Helen. - Depois estivemos a discutir em pormenor o problema da Caroline Lamb. Mesmo que consiga o contrato, não vai ser nada fácil.

     Estendeu o braço sobre a mesa, remexeu no jornal que ela estava a ler e puxou as folhas desportivas. Passou os olhos pelas páginas, sem as ler, magicando um pretexto para sair nessa noite.

     - Sabes que é hoje que levo o Danny ao Dr. Edling? - disse Helen.

     - Já me tinhas dito. A que horas?

     - Ao meio-dia.

     - Então estaremos em casa por volta da mesma hora. Espero que ele não perturbe muito o miúdo.

     - Como podes pensar uma coisa dessas? Miúdos são a sua especialidade.

     - Mas o Danny é muito sensível...

     - A especialidade dele são crianças sensíveis.

     - Está bem, ganhas tu - disse ele, e voltou a enfronhar-se nas páginas desportivas.

     Ela ia a sair da cozinha para se vestir quando ele disse que ia sair no carro para comprar tabaco.

     - Queres que te traga alguma coisa?

     - Não.

     Acabou de beber o café.

     - Se houver alguma chamada para mim, diz que não demoro.

     Logo que ela desapareceu, foi buscar à sala de jantar, onde o deixara na noite anterior, o casaco cinzento desportivo, apalpou o bolso para ver se lá estava a chave da ignição e saiu para a garagem pela porta de serviço.

     Percorreu os seis quarteirões que o separavam da pequena e dispendiosa zona comercial suburbana. Deixando o carro na estação de serviço, com instruções para que enchessem o depósito e verificassem o óleo, encaminhou-se para a cabina telefónica com vidros protegidos por rede de arame que ficava junto à entrada da estação. Tirou do bolso várias moedas, entrou na cabina e marcou o seu antigo número, que Peggy conservava.

     O telefone tocou três vezes e depois uma voz desconhecida disse: “Está? “.

     - Peggy?

     - Como?

     - É Peggy Degen?

     - Aqui fala a mulher-a-dias. A senhora foi às lojas.

     - Faz alguma ideia de quando estará de volta?

     - Disse que demorava dez minutos. E isso já foi há dez minutos.

     - Muito bem. Volto a telefonar.

     - Faz favor de dizer quem fala?

     - Um amigo. Eu volto a telefonar.

     Saiu da cabina com uma sensação de desapontamento e deixou-se ficar durante um momento sem saber o que fazer, junto à entrada da estação de serviço. Aquela vizinhança era-lhe desconhecida e entreteve-se a examiná-la. A estação de serviço estava bem em frente de outra estação rival, mais garrida, do outro lado da rua. Atrás de si viu um drugstore e na esquina mais distante um edifício comercial com um supermercado ao lado. Decidiu-se pelo drugstore.

     O drugstore é uma das instituições tipicamente americanas de que sempre tinha saudades quando se encontrava na Europa. Exactamente como, quando estava na América, tinha saudades dos cafés europeus. Agora, se fosse possível misturar numa só cidade, algures na Atlântida, Paris e Los Angeles, com o temperamento e os costumes franceses e as canalizações anglo-saxónicas, nunca mais quereria viajar. Deteve-se em frente de uma apinhada montra de artigos de toilette, perguntando a si mesmo se devia comprar um perfume caro para levar a Peggy, mas decidiu que seria melhor não. Percorrendo a loja ao acaso, ia observando a clientela. Na sua maioria eram jovens casais, com filhas pequenas, saudáveis e queimadas do sol, e reflectiam os impostos sobre propriedade aplicados a The Briars. Na quase totalidade, estavam revestidos pelo bronzeado profundo que revela longos lazeres, e equipados com os óculos de sol decorativos, blusas e calções bermuda, da última moda, que indicavam rendimentos elevados. Philip imaginou que a visita ao drugstore era uma parte obrigatória dos seus dias de semana, juntamente com as lições de ténis e os grupos de brídege e as aulas de arte. Nos recessos das suas residências apalaçadas, o trabalho manual estava a ser executado em silêncio e com eficiência por criadas negras de aventais engomados e por máquinas eléctricas, e eram ali a classe perdida, vítima da Westinghouse e da vida afluente.

     Philip deteve-se em frente do escaparate das revistas, folheou várias edições de bolso, dedicando-se depois ao exame pormenorizado de uma nova revista humorística de luxo, cheia com deliciosas ruivas em monoquíni. Uma delas recordou-lhe Tina Barlow, mas todas lhe faziam lembrar Peggy estendida na cama. Pensou em Tina. Se ela tivesse assistido à sua miserável actuação da noite anterior, sentir-se-ia menos inclinada a provocar as suas atenções. Reparou na hora, voltou a sair, lembrando-se que dissera a Helen de que ia sair apenas para comprar tabaco: foi comprar uma lata da sua marca.

     Regressando à estação de serviço, enquanto transferia o conteúdo da lata para a sua bolsa de cabedal, viu que o seu carro tinha sido transferido para uma zona de estacionamento. Entregou ao empregado que ali esperava a sua carta de crédito e viu-o estampá-la na factura, que depois assinou.

     - Importa-se de que deixe ali o carro um minuto? Tenho de fazer uma chamada.

     Mas o empregado já partira a correr para ir atender outro cliente.

     Philip voltou à cabina telefónica. Introduziu a moeda, colocou outra, à cautela, em cima da pequena prateleira e marcou o número. Enquanto esperava a resposta, fechou cuidadosamente a porta. Estava abafado, mas queria estar à vontade.

     - Está? - Nunca antes reparara naquela característica da voz dela, baixa, insinuante. Sabia-se logo que quem assim falava tinha de ser bela. Geralmente as pessoas eram como que feitas de uma só peça e o que prometiam quase sempre correspondia ao que tinham para dar. Helen reparava sempre nisso nas actrizes de cinema. Tinham caras encantadoras, mas quando se olhavam melhor verificava-se que tinham também bustos e pernas encantadores. Talvez se procurasse sempre o conjunto perfeito e as que chegavam eram as que tinham sobrevivido a uma série de severos exames.

     - Peggy. Olá! Daqui fala Philip.

     - Foste tu que telefonaste há pouco?

     - Há dez minutos.

     - Clarissa disse que era um homem com voz bonita. Não consegui adivinhar quem poderia ser!

     - Agradece à Clarissa por mim e não acho que estejas a ser muito amável. Acabaste de chegar?

     Mesmo agora. Tenho andado a manhã toda fora e dentro. Tenho tanto que fazer.

     - Como é que estás vestida? - precisava de saber que aparência teria ela naquele instante.

     Ela hesitou.

     - Bom... um sweter cor-de-rosa... calças Capri...

     - Deve ser giro.

     - Não discordo.

     Ficou perturbado pelo facto de ela não lhe fazer perguntas a seu respeito. Limitava-se a responder, a reagir. Preocupava-o a ideia de que ela estivesse desinteressada. Teria a noite passada sido o fim?

     - Que fazes tu hoje? - perguntou ele.

    - Cem coisas diferentes. Queres as linhas gerais? Vou buscar o Steve à escola. Vou arranjar o almoço. Depois vou tomar um banho de sol e, depois disso, ajudar a Clarissa a desfazer algumas malas. Depois vou ao cabeleireiro. E o jantar. Uma sensaboria, não achas?

     Ela abstivera-se de mencionar a noite.

     Ele podia deixar as coisas seguir assim, bem o sabia, e ela não mencionaria aquilo, e ele também não. Ignorariam o facto, rodeá-lo-iam, passar-lhe-iam por cima, e por baixo, naquela pequena dança verbal, mas o facto continuaria lá. Ou podiam levantar o assunto com franqueza. O outro caminho requeria esforço, a conversa hipócrita que evitava reconhecer a realidade. A verdade seria torturante, mas então teriam alguma coisa de que falar e poderiam seguir daí para a frente. Pegou no bocal do telefone com a mão livre e puxou-o mais para si, para poder falar mais baixo. O gesto deu-lhe confiança. Era como pegar na coragem com a mão.

       - Peggy - disse ele -, peço-te imensa desculpa pelo que aconteceu a noite passada.

     - Deixa-te de palermices...

     - Não são palermices. Não me saiu da cabeça. Mal consegui dormir um segundo. Não tenho pensado noutra coisa durante toda a manhã. Nem te posso explicar como me sinto. Tenho estado infelicíssimo.

    - É apenas o teu ego masculino...

     - É muito mais do que isso. Apaixonei-me por ti. Eu desejava-te. Desejava-te fisicamente.

     - Bom, conseguiste a tua conquista. Isso devia bastar para te sentires bem.

     - Não podes estar a falar a sério. Queria que nós partilhássemos tudo, um do outro, completamente. Não posso deixar de magicar o que tu terás pensado de mim.

     - Tu viste bem como me sentia a teu respeito...

     - Não, não! Quero dizer agora. Não quero que estejas zangada contigo mesma e comigo.

     - E não estou.

     - Que tens estado a pensar acerca do assunto? Diz-me o que tens estado a pensar.

     - Não tenho tido tempo para pensar. Tenho andado numa roda-viva.

     - Deixa-te disso, Peggy. Sabes muito bem que pensaste no assunto.

     Fez-se um breve silêncio do outro lado da linha. Mas depois falou, numa voz muito baixa, muito comedida:

     - Tenho pena, por ti, que não tivesse resultado.

     - E por ti?

     - Não fazia aquilo desde que o meu marido morreu. Por isso... mais um dia não teve importância.

     Esta última frase inundou-o de esperança.

     A voz metálica da telefonista interrompeu:

     - São três minutos. É favor introduzir outra moeda. Sentiu-se capaz de a estrangular com as próprias mãos.

     - Um segundo... um segundo... - Encontrou a moeda que pusera em cima da prateleira: e empurrou-a para dentro da ranhura; a moeda despenhou-se no interior da máquina com um som matraqueado, desmesuradamente ruidoso. “Estupores das telefonistas”, pensou ele, “devem estar a ouvir as conversas todas. “ Ponderou se, de facto, o fariam e, de passagem, lamentou ter perdido uma oportunidade que em tempos tivera de visitar, juntamente com outros pais e filhos, a companhia dos telefones.

     - Peggy?

     - Ainda aqui estou.

     - Quero só que saibas que ainda sinto da mesma maneira em relação a ti... da mesma maneira que me senti da primeira vez que te vi...

     - Ainda bem.

     - Preciso de te ver, Peggy. Posso ir aí esta noite?

     - Não, esta noite, não.

     - Então amanhã. Posso ir amanhã?

     - Não sei, posso ter de fazer...

     - Porque não esta noite? - perguntou ele bruscamente.

     - Estou ocupada. Ele não a acreditou.

     - Seja como for, vou aí.

     - Não venhas, se fazes favor.

     - Tenho de ir. Tenho de te ver. Tenho de falar contigo.

     - Mas tenho cá gente esta noite... Ele continuava a não acreditar.

     - Então eu espero... espero até se terem ido embora.

     - Não.

     - Ver-te-ei esta noite, Peggy. Amo-te. E agora tenho de ir... - e desligou.

     Era meio-dia e vinte e cinco minutos quando Philip entrou com o carro no parque de estacionamento de Penaro's.

     Chegara, realmente, a tentar adiar o encontro. Peggy e o fiasco da noite anterior enchiam-lhe o cérebro e convencera-se de que assim faria fraca figura na entrevista com Alexander Selby. O seu único desejo era vegetar, sozinho, até à noite, até ter nova oportunidade de ver Peggy e de a levar a rever a sua opinião sobre ele. Telefonara a Nathaniel Horn para combinar o adiamento. Viola respondera, e, depois da habitual troca de piropos brincalhões, dissera-lhe que o Sr. Horn estava para os estúdios e só regressaria daí a uma hora. Philip não tinha dúvidas de que então já seria tarde de mais para adiamentos. Não queria encontrar-se nesse dia com Alexander Selby, mas a verdade é que também o não queria ofender. O velho instinto de conservação agiu sobre ele e disse a Viola que não era nada de importância.

     Entrou no restaurante. Panor's era como que uma pequena ilha europeia, muito íntima, no Wilshire Boulevard. Abrira no ano anterior. Um cantor muito famoso usara-o como ponto de encontro com a mulher de outro homem, uma jornalista mundana escrevera extáticas frases francesas ao descrever a decoração, um sofisticado disc-jockey referia-se ao restaurante como o seu lugar favorito e, por tudo isso, era a última coqueluche. Philip já várias vezes comera no Panaro's. A ementa era limitada e dispendiosa, a comida atroz, mas os criados de mesa falavam com pronúncia estrangeira e havia cartazes de Matisse distribuídos pelas paredes. Dentro de um ano estaria falido e algum novo proprietário que gostasse de correr riscos tentaria conquistar esse mundo volátil da gente cinematográfica, transformando-o num restaurante oriental.

     O impecável maitre, com um bigode finíssimo - era um rosto que parecia familiar a toda a gente, pois desempenhava o papel de impecável maitre em muitos filmes -, olhou inquisidoramente para Philip e este perguntou-lhe se o Sr. Home e o Sr. Selby já tinham chegado. O maitre consultou a agenda que tinha na mão e disse que ainda não. Philip agradeceu a informação e foi ocupar um lugar no bar.

     Ia a meio do seu uísque quando sentiu uma mão pousar-se-lhe em cima do ombro. Virou-se rapidamente e ali estava Nathaniel Horn e, atrás deste, Alexander Selby.

     - O Sr. Selby... Philip Fleming.

     Philip levantou-se e apertou a mão macia de Selby. O produtor era ligeiramente mais pequeno e mais magro do que a recordação que fazia dele e o seu rosto tinha um desenho afilado, aristocrático. Trazia o cigarro na extremidade de uma boquilha de prata, muito comprida. Havia num dedo um enorme anel com o monograma. O seu fato de seda azul, bastante justo, era impecável.

     Horn abriu caminho e enquanto eram conduzidos à sua mesa de canto, Philip caminhava a par de Selby.

     Selby deu-lhe uma olhadela.

     - Não nos vimos já?

     - Creio que mais de uma vez, em festas, de passagem.

     - Também me parecia. Sou horrível para fixar nomes, mas os rostos ficam.

     Sentaram-se e Philip continuou a segurar o seu copo de uísque enquanto Horn e Selby pediam Gibsons.

     - Restaurante encantador - disse Selby. - Faz lembrar o Maxime.

     - Prefiro o Maxime- disse Philip.

     - É claro - disse Selby, sorrindo.

     - Vi, ainda não há muito, o seu Incluindo o Lava-Louças - disse Philip a Selby. Tratava-se de uma agradável comédia doméstica que Selby fora buscar à Broadway e transformara numa farsa brilhante de dois milhões de dólares. - O público ria-se tanto que nem sequer ouvi metade dos diálogos. Tenho de o ir ver outra vez.

     Selby pareceu agradado.

     - Está muito perto de estabelecer um novo recorde de bilheteira no Music Hall.

     Philip teve dificuldade em dar uma impressão de adequado espanto, já que no Music Hall cada novo épico estabelecia um novo recorde de bilheteira.

     - O que é que tem na forja para o próximo ano? - perguntou Horn a Selby.

     - Bom, nada, realmente, a não ser esta coisa sobre a Caroline Lamb. O tipo de produções que eles fazem passar por obras dramáticas em Nova Iorque, esta época, é perfeitamente horroroso. E os livros... Leio tanto que um dia destes cego, embora me chegue a parecer que seria mais proveitoso confinar a minha atenção aos livros para crianças. - Voltou-se para Philip. - Não sei o que aconteceu aos escritores na América. Se eles soubessem a fome que temos de material, mas de material decente...

     A voz esvaiu-se e Selby abanou a cabeça. Philip sentiu-se tentado a perguntar a Selby se ele realmente achava que o dever e a função do escritor americano era fornecer histórias à indústria cinematográfica, mas conseguiu suprimir a tentação. Em vez disso, disse:

     - Bom, escrever um livro ou uma peça de teatro é uma coisa. Escrever um filme é outra...

     - Mas não tem de ser assim - disse Selby com firmeza. Pensou um pouco sobre o assunto e depois acrescentou: - Eu não quero dizer que o romancista tenha de torcer a sua obra a pensar em Hollywood. Isso seria a morte da arte. Mas, em certas circunstâncias, acho que o romancista e o produtor podem trabalhar mais intimamente, com mais proveito para ambos. - Fez uma pausa significativa. - Acho que foi por isso que me quis encontrar consigo hoje.

     - Alex apareceu-me com uma ideia interessante disse Horn a Philip. - Acho que vais gostar.

     - Estou com curiosidade - disse Philip, e ficou à espera.

     Selby sacudiu a ponta do cigarro da boquilha e guardou esta no bolso. Pegou no copo de Gibson, beberricou e depois, cuidadosamente, voltou a pousar o copo.

     - Li o seu livro - disse ele a Philip. - Acho-o bastante mais que simplesmente competente.

     Philip sabia que Selby não estava a ser condescendente e ficou satisfeito.

     - Fico satisfeito por saber que gostou.

     - Reli a noite passada o seu capítulo sobre Caroline Lamb. Acho que a descreveu muito bem...

     Melhor do que penetrei na Peggy”, pensou Philip com azedume, arrependendo-se logo a seguir da grosseria desse pensamento. Perguntou a si mesmo se Peggy estaria realmente ocupada essa noite ou se apenas tentava evitá-lo. Tinha todo o direito de estar desgostosa e enojada com ele. Até ele estava com nojo de si mesmo.

     - Mostra compaixão, compreensão - dizia Selby.

     - Caroline Lamb merece-a e inspira-a - disse Philip.

     - Com certeza que sim! - Selby fez girar a cebolinha dentro do líquido. - Pensou alguma vez em escrever outro livro?

     - Muitas vezes.

     - Porque não o fez?

     - Falta de mecenas. Selby levantou os olhos.

     - Talvez pudesse ser eu esse mecenas - disse calmamente.

     Philip pareceu surpreendido e até um pouco espantado. Não esperava que a conversa tomasse aquele caminho. Absteve-se de fazer qualquer pergunta ou comentário.

     - O que eu quero dizer - continuou Selby - é que acredito que os filmes, ao serem lançados, já deviam estar vendidos, não só para impressionarem favoravelmente as audiências mas também os actores que tenciono contratar. Se me dirigir a uma das actrizes de primeira linha e lhe disser que quero que seja ela a desempenhar o papel de Caroline Lamb, ela pedir-me-á imediatamente para ler o livro ou a peça. Quando lhe digo que é apenas uma ideia original, sente-se insegura, Pode aceder, porque conhece a minha reputação de bom gosto e tem confiança em mim. Por outro lado, também pode não querer arriscar. E então tenho de me contentar com menos. Quando apresento a fita ao público, também ele se sente incerto. E posso ter nas mãos um fracasso. - Ergueu o copo. - É uma pena que seja assim, mas é um facto. - Acabou o Gibson.

       Philip já sabia o que vinha a seguir, mas esperou.

     - Se eu decidir ir por diante com este projecto, quero primeiro um livro sobre o assunto, um romance. Acha-se capaz de escrever um romance?

     - É claro que sou capaz de escrever um romance - respondeu Philip, talvez depressa de mais.

     - Olhe que não será fácil. Sou muito exigente.

     Teria de ser um bom romance. Uma vez escrito e publicado, talvez fosse capaz de o ajudar a tornar-se um best-seller. Gastaria, com certeza, uma soma considerável a promovê-lo. Quando Caro aparecesse como filme - Caro, seria esse o nome que eu daria ao livro - já ele seria bem conhecido, com lotações esgotadas antecipadamente, E, posso então assegurar-lhe, teríamos no papel principal uma actriz das mais conhecidas.

     - O que me está a dizer é que apenas quereria que eu escrevesse o romance?

     - Não, não. Se assim fosse, então iria contratar um romancista famoso. Não. Essencialmente o que eu quero é um argumentista experiente que seja também capaz de escrever um bom livro. Quero os dois projectos casados entre si. Era isso que eu estava a tentar explicar. Um só homem faria as pesquisas para o livro, em Londres, criaria um romance a partir dos dados recolhidos e depois transformaria o romance em argumento cinematográfico. Seria tudo parte de um mesmo contrato. parece-me que, para si, isto seria uma oportunidade bastante prometedora. Uma viagem ao estrangeiro. Uma possibilidade de voltar a escrever um livro... com um mecenas para pagar as despesas. E um crédito cinematográfico de relevo.

     - Não direi que a ideia me não interesse. É de entusiasmar- concordou Philip.

     - Nem eu seria homem para interferir com a integridade artística do autor - acrescentou Selby num tom ligeiramente pomposo. - É claro que quereria discutir com o autor a linha do argumento, e depois aprová-la. Mas, para além disso, o autor teria inteira liberdade.

     - Em Londres? - perguntou Philip. Selby acenou afirmativamente.

     - Em Londres. Até já discuti as condições com Nat, para o caso de decidir ir por diante com a ideia.

     Philip deu uma olhadela interrogadora a Horn.

     - Limitámo-nos a discutir as linhas gerais - disse Horn. - Viagens de ida e volta a Londres para ti e para a Helen, com todas as despesas pagas enquanto lá estiveres a trabalhar.

     - Com um limite de quatro meses - especificou Selby.

     - Exactamente, quatro meses - concordou Horn. Virou-se de novo para Philip. - Quinhentos dólares por semana enquanto estiveres a escrever o romance. Depois mais vinte e cinco mil se Alex se decidir a usar o romance para o filme. E mil e duzentos e cinquenta por semana, durante dezasseis semanas, enquanto trabalhas no argumento cinematográfico.

     “Stephen Grane”, pensou Philip, “como é que eram as coisas quando escreveste o teu famoso romance?”

     - Por mim, estou satisfeito com as condições, desde que tu também estejas - disse Horn a Philip.

     Philip sorriu e olhou para Selby.

     - Quando é que começamos?

     - Isso é inteiramente consigo, Sr. Fleming - disse Selby. - Só há uma coisa a impedir-me de assinar imediatamente o contrato. Não tenho a certeza de haver um terceiro acto na história de Caroline Lamb, e, se chegarmos à conclusão de que de facto não há, não me interessaria ir por diante com a ideia.

     Fez sinal ao criado e todos encomendaram almoços ligeiros. Depois de o criado se ter afastado, Selby começou a discutir a história de Caroline Lamb, tal como ele a via. Continuou a falar lentamente, pensativamente, até serem servidos, e depois, durante todo o almoço. Via o 1. e 2.º actos com toda a clareza. O 1.º acto trataria em termos dramáticos dos antecedentes e do carácter de Caroline, do namoro com William Lamb, do casamento, dos primeiros anos de casados, e acabaria no momento em que ela travava conhecimento com Lorde Byron. O 2.º acto trataria dos seus amores desinibidos com Byron até ele a trocar por Lady Oxford e terminaria naquela noite de Julho de 1813, no baile dado por Lady Heathcote, em que Caroline tentou abrir os pulsos na presença de Byron.

     - Mas é o terceiro acto que me preocupa - disse Selby franzindo a testa, enquanto comiam a sobremesa.

     - Byron vai para Itália e depois para a Grécia. Mas em que estado fica a nossa Caroline? Completa desintegração, mais nada. Tenta reconstituir o seu romance byroniano através de uma série de ligações espalhafatosas e ilícitas: entrega-se à droga, à bebida e ao desmazelo. Acaba por afastar de si o marido, tem um colapso nervoso e morre em 1827.

     - Com William Lamb, finalmente, a seu lado - disse Philip.

     - Exacto, mas isso não basta. Todo esse terceiro acto é demasiado decadente. Vai perturbar audiências. Por isso perturba-me a mim.

     - É difícil falsificar factos.

     - Eu sei... eu sei. Todavia, deve haver uma maneira de tornar esse terceiro acto tão excitante como os outros dois.

     - Isso vai requerer um bom bocado de imaginação - disse Philip.

     - Tenho consciência disso - disse Selby. - Ora, o Nat conhece o meu problema. Tenho de tomar uma decisão sobre qual será a minha próxima produção neste fim-de-semana. Se me convencer de que Caroline Lamb serve, atiro-me todo para o projecto. Mas se não tiver a certeza, terei de optar por uma peça que tenho tido entre mãos, e será essa que vai para a frente.

     - Quer isso dizer que pretende que eu lhe entregue um terceiro acto neste fim-de-semana?

     - Na sexta-feira, parece-me. Enfim, não é preciso que esteja tudo trabalhado em pormenor. Apenas um esboço, para que eu saiba a direcção da história. Se a história fizer sentido, compro-a. E pode requerer imediatamente os passaportes. Contrato assinado.

     - Parece-me razoável - disse Philip.

     Depois de Horn ter pago a conta, ficaram os três a conversar ainda um pouco em frente da porta do Panaro's. Selby recordou a Philip que sexta-feira era a data limite e Philip prometeu que teria qualquer coisa para lhe mostrar nessa data, ou antes. Despediram-se e Selby dirigiu-se ao seu Bentley. Logo que ele se afastou o suficiente para os não poder ouvir, Horn agarrou braço de Philip e perguntou-lhe:

     - Então, que te parece?

     - Fantástico - admitiu Philip. - Mas aquele terceiro acto não vai ser nada fácil.

     - Já te vi resolver problemas piores - disse Horn.

     - Mas nunca com tanto em jogo.

     - Bom, sabes que tenho confiança em ti. Agora mais uma coisa. A coboiada da Master Pictures. O Ritter continua à espera, tenho estado a entretê-lo, mas o homem tem de ter uma resposta até quarta-feira.

     - Sabes muito bem o que eu penso da “coboiada”. O que quero fazer é isto.

     - Então o melhor é dizer ao Ritter...

     - Não, espera. - A velha insegurança vinha ao de cima. - Se desistimos já disso, e depois esta coisa falha, fico sem nada a que me agarrar.

     - Bom, até surgir outra coisa.

     - Mas tens-me andado a dizer já há tempo que as coisas estão quietinhas.

     - E estão.

     - Ouve, Nat, esta coisa da casa nova tem-me posto um pouco nervoso. Não poderás entreter o Ritter um pouco mais, até eu saber se posso ou não resolver este bico-de-obra da Caroline Lamb?

     - Posso tentar. Mas não to posso garantir.

     - Tenta - disse ele, e ficou imediatamente a odiar-se por este esforço de acolchoar todas as esquinas, esta incapacidade de virar decisivamente as costas àquilo que não queria fazer e arriscar tudo por aquilo que mais desejava. Despediu-se distraidamente de Horn e dirigiu-se para o carro.

     Nos velhos tempos - isto é, há três dias - ter-se-ia sentido louco de excitação perante a oportunidade que Alexander Selby lhe estava a oferecer. Mas agora, e ainda não havia guiado mais de dois minutos desde que saíra do Panaro's, já se apercebia de que se estava nas tintas para Caroline Lamb e o seu 3.  acto. Apenas conseguia pensar, apenas se preocupava com Peggy Degen e o 2.  acto. Involuntariamente, os acontecimentos da noite anterior desfilaram-lhe pela mente. Sentia como que uma espécie de náusea e estava arrependido de ter almoçado.

     Ao regressar a casa foi encontrar Helen, num fato de praia, sentada num cadeirão, no pátio, a esfregar as costas com óleo contra as queimaduras do sol. Tirou o casaco e a gravata na sala de jantar e saiu para o pátio, para se lhe juntar.

     - E como vai a deusa do Sol? - perguntou ele.

     Ela levantou os olhos para ele e continuou a massajar o óleo na pele.

     - Olá! - Tentou ler-lhe o rosto. - Que tal correram as coisas?

     - Um contrato fabuloso - disse ele.

     Contou tudo o que se passara, o melhor que pôde, incluindo a possível falta do 3.  acto e o limite marcado para sexta-feira. Ela escutou-o com gravidade.

     Logo que ele terminou, perguntou-lhe:

     - Achas que és capaz?

     - Que queres tu dizer?

     - Satisfazer o Sr. Selby?

     - Não sei. Mas é a minha especialidade. Se eu não puder, ninguém pode.

     - Londres - disse ela, sonhadoramente. - Phil tens de ser capaz. Pensa na viagem, num livro pago adiantadamente. Nem tu poderias ter inventado uma solução melhor para ti. Tens de começar imediatamente a pensar nessa história. Eu ajudo-te.

     - E como é que tu me podes ajudar?

     - Posso fazer pesquisas para ti. Escutar-te. Fazer sugestões.

     - Esplêndido.

     - Pensa nisso... Danny em Picadilly Circus. Quase se esquecera de Danny.

     - A propósito, onde está ele?

     - No escritório, a fazer bonecos. Chegámos mesmo agora.

     Lembrou-se então da visita ao Dr. Robert Edling.

     - Sempre o levaste ao psiquiatra? Ela acenou afirmativamente.

     - Duas horas. Ele teve a primeira hora, depois entrei eu.

     - E então?

     - Cheguei a pensar que tínhamos de desistir. O Danny vomitou na sala de espera. Que chiqueiro!

     - Então estava com medo?

     - E tu não estarias? Mas o doutor foi maravilhoso, um verdadeiro mágico. Em cinco minutos tinha o Danny pelo beicinho. Foram os dois juntos para o gabinete e eu fiquei ali à espera.

     - E que estiveram eles lá a fazer?

     - Bom, eu não vi, mas o Dr. Edling depois explicou-me. Estiveram os dois sentados no chão a fazer coisas com barro e depois a alinhar homenzinhos em trajos espaciais, depois jogaram... sabes como o Danny é com os jogos!... O doutor disse que o Danny ficou apegado a ele e nem se queria vir embora quando chegou a hora. “Quer um pai”, foi o que disse o médico...

     - Estava à espera dessa.

     - Phil, juro que foi o que ele disse, exactamente por essas palavras.

     - Não te ponhas a inventar coisas e a etiquetá-las “Dr. Edling”.

     - Se é isso que pensas...

     - Por amor de Deus, deixa-te disso, Helen... Ela olhou-o, furiosa.

     - Já sabia que ias ser assim.

     - Assim como?

     - Hostil. Disse ao médico que tu dirias que eu estava a pôr palavras na boca dele...

     - Claro. E que mais lhe disseste? Helen mordeu os lábios.

     - Como é que eu posso falar contigo se não consegues manter uma atitude aberta?

     - Muito bem. Estarei aberto, abertíssimo. Danny saiu e entraste tu, e depois?

     - Ele deu ao Danny uns livros para ler e um chocolate. É muito simpático. Muito amável e cheio de consideração. Sentou-se numa cadeira ao lado de uma mesa e eu sentei-me do outro lado. Esteve a contar-me o que fizera com o Danny e conversámos.

     - E que disse ele do Danny? É isso que eu quero saber.

     - O Dr. Edling diz que ele está emocionalmente perturbado e que não é capaz de controlar as suas ansiedades íntimas. Que está preocupado a meu respeito, com receio de que eu deixe de o amar. E que anda confuso a teu respeito. Precisa de uma imagem paterna forte. Alguém em quem possa acreditar e que possa copiar, alguém que lhe dê atenção...

     - Dou-lhe tanta atenção e tempo como os outros pais dão aos filhos.

     - Não se trata tanto do tempo, da quantidade... trata-se da qualidade do tempo dado à criança. Danny tem de saber que estás profundamente interessado nele. E quer ter a certeza de que o amamos e o protegemos...

     - Ele sabe muitíssimo bem que o amamos.

     - Parece que não. Seja como for, foi o que disse o Dr. Edling e eu tenho confiança nele. Ele diz que a nossa vida doméstica tem tido tantas discussões e tem sido tão infeliz que isso acabou por se reflectir em Danny. É por isso que ele se sente inseguro... cheio de medos...

     - Muito bem. E o que é que o teu doutor sugere que se faça?

     Helen observou Philip estudiosamente.

     - Se prometes não te pores para aí a berrar, digo-te.

     Philip teve certa dificuldade em dominar-se. Helen prosseguiu:

     - Quer ver o Danny uma vez por semana, separadamente, de vez em quando.

     - A começar quando?

     - Gostaria de falar contigo ainda esta semana. Pediu-me para te dizer que lhe telefonasses.

     - E esta semana não tenho mais nada que me preocupe...

     - Phil, são apenas cinquenta minutos. E o que há de mais importante?

     - Queres ir a Londres, não queres?

     - Quero o Danny feliz. Philip virou-lhe as costas.

     - Está bem, eu telefono-lhe.

     A voz dela perseguiu-o, insistente:

     - Quando?

     - Esta semana... esta semana...

     Já tinha chegado à porta da casa de jantar quando se lembrou de uma coisa de que se não devia esquecer. Hesitou um instante e depois voltou-se com ar casual para Helen.

     - A propósito, quase me esquecia de te dizer... tenho de ir ter com o Alexander Selby esta noite...

     - Mas ainda agora acabas de estar com ele!

     - Ele não se podia demorar depois do almoço. Mas quer discutir comigo mais umas coisas acerca do tal terceiro acto. Acha que será mais fácil encontrar uma solução em conjunto. E eu acho que a oportunidade merece que se perca um bocadinho de tempo, não achas?

     - Acho que sim... Mas, Phil, tu vais ver o Dr. Edling?

     - Claro que vou, querida.

     Entrou em casa. Daí a poucas horas estaria com Peggy Degen.

     Acabaram de jantar e chegara a noite de segunda-feira.

     Barbeou-se muito cuidadosamente, mas sem por um instante esquecer as horas. Faltava um quarto para as oito. Quando finalmente acabou de escanhoar bem o rosto, ensaboou profusamente a cara e o pescoço e chapinhou-se bem com água. Humedeceu o cabelo e penteou-se todo para trás. Voltou a arrumar o pente e os utensílios da barba no armário e os seus olhos pousaram no frasco de loção para depois da barba que Helen lhe oferecera pelo Natal. Nunca a usara. Desaprovava ligeiramente os homens que cheiravam artificialmente a caruma de pinheiro. Mas esta noite era uma ocasião especial que pedia medidas especiais. Destapou o frasco, deitou uma pequena porção na palma da mão em concha e massajou com o líquido a face bem barbeada. Teve o cuidado de não pôr de mais. Pareceria pouco usual e poderia provocar qualquer comentário de Helen. Quando acabou a fricção, ficou estranhamente festivo, embora consciente de que cheirava a caruma de pinheiro.

     Apetecia-lhe usar uma camisa desportiva, de gola aberta, e já tinha tirado uma do cabide quando se lembrou de que ia visitar Alexander Selby. E não se vestia uma camisa desportiva para ir falar com um mecenas tão esquisito. Helen teria sido a primeira a notá-lo. Philip voltou a colocar rapidamente a camisa no cabide, satisfeito por não ter cometido tal erro e levantar assim as suspeitas dela. Decidiu-se por uma camisa cinzenta e por uma gravata azul às listas.

     Faltavam dez minutos para as oito quando entrou na sala de jantar, onde Helen estava a pôr-se em dia com os jornais da manhã. Inclinou-se e beijou-a.

     - A que horas voltas? - perguntou ela, automaticamente.

     - Não sei. Selby é um grande falador. Se encontrarmos alguma ideia interessante, podemo-nos embrenhar numa longa sessão de trabalho. O melhor é não esperares por mim.

     - Tenta voltar o mais cedo possível, pois precisas de dormir. Tens um ar cansado. Isto aborreceu-o. Julgava estar até com muito bom aspecto.

     - Terei muito tempo para dormir durante a viagem de barco para Londres.

     - Tinha estado precisamente a pensar, Phil... Se essa coisa de Londres se fizesse... podíamos pedir ao Dr. Edling que nos recomendasse lá alguém que pudesse ver o Danny.

     A estranheza da situação fez-lhe surgir no cérebro uma imagem de intensa irrealidade: o seu filho, o produto de uma centena de “coboiadas” televisivas e de galões e galões de sumo de laranja, sentado numa carpeta da famosa Harley Street com um psiquiatra estrangeiro, a modelar figuras em barro extraído a dez mil quilómetros de distância!

     - Resolvemos esse problema quando lá chegarmos. Voltou-se para sair, mas a voz de Helen deteve-o.

     - Podes deixar um número do telefone, Phil?

     - Não sei o número de telefone do Selby. E parece-me que não vem na lista.

     - Bom, boa sorte! Philip sorriu.

      - Boa sorte para ambos.

     “Boa sorte”, pensou ele enquanto atravessava apressadamente a cozinha e saía pela porta de serviço. “Boa sorte. Estás a ouvir, Peggy? “

     Conduziu ao longo das avenidas sinuosas em velocidade moderada, porque não desejava ter de se concentrar na condução mas dedicar-se aos seus pensamentos. O fenómeno extraordinário que ocorrera na noite anterior não poderia nunca ocorrer segunda vez, dizia para consigo. Caramba, a lei das probabilidades era contra isso. Quando dois seres humanos perfeitamente normais e saudáveis se desejavam um ao outro, nada podia impedir a sua união. O estímulo produzido por Peggy Degen sobrepujaria, com certeza, qualquer factor de intoxicação, exaustão ou perturbação psíquica. É claro que na noite anterior não fora assim! Mas nessa altura ele estava demasiado ansioso e excitado. Esta noite abster-se-ia de pensar naquilo, não se arriscaria a sufocar o desejo no seu cérebro. Esta noite seria simples e espontânea. Sexo puro e simples. Como com a Helen. Uma pessoa tinha fome, comia. E não havia mais nada a dizer. É claro que também havia a possibilidade de Peggy não estar com disposição. Mas na noite anterior ela também não parecera estar com disposição e depois houvera aquele contacto físico que a transformara completamente. Um homem que saiba o que está a fazer pode sempre criar a disposição necessária numa mulher. Ela saberia perceber até que ponto ele a amava, e desejava, e por isso amá-lo-ia também.

     Virou à esquerda, começou a subir a encosta e depois virou à direita, já em Ridgewood Lane. Casas que ele conhecera tão bem durante seis anos perpassaram pela janela do carro, e perguntou a si mesmo quantos homens estariam fora a visitar os seus respectivos Alexander Selbys. Em frente da casa dela estavam estacionados vários automóveis. Virou a direcção do carro e entrou na álea de acesso, indo estacionar logo atrás do descapotável de Peggy na garagem aberta.

     Dirigiu-se à porta e premiu o botão da campainha. Ouviu os passos dela aproximarem-se, a voz dela a falar para alguém lá dentro e sentiu um momento de pânico. Ela abriu a porta e não pareceu de forma alguma surpreendida.

     - Philip Fleming! - disse em voz alta, evidentemente para que os outros a ouvissem. - Ora que surpresa. Junte-se ao grupo.

     Sentiu-se imediata e agudamente desapontado. Desde que lhe telefonara nessa manhã que tinha sentido uma certeza íntima de que ela se encontraria só nessa noite. Mas, afinal, ela não lhe mentira.

     - Olá, Peggy - cumprimentou entrando na sala. Havia três pessoas: Horace Trubey, confortavelmente enterrado numa cadeira; Dora Stafford, inclinada sobre a mesinha de café, tentando acender um isqueiro; Rachel Trubey, que estava sentada no sofá. Era muito pouco provável que algum deles voltasse a ver a sua mulher, mas, mesmo assim, tinha de agir com cuidado. Mais do que isso, precisava de não comprometer Peggy. Horace levantou-se.

     - Olá, Philip.

     - Olá... olá - Philip cumprimentou Horace e as duas mulheres. Depois virou-se para Peggy. - Desculpa aparecer assim de improviso. Eu... Nós precisávamos hoje da mangueira para regar o jardim... e... só então me lembrei de que a tinha deixado na garagem quando nos mudámos. Tinha de passar por estas bandas e lembrei-me de a vir buscar.

     Reparou na expressão divertida de Dora, ainda inclinada sobre o isqueiro, quando esta lhe lançou um sorriso conspirativo. Lembrou-se da frase dela: “Vale a pena tentar. Peggy tem muita coisa lá dentro. E não o estará a guardar eternamente. “ De repente começou a ponderar quanto é que Dora saberia. Ter-lhe-ia Peggy feito confidências? Saberia do seu fiasco da noite anterior? Estaria a sorrir dele ou para ele? Mas sentiu imediatamente a certeza de que Peggy nada lhe tinha dito. Tirou os olhos de Dora, com certa dificuldade, para olhar para Horace e para Rachel. Estes pareciam ter aceitado com toda a naturalidade a desculpa que ele dera para o seu súbito aparecimento.

