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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


POESIA III (1934 – 1935) / Fernando Pessoa
POESIA III (1934 – 1935) / Fernando Pessoa

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

POESIA III

(1934 – 1935) 

 

Vai lá longe, na floresta

 

Vai lá longe, na floresta,

Um som de sons a passar,

Como de gnomos em festa

Que não consegue durar...

 

É um som vago e distinto.

Parece que entre o arvoredo

Quando seu rumor é extinto

Nasce outro som em segredo.

 

Ilusão ou circunstância?

Nada? Quanto atesta, e o que há

Num som, é só distância

Ou o que nunca haverá.

 

Fresta

 

Em meus momentos escuros Em que em mim não há ninguém, E tudo é névoas e muros Quanto a vida dá ou tem,

 

Se, um instante, erguendo a fronte De onde em mim sou aterrado, Vejo o longínquo horizonte Cheio de sol posto ou nado

 

Revivo, existo, conheço, E, ainda que seja ilusão O exterior em que me esqueço, Nada mais quero nem peço. Entrego-lhe o coração.

 

Pálida, a Lua permanece

 

Pálida, a Lua permanece

No céu que o Sol vai invadir.

Ah, nada interessante esquece.

Saber, pensar - tudo é existir.

 

Mas pudesse o meu coração

Saber à tona do que eu sou

Que existe sempre a sensação

Ainda quando ela acabou...

 

Dorme, criança, dorme

 

Dorme, criança, dorme, Dorme que eu velarei; A vida é vaga e informe, O que não há é rei. Dorme, criança, dorme, Que também dormirei.

 

Bem sei que há grandes sombras Sobre áleas de esquecer, Que há passos sobre alfombras De quem não quer viver; Mas deixa tudo às sombras, Vive de não querer.

 

Bóiam farrapos de sombra

 

Bóiam farrapos de sombra Em torno ao que não sei ser. É todo um céu que se escombra Sem me o deixar entrever.

 

O mistério das alturas Desfaz-se em ritmos sem forma Nas desregradas negruras Com que o ar se treva torna.

 

Mas em tudo isto, que faz O universo um ser desfeito, Guardei, como a minha paz, A 'sp'rança, que a dor me traz, Apertada contra o peito.

 

Verdadeiramente

 

Verdadeiramente

Nada em mim sinto.

Há uma desolação

Em quanto eu sinto.

Se vivo, parece que minto.

Não sei do coração

 

Outrora, outrora

Fui feliz, embora

Só hoje saiba que o fui.

E este que fui e sou,

Margens, tudo passou

Porque flui.

 

O que é a vida e o que é morte

 

O que é a vida e o que é morte Ninguém sabe ou saberá Aqui onde a vida e a sorte Movem as cousas que há.

 

Mas, seja o que for o enigma De haver qualquer cousa aqui, Terá de mim próprio o estigma Da sombra em que eu o vivi.

 

Sabes quem sou? Eu não sei

 

Sabes quem sou? Eu não sei.

Outrora, onde o nada foi,

Fui o vassalo e o rei.

É dupla a dor que me dói.

Duas dores eu passei.

 

Fui tudo que pode haver.

Ninguém me quis esmolar;

E entre o pensar e o ser

Senti a vida passar

Como um rio sem correr.

 

Tenho escrito muitos versos

 

Tenho escrito muitos versos,

muitas cousas a rimar,

dadas em ritmos diversos

ao mundo e ao se ouvidar.

 

Nada sou, ou fui de tudo.

Quanto escrevi ou pensei

é como o filho de um mudo-

“amanhã eu te direi”.

 

E isto só por gesto e esgar,

feito de nadas em dedos

como uma luz ao passar

por onde havia arvoredos.

 

Renego, lápis partido

 

Renego, lápis partido,

Tudo quanto desejei.

E nem sonhei ser servido

Para onde nunca irei.

 

Pajem metido em farrapos

Da glória que outros tiveram,

Poderei amar os trapos

Por ser tudo que me deram.

 

E irei, príncipe mendigo,

Colher, com a boa gente,

Entre o ondular do trigo

A papoila inteligente.

 

Se eu me sentir sono

 

Se eu me sentir sono,

E quiser dormir,

Naquele abandono

Que é o não sentir,

 

Quero que aconteça

Quando eu estiver

Pousando a cabeça,

Não num chão qualquer,

 

Mas onde sob ramos

Uma árvore faz

A sombra em que bebamos,

A sombra da paz.

 

Tudo o que sou não é mais do que abismo

 

Tudo o que sou não é mais do que abismo

Em que uma vaga luz

Com que sei que sou eu, e nisto cismo,

Obscura me conduz.

 

Um intervalo entre não ser e ser

Feito de eu ter lugar

Como o pó, que se vê o vento erguer,

Vive de ele o mostrar.

 

Sangra-me o coração

 

Sangra-me o coração. Tudo que penso

A emoção mo tomou. Sofro esta mágoa

Que é o mundo imoral, regrado e imenso,

No qual o bem é só como um incenso

Que cerca a vida, como a terra a água.

 

Todos os dias, oiça ou veja, dão

Misérias, males, injustiças – quanto

Pode afligir o estéril coração.

E todo anseio pelo bem é vão,

E a vontade tão vã é o pranto.

 

Que Deus duplo nos pôs na alma sensível

Ao mesmo tempo os dons de conhecer

Que o mal é a norma, o natural possível.

E de querer bem, inútil nível,

Que nunca assenta regular ao ser?

 

Com que fria esquadria e vão compasso

Que invisível Geómetra regrou

As marés deste mar de mau sargaço –

O mundo fluído, com seu tempo e ‘spaço,

Que ele mesmo não sabe quem criou?

 

Mas, seja como for, nesta descida

De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;

E o Bem, justiça espiritual da vida,

É perdida palavra, substituída

Por bens obscuros, fórmulas do acaso.

 

Que plano extinto, antes de conseguido,

Ficou só no mundo, norma e desmazelo?

Mundo imperfeito, porque foi erguido?

Como acabá-lo, tempo inconcluído.

Se nos falta o segredo com que erguê-lo?

 

O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele

Que, esse Deus exumado, reflectiu

A morte e a exumação que houveram dele.

Mas ‘stá perdido o selo como que sele

Seu pacto com o vivo que caiu.

 

Por isso, em sombra e natural desgraça,

Tem que buscar aquilo que perdeu –

Não ela, mas a morte que a repassa.

E vem achar no Verbo a fé e a graça –

A nova vida do que já morreu.

 

Porque o Verbo é quem Deus era primeiro.

Antes que a morte, que o tornou o mundo

Corrompesse de mal o mundo inteiro:

E assim o Verbo, que é Deus terceiro,

A alma volve ao Bem que é o seu fundo.

 

Flui, indeciso na bruma

 

Flui, indeciso na bruma, Mais do que a bruma indeciso, Um ser que é coisa a achar E a quem nada é preciso.

 

Quer somente consistir No nada que o cerca ao ser, Um começo de existir Que acabou antes de o Ter.

 

É o sentido que existe Na aragem que mal se sente E cuja essência consiste Em passar incertamente.

