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PILARES DA TERRA Volume I / Ken Follett
PILARES DA TERRA Volume I / Ken Follett

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PILARES DA TERRA Volume I

 

     "Na noite de 25 de novembro de 1120, o White Ship partiu para a Inglaterra e afundou na costa de Barfleur com toda a tripulação menos um homem... A embarcação era a última palavra em transporte marítimo, equipada com todos os recursos à disposição dos construtores navais daquele tempo... A notoriedade desse naufrágio deve-se ao grande número de pessoas notáveis a bordo; além do filho e herdeiro do rei, havia dois bastardos reais, diversos condes e barões, e a maioria, da família real... Seu significado histórico é que deixou Henrique sem um herdeiro evidente... Sua consequência final foi a sucessão disputada e o período de anarquia que se seguiu à morte de Henrique."

 

     Os garotos chegaram cedo para o enforcamento.

     Ainda estava escuro quando os primeiros três ou quatro esgueiraram-se para fora do galpão, silenciosos como gatos com suas botas de feltro. Uma fina camada de neve cobria a cidadezinha, lembrando uma nova demão de tinta, e suas pegadas foram as primeiras a macular a superfície perfeita. Escolheram seu caminho por entre a barafunda de casebres de madeira e ao longo das ruas de lama congelada até a praça do mercado, onde a forca estava à espera.

     Os meninos desprezavam tudo o que os mais velhos valorizavam. Zombavam da beleza e faziam pouco da bondade. Caíam na risada à vista de um aleijado e ao encontrarem um animal ferido o apedrejavam até a morte. Vangloriavam-se dos ferimentos e exibiam as cicatrizes com orgulho, reservando especial admiração por mutilações: um garoto sem um dedo poderia ser o rei deles. Amavam a violência. Correriam milhas para ver sangue, e nunca perdiam um enforcamento.

     Um dos meninos urinou na base do cadafalso. Outro subiu os degraus, apertou o pescoço com os polegares e caiu bruscamente, contorcendo o rosto numa horrível paródia de estrangulamento: os outros gritaram de entusiasmo, e dois cachorros entraram correndo na praça, latindo. Um menininho começou a comer descuidadamente uma maçã; um dos mais velhos lhe deu um soco no nariz e tirou-lhe a fruta. O menininho aliviou seus sentimentos jogando uma pedra pontuda num cachorro, o que fez com que o animal voltasse por onde viera, uivando. Depois nada mais havia para fazer, e todos se agacharam no piso seco do pórtico da grande igreja, esperando que algo acontecesse.

     Luzes de velas bruxuleavam por trás das venezianas das sólidas casas de madeira e pedra construídas em torno da praça de comerciantes e artífices prósperos, enquanto as criadas de cozinha e os aprendizes acendiam o fogo, esquentavam a água e faziam mingau. A cor do céu passou de preto para cinza. Os habitantes da cidade saíam de casa, baixando a cabeça para passar nos portais, embrulhados em pesados mantos de lã grosseira, e, tremendo de frio, iam até o rio apanhar água.

     Logo um grupo de rapazes - cavalariços, operários e aprendizes - entrou na praça, andando com atitude arrogante. Expulsaram os meninos do pórtico da igreja com sopapos e pontapés, depois se encostaram nos arcos de pedra trabalhada, coçando-se, cuspindo no chão e falando com estudada confiança sobre morte por enforcamento.

     - Se ele tiver sorte, - disse um, - quebrará o pescoço assim que cair, uma morte rápida e sem dor; mas se isso não acontecer, ele ficará pendurado ali,tornando-se vermelho, abrindo e fechando a boca como um peixe fora d'água, até morrer asfixiado.

     Outro afirmou que morrer assim pode levar o tempo necessário para um homem caminhar uma milha. Um terceiro retrucou que podia ser pior ainda, que já vira um enforcamento em que o pescoço do condenado passou de um pé de comprimento.

     As velhas formaram um grupo no lado oposto da praça, o mais longe possível dos rapazes, que provavelmente gritariam comentários vulgares para suas avós. Essas sempre acordavam cedo, mesmo que já não tivessem bebês ou filhos pequenos com que se preocupar, e eram as primeiras a ter o fogo aceso e a casa varrida. Sua líder reconhecida, a robusta viúva Brewster, juntou-se a elas, rolando um barril de cerveja tão facilmente quanto uma criança rola seu arco. Antes que pudesse abri-lo, havia uma pequena multidão de fregueses esperando com jarros e baldes.

     O meirinho do xerife abriu o portão principal, deixando entrar os camponeses que moravam no subúrbio, nas casas de meia-água encostadas na muralha da cidade. Uns traziam ovos, leite e manteiga fresca para vender, outros vinham para comprar cerveja ou pão, e havia os que ficavam na praça do mercado esperando o enforcamento.

     De vez em quando as pessoas se empertigavam, como faz o precavido pardal, e levantavam os olhos para o castelo situado na colina que dominava a cidade. Viam fumaça se erguendo regularmente da cozinha, e o ocasional clarão de uma tocha por trás das seteiras da fortaleza de pedra. Depois, mais ou menos na hora em que o sol devia ter começado a nascer por trás da densa nuvem cinzenta que encobria o céu, abriram-se as enormes portas de madeira maciça do aposento construído sobre o portão da cidade e que servia de cárcere, e saiu um pequeno grupo. O xerife era o primeiro, montado num belo corcel negro, seguido por um carro de boi que trazia o prisioneiro amarrado. Atrás dele vinham três homens a cavalo, e, embora seu rosto não pudesse ser visto daquela distância, suas roupas revelavam que eram um cavaleiro, um sacerdote e um monge. Dois homens armados encerravam a procissão.

     Todos haviam estado na corte do condado, realizada na nave da igreja, no dia anterior. O sacerdote tinha apanhado o ladrão em flagrante delito; o monge identificara o cálice de prata como pertencente ao mosteiro; o cavaleiro era o lorde do ladrão e declarara que ele era um fugitivo; e o xerife o condenara à morte.

     Enquanto eles desciam lentamente a colina, o resto da cidade reunia-se em torno do patíbulo. Entre os últimos a chegar estavam os cidadãos mais eminentes: o açougueiro, o padeiro, dois ferreiros, o cuteleiro e o fabricante de flechas, todos com as mulheres.

     A atitude da multidão era estranha. Em geral aquela gente gostava de enforcamentos. Em geral o prisioneiro era um ladrão, e todos odiavam os ladrões com a paixão  das pessoas cujas posses foram duramente conquistadas com aquele criminoso, no entanto, era diferente. Ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Não tomara nada deles, mas de um mosteiro situado a mais de vinte milhas de distância. E tinha roubado um cálice cravejado de pedras preciosas, uma coisa de tão grande valor que era virtualmente impossível de vender - nada parecido com roubar um presunto, uma faca nova ou um bom cinturão, cuja perda significaria prejuízo para alguém. Não podiam odiar um homem por um crime despropositado. Houve algumas zombarias e vaias quando o prisioneiro entrou na praça, mas sem grande entusiasmo, com exceção  do demonstrado pelos garotos.

     A maior parte dos habitantes da cidade não havia estado na corte, porque dias de julgamento não eram feriados e todos precisavam ganhar a vida, de modo que era a  primeira vez que viam o ladrão. Era jovem, entre vinte e trinta anos, de altura e peso normais; por outro lado, porém, tinha uma estranha aparência. Sua pele era branca como a neve que se acumulava em cima dos telhados, os olhos, verdes, protuberantes e surpreendentemente luminosos, e o cabelo, da cor de uma cenoura. As moças o acharam feio; as velhas sentiram pena dele; os garotos riram até cair no chão.

     O xerife era uma figura familiar, mas os outros três homens que tinham selado o destino do ladrão eram estranhos. O cavaleiro, um homem corpulento de cabelo louro, era claramente uma pessoa de alguma importância, pois montava um cavalo de batalha, um animal enorme que custava tanto quanto um carpinteiro ganhava em dez anos.

     O monge era muito mais velho, com uns cinquenta anos talvez, ou mais, um homem alto e magro que se sentava na sela curvado, como se a vida fosse para ele um fardo tedioso. O mais surpreendente era o sacerdote, um jovem de nariz afilado e cabelo preto escorrido, com hábito também preto e montando um garanhão castanho. Tinha um ar perigoso, alerta, como um gato preto que houvesse sentido o cheiro de uma ninhada de camundongos.

     Um garotinho mirou cuidadosamente e cuspiu no prisioneiro. Tinha boa mira, pois atingiu-o bem no meio dos olhos. Ele rosnou uma praga e arremeteu contra o cuspidor, mas foi contido pelas cordas que o amarravam nas laterais do carro. O incidente não foi notável, a não ser pelo fato de ele ter falado francês normando, a língua dos lordes. Ele era bem-nascido então? Ou apenas estava muito longe de casa? Ninguém sabia. O carro de boi parou ao pé do cadafalso. O auxiliar do xerife subiu com o baraço na mão. O prisioneiro começou a lutar. Os garotos vibraram - teriam ficado desapontados se ele permanecesse calmo. Os movimentos do homem eram contidos pelas cordas amarradas nos pulsos e tomozelos, mas ele sacudiu a cabeça de um lado para o outro, esquivando-se. Após um momento o meirinho, um homem enorme, recuou e lhe deu um soco no estômago. Ele se dobrou e a corda foi passada pelo seu pescoço. Depois de apertar o nó, o meirinho pulou para o chão e puxou a corda até esticá-la, amarrando a outra extremidade a um gancho na base do cadafalso.

     Aquele foi o ponto crítico. Se o prisioneiro lutasse agora, só conseguiria morrer mais cedo.

     Os soldados desamarraram as pernas do prisioneiro e o deixaram de pé sozinho no carro de boi, com as mãos amarradas nas costas. Fez-se silêncio na multidão.

     Frequentemente havia uma perturbação naquela hora: a mãe do condenado tinha um ataque e desatava a berrar, ou sua mulher puxava de uma faca e corria, numa tentativa de última hora para salvá-lo. Às vezes o prisioneiro pedia perdão a Deus ou proferia pragas de gelar o sangue contra seus algozes. Os soldados ficaram dos dois lados do patíbulo, prontos para enfrentar qualquer incidente.

     Foi então que o prisioneiro começou a cantar.

     Tinha voz de tenor alta e muito pura. Os versos eram em francês, mas mesmo quem não podia entender a língua podia dizer, pela melodia pungente, que era uma canção de tristeza e privação.

    

     A cotovia,

     Apanhada na rede do caçador,

     Cantou mais doce que nunca,

     Como se a melodia do seu canto

     Pudesse voar e da rede fugir."

    

     Enquanto cantava, olhava diretamente para alguém na multidão. Aos poucos formou-se um espaço em torno dessa pessoa, e todos puderam vê-la.

     Era uma garota de cerca de quinze anos. Quando as pessoas olharam para ela perguntaram-se por que não a teriam notado antes. Seu cabelo castanho-escuro era comprido, grosso e farto, mostrando na testa larga o que chamam de bico-de-viúva. Tinha feições regulares e boca sensual, de lábios cheios. As velhas, reparando na sua cintura grossa e nos seios crescidos, concluíram que estava grávida e adivinharam que o prisioneiro era o pai da criança. Entretanto, todos os outros não notaram nada, exceto seus olhos. Não é que não fosse bonita, mas tinha olhos fundos, intensos e de uma espantosa cor dourada, tão luminosos e penetrantes que, ao fixarem uma pessoa, parecia a esta que conseguiam enxergar-lhe o coração, fazendo que desviasse os olhos com medo de que a jovem descobrisse seus segredos. Estava coberta de andrajos, e as lágrimas lhe corriam pelas faces sedosas.

     O condutor do carro de bois olhou para o meirinho, à espera. Este olhou para o xerife, aguardando o gesto de cabeça. O jovem sacerdote de ar sinistro deu uma cotovelada no xerife, impaciente, mas este não lhe deu atenção. Deixou que o prisioneiro continuasse cantando. Houve uma pausa aflitiva enquanto a linda voz do homem feio mantinha a morte a distância.

    

     Ao crepúsculo o caçador

     pegou sua presa,

     A cotovia jamais

     recuperou a liberdade.

     Todos os pássaros e homens

     certamente vão morrer,

     Mas canções podem viver

     para sempre.

    

     Quando a canção terminou o xerife olhou para o seu auxiliar e assentiu  com a cabeça. O meirinho gritou "Hup!" e fustigou o flanco do boi com um pedaço de corda. O carroceiro estalou seu chicote ao mesmo tempo. O boi adiantou-se, o prisioneiro cambaleou e, quando o animal puxou o carro, caiu no ar. A corda esticou e o pescoço do homem quebrou com um estalo.

     Ouviu-se um grito e todos olharam para a garota.

     Mas não foi ela quem gritou, e sim a mulher do cuteleiro, ao seu lado. No entanto, foi a garota a causa do grito. Ela havia mergulhado de joelhos na frente do cadafalso, com os braços esticados, a posição adotada para rogar uma praga. Todos recuaram, aterrorizados: sabiam que a praga de quem sofreu injustiça é particularmente efetiva, e todos suspeitavam que havia qualquer coisa de errado naquele enforcamento. Os meninos pequenos ficaram aterrorizados.

     A garota voltou os hipnóticos olhos dourados sobre os três estranhos, o cavaleiro, o monge e o sacerdote. Depois proferiu sua praga, pronunciando as palavras terríveis em Tom retumbante:

     - Amaldiçoo vocês com a doença e o infortúnio, com a fome e a dor; sua casa será consumida pelo fogo, e seus filhos morrerão na forca; seus inimigos prosperarão, e vocês envelhecerão na tristeza e no remorso, e morrerão na podridão e na agonia... - À medida que pronunciava as últimas palavras, a garota enfiou a mão num saco que estava no chão ao seu lado e puxou um galo vivo. Apareceu uma faca na sua mão, surgida do nada, e com um único golpe ela cortou a cabeça da ave.

     Enquanto o sangue ainda estava jorrando do pescoço cortado, ela atirou o galo degolado sobre o sacerdote de cabelo preto. Não chegou a alcançá-lo, porém o sangue espalhou-se nele, no monge e no cavaleiro, um de cada lado. Os três homens viraram-se enojados, mas o sangue borrifou em cada um deles, sujando-lhes o rosto e as roupas.

     A garota voltou-se e saiu correndo.

     A multidão abriu-se na sua frente e fechou-se nas suas costas. Por uns poucos momentos houve um pandemônio. Até que por fim o xerife conseguiu chamar a atenção dos soldados e, furioso, mandou que a perseguissem. Eles começaram a lutar para atravessar a multidão, empurrando brutalmente homens, mulheres e crianças, mas a garota desapareceu num abrir e fechar de olhos, e embora o xerife a procurasse, sabia que não a encontraria.

     Ele se afastou, enojado. O cavaleiro, o monge e o sacerdote não tinham acompanhado a fuga da garota. Estavam ainda com os olhos fixos no patíbulo. O xerife seguiu-lhes a direção do olhar. O ladrão morto estava pendurado no laço da forca, o rosto jovem e pálido já ficando azulado; sob o corpo que balançava suavemente no ar, o galo sem cabeça, mas ainda não de todo morto, corria em círculos irregulares na neve manchada de sangue.

   

     Num vale largo, no sopé de uma encosta íngreme, ao lado de um regato de águas claras e borbulhantes, Tom estava construindo uma casa.

     As paredes já estavam com três pés de altura e subiam depressa. Os dois pedreiros que Tom contratara trabalhavam disciplinadamente à luz do sol, as colheres de pedreiro fazendo scrap, slap e depois tap, tap, enquanto o servente suava sob o peso de grandes blocos de pedra. Alfred, o filho de Tom,  estava preparando a massa, contando em voz alta enquanto colocava areia em cima de uma tábua. Havia também um carpinteiro, trabalhando numa bancada ao lado de Tom - modelava cuidadosamente um pedaço de madeira com uma enxó.

     Alfred tinha catorze anos de idade, e quase a mesma altura de Tom,  que era uma cabeça mais alto que a maioria dos homens. Seu filho estava com apenas algumas polegadas a menos, e continuava a crescer. Eles se pareciam, também; o cabelo de ambos era castanho-claro e os olhos esverdeados raiados de castanho. As pessoas diziam que formavam uma bonita dupla. A principal diferença entre eles era que Tom tinha barba ondulada castanha, ao passo que no rosto de Alfred havia apenas uma fina penugem loura. O cabelo do rapaz já tinha sido daquela cor, lembrou o pai afetuosamente. Agora que ele estava se tornando um homem, Tom desejava que se interessasse por seu trabalho, pois teria muito a aprender se quisesse ser pedreiro como o pai; até então, porém, Alfred se mostrara entediado e frustrado com os princípios da construção.

     Quando a casa estivesse terminada, seria a mais luxuosa em muitas milhas. No andar térreo haveria apenas uma espaçosa galeria, para armazenagem, com o teto em abóbada, a fim de não pegar fogo. O salão, onde as pessoas realmente iriam morar, ficaria em cima, com acesso por uma escada externa, e sua altura dificultaria o ataque e facilitaria a defesa. Junto do salão haveria uma chaminé, para dar tiragem à fumaça. Aquilo era uma inovação radical: Tom só tinha visto uma única casa com chaminé, mas achara uma ideia tão boa que estava determinado a copiá-la. Em uma extremidade da casa, além do salão, haveria um quarto pequeno, que era o que as filhas de conde exigiam então - por serem finas demais para dormir com os homens, as serviçais e os cães de caça. A cozinha seria um prédio separado, já que mais cedo ou mais tarde todas pegavam fogo, e não restava nada a fazer senão construí-las longe de tudo mais e tolerar a comida morna.

     Tom estava fazendo o vão da porta. As vigas seriam arredondadas a fim de parecer colunas - um toque de distinção para os nobres recém-casados que iriam morar ali.

     Com o olho no gabarito de madeira que estava usando como guia, Tom ajustou a talhadeira de ferro obliquamente na pedra e golpeou-a com delicadeza, usando o grande martelo de madeira. Uma chuva de fragmentos caiu da superfície, deixando a forma um pouco mais redonda. Ele bateu de novo. Liso o bastante para uma catedral.

     Tinha trabalhado numa catedral uma vez - Exeter. No princípio havia encarado aquele trabalho como outro qualquer. Sentira-se furioso e ressentido quando o mestre construtor advertira-o de que não estava correspondendo ao padrão desejado: sabia que era um pedreiro muito mais cuidadoso do que a média. Entretanto percebera depois que as paredes de uma catedral não precisavam ser apenas boas, mas perfeitas. Além de a catedral se destinar a Deus, a construção era tão grande que a menor obliquidade nas paredes, o mais ínfimo desvio do nivelamento absoluto, enfraqueceria fatalmente a estrutura. O ressentimento de Tom transformou-se em fascinação. A combinação de um prédio demasiado ambicioso com uma impiedosa atenção ao menor dos detalhes abriu-lhe os olhos para o prodígio do seu ofício. Aprendeu com o mestre de Exeter  a importância da proporção, o simbolismo de vários números e as fórmulas quase mágicas para calcular a largura correta de uma parede ou o ângulo de um degrau numa  escada espiralada. Essas coisas o cativaram. Ficou surpreso ao saber que muitos pedreiros as achavam incompreensíveis.

     Após algum tempo Tom tornou-se o homem de confiança do mestre construtor, e foi quando começou a ver as deficiências dele. O homem era um grande artesão, mas um organizador incompetente. Ficava aturdido com os problemas de obter a quantidade certa de pedra para acompanhar o ritmo dos pedreiros, de verificar se o ferreiro tinha feito o número suficiente das ferramentas adequadas, de queimar cal e transportar areia para a argamassa, de derrubar árvores para os carpinteiros e de conseguir  com a igreja dinheiro suficiente para pagar tudo.

     Se houvesse ficado em Exeter até que o mestre construtor morresse, poderia ter-se tornado mestre também; porém, a assembleia que dirigia a igreja ficou sem dinheiro - em parte por causa do mau gerenciamento do mestre - e os artífices tiveram que se dispersar, procurando trabalho em outra parte. Ofereceram a Tom o posto de construtor do castelão de Exeter, reparando e aperfeiçoando as fortificações da cidade. Um trabalho para toda a vida, salvo algum acidente. Contudo Tom rejeitara a oferta, pois queria construir outra catedral.

     Sua mulher, Agnes, jamais compreendera essa decisão. Podiam ter tido uma boa casa de pedra, criados e estábulos próprios, assim como carne na mesa em todas as refeições; nunca perdoara Tom por ter rejeitado a oportunidade. Não era capaz de compreender a atração irresistível de construir uma catedral: a absorvente complexidade de organização; o desafio intelectual dos cálculos; o tamanho puro e simples das paredes; a grandeza e beleza emocionantes do prédio acabado. Tendo provado uma vez desse vinho, nunca mais Tom se satisfez com menos.

     Aquilo fora dez anos antes. Desde então não tinham se demorado em parte alguma por muito tempo. Nada além de projetar uma nova casa para o cabido de um mosteiro, trabalhar um ou dois anos num castelo, ou construir uma casa na cidade para um rico mercador; porém, assim que economizava o bastante, deixava tudo, e com mulher e filhos pegava a estrada, procurando outra catedral.

     Ergueu os olhos da bancada e viu Agnes na orla do terreno onde se realizava a construção, segurando uma cesta de comida numa das mãos e apoiando uma grande jarra de cerveja no quadril oposto. Era meio-dia. Ele contemplou-a afetuosamente. Ninguém jamais a chamaria de bonita, mas seu rosto tinha força: testa larga, grandes olhos castanhos, nariz reto, queixo forte. O cabelo escuro e grosso era dividido ao meio e preso atrás. Era a alma irmã de Tom.

     Agnes serviu cerveja para Tom e Alfred. Eles ficaram parados ali por um momento, os dois homens grandes e a mulher forte, bebendo cerveja em canecos de madeira, até que o quarto membro da família apareceu, saindo saltitante do campo de trigo: Martha, sete anos de idade e linda como um narciso - embora faltasse uma pétala, pois dois dentes de leite haviam caído. Ela correu para o pai, beijou sua barba poeirenta e pediu um gole de sua cerveja. Tom abraçou seu corpinho ossudo.

     - Não beba demais, para não cair numa vala - disse ele. Ela saiu cambaleando num círculo, fingindo que estava embriagada.

     Todos se sentaram na pilha de madeira. Agnes passou para Tom um naco de pão de trigo, uma fatia grossa de toucinho cozido e uma cebola. Ele deu uma mordida na carne e começou a descascar a cebola. Agnes deu comida às crianças e começou ela própria a comer também. Talvez, pensou Tom,  tenha sido irresponsabilidade rejeitar aquele trabalho monótono em Exeter e sair procurando uma catedral para construir; mas sempre fui capaz de alimentar todos, a despeito da minha inquietude. Ele apanhou sua faca no bolso da frente do avental de couro e cortou um pedaço da cebola, que comeu com uma fatia de pão. A cebola era doce mas picante.

     - Estou com criança de novo - disse Agnes.

     Tom parou de mastigar e encarou-a espantado. Uma sensação de deleite apossou-se dele. Sem saber o que dizer, limitou-se a sorrir tolamente. Após alguns momentos ela corou e disse:

     - Não é nada assim tão surpreendente.

     O marido abraçou-a.

     - Ora, ora - disse, ainda sorrindo de prazer. - Um bebê para puxar minha barba. E eu que pensei que o próximo seria do Alfred.

     - Não fique feliz demais - advertiu Agnes. - Não dá sorte falar na criança antes de ela nascer.

     Tom assentiu com a cabeça. Agnes já tivera diversos abortos e uma criança nascida morta, além de uma garotinha, Matilda, que só vivera dois anos.

     - Mesmo assim, eu gostaria que fosse um menino - disse ele. - Alfred já está tão grande!...   Quando deve nascer?

     - Depois do Natal.

     Tom começou a calcular. A estrutura da casa estaria terminada à época da primeira nevada, quando o trabalho de pedra teria que ser coberto com palha para ficar protegido no inverno. Os pedreiros gastariam os meses de frio cortando pedras para janelas, abóbadas, estruturas de portas e a lareira, enquanto o carpinteiro prepararia as tábuas para o assoalho, portas e persianas e Tom construiria o andaime para o trabalho no andar de cima. Na primavera eles fariam a abóbada do andar térreo, forrariam o piso do salão e montariam o telhado. O trabalho alimentaria a família até o domingo de Pentecostes, quando então o bebê já teria seis meses de idade. Aí eles se mudariam.

     - Ótimo - disse ele, contente. - Isto é ótimo. - E comeu outra fatia de cebola.

     - E estou velha demais para ter filhos - disse Agnes. -Este tem que ser o último.

     Tom pensou naquilo. Não estava certo da idade dela, em números, mas muitas mulheres tinham filhos naquela época da vida. No entanto, era verdade que sofriam mais à medida que ficavam mais velhas, e que os bebês não nasciam tão fortes. Sem dúvida Agnes estava com a razão. Mas como poderia ter certeza de que não conceberia de novo?, perguntou-se Tom. Só então percebeu como, e uma nuvem sombreou seu ensolarado estado de espírito.

     - Posso conseguir um bom emprego, numa cidade - disse ele, tentando apaziguá-la. - Uma catedral, ou um palácio. Aí poderemos ter uma casa grande com chão de madeira e uma criada para ajudar você com o bebê.

     - Pode ser - disse ela ceticamente, o rosto enrijecido. Não gostava daquela conversa de catedrais. Se Tom nunca tivesse trabalhado numa catedral, podia estar morando numa casa na cidade agora, com dinheiro economizado e enterrado sob a lareira, sem nada para preocupá-la.

     Tom desviou o olhar e deu outra mordida no toucinho. Tinham o que celebrar, mas estavam em desarmonia. Sentiu-se deprimido. Mastigou a carne dura por um momento, depois ouviu um cavalo. Inclinou a cabeça para escutar. Um cavaleiro estava atravessando uma região cheia de árvores, vindo da direção da estrada, tomando um atalho e evitando a aldeia.

     Um momento depois, um jovem montado num pónei aproximou-se a trote e desmontou. Parecia um escudeiro, uma espécie de cavaleiro aprendiz.

     - O seu lorde está vindo aí - disse ele.

     Tom ergueu-se.

     - Está se referindo a lorde Percy?

     Percy Hamleigh era um dos homens mais importantes do país. Possuía aquele vale e muitos outros, e estava pagando pela casa.

     - O filho dele - disse o escudeiro. - O jovem William. - O filho de Percy, William, iria ocupar aquela casa após seu casamento. Estava noivo de Lady Aliena, a filha do conde de Sharing.

     - Ele mesmo - confirmou o escudeiro. - E está furioso.

     O coração de Tom confrangeu-se. Quando tudo corria bem já era difícil tratar com o proprietário de uma casa em construção. com um proprietário enfurecido era impossível.

     - Por que ele está furioso?

     - Sua noiva o rejeitou.

     - A filha do conde? - exclamou Tom,  surpreso. Sentiu uma pontada de medo; naquele instante mesmo estivera pensando em como seu futuro era seguro. - Pensei que isso já estivesse resolvido.

     - Todos nós pensamos, exceto Lady Aliena, ao que parece - disse o escudeiro. - No momento em que se encontrou com ele, disse que não o desposaria por nada deste mundo.

     Tom franziu a testa, preocupado. Não queria que aquilo fosse verdade.

     - Mas o rapaz não é feio, que me lembre.

     - Como se isso fizesse qualquer diferença, na posição dela - disse Agnes. - Se as filhas de condes fossem autorizadas a se casar com quem bem entendessem, estaríamos recebendo ordens de menestréis ambulantes e foras-da-lei.

     - A garota ainda pode mudar de idéia - disse Tom,  esperançoso.

     - Mudará, se a mãe lhe der uma surra de vara de marmelo - disse Agnes.

     - A mãe dela está morta - disse o escudeiro.

     Agnes balançou a cabeça, concordando.

     - O que explica por que não sabe os fatos da vida. Mas não vejo por que razão o pai não possa obrigá-la.

     - Parece que ele prometeu uma vez que nunca a obrigaria a desposar alguém que odiasse - disse o escudeiro.

     - Uma promessa tola! - exclamou Tom,  furioso. Como um homem poderoso poderia se prender ao capricho de uma garota daquele modo? O casamento dela poderia afetar alianças militares, as finanças baroniais...   e até mesmo a construção desta casa.

     - Ela tem um irmão - comentou o escudeiro -, de modo que não é tão importante com quem se case.

     - Mesmo assim...

     - E o conde é um homem inflexível - prosseguiu o escudeiro. - Não deixará de cumprir uma promessa, mesmo que tenha sido feita a uma criança. - Ele deu de ombros. - Pelo menos é o que dizem.

     Tom olhou para as paredes de pedra, ainda baixas, da casa em construção. Até agora não economizara dinheiro bastante para manter a família no inverno, pensou com um calafrio.

     - Talvez o rapaz encontre outra moça para compartilhar esta casa com ele. Tem todo o condado para escolher.

     - Por Cristo, acho que é ele - disse Alfred, na sua voz dissonante de adolescente.

     Seguindo o olhar do rapaz, todos se voltaram para o campo. Um cavalo vinha da aldeia a galope, levantando uma nuvem de pó e terra. O assombro de Alfred era justificado tanto pelo tamanho quanto pela velocidade do cavalo. Tom já vira animais assim, mas o garoto possivelmente não. Era um cavalo de batalha, com o lombo tão alto quanto o queixo de um homem e a largura proporcional. Aqueles cavalos de batalha não eram criados na Inglaterra; vinham do além-mar e eram extremamente caros.

     O construtor deixou cair o resto do pão no bolso do avental, semicerrou os olhos para se proteger do sol e se virou para o campo. O cavalo estava com as orelhas viradas para trás e as narinas dilatadas, mas pareceu a Tom que sua cabeça estava bem erguida, sinal de que o cavaleiro não perdera totalmente o controle. Na verdade, quando se aproximou mais, o cavaleiro inclinou o tronco para trás e puxou as rédeas, e o grande animal pareceu reduzir um pouco a velocidade. Tom podia sentir agora o martelar dos cascos no solo, sob seus pés. Virou-se para Martha, pensando em pegá-la e pô-la a salvo. A mãe teve a mesma ideia. A menina, porém não estava à vista em parte alguma.

     - No trigal - disse Agnes, mas Tom já pensara nisso e estava atravessando o terreno da casa em largas passadas. Esquadrinhou o trigo ondulante com medo no coração, mas não conseguiu ver a criança.

     A única coisa em que pôde pensar foi tentar reduzir a velocidade do cavalo. Passou para a trilha e começou a caminhar na direção do animal desembestado, com os braços abertos. O cavalo o viu, ergueu a cabeça para olhar melhor, e reduziu sensivelmente o ritmo do galope. Então, para horror de Tom,  o cavaleiro o esporeou.

     - Seu maldito tolo! - berrou Tom,  embora o cavaleironão pudesse ouvi-lo.

     Foi quando Martha saiu do meio do trigal e apareceu na trilha, a alguns metros de Tom.

     Por um momento ele ficou imóvel, em pânico. Depois se atirou para a frente, gritando e sacudindo os braços, mas aquele era um cavalo de batalha, treinado para acometer hordas ululantes, e nem vacilou. Martha ficou no meio da trilha estreita, olhando espantada, imóvel, para o animal imenso que se lançava sobre ela. Houve um momento em que Tom percebeu, com desespero, que não poderia alcançá-la antes do cavalo. Ele se desviou para um lado, o braço tocando no trigo alto; no último instante o cavalo desviou-se para o outro lado. Um dos estribos chegou a roçar o cabelo fino de Martha; um casco deixou um buraco redondo no chão, junto do seu pezinho descalço; aí ele seguiu, atirando terra em ambos, e Tom pegou-a e apertou-a contra o peito palpitante.

     Ficou imóvel por um momento, esmagado pelo alívio imenso, os membros fracos, interiormente arrasado. Aí então sentiu uma onda de ódio contra a irresponsabilidade daquele jovem estúpido no seu enorme cavalo de batalha. Ergueu os olhos, furioso. Lorde William estava parando o animal agora, sentado na sela com o tronco para trás, as pernas esticadas para a frente, puxando as rédeas. O cavalo desviou-se do local da obra. Sacudiu a cabeça e empinou, mas William permaneceu montado. E reduziu a velocidade para meio galope e depois trote, enquanto o conduzia numa volta larga.

     Martha estava chorando. Tom entregou-a a Agnes e esperou por William. O jovem lorde era um sujeito altoe vigoroso, de cerca de vinte anos; tinha cabelo louro e olhos acanhados que faziam com que parecesse estar sempre fitando o sol. Usava uma túnica preta escura, calções justos também pretos e sapatos de couro com tiras entrecruzadas até os joelhos. Estava bem sentado na sela e não parecia nem um pouco perturbado com o que acontecera. O garoto bobo nem mesmo sabe o que fez, pensou Tom amargamente. Eu gostaria de torcer-lhe o pescoço.

     William parou o cavalo em frente à pilha de madeira e olhou para os operários.

     - Quem é o encarregado aqui? - perguntou.

     Tom teve ímpetos de dizer: Se você tivesse ferido minha filhinha, eu o mataria, mas conteve a raiva. Foi como engolir um sapo. Aproximou-se do cavalo e segurou o freio.

     - Eu sou o construtor - disse tenso. - Meu nome é Tom.

     - Esta casa não é mais necessária - disse William. - Dispense seus homens.

     Era o que Tom receava. Mas agarrou-se à esperança de que William estava sendo impetuoso na sua raiva, e poderia ser persuadido a mudar de ideia. com esforço, fez a voz parecer cordial e razoável.

     - Mas tanto trabalho já foi feito! Por que perder o que gastou? Vai precisar da casa um dia.

     - Não me diga como cuidar dos meus negócios, Tom Construtor - disse William. - Vocês todos estão dispensados. - Ele puxou uma das rédeas, mas Tom continuou segurando o freio.

     - Solte meu cavalo - ordenou William ameaçadoramente.

     Tom engoliu em seco. Mais um momento e William tentaria puxar a cabeça do cavalo para cima. O construtor enfiou a mão no bolso do avental e tirou o resto do pão que estava comendo. Mostrou-o para o animal, que mergulhou a cabeça e deu uma mordida.

     - Há mais para ser dito antes que se vá, milorde - retrucou conciliadoramente.

     - Solte meu cavalo, senão cortarei sua cabeça - disse William. Tom olhou diretamente para ele, procurando não demonstrar o medo que sentia. Era maior que William mas isso não faria diferença se o jovem lorde desembainhasse a espada.

     - Faça o que o lorde diz, marido - murmurou Agnes, temerosa.

     Houve um silêncio de morte. Os outros trabalhadores ficaram imóveis como estátuas, observando. Ele sabia que a atitude prudente seria ceder. Mas por pouco o jovem não esmagara a filhinha de Tom,  e isso o deixara furioso. Assim, foi com o coração disparado que ele disse:

     - O senhor tem que nos pagar.

     William puxou as rédeas, mas o construtor segurou o freio com força. Além disso, o cavalo estava distraído, metendo o focinho no bolso do avental de Tom,  querendo mais comida.

     - Solicite a meu pai os seus salários! - disse William, furiosamente.

     Tom ouviu a voz do carpinteiro, aterrorizada:

     - Faremos isto, milorde, agradecendo-lhe muito.

     Covarde desgraçado, pensou Tom,  mas ele próprio estava tremendo. Mesmo assim, obrigou-se a dizer:

     - Se quiser nos dispensar, terá de nos pagar, conforme o costume. A casa de seu pai fica a dois dias de marcha daqui, e quando chegarmos lá poderemos não encontrá-lo.

     - Homens têm morrido por menos que isso - disse William. Seu rosto ficou vermelho de raiva. Com o canto do olho, Tom viu que o escudeiro empunhava a espada. Sabia que deveria desistir agora e humilhar-se, mas havia um obstinado nó de raiva no seu estômago, e assustado como estava não conseguiu obrigar-se a largar o freio do cavalo.

     - Pague primeiro e depois me mate - disse imprudentemente. - Pode vir a ser enforcado ou não; mas morrerá, mais cedo ou mais tarde, e aí estarei no céu quando for para o inferno.

     A expressão de escárnio congelou-se no rosto de William, que empalideceu. Tom ficou surpreso; o que havia assustado o rapaz? Não a referência ao enforcamento, certamente: na verdade não era nada provável que um lorde fosse enforcado pelo assassinato de um artesão. Teria se aterrorizado com o inferno?

     Encararam-se por alguns momentos. Tom observou com assombro e alívio quando a expressão de raiva e desprezo de William se dissolveu, para ser substituída por uma ansiedade pânica. Por fim William pegou uma bolsa de couro no cinto e jogou-a para o seu escudeiro, dizendo:

     - Pague a eles.

     Nesse ponto, Tom forçou a sorte. Quando William puxou as rédeas de novo e o cavalo levantou a cabeça forte e andou de lado, deslocou-se junto, agarrado no freio, e disse:

     - Uma semana de salário na dispensa, é este o costume. - Ouviu Agnes respirar fundo, logo às suas costas, e não teve dúvida de que ela o achava maluco, por prolongar o confronto. Mas prosseguiu, obstinadamente: - Isso significa seis pence para o servente, doze para o carpinteiro e cada um dos pedreiros, e vinte e quatro para mim. Sessenta e seis ao todo. - Ele era capaz de somar pennies mais depressa do que qualquer pessoa que conhecesse.

     O escudeiro estava olhando indagadoramente para o seu senhor.

     - Muito bem - disse William, com raiva.

     Tom largou o freio e recuou.

     William virou o cavalo e o esporeou com força. O animal saltou em frente, pegando a trilha que cortava o trigal.

     Tom sentou-se subitamente na pilha de madeira. Perguntou-se o que tinha dado nele. Fora loucura desafiar lorde William daquele jeito. Sorte sua estar vivo.

     O tropel do cavalo de batalha de William diminuiu de volume, transformando-se num trovão distante, e seu escudeiro esvaziou a bolsa em cima de uma mesa. Tom sentiu uma onda de triunfo, quando os pennies de prata rolaram à luz do sol. Fora loucura, mas dera certo: tinha garantido o pagamento justo para si próprio e para os homens que trabalhavam sob suas ordens.

     - Até mesmo os lordes devem obedecer ao costume - disse, meio para si mesmo.

     Agnes o ouviu.

     - Só espero que você nunca venha a precisar de lorde William - disse amargamente.

     Tom sorriu para a mulher. Era capaz de entender a grosseria, sabendo que tinha se assustado.

     - Não se preocupe demais, senão nada lhe restará exceto leite azedo nos seios, quando o bebê nascer.

     - Não serei capaz de alimentar nenhum de nós a menos que você arranje trabalho para o inverno.

     - O inverno está muito longe - disse Tom.

    

     Eles permaneceram na aldeia durante todo o verão. Mais tarde, vieram a considerar essa decisão como um erro terrível; na ocasião, porém, pareceu bastante sensato, pois Tom,  Agnes e Alfred podiam ganhar um penny por dia cada um trabalhando no campo durante a colheita. Quando chegou o outono e tiveram que se mudar, possuíam um saco pesado de pennies de prata e um porco cevado.

     Passaram a primeira noite na entrada coberta de uma igreja da aldeia, mas no segundo dia encontraram um convento e gozaram da hospitalidade dos monges. No terceiro dia viram-se no coração da floresta Chute, uma vasta área coberta de mato fechado e muitas árvores, numa estrada não muito mais larga que um carro de boi, com a luxuriante vegetação do verão morrendo entre os carvalhos de cada lado.

     Tom carregava as ferramentas menores num saquinho e pendurara os martelos no cinto. Tinha o manto dobrado debaixo do braço esquerdo e o espigão de ferro na mão direita, usando-o como uma bengala. Sentia-se feliz por estar na estrada de novo. Seu próximo trabalho poderia ser na construção de uma catedral. Poderia tornar-se mestre pedreiro, permanecer ali o resto da vida, e construir uma igreja tão maravilhosa que lhe garantisse um lugar no céu.

     Agnes levava as poucas coisas de casa que tinham dentro da panela que amarrara nas costas. Alfred carregava as ferramentas que usariam para construir uma nova casa em algum lugar: um machado, uma enxó, um serrote, um martelo pequeno, uma sovela para fazer buracos no couro e na madeira e uma pá. Martha era pequena demais para carregar qualquer coisa, exceto a tigela e a faca amarradas no cinto e o manto de inverno nas costas. Tinha, contudo, a obrigação de conduzir o porco até que pudessem vendê-lo num mercado.

     Tom conservou-se atento em Agnes enquanto atravessavam aquela interminável floresta. Já passara da metade da gravidez, e carregava um peso considerável na barriga, assim como nas costas. Mas parecia incansável. Alfred também estava ótimo: naquela idade os garotos dispõem de mais energia que capacidade de usá-la. Só Martha se cansava. Suas perninhas finas eram feitas para as correrias dos seus brinquedos, não para as longas marchas, e a menina ficava constantemente para trás, fazendo com que os outros tivessem que parar e esperar por ela e pelo porco. Enquanto caminhava, Tom pensava na catedral que construiria um dia. Começou, como sempre, imaginando uma passagem em arco. Era muito simples: dois pilares sustentando um semicírculo. Imaginou depois um segundo conjunto exatamente igual ao primeiro. Colocou os dois juntos, na sua cabeça, para formar uma passagem em arco. Depois acrescentou outro, e mais outro, muitos mais, até que tinha toda uma fileira, formando um túnel. Essa era a essência de um prédio, pois tinha um teto para não deixar entrar chuva e duas paredes para sustentar o teto. Uma igreja não passava de um túnel, com refinamentos.

     Um túnel é escuro, de modo que os primeiros refinamentos são as janelas. Se a parede fosse bastante forte, poderia ter buracos. Os buracos seriam arredondados na parte de cima, com as laterais retas e um peitoril horizontal - da mesma forma que a arcada original. O emprego de formas similares para os arcos, janelas e portas era uma das coisas que faziam um edifício bonito. A regularidade era outra, e Tom visualizava doze janelas idênticas, espaçadas uniformemente, ao longo de cada parede do túnel.

     Tom tentou visualizar as molduras das janelas, mas perdia a concentração a cada instante, porque achava que estava sendo observado. Era uma tolice, pensou, a menos que fosse, é claro, por estar sendo observado pelos pássaros, raposas, gatos, esquilos, ratos, camundongos, doninhas, arminhos e ratazanas que havia em grande número na floresta.

     Sentaram-se perto de um córrego ao meio-dia. Beberam a água pura e comeram toucinho e maçãs apanhadas no chão da floresta.

     De tarde Martha estava cansada. Em dado momento ficou umas cem jardas atrás deles. Parado, esperando que ela emparelhasse com o resto da família, Tom se lembrou de Alfred naquela idade. Era um menino bonito, de cabelos dourados, robusto e ousado. O afeto misturou-se com irritação ao ver Martha ralhando com o porco por ser tão vagaroso. Foi então que bem na frente dela surgiu um vulto vindo da floresta. O que aconteceu a seguir foi tão rápido que Tom mal pôde acreditar. O homem que aparecera tão de repente na estrada levantou um porrete acima do ombro. Um grito de horror subiu até a garganta de Tom,  mas antes de se fazer ouvir o homem bateu com o porrete em Martha. Pegou em cheio do lado da cabeça, e Tom ouviu o barulho do golpe. Ela caiu no chão como uma boneca largada.

     Quando Tom deu por si estava correndo na direção da menina, os pés batendo no chão com a força dos cascos do cavalo de batalha de William, querendo que suas pernas o levassem mais depressa. Enquanto corria, observava o que estava acontecendo, mas era como olhar para uma pintura no alto da parede de uma igreja, pois podia ver mas não havia nada que fosse capaz de fazer para modificá-la. O atacante era, indubitavelmente, um fora-da-lei. Baixo e atarracado, vestia uma túnica marrom e estava descalço. Encarou Tom por um instante, e este pôde ver que seu rosto era horrivelmente mutilado; os lábios haviam sido cortados, presumivelmente como punição de algum crime envolvendo mentiras, e sua boca era agora um repulsivo sorriso permanente, cercado por uma cicatriz retorcida. Aquela visão horrível teria detido Tom,  não estivesse ele correndo para o corpinho de Martha jogado no chão.

     O fora-da-lei desviou os olhos do construtor e voltou-se para o porco. Numa fração de segundo abaixou-se, agarrou-o, enfiou o animal aos gritos debaixo do braço e correu de volta para o emaranhado da floresta debaixo das árvores, levando consigo a única coisa de valor da família de Tom.

     Tom ajoelhou-se ao lado de Martha. Pôs a mão enorme sobre o seu peitinho e sentiu as batidas do coração, firmes e fortes fazendo desaparecer seu pior medo; mas os olhos dela estavam fechados e havia sangue vermelho no seu cabelo louro.

     Agnes ajoelhou-se junto dele um momento depois. Sentiu o peito, o pulso e a testa de Martha e olhou duro para Tom.

     - Ela viverá - disse, com a voz tensa. - Traga de volta aquele porco.

     Tom soltou rapidamente o saco de ferramentas e jogou-o no chão com a mão esquerda pegou no cinto o martelo grande de cabeça de ferro. Ainda tinha o espigão na mão direita. Viu os arbustos amassados no caminho por onde o ladrão viera e fora embora, e ouviu os guinchos do porco, mais adiante. Mergulhou por entre a vegetação rasteira sob as árvores.

     A trilha era fácil de seguir. O fora-da-lei era corpulento, corria com um porco que se debatia e deixava uma trilha larga, pisoteando flores, arbustos e pequenas árvores. Tom correu atrás dele, tomado de um desejo selvagem de pegar aquele homem e espancá-lo até que perdesse os sentidos. Passou por entre um renque de vidoeiros, arremessou-se por uma elevação abaixo e patinhou num charco até chegar a uma trilha estreita. Aí parou. O ladrão podia ter ido para a esquerda ou para a direita, só que não havia vegetação esmagada para mostrar o caminho; não obstante, Tom prestou atenção e ouviu o porco guinchando um pouco mais além, à esquerda. Ouviu também alguém correndo na floresta atrás dele - Alfred, presumivelmente. Foi atrás do seu porco.

     O caminho o levou a uma descida, depois a uma curva acentuada e começou então a subir. Podia ouvir o porco claramente agora. Subiu correndo a elevação, respirando com dificuldade - tantos anos respirando pó de pedra tinham enfraquecido seus pulmões. De repente o caminho voltou a ser horizontal e ele viu o ladrão, a apenas umas vinte ou trinta jardas de distância, correndo como se o demónio o perseguisse. Tom redobrou os esforços e começou a reduzir a diferença. Tudo indicava que ia conseguir apanhar o fora-da-lei, se continuasse correndo, pois um homem com um porco não pode correr tão depressa quanto um homem sem nenhum. Mas agora seu peito doía. O ladrão estava a umas quinze jardas, talvez doze. Tom ergueu o espigão de ferro acima da cabeça, como uma lança. Mais perto um pouco e ele arremessaria. Onze jardas, dez...

     Antes que o espigão pudesse sair da sua mão, ele percebeu, com o canto do olho, um rosto magro sob um gorro verde saindo do mato que ladeava a trilha. Era tarde demais para se desviar.

     Uma vara grossa foi atirada na sua frente, ele tropeçou nela, tal como fora a intenção de quem a jogara, e caiu no chão. Tom deixou cair o espigão mas conservou o martelo. Girou e levantou-se sobre um dos joelhos. Havia dois homens agora: o de gorro verde e um careca de barba branca. Os dois se precipitaram sobre ele.

     O construtor ficou de pé e bateu com o martelo no homem de gorro verde. O sujeito procurou esquivar-se, mas o grande martelo de cabeça de ferro o atingiu no ombro com força, e ele deu um grito de agonia e se jogou ao chão, segurando o braço como se estivesse quebrado. Não houve tempo para levantar o martelo para outro golpe esmagador antes de o careca se aproximar, de modo que Tom enfiou a cabeça de ferro do instrumento na cara dele e cuspiu.

     Os dois homens recuaram, com a mão nos ferimentos. Tom percebeu que não mais podiam lutar. Virou-se. O ladrão ainda estava correndo. Tom seguiu novamente atrás dele, ignorando a dor no peito. Entretanto, tinha vencido apenas algumas jardas quando ouviu uma voz familiar às suas costas.

     Alfred.

     Parou e olhou para trás.

     Alfred estava lutando com os dois homens ao mesmo tempo, usando punhos e pés. Socou o de gorro verde na cabeça umas três ou quatro vezes, depois chutou as canelas do careca. Mas os dois pularam em cima dele e se aproximaram o mais possível, de modo que não pudesse dar socos ou pontapés que doessem. Tom hesitou, dividido entre caçar o porco e salvar o filho. Aí então o careca meteu o pé por trás da perna de Alfred e a puxou; quando o garoto caiu no chão os dois bandidos se lançaram sobre ele, dando-lhe uma saraivada de socos no rosto e no corpo.

     Tom correu de volta. Arremeteu de corpo inteiro contra o careca, jogando-o no mato, depois virou-se e ergueu o martelo contra o homem de gorro verde. Ele já tinha sentido o peso do martelo antes e ainda estava usando apenas um braço. Esquivou-se do primeiro golpe, depois virou-se e mergulhou no mato antes que o construtor pudesse atacar de novo.

     Tom virou-se e viu o careca correndo pela trilha. Olhou na direção oposta: o ladrão com o porco não estava à vista. Deixou escapar por entre os dentes uma praga amargurada e blasfema: o porco representava metade do que economizara no verão. Mergulhou no chão, respirando com dificuldade.

     - Vencemos os três! - exclamou Alfred, entusiasmado.

     Tom olhou para ele.

     - Mas levaram nosso porco - disse.

     A raiva queimava seu estômago como sidra azeda. Tinham comprado o animal na primavera, assim que juntaram dinheiro suficiente, e passaram todo o verão engordando-o.

     Um porco gordo, que podia ser vendido por sessenta pence com umas poucas cabeças de repolho e um saco de grãos davam para alimentar a família durante todo o inverno e ainda sobraria para fazer um par de sapatos de couro e uma ou duas bolsas. Sua perda era uma catástrofe.

     Tom olhou invejosamente para Alfred, que já se recuperara da corrida e da briga e aguardava impaciente. Quanto tempo faz, pensou, que eu era capaz de correr como o vento e de mal sentir o coração batendo mais depressa? Desde que eu era dessa idade... vinte anos. Vinte anos. Parecia ontem.

     Levantou-se.

     Passou o braço pelos ombros largos de Alfred quando fizeram o caminho de volta. O garoto ainda era mais baixo que o pai a largura da mão de um homem, mas logo iria alcançá-lo e, talvez, ultrapassá-lo. Espero que sua inteligência também cresça, pensou Tom,  que disse:

     - Qualquer um pode entrar numa briga, mas o homem sábio é o que sabe ficar de fora.

     Alfred dirigiu-lhe um olhar inexpressivo.

     Cruzaram o charco e começaram a subir a elevação que tinham descido antes, percorrendo ao contrário a trilha do criminoso. Enquanto se esforçavam para atravessar os vidoeiros, o pensamento de Tom voltou para Martha, e mais uma vez sentiu-se louco de raiva. O fora-da-lei batera nela à toa, pois não representava o menor perigo.

     Tom apertou o passo e um momento depois emergia na estrada, junto com Alfred. Martha estava deitada no mesmo lugar, não tendo se movido. Seus olhos estavam fechados e o sangue secava no seu cabelo. Agnes estava ajoelhada ao lado da filha, e com ela, para a surpresa de Tom,  havia outra mulher e um menino. Pensou que não era de admirar que tivesse se sentido observado o tempo todo: a floresta parecia estar fervilhando de gente. Inclinou-se e encostou a mão no tórax da menina novamente.

     Sua respiração era normal.

     - Ela acordará logo - disse a estranha, num Tom de voz autoritário. - Então vai vomitar. Depois ficará boa.

     Tom fitou-a com curiosidade. Ela estava ajoelhada junto de Martha. Era bastante jovem, talvez uns doze anos menos que ele. Sua túnica curta de couro revelava pernas morenas e flexíveis. Tinha o rosto bonito, com o cabelo castanho-escuro formando um bico-de-viúva na testa. Tom sentiu uma pontada de desejo. Então ela ergueu os olhos para fitá-lo e ele estremeceu: seus olhos, intensos e fundos, eram de uma rara cor de mel, dourados, e imprimiam a seu rosto uma expressão mágica. Tom não teve dúvida de que ela sabia o que estava pensando.

     Desviou os olhos para ocultar seu embaraço e encarou Agnes, que parecia estar ressentida.

     - Onde está o porco? - perguntou ela.

     - Havia dois outros bandidos - disse Tom.

     - Nós batemos neles - interveio Alfred -, mas o que estava com o porco fugiu.

     Agnes fez um jeito triste, mas não falou mais nada.

     - Poderíamos levar a menina para a sombra, se tivermos cuidado - disse a estranha, levantando-se. E Tom viu que era muito baixa, no mínimo um pé menor que ele.

     Inclinou-se e pegou Martha no colo cuidadosamente. Seu corpinho de criança quase não pesava nada. Carregou-a algumas jardas ao longo da estrada e deitou-a sobre um gramado à sombra de um velho carvalho. Ainda estava totalmente desacordada.

     Alfred recolhia as ferramentas que tinham se espalhado durante o tumulto. O filho da mulher estranha observava, de olhos arregalados e boca aberta, sem nada dizer.

     Devia ter uns três anos menos que Alfred, e seu aspecto era peculiar, sem nada da beleza sensual da mãe. Tinha pele muito clara, cabelo alaranjado tirante a ruivo e olhos azuis ligeiramente esbugalhados. Possuía a expressão alerta mas estúpida de uma pessoa obtusa, pensou Tom; o tipo da criança que morre cedo ou cresce para ser o idiota da aldeia. Alfred sentia-se visivelmente sem graça sob seu olhar fixo.

     Enquanto Tom observava, a criança pegou o serrote da mão do rapaz, sem dizer nada, e examinou-o como se fosse uma coisa assombrosa. Alfred, ofendido pela descortesia, tomou-o de volta, ante a indiferença do menino.

     - Jack! Comporte-se! - A estranha parecia embaraçada.

     Tom fitou-a. O menino não parecia com ela de jeito nenhum.

     - Você é a mãe dele? - perguntou.

     - Sim. Meu nome é Ellen.

     - Onde está seu marido?

     - Morto.

     Tom ficou surpreso.

     - Está viajando sozinha? - disse incredulamente. A floresta era bastante perigosa para um homem como ele; uma mulher sozinha dificilmente teria esperanças de sobreviver.

     - Não estamos viajando - disse Ellen. - Nós moramos na floresta.

     Tom ficou chocado.

     - Quer dizer que vocês são... - Ele parou, não querendo ofendê-la.

     - Foras-da-lei - disse ela. - Sim. Você pensava que todos os foras-da-lei fossem como Faramond Boca Aberta, que roubou seu porco?

     - Sim - disse Tom,  embora o que quisesse dizer fosse: Nunca pensei que um fora-da-lei pudesse ser uma linda mulher. Incapaz de conter a curiosidade, perguntou:

     - Qual foi o seu crime?

     - Amaldiçoei um padre - disse ela, desviando o olhar.

     Não pareceu a Tom um crime de grande monta, mas o padre podia ser muito poderoso, ou suscetível; ou talvez Ellen simplesmente não quisesse dizer a verdade.

     Ele olhou para Martha. Um momento depois ela abriu os olhos. Estava confusa e um pouco assustada. Agnes ajoelhou-se ao seu lado.

     - Você está bem - disse ela. - Está tudo bem.

     Martha sentou-se e vomitou. Agnes abraçou-a até que os espasmos passaram. Tom ficou impressionado: a predição de Ellen se concretizara. Do mesmo modo, ela dissera que Martha ficaria boa, e presumivelmente também podia confiar nisso. Sentiu uma onda de alívio invadi-lo, e ficou um pouco surpreso com a força da sua emoção. Eu não ia tolerar a perda da minha filhinha, pensou, e teve que conter as lágrimas. Recebeu um olhar de compreensão de Ellen, e mais uma vez achou que aqueles olhos dourados podiam enxergar seu coração.

     Ele quebrou um galho de carvalho, arrancou-lhe as folhas e usou-as para esfregar no rosto de Martha. Ela ainda estava pálida.

     - Ela precisa descansar - disse Ellen. - Deixe que fique deitada pelo tempo que um homem leva para caminhar cinco quilómetros.

     Tom deu uma olhada no sol. Ainda restava muita claridade pela frente. Acomodou-se para esperar. Agnes embalava Martha delicadamente. O menino Jack desviou sua atenção para Martha, fitando-a com a mesma intensidade idiota. Tom queria saber mais a respeito de Ellen. Perguntou-se se a jovem poderia ser persuadida a contar sua história. Não queria que ela fosse embora.

     - Como foi que tudo veio a acontecer? - perguntou-lhe vagamente.

     Ela o fitou direto nos olhos outra vez, e então começou a falar.

     Seu pai era cavaleiro, contou a eles; um homem alto, forte e violento que queria filhos homens com quem pudesse montar, caçar e lutar, companheiros para beber e farrear noite adentro com ele. Nesses assuntos foi o mais infeliz dos homens, pois nasceu Ellen, e logo depois sua esposa morreu; ele se casou de novo, mas sua segunda mulher era estéril, com o tempo, veio a desprezar a madrasta de Ellen, e acabou por mandá-la embora. Devia ter sido um homem cruel, porém nunca parecera assim a Ellen, que o adorava e compartilhava seu desprezo pela segunda mulher. Quando a madrasta saiu, Ellen permaneceu, e cresceu numa casa que era quase que completamente masculina. Cortou o cabelo curto e passou a carregar uma espada, assim como aprendeu a não brigar com gatos ou velhos cães cegos. Na época em que estava com a idade de Martha, cuspia no chão, comia miolo de maçã e dava pontapés na barriga de um cavalo com tanta força que ele prendia a respiração, permitindo-lhe apertar a barrigueira mais um nó. Ela sabia que todos os homens que não fizessem parte do bando do pai eram chamados de chupa-pau, e todas as mulheres que não andassem com eles, rameiras de porcos, embora não estivesse bem segura do que aqueles insultos realmente significavam nem se importasse muito com eles.

     Ouvindo a voz dela, na temperatura amena de uma tarde de outono, Tom fechou os olhos e imaginou-a como uma garota de peito chato e cara suja, sentada a uma mesa comprida com os truculentos companheiros do pai, bebendo cerveja forte, arrotando e cantando canções sobre batalhas, pilhagens e estupros, cavalos, castelos e virgens, até cair adormecida com a cabecinha apoiada na tábua áspera.

     Se ao menos pudesse ter permanecido com o peito chato para sempre, teria sido feliz. Mas chegou a época em que os homens começaram a olhar para ela de modo diferente.

     Já não riam as gargalhadas quando dizia: "Saia do meu caminho senão cortarei fora suas bolas e as darei para os porcos". Alguns ficavam olhando, quando tirava a túnica de lã e se deitava para dormir com a camisa comprida, de linho, que usava por baixo. Quando urinavam no mato, viravam de costas para ela, o que nunca faziam antes.

     Um dia ela viu o pai mergulhado numa conversa com o sacerdote da paróquia - um raro acontecimento -, e os dois ficavam olhando para ela o tempo todo, como se falassem a seu respeito. Na manhã seguinte seu pai lhe disse: "Vá com Henry e Everard e faça o que eles disserem". Depois deu um beijo na sua testa. Ellen perguntou-se que diabo tinha acontecido com ele - estava ficando mole com a idade? Selou seu corcel cinzento - recusava-se a montar um palafrém, mais adequado a senhoras, ou um pónei de criança - e partiu com os dois homens de armas.

     Eles a levaram a um convento e a deixaram ali. O local todo tremia, com suas pragas obscenas, enquanto os dois homens se afastavam. Ela esfaqueou a abadessa e voltou a pé para a casa do pai. Ele a mandou de volta, mãos e pés atados, e amarrada na sela de um jumento. Puseram-na de castigo numa cela até que o ferimento da abadessa sarou. Ali era frio, úmido e escuro como a noite, e havia água para beber mas nada para comer. Quando a deixaram sair da cela, mais uma vez voltou andando para casa.

     Seu pai a devolveu novamente, e então a açoitaram antes de a empurrarem na cela.

     Acabaram por vencê-la, é claro, e Ellen vestiu o hábito de noviça, obedeceu às regras e aprendeu as orações, mesmo que no fundo do coração detestasse as freiras, desprezasse os santos e não acreditasse, em princípio, em nada que qualquer pessoa lhe dissesse a respeito de Deus. Mas aprendeu a ler e escrever, passou a dominar a música, os números e o desenho, assim como acrescentou o latim ao francês e inglês falados na casa do seu pai.

     A vida no convento, afinal, não foi tão ruim assim. Era uma comunidade de um único sexo, com suas regras e rituais peculiares, e isso era exatamente aquilo com que estava acostumada. Todas as freiras tinham que fazer algum trabalho físico, e Ellen foi designada para cuidar dos cavalos. Antes que se passasse muito tempo, já era a encarregada do estábulo.

     A pobreza jamais a preocupou. A obediência não veio com facilidade, mas acabou vindo. A terceira regra, castidade, nunca a incomodou, embora de vez em quando, só para contrariar a abadessa, ela apresentasse uma ou outra das noviças aos prazeres do...

 

     Agnes interrompeu a história de Ellen nesse ponto e, levando Martha, foi procurar um regato onde pudesse lavar o rosto da menina e limpar sua túnica. Levou Alfred também, como medida de proteção, embora dissesse que não ia se afastar a uma distância superior a um grito. Jack levantou-se para segui-los, mas Agnes disse-lhe firmemente que ficasse, e o menino pareceu compreender, pois sentou-se de novo. Tom observou que Agnes conseguiu levar os filhos para onde não mais pudessem ouvir aquela história ímpia e indecente, deixando Tom ouvi-la.

     Um dia, prosseguiu Ellen, o palafrém da superiora mancou, quando ela estava ausente do convento há diversos dias. O priorado de Kingsbridge por acaso era perto, de modo que a abadessa pediu emprestado ao prior outro animal. De volta ao convento, disse a Ellen para devolver o cavalo emprestado e trazer o palafrém manco.

     Ali, no estábulo do mosteiro, à vista da velha catedral em ruínas de Kingsbridge, Ellen conheceu um rapaz que parecia um cachorrinho que houvesse levado uma surra.

     Tinha a expressão alerta e a graciosidade de um filhote, mas era acovardado e assustado, como se toda a sua capacidade de brincar lhe tivesse sido arrancada a pancadas.

     Quando Ellen falou, ele não entendeu. Ela tentou latim, mas ele não era monge. Finalmente disse qualquer coisa em francês e, com o rosto iluminado de alegria, ele lhe respondeu na mesma língua.

     Ellen nunca mais voltou ao convento.

     Daquele dia em diante passou a viver na floresta, primeiro num abrigo rústico, feito de galhos e folhas, depois numa caverna seca. Não tinha esquecido as habilidades masculinas que aprendera na casa do pai: sabia caçar veados, pegar coelhos com armadilhas e abater cisnes com o arco; sabia limpar a caça, eviscerá-la e prepará-la; sabia inclusive retirar e curtir o couro e as peles para as suas roupas. Além de caça, ela se alimentava de frutas silvestres, nozes e verduras. Qualquer coisa de que precisasse - sal, tecidos de lã, um machado ou uma faca nova tinha que roubar.

     O pior foi quando Jack nasceu...

     Mas e o francês? Tom teve vontade de perguntar se era ele o pai de Jack. E se era, quando morrera? E como? Mas pela cara de Ellen, sabia que ela não ia falar a respeito dessa parte de sua história, e como parecia ser do tipo que não podia ser persuadida a agir contra a própria vontade, ele guardou as perguntas para si.

     Por essa época seu pai morrera e o bando se dispersara, de modo que Ellen não tinha parentes ou amigos neste mundo. Quando Jack estava para nascer, ela acendeu uma fogueira para ficar acesa a noite toda, na entrada da sua caverna. Tinha água e comida à mão, assim como o arco, as flechas e as facas, para afastar os lobos e cães selvagens, e até mesmo um pesado manto vermelho roubado de um bispo, para embrulhar o bebê. Só não estava preparada para o medo e a dor do parto, e por muito tempo pensou que fosse morrer. Não obstante, o bebê nasceu forte e saudável, e ela sobreviveu.

     Ellen e Jack viveram uma vida simples e frugal durante os onze anos seguintes. A floresta lhes dava tudo de que necessitavam, desde que fossem cuidadosos para armazenar maçãs, nozes e carne de veado salgada o suficiente para passar os meses de inverno. Não raro Ellen pensava que, se não houvesse reis, lordes, bispos e xerifes, todo mundo poderia viver assim e ser perfeitamente feliz.

     Tom perguntou-lhe então como se arranjava com os outros proscritos, homens como Faramond Boca Aberta. O que aconteceria se eles se aproximassem furtivamente de noite e tentassem estuprá-la?, perguntou-se ele, e o desejo despertou com o pensamento, embora jamais tivesse possuído uma mulher contra a vontade, nem mesmo sua esposa.

     Os outros fora-da-lei tinham medo dela, disse Ellen, fitando-o com os luminosos olhos claros, e sabia a razão: eles pensavam que fosse uma feiticeira. Quanto às pessoas obedientes à lei que viajavam pela floresta, pessoas que sabiam que podiam roubar, estuprar e matar uma fora-da-lei sem medo de punição, Ellen simplesmente se escondia delas. Por que então não se escondera de Tom? Porque vira uma criança ferida e quisera ajudar. Ela própria tinha um filho.

     Ellen ensinara a Jack tudo o que aprendera na casa do pai acerca de armas e caçadas. Depois lhe ensinara a ler e escrever e tudo mais que aprendera com as freiras: música e aritmética, francês e latim, desenho, até mesmo histórias da Bíblia. Finalmente, nas longas noites de inverno, transferira para ele o legado do francês, que sabia mais histórias, poemas e canções do que qualquer outra pessoa no mundo...

     Tom não acreditou que Jack pudesse ler e escrever. Tom sabia escrever o nome, e um punhado de palavras como "pence", "jardas" e "alqueires"; e Agnes, sendo filha de um sacerdote, sabia mais, embora escrevesse lenta e laboriosamente, com a ponta da língua aparecendo no canto da boca; Alfred porém não sabia escrever uma única palavra, e mal era capaz de reconhecer o próprio nome; Martha não conseguia fazer nem isso. Seria possível que aquela criança idiota  fosse mais alfabetizada do que toda a família de Tom?

     Ellen disse a Jack para escrever qualquer coisa, e ele alisou a terra e rabiscou umas letras. Tom reconheceu a primeira palavra, "Alfred", mas não as outras, e sentiu-se um tolo; então ela o salvou, lendo em voz alta: "Alfred é maior que Jack". O menino desenhou rapidamente duas figuras, uma maior que a outra, e embora fossem desenhos esquemáticos, via-se que uma das figuras tinha os ombros largos e uma expressão um tanto bovina, enquanto a outra era pequena e sorridente. Tom,  que tinha um certo talento para desenhar, ficou atônito com a força e simplicidade do desenho garatujado na terra.

     Mas a criança parecia idiota.

     Ellen ultimamente começara a perceber isso, confessou ela, adivinhando os pensamentos de Tom. Jack nunca tivera a companhia de outras crianças, ou, na verdade, de outros seres humanos, exceto a mãe, e o resultado era que estava crescendo como um animal selvagem. Apesar de tudo o que aprendera, não sabia lidar com as pessoas.

     Era por isso que estava ali em silêncio, que encarava fixamente os outros e apanhava o que queria.

     Ao dizer isso, ela pareceu vulnerável pela primeira vez. Desapareceu seu ar de inexpugnável auto-suficiência, e Tom a viu como uma mulher preocupada e mesmo desesperada.