   - É você que arranja o seu jardim? - perguntava Horace. - Como é que eu vou conseguir convencer a minha mulher para regar o relvado?

     - A mangueira é para o jardineiro - respondeu Philip sorrindo. Depois virou-se para Peggy. - Se não te importas, vou buscá-la...

     Horace interrompeu.

     - E deixar-me aqui perdido no meio destas três araras? Nem por nada. Agora que veio, beba qualquer coisa e ajude-me a meter uma palavrinha de vez em quando.

     - Fica, se fazes favor - pediu Peggy, com simplicidade.

     - Bom... está bem... Fico apenas por uns momentos.

     - Eu arranjo-te uma bebida.

     - Não te incomodes...

     Ela começou a andar na direcção da cozinha e ele seguiu-a. Depois sentiu os olhos de Dora pousados em cima das suas costas, enquanto se dirigia à cozinha.

     Peggy tinha o frigorífico aberto e tentava extrair cubos de gelo de um tabuleiro do congelador. Observou-a durante uns momentos. Tinha vestido uma blusa cinzenta, transparente, de seda italiana, aberta na garganta. A saia cor de antracite era bem rodada e, quando se inclinava, mostrava a combinação folhada. Mais uma vez trazia as pernas sem meias e, nos pés, uns sapatos cinzentos de ballet. Quando ela se inclinou para retirar o tabuleiro de gelo, ele deu um rápido passo em frente e tocou-lhe com os lábios a parte do pescoço que ficara exposta.

     Ela virou-se rapidamente, quase zangada, e deitou uma olhadela preocupada à porta.

     - Estás linda! - sussurrou ele. - Estou satisfeito por ter vindo.

     - Aqui tens o gelo - disse ela. - Prepara a tua bebida.

     Meteu-lhe nas mãos o tabuleiro gelado e saiu à pressa da cozinha. Ele preparou um uísque duplo e depois regressou para junto do grupinho reunido na sala.

     Horace estava a contar uma história acerca de uma tribo ameríndia que ele e Rachel haviam visitado na América do Sul. Segundo o ritual dos casamentos dessa tribo, a noiva era separada do noivo logo a seguir à cerimónia e entregue ao feiticeiro para o desfloramento. Eventualmente exorcismada dos espíritos ruins, era então devolvida, um tanto ou quanto usada, ao marido. Horace disse que gostava de contar aquele costume e recentemente contara-o a uma jovem estrela de cinema com quem estava a trabalhar num artigo de viagens. Mas, com grande surpresa de Horace, o costume não a espantara como algo de estranho. Achou-o até uma prática tribal há muito praticada em Hollywood. “Na colónia cinematográfica”, dissera ela, “uma actriz ambiciosa e atraente não podia casar-se com a sua carreira e a fama antes de uma grande variedade de cavalheiros sagrados se terem servido precisamente da mesma maneira que o feiticeiro servia a noiva ameríndia. “

     Philip, sentado em frente de Peggy, escutava-o delicadamente. De vez em quando observava-a, mas ela não olhava para ele. Tentou concentrar a sua atenção em Horace, que estava agora a descrever pormenorizadamente algumas das aventuras mais pitorescas da estrela em ascensão.

     “Conversas acerca de assuntos relacionados com sexo”, pensava ele, enquanto percorria as expressões atentas, “dão sempre a qualquer grupo um ar mais íntimo. As pessoas presentes poderiam ser de diferentes profissões e opiniões, e pouco conhecidas umas das outras, mas logo que um aspecto qualquer do sexo se discutia, as pessoas presentes ficavam mais próximas e pareciam ligadas por um qualquer elo secreto. Como anfitrião ocasional de reuniões festivas, Philip sabia que havia três elementos, um dos quais bastava para tornar qualquer reunião um sucesso: um convidado que tivesse opiniões provocantes e não convencionais, e que fosse também um ouvinte razoável; uísques duplos servidos a toda a gente duas vezes antes do jantar, ou uma discussão sobre sexo que se desenvolvesse a partir de uma intriguinha, de uma opinião ponderada ou de algo de carácter controverso recentemente observado ou lido. E, destes três elementos, o melhor era sempre o sexo. Todavia, discussões sobre o sexo, na presença de Peggy, faziam Philip sentir-se pouco à-vontade. Mas Horace, aparentemente, tinha a sua audiência e nada o iria afastar de um assunto em que estava a ser atentamente escutado. Philip sabia que não havia nada a fazer senão escutar e murmurar a sua aprovação ocasional.

     Quando, finalmente, Horace acabou as memórias da abusada estrela, passou à fase editorial. Sentia ele, afirmou com energia, que os homens poderosos no mundo do cinema estavam a forçar jovens actrizes desprotegidas a tornarem-se uma colónia de cortesãs e que esses homens, desde os poderosos produtores aos mais ínfimos agentes, eram monstros que se comportavam viciosamente. Escutando, Philip decidiu que Horace era um romântico sem remissão, completamente desligado das realidades.

     - É claro que estou apenas a fazer suposições disse Horace. Voltara-se então para Philip. - Você é a única pessoa presente que pertence ao mundo do cinema, Philip. Que é que você acha?

     Philip não quisera ser arrastado a discutir o assunto, mas agora não tinha outra opção senão falar.

     - Há sempre dois lados a considerar, Horace. Trata-se, de facto, do tipo de situação: o que é que veio primeiro: o ovo ou a galinha? Pode-se dizer que não há virgens no mundo dos espectáculos porque os homens com poder aproveitam-se das suas posições. Por outro lado, são as próprias mulheres que inspiram nesses homens as suas atitudes de desrespeito para com as mulheres e o sexo. Considere o tipo de pessoa que se torna actriz. Não será essa a maneira mais estúpida de passar a vida? A andar, a falar, a fazer caretas, a fingir, a representar fantasias em frente de grandes grupos de pessoas? Não será essa uma maneira idiota de uma mulher adulta passar a vida? Todavia, porque todas as crianças adultas que a vêem desejam esse mesmo tipo de fuga à realidade, as recompensas são fabulosas. Estas mulheres tornam-se objecto de adoração e através da fama e da fortuna tornam-se poderosas. A meta é de tal forma entusiasmante que qualquer rapariguinha fará tudo, tudo, para a alcançar. E, sabendo que o seu sexo é desejado, e, portanto, uma arma útil, usa-o. Para pôr as coisas a nu e a cru, põe-o sobre a mesa, diz ora aqui está, e, se o queres, então tens de fazer qualquer coisa por mim. Começam com os contactos mais pequenos, com agentes, e depois vão subindo através da hierarquia, directores de distribuição, realizadores, produtores, administradores de estúdios. Quando, finalmente, alcançam a fama, podem então retirar esse isco sexual e tornar-se mais selectivas. Podem então, pela primeira vez, oferecer-se por prazer. Mas, entretanto, o prazer tornou-se difícil de alcançar e já se esqueceu o verdadeiro significado do amor. Acredite-me, Horace: a actriz ascendente é um ser humano muito agressivo. Caramba, lembro-me de um pesquisador de talentos que me disse que sempre que tinha de entrevistar novas raparigas com vista a um possível contrato, deixava a porta do escritório aberta de par em par. Essas raparigas tinham muitas vezes tentado comprometê-lo, oferecendo-se para se despirem e entregarem-se ali mesmo, sem preliminares nem ambiente privado, para obterem um contratozinho por mais ínfimo que fosse. Ora eu sei que o seu argumento também é válido. Se os homens não exigissem sexo ou não esperassem qualquer coisa, as raparigas não se veriam instigadas a oferecê-lo. Mas não se esqueça também de que se as mulheres não fizessem dele o mais barato dos artigos, talvez os homens o não esperassem.

     Deteve-se, embaraçado com a extensão do seu discurso, mas reparou que Peggy, assim como Dora e Rachel, tinham escutado com imensa atenção as suas palavras.

     - Não foi minha intenção desabafar tanto - disse em tom de desculpa.

     - Estou de acordo consigo - disse Rachel.

     - E como é que se comportaria se se tornasse produtor cinematográfico? - perguntou Dora.

     Philipe sorriu.

     - O meu reino seria conhecido como o Reino de Fleming, o Lascivo. - Deitou uma olhadela ao relógio de pulso e levantou-se. - Bom, o melhor é ir buscar a mangueira e pôr-me a andar. Gostei de vos voltar a ver todos.

     Peggy levantara-se também.

   - Andei a mudar umas coisas na garagem - disse ela. - É melhor ir lá ajudá-lo a procurar.

     Apertou a mão de Horace, despediu-se de Rachel e de Dora e seguiu Peggy pela porta da frente. Atravessaram o relvado em silêncio.

     Quando chegaram à garagem, Peggy disse-lhe:

     - Ainda bem que vieste. Ajudaste muito a tornar o serão agradável.

     Podia ver que lhe agradara de facto, e isso agradava-lhe também.

     - Queria apenas estar perto de ti - disse ele. Ela virou-se para a garagem.

     - Há mesmo alguma mangueira ou foi invenção tua?

     - Pura invenção. Não queria colocar-te numa posição difícil.

     Ela voltara-se de novo para ele.

     - Obrigada. Foi gentil da tua parte. - Depois estendeu-lhe a mão. - Adeus, Phil.

     Ele pegou-lhe na mão.

     - Não me vou embora - disse ele.

     - Não?

     - Nunca tive a menor intenção de partir. Vim cá para te ver, a sós, e ainda não mudei de opinião. Mas não podia ficar ali à espera que eles saíssem. Pareceria mal.

     - Então que vais tu fazer?

     - Guiar por aí um bocado e esperar que eles se vão embora.

     - Será muito tarde. Ainda tenho de servir café.

     - Tanto se me dá. Tenho de te ver a sós. Ela olhou-o atentamente.

     - Está bem - disse ela um pouco ofegante.

    - Amo-te, Peggy. E tenho de ter-te! - Puxou-a para si e beijou-lhe os lábios macios. Ela moveu a cabeça lentamente, muito lentamente, retribuindo-lhe o beijo. Depois, com um rápido sorriso, voltou a entrar em casa.

     A Philip apetecia-lhe cantar. Teria outra oportunidade. O seu velho ego danificado seria reparado e voltaria a recompor-se. Enquanto se dirigia para o carro, inalando o ar fresco, estimulante, rescendente a relva cortada, sentia-se vivo. Mas, uma vez atrás do volante, apercebeu-se de outro aroma, um aroma que estava na sua memória. O aroma ligeiramente erótico e intrigante de talco e de carne. Essa memória vinha-lhe da noite anterior.

     Conduziu lentamente encosta abaixo até Hollywood. Foi estacionar perto da Highland Avenue e caminhou pelo Hollywood Boulevard, até chegar à papelaria suburbana que tinha escaparates de revistas brilhantemente iluminados. Andou a pesquisar entre as revistas e os livros de bolso, sem grande interesse, dando constantes olhadelas ao relógio. Passada cerca de uma hora, começou o caminho de regresso.

     Quando chegou a Ridgewood Lane, viu que ainda havia um automóvel estacionado em frente da casa de Peggy. Continuou a guiar, ultrapassando-a, a pouco mais de quinze quilómetros à hora, ligeiramente de lado no assento, com uma das mãos no volante, para ver o que conseguiria descortinar lá dentro, mas não conseguiu ver nada. Presumiu que os Trubey já teriam partido, mas que Dora se demorara mais.

     Tentou inverter a marcha na própria rua, mas era demasiado estreita. Teve de fazer manobras, depois voltou a passar em frente da casa e continuou a descer até se encontrar em Sunset Boulevard. Estacionou e andou um bocado. Deteve-se em frente do novo night-club espanhol, Ear of the Buli, e entrou. O bar era pequeno e escuro e havia um grande mural representando Belmonte no momento da verdade. Içou-se para uma banqueta e pediu um uísque duplo com gelo. Bebeu-o, escutando o som de castanholas que vinha da sala ao lado, observando constantemente o relógio. Passados vinte minutos, sentindo-se ligeiramente etilizado, pagou a bebida e caminhou rapidamente até ao carro.

       Em poucos minutos encontrou-se outra vez em Ridgewood Lane e desta vez não havia carro nenhum em frente da casa de Peggy, por isso estacionou junto do passeio. Passavam vinte minutos da meia-noite. Com uma sensação crescente de excitação, mas com a ansiedade a ser sobrepujada pela apreensão, atravessou o caminho de tijoleira na direcção da porta. Instintivamente sentiu que a porta não estaria fechada. Tentou a maçaneta e a porta abriu-se. Entrou.

     Peggy, com as pernas dobradas sob a saia, estava sentada no sofá, a fumar um cigarro e a ler. Ergueu os olhos para ele quando ele estava a fechar a porta.

     Pousou o livro, apagou o cigarro no cinzeiro e levantou-se no momento em que ele atravessava a sala.

     - Começava a pensar que já não vinhas - disse ela. - Estava quase a ir para a cama.

     - Podes ir para a cama... agora - disse ele. Tomou-a nos braços e as mãos dela passaram-lhe para a nuca para o puxarem mais, e beijaram-se. Era tão bom como fora antes, sentir aqueles lábios vermelhos e a pressão macia daqueles seios e, finalmente, o contacto das coxas contra as dele. O beijo foi longo, com a paixão a crescer, e afastaram-se ambos sem fôlego. Ela virou-se, passando-lhe um braço à volta da cintura, e ele fez o mesmo. Lentamente, sem uma palavra, foi assim com ela até ao vestíbulo, atravessaram-no, passaram e entraram no quarto dela.

     Quando chegaram perto da cama, ele reparou que já estava aberta, à espera. Voltou a abraçá-la consciente daquele corpo que se adaptava tão bem ao seu.

     - Despe-me! - murmurou-lhe ela ao ouvido.

     Ele deu um passo atrás e, com gestos desajeitados, tentou desabotoar-lhe a blusa de seda. Ela ajudou-o, finalmente, sem que os olhos se desviassem um só momento da sua expressão atenta. Quando a blusa estava toda desabotoada, desembaracou-se dela com movimentos coleantes. Ele inclinou-se sobre ela para lhe desabotoar o soutien, que caiu no chão, mas ela apanhou-o e depois é que o lançou para longe. Ele não fez qualquer movimento durante um bocado, enquanto os seus olhos a devoravam. Ela ficou em perfeito repouso, como uma exótica dançarina balinesa, com os seios a tremer muito ligeiramente, a saia cor de antracite a acentuar-lhe a nudez do tronco.

     Passados alguns instantes abriu-lhe o fecho éclair da saia, que deslizou até ao soalho. Apenas restavam as calcinhas de nylon azul-pálido. Ele segurou no elástico, mas ela apertou-lhe a mão e fez-lhe ver que estava ainda completamente vestido. Ele acenou com a cabeça e despiu-se rapidamente.

     Ela sentou-se na cama, depois deitou-se, estendendo-se completamente, enquanto ele desabotoava as cuecas. Dirigiu-se a ele, que soergueu os quadris e se libertou da derradeira protecção transparente.

     - É melhor eu fazer qualquer coisa - murmurou ele, com a respiração ofegante.

     - Não... não... já me encarreguei disso... Ergueu o seu corpo sobre o dela, e ela fechou os olhos, suspirando, à espera. Ele pensou que poderia, realmente, completar aquilo que tinham começado, e tentou, mas era impossível, pois sentia-se perdido, frustrado. Finalmente, abraçou-a e deixou-se cair de lado, de forma que ficaram frente a frente. Continuou a mover-se abraçado a ela, mas era inútil.

     Finalmente, abrindo os olhos e voltando a fechá-los, a mão que tinha livre moveu-se sobre o corpo dele, como se estivesse decidida, de uma vez para sempre, a levá-lo ao nível de excitação que ela mesma atingira. Agudamente consciente da necessidade e da exigência dela, era-lhe mesmo assim impossível corresponder.

     Passado um grande bocado, ela voltou a retirar a mão e a colocá-la por cima da própria cabeça, na almofada.

     O seu crescente sentimento de vergonha levou-o a querer libertá-la e a satisfazê-la.

     Ela empurrou-lhe a mão.

     - Não! - disse ela.

     - Mas eu quero que estejas feliz.

     - Não!

     Apoiado sobre um cotovelo, profundamente infeliz e profundamente só, olhou-a com uma expressão implorativa nos olhos. Mas o olhar dela não se encontrou com o seu. Estava com os olhos fitos, sem expressão, no tecto.

     Nessa noite nada mais poderia acontecer, ele sabia-o. Falhara-a ainda mais do que antes.

     “Eunuco”, disse consigo mesmo. “Estupor, estupor, estupor de eunuco.”

    

     Terça-feira à noite

     Em tempos, na sua juventude, nas férias entre a saída do liceu e a entrada na universidade, passara o Verão na Colômbia, na companhia de vários amigos igualmente jovens; e, certo domingo, tinham decidido escalar uma montanha com cerca de 2500 de altitude. Vista à distância, e estudada num mapa, a escalada parecera tarefa fácil, mas no trilho, afogado de vegetação, apertado entre árvores e silvas agressivas, atabafado pela exaustão e pelo calor, acabara por achar a tarefa demasiada para as suas forças. Decidira desistir de alcançar o cume, voltar ao fresco pátio da pensão, e separou-se então dos companheiros para regressar sozinho à aldeia. A meio caminho, encharcado de suor, com as pernas derrotadas, rígidas como andas, caíra e ali ficara a descansar. Quando voltou a erguer-se, já perto do crepúsculo, perdera-se no caminho, através do verde hostil da selva, mas sabia que a salvação estava em continuar a descer. E descera, descera sempre, quase sem ver por onde ia, descontrolado, chocando contra os troncos, arranhando-se nos espinhos agudos, parecendo-lhe cada vez mais que não havia saída em parte alguma. Era um pequeno inferno do jogo da cabra-cega, até que, com a chegada da noite, atingiu o sopé da montanha e viu faróis de automóveis a coruscar numa estrada próxima. Sentiu então que alcançara, cambaleante, a segurança.

     Agora que eram passados tantos anos, a confusão escaldante e desesperada dessa experiência era como que uma recordação dolorosa. E nesse fim da manhã, sentado no chão do escritório, rodeado de livros, que tinha estado a desempacotar, voltou a recordar-se desse incidente. E sabia que a recordação lhe surgira por causa do que sentia nesse momento. A montanha não era mais do que uma mulher e ele não conseguia atingi-la, por isso sentia-se perdido. Não era o seu ser corpóreo que estava ferido, mas aquela grande porção de si próprio que era o seu orgulho. A emoção que sentia já não era meramente vergonha, mas antes uma vergonha complicada por uma espantada incompreensão. O que lhe acontecera naquela segunda noite era a vergonha, mas por que é que tal lhe acontecera, isso é que constituía a estupefacção daquilo que não se compreende.

     Dissera a si próprio que devia pensar na proposta de Alexander Selby e que teria de reler todas as referências que possuía sobre Caroline Lamb, e com isso na mente (oprimida pela tal estupefacção) dirigira-se ao escritório logo a seguir ao pequeno-almoço a fim de desempacotar os livros. Tinha várias biografias de Byron, todas com muitas páginas sobre Caroline Lamb, e pô-las de lado sem sequer as folhear, pois enquanto continuava a busca sabia muito bem que não eram aqueles os livros que realmente queria encontrar. Havia outro, que continuou a procurar teimosamente até o ter finalmente nas mãos.

     Era um livro pequeno, pouco volumoso, de capa cinzenta e que comprara muito antes de ter conhecido Helen. Vira-o anunciado numa revista e custara-lhe dois dólares e cinquenta cêntimos. Chegara-lhe às mãos pelo correio, num embrulho sem marcas, e devorara-lhe o conteúdo numa só noite de leitura. Anos depois de casado, durante uma festa em que já se bebera bem, encontrara-o por acaso numa prateleira da estante e pusera-se no meio da sala a ler algumas passagens em voz alta: fora motivo de grande risota, mas nesta manhã não lhe dava grande vontade de rir.

     Abriu o livro no índice remissivo e encontrou o que procurava. Depois, precipitadamente, percorreu as páginas à procura dos capítulos que queria ler. Ficou descoroçoado ao reparar que o livro era, afinal, um guia de casamento, facto de que se tinha esquecido. Não obstante continuou a ler as páginas que tratavam das causes de impotência temporária: receio de causar à noiva... reacção a qualquer aversão que ela demonstrasse para com o acto conjugal, uma recordação qualquer que destruísse a paixão, dúvidas enraizadas acerca da própria virilidade, doença orgânica. Passou impacientemente por cima das páginas até à secção que tratava da cura e do tratamento da impotência temporária. As frases pareciam-lhe retóricas e antiquadas.

     Talvez houvesse alguma verdade no velho livrinho, concedeu Philip, mas não lhe oferecia agora qualquer explicação aceitável de causa, nem qualquer solução praticável, e, por isso, foi com um gesto de desânimo que voltou a atirar com o pequeno volume para dentro da caixa de papelão. Reuniu então as biografias de Byron e levou-as para a cozinha.

     A sua intenção era aquecer café e ir lendo os capítulos sobre Caroline Lamb, embora soubesse que não estava com estômago para isso. Olhou o relógio eléctrico instalado por cima do fogão. Helen levara Danny para a praia, sobrepondo a sua vontade à resistência altamente vociferante do filho, e antes de uma hora não estaria de volta. Nesse momento a casa era como que um apartamento de solteiro e podia usar o telefone como lhe apetecesse. Sabia que tinha de telefonar a Peggy Degen, mas era incapaz de definir o que quereria dela naquele momento. Seria impossível convidar-se a si mesmo para lá ir uma terceira vez e forçar uma terceira oportunidade. Não tinha o direito de exigir tal coisa e, mesmo que ela lha concedesse, temia já o inevitável fracasso. Todavia, tinha absoluta necessidade de a ver, embora não soubesse com que fim.

     Pegou no telefone e marcou o número. Passado um momento ouviu a voz dela, clara e viva:

     - Está?

     - Peggy? Fala Philip. Como estás?

     - Ainda não sei bem. Nem tenho a certeza de estar acordada.

     - Estás na cama?

     - Que ideia! Não, estou na cozinha, a tentar fazer um bolo.

     Isso era novo. Lembrava-se de ela ter dito da primeira vez que a vira, que não sabia cozinhar.

     - Um bolo? - ecoou ele. - Não sabia que tinhas essa ânsia de domesticação.

     - É uma nova linha. Doméstica e intelectual.

     - E desejável.

     - Bom... espero que sim.

     Ela não lhe perguntou nada acerca das suas actividades. Era, para ele, a única falha numa mulher que parecia perfeita. Seria pelo facto de ela ser uma recebedora e não uma dadora? Não, sabia que não era isso. Seria que o interesse que ela tinha por ele era limitado? Possivelmente. Seria que ela se abstinha de demonstrar qualquer interesse de proprietária sobre ele, de investir emocional mente qualquer coisa, fosse o que fosse, em alguém que não possuíra? Era muito provável que assim fosse, mas, já que ela não perguntava, dir-lhe-ia ele o que tinha estado a fazer.

     - Estava precisamente a ler um livro muito interessante.

     - Ah sim? O quê?

     - Um estudo sobre as causas da impotência sexual, temporária.

     Houve um momento de silêncio do outro lado da linha. Mas, finalmente, ela ripostou:

     - E que é que aprendeste?

     - Que pode ter origem inteiramente psicológica.

     - Que queres dizer?

     - Que o livro diz para ter confiança, que tudo acabará bem.

     - Nunca me pareceu que te faltasse confiança.

     - Mas talvez falte. Talvez a minha insegurança esteja escondida sob pesadas camadas de confiança aparente.

     - Nunca tinha pensado nisso. Philip engoliu em seco.

     - Enfim, podes ver que ainda estou perturbado e que quero pedir desculpa.

     - Por favor, não peças.

     - Sinto-me melhor assim.

     - Mas não gosto disso. Vamos esquecer isso tudo, está bem?

     Mas ele não estava nada disposto a esquecer aquilo tudo, porque isso implicaria ter de esquecer Peggy, e, naquele momento, parecia desejá-la mais que nunca.

     - Peggy - acabou por dizer -, não te vou pedir para me deixares aparecer outra vez esta noite...

     Esperou um momento, mas ela nada disse.

     - Porque, se tu me dissesses que não, eu não aguentava. Mas vou pedir-te outra coisa.

     - Diz lá.

     - Gostaria de te convidar para saíres comigo. Aperitivos e jantar.

     Ficou à espera, ansioso. Houve um silêncio breve, muito breve. Depois ela respondeu:

     - Mas como podes tu fazer isso?

     - Posso.

     - Não tens medo de que alguém nos veja? Estava tremendamente receoso disso mesmo, mas respondeu:

     - Nem por isso.

     - Porque queres tu correr um risco desses?

     - Porque quero estar contigo. - Depois acrescentou, num tom mais ligeiro: - Além disso, posso debitar o preço do jantar para me ser deduzido dos impostos.

     - Como?

     - Inspiração - disse num tom brilhante.

     - Tornas a proposta irresistível - disse ela. - Como poderia agora dizer-te que não?

     - Esplêndido, Peggy. Adoro-te.

     - De que género vai ser? Pregos no prato ou trajo de cerimónia?

     Ainda não tinha pensado onde a levaria, ou sequer o tipo de restaurante que escolheria, mas respondeu imediatamente:

     - Trajo de noite.

     - Vai ser divertido.

     - O melhor é atirar uma coisa qualquer por cima dos ombros. Iremos depois à praia.

     - A que horas?

     - Digamos... por volta das sete e meia.

     - Muito bem. Vou arranjar alguém que venha tomar conta do Steve.

     - Então até já.

     Philip desligou, satisfeito mas perturbado. O que mais lhe agradava era ter conseguido prolongar as relações com Peggy. Tinha colocado em segundo plano, com grande habilidade, essa coisa insistente e irritante do sexo. Considerou então o que significaria esse serão. Teriam uma nova oportunidade de se conhecerem melhor, de se aproximarem mais. Ao levá-la a sair publicamente estava a demonstrar os seus verdadeiros sentimentos para com ela, que eram o reflexo da sua coragem. Várias saídas assim iriam fazendo esfumar a lembrança dos fracassos, fariam reviver as relações entre ambos, e quando, finalmente, estas voltassem a atingir o nível romântico adequado, ela estaria pronta, ansiosa mesmo, por aceitá-lo mais uma vez na sua cama. Mas o que o perturbava era a dificuldade de manter esse namoro secreto, ainda que se tornasse público. O problema básico era conseguir sair de casa para poder jantar fora. Conseguira com pleno êxito obter duas noites de saída, depois do jantar, e isso fora fácil, mas sabia, instintivamente, que se não podia atrever a utilizar outra vez os nomes de Nathaniel Horn ou de Alexander Selby. Helen não era muito perspicaz, mas previa sempre com grande rapidez, através de estratagemas mal congeminados. Depois lembrou-se de Bill Markson e compenetrou-se de que Bill lhe poderia oferecer o perfeito álibi.

     Alguns meses atrás, ele e Bill haviam-se encontrado em Beverly Hills, para uma série de jantares, sem as respectivas esposas, para discutirem a possibilidade de escrever uma série para a televisão. A série, White House Girl (A Rapariga da Casa Branca. (N. do T.), tratava das aventuras de uma jovem secretária presidencial. Philip andara muito entusiasmado com a ideia, o seu entusiasmo infectara Bill, mas o projecto em breve se dissipara num nevoeiro enublado de álcool e de véus de conversa fiada. Philip gostara desses dias de boa camaradagem, mas lamentara a perda de tempo. Agora, de repente, parecia-lhe que esse tempo fora bem perdido, pois esses serões com Bill proporcionaram-lhe um precedente sólido. Helen não levantara quaisquer objecções a esses jantares, até porque simpatizara com Bill. Não se oporia, portanto, a que ele e Bill voltassem a encontrar-se para fins profissionais. “Deveria inventar um interesse renovado na ideia da White House Girl, ou seria mais sensato dizer que queria ensaiar com Bill algumas ideias sobre Caroline Lamb? “ Talvez a primeira hipótese fosse a melhor. E o convite deveria partir inicialmente de Bill. Isso livraria a combinação de qualquer suspeita. É claro que isso significava que Philip teria de fazer confidências a Bill. E isto era uma coisa que não estava nos seus planos pois já uma vez, havia ainda poucos dias, rejeitara a ideia de fazer de Bill e de Sam Barlow conspiradores. Mas agora não havia muito por onde escolher. Já passara a altura de estar com tanta discrição, pois a situação requeria acção intrépida. E as circunstâncias do acaso tinham feito de Bill o conspirador perfeito.

     Lembrou-se de que Bill ainda trabalhava num estúdio de Culver City. Telefonou-lhe. Bill atendeu-o com a afabilidade de sempre, mas um pouco à pressa. Ia a caminho de uma reunião sobre a história para uma série. Philip perguntou-lhe se poderia almoçar com ele, pois tinha uma coisa importante a dizer-lhe.

     - E se for aqui no estúdio? - perguntou Bill. Podemos comer qualquer coisa em cima da secretária.

     - Não - disse Philip -, o assunto é... bom, é de natureza privada.

     - Assunto privado, hem? - Philip quase que podia ver as sobrancelhas de Bill enrugarem-lhe a testa. Está bem, Phil, meu velho, conseguiste fazer-me curioso. Onde é que queres que me encontre contigo?

     - Serve-te The Little People? - Era o nome de um pequeno mas dispendioso snack-bar em Culver City. Servia sanduíches de dois andares, com rodelas de cebola, com hambúrgueres e tinha gabinetes privados. Além disso, durante o dia, era geralmente bastante sossegado.

     - Serve-me perfeitamente. Ao meio-dia?

     - Óptimo, Bill.

     - E, lembra-te, estou à espera de qualquer coisa interessante... Mesmo que tenhas de a inventar pelo caminho. Tenho de correr. Até logo.

     Philip gastou a hora seguinte a passear pela casa, devaneando, pegando em livros para logo a seguir os pousar outra vez. Finalmente, ansioso por sair de casa antes do regresso de Helen e de Danny, acabou por sair cedo. Chegou a Culver City às vinte para o meio-dia, foi estacionar o carro no parque do restaurante e depois andou a passear lentamente pela acção comercial do bairro.

     Ao meio-dia já estava num dos gabinetes, esperando com impaciência. Passados dez minutos começou a sentir dúvidas acerca do passo que ia dar. Fazer confidencias, fosse a quem fosse, era sempre perigoso e imprudente, mas quando Bill, pequeno e frenético, como acontecia todos os dias, num impecável fato de linho, entrou apressadamente e o cumprimentou com um sorriso amigável, Philip decidiu que, ao fim e ao cabo, era aquele o melhor caminho.

     Encomendaram sanduíches de dois andares com hambúrgueres - Philip teve o cuidado de omitir as rodelas de cebola - e conversaram sobre os respectivos trabalhos. Bill fez-lhe um relato cheio de estrelas, e Philip mencionou a “coboiada” que Ritter estava a preparar. Não falou a Bill da possibilidade de fazer um filme sobre Caroline Lamb, pois sabia que ele reagiria com entusiasmo transbordante, e Philip não se encontrava com disposição para discutir esse assunto em pormenor. A sua mente estava apenas ocupada com o serão dessa noite.

     A chegada das sanduíches interrompeu a torrente de palavras de Bill. Abriu a sua, aspergiu com molho a carne e ergueu os olhos para Philip.

     - E agora, meu velho Phil, de que se trata?

     - O quê?

     - Disseste que tinhas um assunto importante a discutir comigo. Quando alguém nos diz que tem um assunto importante a tratar, trata-se, geralmente, de qualquer coisa importante para ele, não para nós. Li isto algures. Então, muito bem, o que é tão importante para ti?

     - Preciso da tua ajuda.

     - Queres dizer... dinheiro?

     - Não, é claro que não - disse Philip. - A ajuda é diferente. Disse-te que era um assunto particular. E é precisamente isso, Bill. Aquilo que te vou dizer não deve sair desta sala. Nem uma palavra, nem sequer à Betty. Especialmente à Betty.

     Bill levantou três dedos.

     - Pela minha honra. Entra por um ouvido e sai pelo outro.

     - Bom, estou metido numa situação... - Philip hesitou, mas depois prosseguiu: - Há alguém com quem tenho de jantar esta noite e preciso de um álibi para sair de casa. Não quero transformar isto num folhetim, mas, para mim, é importante.

     Bill ficou a olhar para Philip com verdadeira surpresa.

     - Queres dizer que tens um arranjo qualquer em operação? - Bill abanou a cabeça. - E eu que sempre pensei que tu eras, como eu, todo prosa, nada de acção.

     - E sou. Mas, desta vez, bom, fechei os olhos e saltei.

     - Alguém que eu conheça?

     Philip ficou calado, incerto quanto à decisão de levar mais longe a confidência.

     Subitamente os olhos de Bill dilataram-se.

     - Olá! Não terás de jantar com certa pessoa acerca de uma transferência de propriedade, ou terás?

     - Bom, para falar com franqueza, é mais ou menos isso.

     - Caramba... Porque é que são sempre os outros a ter a sorte toda? Sabes, quando cheguei a casa, depois daquela festinha no sábado, à noite, e me meti na cama, comecei a pensar nela. - Abanou outra vez a cabeça, num ar saudoso, anelante. - Aquela menina é das tais, Phil, do bom a sério.

     Philip sentiu-se feliz e orgulhoso. - Foi exactamente o que eu pensei logo da primeira vez que a vi.

     - E já saíste alguma vez com ela?

     - Bom... já.

     Bill sentia-se como um adolescente a espreitar para dentro de um quarto.

     - E conseguiste? Ou não é da minha conta?

     - Não é da tua conta.

     - Ó menino, aquela carinha e aquele corpo... é como uma das tais de cem dólares. - Reflectiu um pouco. - É claro, quanto a pipinhos, não tem grande coisa, mas quem precisa de tetas? Phil, quando acabares, podes dizer-lhe que tens um amigo.

     - Está bem, eu digo-lhe... E quanto a esta noite?

     - Esta noite? - Franziu pensativamente a testa. - Parece-me que não tenho nada marcado.

     - Bom, agora já tens. Vais-me convidar para jantar. No Panaro's. Precisamos de conversar sobre a nossa velha série para a televisão.

     - O que for preciso.

     - Telefona-me então por volta das cinco... Não, é melhor ser às quatro. Convida-me. Eu aceito. Sabes que isso significa que não podes ficar em casa esta noite. Helen pode telefonar à Betty. Importas-te?

     - Se fizeres o mesmo por mim noutra altura. Fizeste-me sentir fossilizado... Está bem, vou ao cinema ou dou um pulo ao clube. - Voltou a acenar a cabeça, com uma inveja visível. - Felizardo dos diabos... Estão sempre a acontecer-te coisas.

     - É culpa minha se as mulheres não me largam?

     - Pois claro!

     - É uma excelente mulher, Bill.

     - Mulheres excelentes também fazem amor. Que outra razão há para a explosão demográfica?

     Parecia não haver mais nada a acrescentar. Voltaram ambos a atacar as sanduíches, ambos pensando, por um breve momento, nas respectivas mulheres e depois em Peggy Degen.

     Ia guiando o carro pela auto-estrada: de Hollywood, na direcção do Norte, com destino à quinta que Kip Carster tinha para lá de Enco.

     A sua intenção tinha sido regressar a casa imediatamente, depois do almoço com Bill Markson, mas, sem saber bem porquê, desde manhã cedo que estivera a pensar que precisava de ver Kip Carster. Só depois de Bill se ter ido embora é que telefonara a Carster, para se certificar de que ele estaria em casa toda a tarde, e analisara os motivos por que queria visitar o actor. Na mente de Philip - e não era só na de Philip o nome de Kip Carster era sinónimo de sexo sem complexidades. Na tela, Carster era o cartaz de Hollywood da virilidade. Forte, um pouco brusco, mas ao mesmo tempo suave (“Tratam-se as prostitutas como duquesas e as duquesas como prostitutas!”). Mas onde muitos outros astros masculinos, famosos pela sua masculinidade, eram precisamente o contrário disso na vida real, Carster era consistente e não desapontava ninguém. Era um autêntico primitivo, tão amoral como um gato vadio. “Então porquê ir falar com ele? “, perguntava Philip a si mesmo. Que espécie de masoquismo seria o seu? Contudo, para Philip, Carster parecia constituir uma promessa desesperada. Também ele teria alguma vez tido um fiasco? Se a resposta fosse afirmativa, então aquilo era uma coisa que podia acontecer a qualquer homem, e se podia acontecer a qualquer um, então o caso para Philip não era tão sério.

     Em regra, como Philip bem o sabia, actores e escritores não se davam muito bem. Os actores sentiam um certo ressentimento em relação aos escritores, pela sua facilidade verbal e superioridade defensiva (eram possuidores de uma mística especial e de uma criatividade de que não dispunham outros mortais) e desprezavam-nos pela sua subserviente falta de integridade. E os escritores não gostavam dos actores pelas suas inexistentes pretensões intelectuais, a sua elevada posição e poderio dentro da indústria e pelos rendimentos imerecidos que auferiam. Philip não era diferente dos seus colegas. Geralmente ignorava os actores com um gesto desdenhoso da mão (“Bom, que é que esperavas... é um actor!”). Na realidade, Kip Carster era o único actor cujas relações Philip cultivava e estimava, mas também Carster era actor devido ao mais espúrio dos acidentes. Aos olhos de Philip, Carster deveria ter sido um atraente garagista polaco e um frequentador habitual da Praia dos Músculos, o que, na realidade, ele fora, muito antes de uma famosa ninfómana mexicana o ter descoberto, sem camisa, todo músculos, a lavar um carro em certa tarde de há anos atrás. Tomara Carster sob a sua asa como protegido e garanhão e relatava as suas proezas de alcova, sem quaisquer inibições, em todas as festas de Hollywood. As suas superiores femininas e felinas - superiores, é claro, em reputação e salário - ficaram cheias de curiosidade e em breve Kit Carster estava lançado.

     Philip escrevera o argumento do segundo filme de Carster. Nele, Carster desempenhava o papel de um rude batoteiro dos barcos fluviais do Mississipi. Numa das cenas punha-se de tronco nu para nadar até ao navio, trepar para bordo, para depois atirar à água, à pancada, três pesos-pesados, e o resultado fora um grande sucesso de bilheteira. Carster associava Philip com o seu êxito e gostava dele pessoalmente porque Philip não falava como um escritor. E Philip apreciava Carster porque este era um original, e era genuíno e divertido.

     Agora, conduzindo na direcção da quinta de Carster, em Encino, ia pensando no homem e tentando vê-lo através dos olhos de Peggy. Carster era um homem grande, de cerca de 1, 90 m, talvez um pouco mais, e com perto de 90 kg de peso. Tinha o rosto selvático, esculpido, do Homem de Pequim, e todo o seu aspecto evocava cavernas escuras, mocas, um mundo novo e cru. Nos seus curtíssimos calções de banho, parecia, realmente, uma criação magnífica. Aquele rosto escavado de animal por domesticar, instalado no topo de um tronco possante e cabeludo, assim como as pernas poderosas, impressionavam tanto os homens como as mulheres.

     Carster não era nem imaginativo nem esperto, mas também não era parvo. Tinha pouca paciência para ler, mas, como uma celebridade deve ter opiniões, formava as suas escutando atentamente as conversas dos outros. O seu cérebro era um mata-borrão enormíssimo, que absorvia e retinha fragmentos apanhados em centenas de outros cérebros. Era também sagaz, com uma argúcia de tipo animal, especialmente em questões que envolviam finanças. O seu modo de falar era colorido e travesso.

     Em questões sexuais - e tais questões dominavam a sua vida - era perfeitamente directo. Não tinha paciência para jogos românticos ou brincadeiras verbais. Era como se sentisse que o que tinha para oferecer era essencial e isso bastava para que a sua companheira decidisse imediatamente aceitar ou rejeitar a oferta.

