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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PELO CURDISTÃO BRAVIO / Karl May
PELO CURDISTÃO BRAVIO / Karl May

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PELO CURDISTÃO BRAVIO

 

Preparando a contra-ofensiva

Voltávamos da visita que fizéramos ao chefe dos Curdos Badimans. Ao chegarmos à última colina e ao relancearmos os olhos pelo vale dos Adoradores do Diabo, vimos, bem nas proximidades da casa do Bei, um grande monte de palhas de arroz, que os Dschesidis se empenhavam em aumentar. Pir Kamek assistia aos trabalhos e punha, às vezes, pedaços de betume no monte.

- Aquela é a pira - disse o Bei Ali.

- O que pretendem sacrificar?

- Não sei.

- Algum animal?

- Somente os hereges costumam queimar animais.

- Frutas?

- Os Dschesidis não queimam nem animais nem frutas no fogo dos seus sacrifícios. O Pir nada me disse, por isso não sei o que irão sacrificar hoje. Ele é uma pessoa virtuosa, um santo, e o que fizer não é pecado.

Na colina fronteira continuavam as salvas dos peregrinos, salvas que eram respondidas no vale; quando lá cheguei, notei, entretanto, que não caberia mais gente do que a que já havia. Entregamos as nossas montarias e nos dirigimos ao sepulcro, em cujo caminho levantava-se um chafariz cercado por chapas de grés. O Mir Xeque Khan, sentado numa das chapas, dirigia a palavra aos peregrinos que, a uma certa distância, o escutavam cheios de profundo respeito.

- Esta fonte é santa e só o Mir, eu e os sacerdotes nela nos podemos sentar. Peço-te, pois, não te magoares por teres que ficar de pé! - disse Ali Bei.

À nossa aproximação o Khan fêz um sinal aos presentes estes abriram alas para passarmos. Em seguida ergueu-se e veio ao nosso encontro, estendendo-nos a mão.

- Sejam bem-vindos. Tomem lugar à minha direita e à minha esquerda.

Dizendo isso, indicou ao Bei Ali o seu lado esquerdo, de modo que a mim cabia sentar-me à direita. Sentei-me na laje santa, sem que tivesse percebido num só dos presentes o menor gesto de contrariedade. Oh! quanto contrastava, no entanto, essa minha atitude com aquela que os maometanos eram obrigados a adotar!

- Falaste com o chefe? - perguntou o Khan.

- Falei e está tudo na melhor ordem. Participaste alguma coisa aos peregrinos?

- Ainda não.

- Está em tempo. Dá ordens para que essa gente se reúna!

- Eu sou o guia espiritual. O resto é contigo. Não pretendo tirar-te a glória de teres protegido os fiéis e vencido os inimigos!

Era um sinal de modéstia de que jamais seria capaz um Imã maometano. Ali, o Bei, ergueu-se e saiu a passos. Enquanto eu palestrava com o Khan, notei um invulgar movimento entre os peregrinos, movimento que ia crescendo de minuto a minuto. As mulheres e crianças, imóveis, ficaram paradas nos seus respectivos lugares; os homens estavam enfileirados junto ao arroio e os chefes de tribos, ramificações e localidades, formavam um círculo em torno do Bei Ali, que lhes comunicava os propósitos de Mutessarif de Mossul. Notava-se um silêncio e uma ordem dignos de menção; não havia a algazarra desordenada que, em geral, se notava quando as tropas orientais se reuniam. Depois de terem sido transmitidas às ordens e o aviso do Bei Ali, a reunião se dissolveu na mesma ordem e compostura.

O Bei Ali voltou.

- Quais as ordens que lhes transmitiste? - perguntou-lhe o Khan.

O interrogado estendeu o braço, indicou uma tropa composta de vinte homens que subia pela mesma estrada de onde descêramos e declarou:

- Vejam: são os guerreiros de Airam, Hadschi Dsho e Shura Khan, que conhecem muito bem esses caminhos. Vão ao encontro dos turcos e nos avisarão, em tempo, quando estes estiverem chegando. Estendi, igualmente, sentinelas na direção de Baadri; desse modo, o inimigo não nos poderá atacar de surpresa. Até o anoitecer temos ainda três horas, tempo mais que suficiente para transportarmos os animais e todos os nossos haveres para o vale do Idiz. Selek irá junto como guia da tropa.

- E os homens que seguem para o Idiz estarão de volta à hora do Santo Ofício?

- Sim, com toda certeza.

- Então que se inicie já o transporte!

Logo que a patrulha partiu, uma extensa fileira de homens, uns conduzindo animais pelas rédeas e outros levando aos ombros diversas utilidades, passou por nós, desaparecendo um após o outro, por trás do sepulcro. Em seguida, surgiram novamente numa vereda encravada na rocha e dos nossos lugares podíamos acompanhá-los com o olhar até desaparecerem ao alto, numa densa mata.

Tive que fazer a refeição em companhia do Bei Ali. Ao findar, a Baschi-Bozuk acercou-se de mim:

- Senhor, tenho algo a dizer-te.

- Fala com franqueza!

- Estamos na iminência de um grande perigo!

- Ah! Que perigo?

- Esses homens, os Adoradores do Diabo, estiveram a fitar-me durante meia hora com olhares terríveis. Pareciam querer matar-me.

Como Buluk-Emini ostentasse o seu uniforme, achava justificável a atitude dos Dschesidis, ameaçados pelos turcos. Contudo, tinha convição de que nada sucederia a Baschi-Bozuk.

- Isso é grave, - disse eu. - Quem servirá, depois, a cauda do teu burro?

- Eles sangrarão o burro também! Não viu como mataram a maior parte dos búfalos e ovelhas que havia?!

- O teu burro está seguro e tu também! Um pertence ao outro e ninguém há de separá-los.

- Prometes?

- Prometo.

- Estive muito inquieto durante a tua ausência.

- Pretendes ausentar-te novamente?

- Por enquanto, não; ordeno-te porém, que permaneças aqui e não te mistures com os Dschesidis, porque, do contrário, não poderei proteger-te.

O herói, a quem Mutessarif prometera a minha proteção, afastou-se meio tranqüilo. Em seguida recebi nova advertência: Halef procurou-me.

- Sídi, já sabes que vai haver uma guerra?

- Uma guerra? Entre quem?

- Entre os Osmanlis e os Adoradores do Diabo.

- Quem te disse!

- Ninguém.

- Ninguém? Não ouviste nada a respeito do que falamos hoje de manhã, em Baadri?

- Não ouvi coisa alguma, pois vocês falaram no idioma dos turcos e esta gente fala de tal jeito que não compreendo nada do que dizem. Vi, porém, que se realizou aqui uma grande assembléia e que depois desta todos os homens examinaram as armas. Daí a pouco retiraram do local as alimárias e tudo o mais que possuíam. Em seguida, quando subi ao avarandado para falar com o Xeque Maomé, estava ele ocupado em retirar de suas pistolas a carga velha para substituí-la por nova. Não bas-tam, então, esses indícios para se estar convencido do perigo?

- Tens razão, Halef. Amanhã, ao romper da alvorada, de Baadri e também de Kaloni, chegarão tropas turcas para atacar os Dschesidis.

- E eles sabem disso?

- Sabem, sim.

- Qual é o efetivo dos turcos?

- Mil e quinhentos homens.

- Eles terão muitas perdas, pois o seu plano de guerra foi denunciado! Ao lado de quem te vais colocar Sídi?

- Não participarei da luta.

- Não? - retrucou o homenzinho decepcionado. - Também não devo tomar parte no combate?

- A qual dos combatentes és simpático?

- Aos Dschesidis.

- A esses, Halef? Aos Dschesidis que acreditavas te roubarem o paraíso?

- Oh, Sídi! Não os conhecia ainda; agora estimo essa gente!

- Mas são ímpios!

- Ora, Sídi, tu também não estás sempre pronto a acudir gente de bem, sem cogitar do seu credo, sem perguntar se adoram a Alá ou a qualquer outro deus?

Vi com satisfação que o meu bravo Halef, que a todo transe pretendera converter-me ao islamismo, se expandia abertamente num sentimentalismo essencialmente cristão! Respondi-lhe:

- Ficarás comigo!

- Enquanto os combatentes demonstram a sua coragem e valor guerreiro?

- É possível que se proporcione ocasião de mostrarmos, também nós, e em muito mais elevado grau, a nossa valentia e o nosso valor bélico.

- Neste caso, ficarei contigo! O Buluk Emini também ficará?

- Também.

Subi ao avarandado para ir ter com o Xeque Maomé Emin.

- Hamdullillah, louvado seja Deus, porque chegas! - exclamou ele. Ansiava pela tua vinda como a relva anseia pelo orvalho da noite!

- Estiveste sempre aqui em cima?

- Sempre. Ninguém deve reconhecer-me, porque então estarei descoberto. Que novidades trazes?

Depois de lhe haver narrado tudo, ele, apontando para as armas que se achavam à sua frente, disse:

- Terão uma recepção brilhante!

- Não chegarás a usar essas armas.

- Não? Pensas então que nossos amigos e eu não saberemos defender-nos?!

- Seus amigos são bastante fortes e valentes para, sozinhos, defenderem suas posições. Acaso pretendes morrer atingido por uma bala ou por um golpe de faca para que teu filho pereça na fortaleza de Amadijah?

- Emir, falas como um homem prudente, não, porém, como um homem valente!

- Xeque, sabes muito bem que não temo inimigo algum! Não é o medo que fala em mim, não! Bei Ali exigiu que nos afastássemos da luta. Ele, como eu, estamos convencidos de que ela não se realizará.

- Neste caso, esperas que os turcos se rendam sem oporem a mínima resistência?

- E se não se renderem serão fuzilados em massa!

- Os oficais turcos não possuem valor algum, os soldados, porém, são valentes. Eles assaltarão as colinas e ficarão facilmente senhores da situação.

- Mas mil e quinhentos contra seis mil homens?

- O único meio de vencê-los seria sitiá-los aqui dentro do vale.

- E é exatamente o que vai suceder.

- Então teremos que nos retirar com as mulheres para o vale do Idiz?

- Tu irás.

- E tu?

- Ficarei aqui.

- Allah kerihm. Fazendo o quê? Encontrarias morte certa.

- Não tenho o menor receio disso. Encontro-me sob a sombra do Padixá, sou portador de uma recomendação do Mutessarif e tenho em minha companhia um Buluk Emim, cuja presença, por si só, seria o bastante para pôr-me ao abrigo de qualquer violência dos turcos.

- Mas que pretendes fazer aqui?

- Evitar a consumação de grandes males, se isso me fôr possível.

- E o Bei Ali sabe disso?

- Não.

- E o Mir Xeque Khan?

- Também não. Saberão tudo oportunamente.

A muito custo convenci o Xeque de que eu devia ficar com ele. Finalmente aceitou minha proposta.

- Allah illa Allah! Os caminhos dos homens estão prescritos no livro - declarou ele; não pretendo demover-te do teu propósito, mas ficarei aqui contigo!

- Tu? Não é possível!

- Por que não?

- Eles não devem encontrar-te.

- E a ti, também não.

- Já te disse que não corro perigo algum; a tua sorte, porém, será bem diversa, se fores surpreendido.

- O fim do homem está prescrito no livro! Como tenho que morrer um dia, não importa que seja aqui ou na fortaleza de Amadijah.

- Queres ir de encontro à desgraça e te esqueces que me arrastarás contigo!

Vi que era este o único meio de arrancá-lo à sua obstinação.

- Como? - perguntou-me.

- Se eu ficar sozinho, serei protegido pelos meus Firmans; mas se te encontrarem comigo, a ti um inimigo do Mutessarif e um prisioneiro foragido, terei perdido essa proteção e não poderei mais contar com a ajuda daquela gente. Então estaremos ambos perdidos!

O velho ficou pensativo. Percebi logo por que relutava em refugiar-se no vale do Idiz, mas deixei-lhe tempo para tomar uma resolução. Finalmente declarou em voz baixa e indecisa:

- Emir, me achas um covarde?

- Não. Sei que és um homem valente e decidido.

- E que pensará, depois, Bei Ali a meu respeito?

- Pensará o mesmo que eu e o Mir Xeque Khan.

- E os demais Dschesidis?

- Todos conhecem as tuas tradições de bravura e sabem perfeitamente que não és capaz de fugir de inimigo algum, por mais feroz que este seja!

- E se duvidarem da minha coragem guerreira, serás o meu defensor? Dirás abertamente que segui para o vale de Idiz, para junto das mulheres, por causa, unicamente de teus rogos insistentes?

- Direi isso a todos de viva voz.

- Pois bem, farei o que me propões.

Resignado, afastou a sua espingarda e virou-se para o vale, que já estava sendo envolvido pelo manto escuro da noite.

 

AS SOLENIDADES RELIGIOSAS DOS DSCHESIDIS

Naquele instante voltavam os homens que haviam seguido para o vale do Idiz conduzindo os haveres. Vinham em préstito, um a um, e se dispersaram no vale diante de nós.

Nesse momento, ressoou uma salva no sepulcro do Santo, emquanto o Bei Ali subia e nos falava:

- Iniciam-se as grandes comemorações junto ao sepulcro. Nunca foram essas solenidades assistidas por um estranho, mas o Mir Xeque Khan, em nome de todos os sacerdotes, autorizou-me a convidar-vos para as mesmas!

Evidentemente aquele convite constituía uma grande honra para nós; mas o Xeque Maomé o recusou:

- Muito obrigado, Senhor; mas aos muçulmanos não é permitido tomar parte em adorações a outro deus que não seja Alá!

Sem dúvida, ele era muçulmano; contudo deveria ter-se esquivado um pouco mais delicadamente de comparecer ao rito religioso daquela gente! Ele ficou e eu acompanhei o Bei Ali.

Ao sairmos defrontamos uma paisagem verdadeiramente bela. Todo o vale estava banhado num verdadeiro mar de luzes. As ramagens das árvores, o arroio em baixo, as majestosas rochas das colinas, em torno das casas e nas suas soleiras, tudo enfim estava maravilhosamente iluminado. O Mir acendera uma tocha na lâmpada eterna do túmulo e, empunhando-a, veio para o pátio interno. Naquela tocha os Xeques e os Kawals acendiam as suas lanternas; na luz destas os faquires, por sua vez, acendiam as suas e em seguida todos saíam do pátio para a planície do vale, onde milhares e milhares de pessoas acorreram para se purificarem no fogo santo das lanternas.

Aquele que lograsse aproximar-se das lanternas dos sacerdotes passava a mão pelas chamas, para depois levá-la à testa e à altura do coração. Os homens casados passavam a mão duas vezes, a fim de obterem a bênção também para as suas mulheres. O mesmo faziam as mães para os seus filhos menores que não podiam atravessar a multidão e chegar até as tochas do fogo sagrado. Nessa cerimônia notava-se um júbilo intenso, um delírio de contentamento que, não obstante a grande aglomeração de fiéis, nada tinha de irritante.

Também o santuário foi iluminado. Em todos os nichos dos muros ardia uma lâmpada e por sobre os pátios estendiam-se linhas de guirlandas vistosas que produziam um efeito encantador.

Os sacerdotes haviam-se postado em duas filas no pátio interno. Num dos lados, formavam os Xeques com suas vestimentas brancas e, em frente, os Kawals. Estes empunhavam, alternativamente, um deles uma flauta e o outro um tamborim. Eu me sentara, juntamente com o Bei Ali, debaixo de um parreiral. Não pude ver onde se encontrava Mir Xeque Khan.

De repente, do interior do sepulcro, ressoou um brado e os Kawals se prepararam para tocar os seus instrumentos. A flauta passou a executar, em som plangente, uma lenta e amargurada melodia, enquanto o tamborim marcava-lhe o compasso. Em seguida a música desenvolveu-se subitamente em acordes prolongados, em quatro escalas, primeiramente o tamborilar pianíssimo das pontas dos dedos no tamborim, depois piano, mais forte, fortíssimo e então entraram as flautas em duas claves a tocar notas que não existem em nossa escala musical, mas de efeito bem agradável.

Quando os Kawals terminaram de tocar, o Mir Xeque Khan saiu do interior da casa, acompanhado de mais dois Xeques. Um deles precedia-o, conduzindo uma estante de madeira, semelhante à estante de música; esta foi colocada no meio do pátio. O outro trazia dois jarros, um contendo água e outro um líquido inflamável. Esses dois vasilhames foram colocados sobre a estante da qual O Mir Xeque Khan aproximou-se.

Fêz um sinal com a mão e passaram a tocar um prelúdio, acompanhado pelos sacerdotes, que cantavam um hino a uma voz. Infelizmente não me foi possível anotar as palavras, pois isso daria na vista. O hino era escrito no idioma árabe e incitava os fiéis à purificação, à fé e à vigilância.

Depois do hino, Mir Xeque Khan dirigiu um breve sermão aos sacerdotes. Em poucas palavras, ele falou na necessidade de todos pautarem a sua conduta isenta de quaisquer pecados, de fazer bem a todos os homens e de manter-se firmes e inabaláveis na sua fé, defendendo-a dos inimigos.

Em seguida voltou e sentou-se junto de nós, embaixo da parreira. Um dos sacerdotes trouxe, então, um galo vivo, que amarrou, pelo pé, ao púlpito; à sua esquerda foi colocada a água e à direita o material inflamável já ardendo.

Começaram novamente a tocar. O galo, encolhido, acocorava-se no solo. Parecia não dar atenção aos sons pianíssimos da música. Esta começou a tornar-se mais forte e a ave pôs-se a espreitar. Levantando a cabeça, passeou uns olhares desconfiados pela assistência, deparando, durante este exame, com o jarro de água. Apressadamente deu um pulo e meteu o bico na vasilha para beber. Esse fato auspicioso foi anunciado com alegres rufados dos tamborins. Estes pareceram despertar o interesse musical da ave. Ela ergueu a cabeça e escutava como que em doce recolhimento. Mas daí a minutos notou que se achava na iminência do perigo das chamas. Quis voltar, mas não pôde porque estava presa ao púlpito. Enraivecido o galo bateu as asas e cantou, sendo seguido imediatamente pelos tamborins e pelas flautas. Essa atitude dos músicos pareceu convencê-lo de que se achava num concurso musical. Virou-se para os exe-cutantes e, batendo as asas, cantou novamente. Responderam-lhe o canto como há pouco e, por algum tempo, cantou novamente num torneio musical, que parecia não ter mais fim, até que a ave, furiosa, voou para dentro do sepulcro.

A música acompanhou esse feito heróico do galo com os mais intensos “fortíssimos”; as vozes jubilosas dos sacerdotes se fizeram ouvir e, junto com os instrumentos, atacaram o andante final com uma intensidade que fatalmente teria que fatigar músicos e cantores! Ao terminarem a execução da peça, os Kawals beijaram os instrumentos.

Os sentimentos religiosos de um cristão revoltam-se, naturalmente, ao assistir tais ritos pagãos, mas, a falar a verdade, nada divisei de amoral naquela prática religiosa.

Agora devia seguir-se a venda de balas, da qual já falei. Antes, porém, os sacerdotes se aproximaram e ofereceram a mim e ao Bei algumas de presente. Eram balas bem redondas gravadas com uma palavra árabe, feita com instrumento apropriado para tal fim. Das sete que me deram, quatro delas traziam as palavras: El Chems, o sol.

As vendas foram efetuadas no pátio externo, ao passo que no interno a música e as canções ainda continuavam, com seus esquisitos acordes. Deixei o santuário. Do alto da colina, o vale deveria apresentar um aspecto maravilhoso, e eu saí em busca de Halef para acompanhar-me até lá. Encontrei-o no avarandado da casa, sentado ao lado do Buluk Emini. Pareciam entregues a uma animada palestra, pois ouvi Halef dizer:

- Quêee? Deve ter sido um russo?

- Sim, um russikow a quem provera Alá cortar-lhe a cabeça; sim, porque se não fosse ele eu ainda teria nariz! Como louco, eu desferia pancadas em torno de mim; o biltre, porém, tentava atingir-me a cabeça; quis desviar-me e recuei. O golpe que me devia atingir a cabeça, acertou somente o...

- Hadschi Halef - chamei.

Tinha prazer em interromper mais uma vez a espirituosa palestra do nariz... Ambos ergueram-se, num salto, e se chegaram a mim.

- Quero que me acompanhes, Halef, vem!

- Aonde, Sídi?

- Até o alto da colina. Quero apreciar o vale que, sem dúvida deve apresentar um deslumbrante espetáculo de iluminação!

- Oh, Emir, deixe-me ir junto! - pediu Ifra.

— Não me oponho a isso. Portanto, vamos!

 

UMA “ESTRELA” SUSPEITA

Subimos a colina situada na direção de Baadri. Por toda parte encontrávamos mulheres e crianças munidas de lanternas e todas nos saudavam e nos falavam com alegria infantil. Vários Dschesidis nos acompanharam para iluminar o caminho. Eu, porém, pedi-lhes que voltassem ou ao menos apagassem os fachos luminosos. Para melhor apreciar o panorama era preciso que ficássemos às escuras.

Embaixo, no vale, continuava a orgia de luzes, que jorravam de todas as partes. Milhares de pontos luminosos cruzavam-se, saltitavam, desviavam, bailavam e voavam numa confusão bela e grandiosa, pequeninos ao longe, lá embaixo, e, depois, avolumando-se cada vez mais, ao aproximarem-se de nós. O santuário borbulhava de luzes multicores e as duas torres, em harmoniosa simetria, elevavam-se flamejantes dentro da escuridão da noite. Além do efeito empolgante da iluminação, sentíamos, como se viesse de muito longe, o rufar dos tambores, o trinado das flautas, o som abafado de vozes humanas intercalado por constantes brados de júbilo; tudo isso completava o conjunto maravilhoso daquele espetáculo que nos deliciava os olhos e os ouvidos. Tive vontade de me deixar ficar horas inteiras para gozar melhor aquele maravilhoso espetáculo.

- Que estrela é aquela? - perguntou alguém perto de mim em idioma curdo. A pergunta fora feita por um dos Dschesidis.

- Onde? - perguntou um dos seus companheiros.

- Olha para a Rea Kadisahn (1) à direita!

- Estou olhando.

- Em baixo cintila uma estrela muito brilhante. Agora ela apareceu novamente! Conseguiste vê-la?

- Sim. É a Kjale be scheri. (2).

As quatro estrelas que em nossa constelação formam o costado do urso, para os curdos têm o nome de “O Velho”. Eles acham que “O Velho” tem a cabeça oculta nalgum grupo de estrelas vizinho. As três estrelas que entre nós formam a cauda da Grande Ursa, para eles são os “dois irmãos e a mãe cega do “Velho”.

- O Kjale be scheri? Mas este é formado por quatro estrelas! - opinou um deles. - Deve ser a Kumikji chiwan (3).

- Esta fica mais ao alto. Agora surgiu novamente. Ah! nós nos enganamos; ela aparece ao sul! Não pode ser outra senão a Meschin (4).

- Talvez tenhas razão. Meschin é formada também de várias estrelas. Que acha o senhor daquelas estrelas?

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(1) Via Láctea.

(2) Literalmente: O velho sem cabeça. (Grande Ursa).

(3) Vênus. E  (4) Balança: - Constelação do zodíaco.

 

Essa pergunta fora dirigida a mim. O fenômeno impressionara-me.

Os fachos e as lanternas embaixo lançavam uma claridade tal para o alto que me era difícil reconhecer a nova estrela surgida. O brilho, porém, que ao longe, no firmamento, de quando em quando surgia, para desaparecer em seguida, era intenso. Assemelhava-se a um fogo-fátuo que subitamente se acendia para em seguida apagar-se. Observei a claridade por algum tempo ainda e depois disse a Halef:

- Hadschi Halef, corra depressa para a esplanada do vale e diga ao Bei Ali que se digne a vir imediatamente cá! Trata-se de um assunto importante.

O meu servo desapareceu com passos apressados e eu avancei um pouco para a frente não só a fim de examinar melhor a nova estrela, como também para esquivar-me das inúmeras perguntas que me dirigiam os Dschesidis.

Felizmente o Bei ouvira que eu havia subido a colina e resolvera seguir-me. Halef encontrou-o perto de onde estivéramos e o trouxe à minha presença.

- Que pretendes mostrar-me, Emir?

Estendi o braço, horizontalmente.

- Olha nessa direção! Não demorarás em ver surgir uma estrela. Ei-la!

- Vejo-a nitidamente.

- Agora ela desapareceu. Tu a conheces?

- Não. Está muito longe no firmamento e não pertence a uma das constelações conhecidas.

Penetrei nas moitas e cortei algumas varas. Finquei uma delas no solo e fui me postar alguns passos na sua frente.

- Ajoelha diante dessa vara. Fincarei outra na direção em que a estrela tornar a surgir. Viste-a agora?

- Sim, vi-a distintamente.

- Onde devo enterrar a vara? Aqui?

- Meio palmo mais para a direita.

- Então aqui?

- Aí mesmo.

- Bom. Continua a observar!

- Apareceu outra vez! - exclamou o Bei, depois de alguns minutos.

- Onde? Vou fincar uma terceira vara!

- Já não apareceu mais no mesmo rumo e sim muito para a esquerda.

- A que distância?

- A dois passos da vara anterior.

- Aqui?

- Sim, aí mesmo.

Enterrei a terceira vara no solo e o Bei continuou observando.

- Vi-a novamente - declarou.

- Onde?

- Já não à esquerda, mas à direita.

- Está bem! Era isto o que te queria mostrar. Agora podes levantar-te.

Os demais que nos acompanhavam admiravam-se da minha atitude e o Bei também não a podia compreender.

- Por que mandaste chamar-me por causa daquela estrela?

- Porque não se trata de estrela alguma!

- Que é então aquele ponto luminoso? Uma simples luz no firmamento?

- Se fosse uma simples luz no firmamento seria digna de estudos cosmográficos. Mas trata-se de uma linha luminosa.

- De que forma chegas a tal conclusão?

- Não pode ser uma estrela porque surge abaixo do cimo da montanha. E que de fato são diversas luzes, facilmente constatarás pela experiência que acabamos de fazer. Naquele rumo cavalgam ou andam a pé numerosas pessoas munidas de archotes ou lanternas e uma ou mais delas de quando em quando projetam o seu clarão para cá.

O Bei proferiu uma exclamação.

- Tens razão, Emir!

- E quem serão aquelas pessoas?

- Peregrinos não podem ser, porque estes viriam pela estrada de Baadri a Xeque Adi.

- Pensas nos turcos!...

- Senhor! Isso seria possível?

- Ao certo, não sei. Não conheço a zona. Descreve-a para mim, Ali Bei.

- Daqui, em linha reta, a estrada segue para Baadri e ali mais à esquerda para Ain Sifni. Divide essa estrada em três partes e seguindo pelo primeiro terço, terás aquelas luzes à tua esquerda na direção do rio, que vem de Xeque Adi.

- É possível atravessar o rio a cavalo?

- É, sim.

- E depois seguir-se para Xeque Adi?

- É possível sim.

- Então houve em todos os preparativos uma grande negligência!

- Qual?

- Destacaste patrulhas para Baadri e Kaloni e não para Ain Sifni.

- Daquele ponto não chegarão os turcos. A gente de Ain Sifni nos denuciaria a sua passagem.

- Sim, mas se os turcos, em vez de passarem diretamente por Ain Sifni, atravessarem Khausser, em Dscheraijah, para, entrando na estrada de Ain Sifni, alcançar este vale? Palpita-me que eles então tomariam o mesmo turno daquelas luzes. Vê, a mesma avançou agora um pouco para a esquerda!

- Emir, a tua suposição talvez seja verdadeira. Vou expedir imediatamente algumas patrulhas.

- E eu vou examinar a estrela mais de perto. Tens um homem que conheça bem essa zona?

- Ninguém a conhece melhor do que Selek.

- Êle é um bom cavaleiro. Põe Selek para guia!

Descemos a colina o mais depressa possível. A última parte de nosso diálogo foi falada baixinho de modo que ninguém, nem mesmo o Baschi-Bozuk percebeu coisa alguma. Selek foi encontrado logo; deram-lhe um cavalo e ele tomou de suas armas e munições. Fiz questão que Halef também me acompanhasse. Eu podia confiar nele mais que em qualquer outro. Vinte minutos depois de haver eu avistado a estrela pela primeira vez, cavalgávamos pela estrada que conduzia a Ain Sifni. Na próxima colina paramos. Passei em revista o horizonte na semi-escuridão e finalmente divisei a luz que surgiu novamente. Para ela chamei a atenção de Selek.

- Emir, aquilo não é estrela nenhuma, nem tampouco archotes, pois estes iluminariam perímetro mais extenso. São lanternas.

- Pois preciso aproximar-me o mais possível delas. Conheces bens aquela zona?

- Vou conduzir-te para lá; conheço a estrada com os seus mínimos acidentes. Segue-me sempre e traze o animal de rédeas curtas.

 

ESPREITANDO OS TURCOS

O meu guia tomou a direita do rio e depois cavalgamos a pequeno trote, sempre para a frente. Foi uma cavalgada dificultosa, mas dentro de um quarto de hora podíamos distinguir várias luzes em vez de uma só como até agora. Após outro quarto de hora, durante o qual as luzes desapareceram por trás de uma montanha, alcançamos esta e vimos então, diante de nós, uma extensa fileira de cavaleiros. Que espécie de cavaleiros era, ainda não podíamos distinguir. Estes desapareceram depois, subitamente, e não tornaram a surgir.

- Existe por lá alguma colina?

- Não, o terreno se desenvolve numa vasta planície - respondeu Seleck.

- Ou quem sabe alguma baixada, algum vale, onde as luzes tenham desaparecido?

- Não.

- Ou quem sabe, ainda, algum mato que...

- Sim, Emir - acudiu o guia. - Lá onde elas desapareceram há um bosquezinho de oliveiras.

- Ah! Ficarás então aqui com os cavalos e esperarás pela minha volta. Halef, porém, irá comigo.

- Senhor, leva-me também! - pediu Selek.

- E os animais? Se os levarmos, eles denunciarão a nossa presença.

- Eles ficam aqui, amarrados!

- O meu garanhão é de muito valor para deixá-lo aqui sem vigilância. Além disso, não és adestrado em caminhar de gatinhas para fazer uma observação. Logo te ouviriam ou, talvez até, te enxergariam.

- Emir, sou um hábil rastejador!

- Acalma-te! - replicou-lhe Halef. - Também eu pensei que conseguiria rastejar para o meio de um Duar para de lá tirar o melhor cavalo; mas quando tive de rastejar diante do Efêndi, fiquei acanhado como se fosse um menino de escola! Mas consola-te. Alá não quis que nascesses para lagarto!...

Depusemos as armas e nos fomos. A noite era tão clara que se podia distinguir sofrivelmente uma pessoa a uns quinze passos. Diante de nós surgiu um ponto negro que cada vez avolumava-se mais: era o bosque de oliveiras. Quando dele nos acercamos de modo a podê-lo alcançar dentro de cinco ou seis minutos, paramos e eu me pus atentamente a observar. Não se percebia o menor ruído.

- Caminha bem por detrás de mim para que os nossos vultos formem uma só linha!

-Eu trajava calças e casaco de côr escura; à cabeça trazia o tarbusch, que tirara do turbante. Desse modo não era fácil distinguir-me do solo escuro. Halef estava no mesmo caso.

Lentamente prosseguíamos caminhando meio curvados. Nisso percebemos distintamente um ruído causado pela quebra de gravetos. Deitamo-nos, então, de ventre no solo e rastejamos para frente. O ruído se avolumava cada vez mais.

- Estão juntando gravetos talvez para acender um fogo.

- Que bom para nós, Sídi! - cochichou-me Halef.

Não tardamos em atingir a orla posterior do bosque. Relinchos de animais e vozes humanas cada vez se nos tornavam mais perceptíveis. Nesse instante chegamos a um denso tufo de ervas altas. Apontei para o mesmo e sussurrei:

- Esconde-te aqui e me espera, Halef!

- Senhor, jamais te abandonarei; irei em tua companhia!

- Tu contribuirias para que me descobrissem. Rastejar silenciosamente no meio da mata é mais difícil do que em campo raso. Trouxe-te comigo apenas para que me cobrisses a retirada. Ficarás aqui deitado, mesmo que ouvires o detonar de tiros. Quando eu te chamar, então sim, vem o mais depressa possível!

- E se não voltares e nem me chamares?

- Então, passada meia hora, rastejarás para frente a ver o que me aconteceu.

- Sídi, se te matarem, matarei eu a todos!

Ouvi apenas essas suas palavras; mas não me havia ainda afastado muito dele, quando percebi uma voz alta ordenar:

- Et atesch. - Acende o fogo!

Essa voz partira de uma distância talvez de uns cem passos. Eu podia, pois, descuidadamente continuar rastejando. Nisso, ouvi o crepitar de fogo e notei umas labaredas que iluminavam através das árvores até bem próximo de mim. Este fato constituía naturalmente um sério obstáculo para o meu propósito.

- Taschlar atesch tschewresinde. - Colocai pedras em torno do fogo! - comandou a mesma voz.

Esta ordem foi, é claro, imediatamente obedecida, pois as chamas não produziram mais a mesma claridade e, assim, eu podia avançar facilmente. Arrastei-me de uma oliveira para outra e em cada uma delas parava a observar se não fora notado. Felizmente essa precaução era supérflua; eu não me achava nos sertões da América do Norte e aquela boa gente nunca imaginaria que algum mortal fosse capaz de observá-los daquela forma!

Deste modo fui avançando, sempre para frente, até que cheguei perto de uma árvore em cujas raízes havia um enorme tufo de vergônteas, que formavam um excelente esconderijo. Tanto mais vantajosa se me tornou essa posição quando depois vi que próximo à referida árvore se achavam parados dois homens, justamente a quem desejava escutar, visto serem oficiais.

Com toda cautela, atingi a moita de vergônteas, por trás da qual me pus a escutar. Ergui os olhos e vi tudo o que se passava.

Dois canhões e dois obuzes se achavam ali perto; mais adiante, e amarrados aos troncos de árvores, pastavam vinte muares, número necessário para o transporte daquelas peças de artilharia. Em geral, para a condução de um canhão, são precisos de quatro a cinco animais; um para o cano, outro para o armão e de dois a quatro para o transporte das caixas de munições.

Os artilheiros estavam deitados, comodamente, no solo e palestravam. Os dois oficiais, porém, pretendiam tomar café e fumar o seu Tschibuk; por isso é que fora aceso o fogo no qual, sobre duas pedras, aquecia uma chaleira com água. Um dos heróis era capitão e o outro tenente. O primeiro tinha a aparência de um honrado e displicente burguês; parecia-se mais com um rotundo mestre-padeiro alemão que alugara por marco e meio um uniforme de oficial turco, a fim de representar nalguma peça teatral... Com o tenente acontecia quase a mesma cousa. Assemelhava-se a uma copeira de café, sessentona com idéias de donzela, e que se fantasiara de oficial turco para tomar parte nalgum baile carnavalesco.

Tive vontade de sair do meu esconderijo para dizer-lhes:

- Boa noite, mestre padeiro, boa noite, senhorita, não me conhecem? - “Não conheço, não!” - seria a resposta.

Naturalmente as palavras que ouvi foram bem outras. Estava tão próximo deles que podia ouvir tudo o que diziam.

- Os nossos canhões são excelentes, - rosnou o capitão.

- Excelentes! - respondeu o tenente com voz de flauta.

- Arrazaremos, arrazaremos tudo!

- Tudo! - disse o tenente, como se fora o eco do seu superior.

- Faremos boas presas!

- Boas presas.

- Lutaremos com bravura!

- Com bravura!

- Seremos promovidos!

- Promovidos! Galgaremos as mais elevadas posições!

- Depois só fumaremos fumos da Pérsia!

- Fumos de Schiras!

- E café da Arábia!

- Café de Moka!

- Os Dschesidis terão que morrer todos!

- Todos!

- Aqueles malfeitores!

- ... feitores!

- Aqueles impuros, aqueles desavergonhados!

- Aqueles cães!

- Mataremos a todos!

- Amanhã, bem cedo!

- Nem há dúvida!

Eu vira e ouvira o suficiente, razão por que retrocedi. Primeiro cautelosa e lentamente e depois com relativa ligeireza. Ergui-me e passei até a caminhar ereto, do que muito se admirou Halef, quando voltei para perto dele.

- Que há, Sídi?

- Artilheiros. Vem, não podemos perder tempo!

- Vamos sem rastejar?

- Não é preciso mais rastejarmos.

Alcançamos ligeiro os nossos cavalos, montamos e regressamos ao vale. O caminho para Xeque Adi foi vencido agora muito mais rapidamente do que na vinda. Fomos encontrar tudo no mesmo movimento de há pouco.

Disseram-me que o Bei Ali se achava no santuário e para lá me encaminhei; fui encontrá-lo no pátio interno na companhia de Mir Xeque Khan. Veio-me ao encontro ansiosamente.

- Que descobriu? - perguntou logo.

- Canhões!

- Oh! - fêz espantado. - Quantos?

- Quatro pequenos de montanha.

- Que visam eles?

- Bombardear Xeque Adi. Enquanto a cavalaria e a infantaria efetuam o ataque pelos flancos, a artilharia operará à margem do arroio, lá embaixo. O plano não é mau, não; daquela posição é fácil dominar todo o vale. O principal era transportar imperceptivelmente as baterias através das montanhas e isso já conseguiram, utilizando-se de muares para tal fim; dentro de uma hora poderão transportá-la do acampamento atual até aqui.

- Que faremos, Emir?

- Põe-me imediatamente sessenta ginetes à disposição, bem como algumas lanternas e dentro de duas horas verás os canhões e os soldados que os conduzem, aqui em Xeque Adi!

- Aprisionados?

- Sim aprisionados.

- Forneço-te até cem ginetes em vez de sessenta!

- Muito bem, dá-me, então apenas oitenta e dize-lhes que estou à sua espera lá embaixo, no arroio.

Saí e encontrei Halef e Selek ainda com os cavalos.

- Que pretende o Bei fazer? - perguntou-me o primeiro.

- Nada. Nós é que vamos fazer alguma cousa!...

- Que é isso, Sídi? Estás a rir! Senhor, conheço a tua fisionomia! Vamos buscar os canhões, não é?

- É isso mesmo o que vamos fazer! Pretendo, porém, apossar-me das peças de artilharia sem derramamento de sangue e, para consegui-lo, levaremos oitenta ginetes conosco.

 

APRISIONANDO A ARTILHARIA TURCA

Montamos e cavalgamos para a saída do vale, onde não foi preciso esperarmos muito pela chegada dos oitenta Dschesidis.

Mandei Selek com dez na frente e segui-o, a uma distância, com os demais. Até a colina, onde o guia ficara à nossa espera, com as montarias, não encontramos inimigo. Apeamos. Expedi alguns homens para a frente com o fim de velar pela nossa própria segurança. Deixei dez vigiando os cavalos, com ordem de não abandonarem o local, sem minha determinação. Depois nos encaminhamos de mansinho na direção do bosque das oliveiras. A uma determinada altura, fizemos alto e eu prossegui sozinho. Sem encontrar obstáculo, alcancei a oliveira de onde há pouco espionava os turcos. Estavam divididos em vários grupos e palestravam. Eu contava encontrá-los já a dormir. A vigilância militar e a expectativa do combate não os deixava, porém, lembrar-se de repouso. Contei trinta e quatro homens, inclusive os sub-oficiais, o capitão e o tenente; feito o que, voltei para junto de minha gente.

- Hadschi Halef e Selek tragam os cavalos! Vocês cavalgarão descrevendo um arco e passarão pelos fundos do bosque. Serão detidos. Digam, porém, que erraram o caminho e que pretendiam seguir para Xeque Adi, com o fim de assistir às grandes festas que lá se estão realizando. Desta forma desviarão toda a atenção dos Osmanlis de nós. Deixem o resto por nossa conta. Avante!

Dispus a tropa em duas extensas linhas na mesma direção, a fim de cercar o bosque por três faces. Dei as necessárias instruções ao pessoal, deitamo-nos no chão e rastejamos para a frente.

Como era natural, eu rastejava mais ligeiro, pois era o mais treinado nisso. Já me achava no tufo de vergônteas há dois minutos, quando percebi fortes ruídos, produzidos por cascos de cavalos. O fogo continuava a arder. Em vista disso era-me possível ver bem o decurso das coisas no acampamento turco. Os dois oficiais, com certeza, haviam fumado e tomado café durante a minha ausência .

- Xeque Adi é um antro pernicioso! - ouvi o capitão dizer.

- Muito pernicioso! - respondeu o tenente.

- A população adora o diabo!

- O diabo! Que Alá a esmague e a estraçalhe!

- Nós é que vamos fazer isso!

- Sim, nós a estraçalharemos!

- Todos, sem poupar um só!

Até aqui pude escutar, mas neste momento o trote dos cavalos foi ouvido. O tenente levantou a cabeça.

- Chega alguém! - disse. O capitão pôs-se à espreita.

- Quem será? - perguntou ele.

- Vejo que são dois cavaleiros.

Os oficiais, que se achavam sentados, levantaram-se, sendo seguidos pelos soldados. Halef e Selek foram avistados através da claridade que o fogo lançava no bosque. O capitão saiu-lhe ao encontro e puxou da espada.

- Alto! Quem vem aí? - urrou-lhes.

Os meus dois companheiros foram imediatamente cercados pelos turcos. O pequeno Halef contemplava os oficiais de baixo acima e eu compreendi que os mesmos lhe causara igual impressão que a mim, quando os vi da primeira vez.

- Quem são, pergunto! - repetiu o capitão.

- Gente!

- Que gente?

- Homens!

- Que espécie de homens?

- Homens a cavalo!

- O diabo que te engula! Responde direito, do contrário receberás bastonadas! Quem são vocês?

- Somos Dschesidis. - Respondeu Selek, à meia voz.

- Dschesidis? Ah! De onde?

- De Meca.

- De Meca! Alá, Alá! Também lá existem adoradores do diabo?

- Existem e exatamente em número de cinco vezes cem mil.

- Tantos assim! Alá kerihm; como Ele deixa crescer tanta erva daninha no meio dos trigais! Para onde vão?

- Para Xeque Adi.

- Ah! cairam-me nas mãos! Que pretendem lá?

- Assistir às grandes festas.

- Já sei de tudo. Vocês cantam e dançam na companhia do diabo, ao mesmo tempo que adoram um galo que foi escaldado no fogo do Desche-hennah! Apeiem! Estão presos!

- Presos? Que fizemos?

- São filhos do diabo! Serão vergastados até que o diabo saia do corpo de vocês! Desçam já dos cavalos!

O próprio capitão avançou e os dois homens foram formalmente arrancados das montarias.

- Entreguem-me as armas!

Eu sabia que Halef jamais obedeceria a uma tal intimação, nem mesmo na situação especial em que se achava. Ele olhou na direção do fogo à procura de algo e eu ergui então a cabeça o quanto bastava para ele ver-me. Agora o meu servo adquirira a certeza de se achar em segurança. Pelos rumores atrás de mim, percebi que minha gente já havia sitiado o acampamento.

- Nossas armas? - perguntou Halef. - Ouve Jus Baschi: permite que te diga uma coisa!

- O quê?

- Poderemos dizer apenas em reserva e só a ti e ao Mülasim.

- Não quero saber de nada do que pretendes comunicar-me!

- Mas trata-se de um assunto importante, importantíssimo mesmo!

- Que é, afinal?

- Ouve!

O pequeno Halef cochichou-lhe alguma cousa ao ouvido, fazendo com que o capitão recuasse uns passos e o contemplasse numa atitude um tanto respeitosa. Mais tarde, soube o que o meu astuto criado lhe dissera: “O que tenho a dizer-te será bom para o teu bolso!”

- Estás falando a verdade? - perguntou-lhe o oficial.

- A verdade.

- E serás discreto, depois de fecharmos o negócio?

- Asseguro-te que ficarei mudo como uma porta!

- Jura!

- Como queres que eu jure?

- Dize: “Juro por Alá e pelas barbas do... - Não, vós sois Dschesidis. Jura-me pelo Diabo que é o deus de tua adoração!

- Está bem. O diabo sabe que depois não direi nada a ninguém!

- Olha que ele te estraçalhará o corpo, se quebrares o juramento! Vem, Mülasim, e venham também vocês dois.

Os quatro homens aproximaram-se do fogo; eu podia agora ouvir ainda melhor o que diziam.

- Agora podes falar! - disse o capitão a Halef.

- Liberta-nos. Pagar-te-emos a nossa liberdade!

- Têm dinheiro?

- Temos, e muito até.

- E não sabem que todo o dinheiro que possuem me pertence? Tudo o que trazem é nosso!

- Mas jamais acharias cousa alguma. Procedemos de Meca e quem empreende uma tão longa viagem sabe ocultar bem o dinheiro e demais objetos de valor que conduz.

- Eu já hei de achar!

- Pois afianço-te que não acharás, nem mesmo se nos matares e examinares minuciosamente as nossas vestes. Os adoradores do diabo possuem meios eficazes para tornar invisíveis os seus dinheiros.

- Alá é oniciente!

- Mas tu não és Alá!

- Não devo libertar vocês!

- Por que não?

- Depois de soltos, vocês nos trairiam.

- Trair? Como?

- Então não vês que nos achamos aqui numa expedição de guerra?

- Fica certo de que guardaremos reserva, nada dizendo a quem quer que seja!

- Mas vocês vão para Xeque Adi!

- Há nisso algum inconveniente para vocês?

- Há, sim!

- Então envia-nos para onde te convier!

- Concordas em seguir para Baaveiza e lá permanecer durante dois dias?

- De bom grado!

- Quanto pretendem pagar-nos pela liberdade?

- Qual o preço que exiges?

- Quinze mil piastras de cada um.

- Senhor, somos peregrinos pobres! Não trazemos tanto dinheiro conosco!

- Quanto possuem?

- Talvez nos seja possível pagar-te quinhentas piastras.

- Quinhentas? Pretendes lograr-me!

- É provável que, em último caso, consigamos reunir seiscentas!

- Pois me pagarão doze mil piastras e nem uma a menos. Juro isso por Maomé! E se recusarem, mandarei vergastar vocês até que me entreguem essa importância. Tu próprio confessaste que dispões de meios para tornar invisível o dinheiro que possuis; portanto trazes elevada soma contigo e eu tenho meios ainda mais eficazes para fazer o dinheiro aparecer bem depressa!

Halef fingiu que se assustara.

- Senhor, realmente não deixas por menos?

- Não!

- Neste caso, somos obrigados a nos curvar às tuas exigências!

- Canalhas! Agora descobri que trazem muito, muitíssimo dinheiro mesmo! E em vista disso terão que me pagar a quantia que eu pedi antes, isto é, quinze mil piastras!

- Perdão, senhor! Isto é muito pouco!

O capitão olhou perplexo para o pequeno Halef.

- Que pretendes dizer com isso, homem?

- Que qualquer de nós dois valemos muito mais do que quinze mil piastras. Permite que te demos cincoenta mil?

- Homem, perdeste o uso da razão?

- Ou talvez cem mil!

O mestre-padeiro Jüs Baschi ficou pasmado. A sua carantonha difusa e rotunda enrubesceu e ele olhou interrogativamente para o semblante magro e esquálido do companheiro.

- Tenente, o que dizes de tudo isso? Este, boquiaberto, confessou ingenuamente:

- Nada, absolutamente nada! Não compreendo este homem!

- E eu tampouco. Deve ser um verdadeiro nababo!

E dirigindo-se novamente a Halef.

- Onde tens o dinheiro?

- Precisas saber?

- Claro que sim!

- Viajamos na companhia de alguém que paga por nós e este alguém não podes ver!

- Valha-nos, Alá! - tu te referes ao diabo!

- Queres que o chame?

- Não, não, nunca! Não sou um Dschesidi e não sei falar com ele! Eu morreria de susto à sua simples presença!

- Não te assustarás, não! Esse Scheitan surgirá em figura de homem. - Ei-lo, que já vem!

Eu erguera-me por detrás da oliveira e com dois passos largos me postara diante dos dois oficiais. Apavorados, desviaram-se, um para a direita e outro para a esquerda. Como o meu vulto não lhes parecera lá muito apavorante, ficaram parados a me contemplar, imersos em nervoso mutismo.

- Jüs Baschi - interpelei-o - ouvi tudo o que falaste hoje de noite. Disseste que Xeque Adi era um antro pernicioso!

Uma inspiração profunda fêz-se ouvir em lugar de resposta.

- Disseste que Alá esmagaria e estraçalharia a sua população.

- Oh, Oh! - soou.

- Disseste mais que fuzilarias aos montes aqueles impuros e desavergonhados e que irias colher boas presas.

Um pavor mortal agitava o Mülasini e o Jüs Baschi se limitava a gemer, parecendo haver emudecido.

- Depois disso ambos pretendiam galgar as mais elevadas posições e fumar unicamente fumos deliciosos de Schiras!

- Oh, ele sabe de tudo! - balbuciou, finalmente, o obeso capitão.

- Sim, sei de tudo! Vou agora fazer vocês dois galgarem a uma posição bastante elevada. Sabe qual?

O oficial meneou a cabeça negativamente.

- As colinas, no meio das quais fica o vale dos impuros, dos desavergonhados! Não acham que as colinas são posições elevadas?... Agora digo eu o que disseste, não faz muito aos meus companheiros: - Estão presos!

Os soldados não atinaram com a situação; achavam-se todos reunidos num cerrado agrupamento. A um aceno dado por mim, os Dschesidis saíram de suas posições e os cercaram. Nenhum deles lembrou-se de opor resistência. Os oficiais, porém, compreenderam, finalmente, o verdadeiro estado das cousas e levaram a mão à cintura.

- Alto lá! Nada de resistências! - adverti-os, sacando o revólver. - Aquele que pegar em arma será fuzilado no mesmo instante!

- Quem és? - perguntou o capitão.

O gorducho estava banhado em suor. Até certo ponto, eu tinha compaixão daquela figura de mestre-padeiro virado a oficial turco, bem como da figura de D. Quixote ao seu lado! Lá se foram os seus sonhos de promoções! ...

- Sou amigo de vocês e por isso não desejo que sejam todos fuzilados pelos Dschesidis. Entreguem as armas!

- Mas precisamos delas!

- Para quê?

- Para defender as baterias!

Não me pude conter diante daquela ingenuidade sem exemplo! Ri a bom rir! Depois tranqüilizei-o:

- Não tenhas cuidado! Nós mesmos já haveremos de guarnecer muito bem os canhões!

Ainda relutaram um pouco, mas por fim resolveram depor as armas.

- Que pretendem de nós? - perguntou o Jüs Baschi apreensivo.

- Tudo depende da atitude que mantiverem. É provável que sejam mortos, mas também poderão alcançar indulgência desde que nos obedeçam.

- Neste caso que deveremos fazer?

- Primeiramente, respondam, com precisão, as perguntas que eu fizer.

- Está bem.

- Não vêm seguidos de outras tropas?

- Não.

- É esta realmente a única força em marcha?

- Sim.

- Pois então Miralai Omar Amed pôs em relevo a sua inépcia, a sua incapacidade de organização! Xeque Adi acha-se guarnecida por milhares de homens em pé de guerra e ele envia para lá apenas uma bateria composta de trinta e quatro combatentes e quatro míseros canhões! Ao menos ele deveria expedir um Alai Emini à testa de duzentos homens de infantaria para cobrir a marcha da artilharia. Aquele homem julgou talvez que os Dschesidis, quais moscas, seriam fáceis de apanhar! Que ordens recebeste dele?

- De transportarmos a bateria até ao arroio, sem que os Dschesidis o percebessem.

- E daí?

- Subiríamos pela margem do arroio à meia hora de distância, e iríamos postarmo-nos diante de Xeque Adi.

- Continua!

- Lá deveríamos esperar até ele nos enviar um emissário. Em seguida avançaríamos até a entrada do vale para bombardeá-lo à bala, metralha e granadas.

- O avanço será permitido; podem mesmo marchar um pouco além da entrada do vale. Mas do bombardeio se encarregará outra gente! Não é preciso se darem a esse trabalho...

Já que tudo sucedera daquele modo, os turcos, como legítimos fatalistas, entregaram-se calmamente ao Destino. Tiveram que entrar em forma e depois seguir escoltados pelos Dschesidis. As peças de artilharia foram carregadas pelos muares que eram conduzidos por trás da escolta. É óbvio que montamos, ao passar pela nossa cavalhada.

À meia hora de distância do vale de Xeque Adi deixei os canhões, guarnecidos por vinte homens. Assim procedemos para esperarmos o emissário que enviaria o Miralai.

Logo à entrada do vale deparamos com uma formidável massa popular. O boato da nossa pequena expedição se espalhara entre os peregrinos e todos ali se haviam reunido, a fim de aguardar os acontecimentos. Nesse meio tempo cessaram também todas as salvas que se faziam durante os festejos no vale, de modo que este se achava envolto no mais profundo silêncio. Essa medida fora determinada, para que se ouvissem melhor os tiros entre nós e os turcos, caso eles reagissem e houvesse alguma escaramuça.

O primeiro que me veio ao encontro foi o Bei Ali.

- Finalmente de volta! - exclamou ele visivelmente tranqüilizado.

Depois acrescentou apreensivo:

- Mas sem os canhões! Noto também alguns claros entre a tropa que te entreguei!

- Não falta um só homem e nem um único foi ferido!

- Onde estão pois os outros?

- Junto com Halef e Selek, fora do vale, guarnecendo os canhões que lá deixei.

- Por que os deixaste lá?

- Este Jüs Baschi contou-me que o Miralai ia mandar um emissário ao ponto em que deixei aquelas peças de artilharia. Depois da vinda do emissário a tropa bombardearia Xeque Ali com obuzes metralhas e granadas. Tens pessoal hábil para manejar aqueles canhões?

- Até mais do que o suficiente!

- Destaca, então, uma bateria para aquele local. O objetivo dessa bateria é vestir os uniformes dos prisioneiros turcos, prender o emissário na sua chegada e, por fim, fazer uma detonação. O estrondo será para nós o sinal da aproximação do inimigo e este ao ouví-Io efetuará logo a evasão. Que destino darás aos prisioneiros?

- Mandarei retirá-los daqui e conservá-los sob custódia.

- No vale de Idiz?

- Não. Este local não pode ser visto senão por um Dschesidi. Há, porém, não muito longe daqui, um desfiladeiro, onde é fácil retê-los vigiados por uma guarnição pouco numerosa.

Na residência do Bei aguardava-me um lauto jantar, que me foi servido por sua própria esposa. Ele não jantou conosco, pois tinha que assistir à mudança de uniformes dos presos, que depois foram levados para o desfiladeiro. Os homens que vestiram os uniformes turcos eram todos hábeis artilheiros e saíram logo para tomar conta dos canhões.

A luz das estrelas já ia morrendo pouco a pouco, quando o Bei Ali voltou à minha presença.

- Estás pronto para seguir, Emir?

- Seguir para onde?

- Com destino ao vale de Idiz.

- Perdão, ficarei aqui!

- Pretendes tomar parte no combate?

- Não!

- Unir-te então a nós, a fim de ver se somos de fato valentes?

- Não me unirei a vós; permanecerei em Xeque Adi!

- Farás isso, então?

- Sim. É a medida mais acertada que posso tomar.

- Serás morto!

- Não! Acho-me debaixo da proteção do Grão-Senhor e do Mutessarif.

- Apesar disso, és nosso amigo, aprisionaste a artilharia turca e isto te custará a vida!

- Quem irá informar os turcos? Ficarei aqui na companhia de Halef e do Baschi-Bozuk. Deste modo, poderei prestar ao teu povo serviços mais relevantes do que combatendo nas fileiras de tuas tropas.

- Nesse ponto, tens razão, Emir. Mas se fizermos fogo tu podes ser ferido ou talvez morto.

- Não creio. De fôrma alguma me deixarei servir de alvo.

Nesse momento abriu-se uma das portas e por ela entrou um homem. Era um dos componentes da patrulha, que Ali expedira.

-Senhor, retiramo-nos porque os turcos já chegaram a Baadri! Dentro de uma hora estarão aqui.

- Volta e dize à tua gente que se conserve sempre próxima do inimigo, mas de modo a não ser vista por eles.

 

RECHAÇANDO O ATAQUE

Fomos para a frente da casa. As mulheres e crianças desfilaram diante de nós e desapareceram por trás do sepulcro. Em seguida chegou outro homem, correndo e quase ofegante, a avisar:

- Senhor, há muito que os turcos deixaram Kaloni e marcham por entre as matas. Dentro de uma hora poderão estar aqui!

- Tomai posição no lado oposto do primeiro vale e à sua aproximação recuai. Encontrareis no alto gente nossa à espera.

O homem voltou e o Bei se afastou por algum tempo. Eu me achava diante da casa e olhava os vultos que desfilavam na minha frente. Quando as mulheres e crianças se afastaram, seguiu-se-lhes uma extensa fila de homens, a pé uns e a cavalo outros. Estes, porém, não desapareceram por trás do sepulcro como as mulheres, mas subiram as elevações que marginavam as estradas de Baadri e Kaloni, a fim de deixar o vale livre aos assaltantes. Experimentei uma sensação estranha, ao contemplar aqueles vultos escuros. Foram apagadas as luzes umas após outras, um facho seguido do outro se foi extinguindo e apenas as duas torres do sepulcro se elevavam para os ares com suas línguas flamejantes! Agora me achava sozinho em casa. As pessoas da família do Bei haviam seguido para o Idiz, Buluk Emini estava dormindo, em cima, no avarandado, e Halef ainda não voltara. Ouvi, então, o galope de um cavalo. Halef chegava a toda brida. Enquanto ele apeava, ouvi fortes ruídos que vinham das baixadas.

- Que é isso, Halef?

- São árvores que tombam. Ali, o Bei, determinou que as abatessem a fim de fechar o vale embaixo, para defender os canhões contra a investida dos turcos.

- Boa idéia! Onde estão os outros dos vinte?

- Por ordem do Bei tiveram que ficar junto dos canhões, cuja guarnição ele mandou reforçar com mais trinta homens.

- Esta bateria já basta para resistir a uma ofensiva, por mais violenta que seja.

- Onde estão os prisioneiros? - perguntou Halef.

- Fora daqui, sob custódia.

- E esses homens aqui já marcham para a luta?

- Lógico!

- E nós?

- Permaneceremos aqui mesmo! Estou louco por ver as fisionomias dos turcos, quando perceberem que caíram na cilada.

Essa idéia agradou tanto Halef que ele não mais discutiu a nossa abstenção do embate. Talvez ele mesmo compreendesse que a nossa permanência era ainda mais perigosa do que a adesão às fileiras dos Dschesidis.

- Onde está Ifra? - perguntou.

- Dormindo em cima, no avarandado.

- Ele é um dorminhoco, Sídi, e com certeza foi por isso que o seu capitão lhe deu aquele burro que leva a noite toda a relinchar. Ele sabe alguma coisa do que vai suceder?

- Creio que não e nem deve saber até que ponto chegou a nossa participação nos acontecimentos. Compreendes?