 

Nesta grande oscilação

 

Nesta grande oscilação

Entre crer e mal descrer

Transforma-se o coração

Cheio de nada saber;

 

E, alheando do que sabe

Por não saber, o que é,

Só um instante lhe cabe,

Que é o conhecer a fé –

 

A fé que os astros conhecem

Porque é a aranha que está

Na teia, que todos tecem.

E é a vida que antes há.

 

Tudo que sinto, tudo quanto penso

 

Tudo que sinto, tudo quanto penso,

sem que eu o queira se me converteu

numa vasta planície, um vago extenso

onde há só nada sob o nulo céu.

 

Não existo senão para saber

que não existo, e, como a recordar,

vejo boiar a inércia do meu ser

no meu ser sem inércia, inútil mar.

 

Sargaço fluído de uma hora incerta,

quem me dará que o tenha por visão?

Nada, nem o que tolda a descoberta

como o saber que existe o coração.

 

Onda que, enrolada, tornas

 

Onda que, enrolada, tornas, Pequena, ao mar que te trouxe E ao recuar te transtornas Como se o mar nada fosse,

 

Porque é que levas contigo Só a tua cessação, E, ao voltar ao mar antigo, Não levas meu coração?

 

Há tanto tempo que o tenho Que me pesa de o sentir. Leva-o no som sem tamanho Com que te oiço fugir!

 

Montes, e a paz que há neles

 

Montes, e a paz que há neles, pois são longe...

Paisagens, isto é, ninguém...

Tenho a alma feita para ser de um monge

Mas não me sinto bem.

 

Sem eu fosse outro, fora outro. Assim

Aceito o que me dão,

Como quem espreita para um jardim

Onde os outros estão.

 

Que outros? Não sei. Há no sossego incerto

Uma paz que não há.

E eu fito sem o ler o livro aberto

Que nunca mo dirá...

 

Neste mundo em que vivemos

 

Neste mundo em que vivemos

Somos sombras de quem somos,

E os gestos reais que temos

No outro em que, almas, esquecemos,

São aqui esgares e assomos.

 

Tudo é nocturno e confuso

No que entre nós aqui há.

Projecções, fumo difuso

Do lume que brilha ocluso

Ao olhar que a vida dá.

 

Mas um ou outro, um momento,

Olhando bem, pode ver

Na sombra e seu movimento

Qual no outro mundo é o intento

Do gesto que o faz viver.

 

E então encontra o sentido

Do que aqui está a esgarar.

E volve ao seu corpo ido,

Imaginado e entendido,

A intuição de um olhar.

 

Sombra do corpo saudosa,

Mentira que sente o laço

Que a liga à maravilhosa

Verdade que a lança, ansiosa,

No chão do tempo e do espaço.

 

Foi um momento

 

Foi um momento O em que pousaste Sobre o meu braço, Num movimento Mais de cansaço Que pensamento, A tua mão E a retiraste. Senti ou não?

 

Não sei. Mas lembro E sinto ainda Qualquer memória Fixa e corpórea Onde pousaste A mão que teve Qualquer sentido Incompreendido. Mas tão de leve!...

 

Tudo isto é nada, Mas numa estrada Como é a vida Há muita coisa Incompreendida...

 

Sei eu se quando A tua mão Senti pousando Sobre o meu braço, E um pouco, um pouco, No coração, Não houve um ritmo Novo no espaço?

Como se tu, Sem o querer, Em mim tocasses Para dizer Qualquer mistério, Súbito e etéreo, Que nem soubesses Que tinha ser.

 

Assim a brisa Nos ramos diz Sem o saber Uma imprecisa  Coisa feliz.

 

Cessa o teu canto

 

Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto O ouvi, ouvia Uma outra voz Com que vindo Nos interstícios Do brando encanto Com que o teu canto Vinha até nós.

 

Ouvi-te e ouvi-a No mesmo tempo E diferentes Juntas cantar. E a melodia Que não havia. Se agora a lembro, Faz-me chorar.

 

Foi tua voz

Encantamento

Que, sem querer, nesse momento,

Vago acordou

Um ser qualquer

Alheio a nós

Que nos falou?

 

Não sei. não cantes!

Deixa-me ouvir

Qual o silêncio

Que há a seguir

A tu cantares!

 

Ah, nada, nada!

Só os pesares

De ter ouvido,

De ter querido

Ouvir para além

Do que é o sentido

Que uma voz tem.

 

Que anjo, ao ergueres

A tua voz,

Sem o saberes

Veio baixar

Sobre esta terra

Onde a alma erra

E com as asas

Soprou as barças

De ignoto lar?

 

Não cantes mais!

Quero o silêncio

Para dormir

Qualquer memória

Da voz ouvida,

Desentendida,

Que foi perdida

Por eu a ouvir...

 

Poema

 

O céu, azul de luz quieta,

As ondas brandas a quebrar,

Na praia lúcida e completa -

Pontos de dedos a brincar.

 

No piano anónimo da praia

Tocam nenhuma melodia

De cujo ritmo por fim saia

Todo o sentido deste dia.

 

Que bom, se isto satisfizesse!

Que certo, se eu pudesse crer

Que esse mar e essas ondas e esse

Céu têm vida e têm ser.

 

Houve um ritmo no meu sono

 

Houve um ritmo no meu sono.

Quando acordei o perdi.

Por que saí do abandono

De mim mesmo, em que vivi?

 

Não sei que era o que não era.

Sei que suave me embalou,

Como se o embalar quisera

Tornar-me outra vez quem sou.

 

Houve uma música finda

Quando acordei de a sonhar.

Mas não morreu: dura ainda

No que me faz não pensar.

 

Quem me amarrou a ser eu

 

Quem me amarrou a ser eu

Fez-me uma grande partida.

Debaixo deste amplo céu,

Não tenho vinda nem ida.

Sou apenas um ser meu.

 

Nem isso... Anda tudo à volta

A retirar-me de mim.

Parece uma fera à solta

Este mundo que anda assim

A servir-me de má escolta.

 

Quando encontrar a verdade

Hei-de ver se hei-de fugir,

Pelo menos em metade.

Depois ficarei a rir

Da minha tranquilidade.

 

Sonho sem fim nem fundo

 

Sonho sem fim nem fundo,

Durmo, fruste e infecundo.

Deus dorme, e é isso o mundo.

 

Mas se eu dormir também

Um sono qual Deus tem

Talvez eu sonhe o Bem –

 

O Bem do Mal que existo

Esse sonho, que avisto,

Em mim chamo-lhe Cristo.

 

Agora o seu ser ausente,

Surge o que há de presente

Na ausência, eternamente.

 

Não foi em cruz erguida

Num calvário da vida,

Mas numa cruz vivida

 

Que foi crucificado

O que foi, em seu lado,

Por lança golpeado.

 

E desse coração

Água e sangue virão.

Mas a verdade não...

 

Só quando já, descido

De aonde foi subido

Para ser escarnecido.

 

Seu corpo foi baixar

Onde se há-de enterrar,

O haverei de encontar.

 

Desde que o mundo foi

No mundo à alma dói

O que ao mundo destrói.