     “A maioria dos tipos pairam de mais”, gostava ele de dizer. “E isso atira com o sexo pela janela fora. Se é preciso falar, está bem, pá, então fala de sexo. Sem subterfúgios. Logo que se traz o assunto para campo aberto, está-se a meio caminho. Às vezes também falo, quando tenho nas mãos uma das realmente geladas. Mas ponho tudo a claro, com as palavras todas, e ela começa logo a ver que o que ela ali tem não é realmente assim tão privado e misterioso. É claro, como sabes, geralmente não falo muito. Geralmente, depois de uma ou duas bebidas, ou depois de jantar, digo logo: “Olha, pequena, quero fazer amor contigo - as palavras exactas dependem da classe da rapariga - e digo-o no tom: é pegar ou largar. “ A maioria pega. Uma vez ouvi um tipo dizer que uma vez derrubada a treta puritana, a treta da moralidade, sabes, inibições, deixa de haver defesas e o resto é em linha recta. Bom, a minha média é bastante boa. Pensa em dez mulheres. Faço propostas directas a todas. Talvez uma me dê uma bofetada - e é essa que se deita mais depressa, implorando. Um par delas dão uma risadinha nervosa, como se pensassem que um tipo está a brincar, mas em breve ficam convencidas. Às vezes, uma fecha-se, e um fulano não consegue chegar à meta. Claro. Mas o resto nem sequer finge. Limitam-se a dizer sim. Em cada dez, eu diria oito ou nove. Faz tu o namoro, rapaz. Eu cá faço à minha maneira. “

     E tal filosofia parecia correcta. Pelo menos para quem tivesse as qualidades de Carster. Em Hollywood corria a lenda de que nem uma das estrelas que haviam trabalhado ao seu lado resistira à sua sedução. E uma delas já era avó. Outra tinha quinze anos de idade. Uma terceira era casada e feliz, com cinco filhos. E todas tinham caído no papo, com vários graus de relutância. Uma vez, lembrou-se Philip, uma rapariga que ele conhecera no jornalismo, no Leste, chegara a Hollywood com instruções da revista onde trabalhava para entrevistar várias estrelas de cinema, entre elas Kip Carster. Quando ela soube que Philip o conhecia, procurou-o para que a apresentasse. Philip não se mostrou muito entusiasmado. A rapariga era uma loura alta, de trinta e poucos anos, um tanto ou quanto ensimesmada, rígida, dada ao sarcasmo. Daquelas que um homem sabe que, se se lhe toca, salta logo para trás. Philip não achava que ela fosse exactamente o tipo ideal para entrevistar Carster. No entanto, para fazer o favor, arranjou o encontro. Philip e Helen tinham prometido levar a rapariga a jantar fora depois da entrevista, e esperaram, e esperaram. Ela apareceu, finalmente. Mas a expressão glacial desaparecera. Vinha ainda um pouco descomposta e a respirar profundamente. Helen conduziu-a à casa de banho para lhe dar tempo de se recompor e para poder retocar a maquilhagem. Depois a rapariga admitiu, meio-chorosa, meio-orgulhosa, o que acontecera. “Ele apenas me disse que me queria e eu fiquei demasiado paralisada para dizer que não, e demasiado confusa, e devo ter estado maluca, mas acho que queria saber como seria um actor famoso. Só sei que logo a seguir lá estava ele todo embrulhado em mim. “ Abanara a cabeça como quem ainda nem acredita e durante um momento a sua costumada aresta regressou. “Sabes, Helen, é a primeira vez que levo para a cama uma história. “

     Fora uma escaldante hora de automóvel até Philip virar, finalmente, para o caminho de terra batida, que coleava para ocidente até à colina onde se erguia a vasta quinta de Carster. Um criado japonês conduziu Philip através do fresco salão até às traseiras da casa. Carster, sem camisa, descalço, com umas calças justas de ganga azul, estava montado numa cadeira de lona a fazer paciências e a beber vodca.

     Saudou Philip com um rugido de hospitalidade, estendendo-lhe uma mãozorra que parecia um presunto.

     - Mesmo a tempo - disse ele. E gritou para o rapaz: - Yosuke, traz outro vodca e um uísque com gelo para o meu amigo! - Virou-se para Philip. - Senta-te, senta-te. - Enquanto Philip se sentava, Carster recolhia as cartas espalhadas e colocava-as em pilha ali ao lado e erguia uma das mãos a pedir atenção.

     - Uma anedota - disse ele. - E, se já a ouviste, não me detenhas.

     E começou a contar, com evidente gosto e grande abundância de gestos, uma história obscena acerca de um criado de lavoura a quem faltava finura e refinamento nas suas relações com o sexo oposto. Philip já conhecia a anedota - na versão anterior o moço de lavoura tinha sido vendedor de automóveis -, mas não deteve Carster. Quando, finalmente, o actor berrou a linha final da anedota, deixou-se cair em cima da cadeira de lona, a agarrar a barriga, rindo até às lágrimas. Philip riu-se também, tanto de Carster como da anedota, pois a história era espantosamente autobiográfica e Carster nem se apercebera disso.

     Serviram-se as bebidas e Carster perguntou a Philip em que andava a trabalhar. Mas antes que Philip lha pudesse responder, já Carster estava lançado numa longa tirada contra o estúdio. Parecia que o seu estúdio queria que ele entrasse num melodrama acerca de um piloto comercial americano que se via envolvido numa história de assassínio em Hong-Kong. Ora como Carster já tinha interpretado a mesmíssima história, mas em Buenos Aires e em Marselha, tinha excelente justificação para objectar.

     Carster admitiu que o que ele desejava fazer era entrar num romance best-seller que estava a ser adaptado ao cinema noutro estúdio. O papel adaptava-se-lhe magnificamente e o estúdio tinha-o pedido emprestado. Resumiu o romance para Philip. A história tinha por pano de fundo a guerra da Coreia. Um sargento que chefiava um pequeno pelotão de infantaria, momentos antes de ver o seu pelotão reduzido das suas forças e preso atrás das linhas inimigas, recebia a notícia de que era herdeiro de meio milhão de dólares, inevitavelmente, o sargento via-se perante um dilema: escapulir-se dali, com algum risco, para salvar a pele e, com ela, a recém-adquirida fortuna, ou, com risco maior, manter o seu pelotão por detrás das linhas inimigas e desistir da possibilidade de fuga, porque tinha nas mãos uma oportunidade única de sabotar o avanço dos Vermelhos. O romance contava a história do conflito íntimo do sargento, e a sua maturação, e era este o papel que Carster gostaria de desempenhar. Segundo ele, o estúdio a que estava ligado concordara que se ele aparecesse primeiro no filme sobre o piloto comercial em Hong-Kong, o emprestariam para fazer a outra fita. Carster considerava tal proposta como a forma mais descarada de chantagem e recusasse pura e simplesmente, e agora estava” suspenso. No fim. é claro, como Philip muito bem sabia, e Carster também, ele desempenhará o papel de piloto comercial em Hong-Kong, assim como o de sargento na Coreia. Mas, entretanto, tinha de tomar aquelas atitudes para manter as aparências e sofrer, por conseguinte, aquela dispendiosa suspensão.

     Ali ficaram sentados ao sol, a conversar disto e daquilo, durante a melhor parte de uma hora, com Carster a mostrar-se o mais loquaz. Então Philip, que estava a ficar cada vez mais apreensivo quanto às horas e à chamada telefónica de Bill Markson, decidiu acelerar as coisas e ir direito ao assunto. Perguntou a Carster quem fora a última estrela com quem trabalhara e a conversa desviou-se imediatamente para o assunto do sexo. Philip recostou-se na luminosidade da tarde, sombreando os olhos, beberricando, sabendo que aquilo era como estar a escutar um motorista de pesados a ler passagens de Henry Miller.

     De repente julgou ter ouvido o que podia ser a sua deixa. Empertigou-se de repente e interrompeu:

     - Ora, deixa-te disso, Kip. Pela maneira como falas, haveria de parecer que nunca foste à procura de qualquer coisa que nunca encontraste!

     - Eu nunca disse isso.

     - Tenho a certeza de que já tiveste fracassos, como toda a gente.

     Carster ficou calado, dando voltas ao cérebro sobre aquela informação, procurando no passado. - Claro que já tive fracassos, se é assim que lhes queres chamar. Contei-te alguma vez acerca da altura em que andámos a filmar aquele filme policial em Londres, há uns três anos?

     O coração de Philip deu um salto.

     - Não, acho que não.

     - Bom, havia essa gaja irlandesa, feita como uma... sabes como. - Sorriu com a recordação. - Encontrei-a num restaurante, em Piccadilly, e depois de termos bebido umas coisas, levei-a a casa para passarmos um bocado. Nem sequer estava a tentar com toda a força, mas, posso garantir-te, toda a gente se divertiu. Enfim, vim a saber que essa tipa irlandesa tinha mais três amigalhaços... Era fresca, aquela... Um conde francês, um checo que trabalhava na Embaixada e um guarda-livros inglês. Isto é a sério, Philip. Tinha esses três gajos, todos a fazer romance com ela regularmente e agora ainda aparecia eu.

     Uma breve expressão de nostalgia aflorou-lhe o rosto. Depois continuou:

     - Era um primeiro prémio. E tenho de admitir que gostei. Enfim, voltei para segunda dose. Bom, uma vez. depois de ter romanceado com ela, e estar um tanto ou quanto satisfeito comigo mesmo, perguntei-lhe como é que me comparava com os outros três amigos. “Tu não vais mal”, disse ela. “És melhor do que o conde francês. “ Aquilo irritou-me um bocado. “E então o checo e o inglês? “ Bem, ela limitou-se a acenar negativamente a cabeça. “Na”, disse ela. Bom, tu conheces-me, Phil. Aquilo era um desafio atirado à minha cara. Por isso, da vez seguinte, comecei cedo e fiz amor durante toda a noite como se fosse a única mulher que restava na Terra. “Então? “, perguntei-lhe eu depois. Ela pensou um bocado. “Bom”, respondeu ela, “tenho de admitir que és mais divertido do que o checo. “ Fiquei furioso. “E que o inglês? “ “Na”, disse ela, “melhor do que esse não. “ Carster olhou para Phil com toda a seriedade.

     - Philip, digo-te que aquilo começava a roer-me as entranhas. Estava decidido a tornar-me o favorito. Dediquei a isso toda a minha vontade. Cortei nas bebidas e nos cigarros, tive grande cuidado com a dieta. Cheguei a fazer um bocado de ginástica. Mantive-me afastado dela durante uma semana inteira. Não deixar no ginásio a minha melhor luta. Entrei realmente em descanso para o grande combate. Depois voltei a procurá-la e decidi-me que tinha de ser. Bom, deixa-me que te diga... deixa-me que te diga e não estou com fanfarronices... que fiz o Casanova parecer um coelhinho. Quando estava tudo acabado, eu tinha a certeza de ter tido a minha melhor actuação. “Bom? E agora, o que é que achas? “, perguntei-lhe eu. “Acho que foste estupendo”, disse ela. “Sou ou não o primeiro? “ Era só isso que eu queria saber. Mas ela continuou a acenar a cabeça. “Na. “ Fiquei escandalizado. “Então quem é o primeiro? “, quis eu saber. “O tal inglês? “ “É, como dizes, o inglês”, disse ela. Fiquei derrotado. Atirei com a toalha. Mas eu tinha de saber qual era o segredo daquele homem milagreiro. “Porquê? “, perguntei-lhe eu. “Como é que ele é o primeiro? “ Bom, ela limitou-se a olhar para mim com aqueles grandes olhos e disse: “Satisfaz-me mais. “

     Carster abriu as mãos estendidas, como quem diz: “Mulheres! “ Philip riu-se e acreditou naquela história, pensando que talvez fosse, afinal, a história de todo o sexo.

     Carster pegou na bebida.

     - Seja como for, aí tens. Querias a história de um fracasso. Ora aí tens uma.

     - É uma grande história - disse Philip -, mas não era isso que eu queria dizer. Referia-me a um fracasso na cama, um fiasco...

     - Não te estou a topar.

     - Não conseguires pô-lo de pé.

     - Ah, isso! - Carster fungou. - Como diabo pode isso acontecer? Um tipo quer uma tipa, tem-na. Isso não acontece a ninguém, excepto talvez a um maricas...

     Philip corou.

     - Tem acontecido a muita gente que nada tem de maricas.

     - Bom, talvez se um tipo bebe de mais - concedeu Carster. - Na verdade, quando comecei nesta coisa das fitas, estávamos a dar uma festa no estúdio, depois do último dia das filmagens, e eu estava mesmo bem bebido, e essa secretária do produtor, uma dessas tipas altas e peneirentas que a gente vê nas revistas de modas, reparei que estava de vez em quando a olhar para mim como se eu fosse um espécime em exposição. Assim, quando toda a gente já se tinha ido embora, eu ainda fiquei para trás para uma última bebida com ela. Depois peguei-lhe no cotovelo e perguntei-lhe se queria ver o meu estojo de maquilhagem. Ela disse que sim e eu então levei-a para o meu camarim portátil. Bom, estava bêbedo de mais para saber pedir-lhe. Limitei-me a empurrá-la contra a parede e comecei a beijá-la. Ora ali estava ela, e ali estava eu, mas, tens razão, Phil, durante cerca de um minuto... nada. Tinha bebido álcool a mais, é o que era. Por isso levei-a para o divã e comecei a concentrar toda a minha atenção nela, como se fosse um clavicórdio. Eventualmente, tenho gosto em dizê-lo, devolvi-a à sua estenografia mais sábia e mais satisfeita. Fiquei com novo respeito... O diabo do rum é o inimigo número um do romance. Enfim, foi o mais perto que jamais estive de ter uma nega.

      Agora inteiramente lançado, Carster continuou a explorar o seu rico filão de recordações. Philip recusou uma segunda bebida e passaram mais vinte minutos antes de conseguirem despedir-se. Quando chegou ao automóvel ia profundamente deprimido. Estava arrependido de ter vindo visitar Kip Carster. Estava arrependido, porque a simples luxúria animal do actor fazia-o sentir-se pequeno e amarfanhado. O fiasco parecia-lhe agora mais vergonhoso do que ele se lembrava.

     Quando chegou a casa, passavam dez minutos das quatro. Foi encontrar Helen no escritório, a encurtar um vestido novo. Inclinou-se para a beijar. Queria perguntar-lhe se Bill Markson tinha telefonado, mas sabia muito bem que o não podia fazer.

     - Onde está o Danny?

     - No quarto dele, como de costume. E onde estiveste este tempo todo?

     - Fui à biblioteca ver se encontrava alguma coisa...

     - E tiveste alguma sorte?

     - Nem por isso. Mas hei-de encontrar a solução.

     - Espero que sim. Estiveste este tempo todo na biblioteca?

     - Não. Fui também visitar o Kip Carster. Helen franziu a testa.

     - Porquê?

     Philip sabia que ela não gostava de Carster. Como mulher casada, provavelmente considerava Carster uma ameaça. As suas libérrimas actividades sexuais tornavam os maridos invejosos, inquietos e inseguros. “Mas lá bem no íntimo”, pensava Philip, “ela estaria, provavelmente, curiosa acerca de Carster e talvez atraída por ele”. Philip perguntava a si mesmo se Helen teria alguma vez mencionado Carster ao Dr. Wolf.

   - Apeteceu-me ir vê-lo - disse ele. - Falar de fitas.

     - Falaste-lhe no Selby?

     Philip reparou nesse instante que nem sequer tivera oportunidade de dizer a Carster fosse o que fosse a seu respeito.

     - Só de passagem. Ele nunca trabalhou para o Selby.

     - Então de que estiveram a falar durante tanto tempo?

     - Sexo.

     - Aposto. Esse maníaco não tem miais nada na cabeça.

     - E que mal há nisso?

     - É anormal. Aposto que odeia as mulheres, no fundo. Que é um homossexual latente.

       “Se Carster pudesse ouvir tal coisa!”, pensou ele.

     - Ora deixa-te disso - disse Philip.

     - Vocês, homens, são umas crianças. Um tipo que vai para a cama com uma dúzia de mulheres diferentes, lá porque anda a querer provar não sei o quê a si mesmo, é logo um grande herói.

     - Nunca me ouviste dizer que ele era um grande herói.

     - Não me digas que não gostarias de estar no lugar dele.

     - Também gostava de ter um harém.

     - E porque é que não tens?

     - Por causa do polícia da esquina. Neste caso, tu. Estou mesmo a ver-te, se descobrisses que tinha pisado o risco.

     - Já te disse mais de cem vezes que não é a simples infidelidade sexual que perturba uma mulher, é a infidelidade emocional. Se me viesses dizer que te tinhas deitado com uma actriz, numa coisa passageira, nada me custava perdoar-te. Mas se me viesses dizer que te tinhas apaixonado por ela, punha-te logo na rua.

     - Porque é que tenho de ser sempre eu? - perguntou Philip. - Que tal pormos o caso em ti, para variar? Ou estás a querer dizer-me que a tua mente é um templo de pureza durante vinte e quatro horas por dia?

     - As mulheres são diferentes dos homens.

     - A diferença não é assim tão grande! Já te vi olhar para o Kip nas festas. Não me digas que não terias curiosidade, se tivesses uma oportunidade e não houvesse consequências.

     - Não sejas nojento.

     - Então não te faças santinha.

     - Estou arrependida de ter começado esta discussão.

     - Ainda bem que estás arrependida. - Começou a dirigir-se para a porta. - É melhor ir ver o Danny.

     Mas, antes que ele tivesse saído do escritório, ela chamou-o.

     - Quase me ia esquecendo. O Bill Markson telefonou. Quer falar contigo.

     Philip quase suspirou de alívio. Mas conseguiu manter a voz num tom distraído.

     - Que me quererá ele? O melhor é telefonar-lhe já. Voltou a entrar no escritório, pegou no telefone e marcou o número de Bill. Foi Betty quem respondeu e, passado um momento, Bill atendia. Bill desempenhou o papel sem floreados, como se Betty e Helen tivessem o telefone vigiado. Que tinha uma nova ideia, que lhe parecia maravilhosa, para a velha série televisiva. Que a queria discutir com ele imediatamente. Estaria Philip livre para ir jantar com ele nessa mesma noite, no Panaro's?

     - Um segundo, Bill - disse Philip para o bocal -, a Helen está aqui mesmo, vou perguntar-lhe.

     Colocou a mão em concha sobre o bocal no momento em que Helen levantava os olhos para ele com uma expressão de curiosidade.

     - O Bill quer que eu vá jantar com ele esta noite. É por causa daquela velha série para a televisão. Tem uma ideia nova e está todo entusiasmado. Importas-te? Ou já tens o jantar meto feito?

     - Não, tenho apenas a carne a descongelar.

     - Suponho que o melhor é ir.

     - Isso já são três noites fora...

     - É uma dessas semanas. - Depois correu um risco calculado. - Ouve, se queres que arranje uma desculpa, arranjo já uma...

     Estava a contar com a eterna insegurança dela. Ficou à espera.

     - Acho que não seria justo - acabou ela por dizer.

     - Talvez isto resulte...

     - Pois, é melhor falares com ele. Há-de ficar a magicar que estamos nós a combinar...

     Tirou a mão de cima do bocal.

     - Bill? Está certo. Digamos, por volta das sete horas?

     Depois de ele ter desligado, Helen disse:

     - Acho que te seria mais proveitoso usar esse tempo a pensar na Caroline Lamb.

     - Estou a tentar o mais que posso. Estas coisas não se podem forçar. Em todo o caso, pelo tom do Bill, eu diria que ele tem qualquer ideia brilhante. Talvez tenhamos esta noite uma boa sessão de trabalho.

     Ela voltou a concentrar a atenção na costura e ele dirigiu-se, finalmente, ao quarto de Danny. Só ao chegar lá é que reparou que tinha vindo a assobiar.

     A noite de terça-feira chegara finalmente. Philip estava atrás do volante e Peggy a seu lado. Dirigiam-se para os lados do oceano. Tirou os olhos momentaneamente da estrada para lhe dar uma olhadela, com o orgulho da posse. Ela estava confortavelmente recostada no assento, com os olhos erguidos para o nada, a fumar. Um xaile muito macio de lã de caxemira cobria-lhe os ombros. Trazia um vestido negro, de renda, bastante decotado, e sapatos também pretos, macios e pontiagudos. Uma perna ia cruzada sobre a outra.

     Voltou a pôr os olhos nas curvas da estrada.

     - Em que vais a pensar? - perguntou ele.

     - Por mais estranho que pareça, ia a pensar na tua mulher.

     Ele não sabia o que esperar.

     - O quê acerca dela?

     - Que tem sorte, mais nada. - Fez uma breve pausa e depois continuou: - Acho que deve ser divertido viver contigo muito tempo.

     - Não tenho a certeza de ela ser da mesma opinião.

     - Porquê?

     - Não sei... Não nos damos muito bem.

     - É por isso que andas à procura de outras mulheres?

     Ele olhou para ela com severidade. Ela estava a sorrir arreliadoramente.

     - Não ando à procura de outras mulheres - disse ele com toda a seriedade. - O teu caso foi um acidente. Apaixonei-me por ti.

     - Mas tu nem sequer me conheces.

     - O bastante! - disse ele. - Lá por isso, também tu me não conheces.

     - Gostei dos teus olhos - disse ela. - E gostei da tua maneira de falar.

     - Só isso?

     - Fazias-me sentir em segurança.

     - Lamento ter sido uma desilusão - disse ele. - Estava tão ansioso por mostrar-te o muito que te amo.

     - Referes-te a fazer amor comigo?

     - Sim.

     - Isso não é tudo.

     - Não, mas é a coisa mais importante. Todos os caminhos nos conduzem para lá. Se não se tem isso, não se tem nada.

     - Eu achei que nos estávamos a dar muito bem.

     - Mas continuas com aquilo atravessado - disse ele num tom infeliz.

     Rolaram em silêncio durante um bocado. Ele ouvia o roçagar da saia dela e virou a cabeça. Ela enrolara as pernas sobre o assento, ajustara a saia e olhava-o.

     - Conta-me mais coisas sobre a tua mulher pediu ela.

     - Por exemplo?

     - É boa na cama?

     Ele não sabia o que havia de dizer.

     - Satisfatória! - disse por fim. - Está lá. - Mas apercebeu-se de que a frase fora demasiado cruel e acrescentou imediatamente: - Quer ser boa, mas não é espontânea. Estava toda embrulhada quando a conheci. Agora já está menos, mas uma pessoa fica com a sensação de que cada movimento que faz está a ser-lhe indicado das margens pelo psicanalista.

     - Talvez eu não seja melhor.

     - Acho que és. Adivinha-se.

     - Philip...

     Ele olhou para ela. O seu rosto jovem estava muito atento.

     - Que queres tu de mim?

     - Estou apaixonado por ti.

     - Tu o dizes, mas, na realidade, o que é que queres? Sei que queres ir para a cama comigo. Sei que isso, para ti, é agora importante, mas sobretudo por causa do teu ego. Mas que mais?

     - Se não estou contigo, sinto-me infeliz. É tão simples como isto. Se te tivesse encontrado quando encontrei a Helen, era contigo que me teria casado.

     - Se tivesses casado comigo, e encontrado agora a Helen, estarias a passear com ela esta noite.

     - Não.

     - Acho que sim. Mas não preocupes a tua cabecinha com isso. Estou contente por te ter conhecido e não me lamentarei quando isto acabar.

     A finalidade desta última afirmação surpreendeu-o. Nunca impusera limites temporais às suas relações com Peggy. Tinha vagamente pensado nelas como algo de infinito e o facto de ela prever um fim, perturbava-o.

     - Isto nunca acabará - disse ele.

     - Não? Quantas noites pensas tu que podes continuar a sair sem que a tua mulher saiba? Ela não é estúpida.

     - Arranjarei uma maneira.

     - Como? Talvez durante uma semana. Depois disso terias de aparecer em campo aberto. E terias de tomar uma decisão. E eu não quero que as coisas cheguem a esse ponto. Philip, não quero. Um bocado de divertimento é uma coisa, mas não sejamos insensatos.

     - Tu amas-me?

     - Claro que sim.

     - E eu amo-te. E agora esqueçamos tudo o resto e procuremos passar uma noite agradável.

     Foram rolando ao longo da auto-estrada costeira, sob as grandes falésias escuras, com uma brisa fresca, aguda, que entrava pela janela e lhes recordava o oceano escondido na escuridão que se estendia a ocidente. Passaram além de Malibu, na direcção de Trancas, e, finalmente, apareceram as luzes tricolores de néon de Biarritz Court, do lado do oceano. Biarritz era um misto de restaurante e de motel, com um parque de estacionamento no meio. As filas de cabinas do motel, cada uma com o seu canteiro florido na parte da frente, eram pequenas e elegantes. O restaurante, muito envidraçado e iluminado por velas, estava precariamente empoleirado sobre as águas. Cheirava ligeiramente a algas e a molho francês. Philip virou o carro da estrada e entrou no parque de estacionamento. Por cima da recepção do motel, um sinal luminoso, indicando as vagas existentes, acendia e apagava. Do lado do restaurante vinha o som abafado de um disco de Edith Piaf.

     Philip ajudou Peggy a sair do carro e, segurando-lhe o braço, conduziu-a até ao restaurante. O vasto salão de cocktails estava quase vazio, apenas se encontrando meia dúzia de pessoas junto do bar. Philip percorreu-as rapidamente com os olhos, para ver se reconhecia alguém, mas eram todos estranhos. Viu que as mesas estavam vazias e conduziu Peggy, através delas, até uma mesa de canto. Enquanto se sentavam, Philip viu, através da arcada, dois pares que se deslocavam muito lentamente na minúscula pista de dança. A sala de jantar, que ficava para além dela, estava apenas parcialmente ocupada.

     Um criado, sem vestígios de sotaque, apareceu imediatamente. Philip disse-lhe:

     - Tenho marcação. O nome é Fleming. Venho meia hora mais cedo, mas não se esqueça.

     - Com certeza - disse o criado.

     Philip olhou para Peggy, que se desembaraçara do xaile.

     - Que é que queres beber?

     - Gostaria de ficar muito bêbeda - disse ela. - Bebo o que tu beberes... mas duplo. Uisque com água para ambos. Duplos.

     Depois de o criado se afastar, ficaram sentados, num silêncio descontraído, a escutar o fragor das vagas nos rochedos que lhes ficavam por baixo, olhando um para o outro. Ele deixou descair os olhos até ao decote, à fenda que lhe dividia os dois seios, que o entontecia.

     - Estás com fome? - perguntou ele.

     - Não. Sinto-me bem... confortável e abandonada. A bebida cairá mesmo bem.

     As bebidas chegaram. Peggy ergueu o seu copo.

     - Vive la rancei!

     Ele tocou o copo dela com o seu e respondeu:

     - Voilà e oui.

     Foram bebendo, falando pouco, escutando o suspirar das vagas, olhando o bruxulear das velas que ardiam lentamente e entreolhando-se. Encomendaram segundas doses e, logo que estas vieram, recomeçaram a beber.

     - Parece-me que começo a estar razoavelmente etilizada, Sr. Fleming - disse Peggy.

     - Mas embriagada não?

     - Oh, nada disso, nada de embriagada.

     - Óptimo.

     - Tenho sempre a intenção de te perguntar o que andas a fazer... No teu trabalho, claro... O que andas a escrever... Mas acabamos sempre por nos desviar e falar de outra coisa. O que estás a escrever agora?

     - Sou um autor em busca de um terceiro acto disse ele.

     Contou-lhe então os pormenores da entrevista com Alexander Selby, falou-lhe da oportunidade de ir à Europa para escrever um livro sobre Caroline Lamb e como esse livro podia ser importante, e o filme também.

     - Parece espantoso - disse ela, finalmente.

     - Bom de mais para ser verdade - disse ele -, e é disso que eu estou com medo. Falta-me o terceiro acto. É um raio de um triângulo: ela a beber e a drogar-se, e a ter amores sórdidos na casa de campo, o marido em Londres e Byron na Grécia. Como é que se podem atar estas pontas soltas?

     - Bem gostava de te poder ajudar.

     - Bom, talvez ainda consiga encontrar uma solução.

     - Tens de a encontrar. Devias escrever o livro... e Londres... Paris... - Acabou a bebida. - Levas Helen contigo?

     - Gostaria de te levar a ti.

     - E eu bem gostaria de ir. Nunca fui a parte nenhuma.

     - Levar-te-ia para um pequeno hotel que conheço perto dos Campos Elíseos. Mostrar-te-ia Paris, rua a rua. Sabes o que faríamos no primeiro dia?

     - Não. O quê?

     - Metíamo-nos na cama e ficávamos ali todo o dia e toda a noite.

     - E no segundo dia?

     - A mesma coisa.

     - E eu nem sequer conseguiria ver a Torre Eiffel?

     - Talvez um ou dois meses mais tarde.

     - E eu a julgar que tu me amavas - queixou-se ela.

     - Bom, não nos demoraríamos muito tempo, O bastante para ver a Torre Eiffel e comprar o Time Magazine.

     - Parece-me que havia de gostar do Paris de Fleming.

     - Havias de gostar... havias de gostar...

     Ela mostrou-lhe o copo vazio. Ele chamou o criado e encomendou terceira rodada de duplos. Continuaram a conversar dessa Paris privativa. O criado, quando voltou com as bebidas, comunicou-lhes que a mesa deles estava posta. Philip olhou para Peggy. Ela envolveu o copo com a palma da mão.

     - Fiquemos por aqui. Ele acenou ao criado.

     - Mais tarde - disse ele. Voltou-se outra vez para Peggy.

     - Ora de que é que estávamos a falar?

     - De qualquer coisa no Museu de Cluny.

     - Ah, pois, o cinto de castidade.

     - Não me vais dizer que havia mesmo tais coisas?

     - Mas com certeza que havia! Os cruzados não confiavam nas mulheres quando partiam e as deixavam em casa. Por isso pediam a serralheiros que lhes fizessem essas cintas, que tinham um cadeado, é claro, cuja chave só o marido possuía. Os Parisienses dizem que Henrique II mandou fazer a que está no Museu de Cluny para Catarina de Medicis.

     - Que horror! - disse Peggy.

     - Mas ficavam descansados - disse Philip. Continuaram a beber. Peggy queria saber mais

     acerca das viagens de Philip pela Europa e ele foi escolhendo cuidadosamente os episódios mais interessantes e aventurosos. Contou-lhe os seus encontros com os movimentos clandestinos anarquistas nos arredores de Barcelona. Falou-lhe da sua visita à Prisão de Spandau, em Berlim, onde tentou falar com Hess e foi preso durante uns momentos pelos russos. Falou-lhe do dia em que entrevistara Picasso, na Riviera.

     - Raios te partam - disse ela. Ele ficou assustado.

     - Porquê?

     - Por ires para a Europa com outra pessoa. - Pousou pesadamente o copo em cima da mesa. - Estou bêbeda, Philip. Não ligues àquilo que eu digo. - Depois desviou os olhos para longe. - Vamos dançar.

     Havia três pares no pequeno piso sombreado e a música amplificada, suave e francesa, era C'est qualquer coisa. Philip calculou que também devia estar bastante bêbedo.

     Ela dançava muito chegada a ele e o calor da sua face na dele, o contacto do cabelo, a fragrância do perfume e da carne, estimularam-no. As coxas dela roçavam as dele, num contacto de desafio, enquanto deslizavam sobre o piso muito liso. Sentia-se excitado, e a excitação era real. A cabeça dela moveu-se ligeiramente sobre o ombro dele.

     - Deves desejar-me muito.

     - Muitíssimo - disse ele. - Para já.

     - Temos um motel aqui ao lado.

     - Estava com medo de sugerir isso.

     - Eu desejo-te tanto como tu - disse ela. Abandonaram a pista de dança, de braço dado, e dirigiram-se para a mesa. Ela pegou no xaile e ele deixou uma nota para o criado. Saíram.

     O ar frio do oceano envolveu-os e ele sentiu uma necessidade urgente do contacto daquele corpo nu. Ela inclinou-se mais para ele, protegendo-se contra o vento, quando o braço dele lhe enlaçou a cintura. Então atravessaram o parque de estacionamento na direcção do sinal luminoso vermelho. À porta, ele libertou-a.

     - Espera aqui um minuto.

     Dentro do escritório, por detrás do balcão da recepção, estava um homem de idade, magro e comprido, a ler uma revista à luz de um candeeiro de pé alto. Quando Philip se aproximou, levantou os olhos por cima dos óculos.

     - O que deseja? - perguntou, levantando-se.

     - A minha mulher e eu vimos a guiar desde S. Francisco- disse Philip. - E começamos a estar exaustos.

     - É de mais para um dia só - disse o homem idoso, passando-lhe para a mão uma caneta atada ao balcão e uma ficha de inscrição.

     Philip escreveu rapidamente: “Senhor e senhora Patrick Fleming”, a morada de um jornalista seu amigo de S. Francisco, e depois acrescentou o número da licença do seu carro, mudando um dos algarismos.

     - São doze dólares por uma noite - disse o homem idoso. Depois entregou a Philip uma chave presa a uma etiqueta de madeira. - Cabina número catorze. Está tudo pronto. Temos serviço nos quartos, do restaurante.

     - Não, vimos muito cansados.

     - Precisa de ajuda com a bagagem? Philip acenou negativamente.

     - Deixámo-la no carro. Seguimos na direcção do México antes do amanhecer. Boa noite.

     - Boa noite.

     Philip foi reunir-se apressadamente a Peggy, que o esperava lá fora, com os braços cruzados contra o vento. Mostrou-lhe a chave com um ar triunfante e depois pegou-lhe no braço, começando a andar com ela na direcção das cabinas. Depressa encontraram a n. 14. Philip abriu a porta, acendeu a luz e depois trancou a porta por dentro. O quarto era pequeno, mas luxuosamente mobilado, num estilo de hotel de província. Uma grande cama de casal, já aberta, dominava o centro do aposento.

     Peggy desembaraçou-se dos sapatos e deu a volta ao quarto, correndo as persianas das janelas. Philip ligou o rádio portátil, despiu o casaco e tirou a gravata. O rádio começou então a emitir o noticiário. Philip fez girar rapidamente o ponteiro até encontrar música.

     Peggy estava de pé no meio do quarto. Sem sapatos, parecia mais pequena, mais engraçada.

     - Tu não tiras os sapatos? - perguntou ela.

     - Acho que sim.

     - Faz-se sempre isso quando se está bêbedo, num motel - disse ela.

     Ele sentou-se na beira da cama e descalçou os sapatos.

     - Fala a voz da experiência?

     - Parece fazer sentido... E onde é que nós íamos? Ah, já sei, estávamos a dançar.

     Aproximou-se dele, estendendo-lhe os braços. Ele levantou-se e puxou-a para si. Ela aninhou-se muito junto dele, com a face encostada ao seu queixo. Dançaram em silêncio. Ele beijou-lhe os cabelos e a orelha e, lentamente, deixou a mão descair ao longo das costas dela, até às nádegas. Ela ia rodando lentamente as ancas e, em poucos momentos, ele estava completamente excitado.

     Ela libertou-se dos braços dele e, num movimento gracioso, deixou-se descair até ficar de joelhos.

     - Vamos! - disse ela.

     Ele pôs-se de joelhos também. Abraçaram-se, beijando-se, e depois deixaram-se cair de lado, apoiando a queda com o braço dele, mas depois continuando abraçados em cima do tapete.

     Estavam estendidos ao comprido, lado a lado, no chão. Os braços dela envolviam-no completamente, enquanto se beijavam e, finalmente, a mão dele encontrou-se nas coxas dela.

     Passado um momento, ela disse num meio sussurro:

     - Esta noite não há cinto de castidade.

     - Não fazia mal. Eu tenho a chave.

     Ele levantou-se e ela recostou-se no chão com um suspiro. Fez subir o vestido e a saia-combinação até à altura das ancas. Trazia uma cinta de suspensão, de renda, e nada mais. A cinta mantinha-lhe as meias muito esticadas. Ele despiu-lhe, com gestos rápidos, a cinta.

     Philip sentia o ritmo do próprio coração acelerar-se. Acabou de se despir.

     Ela abriu os olhos e olhou para ele.

     - Phil, eu não estou... equipada.

     - Nem eu...

     - Bom, tu não esperas que eu... pois não?

     - Quem precisa de tal coisa...

     - Preciso eu. - Sentou-se no chão, sem sorrir. - Não és tu a ficar apanhado.

     - Peggy, sê razoável, as probabilidades são de mil contra um.

     - Mas é precisamente esse “um” que me preocupa.

     - Olha, querida, tenho de te ter e não há mais nada a discutir...

     Sentou-se ao lado dela, no chão, e premiu os lábios contra os dela.

     - Por favor.

     - Não.

     - Não estragues agora tudo.

     - Não - disse ela, frouxamente.

     - Prometo que não deixo que haja sarilhos - disse ele. - Prometo.

     - Não sei...

     Ela sentou-se, com as pernas nuas encolhidas e bem apertadas uma contra a outra, olhando-o com uma expressão alcoólica. Ele ficou à espera, já sem a tocar, receoso da decisão a que ela chegasse.

     - Sou uma parva - disse ela subitamente. - Está bem, atira-te.

     Ela voltou a deitar-se no chão. Ele levantou-se, cansadamente, sabendo que agora era tarde, que a excitação desaparecera, que não voltaria já e que estava, farto de si mesmo, completamente farto de si mesmo.

     - Não vale a pena, Peggy - disse ele. - Perdemos o comboio.

     Ela abriu os olhos.

     - Foi culpa minha? Matei o desejo com palavras?

     - A culpa é só minha. Não percebo o que se passa comigo! Vamos, saiamos já daqui.

     Ela não quisera jantar e tinham regressado a Ridgewood Lane em silêncio. Agora, em frente da porta dela, perguntou-lhe se podia entrar apenas por um momento.

    - Estou com muito sono - disse ela. - E a cozer a bebedeira. Importas-te de levar a casa a rapariga que tomou conta do Steve?

     - Com certeza que levo. Telefono-te amanhã.

     - Claro.

     - Desculpa, Peggy.

     Ela olhou-o com compaixão, deu-lhe um beijo breve e depois entrou em casa.

     Ele ficou no carro à espera da rapariga. Era uma rapariguinha de uns quinze anos, gorducha, com três revistas cinéfilas debaixo do braço, a bocejar. Deu-lhe direcções até à porta da casa dos pais, que ficava perto do fim da encosta. Ele esperou até ela ter entrado em casa e depois virou o carro na direcção de The Briars.

     Excepto pela luz nocturna que Helen deixava sempre acesa na sala, a casa estava escura e silenciosa. Na cozinha bebeu um copo de água. O seu cérebro estava tão cheio de Peggy, tão obcecado pelo bom e pelo mau de tudo aquilo, principalmente o mau, que teve de arrancar com esforço o seu pensamento para se recordar, subitamente, que, oficialmente, tinha estado a jantar com Bill Markon.

    Caminhou lentamente através do vestíbulo, espreitou para o quarto de Danny, todo amarrotado e dobrado ao meio, deitado de lado, e depois voltou a atravessar o vestíbulo até ao seu quarto. As luzes estavam apagadas. Quando a porta se fechou outra vez com um pequeno estalido, ouviu Helen mexer-se na cama.

     Dirigiu-se para ela.

     - Helen - chamou em voz baixa -, querida, estás a dormir?

     - Quase.

     Despiu-se rapidamente, atirando com as roupas para cima de uma cadeira. Gatinhou sobre a cama até junto de Helen, depois levantou as roupas e esgueirou-se para dentro da cama, ao lado dela.

     - Olá, querida! - disse ele.

     - Olá. - Ela estava deitada, de costas para ele.

     - Estou com apetites - disse ele.

     - É tão tarde...

     - Mas apetece-me- insistiu ele.

     Ela virou-se em parte para ele, abrindo os olhos e espreitando na escuridão.

     - Tomei uma pílula para dormir - disse ela, e havia na sua voz uma lassidão espessa.

     - Isto até ajuda os efeitos da pílula - disse ele.

     - E se esperássemos até amanhã?

     - Não. - Puxou para baixo uma alça da camisa de dormir e beijou o seio assim exposto. Helen deitou-se de costas, olhando-o com olhos sonolentos. Ele beijou-lhe a curva da garganta, sabendo que era aquela a sua zona erógena, e ela suspirou e colocou os braços à volta dele.

     - Desejo-te! - disse ele. Ela fechou os olhos.

     Atirou com as cobertas para trás e apoderou-se dela, sem preliminares, com a autoridade absoluta de dono, e ela aceitou-lhe a feroz invasão com um grito de dor.

     - Estás-me a magoar.

     - Queres que eu espere?

     - Não.

     Continuou como um selvagem. Tudo o que estava retido dentro de si, tudo o que acumulara durante essa noite, libertava-se agora.