     Pelo bem de Jack, ela precisava retornar à sociedade, mas como? Se fosse homem, poderia ter conseguido convencer algum lorde a lhe dar uma fazenda, sobretudo se mentisse de modo convincente e dissesse que estava voltando de uma peregrinação a Jerusalém ou a Santiago de Compostela. Havia algumas mulheres trabalhando na lavoura, mas invariavelmente eram viúvas com filhos crescidos. Nenhum lorde daria uma fazenda a uma mulher com um filho pequeno. Ninguém iria querer empregá-la para fazer qualquer tipo de trabalho, na cidade ou no campo; além disso, não tinha onde morar, e o trabalho não qualificado raramente era acompanhado por oferta de moradia.

     Ellen não tinha identidade.

     Tom sentiu por ela. Dera à criança tudo o que podia, e não era o bastante. Mas ele era incapaz de ver uma saída para o seu dilema. Por mais bonita, determinada e formidável que fosse, estava destinada a passar o resto dos dias escondida na floresta com o seu filho esquisito.

     Agnes, Martha e Alfred voltaram. Tom olhou ansiosamente para a filha, mas pelo seu jeito a pior coisa que lhe acontecera fora ter o rosto esfregado. Durante algum tempo, o construtor ficara absorto nos problemas de Ellen, mas agora se lembrou da sua situação difícil: estava sem trabalho e seu porco havia sido roubado. A tarde estava acabando. Começou a recolher as coisas que tinham lhe restado.

     - Aonde vocês estão indo? - perguntou Ellen.

     - Winchester - disse Tom. Ali havia um castelo, um palácio, diversos mosteiros e, principalmente, uma catedral.

     - Salisbury é mais perto - disse Ellen. - E da última vez em que estive lá a estavam reconstruindo...   ampliando-a.

     O coração de Tom deu um pulo. Era aquilo que estava procurando. Se ao menos pudesse arranjar um trabalho num projeto em andamento, acreditava que um dia conseguiria se tornar mestre construtor.

     - Como se vai para Salisbury? - perguntou ele ansiosamente.

     - No caminho que vocês vieram, uns cinco quilómetros ou pouco mais. Lembra-se de uma encruzilhada onde você pegou a trilha da esquerda?

     - Sim, perto de um lago de água suja.

     - Isso mesmo. A trilha da direita leva a Salisbury.

     Eles se despediram. Agnes não gostara de Ellen, mas mesmo assim conseguiu dizer graciosamente:

     - Muito obrigada por ter ajudado a tomar conta de Martha.

     Ellen sorriu e pareceu ficar melancólica quando eles partiram.

     Quando já haviam caminhado alguns minutos, Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado. Tom acenou, e ela respondeu com outro aceno.

     - Uma mulher interessante - comentou ele com a esposa. Agnes nada disse.

     - Aquele menino era estranho - disse Alfred. Caminhavam no sol outonal de fim de tarde. Tom gostaria de saber como era Salisbury; nunca estivera ali. Sentiu-se excitado. Claro que seu sonho era construir uma catedral desde os alicerces, mas isso quase nunca acontecia: era muito mais comum encontrar uma velha edificação sendo melhorada, ampliada ou parcialmente reconstruída. Mas isso já seria bastante bom para ele, desde que lhe oferecesse a chance de ajudá-lo a um dia realizar seu objetivo.

     - Por que aquele homem bateu em mim? - quis saber Martha.

     - Porque queria roubar o nosso porco - respondeu Agnes.

     - Devia ter um porco dele - disse Martha indignada, como se só agora percebesse que o fora-da-lei tinha feito algo errado.

     O problema de Ellen estaria resolvido se ela tivesse uma profissão, pensou Tom. Um pedreiro, carpinteiro, tecelão ou curtidor não estaria na sua posição. Sempre poderia ir para a cidade e procurar trabalho. Havia poucas artífices.

     - Ela precisa é de um marido - disse Tom em voz alta.

     - Mas não vai ficar com o meu - disse Agnes rispidamente.

    

     O dia em que perderam o porco foi também o último dia de temperatura amena. Passaram aquela noite num celeiro, e quando saíram pela manhã, o céu estava da cor de um teto de chumbo, e o vento frio trazia lufadas de chuva. Desembrulharam o manto de tecido espesso, feltrado, e o vestiram, apertandoo com força sob o queixo e puxando o capuz bem para frente a fim de proteger o rosto da chuva. Puseram-se a caminho melancolicamente, quatro fantasmas taciturnos metidos no temporal, os tamancos de madeira espadanando água e lama ao longo da estrada cheia de poças.

     Tom gostaria de saber como seria a Catedral de Salisbury. Em princípio, uma catedral era uma igreja como outra qualquer - simplesmente a igreja onde o bispo tem seu trono. Na prática, porém, as catedrais eram as igrejas maiores, mais ricas, mais grandiosas e elaboradas. Raramente um simples túnel com janelas. A maioria se compunha de três túneis, um alto flanqueado por dois menores, como cabeça e ombros, formando uma nave central com duas laterais. As paredes do lado do túnel central eram reduzidas a duas linhas de colunas ligadas por arcos, constituindo uma arcada. As duas naves menores eram usadas para procissões - que podiam ser espetaculares nas catedrais - e proporcionavam espaço para pequenas capelas dedicadas a santos da devoção particular dos crentes, o que atraía importantes doações extras. As catedrais eram os edifícios mais caros do mundo, muito mais do que palácios ou castelos, e tinham que ganhar o dinheiro que custavam.

     Salisbury ficava mais perto do que Tom pensara. Por volta da metade da manhã, subiram uma elevação e encontraram do outro lado uma estrada que descia suavemente à frente deles, numa longa curva; e depois dos campos banhados pela chuva, erguendo-se sobre a planície como um barco num lago, viram a cidade fortificada de Salisbury, erigida sobre uma colina. Seus detalhes estavam velados pela chuva, mas Tom pôde distinguir diversas torres, quatro ou cinco, elevando-se bem acima dos muros da cidade. Seu ânimo revigorou-se à vista de tanto trabalho de pedra.

     Um vento frio castigava a planície, congelando-lhes o rosto e as mãos, enquanto seguiam a estrada que se dirigia ao portão leste. Quatro estradas se encontravam ao sopé da colina, em meio a algumas casas dispersas, que davam a impressão de terem extravasado da cidade, e foi ali que a eles se juntaram outros viajantes, caminhando com os ombros encolhidos e a cabeça baixa, projetando-se por entre o temporal para o abrigo das muralhas.

     Na rampa que dava no portão encontraram um carro de boi com um carregamento de pedra - um sinal muito promissor para Tom. O carroceiro estava inclinado atrás do carro de madeira crua, empurrando com o ombro, acrescentando a própria força à da parelha de bois que subiam a rampa com muita dificuldade. Tom viu uma chance de fazer um amigo. Convidou Alfred com um aceno e os dois puseram os ombros na parte de trás do carro. As imensas rodas de madeira passaram com estrondo por uma ponte de vigas sobre um enorme fosso seco. Era impressionante aquele movimento de terra: a escavação da vala e o transporte da terra para construir a muralha deviam ter consumido centenas de homens, pensou Tom; era um trabalho muito maior que cavar os alicerces de uma catedral. A ponte sobre a vala tremeu e rangeu sob o peso do carro de boi e dos dois vigorosos animais que o puxavam.

     A rampa acabou, e o carro deslocou-se com mais facilidade pelo caminho plano, quando se aproximaram do portão. O carroceiro endireitou-se, da mesma forma que Tom e Alfred.

     - Fico-lhe muito agradecido - disse o carroceiro.

     - Para que é a pedra? - perguntou Tom.

     - Para a nova catedral.

     - Nova? Ouvi dizer que estavam apenas aumentando a antiga.

     O carroceiro assentiu com a cabeça.

     - É o que diziam, dez anos atrás. Mas agora tem mais coisas novas do que velhas.

     Mais notícias boas.

     - Quem é o mestre construtor?

     - John de Shaftesbury, embora o bispo Roger tenha muito a ver com o projeto.

     Aquilo era normal. Raramente os bispos deixavam os construtores fazer o trabalho sozinhos. Um dos problemas dos mestres construtores era frequentemente acalmar a imaginação febril dos clérigos e impor limites práticos às suas fantasias. Mas seria John de Shaftesbury quem contrataria os homens.

     O carroceiro acenou com a cabeça na direção do saco de ferramentas de Tom.

     - Pedreiro?

     - Sim. Procurando trabalho.

     - Pode ser que consiga - disse o carroceiro, com neutralidade. - Se não for na catedral, talvez no castelo.

     - E quem governa o castelo?

     - O mesmo Roger é bispo e castelão.

     Claro, pensou Tom. Tinha ouvido falar do poderoso Roger de Salisbury, íntimo do rei durante muito tempo.

     Eles atravessaram o portal e entraram na cidade. O lugar estava tão atulhado de construções, pessoas e animais que parecia em perigo de explodir e derrubar sua muralha circular, caindo dentro da vala. As casas de madeira erguiam-se uma do lado da outra, tão apertadas quanto espectadores de um enforcamento lutando por espaço. Cada pedaço de terra, por minúsculo que fosse, era utilizado para alguma coisa. Onde duas casas tinham sido construídas com uma passagem entre elas, alguém erguera uma habitação de meio tamanho, sem janelas porque a porta tomava quase toda a frente. Onde quer que o terreno fosse pequeno, até mesmo para a mais estreita das casas, havia uma banca para vender cerveja, pão ou maçãs; e se não houvesse espaço nem mesmo para isso, se ergueria um estábulo, uma pocilga, uma esterqueira ou um barril de água.

     A cidade era barulhenta, também. A chuva pouco fazia para amortecer o clamor das oficinas de artesãos, dos vendedores ambulantes apregoando suas mercadorias, das pessoas se cumprimentando, barganhando e discutindo, de animais relinchando, latindo e brigando.

     - Que fedor é esse? - perguntou Martha, erguendo a voz acima do barulho.

     Tom sorriu. Fazia uns dois anos que ela não entrava numa cidade.

     - É o cheiro de gente - respondeu.

     A rua era apenas um pouco mais larga do que o carro de boi, mas o carroceiro não quis deixar que os animais parassem, com medo de que não voltassem a andar novamente; assim, continuou batendo neles, ignorando todos os obstáculos, e os bois prosseguiram forçando o caminho por entre a multidão, empurrando para o lado, indiscriminadamente, tanto um cavaleiro montado num cavalo de batalha quanto um morador da floresta com um arco, um monge gordo num pónei, homens de armas, mendigos, donas de casa ou prostitutas.

     O carro de boi veio a ficar atrás de um velho pastor que lutava para manter reunido um pequeno rebanho. Devia ser dia de mercado, pensou Tom. Quando o carro passou, uma das ovelhas entrou pela porta aberta de uma venda de cerveja, e num segundo todo o rebanho estava dentro da casa, em pânico, balindo e derrubando mesas, bancos e jarras de cerveja.

     O chão que pisavam era um mar de lama e de lixo. Tom tinha a capacidade de observar, num relance, a queda da água da chuva num telhado, e a largura da calha necessária para fazer o escoamento; podia ver que toda a chuva que caía sobre os telhados daquela parte da cidade era drenada pela rua onde estavam. Num temporal forte mesmo, pensou, seria preciso um barco para atravessá-la.

     À medida que se aproximavam do castelo na parte mais alta da colina, a rua se alargava. Ali havia casas de pedra, uma ou duas precisando de alguns reparos. Pertenciam a artesãos e comerciantes, que tinham suas lojas e oficinas no térreo e moravam no andar de cima. Examinando com o olhar de quem tinha prática aquilo que estava à venda, Tom podia afirmar que aquela era uma cidade próspera. Todo mundo precisa ter facas e panelas, mas só gente próspera compra xales bordados, cintos decorados e broches de prata.

     Em frente ao castelo o carroceiro fez a parelha de bois virar à direita, e Tom e sua família o seguiram. A rua fazia uma curva de um quarto de círculo, rodeando as defesas do castelo. Passando por outro portão, deixaram o tumulto da cidade tão rapidamente quanto tinham entrado nele e ingressaram num tipo diferente de turbilhão: a diversidade agitada mas ordenada de uma área onde se erguia uma grande construção.

     Estavam agora do lado de dentro do adro murado da catedral, que ocupava toda a quarta parte da cidade circular, a noroeste. Tom parou por um momento, observando.

     Só de ver, ouvir e cheirar aquilo ele se sentia emocionado como num dia de sol. Quando chegaram, à retaguarda do carro de boi, dois outros saíam, vazios. Em oficinas que se estendiam ao longo das paredes laterais da igreja, pedreiros podiam ser vistos esculpindo os blocos de pedra com seus cinzéis e grandes martelos de madeira, dando-lhes as formas que juntas resultariam em plintos, colunas, capitéis, fustes, arcobotantes, arcos, janelas, peitoris, pináculos e parapeitos. No meio do adro, bem longe das outras edificações, ficava a ferraria, cujo clarão do fogo era visível através do portal; o barulho metálico do martelo batendo na bigorna se espalhava pelo adro, enquanto o ferreiro fazia novas ferramentas para substituir as que os pedreiros iam gastando. Para a maioria das pessoas era uma cena de caos, mas Tom via um imenso e complexo mecanismo que ele ansiava por controlar. Sabia o que cada homem estava fazendo e podia ver instantaneamente até que ponto o trabalho tinha progredido. Estavam construindo a fachada leste.

     Havia um andaime no lado leste, com uns oito ou nove metros de altura. Os pedreiros estavam na varanda, esperando que a chuva amainasse, mas os seus serventes subiam e desciam as escadas com pedras nos ombros. Mais acima, no vigamento da estrutura do telhado, estavam os encanadores, como aranhas rastejando numa gigantesca teia de madeira, prendendo folhas de chumbo nos pontos de junção das escoras e instalando os canos de escoamento e as calhas.

     Tom percebeu que a construção, lamentavelmente, estava quase terminada. Se fosse contratado, o trabalho que restava ali não duraria mais que dois anos - não era tempo bastante para ascender à posição de mestre pedreiro, quanto mais de mestre construtor. Mesmo assim, aceitaria o emprego, pois o inverno estava chegando. Ele e a família poderiam sobreviver sem trabalho, caso ainda tivessem o porco. Mas sem ele, Tom precisava arranjar serviço.

     Seguiram o carro de boi até o canto do adro onde as pedras estavam empilhadas. Os bois, agradecidamente, mergulharam a cabeça no bebedouro.

     - Onde está o mestre construtor? - perguntou o carroceiro a um pedreiro que passava.

     - No castelo - foi a resposta do pedreiro.

     O carroceiro balançou a cabeça e virou-se para Tom.

     - Você o encontrará no palácio do bispo, creio.

     - Muito obrigado.

     - Eu que agradeço.

     Tom deixou o adro com Agnes e as crianças atrás. Refizeram seus passos pelas ruas apinhadas e estreitas até a frente do castelo. Ali havia outra vala seca e uma segunda imensa fortificação de terra que cercava a praça-forte. Atravessaram a ponte. Na casa da guarda, de um lado do portão, um homem corpulento de túnica de couro estava sentado, contemplando a chuva. Trazia uma espada. Tom dirigiu-se a ele:

     - Bom dia. Sou chamado de Tom Construtor. Quero falar com o mestre construtor, John de Shaftesbury.

     - Está com o bispo - respondeu o guarda indiferentemente.

     Eles entraram. Como a maioria dos castelos, aquele era uma coleção de edifícios de estilos diversos dentro de uma muralha de terra. O pátio ficava a cerca de cem jardas. Em posição oposta à do portão, do lado mais distante, estava a imponente fortaleza, a última cidadela em tempo de ataque, erguendo-se bastante acima das fortificações, a fim de ter boas condições de observação. À esquerda via-se um agrupamento de casas baixas, a maioria de madeira: um estábulo comprido, uma cozinha, uma padaria e diversos armazéns. Havia um poço no meio. À direita, tomando quase toda a metade norte do conjunto, ficava uma grande casa de pedra que obviamente era o palácio. Era construído no mesmo estilo da nova catedral, com pequenos portais e janelas caracterizadas por terem a parte superior arredondada, e tinha dois andares. Era nova; na verdade, alguns pedreiros ainda estavam trabalhando num canto, aparentemente construindo uma torre. A despeito da chuva, havia muita gente no pátio, entrando ou saindo e correndo de uma construção para outra: homens de armas, sacerdotes, comerciantes, operários da obra e criados do palácio.

     Tom podia ver diversas portas no palácio, todas abertas, a despeito da chuva. Não estava bem certo do que deveria fazer a seguir. Se o mestre construtor estava com o bispo, talvez não devesse interromper. Por outro lado, o bispo não era um rei, e Tom era um homem livre e um pedreiro em busca de trabalho legítimo, não um abjeto servo com alguma queixa. Decidiu ser ousado. Deixando Agnes e Martha, atravessou com Alfred o pátio lamacento e entrou pela porta mais próxima do palácio.

     Os dois se viram numa pequena capela com o teto abobadado e uma janela na outra extremidade, por cima do altar. Perto da porta, um sacerdote estava sentado a uma mesa alta, escrevendo rapidamente em papel velino. Ele ergueu os olhos.

     - Onde está o mestre John? - perguntou Tom bruscamente.

     - Na sacristia - respondeu o sacerdote, indicando com a cabeça uma porta na parede lateral.

     Tom não pediu para falar com o mestre. Achou que se agisse como se estivesse sendo esperado perderia menos tempo. Atravessou a capelinha com algumas passadas e entrou na sacristia.

     Era uma câmara pequena e quadrada, iluminada por muitas velas. A maior parte do chão era tomada por uma caixa com areia, muito rasa. A areia fina tinha sido perfeitamente alisada com uma régua. Havia dois homens dentro da sacristia. Ambos olharam rapidamente para Tom e voltaram sua atenção para a areia. O bispo, um velho enrugado de olhos brilhantes, estava desenhando na areia com uma varinha pontuda. O mestre construtor, usando um avental de couro, o observava com ar paciente e expressão cética.

     Tom aguardou em ansioso silêncio. Tinha que causar boa impressão; ser cortês, mas não servil, e demonstrar conhecimento sem ser presunçoso. Um mestre artesão deseja que os aprendizes sejam tão obedientes quanto talentosos. Tom sabia disso por sua própria experiência como empregador.

     O bispo Roger estava esboçando um prédio de dois andares com grandes janelas dos três lados. Era um bom desenhista, fazendo linhas retas e perfeitos ângulos de noventa graus. Fez uma planta e uma vista lateral da casa. Tom pôde ver que jamais seria construída.

     - Aí está - disse o bispo ao acabar.

     - O que é? - perguntou John, virando-se para Tom.

     Fingindo pensar que ele tivesse pedido sua opinião do desenho, disse:

     - Não se pode ter janelas tão grandes assim numa cripta.

     O bispo fitou-o irritado.

     - É uma sala de estudos, não uma cripta.

     - Cairá do mesmo modo.

     - Ele tem razão - disse John.

     - Mas é necessário ter luz para poder escrever.

     John deu de ombros e virou-se para Tom.

     - Quem é você?

     - Meu nome é Tom e sou pedreiro.

     - Foi o que pensei. O que o traz aqui?

     - Estou procurando trabalho - respondeu, prendendo a respiração.

     John sacudiu a cabeça imediatamente.

     - Não posso empregar você.

     O coração de Tom pareceu parar. Teve vontade de girar nos calcanhares, mas aguardou polidamente para ouvir as razões.

     - Já estamos construindo aqui há dez anos - prosseguiu John. - Muitos dos pedreiros já possuem casas na cidade. Estamos chegando ao fim, e agora tenho mais pedreiros na obra do que preciso na realidade.

     Tom sabia que não havia esperanças, mas perguntou:

     - E o palácio?

     - A mesma coisa - disse John. - É onde estou usando os homens que sobram. Se não fosse por isso e pelos outros castelos do bispo Roger, eu já estaria dispensando pedreiros.

     Tom assentiu com a cabeça. Em voz neutra, tentando não parecer desesperado, perguntou:

     - Sabe de algum lugar onde haja trabalho?

     - Estavam construindo no Mosteiro de Shaftesbury no início do ano. Talvez ainda estejam. Fica a um dia de viagem.

     - Obrigado. - Tom virou-se para ir embora.

     - Sinto muito - disse John, às suas costas. - Você parece um bom homem.

     Ele afastou-se sem responder. Sentia-se deprimido. Permitira-se ter esperanças demais; não havia nada de raro em não haver trabalho. Mas ficara entusiasmado com a perspectiva de trabalhar novamente numa catedral. Agora podia ter de enfrentar uma muralha monótona, ou trabalhar numa casa feia para algum praieiro.

     Endireitou os ombros e atravessou de novo o pátio do castelo, onde Agnes o aguardava com Martha. Nunca deixava que ela percebesse o desânimo que pudesse sentir.

     Sempre tentava dar a impressão de que tudo ia bem, que estava no controle da situação, e que não tinha muita importância se não houvesse trabalho no lugar, porque certamente encontraria algo na cidade seguinte, ou na outra. Sabia que se exibisse qualquer sinal de aflição ela insistiria para encontrar um lugar onde se estabelecessem, e ele não queria, a não ser que fosse numa cidade onde houvesse uma catedral a ser construída.

     - Não há nada para mim aqui - disse para Agnes. - Vamos embora.

     Ela ficou acabrunhada.

     - Pensei que, com uma catedral e um palácio em construção, haveria lugar para mais um pedreiro.

     - Ambas as obras estão quase terminadas - explicou Tom. - Eles já têm mais homens do que precisam.

     A família atravessou a ponte levadiça e voltou às ruas apinhadas da cidade. Haviam entrado em Salisbury pelo portão leste, e sairiam agora pelo portão oeste, pois era a direção de Shaftesbury. Tom virou à direita, conduzindo-os através da parte da cidade que ainda não tinham visto.

     Parou diante de uma casa de pedra seriamente necessitada de reparos. A argamassa usada na construção era muito ruim, e agora estava se esfarelando e caindo. A água que entrara pelos buracos, congelando, partira algumas pedras. Se ficasse assim mais um inverno o dano seria ainda pior. Tom decidiu mostrar aquilo ao proprietário.

     A entrada do andar térreo era um arco amplo. A porta de madeira estava aberta, e no portal viu um artesão sentado com um martelo na mão direita e um furador na esquerda, gravando um desenho complexo numa sela de madeira colocada no banco à sua frente. No fundo Tom pôde ver depósitos de madeira e couro, e um garoto varrendo aparas.

     - Bom dia, mestre seleiro - disse ele.

     O seleiro ergueu os olhos, classificou Tom como o tipo de homem que faria sua própria sela se precisasse de uma, e cumprimentou-o secamente com um gesto de cabeça.

     - Sou construtor - prosseguiu Tom. - Vejo que está precisando de meus serviços.

     - Por quê?

     - Sua argamassa está se esfarelando, as pedras estão rachando e sua casa pode não durar outro inverno.

     O seleiro sacudiu a cabeça.

     - A cidade está cheia de pedreiros. Por que iria eu empregar um estranho?

     - Muito bem. - Tom se virou. - Que Deus o proteja.

     - Assim espero - disse o seleiro.

     - Sujeito mal-educado - cochichou Agnes, quando se afastaram.

     A rua dava numa praça onde funcionava um mercado. Ali, numa extensão de meio acre de lama, os camponeses das proximidades trocavam as poucas sobras que podiam ter de grão, leite ou ovos pelas coisas que precisavam e que não podiam fazer - panelas, relhas de arado, cordas e sal. Os mercados geralmente eram coloridos e um tanto turbulentos. Havia um bocado de discussões e regateios bem-humorados, pretensa rivalidade entre barraqueiros vizinhos, bolos baratos para as crianças, às vezes um menestrel ou um grupo de acrobatas, grande número de prostitutas muito pintadas, e às vezes um soldado aleijado com histórias dos desertos orientais e de enfurecidas hordas sarracenas. Os que faziam uma boa barganha com frequência sucumbiam à tentação de celebrar, e gozavam o lucro com uma cerveja forte, de modo que havia sempre uma atmosfera de desordem por volta do meio-dia. Outros perdiam suas moedas nos dados, o que podia acabar em briga. Mas agora, na manhã de um dia de chuva, com a safra do ano vendida ou armazenada, o mercado estava contido. Camponeses encharcados de chuva faziam barganhas taciturnas com barraqueiros que tremiam de frio, todos ansiosos por ir para casa e sentar diante de uma lareira.

     A família de Tom forçou caminho por entre a multidão desconsolada, ignorando as lisonjas desanimadas do vendedor de salsichas e do amolador de facas. Já tinham quase acabado de atravessar a praça quando Tom viu seu porco.

     Ficou tão surpreso que a princípio não pôde acreditar nos próprios olhos. Então Agnes disse entre os dentes:

     - Tom! Olhe! - E ele soube que ela vira também.

     Não havia a menor dúvida: o pedreiro conhecia aquele porco, tão bem quanto conhecia Alfred ou Martha. Estava sendo transportado, com perícia, por um homem com a pele rosada e a barriga grande de quem come toda a carne de que precisa e depois um pouco mais: um açougueiro, sem dúvida. Tanto Tom quanto Agnes pararam para encará-lo, e como bloquearam seu caminho, ele não pôde deixar de vê-los.

     - Bem? - exclamou, intrigado com aqueles olhares fixos e impaciente para passar.

     Foi Martha quem quebrou o silêncio.

     - É o nosso porco! - gritou excitadamente.

     - É mesmo - confirmou Tom,  olhando para o açougueiro de igual para igual.

     Por um instante uma expressão furtiva cruzou o rosto do homem, e Tom percebeu que ele sabia que o porco fora roubado. Mas ele disse:

     - Acabei de pagar cinquenta pence por este porco, o que faz com que seja meu.

     - Seja quem for a pessoa a quem deu seu dinheiro, o porco não era dela. Sem dúvida foi por esse motivo que você pagou tão pouco. De quem o comprou?

     - De um camponês.

     - Você o conhecia?

     - Não. Escute. Sou o açougueiro da guarnição. Não posso pedir a cada fazendeiro que me venda um porco ou uma vaca que traga doze homens a fim de jurar que o animal é dele, e que pode vendê-lo, se quiser.

     O homem virou-se de lado como se fosse embora, mas Tom pegou-o pelo braço e o deteve. Por um momento o açougueiro ficou zangado, mas depois deu-se conta de que se se metesse numa briga teria de largar o porco e, se uma das pessoas da família de Tom conseguisse apanhá-lo, o equilíbrio do poder se modificaria e precisaria provar sua propriedade. Assim, ele se conteve e disse:

     - Se quer fazer uma acusação, vá ao xerife.

     Tom pensou na sugestão e abandonou-a. Não tinha provas. Em vez disso, perguntou:

     - Como era o homem que lhe vendeu o meu porco?

     - Como todo mundo - respondeu o açougueiro, com uma expressão velhaca.

     - Ocultava a boca?

     - Agora que estou pensando nisso, sim.

     - Era um fora-da-lei, escondendo uma mutilação - disse Tom amarguradamente. - Suponho que não pensou nisso.

     - Está chovendo demais! - protestou ele. - Todo mundo está embuçado.

     - Basta que me diga há quanto tempo ele vendeu o porco e afastou-se.

     - Ainda agora.

     - E para onde foi?

     - Para uma cervejaria, creio.

     - A fim de gastar meu dinheiro - disse Tom,  enojado. - Ande, suma daqui. Pode ser que seja roubado um dia, e então vai querer que não haja tanta gente ansiosa por comprar uma barganha sem fazer perguntas.

     O açougueiro ficou zangado e hesitou, como se pensasse em replicar; mas pensou melhor e desapareceu.

     - Por que deixou que ele fosse embora? - perguntou Agnes.

     - Porque ele é conhecido aqui e eu não - disse Tom. - Se lutasse, iriam me considerar culpado. E como o porco não tem meu nome escrito no traseiro, quem pode dizer  se é meu ou não?

     - Mas todas as nossas economias...

     - Ainda podemos pegar o dinheiro do porco - disse Tom. - Cale-se e deixe-me pensar. - A altercação com o açougueiro o enfurecera e ele aliviava a frustração falando asperamente com Agnes. - Em algum lugar desta cidade há um homem sem lábios e com cinquenta pennies de prata no bolso. Tudo o que temos a fazer é encontrá-lo e tirar o dinheiro dele.

     - Certo - disse Agnes determinadamente.

     - Você volta pelo caminho que viemos. Vá até o adro da catedral. Eu seguirei em frente e me aproximarei da catedral pelo outro lado. Depois retomaremos pela rua seguinte, e assim por diante. Se ele não estiver nas ruas, estará numa casa de cerveja. Quando o vir, fique perto e mande Martha me avisar. Levarei Alfred. Tente não deixar que o fora-da-lei a veja.

     - Não se preocupe - disse Agnes, inflexível. - Quero aquele dinheiro para alimentar meus filhos.

     Tom tocou no seu braço e sorriu.

     - Você é uma leoa, Agnes.

     Ela o fitou nos olhos por um momento e de repente, ficando na ponta dos pés, beijou-o na boca, rápida mas intensamente. Depois virou-se e atravessou de volta a praça do mercado, com Martha a reboque. Tom ficou olhando, preocupado com ela, a despeito de sua coragem; depois seguiu na direção oposta com Alfred.

     O ladrão parecia pensar que estava perfeitamente seguro. Claro, quando roubara o porco, Tom estava se dirigindo para Winchester. Ele seguira na direção contrária, a fim de vender o porco em Salisbury. Mas a fora-da-lei, Ellen, dissera que a Catedral de Salisbury estava sendo reconstruída, fazendo com que Tom mudasse de plano e, inadvertidamente, descobrisse o ladrão. No entanto, como pensava que Tom nunca mais o veria, havia uma chance para pegá-lo desprevenido.

     Foi caminhando lentamente ao longo da rua lamacenta, tentando parecer bem à vontade enquanto olhava as portas abertas. Queria ser o mais discreto possível, pois aquele episódio podia terminar em violência e não queria que as pessoas se lembrassem de um pedreiro alto fazendo uma busca na cidade. A maioria das casas eram choupanas de madeira, lama e telhado de colmo, com uma esteira no chão, uma lareira no meio e umas poucas peças de mobília feita em casa. Um barril e alguns bancos faziam uma cervejaria; uma cama num canto com uma cortina significava uma prostituta; um grupo barulhento em torno de uma mesa revelava um jogo de dados.

     Uma mulher com os lábios pintados de vermelho desnudou os seios para ele, que sacudiu a cabeça e apressou o passo. Secretamente sentia-se atraído pela idéia de ir para a cama com uma estranha, à luz do dia e pagando, mas em toda a vida nunca experimentara isso.

     Pensou mais uma vez em Ellen, a fora-da-lei. Havia alguma coisa intrigante nela também. Era muitíssimo atraente, mas aqueles olhos fundos e intensos intimidavam.

     Um convite feito por uma prostituta fez com que Tom se sentisse irritado por um momento, mas o encanto gerado pela lembrança de Ellen ainda não se dissolvera, e de repente ele teve ímpetos de correr de volta para a floresta e cair sobre ela.

     Chegou no adro da catedral sem ver o ladrão. Levantou os olhos para os encanadores, que prendiam o chumbo na estrutura triangular das vigas do telhado sobre a nave.

     Ainda não tinham começado a cobrir o telhado de meia-água das naves laterais da igreja, de modo que ainda era possível ver os meios arcos de apoio que conectavam a parte externa com a nave principal, escorando a metade de cima da construção. Ele os apontou para Alfred.

     - Sem aqueles suportes, a parede da nave cederia e vergaria para fora, por causa do peso das abóbadas de pedra na parte de dentro - explicou. - Está vendo como os meios arcos se alinham com os contrafortes na parede da nave? Alinham-se também com os pilares da arcada da nave, no lado de dentro. E as janelas, com os arcos  da arcada. Linhas fortes com linhas fortes, linhas fracas com linhas fracas.

     Alfred deu a impressão de estar se sentindo frustrado e ressentido. Tom suspirou.

     Viu Agnes vindo do lado oposto, e sua mente retornou ao problema imediato. O capuz de Agnes ocultava-lhe o rosto, mas ele reconheceu o queixo lançado para a frente, seu andar seguro. Operários de ombros largos afastavam-se para que passasse. Se ela esbarrasse no ladrão e houvesse uma briga, pensou ele, seria bem equilibrada.

     - Você o viu? - quis saber ela.

     - Não. E obviamente você tampouco. - Tom esperava que o ladrão não tivesse deixado a cidade. Certamente não iria sem antes gastar um pouco de dinheiro, que não tinha utilidade na floresta.

     Agnes estava pensando a mesma coisa.

     - Ele está aqui, em algum lugar. Vamos continuar procurando.

     - Vamos voltar por ruas diferentes e nos encontrar no mercado.

     Tom e Alfred refizeram seu caminho atravessando o adro e saíram pelo portão. A chuva encharcava-lhes o manto e por um segundo Tom pensou numa jarra de cerveja e numa tigela de caldo de carne, junto à lareira de uma cervejaria. Depois pensou em como trabalhara duro para comprar o porco, viu de novo o homem sem lábios brandindo o porrete na cabeça inocente de Martha, e sua cólera o aqueceu.

     Era difícil procurar sistematicamente porque não havia ordem nas ruas. Elas ziguezagueavam, de acordo com o lugar onde as pessoas tinham construído suas casas, e havia muitas curvas acentuadas e becos sem saída. A única rua reta era a que levava do portão leste à ponte levadiça. Na sua primeira pesquisa, Tom ficara próximo das rampas do castelo. Dessa vez ele examinou as cercanias indo até a muralha da cidade e retornando ao interior. Ali estavam as casas mais pobres, as construções mais mal executadas e as prostitutas mais velhas. As cercanias da cidade ficavam num nível mais baixo que o centro, e assim o lixo da região mais rica descia com a água da chuva pelas ruas até se alojar na base da muralha. Algo similar parecia acontecer com as pessoas, pois aquele distrito tinha mais do que a cota justa de aleijados e mendigos, crianças famintas e mulheres machucadas, assim como de bêbados irremediáveis. Entretanto, não se via o homem sem lábios em parte alguma.

     Por duas vezes Tom localizou um homem com o mesmo porte e aparência e aproximou-se dele, só para ver que tinha o rosto normal.

     Terminou a busca no mercado, e ali estava Agnes esperando por ele impacientemente, o corpo tenso e os olhos faiscantes.

     - Eu o achei! - disse entre os dentes.

     Tom sentiu uma onda de excitação misturada com receio.

     - Onde?

     - Entrou numa locanda ali, perto do portão leste.

     - Leve-me lá.

     Eles rodearam o castelo até a ponte levadiça, desceram a rua reta até o portão leste, depois se meteram num labirinto de vielas ao pé da muralha. Tom viu a locanda um momento depois. Não era sequer uma casa, apenas um telheiro inclinado sobre quatro pilares, encostado à muralha, com um fogo alto na parte de trás, onde um carneiro girava num espeto e um caldeirão borbulhava. Era quase meio-dia e o lugar estava cheio de gente, na maioria homens. O cheiro da carne fez o estômago de Tom roncar. Ele esquadrinhou a pequena multidão com os olhos, com medo de que o proscrito tivesse ido embora durante o curto período de tempo que haviam gasto para chegar ali. Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca.

     Tom virou-se depressa para que o homem não o visse. Agora tinha que decidir como resolver aquilo. Estava furioso o bastante para derrubar o fora-da-lei com um soco e pegar sua bolsa. Mas a multidão não o deixaria fugir. Precisaria explicar-se, não só a quem estava ali, como também ao xerife. Tom estava dentro do seu direito, e o fato de o ladrão ser um fora-da-lei significava que não teria ninguém para testemunhar pela sua honestidade; enquanto Tom evidentemente era um homem respeitável e um pedreiro. Provar tudo isso, porém, levaria tempo, talvez semanas, se acontecesse de o xerife estar em outra parte do condado; e poderia ainda haver uma acusação de romper a paz do rei, se houvesse uma briga.

     Não, seria mais sábio pegar o ladrão sozinho. Era possível que o homem não fosse passar a noite na cidade, pois não tinha casa ali e talvez não conseguisse hospedagem se não pudesse, de um modo qualquer, provar ser um homem respeitável. Assim sendo, precisava ir embora antes que os portões fechassem, ao cair da noite. E havia apenas dois portões.

     - Ele provavelmente voltará por onde veio - disse Tom dirigindo-se a Agnes. - Vou esperar lá fora, junto do portão leste. Alfred cuida do portão oeste. Você fica na cidade e vê o que o ladrão faz. Conserve Martha ao seu lado, mas não deixe que ele a veja. Se precisar mandar um recado para mim ou para Alfred, mande-o pela menina.

     - Certo - concordou Agnes, tensa.

     - O que devo fazer se o ladrão vier na minha direção? - perguntou Alfred, que parecia excitado.

     - Nada - respondeu o pai com firmeza. - Veja que estrada ele segue e espere. Martha irá me buscar e cuidaremos dele juntos. - Alfred pareceu ficar desapontado, e Tom acrescentou: - Faça o que digo. Não quero perder meu filho, como também não quero perder meu porco.

     Alfred aquiesceu, relutante.

     - Vamos nos separar, antes que ele note nossa presença aqui. Vamos.

     Tom saiu imediatamente, sem olhar para trás. Podia confiar em Agnes para levar a cabo o plano. Dirigiu-se rapidamente para o portão leste e deixou a cidade, atravessando a oscilante ponte de madeira onde empurrara o carro de boi naquela manhã. Bem na sua frente ficava a estrada de Winchester, no rumo leste, sempre reta, como um longo tapete desenrolado sobre colinas e vales. À esquerda, a estrada pela qual ele - e presumivelmente também o ladrão - tinha chegado a Salisbury, a Portway, fazia uma curva sobre uma colina e desaparecia. O ladrão certamente iria pela Portway.

     Tom desceu a colina e passou pelas casas que se agrupavam na encruzilhada, tomando por fim a Portway. Precisava se esconder. Caminhou pela estrada, procurando um lugar adequado. Seguiu adiante umas duzentas jardas sem encontrar nada. Olhando para trás, viu que tinha ido muito longe: não podia mais distinguir as feições das pessoas na encruzilhada, de modo que não saberia se o homem sem lábios havia saído da cidade e tomado a estrada de Winchester. Examinou a paisagem novamente. A estrada era margeada de ambos os lados por valas, que teriam servido de esconderijo com tempo seco, mas que nesse dia estavam cheias de água. Logo depois de cada vala, a terra se amontoava. No campo, do lado sul da estrada, algumas vacas pastavam o restolho do capim. Tom notou que uma delas estava deitada na extremidade do pasto, uma elevação que dominava a estrada, e era parcialmente escondida pelo monte de terra que acompanhava a vala. Com um suspiro, refez os passos. Saltou a vala e deu um pontapé na vaca, que se levantou e foi embora. Deitou-se no lugar seco e quente que ela deixara. Puxou o capuz sobre o rosto e se acomodou para esperar, desejando que tivesse tido a ideia de comprar um pedaço de pão antes de sair da cidade.

     Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco. Tom tinha um pouco de medo de se machucar, mas se preocupava muito mais em ficar sem seu dinheiro.

     Esperava que a mulher e a filha estivessem bem. Agnes podia se cuidar, ele sabia; e mesmo que o fora-da-lei a reconhecesse, o que poderia fazer? Ficaria apenas em guarda, mais nada.

     De onde estava deitado, Tom podia ver as torres da catedral. Quisera ter tido um momento para dar uma olhada por dentro. Estava curioso acerca do tratamento dado às pilastras da arcada. Normalmente eram pilares grossos, com os arcos nascendo do topo de cada um deles: dois na direção norte e sul, para a ligação com os pilares vizinhos na arcada; e um na direção leste ou oeste, cruzando a nave lateral.

     O efeito não era bonito, pois havia algo não muito certo num arco que saía do topo de uma coluna redonda. Quando Tom construísse sua catedral, cada pilar seria um conjunto de colunas, com um arco saindo de cada uma delas - um arranjo elegantemente lógico. Começou a visualizar a decoração dos arcos. Formas geométricas eram as mais comuns - não se necessitava de muito talento para entalhar ziguezague e losangos -, mas Tom gostava de folhagem, que emprestava suavidade e um toque de natureza à dura regularidade das pedras.

     A catedral imaginária ocupou sua mente até o meio da tarde, quando viu o vulto esbelto e a cabeça loura de Martha atravessar a ponte saltitando e vir por entre as casas. Ela hesitou um pouco na encruzilhada, depois escolheu a estrada certa. Tom observou-a aproximando-se e viu quando franziu a testa, ao começar a perguntar-se onde ele poderia estar. Quando ela emparelhou com o lugar onde estava, chamou-a baixinho.

     - Martha.

     Ela deu um gritinho, então o viu e correu para ele, saltando por cima da vala.

     - Mamãe mandou isto para você - disse, tirando uma coisa de dentro do manto.

     Era uma torta quente de carne.

     - Pela cruz, sua mãe é uma boa mulher! - disse Tom,  dando uma grande mordida. Era feita com carne e cebolas, e tinha um gosto celestial.

     Martha agachou-se ao lado de Tom sobre a grama.

     - Isto é o que aconteceu ao homem que roubou o nosso porco - disse ela. Torceu o nariz e concentrou-se para lembrar o que haviam lhe dito para contar. Era tão doce que Tom chegou a perder o fôlego. - Ele saiu da locanda, encontrou uma dona com a cara pintada e foi para a casa dela. Nós esperamos do lado de fora.

     Enquanto o fora-da-lei gastava o nosso dinheiro com uma prostituta, pensou Tom,  amargurado.

     - Continue.

     - Ele não ficou muito tempo na casa da mulher, e quando saiu foi para uma cervejaria. Está lá agora. Não bebe muito, mas joga dados.

     - Espero que ganhe - disse Tom,  inflexível. - É só?

     - É só.

     - Você está com fome?

     - Comi um bolinho.

     - Você contou a Alfred tudo isso?

     - Ainda não. Vou falar com ele agora.

     - Diga para ele tentar ficar seco.

     - Tentar ficar seco - repetiu ela. - É para falar antes ou depois do recado sobre o homem que roubou o nosso porco?

     Não tinha importância, claro.

     - Depois - disse Tom,  já que a filha queria uma resposta definitiva. Sorriu para ela. - Você é uma menina esperta. Vá andando agora.

     - Gosto desta brincadeira - disse ela. Acenou e partiu, as perninhas ágeis aparecendo por um segundo quando saltou elegantemente a vala e correu de volta para a cidade.

     Tom observou-a com amor e também com raiva no coração. Ele e Agnes tinham trabalhado duro para ganhar o dinheiro destinado a alimentar as crianças, e ele seria capaz de matar para pegar de volta o que lhes tinham roubado.

     Talvez o fora-da-lei estivesse pronto para matar também. Os fora-da-lei se encontravam fora da lei, como diz o nome: viviam em estado natural de violência. Aquela podia não ser a primeira vez que Faramond Boca Aberta atacara de surpresa uma de suas vítimas. Acima de tudo ele era perigoso.

     A luz do dia começou a desaparecer surpreendentemente cedo, como acontecia às vezes nas tardes chuvosas de outono. Tom começou a se preocupar, sem saber se reconheceria o ladrão na chuva. À medida que caía a noite, o movimento de entrada e saída foi diminuindo, pois a maioria dos visitantes saíra a tempo de chegar a suas casas aoanoitecer. As luzes das velas e dos lampiões começaram a bruxulear nas casas mais altas da cidade e nas choças suburbanas. Tom perguntou-se, pessimista, se o ladrão poderia afinal ficar na cidade. Talvez tivesse amigos desonestos que o alojassem, mesmo sabendo que era um fora-da-lei. Talvez...

     Nesse momento Tom viu um homem com um xale na boca.

     Atravessava a ponte de madeira, com dois outros homens. Subitamente ocorreu ao construtor que os dois cúmplices do ladrão, o careca e o de gorro verde, podiam ter ido a Salisbury com ele. Não vira nenhum dos dois na cidade, mas os três podiam ter se separado por algum tempo e depois se reunido para a viagem de volta. Praguejou baixinho; não achava que pudesse enfrentar três homens. Mas o grupo se desfez ao se aproximar, e Tom percebeu com alívio que eles não estavam juntos, afinal.

     Os dois primeiros eram pai e filho, dois camponeses com os olhos muito juntos e nariz recurvo. Tomaram a Portway, e o homem do xale os seguiu.

     Tom estudou o andar do ladrão, que se aproximava. Infelizmente parecia sóbrio.

     Olhando para a cidade, viu uma mulher e uma garota aparecerem na ponte: Agnes e Martha. Ficou assustado. Não tinha imaginado que elas estivessem presentes quando se defrontasse com o ladrão. Percebeu, contudo, que não dera instruções em contrário.

     Ficou tenso quando todos tomaram a estrada, na sua direção. Tom era tão grande que a maioria das pessoas cediam, num confronto com ele; mas proscritos eram gente desesperada, e não havia como dizer o que aconteceria numa briga.

     Os dois camponeses passaram, bem-humorados, conversando a respeito de cavalos. Tom tirou o martelo de cabeça de ferro do cinto e o empunhou com a mão direita.

     Odiava ladrões, que não trabalhavam mas tiravam o pão das pessoas de bem. Não teria escrúpulos em bater naquele com o seu martelo.

     O ladrão pareceu andar mais devagar quando se aproximou, quase como se pressentisse o perigo. Tom esperou que estivesse a umas quatro ou cinco jardas de distância - perto demais para fugir, longe demais para passar correndo. Então rolou por cima do monte, saltou a vala e parou na frente dele.

     O homem ficou imóvel, olhando para Tom.

     - Que é isto? - perguntou nervosamente.

     Não me reconhece, pensou Tom.

     - Você roubou meu porco ontem e hoje vendeu para o açougueiro.

     - Eu nunca...

     - Não negue - interrompeu o construtor. - Basta que me dê o dinheiro que recebeu pelo porco e não o machucarei.

     Por um momento Tom pensou que ele fosse fazer exatamente isso. Teve uma sensação de anticlimax quando o homem hesitou. De repente ele girou nos calcanhares e correu.

     . . para bater direto em Agnes.

     Ele não tinha ainda impulso bastante para derrubá-la - e ela não era mulher de ser derrubada com facilidade - e os dois vacilaram, colocando-se alternadamente na frente um do outro, de lado a lado, numa dança desajeitada. Até que percebeu que ela estava deliberadamente obstruindo a sua passagem e a empurrou para um lado.

     A mulher esticou a perna quando ele passou. Seu pé meteu-se entre os joelhos do ladrão e os dois caíram juntos. O coração de Tom estava na boca quando correu para o lado dela. O ladrão se levantava com um joelho sobre as costas de Agnes. Tom agarrou-o pelo pescoço e arrancou-o de cima dela. Puxou-o para o lado da estrada, antes que pudesse recuperar o equilíbrio, e jogou-o dentro da vala.

     A mulher levantou-se. Martha correu para ela. Tom perguntou rapidamente:

     - Tudo bem?

     - Sim - respondeu Agnes.

     Os dois camponeses pararam e se viraram para observar a cena, curiosos para descobrir o que estaria acontecendo. O ladrão estava de joelhos na vala.

     - Ele é um fora-da-lei - gritou Agnes, para evitar qualquer possível interferência. - Roubou nosso porco.

     Os camponeses nada disseram, mas esperaram para ver o que aconteceria em seguida.

     Tom dirigiu-se ao ladrão novamente.

     - Dê-me o dinheiro e deixarei que se vá.

     O homem saltou da vala com uma faca na mão, rápido como um rato, e atirou-se contra o pescoço de Tom. Agnes gritou. Tom esquivou-se. A faca faiscou na frente do seu rosto e Tom sentiu uma dor ardente no queixo.

     Ele recuou e brandiu o martelo quando a faca faiscou de novo. O ladrão pulou para trás e tanto a faca quanto o martelo silvaram no ar úmido da noite sem baterem um no outro.

     Por um instante os dois homens ficaram imóveis, se encarando, ofegantes. O rosto de Tom doía. Percebeu que havia igualdade entre eles, embora fosse muito maior, já que o ladrão tinha uma faca, arma muito mais mortal que um martelo de pedreiro. Sentiu um calafrio de medo quando se deu conta de que podia estar prestes a morrer.

     Subitamente não conseguiu respirar.

     Percebeu de esguelha um movimento súbito. O ladrão o notou também, disparou um rápido olhar para Agnes e baixou rapidamente a cabeça quando uma pedra veio voando na sua direção, atirada pela mão dela.

     Tom reagiu com a velocidade de um homem que temia pela vida, e brandiu o martelo contra a cabeça abaixada do ladrão. A pancada atingiu-o na hora exata em que ele se endireitava. O martelo de ferro pegou na testa, bem na linha do cabelo. Foi um golpe apressado, que não teve toda a força considerável de Tom. O ladrão cambaleou mas não caiu. Tom atingiu-o de novo.

     Dessa vez o golpe foi mais forte. O construtor teve tempo para levantar o martelo e apontá-lo, enquanto o ladrão estonteado tentava focalizar. Tom pensou em Martha quando baixou o martelo. Bateu com toda a força, e o ladrão caiu como um trapo.

     Estava tenso demais para sentir qualquer alívio. Ajoelhou-se ao lado do ladrão, revistando-o.

     - Onde está a bolsa dele? Onde está a bolsa dele, maldição!

     O corpo inerte era difícil de virar. Finalmente Tom conseguiu pô-lo de costas e abriu o manto. Havia uma grande bolsa de couro pendurada na cintura. Abriu-a. Dentro havia uma bolsa de lã macia, fechada com um cordão de puxar. Tom puxou o cordão. Ela estava leve.

     - Vazia! - exclamou. - Ele deve ter outra bolsa.

     Puxou o manto sob o corpo do homem e revistou-o cuidadosamente. Não havia bolsos escondidos, nem saliências. Tirou-lhe as botas. Não havia nada dentro delas. Puxou a faca que estava pendurada no cinto e abriu as solas: nada.

     Impacientemente, meteu a faca no lado de dentro da túnica de lã do ladrão e cortou. Não havia cinto de dinheiro escondido.

     O ladrão jazia no meio da estrada de lama, nu, a não ser pelas meias, os dois camponeses olhavam para Tom como se ele fosse maluco.

     - Ele não tem dinheiro nenhum! - disse furiosamente para Agnes.

     - Deve ter perdido tudo nos dados - disse ela, amargurada.

     - Espero que queime no fogo do inferno.

     A mulher ajoelhou-se e apalpou o peito do ladrão.

     - É onde ele se encontra agora - disse. - Você o matou.

    

     Pelo Natal eles estavam morrendo de fome.

     O inverno chegou cedo, frio, duro e implacável como o cinzel de ferro de um pedreiro. Ainda havia maçãs nas árvores quando a primeira neve cobriu os campos. O povo pensou que fosse uma onda de frio, acreditando que passaria logo, mas não passou. As aldeias que tinham atrasado o preparo do terreno quebraram seus arados na terra dura como rocha. Os camponeses apressaram-se a matar os porcos e os salgarem para o inverno, assim como os lordes a abater o gado, pois o pasto nos meses de frio não alimentaria o mesmo número de cabeças que no verão. Mas a geada interminável queimou o capim, e parte do gado remanescente morreu assim mesmo. Os lobos ficaram desesperados, e invadiam as aldeias ao anoitecer para roubar galinhas esqueléticas e crianças descuidadas.

     Nos locais onde se erguiam construções, em todo o país, assim que caiu a primeira geada as paredes que haviam sido construídas durante o verão foram rapidamente cobertas com palha e esterco para isolá-las do frio mais intenso, pois a argamassa dentro delas não estava inteiramente seca e, se congelasse, racharia. Nenhum trabalho de massa seria feito até a primavera. Alguns dos pedreiros tinham sido contratados só para o verão, e voltaram para suas aldeias, onde eram conhecidos mais como artífices do que como pedreiros, e passariam o inverno fazendo arados, selas, arreios, carroças, pás, portas e qualquer outra coisa que exigisse mão habilidosa com martelo, cinzel e serrote. Os outros pedreiros mudaram-se para meias-águas no próprio local da construção e cortavam pedras com formas intricadas em todas as horas da luz. Entretanto, como a geada caíra muito cedo, o trabalho progrediu depressa demais; e visto que os camponeses estavam famintos, bispos, castelães e lordes tinham menos dinheiro para gastar em construção do que haviam esperado; e assim, à medida que o inverno progrediu, alguns pedreiros foram sendo dispensados.

     Tom e sua família andaram de Salisbury para Shaftesbury, e de lá para Sherbome, Wells, Bath, Bristol, Gloucester, Oxford, Wallingford e Windsor. Em toda parte os fogos dentro das estalagens ardiam, e os pátios das igrejas e as muralhas dos castelos retiniam com a música do ferro na pedra e os mestres construtores faziam modelos pequenos e precisos de arcos e abóbadas, com as mãos hábeis enfiadas em luvas sem dedos. Alguns mestres eram impacientes, abruptos ou descorteses; outros olhavam tristemente para os filhos de Tom,  tão magros, e para sua mulher grávida, e falavam com bondade e tristeza; todos, porém, diziam a mesma coisa: "Não, não há trabalho para você aqui".

     Sempre que possível, eles se aproveitavam da hospitalidade dos mosteiros, onde os viajantes podiam conseguir um prato de comida e um lugar para dormir - rigorosamente por uma única noite. Quando as amoras silvestres amadureceram, sustentaram-se delas por dias a fio, como os pássaros. Na floresta, Agnes acendia um fogo embaixo da panela de ferro e cozinhava um caldo grosso. Mas ainda assim, na maior parte do tempo, eles eram obrigados a comprar pão dos padeiros e arenques salgados dos peixeiros, ou comer em cervejarias ou locandas, que era mais dispendioso do que preparar a própria comida; assim, o dinheiro deles estava inexoravelmente acabando.

     Martha já era magra, mas ficou ainda mais. Alfred continuou a crescer, como uma planta em terra pouco profunda, e ficou muito magro. Agnes comia parcimoniosamente, mas o bebê que crescia dentro dela era voraz, e Tom podia ver que sua mulher estava atormentada pela fome. Às vezes mandava que comesse mais, e então até mesmo sua vontade de ferro cedia perante a autoridade do marido combinada com a do filho ainda não nascido. Mesmo assim não ficou rechonchuda e rosada, como ficara das outras vezes. Ao contrário, parecia descarnada, a despeito da barriga volumosa, como uma criança faminta desnutrida.

     Desde sua partida de Salisbury, tinham caminhado cerca de três quartos de um grande círculo, e por volta do fim do ano estavam de volta à vasta floresta que se estendia de Windsor até Southampton. Dirigiam-se para Winchester. Tom vendera suas ferramentas de pedreiro, e todo o dinheiro obtido com a venda, exceto uns poucos pennies, havia sido gasto: teria que pedir ferramentas emprestadas, ou o dinheiro para comprá-las, assim que arranjasse trabalho. Se não conseguisse uma colocação em Winchester, não sabia o que iria fazer. Ele tinha irmãos na sua cidade natal, mas ficava no norte, uma viagem de diversas semanas, e a família morreria de fome antes de chegar lá. Agnes era filha única e seus pais estavam mortos. Não havia trabalho na agricultura em pleno inverno. Talvez a mulher pudesse ganhar algum dinheiro como criada de copa e cozinha numa casa rica de Winchester. Certamente ela não poderia continuar palmilhando as estradas por muito mais tempo, já que a hora do parto estava próxima.

     Mas Winchester ficava a três dias de distância, e eles estavam com fome agora. As amoras haviam acabado, não se via nenhum mosteiro, e Agnes não tinha mais aveia na panela que carregava nas costas. Na noite anterior, haviam trocado uma faca por uma bisnaga de pão de centeio, quatro tigelas de caldo sem carne e um lugar para dormir junto ao fogo na choça de um camponês. Desde então não tinham visto uma aldeia. Porém, quando se aproximara o fim da tarde Tom viu fumaça se erguendo acima das árvores, e encontraram a casa de um guarda das florestas reais. Ele deu um saco de nabos pela machadinha de Tom.

     Tinham caminhado somente mais três milhas quando Agnes disse que estava cansada demais para continuar. Tom ficou surpreso. Em todos os seus anos juntos nunca a ouvira dizer que estava cansada demais para qualquer coisa.

     Ela se sentou ao abrigo de um grande castanheiro ao lado da estrada. Tom cavou um buraco raso para acender o fogo, usando uma pá de madeira bem gasta - uma das poucas ferramentas que tinham restado, já que ninguém ia querer comprá-la. As crianças cataram gravetos e Tom acendeu o fogo, depois pegou a panela e foi procurar um regato. Voltou com a panela cheia de água gelada e colocou-a num canto do fogo. Agnes cortou alguns nabos. Martha recolheu castanhas caídas da árvore e Agnes mostrou-lhe como descascá-las e esmagar a parte de dentro, que era macia, transformando-a numa espécie de farinha graúda para engrossar a sopa de nabos. Tom mandou Alfred buscar mais lenha, pegou uma vara e saiu espetando as folhas mortas no chão da floresta, na esperança de achar um ouriço cacheiro hibernando ou um esquilo para pôr no caldo. Não teve sorte.

     Sentou-se ao lado de Agnes quando a escuridão caía e a sopa cozinhava.

     - Ainda tem sal? - perguntou.

     Ela sacudiu a cabeça.

     - Você está comendo sem sal há semanas - disse. - Não notou?

     - Não.

     - A fome é o melhor tempero.

     - Bem, temos tido muito desse tempero. - Tom subitamente sentiu-se muito cansado. O fardo esmagador dos desapontamentos acumulados nos últimos quatro meses abateu-se sobre ele, que não conseguiu mais se mostrar corajoso. Foi numa voz derrotada que perguntou: - O que saiu errado, Agnes?

     - Tudo. Você não teve trabalho no último inverno. Conseguiu trabalhar na primavera; depois a filha do conde cancelou o casamento e lorde William cancelou a casa. Decidimos ficar e trabalhar na colheita, - o que foi um erro.

     - Pois é claro que teria sido mais fácil para mim arranjar trabalho no verão do que no outono.

     - E o inverno veio cedo. Só que, apesar de tudo isso, estaríamos bem se o nosso porco não tivesse sido roubado.

     Tom aquiesceu, desanimado.

     - Meu único consolo é saber que o ladrão deve estar sofrendo todos os tormentos do inferno.

     - Espero que sim.

     - Você duvida?

     - Os sacerdotes não sabem tanto quanto fingem saber. Meu pai era um, lembra?

     Tom se lembrava muito bem. Uma das paredes da igreja do pai dela tinha desmoronado e Tom fora contratado para reconstruí-la. Os sacerdotes não eram autorizados a se casar, mas esse tinha uma ama, e a ama, uma filha, e era um segredo conhecido por todos na aldeia ser ele o pai da garota. Agnes não era bonita, mesmo então, mas sua pele tinha o viço da juventude e ela parecia prestes a explodir de energia. Conversava com Tom enquanto ele trabalhava, e às vezes o vento colava o vestido no seu corpo de tal modo que ele podia ver suas curvas, e até mesmo seu umbigo, quase tão nitidamente como se estivesse sem roupa. Uma noite foi até a cabana onde Tom dormia, cobriu sua boca com a mão a fim de que não falasse e tirou o vestido para que a visse nua ao luar, e então ele tomara seu corpo jovem e forte nos braços e fizeram amor.

     - Nós dois éramos virgens - disse ele em voz alta. Ela sabia em que ele estava pensando. Sorriu, depois sua expressão ficou triste de novo, e disse:

     - Parece que foi há tanto tempo!

     - Podemos comer agora? - perguntou Martha.

     O cheiro da sopa estava fazendo o estômago de Tom roncar. Ele mergulhou a tigela no caldeirão borbulhante e pegou umas poucas fatias de nabo numa papa aguada. Usou o lado rombudo da faca para testar a raiz. Não estava inteiramente cozida, mas decidiu não fazê-los esperar. Deu uma tigela cheia para cada criança e depois levou uma para Agnes.

     Ela estava cansada e pensativa. Soprou a sopa para esfriá-la e depois ergueu a tigela aos lábios.

     As crianças tomaram rapidamente a sopa e quiseram mais. Tom tirou a panela do fogo, usando a barra do manto para não queimar as mãos, e esvaziou o resto na tigela deles.

     - E você? - perguntou Agnes, quando ele se sentou a seu lado.

     - Comerei amanhã - respondeu ele. Ela parecia cansada demais para discutir.

     Tom e Alfred atiçaram o fogo e reuniram lenha bastante para passar a noite. Depois todos se enrolaram em seu manto e se deitaram sobre as folhas a fim de dormir.

     Tom tinha o sono leve, e quando Agnes gemeu ele acordou imediatamente.

     - O que é que há? - sussurrou.

     Ela gemeu de novo. Seu rosto estava pálido e os olhos, fechados. Após um momento ela disse:

     - O bebê está nascendo.

     O coração de Tom falhou uma batida. Não aqui, pensou ele; não aqui no chão gelado das profundezas de uma floresta.

     - Mas não está na hora.

     - É prematuro.

     Tom fez sua voz soar calma.

     - A bolsa d''agua já rompeu?

     - Logo depois que saímos da cabana do guarda florestal. - Agnes arquejou, sem abrir os olhos.

     Tom lembrou-se de quando ela entrou repentinamente no meio do mato, como se fosse fazer uma necessidade urgente.

     - E as dores?

     - Começaram lá.

     Era típico dela não falar nada.

     Alfred e Martha estavam acordados.

     - O que está acontecendo? - perguntou o jovem.

     - O  bebê está nascendo - respondeu Tom.

     Martha rompeu no choro. Tom franziu a testa.

     - Será que você consegue andar de volta até a cabana do guarda? - perguntou a Agnes. Ali eles teriam pelo menos um teto, palha para deitar e alguém para ajudar.

     Agnes sacudiu a cabeça...  

     - Não. O bebê já desceu.

     - Não vai demorar, então!

     Eles estavam na parte mais deserta da floresta. Não viam uma aldeia desde a manhã, e o guarda dissera que não veriam outra durante todo o dia seguinte. Isso significava que não havia possibilidade de encontrar uma mulher que agisse como parteira. Tom teria que fazer o parto sozinho, no frio, apenas com as crianças para ajudar, e se alguma coisa saísse errado, não teria remédios, conhecimento...

     A culpa é minha, pensou Tom; eu a engravidei e depois a levei para este estado de penúria. Ela confiou em mim, e agora está dando à luz ao ar livre, no meio do inverno. Sempre desprezara os homens que tinham filhos e depois os deixavam morrer de fome; via agora que não era melhor que eles. Sentiu-se envergonhado.

     - Estou tão cansada! - disse Agnes. - Não acredito que possa trazer este bebê ao mundo. Quero descansar. - O rosto dela brilhava à luz da fogueira, com uma película fina de suor.

     Tom viu que tinha de se controlar. Precisava dar força a Agnes.

     - Vou ajudar você - disse.

     Não havia nada de misterioso ou complicado no que estava por acontecer. Já assistira ao nascimento de diversas crianças. O trabalho normalmente era feito por mulheres, porque sabiam como a mãe se sentia, o que as capacitava a ajudar melhor; porém, não havia motivo para que um homem não pudesse fazer um parto, se fosse necessário.

     Primeiro tinha que deixá-la à vontade; depois descobrir o estágio de adiantamento do parto; fazer preparativos sensatos; e acalmá-la e reconfortá-la enquanto esperavam.

     - Como se sente? - perguntou ele.

     - Com frio - respondeu ela.

     - Venha para mais perto do fogo - disse Tom. Ele tirou o manto e o desdobrou no chão, a uma jarda da fogueira. Agnes tentou se levantar. Tom ergueu-a com facilidade, e colocou-a delicadamente em cima do manto.

     Ele se ajoelhou ao lado de Agnes. A túnica de lã que ela estava usando sob o manto tinha botões de cima a baixo na frente. Desabotoou dois deles e enfiou a mão por dentro. Agnes arquejou.

     - Dói? - perguntou ele, surpreso e assustado.

     - Não - respondeu ela com um rápido sorriso. - É que suas mãos estão frias.

     Ele tateou o seu abdómen. Estava mais alto e pontudo do que na noite anterior, quando os dois tinham dormido juntos na palha do chão da choça de um camponês. Tom apertou um pouco mais, sentindo a forma do bebê. Encontrou uma extremidade do seu corpinho logo abaixo do umbigo de Agnes, mas não pôde localizar a outra.

     - Não estou conseguindo achar a cabeça dele - disse Tom.

     - É porque ela está saindo - disse Agnes.

     Ele a cobriu e enfiou o manto dela por baixo do seu corpo, de um lado e de outro. Teria que fazer seus preparativos rapidamente. Deu uma olhada nas crianças. Martha estava fungando. Alfred parecia apavorado. Seria bom dar-lhes algo para fazer.

     - Alfred, leve a panela ao regato. Lave-a e traga-a cheia de água fresca. Martha, apanhe uns pedaços de palha e faça dois cordões, cada um deles grande o bastantepara servir de colar. Rápido, vão. Vocês vão ter outro irmão ou irmã quando o dia raiar.

 

     Os dois se afastaram. Tom pegou uma pedrinha dura e começou a amolar a faca. Agnes gemeu de novo. Tom pôs de lado a faca e deu-lhe a mão.

     Ele se sentara com ela desse modo quando os outros nasceram: Alfred, depois Matilda, que morrera com dois anos, Martha e a criança que nascera morta, um menino a quem Tom secretamente planejava chamar Harold. Mas em cada uma dessas vezes havia alguém mais para ajudar e dar segurança - a mãe de Agnes para Alfred, uma parteira da aldeia para Matilda e Harold, e a senhora do solar, ninguém menos que ela, para Martha. Dessa vez precisaria agir sozinho. Mas não podia mostrar sua ansiedade; tinha que fazê-la sentir-se feliz e confiante. Agnes relaxou depois da contração.

     - Lembra quando Martha nasceu - perguntou Tom - e Lady Isabella fez o papel de parteira?

     Agnes sorriu.

     - Você estava construindo uma capela para o lorde e pediu que ela mandasse sua criada buscar a parteira na aldeia...

     - E ela disse: "Aquela bruxa velha e bêbada? Eu não deixaria que ajudasse a nascer uma ninhada de lobos!" E assim nos levou para sua alcova, e lorde Robert não pôde ir para a cama enquanto Martha não nasceu.

     - Era uma boa mulher.

     - Não há muitas ladies como ela.

     Alfred retornou com a panela cheia de água fria. Tom colocou-a perto do fogo, mas não o bastante para ferver. Só queria ter água morna. Agnes enfiou a mão dentro do manto e pegou um pequeno saco de linho cheio de trapos limpos que havia preparado.

     Martha voltou com as mãos cheias de palha e sentou-se para começar a trançar.

     - Para que você precisa dos cordões? - quis saber.

     - Para uma coisa muito importante, você vai ver - disse Tom. - Faça-os direitinho.

     Alfred estava inquieto e envergonhado.

     - Vá apanhar mais lenha - disse Tom. - Vamos aumentar o fogo.

     O garoto saiu, feliz por ter o que fazer.

     O rosto de Agnes retesou-se quando começou a fazer força de novo, querendo expulsar a criança do ventre, fazendo um barulho baixo, como uma árvore rachando sob o  vento forte.

     Tom pôde ver como aquele esforço estava lhe saindo caro, usando suas últimas reservas de energia, e desejou de todo o coração poder fazer força por ela para aquela criança nascer, aguentar a tensão, dar-lhe algum alívio. Por fim a dor pareceu abrandar, e Tom respirou de novo. A mulher deu a impressão de cochilar.

     Alfred voltou com os braços cheios de galhos.

     Agnes despertou.

     - Estou com tanto frio!

     - Alfred, aumente o fogo - disse Tom. - Martha, deite-se do lado de sua mãe e a mantenha quente.