 

Desde que a vida dura

Tem a vida a amargura

De ser mortal e impura.

 

E assim na Cruz se fez

A vida, para que a nós

Veja o melhor de nós.

 

O túmulo fechado

Aberto foi achado

E vazio encontrado.

 

Meu coração também

É o túmulo do Bem,

Que a vida bem não tem.

 

Mas há um anjo a me ver

E a meu lado dizer

Que tudo é outro ser.

 

Já me não pesa tanto vir da morte

 

Já me não pesa tanto vir da morte.

Sei já que é nada, que é ficção e sonho,

E que, na roda universal da Sorte,

Não sou aquilo que me aqui suponho.

 

Sei que há mais mundos que este pouco mundo

Onde aprece a nós haver morrer –

Dura terra e fragosa, que há no fundo

Do oceano imenso de viver.

 

Sei que a morte, que é tudo, não é nada,

E que, de norte em morte, a alma que há

Não cai num poço. Vai por uma estrada.

Em Sua hora e a nossa, Deus dirá.

 

Não digas nada! Que hás me de dizer?

 

Não digas nada! Que hás me de dizer? Que a vida é inútil, que o prazer é falso? Di-lo de cada dia a cadafalso Ao que ali um dia vai morrer. Mais vale não querer.

 

Sim, não querer, porque querer é um ponto, Ponto  no horizonte de onde estamos, E que nunca atingimos nem achamos. Presos locais da ida e do horizonte Sem asas e sem ponte.

 

Não digas nada, que dizer é nada! Que importa a vida, e o que se faz na vida? É tudo um ignorância diluída! Tudo é esperar à beira de uma estrada A vinda sempre adiada.

 

Outros são os caminhos e as razões. Outra a vontade que nos fará seus. Outros os montes e os solenes céus.

 

Do fundo do fim do mundo

 

Do fundo do fim do mundo Vieram me perguntar Qual era o anseio fundo Que me fazia chorar.

 

E eu disse: “É esse que os poetas Têm tentado dizer Em obras sempre incompletas Em que puseram seu ser.”

 

Ë assim com um gesto nobre Respondi a quem não sei Se me houve por rico ou pobre.

 

Tenho em mim como uma bruma

 

Tenho em mim como uma bruma

Que nada é nem contém

A saudade de cousa nenhuma,

O desejo de qualquer bem.

 

Sou envolvido por ela

Como por um nevoeiro

E vejo luzir a última estrela

Por cima da ponta do meu cinzeiro.

 

Fumei toda a vida. Que incerto

Tudo quanto vi ou li!

E todo o mundo é um grande livro aberto

Que em ignorada língua me sorri!

 

Teu perfil, teu olhar real ou feito

 

Teu perfil, teu olhar real ou feito,

Lembra-me aquela eterna ocasião

Em que eu amei Semiramis, eleito

Daquela plácida visão.

 

Amei-a, é claro, sem que o tempo e o espaço

Tivesse nada com o meu amor.

Por isso guardo desse amor escasso

O meu amor maior.

 

Mas, ao olhar-te, lembro, e reverbera

Quem fui em quem eu sou.

Quando eu amei Semiramis, já era

Tarde no Fado, e o amor passou.

 

Quanta perdida voz cantou também

Nos séculos perdidos que hoje são

Uma memória irreal do coração!

Quanta voz viva, hoje de ninguém!

 

A lâmpada nova

 

A lâmpada nova

No fim de apagar

Volta a dar a prova

De estar a brilhar.

 

Assim alma sua

Deveras esperta

Quando a noite é nua

E se acha deserta.

 

Vestígio que ergueu

Sem ser no lugar

De onde se perdeu...

Nasce devagar!

 

Vaga saudade

 

Vaga saudade, tanto

Dóis como a outra que é

A saudade de quanto

Existiu aqui ao pé.

 

Tu, que és do que nunca houve,

Punges como o passado

A que existir não aprouve.

 

Onde quer que o arado o seu traço consiga

 

Onde quer que o arado o seu traço consiga

E onde a fonte, correndo, com a sua água siga

O caminho que, justo, as calhas lhe darão,

Aí, porque há a paz, está meu coração.

Bem sei que o som do mar vem de além dos outeiros

E que do seu bom som os ímpetos primeiros

Turvam de ser diverso o natural da hora,

Quando o campo a não ouve e a solidão a ignora.

Mas qualquer cousa falsa desce e se insinua

Nos anos que são vestígios sob a Lua.

 

As coisas que errei na vida

 

As coisas que errei na vida

São as coisas que acharei na morte.

Porque a vida é dividida

Entre quem sou e a sorte.

 

As coisas que a Sorte deu

Levou-as ela consigo,

Mas as coisas que sou eu

Guardei-as todas comigo.

 

E por isso os erros meus,

Sendo a má sorte que tive,

Terei que os buscar nos céus

Quando a morte tire os véus

À inconsciência em que estive.

 

O Sol que doura as neves afastadas

 

O Sol que doura as neves afastadas No inútil cume de altos montes quedos Faz no vale luzir rios e estradas E torna as verdes árvores brinquedos...

Tudo é pequeno, salvo o cume frio, De onde quem pensa que do alto não vê Vê tudo mínimo, num desvario De quem da altura olhe quanto é.

 

Ah, quero as relvas e as crianças!

 

Ah, quero as relvas e as crianças!

Quero o coreto com a banda!

Quero os brinquedos e as danças –

A corda com que a alma anda.

 

Quero ver todas brincar

Num jardim onde se passa,

Para ver se posso achar

Onde está minha desgraça.

 

Ah, mas minha desgraça está

Em eu poder querer isto –

Poder desejar o que há.

 

Deixei atrás os erros do que fui

 

Deixei atrás os erros do que fui, Deixei atrás os erros do que quis E que não pude haver porque a hora flui E ninguém é exacto nem feliz.

 

Tudo isso como o lixo da viagem Deixei nas circunstâncias do caminho, No episódio que fui e na paragem, No desvio que foi cada vizinho.

 

Deixei tudo isso, como quem se tapa Por viajar com uma capa sua, E a certa altura se desfaz da capa E atira com a capa para a rua.

 

Não digas nada

 

Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade

Em nada se dizer E tudo se entender - Tudo metade De sentir e de ver... Não digas nada Deixa esquecer

Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada... Mas ali fui feliz Não digas nada.

 

Quero dormir

 

Quero dormir. Não sei se quero a morte,

Nem sei o que ela é.

O que quero é não ser submisso à sorte,

Seja ela lei ou fé.

 

Quero poder nos campos prolongados

Meu ser abandonar.

Aos seus verdes silêncios afastados,

Que amo só de os olhar.

 

Quero poder imaginar a vida

Como ela nunca foi,

E assim vivê-la, vivida e perdida,

Num sonho que nem dói.

 

Quero poder mudar o universo

De um para outro lado,

Como quem junta o seu viver disperso

E o ata com o fado.

 

Quero, por fim, ser coroado rei

Do nada a que enfim vou.

Será minha coroa o que serei,

E o ceptro o que sou.