Nessa altura, voltou o Bei Ali, a fim de buscar o seu cavalo. Fêz-me uma série de exposições tendentes a me demover da resolução tomada, mas tudo sem resultado. Foi assim obrigado a deixar-me. Fê-lo com os mais sinceros votos de que nada me acontecesse, assegurando-me repetidamente que mandaria fuzilar os mil e quinhentos turcos, caso eles me fizessem algum mal. Por fim pediu-me que colocasse uma toalha branca, que se achava na sala de jantar, no mastro da bandeira, por cima do avarandado. De lá o sinal seria visto num extenso perímetro. Assim que eu tirasse a toalha era um sinal de que nos achávamos em perigo de vida, e ele se apressaria em acudir-nos.

Dito o que, montou e foi colocar-se à frente de sua tropa. Era o último homem dos Dschesidis que deixara o vale.

O dia começava a amanhecer; o céu se iluminava e já se distinguiam, isoladamente, os galhos das árvores. Defronte, na parede do vale, perdia-se o eco do trote do cavalo do Bei. Agora me achava sozinho, acompanhado apenas dos meus dois servos, visto que o meu intérprete teve que me deixar, naquele famoso vale onde seguiam um culto misterioso. Sozinho? Bem sozinho? Era mesmo assim? Não estava eu agora a ouvir rumores de passos, um pouco adiante, na pequenina casa, El Schems, enfeitada de chifres?

Um vulto esguio e alvacento saiu do seu interior e olhou depois para trás. Sobre o peito caíam-lhe densas e negras barbas e a basta cabeleira branca como neve caía nas costas, até abaixo dos ombros. Era Pir Kamek; reconheci-o.

- Tu ainda aqui? - disse-me em tom de voz quase áspero, quando parou na minha frente. - Por quê?

- Porque ficando aqui prestarei melhores serviços do que de qualquer outra forma.

- É possível, Emir. Contudo deverias acompanhar os demais!

- Pois faço-te a mesma pergunta: Quando pretendes unir-te aos combatentes?

- Não viste ainda aquela pira? - respondeu sombrio. - Ela é que me retém aqui.

- Por quê?

- Porque chegou o momento de arder nela o sacrifício, para o qual a organizei.

- Mas os turcos te interromperão o holocausto!

- Pois exatamente eles é que me trarão o objeto do sacrifício, e hoje comemorarei o mais grandioso dia da minha vida!

Tive uma sensação quase de insegurança ao ouvir aquela voz meio cavernosa. Dominei-me porém, e perguntei-lhe:

- Não pretendias falar-me, hoje, do livro que o Bei me emprestara?

- Queres ouvir-me por prazer ou porque isso te é útil?

- Certamente!

- Emir, sou um sacerdote pobre; possuo apenas três cousas: a vida, o vestuário e o livro. A vida vou devolvê-la ao puríssimo, ao onipotente, ao piedoso que ma emprestou; o vestuário deixarei ao elemento no meio do qual ficará sepultado o meu corpo e o livro te darei de presente, para que o teu espírito possa falar com o meu, depois que os tempos, os mares e os mundos os separarem um do outro.

Era aquilo uma simples figura de retórica em estilo oriental ou falava nele um pressentimento de morte próxima? Senti um calafrio no corpo.

- Pir Kamek, a tua dádiva é grandiosa! Estou inclinado a não aceitá-la!

- Emir, eu te estimo! Receberás o livro e quando o teu olhar cair sobre a última palavra que nele escreveu a minha mão, nela verás assinalada toda a história sangrenta dos Dschesidis, os desprezados, os perseguidos!

Tive que abraçá-lo.

- Sou-te muito grato, Pir Kamek! Também eu te estimo e quando abrir o teu livro, será o mesmo que ter diante de mim a tua figura veneranda e ouvir dos teus próprios lábios as palavras que escreveste. Agora, porém, deves deixar Xeque Adi, pois ainda não é tempo!

- Vês aquele santuário onde o santo está sepultado? Este jamais fugiu. Não está escrito também no teu Kitab que ninguém deve temer aqueles que nada mais podem matar do que o corpo, pura matéria bruta? Ficarei aqui porque estou certo de que os Osmanlis não poderão causar-me mal algum. E se me matarem, que tem isso? El Schem, o brilhante, não morre também todos os dias para ressucitar outra vez? Não constitui a morte a entrada num mundo mais claro, mais puro? Já ouviste alguma vez um Dschesidi dizer que outro morreu? Diz simplesmente que se transubstanciou: pois não existe nem morte e nem túmulo, mas vida e só vida! Em virtude deste princípio é que tenho a certeza de ver-te um dia novamente, depois de minha morte!

Ditas essas palavras,ele saiu apressado e desapareceu por trás da parede externa do sepulcro.

Entrei em casa e subi para o avarandado. Antes de atingi-lo, ouvi rumor de vozes. Halef conversava com Ifra.

- Bem sozinho? - ouvi o último perguntar.

- Sim.

- Para onde foram os outros, os muitos, os milhares?

- Sei lá!

- Mas por que se foram embora?

- Fugiram!

- De quem?

- De vocês.

- De nós? Hadschi Halef Omar não compreendo o que me estás a dizer!

- Pois então falarei mais claro: Eles fugiram do teu Mutessarif e do teu Miralai Omar Amed!

- Mas por quê?

- Porque o Miralai aí vem para atacar Xeque Adi.

- Alá akbar, Deus é grande e a mão de Mutessarif é poderosa! Dize-me agora se devo ficar com o nosso Emir ou se tenho que combater sob as ordens do Miralai!

- Tu ficarás conosco!

- Hamdullillah, graças e louvado seja Alá, pois é bom que eu fique junto do nosso Emir a quem me cabe proteger!

- Tu? Já o protegeste alguma vez?

- Sempre, durante todo o tempo em que ele vem viajando sob a minha proteção!

Halef soltou uma risada sardônica e replicou:

- És mesmo homem para isso! Sabes quem é de fato o protetor do Emir?

- Eu!

- Não, eu!

- Não foi o próprio Mutessarif que o colocou debaixo de minha guarda?

- Não foi ele próprio, o Emir, que se colocou espontaneamente sob a minha proteção? Quem vale mais aqui, o Sídi ou a tua baboseira de Mutessarif?

- Halef Omar, contém a tua língua! Oh, se o Mutessarif soubesse dessas tuas palavras!

- E pensas que o temeria? Sou Hadschi Halef Omar Ben Hadjil Abul Abbas Ibn Hadjil Dawuhd al Gossarah!

- E eu sou o Ifra, pertenço aos Baschi Bozuks do Grão Senhor e pelos meus feitos heróicos fui elevado a Buluk Emini! Por ti zela uma única pessoa e por mim o Padixá e todo o estado a que chamam de Osmani!

- Desejaria saber as vantagens decorrentes de tal proteção!

- As vantagens? Já vou dizer-te: - recebo um soldo mensal de trinta e cinco piastras e diariamente duas libras de pão, dezessete lotes de carne, três de manteiga, cinco de arroz, um e meio de ingredientes vários, inclusive sabão, azeite e pomada para lustrar as botas!

- E em paga disso realizas feitos heróicos?

- Sim, e gloriosos até!!

- Eu quisera assistir a um deles!...

- O que? Pões em dúvida a minha afirmativa?! Basta eu citar-te apenas as circunstâncias em que perdi o nariz! Perdi esse ornamento facial numa refrega entre drusos e maronitas do oásis de Libanon. Fomos expedidos para lá, a fim de combatermos pela ordem e pelo respeito às leis. Num desses embates, eu desferia golpes ao derredor de mim, quando um dos inimigos desferiu um golpe para atingir-me a cabeça. Desviei-me e o golpe foi atingir-me exatamente o na... oooh... ooah! Que foi isso?

- Sim, o que foi isso? Um tiro de canhão!

Halef tinha razão. Realmente fora um estrondo de canhão que viera interromper a interessante narrativa do pequeno Bulyk Emini. Era o sinal de que a nossa artilharia aprisionara o ajudante de Miralai. Os dois desceram afobados do avarandado.

- Sídi, começou o bombardeio! - exclamou Halef, olhando para a sua pistola.

- ... e a granadas! - acrescentou Ifra.

- Está bem. Vão buscar os cavalos e os escondam no pátio interno!

- Também o meu burro?

- Claro. Em seguida fechem a porta!

Eu próprio peguei a toalha branca e a coloquei no mastro à guisa de bandeira. Depois estendi algumas cobertas de lã no solo e deitei-me no avarandado, de modo a não ser visto do lado de fora. Os dois servos sentaram-se perto de mim.

Nesse meio tempo o dia clareara completamente e se podiam distinguir os mínimos objetos. Densa neblina cobria o vale. Contudo as luzes do santuário continuavam a arder, ofuscando as vistas.

Assim passaram-se cinco a dez minutos de expectativa vigilante, quando o relincho de um cavalo se fêz ouvir no declive do vale, seguido de outro correspondido agora por outro animal, no flanco oposto. Percebi logo a situação: as tropas avançavam ao mesmo tempo pelos dois flancos do vale. O plano de Miralai estava sendo executado com toda precisão.

- Eles chegam! - sussurrou Halef.

- Sim, aí vêm eles! - cochichou Ifra. - Senhor, se nos tomarem por Dschesidis e fizerem fogo contra nós?

- Soltarás o teu burro e eles te reconhecerão imediatamente!

Não havia tropa de artilharia entre os atacantes; os animais que relincharam eram as montarias dos oficiais. Do contrário teríamos ouvido maior tropel de cavalos. Pouco a pouco, no entretanto, começamos a ouvir um rumor que cada vez tornava-se mais audível. Eram passos de numerosas pessoas que se aproximavam.

Finalmente, percebemos vozes humanas que vinham do sepulcro e, minutos após, passos cadenciados de uma tropa de infantaria que marchava. Ergui a cabeça para observar. Eram uns duzentos Arnautas, figuras possantes, de fisionomias selvagens, que desciam do vale, comandados por um Alai Emini e dois capitães. Por trás desse regimento, vinha uma patrulha de Bachi Bozuks que se distribuíram por todas as direções do vale à procura dos moradores, que não davam sinal de si. Fechando a formatura, vinha um grupo de cavaleiros, composto exclusivamente de oficiais: dois Jues Baschis, um Kaimakam e diversos Kal Agassis. À frente dos oficiais cavalgava um homem alto e esguio, ostentando uniforme vistosamente bordado com fios de ouro. Era o coronel comandante geral da expedição.

- Aquele é o Miralai! - disse Ifra em tom de profundo respeito.

- E o civil que o acompanha?

Ao lado do coronel cavalgava um indivíduo cuja fisionomia chamava a atenção do observador mais distraído. Sei que não é nobre comparar-se pessoas a espécimens do ramo zoológico. Nem isso se ajusta a espíritos mesmo mediocremente cultos e educados. Mas, realmente, há homens que a um simples golpe de vista para o seu semblante, irresistivelmente nos induzem logo a pensar em determinados animais! Já vi noutras pessoas conjuntos fisionômicos semelhantes a de macacos, de buldogues, de gatos e de urubus; tenho visto, mesmo rostos que me lembram bois, asnos, raposas, corujas, etc. Mesmo não se sendo frenólogo ou fisionomista, notamos logo que os gestos, os movimentos todos dessas pessoas possuem até certo ponto as características dos animais de que nos estão constantemente a recordar... O mesmo se dava com o paisano que acompanhava o comandante geral das tropas turcas. A sua cara era a perfeita reprodução de um abutre...

- É o Makredsch (1) de Mossul, o conselheiro privado do Mutessarif.

Mas que pretendia afinal aquele Makredsch junto às tropas? Que função ou qual o seu objetivo? Fui interrompido em minhas reflexões por um tiro de canhão, seguido imediatamente de outro. Brados ensurdecedores, gritarias verdadeiramente infernais ressoaram do sepulcro. Minutos após percebemos forte trotar de animais. Era o grupo de oficiais, que parou exatamente debaixo do meu posto de observação.

- Que estrondo foi aquele - perguntou o Miralai aos oficiais do seu estado-maior.

- Dois tiros de canhões! - apressou-se o Makredsch em responder.

- Muito bem! - respondeu o coronel ironicamente. - Um oficial dificilmente responderia a essa pergunta com tamanha precisão e acerto! Mas, por Alá que é isso?

Os Arnautes que há pouco, haviam avançado, retrocediam em doida e desordenada correria, gritando como loucos. Muitos deles ensangüentados e aos frangalhos e todos visivelmente horrorizados.

- Alto! - urrou o coronel. - Que sucedeu?

- Fizeram uma carga de metralha contra nós. O Alai Emini tombou morto juntamente com um dos capitães. Outros caíram feridos e jazem no campo da luta ali adiante no...

- Allah ondari boza-uz - Alá que os extermine! Fuzilaram a sua própria gente! Vou mandar matá-los todos a bastonadas! Nassi Agassi, cavalga para frente e vai prestar esclarecimentos àqueles cães!

Essa ordem fora dada a um dos Kol Agassi do seu estado-maior. Era o mesmo que eu surpreendera no arroio de Baadri e o auxiliara a recuperar a liberdade. Ele deu de esporas no cavalo, mas pouco tempo depois voltava visivelmente agitado.

- Senhor, não foi a nossa gente, mas os Dschesidis que fizeram a descarga! Deixaram que me aproximasse e depois se deram a conhecer. Trajam os uniformes de nossos soldados!

- Onde se acham assestados os nossos canhões?

- Foram tomados pelos inimigos! Pois foi com eles que há pouco atiraram. O Jues Baschi deixou-se surpreender!

O coronel proferiu uma tremenda blasfêmia.

- O canalha pagará bem caro sua covardia e pusilanimidade. Onde está ele?

- Preso com toda a bateria!

- Preso? Com toda a bateria? Portanto sem que opusesse a mínima resistência!

Picou o cavalo tão violentamente com as esporas que este se pôs nas patas traseiras. Em seguida perguntou:

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(1) Juiz.

 

- Onde estão os Dschesidis, esses homens do diabo, esses giaurs entre os giaurs? Vim para prendê-los, vergastá-los, matá-los, mas nenhum deles tem a coragem de se apresentar! Desapareceram? Já havemos de encontrá-los! Antes disso, porém, retoma-lhes as peças de artilharia! As tropas de Diarbekir fizeram fusão. Avança com elas seguindo por Kjerjuk!

O Kol Agassi voltou em disparada e imediatamente a infantaria de Diarbekir se pôs em movimento. O coronel, com o seu estado-maior, afastou-se mais para o lado e as tropas marcharam pela sua frente. Mas nem um minuto decorrera, ouviu-se o troar de quatro tiros de canhão, repetindo-se a mesma cena de há pouco: os sobreviventes, alguns deles levemente feridos, fugiam abandonando no campo da luta os mortos e os gravemente feridos. O coronel tocou o cavalo para o meio da tropa e castigava os seus comandados com a lâmina da espada.

- Parem, covardes. Parem! Do contrário, mandarei todos para o Dschehennah! Agassi, ordena o avanço dos dragões para baixo!

O ajudante saiu a galope. Os fugitivos se agruparam num único bloco e muitos dos Baschi Bozuks chegaram, anunciando haverem encontrado todas as casas desertas.

- Destruam as casas, arrazem tudo a fogo e procurem a senda dos Dschesidis. Preciso saber onde foram parar esses infiéis!

Chegara o tempo de entrar eu em ação, uma vez que me dispusera a prestar algum serviço, permanecendo no vale.

- Halef, se me suceder alguma cousa de grave, retira o pano branco pendente do mastro. É o sinal convencionado entre mim e o Bei para que este venha em meu socorro.

Ditas essas palavras, levantei-me do leito improvisado e fui logo visto pelos oficiais turcos.

- Ah! - bradou o Miralai - Ali já está um! Desce, filho de cão! Preciso de algumas informações tuas!

Meneei a cabeça e, virando-me para Halef, recomendei-lhe:

- Vem comigo e fecha a porta depois que eu sair da casa! Não deixes ninguém entrar nela sem minha licença. Se eu chamar pelo teu nome, então sim, abre-a prontamente!

Descemos e eu fui para frente da casa. A porta fechou-se por trás de mim rangendo os gonzos. Assim que os oficiais me viram sair, formaram um quadrado, onde me encerraram!

- Verme que és, responde sem pestanejar as perguntas que te vou fazer! - trovejou-me o coronel.

- Verme? - exclamei, calmamente. - Pega este papel e lê!

Os seus olhos, quais coriscos, pareciam querer fulminar-me de enraivecidos! Contudo, não se negou a agarrar o Ferman do Grão Senhor. Ao pôr os olhos sobre o selo apertou-o de encontro à testa, mas muito de leve e com um ar quase de desprezo. Depois olhou ligeiramente o texto do passaporte.

- És um Franke?

- Não, sou um Nemtsche.

- É a mesma coisa! Que estás fazendo aqui?

- Estudando os costumes dos Dschesidis - respondi-lhe recolhendo novamente o passe.

- Estudar para que? Que tenho eu a ver com esse Bu-djeruldi! (1) Estiveste em Mossul, com o Mutessarij?

- Estive, sim.

- E tens licença dele para permaneceres aqui?

- Claro que sim! Ei-la!

Exibi-lhe o segundo documento, que o coronel leu e me devolveu.

- Realmente, mas...

Suspendeu a frase, pois, naquele momento, da escarpada ressoou uma intensa fuzilaria de carabinas ao mesmo tempo que se ouviam os rumores de patas de cavalos a correr.

- Scheitan! Que é aquilo, lá em cima?

Como a pergunta em parte fora dirigida a mim, respondi:

- São os Dschesidis. Estás sitiado e toda a reação será inútil!

O homem firmou-se no cavalo e ergueu-se nos estribos, bradando:

- Cão!

- Não fales assim, Miralai! Se continuares com tais palarras insultuosas, retirar-me-ei da tua presença!

- Tu ficarás aqui!

- Quem pretende impedir que me vá? Estou pronto a prestar-te todas as informações que puder, mas não estou habituado a me colocar debaixo das ordens de Miralais. Já te mostrei debaixo de qual proteção me encontro e se isso não me adiantar alguma cousa, saberei eu próprio me defender e proteger!

- Ah!

Levantou o braço para desferir-me um golpe.

- Halef!!

Ao gritar por Halef, meti-me violentamente por entre as montarias daqueles oficiais e abri caminho, rompendo sem dificuldade o quadrado que me cercava; a porta da casa escancarou-se e mal a fechei atrás de mim, um tiro de pistola veio alojar-se na esquadria. O Miralai fizera fogo contra mim.

- Esta bala era para ti, Sídi! - exclamou Halef, indignado.

- Sobe comigo!

Enquanto subíamos a escada, ouvimos lá fora uma gritaria confusa misturada com pateadas de cavalos. Ao chegar em cima, pude ainda ver a retaguarda da cavalaria, que, dobrando a curva do vale, desaparecia. Era uma verdadeira loucura atirar a cavalaria contra os canhões. Para ir contra estes, o único meio viável seria talvez atacá-los com os atiradores, postados num dos flancos da colina. O Miralai nem ao menos se apercebera da sua verdadeira situação. A sua sorte foi que o Bei tinha o firme e humanitário propósito de poupar as vidas humanas de parte a parte o mais que lhe fosse possível, pois os turcos se achavam tão juntos em frente ao santuário e pelo caminho que subia a colina, que cada bala dos Dschesidis exigiria muitas vítimas.

Começou novamente o troar dos canhões. As metralhas e as granadas, se fossem bem visadas, deveriam abrir formidáveis claros entre os cavalarianos, o que aliás se

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(1) Passaporte.

 

confirmava daí a pouco: todo o vale regorgitava de cavalarianos em disparada sem rumo, de dragões correndo feito loucos e de cavalos em fuga sem os respectivos ginetes...

Agora sim, o Miralai imóvel como uma estátua espumava de raiva e decepção; era bom, porque talvez só assim ele se apercebesse da sua verdadeira situação. Olhando em volta, deu ele comigo no avarandado, a contemplar o vale. Fêz-me um aceno para eu chegar à sua presença. Fiz que não o compreendera ou que nem o notara.

- Desce e vem falar comigo! - ordenou.

- Para quê? Sinto-me tão bem aqui!

- Mas preciso de algumas informações!

- Para depois tomares a alvejar-me?

- Aquele tiro não era destinado a ti!

- Ainda bem! Mas pergunta o que desejas daí mesmo. Responder-te-ei daqui e verás que dá para compreenderes tão bem como se eu estivesse na tua presença. Mas, nota, para o teu governo e integridade física!

A essas palavras acenei para Halef que logo me compreendeu.

- Estás vendo este homem? É o meu fiel criado e amigo. Olha que ele traz uma espingarda na mão. Assim que qualquer um de vocês fizer um mínimo movimento para usar alguma arma, ele te fuzilará, Miralai, e então direi as mesmas palavras que tu: “Aquele tiro não era destinado a ti!”

Halef ajoelhou-se bem à borda do avarandado e apontou a sua espingarda para a cabeça do Miralai. Este mudou de cor, não sei se de medo ou se de raiva.

- Afasta essa espingarda!

- Continua nessa posição! - retruquei.

- Homem, não vês que tenho perto de duzentos combatentes em torno de mim? Se me irritares, posso reduzir-te facilmente a pirão!

- E eu só tenho este servo e a um simples aceno te remeterei para junto dos teus antepassados!

- Os meus saberiam vingar horrivelmente a minha morte!

- Mas muitos deles levariam o diabo antes de penetrar nesta casa! Além disso o vale está sitiado por quatro mil guerreiros bem adestrados, que poriam vocês em debandada!

- Quantos guerreiros disseste?

- Quatro mil! Olha para a colina! Não vês cabeças ao lado de cabeças? Agora um homem vem descendo. Empunha, à guisa de bandeira, um turbante de tecido branco, que é o sinal de parlamentar. Deve ser um emissário do Bei de Baadri. Expede uma patrulha para assegurar-lhe a chegada incólume aqui e recebe-o de acordo com a pragmática! Isto só poderá redundar em vantagens para ti e tuas tropas!

- Guarda os teus ensinamentos chulos! Não preciso deles! Deixa vir os rebeldes! Onde estão todos os Dschesidis?

- Vou dizer-te! O Bei Ali soube que pretendias atacar os peregrinos. Tomou então todas as medidas de defesa. Expediu gente para observar as tropas de Mossul, Diarbekir e Kjerkjuk. As mulheres e crianças foram conduzidas a um lugar seguro. Bei não impediu a tua expedição, antes deixou-te livre o vale para nele entrares sem obstáculos. Mas, abandonando o vale, ele o sitiou e a sua força é incalculavelmente mais vantajosa, quer quanto à posição que ocupa quer quanto ao efetivo bélico. E le está ainda de posse da tua artilharia com toda a munição. Estarás perdido, se não negociares cortêsmente com o seu parlamentar!

- Eu te agradeço, franke! - vou “negociar cortêsmente”, primeiro com ele e depois contigo mesmo... Possuis o Bu-djeruldi do Grão Senhor e o Ferman do Mutessarif e fazes causa comum com os nossos inimigos! És um vil traidor e receberás o castigo que mereces!

Nesse momento, o Nassir Agassi, seu ajudante, encostou o seu cavalo no dele e lhe disse algumas palavras que, de cima, não pude ouvir. O coronel, apontando para mim, perguntou-lhe:

- É aquele a quem te referes?

- É a ele mesmo. Não faz parte dos nossos inimigos, não, e está aqui como hóspede destes por pura casualidade. Salvou-me a vida um dia!

- Então falaremos depois a tal respeito. Agora venham todos para o interior daquele edifício.

 

INOMINÁVEL TRAIÇÃO - HORRÍVEL VINGANÇA

Encaminharam-se todos para o templo do Sol, defronte ao qual apearam-se e entraram.

Nesse meio tempo, saltando e galgando de rocha em rocha, aproximava-se do vale, em linha reta, o emissário do Bei. Atravessando o arroio chegou ao local e entrou também no templo. Nenhum tiro se fêz ouvir e o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelos passos dos soldados que, antes agrupados numa posição bastante perigosa, se estendiam mais para baixo.

Passou-se bem mais de meia hora, ao cabo da qual o parlamentar saiu do templo, porém, não caminhando, mas carregado pelos outros. Fora algemado. O coronel, que também surgiu na entrada do templo, olhou para a pira e apontou na direção da mesma. Chamaram dez Arnautes, que escoltaram o homem até o monte de palhas de arroz e betume. Ia ser fuzilado, pois os homens preparavam as suas armas.

- Alto, lá - bradei ao coronel cá do avarandado. - Que pretendes fazer? Trata-se de um parlamentar e portanto duma pessoa intangível!

- Ele não passa de um rebelde como tu! Primeiro ele, depois chegará também a tua vez! Já sabemos agora quem nos aprisionou a artilharia e a entregou nas mãos dos inimigos!

O coronel levantou o braço e a salva detonou. O parlamentar tombou morto. No mesmo instante aconteceu uma cousa inesperada: invadindo o meio da soldadesca formada, surgiu a figura de um homem austero. Era Pir Kamek. Alcançou o monte de palhas de arroz, isto é, a pira, e ajoelhou-se diante do morto.

- Ah! é outro! - exclamou o Miralai, aproximando-se apressadamente do sacerdote. - Levanta-te e me responde!

Mas não pude ouvir nada, pois a distância era demasiadamente grande para isso. Eu via apenas os gestos solenes do Pir e os coléricos do Miralai. Depois notei que o primeiro meteu a mão na pira e minutos após erguia-se uma chama da mesma. Um pressentimento fúnebre sacudiu-me os nervos. Deus de bondade, Deus de onipotência, teria ele se referido hoje a um tal sacrifício, a uma tão formidanda punição, a uma tão tétrica vingança com relação ao assassino de seu filho e de sua mulher!

Agarraram-no com o fim de arrancá-lo da pira mas era já tarde para apagar as chamas, alimentadas terrivelmente pelo betume. Ao fim de um minuto, quando muito, as chamas ardiam terrivelmente projetando-se no espaço.

O Pir se achava cercado e seguro: o Miralai parecia querer abandonar o local. Mas nisso ele resolve virar-se e voltar para perto do Pir. Falaram-se, o coronel agitadamente, o Pir calmo e de olhos cerrados. Subitamente abriu os olhos, desvencilhou-se dos dois turcos que o seguravam e agarrou o coronel. Com a força física de um gigante, ergueu o Miralai. Dois saltos e ele postou-se diante da fogueira, mais outro e ambos desapareceram no meio das chamas pavorosas que pareciam subir aos céus! Alguns movimentos entre as labaredas davam a perceber que os dois condenados à morte pelo terrível elemento lutavam ainda, num esforço supremo: um para salvar a vida e o outro para conservar este na fogueira até ser totalmente consumido.

Fiquei gelado como se tivesse caído, em dia de inverno rigoroso, num rio de águas geladas! Então por isso é que o dia de hoje era “o mais grandioso” para o Pir, conforme me dissera! Sim, o dia mais grandioso para um homem é quando ele deixa esta vida para sacrificá-la pelo fogo à eternidade! Aquela tremenda vingança para com o Miralai seria a “última palavra” com que a mão do Pir assinalava a “sangrenta história dos Dschesidis, os desprezados, os perseguidos?” E aquele fogo era o “elemento” no qual o seu corpo seria sepultado e ao qual, por isso mesmo, o sacerdote legaria o seu vestuário?

Horrível! Fechei os olhos. Não queria ver mais nada e nem saber de coisa alguma! Desci para a sala e me deitei num tapete. Durante algum tempo, lá fora reinara um silêncio e uma calma relativas. Depois, porém, recomeçou o bombardeio. Eu nada tinha a ver com aquilo. No caso de ameaçar-me algum perigo, Halef certamente me avisaria. Não podia esquecer aquela cabeleira nevoenta e aquele vulto de uniforme dourado a se degladiarem em meio das chamas dantescas da fogueira sinistra! Deus meu, quão valiosa e quão inestimável é uma vida humana e, no entretanto...!

Assim passou-se um bom espaço de tempo. Cessara o bombardeio e eu percebi ruídos de passos que desciam a escada. Halef entrou na sala.

- Sídi, é para vires ao avarandado!

- Fazer o quê?

- Um oficial exige a tua presença.

 

OS PRIMÓRDIOS DA PAZ

Levantei-me e subi novamente. Um simples olhar e fiquei ao par de tudo. Os Dschesidis não ocupavam mais as elevações do vale, mas pouco a pouco haviam descido. Por trás de toda árvore, por trás de todo tufo, por trás de toda pedra ou penedo se achavam entricheirados combatentes era posição de descarregar as suas carabinas contra os assaltantes. Uma coluna, protegida pelo fogo da artilharia, havia mesmo atingido a baixada e tomado posição num macegal que marginava o arroio.

Faltava apenas uma coisa: se a bateria avançasse um pouco mais para cima então seria fácil exterminar os turcos em minutos apenas.

Diante da casa, por baixo do avarandado, se achava Nagir Agassi.

- Senhor, não te negas a uma conferência conosco?

- Que pretendes dizer-me?

- Queremos mandar um emissário entender-se com o Bei Ali e com o Miralai - a quem Alá conceda o paraíso! - dizendo isso apontou para a pira que continuava ainda a arder pavorosamente - matou o parlamentar dos Dschesidis, nenhum de nós poderá encarregar-se dessa missão. Não queres desempenhá-la por nós?

- Aceito a incumbência. Que devo dizer-lhe?

- O Kaimakam já te ordenará tudo. Ele agora assumiu o comando geral e está ali naquela casa. Vem junto!

- Ordenar-me? O Kaimakam não tem esse direito e nem admito que me ordene coisa alguma. Se alguma coisa eu fizer por vocês o farei expontâneamente. O Kaimakam que venha, mas que venha ele em pessoa falar comigo se quiser! A distância é a mesma. Esta casa lhe está aberta, mas exclusivamente a ele e, quando muito, a mais uma única pessoa que trouxer consigo. E todos os demais que daqui se aproximarem serão fuzilados!

- Além de ti, quem mais está no interior da casa?

- O meu criado e um Kawass do Mutessarif, um Baschi-Bozuk.

- Como se chama ele?

- É o Buluk-Emini Ifra.

- Ifra? Aquele do burro?

- Justamente! - respondi meio rindo.

- És então o forasteiro que dispensou as bastonadas ao oficial a fim de captar a amizade do Mutessarif?

- Sou eu mesmo.

- Espera, então, um instante!

Minutos após, o Kaimakam apareceu descendo a escadaria do templo e em seguida veio em direção à casa em que me alojara. Vinha acompanhado apenas do Makredsch.

- Halef, abre a porta e conduze-os à sala. Depois, fecharás a porta e voltarás para aqui. A todo aquele que se aproximar da casa sem ser chamado, fuzilarás incontinenti sem mais hesitações!

Descemos. Os dois homens entraram para a sala. Eram dois altos funcionários; mas com essa circunstância não me devia preocupar; recebi-os em atitude discreta e muito comedida, fazendo-lhes um simples sinal para que se sentassem. Feito o que, perguntei-lhes, sem desejar-lhes boas vindas, como é da praxe turca:

- O meu criado deixou-os entrar na casa. Disse ele como me deverão chamar?

- Não disse, não.

- Aqui todos costumam chamar-me Hadjil Emir Kara Ben Nemsi. Sei muito bem com quem estou tratando. Que pretendem dizer-me?

- És um Hadjil? - perguntou o Makredsch.

- Claro que sim!

- Estiveste então em Meca?

- Estive. Não vês o Kuran que uso ao pescoço e a garrafinha de água zem-zem?

Julgamos que fosses um giaur!

- Foi para dizer-me isto que me procuraste?

- Não. Pedimos que em nosso nome vás entender-te com o Bei Ali!

- Vocês me dão garantias para essa incumbência?

- Damos.

- E ao meu criado também?

- Também!

- Que devo dizer ao Bei?

- Que se renda incondicionalmente! Que entregue as armas e se submeta ao Mutessarif!

- E depois disso? - perguntei, curioso por saber as outras exigências.

Depois disso, a penitência que lhe vai impor o governador será a mais branda possível.

- Tu és o Makredsch de Mossul e este Kaimakan o comandante geral das tropas que aqui expedicionaram. Cabe, pois, a ele e não a ti dizer-me as condições a serem transmitidas.

- Mas eu sou o enviado especial do Mutessarif.

A essas palavras o homem da “cara de abutre” fêz uma inclinação, quase batendo com a testa no chão.

Estás provido de credenciais?

- Não.

- Pois então a tua palavra voga tanto como a de qualquer soldado raso!

- O Kaimakam é testemunha da minha investidura especial.

- Não adianta! Só darei crédito a uma credencial escrita! Vá buscá-la! O Mutessarif enviaria para representá-lo um homem de certa cultura e não a ti!

- Pretendes insultar-me?

- Não! Apenas pretendo dizer que militarmente falando não és coisa alguma, que nada entendes dessas coisas e que por conseguinte cabe-te calar!

- Emir! - exclamou fulminando-me com uns olhares cheios de raiva.

- Queres que te prove que realmente és um indivíduo inculto? Vocês estão de tal modo sitiados que nenhum poderá fugir: meia hora, no máximo, é bastante para que todos aos montes jazam estirados no solo. E numa situação insustentável dessas tens ainda o rompante de exigir, por meu intermédio, uma rendição incondicional das forças do Bei. Se eu aceitasse tal missão, ele me tomaria como um desiquilibrado. O Miralai, a quem Alá seja misericordioso, atirou os seus mil e quinhentos guerreiros à ruina, à morte certa! E tudo isso levado pela sua imprudência, pela sua desmedida vaidade e curteza de inteligência. Ao Kaimakam compete agora suavizar a situação e salvar as tropas da ruína inevitável. Se isso conseguir, terá ele procedido como um bravo oficial, como um herói no verdadeiro sentido do termo! Mas não é com palavras altaneiras, por trás das quais espreitam o medo e a perfídia, que ele chegará a um objetivo tão elevado! Mas já te estou dando demasiada trela! O Kaimakam que fale, se quiser. Entender-me-ei exclusivamente com ele! Sobre questões militares só a um guerreiro cabe tratar!

- Não obstante terás que ouvir a mim também!

- Não sei em que ponto?

- Há no caso assuntos que se relacionam diretamente com as leis e eu sou o Makredsch de Mossul!

- Sê lá o que quiseres! Não estás em condições de me apresentar outorgas escritas e isto me basta!

Sentia verdadeira repulsa por aquele homem, entretanto, não o trataria tão energicamente se a sua postura tivesse sido diferente e se eu não tivesse um pressentimento de que ele fora o maior culpado de tudo o que sucedera. Com que fim se incorporara aquele “jurisconsulto” às tropas expedicionárias? Exclusivamente para no caso de serem os Dschesidis vencidos, tornar-lhes mais sensível o caminho da lei dos Osmanlis!

Dirigi-me, agora, ao Kaimakam:

- Que direi ao Bei se ele me perguntar a razão por que atacaste Xeque Adi?

- Dirás que pretendíamos prender dois assassinos no meio deles e também porque não pagam pontualmente os Haradschs (1) a que estão obrigados.

- O Bei por certo se admirará de tua exposição de motivos! Os assassinos devem ser procurados entre a tua própria gente. E quanto aos impostos, a cobrança podia ter sido efetuada por outros meios, sem ter necessidade de apelar para o emprego de violência. E que lhe direi a respeito da tua resolução atual?

- Ele que mande um emissário para eu expor a este as condições sob as quais evacuaremos nossas tropas do vale!

- E se ele quiser conhecer, previamente, essas condições?

- Exijo, em nome do Mutessarif, a entrega dos nossos canhões com todos os pertences; por todo morto ou ferido de nossa parte uma determinada importância em dinheiro, o pagamento de todos os Haradschs em atraso e uma contribuição de guerra, cuja importância a fixarei oportunamente!

- Só isso? Allah kehrim, Deus é generoso! Ele supriu-te de uma boca assaz pródiga em exigências! Não precisas dizer mais nada; basta, o resto dirás ao próprio Bei. Irei já e voltarei, eu mesmo, com a resposta ou então a enviarei por intermédio de um emissário.

- Dize-lhe ainda que ponha em liberdade os nossos artilheiros e que lhes pague uma contribuição pelo susto que lhes pregou!

- Transmitirei mais esta exigência; mas desconfio que ele também irá exigir uma indenização pela surpresa que vocês lhe deram. Estamos entendidos! Vou sair, mas antes advirto-os de uma coisa: Se causarem maiores danos a Xeque Adi, o Bei não terá mais contemplações!

Levantei-me. Eles fizeram o mesmo e saíram.

Chamei Halef e Ifra para selarem os cavalos. Este serviço durou pouco e em seguida montamos e subimos o vale.

- Esperem aqui! Eu já volto.

Desci por uma das escarpadas para ver o efeito dos tiros da artilharia. O quadro era apavorante, mas os Dschesidis suavizavam-no, recolhendo os turcos feridos e prodigalizando-lhes os curativos de emergência que eram possíveis. Oh, como seria diferente a situação se os Osmanlis fossem os vencedores! Voltei para prosseguir com os meus criados, embora os combatentes por detrás de suas trincheiras me chamassem alegremente para junto deles. Numa das faces laterais da colina, deveria encontrar-me com o Bei.

Quando passei pelo templo, diante deles se achava postado o Kaimakam com o seu estado maior. Acenou-me e aproximei-me dele.

- Dize ao Bei que exigimos ainda uma indenização pela morte do Miralai!

- Creio que o Makredsch se dá demais ao trabalho de inventar novas exigências, mas estou certo de que o Bei também exigirá uma indenização pelo parlamentar que vocês fuzilaram. Mas transmitirei mais esta imposição descabida!

- Tens um Baschi-Bozuk na tua companhia?

- Como vês!

- Quem te cedeu?

- O Mutessarif.

- Precisas ainda dele?

- Claro que sim.

- Mas nós também.

- Vai buscar uma ordem escrita do governador. Quando me apresentares essa ordem, entregar-te-ei o Buluk Emini!

Continuei a cavalgar, cruzando por homens de fisionomias carregadas. Muitos, intintívamente, levavam a mão ao punhal, mas o Nasir Agassi acompanhou-nos até uma zona segura.

A nossa despedida foi rápida, devido à premência de tempo.

- Efendi, ainda nos veremos um dia? - perguntou-me Nasir Agassi.

- Alá é que sabe tudo e também isso; e não nós!

- És o meu salvador; jamais me esquecerei de ti e te sou muito grato! Se nos encontrarmos ainda um dia, dize-me em que te posso servir!

- Que Deus te proteja! Talvez te encontre um dia, quando já fores um Miralai! E então desejarei que tenhas melhor Kismet que o de Ornar Amed!

Com um aperto de mão despedimo-nos. Mais tarde fui encontrá-lo onde menos o esperava.

A poucos passos mais para cima, encontramos o primeiro Dschesidi por trás das moitas. Este se aventurou a avançar tão longe, para obter melhor alvo, ao recomeçar o combate. Era o filho de Selek, o meu intérprete.

- Emir, não te aconteceu nada? - foi logo me perguntando já de longe.

- Como vês nada sofri. Tens contigo o livro de Pir Kamek?

- Não. Escondi-o num lugar seguro, onde nenhum dano lhe podem causar.

- Mas se tombasses na luta, o livro estaria perdido, porque todos ignorávamos onde o escondeste.

- Não, Sídi. Avisei a diversos companheiros e estes te informariam.

- Onde está o Bei?

- Naquele penhasco lá em cima, de onde melhor se avista o vale. Deixa-me acompanhar-te até lá.

Pôs a espingarda a tira-colo e saiu à nossa frente. Alcançamos o penhasco. Era interessante ver como os Dschesidis, de pé, deitados, acocorados, aguardavam o sinal de fogo a ser dado pelo chefe, a fim de começar a luta, mas agora seriamente! Aqui compreendia-se melhor ainda que os turcos estavam perdidos, se não fizessem um acordo com o inimigo. Era o mesmo ponto onde eu estivera na véspera com o Bei a observar a suposta estrela. Imaginem como mudam rapidamente as situações. Há poucas horas surgira a misteriosa “estrela” e já a pequena seita que se animara a empunhar as armas contra o Grão Senhor se achava no mesmo local como vencedora!

- Dou graças ao Onipotente por ter-te conservado a vida e a saúde! - exclamou o Bei sinceramente. - Correste algum perigo?

- Não, porque então te faria o sinal convencionado.

- Vem para cá!

Apeei e acompanhei-o até a rocha. Daqui tudo se podia avistar no vale: o santuário, a casa de residência do Bei, as baixadas, a artilharia por trás das trincheiras e ambas as faces do vale.

- Estás vendo aquele ponto branco por cima da minha casa de residência?

- Sim. É a toalha que prendi ao mastro.

- Se ela houvesse desaparecido, eu daria um sinal e quinhentos de meus homens correriam para baixo, protegidos pelo fogo da artilharia, para te acudir.

- Muito obrigado, Bei Ali! Não me aconteceu nada; apenas o Miralai atentou contra a minha vida, à bala, porém, errou o alvo.

- Isto ele pagará! Não sairá daqui sem uma punição em regra.

- Já foi mais do que punido!

Narrei-lhe o que vi, bem como as palavras com que momentos antes o Pir se despedira de mim. Ele ouviu-me em silêncio e profundamente impressionado. Mas quando terminei o relato, limitou-se a dizer:

- Pir Kamek era um herói!

Em seguida ficou absorto e só muito tempo depois perguntou-me:

- Que disseste? Eles mataram o meu emissário?

- Fuzilaram-no.

- Quem ordenou tal fuzilamento?

- Com certeza o Miralai.

- Oh! se este ainda estivesse vivo! - rugiu. - Tive mesmo um pressentimento de haver sucedido alguma cousa ao parlamentar. Disse-lhe que recomeçaria o bombardeio se ele dentro de meia hora não estivesse de volta. Mas hei de vingá-lo! Vou dar agora o sinal de combate mas de combate sério, finalmente!

- Espera ainda, pois preciso antes falar-te! O Kaimakam, que assumiu agora o comando geral, pediu-me que te procurasse em seu nome.

Relatei-lhe fielmente toda a minha conversação com o tenente-coronel e com o Makredsch. Quando pronunciei o nome do último, o governador franziu o sobrolho, mas continuou a ouvir-me em silêncio até o fim.

- Então o Makredsch acompanha as tropas! Agora já sei a quem devemos agradecer todos esses fatos! Ele é o mais feroz inimigo dos Dschesidis, odeia-os, é o seu vampiro, o seu sanguessuga! Foi o Makredsch quem provocou aquele assassinato a fim de que o mesmo servisse de pretexto para obrigar-nos, por meio dessa agressão covarde e brutal, ao pagamento de uma contribuição extorsiva. Mas a minha embaixada, que seguiu para Istambul, procurará também o Kasi Askeri de Anatólia (1) a fim de entregar-lhe uma carta, escrita ainda por Pir Kamek. Ambos eram conhecidos

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(1) Corregedor-mor da Turquia Asiática.

 

e muito amigos, e Pir durante muito tempo foi hóspede. O corregedor-mor da Turquia Asiática sabe distinguir a verdade da mentira.

- É o que desejo de coração! Mas quem pretendes mandar como emissário junto do Kaimakam? Não deves mandar um homem de espírito vulgar, porque este facilmente cairia nalguma cilada.

- Quem pretendo mandar? - Não mandarei ninguém. Falarei eu em pessoa com ele. Sou o chefe dos meus homens e ele o comandante dos seus e a nós compete resolver o assunto. Mas sou o vencedor e ele o vencido; portanto ele que venha procurar-me!

- Procedes muito bem, de acordo com o direito!

- Vou esperá-lo aqui. Assegurar-lhe-ei inviolabilidade tanto durante as negociações, como no trajeto de ida e volta. Mas, se dentro de meia hora o Kaimakam não estiver em minha presença, darei início ao bombardeio, que só cessará, quando não houver mais um só Osmanlis com vida!

Ele aproximou-se de seus ajudantes, com os quais conferenciou ligeiramente. A seguir se afastaram dois deles. Um, empunhando um manto branco à guisa de bandeira, desceu, depois de largar as armas, pelo mesmo caminho de onde viera; o outro, beirando uma elevação, desceu a escarpada na direção do local, onde se achava assestada a artilharia.

A seguir, o Bei ordenou a alguns Dschesidis que se achavam próximos, que erguessem uma barraca para nós. Enquanto era cumprida a ordem, notei que em baixo abriam-se os entrincheiramentos. As peças da artilharia foram transportadas pelos vãos abertos até próximo à planície do vale, aonde os dois Dschesidis já haviam chegado. Ali uma grande quantidade de penedos soltos e árvores derribadas formavam um novo entrincheiramento.

Uns vinte minutos após a partida do emissário, aproximava-se de nós o Kaimakam, novo comandante geral das tropas inimigas. Vinha acompanhado por três soldados e a seu lado cavalgava o Makredsch. Fora uma grande imprudência da parte deste último; notei-o pelos olhares sombrios que o Bei lançava para ele.

O Bei entrou na barraca e se abancou no tapete estendido ao solo. Eu recebi os que chegavam. Os três soldados turcos ficaram do lado de fora da barraca e os seus superiores entraram.

- Salam, - cumprimentou Kaimakam.

O Makredsch não os saudou de modo algum. Como juiz dum Grão Senhoriado esperava que o Bei dos Adoradores do Diabo lhe desejasse boas vindas. Este, porém, fingiu não notar sua presença ali. O governador apontando para o tapete disse:

- Kaimakam, komar-sen - Tenente-coronel, podes sentar-te!

O oficial turco sentou-se, ereto e cheio de afetação; o Makredsch, intrusamente, sentou-se também ao seu lado.

- Pediste para que viéssemos falar contigo - começou o oficial. - Por que não fôste tu nos procurar?

- Enganas-te! - respondeu o Bei com fisionomia carregada. - Não te pedi coisa alguma, mas apenas mandei prevenir-te de que metralharia os Osmanlis, caso não procurasses entender-te conosco! Esta é a verdade! E isto é um pedido? Perguntas mais, por que não fui eu te procurar? Quando eu viajar de Xeque Adi para Mossul, então eu te procurarei e não tu a mim. Vieste de Mossul para Xeque Adi, onde te encontras agora e portanto deves conhecer os deveres a que te obriga a cortesia. O teu gesto me força a esclarecer desde logo o ponto de partida de nossas atuais conversações. És um servo, um funcionário do Grão Senhor e do Mutessarif, um oficial que só em casos de emergência, comanda um regimento; eu, porém, sou um príncipe livre de curdos e generalíssimo de todas as minhas tropas. Por conseguinte, não penses que o teu posto é hierarquicamente mais elevado que o meu.

- Não sou nenhum criado do...

- Cala-te! Estou habituado a que me ouçam e não me interrompam quando falo! Nota isto, Kaimakam! Tu penetraste, sem prévio aviso e sem que a isso tivesses o menor direito, nos meus domínios, como o ladrão, o salteador de mão armada. A um ladrão costumo prender e matar, conforme entender; mas como és um servo do Grão Senhor e do Mutessarif, vou falar-te por bem, antes de te fazer sentir a extensão do meu domínio. Se tu e os teus soldados ainda vivem, agradeçam exclusivamente à minha generosidade e ao meu espírito de indulgência.

O Kaimakam fêz uma fisionomia de espanto, visto que não esperava uma tal explanação dos fatos. Refletiu ainda por algum tempo sobre a resposta que deveria dar. Mas o Makredsch, em cuja fisionomia de abutre vislumbrava-se nitidamente uma expressão de ódio flamejante, tomou a palavra:

- Bei Ali, que ousadia! Tratas-nos de ladrões e assassinos, a nós os representantes legítimos do Padixá e do governador geral! Contém-te na tua impetuosidade, do contrário te arrependerás amargamente!

O Bei dirigiu-se com a maior calma deste mundo ao tenente-coronel:

- Kaimakam. Quem é este doido?

- Afivela esta língua, Bei Ali! Este Effendi é o Makredsch de Mossul! - respondeu o oficial tomado de pavor.

- Estás caçoando! Um Makredsch não pode ser um doente mental! O Makredsch de Mossul aconselhou o Mutessarif a organizar esta expedição de guerra contra mim. Portanto se ele não fosse um desequilibrado jamais se abalançaria em chegar à minha presença, pois deve saber muito bem o que pode esperar!

- Não estou caçoando, não! É de fato o nosso Makredsch.

- Vejo que não sonhas e nem estás bêbado! Por isso acredito que estejas falando sério. Mas considera que mandei chamar apenas a ti!

- Ele veio na minha companhia, na qualidade de representante e embaixador do Mutessarif!

- É possível que assim seja, pois estás dizendo. Mas podes provar o que me dizes?

- Posso!

- Numa situação destas, palavras apenas não bastam. Tenho confiança em ti, não há dúvida; mas qualquer outro que me procurar em caráter idêntico, terá que provar que possui o direito e autorização para entrar em negociações comigo; e se isso não lhe fôr possível, correrá o perigo de ser tratado da mesma forma como trataste há pouco ao meu emissário.

- Um Makredsch jamais correrá tal perigo!

- Pois provarei o contrário!

O Bei bateu palmas e imediatamente penetrou na barraca o Dschesidi que fora buscar o Kaimakam.

- Prometeste ao tenente-coronel todas as garantias de vida?

- Sim, Senhor!

- Ao Kaimakam apenas?

- Sim e a mais ninguém!

- E aos três soldados que se acham lá fora?

- Não, nem a eles e nem ao Makredsch.

- Então retira-os daqui como prisioneiros! Este homem, que se diz Makredsch de Mossul leva-o também aprisionado. É ele o culpado de tudo, inclusive da morte do meu parlamentar!

- Eu protesto! - bradou o tenente-coronel.

- Saberei defender-me e vingar-me! - exclamou o Makredsch puxando o punhal, que trazia à cintura.

No mesmo instante, porém, o Bei ergueu-se, de um salto, e desferiu um soco tão violento na cara do Makredsch que o mesmo caiu de costa.

- Cão! Ousas puxar armas contra mim dentro de minha própria barraca! Fora!

- Alto lá! - exclamou o oficial. - Viemos como parlamentares, portanto estamos imunes de qualquer violência!

- O meu emissário procurou-os também na qualidade de parlamentar e não obstante foi fuzilado como um traidor. Fora com estes homens!

O Dschesidi agarrou o Mahredsch e o retirou da barraca.

- Neste caso, também eu me retirarei! - ameaçou o Kaimakam.

- Vai!! Poderás alcançar tuas tropas debaixo de nossa proteção, sem que nada te suceda. Mas antes de chegares lá, muitos dos teus soldados estarão mortos. - Emir Kara Ben Nemsi sobe à rocha e estende horizontalmente o braço direito. É o sinal para a artilharia entrar em operação!

- Não vás! - acudiu nervosamente o comandante dirigindo-se a mim. - Não tens o direito de atirar!

- Por que não? - perguntou Ali.

- Seria um assassínio hediondo, pois não nos podemos defender!

- Não seria assassínio, não, mas castigo merecido e desforra muito justa. Vocês nos atacaram sem antes nos declararem guerra; invadiram o nosso domínio armados de espadas, espingardas e canhões, a fim de nos exterminar. Agora, porém, que a artilharia está em nosso poder, agora que foram recebidos por nós na devida forma e agora que estão subjugados dizes que aquele que atirar comete um assassínio vulgar! Kaimakam encoleriza-te, mas não te exponhas ao ridículo!

- Soltarás imediatamente o nosso Makredsch!

- Não faltava mais nada! Então não compreendes que ele constitui represália ao meu emissário assassinado!

- Pretendes matá-lo?

- Talvez sim! Tudo depende ainda do acordo a que chegarmos em nossas negociações.

- Quais as exigências que me apresentas?

- Estou pronto a ouvir as concessões que me fazes!

- Concessões! Aqui vimos para impor!

- Já te pedi que não te expusesses ao ridículo! Dize-me primeiro qual o motivo que os levou a nos agredirem!

- Há alguns assassinos no meio de tua gente.

- Sei a que te referes. Afianço-te, porém, que estás mal informado. Não foram dois dos nossos homens que mataram um dos teus mas, ao contrário, três Osmanlis que assassinaram dois Dschesidis! Tomei todas as providências para comprovar esta afirmativa. Dentro de pouco tempo o Kia-jah (1) da localidade onde se desenrolou o fato, estará aqui, juntamente com pessoas das famílias das vítimas.

- Talvez se trate de outro fato!

- É o mesmo, mas o Makredsch adulterou a verdade. Ele não tornará a proceder desse modo! E mesmo que fosse tal como dizes, de forma alguma isso seria motivo para sermos atacados, de mão armada, em nossos domínios!

- Temos ainda um segundo motivo!

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(1) Alcaide.

 

- Qual?

- Vocês não pagaram ainda o Haradsch a que estão sujeitos.

- Já pagamos, sim! Dize-me o que tratas de Haradsch? Somos curdos livres; o tributo que pagamos, pagamo-lo espontaneamente. Já pagamos o imposto per capita, a que todo cidadão não mussulmano está sujeito para isentar-se do serviço militar. Agora queres ainda que paguemos o Haradsch, que na sua essência não é outro do que este mesmo tributo per capita! E se estivessem no seu direito, se realmente devêssemos algum imposto ao Mutessarif, seria isso razão suficiente para nos atacarem em pé de guerra? E o local da agressão precisava ser justamente Xeque Adi, onde atualmente se acham reunidas milhares de pessoas que não estão sujeitas a Mossul e que por isso não lhe devem cousa alguma? Kaimakam, tanto tu como eu sabemos muito bem o que pretende de nós o governador: dinheiro e presas. Não lhe foi possível, porém, nos roubar e saquear conforme esperava e por isso será melhor não falarmos mais nas razões que o induziram a esta façanha criminosa. Tu não és um jurista e muito menos um arrecadador de impostos! És um oficial e portanto falemos apenas no que se refere à tua função militar. Fala que escutarei!

- Estou incumbido de exigir a entrega dos assassinos e garantir a arrecadação do imposto em atraso; se não me atenderes, destruirei Xeque Adi e todas as localidades dos Dschesidis. São ordens que recebi do Mutessarif e que saberei cumprir!

- E feito isso levarás para Mossul tudo o que pertencer aos Dschesidis exterminados, não é assim?

- Tudo, tudo!

- É essa então a ordem que recebeste do governador?

- Tal qual!

- E dizes que saberás cumpri-la?

- Integralmente.

- Pois então cumpre-a!

O Bei ergueu-se do solo, o que significava estarem concluídas as negociações. O Kaimakam fêz um movimento para detê-lo.

- Que pretendes fazer agora, Bei?

- Tu vais destruir as aldeias dos Dschesidis e roubar os haveres de suas populações. Eu, na qualidade de governador dos Dschesidis, saberei proteger e defender os meus súditos! Fomos atacados sem prévias formalidades internacionais, conforme praxe em nações menos organizadas. Estás agora a defender este ato infame com argumentos que são formidáveis mentiras. Pretendes roubar e assassinar; destruir e arrasar; vocês até mataram o meu próprio emissário que mandei em caráter pacífico no intuito nobre de evitar perdas de vidas humanas e derramamenro de sangue. Esse ato é atentatório aos mais comezinhos princípios de Direito Internacional. Em vista disso tudo, não posso mais considerá-los como guerreiros e nada mais me resta senão tratá-los como ladrões vulgares e ladrões vulgares matam-se no próprio local do roubo, sem mais formalidades ou considerações de quaisquer espécies. Estamos entendidos! Volta para junto de tuas tropas. Por enquanto estás debaixo de minha proteção e te cercarei de todas as garantias. Depois, porém, cessará tal proteção e serás considerado um dos chefes da quadrilha de salteadores que invadiu o meu domínio e com eles perecerás também!

O governador dos Dschesidis abandonou a barraca e estendeu o braço em sentido horizontal. Sem dúvida alguma, há muito que os artilheiros esperavam avidamente pelo referido sinal: um tiro de canhão troou pelos ares seguido logo de outro.

- Que estás fazendo? - exclamou o Kaimakam horrorizado. - Rompes o armistício enquanto ainda me acho na tua companhia!

- Chegamos, por ventura, a algum armistício? Não te disse há pouco que estávamos entendidos? Ouves? São metralhas e granadas; as mesmas que estavam destinadas a nós; agora, porém, trocaram-se os papéis! Alá é grande e faz justiça; castiga os pecadores com as mesmas armas com que pecaram ou pretendiam pecar! Estás ouvindo a gritaria de tua gente? Vai, corre às suas fileiras e ordena-lhes o arrasamento de nossas aldeias!

Realmente o terceiro e quarto tiro parece terem produzido algum efeito. Isso se depreendia do berreiro infernal partido da esplanada do vale.

- Suspende o bombardeio, Bei Ali! Suspende, para que possamos prosseguir nas negociações!

- Tu cumpres as ordens do Mutessarif e eu o meu dever! Estamos entendidos, já te disse!

- O Mutessarif não deu ordem alguma a mim mas ao Miralai e agora constitui sagrado dever meu poupar a vida dos homens cujo comando assumi. Preciso tentar a sua salvação!

- Se persistires nesse propósito, estou pronto a reencetar as negociações!

- Então vem, voltemos para o interior da barraca. Mas suspende o fogo!

 

O ARMISTÍCIO

O Bei tirou o lenço de seu turbante e desfraldou-o para as posições ocupadas pelos seus combatentes. Depois tornou a entrar na barraca.

- Que exiges de mim? - perguntou o Kaimakam.

O Bei olhou pensativamente para o solo e depois respondeu:

- Não é contigo que estou encolerizado e por isso quero poupar-te. Qualquer acordo que fecharmos, constituirá a tua ruína, pois as minhas condições em qualquer caso serão desvantajosas para vocês. Por isso, para te isentar de quaisquer responsabilidades, realizarei as negociações diretamente com o próprio Mutessarif.

- Eu te agradeço muito, Bei.

O Kaimakam não parecia ser homem mau. Ficara satisfeito por haverem as coisas tomado aquele rumo. Daí o agradecimento ter partido visivelmente do seu coração sincero.

- Mas uma condição tenho eu a impor-te! - disse o Bei.

- Qual?

- Tu te considerarás, juntamente com a tua tropa, meu prisioneiro de guerra e permanecerás em Xeque Adi até o fim de minhas negociações com o Mutessarif.

- Aceito essa condição, pois posso cumpri-la. O Miralai foi o culpado de tudo. Agiu com lamentável imprudência.

- Entregarás então as armas?

- Isto seria afrontoso para os nossos brios militares.

- Mas achas que, na qualidade de prisioneiros de guerra, poderão ficar armados?

- Considerar-me-ei prisioneiro de guerra, e como tal me comprometo apenas a permanecer em Xeque Adi, sem nos evadirmos até que o Mutessarif haja resolvido a nosso respeito.

- A evasão seria mesmo a ruína. Custaria a vida de vocês todos!

- Bei, sou sincero e reconheço que a nossa situação é grave. Mas sabes de que são capazes mil homens no auge do desespero?

- Sei muito bem, mas afianço-te que nenhum se escaparia!

