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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PODEROSA / Sérgio Klein
PODEROSA / Sérgio Klein

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

P O D E R O S A

 

Beisebol para Solteiras

A noiva tem 70 anos e vem causando polêmica: não é todo dia, afinal que se vê uma representante da terceira idade vestida de branco e caminhando com passos firmes em direção ao segundo casamento. Acontece que essa senhora não tem nada de convencional: numa época em que as mulheres se submetem à plástica, lipo, laser, lifting, peeling, botox, enfim, apelam pra qualquer novidade que remova as rugas e celulites, a personagem em questão não está muito preocupada em içar os seios ou alisar a pele ao redor dos olhos. Não que tenha abandonado a vaidade; ao contrário, sempre carrega na bolsa um batonzinho básico, um tubo de protetor solar e uma caixa de lenços de papel pra conter - aliás, para colher - as lagrimas que chegam sem aviso prévio e podem estragar a maquiagem.

Mas ela já confessou que tem medo de anestesia - e mais medo ainda, verdadeiro pânico, de terminar como algumas atrizes que, de tanto puxar e esticar, ficaram com cara de poste.

Mas falar da noiva como se fosse uma desconhecida: estou tratando da minha avó, ora essa!

No dia do casamento, vó Nina passou a tarde sob cuidados de cabeleireira, manicure, pedicure, depiladora,maquiadora, massagista facial e de até nutricionistas. Essa junta estética era chefiada por Salete, a dona do salão, que não se contenta com o papel de empresária e continua cuidando pessoalmente da mão das freguesas - e não apenas das unhas. A danada tem o dom de traduzir o complicado alfabeto da quiromancia. Enquanto aguardam o esmalte secar, as mulheres aproveitam pra fazer uma consulta sentimental e mostram a palma da mão para saber se o futuro lhes reserva casamento, noivado,namoro ou qualquer outro tipo de relacionamento.

Com tanta falsa vidente de plantão, Vó Nina acha que é preciso manter o pé atrás quando o assunto é esoterismo. Salete, porém , não costuma se enganar. Depois de examinar a mão da minha avó, deu um sorriso e o esperado veredicto:

- Não vou garantir que vocês serão felizes para sempre, que a vida não pé um conto de fada. Mas posso dizer, Nina, que o seu casamento tem tudo para decolar.

Casamento: essa palavra deve ser mesmo mágica, pois instaurou um silêncio absoluto e repentino num dos salões de beleza mais movimentados da cidade. Boa parte das freguesas virou a cabeça na direção da vó Nina, mas ninguém ficou tão arregalada quanto uma tal de Matilde.

Beirando os 40, ela procurava esconder a idade misturando estilos e tendências: o vestido com gola de renda exalava um cheirinho de naftalina, enquanto o batom pink brilhante dava aos lábios um frescor de perua.Estava

sentada num canto do salão, com um dos pés numa bacia de água morna e outro entregue aos cuidados da pedicure.

Matilde não se conteve:

- Quem é que vai se casar, a sua neta?

- Não, dona - eu me apressei em responder. - A noiva é a minha avó.

- E o noivo - disse Salete - é um garoto de 20 aninhos.

Matilde levou um susto que quase derrubou a água da bacia. Vó Nina teve um ataque de risos antes de desmentir a informação:

- Deixe disso, Salete. O Henrique é da minha idade.

Salete se justificou:

- A certidão de nascimento não importa. Estou falando de idade mental! O cara é artista, gente. Toca tudo quanto é instrumento, fala não sei quantas línguas, já morou num monte de países e se apresentou nos principais teatros e casas de espetáculos do mundo. Vocês precisam ouvir a musica que ele compôs para a minha amiga.

Chama-se Choro para Nina. Só de lembrar me dá um arrepio. Uma pessoa assim envelhece?

- Mas que exagero! - disse vó Nina, no fundo adorando os elogios.

- É a pura verdade - insistiu Salete. - O próprio Henrique me disse que sempre foi apaixonado por você.Não foi a toa que ele tatuou um N na mão.

Não entendo nada de telepatia, mas era fácil adivinhar as perguntas que as freguesas ruminavam em silencio.O que essa velha tem que eu não tenho? Qual a receita pra virar uma musa e inspirar canções de amor e tatuagens?

Como é que uma viúva que nunca fez plástica consegue acelerar o coração de um músico? Ou será que ela já enfrentou o bisturi e está escondendo o jogo?

Quando Salete falou que o amor não tem idade, Matilde se enroscou na cadeira e chacoalhou um comentário de cascavel:

- Engraçado... Você, que sempre foi contra o casamento, de repente passa a acreditar em amor á primeira vista... Isso é o que eu chamo de queimar a língua!

Por causa de um casamento fracassado, Salete vivia dizendo que os homens em geral - e os maridos em particular - são trogloditas que só servem pra manter barata e trocar a lâmpada. Mas essa opinião virou do avesso depois que a dona do salão começou a sair com o Paulo, o professor de História mais gato da nossa escola e de todas as escolas do planeta - tão gato que ganhou o apelido de Apolo, o deus que personifica o ideal da perfeição anatômica na mitologia grega.

- Queimar a língua faz bem para a saúde - rebateu Salete, que não é de engolir veneno. - Os beijos ficam mais ardentes.

Salete é mãe do João, meu namorado, o que a coloca na desconfortável posição de minha possível futura sogra. Mas devo reconhecer que ela não tem nada a ver com a imagem de megera que inferniza a vida dos genros e noras nas piadas machistas do folclore nacional. Trata-se de uma amiga e confidente

sempre pronta a me dar dicas e conselhos. Foi ela aliás, que me ajudou a descobrir o poder das minhas palavras.

Eu me lembro como se fosse hoje. Depois de passar um bom tempo olhando para a palma da minha mão esquerda, Salete ficou com os olhos cheios d'água e disse que nunca tinha visto um destino tão bem traçado.

Eu, hein! O que estava querendo me dizer?

Ela explicou que,na maioria das vezes, a mensagem das linhas da mão é escrita em estilo barroco, tão carregado de metáforas e enigmas que nem a própria quiromante consegue traduzir com exatidão. No meu caso, ela só sabia dizer que eu tinha o dom de mudar o mundo.

Mas como? Só eu poderia encontrar a resposta.

Levei algum tempo pra descobrir que o instrumento para interferir na realidade é a literatura : tudo que escrevo com a mão esquerda - redação, poema, bilhete, frase – transforma-se imediatamente em verdade. A revelação aconteceu numa redação sobre a vida de Joana d'Arc. Comecei contando que constava nos livros : a garota comandou o exercito francês na guerra dos Cem Anos, foi presa e entregue ao Tribunal da Inquisição e acabou morta na fogueira, como bruxa, aos 19 anos.A igreja tentou se redimir, séculos mais tarde, canonizando a camponesa guerreira, mas aí a dona da festa não podia mais participar da homenagem. Inconformada com essa injustiça, resolvi ignorar os livros de História e inventei outro final para a santa padroeira da França: na minha redação, ela escapava da fogueira, conduzia o exercito francês a vitória final contra os ingleses e terminava a vida bem velhinha, deixando como herança um diário secreto na qual narrava essas aventuras.

O texto fazia parte de um trabalho de História, mas Apolo ficou furioso com a minha licença poética e nem sequer permitiu que eu concluísse a leitura. Onde é que eu estava com a cabeça pra me atrever a mudar a biografia de "um dos ícones da civilização ocidental"?

Aleguei que meu sonho é tornar-me escritora e, nessa condição, não poderia confirmar a imaginação aos estreitos limites da história oficial. O argumento não me livrou do zero; por pouco não fui suspensa da escola. A minha sorte é que , á noite, no jornal de tevê, o casal de apresentadores anunciou que uma equipe de arqueólogos franceses havia descoberto um diário de autoria de Joana d' Arc.

E os segredos do tal diário confirmavam tudo o que eu tinha escrito.

Confesso que me senti apavorada com idéia de alterar o curso da História, lidar com frases que ganham vida, converter parentes, colegas e vizinhas em meros personagens. No inicio, eu me trancava no quarto e usava palavras como cobaias para pequenas experiências inofensivas. Pegava uma folha de papel e escrevia assim:

Logo em seguida, abria a porta do armário e ficava maravilhada com o fim do caos: as meias e calcinhas estavam dobradas e organizadas de acordo com o tamanho e o tecido, lycra de um lado e algodão do outro. Olhava para o teto do quarto e não encontrava mais a lagartixa, que tinha desabado no assoalho e corria de um lado para outro com medo de ganhar um pisão. E, por fim, o telefone tocava, eu saía correndo pra atender e ouvia a Leninha me chamar pra assistir a uma comédia romântica. Aos poucos, fui adquirindo autoconfiança e passei a expandir meus poderes além dos limites do quarto.

Transformei meu pai num romântico compulsivo pra ver se ele e minha mãe, recém-separados, voltavam a se entender, ressuscitei o cachorro de Salete, assassinado pelo ex-marido dela, salvei o João de morrer baleado numa troca de tiros entre polícia e seqüestradores, fiz minha avó renascer das cinzas e voltar à vida cheia de saúde. Falando assim, eu poderia ser confundida com uma super-heroína de histórias em quadrinhos, dessas que vestem capas cintilante e botas de cano alto e estão sempre prontas a defender os fracos & oprimidos- sem precisar, sequer, retocar a maquiagem! Mas diário é que nem divã de analista: não faz sentido mentir. Devo admitir que já escrevi alguns textos que tinham objetivos, por assim dizer, não tão nobres. Teve uma vez, por exemplo, em que perdi a paciência com a colega de sala. A peça se chama Danyelle, com y e dois l, uma aberração ortográfica que ela assina com orgulho porque ''combina elegância inglesa com charme francês''. Argh! Grande coisa! Isso, pra mim, é papo de colonizado: acho que a língua portuguesa se vira muito bem sem o y e com um l de cada vez. Mas não foi por causa da língua- dessa língua- que me enfezei. O problema é que Dany cismou de beijar um garoto que, por coincidência, tinha me convidado pra ir no cinema. Sei que ela é maluca por piercing e anda espetada dos pés à cabeça, por isso achei que deveria lhe dar mais um presente; graças a uma frase escrita às pressas, tranquei os lábios da garota com uma argola. Se exagerei?Pode ser.Mas eu só estava me defendendo. E foi pelo mesmo motivo- reagir a uma agressão- que, no dia do casamento da minha avó lá no salão da Salete, decidi usar o meu poder contra a inveja da perua.

Depilar as axilas não é exatamente uma atividade relaxante, mas vó Nina mantinha o bom humor e procurava responder às mil e uma perguntas que coçavam a língua das freguesas: quem tinha costurado o vestido de noiva qual o cardápio da recepção, se o noivo era lento ou caliente, onde seria a lua-de-mel. Longe dos namorados e maridos, as mulheres se sentiam à vontade pra soltar abobrinhas apimentadas e transformaram a tarde numa deliciosa despedida de solteira. Aliás, de viúva. Há uma diferença, porém, entre pimenta e veneno. Lá pelas tantas, entre uma ou outra gargalhada, Matilde virou-se para uma das cabeleireiras e cochichou entre os dentes: -Tanta paixão nessa idade...Isso está me cheirando a golpe do baú. Eu estava sentada ao lado, resolvendo palavras cruzadas enquanto esperava a minha vez de enfiar a cabeça no secador. Diante daquela barbaridade, tive o ímpeto de alegar que a minha avó era rica, sim, mas de caráter, sinceridade, elegância, carisma e compaixão, valores que não se acham em vitrine de shopping nem podem ser subtraídos com um golpe do baú.Falar, porém, dá tanto trabalho...Não queria me desgastar com discussões inúteis e preferi desabafar escrevendo. Na própria revista de palavras cruzadas, botei uma letra em cada quadradinho:

M-A-T-I-L-D-E V-A-I E-N-G-A-S-G-A-R C-O-M -A P-R-Ó-P-R-I-A L-I-N-G-U-A

Ao tirar os olhos da revista, vi Matilde fazendo careta e percebi que a infeliz lutava pra se livrar de um pigarro. Não demorou muito pra que levasse as mãos ao pescoço e sucumbisse a uma tosse que a deixou completamente sem ar. o rosto perdeu a cor, os lábios ficaram roxos, os braços sacudiram no ar como se ela nadasse pra chegar à tona. Enquanto Salete ia buscar um copo d'água, as funcionárias e freguesas distribuíram receitas infalíveis: erguer os braços, cheirar álcool, esfregar gelo nos pulsos, contar até cem de trás pra frente, botar o rosto na frente do ventilador, dentre outras maluquices.

Nada disso, porém deu resultado Matilde só conseguiu recuperar o fôlego depois que o salão inteiro- eu, inclusive- encheu-lhe as costas de tapas. A verdade é que minha avó não queria se casar na igreja; ficava meio constrangida de bancar a noiva e temia cair no ridículo. Dizia que estava na idade de fazes bodas de ouro, isso sim! Não seria mais lógico e sensato organizar uma cerimônia simples, só para família e os amigos mais íntimos? Na opinião de Henrique, amor não tem na da a ver com sensatez e muito menos com lógica. Ele disse que uma pitada de loucura não faz mal a ninguém; pelo contrário, quem passa a vida tentando ser normal está mais sujeito a perder o juízo. Além do mais, de vez em quando vale a pena rir de si mesmo e

mergulhar de cabeça no ridículo. Henrique estava acostumado a tocar na igreja lotada.De braço dado com a minha mãe, atravessou o corredor central com o peito estufado e a cabeça erguida. A segurança evaporou, no entanto, quando ele pôs os pés no altar. A experiência de músico consagrado, com uma carreira internacional de sucesso, não evitou uma crise de ansiedade que o fez andar de um lado pra outro, olhando disfarçadamente para o relógio e sorrindo aos padrinhos pra camuflar um sentimento comum a todos os noivos do mundo: o pânico de ser abandonado no altar. Mulher também corre risco, mas levamos a vantagem de entrar na igreja por último. Só entramos, aliás, com a certeza de que há um noivo de plantão no fim do corredor. Caso contrário, ainda temos tempo de escapar do mico dando meia-volta e pegando o primeiro táxi disponível- ou, com sorte, o próprio carro que nos trouxe. Os homens, ao contrário, ficam à nossa espera e por isso estão mais vulneráveis à tragédia de passar o resto da vida sendo apontados na rua: '' Tá vendo aquele ali, ó? Foi abandonado pela noiva em pleno altar!""

Dez minutos de atraso demoram séculos na imaginação de um noivo inseguro; Henrique já não tinha mais unhas quando as portas da igreja finalmente se abriram. Vó Nina estava simplesmente divina- e divinamente simples. O vestido liso, sem bordados nem rendas, mas não dispensava os botões de madre pérola dispostos em fila ao longo da coluna. Sapato baixo, maquiagem leve, uma tiara com flores-do-campo no lugar do véu e da grinalda. As mesmas flores compunham o buquê e acentuavam o ar de menina: era como se estivesse ali não pra se casar, mas pra receber a primeira comunhão.

Meu pai fez questão absoluta-embora separado da minha mãe- de entrar de braço dado com vó Nina. Eles ficaram algum tempo na porta, posando para o flash dos fotógrafos e esperando os primeiros acordes da Marcha Nupcial. Era assim, pelo menos, que tinham ensaiado, mas na última hora o músico contratado pelo noivo saiu atrás do órgão e pegou o sax pra executar o Choro para Nina. Ver minha avó entrar na igreja ao som de uma música que Henrique tinha composto especialmente para ela, deixou todo mundo balançado. Muitas mulheres olhavam para o teto da igreja, na tentativa desesperada e inútil de evitar que as lágrimas transbordassem e borrassem a maquiagem. Por sorte, minha mãe estava do meu lado e me emprestou o lenço que trazia na bolsa. Meu pai ficou do lado dela, como se ainda formassem um casal; apesar dos olhos vermelhos, ele não aceitou o lenço e usou o velho argumento machista de pôr a culpa num cisco. Até padre Lázaro se emocionou e preferiu não falar muito para não tropeçar nas palavras. Lembrou que vó Nina ficara viúva muito moça e criara a filha sozinha, sem a ajuda de ninguém, contando apenas com a venda de doces, salgadinhos e outras delícias - como o inesquecível caldo de feijão temperado- que fazia sob encomenda. Fez questão de registrar, ainda, que aquela mulher

admirável tinha encontrado tempo pra misturar culinária e compaixão, o que resultou na distribuição de refeições pra famílias carentes e moradores de rua. Pra terminar, padre Lázaro disse a Henrique que ele era um home de sorte e pediu-lhe que cuidasse bem da minha avó. O pedido, na verdade, era uma ordem e veio acompanhado de uma ameaça: -Ai de você se a minha amiga Nina não for feliz pra sempre, heim! Confesso que fiquei um pouco apreensiva, pra não dizer apavorada, pouco antes da bênção das alianças: a tarefa de transportá-las até o altar, sobre uma almofada de veludo, coube ao estabanado do meu irmão.

Xandi só anda correndo pela casa, vive acertando a quina dos móveis e tem sempre um galo novo na testa. Mas dessa vez ele resolveu se comportar e atravessou a igreja sem patinar no tapete, nem tropeçar nos degraus, nem deixar cair as alianças. Tirando a língua que mostrou para os fotógrafos, o garoto alcançou o altar sem cometer uma só gafe. Quem não o conhecesse poderia até pensar que ele é civilizado. Logo em seguida, padre Lázaro fez uma pergunta que eu só tinha escutado em casamento de filme e de novela: -Se alguém souber de algum fato que possa impedir esta união, que fale agora ou se cale para sempre. Imediatamente, olhei para o Xandi, temendo que ele deixasse escapar alguma gracinha. Meu irmão, porém, estava distraído e contemplava de boca aberta a imagem de Cristo morto num dos altares laterais. A pergunta era apenas uma formalidade, tanto assim que a maioria dos padres pula essa parte da cerimônia, daí a surpresa geral quando alguém quebrou o silêncio com um espirro tão inoportuno quanto escandaloso. Todas as cabeças se voltaram na direção dos primeiros bancos, Era lá, perto do corredor, que estava sentada a vítima do suposto resfriado: uma mulher de 40, talvez um pouco mais, que tentava parecer mais jovem misturando estilos e tendências: cabelo preso num coque do século 19 e uma bolsa de oncinha a tiracolo. Não tive dificuldade pra identificar a perua invejosa que tinha esguichado comentários venenosos sobre minha avó no salão da Salete. Ela mesma: Matilde! E, na verdade, não estava resfriada: pelas minhas contas, ela soltou sete espirros seguidos, sinal de que devia sofrer de alergia -talvez fosse alérgica à felicidade alheia. Bem-humorado, padre Lázaro concluiu que uma crise de espirros não é motivo pra interromper um casamento. Passou, então, à bênção das alianças e perguntou aos noivos se era de livre e espontânea vontade que eles recebiam um ao outro e prometeriam ser fiéis na alegria e...- não teve tempo de falar tristeza.

Henrique estava tão aflito que interrompeu o padre pra dizer que sim, ora essa, tudo o que sempre quis na vida foi se casar com a Nina. Não esperou o fim da cerimônia pra dar um beijo na noiva. E foi aplaudido de pé. O casarão onde funciona o asilo da prefeitura tinha ares de mal-assombrado:

paredes descascadas, cheiro de mofo, ratos no sótão e goteiras constantes, mesmo quando não estava chovendo. Quem dirigia a instituição era uma tal de Zoraide. Dirigia? O verbo mais adequado é explorava. A mulher não só se apropriava das doações feitas pelas famílias e escolas, como reagia às eventuais reclamações e protestos cortando a tevê, a água quente e o banho de sol dos internos. Mas isso não era tudo. Além de usar o cargo em benefício próprio, a ex-diretora chefiava uma rede de corrupção e contrabando que acabou descoberta pela polícia e resultou na prisão de todos os funcionários envolvidos. A primeira providência da vó Nina, ao aceitar o convite pra dirigir a clínica, foi retirar a placa pendurada:

 

                               ASILO MUNICIPAL

                     Favor faze silêncio e respeitar

                               o horário de visitas

 

Asilo é uma dessas palavras que não sabem viver sem companhia. Quando têm ao lado, por exemplo,um adjetivo como "político", ela se torna politicamente correta e representa, pra quem é perseguido no próprio país, a oportunidade de viver livre e dignamente em outras terras. Sozinho, porém, o substantivo deixa-se contaminar pela melancolia e, muitas vezes, transforma-se numa espécie de depósito onde os velhos ficam abandonados ou esquecidos. Não bastassem as dificuldades financeiras, a maioria dessas instituições sofre de falta de originalidade na escolha do nome.Quem é que pode se sentir à vontade num lugar chamado Lar dos Idosos, Casa de Repouso ou Recanto dos Velhinhos? Vó Nina pediu socorro à minha imaginação: -Se essa casa fosse um livro, Joana, que título você daria à história? Eu achava que essa pergunta deveria ser respondida pelos próprios moradores, mas mesmo assim prometi pensar no assunto e tentei imaginar o casarão como um cenário. Reparando bem, entre os internos há uma galeria de personagens com perfil psicológico pra virar protagonista de romance. Bené e Honório, por exemplo.Essa dupla divide o mesmo quarto e, por incrível que pareça, a mesma teimosia. Ambos se julgam profundos conhecedores de futebol e vivem brigando pra mostrar quem se lembra de mais detalhes sobre a história das Copas do Mundo - em especial, da Copa de 1950, quando o Brasil perdeu do Uruguai por 2 a 1 em pleno Maracanã. Mas o esporte preferido deles é a troca de provocações. Outra que parece saída das páginas da ficção é Alive, uma baixinha de olhos arregalados e tranças escorridas pelos ombros. Por causa do nome, da altura e das tranças, ela dá a impressão de que trapaceou o tempo e encalhou pra sempre na infância. O que mais aprecia é devorar jujubas e brincar de boneca- a coleção fica exposta em cima da cama e obriga Alice a dormir espremida. Não

que isso a incomode: a maternidade exige sacrifícios. Todas as bonecas têm nome e são tratadas como filhas,ganhando jujuba ou castigo dependendo do comportamento.E o castigo não muda:

- Quem não me obedecer - diz Alice, toda noite, depois de beijar boneca por boneca - vai dormir sozinha, debaixo da cama. É lá que o bicho-papão gosta de jantar. Também não posso deixar de citar uma magrinha chamada Emiliana. Mais conhecida como Mila, ela sorri apertando os olhos, não sabe falar sem mexer os braços e conta casos deliciosos sobre os concursos de beleza do século passado, quando o sonho de consumo de toda garota era virar miss universo. A simpatia da Mila não evitou uma certa hostilidade das colegas. Acontece que ela pertence à fechada tribo das mulheres que comem de tudo - comem e repetem - sem engordar uma só grama. E, sem querer, deixa revoltadas as gordinhas que fazem queda-de-braço com o ponteiro da balança. - Por que elas me viram a cara? - Mila queixava-se pelos cantos. - Eu não tenho culpa de ser magra! - Isso é inveja! - dizia Adalgisa. - A gente tem de gostar é de quem gosta de gente. Adalgisa é alta, desengonçada e não transpira uma gota de vaidade. Tem poucos dentes e uma cicatriz atravessada na boca, uma herança do tempo em que morava na rua. Um dia, brigou com um pivete que queria lhe roubar o gato de estimação e foi ferida por um caco de garrafa. O golpe abriu uma fenda que ia do nariz até o queixo e empapou o vestido de sangue, mas nem por isso ela entregou o bicho que lhe servia de amigo e travesseiro. E pensar que era um bicho de pelúcia... Faz muitos anos que vó Nina conhece Adalgisa. Quando começou a distribuir refeições aos moradores de rua, minha avó deparou com uma garota na fila e decidiu levá-la para casa. Deu-lhe comida, ensinou-lhe as letras e os números e até marcou consulta com um especialista pra saber se a medicina poderia apagar o relevo daquela cicatriz. A solução seria operar Adalgisa, mas ela não via nada de errado com o próprio rosto e mordeu a mão do médico na hora do exame.

Meses depois de se mudar para a casa da vó Nina, Adalgisa desapareceu sem deixar rastro e nunca mais mandou notícia. As duas só voltaram a se encontrar recentemente, numa tarde em que, por acaso, minha avó passou na frente do asilo e avistou uma mulher na varanda, com uma cicatriz vertical na boca e um gato de pelúcia no colo. Adalgisa também reconheceu minha avó e saiu correndo até a grade pra pedir socorro e contar, sussurrando às pressas, as atrocidades cometidas pela então diretora do asilo. Talvez as denúncias não passassem de exagero ou até mesmo de invenção - tantos anos vividos na rua, enfrentando fome, solidão e violência, deixam qualquer um paranóico. Mas e se a tal de Zoraide fosse, de fato, uma megera corrupta?

Pra descobrir a verdade, vó Nina bancou a desmemoriada, morou por alguns dias no asilo e concluiu que a diretora era uma unanimidade: todos se queixavam de maus-tratos e sonhavam ver Zoraide atrás das grades. Quando o sonho se realizou, minha avó foi convidada a dirigir o asilo e recebeu o apoio imediato de Bené, Honório, Alice, Mila, Adalgisa... Eu poderia passar páginas e páginas falando desses e de outros internos, mas pela amostra dá pra perceber que eles têm personalidades completamente diferentes. Vó Nina soube administrar essa biodiversidade com habilidade e paciência, podando os egos mais espinhentos e envolvendo todos os moradores na reforma do casarão. O primeiro desafio era angariar fundos para a obra. Em quanto tempo sairia à verba prometida pela prefeitura? Minha avó se movia com dificuldade pelos labirintos da burocracia e achou mais fácil arregaçar as mangas, organizando bingos, rifas e quermesses pra comprar o material de construção. As festas beneficentes serviram, ainda, para aproximar os internos. Livres do excesso de calmantes e da tirania de Zoraide, eles ganharam fôlego de adolescentes e dividiram as tarefas de pregar os tacos soltos do assoalho, tapar as rachaduras, pintar as paredes, desentupir as calhas, consertar o telhado, lavar a caixa-d'água, calar o pinga-pinga das torneiras e o rangido das portas, desempenar as janelas, exterminar os ratos e os cupins, roçar o mato do quintal, cultivar uma horta e - haja fôlego! - separar o lixo orgânico do reciclável. Em poucos meses, o asilo perdeu a fama de mal-assombrado e transformou-se numa residência digna. Podia não ser exatamente um lar – doce – lar, mas os moradores se orgulhavam de viver ali e não sentiram necessidade de batizar a casa. Na placa pendurada na entrada, eles escreveram simplesmente Bem vindo.

Da igreja, seguimos para o casarão, onde os internos prepararam uma festa surpresa. E que festa! Os noivos foram recebidos com tapete vermelho e fogos de artifício, as janelas ganharam cortinas de renda, havia vasos de flores naturais em todas as mesas do quintal. Não sei que produto milagroso esfregaram no assoalho, mas fiquei com a sensação de caminhar sobre um espelho... Ainda bem que o meu vestido não era curto! A fila de cumprimentos fazia ziguezague pela sala e se arrastava lentamente; na hora de abraçar os noivos, a maioria dos convidados improvisava discursos, rememorava histórias da idade da pedra, cochichava receitas afrodisíacas pra quebrar a rotina e transformar o dia-a-dia numa interminável lua-de-mel. Acumular as funções de neta e madrinha obrigou-me a ficar ao lado da vó Nina, portanto não tive como escapar de todos aqueles beijos melados e tapinhas nas costas. Exagero à parte, acabei de divertindo com a galeria de tipos bizarros, estranhos, ingênuos, gozados, sinistros, afoitos, caretas, quadrados, enfim, minha memória se abasteceu de feições e expressões que um dia pretendo utilizar em contos e romances. Teve uma figura, no entanto, que não me despertou nenhuma simpatia: estou falando, mais uma vez, da Matilde.

Não satisfeita em espirrar durante o casamento, ela teve a audácia de se pendurar no pescoço do Henrique para tatuar-lhe dois beijos estalados, um em cada bochecha. Detalhe: a perua nem constava na lista de convidados! Uma noiva de sangue quente teria armado o maior barraco, mas vó Nina optou pela elegância e não valorizou o incidente. Fechei a cara quando Matilde me deu um abraço de urso. Pior, porém, foi o que ela me soprou no ouvido: - A gente precisa conversar. Você está me devendo, garota. Com que direito aquela dondoca, que eu conhecera à tarde no salão da Salete, tinha a cara-de-pau de me cobrar uma dívida? Aliás, que dívida? Eu, hein! Aleguei que havia algum engano, mas ela me deixou falando sozinha e sumiu em direção ao quintal. João estava ao meu lado e notou a minha aflição: - O que é que essa dona queria com você? - Nem desconfio - tentei achar graça. - Ela deve ter me confundido. Após o último cumprimento da fila, corri pra perto da Salete e falei sobre a cobrança da Matilde. - É uma das minhas freguesas mais complicadas - disse Salete. - Um poço sem fundo de frustrações. Fiquei sabendo que Matilde era solteirona, como se costumava dizer no tempo em que as palavras não carregavam o rótulo de politicamente incorretas. Salete me informou que a fulana tinha sido noiva e desfilado de véu e grinalda pela catedral lotada, ao som de uma valsa vienense executada por uma orquestra de violinos. O casamento, porém, não se consumou. No clímax da cerimônia, justamente na hora de dizer sim, eu aceito esta mulher como minha legítima esposa, o noivo começou a gaguejar e desabou no tapete antes que pudesse afrouxar a gravata. Foi transportado às pressas para o pronto-socorro e, a sós com o médico, confessou que estava muito bem, obrigado, o desmaio não passara de uma encenação pra sair da igreja sem ser apedrejado e continuar desfrutando do paraíso dos solteiros. Matilde não chegou à loucura, mas andou passeando pelas redondezas. Ficava o dia na cama, sem forças pra tirar a camisola ou abrir a janela, assistindo a filmes de terror na tevê e se entupindo com o bolo do casamento - guardado dentro do freezer que recebera de presente. Só voltou a pôr os pés na rua depois de devorar a última fatia.

Os pais respiravam aliviados quando Matilde abandonou a clausura, mas ela só se animava a sair de casa pra ir a festas de casamento.Não que tivesse superado o trauma. Convidada ou não, comparecia ás recepções com o único objetivo de alcançar o buquê lançado pela noiva - como se houvesse fundamento na lenda de que essas flores atraem pretendentes. Matilde era muito baixa, no entanto, pra enfrentar rivais; alem disso, estava tão inchada de bolo que pulava com dificuldade e perdia todas as disputas. Na tentativa de

entrar em forma, matriculou-se numa escolinha de futebol e treinou na posição de goleira.

-Tudo o que ela conseguiu - concluiu Salete, esforçando-se para conter o riso - foi destroncar um dedo.

A conversa parou por aí. Apolo chegou pedindo licença, puxou Salete pelo braço e foi apresentá-la a uns amigos. Dei uma olhada ao redor, á procura de João, mas quem estava ás minhas costas era justamente Matilde.

- Espere aí - ela me disse, quando comecei a me afastar –Tenho uma surpresinha pra você.

Pensando bem, por que fugir? Era melhor enfrentar Matilde e acabar de vez com aquele tormento. Busquei inspiração na elegância de Vó Nina:

- A senhora está falando comigo?

Ela ignorou a pergunta. De cabeça baixa, enfiou a mão na bolsa de oncinha e tirou lá de dentro uma revista... De palavras cruzadas! Lambeu os dedos e folheou com fúria até encontrar a página. Fez a leitura em voz alta:

- Matilde vai engasgar com a própria língua.

A frase que eu tinha escrito no salão da Salete! Coração disparado, permaneci em silencio pra saber o que Matilde pretendia, Ela me elogiou com um deboche:

- Gostei da sua letra. Tão redondinha!

Olhei para a porta da sala e acenei como se houvesse alguém me chamando.

- Eu tenho de ir - desculpei-me.

- Ainda não terminei - Matilde deteve-me pelo braço. - Aliás, isso é só o começo;

- A senhora está me apertando.

Ela me soltou e mostrou os dentes. Não descobri se era uma careta ou um sorriso.

- Queria lhe dar os parabéns, Joana. O seu poder é impressionante.

- Poder? - ergui as sobrancelhas, fazendo-me de desentendida.

- De dar vida as palavras! Foi só você escrever uma frase que eu disparei a tossir. Quase morri de falta de ar. Cuspi a única explicação que consegui improvisar:

- Tenho a mania de anotar os meus desejos. Naquele momento, queria que a senhora parasse de falar mal da minha avó. Foi por isso que escrevi essa frase. O que aconteceu, em seguida,não passou de coincidência.

Matilde tornou a me segurar, Dessa vez, apertou mais forte.

- Você acha que eu sou idiota?

- Quer me soltar? Meu braço vai ficar roxo.

- Pra você ver o que é bom... Quando comecei a tossir, lá no salão, vocês me deram tantos tapas que fiquei com as costas cheias de hematomas.

Talvez fosse melhor buscar o entendimento. Respirei fundo e mudei de tom.

- Tudo bem, não vamos brigar. A senhora me desculpe pelo mal-entendido.

- Não estou aqui para lhe cobrar desculpas - ela pousou a mão no meu ombro. - o que eu quero é um pequeno favor.

Nesse instante, minha avó subiu num tablado que fica perto da janela e avisou que ia jogar o buquê. A sala foi invadida por uma multidão de mulheres de braços erguidos.

Disputar o buque da noiva é um esporte divertido pra todas as idades, não importa que a vencedora ainda seja nova pra se casar. Eu adoraria jogar esse jogo - uma espécie de beisebol pra atletas solteiras - e guardar de lembrança as flores atiradas pela minha avó.

Matilde porém não deu sossego :

- Você pode satisfazer o maior desejo da minha vida - ela tirou uma caneta da bolsa de oncinha. - Basta anotar a frase que eu vou lhe ditar.

Quando eu disse que não gostava de fazer ditado, Matilde estalou os dedos e espetou o indicador no meu nariz. Fiquei vesga ao olhar para aquela unha comprida , com esmalte prateado e formato de punhal.

- Se você se recusar, Joana Dalva, eu subo naquele tablado e espalho pra Deus e o mundo que a neta da noiva realiza milagres.

- Que absurdo! - forcei um riso. - Ninguém é doido de engolir uma história dessas.

- Será que não? O queixo da mulherada vai cair quando eu mostrar o que está escrito na revista e contar que, por causa de uma frase, você quase me asfixiou.

Ceder á chantagem da Matilde ou permitir que ela fizesse um escândalo e estragasse o casamento da minha avó? SEM saber qual é a melhor atitude, procurei ganhar tempo:

- O que a senhora quer... Queria que eu escrevesse?

- Uma frase bem simples: Matilde vai agarrar o buque da noiva; Mas como tem gente que pensa pequeno! Em vez de pedir um marido carinhoso ou um amante incandescente, a mulher se deixa levar pela superstição e aposta na hipótese de que um ramo de flores serve de passaporte para o casamento.

Tamanha ingenuidade me deu uma idéia:

- Eu não tenho papel. Posso escrever na revista?

Só havia uma maneira de escapar á chantagem : arrancar e rasgar á pagina onde eu tinha escrito que Matilde ia engasgar com a própria língua. Mas a mulher não era assim tão ingênua. Ao perceber a minha intenção, ela guardou a revista na bolsa e me entregou um lenço de papel. Também me deu um ultimato:

- Você tem dez segundos para atender o meu pedido. Nove, oito, sete...

O coro tinha começado a contagem regressiva para o lançamento.

Vó Nina estava de costas para a platéia e balançava o buque para cima e pra baixo, ao ritmo das palmas e dos números. Não havia mais tempo para hesitação. Sem pensar nas conseqüências do meu gesto, peguei a caneta e resumi a frase:

 

Matilde pega o buquê.