     “E que tal me achas, Peggy? Que tal me achas? “

     - E que tal me achas, querida?

     - Schiu! Não fales.

    

     Quarta-feira à noite

     Sr. Fleming... O Dr. McGrath recebe-o agora. - Miss Hanson, a recepcionista loura, dirigia-se a Philip, e alguns dos outros doentes que esperavam a sua vez olharam para ela e para Philip. Este pousou o exemplar que estava a ler do Fortune Magazine dirigiu-se para os aposentos do médico.

     - Desculpe tê-lo feito esperar durante tanto tempo - acrescentou Miss Hanson quando ele passava junto da sua secretária.

     - Não faz mal - disse Philip.

     Tinha marcado a entrevista nessa manhã, obedecendo a um impulso súbito, e não estava nada surpreendido de ter tido de esperar meia hora, pois o Dr. Leo McGrath tinha muita procura. Embora tivesse apenas cinquenta anos, o médico já conseguira uma clientela transbordante, que consistia em grande parte de produtores, realizadores, argumentistas e matronas de Beverly Hills. Philip chegara há muito tempo à conclusão de que o homem conseguira esse êxito menos em resultado da sua competência como interno de clínica geral do que por um acidente de tipo pessoal: os seus modos. O Dr. McGrath era um homem alto, anguloso, um tanto ou quanto míope. Tinha uma expressão perpétua de divertimento e o ar distraído de quem fazia muitas promessas. O conjunto dava-lhe uma aparência de profundidade e de confiança. Falava com grande precisão, sem pressas, e tinha o hábito de citar as mais recentes investigações e especulações médicas. Tratava os doentes pelos nomes próprios e sabia tudo o que era preciso saber acerca de hipertensões.

     Philip fora levado a consultar o Dr. McGrath, havia já vários anos, pela insistência de um realizador famoso que se referia entusiasticamente ao Dr. McGrath como uma autêntica reincarnação de Hipócrates. Philip tinha menos confiança no superior saber médico do doutor. Duvidava até que, a partir de certo ponto, um médico pudesse saber muito mais do que outro acerca de reparações na anatomia humana. Mas havia alguns médicos que tinham o condão de fazer o paciente sentir-se menos amedrontado, menos mortal, e o Dr. McGrath era um destes. Philip sentia-se sempre melhor quando saía do consultório, e isso valia os dez ou quinze dólares da consulta.

     Seguiu ao longo do corredor e depois passou em frente do pequeno laboratório onde a bonita enfermeira, Miss Radford, estava a dar uma injecção a uma garota; continuou a caminhar em frente às portas fechadas de dois gabinetes de consulta. Finalmente, entrou no gabinete do médico. O Dr. McGrath não estava lá, como de costume. Philip pôs-se a examinar os diplomas emoldurados e os certificados de curas pendurados pelas paredes e depois observou o dossier com o seu nome na capa que estava em cima da secretária. Finalmente, sentou-se para aguardar a chegada do médico.

     A decisão de visitar o Dr. McGrath viera-lhe antes do pequeno-almoço. Acordara com a sensação de ter uma ligadura apertada à volta do tórax a dificultar-lhe a respiração. Isto não era novidade, pois já muitas vezes viera visitar o médico acerca daquilo mesmo, para o ouvir dizer que era tensão, e logo depois a ligadura alargara-se e desaparecera. Nessa manhã, quando a mesma velha pressão o afligiu, Philip pesara as probabilidades de ser a tal tensão contra a qual tinha de se tratar, desta vez de um ataque cardíaco. Experiência e instinto diziam-lhe que a primeira hipótese era a verdadeira, mas quisera acreditar que se tratava de algo mais sério. De certo modo, um ataque cardíaco serviria para explicar a Peggy as suas fracas actuações das últimas noites. Além disso, resolveria os problemas do futuro imediato, libertando-o automaticamente de uma situação que se sentia incapaz de resolver. Em todo o caso, fosse o que fosse, dava-lhe uma desculpa suficiente para ir consultar o Dr. McGrath e, ao fim e ao cabo, era isso realmente o que era necessário fazer. Depois da conversa com Kip Carster, apoderara-se de Philip a convicção de que tinha de discutir a sua impotência temporária com alguém que lhe pudesse dar uma resposta autorizada. Talvez houvesse qualquer pequena deficiência física. Talvez o Dr. McGrath lhe receitasse algum afrodisíaco mágico. Philip ouviu passos e virou-se na cadeira. O Dr. McGrath entrou no gabinete, pensativo. Mas logo reparou em Philip.

     - Olá, Philip... Como tem passado?

     - Muito bem... até esta manhã.

     O Dr. McGrath sentou-se na cadeira giratória e abriu o dossier de Philip. Depois ergueu para ele os olhos.

     - E que foi que o apoquentou? Philip passou a mão por cima do tórax.

     O Dr. McGrath acenou com a cabeça, num gesto de compreensão, e inspeccionou os apontamentos do dossier.

     - Bom, já atravessámos uma fase dessas. - Leu os sintomas descritos no dossier. - Mais alguma coisa a acrescentar a estes?

     - Não, parece-me que é a mesma coisa.

     - Tem andado a tomar os tranquilizantes?

     - Às vezes, não continuamente. Tornam-me sonolento.

     - Trata-se, provavelmente, de tensão. Tem andado a trabalhar muito?

     - Tenho.

     O Dr. McGrath levantou-se.

     - Bom, para maior segurança, vamo-nos certificar de que não há mais nada.

     Foram até ao gabinete de exame mais próximo e Philip despiu a camisa. Instalou-se numa marquesa enquanto o médico o auscultava, primeiro no peito, depois nas costas. Depois mediu-lhe a tensão arterial. Passado um bocado, passaram para o cubículo escurecido, onde o médico tinha o seu enorme equipamento de radioscopia. Philip ficou rígido, com a chapa contra o peito, enquanto o médico espreitava.

     Quando saíram, o Dr. McGrath disse:

     - Até aqui, nada de especial, tudo bem. Mas já não faz um electrocardiograma há muitos meses. Talvez seja boa ideia fazer um.

     - Como quiser.

     - Vou entregá-lo a Miss Radford e depois veremos. A sessão com o aparelho de electrocardiogramas foi, como de costume, maçadora, e, ao fim e ao cabo, exaustiva. Miss Radford foi pairando acerca de filmes que vira ultimamente enquanto lhe ligava os eléctrodos ao peito e às pernas. Depois disto feito e de estar completo o primeiro cardiograma, ela desapareceu com ele e depois regressou para fazer um segundo. O Dr. McGrath geralmente insistia num segundo cardiograma tirado depois de o paciente realizar algum exercício violento. “Muitos colegas”, costumava ele explicar, “apenas tiram um electrocardiograma com o paciente deitado, em repouso. É por isso que, às vezes, um paciente parece estar bem e, logo a seguir, ao sair do consultório, cai morto. Precisamos também de saber se o paciente está bem em condições de stress. “ Para se preparar para o segundo teste, Philip teve de subir e descer apressadamente, várias vezes seguidas, umas escadas preparadas para esse fim, enquanto Miss Radford media o tempo. Quando acabou o exercício, estava ofegante. Deitou-se calmamente em cima da marquesa e Miss Radford aplicou-lhe mais uma vez os eléctrodos. Enquanto o aparelho rabiscava a história nervosa do seu coração, deitou-se de costas e reflectiu que tudo aquilo era um prólogo, profundamente ridículo e complicado para uma única pergunta que queria fazer ao médico.

     Daí a pouco, mais uma vez vestido, estava outra vez no gabinete do Dr. McGrath a ouvir uma interpretação dos seus electrocardiogramas. O seu coração estava óptimo. A pressão que sentia no tórax poderia ser o resultado de uma distensão muscular, mas o mais provável era tratar-se, mais uma vez, de tensão. O Dr. McGrath, por conseguinte, passou-lhe mais uma receita para um novo tranquilizante.

     Philip pegou na receita, dobrou-a cuidadosamente e depois enfiou-a no bolso da camisa. Mas não fez qualquer movimento para se ir embora.

     - Há só mais uma coisa, doutor - disse ele. - Pode dispor de um minuto mais?

     - Do tempo que for preciso.

     - Bom, não tem nada que ver com isto. É um amigo meu que tem um problema. Pediu-me que mencionasse o assunto... e se o senhor achar que vale a pena, ele vem então consultá-lo.

     O Dr. McGrath ficou à espera, com uma expressão interrogadora.

     Philip formulou a pergunta mentalmente, reviu-a ainda uma vez, e depois ouviu a sua própria voz a fazê-la.

     - Ele deseja saber se se pode fazer alguma coisa acerca da impotência sexual?

     Nem um vago vestígio de comentário atravessou a expressão do Dr. McGrath.

     - Isso depende. Sempre foi impotente?

     - Não, não. Sempre foi perfeitamente normal. É um homem casado, sem problemas desse género. Depois encontrou uma rapariga por fora e ainda não foi capaz de ter relações com ela. Tentou várias vezes. Mas nada. E isto já anda assim há uma semana. E ele não percebe porque.

     O Dr. McGrath encolheu os ombros.

     - É-me difícil fazer um diagnóstico em segunda mão. Pode haver uma dúzia de razões diferentes para uma condição temporária dessa natureza. Pode ser uma razão psicológica. Pode haver uma perturbação glandular ou uma desordem genital qualquer. Talvez tenha andado a trabalhar muito e esteja, pura e simplesmente, cansado...

     - Para dizer a verdade, ele diz que até nem tem trabalhado muito ultimamente. E diz que anda bem de saúde.

     - É claro que ele pode não saber. Mas estará, provavelmente, bem. A maioria das condições desse tipo têm raiz emocional, em todo o caso.

     O Dr. McGrath desembrulhou um pacote de pastilhas de hortelã-pimenta, ofereceu uma a Philip, que a recusou com um aceno de cabeça e depois tirou uma.

     - Você disse que ele é casado e que tem este negócio por fora, não foi? Bom, a situação em si mesma é tensa. E isso só podia torná-lo incapaz. Pode estar, de qualquer modo, inibido... ou preocupado, ou zangado. Talvez sofra de ansiedade. Stekel considera que esse tipo de impotência tem origem no medo.

     - Não é esse tipo de pessoa.

     O Dr. McGrath levantou os olhos e perscrutou Philip atentamente através dos óculos grossos.

     - Tem a certeza?

     - Bom, eu... realmente, não sei. - Sujeito ao exame do Dr. McGrath, Philip sentiu enrubescer. Tentou aguentar-lhe o olhar intenso, mas a intensidade desaparecera dos olhos do Dr. McGrath, mais uma vez nada curioso. Havia na fleuma daquela expressão um tipo especial de julgamento, como que a dizer: “Está bem, meu velho, mantém lá o teu subterfúgio, é infantil, mas aceito as regras do jogo. Observemos as convenções civilizadas, se isso te torna a tarefa mais fácil. “ Durante um momento, Philip teve a certeza de que o Dr. McGrath conhecia a identidade do “amigo”, e nesse momento Philip sentiu-se tentado a revelar-se. Mas era menos degradante parecer palerma do que pouco másculo.

     O Dr. McGrath ia dizendo:

     - Alguma coisa preocupa o seu amigo, Philip. Durante esse período ele já tentou ter relações com a mulher?

     - Diz que sim.

     - E então?

     - Sem problemas. Corre tudo normalmente. O Dr. McGrath levantou as mãos.

     - Então aí tem a resposta, provavelmente. Com a mulher legítima, tudo lhe corre bem, mas falha com a outra mulher. Isso leva-nos a pensar que não há um problema físico. Diria que há cem probabilidades contra uma de ser um problema mental... psíquico...

     Philip sentia-se oprimido.

     - E o que é que o doutor sugere? O Dr. McGrath levantou-se.

     - Um psiquiatra... é a minha sugestão.

     Depois de sair do consultório do Dr. McGrath, Philip atravessou lentamente o edifício médico na direcção do parque de estacionamento das traseiras. Continuava a sentir-se idiota. Mas o que mais o perturbava era o diagnóstico do Dr. McGrath. Se a resposta estava no psiquiatra, então não podia ser imediata. Nada vinha resolver do seu problema imediato. Além disso, o simples acto de ir consultar um psiquiatra causava-lhe repugnância. Era uma concessão, finalmente, de que não era um indivíduo de comportamento inteiramente normal. Sempre sentira, lá no fundo de si mesmo, uma vaga sensação de inexplicável ansiedade. Era tudo menos inteiramente feliz. Todavia, funcionava. Quando tinha de trabalhar, trabalhava sem bloqueios. Quando tinha de entrar no circuito social, era aceite e as pessoas achavam-no interessante. Quanto a Helen, enfim, não se podia dizer que andassem sempre de candeias às avessas. Iam-se dando. Se concedesse que havia qualquer real falta de adequação da sua parte, qualquer real infelicidade, toda essa fachada laboriosamente construída, e que ia funcionando, acabaria por ruir. Estaria a convidar outro indivíduo a introduzir um enorme batedor de ovos dentro de si e a agitar e misturar tudo o que nele estava agora no seu devido lugar, bem ordenado. O facto de tudo isso permitir que um dia tudo voltasse a arrumar-se melhor ainda, e a torná-lo mais feliz, não era agora a sua preocupação. O que estava em causa era uma questão de experiência. Como é que o psiquiatra o podia ajudar, naquele momento, com Peggy Degen?

     Ainda não tinha resolvido a questão quando chegou à farmácia do edifício, perto da saída das traseiras. Deitou uma olhadela para dentro e viu que havia uma cabina telefónica perto do balcão. Sempre que estava afastado de casa durante algum tempo, era seu hábito telefonar a Helen para saber se havia algum recado. Tinha uma crença secreta e mística, que nunca confessara completamente, nem mesmo a si próprio, de que um dia chegaria um recado que resolveria todos os seus problemas. Entrou na farmácia e foi fechar-se na cabina.

     Embora fosse o dia em que a mulher a dias, negra, mamalhuda e sorridente durante todo o dia, iria lá a casa trabalhar, portanto, em que Helen geralmente dormia até mais tarde, foi Helen quem atendeu o telefone.

     - Onde tens estado toda a manhã? - perguntou ela de imediato.

     - Com o Dr. McGrath.

     - Que tens tu? - perguntou muito depressa.

     - O costume. Acordei com uma dor no peito. Vim ver o que ele dizia.

     - E o que é que ele disse?

     - Que preciso de amor...

     - Por favor, Phil...

     - O coração está perfeito. É apenas a velha coisa da tensão. Mais pílulas. Na verdade, até já me sinto melhor.

     - Bem, graças a Deus. Ainda bem que telefonaste. A Wamda tomou nota de dois recados. Deixa-me ver se sou capaz de os ler. - Houve um intervalo de silêncio. - Ah, cá está! Nathaniel Horn quer ver-te. Estará toda a manhã no escritório. E depois mais alguém chamado... parece Trubey. Faz sentido?

     “Horace Trubey. Que diabo quererá ele? “, interrogou-se Philip, mas respondeu:

     - Faz.

     - Quem é ele?

     - O editor de viagens. Conhecemo-lo na última festa onde fomos.

     - Não me lembro. Enfim, deixou um número de telefone.

     Leu-lhe o número. Philip encontrou um lápis no bolso e escreveu o número na parede da cabina.

     - A propósito, Helen...

     - Sim?

     - Qual é o nome do psiquiatra do Dany?

     - Dr. Robert. Oh, oxalá decidas telefonar-lhe, Phil. Ele está à espera que o faças.

     - Eu disse-te que o faria. Qual é o número?

     - Um segundo... - Helen encontrou o número e leu-lho. Philip escreveu-o na parede por baixo do de Horace Trubey.

     - Quando é que vens para casa?

     - Não sei bem. Provavelmente depois de ter ido ter com o Nat.

     - Vou sair com o Danny depois de almoço. Vamos nadar à piscina da Tina Barlow.

     - Provavelmente vejo-te antes disso.

     Philip desligou e ficou a olhar os dois números de telefone que escrevera na parede. Finalmente começou por marcar o número do Dr. Robert Edling. Esperou.

     Respondeu-lhe uma voz de rapariga, repetindo o número que ele acabava de marcar.

     - O Dr. Edling, se faz favor.

     - Está ocupado neste momento. A menos que seja uma emergência...

     Philip ficou a magicar o que é que um psiquiatra poderia realmente considerar uma emergência. Mas agora que tinha ido até ali, queria mesmo falar imediatamente com o Dr. Edling. Poder-se-ia considerar Peggy Degen uma emergência?

     - Não - disse Philip. - Queria apenas marcar uma consulta com o Dr. Edling.

     - Se me quiser dar o seu nome e número de telefone, ele liga-lhe depois.

     Deu meticulosamente o seu nome e o número do telefone de casa.

     - Neste momento estou fora - disse ele-, é favor dizer-lhe que estarei em casa depois das cinco.

     - Muito bem. Obrigado, Sr. Fleming.

     Desligou, vagamente desapontado e suspenso, e depois marcou o número de Horace Trubey.

     Respondeu-lhe uma rapariga do PBX da revista e a sua chamada foi transferida para uma secretária e, finalmente, ouviu a voz animada de Horace Trubey.

     - Aqui Philip Fleming.

     - Esplêndido, olá, Philip. Ainda bem que telefonou. Estava mesmo para sair.

     - Como tem passado?

     - Óptimo... óptimo. A ler folhetos turísticos sobre o Paquistão.

     - Não me dava jeito, neste momento, de ir até lá!

     - E não lhe servia também um almoço rápido? perguntou Horace. - Tenho de ir a Beverly Hills por razões profissionais, mas não tenho nada marcado para o almoço e pensei em si. Não está longe...

     - Estou a falar de Beverly Hills neste momento.

     - Maravilhoso. Mas não estarei aí antes de uma hora,

     - Está certo. Tenho de ver primeiro o meu agente. Onde vamos almoçar?

     - Tenho um cartão de desconto no Panaro's.

     - Então lá estarei.

     - Serve ao meio-dia? Sei que não é uma hora muito elegante, mas como tenho um encontro marcado para a uma hora, dava-me jeito. Espero que não se importe de comer depressa? Quero falar consigo.

     - Está bem, ao meio-dia.

     Enquanto se dirigia para o carro, Philip perguntava a si próprio porque é que Horace Trubey o queria ver. Horace e Rachel eram amigos de Peggy. Seria qualquer coisa relacionada com Peggy? Mas Horace não poderia saber que ele tinha qualquer interesse por Peggy. O mais provável é que Horace desejasse preencher uma hora que tinha vaga e pensasse em Philip como um dos candidatos mais acessíveis. Fosse como fosse, esperava com curiosidade pelo almoço. Como Peggy era o agente catalisador nas suas relações mútuas, falariam com certeza dela. Hoje, mais do que nunca, desejava discutir Peggy com um interlocutor compreensivo. Não tinha para isso qualquer razão definida, pelo menos razão que ele pudesse, naquele momento, compreender. Contudo, parecia-lhe urgente e importante.

     Conduziu lentamente até South Beverly Drive, estacionou, colocou uma moeda no contador automático e subiu as escadas para ir visitar Nathaniel Horn. Viola levantou os olhos da máquina de escrever quando ele entrou. Philip felicitou-a pelo novo penteado e pelo vestido que trazia, e ela respondeu que achava que ele tinha emagrecido. Na realidade não tinha, mas não a quis desapontar e fingiu, por isso, ficar satisfeito com o comentário. Tocou a campainha do intercomunicador e comunicou a Nathaniel Horn que estava ali o Sr. Fleming. Depois fez-lhe um aceno com a cabeça.

     Philip entrou. Nathaniel Horn estava recostado na cadeira giratória e lia um argumento cinematográfico encadernado de vermelho. Endireitou-se, no entanto, colocou o manuscrito de folhas abertas para baixo, em cima da secretária, e disse com ar jovial:

     - Estás com um aspecto horrível!

     - Não estaria - respondeu Philip -se me arranjasses algumas massas.

     Estendeu-se no cadeirão de couro em frente de Horn e falaram do combate para o título mundial de pesados que se aproximava e do último escândalo de uma famosa estrela loura que estava a ter um namoro bastante público com uma actriz italiana recém-importada.

     Passado um bocado, Horn perguntou:

     - Tens tido alguma sorte com a Caroline Lamb?

     - Nenhuma.

     - Estás mesmo a tentar, Phil?

     - Que achas? Caramba, é apenas desde segunda-feira.

     - Pois é, mas metade do teu tempo já se foi. Queres contar-me as soluções em que já pensaste?

     - Ainda não consegui pensar em nada.

     - Isso nem parece teu - observou Nathaniel. Tens qualquer coisa a preocupar-te... qualquer outra coisa?

     “Podes apostar que tenho”, quis Philip dizer, mas em vez disso apenas disse:

     - Oh, apenas aconteceram umas coisitas, puramente pessoais.

     - Mas coisas que interferem com isto?

     - Acho que sim.

     - Não desejas discutir o assunto?

     - Não.

     Horn ficou durante um momento silencioso. Fixou os olhos na sua bela faca de papel de Toledo, pegou-lhe, tamborilou com ela lentamente em cima da secretária. Depois parou de tamborilar e olhou para Philip.

     - O Ritter telefonou esta manhã.

     - Acerca da “coboiada”?

     - Era hoje o prazo.

     Philip ficou à espera, Horn continuou a brincar com a faca de papel.

     - Disse que estavas ocupado.

     - Disseste-lhe o quê?

     - Disse que não podias tomar conta do trabalho. Philip sentiu a clássica cinta de pressão à volta do peito.

     - Queres dizer que o mandaste passear sem me consultares primeiro?

     - Exactamente.

     Philip estava furioso com Horn.

     - Mas tu estás doido ou quê?

     - Bom... Estavas preparado para aceitar a oferta?

     - Estava, pois claro que estava.

     - Mesmo com esta proposta do Selby ainda pendente?

     - Que se lixe o Selby. Nunca conseguirei encontrar um terceiro acto para aquela coisa da Caroline Lamb. Ninguém consegue. É correr atrás do arco-íris. Ritter era dinheiro no banco. Tenho uma casa nova a pagar. Tenho que sustentar uma família. De que é que eu vou viver?

     Horn franziu os lábios. Só depois é que falou.

     - Estava a pensar em ti, Philip. Não gostaria de te ver enterrado vivo.

     - Que mal há em trabalhar para o Ritter? É um nome.

     - Foi. - Horn fez uma pausa. - Já não é. E o filme é um falhanço, um falhanço de baixo orçamento, e nós ambos o sabíamos. Receberias três meses de salários. Muito bem. Mas depois, que mais? Outra fita igual, e mais outra, e acabavas na televisão.

     - Pois vou parar à televisão. Será isso uma desgraça?

     - Não, ninguém vai chorar por ti. Mesmo aí ainda continuarás a ganhar cinco ou seis vezes mais do que os operários da construção civil, os empregados de escritório, os guarda-livros. Mas não é disso que se trata. Tu és tu. Acabas por te roer a ti mesmo, vivo. Acabas por te tornar um caso mental sério.

     - Pelo menos não serei um caso mental com fome.

     - Phil, escuta-me. Tenho-os visto chegar e desaparecer. Só nesta cidade já me ocupei das carreiras de centenas de escritores e de argumentistas. E, para todo o homem, há sempre um ponto em que atinge uma encruzilhada. É assim, é mesmo assim. Tenho-o visto muitas vezes. E estou a falar desta cidade. Quando se está no ponto intermédio, nunca se fica por aí. Ou se arrisca, e talvez então se chegue ao topo, e por lá se fica, ou se joga pelo seguro, e permanece-se um medíocre, um falhado. O Selby é a tua oportunidade de correr um risco. Mostra-lhe que é possível resolver aquele problema e estás a viver no estrangeiro, subsidiado, a escrever um livro de prestígio, depois um filme de prestígio. Mesmo que não resulte, faz-te bem. Tens de sair disso a cheirar bem. Mas esta coisa do Ritter... é mais da mesma coisa... mas para pior, porque já estás a entrar no declive.

     - Esplêndido... esplêndido. E se não conseguir resolver essa coisa do Selby?

     - Tens de conseguir.

     - Mas se não conseguir?

     - Bom... - Horn atirou as mãos para o ar. - Suas um bocadinho, atrasas-te um bocadinho nas contas, até eu te encontrar outra fita de baixo orçamento ou uma

     coisa para a televisão. Mas tu és capaz de resolver o

     problema do Selby se te concentrares nele.

     - Não me venhas para cá com essas lérias.

     - Estive a pensar no assunto a noite passada, Phil. Eu sabia que o Ritter telefonaria esta manhã e não quis consultar-te. Eu sabia que tu irias querer jogar pelo seguro e que isso seria o pior para ti. Queria ajudar-te a tomar uma decisão. Fui pensando e depois lembrei-me do livro de Prescott sobre o México. Nunca leste? - Mas não esperou que Philip respondesse. - Li-o quando andava na universidade e há uma parte que nunca esquecerei. Cortez estava em Vera Cruz se bem me lembro, com o seu pequeno bando de salteadores armados. Sabia que estava em grande inferioridade numérica, que as probabilidades pareciam todas contra eles, que nunca valeriam nada enquanto o navio estivesse à espera, na baía, para os levar de regresso a casa. E Cortez lançou fogo aos navios. Queimou-os, Phil. Ficaram, assim, sem porta das traseiras, sem possibilidade de fuga, sem hipótese de regresso à segurança do lar. A única hipótese era ir para a frente e sobreviver vencendo. E deu resultado. Por isso, quando Ritter telefonou, disse que não.

     - Phil, o da Rabeca - disse Philip.

     - Quem é?

     - Um livro do Horatio Alger. Uma trampa evangélica qualquer. - Philip endireitou-se na cadeira. - Olha, Nat, às vezes um tipo queima os navios e vai para a frente... e apanha uma carga de pancada. Mas essa parte da história não contam eles.

     - Porque geralmente não acontece.

     - Não acontece uma gaita. Talvez não aconteça nos livros, mas acontece na realidade... Não me venhas para cá com mais sermões.

     - Não estou a pregar sermões. Que é que eu tinha a ganhar com isto? Ao proceder desta maneira acabo de atirar dez por cento assegurados pela janela fora. Mas fi-lo porque estava a pensar em ti, não em mim. Porque tomo a peito os teus verdadeiros interesses e nem me importo se isto soa a fado.

     - Soa como sempre. É estúpido. Estou daqui a ver a cara de Helen quando eu lhe disser.

     - Ela não é tão medrosa como tu o dizes.

     - Ah, não?

     - Não me digas que ela não está interessada na proposta do Selby?

     - É muito romântica. Claro que está interessada. Mas quando falhar e se começarem a acumular as contas de dois meses, é vê-la ligar o interruptor do pânico. Hei-de ouvir o nome de Ritter durante o resto dos meus dias.

     - Tenta concentrar-te na Caroline Lamb, Phil. Ainda tens até sexta-feira.

     - E se chega a sexta-feira e ainda não tenho nada?

     - Então até sábado de manhã.

     - E depois disso?

     - Preocupamo-nos com isso quando lá chegarmos.

     - Afinal, quem teria inventado esta coisa dos agentes? - perguntou Phil com uma raiva surda.

     Horn não disse nada e Philip continuou a vociferar. Depois começaram a repetir-se. Era como uma daquelas lutas domésticas, inúteis, circulares, em que não havia nem direito nem torto. Quando Philip esgotou todas as palavras que tinha para dizer, ficou sentado, cansado e cabisbaixo. Deitou uma olhadela ao relógio. Passavam cinco minutos do meio-dia e lembrou-se, de repente, de Horace Trubey. Levantou-se depressa e, com pouca generosidade e sem perdão, deixou Nathaniel Horn e partiu a correr até onde deixara o carro.

     Chegou ao Panaro's poucos minutos depois, entregou o carro a um arrumador do parque de estacionamento e entrou apressadamente no restaurante. O maltre-d'hotel parecia esperá-lo e conduziu-o logo através da sala apinhada até onde Horace, com o cabelo cortado muito curto e um sorriso amigável no rosto, o esperava com uma bebida. Philip cumprimentou-o, encomendou um uísque duplo e sentou-se.

     - Desculpe o atraso - disse Philip. - Acabo de ter uma discussão com o meu agente.

     - Traz um ar preocupado - comentou Horace.

     - Bom, não estraguemos o almoço. Já encomendou?

     Horace tinha encomendado. Philip fez sinal ao criado e pediu uma salada mista - ainda estava com dúvidas acerca das reacções do seu estômago - e depois começou a contar a Horace uma versão muito simplificada do que acontecera no escritório de Nathaniel Horn.

     Quando acabou a narrativa, esperava, até certo ponto, uma concordância compreensiva, mas em vez disso, Horace encolheu os ombros e disse:

     - O assunto não me diz respeito, mas concordo com o seu agente.

     Philip pestanejou, genuinamente surpreendido, mas nem por isso muito contrariado. Olhou até o seu interlocutor com renovado respeito.

     - Porquê? - acabou por perguntar.

     - Em primeiro lugar, porque parece estar a tomar muito a sério os seus autênticos interesses. É óbvio que desta maneira ele se arrisca a ganhar muito menos comissões. Em segundo lugar, se você não faz isso agora, então quando é que fará?

     - Detesto arriscar a segurança da família num só lance de dados.

     - Parece-me que você está a racionalizar, Philip. Acho que o que você tem é medo. Já aqui está há muito tempo e está com receio de perder esse útero forrado de vison.

     Philip meditou um pouco e não lhe levou muito tempo a chegar à conclusão de que Horace tinha razão. Horace não dissera nada que Nathaniel Horn não tivesse já dito, mas, sem que ele soubesse porquê, aquilo parecia-lhe mais objectivo partindo de Horace.

     - Tenho conhecido muita gente no meio cinematográfico - continuou Horace. - Todos se esquecem de que é possível viver com menos de quarenta ou cinquenta mil dólares por ano e ser-se feliz. Não estou a pretender ser virtuoso. Também uma vez se me pôs a opção difícil de tomar. Uma sociedade numa grande organização de relações públicas. Teria ficado a ganhar muito perto dos quarenta mil por ano. Rachel e eu decidimos que o preço era demasiado elevado e hoje ganho só dez mil por ano e sinto-me feliz.

   - Está mesmo? É uma afirmação que não tenho ouvido a muita gente.

     - Completamente feliz. Faço exactamente aquilo de que gosto. E já Platão disse que era essa a chave para a felicidade de um homem.

     - Deve ter razão - disse Philip, cabisbaixo.

     - Quando ouvi dizer que você tinha agora uma oportunidade de ir trabalhar na Europa, fiquei com a certeza de que não teria quaisquer dúvidas. Enfim, foi essa a impressão que recolhi das poucas vezes que conversei consigo.

     - E como é que sabia que eu tinha essa hipótese de ir trabalhar na Europa?

     - Ouvi falar nisso esta manhã. Rachel estava a conversar com a Peggy Degen, ao telefone. Peggy disse que o encontrara e que você tinha essa hipótese de ir para Londres e para Paris. Fiquei entusiasmado com a ideia. Fico sempre entusiasmado quando pessoas minhas conhecidas vão até à Europa. Acho que deve ser por gostar que toda a gente se divirta. Faz-me sentir mais contente. Foi por isso que quando soube que tinha de vir a Beverly... pensei logo em telefonar-lhe.

     - Bom, sabe agora que ainda não está nada decidido.

     Philip explicou pormenorizadamente a proposta de Selby enquanto lhes serviam o almoço e o comiam. Logo que acabou de falar, Horace disse:

     - Não esteja desanimado com isso. Talvez você encontre a solução que agrade ao Selby.

     - Talvez. Deus sabe bem o que eu queria.

     - Se resultar... e esta era uma das coisas de que lhe queria falar... Talvez possa fazer qualquer coisa para a nossa revista.

     - Por exemplo?

     - Artigos especiais. Sabe o género... “Nas pegadas de Byron”. Esse tipo de coisa. Na realidade, talvez você pudesse ficar pela Europa mais um tempinho e fazer umas coisas para nós. Não pagamos por aí além, mas também não lhe custará muito a si... porque pode meter despesas para cobrir o itinerário que lhe der.

     - É grande gentileza sua, Horace.

     - Nada disso. O interesse é meu, afinal. Temos dificuldade em arranjar artigos de escritores profissionais. A minha secretária está apinhada com longos tratados escritos por senhoras idosas de Pasadena, que visitaram Versalhes e Capri... Mas escritores profissionais que já conversaram com Picasso... disso temos muito pouco.

     - Como é que sabe que eu falei com Picasso? Horace ficou um momento a pensar.

     - Suponho que a Rachel também deve ter ouvido isso à Peggy.

     - Bom, havemos de ver isso. Depois lhe direi se a viagem sempre se faz. - Philip acabou de beber o café e depois perguntou, em tom casual. - Você e a Rachel já conhecem a Peggy Degen há muito tempo?

     - Há séculos! Desde que ela se casou com Bernie Degen. Conhecia o Bernie de Nova Iorque. Estivemos na mesma agência de publicidade durante perto de um ano... Até ele se despedir para se tornar agente literário.

     - Parece uma excelente rapariga.

     - E é. Esperta, mas sem malícia.

     - E até sensata - acrescentou Philip -, para uma rapariga bonita.

     - Sensata, com certeza - disse Horace. - Quanto à boniteza, não me posso pronunciar. Quando se conhece uma pessoa durante muito tempo, acaba-se por a considerar com um tipo de afecto familiar. Qualquer outra atitude pareceria imprópria.

     - Mas ela é mesmo muito atraente - disse Philip com firmeza. Estava ansioso por prolongar a conversa.

     - Acha que ela voltará a casar?

     - Com certeza. Peggy é uma daquelas mulheres que precisa de alguém. Não que se não baste a si própria, pois tem-se até desembaraçado muito bem desde que o Bernie morreu. Mas precisa de alguém. Há mulheres que precisam de se casar.

     - Acho que isso para ela não há-de ser problema.

     - Também acho. Há um tipo bastante decente que tem saído às vezes com ela. E parece-me que é a sério. Chama-se Jake Cahill. De facto, até chegou hoje. Vamo-nos encontrar com ele para a semana.

   Philip recordava-se do nome, Jake Cahill. Economista itinerante. O interessado. E, de repente, deu por si a invejá-lo. Porque podia considerar Peggy a sério. Podia dizer o que quisesse, prometer o que quisesse, com inteira propriedade. Os Trubey estariam com ele na semana seguinte, o que, provavelmente, queria dizer que ele estaria na companhia de Peggy. Andariam juntos. E ele, onde estaria? Sentia-se excluído, um estranho, e desejava desesperadamente pertencer, estar livre e ser o homem de Peggy. O homem a serio.

     Deu uma olhadela a Horace, que estava a dar corda ao relógio de pulso. Especulou sobre qual seria a reacção dele se de repente desabafasse a verdade. Que aconteceria se dissesse a Horace que estava apaixonado por Peggy Degen? E se dissesse a Horace que já tinha estado deitado com ela numa casa, lado a lado, ambos nus? E se dissesse a Horace o que acontecera entre eles, ou, melhor, o que não acontecera, e que isso, mais do que qualquer outra coisa, estava a diminuir as suas probabilidades de ir à Europa? Como reagiria Horace? E naquele momento pareceu-lhe espantoso o pouco, o pouquíssimo, que cada um de nós sabe acerca de qualquer outro. Mesmo que se conhecesse uma pessoa há muito tempo, por mais íntimas que tivessem sido, aparentemente, as conversas, havia tão pouco que se ficava realmente a saber ou que se podia prever com rigor. Ninguém revelava tudo, ou mesmo metade de tudo, fosse a quem fosse. Todo o homem tinha as suas áreas privadas, como aquelas zonas nuas, inexploradas, que se viam nos mapas antigos. Ou haveria agora uma nova estirpe de homens - substituindo feiticeiros e sacerdotes - que sabiam tudo? Uma estirpe de homens como o Dr. Robert Edling. Philip cogitava acerca de tudo isso.

     Reparou então que Horace Trubey estava a assinar um cheque para entregar ao criado. Tentou intervir, sugerindo que as contas fossem divididas, mas Horace dissuadiu-o com a habitual menção a “despesas de representação”. Logo que o criado se afastou, agradeceu a Horace.

     - Agradava-me continuar a nossa conversa - disse Horace, afastando a cadeira da mesa -, mas tenho o diabo da entrevista marcada. Gostaria que um dia destes nos encontrássemos para um serão prolongado, Philip.

     - Havemos de fazer isso. Gostaria que vissem a nossa casa nova. Vou sugerir à Helen que telefone à Rachel.

     Horace já estava de pé. Philip levantou-se e reuniu-se-lhe.

     - Espero que chegue a fazer essa viagem à Europa - disse Horace enquanto se dirigiam para a porta. - Dar-me-á notícias?

     - Com certeza.

     Conduzindo na direcção de casa, mal reparando conscientemente no tráfego ou nos locais por onde passava, ia pensando em Peggy Degen. Com Jake Cahill nas redondezas, sabia que ela teria agora grande parte do seu tempo ocupado. Teria cada vez menos justificação para esperar que ela arranjasse tempo para o receber sempre que lhe telefonasse. Cahill tinha algo de específico a oferecer. Cahill era um símbolo de permanência e de segurança, pois representava um futuro. Que lhe poderia Philip oferecer que se lhe equivalesse? Tentou pensar em argumentos atraentes. Só havia um: amava-a. Tinha-o dito já e tinha tentado demonstrá-lo mais de uma vez. Mas também, é claro, Jake Cahill a amava. Todavia, não era esse o ponto crucial, o ponto principal era este: quem é que Peggy amava? Ele não sabia a extensão e tipo de relações que ela tinha com Cahill, nem o que sentia em relação a ele. Mas sabia como ela se sentia em relação a um tal Philip Fleming. Demonstrara-o com toda a clareza, não por palavras mas por actos. Mostrara-se desejosa de se lhe entregar imediatamente. E ela não era o tipo de mulher que se entrega por uma necessidade puramente física. Era a sua reacção ao amor dele, a sua própria oferta de amor. O facto de ela se sentir assim em relação a ele era a sua força e a sua vantagem em qualquer competição com Jake Cahill.

     De repente achou que toda essa corrente de pensamento especulativo era profundamente desagradável. Porque é que havia de ser necessário pesar tudo o que ele tinha para oferecer a Peggy contra o que Cahill poderia oferecer? Porque tinha ele de se preocupar com esse ponto? Em qualquer outro ponto do globo - na França, por exemplo - tal especulação seria perfeitamente ridícula. Ali um homem casado não aferiria a impossibilidade de casar com uma amante contra um rival que o pudesse fazer. Ali um homem casado acharia suficiente e plausível que a sua amante o amava e que já o provara. Ali um homem casado não ficaria surpreendido com o facto de uma amante ficar satisfeita com esse amor ilícito. Caramba, a dádiva de amor bastava. Quantas vezes é que um ser humano a recebia na sua vida? Mas ele não estava em França, nem era francês. Era americano, equipado com todos os sentimentos de culpa e hesitações herdados de um casal já idoso do Midwest, que teria ficado perfeitamente espantado com tudo aquilo. Espantado não, escandalizado.

     Ao virar o carro na direcção de casa, recordou-se de um fragmento da conversa com Peggy na noite anterior. Algo do que ele dissera acerca das suas relações pretensamente eternas e a que ela levantara objecções, sendo extremamente prática. Como é que ele poderia continuar a manter uma vida dupla à noite? Como é que ele poderia continuar a visitá-la sem que Helen não o viesse a saber? Lembrava-se de que se recusara a enfrentar essa dificuldade. A conquista de Peggy punha-lhe problemas bastantes que não lhe permitiam considerar quaisquer outros casos. Contudo, e era isso que realmente o perturbava, estaria ela a tentar dizer-lhe que as suas relações teriam de terminar em breve, não por causa da Helen, mas por causa de Jake Cahill? Ela devia saber já nessa altura que Cahill estaria de volta à cidade nesse mesmo dia e isso deveria ocupar uma posição cimeira no seu cérebro. Todavia, também isso não poderia ter sido muito importante, pois uma hora depois dessa conversa já ela se submetia a ele no chão do motel.