- Mas muitos dos teus tombariam também! Além disso não deves esquecer que o Mutessarif tem ainda os regimentos de linha e os de dragões a seu dispor, efetivo esse cuja maior parte ficou em MossuL Acrescenta a isso os reforços que ele receberia de Kjerkjuk, Diarbekir, Sulima-nijah e de outras guarnições, fora a artilharia que ainda lhe resta, e terás de reconhecer que, embora sejas momentaneamente o senhor da situação, não te manterias assim por muito tempo.

- Queres que renuncie eu a uma vitória e às vantagens dela decorrentes à simples perspectiva de que mais tarde serei derrotado? O Mutessarif que venha com os seus regimentos. Vou mandar dizer-lhe que te custará a vida qualquer ataque posterior que ele realizar contra o meu povo. E se ele tem ainda a seu dispor outros recursos em homens e munições para se assenhorear da situação, o mesmo se dá comigo para mantê-la. Não deves ignorar que a uma simples convocação minha, numerosas tribos de curdos levantar-se-ão em armas contra ele. Contudo eu anseio pela paz e não pela guerra. Tenho hoje reunido neste vale os Dschesidis de todo o Curdistão e das províncias limítrofes; fácil me seria acender entre eles o facho da revolta; mas não o farei, desde que o Mutessarif se disponha a respeitar os direitos dos meus jurisdicionados. Por enquanto ainda vou deixar as tuas tropas de posse das armas; mas prometi armas a um aliado e estas armas o Mutessarif é que irá fornecê-las!

- Quem é esse aliado?

- Nenhum Dschesidi comete a vilania de trair um amigo! Como eu ia dizendo, as tuas tropas ficarão de posse das armas, mas me fornecerás todas as munições de que dispões em retribuição aos mantimentos necessários à sua subsistência.

- Ora essa! Se eu te fizer entrega das munições, será o mesmo que depor as armas!

O Bei Ali riu.

- Pois bem, podes ficar também com as munições; mas fica certo de uma coisa: se as tuas tropas padecerem fome e me vierem pedir alimentos para elas eu só os fornecerei em troca de espingardas, pistolas, espadas e facas. Nessas condições não serão considerados como prisioneiros de guerra, pois imediatamente firmaremos um armistício.

- É viável a tua proposta e estou inclinado a aceitá-la!

- Vês como sou indulgente! Mas ouve as minhas condições: Permanecerás no vale Xeque Adi, sem a menor comunicação com o seu exterior; suspenderás todas e quaisquer hostilidades contra o meu povo; respeitarás o nosso santuário e as nossas residências; no primeiro ficam expressamente proibidos de entrar e nas últimas somente com licença expressa de minha parte; o armistício durará até receberem novas ordens do Mutessarif, ordens que só te poderão ser transmitidas na minha presença; a toda tentativa de fuga, embora uma só, isoladamente ou em grupos, a toda e qualquer transgressão das cláusulas agora estabelecidas, seguirá o rompimento do armistício, reiniciando-se o combate; conservarás a posição que atualmente ocupas e eu permanecerei na minha. Concordas?

Depois de muitas reflexões e de várias contrapropostas o Kaimakam aceitou as condições do armistício. Interessou-se muito pelo Makredsch e exigia a sua libertação, mas o Bei não o atendeu. Trouxeram papel e tinta para o local. Eu redigi as cláusulas do armistício e ambos assinaram, como representantes das duas partes: um pôs a sua assinatura individual no documento e o outro o seu Bukendim. (1).

Agora o Pali aguardava as novas ordens do Bei.

- Far-me-ás o favor de redigir uma carta ao Mutessarif? - perguntou-me o Bei.

- Com muito prazer. Que pretendes comunicar-lhe?

- Em primeiro lugar, a atual posição das suas tropas. Depois escreverás que pretendo conferenciar com ele e o espero aqui ou em Dscherraijah. Poderá vir acompanhado apenas de cinqüenta homens no máximo e deverá abster-se de quaisquer propósitos hostis. A reunião será efetuada amanhã até o meio-dia. Se ele faltar à reunião, matarei o Makredsch e farei as suas tropas sentirem o efeito de suas próprias metralhas e granadas! O mesmo ordenarei se souber que ele se acha animado do propósito de prosseguir nas hostilidades. Podes escrever isto?

- Sim.

- Confiarei a Pali fazer-lhe verbalmente outras comunicações especiais. Escreve o mais rápido possível para que ele possa partir já.

Alguns minutos depois me achava sentado no interior da barraca e, de papel sobre o joelho, escrevia à moda oriental, da direita para a esquerda, a carta para o governador de Mossul, que seria incapaz de imaginar que tal documento fora redigido pelo seu protegido. Uma hora depois, Pali, a galope, seguia a estrada que conduz a Baadri.

As festas no vale Xeque Adi foram bruscamente interrompidas, mas a indignação por esse fato não era tão intensa quanto a alegria de ver afastado o perigo que ameaçara a reunião dos peregrinos.

- E que vai ser agora da festa? - perguntei ao Bei Ali. - Os Osmanlis talvez permaneçam vários dias lá em baixo e os Dschesidis não devem esperar tanto tempo.

- Vou oferecer-lhes uma festa mais empolgante do que a que eles esperavam. Conheces ainda o caminho que segue para o vale do Idiz?

- Conheço sim.

- Tens tempo. Cavalga até lá e traze-me o Mir Xeque Khan com os Xeques e os Kawals. Vamos ver se ainda salvamos uma parte do corpo de Pir Kamek para enterrá-lo no vale do Idiz.

Era uma idéia que iria empolgar os Dschesidis e a mim interessava extraordinariamente assistir às cerimônias fúnebres dum Dschesidi. Levei apenas Halef comigo, deixando Buluk Emini.

Eu dissera, é verdade, que conhecia o caminho para o vale do Idiz, mas não viajara nunca de Xeque Adi para lá e sim de Baadri. O Bei julgara que eu tivesse seguido para lá, em companhia de Selek, passando por Xeque Adi. Não lhe esclareci essa circunstância pois queria ver se encontraria o vale sem conhecer a estrada. Não erraria o rumo e a senda que os Dschesidis tinham feito na véspera deveria estar ainda

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(1) Literalmente; - “Esta chancela sou eu em pessoa”.

 

muito nítida, portanto poderia trilhar por ela. Cavalguei descendo um dos cantos do vale até chegar num ponto acima do santuário. Tive que passar por numerosos Dschesidis que güarneciam as escarpadas. Depois desviei à esquerda, penetrando no mato. Para quem, como eu, possuía vistas apuradas, não se tornava difícil reconhecer a pista. Segui-a e alcançamos, daí a pouco, o ponto onde eu apeara com o meu intérprete. Aí se achava postada uma sentinela, com ordem de não deixar passar ninguém sem exibir autorização. Apeamos e deixamos os cavalos na elevação.

Depois descemos pelas escarpadas e, quando entramos no vale, este apresentava um extraordinário movimento. Milhares de mulheres e crianças haviam acampado naquele local pitoresco. Reses e cavalos pastavam na relva verde junto da esplanada; ovelhas e cabritos trepavam pelas rochas. Reinava, porém, o mais profundo, silêncio; todos falavam baixinho para que o esconderijo não fosse descoberto por algum vozerio imprudente. Junto ao arroio estava sentado o Mir Xeque Khan com os sacerdotes. Receberam-nos com grande alegria. Até agora haviam sabido apenas que o ataque dos turcos fracassara, mas um relato minucioso dos acontecimentos ninguém ainda fizera.

- Salvou-se o santuário?

Foi a primeira pergunta que o Khan me dirigiu.

- O santuário e todas as casas.

- Ouvimos o bombardeio. Houve muito derramamento de sangue?

- Apenas da parte dos Osmanlis.

- E dos nossos?

- Não ouvi dizer que um deles saísse ferido no combate. Morreram dois, mas não na luta.

- Quais foram?

- O Sarradsch (1) Hefi, de Baazoni e...

- Hefi, de Baazoni? Um homem devoto, trabalhador e valente. Não em luta? Como veio então a morrer?

- O Bei o enviara como emissário para entender-se com os Osmanlis e estes o fuzilaram. Fui obrigado a assistir impassível à cena, sem poder correr em sua salvação.

Os sacerdotes de mãos postas inclinaram as cabeças e permaneceram contritos a escutar-me. Apenas Mir Xeque Khan disse-me com um timbre grave na voz:

- Ele transubstanciou-se! El Schems não o iluminará mais aqui, pois ele foi-se para baixo de outro sol, num outro mundo, onde o veremos ainda um dia! Lá não existe nem morte, nem túmulo, nem dor, nem tristeza; lá tudo são luzes e delícias. Está junto de Deus!

Era tocante a maneira com que aquela gente recebera a notícia da morte de um amigo. Nenhuma palavra de ódio ao assassino! Aqueles sacerdotes guardavam luto mas acreditavam na transubstanciação do morto numa vida eterna. De uma tal devoção o Islã jamais seria capaz; ela só podia ser uma conseqüência de idéias e ensinamentos cristãos que os Dschesidis recolheram e conservavam.

- E quem é o outro morto? - perguntou o Khan.

- Ficarás horrorizado!

- Um homem jamais se horroriza da morte porque a morte é amiga do homem, o fim do pecado e o começo da bem-aventurança! Quem é?

__________

(1) Mestre-seleiro.

 

- Pir Kamek!

Ficaram como que imersos numa grande dor, mas não pronunciaram uma só palavra. Também agora foi Mir Xeque Khan quem usou da palavra.

- Ewlija dejischtirmis - O santo transubstanciou-se! - Chueda bujurdi - Deus assim o quis! Relate-nos a sua morte!

Narrei-lhes o doloroso acontecimento o mais minuciosamente possível. Todos me ouviram com profunda atenção. Depois pediu o Khan.

- Senhores, cultuemos a sua memória!

Inclinaram as cabeças. Rezavam? Não sei; vi, porém, que os olhos de muitos rebrilhavam de lágrimas e que a comoção era sincera! Dizem que só os alemães possuem no mais elevado grau aquela coisa que chamam de “sentimento” (1). Se isso é verdade, então aqueles Dschesidis se assemelhavam muito aos alemães. Quanto eu desejaria que o sol do cristianismo iluminasse a sombra dos seus vales e dourasse o cume de suas montanhas!

Só depois de algum tempo abandonaram o recolhimento e então pude falar-lhes.

- Agora o Bei Ali enviou-me para buscar os senhores. Ele vai ver se ainda consegue salvar alguns restos mortais do Pir Kamek, para realizar o seu sepultamento ainda hoje.

- Sim, isso constitui um dever sagrado que temos de cumprir. Os ossos do Pir não podem repousar no mesmo local onde estão os do Miralai.

- Receio que não possamos encontrar mais ossos, mas apenas cinzas!

- Então apressemo-nos!

Pusemo-nos a caminho. Acompanhavam-nos todos os sacerdotes e os Kawals; os faquires, porém, ficaram para vigiar o vale do Idiz. Quando alcançamos Xeque Adi e ao chegarmos pouco acima da barraca do Bei, falava este com um homem que enviara ao tenente-coronel para perguntar-lhe se ele consentiria que os Dschesidis procurassem, na fogueira, os restos do corpo do Pir. O Kaimakam respondera acedendo, com a condição apenas de nenhum dos participantes do enterro comparecer armado.

O Bei não podia acompanhar os Xeques, visto que a sua atividade estava toda concentrada em outros afazeres do momento. Pedi permissão para me reunir ao cortejo, o que prazeirosamente concederam. Quase iam esquecendo o principal: uma urna ou qualquer outra caixa para nela recolherem os restos do santo. O Bei lembrou-se também da urna.

- Mir Xeque Khan, lembra-te de que o oleiro Rassat, de Baadri, que adquiriu renome pela sua competência, fabricou-me uma urna para eu guardar os restos do meu pai, mais tarde, a fim de evitar que ele se confundisse com as serragens do madeiramento do caixão e se tornasse impuro? Essa urna é uma obra-prima daquele oleiro-artista e bem digna de recolher os despojos do santo. Ela está guardada em minha residência de Baadri e já enviei um homem para buscá-la. Este estará de volta antes de terminares os serviços junto à pira.

A procissão movimentou-se então vale abaixo. Passamos pela bateria e atingimos o local onde o Santo se sacrificara juntamente com o inimigo. Vimos um monte de

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(1) É a tradução mais aproximada do termo alemão Gefühl ao qual como a palavra portuguesa “Saudade”, não é possível dar-se-lhe o verdadeiro equivalente, noutros idiomas.

 

cinzas destacadas dos escombros da fogueira e já meio apagadas. Em frente à fogueira jazia o corpo do parlamentar assassinado. O calor das chamas destruirá o seu vestuário e apenas crestara-lhe o corpo. O cadáver foi removido, trabalho com que muito padeceu o nosso olfato.

As cinzas estavam já resfriadas. Munimo-nos de ferramentas nas casas adjacentes e em seguida polegada por polegada, principiamos o serviço de remoção das camadas de cinza. O trabalho exigia todo o cuidado, razão por que demandou muito tempo; nesse ínterim aproximou-se um Dschesidi que trazia pelas rédeas um animal carregado com a urna funerária. Esta tinha o formato de uma chaminé de lampião e sobre a tampa estava gravada a figura resplandecente do sol. No bojo da urna foram gravadas, a fogo, algumas legendas no idioma dos curdos.

Tinha a impressão de que seria impossível distinguir-se os restos do Santo no meio dos escombros da fogueira, mas me enganara. Depois de retiradas as cinzas, ficara apenas um monte distinto e para o qual fora atraída toda a atenção dos sacerdotes. Pareciam indecisos e o Xeque Khan chamou-me com um aceno.

Não era fácil examinar os montes de cinza. Éramos obrigados a tapar a boca e o nariz com as mãos. Tínhamos realmente os corpos dos dois mortos diante de nós. Estavam meio assados e meio carbonizados, reduzidos à terça parte de sua proporção normal, encolhidos horrivelmente. Achavam-se envoltos numa densa crosta formada pelo betume misturado com as cinzas.

- São os mortos - declarei. - Graças ao betume conseguirão sepultar o Santo.

- Mas qual deles é o Santo?

- Examinem.

Quis ver até que ponto ia a agudeza de espírito daquela gente. Examinaram, reexaminaram e não havia forma de resolverem a questão difícil, à primeira vista, porém, facílima para quem possui espírito de observação.

- É impossível distinguir o corpo do Pir, - disse o Khan, já meio desconsolado. - Só nos resta ou desistir de guardar-lhe as cinzas ou colocar na urna os corpos dos dois, o do nosso amigo e o do nosso inimigo, o do devoto e o do ateu. Ou quem sabe nos darás um melhor conselho Emir Kara Ben Nemsi?

- Sim, sei um meio de resolver o caso.

- Qual é?

- Guardaremos na urna apenas os restos do Pir!

- Mas já viste que não podemos distinguir um corpo do outro.

- No entanto é tão fácil fazer essa distinção. Este aqui é o do Pir e o outro, o do turco.

- Como chegas a esta conclusão? Podes provar o que afirmas?

- Posso, e com tanta segurança quanto desejares. O Pir não conduzia armas consigo; o Miralai, porém, usava uma espada, um punhal e duas pistolas. Não vês grudados no corpo carbonizado daquele ali o cano recurvado de uma pistola e a lâmina do punhal? Os cabos das referidas armas foram destruídos pelo fogo. E aqui bem por trás dele, no meio das cinzas, está de fora a ponta da espada. Logo, este é o corpo do Miralai; não pode haver a menor dúvida.

Os Dschesidis ficaram admirados de não terem chegado a uma conclusão tão simples quanto verdadeira. Todos concordaram com a minha opinião e apressaram-se em recolher os restos mortais do Pir e guardá-los na urna.

Durante todo o tempo que duraram as pesquisas, o Kaimakam, juntamente com os seus oficiais, estivera parado ali perto. A ele foi entregue o corpo do seu ex-superior e nós voltamos para a colina. Ao chegarmos, o Bei solicitou ao Khan que desse ordens para a realização das cerimônias fúnebres.

- Temos que adiá-las para amanhã. - declarou este.

- Por quê?

- O Pir Kamek era o mais devoto e o mais sábio de todos os Dschesidis; deverá ser sepultado com todas as honras a que tem direito e para isso hoje já é demasiadamente tarde. Vou dar instruções no sentido de lhe ser erigido um túmulo condigno, no vale do Idiz, o que só ficará concluído amanhã.

- Então precisarás de pedreiros e carpinteiros?

- Não. Faremos uma obra de simples penedos soltos, tão bem superpostos que dispensem o auxílio de argamassa para a sua junção. Toda mulher, toda criança poderá, de acordo com as suas forças, trazer uma pedra para o túmulo do Santo. Deste modo nenhum dos peregrinos deixará de prestar o seu concurso para a ereção do túmulo do transubstanciado.

- Mas eu preciso dos guerreiros para a vigilância dos turcos! - ponderou o Bei.

- Depois que uma parte deles tiver cumprido o seu dever de solidariedade, virão os outros, de modo que não será prejudicado o serviço de vigilância e nem a participação de todos na cerimônia fúnebre. Agora vamos deliberar sobre a configuração que daremos ao túmulo.

Como não me cabia participar nos preparativos para o enterro, procurei o meu intréprete para traduzir-me o manuscrito que o Pir me legara. Ele o havia escondido numa árvore ôca debaixo da qual nos abancamos, onde pude ouvir sem ser interrompido.

Nessa leitura, passou-se o dia e a noite estendeu o seu manto sobre Xeque Adi. Nas colinas que cercavam o vale ardiam fogueiras dos Dschesidis, uma após outra. Era impossível aos turcos fugir, mesmo que o Kaimakam pretendesse valer-se da escuridão para evadir-se com suas tropas. A noite decorreu sem novidade e pela madrugada Pali voltava de Mossul. Eu dormira na barraca do Bei onde ainda me achava quando o emissário chegou.

- Encontraste o Mutessarif? - perguntou-lhe Ali.

- Sim, senhor, já a tardias horas da noite.

- Que te disse ele?

- Primeiro ficou furioso e quis mandar matar-me a vergastadas. Depois convocou numerosos oficiais do seu Divan Effendisi (1), com os quais conferenciou durante longo tempo. A seguir permitiram-me que voltasse.

- Não estiveste presente à conferência?

- Não.

- Que resposta te deu depois o Mutessarif?

- Entregou-me uma carta para ti.

- Dá-ma!

Pali tirou do bolso um invólucro fechado com o Mohuer Mutessarifuen (2) que entregou ao Bei. Ali abriu-o e passou a lê-lo. No meio do grande manuscrito ________________

(1) Conselho.

(2) Selo da Governadoria.

 

estava metida uma carta lacônica e aberta. O Bei alcançou-me ambas as cartas dizendo:

- Lê tu, Emir! Estou ansioso por saber o que resolveu o Mutessarif.

 

TRAIÇÃO FRUSTRADA

A missiva fora redigida pelo escrivão da governadoria e assinada pelo governador. Nela este prometia estar na manhã seguinte, acompanhado de dez homens, em Dscherraijah e apresentava ao Bei a condição de fazer-se acompanhar também apenas com esse exíguo número de homens. Expressava a sua esperança em que as negociações iriam ter um termo favorável e honroso para ambas as partes e pedia que entregasse a carta aberta, inclusa, ao seu Kaimakam. Nesta era ordenado ao referido oficial que mantivesse as tropas em atitude pacífica, até receber novas ordens, poupar Xeque Adi e tratar os Dschesidis como amigos. Em postscriptum, porém, observava-lhe que “lesse e examinasse aquela carta com toda a atenção...”

O Bei. Ali meneou a cabeça satisfeito.

Depois de uma pausa, o chefe dos Dschesidis desabafou o coração com as seguintes palavras:

- Vencemos a partida e o Mutessarif recebeu uma lição de que jamais se esquecerá na sua vida. Não é isso também o que depreendes da carta, Emir? O Kaimakam receberá imediatamente a sua e amanhã cedo partirei para Dscherraijah.

- Por que entregar a carta ao Kaimakam?

- Pertence-lhe, pois a ele foi endereçada.

- Contudo é supérflua a entrega dessa correspondência, visto que ele já se dispôs a cumprir o que nela lhe é ordenado, independemente de ordens especiais do Mutessarif.

- Mas ele cumprirá com mais rigor ainda as cláusulas do armistício, desde que saiba ser esta também a vontade do Mutessarif.

- Confesso-te, porém, que esta carta provocou-me sérias suspeitas!

- Por quê?

- Ora, primeiramente porque ela não tinha a menor razão de ser. Depois, me soam estranhas as suas últimas palavras escritas em potscriptum! Por que deveria o tenente-coronel “ler e examinar com toda a atenção” a carta, que é tão simples e não encerra no seu texto nada de complicado ou digno de maiores estudos?!

- É fácil de perceber. O Mutessarif quis nos dar uma prova da boa vontade que o anima, mandando que o comandante geral leia com toda a atenção a sua ordem e a cumpra à risca!

- A ordem é tão simples que dispensaria aquela observação final, razão por que tenho cá as minhas desconfianças...

- Seja o que fôr, mas essa carta não me pertence; o governador, confiando na minha honestidade, entregou essa carta para mim, a fim de que chegue às mãos do seu oficial e ele há de recebê-la!

Era como se o acaso quisesse contribuir, de modo especial, para que essa resolução do Bei fosse cumprida, pois no momento um dos sentinelas chegou e avisou:

- Senhor, um cavaleiro vem subindo o vale!

Saímos do interior da barraca e reconhecemos depois no que se aproximava a figura do Kaimakam, que, sem escolta de espécie alguma, vinha procurar-nos. Esperamo-lo do lado de fora.

- Seni selamlar-im - eu te saúdo! - disse depois de apear-se, primeiro ao Bei e depois a mim.

- Chosch geldin-sen Efendi - Sê bem-vindo, Senhor! - correspondeu o Bei. - Que desejo te trouxe à minha presença?

- O de zelar pelos meus guerreiros, que não têm pão para o seu alimento.

Essas palavras foram ditas sem mais preâmbulos. O Bei sorriu levemente.

- Eu já esperava por isso! Mas anotaste que só te vendo pão em troca de armas?

- Sim, já me disseste. Mas estou certo de que em vez de armas aceitarás agora dinheiro!

- Aquilo que o Bei dos Dschesidis diz costuma sustentar! Tu precisas de víveres e eu de armas e munições. Fazemos a permuta do que nos falta e ambos ficaremos bem servidos.

- Esqueces-te de que eu preciso de armas e munições!

- E tu te esqueces de que eu preciso dos meus víveres para abastecer o meu povo! Neste momento estão reunidos muitos milhares de Dschesidis neste vale e todos querem comer e beber. E para que precisas tu de armas? Não nos tornamos amigos?

- Sim, mas tão somente até o término do armistício.

- Creio que também por mais tempo. Emir peço-te que leias a carta do governador para ele ouvir!

- Recebeste alguma carta dele? - perguntou o tenente-coronel, apressado.

- Recebi, sim. Enviei-lhe um emissário que voltou há pouco. Lê, Emir!

Li a carta que ainda se achava em meu poder; pareceu-me perceber na fisionomia do Kaimakam um gesto de decepção.

- Então será firmada a paz entre nós! - disse o oficial.

- Sim, e até lá tu te portarás como nosso amigo, conforme expressamente te recomenda o Mutessarif.

- Expressamente?

- Sim, ele incluiu uma carta dirigida a ti, que agora te entregarei.

- Uma carta? Dirigida a mim? - exclamou o oficial. - Onde está?

- Nas mãos do Emir. Pede-lhe.

Eu já me dispunha a fazer-lhe entrega da missiva, mas a maneira agitada com que ele estendeu o braço para agarrá-la deixou-me ainda mais desconfiado.

- Permite que a leia para ti!

Li-a até antes da observação final que me causara suspeita. Finda a leitura o tenente-coronel perguntou:

- É só isso? Não escreveu mais nada o Mutessarif?

- Mais duas linhas. Ouve-as.

Li também a observação final, conservando os olhos meio levantados para ele. Subitamente ele arregalou os olhos e então já eu não tive mais dúvidas de que aquelas linhas encerravam uma ordem oculta.

- Esta carta me pertence. Quero-a!

A essas palavras ele avançou tão rapidamente com a mão que mal tive tempo de encolher o braço para que não arrebatasse a carta.

- Por que essa pressa, Kaimakam? - perguntei-lhe, encarando-o face a face. - Encerra esta carta algo tão importante que te leva a perder o domínio sobre ti próprio?

- Nada, absolutamente nada encerra a mais do que leste, mas o documento me pertence!

__ O Mutessarif te enviou esta carta por intermédio do Bei e a este compete resolver se dela te faço entrega ou se te ponho simplesmente ao par do seu conteúdo.

- Mas ele já te disse que a entregues para mim.

- Sim, mas como este documento, à vista da tua atitude, parece encerrar algo mais importante do que demonstra, permite-me que o examine com mais atenção!

A minha suspeita se confirmava cada vez mais. Em vez de aceder logo, que é o que deveria fazer caso estivesse com a consciência tranqüila, sentou opor obstáculos ao exame da carta. Contra a luz do sol examinei o papel, sem que nisso encontrasse algum ponto de partida para a confirmação integral de minha desconfiança. Apalpei e cherei o papel; debalde também. Depois coloquei-o horizontalmente com a superfície para cima, de modo que nele pudesse bater o sol. Foi então que divisei alguns caracteres, entre as linhas escritas, visíveis apenas a olhos muito apurados.

- Pois fica sabendo que não receberás esta carta! - declarei formalmente ao Kaimakam.

- Por que não?

- Porque ocultos entre as linhas escritas, há outros caracteres legíveis, que vou examinar com mais minúcia!

- Enganas-te, Efêndi!

- Não me engano, não! Para quem possui boa visão os caracteres acham-se até bem visíveis. A comunicação secreta que o Mutessarif, burlando a boa fé do Bei, ousou fazer-te, vou lê-la com toda precisão, colocando o papel nágua!

- Pois faze essa experiência! - respondeu ele visivelmente satisfeito.

- Agora a tua calma te traiu, Kaimakam! Não vou colocar o papel nágua, mas sobre o fogo!

Eu acertara. Vi-o pelo mal contido susto que lhe transpareceu na fisionomia.

- Assim queimarás e inutilizarás a carta! - observou-me.

- Não tenhas receios! Um Efêndi do ocidente sabe lidar com essas coisas.

O Bei mal podia conter-se de pasmo.

- Estás realmente convencido de que essa carta contém alguma ordem secreta?

- Manda acender um fogo que logo te provarei!

Pali ainda se achava presente. A um aceno do Bei ele juntou arbustos secos pelo chão e os acendeu. Acocorei-me junto ao fogo e coloquei o papel acima das chamas. Nisso o Kaimakam, num verdadeiro salto de tigre, chegou-se ao fogo e tentou violentamente arrebatar-me o documento. Eu já esperava por esse gesto seu e desviei-me, fazendo com que ele caísse estirado ao solo. O Bei ajoelhou-se sobre ele.

- Contém-te, Kaimakam! - exclamou o chefe dos Dschesidis. És um homem falso e vieste até aqui solicitar-me prévias garantias e agora considera-te meu prisioneiro!

O oficial reagia quanto lhe era possível. Éramos, porém, três contra um e não demoraram a nos acudir vários Dschesidis, que se achavam pelas imediações. O oficial foi desarmado, algemado e conduzido para o interior da barraca.

Afinal pude terminar a minha experiência com mais calma. Coloquei o papel acima das chamas e os caracteres das entrelinhas tornaram-se bem legíveis.

- Bei Ali, estás vendo como eu tinha razão.

- Emir, tu és um feiticeiro!

- Não sou feiticeiro, não! Mas conheço os processos de tornar legíveis tais caracteres.

- Oh, Efêndi! Grande é a sabedoria dos Nemtsches!

- Há materiais com os quais se fabrica uma tinta que seca logo depois de se escrever com ela, até que por outro meio se provoque a sua visibilidade. A ciência que descobriu esse meio, chama-se Química. Esta ciência é mais cultivada no Ocidente do que aqui e daí a razão de nos acharmos muito mais adiantados. Conhecemos muitas espécies de escritos secretos que dificilmente serão descobertos e decifrados. O processo, porém, empregado para a feitura dessa carta é tão simples que não demanda lá muita inteligência para desvendá-lo. Adivinha com que material foram escritas essas letras?

- Dize!

- Com urina.

- Impossível!

- Se escreveres com urina de animal ou de gente, as letras somem-se, assim que esse material seca. Mas se colocares o papel sobre chamas os caracteres tornam-se escuros e legíveis.

- Afinal, que rezam as palavras escritas com urina nessa carta?

- “Aí chegarei depois de amanhã para derrotá-los!”

- Mas é isso verdade? Não estás equivocado?

- Assim está escrito!

- Muito bem, dá-me a carta!

Agitadíssimo o governador dos Dschesidis passou a caminhar de um lado para outro; em seguida parou novamente diante de mim.

- Isto é ou não é uma inominável traição, Emir?

- Ê uma grande perfídia!

- Não deveria eu esmagar esse tal de Mutessarif? Está em minhas mãos fazê-lo!

- Então terias que te haver com o Padixá.

- Efêndi, os russos têm um ditado que diz: “O céu é alto e o tzar está longe!” - O mesmo se dá aqui em relação ao Padixá. Eu sairei vencedor!

- Mas farás verter rios de sangue, Bei. Não me disseste, entretanto, ainda há pouco, que amavas a paz?

- Amo-a, realmente, mas é preciso que me deixem também viver nela! Esses turcos vieram com o propósito preconcebido de nos roubar a liberdade, a vida e os haveres; não obstante até aqui os poupei, quanto me foi possível. Agora tramam nova traição, nova ignomínia! Então não devo reagir?

- Deves reagir, sim, mas não de espada em punho!

- Como então?

- Com esta própria carta. Apresenta-te com ela diante do Mutessarif e ele estará derrotado!

- Ele me atrairá a uma emboscada a fim de aprisionar-me se eu seguir amanhã para Dscherraijah!

- E quem te impede de fazer o mesmo com ele? Isto ser-te-á mais fácil do que a ele, que ignora estares de posse do seu segredo.

O Bei olhou fixo para o chão durante algum tempo e depois respondeu:

- Vou conferenciar com o Mir Xeque Khan. Irás comigo até o vale do Idiz?

- Com muito prazer!

- Mas antes disso vou tornar inofensiva aquela gente lá em baixo! Não entra na barraca comigo, espera-me aqui fora.

Por que não queria ele que o acompanhasse ao interior da barraca? Sua mão repousava no cabo do punhal e seus olhos brilhavam resolutamente. Pretendia ele evitar que eu o impedisse de perpetrar algum ato de vingança? Estive bem meia hora à sua espera e durante esse tempo percebi tons coléricos de uma discussão acalorada. Finalmente voltou. Trazia na mão um papel, que me entregou.

- Lê! Quero saber se está isento de falsidades!

Continha uma ordem, escrita em poucas palavras, determinando que o oficial turco a quem a mesma fosse exibida, entregasse imediatamente ao Dschesidi portador da referida ordem todas as armas e munições da tropa.

- Não, nesta não há intenção oculta, nem ordem secreta. Como conseguiste isso?

- Se não me atendesse, eu o teria mandado fuzilar logo e ao Makredsch, reiniciando, depois, seriamente, o bombardeio geral. Dentro de uma hora todos estariam exterminados.

- E o Kaimakam continua como prisioneiro?

- Sim. Será guardado de sentinela à vista juntamente com o Makredsch.

- E se as tropas não se submeterem a essa condição?

- Então concretizarei a ameaça com que já estou cansado de os intimidar. Fica aqui até eu voltar e verás como os turcos me respeitarão!

 

DESARMANDO OS TURCOS

Distribuiu ainda algumas ordens ao seu pessoal e depois desceu para o local onde se achavam assestadas as peças de artilharia. Dentro de dez minutos todos os Dschesidis estavam prontos para o combate. Os atiradores estavam estendidos em linha defronte aos seus respectivos esconderijos e os artilheiros postados junto aos canhões. Depois o entrincheiramento abriu-se num ponto para dar passagem a duzentos Dschesidis e a trinta muares cargueiros. Eram estes em sua maior parte os que apreendêramos quando tomamos a artilharia. A bateria fêz alto a certa distância, ao passo que o seu chefe seguia para o local, onde se encontravam os oficiais dos Osmanlis.

De meu posto podia observar tudo o que se passava lá embaixo. As negociações duraram muito tempo. Depois todos os soldados invasores entraram em forma, marchando mais ou menos até o ponto em que ficara a bateria, onde depuseram as armas. Isso não decorreu lá em muita ordem e nem tão calmamente, visto que foi necessário obrigar a muitos turcos a entregar suas espadas e pistolas. Mas tudo não passou de vãs discussões, pois os invasores estavam certos de que toda e qualquer resistência que opusessem seria interrompida a metralha e granadas.

Após uma hora de ausência, voltou o Bei Ali. Vinha acompanhado dos muares carregados com as armas e munições tomadas aos turcos, as quais iam ser transportadas para o vale do Idiz. Também o Kaimakam foi conduzido por alguns guerreiros a um local seguro. Era este o mesmo onde se achavam o rotundo capitão e o esguio tenente de artilharia, gozando a agradável companhia do Makredsch. Lá o capitão e o tenente poderiam aguardar as suas promoções a “posições elevadas e fumar somente fumos de Schiras”!

Pusemo-nos a caminho. Halef nos acompanhou. Não vi o Baschi Bozuk, pois de tanto tédio resolvera dar um passeiozinho pelos arredores, montado no seu inseparável burrico. A caminho para o Idiz encontramos uma grande coluna de Dschesidis que regressava. Haviam prestado os seus serviços na ereção do túmulo de Pir Kamek e agora iam render os outros companheiros, para que estes pudessem também cumprir com aquele dever de piedade. Disseram-nos que os serviços iam já bem adiantados.

À entrada do Idiz deparamos com um colossal movimento de povo. No meio da esplanada, as mulheres moíam farinha, com o auxílio de duas pedras, e outras fabricavam pães nos fornos improvisados com pedras; ainda outras se achavam ocupadas em fazer archotes e consertar as lanternas que de véspera foram trazidas de Xeque Adi. Mas o maior borborinho de gente se notava na parte superior do vale, onde o túmulo estava sendo construído. Este ia ter a configuração de uma formidável pirâmide cujo pedestal ficava de encontro à parede rochosa do vale. A base do túmulo era constituída de grandes penedos soltos para cujo transporte e colocação foi necessária a força conjugada de muitos homens. No meio ficava uma abertura em forma de sol, onde seria colocada a urna funerária. Centenas de obreiros trabalhavam na construção; uns rolavam pedras enormes para o local e outros, como esquilos, saltitavam pelas rochas em busca de penedos frouxos.

Dos sacerdotes, alguns dirigiam a obra e outros nela trabalhavam como qualquer Dschesidi menos graduado. Mir Xeque Khan estava sentado nas proximidades do túmulo. Dirigimo-nos a ele. O Bei relatou-lhe as ocorrências do dia e mostrou-lhe as duas cartas do Mutessarif. O Khan ficou imerso em profunda meditação; depois perguntou:

- Que pretendes fazer, Bei?

- Tu és mais idoso e o mais sábio entre nós! Vim ouvir teus conselhos!

- Dizes que sou o mais idoso e tens razão. Mas não te esqueças de que as pessoas idosas fazem jus ao descanso! Dizes ainda que sou o mais sábio dos Dschesidis. A maior sabedoria do mundo consiste em pensar no Onipotente, no Todo Bondade! Ele dá força ao fracos; protege os oprimidos; Ele não quer que derramemos o sangue dos nossos irmãos.

- São esses turcos nossos irmãos? Eles que como ferozes animais de presa, assaltam o nosso povo?

- São nossos irmãos, sim, apesar de não nos tratarem como tais. Matas a um irmão que te quer mal?

- Não!

- Fala-lhe amável ou severamente, conforme as circunstâncias, mas jamais exijas dele o sacrifício da vida! Assim, pois falarás com o Mutessarif!

- E se ele não me ouvir?

- O Todo Misericordioso deu ao homem juízo para pensar e coração para sentir. E aquele que se negar a ouvir as palavras, aquele que não considerar os sentimentos do seu irmão, é porque abandonou o Misericordioso e só então é que a sua cólera e o seu castigo cairá sobre ele!

- Mir Xeque Khan vou agir conforme as tuas sábias palavras!

- Portanto repito-te minha pergunta: Que pretendes fazer?

- Partir para Dscherraijah acompanhado de dez homens apenas, mas mandarei seguir-me uma coluna de guerreiros suficientemente numerosa para aprisionar o Mutessarif. Antes, porém, isto é, hoje ainda, enviarei batedores a Mossul, Kufjundschik, Telkeif, Baawiza, Raz Ul Aiina e Khorsabad, os quais me informarão em tempo dos planos organizados pelo Mutessarif. Falarei em paz com ele, mas se me negar a ouvir procederei severamente. E se nem me atender, mostrar-lhe-ei a carta secreta e farei um sinal para o prenderem. Enquanto estiver com ele, a minha gente cercará Dscherraijah. Ele não me escapará!

- E quem governará Xeque Adi durante a tua ausência?

- Aceitas a investidura?

- Aceito.

O modo como agiam era simples e tocante. O regente temporal dos Dschesidis entregava ao espiritual as rédeas do governo, sem que em tal gesto se notasse o menor resquício de inveja, o menor vestígio de desconfiança ou despeito. “Aceitas a investidura?”, perguntou simplesmente um e “Aceito” respondeu o outro. Que impressão horrível não causaria entre os Adoradores do Diabo a palavra “Luta Cultural”!

Conferenciaram apenas a respeito do abastecimento das tropas turcas aprisionadas e sobre as comemorações fúnebres que se iam realizar. Enquanto os dois deliberavam, andei de grupo em grupo a ver se conseguia adquirir novos conhecimentos lingüísticos entre os curdos. De repente senti que alguém se aproximava por trás de mim, enquanto me falava, ofegante:

- Desvia-te, Sídi!

Virei-me. Era Halef, que empregava todas as suas forças em rolar uma enorme rocha.

- Que fazes aqui? - perguntei-lhe admirado.

- A minha contribuição para o monumento.

- E será aceita? Não és Dschesidi!

- Aceitam de bom grado. Já me informei a respeito.

- Neste caso também vou trazer uma pedra!

Não muito longe de nós, jazia solto um enorme bloco de granito. Larguei as armas e me dispus a rolá-lo para o local do túmulo. O meu tributo foi aceito com grande satisfação e demonstrações de agradecimento pelos Xeques e, depois de haver eu gravado o meu nome na pedra, com o auxílio da ponta do punhal, foi esta erguida por uma espécie de guindaste improvisado com cabos de aço a um local exatamente acima da figura do sol

Entrementes o Bei concluiu a tarefa que o trouxera a Xeque Adi e, pronto para o regresso, perguntou-me se desejava acompanhá-lo ou preferia ficar no Idiz.

- De que modo poderei observar melhor as comemorações fúnebres?

- Se fores comigo, - respondeu. - A urna será transportada em extensa procissão, à luz dos fachos e das lanternas, de Xeque Adi para este vale.

- Mas pensei que ela já se achava aqui.

- Não; acha-se dentro de água fresca no mato e será ainda depositada no santuário antes de ser colocada no túmulo.

- Não obstante a presença dos turcos?

- Eles não nos embaraçarão as cerimônias.

- Então voltarei contigo.

- Tens ainda tempo até a noite. Estás disposto a dar-me uma demonstração de amizade?

- Com muita satisfação, desde que esteja ao meu alcance.

- Tu sabes que prometi armas ao chefe dos Curdos Badinans. Acharias o local de sua choupana?

- Muito facilmente até. Creio que nem é preciso cavalgar até lá, pois ele pretendia mandar ocupar os vales adjacentes. Além disso, já está mesmo em tempo de lhe enviar notícias.

- Queres encarregar-te disso?

- Pois não!

- E também levar-lhe as armas prometidas?

- Se me confiares esta missão!

- Entregar-lhes-ás cem espingardas e as respectivas munições. Três muares cargueiros bastam para conduzir tudo. Quantos homens precisas para acompanhar-te?

- É de se esperar algum ataque ou quaisquer outras atitudes hostis?

- Não.

- Dá-me então apenas dez guerreiros. Levarei também comigo ao Mohammed Emin que lá vem descendo a colina.

Soubera há pouco que o Xeque de Haddedihn saíra para caçar. Nesses últimos dias eu nem conseguira falar com ele. Ele aparecera o menos possível em público, a afim de que sua presença não constituísse objeto das palestras de todos. Além disso ele possuía ainda um certo preconceito contra os Adoradores do Diabo, razão por que aceitaria satisfeito o convite de seguir comigo.

Pouco tempo depois, os muares estavam carregados e nós empreendíamos à viagem. Paramos ligeiramente em Xeque Adi e de lá, tomando à esquerda, entramos na estrada que conduz a Kaloni. A minha suposição não falhara. Já pouco além de Xeque Adi alcançamos a primeira colina ocupada pelos Curdos Badinans. Fomos conduzidos à presença do seu chefe que, desta vez, dispensou-me um tratamento mais respeitoso. Tive que me demorar com ele e tomar uma refeição em sua companhia, refeição que a sua própria esposa nos prepara. Mostrou-se muito satisfeito com a remessa de armamento e de um modo especial com a espada do Kaimakam, um presente extra que lhe enviara o Bei. Mohammed Emin agradou-se de tal modo dos Curdos Badinans que resolveu ficar aqui até eu voltar, muito embora não soubesse o idioma dessa gente. Não me opus a essa decisão, visto que a sua presença em Xeque Adi poderia ainda ser notada pelos turcos e então fracassaria o verdadeiro objetivo de nossa ida a Amadijah. Voltei, pois, sem ele.

Anoitecia, quando vi novamente o Bei e lhe dei notícias dos Badinans. Notei que os turcos haviam recuado mais para o centro da esplanada, a fim de deixar livres as redondezas do santuário.

- Quando começarão as solenidades? - perguntei.

- Assim que escurecer. Leva a tua espingarda, pois serão desfechados muitos tiros!

 

OS FUNERAIS DE PIR KAMEK

Estava curioso por ver o enterro e convencido de que antes de mim nenhum europeu havia assistido a uma cerimônia fúnebre de um membro de remarcado relevo entre os Adoradores do Diabo. Sentei-me a contemplar o vale até que escureceu. As fogueiras do acampamento ardiam pelos arredores e do santuário erguia-se pouco a pouco uma dupla pirâmide de luzes, tal qual sucedera na primeira noite que passei em Xeque Adi. Também colocaram lanternas nas duas portas do sepulcro.

- Vamos! - convidou-me o Bei que na companhia de alguns Dschesidis mais chegados a ele, montava a cavalo.

O Baschi Bozuck não quis ir junto. Halef nos acompanhou. Descemos o vale e paramos defronte ao santuário, que se achava profusamente iluminado. O local onde ele se erguia foi guarnecido por duas linhas de Dschesidis armados, a fim de impedir a aproximação de qualquer turco. No interior do santuário já se encontrava o Mir Xeque Khan com todos os sacerdotes; a outros, além do Bei e eu, não era permitida a entrada naquele templo. No pátio interno se achavam duas alimárias jungidas uma a outra, carregadas com uma liteira onde seria colocada a urna para ser transportada. Ao redor desses dois muares se achavam formados os sacerdotes. A nossa aproximação, eles começaram a cantar lentamente uma canção monótona em cujo texto repetiam-se várias vezes as palavras Dschan-dedim “entrego minha alma”. Depois dessa cerimônia inicial, deram aos animais água fresca e alguns grãos de milho, o que significava que aquele a quem transportavam iria fazer uma longa viagem. A seguir, o Mir Xeque Khan fêz alguns sinais com a mão, que eu não compreendi, e os sacerdotes entoaram outro cântico, mas desta vez mais harmonioso. Possuía quatro estâncias cada uma das quais começava com as palavras Tu Chode dehabini, keif inim - “Tu amas a Deus e gozáras do descanso eterno”. Infelizmente, porém, eu compreendia muito pouco do idioma-curdo para entender todos os versos.

Quando terminou aquele cântico, o Khan fêz novo sinal, colocando-se à frente; dois Xeques pegaram os animais pelas rédeas, que foram seguidos por uma fila dupla dos demais Xeques e Kawals, e aos quais o Bei e eu nos juntamos. O préstito se pôs em movimento e, ao sair do templo, foi saudado pela guarda com uma salva.

Imediatamente das colinas detonaram centenas e centenas de tiros a anunciar que a procissão se pusera em marcha para o vale do Idiz.

Marchamos lenta e compassadamente e quando chegamos no caminho do vale, deparamos com um quadro atraente. Os Dschesidis um a um, a trinta passos de distância, formavam em dupla linha desde Xeque Adi até o vale do Idiz. Cada um daqueles homens empunhava um archote e cada qual, descarregando a espingarda, seguia em fila com a procisão. Deste modo formou-se um préstito, que aumentava a cada tiro detonado. As luzes dos archotes coloriam de modo indescritível a escuridão do bosque, em sua maior extensão formado por frondosos carvalhos, e o troar das salvas quebrava o silêncio. Verdadeiramente deslumbrante era, porém, o aspecto do vale do Idiz. Este parecia-se mais a uma formidável cratera vulcânica a jorrar chamas no meio das quais errava uma multidão de espíritos. Milhares de vozes, em uníssono, nos deram as boas vindas e, segundos depois, as luzes se formavam pelos dois flancos da esplanada. Esta se achava iluminada como se fosse dia claro. O maior foco de luz, porém, era formado pelas duas piras acesas de cada lado da pirâmide sepulcral, que se erguia à orla da mata. Apoderou-se de mim o doce temor que nos abate e ao mesmo tempo também nos anima o coração, quando este é tocado por algo de elevado que o nosso mundo espiritual ainda não nos revelara.

No momento em que os dois muares chegaram ao túmulo, cessaram as salvas, e um profundo silêncio caiu sobre o vale. A urna foi deposta e presa ao cabo de aço. Outro cabo colocado por baixo da urna impedia que esta batesse contra as pedras que formavam a pirâmide. O Mir Xeque Khan fêz um aceno e o cabo foi puxado. A urna foi subindo, subindo sempre até atingir a configuração do sol. Os sacerdotes pegaram então do cabo e a colocaram no compartimento a ela destinado.

A seguir, o Khan fêz sinal que iria falar. Proferiu um breve sermão. Suas palavras calmas, inteligíveis e insinuantes ressoaram em todo vale e, muito embora nada entendesse eu de seu sermão, sentia-me comovido diante daquela cerimônia fora do comum. Finda a predica, o coro de sacerdotes se fêz ouvir num cântico simples e melodioso, do qual apenas compreendi a introdução Ro debele - “O sol está surgindo”. Depois todos se conservaram de mãos postas e troou uma salva como igual jamais eu ouvira.

Com isso, estavam terminadas as cerimônias fúnebres propriamente ditas. Agora, porém, é que começava a movimentar-se de fato a vida do vale do Idiz. Jamais poderei descrever exatamente o que foi aquela noite grandiosa, noite das chamas, noite dos fachos luminosos entre rochas que pareciam galgar aos céus, noite das lamentações, das interrogações misteriosas dos oprimidos, dos perseguidos, noite dos que se converteram a uma forma de adoração, cuja essência era a ânsia por aquela luz que ou-trora iluminara a estrada aos três Xeques, que talvez sairam da mesma terra onde agora eu me achava, para irem a Belém, e diante do presépio fazer a sua conversão: “Vimos Sua estrela no Oriente e viemos para adorá-Lo!”

Estive sentado com os sacerdotes até depois da meia-noite. Em seguida foram apagados os fachos e as fogueiras extinguiram-se. Apenas as duas piras do monumento ardiam ainda quando, enrolado no albornós, procurei acomodar-me debaixo de uma árvore para dormir. Lá em cima estava a urna com os restos do Santo. Aquele Mirdes-Scheitan fora o mais culto e instruído entre todos os seus irmãos de crença e no entanto não soube encontrar o caminho da Verdade.

Oh! Quão felizes são aqueles cujo berço está exatamente neste caminho! E no entanto, muitas vezes dificilmente eles o reconhecem e avaliam. Fechei os olhos e finalmente consegui adormecer: mas sonhei com salvas, com fachos luminosos, com a urna de onde saltavam caveiras a dansar, rosnando, em torno de mim, um cristão. Quiseram agredir-me, mas apareceu Pir Kamek que os afastou de mim dizendo:

- Ele possui um Kitab santo onde está escrito: Oghuldschiker, stzi oranize de sein-iz - “Meus filhos amai-vos uns aos outros!”

 

O presbítero-rei

 “Nós, Presbítero João, com a Graça de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo, rei dos reis, em Alexios Komenos, governador de Constantinopla. Saúde e feliz desenlace.

Chegou ao conhecimento de nossa Majestade que ouviste falar de nossos esplendores e das nossas grandezas. O que desejamos saber é se estás ligado a nós na verdadeira fé e sobretudo se crês em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se desejas saber a extensão e magnificência do nosso poder, a área territorial de nossos países, então fica sabendo que somos Presbítero João o servo de Deus: superamos em riquezas a tudo que se acha debaixo do céu, e em virtudes e poder, a todos os reis do mundo. Setenta reis estão obrigados a pagar-nos tributos. Somos um cristão fervoroso, amparamos o protegemos por meio de esmolas a todo o cristão pobre que se achar ao alcance de nossa mercê. Realizamos um voto, conforme convém ao renome de nossa majestade, de visitar o túmulo de Nosso Senhor, à testa de um grande exército e lutar contra os inimigos da Cruz de Cristo, a fim de humilhá-los e elevar assim a Seu santo nome.

A nossa magnificência reina sobre as três Índias e o nosso domínio estende-se até além da extrema Índia, onde repousa o corpo do apóstolo Tomaz; de lá estende-se sobre o deserto que se esplana em direção ao oriente, de onde segue pelo poente, até Babilônia, a abandonada, e ainda além, até a torre de Babel.

Setenta e uma províncias seguem nossa orientação, das quais algumas são províncias cristãs e cada uma delas possui o seu rei próprio. E todos estes reis nos pagam tributos. Em nossos reinos a fauna é riquíssima vendo-se nela representadas quase todas as suas variedades que existem debaixo dos céus; há elefantes, dromedários, camelos, etc. Em nossos países jorra leite e mel. Numa parte dos meus reinos não há veneno que consiga medrar; na outra viceja toda a sorte de pimentas; ainda numa outra crescem densos macegais, que mais se assemelham a matas fechadas, macegais que estão repletos de ofídios de todas as espécies. Lá existe também um lago arenoso sem água. Três dias de viagem além desse lago, elevam-se monumentais montanhas riquíssimas em pedreiras. Entre as citadas montanhas fica situado um vasto deserto por entre inóspitas colinas. Por baixo destas, no subsolo, corre um arroio inacessível, que desemboca num rio procurado pelos nossos súditos que nele colhem pedrarias preciosas em grande profusão. Nas adjacências desse rio estabeleceram-se dez tribos de judeus, os quais, embora afirmem possuir o seu próprio rei, passam por cima da autoridade deste para se tornarem, como ele, nossos servos e tributários.

Numa outra província dos nossos reinos, situada nas proximidades da zona tórrida, há vermes que em nosso idioma chamam-se salamandras. Esses vermes só podem viver no fogo e formam casulos semelhantes aos formados pelos bichos da seda, casulos que são tecidos pelas damas de nossa corte e fornecem-nos os vestuários. Mas só podem ser lavados em fogo claro.

À frente do nosso exército são conduzidas treze cruzes de ouro e pedras preciosas; mas quando saímos sem a comitiva de Estado, conduzimos à frente das tropas apenas uma cruz, que não é tecida de ouro e pedrarias, para que sempre tenhamos presente a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo; levamos ainda um vaso de prata estofado de ouro para que todos saibam que somos o rei dos reis!

Anualmente visitamos o corpo de São Daniel, sepultado no deserto da Babilônia. O nosso palácio é construído de ébano e madeira de Schittim, o que impede de ser atingido pelo fogo. De cada extremo do telhado pendem duas maçãs de ouro, em cada uma das quais acham-se encrustados dois carbúnculos para que o ouro resplandeça durante o dia e as maçãs iluminem à noite. Os portões principais são trabalhados em chifre misturado com sardônia, a fim de impedir que no palácio entrem venenos, e os portões menores são feitos de ébano. As janelas são de puro cristal, as mesas de ouro maciço e ametista e as colunas que as sustentam de puro marfim. O nosso aposento de dormir constitui uma admirável peça artística trabalhada em ouro, prata e toda sorte de pedrarias preciosas. Nele arde permanentemente um vaso com incenso. A nossa cama é de safira. Possuímos as mais lindas mulheres. Diariamente reunimo-nos a palestrar trinta mil pessoas, fora os hóspedes eventuais. E toda essa gente percebe subsídios de nossas arcas, destinados ao forrageamento das montarias e à aquisição de outras utilidades. Durante todo o mês e seguindo rigorosamente uma escala organizada para tal fim, somos servidos por sete reis, sessenta e cinco duques e trezentos e sessenta e cinco condes. Em nosso refeitório, sentam-se diariamente à mesa, à nossa direita doze arcebispos e à nossa esquerda vinte bispos; além desses, o patriarca de Santo Tomaz, o protopapa de Salmas e o arquiprotopapa de Susa, cidade em que se acha a sede do renome de nossa Majestade e o nosso palácio imperial. Sacerdotes em número igual aos de dias que contém o ano cuidam da administração espiritual de nossa capela. O nosso copeiro-mor é um Primaz e rei; o nosso mordomo um arcebispo e rei; o nosso camareiro-mor, um bispo e rei; o nosso marechal da corte, um arqui-mandarim; o nosso cozinheiro um abade e rei; nós, porém, adotamos um título menos pomposo para, deste modo, realçar ainda mais a nossa grande modéstia e humildade!”

Assim reza, em excerto, uma carta que o presbítero João, imperador dos tártaros, personagem histórica duvidosa, enviou ou teria enviado ao imperador da Grécia. Apócrifa ou não, o caso é que esta carta envolve além de originalidades pitorescas que encontram sua razão de ser na obscura mentalidade predominante em séculos remotos, alguns fatos positivos e detalhes reais, mais tarde confirmados por Marco Polo, João de Mandevile e por outros viajantes e exploradores. Dessa carta lembrei-me agora, quando cheguei ao pátio externo do Xeque Adi e lancei um olhar para o nascente, onde se elevavam os montes de Surgh, Zibar, Haiir, Tura, Ghara, Baz, Dschelu, Tkhoma, Karitha e Tijari.

Nos vales situados entre aqueles montes habitavam os últimos sectaristas cristãos aos quais aquele imperador tártaro pertencera. Em sua época, foi um povo poderoso e bastante influente; as sedes dos seus metropolitas estendiam-se e espalhavam-se através de todo o continente asiático, desde as costas do mar Cáspio até os lagos chineses, do extremo norte dos confins de Skythienes até a ponta extremo sul da península da índia. Eram os conselheiros de Maomé e depois dos seus sucessores. A influência cristã de que está eivado o Kuran provém, de um modo geral, dos livros e ensinamentos daquele povo. Mas com a cilada urdida pelo Califa desmoronou-se o seu poderio com impressionante rapidez, pois à sua grosseira evolução espiritual cedera a pureza divina, que prodigaliza a força de um poder invencível. Exatamente sob o governo de Kassan, que era filho do Arghum e neto do célebre conquistador de Bagdad, Khan Hulaku, começou depois a perseguição contra os descendentes do povo do presbítero imperador, perseguição que acabou sendo crudelíssima e implacável. Com um ódio insaciável, Kassan os perseguia, destruindo-lhes os templos e matando a golpes de espada todos que não conseguiam refugiar-se, a tempo, nas montanhas do Curdistão agrestre. Os descendentes daquele povo viviam ainda hoje nestes lugares, que depois fortificaram, adquirindo o aspecto de fortalezas. Agora, eles como últimos descendentes de um povo assírio, outrora tão poderoso, vivem permanentemente ameaçados pelas espadas dos turcos e pelo punhal dos curdos. Revivera para eles uma época de opressão e martírio a cujo simples relato ficamos de cabelos eriçados e com a alma confrangida! Em grande parte a culpa desse triste estado de coisas cabe àqueles missionários transatlânticos de várias seitas religiosas surgidas no advento da reforma, que deram às igrejas e às escolas um aspecto de fortificação; esse gesto dos evangelizados atraiu, para si, desde logo, as desconfianças e a animosidade dos governantes nativos. Com essa e muitas outras medidas imprudentes, os missionários prejudicaram grandemente a obra de evangelização que se propunham realizar, causando a si próprios grandes danos tanto de ordem espiritual como material.

Era minha viagem para Amadijah, passei por localidades habitadas por esses caldeus cristãos; por essa ocasião lembrei-me ainda mais vivamente daquela carta do presbítero João, pois o referido documento traça com fortes pinceladas o passado de glória e de poderio daquele povo hoje fraco e eternamente amesquinhado. Antigos ministros e conselheiros de príncipes e califas, estão hoje, a não ser os que voltaram para o seio de igreja católica, sem a menor força moral e material, tanto que suportaram as maiores violências praticadas pelos Beis aliados Abd ei Sumit e o Khan Bei, sem opor a menor resistência. No entretanto a topografia privilegiadíssima dos domínios por eles ocupados punha-lhes nas mãos os mais eficientes meios de defesa, constituídos pelo inexpugnável entrincheiramento natural que apresenta.

Oh! quão diferentemente se portaram os Dschesidis, em face das investidas inimigas!

Depois daquela noite das chamas no vale do Idiz, o Bei Ali seguiu para Dscherraijah, aparentemente acompanhado apenas por dez homens. Mas antes já de sua partida enviara uma grande legião de guerreiras para se concentrarem nas imediações de Bozan.

O Mutessarif realmente chegara a Dscherraijah acompanhado pelo mesmo número de homens, mas Bei Ali soubera por intermédio dos seus espias que ele mandara concentrar numerosas tropas entre Seio Khan e Ras ul Aiin a fim de marcharem contra Xeque Adi. Em vista dessa informação, mandou, sem mais formalidades, encerrar o Mutessarif num compartimento e considerá-lo prisioneiro de guerra. A fim de recuperar a sua liberdade, o governador de Mossul foi obrigado a suspender todos os seus pérfidos planos de guerra e aceitar as propostas de paz que lhe impusera o Bei.

Em vista desse epílogo favorável, recomeçaram com redobrado júbilo as festas interrompidas dos Dschesidis. As comemorações ganharam, em esplendor e entusiasmo, de todas até então realizadas em Xeque Adi.

Terminadas as festividades, pretendia eu partir imediatamente para Amadijah, mas soube que Maomé Emin havia torcido um pé durante uma caçada que realizara no monte de Kaloni. Assim fui obrigado a esperar três longas semanas até que ele se restabelecesse, tempo esse que aproveitei para melhor conhecer os costumes dos curdos.