As flores decolaram com velocidade, passaram zunindo pelos braços erguidos, fizeram uma curva por cima do lustre e pousaram como um bando de pombos-correio amestrados nas mãos trêmulas da Matilde. Ela recebeu os aplausos com uma expressão de falsa surpresa e saiu exibido o troféu pelos quatro cantos do salão.

A proeza foi suficiente para atrair os olhares masculinos. Por um instante, Matilde roubou a festa e atiçou os hormônios dos convidados mais carentes. Muitos se inclinavam pra beijar-lhe a mão, oferecer-lhe uma taça de vinho, soprar-lhe convites secretos no ouvido.

Os admiradores mais entusiasmados era Bené e Honório, cada um puxando Matilde para um lado.

- Eu vi primeiro é comigo que ela vai dançar.

- Mas você mal consegue andar direito!

- Posse dançar a madrugada inteira e ainda tenho fôlego para quebrar a sua cara.

Enquanto os demais internos se divertiam com a briga, Salete veio me perguntar como Matilde alcançara o buque. Contei, então que eu tinha sido pressionada : se me negasse a escrever a tal frase, a mulher era capaz de estragar a festa.

Salete ficou meio pensativa e me deu um conselho sombrio:

- Muito cuidado, Joana. Na ânsia de salvar essa festa, você pode destruir a sua vida.

 

A Vênus tímida

O professor de Matemática não nasceu com a beleza do Apolo, longe disso, mas tem o carisma e a inteligência de uma divindade grega – e, por coincidência, chama-se Dionísio. Bisbilhotando a internet, entrei em alguns sites sobre mitologia e descobri que a fabricação do vinho é atribuída a esse deus, conhecido como Baco na mitologia romana. Meu professor também é apaixonado por uva e todo dia, na hora do intervalo, toma um copo de suco na cantina. Mas há outros pontos em comum entre os dois. Guardadas as devidas proporções, acho que o Dionísio mortal herdou do deus xará a paixão pela festa, o dom da música e uma certa predisposição para o deboche. As aulas do Dionísio são comédias que terminam com aplausos e assobios. Não sei dizer se o teatro é uma ferramenta para o ensino da Matemática ou se os números apenas servem de pretexto para o sucesso do espetáculo. Mas que importa? O fato é que a gente sempre sai da aula com a matéria na cabeça e uma música nova na ponta da língua: Dionísio gosta de pegar uma melodia conhecida e enxertar outra letra, de própria autoria, muitas vezes melhor que a original, para facilitar a memorização das fórmulas e teoremas. A única coisa que tira o humor do professor de Matemática é conversa paralela na hora da explicação. Quando está expondo a matéria, ele exige silencio mortal e se transforma num bode feroz se alguém se atrever a desgrudar os olhos do quadro. E o pior é que, nessas ocasiões a turma inteira é punida – em geral, com uma prova de arrasar. Não é somente por meio de provas que Dionísio avalia a turma. Quase toda semana, ele nos traz um exercício do tipo quebra-cabeça e promete um ponto extra pra quem chegar à resposta. Ontem, porém, o problema estava tão complicado que dava direito a um prêmio especial: quem encontrasse a solução ganharia dois pontos e um lanche grátis na cantina!

Dionísio sentou-se atrás da mesa e começou a fazer chamada. Com os neurônios ocupados, alguns garotos se distraíram e forçavam o professor a fizer o mesmo nome duas ou três vezes. Está cientificamente comprovado que o cérebro masculino só dá conta de realizar uma atividade de cada vez... e olhe lá! Mas foi uma garota, pra minha surpresa, quem demorou mais tempo a responder “presente”. Quando Dionísio chamou o nome dela, imaginei que tivesse se enganado: não havia, na turma, nenhuma Maria Beatriz. Ele se viu obrigado a falar mais alto, acrescentando o sobrenome e dando uma olhada panorâmica pela sala. Foi então que avistou, lá na última fila, com os braços cruzados e a cabeça baixa, uma morena de olhos fundos, cabelo preso numa trança e um punhado de

sarda nas bochechas. - É você? – perguntou Dionísio. Ela confirmou com a cabeça. Percebendo a timidez da novata, Dionísio interrompeu a chamada e dirigiu-se ao fundo da sala pra puxar conversa. - Seja bem-vinda, Maria Beatriz. Você gosta de Matemática? Dessa vez, a garota respondeu com um sorriso. Dionísio apontou para o quadro. Toda semana, eu trago um desafio novo para exercitar a criatividade. Por que você não tenta... Abandonando a pergunta pela metade, ele pegou uma folha de papel sobre a carteira de Maria Beatriz e ficou um tempão alisando a barbicha pendurada no queixo. - Faz quase vinte anos que eu dou aulas – Dionísio sacudiu a folha de papel – e nunca vi um modo tão simples e engenhoso de resolver este problema. Virou-se para Maria Beatriz: - Será que você poderia ir lá na frente e transcrever a solução no quadro, por favor? Enfrentar uma turma desconhecida não é tarefa fácil pra ninguém, ainda mais para uma novata. O convite deixou Maria Beatriz vermelha e parece que acendeu as sardas das bochechas. Mas esse não foi o único efeito colateral da timidez. Na hora de se levantar, a coitada esbarrou na própria mochila, pendurada no encosta da carteira, e esparramou uma papelada pelo chão: livros, cadernos, agenda, folhas soltas e até o RG.

Este é o tipo de acidente que, em condições normais de temperatura e pressão, serviria de pretexto para um coro de vaias. Mas acho que os garotos sentiram dó da novata – ou será que ficaram intimidados diante de uma inteligência incomum? Antes que Maria Beatriz se agachasse, alguns colegas se ofereceram pra recolher a bagunça e pediram que ela fosse até o quadro pra matar a curiosidade geral. Dionísio estava com a razão: a solução ocupava apenas duas linhas e era de uma simplicidade encantadora. Quando a garota terminou de escrever, a turma tinha compreendido tudo. Maria Beatriz voltou às pressas para a carteira, mas continuou sob a mira dos olhares por causa do RG. O documento foi parar nos pés da Danyelle, que não resistiu à curiosidade de conferir a foto e a data de nascimento. - Olhe só, gente – Dany anunciou bem alto. – Vocês acreditam que essa garota faz aniversario hoje? Dessa vez, a turma não teve piedade e cantou “Parabéns pra você” com direito a bis e assobios. Os colegas aproveitaram o clima de desta e organizaram um fila pra beijar as bochechas em brasa da aniversariante. Dionísio foi o ultimo da fila e reforçou a promessa: - O seu lanche, hoje, é por minha conta. Vamos fazer um brinde com suco de uva!

Novata sofre! Na hora do intervalo, Maria Beatriz foi cercada pelas colegas e praticamente arrastada até a cantina. Começou, então, um interrogatório. Qual o seu telefone e e-mail? Tem namorado? Irmão mais velho? Já beijou na boca? Sofre de TPM? Pai e mãe vivos? Separados? Algum piercing ? Tatuagem? O que faz nos fins de semana? Zonza no meio de tantas perguntas, ela revelou que era filha única, morava perto da escola e quase toda noite, não apenas aos sábados, ficava até tarde grudada ma internet. Talvez fosse dizer mais alguma coisa, mas Dionísio apareceu na cantina e tomou conta da conversa.

- Maria Beatriz é um nome muito comprido - ele disse. – Você prefere recitar o nome completo principalmente quando está enfezado.

- Muito bem, Bia - Dionísio espiou por cima do balcão. - O que é que você vai querer?

- Não sei. Hum... Tanto faz!

- Eu acho que "tanto faz" está em falta. Que tal um suco de uva?

- Pode ser.

-E qual o salgadinho? Empada, quibe, pastel?

-Qualquer coisa. Eu não estou com muita fome.

- “Qualquer coisa" de presunto e queijo?

Dionísio pediu um sanduíche natural e , pra variar, um copo duplo de suco de uva. Bia disse que queria o mesmo, mas o suco podia ser simples. Notei que ela mastigava lentamente e conclui que aquilo era um truque para se proteger dos colegas paparazzi: enquanto mantinha a boca cheia, não precisava falar e se expor.

De volta à sala, Bia continuou calada e só teve coragem de se manifestar - erguendo o dedo trêmulo - pra responder " presente". Foi uma das primeiras a se levantar quando o sinal anunciou o fim da aula, mas, na pressa de ir embora, deixou pra trás um livro.

O pequeno volume caiu aberto e ficou jogado no meio do caminho, como um bicho indefeso que move as patas no ar e não sabe se desviar sem ajuda. Os colegas saíram da sala em disparada e encheram as páginas com pegadas de tênis. Depois de ver a Bia decifrar um intrincado enigma matemático, eu imaginava que aquelas folhas estivessem recheadas de formulas. O que encontrei no entanto, foi um poema de Fernando Pessoa, que assinou estes versos com o nome de Álvaro de Campos :

O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.

O que há é pouca gente para dar por isso.

Agachada diante do livro, fiquei me perguntando se o poeta estava certo. Será que a Vênus de Milo, uma estátua de quase 2 metros, tem o mesmo valor estético de uma formula criada por Isaac Newton? Qual a fronteira entre arte e ciência? Há como inventar, digamos, uma narrativa matemática? Os cálculos de uma equação contem suspense e mistério?

Foi perda de tempo correr atrás da Bia. Chegando ao portão, olhei para os dois lados da rua e nem sinal da apressadinha. Estava prestes a guardar o livro na mochila quando achei um endereço na última página. Por sorte, era perto da minha casa.

O prédio fica atrás de um muro alto, protegido por cerca elétrica, e tem uma guarita estrategicamente construída ao lado da entrada da garagem subterrânea. A janela da guarita estava aberta, mas o porteiro preferiu usar o circuito interno de tevê. Sorri para a câmera e falei interfone instalado na parede:

- Vim entregar um livro que a Maria Beatriz esqueceu na escola.

O porteiro ligou para o apartamento da minha colega e , dali a instantes disse que eu podia subir. Aleguei que não era preciso só queria mesmo entregar o livro, mas ele já havia aberto o portão e acrescentou que não estava autorizado a receber encomendas. Uma questão de segurança. Ordens do síndico.

O elevador ignorou o meu comando e desceu para a garagem no subsolo. Foi até lá pra buscar um homem gordo e suado, numa das mãos uma pasta de couro e na outra um bolo de aniversário. As treze velas não deixava dúvida: eu estava diante do pai de Bia. O cara tinha ombros largos, mãos peludas e um bigode meio antigo que compensava um principio de calvície. O timbre da voz era de um móvel arrastado:

- Faça o favor de apertar o 9.

- Já apertei - eu disse. - estou indo para a sua casa.

A porta do elevador se fechou. O sujeito largou a pasta no chão e me examinou de cima a baixo :

- Você é a ...

- Joana Dalva. Estudo com a sua filha, a Bia.

- Maria Beatriz - ele me corrigiu. - Um nome tão bonito... Pra que apelido?

- Desculpe. Eu vim trazer o Álvaro de Campos.

- Quem é esse? Ela não me falou...

- O poeta Álvaro de Campos, um dos heterônomos de Fernando

Pessoa - mostrei o nome na capa do livro. - A Bi... Maria Beatriz esqueceu na escola.

Ele balançou a cabeça e me estender à mão de lobisomem:

- Muito Prazer. Agenor.

Após espremer os meus dedos, tirou do bolso e me entregou um cartãozinho. O nome vinha em letras maiúsculas e, logo abaixo, a profissão : representante comercial.

- Passo o tempo inteiro viajando e só venho em casa nos fins de semana. Mas hoje resolvi abrir uma exceção.

Seu Agenor não usava terno, mas de vez em quando esticava o pescoço - como se estivesse estrangulado por uma gravata imaginária. Ele desceu as pressas do elevador, apertou a companhia e se escondeu no vão da escada.

A mulher que atendeu a porta usava lenço na cabeça e avental na cintura. Tinha o rosto sardento e os olhos fundos da Bia, mas mesmo assim fiquei na dúvida se era dona da casa ou faxineira.

- Vamos entrar - ela me convidou.

-Outra hora. Estou com um pouquinho de pressa...

- Filha! - ela gritou - a sua colega está aqui.

A dona da casa, pelo visto, era dublê de lavadeira, pois fez careta quando a garota entrou na sala sem sapatos e com meias brancas.

- Obrigada - Bia me disse. - Não precisava se incomodar.

Assim que devolvi o livro , seu Agenor saiu do vão da escada com o bolo de aniversário. A surpresa deixou Bia tão pálida que as sardas sumiram das bochechas. Ela sorriu com os lábios trêmulos e continuou se comportando como se estivesse no estranho ninho da sala de aula : cruzou os braços, baixou a cabeça e ficou procurando no chão um buraco onde se esconder.

Seu Agenor largou a maleta no sofá, botou o bolo sobre a mesa e beliscou o queixo da filha:

- Hora de soprar as velinhas!

A mulher foi até a cozinha e voltou com uma caixa de fósforos.

Achei que não devia participar daquela comemoração em família, mas seu Agenor fechou a porta antes que eu pudesse sair.

Uma das paredes da sala estava tomada de quadros : paisagens de montanhas que pareciam mover-se ao ritmo das ondas do mar, naturezas-mortas que davam água na boca, retratos de garotas com olhos aflitos e cabelos soltos. Durante o " Parabéns pra você", dei um passo em direção a parede e descobri que o autor era o mesmo: as telas levavam a assinatura de um tal de "c". Quem seria aquele artista discreto que se escondia atrás de uma letra – e ainda por cima, minúscula?

- Vocês já almoçaram? - perguntou seu Agenor, assim que Bia soprou as velas.

-Ainda não - disse a mulher.- Mas o almoço já está pronto.

-Então, pode servir, Aparecida - ele decidiu. - O bolo fica para a sobremesa.

Enquanto ela arranjava os pratos e talheres, seu Agenor sentou-se no sofá e tirou da maleta uma caixinha de veludo.

-Para você, Maria Beatriz. Herança da sua avó!

Bia abriu a caixinha com os dedos hesitantes e botou na palma da mão uma medalha presa a um alfinete que lembrava um clipe.

- O que é isso? Parece um brinco...

A mãe da Bia parou de por a mesa pra explicar p presente:

-É um broche, filha. As mulheres, antigamente, usavam para enfeitar os vestidos. Penduravam na gola ou na altura do peito.

-Obrigada pai, - disse Bia. - Vou guardar com carinho.

- Guardar? Então você não gostou?

- Claro que gostei. Só que... Sei lá. Será que combina com as minhas roupas?

- O ouro nunca saiu de moda.

- O que eu quero dizer...

- Depois você diz. Agora, experimente o broche.

- Mas eu nem tirei o uniforme.

-Vamos lá, minha filha. Não quero brigar com você justamente no dia do seu aniversário;

Não sei traduzir com precisão a troca de olhares entre mãe e filha; Insegurança? Medo? Pânico? Com a ajuda da dona Aparecida, Bia espetou o broche na camisa e sentou-se diante do prato.

- Viu só? Não doeu nada - seu Agenor sorriu pra mim. - Ela não ficou linda, Joana Dalva?

Concordei e aproveitei pra me despedir:

- Bom, eu já vou indo. Tô meio atrasada.

-Nem pensar - disse seu Agenor. - Você almoça com a gente.

- É melhor deixar pra outro dia. Nem avisei a minha mãe.

-O nome dela.

-Da minha mãe? Sônia.

-E o telefone da sua casa?

Quando dei o número, seu Agenor virou-se para a mulher:

- Ligue para a dona Sônia e diga que Joana Dalva é nossa convidada.

- Obrigada, seu Agenor - tentei resistir. - Mas tenho mesmo de ir embora.

Não podendo apertar o pescoço do pai, Bia concentrou-se em torcer o guardanapo e levantou-se num ímpeto, como se estivesse determinada a virar literalmente a mesa e quebrar pratos e copos.

O que saiu, porém, foi um sussurro pífio:

- Pega leve, papai. Ela não quer... Não pode almoçar.

Seu Agenor ignorou o comentário e despedaçou um palito.

- O que é que você está esperando, Aparecida? Eu já não disse pra fazer a ligação?

Dona Aparecida pousou no meu braço a mão seca e maltratada cheia de calos, manchas e cutículas. Há quanto tempo, meu Deus, aquela mulher não visitava a manicure nem passava nem creme hidratante?

-Por favor, Joana! - ela praticamente implorou. - Você vai gostar do meu tempero.

Eu não tinha a obrigação de tolerar a arrogância, a empáfia e a falta de sensibilidade daquele senhor feudal que tratava a mulher e a filha como escravas. Comer ao lado de um cara desses pode provocar indigestão, mas senti que a minha recusa tornaria o ambiente ainda mais explosivo e fiz o sacrifício de engolir a raiva.

Liguei pra minha mãe avisando que ia almoçar com uma colega aniversariante e dei a entender que mais tarde, em casa, explicaria tudo com detalhes.

Sentei ao lado de Bia e fui testemunha de uma cena que por pouco não me fez engasgar. Depois de encher o copo e servir o prato do marido, dona Aparecida

pegou o garfo e a faca e partiu o bife que o amo e senhor tinha apontado na travessa.

Como é que uma mulher ocidental e urbana, em pleno século 21, ainda se submete a esse tipo de exploração?

Fiquei tão indignada que quase perdi o apetite. Bia também não estava com fomo e limitou-se a um bocado de salada. A coitada da Dona Aparecida, por sua vez, mal teve tempo de respirar.

Passou o tempo todo correndo da sala para a cozinha e vice-versa, numa frustrada maratona pra cumprir os mandamentos do marido.

Ele reclamou que o suco de laranja estava sem gelo, que o bife tinha pouca cebola,que o feijão precisava de mais tempero e merecia uma pitada de pimenta.

Somente no fim do almoço, após esgotar o estoque de queixas, seu Agenor lembrou-se de perguntar a filha:

-E então, Maria Beatriz, como foi o seu primeiro dia na escola?

Bia estava com a boca cheia e aproveitou para esticar o silêncio.

O problema é que o pai não sabia esperar e repetiu a pergunta num tom acima. Eu não tinha nada que me intrometer, mas quando dei por mim já tinha dito:

- Foi ótimo! O professor de Matemática passou um exercício muito difícil... E só a sua filha encontrou a resposta!

O elogio de seu Agenor foi dirigido ao próprio umbigo:

- Nesse ponto, Maria Beatriz me puxou. Inteligência do pai e timidez da mãe!

Dizer o que, depois dessa?

Na hora da sobremesa, Dona Aparecida, Bia e eu comemos o bolo com amargura. Seu Agenor foi o único que repetiu. Saiu da mesa com o bigode grisalho de glacê e pediu licença para dar um cochilo, pois tinha viajado a manhã inteira pra chegar a tempo de almoçar em casa. Fui embora logo em seguida. Na hora de se despedir, dona

Aparecida desculpou-se "por qualquer coisa". Bia jogou o broche na mesa da sala e me acompanhou até o hall. Na porta do elevador, ela me perguntou meu e-mail.

Toquei a companhia duas vezes, mais ninguém se dignou a atender.

Somente na terceira tentativa ouvi a voz da minha mãe:

-A porta não está trancada.

Tamanho descuido era imperdoável. Não pude evitar a bronca:

-Onde é que já se viu, deixar a casa aberta? E se fosse um ladrão?

-Ah! Quem me dera!

-Como é que é, mãe?

-Estou falando sério. Se eu topasse com um ladrão gentil, juro que não ia reclamar. Pelo menos, ele me faria companhia.

Senti que a conversa seria longa e sentei no sofá. Minha mãe assistia a um filme na tevê e tinha na mão o controle remoto. Procurei justificar o meu atraso:

-Hoje é aniversário da Bia, uma novata da minha turma. Depois da aula,passei na casa dela pra devolver um livro, mas não tive como ir embora sem comer um pedaço de bolo.

-Você está certa - resmungou a minha mãe, olhando para a tevê.- Ir a uma festinha é muito mais interessante que almoçar em casa.

-Que festinha?Só fiquei na casa da Bia porque o pai dele praticamente me obrigou.

-Nenhum problema.Eu já estou acostumada.

-Sem drama, dona Sônia. Por Favor.

Finalmente, ela tirou os olhos da tevê. Respirou fundo e disparou:

-Que razão eu teria pra fazer drama? Só porque você trocou a sua mão por uma colega novata? Ou porque a sua avó e o Henrique,na hora de ir para a lua-de-mel, recusaram a minha carona até o aeroporto? Ou porque o seu irmão não me obedece e só se lembra de mim quando está com fome? Ou porque eu peguei o seu pai e a secretária dele, a tal de Xirlei com x, se beijando no meio da rua, com o sol quente, nem cruzamento da cidade?

Antes que eu dissesse qualquer coisa, minha mão explicou que não estava com ciúme:

- Por mim, o seu pai pode sair com quem bem entender. Eu só acho que ele não precisa ficar por aí, feito um adolescente deslumbrado, se exibindo um público. Ciúme, Mágoa,orgulho ferido... Vá saber o que se passa no coração de uma mulher descasada que encontra o ex beijando uma garota com idade pra ser filha dela! Talvez eu não tinha competência pra discutir a relação dos meus pais, mas mesmo assim me atrevi a dar uma dica pra minha mãe:

- Você ainda é tão nova! Devia pensar em refazer a sua vida.

- Já passei dos 40, filha.

- E dai? A Vó Nina tem 70 e está curtindo a lua-de-mel na Europa.

-É muito diferente. Henrique sempre foi apaixonado pela sua avó; -Quem sabe você também não tem um fã desconhecido? Ou,então um fã-clube?

-Contos de fada - ela sorriu - só acontece nos livros. Quem é que iria se interessar por alguém como eu, com dois...

Ela is dizer "com dois filhos", mas no ultimo segundo mordeu a língua e terminou a pergunta com um suspiro. Fingi que não tinha entendido.

-Aposto que lá na faculdade tem um monte de professores que dariam tudo pra sair com você.

- Quase todos os meus colegas são casados. As poucas exceções disponíveis se encaixam com a teoria de Salete: só servem pra trocar lâmpada e matar baratas. E isso, hoje em dia, eu posso fazer sozinha.

Pensei em argumentar que Salete, depois que começou a namorar Apolo, devia ter abandonado essa teoria. Mas não queria deixar minha mãe ainda mais deprimida e arrisquei uma hipótese:

- E os seus alunos?

Ficou me olhando de boca aberta. Tive de ser mais explicita:

-Todo aluno sofre de paixão platônica por alguma professora.

-Isso só é verdade até o ensino Médio.

-Sem essa! Duvido que você tenha recebido um convite pra sair. Ou um olhar atravessado, uma indireta, um torpedo...

A tevê era um bom refúgio pra escapar da confissão:

- Papo mais fora de hora, Joana. Você está atrapalhando o meu filme...

Olhei para a telinha: propaganda de margarina light.

-Ta no intervalo, mãe. Se você não confia em mim...

Ela mordeu a isca:

- Não é questão de confiança. Mas não houve nada. Quer dizer, só um bilhete.

-Eu sabia!

-Tudo não passou de uma brincadeira. Coisa de Garoto.

-Os detalhes, mãe.

-Não tem muita coisa pra contar. Eu estava participando de um seminário sobre a Idade Média, no auditório da faculdade, e fui convidada a falar sobre Joana d'Arc. Depois da palestra, a platéia me encaminhou algumas perguntas por escrito. E entre elas, havia um bilhete... Um aluno me chamando pra sair. É só isso.

Minha mãe virou-se para a tevê: o filme tinha recomeçado.

- Só isso o quê? - tomei-lhe o controle remoto e abaixei o volume.- Você não contou o final da história!

- A história nem começou. O lipe... - ela pareceu arrependida por ter revelado o apelido do aluno. - Felipe veio falar comigo depois da palestra e pediu meu telefone A insistência foi tanta que acabei dizendo. Mas,como eu previa, ele não me ligou.

-E por que você não liga?

- Não estou com cabeça pra sair com ninguém. Principalmente, com um garoto!

Pegou de volta o controle remoto e aumentou o volume da tevê para assistir as ultimas cenas. Estava com os olhos úmidos, mas isso não tinha nada a ver com a história. O filme era uma comédia.

 

Monstro Inofensivo

Quando tem de fazer uma redação, boa parte dos meus colegas fica travada e não sabe por onde começar. Alguns mascam a ponta dos lápis, outros rasgam folhas de caderno, os mais aflitos ignoram a originalidade e escrevem que era uma vez...

Pra combater a síndrome do papel em branco, a professora Clarice costuma iniciar as aulas mostrando fotos, gravuras e ilustrações que tenham vínculo com o tema proposto e nos ajudem a encontrar inspiração. Os alunos estimulados a participar de um debate que quase sempre provoca muita polêmica e pouco consenso. Mas, no fim das contas, todos se sentem mais seguros pra empunhar a caneta.

A tarefa da ultima aula era fazer uma dissertação sobre o terrorismo. A professora foi até o quadro e pegou a foto de um rapaz coberta com um pano - só apareciam os olhos - e um réptil tatuado no braço.

- O que vocês me dizem - perguntou Clarice - desta imagem?

Danyelle foi a primeira a falar:

- Tão fashion a tatuagem dele! Sempre tive vontade de fazer uma dessas...

A turma não perdoou o elogio ao suposto terrorista. Quando começaram as vaias, Clarice lembrou que vivemos num país democrático e pediu respeito a opinião alheia.

-Mas as vaias - disse Guto- também fazem parte da democracia.

A resposta de Danyelle foi automática:

- Vocês estão é com despeito! Ninguém aqui teria coragem de tatuar uma cobra no braço.

Leninha espremeu os olhos e apontou para o quadro:

-Cobra não lança fofo pela boca.Aquilo é dragão, Dany. Igualzinho ao bicho de pelúcia que ganhei da minha madrinha.

Dragão de pelúcia! Ah, meu Deus... Quando é que a minha amiga vai crecer? Clarice precisou de muita paciência pra não estragar a democracia:

- Acho melhor deixar de lado as considerações estéticas. Além da tatuagem, o que mais vocês dizem a respeito do nosso personagem?

Marcelo levantou o braço e, pra variar, começou o discurso lembrando a função que exerce:

-Como representante da turma, eu queria dar uma sugestão. Acho uma perda de tempo escrever sobre terroristas estrangeiros. Prefiro temas que tenham mais a ver com a nossa realidade.

Clarice enrugou a testa:

-Posso saber como você concluiu que ele é estrangeiro?

- O turbante, ora! Esse deve ser um daqueles malucos que executaram o atentado ao World Trade Center. Vocês sabem, as Torres Gêmeas.

- Você tem certeza - perguntou Clarice - que ele está usando turbante?

-Não entendo moda - Marcelo ironizou. - Mas esse pano na cabeça dele...

-Se você prestar atenção, vai perceber que o pano é uma camisa.

Na verdade, a camisa de um time de futebol. Esse rapaz é brasileiro e pertence a uma torcida organizada.

Marcelo parecia confuso:

-Peraí. Não existe terrorismo no Brasil!

Ela recorreu ao dicionário que estava em cima da mesa:

-Aqui diz que terrorismo é o modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático de terror. E de acordo com a reportagem de onde tirei a foto, o rapaz foi pego com uma bomba de fabricação caseira na entrada de um estádio de futebol.

-Eu pensava - admitiu Marcelo - que terroristas matassem, de uma só vez,centenas, milhares de pessoas.

-E quantas pessoas você acha que morreria se esse sujeito tivesse entrado no estádio e jogado uma bomba na torcida adversária?

Pelo silêncio a turma me deu a impressão de que estava contabilizando os mortos. Marcelo tentou um último argumento:

-Um dia desses, do outro lado do mundo, um fanático religioso foi ao mercado de manhã, justamente na hora de maior movimento, e detonou os explosivos que tinha amarrado no corpo. Eu nunca vi uma tragédia assim no Brasil.

-Tem razão - disse Clarice. - Atentado suicidas não são comuns por aqui. Mas o terrorismo pode assumir muitas formas. Nem sempre se trata de uma ação política para desestabilizar a sociedade, derrubar um governo ou combater minorias étnicas.

Sou suspeita pra elogiar, afinal ele é meu namorado, mas a conclusão do João foi perfeita:

-A guerra do tráfico e os acidentes de trânsito matam mais que qualquer atentado.

Nesse instante, Samir levantou o braço. Descendentes de árabes, ele é apaixonado pelo livro As mil e uma noites e costuma se inspira numa daquelas histórias mirabolantes quando Clarice encomenda uma redação com tema livre. O garoto conhece vários números de mágica, traz sempre uma piada na ponta da língua e tem um talento especial pra fazer imitações - especialmente dos professores.

Habituada ao bom humor do Samir, a turma levou um susto quando ele desabafou:

-A violência está em toda a parte. A culpa não é só dos árabes...

Clarice aproveitou a deixa:

- Nem dos árabes, nem dos judeus, nem dos negros, nem dos índios, nem dos orientais... O problema é que muita gente não sabe conviver com as diferenças.

As aulas de redação são sempre assim: a gente começa falando de literatura e, quando cai em si, está discutindo história, sociologia,filosofia, religião, política

externa e por aí vai. Pensei em acrescentar que o preconceito também atinge outras minorias, como deficientes físicos, homossexuais, os obesos e idosos, mas eu estava meio aflita e não me animei a entrar no debate.

O motivo da aflição era a Bia. Por que uma novata não iria à escola no segundo dia de aula? Tudo bem, qualquer um pode perder a hora ou arranjar uma dor de barriga. Mas as palavras do Samir - "A violência está em toda parte" - não me saíam da cabeça. Senti um aperto no peito ao olhar para a carteira onda na véspera, tinha se sentado a minha tímida amiga. E rezei pra que ela não fosse vítima de nenhum tipo de terrorismo.

O trabalho da minha avó à frente da clínica me dá a oportunidade de conviver com os idosos, por isso me senti a vontade pra escrever sobre preconceito, o desprezo, a exclusão - numa palavra, a violência praticada contra a terceira idade. Fui uma das primeiras a pingar o ponto final, e como a aula de Português era a última, pude sair da escola mais cedo. A pedido da minha mãe, passei na clínica pra buscar o casaco que o desligado do Xandi esquecera por lá no dia da festa do casamento da vó Nina.

Mal empurrei a grade do portão, os moradores me cercaram. Adalgisa era a mais aflita:

-Sua avó já deu notícias Joana? Tenho tanto medo de avião...

-Deixe de ser boba - Mila balançou a cabeça. - Quem vai passar a lua-de-mel na Europa não tem tempo de ficar com frescura...

-Ela já deve ter mandado algum e-mail - eu disse. - Chegando em casa vou dar uma olhada na internet.

- O que eu queria mesmo - confessou Adalgisa -era receber um cartão-postal bem bonito, com uma paisagem branquinha de neve...

-Pois eu pedi a Nina um pouco de neve de verdade - contou Alice.

-Cada uma pior que a outra! - Mila resmungou. - Como é que ela vai carregar a neve?

Alice tinha a resposta pronta:

-Numa caixa de isopor, é claro! - virou-se para a boneca que trazia no colo. - Quero fazer sorvete para você, filhinha, e também para as suas irmãs. Neve da Europa e frutas tropicais... Já pensou que delícia?

Na ausência da vó Nina a clínica era dirigida por Tatiana, uma estudante de Enfermagem que passava o dia cantarolando e estava ensinando dança de salão aos internos.

-Você chegou bem na hora - disse-me Tatiana. - Não quer almoçar com a gente?

Os internos apoiaram o convite e me arrastaram até a sala. O aroma que vinha do refeitório era irresistível,mas acho que minha mãe não iria me perdoar se eu comesse fora de casa dois dias seguidos.

-Fica para a próxima. Só vim pegar o casaco que meu irmão esqueceu.

Tatiana caminhou em direção ao gabinete, mas teve de se deter pra separar uma briga. Bené e Honório - só pode ser! - entraram na sala trocando insultos e

puxando pra cá e pra lá um aparelho de som. Só não saíram no tapa porque Tatiana foi firme:

- Se essa briga não parar agora, vocês vão ter de arranjar outra professora de dança!

A dupla paralisada e devolveu o som para a diretora substituta.

Ela balançou a cabeça.

-É assim que vocês recebem as visitas?

Bené acenou pra mim:

-Me desculpe, Joana Dalva. Esse infeliz está nervosinho porque não sabe dançar.

Honório não deixou por menos:

-Mas como é descarado! A Matilde falou que eu tenho muito mais ginga...

Tatiana tornou a intervir:

-Chega! - esticou o braço. - Os dois para o refeitório!

Mal esperei que eles saíssem da sala pra matar uma curiosidade:

-Essa Matilde é a tal que pegou o buquê da minha avó?

-A própria! - confirmou Tatiana. - Ela dançou com vários internos na festa e virou a cabeça do Bené e do Honório. Os dois passam o dia atrás de mim querendo aprender novos passos para impressionar a Matilde. Ontem à tarde, a mulher voltou aqui e quase provocou um duelo.

-Voltou aqui - estranhei - pra quê?

-Disse que precisava falar com você. Até me perguntou o seu endereço.

Enquanto Tatiana ia até o gabinete pra buscar o casaco do Xandi, eu fiquei me perguntando por que Matilde estaria à minha procura. Mas não achei uma boa resposta.

Tubinho preto e sandálias Havaianas - quem mais, além da Matilde, seria capaz de criar essa salada de estilos? Ela estava diante do meu prédio, sentada nos degraus da portaria, e levantou-se de um salto quando me viu apontar na esquina. Veio caminhando na minha direção e me saudou com falsa intimidade:

-Olá, Joana Dalva! Saudade de você, Querida!

Graças à frase que eu tinha escrito na revista de palavras cruzadas, Matilde pode realizar o sonho de agarrar um buquê de noiva e tornar-se o objeto do desejo de pelo menos dois cavalheiros. Tive a ilusão de que ela estava ali para me dizer obrigada, mas logo percebi que não podia confiar naquele sorriso engomado.

-Nunca dancei tanto, Joana, como na festa de casamento da sua avó! Os moradores do asilo fizeram fila na minha frente.

-Fiquei sabendo que você despertou paixões.

-É verdade - Matilde sacudiu os ombros. - é pena que eles sejam tão velhos...

-Nem tanto. Bené e Honório, por exemplo, esbanjam energia.

Matilde forçou uma gargalhada.

-Aquele dois? Estão caindo aos pedaços. Mal conseguiram acompanhar a música e toda hora me acertavam um pisão.

Aonde é que a Matilde queria chegar? Ela arriscou um pedido:

-Meus pés ficaram cheios de bolhas. Você não pode fazer uma frase para me dar alívio?

Não escondi a minha irritação.

-Acho melhor você comprar um band-aid.

Comecei a subir a escada do meu prédio, mas Matilde me barrou a passagem.

-Foi só uma brincadeira. Não precisa de estressar.

-Dá pra sair da minha frente?

- Não foi pra babá de velho que peguei aquele buquê. Estava pensando em conquistar alguém mais novo.

-Se você me der licença, eu vou chamar o porteiro.

-De preferência, bem mais novo. Da idade - ela mordeu os lábios - do namorado da Salete.

A ousadia de Matilde me deixou boquiaberta. Precisei de segundos pra me refazer:

-Por acaso você está insinuando... Não, eu acho que entendi errado!

-É isso mesmo - ela tirou um fiapo de linha do tubinho. – Eu achava que o amor á primeira vista era coisa de novela, mas mudei de opinião quando botei os meus olhos no seu professor de História. Quero me casar com o Paulo e conto com sua ajuda, Joana Dalva.

Foi a minha vez de dar risada:

-Você está maluca! Eu não mando no coração de ninguém.

-Mas que modéstia! Uma garota tão poderosa...

-Mesmo que tivesse esse poder, eu jamais rabiscaria uma só palavra pra separar o Apolo da Salete. Não quero ver a minha amiga sofrendo.

-Nem eu! - declarou Matilde, com a cara mais cínica do Universo. - Também gosto da Salete e não estou a fim de prejudicar a minha manicure preferida. Pra evitar dor-de-cotovelo, você vai escrever uma frase que agrade a todo o mundo... Que tal “Paulo se casa com Matilde e Salete se apaixona por outro"?