     Philip chegou à garagem que ficava nas traseiras da sua nova casa. Arrumou o carro, desligou o motor e começou a caminhar pelo carreiro lateral que levava à entrada de serviço. Wanda estava encostada ao secador e fumava um cigarro. Cumprimentou-a distraidamente e entrou na cozinha. Não estava lá ninguém. Helen e Danny deviam estar, com certeza, num dos quartos. Saiu da cozinha para o vestíbulo e, quase de imediato, teve a sensação de que havia alguém na sala.

     Philip deteve-se e quedou-se pasmado, sem crer no que os seus olhos viam. Ali, sentada no seu sofá, estava Peggy Degen, com um livro de estampas, no colo, a ler para Steve.

     Ela não o viu logo e ele ficou perfeitamente imóvel, de olhos postos nela, com a cabeça num turbilhão. Peggy Degen em sua casa. Era inacreditável. Porque estaria ela ali? Helen mandara-a chamar? Era essa a primeira explicação que lhe ocorria: Helen suspeitara de qualquer coisa, fizera-o seguir, ou ouvira de alguém, de algures, que ele a visitara, e chamara-a. E agora ia haver uma acareação. Mas isso era absurdo. Isso apenas acontecia no cinema. Helen nunca a chamaria e, mesmo que o fizesse, Peggy não compareceria. Além disso, a atmosfera daquela presença de Peggy, ali sentada, no sofá, a ler as histórias do livro ao filho, era demasiado descontraída.

     Ele entrou na sala, chamando:

     - Peggy!

     Ela levantou a cabeça, nada surpreendida.

     - Olá, Phil. Helen julgava que tu só chegarias depois de nos termos ido embora.

     Ele atravessou a sala na direcção da cadeira que ficava ao lado do sofá, e, sem tirar os olhos dela um só momento, sentou-se. Ela leu-lhe a expressão.

    - Surpreendido?

     - Como não havia de estar! - disse ele.

     Ambos ignoraram a presença de Steve, que pestanejava e olhava para um e para o outro sem compreender fosse o que fosse, mas com a reacção instintiva de uma criança ao sentido de urgência implícito nas tonalidades das vozes.

     - Que estás tu a fazer aqui? - perguntou ele.

     - Vamos nadar! - disse ela, sibilinamente.

     - Sabes bem o que quero dizer!

     - Quando houve a recepção, lá em minha casa, no sábado, a Helen disse, em conversa, que gostava de sair com o vosso filho, para nadar, duas ou três vezes por semana. Eu disse que fazia a mesma coisa com o Steve. Ela convidou-me a telefonar-lhe quando me apetecesse nadar. E aqui estou.

     - Mas porquê?

     - Porque me apeteceu.

     Mas a resposta não o satisfez.

     - Tem alguma coisa que ver connosco?

     - Talvez. Não sei, - Deitou uma olhadela a Steve.

     - Lembras-te do Sr. Fleming, Steve? O senhor que nos vendeu a casa?

     Steve olhou para Philip sem expressão e não respondeu.

     - Já viste o Danny? - perguntou Philip ao rapaz. O miúdo acenou afirmativamente e Peggy disse:

     - Já, já, e acho que se vão dar muito bem. Tens um filho muito giro.

     - Obrigado.

     Philip estava a tentar adivinhar as motivações subjacentes à visita de Peggy. Era como se agora, de repente, ela sentisse a necessidade de conhecer melhor a sua vida. Talvez fosse, afinal, a mesma necessidade que motivara a sua concordância em encontrar-se com Horace Trubey para almoçar e que o impulsionara a fazer-lhe perguntas acerca de Peggy. Tanto ele como Peggy teriam, assim, atingido um momento decisivo nas suas relações mútuas. Tanto ele como Peggy, antes de irem mais além, desejavam informar-se mais completamente acerca do outro. “Era essa a resposta”, decidiu Philip. “Mas ir mais além em quê”, perguntava a si mesmo.

     - Tens uma casa encantadora - disse ela.

     - Palaciana, é o termo.

     - O pátio é quase como se fosse mais uma sala.

     - As banalidades, vindas dela, soavam-lhe estranhamente. Ela sentia-se acanhada e ele sabia-o. - É ali o teu escritório?

     - É.

     Ela trazia um vestido de praia de piqué, engomado, que a cobria apenas até às ancas e que se abria para revelar um fato de banho de duas peças, de listas cor-de-rosa. O biquini cobria muito pouco, pois a tira de tecido que cobria os seios era adequada, mas a tira abaixo do umbigo, presa aos lados com uma laçada, não o era. Todo o seu aspecto era provocador e Philip sentiu desejos.

     Ela viu que ele a observava e corou. Ele disse muito depressa:

     - Onde é que vão nadar?

     - Não sei. A tua mulher mencionou vagamente a piscina de uns amigos vossos.

     Philip ouviu passos no vestíbulo e levantou-se precipitadamente. Helen entrou a correr, seguida por Danny; trazia um fato de banho azul-ultramarino, apertado, que fazia a carne intumescer nas coxas.

     - Quando é que chegaste? - Dirigiu-se a ele e beijou-o. Ele ficou a desejar que ela não tivesse feito aquilo. Afastou-se dela e meteu as mãos nos cabelos de Danny.

     - Como é que tu estás, Danny?

     - Estava a pôr em ordem as estampas das pastilhas elásticas. Tenho mesmo de ir nadar?

     - Pois claro. Tu queres ser um dia um grande campeão olímpico, não queres? Olha para o Steve. Ele não se importa nada de ir nadar. - Virou-se para Helen, que estava a pedir desculpa a Peggy pela demora. - Onde é que vão?

     - Aos Barlow - disse Helen. - Já lá devíamos estar há dez minutos.

     Ele não queria Peggy sozinha com Helen, sem vigilância, durante todo o percurso até Bel-Air. Peggy podia começar a fazer perguntas a seu respeito e Helen, como de costume, poderia dar respostas que lhe não fossem muito favoráveis. Só havia uma solução.

     - Bom, porque não hei-de levar-vos no carro até casa dos Barlow?

     - Porque é desnecessário - disse Helen.

     - Tenho de ir à biblioteca de Beverly Hills. Deixo-vos lá... e vou lá buscar-vos quando quiserem.

     - Bom. se de facto tens de ir para aqueles lados...

     - Acho melhor.

     - Há lá uma boa colecção sobre o Byron? - perguntou Peggy.

     - Têm alguns livros que eu não possuo - respondeu Philip.

     Helen olhou para Peggy com uma expressão de surpresa que deixou Philip perturbado.

     - Como é que sabias que ele anda a estudar Byron? O coração de Philip quase parou, mas Peggy respondeu com inteira naturalidade:

     - O Philip estava agora mesmo a falar-me desse trabalho.

     Helen acenou com a cabeça e começou a empurrar Danny na direcção da cozinha.

     - Vamos lá então.

     Os olhos de Peggy encontraram-se de passagem com os de Philip, num brevíssimo pedido de desculpa pelo lapso? Ele seguiu-as, olhando as pernas longas e nuas por baixo do vestido de praia, enquanto ela conduzia Steve na direcção da cozinha, e desejou estar a sós com ela. Nunca antes sentira tanto ressentimento em relação a Helen.

     Na garagem todos esperaram que ele saísse com o carro em marcha-atrás. Danny e Steve sentaram-se ao lado dele, no assento da frente, e Peggy e Helen sentaram-se atrás. Partiram depois na direcção de Bel-Air.

     Durante a viagem, a conversa no assento detrás manteve-se num tom neutro. Helen encarregou-se de grande parte da conversa. Discutiram acerca das crianças, das escolas, de Ridgewood Lane, de receitas e de divertimentos. Ao falar de divertimentos, falou-se de natação. Helen descreveu a piscina dos Barlow e depois começou a industriar Peggy acerca de Tina Barlow.

     - É por causa dela que o Philip nos quer lá levar disse ela.

     - Por causa da Sr.a Barlow? - perguntou a voz de Peggy.

     - Ela tem intenções lúbricas acerca do Philip, e não faz segredo disso. Diz-lhe galanteios e ele derrete-se.

     Philip rilhou os dentes. Com as ferramentas necessárias à mão, teria tido gosto em estrangular Helen com um garrote. Espreitou-as através do espelho retrovisor. Peggy tinha os olhos postos na sua nuca e um sorriso discreto, fixo.

     - É verdade, Philip? - perguntava Peggy. - Sentes-te mesmo fraquinho dos joelhos quando ela te diz piropos?

     - Porque não? - respondeu Philip, tentando disfarçar a raiva que sentia na voz. - A minha mulher nunca mos diz, ando esfomeado de amor.

     - Tem um terrível fraquinho por ele - insistiu Helen.

     - Quando ele está presente, comporta-se como uma menina de cinco anos.

     - Ora, deixa-te de parvoíces - disse Philip.

     - Hás-de ver - disse Helen a Peggy.

     Helen falou depois da cadeia de consultórios dentários de Sam Barlow. Peggy escutava-a com o mesma sorriso fixo. Philip conduziu o resto do caminho em silêncio, irritado.

     À porta dos Barlow, ajudou Peggy e Helen a descerem do carro. Pensou em partir imediatamente, mais sabia que Peggy repararia nisso, por isso seguiu-as até à porta. Helen premiu o botão da campainha. Esperaram. A porta abriu-se, revelando Tina com um lenço às pintinhas cruzado sobre os seios e de calções brancos. Inclinou a cabeça, indicando-lhes o interior da casa, e disse jovialmente:

     - Bem-vindas a Muscles Beach.

     Helen apressou-se a apresentar Peggy e Tina cumprimentou-a cordialmente, dando um passo ao lado para as deixar entrar. Tina reservou o seu sorriso mais aberto para Philip. A longa covinha abriu uma nesga atraente na sua face direita.

     - Mas tu não me tinhas dito que hoje era o meu dia de anos - disse ela a Helen, pegando na mão de Philip.

     - Como? - perguntou Helen, confusa, já no meio da sala.

     Tina passou o braço à volta da cintura de Philip.

     - Não tinhas de trazer presentes. O uso da piscina é gratuito.

     Helen deu uma olhadela a Peggy, mas esta estava a olhar para Philip com uma expressão trocista. Philip sentia-se embaraçado e rígido.

     - Qual é a ocasião especial? - perguntou Tina a Philip.

     - Dia de folga do motorista - disse Philip. - Por Isso tive de as trazer.

     Tina fez uma careta de desagrado, acriançada.

     - Não foi por minha causa? Philip sofreu.

     - Bom, por ti também. A outra razão foi um subterfúgio. A minha mulher é muito desconfiada, bem o sabes.

     - Bem sei, bem sei. - Tina virou-se para Helen e Peggy. - A piscina está às vossas ordens. A miudagem já lá está. Eu vou lá acima mudar de fato, não demoro nada.

     Philip começou a aproximar-se da porta.

     - Bom, é melhor ir andando. A que horas queres que te venha buscar, Helen?

     - Às quatro.

     Tina olhou implorativamente para Philip.

     - Não podes ficar só um bocadinho? Gostava que visses o meu novo fato de banho.

     - Para a próxima vez.

   - Não te esqueças - disse Tina, e afastou-se a correr.

     Helen dirigiu-se para as traseiras da casa. pastoreando Danny e Steve. Peggy preparava-se para a seguir, quando Philip a alcançou e lhe pegou no braço.

     - Peggy... Ela esperou.

     - Preciso de falar contigo - sussurrou ele.

     - Não será preciso pedir licença à Tina?

     - Cala-te. E que tal...

     - Agora não - disse ela com firmeza. - Aqui não, E estugou o passo para seguir Helen. Philip ficou parado, sabendo que tinha de sair, mas com pouca vontade de o fazer. Dirigiu-se lentamente até ao bar, parou junto da porta-biombo, a olhar para a piscina, onde os miúdos dos Barlow brincavam na extremidade mais funda. Helen descera os degraus na parte menos funda, depois pegara em Steve, metera-o na água, e estava a tentar convencer Danny a entrar também na água. Peggy estava sentada numa cadeira de repouso, a descalçar as sandálias vermelho e ouro. Agora levantava-se e despia o vestido de praia. O biquini era muito justo. Mentalmente acariciou a excitação daquela imagem. Viu Peggy aproximar-se, nua, da prancha de saltos. Sentiu-se divertido ao pensar como as mulheres se mostravam castamente preocupadas com os seus vestuários de protecção - vestidos compridos, combinações e roupas de baixo -, a ansiedade que mostravam em cobrir os joelhos quando cruzavam as pernas... e, todavia, a simplicidade e naturalidade com que, uma vez entregues ao culto do- sol e da água, se expunham aos olhos de toda a gente em fatos de banho. Peggy chegara à beira da prancha de saltos. Ali ficou um momento em equilíbrio, um perfil perfeito de postura e de graça, e depois soltou-se da prancha, fazendo um alto arco, para depois se endireitar e cortar a água límpida, direitinha como uma seta. Philip, mesmo no seu melhor um nadador desajeitado, ficou impressionado quando ela voltou a aparecer à superfície para, com braços rebrilhantes, se aproximar em braçadas largas dos lados da piscina. Sentiu mais uma vez um arroubo de orgulho pelo facto de ela se lhe ter entregue. Virou as costas e dirigiu-se para o carro.

     Foram-lhe precisos vinte e cinco minutos para chegar à biblioteca. Uma vez na atmosfera monástica da sala de leitura, com a meia dúzia de biografias empilhadas à sua frente, tentou concentrar a atenção nos problemas de Caroline Lamb. Mas era um processo difícil. O corpo esbelto e branco de Peggy intrometia-se. A vergonha insidiosa que o roía do seu fracasso, que tentara recalcar durante todo o dia, erguia-se à sua frente, ao lado do corpo dela, para melhor troçar dele. Fracassara com Peggy, mas, no entanto, não fracassara com Helen. O Dr. McGrath considerara isso significativo, indicando que a sua impotência tinha com certeza origem psíquica. Quereria isso dizer que falharia com qualquer outra mulher que não fosse Helen? Ou aquilo passava-se só com Peggy? De repente pareceu-lhe importante saber a verdadeira resposta. Mas como é que o poderia saber? Numa década de casado não se aproximara com essa ideia de qualquer outra mulher, excepto agora, neste fracasso que vivera com Peggy. Passou mentalmente em revista algumas das mulheres que alguma vez considerara como possibilidades de uma aventura: uma nova secretária do estúdio, a companheira de alguém conhecido num jantar, uma mulher encontrada na mesa vizinha de um bar. Depois, cabelos ruivos muito lisos, uma covinha na face e seios abundantes encheram-lhe o cérebro. Era Tina. Muitas vezes, antes de aparecer Peggy, se entregara a fantasias sexuais em que entrava Tina Barlow. Mas eram fantasias fugazes, sem nada de sério. Agora pensava nela com seriedade, mas logo, abruptamente, expulsou-a do seu cérebro. O seu problema era Peggy. Mulher nenhuma lhe resolveria o problema de Peggy. Ou resolveria? Um caso, um único acto de infidelidade conjugal com outra mulher poderia quebrar aquela coisa que o tornava incapaz perante a única pessoa que ele desejava acima de todas as outras? Mais uma vez expulsou do seu cérebro atormentado essa ideia. Pegou num dos livros que tinha à sua frente com decisão firme, começou a lê-lo.

     Foi-lhe precisa quase uma hora para chegar ao ponto em que era capaz de se concentrar a sério na vida e nas tristezas de Caroline Lamb. Quando começou a cansar-se de pesquisar através das biografias, recostou-se na cadeira e tentou pensar como poderia rematar a história de forma a agradar a Selby. Dois anos antes de morrer, Caroline Lamb separara-se de William Lamb. No entanto, no seu leito de morte, Caroline murmurara num sopro: “Chamem o Wiliam. Foi a única pessoa que nunca me abandonou. “ E William, fiel como sempre, viera para o seu lado. Seria esse marido tão maltratado a chave da história de Caroline Lamb? Poderia ele ter levado Caroline, numa derradeira e desesperada lua-de-mel, até à Itália? E ter ali um encontro com Byron, que resolveria assim a história de Caroline, reenviando-a, feliz, para a companhia do marido? É claro que isso não acontecera, e tratar-se-ia mesmo de uma grosseira falsificação da história, mas ali tratava-se de ficção e talvez fosse um caminho. Mas se podia tomar tais liberdades, então porque não usar da mesma maneira Teresa Guiccioli, a última amante de Byron? Depois da morte de Byron, ela visitara a Inglaterra para conhecer os amigos e a irmã de Byron e visitar os lugares que ele frequentara. Então, e se Caroline ainda estivesse viva e encontrasse Teresa? E, na conversa, ficasse destruído o espectro de Byron, que estava a destruir os últimos anos de Caroline juntamente com o seu casamento? Era outra falsificação e isso desagradava profundamente a Philip.

     Mas estava, finalmente, a pensar, e deixou-se ali ficar sentado, no silêncio da sala de leitura, deixando o seu cérebro vogar até Brocket Hall. Aí, Caroline, rodeada de bebidas, de drogas e de pajens recebera um jovem atraente que era seu vizinho. Chamava-se Edward Bulwer e tornar-se-ia mais tarde famoso como autor de Os Últimos Dias de Pompeia. Com ele tentara recrear o caso Byron, há tanto tempo morto, com grande desgosto do marido e sem resultados para si própria. Poderia esse jovem Bulwer, aparecendo no último terço do romance, como uma reincarnação de Byron, dar à trágica história a unidade e continuidade de interesse que ela requeria? Caroline oferecera a Bulwer o anel que Byron em tempos usara. Bastaria isso? Philip agarrou-se a essa ideia, examinando-a, projectando-a, virando-a e revirando-a em todas as direcções possíveis. Experimentaria a ideia com Nathaniel Hom? Mas apercebeu-se logo de que o não faria. É que essa ideia não era suficientemente boa. Nenhuma daquelas ideias servia. A história de Caroline continuava a acabar com a partida de Byron para Itália. Nada do que até esse momento concebera conseguiria manter a história viva. Tinha de haver algo de melhor, algum facto esquecido, alguma invenção que pudesse integrar a heroína, o marido e o amante no clímax. Mas o quê?

     Durante um momento emergiu do mundo estranho e intemporal da criatividade e teve consciênciia da mesa, dos livros, da própria sala de leitura. Olhou para o relógio de pulso. Faltava um quarto para as quatro. Tentou recordar a que horas combinara ir buscar Helen e Peggy e depois lembrou-se que fora às quatro. Rememorou tudo quanto se havia passado até ao presente e saiu apressadamente da biblioteca.

     Conduziu com rapidez até Bel-Air, sempre a pensar nos vários assuntos, todos igualmente improváveis, que Helen, Peggy e Tina poderiam ter discutido. Perguntava a si mesmo se Tina e Peggy teriam discutido acerca dele e se Helen, ouvindo-as, por acaso, o teria menosprezado.

     Quando chegou a casa dos Barlow e tocou à porta, Helen, Peggy e os miúdos já o esperavam no vestíbulo. Helen ainda tinha vestido o fato de banho molhado, mas Peggy vestira o provocante vestido de praia e Tina aparecia a correr dos lados da cozinha, onde tinha estado a escrever a morada de uma padaria que Helen lhe pedira. Tina trazia vestida uma blusa branca e saia azul, estava descalça, e Philip notou que esta era a primeira vez, em quase todo um ano, que a via noutro vestuário que não fosse fato de banho ou calções. Teve de admitir para si mesmo que ela parecia muito bem, mas de um modo inteiramente diferente do de Peggy. Os seus olhos encontraram os de Peggy. Era de facto imensamente atraente.

     - Já pensávamos que nunca mais vinhas - estava-lhe a dizer Helen.

     - Distraí-me no meio das minhas investigações.

     - E achaste alguma coisa interessante? - perguntou Helen.

     - Bom, tive uma ideia ou duas. - Virou-se para Peggy. - Tudo a postos?

     Helen e Peggy, conduzindo os miúdos, passaram por Philip, dirigindo-se ao carro. Ele virou-se para se despedir de Tina, mas esta estava a chamá-lo, em silêncio, com um dedo. Ele entrou na sala.

     - Pensei que ias passar por cá para nadar um bocadinho- disse ela baixinho.

     - Não julguei que o convite fosse a sério.

     - Que é que tu queres... um convite gravado em bronze?

     - Gostaria imenso de cá vir.

     - Então porque não vens?

     - Está bem. Diz quando.

     Ela fingiu pensar. Depois olhou para ele.

     - Que tal amanhã?

     - Amanhã, está bem!

     - Duas e meia?

     Ele acenou afirmativamente.

     - E, sabes, as minhas intenções são estritamente desonestas.

     Tina sorriu. A covinha cavou-se-lhe profundamente na face.

     - Assim espero.

     Philip apertou-lhe a mão.

     - Até breve - disse ele. Ela fechou os olhos e estendeu-lhe os lábios. Ele beijou-a brevemente, brevemente de mais para retirar do beijo qualquer sensação. Depois largou-lhe a mão e correu para a saída.

     Helen, no assento da frente, com o vidro corrido, observava-o com atenção enquanto ele rodeava o carro e se enfiava atrás do volante. Peggy estava na retaguarda, com Steve e Danny. Dera-lhe um pacote de pastilhas elásticas e estavam os dois a partilhá-lo. Philip começou a descer a encosta, na direcção de Sunset Boulevard.

     - O que é que a Tina te queria - perguntou Helen.

     - Ela e o Sam querem encontrar-se um dia destes connosco para jantarmos. Dar uma volta juntos. Estava a tentar arranjar uma data. Concordámos que o melhor era ela telefonar-te e combinar as coisas.

     - Teve a tarde toda para me perguntar!

     - A Tina é assim.

     Rodaram através do tráfego crescente na direcção da casa. Quanto mais rodavam para ocidente, mais fresco o ar se tornava. Estava uma atmosfera refrescante e Philip inalou profundamente o cheiro pungente, limpo, da relva e dos eucaliptos que orlavam de ambos os lados a estrada apinhada e coleante.

     Uma vez, virando um pouco a cabeça, perguntou:

     - Que tal passaram a tarde? - A pergunta era realmente dirigida a Peggy, mas foi Helen quem respondeu.

     - Repousante, embora tenha de admitir que às vezes a Tina é cansativa.

     - De que modo? - quis ele saber.

     - Se lhe perguntares a opinião acerca do Eisenhower, ela provavelmente pensa que está a falar de qualquer aparelhómetro novo para pôr na cozinha. Só está interessada em mexericos. - Helen ajeitou-se melhor no assento. - Que é que achaste, Peggy?

     - Não cheguei a ter oportunidade de falar realmente com ela - respondeu Peggy. - Mas é atraente.

     - Se se gosta daquele tipo - disse Helen, dando uma olhadela a Philip. - Acho que há ali mulher a mais, em todos os sentidos.

     - Que queres tu dizer com isso? - perguntou Philip.

     - Não sei, não sou capaz de explicar - disse Helen. Depois olhou para Philip. - Achas que ela também se atira a outros homens?

     - É claro que não - disse Philip com indignação.

     - Bem, eu acho que sim - afirmou Helen.

     Philip olhou para o espelho retrovisor. Peggy abrira o vestido de praia e levava as pernas cruzadas.

     - Pelo que lhe ouvi dizer, pareceu-me até muito devotada ao marido - disse ela.

     - Falar é fácil - disse Helen. - Viste-o alguma vez? Parece um suíno pronto a rebentar a qualquer momento.

     - Não acho que a aparência seja muito importante - insistiu Peggy. - Pode até ser a pessoa mais simpática do mundo.

      - E é - disse Philip com firmeza, pondo-se deliberadamente do lado de Peggy.

     Helen fez uma ligeira retirada.

     - Não discordo disso. Estou apenas a dizer que ela é do tipo que pode ir à procura de compensações em qualquer parte!

     Philip sentia-se profundamente irritado.

     - Se não gostas dela, porque é que a visitas? Helen deu a sua habitual reviravolta.

     - Não posso ser má-língua de vez em quando? perguntou. - Faz bem. Desopila o fígado. Claro que gosto dela, embora me irrite a maneira como fala a teu respeito. Fala mais de ti do que do Sam. Reparaste, Peggy?

     Peggy acenou afirmativamente.

     - Ouvi-a dizer que o Philip era o homem mais interessante que ela conhecia. E estou de acordo com ela.

     Helen franziu o nariz para Peggy.

     - Havias de viver com ele - disse ela.

     Quando chegaram a casa, Philip estacionou no acesso semicircular, uns dez metros atrás do descapotável de Peggy. Saíram todos do carro, para ficarem um momento reunidos em frente da casa.

     Peggy estendeu a mão a Helen.

     - Foi uma tarde muito agradável. Muitíssimo obrigada.

     Helen apertou-lhe a mão.

     - Sempre que te apetecer repetir a dose, telefona-me. Mas, da próxima vez, iremos antes à praia.

     - Esplêndido - disse Peggy. Pegou no braço de Steve e virou-se para Philip. - Obrigada pelo transporte.

     Começaram a dirigir-se para o descapotável. Philip seguiu-a, esperando que Helen entrasse em casa, esperando um momento a sós com Peggy, mas Helen acompanhou-os. Irritado com a presença dela, Philip abriu a porta do carro, e ajudou Steve a instalar-se e depois foi abrir a porta do outro lado a Peggy. Tentou encontrar-lhe os olhos, mas ela estava ocupada a escolher a chave do carro e a mexer no travão de mão.

     Pôs o motor em marcha e só então levantou os olhos.

     - Então... adeus.

     Philip tentava dizer-lhe com os olhos e a expressão do rosto que a queria ver durante essa noite, mas ela não conseguiu ler-lhe a expressão ou, mais provavelmente, recusou-se a interpretá-la.

     - Até breve! - disse Helen.

     - Adeus! - disse Philip.

     Peggy contornou a meia-lua e em breve desaparecia da vista. Philip ficou a segui-la o mais tempo que podia. Depois, inteiramente frustrado, seguiu Helen e Danny para dentro de casa. O seu regresso trouxe Wanda a correr da cozinha.

     - Sr. Fleming - disse ela -, telefonaram agora mesmo para si. Escrevi aqui o recado.

     Philip foi até à cozinha. No bloco de papel apenso ao telefone estava o nome Edling, seguido de um número de telefone. Philip quase se esquecera. Marcou rapidamente o número. Respondeu-lhe mais uma vez o serviço de mensagens. Philip explicou à telefonista que o Dr. Robert Edling acabava de lhe telefonar e que estava apenas a responder. A rapariga pediu-lhe que aguardasse um momento.

     Ficou impacientemente à espera. Houve um estalido sonoro na outra extremidade da linha e depois uma voz de homem, muito distante.

     - Está? Aqui Dr. Edling.

     - Fala Philip Fleming. Telefonei-lhe esta manhã...

     - Ah, pois claro. Ainda bem que telefonou. Tenho estado à espera de ouvir notícias suas. - Era uma voz surpreendentemente macia. Parecia possível pegar nela com a mão, espremer e vê-la sair por ambos os lados, escoar-se por entre os dedos.

     - A minha mulher disse-me que gostaria de falar comigo, por causa do Danny. Estou livre amanhã.

     - Amanhã... amanhã... - ia ecoando o Dr. Edling.

     - Um momento, deixe-me ver...

     Philip esperou. Voltou a ouvir-se a voz do Dr. Edling.

     - Convir-lhe-ia uma consulta às onze e meia da manhã?

     - Para mim está muito bem.

     - Então até amanhã de manhã. Gostarei imenso de o ver cá, Sr. Fleming.

     Depois de ter desligado, Philip permaneceu ali de pé, com os olhos no vago, postos para além de Wanda, que estava a cozinhar. Tentou especular como é que ele iria desviar a conversa com o Dr. Edling de Danny para Peggy Degen - transição nada fácil - e decidiu que teria de aproveitar a maneira como a conversa decorresse.

     Deambulou até à sala. Estava vazia. Continuou pelo vestíbulo, espreitou um momento para o escritório, onde Danny estava ocupado a mudar o programa de televisão e depois foi até ao quarto. Ouviu Helen na casa de banho. Aproximou-se da porta e chamou:

     - Helen?

     Ela entreabriu a porta.

     - Que é?

     - Acabo de falar com o teu Dr. Edling. Vou ao consultório dele amanhã de manhã.

     - Oh, ainda bem! Não te hás-de arrepender.

     - Não, suponho que não.

     Tirou o cachimbo e a bolsa de tabaco do fundo do bolso e começou a encher o fornilho do cachimbo.

     - Que tal a achaste? - perguntou, num tom casual.

     - Quem?

     - Esta jovem Degen.

     O tom casual, desinteressado, agradou-lhe.

     - Bastante agradável - respondeu ela. - Gostava de a ver mais vezes. É bonita, não achas?

   - Não reparei - disse ele.

     - Acho que o homem que casar com ela vai ser um felizardo.

     “Pois vai”, disse ele consigo mesmo, “pois com certeza que vai”. Acendeu o cachimbo e aproximou-se lentamente da janela que dava para o pátio, perguntando a si próprio que tal seria a vida se fosse Peggy Fleming que estivesse naquela casa de banho e ele ali, à espera dela, e aquele pátio fosse o pátio de ambos.

     A noite de quarta-feira era uma das melhores na televisão. Estavam os três sentados no escritório com a atenção focada no pequeno ecrã. Estava-se a desenrolar à sua frente a reexibição de um filme de terror antigamente famoso, com a sua multidão de horrores, monstros, médicos loucos e meninas assustadas. Danny estava todo encolhido no grande cadeirão de couro, como que hipnotizado. Helen cosia com placidez, dando apenas metade da sua atenção ao aparelho. Philip estava cheio de tédio, incapaz de estar quieto.

     No ecrã, o caixão fora finalmente aberto, revelando que o cadáver que continha engelhara até se tornar nas dimensões de um boneco, e nessa altura irrompeu um anúncio. Philip mudou de posição na cadeira. Apareceu o indicativo da estação, o sinal horário das oito e meia e depois começou outro anúncio. Philip virou-se para Helen.

     - Acho que vou dar uma volta no carro até à beira-mar - disse ele.

     Helen levantou os olhos para ele, franzindo a testa.

     - Parece-me que começo a ter uma vaga ideia para a Caroline Lamb - acrescentou ele depressa. - Gostaria de a aprofundar sozinho. Talvez o ar livre ajude.

     - Tens mesmo de sair todas as noites?

     - Vou só dar uma volta. Voltarei antes do fim do filme.

     - Uma família devia estar junta pelo menos uma noite por semana - teimou Helen.

     - Estivemos juntos quase toda a tarde.

     - Bom, como quiseres. Philip levantou-se.

     - Não me demoro.

     Foi buscar o casaco à sala de jantar e depois dirigiu-se para o carro. Fez rapidamente marcha-atrás até à rua e depois apontou o carro para leste, na direcção de Ridgewood Lane. Ao passar junto à cabina telefónica da estação de serviço ainda hesitou, pensando se devia ou não telefonar-lhe primeiro. Mas decidiu não o fazer. Sentia-se inseguro quanto ao estado de espírito em que ela se encontraria depois do fiasco no motel e a tarde nada lhe revelara de novo. Não queria sujeitar-se ao vexame de ouvir uma recusa. De momento, não tinha qualquer plano ou propósito definido. Queria consumar as suas relações - esse desejo era agora tanto parte dele como os membros do seu corpo-, mas não tinha a certeza de o querer tentar nessa noite. De certo modo, o dia seguinte parecia prometer algo de mágico e ele queria esperar até amanhã. Ia ver o Dr. Edling. Talvez encontrasse aí a fórmula que precisava. E também não se esquecera de que ia estar com a Tina Barlow. Talvez isso lhe desse a confiança que lhe faltava.

     Continuou a conduzir na fresquidão da noite. Afinal, que queria ele de Peggy? Continuava incapaz de definir as suas intenções. Todavia, ainda que de modo vago, pressentia que estavam a ser arrastados para mais perto um do outro, empurrados para um momento de decisão que ambos teriam de tomar. Ignorando o incidente ocorrido no motel na noite anterior, a primeira parte do serão tinha sido extremamente agradável e divertida. Ela fora, realmente, a perfeita companheira. Não conseguia lembrar-se de qualquer outra ocasião em que mais se tivesse deleitado na companhia de uma mulher. Recordava-se que enquanto estivera a beber com ela a considerara não como alguém que passava brevemente pela sua vida, mas como alguém que ali permaneceria com carácter permanente. Era-lhe difícil conceber um só dia do seu futuro que não fosse partilhado com ela. Fora essa sensação que o impelira a fazer perguntas a Horace Trubey. Na realidade, se tal lhe fosse possível, tentaria fazer perguntas semelhantes a toda a gente que a conhecia. Todas as informações que pudesse colher acerca de Peggy não eram suficientes. Queria, no decurso de uma breve semana, conhecer toda a vida dela. Se pudesse ser ela a acompanhá-lo à Europa, no cumprimento da proposta de Selby, tinha a certeza de resolver imediatamente, ali mesmo, o problema da história de Caroline Lamb.

     Ao mesmo tempo, e esse aspecto da questão pesou-o ele cuidadosamente, ela parecia estar a revelar um interesse especial e muito mais sério a seu respeito. Era como se o elemento transitório das suas relações tivesse sido, finalmente, posto de lado. No encontro da noite anterior, ela mostrara um interesse por ele que transcendia a simples atracção física. Quisera informar-se acerca do seu trabalho e da sua vida antes de se conhecerem. E as circunstâncias da visita dessa tarde. Ela não tinha, com certeza, qualquer interesse especial em estreitar relações com Helen ou em passar uma tarde a nadar junto de Helen. Não, havia ali qualquer coisa a mais. Era como se o estivesse também a investigar, para ter a certeza, para saber, para poder positivamente decidir se queria ou não investir-se totalmente nele.

     Era essa via que ele desejava explorar essa noite. Sentar-se-ia junto dela, na frente dela, beberia um pouco, fumaria o cachimbo e conversaria sobre muitas coisas. Ele falaria e ela falaria. Encontrariam, juntos, a raiz comum, o ponto profundo onde ambos se uniam, e, uma vez unidos, poderiam decidir o que podiam fazer, o que tinham de fazer. Se depois disso ele se aproximasse dela e a tomasse nos braços, com essa consciência mútua de uma nova compreensão, tinha a certeza de que ela o aceitaria e de que seria, finalmente, capaz de fazer amor com ela, com êxito.

     Involuntariamente, com a atenção meio concentrada na estrada, franziu o sobrolho perante esta última ideia. Seria todo esse plano de conversa séria com ela apenas outro meio logro, um subterfúgio para alcançar o essencial, um meio de se aproximar mais uma vez do seu corpo? Porque é que esta última ideia se introduzira assim, sub-repticiamente, no seu cérebro? Porque é que havia de ser sempre, e só, a consumação do acto sexual que lhe importava, e pouco mais? Estava decidido que o destino desse serão não seria o acto de amor. Ia visitar Peggy para conversar com ela. Seria o tipo de conversa que ainda não tinham tido. E que decidiria do que estava no futuro. Havia tempo depois para o resto.

      Quase sem ter consciência dos gestos físicos, virara para o norte de Sunset Boulevard e estava agora a subir Ridgewood Lane. Ao abrandar em frente da casa, viu que a luz da sala estava acesa. Parou o carro. O descapotável de Peggy estava na garagem e não havia ali perto outros carros. Até agora, tudo óptimo: ela estava só.

     Dirigiu-se para a porta e premiu o botão da campainha. Ficou à espera de ouvir passos, e ouviu-os. Pareciam-lhe estranhamente pesados. A porta abriu-se e uma gordíssima rapariga, de uns 15 anos, com calças azuis abomináveis, fitou-o atentamente. Reconheceu-a, no mesmo momento em que ela o reconhecia também.

     - Olá... Como está? - cumprimentou ela.

     Era a rapariga que vinha tomar conta do Steve e que vivia ao fundo da encosta: levara-a a casa na noite anterior.

     - Olá! A Sr. a Degen está?

     - Saiu às seis e meia, foi jantar fora. Vim tomar conta do Steve.

     - Ah! Saiu... saiu com alguém?

     - Veio buscá-la um senhor. Apresentou-mo. - Franziu a testa num esforço de memória. - Acho que era... um Sr. Caham ou Caman...

     - Cahill?

     - Isso mesmo!

     - Ela disse-lhe quando voltaria?

     - Só me disse que voltaria cedo. Quer o número do telefone do restaurante onde eles foram? Ela deixa-me sempre um número para o caso de o Steve adoecer ou haver qualquer novidade.

     - Não, obrigado! - disse Philip.

     - Quem devo dizer que veio?

     - Nada... ninguém - disse ele muito depressa. - Eu ia apenas a passar. Nada de importante.

     - Está bem.

      Ele virou-se e ela fechou a porta. Regressou ao carro, muito pensativo. Se tivesse o mínimo de sensatez, regressaria já a casa, mas a verdade é que detestava a ideia de aguentar durante outra noite aquele assunto inacabado, incompleto. Introduziu-se no carro e pôs o motor em movimento. A rapariga dissera que ela voltaria cedo, por isso talvez lhe valesse a pena esperar um bocado. Se se fizesse tarde de mais, podia sempre dizer à Helen que tivera um furo perto da praia e que o Automóvel Clube levara muito tempo a chegar. Meteu a alavanca em marcha-atrás e recuou ao longo da berma, tocando várias vezes o passeio, até se encontrar a uma distância segura de quatro casas. Encostou o pulso à luz do tablier: eram nove e um quarto. Saíra para um jantar cedo. Não demoraria, com certeza, muito tempo a chegar. Ligou o rádio do carro, mudou de estação até encontrar o jogo de basebol e depois acendeu o cachimbo, e ficando a escutar mas sem ouvir uma palavra.

     Uma vez, às dez para as dez, ouviu um carro que se aproximava. Acachapou-se mais no assento e ficou à espera. O carro passou ruidosamente por ele e afastou-se. Voltou a endireitar-se, aumentou um pouco o volume do rádio e continuou à espera. Reparou que estava a espreitar para o relógio de cinco em cinco minutos, o que fazia com que o tempo parecesse escoar-se com lentidão exasperante. Quando já eram dez e um quarto, decidiu que estabelecia como limite absoluto da sua espera as dez e meia. Tudo aquilo era uma idiotice. Estava a comportar-se como um mocinho de liceu meio maluco e apaixonado. A voz do locutor desportivo e as cantorias dos anúncios da cerveja complicavam-lhe os nervos. Apagou o rádio. Levou um fósforo ao fornilho do cachimbo e continuou à espera.

     Subitamente deu-se conta do som de outro automóvel e espreitou para o espelho retrovisor. O carro entrava agora em Ridgewood Lane. Acachapou-se outra vez no assento e ficou muito quieto. O carro passou lentamente por ele e depois deixou de ouvir o ruído do motor a trabalhar. Não se atreveu a levantar-se, por isso continuou agachado atrás do pára-brisas. Ouviu bater a porta do carro, lá mais à frente, e depois vozes indistintas. Foi-se levantando lentamente no assento. Mesmo àquela distância, e apesar da escuridão, teve a certeza de reconhecer Peggy. Estava acompanhada de um homem, da mesma altura que ela, e Philip apenas conseguia ver que, dali, lhe parecia entroncado. Pegava-lhe no braço e conduzia-a agora pelo carreiro na direcção da porta. Passado um momento, desapareceram os dois para dentro de casa.

     Philip endireitou-se então completamente atrás do volante. Estava inexplicavelmente irritado, pois sentia-se traído. Esperara que Jake Cahill a trouxesse até à porta, a beijasse castamente na face e partisse. Ela tivera um dia cansativo. Devia estar exausta. Que diabo ia ele fazer dentro de casa? Talvez ela tivesse querido ser gentil e o tivesse convidado a entrar durante um momento. Talvez para beber uma última bebida. Depois ele ir-se-ia embora e Peggy ficaria sozinha. Philip decidiu esperar mais quinze minutos.

     Esses minutos arrastaram-se com pernas de tartaruga. Passados esses quinze minutos, e depois vinte e cinco, Philip começou a estar fora de si. Sentia-se incapaz de aguentar mais. Tinha absolutamente de saber se Cahill se estava a preparar para sair ou se se instalara para maior demora.

     Saiu do carro, sem bem saber precisamente onde ia e o que ia fazer. Subiu a rua até junto do coupé de Cahill - do último modelo, observou com azedume e depois fixou os olhos na janela da sala de estar. Lembrou-se de que ainda não vira a rapariga sair. Estaria provavelmente na cozinha, à espera que Cahill a levasse no carro a casa. Quanto tempo iria aquele estupor manter a pobre pequena à espera?