 

A DESPEDIDA AOS DSCHESIDIS E AOS BADINANS

Finalmente um emissário de Maomé Emin veio avisar-me de que este já se achava curado e pronto para empreender viagem. De manhã bem cedo parti, a fim de buscá-lo na residência do chefe dos Curdos Badinans. Minha despedida dos Dschesidis foi comovente e tive que prometer-lhes passar, em meu regresso, mais alguns dias com eles. Eu recusara, agradecido, a escolta que me queriam pôr à disposição para acompanhar-me. Desejava viajar só. Contudo não me foi possível contrariar a desejo manifestado pelo Bei de acompanhar-me até a residência do chefe dos Curdos Badinans, para despedir-se de Maomé Emin.

Partimos, seguindo pelas elevações leste de Xeque Adil. Saíramos bem dos acontecimentos desenrolados nesses últimos dias. Que nos iria agora oferecer o futuro? Quanto mais distante viajássemos para o noroeste, tanto mais feroz seria a população montanhesa que encontraríamos pelo caminho, população que não se dedica à agricultura, mas vive apenas de roubos e da criação de gados. O Bei deve ter adivinhado o meu pensamento.

- Emir, vais atravessar zonas escabrosas e cheias de toda sorte de perigos. Até que ponto pretendes atingir as montanhas?

- Até Amadijah.

- Terás que seguir mais para diante!

- Por quê?

- Quer sejas bem sucedido ou não no objetivo que te leva a Amadijah, serás por fim forçado a empreender uma fuga. Todos lá conhecem o caminho que deverá tomar o filho de Maomé Emin e por isso guarnecem toda a sua extensão. Assim sendo, como e por onde pretendes cavalgar?

- Procederei de acordo com as circunstâncias do momento. Poderemos escapar seguindo a pé na direção sul e atingir o Zab Ala, ou então, a cavalo mesmo, costeando o rio Akra. Resta-nos ainda o recurso de, tomando o rumo norte, atravessar as montanhas de Tijari e Marann-Dagh e, depois, vadeando os rios Khaubur e Tigre e transpondo o deserto salino, refugiar-nos em Sindschar.

- Se tomares este caminho, jamais te tornaremos a ver!

- Deus guia os pensamentos e os passos do homem; a ele confiamos a nossa sorte!

Prosseguimos viagem. Halef e o Baschi Bozuk nos acompanhavam à certa distância. O meu cavalo encontrara oportunidade de descansar bem. Antigamente estava habituado a forragear-se exclusivamente de tâmaras “Balahat” e agora fora obrigado a alimentar-se de outros pastos. Não obstante, porém, estava muito carnudo e apresentava algum excesso de força, de modo que eu teria de esporeá-lo o mais possível com o fim de fazê-lo readquirir equilíbrio orgânico. Eu estava curioso por ver como ele se conduziria ao transpor as montanhas nevadas do Curdistão.

Não tardamos em alcançar os Badinans, que nos dispensaram uma acolhida cordialíssima e hospitaleira. Maomé Emin estava já aprestado para a viagem e depois de comermos alguma coisa, de fumarmos e palestrarmos durante uma hora, dispusemo-nos a partir. Bei Ali estendeu a mão a todos e por último a mim. Os seus olhos umedeceram-se de lágrimas.

- Emir, crês que te estimo? - perguntou-me comovido.

- Tenho certeza disso; também me despeço de ti cheio de tristeza, pois meu coração sente-se unido ao teu!

- Tu partes e eu fico; mas acompanhar-te-ei em pensamento e os meus melhores augúrios seguirão a tua senda. Apresentaste as tuas despedidas ao Mir Xeque Khan, mas ele me fêz portador de sua bênção para que a derrame sobre ti no momento da tua partida. Deus esteja sempre contigo e te acompanhe em todos os teus caminhos; que a sua cólera caia sobre os teus inimigos e sua bênção aos teus amigos! Vais ao encontro de graves perigos e o Mir Xeque Khan prometeu-me a sua proteção para ti. Ele pede que aceites este Melek-Ta-us, que te servirá de talismã. Sei que não tomas esse pássaro como um ídolo, mas simplesmente, para que com ele possas provar ser amigo nosso. Todo o Dschesidi a quem tu mostrares esse Ta-us sacrificará seus haveres e a sua vida em tua defesa. Aceita essa dádiva mas não a confies a outros, pois ela é destinada exclusivamente a ti! Agora, feliz jornada e, mais uma vez, que a benção de Deus sempre te acompanhe!

Abraçou-me, montou apressadamente e partiu sem virar-se uma só vez para ver-me. Foi como se um pedaço de meu coração tivesse ido com ele. Era uma generosa, uma valiosa dádiva aquela que o Mir Xeque Khan me mandara por seu intermédio. Quanta discussão não originou a existência real de um Melek Ta-us! E no entanto eu agora tinha o sinal enigmático nas mãos. Fora uma extraordinária prova de confiança que me dera o Khan e é obvio que eu apenas dela me aproveitaria em momentos de extrema necessidade!

Era trabalhada em cobre e representava a figura dum pássaro, de asas abertas para alçar o vôo e por baixo estava gravada a legenda curda Hemdscher - “Amigo” ou “Correligionário”. Trazia um cordão de seda para prender o talismã ao pescoço.

Os Badinans quizeram acompanhar-nos num grande trecho a fim de nos garantir a travessia; tive que aceder, mas com a condição de retrocederem assim que chegássemos à aldeia de Kaloni, que distava umas quatro horas de Xeque Adi. As casas da aldeia eram quase sem exceção, todas construídas de pedras e se elevavam quais ninhos de pássaros, entre as videiras, numa grande altitude do leito do rio Gomel. Davam essas casas a impressão de grande solidez, devido aos blocos de rocha que lhes formavam os pilares e os ângulos.

Aqui, demos o nosso adeus aos Badinans que nos acompanhavam e continuamos viagem os quatro apenas.

Após cavalgarmos por um caminho muito íngreme, que obrigou os cavalos a uma boa puxada, alcançamos a aldeiazinha de Bebozi, situada no cume de uma apreciável elevação. Ali ergue-se um templo católico, visto que a população é composta de caldeus convertidos ao cristianismo. Fomos hospitaleiramente acolhidos por ela que nos forneceu gratuitamente todos os alimentos e bebidas, não obstante a minha insistência em pagar tudo o que consumíramos. Ofereceram-nos um guia para acompanhar-nos, oferta que não aceitamos. Em vista de nossa recusa, amavelmente feita, é claro, ensinaram-nos tão minuciosamente o caminho que conduzia à próxima localidade, que dificilmente o erraríamos.

 

EM SPANDAREH

A estrada conduzia primeiramente pelo sopé de uma elevação, penetrando num bosque de arbustos para, no fim, chegar a Cheloki, uma das etapas de nossa rota. Nessa localidade fizemos um pequeno alto e eu me dirigi ao Baschi Bozuk:

- Buluk Emini, ouve o que te vou dizer!

- Sou todo ouvidos, Emir!

- O Mutessarif de Mossul te ordenou que arranjasses tudo de que eu necessitasse. Até agora, porém, ainda não me fôste útil em coisa alguma; mas de hoje em diante entrarás efetivamente em serviço!

- Que devo fazer, Efêndi?

- Passaremos esta noite em Spandareh. Cavalgarás na frente e providenciarás para que tudo esteja arranjado, quando chegarmos lá. Compreendeste?

- Muito bem, até! - respondeu-me tomando ares de dignidade funcional. - Irei depressa e quando chegares toda a aldeia te receberá com manifestações de júbilo.

Fincou as esporas nos flancos do seu burro e saiu a galope.

De Cheloki até Spandareh a distância não é grande, mas já anoitecia, quando chegamos àquela aldeia curda. Seu nome é devido à grande quantidade de álamos que lá existe, pois Spidar, Spindar ou também Spandar em idioma curdo, quer dizer álamo branco. Perguntamos pela residência do Kiajah e, em vez de nos fornecerem as informações solicitadas, todos contemplavam-nos com olhares enfurecidos.

É que eu dirigira as minhas perguntas em língua turca; agora, porém, que repeti em idioma curdo o pedido de informação sobre a residência do Malkoe-gund, que significa “o decano”, tornou-se aquela gente mais complacente para comigo. Fomos conduzidos a um suntuoso edifício, diante do qual apeamos e entramos. Em um dos compartimentos contíguos palestravam em voz alta, de modo que eu podia ouvir toda a conversa. Parei e pus-me a escutar:

- Quem és tu, cão, covarde? - trovejou uma voz colérica. - Um Baschi Bozuk que anda montado num burro. Isto para ti é honra, para o burro humilhação, pois carrega um indivíduo mais burro do que ele! E tens a petulância ainda de vires aqui para me preterir.

- E quem és tu, hein? - retrucou a voz de falsete do meu valente Ifra. - És um Arnaute, um degolador, um ladrão! A tua boca e os teus olhos são parecidos com a boca e os olhos de um sapo imundo; teu nariz assemelha-se a um pepino; a tua voz soa tal qual o piar de uma codorniz. Quanto a mim, eu sou um Buluk-Emin do Grão Senhor! E tu quem és? Um Khawassa e nada mais!

- Homem, torço-te o pescoço para as costas se não te calares! Que tens tu com o meu nariz? E tu que nem possuis um! Dizes que teu amo é um grande Efêndi do Ocidente, quando na verdade só há um grande Efêndi, no Ocidente e este é o meu Senhor! Basta a gente olhar para a tua cara e logo se vê quem é o teu Senhor! E vens para enxotar-me daqui!

- E quem é o teu Senhor? Também um grande Efêndi do Ocidente? Pois agora sou eu que te afirma: O único grande Efêndi do Ocidente é o meu amo! Compreendeste?

- Escutem-me! - começou uma terceira voz calma e grave. - Ambos anunciaram dois grandes Senhores do Ocidente. Um deles é portador de um escrito do “Onsul” (1) de Frankistão, escrito que foi também assinado pelo Mutessarif; é um documento de valor não há dúvida. O outro, porém, acha-se sob a égide do Padixá; apresenta escritos do Grão Senhor, do Mutessarif e tem direito ao Disch-parassi; isto é ainda de mais valor! Este último, pois, será hospedado aqui na minha própria casa e o primeiro numa hospedaria. Aquele não pagará coisa alguma, pois será considerado meu hóspede de honra; o outro, porém, indenizará não só o pouso como tudo o que consumir durante a sua estada.

- Isso não admito! - soou a voz do Arnaute. - O que se conceder a um deve ser concedido também ao outro!

- Ouve! Sou o Nezanum (2) e Senhor desta aldeia; as minhas palavras é que vogam e não tolero que estranho algum me venha fazer observações! Soejle-dim - Tenho dito!

Então resolvi abrir a porta e entrar, acompanhado de Maomé Emin.

- lvari-1’kher - Boa Noite! - saudei. - És o alcaide de Spaadareh?

- Sou eu sim - respondeu o decano da aldeia.

- Este homem é meu criado - disse eu apontando para o Buluk-Emini. - Mandei-o à frente a pedir tua hospitalidade. Que resolveste?

- És tu o Grande Efêndi que viaja sob a proteção do Grão Senhor e tem o direito ao Disch-Parassi?

- Sou eu em pessoa.

- E este homem é teu guia?

- É meu amigo e companheiro de viagem.

- Tendes muita gente na vossa companhia?

- Apenas este Buluk-Emini e mais um criado.

- Ser sere men at - Sede bem-vindos!

Levantou-se do seu lugar e nos estendeu a mão.

- Sentem ao meu lado junto do fogão e fiquem à vontade na minha casa. Irei destinar um quarto com todas as comodidades que correspondem a uma personagem de sua posição. Em quanto estimas o teu Disch Parassi?

- Da parte de nós os dois e do criado, receberás de graça. Mas para esse Baschi Bozuk pagarás cinco piastras. Ele é representante do Mutessarif e não tenho o direito de coagi-lo a dispensá-la.

- Senhor, és indulgente e generoso; fico-te muito agradecido. Nada te faltará para o teu conforto. Permite que eu me afaste durante pouco tempo na companhia desse Khawassa!

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(1) Cônsul.

(2) Alcaide, ou decano de aldeia.

 

Ele se referia ao Arnaute. Este ouvira a nossa palestra com ar sombrio. Agora, porém, mostrou-se francamente encolerizado:

- Eu não saio daqui; exijo as mesmas concessões para o meu Senhor!

- Pois então fica! - respondeu simplesmente o Nezanum. - Mas se depois o teu amo não encontrar hospedagem a culpa será exclusivamente tua!

- O que são esses dois homens que se dizem amparados pelo Grão Senhor? Não passam de árabes, ladrões dos desertos e que aqui nas montanhas pretendem bancar altas personalidades...

- Hadschi Halef! - bradei eu.

O meu criado entrou.

- Halef, este Khawassa teve o arrojo de nos injuriar; assim que ele pronunciar mais uma palavra desagradável, toma conta dele!

O Arnaute, que se achava armado até os dentes lançou uns olhares francamente desprezíveis à figura de Halef.

- Eu temer a esse anão, eu, eu que sou o...

Não pôde continuar porque no mesmo instante caiu por terra e ajoelhado sobre ele estava o meu criado ameaçando sacar do punhal com uma das mãos e apertando-lhe a garganta com a outra.

- Chegou a hora, Sídi?

- Não; basta a lição que já recebeu. Previne-o, porém, de que estará perdido se tiver outro gesto insultoso!

Halef soltou-o e ele ergueu-se do solo. Os seus olhos brilhavam pérfidos e com animosidade; todavia não se aventurou a empreender coisa alguma.

- Então vamos! - disse depois ao decano da aldeia.

- Queres escolher a habitação? - perguntou-lhe este.

- Por enquanto, sim. Mas quando o meu Senhor chegar conduzilo-ei até aqui e então decidiremos quem dormirá nesta casa; ele também julgará a questão suscitada entre mim e o criado desses árabes!

Retiraram-se ambos. Durante a ausência do Nezanum, um dos seus filhos nos fêz companhia e logo depois nos vieram avisar que o quarto estava arranjado.

Fomos conduzidos a um aposento, onde em meio de tapetes nos foram armados dois leitos fofos; ao centro desse aposento serviram-nos um jantar. Dada a rapidez com que foram feitos esses preparativos, era de se supor que o decano da aldeia não pertencesse à classe dos menos abastados. O seu filho sentou-se conosco, não tomando, porém, parte na refeição, o que constituía uma prova de respeito mais que suficiente para nos deixar orgulhosos. Éramos servidos pela própria esposa e uma filha moça do decano.

Foi-nos servido cherbet. Bebemo-lo em lindas Findaschani ferfuri (1), uma grande raridade aqui no Curdistão. Seguiu-se Belqualpamasi pão de trigo frito em mel, acompanhado de Findika (2), conjunto culinário que não apreciei muito. Veio depois Vizihn (3) acompanhado de bolinhos de arroz que nadavam em fino molho e de Vera Asch (4) que condizia perfeitamente com o nome. Dois assados que se seguiram

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(1) Taças de porcelana.

(2) Salada verde.

(3) Assado de cabrito.

(4) Literalmente: Mó de moinho. Um bolo enorme, com formato de uma mó de moinho..

 

lourejavam bem apetitosos sobre o tapete. O couro tostado tinha uma aparência amarela, como os leitões que se comem nos restaurantes europeus. Pareciam assados de pomba. Um verdadeiro quitute cujo paladar para mim era um tanto exótico.

- Esta carne é de Kewuk (1) - perguntei ao jovem filho do decano.

- Não. São assados de Bartschemik (2) - respondeu-me este.

- Hum! Uma verdadeira surpresa gastronômica! Nisso entrou o decano que, a um aceno meu, sentou-se ao nosso lado e participou da refeição. Durante todo o jantar, numa folha colocada no compartimento, foi queimado mastique. Agora como o dono da casa já estivesse presente foi servido o principal prato do dia: assado de Quapameh (carneiro) com molho em conserva, acompanhado de arroz bastante cebolado. No fim da refeição, o decano fez um aceno para a esposa e filha. Trouxeram-lhe uma terrina tapada que ele recebeu com grande solenidade.

- Sabes o que vem aqui nessa terrina? - perguntou-me.

- Não sei - respondi-lhe.

- É um prato talvez desconhecido para ti. Só é conhecido no Curdistão, país habitado por homens valentes e corajosos.

- Deixas-me curioso!

- Aquele que provar esse manjar, sentirá as forças redobrarem e não temerá mais a inimigos de quaisquer espécie! Cheira!

Levantou um pouco a tampa e fêz-me sentir o cheiro do conteúdo da terrina.

- Pensas que tal prato é usado só no Curdistão? - perguntei-lhe.

- Sim, só em nosso país.

- Pois estás enganado; muitíssimas vezes o tenho saboreado noutros lugares.

- Onde?

- Entre os Urus e outros povos, principalmente na América. Lá essa espécie de animal é muito maior e desenvolve-se mais bravio e feroz do que aqui.

- Tu é que estás enganado, pois esta caça só existe no Curdistão!

- Nunca estive antes no Curdistão e no entanto conheço logo essa caça pelo simples cheiro. Portanto devo tê-la saboreado em outras terras.

- Então dize que espécie de caça é!

- Tu vais nos servir um assado de urso! Não adivinhei?

- Realmente acertaste! - exclamou admirado.

- Conheço essa caça melhor do que tu pensas. Não olhei para o interior da terrina, mas aposto como são as patas do urso!

- Adivinhaste outra vez. Serve-te!

Depois, a palestra encaminhou se para caçadas. No Curdistão há realmente grande quantidade de ursos, mas estes não são tão possantes e ferozes como os acinzentados que erram pelas montanhas rochosas dos Estados Unidos. O assado de urso foi acompanhado de uma grossa papa feita com peras e ameixas torradas; serviram-nos ainda lagostim cozido, acompanhado de um prato cujo paladar pareceu-me um tanto exótico e complicado. Tomei a liberdade de perguntar o que era e a esposa do decano foi solícita em prestar-me as informações que pedira.

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(1) Pomba.

(2) Morcego.

 

- Toma abóboras e as cozinhas em mingau, - disse ela. - Adiciona açúcar e manteiga a esse mingau, rala queijo branco sobre o mesmo e junta-lhe alhos socados. Depois de mexer bem essa massa, adiciona-íhe ainda amoras e sementes socadas de girassol. Feito isso, terás um quitute inigualável!

Provei aquela mistura extravagante e “inigualável” de abóbora, semente de girassol, queijo, açúcar, manteiga, amoras e alhos e senti que seu gosto não era tão mau como deixava prever aquele estranho conjunto de ingredientes. Como sobremesa foram-nos servidas passas de maçãs e uvas, juntamente com um cálice de Racki. Por fim trouxeram-nos os cachimbos.

Enquanto acendíamos os fortes, nicotinosos e mal fermentados fumos de Kelekowa, percebemos um vozerio lá embaixo. O decano da aldeia levantou-se e saiu a ver o que sucedera. Como ele deixasse a porta aberta, foi-nos possível então ouvir palavra por palavra.

- Quem é? - perguntou o alcaide.

- Que quer de mim aquele homem? - perguntou alguém no idioma inglês.

- Perguntou quem tu eras! - respondeu um terceiro também em inglês.

- Como se diz “eu” em turco?

- Ben.

- Well! Ben!!! - bradou o estranho ao decano.

- Ben? - perguntou este admirado. Como é o teu nome?

- Que quer ele agora? - perguntou a mesma voz em inglês.

Essa voz me parecia tão conhecida que de surpreendido pela presença ali daquele homem ergui-me num salto.

- Pergunta como te chamas!

- Sir David Lindsay! - gritou o personagem para cima.

 

ENCONTRO INESPERADO

No mesmo instante já me achava ao seu lado, em baixo, no umbral. A sua figura era iluminada pelas chamas do fogo. Ali estava parado o enorme cilindro cinzento, a cabeça grande e esguia, a boca enorme, o nariz com a configuração da “Sierra Nevada”, o pescoço comprido e nu, o amplo colarinho da camisa, a gravata cinzenta xadrezada, o colete xadrezado, o casaco xadrezado, a calça xadrezada, as polainas xadrezadas e as botas côr de pó. À mão trazia a inseparável enxada destinada a afrontar os “Fowlings-bulls” e outras antiquadas arqueológicas.

- Mister Lindsay! - exclamei eu.

- Well! Quem me chama? - Oh!... Ah!... É o senhor?

O homem arregalou os olhos e abriu ainda mais a boca, fitando-me estarrecido, como se estivesse diante da morte.

- Como veio a Spandareh, sir? - perguntei-lhe, quase tão espantado como ele.

- Eu? Well! A cavalo!

- Naturalmente! Mas pergunto que procura o senhor aqui?

- Eu? Oh! O senhor e os Fowlings-bulls!

- A mim?

- Yes! Já lhe direi tudo. Antes, porém, tenho que falar com uma pessoa.

- Com quem?

- Com o maioral, com o burgomestre da aldeia. Sujeito horrível!

- Por quê?

- Porque acolhe os árabes em detrimento do inglês! Sujeito miserável, não é? Onde está ele?

-- Aqui! - respondi apontando para o decano que, nesse ínterim, chegara à porta.

- Questione, achincalhe-o! - ordenou o inglês ao intérprete que se achava ao seu lado. - Faça escândalo, faça barulho, muito, muito barulho! Yes!

- Permita-me, sir, que me encarregue eu disso! - acudi. - Os dois árabes, por causa dos quais está o senhor zangado, não lhe causarão embaraço algum. São seus melhores amigos.

- Ah! Onde estão eles?

- Um deles sou eu e o outro é Maomé Emin!

- Mao... mé... Emin! Onde está Maomé Emin?

- Lá em cima. Suba comigo!

- Well! Extraordinário, imenso, incompreensível!

Sem mais formalidades fui logo empurrando-o escada acima e mandei tanto o intérprete como o Arnaute que pretendiam subir também, que se retirassem. Entre as damas curdas aquele vulto xadrezado provocou um espanto chistoso; elas se afastaram a certa distância do estranho personagem. Maomé Emin, em geral tão circunspeto, proferiu gostosa gargalhada, ao ver a cratera escura que a boca aberta do inglês formava.

- Ah! Good day, sir Mister Maomé! How do you do? - Como vai?

- Maschallah! Como é que veio o inglês parar nestas alturas? - perguntou este.

- Já haveremos de saber, - disse eu.

- Conheces este homem? - perguntou-me o dono da casa.

- Conheço-o. É o mesmo forasteiro que há pouco enviou o Khawass a te pedir hospedagem. Trata-se dum amigo meu. Arrumaste hospedagem para ele?

- Se é um amigo teu, ficará na minha própria casa, como hóspede meu! - respondeu a primeira autoridade de Spandareh.

- Dispões de acomodações para tanta gente?

- Para hóspedes bem vindos há sempre lugar suficiente. Ele que tome lugar e faça uma refeição!

- Sente-se, sir! - disse eu a Lindsay. - Conte-nos agora o que o levou a deixar os campos dos Haddedin e vir para Spandareh!

- Well! Mas primeiro tratarei de acomodá-los.

- Acomodar quem?

- Os criados.

- Eles que tratem de suas próprias acomodações, pois para isso são seus criados.

- E os cavalos?

- Eles também tratarão dos cavalos. Portanto, Mister, vamos ao que nos convém!

- Hum! Tudo está ficando tedious, horrivelmente monótono!

- Mas não chegou a fazer escavações, nem pesquisas científicas?

- Muito, muito até.

- E achou alguma cousa?

- Nothing. Nada, nada! Horrível!

- Continue!

- Saudades, horríveis saudades!

- De quem?

- Hum! Do senhor, sir!

Tive que me rir.

- Com que então tinha saudades de mim!

- Well, very well, yes, Não achei Fowlings-bulls, o senhor tinha ido embora e eu resolvi ir também!

- Mas, sir, conforme nossa combinação, o senhor teria que esperar pela minha volta!

- Não tive paciência, não suportei mais!

- Mas havia muito em que se distrair. Não faltava com quem conversar.

- Apenas com árabes! Psiu! Não me compreende, aquela gente!

- Mas o senhor tinha um intérprete!

- Saiu, escapou-se, fugiu!

- Ah! Aquele grego fugiu? Mas estava ferido!

- Sarou a ferida na perna! O canalha de manhã cedo desapareceu!

- Então sim, concordo que o senhor não se podia entender com aquele povo. Mas como veio encontrar-me?

- Sabia que o senhor tencionava seguir para a Amadijah. Parti para Mossul. O cônsul supriu-me de passes. O governador subscreveu-os e forneceu-me um intérprete e um Khawass. Depois segui para Dohuk.

- Para Dohuk? Por que esta grande volta?

- Havia guerra com os Adoradores do Diabo; eu não poderia passar. Segui então de Dohuk para Duliah e de Duliah a Mungayschi e depois de lá para esta aldeia. Well! E achei o senhor. Muito bem, esplêndido!

- E agora?

- Ficaremos juntos, nos meteremos em aventuras, faremos excavações! Encontrarei Fowling-bulls para o Traweller-Klub, de Londres, yes!

- Está bem, mister Lindsay! Mas por enquanto temos outras cou-sas a realizar!

- Que coisas?

- O senhor não ignora os motivos que nos levam a Amadijah!

- Conheço-os. É um belo gesto, demonstram uma atitude destemerosa; é uma aventura emocionante! Vou ajudar a libertá-lo!

- Creio que não nos será de grande utilidade!

- Não! Por quê?

- Sabe falar apenas o inglês.

- Tenho intérprete!

- Pretende revelar a ele o nosso segredo? Ou quem sabe já revelou durante a viagem?

- Não lhe disse uma só palavra a respeito!

- Foi muito bom sir, porque do contrário estaríamos correndo perigos incalculáveis. Devo dizer-lhe francamente que desejaria encontrá-lo muito mais tarde e não agora!...

- A mim? Well! Muito bem! Sempre julguei que o senhor fosse meu amigo! Mas como não é, rompamos relações! Seguirei para... para...

- Para o inferno, pois outro lugar não resta para acomador a sua tolice! Está mais do que claro que o senhor é meu amigo do mesmo modo que sou seu amigo. Mas deve reconhecer que na situação atual a sua companhia nos causa embaraços e sérios embaraços, difíceis de remover!

- Embaraços? Por quê?

- A sua figura dá muito na vista!

- Bem, darei ao meu exterior aparência mais discreta. Que devo fazer para isso?

- Hum! A citação é delicada. Não posso mandá-lo de volta; deixá-lo aqui tampouco; tenho que levá-lo na minha companhia; realmente não há outra solução para o caso!

- Bem, muito bem!

- Mas terá que se dirigir por nós!

- Well! Farei sua vontade!

- Despedirá imediatamente o intérprete e o Khawass!

- Sim, irão para o diabo! Yes!

- Terá também que mudar essa roupa!

- Mudá-la como?

- Não usá-la! Terá que ostentar um traje turco ou uma vestimenta curda!

Ele me fixou um olhar de espanto. Era como se eu o estivesse obrigando a devorar a sua própria pessoa. Aliás a sua enorme boca se prestaria muito bem para isso...

- Um traje turco, uma vestimenta curda? Horrível! Pavoroso!

- Não há outro remédio!

- Mas que irei vestir?

- Bombachas turcas ou então curdas preto avermelhadas.

- De côr preta avermelhada! Bem, está muito bem! Vermelho e preto, quer dizer xadrezado!

- Por mim, seja! Como prefere? O sistema turco ou o curdo?

- Curdo!

- Então terá que usar roupas preto avermelhadas; são as cores dos curdos. Quer dizer, calças curdas. Um colete, espécie de camisa que cobre toda a calça.

- Tudo vermelho e preto?

- Naturalmente!

- Xadrezado?

- Pode ser. Mas deverão cobrir o corpo desde o pescoço até os tornozelos. Depois um sobretudo ou manto.

- Tudo preto e vermelho?

- Claro que sim!

- Xadrezado?

- Dá no mesmo. Depois um turbante de tamanho desproporcional como o usam os curdos de distinção.

- De cores preta e vermelha?

- Também!

- Xadrezado?

- Se quiser.

- E depois um cinto, meias, sapatos, armas...

- De cores preta e vermelha?

- Por mim pode até mandar pintar a sua cara de preto e vermelho, ficando deste modo todo xadrezado!

- Onde posso comprar essas coisas?

- Quanto a isso não sei dizer nada. Encontraremos uma loja, apenas em Amadijah. Quem sabe existe por aqui algum mercador de roupas, pois Spandareh é uma aldeia bem populosa. E... o senhor tem dinheiro, muito dinheiro, não é assim?

- Muito e muito, well! Pagarei tudo!

- Então vou pedir as informações de que precisamos.

Dirigi-me ao decano:

- Existe em Spandareh algum Urubadschi (1)?

- Não existe.

- Tens um homem disponível para ir agora a Amadijah, comprar roupas para este forasteiro?

- Tenho sim, mas a loja só estará aberta amanhã cedo e, portanto, as roupas só chegarão aqui perto do meio dia.

- Ou quem sabe se há alguém que possa emprestar um vestuário até Amadijah, de onde o devolveríamos?

- És meu hóspede de honra; tenho um Pambuka (2) novo ainda, que te emprestarei com muita satisfação.

- E também um turbante?

- Não há pessoa alguma por aqui que disponha de dois turbantes. Mas posso te arrumar um boné.

- De que tipo?

- Vou dar-te um Kulik (3), que servirá ao forasteiro.

- De que côr?

- Vermelha e com fitas pretas.

- Então seria um favor se me arranjasses essas peças todas, para amanhã cedinho. Mandarás um homem em nossa companhia, com salário pago por nós. Chegados a Amadijah e depois de adquirirmos um vestuário novo, te devolveremos tudo por intermédio desse homem. Mas desejo que não se divulgue esse empréstimo!

- Calaremos em torno do caso, tanto eu como o emissário que te acompanhar!

A seguir, serviram o jantar ao inglês. Compunha-se de alguns restos deixados por nós, mas que foram bem dispostos nas terrinas. O homem parecia não só estar com apetite mas também com uma fome devoradora, pois por entre as suas alvas fileiras de dentes desapareceu quase tudo que lhe foi servido. Com satisfação notei que lhe trouxeram também um pouco daquele assado que eu tomara por carne de pomba. O inglês devorou tudo, até o menor ossinho. Depois colocaram na sua frente, um artístico prato trabalhado em nós de madeira, no qual havia um alimento parecido com beefsteak. O aroma era delicioso e eu, embora contrariando o habitual comedimento tivesse jantado muito, fiquei novamente com apetite. Precisava saber que prato era aquele!

- Sidna, que manjar saboroso é esse? - perguntei à senhora que servia o inglês.

- E’ preparado com Tscbekurdscbek (4) - respondeu-me ela.

- Mas preparado de que forma?

- Pegam-se gafanhotos que são esmagados muito bem e colocados depois numa cova escavada em solo úmido. Quando começam a se decompor, e que já desprendem um cheiro desagradável, são torrados e depois fritos em azeite.

Não era mau, não!... Resolvi não ocultar por muito tempo ao meu amigo inglês, o segredo daquela importante receita culinária. Enquanto ele comia como um glutão, fui ver o que fora feito de nossas montarias. Estavam bem tratadas e guardadas. Junto delas se achavam Halef, o intérprete, Buluk Emin, e o Arnaute, em calorosa disputa que cessou como que por encanto, com o meu aparecimento.

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(1) Alfaiate ou negociante de roupas feitas.

(2) Vestimenta de lã.

(3) Boné de feltro. 

(4) Gafanhoto.

 

- Que discussão é esta? - perguntei a Halef.

- Este homem pretende achincalhar-te, Sídi! Ameaçou de assassinar-nos, a mim e a ti, porque, obedecendo às ordens tuas, atirei-o ao solo!

- Deixa-o falar. Ele não fará coisa alguma! Tudo isso não passa de fanfarronadas!

A essas minhas palavras, o Arnaute levou a mão à pistola e bradou:

- Cala-te homem! Ou pretendes encontrar-te ainda hoje com este teu criado no Dschehenna?

- Tschit-i, ker, werujem, ti szi szlep! - Cala-te, cão! Acho que estás completamente cego! - retruquei-lhe no idioma dos Arnautes. - Não enxergas o perigo a que te atiras?!

- Que perigo? - perguntou-me estupefato.

- Male ti pucshke ne gadschaju dobo! - Essa pistola não tem bom alvo! - retruquei-lhe indicando para a sua arma.

- Por quê?

- Budutschi um-e-m oeno boelje! Por que eu sou melhor atirador que tu!

Ao mesmo tempo que lhe falava, apontei-lhe com o meu revólver. Eu conhecia perfeitamente bem as violências de que são capazes os Arnautes e, assim, não podia ligar pouca importância à sua ameaça feita com tamanha desenvoltura. O Arnaute não dá o mínimo valor à vida do próximo e nem à sua própria. Por causa de um gole dágua ele é capaz de fuzilar um seu semelhante, e depois com toda a calma apresentar o seu pescoço ao alfange do carrasco. Ofendêramos aquele Khawass e por isso era de se esperar um tiro dele. No entanto, após a minha ameaça, ele retirou a mão do cabo da pistola e perguntou-me em tom de admiração:

- Falas o idioma dos Schkiperia (1)?

- Conforme ouviste, sim!

- És um schkipitar?

- Não.

- Que és então?

- Sou Neumatz (2) e previno-te de que a gente da Nemacschka (3) sabe lidar com indivíduos da tua espécie!

- És apenas um Neumatz? Não és um Madschar, um Rusz, Szrbin (4) ou um Turcschin? Obietz-i dschawo-wraga! Vai para o diabo!

Ligeiro como um raio tirou a pistola e a detonou. Não conservasse eu os olhos fixos no cano da arma e a bala me teria atingido a cabeça; desviei-me, porém, rapidamente para um lado e o projétil passou sibilando. Antes de poder alvejar-me com a segunda pistola que trazia à cinta já eu o subjugara, atirando-o ao solo e comprimindo-o com os joelhos.

- Quer que o mate, Sídi? - perguntou-me Halef.

- Não. Toma, amarra-o simplesmente!

Ergui-o do chão e soltei-lhe os braços por um segundo. Foi o suficiente para o Arnaute desvencilhar-se e disparar dali. Num instante desapareceu por entre o arvoredo que confinava com a casa. Todos os presentes saíram-lhe ao encalço, mas voltaram em seguida, sem conseguir nem sequer enxergá-lo mais.

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(1) Denominação que os albaneses dão ao seu país.

(2) Alemão. 

(3) Alemanha.

 (4) Sérvio.

 

O tiro atraíra também os demais moradores da casa, que acorreram logo.

- Quem atirou? - perguntou Lindsay.

- O seu Khawass.

- Contra quem?

- Contra mim!

- Oh, horrível! E por quê?

- Por vingança.

- É um verdadeiro Arnaute! Acertou-lhe?

- Não.

- Vamos fuzilá-lo, sir, e já!

- O homem fugiu!

- Well! Então deixemo-lo em paz! Não faz mal!

E o inglês tinha toda a razão. O tiro do Arnaute não me acertara, por que pois proceder sanguinariamente? Voltar, por certo que ele não voltaria mais, e de uma emboscada armada por ele mais tarde não precisaríamos talvez recear. O inglês, depois que se encontrou comigo, não precisava mais nem dele e nem do intérprete, razão porque justou contas com este e o despediu, com a condição, porém, de na manhã seguinte deixar Spandareh e voltar diretamente para Mossul.

Passamos o resto da noite a palestrar com os curdos, palestras que se encerraram com uma dança realizada em nossa honra. Fomos convidados a passar para o pátio. Este formava uma área quadrada coberta por telhado e provido de uma galeria destinada à assistência. Esta ali se achava sentada ou acocorada pitorescamente, ao passo que na área destinada às danças se reuniam umas trinta mulheres.

Estas formavam uma dupla roda, no meio da qual se achava um mestre de danças brandindo um venábulo. A orquestra compunha-se de uma flauta, um instrumento parecido com violino e dois tamborins. Por meio de um brado estrídulo, o mestre deu o sinal para iniciar-se o bailado. A arte de Terpsicore cultivada por ele compunha-se de diversos e vulgares movimentos de braços e pernas. Esses movimentos se dirigiam sempre para o mesmo ponto. O grupo de mulheres acompanhava os gestos do mestre. Não pude descobrir o menor significado, a mínima concepção artística em todo aquele bailado simplicíssimo. Contudo as mulheres ostentando os turbantes quadriculares dos quais pendiam véus, e iluminadas à luz dos fachos, apresentavam um lindo quadro, que encantava os olhos.

Quando terminou o bailado, os homens aplaudiram os dançarinos com um prolongado e estridente murmúrio de satisfação. Eu, porém, tirei do bolso uma pulseira e chamei a filha do decano que me serviu a refeição e que agora tomara parte no bailado como uma das figuras principais. A jóia era constituída de peças de vidro amarelo que imitavam o âmbar transparente, e espesso, muito apreciada no Oriente, onde é bastante procurada e obtém elevados preços. Na Alemanha, poderia adquirir uma dessas jóias de algum vendedor ambulante, pela importância máxima de uns sessenta pfenigs. Aqui, porém com a dádiva daquela pulseira eu ia proporcionar uma alegria indizível à moça, que a avaliaria por uma verdadeira fortuna.

A moça aproximou-se de mim. Todos viram que eu a chamara e logo calcularam que pretendia oferecer-lhe alguma lembrança, pela sua contribuição artística à festa. Eu precisava honrar o meu hospedeiro procurando praticar um gesto elevado de cortesia...

- Vem cá, mimosa filha dos curdos de Missuri! Em tuas faces esplende a luz do Chefag (1), e a tua fisionomia é linda como a corola da Sumbul (2). Os teus cachos de cabelos longos e ondulados possuem o perfume das Guliliks (3) e a tua voz é sonora como o cântico do Bulbuli (4). És a encarnação viva da hospitalidade desvanecedora, a filha de um herói, e serás ainda a noiva de um curdo sábio, dum valente guerreiro da tua nação! Os teus braços e os teus pés naquela dança divinal deleitaram-me o espírito e confortaram-me o coração de viajor nostálgico. Aceita esta Bazihn (5) e pensa em mim quando com ela te ornares!

A jovem ficou vermelha de alegria e acanhamento e não sabia o que responder-me.

- Az khorhame ta, Hodia! Sou “tua própria” (6), oh! Senhor! - balbuciou finalmente a moça.

Essa é a saudação da pragmática, adotada, pelas moças e mulheres curdas em relação a um personagem importante. O seu pai também ficara de tal modo satisfeito com a distinção que eu fizera à filha, que, esquecendo-se completamente da atitude discreta e de reservas a que como oriental estava obrigado, pediu que a moça lhe mostrasse o presente a fim de examiná-lo.

- Que soberbo, que magnífico! - exclamou o velho fazendo a pulseira correr a roda, de mão em mão. - São pedras de âmbar tão custosas e tão lindas como mais lindas e mais custosas não as usa nem o sultão, cravejadas no seu cachimbo! Minha filha, o teu pai não estaria em condições de dar-te um tão valioso dote matrimonial, como o presente que este Emir acaba de te fazer! De seus lábios brotam as palavras da sabedoria e dos fios do seu bigode resplandece a bondade em todo o seu fulgor! Pede-lhe licença, minha filha, para que lhe agradeças assim como uma filha agradece ao pai!

Ela enrubesceu ainda mais do que antes. Contudo perguntou-me:

- Dá-me licença, Senhor?!

- Dou-te, sim.

Ela então inclinou-se para mim, que me achava sentado no solo, e beijou-me a boca e ambas as faces; depois, porém, acanhada, retirou-se apressadamente.

Não me surpreendeu aquela maneira de agradecer, pois sabia que a uma jovem curda era permitido saudar a um conhecido, dando-lhe um beijo. Quando uma pessoa de nível superior permite tal gesto, é uma grande distinção para quem o recebe, motivo por que a minha generosidade redobrou aos olhos daquela gente depois que consenti em ser beijado. Essa circunstância foi, aliás, logo expressada pelo decano:

- Emir, a tua bondade ilumina o meu solar como o sol aquece a terra! Concedeste à minha filha a graça de poder recordar-se sempre de ti, com o ósculo que te depôs na boca e nas faces. Agora, permite-me que também eu te ofereça uma lembrança para que sempre tenhas em mente a aldeia de Spandareh!

O velho inclinou-se para um dos ângulos do telhado e proferiu o chamado: Dojan (7). Uma porta abriu-se e notei que a assistência deu lugar para passar um enorme

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(1) Crepúsculo vespertino.

(2) Jacinta.

(3) Flores.

(4) Roxinol.

(5) Pulseira.

(6) Estou sempre pronta a me entregar em holocausto por ti!

(7) Falcão.

 

cachorro galgo, que logo começou a subir a escada, com o fim de chegar até nós. Minutos depois o galgo se achava diante do decano a acariciá-lo. Era um daqueles animais extraordiariamente grandes, que nas Índias, na Pérsia e desde Turquestão até a Sibéria têm a denominação de Slogi. Entre os curdos aquela raça fina de cães tem o nome de Tazi. Esses cães perseguem as gazelas fugitivas; apanham mesmo os burros alçados e não temem igualmente à pantera e ao urso. Confesso que aquele cachorro despertou em mim uma profunda admiração. Como cão possuía os mesmos predicados que o meu pastor como cavalo.

- Emir, declarou o decano, esses cães dos curdos missurianos são afamados até além das montanhas do Curdistão. Criei vários Tazis, pelo quais eu podia me sentir orgulhoso. Nenhum deles, porém, possuía os predicados deste aqui. É teu!

- Nezanum, a dádiva é tão preciosa que me constranjo em aceitá-la - respondi.

- Pretendes ofender-me? - perguntou-me o velho seriamente.

- Não, de modo algum, - esclareci-lhe. - Quis apenas dizer que a tua bondade excedeu em muito à minha. Permite-me que aceite o teu presente, mas permite-me também que te ofereça esta garrafinha!

- Que líquido é este? Alguma essência perfumosa da Pérsia?

- Não. Comprei-o de Beith Alá, na cidade santa de Meca e é água da fonte sagrada de Zem-Zem.

Desprendi a garrafinha do pescoço e entreguei-a ao decano. Estava ele de tal modo perplexo que hesitou em agarrar a dádiva. Depu-la no colo.

- Oh! Emir, que estás fazendo! - exclamou finalmente, entusiasmado. - Trazes para a minha casa a dádiva mais esplendorosa que Alá colocou sobre a terra. Realmente pretendes presentear-me com ela?

- Aceita-a; ofereço-te de coração!

- Abençoada seja a tua mão e que todos os teus caminhos sejam perenes de felicidades! Vinde, oh! Homens, tocai nessa garrafa para que fiqueis também tocados pelo generosidade do grande Emir!

A garrafa passou de mão em mão. Eu prodigalizara àquela gente a maior alegria que se possa imaginar! Quando o entusiasmo dos presentes já havia acalmado de certo modo, o decano dirigindo-se novamente a mim, disse:

- Senhor, este cão agora é teu. Cospe-lhe três vezes no focinho e faze-o dormir esta noite enrolado no teu manto, junto do teu leito e ele jamais te abandonará!

O inglês assistira a toda aquela cena sem compreendê-la verdadeiramente. Perguntou-me:

- Fêz presente de Zem-Zem, Mister?

- Fiz, sim.

- Well! Desfaça-se sempre dessas coisas! Água é água!

- E sabes o que recebi em troca daquela água?

- O que foi?

- Este cão.

- Como? Quê?! Não é possível!

- Por que não?

- Trata-se dum animal muito precioso. Conheço essa raça de cães! Este aí, por exemplo, vale no mínimo umas cinqüenta libras esterlinas!

- Vale ainda mais. E, no entretanto recebi-o de presente.

- Por quê?

- Porque presenteei aquela pulseira à filha do decano.

- Homem fabuloso! Poço de sorte! Primeiramente dispensado de pagar qualquer cousa pelo cavalo preto do Maomé Emin e agora ainda recebe de presente um lindo cachorro galgo! Quanto a mim sempre um sem sorte! Nem sequer encontrei um único Fowling-bull. Horrível!

Maomé também contemplava o cachorro com admiração e eu creio que ele estava um tanto invejoso. Devo confessar que me achava com sorte. Pouco antes de me deitar, fui ver se as nossas montarias continuavam bem guardadas. O decano encontrou-me nessa inspeção.

- Emir, - perguntou-me à meia voz, - permites que te faça uma pergunta?

- Fala!

- Pretendes seguir para Amadijah?

- Pretendo.

- E de lá para diante?

- Não sei ainda.

- Há algum segredo nessa tua viagem?

- Achas que há?

- Sim, francamente, acho que há!

- Por quê?

- Tens um árabe na tua companhia que não é lá muito prudente, pois ele arregaçou as mangas do albornós e eu pude ver a tatuagem do seu braço. É um inimigo dos curdos e também um inimigo do Mutessarif; é um haddedihn. Acertei?

- É um inimigo do Mutessarif apenas, mas não dos curdos, - respondi-lhe.

Aquele homem era sincero; não podia, pois, mentir-lhe. Era preferível confiar nele do que dizer-lhe uma inverdade que aliás ele não acreditaria.

- Os árabes todos são uns encarniçados inimigos do curdos; mas ele é teu amigo e meu hóspede; não o denunciarei. Sei também o que ele pretende fazer em Amadijah!

- Dize-me, então!

- Há muitos dias, os guerreiros do Mutessarif conduziram um prisioneiro árabe por aqui. Chegaram e apearam na minha casa. O prisioneiro era um filho do Xeque dos haddedihns e ia ser recolhido à fortaleza de Amadijah. Ele se parece tanto com este teu companheiro como um filho pode parecer-se com o pai!

- Mas é comum encontrar-se pessoas parecidas que não são parentes próximos e nem remotos.

- Sei disso e nem pretendo violar-te o segredo! Mas uma coisa vou pedir-te: se voltares de Amadijah, chega em minha casa, quer seja de dia quer de noite, quer em caráter oculto no caso de te moverem alguma perseguição, quer livremente! Sempre serás bem-vindo embora esteja contigo o árabe a que me referi há pouco.

- Muito obrigado! Aceitarei o teu oferecimento.

- Nada tens que me agradecer! Deste-me a água da sagrada fonte de Zem-Zem e eu te saberei valer em todos os transes de tua vida! Mas se o teu caminho te conduzir, depois, a outras paragens, então terás que me satisfazer outro pedido.

- Se estiver ao meu alcance, estou ao teu dispor!

- No vale de Berwari ergue-se o castelo de Gumri. Nele mora o filho do celebrado Bei Abd el Summit; uma de minhas filhas é sua esposa. Dá lembranças minhas aos dois. Vou dar-te um sinal pelo qual reconhecerão ambos que és meu amigo.

- Cumprirei gostosamente essa missão.

- Expõe-lhe tudo de que careceres; tudo eles farão por ti, visto que nenhum curdo que se preza estima os turcos e menos ainda o Mutessarif de Mossul.

Em seguida o decano entrou na casa. Conheci desde logo o objetivo daquele bravo curdo. Percebera o nosso propósito e pretendia nos ser útil na sua execução. Recolhi-me, levando comigo o estupendo cachorro galgo. Quando nos levantamos na madrugada seguinte, ouvimos dizer que o intérprete já havia deixado Spandareh e tomado o rumo de Bebozi.

Eu dormira com Maomé Emin no mesmo compartimento. Ao inglês fora destinado outro quarto. Quando este apareceu em nossa presença, foi recebido com... estrondosas gargalhadas. Ninguém pôde conter-se ao aspecto jocoso que apresentava o displicente Mister Lindsay. Dos pés à cabeça estava trajado de preto e vermelho e sobre a cabeça ostentava o boné curdo, parecido com um coador de café virado pelo avesso; dele pendiam duas fitas, parecidas com tentáculos de pólipos...

- Good morning! Por que estão rindo? - perguntou com fisionomia fechada.

- De alegria, em face do seu exterior divertidíssimo, Sir.

- Well! Alegra-me!

- Que traz aí debaixo do braço?

- Aqui? Hum! Pacote, penso eu!

- Sim, que é pacote eu sei! Mas que traz em tal pacote?

- Nele embrulhei a cartola, as meias e as botas. Well!

- Pode deixar esses trajes aqui!

- Aqui? Por quê?

- Pretende arrastar sempre junto consigo essas ninharias inúteis?

- Inúteis? Ninharias? Horrível! Vou precisar de tudo depois!

- Mas não logo.

- Voltaremos para aqui?

- Talvez sim, mas é muito duvidoso.

- Então! Had-box, levarei o pacote! Claro!

A larga vestimenta ficava-lhe tão folgada, como se com ela houvesse alguém vestido um espantalho. Mas com isso não se preocupava ele. Tomou triunfalmente lugar ao meu lado e disse com ares de vencedor:

- Eis-me um curdo! Well!

- Um verdadeiro, um autêntico!

- Esplêndido! Excelente! Magnífica aventura!

- Falta, porém, ainda uma coisa!

- O que?

- O idioma.

- Vou aprendê-lo.

- Isto não se aprende tão depressa e se não quer prejudicar-nos precisa tomar uma de duas resoluções.

- Qual?!

- Ou se finge de mudo...

- Mudo? - Dumb? Horrível! Não me sujeitarei a isso! - interrompeu-me.

- Sim, ou se finge de mudo ou, melhor ainda, de surdo-mudo!

- Sir, enlouqueceu?

- Obrigado! Contudo persisto no que digo. Ou o senhor se finge de mudo ou faremos constar haver feito um voto...

- Um voto? Well! Bela idéia! Interessante! Mas que voto?

- De não falar.

- De não dizer cousa alguma? Nenhuma só palavra? Ah!

- Nem uma única!

- Nem uma sílaba?

- Não! Naturalmente que apenas durante o tempo em que estivermos sendo vigiados ou vigiando à alguém. Quando estiver só conosco poderá falar à vontade!

- Está bem! Isto é, está menos mau! Vou fazer esse voto! Quando começarei?

- Imediatamente após a nossa saída de Spandareh.

- Well! Tudo de acordo!

Tomamos o café matinal e nos supriram de toda a sorte de provisões para a viagem. Depois montamos a cavalo. Despediramo-nos de todos os membros da casa, exceto do decano, e dissemos adeus também a outras pessoas que ali se reuniram. O decano mandara selar o seu animal e nos ia acompanhar durante um trajeto da estrada.

Por trás de Spandareh havia um caminho muito acidentado, quase intransitável, que conduzia para a montanha Tura-Ghara. Para galgá-lo na direção da montanha, era preciso que os cavalos tivessem patas de cabras, todavia venceram galhardamente o trajeto e chegamos sem novidade ao cume. Lá chegados, o decano parou o cavalo, tirou um pacote da maleta do serigote que me deu dizendo:

Quando chegares a Gumri, entrega isso ao marido de minha filha, Mando para ela um lenço de seda persa e para o seu marido um Dizgin (1) para a sua Mehin (2), que lhe prometi. Se lhes entregares esses objetos, saberão logo que és irmão e amigo meu e te receberão como se fosse eu em pessoa. Mas gostaria muito se de tua parte te esforçasses para tornares a esta aldeia e passares alguns dias na minha casa, que também é tua.

E apontando para um cavaleiro curdo que nos acompanhou, cavalgando ao lado de Halef e do Baschi Bozuk, continuou:

- Aquele é o homem que me trará de volta o traje que emprestei a este forasterio. A ele poderás também entregar o pacote que agora te dei, uma vez que sejas obrigado a mudar de rota, não passando por Gumri. Agora chegou o instante da nossa despedida! Aalaeik sallam, u rahhmet Allah “A Paz e a Misericórdia do Senhor esteja contigo!”

Abraçamo-nos, osculamo-nos e depois ele estendeu a mão também aos demais. Vim a conhecer nele um homem do qual ainda hoje me lembro com respeito e admiração.

 _______________

(1) Freio.

(2) Égua.

 

Rumo a Amadijah

Prosseguimos viagem. A estrada descia a colina na direção do vale do Amadijah. Este vale é formado por enormes muralhas de grés e cortado por um verdadeiro labirinto de desfiladeiros, de onde jorravam, regatos murmurantes, que constituíam afluentes do rio Zab. Os desfiladeiros e as esplanadas estavam repletas de florestas de carvalhos, que produziam exelentes nozes-de-galhas, com as quais os habitantes movimentavam um comércio bastante animador. Nas esplanadas ficavam situadas numerosas aldeias caldáicas, que se achavam ou desertas e abandonadas ou então muito pouco povoadas, pois os caldeus, para fugirem à opressão turca, ao assalto e ao saque levados a efeito contra eles por algumas tribos curdas recuaram para as montanhas.

Atravessando por entre carvalhos gigantescos que avivavam em mim a saudade da pátria, cavalgamos ao encontro de nosso objetivo.

- Posso falar? - perguntou Lindsay, baixinho.

- Sim. Ninguém nos está observando.

- Mas o curdo por trás de nós?

- Isso não vem ao caso.

- Well! A aldeia de onde viemos chama-se Spandareh?

- Isso mesmo.

- Que impressão lhe causou?

- Muito boa. E ao senhor, sir!

- Esplêndida! Boa acolhida, cavalheiro distinto, sua esposa também! Boa comida, belos bailados, excelente cachorro!

A estas últimas palavras olhou cubiçosamente para o galgo que caminhava junto do meu cavalo. Eu tivera a precaução de prendê-lo a uma corda amarrada na argola do serigote. O cão parecia ter feito camaradagem com o meu cavalo e adquirido a convicção plena de que eu era agora o seu dono. Às vezes, levantava a cabeça e olhava-me com seus enormes e agudos olhos.

- Sim, - respondi - tudo estava esplêndido, principalmente a refeição que nos serviram!

- Excelente! Até pombas e beefsteak!

- Hum! Acredita haver de fato comido carne de pomba?

- Well! Por que não?

- Porque aquilo nunca foi pomba.

- Não? Como? Era sim!

- Afirmo-lhe que não!

- Que espécie de caça era então?

- Daquela a que os zoólogos deram o nome latino de Vespertilio murinus ou myotis.

- Não sou zoólogo e tampouco latinista!

Aquela espécie de “pomba” chama-se vulgarmente morcêgo!

- Mor...

Não acabou a frase. Os seus órgãos de deglutição e digestão foram obrigados, ao pronunciar eu aquela palavra, a um esforço brutal, de modo a transformar-lhe a boca num trapezóide ou numa permanente abertura de caverna, na qual se poderiam fazer as mais lindas viagens de exploração...

- Sim, morcêgo, de morcêgo, era aquele assado que lhe serviram sir!

Parou o cavalo e passou a contemplar o azul infinito.

Finalmente ouviu-se um ranger de dentes: a boca fechara-se-lhe. Calculei logo que readquiriria a calma precisa para dar expansões ao seu espanto por meio de palavras.

- ... cego!!!

Com essas breves sílabas completara a anterior “mor”, há pouco interrompida; depois curvou-se na sela e pegou-me pelo braço.

- Sir!

- Que há?

- Não se esqueça das atenções curiais a que se está obrigado em face de todo o cavalheiro!

- Poventura lhe tenho faltado com alguma delas?

- Como não?!

- Mas em que ponto?

- Como pode afirmar que Sir David Lindsay é um papa-morcêgos?

- Morcêgos? Eu disse que havia comido um apenas!

- É a mesma coisa! Um ou diversos, a injúria é igual! Isto não fica assim! Exijo satisfações suas! Satisfações!! Well!!

- Pois já dei, homem!

- Já deu? Já teria dado? Ah! Como?

- Comendo morcego também! Maomé Emin comeu também!

- Também? O senhor e ele? Ah!

- Sim, também eu tomei aquilo por assado de pombas. Mas quando perguntei o que era, soube que se tratava de morcêgo.

- Não pode ser! Morcêgo tem pele!

- Fora previamente esfolado!

- Então era de fato morcêgo?

- De fato!

- Não é pilhéria?

- Não é, não!

- Está falando seriamente?

- Seriamente!

- Horrível! Oh! Vou ser acometido de eólicas, cólera, tifo, oh! Yes!

Realmente o homem fazia uma cara de quem estava atacado de cólera; eu precisava mostrar-me compadecido.

- Sente-se mal, sir?

- Muito! Yes!

- Quer que o ajude?

- Depressa! Com quê?

- Com algum específico homeopático.

- Traz algum aí? Sinto-me verdadeiramente mal! Horrivelmente mal! Que específico conduz consigo?

- Similia similibus.

- Outra vez com a sua zoologia? Ou latinismo?

- Sim, ambos. Em latim quer dizer: igual com igual. Em zoologia, é o mesmo que dizer: “com gafanhoto!”

- O que? Gafanhoto?

- Sim, gafanhoto!

- Contra a minha indisposição? Para eu comê-lo?

- Não é para o senhor comer gafanhoto, não, pois já comeu!

- Já comi? Eu?

- Sim, homem!

- Dullness, tolices! Impossível! Quando?

- Ontem à noite.

- Ah! Esclareça melhor!

- O senhor afirmou há pouco que os beefsteaks estiveram muito saborosos.

- Muito! Excelentes!

- Mas não era beefsteak, não!

- Não era? Não eram beefsteaks? Sou inglês! Eram verdadeiros beefsteaks!

- Garanto-lhe que não! Informei-me da dona da casa!

- Que era então?

- Gafanhotos fritos em azeite.

- Gafa...

Suspendeu como antes a frase, mas, ao invés de abrir a boca como fizera fechou-a, cerrando os lábios, de modo que espichou-se para os lados; com um pouquinho de boa vontade poderia com um dos ângulos da boca tocar uma ponta das orelhas. A ponta do nariz afilou-se para os beiços como que a refletir sobre um meio de corrigir a burla sofrida.

Depois de muito tempo, a sua fisionomia adquiria lentamente a conformação normal; restabeleceu-se-lhe o Restitutio in integrum e os lábios despregaram-se um do outro.

- ... nhoto!

Deste modo terminou a frase começada por ‘“gafa” e a ponta do nariz ergueu-se de novo pontiaguda como sempre.

- Sim, gafanhotos comeu o senhor.

- Ah! Horrível! Mas nem tinham o gosto daquele ortoptero.

- Como sabe? Já comeu gafanhotos alguma vez?

O inglêz fêz uns gestos como se mesmo montado quisesse pisar sobre os seus próprios ombros...

- No at no time! - nunca!

- Afianço-lhe que foram gafanhotos. São apanhados e esmigalhados; depois guardados dentro da terra para que entre num leve período de fermentação, isto é, até ficarem haut gout e por fim, depois de socados, são fritos em azeite. Pedi esta receita à esposa do alcaide da aldeia, por isso sei muito bem o que estou dizendo!

- Horroroso! Já estou com espasmo no estômago!

- Está agora satisfeito com a satisfação que lhe dei?

- Também comeu gafanhotos?

- Não.

- Não? E por quê?

- Por que não me serviram.

- Então apenas eu comi daquilo?

- Apenas o senhor. Em todo o caso, isto constituiu uma prova de distinção da parte da esposa do alcaide para com o senhor!

- E o senhor sabia que era gafanhoto que me estavam servindo?

- Primeiramente não. Mas, enquanto o senhor comia, informei-me a respeito.