     Os dois obedeceram, muito apreensivos. Agnes passou os braços em torno da filha e a apertou, tremendo de frio.

     Tom estava extremamente preocupado. A fogueira crepitava, mas o ar estava ficando mais frio. E o frio podia ficar tão intenso ao ponto de matar a criança quando respirasse pela primeira vez. Não era novidade para os meninos um parto ao ar livre; na verdade, acontecia com frequência durante a época da colheita, quando todos ficavam muito ocupados e as mulheres trabalhavam até o último minuto, só que na colheita o chão estava seco, a grama macia e a temperatura amena. Nunca tinham ouvido falar de uma mulher dando à luz ao ar livre em pleno inverno.

     Apoiada nos braços, Agnes ergueu o corpo e abriu mais as pernas.

     - O que é que há? - perguntou Tom,  amedrontado. Ela estava fazendo tanta força que não podia responder.

     - Alfred - disse Tom -, ajoelhe-se atrás de sua mãe e deixe que ela se apoie em você.

     Quando o rapaz estava em posição, Tom abriu o manto de Agnes e desabotoou a saia. Ajoelhando-se entre as suas pernas, ele constatou que já havia um pouco de dilatação.

     - Não falta muito agora, minha querida - murmurou, lutando para não deixar a voz tremer.

     Ela relaxou de novo, fechando os olhos e apoiando-se em Alfred. A dilatação pareceu diminuir. A floresta estava em silêncio, a não ser pelo crepitar da fogueira.

     De repente, Tom pensou em como a fora-da-lei, Ellen, dera à luz sozinha na floresta. Devia ter sido terrível. Tivera medo de que um lobo pulasse sobre ela e roubasse o bebê recém-nascido, dissera. Todos falavam que esse ano os lobos estavam mais atrevidos que o normal, mas certamente não atacariam um grupo de quatro pessoas.

     Agnes ficou tensa novamente e novas gotas de suor apareceram em seu rosto contorcido. É o fim, pensou Tom. Estava apavorado. Verificou que a dilatação estava maior de novo e dessa vez viu, à luz da fogueira, o cabelo preto molhado da cabeça do bebê, já começando a passar. Pensou em rezar mas não havia tempo agora. Agnes começou a respirar em arquejos rápidos e curtos. A dilatação aumentou ainda mais - ficou larga a um ponto que parecia impossível - e então a cabeça do bebê começou a sair, o rosto para baixo. Num momento Tom viu as orelhas enrugadas coladas do lado da cabecinha; depois foi a vez da pele dobrada do pescoço. Não pôde verificar ainda se era normal.

     - A cabeça já passou - disse ele, mas Agnes já sabia disso, é claro, pois podia sentir, e tinha relaxado de novo. Lentamente, o bebê girou, e Tom pôde ver-lhe os olhos fechados e a boca, molhados de sangue e dos fluidos do útero.

     - Olha a carinha dele! - exclamou Martha.

     Agnes ouviu e sorriu rapidamente, para logo em seguida começar a fazer força de novo. Tom inclinou-se para a frente, colocando-se entre suas coxas, e apoiou a minúscula cabeça com a mão esquerda enquanto os ombros saiam, primeiro um, depois o outro. Então o resto do bebê emergiu, impetuosamente. Tom pôs a mão direita sob os quadris dele e segurou quando as perninhas escorregaram para o mundo frio.

     A dilatação imediatamente começou a se fechar em torno do latejante cordão azul que vinha do umbigo do bebê.

     Tom ergueu o filho e examinou-o, ansioso. Havia muito sangue, e a princípio ele receou que houvesse algo terrivelmente errado; porém, observando melhor, não pôde ver nenhum ferimento. Olhou entre as pernas dele. Era um menino.

     - Ele é horrível! - disse Martha.

     - Ele é perfeito - disse Tom,  sentindo-se aliviado. - Um menino perfeito.

     O bebê abriu a boca e chorou.

     Tom olhou para a mulher. Seus olhos se encontraram e ambos sorriram.

     Segurou o bebezinho junto do peito.

      - Martha, traga-me uma tigela da água daquela panela.

     -    A menina pulou para cumprir sua tarefa.

     - Onde estão aqueles trapos, Agnes?

     Ela apontou para o saco de pano no chão junto do seu ombro. Alfred passou-o para o pai. O rosto dele estava molhado de lágrimas. Era a primeira vez que via uma criança nascer.

     Tom mergulhou um pedaço de pano na água morna e, delicadamente, lavou o sangue e o muco que cobriam o rosto do bebê. Agnes desabotoou a frente da túnica e Tom colocou o bebê nos seus braços. Ele ainda estava gritando. Enquanto o pai o olhava, o cordão azul parou de pulsar e contraiu-se, ficando branco.

     - Passe aquelas cordinhas que você fez - disse Tom para Martha. - Agora verá para que servem.

     Ela lhe entregou dois pedaços de palha trançada. Tom amarrou o cordão umbilical em dois lugares, dando um nó com força em cada um. Depois usou sua faca para cortar o cordão entre os nós.

     Ele se sentou. Tinham conseguido. O pior já passara e o bebê estava passando bem. Sentiu-se orgulhoso.

     Agnes deslocou o bebê, colocando o rosto dele sobre o seio. A boquinha achou o mamilo dilatado, e o bebê parou de chorar quando começou a sugar.

     - Como é que ele sabe que precisa fazer isso? - perguntou Martha, assombrada.

     - É um mistério - disse Tom. Entregou a tigela a Martha. - Pegue um pouco de água fresca para sua mãe beber.

     - Oh, sim - disse Agnes agradecida, como se tivesse acabado de perceber que estava desesperadamente sedenta. Martha trouxe a água e Agnes bebeu toda a tigela. - Maravilha - disse. - Muito obrigada.

     Agnes baixou os olhos para o bebê que mamava e depois encarou Tom.

     - Você é um homem bom - disse serenamente. - Eu o amo.

     Tom sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Sorriu para ela e baixou a cabeça. Viu que a mulher ainda estava sangrando muito. O cordão umbilical, contraído e murcho, vinha saindo lentamente e jazia enrodilhado numa poça de sangue sobre o manto de Tom entre as pernas dela.

     Ele ergueu os olhos de novo. O bebê parara de mamar e adormecera.

     - Você está esperando alguma coisa? - perguntou Martha ao pai, depois de um momento.

     - A placenta - respondeu ele.

     - O que é isso?

     - Você vai ver.

     Mãe e filho cochilaram por algum tempo, até que Agnes abriu os olhos de novo. Seus músculos ficaram tensos, houve uma pequena dilatação e a placenta emergiu. Tom pegou-a com as mãos e examinou-a. Parecia qualquer coisa no cepo de um açougueiro. Examinando mais atentamente, viu que parecia estar dilacerada, como se faltasse um pedaço. Entretanto, nunca examinara tão de perto uma placenta, e supôs que todas fossem sempre assim, por se soltarem do útero. Jogou-a ao fogo. Produziu um cheiro desagradável ao queimar; porém, se a tivesse jogado no mato, poderia ter atraído raposas ou até mesmo um lobo.

     Agnes ainda estava sangrando. Tom se lembrava de que sempre havia um fluxo de sangue com a saída da placenta, mas não lembrava que fosse naquela quantidade. Percebeu que a crise ainda não terminara. Sentiu vertigem, causada pela tensão e pela falta de alimento; mas passou, e ele se restabeleceu.

     - Você ainda está sangrando um pouco - disse, tentando não parecer muito preocupado.

     - Vai parar logo - disse ela. - Cubra-me.

     Tom abotoou a sua saia e embrulhou as pernas de Agnes com o manto dela.

     - Posso descansar agora? - perguntou Alfred.

     Ele ainda estava ajoelhado atrás da mãe, apoiando-a. Devia estar dormente, pensou, de ter ficado tanto tempo na mesma posição.

     - Ficarei no seu lugar - disse Tom. Agnes ficaria mais confortável com o bebê se pudesse ficar recostada, meio na vertical, pensou; e também um corpo atrás dela a conservaria quente e a protegeria do vento. Trocou de lugar com o filho. Este gemeu de dor quando esticou as pernas jovens. Tom passou os braços em torno da mulher e do bebê. - Como se sente? perguntou.

     - Apenas cansada.

     O bebê chorou. Agnes deslocou-o para que ele pudesse achar o mamilo. Enquanto sugava, ela pareceu dormir.

     Tom se sentiu apreensivo. Era normal o cansaço, mas havia em Agnes uma letargia que o incomodava. Estava fraca demais.

     O bebê dormiu, e, após algum tempo, também as outras duas crianças, Martha enrodilhada perto de Agnes, e Alfred estirado junto da fogueira, do outro lado. Tom tomou a mulher nos braços, afagando-a gentilmente. De vez em quando beijava a parte de cima da sua cabeça. Sentiu o corpo dela relaxar, à medida que seu sono ia ficando mais profundo. Provavelmente era a melhor coisa para ela, decidiu. Tocou-lhe o rosto. A pele estava úmida, a despeito de todos os seus esforços para conservá-la quente.

     Ele enfiou a mão dentro do manto de Agnes e tocou no peitinho do bebê. A criança estava quente e seu coração batia com força. Tom sorriu. Um bebê durão, pensou; um sobrevivente.

     Agnes agitou-se.

     - Tom?

     - Sim.

     - Você se lembra daquela noite em que fui procurá-lo na sua cabana, quando estava trabalhando na igreja do meu pai?

     - Claro - disse ele, acariciando-a. - Como poderia esquecer?

     - Nunca me arrependi de ter-me entregado a você. Nunca, nem por um momento. Sempre que penso naquela noite, sinto-me alegre.

     Ele sorriu. Aquilo era bom de saber.

     - Eu também - disse. - Fiquei feliz por você fazer o que fez.

     Ela cochilou um pouco, e depois disse:

     - Espero que você construa sua catedral.

     Ele ficou surpreso.

     - Pensei que você fosse contra.

     - Eu era, mas estava errada. Você merece uma coisa bonita.

     Ele não sabia o que Agnes queria dizer.

     - Construa uma catedral bonita para mim - pediu ela.

     Suas palavras não tinham sentido. Tom ficou satisfeito quando ela dormiu de novo. Dessa vez seu corpo ficou prostrado, e a cabeça virou de lado. Tom teve que escorar o bebê para que ele não escorregasse do peito da mãe.

     Ficaram deitados assim por longo tempo. De vez em quando o bebê acordava e chorava. Agnes não reagia. O choro acordou Alfred, que rolou no chão e olhou o bebê.

     Tom sacudiu a mulher delicamente.

     - Acorde - disse. - O bebê quer mamar.

     - Pai! - disse Alfred, assustado. - Olhe só o rosto dela!

     Tom estava com presságios. Ela sangrara demais.

     - Agnes! - disse. - Acorde!

     Não houve resposta. Estava inconsciente. Ele se levantou, acomodando as costas dela no chão. Seu rosto estava horrivelmente branco.

     Com medo do que veria, ele abriu as pregas do manto de Agnes, que envolvia suas coxas. Havia sangue por toda parte. Alfred, ofegante, virou-se para o outro lado.

     - Oh, Jesus, salve-nos!

     O choro do bebê acordou Martha. Ela viu o sangue e começou a gritar. Tom levantou-a e deu-lhe um tapa no rosto. A menina ficou em silêncio.

     - Não grite - disse calmamente, e colocou-a no chão de novo.

     - Mamãe está morrendo? - perguntou Alfred.

     Tom pôs a mão sobre o peito de Agnes, logo abaixo do seio esquerdo. Não havia batidas do coração.

     Nenhuma.

     Apertou com mais força. O corpo dela estava quente, e a parte de baixo do seio pesado encostou na sua mão, mas ela não estava respirando e não tinha pulso.

     Um gélido entorpecimento se instalou sobre Tom,  como uma névoa. Ela se fora. Olhou fixamente para o rosto da mulher. Mas como podia não estar ali? Desejou que ela se mexesse, abrisse os olhos, respirasse. Conservou a mão no seu peito. Diziam que às vezes o coração começa a bater de novo - mas ela perdera tanto sangue!

     Olhou para Alfred.

     - Sua mãe está morta - sussurrou.

     Alfred manteve os olhos fixos no pai, abobalhado. Martha começou a chorar. O bebê estava chorando também. Tenho que tomar conta deles, pensou Tom. Preciso ser forte para eles.

     Contudo ele queria chorar, passar os braços em torno de Agnes e segurar seu corpo enquanto esfriava, e lembrar-se dela como uma garota, rindo, fazendo amor. Queria soluçar de raiva e brandir o punho para o céu impiedoso. Endureceu o coração. Tinha que permanecer controlado, ser forte para as crianças.

     Nenhuma lágrima veio aos seus olhos.

     Ele pensou: O que faço primeiro?

     Cave uma sepultura.

     Tenho que cavar um buraco bem fundo e colocá-la lá dentro, para conservar os lobos longe do corpo e preservar seus ossos até o Dia do Juízo Final, e depois fazer uma oração pela sua alma. Oh, Agnes, por que me deixou sozinho?

     O recém-nascido ainda chorava. Seus olhinhos estavam fechados com toda a força e a boca abria e fechava ritmadamente, como se ele se alimentasse de ar. Tinha que mamar. Os seios de Agnes estavam cheios de leite morno. Por que não?, pensou Tom. Empurrou o bebê na direção do seio. A criança achou o bico e sugou. Tom ajeitou o manto dela em torno do seu corpinho.

     Martha observava de olhos arregalados, chupando o polegar.

     - Pode segurar o bebê aí, para ele não cair? - perguntou Tom.

     Ela fez que sim e ajoelhou-se ao lado da mulher morta e do bebê.

     Tom pegou a pá. Agnes tinha escolhido aquele lugar para descansar, e se sentara sob os galhos do castanheiro. Que fosse então o lugar do seu último descanso. Ele engoliu em seco, lutando contra o ímpeto de se sentar no chão e chorar. Marcou um retângulo a algumas jardas do tronco da árvore, onde não haveria raízes próximas da superfície; começou a cavar.

     Tom descobriu que isso ajudava. Enquanto se concentrava em enfiar a pá na terra dura e levantá-la, o resto da sua mente ficava em branco, e ele era capaz de conservar sua compostura. Revezou-se com Alfred, para ele também poder desfrutar do conforto proporcionado pelo exercício físico repetido. Cavaram rápido, fazendo grande esforço, e, a despeito do frio cortante, ambos suavam como se fosse meio-dia.

     Até que chegou a hora em que Alfred perguntou:

     - Já não chega?

     Tom deu-se conta de que estava de pé dentro de um buraco quase tão fundo quanto sua estatura. Não queria que o trabalho terminasse. Aquiesceu relutantemente:

     - Já chega. - E escalou as paredes do buraco.

     O dia raiara enquanto ele cavava. Martha pegara o bebê e estava sentada junto do fogo, embalando-o. Tom aproximou-se de Agnes e ajoelhou-se. Passou o manto com força em torno dela, deixando o rosto visível, e pegou-a. Caminhou até a sepultura e colocou-a no chão. Depois pulou no buraco.

     Então pegou-a e deitou-a delicadamente sobre a terra. Fitou-a por um longo momento, ajoelhado ao seu lado na cova fria. Beijou-lhe os lábios uma vez, suavemente.

     Só então fechou-lhe os olhos.

     Saltou do túmulo.

     - Venham cá, crianças - disse.

     Alfred e Martha aproximaram-se e ficaram de pé junto do pai, um de cada lado, Martha com o bebê no colo. Tom passou os braços sobre eles. Todos olharam para dentro do túmulo.

     - Digam: "Deus abençoe a mamãe" - mandou ele.

     - Deus abençoe a mamãe.

     Martha soluçava, e havia lágrimas nos olhos de Alfred. Tom os abraçou e conteve o choro.

     Soltou-os e apanhou a pá. A menina gritou quando ele atirou a primeira pá de terra dentro do túmulo. Seu irmão a abraçou.

     Tom continuou trabalhando. Não era capaz de jogar terra no rosto dela, de modo que lhe cobriu os pés, depois as pernas e o corpo, e fez um monte de terra tão alto que a cada pazada ia caindo para a frente, até que por fim havia terra no seu pescoço, depois sobre a boca que ele beijara, e finalmente seu rosto desapareceu, para nunca mais ser visto de novo.

     Tom encheu o túmulo rapidamente. Ao acabar, ficou de pé, olhando para o monte de terra.

     - Adeus, querida - sussurrou. - Você foi uma boa mulher e eu a amo.

     Com esforço, afastou-se.

     O manto de Tom ainda estava no chão, no lugar onde Agnes se deitara sobre ele, para dar à luz. A parte de baixo estava encharcada de sangue congelado e de sangue que começava a secar. Ele pegou a faca e cortou-a de qualquer maneira em duas metades. Atirou a parte ensanguentada no fogo.

     Martha ainda tinha o bebê no colo.

     - Passe-o para mim - disse Tom.

     A menina fitou o pai com medo nos olhos. Ele embrulhou o bebê nu na parte limpa do manto e deitou-o sobre o túmulo. O bebê chorou.

     - Não temos leite para conservar o bebê vivo, de modo que ele deve ficar aqui com sua mãe - disse, voltando-se para as crianças que o fitavam em silêncio.

     - Mas ele vai morrer! - exclamou Martha.

     - Sim - assentiu Tom,  controlando a voz. - Seja o que for que façamos, ele morrerá. - Desejava que o bebê parasse de chorar.

     Reuniu as coisas da família, colocou-as dentro da panela e amarrou-a nas costas da maneira como Agnes sempre fazia.

     - Vamos - disse.

     Martha começou a soluçar. Alfred estava com o rosto lívido. Eles saíram caminhando estrada afora à luz cinzenta de uma manhã de inverno. Em dado momento o choro do bebê não foi mais ouvido.

     Não adiantava ficar junto da sepultura, pois as crianças seriam incapazes de dormir ali, e nenhum objetivo seria alcançado por uma vigília de uma noite inteira.

     Além disso, caminhar faria bem a Alfred e Martha.

     Tom andava depressa, mas seus pensamentos agora estavam livres e ele já não podia controlá-los. Nada havia a fazer senão andar: nenhuma providência a tomar, nenhum trabalho a fazer, nada a ser organizado, nada para ver exceto a floresta lúgubre e as sombras nervosas à luz dos archotes. Pensava em Agnes, seguia a trilha de alguma lembrança, sorria para si próprio, virava-se para contar à mulher o que tinha rememorado; e então o choque de perceber que estava morta o golpeava como uma dor física. Sentia-se perplexo, como se algo totalmente incompreensível tivesse acontecido, embora, é claro, fosse a coisa mais comum do mundo uma mulher da idade de Agnes morrer de parto, e um homem da idade dele ser viúvo. Entretanto a sensação de perda era como uma ferida. Ele ouvira dizer que uma pessoa que tivesse os dedos do pé cortados não podia se levantar, caindo constantemente até aprender a andar de novo. Tom sentia-se assim, como se uma parte dele houvesse sido amputada, e não podia se acostumar com a ideia de que a mulher se fora para sempre.

     Tentou não pensar em Agnes, mas continuou se lembrando de como era antes de morrer. Parecia incrível que estivesse viva apenas algumas horas antes, e que agora tivesse morrido. Viu mentalmente seu rosto tenso no momento em que deu à luz, e depois seu sorriso orgulhoso ao fitar o garotinho. Recordou o que lhe dissera em seguida:

     Espero que você construa sua catedral. E depois: Construa uma catedral bonita para mim. Ela falara como se soubesse que estava morrendo.

     Quanto mais andava, mais pensava no bebê que abandonara, embrulhado na metade de um manto, sobre um túmulo recém-aberto. Provavelmente ainda estivesse vivo, a menos que uma raposa o tivesse farejado. Morreria antes de terminar a manhã, contudo. Choraria por algum tempo, depois fecharia os olhos e sua vida o abandonaria aos poucos, enquanto seu corpinho adormecido iria esfriando.

     A menos que uma raposa o farejasse. Não havia nada que Tom fosse capaz de fazer pelo bebê. Ele precisava de leite para sobreviver, e não havia nenhum: nem aldeias onde o pai pudesse arranjar uma ama-de-leite, nem cabra ou ovelha para suprir o equivalente mais aproximado. Tudo o que tinha para lhe dar eram nabos, que o matariam tão certamente quanto uma raposa.

     À medida que a noite ia acabando, parecia-lhe mais e mais terrível que tivesse abandonado o bebê. Era algo bastante comum, ele sabia: camponeses com grandes famílias e pequenas fazendas frequentemente expunham bebês à morte, e às vezes o sacerdote fingia não ver; no entanto Tom não era desse tipo de gente. Deveria tê-lo carregado nos braços até que morresse e então enterrá-lo. Não havia finalidade nisso, é claro, mas mesmo assim teria sido o certo.

     Percebeu que o dia raiara. Parou subitamente.

     As crianças ficaram imóveis e olharam fixamente para ele, aguardando. Estavam prontas para qualquer coisa; nada mais era anormal.

     - Eu não devia ter deixado o bebê - disse Tom.

     - Mas nós não podemos alimentá-lo - retrucou Alfred. - Ele ia morrer.

     - Mesmo assim eu não deveria tê-lo deixado.

     - Vamos voltar - disse Martha.

     Tom ainda hesitou. Voltar agora seria admitir que tinha errado abandonando o bebê. Mas era verdade. Ele errara. Tom virou-se.

     - Está bem - disse. - Vamos voltar.

     Agora todos os perigos que antes tentara não levar em conta subitamente pareciam mais prováveis. Na certa uma raposa já farejara o bebê e o arrastara para sua toca.

     Ou até mesmo um lobo. Os javalis eram perigosos, muito embora não comessem carne. E o que dizer das corujas? Uma coruja podia não carregar um bebê, mas era capaz de bicar-lhe os olhos...

     Caminhou mais depressa, sentindo a cabeça meio tonta, de exaustão e cansaço. Martha teve que correr para emparelhar com o pai, mas não reclamou.

     Receava o que talvez visse quando retomasse à sepultura. Os predadores eram impiedosos, e sabiam muito bem quando uma criatura viva estava indefesa.

     Não tinha certeza de quanto haviam andado: perdera toda a noção de tempo. A floresta, de ambos os lados, não parecia familiar, muito embora tivesse acabado de passar por ali. Procurou ansiosamente o lugar onde cavara a sepultura. com certeza o fogo não podia ter apagado - a fogueira que armaram era tão alta!... Examinou as árvores, procurando as folhas características do castanheiro. Passaram por um desvio lateral de que não se lembrava, e começou a perguntar loucamente se não seria possível que já houvesse passado pelo túmulo sem vê-lo; foi então que notou um fraco clarão alaranjado mais à frente.

     Seu coração pareceu falhar. Apertou o passo e semicerrou os olhos. Sim, era uma fogueira. Saiu correndo. Ouviu Martha gritar, como se achasse que ele a estivesse abandonando, e exclamou por cima do ombro:

     - Estávamos lá! - Ouviu as duas crianças correndo atrás dele.

     Atingiu o castanheiro, o coração disparado no peito. O fogo crepitava vivamente. Ali estava o pedaço de chão ensanguentado onde Agnes se esvaíra até morrer. Ali estava o túmulo, um monte de terra recentemente escavada sob o qual a mulher jazia agora. E, em cima do túmulo... nada.

     Tom teve a impressão de que não podia enxergar com clareza. Tornou-se difícil pensar direito. Sabia agora que havia feito uma coisa horrível, abandonando o garoto ainda vivo. Quando soubesse que estava morto seria capaz de descansar. Mas ainda podia estar vivo em alguma parte - em algum lugar nas proximidades. Decidiu andar em círculos em torno daquele ponto e procurar.

     - Aonde você está indo? - perguntou Alfred.

     - Temos que encontrar o bebê - respondeu ele, sem olhar para trás. Caminhou em torno da pequena clareira, procurando embaixo dos arbustos, sentindo-se ainda ligeiramente tonto e fraco. Não viu nada, nem sequer uma pista que lhe indicasse a direção em que o lobo poderia haver levado a criança. Agora tinha certeza de que era um lobo.

     A toca da fera devia estar perto.

     - Temos que percorrer um círculo maior - disse às crianças.

     Mais uma vez foi na frente, caminhando mais longe do fogo, abrindo o caminho por entre os arbustos e o mato que crescia sob eles. Estava começando a sentir-se confuso, mas conseguiu conservar a mente concentrada numa única coisa, a necessidade imperiosa de encontrar o bebê. Não estava sofrendo agora, só sentia uma determinação  feroz e colérica e, bem no fundo, a aterradora certeza de que tudo aquilo era sua culpa. Andou às tontas, esquadrinhando tudo com o olhar, parando a todo instante para ver se ouvia o choro monótono e inconfundível de um recém-nascido; porém quando ele e as crianças ficavam quietos, a floresta permanecia em silêncio.

     Perdeu a noção do tempo. Os círculos de raios cada vez maiores o levaram de volta à estrada em dados intervalos, mas depois começou a achar que os intervalos haviam aumentado. Em certo ponto ele se perguntou por que não tinha esbarrado na cabana do guarda florestal. Ocorreu-lhe vagamente que se perdera, e que talvez não estivesse mais circulando em torno da sepultura, e sim vagando na floresta de modo mais ou menos aleatório; na realidade, contudo, não importava muito, de modo que prosseguiu na busca.

 

     - Pai - disse Alfred.

     Tom o fitou, irritado porque interrompera sua concentração. O rapaz carregava Martha, que parecia ter adormecido.

     - O que é? - perguntou Tom.

     - Podemos descansar?

     O pai hesitou. Não queria parar, mas o garoto parecia prestes a desmaiar.

     - Está bem - concordou relutantemente. - Mas não por muito tempo.

     Estavam numa elevação. Poderia haver um regato ali embaixo. Pegou Martha e desceu com ela no colo. Como esperava, encontrou um pequeno regato de águas claras, com gelo nas bordas. Deitou Martha na margem. Ela não acordou. Ele e Alfred se ajoelharam e beberam água gelada, com as mãos em concha.

     O rapaz deitou-se ao lado da irmã e fechou os olhos. Tom verificou onde estava, olhando em torno. Era uma clareira atapetada de folhas caídas. As árvores à sua volta eram todas baixas, carvalhos resistentes, os galhos desfolhados se entrelaçando na parte superior. Tom atravessou a clareira, pensando em procurar o bebê atrás das  árvores, mas quando chegou ao outro lado sentiu fraqueza nas pernas e se viu obrigado a sentar abruptamente.

     Já era pleno dia, mas havia névoa e não parecia mais quente que à meia-noite. Ele tremia de maneira incontrolável. Percebeu então que estivera andando só com a túnica de baixo. Tentou se lembrar do que teria acontecido com o manto, mas não conseguiu. Ou a neblina ficara mais espessa, ou ocorrera algo de estranho com a sua visão, pois não conseguiu mais ver as crianças do outro lado da clareira. Quis se levantar e ir até ali; porém, havia algo errado com as suas pernas.

     Em seguida um sol fraco atravessou as nuvens e logo depois veio o anjo.

     Atravessou a clareira vinda do leste, vestida com um manto comprido, de lã alvejada, quase branca. Observou-a aproximando-se sem surpresa ou curiosidade. Ele estava além do espanto e do medo. Fitou-a com o mesmo olhar inerte, apático e sem emoções com que examinara os troncos imponentes dos carvalhos ali em volta. Seu rosto oval era emoldurado por uma abundante cabeleira escura, e o manto escondia seus pés, de modo que a impressão era de que deslizava sobre as folhas mortas. Parou em frente a ele, e seus olhos dourados pareciam enxergar-lhe a alma e compreender sua dor. Ela lhe pareceu familiar, como se houvesse visto o seu retrato numa pintura em alguma igreja aonde tivesse ido recentemente. Então ela abriu o manto. Estava nua sob ele. Tinha o corpo de uma mulher nos seus vinte e cinco anos, de pele clara e mamilos cor-de-rosa. Tom sempre presumira que o corpo dos anjos seria imaculadamente glabro, mas este não era.

     Ela se abaixou sobre um dos joelhos, em frente a ele, que estava sentado de pernas cruzadas perto de um carvalho. Inclinando-se em sua direção, beijou-o na boca.

     Ele estava por demais atônito com os choques anteriores para se espantar até mesmo com aquilo. Ela o empurrou delicadamente até fazê-lo deitar de costas, abriu o manto e postou-se em cima dele, o corpo nu pressionando o seu. Tom sentiu-lhe o calor do corpo através da túnica. Em momentos parou de tremer.

     Pegou o rosto barbado de Tom entre as mãos e beijou-o de novo, sequiosamente, como se estivesse bebendo água fresca após um dia muito longo e seco. Em seguida correu as mãos pelos seus braços até os pulsos, depois levou as mãos dele aos seus seios. Tom agarrou-os, como num ato reflexo. Eram suaves e macios, e os mamilos se intumesceram sob as pontas dos seus dedos.

     No fundo da cabeça, ele concebeu a ideia de que estava morto. O céu não devia ser assim, sabia, mas pouco se incomodou. Suas faculdades críticas tinham sido desligadas há horas. O pouco discernimento que lhe restara desapareceu e Tom deixou o corpo assumir o comando. Retesou os músculos para cima, pressionando-lhe o corpo, tirando a própria força do calor e da nudez dela. O anjo abriu a boca e meteu a língua dentro da boca de Tom,  procurando a língua dele, e o homem reagiu avidamente.

     Ela afastou-se por um momento, erguendo o corpo sobre o seu. Ele ficou olhando, aturdido, quando levantou a saia da sua túnica até colocá-la na cintura e abriu as pernas sobre os seus quadris. Fixou seus olhos, com aquele olhar que via tudo, quando abaixou o corpo. Foi um momento fantástico quando seus corpos se encontraram.

     Ela hesitou, Tom sentiu que a penetrava. A sensação foi tão emocionante que ele teve a impressão de que ia explodir de prazer. Ela moveu os quadris, sorrindo para ele e beijando-lhe o rosto.

     Após algum tempo ela fechou os olhos e começou a gemer. Ele compreendeu que estava perdendo o controle. Ficou observando com deleitada fascinação. Ela soltou gritinhos ritmados, movendo-se cada vez mais depressa, e seu êxtase tocou Tom no fundo de sua alma ferida, a um tal ponto que ele não sabia se queria chorar de desespero, gritar de júbilo ou rir histericamente; e uma explosão de deleite sacudiu os dois, muitas vezes como árvores na ventania; até que por fim a paixão amainou e ela tombou sobre o seu peito.

     Ficaram deitados assim por longo tempo. O calor do corpo dela o aqueceu, e Tom mergulhou numa espécie de sono muito leve. Pareceu-lhe curto, e mais um devaneio que um sono de verdade; porém, quando abriu os olhos, suas ideias estavam claras.

     Olhou para a bela jovem deitada em cima do seu corpo, e deu-se conta imediatamente de que não era um anjo, e sim a fora-da-lei chamada Ellen, a quem conhecera naquela parte da floresta, no dia em que o porco fora roubado. Ela sentiu que ele se mexia e abriu os olhos, fitando-o com uma expressão onde se misturavam carinho e ansiedade.

     De súbito ele pensou nos filhos. Fez Ellen rolar de cima do seu corpo, delicadamente, e sentou-se. Alfred e Martha estavam deitados em cima das folhas, embrulhados nos mantos com o sol brilhando no rosto adormecido. Então os acontecimentos da noite anterior voltaram à sua memória, numa sequência de horror, e ele lembrou que Agnes estava morta e que o bebê - seu filho! - sumira; enterrou o rosto nas mãos.

     Ouviu Ellen dar um estranho assobio de dois tons. Ergueu a cabeça. Um vulto emergiu da floresta, e Tom reconheceu Jack, o filho dela de aparência estranha, com a pele muito branca, o cabelo alaranjado e os olhos azuis tão brilhantes que pareciam de um passarinho. Tom levantou-se, ajeitando a túnica, e Ellen também se ergueu, fechando o manto.

     O garoto estava carregando alguma coisa que foi mostrar a Tom. O construtor a reconheceu. Era a metade de seu manto, com que embrulhara o bebê antes de colocá-lo sobre a sepultura de Agnes.

     Sem compreender, olhou espantado primeiro para o garoto e depois para Ellen. Ela segurou suas mãos, encarou-o e disse:

     - O seu bebê está vivo.

     Tom não se atreveu a acreditar. Era muita felicidade para este mundo.

     - Não é possível - disse.

     - Está sim.

     Ele começou a sentir esperanças.

     - É verdade? - perguntou. - É verdade?

     Ela assentiu com a cabeça.

     - Verdade. Eu o levarei onde ele está.

     Tom percebeu que ela falava a sério. Uma onda de alívio e felicidade o envolveu. Caiu de joelhos no chão e, finalmente, como na abertura de uma comporta, ele chorou.

     - Jack ouviu o bebê chorar - explicou Ellen. - Ele estava a caminho do rio, para um lugar ao norte daqui onde é possível matar patos com pedradas, quando se tem boa pontaria. Não sabia o que fazer, de modo que foi me buscar. No entanto, quando estávamos indo para o lugar onde Jack encontrara a criança, vimos um padre, montando um palafrém, carregando o bebê.

     - Tenho que encontrá-lo - disse Tom.

     - Não entre em pânico - afirmou Ellen. - Sei onde ele está. O padre tomou uma trilha bem próxima da sepultura; um caminho que vai dar num pequeno mosteiro escondido na floresta.

     - O bebê precisa de leite.

     - Os monges têm cabras.

     - Graças a Deus - disse Tom fervorosamente.

     - Eu o levarei lá, depois que você tiver comido um pouco - prometeu ela. - Mas... - Ellen franziu a testa. - Não fale nada por enquanto com seus filhos a respeito do mosteiro.

     Tom deu uma olhada no outro lado da clareira. Jack tinha ido para junto deles, e os contemplava com seu olhar fixo e vazio.

     - Por que não?

     - Não estou bem certa... Acho apenas que pode ser melhor não falar.

     - Mas seu filho vai contar a eles.

     Ela sacudiu a cabeça.

     - Ele viu o padre, mas não creio que tenha deduzido o resto.

     - Está certo -, concordou Tom,  solene. - Se eu soubesse que você estava por perto, poderia ter salvo minha Agnes.

     Ellen sacudiu a cabeça, e o cabelo escuro dançou em torno do seu rosto.

     - Não há nada a ser feito, exceto conservar a mulher aquecida, e você fez isso. Quando a mulher sangra por dentro, ou pára e ela melhora, ou não pára e ela morre. - Os olhos de Tom encheram-se de lágrimas e ela acrescentou: - Desculpe.

     Tom fez que sim, aturdido.

     - Mas os vivos têm que cuidar dos vivos - prosseguiu ela -, e você precisa de comida quente e de um manto novo. - E levantou-se.

     Os dois acordaram as crianças. O construtor lhes disse que o bebê estava bem, que Ellen e Jack tinham visto um padre carregando-o. Acrescentou que iria com Ellen procurar o sacerdote mais tarde, mas primeiro ela lhes daria comida. As crianças aceitaram as espantosas notícias calmamente; nada poderia chocá-los agora. Seu pai não estava menos bestificado. As coisas estavam acontecendo depressa demais para que pudesse compreender todas as mudanças. Era como estar montado num cavalo que houvesse disparado; tudo acontecia tão rapidamente que não havia tempo para reagir aos fatos, e podia apenas segurarse com força e tentar não enlouquecer. Agnes dera à luz ao ar livre, numa noite muito fria; o bebê nascera miraculosamente saudável; tudo parecia ir bem, quando Agnes, alma gêmea de Tom,  se esvaíra em sangue até morrer nos seus braços e ele perdera a cabeça; o bebê tinha sido condenado e abandonado para morrer; depois eles haviam tentado encontrá-lo, e não conseguiram;

     Ellen aparecera, e Tom a confundira com um anjo, e tinham feito amor como num sonho; e ela dissera que o bebê estava vivo e bem. Será que a vida reduziria o ritmo para Tom um dia entender aqueles eventos horríveis?

     Eles partiram. Tom sempre presumira que os fora-da-lei vivessem na miséria, mas não havia nada de miserável em Ellen, e Tom se perguntou como seria a sua casa. Ela os conduziu por um caminho em ziguezague através da floresta. Apesar de não haver uma trilha, ela não hesitou uma única vez, atravessando riachos, desviando-se dos galhos baixos e transpondo um pântano congelado, um renque muito cerrado de arbustos e o tronco enorme de um carvalho caído. Finalmente dirigiu-se para uma moita de espinheiros e pareceu desaparecer dentro dela. Seguindo-a, Tom viu que, ao contrário da sua primeira impressão, havia uma passagem estreita e sinuosa por dentro do bosque. Os espinheiros se fecharam por cima da sua cabeça e ele teve que parar, aguardando que os olhos se adaptassem à semi-escuridão. Gradualmente, percebeu que se encontrava dentro de uma caverna.

     O ar estava quente. À sua frente havia um fogo aceso numa espécie de lareira de pedras chatas. A fumaça subia diretamente na vertical: em algum ponto havia uma chaminé natural. De cada lado de Tom havia uma pele de animal, um lobo e um cervo, presa nas paredes da caverna com cavilhas de madeira. Um pernil de cervo defumado estava pendurado no teto, acima da cabeça dele. Viu também uma cesta cheia de maçãs silvestres, velas de sebo nas saliências das paredes e palha seca no chão. Num canto do fogo havia uma panela, exatamente como seria numa casa comum; e, a julgar pelo cheiro, continha o mesmo tipo de sopa que todo mundo comia - verduras cozidas, pedaços de carne com osso e temperos. Tom ficou atônito. Aquela casa era mais confortável do que a de muitos servos.

     Além do fogo havia dois colchões feitos de pele de gamo e estofados, presumivelmente, com palha; e enrolada com todo o cuidado em cima de cada colchão, uma pele de lobo. Ellen e Jack dormiam ali, com o fogo entre eles e a boca da caverna. No fundo havia uma formidável coleção de armas e equipamentos de caça - um arco, algumas flechas, redes, armadilhas para coelho, diversas adagas de aspecto perigoso, uma lança de madeira, cuidadosamente trabalhada, com a ponta aguçada e endurecida a fogo; e, entre todos aqueles utensílios primitivos, três livros. Ficou estupefato: nunca tinha visto livros numa casa, que diria numa caverna; o lugar de livros era nas igrejas.

     Jack pegou uma tigela de madeira, mergulhou na panela e começou a tomar a sopa. Alfred e Martha ficaram olhando, com fome. Ellen dirigiu a Tom um mudo pedido de desculpas e disse:

     - Jack, quando há estranhos, primeiro damos comida para eles, e depois comemos.

     Jack arregalou os olhos para a mãe, aturdido.

     - Por quê?

     - Porque é a coisa educada a fazer. Dê às crianças um pouco de sopa.

     Jack não ficou convencido, mas obedeceu à mãe. Ellen deu uma tigela de sopa a Tom,  que se sentou no chão para toma-la. Tinha gosto de carne, e o aqueceu por dentro.

     Ellen passou uma pele por seus ombros. Depois que terminou o líquido, pegou as verduras e a carne com os dedos. Fazia semanas que não comia carne. Aquela parecia ser de pato - presumivelmente abatido por Jack com pedras e uma funda.

     Comeram até que a panela ficou vazia; então Alfred e Martha se deitaram no chão forrado de palha. Antes que adormecessem, Tom lhes disse que ia com Ellen procurar o padre, e ela disse para Jack ficar e cuidar deles até que os adultos voltassem. As duas crianças exaustas assentiram com a cabeça e fecharam os olhos.

     Ambos saíram, Tom envergando a pele que Ellen lhe dera sobre os ombros, para se manter aquecido. Assim que estavam do lado de fora, ela parou, virou-se para ele, puxou-lhe a cabeça para junto da sua e o beijou na boca.

     - Eu o amo - disse arrebatadamente. - Amei-o desde o primeiro momento em que o vi. Sempre quis um homem que pudesse ser forte e delicado, e achava que isso não existisse. Então o conheci. Quis você para mim. Mas pude ver que amava sua esposa. Meu Deus, como a invejei! Sinto muito que ela tenha morrido, sinto muito mesmo, porque posso ver a dor nos seus olhos, e todas as lágrimas esperando para serem derramadas, e parte o meu coração vê-lo tão triste. Agora que ela se foi, porém, quero você para mim.

     Tom não sabia o que dizer. Era difícil acreditar que uma mulher tão bonita, decidida e auto-suficiente houvesse se apaixonado por ele à primeira vista; e era mais difícil ainda saber como ele próprio se sentia. Estava devastado pela perda de Agnes - Ellen tinha razão ao falar das lágrimas que não derramara, podia sentir o peso delas nos olhos. Mas também estava consumido de desejo por ela, com seu corpo maravilhoso e quente, seus olhos dourados e sua sensualidade incontida. Sentiu-se terrivelmente culpado por desejá-la com tanto ardor, quando Agnes estava apenas há algumas horas no túmulo.

     Ele a encarou, e mais uma vez os olhos dela enxergaram seu coração.

     - Não diga nada. Você não tem que se sentir culpado. Sei que a amava. Ela sabia também, garanto. Você ainda a ama... claro que sim. E sempre a amará.

     Ela lhe falara para não dizer nada, e, de qualquer modo, não tinha mesmo nada a dizer. Estava bestificado com aquela mulher extraordinária. Parecia fazer tudo ficar certo. De algum modo, o fato de dar a impressão de saber tudo o que se passava no seu coração fazia com que se sentisse melhor, como se agora não houvesse mais nada de que se envergonhar. Ele suspirou.

     - Assim é melhor - disse ela. Pegou-o pela mão e os dois saíram juntos.

     Atravessaram a floresta virgem por quase uma milha até chegarem à estrada. Enquanto andavam, Tom olhava para o rosto de Ellen, ao seu lado. Recordava-se de que, ao encontrá-la pela primeira vez, só não a considerara bonita por causa dos seus olhos estranhos. Não podia entender como achara uma coisa dessas. Agora via aqueles olhos assombrosos como a expressão acabada de sua personalidade única. Parecia absolutamente perfeita, e a única coisa que o intrigava era por que estava com ele.

     Caminharam por três ou quatro milhas. Ele ainda estava cansado, mas a sopa lhe dera forças; e embora confiasse totalmente em Ellen, queria ver o bebê com os próprios olhos.

     Quando puderam distinguir o mosteiro através das árvores, Ellen disse:

     - Não vamos revelar quem somos aos monges logo de início.

     Ele ficou confuso.

     - Por quê?

     - Você abandonou um bebê. Isso é considerado assassinato. Vamos nos esconder entre as árvores e espiar que tipo de gente eles são.

     Tom não achava que fosse se meter em encrenca, dadas as circunstâncias, mas não fazia mal ser cauteloso, de modo que assentiu e seguiu-a por sob as árvores. Poucos momentos depois estavam deitados na orla da clareira.

     Era um mosteiro muito pequeno. Havia apenas duas construções de pedra, a capela e o dormitório; o resto era de madeira e de taipa: cozinha, estábulos, celeiro e uma série de galpões menores, destinados à atividade agrícola. O lugar tinha a aparência limpa e bem conservada e dava a impressão de que os monges se dedicavam tanto à agricultura quanto às orações.

     Não havia muita gente à vista.

     - A maioria dos monges foi trabalhar - disse Ellen. - Eles estão construindo um celeiro no topo da colina. - Deu uma oIhada no céu. - Voltarão lá pelo meio-dia, para o almoço.

     Tom examinou a clareira. À direita, parcialmente escondidos por um pequeno rebanho de cabras amarradas, viu dois vultos.

     - Olhe - disse, apontando. Enquanto examinavam as duas figuras, ele viu mais alguma coisa. - O homem que está sentado é um padre e...

     - Está com alguma coisa no colo.

     - Vamos chegar mais perto.

     Deslocaram-se por entre o mato, margeando a clareira, e emergiram num ponto próximo das cabras. O coração de Tom veio à boca, enquanto olhava para o padre sentado num toco de árvore. Ele tinha um bebê no colo, o bebê de Tom,  que sentiu um nó na garganta. Era verdade, era verdade mesmo; o bebê sobrevivera. Sentiu ímpetos de lançar os braços em torno do sacerdote e abraçá-lo.

     Havia um jovem monge com o padre. Olhando mais atentamente, viu que ele estava mergulhando um trapo num balde de leite - leite de cabra, presumivelmente - e pondo a pontinha encharcada dentro da boca do bebê. Muito engenhoso.

     - Bem - disse Tom,  apreensivo. - É melhor eu ir até lá dizer o que fiz e pegar meu bebê de volta.

     Ellen o encarou com um brilho de sinceridade nos olhos.

     - Pense um momento, Tom - disse. - O que você vai fazer depois?

     Ele não percebeu aonde ela estava querendo chegar.

     - Peço leite aos monges - respondeu. - Eles podem ver que sou pobre. Costumam fazer caridade.

     - E depois?

     - Bem, espero que me dêem leite suficiente para três dias; assim poderei chegar a Winchester.

     - E depois disso? - insistiu ela. - Como alimentará o bebê então?

     - Bem, Vou procurar trabalho...

     - Você está procurando trabalho desde a última vez que o vi, no fim do verão - disse ela. Parecia um pouco zangada com Tom,  que não conseguia ver qual seria o motivo.

     - Você não tem dinheiro nem ferramentas - prosseguiu ela. - O que acontecerá ao bebê se não encontrar trabalho em Winchester?

     - Não sei - respondeu ele. Sentiu-se magoado com Ellen, por falar tão asperamente. - O que vou fazer... Viver como você? Não posso matar patos com uma funda. Sou construtor.

     - Você podia deixar o bebê aqui - disse ela. Tom ficou estupefato.

     - Deixar o bebê? Quando acabei de encontrá-lo?

     - Você teria certeza de que ele estaria aquecido e alimentado. Não precisaria carregá-lo enquanto procura trabalho. E quando achasse alguma coisa poderia voltar e apanhar seu filho.

     O instinto de Tom rebelou-se contra toda aquela ideia.

     - Não sei - disse. - O que os monges pensariam de mim?

     - Eles já sabem que você abandonou o bebê - disse ela impacientemente. - A questão é saber se confessa agora ou mais tarde.

     - Os monges sabem como tomar conta de crianças?

     - Sabem tanto quanto você.

     - Duvido.

     - Bem, eles conseguiram alimentar um recém-nascido que só sabe sugar.

     Tom começou a ver que ela estava com a razão. Por mais que ansiasse por segurar o minúsculo fardo nos braços, não podia negar que os monges eram mais capazes de cuidar do bebê do que ele. Não tinha dinheiro nem comida, ou qualquer perspectiva certa de conseguir trabalho.

     - Abandoná-lo de novo... - disse tristemente. - Suponho que é o que tenho a fazer. - Ficou parado onde estava, com os olhos fixos na criancinha no colo do padre.

     Tinha cabelo escuro, como o de Agnes. Tom se decidira, mas não conseguia sair dali.

     Nesse momento um grande grupo de monges apareceu na extremidade mais distante da clareira, uns quinze ou vinte deles, carregando machados e serrotes, e de repente ambos passaram a correr o risco de ser vistos. Mergulharam no mato. Tom não pôde mais ver o bebê.

     Afastaram-se de gatinhas por entre os arbustos. Quando chegaram à estrada, romperam a correr, por trezentas ou quatrocentas jardas, de mãos dadas; depois Tom não conseguiu mais, exausto. Estavam a uma distância segura, contudo. Saíram da estrada e encontraram um lugar onde seria possível descansar sem ser vistos.

     Sentaram-se numa rampa gramada, com manchas de sombra misturadas à luz do sol que a iluminava. Tom olhou para Ellen, deitada de costas, respirando com dificuldade, o rosto congestionado, os lábios sorrindo para ele. Sua túnica se abrira na gola, revelando o pescoço e a ondulação de um seio. De repente ele sentiu uma verdadeira compulsão de ver sua nudez de novo, e o desejo foi muito mais forte que a culpa que o acometeu. Virou-se para beijá-la e hesitou, porque ela era linda. Quando falou, não foi premeditado, e suas próprias palavras o tomaram de surpresa.

     - Ellen, você quer ser minha mulher?

    

     Peter de Wareham era um criador de casos nato.

     Fora transferido da casa de sua mãe em Kingsbridge para o pequeno mosteiro na floresta, e era fácil saber por que o prior de Kingsbridge se sentira ansioso para se ver livre dele. Alto e esguio, com quase trinta anos, tinha intelecto poderoso e maneiras sarcásticas, além de viver em estado permanente de justificada indignação.

     Quando chegou e começou a trabalhar nos campos, imprimiu um ritmo furioso e depois acusou os outros de indolência. No entanto, para sua surpresa, a maioria dos monges conseguira acompanhá-lo, e eventualmente os mais jovens foram capazes de vencê-lo. Procurara então outro vício que não a indolência, e escolheu a gula.

     Começou por comer só metade do seu pão e nem um pouco da carne. Bebia água dos riachos durante o dia, diluía a cerveja e recusava o vinho. Repreendeu um saudável e jovem monge que pediu mais sopa, e reduziu a lágrimas um garoto que, de brincadeira, bebeu o vinho de outro.

     Os monges exibiam poucos indícios de gula, pensava o prior Philip enquanto caminhava de volta do topo da colina para o mosteiro, na hora da refeição. Os jovens eram magros e musculosos, e os mais velhos, rijos e queimados de sol. Nenhum possuía a palidez e a suavidade das formas arredondadas de quem tinha muito que comer e nada que fazer. Philip achava que todos os monges deviam ser magros. Monges gordos faziam com que os pobres invejassem e odiassem os servos de Deus.

     Caracteristicamente, Peter disfarçara sua acusação sob a forma de uma confissão.

     "Tenho sido culpado do pecado da gula", dissera naquela manhã, quando faziam uma pausa, sentados sobre as árvores que tinham derrubado, comendo pão de centeio e bebendo cerveja. "Desobedeci à regra de são Bento, que diz que os monges não devem comer carne nem beber vinho." Fitou os outros ao redor, a cabeça erguida e os olhos escuros cintilando de orgulho, e por fim pousou-os demoradamente em Philip. "E todos aqui são culpados do mesmo pecado", finalizara.

     Era muito triste que Peter fosse daquele jeito, pensara Philip. O homem era inteligente e dedicado às obras de Deus, e tinha grande força de vontade. Mas parecia ter uma necessidade compulsiva de se sentir especial e de ser notado pelos outros; e isso o levava a fazer cenas. Era uma amolação, mas Philip o amava tanto quanto a qualquer outro monge, pois podia ver, por trás da arrogância e do sarcasmo, uma alma atormentada que não podia realmente acreditar que alguma pessoa se incomodasse com ele.

     "Isso nos dá uma oportunidade para recordar o que são Bento disse a esse respeito. Lembra-se das palavras exatas, Peter?", perguntara Philip.

     "Ele diz: "Todos, menos os doentes, devem se abster de carne", e "O vinho não é, de modo algum, a bebida dos monges" ", respondera Peter.

     O prior balançara a cabeça. Conforme suspeitara, o monge não conhecia a regra tão bem quanto ele. "Quase correto, Peter. Só que o santo se referiu à "carne dos animais de quatro patas", e mesmo assim fez exceções, não apenas para os doentes, como também para os fracos. O que ele queria dizer quando fala em fracos? Aqui, na nossa pequena comunidade, adotamos o ponto de vista de que os homens que se enfraquecem pelo fatigante trabalho nos campos podem precisar comer carne de vez em quando para conservar as forças."

     Peter ouvira isso em silêncio amuado, a testa franzida em desaprovação, as sobrancelhas escuras e grossas repuxadas para cima da ponte do nariz grande e adunco, o rosto uma máscara de desafio contido.

     "No tocante ao vinho", continuara Philip, "diz o santo: "No nosso entendimento o vinho não é a bebida dos monges, em absoluto". O emprego da expressão "nosso entendimento" significa que ele não endossa totalmente a proibição. Diz também que um quartilho de vinho por dia deve ser o suficiente para qualquer um. E nos adverte para não beber até a saciedade. Está claro, não é mesmo, que ele não espera que os monges se abstenham totalmente?"

     "Mas ele diz que a frugalidade deve ser seguida em tudo."

     "E você diz que não somos frugais aqui?", indagara Philip.

     "Digo", afirmara Peter, numa voz metálica.

      "Que aqueles a quem Deus proporcionou a graça da abstinência saibam que receberão a recompensa adequada ", citou Philip. "Se acha que a comida aqui é farta demais, pode comer menos. Lembre-se de outra coisa que são Paulo diz."

     E cita a Primeira epístola aos coríntios:"

     "Todos têm sua graça adequada recebida de Deus; uns têm essa, outros, aquela". E, mais uma vez, é são Bento quem nos diz: "Por esse motivo a quantidade de comida de outra pessoa não pode ser determinada sem uma certa apreensão". Por favor, lembre-se disso, Peter, quando jejuar e meditar sobre o pecado da gula".

     A essa altura tinham voltado ao trabalho, Peter com um ar de mártir. Philip percebeu que ele não ia ser silenciado assim tão facilmente. Dos três votos dos monges, pobreza, castidade e obediência, o que dava problema a Peter era o da obediência.

     Havia modos de lidar com monges desobedientes, claro: confinamento solitário, pão e água, açoite e, em último caso, excomunhão e expulsão. Philip normalmente não hesitava em usar essas punições, sobretudo quando um monge parecia estar testando sua autoridade. Em consequência disso, viam-no como um disciplinador severo. Na verdade, porém, ele detestava impor punições - traziam desarmonia à irmandade monástica e tornavam a todos infelizes. De qualquer modo, no caso de Peter, uma punição de nada adiantaria - ao contrário, só serviria para torná-lo mais orgulhoso e intolerante. Philip precisava encontrar um meio de controlar o monge e suavizá-lo ao mesmo tempo. Não seria fácil. Mas se todas as coisas fossem fáceis, o homem não precisaria da ajuda de Deus.

     Atingiram a clareira onde ficava o mosteiro. Ao caminharem através do espaço aberto, Philip viu o irmão John acenar energicamente para eles do cercado das cabras.

     Ele era chamado Johnny Oito Pence e não era muito bom da cabeça. O prior gostaria de saber por que estava tão excitado. Johnny estava acompanhado por um homem com hábito de sacerdote. Parecia vagamente familiar, e Philip apressou-se na sua direção.

     O padre era um homem baixo e compacto, com vinte e tantos anos, cabelo preto cortado rente e olhos azuis brilhantes, que cintilavam de vívida inteligência. Para Philip, olhá-lo foi como se estivesse se mirando num espelho. Era, percebeu com um choque, seu irmão mais moço, Francis.

     E Francis tinha no colo um bebê recém-nascido.

     Philip não sabia o que era mais surpreendente, se o irmão ou o bebê. Os monges todos se reuniram à volta. Francis ergueu-se e entregou o bebê a Johnny, e Philip o abraçou.

     - O que está fazendo aqui? - perguntou o prior, deleitado. - E por que está com um bebê?

     - Eu lhe direi mais tarde por que estou aqui - disse ele. - Quanto ao bebê, encontrei-o na floresta, sozinho, perto de uma fogueira. - Francis parou.

     - E...  - instou Philip.

     Francis deu de ombros.

     - Não posso lhe dizer mais do que isso, porque é tudo o que sei. Eu esperava chegar aqui ontem à noite, mas não consegui, e por isso dormi na cabana de um guarda florestal. Saí esta madrugada, e estava me deslocando pela estrada quando ouvi o choro de um bebê. Um momento depois o vi. Apanhei-o e trouxe-o para cá. É toda a história.

     Philip olhou, incredulamente, para a trouxinha no colo de Johnny. Ergueu uma das mãos, meio indeciso, e levantou um canto do cobertor. Viu um rosto cor-de-rosa todo enrugado, uma boca aberta sem dentes e uma cabecinha careca - a miniatura de um monge velho. Desembrulhou o fardo um pouco mais e viu os ombros minúsculos e frágeis, os braços se agitando e os punhos cerrados com força. Examinou de perto o coto do cordão umbilical que pendia do umbigo da criança. Um pouco nauseante. Aquilo seria natural?, perguntou-se Philip. Parecia uma ferida que estava cicatrizando bem e que ficaria melhor ainda se não mexessem nela. Puxou o cobertor um pouco mais.

     - Um menino - disse, pigarreando meio encabulado, e cobriu o bebê de novo. Um dos noviços deu uma risadinha. Mas o que, afinal, Vou fazer com isto aí?, pensou. Alimentá-lo?

     O bebê chorou, e o seu choro tocou as cordas do coração de Philip, como um hino bem-aventurado.

     - É fome - disse, ao mesmo tempo em que pensava: Como sei que é fome?

     - Não podemos alimentá-lo - disse um dos monges.

     O prior estava prestes a perguntar o motivo, quando se deu conta dele - não havia mulheres por muitas e muitas milhas.

     Johnny, no entanto, já resolvera o problema, Philip viu agora... Sentara-se no cepo com o bebê no colo. Tinha na mão uma toalha com um canto torcido em espiral. Mergulhou esse pedaço num balde de leite, deixou a toalha ficar encharcada e colocou na boca do menino. O bebê abriu a boca, sugou a toalha e engoliu o leite.

     Philip teve ímpetos de bater palmas.

     - Muito inteligente, Johnny - disse, surpreso. O monge sorriu.

     - Já fiz isso antes, quando uma cabra morreu antes de o cabrito desmamar - disse ele, orgulhoso.

     Todos os monges observaram atentamente Johnny repetir o gesto simples de mergulhar a toalha e deixar o bebê sugar. Quando tocava os lábios do menino com a ponta da toalha, alguns dos monges abriam a boca, notou Philip, achando graça. Era uma maneira lenta de alimentar o bebê, mas alimentar bebês é sem dúvida uma tarefa lenta.

     Peter de Wareham, que sucumbira à fascinação geral com o bebê e, consequentemente, esquecera de fazer críticas por algum tempo, recuperou-se e disse:

     - Daria menos trabalho encontrar a mãe do menino.

     - Duvido - disse Francis. - A mãe provavelmente não é casada e incorreu em transgressão moral. Imagino que seja jovem. Talvez tenha conseguido manter escondida a gravidez; então, quando a hora do parto estava próxima, foi para a floresta e acendeu uma fogueira; deu à luz sozinha, abandonou a criança aos lobos e voltou para o lugar de onde viera. Fará tudo para não ser encontrada.

     O bebê adormecera. Num impulso, Philip tirou-o de Johnny. Colocou-o junto ao peito, apoiando-o com uma das mãos, e embalou-o.

     - Pobrezinho - disse. - Pobrezinho, pobrezinho. - O impulso de proteger e cuidar do bebê invadiu-o como uma onda. Notou que os monges o observavam espantados, atônitos com a sua súbita exibição de ternura. Nunca o tinham visto acariciar alguém, é claro, pois a atração física era estritamente proibida no mosteiro. Obviamente o tinham imaginado incapaz disso. Pois muito bem, pensou, agora sabiam a verdade.

     - Então vamos ter que levar a criança para Winchester e tentar encontrar uma mãe adotiva - disse Peter de Wareham.

     Se aquilo houvesse sido proferido por qualquer outro, Philip talvez não tivesse tido a mesma rapidez para contradizê-lo; porém como foi Peter, o prior falou apressadamente e sua vida nunca mais foi a mesma depois:

     - Não vamos dá-lo a uma mãe adotiva - afirmou, decidido. - Esta criança é um presente de Deus. - Ele olhou em torno. Os monges estavam com os olhos arregalados, pendurados em suas palavras. - Nós mesmos vamos tomar conta dele prosseguiu. - Vamos alimentá-lo, ensiná-lo e criá-lo, fazendo com que siga os caminhos do Pai. Depois, quando for homem, ele se tornará um monge e assim o devolveremos a Deus.

     Houve um silêncio atônito, que Peter rompeu, dizendo raivosamente:

     - É impossível! Um bebê não pode ser criado por monges!

     Philip procurou o olhar do irmão e os dois sorriram, compartilhando lembranças. Quando falou de novo, sua voz estava carregada com o peso do passado.

     - Impossível? Não, Peter. Pelo contrário, estou absolutamente certo de que pode ser feito, como também meu irmão. Sabemos por experiência própria. Não é mesmo, Francis?

     No dia que agora via como tendo sido o último, seu pai chegara em casa ferido.

     Philip fora o primeiro a vê-lo, subindo a cavalo a trilha sinuosa que buscava a pequena aldeia na montanhosa Gales do Norte. Com seis anos de idade, correu ao seu encontro, como fazia normalmente; dessa vez porém o pai não pegou seu filhinho para colocá-lo na garupa, na sua frente. Ele vinha devagar, recurvado sobre a sela, segurando as rédeas na mão direita, o braço esquerdo pendurado, sem força. Seu rosto estava pálido, e as roupas, manchadas de sangue. Philip ficou ao mesmo tempo intrigado e assustado, pois nunca tinha visto seu pai aparentar fraqueza.

     "Traga sua mãe", disse ele.

     Ao entrarem com ele dentro de casa, mamãe cortou-lhe a camisa. Philip ficou horrorizado; a visão de sua mãe tão parcimoniosa arruinando, por vontade própria, uma roupa boa, era mais chocante que o sangue. "Não se preocupem comigo agora", disse papai, mas seu berro normal enfraquecera até virar um murmúrio e ninguém lhe deu atenção - outra coisa chocante, pois normalmente sua palavra era lei. "Deixem-me, e façam com que todos se reunam lá em cima no mosteiro", ordenou ele. "Os malditos ingleses logo estarão aqui." Havia um mosteiro com uma igreja em cima da colina, mas Philip não foi capaz de entender por que teriam de ir para lá se ainda não era domingo. Mamãe disse: "Se continuar perdendo sangue, não irá mais para lugar algum, nunca". Mas tia Gwen disse que ela iria dar o alarme e saiu.

     Anos mais tarde, quando pensava nos acontecimentos que se seguiram, Philip se dava conta de que naquele momento todos tinham se esquecido dele e do seu irmão de quatro anos, Francis, e ninguém se lembrou de levá-los para a segurança do mosteiro. As pessoas pensavam nos próprios filhos e presumiram que Philip e Francis estavam bem porque estavam com os pais; mas papai estava se esvaindo em sangue e mamãe tentava salvá-lo, e foi assim que os ingleses pegaram os quatro.

     Nada na curta experiência de vida de Philip o preparara para o aparecimento dos dois homens de armas que abriram a porta aos pontapés e irromperam dentro da casa de um único cômodo. Em outras circunstâncias eles não teriam sido tão apavorantes, pois eram daquele tipo de adolescentes grandes e desajeitados que zombavam de mulheres velhas, abusavam de judeus e brigavam aos socos nas proximidades das cervejarias à meia-noite. Naquele dia, porém (Philip entendeu isso anos depois, quando finalmente foi capaz de pensar com objetividade sobre aquele dia), os dois estavam tomados pelo gosto do sangue. Haviam estado numa batalha, onde homens gritavam em agonia e amigos caíam mortos, da mesma forma como tinham sentido medo e, literalmente, perdido o juízo. Mas haviam combatido na batalha e sobrevivido, e agora estavam envolvidos na feroz perseguição aos inimigos; nada poderia satisfazê-los senão mais sangue, mais gritos, mais ferimentos e mais morte; e tudo isso estava escrito em seu rosto contorcido quando entraram ali como raposas num galinheiro.

     Eles se moveram muito depressa, mas Philip pôde se lembrar para sempre de cada passo que deram, como se tudo tivesse demorado muito tempo. Ambos usavam uma armadura leve, apenas uma cota de malha e um capacete de couro com faixas de ferro. Ambos traziam a espada desembainhada. Um era feio e vesgo, tinha nariz grande e adunco e mostrava os dentes numa assustadora careta de macaco. A opulenta barba do outro estava manchada de sangue - de outra pessoa, com certeza, porque ele não parecia estar ferido. Os dois examinaram o aposento sem se deter. Seus olhos impiedosos e calculistas puseram de lado Philip e Francis, repararam em sua mãe e se concentraram em seu pai. Estavam praticamente em cima dele antes que alguém pudesse se mexer.

     Mamãe estava inclinada sobre ele, amarrando uma bandagem no seu braço esquerdo. Endireitou-se e se virou para os intrusos, os olhos faiscando de coragem desesperada.

     Papai pôs-se de pé com um pulo e levou a mão sã ao punho da espada. Philip deixou escapar um grito de pavor.

     O homem feio ergueu a espada e golpeou com o punho a cabeça de mamãe, empurrando-a para um lado sem feri-la, provavelmente porque não queria correr o risco de ter a lâmina de papai enfiada no corpo. Philip só fez essa análise anos depois; naquela ocasião limitou-se a correr para sua mãe, não compreendendo que ela não podia mais protegê-lo. Mamãe tropeçou, atônita, e o homem feio passou por ela, levantando a espada de novo. Philip agarrou-se à sua saia ao mesmo tempo em que ela cambaleava, em transe; porém ele não pôde deixar de olhar para o pai.

     Papai tirou a espada da bainha e levantou-a defensivamente. O homem feio bateu de cima para baixo e as duas lâminas se chocaram retinindo como um sino. Como todos os meninos, Philip pensava que o pai fosse invencível; e aquele foi o momento em que aprendeu a verdade. Papai estava fraco com a perda de sangue. Quando as duas espadas se chocaram, a dele caiu no chão; o atacante levantou a sua só um pouco e golpeou de novo, rapidamente. A lâmina pegou onde os grandes músculos do pescoço de papai se implantavam nos ombros largos. Philip começou a gritar quando viu a lâmina afiada entrar no corpo. O homem feio puxou o braço para trás e enfiou a ponta da espada na barriga de papai.

     Paralisado pelo terror, Philip ergueu os olhos para a mãe. No instante em que a encarou, o outro homem, o barbado, golpeou-a. Ela caiu no chão ao lado de Philip, com sangue jorrando de uma ferida na cabeça. O homem barbado mudou a empunhadura, revertendo-a de modo a apontar a espada para baixo e segurá-la com ambas as mãos; depois ergueu-a bem alto, quase como um homem prestes a cravar a espada em si próprio, e abaixou-a com força. Ouviu-se um repugnante barulho de osso quebrado quando a ponta entrou no peito de mamãe. A lâmina foi fundo; tão fundo (Philip notou isso, mesmo estando consumido de pavor, cego e histérico) que devia ter furado suas costas e se enterrado no chão, prendendo-a como um prego.

     Philip, desvairado, olhou para o pai novamente. Viu-o tombar para a frente, cair sobre a espada do homem feio e dar uma golfada de sangue. Seu agressor recuou e puxou a espada, tentando soltá-la. Papai deu mais um passo, cambaleando, e permaneceu junto a ele. O homem feio deu um grito de raiva e torceu a espada na barrida de papai. Dessa vez ela saiu. Papai caiu no chão e colocou as mãos no abdómen aberto, como para tapar a ferida escancarada. Philip sempre imaginara o interior das pessoas como mais ou menos sólido, e ficou assombrado e nauseado com os feios tubos e órgãos que saíam do corpo do pai. O atacante levantou bem alto a espada, apontada para baixo, como o barbado fizera com mamãe, e desferiu o golpe final do mesmo modo.

     Os dois ingleses olharam um para o outro, e, bastante inesperadamente, Philip percebeu uma expressão de alívio em sua fisionomia. Juntos, eles se viraram e olharam para ele e para Francis. Um acenou com a cabeça e o outro deu de ombros, e Philip percebeu que iam matar a ele e a seu irmão, cortando-os ao meio com aquelas espadas afiadas, e quando se deu conta de quanto ia doer, o terror ferveu dentro dele até que teve a impressão de que sua cabeça fosse explodir.

     O homem com sangue na barba abaixou-se rapidamente e pegou Francis por um tornozelo. Segurou-o de cabeça para baixo no ar, enquanto o garotinho berrava pela mãe, sem compreender que estava morta. O homem feio arrancou a espada do corpo de papai e preparou-a para trespassar o coração de Francis.