     Deu a volta ao coupé de Cahill e caminhou sobre o relvado. Os estores não estavam inteiramente corridos, mas, mesmo assim, impediam-no de ver o que se passava na sala. Se estivesse mais perto, talvez conseguisse ver se Cahill se estava ou não a preparar para sair. Saltou a sebe e atravessou o relvado até se encontrar junto da parede da casa. Aproximou-se cautelosamente da janela e depois agachou-se e espreitou pela fresta das persianas.

     Cahill estava de pé junto da aparelhagem de alta-fidelidade, de costas para a janela. Parecia estar a colocar no gira-discos uma pilha de discos. Peggy estava sentada no chão, ao lado da mesinha de café, de pernas cruzadas, a passar as folhas de um álbum. Havia bebidas em cima da mesa. Sem levantar os olhos do que estava a ver, estendeu o braço e pegou num copo, beberricou e continuou a folhear o álbum. A rapariga que tomava conta de Steve não se via em parte nenhuma. Cahill acabara de colocar os discos e premia o manípulo. Naquela posição desconfortável, Philip calculou que aquela pilha de discos levaria uma hora ou duas a tocar. Cahill estava longe de pensar ir para casa. Agachado ao lado da janela. Philip tentou decidir o que é que devia fazer. Devia ir descaradamente até à porta, tocar a campainha e reunir-se à companhia? Devia abandonar a ideia e ir para casa? Endireitou-se, tentando chegar a uma decisão, quando subitamente ouviu o ronronar de um motor de automóvel e um farol escandalosamente brilhante lhe bateu no rosto.

     Instintivamente ergueu um braço e cobriu os olhos, enquanto o holofote baixava o seu jacto de luz até à altura do seu peito. Piscou os olhos e viu que a luz provinha de um carro branco e preto, agora parado, com o motor a funcionar, no meio da rua. De início pensou que fosse um táxi, mas depois a luz apagou-se e a porta do carro abriu-se. Apercebeu-se então de que era um carro-patrulha.

     Um polícia alto, de uniforme, com a mão no coldre de cabedal, estava de pé ao lado do carro. Depois fez-lhe sinal com a mão e disse-lhe:

     - Venha cá.

     Philip sentiu uma súbita transpiração inundar-lhe a testa e os lábios secarem-se-lhe enquanto atravessava o relvado com pernas que pareciam de chumbo. O polícia veio ao seu encontro, à beira do passeio, e com um gesto mandou-o aproximar-se do carro. O condutor, ainda lá dentro, um sujeito forte, vermelhusco, espreitou-o.

     O polícia mais novo e mais alto, que estava a seu lado, deu-lhe uma ordem breve:

     - Volte-se.

     Philip virou-se, ficou de costas para o polícia, que o revistou rapidamente, com breves palmadas no peito do casaco, nos bolsos laterais, nos lados e na parte de trás das calças.

     - Muito bem-disse o polícia. Philip virou-se para o enfrentar.

     - Ora o que é que você estava ali a fazer, amigalhaço? - perguntou o polícia. - Nunca ouviu falar de uma lei acerca de quem espreita às janelas dos outros?

     Aquilo tudo acontecera com tanta rapidez que Philip nem tivera tempo de concentrar ideias. Mas agora, de repente, o seu cérebro electrificara-se, atento aos perigos da situação. Se fosse preso, ali, naquele sítio, por espreitar ou por ser encontrado em atitudes suspeitas, ficaria exposto perante Helen. Não conseguiria arranjar uma explicação adequada, mas logo a seguir percebeu que as coisas nunca chegariam a esse ponto. Contaria a sua história e seria levado à porta da casa para ser acareado com Peggy. E ela diria que o conhecia, embora a humilhação dessa acareação o destruísse. Como é que Peggy o iria explicar aos olhos de Cahill? Olhou o rosto queimado de sol do jovem polícia. Que o Cahill fosse para o diabo. Era o seu futuro que estava em jogo.

     - Não é nada de grave - começou por dizer. A minha... a minha rapariga vive aqui. Ela saiu esta noite e tenho estado à espera que ela voltasse para casa. Até disse à rapariga que estava a tomar conta do miúdo que ficaria à espera cá fora. Mas ela voltou a casa com outro tipo e eu fiquei aqui à espera que ele se fosse embora. Queria falar com ela a sós.

     - Então que estava a fazer debaixo da janela?

     - Fui espreitar, para ver se ele estaria quase para se ir embora... Ou se devia desistir e ir-me embora.

     - Mostre-me a sua identificação.

     Rebuscou nervosamente a carteira à procura do cartão de identidade e passou-o para as mãos do polícia.

     Ficou à espera, com ar culpado e nervoso, enquanto o polícia iluminava o cartão com uma lanterna de bolso e olhava a carta de condução e outros documentos que entretanto Philip lhe entregara. O polícia levantou os olhos para ele.

     - Diz aqui que o senhor é casado!

     Philip chegou a pensar que o bater do coração lhe acabaria por quebrar as costelas.

     - Sou.

     - Então por que diabo é que anda aqui à procura de uma rapariga?

     - Fui eu que lhe vendi esta casa. Somos amigos. O polícia olhou para o condutor do carro e abanou a cabeça.

     - Caramba! Estes Romeus de pacotilha!

     Philip sentia-se tremer. Queria matar ali mesmo aquele tipo, mas mordeu os lábios e não disse nada. O condutor do carro inclinou-se para fora da janela.

     - Oiça lá - disse ele para Philip. - Talvez você estivesse aqui à espera para dar uma tareia no outro tipo.

     - Nem sequer o conheço - disse Philip. - Em todo o caso, o tipo é melhor do que eu. Estou-lhes a dizer, estava apenas à espera para poder falar com ela. Fui ali para ver se devia esperar mais tempo ou se era melhor ir-me embora.

     O polícia alto olhou para o condutor interrogativamente. Este fez um aceno de cabeça quase imperceptível.

     Entretanto o polícia alto virou-se para Philip.

     - Onde é que está o seu carro?

     Philip apontou para trás de si, para onde deixara o seu carro.

     O polícia alto entregou-lhe os documentos e disse num tom de desprezo:

     - Ponha-se a mexer.

     Philip fez um aceno de cabeça, aliviadíssimo, e dirigiu-se quase a correr para o carro. Meteu-se nele e pôs o motor a trabalhar. O polícia ainda o observava, mas depois voltou a entrar no carro e bateu a porta com força. O carro-patrulha afastou-se ruidosamente.

     Philip ficou sentado, sem forças, atrás do volante. Mal sentia energia bastante para fazer girar o volante, mas finalmente lá conseguiu. Deu meia-volta, fez marcha-atrás e depois dirigiu-se para o centro da cidade. Os tremores só lhe passaram quando já se encontrava em Sunset Boulevard.

     “As coisas a que um homem se sujeita”, pensou. “Porquê? “.

     Mas ele sabia bem porquê. E sabia que no dia seguinte estaria de volta.

    

     Quinta-feira à noite

     Philip, rígido, estava sentado numa cadeira a ver o Dr. Edling a falar para o bocal do telefone, mas não chegava a ouvir as palavras exactas que o médico pronunciava, porque só exteriormente estava atento, encontrando-se inteiramente absorvido pelos seus próprios problemas. O telefone soara estridulamente uns minutos antes e o Dr. Edling desfizera-se em desculpas pela interrupção. Ainda com o telefone na mão, explicara-lhe que o seu serviço de mensagens tinha ordens explícitas para só o interromperem em casos de emergência. Philip aceitara a explicação com um aceno generoso, pois até agradecia aquela pausa na conversa. Precisava de um momento de tranquilidade para reagrupar as ideias e encontrar uma maneira de transferir a discussão de Danny para Peggy Degen.

     O Dr. Edling continuava a falar ao telefone e Philip sintonizou durante uns momentos a sua atenção para a conversa telefónica que ele tinha: aparentemente, o assunto em discussão era o caso de uma jovem estudante do liceu que se descontrolara e destruíra a mobília do quarto. Era a mãe que telefonava. Philip deduziu da conversa que a rapariga era uma cliente recente. O Dr. Edling tentava sossegar a mãe e Philip escutou mais um momento, mas depois afastou a sua atenção. “Peggy”, pensou. “Como diabo é que ia meter Peggy Degen na conversa?”

     Deitou uma olhadela ao relógio de pulso. Já entrara naquele consultório há quase meia hora e estivera desde então a discutir assuntos relacionados com o filho. As sessões psiquiátricas deviam demorar cerca de cinquenta minutos e não uma hora. Imaginava que esses dez minutos de intervalo serviam para permitir ao psiquiatra ir à casa de banho ou ajustar as suas antenas para os problemas do paciente seguinte. Bem, já se tinham escoado trinta dos cinquenta minutos e isso só lhe deixava vinte minutos para colocar o problema da impotência. Teria de ir direito ao assunto, mas como?

     Fitou o Dr. Edling. As limitações de tempo sugeriam a necessidade de um ataque directo. “Senhor doutor, pondo o Danny de lado apenas por um momento, tenho um problema”. Isso permitir-lhe-ia entrar no assunto, e vinte minutos talvez bastassem. Atrever-se-ia? Para já, o Dr. Edling fora descoberto por Helen. Além disso, talvez o Dr. Edling estivesse secretamente divertido. Como podia ele confidenciar um segredo tão humilhante a um perfeito estranho? Todavia, parecia-lhe ser essa a única solução lógica.

     Originalmente, durante toda a manhã, enquanto esperava pela hora aprazada, as onze e meia, e mesmo durante a viagem até ao consultório do Dr. Edling, tinha pesado mentalmente a sua via de aproximação e tinha-lhe polido as arestas. Trataria com o psiquiatra como tratara com o seu médico. Utilizaria o mesmo amigo fictício, atrás do qual se ocultara para obter informações do Dr. McGrath. Mas a partir do momento em que se aproximara do Dr. Edling e lhe apertara a mão, esse dispositivo cuidadosamente preparado parecera-lhe vergonhosamente transparente e infantil.

     Chegara ao consultório com meia hora de antecedência e com sentimentos mistos de receio e de ressentimento. Amargurava-o a noção de pôr a sua alma a nu perante um homem que, afinal, não era mais do que um seu igual. Detestava ver-se colocado numa posição em que precisava de ajuda, e a verdade é que tinha receio das artes mágicas do feiticeiro. Receava-as e, simultaneamente, sentia-se ansioso e esperançado.

     Fora encontrar o consultório do Dr. Edling no fim de um longo corredor, no 1.º andar de um edifício médico, e entrara na pequena sala de espera confiante de que ali encontraria uma enfermeira-recepcionista que, afinal, não existia. Desconcertado e cada vez mais apreensivo, sentara-se a folhear os inevitáveis exemplares da Fortune e do New Yorker, à espera. Uma vez julgou aperceber-se do ruído de vozes abafadas para além da porta da sala adjacente e pôs-se atentamente à escuta, mas nada conseguiu ouvir. Estava à espera havia dez minutos quando, finalmente, apareceu o Dr. Edling.

     O psiquiatra era um homem pequenino, muito bronzeado. Não era ainda inteiramente calvo, mas em breve o seria. Farripas de cabelo cobriam-lhe o crânio, profusamente coberto de sardas, e essa calvície expansiva dava-lhe a aparência de ter uma testa muito alta e de ser imensamente sábio. Os olhos, por detrás de óculos sem aros, eram directos e amigáveis. Usava lacinho. o que prenunciava uma certa preocupação de elegância, mas, afinal, as calças eram surpreendentemente largas e o efeito de conjunto era de desleixo. Ao cumprimentá-lo com um firme aperto de mão, Philip verificou que a voz, ao natural, era tão macia como lhe parecera ao telefone. Os seus movimentos, ao seguir Philip para o grande gabinete e ao apontar-lhe uma cadeira, ao sentar-se no seu lugar, um assento almofadado entre um sofá castanho e a secretária, eram calmos e respeitosos. Mais tarde, depois de terem conversado um bocado, Philip decidiu que a fala bem modulada do Dr. Edling era um instrumento para chamar a atenção. Quando ele falava, era-se obrigado a inclinar o busto para a frente e a escutar atentamente para conseguir apanhar todas as palavras. Mas mais tarde ainda, depois de terem conversado mais um bocado, Philip convenceu-se de que aquela voz modulada era mais do que isso: era, talvez, uma maneira de não amedrontar os amedrontados, de sossegar, de consolar, de tornar claro que, afinal, nada daquilo era extraordinário, e anormal, e desesperado.

     Uma vez sentado, Philip apenas olhara de relance para o divã inimigo com o seu fresco naperão, e depois jamais se atrevera a olhar para lá, embora nunca chegasse a esquecer-se por completo da presença dele ali ao seu lado. Sentara-se de frente para o Dr. Edling, tentando parecer descontraído e à-vontade, e perguntara se podia fumar. O Dr. Edling, que examinava vários verbetes que tinha à sua frente, garantiu-lhe que não se importava nada. Philip tinha a certeza de que aqueles verbetes continham notas tiradas no encontro anterior com Danny e com Helen. E perguntava a si mesmo, com certa raiva imprecisa, o que é que Helen dissera contra ele, por isso decidiu-se a refutar todas essas acusações, que lhe eram familiares, de maneira subtil.

     O Dr. Edling erguera os olhos para ele e começara imediatamente a falar de Danny. E falava do miúdo com um tom que parecia de genuíno afecto. Parecia considerá-lo uma criança excepcional, prometedora, cativante, e Philip começava a sentir-se confortável mente orgulhoso com os elogios. “Danny pode vir a ser tudo o que quiser”, dissera o Dr. Edling. E depois acrescentara, com um sorriso: “Mesmo psiquiatra. “ Depois, o Dr. Edling fora prosseguindo e, gradualmente, tão gradualmente que a introdução do facto foi quase inteiramente indolor, Philip foi informado de que o seu filho não estava a realizar todo o seu potencial, de que se sentia infeliz. Agarrara-se ao Dr. Edling porque desejava e necessitava de um pai. Resistia a visitar as casas de amigos, ou a ir para acampamentos ou para a escola, porque se sentia receoso e inseguro, pois não sabia se os seus pais estariam à espera dele quando regressasse. E assim prosseguira a conversa nessa direcção, interminavelmente. Nada do que o Dr. Edling estava a dizer era inteiramente novo para Philip. Tudo aquilo ele sentira ou compreendera neste ou naquele momento da sua vida, mas ao escutar o psiquiatra considerava pela primeira vez que fora incapaz de agir sobre todas essas coisas que sentira ou que percebera. Contudo, não sabia bem como, essas coisas sabidas e ressabidas, apresentadas agora pelo Dr. Edling, pareciam-lhe subitamente novas e esclarecedoras.

     Impaciente como sempre, Philip queria respostas fáceis. Ao procurá-las, interrompia, mas o Dr. Edling não podia prometer uma panaceia rápida. Teria de conhecer melhor o Danny. Teria de saber muito mais acerca de Helen e de Philip. “Baseado numa única conversa com cada um de vós, é-me impossível fazer qualquer profunda recomendação que vos ajude”, dissera ele. “Depois de mais algumas visitas, serei então capaz de fazer um diagnóstico e de sugerir um programa de tratamento isto é, se achar que é necessário tratamento. “ E, prosseguindo ainda, mencionara a absoluta necessidade de uma sólida ligação familiar, a necessidade de uma relação consistente com Danny.

     E quase casualmente, pelo menos assim o parecia, começara a fazer perguntas a Philip acerca das suas atitudes para com Danny e das suas actividades na companhia do filho, imediatamente na defensiva, Philip preparava-se para revelar os melhores aspectos, e apercebeu-se então de que o Dr. Edling já estava à espera de uma versão altamente seleccionada. Por isso, com uma franqueza e honestidade brutais, que nunca são realmente francas e honestas ou subjacentes a um nível estudado e consciente, Philip contou ao psiquiatra uma série de anedotas que lhe não eram nada favoráveis. O Dr. Edling não deu mostras de estar, nem intrigado nem escandalizado. E Philip decidiu que mais valia equilibrar um pouco mais o quadro. Afastou Calígula e tornou-se um Marco Aurélio admirável e compreensivo. E já estava nisto havia vários minutos quando a chamada telefónica o interrompeu bruscamente.

     Agora, enquanto esperava o reatamento da consulta, continuava a sentir-se vagamente perturbado pelo seu confuso papel de pai de uma criança perturbada. Todavia, na presença do Dr. Edling, sentia-se a salvo quanto a esse aspecto da sua vida. Sentia que ao virar de uma esquina poderia encontrar a saída. Era uma coisa que podia ser resolvida num futuro muito próximo, embora o seu problema com Peggy Degen fosse algo de mais imediato e mais grave. Ali estava um canto escuro que, em menos de uma semana, se transformara numa obsessão. Arruinara-lhe toda a racionalidade, destruíra toda a actividade normal, ameaçava torná-lo impotente, não só como homem sexualmente capaz mas como um ser humano integral. Não estava bem certo quanto aos sintomas exactos de um colapso nervoso, mas, fossem eles quais fossem, tinha quase a certeza de que se aproximava com grande rapidez dessa espécie de terramoto emocional.

     Subitamente apercebeu-se de que o Dr. Edling pousara o telefone e o observava. Retirou rapidamente o cachimbo dos lábios e esvaziou o fornilho no cinzeiro de pé que estava a seu lado. Procurou a bolsa de tabaco e, depois de a encontrar, voltou a encher o cachimbo.

     - Lamento esta chamada que nos interrompeu disse o Dr. Edling. - Estava a falar-me da primeira vez que levou o Danny a um jogo de basebol.

     - Claro! - disse Philip. - Foi magnífico. - Sentia-se agora cansado e pouco convencido a respeito das suas relações com Danny. - Ele nunca demonstrara qualquer interesse pelo basebol, mas eu decidi levá-lo. Só nós dois. Expliquei-lhe as regras, o que se estava a passar, comemos pipocas e cachorros, tudo o que se costuma fazer nestas circunstâncias. Não percebeu nada de nada do jogo, mas não há dúvida de que se divertiu imenso.

     - Talvez não lhe fosse preciso perceber o jogo. Talvez gostasse simplesmente de estar consigo.

     - Suponho que foi isso. Enfim, divertimo-nos imenso. E tento sempre levá-lo, pelo menos uma vez por mês. E é sempre magnífico.

     O Dr. Edling ficou calado durante um momento e olhou atentamente os verbetes que tinha em cima da secretária. Depois levantou os olhos.

     - Tenho a certeza de que foi magnífico, Sr. Fleming, mas tenho apenas as suas palavras a dizer-me isso, mas não o seu rosto.

     - Não percebo!

     - O senhor está-me a contar as horas magníficas que tem passado com o seu filho nos jogos de basebol, e isso devia trazer-lhe um sorriso aos lábios, uma expressão de felicidade, mas tal não acontece. A sua expressão, ao falar, permaneceu perturbada, exactamente como estava antes. O senhor já me disse como desejava ter um filho, como ficou feliz quando este nasceu, a alegria daquele primeiro Natal... As suas palavras exprimiam alegria, mas, devo dizer-lho com franqueza, a sua expressão era, bom... deprimida.

     Philip sentiu apoderar-se outra vez dele a tensão defensiva.

     - Não me tinha apercebido...

     - Não, claro que não. Deixe-me explicar-lhe uma coisa, Sr. Fleming. O senhor é extremamente inteligente. E é escritor. Até certo ponto, estamos na mesma profissão. Por isso posso ser mais aberto consigo, explicar melhor as coisas. Quando o senhor vai visitar o médico, vai lá para discutir com ele coisas físicas. Quando vem a um psiquiatra, vem aqui discutir sentimemtos, Geralmente, quando os pacientes sentem necessidade de nos visitar, trazem os sentimentos, por assim dizer, perto da superfície. É por isso que quando o paciente fala connosco, nós rapidamente descobrimos discrepâncias entre o conteúdo e disposição. Compreende-me?

     - Não sei bem...

     - Aquilo que diz não confere com a sua aparência no momento de o dizer. O senhor está a contar coisas que lhe deviam causar satisfação, algo de agradável que se devia reflectir no seu rosto. E, no entanto, nada disso transparece. Em vez disso, o que eu lá vejo é ansiedade, por isso digo para mim mesmo: “Algo o preocupa, parece-me infeliz. “ Depois pergunto-me ainda: “Ora, o que poderia ser? “ Olhou muito directamente para Philip. “Talvez gostasse de me dizer do que se trata, Sr. Fleming? “

    “É astuto o estuporzinho”, pensou Philip. Mas, é claro, ali estava a sua deixa. Era só mergulhar e acabar com aquilo. Peggy Degen. O nome dela estava-lhe na ponta da língua. Bastava-lhe mencioná-lo e esperar as artes mágicas. Todavia, inexplicavelmente, não o conseguiu fazer.

     - É uma coisa estritamente pessoal - disse ele. Não tem nada a ver com o meu filho.

     - Pois eu acho que a maioria das coisas realmente pessoais na sua vida podem ter muito a ver com o seu filho, não é verdade?

     “Coscuvilheiro lascivo, é o que tu és”, pensou Philip. “Agora está a ver se tira nabos da púcara. Está a armar em esperto. Com a livralhada toda que leu, bem é capaz de o conseguir. Tratá-los assim, depois tratá-los assado. Levá-los durante algum tempo com jeitinho, sem os assustar, até depois começarem a confissão. Devagarinho, devagarinho. “

     “Pretensioso de um raio! “, continuou Philip a pensar. “Sabe tudo, e sabe que sabe tudo, mas vai-me obrigar à humilhação do confessional. Quem era aquele personagem do Dickens? Tão humilde que dava vontade de vomitar! “

     Sentiu a náusea no fundo da garganta e apertou bem a boquilha do cachimbo nos dentes. Depois pegou no cachimbo, pois sabia que a mão lhe tremia. Ficou furioso por isso.

     “Oh, que vá tudo para o diabo”, decidiu subitamente. “Que diferença faz aquilo que eu lhe disser? Que é que isso importa? Quem é ele, afinal? Em todo o caso, nunca mais lhe ponho a vista em cima. Paciência! Que significa este tipo para mim? Porque é que estou a ralar-me tanto com tudo isto?

     E, de repente, pensou: “Escandaliza-o, escandaliza esse estupor até ele ficar abandonado. Dá-lhe um pontapé no traseiro Despeja-lhe tudo em cima. Diz-lhe tudo e olha bem para a cara dele.”

     Puxou uma fumaça do cachimbo, expeliu uma nuvem de fumo, e sentiu-se logo esvaziar como se fosse um balão rebentado. Sentiu isso tudo e percebeu que o Dr. Edling também o tinha visto. A ira e o azedume continuavam lá, mas já não se dirigiam àquele homem que estava sentado à sua frente. Estavam virados para dentro, para o alvo justo, e logo toda aquela miserável fachada de amor-próprio se desmoronou, fazendo-o sentir-se esvaziado e exposto. Queria antes agir através de artes mágicas. Que se lixassem a vergonha, a humilhação, o orgulho. Mágica. Mágica imediata.

     - Para falar com franqueza, pôs o dedo na ferida acabou por dizer. - Ando muito perturbado, doutor.

     O Dr. Edling ficou calado.

     - Fui ontem visitar o meu médico assistente continuou Philip, ainda hesitante. - O Dr. McGrath. É um interno...

     - Bem sei, eu conheço. E que se passava consigo? Philip tocou o peito.

     - Tinha aqui umas dores. Fez-me os exames todos, mas nada no coração, tudo em ordem. Disse que era tensão. - Philip hesitou, mas depois prosseguiu: - Falámos durante um bocado e pedi-lhe alguns conselhos para um amigo meu. Disse-lhe que o meu amigo, e que é casado, estava a ter uma ligação amorosa com outra mulher, mas que tinha algumas dificuldades. Era... bem, não conseguia, não era capaz de fazer amor com ela. O Dr. McGrath pensou que podia tratar-se de qualquer deficiência física até eu lhe dizer que o meu amigo não tinha qualquer dificuldade semelhante com a própria mulher. Depois o Dr. McGrath sugeriu que poderia ser de origem mental e que o meu amigo deveria visitar um psiquiatra. - Philip pousou os olhos durante um instante no divã e depois olhou directamente para o Dr. Edling. - Suponho que o Senhor Doutor sabe muito bem que não havia amigo nenhum. Que eu estava a falar de mim mesmo.

     - Não, não sabia.

     - Ia tentar a mesma coisa consigo, mas calculei que percebesse tudo e eu fizesse figura de parvo. Suspirou fundo. - Portanto, aí está. O problema sou eu.

     - Bem, estou muito satisfeito por não ter conservado uma atitude secreta. Não há aí nada que o envergonhe. A impotência temporária não é nada rara.

     - Mas eu acho que é - insistiu Philip. Agora que a coisa estava posta a nu, decidira flagelar-se e mortificar-se.

     - Posso assegurar-lhe que não o é. E não é nada surpreendente que estivesse a sentir reflexos cardíacos. Problemas emocionais têm, muitas vezes, sintomas físicos.

     - O meu coração é o que menos me preocupa disse Philip com impaciência. - Tudo isto se tornou uma obsessão. Estou confuso. Nem consigo pensar, estou a dar em maluco.

     - Não me admira nada - disse o Dr. Edling compreensivo. - Quer falar-me disso?

     “Ora cá vamos”, pensou Philip. Lembrou-se de um jantar em que toda a gente se entretivera a discutir as razões que levavam os homens a escolher as suas várias profissões e carreiras. O que é que levava um homem a tornar-se cirurgião e a cortar carne humana? Tinham decidido que a escolha do cirurgião estava enraizada no sadismo. Por detrás do juramento de Hipócrates e da lenda do Curador, erguia-se o espectro do marquês De Sade. O bisturi era a sua libertação e a sua satisfação. E o psiquiatra? Era aquele alfaiate curioso que na célebre lenda de Coventry fora marcado para sempre com o nome ignominioso do Peeping Tom, o Espreita. Todo o psiquiatra estava, subconscientemente, a gozar os prazeres de espreitar pelos buracos da fechadura. Para ele, cada paciente era uma Godiva nua. Ver assim, sub-repticiamente, o que era proibido, era essa a sua libertação e a sua satisfação. No tal jantar tudo aquilo parecera vivo, brilhante e superior. Mas naquele momento Philip estava menos interessado nessas subtilezas.

     Ouviu a própria voz e as palavras pronunciadas, mas sentia-se demasiado distanciado para se interromper. “Começou no domingo à noite”, estava ele a dizer. “Bom, realmente já foi antes, pois tudo aconteceu no sábado à noite. Houve uma festa e estávamos a namoriscar um bocado. Depois ela convidou-me a ir até lá, ou talvez tenha sido eu que me convidei, não me lembro bem. Seja como for, combinei ir lá na noite seguinte. Era domingo. Foi no domingo passado.”

     Deteve-se um momento para reorganizar mentalmente a sequência dos acontecimentos e ouviu a voz do Dr. Edling perguntar:

     - O senhor já tinha feito alguma coisa semelhante anteriormente?

     - Nunca - disse Philip de imediato. - Nunca, nem uma só vez fui infiel a Helen. E suponho que isso também é anormal!

     O Dr. Edling permaneceu calado. Philip entretanto continuou:

     - Não posso dizer que tenha havido alguma razão especial que me leva a isso. A verdade é que talvez andasse apenas um pouco infeliz e aborrecido. Suponho que Helen lhe deve ter dito que ultimamente não nos temos andado a dar muito bem! Nada de grave, apenas questiúnculas e discordâncias regulares. E depois o Danny. Bem, já sabe tudo isso. O meu trabalho também não tem ajudado muito, acho eu, pois não tenho estado a gostar do que faço... Tem sido como quem se perde num labirinto de onde não se sabe como é que se sai. Especialmente quando se não sabe para onde se quer ir. Enfim, eu tinha a casa à venda e um dia ela entrou, e ali estava. Fiquei estupefacto como um rapazinho de escola. Desde que cresci que não sentia daquela maneira acerca fosse de quem fosse. Era jovem, bonita, viva... e disse que me amava. - Olhou esperançadamente para o Dr. Edling, em busca de simpatia. O Dr. Edling acenou com expressão tolerante. Philip queria ter a certeza de que o homem o compreendia. - Quero dizer, aqui está esta rapariga perfeita, e quer-me... sou alguém... ela faz-me sentir um homem.

     - E não acha que obtém isso de sua mulher?

     - Com certeza que não. Helen é a castradora original. Tem andado há anos a castrar-me aos bocadinhos e suponho que nem sabia até que ponto poderia chegar até Peggy.

     De repente calou-se. Reparou que acabava de mencionar o nome de Peggy pela primeira vez. Observou o rosto do Dr. Edling para ver se descobria qualquer reacção a esse deslize, mas não viu lá nada. Sentia-se até certo ponto desleal por ter pronunciado o nome dela sem autorização prévia. Peggy e ele possuíam um segredo, partilhavam uma vida privada, e agora, ele estava a trazê-la a público perante um estranho e a expô-la, com nome e tudo, perante esse estranho. Mas o mal estava feito, e aquilo era tanto por ela como por ele, portanto não havia necessidade de se sentir constrangido e culpado por causa disso.

     Deu uma olhadela ao relógio: ainda tinha catorze minutos. Tinha de dar passos de gigante na sua exposição. Levantou os olhos.

     - Enfim, marcara esse encontro com Peggy, apareci. Bebemos, conversámos, beijámo-nos. Desejava-a, mas acho que devo ter estado com uma pontinha de medo. Não sei bem porquê, mas as coisas chegaram a um ponto em que ela se pôs de pé e me perguntou, frontalmente, se queria ir para a cama com ela... Assim mesmo. Bom, eu queria, e disse-o. Dez minutos depois estávamos na cama, mas quando chegou o momento, não fui capaz. Não aconteceu nada. Por mais que eu tentasse, nada feito. Ela aceitou as coisas com bastante generosidade, mas, pelo meu lado, já não posso dizer o mesmo. Fiquei perturbado desde então...

     - Foi essa a única vez que tentou fazer amor com ela?

     Philip detestou esse momento.

     - Não. Tentei na noite a seguir, e ainda na outra. Desde então, mais nada.

     - Mas desde essa altura teve relações com a sua mulher?

     - Tive. Depois de ter falhado pela terceira vez com Peggy, voltei para casa e estive com a Helen. Acho que não devo ter procedido bem... mas tinha de o fazer.

     - E não teve quaisquer dificuldades?

     - Nenhuma.

     - Esse tipo de acidente... essa impotência... já ocorreu alguma vez no seu casamento, com a sua mulher?

     Philip pensou um momento.

     - Talvez uma vez ou duas. É difícil de recordar. Claro que deve ter acontecido, talvez duas ou três vezes, em ocasiões em que estava muito cansado, ou muito bem bebido, mas, normalmente, não há qualquer problema.

     - A sua mulher é uma parceira sexual razoavelmente agressiva? Isto é, preocupa-se em estimulá-lo directamente, tenta interessá-lo?...

     - Não sei bem. Talvez às vezes, porquê?

     - Bem, o problema é bastante complexo. Deixe-me tentar e dar-lhe uma explicação. Muitos homens, um número surpreendentemente grande, são bastante passivos na cama, pode dizer-se que andam à procura de alguém que os trate maternalmente. Por isso, têm tendência para a impotência. Uma mulher agressiva pode muitas vezes sobrepor-se a essa tendência, estimulando-os, fazendo-os sentir-se seguros, masculinos, grandes.

     - Não tenho a certeza de que a Helen tenha sobre mim esse efeito. Enfim, nesse aspecto, damo-nos bastante bem. Não tenho nenhum verdadeiro problema com ela.

     - Suponho que não. Ao fim e ao cabo, ela é a sua mulher legítima. Aquilo que você faz com ela é próprio e aceitável.

     - Que quer o senhor dizer com isso?

     - Explicarei dentro de um momento - disse o Dr. Edling. - Quero apenas continuar a sua discussão. Essa senhora com quem tem tido essa ligação frustrada... é relativamente agressiva na vida sexual?

     Philip meditou um pouco. Finalmente abanou a cabeça.

     - Acho que não... pelo menos nesse sentido. É claro que, de certo modo, foi ela que me convidou a ir para a cama, e tem-se mostrado bastante interessada, mas, uma vez na cama, a iniciativa tem de ser minha. O senhor acha que tem alguma coisa a ver com isto?

     - Não, acho que não.

     - Então que se passa comigo?

     - Receio não me ser possível dar-lhe uma resposta ainda, Sr. Fleming. Sei que o senhor está numa situação infeliz... e impaciente por resolvê-la, mas pode levar algum tempo. Talvez essa impotência temporária seja isso, e mais nada, temporária, isto é, um acidente isolado, uma perturbação isolada, que se curará a si mesma e que desaparecerá, embora o deixe numa situação tão normal como estava anteriormente. Por outro lado, pode ser algo de mais profundo. Não sei qual será... e não o poderei saber até conhecer muito mais intimamente os seus problemas.

     Uma velha e antiquíssima recordação acudiu à memória de Philip. Acordara no meio da noite, ou assim lhe parecera, e chamara a mãe, depois o pai, e nenhum deles respondera. Cheio de medo, saíra da cama para os procurar, através da casa vazia e escura. Não conseguiu encontrar qualquer deles, por isso ficara parado no meio da sala, aterrorizado, encharcando o pijama, arrepiado e a choramingar - até eles regressarem do alpendre que ficava do outro lado da rua, onde tinham estado a conversar com alguns amigos.

     Fitou atentamente o Dr. Edling.

     - Quer dizer que nada me pode recomendar por agora?

     - Nada de específico acerca do seu caso, porque não conheço o seu caso. Posso dizer-lhe, e dir-lhe-ei, as causas básicas do tipo de impotência que o senhor me descreveu. Talvez isso lhe dê uma compreensão mais profunda do problema que o tem preocupado. Em visitas ulteriores, espero, poderemos explorar as coisas um pouco mais a fundo e talvez encontrar a causa exacta.

     - Mas eu preciso de saber agora!

     - Quer o senhor dizer que tenciona continuar essa ligação?

     - Tenho de continuar.

     O Dr. Edling ficou muito quieto. Só os seus dedos mexiam, tamborilando lentamente os verbetes que tinha em cima da mesa.

     - O senhor sabe que isso pode vir a ter as mais graves consequências para a sua família e para si?

     - Mas eu amo essa rapariga, doutor. Pelo menos, acho que sim.

     - Bem...

     - Tenho de fazer amor com ela. Neste momento nada mais me importa...

     Até certo ponto. Philip esperava que a expressão do Dr. Edling revelasse censura, mas, em vez disso, o rosto do médico apenas mostrara preocupação.

     - Se realmente acha que tem...

     - Sim, caramba, acho que tenho - disse Philip. - O Senhor Doutor ia-me falar das causas...

     O Dr. Edling mudou de posição.

     - Muito bem - disse ele por fim. Havia na sua voz como que uma sugestão de pena. - Eu diria que uma das causas primárias da impotência é o sentimento de culpa... O sentimento do pecado por ter uma ligação extramatrimonial... Sentimento de culpa por obedecer a um impulso socialmente inaceitável. O senhor sabe, e eu sei, que a sociedade olha com maus olhos as infidelidades conjugais. É claro que tais infidelidades acontecem, mas ambos sabemos que são consideradas um mal, um pecado, um acto que provoca a desaprovação aberta das pessoas e que tem de ser praticado em segredo. - Estava agora mais direito na cadeira, um pouco inclinado para a frente, na direcção de Philip. - Todos os homens sofrem impulsos inumeráveis que não são aceitáveis na sua comunidade. Alguns desses impulsos são impulsos sexuais, mas outros são impulsos agressivos. Quando uma pessoa é tentada por eles, sente-se culpada. Por exemplo, se se tem um irmão, toda a gente espera que se goste dele, mas se uma pessoa secretamente o odeia, está perante um impulso agressivo que o envergonha e que o obriga a sentir-se culpado. O mesmo acontece com o sexo. O senhor tem uma esposa, uma família, um lar, uma posição na comunidade. Há pessoas que dependem de si como ganha-pão. Tudo isto é compreendido e aceite. Então, subitamente, aparece um impulso inaceitável. O senhor conhece outra mulher, deseja-a, quer fazer amor com ela. Se é capaz de sacudir esse impulso, e continuar a sua vida normal, isso é como que um atestado da sua maturidade. Se não é capaz, se sucumbe à tentação, bom, isso pode querer dizer que o senhor se terá de submeter a uma certa dose de pressão, de tensão. Sabe que está a fazer uma coisa errada, mas mesmo assim não abdica. Lá bem no fundo do seu íntimo, sente-se culpado. Está a cometer uma transgressão contra a família, o lar, a sua posição na sociedade, o seu papel de chefe de família. Mas está obcecado, por isso continua. O sentimento de culpa sobrepõe-se ao desejo, por isso sofre torturas de ansiedade. E, no momento do acto sexual, essa ansiedade, resultante do sentimento de culpa, torna-o temporariamente impotente.

     Philip seguira, inteiramente absorvido, essa recitação de um texto de manual. Parecia uma explicação tão natural e tão simples. Era curioso, mas já nem sequer se sentia ameaçado.

     - O Senhor Doutor acha que foi isso que me aconteceu?

     - Possivelmente. Não sei.

     - Mas não é essa a única explicação?

     - Oh, não! Há muitas mais. Estou apenas a tentar apontar-lhe algumas das básicas. Outra causa de impotência pode ser a atitude da pessoa em relação ao sexo. Grande número de pessoas consideram o acto sexual como algo de que se fala por detrás da mão, algo de desagradável, pecaminoso, sujo.

     - Tenho a certeza de não ser desses!

     - Não esteja tão certo. O senhor pode muito bem desconhecer os seus verdadeiros sentimentos. Em todo o caso, essa atitude para com o acto sexual dá origem ao macho agressivo, ao tipo de homem que deseja magoar a parceira, E também isto pode dar origem a impotência temporária.

     - Não compreendo.

     O Dr. Edling piscou os olhos voltados para o tecto e depois voltou a pousar o olhar em Philip.

     - Vou exemplificar com uma analogia. O senhor é soldado e está na primeira linha de combate com um camarada seu. Esse seu camarada quer fazer uma carga contra um ninho de metralhadora. O senhor acha isso insensato. Ele faz um movimento para se atirar para a frente, mas você estende o braço direito para o deter, não o conseguindo fazer. Ele vai mesmo para diante e é instantaneamente morto. Se o tivesse conseguido deter com aquele movimento do braço direito, talvez ele ainda estivesse vivo. Pouco tempo depois, esse braço direito aparece paralisado. A causa, é claro, é psíquica. O seu braço direito é o braço criminoso, o mesmo braço com que você, uma vez, quando ainda criança, quis dar um soco no professor ou bater no seu pai, sem se atrever a isso. Está a perceber até aqui?

     Philip acenou, ligeiramente irritado, mas depois resignou-se, pois não havia realmente condescendência no tom de voz do Dr. Edling.

     - Da mesma maneira, uma pessoa pode ter um órgão criminoso - continuou o psiquiatra. - Em miúdo obrigavam-no a ser muito bonzinho, muito limpinho, obrigado a não lutar, avisado de que a masturbação era um pecado. A sua agressividade foi inibida. Durante o seu crescimento, e até à sua maturidade, foi-se convencendo de que o seu órgão de reprodução representava a masculinidade, a virilidade. Surgiu-lhe o desejo de usar a sua recém-adquirida capacidade de fazer amor de maneira agressiva, para se provar a si mesmo. Quando tinha relações com a sua mulher, imaginava que a estava a magoar, o que o tornava confuso e culpado. Porque essa capacidade de amar devia ser usada para dar prazer e estava a usá-la destrutivamente, com intenções agressivas. O órgão criminoso preocupava-o, por isso tentou recalcar essa intenção agressiva, tentou inibi-la. Como resultado de tudo isso, ficou temporariamente impotente.

     - Isso não faz sentido - disse Philip.

     - Devia fazer. Talvez me tenha explicado precipitadamente, mas garanto-lhe que essa causa de impotência sexual pode-se manifestar de muitas e variadas maneiras. Uma pessoa que sofre dessa maneira pode também sofrer consequências semelhantes na sua vida social e na sua carreira. Pode transformar-se numa pessoa que nunca chega a revelar a sua vontade, que se não atreve a tomar determinadas atitudes, que se mostra indecisa em momentos críticos. Tudo isso é uma e a mesma coisa.