- Por que não me disse logo?

__ Porque o senhor teria tomado alguma atitude com a qual o nosso anfitrião se ofenderia.

- Mister, não admito essa sua atitude! Traição! Perfídia! Espírito de nocividade! Tenho vontade de esmurrá-lo, de...

Conteve-se, pois naquele momento, detonou um tiro e a bala arrarcou-me um farrapo do turbante.

__ Apeem-se e coloquem-se por trás dos cavalos! - bradei.

Ao mesmo tempo colocava-me por trás do meu pastor e não sem tempo, visto que no mesmo instante detonou outro tiro e a bala sibilou-me por cima da cabeça. Num instante desafivelei a coleira que prendia o cão e gritei-lhe:

- Sert! - Segura-o!

O cachorro soltou apenas um leve latido, como a dizer que me havia compreendido; e como um raio entranhou-se macega adentro.

Estávamos num desfiladeiro, cujos flancos eram cercados por carvalhos tenros. Penetrar nesse bosque seria um gesto imprudentíssimo, pois nos exporíamos talvez ao alvo certeiro do atirador invisível. Continuamos abrigados pelos corpos dos cavalos, a escutar.

- Maschallah! Quem teria sido? - perguntou Maomé.

- O Arnaute, - respondi-lhe.

Nisso ouvimos um grito de susto seguido de fortes latidos do cão.

- Dojan segurou o malfeitor - declarei tão calmo quanto possível. - Buluk Emini vá buscá-lo!

- Allah illa Allah! Eu não saio daqui! Em vez de um, podem também estar lá dez e até cem homens a nos armar uma emboscada, caso em que eu estaria perdido!

- Tens razão! E se morresses o pobre do teu burro ficaria órfão!... É um portento! Bem, fica então aqui a vigiar os cavalos. Vamos!

Saí na companhia dos demais e nos embrenhamos no denso macegal, onde não foi preciso andarmos muito. Não me enganara; era de fato o Arnaute. O cão não o estraçalhara, mas derrubara-o e deitara-se sobre o homem, segurando-o com os dentes na carótida, não fortemente e sim de leve: a qualquer movimento do antagonista para desvencilhar-se de suas presas, o cão as cravaria de fato, e o homem estaria perdido. Fiquei admirado da extraordinária inteligência do cão. O Arnaute havia puxado a faca, para livrar-se do seu atacante. O cachorro tinha, pois, mais de uma tarefa a desempenhar.

Primeiramente tomei o punhal do assaltante e depois uma das pistolas da cinta. A outra, com ambas as cápsulas detonadas fora jogada ao solo, à investida do cachorro.

- Geri! - Ritira-te!

A essa ordem o Dojan soltou o Arnaute. Este se ergueu do chão e instintivamente passou a fazer massagens no pescoço, à altura em que o animal o abocanhara.

- Homem, queres por força cometer um assassínio. Desejas que te esmague aqui mesmo?

- Sídi, dá essa ordem, que eu me encarrego da execução! Posso enforcá-lo. - disse Halef.

- Psiu! O seu tiro não atingiu ninguém. Deixa-o andar!

- Emir, - opinou Maomé - trata-se de uma verdadeira fera, que precisamos tornar inofensiva para sempre!...

- Este canalha alvejou-me e estou certo de que jamais repetirá tal façanha covarde! Retira-te já daqui, canalha!

No mesmo segundo o salteador desaparecia como uma flecha através das árvores. O Dojan quis persegui-lo, mas eu o contive.

- Sídi, precisamos segui-lo! É um Arnaute e será perigo ambulante para nós, se não o fizermos perder para sempre a faculdade de locomoção! ... - exclamou Halef.

- Por que será ele um perigo ambulante? Pensas que irá a Amadijah? Lá ele não aparecerá, do contrário moverei um processo sumário contra ele.

Maomé e o inglês também protestaram energicamente contra o meu gesto, que qualificavam de idiotamente compassivo. Eu, porém, não lhes dei atenção e voltei calmamente para os cavalos. O cachorro seguiu-me sem que eu o chamasse; notei que não precisava mais trazê-lo preso à coleira e durante a viagem vi que o fiel animal se afeiçoara de todo a mim.

Cerca do meio dia alcançamos uma pequena aldeia, chamada Bebadi; era uma localidade paupérrima e habitada por nestorianos, conforme me pareceu. Fizemos aí uma pequena parada e foi com muita dificuldade que arranjamos um pouco de cherbet, para tomarmos com a nossa refeição.

Afinal tínhamos diante de nós a montanha em forma de cone, ao sopé da qual ficava Amadijah, aonde chegávamos pouco tempo depois. Nos dois flancos da estrada que subia a montanha havia diversos pomares regularmente cultivados; a localidade propriamente dita, porém, já ao longe, não causava ao viajor impressão lá muito imponente. Depois de havermos descido a montanha, entramos pelo portão da cidade que de uma feita, já devia ter caído, mas que depois fora consertado ligeiramente, com o fim de prestar os seus serviços nalguma emergência. Ali achavam-se alguns Arnautes andrajosos, guarnecendo a entrada da cidade, para evitar que os inimigos a invadissem. Um deles pegou no meu cavalo e outro no do haddedihn, pelas rédeas.

- Alto! Quem são vocês? - perguntou-nos.

Apontei para o Buluk Emini, dizendo-lhe:

- Não vês que temos um soldado do Grão Senhor em nossa compannhia? Ele te responderá por nós.

- Mas falei contigo e não com o Buluk, ouviste?!

- Vai-te, afastá-te para o lado!

Ao dizer isso, encurtei as rédeas do animal e firmei-me na sela. O cavalo pôs-se nas patas traseiras e o Arnaute de susto caiu ao solo. Maomé seguiu o meu exemplo e continuamos a galope entrando na cidade. Por trás de nós ainda ouvimos o praguejar dos Arnautes e uma forte discussão entre eles e o Baschi Bozuk. Encontramo-nos, mais adiante, com um homem, que usava um enorme Kaftan e trazia um lenço velho enrolado na cabeça.

- Quem és? - perguntei-lhe com desembaraço.

- Senhor, sou um Jehudi (1) Que me ordenas?

- Sabes onde mora o Mulesselim? (2)

- Sei, Senhor.

- Conduze-nos ao seu Serai!

Quanto mais desassombrosa fôr a atitude com que se pisa no Oriente, tanto mais amavelmente se é recebido e tratado. Além disso, aquele homem era um judeu, portanto um indivíduo sem direito à cidadania, mas apenas ali tolerado; não fêz por isso o menor gesto de desobediência à ordem que lhe dei com energia. As ruas e vielas achavam-se desertas e tristíssimas. Não se notava o mínimo sinal de vida.

_____________

(1) Judeu.

(2) Comandante da praça.

 

Encontramo-nos com poucas pessoas que apresentavam um aspecto doentio, denotando depauperamento moral e fisíco, o que constituía uma viva prova das tradições de insalubridade daquela cidade.

O aspecto exterior do Serai desmentia formalmente o nome pomposo de Palácio que se lhe dava. Assemelhava-se mais a uma ruína reformada, em cuja frente nem sequer se via um guarda. Apeamos e confiamos as montarias à vigilância de Halef, do curdo e do Buluk Emini, o qual, nesse meio tempo, já nos havia alcançado. Depois de darmos uma propina ao judeu, que a agradeceu entusiasticamente, entramos no Serai.

Só depois de havermos caminhado durante algum tempo de um lado para outro na sala, é que avistamos um homem. Ao notar a nossa presença, veio apressadamente ao nosso encontro.

- Quem são? - Que pretendem aqui? - interpelou-nos, tomado de cólera.

- Homem, fala noutro tom, do contrário vou ensinar-te o que é ser cortês! Quem és tu?

- Sou o guardião deste palácio.

- É possível falar-se com o Mutesselim?

- Não!

- Onde está ele? Saiu a cavalo.

- Já compreendi. Está refestelado comodamente em seu aposento, ao invés de cuidar de suas obrigações militares!

- Pretendes ditar-lhe normas de vida e de proceder?!

- Não, mas pretendo obrigar-te a dizer-me à verdade!

- Afinal, quem és tu para me falares desse modo? És um infiel. Como te arriscas a entrar no palácio do comandante, acompanhado de um cão?

Ele tinha toda a razão, porque ao meu lado estava o formidável galgo a dirigir-lhe uns olhares que denotavam estar apenas à espera de um sinal meu, para avançar no turco.

- Pois então coloca guardas diante do portão, repliquei-lhe, para que só tenham entrada aqueles a quem é permitido! A que horas poderei falar com o Mutesselim?

- À hora do crepúsculo vespertino.

- Está bem. Dize-lhe então que a essa hora o procurarei!

- E se ele me perguntar quem és?

- Dize-lhe que sou um amigo do Mutessarif de Mossul.

Ao ouvir essas minhas palavras, o homem desconcertou-se; nós, porém, não lhe demos mais importância alguma e voltamos para fora, a fim de montar a cavalo e procurar hospedagem. Não seria difícil acomodarmo-nos, visto que a maioria das casas se achavam vazias. Contudo não iria apossar-me arbitrariamente de uma delas e precisava, pois, tomar as medidas para obtê-las pelos meios legais. Passando em revista as casas, cavalgávamos por uma das ruas, quando avistamos uma figura marcial. A sua jaqueta, como as calças de veludo, estava coberta de bordados com fios de ouro; suas armas não valiam cousa alguma e do Tschibuk, que vinha fumando com toda a solenidade, pendiam, conforme depois cheguei a contar, quatorze borlas douradas. Ficou parado a contemplar o meu cavalo, com ares de profundo conhecedor. Parei e saudei-o:

- Sallam!

- Aaleiikum! - correspondeu-me com um orgulhoso inclinar de cabeça.

- Sou forasteiro nesta terra e não costumo falar com Virkadschis (l). A sorte fez porém, que me encontrasse contigo, a quem vou solicitar as informações de que preciso - fui-lhe dizendo na mesma atitude orgulhosa mantida por ele.

- O teu sotaque diz-me que és um Efêndi. Estou pronto a responder à tuas perguntas.

- Quem és?

- Sou o Agha Selim, comandante geral dos albaneses, que defendem esta tradicional fortaleza!

- Eu sou Kara Ben Nemsi, um protegido do Padixá e enviado especial do Mutessarif de Mossul. Procuro uma casa, onde possa morar por alguns dias em Amadijah. Não sabes de uma atualmente desabitada?

Ele desceu de sua pose primitiva e, perfilando-se militarmente, respondeu:

- Que Alá abençoe a tua Alteza, Efêndi! És um Grão senhor que deve ser acolhido no palácio do Mutesselim!

- Mas o superintendente do palácio já me repeliu, quando há minutos o procurei e eu...

- Que Alá arruine aquela criatura! - interrompeu-me o comandante. - Irei já arrancar-lhe um pedaço do corpo!

 

UMA DESPÓTICA GOVERNANTA

Revirou os olhos e com ambos os braços fazia sinais de quem estivesse espaldeirando alguém. Aquele homem devia ser um oficial de educação vulgaríssima.

- Deixa esse homem! Não merece a honra de ter hóspedes que lhe dêem muitos backschisch (2).

- Backschisch? - perguntou o militar. - Tu ofereces muitos backschischs a quem te hospedar?

- Neste ponto não sou avarento!

- Neste caso sei de uma habitação, onde podes morar e fumar como o Xá-in-Xá da Pérsia. Queres que te conduza até lá?

- Sim, quero ver a casa!

O homem fez meia volta e saiu caminhando em nossa frente. Nós o seguimos. Conduziu-nos através de ruas comerciais, cujos estabelecimentos estavam quase completamente vazios de mercadorias, até chegarmos diante de uma pequena praça.

- Esta é a Meadin juedschelikue. - “Praça Grande!” - declarou-me.

Aquele logradouro poderia possuir todos os requisitos para o fim a que se destinava, mas não era “grande”, conforme dizia o seu nome espalhafatoso. Percebia-se logo que estávamos numa cidade turca, pois pela praça perambulavam numerosas matilhas de cães vadios. Ao avistarem o meu lindo galgo, todos se fizeram ouvir em latidos ensurdecedores, mas o “Dojan” qual o Paxá diante de um bando de mendigos, não lhes deu a menor atenção.

- E ali está a casa a que me referi. - acrescentou o Agha.

Indicou um edifício que tomava quase toda a face anterior da praça, e que apresentava

___________

(1) Pessoa vulgar.

(2) Gorjetas.

 

um aspecto externo nada mau. Tinha várias pengascheris (1) na frente, providas de grades de madeira e por sobre a sotéia havia um passadiço, o que era um grande luxo para a terra onde nos encontrávamos.

- Quem mora nesta casa? - perguntei-lhe.

- Eu mesmo, Efêndi - respondeu-me.

- E a quem pertence?

- A mim.

- Adquiriste-a por compra ou alugaste-a?

- Nem uma nem outra cousa. Fora em tempos remotos propriedade do célebre Ismaiil Paxá e depois de sua morte ficou sem dono até eu tomar posse dela. Vem, vou mostrar-te todas as dependências!

Aquele denodado comandante geral dos Arnautes estava realmente ávido pelos meus backschisch. Mas com isso muito me alegrava eu, visto que por seu intermédio viria talvez obter todas as informações de que precisava. Apeamos diante da casa e entramos. À entrada achava-se de cócoras uma mulher velha, que descascava cebolas e que com os olhos rasos de lágrimas, mastigava as cascas. Pela sua aparência deveria ser ou a bisavó do judeu errante ou alguma tia de Matusalém que a morte vinha poupando através dos séculos.

- Ouve-me, minha doce Mersinah, aqui te trago uns homens! - disse-lhe o comandante com inflexão carinhosa na voz.

De tão lacrimosa, ela não nos podia enxergar; esfregou os olhos com a própria cebola que tinha na mão, de modo que as lágrimas aumentaram ainda mais.

- Homens? - perguntou ela com voz que soava cavernosa na sua boca desdentada.

- Sim, homens que vão morar nesta casa.

Largou a cebola no chão e ergueu-se do solo com rapidez  juvenil.

- Morar? Nesta casa? Estás doido, Agha Selim?

- É o que estou dizendo, minha querida Mersinah, tu serás a Meichandscha (2) desses homens e os servirás com carinho e solicitude!

- Hospedeira? Servi-los? Allah kerihm. Realmente ficaste doido! Não vês que trabalho dia e noite e mal dou conta dos serviços que a tua manutenção me exige?! Enxota já esses homens, corre com eles da minha frente! Ordeno-te e não ousarás desobedecer-me!

O militar ficou um pouco contrafeito, o que não pôde dissimular. A sua “doce Mersinah” parecia empunhar nesta casa um cetro formidável.

- Não terás acréscimos de serviço, minha pombinha. Vou contratar uma kyzla (3) para servi-los.

- Uma kyzla? Agora a voz não ressoava mais cavernosamente, mas num agudo irritante, como se o bicho da “pombinha” se houvesse transformado numa palhêta de clarinete. - Uma kyzla! É por certo uma jovem e bonita kyzla, hein?

- Isto depende dos meus hóspedes, Mersinah!

Ela pôs as mãos nos quadris, movimento usado tanto no Oriente como no Ocidente, e tomou profunda inspiração. Aquilo queria dizer que ela precisaria de uma boa reserva de fôlego para melhor expressar o seu poderio dominador.

__________

(1) Janelas.

(2) Hospedeira.     

(3) Serviçal.

 

- Depende desses homens? Depende de mim! Aqui sou eu a Senhora da casa! Aqui só eu é que mando! Aqui só eu é que ordeno o que se deve fazer ou deixar de fazer! Repito-te a minha ordem: Corre imediatamente com estes homens daqui! Estás ouvindo Agha Selim? Rua, rua com eles!

- Mas não são uns homens, minha querida, minha doce Mersinah!

Mersinah, que significa murta, enxugou novamente os olhos e ficou a contemplar-nos com mais atenção. Eu próprio me espantara da afirmativa feita pelo Agha. Se não éramos homens, que éramos então?!

- Não são homens?

- Não - respondeu ele. - São Efêndis grandes Efêndis que se acham debaixo da égide do Grão Senhor.

- Que tenho eu com o Grão Senhor! Aqui sou eu a Grã Senhora, a Sultana Balide, aquilo que eu disser se...

- Mas, calma Mersinah! Eles te darão uma boa quantidade de backschisch!

Basckschisch possui no Oriente uma atração irresistível; também na presente situação parecia ser a pedra filosofal. A “murta” deixou cair os braços em posição normal, tentou um sorriso à guisa de prelúdio, sorriso, porém, que era mais um grunhido, e dirigiu-se a David Lindsay:

- Vão me dar uma grande quantidade de backschisch? É verdade?

O interrogado meneou a cabeça e apontou para mim.

- Que tem esse homem? - perguntou-me ela. - É algum doente?

- Não - respondi-lhe. - Deixa que eu te diga quem somos, oh alma desta casa! Este homem ao qual acabas de fazer a pergunta, é um fervoroso peregrino de Londristão; com a enchada que carrega consigo, escava a terra para ouvir a palavra dos mortos e fêz um voto de fé: não falar uma só palavra, sem que para isso obtenha permissão.

- Um devoto, um santo, um feiticeiro? - perguntou, tomada de pavor.

- Justamente! Advirto-te que não o ofendas! Este outro aqui, é o regente de um grande povo que habita o longínquo ocidente e eu sou um Emir dos guerreiros que admiram as mulheres e distribuem backsbischs. És a Sultana desta casa. Permite-nos que a examine para ver se há acomodações suficientes para morarmos nela alguns dias!

- Efêndi, tuas palavras possuem o perfume da rosa e do cravo; tua boca é mais sábia e diligente que o focinho desse esquálido Agha Selim, que nem sabe exprimir o que deseja dizer e a tua mão é como a mão do Alá que distribui bênçãos a todos os mortais! Viajas na companhia de muitos criados?

- Não. Os nossos braços são bastante vigorosos para nos defendermos a nós mesmos. Viajamos acompanhados apenas por três serviçais: um criado efetivo, um Khawass do Mutessarif de Mossul e um curdo que ainda hoje deixará Amadijah, de volta para a sua aldeia.

- Sejam todos bem-vindos, Senhores! Examinem a minha casa e o meu jardim; se se agradarem de tudo, os meus olhos os vigiarão e iluminarão a existência feliz que aqui haveis de levar!

 

APROXIMANDO-SE DO OBJETIVO

Limpou novamente os olhos “vigilantes” e “luminosos” e juntou as cebolas do chão, a fim de desimpedir o caminho para a nossa passagem. O valente Agha dos Arnautes pareceu sentir-se felicíssimo com o novo rumo que tomara a questão. Primeiramente ele guiou-nos a uma sala que lhe servia de aposento. Era espaçosa, mas como mobiliário tinha apenas um velho tapete no chão, também usado como sofá, cama, cadeira e mesa. Dependuradas nas paredes viam-se algumas armas e diversos cachimbos. No assoalho havia uma garrafa bojuda, rodeada de numerosas cascas de ovos.

- Apresento-lhes as minhas boas vindas, no meu aposento - exclamou o comandante. - Bebamos agora à nossa saúde e à nossa imorredoura amizade!

Baixou-se, a fim de agarrar a garrafa e as cascas de ovos. Destas deu uma a cada um de nós, enchendo-as em seguida. Era Raki o que nos oferecera. Bebemos nas taças improvisadas, ao passo que o comandante servira-se do gargalo da própria garrafa. Não o retirou da boca, até que adquiriu a tranqüilizadora convicção de que a bebida forte e bastante sulfúrica que continha a citada garrafa, não lhe poderia produzir mais revoluções gástricas, em virtude de estar... vazia! Em seguida pegou nas cascas de ovos que lhe alcançáramos e, depois de sorver o pouco que ainda nelas deixáramos, as depôs cuidadosamente no chão.

- Kendim idschad eter. - Minha própria invenção! - declarou cheio de orgulho. - Admiram-se de que não uso copos?

- Não. É evidente que, a eles, preferirás a tua invenção - respondi-lhe.

- Prefiro-a sim, mas pela razão de não possuir copos. Sou o Agha dos albaneses e percebo de soldo e subvenção a importância mensal de trezentos e trinta piastras; mas já há onze mezes que estou com os meus vencimentos em atraso. Allah kerim; Padixá kendisi onu kullar. Deus é bondoso e o sultão precisa mesmo de dinheiro!

Em vista daquela revelação, não era de admirar que a palavra backschisch tivesse um tal prestígio naquela cidade!

Mostrou-nos todos os compartimentos da casa. Era muito espaçosa mas estava condenada também à ruina, como todas as edificações da cidade. Tomamos quatro aposentos, um para cada um de nós e outro para Halef e o Baschi Bozuk. O aluguel era baratíssimo, cada aposento cinco piastras por semana, o que correspondia a um marco alemão.

- Querem ver o jardim? - perguntou o Agha depois.

- Naturalmente. Está bem cuidado?

- Muito bem! Até parece o jardim do Éden! Nele erguem-se e vicejam todas as qualidades de árvores, verduras, flores e gramados como ainda não vi iguais na minha vida. Durante o dia é todo iluminado pelo sol e à noite ele recebe o brilho de milhares de estrelas que recamam a abóboda celeste. É lindo, extraordinariamente lindo, o meu jardim!

- E também não chove sobre ele? - perguntei.

- Quando vem chuva, o jardim recebe também o seu quinhão dágua; às vezes até a neve resolve fazer-lhe uma visita. Venham e contemplem o meu poético jardim!

No pátio havia um galpão que alugamos para os cavalos. Também o aluguel era de um marco, isto é, de cinco piastras. O jardim estava situado dentro de uma área de quarenta passos quadrados, sendo, pois, muito pequeno. Nele erguia-se um cipreste desgalhado e um pé de macieira silvestre. As “qualidades de verduras, flores e gramados” a que ele se referia, compunham-se de alguns kendir (1), umas moitas de madanas (2) e alguns pés de margaridas, prestes a definhar. A maior maravilha do jardim, porém, era um canteiro onde em cordialíssima promiscuidade floresciam diversos pés de soghani (3), sarmysack (4), kedilan (5) algumas uvas do mato, diversos cogumelos e alguns pés de violetas. Floresciam, mas devido à falta de água começavam já a definhar.

- Bir guezel bagtsche - Um lindo jardim! Não achas? - perguntou o Agha, soltando uma densa baforada do cachimbo.

- Guezel-zorli. - Estupendamente lindo! - respondi-lhe.

- Pek bereketli! - É fértil!

- Ghajet rebeketli! - Fertilíssimo!

- Ile tschok guezel dikekler. - E repleto de plantações! Não é?

- Sim e plantações raríssimas!

- Sabe quem já possuiu este jardim florido?

- Quem?

- A mais linda rosa dos curdos. Nunca ouviste falar de Khan Esma, cuja beleza mulher nenhuma ainda superou?

- Ouvi falar sim. Não era a mulher de Paxá Ismaiil, o único filho, morgado do califa dos Abassidas?

- Justamente. Ela adotara o título honorífico de Khan, como todas as mulheres de sua família iluminada. O Paxá Ismaiil foi sitiado pelo Paxá Indsche Bairakder Mohammed; este destruiu as muralhas que cercavam o castelo e tomou-o de assalto. Em seguida prendeu Ismaiii com a Khan Esma e levou-os, algemados, para Bagdad. Pois neste jardim viveu aquela encantadora mulher, a espalhar o perfume de sua beleza. Emir, eu quisera que ela ainda estivesse aqui!

- Foi também a Khan Esma quem plantou essas salsas e aqueles alhos?

- Não - respondeu ele meio agastado com a pergunta. - Foram plantadas pela minha governanta.

- Então dá graças a Alá por ainda teres essa Mersinah no lugar de Khan Esma!

- Efêndi, esta às vezes se torna muito áspera!

- Não deves queixar-te disso, visto que Alá distribui os dons de várias modalidades... E no livro achava-se também escrito que terias de aspirar o perfume da “Murta”.

- Sim, neste ponto tens razão! Mas, dize-me, Emir, não queres alugar também este jardim?

- Quanto pedes pelo aluguel?

- Dá-me dez piastras por semana e todos poderão passear pelo jardim e gozar quanto quiserdes sem pagamento de quaisquer outras contribuições especiais, das doces recordações de Khan Esma!

____________

(1) Cânhamo.

(2) Salsa.

(3) Cebolas.

(4) Alho.

(5) Alfavaca.

 

Hesitei em responder. O jardim era contíguo à parede amuralhada de um edifício, na qual havia uma grande fila de seteiras, por onde penetrava o ar no interior deste. Aquele tinha um aspecto de presídio. Resolvi informar-me a respeito.

- Creio que não alugarei este jardim.

- Por que não?

- Aquela parede, que é uma verdadeira muralha, não me agrada.

- Aquela parede? Por que Efêndi?

- Não me agrada espairecer nas proximidades de uma prisão.

- Oh! Mas os presidiários que ali estão recolhidos, não te incomodarão em nada. As paredes são tão espessas que eles não conseguirão passar o braço pelas seteiras.

- É aquela a única prisão de Amadijah?

- Sim. A outra desmoronou. O meu Tschausch (1) é o encarregado da vigilância aos prisioneiros.

- E achas que estes não me incomodarão?

- Não verás um só deles e nem lhes ouvirás nem uma só silaba.

- Nesse caso, aceito o arrendamento por dez piastras semanais. Tens, portanto, uma féria de trinta e cinco piastras por semana, proveniente dos nossos alugueis. Permite-me que eu pague adiantadamente a primeira semana!

Em face dessa minha oferta, ele grunhia de satisfação. O inglês notou que eu punha a mão no bolso, a fim de pagar. Meneou negativamente a cabeça para mim, tirou do bolso a sua carteira e a colocou em minha mão. O displicente companheiro estava em condições de sofrer uma pequena sangria na mesma, por isso dela tirei três Mahub-Zechines e dei-as ao Agha.

- Aí tens as trinta e cinco piastras. O troco fica de backschisch para ti.

Aquela importância era mais do que o dobro da que ele tinha a receber; por isso mostrou-se satisfeitíssimo e disse em tom de profundo respeito:

- Emir, no Kuran reza: Quem dá o dobro será abençoado cem vezes por Alá! Alá constituiu-se agora teu devedor e te pagará com abundância e generosidade!

- Bem, agora necessitamos de tapetes para mobiliar nossos quartos e de alguns cachimbos para fumar. Onde se podem conseguir estes últimos, por empréstimo, Agha? - perguntei-lhe.

- Senhor, se me deres mais duas dessas peças de ouro, obterás tudo que teu coração anseia.

- Aqui as tens.

- Vou correndo para trazer-te tudo!

Deixamos o jardim. No pátio achava-se Mersinah, a alma do palácio. Suas mãos estavam agora pretas de ferrugem. Mexia com o indicador numa latinha oxidada, cheia de manteiga derretida.

- Emir, alugarás os quartos? - perguntou-me a governanta.

A essa pergunta ela apercebeu-se de que o seu dedo não fazia parte integrante da lata, puxou-o rapidamente para fora e limpou-o com a língua.

- Ficarei com todos eles e também com o galpão e o jardim.

- Ele até já pagou os alugueis adiantadamente, observou o Agha, sublinhando a última palavra.

- Em quanto importou o pagamento?

_____________

(1) Sargento.

 

- Recebi dele trinta e cinco piastras, o equivalente de uma semana de aluguel.

Da gorjeta, o Agha não falou. Estaria também nesse particular debaixo do paputsch (1) de sua “murta”? Tirei mais uma mahbub-zochine (2) do bolso e dei a ela.

- Aceita esse presente, tu, pérola da hospitalidade! Já é a primeira backschisch que te dou. Se ficarmos satisfeitos contigo, receberás ainda mais.

Ela pegou na moeda com avidez e a pôs ligeiro num bolso do cinto.

- Muito obrigada, Senhor! Vigiarei dia e noite para que te sintas tão bem aqui como se estivesses no seio do patriarca Ibraim (3). Agora vejo que realmente pertences àqueles guerreiros nobres que admiram as mulheres e as presenteiam com backschisch! Vai para o teu quarto, Emir! Vou fazer-te um pirindsch coberto com muita manteiga.

- A tua bondade é grande - respondi-lhe. - Mas não temos tempo de aceitá-la, pois precisamos sair já.

- Mas desejas que eu prepare a comida, não é assim, Emir?

- Disseste que precisavas trabalhar dia e noite para atender unicamente o Agha; logo não devemos ainda importunar-te. Além disso, é de se esperar que sejamos convidados muitas vezes para jantar ou almoçar fora, e se isso não suceder, mandaremos buscar os nossos alimentos nalgum jemegidschi (4).

- Mas não devem recusar a refeição de honra que agora pretendo servir.

- Bom, então aceitamos alguns ovos quentes. Outro alimento não poderemos tomar hoje.

Era a única cousa que se poderia comer, feita pelas mãos pouco asseadas daquela “murta”.

- Ovos? Vou esquentá-los já, Sídi; mas peço que poupem as cascas que o Agha utiliza depois para taças e que ele, em geral, quando toma ovos tem a imprevidência de quebrar irrefletidamente.

Recolhemo-nos por alguns instantes aos nossos aposentos e o Agha veio logo trazendo os cobertores, os tapetes e os cachimbos que tomara por empréstimo a algum negociante. Eram novos e por isso podíamos ficar descançados quanto à limpeza dos mesmos. Em seguida chegou Mersinah trazendo a tampa de um velho caixão de madeira, à guisa de bandeja. Sobre a tampa estavam os ovos que constituiriam a refeição de honra que ela ia oferecer-nos. Ao lado destes um bolo meio queimado e também a celebérrima latinha com manteiga derretida, onde ela há pouco estivera remexendo com o indicador, rodeada de algumas cascas de ovos, contendo sal bastante sujo, pimenta socada e umas ervas doces de procedência duvidosa. Talheres apropriados para tomar os ovos é claro, não acompanhavam a “bandeja”.

A refeição de honra com que éramos recebidos e para a qual, num gesto de cortesia, convidáramos Mersinah, terminou dentro de pouco tempo. Ela agradeceu gentilmente a distinção, aliás, nunca esperada por ela, com que a cumuláramos, agarrou novamente no “aparelho de jantar” e com ele voltou para a cozinha. Também o Agha levantou-se.

- Sabes, Senhor, aonde irei agora? - perguntou-me ele.

- Só se me disseres!

_______________

(1) Tamanco.

(2) Mais ou menos cinco marcos.

(3 ) Abraão.

(4) Hotel.

 

- À casa do Mutesselim. Ele vai saber quanto vale um Emir distinto e também quanto lhe custará o modo brusco e indelicado com que te recebeu o guardião do palácio.

Recompôs o seu semblante, limpando do bigode o resto de manteiga que juntamente com Mersinah saboreara toda, e partiu. Agora estávamos sós.

- Posso falar, Sir? - perguntou-me Lindsay.

- Sim, mister.

- Vamos comprar a roupa.

- Agora?

- Sim, agora.

- Vermelho xadrezado?

- Naturalmente!

- Então vamos ao bazar.

- Mas não devo falar. O senhor fará a compra, sir. Aqui, o dinheiro.

- Compraremos apenas roupa?

- Que mais?

- Algumas baixelas, de que precisamos, umas para nós e outras para presentearmos, por medida de prudência ao Agha e à sua governanta. Também algum fumo, café e outras coisas necessárias.

- Well! Pagarei tudo!

- Servir-nos-emos, por enquanto, de sua bolsa, mas depois ajustaremos contas.

- Psiu! Pagarei tudo! Assunto resolvido!

- Irei junto? - perguntou Maomé.

- Como quiseres. Mas acho que seria melhor apareceres o menos possível em público. Em Spandareh já te reconheceram como um Haddedihn e, além disso, o teu filho é muito parecido contigo, o que também me assegurou o decano daquela aldeia.

- Pois ficarei!

Acendemos os nossos Tschibuks e nos fomos. A entrada da casa estava envolta em densas nuvens de fumaça e na cozinha tossia a “Murta”. Quando nos viu sair, chegou por um instante na frente.

- Onde está a nossa gente? - perguntei-lhe.

- Junto dos cavalos. Vais sair?

- Vamos ao bazar fazer algumas compras. Não queremos interromper-te, oh guardiã da cozinha! Olhe a caldeira! Está a ferver; a água corre por cima!

Deixa correr, Senhor! Deste ou daquele modo, a comida ficará pronta.

- A comida? Cozinhas naquela caldeira?

- Sim.

- Só para ti e para o Agha?

- Não.Tenho que cozinhar também para os presos.

- Ah! Os que estão recolhidos no edifício contíguo?

- Para esses mesmos.

- Há muitos desses infelizes na prisão?

- Não chegam a vinte.

- São todos de Amadijah?

- Não. Há entre eles diversos soldados Arnautes desertores, alguns caldeus, um curdo, um casal de Amadijah e por fim um árabe.

- Um árabe? Mas não há dessa gente em Amadijah!

- Aquele foi trazido preso de Mossul.

- Que alimentos distribuis aos prisioneiros?

- Pão, que é cozido por mim mesma, e, pela manhã ou à noite, conforme a minha disposição, esta comida quente que estou preparando.

- Que comida é?

- Água engrossada com farinha.

- E quem leva as refeições?

- Eu mesma. O sargento abre os cubículos e assiste à distribuição. Já viste um presídio, Emir?

- Ainda não.

- Pois se quiseres ver agora, vem comigo!

- O sargento não o permitiria!

- Por que não? Aqui, sou a Grã Senhora, e todos se curvam às minhas ordens.

- Mas também és Grã Senhora do sargento?

- Claro, não sou eu a protetora e Grã Senhora do Agha?

- Sim, isto é verdade! Vou refletir ainda. Não sei se condiz com a dignidade de um Emir visitar uma prisão e cumular aquele que permitiu tal visita de alguns backschisch.

- Condiz, sim, Efêndi. Fica até muito bem! Talvez que derrames a tua bondade sobre os presidiários, para que eles possam comprar-me alguns alimentos especiais, e fumo, que os infelizes nunca têm.

Nada mais me podia ser tão auspicioso do que as informações que agora acabava de obter; tive, porém, a precaução de não fazer mais perguntas, pois isso talvez viesse a despertar suspeitas. Halef, o Buluk Emini e o curdo, de Spandareh foram chamados, a fim de acompanhar-nos. Em seguida nos fomos.

 

UM “EMPRÉSTIMO” SINGULAR

O comércio da cidade achava-se paralizadíssimo. A muito custo encontramos um Café, onde nos foi servida tal bebida, a qual tinha um paladar semelhante à cevada queimada. Nesse estabelecimento disseram-nos a causa da falta de movimento em Amadijah. Não obstante as alterosas e arejadas montanhas de que está rodeada, a cidade é muito insalubre e, no começo da estação estival, nela grassa, em caráter endêmico, a febre lenta. Por essa época, a população mais abastada e também a que constitui as classes médias, procura as matas das redondezas, onde se instalam em suas casas de verão, a que chamam lilaks.

Depois de havermos tomado café e enchido novamente os nossos cachimbos, encaminhamo-nos para a loja de vestuários. O dono do Café nos indicara um estabelecimento, no qual poderíamos adquirir tudo de que precisávamos. O negócio foi realizado na presença do suposto mudo inglês e com a sua aprovação tácita. Ele recebeu um traje completo, com xadrezes pretos e vermelhos, por um preço relativamente barato. A seguir compramos os outros objetos e os mandamos para casa pelo criado. Presenteamos o curdo com uma bolsa de fumo enfeitada de pérolas, objeto que ele colocou à cinta ostensivamente para que desse logo na vista de todos não ser ele uma personalidade vulgar.

A seguir, e acompanhado apenas pelo inglês, fui dar um passeio pela cidade, com o fim de conhecê-la melhor. Nesse passeio convenci-me ainda mais de que aquela praça de guerra fronteiriça, outrora de uma importância capital e à qual ainda hoje os turcos não consideravam depreciativamente, poderia ser facilmente tomada e ocupada, de surpresa, por algumas centenas de guerreiros curdos de iniciativa e empreendimento. Os poucos soldados que encontrávamos tinham um aspecto faminto e doentio. Em sua maior parte estavam atacados pela febre endêmica. Também as armas de defesa, devido ao seu péssimo estado de conservação, não mereciam mais tal nome.

- Quando voltamos, o Agha já estava à minha espera.

- Emir, estou já há algum tempo aguardando tua volta.

- Para quê?

- Para levar-te à presença do Mutesselim.

- Levar-me? - perguntei a sorrir e sublinhando a frase.

- Levar propriamente, não, acompanhá-lo! Relatei-lhe tudo e encostei meus punhos cerrados no queixo do guardião do palácio. Alá o protege, pois do contrário eu o teria morto, estrangulado!

Ao dizer isso revirou os olhos e encolheu os dez dedos das mãos em tenazes.

- Que disse o comandante?

- Emir, queres que eu te fale a verdade?

- Espero que não procederás de outro modo.

- Ele não está nada satisfeito com a tua visita!

- Ah! Por quê?

- Não estima os forasteiros e muito raramente recebe visitas.

- É algum ermitão?

- Não é isso. O comandante desta praça recebe, com moradia livre, seis mil setecentas e oitenta piastras de vencimentos mensais e com ele ocorre a mesma coisa que comigo: há onze meses que não recebe soldo algum e nem sabe o que há de comer e beber. A miséria é grande. E nessa circunstância poderá ele alegrar-se com uma visita de destaque?

- Mas quero apenas vê-lo e com ele palestrar; não pretendo jantar ou almoçar na sua companhia e à sua custa, não!

- Impossível! A alta dignidade de tuas funções e principalmente em se tratando de um Efêndi de destaque como tu, obriga-lhe a fazer-te uma recepção brilhante. E, em vista disso, ele se viu na iminência de... de...

Parou um tanto contrafeito.

- De que, homem?

- De chamar ao palácio os judeus aqui residentes, a fim de pedir-lhes quinhentas piastras de empréstimo, importância necessária para custear a tua recepção.

- E obteve o empréstimo?

- Allah illa Allah; os judeus não tinham mais dinheiro algum, porque o comandante dias antes deixara-os sem um vintém, em conseqüência de um empréstimo idêntico que lhes fêz. Agora, porém, ele pediu um carneiro e o mais que é necessário, emprestados. E essa situação é grave, gravíssima mesmo, Emir, principalmente para mim.

- Como para ti?

- Porque terei de lhe emprestar essas quinhentas piastras. E a não ser que...

- ... que sejas...

- Mas fala, Agha!

- ... rico. Oh, Emir, eu mesmo não teria uma única moeda, se não me tivesse dado hoje aquele dinheiro! E dele ainda fui obrigado a dar trinta e cinco piastras a Mersinah!

Emprestar, para minha recepção, quinhentas piastras ao Mutesselim era o mesmo que dá-las de presente. Convertidas em moeda alemã, importava mais ou menos em cem marcos. Em conseqüência do dinheiro que eu achara nos animais do Albu Seif não me achava sem recursos e a benevolência do Mutesselim seria talvez de incalculáveis vantagens para o nosso propósito. Achava-me, pois, em condições de dar ao comandante aquelas quinhentas piastras, o mesmo ocorrendo em relação ao inefável mister Lindsay, para quem tal importância era uma ninharia, sobretudo em se tratando de viver uma aventura emocionante. Em vista disso dirigi-me ao quarto do inglês, enquanto o Agha me esperava.

Sir David achava-se atarefado em mudar de roupa. A sua fisionomia comprida resplandecia de contentamento.

- Mister, que tal o meu aspecto agora? - perguntou-me.

- Verdadeiramente curdo!

- Well! Muito bem, muito bem! Ótimo!

- Mas como enrolar o turbante?

- Dê-me cá essa coisa!

Nunca o inglês tivera um turbante nas mãos. Pus-lhe a carapuça na cabeça calva, e enrolei com arte e gosto o lenço axadrezado de preto e vermelho em volta do mesmo. Deste modo consegui formar um dos vistosos turbantes usados naquelas paragens por pessoas de destaque. Esses turbantes chegam a ter muitas vezes um diâmetro de quatro pés.

- Bem, eis aí um Grande Khan autêntico!

- Excelente! Grandioso! Bela aventura! Libertar Amad el Ghandur! Pago tudo! Pago muito bem!

- Está falando a sério, sir?

- Por que não?

- Sei que é um homem abastado e que sabe aplicar na devida forma a sua fortuna!

- Quer algum dinheiro?

- Quero! - respondi-lhe, simplesmente.

- Well! Será atendido! Para o senhor?

- Não. Acho que me conhece bem, neste ponto!

- Claro. Sei que não costuma pedir dinheiro a ninguém. Mas para quem?

- Para o Mutesselim.

- Hum! Por quê? Para quê?

- Aquele homem é paupérrimo. O Sultão está a dever-lhe onze meses de vencimentos. Por esse motivo, vem aplicando o sistema adotado por todo o funcionário público turco, sugando bastante a população local. Atualmente ninguém na cidade dispõe mais de dinheiro e, portanto nada lhe podem emprestar. A minha visita veio por isso trazer-lhe sérios embaraços. Ele está obrigado a fazer-me uma recepção oficial e não dispõe de meios para isso. Pediu então um carneiro e outros comestíveis e bebidas por empréstimo, mandando perguntar-me, veladamente, é verdade, se eu era bastante rico para emprestar-lhe quinhentas piastras. Essa transação, está visto, é caracteristicamente turca e não se pode contar com a restituição daquela quantia... Como, porém, é de muita necessidade para nós conquistarmos as suas boas graças, resolvi...

O inglês interrompeu-me, fazendo um rápido movimento com a mão.

- Bom, o senhor lhe mandará uma nota de cem libras esterlinas!

- É muito, Sir! Ao câmbio de Constantinopla importaria isso em onze mil piastras! Quero enviar-lhe apenas quinhentas piastras e peço-lhe que lhe mande também outras quinhentas! Isso o satisfará plenamente.

- Mil piastras! Ninharia! Presenteei muitas vezes a xeques árabes com vestuários de pura seda! Eu quisera ver o Mutesselim. Se me permitir, entrarei com a importância toda! O senhor ficará com o seu dinheiro!

- Concordo!

- Recomende então a Agha que prepare tudo!

- Preparar o quê?

- Presentes. Compraremos muitos para distribuir pelo caminho! Faremos gastos! Nos presentes ao Mutesselin incluiremos o dinheiro!

- Mas não demais, sir!

- Quanto? Cinco mil piastras?

- Manda as mil! Ou então, quando muito, duas mil. É o bastante!

- Well! Duas mil! Combinado!

Voltei para junto do Agha Selim.

- Dize ao comandante que o visitarei na companhia de um dos meus camaradas!

- Quando?

- Daqui a pouco.

- O teu nome ele já o conhece; e o do outro?

- Bei Hadschi Lindsay.

- Bei Hadschi Lindsay. Bom! E as piastras, Emir?

- Pedimos-lhe permissão para levar-lhe um presente!

- Neste caso, obriga-lo-ás a dar-te também um!

- Não somos pobres, não! Temos tudo de que precisamos e para nós será motivo de grande alegria, se ele não nos der presente algum. Com isso conquistará até a nossa gratidão! Dize-lhe isso!

O Agha retirou-se consolado e satisfeito.

Cinco minutos após eu e o inglês montávamos a cavalo; recomendei-lhe muito que não dissesse uma só palavra durante a audiência, nem pelo caminho. Halef e o Buluk acompanharam-nos. O curdo voltou para Spandareh com o vestuário e com muitas lembranças nossas ao decano. Paramos numa loja, onde adquirimos tecidos bordados para um traje de gala, bem como uma finíssima bolsa na qual Sir David pôs vinte peças de ouro, de cem piastras cada uma. Nesse particular o inglês não era absolutamente mesquinho; isso teve ocasião de provar por diversas vezes, sempre com vantagens para mim.

 

 

COM O MUTESSELIM

Fomos em direção ao palácio do comandante da praça. Diante do mesmo, achava-se uma tropa de duzentos homens, em parada, conduzida por dois Mulasins e sob o comando geral do nosso valente Agha Selim. Este puxou a espada e comandou:

- Ajakda duryn dykkatli! Em linha!

Os soldados envidaram todos os esforços para obedecerem à voz de comando, mas a formatura constituía uma linha toda serpenteada que no fim se assemelhava à cauda de um ofídio.

- Tschalghy! Islik tscharyn: - Música! Apito!

Três flautas tocavam, acompanhadas de um tambor turco que se parecia com a batida num bule de folha para café.

- Daha gioer! Kuwetlirek! Mais alto, mais vibrante!

O comandante da parada fazia toda sorte de trejeitos, no que era seguido pelos músicos. Enquanto se realizava a guarda de honra, distinção que muito nos desvanecia, galopamos pela frente da formatura e fomos apear defronte do palácio. Os dois tenentes cavalgaram até nós e seguraram os loros de nossos estribos para apearmos. Levei a mão ao bolso, tirei duas moedas de prata, no valor de dez piastras, e apertei-as nas mãos dos dois. Meteram-nas, satisfeitos, no bolso sem se sentirem chocados na sua honra de militar. Os oficiais subalternos turcos, principalmente em guarnições longínquas, prestam-se a ser considerados como tais.

Ao Agha entreguei a fazenda e a bolsa com as vinte moedas.

- Anuncia-nos ao comandante e entrega-lhe esse presente de nossa parte!

O oficial encaminhou-se solenemente para o interior do palácio e nós o seguimos. No portão estava o guardião do palácio. Recebeu-nos de modo diferente do da primeira vez. Cruzou os braços sobre o peito, inclinou-se profundamente e balbuciou com humildade:

- Bendeniz ei oepir; aghamin size selami wer. O vosso criado beija-vos as mãos! O meu Senhor envia-vos os seus respeitos!

Passei por ele sem lhe responder, e Lindsay também fêz como se nem o tivesse notado. Confesso que o porte do nosso mister escavador de “touros alados”, não obstante as cores berrantes do seu traje, causava boa impressão. A vestimenta sentava-lhe como se a houvessem talhado para ele; ser inglês e além disso possuir a fama de um homem rico eram elementos que lhe garantiam, aqui neste país, a segurança individual.

O guardião, não obstante o solene desprezo que lhe dedicamos, correu à nossa frente e conduziu-nos a um compartimento que servia de sala de espera. Ali estavam os funcionários do Comandante da praça sentados sobre pobres tapetes. Ao chegarmos, levantaram-se e cumprimentaram-nos respeitosamente. Eram em sua maioria turcos, havendo também alguns curdos entre eles. Os últimos, pelo menos quanto ao seu aspecto exterior, causavam melhor impressão do que os primeiros, que pareciam achar-se em péssima situação econômica. Diante de uma janela, achava-se parado um curdo, no qual se reconhecia à primeira vista o montanhês livre. Olhava impaciente e sombriamente para a rua. Um dos turcos aproximou-se de mim:

- És o Emir Hadschi Kara Ben Nemsi, que o Mutesselim espera?

- Sou eu mesmo.

- E esse Efêndi é o Bei Hadschi Lindsay, que fêz uma profissão de fé para não falar?

- É êle mesmo.

- Eu sou o Basch Kiatib (1) do comandante. Ele pede que esperes um momento.

- Para quê? Não estou habituado a esperar e ele estava avisado de minha chegada!

- Está numa importante conferência que não deve demorar.

Pude logo imaginar de que se tratava a conferência importante. Daí a minutos um criado saiu correndo do gabinete do comandante e embarafustou-se noutro compartimento, para voltar em seguida, trazendo dois tubos sem tampa. Um deles continha fumo e o outro grãos de café torrados. O comandante mandara adquirir aqueles artigos, somente depois de haver recebido o nosso presente. Antes da volta do criado, o Agha saiu do gabinete do Mutesselim.

- Desculpa, Efêndi, um momento só! Serás imediatamente recebido.

Nisso vira-se para ele o curdo que estava parado defronte à janela.

- E quando tocará finalmente a minha vez?

- Serás recebido ainda hoje, pelo comandante!

- Ainda hoje? Cheguei aqui muito antes desses Efêndis e de todos os demais que aqui estão. O assunto que me trouxe aqui é urgente e preciso partir ainda hoje!

Selim revirou os olhos.

- Esses Efêndis, um é Emir e o outro, Bei, ao passo que tu és um curdo. Depois deles é que serás recebido.

- Tenho o mesmo direito que eles, visto ser o enviado dum homem valente que também é Bei!

Agradava-me imensamente a atitude livre e desassombrada daquele curdo, muito embora a sua reclamação diretamente me afetasse. O Agha, porém, mostrou-se encolerizado com ela, pois começou a revolver novamente os olhos e respondeu enérgico:

- A tua chegará mais tarde ou talvez nunca. E se isso não te agradar, vai-te embora! Tu nem sequer possuis o elemento principal, para chegar diante dum vulto proeminente, como é o comandante da praça de Amadijah.

Ah, percebi! O curdo esquecera-se do “elemento principal” que era o backschisch. Não se intimidou com a resposta, mas retrucou:

- Sabes qual é esse elemento principal para um curdo de Bervari? Esta espada, fica sabendo!

Dito isto, bateu no cabo da espada e continuou:

- Quer experimentá-la? Fui enviado pelo Bei de Gumri e para ele é uma ofensa estar eu sendo sempre preterido na audiência; o Bei saberá como proceder daqui por diante! Retiro-me.

- Não te retires - exclamei.

O curdo achava-se já no batente da porta. O Bei, a que ele se referiu, seria o mesmo ao qual vinha eu recomendado pelo decano de Spandareh? Neste caso seria uma excelente oportunidade de me anunciar com vantagens ao mesmo!

- Quem és? - perguntou-me asperamente.

___________

(1) Escrivão.

 

Acerquei-me dele e estendi-lhe a mão, dizendo:

- Quero saudar-te porque seria o mesmo que saudar o teu Bei.

- Tu o conheces?

- Nunca o vi, mas falaram-me muito a seu respeito. É um guerreiro denodado, que merece a minha simpatia e admiração. Queres ter a fineza de transmitir-lhe um recado meu?

- Se me fôr possível, por que não?

- É possível, sim. Em primeiro lugar vou provar-te que aprecio o teu Bei. Serás recebido pelo Mutesselim antes de mim.

- Estás falando sério?

- Nunca se fazem pilhérias com um valente curdo.

- Estás ouvindo? - perguntou o meu interlocutor, dirigindo-se a Agha. - Este Emir, forasteiro aqui, sabe o que é cortesia e atenção. E um curdo também sabe corresponder na devida forma!

E dirigindo-se novamente a mim:

- Senhor, agradeço-te a concessão; basta a tua boa vontade que me alegrou sobremodo o coração! Esperarei tranqüilamente até terminares a tua conferência com o Mutesselim.

Agora foi ele que me estendeu a mão. Correspondendo ao aperto, respondi-lhe:

- Aceito a tua gentileza, porque, aliás, sei que não esperarás muito tempo. Mas, dize-me: dispões de tempo para me fazeres uma visita em minha atual residência, após a audiência?

- Irei visitar-te e o tempo gasto nessa visita que muito me desvanece, recuperarei cavalgando depois mais ligeiro. Onde moras?

- Na casa desse Agha, o comandante dos Arnautes.

No mesmo instante o curdo recuou fazendo-me um respeitoso inclinar de cabeça, pois o criado abrira a porta do gabinete para me fazer entrar, juntamente com David Lindsay.

A sala, onde fomos introduzidos, tinha as paredes forradas com velhos papéis e no fundo havia um estrado coberto por um tapete, sobre o qual estava sentado o comandante. Este era de estatura alta e esguia e tinha a cabeça emoldurada por cabelos prematuramente grisalhos. Os seus olhos não possuíam expressão sincera e o homem não despertava a menor confiança aos que dele se aproximavam. Levantou-se à nossa entrada e indicou-nos os lugares à sua esquerda e à sua direita, para sentarmos. A mim isso não foi difícil; mister Lindsay, porém, com dificuldade tomou aquela posição a que os turcos tratam de “descanço dos membros”. Realmente quem não estiver acostumado nessa posição, adormece-lhe logo as pernas. Portanto, em consideração ao inglês, eu precisava dispor as coisas de modo a não demorar muito a audiência.

- Chosch gelam demek omriniz tschok ola - Sejam bem-vindos, Senhores! Que Alá lhes conceda longa existência - saudou-nos o comandante.

- Igualmente a ti! - respondi-lhe. Viemos de longe para dizer-te que muito nos alegramos em ver-te o semblante venerável. Que a bênção esteja sempre em tua mansão e que cheio de êxito seja tudo o que empreenderes!

- Também desejo-lhes prosperidade e bom sucesso em todas as empresas! Como se chama a terra onde viste a luz do dia, Emir?

- Germanistão.

- É governada por um grande Sultão?

- Por muitos Padixás.

- E dispõe de muitos guerreiros?

- Quando os Padixás mobilizam os seus guerreiros, há milhões de olhos postos neles.

- Não vi ainda essa terra, mas deve ser muito grande e cheia de tradições de bravura, porque do contrário, não viajarias à sombra do Grão Senhor.

Aquilo era evidentemente um convite para que eu exibisse as credenciais. Fi-lo imediatamente.

- Disseste a verdade. Este é realmente o Bud-jeruldi do Padixá! Recebeu o meu passaporte, levou-o à testa, aos lábios e ao peito, passando depois e lê-lo.

- Mas teu nome está grafado aqui diferentemente de Kara Ben Nemsi!

Ah! Que fatalidade! O inconveniente de haver eu conservado aqui o nome que me dera Halef poderia acarretar-me algum dano; mas recuperei depressa a presença de espírito e ponderei:

- Queres ler o nome que está escrito sobre esse passaporte para eu ouvir?

Ele tentou satisfazer o meu pedido, mas com muita dificuldade. E a respeito de minha nacionalidade esteve por algum tempo a soletrar, não logrando unir sequer uma sílaba.

- Ora vê! Nenhum turco consegue ler e pronunciar um nome germano; nem um Mufti, nem um Molah será capaz disso, visto que o nosso idioma é muito difícil e escrito com caracteres diferentes dos usados pelos turcos. Vou ler eu no teu lugar: Hadschi Kara Ben Nemsi. O mesmo nome está escrito igualmente nesta carta que o Mutessarif de Mossul te envia por meu intermédio.

Entreguei-lhe a missiva e quando a leu, ficou satisfeito com a minha explicação anterior e me devolveu o Bu-djeruldi com as cerimônias pro-tocolares.

- E este Efêndi é o Bei Hadschi Lindsay?

- Tal qual.

- De onde provém ele?

- De Londristão! - respondi-lhe no intuito de não enunciar-lhe o conhecido nome de Inglaterra.

- Fêz ele um voto de fé para não falar?

- Fêz, tanto que não pronuncia uma só palavra.

- E sabe fazer magias?

- Cuidado, Mutesselim! Dessas coisas não se fala a uma pessoa que ainda não se conhece.

- Mas já iremos travar conhecimentos, visto que sou um fervoroso adepto da magia! Achas que com ela a gente consegue fabricar dinheiro?

- Sim, não é difícil fabricar-se dinheiro.

- E é verdade que existe uma pedra dos sábios?

- Sim, há uma, que é a filosofal... Esta, porém, não jaz debaixo da terra, mas no coração do homem; portanto não é possível fabricá-la!

- Falas muito obscuramente; entretanto percebo que és um grande mágico. Há duas espécies de magias, uma negra, e outra branca. Conheces ambas?

Não me sobrava outro recurso senão responder divertido:

- Oh, conheço estas e todas as demais qualidades de magias.

- Mas ainda há outras? Quais?

- Brancas, verdes, amarelas e também uma vermelho-cinzenta. Este Bei Hadschi Lindsay, por exemplo, antes era adepto da magia enxadrezada de cinza e agora passou-se para a enxadrezada de preto e vermelha.

- Isto logo se nota nas cores do seu traje. O Agha Selim contou-me que ele conduz uma enxada com a qual escava a terra para ouvir as vozes dos mortos.

- É isso mesmo. Mas deixemos de magias por hoje! Sou guerreiro e Efêndi e não um mestre-escola para estar aqui ministrando lições.

O bravo comandante da praça de Amadijah havia sugado todos os recursos da província e agora estava atacado da mania de fazer dinheiro, apelando para os recursos da magia. Naturalmente, nem me passava pela cabeça reforçar nele aquela superstição; mas na atual situação não era oportuno discutir sobre assunto tão delicado e ao mesmo tempo frívolo. Ou quem sabe fora a enxada do inglês que o induzira a entrar em negociações mágicas conosco? Era também possível. De resto as minhas últimas palavras fizeram nele um tal efeito que bateu palmas, determinando nos servissem café e nos trouxessem os cachimbos.

- Ouvi dizer que o Mutessarif sustentou recentemente um combate com os Dschesidis, é verdade? - perguntou-me, desviando a palavra para outro tema.

O assunto era para mim um tanto arriscado, mas não sabia como me desviar dele. O seu modo de falar soava a interrogatório. “Ouvi dizer”, começara ele assim a frase. Mas então aquele chefe, como súdito que era do governador e principalmente na sua qualidade de maior autoridade militar de Amadijah não conheceria a ocorrência com mais pormenores do que aqueles que sabia “por ouvir dizer”...?! Resolvi responder, tocando-lhe no ponto fraco.

- Também sei, porque ouvi dizer!

E, para antepor-me a alguma eventual pergunta inoportuna de sua parte, acrescentei:

- Infligiu-lhes o castigo que mereciam e não tardará a vez desses árabes fantasmagóricos!

Ele afilou os ouvidos e olhou-me perscrutadoramente.

- Baseado em que chegas a essa conclusão, Emir?

- Em coisa alguma. Falei pessoalmente com o Mutessarif a este respeito.

- Com o Mutessarif? Mas com ele em pessoa?

- Claro!

- Quando?

- Por ocasião da visita que lhe fiz, é óbvio!

- Mas como veio o governador a falar-lhe sobre essas coisas? - perguntou num gesto de incredulidade mal disfarçado.

- Sem dúvida por ter confiança em minha pessoa e também por pretender confiar-me uma incumbência em relação à nova expedição de guerra em preparativos.

- Mas que incumbência?

- Já ouviste falar um dia em política e diplomacia, Mutesselim?

Aos seus lábios aflorou um sorriso afetado.

- Seria eu comandante da praça de Amadijah, se não fosse um diplomata?

- Tens razão! Mas por que estás a revelar-me o contrário?

- Procedi com falta de diplomacia?

- Com muita, asseguro-te!

- Em que sentido?

- Porque inquiriste sobre a natureza da minha incumbência com tamanha inabilidade, que me causou pasmo. Não me é dado esclarecer ponto algum, o que não deverias ignorar. Portanto como poderia eu satisfazer à tua curiosidade?

- Por que não? O Mutessarif não tem segredos comigo!

- Singular! No entanto para conheceres a tarefa de que estou incumbido, pretendeste interrogar-me sem mais formalidades. Isto prova exuberantemente que o governador de Mossul tem mais confiança em mim do que em ti. E que seria então se o objetivo da minha vinda a Amadijah se relacionasse com algum ataque aos domínios árabes?

- Isso não seria possível!

- Quê? O ataque aos domínios dos árabes?