Surda à chantagem, subi o resto dos degraus e me anunciei no interfone. Seu Esteves, pra variar, estava cochilando em cima da mesa e levou um século pra abrir os olhos e apertar o botão do painel que destranca a porta de vidro.

Matilde teve tempo de sobra pra me ameaçar:

- Se você não escrever o que eu estou mandando, o seu segredo vai virar fofoca na cidade. Na cidade, no país e no mundo! Eu posso transformar sua vida num inferno!

Fingi que não tinha medo e entrei assobiando no prédio.

O telefone tocou no meio do almoço. Xandi, correu pela sala, atendeu o telefone com a boca cheia e voltou para a mesa anunciando:

-Pra você mãe.

-Quem é - ela pensou alto - a esse hora?

-Um tal de Felipe - informou Xandi, pegando as últimas batatinhas da travessa.

Minha mãe virou-se pra mim:

-É melhor você dizer que eu saí.

-Quem eu? Tô fora!

-Por favor, minha filha. Não quero falar com esse garoto.

-E por que não?

Olhando para Xandi, minha mãe franziu a boca e suspendeu a sobrancelha esquerda. Tradução de careta : “Isso não é assunto pra se discutindo na frente do seu irmão". Soltei um suspiro tão fundo que um pouco de farofa voou do meu prato. Fui atender o telefone, mas só consegui dizer alô.

-O que é que houve, Soninha? Parece até que você tá fugindo de mim.

Soninha... Quando sofrimento naquele diminutivo! Tentei desfazer o mal-entendido:

-Espere um pouco. Eu não sou...

Felipe não me deixou terminar:

-Fiquei esperando você depois da aula. Por que não passou na cantina?

-Você não está entendendo, Felipe.

-Lipe - ele me corrigiu.

-Tudo bem, Lipe. Eu...

-Assim está melhor. Vamos sair hoje á noite? Tem um filme italiano...

-Eu não sou a minha mãe!

Silêncio, tosse pigarros. Ao perceber o tamanho do mico, Felipe me pediu desculpas, disse que voltava a telefonar mais tarde e se apressou em desligar.

Passei o resto do almoço calada e só acabei com o suspense quando Xandi saiu da mesa:

-O Felipe me confundiu com você. Ele está com o coração partido e quer ir ao cinema hoje à noite, Soninha...

Ela fingiu ignorar o convite, mas não conseguiu disfarçar o sorriso.

A informática era um monstro que vinha do futuro para aterrorizar a minha avó. Ela não compreendia qual a utilidade do mouse, quem cria os vírus que contaminam a internet, onde são guardados os sites e blogs quando o computador está desligado, como é possível cultivar amizades virtuais outros países sem sair do quarto, essas coisas.

Nada deixava a minha avó mais perplexa, no entanto, que a linguagem usada pelos internautas. Uma vez, ao me ver conversando com várias pessoas ao mesmo tempo, ela concluiu que não saberia dar a devida atenção a todo mundo e muito menos decifrar o que classificou como "idioma preguiçoso". Não se conformava que uma garota como eu, que sonhava virar escritora, se sujeitasse a trocar "você” por "vc", "também" por "tb", "que" por "q", "não" por "naum", "abraços e beijos" por "abs e bjs". Quando expliquei que as pessoas tinham pressa de teclar, vó Nina alegou que as vogais são o tempero da língua

portuguesa, uma deliciosa especiaria que não podia ser descartada assim, sem mais nem menos, sob pena de reduzir as palavras a siglas sem sabor. Observou, ainda, que havia uma incoerência entre a economia de vogais e o excesso, o abuso, o verdadeiro desperdício de reticências. E, pra completar a bronca, resmungou que não existia o verbo teclar.

A implicância da minha avó só terminou depois que ela conheceu Henrique. Fanático por informática, ele sentou-se com ela na frente do micro e explicou-lhe que o mouse é um rato inofensivo, que os e-mails não tiram o emprego dos carteiros, que a linguagem dos internautas não ameaça a gramática, que a internet é o meio de transporte mais veloz,seguro,confortável e barato que avião.

Vó Nina manuseava o mouse coma ponta dos dedos, como se temesse levar uma dentada ou pegar uma doença, mas aos poucos foi domando o bichinho e mergulhando na tela de cristal líquido. Ficou encantada ao ler os jornais sem ter de sujar as mãos, visitou os principais museus, bibliotecas do mundo, penetrou no labirinto dos sites de relacionamento e fez contato com amigos e parentes que julgava mortos ou esquecidos. Tornou-se membro de comunidades e ONGs voltadas para a terceira idade,e clicando aqui e ali, equipou a clínica com microcomputadores doados por essas organizações.

Henrique ofereceu-se como voluntário e começou a dar aulas para os internos. A novidade, no início, provocou resistência, mas a maioria não teve dificuldade pra aprender a mandar e-mails, anexar arquivos, evitar spams e defender-se de vírus. Quando o professor anunciou que viajaria em lua-de-mel, os moradores da clínica não gostaram da idéia de interromper o curso. Acabaram se conformando, no entanto, mediante a promessa de que receberiam e-mails do exterior.

Eu também estava ansiosa pra saber notícias e vibrei a abrir a minha caixa de mensagens. Ao lado do nome da minha avó, encontrei um e-mail cujo assunto era " Paris".

Chére Joana Dalva,

Esta viagem será um tour afetivo por algumas cidades da Europa.

Em outras palavras: Henrique quer me mostrar os lugares em que morou durante o exílio.

Começamos, é claro, por Paris, que muitos consideram o lugar mais romântico do mundo. Ou será Veneza? Só poderei me decidir daqui a uns dias, quando chegarmos à Itália. Por enquanto, vive Ia France!

Já navegamos de bateau mouche pelo Sena, subimos na Torre Eiffel, percorremos salões do Louvre e caminhamos de mãos dadas pela avenida Champs-Elysées até o Arco do Triunfo. Tem tanta maravilha para conhecer: museus , catedrais, teatros, palácios, bosques, jardim... até cemitério é atração turística na Cidade Luz!

Ontem á noite, estivemos num bistrô do bairro Saint-Germain-des-Prés onde Henrique costumava tocar sax. O dono do lugar ainda é o mesmo, você acredita? Um senhor très gentil,de olhar esperto e gestos largos, que ficou muito emocionado com a nossa visita e falou com saudade do jovem músico que encerrava os shows tocando uma música que tinha composto para a namorada brasileira. Depois de contar histórias e relembrar amigos comuns, o francês abriu uma garrafa de champagne e fez um brinde à eterna felicidade do casal Henri e Niná.

Henrique ergueu a taça e sussurrou "je t' aime" no meu ouvido.

Será que eu mereço tanta paixão?

Saudades de toda a família, em especial aos meus dois netos queridos.

Bjs,

Nina

Quem diria que a minha avó seria capaz de me mandar um beijo sem vogal? Respondi imediatamente:

Ei vó.

Td bem?

Tirando a saudade, td perfeito. Ainda naum cheguei ao paraíso,como vc e henrique, mas nunca perco a esperança... Qm sabe tb tenho sorte d passar a lua-de-mel na europa e ouvir t amo em várias línguas?

Eh claro q vc merece essa paixão... q pergunta!

Bjs da sua neta preferida.

joana dalva

Logo depois que enviei o e-mail, apareceu na tela uma pergunta: se eu aceitava adicionar a Maria Beatriz ao meu grupo de bate-papo.

 

ei, bia! blz?

+ ou - .

pq vc naum liga a webcam e o microfone?

eh q... deu dfeito

senti sua falta hj na aula! o prof dionisio passou + 1 desafio,mas ngm achou a resposta... rs

se vc quiser me mandar por e-mail

eu nem anotei... vc tah doente?

um poko de gripe

posso levar os kdernos na sua ksa

naum precisa... tem alguma tarefa?

Clarice passou uma redação sobre terrorismo, mas qm naum terminou

na sala pode entregar amanhã

Bia fez uma longa pausa, como se não tivesse mais on-line. Tive de cutucá-la:

perdeu a língua?

tava aki pensando no tema da redação... d que terrorismo eu entendo como assim?

terrorismo doméstico! eh o que o meu pai faz comigo ontem

Fiquei com as minhas mãos suspensas sobre o teclado. No canto inferior da tela, uma janelinha informava que Bia estava digitando.

Logo em seguida ela explicou:

meu pai estragou o meu niver... vc viu como ele trata a minha mãe?

A própria Bia se encarregou da resposta:

pior que escrava! E pensar q qdo ela casou ela era uma artista plástica... ganhou ateh prêmio na bienal

aqles quadros na parede da sala... foi sua mãe q pintou?

vc gostou?

babei! mas peraih... o nome naum eh aparecida? pq um c na assinatura?

c d cidinha! soh o meu pai diz o nome dla completo: ele dtesta apelido

sua mãe tem mto talento...devia fz uma expo

jah cansei d falar, mas ela naum quer briga com o meu pai

Minha mão, dessa vez, não se conteve:

vai me dizer q seu pai censura a sua mãe?

naum censura, mas tbm naum da força... ele acha q arte eh besteira: luxo de qm naum tem o q fz

mas ele passa a semana fora! pq ela naum aproveita pra pintar?

falta d tempo... meu pai viaja de seg. a sexta, mas ah como se morasse aki em ksa sabe? controla tudo a distância, liga 3x por dia e sempre dxa uma lista de tarefas pra ocupar a minha mãe: pg contas,fz compras, ja na loteria, lv roupa e cznh um prato especial no domingo... sem contar q d vez em qdo ele aparece no meio da semana... assim ó, de surpresa! soh pra conferir o serviço

Parece que na frente do micro Bia perdia a timidez. A gente mal se conhecia, mas ela se abria comigo como se eu fosse uma amiga íntima:

e o pior eh q eu tô indo pelo msm caminho... qdo meu pai fala grosso, minhas pernas tremem... meu coração dispara... fico sem voz e sem reação

Riso de internauta é "rs" e "kkk", mas o que escrever quando as lágrimas começam a pingar no teclado? "Buá"? "Snif"? Pela quantidade de reticências, desconfiei que Bia estivesse chorando.

ontem, joana,dpois q vc foi embora, meu pai tve um ataq d nervos soh pq faltava um botão na camisa, vc acredita? fui defender minha mãe e ganhei um empurrão

Como consolar a minha amiga? Apelei pelo óbvio:

fica assim naum, bia! com o tempo...

Ela me cortou:

dpois a gnt se fala... meu pai tah batendo na porta do quarto... fui

 

No dia seguinte,Bia também não foi à aula. Dionísio estranhou a ausência da novata e interrompeu a chamada pra fazer uma pergunta:

-Alguém tem notícia da Maria Beatriz?

Danyelle não perdeu a piada:

-Ela ficou com vergonha, na hora do “Parabéns pra você",que nem teve coragem de voltar.

As risadas terminaram quando informei:

-Falei com a Bia ontem à tarde. Ela ta meio doente, só isso.

Antes de me mandar abrir o livro, Dionísio impôs silencio estalando os dedos, Samir virou-se para a minha carteira e cochichou:

-É coisa séria?

-Acho que não - respondi - Parece que pegou um resfriado.

Ele baixou ainda mais a voz:

-Qual o telefone dela?

-Não sei, a gente conversou pela internet.

-Então me passa o e-mail?

Meu sorriso saiu torto e cheio de veneno. Samir ficou na defensiva:

-Não é o que você está pensando...

-Você já leu a minha mente?

-Só quero teclar com a Bia porque estou com umas dúvidas...

-Foi o que eu imaginei.

-Escute aqui, Joana. Em vez de ficar me zoando, por que você não diz logo esse e-mail?

A voz do Samir subiu de tom e interrompeu a explicação do Dionísio. Ele reagiu a conversa paralela anunciando o apocalipse:

-Prova na próxima semana!

Danyelle quase teve um ataque:

- Mas isso não é justo. Eu estava aqui na minha sossegada, prestando a maior atenção...

Dionísio não é idiota:

-Como você consegue prestar atenção e ouvir MP3 ao mesmo tempo?

Só restava a Danyelle tirar os fones do ouvido. Leninha ergueu o duende pink pregado na ponta da lapiseira?

-E qual é a matéria fessor?

-A matéria toda - respondeu Dionísio. - Como sempre!

Marcelo levantou-se pra protestar:

- Eu queria dizer, como representante da turma, que é praticamente impossível estudar tanta coisa em poucos dias.

Dionísio tirou da pasta uns papeis e informou que havia uma maneira de escapar do Juízo Final:

-Pra vocês não me chamarem de carrasco, tenho aqui uma listinha de exercícios com os principais itens da matéria. O aluno que resolver esses problemas tem uma boa chance de faturar na prova!

A alegria de turma durou pouco. Reparando na tal listinha, descobrimos que os exercícios eram enigmas complicadíssimos. Só mesmo um gênio da Matemática teria condição de decifrar aquelas esfinges - e o único gênio de plantão estava em casa, recuperando-se de uma gripe.

Na hora do intervalo, Marcelo veio me procurar:

-Por que você não fala com a Bia? Ela bem que podia resolver os exercícios de matemática para os Colegas.

Danyelle também estava na fila da cantina e se meteu na conversa:

-Aquele bicho-do-mato? Duvido! Ela quase morre de vergonha de existir...

Ignorei o comentário:

-Tudo bem, eu vou tentar. Mas a Bia tá gripada, não sei se vai ter ânimo.

-A prova é pra semana que vem - lembrou Leninha. - Quem sabe ela não dá uma aula pra gente?

Na frente da cantina, há mesas cadeiras, mas a maioria dos alunos prefere a liberdade ao conforto e insiste em comer nos degraus do pátio. Foi lá que João e eu nos sentamos pra lanchar. Ele me disse que não tinha fome e limitou-se a tomar um refri. Ficou em silêncio, soprando a franja, como sempre faz quando está estressado. Só entendi o porquê quando ele me cutucou:

- O que é que você e o Samir tanto cochichavam na aula?

Tive vontade de apertar a bochecha do João e dizer que não precisava sentir ciúme, mas esse assunto costuma provocar explosões no campo minado do orgulho masculino. Nenhum garoto admitiria que perdeu a fome por causa de um cochicho da Namorada, por isso me fiz de desentendida e respondi didaticamente:

-Acho que o Samir ta a fim da Bia.

-Como é que você sabe? - João me olhou desconfiado.

-Ele me olhou aflito quando eu contei que ela estava doente. Inventou de tirar umas dúvidas e me pediu o e-mail dela. Deu até pena do garoto...

-Pena por quê? A bia tem namorado?

-O problema é o pai. Anteontem, eu passei na casa dela pra devolver um livro e fiquei pra almoçar. O cara deu um show de machismo, grosseria e arrogância. Trata a mulher e a filha como se vivesse na idade da pedra lascada. Só falta arrastar as duas pelos cabelos.

-Que exagero! - disse João, um pouco mais confiante a bem-humorado.

-To falando sério. Se o pai da Bia sonhar que tem um garoto de olho na filha dele, filha única, diga-se de passagem, eu nem sei o que é que pode acontecer...

Quando se convenceu de que Samir não queria nada comigo. João recuperou o apetite e pediu pra provar a minha empadinha. Acabou devorando o salgadinho inteiro e por pouco não me arrancou um pedaço do dedo. Choveu farelo pra todo lado quando ele se desculpou com a boca cheia, e sem parar de rir, combinou de se encontrar comigo na soverteria do shopping após minha aula de ginástica.

Seguindo o conselho dos gregos, mens sana in corpore sano ,procuro malhar o corpo e a mente. Não sei se na Grécia antiga os atletas também eram filósofos, mas acredito na possibilidade de juntar essas duas atividades e sempre levo um livro para a academia.

É claro que não dá pra ler enquanto estou correndo na esteira ou levantando peso numa daquelas máquinas de tortura cheias de roldanas e ganchos e cabos de aço. Na bicicleta ergométrica, em compensação, parece-me perfeitamente possível exercitar a leitura- que na minha opinião, também faz o cérebro produzir endorfina e traz a mesma sensação de bem estar de uma boa ginástica.

Sobre o guidom da bicicleta, há um painel luminoso que medo o ritmo cardíaco, a pressão sanguínea e a quantidade de calorias perdidas. Esses dígitos, no entanto, não prendem a minha atenção. Prefiro usar o painel como suporte do livro e pedalar ao compasso dos versos que aceleram o coração e aumentem o meu nível de adrenalina. Eu diria que meus poetas prediletos são verdadeiros personal trainers!

Mas nem todo mundo considera a literatura um esporte radical. Outro dia na academia, um colega conhecido como Tiãozão estava deitado numa prancha, suando pra terminar a série de abdominais, quando me pediu emprestada uma antologia de Drummond. Pensei que o cara gostasse de poesia e entreguei-lhe o livro com prazer, mas tudo o que ele queria era um objeto pra se abanar.

O apelido dispensa comentários sobre o tamanho de Tiãozão. Por sorte, ele tem auto-estima maior que a barriga e passa a aula inteira de olho no espelho que cobre a parede dos fundos. É como se fosse vítima de uma confortável ilusão de ótica, graças a qual enxerga músculos onde só existe gordura. Disciplinado e persistente, está sempre querendo se superar e acaba levantando mais peso e pedalando mais com velocidade que o bom senso recomenda.

Foi o que aconteceu na ultima aula.

O professor sugeriu uma caminhada leve, mas Tiãozão garantiu que tinha fôlego de maratonista e disparou a correr. Eu estava do outro lado da sala, fazendo caretas pra erguer um par de halters, e interrompi o exercício ao ouvir um barulho de desabamento: o aluno mais pesado da academia tinha perdido o equilíbrio e despencado da esteira.

Não se tratava, porém de uma simples queda. Rolando pelo chão, o coitado reclamava de dor no peito e dormência no braço.

Logo, logo apareceu um estudante de medicina que malhava naquela turma. O garoto ainda estava no primeiro ano e ficou tão nervoso ao examinar Tiãozão que quase foi enforcado pelos tentáculos do estetoscópio. Mas o diagnóstico saiu rápido: "É melhor chamar uma ambulância."

Não dava tempo de esperar socorro. Em questão de segundos Tiãozão ficou azul, enrolou a língua e perdeu os sentidos. O estudante procurou reanimá-lo com uma vigorosa massagem cardíaca, mas era como se esbofeteasse o peito de um boneco.

Saí correndo até a mesa da recepção e pedi à secretária lápis e papel. A mulher estava agarrada ao telefone, esbravejando contra a demora da ambulância, e mal reparou em mim. Acho que também não me viu tirar a caneta da mão dela e, mais que depressa, anotar no conto de um jornal jogado em cima do balcão:

O coração de Tiãozão vai voltar a bater normalmente.

Regressando à sala de musculação, encontrei meu personagem de pé como se nada tivesse acontecido. Alunos, professores e funcionários não estavam entendendo nada. Como é que alguém, de uma hora para a outra, se livra espontaneamente de um enfarte agudo? Tiãozão assegurou-se que se sentia bem e por pouco não subiu na esteira pra continuar a corrida. Teimoso, recusou a carona da ambulância e foi para a casa caminhando.

Tomei uma ducha e não tive tempo de secar o cabelo. Atrasadíssima para o encontro com o João, peguei um taxi e logo percebi que tinha feito bobagem: o transito se arrastava tão lentamente que me arrependi de não ter ido a pé. Paguei o motorista com o dinheiro reservado para o sorvete e entrei no shopping em disparada.

Minha intenção era me aproximar por trás de João, tapar-lhe os olhos com as mãos e dar-lhe um beijo na nuca antes que ele tivesse tempo de reclamar do meu atraso. Mas deixei o romantismo de lado quando cheguei à praça de alimentação.

Ao contrário do que eu imaginava João não estava roendo as unhas, nem estalando os dedos, nem soprando a franja, nem olhando para o relógio de cinco em cinco minutos. Namorado que se preza tem horror de esperar, mas o

meu não parecia entediado e muito menos nervoso. A principio, suspeitei que o esganado tinha se distraído com o

Megasundae que devorava as gargalhadas. Ah como eu era tonta! A principal atração estava sentada do outro lado da mesa e atendia pelo nome de Danyelle.

Ver a Dany tratando o João na boca me encheu de raiva e também de nojo. Eles precisavam dividir a colher? Fiquei tentada a dar meia-volta e sumir da sorveteria, mas a essa altura os dois já tinham me visto, não havia como recuar.

A falsa me recebeu com dois beijinhos e um comentário ambíguo:

-Seu namorado queria me pagar um sorvete, mas não agüento um inteiro e só tirei uma casquinha...

Apesar do sangue borbulhando, soltei um suspiro zen e imitei o sorriso sem sal da Monalisa.

-Eu já tô indo - ela se levantou sem antes lamber a colher. - tenho um encontro daqui a pouco e não gosto de deixar ninguém esperando.

Jogou um beijo no ar e deu Tchauzinho com os dedos.

João se virou para mim:

-Você demorou hein! Eu já tava preocupado.

-É mesmo? Não parecia.

Ele tentou pegar a minha mão, mas fui mais rápida e cruzei os braços.

-Não estou entendendo, Joana Dalva. Você me deixa meia hora esperando e ainda chega soltando faísca?!

-Meia hora pelo visto é tempo de sobra pra você arranjar companhia.

-Espere aí - João, finalmente, se tocou –Não me diga que você está com ciúme!

-Quem eu? Só porque você e aquela garota estavam trocando segredinhos e dando risadas e lambendo o mesmo sorvete? Impressão sua!

-Mas o que é isso? A Dany passou por aqui...

-Dany... Quanta intimidade!

-A Danyelle passou por aqui e revolveu sentar um pouco. Não tem nada de mais.

-Eu queria ver se fosse o contrário. Se eu tivesse tomando sorvete com outro garoto...

-Por mim, tudo bem. Eu não sou ciumento.

-Ah não? E o que é que você sentiu hoje de manhã quando me viu conversando com o Samir?

João não achou resposta - e eu também não sabia o que dizer.

Quem quebrou o silêncio foi uma menininha que passou perto da mesa com o rosto todo lambuzado e perguntou a mãe se a bola do nariz do palhaço era feita de sorvete de morango. Fiz o possível para não rir mas não consegui me segurar, João também achou graça e comentou, bem baixinho, com a voz meio rouca:

-Você fica tão sexy com o cabelo molhado...

Como resistir a um elogio desses?

Descruzei os braços e afastei a franja que caía nos olhos do João. Quando ele disse que não queria me magoar, aproveitei pra me desculpar pelo atraso e admiti que estava tensa por ter testemunhado um enfarte e enfrentado um engarrafamento. - Pra acabar o stress, nada melhor que um sorvete – disse João. – De que sabor você prefere? Respondi que não estava com fome, mas ele adivinhou que eu tinha torrado o dinheiro no táxi e me pagou uma casquinha de chocolate. Voltamos pra casa a pé e, durante todo o trajeto, fiquei com a sensação de que havia alguém nos seguindo. Por duas ou três vezes me detive e olhei pra trás. João concluiu que eu estava vendo fantasmas e quis saber o que me dava medo. Pensei nas ameaças de Matilde, mas não tive coragem de contar que uma solteirona maluca descobrira o meu poder e estava me chantageando a escrever uma frase para separar a minha futura sogra do meu atual professor de história. João me deixou na porta do meu prédio e se despediu com um beijo refrescante, sabor de creme com chocolate. Minha mãe estava na sala e falou, com as mãos na cintura: - Isso são horas? Eu tinha avisado que depois da ginástica ia tomar um sorvete com o João, mas como prever aquele engarrafamento entre a academia e o shopping? Não adiantou botar a culpa no trânsito. Minha mãe me condenou por não ter telefonado e deu início ao velho discurso sobre direitos e deveres. O pior da cena, no entanto, foi a risadinha do Xandi. O pirralho estava no tapete, montando um Tyrannosaurus rex com Lego, e não escondeu a alegria de me ver na fogueira. Fui salva, literalmente, pelo gongo. Ao ouvir tocar o telefone, saí correndo pra atender, tropecei sem querer no dinossauro e destruí a cabeça do bicho. Talvez eu devesse escrever “sem querer” assim, entre aspas, porque a verdade é que uma parte de mim – a maioria - desejava que meu irmão engolisse aquele sorriso sádico. E não é que ele começou a choramingar?!

Minha mãe sempre toma as dores do filhinho caçula e me olhou como se eu tivesse degolado o bicho de estimação da família. Chegou a esticar o dedo na minha direção, mas esqueceu da raiva quando eu anunciei: - Telefone pra senhora. É o Felipe! Ela cruzou a sala com opressa e acertou um pisão no rabo do tiranossauro! Meu irmão ficou tão irritado que chutou a caixa de Lego e se trancou no quarto resmungando que ninguém ligava pra ele naquela casa. - Mais um que entra na adolescência – suspirou minha mãe. – E com o pé esquerdo! Quando ela finalmente miou um alô, compreendi que queria ficar a sós e busquei refúgio no meu quarto. Mas não pude deixar de ouvir, enquanto ligava

o micro, minha mãe dizer que ainda não se sentia preparada, a diferença de idade era grande, porque não continuavam sendo bons amigos? Conectei a internet e chamei Bia pra teclar. Parece que ela já estava a minha espera. E aih joana? Blz? Eu eh q t pergunto Agora, td bem... meu pai viajou Vc naum foi na aula Minha barriga ainda tah doendo Barriga? Mas vc disse q tava gripada Bia levou algum tempo pra dar sinal de vida: Pois eh... eu achei q era gripe, mas dpois me deu essa dor de barriga.... deve ser virose. A minha intuição começou a piscar e disparou o alarme. Se eu pudesse ver o rosto de Bia, seria mais fácil descobrir a verdade. Acontece que a câmera dela estava com dei feto. Ou desligada? Vc precisa voltar logo... pra matar a saudade do seu fã-clube Ah... qm me dera! To falando sério! O prof dionísio quis saber notícias da melhor aluna d mat da sala... aliás, da escola Soh ele? Isso naum é fã-clube Dionísio naum foi o único q perguntou por vc Jura? Teve um garoto q ficou preocupadésimo qdo soube q vc tava doente... chegou a me pedir o seu e-mail Eh um q usa bigodinho?

Tecnicamente, a penugem que Samir cultiva entre o nariz e a boca, como se fosse um filhote de taturana de estimação, não poderia ser classificada como bigode. Mas omiti minha opinião e estimulei Bia a se abrir: Vc tem algum palpite? Hummm.... o nome dle, por acaso. É Samir? Biiiingo! Como eh q vc adivinhou? A gente sentou perto no meu primeiro (e único) dia d aula... rs... achei aqle bigode taum fofo! Tem gosto pra td neste mundo... kkkkkkk Engraçadinha! E vc passou? Hein? O meu e-mail! Passou pro samir? Ainda naum... precisava saber se vc autorizava Autorização concedida. E eu pensando que vc era tímida.... Soh viro bicho-do-mato no meio da multidão Ninguém melhor que um bicho-do-mato pra domar um bicho-de-sete cabeças – era assim, como um monstro mitológico, que a turma encarava a lista de exercícios do professor Dionísio. Fiquei pensando no desespero dos colegas e decidi pedir socorro: Serah q 7 é multidão? Acho q naum.... pq? O prof dionísio marcou uma prova e deu uns exercícios pra facilitar a revisão da matéria E vc tah qrndo ajuda?

Nós estamos: marcelo, guto, joão, leninha, danyelle, eu... e, eh claro, o samir Bia não achou po que dizer. Caprichei na propaganda>: São 6 colegas e 1 fã querendo aula particular... q tal, fessra, mostrar ao samir o x da questão? Mais silêncio. Insisti: Pensando bem, só entramos nessa roubada por sua culpa Como assim? Hj eu nem fui na aula Por isso msm! O samir ficou me pedindo o seu e-mail ateh atrapalhar a explicação do dionísio.... o prof se enfezou e marcou a prova Ela deve ter ficado pensativa, pois demorou a responder: Sai naum, joana, essa virose me derrubou Vc podia, pelo menos, dar uma olhada na lista... eu deixou aih na sua ksa Naum, naum! Me entrega na escola Era apensar impressão minha ou Bia não estava querendo que eu lhe fizesse uma visita? E o q eu figo pra galera? Vou pensar... amanhã a gnt se fala Mas pensa rápido, tah? A prova eh na segunda.

No momento em que ia sair da internet, uma janela se abriu no meio da tela anunciando uma nova mensagem. O assunto - Do seu interesse - parecia esconder uma daquelas correntes que prometem fama e fortuna se você repassar o e-mail para no mínimo doze pessoas em no máximo vinte e quatro horas, do contrário será demitida por justa causa, perderá o namorado para a vizinha, não arranjará mais emprego e muito menos outro cara, ficará com os seios murchos, cabelo sem brilho, terá celulite, cravos e espinhas e terminará engordando na frente Da tevê e lamentando-se por ter desprezado a sorte.

Tenho mais medo de vírus que de praga, por isso pensei em apagar a ultima mensagem antes que ela infectasse o micro. No ultimo instante, porém eu me dei conta de que a remetente se identificava como Matilde - o mesmo nome da maluca que cismou em roubar o Apolo da Salete. Deixei de lado a prudência e abri o e-mail. Ah Joana Dalva! O amor é lindo! Achei tão romântico você e o seu namoradinho saindo do shopping e caminhando de mãos dadas pela rua! E aquele beijo no portão do seu prédio... Quer saber? Tive de me controlar para não aplaudir. Você tem bom gosto, garota: o filho da manicure é um gato! Mas não precisa ficar com ciúme, porque eu estou interessada é no Paulo. A propósito, aconselho você a escrever a frase que eu mandei :" Paulo se casa com Matilde e Salete se apaixona por outro". Senão... Minha paciência já está na reserva. Não era apenas impressão: eu estava de fato sendo seguida! O que aquela mulher podia fazer contra mim? Tentei me convencer de que ela era inofensiva, mas dormi mal e acordei péssima, com ressaca dos pesadelos. E não consegui entender como Matilde tinha descoberto o meu e-mail. @

 

Modernidade

Pelo terceiro dia seguido, Bia não apareceu na escola.

Gripe, dor de barriga, virose... Qual era, afinal, a verdadeira doença da minha misteriosa amiga? Por que ela não procurava um médico? Será que ficaria boa a tempo de nos ajudar a resolver os exercícios de matemática? Os colegas me crivaram de perguntas, mas eu não soube o que dizer;

-Essa Maria Beatriz é muito metida – sentenciou Danyelle. - Só porque entende um pouquinho de matemática...

-Pouquinho? - Guto deu uma risada. – Você tá precisando de óculos!

-Tem que ter muito neurônio - acrescentou Samir, alisando o bigodinho - pra resolver os quebra-cabeças do Dionísio. E a Bia não levou nenhum minuto!

Dany balançou a cabeça e respondeu com arrogância:

-Garoto é mesmo um bicho bobo! Já passou pela cabecinha de vocês que a Beatriz poderia conhecer a resposta? Ou então, sei lá, vai ver ela deu sorte...

-E a gente deu azar - emendou João – porque vai ter de se virar sozinho pra resolver a lista.

Marcelo limpou a garganta e falou em tom de discurso:

-Como representante da turma, sugiro organizar uma comitiva pra visitar nossa colega, e no meio da conversa, aproveitar pra pedir uma mãozinha nos exercícios de matemática.

-Nem morta! - reagiu Dany. - Não vou ficar puxando o saco de uma garota que só quer chamar a atenção.

-Mas ela tá dodói - lembrou leninha, com um fiapo de voz infantil.

A discussão não parou por aí. Danyelle continuou atacando a novata e se envolveu num bate-boca com Samir. Ele só relaxou quando lhe entreguei um papel com o e-mail da Bia.

Fui ao prédio da Bia logo após o almoço. Ao me ver com o rosto enfiado entre as grades, o porteiro apontou o interfone embutido na guarita. Dessa vez, porém, eu me recusei a falar com a parede e esperei até que o cara abrisse a janelinha.

-Vim trazer um presente para a Maria Beatriz – eu disse, suspendendo uma pasta que na verdade, continha a lista de exercícios de Matemática. – Presente de aniversário!

O porteiro debruçou-se num painel, pronto a pegar o interfone. Nesse instante lembrei-me da reação de Bia quando me ofereci para ir até a casa dela e tive o pressentimento de que não seria recebida se o porteiro me anunciasse.

-É melhor você não dizer nada - pedi a ele, com a mão ao lado da boca, como se lhe confiasse um segredo. - Senão vai estragar a surpresa!

O homem coçou a cabeça. Estava acostumado a cumprir ordens, e conforme me explicou o regulamento do prédio não permitia a entrada de estranhos sem o prévio consentimento dos moradores;

-Eu não sou estranha - zoei. -Estive aqui no início da semana lembra?

Sim ele se lembrava, mas não queria confusão com os moradores. E se o doutor Agenor ficasse sabendo e reclamasse com o síndico?

-A Bia me disse que o pai dela viajou – mostrei um sorriso inofensivo. - É só uma visitinha, vai?

A resistência terminou com o clique que destrancava o portão. Quando passei ao lado da guarita, o porteiro me deu uma revista e me pediu o favor de entregá-la à dona Aparecida.

No elevador, dei uma olhada na capa e descobri que a revista revelava "as principais tendências da arte contemporânea e os novos caminhos da vanguarda". O rótulo impresso no canto inferior - exemplar de assinante - levou-me à conclusão que a mãe da Bia ainda se interessava por cores e formas: a dona de casa não tinha conseguido aniquilar a artista.

-Você?!

-Me desculpe por ter vindo assim, sem avisar. Mas é que a Bia...

-Está dormindo - Completou dona Cida.

Houve um instante de silêncio. E logo, em seguida, uma pergunta:

-Quem é mãe?

A voz vinha lá do quarto e não parecia nem um pouco fanhosa como era de se esperar de uma pessoa com gripe. Dona Cida se desculpou com um sorriso quadrado:

-Acho que ela acordou.

-Tem alguém ai? - Bia gritou

-Aquela sua amiga que almoçou com a gente no seu aniversário - Dona Cida virou-se pra mim. Joana d'Arc, né?

-Dalva - corrigi, pacientemente; todo mundo troca o meu segundo nome.

-A casa está meio bagunçada, Joana Dalva.

Mas se quiser entrar...

Sim eu queria. Precisava descobrir o que havia de errado com a Bia e decidi esperá-la no sofá.

-Um cafezinho? - Dona Cida me ofereceu. - Acabei de fazer.

Antes que eu pudesse recusar, a mulher me pediu licença e foi até a cozinha. Olhei a minha volta e encontrei o chão brilhando, as vidraças das janelas transparentes, as paredes livres de manchas e nem uma misera teia de aranha no lustre da sala. Não era necessário respirar fundo para sentir o aroma de eucalipto, sinal de que o apartamento tinha passado por uma vigorosa faxina.

Mas, nesse caso, por que Dona Cida tinha dito que a casa estava bagunçada? Só me ocorriam duas hipóteses; ou ela era maníaca por limpeza, ou então inventou aquela desculpa para que eu não entrasse no apartamento.

Dali a pouco, voltou com uma bandeja. O atrito da xícara do pires deu-me a impressão de que Dona Cida estava trêmula, mas não pude confirmar a suspeita porque ela logo escondeu a mãos no colo.

Tomei o café de olho na parede e afinal perguntei:

-Tem mais?

Dona Cida pegou a garrafa térmica. Recusei com um gesto de cabeça e desfiz o engano:

-Estou falando dos seus quadros. A Bia me disse que a senhora é pintora.

-Fui - admitiu ela, em voz baixa, como se confessasse um delito.

- É verdade que ganhou um prêmio na Bienal?

-Isso já faz tanto tempo... Parece que nem foi comigo!