     O golpe jamais foi desferido. Uma voz autoritária fez-se ouvir e os dois homens ficaram imóveis. O grito cessou, e foi quando Philip percebeu que era ele quem tinha estado gritando. Virou-se para a porta e viu o abade Peter, no seu hábito tecido em casa, com a ira de Deus nos olhos, empunhando uma cruz de madeira como uma espada.

     Quando Philip revivia aquele dia em seus pesadelos, e acordava suando e gritando no escuro, sempre conseguia se acalmar, e depois até mesmo relaxar e dormir de novo, forçando a cabeça a se fixar naquele quadro final e no modo como os gritos e as feridas tinham sido postos de lado pelo homem desarmado com a cruz.

     O abade Peter falou de novo. Philip não compreendia a língua que ele falava - inglês, claro -, mas o significado foi bem claro, porque os dois homens pareceram ficar envergonhados e o barbado colocou Francis no chão com delicadeza. Sempre falando, o monge entrou, caminhando decididamente. Os homens de armas recuaram um passo, quase como se tivessem medo dele - os dois de espada e armadura, ele com um hábito de lã e uma cruz! O abade deu as costas para os dois numa atitude de desprezo e agachou-se para falar com Philip. Sua voz soou naturalmente.

     "Qual é o seu nome?"

     "Philip."

     "Ah, sim, eu me lembro. E o do seu irmão?"

     "Francis."

     "Isso mesmo." O abade olhou para os corpos sangrando no chão. "Aquela é sua mãe, não é?"

     "É", respondeu Philip, em pânico ao apontar para o corpo do pai. "E aquele é papai!"

     "Eu sei", disse o religioso, com voz branda. "Você não deve chorar mais, deve responder às minhas perguntas. Compreende que eles estão mortos?"

     "Não sei", respondeu Philip, desesperadamente. Entendia que os animais morressem, mas aquilo podia acontecer com mamãe e papai?

     "É como ir dormir", disse o abade Peter.

     "Mas os olhos deles estão abertos!", berrou Philip.

     "Quietinho. É melhor fecharmos os olhos deles então."

     "É, sim", concordou Philip; sentiu-se como se aquilo fosse resolver alguma coisa.

     O abade Peter levantou-se, tomou os dois meninos pela mão e os levou até o corpo do pai. Ajoelhou-se e pegou a mão direita do mais velho na sua. "Vou mostrar como é", disse. Levou a mão de Philip até o rosto do homem morto, mas de repente a criança ficou com medo, porque o corpo parecia estranho, pálido, frouxo e horrivelmente ferido, e retirou a mão. Depois olhou preocupado para o abade Peter - um homem a quem ninguém desobedecia -, mas o religioso não estava com raiva dele. "Vamos", disse delicadamente, e pegou a mão de Philip de novo. Dessa vez o garoto não resistiu. Segurando seu dedo indicador, fez o garoto baixar a pálpebra do pai até encobrir o globo ocular, horrivelmente fixo. E, soltando a mão da criança disse: "Feche o outro olho". Sem ajuda agora, Philip adiantou-se, encostou o dedo na pálpebra do pai e fechou-a. Então sentiu-se melhor.

     "Vamos fechar os olhos da mamãe também?", perguntou o abade Peter.

     "Sim."

     Ajoelharam-se do lado do corpo dela. O religioso limpou o sangue do seu rosto com a manga do hábito.

     "E Francis?", perguntou Philip.

     "Talvez ele deva ajudar também", respondeu o abade.

     "Faça o que eu fiz", disse Philip ao irmão. "Feche os olhos da mamãe, como fechei os do papai, para que ela possa dormir."

     "Eles estão dormindo?", quis saber Francis.

     "Não, mas é como dormir", disse Philip, com a autoridade de quem sabia o que estava falando, "e por isso a gente tem que fechar os olhos dela."

     "Está bem, então", concordou Francis, e, sem hesitar, levantou a mãozinha gorda e fechou, cuidadosamente os olhos da mãe.

     Isso feito, o abade pegou a ambos no colo, um em cada braço, e sem mais um olhar para os dois homens de armas, carregou-os para fora da casa, e morro acima por toda a trilha íngreme que ia dar na proteção do mosteiro.

     Deu comida para eles na cozinha; depois, para que não ficassem entregues a seus pensamentos, disse que ajudassem o cozinheiro a preparar a ceia dos monges. No dia seguinte, levou-os para ver os corpos dos pais, lavados, vestidos e com as feridas limpas, ajeitadas e parcialmente escondidas, em caixões dispostos lado a lado na nave da igreja. Havia também diversos parentes dos garotos. Entretanto, nem todos os aldeões tinham conseguido chegar ao mosteiro a tempo de fugir ao exército invasor. O abade Peter levou-os ao funeral e fez questão de que vissem os dois caixões sendo baixados numa única sepultura. Quando Philip chorou, Francis também chorou. Alguém mandou que se calassem, mas o abade Peter disse: "Deixem-nos chorar". Só depois disso, quando os dois meninos já tinham levado ao coração a certeza de que os pais realmente haviam morrido e de que nunca mais voltariam, é que falou sobre o seu futuro.

     Entre os parentes, não havia uma única família que houvesse permanecido completa: em todos os casos, ou o pai ou a mãe tinham sido mortos. Não havia amigos para cuidar dos garotos. Restavam, desse modo, duas opções. Eles podiam ser dados, ou até mesmo vendidos, a um fazendeiro, que os usaria como mão-de-obra escrava até que tivessem idade e tamanho suficiente para fugir. Ou podiam ser dados a Deus.

     Não era um fato raro o ingresso de meninos pequenos num mosteiro. A idade usual era em torno dos onze anos, e o limite mínimo cerca de cinco, pois os monges não eram estruturados para cuidar de bebês. Às vezes os meninos eram órfãos, às vezes haviam perdido apenas um dos pais, e em outros casos os pais tinham filhos demais.

     Normalmente a família dava ao mosteiro uma substancial doação com a criança - uma fazenda, uma igreja ou até mesmo toda uma aldeia. Em caso de extrema pobreza, a doação podia ser dispensada. Como o pai de Philip deixara uma modesta fazenda, os meninos não eram um caso de caridade. O abade Peter propôs que o mosteiro tomasse conta dos meninos e da fazenda; os parentes que haviam sobrevivido concordaram; e o acordo foi sancionado pelo príncipe de Gwynedd, Gruffydap Cynan, humilhado por ora mas não permanentemente deposto pelo exército invasor do rei Henrique, que matara o pai de Philip.

     O abade sabia muitas coisas sobre sofrimento, mas apesar de toda a sua sabedoria não estava preparado para o que aconteceu com Philip. Após um ano mais ou menos, quando a dor parecia estar passando, a criança tornou-se possuída por uma raiva implacável. As condições de vida na comunidade instalada no cume da montanha não eram tão ruins que justificassem sua raiva: havia comida, roupa e um fogo aceso no dormitório, nos meses de inverno. Chegava a haver até mesmo um pouco de amor e afeição; a disciplina rigorosa e os rituais tediosos pelo menos contribuíam para a ordem e a estabilidade, mas Philip começou a agir como se tivesse sido injustamente aprisionado.

     Desobedecia às ordens, subvertia a autoridade dos monges encarregados da administração do mosteiro em todas as oportunidades, roubava comida, quebrava ovos, soltava cavalos, zombava dos enfermos e insultava os mais velhos. A única ofensa de que se abstinha era o sacrilégio, e por causa disso o abade lhe perdoava tudo mais. E no fim ele simplesmente parou. Num Natal, ao rememorar os doze anos anteriores, deu-se conta de que não passara uma só noite na cela do castigo em todo o ano.

     Não havia uma razão única para o seu retorno à normalidade. O fato de ter-se interessado pelas lições provavelmente ajudou. A teoria matemática da música fascinou-o, e até mesmo o modo como eram conjugados os verbos latinos tinha uma certa lógica satisfatória. Fora posto para trabalhar ajudando o despenseiro, o monge que tinha de prover todos os suprimentos de que o mosteiro precisasse, de sandálias a sementes; isso também atraiu seu interesse. Desenvolveu a admiração que se devota por um herói pelo irmão John, um monge jovem, musculoso e bonito, que parecia ser o supra-sumo da sabedoria, santidade, cultura e bondade. Seja por imitação de John, ou por uma inclinação sua, ou ambos, Philip começou a encontrar um pouco de consolo na rotina diária de orações e serviços religiosos. E assim, entrou na adolescência com a organização do mosteiro na cabeça e as harmonias sacras no coração.

     Nos estudos, tanto Philip quanto Francis estavam bem à frente dos garotos da sua idade a quem conheciam, mas presumiam que isso era porque moravam no mosteiro e haviam tido uma educação mais intensa. Naquele estágio, não percebiam que eram excepcionais. Mesmo quando começaram a ministrar grande parte das aulas na pequena escola, e a aprender com lições dadas diretamente pelo abade, em vez do pedante velho mestre dos noviços, os dois pensavam que se encontravam na frente só porque tinham começado cedo.

 

     Quando pensava na sua juventude, parecia a Philip que houvera uma breve Idade de Ouro, um ano ou talvez menos, entre o fim da sua rebelião e o assalto furioso da luxúria. Veio então a era dos pensamentos impuros, das poluções noturnas, das sessões horrivelmente embaraçosas com seu confessor (que era o abade), das penitências infindáveis e da mortificação da carne com flagelos.

     A luxúria nunca deixou de afligi-lo por completo, mas eventualmente veio a se tornar menos importante, passando a incomodá-lo só de vez em quando, nas raras ocasiões em que sua mente e seu corpo estavam ociosos, como um machucado antigo, que ainda dói quando chove.

     Francis travara a mesma batalha um pouco mais tarde, e embora não houvesse feito confidências ao irmão sobre o assunto, Philip tinha a impressão de que ele lutara com menos coragem contra os desejos do mal e aceitara as derrotas um pouco jovialmente demais. No entanto, o principal era que ambos haviam conseguido atingir a paz com as paixões, que eram o maior inimigo da vida monástica.

     Assim como Philip trabalhou com o despenseiro, Francis trabalhou para o prior, substituto eventual do abade Peter. Quando o despenseiro morreu, Philip tinha vinte e um anos, e, a despeito de sua juventude, assumiu o cargo. E quando Francis atingiu os vinte e um, o abade propôs a criação de um novo posto para ele, o de sub-prior.

     Mas essa proposta precipitou a crise. Seu irmão pediu para ser liberado da responsabilidade, e já que estavam tratando do assunto, pediu também para ser liberado do mosteiro. Queria ser ordenado padre e servir a Deus no mundo exterior.

     Philip ficou atônito e horrorizado. A ideia de que um deles pudesse deixar o mosteiro jamais lhe ocorrera, e agora o deixava tão desconcertado como se tivesse acabado de saber que era o herdeiro do trono. Entretanto, após muito retorcer de mãos e consultas ao coração, aconteceu, e Francis foi embora, pouco antes de se tornar o capelão do conde de Gloucester.

     Antes de isso acontecer Philip via seu futuro com muita simplicidade; seria um monge, viveria uma vida de humildade e obediência, e, quando ficasse velho, talvez se tornasse o abade, e se esforçaria para seguir o exemplo de Peter. Agora tinha dúvidas, perguntava-se se Deus não teria outro destino para ele. Lembrava-se da parábola dos talentos:

     Deus esperava que Seus servos aumentassem o Seu reino, e não meramente o conservassem. Com algum alarme, compartilhou esses pensamentos com o abade Peter, plenamente cônscio de que arriscava uma reprimenda por estar se deixando contaminar pelo orgulho.

     Para sua surpresa, o abade disse: "Eu já estava me perguntando quanto tempo você levaria para perceber isso.

     É claro que você é destinado para alguma outra coisa. Nascido do lado de um mosteiro, órfão aos seis anos, criado por monges, nomeado despenseiro aos vinte e um... Deus não se dá a tanto trabalho com um homem que vai passar o resto da vida num pequeno mosteiro situado no topo de uma elevação descampada, em um remoto principado montanhoso. Não há campo de ação suficiente para você aqui. Você deve deixar este lugar".

     Philip ficou atônito, mas antes de se retirar da presença do abade, ocorreu-lhe uma pergunta que deixou escapar, impulsivamente: "Se este mosteiro é tão pouco importante, por que Deus colocou o senhor aqui?"

     O abade Peter sorriu.

     "Talvez para tomar conta de você."

     Mais tarde, naquele ano, o abade foi a Canterbury apresentar seus respeitos ao arcebispo, e, quando voltou, disse a Philip: "Dei você para o prior de Kingsbridge".

     Philip ficou intimidado. O priorado de Kingsbridge era um dos maiores e mais importantes mosteiros da região. Era um priorado com catedral: sua igreja era uma catedral, a sede de um bispo, e o bispo era tecnicamente o abade do mosteiro, embora na prática este fosse dirigido pelo prior.

     "O prior James é um velho amigo", disse o abade Peter a Philip. "Nos últimos anos ele tem se mostrado muito desanimado, não sei por quê. De qualquer modo, o fato é que Kingsbridge precisa de sangue novo. Mais especificamente, James está tendo problemas com um de seus mosteiros, uma pequena casa na floresta, e precisa desesperadamente de um homem que seja confiável, capaz de se encarregar dela e colocá-la de volta no caminho do bem."

     "Então eu sou o prior do pequeno mosteiro?", perguntou Philip, surpreso.

     O abade assentiu com a cabeça.

     "E se estivermos certos em pensar que Deus tem muito trabalho para você realizar, podemos esperar que ele o ajude a resolver quaisquer problemas que o mosteiro tenha."

     "E se estivermos errados?"

     "Você sempre poderá voltar para cá e ser meu despenseiro. Mas não estamos errados, meu filho. Você verá."

     As despedidas foram chorosas. Ele tinha passado dezessete anos ali, e os monges eram sua família, mais real para Philip agora do que a verdadeira, selvagemente tomada dele. Decerto nunca mais veria aqueles monges de novo, e se sentiu triste.

     Kingsbridge o intimidou a princípio. A área murada do mosteiro era maior do que muitas aldeias; a igreja catedral, uma imensa e sombria caverna; a casa do prior, um pequeno palácio. Mas uma vez que se acostumou ao tamanho de tudo, viu os sinais do desânimo que o abade Peter percebera em seu velho amigo, o prior. A igreja estava visivelmente necessitada de reparos de grande porte; as orações eram resmungadas com pressa; as regras de silêncio eram quebradas a todo momento; e havia servos demais, em número maior que o de monges. Philip logo se recuperou da intimidação inicial e ficou furioso. Tinha vontade de pegar o prior James pelo pescoço, sacudi-lo e dizer: "Como se atreve a fazer isso? Como se atreve a dar a Deus orações tão apressadas? Como se atreve a permitir que os noviços joguem dados e a deixar que os monges tenham cachorros de estimação? Como se atreve a morar num palácio, cercado por servos, com a igreja de Deus em ruínas, desmoronando?" Philip nada disse, claro. Teve uma entrevista breve e formal com o prior James, um homem alto e magro, tão curvado que parecia ter o peso dos problemas do mundo nos ombros arredondados.

     Depois conversou com o subprior, Remigius. No princípio da conversa Philip deu a entender que o priorado podia estar precisando de algumas mudanças, na esperança de que a segunda pessoa da sua administração concordasse convictamente; porém Remigius lançou um olhar de desdém para Philip, como se quisesse dizer: Quem você pensa que é?, e mudou de assunto.

     Remigius disse que o Mosteiro de St.-John-in-the-Forest fora fundado havia três anos com alguma terra e benfeitorias, e já deveria ser auto-sustentável a essa altura, mas na verdade se conservava dependente dos suprimentos da casa-mãe. Havia outros problemas: um diácono que por acaso passara a noite ali criticara o modo como eram conduzidos os serviços religiosos; viajantes se queixavam de terem sido roubados por monges naquela área; havia boatos de impureza... O fato de Remigius ser incapaz de dar os detalhes exatos, ou não querer fazê-lo, era outro sinal do modo indolente como a organização era dirigida. Philip saiu trêmulo de raiva. Um monastério se destinava, supostamente, a glorificar a Deus. Se fracassava nessa destinação, era nada. O priorado de Kingsbridge era pior que nada. Envergonhava Deus por sua indolência. Philip, porém, nada era capaz de fazer quanto a isso. O melhor que podia esperar era reformar um dos mosteiros de Kingsbridge.

     Na jornada de dois dias a cavalo pela floresta, meditou durante muito tempo sobre a pouca informação que lhe fora dada e considerou piedosamente sua abordagem. Seria bom se pisasse de leve no princípio, decidiu. Em geral o prior era eleito pelos monges; no caso de um pequeno mosteiro, porém, que era apenas um posto avançado do monastério principal, o prior da casa-mãe podia simplesmente escolher. Assim, não tinham pedido a Philip que se submetesse a uma eleição, o que significava poder contar com a boa vontade dos monges. Teria que sentir seu caminho cautelosamente. Precisaria aprender mais sobre os problemas que afligiam o mosteiro, para poder decidir o que fosse melhor para resolvê-los. Deveria ganhar o respeito e a confiança dos monges, especialmente dos que fossem mais velhos e pudessem estar ressentidos.

     Depois, quando sua informação estivesse completa e sua liderança, segura, agiria com firmeza. -  Mas não foi assim que aconteceu.

     A luz da tarde estava desaparecendo no segundo dia, quando ele conteve as rédeas do seu pónei na orla de uma clareira e inspecionou seu novo lar. Havia apenas uma edificação em pedra, a capela, naquele tempo. (Philip construiu o novo dormitório de pedra no ano seguinte.) As outras construções, de madeira, pareciam desconjuntadas.

     Philip não aprovou: tudo que fosse feito pelos monges supostamente deveria durar, o que incluía tanto catedrais quanto pocilgas. Na inspeção notou mais indícios daquele tipo de negligência que o chocara em Kingsbridge. Não havia cercas, o feno se espalhava pela porta do celeiro e havia um monturo de esterco perto do lago dos peixes. Sentiu que a expressão do rosto ficava tensa com a censura contida, e disse a si próprio: Calma, calma.

     A princípio não viu ninguém. Era como deveria ser, pois estava na hora das vésperas e a maioria dos monges se encontraria na capela. Tocou o flanco do pónei com o chicote e atravessou a clareira na direção de uma cabana que parecia um estábulo. Um jovem com palha no cabelo e um ar vago no rosto meteu a cabeça pela porta e olhou para Philip, espantado. "Qual é o seu nome...", perguntou Philip, que após um momento de timidez acrescentou: "... meu filho?"

     "Sou chamado de Johnny Oito Pence", respondeu o jovem.

     Philip desmontou e entregou-lhe as rédeas. "Pois muito bem, Johnny Oito Pence, pode desencilhar meu cavalo."

     "Sim, padre." Ele amarrou as rédeas numa cerca e afastou-se.

     "Aonde está indo?", perguntou Philip asperamente.

     "Dizer aos irmãos que tem um estranho aqui."

     "Você deve praticar a obediência, Johnny. Desencilhe o meu cavalo. Eu direi aos irmãos que estou aqui."

     "Sim, padre." Parecendo espantado, Johnny dedicou-se a seu trabalho.

     Philip olhou em torno. No meio da clareira havia um prédio comprido, como um grande pavilhão. Perto, uma pequena construção redonda, com fumaça saindo de um buraco no telhado. Devia ser a cozinha. Ele decidiu ver o que havia para a ceia. Nos mosteiros mais rígidos, só se servia uma única refeição, ao meio-dia; mas aquele, evidentemente, não era um estabelecimento rigoroso, e haveria uma ceia leve após as vésperas, um pouco de pão com queijo ou peixe salgado, ou talvez uma tigela de caldo de cevada com ervas. No entanto, ao se aproximar da cozinha, sentiu o inconfundível aroma de carne assando, um cheiro de dar água na boca. Parou, curioso, e por fim entrou.

     Dois monges e um menino estavam sentados em torno do fogo central. Enquanto Philip olhava, um dos monges passou uma jarra para o outro, que bebeu dela. O menino estava girando um espeto, e no espeto havia um leitãozinho.

     Eles ergueram os olhos, surpresos, quando Philip entrou, deixando-se iluminar pelo fogo. Sem falar nada, pegou a jarra da mão do monge e cheirou-a.

     "Por que estava bebendo vinho?", perguntou.

     "Porque alegra o meu coração, estranho", respondeu o monge. "Beba um pouco... tanto quanto quiser."

     Era evidente que não tinham sido advertidos para esperar o novo prior. Era igualmente óbvio que não temiam as consequências, se um monge que por ali passasse fosse relatar seu procedimento a Kingsbridge. Philip teve ímpetos de quebrar a jarra de vinho na cabeça do homem, mas em vez disso respirou fundo e disse brandamente:

     "Os filhos dos pobres passam fome para que seja fornecida carne e bebida para nós. Isso é feito pela glória de Deus, não para alegrar nosso coração. Chega de vinho para você hoje". Philip afastou-se, carregando a jarra.

     Enquanto saía, ouviu o monge dizer:

     "Quem você pensa que é?" Não deu resposta. Logo eles descobririam.

     Deixou o vinho no chão, do lado de fora da cozinha, e atravessou a clareira na direção da capela, cerrando e descerrando os punhos, tentando controlar a raiva. Não seja precipitado, disse a si próprio. Seja cauteloso. Vá com calma.

     Deteve-se por um momento fora da capela, acalmando-se, até que empurrou com delicadeza a pesada porta de carvalho e entrou silenciosamente.

     Mais ou menos uma dúzia de monges e alguns noviços estavam de pé, com as costas viradas para ele, em fileiras irregulares. De frente para o grupo, estava o sacristão, lendo o serviço das vésperas. Ele falava rápido e os monges resmungavam as respostas perefuctoriamente. Três velas de tamanhos diferentes bruxuleavam sobre um pano de altar imundo.

     Ao fundo, dois monges conversavam, animados, ignorando o serviço e discutindo algo. Quando o novo prior emparelhou com eles, um falou qualquer coisa engraçada e o outro riu alto, abafando as palavras mastigadas pelo sacristão. Aquilo foi a última gota para Philip, e todos os seus planos de prudência desapareceram da cabeça.

     Ele abriu a boca e gritou com toda a força dos pulmões:

     "SILÊNCIO!"

     O riso cessou. O sacristão parou de ler. A capela ficou em silêncio, e os monges viraram-se espantados.

     Philip aproximou-se do monge que rira e agarrou-o pela orelha. Ele era mais ou menos da sua idade, e mais alto, mas estava espantado demais para resistir quando sua cabeça foi puxada para baixo.

     "Ajoelhe-se!", gritou o novo prior. Por um momento pareceu que o monge poderia tentar lutar para se libertar; porém, ele sabia que estava errado, e, como Philip antecipara, a consciência culpada lhe minava a resistência; assim, quando sua orelha foi puxada com mais força, ele se ajoelhou.

     "Todos vocês", com andou Philip. "Ajoelhem-se!"

     O voto de obediência havia sido professado por todos, e a indisciplina escandalosa em que vinham vivendo não fora o bastante para acabar com um hábito de anos. Metade dos monges e todos os noviços se ajoelharam.

     "Vocês quebraram seus votos", disse Philip, deixando transparecer todo o seu desprezo. "Vocês são blasfemos, cada um de vocês." Olhou em torno, encarando um por um. "Seu arrependimento começa agora", disse finalmente.

     Devagar eles se ajoelharam, um a um, até que só o sacristão permaneceu de pé. Era um homem cheio de carnes e com olhos sonolentos, cerca de vinte anos mais velho que Philip. O novo prior aproximou-se dele, desviando-se dos monges ajoelhados.

     "Dê-me o livro", ordenou.

     O sacristão encarou-o desafiadoramente e nada disse.

     Philip adiantou-se e pegou o volume grande, sem muita força. O sacristão, ao contrário, agarrou-o mais fortemente. O novo prior hesitou. Passara dois dias decidindo ser cauteloso e não se precipitar, e no entanto ali estava, com a poeira da estrada ainda nos pés, arriscando tudo num confronto com um homem a respeito do qual nada sabia.

     "Dê-me o livro, e ajoelhe-se", repetiu.

     Um sorriso escarninho insinuou-se no rosto do sacristão.

     "Quem é você?", perguntou ele.

     Philip hesitou de novo. Era óbvio que ele era monge, pelo seu hábito e corte do cabelo; e todos deviam ter adivinhado, pelo seu comportamento, que estava investido de uma posição de autoridade; contudo, ainda não ficara claro se ocupava um nível superior ao do sacristão. Tudo o que tinha a dizer era Sou o seu novo prior, mas ele não queria fazê-lo. De súbito achava muito importante que pudesse vencer exclusivamente pelo peso de sua autoridade moral.

     O sacristão sentiu sua incerteza e aproveitou-se.

     "Diga-nos, por favor", pediu, com irônica cortesia. "Quem é este que nos ordena a ficar de joelhos na sua presença?"

     Toda a hesitação abandonou Philip instantaneamente, e ele pensou: Deus está comigo, e portanto, de que tenho medo? Respirou fundo, e suas palavras vieram num grito que ecoou do piso da capela ao teto abobadado de pedra. "É Deus quem ordena que você se ajoelhe na Sua presença!", fulminou.

     O sacristão pareceu um quase nada menos confiante. Philip aproveitou a oportunidade e arrancou-lhe o livro. O sacristão perdeu toda a autoridade e, relutantemente, ajoelhou-se.

     Ocultando o alívio que sentia, Philip olhou para todos e disse:

     "Sou o seu novo prior".

     Fez com que permanecessem ajoelhados enquanto lia o serviço. Levou muito tempo, porque fez com que repetissem os responsórios vezes sem conta, até que fossem capazes de dizê-los em uníssono perfeito. Depois os conduziu em silêncio para fora da capela, em direção ao refeitório, cruzando a clareira. Mandou o porco assado de volta para a cozinha e mandou que servissem pão e cerveja fraca, designando um monge para ler em voz alta enquanto comiam. Assim que terminaram os levou, sempre em silêncio, ao dormitório.

     Mandou que a cama do prior fosse trazida da casa separada; dormiria no mesmo aposento que os monges. Era o modo mais simples e efetivo de impedir os pecados da impureza.

     Não dormiu nada na primeira noite. Ficou sentado na cama, com uma vela, orando silenciosamente, até que chegou a meia-noite, hora de acordar os monges para as matinas.

     Rezou rápido esse serviço a fim de que soubessem que não era de todo impiedoso. Eles voltaram para a cama, mas Philip não dormiu.

     Saiu à noite, antes que acordassem, pensando no dia que tinha à frente. Um dos campos fora recentemente aberto na floresta, e bem no meio dele havia um enorme toco de árvore que devia ter sido um carvalho. Aquilo lhe deu uma ideia.

     Após o serviço da prima e o desjejum, levou todos para o campo com cordas e machados, e passaram a manhã desenterrando o enorme tronco, metade puxando cordas, enquanto a outra metade cortava as raízes com os machados, todos gritando "I-i-i-çar!" juntos. Quando o tronco finalmente saiu, Philip deu a todos cerveja, pão e uma fatia do porco que negara

     na ceia.

     Aquele não foi o fim dos problemas, mas o início das soluções. Desde o princípio se recusou a pedir à casa-mãe qualquer gênero, exceto trigo para o pão e velas para a capela. Saber que não teriam outra carne além da que criassem ou conseguissem pegar em armadilhas transformou os monges em meticulosos criadores de gado e laçadores de aves; e embora antes considerassem os serviços religiosos como um meio de fugir do trabalho, agora se sentiam felizes quando Philip cortava as horas passadas na capela para que pudessem passar mais tempo no campo.

     Dois anos depois já eram auto-suficientes, e em mais dois anos passaram a suprir o priorado de Kingsbridge com carne, caça e um queijo feito de leite de cabra que se tornou uma cobiçada iguaria. O pequeno mosteiro prosperou, os serviços eram irrepreensíveis, e os irmãos estavam saudáveis e felizes.

     Philip também estaria feliz, se a casa-mãe, o priorado de Kingsbridge, não estivesse indo de mal a pior.

     Devia ser um dos mais importantes centros religiosos no reino, fervilhante de atividade, sua biblioteca visitada por eruditos estrangeiros, seu prior consultado pelos barões, seus santuários atraindo peregrinos de todo o país, sua hospitalidade famosa pela fidalguia, sua caridade famosa entre os pobres. Entretanto, a igreja estava em pedaços, metade dos prédios monásticos estava vazia, e o priorado devia aos agiotas. Philip ia a Kingsbridge pelo menos uma vez por ano, e a cada vez retornava fervendo de raiva com o modo como a riqueza do priorado, doada por crentes devotos e aumentada por monges dedicados, estava sendo dissipada descuidadamente, como a herança do filho pródigo.

     Parte do problema era sua localização. Kingsbridge era uma pequena aldeia numa estradinha que não levava a parte alguma. Desde o tempo do rei Guilherme I que fora apelidado de o Conquistador ou de o Bastardo, dependendo de quem estivesse falando -, a maioria das catedrais tinha sido transferida para cidades grandes; Kingsbridge, contudo, escapara dessa mudança. Só que isso não era um problema insuperável, na visão de Philip; um monastério movimentado com uma catedral deveria ser uma cidade por si só.

     O problema real era a letargia do velho prior James. com uma mão tão fraca no leme, o navio era impulsionado ao azar aqui e ali, e não se dirigia a parte alguma.

     E, para amarga tristeza de Philip, o priorado de Kingsbridge continuaria a declinar enquanto o prior James estivesse vivo.

     Embrulharam o bebê em roupas de cama limpas e o deitaram numa grande cesta de pão, como berço. Com o estômago minúsculo cheio de leite de cabra, ele dormiu. Philip pôs Johnny Oito Pence tomando conta dele, porque, a despeito de não ser muito dotado de inteligência, sabia ser delicado com criaturas pequenas e frágeis.

     Philip estava alvoroçado para saber o que levara Francis ao mosteiro. Fez algumas perguntas dissimuladas durante o jantar, mas o irmão não se abriu, e o prior teve que conter a curiosidade.

     Depois do jantar era hora de estudar. Não havia claustros apropriados ali, mas os monges podiam se sentar na varanda da capela e ler, ou andar na clareira, de um lado para o outro. Eram autorizados a ir de vez em quando até a cozinha para se aquecerem ao fogo, como era o costume. Os dois irmãos caminharam até a orla da clareira, lado a lado, como tantas vezes tinham feito nos claustros do mosteiro em Gales; e Francis começou a falar.

     - O rei Henrique sempre tratou a Igreja como se ela fosse subordinada ao seu reinado - começou. - Deu ordens aos bispos, cobrou impostos, e impediu o exercício direto da autoridade papal.

     - Eu sei - disse Philip. - E daí? !

     - O rei Henrique está morto.

     Philip estacou. Não esperara aquilo.

     - Morreu em sua cabana de caça em Lyons-la-Forêt, na Normandia, após uma refeição de lampréias, que amava, embora sempre entrassem em desacordo com ele.

     - Quando?

     - Hoje é o primeiro dia do ano, de sorte que foi exatamente há um mês.

     Philip sentiu-se bastante chocado. Henrique era o rei desde que nascera. Nunca na vida tivera a experiência da morte de um rei, mas sabia que significava problemas, e, possivelmente, guerra.

     - O que acontecerá agora? - perguntou, ansioso. Eles voltaram a caminhar.

     - O problema é que o herdeiro do rei foi morto no mar, há muitos anos. Você deve se lembrar.

     - Sim.

     Philip tinha então doze anos de idade. Foi o primeiro evento de importância nacional a penetrar sua consciência infantil, e fizera com que tomasse conhecimento do mundo fora do monastério. O filho do rei morrera no naufrágio do White Ship, ao largo de Cherbourg. O abade Peter, que contara tudo ao jovem Philip, preocupara-se com a guerra e a anarquia que deveriam se seguir à morte do herdeiro, mas na ocasião o rei Henrique conservara o controle, e a vida seguiu imperturbada para Philip e Francis.

     - O rei tinha muitos outros filhos, é claro - continuou Francis. - Vinte, pelo menos, incluindo meu próprio lorde, o conde Robert de Gloucester; porém, como você sabe, são todos bastardos. A despeito de sua desenfreada fertilidade, ele conseguiu ser pai de apenas um único filho legítimo - uma mulher, Matilde. Um bastardo não pode herdar o trono, mas uma mulher é uma solução quase tão ruim quanto um bastardo.

     - O rei Henrique não designou um herdeiro?

     - Sim, ele escolheu Matilde. Ela tem um filho, também chamado Henrique. O maior desejo do velho rei era de que seu neto herdasse o trono. Mas o menino ainda não tem três anos de idade. Assim, o rei fez os barões jurarem fidelidade a Matilde.

     Philip ficou intrigado.

     - Se o rei nomeou Matilde sua herdeira, e se os barões já juraram fidelidade a ela...  qual é o problema?

     - A vida na corte nunca é assim tão simples. Matilde é casada com Godofredo de Anjou. Anjou e Normandia são rivais há gerações. Nossos soberanos normandos odeiam os angevinos. Francamente, foi muito otimismo do velho rei acreditar que um bando de barões anglo-normandos fosse entregar a Inglaterra e a Normandia a um angevino, com juramento ou não.

     Philip ficou de certa forma bestificado com o conhecimento do irmão mais moço e com sua atitude desrespeitosa para com os homens mais importantes do país.

     - Como sabe tudo isso?

     - Os barões se reuniram em Lê Neubourg para decidir o que fazer. Não preciso dizer que o meu lorde, conde Robert, estava lá; fui com ele, para escrever suas cartas.

     Philip olhou para Francis, curioso, pensando em como a vida dele deveria ser diferente da sua. Depois se lembrou de algo.

     - O conde Robert é o filho mais velho do rei Henrique, não é?

     - Sim, e é muito ambicioso; mas aceita o ponto de vista geral, de que os bastardos têm de conquistar seus reinos, e não herdá-los.

     - Quem mais existe?

     - O rei Henrique tinha três sobrinhos, filhos de sua irmã. O mais velho é Teobaldo de Blois; depois vem Estêvão, muito amado pelo falecido rei e contemplado por ele com vastas propriedades aqui na Inglaterra; e o caçula, Henrique, que você conhece como o bispo de Winchester. Os barões são favoráveis ao mais velho, Teobaldo, de acordo com uma tradição que você decerto considera perfeitamente razoável. - Francis olhou para Philip e sorriu.

     - Perfeitamente razoável - repetiu Philip, com outro sorriso. - Então Teobaldo é o nosso novo rei?

     Francis sacudiu a cabeça.

     - Ele pensou que era, mas nós, filhos mais moços, sempre damos um jeito de assumir a dianteira. - Eles chegaram no ponto mais afastado da clareira e voltaram. - Enquanto Teobaldo estava aceitando graciosamente a homenagem dos barões, Estevão cruzou o canal, correu até Winchester, e com a ajuda do irmão caçula, o bispo, apoderou-se do castelo e - mais importante que tudo - do tesouro real.

     Philip estava prestes a dizer: Então Estêvão é o nosso novo governante. Mas mordeu a língua: dissera a mesma coisa a respeito de Matilde e Teobaldo e errara ambas as vezes.

     - Estêvão só precisava de mais uma coisa para assegurar sua vitória - continuou Francis: - o apoio da Igreja. Pois até que fosse coroado em Westminster pelo arcebispo, ele não seria realmente o rei.

     - Mas com certeza isso foi fácil - disse Philip. - Seu irmão é um dos sacerdotes mais importantes no país - bispo de Winchester, abade de Glastonbury, tão rico quanto Salomão e quase tão poderoso quanto o arcebispo de Canterbury. E se o bispo não quisesse apoiá-lo, por que o teria ajudado a tomar Winchester?

     Francis concordou.

     - Devo dizer que as operações do bispo durante a crise foram brilhantes. Você compreende, ele não estava ajudando Estêvão só por amor fraternal.

     - Então qual era sua motivação?

     - Poucos minutos atrás lembrei como o falecido rei tratava a Igreja, considerando-a como uma simples parte do seu reino. O bispo Henrique quer se assegurar que o novo rei, quem quer que seja, trate melhor a Igreja. Assim, antes de lhe garantir apoio, Henrique fez Estêvão jurar solenemente que preservaria os direitos e privilégios da Igreja.

     Philip ficou impressionado. O relacionamento de Estêvão com a Igreja fora definido, desde o início do seu reinado, nos termos da Igreja. Mas talvez ainda mais importante fosse o precedente. A Igreja tinha que coroar os reis, mas até então nunca tivera o direito de estipular condições. Podia chegar o tempo em que nenhum rei assumisse o poder sem primeiro chegar a um acordo com a Igreja.

     - Isto poderia ser muito importante para nós - disse Philip.

     - Estêvão pode quebrar suas promessas, é claro - disse Francis. - Mas assim mesmo você está certo. Ele nunca será capaz de ser tão impiedoso com a Igreja quanto Henrique foi. Porém, ainda há outro perigo. Dois dos barões se sentiram amargamente feridos pelo que Estêvão fez. Um foi Bartholomew, o conde de Shiring.

     - Eu o conheço. Shiring fica apenas a um dia de viagem daqui. Dizem que Bartholomew é um homem devoto.

     - Talvez seja. Tudo o que sei é que é um barão fariseu e teimoso que não deixará de cumprir o juramento de lealdade que fez a Matilde, a despeito da promessa de um perdão.

     - E o outro descontente?

     - É o meu lorde, Robert de Gloucester. Eu lhe disse que ele era ambicioso. Sua alma está atormentada com a ideia de que, se ao menos fosse filho legítimo, o trono seria seu. Quer coroar a meia irmã, acreditando que ela dependerá tanto de Robert que ele será rei em tudo, exceto no nome.

     - Ele vai fazer alguma coisa a esse respeito?

     - Receio que sim. - Francis baixou a voz, embora não houvesse ninguém por perto para ouvi-lo. - Robert e Bartholomew, juntos com Matilde e o marido dela, vão fomentar uma rebelião. Planejam derrubar Estêvão e pôr Matilde no trono.

     Philip deteve-se.

     - O que desfaria tudo o que o bispo de Winchester conseguiu! - Ele agarrou o braço do irmão. - Mas Francis...

     - Sei o que você está pensando. - De repente toda a petulância de Francis o abandonou e ele pareceu ansioso e amedrontado. - Se o conde Robert soubesse que lhe contei isso, me enforcaria. Ele confia completamente em mim. Mas a minha lealdade suprema é com a Igreja - tem que ser.

     - Mas o que você pode fazer?

     - Pensei em conseguir uma audiência com o novo rei, e contar-lhe tudo. Claro que os dois condes rebeldes negariam cada palavra minha, e eu seria enforcado por traição; contudo a rebelião seria frustrada e eu iria para o céu.

     Philip sacudiu a cabeça.

     - Aprendemos que buscar o martírio é fruto da vaidade.

     - E acho que Deus tem mais trabalho para mim aqui na terra. Ocupo uma posição de confiança na casa de um grande barão, e se permanecer lá e progredir através de trabalho árduo, serei capaz de muita coisa para promover os direitos da Igreja e o império da lei.

     - Há algum outro modo...?

     Francis encarou Philip direto nos olhos.

     - É por isso que estou aqui.

     Philip sentiu um calafrio de medo. Francis ia lhe pedir para se envolver, é claro; não havia outro motivo para lhe revelar aquele segredo espantoso.

     - Não posso trair a rebelião - continuou Francis -, mas você pode.

     - Jesus Cristo e todos os santos, protegei-me!

     - Se a trama for descoberta aqui no sul, nenhuma suspeita cairá sobre a casa de Gloucester. Ninguém sabe que estou aqui; ninguém sabe sequer que somos irmãos. Você pode pensar em alguma explicação possível para ter tomado conhecimento da informação, como haver visto homens de armas se reunindo, ou alguém da intimidade do conde Bartholomew ter revelado a trama ao confessar-se com um padre seu conhecido.

     Philip ajeitou o hábito, tremendo. Parecia ter ficado mais frio de repente. Aquilo era perigoso, muito perigoso. Estavam falando a respeito de se meterem na política real, que matava regularmente experientes praticantes. Era tolice que gente que não fosse do ramo, como Philip, se envolvesse.

     Mas havia muita coisa em jogo. Philip não podia ficar de lado e assistir a uma rebelião contra um rei escolhido pela Igreja, não quando havia uma chance para impedir. E mesmo que fosse perigoso para Philip, seria suicídio para Francis expor a trama.

     - Qual é o plano dos rebeldes? - perguntou Philip.

     - O conde Bartholomew está retornando a Shiring neste momento. De lá mandará mensagens para seus seguidores em todo o sul da Inglaterra. O conde Robert chegará a Gloucester um ou dois dias mais tarde e convocará suas forças na região oeste. Finalmente, Brian Fitzcount, que controla o Castelo Wallingford, fechará seus portões; e todo o sudoeste da Inglaterra pertencerá aos rebeldes sem uma luta.

     - Então já é quase tarde demais! - disse Philip.

     - Não, na verdade. Temos cerca de uma semana. Mas você terá que agir rapidamente.

     Philip percebeu, amedrontado, que já tinha mais ou menos se decidido a fazer o que Francis pedira.

     - Não sei com quem falar - disse. - Normalmente se procuraria o conde, mas neste caso ele é o culpado. O xerife provavelmente está do seu lado. Temos que pensar em alguém que esteja com certeza do nosso lado.

     - O prior de Kingsbridge?

     - Meu prior está velho e cansado. Com toda a probabilidade não fará nada.

     - Tem de haver alguém.

     - Há o bispo. - Philip na verdade nunca tinha falado com o bispo de Kingsbridge, mas com certeza ele o receberia e ouviria; automaticamente se colocaria ao lado de Estêvão, porque fora a escolha da Igreja; e o bispo era poderoso o bastante para fazer qualquer coisa a respeito do problema.

     - Onde o bispo mora?

     - A um dia e meio daqui.

     - É melhor você partir hoje.

     - Sim - disse Philip com o coração pesado.

     Francis pareceu estar arrependido.

     - Gostaria que fosse outra pessoa.

     - Eu também - disse Philip, emocionado. - Eu também.

     Philip reuniu os monges na pequena capela e lhes contou que o rei havia morrido.

     - Devemos rezar por uma sucessão pacífica e por um novo rei que ame mais a Igreja que o falecido rei Henrique - disse. Mas não lhes contou que a chave para uma sucessão pacífica viera parar, de certa forma, em suas próprias mãos. - Há outras notícias que me obrigam a ir visitar nossa casa-mãe em Kingsbridge. Tenho que partir imediatamente.

     O sub-prior leria os serviços e o despenseiro dirigiria a fazenda, mas nenhum deles estava à altura de Peter de Wareham; Philip receava que, se ficasse afastado muito tempo, o monge criasse tanto caso que não restaria um pedaço do mosteiro quando voltasse. Não fora capaz de imaginar um meio de controlar Peter sem ferir sua auto-estima, e como agora não havia mais tempo, tinha de fazer o melhor que pudesse.

     - Hoje cedo nós falamos sobre a gula - disse, após uma pausa. - O irmão Peter merece nossos agradecimentos por lembrar que quando Deus abençoa nossa fazenda e nos dá riquezas, não é para que fiquemos gordos e tranquilos, mas sim para a sua maior glória. É parte do nosso dever sagrado partilhar nossas riquezas com os pobres. Até agora temos negligenciado esse dever, principalmente porque aqui na floresta não temos com quem compartilhar nada. O irmão Peter lembrou-nos que é nosso dever sair e procurar os pobres, para que possamos lhes trazer alívio.

     Os monges ficaram surpresos; tinham imaginado que o assunto da gula estivesse encerrado. O próprio Peter tinha uma expressão de incerteza na fisionomia. Estava feliz por ser novamente o centro das atenções, mas receava o que Philip poderia estar escondendo na manga - com toda a razão.

     - Decidi - continuou o prior - que todas as semanas daremos aos pobres um penny por monge da nossa comunidade. Se isso significar que todos nós teremos que comer um pouco menos, nos sentiremos jubilosos com a perspectiva de ser celestialmente recompensados. É importante termos certeza de que nosso dinheiro será bem gasto. Quando você dá a um pobre um penny para comprar pão para a sua família, ele pode ir direto para uma venda de cerveja e se embebedar, depois ir para a casa onde mora e bater na mulher, que assim estaria bem melhor sem a sua caridade. Melhor dar-lhe o pão; melhor ainda dar o pão para os seus filhos. Dar esmolas é um dever sagrado que deve ser realizado com tanta diligência quanto curar os doentes ou educar os jovens. Por esse motivo, muitas casas monásticas designam um esmoler, para ser responsável pelas esmolas a serem dadas. Faremos isso aqui.

     Philip olhou em torno. Todos estavam alerta e interessados. Peter ostentava uma expressão gratificada, tendo decidido, evidentemente, que aquilo era uma vitória para ele. Ninguém adivinhara o que estava por vir.

     - O trabalho do esmoler é duro. Terá que ir até as cidades e aldeias mais próximas, frequentemente a Winchester. Lá ele andará entre as pessoas mais perversas, sujas, feias e depravadas, pois assim são os pobres. O esmoler precisará orar por eles quando blasfemarem, visitá-los quando estiverem doentes e perdoá-los quando tentarem tapeá-lo e roubá-lo. Necessitará de força, humildade e paciência inesgotável. Sentirá falta do conforto desta comunidade, porque passará mais tempo fora do que conosco.

     Philip olhou à sua volta de novo. Agora todos estavam amedrontados, pois nenhum deles queria aquela função. Deixou o olhar repousar em Peter de Wareham. Ele percebeu o que estava por vir, e seu semblante assumiu uma expressão consternada.

     - Foi Peter quem chamou nossa atenção para nossas deficiências nessa área - disse Philip lentamente -, de modo que decidi que será dele a honra de ser nosso esmoler. - Sorriu. - Pode começar hoje.

     O rosto de Peter ficou sombrio como uma tempestade.

     Você ficará afastado tempo demais para causar problemas, pensou Philip; e o contacto íntimo com os imundos e repugnantes becos fedorentos dos pobres de Winchester amenizará o desprezo que sente pela vida amena.

     O monge, contudo, evidentemente viu aquilo como uma punição pura e simples, e olhou para Philip com tanto ódio que por um momento o prior se intimidou.

     Desviou o olhar, com dificuldade, e voltou-se para os outros:

     - Após a morte de um rei sempre há perigo e incerteza - disse. - Rezem por mim enquanto eu estiver fora.

    

     Às doze horas do segundo dia de jornada, o prior Philip estava a poucas milhas do palácio do bispo e quanto mais se aproximava, mais apreensivo se sentia. Tinha imaginado uma história para explicar como viera a saber da rebelião. Entretanto, o bispo podia não acreditar nela; ou, se acreditasse, exigir provas. Pior ainda - e essa possibilidade não ocorrera a Philip senão depois que se afastara de Francis - era concebível, conquanto que improvável, que o bispo fosse um dos conspiradores e estivesse dando seu apoio à rebelião. Ele podia ser amigo íntimo do conde de Shiring. Não era incomum que bispos colocassem os próprios interesses à frente dos interesses da Igreja.

     O bispo podia torturá-lo para fazê-lo revelar a fonte de sua informação. Claro que não tinha direito de fazer uma coisa dessas, mas a verdade é que o prior tampouco tinha o direito de conspirar contra o rei. Philip rememorou os instrumentos de tortura representados em pinturas do inferno. Tais pinturas eram inspiradas no que acontecia nos calabouços de bispos e barões. Não achava que tivesse força para enfrentar uma morte de mártir.

     Quando viu um grupo de viajantes a pé na estrada, adiante dele, seu primeiro instinto foi puxar as rédeas e evitar ultrapassá-los, pois estava sozinho, e havia muitos salteadores a pé pelas estradas que não teriam escrúpulos de roubar um monge. Percebeu então que dois dos vultos eram de crianças e outro de mulher. Uma família geralmente não oferecia problema. Trotou para alcançá-los.

     Ao aproximar-se, pôde vê-los com mais nitidez. Um homem alto, uma mulher pequena, um jovem quase tão alto quanto o homem e duas crianças. Eram visivelmente pobres.

     Não carregavam trouxas com seus bens mais preciosos e estavam andrajosos. O homem tinha uma estrutura óssea avantajada, mas era descarnado, como se estivesse morrendo de alguma doença devastadora - ou simplesmente de fome. Olhou desconfiadamente para Philip, e puxou as crianças para mais perto, com um toque e uma palavra murmurada.

     Philip a princípio pensara que ele teria cerca de cinquenta anos, mas via agora que estava com uns trinta, embora o rosto estivesse enrugado de tanta preocupação.

     - Olá, monge - cumprimentou a mulher.

     Philip dirigiu-lhe um olhar penetrante. Não era usual que uma mulher falasse antes do marido, e embora "monge" não fosse exatamente uma palavra impolida, teria sido mais respeitoso dizer "irmão" ou "padre". A mulher era mais moça que o homem uns dez anos, e seus olhos fundos tinham uma cor amarelo-clara incomum e chamavam a atenção. Philip sentiu que era perigosa.

     - Bom dia, padre - disse o homem, como que para se desculpar dos modos bruscos da mulher.

     - Deus o abençoe - disse Philip, diminuindo a marcha da sua égua. - Quem é você?

     - Tom,  mestre construtor, procurando trabalho.

     - E não encontrando, creio.

     - É verdade.

     Philip balançou a cabeça. Era uma história comum. Artífices que trabalhavam em construções vagueavam normalmente em busca de trabalho e às vezes não o encontravam, fosse por falta de sorte, fosse porque não houvesse ninguém construindo. Tais homens, com frequência, recorriam à hospitalidade dos monastérios. Se tinham trabalhado recentemente, deixavam doações generosas quando partiam, embora depois de haverem estado na estrada por algum tempo pudessem nada ter para oferecer. Dar boas-vindas igualmente calorosas para os dois tipos às vezes era uma provação para a caridade monástica.

     Aquele construtor era definitivamente do tipo miserável, embora sua mulher parecesse muito bem.

     - Bem - disse Philip -, tenho comida no meu alforje, é hora do almoço e a caridade é uma obrigação sagrada; assim, se você e sua família comerem comigo, terei uma recompensa no céu, bem como companhia durante a refeição.

     - É bondade sua - disse ele. Olhou para a mulher. Ela deu de ombros quase que imperceptivelmente e assentiu com a cabeça. Quase em seguida Tom respondeu: - Nós aceitaremos sua caridade, e muito obrigado.

     - Agradeça a Deus, e não a mim - disse Philip automaticamente.

     - Agradeça aos camponeses cujos dízimos asseguraram a existência dessa comida - disse a mulher.

     Ali estava uma língua ferina, pensou o prior; mas nada disse. Pararam numa pequena clareira onde o pónei de Philip podia pastar o resto do capim do inverno. O religioso sentia-se secretamente feliz por retardar sua chegada ao palácio e adiar a temida entrevista com o bispo. O construtor disse que também estava se dirigindo para lá, na esperança de que o bispo pudesse querer fazer reparos ou mesmo construir uma extensão. Enquanto conversavam, Philip estudou a família subrepticiamente. A mulher parecia jovem demais para ser mãe do garoto mais velho, que parecia um bezerro, forte, desajeitado e de aparência estúpida. O outro menino era pequeno e estranho, com o cabelo alaranjado, pele branca como a neve e olhos azuis protuberantes; seu jeito de fitar intensamente as coisas, com uma expressão ausente, fez o prior se lembrar do pobre Johnny Oito Pence, a não ser pelo fato de o menino ter um olhar adulto e esperto ao encarar alguém. A seu modo, parecia tão perturbador quanto a mãe, concluiu Philip. A terceira criança era uma menina de cerca de seis anos de idade. Chorava intermitentemente, e seu pai olhava para ela a todo instante com afetuosa preocupação, dando-lhe de vez em quando uma palmadinha carinhosa, embora nada lhe dissesse. Era evidente que gostava muito dela. Tocou também na sua mulher uma vez, e o religioso percebeu um olhar de luxúria quando se fitaram. A mulher mandou as crianças procurarem folhas largas para serem usadas como pratos. Philip abriu os alforjes.

     - Onde é o seu mosteiro, padre? - perguntou Tom.

     - Na floresta, a um dia de viagem daqui, direção oeste. A mulher levantou os olhos abruptamente, e Tom ergueu as sobrancelhas. - Você o conhece? - perguntou Philip.

     Por algum motivo Tom ficou desconcertado.

     - Devemos ter passado por lá quando viemos de Salisbury - disse.

     - Oh, sim, sem dúvida, mas fica longe da estrada principal, de modo que não o teriam visto, a menos que soubessem sua localização e fossem até ele.

     - Ah, sim - disse o construtor, mas sua cabeça parecia estar longe.

     Philip teve um palpite.

     - Diga-me, você encontrou uma mulher na estrada? Provavelmente muito jovem, sozinha e, ah, com uma criança?

     - Não - respondeu Tom. Seu Tom de voz fora casual, mas o prior teve a impressão de que ficara intensamente interessado. - Por que pergunta?

     Philip sorriu.

     - Eu lhe digo. Ontem cedo um bebê foi encontrado na floresta e levado para o meu mosteiro. É um menino, e não creio que tivesse mais que um dia de vida. Deve ter nascido na noite anterior. Assim, a mãe esteve naquela área ao mesmo tempo que você.

     - Não vimos ninguém - repetiu Tom. - O que fez com o bebê?

     - Nós o alimentamos com leite de cabra. Parece estar se dando muito bem.

     Ambos estavam olhando intensamente para Philip. Era, ele pensou, uma história de cortar o coração de qualquer um. Após um momento, Tom perguntou:

     - E você está procurando a mãe?

     - Oh, não. Minha pergunta foi casual. Se a encontrasse, é claro que devolveria o bebê; no entanto, não há dúvida de que ela não quer a criança, e assim fará tudo para não ser encontrada.

     - E o que acontecerá ao bebê?

     - Nós o criaremos no mosteiro. Será um filho de Deus. É assim que fui criado, e meu irmão também. Nossos pais nos foram tirados quando éramos muito pequenos, e depois o abade se tornou nosso pai e os monges, nossa família. Fomos alimentados, aquecidos e alfabetizados.

     - E ambos se tornaram monges - disse a mulher.

     Ela falou com um toque de ironia, como que para deixar bem claro que a caridade do mosteiro, em última análise, era egoísta.

     Philip ficou satisfeito por poder contradizê-la.

     - Não, o meu irmão deixou a ordem.

     As crianças voltaram. Não haviam encontrado folhas largas - não era fácil no inverno -, de modo que teriam de comer sem pratos. O prior deu pão e queijo para todos.

     Eles se jogaram na comida como animais famintos.

     - Fabricamos este queijo no meu mosteiro - disse Philip. - A maioria das pessoas gosta dele quando está novo, mas fica ainda melhor depois que envelhece.

     Eles estavam famintos demais para se importar com aquilo. Terminaram o pão e o queijo num abrir e fechar de olhos. Philip tinha três pêras. Tirou-as de dentro do alforje e deu-as para Tom. O construtor entregou uma para cada criança.

     Philip pôs-se de pé.

     - Rezarei para que você ache trabalho.

     - Caso se lembre, padre - pediu Tom -, fale a meu respeito com o bispo. Sabe que precisamos, e achou que éramos honestos.

     - Falarei.

     Tom segurou o cavalo enquanto o religioso montava.

     - O senhor é um bom homem, padre - disse. E Philip viu, surpreso, que havia lágrimas em seus olhos.

     - Que Deus fique com vocês - disse o prior.

     Tom segurou as rédeas do cavalo por mais um instante.

     - O bebê de que nos falou... o enjeitado... - disse baixinho, como se não quisesse que as crianças escutassem. - Já lhe deram um nome?

     - Sim. Nós o chamamos Jonathan, que significa "um presente de Deus".

     - Jonathan. Gosto dele. - Tom libertou o cavalo. Philip lançou-lhe um olhar curioso por um momento, bateu na montaria e saiu trotando.

    

     O bispo não morava em Kingsbridge. Seu palácio ficava numa encosta voltada para o sul, em um vale exuberante que ficava a um dia inteiro de viagem da catedral de pedra fria e de seus melancólicos monges. Ele preferia assim, pois igreja demais atrapalhava os outros deveres de cobrar aluguéis, administrar justiça e fazer manobras na corte real. Era conveniente para os monges, também, pois quanto mais longe estivesse o bispo, menos interferiria na vida deles.

     Estava frio o suficiente para nevar, na tarde em que Philip chegou. Um vento cortante castigava o vale do bispo, e nuvens cinzentas baixas concentravam-se sobre seu palácio. Não era um castelo; não obstante, porém, era bem defendido. Fora aberta uma clareira com umas cem jardas de raio. A casa ficava no interior de uma sólida cerca de madeira da altura de um homem, com uma vala para o escoamento da água da chuva. O guarda no portão tinha um ar desleixado, mas sua espada era pesada. O palácio era uma excelente construção de pedra erigida em forma de E. A galeria do andar térreo, com as paredes sólidas interrompidas por diversas portas pesadas, não tinha janelas. Uma porta estava aberta, e Philip pôde ver barris e sacos na obscuridade. As outras portas estavam fechadas e presas com correntes. Philip perguntou-se o que haveria por trás delas; quando o bispo tinha prisioneiros, era onde definhavam.

     A perna do E era uma escadaria externa que levava aos aposentos destinados à moradia acima da galeria. O aposento principal, a haste vertical, seria o corredor.

     Os dois cómodos formando a parte de cima e a parte de baixo do E seriam uma capela e um quarto de dormir, foi o que Philip supôs. Havia pequenas janelas fechadas como olhos de contas espiando o mundo com muitas suspeitas.

     No interior do conjunto havia uma cozinha e uma padaria de pedra, assim como estábulos de madeira e um celeiro. Todos os prédios estavam em bom estado - o que era lamentável para Tom Construtor, pensou Philip.

     Havia diversos bons cavalos no estábulo, inclusive dois de batalha, e um punhado de homens de armas espalhados por toda parte, matando o tempo. Talvez o bispo tivesse visitantes.

     Philip deixou o pónei com um cavalariço e subiu a escadaria apreensivo, sentindo um presságio. Por ali tudo tinha um toque perturbadoramente militar. Onde estavam as filas de queixosos querendo justiça e as mães com os bebês para serem abençoados? Entrava num mundo com que não estava familiarizado, e de posse de um segredo perigoso. Podia ser que se passasse muito tempo até que conseguisse sair dali, pensou ele, temeroso. Gostaria que Francis não tivesse ido procurá-lo.

     Alcançou o topo da escadaria. Que pensamentos indignos!, disse a si próprio. Tinha uma chance de servir a Deus e à Igreja, e reagia se preocupando com sua segurança.

     Havia homens que enfrentavam o perigo todos os dias, nas batalhas, no mar, em peregrinações arriscadas ou nas cruzadas. Até os monges deviam sentir um pouco de medo e tremer de vez em quando.

     Philip respirou fundo e entrou.

     O hall era obscuro e enfumaçado. Philip fechou a porta rapidamente para conservar do lado de fora o ar frio, e deu uma olhadela. Do lado oposto, ardia um grande fogo. Era dele e das pequenas janelas que vinha a única luz. Em torno da lareira havia um grupo de homens, alguns em trajes clericais e outros envergando roupas caras mas bem usadas, características da pequena nobreza. Estavam envolvidos numa discussão séria, falando baixo e metodicamente. As suas cadeiras estavam dispostas de forma aleatória, mas todos olhavam e falavam com um sacerdote sentado no meio do grupo, como uma aranha no centro de uma teia. Era um homem magro, e do modo como suas pernas compridas estavam abertas e os braços igualmente compridos se acomodavam nos braços da cadeira, a impressão que dava era de que estava prestes a pular.

     Tinha o cabelo negro escorrido e o rosto pálido com o nariz pontudo; suas roupas pretas faziam dele ao mesmo tempo elegante e ameaçador.

     Não era o bispo.

     O encarregado levantou-se de uma cadeira ao lado da porta e disse para Philip:

     - Bom dia, padre. Quem está procurando?

     Ao mesmo tempo, um cão de caça deitado junto ao fogo levantou a cabeça e rosnou. O homem de preto ergueu os olhos, viu Philip e parou instantaneamente a conversa erguendo uma das mãos.

     - O que há? - perguntou de maneira brusca.

     - Bom dia - disse o prior, polido. - Vim ver o bispo.

     - Ele não está - disse o sacerdote sumariamente. Ficou abalado. Antes estava com medo da entrevista e dos riscos que corria mas agora se sentia frustrado. O que ia fazer do seu horrível segredo? Perguntou ao padre:

     - Quando o esperam de volta?

     - Não sabemos. Qual é o assunto que tem com ele?

     O Tom de sua voz era um tanto abrupto, e Philip irritou-se.

     - É um assunto de Deus - disse asperamente.  - Quem é você?

     O padre ergueu as sobrancelhas, como se tivesse ficado surpreso por se ver desafiado. Os outros homens de súbito ficaram quietos, como se esperassem uma explosão; após uma pausa, porém, ele respondeu com bastante brandura:

     - Sou o arcediago dele. Meu nome é Waleran Bigod.

     Um bom nome para um padre, pensou Philip, que disse então:

     - Meu nome é Philip. Sou o prior do Mosteiro de St.-Johnin-the-Forest. Pertence ao priorado de Kingsbridge.

     - Ouvi falar de você - disse Waleran. - Você é Philip de Gwynedd.

     O prior ficou surpreso. Não podia imaginar por que um arcediago devesse conhecer o nome de alguém situado numa posição tão humilde quanto a sua. Porém, por mais modesto que fosse seu nível, foi suficiente para mudar a atitude de Waleran. A expressão irritada desapareceu da fisionomia dele.

     - Venha para junto do fogo - disse. - Aceita um trago de vinho quente para aquecer o sangue? - Fez um gesto para alguém sentado num banco encostado à parede, e um vulto maltrapilho se levantou para providenciar o vinho.

     Philip aproximou-se do fogo. Waleran disse algo em voz baixa e os outros homens se levantaram e começaram a ir embora. O prior se sentou e esquentou as mãos, enquanto o arcediago ia até a porta com os convidados. Philip perguntou-se o que teriam estado discutindo, e por que razão Waleran não havia encerrado a reunião com uma prece.

     O servo maltrapilho entregou-lhe uma taça de madeira. Ele bebeu o vinho quente e temperado, pensando no próximo passo. Se o bispo não estava disponível, a quem poderia se voltar? Pensou em procurar o conde Bartholomew e simplesmente lhe pedir para que desistisse da rebelião. A ideia era ridícula; o conde o colocaria numa masmorra e jogaria a chave fora. Restava o xerife, que, em teoria, era o representante do rei no condado. Mas nem precisava dizer de que lado o xerife estaria enquanto ainda houvesse alguma dúvida sobre quem iria ser o rei. Ainda assim, pensou Philip, pode ser que no fim eu tenha de correr esse risco. Ansiava por retomar à vida simples do monastério, onde seu inimigo mais perigoso era Peter de Wareham.

     Os convidados de Waleran partiram, e a porta fechou-se, isolando o barulho dos cavalos no pátio. O arcediago voltou para junto do fogo e puxou uma cadeira grande.

     Philip estava preocupado com o seu problema e não queria realmente conversar com o arcediago, mas viu-se obrigado a ser polido.

     - Espero não ter interrompido sua reunião - disse.

     Waleran fez um gesto conciliador.

     - Tinha mesmo que acabar - disse. - Essas coisas sempre vão mais longe do que é preciso. Estávamos discutindo a renovação dos contratos de arrendamento das terras da diocese o tipo de coisa que poderia ser definida em poucos momentos se ao menos as pessoas soubessem ser decididas. - Agitou a mão ossuda, para pôr de lado todos os arrendamentos da diocese e seus locatários. - Soube que você fez um bom trabalho naquele pequeno mosteiro na floresta.

     - Estou surpreso por você saber disso - replicou Philip.

     - O bispo é o abade ex officio de Kingsbridge, de modo que tem obrigação de se interessar.

     Ou tem um arcediago bem informado, pensou Philip. Ele disse:

     - Bem, Deus nos abençou.

     - É verdade.

     Eles estavam falando francês normando, a linguagem que Waleran e seus convidados haviam usado, o idioma do governo; mas havia algo um pouco estranho no sotaque de Waleran, e após alguns momentos Philip concluiu que ele tinha as inflexões de quem fora criado falando inglês. O que significava que não era um aristocrata normando, e sim um nativo que subira graças aos próprios esforços - como Philip.

     Um instante depois isso foi confirmado quando Waleran passou a falar inglês para dizer:

     - Quisera que Deus conferisse bênçãos similares ao priorado de Kingsbridge.

     Philip então não era o único preocupado com o estado de coisas em Kingsbridge. O arcediago provavelmente sabia mais sobre o que se passava ali do que ele.

     - Como está o prior James? - perguntou Philip.

     - Doente - respondeu Waleran, de maneira sucinta. Então ele não seria capaz de fazer nada a respeito da insurreição do conde Bartholomew, pensou Philip, abatido. Seria obrigado a ir a Shiring e se arriscar com o xerife.

     Ocorreu-lhe que Waleran era o tipo de homem que conheceria todo mundo de importância no condado.

     - Que tal é o xerife de Shiring? - perguntou. Waleran deu de ombros.

     - Ímpio, arrogante, ganancioso e corrupto. Como todos os xerifes. Por que pergunta?

     - Se não posso falar com o bispo, provavelmente devo procurar o xerife.

     - Tenho a confiança do bispo, você sabe - disse Waleran, com um pequeno sorriso. - Se puder ajudar...  - Levantou as mãos, no gesto de um homem que estava sendo generoso mas que sabia que podia ser recusado.

     Philip tinha se acalmado um pouco, achando que o momento da crise fora adiado por um ou dois dias, mas agora estava ansioso de novo. Poderia confiar no arcediago Waleran? Seu jeito despreocupado era estudado, pensou: parecia contido, mas na verdade devia estar ardendo de curiosidade para saber o que o prior tinha a dizer de tão importante. No entanto, não havia razão para não confiar nele. Parecia um sujeito ponderado. Teria poder suficiente para fazer qualquer coisa acerca da rebelião?

     Se não pudesse, certamente seria capaz de localizar o bispo. Philip deu-se conta de que, na verdade, havia uma grande vantagem em confiar em Waleran; o bispo poderia insistir em querer saber a verdadeira fonte da informação que trazia, mas o arcediago não possuía autoridade para isso, e teria que se contentar com a história que Philip lhe contasse, quer acreditasse ou não.

     Waleran mais uma vez esboçou seu pequeno sorriso.

     - Se pensar mais tempo, começarei a crer que não confia em mim!

     Philip achou que compreendia o arcediago. Era um homem mais ou menos como ele próprio: jovem, instruído, inteligente e nascido numa classe baixa. Talvez fosse um pouco mundano demais para o seu gosto, mas isso era perdoável num sacerdote obrigado a passar tanto tempo com lordes e ladies, sem o benefício da vida protegida de um monge. No fundo do coração Waleran era um homem devoto, pensou Philip. Faria o que fosse certo para a Igreja.

     Hesitou no instante de tomar a decisão. Até agora só ele e Francis conheciam o segredo. Uma vez contado a uma terceira pessoa, tudo poderia acontecer. Respirou fundo.

     - Três dias atrás um homem ferido apareceu no meu mosteiro, na floresta - começou ele, pedindo silenciosamente perdão pela mentira. - Era um homem armado num cavalo belo e veloz, e levara uma queda a uma ou duas milhas de distância. Devia estar galopando quando caiu, pois seu braço estava quebrado e as costelas, esmagadas. Tratamos do braço, mas não havia nada que pudéssemos fazer quanto às costelas, e ele estava tossindo sangue, sinal de hemorragia interna. - Enquanto falava, Philip observava o rosto de Waleran. Até agora não demonstrara mais que polido interesse. - Aconselhei-o a confessar seus pecados, pois estava em risco de vida. Ele me contou um segredo. - Hesitou, sem saber quanto Waleran teria sabido das notícias políticas. - Acho que você deve saber que Estêvão de Blois reivindicou o trono da Inglaterra com a bênção da Igreja.