- Não! A tua viagem a esta cidade com aquele objetivo.

- Pois é bem possível! Confiar-te-ei apenas que depois de minha volta de Amadijah, seguirei para as savanas árabes, a serviço do Mutessarif de Mossul. Vou estudar secretamente a topografia da região e depois te apresentarei os meus planos de combate.

- Mas estás dizendo a verdade?

- Digo-te confidencialmente, portanto deve ser verdade!

- Então és um grande confidente do governador.

- Pelo menos o suponho!

- Tens prestígio junto dele!

- Não sei! Mesmo que tivesse, não o alardearia, para não decair no seu conceito.

- Emir, deixas-me apreensivo!

- Por quê?

- Não me acho iluminado pelas boas graças do Mutessarif. Disso não tenho mais a menor ilusão! Dize-me sinceramente se de fato és amigo seu e pessoa de sua confiança!

- O governador fêz-me revelações que a outro não o faria e confiou-me previamente todo o seu plano de guerra contra os “Dschesidis”; agora, quanto ao ser ele amigo meu ou não, é uma pergunta que peço me dispensares de responder.

- Pois vou submeter-te a algumas provas, a ver se de fato sabes mais do que os outros!

- Faze-o - retruquei-lhe confiante, embora intimamente um tanto receioso.

- A qual das tribos árabes se dirige de um modo especial a tua expedição bélica?

- Aos Schammares.

- E a que ramificação da mesma?

- Aos Haddedihns.

Agora a sua fisionomia aguçada tomara uma expressão espreitadora.

- Como se chama o Xeque daquela ramificação?

- Maomé Emin. Tu o conheces?

- Não. Mas ouvi dizer que o Mutessarif o prendera. Com certeza falou-te sobre essa prisão, visto que mereces a sua confiança, a ponto de enviar-te para as savanas árabes!

O bom homem fazia um esforço inaudito por ser diplomata! Mas eu ria-lhe na cara.

- Oh Mutesselim, tu me submetes a uma prova irrisória. Será Amad el Ghandur tão idoso para o confundires com Maomé Emin, seu pai?

- Como poderia eu confundi-los, se não vi ainda nenhum deles!

 

GESTO ALTIVO DE UM CURDO

Levantei-me.

- Terminemos a nossa palestra! Não sou um menino, a quem se faz de tolo. Se quiseres ver o prisioneiro desce e procura a prisão lá embaixo. O sargento te mostrará. Previno-te: Guarda reserva que o tens na tua prisão e não o deixes fugir! Enquanto o futuro Xeque dos Haddedihns estiver no domínio do Mutessarif, este tem o direito de impor condições aos árabes. Agora permite que me retire! Estou farto de tanta comédia!

- Emir, não tive intenção de ofender-te. Fica!

- Tenho outros serviços.

- Terás que ficar, pois mandei preparar uma refeição para ti!

-- Posso tomar a minha refeição na minha própria residência, muito agradecido! Além disso, lá fora está um curdo que tem muita necessidade de falar contigo. Chegou antes de mim ao palácio, por isso quis que ele entrasse primeiro. Mas o curdo foi tão gentil que cedeu-me a sua vez.

- Trata-se dum emissário do Bei de Gumri. Ele que espere, se quiser!

- Mutesselim, tomo a liberdade de prevenir-te contra um erro em que incides!

- Qual?

- Tratas aquele Bei como a um inimigo ou então como a um homem que não se precisa respeitar nem temer!

Notei que ele fazia um esforço brutal para conter uma explosão de cólera contra mim.

- Pretendes ditar-me ensinamentos, Emir, tu, a quem nem sequer conheço?!

- Não! Como poderia eu ditar-te ensinamentos, a ti, que és muito mais velho que eu! Já há pouco, quando me falavas de magias, dei-te a entender que te considerava tão sábio que me dispensavas os ensinamentos. Mas julgo que um homem de idade não fica diminuído na sua dignidade, ouvindo o conselho dum jovem.

- Sei como se deve tratar aquele curdo. O seu pai foi o Bei Ab ei Sumit, que deu tanto que fazer aos meus antecessores, principalmente ao pobre Selim Zillahi!

- E queres que o filho te dê também que fazer? O Mutessarif precisa de suas tropas para enviá-las contra os árabes e uma parte delas precisa ter sempre pronta para se defender dos Dschesidis nos quais não pode confiar. Que dirá o governador, quando eu lhe comunicar que tratas os curdos de Gumri de tal maneira, que é de se temer um levante deles, no momento em que notarem não dispor o Mutessarif de forças suficientes para rechassá-los? Faze o que bem entenderes Mutesselim! Eu jamais te ministrarei ensinamentos e nem te darei conselhos!

O meu argumento amainara a sua iracúndia. Via-se-lhe na fisionomia.

- Achas que devo receber aquele curdo?

- Faze o que bem entenderes, já te disse!

- Se prometes tomar uma refeição na minha companhia, vou recebê-lo já e na tua presença.

- Nessas condições, ficarei; ia retirar-me, pois não queria que, por minha causa, o pobre homem tivesse que esperar ainda mais tempo.

O Mutesselim bateu palmas e de uma sala contígua surgiu o criado, ao qual ordenou fizesse entrar o curdo. Este entrou a seguir, com porte altivo e saudou o comandante com um simples Sallam.

- És um emissário do Bei de Gumri? - perguntou-lhe o Mutesselim.

- Sou.

- Que me mandou dizer o teu Senhor?

- Meu Senhor? Um curdo livre não tem Senhores! É o meu Bei e o meu generalíssimo nos campos de batalha, mas não meu Senhor. Esta palavra apenas é conhecida pelos turcos e pelos persas!

- Não te mandei entrar para questionar contigo. Que recado te trouxe à minha presença?

O curdo parecia ter imaginado que fora eu a causa de não haver ele esperado mais tempo. Dirigiu-me um olhar significativo e respondeu ao comandante, lentamente e em tom sério:

- Mutesselim, eu era portador de um recado para ti; como, porém, tive que esperar tanto tempo... me esqueci dele! O Bei enviará agora outro emissário a entender-se contigo, e esse por certo não se esquecerá do recado... desde que não tenha que esperar também...

As últimas palavras ele as pronunciou já do umbral da porta e depois desapareceu. O comandante ficou perplexo. Por esta ele não esperava, ao passo que eu dizia de mim para comigo que nenhum embaixador europeu se teria desincumbido de sua missão de um modo mais altivo e digno do que aquele simples curdo. Estive quase a me levantar, a fim de correr atrás dele para lhe expressar o meu aplauso, a impressão ótima que o seu procedimento me deixara. Também o Mutesselim esteve quase a correr-lhe ao encalço, porém, com propósito diferente...

- Canalha! - exclamou este erguendo-se. - Hei de... Refletiu, porém, e se conteve. Enchi displicentemente o meu Tschibuk e o acendi.

- Que dizes a isso, Emir? - perguntou-me o comandante.

- Eu já esperava por essa atitude. Um curdo não é um grego hipócrita e tampouco um esquálido judeu, que não tem ânimo bastante nem para gritar quando se lhe pisa nos pés... Só estou a pensar: Que fará agora o Bei de Gumri e que dirá o Mutessarif sobre teu procedimento!

- Vais narrar-lhe isto?

- Não. Mas ele não tardará em sentir as conseqüências do teu indelicado modo de proceder.

- Vou mandar chamar aquele curdo de volta.

- Não atenderá ao teu chamado!

- Mas não pretendo tratá-lo asperamente!

- Ele não acreditará. Há uma só pessoa que o poderá convencê-lo de voltar aqui.

- Quem?

- Sou eu.

- Tu?

- Sim eu! Sou amigo dele; é possível que atenda ao meu pedido,

- És amigo dele?! Mas tu o conheces?

- Encontrei-o há pouco na tua ante-camara, onde, é verdade, o vi pela primeira vez. Mas falei-lhe como se deve falar a um homem investido no caráter de emissário de um Bei e esse gesto conquistou-me a sua amizade.

- Mas não sabes onde ele se encontra agora!

- Sei, sim!

- Onde? Ele se retirou de Amadijah. O seu cavalo não está mais amarrado no pátio.

- Dirigiu-se para minha residência, onde está à minha espera.

- Convidaste-o a visitar-te? Vais oferecer-lhe uma refeição?

- Sim, vou tratá-lo com hospitalidade. O objetivo principal de meu convite, porém, liga-se a uma mensagem que tenho para entregar ao seu Bei.

O Mutesselim ficava cada vez mais pasmado.

- Mas que mensagem?

- Ora essa, pensei que fosses um diplomata! Pergunta ao Mutessarif, se estás tão curioso em saber de tudo!

- Emir, desde a tua chegada que levas a me falar por enigmas.

- A tua sabedoria conseguirá decifrar em breve os enigmas que as minhas palavras encerram. Falando sinceramente, acabas de cometer um grave erro e como não aceitas nem os meus conselhos e nem os meus ensinamentos, procurarei, ao menos, corrigir esse erro, enviando uma cordialíssima mensagem ao Bei de Gumri. Deste modo agirei no interesse do Mutessarif, a cujo serviço aqui me encontro!

- Não posso saber qual o conteúdo de tua mensagem?

- Bom, vou dizer-te, confidencialmente, do que se trata, não obstante ser um segredo diplomático: tenho um presente para enviar-lhe.

- Um presente? De quem?

- Este detalhe, sim, não posso te confiar abertamente. Mas talvez te seja fácil adivinhá-lo se eu te disser que a pessoa que o remeteu é uma personalidade de relevo na administração de uma cidade, que fica ao oeste de Amadijah e que esta personalidade deseja com fervor que o Bei de Gumri não alimente propósitos hostis contra os turcos.

- Senhor, agora sim, tenho certeza de que realmente és pessoa de confiança do Mutessarif de Mossul; dele é o presente, quer te resolvas confessar-me ou não!

 

UMA PÉSSIMA ADMINISTRAÇÃO

Aquele homem era leviano e de uma lamentável incapacidade para exercer a investidura a que fora elevado. Vim a saber mais tarde que ele alcançara tal posto graças ao seu antecessor, que, também, de um salto, subira de Nesum Emini, de Zila, na Ásia Menor a Mutesselim de Amadijah. A minha visita ao comandante tomara como se vê, um rumo bem inesperado. Por que personalidade ele me tomava era-me fácil depreender de suas próprias palavras, mas não afirmar positivamente; no entretanto, pelo rumo que tomava a nossa conversação chegáramos a tocar em assuntos que quase diretamente diziam respeito ao propósito secreto que nos levara a Amadijah. O homem não estava na altura nem de ser um decano de aldeia, muito menos ainda comandante de uma praça de guerra fronteiriça. Contudo eu sentia compaixão dele sempre que me lembrava do embaraço em que ficaria, uma vez conseguida a concretização do nosso objetivo. Gostaria que ele, em tal caso, ficasse isento de responsabilidade, porém, não havia possibilidade de encaminharmos as coisas em tal sentido.

Suspendemos por instantes a nossa conversa, pois nos trouxeram a refeição. Compunha-se de uns pedaços do carneiro, tomado por empréstimo, acompanhado de magro pirão. O comandante revelou-se um verdadeiro glutão, comendo avidamente e conservando-se em mutismo. Quando, porém, estava satisfeito, perguntou-me:

- Esperas encontrar realmente o curdo em tua residência?

- Claro. Creio que ele sabe cumprir a sua palavra.

- E o trarás novamente à minha presença?

- Se fôr este o teu desejo, sim.

- Mas achas que ele esperará por ti? Estás demorando muito... Essas suas últimas palavras não exprimiam de modo algum prova de falta de hospitalidade, mas o seu receio de que o curdo também perdesse a paciência de esperar-me, tal qual sucedera com ele. Em vista disso, respondi-lhe:

- Ele não tardará em partir para Gumri, motivo por que vou procurá-lo já. Permite que me retire!

- Sim, mas com a condição de vires jantar hoje à noite em minha companhia!

- Muito bem. A que horas devo vir?

- Mandarei avisar-te, por intermédio do Agha Selim. Ademais a qualquer hora do dia ou da noite que chegares aqui, serás bem-vindo.

O almoço recepcional não demandara muito tempo. Levantamo-nos e fomos acompanhados gentilmente por ele até o portão da rua. Ali se achavam os nossos dois criados junto dos animais e à nossa espera.

- Tens um Baschi Bozuk na tua companhia? - perguntou-me o comandante.

- Sim, como Khawass. Aliás o Mutessarif quis pôr-me à disposição uma grande comitiva, mas não aceitei, pois estou habituado a me defender eu próprio de qualquer perigo que encontre numa jornada, por mais perigosa que seja!

O Mutesselim contemplou o garanhão que eu montava.

- Mas que pérola de cavalo! Compraste-o ou é criação própria?

- Ganhei-o de presente.

- De presente! Aquele que te fêz tal presente deve ser algum príncipe! Quem foi?

- Também este detalhe constitui segredo. Mas talvez não demores a ver essa pessoa.

Montamos e ao nos retirarmos, ouvimos logo a voz de comando do Agha Selim em frente à sua tropa:

- Silahlarile nischanlaryn! - Apontar!

Apontaram as armas, mas nem os canos de duas ficaram em alinhamento.

- Tschaghy, schamataji! - Música, façam zuada!

Começaram novamente os mesmos ruídos semelhantes aos produzidos por batidas numa cafeteira.

- Hepsi herbiri halan atyn! - Fogo, todos ao mesmo tempo! Lamentável! Apenas umas poucas espingardas conseguiram detonar.

O Agha revirava os olhos, o que também faziam os seus comandados ao mesmo tempo em que examinavam as confusas armas de fogo, remexendo no ferrôlho e nos canos; só depois que havíamos dobrado a primeira esquina, é que uma ou outra das espingardas conseguiu desentupir e deflagrar o tiro engasgado.

Quando chegamos aos nossos compartimentos, o curdo estava no meu quarto, sentado sobre o tapete e fumava cachimbo, tendo-se servido do meu fumo. Alegrei-me com aquela cena, pois ela denotava serem iguais os nossos pontos de vista a respeito de hospitalidade.

- Kheiir ati, hemscher! Sê bem-vindo, amigo! - fui logo saudando-o.

- Como? Conheces o idioma curdo? - perguntou-me contentíssimo.

- Muito pouco, mas experimentemos a ver se nos compreendemos. Eu dera ordens a Halef para buscar, numa casa de pasto, qualquer comestível, a fim de oferecer ao meu hóspede. Acendi também um cachimbo e sentei-me a seu lado.

- Fui obrigado a fazer-te esperar mais do que pretendia - disse-lhe eu à guisa de excusa.

- Tive muito prazer em esperar-te! A linda donzela, tua governanta, forneceu-me um cachimbo e eu tomei a liberdade de servir-me do teu fumo. Simpatizei logo contigo e pela tua fisionomia vi que não levarias a mal esta liberdade.

- És um guerreiro do Bei de Gumri. O que é meu é nosso, bom amigo! Ah, agradeço-te a satisfação e o divertimento que me proporcionaste com o teu gesto altivo em face do comandante.

- Qual?

- És ainda jovem, mas procedeste como homem maduro, dando-lhe aquela resposta enérgica.

Ele riu-se e disse:

- Eu lhe teria falado noutro tom, se não estivesses presente.

- Mais enérgico?

- Não, mais brando. Mas como havia um estranho junto do comandante, competia-me mostrar-me digno daquele que me enviara à presença do Mutesselim.

- E conseguiste o objetivo de tua missão. O comandante pede, por meu intermédio, que voltes à sua presença para transmitir-lhe o recado.

- Conheces esse comandante? És amigo dele?

- Vi-o hoje pela primeira vez.

- Pois vou dizer-te que espécie de homem é aquele. Aliás, para traçar-lhe o perfil moral e administrativo, basta que eu te diga somente que a arrecadação do Saliahn (1) mal atinge ao total de vinte mil piastras e que ele não tem mais a concessão dessa arrecadação, como, de resto, é praxe em toda parte. O sultão raramente ouve as reclamações dos súditos. Mas dessa vez teve que ouvi-las, pois as queixas clamaram aos céus, e o povo se encontrava no auge da desesperação. Ele saqueava de tal modo a população, que esta, mesmo nos rigores do inverno, preferia ficar nas suas residências de verão, situadas nas matas, onde ao menos se sentiam abrigadas de suas violências e extorções. O resultado foi o que vês: A cidade está empobrecida e a fome nela parece ter fixado definitivamente o seu domínio. O Mutesselim precisava de dinheiro e mais dinheiro e após desbaratar o produto do erário público, tomava empréstimos aos cidadãos e todo aquele que se negasse a lhe dar dinheiro incorria fatalmente na sua ira, na sua vingança. Além disso é um poltrão que só se mostra forte em face dos fracos e inermes. Os seus soldados curtem fome e frio, porque não recebem nem alimentos e nem roupas para cobrirem a nudez. O comandante trocou as carabinas boas e eficientes com as quais estavam as tropas armadas, por outras em mau estado, recebendo dinheiro de volta, dinheiro que converteu em proveito próprio. E quando lhe mandam pólvora para os poucos canhões que defendem a fortaleza, ele as vende com o fim de apurar dinheiro para as suas despesas particulares. Esse comandante que também acumula as funções de governador civil, não zela pelo bem público; aliás, nem está comprenetrado, segundo todas as aparências, desse sagrado dever de sua dupla investidura.

Era uma administração caracteristicamente turca a que me estava descrevendo o jovem curdo. Agora já não me admirava mais do fracasso da salva de honra, da qual momentos antes fôra eu testemunha ocular e auricular.

- E que tal são as suas relações com o teu Bei? - perguntei-lhe depois.

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(1) Imposto sobre as fortunas particulares.

 

- Nada boas. Numerosos curdos vêem à cidade ou para aqui efetuar compras de utilidade para o seu gasto ou vender os mantimentos de suas colheitas. Para estes ele acaba de lançar um imposto extorsivo com o qual o Bei não concorda. Também em muitos casos, que nem estão na sua alçada resolvê-los, procura ele exercer a sua pressão e violência contra nós. Há poucos dias dois curdos estiveram aqui, fazendo compras de pólvora e chumbo. Ao se retirarem, foram detidos no portão da cidade pela guarda, que lhes exigiu o pagamento de um imposto extra sobre as compras por eles feitas. Aquele imposto era e é completamente desconhecido; nunca havia sido cobrado de ninguém. Pois os nossos compatriotas, não dispondo no momento da importância exorbitante que lhes exigiram por tributo, o qual excedia em muito ao preço das mercadorias, que já eram bastante caras, foram presos e recolhidos à fortaleza. O Bei exigiu a soltura dos seus dois súditos, concordando mesmo em que lhes fossem confiscados o chumbo e a pólvora. O Mutesselim, porém, não aceitou o acordo. Além da confiscação das citadas mercadorias, exigiu mais uma pesada multa e a indenização de todas as despesas decorrentes da prisão e encarceramento dos nossos homens. De modo que de vinte, que era o preço da mercadoria, teremos que pagar cento e vinte piastras. Enquanto não pagarmos essa exorbitante quantia, o Mutesselim conservará presos os dois curdos e nos debitará diariamente dez piastras para atender às despesas de sua custódia.

- E era sobre este assunto que pretendias falar com ele?

- Exatamente.

- E pretendias fazer-lhe o pagamento exigido?

- Não!

- Apenas prosseguir nas negociações? Essas não conduziriam a nenhum resultado satisfatório.

- Estou incumbido de preveni-lo apenas de que daqui por diante, deteremos todo o habitante de Amadijah que pisar o nosso território e só o soltaremos depois que os nossos forem libertados.

- Medidas de represália, portanto! Também não conduziriam a resultados satisfatórios, visto que o Mutesselim pouco se importaria com o aprisionamento de um ou mais habitantes de sua cidade. Além disso, é preciso ter em mente que, dessas medidas de represália, nascem em geral conflitos de proporções incalculáveis. O melhor talvez seria os dois curdos conseguirem fugir da fortaleza.

- O Bei é da mesma opinião. Mas uma fuga torna-se impossível.

- Por quê? A vigilância é tão rigorosa?

- Oh! Com os guardas não nos preocupamos. A guarnição da fortaleza é composta apenas de um sargento e de três soldados, que dominaríamos com facilidade. Mas isso causaria um alvoroço, uma algazarra que poderia redundar em perigo para nós.

- Perigo? Hum!

- O principal obstáculo é o seguinte: mesmo depois de dominada a guarnição da fortaleza, será impossível penetrar no seu recinto.

- Por quê?

- As muralhas são intransponíveis e as portas das celas estão fechadas com uma trava de ferro tão espesso, que não cede ao mais violento golpe. A prisão dá para os fundos desta casa, que é habitada pelo Agha dos Arnautes. Todo ruído fora do comum chamaria a sua atenção e seria fatal para nós. Por conseguinte temos que renunciar à idéia de evasão.

- Renunciarem, mesmo que encontrassem um homem pronto para auxiliá-los na fuga?

- Mas quem seria este homem?

- Eu!

- Tu, Emir? Esplêndido! Como poderia eu então te demonstrar a minha gratidão! Os dois prisioneiros são o meu pai e um irmão meu.

- Como te chamas?

- Dohub. Minha mãe é uma curda da tribo do Dohubis.

- Devo dizer-te que sou completamente estranho nesta cidade e mesmo não conheço, de momento, meio algum para facilitar a consumação de tal fuga. Mas o teu Bei me foi recomendado e tu mesmo já conquistaste as minhas simpatias. Amanhã vou fazer umas pesquisas a ver o que poderemos fazer nessa questão.

- Achas que devo voltar à presença do Mutesselim?

- Sim, deves procurá-lo novamente e fazer ainda uma tentativa no sentido de conseguir o teu propósito por meios suasórios. Já me esforcei em preparar-lhe o espírito e é provável mesmo que ele agora resolva soltar o teu pai e teu irmão espontaneamente.

- Senhor, preparaste-lhe de fato o espírito em tal sentido?

- Claro que sim.

- Mas de que maneira o fizeste?

- Seria longo esclarecer-te agora tudo. Mas vou escrever-lhe algumas linhas que talvez te sejam de valia uma vez que sigas o meu conselho.

- Que conselho me dás?

- Em primeiro lugar, não lhe fales em represálias. Dize-lhe que se não soltar os prisioneiros hoje ainda, seguirás para Mossul a prevenir o Mutessarif de que os Curdos-Bervaris se levantarão todos contra ele. Dirás mais que nesta viagem passarás pelo território dos Dschesidis e conferenciarás com o Bei e generalíssimo destes.

- Senhor, isto é dizer demais, é arriscar muito.

- Apesar disso, dize isso! Aconselho-te que faças assim, pois tenho cá razões para isso. Detendo os dois prisioneiros, o que ele queria era extorquir-lhes dinheiro de que muito está necessitando. Esse motivo cessou agora, pois lhe fizemos presente de uma vultosa quantia em piastras.

- Então vou procurá-lo!

- E imediatamente, sem perda de tempo. Depois voltarás aqui para que eu te dê o recado que tenho para o teu Bei.

Desprendi uma folha do meu caderno de notas e nela escrevi as seguintes palavras em turco: “Permite-me que tome fervorosamente a defesa da causa do curdo portador deste bilhete! Evita de incorrer nas iras do Mutessarif!” - Depois de assinar o bilhete, entreguei-o a Dohub, que saiu apressadamente.

Eu tivera o arrojo de me inculcar como uma personalidade prestigiosa! Procedia daquele modo por mero espírito de aventura, é verdade. Mas agora que o caso me fizera subir numa cuciófera, impelindo-me até mais da metade de seu tronco, deveria eu retroceder, depois de tão emocionante escalada, quando com mais um pequeno impulso eu poderia atingir o cimo?!

Nisso voltou Halef com um tal carregamento de comestíveis e frutas, como se pretendesse nos aprovisionar para uma semana inteira.

- Que prodigalidade, Hadschi Halef Ornar! - disse-lhe eu.

- Allah akbar; Alá é grande, Sídi, mas a minha fome é ainda maior. Sabes que eu e o minúsculo Ifra, depois daquela refeição que tomamos em Spandareh, pela manhã, não pusemos mais um só alimento na boca?

- Então come! Mas põe qualquer cousa de lado, para que meu hóspede não vá embora sem comer algo. Arrumaste vinho?

- Não. Tu te tornaste um fiel e fervoroso crente e, no entanto persistes ainda em querer ingerir a bebida dos infiéis! Allah kerihm, sou um muçulmano devotado e havia de comprar vinho aqui em Amadijah?!

- Pois vou eu mesmo procurá-lo, compreendeste?!

- Não, Sídi; não quero que vás! Mas aqui nesta terra quase todo mundo só fala o idioma curdo, do qual não entendo patavina e da língua turca conheço muito pouco. Portanto só posso comprar coisas cujo nome tu saiba pronunciar.

- Vinho em turco é Charab e em curdo Cherab; é muito fácil de reter na memória. Mister Lindsay quer vinho, vá, pois, comprá-lo!

 

EXERCENDO A MEDICINA

O meu inefável criado, meio contrafeito, saiu apenas para obedecer-me. Quando abriu a porta, ouvi a voz da Mersinah de permeio com outra voz áspera de homem. Logo a seguir voltou Halef e disse:

- Sídi, lá embaixo está um homem que a governanta não quer deixar subir.

- Que homem é?

- Um habitante de Amadijah, cuja filha está doente.

- E que temos nós com isso?

- Desculpa-me, Sídi! Há pouco quando saí para comprar os víveres, passou por mim um homem ofegante que quase me levou por diante num encontrão. Ao perguntar-lhe por que ia com tanta pressa, respondeu-me que sua filha caíra gravemente enferma e se não chamasse um Hekim(1) talvez não escapasse. Aconselhei-o, então, a procurar-te, no caso de não encontrar nenhum médico nesta tristíssima cidade!

- Como fôste fazer isto, Halef? Sabes perfeitamente que não tenho mais aquela farmácia ambulante, com a qual eu curava os doentes no Nilo.

- Oh, Sídi, és um grande sábio e mesmo sem o auxílio daqueles grãos, curas os doentes!

- Mas não sou médico!

- No entanto, sabes tudo!

Que me resta fazer? Halef lembrando-se daquelas gordas propinas, dera ao homem informações exageradas a meu respeito e eu tinha que arcar com as conseqüências, quisesse ou não!

- A governanta foi mais prudente do que tu, Halef! Em todo caso, faze o homem subir!

______________

(1) Médico.

 

Desceu voltando em seguida com um homem de cuja testa e barba o suor corria em bicas. Era um curdo, conhecia-se pela tolik (1) que lhe caía na testa por baixo do turbante. Não obstante, usava vestes turcas.

- Sallam! - saudou-me apressadamente. - Oh, Senhor, venha depressa, do contrário minha filha morrerá; ela já está falando do céu!

- De que sofre a moça?

- O “Espírito Mau” entrou-lhe no corpo, deixando-a possessa.

- Quem te disse?

- O velho Hekim turco que chamei para atendê-la. Deu-lhe um amuleto para usar ao pescoço, mas foi logo dizendo que de pouco adiantaria.

- Que idade tem a tua filha?

- Dezesseis anos.

- Sofre ela de espasmo ou de epilepsia?

- Não! Nunca esteve doente até hoje.

- Que faz o “Mau Espírito” com ela?

- Entrou-lhe pela boca, pois ela queixa-se que lhe arranham a garganta; além disso aumentou-lhe os olhos, para que estes lhe servissem de janela, de onde ele espia para fora. Os seus lábios estão vermelhos e inchados, o mesmo se dando com as suas faces. Lá está ela agora deitada a falar das belezas do céu, que já enxerga!

Havia necessidade urgente de socorrê-la, pois, pelo sintoma descrito, tratava-se dum caso de envenenamento.

- Vou ver se posso fazer alguma coisa! Moras muito distante daqui?

- Não.

- Além do velho Hekim, existe algum outro médico nesta cidade?

- Não.

- Então vamos ligeiro!

Saímos quase a correr. Conduziu-me através de umas três ruas e depois a uma casa cujo aspecto era de certo modo suntuoso. O proprietário não devia, pois pertencer à classe dos homens mais pobres. Entramos e, passando por três quartos, chegamos a um aposento. Sobre uma almofada jazia de costa, estirada, a figura de uma jovem em convulsões. A seu lado se achavam ajoelhadas algumas mulheres a chorar e um pouco distante um homem idoso, que havia tirado o turbante e, de olhos fixos na enferma, murmurava algumas orações confusas.

- És tu o Hekim? - perguntei-lhe.

- Sou.

- Que tem esta doente?

- O diabo apossou-se do seu corpo, Senhor!

- Tolice! Se ela estivesse com o diabo no corpo, não falaria do céu.

- Senhor, não entendes dessas coisas! O demônio proibiu-lhe de comer e beber e ela agora ficou tonta.

- Deixa-me examiná-la!

Empurrei as mulheres para o lado, e ajoelhei-me diante da moça. Era uma jovem muito formosa.

______________

(1) Madeixa de cabelos.

 

- Senhor, salva minha filha das garras da morte! - suplicava-me uma das mulheres. - Nós te daremos tudo o que desejares! Ela é nossa filha única! A nossa única razão de ser!

- Sim. Salva-a! - ressoou uma voz cava dos fundos do compartimento. - Salva-a que depois possuirás riquezas e serás o dileto de Deus!

Olhei para o ponto de onde partia aquela voz e vi uma anciã, cujo aspecto exterior quase me causou medo. Parecia contar uns cem anos, recurvada e formada apenas de pele e ossos; seu rosto horrível se assemelhava a uma caveira e de sua cabeça caía uma cabeleira basta e nevacenta que vinha até o solo.

- Sim, salva-a! É minha trineta! Salva-a! - continou a macrobia de mãos postas e com um rosário entre os dedos. Vou ajoelhar-me e erguer preces à Virgem Dolorosa, à Santa Mãe de Deus!

Uma católica! Aqui no meio dos turcos e dos curdos!

- Reza, - respondi emocionado - reza que farei tudo para salvá-la!

A doente jazia de olhos abertos e ainda muito vivos. Mas as pupilas estavam dilatadas e o semblante rubro; tinha as pulsações aceleradas e violentas convulsões sacudiam-lhe o pescoço. Nem perguntei quando adoecera. Era leigo, mas concluí logo que a moça ingerira beladona e estramônio.

- Tua filha já vomitou? - perguntei ao homem que me viera buscar.

- Não.

- Tens um espelho?

- Tenho, mas pequeno.

- Dá-me.

O velho Hekim proferiu uma casquinada e disse:

- Pretende fazer o “Mau Espírito” mirar-se no vidro!

Não lhe respondi. Fiz os raios solares que entravam pela janela incidirem sobre o espelho, de modo que o reflexo batesse no semblante de minha cliente. O reflexo ofuscante não lhe produziu efeito algum sobre a íris.

- Quando comeu a tua filha pela última vez? - perguntei.

- Não sei. - respondeu o pai. - Ela se achava só.

- Onde?

- Aqui em casa.

- Ela não se acha tomada de espírito mau algum, mas comeu ou bebeu alguma cousa venenosa!

- Allah Ma Allah! É isso verdade, Senhor?

- É, sim!

- Não creias! - replicou o Hekim. - O diabo é que lhe entrou corpo a dentro!

- Cala-te velho imbecil! - Tens limões? - perguntei, dirigindo-me depois ao dono da casa.

- Não.

- E café?

- Tenho.

- Não seria possível obter-se umas nozes de galha?

- As nossas matas produzem dessas nozes em grandes quantidades, Temos algumas em casa.

- Prepara ligeiro um café bem forte, cozinha algumas nozes nágua, e manda alguém procurar limões.

- Ah! Vai ele agora repastar o diabo com café, nozes e limões! - exclamou o velho tomado de pavor e de mãos postas.

Na falta de um instrumento apropriado, meti o dedo na boca da doente, a fim de provocar-lhe o vomito, protengendo-me contra os seus dentes com o auxílio do cabo da faca. Depois de muitos esforços, consegui algum resultado, embora obrigasse a moça a movimentos dolorosos. Repeti a experiência, mas agora sem resultado.

- Existe uma Etchzaga (1) nas imediações? - perguntei, visto que se tornava necessária a aplicação de um vomitório.

- Há uma nesta mesma rua.

- Vem depressa, conduze-me até lá.

Saímos e o meu guia parou-se defronte de um pequeno estabelecimento.

- Aqui é a casa do Attar (2) - disse-me.

Entrei na pequena botica e me vi rodeado por um caos de objetos, úteis e inúteis. Pomadas rançosas, alcaçuz, emplastros secos e velas de sebo, numa única caixa, café em grão misturado com flores de tílias; pimenta em grão junto com pó de giz, folhas de sena num vidro de boca larga onde se lia: “Mel”; taxas de sapatos, gengibre, e sulfato de cobre; sabão, fumo e sal; óculos, vinagres, antimônio, cânhamo, tintas, linhas, borracha, botões, fivelas, pixe, nozes em conservas, figos, etc... Todas essas coisas diversas se achavam misturadas ou sobrepostas umas às outras e junto daquilo tudo estava um homenzinho esquálido cujo aspecto exterior dava a impressão de que ele próprio, momentos antes, havia experimentado todos aqueles específicos e ingredientes. Oh! Quantos males à população já não teria ocasionado aquele velho Attar! De todos os seus específicos só o sulfato de cobre serviria para o fim que eu tinha em vista. Comprei-o. Levei também um vidro de essência de sal amoníaco. O primeiro produziu efeito satisfatório ao ser aplicado na doente. Depois fi-la tomar um café bem forte com sumo de limão e por fim as nozes cozidas. Depois disso, recomendei à família que lhe fizessem todas as espécies de movimentos possíveis, borrifassem-na com água fria, lhe dessem a cheirar a essência de amoníaco, para evitar que ela adormecesse e prometi-lhe voltar o mais cedo que me fosse possível.

O tratamento que ministrei à doente não era, aliás, o mais adequado, mas eu não conhecia outro; afinal... produziu os seus efeitos. Agora que o perigo parecia removido, eu podia tratar de outros assuntos. Relanceei os olhos pelo quarto e a um dos cantos vi um cesto quase cheio de amoras. No meio destas havia diversas... ginjas venenosas.

- Queres ver o “Mau Espírito” que se apoderou do corpo dessa moça? - perguntei ao Hekim.

- Não é possível. Os espíritos são invisíveis. E mesmo que não fossem, não poderias mostrá-lo, pois não crês nessas coisas. Se a moça não vier a falecer que agradeça ao meu amuleto!

- Mas não viste que o tirei imediatamente de seu pescoço? Está aqui no chão o teu amuleto, vou abri-lo já!

___________

(1) Farmácia.

(2) Boticário.

 

- Não te é permitido isso! - exclamou o velho tentando arrebatar-me o objeto da mão.

- Não te atrevas, a me tocar, velho! Não vês que tenho punhos mais fortes que tu? Por que não devo abri-lo?

- Porque o amuleto encerra feitiço. Sentirás, ao seu contato, as mesmas convulsões da moça!

- Pois estou curioso!

O velho quis ainda opor outros obstáculos, mas abri o breve feito de pele de bezerro e dentro dele havia... Uma mosca.

- Não te cubra de ridículo com este inseto inofensivo, homem! - disse-lhe eu rindo-me e pisoteando a mosca, que já se achava morta. - E agora, onde está o teu “Mau Espírito” que pretendia apossar-se do meu corpo?

- Espera! Ele já virá!

- Pois agora vou mostrar-te o diabo que entrou no corpo da doente. Olha para cá! Que é isto? És um Hekim e tens obrigação de conhecer essa fruta!

Exibi-lhe uma das ginjas venenosas.

- Alá de misericórdia! São oeluem kries (1). Aquele que comer dessa fruta morrerá na certa, estará perdido, irremediavelmente perdido!

- Pois foi dessa fruta que a moça comeu algumas; isso logo descobri pelos seus olhos. Aquele que a ingerir ficará com as vistas dilatadas. Toma nota disso, ouviste?! E agora põe o turbante e toca-te daqui para fora, antes que te obrigue a comer uma dessas cerejas mortíferas, para ver se realmente a mosca te virá salvar a vida!

Juntei a ginja do chão e fingi que me acercava dele. A este meu gesto, o velho, tomado de um pavor mortal, enfiou o turbante na sua calva e saiu às pressas porta fora sem ao menos se despedir dos presentes.

Estes reconheceram que eu tinha razão. Mais alto do que minhas palavras, falava-lhes a melhora visível que a doente experimentara. Desandaram todos em demonstrações fervorosas de gratidão, às quais só pude pôr fim retirando-me quase tão apressadamente como o velho. Disse-lhes que me chamassem em seguida se o estado da enferma se agravasse.

 

INCIDENTE MERSINAH VERSUS HALEF

Quando cheguei à casa do Agha, a Mersinah, fazendo uma algazarra dos demônios, saía da cozinha porta fora munida de uma enorme colher -de madeira. Logo por trás dela voou um trapo de pano molhado que lhe foi alvejado com tanta perícia que atingiu o cocô em formato de salsicha, enrolando-se todo pela cabeça. Ao mesmo tempo do “santuário” em que pontificava a “deusa” do Agha, ressoou a voz colérica de Hadschi Halef Omar:

- Cuida-te megera imunda! Toca mais uma só vez no meu saboroso café e verás que te sucede! Ladra!

Ela desenrolou ligeiro o trapo da cabeça e o transformou numa bola, por certo que para com ela revidar a investida do meu criado; naquele instante, porém, os seus olhos depararam-se comigo, que chegava.

_______________

(1) Cereja da morte.

 

- Oh! Emir, que bom que chegaste! Salva-me das garras daquele homem furioso!

- Que houve, oh! flor de Amadijah!

- Ele afirma haver encontrado do meu café no teu tubo e no meu cartucho de papel grãos do que tu compraste hoje!

- Quem sabe se não é verdade?

- Verdade? Pois juro-te pela Ayescha, que é a mão de todos os santos, como jamais mexi no teu tubo de café!

- Ah, é! Avó de todas as mentirosas e ladras! - ecoou do interior da cozinha. - Não avançaste em nosso café do qual duzentas drehm (1) me custaram vinte e cinco piastras?! Já vou prová-lo ao Sídi.

Ao pronunciar essas palavras, ele saiu da cozinha empunhando com a mão direita o tubo de café em grão que havia comprado e com a esquerda o enorme cartucho de papel contendo o café da “Murta”.

- Sídi, tu conheces o café de Narimah?

- Bem sabes que conheço.

- Então me diz em qual desses dois recipientes há desse café?

Procedi, tanto no tubo como no cartucho, uma detida inspeção ocular e depois respondi:

- Todos os dois recipientes contém daquela qualidade de café, porém, tanto num, como no outro, está misturado com outra qualidade ordinária e também com cascas torradas!

- Estás vendo, Sídi! Comprei café especial de Narimah para nós. Esta mãe e avó ao mesmo tempo de todos os salteadores e ladrões, porém, só usa para o seu consumo e o do Agha, um ordinaríssimo café misturado com cascas nauseantes. Portanto, provado está que ela avançou no meu tubo para melhorar, à nossa custa, a sua água suja, a que tem o desplante de dar o nome de café!

- Sídi, és um guerreiro denodado, um cientista de renome e o mais sábio de todos os juizes - retrucou a Murta, ao mesmo tempo que brandia o esfregão molhado arrojadamente perto do nariz de Halef. - Tu castigarás severamente este pai e avô de todos os delinqüentes, este filho dileto da infâmia e da calúnia!

- Castigar-me? - exclamou Halef tomado de surpresa. - Ainda mais isso?

- Sim! - sentenciou a governanta com toda a convicção. - Foi ele próprio que misturou os dois cafés, com o intuito único de desmerecer-me e à minha casa diante dos teus olhos!

- Oh, tu maravilha dos trinta e nove crimes! - trovejou Halef enfurecido. - Tens a ousadia de apresentar-me como ladrão diante do Sídi?! Não fosse tu mulher, uma pífia mulherzinha, aliás, e eu te faria...

- Calma, Halef! Não te zangues, pois estou presente à contenda e saberei pronunciar uma sentença justa! Mersinah, tu afirmas que Halef é quem fêz a mistura das duas qualidades de cafés?

- Sim, Emir!

- Então ele contribuiu com o seu esforço para o esclarecimento dessa complicada questão jurídica. Agora contribui também tu e separa de ambos os _____________

(1) 1,300 kg.

 

recipientes as duas espécies de cafés. Ficarás com o teu e Halef com o dele.

 

LIBERTANDO DOIS PRISIONEIROS

Ela ia abrir a boca e dizer que para “poupar o serviço” preferia deixar as coisas como estavam, inclinando-se a desistir de sua exigência e a tornar sem efeito a sua queixa sobre uma insignificância como considerava agora o assunto, mas Halef a antecedeu:

- E isso depressa, vá ande! Temos urgente necessidade do nosso café!

- Por quê? - perguntei-lhe.

- Tens visitas lá em cima à tua espera.

- Que visitas?

- São três curdos. Aquele que te visitou hoje está junto.

- Então vá comprar outro café!

Subi apressadamente a escada, pois os dois outros curdos não poderiam ser outros senão os prisioneiros. Essa suposição fora acertada. Quando entrei no quarto, os visitantes se levantaram e Dohub exclamou:

- Foi este o Emir que os salvou! Oh! Efêndi, o Mutesselim depois de ler o teu bilhete me restituiu o meu pai e o meu irmão!

- Disseste-lhe que irias a Mossul, no caso de não seres atendido?

- Disse. O teu conselho foi excelente, pois àquelas palavras o comandante mudou logo de tom, desmanchando-se em amabilidades para comigo e mandou chamar, logo após a leitura do bilhete, o Agha Selim à sua presença. Este depois teve que lhe apresentar os dois encarcerados.

- E em que pé ficou a questão dos impostos e das multas?

- O Mutesselim dispensou tudo, com exceção da pólvora e do chumbo, que se negou a nos devolver. Emir, dize-me como devemos agradecer-te?

- Conheces o decano de Spandareh?

- Oh, muito bem! Sua filha é a mulher de nosso Bei e ele seguidamente vem a Gumri visitar a ambos.

- Pois é também amigo meu. Estive hospedado em sua casa. Pediu-me o decano que visitasse o seu genro, caso passasse por Gumri.

- Vem, Emir, vem visitar-nos! Terás uma recepção mais brilhante do que teria o Mutesselim ou o próprio Mutessarif, se estes nos viessem procurar.

- Talvez ainda vá a Gumri, mas só daqui a alguns dias. O decano deu-me um pacote para eu entregar ao teu Bei. Dá-lhe lembranças minhas e dize-lhe que, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, sou seu amigo e desejo-lhe toda sorte de venturas!

- Era esta a incumbência de que nos querias encarregar?

- Era, sim.

- Mas nos pedes muito pouco, Senhor!

- Mais tarde talvez tenham oportunidade de dar-me uma prova de amizade!

- Estamos prontos para tudo! Vem até nós e ordena que serás obedecido em tudo que desejares!

- Estarão dispostos a dar guarida a um amigo meu, no caso de perseguição por parte do Mutesselim?

- O teu amigo que empreenda a fuga e nos procure, que o comandante jamais deitará os olhos em cima dele!

Dirigi-me ao mais velho deles, em cuja fisionomia notava-se as privações por que passara na prisão, e perguntei-lhe:

- Conheces os presos que estiveram contigo na mesma prisão?

- Não - respondeu o velho. - Tanto eu como o meu filho estivemos metidos, isoladamente, num cubículo escuro, onde não víamos e nem ouvíamos coisa alguma.

- O sargento encarregado da vigilância é um homem mau?

- Nunca falou conosco. A única voz humana que ouvíamos diariamente era a da megera imunda, que nos trazia as refeições.

- Como são os caminhos daqui a Gumri?

- Primeiramente descerás o vale de Bervari e isso por uma estrada tão íngreme e perigosa que terás que apear e puxar o cavalo pelas rédeas. O vale possui matas ricamente povoadas de carvalhos e nele ficam situadas várias aldeias, habitadas algumas por curdos e outras por caldeus nestorianos. Passarás também pela planície ressequida a que chamam de New-Dacht e que fica situada na aldeia Maglano; depois alcançarás o lugarejo curdo Hajis, habitado apenas por umas poucas famílias paupérrimas. Passarás por muitas correntes dágua, que afluem todas para o Zab e de longe avistarás Gumri, construída ao sopé de uma rocha, que, isolada, ergue-se no meio da planície.

Depois dessas e outras informações indispensáveis, convidei-os para a refeição. Os dois curdos recém-libertados comeram com uma tal sofreguidão, que me deu a conhecer o modo carinhoso e solícito com que a “Murta” do Agha cuidava da alimentação dos seus “pensionistas”. Halef serviu-nos depois café e bebidas, coisas de que os prisioneiros se viram privados por algum tempo, bem como fumo que depois usaram em seus cachimbos.

 

NA CASA DE MINHA “CLIENTE”

Por fim se retiraram, justamente no instante em que entrava o Agha para me dizer que o Mutesselim estava à minha espera para a recepção combinada. Os curdos despediram-se de mim por entre as mais calorosas demonstrações de estima e renovaram o pedido para que eu visitasse um dia a sua aldeia. Dohub levou o pacote do decano de Spandareh e eu estava convencido de que grangeara amigos, com os quais poderia contar na certa, em caso de qualquer necessidade!

Na minha ida para o palácio do comandante, visitei ainda a minha “paciente”; fui recebido na ante-sala pelos seus pais, que não ocultaram a sua alegria pela minha visita.

- Como vai passando sua filha? - perguntei-lhes.

- Oh! Melhor, muito melhor, Senhor! - respondeu o pai. - A tua sabedoria é quase maior do que a nossa gratidão. Ela já fala com mais sensatez e confessou-me haver realmente comido cerejas da morte. A tua bondade é excelsa, pois soube que és um médico que não leva assistência aos enfermos, visando pagamento de honorários. Além disso, me disseram que és um grande Emir, um favorito do Grão Senhor e um amigo íntimo do Mutessarif.

- Quem te disse?

- Toda a cidade já sabe. O Agha Selim não te regateia louvores; o Mutesselim recebeu-te com guarda de honra e por tua ordem chegou até a soltar presos da fortaleza. Essas coisas correm logo de boca em boca, razão por que viemos a saber também.

- Não és natural desta cidade? Pelo que vejo és um curdo!

- Acertaste, Efêndi. Sou um curdo de Lizan e há pouco tempo me transferi para Amadijah, visto não me sentir seguro na minha terra.

- Não te sentias seguro? Por quê?

- Lizan pertence à região de Tijari e é habitada quase que em toda a sua extensão por cristãos nestorianos. Estes sofreram cruéis opressões de modo que ultimamente o desespero se apoderou deles a tal ponto que parecem querer dizimar-se uns aos outros. E como não sou cristão, mas um fervoroso maometano, tratei de me pôr a salvo de prováveis violências, transferindo residência para aqui, onde posso continuar no meu negócio.

- A que ramo de negócio te dedicas?

- Compro as colheitas de nozes e as remeto para o Tigris, de onde são transportadas aos diversos mercados consumidores.

- És um maometano e, no entanto a vovózinha que hoje vi em tua casa é uma cristã. Como se explica isto?

- Emir, trata-se de uma história que muito nos aflige, a mim e à minha mulher! O bisavô de minha mulher era um célebre Melek (1) de Tajaris e aceitou os ensinamentos de Cristo, o crucificado. Sua mulher, que hoje viste em minha casa, fêz o mesmo. O filho, porém, era um fiel adepto do Profeta e separou-se do pai. Este faleceu e o filho, que perdera o título de Melek, morreu mais tarde também. Este ficou pobre por vontade do Profeta, embora seu pai tivesse sido um dos fidalgos mais ricos da época. Os seus filhos também ficaram empobrecidos e quando casei-me com minha mulher, que é sua bisneta, ela mal possuía um vestido para, cobrir-lhe a nudez. Mas nos amávamos reciprocamente e Alá abençoou a nossa união; tornamo-nos abastados.

- E a bisavó?

- Nunca a tínhamos visto, até que um dia ela apareceu em Lizan. Tem mais de cem anos de idade, pensa em morrer breve e por isso quis ver e conhecer a sua decendência, antes de sua morte. Há muito tempo que ela nos visita duas vezes por ano; mas nunca soubemos de onde vem e nem para onde vai depois.

- Mas não lhe perguntaram?

- Apenas uma vez. Não nos respondeu e desapareceu por longo tempo. Desde aquela época nunca mais nos animamos a fazer-lhe tal pergunta. Está neste momento junto da enferma. Queres vê-la?

- Sim, vamos até lá!

Encontrei a paciente sensivelmente melhor. O rubor das faces desaparecera completamente; a sua pulsação era lenta, mas animadora, e já falava melhor. As pupilas haviam readquirido o seu aspecto normal. Continuavam, porém, as dores de garganta e ela engulia ainda com dificuldade. Olhou-me curiosa e ergueu-me a mão em sinal de agradecimento.

Aconselhei que continuassem a dar-lhe café com limão; recomendei ainda que lhe ministrassem um forte escalda-pés; dispunha-me a sair, quando ergueu-se o vulto da velha, que se achava sentada junto ao leito.

- Senhor, eu julgava que fosses um Hekim; peço-te perdão por te haver falado em retribuições materiais, quando de tua primeira visita à minha trineta!

- A melhor paga que eu poderia esperar, é a tua alegria por veres a tua trineta salva! Essa satisfação que te inunda o sêr, para mim vale mais do que todo o ouro do mundo!

- Deus abençoou a tua mão, Emir! Ele torna forte os fracos e condescendentes e misericordiosos os fortes. Quanto tempo vai levar até a doente ficar completamente boa?

- Poucos dias bastam para ela readquirir a saúde e robustez de sempre.

- Senhor, não vivo em mim, mas nesta trinetinha. Eu já morri há anos, há muitíssimos anos, mas ressuscitei naqueles a quem eu desejo preservar das máculas da alma e do corpo! Salvaste não só a dela, mas também a minha vida! Nem podes imaginar o benefício que com isso fizeste a muitos que nunca viste e nem conheces. Voltarás aqui?

- Voltarei, sim, amanhã.

- Então por hoje não preciso dizer-te mais nada

Voltou-se para o leito da enferma, onde tornou a sentar-se. Falava-me tão misteriosamente aquela velhinha; para os próprios parentes ela era um verdadeiro enigma. Gostaria de ter tempo para desvendar aquele mistério! Queriam que eu jantasse, mas ponderei-lhes que acabara de tomar a minha refeição e, além disso, em palácio, esperava-me uma recepção. Desculparam-me e acompanharam-me carinhosamente até a porta.

 

(1) Príncipe.

 

A recepção em palácio

Quando cheguei ao palácio, o Mutesselim já se achava cercado de todos os seus funcionários e oficialidade da guarnição. Portanto ia realizar-se uma grande recepção festiva. Ocupei o lugar de honra ao seu lado. Achavamo-nos reunidos num compartimento maior, com as dimensões de uma sala pequena dos palácios europeus. Havia espaço suficiente para todos se moverem à vontade, mas cada qual estava sentado calmamente, fumava o seu cachimbo, tomava o café que estava sendo servido e palestrava à meia voz com os que lhes estavam próximos. Quando, porém, o Mutesselim pronunciava alguma palavra em voz alta todos inclinavam a cabeça, em expectativa respeitosa, como se estivessem na presença de um monarca poderoso.

A nossa palestra também fora feita em voz baixa. Depois de muitas prolixidades, disse-me o comandante.

- Já ouvi dizer que hoje curaste uma jovem, possuída do “Mau Espírito”. O meu Hekim viu quando te dirigiste para casa da enferma e exigiu-me depois que intimasse a retirar-te da cidade, por seres um feiticeiro.

- O teu Hekim é um nécio, Mutesselim! A moça comera uma fruta venenosa e eu lhe ministrei simplesmente um remédio que neutralizasse o veneno. Em toda a marcha da moléstia, pois, não houve a menor interferência do diabo e nem do “Mau Espírito”.

- És então um Hekim?

- Não. Creio que já sabes quem e o que eu sou! Mas no meu país situado ao oeste daqui, para muito além de Stambul, qualquer habitante leigo possui maiores conhecimentos médicos do que o teu Hekim, que pretende afugentar o diabo do corpo dos seus clientes valendo-se de uma inofensiva mosca morta!

Eu falara demais e talvez com alguma temeridade; mas não fazia mal nenhum que aquela gente tivesse encontrado um dia alguém que se arriscasse a abalar sua absurda mentalidade.

O Mutesselim fêz como se não houvesse percebido aspereza em minha réplica e prosseguiu:

- Então curas todas as doenças?

- Todas! - respondi-lhe resolutamente.

- E conheces também todas as tisanas?

- Todas!

- Há tisanas que os muçulmanos não devem ingerir?

- Há, sim!

- Quais, por exemplo?

- As tisanas preparadas com substâncias de cujos gozos o Profeta proibiu aos seus adeptos, por exemplo, a banha de porco e o vinho.

- O vinho também constitui tisana?

- Sim, e muito eficaz até.

- Quais os casos em que é aplicado?

- Em determinadas moléstias do sistema nervoso e sangüíneo, e bem assim como fortificante e estimulante do aparelho digestivo.

A nossa palestra interrompeu-se novamente. Os presentes conversavam à meia voz com os seus pares e, depois de algum tempo, o Mutesselim, também em voz baixa, declarou-me:

- Efêndi, estou doente, muito doente!

- Ah! Será possível! Que Alá te restitua a saúde!

- E realmente tenho esperanças, pois sou um bom muçulmano e fervoroso adepto do Profeta.

- De que doença sofres?

- Já consultei muitos médicos e todos foram unânimes em afirmar sofrer eu de determinadas moléstias do sistema nervoso e sangüíneo e bem assim de debilidade do aparelho digestivo.

Foi com um esforço brutal que me contive para não dar-lhe uma gostosa gargalhada na cara. Estava explicada a razão do seu introito singular, que se assemelhava ao rodeio do gato em torno de um prato de mingau quente... Era certo que, depois de todo aquele jogo de perguntas, ele ia terminar por pedir-me alguma coisa.

- E os médicos te ministraram algum específico ou tisana?

- Sim, mas não fizeram efeito algum. Aqueles homens não são tão inteligentes e cultos como tu. Não achas também que necessito tomar algum fortificante para estimular o meu aparelho digestivo?

- Necessitas sim, estou convencido disso!

- E não serias capaz de me fornecer à tisana ou o específico?

- Não é possível!

- Por que não?

-Porque o Profeta proíbe!

- Mas o Profeta não determina e nem deseja que o verdadeiro crente pereça à moléstia do sistema nervoso e sangüíneo! Leste já o Kuran com toda atenção?

- Li-o várias vezes!

- Então dize-me se o Profeta proibiu o uso de quaisquer remédios?

- Ah! isso não!

- Estás vendo! Neste caso serás capaz de ministrar um estimulante para o meu aparelho digestivo?

- Não possuo os ingredientes necessários para a sua preparação.

- Estás pilheriando novamente, pois sei bem que os tens, sim!

- Como sabes?

- O teu criado comprou hoje muitos ingredientes daqueles na casa de um judeu.

Ah! O Mutesselim mandou observar-nos! Já sabia até que o minúsculo Halef comprara vinho para o inglês. Devíamos redobrar de precaução, do contrário o nosso propósito poderia fracassar.

- Bom, vou fornecer-te o estimulante!

- Em que dosagem?

- Um vidro de remédio cheio.

-Emir, é muito pouco! Sou comandante de uma praça de guerra e um homem de estatura muito alta; a tisana estará no fim antes de estimular todo o corpo! Não concordas com isso?

- Pois sim, dar-te-ei dois vidros!

- E me fornecerás dois vidros por dia, durante uma semana inteira?

- Mutesselim, receio que fiques demasiadamente forte!

- Oh! Emir, não tenhas receio!

- Bem, experimentemos durante uma semana!

- Mas, além disso, me farás um outro favor.

- Qual?

- Um Mutesselim jamais deve permitir que os seus comandados saibam que sofre ele do sistema nervoso ou digestivo.

- Realmente!

- Embrulharás as garrafinhas tão bem embrulhadas, de modo que não se perceba o seu conteúdo?

- Com prazer te satisfarei o desejo.

- Sofres também do sistema nervoso, Emir?

- Não. Por que me perguntas?

- Porque mandaste comprar aqueles ingredientes.

- Não era para mim.

- Para quem então? Para o mudo Hadjil Lindsay?

- Tu ainda há pouco me disseste que um Mutesselim nunca deve deixar os seus comandados saberem que ele é doente de algum “sistema”. Também há outros homens que têm necessidade de ocultar essa circunstância.

- Ou quem sabe é para o teu outro companheiro que ainda nem se deixou ver na cidade? Deve ser um homem muito doente, visto que desde a sua chegada ainda não saiu do aposento.

Aquilo soava-me a interrogatório! O comandante pretendia informar-se a respeito de Maomé Emin.

- Sim, é um homem muito doente - respondi-lhe.

- De que doença sofre ele?

- Do coração.

- Esperas curá-lo?

- Tenho todas as esperanças.

- Lamento que devido à sua moléstia não tenha ele te acompanhado a esta recepção. É amigo teu?

- E um bom amigo, até!

- Como se chama?

- Ele me pediu que, por enquanto, não te dissesse seu nome. É um velho conhecido teu e pretende fazer-te uma surpresa.

- Ah! - fêz curioso. - Uma surprêza? Quando?

- Assim que estiver restabelecido.

- E quanto tempo levará ainda?

- Poucos dias, apenas.

- Não seria melhor eu procurá-lo, já que ele não pode visitar-me?

- Esta visita causar-lhe-ia fortes comoções, prejudiciais à sua saúde abalada. Isto tu deves reconhecer.

- Neste caso terei que esperar.

O homem mergulhou-se em novo silêncio. Depois reiniciou o interrogatório.

- Sabes que tu para mim constituis um enigma?

- E tu para mim também.

- Por quê?

- Porque me achas enigmático! Dize-me se alguém algum dia te falou com tamanha clareza, sinceridade e desassombro como te tenho falado desde o meu primeiro encontro!

- Neste ponto tens razão, Efêndi! Nem eu consentiria que outros o fizessem. A ti, porém, que és um Emir, e que viajas sob a sombra do Grã Senhor, tendo-me sido calorosamente recomendado pelo Mutessarif, abro essa exceção.

- E com todo o desassombro de minhas atitudes, constituo ainda um enigma para ti?

- Sim, constituis!

- Pois vou fornecer-te a chave para a sua decifração. Faze-me as perguntas que julgas necessárias para te esclarecer.

- Acima de tudo, eu quisera saber de que modo obtiveste a proteção do Grão Senhor, o modo por que sou julgado por este e quais os seus planos a teu e meu respeito! Mas para isso não dispomos hoje de tempo. Falaremos sobre o assunto amanhã a sós e com toda a calma.

Agradou-me essa resolução. Nesse instante todas as atenções se concentravam para o Medah (1) contratado pelo Mutesselim para divertir os seus convivas durante aquela noite. Os cachimbos foram enchidos e acesos de novo, tornaram a servir-nos café e todos escutavam as palavras do narrador.