Ficou olhando para o próprio rosto na superfície espelhada da garrafa térmica. Pensei que não tinha mais o que dizer, mas de repente voltou ao assunto:

-O primeiro lugar dava direito a uma viagem à Europa. Passagens, Hotéis, curso de idiomas... Tudo pago! Era a minha chance de conhecer os principais museus e galerias do mundo!

-Minha avó está em Paris - eu disse. - Em lua-de-mel.

-Paris é o sonho de toda a noiva! E também de todo artista, principalmente os pintores. Como resistir a um lugar que é conhecido como Cidade Luz?

-E quanto tempo a senhora ficou por lá?

-Quando ganhei a Bienal, eu estava de casamento marcado e propus ao Agenor que viajasse comigo. Acontece que ele estava começando no emprego e não quis, ou melhor, não pode me acompanhar. Adiar a cerimônia também não era possível. Sabe

como é, igreja reservada, convites distribuídos...

- Não me diga que desistiu da viagem?

Foi nesse momento que Bia entrou na sala e respondeu à minha pergunta:

-Meu pai foi bem claro: "Ou Paris, ou eu!" E minha mãe optou por ele.

Não usava camisola nem pijama e, como eu já havia notado, falava sem o sotaque nasal dos gripados. Parecia corada e bem disposta, embora fosse impossível saber se tinha olheiras: quase, metade do rosto estava coberto por enormes e bizarros óculos escuros. Algum problema por acaso, na vista?

-Não simplifique as coisas - reagiu dona Cida. - Eu não viajei a Paris por uma série de circunstâncias.

- Você não foi porque o maridinho não deixou.

-Isso é jeito de falar, Maria Beatriz? Mais respeito com o seu pai!

-Não entendo como você ainda defende um cara tão egoísta.

-Sei pai pode ter lá os defeitos dele... Mas, no fundo, é uma boa pessoa.

-Egoísta e medroso - Bia completou. -Ele sabe que você tem talento e, pra não se sentir anulado, sempre fez de tudo pra boicotar a sua carreira.

Não sei o que eu estava fazendo no meio daquele tiroteio. Aproveitei o instante de trégua pra entregar a revista de dona Cida, que folheou duas ou três páginas e se retirou da sala sem dizer mais nada.

Bia pensou em voz alta:

-Veja o que é que sobrou da artista de vanguarda que teve a chance de ganhar a Europa... Virou assinante de uma revista de arte!

Achei que Bia estava sendo muito dura, mas eu ainda não tinha intimidade bastante pra fazer esse tipo de comentário.

-Queria saber se você melhorou - limitei-me a falar. - E também vim pra trazer isto.

Bia abriu a pasta e examinou os exercícios sem tirar os óculos escuros. Mas a cabeça dela estava a anos-luz da Matemática:

-Como eu disse por e-mail, meu pai reclamou com minha mãe porque faltava um botão na camisa. E ela, pra variar, ouviu a bronca em silêncio, com a cabeça baixa, só faltou por pedir desculpas. Eu não costumo me meter, mas desta vez não deu pra engolir calada. Apontei o dedo e falei bem alto, com uma voz que vinha lá do fundo, do estômago ou das tripas, não sei, gritei com todas as minhas forças que ninguém tem o direito de tratar a mulher assim, que no lugar da minha mãe, eu já teria ido embora há

muito tempo, que ele ia acabar isolado e na pior se continuasse agindo como bárbaro.

Uma lagrima escorreu por baixo dos óculos, fez uma curva ao lado da boca e se pendurou no queixo da Bia. Ela precisou retomar o fôlego pra contar o final da história:

-Meu pai não sabe o que é ser contrariado e me afastou com um empurrão. Perdi o equilíbrio, caí no chão e bati o rosto na mesa.

Quer dizer que não havia virose nenhuma? Quando Bia tirou o óculos, vi uma mancha entre a pálpebra e a sobrancelha.

-Além do broche que foi da minha avó, ganhei este belo hematoma de presente de aniversário. E agora Joana, não tenho coragem de voltar pra escola enquanto a maquiagem não sumir.

Saiu da sala pra chorar a vontade e me obrigou a tomar uma atitude. Vasculhando a estante, achei um toco de lápis e uma caixinha de analgésicos.

Escrevi no canto da Bula:

O rosto da Bia, está livre do hematoma.

Fui encontrá-la no quarto, soluçando de bruços, os pés pra fora da cama e o rosto enterrado num almofadão; Parei à porta e fechei com naturalidade:

-Ainda não entendi por que você anda matando aula. Não vejo nada de mais no seu rosto.

Minhas palavras mexeram com os nervos da Bia.

Ela interrompeu o choro no meio de um soluço e deu um pulo da cama. Partiu pra cima de mim esbravejando:

-Você chama isto - botou o dedo acima do olho, no ponto que antes havia o hematoma - de nada?

-Isto o quê?

A raiva virou espanto:

-Meu olho roxo, ué!

-O esquerdo ou o direito?

Fui arrastada pelo braço até o espelho da cômoda. Bia perguntou olhando pra mim:

- Você é cega, garota? Não está vendo que o meu... Ficou sem fala quando encarou a própria imagem e percebeu que não havia nem sinal do machucado. Chegou tão perto o espelho que embaçou a superfície: - Mas como é possível? Meu olho, inda a pouco, era uma beterraba! Propus que deixasse as metáforas pra trás e tratasse de ir à escola pra ensinar aos colegas os exercícios de matemática.

Voltando para casa, passei na frente da clínica. Não tinha a intenção de entrar, mas me detive ao ver os dois velhos rivais sentados lado a lado no jardim.

Honório tinha o ar abatido e se distraía ao acompanhar a trajetória de uma formiga indecisa, que ficou fazendo círculos sobre a mão dele e afinal parou na encruzilhada entre o polegar e o indicador. O humor de Bené também não era o dos melhores. Indiferente a Ecologia, ele desfolhou três ou quatro margaridas e, em todas as vezes, apurou mal-me-quer.

-Por que é que isso tinha que acontecer? –Honório perguntou baixinho, como se pedisse conselho à formiga. - Ela me disse que estava apaixonada.

-Pra mim também - suspirou Bené. - A gente fez tantos planos...

Era a primeira vez que via aqueles dois conversando como cavalheiros civilizados. Embora não fosse horário de visita entrei na clínica para saber o motivo da tristeza e encontrei Tatiana no gabinete sentada na frente do micro.

-Que coincidência, Joana Dalva! Acabo de responder ao e-mail da sua avó. Ela me escreveu de Londres e contou mil novidades!

De Londres? Mas por que vó Nina e Henrique foram embora de Paris tão depressa? Quem seria capaz, em míseros dois dias, de conhecer todos os museus, catedrais, teatros, palácios, bosques, jardins e cemitérios da capital francesa?

-Tava passando aqui em frente - eu disse- e vi Bené e Honório no jardim, choramingando de dor-de-cotovelo.

-A Matilde voltou a clínica pra contar que se casa em breve - informou Tatiana. - E avisou que o noivo é ciumento.

-Noivo?

-Um tal de Paulo. Ou Apolo? Eu só sei que ele é professor de História e vai pedir a mão de Matilde. Pelo menos, foi o que ela contou.

-O Apolo dá duas aulas na minha escola e está saindo com Salete, mãe do meu namorado. Nem conhece a Matilde!

-Mas ela falou com tanta certeza... Você nem imagina como Bené e Honório ficaram arrasados... Passaram a noite resmungando e não quiseram participar da aula de dança de salão hoje cedo. Logo eles, que são mais animados!

Enquanto Tatiana me contava que a dupla recusou o café e mal tocou no prato de almoço, vi sobre a mesa a agenda da Vó Nina. Botei o dedo na letra J: meu e-mail era o primeiro da lista.

-Aposto - eu disse - que essa maluca entrou aqui no Gabinete.

Tatiana admitiu que sim e me perguntou se estava tudo bem. Dei um sorriso: tudo ótimo. Não me admira que Matilde me tenha achado na internet.

Depois que se separou minha mãe deu pra reclamar da solidão e não ficou nem um pouco satisfeita quando vó Nina anunciou que ia se mudar para o apartamento que Henrique tinha comprado.

-Onde é que sua avó está com a cabeça? Por que ela não continua morando com os netos? Não seria muito mais prático transformar a salinha de tevê em um quarto de casal?

Acredito que uma das funções da literatura, talvez a principal, seja remover a ferrugem, o lodo, o mofo e as teias de aranha que aos poucos vão se acumulando sobre a linguagem e cobrindo as palavras com uma camada opaca de chavões e frases feitas, mas dessa vez deixei de lado a originalidade e lembrei da minha mãe que quem casa não quer casa. Todo casal precisa de privacidade pra se adaptar à vida em comum e conhecer as manhas e manias um do outro. Além do mais, o apartamento da vó Nina fica a três quarteirões do nosso: seríamos, portanto, vizinhas.

Minha mãe acabou se conformando com a novidade e até se ofereceu "pra fazer uma faxina no ninho dos pombinhos durante a lua-de-mel". Vó Nina agradeceu a oferta, mas não lhe entregou a chave, alegando que cuidaria disso ao regressar de viagem.

É bem possível, no entanto, que tenha contratado uma diarista: ao sair da clínica, passei em frente ao novo endereço da minha avó e observei que a luz do quarto estava acesa.

Chegando em casa, fui direto para a internet e encontrei um novo e-mail da vó Nina. Assunto: Londres.

Dear Joana Dalva,

Dura meia hora a viagem da França à Inglaterra a bordo de um trem que atravessa o túnel construído sob as águas do Canal da Mancha. Trata-se na verdade, de um meio de transporte híbrido, uma espécie de cruzamento entre submarino e metrô.

Confesso que senti umas ondas de aflição ao pensar que os passageiros deslizaram (navegam?) a quarenta metros de profundidade, mas o que me incomodou foi a falta da

brisa no rosto - e, é claro da paisagem da janela.

Se as paredes fossem transparentes,a gente poderia admirar os peixes, a vegetação marinha... e o Eurotúnel seria o maior aquário do mundo!

Do fundo do mar para as alturas. Seguimos direto para o Olho de Londres, ou London Eye, que é como que eles chamam uma roda-gigante com 135 metros- acredite se quiser - de diâmetro! Maior que isso, só que o meu medo. Já pensou se a roda parasse de repente, quando eu estivesse lá em cima, no ponto mais alto, e me obrigasse a ficar suspensa, com as pernas balançando, como nos parques mambembes da minha infância?

Na verdade, não havia esse risco. Conforme Henrique me explicou, as cabines são fixas e possuem ampla vidraça, permanecendo o tempo na posição vertical. Olhando lá de cima pertinho do céu azul, fica fácil entender o significado da expressão "maior adrenalina".

Sim, minha querida, um azul impecável, sem uma só nuvem, cenário perfeito para quem gosta de soltar pipa! E ainda dizem que Londres é uma cidade cinzenta, embaçada pela névoa e úmida de chuva. O sol era tão tropical que por um momento, cheguei a suspeitar dos livros de geografia: quem sabe o Meridiano de Greenwich, essa linha imaginária que fica nos arredores de Londres e divide o Ocidente do Oriente, não se embaraçou na Linha do Equador?

Henrique me garantiu que o tempo de Londres estava ruim como sempre e eu é que via tudo ensolarado por causa da nossa lua-de-mel! De vez em quando ele me surpreende com umas declarações assim, que me pegam desprevenida e me deixam sem ar e sem resposta.

Fizemos alguns passeios obrigatórios - Abadia de Westminster, Museu Britânico, Ponte de Torres - e à noite visitamos os pubs onde Henrique se apresentava nos tempos de exílio. Ele tocou com velhos amigos, e após os aplausos, foi até o microfone pra me dizer "I Love You Darling".

Estou ficando mal-acostumada... Esse homem me trata como se eu fosse a Rainha da Inglaterra!

Kisses,

Nina

Segundo as minhas pesquisas na internet, o Museu Britânico possui cerca de 7 milhões de peças, muitas das quais guardadas nos porões por falta de espaço. Conhecer um acervo desse porte levaria, no mínimo, sei lá, uma semana, portanto não posso compreender como vó Nina e Henrique gastaram apenas uma tarde nessa visita. E nem foi uma tarde inteira: parece que, no mesmo dia, eles ainda arranjaram tempo para dar uma passadinha na Abadia de Westminster à na Ponte das Torres.

Queria saber por que o casal saiu às pressas de Paris e manteve a correria em Londres, mas não tive chance de perguntar o motivo da maratona. Antes que pudesse escrever à vó Nina, recebi um e-mail intitulado "Em tempo".

Imaginei que ela tivesse enviado umas palavras a meu irmão e abri o e-mail sem tomar cuidado de conferir o remetente.

Não demorei a perceber que tinha caído em uma cilada. Após o clique, a caixa de mensagens começou a tremer, as letras despencaram uma após a outra e os ícones da barra de ferramentas se transformaram em caveiras fluorescentes. Tentei deletar o e-mail, mas o mouse não respondia. O drive do CD passou a abrir e fechar por conta própria, como se estivesse mal-assombrado, e gargalhadas sinistras brotaram da caixa de som. Aos poucos, a tela foi se apagando até ficar completamente escura.

Que vírus era aquele, meu Deus, capaz de pulverizar o meu editor de texto?

Suei frio ao pensar que perderia as páginas deste diário e me xinguei um milhão de vezes – maldita preguiça! - por não cultivar o saudável hábito de fazer cópias de segurança.

As gargalhadas sinistras sumiram e deram lugar aos primeiros acordes da Marcha Fúnebre. Já estava resignada a formatar o disco rígido quando começou a surgir uma mensagem; as letras foram pingando devagar até formar a seguinte ameaça:

 

É ASSIM QUE A SUA VIDA VAI FICAR

- UM CAOS -

SE VOCÊ NÃO ESCREVER O QUE EU MANDEI

A frase ficou piscando e, de repente sumiu. O micro voltou a funcionar normalmente, sinal que Matilde só queria me assustar. Mas acho, sinceramente, que eu preferia uma manada de vírus.

Na sexta-feira, quando entrou na sala, Dionísio não se dirigiu a mesa de professor. Ficou tão contente com a presença da Bia que seguiu direto para a carteira dela, perguntou-lhe se estava melhor e disse que tinha trazido um novo enigma. Depois de

desenhar no quadro meia dúzias de polígonos entrelaçados, coloriu um pequeno triângulo e desafiou a turma a encontrar a área da figura em destaque.

Bia ficou namorando o exercício e enrolando a trança nos dedos. O caderno estava aberto em cima da carteira, mas ela dispensou papel e lápis, fez todos os cálculos de cabeça, e em poucos minutos, anunciou o resultado.

Quando Dionísio declarou que a resposta estava certa, Samir cutucou Danyelle:

-E agora, garota? Você acha que a Beatriz também conhecia esse problema?

Dany levantou o braço pra se queixar da implicância de Samir, mas Dionísio parecia hipnotizado e nem sequer ouviu a reclamação. Deu um puxão na barbicha ruiva - pra ter certeza, talvez, de que não estava sonhando- e pediu a Bia que explicasse como tinha decifrado o enigma.

Ela expôs o raciocínio como se narrasse uma história policial, transformando os polígonos em personagens suspeitos e tratando a área do triângulo colorido como o local do crime a ser desvendado. O relato prendeu a atenção da turma e, no final, todos compreenderam e aplaudiram. A única exceção foi Danyelle, que tirou do estojo um alicate e passou um bom tempo de cabeça baixa, tentando mostrar que as próprias cutículas eram mais importantes que os neurônios da novata.

O reconhecimento dos colegas não deixou Bia encabulada: parece que a timidez tinha desaparecido com o hematoma. Em vez de se esconder debaixo da carteira, ela recebeu palmas com um sorriso e foi muito assediada na hora do intervalo.

-Estou boiando nessa parte da matéria- confessou Leninha. - Tentei fazer aqueles exercícios, mas não consegui achar nenhum x.

-Boiando? - Disse Guto. - Eu já afundei há muito tempo!

Marcelo também precisava de nota, mas tinha vergonha de admitir o sufoco e fingiu falar em nome dos outros:

-Como representante de Turma, eu queria pedir a você, Maria Beatriz, que ajudasse os colegas a resolver a lista de exercícios.

Bia teve uma recaída de timidez e não soube o que dizer. Pra nossa sorte, Samir entrou na conversa:

-Por favor, Bia. Eu também estou cheio de dúvidas.

O apelo de Samir foi decisivo pra vencer a resistência da garota. Após uma breve hesitação, ela concordou em se reunir com os colegas à tarde; faltava apenas acertar o local.

-Na minha casa, não dá - disse Bia. - Meu pai está pra chegar de viagem. E ele detesta barulho.

-Por que não na Biblioteca? - sugeri. - Lá não tem nenhum pai de plantão.

-Mas tem a dona Elisa - lembrou Leninha, - que não deixa a gente abrir a boca. Um dia desses, ela quase me botou pra fora só porque o meu estômago roncou.

Leninha estava com a razão: a bibliotecária da escola tinha mania de silêncio e fazia psiu por qualquer motivo, até quando a gente virava as páginas.

João encerrou o dilema:

-Lá em casa, pronto. Tem espaço de sobra e até uma lousa. Ás duas?

Gosto de freqüentar o salão da Salete não apenas pra cuidar do cabelo e das unhas. Isso na verdade, é apenas um pretexto. O que mais me atrai naquele tititi é a oportunidade de ouvir histórias que dariam romances e de conviver com freguesas que um dia podem virar personagens - tudo o que tenho a fazer é mudar os nomes. Diante dos espelhos, elas escancaram a alma sem o menor pudor e imaginam que os segredos serão clamufados pelo barulho do secador de cabelos.

Acontece que o secador não fica ligado o tempo todo. Quem passa na frente do salão da Salete encontra as janelas abertas e pode descobrir, por exemplo, que ela anda recebendo telefonemas anônimos.

Juro que não tinha a intenção de bisbilhotar conversa alheia. Fui a casa de João pra estudar matemática, mas ao chegar, diante do sobrado, ouviu a voz de Salete. Ela estava no andar de baixo, onde funciona o salão, e parecia nervosa:

-Faz quase uma semana que o telefona não para.

No início, achei que fosse defeito, porque eu dizia alô, e ninguém respondia. Mas de uns dias pra cá, começaram as ameaças.

-Homem ou mulher? - perguntou uma freguesa.

- A voz é abafada e distante, como se a infeliz tivesse amarrado um pano de prato no telefone. Acho que é mulher.

-Que tipo de ameaça? - indagou outra freguesa;

-Ela diz que é melhor eu terminar com o Paulo. Para o meu bem e do meu filho.

Não satisfeita em me chantagear, Matilde tinha decidido infernizar a vida da Salete. Senti uma mistura de revolta com vertigem e tive de me apoiar na grade do muro.

-Porque você não instala um identificador de chamadas?- sugeriu a primeira freguesa.

-Boa idéia! - animou-se a segunda. - Sabendo o número é só ligar para a polícia.

Salete suspirou tão fundo que deu pra ouvir da calçada. E descartou a idéia:

-Paulo comprou um aparelhinho desses, mas cada hora aparece um número diferente. Acho que a mulher telefona de vários orelhões.

Não queria continuar bancando a espiã e tratei de apertar a campanhia do sobrado. Foi o bastante para chamar a atenção de Salete. Ela apareceu na janela do salão e ficou assustada quando me viu:

-O que houve Joana Dalva? Você está pálida!

Estou assim, Salete, porque eu conheço a autora dos telefonemas anônimos que andam tirando o seu sono. Aliás, você também conhece: é uma freguesa do salão. Lembra aquela mulher que pegou o buquê de noiva da Vó Nina? Pois então! O nome é Matilde.

Ela passou a festa inteira dançando com os internos Bené e Honório, mas no fundo estava de olho era no Paulo. Ele mesmo, o seu namorado! E o pior vem agora: a perua descobriu que eu tenho o poder de dar vida as palavras e está me pressionando a escrever uma frase pra fazer o Paulo abandonar você e se apaixonar por ela.

Era isso o que eu tinha vontade de dizer, mas estava tão perturbada que mal conseguia gaguejar:

- Pá-pálida, eu? - forcei um bocejo. - Não dormi muito bem esta noite.

Salete perguntou pela minha avó, mas nesse instante João abriu a porta e só me deu tempo de informar que vó Nina estava em Londres. Ele me recebeu com um selinho básico, avisou que o show já havia começado e me arrastou escada acima.

Como assim show? Não era aula?

Bia ainda não tinha chegado. E, atendendo os apelos, Samir concordou em fazer alguns números pra distrair a platéia.

Lá estavam, sentados no chão da sala, Marcelo, Guto, Leninha e Danyelle. Pensei que Dany não ia aparecer, afinal passara a aula se roendo em ciúmes por causa da popularidade de Bia. Mas falta de média em Matemática acaba com qualquer orgulho.

-Só espero que a Beatriz não falte – Dany resmungou. - Tímida daquele jeito, é bem capaz de arranjar uma desculpa...

Samir nasceu com o gene de humor: sob os pés do garoto, o tapete da sala ficou maior que o palco do Teatro Municipal. Tinha um talento especial para captar as manias e cacoetes dos professores e provocou ataques de riso ao imitar os suspiros de

Clarice diante dos sonetos de Vinicius, a coceira na barbicha do Dionísio por causa de alguma pergunta idiota, o embaraço de Apolo toda vez que as garotas lhe mandam torpedos pra pedir o telefone dele ou simplesmente pra dizer que ele era lindo.

Todo mundo adorou e pediu bis, mas ninguém aplaudiu com tanto entusiasmo do que a Bia!

Ficou um olhando pra cara do outro. Como é que aquela garota conseguiu entrar despercebida na sala? Ela informou que tinha encontrado a porta aberta e foi subindo as escadas. Como o show já havia começado, agachou-se atrás do sofá e abafou as gargalhadas, numa almofada pra não chamar a atenção.

A comédia do Samir deu lugar ao drama da matemática. Era preciso, antes de mais nada, fazer a troca de cenário: João foi ao quarto buscar a lousa, Marcelo e Guto ajudaram a encostá-las na parede, Leninha fechou um pouco as janelas

porque a claridade fazia reflexo na superfície polida. Não era tarefa fácil de manter o ibope

nas alturas após a apresentação do Samir, mas Bia não se intimidou com bocejos e caretas. Em vez de encarar os exercícios pela ordem, ela decidiu começar pelos mais fáceis e nos fez acreditar que não havia motivo para temer e lista.

Danyelle sempre teve mais intimidade com as letras do que com os números, mas se rendeu a didática da Bia e no fim da aula foi agradecer a ela.

Em resposta ouvi um elogio:

-Amei esse piercing na sua sobrancelha.

Acho que nem um dez de matemática deixaria Danyelle tão contente:

-Eu tenho muito mais - ela se gabou -você quer ver?

Não esperou a resposta pra exibir a coleção de piercings e argolas espetadas na língua, na orelha, na nuca, no umbigo e no tornozelo.

-E isso não é tudo - piscou o olho pra atiçar a imaginação dos garotos. - Depois eu mostro pra você os meus piercings secretos e proibidos para menores de 18...

Bia baixou a voz pra confessar:

-Meu sonho é colocar piercing!

-E o que você está esperando?

-A verdade. Dany, é que eu morro de medo.

-Mas não dói nada, quase nada! Se quiser, eu levo você pra conhecer o meu piercing. Ele é um profissional supercuidadoso, usa só jóia legítima e material descartável.

-Fico com medo é do meu pai - esclareceu Bia - Ele seria capaz de me matar!

Danyelle não se assustou:

-Você só tem de esconder o piercing. O umbigo é o lugar preferido das garotas que têm pai bravo.

Quando Guto disse a Bia que ela precisava da autorização por escrito dos pais, ou pelo menos de um dos pais, Marcelo discordou e garantiu que existia uma lei proibindo o uso de piercing para menores de idade - com ou sem autorização.

-Devia haver uma lei - sugeriu Danyelle – que impedisse garotos intrometidos de dar pitaco na conversa alheia.

João me chamou até a cozinha a ajudá-lo a preparar um jarro de suco de uva - homenagem a Dionísio? - e uma bacia de pipocas. Durante o banquete, Samir contou que tinha passado na frente do Cine Royal e visto um cartaz anunciando a estréia de "Motosserra no jardim-de-infância",vencedor do Oscar de efeitos especiais.

-Que tal - ele propôs- um cineminha no sábado?

A pergunta era pra todo mundo, mas ele falou olhando pra Bia.

Leninha fez o sinal-da-cruz e disse que detestava filme de terror. Onde é que já se viu pagar pra ficar apavorada?! Marcelo tinha compromisso: churrasco na fazenda de um primo. Quanto a Guto, ele estava sem grana. E Danyelle não ia porque estava sem o Guto.

Embora tenha adorado o convite. Bia ficou atrapalhada e não sabia o que dizer. Senti que ela queria minha companhia e chamei João pra completar o quarteto. Não sou muito fã de filmes de terror, mas reconheço que não há gênero mais apropriado pra quem tem segundas intenções: nada como uma cena horripilante pra aproximar os casais e provocar beijos de cinema.

Da casa do João, eu fui para a academia. Antes de começar os exercícios, abri uma antologia do Drummond que sempre trago na mochila e apoiei o livro no guidom da bicicleta ergométrica. Os dedos deslizavam pelos versos e ditavam o ritmo das pedaladas, mais vigorosas ou lentas dependendo de cada poema.

De repente, bem no meio de uma elegia que me forçava a de acelerar, ouvi um comentário as minhas costas:

-Não entendo Garota, como é que você consegue malhar e ler ao mesmo tempo.

Olhei pra trás e dei de cara com Tiãozão. Apesar do sorriso, ele parecia abatido. Caminhava na esteira arrastando as pernas e mal dava conta de carregar a barriga.

-A leitura - expliquei - me ajuda a entrar em forma.

Tiãozão apontou para o livro:

-Isso é o que? Auto - ajuda?

-De certo modo, sim - contive o riso. – Você quer emprestado?

-Acho que vou aceitar, viu? Tô mesmo precisando.

Era a minha chance de perguntar:

-Você melhorou?

Ele disse que estava ótimo... até contar para a esposa que tinha passado mal na academia. A mulher era muito estressada e foi logo ligando para o cardiologista. O médico pediu um check-up completo, incluindo todos os opcionais e acessórios, mas não esperou o resultado dos exames pra arrotar o diagnóstico: obesidade mórbida!

-Como se eu fosse um vampiro gordo! – Tiãozão lamentou-se - No fim da consulta, o sádico falou que devo perder cinqüenta quilos, no mínimo, se não quiser deixar a minha mulher viúva, e me passou uma dieta que nem o faquir mais xiita seria capaz de seguir. Nada de pizza, nem macarrão, nem pão, nem manteiga, nem hambúrguer, nem batata frita, nem salgadinho, nem chocolate, nem cerveja. A partir de agora, terei de sobreviver comendo alface, brócolis, rúcula e couve. Resumindo: só mato. E sem sal!

O bom humor do Tiãozão me deixou tranqüila: se ele conseguia rir de si mesmo, então seria mais fácil combater a morbidez da obesidade.

No fim da aula, entreguei-lhe o livro do Drummond e voltei a pé pra casa a fim de fugir do engarrafamento. Passando pelo prédio da Vó Nina e do Henrique, olhei para cima e tornei a ver o apartamento iluminado.

Será que eles tinham esquecido a luz acesa?

Após o papo de Tiãozão sobre a dieta, cheguei em casa bege de fome e quase mergulhei na geladeira. Xandi estava na cozinha, lanchando pão com manteiga e o inevitável copo de vitamina de banana especialmente preparado pela minha mãe. Debruçada na pia, ela lavava o liquidificador e cantarolava um sucesso baiano em parceria com o rádio. Há quanto tempo eu não via a Dona Sônia cantando... E, como se não bastasse, um pagode regado a azeite – de - dendê!

Parece que tanta animação tinha a ver com Felipe, o tal aluno da faculdade que andava ligando aqui pra casa. Era nele, com certeza, que minha mãe estava pensando quando o telefone tocou. Ela saiu correndo para atender e nem se lembrou de fechar a torneira da pia.

Xandi aproveitou a ausência da minha mãe pra praticar o esporte preferido dos garotos de 8 anos; testar os nervos das irmãs de 13. Às vezes, acho que essa implicância é uma predisposição genética. Não encontro outra explicação para a insistência do moleque em me levar à loucura; ele sabe que tenho nojo de comida mastigada e, por isso mesmo, faz questão de botar a língua pra fora justamente quando está com a boca cheia.

Eu tinha acabado de malhar e não dispunha de energia pra brigar com meu irmão. Achei mais cômodo fechar com os olhos e fiquei assim, feito cega, até que minha mãe me veio anunciar que o telefonema era pra mim.

Quando me ouviu dizer alô, Bia falou que precisava me contar uma novidade e me disse pra entrar imediatamente na internet. Estranhei a urgência:

-Mas que novidade? Não dá pra falar por telefone?

Ela desligou sem responder e me deixou mais aflita que curiosa.

Minha mãe tem fobia de catar farelo de pão pela casa, mas mesmo assim carreguei o sanduíche para o quarto e terminei o lanche na frente do micro.

Levei algum tempo pra me conectar com a rede e tomei uma bronca da Bia:

 

q demora, cruzes! tem + d 10 min. q eu t liguei

meu micro eh meio lerdo qdo acorda... puxou a dona... rs

queria q vc me visse! Vamos ligar as câmeras?

 

Concluí que a Webcam de Bia estava funcionando perfeitamente : o suposto defeito tinha sido um artifício pra ocultar o olho roxo. Ela fez um aceno antes de me perguntar:

 

tah me vendo bem?

to vendo um sorriso q naum cabe no seu rosto

faz mto tempo q eu naum me sentia taum... sei lah, d bem comigo

vc naum quer falar no microfone?

prefiro teclar... meu pai chegou de viagem

Bia deu uma olhadinha pra trás,talvez querendo se certificar de que a porta do quarto estava trancada. Continuou rindo e teclando:

vc naum imagina o q eu fiz

 

O sorriso crescente de Bia me fez apontar no óbvio:

ficou com o samir?

Ela chegou bem perto da câmera e zombou de mim com uma careta.

ainda naum! mas qm sabe amanhã, no cinema?

pensei q vcs iam sair juntos da ksa do joão

samir tinha aula de inglês... nós 3 seguimos até o curso

3?

samir, eu e dany

naum acredito... essa garota naum se enxerga?

peraih, Joana! ela soh foi pq pedi... a gnt deixou o samir no curso de inglês e depois foi dar uma volta... sabe aonde?

com a danyelle? no shopping claro! nunca vu garota + consumista

 

Bia esfregou as mãos e afinal soltou uma dica:

 

fomos a um Studio d tatuagem e piercing

O sorriso da Bia virou uma gargalhada. Eu também ri, mas de aflição

vai me dizer q vc... naum eh possível!

 

Pra provar que não estava blefando, Bia suspendeu a blusa diante da câmara. Não havia como duvidar da imagem: a garota tinha um piercing no umbigo!

E não era um piercing qualquer: o que vi foi uma jóia de família - mais precisamente, um broche de ouro.

 

seu pai t mata bia! t enforca em praça pública e ainda cobra ingresso de platéia

como eh q ele vai descobrir?

na piscina, por ex, ou na praia

meu pai naum é sócio de nenhum clube... e nas férias d verão, qdo a gnt viaja, ele passa o dia trancado no hotel, curtindo o ar condicionado

e a sua mãe?

um dia desses, qdo falei q queria botar piercing ela quase surtou soh d pensar na reação do meu pai... mas dpois relaxou e acabou me dando força

acho q vc tah completamente louca, mas amei essa idéia d usar um broche como piercing! eh o casamento perfeito entre tradição e modernidade

 

Bia pôs a mão na boca e me atirou um beijo. Baixou a cabeça pra escrever:

 

qual serah a reação do samir?

vc vai contar pra ele?

contar naum tem graça...rs... tô a fim de botar uma blusinha curta pra deixar a barriga de fora

vc devia escrever um livro: memórias de uma ex-timida... seria um sucesso

a idéia na verdade foi da dany

q eh outra doida d hospício

relaxa joana! na hora de sair de casa, boto um casaco por cima da blusa pra esconder a barriga

eh bom msm vc se cuidar... jah pensou se o seu pai descobrir q vc furou o umbigo? e ainda por cima, pra pendurar um broche q foi da mãe dele? o estrago vai ser maior q a motosserra no jardim-de-infância

 

Minha intenção era ir direto para o cinema, mas Bia me pediu pra passar na casa dela e ajudá-la a escolher uma roupa pra camuflar o piercing.

Não é uma experiência agradável abrir a caixa de mensagens e descobrir que "não há mensagem para você". Esse tipo de aviso costuma abalar a auto-estima de qualquer internauta, mas dessa vez a minha sensação de abandono foi substituída pela alegria de não encontrar nenhum e-mail da Matilde.

Fiquei tão aliviada que me animei a escrever:

 

Rainha-avó,

Passei na clínica e tive d responder a um interrogatório dos seus súditos, todos querendo saber onde anda Vossa Majestade, q países vai visitar e qdo chega de viagem.

Falar nisso, pq o casal real ficou taum poko tempo em Paris? E em Londres, pelo q vi, a correria continua no mesmo ritmo alucinado.

Serah q tem mais atrações nos quartos d hotel q nos museus e catedrais?

Bjs da sua súdita atrevida,

joana dalva

 

Mais importante que ser ou não ser

Não foi preciso apertar a campanhia: a porta do apartamento da Bia estava apenas encostada. Fui recebida pela mãe dela, que esticou o dedo diante da boca pra me mostrar que não deveria falar alto.

Por que aquele clima de catedral?

A resposta estava no sofá cochilando de boca aberta na frente da tevê.

-Agenor vive viajando e só pode fazer a sesta nos fins de semana - ela sussurrou - mas ele tem o sono leve e acorda à toa.

Dona Cida atravessou a sala ante pé, o que me permitiu observá-la de costas; cabelo preso em um coque com uma caneta esferográfica, avental todo cheio de manchas e os pés boiando em sandálias de tiras. Fiquei pensando o que leva uma mulher a esse descaso com a aparência. Desgosto por ter abandonado a pintura? Frustração de ver a vida passar em branco?

Submissão a um marido autoritário que exige silêncio pra dormir a sesta?

Bia estava no corredor, à minha espera, e me arrastou pra dentro do quarto. Trancou a porta com a chave, levantou a camisa e foi direto ao assunto:

-Que tal o meu piercing ao vivo?

O local da incisão estava ainda avermelhado por cauda de um spray anti-séptico, mas parece que o broche tinha sido feito sob medida para o umbigo da Bia. Fazendo caras e bocas de manequim, desfilou pelo quarto e parou com as mãos na cintura.

Não pude deixar de aplaudir e caprichei na separação silábica:

-Sim - ples - men - te - ma - ra - vi - lho - sa... Acho que o Samir vai perder a cabeça!

Caímos as duas de costas na cama, uma do lado da outra, e tivemos um ataque de riso - devidamente abafado no travesseiro pra não acordar o pai da Bia.

Ela ligou o micro para mostrar os e-mails do Samir. Não é que o garoto tinha escrito versos para a futura namorada? Achei muito engraçado um poema em que ele comparava o amor à matemática, rimando paixão com equação e taquicardia com geometria. Mau gosto? O importante é que Bia se divertiu no papel de musa inspiradora.

Após decorar o poema, ela me disse que ia tomar uma ducha no banheiro da suíte - ser filha única tem suas vantagens. Dei uma volta pelo quarto e me detive diante das fotos pregadas com imã num quadro: Bia no colo de uma tia, montada no lombo de um cachorro, sorrindo sem os dentes da frente, fazendo cara de série no dia da formatura, tentando escalar uma árvore de Natal e dando um beijo na bochecha da mãe.

Do pai nem sequer um retratinho 3X4.