 

Se alguém bater um dia à tua porta

 

Se alguém bater um dia à tua porta, Dizendo que é um emissário meu, Não acredites, nem que seja eu; Que o meu vaidoso orgulho não comporta Bater sequer à porta irreal do céu.

 

Mas se, naturalmente, e sem ouvir Alguém bater, fores a porta abrir E encontrares alguém como que à espera De ousar bater, medita um pouco. Esse era Meu emissário e eu e o que comporta O meu orgulho do que desespera. Abre a quem não bater à tua porta!

 

Sim, vem um canto na noite

 

Sim, vem um canto na noite.

Não lhe conheço a intenção,

Não sei que palavras são.

 

É um canto desligado

De tudo o que o canto tem.

É algum canto de alguém.

 

Vem na noite independente

Do que diz bem ou mal.

Vem absurdo e natural.

 

Já não me lembro que penso.

Ouço: é um canto a pairar

Como o vento sobre o mar.

 

Tudo que amei

 

Tudo que amei, se é que o amei, ignoro,

E é como a infância de outro. Já não sei

Se o choro, se suponho só que o choro,

Se o choro por supor que o chorarei.

 

Das lágrimas sei eu.. Essas são quentes

Nos olhos cheios de um olhar perdido...

Mas nisso tudo são-me indiferentes

As causas vagas deste mal sentido.

 

E choro, choro, na sinceridade

De quem chora sentindo-se chorar.

Mas se choro a mentir ou a verdade,

Continuarei, chorando, a ignorar.

 

Tudo, menos o tédio

 

Tudo, menos o tédio, me faz tédio.

Quero, sem ter sossego, sossegar.

Tomar a vida todos os dias

Como uma remédio,

Desses remédios que há para tomar.

 

Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto

De tantos tantos me fez nada em mim.

Minhas mãos ficaram frias

Só de aguardar o encanto

Daquele amor que as aquecesse enfim

 

Frias, vazias,

Assim.

 

A nuvem veio e o sol parou

 

A nuvem veio e o sol parou.

Foi vento ou ocasião que o trouxe?

Não sei: a luz se nos velou

Como se luz a sombra fosse.

 

À vezes, quando a minha passa

Por sobre a alma que é ninguém,

A sensação torna-se baça

E pensar é não sentir bem.

 

Sim, é como isto: pelo céu

Vai uma nuvem destroçada

Que é véu, mau véu, ou quase véu,

E, como tudo, não é nada.

 

Divido o que conheço

 

Divido o que conheço.

De um lado é o que sou

Do outro quanto esqueço.

Por entre os dois eu vou.

 

Não sou nem quem me lembro

Nem sou quem há em mim.

Se penso me desmembro.

Se creio, não há fim.

 

Que melhor que isto tudo

É ouvir, na ramagem

Aquele ar certo e mudo

Que estremece a folhagem.

 

Começa, no ar da antemanhã

 

Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia. É uma sombra entre as sombras vã. Mais tarde, quanto é a manhã Agora é nada, noite fria.

 

É nada, mas é diferente Da sombra em que a noite está; E há nela já a nostalgia Não do passado, mas do dia Que é afinal o que será.

 

Deslembro incertamente

 

Deslembro incertamente. Meu passado

Não sei quem o vive. Se eu mesmo fui,

Está confusamente deslembrado

E logo em mim enclausurado flui.

Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo.

Só há de meu o que me vê agora –

O campo verde, natural e mudo

Que um vento que não vejo vago aflora.

Sou tão parado em mim que nem o sinto.

Vejo, e onde o vale se ergue passa a encosta

Vai meu olhar seguindo o meu instinto

Como quem olha a mesa que está posta.

 

Se há arte ou ciência para ler a sina

 

Se há arte ou ciência para ler a sina

A que em nós o Destino faz de nós,

Dá-me que eu a não saiba e que, indivina,

Me corra a vida vagamente e a sós.

 

Que quero eu do futuro que não tenho?

Que me pesa hoje, ou alegra, o que serei?

Sei, por lembrar, de que passado venho,

E, onde hoje estou, incertamente sei.

 

O mais, o que o futuro me dará,

Deixo a quem dê e a forma como o der.

Basta a sombra que esta árvore me dá

E a sensação de nada mais querer.

 

Bem sei que estou endoidecendo

 

Bem sei que estou endoidecendo.

Bem sei que falha em mim quem sou.

Sim, mas, enquanto me não rendo,

Quero saber por onde vou.

 

Inda que vá para render-me

Ao que o Destino me faz ser,

Quero, um momento, aqui deter-me

E descansar a conhecer.

 

Há grandes lapsos de memória

Grandes paralelas perdidas,

E muita lenda e muita história

E muitas vidas, muitas vidas.

 

Tudo isso; agora me perco

De mim e vou a transviar,

Quero chamar a mim, e cerco

Meu ser de tudo relembrar.

 

Porque, se vou ser louco, quero

Se louco com moral e siso.

Vou tanger lira como Nero.

Mas o incêndio não é preciso.

 

Bem sei que há ilhas

 

Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo

Onde há paisagens que não pode haver.

Tão belas que são como que o veludo

Do tecido que o mundo pode ser.

 

Bem sei. Vegetações olhando o mar,

Coral, encostas, tudo o que é a vida

Tornado amor e luz, o que o sonhar

Dá à imaginação anoitecida.

 

Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento

Que ali agita os ramos em torpor

Passa de leve por meu pensamento

E o pensamento julga que é amor.

 

Sei, sim, é belo, é luz, é impossível,

Existe, dorme, tem a cor e o fim,

E, ainda que não haja, é tão visível

Que é uma parte natural de mim.

 

Sei tudo, sim, sei tudo. E sei também

Que não é lá que há isso que lá está,

Sei qual é a luz que essa paisagem tem

E qual o mar por que se vai para lá.

 

A montanha por achar

 

A montanha por achar Há de ter, quando a encontrar, Um templo aberto na pedra Da encosta onde nada medra.

 

O santuário que tiver, Quando o encontrar, há de ser Na montanha procurada E na gruta ali achada.

 

A verdade, se ela existe, Ver-se-á que só consiste Na procura da verdade, Porque a vida é só metade.

 

A ciência, a ciência

 

A ciência, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha Como uma santa em sacrifício, Com quanto esforço dado ralha! Contra o pensar, que é o meu vício!

 

A ciência! Como é pobre e nada! Rico é o que alma dá e tem.

 

A criança que ri na rua

 

A criança que ri na rua, A música que vem no acaso, A tela absurda, a estátua nua, A bondade que não tem prazo -

 

Tudo isso excede este rigor Que o raciocínio dá a tudo, E tem qualquer cousa de amor, Ainda que o amor seja mudo.

 

Sim, já sei...

 

Sim, já sei...

Há uma lei

Que manda que no sentir

Haja um seguir

Uma certa estrada

Que leva a nada.

 

Bem sei. É aquela

Que dizem bela

E definida

Os que na vida

Não querem nada

De qualquer estrada.

 

Vou no caminho

Que é meu vizinho

Porque não sou

Quem aqui estou.

 

Era isso mesmo

 

Era isso mesmo - O que tu dizias, E já nem falo Do que tu fazias...