Este colocou-se no meio da sala e contou com voz cantante e plangente as histórias já mil vezes ouvidas do Abu-Szaber, do sapateiro de boca torta, de Gane, da escrava do amor, do Nuredim Ali e do Vedrddim Hassan. Por essas narrativas recebeu ele duas piastras e ficou despachado.

 

APLICANDO A “TISANA”

Em seguida o Mutesselim ergueu-se para significar que estava findo o sarau. Houve trocas de calorosas demonstrações de cortesias, de inclinações respeitosas e todos se retiraram satisfeitos por terem gozado uma noitada na companhia do comandante e do Emir Hadschi Kara Ben Nemsi, por entre fumaradas de tabaco, xícaras de café, histórias e lendas do Medah! Depois de estarmos na rua, o Agha que me vinha acompanhando, pediu-me:

- Emir, permites que te enfie o braço?

- Pois não, aqui tens o meu!

- Sei que não estou na altura dessa distinção, pois és um grande Emir, um sábio Efêndi e um favorito do Profeta; mas eu te estimo e, além disso, deves ter em vista que não sou um Arnaute vulgar, mas um valente Agha, encarregado de dirigir a defesa

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(1) Narrador de lendas

 

dessa fortaleza contra a arremetida de cinqüenta mil inimigos que nos rodeiam.

- Sei disso e também te estimo. Vem, vamos!

- Quem era?

Ele se referia a um vulto que se achava de tocaia no ângulo da esquina e que agora de esguelha passara por nós, desaparecendo apressadamente na escuridão. Reconheci logo aquele vulto. Era o Arnaute que nos agredira; julguei melhor, porém, não citar essa ocorrência ao Agha.

- Foi um dos teus Arnautes, é claro!

- Talvez seja, mas nunca vi aquela cara.

- A luz do luar ilude!

- Sabes, Emir, o que eu queria dizer-te?

- O quê?

- Hum! Estou doente. Sofro horrivelmente!

- De que, homem?

- Estou atacado do sistema nervoso e sangüíneo.

- Agha Selim, estiveste a espionar a minha palestra!

- Não, Efêndi! Mas eu tinha forçosamente que ouvir tudo, pois me achava sentado logo depois do Mutesselim.

- Mas a uma distância bem grande que para ouvir o que falávamos seria necessário afinar bem os ouvidos!

- Então não se deve escutar uma conversa daquelas, quando se necessita de um fortificante?!

- Mas creio que não queres que eu te forneça esse fortificante!

- E quem mais haveria de fornecê-lo? O velho Hekim? Aquele me daria moscas mortas para comer!

- Mas queres que eu te forneça o fortificante num vidro de remédio ou numa garrafa bojuda?

- Numa, não; certamente queres dizer nalgumas garrafas bojudas!

- E quando?

- Já, se estiveres disposto!

- Então, apressemos o passo para que cheguemos ligeiro a casa.

- Não, Emir! Em casa tropeçarei com a Mersinah, pelo caminho. Esta jamais deve saber que sou doente do sistema nervoso e digestivo!

- Por que não, se é ela quem te prepara os alimentos?

- Os alimentos, vá lá, mas as tisanas, não! Ela própria se encarregaria de beber tudo, não me deixando um só gole! Conheço um local, onde se pode tomar essa tisana, com calma e segurança.

- Onde?

- Efêndi, esses locais em geral são instalados e dirigidos por judeus ou gregos. Ainda não notaste?

- Realmente. Mas ali serás notado e amanhã toda a cidade ficará sabendo que o teu “sistema” não anda lá muito forte!

- Só nós os dois nos veremos reciprocamente. Este judeu tem uma sala reservada, onde nem o luar pode penetrar!

- Então vamos! Mas sejamos precavidos, para que não nos observem entrando na “botica” do judeu!

Mais uma sangria na minha bolsa! Não fazia mal. Sentia-me satisfeito em conhecer o Agha, como um bom muçulmano, que reconhece haver o Profeta condenado o consumo do vinho, mas não da tisana que se prepara com as uvas. Além disso, um pequeno pifão que o chefe militar tomasse, poderia ser vantajoso para o meu objetivo.

Depois de passarmos por algumas ruas estreitas e angulosas, paramos defronte a um mísero casebre, cuja porta se achava apenas encostada. Chegamos ao seu umbral, de onde Selim bateu palmas. Em seguida saiu do seu interior um judeu recurvado, de fisionomia característicamente israelita, que alumiou a cara do Selim.

- Ah! Sois vós, Alteza? Deus Abraão, como levei um susto, quando vi dois vultos parados diante da casa, no lugar do vosso, que tenho a honra de receber diariamente em minha casa, com satisfação e com profundo respeito de súdito vosso!

- Abre, velho!

- Abrir o quê? Qual das salas a pequena ou a grande?

- A pequena!

- Posso ter confiança neste Senhor que tem a honra de acompanhar-vos? Não correrei o risco de que ele divulgue alguma das concessões que vos faço por espírito de camaradagem, para que depois me castigue o poderoso Mutesselim?

- Não precisas recear coisa alguma! Abre, senão arrombarei a porta! O velho separou umas tábuas, por trás das quais abriu-se uma porta.

A porta conduzia a um pequeno compartimento, cujo assoalho estava atapetado com uma esteira de cortiça em mísero estado de conservação. Algumas almofadas de musgo, atiradas ao chão, constituíam os sofás.

- Quereis que acenda a luz?

- Naturalmente!

- Que desejais tomar, Senhores?

- A mesma cousa de sempre!

Foram acessos dois candieiros e agora o judeu pôde contemplar-me melhor.

- Katera Mussa, (1) este é um grande Efêndi e um herói nos campos de batalha! Se vê logo, pelas silahs (2) reluzentes, pelo Kuran de ouro que usa ao pescoço e pelo simbehl (3) igual ao de Jehoschuah, conquistador da Canaan! Neste caso, não devo servir a bebida comum, mas vou buscar de outra enterrada num dos ângulos do porão e que só sirvo a pessoas de qualidade!

- Que bebida é? - perguntei-lhe.

- É um vinho de Tuerbedi Haidari, país que ninguém conhece e onde vicejam videiras, cujos frutos, do tamanho de uma pera, possuem o mais delicioso suco que se conhece.

- Traze uma garrafa! - encomendou o Agha.

- Não; traze dois cântaros! Devias saber que o vinho de Tuerbedi Haidari é acondicionado em grandes cântaros de barro e depois passado para outros menores! - observei-lhe.

- Conheceis essa qualidade de bebida? - perguntou o judeu.

- Tomei-a já por diversas vezes.

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(1) Por Moisés!

(2 ) Armas.

(3) Bigode.

 

- Onde? Em que parte do mundo fica esta terra?

- O nome que tu citaste é o de uma cidade situada na província de Terbidschan, na Pérsia. O vinho é bom e espero que tenhas sabido conservá-lo. Quanto custa?

- Sois um Senhor de distinção! Por isso o tomareis quase de graça. Pagareis apenas trinta piastras por um cântaro.

- E isto é quase de graça?! Traze os dois cântaros para que eu possa provar o vinho. Depois dir-te-ei quanto receberás pela bebida!

O judeu retirou-se. A um dos cantos se achavam recostados à parede alguns cachimbos, ao lado de caixas de fumo. Sentamo-nos ali e agarramos cachimbos sem piteiras. Peguei da minha que sempre trazia comigo e parafusei-a no mesmo; depois experimentei o fumo: era do bom, persa legítimo!

- Que instalação é aquela aos fundos da casa? - perguntei ao Agha?

- Uma drogaria e uma sala para café. Mais aos fundos existe um salãozinho para os fumantes de ópio, bem como um bar destinado ao populacho. Nesta sala aqui, porém, só têm entrada pessoas de distinção social - declarou o Agha, com ares de importância.

Confesso que me alegrei por haver encontrado aquela qualidade de vinho na taverna do judeu. É um vinho tinto, encorpado e de uma elevada dosagem alcoólica; dois ou três goles do mesmo bastam para deixar embriagada uma pessoa não habituada a beber álcool. Pela sua entrada triunfal na espelunca do judeu, depreendi logo que o Selim era um grande apreciador da bebida de Noé; contudo um cântaro daqueles o faria cambalear com facilidade.

Nisso chegou o taverneiro trazendo os dois cântaros, cada um com a medida de um litro mais ou menos. Hum! Pobre Agha Selim! Experimentei a bebida. O vinho sofrerá alguma alterarão certamente durante a viagem, mas não estava mau.

- Então, Alteza, que tal? Gostou do vinho?

- O seu paladar não é ruim, de modo que vale umas vinte piastras o cântaro.

- Senhor, é pouco, muito pouco! Se não pagar mais, levo de volta o meu vinho e vos servirei outro mais comum!

- No país onde ele é fabricado, custa, ao cambio local, quatro piastras. Como vês, o preço que te ofereço é convidativo; se o não aceitares fica com o teu vinho!

Dizendo isso ergui-me pronto a me retirar.

- Que marca devo trazer então?

- Nenhuma! Tomarei apenas desta e pelas vinte piastras o cântaro, que deixarias também por quinze! Tenho certeza disso!

- Se não quiserdes, a Alteza Agha Selim o tomará.

- Ele se retira comigo!

- Bom, deixo por vinte e nove piastras!

- Boa noite, velho! Abri a porta.

- Não vos retireis, Efêndi! Deixo-vos a deliciosa bebida pelas vinte piastras, porque é uma honra para mim e para o meu estabelecimento, ter-vos como freguês!

O negócio estava, pois, fechado e, aliás, com muita satisfação para o judeu, o que notei depois quando o paguei e ele meteu as moedas no bolso grunhindo de alegria. O Agha, primeiramente, provou alguns goles, mas depois esvaziou um copo de vez.

- Allah illa Allah! Wallah, Billah, Tallah! Um vinho tão bom nunca experimentei na vida! Achas que é uma boa tisana para curar o meu sistema enfermiço, Emir?

- É o mais poderoso específico contra a tua doença.

- Ah! Se a “Murta” soubesse!

- Ela também está com o “sistema” arruinado?

- Arruinado, não digo, mas sedento ele está! Ela tem sempre muita sede, Efêndi.

Virou o segundo copo e depois o terceiro.

- Não é de admirar! Ela está muito sobrecarregada de serviço! Trabalha demasiadamente.

- Mas não para mim, disso Alá é testemunha!

- Mas para os teus prisioneiros, que lhe compete alimentar.

- Distribui-lhes pão e água engrossada com farinha apenas uma vez por dia!

- Quanto recebes do Mutesselim pela alimentação dos encarcerados?

- Trinta páras (1) diários por preso.

Ao câmbio atual seriam quinze pfennigs. Dessa importância, no mínimo, metade ficava colada nas mãos do Agha!

- E quanto recebes pelo serviço de vigilância?

- Duas piastras por dia, das quais, porém, até hoje não senti nem cheiro. Em vista disso te admiras de que eu não conheça ainda esta qualidade de vinho?

Tornou a esvaziar outro copo.

- Duas piastras? É muito pouco! Não compensam o trabalho que te dão os encarcerados!

- Trabalho? Nenhum! Que trabalho me poderiam dar aqueles canalhas? Vou diariamente uma vez à prisão para ver se não morreu algum.

- A que horas costumas fazer tal visita?

- A hora que me dá na veneta.

- E mesmo à noite?

-Sim, desde que tenha esquecido de fazer durante o dia e, casualmente, tenha saído à noite. Wallahi, lembro-me agora de que hoje ainda nem fiz a visita diária!

- Minha chegada te impediu.

- É isto mesmo, Efêndi.

- E és obrigado a fazer ainda a visita?

- Não. Era só o que faltava!

- Por quê?

- Aqueles canalhas não merecem que me esforce por causa deles!

- Perfeitamente. Mas não decrescerás no respeito dos teus comandados?

- Que respeito?

- És Agha, portanto um oficial superior. Teus Arnautes precisam ter medo de ti. Não é assim?

- Sim; precisam; por Alá, que precisam! - sublinhou.

- Também o sargento que subcomanda a guarda?

- Também este. Naturalmente! Aquele mazir (2) aliás é um grande cão! Preciso inspirar-lhe medo, terror!

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(1) Pára - fração da piastra. 

(2) Sargento

 

- Neste caso deves vigiá-lo severamente, precisas fazer às vezes uma visita extraordinária à prisão a ver se cumpre rigorosamente as tuas ordens, do contrário ele jamais terá medo de ti!

- Esplêndida idéia! Vou, daqui por diante, fazer visitas fora de hora, vou, sim! Por Alá, que vou!

- Se ele estiver certo de que não o vigias durante à noite, sairá a beber pelas tavernas ou em orgias com as bailarinas, e se rirá depois, gostosamente de ti!

- Ele que se arrisque! Vou surpreendê-lo amanhã, ou talvez hoje ainda! Emir, me acompanharás nessa diligência?

Claro que nem de longe manifestei a dúvida de que se me era ou não permitido entrar na prisão. Antes fiz como se a minha companhia fosse uma honra para ele.

- Merecem aqueles malandros a distinção de se avistarem com um Emir?

- Não irás lá por causa deles, mas para dar-me a honra de tua companhia!

- Neste caso terás que dar à minha visita o caráter de se tratar de um jurista, que se acha em viagem de estudos de sistemas presidiários!

- É claro! Fingirás que és o próprio Mutesselim que me acompanha. Farás uma rigorosa inspeção em todos os departamentos da prisão.

- Assim, irei junto, pois tenho certeza de que os Arnautes não me tomarão por um simples Khawass.

O seu cântaro estava no fim e eu bebera parelho com ele. Os seus olhos diminuíam cada vez mais de diâmetro e as pontas de seus bigodes se achavam em desalinho.

- Vamos mandar vir mais um cântaro, Agha Selim? - perguntei-lhe.

- Por mim não, Efêndi. Estou louco por surpreender aquele Mazir. Amanhã voltaremos aqui.

O sargento apenas servira de pretexto; a verdade, porém, era que ele já sentia os efeitos do vinho de Tuerbedi Haidari. Depôs o cachimbo no seu lugar e ergueu-se com passos indecisos.

- Que tal este fumo, Efêndi? - perguntou-me.

Percebi até onde o Agha pretendia chegar e respondi:

- Ruim. Causou-nos dores de cabeça e tonturas.

- Por Alá tens razão. Esse fumo debilita e anarquiza o sistema nervoso e sangüíneo, ao passo que vimos cá para fortificá-los. Bem, agora vamo-nos!

 

VISITANDO O PRESÍDIO

Bateu palmas; era o sinal de que nos íamos retirar. Saímos. O vinho produzira excelentes resultados para o meu objetivo. Quando chegamos à rua, disse-me:

- Ruim. Causa-nos dores de cabeça e tonturas.

Foi menos a sua amizade do que a fraqueza do seu “sistema” que o levara a fazer-me tal pedido; logo que aspirou o ar da noite, mostrou-se exímio mestre naquelas acrobacias fatais em que se confundem o Nadir com o Zênite!

- Maomé era um sujeito judicioso, não achas, Emir? - exclamou em voz tão alta que obrigou um transeunte a estacar para ouvir de que se tratava.

- Por quê?

- Porque não proibiu o uso das tisanas. Tivesse ele feito também esta proibição, ter-se-ia que fazer tinta das uvas. Sabes onde está a prisão?

- Por trás de tua casa.

- Tens sempre razão, não há dúvida. Mas onde está a minha casa?

Era uma pergunta difícil de se responder, a não ser que a resposta fôsse tola como a pergunta.

- Bem diante da prisão, Agha!

Ficou parado, ou, antes, tentou parar-se com firmeza nas pernas e olhou-me estarrecido.

- Emir, és um sujeito tão judicioso como o foi o velho Maomé, não é? Por isso confesso-te que aquele fumo subiu-me de tal modo à cabeça que vejo aqui à direita a fortaleza e à esquerda a... fortaleza também. Qual dos dois lados é o verdadeiro?

- Nenhum deles. À tua direita ergue-se um carvalho e aquilo lá em cima, à esquerda, é uma nuvem no firmamento.

- Uma nuvem? Allah illa Allah! Deixa que eu te segure um pouco mais!

Cambaleante o chefe militar dos albanezes, avançou comigo quase que de arrasto. Deste modo adiantamos muito a nossa caminhada e não demorou estarmos postados diante de um edifício que eu tomei pela prisão, embora ainda não a tivesse visto de frente.

- Não é aqui o Zindan? (1) - perguntei-lhe.

O homem pôs o turbante na nuca e olhou para todos os lados.

- Hum! Pelo menos o edifício é muito parecido. Não haverá por aqui alguém que nos informe? Fui obrigado a segurar-te tão fortemente, que estou com as vistas confusas e isso é grave. As casas cruzavam por mim com tamanha velocidade que pareciam caravanas a galope.

- Não vejo ninguém. Mas deve ser a prisão, sim!

- Vamos experimentar!

Levou a mão ao cinturão em procura de alguma coisa que não achava.

- Que procuras?

- A chave da porta.

- Tu a carregas contigo?

- Sempre! Procura tu, quem sabe achas!

Apalpei-o pelo cinturão e achei imediatamente a chave. Não era possível deixar de encontrá-la em seguida, pois era tão grande que poderia carregar-se o orifício com uma bala número 0, destinada a caçar ursos.

- Está aqui a chave! Queres que eu abra a porta?

- Sim, abre! Receio, porém, que não aches o orifício da fechadura, pois o teu “sistema” ficou muito alterado com aquele fumo.

A chave servia.

- Afinal, encontramos a prisão! - exclamou o Agha aliviado. Conheço muito bem esse ruído da chave! Entremos!

- Devo fechar novamente a porta?

- Claro que sim. Num presídio toda precaução é pouca.

- Chama o carcereiro!

________________

(1) Fone.

 

- O sargento? Para quê?

- Para nos alumiar a entrada.

- Era só o que faltava. Vim aqui para surpreendê-lo na sua negligência e falta de pontualidade no cumprimento de minhas ordens.

- Neste caso não deves falar tão alto!

Quis seguir para frente, mas cambaleava de tal modo que teria tombado ao solo se eu não o segurasse com ambas as mãos.

- Que foi isso, Emir? Entramos numa casa estranha!

- Onde fica a sala do sargento? No terraço?

- Não, no primeiro andar.

- E onde está a escada, aqui na frente ou nos fundos?

- Hum! Deixa-me lembrar! Creio que na frente. Depois da porta precisa-se caminhar uns seis a oito passos para alcançar a escada.

- À direita ou à esquerda?

- Sim, em que posição me acho? Oh, Emir o teu organismo não suporta aquela tisana. Colocaste-me numa posição enviesada, de modo que o assoalho não é plano, mas corre de alto a baixo, assemelhando-se a uma ladeira das estradas que conduzem às montanhas!

- Então vem cá! Por trás de ti está a porta; aqui é a direita e ali a esquerda. Em qual desses lados está a escada?

- No esquerdo.

Continuamos a caminhar cautelosamente e, tateando com o pé, descobri, realmente, logo depois, os degraus inferiores de uma escada.

- Aqui está a escada, Agha.

- Exatamente! Não vas cair, Emir! Nunca estiveste nesta casa; o melhor será eu segurar-te, pois vejo que estás cambaleando diante dos meus olhos!

O homem já não me dava o braço, mas se dependurava em mim, de maneira que eu tive que carregá-lo, por assim dizer, escada acima, escada que eu não conhecia.

- Bom, agora estamos no primeiro andar. Onde fica a sala do sargento?

- Fala mais baixo! A primeira, desviando-se para o corredor da direita.

Conduziu-me para frente, ao invés de desviar-se para a direita... Depois de tatear pela parede, descobri finalmente uma porta.

- Acho duas trancas, mas não a fechadura.

- Não tem fechadura.

- Mas a porta está fechada com as trancas.

- Quer ver que no fim penetramos numa casa alheia!

- Vou retirar as trancas e abrir a porta.

- Faze isso para que eu veja a quantas andamos...

Retirei as duas pesadas travas da porta e esta abriu-se para o lado de fora. Em seguida entramos.

- Existe alguma vela ou cousa parecida na sala do sargento?

- Existe sim, há um lampião e fósforos no nicho da parede à esquerda.

Tateando descobri o nicho com o lampião e os fósforos; acendi logo a luz.

O compartimento era estreito e acanhado. Uma rede de junco atirada ao assoalho servia-lhe de mobiliário para tudo. Um púcaro partido, um par de sapatos rotos, um par de tamancos, uma moringa vazia e uma chibata se achavam espalhados pelo chão.

- Não está o sargento? Onde andará ele metido? - perguntou o Agha.

- Deve estar na sala dos Arnautes que aqui montam guarda.

 

O Agha agarrou o lampião e, oscilante, quis sair em procura do seu subordinado, mas foi tão infeliz que tropeçou logo na porta.

- Não me empurres, Emir! Vem, segura o lampião; prefiro guiar-te, pois do contrário, tonto como estás que mal te susténs de pé, és capaz de me jogar escada abaixo. Eu te estimo, sou teu amigo, teu melhor amigo. Por isso aconselho-te jamais ingerires daquele vinho persa. Não podes suportá-lo. Ele te deixa além de tonto, violento!

Foi com grande esforço e paciência que consegui trazê-lo novamente escada abaixo. Ao chegarmos à sala destinada ao alojamento dos Arnautes, encontramos a mesma também fechada, e, ao abri-la, verificamos estar este compartimento deserto. Assemelhava-se mais a uma baia do que alojamento de soldados, circunstância que dava uma triste idéia do asilamento recebido ali pelos prisioneiros.

- Também os soldados abandonaram os seus postos!

- Tu tinhas razão, Emir! Esses canalhas foram para a orgia, ao invés de vigiar a prisão. Mas hão de aprender a temer-me! Vou mandar aplicar-lhes bastonadas! Não, mandarei enforcá-los, é melhor!

Tentou revirar os olhos, mas não o conseguiu; o vinho depois de algum tempo é que redobrava de efeito. Via-se isso nele.

- Que faremos agora?

- Que pretendes dizer, Emir?

- Eu, no teu lugar, ficaria aqui para fazer aos Arnautes a recepção que merecem!

- Claro que vou tomar essa medida. Mas onde os esperaremos?

- Aqui mesmo ou lá em cima.

- Aqui! Por dinheiro nenhum tornarei a subir a escada. Preciso arrastar-te comigo, Emir, e tu és muito pesado. Vê como cambaleias, homem! Senta-te, talvez te passe essa tontura!

- Mas pensei que íamos passar em revista a prisão!

- É mesmo! - disse visivelmente “fatigado”. - Mas esses sujeitos que aí estão recolhidos não merecem essa honra de nossa parte! São todos ladrões, salteadores, curdos e um árabe, que é o pior deles.

- Onde está recolhido esse árabe?

- Aqui embaixo mesmo, numa cela logo ali adiante, pois carece de uma vigilância mais severa do que os outros. Mas senta-te, senão cairás!

Sentei-me ao seu lado, não obstante ser o chão de barro endurecido, e barro cheio de imundícies ainda por cima! O Agha bocejou.

- Estás cansado? - perguntou-me ele.

- Um pouco.

- Por isso estás a bocejar. Dorme um pouco, até eles voltareml Então te acordarei. Allah il Allah como te tornaste tonto e indeciso. Contigo a gente não pode mais contar. Entretanto, vou pôr-me mais à vontade possível.

Deitou-se, estirou as pernas e pôs as mãos debaixo da cabeça à guisa de travesseiro. Seguiu-se um silêncio profundo; por fim o chefe albanês deixou pender a cabeça: o Senhor do presídio dormia.

Quantas vezes lera eu que os prisioneiros valiam-se das bebedeiras dos seus vigilantes para fugirem do cárcere e me irritara com tais narrativas que me pareciam fantasiosas! Agora eu, em conseqüência da bebedeira do chefe da prisão, estava diante da realidade de um daqueles fatos; achava-me sozinho de posse dos prisioneiros e do presídio! Deveria eu abrir o cubículo e soltar o Haddedihn? Seria uma imprudência que acarretaria males insanáveis. Não nos achávamos de momento preparados para abandonar a cidade. E, por fim, a culpa toda recairia sobre o pobre Agha e eu seria o único indiciado, o que me podia ser perigoso ou, no mínimo, me causaria sérios transtornos de futuro. O melhor mesmo seria facilitar a evasão de nosso prisioneiro em circunstâncias que a sua fuga constituísse um verdadeiro mistério. E essa empresa, daqui por diante, ser-me-ia talvez fácil, sem que sobre mim recaísse a menor suspeita. Decidi-me, pois, procurar apenas falar com o prisioneiro e facilitar-lhe a evasão só depois de realizar todos os preparativos.

O Agha jazia no solo, e roncava de boca aberta. Sacudi-lhe o braço primeiro de leve e depois fortemente. Não se acordou. Agarrei o lampião e deixei o alojamento, cuja porta fechei sem ruído. Coloquei-lhe uma das trancas, a fim de não ser de modo algum surpreendido. Havia notado, há pouco, que todas as portas não dispunham de fechaduras e que eram fechadas por duas travas de ferro. Não precisava eu, pois, andar em procura de chaves.

 

CONFABULANDO COM O PRISIONEIRO

Por fim sofri uma certa mudança em meu estado de espírito, quando depois me encontrei sozinho no corredor geral, cuja escuridão a luz do lampião não conseguia dominar. Mas dispus-me a estar pronto para o que desse e viesse. Se por acaso surgisse alguma circunstância imprevista, eu tudo arriscaria para não me retirar da fortaleza sem dali arrancar o prisioneiro. Aproximei-me de sua cela, arredei a trava de ferro e deixei a porta bem aberta, a fim de poder ouvir o menor ruído depois de me achar lá dentro.

Aquilo não era uma cela, mas uma verdadeira toca, onde se achava o prisioneiro! Sem ligação à escada alguma, a toca que se me deparou diante dos olhos possuía uma profundidade de uns dois metros. Media quatro passos de comprimento e dois de largura, mais ou menos, e o solo não se achava assoalhado ou nivelado de modo algum. Por cima, perto da cobertura, havia uma seteira, que do meu quarto eu já avistara de dia. Além de uma bacia de barro cheia de água, daquelas bacias que se utilizam para dar alimentos aos cachorros, nada mais tinha o preso à sua disposição.

O presidiário estava deitado sobre a terra úmida e fria e à minha aproximação levantou-se. Com os olhos fundos nas órbitas e emagrecido, parecia um semi-morto; no entanto o seu porte era altivo e cheio de dignidade; seus olhos brilharam enfurecidos ao interpelar-me:

- Que desejas?! Não se pode nem ao menos dormir sossegado?

- Fala baixo! Não pertenço ao corpo de guardas que te vigiam. Como te chamas?

- Por que me perguntas?

- Fala mais baixo, pois ninguém deve ouvir-nos. Como é teu nome?

- Tu bem sabes, por que estás a perguntar? - retrucou-me agora, porém, em voz baixa.

- Tenho apenas uma suposição e para confirmá-la, desejaria ouvir dos teus próprios lábios o teu nome.

- Chamam-me de Amad ei Ghandur.

- Então és justamente a pessoa que procuro. Prometes conservar-te calmo, depois das palavras que te vou dizer?

- Prometo!

- Maomé Emin, teu pai, está bem próximo daqui.

- Allah illa Allah...!

- Cala! Os teus brados podem denunciar-nos!

- Quem és tu?

- Um amigo do teu pai. Quando fui hóspede dos Haddedihns, tive oportunidade de lutar ao lado do teu pai contra os seus inimigos. Soube então que te achavas preso e para aqui viemos a fim de libertar-te.

- Graças a Alá! Mas não posso acreditar!

- Podes crer! Vê esta tua janela: dá para um pátio que confina com um jardim, onde estão os aposentos habitados por nós.

- Quantos homens formam a caravana?

- Apenas quatro. Teu pai, eu, mais um amigo e um criado.

- Quem és tu e quem é o outro amigo?

- Deixemos isso para mais tarde, pois agora não podemos perder tempo!

- Vamos fugir já?

- Não. Não fizemos ainda os preparativos para a tua evasão e aqui me encontro por acaso. Fui trazido à fortaleza de um modo imprevisto. Sabes ler?

- Sei, sim.

- Mas falta-te a luz para leres.

- Ao meio dia há claridade bastante para se distinguir as letras.

- Então ouve: poderia arrancar-te já daqui, mas isso redundaria em grave perigo para todos nós. Afianço-te, porém, que dentro de poucos dias estarás livre. Por enquanto não sei ainda como te facilitaremos a evasão. Quando ouvires o ruído de uma pedra caindo pela seteira dentro da tua cela, apanha-a, porque nela estará amarrado um papel, contendo as instruções, que deves seguir.

- Senhor, vens restituir-me à vida, pois já me achava à beira do desespero! Como soubeste que me tinham trazido para Amadijah?

- Foi o Dschesidi, que encontraste no arroio, que me contou tudo.

- Está certo. Oh! Agora vejo que falas a verdade! Vou esperar com resignação; dá lembranças ao meu pai!

- Darei ainda hoje. Tens fome?

- Muita!

- É possível esconderes pão, lampião e fósforos nesse cubículo?

- Sim. Faço com as mãos um buraco na terra onde guardarei tudo.

- Então aí tens o meu punhal. É bom teres uma arma para qualquer eventualidade. Mas trata-se de uma arma de estimação, faze tudo para não perdê-la!

O rapaz agarrou apressadamente o punhal e apertou-o entre os dentes.

- Senhor, Alá se lembrará de ti! Agora possuo uma arma, agora me libertarei mesmo que vocês não puderem facilitar-me a fuga!

- Poderemos! Não empreendas nada precipitadamente; isso lançaria teu pai e a ti próprio em sérios perigos!

- Esperarei uma semana inteira. Se até lá eu não souber notícias de vocês, agirei por conta própria.

- Está bem! Se me fôr possível, ainda esta noite mandar-te-ei, por esta seteira, pão, outros alimentos e fósforos. É provável que possamos então conversar. Se não houver perigo, poderás, mesmo, ouvir a voz do teu pai. Por enquanto, passa bem; tenho que me ir!

- Senhor, deixa que te aperte a mão!

Estendi-lhe a mão. Apertou-a com as suas duas mãos com tanto entusiasmo que me causou dores o seu aperto.

- Que Alá te abençoe as mãos enquanto elas se poderem mover, e depois, quando estiverem postas, no sono derradeiro da morte, que o teu espírito encontre no Paraíso a recompensa por teres sido o meu anjo salvador.

Fechei novamente o cubículo e lentamente voltei para a sala onde se achava o Agha. Este continuava a dormir e a roncar; sentei-me ao seu lado.

Ali estive uma hora inteira até que percebi passos que se dirigiam para porta do presídio. Levantei-me depressa, fechei a porta que se achava aberta e despertei o Agha. Não era isto tarefa fácil, tanto mais que devia ser efetuada o mais depressa possível. Fiz com que ficasse em pé. Olhou-me com os olhos intumescidos.

- Ah! és tu Emir. Onde nos achamos?

- No presídio. Põe-te em linha! Olhou perplexo em torno de si.

- No presídio? Ah! Como viemos parar aqui?

- Lembra-te do judeu e da tisana; pensa também no sargento ao qual tencionávamos surpreender, na falta do cumprimento de suas obrigações.

- O sarg... Maschdlab, agora lembro-me de tudo! Estive dormindo. Onde está ele?

- Fala baixo! Não ouves? Os teus comandados estão lá fora a palestrar amistosamente. Passa um lenço nos olhos e recompõe tua fisionomia?

O bom Agha se achava em estado deplorável; mas pelo menos recuperara a consciência e já se podia suster firme de pé. Pegou o lampião, abriu a porta com um ponta-pé e saiu para o corredor. Os soldados apavorados, pararam. O comandante acercou-se deles.

- De onde vêm, matilha de cães? - trovejou-lhes.

- Do café - respondeu o sargento, depois de hesitar por instante.

- Do café! Em lugar de estarem a postos! Quem deu licença para se retirarem?

- Ninguém!

O pessoal tremia de pavor. Tinha pena deles. A sua negligência me fora de tanta utilidade! Não obstante a luz escassa e bruxuleante do lampião, pude ver que o Agha revirava os olhos de modo terrível. As pontas de suas barbas tremiam e os punhos cerravam-se de cólera. Contudo apercebeu-se de que o seu estado de embriaguez não cessara ainda de todo e por isso avisou aos comandados:

- Amanhã vocês receberão o castigo!

Depôs o lampião sobre um degrau da escada e dirigiu-se a mim:

- Ou quem sabe achas, Emir, que devo lavrar-lhes logo a sentença? Queres que eu mande chibatear um atrás do outro?

- Adia a sua punição para amanhã, Agha Selim! Eles não poderão fugir dela!

- Vou adiá-la em atenção a ti. Vem!

Depois disso, recolhemo-nos a casa, onde a Murta já nos aguardava.

- Estiveste tanto tempo com o Mutesselim? - perguntou ela desconfiada.

- Mersinah, afianço-te que a reunião vai prolongar-se até de manhã cedo. Mas como eu sabia que estavas sozinha em casa, pedi desculpas ao comandante e me retirei. Não quero que os russos te cortem a cabeça. Vai haver guerra!

Tomada de espanto, a governanta pôs as mãos na cabeça.

- Guerra? Mas entre quem?

- Entre os turcos, russos, persas, árabes e curdos. Uma divisão russa com cem mil homens e três mil canhões já se acha concentrada em Serahrn, quatro horas distante daqui.

Apavorada, ela pôs as mãos na cabeça.

- Oh! Alá! Eu morro, já estou morta! E tu terás que combater também?

- Claro. Engraxa-me ainda esta noite as botas! Mas não contes nada a ninguém. A guerra constitui ainda um segredo de Estado e a população de Amadijah dela só deverá ter conhecimento, quando amanhã os russos cercarem a cidade.

Oscilante e extenuada, a governanta sentou-se sobre a primeira panela que encontrou perto de si.

- Já amanhã! Mas isso é verdade?

- Claro que sim.

- E vão bombardear a cidade?

- Vai ser um bombardeio terrível!

- Agha Selim, não engraxarei as tuas botas!

- Por que não?

- Não deves participar da guerra; não quero que morras em combate.

- Bom! Folgo com isso, pois assim posso dormir mais descansado. Boa noite, Efêndi! Boa noite, minha doce Mersinah!

E saiu para o seu quarto. A flor de seu solar seguiu-o com um olhar desconfiado e depois perguntou-me:

- Emir, é verdade que os russos vêm aí?

- Não é bem certo ainda. Creio que o Agha levou muito a sério a questão.

- Oh! Tu vertes bálsamo no meu coração aflito! Não será possível conservá-los distante de Amadijah?

- Vamos tratar disso amanhã... Separaste as duas qualidades de café?

- Sim, Senhor. Foi um trabalho insano; mas aquele homem mau que é o Hadschi Halef Omar, não me deixou em sossego enquanto não fiz a separação. Queres vê-los?

- Quero.

A velha trouxe o tubo e o cartucho; vi que de fato ela se dera ao trabalho de separar as duas qualidades que havia misturado.

- E qual a tua sentença agora, Emir?

- Favorável a ti. Como tuas níveas mãozinhas tiveram que tocar por tantas vezes nesses grãos, o café será teu. Também teus serão os utensílios que mandei comprar hoje. Dos copos, porém, faço presente ao valente Agha Selim.

- Oh! Efêndi, és um juiz íntegro! Tens mais de bondade no coração que eu de panelas na cozinha; esse saboroso café constitui o perfume da tua generosidade! Que Alá amenize o coração dos russos, para que não venham assaltar a cidade e que não te matem! Achas que ainda hoje posso dormir descansada?

- Podes, asseguro-te!

- Obrigada, pois o descanso é o único lenitivo que alegra o espírito atribulado de uma pobre mulher como eu!

- Dormes aqui embaixo, Mersinah?

- Durmo.

- Mas não na cozinha, e sim lá na frente?

- Senhor, o lugar da mulher é na cozinha, onde deve dormir também! Hum! Aquilo não me agradava. Além disso, a blague do Agha fora inoportuna. Com toda certeza a “Murta”, em face daquela alarmante notícia não conciliaria logo o sono. Subi, mas ao invés de me dirigir ao meu aposento, encaminhei-me para o do Haddedihn. Já dormia, mas acordou-se logo quando cheguei. Relatei-lhe a minha aventura no presídio e ele não podia ocultar a sua comoção.

Empacotamos os comestíveis com o lampião e fósforos e rastejamos até uma sala situada na soteia. Esta possuía apenas uma janela, isto é, uma abertura quadricular, fechada por um tampo de madeira, que se achava encostado. Quando assomei à abertura vi que o alpendre de alvenaria que ladeava o pátio era plano e acessível, pois tinha a altura de uns três metros apenas. Subimos ao alpendre e deste passamos para o jardim onde outrora a Khan Esma espalhava o “perfume de sua beleza”. Estávamos agora separados da prisão por uma parede espessa, cujo cimo podíamos alcançar com a mão.

- Espera! - pedi ao Xeque. - Por medida de segurança vou fazer um reconhecimento, a fim de verificar se não estamos sendo vigiados.

Subi ao alpendre e percorri-o em toda a sua extensão. De uma das seteiras à direita da galeria notei uma luz bruxoleante. Era a sala onde o Agha dormira, depois da bebedeira. Certamente lá se achavam agora os Arnautes, que de medo não podiam dormir. A seteira seguinte, pois, era a cela, onde se achava Amad ei Ghandur.

Reconheci todas as imediações sem haver encontrado algo de suspeito. Encontrei também fechada a porta que conduz da prisão ao pátio. Voltei, então, para o local, encontrando o Haddedihn já trepado ao muro.

- Maomé!

- Que tal?

- Tudo em ordem. Podes descer daí?

- Posso.

- Então vem, mas sem fazer o menor ruído.

O Xeque desceu.

Saímos pelo alpendre e fomos postar-nos debaixo da seteira que eu quase podia alcançar com o braço.

- Debruça-te, Xeque, firmando-te à parede.

Assim ele fêz e eu, saltando sobre os seus ombros, coloquei-me de face bem diante da seteira.

- Amad ei Ghandur! - chamei pela seteira, onde encostei logo o ouvido.

- Es tu, Senhor? - soou uma voz abafada debaixo para cima.

- Sou.

- Meu pai também está aí?

- Está sim. Ele vai descer, agora, alimentos, lampião e fósforos, por um cordão e depois falará contigo. Espera!

Desci das costas do árabe.

- Pesei-lhe muito?

- Não se suporta por muito tempo o peso, devido à posição incômoda.

- Bem, agora façamos diferente; como não falarás apenas um minuto com teu filho, ajoelharás sobre os meus ombros, de modo que possa depois soerguer-me contigo.

- Ele te ouviu?

- Ouviu e perguntou-me por ti. Tenho um cordão aqui no bolso e por meio dele descerás os alimentos e os demais objetos.

Prendemos o pacote numa das extremidades do cordão. Com as mãos entrelaçadas atrás formei um degrau, no qual o árabe podia pisar; segurei-o depois com as mãos para que ele não escorregasse e por fim se ajoelhou sobre os meus ombros com tanta segurança, como se o fizesse em terreno firme.

Maomé desceu o pacote e começou então um diálogo apressado e animado, do qual eu só ouvia as palavras do meu companheiro. Por diversas vezes o Xeque perguntou-me se eu ainda suportava o seu peso. Era um homem alto e possante e, de fato, respirei aliviado quando daí a cinco minutos ele terminou a palestra e o depus sobre o alpendre.

- Emir, precisamos arrancá-lo dali, não suporto mais delongas! - exclamou o velho emocionado.

- Em primeiro lugar sairemos daqui sem perda de tempo. Vou apagar todos os vestígios que deixamos em nossa passagem para que amanhã não suspeitem de nós.

- Não podíamos ter deixado pista, pois o alpendre é de alvenaria.

- Cautela nunca é demais.

Ele saiu à frente e eu o segui logo depois. Em pouco tempo estávamos de volta ao aposento do Xeque.

Maomé quis logo fazer um plano para a fuga do filho. Recomendei-lhe que, por hoje, o melhor seria deitar-se a dormir e, depois de lhe desejar boa note, recolhi-me.

Na manhã seguinte, visitei, em primeiro lugar, a minha paciente. Achava-se fora de qualquer perigo. Estava apenas a mãe na sua companhia. Pelo menos não vi ninguém mais em casa. Depois dei uma volta pela cidade e fui até os fundos da prisão, para ver se não havia alguma probabilidade de fuga sem ser preciso passar pelo portão. Havia uma saída por ali, mas não dava passagem a cavaleiros, apenas a pedestres.

Quando voltei para casa, o Agha acabava de levantar-se.

- Emir, já é dia. - disse ele.

- E já há muito tempo! - concordei eu.

- Oh! Quis dizer-te que agora poderíamos falar mais detalhadamente sobre o nosso assunto.

- Nosso assunto?

- Sim, nosso. Estiveste também na prisão. Devo dar parte ou não?

- Eu, no teu lugar, silenciaria sobre o caso.

- Por quê?

- Porque o melhor será que ninguém saiba haveres estado na prisão durante a noite. O teu pessoal notou que não caminhavas com muita firmeza e poderão citar essa circunstância nalgum inquérito a que serás submetido.

- É verdade. Ao me acordar a pouco é que vi o deplorável estado de minha vestimenta. Tive que esfregá-la bastante para tirar-lhe a sujeira. Foi um milagre a Mersinah não ter dado pela coisa! Então achas que não devo dar parte dos homens?

- Acho. Deves limitar-te a repreendê-los e a tua complacência lhes fascinará com o efeito dos raios solares sobre os seus olhos.

- Tens razão, Efêndi. Vou depois fazer-lhes um sermão enérgico.

Os olhos do Agha se reviravam tal qual a pá de um ventilador de gabinete. Em seguida ficaram parados e a sua fisionomia adquiriu uma expressão de benignidade.

- Eu os indultarei do castigo, tal qual o Padixá que preserva a vida e propriedade de milhões e milhões de súditos!

 

GRANDES REVIRAVOLTAS NA ADMINISTRAÇÃO DE MOSSUL

Retirou-se, mas parou no primeiro degrau da escada, pois lá fora havia apeado um cavaleiro e eu ouvi uma voz muito conhecida perguntar:

- Moram em tua casa três Efêndis, dos quais um se chama Hadschi Emir Kara Ben Nemsi, e que viajam na companhia de um criado?

- Moram. Que pretendes dele?

- Quero falar com ele!

- Aqui está o Emir.

Selim afastou-se para o lado de maneira que o homem me pudesse ver. Não era outro senão Selek, o Dschesidi de Baadri.

- Efêndi! - exclamou cheio de alegria. - Deixa que te saúde!

Ao apertarmo-nos as mãos, vi que ele montava o cavalo do Bei Ali; o animal estava banhado em suor. Cavalgara, pois, apressadamente. Era de supor-se, em vista disso, que me trazia uma importante mensagem.

- Leva o teu cavalo para o pátio e sobe! - disse-lhe eu.

Quando daí a minutos nos achávamos sós no quarto, ele entregou-me uma carta.

- De quem é?

- Do Bei Ali.

- Quem a escreveu?

- O Mir Xeque Khan, o príncipe dos sacerdotes.

- Como achaste a minha residência?

- No portão da cidade me informaram logo.

- E como vieste a saber que se acham dois Efêndis na minha companhia? Quando estive no vale do Idiz só havia um.

- Soube-o em Spandareh.

Abri a missiva. Encerrava notícias interessantes, algumas até auspiciosas para os Dschesidis, mas entre elas uma nada agradável para mim.

- Quê? Um tal sucesso alcançou a embaixada do Bei Ali? - perguntei surpreendido. - O Kasi Askarie de Anatólia veio com ela para Mossul?

- Sim, Senhor. Ele estima o nosso Mir Xeque Khan e procedeu a uma rigorosa sindicância. O Mutessarif será destituído, sendo nomeado outro para o cargo.

- E o Makredsch de Mossul fugiu?

- Isso mesmo. Ele era culpado de todos os erros praticados pelo Mutessarif. Vieram à luz graves irregularidades, coisas de arrepiar os cabelos! Há onze meses que os subgovernadores não recebem os seus subsídios e os comandantes, oficiais e soldados os seus soldos. A humilhação aos árabes, exigindo destes os tributos, nada adiantou ao país, porque ele embolsou todo o dinheiro arrecadado. E muitas outras irregularidades mais! Os Kawass destacados para efetuarem a prisão do Makredsch chegaram tarde: ele fugira. Em vista disso todos os Beis e Kiajahs das cidades adjacentes receberam ordens para prendê-lo assim que ele aparecer. O Kasi Askarie de Anatólia presume que ele se tenha refugiado em Stambul visto ter sido amigo do Weli (1) daquela cidade.

___________

(1) Vice-rei.

 

- Não há razão para essa suposição; o Makredsch deve ter-se refugiado nas montanhas, onde torna-se mais difícil capturá-lo ou, então, deve ter-se dirigido antes para a Pérsia do que para Bagdad, aproveitando tal viagem para extorquir todos os juizados que lhe estão subordinados.

- Tens razão, Efêndi. Ontem de noite soubemos que ele estivera na véspera, pela manhã, em Alkosch e à noite em Mungayschi. Ao que parece ele pretendia vir para Amadijah, mas por outros caminhos, a fim de não passar pelas localidades dos Dschesidis, a quem ele assaltou.

- O Bei Ali teve razão em supor que a chegada aqui do Makredsch me acarreta sérios embaraços. Ele se tornará um entrave para mim, pois nem estou em condições de provar a sua qualidade de fugitivo, em cujo encalço anda a justiça.

- Oh! Emir, o Bei é previdente. Quando soube o que se passara com o Makredsch ordenou-me que encilhasse o seu melhor cavalo e que viajasse a noite inteira, a fim de chegar aqui antes do ex-juiz superior, no caso em que ele, realmente, se destinar a Amadijah. E quando deixei Baadri, ele me entregou dois ofícios que recebera de Mossul. Aqui estão. Lê e vê se te são de alguma utilidade!

Abri os escritos. Um deles era uma carta do Kasi Askarie, comunicando ao Mir Xeque Khan as destituições do Mutessarif e do Makredsch. O outro era um ofício dirigido ao Bei Ali, ordenando a prisão do Makredsch, no caso deste ali aparecer e o seu transporte imediato para Mossul. Ambos os documentos estavam providos da assinatura e do grande selo do Kasi Askarie.

- Esses documentos me são realmente de extraordinário valor. Durante quanto tempo poderei ficar com eles?

- São teus. Podes ficar com eles para sempre.

- Então ainda ante-ontem à noite o Makredsch esteve em Mungayschi?

- Sim.

- Provavelmente chegará hoje aqui e eu só preciso desses documentos para a ocasião de sua chegada. Podes esperar tanto tempo?

- Eu aqui ficarei até não precisares mais de mim.

- Bem, então procura o segundo quarto e lá encontrarás conhecidos teus: o Hadschi Halef e Buluk Emini.

 

ASSISTINDO À DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS AOS PRESOS

A notícia de que o Makredsch viria provavelmente para Amadijah encheu-me, a princípio, de apreensões, que desapareceram depois que me vi de posse daqueles dois documentos. Julgara eu mesmo que a destituição das duas autoridades, traria como conseqüência a libertação do nosso prisioneiro, mas depois de ler a segunda carta vi que não.

À tarde entrou a “Murta” no meu quarto.

- Efêndi, queres acompanhar-me até a prisão?

Era-me vantajoso aquele convite, mas antes de acedê-lo precisava falar com Maomé Emin. Por isso respondi-lhe, contemporizando.

- Agora não tenho tempo.

- Mas prometeste que consentirias que os prisioneiros me comprassem alguma coisa!

A rosa de Amadijah parecia ser um espírito excessivamente ganancioso. Estava ávida por auferir algum lucro que a sua pequena transação com os presos lhe iria trazer.

- Cumprirei a minha promessa, mas infelizmente só daqui a quinze minutos terei tempo.

- Então esperarei, Emir! Mas não poderemos ir juntos!

- O Agha estará presente?

- Não. Ele está de serviço junto ao Mutesselim.

- Então ordena ao sargento que abra a prisão. Neste caso, poderás ir já que depois irei também.

Ela retirou-se com fisionomia bisonha. Parecia não se preocupar se o sargento daria ou não permissão para eu entrar no presídio: eu não tinha esse direito, pois não possuía uma autorização especial dos seus superiores. Dirigi-me imediatamente ao quarto de Maomé e deixei-o ao corrente do meu propósito de fazer nova visita ao presídio. Recomendei-lhe que estivesse preparado para fugir a qualquer hora e que mandasse adquirir por Halef, secretamente, uma veste turca para o filho. Acendi depois o Tschibuk e, com passos graves, atravessei o pátio rumo ao presídio. Quando dele me aproximei, vi que a porta estava aberta. O sargento se achava defronte à mesma.

- Sallam! - saudei cerimoniosamente.

- Sallam aaleikum! - correspondeu o sub-oficial. - Que Alá abençoe tua entrada nesta casa, Emir! Fizeste jus à minha gratidão!

Entrei e ele fechou a porta.

- Gratidão? - perguntei-lhe com indiferença. - De quê?

- O Agha Selim esteve aqui. Achava-se muito irado. Quis mandar chibatar-nos, mas, finalmente, disse que, graças à tua intervenção, nos indultaria do castigo. Tem a bondade de acompanhar-me.

Subimos pela escada, a mesma que tanto trabalho me dera para encontrar e subir com Agha. À porta estava parada a “Murta”, com uma caldeira de folha na mão, contendo um pirão, que parecia haver sido preparado com a lavagem da cozinha e águas sujas provenientes da lavagem dos quartos. No chão estava o pão cozido pelas suas mãos delicadas. Fora outrora também um mingau, mas com a ação do fogo adquirira alguma consistência. Ao seu lado formavam os Arnautes, empunhando vasilhames que pareciam ter sido tirados de algum monte de louça e vidros quebrados. Inclinaram-se quase até o solo, mas, em sinal de respeito, conservaram-se mudos.

- Emir, ordenas que eu dê início à distribuição dos alimentos? - perguntou-me a Murta.

- Sim, começa!

Imediatamente foi aberta a primeira porta. Era um cubículo também, mas o solo estava nivelado com a entrada. Ali se achava metido um turco. Não se levantou e nem se dignou a nos dirigir um olhar.

- Dá-lhe duas rações, pois é um Osmanli! - ordenou o sargento.

O homem recebeu duas conchas de minguau e um pedaço de pão. Na cela seguinte se achava também um turco, que recebeu a mesma porção. O ocupante do terceiro cubículo era um curdo.

- Este cão só receberá uma porção, pois é um Balahn (1).

Mas que organização modelar, em matéria de presídio! Estive quase a esbofetear aquele sargento, que continuou a obedecer o mesmo critério durante toda a distribuição de alimentos. Quando os prisioneiros do primeiro andar estavam repastados, descemos ao terraço.

- Quem são os presidiários que se acham aqui embaixo?

- Os mais perigosos deles. Um árabe, um judeu e dois curdos da ‘tribo de Mulamuh. Falas o idioma curdo, Emir?

- Falo.

- Creio que não desejas falar com os prisioneiros?

- Não. Esses homens não merecem tal honra!

- Isto é verdade. Mas não sabemos falar curdo e nem árabe e esses cães sempre têm alguma coisa a nos dizer.

- Neste caso falarei com eles.

Era exatamente o que eu queria. Mas nunca supus prestar com isso também um serviço aos guardas.

Foi aberta a cela de um dos curdos. Estava bem à entrada. O pobre com certeza padecia fome, pois quando recebeu a sua concha de mingau, pediu que lhe dessem um pedaço maior de pão, do que de costume.

- Que quer ele? - perguntou o sargento.

- Um pouco mais de pão. Dá-lhe!

- Darei em atenção ao teu pedido!

Chegou a vez dos judeus. Fiquei calado, pois estes falavam turco. Expuseram uma série de queixas e reclamações que, no meu ponto de vista, eram razoáveis. Não foram porém atendidas.

O segundo curdo era um homem idoso. Pedia apenas para ser conduzido à presença do juiz. O sargento prometeu atendê-lo e riu-se sardônicamente.

Finalmente foi aberta a última das celas. Amad el Ghandur se achava metido bem aos fundos do cubículo, parecia nem querer mexer-se. Quando me viu, porém, levantou-se.

- É este o árabe? - perguntei-lhe.

- Ele mesmo.

- Não fala turco?

- Não fala coisa alguma.

- Nunca pronunciou uma palavra, desde que está aprisionado?

- Nem uma sílaba. Por isso não lhe distribuímos comida quente.

- Queres que eu fale com ele?

- Tenta, pode ser que a ti ele atenda.

Aproximei-me do encarcerado e lhe disse:

- Não me respondas!

Em vista disso ele não pronunciou uma só palavra.

- Vê como ele não responde! - declarou o sargento encolerizado. - Dize-lhe que és um grande Emir e então te responderá!

Agora sim eu estava certo de que o sargento não compreendia turco. E mesmo que compreendesse, desconhecia o dialeto dos Haddedinh.

- Fica preparado para esta noite - disse eu a Amad. - Talvez me seja possível voltar aqui.

O jovem continuou imóvel e altivo.

- Nem assim ele fala! - exclamou o sub-oficial. - Nem pão receberá, pois não quis responder ao Efêndi.

A revisão das celas estava finda. Depois quiseram mostrar-me as demais dependências do presídio. Acedi, embora isso não me trouxesse vantagem alguma. Por fim estava terminada a visita e Mersinah olhava-me interrogativamente.

- Tens tempo para fazer um café para os prisioneiros?

- Tenho.

- E fornecer-lhes pão em abundância?

- Também.

- Quanto custa tudo?

- Trinta piastras, Efêndi.

Seis marcos mais ou menos. Estava a apostar que os prisioneiros não receberiam nem um marco do alimento por mim encomendado. Tirei o dinheiro do bolso e paguei adiantadamente a despesa.

- Aqui tens a importância exigida e desejo que todos os presos sem exceção recebam café quente com bastante pão!

- Receberão uma porção reforçada.

Dei à velha e ao sargento quinze piastras a cada um e aos Arnautes dez, gorda propina que eles nem esperavam. Desmancharam-se em agradecimentos e salamaleques. Quando me retirei e me achava já longe, notei que ainda estavam a me fazer inclinações.

Chegando em casa, procurei logo Maomé Emin. Lá se achava Halef, que trouxera a roupa encomendada. A hora foi propícia, pois nem o Agha e nem a “Murta” se achavam em casa.

Contei ao companheiro o resultado de minha visita à prisão.

- Então hoje de noite! - exclamou alegre.

- Se fôr possível! - acrescentei.

- Mas como pretendes fazer?

- Se o acaso não me deparar coisa melhor, procurarei abrir a prisão com a chave que o Agha traz consigo e...

- Ele não te dará a chave.

- Tomo-a dele. Depois esperarei até que os guardas estejam dormindo e então abro a cela de Amad.

- Assim é muito perigoso, Emir! Ouvirão o ruído.

- Não creio. Não dormiram a noite passada e hoje deverão estar cansados. Além disso, dei-lhes uma gorgeta que converterão em Raki, o que lhes facilitará ainda mais um sono pesado. Ademais observei bem e notei que a porta principal abre-se sem ruído. Se eu fôr cauteloso, ser-me-á fácil à empresa.

- Mas se fores surpreendido?

- Não preciso ter cuidados neste sentido. Diante dos guardas, terei boas desculpas a dar e se me pegarem com o prisioneiro, então sim, procederei conforme as circunstâncias exigirem.

- Para onde pretendes conduzir Amad?

- Ele deixará imediatamente a cidade.

- Com quem?

- Com Halef. Vou sair agora com este para fora da cidade, a fira de procurar um esconderijo apropriado.

- E o guarda do portão?

- Ele não verá os dois fugitivos. Conheço um local, onde se pode saltar o muro.

- Deveríamos ir logo todos juntos com o preso!

- Não. Aqui ficaremos no mínimo durante um dia ainda, a fim de desviar de nós toda e qualquer suspeita.

- Mas enquanto isso, Amad estará em posição perigosa, pois irão procurá-lo em toda a cidade e arredores.

- Também quanto a isso será providenciado. Próximo ao portão da cidade, as rochas formam um abismo, pelo qual poucos homens arriscarão a descida. Nesse precipício lançaremos alguns farrapos da antiga vestimenta de Amad, a qual rasgaremos para esse fim. Encontrarão esses farrapos e admitirão logo que, em sua fuga noturna, houvesse caído no precipício.

- Onde mudará ele de roupa?

- Aqui, e na mesma ocasião lhe será raspada toda a barba.

- Então vou vê-lo! Oh! Emir, que alegria para um coração de pai!

- Apresento, porém, uma condição: Devem fazer tudo debaixo do maior silêncio.

- É claro que assim procederemos. Mas a governanta o verá, pois ela sempre se acha na porta da cozinha.

- Conseguirás superar com facilidade este obstáculo. Halef te avisará quando Amad estiver a chegar. Então descerás para impedir, de qualquer modo, que Mersinah o veja. Não te será difícil e enquanto isso o criado o trará aqui para o quarto, que fecharás assim que voltares e só o abrirás na minha chegada.

 

UM ESCONDERIJO PARA O ÁRABE

Notei que Halef tirara os cavalos do galpão e saíra. A porta do quarto do inglês se achava aberta. Ele acenou-me para chegar até lá.

- Posso falar, Sir?

- Pode.

- Ouço tropel de cavalos; vamos sair? Para onde?

- Para fora da cidade.

- Well, irei junto!

- Tenciono cavalgar pelo mato. O senhor será forçado a embrenhar-se pelo meio de macegas.

- Por que não?

Num instante estava ele pronto. Foi selado mais um cavalo e daí a pouco saíamos todos rumo ao portão que conduz para Asi e Mia. Era tal qual me referira o curdo Dohub. O caminho era tão íngreme que tivemos de levar os cavalos pelas rédeas. No portão não fomos detidos, visto que a guarda era composta de Arnautes que na véspera formara na parada em minha honra.

Chegados embaixo, no vale, se prosseguíssemos pela direita chegaríamos às residências de verão dos habitantes de Amadijah, que se recolheram à montanha. Desviamos para a esquerda entrando na mata. Esta possuía grandes clareiras de modo que por ela podia-se cavalgar desembaraçadamente. Depois de um quarto de hora atingimos uma clareira, onde apeamos.

- Por que apear? - perguntou Lindsay.

- Vamos procurar um esconderijo para Amad.

- Ah! Não demora ser libertado? Participei-lhe o meu plano.

- Excelente! - disse o inglês. - Belos perigos nessa aventura! Surpreender! Boxear! Well! Auxiliarei na consumação da fuga!

- Oh! Mister, o senhor não me poderá ser útil na execução do plano!

- Não? Por quê? Derrubo a soco todos os que encontrar pelo caminho! Well! Sou um inglês livre! Yes!

- Bom, veremos primeiro! Nessa direção à esquerda está o local por onde se pode saltar o muro. Portanto precisamos arranjar aqui um esconderijo para o libertado. Quer auxiliar-me na procura?

- Yes!