Ao lado do quadro, havia uma estante. A diversidade de títulos revelava uma leitora sem preconceitos, que guardava romances, contos e poesias na mesma prateleira de livros de geometria e álgebra. Mas eu diria que a preferência de Bia, a julgar pela quantidade e pela posição na estante, eram as biografias de grandes gênios da matemática e de Física: Pitágoras, Arquimedes, Da Vince, Newton, Leibniz, Gauss e, é claro, Einstein. O criador da Teoria da Relatividade devia ser o capitão do Time, pois o célebre retrato com a língua de fora estava pendurado na parede.

-Pode levar o livro que quiser -ela me disse, saindo do banheiro enrolada na toalha. - Mas, agora, preciso de sua ajuda pra escolher um modelito de arrasar.

Abriu a porta do armário embutido e despejou sobre a cama o conteúdo de três ou quatro gavetas. Garimpando daqui e dali, acabou optando por um top de alcinha que deixava à mostra o umbigo e alguns centímetros das redondezas. Mais difícil foi encontrar um casaco que pudesse ser usado em uma tarde de sol e, além de não esquentar demais, atendesse dois outros requisitos básicos: cobrir completamente a barriga e combinar com a calça de stretch.

Quando achou o que procurava, Bia se olhou no espelho de alto a baixo e tomou coragem de sair do quarto. Atravessamos a sala bem devagar, pisando de leve para não acordar o seu Agenor, e seguimos em direção a cozinha.

Dona Cida estava no quarto de empregada e levou algum tempo para abrir a porta. Aliás, uma fresta da porta.

-O que é que você quer?

-Vou ao cinema, mãe.

- A que horas você volta? Sabe como é o seu pai.

-A sessão começa ás 4.

-Veja lá se não demora, hein?

-Tô querendo dindin.

-Pode pegar na minha bolsa. Tá na mesinha do telefone.

Não seu se esse diálogo foi exatamente assim: mãe e filha falando tão baixo que algumas palavras eu só pude entender por meio de leitura labial.

O que será que Dona Cida fazia trancada no quarto de empregada?

Bia adivinhou a minha curiosidade e me explicou cochichando tão logo a mãe fechou a porta:

-Acho que ela está voltando a pintar... E o meu pai nem desconfia!

Então era por isso que Dona Cida usava um avental cheio de manchas?!

Imagino que seu Agenor jamais ultrapassasse a fronteira entre a cozinha e a área de serviço, portanto o quarto de empregada era o lugar perfeito para um ateliê secreto.Mas o que ele faria quando descobrisse a verdade?

O homem continuava apagado no sofá e não mudou a melodia do ronco quando a gente cruzou a sala.

Bia vasculhou a bolsa da mãe,e na pressa de pegar o dinheiro deixou cair a carteira.

Seu Agenor tinha mesmo o sono leve e acordou mal-humorado:

-O que é que você está mechando ai?

- Oi pai - Bia fingiu serenidade. - Vim pegar grana para ir ao cinema.

-Grana! - ele resmungou. - Até no dinheiro vocês põem apelido...

Bia recolheu a carteira do chão e botou uma nota no bolso do casaco.

-Tchau, Pai. Tô em cima da hora.

-Espere ai - pausa para um bocejo. -Com quem você vai?

-Com a Joana Dalva, ué.

Só então seu Agenor deu pela minha presença. Ele me cumprimentou com um grunhido e voltou a interrogar a filha:

-Você vai assim?

-Assim como?- ela passou a mão no cabelo. – Não tô bem?

-O problema é o casaco. Quer morrer de calor?

A resposta estava engatilhada:

- Dentro do cinema, tem ar condicionado. Se eu não levar um casaco, no meio do filme a minha garganta começa a raspar.

Seu Agenor aproveitou a deixa:

-Que filme vocês vão ver?

A pergunta era dirigida a nós duas, mas Bia não me deixou abrir a boca:

-Não me lembro o nome. É um desenho animado.

Fiquei sem entender a resposta. Será que seu Agenor não deixaria a filha assistir um filme de terror? Ele fez rã-rã- pra se livrar de um pigarro, mas a voz conservou o timbre de móvel arrastado:

-Você não está usando o seu presente de aniversário...

Ao perceber que o Marido tinha acordado, dona Cida saiu do quarto de empregada e apareceu na sala – sem avental e com as mãos lavadas. Foi ela quem protestou:

-Mas que implicância, Agenor!

-O que é que eu fiz de mais? - ele se defendeu.- Só estou querendo saber por que a Maria Beatriz não põe o broche que foi da avó dela.

Bia teve de arranjar mais uma desculpa:

-Porque não tem nada a ver com essa roupa.

O cara não desistia fácil:

-Então, você devia trocar de roupa;

-Por favor, pai - ela choramingou. - eu vou perder o filme.

- Deixa a menina - dona Cida suplicou.

O marido ignorou o apelo:

-Sem broche, não tem filme! Não foi para enfeitar a gaveta que você ganhou de presente uma jóia.

Bia ficou olhando pra Cida, na esperança de que a Mãe usasse a pouca autoridade que lhe era concedida pra enfrentar a intransigência do marido. Mas que autoridade tem uma mulher que se tranca no quarto de empregada pra pintar clandestinamente?

Fui obrigada a entrar na conversa e inventar um álibi.

-Acho melhor - falei olhando pra Bia - a gente contar a verdade.

-Não, não - ela perdeu a cor. - Não tem nada pra contar...

-Tem sim, seu Agenor. A sua filha fez...

-Eu não fiz nada! - ela gritou.

-Fez o favor de me emprestar o broche - completei.

-Achei o presente tão bonito que quis mostrar para a minha avó.

O elogio desarmou seu Agenor.

-Estou vendo que você tem bom gosto - ele me disse. - Mas muito cuidado, garota, que aquela é uma jóia de família.

-O senhor pode ficar tranqüilo. Na segunda-feira eu levo na escola.

Dona Cida nos acompanhou até o hall da entrada e tornou a recomendar à filha que não voltasse muito tarde. Assim que entramos no elevador, Bia escondeu o rosto nas mãos.

-Você quase me matou de susto - ela soluçou.

-Eu precisava fazer um pouquinho de Teatro - justifiquei- Senão, o seu pai não ia acreditar.

-Ele não vai sossegar Joana, enquanto não aparecer esse maldito broche.

Bia tinha razão de estar aflita, mas não era hora de se lamentar. Preferi apostar no otimismo:

-A gente vai achar uma saída. Agora, chega de choro! Se você chegar ao cinema com os olhos vermelhos, o Samir nem vai reparar no seu umbigo.

Vó Nina me contou que, no tempo dela, pagar o ingresso do cinema ou a conta do restaurante era uma questão de honra para os homens: nenhum cavaleiro com lh permitiria que a dama sequer abrisse a bolsa, a não ser pra retirar o lenço de cambraia e enxugar uma lagrima imprevista. Tudo isso, porém, virou fumaça. Nos dias de hoje quem assume despesa sozinho pode ser tachado de romântico - o que, pra muita gente, é um mico. A maioria dos garotos rejeita esse rótulo, por isso Bia ficou tão espantada quando chegamos à porta do cinema e descobriu que Samir e João já haviam comprado os nossos ingressos.

Eu não me surpreendi: João nunca me deixa pagar nada. Às vezes, tento explicar que as mulheres devem ter direitos e deveres iguais, mas o danado é rápido no gatilho e sempre saca o dinheiro na frente.

Acho que Samir também pertence a essa espécie de cavalheiros em extinção. Quando Bia disse que fazia questão de comprar a pipoca, pelo menos isso, ele se debruçou no balcão e comentou com a vendedora:

-Cuidado com essa garota. O dinheiro dela é falso!

Os olhos de Samir dançaram em volta do umbigo de Bia, mas ele só tomou coragem de dizem o quanto tinha adorado a novidade- um rápido cochicho no ouvido - quando já estávamos dentro do cinema. Deve ser um elogio e tanto, minha amiga ficou vermelha como nos tempos em que era tímida.

Havia quatro lugares numa das filas; Samir, Bia, eu e João ocupamos as cadeiras nessa ordem. A escolha poderia parecer casual, mas na verdade fazia parte de uma engenhosa estratégia feminina de comunicação telepática: posicionadas lado a lado, nós duas tínhamos a chance de trocar olhares num código que os garotos jamais conseguirão decifrar.

O filme?

Apesar do Oscar, não se pode esperar muito da história cuja personagem mais importante é uma máquina assassina. Trocar sussurros e bicotas com o João é muito mais divertido que ver braços e pernas decepados, portanto perdi boa parte das cenas que provocam gritaria na platéia. Bia, por sua vez, parecia mais interessada no Samir que no terrorista que invade o jardim-de-infância no meio de uma aula sobre ecologia, trepa na mesa da professora e diz às crianças que derrubar árvores não é a única função de uma motosserra.

-O Samir beija tão bem! -Bia me contou, suspirando, no momento em que saiu da sala pra buscar mais refri - E é um beijo engraçado: o bigodinho faz cócegas na minha boca.

Depois de assistir a um filme de terror, seria perfeito tomar um sorvete pra esfriar os ânimos e regular os níveis de adrenalina. O programa, porém, não vingou: Bia tinha prometido a mãe que voltaria direto pra casa.

-Eu vou com você - disse Samir.

-Melhor não. Pra que se incomodar?

-Tudo bem. Se você não quiser... - ele abaixou a cabeça.

-Eu quero... Queria. Mas o meu pai...

-Qual o problema? Eu posso conversar com ele.

Bia sacudiu a cabeça:

-Não adianta Samir. Ele não fala a nossa língua.

Temendo, talvez, um flagrante, eles se despediram com um selinho. João e eu não tínhamos nada a esconder e nos demos um beijo de longa-metragem.

Chegando em casa, entrei na internet e deparei com duas surpresas - uma boa, outra ruim - na minha caixa de e-mails. A boa vinha de Veneza:

Cara Joana,

Por que será que Shakespeare, ao escrever Romeu e Julieta escolheu como cenário Verona, no lugar da vizinha Veneza? Só descobri a resposta para esta questão (mais importante, para mim, que o ser – ou – não - ser de Hamlet) quando cheguei à Piazza de San Marco. Ao ver os artistas fazendo espetáculos ao ar livre, os casais de namorados dividindo taças de sorvete e as crianças correndo atrás dos pombos percebi que o romantismo de Veneza é alegre, vibrante e carnavalesco, não combinando com os finais infelizes das tragédias.

Agora compreendo por que esta ilha, mesmo correndo o rico de afundar, tem um calendário de festas tão extenso: carnaval, regatas, procissões... Sem falar na bienal de arte contemporânea e no festival de cinema. Foi durante um desses festivais que Henrique esteve na cidade pela primeira vez. Ele se encantou com a possibilidade de circular tanto água como por terra, navegando pelos canais ou caminhando pelos becos e ruelas, e decidiu experimentar o dia-a-dia dessa vida anfíbia. Alugou uma casinha com teto vermelho e morou aqui por algum tempo, dando início a uma turnê pelas principais cidades da Itália.

Já visitamos a Basílica de San Marco, e Torre da Campanile e o Palácio dos Doges, mas o passeio que mais me emocionou foi a bordo de uma gôndola.

Estávamos navegando pelo Grande Canal quando Henrique me disse "Ti voglio tanto bene". Nesse momento, o gondoleiro começou a cantar... adivinha o quê! Uma versão do Choro para Nina, você acredita?

E com letra em italiano!

Mais tarde, fiquei sabendo que os dois são amigos e tramaram essa conspiração há muitos anos, numa tarde em que Henrique contou ao gondoleiro que tinha uma amada no Brasile jurou que não morreria sem trazê-la a Veneza.

Bacio,

Nina

P.S: Fique tranqüila, Joana, porque dá para conciliar lua-de-mel com turismo - e ainda sobra tempo de escrever para os súditos. Quanto a passeios, Henrique e eu não estamos com pressa: os meios de transporte, hoje em dia, é que são muito velozes.

Do céu para o inferno em apenas um clique. Após me deliciar coma as palavras da minha avó, fui obrigada a enfrentar um ultimato de Matilde:

 

VOCÊ TEM ATÉ AMANHÃ A NOITE, JOANA DALVA,

PARA ESCREVER O QUE LHE DITEI.

SÓ MAIS 24 HORAS, ENTENDEU? CASO CONTRÁRIO,

O SEU PODER VAI CAIR NA BOCA DO MUNDO.

É O MEU ÚLTIMO AVISO.

Eu poderia fazer uma frase pra me livrar das ameaças- se bem que isso não reduziria o interesse da Matilde por Apolo. Pra liquidar essa paixão, seria necessário escrever uma segunda frase, ou mesmo um parágrafo; eu me pergunto, no entanto, até onde vai o meu direito de bancar o cupido às avessas e decidir o que os outros devem ou não sentir. Aqui, a literatura esbarra na ética e me deixa em uma encruzilhada: de um lado a minha razão; do outro o coração de Matilde. Talvez eu devesse criar um texto pra que ela arranjasse um namorado e fosse feliz para sempre, de preferência bem longe, nas que fulano merece ser cobaia nesse romance de laboratório?

Acho que não me sentiria à vontade manipulando o sentimento alheio e tratando as pessoas como personagens coadjuvantes. Sem saber como sair da encruzilhada, deleitei-o e-mail da Matilde e respondi ao da vó Nina:

Vozinha,

Tô com mta saudade e um tico d inveja: passear d gôndola eh um dos meus sonhos d consumo! Falar nisso, vc naum se decidiu. Afinal qual eh a cidade + romântica do mundo. Paris ou Veneza?

Bjs,

Jd

Domingo é dia de almoçar com o meu pai. Logo após a separação, quando ainda tinha uma cópia da chave, ele entrava aqui em casa sem apertar a campanhia e passava a tarde jogando videogame com o Xandi ou vendo DVD comigo. Minha mãe arranjava mil desculpas - cólicas, enxaqueca, correção de provas - pra ficar trancada no quarto. Só se dignava a aparecer na sala depois de tomar um banho, lavar e arrumar o cabelo, colocar um vestido decente e uma maquiagem básica. E toda essa produção só para mostrar ao ex-marido que ela estava de bem com a vida.

Ela também dava a entender que tinha sobrevivido à separação e procurava se comportar com a elegância de um pai civilizado. As boas intenções, no entanto, não bastavam evitar desentendimentos. No início, a ironia vinha disfarçada pelo humor, mas aos poucos as discussões perderam a graça e se reduziam a uma troca de acusações que estragavam o domingo de todo o mundo. Meu pai concordou em devolver a chave do apartamento e passou a esperar os filhos na frente do prédio.

Seu Esteves se encarregava de avisar, pelo interfone, que o carro estava estacionado na calçada. E sempre esse aviso era do mesmo jeito:

-Dona Sônia? O marido da senhora tá lá na rua.

Não adiantava minha mãe explicar que havia se separado: seu Esteves ignorava o significado do prefixo ex e continuava se referindo ao meu pai como "o marido da dona Sônia". Ela acabou desistindo de corrigir o porteiro, mas no último domingo perdeu a paciência e soltou os cachorros da TPM:

-Quantas vezes eu já disse ao senhor que eu não tenho marido? Eu hein! Parece que é surdo!

Bateu no interfone na cara do seu Esteves e, indignada, virou-se pra mim:

-Ele falou que tem uma mulher no carro. E eu com isso?

Parada em frente à porta do elevador, minha mãe fez as recomendações de sempre ao meu irmão: não limpar a boca na toalha, nem me chutar por baixo da mesa, nem enfiar a batata frita no nariz, nem bochechar a comida com o refri, nem soprar o canudinho pra fazer borbulha, nem passar ketchup no dedo pra fingir que se cortou com a faca. Ainda faltavam algumas instruções quando o telefone tocou.

Minha mãe voltou ao apartamento e deixou a porta entreaberta.

-Alô, Lipe? -ela se derreteu. - Não ainda não. O que você sugere?

Não deu pra ouvir o resto da conversa: o elevador tinha chagado. Meu irmão me cutucou:

-Quem é esse tal de Lipe que vive ligando para a mamãe?

-Acho que é aluno dela na faculdade.

-Aluno pode namorar professora?

-E quem disse - provoquei meu irmão - que eles estão namorando?

-Eu vou contar tudo pro meu pai.

-O que é que tem demais, moleque? Você esqueceu que o papai ta saindo com uma garota?

-Mas ele é homem.

Eu não podia crer que o meu irmão, com apenas 8 anos, já estava contaminado pelo vírus do machismo! Reagi à provocação com um discurso sobre igualdade nos direitos, mas Xandi tapou os ouvidos e saiu do elevador assobiando.

Meu pai costuma esperar na calçada, mas desta vez estava na portaria. Depois de nos abraçar, ele escolheu as palavras certas pra contar o que nós já sabíamos:

-Resolvi convidar uma amiga pra almoçar com a gente.

Xandi olhou para o carro e reconheceu a garota:

-Aquela não é a sua secretária?

-Sim, nós trabalhamos juntos - disse meu pai. -O nome dela é Xirlei.

-Com x - meu irmão acrescentou. -A mesma letrado meu apelido.

Meu pai deve ter pensado que a coincidência poderia aproximar a nova namorada do filho, mas Xandi não ficou nada satisfeito quando soube que quem ia na frente, ao lado do motorista, era a Xirlei com x. Foi ela também, que decidiu o nosso destino, um restaurante francês que provavelmente não servia cheeseburguer de três andares com batata frita que meu irmão sonhava em devorar.

Sentada no banco de trás, eu só podia ver a Xirlei de lado, mas de vez em quando ela se virava pra puxar assunto e deixava a mostra os brincos de penas de pavão, as unhas decoradas com estrelinhas, os óculos cor-de-rosa pendurados no decote. Qual a idade mental de uma mulher com esse tipo de acessório? Pelo retrovisor, vi meu pai com os olhos voltados aos seios da namorada, com certeza calibrados com silicone, e por pouco não sugeri que ele olhasse para frente e prestasse atenção no trânsito.

Troquei umas palavras com a Xirlei, mas sem esticar a conversa. Meu irmão estava emburrado por não ter ido no banco da frente; mesmo assim, não demorou a abrir a boca:

-Você sabia pai, que a mamãe ta namorando?

Nenhuma resposta. Xandi completou a fofoca:

-O cara é aluno dela e vive ligando lá pra casa. Você não vai fazer nada?

Não dava pra continuar ignorando o garoto. Meu pai abaixou o volume do rádio e procurou mostrar serenidade:

-Fazer o quê, meu filho? Sua mãe é uma mulher livre e pode-se relacionar com quem ela quiser.

Fiquei um bocado irritada quando meu pai desceu do carro pra abrir a porta pra Xirlei - e não pra mim! Incapaz de admitir que estava com ciúme, procurei me convencer de que aquele gesto era piegas e arcaico, além de pecar pela ostentação e pela falta de originalidade. Será que Freud explica? O restaurante estava cheio; só havia mesmo a mesa perto da entrada. Meu pai não se importou: valia qualquer sacrifício pra se sentar ao lado do "benzinho". Carnívoro de carteirinha, ele me surpreendeu ao trocar o tradicional filé gorduroso e sangrento por um panaché de legumes. A sugestão partiu de Xirlei, que também deu palpite na bebida:

-Chope só serve pra inchar barriga. Acho melhor um suquinho de laranja... E com adoçante.

Meu pai baixou a cabeça e obedeceu sem discutir, embora tenha salivado de inveja quando pedi um ensopado de vieta - ou blanquete de veau, como se

consta no cardápio. Será que o nome dos pratos, especialmente na culinária francesa, é tão importante quanto o sabor e o aroma?

Submisso aos caprichos da namorada,meu pai precisava se autoafirmar e escolheu como alvo Xandi:

-Eu sei que você gosta de hambúrguer, Alexandre. Mas

hoje nós viemos a um restaurante diferente.

-Quem falou em hambúrguer? - Xandi protestou - Eu quero é cheeseburguer.

-É tudo a mesma coisa.

-Que é isso, pai? Cheeseburguer vem com queijo e hambúrguer...

-Eu sei a diferença. Estou querendo dizer que o valor nutritivo é idêntico. Alías, a falta de valor nutritivo. Não sei se você reparou, nós não estamos em uma lanchonete. Isso aqui é um restaurante. E francês.

Xandi rebateu de primeira:

-Vai me dizer que na França eles não comem cheeseburguer?

À espera de socorro, meu pai olhou para o garçom, mas o cara não lhe deu apoio:

-Nós temos um sanduíche que é feito de pão francês.

-Serve - disse Xandi. - Mas com bastante Ketchup.Tem isso lá na França?

O garçom tirou um bloco e ficou aguardando o aval do meu pai pra anotar o pedido. Xirlei não desperdiçou a oportunidade pra fazer uma média com o enteado:

-Por favor, Nel - ela falou alisando a mão do meu pai. - Deixe o menino comer o sanduíche. Só Hoje!

Desde quando Nel é apelido de Nelson? Reduzindo a sílaba, meu pai não teve outra saída se não concordar com Xirlei. Mas impôs uma condição:

-Não conte nada para a sua mãe, Xandi.

Meu irmão olhou para a janela e perguntou:

-E se ela descobrir?

Nesse instante, minha mãe entrou no restaurante de mão dada com um cara. Talvez ele tivesse a mesma idade que a Xirlei, mas aparentava um pouco mais porque fazia o estilo bem-comportado: mocassim de couro, calça jeans, camisa pólo por dentro da calça, cabelo partido de lado. Não usava relógio, nem qualquer outro adereço, apenas um ideograma tatuado no antebraço.

Sem saber quem eram os filhos e o ex-marido da namorada, Felipe não hesitou em apontar para a mesa ao lado da nossa - aquela altura, a única vaga

Minha mãe estava sem óculos, o que lhe dava um bom álibi para ir embora como se não tivesse nos visto. Mas pensando bem, por que deveria fugir do restaurante? Ela não apenas continuou de mão dada com o namorado, como veio até a nossa mesa apresentá-lo.

Felipe me deu dois beijinhos e, com muito custo, conseguiu arrancar um oi de Xandi. Logo depois, apertou a mão do meu pai, que não precisou apresentar a Xirlei para a minha mãe porque as duas já se conheciam. Ao ver aquela confraternização o garçom julgou que fazíamos parte da mesma família feliz e se apressou em juntar as mesas.

Enquanto Felipe e minha mãe examinavam o cardápio, Xandi cutucou o meu pai:

-Eu não falei que a mamãe tava namorando?

Escondendo o riso atrás do cardápio, minha mãe examinou minuciosamente a lista de sugestões do chef e procurou um prato que coubesse no limite de calorias da dieta fundamentalista que vinha seguindo, por coincidência, desde que começaram os telefonemas do Felipe. Mas, a exemplo do meu pai, acabou se rendendo à vontade do namorado e concordou em dividir um crepe recheado com quatro queijos, cada um mais gorduroso que o outro. Tão logo o garçom se afastou, Xandi se levantou pra cochichar no ouvida da minha mãe. Ele já explicou mais de mil vezes que é falta de educação contar segredo na frente dos outros, mas naquela tarde não ficou zangada e respondeu em voz alta:

-Por que você mesmo não pergunta?

Ele apontou para o braço de Felipe:

-Que mancha é essa ai?

Só mesmo o gênio do meu irmão pra confundir um ideograma com mancha!

-Os chineses não usam letras - informou Felipe. - Eles preferem fazer desenhos, que são chamados de ideogramas.

-E o que é que você desenhou no braço?

-Esse ideograma representa um cão. Meu signo no horóscopo chinês.

Xandi olhou mais de perto e continuou a mesma.

Não se conteve:

-Mas qual é a raça desse cão? Não tô vendo o rabo.

Meu pai cortou a conversa:

-Venha se sentar Xandi. Pare de amolar o rapaz.

Mas Felipe devolveu na mesma moeda:

-Não, senhor. O Xandi não está me amolando.

Quando o garçom veio nos servir, meu irmão ficou com medo da reação de minha mãe e declarou que o sanduíche era meu. Ela percebeu que ele estava mentindo, mas não era hora nem lugar de fazer um discurso sobre a falta de responsabilidade de pais que não se preocupam com a alimentação correta dos filhos.

-Tudo bem, Xandi - ela se deu por vencida. – Pode comer o seu sanduíche.

A ironia temperou o almoço, mas não tirou o apetite de ninguém. Só houve certo mal-estar na hora de acertar a conta: tanto meu pai quanto Felipe faziam questão de pagar tudo e deram início a uma discussão pra saber quem era mais teimoso.

Pra encerrar o duelo, o garçom pegou os dois cartões de crédito.

 

Santa da casa

Não é fácil sair das cobertas nas manhãs de segunda-feira, principalmente quando há uma prova de matemática no primeiro horário. Mas, depois de passar a noite sonhando que Matilde me amordaçava com a cauda do vestido de noiva, senti alívio ao ver o dia através das frestas da veneziana e pulei da cama como se abandonasse um barco à deriva.

Não conseguia tirar Matilde da cabeça, mas resolvi pensar positivo: quem sabe, naquele fim de semana, ela não teria encontrado um milionário grego, ou um atleta radical, ou um poeta lírico inspirado, ou mesmo um cara comum, sem nenhum talento especial, porém carinhoso o bastante pra fazê-la esquecer a mórbida paixão pelo professor Apolo?

Meu otimismo infelizmente terminou na portaria do prédio. Ao me ver saindo do elevador, seu Esteves me passou um envelope escuro.

-Mandaram entregar pra você - disse o porteiro, com a objetividade de sempre.

-Quem é que mandou? Uma mulher por acaso?

-Ah, isso não deu pra ver. Ele falou comigo pelo interfone e jogou um envelope debaixo da porta.

Nada como poder contar com profissionais competentes!

Agradeci os préstimos de seu Esteves e me perguntei se aquela mensagem não seria uma carta-bomba. A hipótese de morrer tão nova não era nada divertida, mas decidi lutar contra a paranóia e tomei coragem de abrir o envelope.

O cartão que tirei lá de dentro não trazia ultimato ou ameaça. O que encontrei foi uma saudação:

     BEM-VINDA AO MUNDO DAS CELEBRIDADES!

Celebridade, eu?! Só porque sonho em virar escritora?! Sinceramente, não me atrai a idéia de sair por ai distribuindo autógrafos, participando de debates na teve ou pousando para os paparazzi com a mão no queixo e a sobrancelha erguida pra mostrar cara de intelectual. Desconfio dos autores que aparecem mais que as próprias personagens; a literatura, na minha opinião, não é o melhor atalho para a fama.

Por essas e outras, concluí que tudo não passava de um mal entendido: o envelope, com certeza, era endereçado a outro condomínio; o porteiro devia estar dormindo e confundiu o destinatário. Ou será que seu Esteves se distraia com a multidão concentrada diante do prédio?

A princípio, imaginei que se tratasse de algum evento político, talvez uma mancha de funcionários em greve ou um protesto de ecologistas. Mas cadê cartazes, os megafones e os panfletos? As pessoas se espremiam diante do portão, com os braços esticados entre as grades, e não pareciam formar um grupo organizado nem lutar por uma causa comum.

Ao pisar na rua, ouvi um grito: "É ela!" Não consegui dar mais nem um passo.

Uma baixinha de idade indefinida, com os olhos claros rodeados de olheiras, falou pra mim, com a mão na barriga:

-Tô sem comer desde ontem, minha filha. Fui mandada embora do emprego e não arranjo trabalho.

Pensei em dar a ela o dinheiro do meu lanche, mas no meio daquele tumulto não tive como enfiar a mão no bolso. Outra dona se pendurou na minha mochila e me mostrou a perna inchada:

-O médico disse que eu preciso operar: - ela explicou, ofegante. - Faz meses que estou na fila, mas o hospital não tem vaga. Se você soubesse como dói...

Eu estava reparando na perna da mulher, tomada de caroços e feridas, quando um senhor se ajoelhou na minha frente e me deu um beijo na mão:

-Roubaram a minha carteira com o retratinho da Conceição - ele intercalava as palavras com soluços. - Dinheiro e documento, a gente perde e ganha. Mas aquela foto... Foi a única lembrança que ela me deixou Joana Dalva.

Fiquei olhando aquele homem ajoelhado a meus pés. Como é que ele sabia o meu nome? O que aquelas pessoas queriam comigo? Por que me contavam os seus problemas?

Descobri a resposta no muro do terreno que fica do outro lado da rua:

AÍ NA FRENTE MORA JOANA DALVA

UMA GAROTA QUE FAZ MILAGRES

QUANDO ESCREVE COM A MÃO ESQUERDA.

A autora da pichação estava encostada no muro, segurando a lata de spray e me acenando com a outra mão. Como é que Matilde tinha se atrevido a espalhar o meu segredo?Ah, se eu pudesse atravessar a rua e fazer a infeliz engolir a lata! Mas, não foi com esse propósito que abri caminho no meio da multidão, avancei até a esquina e corri para o ponto de ônibus.

Muitas daquelas pessoas estavam doentes ou famintas e não tinham forças pra me seguir. Mesmo assim, tive medo de ser alcançada e fiz sinal para o primeiro lotação. Não era o que eu estava acostumada a tomar, mas também passava perto da escola.

Todo mundo queria se sentar perto da Bia. Dionísio já previa esse assédio e elaborou provas personalizadas: embora os anunciados fossem os mesmos, os dados numéricos não coincidiram. A estratégia anti-cola deixou muita gente revoltada, mas a verdade é que as questões não estavam difíceis: quem tivesse resolvido a lista de exercícios não precisava se descabelar; Estudar, porém, não é tudo: o que adianta dominar a matéria se você não tem concentração? Por mais que eu lesse e relesse os enunciados, só enxergava os problemas práticos

da multidão reunida na frente do prédio. Há quanto tempo aquela baixinha de olhos claros estaria a procura de emprego? As olheiras profundas seriam, por acaso, um efeito colateral da fome?

E a outra coitada, que não conseguia vaga em nenhum hospital, até quando teria de arrastar a perna cheia de feridas? A foto que estava na carteira do velho era da falecida esposa? Ou ela tinha sido abandonado pela tal Conceição, e mesmo assim, insistia em guardar uma lembrança dela? Enquanto essas perguntas continuassem me afligindo, eu não teria condição de resolver a prova. Dionísio percebeu que eu estava travada e veio até a minha carteira pra me dar uma dica: se eu não soubesse a primeira questão, talvez fosse o caso de passar para a segunda.

Achei melhor passar para a folha de rascunhos. Foi lá, no espaço destinados aos cálculos, que troquei a Matemática pela Literatura e criei três pequenas histórias:

 

A BAIXINHA ENTRA NA LANCHONETE

E PEDE UM COPO DE ÁGUA. O DONO

PERCEBE QUE A MULHER ESTÁ COM FOME

E LHE OFERECE UM PÃO COM MANTEIGA

E O EMPREGO DE BALCONISTA.

 

Fiz uma pausa pra apontar o lápis e continuei escrevendo:

 

A DONA DA PERNA INCHADA RECEBE UMA

LIGAÇÃO DO HOSPITAL. UM DOS MELHORES

MÉDICOS DO PAÍS INTERESSOU-SE PELO

CASO E IRÁ OPERÁ-LA GRATUITAMENTE.

 

Por fim, ajudei o velho a matar a saudade da mulher:

 

O HOMEM QUE SE AJOELHOU A MEUS PÉS NÃO

FOI VÍTIMA DE NENHUM LADRÃO. PROCURANDO

NA CÔMODA DO QUARTO, ELE ACHA A CARTEIRA

CAÍDA ATRÁS DE UMA GAVETA... JUNTO COM

UM ENVELOPE CHEIO DE FOTOS DE

CONCEIÇÃO!

 

Depois de bolar um final feliz para aquelas três personagens, eu me senti leve e bem-disposta para encarar a prova de matemática.

Resolvi todos os exercícios e ainda arranjei tempo pra conferir os cálculos. Aproveitei para fazer revisão dos textos e, com todo o autor, não fiquei plenamente satisfeita. A história da doente, por exemplo, tinha um detalhe difícil de engolir.

Como é que um médico iria se interessar pelo caso sem ver a perna da mulher? Ele poderia ter analisado os exames que ela fez no hospital, mas isso é uma suposição que não fica clara.

Concluí que o texto carecia de verossimilhança e proporcionei à mulher um final mais feliz:

 

A DONA VAI SE CONSULTAR COM OUTRO

MÉDICO. ELE DIA QUE NÃO HÁ NECESSIDADE

DE CIRURGIA E RECEITA UM ANTI-INFLAMATÓRIO

QUE FAZ EFEITO IMEDIATO.

ELA TOMA O COMPRIMIDO NO CONSULTÓRIO

(AMOSTRAS GRÁTIS) E SAI DE LÁ

CAMINHANDO. NO DIA SEGUINTE ACORDA

DESINCHADA.

 

Dionísio não divulgou o gabarito da prova - e nem era preciso. Os colegas apostavam que Bia tinha tirado 10 e foram falar com ela, na hora do intervalo, pra conferir as respostas. A minha matemática, porém era outra. Alheia ao burburinho da turma, eu tentava calcular o número de pessoas concentradas na frente do meu prédio, a área ocupada pela multidão, a porcentagem de romeiros e o resultado final daquele problema.

João notou que eu não estava bem e arriscou um diagnóstico:

-Tô achando você meio triste... Saudade da sua avó?

Confirmei com a cabeça, e pensando bem, eu não estava mentindo: boa parte da minha tristeza tinha a ver com a viagem da Vó Nina. Se ela pudesse me dar uns conselhos... ou pelo menos,o ombro...

Nada melhor que um mergulho pra relaxar, sobretudo na última aula de uma segunda-feira com provas, mas o professor de Educação física não deixou a gente entrar na piscina. Apesar dos pedidos insistentes da turma, fomos obrigados a fritar os neurônios sob o sol do meio dia. Sai da quadra morta de cansaço e consegui arrastar meu cadáver suado até o ponto de ônibus. Só me senti viva outra vez depois que entrei na lotação, e instalada do lado da janela, fechei os olhos pra receber vento no rosto. Acabei cochilando com a cabeça na mochila.

Acho que seria capaz de dormir até o fim da linha, mas fui acordada por um coro de vozes que rezava a Ave- Maria. Zonza de sono, olhei para a janela do ônibus e deparei com uma cena que me fez sentir num pesadelo: a multidão continuava reunida defronte do prédio onde moro - e, por mais que o motorista xingasse; ninguém saia do meio da rua.

Foi então que vi uma baixinha de olhos claros rodeados de olheiras. Depois de acender uma vela ela se ajoelhou diante do muro pichado, entre as palavras Joana e Dalva, e falou com os braços erguidos:

-Eu já tinha pedido pra tudo que é santa... Não adiantou! Só depois de ver essa garota é que consegui arranjar emprego!

Matilde estava ao lado da baixinha e parecia se divertir com a confusão. Temendo ser reconhecida, tornei a abraçar a mochila e fingi que dormia. Mas pude ouvir um homem berrar:

-Louvada seja Joana Dalva! Graças a ela, eu achei a minha carteira e um monte de retratos da Conceição!

A mulher da perna inchada devia estar no consultório médico, mas não tardaria a aparecer pra contar que tinha sido curada. Eu precisava sair dali o quanto antes, por isso respirei aliviada quando o ônibus e os carros - a essa altura, já havia engarrafamento - começaram a se mover.

Desci no ponto seguinte e entrei numa lanchonete. Pedi à balconista pra usar o banheiro e, trancada lá dentro, fiquei pensando na vida. O calor, porém, não me deixava raciocinar direito. Exausta e faminta, abri a torneira da pia e joguei água fria no rosto.

Ao olhar para o espelho pendurado na parede, vi uma garota com os cabelos pingado e tive uma simples pra dispensar a multidão. Abri a mochila e anotei num caderno:

UMA TEMPESTADE VAI CAIR SOBRE A CIDADE

DEIXANDO A MINHA RUA DESERTA E

APAGANDO O MEU NOME DO MURO.