 

Era isso mesmo... Eras outra já, Eras má deveras, A quem chamei má...

 

Eu não era o mesmo Para ti, bem sei. Eu não mudaria, Não - nem mudarei...

 

Julgas que outro é outro. Não: somos iguais.

 

 

6.10.1934


Bem sei que todas as mágoas

 

Bem sei que todas as mágoas

São como as mágoas que são

Parecidas com as águas

Que continuamente vão...

 

Quero, pois, ter guardada

Uma tristeza de mim

Que não possa ser levada

Por essas águas sem fim.

 

Quero uma tristeza minha

Uma mágoa que me seja

Uma espécie de rainha

Cujo trono se não veja.

 

Na véspera de nada

 

Na véspera de nada

Ninguém me visitou.

Olhei atento a estrada

Durante todo o dia

Mas ninguém vinha ou via,

Ninguém aqui chegou.

 

Mas talvez não chegar

Queira dizer que há

Outra estrada que achar,

Certa estrada que está,

Como quando da festa

Se esquece quem lá está.

 

Os olhos que não olham

 

Os olhos que não olham – os meus olhos –

Passa o ribeiro, que nem sei se é

Rápido no lento passar incerto ao pé

Dos invisíveis espinhos e abrolhos

Da margem, minha estagnação sem fé.

 

É como um viandante que passasse

Por um muro de quinta abandonada

E, por não ter que olhá-lo, por ser nada

Para o seu interesse, o não olhasse,

Fiel somente ao nada sem a estrada.

 

Não tenho que sonhar

 

Não tenho que sonhar que possam dar-me

Um dia, vero ou falso, as rosas vãs

Entre que em sonhos mortos fui achar-me

No alvorecer de incógnitas manhãs.

Não tenho que sonhar o que renego

Antes do sonho e o recusar a ter,

Sou no que sou como na vida é um cego

A quem causou horror o poder ver.

Isto, ou quase isto... Só do sonho morto

Me fica uma imprecisa hesitação –

Como e a nau (...)

 

Exígua lâmpada tranquila

 

Exígua lâmpada tranquila, Quem te alumia e me dá luz, Entre quem és e eu sou oscila.

 

A mão posta sobre a mesa

 

A mão posta sobre a mesa, A mão abstracta, esquecida, Imagem da minha vida... A mão que pus sobre a mesa Para mim mesmo é surpresa. Porque a mão é o que temos Ou define quem não somos. Com ela aquilo que fazemos [...]

 

Eram varões todos

 

Eram varões todos, Andavam na floresta Sem motivo e sem modos E a razão era esta.

 

E andando iam cantando O que não pude ser, Nesse tom mole e brando Como um anoitecer

 

Em que se canta quanto Não há nem é e dói E que tem disso o encanto De tudo quanto foi.

 

Canto a Leopardi

 

Ah, Mas da Voz Exânime Pranteia

O coração aflito respondendo: “Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia? Se não há nem bondade nem justiça Por que é que anseia o coração na liça Os seus inúteis mitos defendendo?

 

Se é falso crer num deus ou num destino Que saiba o que é o coração humano, Por que há o humano coração e o tino Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano Querer justiça, por que na justiça Querer o bem, para que o bem querer? Que maldade, que [...], que injustiça Nos fez pra crer, se não devemos crer?

Se o dúbio e incerto mundo, Se a vida transitória Têm noutra parte o íntimo e profundo Sentido, e o quadro último da história, Por que há um mundo transitório e incerto Onde ando por incerteza e transição, Hoje um mal, uma dor, e [...], aberto Um só dorido coração?”

 

Assim, na noite abstracta da Razão, Inutilmente, majestosamente, Dialoga consigo o coração, Fala alto a si mesma a mente; E não há paz nem conclusão, Tudo é como se fora inexistente.

 

Como é por dentro outra pessoa

 

Como é por dentro outra pessoa Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo Com que não há comunicação possível, Com que não há verdadeiro entendimento.

 

Nada sabemos da alma Senão da nossa; As dos outros são olhares, São gestos, são palavras, Com a suposição de qualquer semelhança No fundo.

 

Deixem-me o sono!

 

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã. Mas se tão tarde o sono veio, Quero, desperto, inda sentir a vã Sensação do seu vago enleio.

 

Quero, desperto, não me recusar A estar dormindo ainda, E, entre a noção irreal de aqui estar, Ver essa noção finda.

 

Quero que me não neguem quem não sou Nem que, debruçado eu Da varanda por sobre onde não estou, Nem sequer veja o céu.

 

Teu inútil dever

 

Teu inútil dever

Quanta obra faça cobrirá a terra

Como ao que a fez, nem haverá de ti

Mais que a breve memória.

 

O som contínuo da chuva

 

O som contínuo da chuva

A se ouvir lá fora bem

Deixa-nos a alma viúva

Daquilo que já não tem.

 

Na paz da noite

 

Na paz da noite, cheia de tanto durar,

Dos livros que li,

Que os li a sonhar, a mal meditar,

Nem vendo que os li.

 

Ergo a cabeça (...) estonteada

Do lido e do vão

Do ler e vazio que há e fiz por noite acabada...

Não no meu coração.

 

Criança, era outro...

 

Criança, era outro... Naquele em que me tornei Cresci e esqueci. Tenho de meu, agora,

um silêncio, uma lei. Ganhei ou perdi?

 

Onde, em jardins exaustos

 

Onde, em jardins exaustos

Nada já tenha fim,

Forma teus fúteis faustos

De tédio e de cetim.

Meus sonhos são exaustos,

Dorme comigo e em mim.

 

Sá-Carneiro

 

Nesse número de Orpheu que há ser feito

Com rosas e estrelas em um mundo novo.

 

Nunca supus que isto que chamam morte

Tivesse qualquer espécie de sentido...

Cada um de nós, aqui aparecido,

Onde manda a lei certa e a falsa sorte,

 

Tem só ma demora de passagem

Entre um comboio e outro, entroncamento

Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;

Mas, seja como for, segue a viagem.

 

Passei, embora num comboio expresso

Seguisses, e adiante do que em que vou;

No términus de tudo, ao fim lá estou

Nessa ida que afinal é um regresso.

 

Porque na enorme gare onde Deus manda

Grandes acolhimentos se darão

Para cada prolixo coração

Que com seu próprio ser vive em demanda.

 

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.

Há almas pares, as que conheceram

Onde os seres são almas.

 

Como éramos só um, falando! Nós

Éramos como um diálogo numa alma.

Não sei se dormes calma,

Sei que, falho de ti, estou um a sós.

 

É como se esperasse eternamente

A tua vida certa e conhecida

Aí em baixo, no Café Arcada –

Quase no extremo deste

 

Aí onde escreveste aqueles versos

Do trapézio, doriu-nos

Aquilo tudo que dizes no Orpheu.

 

Ah, meu maior amigo, nunca mais

Na paisagem sepulta desta vida

Encontrarei uma alma tão querida

Às coisas que em meu ser são as reais.

 

Não mais, não mais, e desde que saíste

Desta prisão fechada que é o mundo,

Meu coração é inerte e infecundo

E o que sou é um sonho que está triste.