- Então dividamo-nos. O senhor seguirá em linha reta e eu me desviarei para o lado. Aquele que encontrar um local apropriado descarrega a pistola e fica à espera do outro.

Halef permaneceu junto aos cavalos e nós saímos cada qual para o seu rumo. O mato era, agora, denso e não havia jeito de encontrar um local apropriado para o esconderijo. Nisso ouço um tiro à minha esquerda. Caminhei para aquela direção e ouvi uma segunda detonação bem próxima de mim. Vi depois o inglês, entre uma brenha de onde se elevavam quatro gigantescos carvalhos, a trepar num deles. Estava descalço e despira o albornós. Também o enorme turbante axadrezado de vermelho e preto estava no solo.

- Dei dois tiros em vez de um. O estampido no meio da mata engana às vezes! Achou esconderijo?

- Não.

- Achei um.

- Onde?

- Adivinhe! Não será capaz!

- Veremos!

O companheiro estava descalço e meio despido, portanto trepara em alguma árvore. É óbvio que o esconderijo devia ser na copa de um dos carvalhos. Mas estes eram tão espessos que impossível seria trepá-los. Ah! Ao lado de um deles erguia-se um pinheiro esguio a confundir sua copa com a do carvalho. Bem lá em cima os galhos se enroscavam formando uma espécie de mirante, facilmente acessível, e, além disso, um dos carvalhos era ôco.

- Adivinhei, sir! - declarei-lhe eu.

- Onde é?

- Lá em cima, ou no mirante ou no tronco ôco.

- Well! Acertou! Já estive trepado lá. O tronco ôco presta-se melhor!

- Então sabe trepar bem?

- Como um esquilo! Yes!

- Mas todo o tronco é ôco?

- Quase todo!

- Mas quem entrar no tronco ôco cai para o fundo e não conseguirá sair mais.

- Isso mesmo! Não sai mais!

- Portanto de nada nos serve!

- Bom, muito bom! Yes! Fazer instalações necessárias para não cair!

- De que maneira?

- Ah! Não sabe? Hum! Mister Lindsay é um sujeito astuto! Linda aventura! Esplêndida! Pena que nada preciso pagar! Pagar bem! Cortar galhos entupir buraco! Muitos musgos aqui! Colocá-los em cima dos galhos. Então não cairá mais ôco abaixo! Esconderijo estará pronto! Linda vivenda de verão! Aprazível vila!

- Assim como diz ficará talvez muito bem. Que dimensões têm a parte ôca do pau?

- Quatro pés mais ou menos. Mas para baixo ainda maior. Sabe trepar?

- Sei. Vou olhar aquela “vila” mais de perto.

- Não trepe sem nada. Leve logo galhos para entupir buraco! Time is money!

- Tem razão. Aqui há suficientes galhos de carvalho.

- Mas ah! Como levar para cima? Trepar e carregar, não é possível!

- Trouxe o meu laço. Sempre me acompanha em todas as jornadas, pois uma corda dessas é de incalculável utilidade.

- Well! Cortaremos já os galhos!

- Mas proceda sempre com muita cautela, Mister! Acho bom certificarmo-nos primeiro se estamos sós. A nossa palestra em inglês ninguém, nestas paragens, a compreenderá. Portanto não denunciaria o nosso propósito. Mas antes de entrarmos em ação, precisamos tomar todas as cautelas possíveis.

- Então faça reconhecimentos! Enquanto isso corto galhos!

Dei uma batida pelas redondezas e me convenci de que não estávamos sendo observados; depois ajudei o inglês, que estava ansioso por construir uma vila no tronco do carvalho. Cortamos uma dúzia de galhos entre o macegal, galhos de quatro pés de comprimento cada um. Fizemos o corte, evitando deixar o menor vestígio e depois amarrei-os com o chalé que me servia de cinta, prendendo-o a uma das extremidades do laço. Em seguida, trepei pelo pinheiro. Chegado ao primeiro ramo, puxei o feixe de galhos. Lindsay trepou depois e deste modo chegamos com a nossa carga até a abertura do tronco, onde amarramos a outra ponta do laço. Examinei a parte ôca. Era enorme e aumentava, à proporção que ia para baixo, até o solo.

Começamos, em seguida, a tarefa de “assoalhar” a “vila”. Essa tarefa exigia fosse feita com todo o cuidado, pois se os galhos não ficassem muito firmes o assoalho poderia sossobrar com o habitante. Com o auxílio das facas, depois de estafantes trabalhos, conseguimos terminar a obra.

- Agora vamos buscar musgos, que transportaremos também com o auxílio do laço.

Descemos e pouco depois havíamos juntado quantidade de musgos e folhas secas, mais do que suficiente para deixar o serviço terminado por completo.

- Trabalhamos com vontade! - disse o inglês, enxugando o suor que lhe corria pelas faces. - Amad vai ter moradia confortável! Agora, comestíveis, bebidas, cachimbos, fumo e a instalação estará completa!

Voltamos depois para junto de Halef, que já se achava cheio de cuidados pela nossa grande demora.

- Mister Lindsay, agora fica o senhor vigiando os cavalos, enquanto vou mostrar o esconderijo ao nosso Hadchi Halef Ornar! - declarei

- Well! Mas para voltar logo; yes!

- Sabes trepar numa árvore? - perguntei a Halef quando chegamos ao esconderijo.

- Sei, Sídi. Trepei já em muitas tamareiras, para colher tâmaras. Por quê?

- Mas a escalada vai ser agora bem diferente. Terás que subir numa árvore de tronco liso, sem apoio de espécie alguma e também de nada adiantará a maneia que se usa aos pés quando se sobe para colher tâmaras. Estás vendo aquela abertura no tronco da árvore lá em cima?

- Estou, Sídi.

- Sobe até lá e examina a abertura! Primeiramente subirás por este pinheiro, de onde passarás para o carvalho.

O homenzinho fêz a experiência com bons resultados.

- Senhor, aquilo é um verdadeiro quiosque, - disse quando desceu. Construíram há pouco?

- Sim. Sabes em que rumo fica o forte de Amadijah?

- Fica à esquerda.

- Então ouve o que vou dizer-te! Espero poder tirar Amad ei Ghandur hoje à noite da prisão. Ainda durante a noite, ele terá que ser trazido para fora da cidade, tarefa de que tu te encarregarás.

- Senhor, a guarda nos pilhará!

- Não. Há um local na fortaleza onde o muro está tão avariado, que permite fácil acesso para a rua, sem que ninguém note. Vou mostrar-te esse ponto agora quando voltarmos. O principal é não errares este lugar á noite, pois naquela abertura das árvores ficará Amad escondido, até virmos buscá-lo. Para que graves bem na memória, toma agora o caminho pelo qual terás que andar com Amad, hoje à noite, e depois vol-tarás para aqui. Estaremos à tua espera junto dos cavalos. Ao voltarmos para casa, tudo faremos para não sermos vistos, pois lá ninguém deve saber que um de nós abandonou hoje a cidade.

- Sídi, muito obrigado!

- Obrigado, por quê?

- Porque afinal vais permitir que eu faça novamente alguma coisa. Há muito tempo que eu vinha sendo obrigado a me contentar apenas em ver, de braços cruzados, os outros viverem aventuras!

Ele saiu a estudar o caminho e eu retornei para junto de Lindsay, que, estirado sobre os musgos, contemplava displicentemente o azul do céu.

- Grandioso o Curdistão! Faltam apenas as ruínas! - declarou-me.

- Há muitas ruínas por aqui, embora não sejam milenárias como as de Tigris. Para encontrar tais ruínas, talvez tenhamos que procurá-las e só então o senhor se convencerá da sua existência. Dos vales do Curdistão, o fumo de aldeias queimadas e o cheiro de ondas de sangue sobem ao céu. Encontramo-nos num país, onde a vida, a liberdade, a propriedade e haveres estão mais em perigo do em qualquer outro. Façamos votos para que não venhamos a nos convencer, por experiência própria, dessa realidade contristadora!

- Mas quero convencer-me por experiência própria, Sir! Quero aventuras! Gostaria de lutar, boxear, atirar! Pagarei tudo!

- Para isso talvez encontre muitas oportunidades, sem que seja preciso pagar coisa alguma; bem por trás de Amadijah termina o território turco e começam aquelas regiões habitadas pelos curdos, os quais se submeteram ao domínio dos turcos ou assumiram a obrigação de pagar-lhes tributos, apenas por formalidade. Lá nessas regiões os nossos passes não nos asseguram a menor garantia. Pode até acontecer que sejamos tratados com hostilidades precisamente por viajarmos munidos desses documentos.

- Não os exibiremos então!

- Claro que não. Essas hordas violentas e semi-selvagens se conquistam mais facilmente, quando a gente se entrega confiadamente à sua hospitalidade. Um árabe é capaz de recolher um forasteiro à sua cabana, com propósitos ocultos; um curdo, porém, jamais. E se tal não acontecer, a gente recorre à proteção das mulheres e então, sim, está-se em segurança.

- Well! Vou recorrer à proteção das mulheres! Esplêndido! Boa idéia, Mister!

Uma hora depois voltava Halef. Assegurou ele que mesmo à noite encontraria o esconderijo facilmente, desde que conseguisse sair da cidade. O objetivo de nosso passeio estava, pois conseguido e voltamos para Amadijah. Fiz de tal maneira, que tivemos de passar pela parte do muro em ruína.

- Este é o ponto a que me referi - declarei a Halef. - Quando depois saíres, examina mais detidamente aquela brecha, mas de modo a não dar na vista.

- Farei isso sem demora, Sídi, pois não tarda anoitecer.

 

TENTATIVA DE PRISÃO

Realmente quando chegávamos em nossa residência, o sol já ia desaparecendo. Não tive tempo de descansar, pois o Agha me veio esperar logo na porta.

- Hamdulillah. Graças a Alá que finalmente chegaste - declarou. - Esperava impacientemente por ti.

- Por quê?

- O Mutesselim ordenou-me que te levasse à sua presença.

- Que pretende ele de mim?

- Não sei.

- Nem imaginas?

- E para falares com um Efêndi, chegado há pouco.

- Que Efêndi é?

- O Mutesselim proibiu-me dizer-te.

- Psiu! O Mutesselim não tem o direito de me ocultar coisa alguma. Eu sabia de há muito da chegada desse Efêndi.

- Sabias? Como, se isso era um segredo?

- Pois te provarei que conheço esse grande segredo. É o Makredsch de Mossul, o Efêndi que chegou.

- Realmente tu sabes! - exclamou o oficial admirado. - Mas ele não se acha só com o Mutesselim.

- Quem mais está com ele?

- Um Arnaute.

Ah! atinei logo de quem se tratava e respondi-lhe:

- Também esse pormenor eu sabia. Conheces o homem?

- Não.

- Sei que não conduz armas consigo.

- Allah akbar! Acertaste. Efêndi tu sabes de tudo.

- Pelo menos ficaste sabendo que o Mutesselim não é homem para me ocultar coisa alguma.

- Mas, Senhor, não deve ser agradável o assunto que tratam a teu respeito!

- Por quê?

- Sou obrigado a guardar reservas.

- Bom, Agha Selim, vejo agora que és meu amigo!...

- Sim, sou teu amigo, Emir; mas os deveres funcionais obrigam-me a obedecer às instruções emanadas de meus superiores.

- Pois então afianço-te que ainda hoje te darei ordens que obedecerás como se as tivesse recebido do próprio comandante. Desde quando está o Makredsch em Amadijah?

- Há duas horas apenas.

- E durante todo esse tempo estás à minha espera?

- Não. O Makredsch chegou sozinho, não trazendo comitiva alguma consigo. Eu me achava exatamente com o comandante, quando ele entrou no palácio. Disse que viajara incógnito, porque estava encarregado de uma missão importantíssima, da qual ninguém deveria ter a mínima idéia. Continuando na palestra, o comandante citou também o teu nome e os dos teus companheiros. O Makredsch deve conhecer-te, pois escutou atentamente e mandou que o comandante descrevesse o teu físico com exatidão. “É ele mesmo!” - exclamou depois e pediu ao comandante mandasse eu sair do gabinete. Mais tarde fui chamado novamente e recebi ordens de te buscar e...

- E que mais?

- E... Emir, sou de fato teu amigo e por isso vou dizer-te o resto. Mas prometes guardar reservas?

- Prometo!

- Depois era para eu buscar uma escolta de Arnautes e cercar esta casa, para que teus companheiros não conseguissem fugir. Também para te prender já se acham postados vários Arnautes no Palácio. Chegando lá, deverei prender-te e recolher-te à fortaleza.

- Ah! Isso é muito interessante, Agha Selim! Um dos teus cubículos foi preparado para me servir de asilo?

- Sim e bem ao lado da cela do árabe. Já mandei espalhar algumas palhas no chão, pois o comandante não quer que recebas o mesmo tratamento recebido pelos ladrões recolhidos ao presídio, uma vez que és um Emir!

- Sou-lhe muito grato por essa consideração. Os meus companheiros serão também recolhidos à fortaleza?

- Também. Mas não recebi instruções especiais a respeito deles.

- Que diz a “Murta” de tudo isso?

- Está sentada na cozinha e chora que dá pena.

- Que bondosa! Mas tu me falaste de um Arnaute?

- Sim. Esteve em palácio antes da chegada do Makredsch e falou durante muito tempo com o Mutesselim... Depois fui chamado e interrogado.

- Sobre quê?

- O comandante queria saber se o Efêndi enxadrezado também se conserva mudo na sua residência.

- E que lhe respondeste?

- Disse-lhe a verdade. De fato não ouvi ainda aquele Efêndi pronunciar uma só sílaba.

- Então vamos! Quero saber o que de mim pretende o comandante.

- Senhor, é para eu levar-te preso, mas te estimo. Não preferirás fugir?

- Não, Agha! Não tenho motivos para recear ao comandante e menos ainda ao Makredsch. Mas peço-te levar além de mim, mais um companheiro à presença do teu chefe.

- Qual deles?

- O emissário que há pouco veio procurar-me.

- Vou chamá-lo. Ele está no pátio.

Enquanto isso fui à cozinha. A Mersinah estava sentada no chão e fazia uma cara tão triste que realmente me senti tocado.

- Oh! És tu Efêndi! - exclamou ela erguendo-se. - Apressa-te, apressa-te! Ordenei ao Agha que te deixe fujir.

- Aceita os meus agradecimentos por este teu gesto de benevolência, Mersinah! Contudo ficarei aqui!

- Mas vão encarcerar-te, Emir!

- Esperemos!

- Se o fizerem, Efêndi, chorarei até morrer e prepararei para ti a melhor sopa que há. Não passarás a mínima privação!

- Não terás o trabalho de cozinhar para mim, porque não vou ser encarcerado. Isto te asseguro!

- Emir, com estas palavras restituis-me a vida! Mas, não obstante, são capazes de prender-te de fato, e aí te tirarão tudo o que possuis. Não preferes deixar o teu dinheiro e todos os demais objetos de valor, sob a minha guarda? Porei tudo em lugar seguro e nada direi a ninguém!

- Acredito, anjo desta casa! Mas uma tal precaução é supérflua, de momento!

- Faze então o que melhor te aprouver! Vai e que Alá com os seus profetas te acompanhe e te resguarde!

Fomos. Ao atravessarmos a praça vi postados por trás dos portais das casas, os Arnautes de que o Agha me falara. Ao que se via, de fato a coisa se estava tornando séria. Também diante do palácio, no portal do mesmo e até na ante-câmara havia soldados de armas embaladas. Quase me tomei de cuidados!

O comandante não se achava só no seu gabinete. Os dois tenentes estavam na entrada e também o Agha não voltou, mas se abancou num tapete.

- Sallam Aaleikum! - saudei o comandante com a maior despreocupação possível, não obstante me achar dentro da cilada.

- Aaleikum! - respondeu o comandante, com certa reserva, ao mesmo tempo que me indicava um tapete, um pouco distante dele, para me sentar.

Fiz como não tivesse visto o sinal e abanquei-me a seu lado, lugar em que noutras audiências me sentara também.

- Mandei chamar-te mas não vieste logo - começou. - Onde estiveste todo este tempo, Efêndi?

- Fui dar um passeio a cavalo.

- Onde?

- Na cidade.

- Que pretendias fazer?

- Exercitar o meu cavalo. Deves saber que um animal de trato requer cuidados especiais.

- Quem foi contigo?

- O Bei Hadji Lindsay.

- Aquele que fêz a profissão de fé de conservar-se mudo?

- Aquele mesmo.

- Ouvi dizer que ele não cumpre lá muito rigorosamente tal voto.

- Ah! é?

- Sim, ele fala!

- Ah! é?

- E fala também contigo!

- Ah! é?

- Tenho certeza disso!

- Ah! é?

Aquele meu “Ah! é?” deixou o homem meio embaraçado.

- Mas tu deves também saber disso! - disse ele depois.

- Quem foi que te disse que o Bei Lindsay fala?

- Uma pessoa que o ouviu falar.

- E quem é esta pessoa?

- Um Arnaute chegado hoje a esta cidade, para apresentar-me queixa contra vocês todos.

- E que fizeste depois da visita do Arnaute?

- Mandei à tua procura.

- Para quê?

- A fim de interrogar-te.

- Allah illa Allah! A uma queixa apresentada por um Arnaute canalha mandas procurar-me, eu um Efêndi e Emir, para tratar-me da mesma forma como se trata a um biltre daqueles! Mutesselim, que Alá abençoe a tua sabedoria para que ela não fuja do teu cérebro!

- Efêndi, pede a Deus para que conserves tu a tua sabedoria, da qual tens também muita necessidade!

- Isto soa-me como uma ameaça!

- E tuas palavras como um insulto!

- Sim, mas somente depois de me haveres insultado! Atenta, Mutesselim: neste revólver há seis balas e neste outro a mesma quantidade. Dize-me o que tiveres a me dizer; mas fica sabendo que um Emir do Germanistão não é um Arnaute e nem se deixa comparar a essa escória de gente! Se o meu companheiro não cumpre rigorosamente o seu voto de fé, o que tem um Arnaute com isso?! Onde está esse patife?

- Acha-se a meu serviço.

- Desde quando?

- Já há muito tempo.

- Mutesselim, estás dizendo uma inverdade! Aquele Arnaute ontem não se achava ainda a teu serviço. Trata-se de um homem de cujas façanhas ainda te contarei outros pormenores. Se o Bei Hadji Lindsay fala, apesar de seu voto de fé, trata-se de uma questão a resolver com a sua consciência e ninguém possui o direito de se envolver com ele!

- Terias razão se fosse apenas isto o que eu sei dele!

- Que sabes mais?

- Ele é amigo dum homem de quem suspeito muito!

- Quem é este homem?

- Tu mesmo!

Fingi-me de espantado.

- Eu? Allah kehrim, Deus é grande, e também te beneficiará com a sua misericórdia!

- Falaste-me a respeito do Mutessarif, dizendo-te um grande amigo seu!

- E disse a verdade!

- Não disseste, não!

- Queeê? Chamas-me de mentiroso?! Neste caso não me conservarei aqui por mais tempo. Dar-te-ei oportunidade ainda de engulires esta ofensa!

Levantei-me e fiz como se pretendesse retirar-me.

- Alto lá! - bradou o comandante. - Não arredarás um pé daqui!

- Pretendes dar-me ordens?

- Lógico!

- Arrogas-te esse direito?

- Aqui estás debaixo de minha autoridade e se eu te ordenar que fiques, nada mais te restará do que obedecer-me sem titubear!

- E se eu não te obedecer?

- Obrigar-te-ei a isso! És meu prisioneiro!

Os dois tenentes levantaram-se. O mesmo fêz o Agha, mas mui vagarosamente e forçado, conforme se notava nele.

- Teu prisioneiro? Enlouqueceste, Mutesselim? Sallam!

Virei-me novamente para a porta.

- Segurem-no! - ordenou o comandante.

Os dois tenentes agarraram-me, um de cada lado. Parei-me e soltei uma casquinada estridente primeiro na cara de um e depois na do outro; depois voaram um após o outro pelo gabinete indo cair junto do Mutesselim.

Este nunca sentira uma reação tão violenta como aquela; estava habituado a que todos se curvassem profundamente diante dele e agora estava ali atarantado sem saber o que fazer.

- Afianço-te - reatou depois a palestra - que não és amigo do Mutessarif.

- Não leste então a sua carta?

- Chegaste até a combater contra ele!

- Onde?

- No Xeque Adi!

- Prova-o!

- Aqui há uma testemunha!

- Manda chamá-la!

- Vou satisfazer-te este desejo.

A um aceno do Mutesselim, o Agha deixou o gabinete.

Momentos depois voltava ele na companhia do... Makredsch de Mossul. Este não se dignou a me dirigir um só olhar. Passou por mim diretamente para junto do comandante, abancou-se no mesmo lugar onde antes eu estivera sentado e agarrou um dos canudos do cachimbo que ali se achava, passando a fumar.

- É este o homem de que me falaste, Efêndi? - perguntou-lhe o comandante.

O homem lançou-me um olhar de desprezo e respondeu:

- É este mesmo!

- Estás ouvindo? - perguntou-me o comandante enérgico. - O Makredsch de Mossul, que deves conhecer, é testemunha ocular de que combateste contra o Mutessarif.

- Ele é um refinado mentiroso!

A essas palavras, o juiz superior olhou-me de cheio.

- Verme! - rugiu.

- Não tardarás em conhecer melhor este verme! - retruquei-lhe. - Repito: és um mentiroso, pois não me viste puxar armas contra as tropas do Mutessarif!

- Outros viram.

__ Mas não tu! E, no entanto o comandante disse que pretendes ter visto, pois declarou-me que eras testemunhas ocular de minha atitude! Cita-me as pessoas que me viram!

- Os Topdschs (1) nos contaram tudo!

- Pois mentiram também! Não lutei contra eles, não houve o menor derramamento de sangue, pois se renderam com os canhões sem oporem a menor resistência. E depois quando estive cercado dentro do vale Xeque Adi não cansei de aconselhar indulgência e humanidade ao Bei Ali, de modo que a mim é que devem não terem sido todos esmagados na esplanada do vale. E é dessa minha atitude que pretendes chegar à conclusão de que sou inimigo do Mutessarif?

- Assaltaste a bateria e tomaste-lhe os canhões!

- Neste ponto, concordo prazerosamente.

- Mas responderás por este crime, perante a justiça de Mossul!

- Oh!

- Oh! não! O Mutesselim efetuará imediatamente a tua prisão e ce remeterá para

____________

(1) Artilheiros.

 

Mossul, a ti e a todos os teus companheiros. Há só um meio de vocês se salvarem.

- Qual é?

Ele fêz um sinal e o Agha com os dois tenentes se retiraram.

- És um Emir de Frankistão, visto que os nemsis são frankes - começou o Makredsch. - Sei que todos vocês se acham debaixo da proteção do cônsul de seus países e por isso não podemos matá-los. Todavia, praticaste um crime punível com a morte. Temos que te transportar para Mossul e de lá para Stambul, onde, na certa, te será aplicada à pena que mereces.

Fêz uma pausa. Parecia não lhe ser fácil dar à palestra o rumo desejado.

- Entretanto estiveste debaixo da proteção do Mutessarif e também o Mutesselim te dispensou uma acolhida cordial. Ambos não querem que te aguarde uma tão triste sorte!

- Que Alá pense neles nos seus momentos derradeiros!

- Bem! Sendo assim, é possível que desistamos do nosso propósito em efetuar a tua prisão, no caso de...

- No caso de?

- No caso de dizeres qual o valor que tem a vida de um Emir de Germanistão.

- Não tem valor algum!

- Não? É caçoada!

- Estou falando seriamente. A vida de um nemsi não vale coisa alguma.

- Em que sentido?

- Porque Alá a todo momento pode chamar um Emir para junto de si.

- Tens razão. A vida de um homem está permanentemente nas mãos de Alá. Mas trata-se de um bem que se deve defender e tudo fazer por conservar.

- Ao que parece, não és um bom muçulmano, porque senão saberias que o caminho do homem acha-se assinalado no livro.

- E mesmo assim um homem pode jogar fora a sua vida, desde que não saiba seguir o texto do livro. Não achas?

- Está bem, Makredsch. Em quanto estimas tu a tua própria vida?

- No mínimo dez mil piastras.

- Neste caso a vida de um Nemtsche vale dez mil vezes mais, isto é, cem milhões de piastras. Como se explica estar a vida de um turco tão depreciada?

O homem olhava-me admirado.

- És um Emir tão rico?

- Claro, do contrário não possuiria eu uma vida tão cara.

- Neste caso, admito que aqui em Amadijah avaliarás tua vida em vinte mil piastras.

- Naturalmente.

- E pelo mesmo valor a do Bei Hadji Lindsay.

- Concordo.

- E dez mil a do terceiro.

- Não é demasiado.

- E a do teu criado?

- É um árabe, não há dúvida, mas um homem valente e fiel, cuja vida vale tanto como a dos outros.

- Então achas que a dele vale também dez mil piastras?

- Acho, sim.

- Já somaste essas importâncias?

- Sim, importam em sessenta mil piastras. Não é isso?

- Sim. E tens toda essa importância contigo?

- Somos muito ricos, Efêndi.

- E quando desejam pagar-me?

- Nunca.

Era interessante de ver a cara com que os dois turcos me contemplaram e depois se entreolharam. A seguir o Makredsch inquiriu:

- Que pretendes dizer com isso, Efêndi?

- Que provenho de um país no qual reina a justiça. Lá diante do juiz o mendigo tem o mesmo valor que o rei. Se o Padixá dos Nemsis viola as leis é castigado como qualquer outro cidadão. No meu país ninguém possui o direito de comprar a sua própria vida por mais dinheiro que tenha, pois lá não há juizes canalhas. Os Osmanlis, porém, não possuem outra lei que não seja a sua bolsa. Daí a razão por que traficam com a Justiça. Não me é possível comprar a minha vida, desde que eu mereça perdê-la por algum crime infamante que haja cometido.

- Neste caso a perderás!

- Não creio. Um nemsi não mercadeja a sua vida, mas sabe defendê-la!

- Efêndi, não poderás defender-te.

- Por quê?

- A tua culpa está mais do que comprovada e além disso tu próprio a confessaste.

- Não é verdade. Não confessei haver praticado crime algum. Apenas disse que, de fato, tomei os canhões de vocês. E este procedimento não merece castigo.

- Tu é que pensas! Negas-te, pois a aceitar a nossa proposta toda bondade e toda complacência?

- Dispenso bondades e complacências!!

- Neste caso não temos outro remédio senão prender-te.

- Pois experimentem!

O comandante dirigiu-me um sermão procurando fazer-me aceitar o suborno que me era oferecido, mas como não aceitei a sua arenga, ele bateu palmas e apareceram novamente os três oficiais.

- Levem-no daqui! - ordenou-lhes. E dirigindo-se a mim: - Espero, Efêndi, que não te recusarás a acompanhá-los. Lá fora há soldados suficientes para tornar improfícua qualquer resistência de tua parte. Enquanto aqui estiveres preso serás bem tratado e...

- Cala-te, Mutesselim! - interrompi-o. - Gostaria de ver o turco dominar-me! Para imobilizar vocês cinco basta apenas um nemtsch e os teus soldados atacados de febre fugirão ao dar com os olhos em mim. Fica certo disso! Sei muito bem que, se fosse preso, seria tratado do melhor modo possível, pois isso seria de teu próprio interesse. Para Mossul não serei transportado visto que isso de nada adiantaria ao Makredsch. Este deseja apenas que eu resgate a minha liberdade, porque necessita de dinheiro para atravessar as fronteiras.

- Atravessar as fronteiras? - perguntou Mutesselim. - Como devo compreender essas tuas palavras?

- Pergunta-o ao próprio Makredsch!

 

A PRISÃO DO MAKREDSCH

Ele olhou para o Makredsch, que subitamente mudara de côr.

- Que sentido têm as suas palavras? - perguntou, por fim, a este.

- Não o compreendo! - respondeu o ex-magistrado turco.

- Bem que ele me compreende! - revidei. - Mutesselim, tu me insultaste; quiseste prender-me. Fizeste-me uma proposta que te acarretaria graves conseqüências no caso de eu divulgá-la, ou fazê-la chegar ao conhecimento de teus superiores. Vocês dois fizeram-me ameaças e agora eu é que lançarei mão de suas armas para mostrar-lhes os limites de sua autoridade. Sabes quem é este homem?

- O Makredsch de Mossul.

- Estás enganado. Já não o é mais, pois foi destituído de suas funções.

- Destituído? - perguntou o comandante assustado.

- Canalha! - retrucou o Makredsch. - Eu te estrangulo!

- Destituído?! - exclamou novamente o comandante, interrogativamente e um tanto espantado.

- Sim, des-ti-tu-ído! Eu não te disse, Agha Selim, que hoje eu te daria uma ordem a que obedecerias sem vacilar? Pois agora recebe-a: Prende esse que se diz Makredsch de Mossul e recolhe-o à cela que fora destinada a mim! Depois será ele transportado para Mossul.

O bom Agha primeiramente fitou-me estarrecido e depois olhou para o comandante e o Makredsch. Mas naturalmente que não moveu um só pé, para dar cumprimento à minha determinação.

- Este homem enlouqueceu! - exclamou o Makredsch, levantando-se.

- Tu é que enlouqueceste, pois do contrário não te aventurarias em aparecer nesta cidade. Por que não passaste as fronteiras salvadoras, em linha reta e ousaste atravessar Mungayschi? Como vês, sei de tudo. Aqui, Mutesselim, eis a prova do direito que me assiste em ordenar a prisão deste sujeito!

Entreguei-lhe a correspondência que fora dirigida ao Bei Ali. O comandante examinou, em primeiro lugar, as assinaturas.

- Do Kasi Askari de Anatólia?

- Exatamente. Ele se acha em Mossul e determina o aprisionamento desse homem e a sua remessa para aquela cidade. Lê!

- Tens razão! - exclamou, depois, admirado. - Mas que é feito do Mutessarif?

- Foi também destituído. Lê a outra carta!

- Allah kerihm, Graças a Deus! Houve grandes acontecimentos!

- Pois toma nota deles! O Mutessarif foi destituído, bem como o Makredsch. Também queres ser destituído?

- Senhor, tu és um enviado secreto do Kasi Askari ou talvez até do Padixá!

- Quem eu sou ou deixo de ser não vem ao caso; mas vês que estou ao par de tudo e espero que saberás cumprir com o teu dever!

- Efêndi, tens razão, saberei de fato cumpri-lo! - Makredsch, não me resta outra cousa; aqui está escrito, preto no branco, e terei que efetuar a tua prisão!

- Efetua, pois, se és capaz! - retrucou este.

Um punhal reluziu em suas mãos e como um relâmpago ele atravessou o gabinete, passando por mim como uma bala em direção à porta de saída. Perseguimo-lo e chegamos à porta ainda em tempo de vê-lo ser arrojado ao solo. Selek se encarregara de embargar-lhe os passos, e, derribando-o, arrancara-lhe das mãos o punhal. Em seguida foi desarmado e conduzido ao gabinete.

- Quem é este homem? - perguntou o comandante apontando para Selek.

- É o emissário que o Bei Ali, de Baadri, enviou-me. Ele voltará para lá e tu lhe permitirás que acompanhe a escolta que conduz o prisioneiro. Deste modo poderemos estar seguros de que o Makredsch não fugiu pelo caminho. Além deste, a escolta conduzirá outro preso.

- Qual, Senhor?

- Manda buscar o Arnaute que apresentou a queixa contra mim!

- Tragam-no! - ordenou o Mutesselim aos seus comandados.

Um dos tenentes saiu voltando em seguida na companhia do Arnaute, que estava longe de supor haverem as coisas tomado um rumo contrário a ele.

- Pergunta-lhe, agora, onde estão as suas armas? - determinei.

- Onde as tens?

- Foram-me tomadas.

- Onde?

- Enquanto eu dormia.

- Ele está mentindo, Mutesselim! Este homem fora posto à disposição do Bei Hadji Lindsay, pelo Mutessarif; depois atirou contra mim, fugindo em seguida. Em nossa viagem para aqui, emboscando-se na mata, alvejou-me com dois tiros, que felizmente erraram o alvo. Meu galgo o segurou, mas fui condescendente com ele, permitindo que se escapasse pela segunda vez. Por esta ocasião, tiramos-lhe as armas que estão ainda em poder do meu Khawass. Queres que mande chamar testemunhas de que estou a dizer a verdade?

- Senhor, creio nas tuas palavras! - Prendam esse cão e recolham-no ao cubículo mais seguro e infeto que houver! - ordenou ao Agha.

- Senhor, ordenas que eu leve ao mesmo tempo o Makredsch? - perguntou Agha.

- Leva-o!

- Mutesselim, antes disso manda amarrá-lo! Tentou fugir a pouco e repetirá a tentativa.

- Amarrem-no!

Ambos foram transportados para a fortaleza e eu fiquei sozinho com o comandante. Este se achava tão agitado em virtude dos últimos acontecimentos, que se deixou cair extenuado sobre o tapete.

- Quem imaginaria isso! - disse ofegante.

- Tu, claro que não, Mutesselim!

- Perdão, Senhor! Eu ignorava todos os acontecimentos.

- Certamente que o Arnaute se encontrou antes com o Makredsch e com ele combinou tudo, do contrário não se arriscaria a vir cá apresentar-te queixa contra mim, que tinha motivos para mandar puni-lo.

- Aquele não alvejará mais ninguém! Permite que eu te ofereça um cachimbo!

Depois de acendermos os nossos Tscbibuks o comandante disse em tom quase desenxabido:

- Emir, pensas que eu falei sério?

- Quando?

- Quando te exigi dinheiro pela tua soltura.

- Claro que falaste sério!

- Senhor, estás enganado! Cingi-me à vontade do Makredsch, mas depois te teria devolvido a parte que me coubesse.

- Mas permitirias que eu fugisse?

- Sim. Como vês, sou bem intencionado contigo.

- Mas não te seria permitido desde que a queixa contra mim fosse fundamentada.

- Pretendes lembrar-te daqui por diante desse meu ato?

- Não, desde que, daqui por diante, teu modo de proceder me leve a esquecê-lo!

- Jamais hás de lembrar-te disso, Emir. Esquecer-te-ás da mesma forma como te esqueceste de outra coisa!

- De quê?

- Da tisana.

- É verdade, Mutesselim, me esqueci daquela promessa. Mas a receberás ainda hoje.

Nesse instante entrou um dos criados.

- Senhor, lá fora está um Basch Tscbausch (1) que me pede para anunciá-lo.

- Que quer ele?

- Vem de Mossul e se diz portador de uma mensagem importante.

- Manda-o entrar!

O oficial entrou no gabinete e entregou uma correspondência selada com o grande selo oficial. Reconheci logo ser o timbre do Kasi Askati de Anatólia. O comandante rompeu o selo, abriu a correspondência e passou a lê-la. Depois mandou que o emissário voltasse no dia seguinte para buscar a resposta.

- Senhor, sabes de quem é esta correspondência? - perguntou-me o comandante depois que o soldado se retirou.

- Do juiz superior de Anatólia.

- Exatamente. Comunica-me ele a destituição do Mutessarif e do Makredsch. Ordena-me que o prenda assim que ele aparecer por aqui, e o remeta para Mossul. Vou mandá-lo amanhã por intermédio deste Basch Tschausch. Queres que na minha correspondência mande notícias suas?

- Não é necessário. Eu mesmo vou escrever-lhe. Mas junto com aquele oficial manda também uma escolta bem reforçada.

- Já vou providenciar sobre esse ponto, tanto mais que com o Makredsch seguirá outro prisioneiro importante.

Assustei-me.

- Que prisioneiro?

- O árabe. Assim ordena o Kasi Askari de Anatólia; diz ele que o filho do Xeque deve ser enviado como refém para Stambul.

- Quando partirá a escolta?

- Amanhã cedo. Vou já fazer a correspondência.

- Neste caso não quero estorvar-te.

- Oh! Efêndi, a tua presença me é agradabilíssima!

- Sim e a tua a mim também, mas o teu tempo é precioso e não devo tomá-lo.

- Mas amanhã cedo virás visitar-me?

- Talvez.

- Gostaria que estivesses presente, por ocasião da partida da escolta, para veres como executo rigorosamente as ordens que me são transmitidas.

- Neste caso, virei, Mutesselim, Sallam!

- Sallam! Que Alá seja teu guia!

Quando cheguei em casa uma voz entusiasta me acolheu:

- Hamdullilah, Efêndi, ainda vives e estás livre!

Era a “Murta”. Ela pegou de minhas mãos e respirou aliviada.

________________

(1) Sargento-mor.

 

- És um grande herói; o teu criado e o emissário me disseram. Se te prendessem tu sozinho derrubarias todos os que estivessem no palácio e também o Agha.

- Este não, mas todos os demais! - respondi divertindo-me.

- És igual ao Kelad, o forte. Tuas barbas estão para a direita e para a esquerda como as barbas de uma pantera e os teus braços são como as pernas de um elefante.

Aquilo tudo, em sentido figurado, naturalmente. Oh! “Murta”, que atentado ao ornamento louro de minhas faces e à simetria de meus braços e pernas! Tive que ser também cortês:

- A tua boca fala como as estrofes de um poeta, Mersinah, e dos teus lábios eflui mel; tua palavra faz bem como o emplastro sobre uma ferida e o som argentino de tua voz soa de modo a ninguém dele jamais se esquecer! Aqui tens cinco piastras para comprares crayon para tuas pálpebras e esmalte para tuas rosadas unhas. O meu coração deseja alegrar-se contigo para que o espírito se me permaneça jovem e meus olhos se deliciem com a estética do teu passo e andar.

- Senhor, és mais valente que Ali, mais sábio que Bekr, mais forte que Simsah (1) e mais belo que Huseiin! Ordena o que devo cozinhar, assar ou torrar para tu comeres! Faço tudo o que exigires, pois contigo raiou o sol da alegria no portal de minha casa!

- Tua bondade toca-me o coração, oh! Mersinah; não sei como correspondê-la. Mas não tenho fome e nem sede, quando vejo o brilho dos teus olhos, a côr sadia de tuas faces e a beleza de tuas níveas mãozinhas. Está o Agha Selim?

- Está. Ele contou-me tudo. Os teus inimigos foram derrotados. Sobe e consola os teus que se achavam inquietos pela tua sorte.

Subi.

- Afinal voltou! - exclamou o inglês. - Grandes apreensões! Quis correr em seu socorro! Felizmente já está aí!

- Estiveste em perigo? - perguntou-me Moamé

- Não muito. Apenas passageiramente. Já sabes que o Mutessarif foi destituído?

- O de Mossul?

- Sim e o Makredsch também.

- Por isso é que Selek veio?

- Exatamente. Ele não te disse nada de tarde, quando saímos a cavalo?

- Não. Conservou-se sempre reservado e silencioso. Neste caso, Amad será posto em liberdade, pois o Mutessarif é que o conservava preso!

- Tive igualmente esta esperança, mas infelizmente a sua situação agravou-se mais ainda. O Grão Senhor aprova a conduta dos turcos contra vocês e o juiz superior de Anatólia ordenou que levassem teu filho como refém para Stambul.

- Allah kerihm! Quando vai ser ele transportado?

- Amanhã cedo.

- Assaltaremos a escolta no caminho!

- Enquanto restar-nos esperanças de libertá-lo por meio de ardis, não deve ser derramado inutilmente sangue humano.

- Mas só dispomos do tempo de uma noite.

- E é o quanto basta para fazermos o que desejamos.

E dirigindo-me ao inglês:

- Sir, preciso de vinho para o Mutesselim.

- Merece vinho aquele sujeito? Que beba água! Café, chá de tílias e soro de manteiga!

- Mas foi ele que me pediu vinho!

- Maroto! Não deve tomá-lo! É maometano!

- Os muçulmanos gostam tanto como nós de tomar vinho. Acho aconselhável conquistar-lhe as boas graças enquanto possamos precisar delas.

- Está bem! Vai ganhar vinho! Quanto?

- Uma dúzia. Entro eu com a metade e o senhor com a outra metade da importância.

- Psiu! Não compro meio vinho! Aqui tem todo o dinheiro!

Alcançou-me a bolsa sem se preocupar com a quantia de que eu lançaria mão. Ele era um gentilhomem e eu um pobre diabo.

- Como é? - perguntou. - Salvaremos Amad?

- Salvaremos.

- Hoje?

- Exatamente.

- Como?

- Vou tomar vinho junto com o Agha Selim e procurarei...

- Ele também toma vinho?

- Apaixonadamente.

- Bons muçulmanos! Merecem chibata!

- Mas exatamente essa sua predileção pelo vinho nos trará grandes, vantagens. Tomará até ficar embriagado e depois tirar-lhe-ei a chave do presídio. Soltarei então o árabe e o trarei aqui para o aposento do seu pai, onde mudará de roupa. Feito isso, Halef o conduzirá à “vila” que o senhor ajudou a construir para ele.

- Well! Bravo! Qual a minha atuação nessa aventura?

- Primeiramente estar atento e cuidar para que não sejamos pilhados. Quando o trouxer, imitarei a voz do corvo que é despertado do sono. Halef descerá em seguida, a fim de abrir a porta e desviar a atenção da governanta na cozinha. O senhor com Moamé virão até a escada e receberão o presidiário, que mudará de roupa, esperando depois até minha volta.

- E depois o senhor sairá novamente?

- Sim, irei ter com Agha Selim, para repor-lhe a chave no cinturão, a fim de que não recaia suspeita sobre nós.

- Tarefa dificílima a sua! E se fôr pego em flagrante?

- Possuo um punho e se isso não bastar conduzo também armas. Por enquanto, porém, vamos jantar todos juntos!

 

APLICANDO NOVAMENTE A “TISANA”

Durante o jantar ministrei todas as instruções a Moamé. Halef voltou com o vinho, do qual fêz um pacote.

- Leva-o agora ao Mutesselim! - ordenei-lhe.

- Mas pretende este bebê-lo? - perguntou o meu criado surpreendido.

- Ele dará a aplicação necessária. Entrega-lhe o pacote, dizendo que é o remédio que lhe mando. E ouve: quando eu sair acompanhado do Agha Selim, tu nos seguirás secretamente e anotarás a casa onde entrarmos. E em qualquer caso que seja necessária a minha presença, virás chamar-me.

- Mas em que compartimento daquela casa poderei encontrar-te?

- Depois de atravessares o batente, caminha oito passos e em seguida entra pela porta à direita, que dá para uma sala onde me encontrarei. Se o taverneiro, que é um judeu, quiser impedir-te de entrar, dize-lhe que andas à procura do Emir forasteiro, aquele que toma vinho em cântaro de barro. Compreendeste?

Ele saiu com o pacote de vinho debaixo do braço.

Moamé Emin estava num estado nervoso deplorável. Nem naquela ocasião em que tivera que aprisionar os seus inimigos no vale dos Degraus, se achava ele numa tal depressão nervosa. Cingira o cinturão e nele colocara todas as suas armas; pusera também nova carga na espingarda. Não podia rir-me dele. O coração de pai é uma coisa santa; eu também tinha um pai na pátria distante e saudosa, um pai que muitos cuidados e aflição sofrerá por minha causa; portanto eu compreendia o procedimento do velho árabe.

Finalmente voltou o Agha Selim da conferência que tivera com o governador. Ele tomou na cozinha o seu jantar, e depois, sorrateiramente, nos dirigimos para a taverna do judeu. O comandante do forte havia na véspera conhecido sobejamente os efeitos violentos daquele vinho e agora o tomava com bastante comedimento. Ingeria-o a pequenos goles e muito vagarosamente.

Já fazia bem três quartos de hora que estávamos tomando vinho e este ainda não produzira o menor efeito sobre o espírito do meu conviva; Agha tornara-se apenas mais silencioso e, pensativo, ficou a olhar para frente, no ângulo da sala onde nos abancáramos num tapete de cortiça. Já me dispunha a fazê-lo tomar o resto do vinho e encomendar mais dois cântaros, quando bateram à porta.

- Quem é? - perguntou o Agha.

- Deve ser o meu criado Halef.

- Sabe ele que nos achamos aqui?

- Sabe.

- Efêndi, que fôste a fazer!

- Mas ele ignora o que estamos fazendo.

- Não o deixemos entrar!

Foi bom ter dado aquelas instruções a Halef! A sua vinda era uma prova de que havia ocorrido algo de extraordinário. Abri a porta e saí para a rua.

- Halef!

- Sídi, és tu?

- Sou eu mesmo. Que sucedeu?

- O Mutesselim chegou.

- Isto é grave, pois poderá estragar todo o nosso plano. Já iremos. Fica permanentemente postado diante da porta do meu quarto para que eu te possa chamar no caso de necessidade!

Voltei para a sala reservada.

- Agha, foi uma sorte haver dito ao Hadji o local em que nos achávamos. O Mutesselim está em tua casa e te espera.

- Allah illa Allah! Vamos depressa, Efêndi! Que pretende ele?

- Halef não sabe.

- Deve ser algum assunto importante. Apressemo-nos! Deixamos o resto do vinho nos copos e nos cântaros e nos dirigimos a passos largos para casa.

Quando cheguei em casa, encontrei o Mutesselim sentado no lugar de honra do meu aposento e fumando numa das piteiras do meu Nargileh. Ao avistar-me teve a cortesia de levantar-se.

- Ah! Mutesselim, tu aqui no meu aposento! Que Alá te guie os passos e te torne agradável à presença ao meu lado!

No íntimo, porém, não sentia a satisfação que expressara com aquele jogo de frase, tão em uso nas terras levantinas.

- Emir, desculpa-me haver eu tomado a liberdade de subir aos teus aposentos! A governanta desta casa, a quem Alá deu uma cara como segunda não existe, convidou-me a vir para cá. Eu desejava falar com o Agha Selim.

- Neste caso, permite-me que eu saia. Deve ser assunto reservado, o que desejas tratar com ele.

Em vista dessas minhas palavras, ele estava obrigado a pedir que eu ficasse, se é que não desejasse cometer um atentado contra o espírito de educação turca.

- Fica, Emir, e tem a bondade de sentar-te. Também o Agha queira tomar lugar ao meu lado, pois o que desejo saber deste tu podes ouvir também, Efêndi.

Os cachimbos de reserva foram trazidos. Enquanto o acendíamos, observei meticulosamente a expressão fisionômica do Mutesselim. A luz vermelha da lanterna que iluminava o aposento não me permitia estudar-lhe bem a fisionomia, mas a sua voz tinha um timbre de quem não está com o equilíbrio das forças perfeito. A língua pesava-lhe um tanto e o olhar estava inseguro.

- Achas, Efêndi, que o Makredsch é um prisioneiro importante?

- Acho que sim.

- Sou do mesmo parecer. Por isso deixa-me apreensivo a idéia de que ele talvez consiga um meio de evadir-se.

- Mas está em lugar seguro!

- Não há dúvida, mas isto não me basta. Agha, esta noite eu não dormirei e virei umas duas ou três vezes à prisão a fim de verificar de visu se o homem, de fato, ainda está em sua cela.

- Senhor, deixa que eu me encarregue desse serviço de vigilância.

- Neste caso eu não poderei vê-lo, o que não me deixará conciliar o sono. Não, farei em pessoa o serviço de guarda na prisão! Dá-me a chave do presídio!

- Não vês, Senhor, que com isso me melindras?

- Não pretendo melindrar-te, mas quero estar tranqüilo. O Kasi Askari de Anatólia é muito severo. Receberei o “Cordão de Seda” (1), se o preso evadir-se.

Com aquela sua resolução, o nosso plano estava a periclitar! Não haveria um meio de remediar o mal? Eu me achava disposto a tomar uma decisão rápida: ou o vinho ou a violência! Enquanto o Agha apresentava ainda algumas objeções ao seu superior, eu saí para o corredor, onde se achava Halef.

- Traze-nos do melhor fumo; e toma este dinheiro, vai a casa onde há pouco me

encontraste e pede ao judeu daquele vinho de Tuerbedi Haidari, do qual há pouco estávamos bebendo.

__________________

(1) Nota do trad. - Demissão ou quiçá força; teimo mais ou menos equivalente ao nosso “Bilhete Azul” da época atual.

 

- Quanto de vinho?

- Um dos grandes cântaros, que contém dez menores. O judeu te emprestará o cântaro.

- É para eu trazer a bebida do Diabo ao aposento?

- Não. Deixa-a no teu quarto que lá irei buscá-lo. O Baschi Bozuk, porém, não deve saber de nada. Dá-lhe esta gorgeta. Ele que vá dar um passeio e pode demorar-se o tempo que quiser. Poderá procurar o corpo da guarda e se apresentar ao oficial com o qual viajará amanhã. Deste modo livrar-nos-emos dele.

Voltei ao quarto exatamente no instante em que o Agha entregava a chave da prisão ao Mutesselim. Este a colocou no cinturão de pano e disse-me:

- Sabes que o Makredsch tentou resistir à prisão?

- Sei. Primeiro tentou subornar o Agha e depois ameaçou-o de morte.

- Isso ele pagará!

- E, - acrescentou o Agha - quando o intimei a esvaziar os bolsos, não me obedeceu.

- Que traz ele nos bolsos?

- Dinheiro, muito dinheiro!

- Emir, a quem pertence agora aquele dinheiro? - perguntou-me o comandante em atitude de espreita.

- A ti compete apreendê-lo.

- Exatamente. Vamos já à prisão!

- Mutesselim, queres deixar-me? - perguntei-lhe. - Pretendes magoar-me?

- Sou tua visita, mas não teu hóspede!

- Não fui previamente avisado de que vinhas. Permite-me que te ofereça um cachimbo para fumares na minha companhia. É um fumo como raramente se encontra aqui.

Naquele instante entrava Halef trazendo o fumo. Era da qualidade do que fumava Mister David Lindsay. O comandante deveria gostar do fumo. Além disso, estava resolvido a não deixá-lo sair do meu quarto sem que fosse por minha vontade. Mas felizmente a coisa não chegou a vias de violências, visto que ele aceitou o cachimbo. Mas no decorrer da palestra, notei que os seus olhos dirigiam-se constantemente para a porta em ansiosa expectativa.

- Recebeste a tisana, Senhor?

- Recebi. Muito agradecido, Efêndi!

- A quantidade foi suficiente?

- Ainda não a contei.

- E nem provaste o remédio?

- Só um pouquinho.

- E que tal?

- Excelente. Mas ouvi dizer que os há mais doces do que aquele.

O bom Agha sabia muito bem do que se estava falando. Sorriu astuciosamente e dirigiu-me uns olhares faiscantes e provocadores.

- Sim, há tisanas muito mais doces do que aquela - respondi-lhe.

- São raras?

- Não.

- E produzem o mesmo efeito curativo?

- Melhor ainda. Assemelham-se ao leite que eflui da árvore do paraíso.

- E se encontra daquele remédio em Amadijah?

- Posso prepará-lo em toda parte e também em Amadijah.

- E quanto tempo levas até tê-lo pronto?

- Dez minutos. Se quiseres esperar, provarás a bebida do paraíso, que é servida a Maomé pelas Huris.

- Esperarei!

Os seus olhos brilhavam voluptuosamente e mais voluptuosamente ainda os do Agba. Deixei o quarto e aproveitei a ocasião para dirigir-me ao aposento de Maomé Emin.

- Emir, todo o nosso plano foi águas abaixo! - disse-me logo Haddedin.

- Como? Não, agora é que vai começar a sua execução que estou certo será plena de êxito.

- Mas não conseguirás apoderar-te da chave!

- Talvez nem venha a precisar dela. Aguarda os acontecimentos com paciência; é o melhor serviço que podes, de momento, prestar ao teu filho.

Lindsay chegou também ao quarto.

- Mandou buscar do meu fumo! Quem o saboreia?

- O comandante.

- Muito bem! Fuma do meu fumo, bebe do meu vinho! Esplêndido! Maroto!

- Por que não deveria ele saboreá-los?

- Que ficasse em casa. Veio atrapalhar o plano arquitetado!

- Estás enganado. Talvez que, em vez disso, ele o facilite até. Mandei comprar vinho!

- Mais ainda?

- Claro. E vinho persa. Derruba até um elefante. Doce como mel e forte como leão!

- Well! Também gosto de vinho persa!

- Já providenciei para que ao senhor seja também trazido algum vinho daquela qualidade. Vou deixar os dois oficiais alegres e depois verei o que se pode fazer.

Dirigi-me a seguir para a cozinha e mandei acender o fogo. Antes que este estivesse ardendo, voltou Halef, trazendo um enorme cântaro da perigosa bebida. Enchi uma panela e coloquei-a a ferver, deixando-a depois aos cuidados da Mersinah. Voltei depois para o aposento do inglês.

- Eis o néctar persa! Mas dê-me os copos. Estão com o senhor. Quando depois voltei para o meu quarto, os dois oficiais turcos dirigiram-me uns olhares cheios de expectativa.

- Eis a tisana, Mutesselim, prova-a fria e depois verás a diferença de paladar quando a tomares quente.

- Mas dize-me cá, Efêndi, isto é realmente remédio ou simples vinho?

- Esta bebida é a melhor tisana que conheço até hoje. Toma-a e depois me diz se ela não te alegra a alma!

O comandante provou e tornou a provar o vinho. Em sua fisionomia grave e cansada brilhou um raio de satisfação.

- Foi tu mesmo quem descobriu esse remédio?

- Não, mas o próprio Alá que dela dá a saber aos crentes de sua predileção.

- Então achas que Ele nos ama? Que somos prediletos seus?

- Naturalmente.

- Quanto a ti, eu já sabia que eras um favorito do Profeta. Tens mais dessa tisana?

- Tenho. Ei-la, esvazia o copo! Enchi-lhe novamente o copo.

Os seus olhos brilharam mais satisfeitos ainda do que há pouco.

- Efêndi, que é Ladakia, Djebeli e fumo de Schira comparado com este remédio! É mais delicioso do que o aroma do melhor café. Não me poderias fornecer a receita do seu preparo?

- Lembra-me depois, que a escreverei num papel para ti, antes de deixar Amadijah. Mas não faça cerimônias; aqui está o cântaro. Bebe a vontade! Eu tenho que voltar para a cozinha, a fim de preparar o outro remédio.

Premeditadamente, desci a escada pisando nas pontas dos pés para não fazer ruído e abri de repente a porta da cozinha. Realmente: Lá estava “Murta” diante da panela e com uma taça de porcelana turca tirava vinho da panela que fazia desaparecer de uma golada pela boca escancarada; depois proferiu um grunhido de satisfação.

- Cuidado, não queimes a língua, Mersinah! Assustada virou-se, deixando cair a taça no chão.

- Oh Sídi, era uma aeruemdschek (1) que caíra na panela e eu estive a pescá-la.

- E enguliste depois essa aranha?

- Não, Emir, mas apenas o pouco de vinho que lhe ficara no corpo.

- Dá-me aquela panelinha ali.

- Ei-la, Emir!

- Enche-a com essa bebida!

- Para quem?

- Para tu beberes depois.

- Que é isto, Emir?

- Um remédio, inventado por um Hekim persa, para rejuvenescer os velhos. Quem dele beber o suficiente alcançará a bem-aventurança e todo aquele que beber constantemente alcançará a vida eterna...

Ela agradeceu-me efusivamente e eu levei o resto do vinho fervido para o meu aposento. Os dois bebedores, apesar da sua diferença de postos, se haviam aproximado muito um do outro e pareciam entregues a uma palestra assaz agradável.

- Sabes, Efêndi, a respeito de que estivemos aqui a questionar? - perguntou-me o comandante.

- Não, pois não ouvi coisa alguma!

- Sobre qual dos sistemas o que mais tem sofrido, se o dele ou o meu. Quem tem razão?

- Vou resolver já o assunto: aquele no qual o medicamento fizer efeito mais rápido é justamente o que tem o sistema mais avariado!

- A tua sabedoria vai além de nossa compreensão. Que trazes nesta panela?

- É Itschki itschkilerin (2), que não se compara a qualquer outra!

- E queres que a provemos?

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(1) Aranha.

(2) O néctar dos néctares.

 

- Se o desejares, encher-te-ei o copo.

- O meu também, Efêndi - pediu-me o Agha.

Era vinho puro fervido, sem mais preparados, o que estavam ingerindo, mas o faziam com uma sofreguidão de espantar. Ambos tomavam de um só gole. O comandante, perdendo a compostura militar, por diversas vezes limpava com a língua a barba do seu Agha de alguma gota de vinho extraviada pela floresta da mesma. A palestra dos dois, já nessa altura, era simplesmente a de dois insanos quando se encontram no mesmo cubículo dum hospício. O Mutesselim abraçava-me e reabraçava-me e o Agha conservava confiadamente o seu braço enlaçado na minha cintura.

De repente, Agha se levantou para buscar uma outra vela, pois a que ardia já estava terminando. Ergueu-se bem do solo, mas quando quis dar o primeiro passo tombou de pernas espalhadas, qual um principiante no esporte de patinação.

- Que tens, Agha? - perguntou-lhe o seu comandante.

- Oh! Senhor, parece que estou acometido de Baldyr tschekmisch. Creio que tenho que me sentar novamente.

- Senta-te! Vou socorrer-te.

- Conheces algum específico contra essa doença?

- E miraculoso até! Senta-te!

O Agha retomou o seu lugar, ao passo que o comandante ergueu-se um pouco e informou-se afavelmente:

- Em qual das pernas sentes convulsão?

- Na esquerda.

- Estende-me a perna!

O Agha estendeu-lhe a perna e o seu superior hierárquico começou a fazer-lhe massagens e a puxá-la com certa violência.

- O jazik! Ai! Senhor! Creio que é na esquerda!

- Estende-me então aquela!

O Agha cumpriu a ordem e era de ver a cena tragi-cômica: o Mutesselin, que para as mínimas coisas utilizava-se de criados e pagens, tratava com carinho e solicitude a perna do seu subordinado.

- Está bem! Cessou a convulsão! - declarou-lhe depois o Agha.

- Então levanta-te e experimenta caminhar!

O comandante da fortaleza levantou-se e fêz um esforço brutal para manter-se ereto, conseguindo-o, afinal. Mas caminhava indeciso. Parecia um filhote de pássaro que, pela primeira vez, exercitava as asas.

- Mas, caminha, homem! Espera, vou ajudar-te!

O Mutesselim quis levantar-se com sua habitual ligeireza, mas preferiu depois sentar-se novamente, do contrário teria perdido o equilíbrio do corpo. Depois apoiando-se no meu ombro levantou-se afinal. De pé, espalhou bem as pernas, a fim de evitar a queda. Olhou estarrecido para a luz.

- Emir, a tua vela está caindo!

- Mas ao que vejo ela se acha firme.

- Não, ela está caindo e o papel vermelho que lhe serve de quebra-luz está pegando fogo.

- Não vejo nada disso.

- Maschallah! Vejo-a cair e, no entanto ela continua sempre no mesmo lugar. Deves estar muito oscilante, Agha Sellim! Não cambaleie deste modo, homem, senão tombarás ao solo!

- Não estou cambaleando, não, Mutesselim!

- Como não,