 

Não me agradou a rima de tempestade com cidade, mas aquele não era o momento pra me preocupar com o estilo. Permaneci no banheiro por alguns minutos, esperando a reação química das minhas palavras, e só saí após ouvir os primeiros trovões.

Tão bom andar na chuva sentindo o uniforme grudar na pele e pulando amarelinha nas poças d'água! Mais gostoso ainda foi verificar que a multidão tinha desaparecido... Junto com a frase pichada no muro.

O alívio deu lugar à surpresa quando cheguei à portaria. Em vez de cochilar em cima da mesa, como de costume, Seu Esteves estava de pé e conversava com dona Alzira, a temida primeira-dama do condomínio.

Será que foi só impressão ou eles mudaram de assunto por minha causa?

Dizem pelos corredores que o síndico não governo nem o próprio salário, depositando integralmente na conta corrente da esposa. Como esperar, portanto, que ele administre o prédio? O homem não manda trocar uma lâmpada sem o prévio consentimento da Dona Alzira. Nas reuniões de condomínio, é ela quem escolhe os temas da pauta, concede a cassa à palavra, anota as sugestões, ignora as críticas, apura o resultado das votações, elabora a ata a encerra a sessão. Sem filhos e sem trabalho, a mulher tem o dia inteirinho

livre pra circular de um andar para o outro e fiscalizar se todos os artigos, parágrafos, incisos e alíneas do regulamento estão sendo fielmente obedecidos.

O xadrez das varizes não a impedem de subir e descer as escadas pra censurar futebol na garagem, música depois das 10, namoro na entrada do prédio e lixo estocado no tapete da porta.

Nunca me dei ao trabalho de ler a lista de proibições, mas aposto que não é permitido entrar no prédio feito um pinto molhado e deixar pegadas de barro sobre o tapete do hall. Achei que iria ganhar, pelo menos, uma advertência, mas a esposa do síndico nem sequer olhou para o chão.

Virou-se para o seu Esteves:

- O que é que você está esperando, homem? Vá chamar o elevador para a Joana Dalva!

Eu nem imaginava sinceramente que Dona Alzira soubesse o meu nome. Enquanto o porteiro cumpria a ordem, ela tocou a minha camisa e me encheu de conselhos:

-Ensopada desse jeito, você pode pegar um resfriado. Assim que chegar em casa, tome um banho quente e não saia do banheiro sem secar os cabelos. Recomendo também um chazinho de alho com limão. Não existe remédio melhor contra a gripe.

Sem entender o porquê de tanta gentileza, agradeci a receita e entrei no elevador. Não consegui, porém me ver livre de Dona Alzira. Ela disse que queria carona e subiu comigo, em silêncio, olhando fixamente para as unhas. Só se animou a levantar os olhos quando era a hora de descer.

-Quinto andar - anunciei, pensando que dona Alzira estava distraída.

Ela me perguntou com a voz trêmula:

-É verdade?

-Veja só - apontei o número cinco pregado na porta.

-Quero saber se é verdade que você faz milagres com a mão esquerda.

Estava explicada a gentileza! Dona Alzira saiu do elevador, mas ignorou o regulamento e ficou segurando a porta.

-Milagres? - procurei demonstrar espanto. –De onde a senhora tirou essa idéia?

-Picharam o seu nome no muro.

-Vai ver que queriam escrever Joana d'Arc... A santa padroeira da França!

-Foi o que pensei - disse dona Alzira. -Para tirar a dúvida, conversei pessoalmente com algumas pessoas que passaram a manhã na frente do prédio. E todo mundo falava de Joana Dalva, uma garota que tinha o poder de transformar as palavras em realidade.

Fingi surpresa e simulei bom humor:

-A senhora acha mesmo que, se eu fosse poderosa, teria tomado essa chuva toda?

Dona Alzira começou a chorar e resumiu o seu drama em poucas palavras:

-Meu marido não quer mais nada comigo. Já fiz de tudo pra chamar a atenção, mas é como se eu não existisse. Fui trocada por outra... Uma tal de Terezinha.

Foi esse o nome que ele gemeu ontem à noite, sonhando, enquanto fazia carinho no travesseiro.

No andar de cima bateram na porta do elevador.

Dona Alzira acelerou o desabafo:

-No 802, tem uma Teresinha. Na última reunião do condomínio ela usava uma saia curta e ficou sentada na fila da frente, cruzando e descruzando as pernas sem a maior cerimônia.

-Isso não significa nada - eu disse - Os sonhos são livres!

-Por favor, Joana Dalva. Escreva aí uma frase para fazer o meu marido esquecer essa amante... Seja ela quem for!

Não deve ser fácil, para a primeira dama, uma mulher que mandava e desmandava no prédio, deixar de lado o orgulho e se humilhar diante de uma garota a quem só dava bom-dia. Eu ia alegar que a pichação no muro não passava de uma brincadeira de mau gosto, mas dona Alzira ouviu passos na escada e soltou a porta do elevador.

Nem em casa tive sossego. Antes que eu pudesse me explicar, minha mãe me recebeu com tom de avalanche:

-O telefone não pára Joana. Até o jornal já ligaram, sabia? Viram o muro pichado com seu nome e pediram para marcar uma entrevista com a garota que dá vida as palavras. Tinha uma multidão aí na frente, hoje de manhã, a fila de espera a espera de um milagre.

Livrei-me do peso da mochila úmida, mas continuei com a sensação de que carregava o mundo nas costas. Minha mãe não se conformava:

-O poder da sua literatura devia ficar em segredo. Você não tinha que contar a ninguém!

-Não fui eu quem contei mãe!

-Ah não? E como a notícia se espalhou?

Minha mãe mudou de expressão quando expliquei quem era Matilde, como ela tinha descoberto o meu poder e o que estava planejado:

-Ela já se apaixonou pelo professor de História - concluí- e me fez uma ameaça: se eu não criasse uma frase para separar o Apolo da Salete, o mundo inteiro ia descobrir o meu segredo. O prazo terminou ontem à noite.

Meu irmão estava almoçando na cozinha e chegou à sala com a boca cheia:

-Que segredo é esse, mana? Você virou super-herói?

Até aquele momento, Xandi ignorava o meu dom. Acontece que a porta da cozinha estava aberta; ele tinha ouvido a conversa e disparou uma atrás da outra:

-Você sabe voar? Pode ficar invisível? Tem visão de raio X? Consegue parar um trem-bala em movimento?

Após enfrentar uma multidão de romeiros, uma prova de matemática, uma educação física debaixo de sol, uma tempestade que me encharcou a alma e o desabafo da mulher do síndico, eu não me sentia em condição de responder às perguntas do meu ingênuo irmão. Avisei a minha mãe que ia tomar banho, mas Xandi se agarrou as minhas pernas e desfiou uma lista de exigências:

-Quero uma frase para ser o artilheiro da sala, pra ganhar um iPod, outra pra comer chocolate de graça na cantina da escola, outra pra não ter que passar fio dental, outra para a professora quebrar o braço e não dar aula... Os dois braços!

Minha mãe se agachou pra ficar do tamanho de Xandi e procurou ser didática:

- A sua irmã tem capacidade, digamos assim, de escrever o futuro... Mas isso não significa que ela seja mágica e possa atender todos os seus desejos.

-Eu tenho o direito, pelo menos de fazer três pedidos? - ele insistiu - Igualzinho à história do gênio da lâmpada?!

Ficção e realidade, na cabeça de Xandi, moram no mesmo endereço. Minha mãe fez uma recomendação:

-Convém meu filho, que você não comente essa história por ai.

-Mas você mesma acabou de dizer - ele riu – que todo mundo já sabe.

Sem argumento, minha mãe mandou que ele escovasse os dentes e pegasse a mochila, o que estava esperando? Ela me disse que ia levar o meu na escola e, de lá, seguiria para a faculdade. Sugeriu que eu ficasse em casa e não atendesse ao telefone:

Tomei um banho quente, como tinha aconselhado Dona Alzira, mas não me animei a fazer chá de alho com limão. Depois do almoço, desabei na cama e fechei os olhos na espera de dormir... nem um cochilo! É impossível pegar no sono quando o telefone toca com a insistência de um despertador. Tive de tirar o fio da tomada e fiquei na janela do meu quarto, admirando a força da chuva e pensando na minha avó.

Por onde ela anda? Quando voltaria da lua-de-mel? O que diria pra me ajudar se eu tivesse coragem de lhe contar que a minha vida estava de cabeça pra baixo?

A saudade me apertou a garganta. Cheguei a me sentir sufocada, mas a tempestade não permitia que eu abrisse a vidraça pra tomar ar. Abri então a minha caixa de mensagens e encontrei um novo e-mail da vó Nina. De Viena.

Liebe Joana,

Conheço muitas mulheres que passam a vida correndo atrás de maridos ricos, ou jovens, ou fortes, ou famosos, ou influentes...

Quanto tempo perdido! Entre os principais atributos do candidato a homem ideal, acho que o humor devia figurar lá em cima, no topo do currículo, como um dos requisitos essenciais à felicidade eterna enquanto dure. Foi assim que eu pensei minha querida, quando aceitei a me casar com este imprevisível cavalheiro.

Toda hora, Henrique me surpreende com uma novidade. Fiquei sabendo, um dia desses, que durante anos ele estudou piano no conservatório e cogitou seriamente tornar-se músico erudito. A carreira só não decolou por causa do traje que, naquela época, os pianistas eram obrigados a usar nos concursos e apresentações; toda vez que vestia fraque, Henrique se sentia fantasiado de pingüim, tinha um ataque de riso diante do espelho e não conseguia tocar uma só nota. Antes de trocar o piano pelo sax e o fraque pelas camisas estampadas, o meu tropical marido fez parte da Orquestra Sinfônica Municipal. Foi lá que ele conheceu um músico vienense que tinha vindo ao Brasil para dar um curso de Oboé. Esse homem disse aos alunos que todo musico que se preze deveria morar uns tempos na Áustria - e descobrir, com os próprios ouvidos, por que a cidade natal de Schubert e Strauss também serviu de inspiração a residência de Mozart, Beethoven e Schöenberg.

Mesmo tendo abandonado os concertos, Henrique seguiu o conselho do amigo e morou por uns tempos em Viena. Ficou conhecido por uma porção de músicos e compositores, a quem escandalizava com o sacrilégio de imprimir ritmo de choro a valsas sagradas, como Danúbio Azul ou Conto dos Bosques de Viena. O público adorou a novidade e lotava as casas de espetáculos pra ver o saxofonista brasileiro que, segundo um jornal da cidade, tentava derrubar a muralha que separa a música erudita da popular. Henrique me levou para assistir a um concerto na famosa Ópera Nacional; eu não sabia que se prestava atenção à música ou a pinturas nas paredes e no teto.

Visitamos o Palácio Schönbrunn, rezamos na Catedral de Santo Estevão e passeamos ao longo do Rio Danúbio. Algumas iguarias da culinária vienense têm nomes indigestos, mas fiquei com água na boca ao provar Wienerschnitzel, um filé de vitela à milanesa acompanhada de molho de ervas e repeti a sobremesa, Apfeistrudel, uma espécie de pão doce de maçã.

No fim do jantar, ouvi Henrique me dizer " Ich liebe dich" e achei que fosse nome do café com chantilly que estávamos tomando. Que vergonha, Joana! A xícara quase caiu da minha mão quando compreendi que aquela era a expressão usada pelos conterrâneos de Freud para dizer " Eu te Amo".

Conclusão: eu estava dividida entre Paris e Veneza, mas agora Viena entrou no páreo e também tem grande chance de ganhar o troféu da cidade mais romântica do mundo.

Auf Wiedersehen,

Nina

P.S: No seu último e-mail, você me chamou de "vozinha". Esse diminutivo, tão carinhoso parecia esconder uma certa tristeza...

Tudo bem com você? Está precisando de alguma coisa ou a minha intuição falhou?

A pergunta me deixou tão abalada que chorei abraçada a tela do micro. Quando os olhos começaram a arder, desabafei com dedos ágeis:

Vó Nina,

Sua intuição tah cada vez + afiada. Além d triste, tô confusa e sem noção do q vai ser da minha vida daki a 5 min. Aqle perua q agarrou o seu buquê, lembra?

Ela pichou no muro q eu faço milagres e hj cedo reuniu uma multidão na frente do prédio. O povo soh foi embora de tarde, msm assim eu provoquei uma tempestade com direito a raios e trovões. Mas o meu poder naum eh + segredo pra ngm. Voltando da escola, subi d elevador com a mulher do síndico, q tb tinha lido a pichação e me pediu pra fazer o marido dela esquecer a suposta amante... Como se eu fosse conselheira sentimental! Ateh o Xandi, meu próprio irmão, cismou d q eu sou super-herói (super-heroína?) e me fez uma lista de exigências. E agora vozinha, como eh q eu saio dessa? O q devo fazer pra q as pessoas parem d me cobrar milagres e me deixem viver em paz com a minha literatura?

Qdo eh q vc volta pra me dar colo?

Por favor, naum demora.

Bjs da sua neta carente.

joana dalva

Terminei de escrever e reli o texto enquanto acariciava o mouse. Não tive coragem, no entanto, de azedar a lua-de-mel da vó Nina com os meus problemas.

Dei um clique em "cancelar" e escrevi outro e-mail:

Vó Nina,

Naum se preocupe comigo. Eu soh tava um poko ansiosa por causa de uma prova de mat. Ainda bem q, na semana passada, chegou uma novata na sala, a bia, q tirou todas as dúvidas da galera. Acho q faturei na prova e, d quebra ganhei uma amiga.

Bjs,

joana dalva

Um pequeno relâmpago começou a piscar no canto inferior da tela. Bia estava me chamando pra teclar e tinha uma pergunta engatilhada:

 

tah chovendo mto aih?

um diluvio

ontem d noite, no jornal da tv, a garota da meteorologia garantiu q a semana ia ser de sol... e eu boba acreditei!

vc naum gosta d chuva?

depende... esta, por ex, eu odiei! por causa do dia, meu pai adiou a viagem pra amanhã

ele ainda tah falando do broche?

sem parar

e vc?

disse q a minha amiga era desligada e tinha se esquecido d devolver

e qual vai ser a próxima desculpa?

sei láh, joana... dpois a gnt pensa nisso

tô achando vc nervosa

uma pilha! marquei com o Samir d sair hj d tarde, mas tive d cancelar pq meu pai tah na área

Ah! Se a Bia soubesse que era eu a autora daquela tempestade! Depois de xingar o serviço de meteorologia, ela se sentiu mais aliviada e encheu a tela de rs ao falar das cócegas provocadas pelo "beijo felpudo" do Samir.

Rir junto com a Bia também de relaxou, mas em seguida recebi um e-mail que me deixou em pânico:

Joana Dalva,

Você acha que essa garoazinha de nada vai afugentar os seus devotos?

Já contratei uma equipe para pichar os muros da cidade. Prepare-se, minha querida, porque amanha cedo a romaria vai lotar a sua rua.

Bons sonhos,

Matilde

Despachar essa mulher pra Marte? Acertar-lhe um raio na cabeça? Intoxicá-la com a tinta do spray que ela usara pra pichar o muro? A imaginação fervilhava de ideias sinistras, mas eu não seria capaz de usar a mão esquerda como arma.

Mais tarde, assistindo ao telejornal, levei um susto ao ver os estragos causados pela minha tempestade.

A apresentadora Fátima da Glória informou que havia riscos de desabamento em vários pontos da cidade, bairros inteiros estavam sem energia, e o engarrafamento entupia as ruas, algumas delas transformadas em rios. Especialistas entrevistados tentaram explicar aquela chuva imprevista, mas não chegaram a um consenso sobre a origem do fenômeno.

Antes que a Fátima anunciasse uma tragédia, corri até o quarto e escrevi as pressas:

 

                     BASTA DE CHUVA

 

Não se ouviu mais um só trovão. As nuvens foram se afastando e, aos poucos o céu ficou limpo. Queria ver a cara dos meteorologistas quando apareceu a Lua Cheia.

 

Terror em domicílio

Tinha acabado de acordar quando olhei pela janela e vi que a Matilde não estava blefando: havia muito mais gente na rua que na véspera. A multidão se estendia de uma esquina a outra e segurava faixas e cartazes que me pediam milagres diversos. No muro diante do prédio, encontrei uma nova pichação:

 

             APAREÇA NA JANELA JOANA DALVA.

 

Saí do quarto atrás de socorro e encontrei minha mãe na janela da sala, observando os devotos por uma fresta da cortina.

-E agora mãe? Como é que eu vou à aula?

-Eu levo você - ela sorriu, fingindo tranqüilidade.

-Tô com medo - admiti. - Essas pessoas são capazes de quebrar o vidro do carro.

Minha mãe me disse pra não discutir e foi preparar o café. Enquanto eu não me esforçava pra engolir o pão, ela escreveu um bilhete para o Xandi avisando que ia me levar à escola e não demorava a voltar. Meu irmão sempre acorda morrendo de fome, por isso o bilhete foi pregado na porta da geladeira.

Descemos pelo elevador de serviço e, por sorte, não topamos com nenhum vizinho. Ao chegar à garagem, minha mãe contornou o nosso carro e abriu o porta malas. Joguei lá dentro a mochila e recebi uma ordem inesperada:

-Você também Joana.

Recuei um passo e ensaiei um protesto:

-Se a senhora tá achando que eu vou me meter aí...

-É claro que vai - ela decidiu. -Ou você prefere enfrentar esse povo?

Fui obrigada a me deitar de lado, com as pernas encolhidas, e usei a mochila como travesseiro. Assim que minha mãe trancou o porta-malas, fechei os olhos pra não ver a escuridão e senti um pouco de falta de ar. O carro subiu a rampa da garagem e avançou lentamente no meio das rezas e cantorias. Não sei quanto tempo levamos pra alcançar o fim da rua, mas fiquei aliviada quando minha mãe dobrou a esquina... Sem atropelar ninguém! Ainda bem que o transito estava fluindo. Praticando uns exercícios de respiração que vó Nina tinha me ensinado, consegui suportar a claustrofobia e sobreviver às trevas.

Finalmente, minha mãe estacionou o carro, desligou o motor e abriu o porta-malas: estávamos num posto de gasolina, a três ou quatro quarteirões da escola!

-É melhor descer e ir a pé - ela me falou. - O que os seus colegas diriam se visse você sair do porta-malas?

Os meus colegas, eu não sei, mas o frentista do posto deve ter pensado que estava assistindo ao desfecho de um seqüestro - relâmpago. Minha mãe tentou se explicar:

-Ela é muito tímida moço. Não gosta de andar na frente.

Saí do posto dando risada, mas meu humor não resistiu às pichações que encontrei pelo caminho. Matilde tinha feito um bom trabalho: meu nome estava nos muros da avenida e, com certeza de toda a cidade. As mensagens eram variadas e apostavam na carência do leitor:

 

MÃO ESQUERDA DE JOANA DALVA TEM O PODER DE CURAR.

A SUA VIDA VAI SE TRANSFORMAR DEPOIS QUE VOCÊ CONHECER JOANA DALVA;

DESEMPREGO? DROGAS? DOENÇA?

PROCURE JOANA DALVA ANTES QUE SEJA TARDE.

 

O marketing deu resultado: colegas, professores e funcionários da escola vieram me perguntar se eu era mesmo poderosa. Repeti mil vezes a mesma resposta:

-Isso não tem nada a ver comigo. Não sou a única Joana Dalva da Cidade.

João conhecia meu segredo e poderia me dar apoio, mas justamente naquele dia faltou a aula. Na hora do intervalo, fui até o orelhão do pátio e liguei para a casa dele. Ninguém atendeu. Tentei, em seguida, o número do salão da Salete. O telefone tocou até cair na secretária eletrônica. Os dois aparelhos estariam com defeito?

Segui para a fila da cantina e me diverti com o devaneio dos colegas. Guto arriscou uma definição para a polêmica personagem:

-Essa Joana Dalva deve ser uma curandeira miserável que resolveu pichar os muros da cidade porque não tem dinheiro pra botar anúncio no jornal.

-Mas e se ela for poderosa de verdade? – Leninha especulou. - Tenho mil coisas a pedir...

-Eu sou mais humilde -disse Guto. - Já me contento com um carrinho da Ferrari.

-Só se fosse pra enfeitar a garagem – Marcelo debochou. - Você nem tem idade para dirigir.

-Bem lembrado. Além do carro, eu queria ter 18 anos e uma carteira de habilitação.

Leninha tinha outros planos:

-Ah, se eu pudesse viajar para a Disney! Meu sonho é ganhar u autógrafo da Minnie.

A vaia dos colegas foi merecida. Até quando Leninha vai agir como criança?

Marcelo falou com o braço esticado, como se estivesse fazendo discurso:

-Bem que ela podia escrever uma frase para me eleger presidente. Acho que posso fazer pelo país o que tenho feito pela nossa sala, como representante da turma.

-Coitado do país! - disse Guto, o que lhe custou um tapa na orelha.

Após um instante de silêncio, Bia também entrou no jogo:

-Pois eu gostaria de transformar o meu pai numa estátua.

A confissão provocou uma troca de olhares escandalizados.

Bia tinha sérios problemas de relacionamento com o pai, mas dai querer imobilizá-lo?

-Só por alguns minutos - ela esclareceu. - Se ele ficasse parado sem poder se mexer, eu acho que teria coragem de dizer tudo o que está engasgado aqui, ó.

Bia passou a mão no pescoço e pousou a cabeça no ombro do Samir. Coube a ele aliviar o clima:

-Meu único desejo é que essa fila ande depressa. Tô morrendo de fome.

Todo mundo riu, menos Danyelle. Ela acompanhava a discussão em silêncio, mas de repente virou-se pra trás e falou, olhando pra mim:

-Não é muito comum encontrar uma Joana Dalva... Duas então, é quase impossível! Quem sabe essa curandeira não estude na nossa sala?

Todos os olhares se viraram na minha direção. Não me deixei abater:

-O que é isso, Daniela? Coincidências acontecem...

Sabia que ela fazia questão de ser chamada de Danyelle, ou pelo menos de Dany, mas cometi o erro de propósito, com a intenção de mudar de assunto. E deu certo:

-Quantas vezes eu vou ter de repetir que o meu nome termina com e?

A última aula seria de História, mas Apolo não apareceu. A diretora da escola, Dona Nélia não conseguiu entrar em contato com ele (celular desligado ou fora de área) e dispensou a turma mais cedo.

Fui até o pátio ligar para casa e recebi uma péssima notícia: a multidão já sabia que a minha mãe era a minha mãe. Quando ela deu seta pra entrar na rua, logo depois de me levar para a escola, viu-se cercada por fanáticos e não só foi arrancada do carro graças à proteção policial. Sim, porque a polícia tinha sido chamada pra conter os mais exaltados, que insistiam em pular as grades do prédio e subir nosso apartamento.

-Você não faz idéia do caos - minha mãe me informou - Gente rezando, brigando, passando mal, entrando na ambulância, no camburão, dando entrevista para

TV... Acho melhor você ir para a casa do seu pai e ficar por lá até que as coisas se acalmem.

Meu pai tinha se mudado para um flat, mas àquela hora estava trabalhando. Era mais lógico passar no consultório e convidá-lo pra almoçar, só nós dois num restaurante discreto onde eu pudesse contar tudo o que estava acontecendo - se é que ele já não não havia ninguém, nem mesmo a secretária.

Será que ele tinha viajado pra participar de algum congresso? De repente ouvi uma risada feminina e abandonei essa hipótese.

A porta do consultório estava apenas encostada, de modo que onde acompanhar uns fiapos da conversa:

- Você dispensou os clientes?

-Um por um. Falei que o doutor Nelson tinha um caso urgente pra resolver.

-E ninguém reclamou?

-Claro que não. A maioria das pessoas tem medo de dentista.

-Você tem?

-Só quando você tira o jaleco - risos. - Onde é que nós vamos hoje a tarde?

-Hum... Tô pensando em levar você para o paraíso...

Essas bobagens carregadas de duplo sentido me deixaram bastante irritada: Freud continua explicando!

Estive a ponto de invadir a sala pra pegar meu pai e a Xirlei no flagra, mas preferi dar meia-volta e sair de cena despercebida.

Sem saber para onde ia, fiquei zanzando pelas ruas do Centro e deparei com um garoto que distribuía impressos numa esquina. Até aí, nenhuma novidade: quase todas as lojas recorrem a esse tipo de estratégia pra atrair freguesia. O que me causou espanto foi à reação do público. A maior parte dos consumidores recusa-se a pegar esses papeis - ou na melhor das hipóteses, faz uma bolinha pra jogar fora sem se dar ao trabalho de ler. O tal garoto, porém, não teve dificuldade pra se livrar do estoque.

Que produto seria capaz de despertar tamanho interesse?

Agarrei um dos últimos exemplares e vi o meu nome em destaque:

 

VÁ CONHECER

JOANA DALVA

A GAROTA CANHOTA

QUE FAZ MILAGRES.

 

Logo em seguida, vinha meu endereço e até o número do meu telefone.

Fiquei tão nervosa, por um instante, esqueci que faço parte de ONGs que lutam pela salvação do planeta: depois de rasgar o impresso em mil pedaços, poluí a calçada com uma chuva de papel picado e atravessei a rua ruminando a minha raiva antiecológica.

Não pensei por quanto tempo andei sem direção. Gosto de fazer caminhadas pra botar as ideias em ordem, mas tudo o que consegui, naquela tarde, com mochila cheia e estomago vazio, foi ficar completamente exausta. Estiquei as pernas num banco de praça e permaneci assim, debaixo de uma árvore, com vontade de comer o farelo de milho que uma dona atirava aos pombos.

Olhei ao redor da praça: nenhum restaurante; botequins, em compensação, brotavam das calçadas, e todos anunciavam "refeições a preços populares". A fortuna que eu trazia no bolso - o troco da merenda- pagaria um daqueles banquetes? Dei uma volta pelos arredores a fim de fazer uma pesquisa de mercado e, se possível, pechinchar um desconto.

Estava na porta de um botequim, salivando diante de um cardápio pregado na parede, quando vi um homem de cabeça branca sair de uma loja de material de

construção. Tinha cabelos compridos, na altura dos ombros, e avançava em direção à esquina carregando uma lata de tinta. Só pude observá-lo de costas, mas foi o suficiente pra notar que era idêntico ao marido da minha avó.

Fiquei tão impressionada com a semelhança que não me contive:

-Henrique!

O homem não se virou. Logo após o meu grito, saiu correndo com a lata de tinta e entrou num taxi que ia passando.

Talvez eu devesse pegar outro taxi e dizer ao motorista, como nos bons filmes de ação, "siga aquele carro!" Mas, na minha situação, sem dinheiro sequer pra comer uma refeição popular, não fazia sentido bancar a detetive e ir atrás de uma mera suspeita.

Era mais razoável - e muito mais barato – supor que tudo não passara de uma ilusão de ótica: Henrique estava em lua-de-mel do outro lado do oceano e ponto final.

É difícil raciocinar com a barriga vazia, mas tive uma ótima idéia pra matar a fome e de graça! Depois de caminhar por mais alguns quarteirões, cheguei ao casarão onde vó Nina trabalha e fiquei com a impressão de penetrar numa ilha: a clínica era um dos últimos redutos da cidade que ignoravam o meu poder.

Tatiana me informou que os internos estavam no refeitório e me fez a pergunta que eu sonhava em ouvir:

-Por que você não almoça com a gente?

Quando me viram entrar no refeitório, muitos internos abandonaram os pratos e se instalaram ao meu redor, numa mesa compriiida, pra saber as últimas fofocas sobre a lua-de-mel da minha avó.

-Calma lá, gente - disse Tatiana, temendo que eu me sufocasse no meio de tanta curiosidade. - Assim, vocês não deixam a Joana Dalva respirar.

Nunca fui apaixonada por sopa, mas estava tão faminta que enfrentei dois pratos fundos. Entre uma colherada e outra, eu me lembrava dos e-mails da vó Nina e ia relatando as melhores histórias. Quanto mais eu falava, mais eles questionavam:

Mila me perguntou se vó Nina assistira a desfiles de moda em Paris, Alice cobrou o punhado de neve com que faria sorvete para as bonecas, Adalgisa se queixou que não recebera nenhum cartão- postal, Bené lembrou que grandes craques jogavam em times italianos e quis saber se Henrique teve a chance de ver alguma partida.

Honório sempre contestava os comentários de Bené, sobretudo quando o assunto era futebol, mas dessa vez não estava presente. Teria adoecido?

-Dor – de - cotovelo - informou Tatiana. - Desde que levou o fora da Matilde, ele não quer sair mais da cama.

Terminei a sopa em silêncio e disse que gostaria de falar com o Honório. Tatiana não me negou o pedido, mas me preveniu de que nos últimos dias ele não havia conversado com ninguém. A caminho do quarto, ela me contou que tanto Bené quanto Honório, haviam sofrido ao saber que Matilde pretendia se

casar com o tal professor Bonitão. Bené, porém, tinha o temperamento expansivo e não se deixara abater, enquanto Honório mergulhava, dia a dia, numa depressão sem fundo, recusando-se até mesmo a se alimentar.

-Vou ter de chamar o médico - Disse Tatiana. – Ele não pode continuar desse jeito.

Honório estava deitado de barriga pra cima, com os olhos fixos no teto, e levou um tempo pra me ver.

Sentada à beira da cama, peguei a mão dele e fiz cara de brava.

-Tô aqui pra puxar a sua orelha. Se você não se levantar agora mesmo e tomar um bom prato de sopa, eu vou contar tudinho para a minha avó quando ela voltar de viagem.

Ela falou com um cisco de voz:

-Será que a Dona Nina demora? Queria tanto me despedir dela...

Bené entrou no quarto e deu um tapa na parede:

-Você não acha que tá muito crescidinho pra bancar o Romeu apaixonado?

Virou-se pra mim e perguntou, soluçando:

-E, se esse velho teimoso morrer de verdade, como é que eu fico? Não vou ter mais ninguém com quem brigar...

Tatiana queria ligar imediatamente para o médico; eu disse que era melhor dar um tempo e sugeri que saíssemos do quarto.

Já comentei que não acho justo me intrometer no sentimento dos outros, mas aquele era um caso de vida ou morte. Fui ao banheiro, abri a mochila e escrevi na minha agenda:

HONÓRIO VAI LEVANTAR FAMINTO

E LIVRE DA DOR-DE-COTOVELO

 

Ele estava bastante debilitado, mas a minha frase lhe deu forças pra berrar:

-Tatiaaaaaaaaaaaaaaaaana! Cadê a minha sopa? Os internos correram até o quarto do Honório e o encontraram de pé, reclamando por estar descalço:

-Aposto que foi o Bené quem escondeu os meus chinelos! Pensou que eu ia morrer e já estava de olho na herança. Bené deu uma gargalhada e agachou-se pra pegar os chinelos do Honório, jogados debaixo da cama. Por fim perguntou ao amigo:

-Quer dizer que você já esqueceu a Matilde?

Honório respondeu com desprezo:

-Que Matilde?

Assim que os dois seguiram para o refeitório, trocando abraço e beliscões, pedi a Tatiana pra usar o telefone.

Liguei para o João e, mais uma vez, não obtive resposta.

Pra acabar com a aflição, só indo até a casa dele.

O salão estava fechado. Apertei a campainha do sobrado, mas ninguém atendeu a porta nem apareceu na janela. Quem falou comigo foi a vizinha da frente:

- A Salete saiu cedo e até agora não voltou.

-A senhora sabe onde ela está?

-Depois do que aconteceu? No Hospital, ora essa!

A mulher percebeu o meu espanto e foi soltando a notícia em pedaços:

-Eu acordei, hoje cedo, com um estouro. A rua inteira ouviu! Acho que uma panela de pressão explodiu na casa da Salete.

A vizinha do lado se meteu na conversa:

-Que panela de pressão, o quê! Aquilo foi vazamento de gás... alguém que acendeu um fósforo e brum!

Enquanto as duas discutiam, sem chegar a um acordo sobre a causa do acidente, um terceiro vizinho se compadeceu da minha ignorância e me contou que Salete e o filho tinham sido levados ao pronto-socorro por um homem de jaleco e calça jeans.

Esse figurino, com certeza, pertencia ao professor Apolo. Então, foi por isso que não tivemos aula de história?!

Ao saber que João tinha saído de casa com o rosto ensangüentado, fiquei com as pernas bambas e me sentei à beira do meio-fio. O vizinho da Salete me perguntou se eu não queria tomar alguma coisa, quem sabe um copo de água com açúcar ou um suco de maracujá? Recusei a oferta com um gesto e comecei a mexer na mochila.

Minha intenção era criar uma frase pra que João e Salete estivessem vivos, se recuperassem plenamente e voltassem depressa pra casa. Não foi necessário, no entanto, escrever uma só linha. No momento em que eu localizei o estojo o carro do Apolo apontou na esquina e virou atração da vizinhança.

João foi o primeiro a descer. Tinha um esparadrapo atravessado na testa e veio correndo me abraçar.

O braço de Salete estava suspenso numa tipóia, mas ela garantiu que se sentia bem, tudo não se passara de um susto, só precisava de um bocado de repouso.

-O que é que aconteceu afinal? - as duas vizinhas perguntaram quase ao mesmo tempo. - Foi uma panela de pressão, ou vazamento de gás?

Salete não respondeu. Apoiando-se no meu braço, ela entrou no sobrado de cabeça baixa e começou a chorar quando viu o que restava do melhor salão de beleza do bairro: não havia um só espelho inteiro, as cadeiras estavam de pernas para o ar, o lustre de cristal tinha desabado e boiava numa poça de xampu.

No meio dos escombros, encontrei migalhas de pão, pedaços de frutas e uma cesta de vime com um buraco no fundo. O que aqueles restos de comida estavam fazendo no meio das tesouras e escovas espalhadas pelo assoalho?

João virou-se para Salete:

-Você acha que foi... que pode ter sido... o meu pai?

-De jeito nenhum - ela afirmou. - Seu pai tem muitos defeitos, mas não é terrorista. Ele não seria capaz de mandar uma bomba dentro de uma cesta de café da manhã.

Fiz o possível pra me convencer que não tinha entendido direito: Salete sofrera... um atentado?!

-Mas quem, então? -João insistiu.

-Não sei - Salete suspirou. - Quando abri a porta, de manhã, a cesta já estava em cima do capacho. Pensei que fosse um presente do Paulo, mas não achei nenhum cartão. Botei o embrulho na mesa, e por sorte me afastei para abrir a janela. Naquele instante filho, você entrou no salão pronto para ir à escola. E foi aí que a Bomba explodiu.

-Deve ser a mesma pessoa - disse João - que ligou aqui para casa, na semana passada, dizendo que era melhor você se separar do Paulo.

Do hospital, os três haviam seguido até a delegacia registrar a ocorrência. Apolo contou que conversara com um amigo que trabalhava na polícia; o cara era detetive e prometeu que mais tarde passaria no Salão para ver os estragos de perto.

-Maluco é o que não falta neste mundo. – disse Apolo. - Segundo o meu amigo da polícia, a bomba pode ter sido fabricada pela dona de um salão concorrente. Ou talvez, por uma funcionária invejosa. Ou até mesmo por algum aluno que foi mal na aula de história e resolveu se vingar de mim atacando a Salete.

-Ainda bem que o salão ainda estava fechado – ela suspirou. - Já pensaram se a bomba explodisse no meio das freguesas?

Não pude mais me omitir:

-Eu sei quem jogou essa bomba.

Salete, João e Apolo me olharam com o mesmo assombro.

- Não tenho como provar - eu disse. - Mas aposto que foi a Matilde.

O nome da minha suspeita deixou Salete arregalada. Contei que Matilde tinha descoberto o meu poder e estava me chantageando, mas nesse ponto Apolo me interrompeu:

-Que poder? Você é médium?