 

Porque há um de nós, por mais que consigamos

Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,

Um desejo de termos companhia –

O amigo como esse que a falar amamos.

 

Música... Que sei eu de mim

 

Música... Que sei eu de  mim? Que sei eu  de haver ser ou estar? Música... sei só que sem fim Quero saber só de sonhar...

 

Música... Bem no que faz mal À alma entregar-se a nada... Mas quero ser animal Da insuficiência enganada

 

Música... Se eu pudesse ter, Não o que penso ou desejo, Mas o que não pude haver E que até nem em sonhos vejo,

 

Se também eu pudesse fruir Entre as algemas de aqui estar! Não faz mal. Flui, Para que eu deixe de pensar!

 

Não quero rosas, desde que haja rosas

 

Não quero rosas, desde que haja rosas. Quero-as só quando não as possa haver. Que hei-de fazer das coisas Que qualquer mão pode colher?

 

Não quero a noite senão quando a aurora A fez em ouro e azul se diluir. O que a minha alma ignora É isso que quero possuir.

 

Para quê?... Se o soubesse, não faria Versos para dizer que inda o não sei. Tenho a alma pobre e fria... Ah, com que esmola a aquecerei?...

 

Sim, está tudo certo

 

Sim, está tudo certo.

Está tudo perfeitamente certo.

O pior é que está tudo errado.

Bem sei que esta casa é pintada de cinzento.

Bem sei qual é o nome desta casa –

Não sei, mas poderei saber, como está avaliada,

Nessas oficinas de impostos que existem que (...)

Bem sei, bem sei.

Mas o pior é que há almas aí dentro

E a Tesouraria das Finanças não conseguiu livrar

A vizinha do lado de lhe morrer o filho.

A Repartição de não sei quê não pôde evitar

Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse

com a cunhada...

 

Mas está claro, está tudo certo...

E, excepto estar tudo errado, é assim mesmo, está certo...

 

Tudo quanto penso

 

Tudo quanto penso, Tudo quanto sou É um deserto imenso Onde nem eu estou.

 

Extensão parada Sem nada a estar ali, Areia peneirada Vou dar-lhe a ferroada Da vida que vivi.

 

Liberdade

 

(Falta uma citação de Séneca)

 

Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. Sol doira Sem literatura O rio corre, bem ou mal, Sem edição original E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como o tempo não tem pressa...

 

Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...  Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.

 

Mais que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...

 

Um dia baço mas não frio...

 

Um dia baço mas não frio...

Um dia como

Se não tivesse paciência pra ser dia,

E só num assomo,

Num ímpeto vazio

De dever, mas com ironia,

Se desse luz a um dia enfim

Igual a mim,

Ou então

Ao meu coração,

Um coração vazio,

Não de emoção

Mas de buscar, enfim -

Um coração baço mas não frio.

 

O amor é que é essencial

 

O amor é que é essencial.

O sexo é só um acidente.

Pode ser igual

Ou diferente.

O homem não é um animal:

É uma carne inteligente,

Embora às vezes doente.

 

Azul, ou verde, ou roxo

 

Azul, ou verde, ou roxo quando o sol O doura falsamente de vermelho, O mar é áspero, casual ou mol(e), É uma vez abismo e outra espelho. Evoco porque sinto velho O que em mim quereria mais que o mar Já que nada ali há por desvendar.

 

Os grandes capitães e os marinheiros Com que fizeram a navegação, Jazem longínquos, lúgubres parceiros Do nosso esquecimento e ingratidão.

Só o mar às vezes, quando são Grandes as ondas e é deveras mar Parece incertamente recordar.

 

Mas sonho... O mar é água, é água nua, Serva do obscuro ímpeto distante Que, como a poesia, vem da lua Que uma vez o abate outra o levanta. Mas, por mais que descante Sobre a ignorância natural do mar, Pressinto-o, vasante, a murmurar.

 

Quem sabe o que é a alma ? Quem conhece Que alma há nas coisas que parecem mortas. Quanto em terra ou em nada nunca esquece. Quem sabe se no espaço vácuo há portas? O sonho que me exortas A meditar assim a voz do mar, Ensina-me a saber-te meditar.

 

Capitães, contramestres - todos nautas Da descoberta infiel de cada dia Acaso vos chamou de ignotas flautas A vaga e impossível melodia. Acaso o vosso ouvido ouvia Qualquer coisa do mar sem ser o mar Sereias só de ouvir e não de achar?

 

Quem atrás de intérminos oceanos Vos chamou à distância ou quem Sabe que há nos corações humanos Não só uma ânsia natural de bem Mas, mais vaga, mais subtil também Uma coisa que quer o som do mar E o estar longe de tudo e não parar.

 

Se assim é e se vós e o mar imenso Sois qualquer coisa, vós por o sentir E o mar por o ser, disto que penso; Se no fundo ignorado do existir Há mais alma que a que pode vir À tona vã de nós, como à do mar Fazei-me livre, enfim , de o ignorar.

 

Dai-me uma alma transposta de argonauta, Fazei que eu tenha, como o capitão Ou o contramestre, ouvidos para a flauta Que chama ao longe o nosso coração, Fazei-me ouvir , como a um perdão, Numa reminiscência de ensinar, O antigo português que fala o mar!

 

O meu sentimento é cinza

 

O meu sentimento é cinza

Da minha imaginação,

E eu deixo cair a cinza

No cinzeiro da Razão.

 

Começa a ir ser dia

 

Começa a ir ser dia, O céu negro começa, Numa menor negrura Da sua noite escura, A Ter uma cor fria Onde a negrura cessa.

 

Um negro azul-cinzento Emerge vagamente De  onde o oriente dorme Seu tardo sono informe, E há um frio sem vento Que se ouve e mal se sente.

 

Mas eu, o mal-dormido, Não sinto noite ou frio, Nem sinto vir o dia Da solidão vazia. Só sinto o indefinido Do coração vazio.

 

Em vão o dia chega Quem não dorme, a quem Não tem que ter razão Dentro do coração, Que quando vive nega E quando ama não tem.

 

Em vão, em vão, e o céu Azula-se de verde Acinzentadamente. Que é isto que a minha alma sente? Nem isto, não, nem eu, Na noite que se perde.

 

A outra

 

Amamos sempre no que temos O que não temos quando amamos. O barco pára, largo os remos E, um a outro, as mãos nos damos. A quem dou as mãos? À Outra.

 

Teus beijos são de mel de boca, São os que sempre pensei dar, E agora e minha boca toca A boca que eu sonhei beijar. De quem é a boca? Da Outra.

Os remos já caíram na água O barco faz o que a água quer. Meus braços vingam minha mágoa No abraço que enfim podem ter. Quem abraço? A Outra.

 

Bem sei, és bela, és quem desejei... Não deixe a vida que eu deseje Mais que o que pode ser teu beijo E poder ser eu que te beije. Beijo, e em quem penso? Na Outra.

 

Os remos vão perdidos já, O barco vai não sei para onde. Que fresco o teu sorriso está, Ah, meu amor, e o que ele esconde! Que é do sorriso Da Outra?