     Philip sentiu-se de repente abandonado, traído. Estava demasiado cansado para fazer qualquer protesto ou comentário. O Dr. Edling observava-o.

     - Verificamos muitas vezes - disse o Dr. Edling com brandura - que as várias formas de impotência andam de mãos dadas com estados depressivos. Um homem que sofre de impotência tem geralmente fracas relações interpessoais. Pode ser, exteriormente, encantador, afável, mas é apenas superficial. Sob essas aparências, sente-se só, deprimido, incapaz de ter com as pessoas contactos ricos, e aqui incluen-se contactos sexuais... Percebe, muitas vezes nem sequer é capaz de cumprir a sua obrigação como homem, para poder criar laços normais com uma mulher.

     - Não me sentia deprimido até entrar aqui - queixou-se Philip.

     - Não foi minha intenção perturbá-lo ainda mais disse o Dr. Edling. - Estava apenas a tentar clarificar as coisas. Queria apenas que soubesse que existem razões perfeitamente compreensíveis para a impotência temporária e que podem ser tratadas.

     - Bom, isso já é qualquer coisa.

     - O senhor tem andado perturbado, mas acho que devia saber que isso pode estar mais relacionado com incidentes anteriores da sua vida do que com este incidente em particular. É claro que o senhor me contou um pouco de si mesmo. Já o facto de ter essa ligação extraconjugal me diz qualquer coisa e o facto de ter fracassado diz-me ainda mais.

     Deu uma olhadela ao relógio e levantou-se.

     - Fique com a certeza, Sr. Fleming, de que aquilo que lhe aconteceu não é um caso ímpar. Neste momento está a obcecá-lo, mas é uma coisa passageira. O senhor pode transpor esse obstáculo. Sugeriria que tivéssemos mais conversas. Tenho a certeza de que poderemos chegar à raiz desse problema...

     Philip também se pusera de pé. Sentia-se pouco esclarecido, desapontado.

     - Bom... tenho de pensar nisso...

     - Como quiser.

     - Deixe-me pensar no assunto e telefonar-lhe-ei depois. Então combinaremos.

     - Esplêndido. Ficarei à espera de notícias suas.

     - Muito bem. Obrigado, doutor. - Começou a dirigir-se para a porta, mas depois voltou-se e sorriu envergonhadamente ao Dr. Edling. - Lamento, lamento que não tenhamos conseguido falar mais acerca do meu filho!

     - Pelo contrário - disse o Dr. Edling. - Falámos até muito... acerca do seu filho.

     A cabina telefónica no parque de estacionamento estava ocupada por uma mulher de meia-idade, corpulenta, com um arranjo floral qualquer a enfeitar-lhe o chapéu. Philip esperou, puxando fumaças do cachimbo e tentando recordar-se de tudo o que o Dr. Edling dissera, esforçando-se ainda por organizar esses elementos num todo coerente e útil, mas tudo o que acabava de ouvir parecia furtar-se à sua análise. Só uma frase chave lhe dançava na mente: o órgão criminoso. “Aí acertaste”, pensou ele.

     A mulher espremeu-se para conseguir sair da cabina, olhou-o como quem se desculpa por tê-lo feito esperar e afastou-se pesadamente. Philip entrou na cabina impregnada do perfume da mulher e marcou o número de casa.

     Foi Danny quem o atendeu, com uma voz distante, de falsete. Philip conseguiu, não sem certa dificuldade, identificar-se. Danny quis saber quando é que ele voltava para casa. Prometeu-lhe que não demoraria muito. Danny insistiu em saber uma hora exacta. Felizmente que Helen apareceu e pegou no telefone.

     - Foste ver o Dr. Edling? - perguntou ela, num tom que lhe pareceu desnecessariamente ansioso.

     - Acabo de sair de lá.

     - Bom, e não achas que é muito simpático?

     - Espantosamente humano, para psiquiatra - disse Philip com uma ponta de azedume. - Demo-nos muito bem...

     - Falaram acerca de... - A voz dela hesitou. Era evidente que Danny ainda se encontrava junto dela.

     -Em grande pormenor - respondeu Philip. - Explicou-me todo o quadro.

     - E irás vê-lo mais vezes? Ficou imediatamente irritado.

     - E tu? - ladrou.

     - Com certeza.

     - Então também irei. - Sabia que estava a reagir infantilmente, e ficou de imediato arrependido com o seu comportamento. Fez um esforço para ser mais razoável.

     - Explicou-me que queria ver-nos enquanto andasse a tratar do Danny. Acha que dessa maneira será capaz de o pôr mais depressa direito.

     - Ainda bem.

     - Houve algumas chamadas para mim?

     - O Nathaniel quer que lhe telefones.

     - Disse porquê?

     - Foi a secretária que falou. Limitou-se a dar esse recado.

     - Está bem. É melhor ir vê-lo.

     - Quando é que vens para casa?

     Lembrou-se então do encontro que marcara com Tina Barlow.

     - Não sei bem. Como por aqui qualquer coisa e depois meto-me um bocado na biblioteca.

     - Tenta vir a horas para o jantar.

     - Lá estarei.

     Depois de pousar o auscultador, considerou se devia ou não telefonar a Horn. Decidiu que era preferível ir vê-lo, pois queria queimar tempo até ao encontro com Tina. Deitou uma olhadela ao relógio de pulso; faltavam dez minutos para a uma. Horn geralmente saía do escritório à uma hora para ir almoçar. Se se apressasse, talvez ainda o apanhasse.

     Conduziu o mais depressa possível através do tráfego comercial até South Bevery Drive. Deu uma volta completa ao quarteirão, à procura de um lugar para estacionar, e, finalmente, encontrou um. Subiu a correr as escadas até ao escritório de Horn.

     O agente, com a pasta debaixo do braço, já estava no corredor a caminho do almoço.

     - Phil... Tenho andado a ver se te apanho durante a manhã...

     - Bem sei. Estive ocupado.

     Horn pegou-lhe no braço e empurrou-o para o topo das escadas.

     - Queria falar contigo um bocado, mas já estou atrasado... Tenho um almoço marcado com um dramaturgo de Nova Iorque... É a primeira semana que cá está.

     Começaram a descer juntos a escada.

     - Poderíamos arranjar um encontro imediatamente depois do almoço? - perguntou Horn.

     - Vou estar ocupado.

     - Pronto. Na verdade, não há muito para dizer. Tinham chegado ao fundo da escada. - Onde tens o carro?

     Philip apontou-o. Horn caminhou com ele até junto do carro.

     - O Alexander Selby telefonou-me - disse Horn.

     - Sim?

     - Parece realmente ansioso acerca do projecto da Caroline Lamb, o que é excelente. Lembrou-me que era amanhã a data limite que combinara contigo. Durante este fim-de-semana tem de pegar numa opção que obteve sobre uma peça, ou largá-la, e entregar-se à Caroline Lamb. Perguntou-me se tu já tinhas aparecido com alguma ideia.

     - O que é que tu lhe disseste?

     - Que lhe podia eu dizer? Disse que sim, que tinhas várias ideias boas, mas que andavas a tentar trabalhá-las mais. Julgo tê-lo convencido de que aparecerias a tempo com qualquer coisa.

     - Oh, esplêndido - disse Philipe em tom ácido.

     - Ele insistia em tentar forçar-me a dar-lhe informação concreta. Fiz tudo o que podia para o aguentar, mas ele insistiu num encontro para amanhã. Consegui marcá-lo para o mais tarde possível: quatro horas da tarde, no estúdio. - Olhou para Philip, preocupado. Tens de ter nessa altura qualquer coisa para lhe contar.

     Philip sentia-se oprimido, como se tudo, todos, estivessem a cercá-lo, a empurrá-lo para a beira de um abismo.

     - Ainda não sei. Andei ontem durante todo o dia a pensar no assunto. Nat... estive a trabalhar mesmo a sério na biblioteca, mas não tenho a certeza de ter encontrado uma única ideia utilizável.

     - Nem uma só? Só precisas de uma... Só uma ideiazinha, uma linha que o atraia, que o faça morder o anzol...

     - Pensei em trazer a Teresa Guiccioli a Londres depois da morte de Byron. Na realidade, ela visitou a Inglaterra muito mais tarde, depois de a Caroline Lamb ter morrido também. Mas eu mantinha a Caroline viva, para conveniência da história. As duas encontravam-se... A primeira amante importante de Byron, e a última, e, de qualquer maneira, fazer com que a Guiccioli ajudasse a resolver a história da Caroline. - Observou o rosto profissionalmente fleumático de Horn - Que é que tu achas?

     Horn ficou calado apenas um momento.

     - A ideia não é nada parva - disse finalmente -, mas não me parece bastante forte. Byron não está lá, realmente, para o golpe final. E tens de fazer batota. Não é verdade?

     - Trata-se de um romance - disse Philip, na defensiva.

     - Bem sei, mas o fim é tão importante que acho que devia ser verdadeiro, historicamente falando. É claro que podes enfeitá-lo, mas o facto em si deve ser autêntico. Isso daria a toda a história maior impacto.

     Philip encolheu os ombros.

     - Bom, até agora é tudo quanto tenho para mostrar.

     - Se amanhã ainda não tiveres encontrado nada melhor, é claro que nos apresentamos com isso. Quem sabe? Mas ainda tens à tua frente mais de vinte e quatro horas. Só gostava que continuasses a trabalhar no assunto.

     - Bem, tinha pensado ir à biblioteca depois do almoço. Talvez se recomeçar a ler...

     - Tenta, Phil, e se quiseres experimentar-me com alguma ideia, não hesites em telefonar. Estarei em casa durante toda a noite. - Mudou a pasta para o outro braço. - E agora tenho de correr. Não te esqueças... Amanhã, às quatro. Estarei à tua espera na sala de recepção do estúdio. Acho melhor atacarmos juntos o Selby.

     Philip acenou com ar miserável.

     - Está bem.

     Viu Horn afastar-se e depois começou a dirigir-se para o carro, mas de repente reparou que ainda não tinha almoçado. Parou e olhou, rua abaixo, rua acima, e depois o outro lado da rua. Os seus olhos detiveram-se numa tabuleta luminosa: “Porter's Bar and Grill”. Lembrava-se de ter comido ali algumas sanduíches e bebido algumas vezes com Horn. Esperou uma aberta no tráfego, depois atravessou a rua a correr e entrou no pequeno restaurante.

     Quando os olhos se acostumaram à semiobscuridade interior viu que as poucas mesas alinhadas perto do longo balcão de mogno, e as que se encontravam na pequena sala mais além, estavam todas ocupadas. O bar, esse, tinha lugares vagos. Porter, o atarracado proprietário, aproximou-se dele com a ementa na mão. Cumprimentou Philip com ar incerto, como quem não sabe bem se o conhece ou não.

     - Sozinho? - perguntou.

     - Sim.

     - Terá de esperar uns quinze minutos.

     - Não faz mal. Vou bebendo qualquer coisa. Philip abriu caminho até à extremidade do balcão, onde havia três bancos vagos forrados de couro vermelho. Içou-se para o do meio e pediu um uísque e água.

     Passou os olhos pelas mesas e observou os fregueses sem grande interesse. Quando chegou a bebida encomendada, bebeu logo metade de uma só vez. Sentindo-se imediatamente mais fresco, tentou focalizar a mente no encontro com o Dr. Edling. A imagem de Peggy deitada na cama intrometia-se e subitamente desejou que ela tivesse estado com ele no consultório do psiquiatra. De certo modo, não sabia muito bem como, mas imaginava, aquela explicação sã e analítica da sua impotência teria apagado parte da sua humilhação e teria recriado a sua própria estatura aos olhos de Peggy. Para ela, o tal sentimento subconsciente de culpa acerca de uma ligação extramarital teria feito sentido. Mesmo assim, bolas, a que é que tudo aquilo se resumia? Toda aquela prosa freudiana não poderia, nem conseguiria, num milhão de anos, obscurecer e ocultar o facto simples e cru: o fracasso. Peggy desnudara-se, abrira-se à promessa da sua masculinidade e ele fora incapaz de cumprir essa promessa. Era esse o fiasco nu e cru. Não havia doses de verborreia sobre sentimentos de culpa e recalcamentos que conseguissem camuflar a sua incapacidade. Para todos os fins úteis, a visita ao Dr. Edling fora um desperdício de tempo e de dinheiro. Philip continuava entregue a si mesmo - para provar que era capaz, ou para levar para a tumba a carga vergonhosa do seu fracasso.

     Levando outra vez o copo à boca, bebendo, não conseguia libertar-se da ideia opressiva de que a resolução do seu problema só podia estar nas suas mãos. Porque andaria sempre à procura de uma qualquer justificação? Mas também, ao fim e ao cabo, a maioria dos homens fazia sempre isso. De outro modo, como explicar o enorme sucesso de um homem como o Dr. James Graham, esse charlatão medicinal londrino de 1780 e tal?

     Philip tentou recordar-se por que é que sabia da existência desse obscuro Dr. e lembrou-se imediatamente que tinha em tempos feito investigação histórica para escrever um argumento cinematográfico situado no século XVIII e que fora assim que encontrara o nome do Dr. Graham e, durante algum tempo, lhe seguira a pista. Agora, gradualmente, os factos acudiam-lhe ao cérebro. O Dr. Granam abrira um “Templo da Saúde e do Hímen”. A principal atracção do seu estabelecimento, tão ricamente ornamentado, era o Sanctum Sanctorum, uma enorme cama cuja construção custara 60 000 libras. Erguia-se sobre seis pés de cristal, estava oculta por detrás de cortinas azuis perfumadas. Havia incenso, música suave, luzes multicores. Pagando 100 libras, um macho de potência indecisa podia usar a cama durante uma única noite, recebendo nela descargas electromagnéticas que, garantia o doutor, lhe restituiria, muito aumentada, a perdida virilidade. Nos jornais da época esse lugar de repouso e de revivescência, e também de esperança, era anunciado como “O Leito Celestial”.

     Esses factos, que na altura o haviam divertido imenso, agora pareciam-lhe menos estranhos e menos humorísticos. Recordava-se que, segundo os relatos, a fraude do Dr. Granam tinha realmente ajudado tanto homens como mulheres. Aparentemente, a confiança que o tratamento inspirava conseguia muitas vezes destruir os bloqueios sexuais. “Se existisse hoje uma dessas carnes rejuvenescedoras”, pensou Philip, provavelmente também ele, no seu enorme desespero, se agarraria a essa esperança. Mas não existia hoje uma dessas camas maravilhosas, por isso o seu sucesso ou fracasso teria de verificar-se na cama vulgaríssima que era a de Peggy. Talvez, simbolicamente, a cama dela fosse um leito de julgamento, um campo de batalha que ele escolhera para provar que era mais do que sempre fora. Era, na verdade, o seu leito celestial: para o desiludir ou revivificar para o resto dos seus dias.

     Inclinou-se sobre o balcão do bar, com disposição bem negra, mas onde começava a penetrar um raio ainda pálido de esperança. Tinha sofrido três fiascos sucessivos com Peggy, mas, ao mesmo tempo, não tinha havido qualquer dificuldade na sua tentativa isolada com Helen. Todavia, o Dr. Edling sugerira que as relações com a legítima esposa nada provavam. Com a mulher sentia-se em segurança. Era a área que ficava para além dos limites matrimoniais que lhe estava proibida. E então, pela primeira vez desde que entrara naquele bar, lembrou-se de Tina Barlow. A ideia excitou-o. Ela desejava-o, sobre isso não podiam subsistir quaisquer dúvidas. E ele também a desejava. Desejava Peggy ainda mais, mas, num sentido puramente carnal, o seu desejo por Tina era igual. Estava ali o desafio de que necessitava. Uma tentativa bem sucedida com Tina poderia apagar todas as suas inibições acerca de ligações extramatrimoniais. Podia voltar para Peggy, com perfeita confiança, se saísse vitorioso dos braços de Tina.

     Começou mentalmente a fantasiar uma ligação com Tina e logo de imediato o assunto lhe pareceu improvável. Peggy era uma coisa: estava apaixonado por ela e pertencia a um mundo separado do de Helen. Mas Tina era amiga pessoal de Helen. Ele próprio sentia grande amizade, afecto até, por Sam Barlow. As suas vidas andavam entrelaçadas por chamadas telefónicas, sessões de natação conjuntas com as crianças, jantares íntimos. Além disso, não amava realmente Tina. Se a seduzisse, estaria a comportar-se como um garanhão e pouco mais do que isso. E a que conduziria isso? E se fracassasse e tivesse de continuar a visitá-la? Um fiasco com Tina era impensável. Mas, ao mesmo tempo, a ideia de ter relações sexuais com ela, mulher de um amigo, ela própria amiga de família, era igualmente impensável. Afinal, que espécie de filho da mãe era ele?

     Engoliu o resto da bebida, pediu outra e foi para o telefone que ficava num pequeno nicho ao lado do bengaleiro. Tinha combinado visitar Tina às duas e meia. Provavelmente ela convidara-o para nada mais do que um namoro mais prolongado. Ela seria esperta de mais, calculista de mais, para se arriscar a perder a estabilidade da segurança e da posição social em troca de uma momentânea aventura física. Talvez brincasse com ele, e o provocasse - ela era desse género -, mas não era uma aventureira. E daí, talvez fosse! Quem poderia afirmar coisas dessas acerca de qualquer mulher? Em todo o caso, era demasiado imoral e demasiado complicado para correr o risco. Ia-lhe telefonar imediatamente a cancelar o encontro. Passaria a tarde na atmosfera claustral da biblioteca, que era onde devia estar. Marcou o número dos Barlow.

     Foi Tina quem atendeu. A sua voz era ainda mais funda e sensual do que ele se lembrava.

     - Onde estás tu. Philip? Julguei que já eram horas de aqui estares?

     Olhou para o relógio de pulso: eram quase duas e meia:

     - Fui retido por problemas profissionais - disse, inseguro de si.

     - Bom, vem até cá descontrair-te. A piscina está estupenda. Ando por aqui a vaguear... à espera. Até mandei sair as crianças. Para podermos beber em paz. Que é que tu queres beber? Para te preparar a bebida enquanto vens a caminho.

    - Uisque - disse ele. - Sem mais nada. Estou aí dentro de dez minutos.

     - Tu amas-me?

     - Apaixonadamente.

     Voltou a colocar o auscultador no descanso, regressou ao balcão e acabou depressa a sua segunda bebida. “Pois então serei um filho da mãe”, pensou com decisão. Colocou duas notas em cima do balcão e saiu apressadamente.

     A corrida até Bel-Air levou-lhe quinze minutos. Durante a viagem, só uma vez se entregou a uma breve especulação erótica acerca de Tina Barlow. Perguntava a si mesmo se ela estaria com o fato de banho azul, muito justo, com o saiote logo acima das virilhas e que lhe deixava as nádegas extravasar livremente. Se estivesse assim, declinava qualquer responsabilidade por tudo o que pudesse acontecer a seguir. Um homem não é insensível a certas coisas!...

     Estacionou o carro em frente da porta, dirigiu-se a esta e premiu o botão da campainha. Passado um momento, a porta abriu-se. Ela ali estava, coberta por um longo roupão de banho de pano turco branco, segurando na mão um copo com um líquido cor de âmbar. O cabelo ruivo estava, como de costume, todo repuxado para trás, e os grandes olhos inocentes e a boca sensual sorriam.

     - Vês - disse ela, estendendo-lhe o copo -, estou decidida a fazer-te feliz.

     - Olá, Tina. - Aceitou o copo da mão dela e beijou-a nos lábios. Os lábios dela eram vivos, mas ele afastou-se deles.

     Ela sorriu-lhe, e a longa covinha cavou-se-lhe na face direita.

     - Trouxeste os calções de banho?

     - Ah, claro... Quase que me esquecia. Segura isto. Entregou-lhe o copo, foi buscar os calções de banho e a toalha ao assento de trás do carro e voltou para junto dela. Ela voltou a entregar-lhe o copo, passou-lhe um braço à volta da cintura e assim entraram.

     - Bom, levou-me muito tempo a convencer-te a vires visitar-me - disse ela.

     Ele olhou em volta.

     - Estamos realmente sós?

     - Nenhum homem é uma ilha, mas nós dois somos.

     - Foi pegar no seu gim e na água tónica, que deixara em cima do piano. - Sou uma cortesã experiente, não sabias? Faço isto constantemente. Não há problemas.

     - Onde está o Sam? - perguntou num tom casual.

     - Em Pompona ou em qualquer sítio parecido. Num congresso de cientistas. Não volta antes do jantar.

     - Como é que ele se atreve a deixar-te assim sozinha?

     - Não devia?

     - Eu não deixava.

     Ela enfiou o braço no dele.

     - Mas tu és diferente. Tu desejas-me.

     - Lá isso é verdade...

     - Vamos apanhar um bocado de sol.

     Foram até junto da piscina e instalaram-se num divã acolchoado, de tecido listado. Ali beberam. Sentiu quase imediatamente os efeitos avassaladores do uísque e reparou que ela lhe devia ter servido uma dose dupla ou tripla.

     - Deves-me considerar uma descaradíssima putéfia?

     - Pois claro que considero. Porque é que perguntas?

     - A comprometer-te desta maneira.

     - Estou encantado. Nunca teria tido a coragem de me convidar a mim mesmo.

     - Nunca te vejo a sós - disse ela com seriedade.

     - Sempre o Sam, ou os miúdos, ou Helen. E tenho um terrível béguin por ti desde que te conheço.

     - Isso é mútuo.

     - Achei que seria divertido estarmos sós os dois... juntos... como naqueles romances.

     - Eu já estou a divertir-me.

     - E eu também.

     Ela acabou de beber, pousou o copo no chão e levantou-se.

     - Porque não mudas de roupa?

     Ele acenou afirmativamente, mas não se levantou. Ela desatou o cinto do roupão e desembaraçou-se dele. O fato de banho azul parecia prestes a estourar. Philip tinha a certeza de que era um ou dois números abaixo do que ela devia vestir. Ela ergueu os braços no ar e agitou as mãos.

     - Que tal estou?

     O saiote estava repuxado para cima, esticado provocadoramente acima da virilha. Ela baixou as mãos até aos quadris.

     - Bom... diz qualquer coisa.

     - Que é que disse o Ulisses quando passou em frente da ilha das Sereias?

     - Que é que ele disse?

     - Ficou mudo. Desafio-te a que te baixes.

     Ela baixou-se, inclinando-se para ele. Os grandes seios róseos retesaram-se contra o fato de banho. Ele levantou-se rapidamente, colocando as mãos dos dois lados daqueles seios, sentindo a carne ceder sob os seus dedos, e endireitou-a:

     - Acabo de provar que o Newton estava enganado. Ela contemplou-o e depois beijou-lhe o pescoço.

     - Vai mudar de roupa - sussurrou-lhe ao ouvido. Dirigiu-se lentamente para a mais próxima das duas cabanas brancas, olhando só uma vez para trás, quando ela apertava a touca de banho de borracha e começava a descer as escadinhas para dentro de água. Philip entrou no pequeno cubículo, muito fresco, fechou a porta atrás de si e começou a despir-se. Tentou imaginar o quadro que faria junto de Tina, mas não conseguia tornar a imagem clara. Ia dizendo a si mesmo que era apenas uma provocadora, pois sentia-se incapaz de imaginar que ela fosse até às últimas consequências. Enfiou os calções de banho, puxou-os para cima, e depois saiu para a luz do Sol.

     Ela estava de costas, a boiar sobre a água.

     - Vem - chamou ela. - A água está estupenda. Philip deu uma corridinha até à beira da piscina e mergulhou. Deslizou sob a superfície, depois emergiu e, numas tantas braçadas de crawl, encontrou-se ao lado dela. Ficaram os dois a boiar. Ela virou para ele o rosto rosado e brilhante de humidade.

     - Estou bêbeda - anunciou ela. - Sabias que eu estava bêbeda?

     - Com uma bebida?

     - Já tinha bebido mais antes de tu chegares. Também estás grosso?

     - Alegrote... Como te sentes?

     - Alada. Alada e a retinir por dentro. Porque é que as pessoas não se sentem sempre assim?

     Ela afastou-se a nadar e ele seguiu-a. Atravessaram a piscina umas duas vezes e depois puxaram uma bola de praia para dentro da piscina, atirando-a um para o outro. Passado um bocado, cansados com o jogo, voltaram a flutuar.

     Finalmente ela aproximou-se, de bruços, da escada e saiu da água, detendo-se à beira da piscina, a escorrer. Desabotoou a touca de banho, arrancou-a da cabeça e pô-la de parte, depois soltou o cabelo ruivo e afofou-o com um gesto de cabeça, enquanto ele subia a escada à frente dela, para também sair da água. Ela estava encharcada e isso tornava o seu fato de banho praticamente transparente. Ele ergueu os olhos para a área superior dos seios, acima do fato de banho. E depois viu que ela o estava a observar. “Bom, se vais ser um filho da mãe, esta é a altura.”

     Deu com rapidez o passo que os separava, tomou-a nos braços e colou os lábios aos dela, que não resistiu. Fechou os olhos e retribuiu-lhe o beijo. Ele deslizou a mão até à alça do fato de banho e puxou-a por cima do ombro: sabia que quando desse um passo atrás o seio estaria nu. Deu esse passo atrás, mas ela agarrou a alça e voltou a colocá-la no lugar.

     Philip quase sorriu, sentindo-se estranhamente mais seguro. Ele tivera razão. Ela gostava de provocar e nada mais. Sem saber bem porquê, sentiu-se de repente muito mais descontraído. Estava até alegre.

     - Vamo-nos vestir e beber mais qualquer coisa disse ele.

     Ela não respondeu. Tinha os olhos fitos nos dele e a sua expressão era séria.

     Ele inclinou-se para a frente e beijou-a rapidamente nos lábios. Ela não respondeu ao beijo.

     - Volto num minuto - disse ele.

     Dirigiu-se à cabana, os seus pés molhados iam deixando pegadas cada vez mais vagas no cimento quente, e não olhou para trás. Mais, uma vez naquele abrigo sombreado e fresco, deteve-se um momento a pensar em Tina. “Teria sido sensacional”, pensou. Mas não teria valido a pena forçar as coisas e sentia-se muito satisfeito consigo mesmo. Agora as suas relações mútuas poderiam continuar, como tinham sido sempre - as provocações, os namoros, as meias promessas que nunca seriam cumpridas. E, todavia, parecia-lhe que era assim que devia ser. Sozinho na cabana, pareceu-lhe que a ideia de fazer amor com ela tinha sido apenas uma fantasia irresponsável de jovem. No plano das realidades, talvez tivesse sido memorável, algo para relembrar e reviver muitos anos depois, e talvez pudesse ter sido útil na sua obsessão por Peggy. Mas essa realidade não existira e o namoro bastava. Mudaria de fato, beberiam e brincariam mais um pouco, e depois ele iria para casa.

     Desabotoou os calções molhados, fê-los deslizar pelas pernas abaixo e depois desviou-os com um pontapé para um canto da cabina. Nu e a escorrer a água, pegou na toalha e começou a secar a cara. Ouviu a maçaneta da porta rodar atrás de si. Deu uma rápida reviravolta exactamente no momento em que a porta se abria. Durante um segundo, apenas a luz do Sol lhe bateu nos olhos, mas depois Tina esgueirou-se para dentro, fechando a porta atrás de si, encostando-se a ela. Continuava com o fato de banho molhado. A sua expressão era tensa. Forçou-se a um meio-sorriso, olhando-o em silêncio e depois deixando os olhos descerem-lhe pelo corpo.

     - Queria ver-te assim... não resisti...

     Ele olhava para ela, pasmado, ainda sem acreditar.

     Ela deu os poucos passos que a separavam dele, encostou-se toda a ele, passando-lhe os braços à volta do tronco molhado. Ele beijou-lhe a orelha, a face, o pescoço. As mãos dela deslizaram-lhe pelas costas, acariciando-o, depois rodearam-lhe as coxas, movendo-se em círculos lentos. A sua respiração era agora ofegante.

     - Ama-me, Philip... ama...

     Com esforço - agora todos os movimentos para além dos essenciais constituíam um esforço - estendeu as mãos até às costas dela para fazer deslizar o fecho de correr. Pareceu irromper, livre quando foi aberto. Ele agarrou as alças e puxou-as ao longo dos braços dela. Os seios magnificentes soltaram-se, redondos e firmes, os mamilos carmesins muito erectos. Ele arrastou-a consigo para cima do banco da cabana e enterrou o rosto naqueles seios soltos, beijando-os finalmente, beijando-os infindável mente. Ela gemia agora muito baixinho, quase como que a choramingar:

     - Não... não... pára, por favor...

     Ele empurrou-a com força contra o banco, ainda a cobrir-lhe os seios com os lábios, enquanto ela continuava a produzir pequenos sons inarticulados. Estendeu a mão até à cintura dela, agarrou o rolo do fato de banho encharcado, empurrando-o à volta das amplas ancas e depois ao longo das pernas. Era como quem puxa um adesivo. Atirou o fato de banho enrodilhado para o chão da cabana. Ela tentou levantar-se quando ele voltava para ela, mas ele segurou-a com firmeza. Ela resistiu durante um momento, mas depois desistiu e recostou-se descontraída.

     - Philip... Philip... Philip... - murmurava baixinho.

     - Estás linda - murmurava ele.

     - Philip... agora... agora... depressa...

     Estavam finalmente reunidos num abraço apertado e tenso. A agitação desencadeada pelo embater do seu corpo molhado contra o dela excitava-o cada vez mais. Ela deixara de produzir quaisquer sons, jazia ali, ofegante, sem fôlego, de olhos fechados, com o rosto a virar-se para um lado e para o outro.

     - Espera um momento, Philip... Deixa-me descansar... só um minuto...

     - Sim...

     Ele abrandou os seus movimentos e, gradualmente, sentiu restabelecer-se plenamente a sua consciência. Inclinou-se para baixo, para lhe encontrar os lábios. Enquanto se beijavam, continuavam em movimentos quase imperceptíveis.

     Ela tinha agora os olhos bem abertos.

     - Philip... sabes... - Fechou os olhos um momento e o corpo estremeceu-lhe com um deleite animal, mas depois voltou a abrir os olhos. - Sabes... nunca fiz isto antes... eu... nunca lhe fui infiel...

     Ele não disse nada. Ela procurou-lhe os olhos.

     - Tu não me acreditas, pois não? Ele acenou afirmativamente e disse:

     - Acredito. Ela sorriu.

     - Não estou arrependida.

     Depois voltaram a abraçar-se, frenéticos agora. Ele sentia a respiração dela junto ao seu queixo e um sussurro ofegante.

     - Sou uma cabra... uma cabra horrível.

     Estava a perder todo o controlo enquanto procurava uma ideia estranha ao acto para se segurar, mas depois o seu cérebro fixou-se em Peggy, na imagem de Peggy deitada na cama, a acariciá-lo, a olhá-lo com espanto e esperança, e deu-lhe vontade de gritar alto...

     “Olha para mim agora... olha para mim agora...”

     Sentiu Tina arquear-se debaixo dele, agarrá-lo com as entranhas, cravar-lhe as unhas nos ombros.

     “Peggy... Peggy... Olha para mim...”

     Regressando a casa, drenado e restaurado, lembrou-se de que já não fumava há uma hora e, automaticamente, levou a mão ao bolso à procura do cachimbo. Meteu a boquilha entre os dentes e meteu a mão no outro bolso para tirar a bolsa do tabaco, mas o bolso do casaco estava vazio. A bolsa estava sempre ali e Philip ficou confuso. Rapidamente apalpou os outros bolsos. Abrandou a marcha e examinou o assento a seu lado e depois o chão. Mas não encontrou a bolsa em parte nenhuma.

     E então, enquanto pensava no assunto, sabendo que tinha fumado no consultório do Dr. Edling, e depois disso lembrou-se de repente: Deixara a bolsa de cabedal em cima da mesinha inacabada ao lado do banco da cabana. Esquecera-se por completo de que a tinha posto ali quando, depois do acto, se haviam sentado no banco, nus, e secos, e cansados, com os braços à volta um do outro, a fumar em silêncio. Acendera o cigarro dela, depois enchera o cachimbo e colocara a bolsa na mesinha. Tinham conversado um pouco sobre o que tinham feito, o prazer que lhes dera, a moralidade do caso, e, depois, dos respectivos esposos, do sentido e finalidade das respectivas vidas, até que finalmente ela lhe lembrara que se estava a fazer tarde. Dera-lhe um beijo de despedida, atravessara à pressa, ainda nua, o pátio, na direcção do quarto. Ele vestira-se rapidamente e partira. Esquecera-se por completo da bolsa do tabaco.

     Pensou imediatamente em parar na estação de serviço e usar a cabina telefónica para avisar Tina, mas sabia que era quase hora do jantar e Sam já estaria, provavelmente, em casa e uma chamada telefónica sua - para Tina e não para Sam - seria muito difícil de explicar. Sabia que não podia correr esse risco.

     Conduzindo o carro para dentro da garagem, pediu aos deuses que fosse Tina a encontrar a bolsa, pois lembrava-se também de que tinha as suas iniciais gravadas a ouro num dos lados.

     Foi encontrar Helen na cozinha, ocupada em organizar um tabuleiro de queijos. Beijou-a na face e disse-lhe num tom jovial:

     - Olá, esposa amantíssima!

     - Como estás tu, estranho? Tiveste hoje sorte?

     - Sorte?

     - Sim, disseste que ias para a biblioteca trabalhar na Caroline Lamb.

     - Pois fui - disse rapidamente. - Estive com o nariz metido nos livros a tarde inteira. Arranjei algumas pistas, mas não tenho a certeza.

     - O que queria o Nathaniel Horn?

     - Temos um encontro marcado com o Selby amanhã à tarde.

     - E que é que lhe vais dizer?

     - Aquilo que entretanto tiver conseguido apurar.

     - Estou sempre a pensar na Europa. Seria uma pena perder esta oportunidade!

     - Não me pressiones!

     - Não te estou a pressionar. Estava apenas a falar.

     - Onde está o Danny? - perguntou ele.

     - Em frente da televisão.

     Helen acabara de dispor os pratinhos no tabuleiro e só então ele reparou, conscientemente, no que ela estava a fazer.

     - É isso o jantar?

     - Não, palerma. Noite de póquer.

     - Queres tu dizer que vêm para cá as tuas amigas todas?

     - Bom, a Betty não podia vir esta noite, por isso pensei que, como a maioria das raparigas ainda não viu a casa nova, era uma boa desculpa, apesar de ainda estar tudo tão desorganizado. Por isso convidei-as para cá virem.

     - Acabas de me perder - disse ele pegando num pedacinho de queijo e mordiscando-o.

     - Tu não vais sair outra vez?

     - Vou, com certeza. Ou queres que fique por aí a discutir o Spock e os últimos saldos da Staks?

     - Podias passar algum tempo com o teu filho.

     - Passei a manhã toda com o meu filho.

     - Gostaste do Dr. Edling, não gostaste?

     - É o meu Jívaro favorito - disse ele alegremente.

     - O que é isso?

     - Um caçador de cabeças.

     - Muita graça...

     Philip pegou no jornal da tarde e abriu-o metodicamente:

     - Vou ao cinema esta noite, ora aí está o que eu vou fazer. Vou comer pipocas e adormecer regaladamente enquanto a minha senhora joga e perde a casa e as economias.

     Era quinta-feira, à noite, e ele conduzia o carro por Ridgewood Lane acima.

     Viu imediatamente o novo coupé, embora estivesse estacionado vários metros além da entrada da casa de Peggy. Sentiu-se imediatamente irritado. Saíra de casa propositadamente cedo, insistindo com Helen em que o filme principal começava às sete e meia, mas intimamente estava decidido a apanhar Peggy antes de esta ter saído. Mas Cahill havia chegado mais cedo.

     Deteve o carro e desligou o motor. “Bom, desta vez”, decidiu, “não ia ficar à espera cá fora, nem espreitar pelas janelas. Ia direitinho lá dentro, como lhe competia. Enfrentaria o tal Cahill e sentar-se-ia ali à espera que ele se fosse embora, se isso fosse preciso, para ter a sua conversa privada com Peggy. Estava menos seguro do que estivera na noite anterior sobre aquilo que lhe iria dizer, mas estava confiante em que, quando acabasse a conversa, o tal Cahill ficaria definitivamente afastado.

     Abriu a porta do carro, saltou para o passeio e começou a dirigir-se para a porta. Quando se aproximava, viu Peggy sair de casa, seguida por Cahill. Era um aparecimento inesperado e ele deixou-se ficar atrás do seu carro, olhando admirado para eles, enquanto caminhavam pelo caminho de tijoleira. Olhava sobretudo para Peggy, numa espécie de transe hipnótico. Nunca antes a vira tão bela como estava naquele momento. Quando a via plenamente, sob aquele halo branco da luz pública, com aquele provocante carrapito à italiana e uma jaqueta de mandarim sobre o vestido de noite de tom escuro, todas as outras mulheres, Tina, Helen, todas as que jamais vira ou conhecera, ficavam apagadas da sua memória. Era aquela a sua mulher.

     Ela estava à espera de Cahill quando Philip saiu para campo aberto e ela o viu. Não se preocupou em esconder a surpresa que sentia.

     - Tu, Phil?...

     - Olá, Peggy.

     Dirigiu-se imediatamente para ela, ao mesmo tempo que Cahill se lhes reunia. Desconcertada, Peggy acenou com a mão na direcção de Cahill e depois de Philip.

     - O Sr. Cahill... Este é o Sr. Fleming. - Depois virou-se para Cahill. - Foi este senhor que me vendeu a casa.

     - Como está? - disse Jake Cahill, estendendo-lhe a mão.

     - Passou bem? - perguntou Philip, a quem tanto se lhe dava, mas apertando-lhe mesmo assim a mão.

     Observava agora pela primeira vez Cahill com atenção. Agradava-lhe ver que era mais alto do que ele - com certeza baixo de mais para Peggy -, mas ficou desapontado ao ter de decidir que era menos gordo do que entroncado. Tinha o cabelo cortado à maneira dos universitários, os seus óculos de aros de tartaruga davam-lhe uma aparência estudiosa e, do seu rosto, perfeitamente redondo, um pouco juvenil, sobressaía um cachimbo de boquilha curta.

     Philip ficou instintivamente ressentido com o cachimbo um pouco ostensivo que ele fumava, e, virando-se para Peggy, reparando agora que ela trazia uma orquídea no peito, ficou igualmente ressentido por ela ter aceitado a flor igualmente ostensiva.

     - Vinhas visitar-me? - perguntou-lhe ela toda inocência.

     Teve vontade de lhe dar uma tareia. Teve vontade de a beijar.

     - Tive de passar por estas bandas. E havia umas coisas que eu tinha prometido dizer-te acerca da casa.

     - Desculpa, mas nós íamos exactamente a sair para irmos a uma estreia.

     - Bom, o meu assunto pode esperar - disse ele em tom brusco.

     Ia já a virar as costas quando, de repente, decidiu pegar-lhe no braço.

     - Ah! Há apenas uma coisa que eu preciso de te dizer imediatamente. - Deitou uma olhadela a Cahill, que estava placidamente a expelir fumaças. - Importa-se? É só um momento... uma pequena questão de finanças...

     Afastou rapidamente Pegsy na direcção do seu carro. Quando já estavam suficientemente longe para não serem ouvidos, parou, virando-se então para ela. Reparou que Cahill nem sequer se dava ao trabalho de os observar. Estava a bater o cachimbo na palma da mão.

     - Peggy - sussurrou ele -, tenho andado à tua procura...

     - Tenho estado ocupada.

     - Bem vejo - disse ele com azedume. - Fiquei aqui à espera ontem à noite, uma data de tempo, à espera que aquele cómico se fosse embora.

     - Não sabia, mas não devias ter feito isso. É insensato.

     - Não é nada insensato. Estou apaixonado por ti! Ela olhou na direcção de Cahill, com uma expressão preocupada.

     - Por favor, Phil...

     - Falo a sério. E tenho de falar contigo a sós. Uma conversa a sério.

     Ela não fez qualquer promessa, mas moveu a mão num meio gesto na direcção de Cail.