Fiquei um instante indecisa, sem saber se devia revelar ao meu professor que o que eu escrevo com a mão esquerda, inclusive sobre o passado, transforma-se em realidade e pode alterar o curso da História - como no caso da redação em que eu salvara Joana D' Arc da fogueira. Mas, aquela altura, não havia mais nada a esconder.

-Não professor, eu sou... Ou melhor, quero ser escritora. Só que as minhas palavras ganham vida!

Apolo lembrou-se de ter visto o meu nome nos muros, mas pensou que isso fizesse parte da campanha publicitária de algum perfume ou lingerie com o nome de Joana Dalva.

-Então deve ser verdade o que dizem as pichações- ele concluiu. - Mas você faz mesmo milagres?

Salete se impacientou:

-Faz. Quer dizer, mais ou menos. Eu não chamaria de milagres. Depois eu explico, meu amor. Agora, deixe a Joana Dalva falar.

Contei que Matilde estava apaixonada pelo Professor Apolo e exigia que eu escrevesse uma frase para concretizar essa paixão. Diante de minha recusa, ela espalhou o meu segredo nos muros da cidade e arrastou uma multidão de devotos até a minha rua.

Terminei me justificando por não ter dito nada antes:

-Não queria deixar você preocupada. Me perdoa?

Talvez um dia Salete vire minha sogra, mas o abraço que ela me deu foi de mãe:

-Eu é que devia me desculpar por todo esse tumulto. Imagino o quanto você está penando por ter se negado a escrever tal frase.

O telefone não parava de tocar: diversas freguesas e funcionárias tinham passado a manhã no hospital fazendo companhia a Salete, mas continuavam aflitas e ligavam para saber se o braço dela estava melhor, quantos pontos João levara na testa, qual motivo da explosão e o tamanho do prejuízo. Apolo achou melhor desligar o aparelho e perguntou quem queria um café forte pra renovar as energias.

Subimos as escadas do sobrado e fomos para a cozinha. Salete sofria em silêncio, mas de repente deixou escapar:

-Eu gostava tanto daquele lustre... Acho que não dá para colar!

Discretamente, fui até a janela e fiz mais uma anotação na agenda:

O LUSTRE, OS MÓVEIS E OS ESPELHOS

DO SALÃO- QUERO VER TUDO CONSERTADO.

Reli a frase e cheguei a conclusão de que Salete merecia mais:

 

PINTURA NOVA NAS PAREDES E ASSOALHO

BRILHANDO!

 

Assim que guardei a agenda da mochila, um carro estacionou na frente do sobrado. O motorista me viu na janela, apresentou-se como detetive e pediu para eu chamar o Paulo.

João e Salete já conheciam o poder da minha mãe esquerda e não se assustaram ao descobrir que o salão estava totalmente restaurado.

Apolo, em compensação, teve uma crise de gagueira e não soube explicar ao policial como é possível um atentado a bomba não deixar nenhum vestígio.

Depois que o cara foi embora, irritado com o que classificou como uma brincadeirinha de péssimo gosto, Salete me agradeceu por livrá-la do prejuízo e propôs um brinde a minha literatura erguendo a xícara de café:

Tentei telefonar para a minha mãe, mas ela não atendeu o celular e muito menos o fixo - com certeza, havia desligado os dois pra evitar o assédio da média.

Deixei um recado na caixa postal informando que estava na casa da Salete e me sentei na frente do micro com João.

Passamos um tempão vasculhando a internet e não encontramos nenhuma solteirona terrorista com o nome, o rosto ou o perfil psicológico da Matilde.

Aproveitai pra dar uma olhada na minha caixa de mensagens e mandar mais um e-mail para a minha avó.

Vó Nina,

Hj à tarde, zanzando pelas ruas do centro, vi um homem d cabelos brancos sair d uma loja de tintas... um sósia perfeito do seu marido!

Cheguei a gritar o nome do henrique, mas o cara entrou num taxi e sumiu.

Saudades d+ provoca visões?

Bjs

jd

Minha avó devia estar numa Lan House de Lisboa, pois logo em seguida ela me respondeu:

Querida Joana Dalva,

No grupo escolar onde estudei a professora de português era uma filha de portugueses que a gente chamava de Dona Maria de Fátima. Isso mesmo: dona! Ai de quem se atrevesse, naquele tempo, a tratar uma professora por Tia! A primeira coisa que ela fez, ao entrar na sala de aula, foi pedir para que cada aluno escolhesse uma palavra, apenas uma, a predileta. Não me lembro qual foi o meu voto, mas Dona Maria de Fátima elegeu saudade como a palavra mais sonora do idioma - e, ao mesmo tempo, a mais difícil de traduzir. Os Estados Unidos já ocupavam o lugar de país mais rico do mundo e sempre citados como exemplo pelos professores. Dona Maria da Fátima, porém sentia muita pena dos americanos: embora nascidos numa potência econômica, eles não conheciam a palavra saudade e eram obrigados a dizer "I miss you"- expressão que não abrange todas as nuances de um substantivo tão abstrato.

Fiquei assim, meio melancólica desde que cheguei a Lisboa. Henrique nunca morou aqui, mas vinha muito a essa cidade, entre uma turnê e outra, e me

levou para conhecer o Castelo de São Jorge, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerônimo. Passeamos pelos becos e ruelas do centro histórico, ouvimos fado de cabeça baixa, admirando os desenhos da calçadas, e tomamos vinho na companhia da estátua de Fernando Pessoa (cujo fantasma, dizem, continua freqüentando o café "A Brasileira").

Num dos muitos miradouros de Lisboa, Henrique me disse que gostava de vir a Portugal para ouvir a melodia da língua e, desse modo, a matar saudade do Brasil e de mim. Mas está aí um sentimento que não se deixa abater facilmente: mal ele virava as costas, ela regressava ainda mais dolorida.

Acho que essa doença é contagiosa. Estou com saudade de você, do Xandi, da sua mãe, do seu pai, dos moradores da clínica, da Dona Maria de Fátima... Haja reticências!

Não me demoro a voltar, prometo

Beijos d'além mar,

Nina

Vó Nina e Henrique tinham saído de Viena na véspera, portanto fazia menos de vinte e quatro horas que eles estavam em Portugal. Como é possível, em tão pouco tempo, conhecer um castelo, uma torre, um mosteiro, um café e um miradouro?

Eu me ocupava desse mistério quando Salete me entregou o celular.

Mal tive a chance de dizer alô. Estressada até a medula, minha mãe me perguntou onde é que eu tinha passado a tarde, por que desistira de almoçar com o meu pai, com que direito eu sumia assim, sem dar notícias, como se não tivesse família. Disse que já havia ligado para uma porção de gente e estava pensando em procurar a polícia. A sorte é que lembrou de telefonar para a Salete. Só então ficou sabendo que a ingrata da filha se divertia diante do micro e nem se lembrava de mandar um e-mail pra casa avisando que estava viva e evitando que os cabelos da mãe ficassem ainda mais brancos.

Terminada a chantagem emocional, informei que não almoçara com o meu pai porque ele tinha outro compromisso - sobre o qual, naturalmente, tive o bom senso de não dar detalhes. Contei que havia deixado um recado na caixa postal, mas nem assim minha mãe se acalmou:

-Tem gente na frente do prédio que a rua interditada.

Eu já conversei com a Salete e acho melhor você ficar por aí hoje a noite.

Fanático por cinema, Apolo acredita que uma boa comédia cura todos os males e resolveu usar esse remédio - um filme do tempo do cinema mudo que foi buscar na locadora da esquina - pra levantar o moral da Salete. Fez uma bacia de pipoca, encheu os copos de guaraná e apagou a luz da sala. A sessão, porém, teve de ser cancelada. Por azar, o professor ligou a tevê no exato momento em

que os apresentadores do jornal anunciarem as principais notícias do dia, e eu estava na primeira manchete:sabia.

A clientela do meu pai é enorme e leal, por isso me surpreendi quando entrei na sala de espera do consultório:

GAROTA COM SUPOSTOS PODERES REÚNE MULTIDÃO DE ROMEIROS

Salete se apossou do controle remoto pra aumentar o volume, mas ficou tão nervosa que apertou o botão errado e tirou do som da tevê. Quando voltaram a falar, Willian Pedro e Fátima da Glória já haviam anunciado as demais manchetes e noticiaram que Joana Dalva, uma garota de apenas 13 anos, teria o dom de transformar em realidade tudo o que escrevia com a mão esquerda.

Com a autoridade da voz de veludo e o glamour do cabelo grisalho, Willian informou que o meu nome estava pichado nos muros de toda a cidade. Por falar em glamour, o blazer da Fátima era tão chique que quase me tirou a atenção da notícia. Ela disse que havia milhares de pessoas nas imediações do meu prédio e chamou um colega que falava ao vivo do local.

Espremido pelo povo, o repórter declarou que os policiais haviam interditado a rua e desviado o trânsito por causa do movimento de romeiros, vizinhos, curiosos, jornalistas, ambulantes, enfim todo o mundo queria se aproximar da garota que tinha o mundo na mão.

Será que essa adolescente podia mesmo realizar milagres? Pra responder essa pergunta, autoridades religiosas foram entrevistadas e todas elas recomendavam prudência: certos fenômenos sobrenaturais são manifestações do sopro divino, mas talvez fosse cedo pra admitir que a tal garota teria o poder de fazer o verbo virar carne.

Enquanto a câmera mostrava os fiéis ajoelhados na calçada, acendendo velas ou rezando terços, o repórter disse que alguns moradores não se conformavam com o tumulto provocado pela vizinha poderosa. Os beneficiários dos milagres, em compensação, não tinham do que se queixar e fizeram questão de dar testemunho.

A primeira foi uma dona que estava prestes a perder a perna:

- Eu mal podia andar. Passei meses me arrastando de um hospital para outro, sem conseguir marcar a minha cirurgia, ate que vi a Joana Dalva sair do prédio e pedi a ela que me ajudasse... E aí aconteceu o milagre: a minha perna desinchou!

Logo em seguida, um senhor apareceu na tela sacudindo a carteira e dizendo que, graças ao meu poder, tinha recuperado os documentos e as fotos da mulher. Uma baixinha de olhos claros rodeados de olheiras também prestou depoimento, alegando que eu era uma santa porque lhe arranjei um emprego com carteira assinada. Mas o relato mais emocionado partiu de um gordo ofegante:

- A gente malha na mesma academia. Na semana passada, eu sofri um ataque do coração e apaguei. Tentaram de tudo para me reanimar, mas só escapei porque a Joana Dalva estava por perto.

Tiaozão ficou comovido e ganhou um close nos olhos úmidos.

- Obrigado, minha querida, por salvar a minha vida - ele arrematou, quase sem voz, olhando no fundo da câmera. - E também por ter me apresentado o Drummond!

Pra encerrar a matéria, Fátima informou que a equipe de reportagem tinha tentado, sem sucesso, entrar em contato com Joana Dalva: a mãe da garota recusou-se a gravar entrevista, limitando-se a informar, pelo interfone, que a filha não estava em casa.

Não assistimos ao restante do jornal. Quando William chamou a moça que anuncia a previsão do tempo, Apolo desligou a tevê. Talvez tenha se convencido de que nem tudo nesse mundo se resolve com uma boa comédia.

- Vocês notaram - observou Salete - que a Matilde não apareceu? Eu aposto que ela está tramando alguma...

A profecia foi seguida por um uivo que me deixou arrepiada. João disse que Frederico tinha passado o dia sozinho e me chamou pra ajudar a tratar do cachorro. Quando chegamos ao quintal, o bicho continuou uivando e não sossegou enquanto não me ajoelhei pra lhe dar um abraço. João abriu o saco de ração e encheu a tigela, mas Frederico preferiu desenterrar um osso escondido perto do muro.

Fiquei sentada debaixo de uma árvore, fazendo carinho na franja do João e pensando numa saída pra escapar do assédio dos devotos, recuperar o paraíso perdido do anonimato e ter de volta uma vida normal. Acho que a primeira providência seria afastar a multidão da frente do prédio onde moro... Mas como?

Tive uma idéia do tipo eureca ao ver Frederico escavar o quintal. Na falta de lápis e papel, peguei um graveto e escrevi no chão de terra:

 

OPERÁRIOS E MÁQUINAS DA

PREFEITURA VÃO ABRIR UM ENORME

BURACO NA MINHA RUA E TRABALHAR

DIA E NOITE NA RESTAURAÇÃO DOS

ENCANAMENTOS POR UMA QUESTÃO

DE SEGURANÇA. A MULTIDÃO DEVERÁ

SER AFASTADA DO LOCAL. A OBRA

COMEÇA IMEDIATAMENTE.

 

Talvez os vizinhos reclamassem do barulho das máquinas, mas eles não deviam estar contentes com o zumbido das rezas e cantorias. Aquela, além do mais, era uma obra necessária: qualquer chuvinha entupia os bueiros e provocava inundação na rua.

Turismo Digital

Salete não precisa de despertador. Todos os dias, às 6 em ponto, Frederico dispara a latir e só se cala depois que ela se levanta e lhe oferece um pão com manteiga - se for pão puro ou com margarina, ele recusa a oferta e late ainda mais forte. Como o quarto de hóspedes fica perto do quintal, devo ter sido a primeira a acordar. Bem que tentei continuar dormindo, mas logo em seguida João bateu na porta: "Ligação pra você."

Fui até a sala pra atender o telefone e emendei o alô num bocejo. Com voz de choro, minha mãe me perguntou se eu já tinha lido os jornais. Não? Pois a história da garota poderosa estava em todas as manchetes. E isso não era tudo: dona Nélia acabara de ligar pra dizer que havia uma multidão na frente da escola e, como diretora e como mãe, achava que a minha presença poderia causar ainda mais tumulto.

A própria diretora da escola sugerindo que eu matasse aula... A que ponto chegamos, meu Deus!

Minha mãe me aconselhou a permanecer refugiada no sobrado da Salete, ao menos por enquanto, mesmo porque não era hora de voltar pra casa: os funcionários da prefeitura tinham passado a noite inteira cavando pra reparar os encanamentos da rua. O buraco no

asfalto era fundo e não parava de crescer. Muitos prédios – inclusive o nosso - estavam praticamente isolados.

João seguiu para a escola, Salete desceu pra abrir o salão. Ao sair, ela me disse que ficasse à vontade pra abrir a geladeira, ligar a tevê, passear na internet, enfim, agir como se a casa fosse minha.

Depois do que tinha visto no telejornal, eu só queria distância da tevê. Não resisti, porém, a entrar na internet. Estava louca pra receber notícias da vó Nina, mas não encontrei sequer um e-mail na minha caixa de mensagens... nem mesmo da Matilde! O silêncio daquela terrorista me fez lembrar a profecia da Salete: "Eu aposto que ela está tramando alguma..." Fiquei pulando de site em site feito um canguru entediado e não achei nada de interessante - exceto algumas referências a uma certa garota poderosa.

Larguei o micro pra brincar com o Frederico, mas ele logo se cansou de correr atrás da bola de borracha e se deitou no meu colo pra ganhar carinho. Foi quando descobri, na parede lateral do sobrado, um pequeno basculante que dava diretamente no salão. E acabei ouvindo a conversa das freguesas.

Salete teve algum trabalho pra explicar como conseguira, em poucas horas, sumir com os vestígios da explosão e deixar o salão com cara de novo. Mas essa não era a fofoca do dia. O que as dondocas queriam saber era onde andava a famosa Joana Dalva, se continuava namorando o filho da manicure, por que não convocava a imprensa Para uma entrevista coletiva, quem sabe não seria o caso de seguir a carreira de modelo ou de atriz?

Não era fácil digerir abobrinhas àquela hora da manhã. Pensando bem, decidi que não merecia passar o dia foragida, como se fosse uma criminosa, e me despedi de Frederico com um abraço apertado. Subi ao quarto de hóspedes pra pegar a mochila e aproveitei pra procurar um disfarce. Salete não tinha dito que eu me sentisse em casa? Pois tomei emprestado um boné e também uns óculos escuros.

Buraco? O que encontrei na minha rua foi uma cratera!

Não sei quais as conseqüências da queda de um meteoro, mas parecia que um corpo celeste - e dos grandes - tinha caído na frente do meu prédio. Havia barulho pra todos os gostos: os operários quebravam pedras, serravam canos, removiam terra e, como se não bastasse, aceleravam as escavadeiras. Amontoados nas esquinas, os romeiros completavam a sinfonia entoando cânticos e rezas atrás do cordão de isolamento.

Minha rua virou uma ilha. Policiais tinham sido destacados pra garantir a segurança da obra e só permitiam a entrada de moradores. O problema era saber quem era quem. Ninguém costuma levar no bolso contas de água, luz ou telefone, portanto seria um absurdo exigir comprovantes de residência. Mas todo mundo era obrigado a recitar o endereço - e, dependendo do tipo, a apresentar a carteira de identidade.

A burocracia gerou uma fila que enfrentei de cabeça baixa, escondendo o rosto sob os óculos escuros e a aba do boné. Estava rodeada de vizinhos e podia ser reconhecida facilmente, daí o meu pânico quando ouvi, bem na minha frente, a voz da primeira-dama do meu prédio.

- É o cúmulo! - dona Alzira bufava. - Fazer fila pra entrar em casa!

O guarda tentou explicar:

- É para a própria segurança dos moradores, senhora.

- Isso aqui pesa uma tonelada - ela protestou, erguendo uma sacola de compras. - Será que eu não tenho o direito de passar na frente?

- A sua vez já vai chegar - disse o guarda, com um sorriso zen. Dona Alzira largou a sacola no chão e falou, com as mãos na cintura:

- Mas eu sou esposa do síndico!

A resposta foi imediata e partiu de uma mulher no fim da fila:

- Deixe essa dona entrar, seu guarda. Os mais velhos têm prioridade.

Virei a cabeça discretamente e vi a Teresinha do 802. Dona Alzira não engoliu o deboche:

- Eu posso não ser jovem, mas tenho moral. Nunca me ofereci para o marido de ninguém.

Lá estava eu, com a minha precária clandestinidade, no meio do fogo cruzado entre a mulher e a suposta amante do síndico! Por causa da barulheira da obra, as duas trocavam ofensas aos berros e só não se agrediram graças à pronta

intervenção do guarda. Aproveitei a confusão pra escapar do empurra-empurra - a fila, a essa altura, tinha se desmilingüido - e passei sorrateiramente por baixo do cordão de isolamento. Mas outro guarda, nada zen, me deteve com um grito:

- Você aí! Aonde pensa que vai?

Miei o endereço e dei um passo à frente. O sujeito não foi com a minha cara:

- A identidade, garota!

O documento estava dentro da mochila, mas eu não era louca de me expor. O que faria aquele mal-encarado se soubesse que me chamo Joana Dalva?

- Esqueci lá em casa - eu disse.

Pra minha surpresa, o guarda me liberou. Mas com uma condição:

- Tudo bem, vá lá buscar - ele pegou uma prancheta. - Qual o seu nome?

Eu poderia inventar qualquer coisa, mas não consegui ativar os Neurônios e me afoguei numa gagueira suspeita. A minha sorte é que apareceu salva-vidas:

- Pode deixar a menina passar. Ela mora nesta rua e é minha neta.

Achei que era vítima de uma miragem e olhei por cima dos óculos escuros. Só acreditei que não estava delirando quando me atirei nos braços da vó Nina.

Depois dos beijos e abraços, vieram as perguntas. A que horas tinha chegado de viagem? Por que não avisou o número do vôo? Onde é que estavam as bagagens? Já lera, por acaso, os jornais e os muros?

Não sei se minha avó podia me escutar - e nem adiantava responder. O zumbido dos motores perto da cratera nos transformava em surdos-mudos. Henrique estava na entrada do prédio e, sempre gentil, ofereceu-se pra carregar a minha mochila. No elevador, ele me fez dar risada ao imitar a cara de sono do seu Esteves, que era capaz de cochilar na portaria apesar do rugido das escavadeiras.

* * *

Meu irmão atendeu a porta e foi logo perguntando à vó Nina onde é que estavam os presentes. Ajoelhada no canto da sala, diante da imagem de Santa Joana d'Arc, minha mãe encerrou a oração com um nome-do-padre apressado e sufocou minha avó e eu no mesmo abraço. Henrique enlaçou as três, e Xandi pulou sobre os quatro - como costuma fazer na escola quando comemora um gol.

Minha mãe comentou que vó Nina e Henrique deviam estar cansados por causa da viagem e da diferença de fuso horário. Que tal um banho? Um lanche? Um cochilo?

- Nada disso - Henrique sorriu. - A gente só quer conversar. Vó Nina começou falando de mim:

- Eu estava na cama quando abri o jornal e li uma reportagem sobre os poderes da minha neta. Se eu soubesse que o segredo tinha vazado...

A frase foi cortada pela minha mãe:

- Como assim, na cama? Pensei que vocês tinham vindo direto do aeroporto.

O casal estava sentado no sofá, de mãos dadas, e trocou um olhar cúmplice. Por fim, Henrique limpou a garganta e fez uma revelação surpreendente:

- Nós não viajamos de avião.

Houve um instante de silêncio. A conclusão da minha mãe foi imediata:

- Ah! Eu sempre sonhei em fazer um cruzeiro...

- Nem de avião, nem de navio - disse Henrique.

- E existe algum outro meio de voltar da Europa? Xandi arriscou alguns palpites:

- De foguete? Balão? Ultraleve? Submarino? Vó Nina desfez o mistério:

- Viajamos pela internet.

Raciocinei em voz alta:

- Vocês estão tentando dizer... que não estiveram na Europa?

- Fisicamente, não - admitiu Henrique. Minha mãe virou-se pra mim:

- Como você costuma dizer, filha, eu tô bege!

Finalmente, compreendi como vó Nina e Henrique tinham conseguido visitar tantos lugares em tão pouco tempo. A proeza só foi possível graças ao turismo digital: a internet reduzia a um simples clique a fronteira entre os países.

Além de bege, eu estava decepcionada:

- Mas e o que você me contou nos e-mails, vó? O passeio de bateau mouche no rio Sena, a adrenalina na roda-gigante em Londres, a canção do gondoleiro de Veneza, o concerto na Ópera Nacional de Viena, a vista de Lisboa do miradouro... Era tudo mentira?

Vó Nina pegou na minha mão e falou, olhando nos meus olhos:

- Tudo verdade, Joana. Eu juro a você, minha querida, que vivi cada um desses momentos... só que na frente do computador. Hoje em dia, todos os museus, palácios, igrejas e até mesmo bares e restaurantes têm sites com mil dados, fotos, vídeos e links. E, para falar com os amigos, como os músicos londrinos, o dono do bistrô parisiense ou o gondoleiro veneziano, Henrique só precisou de uma webcam.

Minha avó me dando lição de informática... Era só o que faltava! Minha mãe não resistiu à ironia:

- Eu nunca tinha ouvido falar em lua-de-mel virtual! Henrique piscou pra vó Nina:

- Virtual foi a viagem. A lua-de-mel, ao contrário, teve lances de intenso realismo!

Não pude deixar de achar graça. Minha mãe, porém, não estava de bom humor:

- Ainda não entendi por que vocês se esconderam do mundo.

- É o que fazem os casais em lua-de-mel - disse Henrique.

- Mas dentro de casa?

A sinceridade da vó Nina desarmou a minha mãe:

- O que eu mais queria, Sônia, era curtir a toca. Mudar os móveis de lugar, trocar as cortinas, comprar um sofá novo para a sala... Em resumo: deixar o apartamento com a nossa cara. Até as paredes nós pintamos, você acredita?

Isso explicava por que a luz do apartamento estava sempre acesa! E me levava a outra descoberta:

- Não me diga que o cara que eu vi ontem à tarde, na loja de tintas...

- Eu mesmo - confessou Henrique. - Foi uma das poucas vezes que saí de casa. E quase que você me flagrou.

Pensando bem, eu não tinha nenhuma razão pra ficar decepcionada. Ainda continuava um pouco bege, mas acabei me convencendo de que o apartamento teria virado ponto turístico se os amigos, vizinhos e moradores da clínica - pra não falar dos parentes – soubessem o paradeiro do casal. E, de mais a mais, quem nunca alimentou a fantasia de passar a lua-de-mel entre quatro paredes?

Vó Nina acariciou o meu cabelo e afastou uma mecha pra trás da orelha.

- Toda vez que eu mandava um e-mail pra você, me dava coceira na mão para dizer que eu estava na cidade. Acontece que eu tinha jurado ao Henrique que guardaria segredo...

Sentei no colo da minha avó e cochichei no ouvido dela:

- Também pensei em contar pra você que a minha vida estava de pernas para o ar. Mas achei que não era justo estragar a sua lua-de-mel.

O ciumento do meu irmão pulou no sofá e alugou o outro ouvido da vó Nina:

- Se você gosta tanto de computador, vó, por que não compra o meu presente pela internet?

Henrique disse a Xandi que ele poderia escolher qualquer coisa - desde que coubesse no orçamento de um músico que estava reformando o apartamento. Enquanto meu irmão tentava entender o significado da palavra orçamento, vó Nina prometeu que se encarregaria do almoço e me fez salivar com o anúncio do cardápio: caldo de feijão temperado!

Minha mãe e eu fomos para a cozinha e ajudamos vó Nina a catar, lavar e refogar o feijão. Aproveitei pra falar da Matilde e contei todas as loucuras que ela havia cometido - perseguições, ameaças, atentado a bomba - desde que descobrira o meu poder.

- Essa mulher não me dá sossego - eu disse. - Não sei mais o que fazer.

Vó Nina sabia:

- Você podia separar os ingredientes. Nós vamos precisar de alho, cebola, sal, cheiro-verde, louro...

- Tô falando sério - quase perdi a paciência.

- Eu também, Joana. Diante de um problema complicado, as pessoas rezam, ou meditam, ou fazem caminhadas, ou consultam os astros... Cada um tem a sua maneira de apaziguar a mente. Para mim, não há nada mais relaxante que o calor e o aroma do fogão. As minhas melhores idéias aparecem quando estou cozinhando.

Fui obrigada a dar razão a vó Nina: o vapor dos temperos e especiarias me trouxe alívio e bem-estar. Mais tarde, ao mexer o caldo de feijão na panela, percebi que os movimentos lentos e circulares da colher de pau também têm efeito calmante e produzem sons que me lembraram um mantra.

O caldo já havia começado a ferver quando o interfone tocou. Minha mãe pediu que meu irmão atendesse, mas Xandi não estava na sala. Quem atendeu foi Henrique. Ele disse alô - e mais nada. Ouviu o recado de cabeça baixa e ficou tão nervoso na hora de desligar que não foi capaz de encaixar o interfone.

Invadiu a cozinha gaguejando e deu a notícia em golfadas:

- O Xandi estava lá embaixo... brincando na calçada... perto do buraco... Acabou perdendo o equilíbrio... e caiu.

 

Depois de negociar com Xandi o orçamento do presente, Henrique tinha ligado a tevê e se distraído com um programa sobre jazz. As mulheres estavam na cozinha e também não viram o garoto abrir a porta de casa. Ele desceu sozinho de elevador, passou zunindo pela portaria e foi até a rua pra admirar o trabalho das escavadeiras. Não se contentou, porém, em ficar de fora daquele paraíso de lama. Tirou os tênis e patinou descalço sobre o meio-fio, sem dar ouvidos ao alerta dos operários.

Foi assim, segundo seu Esteves, que meu irmão tinha caído no buraco. Vizinhos que assistiram ao acidente da janela confirmaram a versão do porteiro e se encarregaram de consolar a minha mãe.

Ao saber que Xandi estava soterrado, ela não agüentou esperar o elevador e desceu os treze andares pela escada. Continuou correndo até chegar à calçada e só não pulou atrás do filho porque foi agarrada por Henrique. Sem forças pra ficar de pé, ajoelhou-se e ergueu os braços pra pedir misericórdia a Santa Joana d'Arc.

Os operários desligaram as máquinas e desceram pelas encostas da cratera. A tarefa, porém, era arriscada: um passo em falso poderia causar deslizamentos e transformar o drama em tragédia. Os bombeiros chegaram em seguida e, graças a uma parafernália de cabos e cordas, alcançaram o ponto exato onde meu irmão tinha sumido. Começaram, então, as tentativas de contato.

A voz do Xandi só seria ouvida se houvesse um mínimo de silêncio. Mas como calar a multidão que se espremia ao redor da obra?

Preocupados em facilitar o acesso dos bombeiros, os policiais se descuidaram da vigilância da esquina e não puderam impedir o avanço dos fiéis. O cordão de isolamento também não deteve os moradores do bairro, os repórteres e cinegrafistas, os motoristas que largavam os carros no meio da rua pra ver a confusão de perto.

Eu era a responsável por aquela escavação e tinha de tomar uma atitude pra salvar a vida do Xandi. Morta de remorso, fui até a portaria do meu prédio e pedi a seu Esteves um lápis. Ele remexeu a gaveta e tirou lá de dentro uma caneta - sem tinta.

Quem sabe se eu procurasse na rua? De volta à calçada, dei de cara com a minha avó:

- Onde é que você se meteu? Sua mãe quer que você escreva uma frase pra desenterrar o seu irmão. Ele ainda não deu sinal de vida.

Meu pai e Felipe tinham chegado praticamente juntos e estavam de mãos dadas com a minha mãe, um de cada lado: em meio a tanto sofrimento, não havia lugar pra ciúme. Ela me deu um abraço e me implorou baixinho:

- Pelo amor de Deus, filha. O que você está esperando pra usar o seu poder?

Expliquei que não tinha com o que escrever e perguntei, em voz alta, quem me emprestaria uma caneta. Em questão de segundos, um arsenal de canetas, lápis, lapiseiras e pincéis atômicos foi apontado na minha direção - boa parte oferecido pelos meus colegas de sala, que souberam da notícia no fim da aula e vieram direto da escola.

Lá estavam, entre outros, João, Bia, Samir, Leninha, Marcelo, Danyelle e Guto, além da diretora, dona Nélia, e dos professores Apoio, Dionísio e Clarice. Salete também compareceu e foi ela quem me arranjou papel e lápis.

João pegou na minha mão e tentou me levar pra dentro do prédio, onde eu teria conforto e privacidade pra salvar o meu irmão com uma frase inspirada. Mas como caminhar no meio de tanta gente? O jeito era escrever ali mesmo, de pé, suportando os olhares compridos de quem sonhava assistir a um milagre. Tomei cuidado, apenas, de fazer uma letra formiguinha:

Saia desse buraco, Xandi.

Agora!

Quando pinguei a exclamação, os bombeiros ouviram um pedido de socorro e ergueram o polegar pra avisar que o garoto estava vivo.

Xandi saiu do buraco cuspindo terra, acenou em todas as direções e recusou-se a deitar na maça trazida pelos paramédicos. Choveram aplausos quando ele subiu até a superfície da rua - sem ajuda - e atirou-se nos braços da família.

Detalhe: as palmas eram pra mim. Mesmo sem ler o que eu havia escrito, o povo concluiu que existia uma relação de causa e efeito entre a minha frase e o resgate do meu irmão. Fiquei sem ação quando algumas pessoas - não somente romeiros, mas até vizinhos e colegas - ajoelharam-se a meu redor e me chamaram de santa. Bia estava do meu lado e me perguntou afirmando:

- Então, os muros diziam a verdade? Ah, amiga... Quem me dera ter o seu poder!

Foi nesse instante que ouvi o meu nome e tive a impressão de conhecer aquela voz. Sim, é claro que eu conhecia: do telejornal da noite!

A apresentadora Fátima da Glória não costuma fazer reportagens, exceto em ocasiões muito especiais - como a cobertura da Copa do Mundo, por exemplo. É por isso que fiquei tão surpresa - e orgulhosa, não nego - quando ela afundou os pés na lama pra me entrevistar:

- Como você se sente sendo tão poderosa?

Não queria me esconder sob a falsa modéstia nem admitir que a minha literatura pode mudar a realidade. Soltei, então, uma resposta alternativa:

-Acho que todas as garotas da minha idade são poderosas. Aliás, de todas as idades.

Fátima sorriu e me fez outra pergunta, mas levei tanto susto que perdi a voz. Quem estava na minha frente era a incansável Matilde. E, dessa vez, fantasiada de noiva!

Vestido branco, véu e grinalda, luvas de renda e buquê. O figurino parecia perfeito, mas apenas das canelas pra cima. Fiel à mistura de estilos, Matilde tinha substituído as sandálias por botas - mais adequadas para uma caminhada na lama.

A multidão abriu caminho para a bizarra personagem, que parou na minha frente e me fez um convite:

- Faço questão, Joana Dalva, de que você seja a minha madrinha!

Concluí que ela havia surtado e tentei avistar os paramédicos. Mas eles estavam do outro lado da cratera.

- Eu vim aqui - prosseguiu Matilde - porque o seu professor de História, Paulo, mais conhecido como Apolo, o deus grego da beleza, vai me pedir em casamento.

Apolo deu um passo atrás:

- Eu, hein? Nem conheço a senhora.

- Me chame de você, meu bem - pediu Matilde. - Precisamos ganhar intimidade e recuperar o tempo perdido.

Os guardas tentavam evacuar a rua pra que a obra pudesse recomeçar. Foi a um deles que Salete recorreu:

- Por favor, moço. O senhor tem de prender essa mulher. Ela é uma terrorista.

Matilde se indignou:

- Mas que calúnia! Como é que você fala assim da futura esposa do seu ex-namorado?

- É verdade, gente - insistiu Salete. - Ela jogou uma bomba no meu salão de beleza.

- Você só está assim, descontrolada de ciúme, porque tem medo de perder o Apolo. É bom ir se acostumando, minha filha, porque a Joana Dalva vai escrever uma frase pra me dar de presente o seu queridinho.

Sacudi a cabeça com desprezo e ousadia:

- Não vou escrever droga nenhuma.

Matilde atirou o buquê no fundo da cratera, deixando à mostra o revólver que trazia escondido sob as flores.

- É claro que vai - ela riu. - Ou você prefere virar mártir?

A arma estava apontada pra mim, mas a multidão ficou e pânico e se agachou pra escapar de uma bala perdida.

Quando meu pai e João se adiantaram, Matilde mostrou q falava sério:

- Vocês dois! Mais um passo, eu acabo com o poder da garota.

Será que o guarda zen tinha sido treinado pra negociar com terroristas? Ele sorriu pra Matilde e perguntou como ela se chamava, por que não se casava na igreja ou num cartório e onde havia comprado aquele vestido tão bonito. A princípio arredia, a noiva se rendeu ao elogio, falou um pouco sobre a própria vida e contou que seria feliz para sempre na companhia do Apoio.

Não é fácil raciocinar sob a mira de um revólver, mas de repente tive uma idéia que poderia salvar a minha pele... sem destruir o namoro da Salete!

Enquanto Matilde estava distraída, respondendo às perguntas do guarda zen, fiz uma breve anotação e mostrei a frase pra Bia.

- Você é louca! - ela me disse, enfiando o papel no bolso.

Matilde não gostou de me ver cochichando e afastou Bia com um empurrão. Com o revólver encostado na minha cabeça, a louca ordenou que me arranjassem uma folha e me ditou o seguinte texto:

Paulo se apaixona por Matilde e lhe dá um

beijo de cinema. Os dois são aplaudidos

pela multidão, casam-se no civil e no

religioso e passam a lua-de-mel numa ilha

distante. A polícia se comove com a paixão

do casal e desiste de prender a noiva.

Assim que terminei de escrever, todos os olhares se voltaram para o meu professor de História. Ele se aproximou de Matilde com passos firmes, fez-lhe uma carícia no rosto e ficou olhando pra ela com um sorriso de robô. Era como se estivesse hipnotizado! No momento em que a mulher baixou as pálpebras, pronta pra ser beijada, Apolo curvou-se e tomou-lhe o revólver.