Ah, talvez, mortos ambos nós, Num outro rio sem lugar Em outro barco outra vez sós Possamos nos recomeçar Que talvez sejas A Outra.

 

Mas não, nem onde essa paisagem É sob eterna luz eterna Te acharei mais que alguém na viagem Que amei com ansiedade terna Por ser parecida Com a Outra.

 

Ah, por ora, idos remo e rumo, Dá-me as mãos, a boca, o ter ser. Façamos desta hora um resumo Do que não poderemos ter. Nesta hora, a  única, Sê a Outra.

 

Desce a névoa da montanha

 

Desce a névoa da montanha.

Desce ou nasce ou não sei quê...

Minha ama é a tudo estranha.

Quando vê, vê que não vê.

Mais vale a névoa que a vida...

Desce, ou sobe: enfim, existe.

E eu não sei em que consiste

Ter a emoção por vivida,

E, sem querer, estou triste.

 

Já não me importo

 

Já não me importo

Até com o que amo ou creio amar.

Sou um navio que chegou a um porto

E cujo movimento é ali estar.

 

Nada me resta

Do que quis ou achei.

Cheguei da festa

Como fui para lá ou ainda irei

 

Indiferente

A quem sou ou suponho que mal sou,

 

Fito a gente

Que me rodeia e sempre rodeou,

 

Com um olhar

Que, sem o poder ver,

Sei que é sem ar

De olhar a valer.

 

E só me não cansa

O que a brisa me traz

De súbita mudança

No que nada me faz.

 

Não me digas mais nada

 

Não me digas mais nada. O resto é a vida.

Sob onde a uva está amadurecida

Moram meus sonos, que não querem nada.

Que é o mundo? Uma ilusão vista e sentida.

 

Sob os ramos que falam com o vento,

Inerte, abdico do meu pensamento.

Tenho esta hora e o ócio que está nela...

Levem o mundo: deixem-me o momento!

 

Se vens, esguia e bela, deitar vinho

Em meu copo vazio, eu, mesquinho

Ante que o sonho, morto te agradeço

Que não sou para mim mais que um vizinho.

 

Quando a jarra que trazes aparece

Sobre meu ombro e a sua curva desce

A deitar vinho, sonho-te, e, sem ver-te,

Por teu braço teu corpo me apetece.

 

Não digas nada que tu não creias. Fala

Como a cigarra canta. Nada iguala

O ser um som pequeno entre os rumores

Com que este mundo (...)

 

A vida é a terra e o vivê-la é lodo.

Tudo é mentira, diferença ou modo.

Em tudo quanto faças sê só tu,

Em tudo quanto faças sê tu todo.

 

O véu das lágrimas não cega

 

O véu das lágrimas não cega.

Vejo, a chorar,

O que essa música me entrega –

A mãe que eu tinha, o antigo lar,

A criança que fui,

O horror do tempo, porque flui,

O horror da vida, porque é só matar!

Vejo e adormeço,

Num torpor em que me esqueço

Que existo inda neste mundo que há...

Estou vendo minha mãe tocar.

E essas mãos brancas e pequenas,

Cuja carícia nunca mais me afagará,

Tocam ao piano, cuidadosas e serenas.

(Meu Deus!)

Un soir à Lima.

 

Ah, vejo tudo claro!

Estou outra vez ali.

Afasto do luar externo e raro

Os olhos com que o vi.

 

Mas quê? Divago e a música acabou...

Divago como sempre divaguei

Sem ter na alma certeza de quem sou,

Nem verdadeira fé ou firme lei.

 

Divago, crio eternidades minhas

Num ópio de memória e de abandono.

Entronizo fantásticas rainhas

Sem para elas ter o trono.

 

Sonho porque me banho

No rio irreal da música evocada.

Minha alma é uma criança esfarrapada

Que dorme num recanto obscuro.

De meu só tenho,

Na realidade certa e acordada,

Os trapos da minha alma abandonada,

E a cabeça que sonha contra o muro.

 

Mas, mãe, não haverá

Um Deus que me não torne tudo vão,

(ou) Um outro mundo em que isso agora está?

Divago ainda: tudo é ilusão.

Un soir à Lima.

Quebra-te, coração…

 

Ouvi os sábios todos discutir

 

Ouvi os sábios todos discutir,

Podia a todos refutar a rir.

Mas preferi, bebendo na ampla sombra,

Indefinidamente só ouvir.

 

Manda quem manda porque manda, nem

Importa que mande ou mande bem.

Todos são grandes quando a hora é sua.

Por baixo cada um é o mesmo alguém.

 

Não invejo a pompa, e ao poder,

Visto que pode, sem razão de ser,

Obedece, que a vida dura pouco

Nem há por isso muito que sofrer.

 

Teus olhos entristecem

 

Teus olhos entristecem Nem ouves o que digo. Dormem, sonham esquecem... Não me ouves, e prossigo.

 

Digo o que já, de triste, Te disse tanta vez... Creio que nunca o ouviste De tão tua que és.

 

Olhas-me de repente De um distante impreciso Com um olhar ausente. Começas um sorriso.

 

Continuo a falar. Continuas ouvindo O que estás a pensar, Já quase não sorrindo.

 

Até que neste ocioso Sumir da tarde fútil, Se esfolha silencioso O teu sorriso inútil.

 

Há doenças piores que as doenças

 

Há doenças piores que as doenças,

Há dores que não doem, nem na alma,

Mas que são dolorosas mais que as outras.

Há angústias sonhadas mais reais

Que as que a vida nos traz, há sensações

Sentidas só com imaginá-las

Que são mais nossas do que a própria vida.

Há tanta cousa que, sem existir,

Existe, existe demoradamente,

E demoradamente é nossa e nós...

Por sobre o verde turvo do amplo rio

Os circunflexos brancos das gaivotas...

Por sobre a alma o adejar inútil

Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

 

No ouro sem fim da tarde morta

 

No ouro sem fim da tarde morta,

Na poeira de ouro sem lugar

Da tarde que me passa á porta

Para não parar.

 

No silêncio dourado ainda

Dos arvoredos verde fim,

Recordo. Eras antiga e linda

E estás em mim...

 

Tua memória há sem que houvesses,

Teu gesto, sem fosses alguém.

Como uma brisa me estremeces

E eu choro um bem...

 

Perdi-te. Não te tive. A hora

É suave para a minha dor.

Deixa meu ser que rememora

Sentir o amor.

 

Ainda que amar seja um receio,

Uma lembrança falsa e vã,

E a noite deste vago anseio

Não tenha amanhã.

 

Sonhos, sistemas, mitos, ideias...

 

Sonhos, sistemas, mitos, ideias...

Fito a água inexistente contra o cais,

E como flocos de um papel rasgado,

A ela dando-me como a um justo fado,

Sigo-vos com os olhos em que não há mais

Que um vão desassossego resignado.

 

Eles a mim como consolarão –

A mim que de inquieto já nem choro;

Que na erma mente e no ermo coração

Sombras, só sombras, sombra, rememoro;

A mim, em tudo, sempre, em vão,

Cansado até dos deuses que não são?