     Waleran sabia mais que Philip.

     - E foi coroado em Westminster três dias antes do Natal - disse.

     - Já! - Francis não soubera disso.

     - Qual era o segredo? - perguntou Waleran, com um toque de impaciência.

     Philip deu o passo decisivo.

     - Antes de morrer, o cavaleiro me disse que seu senhor, Bartholomew, conde de Shiring, conspirara com Robert de Gloucester para articularem uma rebelião contra Estêvão. - Philip estudou o rosto de Waleran, prendendo a respiração.

     O rosto pálido de Waleran ficou um quase nada mais branco.

     - Acha que ele estava dizendo a verdade? - perguntou, aflito.

     - Um moribundo geralmente diz a verdade ao confessor.

     - Talvez estivesse repetindo um boato comum no palácio do conde.

     Philip não esperara que o arcediago se mostrasse cético. Improvisou depressa.

     - Oh, não - disse. - Ele era um mensageiro mandado pelo conde Bartholomew a fim de reunir suas forças em Hampshire.

     Os olhos inteligentes de Waleran examinaram detidamente a expressão de Philip.

     - Ele tinha a mensagem escrita?

     - Não.

     - Algum sinete ou símbolo da autoridade do conde?

     - Nada. - Philip começou a transpirar ligeiramente. - Presumi que fosse bem conhecido pelas pessoas a quem ia procurar, como um representante autorizado do conde.

     - Qual era o nome dele?

     - Francis - disse Philip estupidamente. Teve vontade de morder a língua.

     - Só?

     - Ele não me disse o resto do nome. - Philip teve a impressão de que a história seria desmascarada, sob o interrogatório de Waleran.

     - Suas armas e sua armadura poderiam identificá-lo.

     - Ele não tinha armadura - disse Philip, desesperado. Nós enterramos suas armas com ele - espadas não têm utilidade para monges. Poderíamos desenterrá-las, mas lhe asseguro que eram comuns e nada traziam que as identificasse. Não creio que você encontrasse indícios nelas... - Precisava desviar Waleran daquela linha de interrogatório.

     - O que você acha que pode ser feito?

     Waleran franziu a testa.

     - É difícil saber, sem provas. Os conspiradores poderão simplesmente negar a acusação, e o acusador será condenado. - Ele não disse: Especialmente se a história for falsa, mas Philip adivinhou. - Você contou isto a mais alguém? - perguntou o arcediago.

     Philip balançou a cabeça.

     - Para onde vai quando sair daqui?

     - Kingsbridge. Eu tinha que inventar uma razão para deixar o mosteiro, de modo que disse que visitaria o priorado; agora preciso ir até lá, para fazer da mentira uma verdade.

     - Não fale sobre isso com mais ninguém.

     - Não falarei. - Philip não tencionava falar mesmo, mas gostaria de saber por que Waleran estava insistindo nesse ponto. Talvez fosse do seu interesse: se ia se arriscar a expor a conspiração, queria estar certo de ter o crédito. Era ambicioso. Felizmente, tendo em vista o objetivo de Philip.

     - Deixe isso por minha conta. - Waleran mostrou-se brusco de súbito, e o contraste com seus modos anteriores fez Philip perceber que sua amabilidade podia ser vestida ou tirada como um casaco. Continuou: - Você irá ao priorado de Kingsbridge agora e esquecerá o xerife, está bem?

     - Sim. - O prior percebeu que tudo estaria bem, pelo menos por algum tempo, e um peso saiu de suas costas. Não ia ser atirado num calabouço, interrogado por um torturador ou acusado de sedição. Havia passado a responsabilidade para outra pessoa - alguém que parecia bastante feliz por tê-la recebido.

     Philip se levantou e foi até a janela mais próxima. Era o meio da tarde, e ainda restava muita luz do dia. Tinha de sair logo dali e deixar aquele segredo para trás.

     - Se eu partir agora poderei cobrir de oito a dez milhas antes de a noite cair - disse.

     Waleran não o pressionou para ficar.

     - Isso o levará à aldeia de Bassingbourn. Lá encontrará onde dormir. Se sair bem cedo na manhã seguinte, poderá chegar a Kingsbridge por volta do meio-dia.

     - Sim. - Philip deu as costas para a janela e virou-se para Waleran. O arcediago estava com o olhar fixo no fogo, imerso em seus pensamentos. O prior observou-o por um momento. Waleran não disse em que estava meditando. Philip gostaria de saber o que estava se passando naquela cabeça inteligente.

     - Irei embora agora mesmo - disse.

     Waleran saiu do seu devaneio e ficou encantador de novo. Sorriu e levantou-se.

     - Está bem - disse. Caminhou com Philip até a porta e acompanhou-o da escada ao pátio.

     Um cavalariço trouxe a montaria de Philip e a selou. Waleran podia ter dito adeus naquela hora e retornado para junto do fogo, mas aguardou. O prior achou que era para se certificar de que tinha tomado a estrada de Kingsbridge, e não a de Shiring.

     Philip montou, sentindo-se mais feliz do que quando chegara. Já ia sair, quando viu Tom Construtor passar pelo portão, com a família, e disse para Waleran:

     - Aquele homem é um construtor que encontrei na estrada. Parece ser um sujeito honesto que atravessa um período de dificuldades. Se precisar de reparos, ficará contente com ele.

     O arcediago não deu resposta. Estava com o olhar fixo na família, que atravessava o pátio. Toda a sua pose e compostura o haviam abandonado. Sua boca estava aberta e seus olhos, arregalados. Parecia um homem em estado de choque.

     - Que foi? - perguntou Philip, ansioso.

     - Aquela mulher! - A voz de Waleran mal passava de um murmúrio.

     Philip olhou para ela.

     - É um bocado bonita - disse, percebendo isso pela primeira vez. - Mas nos ensinaram que é melhor para um padre ser casto. Desvie os olhos dela, arcediago.

     Waleran não estava ouvindo.

     - Pensei que estivesse morta - murmurou. De repente, ele pareceu se lembrar de Philip. Obrigou-se a desviar os olhos da mulher e voltou-se para ele, recompondo-se. - Transmita meus cumprimentos ao prior de Kingsbridge - disse. Depois deu um tapa na anca do pónei do religioso, e o animal precipitou-se para a frente e saiu trotando pelo portão; quando Philip conseguiu encurtar as rédeas e controlar o animal, já estava longe demais para dizer adeus.

    

     Por volta das doze horas do dia seguinte, Philip chegou a uma distância em que era possível ver Kingsbridge, conforme o arcediago Waleran antecipara. Emergiu de uma colina coberta por um bosque e deu com uma paisagem de campos congelados, sem vida, cuja monotonia era quebrada apenas pelo ocasional tronco de uma árvore. Não se via ninguém, pois no inverno não havia trabalho a fazer com a terra. A algumas milhas de distância, erguia-se a Catedral de Kingsbridge sobre uma elevação; um prédio imenso e atarracado que lembrava uma tumba sobre um monte de terra.

     Philip seguiu a estrada em declive, e Kingsbridge desapareceu de vista. Seu plácido cavalo escolhia o caminho cuidadosamente ao longo dos sulcos congelados. Philip estava pensando no arcediago. Waleran era tão seguro de si, confiante e capaz que fizera Philip se sentir jovem e ingénuo, embora não houvesse muita diferença de idade entre eles. Sem o menor esforço, ele controlara todo o encontro: livrara-se com elegância de seus convidados, ouvira com atenção a história de Philip, definira de imediato o problema crucial da falta de provas, percebera logo que aquela linha de interrogatório era infrutífera e depois mandara prontamente Philip embora - sem nenhuma garantia, Philip agora se dava conta, de que alguma providência seria tomada.

     O prior sorriu com melancolia ao ver como fora bem manipulado. Waleran nem sequer prometera contar ao bispo o relato que lhe fizera. Mas Philip confiava que a grande dose de ambição que detectara nele asseguraria que a informação fosse usada de algum modo. Tinha mesmo a impressão de que o arcediago talvez se sentisse um pouco em dívida com ele.

     Por ter se impressionado com Waleran, ficara mais intrigado ainda com seu único sinal de fraqueza - sua reação à mulher de Tom Construtor. Para Philip, ela parecera obscuramente perigosa. Waleran parecia considerá-la desejável - o que podia resultar na mesma coisa, claro. No entanto, havia mais que isso. O arcediago devia tê-la encontrado antes, pois dissera: Pensei que estivesse morta. Era como se houvesse pecado com ela num passado distante. Certamente Waleran tinha algo para se sentir culpado, a julgar pelo modo como providenciara para que o prior não se demorasse e soubesse mais coisas.

     Nem mesmo essa culpa secreta fez muito para reduzir a opinião que Philip fizera de Waleran. O arcediago era sacerdote, não monge. A castidade sempre fora parte essencial da vida monástica, porém nunca cumprida rigorosamente pelos padres. Os bispos tinham amantes, e os padres tinham governantas em suas paróquias. Como a proibição contra os maus pensamentos, o celibato clerical era uma lei muito difícil de ser obedecida. Se Deus não pudesse perdoar padres lascivos, haveria poucos representantes do clero no céu.

     Kingsbridge reapareceu quando Philip chegou ao cume do aclive seguinte. A paisagem era dominada pela igreja imponente, com seus arcos arredondados e janelinhas fundas, da mesma forma como a aldeia era dominada pelo mosteiro. A face oeste da igreja, que estava de frente para Philip, tinha duas torres gêmeas curtas e grossas, uma das quais caíra numa tempestade, quatro anos antes. Ainda não fora reconstruída, e a fachada tinha uma aparência acusatória. Aquela visão nunca deixava de enfurecer

     Philip, pois a pilha de escombros na entrada da igreja era um lembrete vergonhoso do colapso da honradez monástica no priorado. Os prédios do monastério, feitos com a mesma pedra calcária clara, posicionavam-se perto da igreja em grupos, como conspiradores em torno de um trono. Do lado de fora do muro baixo que cercava o priorado, espalhavam-se choças de taipa com telhado de palha, ocupadas pelos camponeses que aravam os campos nas proximidades e pelos servos que trabalhavam para os monges. Um rio estreito e impaciente cortava apressado o canto sudoeste da aldeia, trazendo água fresca para o mosteiro.

     Philip já estava se sentindo mal-humorado quando atravessou o rio por uma velha ponte de madeira. O priorado de Kingsbridge trazia vergonha à Igreja de Deus e ao movimento monástico, mas não havia nada que pudesse fazer a esse respeito; e a raiva e a impotência tinham um gosto amargo em sua boca.

     O priorado era dono da ponte e cobrava uma taxa pela travessia. Quando a estrutura de madeira rangeu sob o peso de Philip e seu cavalo, um monge idoso saiu de um abrigo na margem oposta e adiantou-se para retirar o galho de salgueiro que servia como barreira. Ele reconheceu Philip e acenou. O prior notou que estava mancando e perguntou:

     - O que há com seu pé, irmão Paul?

     - É só uma friagem. Vai melhorar quando chegar a primavera.

     Philip pôde ver que ele nada tinha nos pés além das sandálias. Paul era um velho resistente, mas já estava em idade muito avançada para passar o dia inteiro ao ar livre com aquele frio.

     - Você devia ter uma fogueira - disse o prior.

     - Seria um favor do céu - respondeu o monge. - Mas o irmão Remigius diz que a fogueira custaria mais do que o pedágio rende.

     - Quanto cobramos?

     - Um penny por cavalo e uma moeda de cobre de um quarto de penny por homem.

     - Muitas pessoas usam a ponte?

     - Oh, sim, muitas.

     - Então, como não podemos arcar com a despesa de uma fogueira?

     - Bem, os monges não pagam, é claro, nem os servos do priorado ou os aldeões. Então é só um cavaleiro em viagem ou um funileiro ambulante a cada dois dias, mais ou menos. Nos dias santos, quando vem gente de toda parte para assistir aos serviços religiosos na catedral, recolhemos moedas de cobre em abundância.

     - Parece-me que poderíamos guarnecer a ponte apenas nos dias santos, dando a você uma fogueira - disse Philip.

     Paul estava aflito.

     - Não diga nada a Remigius, sim? Se ele achar que me queixei, vai ficar aborrecido.

     - Não se preocupe - disse Philip. Ele tocou o cavalo para que Paul não pudesse ver a expressão do seu rosto. Esse tipo de tolice o enfurecia. O monge dera a vida ao serviço de Deus e ao monastério, e agora, nos seus anos de declínio, o obrigavam a suportar dor e frio por causa de uma ou duas moedas por dia. Não apenas era cruel, como também desperdício, pois um velho paciente como Paul podia ser posto para trabalhar em alguma tarefa produtiva - criar galinhas, talvez -, o que beneficiaria o priorado muito mais que umas poucas moedinhas. Entretanto, o prior de Kingsbridge era velho e letárgico demais para ver isso, e, ao que parecia, o mesmo era verdadeiro em relação a Remigius, o subprior. Um grave pecado, pensou Philip com amargura, desperdiçar tão descuidadamente os recursos humanos e materiais que haviam sido dados a Deus com amorosa piedade.

     Seu estado de espírito era implacável quando conduziu o cavalo através dos espaços entre as choças até o portão do priorado, que era um terreno retangular cercado, com a igreja no meio. As construções estavam dispostas de tal forma que tudo o que estivesse ao norte e a oeste da igreja era público, mundano, secular e prático, enquanto o que se encontrasse ao sul e a leste era privado, espiritual e sagrado.

     A entrada para o adro ficava, desse modo, no canto noroeste do retângulo. O portão estava aberto, e o jovem monge na guarita acenou quando Philip passou trotando.

     Logo depois do portão, apoiado no lado oeste do muro que cercava o priorado, ficava o estábulo, uma sólida estrutura de madeira mais bem construída que muitas moradias, do outro lado da muralha. Dois cavalariços estavam sentados sobre fardos de palha. Não eram monges, e sim empregados do priorado. Puseram-se de pé relutantemente, como se tivessem ficado ressentidos por terem um visitante lhes causando trabalho extra. As narinas de Philip arderam com o cheiro acre do ar, e ele pôde ver que o estrume das baias não era retirado há três ou quatro semanas. Não estava disposto a fingir que não via a negligência dos empregados do estábulo naquele dia. Quando entregou as rédeas do seu animal, disse:

     - Antes de estabular meu pónei, podem limpar uma das baias e colocar palha fresca. Depois façam o mesmo para os outros cavalos. Se o piso das baias ficar permanentemente úmido, seus cascos poderão apodrecer. Vocês não têm tanto trabalho que não possam manter o estábulo limpo. - Os dois ficaram emburrados, de modo que Philip acrescentou: - Façam o que digo, senão providenciarei para que percam um dia de pagamento por indolência. - Já ia sair quando se lembrou de algo. - Há um queijo no meu alforje. Entreguem-no ao irmão Milius, na cozinha.

     Philip saiu sem esperar resposta. O priorado tinha sessenta empregados para cuidar dos quarenta e cinco monges, um vergonhoso excesso de servos, em sua opinião.

     Pessoas sem muita atividade podem facilmente se tornar tão preguiçosas que deixam de cumprir até mesmo as pequenas tarefas, como evidentemente acontecera aos dois empregados do estábulo. Era só outro exemplo da negligência do prior James.

     Philip caminhou ao longo da parede oeste do adro do priorado e passou pela hospedaria, curioso para ver se havia algum visitante. Mas o grande prédio de um único aposento estava frio e desocupado, com um monte de folhas secas trazidas pelo vento do ano anterior cobrindo a soleira da porta. Virou à esquerda e começou a atravessar a larga extensão de terra, com um pouco de grama aqui e ali, que separava a hospedaria - que às vezes alojava pessoas ímpias, e até mesmo mulheres - da igreja. Aproximou-se da face oeste desta, onde ficava a entrada do público. As pedras quebradas da torre que ruíra estavam onde tinham caído, um monte enorme, duas vezes a altura de um homem.

     Como a maioria das igrejas, a Catedral de Kingsbridge fora construída no formato de uma cruz. A face oeste abria-se para a nave, que formava a haste longa. Os braços consistiam nos dois transeptos, dirigidos para o norte e para o sul, de cada lado do altar. Depois deles, a extremidade leste da igreja era chamada de coro, uma parte reservada principalmente para os monges. No pedaço final da extremidade leste, ficava o túmulo de santo Adolfo, que ainda atraía peregrinos de vez em quando.

     Philip entrou na nave e contemplou a avenida de arcos redondos e fortes colunas. A visão o deixou ainda mais deprimido. Era uma construção úmida, sombria e se deteriorara desde a última vez em que a vira. As janelas nas naves laterais baixas, de ambos os lados da nave central, eram como túneis estreitos nas paredes muito grossas.

     Em cima as janelas maiores do clerestório iluminavam o teto de madeira, só para mostrar como as pinturas estavam desbotadas - apóstolos, santos e profetas desapareciam e misturavam-se inexoravelmente ao fundo. A despeito do ar frio que entrava - pois não havia vidros nas janelas -, um vago cheiro de hábitos podres contaminava o ar. Do outro lado da igreja vinha o som da missa solene, as frases em latim recitadas em Tom uniforme, e as respostas salmodiadas. Philip caminhou pela nave. O chão nunca fora pavimentado, de modo que o musgo crescia nos cantos onde os tamancos dos camponeses e as sandálias dos monges raramente pisavam. As espirais e caneluras gravadas na pedra das imponentes colunas, assim como as gregas cinzeladas que decoravam os arcos entre elas, já haviam sido pintadas e douradas, mas tudo o que restava agora eram algumas lascas de folha de ouro, fino como papel, e uma miscelânea de manchas onde houvera tinta. A argamassa entre as pedras estava esfarelando e caindo, acumulando-se em montinhos ao longo das paredes. Philip mais uma vez sentiu a raiva com que já estava familiarizado. Quando as pessoas fossem à igreja deveriam se intimidar com a majestade de Deus Todo-Poderoso. Mas os camponeses eram gente simples, que julgavam pelas aparências, e ao chegarem ali iriam pensar que Deus era uma divindade indiferente e descuidada, dificilmente capaz de valorizar  sua fé ou registrar seus pecados. No fim, os camponeses pagavam a igreja com o suor do rosto, e era ultrajante que fossem recompensados com aquele mausoléu em pedaços.

     Philip ajoelhou-se diante do altar e ficou ali por um momento, cônscio de que sua indignação, mesmo que justa, não era o estado de espírito mais adequado para se adorar a Deus. Quando se acalmou um pouco levantou-se e prosseguiu.

     O braço leste da igreja, o coro, era dividido em duas partes. Mais próximo da interseção ficava o coro, com assentos de madeira para os monges durante os serviços.

     Um pouco além ficava o santuário com o túmulo do santo. Philip deslocou-se por trás do altar, tencionando se acomodar num dos lugares do coro; porém, foi detido por um ataúde.

     Parou, surpreso. Ninguém lhe dissera que tinha morrido um monge. Porém, é claro, só falara com três pessoas: Paul, que era velho e um pouco distraído; e os dois cavalariços, a quem não dera chance de encetar conversa. Aproximou-se do caixão para ver quem era. Quando o fez, seu coração falhou uma batida.

     Era o prior James.

     Philip ficou olhando fixamente, espantado, com a boca aberta. Agora tudo mudava. Haveria um novo prior, novas esperanças...

     Aquele júbilo não era a reação apropriada para a morte de um venerável irmão, fossem quais fossem seus pecados. Philip compôs o rosto e a mente numa expressão de luto. Estudou o homem morto. O prior tinha os cabelos brancos e o rosto fino; andava recurvado. Agora sua expressão perpetuamente extenuada se fora, e em vez de preocupado e desconsolado ele parecia em paz. Quando Philip ajoelhou-se ao lado do esquife e murmurou uma oração, perguntou-se se algum grande problema não teria pesado no coração do velho nos últimos anos de sua vida: um pecado inconfessado, uma mulher pranteada, ou um malefício dirigido a um inocente. O que quer que tivesse sido, ele agora só iria falar a seu propósito no dia do Juízo Final.

     A despeito de sua resolução, Philip não conseguiu impedir a mente de se voltar para o futuro.

     O prior James, indeciso, ansioso e irresoluto, deixara uma indesejável e persistente influência. Agora haveria um novo prior, alguém que disciplinasse os servos preguiçosos, consertasse a igreja e aproveitasse a grande riqueza da propriedade, fazendo do priorado uma força poderosa para o bem. Estava excitado demais para ficar quieto. Levantou-se e saiu andando, com uma nova leveza nos passos, até o coro, onde se acomodou num dos lugares vazios ao fundo.

     A missa estava sendo rezada pelo sacristão, Andrew de York, um homem irascível e de cara vermelha, que parecia estar permanentemente à beira de um ataque apoplético.

     Era um dos decanos, os monges mais antigos que dirigiam o mosteiro. Sua área de responsabilidade era tudo o que fosse sagrado: os serviços religiosos, os livros, as relíquias, os hábitos, os ornamentos e, acima de tudo, a construção do prédio da igreja. Trabalhando sob suas ordens havia um chantre para supervisionar a música e um tesoureiro para cuidar dos candelabros de ouro e prata com pedras preciosas, dos cálices e dos outros vasos sagrados. Ninguém tinha autoridade sobre o sacristão, exceto o prior e o subprior, Remigius, que era um grande amigo de Andrew.

     Andrew lia o missal no seu costumeiro tom de ira mal contida. A cabeça de Philip estava um verdadeiro torvelinho, e se passou algum tempo até que ele notasse que o serviço não estava sendo conduzido de modo conveniente. Um grupo de jovens monges fazia barulho, rindo e falando. Philip viu que estavam fazendo pouco do velho mestre dos noviços, que caíra no sono. Os jovens monges - muitos dos quais haviam sido noviços sob a autoridade do velho mestre até uma data bastante recente, e que provavelmente ainda sentiam a dor das suas varadas - jogavam bolinhas de terra nele. Cada vez que uma o atingia no rosto, ele estremecia e mudava de posição, mas não acordava. Andrew parecia não se dar conta do que estava ocorrendo. Philip olhou à sua volta, procurando o monge encarregado da disciplina. Ele estava na extremidade oposta do coro, mergulhado em profunda conversação com outro monge, sem prestar atenção na missa ou no comportamento dos jovens.

     Philip ficou observando por mais um instante. Mesmo em seus melhores momentos, não tinha paciência para aquele tipo de coisa. Um dos monges parecia ser o líder, um rapaz bonito com pouco mais de vinte e um anos de idade e sorriso endiabrado. O prior o viu mergulhar a ponta da faca na parte superior de uma vela acesa e atirar o sebo derretido na careca do mestre dos noviços. Quando a gordura quente caiu em sua cabeça, o velho monge acordou com um ganido, e os jovens soltaram gargalhadas.

     Com um suspiro, Philip deixou seu lugar. Aproximou-se do rapaz pelas costas, agarrou-lhe a orelha e, rispidamente, rebocou-o para fora do coro, levando-o para o transepto sul. Andrew ergueu os olhos do missal e fitou Philip com expressão de desagrado; não vira nada do que acontecera antes.

     Quando já não podiam ser ouvidos pelos outros monges, Philip parou, soltou a orelha do rapaz e perguntou:

     - Nome?

     - William Beauvis.

     - E que diabo se apossou de você durante a missa solene?

     William pareceu ficar emburrado.

     - Eu estava cansado - disse.

     Monges que reclamavam da sorte jamais conseguiam angariar a simpatia de Philip.

     - Cansado? - perguntou, erguendo um pouco a voz. - O que você fez hoje?

     - Matinas e laudes no meio da noite - disse William desafiadoramente -, prima antes do desjejum, depois a terça, missa do cabido, estudo e agora missa solene.

     - E você comeu?

     - Fiz meu desjejum.

     - E espera jantar.

     - Sim.

     - A maioria das pessoas da sua idade trabalha exaustivamente no campo do raiar do sol ao cair da noite para comer de manhã e para jantar - e ainda dão um pouco do seu pão para você! Sabe por quê?

     - Sei - respondeu William, esfregando os pés e olhando para o chão.

     - Diga.

     - Porque querem que os monges cantem as orações para eles.

     - Correto. Camponeses que trabalham duro lhes dão carne, pão e um dormitório de pedra com fogo no inverno...  e você está tão cansado que não consegue assistir à missa solene até o fim por eles!

     - Desculpe, irmão.

     Philip olhou para William por mais um momento. Não havia grande mal nele. A culpa verdadeira era de seus superiores, indiferentes ao ponto de permitirem brincadeiras rudes dentro da igreja.

     - Se os serviços religiosos o cansam - disse Philip delicadamente -, por que se tornou monge?

     - Sou o quinto filho do meu pai.

     Philip balançou a cabeça.

     - E sem dúvida ele deu terras ao priorado, desde que você fosse aceito.

     - Sim, uma fazenda.

     Era uma história comum. Um homem com excesso de filhos dava um a Deus, assegurando-se de que Ele não rejeitaria o presente por intermédio de uma doação que sustentasse o filho na pobreza monástica. Desse modo, muitos homens sem vocação se tornavam monges desobedientes.

     - Se você fosse transferido para uma granja, digamos, ou para o meu pequeno mosteiro de St.-John-in-the-Forest, onde há muito trabalho a ser realizado ao ar livre, e um tempo bem menor é dedicado ao culto, acha que isso poderia ajudá-lo a participar dos serviços religiosos de um modo mais adequado?

     O rosto de William iluminou-se.

     - Sim, irmão, acho que ajudaria!

     - Foi o que pensei. Verei o que pode ser feito. Mas não se anime demais - terá de esperar até que tenhamos um novo prior e aí pedir que o transfiram.

     - Muito obrigado, assim mesmo!

     O culto terminou e os monges começaram a deixar a igreja em procissão. Philip levou um dedo aos lábios para encerrar a conversa. Quando os monges atravessaram o transepto sul, Philip e William entraram na fila e foram sair no claustro, um quadrângulo com uma galeria coberta adjacente ao lado sul da nave. Ali a procissão interrompeu-se. Philip virou-se na direção da cozinha, mas seu caminho foi barrado pelo sacristão, que assumiu uma pose agressiva à sua frente, com os pés separados e as mãos nas cadeiras

     - Irmão Philip - disse ele.

     - Irmão Andrew - disse Philip, perguntando-se o que teria acontecido.

     - Que negócio foi esse de interromper a missa solene?

     Philip ficou estupefato.

     - Interromper a missa? - perguntou, incrédulo. - O rapaz estava se comportando mal. Ele...

     - Sou perfeitamente capaz de conter maus procedimentos nos serviços que oficio! - disse Andrew, erguendo a voz. O movimento de dispersão dos monges foi interrompido, e todos ficaram por perto para ouvir o que era dito.

     Philip não pôde compreender todo aquele espalhafato. Jovens monges e noviços ocasionalmente tinham de ser disciplinados pelos irmãos mais velhos durante os cultos, e não havia regra que dissesse que só o sacristão podia fazer isso.

     - Mas você não viu o que estava acontecendo - disse Philip.

     - Ou talvez tenha visto, mas achado melhor tratar do caso mais tarde.

     Philip estava bastante seguro de que ele não vira nada.

     - O que foi que viu, então? - desafiou.

     - Não pense que pode me questionar! - berrou Andrew. Seu rosto vermelho ficou púrpura. - Você pode ser o prior de um pequeno mosteiro na floresta, mas já sou sacristão aqui há doze anos e conduzirei os ofícios da catedral do modo como julgo adequado - sem ajuda de estranhos com a metade da minha idade!

     Philip começou a pensar que talvez tivesse mesmo errado - de outro modo, por que Andrew estaria tão furioso? Contudo, uma briga ali no claustro não era um espetáculo edificante para os outros monges, e tinha que terminar.

     Philip engoliu o orgulho, cerrou os dentes e baixou a cabeça, submisso.

     - Considero-me corrigido, irmão, e humildemente peço seu perdão - disse.

     Andrew estava preparado para uma sessão de gritos, e aquela retirada prematura do seu oponente não o satisfez.

     - Pois que não aconteça de novo - disse descortesmente.

     Philip nada replicou. Andrew tinha que ter a última palavra, de modo que qualquer outra observação da parte dele só serviria para justificar uma tréplica. Permaneceu olhando para o chão e mordendo a língua, enquanto o sacristão o fixava por alguns momentos. Finalmente este girou nos calcanhares e se afastou, com a cabeça erguida.

     Os outros monges ficaram olhando para o prior. Aborrecia-o ser humilhado por Andrew, mas fora obrigado a ceder, pois um monge orgulhoso é um mau monge. Sem falar com ninguém, deixou o claustro.

     Os alojamentos ficavam na parte sul do quadrado do claustro, com o dormitório no canto sudeste e o refeitório no sudoeste. Philip tomou a direção oeste, passando através do refeitório e saindo mais uma vez no lado público do adro, num ponto de onde podia ver a casa de hóspedes e as cocheiras. Ali, no canto sudoeste do adro, ficava o pátio da cozinha, cercado nos três lados pelo refeitório, a cozinha propriamente dita, a padaria e a cervejaria. Uma carroça cheia de nabos aguardava ser descarregada. Philip subiu os degraus da porta da cozinha e entrou.

     Teve a impressão de levar um soco. O ar era quente e pesado com o cheiro do peixe que estava sendo preparado, e havia um barulho estridente de panelas batendo e de ordens gritadas. Três cozinheiros, vermelhos com o calor e com a pressa, estavam preparando o jantar com a ajuda de seis ou sete auxiliares. Havia duas imensas lareiras, uma em cada extremidade do aposento, ambas com o fogo bem alto, e em cada uma delas cerca de vinte peixes, talvez um pouco mais, estavam sendo assados num espeto que um menino suarento girava. O cheiro do peixe fez a boca de Philip se encher de água. Dois jovens diante de um cepo de açougueiro cortavam bisnagas de pão com uma jarda de comprimento em grossas fatias a serem usadas .como trinchos, ou pratos comestíveis. Supervisionando o caos aparente, um monge: irmão Milius, o cozinheiro, um homem mais ou menos da idade de Philip. Estava sentado num banco alto, observando a atividade frenética à sua volta com um sorriso imperturbável, como se estivesse tudo em ordem e perfeitamente organizado - o que talvez fosse verdade, ao seu olhar experimentado. Ele sorriu para Philip e disse:

     - Muito obrigado pelo queijo.

     - Ah, sim. - Philip esquecera-se do queijo; muita coisa acontecera desde sua chegada. - É feito exclusivamente com o leite da primeira ordenha - vai ver como tem um gosto sutil e diferente.

     - Já estou com água na boca. Mas você parece triste. Algo errado?

     - Nada. Troquei umas palavras ásperas com Andrew. - Philip fez um gesto conciliador, como se quisesse afastar o sacristão do pensamento. - Posso apanhar uma pedra quente do fogo?

     - Claro.

     Havia diversas pedras no fogo da cozinha prontas para serem retiradas e usadas para aquecer rapidamente pequenas quantidades de água ou sopa.

     - Irmão Paul, na ponte - explicou Philip -, está com uma friagem, e Remigius não quer lhe dar uma fogueira. - Ele apanhou um par de tenazes de cabo comprido e removeu uma pedra.

     Milius abriu um armário e apanhou um pedaço de couro velho que um dia fora uma espécie de avental.

     - Tome, embrulhe nisto.

     - Obrigado. - Philip pôs a pedra quente no meio do couro e levantou-o cuidadosamente pelas pontas.

     - Ande depressa - disse Milius. - A comida está pronta.

     Philip saiu com um aceno. Atravessou o pátio da cozinha e dirigiu-se para o portão. À sua esquerda, do lado de dentro e junto da parede oeste, ficava a azenha. Muitos anos antes, um canal fora escavado a montante do priorado, a fim de trazer água do rio para o açude da azenha. Após impulsionar a roda, a água corria por um canal subterrâneo até a cervejaria, a cozinha, a fonte no claustro onde os monges lavavam as mãos antes das refeições e finalmente a latrina, ao lado do dormitório; depois virava para o sul e se despejava de novo no rio. Um dos antigos priores tinha sido um inteligente planejador.

     Havia uma pilha de palha suja do lado de fora, notou Philip: os cavalariços estavam cumprindo suas ordens e lavando as cocheiras. Passou pelo portão e atravessou a aldeia, rumo ao portão.

     Teria sido presunção da minha parte reprovar o jovem William Beauvis?, perguntou a si próprio enquanto passava por entre as choças. Acabou por achar que não. Na verdade, teria sido errado ignorar tal interferência durante o culto.

     Chegou à ponte e enfiou a cabeça no pequeno abrigo de Paul.

     - Aqueça os pés nisto aqui - disse, entregando-lhe a pedra quente embrulhada no couro. - Quando esfriar um pouco, tire o couro e ponha os pés direto na pedra. Deve durar até o cair da noite.

     O irmão Paul ficou pateticamente agradecido. Na mesma hora tirou as sandálias e pôs os pés em cima do embrulho.

     - Já posso sentir a dor diminuindo - disse.

     - Se você recolocar a pedra no fogo da cozinha logo mais à noite, estará quente de novo amanhã de manhã - disse Philip.

     - Será que o irmão Milius não vai se incomodar? - perguntou ele nervosamente.

     - Eu garanto.

     - Você é muito bom para mim, irmão Philip.

     - Não é nada. - O prior saiu antes que o agradecimento do monge se tornasse embaraçoso. Era apenas uma pedra quente.

     Retornou ao priorado. Entrou no claustro, lavou as mãos na bacia de pedra que ficava na calçada sul e depois prosseguiu para o refeitório. Um dos monges estava lendo em voz alta num atril. O jantar era uma refeição que devia se fazer em silêncio, a não ser pela leitura, mas o barulho constante de quarenta e tantos monges comendo era bem apreciável, e havia também muitos cochichos, a despeito da regra. Philip enfiou-se num lugar vazio a uma das mesas compridas. O monge a seu lado comia com enorme prazer. Atraiu o olhar de Philip e murmurou:

     - Peixe fresco hoje.

     Philip balançou a cabeça. Vira o peixe na cozinha. Seu estômago roncou.

     - Ouvimos dizer que vocês têm peixe fresco todos os dias, no seu mosteiro na floresta - disse o monge, e havia inveja em sua voz.

     Philip sacudiu a cabeça.

     - De vez em quando temos galinha - cochichou. O monge pareceu ainda mais invejoso.

     - Aqui é peixe salgado, seis vezes por semana.

     Um criado colocou uma fatia grossa de pão na frente de Philip, e, em cima dela, um peixe recendendo aos temperos do irmão Milius. A boca de Philip encheu-se de água.

     Estava a ponto de atacar o peixe com sua faca quando um monge, na outra extremidade da mesa, levantou-se e apontou para ele. Era o monge responsável pela disciplina.

     Que será agora?, pensou Philip.

     O encarregado da disciplina quebrou a regra do silêncio, como era seu direito.

     - Irmão Philip!

     Os outros monges pararam de comer e o refeitório ficou em silêncio.

     Philip parou com a faca em cima do peixe e ergueu os olhos, na expectativa.

     - A regra manda não servir jantar para os atrasados - disse ele.

     Philip suspirou. Parecia incapaz de fazer qualquer coisa certa naquele dia. Tirou a faca, entregou o pão e o peixe ao servente e baixou a cabeça para ouvir a leitura.

     Durante o período de descanso após o jantar, Philip foi para a despensa, embaixo da cozinha, a fim de conversar com Cuthbert Cabeça Branca, o despenseiro. A despensa era uma galeria grande e escura com pilares grossos e baixos e janelas minúsculas. O ar era seco e impregnado com o cheiro dos gêneros: lúpulo e mel, maçãs em conserva e temperos secos, queijos e vinagre. Encontrava-se habitualmente o irmão Cuthbert ali, pois seu trabalho não lhe deixava muito tempo para os cultos, o que convinha ao seu temperamento: era uma pessoa inteligente e prática, com pouco interesse pela vida espiritual. O despenseiro era a contraparte material do sacristão.

     Cuthbert tinha de prover todas as necessidades práticas dos monges, reunindo o que era produzido nas fazendas e granjas do mosteiro e indo ao mercado comprar o que os monges e seus empregados não fossem capazes de suprir a si próprios. O trabalho requeria cuidadoso planejamento e muita cautela. Cuthbert não o realizava sozinho.

     Milius, o cozinheiro, era responsável pelo preparo das refeições, e havia um camareiro que cuidava das roupas dos monges. Estes dois trabalhavam sob suas ordens, e havia oficialmente mais três monges sob seu controle, mas que tinham um certo grau de independência: o hospedeiro, o enfermeiro, que tomava conta dos monges velhos e doentes num prédio separado, e o esmoler. Mesmo com essas pessoas ajudando, Cuthbert tinha a seu cargo uma tarefa formidável. No entanto ele registrava tudo inteiramente na cabeça, dizendo que era uma pena gastar pergaminho e tinta. Philip suspeitava que Cuthbert nunca tivesse aprendido a ler e escrever muito bem. Seu cabelo era branco desde quando jovem, daí a alcunha de Cabeça Branca, agora, porém, já passava dos sessenta, e o único cabelo que lhe restava era o que crescia em tufos espessos e brancos nas orelhas e narinas, como que para compensar a calvície. Como Philip fora despenseiro no seu primeiro monastério, entendia os problemas de Cuthbert e simpatizava com suas rabugices. Consequentemente, ele gostava do prior. Agora, sabendo que ele não pudera comer, apanhou meia dúzia de pêras num barril. Estavam um pouco murchas, mas saborosas, e Philip comeu agradecido, enquanto Cuthbert se queixava das finanças do mosteiro.

     - Não posso compreender como o priorado pode estar devendo - disse Philip, com a boca cheia.

     - Não devia - disse Cuthbert. - Tem mais terras e coleta dízimos de mais igrejas paroquiais do que nunca.

     - Então, por que não somos ricos?

     - Você sabe o sistema que temos aqui - a propriedade do mosteiro é dividida basicamente entre os monges que o dirigem. O sacristão tem suas terras, eu tenho as minhas, e há menores dotações para o mestre dos noviços, o hospedeiro, o enfermeiro e o esmoler. O resto pertence ao prior. Cada um usa a receita da sua propriedade para cumprir suas obrigações.

     - E o que há de errado nisto?

     - Bem, toda esta propriedade deveria ser cuidada. Por exemplo, suponha que tenhamos alguma terra disponível e a aluguemos, em troca de dinheiro. Não deveríamos simplesmente entregá-la a quem fizesse a melhor oferta e receber o dinheiro. Precisaríamos ter cuidado para encontrar um arrendatário e supervisioná-lo a fim de nos certificar de que fosse um bom agricultor; de outro modo, as pastagens ficariam saturadas de água, o solo, cansado, e o locatário seria incapaz de pagar o aluguel, e assim nos devolveria a terra em péssimas condições. Ou pegue uma granja, cultivada por nossos empregados e dirigida por monges; se ninguém visitar a granja a não ser para recolher o que produz, os monges se tornarão preguiçosos e depravados, os empregados roubarão a colheita, e a granja produzirá cada vez menos, com o passar dos anos. Até mesmo de uma igreja é preciso que se tome conta. Não devíamos apenas recolher os dízimos, mas também colocar nas igrejas um bom padre, que saiba latim e leve uma vida santa. Se não for assim, as pessoas cairão numa vida ímpia, casando, tendo filhos e morrendo sem a bênção da Igreja, e fraudando nossos dízimos.

     - Todos deveriam administrar sua propriedade cuidadosamente - disse Philip, quando terminou a última pêra.

     Cuthbert serviu um copo de vinho de um barril.

     - Deveriam, mas temos outras coisas na cabeça. De qualquer modo, o que o mestre dos noviços sabe sobre agricultura? Por que um enfermeiro deveria saber administrar bem uma propriedade? Claro que um prior rigoroso os obrigará a empregar bem os recursos, até um certo ponto. Mas nós tivemos um prior fraco por treze anos, e agora estamos sem dinheiro para reparar a catedral, comemos peixe salgado seis vezes por semana, a escola se encontra praticamente sem noviços e ninguém mais vem para a nossa casa de hóspedes.

     Philip tomou um gole do vinho em melancólico silêncio. Achava difícil pensar com frieza sobre tão espantosa dissipação dos recursos de Deus. Tinha vontade de pegar quem quer que fosse o responsável e sacudi-lo até que demonstrasse algum bom senso. Mas nesse caso o responsável estava deitado num caixão atrás do altar. Havia, pelo menos, um vislumbre de esperança.

     - Em breve teremos um novo prior - disse. - Ele deverá colocar as coisas no lugar.

     Cuthbert dirigiu-lhe um olhar de espanto.

     - Remigius? Pôr as coisas no lugar?

     Philip não estava certo do que Cuthbert quisera dizer.

     - Remigius não vai ser o novo prior, vai?

     - É provável.

     Philip ficou assustado.

     - Mas ele não é melhor que o prior James! Por que os irmãos haveriam de votar em Remigius?

     - Bem, porque eles desconfiam de estranhos, e não votariam em quem não conhecem. Isso quer dizer que será um de nós. E Remigius é o subprior, o monge mais antigo aqui.

     - Mas não há regra que diga que tenhamos de escolher o monge mais antigo - protestou Philip. - Poderia ser outro dos que têm funções específicas. Como você.

     Cuthbert assentiu com a cabeça.

     - Já me perguntaram. Recusei.

     - Mas por quê?

     - Estou ficando velho, Philip. Minhas atuais obrigações me derrotariam, se não estivesse tão acostumado a ponto de cumpri-las automaticamente. Qualquer responsabilidade a mais seria excessiva. Certamente não tenho energia para pegar um mosteiro negligenciado como este e reformá-lo. No final não seria melhor que Remigius.

     Philip ainda não podia acreditar.

     - Há os outros: o sacristão, o encarregado da disciplina, o mestre dos noviços...

     - O mestre dos noviços está velho e mais cansado do que eu. O hospedeiro é glutão e bêbado. E o sacristão e o encarregado da disciplina comprometeram-se a votar em Remigius. Por quê? Não sei, mas adivinho. Eu diria que Remigius prometeu promover o sacristão a subprior e fazer do encarregado da disciplina o novo sacristão, como recompensa pelo apoio deles.

     Philip afundou-se nos sacos de farinha que formavam seu assento.

     - Você está me dizendo que Remigius já assegurou sua eleição?

     Cuthbert não respondeu imediatamente. Levantou-se e foi até o outro lado do depósito, onde arrumou, em linha, uma tina de madeira cheia de enguias vivas, um balde com água limpa e um barril com a terça parte cheia de salmoura.

     - Ajude-me com isto - disse. Pegou uma faca. Depois escolheu uma enguia na tina, bateu com a cabeça dela no chão de pedra e em seguida a estripou com a faca. Entregou o peixe, ainda se retorcendo fracamente, a Philip. - Lave no balde e depois jogue no barril - disse. - Servirão para matar nossa fome durante a Quaresma.

     Philip lavou o peixe tão cuidadosamente quanto pôde no balde, e depois atirou-o na água salgada.

     - Há outra possibilidade - disse Cuthbert, estripando outra enguia: - um candidato que fosse um bom prior para reformas e cujo nível hierárquico, embora abaixo do subprior, seja o mesmo do sacristão ou do despenseiro.

     Philip mergulhou o peixe no balde.

     - Quem?

     - Você.

     - Eu? - Philip ficou tão surpreso que deixou cair a enguia no chão. Tecnicamente era verdade, mas ele nunca se vira em nível de igualdade com o sacristão e com os outros porque todos eram mais velhos que ele.

     - Sou muito jovem...

     - Pense nisso - disse Cuthbert. - Você passou toda a vida em mosteiros. Foi despenseiro aos vinte e um anos. Já é prior de um mosteiro pequeno há uns quatro ou cinco anos, e o reformou. Está claro para todo mundo que a mão de Deus está sobre você.

     Philip recuperou a enguia fugida e deixou-a cair no barril de salmoura.

     - A mão de Deus está sobre todos nós - disse, evitando comprometer-se. Estava atônito com a sugestão de Cuthbert. Queria um novo prior enérgico para Kingsbridge, mas não pensara em si próprio para o cargo. - É verdade que eu seria melhor prior que Remigius - disse pensativamente.

     Cuthbert pareceu satisfeito.

     - Se você tem um defeito, Philip, é sua inocência.

     Ele não se via como inocente.

     - O que você quer dizer com isso?

     - Não procura os motivos básicos nas pessoas, como a maioria de nós faz. Por exemplo, o mosteiro todo presume que você é candidato e que veio aqui para solicitar os votos dos monges.

     Philip ficou indignado.

     - Baseado em que diz isso?

     - Tente ver seu comportamento do modo como uma mente desconfiada, mesmo que pouco, veria. Chegou aqui logo depois da morte do prior James, como se alguém lhe tivesse mandado uma mensagem secreta.

     - Mas como eles imaginam que eu teria organizado isso?

     - Não sabem, claro, mas acreditam que você seja mais esperto do que é. - Cuthbert voltou a estripar as enguias. - E olhe só como se comportou hoje. Assim que entrou mandou que o estábulo fosse limpo. Depois interferiu naquela brincadeira sem graça durante a missa solene. Falou em transferir o jovem William Beauvis para outra casa, quando todo mundo sabe que a transferência de monges é uma prerrogativa dos priores. Criticou implicitamente Remigius levando uma pedra quente para o irmão Paul na ponte. E finalmente trouxe um queijo delicioso para a cozinha, do qual todos nós comemos uma fatia depois do jantar - e embora ninguém dissesse de onde vinha, nenhum de nós poderia deixar de reconhecer o sabor de um queijo de St.-John-in-the-Forest.

     Philip ficou embaraçado ao ver que suas ações tinham sido mal interpretadas.

     - Qualquer um poderia ter feito essas coisas.

     - Qualquer monge mais graduado poderia ter feito uma delas. Ninguém mais poderia ter feito todas. Você entrou e foi assumindo o comando! Já começou a reformar a casa. E, é claro, os amigos de Remigius estão contra-atacando. Foi por isso que Andrew Sacristão o descompôs no claustro.

     - Então é essa a explicação! Eu não sabia o que tinha dado nele. - Philip lavou uma enguia pensativamente. - E suponho que o encarregado da disciplina me fez renunciar ao jantar pelo mesmo motivo.

     - Exatamente. Um modo de humilhá-lo na frente dos monges. Suspeito que em ambos os casos o tiro tenha saído pela culatra, a propósito. Nenhuma das repreensões era justificada, e no entanto você as aceitou de maneira graciosa. Na verdade conseguiu se sair santamente nos dois casos.

     - Não procedi com essa intenção.

     - Tampouco os santos. Tocou o sino da nona. É melhor deixar o resto das enguias comigo. Após o culto é hora de estudo, e é permitida a discussão no claustro. Muitos irmãos vão querer falar com você.

     - Não tão depressa! - disse Philip ansiosamente. - Só porque as pessoas presumem que eu queira ser o prior não quer dizer que vá me candidatar à eleição. - Ele se sentia intimidado com a perspectiva de uma disputa eleitoral e não estava seguro de que quisesse abandonar seu bem organizado mosteiro na floresta e assumir os problemas formidáveis do priorado de Kingsbridge. - Preciso de tempo para pensar - ponderou.

     - Sei disso - Cuthbert endireitou-se e fitou Philip nos olhos. - Quando estiver pensando, por favor, se lembre disto: orgulho excessivo é pecado, mas um homem pode com a mesma facilidade frustrar a vontade de Deus por humildade demasiada.

     Philip aquiesceu.

     - Vou me lembrar. Muito obrigado.

     Deixou a despensa e dirigiu-se apressadamente para o claustro. Sua mente estava em torvelinho quando se juntou aos outros monges e entrou na igreja. Sentia-se violentamente excitado com a perspectiva de se tornar prior de Kingsbridge, percebeu. Fazia anos que estava furioso com a maneira vergonhosa como o priorado vinha sendo dirigido, e agora tinha uma chance de consertar tudo com as próprias mãos. De repente não tinha certeza se seria capaz. Não era só uma questão de ver o que devia ser feito e dar ordens. Era preciso persuadir as pessoas, dirigir as propriedades, encontrar dinheiro. Era um trabalho para uma pessoa sábia. A responsabilidade seria pesada.

     A igreja o acalmou, como acontecia sempre. Depois do mau comportamento matinal os monges estavam quietos e solenes. Enquanto ouvia as frases familiares do culto e murmurava as respostas como fazia há tantos anos, sentiu-se capaz de pensar claramente mais uma vez.

     Quero ser o prior de Kingsbridge?, perguntou-se, e a resposta veio imediatamente: Sim! Encarregar-me desta igreja caindo aos pedaços, consertá-la, pintá-la e enchê-la com o canto de cem monges e as vozes de mil fiéis dizendo o pai-nosso... Somente por isso ele queria o cargo. Havia então a propriedade do mosteiro, a ser reorganizada e revitalizada, tornando-se saudável e produtiva de novo. Queria ver um bando de garotinhos aprendendo a ler e a escrever num canto do claustro. Queria a casa de hóspedes cheia de luz e calor, para que bispos e barões a visitassem, dotando o priorado com presentes preciosos antes de irem embora. Queria ter um aposento especial separado para funcionar como biblioteca, enchendo-o com livros de sabedoria e beleza. Sim, ele queria ser o prior de Kingsbridge.

     Haverá algum outro motivo?, perguntou. Quando me vejo como prior, realizando essas melhorias pela glória de Deus, há orgulho no meu coração?

     Oh, sim.

     Ele não podia enganar a si próprio no ambiente frio e sagrado da igreja. Seu alvo era a glória de Deus, mas a glória de Philip o agradava também. Gostava da ideia de dar ordens a que ninguém pudesse se contrapor. Via-se tomando decisões, administrando justiça, aconselhando e encorajando, decretando penitências e concedendo perdões, da maneira como achasse adequada. Imaginou as pessoas dizendo: "Philip de Gwynedd reformou tudo aquilo. Estava uma vergonha quando ele assumiu, e olhe só agora!"

     Mas seria bom, pensou. Deus me deu um cérebro capaz de administrar bens e propriedades e a capacidade de liderar grupos de homens. Provei isso, como despenseiro em Gwinedd e como prior em St.-John-in-the-Forest. E quando dirijo um lugar, os monges se sentem felizes. No meu priorado os velhos não sofrem com o frio e os jovens não se sentem frustrados com a falta de trabalho. Tomo conta das pessoas.

     Por outro lado, tanto Gwynedd quanto St.-John-in-theForest eram fáceis, se comparados com o priorado de Kingsbridge. Gwynedd sempre tivera boa direção. O mosteiro da floresta estava com problemas quando assumira, mas era muito pequeno e fácil de controlar. A reforma de Kingsbridge era o desafio de uma vida. Podiam ser necessárias algumas semanas só para descobrir onde existiam recursos - quanta terra havia e onde, se eram florestas, pastagens ou campos de trigo. Assumir o controle de propriedades dispersas, descobrir o que estava errado e consertar e costurar as partes num todo bem-sucedido seria o trabalho de anos. Tudo o que Philip tinha realizado no mosteiro da floresta fora fazer um pouco mais de dez homens trabalharem duro no campo e rezarem solenemente na igreja.

     Está certo, admitiu, meus motivos são maculados e minha capacidade é duvidosa. Talvez eu devesse recusar a disputa. Pelo menos estaria certo de ter evitado o pecado do orgulho, mas o que fora mesmo que Cuthbert dissera? "Um homem pode com a mesma facilidade frustrar a vontade de Deus por humildade demasiada."

     O que Deus deseja?, perguntou-se finalmente. Quer Remigius? Tem menos capacidade que eu, e seus motivos provavelmente não são mais puros. Haverá outro candidato?

     Não no momento presente. Até que Deus revele uma terceira possibilidade temos que presumir que a escolha está entre mim e Remigius.

     É claro que ele dirigiria o monastério do modo como o fez nos períodos em que o prior James esteve doente, que é o mesmo que dizer que seria preguiçoso e negligente e permitiria que o declínio do priorado continuasse. E eu? Estou cheio de orgulho e meus talentos ainda não foram comprovados - mas tentarei reformar o mosteiro, e, se Deus me der forças, conseguirei.

     Está bem, então, disse ele a Deus quando o culto chegou ao fim; está bem. Vou aceitar a indicação, e lutar com todas as minhas forças para ganhar a eleição; e se o Senhor não me quiser... se não me quiser, por algum motivo que preferiu ocultar de mim, então terá que me deter do jeito que puder.

     Embora Philip tivesse passado vinte e dois anos em mosteiros, sempre servira sob priores longevos, de modo que não tinha a experiência de uma eleição. Era um evento único na vida monástica, pois ao votarem os monges não eram obrigados a ser obedientes - de súbito todos se tornavam iguais.

     Houve um tempo, se é que se podia acreditar na lenda, em que os monges eram iguais em tudo. Um grupo de homens decidia voltar as costas ao mundo do apetite carnal e construir um santuário numa região erma, onde poderiam viver a vida de orações e desprendimento; e assumiam uma nesga de terra árida, limpando a floresta e drenando o pântano, aravam o solo e construíam sua igreja. Naquele tempo eram realmente como irmãos. O prior, como seu título indicava, era apenas o primeiro entre iguais, e eles juravam obediência perante a Regra de São Bento, e não a autoridades monásticas. Mas tudo o que restara agora da antiga democracia era a eleição do prior e do abade.

     Alguns monges não se sentiam à vontade com o poder que tinham. Queriam que lhes dissessem como votar, ou sugeriam que a decisão fosse delegada a uma comissão de monges mais velhos. Outros abusavam do privilégio e se tornavam insolentes, ou ainda exigiam favores em troca de seu apoio. Muitos simplesmente se sentiam ansiosos para tomar a decisão certa.

     No claustro, naquela tarde, Philip falou com a maioria deles, sozinhos, ou em grupos, e disse a todos, candidamente, que queria o cargo e que achava que seria capaz de desempenhá-lo melhor que Remigius, a despeito de sua juventude. Respondeu às perguntas deles, quase todas versando sobre as rações de comida e bebida. Encerrava cada conversa dizendo: "Se cada um de nós tomar sua decisão ponderada e piedosamente, com certeza Deus abençoará o resultado" - o que era prudente, e no que também ele acreditava.

     - Estamos ganhando - disse Milius, o cozinheiro, na manhã seguinte, quando ele e Philip tomavam o desjejum de pão preto com um pouco de cerveja, enquanto os ajudantes acendiam o fogo.

     Philip deu uma mordida no pão e bebeu um gole de cerveja para amolecer. Milius era um jovem exuberante e inteligente, protegido de Cuthbert e admirador de Philip.

     Tinha cabelo escuro liso e rosto pequeno, com feições regulares. Como o despenseiro, sentia-se feliz por poder servir a Deus de maneira prática e faltar à maior parte dos serviços religiosos. Philip suspeitou do seu otimismo.

     - Como foi que você chegou a esta conclusão? - perguntou ceticamente.

     - Todo o pessoal de Cuthbert no mosteiro apoia você: o camareiro, o enfermeiro, o mestre dos noviços e eu -, porque sabemos que é um bom provedor, e as provisões são o grande problema no presente regime. Muitos dos monges comuns votarão em você por uma razão similar: pensam que irá administrar o priorado melhor, e disso resultará mais conforto e melhor comida.

     Philip franziu a testa, preocupado.

     - Não quero enganar ninguém. Minha prioridade será reparar a igreja e melhorar os cultos. Isso vem antes da comida.

     - Tudo bem, e eles sabem disso - apressou-se a responder Milius. - É por isso que o hospedeiro e um ou dois outros votarão em Remigius: preferem um regime mais relaxado e uma vida mansa. Os outros que o apoiam são todos seus amigos que antecipam privilégios especiais quando ele estiver na direção e estou falando do sacristão, do encarregado da disciplina, do tesoureiro e assim por diante. O chantre é amigo do sacristão, mas penso que poderia ser conquistado para o nosso lado, especialmente se você prometer designar um bibliotecário.

     Philip aquiesceu. O chantre era o encarregado da música, e achava que não devia tomar conta dos livros, além dos seus deveres.

     - De qualquer modo é uma boa ideia - disse Philip. - Precisamos de um bibliotecário para aumentar nossa coleção de livros.

     Milius levantou-se do banco e começou a afiar uma faca de cozinha. Ele tinha muita energia e precisava fazer qualquer coisa com as mãos, concluiu Philip.

     - Há quarenta e quatro monges em condições de votar disse o cozinheiro. - Havia quarenta e cinco, claro, mas um está morto. Minha estimativa é que dezoito estão conosco e dez com Remigius, restando dezesseis indecisos. Precisamos de vinte e três para ter a maioria. Isso significa que temos de ganhar o voto de cinco indecisos.

     - Quando se fala desse modo, parece fácil - disse Philip.

     - De quanto tempo dispomos?

     - Impossível dizer. Os irmãos convocam a eleição, mas se for cedo demais o bispo pode se recusar a confirmar nossa escolha. E se a adiarmos em demasia, pode nos ordenar que a convoquemos. Também tem o direito de designar um candidato. Neste momento ele provavelmente ainda nem soube que o antigo prior está morto.

     - Pode ser então que disponhamos de um longo período de tempo.

     - Sim. E quando estivermos certos de contar com a maioria, você deverá voltar para seu mosteiro, e ficar por lá até que tudo esteja acabado.

     Philip ficou intrigado com a sugestão.

     - Por quê?

     - A familiaridade gera o desprezo. - Milius gesticulou com a faca afiada, entusiasticamente. - Desculpe-me se pareço desrespeitoso, mas você perguntou. No momento você tem uma aura. É uma figura remota e santificada, sobretudo para nós, os mais moços. Operou um milagre naquele pequeno mosteiro, reformando-o e tornando-o auto-suficiente. É um disciplinador exigente, mas alimenta bem os seus monges. É um líder nato, mas é capaz de baixar a cabeça e aceitar uma reprimenda como o mais jovem dos noviços. Conhece as Escrituras e também é capaz de fazer o melhor queijo do país.

     - E você exagera.

     - Não muito.

     - Não posso crer que as pessoas pensem em mim desse jeito; não é natural.

     - Tem razão, não é mesmo natural - reconheceu Milius, com outro pequeno dar de ombros. - E não vai durar depois que o conhecerem. Se ficar aqui, perderá essa aura. Verão que você palita os dentes e coça o rabo, saberão que ronca e peida, descobrirão como se comporta quando está de mau humor, ou quando seu orgulho está ferido ou tem dor de cabeça. Não queremos que isso aconteça. Deixemos que fiquem vendo Remigius se desgastar, cometendo seus erros, enquanto sua imagem permanece resplandecente e perfeita na cabeça deles.

     - Não gosto disso - disse Philip, perturbado. - Dá uma sensação de fraude.

     - Não há nada de desonesto nisso - protestou Milius. - É um reflexo verdadeiro de quão bem você serviria a Deus e ao mosteiro se fosse o prior...  e quão mal Remigius nos governaria.

     Philip sacudiu a cabeça.

     - Recuso-me a bancar o anjo. Tudo bem, não ficarei aqui; tenho mesmo que voltar para a floresta, de qualquer modo. Mas precisamos ser sinceros com os irmãos. Estamos lhes pedindo que elejam um homem falível e imperfeito, que precisará da sua ajuda e das suas preces.

     - Diga-lhes isso! - exclamou Milius, entusiasmado, - É perfeito; eles vão amar.

     Ele era incorrigível, pensou Philip. Mudou de assunto.

     - Qual é a sua impressão dos irresolutos, os irmãos que ainda não se decidiram?

     - São conservadores - respondeu o cozinheiro, sem hesitação. - Vêem Remigius como o mais velho, aquele que fará menos modificações, o previsível, aquele que está efetivamente encarregado de tudo, no presente momento.

     Philip aquiesceu, balançando a cabeça.

     - E me olham com medo, como se eu fosse um cachorro estranho que pudesse morder.

     O sino tocou para o cabido. Milius engoliu o último gole de cerveja.

     - Haverá algum tipo de ataque contra você agora, Philip. Não posso prever que forma terá, mas eles vão tentar retratá-lo como jovem, inexperiente, teimoso e não-confiável. Você tem de aparentar ser calmo, cauteloso e judicioso, mas deixe comigo e com Cuthbert a tarefa de defendê-lo.

     Philip começou a se sentir apreensivo. Aquele era um novo jeito de ser - avaliar cada movimento e calcular como os outros iriam interpretar e julgar. Um tom ligeiramente desaprovador apareceu em sua voz quando disse:

     - Em geral, só penso em como Deus veria o meu comportamento.

     - Eu sei, eu sei - disse Milius, impaciente. - Mas não é pecado ajudar um sujeito mais simples a ver os seus atos na luz correta.

     Philip fez uma expressão de desagrado. Milius era perturbadoramente racional.

     Deixaram a cozinha e foram para o claustro, passando pelo refeitório. Philip estava muito ansioso. Ataque? O que significava aquilo, um ataque? Diriam mentiras a seu respeito? Como deveria reagir? Se mentissem sobre ele, ficaria furioso. Deveria conter a raiva, a fim de parecer calmo, conservador e tudo mais? Mas se fizesse isso, os irmãos não iriam pensar que as mentiras eram verdadeiras? Decidiu que agiria como sempre; talvez ficasse apenas um pouco mais grave e sério.

     A casa do cabido era uma pequena construção redonda adjacente à calçada leste do claustro. Era mobiliada com bancos dispostos em círculos concêntricos. Não tinha um fogo, e era fria para quem saíra da cozinha. A luz vinha de janelas altas, situadas acima do nível dos olhos, de modo que não havia o que ver, senão os outros monges no salão.

     Philip fez justamente aquilo. Quase todo o mosteiro estava presente. Havia todas as idades, de dezessete a setenta; altos e baixos, morenos e louros; todos vestidos com o hábito de lã não alvejada de fabricação caseira e calçados com sandálias de couro. O hospedeiro estava ali; a barriga protuberante e o nariz vermelho mostrando seus vícios - que seriam perdoáveis, pensou Philip, se jamais tivesse tido algum hóspede. Presente também estava o camareiro, que obrigava os monges a trocar de hábito e a se barbear no Natal e no Pentecostes (um banho, nas mesmas datas, era recomendado, mas não compulsório). Encostado à parede do outro lado estava o irmão mais velho, franzino, pensativo e imperturbável, cujo cabelo ainda era mais grisalho que branco; um homem que falava rara, mas efetivamente; um homem que decerto teria sido prior se não fosse tão modesto. Ali estava o irmão Simon, com seu olhar furtivo e mãos irrequietas, um homem que confessava pecados de impureza com tanta frequência que (como Milius cochichara a Philip) parecia ser provável que gostasse mais da confissão que do pecado. Viam-se também William Beauvis, comportando-se; o irmão Paul, quase sem mancar; Cuthbert Cabeça Branca, parecendo senhor de si; John Pequeno, o diminuto tesoureiro; e Pierre, encarregado da disciplina, o homem de palavras duras que deixara Philip sem jantar na véspera. Quando este olhou à sua volta, percebeu que todos o encaravam, e baixou a cabeça, envergonhado.

     Remigius entrou com Andrew Sacristão, e os dois sentaram perto de John Pequeno e Pierre. Então, pensou Philip, não iam querer ser nada além de uma facção.

     O cabido começou com uma leitura sobre Simeão Estilita, o santo do dia. Era um anacoreta que passou a maior parte de sua vida em cima de uma coluna, e, embora não pudesse haver nenhuma dúvida quanto à sua capacidade de renúncia, Philip sempre abrigara uma dúvida secreta acerca do real valor do seu testemunho. Multidões iam ver Simeão, mas seria para se sentirem espiritualmente enaltecidas ou para verem uma aberração?

     Depois das preces veio a leitura de um capítulo do livro de são Bento. Era da leitura diária de um capítulo que a reunião e o próprio edifício onde serealizavam ganharam o nome de "cabido".1

     1 Do latim "capitulu".

    

    

     Remigius levantou-se para ler, e enquanto fez uma pausa com o livro à sua frente, Philip examinou-lhe atentamente o perfil, vendo-o pela primeira vez com olhos de rival. Remigius tinha um jeito brusco e eficiente de se mover e de falar que lhe dava um ar de competência em inteiro desacordo com seu verdadeiro caráter. Um exame mais detido revelava indícios do que havia por baixo da fachada: seus olhos azuis um tanto proeminentes mexeram-se depressa de um jeito ansioso, a boca de aparência fraca abriu e fechou hesitantemente umas duas ou três vezes antes de ele falar e suas mãos foram cerradas e abertas repetidas vezes, muito embora o resto do seu corpo estivesse quieto. A autoridade que tinha era oriunda de sua arrogância, do seu jeito petulante e do desprezo com que tratava os subordinados.

     Philip perguntou-se por que ele teria escolhido a si próprio para ler o capítulo. Um momento mais tarde compreendeu.

     - "O primeiro grau da humildade é a pronta obediência" - leu Remigius. Ele escolhera o "Capítulo cinco", que tratava da obediência, para lembrar a todos da sua antiguidade e de como eram seus subordinados. Uma tática de intimidação. Remigius não tinha nada de tolo. - "Eles não vivem como seria do seu desejo, e tampouco obedecem às suas vontades e prazeres; mas, seguindo o comando e a direção de outro e residindo em seus monastérios, o desejo deles é ser governados por um abade. Sem dúvida, homens como esses cumprem as palavras de Nosso Senhor: Eu não vim para fazer a minha vontade, e sim a vontade Daquele que me mandou." - Remigius estava definindo as linhas gerais da batalha no modo esperado: nesse contexto ele iria representar a autoridade estabelecida.

     O capítulo foi seguido pelo necrológio, e naquele dia, é claro, todas as preces se voltaram para a alma do prior James. A parte mais animada da reunião foi guardada para o fim: discussão de negócios, confissão de erros e acusações de má conduta.

     - Houve uma perturbação da ordem durante a missa solene de ontem - começou Remigius.

     Philip sentiu-se quase aliviado. Agora sabia como ia ser atacado. Não estava seguro de que sua ação da véspera fora certa, mas sabia o motivo pelo qual agira e estava pronto a se defender.

     - Eu próprio não estava presente - prosseguiu Remigius. - Fiquei preso na casa do prior, tratando de negócios urgentes, mas o sacristão me contou o ocorrido.

     Foi interrompido por Cuthbert Cabeça Branca.

     - Não se recrimine por causa disso, irmão Remigius - disse, numa voz apaziguadora. - Sabemos que, em princípio, os negócios do mosteiro nunca devem ter prioridade sobre missas solenes, mas compreendemos que a morte do nosso amado prior fez com que você tivesse de tratar de muitos assuntos fora de sua competência normal. Sinto que todos nós concordamos que nenhuma penitência é necessária.

     A velha raposa, pensou Philip. Claro que Remigius não tivera intenção de confessar um erro. Mesmo assim, Cuthbert o perdoara, fazendo com que todos pensassem que uma falha tinha sido admitida. Agora, mesmo que Philip fosse considerado culpado de algum erro, estaria tão-somente sendo colocado no mesmo nível de Remigius. Além disso, Cuthbert plantara a sugestão de que Remigius estava tendo dificuldade para dar conta dos deveres do prior. Minara por completo a autoridade de Remigius com algumas palavras aparentemente bondosas. O subprior pareceu furioso. Philip sentiu a emoção do triunfo apertar-lhe a garganta.

     Andrew Sacristão fulminou Cuthbert com um olhar acusador.

     - Tenho certeza de que nenhum de nós desejaria criticar nosso respeitado subprior - disse. - O distúrbio referido foi causado pelo irmão Philip, do Mosteiro de St.-John-in-the-Forest, que está nos visitando. Ele tirou o jovem William Beauvis do seu lugar no coro, puxou-o para o transepto sul e ali o repreendeu enquanto eu conduzia o culto.