     - Não o posso manter ali à espera. É um velho amigo...

     - Sei tudo o que preciso de saber a respeito do sujeito. A que horas voltas?

     - Não sei. Depois da estreia vamos cear. Por favor, Phil, não sejas difícil.

     - Queres então dizer que te estás nas tintas para mim?

     - Sabes bem que não é verdade - murmurou ela em desespero. - Mas agora não é a altura para isto. Depois... falo contigo.

     Virou-se de repente e voltou para junto de Cahill. Philip ficou durante um momento a observar, enquanto Cahill a ajudava a entrar no carro. Depois aproximou-se do seu próprio carro e meteu-se lá dentro. Esperou que Cahill se sentasse ao lado de Peggy e pusesse o motor do coupé em marcha para depois fazer uma curva em U. Philip pôs o motor do seu carro em movimento e deixou-o aquecer durante um momento enquanto os via passar. Viu Peggy sentada, muito direita, afastada de Cahill. Não virou a cara para lhe encontrar os olhos ou para lhe dizer adeus pois mantinha o olhar bem em frente. Espreitou pelo espelho retrovisor até terem desaparecido por completo.

     Naquele momento odiava Cahill com todo o ódio de que era capaz. E também odiava Peggy.

     Mas amava-a. Amava-a com uma intensidade e uma paixão que nunca julgara possível investir noutra criatura. Amava-a possessivamente, ciumentamente, totalmente. Queria-a na cama a seu lado, toda para si, fora do alcance de qualquer outra pessoa que não fosse ele. E. no entanto, racionalmente, sabia que a não poderia ter, a menos que estivesse preparado, de uma vez para sempre, para enfrentar a decisão final. Nunca antes pensara nisso...

     Agora, finalmente, enquanto fazia a mudança de ponto-morto para condução automática, começou a pensar em Helen... Helen e Peggy... Peggy... e depois, no fim, sem qualquer razão ou lógica, naquela frase ridícula ouvida nessa manhã: o órgão criminoso.

    

     Sexta-feira à noite

     Quando o telefone tocou, qualquer sexto sentido disse a Philip que devia ser ele a atendê-lo. Passara a manhã inteirinha no escritório, tentando concentrar-se, sem sucesso, em Caroline Lamb, e estava agora sentado na cozinha à espera do almoço. Acabava de abrir a secção desportiva do jornal da manhã e Helen, junto do fogão, acabava de transferir o macarrão da caçarola para um prato, quando soou a campainha do telefone.

     Philip empurrou a cadeira para trás, preparando-se para se levantar, no momento em que Helen atravessava do lado do fogão e lhe colocava o prato à frente.

     - Toma, come enquanto está quente. Eu atendo.

     Se se tivesse levantado alguns instantes mais cedo, com a verdadeira intenção de atender a chamada, talvez tivesse conseguido antecipar-se, mas agora sentia-se enervado pelos acontecimentos do dia anterior e não estava com disposição para conversas inúteis com qualquer amigo ou conhecido que tivesse decidido telefonar. Queria e esperava que fosse Helen a atender a chamada, mas ao mesmo tempo sentia, lá no íntimo, um aviso instintivo e persistente de que devia ser ele a responder.

     O telefone tiniu terceira vez, mas logo a seguir Helen levantou o auscultador do descanso e levou-o ao ouvido.

     - Está?

     Philip esperou, com o garfo suspenso sobre o prato, observando com curiosidade o rosto de Helen. A cara dela alegrou-se.

     - Sam! Mas que surpresa! Que estás tu a fazer em casa ao meio-dia?

     O medo apertou o estômago de Philip. Sam queria dizer Sam O estupor daquela bolsa de tabaco. Philip sabia que devia ter procurado avisar Tina fosse de que maneira fosse. Sam, provavelmente, fora dar o seu mergulho matinal antes de sair para o trabalho - mencionara uma vez que nadava sempre um pouco de manhã, mesmo no Inverno, pois a piscina era aquecida -, depois retirara-se para a cabana para se secar e encontrara ali a famigerada bolsa de tabaco. Isso explicava por que é que ele ainda estava em casa ao meio-dia, provavelmente a interrogar Tina.

     - Está aqui mesmo a almoçar... - dizia Helen. Philip esperou, tenso, enquanto Helen escutava o que Sam lhe dizia do outro lado da linha.

     - Está bem. Eu dou-lhe o recado - disse ela para o bocal do telefone.

     Philip colocou o garfo em cima da mesa e ficou à espera do inevitável. Helen acenava a cabeça em frente do telefone, sem qualquer reacção visível.

     - Bolsa de tabaco - repetiu ela. - Um momento...

     - Olhou por cima do aparelho para Philip. - Deixaste alguma bolsa de tabaco em casa dos Barlow?

     Antes que Philip pudesse responder - e que resposta poderia dar sem saber o que Tina dissera a Sam? - ouviu a voz de Sam, distante e filtrada, a falar para Helen, provavelmente a garantir-lhe que se tratava realmente da bolsa de Philip, que tinha gravadas as suas iniciais, que fora encontrada em cima da mesinha inacabada ao lado do banco da cabana.

     - Bom... suponho que a deva ter deixado aí no domingo passado - ouviu Helen a responder.

     Tinha os olhos no rosto da mulher, que só agora começava a revelar certa confusão. Philip sabia, sem ter necessidade de escutar a conversa, que Sam Barlow estava a insistir em que a bolsa de tabaco não estava ali na manhã anterior.

     - Não estava? Mas... não compreendo...

     “Ele te fará compreender”, pensou Philip amargamente.

     - Tina disse o quê? - A expressão de Helen passou da confusão à incredulidade. - Que ele a visitou ontem? Mas não pode ser... Esteve a trabalhar todo...

     Ela olhou para Philip por cima do telefone, mas Philip compôs uma expressão de quem não faz a menor ideia do que se tratava. Podia agora ouvir a voz de Sam, fina pela distância, mas mais alta do que antes. Mas as palavras pareciam confusas. Depois outra vez Helen.

     - Se a Tina o disse... mas não, não estou zangada. Só não posso acreditar...

     Mas Sam interrompia-a mais uma vez. Aparentemente não havia quaisquer dúvidas quanto àquilo em que ele acreditava.

     - Sam, tu sabes bem o que isso implica?... Escutou outra vez e o seu rosto enrubesceu.

     - É claro, é teu amigo...

     Philip sabia que não podia limitar-se a ficar sentado, como um simples observador indiferente e despreocupado. Estava a ser atirado de uma ponta à outra da linha telefónica, como se fosse um volante de badminton. Empurrou a cadeira para trás e deu a volta à mesa.

     - Que diabo está ele para aí a dizer? - perguntou ele a Helen.

     Ela virou-lhe as costas.

     - Deixa-me falar com ele... eu falo com ele - disse ela para o bocal do telefone.

     Julgou poder ouvir a voz de Sam. Percebeu qualquer coisa como não querer voltar a pôr os olhos em cima de Philip, e mais qualquer coisa sobre mandar a bolsa de tabaco pelo correio.

     - Está bem, põe isso no correio - disse Helen, com uma voz que se tornara indistinta.

     Philip estava mesmo atrás de Helen e podia agora ouvir a voz de Sam com toda a clareza.

     - Diz aí ao teu marido que se alguma vez o encontro nas proximidades de Tina lhe quebro os queixos. Adeus.

     O auscultador da outra extremidade foi colocado com força no respectivo descanso enquanto Helen colocava o seu com gestos muito lentos. Philip tocou-lhe no braço.

     Ela virou-se para ele com grande rapidez, com olhos chamejantes, a face lívida.

     - Larga-me!

     - Afinal, o que é que se passa?...

     - Porco imundo!

     - Helen, pelo amor de Deus, espera... Recebes uma chamada telefónica e ficas logo pronta para explodir... Pelo menos ouve o que tenho para te dizer.

     - Que é que tens para me dizer? Que não estiveste lá?

     - Passei por lá... estive lá uns cinco minutos quando vinha para casa de regresso da biblioteca.

     - Pois... pois... e tomaram chá naquele cubículo... na cabana... e conversaram acerca do lindo dia...

     - Mudei de roupa na cabana. Nadámos um bocado. Ela tinha-me convidado uma dúzia de vezes para ir nadar. Estava cansado e quente...

     - Aposto que estavas quente!

     - Que diabo de imaginação obscena que tu tens! Não consegues pensar noutra coisa? Já um homem se não pode encontrar com uma mulher durante uns minutos... dar umas braçadas... conversar um bocado... voltar depois para casa... sem a levar para a cama?

     - Oh, pois!... Estou daqui a ver-vos... Uma conversazinha calma, toda intelectual, com aquela putéfia que tenta enfiar-se debaixo das calças de cada homem que encontra... E tu não és melhor do que ela... com a língua de fora atrás dessa cadela aluada...

     - Helen, escuta...

     - Não venhas para cá com mais conversa fiada. Causas-me vómitos!

     Passou por ele empurrando-o e depois saiu a correr da cozinha, direita ao quarto. Sabia que não havia nada a ganhar em esperar que ela acalmasse. Estava perante uma crise e tinha de a enfrentar. De certo modo nem a achava inteiramente desagradável ou despropositada. Talvez secretamente tivesse desejado uma crise, uma causa, sem razão, esse prelúdio para Peggy.

     Saiu também da cozinha e enfiou-se pelo corredor. Danny apareceu à porta do quarto de brincar.

     - Pai...

     - Mais tarde, Danny, agora não posso.

     Passou rapidamente pelo filho e entrou no quarto. Helen estava sentada na beira da cama e amarfanhava um Kleenex nas mãos. Philip fechou a porta atrás de si e aproximou-se dela. Olhou-a em silêncio. Ela levantou os olhos para ele, com uma expressão magoada e colérica, os olhos vermelhos a chorarem.

     - Ouve, Helen- começou ele -, estás a perder as estribeiras. Se tentares ser razoável, se decidires ouvir-me um minuto apenas, hás-de ver...

     - Estou a ver que chegue agora - disse ela. - Estou a ver tudo!

     - Que queres dizer com isso?

     - No outro dia, quando ficámos à tua espera no carro, quando voltaste a entrar em casa sozinho com ela... a combinar o encontro... Mas que parva que eu fui!

     Fora realmente esse o momento em que ele e Tina tinham combinado aquele encontro. Philip sentiu-se encalorado e desconfortável.

     - Eu disse-te que ela apenas queria combinar um jantar connosco.

     - Pois foi. Contigo. Na cabana. - Os lábios apertaram-se-lhe até parecerem exangues. - E o resto desta semana. Todas as noites fora. Tenho de ir ver o Selby... tenho de estar com o Horn. Bill Markson... o cinema... pois claro, estou mesmo a ver...

     - Fala com eles e certifica-te.

     - Tenho a certeza de que já tens tudo combinado.

     - Então achas que tenho estado com a Tina todas as noites esta semana. E o Sam o que é que estaria a fazer? Sentado, a gozar o circo?

     - O Sam foi um parvo... exactamente como eu...

     - Bom, tu és... por pensares o que estás a pensar.

     Philip fez um esforço para parecer ofendido e maltratado. “Até certo ponto”, dizia para si próprio, “isto é injusto. Uma simples bolsa de tabaco na cabana e agora ela estava a atribuir todas as suas saídas dessa semana a Tina. Como tudo aquilo era incrível. Ela tinha razão em tudo, apenas se enganara na parceira! “ Tentou imaginar qual seria a reacção dela se soubesse que a mulher em causa era realmente Peggy Degen. Tinha a certeza de que ficaria boquiaberta. Sentiu-se quase tentado a dizer-lhe.”

     - Porque é que estás tão certa de que tenho andado metido com a Tina? - perguntou-lhe.

     - Porque ela é tão fácil... é uma ninfomaníaca... e vocês, homens, são todos o mesmo. Metem isso em qualquer sítio, só para satisfazerem esses egos podres.

     - Estás a ser grosseira, Helen.

     - E tu não vales nada, um porco que não vale nada. Querido penso nas noites em que tenho estado à espera que venhas ter comigo à cama. Pensava que era a bebida, mas agora já não me admiro... Com aquela Tina... aquela profissional...

     - Jesus, se te pudesses ouvir...

     - Se ao menos pudesses comportar-te como homem e admitir... talvez ainda pudesse compreender.

     - Está bem - disse ele. - Então, admito. Deitei-a ao chão naquela cabana e forniquei-a. É estupenda. Gostei imenso. Ambos gostámos imenso. Duas vezes seguidas, e já tinha sido assim na noite anterior, e na noite antes dessa. Agora já estás contente, não estás?

     Ela pôs-se de pé num salto e atirou o braço para lhe dar uma bofetada. Ele agarrou-lhe o braço, desviando a Pancada, e puxou-lhe o braço para baixo até ela gritar com a dor. Ela tentou libertar-se, mas ele segurava-a com força. Finalmente largou-a.

     Ela ficou de pé em frente dele, com os olhos fitos nele, como os de um animal ferido, com a respiração ofegante.

     - Odeio-te - disse ela. - Odeio-te a sério...

     - Não queres poupar nada para o teu Dr. Wolf?

     - Poupo o resto para o tribunal dos divórcios... Philip sentiu-se quase aliviado.

     - Se é isso que tu queres? Ela não respondeu.

     - Bom... é isso? - insistiu ele.

     - Põe-te daqui para fora - gritou ela. - Sai desta casa imediatamente. Não quero ver-te nunca mais. Desprezo-te.

     Philip voltou-se e dirigiu-se lentamente para a porta do quarto. Abrindo-a, hesitou ainda uma fracção de segundo, mas depois prosseguiu no seu caminho, batendo a porta atrás de si. Ouviu-a soluçar, o som já abafado pela porta fechada. Passou pela porta do escritório, mal dando uma olhadela a Danny. Pegou bruscamente no casaco, que estava nas costas de uma cadeira da casa de jantar, e dirigiu-se apressadamente para o carro.

     Não sabia exactamente para onde ir, nem o que fazer, a não ser que o carro se ia dirigindo na direcção de Ridgewood Lane. Ao aproximar-se da estação de serviço da esquina, deu-se conta de que devia telefonar a Tina. A sua afeição por ela, desde que se lhe entregara na tarde anterior, era maior do que nunca. Fora a sua negligência e estupidez que a colocara numa posição desesperadamente comprometedora. Quanto a si mesmo, não lamentava nada, nem sequer se perturbava com o acontecido, mas sentia uma real preocupação em relação a Tina.

     Conduziu o carro para a estação de serviço e foi parar em frente da fila das bombas. Deixou instruções para lhe encherem o depósito e depois dirigiu-se para a cabina. Fechou-se lá dentro, enfiou a moeda na ranhura e marcou o número. Enquanto esperava, perguntava a si mesmo se Sam ainda lá estaria. Estava com pena de Tina. Se fosse Sam a atender, limitar-se-ia a desligar, mas foi Tina quem respondeu.

     - Tina? Aqui Phil...

     - O meu parceiro de crime! - A voz dela não soava nem ensanguentada nem humilhada, apenas com um brilho cansado.

     - Estás só?

     - Ora aí está uma boa pergunta - disse ela. - Estou só, quando estou só ou com o Sam. Não, não te preocupes. Ele abotoou as calças à pressa e saiu. E sem carabina.

     - Lamento imenso aquela estúpida bolsa de tabaco.

     - Isso devia bastar para te fazer abandonar o cachimbo.

     - Tu pareces muito satisfeita... jovial - disse ele, realmente surpreendido.

     - E estou... e estou. Estava a choramingar num canto quando o Sam telefonou à Helen. Até senti orgulho nele! A fera autêntica. Mas, pobre rapaz, ele nem sequer sabe que aquele tipo de diálogo desapareceu há cerca de vinte anos. Bom, agora conta lá o que é que aconteceu pelo teu lado?

     - Mortos e feridos. A Helen enfureceu-se de todo. Era como quem luta com dez samurais ao mesmo tempo.

     - Queres dizer que atirou com coisas?

     - Praticamente. Insiste em que temos andado os dois embrulhados durante toda a semana.

     - Porque hei-de ser sempre eu a ficar de fora dos divertimentos? Aposto que ela me deixou toda arranhada.

     - A escorrer sangue.

     - O que é que ela me chamou?

     - Tina! Isto é um telefone público!

     - E então agora somos velhos amantes?

     - Receio bem que sim.

     - A mim agrada-me. Philip teve de sorrir.

     - E a mim também. Sempre te achei encantadora. Agora já sei com certeza.

     Ela deu uma risadinha onde havia encanto.

     - Continua com essa conversa e eu convido-te a vires cá imediatamente!

     - Tina Sem-Pavor.

     - De onde estás a telefonar?

     - De uma cabina. A Helen pôs-me na rua.

     - A sério?

     - E tu?

     - Bom, quando o Sam encontrou a tua bolsa ficou apopléctico. Era impossível falar com ele. Depois entrou por aí dentro e fez o tal telefonema, mas depois daquele desabafo consegui falar com ele. E sabes, Sam é um tipo mesmo muito gentil. Detesta sarilhos. Acabei por fazê-lo sentir-se arrependido, disse que estava a proceder como um tribunal do far-west, um linchamento, que me não estava a julgar com justiça, a condenar-me com a mais tangível das provas circunstanciais. Falei da Idade da Razão, de Deus, das Crianças. O Sam é muito puritano, sabes? E eu também, pensando bem! Esposas não fazem coisas dessas. E mães ainda menos. A infidelidade conjugal pertence ao mundo das novelas baratas. Quando acabei de falar já ele estava a pedir desculpa.

     - E ficou assim? - perguntou Philip, maravilhado. Tina riu-se.

     - Ainda há mais. Eu sabia que simples palavras não bastavam para o convencer duradouramente. A reconciliação, o verdadeiro amor, tem de ser dramatizado. Caímos nos braços um do outro e, bom, houve uma luta emocional e... Será preciso recordar-te... Sou número trinta e seis...

     - Eu teria apostado que são tamanho quarenta e dois.

     - Ora, deixa-te disso ou tens mesmo de vir até cá. Enfim, acabámos no quarto... E excepto pelo facto de me sentir intensamente exausta...

     - Estou impressionado com o Sam.

     - Estou-me a referir a ti, parvo. Excepção feita para uma debilidade generalizada, a minha vida doméstica voltou a uma posição de certo equilíbrio. Tudo perdoado. Saiu para o trabalho, prometendo voltar a telefonar à Helen. Quer pedir-lhe desculpa. Vai-lhe dizer que procedeu mal, que Tina se comportou como uma manta para com o Philip e quer que sejamos todos amigos outra vez.

     Philip tinha-a estado a escutar com verdadeiro espanto. Ali estava uma fêmea completa. É claro que era preciso possuir-se o equipamento natural que correspondia à mentalidade felina, mas a verdade é que Tina tinha isso tudo.

     - És um verdadeiro milagre, Tina!

     - Lá isso sou. Agora vai para casa e reconcilia-te com a Helen. Não... é melhor esperares até o Sam ter tido tempo de a amansar.

     - Veremos.

     - Que queres tu dizer?

     - Tivemos uma discussão violenta. Preciso de pensar.

     - Bom, se te mudares, manda-me a morada para eu me mudar também para lá.

     Philip sorriu. Era uma verdadeira mulher.

     - Notificar-te-ei de qualquer mudança de endereço

     - prometeu ele, mas depois acrescentou: - És a única ruiva genuína que jamais amei.

     Ela ficou satisfeita.

     - Vocês, escritores, reparam em tudo.

     - Adeus, Tina! - e Philip desligou.

     Regressando ao carro, viu que o relógio da estação de serviço marcava um quarto para as três. Assinou o talão do abastecimento da gasolina e depois afastou-se. Mal entrara em Sunset Boulevard quando se lembrou do encontro marcado para as quatro horas com Alexander Selby. E deu-se conta de que não estava em estado mental para tal encontro. O breve momento de jovialidade provocado pela louca conversa com Tina evaporara-se. Tudo o que restava era a amargura da sua discussão com Helen. Todavia, não era apenas essa amargura, era também a libertação que se lhe oferecia. Fora liberto por Helen. Era, pela primeira vez de há uma década a esta parte, um homem livre. Durante aquela hora, e as que imediatamente se lhe seguiram, sentia-se liberto de todas as obrigações e amarras familiares. Havia, talvez, um resíduo de sentimento de culpa, mas tinha menos consciência de culpa que em qualquer outro momento de toda essa semana passada. Como homem livre, podia pensar como quisesse e planear o que quisesse sem as algemas da responsabilidade. Todo o dia que se estendia à sua frente era seu, e a noite também. E, possivelmente, os anos. Era como se, subitamente, lhe tivesse tombado em cima uma chuva de cem presentes. Podia-os abrir um a um, lentamente, para gozar e saborear cada um por si, e depois desses ainda haveria outros. O dia que se estendia à sua frente estava cheio de promessas. Queria usá-lo bem. Peggy, é claro, era o ponto e a finalidade do dia, e queria planear, planear seriamente, como se comportaria com ela e o que lhe diria. Com tudo isto nas pontas dos dedos, Alexander Selby tornava-se um intruso. Caroline Lamb parecia-lhe uma criatura esfumada e bolorenta, um cadáver erudito enterrado em livros. Peggy Degen era agora a parte principal do seu modo de estar vivo. Vivia numa verdadeira casa, numa rua chamada Ridgewood Lane, que era possível atingir num dado número de minutos. E Peggy era uma pessoa real em quem era possível tocar com as mãos, aquelas mesmas mãos que agora seguravam o volante do carro. A imagem de Peggy, nua em cima da cama, era mais clara do que nunca no seu cérebro. Os seus braços estavam estendidos para ele. Ela desejava-o e ele precisava dela. Caroline Lamb era apenas um fantasma: que dormisse eternamente.

     Foi seguindo até Beverly Hills e depois estacionou em frente do edifício que lhe era tão familiar. Subiu escadas a correr, pisando os degraus a dois e dois. Como de costume, a porta exterior do escritório de Nathaniel Horn estava aberta. Viola estava a escrever à máquina. Entrou sem fazer ruído e foi-lhe fazer cócegas na parte posterior do pescoço. Ela deu um grito e virou-se rapidamente para ele.

     - Você...

     - Não me reconheceu só pelo toque? - perguntou ele alegremente. Espreitou para dentro do escritório Onde está o Nat? -

     - Nas suas voltas - disse Viola. - Mas você não devia encontrar-se com ele às...

     Philip ergueu ambas as mãos.

     - Não posso, estou ocupadíssimo. Trata-se de uma emergência. Ser-lhe-á possível entrar em contacto com ele?

     O telefone tocou nesse momento.

     - Ele telefona de vez em quando. - Levantou o auscultador. - Espere, que talvez seja ele.

     Era Horn. Philip ficou ali, cheio de impaciência enquanto Viola leu ao telefone algumas mensagens. Depois comunicou-lhe a presença de Philip e passou a este o telefone.

     - Que diabo estás aí a fazer? - perguntou Horn com ansiedade. - Temos um encontro...

     - Bem sei, bem sei. Escuta, Nat, é-me impossível comparecer... - É-te impossível o quê? Mas tens de aparecer.

     - Não. Não posso. Aconteceu uma coisa. Da maior importância. A voz de Horn nem sequer tentava ocultar a contrariedade. 5Ua

     - Mas que diabo pode ser mais importante do que...

     Philip desejava poder dizer-lhe. Talvez Horn o compreendesse. Mas, em vez disso, disse simplesmente:

     - É uma questão pessoal. Não te posso explicar ao telefone. Talvez um dia destes te conte!

     - Phil... Selby não é o tipo de homem que se trate por cima da burra... Que lhe vou eu dizer?

     - Diz-lhe que estou de parto... que tenho dores menstruais... o que te vier à cabeça. Diz-lhe que estou doente.

     - O sujeito está sob pressão, Phil. Pode ficar muito contrariado e mandar-te à fava.

     - Não posso fazer nada...

     - É então tão importante para ti o que tens de fazer?

     - É.

     - Bem, tu lá sabes as linhas com que te coses. Está bem, vou tentar telefonar imediatamente ao Selby.

     - Talvez consigas convencê-lo a esperar até segunda-feira?

     - Não vai esperar tanto tempo, pois sabes muito bem que ele tem de tomar uma decisão este fim-de-semana. Tens a certeza de conseguir qualquer coisa? Vou ver se consigo arranjar um encontro rápido para amanhã.

     - Desculpa, Nat. Não.

     A voz de Horn parecia cheia de resignação.

     - Vou ver o que consigo, mas não faço promessas. Passa o telefone outra vez à Viola.

     Philip entregou o aparelho a Viola, acenou-lhe um adeus e desceu as escadas a correr. Ficou durante um momento indeciso, encostado ao contador do parque de estacionamento, sem saber bem o que iria fazer a seguir. Finalmente decidiu telefonar a Peggy. Uma casa de venda de bebidas engarrafadas, umas três portas mais adiante, tinha por cima da montra o letreiro azul que indicava telefone público. Entrou. O lojista estava ocupado a servir vários clientes e Philip localizou de imediato o telefone na parede do fundo. Meteu a moeda e marcou o número de Peggy. Enquanto esperava, ia passando em revista o que lhe iria dizer. Mostrar-lhe-ia que era muito urgente e importante que se encontrassem essa noite. O telefone, na outra extremidade, tocou, tocou, mas não obteve resposta. Preocupado com a possibilidade de se ter enganado no número, desligou, recuperou a moeda e tentou outra vez. Mas, mais uma vez, o toque persistente continuou sem resposta. Não estava em casa e não havia nada a fazer. Voltaria a tentar outra vez mais tarde. Saindo da loja, deu-se conta de que não comia nada desde o pequeno-almoço. Magicou onde iria comer, mas não foi preciso muito tempo para encontrar uma solução.

     Guiou a meia dúzia de quarteirões até chegar ao Santa Mónica Boulevard, depois voltou e foi enfiar o carro na primeira vaga que encontrou. Dirigiu-se lentamente até à Livraria Pegasus, sem saber bem o que queria de Dora Stafford, apenas tinha a certeza de que queria falar e ouvir falar de Peggy. Franziu a testa para espreitar pela montra vistosamente enfeitada e viu logo a grande trunfa de cabelo castanho inclinada sobre uma pilha de livros no balcão, mesmo ao lado da caixa registadora. Entrou. Quando empurrou a porta, uma campainha tiniu por cima da sua cabeça.

     Dora Stafford levantou a cabeça.

     - Falai do diabo - disse ela. - Sabia que você escrevia, mas não sabia que também lia.

     - Olá, Dora. Ia a passar...

     - É o que faz quase toda a gente. E é esse o grande defeito do negócio livreiro.

     - Prometo comprar um livro da próxima vez... Talvez dois livros, mas tive de ficar sem almoço e pensei que o melhor era meter qualquer coisa na barriga. Posso convidá-la a beber comigo uma chávena de café?

     Ela observou-o mais atentamente.

     - Você tem ar de ter sido apanhado dentro de uma máquina de lavar roupa. Tem andado a beber?

     - Nem por isso.

     - Está bem - disse ela. - Correio do Coração Limitada vai entrar de serviço. - Depois gritou por cima do ombro: - Irwin!

     - Sim? - gritou ele do fundo do armazém.

     - Vou sair para me embebedar! Toma conta da caixa registadora! - Pegou no braço de Philip. - Vamos conversar sobre navios, nabos e naperões... e talvez Peggy Degen.

     Foram até ao café da esquina e sentaram-se na mesa mais próxima da porta. Ele pediu um hambúrguer e uma coca-cola e ela pediu um café.

     - Porquê aquela gracinha acerca de Peggy? - perguntou ele.

     - Porque tenho a certeza de que me quer fazer perguntas sobre ela... ou talvez apenas falar dela.

     Ele foi obrigado a sorrir.

     - A sibila... - disse ele.

     - Não me venha para cá com larachas clássicas. Falo com a Peggy todos os dias. Acabou por admitir que você a levou a jantar.

     - Só isso?

     - Há mais? Ele riu-se.

     - Dançámos muito juntinhos e depois segurei-lhe a mão.

     - Vá contar isso ao gato.

     - Você não parece ter grande fé na resistência da sua amiga! Ela não é exactamente daquelas que é só empurrar.

     - É uma mulher muito nova e tem aquilo de que uma grande quantidade de homens gosta. É normal. Por isso talvez ela também goste daquilo que eles gostam.

     Philip lembrou-se então de que era um homem livre.

     - Admito que estou muito interessado nela.

     - Não parece lá muito feliz ao dizê-lo!

     - Lembre-se de que tenho também uma certidão de casamento amarelecida.

     Dora Stafford acenou com a cabeça.

     - Estou a ver até que ponto isso pode vir a constituir um problema.

     O hambúrguer, a coca-cola e o café apareceram em frente deles. Deu uma dentada na carne e depois dedicou-lhe toda a sua atenção. Quase se tinha esquecido da fome que tinha. Depois de ter acabado de comer, tirou o cachimbo do bolso e só então se lembrou que não tinha a bolsa do tabaco. Pediu um cigarro a Dora Stafford, acendeu o dela e depois o seu.

     - Tinha pensado ir ver hoje a Peggy - disse ele. - Telefonei, mas ninguém respondeu.

     - Não. Falei com ela ao meio-dia. Foi às compras. Estará de volta à hora do jantar.

     - Tentei vê-la estas duas últimas noites, mas tinha companhia.

     - Bem sei, bem sei... Veblen Júnior, o economista...

     - Conheci-o ontem à noite.

     - Um verdadeiro enguiço, não é verdade?

     - Não sei. Limitei-me a apertar-lhe a mão.

     - Não devia dizer mal dele, mas, para o meu gosto, é um chato. Um chato e um enguiço. Peggy diz que ele é muito melhor do que eu julgo, é apenas tímido e um pouco inibido.

     - Ela pensa nele a sério?

     - Como é que quer que eu saiba! - exclamou Dora Stafford. - Pergunte-lhe a ela.

     - Tenciono fazê-lo.

     - Olhe, vou-lhe oferecer um diagnóstico grátis. É o Diagnóstico Especial Stafford do dia. Na minha opinião a Peggy fica atrapalhada quando o vê, diria mesmo que ela iria consigo até ao fim do caminho. Você tem a classe e o estilo mas, mesmo assim, cá no meu canhenho é aquele rapazinho chamado Cahill o grande favorito da corrida. Porque ele tem uma coisa que o velho Fleming não tem: liberdade de casar.

     - Ela não é mulher para casar com um homem de quem não goste.

     - Em que classe é que você anda?... Na primeira? Que é que tem uma coisa que ver com a outra? Além disso, quem é que lhe disse que ela não gosta dele? Claro que gosta. Você causa-lhe calores, mas ela gosta dele. - Dora Stafford acendeu um cigarro na ponta do outro. - Ouça, meu ingénuo amigo, você já ouviu o Especial Stafford, vai agora ouvir a Teoria Stafford. Os casamentos não são feitos no céu, não há um homem destinado a cada mulher nesta terra. Há um tipo de homem. Uma mulher interessa-se por um dado tipo, membro de uma vasta classe de indivíduos. Na vida de uma mulher passam cem homens, em que com cada um deles ela poderia ser tão feliz como com aquele por quem finalmente se decide. Se perde a oportunidade com um, é só uma questão de esperar e já cá está outro. Tarde de mais para apanhar o Fleming, então vamo-nos decidir pelo Cahill. Os bebés serão tão saudáveis como os outros e o casamento vai ser tão miserável ou maravilhoso como seria com qualquer homem. Fico sempre furiosa quando leio nos jornais que uma qualquer miúda apaixonada se matou por causa de um tipinho qualquer. Se ela tivesse esperado mais um anito... São os factos da vida, meu amigo. A nossa divina Peggy ama-o a si mas gosta do Cahill ou de mais dez homens. Que é que você lhe pode oferecer? Fazer dela sua amante. Pagar-lhe a renda de qualquer apartamento numa rua transversal. Que é que ele pode fazer por ela? Fazer dela sua esposa. Cada um paga o seu dinheiro e faz a sua escolha. Você talvez pudesse ganhar a corrida, mas o livro do futuro diz Cahill. - Dora fez uma pausa e fitou Philip. - Isto é, se tudo permanecer no statu quo. É isso?

     - Não percebo o que quer dizer. Dora sorriu.

     - Pois é claro que sabe o que quero dizer. - Afastou a cadeira e levantou-se. - Agora leve-me junto do meu chefe.

     Philip acompanhou Dora até à loja. Sentia-se contente por ter ido vê-la. Não só achava aquela personalidade terra-a-terra estimulante, como o seu diagnóstico e ponto de vista pareciam fortalecer o que já estava na sua ideia. Caminhou até ao drugstore da esquina e comprou uma lata de tabaco. Estava prestes a telefonar outra vez para casa de Peggy quando se lembrou que Dora Stafford lhe dissera que ela fora fazer compras e só estaria em casa por volta da hora do jantar. Regressou para junto do carro a abrir a lata de tabaco e a encher cachimbo.

     Já dentro do carro deu uma olhadela ao relógio de pulso: passavam dez minutos das quatro. Peggy só voltaria a casa daí a uma ou duas horas. Depois disso teria de dar-lhe ainda mais uma hora. Quando telefonasse, queria que o jantar e o Steve já estivessem preparados. Queria organizar cuidadosamente aquele encontro. Ao mesmo tempo não queria chegar tarde de mais, pois ela podia estar para sair e ele não a encontraria, acabando a noite nalgum motel, sozinho, a ferver por dentro, sem ter nada resolvido.

     Foi guiando até ao Wilshire Boulevard. Queria passar depressa aquelas três horas e tinha uma ideia sobre a melhor maneira de o conseguir. Deixou o carro no barroco, com uma torre em forma de espiral, e dirigiu-se à bilheteira. Comprou um bilhete. O átrio do cinema estava vazio, apenas povoado por grandes massas de figuras bíblicas, barbudas, que corriam sobre ele de alguns cartazes furta-cores. O filme era exactamente o que ele queria: tinha pouco diálogo e muito espectáculo. Chamava-se Armagedão e os anúncios diziam que tinha custado para cima de cinco milhões de dólares. Durava umas três horas e meia. Philip lembrava-se de ter lido uma sinopse do argumento numa notícia. A grande batalha final, verdadeiramente de epopeia, entre os bons e os maus, antes do Dia do Juízo, fora provocada pelo facto de um aguerrido príncipe de uma tribo ter pilhado uma donzela loura de outra tribo. Philip tinha a certeza de que Homero não figurava na lista dos créditos pela sua colaboração no Livro das Revelações. A certa final de morticínio por atacado fora filmada no Próximo Oriente, utilizando milhares de figurantes mal pagos e o filme fora muito elogiado pela crítica, excepto quanto ao final. Na última cena permitira-se que sobrevivessem à chacina um belo tenente e vários dos bons, juntamente com a donzela raptada, e todos enfrentavam o último julgamento com perfeita confiança,

     “São estes os meus colegas”, reflectiu Philip com azedume ao sentar-se numa cadeira da coxia perto do fundo da sala. “Todos nós metidos numa dispendiosa sala de brinquedos para crianças, com tirinhas de celulóide virgem e grandes lápis de cores”. Logo que os seus olhos se acostumaram à luminosidade do interior da sala, reparou que só havia uma dúzia de fregueses espalhados à sua frente. No ecrã imensamente alongado, em todas as cores do arco-íris, sujeitos tribais com elmos rebrilhantes escalavam uma encosta na direcção da batalha. A música era sonora, agoirenta e intrusiva, mas não havia vozes.

     Philip instalou-se melhor na fofa poltrona, enterrando-se tanto que as costas do assento da frente quase lhe ocultavam todo o ecrã; depois acendeu o cachimbo e tentou pensar. Foi Helen quem lhe veio imediatamente ocupar a mente. Tentou imaginar o que estaria ela a fazer àquela hora. O mais provável era estar estendida, inerte, em cima da cama, refastelando-se na pena de si mesma, enquanto Danny corria barulhenta e solitariamente pela casa. Fora Helen quem falara em divórcio. Não era aquela a primeira vez que um deles usava a palavra, mas sempre se lhe seguira um rápido perdão e reconciliação. Desta vez, a veemência e a provocação tinham sido maiores do que em qualquer ocasião anterior e Philip deu-se conta de que a sua atitude não encorajava qualquer movimento de reconciliação.

     Tentou imaginar o estado de divorciado. Tinham estado casados durante dez anos e isso tornava tudo mais difícil. Uma união de um, dois ou três anos podia dissolver-se depressa. Uma pessoa saía dela com um sabor amargo na boca e um ego um tanto ou quanto amachucado, mas talvez pouco mais do que isso, mas a amputação de dez anos implicava grande cirurgia e dores consideráveis. Iria perturbar bastante os pais de Helen e os seus próprios pais. Iria empurrar Danny ainda mais para o fundo do abismo. E de entre os seus amigos quem ficaria como guardião?

     Tentou projectar Helen na posição de divorciada. Casaria outra vez ou devotar-se-ia ao ressentimento, ao ódio e a Danny? Era ainda jovem e atraente e haveria sempre homens capazes de gostar da sua companhia. Talvez casasse com um desses. E ele?

     Pensou em Peggy Degen e tentou projectá-la na posição de Peggy Fleming. Os seus amigos haviam de gostar dela e ele gostava dos amigos dela. Dora Stafford e Horace Trubey eram autênticos achados. Onde iriam viver? Que iriam fazer? Não podiam permanecer em Los Angeles, pois não era capaz de imaginar a vida na vizinhança de uma Helen azedada e vingativa. Peggy também não podia ficar satisfeita a vê-lo permanecer um argumentista de cinema e televisão amarfanhado na mediocridade. Iriam ao estrangeiro, é claro. Mesmo com um rendimento limitado, e tendo de pagar a pensão a Helen, talvez o conseguisse fazer. Viveriam numa daquelas pitorescas velhas casas de três andares de alguma aldeia dos arredores de Paris e dali iriam todos os dias para a cidade. Conseguiria arranjar trabalho ocasional e podia talvez até escrever livros e tornar-se célebre. Punham Steve numa escola americana e talvez até pudesse mandar ir o Danny de vez em quando. Teriam muita gente a ajudá-los em casa, pois o trabalho manual ainda era ali relativamente barato e abundante. Viajariam com o sol e amar-se-iam. Ficaria, finalmente, vivo!

     Mas verificou que era incapaz de projectar Peggy no papel de esposa que Helen desempenhara. Era incapaz de visualizar uma rotina quotidiana com Peggy. Podia imaginar-se na cama com ela de manhã. Podia imaginar-se a fazer amor com ela à tarde. Podia imaginá-la a ir cedo para a cama com ele à noite. Mas, para além disso, a sua imaginação recusava-se a servi-lo.

     Enterrou-se mais ainda na poltrona, permitindo que a imagem de Peggy lhe enchesse o cérebro. Considerava-a possessivamente, com uma lassidão imensamente agradável. A música que vinha do ecrã era distante e romântica, mas perguntava a si mesmo o que é que se estaria a passar no ecrã. Os olhos pesavam-lhe. Passado um momento, deixou de pensar conscientemente.

     Foi o som de conversas sussurradas de pessoas que se estavam a sentar atrás de si e o trovejar vindo do ecrã que o acordaram. Ficou imóvel ainda durante um momento, até se dar conta de que tinha adormecido. Empertigou-se muito depressa, pois doíam-lhe as costas. Inclinou-se para o relógio de pulso e viu que já passavam vinte minutos das sete. Aborrecido pela hora tardia, levantou-se precipitadamente. A grande extensão do ecrã colorido erguia-se à sua frente. Um rapaz, todo o peito coberto de armadura e cabedal, bastante maltratado, deixara cair a sua lança para erguer nos braços uma donzela chorosa no meio de um campo cheio de cadáveres. Philip virou as costas ao ecrã e saiu do cinema.

     Era já noite. As luzes coloridas do teatro estavam acesas e havia um magote de gente à volta da bilheteira. Um ardina anunciava aos berros um dos jornais da tarde. O tráfego zumbia buliçosamente pelo Boulevard. Sexta-feira à noite. Decisão.

     Acelerou o passo na direcção do carro.

     “Sete noites sucessivas”, pensou ele ao virar o carro para Ridgewood Lane e ao aproximar-se da casa de Peggy. “Sete noites”, pensou, “desde que ela se mudara para esta casa e que ele a viera ver pela primeira vez. Uma semana de noites que tinham transformado a su