Matilde ainda tentou fugir, mas tropeçou na cauda do vestido e caiu de cara na lama. Foi uma tristeza, apesar de tudo, ver aquela noiva marrom implorando aos guardas que prendessem Apolo junto com ela e amarrassem umas latas no pára-choque do camburão, como se vê nos carros dos recém-casados a caminho da lua-de-mel

Os romeiros estavam tão decepcionados quanto a noiva: se Apolo não tinha beijado Matilde, como constava do meu texto, então o que eu escrevia não passava de ficção inofensiva! Alguns se afastaram de cabeça baixa, outros só foram embora depois de pisar nas velas e rasgar as faixas com o meu nome.

As vaias que recebi tiveram gosto de aplauso. Livre da fama de fazer milagres, corri pra dar um beijo no Xandi e ouvi minha avó perguntar o que toda a família queria saber:

- Por que as suas palavras não fizeram efeito?

Prometi que em casa contaria tudo e lembrei que ainda não tínhamos almoçado.

 

Enquanto vó Nina dava os últimos retoques no caldo de feijão, meu irmão plantou-se no meio da sala pra contar as aventuras da viagem ao centro da terra: além da escuridão e da falta de ar, ele teria enfrentado formigas carnívoras, tatus com carcaças pré-históricas e minhocas venenosas que se emendavam umas nas outras, como peças de um jogo de encaixar, até formar uma serpente comprida que por pouco não estrangulou o pobrezinho. Pra provar que não estava inventando, o garoto exibiu o pescoço riscado de vermelho e, ainda um corte no joelho, atribuído à peçonha de um escorpião do tamanho de uma lagosta.

De que videogame, meu Deus, teriam saído aqueles monstro?

As mentiras delirantes do Xandi arrancaram muitas risadas, todos se calaram quando vó Nina tornou a me perguntar:

- E então, Joana? Que truque você usou para enganar a Matilde?

O caldo de feijão da minha avó merece ser desfrutado em silêncio, num estado de veneração e abandono, mas achei que não tinha o direito de esticar o suspense:

- Truque nenhum, vó. Eu fiquei sem poder, só isso.

Salete estava almoçando com a gente e teve um acesso de tosse; o engasgo só cedeu depois que Apolo soprou-lhe o rosto. João me fez um pedido:

- Não brinque assim, mô. Você mata a minha mãe de susto.

- É verdade, João. Quando a Matilde sacou o revólver, eu deduzi que seria forçada a escrever o que ela bem entendesse. E decidi tomar uma atitude radical.

- Dá pra ser mais clara? - perguntou minha mãe, com a colher suspensa.

- Lembra que ela ficou conversando com o guarda? O papo foi rápido, mas me deu tempo de criar uma frase pra escapar das ameaças.

- E nessa frase - arriscou vó Nina - você desistia de ser poderosa?

Por causa da boca cheia, levei alguns segundos pra responder:

- Foi só um empréstimo. Eu escrevi assim para a Bia: "O meu poder está na sua mão. Mais tarde, você me devolve."

Meu pai virou-se pra mim:

- Quem é essa Bia?

- Uma amiga - informei.

- Colega de sala - minha mãe me corrigiu. - Entrou na escola semana passada e mal conhece a Joana.

- Quer dizer - concluiu meu pai - que você entregou o seu dom de bandeja para uma ilustre desconhecida? Eu não acredito!

"Entregar de bandeja" e "ilustre desconhecido" são dois chavões tão imperdoáveis quanto o preconceito do meu pai. Como é que ele ousava rotular uma garota que nem sequer conhecia?

Eu não podia suportar aquelas acusações e dei graças a Deus quando tocou o interfone. Saí da mesa pra atender e fiquei sabendo que o Samir estava na portaria e precisava falar comigo com urgência.

Embora achasse um sacrilégio abandonar o caldo de feijão da vó Nina, João percebeu a minha aflição e não hesitou em me acompanhar.

 

Logo após a prisão de Matilde, Bia e Samir foram obrigados a deixar a rua por causa do reinicio da obra. O pai da garota só voltaria à cidade no fim da semana, por isso eles seguiram para o prédio dela de mãos dadas e ficaram namorando na frente do muro, sem sequer imaginar que estavam sendo vigiados.

O troglodita fez tocaia atrás de uma árvore e teve a frieza de esperar que eles se beijassem - pra pegá-los em flagrante de olhos fechados. O verbo "pegar", neste caso, deve ser entendido literalmente: Bia foi agarrada pelos cabelos e arrastada pra dentro de casa como uma adolescente das cavernas.

Samir queria conversar com seu Agenor, mas era impossível qualquer diálogo. O homem tinha um binóculo pendurado no pescoço e ameaçou atirá-lo no garoto se ele não sumisse dali imediatamente.

- Foi uma humilhação - queixou-se Samir. - Antes de entrar no prédio, o cara me avisou que era bom para a minha saúde que eu nunca mais aparecesse na frente dele.

- E você acha - João balançou a cabeça - que ele vai receber a gente?

- Isso eu não sei. Mas preciso ir até lá pra ver a Bia.

João tinha outra proposta:

- Acho melhor chamar a polícia! Você não falou que ele agrediu a própria filha?

- Puxou o cabelo - disse Samir.

- E isso, por acaso, é carinho?

Os dois chegaram a um impasse e aguardaram o parecer feminino. Como estávamos perto do prédio da Bia, eu me ofereci pra pedir ao porteiro que nos deixasse subir.

- Não custa tentar - decidi. - Se não der certo, aí sim, a gente arranja outra saída.

Sorri para a câmera instalada na guarita e comuniquei ao porteiro, através do interfone, que queria fazer uma visitinha pra Maria Beatriz. Ele perguntou o meu nome e me pediu um minuto. Dali a pouco, anunciou que podíamos entrar e destravou o portão.

João parecia preocupado e, no elevador, explicou o motivo:

- Foi fácil demais, gente. E se o pai da Bia estiver preparando uma armadilha?

- Mas que nóia! - Samir se irritou. - Eu prefiro acreditar que eles fizeram as pazes.

A porta do apartamento estava fechada, mas do corredor era possível ouvir os urros do troglodita. Foi Bia, porém, quem abriu a porta. Ela mandou que a gente ficasse à vontade e deu um selinho no Samir.

Como é que aquela garota se atrevia a beijar a boca do namorado diante de um pai selvagem e neurótico?

Ao contrário do que eu supunha, seu Agenor não representava perigo. Cheguei a essa conclusão ao vê-lo no meio da sala, de pé sobre a mesinha de centro, com o braço erguido e o olhar esbugalhado. Apesar do berreiro, era incapaz de se mover e parecia inofensivo como um anão de jardim.

- Tive de usar o seu poder, Joana - Bia se justificou. – Quando eu disse que gostava do Samir, meu pai correu atrás de mim e subiu nessa mesinha pra me pegar. A sorte é que eu estava perto do telefone e fiz uma anotação no bloco de recados.

Na véspera, durante o intervalo da aula, Bia tinha comentado com os colegas que gostaria de imobilizar seu Agenor. E foi pra realizar esse desejo que ela escreveu: "Meu pai é uma estátua!"

Dona Cida mal podia acreditar:

- Então, o Agenor está assim... por causa de umas palavrinha de nada?

Ele notou que a mulher segurava o riso e ficou ainda mais furioso:

- Olhe aqui, Aparecida. Eu não sei o que me aconteceu, mas não estou achando a menor graça!

Estátuas não costumam reclamar da vida - aquela era uma exceção. Temendo que o pai sentisse falta de ar, Bia tinha criado outra frase: "Fala!" Mas ele era muito mal-agradecido:

- Isso tá parecendo bruxaria, Maria Beatriz! Foi essa garota - seu Agenor apontou pra mim - quem ensinou pra você?

- Joana Dalva é minha amiga - disse Bia - e não tem nada de bruxa.

- Bela amiga! Levou para casa o broche que foi da sua avó e até hoje não devolveu.

Não tive tempo de me defender. Bia passou na minha frente e levantou a blusa do uniforme, deixando à mostra o umbigo:

- O senhor está falando deste broche?

O pai só não caiu pra trás porque não podia se mexer.

- Filha minha com uma jóia espetada no umbigo... Eu mereço.

- Isso se chama piercing - disse dona Cida. - Eu acho um charme!

- E eu acho que vocês perderam o senso do ridículo. Quando sair daqui, vou arrancar esse charme com um puxão.

A ameaça não afetou os planos da Bia:

- O senhor só sai daí, papai, depois de prometer que vai mudar de atitude.

- Olhe aqui, Mana Beatriz...

- Pra começo de conversa, eu quero que você me chame de Bia. Como todo mundo.

- Mas o seu nome é tão bonito!

- Comprido demais. Prefiro o apelido.

O anão de jardim não perdia a arrogância:

- E como é que você vai me obrigar a fazer a sua vontade?

Bia pegou a caneta e mostrou um sorriso maligno. Foi lendo em voz alta, sílaba por sílaba, o que escrevia no bloco de recados:

- Co-cei-ra-no-na-riz.

Concisão e objetividade eram as marcas do texto da Bia: frases curtas, poucas palavras, nada de adjetivos. Um estilo bastante apropriado para um gênio da Matemática.

- Quer parar com isso? - seu Agenor esbravejou. - Eu estou mandando!

Sem poder se cocar, ele tentou alcançar o nariz com a língua e tudo o que conseguiu foi babar. Acabou se rendendo:

- Ok, você venceu. Me livre dessa maldita coceira, Bia, e me deixe mudar de posição.

Ela voltou a escrever e recitar:

- Bas-ta-de-co-cei-ra.

- Você se esqueceu, minha filha, de me tirar daqui.

- Calma, papai. Primeiro, o senhor tem de pedir desculpas ao Samir pelo escândalo que fez lá na portaria.

- Deixe pra lá - disse Samir. - Acho melhor esquecer esse assunto.

- É isso mesmo - concordou seu Agenor. - Eu não tenho por que me desculpar.

Bia voltou a pegar a caneta.

- Se o senhor prefere sentir mais coceira...

- Tudo bem, eu faço o que você quiser - ele baixou a voz. - Me desculpe, garoto. Eu tava nervoso.

- O nome dele é Samir - Bia lembrou.

- Me desculpe, Samir - seu Agenor olhou para a filha. - Satisfeita, agora?

- Ainda não. Você também ofendeu a Joana Dalva. Chamou a minha amiga de bruxa e insinuou que ela era ladra.

- Perdão, Joana Dalva - ele rosnou. - Não vai acontecer de novo.

- Ótimo - disse Bia, olhando ao redor. - Agora, só falta falar com a mamãe.

Dona Cida tinha sumido da sala, mas não demorou a reaparecer - com um cavalete de madeira que armou a poucos metros da mesinha de centro. Trouxe, ainda, lápis de cera e começou a desenhar, olhando alternadamente para o marido e para o papel.

- Sempre quis fazer o retrato do Agenor - confessou Cida, sem parar de rabiscar. - Mas ele nunca teve paciência de posar pra mim.

- Isso é trabalho perdido, Aparecida! Eu vou rasgar esse papel em pedacinhos...

Bia balançou a cabeça:

- Falando desse jeito, papai, o senhor será estátua pelo resto da vida!

- Não brinque assim. Eu já estou com câimbras.

- Quer esticar o corpo? É muito fácil. Basta pedir desculpas à mamãe por todos esses anos de opressão machista e tortura psicológica. E, é claro, prometer que nunca mais vai implicar com ela por causa da pintura. O senhor devia era se orgulhar por ser casado com uma artista plástica tão talentosa!

A câimbra, pelo visto, estava incomodando: seu Agenor implorou o perdão da mulher e prometeu, jurou, deu a palavra de honra de que, a partir daquele dia,

não faria mais nada pra impedir que ela se dedicasse à pintura quando e onde bem entendesse.

Bia estava prestes a libertar o pai quando ouviu um pedido da mãe:

- Só mais um pouquinho, querida. Tô terminando o meu esboço.

Será que dona Cida não tinha mais medo do marido? Eu me arriscaria a afirmar que não. Parece que, com décadas de atraso, ela finalmente havia aderido à revolução feminista.

Quando o esboço ficou pronto, Bia escreveu mais uma frase enxuta – Mexa-se, papai! - e torceu os dedos num figa.

Seu Agenor se espreguiçou lentamente e sacudiu braços e pernas pra se certificar de que tinha pleno domínio dos movimentos. Desceu da mesinha de centro, deu uma volta pela sala, conferiu o tempo pela janela e virou-se para a filha:

- Vou cumprir tudo o que prometi, porque sou um homem de palavra. Mas eu não prometi, Bia, que ia deixar essa jóia pendurada no seu umbigo.

Pressentindo que seria perseguida, Bia fez ziguezague entre os móveis e fugiu pela porta da sala. Samir e João tentaram segurar seu Agenor, mas ele conseguiu se desvencilhar e saiu no rastro da garota. Ela já havia descido uns três andares quando resolveu olhar pra trás. Foi então que tropeçou num degrau, rolou pela escadaria e perdeu os sentidos.

A língua do beijo

Cada minuto durava uma hora na sala de espera do hospital. No cartaz pendurado perto do relógio, uma enfermeira pedia silêncio com o dedo esticado sobre os lábios. Mas quem disse que o Samir ficava quieto? O garoto andava de um lado pra outro e abordava qualquer um que passasse vestido de branco. Até mesmo às faxineiras ele mendigava notícias da Bia - se já havia acordado, o que tinham revelado os primeiros exames, por que o médico não aparecia pra falar com a família.

Dona Cida estava sentada a meu lado, enrolando no dedo a alça da bolsa. De vez em quanto, apertava a minha mão e repetia o suspiro e a pergunta:

- Você acha, Joana Dalva, que ela vai ficar boa?

Eu dizia que era preciso ter fé e apostava que dali a pouco o médico viria nos avisar que a paciente estava totalmente recuperada e já poderia voltar pra casa, tudo não passara de um susto. Minhas palavras, no entanto, saíam sem convicção. Fazia o possível pra manter a esperança, mas não dava pra ignorar a gravidade da queda.

O único que obedeceu à enfermeira do cartaz foi o pai da Bia. Encolhido num canto, ele permanecia de braços cruzados, cabeça baixa e sobrancelhas suspensas. Era como se tornasse a ser estátua - e, dessa vez, por opção.

João achou que seu Agenor não estava se sentindo bem e ofereceu-se pra trazer-lhe um copo d'água. O homem não respondeu. Aliás, nem sequer ouviu. Só se animou a levantar os olhos quando um médico de bochechas vermelhas entrou na sala de espera e quis saber quem eram os pais da Maria Beatriz.

- Sou eu, doutor - disse dona Cida, pulando da cadeira e falando pelo marido. - Tudo bem com a minha menina?

O médico se apresentou - Dr. Jonas, neurocirurgião - e afirmou que ainda era cedo pra qualquer prognóstico. A paciente tinha escoriações nos braços e no rosto, além de uma costela quebrada. Não havia, no entanto, indícios de hemorragia. Seriam necessários novos exames pra avaliar a extensão do traumatismo cranioencefálico que resultará na perda da consciência.

Samir tentou traduzir o diagnóstico:

- Isso quer dizer que a Bia está... em coma?

- E vai ficar assim por quanto tempo? - completou dona Cida.

A obrigação do médico era dizer a verdade, mas de que adiantaria lembrar que muitas vítimas de acidentes domésticos passam anos e anos em cima de uma cama? Dr. Jonas preferiu comentar que a medicina tinha avançado bastante nos últimos anos e garantiu que faria de tudo pra ajudar Maria Beatriz a se recuperar.

Seu Agenor tirou as costas da parede e, finalmente, abriu a boca:

- Pode chamar a garota de Bia, doutor. Ela prefere o apelido.

Era restrito o acesso à Unidade de Terapia Intensiva: meia hora por dia, no fim da tarde, e somente um visitante de cada vez. Sugeri a dona Cida que fosse pra casa descansar um pouco, mas ela não queria se afastar da filha e dirigiu-se à capela do hospital pra "ter uma conversa particular com Nossa Senhora das Dores". Seu Agenor continuou na sala de espera, exatamente na mesma posição, se bem que às vezes movia a cabeça pra conferir o relógio da parede. E Samir saiu atrás de um primo que era residente no hospital, na esperança de obter informações de bastidores sobre o real estado da Bia.

João e eu voltamos pra casa praticamente em silêncio. Não havia muito o que dizer. De uma hora pra outra, eu tinha perdido a companhia de uma amiga querida e, como se isso não bastasse, o dom de transformar a ficção em realidade. Tudo o que eu escrevesse, dali em diante, seria reduzido a uma sucessão de frases impotentes: qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não passaria de coincidência. Meu poder estava em coma junto com a Bia e só voltaria a se manifestar quando e caso ela se recuperasse.

Chegando em casa, contei o que tinha acontecido e fiquei esperando, humildemente, que meu pai e minha mãe fizessem em coro um comentário do tipo: "Quem mandou você emprestar o seu poder?" Em vez disso, os dois me abraçaram com a mesma compaixão e me garantiram que tudo ia dar certo.

Vó Nina lembrou que eu não tinha terminado de almoçar e ofereceu-se pra esquentar o caldo de feijão temperado. Henrique também tentou me animar, chamando-me pra ver a reforma do apartamento. Agradeci os convites, mas aleguei que não estava com fome nem com disposição pra passear. Sentia apenas um enorme cansaço e fui para o quarto com o pretexto de dormir.

Sentada à beira da cama, encolhi as pernas, abracei os joelhos e fiquei olhando para o chão como se o futuro estivesse codificado nas linhas do assoalho. Essas linhas, porém, se embaralharam e me causaram vertigem. Abrir a janela não foi uma boa idéia: as obras na rua tinham recomeçado e maltrataram-me os tímpanos. Precisava urgentemente de uma ocupação e me conectei à internet. Mesmo sabendo que Bia não poderia me responder, mandei-lhe um e-mail reclamando da saudade e aproveitei pra perguntar quando ela sairia do hospital pra tirar as minhas dúvidas de Matemática.

Lendo as notícias do dia, descobri que a história da "falsa santa Joana Dalva" já circulava pela rede. Entrei, por fim, em alguns sites de busca e digitei a palavra-chave "coma". Havia milhões de registros, mas bastou consultar três ou quatro pra entender que se trata de um estado patológico de rebaixamento do nível de consciência do qual não é possível tirar o paciente, nem mesmo com estímulos dolorosos. Aprendi que tal estado pode decorrer de diversas doenças, lesões ou anomalias; em caso de traumatismo grave, o cérebro fica inchado e é pressionado pelo crânio, o que resulta na compressão dos vasos sangüíneos e na redução da circulação cerebral. É como se houvesse uma pane por falta da energia necessária pra manter a atividade elétrica. Quem sofre lesão cerebral grave pode, ainda, cair em estado vegetativo, que se caracteriza por padrões

normais de sono e de vigília, respiração e deglutição espontâneas e reação de sobressalto a ruídos muito altos; tudo isso, no entanto, sem a recuperação da capacidade de pensamento e de comportamento consciente. E há, também, o estado de aprisionamento, uma situação bastante rara: o indivíduo está consciente, mas apresenta uma paralisia tão grave que só consegue se comunicar abrindo e fechando os olhos pra responder a perguntas.

Essas noções de neurologia mexeram com a minha cabeça. E se a Bia estivesse consciente e não pudesse se expressar? Se sentisse dor, fome, frio, medo de morrer ou coceira no nariz? Não queria me desgastar com hipóteses sombrias, por isso resolvi me distrair e fui até a esquina pra tomar um açaí.

Ah! Que delícia perambular anônima pela rua, sem ninguém pra me chamar de santa, nem se ajoelhar a meus pés, nem me implorar graças e milagres!

Só tive de fazer um pequeno favor. Quando voltei da lanchonete, seu Esteves estava "juntando umas palavras" pra mandar notícias à família e me perguntou se eu poderia ajudá-lo. O que queria, no fundo, era alguém pra escrever a carta - ainda não tinha facilidade, conforme me confessou, pra lidar com todas as letras do alfabeto.

Ocupei a cadeira do porteiro e fui anotando o que ele me ditava: a falta da mulher e dos filhos, a vontade de dormir na rede, a saudade do banho de açude aos domingos. O tom da carta, porém, não era melancólico. Seu Esteves contou que estava quase inteirando a passagem pra trazer a família para a cidade e, após se despedir, abençoando os filhos, um por um, pelo nome, disse à mulher que ela ficaria orgulhosa ao vê-lo na portaria de um prédio da Zona Sul, vestindo terno e gravata como no dia em que se casaram.

O uniforme do seu Esteves era uma camisa desbotada e puída na gola. Por que, então, mentir para a mulher?

- Não é mentira, não - ele me disse. - Estou mesmo pensando em comprar um terno pra todo mundo ver que eu venci na vida.

* * *

Entrei na sala de cabeça baixa pra não olhar para a carteira da Bia. A presença dela, porém, estava em toda parte: no problema de Matemática que Dionísio passou no quadro e que ninguém conseguiu resolver, na aula de Apoio sobre a emancipação feminina e a luta por direitos iguais, na oração com que Clarice, de mãos dadas com os alunos, pediu pelo restabelecimento da aluna apaixonada por Fernando Pessoa.

Da escola, segui até o hospital e encontrei Samir na sala de espera. Ele tinha escapulido da aula mais cedo e me informou que não havia novidade: Bia continuava inconsciente e talvez fizesse mais exames à tarde. Dona Cida me recebeu com um abraço mudo e foi conversar com o marido, que se mantinha no mesmo canto e na mesma posição da véspera.

Conversar não é bem o termo: seu Agenor não dava uma palavra. Tinha passado a noite no hospital e não pensava em sair de lá tão cedo. A mulher tentou convencê-lo a ir pra casa e dormir um pouco, tomar um banho, comer alguma coisa. Ele não respondeu. Parecia resignado ao papel de estátua, mas de repente me chamou com um gesto.

Fiquei na dúvida e pus a mão no peito: era comigo? Ele confirmou com a cabeça. Cheguei mais perto e ouvi uma pergunta enigmática:

- Como é possível?

Olhei pra dona Cida, à espera da tradução, mas ela sacudiu os ombros. Seu Agenor notou o meu embaraço e se explicou:

- Tô falando do que vocês duas fizeram lá em casa, ontem à tarde, pra me deixar paralisado.

- Eu não fiz nada, seu Agenor. Foi a sua filha.

- Mas com quem ela aprendeu aquela mágica? Ou era um truque?

Fiquei tentada a inventar um porquê - hipnose, talvez - pra justificar o fenômeno. Mas não tive coragem de mentir:

- É uma espécie de poder - esclareci, num sussurro. - Eu tenho... tinha a capacidade de mudar a realidade com as palavras. Escrevendo com a mão esquerda, entende? Mas emprestei esse poder para a Bia. E, logo depois, aconteceu o acidente.

- Por minha culpa - disse seu Agenor.

- Eu também fui culpada - admiti. - Só emprestei o meu poder porque precisava me livrar da fama de milagrosa. Sem querer, pus em risco a vida da Bia.

- A culpa é exclusivamente minha - insistiu seu Agenor. - Se eu não tivesse sido tão egoísta, intolerante e mesquinho, ela não estaria nessa situação.

O desabafo saiu em voz alta e chamou a atenção de duas enfermeiras que passavam pela sala de espera. Dona Cida se aproximou do marido e tornou a lhe pedir que fosse pra casa descansar. De que adiantava ficar no hospital se Bia estava na UTI?

- Você tem certeza de que perdeu todo o poder? - ele me perguntou, indiferente ao apelo da mulher. - Será que não sobrou nem um restinho, Joana?

Seu Agenor fez um pouco de rodeio e, por fim, me pediu que voltasse ao hospital no fim da tarde pra transmitir energia à garota - colocando a mão esquerda sobre a cabeça dela. Quando eu disse que não podia curar ninguém, ele alegou que não custava tentar e me informou que a visita era às 5.

Não me agradava a idéia de ver a Bia na UTI, mas como dizer não a um pai desesperado?

* * *

Depois do almoço, recostei-me na frente da tevê e acabei pegando no sono. Só não perdi a hora - era esse o desejo do meu inconsciente?

- porque minha mãe me acordou. Mal tive tempo de tirar o uniforme. Atrasadíssima, entrei no elevador amarrando os tênis e pensei em dar um jeito no cabelo diante do espelho da portaria. Chegando ao térreo, no entanto, só tive olhos para o porteiro.

A princípio, achei que seu Esteves tinha sido demitido e substituído por um executivo de terno e gravata, cabelo engomado e barba feita. Mas o sotaque não deixava dúvida:

- Gostou, Joana Dalva? - ele abriu os braços e deu uma rodada.

- Tô chique?

Quando perguntei o nome da loja, seu Esteves me contou que o terno era presente: o síndico do prédio tinha engordado demais e decidira renovar o guarda-roupa.

- Eu não falei, na carta, que ia usar uniforme de bacana? - ele não tirava os olhos do espelho. - Parece que tava adivinhando.

Os funcionários da prefeitura já começavam a tapar o buraco. Parte da rua estava aberta ao trânsito, de modo que não tive dificuldade pra pegar um táxi. A caminho do hospital, deixei-me levar pela ilusão de que seu Esteves ganhara o terno porque era isso o que constava da carta escrita pela minha mão esquerda...

Acontece que eu tinha emprestado o meu poder para a Bia!

No fundo, sabia que tudo não passava de coincidência e abandonei o devaneio quando o carro parou na frente do hospital. Seu Agenor estava à minha espera na recepção e conduziu-me a um pavilhão situado no fim de um corredor interminável.

Por causa do risco de infecção, tivemos de vestir avental, máscara, touca e uma espécie de meia que se calça por cima dos sapatos. Era necessário, além disso, lavar as mãos com um sabonete líquido que recendia a álcool. Essas e outras instruções - proibido portar alimentos e bebidas, favor desligar os aparelhos celulares - estavam listadas no quadro de avisos, ao lado de um retângulo de vidro que dava para o interior da UTI.

Foi através dessa janela estreita que seu Agenor e eu vimos dona Cida se aproximar do leito da Bia, fazer-lhe uma carícia no rosto e remover do lençol, com a ponta dos dedos, um cisco ou um fiapo de cabelo. Por fim, abriu um livro, escolheu a página e começou a mover os lábios.

Seu Agenor ficou intrigado:

- O que será que a Aparecida está lendo?

- Deve ser a Bíblia - eu disse. - Ou, então, um livro de orações.

- Mas de que adianta? A menina não pode ouvir.

Os leitos ficavam dispostos lado a lado, em pequenos compartimentos (que os médicos e enfermeiros chamavam de boxes) separados Por biombos. Fui a segunda a entrar na UTI e, caminhando em direção ao box da Bia, vi uma garota com sonda no nariz brincar de boneca com a mãe, um homem dizer ao filho que

não podia sentir as pernas, uma velha sorrir e gesticular apesar de não ter nenhuma visita.

Bia tinha o rosto inchado e estava conectada a uma porção de Maquinas. Aquela parafernália fez com que eu me sentisse ignorante e impotente. O que queriam dizer os índices, gráficos e tabelas que brilhavam nos monitores?

O tempo parecia pingar devagar, ao ritmo das gotas do soro, mas eu só tinha alguns minutos pra ficar ali dentro e fiz o que seu Agenor me pedira. Com a mão esquerda estendida sobre a cabeça da Bia, respirei fundo e mentalizei uma energia em forma de luz penetrando no cérebro da minha amiga.

Infelizmente, não deu resultado. O que vi de diferente, ao abrir os olhos, foi um livro esquecido aos pés da cama. Não se tratava de uma obra religiosa, como eu imaginava, mas de uma antologia poética. O nome do autor: Álvaro de Campos. Dona Cida devia saber que aquele era o poeta preferido da Bia e decidira ler uns poemas pra ver se a filha se animava.

Notei que havia uma página marcada e fiquei curiosa pra descobrir que versos dona Cida havia selecionado. Levei um susto, porém, na hora em que abri o livro: o papel que servia de marcador era uma folha de bloco - e trazia a letra da Bia!

Lá estava a seqüência de frases que ela escrevera pra imobilizar seu Agenor e mantê-lo paralisado sobre a mesinha da sala: Meu pai é uma estátua! Fala! Coceira no nariz. Basta de coceira. Mexa-se, papai!

Mas isso não era tudo. Susto maior, de tirar o fôlego, foi quando conferi o verso do papel e li as últimas palavras da Bia:

Toma de volta o seu poder,

Joana Dalva. Valeu!

Foi a minha vez de virar estátua. Os neurônios, em compensarão, zuniam de um lado pra outro e não demoraram a chegar à única conclusão possível: no instante em que seu Agenor, recém-libertado, espreguiçava-se sobre a mesinha da sala, Bia escreveu a abençoada frase que restituía o meu poder.

Isso significava, portanto, que o terno do seu Esteves era conseqüência da carta! E eu pensando em coincidência...

Fiquei tão emocionada com a novidade que baixei a máscara e dei um beijo no rosto da Bia. A enfermeira chefe, porém, reprovou o meu entusiasmo. Ao me ver com o rosto descoberto, a mulher me perguntou se eu não tinha lido o quadro de avisos e mandou que eu recolocasse a máscara ou me retirasse imediatamente.

Achei melhor me retirar e dar lugar ao seu Agenor. Enquanto ele visitava a filha, fui até a ante-sala da UTI e peguei uma caneta sobre o balcão.

Não tenho o hábito de rabiscar nem de escrever nos livros; as circunstâncias, no entanto, obrigavam-me a quebrar a rotina. Folheando a antologia, deparei com o poema que compara a beleza do Binômio de Newton à da Vênus de Milo e

lamenta que pouca gente dê por isso. O poema me parecia perfeito, mas não resisti à tentação de ser co-autora de Álvaro de Campos. Pra salvar a vida da minha amiga, acrescentei um par de versos:

Bia pertence à minoria que se apaixona pelo Binômio e pela Vênus.

E terá saúde de sobra para viver essa dupla paixão.

Corri até a janelinha de vidro pra não perder a melhor cena do dia. Com o braço no ombro da dona Cida, testemunhei a emoção do seu Agenor no momento em que Bia abriu os olhos e passou-lhe a mão na barba. Ele soluçava tão forte que chamou a atenção das enfermeiras, mas todas se comoveram, inclusive a enfermeira chefe, quando viram pai e filha abraçados.

Dona Cida também chorava muito, a ponto de embaçar o vidro da janela e impedir que outras pessoas - o pai da garota que brincava de boneca, a esposa do homem que não sentia as pernas - continuassem espiando os parentes.

Foi pensando nessas personagens que encerrei a parceria com o poeta:

 

A garota precisa sarar pra

cuidar da boneca, o homem

com problema nas pernas

sairá do hospital andando,

e a velhinha sorridente terá

mais um motivo para sorrir:

ela poderá morar; se quiser; na

clínica dirigida pela Vó Nina.

É bastante improvável que, de uma hora pra outra, quatro pacientes da mesma UTI se recuperem completamente e estejam prontos pra receber alta. Mas, no meio de tanta alegria, ninguém se preocupou em explicar esse detalhe.

 

O apartamento da vó Nina e do Henrique foi inaugurado em grande estilo. A reforma, porém, não era o único motivo da festa. Também estávamos ali - amigos e vizinhos do casal, moradores da clínica, professores e colegas da escola - pra celebrar a recuperação da Bia e inaugurar uma exposição de arte.

As telas ficaram à mostra na sala, suspensas em divisórias de madeira especialmente alugadas para o evento. A alegria das cores e a força do traço pegaram muita gente de surpresa: era difícil relacionar uma obra tão exuberante à personalidade reservada de uma artista que assinava apenas a letra "c".

Reservada? Nem tanto. Dona Cida circulava com bom humor e naturalidade entre os convidados, agradecendo os elogios e respondendo às inevitáveis

perguntas sobre os mistérios do ofício: de onde vinha a inspiração, se era mais difícil desenhar ou pintar, como saber se o quadro estava pronto ou se precisava de mais um retoque.

Tinha retomado a carreira recentemente e não pensava em expor tão cedo - ao menos numa galeria. Aprovou, no entanto, a idéia de mostrar os trabalhos num espaço não-convencional, mais intimista, como um apartamento recém-reformado. O convite surgira por acaso, logo depois que Bia deixou o hospital: vó Nina tinha passado na casa dela pra fazer uma visita e ficou maravilhada com os quadros pendurados na parede da sala. Quis saber se havia outras telas e, de tanto insistir, foi levada ao quarto de empregada onde funcionava o ateliê até então clandestino. Boa parte estava inacabada, mas minha avó disse que isso não fazia diferença e convenceu dona Cida a sair da toca.

Os trabalhos selecionados mostravam uma artista corajosa e Múltipla, capaz de enfrentar com o mesmo talento diversas técnicas e temas. Havia retratos, paisagens e naturezas-mortas, mas a obra mais elogiada da exposição - e, também, a mais polêmica – mostrava o marido da dona Cida sobre a mesinha de centro da sala.

Seu Agenor tinha posado pra esse quadro a contragosto e, pensando bem, talvez não gostasse de se ver retratado sem autorização.

Mas nem todas as personagens agem conforme a gente imagina. De braço dado com a mulher, ele comentou com os amigos que se sentia honrado e orgulhoso com a homenagem:

- A vida me deu uma segunda chance quando Bia ficou curada. Seria muita falta de originalidade se eu cometesse os mesmos erros.

Não estava falando da boca pra fora. Durante toda a festa, seu Agenor deu mostras de que era outro homem - ou, pelo menos, estava se esforçando pra mudar: foi à cozinha buscar refri para a mulher, tirou a filha pra dançar e até trocou umas palavras com o Samir. Não houve confidencias nem tapinhas nas costas, mas os dois mostraram que seria possível conviver com cordialidade e, quem sabe, tentar uma futura aproximação.

Lá pelas tantas, Henrique pediu um minuto de atenção e foi logo avisando que não faria discurso; queria apenas mostrar a nova canção que tinha composto para a minha avó.

Sentado num banquinho, ele pegou o violão e não deixou ninguém parado. Apoio e Salete, Agenor e Cida, meu pai e Xirlei, Felipe e minha mãe, Samir e Bia, Marcelo e Leninha, Guto e Danyelle, enfim, quase todos os casais dançaram ao ritmo da balada criada por Henrique.

Somente vó Nina e eu não fomos tiradas pra dançar. Ela, por um motivo óbvio: Henrique estava abraçado ao violão. Quanto a mim, a explicação era a timidez do meu namorado:

- Eu queria falar uma coisa pra você, Joana. Mas tem de ser no ouvido.

- Depois - eu disse. - Agora, eu quero dançar. Vem?

- Ah, não! Na frente dos outros, eu fico sem graça.

Não me dei ao trabalho de insistir. Fui até a cozinha e escrevi num guardanapo de papel:

Todo mundo vai virar estátua,

menos João e eu.

A canção do Henrique cessou. De volta à sala, encontrei os convidados imóveis como se fizessem parte de uma exposição de esculturas. João balançou a cabeça e me disse que eu era louca. Agradeci o elogio, liguei o som numa música branda e levei o garoto para um canto da sala onde havia mais espaço.

Dançamos de rosto colado, em silêncio, até que eu me lembrei de perguntar o que João queria me dizer. Ele contou que tinha adorado a iniciativa do Henrique de se declarar para a minha avó em vários idiomas. Decidido a levar essa idéia ao extremo, fez uma pesquisa na biblioteca da escola e na internet e descobriu como os diversos povos e culturas expressam a paixão. Passou, então, a repetir que me amava em latim, catalão, castelhano, francês, italiano, romeno, inglês, alemão, holandês, norueguês, dinamarquês, sueco, búlgaro, russo, checo, polonês, persa, afegão, hindi, urdu, grego, hebraico, iídiche, árabe, aramaico, turco, mongol, japonês, mandarim, malaio, javanês, nagô, guarani, tupiniquim, tupinambá, quíchua, ianomâmi e esperanto.

O português ficou para o fim. E foi nessa língua que João me beijou.

 

                                                                                Sérgio Klein  

 

                      

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