     Remigius compôs o rosto numa máscara de pesarosa reprovação.

     - Talvez seja lícito dizer que todos nós concordamos que Philip deveria ter esperado até o fim da missa.

     Philip examinou a expressão dos outros monges. Pareceu-lhe que nem concordavam nem discordavam do que estava sendo dito. Acompanhavam os acontecimentos com o ar de espectadores num tomeio, em que não há certo ou errado e só interessa quem vencerá.

     Philip teve vontade de protestar: Se eu tivesse esperado, o mau comportamento se estenderia por toda a missa, mas se lembrou do conselho de Milius e guardou silêncio; o cozinheiro falou por ele.

     - Também faltei à missa, como frequentemente é minha desdita, pois a missa solene é rezada logo antes do jantar; assim, talvez você possa me dizer, irmão Andrew, o que estava acontecendo no coro quando o irmão Philip fez o que foi dito. Estava tudo ocorrendo em ordem e da forma devida?

     - Havia um pouco de desassossego entre os jovens - respondeu o sacristão, emburrado. - Eu pretendia falar com eles mais tarde.

     - É compreensível que você seja vago a respeito dos detalhes; sua cabeça estava na missa - disse Milius caridosamente.

     - Por sorte, temos um monge cuja obrigação específica é cuidar das falhas de comportamento entre nós. Diga-nos, irmão Pierre, o que você viu.

     A expressão dele foi hostil.

     - Exatamente o que o sacristão acabou de lhe contar.

     - Parece que teremos de perguntar ao irmão Philip em pessoa para saber dos detalhes - disse Milius.

     Milius fora muito inteligente, pensou Philip. Demonstrara que nem o sacristão nem o encarregado da disciplina tinham visto o que os jovens monges estavam fazendo durante a missa. Mas embora Philip admirasse o talento dialético do cozinheiro, sentia-se relutante em jogar aquele jogo. Escolher um prior não era uma competição de dotes intelectuais, era uma questão de procurar conhecer a vontade de Deus. Ele hesitou. Milius estava olhando para Philip com um olhar que dizia: Agora é a sua chance! Entretanto, havia uma veia de teimosia em Philip, que aparecia com mais clareza quando alguém tentava forçá-lo a uma posição moralmente duvidosa. Fitou Milius nos olhos e disse:

     - Foi como os meus irmãos descreveram.

     O queixo de Milius caiu. Ele encarou Philip, incrédulo. Chegou a abrir a boca, mas visivelmente não tinha o que dizer. Philip sentiu-se culpado por tê-lo abandonado.

     Eu me explicarei com ele depois, pensou, se não estiver zangado demais.

     Remigius estava prestes a continuar pressionando com a acusação quando outra voz disse:

     - Eu gostaria de me confessar.

     Todo mundo olhou. Era William Beauvis, o transgressor original, de pé e com a aparência de quem estava envergonhado.

     - Eu estava atirando bolinhas de lama no mestre dos noviços e rindo - disse, numa voz baixa, mas clara. - O irmão Philip fez com que eu me envergonhasse do que estava fazendo. Suplico a Deus o perdão e peço aos irmãos que me dêem uma penitência. - Ele se sentou abruptamente.

     Antes que Remigius pudesse reagir, outro jovem se ergueu e disse:

     - Tenho uma confissão. Fiz o mesmo. Peço uma penitência. - Ele se sentou de novo.

     O acesso súbito de consciências pesadas foi contagioso; um terceiro monge confessou, e depois um quarto e um quinto.

     A verdade foi que, a despeito dos escrúpulos de Philip, ele não pôde deixar de se sentir satisfeito. Viu que Milius lutava para reprimir um sorriso de triunfo. A confissão não deixara dúvida de que tinha havido quase uma revolta bem no nariz do sacristão e do encarregado da disciplina.

     Os culpados foram sentenciados, por um Remigius extremamente insatisfeito, a uma semana de silêncio total; não deviam falar e ninguém devia lhes falar. Tratava-se de uma punição mais severa do que podia parecer. Philip a sofrera quando jovem. Até mesmo por um único dia o isolamento era opressivo, e por uma semana inteira era angustiante.

     Mas Remigius estava apenas dando vazão à sua raiva por ter sido ultrapassado em sua manobra. Uma vez que eles tinham confessado, não restava outra opção senão puni-los, embora ao fazê-lo estivesse implicitamente declarando que o prior de St.- John-in-the-Forest tivera razão. Seu ataque a Philip fracassara, e este sentiu-se triunfante.

     A despeito de uma pontada de culpa, saboreou o momento.

     No entanto, a humilhação de Remigius ainda não fora completa.

     Cuthbert falou de novo.

     - Houve outro problema que deveríamos discutir. Teve lugar no claustro, logo após a missa solene. - Philip perguntou-se o que poderia estar por vir. - O irmão Andrew acareou o irmão Philip e o acusou de mau comportamento. - Claro que sim, estava pensando Philip; todo mundo sabia disso. Cuthbert continuou: - Agora, todos nós sabemos que a hora e o lugar para tais acusações é aqui no cabido. E há bons motivos para que nossos antepassados assim tenham determinado. A irritação se acalma durante a noite e as queixas podem ser discutidas na manhã seguinte, em uma atmosfera de calma e moderação; e toda a comunidade pode contribuir com sua sabedoria coletiva para resolver o problema. Mas, lamento dizer, Andrew desobedeceu a essa sensata regra e fez uma cena no claustro, perturbando a todos e usando linguagem violenta. Não tomar uma providência num caso desses seria injusto para com os irmãos mais jovens, que foram punidos pelo que fizeram.

     Foi impiedoso e brilhante, pensou Philip, feliz. A questão de saber se ele estivera certo ao tirar William do coro durante a missa nunca chegara a ser discutida.

     Toda tentativa de colocá-la fora transformada num inquérito para apurar o comportamento do acusador. E era assim que deveria ser, já que a queixa de Andrew contra Philip fora insincera. Cuthbert e Milius tinham desacreditado Remigius e seus dois principais aliados, Andrew e Pierre.

     O rosto normalmente vermelho de Andrew ficou roxo de raiva, e Remigius pareceu quase assustado. Philip ficou satisfeito - eles mereciam -, mas também preocupado porque sua humilhação arriscava estar indo longe demais.

     - É impróprio que irmãos mais moços discutam a punição dos mais velhos - disse ele. - Que o subprior trate deste assunto em particular. - Olhando à sua volta, Philip viu que os monges aprovavam sua magnanimidade, e percebeu que, sem querer, marcara outro ponto.

     Parecia estar acabado. A opinião de todos ali na reunião estava com Philip, que tinha certeza de que ganhara o voto da maioria dos indecisos. Foi então que Remigius disse:

     - Há outra questão que quero levantar.

     Philip examinou o rosto do subprior. Parecia desesperado. Deu uma olhada em Andrew Sacristão e Pierre Disciplinador e viu que ambos pareciam surpresos. Tratava-se então de algo não planejado. Remigius iria pedir o cargo, então?

     - A maioria de vocês sabe que o bispo tem o direito de indicar candidatos à nossa consideração - começou Remigius. - Ele também pode se recusar a confirmar nossa escolha. A divisão de forças é capaz de gerar um antagonismo entre o bispo e o mosteiro, como alguns irmãos mais velhos conhecem de experiência própria. No final, o bispo não pode nos impor seu candidato, nem tampouco podemos insistir no nosso; e o conflito tem que ser resolvido pela negociação. Nesse caso, o resultado depende muito da determinação e da união dos irmãos - especialmente de sua união.

     Philip não gostou do que ouviu. Remigius contivera a raiva e estava mais uma vez calmo e arrogante. Não dava para saber o que estava por vir, mas a sensação de triunfo de Philip evaporou.

     - A razão pela qual menciono isso hoje é que duas informações importantes chegaram ao meu conhecimento - prosseguiu Remigius. - A primeira é que pode haver mais de um candidato entre nós, aqui nesta sala. - Essa informação não surpreendeu ninguém, pensou Philip. - A segunda é que o bispo também indicará um candidato.

     Houve uma pausa sugestiva. Aquilo era uma má notícia para as duas facções. Alguém perguntou:

     - Sabe quem o bispo quer?

     - Sim - foi a resposta, e neste instante Philip teve certeza de que Remigius estava mentindo. - A escolha do bispo é o irmão Osbert de Newbury.

     Um ou dois monges engasgaram. Todos ficaram horrorizados. Conheciam Osbert, que fora encarregado da disciplina em Kingsbridge por algum tempo. Era filho ilegítimo do bispo, e considerava a Igreja puramente como um lugar onde podia viver uma vida de ócio e fartura. Nunca fizera tentativa alguma de obedecer aos seus votos; mal e mal mantinha as aparências e confiava no pai para se manter fora de encrenca. A perspectiva de tê-lo como prior era assustadora, inclusive para os amigos de Remigius.

     Só o encarregado dos hóspedes e dois dos seus amigos irremediavelmente depravados podiam favorecer Osbert, na expectativa de um regime de disciplina frouxa e de desmazelada condescendência.

     Remigius continuou a trabalhar o assunto.

     - Se designarmos dois candidatos, irmãos, o bispo poderá dizer que estamos divididos e que não conseguimos tomar uma decisão coletiva, e por isso terá de decidir por nós, que deveremos acatar sua escolha. Se quisermos resistir a Osbert, o melhor será termos um só candidato; e talvez, devo acrescentar, nos certificarmos de que nosso candidato não possa ser facilmente acusado com base na sua juventude ou inexperiência.

     Houve um murmúrio de concordância. Philip ficou arrasado. Um momento antes estivera certo da vitória, mas ela lhe fora arrancada das mãos. Todos os monges agora estavam com Remigius, vendo nele o candidato seguro, o candidato de união, o homem para vencer Osbert. Philip tinha certeza de que Remigius estava mentindo a respeito de Osbert, mas isso não faria diferença. Os monges estavam assustados, e apoiariam Remigius; e isso significava mais anos de declínio para Kingsbridge.

     - Vamos nos retirar, pensar e orar acerca deste problema enquanto realizamos os trabalhos de Deus hoje - disse Remigius, antes que alguém pudesse fazer comentários.

     Ele levantou-se e saiu, seguido por Andrew, Pierre e John Pequeno, estes três parecendo aturdidos, mas triunfantes.

     Assim que saíram, rompeu um burburinho de conversação entre os outros. Milius disse para Philip:

     - Nunca pensei que Remigius fosse capaz de um truque desses.

     - Ele está mentindo - disse Philip amargamente. - Tenho certeza.

     Cuthbert juntou-se a eles e ouviu a observação de Philip.

     - Na verdade não tem importância se ele está ou não mentindo, não é mesmo? A ameaça é suficiente.

     - A verdade um dia surgirá - disse Philip.

     - Não obrigatoriamente - replicou Milius. - Suponha que o bispo não designe Osbert. Remigius dirá que o bispo cedeu ante a perspectiva de uma batalha com o priorado unido.

     - Não estou disposto a ceder - disse Philip, teimoso.

     - O que mais podemos fazer? - perguntou Milius.

     - Podemos descobrir a verdade.

     - Não podemos - disse Milius.

     Philip exigiu o máximo que pôde do cérebro. A frustração era uma agonia.

     - Por que não podemos simplesmente perguntar?

     - Perguntar? O que você está querendo dizer?

     - Perguntar ao bispo quais são suas intenções - explicou Philip.

     - Como?

     - Podíamos mandar uma mensagem ao palácio do bispo, não podíamos? - disse Philip, pensando em voz alta. Olhou para Cuthbert.

     Cuthbert ficou pensativo.

     - Sim.  Mando mensageiros o tempo todo para algum lugar. Poderia enviar um ao palácio, e perguntar ao bispo quais seriam suas intenções? - perguntou Milius ceticamente.

     Philip fez uma careta. Ali estava o problema. Cuthbert concordou com Milius.

     - O bispo não nos dirá - disse.

     Philip foi tomado por uma inspiração. Sua expressão se desanuviou e ele deu um soco na palma da mão excitadamente quando viu a solução.

     - Não, não o bispo. Mas o arcediago nos dirá o que queremos saber.

     Naquela noite sonhou com Jonathan, o bebê abandonado. No sonho a criança estava na entrada da capela de St.-John-inthe-Forest e Philip estava do lado de dentro, lendo o culto da prima, quando um lobo veio se esgueirando do mato e atravessou o campo, sorrateiro como uma cobra, dirigindo-se ao bebê. Philip ficou com medo de se mover para não causar um distúrbio durante o ofício religioso e ser repreendido por Andrew e Remigius, que estavam ali (embora na verdade nenhum dos dois jamais tivesse estado no mosteiro). Decidiu gritar, mas, embora tentasse, não produziu nenhum som, como frequentemente acontece nos sonhos. Por fim fez um esforço tão grande para gritar que acordou, e ficou no escuro, trêmulo, ouvindo o ressonar dos monges que dormiam à sua volta, até se convencer lentamente de que o lobo não era de verdade.

     Mal pensara no bebê desde a chegada a Kingsbridge. Perguntou-se o que faria com ele se se tornasse o prior. Tudo seria diferente então. Um bebê num mosteiro escondido no meio da floresta era algo sem consequências, embora pouco usual. O mesmo bebê no priorado de Kingsbridge causaria agitação. Por outro lado, o que havia de errado nisso? Não era pecado dar às pessoas assunto para comentários. Ele seria o prior, e portanto poderia fazer o que bem entendesse. Podia trazer Johnny Oito Pence para Kingsbridge, a fim de cuidar do bebê. A ideia o agradou. É exatamente o que farei, pensou. Foi só então que se lembrou de que, com toda a probabilidade, não seria o prior.

     Ficou acordado até de madrugada, febril de impaciência. Não havia nada que pudesse fazer agora para ajudar o seu lado. Era inútil falar com os monges, pois o espírito deles estava dominado pela ameaça de Osbert. Alguns tinham mesmo procurado Philip e lhe dito que sentiam pela sua derrota, como se a eleição já tivesse acontecido.

     Resistira à tentação de chamá-los de covardes infiéis. Apenas sorrira e lhes dissera que ainda poderiam ter uma surpresa. Mas sua própria fé não era forte. O arcediago talvez não estivesse no palácio; ou talvez estivesse, mas, por algum motivo, não quisesse contar a Philip quais eram os planos do bispo; ou ainda - e a hipótese mais provável, dado o caráter de Waleran - pudesse ter seus próprios planos.

     Philip levantou-se de madrugada com os outros monges e foi para a igreja rezar a prima, o primeiro serviço do dia. Depois se dirigiu para o refeitório, tencionando tomar o desjejum, com os outros, mas Milius o interceptou e o chamou, com um gesto furtivo, para a cozinha. Philip seguiu-o, os nervos tensos. O mensageiro devia haver voltado; nesse caso, fora extremamente rápido. Devia ter tido sua resposta imediatamente e começado a viagem de volta ainda no dia anterior, à tarde. Mesmo assim, andara muito depressa. Philip não conhecia nenhum cavalo no estábulo do priorado capaz de fazer aquela jornada tão rapidamente. Mas qual seria a resposta?

     Não era o mensageiro quem estava esperando na cozinha - era o arcediago em pessoa, Waleran Bigod.

     Philip encarou-o, espantado. Seu vulto esguio e coberto de negro em um banco lembrava um corvo empoleirado num toco de árvore. A ponta do nariz bicudo estava vermelha de frio. Ele aquecia as mãos ossudas e brancas numa taça de vinho quente aromatizado.

     - Foi muita bondade sua ter vindo! - explodiu Philip.

     - Fico satisfeito que você me tenha escrito - disse Waleran friamente

     - É verdade? - perguntou ele, impaciente. - O bispo vai nomear Osbert?

     Waleran levantou a mão para interrompê-lo.

     - Já chego lá. Cuthbert aqui está me contando os acontecimentos de ontem.

     Philip disfarçou o desapontamento. Aquilo não era uma proposta direta. Examinou o rosto de Waleran, tentando ler seu pensamento. Ele tinha, sem dúvida, seus próprios planos, mas Philip não era capaz de adivinhar quais eram.

     Cuthbert - a quem inicialmente não vira, sentado ao lado do fogo, mergulhando o pão na cerveja a fim de amaciá-lo para seus dentes de velho - recomeçou a narrativa do cabido da véspera. Philip remexia-se inquietamente, tentando adivinhar quais seriam as intenções de Waleran. Experimentou um pedaço de pão, mas descobriu que estava tenso demais para engolir. Bebeu um pouco da cerveja aguada, só para ter o que fazer com as mãos.

     - E assim - disse Cuthbert por fim - achamos que a nossa única chance era tentar descobrir as intenções do bispo; e afortunadamente Philip julgou que poderia se valer do conhecimento dele com você, e foi por isso que lhe mandamos a mensagem.

     - E agora você nos dirá aquilo que queremos saber? - perguntou Philip impacientemente.

     - Sim, eu lhes direi. - Waleran descansou o vinho sem ter tomado um único gole. - O bispo gostaria que seu filho fosse o prior de Kingsbridge.

     O coração de Philip confrangeu-se.

     - Então Remigius disse a verdade.

     - No entanto - continuou Waleran -, o bispo não está disposto a arriscar uma briga com os monges.

     Philip franziu o cenho. Aquilo era mais ou menos o que Remigius antecipara - mas alguma coisa não estava direita.

     - Você não veio até aqui só para nos dizer isso - disse a Waleran.

     O arcediago dirigiu um olhar de respeito a Philip, que viu que presumira corretamente.

     - Não - disse Waleran. - O bispo me pediu que visse como andava o estado de espírito do mosteiro. E me autorizou a efetuar a nomeação em seu nome. Na verdade, tenho comigo seu selo, de modo que posso escrever uma carta de designação, formalizando o assunto. Tenho sua total autoridade, entende?

     Philip levou um momento para digerir aquilo. Waleran recebera o poder de efetuar uma designação e assiná-la com o selo do bispo. Isso significava que ele pusera todo o assunto em suas mãos. Estava falando com a autoridade do bispo.

     - Você aceita o que Cuthbert lhe disse, que se Osbert fosse designado haveria uma desavença que o bispo quer evitar? - perguntou Philip, depois de respirar fundo.

     - Eu entendo assim - respondeu Waleran.

     - Então não vai designar Osbert.

     - Não.

     - Então, a quem vai designar?

     - Você...  ou Remigius.

     - A capacidade de Remigius para dirigir o priorado...

     - Conheço a capacidade dele e a sua - interrompeu o arcediago, levantando mais uma vez a mão branca e magra para calar Philip. - Sei qual dos dois daria o melhor prior. - Ele fez uma pausa. - Mas há outra questão.

     O que será agora?, perguntou-se Philip. O que mais poderá haver para se levar em consideração, sem ser quem seria o melhor prior? Olhou para os outros. Milius também estava espantado, mas Cuthbert exibia um sorriso quase imperceptível, como se soubesse o que estava por vir.

     - Como você - disse Waleran -, anseio para que os postos importantes da Igreja sejam destinados a homens enérgicos e capazes, sem considerar sua idade, em vez de serem dados, como recompensa pelos longos serviços prestados, a homens idosos cuja santidade pode ser maior que sua capacidade administrativa.

     - Claro - disse Philip impacientemente. Não via a relevância do sermão.

     - Deveríamos trabalhar juntos com este objetivo, vocês três e eu.

     - Não sei aonde você está querendo chegar - disse Milius.

     - Eu sei - disse Cuthbert.

     Waleran recompensou o despenseiro com um leve sorriso e voltou sua atenção para Philip.

     - Deixem-me ser franco - disse. - O bispo está velho. Um dia ele morrerá, e precisaremos de outro bispo, tal como hoje precisamos de um novo prior. Os monges de Kingsbridge têm o direito de eleger o novo bispo, pois o bispo de Kingsbridge é também o abade do priorado.

     Philip franziu a testa. Aquilo era irrelevante. Estavam elegendo um prior, não um bispo.

     - É claro que os monges não serão completamente livres para escolher quem quiserem como bispo - prosseguiu Waleran -, pois o arcebispo e o rei terão seus pontos de vista; contudo, no fim são os monges quem legitimam a designação. E quando chegar a hora, vocês três exercerão uma influência poderosa na decisão.

     Cuthbert estava balançando a cabeça, como se seu palpite estivesse se confirmando, e agora também Philip vislumbrava o que seria dito.

     - Quer que eu o faça o prior de Kingsbridge - concluiu o arcediago. - Quero que me faça bispo.

     Então era isso!

     Philip ficou olhando em silêncio para Waleran. Era muito simples. O arcediago queria fazer um trato.

     Ficou chocado. Não era a mesma coisa que comprar e vender um cargo religioso, algo conhecido como o pecado da simonia; mas tinha um quê desagradavelmente comercial.

     Tentou pensar com objetividade na proposta. Significava que seria o prior. Seu coração bateu mais depressa com a ideia. Entretanto, relutava em usar de quaisquer artifícios que lhe dessem o priorado.

     Significava também que Waleran provavelmente seria bispo, em algum instante. Seria um bom bispo? Com certeza seria competente. Parecia não ter vícios sérios. Tinha uma visão bastante mundana e prática do serviço de Deus, mas este também era o caso de Philip. Sentia que Waleran tinha um lado mais desumano que ele, mas achava também que era movido por uma genuína determinação de proteger e fortalecer os interesses da Igreja.

     Quem mais poderia ser candidato, quando o bispo viesse a falecer? Provavelmente Osbert. Não era impossível que cargos religiosos passassem de pai para filho, a despeito da exigência oficial do celibato. Osbert, é claro, poria mais em risco a Igreja como bispo que como prior. Valeria a pena apoiar um candidato até mesmo pior que Waleran só para deixar Osbert de fora.

     Haveria algum outro candidato? Impossível saber. Poderiam se passar anos até que o bispo morresse.

     - Não podemos garantir que você seja eleito - disse Cuthbert para Waleran.

     - Eu sei. Estou pedindo apenas a sua indicação. Apropriadamente, é isso o que tenho a oferecer em troca - uma indicação.

     Cuthbert aquiesceu.

     - Concordo com isso - disse, solene.

     - Eu também - disse Milius.

     O arcediago e os dois monges olharam para Philip. Ele hesitou, dividido. Aquilo não era modo de se escolher um bispo, sabia; porém, o priorado estava a seu alcance.

     Podia não estar certo barganhar um cargo religioso por outro, como negociantes de cavalos; porém, se ele recusasse, Remigius podia se tornar o prior, e Osbert, o bispo!

     No entanto, os argumentos racionais agora pareciam acadêmicos. A vontade de ser prior exercia uma força irresistível dentro dele, e não podia recusar, não obstante prós e contras. Recordou a prece que fizera na véspera, dizendo a Deus que tencionava lutar pelo cargo. Ergueu os olhos agora e fez outra oração: Se não quer que isto aconteça, então paralise a minha língua, não deixe o ar entrar na minha garganta e me impeça de falar.

     Então olhou para Waleran e disse:

     - Aceito.

    

     A cama do prior era imensa, três vezes a largura de qualquer cama em que Philip já dormira. A base de madeira erguia-se à metade da altura de um homem, e por cima dela havia um colchão de penas. Era cercada por cortinas, para evitar correntes de ar, nas quais se viam cenas bíblicas bordadas pelas mãos pacientes de alguma devota.

     Philip examinou a cama com alguma apreensão. Já lhe parecia uma extravagância que o prior tivesse um quarto só para ele - nunca em sua vida Philip tivera um quarto só seu, e essa seria a primeira noite em que dormiria sozinho. A cama era exagerada. Pensou em mandar trazer um colchão de palha do refeitório e transferir a cama para a enfermaria, onde aliviaria a dor nos ossos velhos de algum monge enfermo. Mas é claro que a cama não se destinava apenas a Philip. Quando o priorado tivesse um hóspede especialmente importante, um bispo, um grande lorde ou mesmo um rei, ficaria com aquele quarto e o prior se transferiria para outro lugar. Assim, Philip não podia realmente se livrar dela.

     - Você dormirá bem esta noite - disse Waleran Bigod, não sem uma ponta de inveja.

     - Suponho que sim - disse Philip, na dúvida.

     Tudo acontecera muito depressa. Waleran escrevera uma carta para o priorado, ali mesmo na cozinha, ordenando aos monges que convocassem uma eleição imediata e indicando Philip. Assinara o nome do bispo e selara com o selo dele. E depois os quatro tinham ido para o cabido.

     Assim que Remigius os viu entrar, deu-se conta de que a batalha estava perdida. O arcediago leu a carta, e os monges aplaudiram quando ele chegou ao nome de Philip.

     Remigius teve a sabedoria de dispensar a formalidade do voto e declarar-se derrotado.

     E Philip passou a ser o prior.

     Conduzira o resto da reunião como que em transe, e depois atravessara o gramado até a casa do prior, no lado sudeste do adro do priorado, a fim de assumir sua residência.

     Quando viu a cama percebeu que sua vida havia mudado total e irrevogavelmente. Era especial, diferente, separado dos outros monges. Tinha poder e privilégios. E também responsabilidades. Sozinho, precisava fazer com que aquela pequena comunidade de quarenta e cinco homens sobrevivesse e prosperasse. Se sentissem fome, a culpa seria sua; se se tornassem depravados, ele é que deveria ser acusado; se infelicitassem a Igreja de Deus, Ele teria em Philip o responsável. Fora ele quem procurara aquele fardo, lembrou a si próprio; agora devia suportá-lo.

     Seu primeiro dever como prior seria levar os monges para a igreja, onde haveria uma missa solene. Era Epifania, o décimo segundo dia depois do Natal, e dia santo.

     Todos os aldeões estariam presentes, e mais gente viria dos arredores. Uma boa catedral, com um bom corpo de monges e reputação de ofícios espetaculares, poderia atrair mil pessoas ou mais. Até mesmo a árida Kingsbridge atrairia a maior parte da pequena nobreza local, pois o culto também era uma ocasião social em que as pessoas podiam encontrar os vizinhos e conversar de negócios.

     Porém, antes da missa Philip tinha algo mais a discutir com Waleran, agora que finalmente estavam a sós.

     - Aquela informação que lhe passei a respeito do conde de Shiring...  - começou ele.

     O arcediago balançou a cabeça.

     - Não esqueci; na verdade, pode vir a ser mais importante que a questão de quem é o prior ou o bispo. O conde Bartholomew já chegou à Inglaterra. Esperam-no em Shiring amanhã.

     - O que você vai fazer? - perguntou Philip ansiosamente.

     - Vou me utilizar de Sir Percy Hamleigh. Na verdade, espero que ele esteja na congregação hoje.

     - Já ouvi falar dele, mas nunca o vi - disse Philip.

     - Procure um lorde gordo com uma mulher horrível e um filho bonito. Não pode deixar de ver a mulher - é uma monstruosidade.

     - O que o faz pensar que eles tomarão o lado do rei Estêvão contra o conde Bartholomew?

     - Eles odeiam o conde.

     - Por quê?

     - O filho, William, estava noivo da filha do conde, mas ela brigou com ele e o casamento foi desfeito, para humilhação dos Hamleighs. Ainda estão sentindo a dor do insulto e agarrarão qualquer oportunidade para devolver o golpe a Bartholomew.

     Philip aquiesceu, satisfeito. Sentia-se contente por ter se livrado daquela responsabilidade. O priorado de Kingsbridge já era um problema suficientemente grande para ele. Waleran podia cuidar do mundo exterior.

     Deixaram a casa do prior e retomaram ao claustro. Os monges estavam esperando. Philip tomou seu lugar à frente da coluna e a procissão teve início.

     Foi um bom momento quando entrou na igreja com os monges cantando à sua retaguarda. Gostou mais do que antecipara. Disse a si próprio que sua nova eminência simbolizava o poder que tinha agora para fazer o bem, e que por isso estava tão profundamente emocionado. Gostaria que o abade Peter de Gwynedd. pudesse vê-lo - o velho ficaria muito orgulhoso.

     Levou os monges até seus lugares no coro. Um ofício importante como aquele era frequentemente conduzido pelo bispo. Nesse dia ficaria a cargo do seu representante, o arcediago Waleran. Quando ele começou, Philip examinou a congregação, procurando a família que lhe descrevera. Havia umas quatrocentas e cinquenta pessoas de pé na nave, os ricos com seus pesados mantos e sapatos de couro, os camponeses em suas jaquetas grosseiras e botas de feltro ou tamancos de madeira. Philip não teve problema para descobrir os Hamleighs. Estavam quase na frente, perto do altar. Viu a mulher primeiro.

     Waleran não exagerara - era repulsiva. Usava um capuz, mas a maior parte do rosto era visível, e sua pele estava coberta de furúnculos disformes em que tocava nervosamente o tempo todo. Ao seu lado estava um homem corpulento com cerca de quarenta anos: devia ser Percy. Suas roupas demonstravam que era um homem de considerável fortuna e poder, mas não na primeira categoria dos barões e condes.

     O filho estava encostado numa das maciças colunas da nave. Era uma bela figura de homem, de cabelo muito louro e olhos estreitos e arrogantes. O casamento com a família do conde possibilitaria aos Hamleighs atravessar a linha que dividia os pequenos fidalgos do condado da nobreza do reino. Não era de admirar que estivessem furiosos com o cancelamento da união.

     Philip retomou a atenção para o culto. Waleran estava celebrando um pouco depressa demais, para o gosto de Philip. Perguntou-se mais uma vez se teria agido corretamente concordando em designar o arcediago para bispo quando este morresse. Waleran era um homem dedicado, mas parecia não valorizar a importância do culto. A prosperidade e o poder da Igreja eram apenas um meio para se atingir um fim, afinal: o objetivo supremo era a salvação das almas. Philip decidiu que não devia se preocupar demais com o arcediago. A coisa já estava feita, agora; e de qualquer modo o bispo provavelmente frustraria a ambição de Waleran vivendo mais outros vinte anos.

     A congregação era barulhenta. Nenhum dos fiéis conhecia as respostas, é claro; só os padres e os monges deveriam tomar parte, exceto nas orações mais conhecidas e nos améns. Algumas pessoas assistiam em silêncio reverente, mas outras ficavam circulando, cumprimentando-se e tagarelando. É uma gente simples, pensou Philip; é preciso fazer alguma coisa para prender sua atenção.

     A missa foi chegando ao fim, e Waleran dirigiu-se aos assistentes.

     - A maioria de vocês sabe que o amado prior de Kingsbridge morreu. Seu corpo, que jaz conosco aqui na igreja, será posto para descansar no cemitério do priorado hoje, após o jantar. O bispo e os monges escolheram como seu sucessor o irmão Philip de Gwynedd, que entrou à nossa frente na igreja, esta manhã. - Parou, e Philip ergueu-se para liderar a saída da procissão. O arcediago acrescentou: - Tenho outro triste comunicado.

     Philip foi tomado de surpresa. Sentou-se prontamente.

     - Acabei de receber uma mensagem - disse Waleran. Ele não recebera mensagem alguma, Philip sabia. Tinham estado juntos a manhã toda. O que o ardiloso arcediago estaria aprontando agora?

     - A mensagem fala de uma perda que muito fará sofrer a todos nós. - Ele fez outra pausa.

     Alguém tinha morrido... mas quem? - Waleran sabia desde que chegara, mas guardara segredo, e agora ia fingir que tinha acabado de receber a notícia. Por quê?

     Philip podia pensar apenas numa única possibilidade. E, se suas suspeitas estivessem corretas, Waleran era muito mais ambicioso e inescrupuloso do que imaginara.

     Teria realmente enganado e manipulado a todos eles? Philip teria sido um mero peão em seu jogo?

     As palavras finais do arcediago confirmaram essa possibilidade.

     - Caríssimos irmãos - disse solenemente -, o bispo de Kingsbridge está morto.

    

          - Aquela cachorra estará lá - disse a mãe de William. - Tenho absoluta certeza..

     O jovem olhou para a gigantesca fachada da Catedral de Kingsbridge com um misto de apreensão e veemente desejo. Se Lady Aliena estivesse presente na missa da Epifania seria dolorosamente embaraçoso para todos eles, mas mesmo assim seu coração bateu mais depressa ante a perspectiva de revê-la.

     Trotavam ao longo da estrada para Kingsbridge, William e o pai em cavalos de batalha e sua mãe num belo corcel, seguidos por três cavaleiros e três criados. Compunham um grupo impressionante e até mesmo aterrador, o que agradava a William; os camponeses que caminhavam pela estrada espalhavam-se ante seus vigorosos cavalos. A mãe, porém, estava fervendo de raiva.

     - Todos sabem, até mesmo esses servos desventurados disse ela, por entre os dentes cerrados. - Contam inclusive piadas a nosso respeito. "Quando a noiva não é noiva? Quando o noivo é Will Hamleigh!" Mandei que açoitassem um homem por isso, mas não adiantou. Queria agarrar aquela vagabunda, arrancar-lhe a pele em vida, pendurá-la num prego e deixar os pássaros bicarem sua carne.

     William queria que ela mudasse de assunto. A família fora humilhada e a culpa tinha sido de William - pelo menos era o que a mãe dizia - e ele não queria ser lembrado disso.

     Passaram ruidosamente pela frágil ponte de madeira que levava à aldeia de Kingsbridge e tocaram os cavalos para subir a rua principal para o priorado.

     Já havia uns vinte ou trinta cavalos pastando a escassa grama do cemitério ao lado norte da igreja, mas nenhum tão bonito quanto os dos Hamleighs. Eles seguiram até o estábulo e deixaram as montarias com os cavalariços.

     Cruzaram o gramado em formação. William e o pai, um de cada lado da mãe, depois os cavaleiros atrás deles, e os criados fechando o cortejo. As pessoas abriam caminho, mas o jovem podia vê-los cutucando-se uns aos outros e apontando, e não teve dúvida de que estavam cochichando acerca do casamento cancelado. Arriscou um olhar para a mãe, e, pela medonha expressão do seu rosto, podia dizer que achava a mesma coisa.

     Entraram na igreja.

     William detestava igrejas. Eram frias e escuras mesmo com tempo bom, e sempre havia aquele cheiro de ar viciado nos cantos sombrios e nos túneis baixos das naves laterais. Pior que tudo, as igrejas faziam com que pensasse nos tormentos do inferno, e ele tinha pavor do inferno.

     Esquadrinhou a congregação com os olhos. A princípio mal podia distinguir as pessoas por causa da escuridão. Após alguns momentos seus olhos se adaptaram. Não viu Aliena. Procurou mais acima, na nave. Não parecia estar presente. Sentiu-se ao mesmo tempo aliviado e frustrado. Então a viu, e seu coração falhou uma batida.

     Ela estava do lado sul da nave, à frente, acompanhada por um cavaleiro que William não conhecia e cercada por homens de armas e damas de companhia. Estava de costas para ele, mas seu cabelo escuro ondulado era inconfundível. Quando a reconheceu ela se virou, mostrando a curva suave da maçã do rosto e o nariz reto e autoritário.

     Seus olhos, tão escuros que eram quase pretos, encontraram os de William. Ele prendeu a respiração. Os olhos dela, já grandes, arregalaram-se quando o viram. O jovem queria aparentar um jeito descuidado, como se não a tivesse visto, mas não pôde. Desejava que ela sorrisse para ele, nem que fosse um imperceptível ricto dos seus lábios cheios, nada além de um polido reconhecimento. Inclinou a cabeça na direção dela - um mero aceno, longe de parecer uma reverência. A expressão de Aliena ficou muito séria, e a jovem voltou a ficar de frente para o altar.

     William estremeceu como se estivesse sofrendo uma grande dor. Sentiu-se como um cachorro afastado do caminho com um pontapé, e a vontade que teve foi de se enfiar num canto onde ninguém pudesse vê-lo. Virou-se para um lado e para o outro, perguntando-se se alguém teria visto aquela troca de olhares. Ao encaminhar-se mais para a frente junto com os pais, percebeu que as pessoas olhavam dele para Aliena e vice-versa, cutucando-se e cochichando. Fixou os olhos adiante, para não encarar ninguém. Teve que se forçar a andar de cabeça erguida. Como fez isso conosco?, pensou. Somos uma das famílias mais orgulhosas do sul da Inglaterra e ela nos fez sentir pequenos. A lembrança o enfureceu e ele teve ímpetos de sacar da espada e atacar alguém, qualquer um.

     O xerife de Shiring cumprimentou o pai de William e os dois homens se apertaram as mãos. As pessoas desviaram o olhar, procurando coisas novas para cochichar. William ainda estava furioso. Jovens nobres aproximavam-se de Aliena e faziam-lhe reverências, numa torrente incessante. Ela estava disposta a sorrir para eles.

     A missa começou. William perguntou-se como fora possível tudo dar tão errado. O conde Bartholomew tinha um filho para herdar seu título e sua fortuna, de modo que o único destino que reservava para a filha era formar uma aliança. Aliena tinha dezesseis anos e era virgem; como não demonstrava inclinação para ser freira, presumia-se que se sentiria deleitada em se casar com um saudável nobre de dezenove anos. Afinal, as considerações políticas podiam, com a mesma facilidade, fazer com que seu pai quisesse casá-la com um conde quarentão gordo e reumático ou mesmo com um barão careca de sessenta anos.

     Uma vez que o acordo fora fechado, William e seus pais não haviam sido reticentes a respeito dele. Orgulhosamente transmitiram a notícia por todos os condados vizinhos.

     O encontro de William com Aliena foi considerado uma formalidade por todo mundo - a não ser pela jovem, como se viu depois.

     Eles não eram estranhos, claro. William se lembrava dela quando garotinha. De rosto travesso, narizinho arrebitado e cabelo indomável cortado curto, era mandona, teimosa, briguenta e atrevida. Sempre organizava os folguedos das crianças, decidindo de que iriam brincar e quem estaria em qual lado ou equipe, resolvendo brigas e dirigindo a contagem. William sentia-se fascinado por ela, ao mesmo tempo que se ressentia do modo como dominava as brincadeiras das crianças. Sempre era possível estragar tudo e tornar-se o centro das atrações por algum tempo, simplesmente dando início a uma briga; porém, elas não demoravam muito, e no final a garota retomava o controle, deixando-o frustrado, derrotado, repelido, furioso, e mesmo assim encantado - exatamente como se sentia agora.

     Depois que sua mãe morrera, ela viajara um bocado com o pai e William a vira menos. No entanto, encontrara-a com frequência suficiente para ver que estava se transformando numa mulher arrebatadoramente linda, e ficara deleitado quando lhe disseram que seria sua noiva. Presumiu que ela teria de desposá-lo quer gostasse dele ou não, mas foi a seu encontro disposto a fazer tudo o que pudesse para amaciar o caminho para o altar.

     Ela podia ser virgem, mas ele não era. Algumas das garotas a quem encantara eram quase tão bonitas quanto Aliena, embora nenhuma delas fosse tão bem-nascida. Em sua experiência, muitas jovens se deixavam impressionar pelas suas roupas finas, pelos cavalos vigorosos, pelo modo despreocupado que tinha de gastar dinheiro com vinho doce e fitas; e se conseguia levá-las a um celeiro sozinhas, geralmente acabavam por se submeter a ele, mais ou menos de boa vontade.

     Sua abordagem usual com as garotas era um pouco seca. A princípio deixava que pensassem que não estava particularmente interessado nelas. Ao ficar sozinho com Aliena, porém, sua suposta indiferença o abandonou. Ela estava usando um vestido de seda azul brilhante, solto e gracioso, mas William só conseguia pensar no corpo que havia por baixo dele, que logo poderia ver nu sempre que quisesse. Ele a encontrara lendo, uma ocupação insólita para uma mulher que não era freira. Perguntara que livro era, numa tentativa de desviar a atenção dos seios que se moviam sob a seda azul.

     "Chama-se O romance de Alexandre. É a história de um rei chamado Alexandre, o Grande, e de como ele conquistou terras maravilhosas no Oriente, onde as pedras preciosas crescem nas parreiras e as plantas podem falar."

     William não podia imaginar por que uma pessoa ia querer perder tempo com tanta tolice, mas nada disse. Falou a respeito dos seus cavalos, cães e feitos nas caçadas, lutas e torneios. Ela não tinha ficado impressionada como ele esperara. Contou-lhe sobre a casa que seu pai estava construindo para eles e, a fim de ajudá-la a se preparar para o tempo em que dirigiria seu lar, deu-lhe uma ideia de como queria que as coisas fossem feitas. Sentira que estava perdendo a atenção de Aliena, embora não soubesse dizer por quê. Sentou-se o mais perto possível dela, pois queria apertá-la nos braços, apalpá-la e descobrir se aqueles peitos eram tão grandes quanto fantasiava que fossem; ela, porém, inclinava-se para longe dele, cruzando os braços e as pernas, com um ar tão proibitivo que, relutantemente, ele se viu forçado a abandonar a ideia e consolar-se com o pensamento de que logo seria capaz de fazer o que bem entendesse.

     Mesmo assim, enquanto tinha estado em sua companhia, Aliena não dera sinal algum da confusão que ia fazer mais tarde. Dissera, com bastante calma: "Não penso que combinemos". No entanto, ele tomara a declaração como prova de encantadora modéstia da sua parte, e lhe assegurara que ela combinava muito bem com ele. Não tinha ideia de que, assim que saísse do recinto, ela irromperia furiosa na sala onde estava seu pai e anunciaria que não se casaria com ele, que nada a convenceria do contrário, e que preferia ir para um convento; podiam arrastá-la até o altar acorrentada, acrescentou, mas não pronunciaria os votos conjugais. A cadela, pensou William.

     A cadela. Mas ele não era capaz de se armar com o tipo de peçonha que a mãe expelia quando falava de Aliena. Não queria esfolá-la viva. Queria deitar em cima daquele corpo quente e beijar-lhe a boca.

     A missa da Epifania terminou com o anúncio da morte do bispo. William teve esperança de que aquela notícia finalmente abafasse a sensação do casamento cancelado.

     Os monges saíram em procissão e ouviu-se um zumbido de excitada conversa quando a congregação se dirigiu para as saídas. Muita daquela gente tinha tantos laços espirituais quanto materiais com o bispo como seus locatários ou sublocatários, ou como empregados em suas terras -, e todos estavam interessados na questão de saber quem iria sucedê-lo, e se o seu sucessor efetuaria mudanças. A morte de um grande senhor era sempre perigosa para seus vassalos.

     Quando William seguiu os pais ao longo da nave, surpreendeu-se ao ver o arcediago Waleran vindo na direção deles. Movia-se bruscamente entre a congregação, como um grande cão negro num campo de vacas; e como vacas as pessoas olhavam-no nervosamente por cima do ombro, deslocando-se um ou dois passos para sair do seu caminho.

     Ele ignorava os camponeses, mas dirigia algumas palavras a cada um dos integrantes da pequena nobreza. Quando se aproximou dos Hamleighs, cumprimentou o pai de William, ignorou o jovem e voltou as atenções para sua mãe.

     - Que pena, essa história do casamento! - disse ele. William corou. Será que o idiota pensava que estava sendo polido com sua comiseração?

     Ela não estava mais entusiasmada para falar sobre aquilo do que William.

     - Não sou pessoa de guardar mágoa - mentiu.

     Waleran ignorou sua afirmativa.

     - Soube de algo a respeito do conde Bartholomew que pode interessar a vocês - disse, falando mais baixo, para que não pudessem ouvi-lo, de modo que William precisou esforçar-se para entender suas palavras. - Parece que o conde não faltará à palavra empenhada com o rei morto.

     - Bartholomew sempre foi um hipócrita pedante - disse o pai de William.

     Waleran pareceu pesaroso. Queria que ouvissem, e não que comentassem.

     - Bartholomew e o conde Robert de Gloucester não aceitarão o rei Estêvão, que é o escolhido da Igreja e dos barões, como sabem.

     William perguntou-se por que um arcediago estaria falando com um lorde sobre aquela disputa rotineira entre barões. Seu pai estava pensando o mesmo, porque disse:

     - Mas não há nada que os condes possam fazer a esse respeito.

     A mãe de William compartilhou a impaciência de Waleran com os comentários interpostos pelo marido.

     - Escute - disse ela ao lorde, por entre os dentes cerrados.

     - O que ouvi dizer é que estão planejando armar uma rebelião e fazer de Matilde a rainha - disse o arcediago.

     William não podia acreditar nos seus ouvidos. Teria Waleran feito mesmo aquela declaração imprudente, no seu jeito calmo e casual, bem ali na nave da Catedral de Kingsbridge? Um homem poderia ser enforcado por isso, fossem verdadeiras ou falsas suas palavras.

     Sir Hamleigh ficou atônito, mas sua mulher disse, pensativamente:

     - Robert de Gloucester é meio irmão de Matilde... Faz sentido.

     William perguntou-se como poderia ser tão prática com relação a uma notícia escandalosa como aquela. Mas ela era muito esperta, e quase sempre estava certa a respeito de tudo.

     - Quem quer que conseguisse se livrar do conde Bartholomew e abortasse a rebelião - prosseguiu Waleran -, ganharia a eterna gratidão do rei Estêvão e da Santa Madre Igreja.

     - É mesmo? - disse o lorde, atordoado, mas sua mulher assentia com a cabeça.

     - Bartholomew está sendo esperado de volta amanhã. - Ao dizer isso Waleran ergueu o rosto e interceptou o olhar de alguém. Depois voltou-se para a lady e concluiu: - Pensei que vocês, entre toda esta gente, se interessariam. - com essas palavras, afastou-se e foi cumprimentar alguém.

     William o acompanhou, com o olhar fixo. Será que ele só ia falar aquilo?

     Os pais do jovem prosseguiram, e ele os acompanhou através do grande portal em arco até o ar livre. Todos os três estavam em silêncio. William ouvira muitas conversas, nas últimas cinco semanas, sobre quem seria o rei, mas a questão parecia ter sido definida quando Estêvão fora coroado na Abadia de Westminster, três dias antes do Natal. Agora, se Waleran estava certo, o assunto voltara a ser uma questão em aberto. Mas por que o arcediago fizera questão de contar aos Hamleighs?

     Começaram a atravessar o gramado na direção do estábulo. Assim que se afastaram da multidão reunida no pórtico da igreja, e que não mais podia ser ouvido, o lorde comentou excitadamente:

     - Mas que sorte! O mesmo homem que insultou a família apanhado num crime de alta traição!

     William não entendeu por que aquilo era sorte, mas sua mãe sim, obviamente, pois aquiesceu com a cabeça.

     - Podemos prendê-lo na ponta de uma espada - continuou Sir Hamleigh -, e enforcá-lo na árvore mais próxima.

     William não pensara nisso, mas agora viu tudo num relâmpago. Se Bartholomew fosse um traidor, então estaria correto matá-lo.

     - Podemos nos vingar! - explodiu. - E em vez de sermos punidos ainda receberemos uma recompensa do rei! - Eles poderiam levantar a cabeça de novo, e...

     - Seus idiotas estúpidos! - exclamou Lady Hamleigh, com súbito rancor. - Todos cegos, sem cérebro. Enforcariam Bartholomew na árvore mais próxima. Devo dizer-lhes o que aconteceria depois?

     Nenhum dos dois falou. Era mais inteligente não responder às suas perguntas quando ela estava naquele estado de espírito.

     - Robert de Gloucester negaria a existência de qualquer trama, abraçaria o rei Estêvão e juraria lealdade; e tudo terminaria, a não ser por vocês dois, que seriam enforcados como assassinos.

     William estremeceu. A ideia de ser enforcado o aterrorizava. Tinha pesadelos com isso. No entanto, podia ver que sua mãe estava certa: o rei podia acreditar ou fingir que acreditava que ninguém cometeria a temeridade de se rebelar contra ele; e não se importaria nem um pouco em sacrificar um par de vidas em prol de sua credibilidade.

     - Você está certa - disse o lorde. - Nós o amarraremos como um porco quando vai para o carniceiro e o levaremos vivo até o rei em Winchester, onde o denunciaremos e pediremos nossa recompensa.

     - Por que você não pensa? - disse sua mulher desdenhosamente. Estava muito tensa, e William podia ver que se sentia tão excitada com tudo aquilo quanto seu pai, mas de um modo diferente. - O arcediago Waleran não gostaria, ele próprio, de levar um traidor amarrado à presença do rei? - perguntou ela. - Por que não haveria de querer uma recompensa? Vocês não sabem que anseia, de todo o coração, ser o bispo de Kingsbridge? Por que lhe deu o privilégio de fazer a prisão? Por que manobrou para nos encontrar na igreja, como por acidente, em vez de ir nos visitar em Hamleigh? Por que nossa conversa foi tão curta e indireta?

     Ela fez uma pausa retórica, como se esperasse uma resposta, mas tanto William quanto seu pai sabiam que não desejava realmente resposta alguma. O jovem lembrou-se de que os padres não deviam ver derramamento de sangue e considerou a possibilidade de que esse talvez fosse o motivo pelo qual Waleran não queria se envolver na prisão de Bartholomew; pensando melhor, concluiu que o arcediago não tinha tais escrúpulos.

     - Eu lhes digo por quê - continuou Lady Hamleigh. - Porque ele não tem certeza se Bartholomew é traidor. Sua informação não é confiável. Não posso adivinhar como soube, talvez tenha ouvido uma conversa de bêbados, interceptado uma mensagem ambígua ou falado com um espião indigno de confiança. De qualquer modo, não está disposto a arriscar o pescoço. Não acusará o conde Bartholomew de traição abertamente, para não ser rotulado de caluniador, no caso de a acusação ser falsa. Quer que outra pessoa assuma o risco e faça o trabalho sujo para ele; e depois, quando acabar, se a traição ficar comprovada, dará um passo à frente e tomará a parte que lhe cabe no crédito; porém, se Bartholomew provar sua inocência, Waleran simplesmente nunca admitirá a declaração que nos fez hoje.

     A coisa toda parecia óbvia, colocada daquele jeito. Mas sem Lady Hamleigh, William e seu pai haveriam caído na armadilha de Waleran. Teriam agido com a maior boa vontade como agentes do arcediago, assumindo os riscos por ele. O senso político da mulher era muito agudo.

     - Quer dizer que devemos simplesmente esquecer tudo isso? - quis saber o lorde.

     - Certamente que não. - Os olhos dela cintilaram. - Ainda há uma chance de destruir as pessoas que nos humilharam.

     Um cavalariço segurava seu cavalo, pronto para montar. Ela pegou as rédeas e, com um gesto, mandou-o embora, mas não montou imediatamente. Ficou ao lado do cavalo, dando umas palmadinhas no seu pescoço, com ar pensativo, e disse baixo:

     - Precisamos de provas do conluio, de modo que ninguém possa negá-lo, depois que fizermos nossa acusação. Teremos que conseguir essa prova às escondidas, sem revelarmos o que estamos procurando. Depois, quando a obtivermos, poderemos prender Bartholomew e levá-lo ao rei. Confrontado com uma prova, o conde confessará e implorará misericórdia. E então pediremos nossa recompensa.

     - E negaremos que Waleran tenha nos ajudado - acrescentou Sir Hamleigh.

     Sua mulher sacudiu a cabeça.

     - Que ele tenha sua fatia de glória e sua recompensa. Então ficará nos devendo...  O que só pode ser bom para nós.

     - Mas como faremos para encontrar provas da trama? - perguntou o lorde ansiosamente.

     - Precisamos encontrar uma forma de dar uma olhada no castelo de Bartholomew - respondeu ela, preocupada. - Não será fácil. Ninguém nos concederia um convite para uma visita social; todo mundo sabe que odiamos Bartholomew.

     William teve uma ideia.

     - Eu podia ir - disse.

     Seus pais ficaram um pouco espantados.

     - Você despertaria menos suspeita que seu pai, creio. Mas qual seria o pretexto?

     William pensara nisso.

     - Eu podia ir ver Aliena - disse, e seu coração bateu mais rápido com a ideia. - Podia suplicar-lhe que reconsiderasse sua decisão. Afinal de contas, ela não me conhece realmente. Quando nos conhecemos, julgou-me mal. Eu poderia ser um bom marido. Talvez precise de uma corte mais entusiasmada. - Ele terminou com um sorriso que esperou parecesse ser cínico, para que seus pais não soubessem que estava falando a sério.

     - Uma desculpa perfeitamente plausível - disse sua mãe. Ela olhou fixamente para William. - Por Cristo, eu me pergunto se é possível que o garoto afinal tenha nascido com a inteligência da mãe.

     William sentia-se otimista pela primeira vez em meses quando iniciou a viagem para o castelo do conde no dia seguinte. Era uma manhã clara e fria. O vento norte fazia arder suas orelhas, e a grama gelada rangia sob os cascos do seu cavalo de batalha. Usava uma capa cinza de fino tecido de Flandres guarnecida com pele de coelho por cima de uma túnica vermelha.

     Estava acompanhado por Walter, seu criado. Quando o nobre tinha doze anos, Walter se tornara seu tutor de armas e lhe ensinara a montar, caçar, esgrimir e lutar.

     Agora era seu criado, companheiro e guarda-costas. Era tão alto quanto William, mas mais largo - uma verdadeira porta. Nove ou dez anos mais velho que o nobre, era jovem o bastante para beber e pegar garotas na sua companhia e tinha idade suficiente para conservá-lo longe de problemas, quando necessário. Era seu maior amigo.

     William estava estranhamente excitado com a perspectiva de rever Aliena, muito embora soubesse que mais uma vez se defrontaria com a rejeição e a humilhação. Ao vislumbrá-la na Catedral de Kingsbridge, fitando-a por um instante bem nos olhos muito escuros, seu desejo se reacendera. Ansiava para lhe falar, aproximar-se dela, ver seus cachos abundantes balançarem e sacudirem quando falava, seu corpo se mover sob o vestido.

     Ao mesmo tempo, a oportunidade para a vingança aguçara o ódio de William. Estava tenso com a excitação causada pela ideia de que agora poderia anular a humilhação que ele e sua família haviam sofrido.

     Quisera ter uma ideia mais clara do que estava procurando. Estava razoavelmente seguro de que descobriria se a história de Waleran era ou não verdadeira, pois com certeza haveria sinais de preparação para a guerra no castelo - agrupamento de cavalos, limpeza de armas, estoque de alimentos - muito embora toda a atividade devesse estar mascarada sob um disfarce qualquer - preparativos para uma expedição, talvez -, a fim de enganar o observador casual. No entanto, convencer-se da existência de uma conspiração não era a mesma coisa que achar provas. William não era capaz de imaginar coisa alguma que valesse como prova, num caso desses. Seu plano era manter os olhos bem abertos e esperar que aparecesse algo. O que não era bem um plano, contudo, e o jovem se sentia extremamente preocupado, achando que a oportunidade de vingança ainda poderia lhe escapar por entre os dedos.

     À medida que ia se aproximando, sentia-se mais tenso. Perguntou-se se poderia ter sua entrada no castelo proibida, o que lhe causou um momento de pânico, até dar-se conta de que era pouco provável: o castelo era um lugar público, e se o conde o fechasse à pequena nobreza local seria o mesmo que declarar que a traição estava em marcha.

     O conde Bartholomew morava a poucas milhas da cidade de Shiring. O castelo de Shiring propriamente dito era ocupado pelo xerife do condado, de modo que o conde tinha um castelo particular do lado de fora da cidade. A pequena aldeia que se desenvolvera em torno das muralhas do castelo era conhecida como Earlscastle. William já estivera ali, mas agora a via com os olhos de um atacante.

     Havia um fosso largo e fundo no formato de um 8, com o círculo superior menor que o inferior. A terra escavada na abertura do fosso tinha sido amontoada dentro dos

     dois círculos, formando uma espécie de muralha.

     Na base do 8 havia uma ponte que cruzava o fosso e uma brecha na parede de terra, permitindo a entrada no círculo de baixo. Era a única entrada. Não havia acesso ao círculo superior exceto através do inferior e de outra ponte sobre o fosso que dividia os dois círculos. O círculo superior era o mais importante, o que se poderia chamar de refúgio sagrado.

     Enquanto William e Walter trotavam através dos campos abertos que cercavam o castelo, viram um intenso vaivém. Dois homens de armas cruzaram a ponte a galope, seguindo em direções diferentes, e um grupo de quatro cavaleiros precedeu William na travessia da ponte quando ele e Walter entraram.

     William observou que a última seção da ponte podia ser levantada dentro da imponente guarita de pedra à entrada do castelo. Havia torres de pedra em intervalos por toda a volta da muralha de terra, de modo que cada setor do perímetro podia ser defendido por arqueiros. Tomar aquele castelo com um assalto frontal seria uma operação longa e sangrenta, e os Hamleighs não poderiam reunir homens suficientes para garantir a vitória, concluiu William melancolicamente.

     O castelo, é claro, estava aberto para negócios. William deu seu nome ao sentinela e foi admitido sem dificuldade. Dentro do círculo inferior, protegido do mundo pelas paredes de terra, estava o habitual conjunto de edificações domésticas: estábulos, cozinhas, oficinas, uma torre e uma capela. Havia uma excitação no ar. Os cavalariços, escudeiros, servos e criadas caminhavam energicamente e falavam em voz alta, cumprimentando-se e fazendo piadas. Para uma mente insuspeita toda aquela animação e aquele vaivém eram uma reação mais que normal ao retorno do senhor do castelo, mas para William parecia mais que isso.

     Deixou Walter na estrebaria com os cavalos e dirigiu-se para o lado oposto do conjunto, onde, exatamente em frente ao portão, havia a ponte sobre o fosso que representava o acesso para o círculo superior do 8. Quando a atravessou foi parado por um sentinela em outra guarita. Dessa vez foi questionado acerca da razão de sua presença ali e ele respondeu:

     - Vim ver Lady Aliena.

     O sentinela não o conhecia, mas examinou-o de cima a baixo, observando sua capa fina e a túnica vermelha; pela aparência, julgou que fosse um pretendente esperançoso.

     - Poderá encontrar a jovem lady no grande salão - disse, com um sorriso forçado.

     No centro do círculo superior havia uma construção quadrada de pedra, com três andares de altura e paredes grossas. Era o castelo propriamente dito. Como sempre o andar térreo era um depósito. O salão principal ficava em cima, alcançado por uma escada exterior de madeira que podia ser recolhida no interior do prédio. No andar superior se encontrava o quarto de dormir do conde, onde ele ofereceria a última resistência, quando os Hamleighs viessem pegá-lo.

     A planta do castelo apresentava uma série formidável de obstáculos para o atacante. A intenção era mesmo essa, claro, mas agora que William estava tentando imaginar como seria possível passar pelos obstáculos, viu a função dos diferentes elementos do projeto com muita clareza. Mesmo que os atacantes conquistassem o círculo inferior, ainda teriam que passar por outra ponte e por outro portão para assaltar a fortaleza. Precisariam encontrar um modo de chegar ao andar de cima - presumivelmente com a construção de uma escada só para o ataque -, e mesmo assim, com toda a certeza, haveria outra luta, para ir do salão principal até o andar de cima, onde ficava o quarto do conde. O único modo de tomar o castelo era através de uma operação furtiva, concluiu William, começando a alimentar a idéia de ele próprio se esgueirar de algum modo para o seu interior.

     Subiu a escada e entrou no salão. Estava cheio de gente, mas o conde não se encontrava no meio daquelas pessoas. No canto esquerdo ficava a escada que dava para o seu quarto, e havia uns quinze ou vinte cavaleiros e homens de armas sentados à volta, conversando em voz baixa. Aquilo não era usual. Cavaleiros e homens de armas formavam classes sociais separadas. Os cavaleiros eram proprietários de terras que se mantinham com aluguéis, enquanto os homens de armas eram pagos por dia. Os dois grupos só intensificavam sua camaradagem quando havia cheiro de guerra no ar.

     William reconheceu alguns deles: Gilbert Cara de Gato, um velho lutador mal-humorado, com mais de quarenta anos, mas ainda durão; Ralph de Lyme, que gastava mais com roupas que com uma noiva, envergando uma capa azul com forro vermelho; Jack Fitz Guillaume, já sagrado cavaleiro, embora pouco mais velho que William; e diversos outros cujo rosto era vagamente familiar. Balançou a cabeça na direção deles, mas praticamente não o notaram - era bastante conhecido, mas jovem demais para ter importância.

     Voltou-se para o outro lado do salão, vendo Aliena de imediato.

     Ela parecia bastante diferente. Na véspera estava vestida para ir à catedral, com seda, lã fina e linho, anéis, fitas e botas pontudas. Nesse dia usava uma túnica curta como uma camponesa ou uma criança, e seus pés estavam descalços. Sentada num banco, estudava um tabuleiro de jogo onde havia contas de cores diferentes. Enquanto William observava, ela puxou a túnica e cruzou as pernas, revelando os joelhos, e depois torceu o nariz numa careta. Na véspera estava irresistivelmente sofisticada; nesse dia era uma criança vulnerável, e William achou-a ainda mais desejável. Subitamente sentiu vergonha do fato de aquela criança ter feito com que sofresse tanto, e desejou com ardor que houvesse algum modo de lhe mostrar que podia dominá-la. Um desejo tão forte que quase chegava a ser lascivo.

     Ela estava jogando com um menino mais ou menos três anos mais moço. O ar dele era impaciente, irrequieto; não gostava do jogo. William reconheceu certa semelhança entre os dois jogadores. Na verdade, o menino lembrava Aliena, tal como William se recordava dela do tempo da infância, de nariz arrebitado e cabelo curto. Devia ser seu irmão mais moço, Richard, o herdeiro do condado.

     William aproximou-se mais. Richard ergueu os olhos para ele e retornou a atenção para o jogo. Aliena estava concentrada. O tabuleiro, de madeira pintada, tinha a forma de uma cruz e era dividido em pequenos quadrados de cores diferentes. As contas pareciam de marfim, pretas e brancas. O jogo evidentemente era uma variante do jogo das nove pedras ou dança dos nove homens, e com toda a certeza um presente trazido da Normandia pelo pai de Aliena. William estava mais interessado nela que no jogo. Quando se inclinou sobre o tabuleiro, o decote da sua túnica alargou-se e ele pôde ver a parte superior dos seus seios. Eram tão grandes quanto imaginara. Ficou com a boca seca.

     Richard deslocou uma pedra no tabuleiro.

     - Não, você não pode fazer isso - disse Aliena. O garoto ficou desconcertado.

     - Por que não?

     - Porque é contra as regras, seu burro.

     - Não gosto das regras - disse Richard petulantemente. Aliena explodiu.

     - Você tem que obedecer às regras!

     - Por quê?

     - Porque tem!

     - Bem, não obedeço - disse ele, e derrubou o tabuleiro no chão, fazendo as pedras voarem.

     Rápida como um raio, Aliena o esbofeteou no rosto. Ele deu um grito, atingido dolorosamente no rosto e no orgulho.

     - Sua... sua filha da puta! - gritou ele. Em seguida virou-se e saiu correndo, mas após três passos esbarrou em William.

     O jovem pegou-o por um braço e levantou-o no ar.

     - Não deixe o padre ouvi-lo chamar sua irmã desses nomes - disse ele.

     - Está me machucando! Largue-me! - gritou Richard, retorcendo-se.

     William segurou-o por mais algum tempo. Richard parou de lutar e começou a chorar. O jovem Hamleigh o pôs no chão, e ele saiu correndo, em lágrimas.

     Aliena olhava fixamente para William, o jogo esquecido, a curiosidade franzindo-lhe a testa.

     - Por que está aqui? - perguntou. Sua voz era baixa e calma, a voz de uma pessoa mais velha.

     William sentou-se no banco, bastante satisfeito com o jeito autoritário com que tratara Richard.

     - Vim ver você - respondeu.

     Uma expressão de desconfiança surgiu no rosto dela.

     - Por quê?

     William posicionou-se de modo que pudesse observar a escada. Viu, descendo para o salão, um homem de cerca de quarenta anos, vestido como um servo altamente graduado, com um gorro redondo e uma túnica curta de pano fino. Ele fez um gesto, e um cavaleiro e um homem de armas subiram a escada juntos. William olhou para Aliena de novo.

     - Quero falar com você.

     - Sobre o quê?

     - Sobre mim e você. - Por sobre o ombro de Aliena, viu o servo aproximar-se deles. Havia qualquer coisa de afeminado no seu jeito de andar. Em uma das mãos carregava um pão de açúcar marrom cor de terra. Na outra mão tinha uma raiz retorcida que parecia gengibre. Era, obviamente, o despenseiro da casa e vinha do cofre das especiarias, um armário fechado à chave no quarto do conde, onde apanhara o suprimento do dia dos preciosos ingredientes que agora levava para o cozinheiro: açúcar para adoçar uma torta de maçã ácida e gengibre para condimentar lampréias.

     Aliena seguiu o olhar de William.

     - Oi, Matthew.

     O despenseiro sorriu e quebrou um pedaço de açúcar para ela. William teve a impressão de que o despenseiro gostava muito de Aliena. Algo no seu modo de proceder devia ter-lhe dito que ela estava pouco à vontade, pois seu sorriso transformou-se numa careta de preocupação.

     - Está tudo bem? - perguntou, com a voz suave.

     - Está sim, obrigada.

     Matthew olhou para William e seu rosto registrou surpresa.

     - O jovem William Hamleigh, não é?

     William ficou embaraçado ao ser reconhecido, muito embora fosse inevitável.

     - Guarde seu açúcar para as crianças - disse, não obstante nada lhe tivesse sido oferecido. - Não ligo para isso.

     - Muito bem, lorde. - A expressão de Matthew dizia que ele não havia chegado aonde estava criando problemas com os filhos da pequena nobreza. Voltou-se para Aliena.

     - Seu pai trouxe umas sedas maravilhosas. Eu as mostrarei para você mais tarde.

     - Muito obrigada - disse ela.

     Matthew foi embora.

     - Tolo efeminado - disse William.

     - Por que foi tão rude com ele?

     - Não deixo que servos me chamem de "jovem William". - Aquela não era uma boa maneira de iniciar a corte a uma dama. William percebeu, desolado, que tivera um mau começo. Tinha que ser encantador. Sorriu e disse: - Se você fosse minha mulher, os servos a chamariam de lady.

     - Você veio aqui para falar de casamento? - perguntou ela, e William achou que havia detectado uma nota de incredulidade na sua voz.

     - Você não me conhece - disse ele, em tom de protesto. Não estava conseguindo conservar aquela conversa sob controle, admitiu, desconsolado. Planejara uma conversação cortês e superficial antes de tratar do que interessava, mas ela fora tão direta e franca que ele se vira forçado a dizer logo qual era sua mensagem. - Você errou no juízo que fez de mim. Não sei o que fiz, na última vez em que nos encontramos, para deixá-la com raiva de mim; mas, seja qual for a razão, você se precipitou.

     Ela desviou os olhos, pensando no que responder. Às suas costas, William viu o cavaleiro e o homem de armas descerem a escada e saírem porta afora, com uma expressão decidida. Um momento depois um homem em roupas clericais - presumivelmente o secretário do conde - apareceu na parte de cima e acenou, chamando alguém. Dois cavaleiros levantaram-se e subiram a escada: Ralph de Lyme, exibindo o forro vermelho de sua capa, e um cavaleiro mais idoso e calvo. Era óbvio que os homens estavam ali para conversar com o conde, individualmente ou em duplas, no quarto dele. Mas por quê?

     - Depois de todo este tempo? - estava perguntando Aliena. Visivelmente ela reprimia alguma emoção. Podia ser raiva, mas William teve, secretamente, a impressão de que fosse riso. - Depois de toda aquela confusão, raiva e escândalo, justo quando a história já começa a se acalmar, você vem me dizer que cometi um erro?

     Colocado desse modo pareceu mesmo um pouco implausível, concedeu William.

     - Não acalmou nada - disse, furioso. - As pessoas continuam falando, minha mãe ainda está indignada e meu pai não pode levantar a cabeça em público. Para nós, não está acabado.

     - Tudo isso tem a ver com a honra da família, não é? - Havia um tom perigoso na voz dela, mas William ignorou-o. Acabara de se dar conta do que o conde deveria estar fazendo com todos aqueles cavaleiros e homens de armas: mandando mensagens.

     - Honra da família? - disse distraidamente.

     - Sim.

     - Sei que devia pensar em honra, alianças entre famílias e tudo isso - disse Aliena. - Mas não são apenas essas coisas que existem num casamento. - Ela pareceu refletir por um momento e depois chegar a uma decisão. - Talvez eu devesse lhe falar sobre a minha mãe. Ela odiava meu pai. Ele não é ruim, na verdade é um grande homem e eu o amo, mas é horrivelmente solene e rígido, e nunca compreendeu mamãe. Ela era uma pessoa alegre, de coração leve, que adorava rir, contar histórias e ouvir música, e papai a fez muito infeliz. - Havia lágrimas nos seus olhos, William notou vagamente, mas estava pensando em mensagens. - Foi por isso que ela morreu - porque ele não a deixou ser feliz. Sei disso. E ele sabe também, entende? E por isso que prometeu que não me obrigará a casar com uma pessoa de quem eu não goste. Compreende agora?

     Aquelas mensagens eram ordens, estava pensando William; ordens aos amigos e aliados do conde Bartholomew, avisandoos para que se preparassem para o combate. E os mensageiros eram a prova.

     Percebeu que Aliena estava olhando fixamente para ele.

     - Casar com uma pessoa de quem não goste? - disse, ecoando suas últimas palavras. - Você não gosta de mim?

     Os olhos dela faiscaram de raiva.

     - Você não estava ouvindo - disse. - Ê tão egocêntrico que não pode pensar nos sentimentos de outra pessoa por um só momento. A última vez que veio aqui, o que foi que fez? Falou sem parar a respeito de si próprio e não me fez uma só pergunta!

     Ela levantou a voz e terminou gritando. Quando parou, William notou que os homens do outro lado do salão tinham silenciado, e estavam escutando.

     - Não tão alto - disse para ela.

     Aliena não o ouviu.

     - Quer saber por que não gosto de você? Muito bem, eu lhe direi. Não gosto de você porque não tem refinamento. Não gosto de você porque mal sabe ler. Não gosto de você porque só está interessado nos seus cachorros, nos seus cavalos e em si próprio!

     Gilbert Cara de Gato e Jack Fitz Guillaume estavam rindo ruidosamente. William sentiu o rosto ficar vermelho. Aqueles homens não eram ninguém, não passavam de cavaleiros, e estavam rindo dele, o filho de lorde Percy Hamleigh. Ele se levantou.

     - Está bem - disse nervosamente, tentando calar Aliena. Não adiantou.

     - Não gosto de você porque você é egoísta, burro e estúpido! - gritou ela. Todos os cavaleiros estavam rindo agora. - Não gosto de você, desprezo você, odeio você, abomino você - e é por isso que não vou me casar com você!

     Os cavaleiros deram vivas e bateram palmas. William encolheu-se por dentro. O riso deles fez com que se sentisse pequeno, fraco e desamparado, como um garotinho, e quando ele era garotinho se sentia assustado o tempo todo. Desviou o olhar de Aliena, lutando para controlar a expressão do rosto e esconder os sentimentos. Atravessou a sala o mais depressa que pôde, sem correr, enquanto as risadas ficavam mais fortes. Finalmente chegou à porta, escancarou-a e saiu tropeçando. Depois bateu a porta, e desceu correndo a escada, sufocado de tanta vergonha; e o som das risadas escarninhas dos cavaleiros ficou retinindo nos seus ouvidos o tempo todo que levou para atravessar o pátio lamacento até o portão.

    

     A trilha de Earlscastle até Shiring cruzava uma estrada após cerca de uma milha. Na encruzilhada o viajante poderia seguir para o norte, na direção de Gloucester e da fronteira de Gales, ou para o sul, rumo a Winchester e à costa. William e Walter viraram para o sul.

     A angústia do jovem se transformara em raiva. Estava furioso demais para falar. Queria ferir Aliena e matar todos aqueles cavaleiros. Teria sido um prazer enfiar a espada em cada boca aberta numa gargalhada e empurrá-la até a garganta. Imaginou um meio de se vingar de pelo menos um deles. Se desse certo, conseguiria ao mesmo tempo a prova de que precisava. A perspectiva lhe trouxe uma sensação de consolo selvagem.

     Primeiro tinha que pegar um deles. Assim que a estrada entrou pelo bosque, William desmontou e começou a caminhar, puxando o cavalo. Walter seguiu em silêncio, respeitando seu estado de espírito. O jovem chegou a um trecho mais estreito da trilha e parou. Virou-se para o criado e perguntou:

     - Quem é melhor com uma faca, você ou eu?

     - Lutando de perto, sou eu - respondeu Walter reservadamente. - Mas o senhor atira com mais precisão, lorde. - Todos o chamavam de lorde quando ele estava zangado.

     - Suponho que você consiga fazer tropeçar um cavalo rápido e fazêr-lo cair, não? - quis saber William.

     - Sim, com uma boa vara resistente.

     - Vá procurar uma árvore pequena,  então,  corte-a e prepare-a; terá sua vara resistente.

     William levou os dois cavalos por entre as árvores e os amarrou numa clareira bem afastada da estrada. Retirou as selas e removeu algumas das cordas e correias - o bastante para amarrar os pés e as mãos de um homem, com um pouco de sobra. Seu plano era grosseiro, mas não havia tempo para imaginar algo mais elaborado, de modo que teria que esperar pelo melhor.

     No caminho de volta para a estrada, encontrou um pedaço de carvalho caído no chão, seco, para usar como porrete.

     Walter estava esperando com a sua vara. William selecionou o local onde ele deveria ficar à espera, atrás do tronco largo de uma vala, junto da trilha.

     - Não se antecipe com a vara, para que o cavalo não a salte - advertiu. - Mas também não aja tarde demais, porque não se pode derrubar um cavalo pelas patas traseiras. O ideal é meter a vara entre as dianteiras. E tente manter a extremidade no chão para que ele não possa chutá-la para um lado.

     - Já vi fazerem isso antes - assentiu Walter.

     William caminhou cerca de trinta jardas na direção de Earlscastle. Seu papel seria certificar-se de que o cavalo galopasse o mais rápido possível, a fim de que estivesse indo depressa demais para evitar a vara de Walter. Escondeu-se o mais próximo da estrada que conseguiu. Mais cedo ou mais tarde um dos mensageiros do conde Bartholomew apareceria. Esperava que fosse logo. Estava ansioso para saber se aquilo ia dar certo e impaciente para acabar com tudo.

     Aqueles cavaleiros não tinham ideia, enquanto riam de mim, de que eu estava lá espionando, pensou, e esse pensamento o consolou um pouco. Mas um deles está prestes a descobrir. E então se arrependerá de ter rido. Desejará que tivesse se ajoelhado e beijado minhas botas em vez de rir. Chorará, implorará e suplicará meu perdão, e simplesmente o machucarei cada vez mais.

     Tinha outros consolos. Se o seu plano desse certo, em última análise acarretaria a queda do conde Bartholomew e a ressurreição dos Hamleighs. Então os que zombaram do casamento cancelado iriam tremer de rnedo, sendo que alguns sofreriam mais que medo.

     A derrocada de Bartholomew seria também a queda de Aliena, e essa era a melhor parte. Seu orgulho exagerado e suas maneiras superiores teriam que mudar depois que o pai fosse enforcado como traidor. Se quisesse sedas macias e cones de açúcar, teria que se casar com William para consegui-los. Imaginou-a, humilde e contrita, trazendo para ele uma torta quente da cozinha, fitando-o com aqueles olhos grandes e escuros, ansiosa por agradá-lo, esperando por uma carícia, a boca macia ligeiramente aberta suplicando um beijo.

     Sua fantasia foi interrompida pelo barulho de cascos na lama endurecida pelo frio do inverno. Desembainhou a faca e a manuseou para se lembrar do seu peso e equilíbrio.

     Na ponta ela era amolada dos dois lados, para melhor penetração. Ficou de pé, com as costas coladas no tronco da árvore que o escondia, segurou a faca pela lâmina e aguardou, quase sem poder respirar. Estava nervoso. Receava errar o arremesso da faca, ou que o cavalo pudesse não cair, ou que o cavaleiro conseguisse matar Walter num golpe de sorte, e então William teria que lutar com ele sozinho... Algo o incomodou no tropel, à medida que se aproximava. Viu Walter olhando para ele através da vegetação, com uma expressão preocupada: o criado também ouvira. Então o jovem percebeu: havia mais que um cavalo. Precisava tomar uma decisão rápida. Atacariam duas pessoas? Podia ser praticamente uma luta limpa. Decidiu deixá-los passar, e aguardar um cavaleiro solitário. Desapontador, mas prudente. Acenou para Walter, mandando que nada fizesse. Walter balançou a cabeça, num sinal de entendimento, e escondeu-se de novo.

     Um momento mais tarde dois cavalos apareceram. William vislumbrou o brilho de seda vermelha: Ralph de Lyme. Logo em seguida viu a calva do companheiro de Ralph.

     Os dois homens passaram trotando e desapareceram.

     A despeito da sensação de anticlimax, William ficou gratificado por ter tido a confirmação de sua teoria de que o conde estava mandando aqueles homens cumprirem uma determinada missão. No entanto, perguntou-se ansiosamente se Bartholomew seguiria a política de enviá-los aos pares. Seria uma precaução natural. Todo mundo viajava em grupos, sempre que possível, por motivos de segurança. Por outro lado, o conde tinha uma porção de mensagens para enviar e dispunha de um número limitado de homens; era possível que julgasse uma extravagância usar dois cavaleiros para levar uma única mensagem. Além disso, os cavaleiros eram homens violentos dos quais se podia esperar que dessem num fora-da-lei do tipo comum uma surra violenta - numa luta em que o fora-da-lei tinha pouco a ganhar, porque o cavaleiro não levava nunca muita coisa que valesse a pena roubar além da espada, a qual era difícil de vender sem responder a perguntas desagradáveis, e do cavalo, se não ficasse aleijado na emboscada. Um cavaleiro estava mais seguro que a maioria das pessoas na floresta.

     William coçou a cabeça com o cabo da faca. Poderia acontecer de um jeito ou de outro.

     Acomodou-se para aguardar. A floresta estava em silêncio. Um suave raio de sol de inverno brilhou por entre os galhos durante algum tempo e depois desapareceu. O estômago de William o lembrou de que já passara a hora do jantar. Um cervo cruzou a trilha a poucas jardas de distância, sem saber que estava sendo observado por um homem faminto. William ficou impaciente.

     Se aparecesse outro par de cavaleiros, decidiu, teria que atacar. Era arriscado, mas tinha a vantagem da surpresa, além de Walter, que era um combatente formidável.

     Além disso, talvez fosse sua última chance. Sabia que podia ser morto, mas era melhor morrer do que viver em constante humilhação. Pelo menos era um fim honroso, morrer numa luta.

     Porém, melhor que tudo, pensou, seria Aliena aparecer, sozinha, cavalgando um pónei branco. Walter a derrubaria da sela, e ela machucaria braços e pernas, caindo em cima de um espinheiro. Os espinhos iriam arranhar sua pele macia, fazendo escorrer sangue. William pularia em cima dela, prendendo-a no chão. Aliena ficaria mortificada.

     Brincou com essa ideia, detalhando seus ferimentos, saboreando o modo como seu peito arfaria com ele sentado a cavalo sobre ela, imaginando a expressão de terror abjeto em seu rosto ao perceber que estava completamente em seu poder; nesse momento ouviu de novo o barulho de cascos de cavalo na estrada.

     Dessa vez havia um só cavaleiro.

     O animal era bom e rápido, não um cavalo de batalha, mas provavelmente um corcel de boa raça. Carregava um peso moderado, como um homem sem armadura, e vinha num trote constante, sem resfolegar. William encarou Walter e balançou a cabeça: era aquele, ali estava a prova. Ergueu o braço direito, segurando a faca pela ponta da lâmina.

     A distância, o cavalo de William relinchou.

     O som, claro e forte, atravessou a floresta silenciosa e foi perfeitamente audível por cima do tropel do cavalo que se aproximava. Este, ao ouvi-lo, perdeu o passo.

     O cavaleiro o fez reduzir a marcha de trote para passo de estrada. William praguejou por entre os dentes. O cavaleiro ficara desconfiado, o que dificultaria tudo. Tarde demais, William desejou ter levado seu cavalo para mais longe.

     Não podia dizer a que distância estava o corcel, agora que vinha a passo. Tudo estava saindo errado. Resistiu à tentação de sair de trás da árvore para olhar. Procurou escutar, tenso com o esforço. Súbito o cavalo bufou, assustadoramente perto, e por fim apareceu a uma jarda de onde se encontrava. O animal o viu um momento depois.

     Fez um movimento brusco, assustado, e o cavaleiro deixou escapar um grunhido de surpresa.

     William soltou uma praga. Percebeu instantaneamente que o cavalo podia se virar e disparar na direção errada. Mergulhou por baixo da árvore e saiu do outro lado, atrás do animal, o braço com que arremessaria a faca erguido. Teve um vislumbre do cavaleiro, barbado e com o cenho franzido, enquanto puxava a rédea: era o velho e durão Gilbert Cara de Gato. Atirou a faca.

     Foi um arremesso perfeito. A faca bateu de ponta na anca do animal e entrou uma polegada ou mais na sua carne.

     O cavalo pareceu estremecer, como um homem quando leva um choque; em seguida, antes que Gilbert pudesse reagir, disparou em pânico - galopando, a toda a velocidade, na direção da emboscada de Walter.

     William saiu correndo atrás. O cavalo cobriu a distância até onde estava o criado em poucos momentos. Gilbert não se esforçava para controlar a montaria - estava atarefado demais tentando ficar na sela. Emparelharam com a posição de Walter e William pensou: Agora, Walter, agora!

     O criado cronometrou sua ação tão bem que William nem chegou a ver a vara sendo lançada de trás da árvore. Viu apenas as pernas dianteiras do cavalo abaterem-se, como se toda a sua força o tivesse abandonado subitamente. Depois as pernas traseiras pareceram bater nas dianteiras, e todas ficaram embaralhadas. Finalmente a cabeça cedeu, as ancas subiram e ele caiu pesadamente.

     Gilbert saiu voando por cima da cabeça do animal. Indo atrás dele, William se viu detido pelo corpo do cavalo caído.

     Gilbert caiu bem, rolou e ficou de joelhos. Por um momento William teve medo de que pudesse sair correndo e fugir. Mas Walter apareceu, arremessou-se no ar e bateu nas costas do cavaleiro, derrubando-o.

     Os dois homens bateram com força no chão. Recuperaram o equilíbrio ao mesmo tempo, e, para seu horror, William viu que o ardiloso Gilbert se levantara com uma faca na mão. O jovem Hamleigh pulou por cima do cavalo caído e bateu com o porrete de carvalho em Gilbert, justo quando ele levantava a faca. O golpe atingiu a têmpora de Gilbert.

     O cavaleiro cambaleou mas continuou de pé. William o amaldiçoou por ser tão resistente. Puxou o porrete para trás a fim de dar outro golpe, mas Gilbert foi mais rápido e investiu contra ele com a faca. William estava vestido para fazer a corte, não para lutar, e a lâmina afiada cortou sua capa de lã fina; porém, ele pulou rapidamente para trás, a fim de salvar a pele. Gilbert continuou arremetendo, mantendo-o desequilibrado para que não pudesse brandir o porrete. Cada vez que investia, William pulava para trás; mas o jovem nunca conseguia tempo bastante para se recuperar, e Gilbert foi se aproximando cada vez mais, muito depressa. De repente William começou a temer por sua vida. Nesse momento Walter surgiu por trás do cavaleiro e, dando-lhe um pontapé nas pernas, derrubou-o.

     William relaxou, aliviado. Por um momento pensara que fosse morrer. Agradeceu a Deus por Walter.

     Gilbert tentou se levantar mas o criado chutou-o no rosto. William o atingiu duas vezes com o porrete, por via das dúvidas, e depois disso o homem ficou imóvel, no chão.

     Os dois o rolaram para colocá-lo de bruços, e Walter se sentou em cima de sua cabeça enquanto William lhe amarrava as mãos nas costas. Depois Hamleigh tirou suas longas botas pretas e amarrou-lhe os tornozelos nus com um forte pedaço de couro de arreio.

     William levantou-se. Sorriu para Walter, e este retribuiu o sorriso. Era um alívio ter aquele velho guerreiro cheio de truques seguramente amarrado.

     O próximo passo era fazer Gilbert confessar.

     Ele estava voltando a si. Walter o virou. Quando Gilbert viu William sua expressão registrou primeiro reconhecimento, depois surpresa e finalmente medo. O jovem ficou gratificado. Gilbert já estava se arrependendo das suas risadas, pensou. Dentro de pouco tempo iria se arrepender ainda mais.

     O cavalo de Gilbert, espantosamente, já estava de pé. Afastara-se um pouco, correndo, mas tinha parado e agora olhava para trás, resfolegando e assustando-se cada vez que o vento farfalhava as folhas das árvores. A faca de William caíra da sua anca. William a apanhou e Walter foi pegar o animal.

     O jovem ficou atento ao barulho de outros cavalos. Podia surgir outro mensageiro a qualquer momento. Se isso acontecesse, precisariam silenciar e arrastar Gilbert, ocultando-o. Mas não vieram outros cavaleiros, e Walter conseguiu pegar seu cavalo sem muita dificuldade. Puseram o velho Cara de Gato na garupa e depois o puxaram para o ponto da floresta onde William deixara sua montaria e a de Walter. Os outros animais ficaram agitados quando sentiram o cheiro do sangue escorrendo da anca do cavalo de Gilbert, e por isso William o prendeu a uma certa distância.

     Hamleigh olhou em torno, procurando uma árvore adequada a seu objetivo. Localizou um olmo com um galho forte protuberante, a oito ou nove pés do chão. Apontou o olmo para Walter.

     - Quero pendurar Gilbert naquele galho.

     Walter sorriu sadicamente.

     - O que vai fazer com ele, milorde?

     - Você vai ver.

     O rosto de Gilbert estava branco de medo. William passou uma corda sob suas axilas, amarrou-a nas costas e atirou-a por cima do galho.

     - Levante-o - ordenou ao criado.

     Walter levantou Gilbert. Este se sacudiu e conseguiu se livrar do abraço de Walter, caindo no chão. O criado apanhou o porrete e bateu em sua cabeça até tonteá-lo e depois o levantou de novo. William passou a extremidade solta da corda diversas vezes em torno do galho e puxou com força. Walter soltou Gilbert e ele ficou pendurado, balançando suavemente, com os pés a uma jarda do chão.

     - Apanhe um pouco de lenha - disse William.

     Os dois arrumaram uma fogueira embaixo de Gilbert e William a acendeu com a faísca de uma pedra. Após alguns momentos as chamas começaram a subir. O calor tirou Gilbert de seu torpor.

     Quando percebeu o que estava lhe acontecendo, pôs-se a gemer, aterrorizado.

     - Por favor - pediu. - Ponha-me no chão. Desculpe-me de ter rido de você, por favor, tenha piedade.

     William ficou em silêncio. A humilhação de Gilbert o satisfazia, mas não era aquilo que procurava.

     Quando o calor começou a queimar-lhe os dedos dos pés, ele dobrou os joelhos para tirá-los do fogo. Gotas de suor corriam-lhe pelo rosto, e foi possível sentir um leve cheiro de tecido chamuscado. William achou que estava na hora de começar o interrogatório e perguntou:

     - Por que foi ao castelo hoje?

     Gilbert encarou-o com os olhos arregalados.

     - Fui apresentar meus respeitos - disse. - Faz diferença?

     - Por que foi apresentar seus respeitos?

     - O conde acabou de voltar da Normandia.

     - Você foi convocado especialmente?

     - Não.

     Podia ser verdade, refletiu William. Interrogar um prisioneiro não era algo tão simples quanto imaginara. Pensou de novo.

     - O que o conde lhe disse quando você foi ao quarto dele?

     - Ele me cumprimentou e me agradeceu por ter ido lhe dar as boas-vindas.

     Havia um brilho de desconfiança nos olhos de Gilbert? William não tinha certeza.

     - O que mais?

     - Perguntou pela minha família e por minha aldeia.

     - Nada mais?

     - Nada. Por que está querendo saber o que ele disse?

     - O que ele disse sobre o rei Estêvão e a rainha Matilde?

     - Nada, estou lhe dizendo!

     Gilbert não conseguiu manter os joelhos dobrados e seus pés penderam sobre as chamas, agora mais altas. Após um segundo, um grito de agonia irrompeu do seu peito, e o corpo dele fez uma convulsão. O espasmo tirou-lhe os pés das chamas momentaneamente. Percebeu então que poderia amenizar a dor se balançando para trás e para a frente. com cada balanço, contudo, passava por entre as chamas e gritava de novo.

     Mais uma vez William perguntou-se se Gilbert não estaria dizendo a verdade. Não havia como saber. Em algum momento, contudo, estaria sofrendo tamanha agonia que, presumivelmente, diria tudo o que William quisesse, numa tentativa desesperada de conseguir alívio; assim, era importante não lhe dar uma ideia clara demais do que desejava, pensou William preocupadamente. Quem teria pensado que torturar era algo tão difícil?

     Forçou um tom de voz calmo, quase como o de uma conversação.

     - Aonde você está indo agora?

     - E que importância tem? - gritou Gilbert, cheio de dor e frustração.

     - Aonde você está indo?

     - Para casa!

     O homem estava perdendo o controle. William sabia onde morava, e era ao norte de onde se encontravam. Ele estava se dirigindo para o lado errado.

     - Aonde você está indo? - perguntou William mais uma vez.

     - O que você quer de mim?

     - Sei quando mente - disse William. - Só quero que me diga a verdade. - Ouviu Walter deixar escapar um resmungo de aprovação e pensou que estava se saindo melhor.

     - Aonde está indo? - perguntou pela quarta vez.

     Gilbert estava exausto demais para continuar se balançando. Gemendo de dor, parou em cima do fogo e uma vez mais dobrou os joelhos para tirar os pés das chamas, mas agora as labaredas estavam tão altas que chamuscavam seus joelhos. William notou um cheiro vagamente familiar, mas ao mesmo tempo um pouco enjoativo; após um momento percebeu que era o cheiro de carne assando. A pele das pernas de Gilbert e de seus pés estava ficando escura e estalando, e os pêlos das canelas, pretos; a gordura de sua carne pingava no fogo e chiava. Observar sua agonia fascinou William. Cada vez que Gilbert gritava, sentia uma profunda emoção. Tinha o poder da dor sobre um homem, e aquilo fazia com que se sentisse bem. Como quando pegava uma garota sozinha, num lugar onde ninguém podia ouvi-la protestar, e a prendia de encontro ao chão, levantando-lhe as saias até a cintura, sabendo que nada podia impedi-lo de possuí-la.

     - Aonde você está indo? - perguntou de novo, quase relutantemente.

     - Para Sherbome - respondeu Gilbert numa voz que era um grito contido

     - Por quê?

     - Ponha-me no chão, pelo amor de Jesus Cristo, e lhe contarei tudo.

     William sentiu a vitória a seu alcance. Era profundamente satisfatório. Mas ainda não tinha chegado aonde queria.

     - Apenas tire os pés dele de cima do fogo - disse a Walter. O criado agarrou-o pela túnica e puxou-lhe os pés.

     - Agora - disse William.

     - O conde Bartholomew tem cinquenta cavaleiros em Sherbome e nas cercanias - disse Gilbert, com um grito estrangulado. - Devo reuni-los e levá-los para Earlscastle.

     William sorriu. Todas as suas estimativas estavam demonstrando ser absolutamente precisas.

     - E o que o conde está planejando fazer com esses cavaleiros?

     - Ele não disse.

     - Deixe-o queimar mais um pouco - ordenou para Walter.

     - Não! - gritou Gilbert. - Contarei tudo!

     Walter hesitou.

     - Depressa - advertiu William.

     - Eles devem combater pela rainha Matilde contra Estêvão - disse Gilbert por fim.

     Ali estava; era a prova que queria. William saboreou seu sucesso.

     - E quando eu lhe perguntar isso na frente do meu pai, você responderá a mesma coisa? - perguntou.

     - Sim, sim.

     - E quando meu pai lhe perguntar na frente do rei, você continuará dizendo a verdade?

     - Sim.

     - Jure pela cruz.

     - Juro pela cruz, direi a verdade!

     - Amém - disse William satisfeito, e começou a apagar o fogo com os pés.

     Amarraram Gilbert à sua sela e puseram o corcel dele numa guia; depois saíram todos, a passo. Gilbert mal era capaz de se manter na vertical, e como William não queria que morresse, porque seria inútil morto, tentou não tratá-lo com demasiada rudeza. Quando atravessaram um regato, jogou água fria nos seus pés queimados. Gilbert berrou de dor, mas isso provavelmente lhe fez bem.

     William sentia uma maravilhosa sensação de triunfo, mesclada com um estranho tipo de frustração. Nunca matara um homem, e gostaria de ter matado Gilbert. Torturar um homem sem matá-lo era como arrancar a roupa de uma garota sem estuprá-la. E quanto mais pensava nisso, mais sentia necessidade de uma mulher.

     Talvez quando chegasse em casa... não, não haveria tempo. Teria que contar aos pais o que acontecera, e eles iam querer que Gilbert repetisse a confissão na frente de um padre e talvez de outras testemunhas; depois precisariam planejar a captura do conde Bartholomew, o que certamente teria lugar no dia seguinte, antes que ele reunisse muitos combatentes.

     E William ainda não pensara num modo furtivo de tomar aquele castelo, sem um cerco prolongado...

     Estava pensando, cheio de frustração, que poderia se passar muito tempo antes que pudesse pelo menos ver uma mulher atraente, quando apareceu uma na estrada, à sua frente.

     Havia cinco pessoas num grupo, caminhando na direção de William. Uma delas era uma mulher de cabelos escuros e cerca de vinte e cinco anos, não exatamente uma garota, mas bastante jovem. Quando se aproximou, ele se interessou mais: era muito bonita, seu cabelo castanho-escuro fazia um bico-de-viúva ou bico-do-demônio, como o povo também dizia - e os olhos fundos eram de uma intensa cor dourada. Era esbelta e tinha a pele suave e bronzeada.

     - Fique à retaguarda - disse William para Walter. - Conserve o cavaleiro atrás de você enquanto falo com eles.

     O grupo parou e olhou cautelosamente para William. Tratava-se de uma família, evidentemente: havia um homem alto, que poderia ser o marido, um rapaz já crescido mas ainda imberbe, e um par de fedelhos. A aparência do homem era familiar, foi o que William percebeu, com um sobressalto.

     - Conheço você? - perguntou.

     - Eu o conheço - disse o homem. - E conheço o seu cavalo, porque juntos os dois quase mataram minha filha.

     A cena começou a voltar a William. Seu cavalo não tocara na criança, mas passara perto.

     - Você estava construindo minha casa - disse ele. - E quando dispensei seus serviços, exigiu pagamento, e quase me ameaçou.

     A expressão do homem era de desafio, e ele não negou o que William disse.

     - Agora você não está tão petulante - disse William, com um sorriso escarninho. A família toda parecia estar faminta. De repente aquele se revelara um bom dia para acertar contas com pessoas que tivessem ofendido William Hamleigh. - Vocês estão com fome?

     - Sim, estamos - respondeu o construtor, com um Tom de raiva contida.

     William olhou de novo para a mulher. Ela estava com os pés um pouco separados e o queixo erguido, encarando-o sem o menor medo. William, que se inflamara com Aliena, queria agora saciar a luxúria com aquela mulher. Era enérgica, não tinha dúvida; iria se debater e tentar arranhá-lo. Tanto melhor.

     - Você não é casado com essa mulher, é, construtor? perguntou William. - Lembro-me de sua mulher, era uma vaca feia.

     Uma sombra de dor passou pelo rosto do homem, que disse:

     - Minha mulher morreu.

     - E você não levou esta aí à igreja, levou? Não tem uma moeda para pagar o padre. - Atrás de William, Walter tossiu e os cavalos se mexeram impacientemente. - Suponha que eu lhe dê dinheiro para comprar comida - disse William ao construtor, para atormentá-lo.

     - Eu aceitaria agradecido - afirmou o homem, embora William pudesse assegurar que muito lhe doía ser subserviente.

     - Não estou falando de um presente.  Comprarei sua mulher.

     Foi ela mesma quem respondeu:

     - Não estou à venda, garoto.

     Seu desdém foi bem dirigido, e William ficou com raiva. Eu lhe mostrarei se sou um homem ou um garoto quando a pegar sozinha, pensou. Dirigiu-se ao construtor.

     - Eu lhe darei uma libra de prata por ela.

     - Ela não está à venda.

     William se enfureceu mais ainda. Era de enlouquecer, oferecer uma fortuna a um homem faminto e receber um não como resposta.

     - Seu tolo - disse -, se não aceitar o dinheiro eu o passarei pelo fio da minha espada e treparei com ela na frente das crianças!

     O braço do construtor sumiu sob a capa. Devia ter uma arma qualquer, pensou William. Era também muito grande e, embora magro como a lâmina de uma faca, poderia oferecer uma briga feia para salvar a mulher. Ela afastou a capa que usava e descansou a mão no punho de uma adaga surpreendentemente comprida. O garoto mais velho era grande o bastante para causar problemas também.

     - Milorde - disse Walter, nervoso -, não há tempo para isto.

     William aquiesceu relutantemente. Tinha que levar Gilbert para o solar dos Hamleighs. Era importante demais para ser retardado por causa de uma briga em disputa de uma mulher. Ele simplesmente tinha que sofrer.

     Olhou para a pequena família de cinco pessoas maltrapilhas e famintas, prontas para lutar até o fim contra os dois homens fortes, com cavalos e espadas. Impossível compreender.

     - Está bem, morram de fome - disse. - Esporeou o cavalo e saiu ao trote. Momentos depois eles não podiam mais ser vistos.

    

     Quando já estavam a cerca de uma milha do lugar onde haviam encontrado William Hamleigh, Ellen perguntou:

     - Podemos ir mais devagar agora?

     Tom se deu conta de que estava imprimindo um ritmo acelerado. Havia se assustado: por um momento, lá atrás, tudo indicava que ele e Alfred precisariam lutar contra dois homens montados e armados. Tom não tinha sequer uma arma. Metera a mão debaixo da capa para pegar seu martelo de pedreiro e depois se lembrara, angustiadamente, que o trocara semanas antes por um saco de aveia. Não sabia ao certo por que William recuara, mas queria colocar o máximo de distância entre eles, para o caso de o jovem lorde querer mudar de ideia na sua mente demoníaca.

     Tom não conseguira achar trabalho no palácio do bispo de Kingsbridge e em todos os outros lugares em que procurara. Havia, contudo, uma pedreira nas vizinhanças de Shiring, e uma pedreira - ao contrário de uma construção - empregava tantos homens no inverno quanto no verão. É claro que o trabalho habitual de Tom era mais qualificado e bem pago, mas há muito tempo ele deixara de se importar com essas coisas. Queria apenas alimentar sua família. A pedreira de Shiring era de propriedade do conde Bartholomew, e tinham dito a Tom que ele podia ser encontrado em seu castelo, poucas milhas a oeste da cidade.

     Agora que tinha Ellen, estava ainda mais desesperado que antes. Sabia que ela decidira compartilhar sua sorte com ele por amor, e não pesara cuidadosamente as consequências.

     Não tinha uma ideia clara de como podia ser difícil para Tom arranjar trabalho. Não avaliara realmente a possibilidade de que poderiam não sobreviver ao inverno, e Tom evitara desiludi-la, porque a queria ao seu lado. Mas uma mulher era bem capaz de pôr o filho acima de tudo mais, e Tom tinha medo de que Ellen o deixasse.

     Estavam juntos há uma semana: sete dias de desespero e sete noites de prazer. Todas as manhãs Tom se levantava feliz e otimista. Mais tarde ele sentia fome, as crianças se cansavam e Ellen ficava mal-humorada. Alguns dias eles se alimentavam como quando tinham encontrado o monge com o queijo -, e em outros mascavam tiras de carne de veado seca ao sol, da reserva de Ellen. Era como estar comendo couro de veado, mas era melhor que nada. Entretanto, quando escurecia eles se deitavam, gelados e infelizes, e se abraçavam um ao outro em busca de calor; após algum tempo, começavam a se acariciar e se beijar. A princípio Tom sempre queria penetrá-la imediatamente, mas ela não deixava, com delicadeza; desejava que os beijos e afagos se prolongassem por mais tempo. Ele fazia do jeito dela e  ficava encantado.  Explorava seu corpo  ousadamente, acariciando-a em lugares onde nunca tocara Agnes: nas axilas, nos ouvidos e entre as nádegas. Em algumas noites eles davam risadinhas com a cabeça unida sob os mantos. Em outras ocasiões se sentiam muito ternos. Uma noite, quando estavam sozinhos na hospedaria de um mosteiro, e as crianças haviam caído num sono exausto, ela mostrou-se dominadora e insistente, mandando que ele lhe fizesse coisas, mostrando como excitá-la com os dedos, e Tom obedeceu, ao mesmo tempo bestificado e excitado pelo seu despudor. Quando tudo acabou, caíram num sono profundo e repousante, com o medo e a raiva do dia dissolvidos pelo amor.

     Agora era meio-dia. Tom julgou que William Hamleigh já devesse estar bem longe, de modo que decidiu parar para descansar. Não tinham outra comida senão a carne seca de veado. Pela manhã, contudo, haviam pedido um pedaço de pão numa casa de fazenda isolada, e a mulher lhes dera um pouco de cerveja numa garrafa grande de madeira, sem tampa, dizendo que ficassem com ela. Ellen guardara a cerveja para a refeição.

     Ellen sentou-se ao lado de Tom na beirada do grande cepo de uma velha árvore. Ela tomou um longo gole da cerveja e a passou para ele.

     - Quer também um pouco de carne? - perguntou. Ele sacudiu a cabeça e bebeu um pouco. Podia facilmente ter tomado tudo, mas deixou um pouco para as crianças.

     - Economize a carne - disse para Ellen. - Pode ser que a gente consiga uma ceia no castelo.

     Alfred pôs a garrafa na boca e esvaziou-a. Jack ficou cabisbaixo e Martha rompeu no choro. O filho do construtor deu um risinho estranho.

     Ellen olhou para Tom.

     - Você não devia deixá-lo fazer uma coisa dessas - disse ela após alguns momentos.

     Tom deu de ombros.

     - Ele é maior, precisa mais.

     - Ele sempre recebe uma porção maior, seja como for. Os pequenos precisam de alguma coisa.

     - É uma perda de tempo interferir em brigas de crianças - disse ele.

     A voz da mulher tornou-se áspera.

     - Está dizendo que Alfred pode intimidar as crianças menores como bem entender, que você não fará nada?

     - Ele não intimida os outros - disse Tom. - Crianças sempre brigam.

     Ela sacudiu a cabeça, aturdida.

     - Não o compreendo. Em todos os outros sentidos é um homem bom. Mas no que diz respeito a Alfred, você é cego.

     Ellen estava exagerando, foi a opinião de Tom. Mas ele não queria aborrecê-la, e por isso disse:

     - Está bem, então dê um pouco de carne para os pequenos.

     Ellen abriu a bolsa. Ainda estava zangada. Cortou uma tira de carne seca para Martha e outra para Jack. Alfred levantou a mão para receber uma também, mas ela o ignorou. Tom achou que Ellen deveria ter-lhe dado uma. Não havia nada de errado com seu filho. Ela simplesmente não o compreendia. Ele era um garoto grande, pensou o pai orgulhosamente, tinha um apetite enorme e não muita paciência, mas se isso fosse pecado, então metade dos adolescentes neste mundo estaria condenada ao inferno.

     Descansaram um pouco e prosseguiram a caminhada. Jack e Martha seguiram na frente, ainda mascando a carne ressequida. Os dois mais moços se davam bem, a despeito da diferença de idade - Martha tinha seis anos e Jack, provavelmente onze ou doze. Mas a menina o achava absolutamente fascinante, e ele parecia estar gostando da experiência nova de ter uma criança com quem brincar. Era uma pena que Alfred não gostasse do garoto. O que surpreendeu Tom: esperava que Jack, longe ainda de se tornar homem, não incorreria no desprezo de Alfred; não era, porém, o que acontecia. Seu filho era mais forte, claro, mas o pequeno Jack era mais esperto.

     Tom se recusou a ficar preocupado com aquilo. Eram só meninos. Tinha muita coisa na cabeça para perder tempo se martirizando com rixas infantis. Às vezes se perguntava secretamente se algum dia voltaria a trabalhar. Podiam continuar a palmilhar as estradas dia após dia até que, um por um, fossem morrendo: uma criança encontrada fria e inconsciente numa manhã gelada, outra fraca demais para reagir a uma febre. Ellen estuprada e morta por um bandido de passagem, como William Hamleigh, e o próprio Tom emagrecendo cada vez mais até que um dia descobrisse estar demasiadamente fraco para se levantar de manhã e ficasse no chão da floresta, deitado, até dormir e mergulhar para sempre na inconsciência.

     Ellen o deixaria antes que isso acontecesse, é claro. Retornaria para sua caverna, onde ainda havia um barril de maçãs e um saco de nozes, o bastante para manter duas pessoas vivas até a primavera, mas insuficiente para cinco. Tom sofreria muito se ela fizesse isso.

     Gostaria de saber como estava o bebê. Os monges o tinham chamado de Jonathan. Tom gostou do nome. Significava "presente de Deus", de acordo com o monge do queijo.

     Imaginou o pequenino Jonathan, vermelho, todo enrugado e careca, tal como era quando nasceu. Teria mudado, agora: uma semana era muito tempo para um recém-nascido.

     Já estaria maior, e seus olhos, mais abertos. Não mais permaneceria desligado do mundo à sua volta: um barulho maior o sobressaltaria e um acalanto o acalmaria.

     Quando precisasse arrotar, sua boca se franziria nos cantos. Os monges provavelmente não saberiam que eram gases e pensariam tratar-se de um sorriso de verdade.

     Tom esperava que estivessem cuidando bem dele. O monge do queijo lhe dera a impressão de que ele e os demais eram homens bons e competentes. De qualquer maneira, certamente podiam cuidar do bebê melhor que Tom,  que não tinha casa nem dinheiro. Se algum dia eu vier a ser mestre de um projeto de construção realmente grande, pensou, e ganhar quarenta e oito pence por semana mais ajuda de custo, darei dinheiro a essemosteiro.

     Eles emergiram da floresta e logo depois puderam ver o castelo.

     Tom se animou, mas ele reprimiu seu entusiasmo com todas as forças: sofrera meses de desapontamento, e aprendera que quanto mais esperançoso estivesse no princípio, mais dolorosa seria a rejeição no final.

     Aproximaram-se do castelo por uma trilha que atravessava uma região descampada. Martha e Jack viram um passarinho ferido, e todos pararam para olhar. Era tão pequeno que poderiam facilmente ter passado sem vê-lo. Martha abaixou-se para pegá-lo, e ele fugiu saltitando, aparentemente incapaz de voar. Apanhou-o então e levantou a criaturinha minúscula nas mãos em concha.

     - Está tremendo! - disse ela. - Posso sentir que está tremendo. Deve estar assustado.

     O passarinho não fez mais nenhuma tentativa para fugir. Ficou quietinho aninhado na mão de Martha, os olhos brilhantes examinando toda aquela gente à sua volta.

     - Acho que está com a asa quebrada - disse Jack.

     - Deixe-me ver - disse Alfred, tirando o passarinho de Martha.

     - Podíamos cuidar do passarinho - disse a menina. - Talvez fique bom.

     - Não, não ficará - disse Alfred. com um rápido movimento de suas mãos grandes, torceu o pescoço do passarinho.

     - Oh, pelo amor de Deus - disse Ellen. Jack apanhou o passarinho.

     - Morto - disse.

     - O que é que há de errado com você, Alfred? - perguntou Ellen.

     - Não há nada de errado com ele - disse Tom. - O passarinho ia morrer.

     Ele continuou a caminhada, e os outros o seguiram. Ellen estava furiosa com Alfred de novo, o que irritou Tom. Por que fazer tanto escândalo por causa de um maldito passarinho? Tom lembrou-se de como era ser novamente um garoto de catorze anos, um menino no corpo de um homem: a vida era frustrante. Ellen dissera: No que diz respeito a Alfred, você é cego, mas ela não compreendia.

     A ponte de madeira que passava por cima do fosso e dava acesso ao portão era frágil e desconjuntada, mas provavelmente era como o conde gostava: uma ponte era uma via de acesso para os atacantes, e quanto mais prontamente caísse, mais seguro o castelo ficaria. As paredes do perímetro eram de terra, com torres de pedra aqui e ali. Adiante deles, quando cruzaram a ponte, estava o portão de pedra, como duas torres ligadas por um passadiço. Muito trabalho de pedra aqui, pensou Tom; não era um desses castelos que só tem lama e madeira. Pode ser que eu amanhã esteja trabalhando. Rememorou como era a sensação de ter boas ferramentas nas mãos, o barulho da talhadeira raspando no bloco de pedra quando alisava sua superfície e endireitava seus lados, a secura do pó nas narinas. Amanhã à noite pode ser que minha barriga esteja cheia - com comida ganha com meu trabalho, e não mendigada.

     Chegando mais perto, notou, com seu olho de pedreiro, que as ameias na parte de cima da guarita estavam em más condições. Algumas das grandes pedras tinham caído, deixando o parapeito falhado em certas partes. Havia também pedras soltas no arco da entrada.

     Dois sentinelas estavam no portão, e ambos pareciam alerta. Talvez estivessem esperando problema. Um deles perguntou qual era o negócio de Tom.

     - Pedreiro, esperando ser contratado para trabalhar na pedreira do conde - respondeu ele.

     - Procure o administrador do conde - disse o sentinela solicitamente. - O nome dele é Matthew Steward. Você provavelmente vai encontrá-lo no salão grande.

     - Obrigado - disse Tom. - Que tipo de homem é ele?

     O guarda riu para o seu colega e disse:

     - Um homem que não é muito homem! - e ambos riram.

     Tom supôs que logo fosse descobrir o que aquilo queria dizer. Entrou, e Ellen e as crianças o seguiram. As construções no interior do perímetro delimitado pela parede eram na maioria de madeira, embora algumas fossem erguidas sobre peças de pedra, e havia uma toda de pedra que provavelmente era uma capela. Enquanto cruzavam o conjunto, Tom notou que todas as torres em torno do perímetro tinham pedras soltas e ameias danificadas. Cruzaram o segundo fosso para o círculo superior, e se detiveram no segundo portão. Tom disse ao sentinela que estava procurando Matthew Steward. Acompanhado pela família, entrou no conjunto superior, aproximando-se da fortaleza de pedras quadradas. A porta de madeira do nível térreo claramente abria na galeria. Subiram a escada, também de madeira, para o salão.

     Tom encontrou o administrador e o conde assim que entrou. Viu quem eram pelas suas roupas. O conde Bartholomew vestia uma túnica comprida com canhões brilhantes nas mangas e bordados na bainha. Matthew Steward usava uma túnica curta, no mesmo estilo da de Tom,  mas feita de um tecido mais macio, e um gorro. Estavam perto da lareira, o conde sentado e o administrador de pé. Tom aproximou-se dos dois homens e ficou a uma distância de onde poderia ouvi-los, aguardando que notassem sua presença. O conde Bartholomew era alto, com mais de cinquenta anos, cabelo branco e rosto pálido, magro e arrogante. Não parecia ser um homem de espírito generoso.

     O administrador era mais jovem. Seu jeito de ficar de pé fez com que Tom se lembrasse da observação do sentinela: era meio feminino. Não se sentiu seguro quanto a ele.

     Havia diversas outras pessoas no salão, mas nenhuma delas tomou conhecimento de Tom. Ele aguardou, sentindo-se esperançoso e temeroso, sucessivamente. A conversa do conde com seu administrador parecia não acabar nunca. Mas por fim terminou, e o administrador fez uma reverência e virou-se de lado. Tom adiantou-se com o coração na boca.

     - Você é Matthew? - perguntou.

     - Sim.

     - Meu nome é Tom. Mestre pedreiro. Sou um bom artesão e meus filhos estão famintos. Soube que vocês têm uma pedreira. - Ele prendeu a respiração.

     - Temos uma pedreira, mas não creio que precisemos de mais operários - disse Matthew. Ele se virou para trás e olhou para o conde, que balançou a cabeça quase que imperceptivelmente.

     - Não - disse Matthew -, não podemos contratar você.

     Foi a rapidez com que a decisão foi tomada que partiu o coração de Tom. Se as pessoas se mostrassem solenes e pensassem e o rejeitassem pesarosamente, seria mais fácil para ele aguentar o golpe. Matthew não parecia ser cruel, Tom podia ver isso, mas tinha muito que fazer, e o construtor e sua família faminta eram apenas outro item do qual precisava se livrar o mais rapidamente possível.

     - Eu poderia fazer alguns reparos aqui no castelo - disse Tom,  desesperado.

     - Temos um artesão que faz toda espécie de serviço para nós - disse Matthew.

     Um artífice, claro, um faz-tudo, geralmente treinado como carpinteiro.

     - Sou pedreiro - disse Tom. - Minhas paredes são fortes.

     Matthew ficou aborrecido com ele por ponderar, e parecia prestes a dizer qualquer coisa mais dura; contudo, olhou para as crianças e sua expressão se suavizou de novo.

     - Eu gostaria de lhe dar trabalho, mas não precisamos de você.

     Tom fez que sim. Ele agora deveria aceitar humildemente o que o administrador dissera, adotar uma expressão pesarosa e suplicar um prato de comida e um lugar para passar a noite. Mas Ellen estava com ele, tinha medo de que ela fosse embora, e por isso fez mais uma tentativa. Disse, num Tom de voz alto o bastante para o conde ouvir:

     - Só espero que não estejam prevendo combater em breve. O efeito foi muito mais forte do que imaginara. Matthew estremeceu e o conde levantou-se e perguntou asperamente:

     - Por que diz isso?

     Tom percebeu que havia tocado num nervo exposto.

     - Porque suas defesas estão em mau estado de conservação - respondeu.

     - Como assim? - quis saber o conde. - Seja específico, homem!

     Tom respirou fundo. O conde estava irritado mas prestava atenção. Ele não teria outra chance depois desta.

     - A argamassa nas paredes da guarita caiu em alguns lugares. O que deixa uma abertura para que se enfie uma alavanca. Um inimigo poderia facilmente arrancar fora uma ou duas pedras; e uma vez que se tenha um buraco, é fácil derrubar a parede. Também - ele prosseguiu apressadamente, sem respirar, antes que alguém pudesse comentar ou arguir - todas as suas ameias estão danificadas. Em vários lugares estão retas. O que deixa seus arqueiros e cavaleiros desprotegidos das...

     - Sei muito bem para que servem ameias - interrompeu o conde, irritado. - Alguma coisa mais?

     - Sim. Esta fortaleza tem uma galeria com porta de madeira. Se eu a estivesse atacando entraria pela porta e atearia fogo nas provisões ali guardadas.

     - E se você fosse o conde, o que faria para impedir isso?

     - Teria uma pilha de pedras, já na forma adequada, um suprimento de areia e cal para fazer argamassa e um pedreiro pronto para bloquear a entrada em ocasiões de perigo.

     O conde Bartholomew olhou para Tom. Seus olhos azul claros estavam semicerrados e a testa, franzida. Tom não conseguiu interpretar sua expressão. Estaria zangado por ele ter sido tão crítico das defesas do castelo? Nunca se pode dizer como um lorde reagirá a críticas. Sempre foi muito melhor deixar que cometessem seus próprios erros. Mas Tom era um homem desesperado.

     Por fim o conde pareceu chegar a uma conclusão. Virou-se para Matthew e disse:

     - Contrate este homem.

     Um grito de júbilo cresceu na garganta de Tom e ele teve que contê-lo. Mal podia crer. Olhou para Ellen, e os dois sorriram felizes. Martha, que não sofria de inibições de adultos, gritou:

     - Hurra!

     O conde Bartholomew virou-se e falou com um cavaleiro que estava de pé por perto. Matthew sorriu para Tom.

     - Vocês já comeram hoje? - perguntou.

     Tom engoliu em seco. Estava tão feliz que por pouco não chorava.

     - Não, não comemos.

     - Eu os levarei à cozinha.

     Ansiosos, eles seguiram o administrador para fora do salão e através da ponte até o conjunto inferior. A cozinha era uma grande construção de madeira com base de pedra. Matthew lhes disse para esperar do lado de fora. Havia um cheiro doce no ar: estavam assando massas. A barriga de Tom roncou e sua boca se encheu tanto de água que chegou a doer. Após um momento Matthew reapareceu com um grande pote de cerveja e o entregou a Tom.

     - Eles vão trazer um pouco de pão e bacon frio num momento - disse e os deixou.

     Tom tomou um gole da cerveja e passou o pote para Ellen. Ela deu um pouco para Martha, depois tomou um gole e passou para Jack. Alfred tentou pegá-lo antes que o outro menino pudesse beber, mas Jack se virou, mantendo o pote fora do alcance dele. Tom não queria outra briga entre as crianças, não agora, quando tudo por fim tinha dado certo. Já estava prestes a intervir - quebrando assim sua própria regra de não se meter com as rixas infantis - quando Jack se virou de novo e, submissamente, passou o pote para Alfred.

     Alfred levou o pote à boca e começou a beber. Tom tinha tomado só um gole, pensando que o pote faria a volta e iria para ele de novo; seu filho, porém, parecia determinado a acabar com a cerveja. Então aconteceu algo estranho. Quando o garoto levantou bem o pote para beber o resto, uma coisa que parecia um pequeno animal caiu no seu rosto.

     Alfred deu um grito de medo e deixou cair o pote. Deu um tapa para tirá-la da cara.

     - Que é isto? - gritou. A coisa caiu no chão. Era o passarinho morto.

     Tom e Ellen se entreolharam e ambos fitaram Jack. O menino recebera o pote de Ellen, virara de costas por um momento, como que tentando se esquivar de Alfred, e depois lhe entregara o pote com surpreendente boa vontade...

     Agora ele estava quieto, olhando para o horrorizado Alfred com uma vaga sugestão de sorriso no jovem-velho rosto inteligente.

     Jack sabia que ia sofrer por causa daquilo.

     Alfred se vingaria de um modo ou de outro. Quando os demais não estivessem olhando, ele talvez o socasse na barriga. Era seu golpe favorito, por ser muito doloroso e não deixar marcas. Jack o vira socar Martha na barriga muitas vezes.

     Mas bem que valera um soco na barriga ver a expressão de choque e medo em seu rosto quando o passarinho morto caíra do pote.

     Alfred odiava Jack. Isso era uma experiência nova para o menino. Sua mãe sempre o amara e nenhuma outra pessoa jamais nutrira qualquer tipo de sentimento por ele.

     Não havia razão aparente para a hostilidade de Alfred. Ele parecia se sentir de modo muito parecido acerca de Martha. Estava sempre beliscando-a, puxando-lhe o cabelo e dando-lhe rasteiras, aproveitando qualquer oportunidade para estragar algo a que ela desse valor. A mãe de Jack via o que estava acontecendo, e detestava, mas o pai de Alfred parecia achar tudo perfeitamente normal, muito embora fosse um homem bom e delicado e amasse Martha. A coisa toda era estranha, mas, apesar disso, o fascinava.

     Tudo era fascinante. Jack nunca vivera uma temporada tão excitante em toda a vida. A despeito de Alfred, a despeito de sentir fome a maior parte do tempo, a despeito de se sentir magoado pelo modo como sua mãe constantemente dava atenção a Tom e não a ele, estava encantado pela torrente constante de fenómenos estranhos e experiências novas.

     O castelo era a última numa série de maravilhas. Ouvira falar de castelos: nas longas noites de inverno na floresta, sua mãe lhe ensinara a recitar chansons, poemas descritivos em francês sobre cavaleiros e mágicos, a maioria deles com mais de mil versos; e os castelos apareciam nessas histórias como lugares de refúgio e romance.

     Nunca tendo visto um castelo, ele imaginou que seria uma versão ligeiramente maior da caverna onde morava. O castelo real era assombroso: era tão grande, com tantos prédios e com tanta gente, e com todas as pessoas tão ocupadas - ferrando cavalos, carregando água, alimentando galinhas, assando o pão e carregando coisas, sempre carregando coisas, palha para o chão, lenha para os fogos, sacos de farinha, fardos de tecido, espadas, selas e cotas de malha! Tom lhe dissera que o fosso e a parede de terra não eram partes naturais da paisagem, e que na verdade tinham sido escavados e construídos por dúzias de homens trabalhando juntos.

     Jack não desacreditava em Tom,  mas não conseguia imaginar como fora possível construir aquelas coisas.

     Ao fim da tarde, já escuro demais para trabalhar, todas as pessoas ocupadas passaram a gravitar em torno do grande salão do palácio. Velas de sebo foram acendidas, e o fogo nas lareiras, alteado, e todos os cachorros apareceram, vindos do frio. Alguns dos homens e mulheres pegaram tábuas e cavaletes de uma pilha num lado do salão e montaram mesas em T, depois colocaram cadeiras ao longo da parte de cima e bancos ao comprido, dos dois lados da haste. Jack nunca vira pessoas trabalhando juntas em grande número, e ficou assombrado pela maneira como apreciavam isso. Sorriam e riam ao erguerem as tábuas pesadas, gritando coisas como "Hup!", "Para mim, para mim", ou "Abaixa, devagar, agora!" Jack invejou sua camaradagem e se perguntou se um dia poderia desfrutar dela.

     Após algum tempo todos se sentaram nos bancos. Um dos serventes do castelo distribuiu grandes tigelas e colheres de madeira, contando em voz alta quando entregava; depois fez outra volta e colocou uma fatia grossa de pão escuro e duro no fundo de cada tigela. Outro servente trouxe copos de madeira que encheu com cerveja trazida numa série de grandes botijas. Jack, Martha e Alfred, sentados juntos na extremidade de baixo do T, receberam um copo de cerveja cada, de modo que não houve motivo de briga. Jack levantou seu copo mas sua mãe lhe disse que esperasse um pouco.

     Quando a cerveja foi servida, o salão ficou em silêncio. Jack aguardou, fascinado como sempre, para ver o que aconteceria a seguir. Após um momento o conde Bartholomew apareceu na escada que descia do seu quarto. Ele veio para o salão seguido por Matthew Steward, três ou quatro outros homens bem vestidos, um menino e a mais linda criatura sobre a qual Jack já pusera os olhos.

     Era uma garota, ou mulher, ele não estava bem certo. Vestia-se de branco, e sua túnica tinha maravilhosas mangas bojudas que se arrastavam pelo chão atrás dela quando desceu a escada. Seu cabelo era uma massa de cachos escuros que se derramava sobre o rosto, e os olhos, também escuros, muito escuros. Jack percebeu que era aquilo que as chansons se referiam ao falarem de uma linda princesa num castelo. Não era de espantar que todos os cavaleiros chorassem quando a princesa morria.

     Quando chegou ao pé da escadaria Jack viu que era bastante jovem, apenas uns poucos anos mais velha que ele próprio; porém, ela conservou a cabeça erguida e caminhou até a cabeceira da mesa como uma rainha. Sentou-se ao lado do conde.

     - Quem é ela? - cochichou Jack.

     - Deve ser a filha do conde - respondeu Martha.

     - Qual é o nome dela?

     Martha deu de ombros, mas uma garota de cara suja sentada ao lado de Jack disse:

     - Ela se chama Aliena. É maravilhosa.

     O conde levantou o copo para Aliena, depois olhou vagarosamente para toda a mesa e bebeu. Aquele era o sinal que esperavam. Todos o imitaram, levantando os copos antes de beber.

     A ceia foi trazida em imensos caldeirões fumegantes. O conde foi servido em primeiro lugar; depois sua filha, o menino e os homens que o acompanhavam na cabeceira da mesa; a seguir, todos os demais se serviram. Era peixe salgado num ensopado com condimentos. Jack encheu sua tigela e comeu tudo, mesmo o pão encharcado de molho oleoso. Entre uma mastigadela e outra ele olhava para Aliena, absorto em tudo o que fazia, desde o modo requintado como espetava pedacinhos de peixe na ponta da faca e os colocava delicadamente entre os dentes brancos, à voz autoritária com que chamava os servos e dava ordens. Todos pareciam gostar dela. Atendiam rapidamente quando chamados, sorriam quando ela falava e apressavam-se a cumprir o que lhes determinava. Os rapazes em torno da mesa a olhavam muito, observou Jack, e alguns se exibiam quando achavam que ela olhava na sua direção. Mas ela estava preocupada sobretudo com os homens de mais idade na companhia do pai, certificando-se de que tinham bastante pão e vinho, fazendo-lhes perguntas e ouvindo atenciosamente suas respostas. Jack perguntou-se como deveria ser ter uma linda princesa daquelas falando com ele e depois encará-lo com aqueles enormes olhos escuros quando respondesse.

     Após a ceia houve música. Dois homens e uma mulher tocaram melodias com sinetas, um tambor e tubos feitos de ossos de animais e aves. O conde fechou os olhos e pareceu se perder na música, mas Jack não gostou das melodias melancólicas e obsessivas que tocavam. Preferia as canções alegres que sua mãe cantava. As outras pessoas no salão pareciam se sentir do mesmo modo, pois se remexiam e arrastavam os pés, e houve uma sensação geral de alívio quando a música terminou.

     Jack estava na esperança de olhar mais de perto Aliena, mas para seu desapontamento ela abandonou o salão depois da música e subiu a escada. Devia ter seu próprio quarto no andar superior, pensou.

     As crianças e alguns dos adultos jogavam xadrez e o jogo das nove pedras para passar a noite, e as pessoas mais ativas faziam cintos, gorros, meias, luvas, tigelas, apitos, dados, pás e rebenques. Jack disputou várias partidas de xadrez, ganhando todas; um homem de armas ficou zangado por ter sido derrotado por uma criança, e depois disso a mãe de Jack fez com que parasse. Ele ficou circulando pelo salão, ouvindo as diferentes conversas; descobriu que algumas pessoas conversavam com sensatez sobre o campo e os animais, ou bispos e reis, enquanto outros só se importunavam uns aos outros, contavam vantagens ou histórias engraçadas. Jack achou que todos eram igualmente intrigantes.

     As velas, com o passar do tempo, queimaram por inteiro; o conde se retirou, e as outras sessenta ou setenta pessoas se embrulharam em seus mantos e se deitaram no chão coberto de palha.

     Como sempre, sua mãe e Tom deitaram juntos, debaixo do grande manto de Tom,  e ela o abraçou do modo como costumava abraçar Jack quando ele era pequeno. Observou-os com inveja. Pôde ouvi-los falando baixinho, e sua mãe deu um risinho baixo e íntimo. Após algum tempo seus corpos começaram a se mover de maneira ritmada sob o manto.

     Na primeira vez em que os vira fazendo isso, Jack tinha ficado terrivelmente preocupado, pensando que, fosse o que fosse, devia doer; porém eles se beijaram enquanto estavam fazendo aquilo, e embora às vezes sua mãe gemesse, ele podia afirmar que era um gemido de prazer. Ficou relutante de perguntar o que era aquilo, não sabia bem por quê. Agora, contudo, com o fogo queimando mais baixo, ele viu outro casal fazendo o mesmo, e foi forçado a concluir que devia ser normal. Era só outro mistério, pensou, e logo depois caiu no sono.

     As crianças se levantaram cedo na manhã seguinte, mas o desjejum não podia ser servido antes que a missa fosse rezada, e a missa não podia ser rezada antes que o conde se levantasse, de modo que tiveram de esperar. Um criado que acordara cedo recrutou-as para carregarem a lenha que seria usada durante o dia. Os adultos começaram a acordar quando o ar frio da manhã entrou pela porta. Quando as crianças acabaram de trazer a lenha, encontraram Aliena.

     Ela desceu a escada, como fizera na noite anterior, mas agora parecia diferente. Usava uma túnica curta e botas de feltro. Os cachos volumosos estavam amarrados atrás com uma fita, mostrando a linha graciosa do seu queixo, as orelhas pequenas e o pescoço alvo. Os grandes olhos escuros, que tinham parecido graves e adultos na noite anterior, agora brilhavam de alegria, e ela estava sorrindo. Era seguida pelo menino que se sentara com ela e com o conde à cabeceira da mesa, na noite anterior. Ele parecia um ou dois anos mais velho que Jack, mas não era tão crescido quando Alfred. Olhou curiosamente para Jack, Martha e Alfred, mas foi a garota quem perguntou:

     - Quem são vocês?

     - Meu pai é o pedreiro que vai reparar o castelo - respondeu o mais velho. - Sou Alfred. O nome de minha irmã é Martha. Este é Jack.

     Quando ela se aproximou, Jack pôde sentir o cheiro de lavanda, e ficou atônito. Como uma pessoa podia cheirar a flores?

     - Quantos anos você tem? - perguntou ela a Alfred.

     - Catorze. - Alfred também estava deslumbrado com ela, Jack era capaz de garantir. Após um instante Alfred não se conteve: - E você, quantos anos tem?

     - Quinze. Quer algo para comer?

     - Quero.

     - Venha comigo.

     Todos a seguiram, saindo do salão e descendo a escada.

     - Mas eles não servem nada antes da missa - disse Alfred.

     - Eles fazem o que digo - retrucou Aliena, atirando a cabeça para trás num gesto de impaciência.

     Ela os liderou na travessia da ponte para o conjunto inferior e lhes disse que esperassem do lado de fora enquanto entrava na cozinha.

     - Ela não é linda? - sussurrou Martha para Jack, e ele aquiesceu, meio tonto.

     Poucos momentos depois Aliena apareceu com um pote de cerveja e uma bisnaga de pão de trigo. Partiu o pão em nacos, que distribuiu, e depois fez circular o pote.

     - Onde está sua mãe? - perguntou Martha timidamente, após algum tempo.

     - Ela morreu - respondeu Aliena de modo brusco.

     - Você não está triste? - quis saber Martha.

     - Fiquei triste, mas foi há muito tempo. - Ela indicou o menino ao seu lado com um meneio de cabeça. - Richard nem consegue se lembrar.

     Richard devia ser seu irmão, concluiu Jack.

     - Minha mãe está morta também - disse Martha, e seus olhos se encheram de lágrimas.

     - Quando ela morreu? - perguntou Aliena.

     - Na semana passada.

     Aliena não pareceu muito comovida com as lágrimas de Martha, observou Jack - a menos que estivesse parecendo indiferente para ocultar a própria dor.

     - Então quem é aquela mulher que está com vocês? - perguntou ela abruptamente.

     - É a minha mãe - respondeu Jack ansioso, ficando emocionado por ter algo a dizer-lhe.

     Ela se virou para ele como se o estivesse vendo pela primeira vez.

     - Bem, e onde está o seu pai?

     - Não tenho - disse ele. Estava todo animado só por ver que ela o olhava.

     - Morreu também?

     - Não - respondeu ele. - Nunca tive pai.

     Houve um momento de silêncio e depois Aliena, Richard e Alfred caíram na risada. Jack ficou intrigado e olhou para eles sem entender; e seus risos se intensificaram, até que começou a se sentir mortificado. O que era tão engraçado a respeito de nunca ter tido um pai? Até mesmo Martha estava sorrindo, suas lágrimas esquecidas.

     - Então de onde é que você veio, se não tem pai? - perguntou Alfred, zombeteiro.

     - De minha mãe, todas as criancinhas vêm de sua mãe - disse Jack, desorientado. - O que os pais têm a ver com isso?

     Todos riram ainda mais. Richard dava pulos de alegria, apontando um dedo de deboche para Jack.

     - Ele não sabe nada, nós o encontramos na floresta - disse Alfred para Aliena.

     As bochechas de Jack arderam de vergonha. Sentira-se tão feliz por falar com Aliena, e agora ela pensava que ele era um tolo completo, um ignorante da floresta.

     E pior de tudo, não sabia ainda o que dissera de errado. Teve vontade de chorar, o que piorou a situação. O pão ficou entalado na sua garganta, e ele não conseguiu engolir. Olhou para Aliena, seu rosto lindo iluminado pela alegria, e não pôde aguentar aquela visão, por isso atirou fora o pão e se afastou.

     Sem se importar por onde ia, caminhou até o talude da muralha do castelo. Agarrando-se com as mãos subiu a rampa íngreme até o topo. Ali em cima sentou-se na terra fria, olhando para o exterior, sentindo pena de si próprio, odiando Alfred, Richard e até mesmo Martha e Aliena. Princesas não têm coração, decidiu.

     O sino tocou chamando para a missa. Os serviços religiosos ainda eram outro mistério para ele. Falando um idioma que não era nem inglês nem francês, os padres cantavam e falavam com estátuas, quadros e até mesmo para seres que eram completamente invisíveis. A mãe de Jack evitava comparecer a funções religiosas sempre que podia.

     Quando os habitantes do castelo começaram a se dirigir para dentro, Jack passou rapidamente por cima do topo da muralha e se sentou, fora das vistas deles, do lado de fora.

     O castelo era cercado por uma extensão de terra descampada, com bosques a distância. Dois visitantes matutinos atravessaram o terreno plano. O céu estava nublado, com nuvens cinzentas e baixas. Jack perguntou-se se não iria nevar.

     Dois outros visitantes surgiram no campo visual de Jack. Estes estavam a cavalo. Aproximaram-se rapidamente, ultrapassando o primeiro par. Conduziram seus cavalos pela ponte de madeira e através do portão.. Todos os quatro visitantes teriam de esperar até que a missa terminasse para poder entrar, fossem quais fossem os negócios que os haviam trazido ali, pois todos iam à igreja, exceto os sentinelas de serviço.

     Uma voz que soou repentinamente junto de Jack o assustou.

     - Então você está aqui! - Era sua mãe. Ele se virou e viu imediatamente que estava aborrecida. - O que há?

     Ele queria que a mãe o consolasse, mas endureceu o coração.

     - Tive um pai? - perguntou.

     - Sim. Todo mundo tem pai. - Ela se ajoelhou ao lado dele.

     Ele desviou o rosto. Sua humilhação fora culpa dela, por não lhe ter falado a respeito do seu pai.

     - O que aconteceu com ele?

     - Morreu.

     - Quando eu era pequeno?

     - Antes de você nascer.

     - Como podia ser meu pai, se morreu antes de eu nascer?

     - Os bebês nascem de uma semente. A semente vem do pau de um homem e é plantada na xoxota de uma mulher. Aí a semente cresce e se transforma num bebê na barriga dela, e quando está pronto sai.

     Jack ficou em silêncio por um momento, digerindo a informação. Suspeitou que aquilo tinha ligação com o que sua mãe e Tom faziam de noite.

     - Tom vai plantar uma semente em você? - perguntou.

     - Talvez.

     - Então você terá um novo bebê.

     Ela aquiesceu.

     - Um irmão para você. Gostaria de um irmão novo?

     - Não me importa - disse ele. - Tom já tirou você de mim. Um irmão não faria diferença.

     Ela passou o braço em torno dele e o abraçou.

     - Ninguém jamais vai me tirar de você - afirmou. Isso fez com que ele se sentisse um pouco melhor.

     Os dois ficaram sentados juntos por algum tempo, até que ela disse:

     - Está frio aqui. Vamos nos sentar junto do fogo até o desjejum.

     Ele concordou. Os dois se levantaram, passaram por cima da muralha de terra e desceram para dentro do conjunto numa corrida. Não havia sinal dos quatro visitantes.

     Talvez tivessem entrado na capela.

     Quando Jack e sua mãe atravessaram a ponte que levava ao conjunto da parte de cima do 8, ele perguntou:

     - Qual era o nome do meu pai?

     - Jack, como você - respondeu ela. - Era chamado de Jack Shareburg.

     Isso lhe agradou. Tinha o mesmo nome do pai.

     - Então, se não há outro Jack, posso dizer às pessoas que sou Jack Jackson.

     - Pode. As pessoas nem sempre chamam a gente como gostaríamos, mas sempre se pode tentar.

     O menino concordou. Sentia-se melhor. Pensaria em si próprio como Jack Jackson. Não estava tão envergonhado agora. Pelo menos sabia a respeito de pais e sabia até mesmo o nome do seu. Jack Shareburg.

     Chegaram à guarita do conjunto de cima. Não havia sentinelas. A mãe de Jack parou, intrigada.

     - Tenho a sensação estranha de que está acontecendo algo de diferente - disse ela. Sua voz era calma e controlada, mas havia nela uma nota de medo que fez com que Jack sentisse um arrepio, e ele teve uma premonição de desastre.

     Sua mãe entrou no pequeno alojamento dos sentinelas na base da guarita. Um momento depois Jack a ouviu arquejar. Entrou atrás dela. Estava de pé, a mão na boca, olhando fixamente para o chão.

     O sentinela estava deitado de costas, os braços ao lado do corpo. Seu pescoço estava cortado, havia uma poça de sangue fresco no chão junto a ele, que estava inquestionavelmente morto.

    

     William Hamleigh e seu pai tinham partido no meio da noite, com quase cem cavaleiros e homens de armas a cavalo, e sua mãe à retaguarda. O exército iluminado por archotes, o rosto dos homens tapados por causa do ar frio da noite, tudo devia ter aterrorizado os habitantes das aldeias através das quais passaram ruidosamente a caminho de Earlscastle. Chegaram na encruzilhada enquanto ainda estava escuro como breu. Dali em diante, desmontaram e foram puxando os cavalos, para lhes dar um descanso e reduzir a um mínimo o barulho. Quando o sol raiou eles se esconderam nos bosques que encontraram pelo caminho até o castelo do conde Bartholomew.

     William não chegara a contar o número de combatentes que vira no castelo - uma omissão pela qual sua mãe o repreendera implacavelmente, muito embora, como ele tentara argumentar, muitos dos homens que vira ali estivessem esperando para serem mandados fazer serviços fora e outros pudessem ter chegado após a saída de William, e assim uma contagem não seria confiável. Mas teria sido melhor que nada, como seu pai dissera. Contudo, ele estimara ter visto cerca de sessenta homens; assim sendo, se não tivesse havido grandes mudanças nas poucas horas decorridas desde então, os Hamleighs estariam com uma vantagem superior a dois por um.

     Esse número estava longe do necessário para sitiar o castelo, é claro. No entanto, eles tinham formulado um plano para tomá-lo sem um sítio. O problema era que o exército atacante seria visto pelos vigias, e o castelo estaria fechado muito tempo antes de eles chegarem. A resposta estava em achar um meio qualquer para fazer o castelo ficar aberto pelo tempo que fosse preciso para o exército se deslocar do esconderijo nos bosques até ali.

     Fora Lady Hamleigh quem resolveu o problema, claro.

     - Precisamos de uma diversão - disse ela, coçando um furúnculo no queixo. - Algo para apavorá-los, de modo que não percebam o exército senão quando for tarde demais. Como um incêndio.

     - Se um estranho entrar lá e causar um incêndio, eles serão alertados, de qualquer modo - retrucou o lorde.

     - Teria que ser feito às escondidas - sugeriu William.

     - Claro que sim - disse a mãe, impacientemente. - Você terá que fazer isso enquanto estiverem na missa.

     - Eu?

     William foi designado responsável pela vanguarda. O céu da manhã clareara com incrível lentidão. William estava nervosamente impaciente. Durante a noite, ele, sua mãe e seu pai tinham adicionado refinamentos à idéia básica, mas ainda havia um grande número de coisas que podiam dar errado: a vanguarda podia não conseguir entrar no castelo por alguma razão, ou despertar suspeitas e não conseguir atuar subrepticiamente, ou ainda ser apanhada antes de conseguir fazer qualquer coisa. Mesmo que o plano funcionasse, haveria uma batalha, a primeira batalha de verdade para William. Homens seriam feridos e mortos, e ele podia ser um dos infelizes. Suas entranhas ficaram duras de tanto medo. Aliena estaria ali, e saberia se ele fosse derrotado. Ou, por outro lado, estaria ali para vê-lo, caso triunfasse. Ele se imaginou irrompendo dentro do quarto dela, com a espada sangrenta na mão. Então ela desejaria jamais ter rido dele.

     Do castelo veio o som do sino batendo para a missa da manhã.

     William fez um gesto com a cabeça, e dois homens se destacaram do grupo e se puseram a caminhar, atravessando o terreno descampado que os separava do castelo. Eram Raymond e Ranulf, dois homens alguns anos mais velhos que William, de fisionomia e músculos duros. Escolhera-os pessoalmente: seu pai lhe dera carta branca. Lorde Hamleigh em pessoa comandaria o ataque principal.

     William observou Raymond e Ranulf caminharem rapidamente pelos campos gelados. Antes que atingissem o castelo, olhou para Walter, esporeou o cavalo e saiu, acompanhado pelo criado, a trote. Os sentinelas veriam dois pares de pessoas separados, um a pé e outro a cavalo, aproximando-se do castelo pela manhã bem cedo: uma visão perfeitamente inocente.

     O cálculo de tempo de William foi bom. Ele e Walter passaram por Raymond e Ranulf a cerca de cem jardas do castelo. Na ponte eles desmontaram. O coração de William estava na boca. Se estragasse aquela parte, todo o ataque estaria arruinado.

     Havia dois sentinelas no portão. Como num pesadelo, William suspeitou de uma emboscada, achando que uns doze homens de armas pulariam de um esconderijo e o fariam em pedaços. Os sentinelas pareciam alerta, mas não ansiosos. Não usavam armaduras. William e Walter tinham cotas de malha sob as capas.

     As tripas de William pareciam ter virado água. Ele não conseguia engolir. Um dos sentinelas o reconheceu.

     - Olá, lorde William - disse jovialmente. - Veio fazer a corte de novo?

     - Oh, meu Deus - disse William, numa voz fraca, e enfiou a adaga na barriga do sentinela, torcendo-a para a direção do coração depois que passou por baixo da caixa torácica. O homem arquejou, vergou e abriu a boca como se fosse gritar. Um barulho poderia estragar tudo. Em pânico, sem saber o que fazer, William puxou a adaga e enfiou-a na boca aberta do homem, empurrando a lâmina na garganta para silenciá-lo. Em vez de grito, foi sangue que saiu da sua boca. Os olhos do homem se fecharam.

     William retirou a adaga quando ele caiu no chão.

     Seu cavalo afastara-se um pouco, andando de lado, assustado pelos movimentos súbitos. William pegou sua rédea e depois olhou para Walter, que tinha se encarregado do outro sentinela. O criado esfaqueara o outro homem mais eficientemente, cortando-lhe o pescoço, de modo que ele morrera em silêncio. Tenho que me lembrar disso, pensou William, na próxima vez que tiver de silenciar um homem. Depois então pensou: Consegui! Matei um homem!

     Deu-se conta de que não mais estava aterrorizado.

     Entregou as rédeas a Walter e subiu correndo a escada em espiral para a torre do portão. Na parte superior havia um aposento de onde se erguia a ponte levadiça. Com a espada, golpeou o grosso cabo. Bastaram duas tentativas para cortá-lo. Deixou cair a extremidade solta pela janela. O cabo caiu no barranco e escorregou devagarzinho para dentro do fosso, quase sem salpicar água. Agora a ponte não poderia ser levantada contra a força atacante de seu pai. Aquele era um dos refinamentos que tinham imaginado na noite anterior.

     Raymond e Ranulf chegaram ao portão justamente quando William alcançou o patamar da escada. O primeiro serviço deles era danificar os imensos portões de carvalho que fechavam o arco que dava passagem da ponte para o conjunto. Cada um deles pegou um martelo de madeira e uma talhadeira e começou a tirar a argamassa que cercava as poderosas dobradiças de ferro. O barulho do martelo na talhadeira pareceu terrivelmente alto a William.

     Ele arrastou depressa os dois sentinelas mortos para dentro do alojamento. Com todo mundo na missa, havia forte chance de os corpos não serem vistos senão quando já fosse tarde demais.

     Apanhou suas rédeas com Walter e os dois passaram caminhando por baixo do arco, atravessando o conjunto na direção do estábulo. William forçou as pernas a se moverem num passo normal, não apressado, e olhou sub-repticiamente para os sentinelas nas torres de vigilância. Teria um deles visto o cabo da ponte levadiça cair no fosso?

     Estariam curiosos acerca das marteladas? Alguns deles olhavam para William e Walter, mas não pareciam agitados, e as marteladas, que ainda soavam nos ouvidos de William, esmaecidas, deviam ser inaudíveis do alto das torres. Sentiu-se aliviado. O plano estava funcionando.

     Chegaram ao estábulo e entraram. Ambos deixaram as rédeas caídas frouxamente sobre uma travessa de madeira, de modo que os animais pudessem fugir.

     Então William pegou sua pederneira e tirou uma faísca, ateando fogo à palha no chão. Estava suja e molhada em alguns pedaços, mas, não obstante, começou a queimar.

     William acendeu o fogo em mais três lugares, e Walter fez o mesmo. Ficaram observando por um momento. Os cavalos perceberam o cheiro da fumaça e começaram a se remexer nervosamente nas baias. William permaneceu por um momento mais. O fogo estava dando certo, assim como o plano.

     Ele e Walter deixaram o estábulo e saíram ao ar livre. No portão, escondidos pelo arco, Raymond e Ranulf ainda estavam tirando a argamassa em volta das dobradiças.

     William e Walter viraram na direção da cozinha, para dar a impressão de que estavam atrás de algo para comer, o que seria natural. Não havia  ninguém mais no conjunto: todo mundo estava na missa. Erguendo os olhos casualmente para as ameias, William observou que os sentinelas não estavam olhando para dentro do castelo, e sim para os campos que o cercavam, como seria mesmo sua obrigação. Não obstante isso, William esperou que alguém emergisse de um dos prédios a qualquer momento e os desafiasse; nesse caso eles teriam que matar essa pessoa ali mesmo, em campo aberto, e, se fossem vistos, o jogo estaria terminado.

     Desviaram-se da cozinha e foram para a ponte que dava no conjunto superior. Ouviram os sons abafados do culto religioso quando passaram pela capela. O conde Bartholomew estava ali dentro, sem suspeitar de coisa nenhuma, pensou William, emocionado; não tinha ideia de que havia um exército a uma milha de distância, que quatro dos seus inimigos já estavam no interior de sua praça-forte e que seu estábulo pegava fogo. Aliena se encontrava na capela também, rezando de joelhos. Logo estará de joelhos diante de mim, pensou William, e o sangue latejou na sua cabeça vertiginosamente.

     Chegaram à ponte e atravessaram. Tinham se assegurado de que a primeira ponte permanecesse em condições de ser transposta, cortando a corda que poderia levantá-la e inutilizando as dobradiças do portão, de modo que o exército pudesse entrar. Mas o conde ainda poderia fugir, atravessando aquela segunda ponte e se refugiando no conjunto superior. A próxima tarefa de William era impedir que isso fosse possível, erguendo a ponte levadiça e tornando impossível a passagem. O conde ficaria isolado e vulnerável no conjunto de baixo.

     Atingiram o segundo portão e um sentinela saiu do alojamento.

     - É cedo demais - disse ele.

     - Fomos convocados para falar com o conde - disse William, aproximando-se do sentinela, mas o homem recuou um passo. O jovem Hamleigh não queria que ele recuasse muito, pois se saísse de baixo do arco seria visível para os sentinelas posicionados nas trincheiras do círculo superior.

     - O conde está na capela - disse o sentinela.

     - Teremos que esperar.

     Aquele sentinela devia ser morto rápida e silenciosamente, mas William não sabia como se aproximar o necessário. Olhou para Walter, em busca de orientação, mas o criado limitou-se, a ficar sentado pacientemente, parecendo imperturbável.

     - Há um fogo aceso na fortaleza - disse o sentinela. Vão para lá se aquecerem. - William hesitou e o sentinela começou a ficar desconfiado. - O que estão esperando? - perguntou, com um traço de irritação.

     William procurou desesperadamente algo para dizer.

     - Podemos comer algo? - perguntou, por fim.

     - Não antes da missa - respondeu o sentinela. - Depois vão servir o desjejum na fortaleza.

     William percebeu que Walter estivera se deslocando imperceptivelmente para um lado. Se o sentinela ao menos se virasse um pouco, o criado poderia avançar às suas costas. William deu alguns passos na direção oposta, passou pelo sentinela fingindo completo desinteresse e disse:

     - Não estou nada impressionado com a hospitalidade do seu conde. - O sentinela estava se virando. William prosseguiu:

     - Viemos de longe...

     Foi então que Walter atacou.

     Colocou-se atrás do sentinela e passou os braços por cima dos ombros do homem. Com a mão esquerda torceu-lhe o pescoço para trás, e com a direita cortou-lhe a garganta.

     William deixou escapar um suspiro de alívio. A coisa se deu num momento.

     William e seu criado, juntos, tinham matado três homens antes do desjejum. Sentiu uma embriagadora sensação de poder. Ninguém mais rirá de mim depois do dia de hoje!, pensou.

     Walter arrastou o corpo para dentro do alojamento dos sentinelas. A planta daquele portão era exatamente igual à do outro, com uma escada em espiral que dava no compartimento onde ficava o cabo que levantava a ponte. William a subiu, seguido por Walter.

     O jovem não tinha feito o reconhecimento daquele lugar quando estivera no castelo na véspera. Nem pensara nisso, mas, de qualquer modo, teria sido muito difícil pensar num pretexto plausível. Presumira que haveria uma roda para enrolar a corda, ou pelo menos uma bobina com um cabo, para erguer a ponte levadiça; via agora que não havia nenhuma engrenagem, somente uma corda e um cabrestante. O único modo de levantar a ponte era puxar a corda. William e Walter a agarraram e puxaram juntos, mas a ponte nem sequer rangeu. Era uma tarefa para dez homens.

     William ficou intrigado por um momento. A outra ponte, a que dava na entrada do castelo, tinha uma roda enorme. Ele e Walter poderiam tê-la erguido. Só então percebeu que a ponte de fora devia ser erguida todas as noites, enquanto esta se destinava a uma emergência.

     De qualquer modo, não lucraria nada se ficasse ali pensando no problema. A questão era o que fazer a seguir. Se não era possível levantar a ponte, podia ao menos fechar os portões, o que certamente retardaria o conde.

     Desceu correndo a escada, com Walter nos calcanhares. Quando chegou ao patamar, teve um choque. Nem todo mundo estava na missa, ao que parecia. Viu uma mulher e uma criança saindo da guarita.

     William titubeou. Reconheceu-a imediatamente. Era a mulher do construtor, a tal que tentara comprar na véspera por uma libra. Ela o viu, e seus penetrantes olhos cor de mel enxergaram através dele. William nem sequer se deu ao trabalho de fingir ser um visitante inocente aguardando o conde: sabia que ela não se deixaria enganar.

     Tinha que impedi-la de dar o alarme. E o modo de fazê-lo era matá-la, rápida e eficientemente, como haviam matado os sentinelas.

     Seus olhos que tudo viam perceberam as intenções de William, expressas no rosto. Ela agarrou a mão do menino e se virou. O jovem ainda tentou pegá-la, mas ela era rápida demais. Entrou correndo no conjunto, dirigindo-se para a fortaleza. Ele e Walter correram atrás.

     Ela era muito ligeira, e eles estavam de cota de malha e carregavam armas pesadas. Ela chegou à escada que dava para o grande salão. Quando subiu os degraus correndo, gritou. William olhou para as plataformas fortificadas que os cercavam por todos os lados. O grito alertara pelo menos dois sentinelas. O jogo terminara. Hamleigh parou de correr e ficou junto do patamar da escada, ofegante. Seu criado fez o mesmo. Dois sentinelas, depois três, quatro, desceram correndo as rampas, para dentro do conjunto. A mulher desapareceu dentro da fortaleza, ainda de mão dada com o menino. Ela não era mais importante; agora que os sentinelas tinham sido alertados não adiantava matá-la.

     Ele e Walter desembainharam as espadas e ficaram lado a lado, prontos para lutar pela própria vida.

    

     O sacerdote estava erguendo a hóstia quanto Tom percebeu que havia algo errado com os cavalos. Era possível ouvir os relinchos e as batidas que davam com as patas, mais intensos que o normal. Um momento depois alguém interrompeu o canto tranquilo em latim do padre:

     - Sinto cheiro de fumaça!

     Tom sentiu também, e todos os demais. O construtor era mais alto que o resto e podia enxergar do lado de fora pelas janelas da capela se ficasse na ponta do pé.

     Foi até ali e deu uma olhada. Os estábulos estavam em chamas.

     - Fogo! - disse ele, e antes que pudesse falar algo mais, sua voz foi abafada pelo grito dos outros. Houve uma correria para a porta. A missa foi esquecida. Tom segurou Martha, com medo de que fosse pisoteada pelo povo, e disse a Alfred para ficar com eles. Não sabia onde Ellen e Jack estavam.

     Um momento depois não havia mais ninguém na capela exceto os três e um padre aborrecido.

     Tom levou as crianças para o lado de fora. Algumas pessoas estavam libertando os cavalos para salvá-los, e outras traziam água do poço para jogar nas labaredas.

     Tom não conseguiu ver Ellen. Os cavalos libertados galopavam pelo conjunto, aterrorizados pelo fogo e por toda aquela gente correndo e gritando. O barulho dos cascos era tremendo. Prestou atenção por um instante e ficou preocupado; era, na verdade, tremendo demais - parecia uma centena de cavalos e não trinta ou quarenta. De repente, foi atingido por um pensamento amedrontador.

     - Fique aqui um momento, Martha - disse. - Alfred, tome conta dela.

     Subiu correndo o muro de terra, até o topo da muralha. Era íngreme, e ele teve que diminuir o ritmo antes de chegar ali em cima. Uma vez no topo, respirando com dificuldade, olhou para o lado de fora.

     Sua apreensão tivera motivo, e agora seu coração foi esmagado pela ação fria do medo. Um exército de cavaleiros, com um efetivo de oitenta ou cem homens, vinha dos campos escuros que cercavam o castelo. Uma visão apavorante. Tom podia ver o brilho metálico das cotas de malha e das espadas desembainhadas. Os cavalos galopavam a toda a velocidade, e saía fumaça de suas narinas. Os cavaleiros estavam encurvados sobre as selas, ferozmente determinados. Não havia gritos, só o ensurdecedor estrondo de centenas de cascos batendo no chão.

     Olhou para trás. Como ninguém no conjunto do castelo ouvira o exército? Porque o barulho fora abafado pelas muralhas e misturou-se com o barulho causado pelo pânico interior do conjunto. Por que os sentinelas nada haviam visto? Porque todos haviam abandonado os postos para combater o incêndio. Esse ataque fora planejado por uma pessoa inteligente. Agora cabia a Tom dar o alarme.

     E onde estava Ellen?

     Os olhos dele vasculharam o conjunto enquanto os atacantes se aproximavam mais. Muita coisa não se podia ver por causa da grossa fumaça branca que saía dos estábulos em chamas. Ele não pôde ver a mulher.

     Localizou o conde Bartholomew, ao lado do poço, tentando organizar o transporte de água para o incêndio. Tom desceu correndo a rampa e foi até ali. Agarrou o ombro do conde, sem a menor gentileza, e gritou no seu ouvido para se fazer ouvir acima do tumulto.

     - É um ataque!

     - O quê?

     - Estamos sendo atacados!

     O conde estava pensando no incêndio.

     - Atacados? Por quem?

     - Escute! - gritou Tom. - Cem cavalos!

     O conde inclinou a cabeça. Tom viu a percepção do que se passava aparecer no seu rosto pálido e aristocrático.

     - Tem razão... Pela cruz! - De repente ele pareceu ficar com medo. - Você já viu?

     - Sim.

     - Quem...  Esqueça quem! Cem cavalos?

     - Sim...

     - Peter! Ralph! - O conde virou as costas para Tom e chamou seus lugares-tenentes. - É um ataque. Este incêndio é uma diversão. Estamos sendo atacados! - Tal como o conde, eles a princípio não compreenderam, depois ouviram o tropel e finalmente demonstraram medo. O conde gritou: - Digam aos homens para pegarem suas espadas. Depressa, depressa! - Depois se virou para Tom. - Venha comigo, pedreiro. Você é forte, podemos fechar os portões. - Atravessou o conjunto correndo e Tom o seguiu.

     Se pudessem fechar os portões e levantar a ponte a tempo, deteriam uma centena de homens.

     Chegaram ao portão. Podiam ver o exército através do arco. Estava a menos de uma milha agora, e se dispersando, observou Tom,  os cavalos mais velozes na frente e os retardatários atrás.

     - Olhe só os portões! - gritou o conde.

     Tom olhou para eles. Os dois enormes portões de carvalho guarnecidos de ferro estavam jogados no chão. Suas dobradiças tinham sido arrancadas da muralha, podia ver.

     Elementos inimigos haviam estado ali mais cedo, pensou. Seu estômago se retorceu de medo.

     Virou-se para o conjunto, ainda procurando Ellen. Não conseguia vê-la. O que acontecera com ela? Tudo era possível a partir desse momento. Precisava estar ao seu lado e protegê-la.

     - A ponte levadiça! - disse o conde.

     O melhor modo de proteger Ellen era manter os atacantes do lado de fora, percebeu Tom. O conde subiu correndo a escada em espiral, e, com esforço, Tom obrigou-se a segui-lo. Se conseguissem levantar a ponte, uns poucos homens seriam capazes de defender o portão. Mas quando chegaram ali em cima seu coração confrangeu-se. A corda fora cortada. Não havia como levantar a ponte.

     O conde Bartholomew praguejou amargamente.

     - Quem quer que tenha planejado isto é tão ladino quanto o demônio - disse.

     Aquele que havia inutilizado os portões, cortado a corda e ateado fogo no estábulo devia estar ainda em algum ponto no interior do castelo, pensou Tom,  e olhou em torno de si, atemorizado, perguntando-se quem poderiam ser os intrusos.

     O conde deu uma olhada por uma seteira.

     - Meu Deus, eles estão quase aqui. - E desceu correndo a escada.

     Tom o seguiu muito de perto. Na entrada do portão, diversos cavaleiros afivelavam rapidamente o cinturão com a espada e punham o elmo. O conde Bartholomew começou a dar ordens.

     - Ralph e John, toquem alguns desses cavalos soltos para cima da ponte a fim de se meterem no caminho do inimigo. Richard, Peter, Robin, arranjem alguns outros e organizem uma resistência aqui. - O portal era estreito, e bastavam poucos homens para deter os atacantes pelo menos por algum tempo. – Você, pedreiro, faça as crianças e as mulheres atravessarem a ponte e irem para o conjunto superior.

     Tom ficou satisfeito por ter uma desculpa para procurar Ellen. Correu primeiro até a capela. Alfred e Martha estavam onde os deixara momentos antes, parecendo assustados.

     - Vão para o castelo - gritou para eles. - Digam a todas as crianças e mulheres que virem para que os acompanhem, ordens do conde. Corram! - Os dois saíram correndo imediatamente.

     Tom olhou em torno. Ele os seguiria logo; estava disposto a não ser apanhado no primeiro conjunto. Mas dispunha de uns poucos momentos nos quais podia cumprir a ordem do conde. Correu para o estábulo, onde as pessoas ainda jogavam baldes de água nas chamas.

     - Esqueçam o incêndio, o castelo está sendo atacado - berrou. - Levem seus filhos para a fortaleza.

     Entrou fumaça nos seus olhos e sua visão foi prejudicada pelas lágrimas. Esfregou-os e saiu correndo na direção de uma pequena multidão que observava o fogo consumir o estábulo. Repetiu a mensagem para aquela gente, e depois para um grupo de cavalariços que conseguira cercar alguns cavalos soltos. Não podia ver Ellen em parte alguma.

     A fumaça fez com que tossisse. Sufocado, atravessou correndo o conjunto, na direção da ponte que dava acesso ao conjunto superior. Parou ali, ofegante, e olhou para trás. Todo mundo estava atravessando a ponte. Tinha quase certeza de que Ellen e Jack já deveriam ter ido para o forte, mas apavorava-o a idéia de que pudesse tê-los perdido. Viu uma densa concentração de cavaleiros lutando no portão do outro conjunto. Além disso, não era possível ver mais nada, tanta era a fumaça. Subitamente, o conde Bartholomew apareceu ao seu lado, com sangue na espada e lágrimas no rosto, provocadas pela fumaça.

     - Salve-se! - gritou para Tom. Naquele instante os atacantes irromperam através do arco do portão do primeiro conjunto, dispersando os cavaleiros que o defendiam.

     Tom virou-se e atravessou correndo a ponte.

     Quinze ou vinte dos homens do conde estavam no segundo portão, prontos para defender o conjunto superior. Eles se afastaram para deixar Tom e o conde entrarem. Quando cerraram fileiras novamente, Tom ouviu o tropel dos cavalos dos atacantes na ponte de madeira à sua retaguarda. Os defensores não tinham chance agora. No fundo da mente Tom percebeu que aquele ataque fora planejado com inteligência e executado com perfeição. Entretanto, o que mais o preocupava era o medo que sentia por Ellen e pelas crianças. Cem homens sedentos de sangue estavam prestes a se abater sobre eles. Atravessou o conjunto, na direção da fortaleza.

     A meio caminho da escada de madeira que dava no grande salão, olhou para trás. Os defensores do segundo portão foram vencidos quase imediatamente pelos cavaleiros inimigos. O conde Bartholomew estava na escada atrás de Tom. Só havia tempo suficiente para ambos entrarem e levantarem a escada. Tom subiu correndo o resto dos degraus e pulou dentro do salão para ver que os atacantes tinham sido ainda mais espertos do que pensara.

     O escalão precursor dos atacantes, que inutilizara os portões, cortara a corda da ponte levadiça e ateara fogo no estábulo, executara mais uma tarefa: seus integrantes tinham ido para dentro da fortaleza e emboscado todos os que ali se refugiaram.

     Eles estavam de pé logo na entrada do grande salão, quatro homens sinistros com cotas de malha. À sua volta podiam-se ver os corpos dos cavaleiros do conde, mortos ou feridos, que haviam sido apanhados ao entrar. E o líder daquele escalão precursor, foi o que Tom viu com um choque, era William Hamleigh.

     Tom o encarou fixamente, atônito. Os olhos de William estavam dilatados com a luxúria decorrente do derramamento de sangue. Pensou que William fosse matá-lo, mas antes que tivesse tempo para se amedrontar, um dos seus sequazes pegou o braço de Tom,  puxou-o para dentro e o tirou do caminho.

     Então haviam sido os Hamleighs que tinham atacado o castelo do conde Bartholomew. Mas por quê?

     Todos os servos e crianças se amontoaram, em pânico, do outro lado do salão. Somente os homens armados tinham sido mortos.

     Tom examinou o rosto de todos, e para seu imenso alívio e gratidão, viu Alfred, Martha, Ellen e Jack, todos juntos num grupo, parecendo aterrorizados, mas vivos e aparentemente sem ferimentos.

     Antes que pudesse se juntar a eles, começou uma briga na escada. O conde Bartholomew e dois cavaleiros se lançaram para dentro do salão e foram emboscados pelos homens de William, que os esperavam. Um dos cavaleiros do conde foi abatido imediatamente, mas o outro protegeu o nobre com sua espada levantada. Diversos outros cavaleiros do conde apareceram às suas costas e de repente se desencadeou uma briga tremenda a pequena distância, com facas e punhos sendo usados porque não havia espaço para brandir uma espada. Por um momento pareceu que os homens do conde venceriam os de William; depois alguns deles se viraram e começaram a se defender à retaguarda; sem dúvida o exército penetrara no conjunto superior e agora subia a escada e atacava a fortaleza.

     Uma voz poderosa rugiu:

     - PAREM!

     Os homens de ambos os lados tomaram posições defensivas e a luta foi suspensa.

     A mesma voz se fez ouvir, perguntando:

     - Bartholomew de Shiring, você se rende?

     Tom viu o conde se virar e olhar para a porta. Os cavaleiros se afastaram para sair da frente.

     - Hamleigh - murmurou o conde, incrédulo. Em seguida ergueu a voz e perguntou: - Você poupará minha família e meus servos?

     - Sim.

     - Jura?

     - Juro, pela cruz, se você se render.

     - Eu me rendo - disse o conde Bartholomew. Houve grande regozijo do lado de fora.

     Tom virou-se. Martha veio correndo na sua direção. Ele pegou-a no colo e depois abraçou Ellen.

     - Estamos salvos - disse a mulher, com lágrimas nos olhos.

     - Todos nós, sãos e salvos.

     - Salvos - disse Tom,  amargo -, mas indigentes, mais uma vez.

     William parou de gritar subitamente. Ele era o filho de lorde Percy, e não ficava bem berrar e pular como um homem de armas qualquer. Compôs uma fisionomia de fidalga satisfação.

     Haviam ganho. Ele levara a cabo o plano, não sem alguns percalços, mas dera certo, e o ataque tivera êxito em grande parte por causa do seu trabalho precursor. Perdera a conta dos homens que matara e mutilara, e no entanto não fora ferido. Foi assaltado por um pensamento: havia um bocado de sangue em seu rosto para alguém que não tinha sido ferido. Quando o limpava, vinha mais. Devia ser seu. Levou a mão ao rosto, e depois à cabeça. Perdera um pouco do cabelo, e quando encostou os dedos no couro cabeludo, ardeu como fogo. Não usara elmo, para não despertar suspeitas. Agora que estava consciente do ferimento, ele começou a doer. Não fazia mal. Um ferimento era um símbolo de coragem.

     Seu pai subiu os degraus e se defrontou com o conde Bartholomew no portal. O nobre apresentou sua espada, o punho em primeiro lugar, num gesto de rendição. Percy pegou-a, e seus homens deram mais vivas.

     Quando o barulho cessou, William ouviu Bartholomew perguntar:

     - Por que você fez isto?

     - Você tramou contra o rei - respondeu Sir Hamleigh. Bartholomew ficou atônito ao ver que ele sabia disso, e o choque se evidenciou no seu rosto. William prendeu a respiração, perguntando-se se Bartholomew, no desespero da derrota, admitiria a conspiração na frente de toda aquela gente. Mas ele recuperou a compostura, empertigou-se e disse:

     - Defenderei a minha honra na frente do rei, e não aqui.

     O lorde aquiesceu.

     - Como queira. Diga a seus homens para deporem as armas e deixarem o castelo.

     O conde murmurou um comando para os seus cavaleiros, e, um por um, eles se aproximaram de Percy e deixaram as espadas no chão, à sua frente. William gostou muito de assistir à cena. Olhe só para isso, pensou orgulhosamente, humilhados ante meu pai. Sir Hamleigh estava falando com um de seus cavaleiros:

     - Cerquem os cavalos soltos e ponham-nos no estábulo. Mande alguns homens circular por aí e desarmar os mortos e feridos.

     As armas e os cavalos dos derrotados pertenciam aos vitoriosos, é claro: os cavaleiros de Bartholomew se dispersariam desarmados e a pé. Os homens de Hamleigh também esvaziariam os depósitos do castelo. Os cavalos confiscados seriam carregados com toda a sorte de gêneros e levados de volta para Hamleigh, a aldeia de onde a família retirara o nome. O lorde chamou outro cavaleiro e disse:

     - Separe o pessoal da cozinha e mande preparar o jantar. O resto dos servos deve ser mandado embora.

     Os homens ficavam famintos após uma batalha: agora haveria um banquete. A melhor comida e bebida do conde Bartholomew seria consumida ali, antes de o exército vitorioso voltar para casa.

     Um momento depois os cavaleiros que cercavam Percy e Bartholomew abriram uma passagem para Lady Hamleigh entrar.

     Ela parecia muito pequena comparada com aqueles robustos combatentes, mas quando desenrolou o cachecol que cobria seu rosto, aqueles que não a tinham visto antes recuaram, chocados, como as pessoas sempre ficavam, com o seu desfiguramento. Ela olhou para o marido.

     - Um grande triunfo - disse, satisfeita.

     William teve vontade de dizer: Foi por causa de um bom trabalho preparatório, não foi, mãe?

     Ele mordeu a língua, mas seu pai disse:

     - Foi William quem abriu a porta para nós.

     Lady Hamleigh voltou-se para o filho. Ele esperou ansiosamente que ela o congratulasse.

     - Foi mesmo?

     - Foi - disse Percy. - O menino fez um bom trabalho.

     Sua mãe aquiesceu.

     - É, talvez tenha feito.

     O coração de William aqueceu-se com o seu elogio, e ele sorriu tolamente.

     Ela olhou para Bartholomew.

     - O conde devia fazer reverência para mim.

     - Não - disse o conde.

     - Tragam a filha - ordenou Lady Hamleigh.

     William olhou em torno. Por um momento tinha esquecido de Aliena. Esquadrinhou o rosto dos servos e das crianças e localizou-a imediatamente, de pé ao lado de Matthew, o efeminado administrador da casa. William dirigiu-se até ela, pegou-a pelo braço e levou-a para sua mãe. Matthew os seguiu.

     - Cortem fora suas orelhas - disse a lady. Aliena gritou.

     William sentiu uma estranha sensação na virilha. O rosto de Bartholomew ficou sombrio.

     - Você prometeu que não lhe faria mal se eu me rendesse - disse. - Jurou.

     - Nossa proteção será tão completa quando a sua rendição - disse Lady Hamleigh.

     Essa foi inteligente, pensou William. Ainda assim, a expressão de Bartholomew era desafiadora. William gostaria de saber quem receberia a incumbência de cortar as orelhas de Aliena. A idéia era peculiarmente excitante.

     - Ajoelhe-se - ordenou sua mãe a Bartholomew. Lentamente, o conde fez uma reverência, baixando a cabeça. William sentiu-se um pouco desapontado.

     Sua mãe ergueu a voz.

     - Olhem para isto! - exclamou, dirigindo-se a todos os presentes. - Jamais se esqueçam do futuro de um homem que insulta os Hamleighs! - Olhou à sua volta desafiadoramente, e o coração de William inchou de orgulho. A honra da família estava restaurada.

     Sua mãe virou-se e seu pai assumiu o comando.

     - Levem-no para o quarto de dormir - disse, - Guardem-no bem.

     Bartholomew levantou-se.

     - Leve a garota também - disse Percy ao filho.

     William pegou o braço de Aliena com força. Gostou de tocar nela. Ia levá-la para o quarto, no andar de cima. Não se podia dizer o que aconteceria. Se fosse deixado sozinho com ela, seria capaz de fazer o que bem entendesse. Podia arrancar sua roupa e vê-la nua. Podia...

     - Deixe Matthew Steward vir conosco, para cuidar de minha filha - disse o conde.

     Percy olhou para a mulher.

     - Ele parece não oferecer perigo - disse, com uma risada.

     - Tudo bem.

     William olhou para o rosto de Aliena. Ela estava pálida, mas ficava ainda mais bonita quando amedrontada. Era muito excitante vê-la naquele estado de vulnerabilidade.

     Teve vontade de comprimir-lhe o corpo maduro contra o seu, e ver-lhe o medo na face quando abrisse suas coxas à força. Cedendo a um impulso, colocou o rosto junto ao dela e sussurrou:

     - Ainda quero me casar com você.

     Ela se afastou.

     - Casar? - repetiu em voz alta, cheia de escárnio. - Prefiro morrer a me casar com você, seu sapo vaidoso e repugnante!

     Todos os cavaleiros sorriram abertamente, e alguns servos deram risadas simuladas. William sentiu o rosto enrubescer.

     Súbito Lady Hamleigh deu um passo em frente e esbofeteou Aliena. Bartholomew deslocou-se para defendê-la, mas os cavaleiros o impediram.

     - Cale-se - disse ela para Aliena. - Você não é mais uma fina dama; é a filha de um traidor, e logo será uma indigente faminta. Já não presta para o meu filho. Saia da minha frente e não diga mais nenhuma palavra.

     Aliena virou-se. William soltou seu braço, e ela seguiu o pai. Ao observá-la se afastando, o jovem se deu conta de que o doce sabor da vingança tinha ficado amargo na sua boca.

    

     Ela era uma heroína de verdade, exatamente como uma princesa num poema, pensou Jack. Observou-a, deslumbrado, subir a escada com a cabeça bem erguida. O salão todo ficou em silêncio até que desapareceu de vista. Foi como uma luz que se apagou. Jack ficou olhando fixamente para o lugar onde estivera.

     Um dos cavaleiros adiantou-se.

     - Quem é o cozinheiro? - perguntou.

     O próprio cozinheiro estava demasiadamente assustado para se apresentar, mas alguém o indicou.

     - Você vai fazer o jantar - disse-lhe o cavaleiro. - Pegue seus ajudantes e vá para a cozinha. - O cozinheiro selecionou meia dúzia de pessoas no meio da multidão. O cavaleiro ergueu a voz. - O resto de vocês, dêem o fora. Sumam do castelo. Depressa, e não tentem levar o que não for seu, se é que prezam a vida. Todos nós temos sangue em nossas espadas, e um pouco mais não vai aparecer. Mexam-se!

     Todos passaram desordenadamente pela porta. A mãe de Jack pegou sua mão, e Tom,  a de Martha. Alfred ficou por perto. Todos usavam o manto, e não tinham outras posses senão as roupas e as facas de comer. Junto com a multidão desceram  os degraus, atravessaram a ponte e cruzaram o conjunto de baixo e a guarita, passando por cima dos portões inúteis, e deixaram o castelo sem fazer uma pausa. Quando pisaram fora da última ponte, do lado exterior do fosso, a tensão estourou como a corda de um arco e todos começaram a falar ao mesmo tempo sobre sua provação, em vozes altas e excitadas. Enquanto caminhava, Jack ouvia o que diziam. Todos rememoravam como haviam sido corajosos. Não tinham sido corajosos - simplesmente haviam fugido.

     Aliena fora a única corajosa. Quando entrou no castelo e descobriu que de lugar seguro se transformara numa armadilha, encarregara-se dos servos e das crianças, dizendo-lhes que se sentassem, ficassem quietos e se conservassem fora do caminho dos combatentes, gritando com os cavaleiros dos Hamleighs quando eles eram rudes com seus prisioneiros ou erguiam as espadas contra homens ou mulheres desarmados, agindo como se fosse completamente invulnerável.

     Sua mãe fez um carinho na sua cabeça.

     - Em que está pensando?

     - Eu queria saber o que vai acontecer com a princesa – respondeu Jack.

     Ela sabia a quem se referia.

     - Lady Aliena.

     - Ela é como uma princesa em um poema, vivendo num castelo. Mas os cavaleiros não são virtuosos como os poemas dizem.

     - É verdade - concordou Ellen, melancólica.

     - O que acontecerá com ela?

     Sua mãe sacudiu a cabeça.

     - Realmente não sei.

     - A mãe dela está morta.

     - Então vai passar tempos difíceis.

     - Foi o que pensei. - Jack fez uma pausa. - Ela riu de mim porque eu não sabia nada sobre pais. Mas gostei dela assim mesmo.

     Ellen passou o braço pelo ombro do filho.

     - Desculpe-me não ter falado sobre pais.

     Ele encostou a mão na dela, aceitando o pedido de desculpas. Continuaram andando em silêncio. De vez em quando uma família abandonava a estrada e seguia através do campo, dirigindo-se à casa de parentes ou amigos onde pudessem suplicar um pouco de comida e pensar no que fazer a seguir. A maior parte permaneceu junta até a encruzilhada, quando se separaram em grupos que se destinavam ao norte ou ao sul, assim como os que continuavam em frente, rumo ao mercado de Shiring. Ellen afastou-se de Jack e pôs a mão no braço de Tom,  fazendo-o parar.

     - Aonde iremos? - perguntou.

     Ele pareceu levemente espantado com a sua indagação, como se esperasse que todos o seguissem sem fazer perguntas. Jack observava que sua mãe causava com frequência aquela expressão de espanto na fisionomia de Tom. Talvez sua primeira mulher tivesse sido uma pessoa diferente.

     - Vamos para o priorado de Kingsbridge - disse ele.

     - Kingsbridge! - Ellen pareceu amedrontada. Jack gostaria de saber por quê.

     Tom não percebeu.

     - Ontem à noite soube que eles têm um novo prior - prosseguiu. - Geralmente um homem que é novo na posição quer fazer alguns reparos ou alterações na igreja.

     - O antigo prior morreu?

     - Sim.

     Por algum motivo ela pareceu se acalmar com a notícia. Devia ter conhecido o antigo prior, conjecturou Jack, e não gostava dele.

     Tom finalmente percebeu a perturbação na sua voz.

     - Há algo errado com Kingsbridge? - perguntou a ela.

     - Já estive lá. Fica a mais de um dia de jornada.

     Jack sabia que não era a extensão da caminhada que perturbava a mãe, mas Tom,  não.

     - Um pouco mais - disse ele. - Poderemos chegar lá amanhã, por volta do meio-dia.

     - Está bem. Continuaram caminhando.

     Um pouco mais tarde Jack começou a sentir dor na barriga. Por algum tempo perguntou-se o que seria. Não tinha sido machucado no castelo e Alfred não lhe socava o estômago há dois dias. Mas acabou por descobrir o que era.

     Estava com fome de novo.

    

     A Catedral de Kingsbridge não constituía uma visão acolhedora. Era uma estrutura baixa, atarracada e pesada, com paredes grossas e janelas minúsculas. Fora erguida muito antes do tempo de Tom,  numa época em que os construtores ainda não haviam percebido a importância da harmonia das proporções. A geração de Tom sabia que uma parede reta e bem nivelada era mais forte que uma grossa, e que podia ser vazada por janelas amplas e tão compridas que seus arcos tinham a forma de um semicírculo perfeito. De longe a igreja parecia torta, e quando se aproximou mais, Tom descobriu a razão: uma das torres gêmeas do lado ocidental caíra. Ficou deleitado. O novo prior possivelmente ia querer reconstruí-la. A esperança apertou o ritmo do seu passo. Ter sido contratado, como em Earlscastle, e depois ver seu novo empregador derrotado numa batalha e capturado era de partir o coração. Achava que não seria capaz de aguentar outro desapontamento como aquele.

     Deu uma olhada em Ellen. Receava que a qualquer dia ela concluísse que ele não acharia emprego senão depois que todos morressem de fome e o deixasse. Ellen sorriu para Tom e fechou a cara de novo ao fitar a silhueta gigantesca da catedral. Ela sempre se sentia pouco à vontade com sacerdotes e monges, ele observara. Podia ser que se sentisse culpada por não serem casados aos olhos da igreja.

     O adro abrigava enorme atividade. Tom já vira mosteiros indolentes e mosteiros operosos, mas Kingsbridge era excepcional. Parecia estar sendo submetido à grande limpeza da primavera com três meses de antecedência. Do lado de fora do estábulo, dois monges tratavam dos cavalos e um terceiro limpava arreios, enquanto noviços lavavam as baias. Outros monges varriam e limpavam a hospedaria, que ficava do lado do estábulo, e havia uma carroça carregada de palha do lado de fora, pronta para ser espalhada no chão limpo.

     Entretanto, não havia ninguém trabalhando na torre caída. Tom examinou a pilha de pedras que restara dela. O desmoronamento devia ter ocorrido há alguns anos, pois os ângulos vivos das pedras tinham se tornado rombudos pela ação da geada e da chuva, a argamassa havia sumido e a pilha das pedras afundado uma ou duas polegadas na terra macia. Era de estranhar que o reparo estivesse por ser feito há tanto tempo, pois as catedrais supostamente têm prestígio. O antigo prior devia ter sido preguiçoso ou incompetente, ou ambos. Tom decerto chegara quando os monges estavam planejando a reconstrução da torre. Era mais que hora de ter alguma sorte.

     - Ninguém me reconhece - disse Ellen.

     - Quando você esteve aqui? - perguntou-lhe Tom.

     - Há treze anos.

     - Não é de admirar que a tenham esquecido.

     Quando passaram pela face oeste da igreja Tom abriu uma das grandes portas de madeira e olhou seu interior. A nave era escura e lúgubre, com colunas grossas e um velho teto de madeira. No entanto, diversos monges caiavam as paredes com pincéis de cabo comprido, enquanto outros varriam o chão de terra batida. O novo prior evidentemente estava melhorando a aparência de tudo por ali, o que era bom sinal. Tom fechou a porta.

     Depois da igreja, no pátio da cozinha, uma equipe de noviços aglomerava-se em torno de uma tina de água suja, raspando a fuligem e a gordura acumuladas nas panelas e utensílios da cozinha com pedras afiadas. Os nós dos seus dedos estavam esfolados e vermelhos por causa da constante imersão na água gelada. Quando viram Ellen deram risadinhas e desviaram o olhar.

     Tom perguntou a um noviço envergonhado onde o despenseiro do convento podia ser encontrado. Falando num sentido estrito, era pelo sacristão que deveria ter perguntado, porque a conservação da igreja é de sua responsabilidade; porém, como classe, os despenseiros eram mais facilmente abordáveis. No fim, a decisão caberia ao prior, de qualquer forma; o noviço indicou-lhe a galeria de um dos prédios em torno do pátio. Tom entrou pela porta aberta, e Ellen e as crianças o seguiram. Todos pararam do lado de dentro para distinguir algo na escuridão.

     Aquela construção era mais nova e mais sólida que a igreja, Tom poderia dizer de pronto. O ar era seco e não havia cheiro de podridão. Na verdade, a mistura dos aromas dos alimentos armazenados causou-lhe dores cruciantes no estômago, pois não comia há dois dias. Quando seus olhos se adaptaram, viu que a galeria tinha um bom piso de laje, pilares curtos e grossos e teto abobadado. No momento seguinte percebeu um homem alto e calvo pegando com uma colher o sal de um barril e pondo-o numa panela.

     - Você é o despenseiro? - perguntou Tom,  mas o homem ergueu a mão, pedindo silêncio, e o construtor viu que estava contando. Todos esperaram calados que terminasse.

     - Cinquenta e nove, sessenta - disse ele por fim, descansando a colher.

     - Sou Tom,  mestre construtor, e gostaria de reconstruir a torre noroeste.

     - Sou Cuthbert, chamado de Cabeça Branca, o despenseiro, e gostaria de ver a torre reconstruída - replicou o homem. - Mas teremos que perguntar ao prior Philip. Soube que temos um novo prior?

     - Sim. - Tom concluiu que Cuthbert era um monge do tipo amistoso, experiente e prático. Ficaria feliz em bater um papo. - E o novo prior parece determinado a melhorar a aparência do mosteiro.

     Cuthbert concordou.

     - Mas não tem a mesma disposição para pagar pelo serviço. Notou que todo o trabalho está sendo feito por monges? Não vai contratar ninguém; diz que o priorado já tem muitos criados.

     Aquela era uma má notícia.

     - E o que os monges acham disso? - perguntou Tom delicadamente.

     Cuthbert riu, e seu rosto ficou ainda mais enrugado.

     - Você é um homem de tato, Tom Construtor. Está pensando que não se vêem com frequência monges trabalhando tanto. Bem, o novo prior não está forçando ninguém a trabalhar. Mas ele interpreta a regra de São Bento de tal modo que aqueles que executam trabalho físico podem comer carne vermelha e tomar vinho, enquanto os que meramente estudam e rezam devem viver de peixe salgado e cerveja aguada. É capaz de fazer uma elaborada justificativa teórica para isso, mas o resultado final é que tem muitos voluntários para o trabalho pesado, especialmente entre os mais jovens. - Cuthbert não pareceu desaprovar aquilo, só achava divertido.

     - Mas monges não são capazes de construir paredes de pedra, não importa quão bem comam - enquanto falava, ouviu um choro de bebê. O som tocou-lhe o coração. Precisou de um momento para se dar conta de como era estranho o fato de haver um bebê no mosteiro.

     - Vamos perguntar ao prior - estava dizendo Cuthbert, mas Tom mal o ouvia. Aquele choro parecia ser o de um bebê muito pequeno, com uma ou duas semanas de vida, e estava se aproximando. Trocou um olhar com Ellen. Ela também parecia espantada. Em seguida apareceu uma sombra na porta. O construtor sentiu um nó na garganta.

     Um monge entrou carregando o bebê. Tom examinou-lhe o rosto. Era seu filho.

     Engoliu em seco. O rosto da criancinha era vermelho, seus punhos estavam cerrados e a boca aberta, exibindo as gengivas sem dentes. Seu choro não era de dor ou doença, mas sim uma simples exigência de comida. Era o grito saudável e vigoroso de um bebê normal, e Tom se sentiu aliviado ao ver o filho parecendo estar tão bem.

     O monge que o carregava era um rapaz com cerca de vinte anos, alegre, de cabelo despenteado e sorriso enorme e um tanto estúpido. Ao contrário da maioria dos monges, não reagiu à presença de uma mulher. Sorriu para todos e depois se dirigiu a Cuthbert.

     - Jonathan precisa de mais leite.

     Tom quis pegar o filho no colo. Tentou imobilizar o rosto para que sua expressão não traísse suas emoções. Dirigiu um olhar furtivo para as crianças. Todas sabiam que o bebê abandonado fora encontrado por um padre viajante. Mas não sabiam que ele o levara para o pequeno mosteiro na floresta. Suas faces nada demonstravam senão curiosidade. Não haviam feito a ligação daquele bebê com o que tinham deixado para trás.

     Cuthbert pegou uma concha e um jarro pequeno que encheu com o leite que estava num balde.

     - Posso segurar o bebê? - pediu Ellen ao jovem monge. Ela estendeu os braços e ele lhe entregou a criança. Tom a invejou. Ansiava por apertar aquela trouxinha junto ao coração. Ellen ninou o bebê e ele ficou quieto por um momento.

     Cuthbert ergueu os olhos.

     - Ah, sim, Johnny Oito Pence é uma boa babá; mas não tem o toque feminino.

     Ellen sorriu para o jovem monge.

     - Por que chamam você de Johnny Oito Pence?

     Cuthbert respondeu por ele.

     - Porque dos doze pence necessários para fazer um xelim ele só tem oito - disse, dando um tapinha do lado da cabeça para indicar que Johnny tinha uma certa deficiência mental. Mas ele parece compreender as necessidades das pobres criaturas que não falam melhor que nós, os sabidos. Tudo faz parte de um propósito mais amplo de Deus, tenho certeza - concluiu Cuthbert vagamente.

     Aproximando-se de Tom,  Ellen entregou-lhe o bebê. Tinha lido seus pensamentos. Ele lhe dirigiu um olhar de profunda gratidão e pegou a criancinha com as mãos enormes.

     Sentiu seu coração bater através da coberta que o envolvia. O material era de excelente qualidade: rapidamente, perguntou-se onde os monges teriam arranjado lã tão macia. Encostou o bebê ao peito e o balançou. Sua técnica não era tão boa quanto a de Ellen e a criança começou a chorar de novo, mas Tom não se importou; aquele grito alto e insistente era música para os seus ouvidos, pois significava que o filho que abandonara estava forte e saudável. Mesmo que tivesse sido muito difícil, sentia que tomara a decisão correta ao deixar o bebê no mosteiro.

     - Onde ele dorme? - perguntou Ellen a Johnny. Dessa vez foi o próprio monge quem respondeu:

     - Ele tem um leito no dormitório, junto conosco.

     - Deve acordar todo mundo de noite.

     - Nós nos levantamos à meia-noite de qualquer maneira, para as matinas - disse Johnny.

     Cuthbert entregou a Oito Pence o jarro de leite. Johnny tirou o bebê de Tom com um movimento de um braço só, indicativo de muita prática. O construtor ainda não estava preparado para se afastar do bebê, mas aos olhos do monge ele não tinha nenhum direito, de modo que teve de deixá-lo ir. Um momento mais tarde Johnny e a criança haviam ido embora, e Tom teve que resistir ao impulso de correr atrás deles e gritar: Espere, pare, este é o meu filho, devolva-o para mim. Ellen colocou-se a seu lado e apertou-lhe o braço, num discreto gesto de compreensão.

     Tom constatou que tinha nova razão para nutrir esperanças. Se pudesse trabalhar ali, seria capaz de ver Jonathan o tempo todo, quase como se não o tivesse abandonado. Era bom demais para ser verdade, e não se atrevia a pedir que acontecesse.

     Cuthbert estava olhando atentamente para Martha e Jack, que tinham arregalado os olhos ao verem o jarro cheio de leite cremoso que Johnny levara.

     - Vocês, crianças, gostariam de um pouco de leite?

     - Sim, por favor, padre, elas gostariam - disse Tom. Ele próprio desejava tomar um pouco.

     Com a concha, o monge serviu leite em duas tigelas de madeira e as deu para Martha e Jack. Ambos beberam rapidamente, ficando com grandes anéis brancos em volta da boca.

     - Mais um pouco? - ofereceu ele.

     - Sim, por favor - responderam as crianças em uníssono. Tom olhou para Ellen, sabendo que ela devia se sentir como ele, profundamente agradecida por ver os pequenos alimentados afinal.

     Enquanto Cuthbert enchia de novo as tigelas, perguntou em tom casual:

     - De onde vocês estão vindo?

     - Earlscastle, perto de Shiring - disse Tom. - Saímos de lá ontem de manhã.

     - Comeram alguma coisa até agora?

     - Não - respondeu Tom,  sem rodeios. Sabia que Cuthbert era bem-intencionado, mas odiava admitir ter sido incapaz de alimentar os próprios filhos.

     - Então peguem algumas maçãs para aguentar até a hora da ceia - disse Cuthbert, apontando para a barrica perto da porta.

     Alfred, Ellen e Tom foram até ali, enquanto Martha e Jack bebiam a segunda tigela de leite. Alfred tentou encher os braços com maçãs. Tom derrubou-as com um tapa e disse baixinho:

     - Apanhe só duas ou três. - Ele próprio apanhou três.

     Tom comeu suas maçãs agradecido, e seu estômago se sentiu um pouco melhor, mas não pôde deixar de se perguntar dentro de quanto tempo a ceia seria servida. Monges geralmente comem antes do escurecer para economizar velas, lembrou alegremente.

     Cuthbert não tirava os olhos de Ellen.

     - Eu a conheço? - perguntou por fim. Ela ficou apreensiva.

     - Acho que não.

     - Você me parece familiar - disse ele incertamente.

         - Eu morava aqui perto quando criança - comentou ela.

     - Então deve ser isso - disse ele. - Explica a sensação que tenho de que você parece mais velha do que é.

     - O senhor deve ter uma memória muito boa.

     Ele franziu a testa.

     - Não é boa o bastante - disse. - Tenho certeza de que há algo mais...  Não importa. Por que deixaram Earlscastle?

     - O castelo foi atacado, ontem pela madrugada, e tomado - respondeu Tom. - O conde Bartholomew é acusado de traição.

     Cuthbert ficou chocado.

     - Que os santos nos protejam! - exclamou. De repente parecia uma solteirona apavorada com um touro. - Traição!

     Ouviu-se barulho de passos do lado de fora. Tom virou-se e viu outro monge entrar. Cuthbert disse:

     - Este é o nosso novo prior.

     Tom o reconheceu. Era Philip, o monge que tinham encontrado a caminho do palácio do bispo, que lhes dera um queijo delicioso. Agora todas as peças se ajustavam: o novo prior de Kingsbridge era o antigo prior do pequeno mosteiro na floresta, e trouxera Jonathan consigo. O coração de Tom deu pulos de otimismo. Philip era um homem bondoso, e parecera gostar do construtor e confiar nele. Certamente lhe daria um emprego.

     Philip o reconheceu.

     - Olá, mestre construtor - disse. - Então não conseguiu muito trabalho no palácio do bispo, hem?

     - Não, padre. O arcediago não iria me contratar, e o bispo não estava lá.

     - Não estava mesmo; estava no céu, embora não o soubéssemos naquela ocasião.

     - O bispo está morto?

     - Está.

     - Esta notícia já é velha - interrompeu Cuthbert impacientemente. - Tom e sua família acabam de chegar de Earlscastle. O conde Bartholomew foi capturado, e seu castelo, tomado.

     Philip ficou completamente imóvel.

     - Já! - murmurou.

     - Já - repetiu Cuthbert. - Por que diz "já"? - Ele parecia gostar de Philip mas ao mesmo tempo desconfiar dele, como um pai cujo filho esteve na guerra e voltou para casa com uma espada na cintura e um brilho ligeiramente perigoso no olhar. - Sabia que isso iria acontecer?

     O rosto do prior ficou um pouco congestionado.

     - Não, não exatamente - disse, sem muita segurança. – Ouvi um boato de que o conde Bartholomew se opunha ao rei Estêvão. - Recuperou a compostura. - Podemos todos dar graças por isso - exclamou baixo. - Estêvão prometeu proteger a Igreja, enquanto Matilde poderia nos ter oprimido tanto quanto seu falecido pai. Sim, é verdade. É uma boa notícia. - Ele parecia tão satisfeito quanto se tivesse derrotado Bartholomew com as próprias mãos.

     Tom não queria falar sobre o conde.

     - Não é boa notícia para mim - disse. - O conde tinha me contratado, no dia anterior, para fortalecer as defesas do castelo. Não recebi nem um único dia de pagamento.

     - Que pena! - disse Philip. - Quem atacou o castelo?

     - Lorde Percy Hamleigh.

     - Ah - fez Philip, balançando a cabeça, e mais uma vez Tom sentiu que sua notícia estava apenas confirmando as expectativas dele.

     - O senhor está fazendo alguns melhoramentos aqui - disse Tom,  tentando puxar um assunto do seu interesse.

     - Estou tentando - confirmou Philip.

     - Vai querer reconstruir a torre, tenho certeza.

     - Reconstruir a torre, reparar o telhado, pavimentar o chão...  sim, .quero fazer tudo isso. E você quer o emprego, claro - acrescentou, como se tivesse acabado de perceber a razão da presença de Tom. - Gostaria de poder contratá-lo. Mas receio não poder pagar-lhe. Este mosteiro não tem dinheiro algum.

     Tom teve a sensação de haver levado um soco. Estava confiante em conseguir trabalho ali - tudo apontara nessa direção. Mal pôde acreditar nos ouvidos. Encarou Philip.

     Não dava para crer que o priorado não tivesse dinheiro. O despenseiro dissera que eram os monges que estavam fazendo todo o trabalho extra, mas, mesmo assim, um mosteiro sempre pode pedir dinheiro emprestado aos judeus. Tom sentiu como se fosse o fim do caminho para ele. O que quer que o houvesse mantido de pé durante todo o inverno parecia agora tê-lo abandonado por completo, e ele se sentiu fraco e derrotado. Não posso continuar, pensou. Estou liquidado.

     Philip viu seu desespero.

     - Posso lhe oferecer uma ceia, um lugar para dormir e qualquer coisa para comer pela manhã.

     Tom sentiu-se amargamente furioso.

     - Aceitarei - disse. - Mas preferia trabalhar para ganhar minha comida.

     Philip ergueu as sobrancelhas ante o Tom de raiva, mas disse com suavidade:

     - Quando se pede a Deus, não se pede esmola, faz-se uma oração. - E com isto foi embora.

     Os outros pareceram um pouco assustados, e Tom percebeu que sua raiva devia estar transparecendo. O fato de estarem olhando fixamente para ele o aborreceu. Saiu do depósito de gêneros alguns passos atrás de Philip e parou no pátio, olhando para a grande e velha igreja, tentando controlar os sentimentos.

     Após um instante Ellen e as crianças o seguiram. A mulher passou-lhe um braço pela cintura num gesto consolador, que fez os noviços cochicharem e darem cotoveladas uns nos outros. Tom os ignorou.

     - Rezarei - disse ele amargamente. - Rezarei para que um raio caia na igreja e a jogue no chão.

     Nos últimos dois dias Jack aprendera a ter medo do futuro.

     Durante sua curta vida nunca tivera que pensar além do dia seguinte; e, quando pensara, sabia o que esperar. Um dia na floresta era muito parecido com o outro, e as estações mudavam lentamente. Agora ele não sabia, a cada dia que se passava, onde estaria, o que faria ou se comeria ou não.

     A pior parte de tudo era sentir fome. Jack andara secretamente comendo capim e folhas, para tentar amenizar as dores na barriga, mas o que conseguiu foi uma espécie diferente de dor de estômago e uma sensação esquisita. Martha chorava de fome a todo momento. Jack e Martha sempre andavam juntos. A menina o respeitava, o que ninguém tinha feito antes. Ser incapaz de aliviar o sofrimento dela era pior que sua própria fome.

     Se ainda estivessem vivendo na caverna, saberia aonde ir para matar patos, encontrar nozes ou roubar ovos; mas em cidades e aldeias e nas estradas desconhecidas que as ligavam, estava perdido. Tudo o que sabia era que Tom tinha de arranjar emprego.

     Passaram a tarde na hospedaria. Era um prédio simples de um único cômodo, com chão de terra e uma lareira no meio, exatamente como as casas que os camponeses habitavam, mas Jack, que sempre morara numa caverna, achava o lugar maravilhoso. Estava curioso para saber como a casa era feita, e Tom lhe contou. Duas árvores novas tinham sido cortadas, aparadas e apoiadas, uma de encontro a outra, num certo ângulo; depois outras duas haviam sido colocadas do mesmo modo a quatro jardas de distância; os dois triângulos assim formados foram unidos, nos ângulos superiores, por uma viga chamada "pau da cumeeira". Paralelas a ele, foram fixadas ripas leves, unindo as árvores e formando um telhado íngreme que ia até o chão.

     Estruturas de vime trançado, chamadas "armações", tinham sido colocadas sobre as ripas e impermeabilizadas com lama. As empenas, ou paredes laterais, eram feitas de estacas enterradas no chão, e as frestas entre elas tapadas com lama. Havia uma porta em  uma das paredes laterais. Não havia janelas.

     Ellen espalhou palha limpa no chão e Jack acendeu o fogo com a pedra que sempre carregava. Quando os demais estavam fora do alcance de sua voz, perguntou a ela – por que o prior não ia contratar Tom,  quando, obviamente, havia trabalho a ser feito.

     - Parece que ele prefere economizar seu dinheiro, enquanto a igreja ainda puder ser usada - disse ela. - Se toda a igreja tivesse desmoronado, seriam forçados a reconstruí-la, mas como é só a torre, podem conviver com o dano.

     Quando a luz do dia começou a perder a intensidade e o crepúsculo foi chegando, um auxiliar da cozinha apareceu na hospedaria com um caldeirão de sopa e um pão da altura de um homem, tudo só para eles. A sopa era feita de verduras, ervas e ossos, e sua superfície brilhava com a gordura. O pão era de massa grossa, feito com vários tipos de cereais, centeio, cevada e aveia, mais ervilhas e favas secas; era o mais barato, disse Alfred, mas para Jack, que nunca comera pão até alguns dias antes, era delicioso. O menino comeu até a barriga doer. Alfred comeu até não restar mais nada.

     - Afinal, por que foi que a torre caiu? - perguntou Jack a Alfred, quando se sentaram junto do fogo para digerir o banquete.

     - Provavelmente foi atingida por um raio - disse Alfred. - Também pode ter sido um incêndio.

     - Mas não há nada para queimar - disse Jack. - É toda feita de pedra.

     - O teto não é de pedra, seu burro - disse Alfred sarcasticamente. - O teto é de madeira.

     Jack pensou naquilo por um momento.

     - E se o teto pegar fogo, o prédio cai?

     Alfred deu de ombros.

     - Às vezes.

     Ficaram sentados em silêncio por algum tempo. Tom e a mãe de Jack conversavam em voz baixa do outro lado da lareira.

     - É engraçado, aquele bebê - disse Jack.

     - O que é engraçado? - perguntou Alfred, após um instante.

     - Bem, o seu bebê foi perdido na floresta, a milhas de distância, e agora há um bebê aqui no priorado.

     Nem Alfred nem Martha pareceram achar a coincidência muito notável, e Jack esqueceu prontamente o assunto.

     Todos os monges foram para a cama logo após a ceia e não forneceram velas para os hóspedes humildes, de modo que a família de Tom ficou olhando o fogo até que ele se extinguiu, deitando-se depois em cima da palha.

     Jack ficou acordado, pensando. Ocorrera-lhe que se a catedral pegasse fogo naquela noite todos os problemas estariam resolvidos. O prior contrataria Tom para reconstruir a igreja, eles passariam a morar ali naquela ótima casa e teriam sopa de osso de carne com pão de massa grossa para sempre.

     Se eu fosse Tom,  pensou ele, atearia fogo na igreja. Eu me levantaria silenciosamente enquanto todos estivessem dormindo, me esgueiraria dentro da igreja, iniciaria um incêndio com minha pedra, depois rastejaria de volta para cá enquanto o fogo estivesse se espalhando e fingiria estar dormindo quando dessem o alarme. No momento em que as pessoas começassem a atirar baldes de água nas labaredas, como fizeram no incêndio do estábulo do castelo do conde Bartholomew, eu me juntaria a elas, como se quisesse apagar o fogo tanto quanto todo mundo.

     Alfred e Martha estavam dormindo - Jack podia assegurar pela respiração deles. Tom e Ellen fizeram o que geralmente faziam sob o manto de Tom (Alfred dizia que aquilo era "foder") e depois dormiram. Pelo jeito, o construtor não ia se levantar e tocar fogo na catedral.

     Mas o que ele ia fazer? A família iria percorrer as estradas até morrer de fome?

     Quando todos estavam dormindo, e Jack os ouviu respirando no ritmo lento e regular que indicava sono profundo, ocorreu-lhe que ele poderia incendiar a catedral.

     A idéia fez seu coração disparar de medo.

     Teria que se levantar muito silenciosamente. com certeza conseguiria tirar a tranca da porta e se esgueirar para fora sem acordar ninguém. As portas da igreja poderiam estar trancadas, mas haveria um jeito de entrar, especialmente para um garoto pequeno.

     Uma vez do lado de dentro, saberia como alcançar o teto. Aprendera muito em duas semanas com Tom. Ele falava sobre construções o tempo todo, quase sempre endereçando suas observações ao filho; e, embora Alfred não estivesse interessado, Jack estava.

     Descobrira, entre outras coisas, que todas as igrejas grandes tinham escadas construídas dentro das suas paredes, a fim de dar acesso às partes mais altas e permitir a execução de reparos. Encontraria uma escada e subiria até o telhado.

     Sentou-se no escuro, ouvindo a respiração dos outros. Podia distinguir a de Tom por um ligeiro chiado, causado (dissera sua mãe) por anos de inalação de pó de pedra.

     Alfred roncou uma vez, bem alto, depois virou-se e ficou em silêncio de novo.

     Uma vez ateado o fogo, teria que voltar à hospedaria rapidamente. O que fariam os monges se o pegassem? Em Shiring, Jack vira um menino da sua idade ser amarrado e açoitado por roubar um cone de açúcar de uma loja de especiarias. O garoto gritava e o chicote fizera sangrar seu traseiro. Parecera pior do que quando os homens se matavam uns aos outros numa batalha, como acontecera em Earlscastle, e a visão do garoto sangrando perseguira Jack. Tinha pavor de que o mesmo lhe acontecesse.

     Se eu fizer isso, pensou, nunca vou contar a ninguém.

     Deitou-se de novo, cobriu-se com o manto e fechou os olhos.

     Gostaria de saber se a porta da igreja estava trancada. Se estivesse, poderia entrar pela janela. Ninguém o veria se o fizesse no lado norte do adro. O dormitório dos monges era ao sul da igreja, atrás do claustro, e não havia nada no lado norte exceto o cemitério.

     Decidiu ir até ali e dar uma olhada, só para ver se seria possível.

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