 

Na quinta entre ciprestes

 

Na quinta entre ciprestes

Secaram todas as fontes,

As rosas brancas agrestes

Trazidas do fim dos montes

Vós mas tirastes, que as destes...

 

No rio ao pé de salgueiros

Passaram as águas em vão,

Com tristezas de estrangeiros

Passaram pelos salgueiros

As ondas, sem ter razão.

 

Dizem?

 

Dizem? Esquecem. Não dizem? Disseram.

 

Fazem? Fatal. Não fazem? Igual.

 

Por quê Esperar? - Tudo é  Sonhar.

 

Conselho

 

Cerca de grandes muros quem te sonhas. Depois, onde é visível o jardim Através do portão de grade dada, Põe quantas flores são as mais risonhas, Para que te conheçam só assim. Onde ninguém o vir não ponhas nada.

 

Faze canteiros como os que outros têm, Onde os olhares possam entrever O teu jardim com lho vais mostrar. Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém, Deixa as flores que vêm do chão crescer E deixa as ervas naturais medrar.

 

Faze de ti um duplo ser guardado; E que ninguém, que veja e fite, possa Saber mais que um jardim de quem tu és - Um jardim ostensivo e reservado, Por trás do qual a flor nativa roça A erva tão pobre que nem tu a vês...

 

No túmulo de Christian Rosencreutz

 

Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastamos para um lado o altar. Então podemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, de pois da Bíblia, o Nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.

 

FAMA FRATERNITATIS ROSEAI CRUCIS

 

I

 

Quando, despertos deste sono, a vida,

Soubermos o que somos, e o que foi

Essa queda até Corpo, essa descida

Até à Noite que nos a Alma obstrui,

 

Conheceremos pois toda a escondida

Verdade do que é tudo que há ou flui?

Não: nem na Alma livre é conhecida...

Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

 

Deus é o Homem de outro Deus maior:

Adam Supremo, também teve Queda;

Também, como foi nosso Criador;

 

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...

De além o Abismo, Espírito Seu, Lha veda;

Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.

 

II

 

Mas antes era o verbo, aqui perdido

Quando a Infinita Luz, já apagada,

Do Caos, chão do Ser, foi levantada

Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

 

Mas se a alma sente a sua forma errada,

Em si, que é Sombra, vê enfim luzido

O Verbo deste Mundo, humano e ungido,

Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

 

Então, senhores do limiar dos Céus,

Podemos ir buscar além de Deus

O Segredo do Mestre e o Bem profundo.

 

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,

Do sangue actual de Cristo enfim libertos

Do a Deus que morre a geração do Mundo.

 

III

 

Ah, Mas aqui, onde irreais erramos, Dormimos o que somos, e a verdade, Inda que enfim em sonhos a vejamos, Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

 

Sombras buscando corpos, se os achamos Como sentir a sua realidade? Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos? Nosso toque é ausência e vacuidade.

 

Quem desta Alma fechada nos liberta? Sem ver, ouvimos para além da sala De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

Calmo na falsa morte a nós exposto, O Livro ocluso contra o peito posto, Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.

 

Assim, sem nada feito e o por fazer

 

Assim, sem nada feito e o por fazer Mal pensado, ou sonhado sem pensar, Vejo os meus dias nulos decorrer, E o cansaço de nada me aumentar.

 

Perdura, sim, como uma mocidade Que a si mesma se sobrevive, a esperança, Mas a mesma esperança o tédio invade, E a mesma falsa mocidade cansa.

 

Ténue passar das horas sem proveito, Leve correr dos dias sem acção, Como a quem com saúde jaz no leito Ou quem sempre se atrasa sem razão.

 

Vadio sem andar, meu ser inerte Contempla-me, que esqueço de querer, E a tarde exterior seu tédio verte Sobre quem nada fez e nada quere.

 

Inútil vida, posta a um canto e ida Sem que alguém nela fosse, nau sem mar, Obra solenemente por ser lida, Ah, deixem-se sonhar sem esperar!

 

Entre o bater rasgado dos pendões

 

Entre o bater rasgado dos pendões E o cessar dos clarins na tarde alheia, A derrota ficou : como uma cheia Do mal cobriu os vagos batalhões.

 

Foi em vão que o Rei louco os seus varões Trouxe ao prolixo prélio, sem ideia. Água que mão infiel verteu na areia - Tudo morreu, sem rastro e sem razões.

 

A noite cobre o campo, que o Destino Com a morte tornou abandonado. Cessou, com cessar tudo, o desatino.

 

Só no luar que nasce os pendões rotos 'Strelam no absurdo campo desolado Uma derrota heráldica de ignotos.

 

A minha vida é um barco abandonado

 

A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ao seu destino. Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar, casado com o seu fado?

 

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado Torne seu vulto em velas; peregrino Frescor de afastamento, no divino Amplexo da manhã, puro e salgado.

 

Morto corpo da acção sem vontade Que o viva, vulto estéril de viver, Boiando à tona inútil da saudade.

 

Os limos esverdeiam tua quilha, O vento embala-te sem te mover, E é para além do mar a ansiada Ilha.

 

Ah, como o sono é a verdade

 

Ah, como o sono é a verdade, e a única

Hora suave é a do adormecer!

Amor ideal tens chagas sob a túnica.

‘Sperança, és a ilusão do apodrecer.

 

Os deuses vão-se como forasteiros.

Como uma feira acaba a tradição.

Somos todos palhaços estrangeiros.

A nossa vida é palco e confusão.

 

Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda

Do esforço inútil e da sorte incerta!

Que a morte virtual da vida toda

Seja, sons, a janela que, entreaberta.

 

Só um crepúsculo do mundo deixe

Chegar a sonolência que se sente;

E a alma se desfaça como um feixe

Atado pelos dedos dum demente...

 

Se já não torna a eterna primavera

 

Se já não torna a eterna primavera

Que em sonhos conheci,

O que é que o exausto coração espera

Do que não tem em si?

 

Se não há mais florir de árvores feitas

Só de alguém as sonhar,

Que coisas quer o coração perfeitas,

Quando, e em que lugar?

 

Não: contentemo-nos com ter a aragem

Que, porque existe, vem

Passar a mão sobre o alto da folhagem

E assim nos faz um bem.

 

Aquilo que a gente lembra

 

Aquilo que a gente lembra

Sem o querer lembrar,

E inerte se desmembra

Como um fumo no ar,

É a música que a alma tem,

É o perfume que vem,

Vago, inútil, trazido

Por uma brisa de agrado,

Do fundo do que é esquecido,

Dos jardins do passado.

 

Aquilo que a gente sonha

Sem saber de sonhar,

Aquela boca risonha

Que nunca nos quis beijar,

Aquela vaga ironia

Que uns olhos tiveram um dia

Para a nossa emoção –

Tudo isso nos dá o agrado,

Flores que flores são

Nos jardins do passado.

 

Não sei o que fiz da vida,

Nem o quero saber.

Se a tenho por perdida,

Sei eu o que é perder?

Mas tudo é música se há

Alma onde a alma está,

E há um vago, suave, sono,

Em sonho morno de agrado,

Quando regresso, dono,

Aos jardins do passado.

 

Sou o Espírito da treva

 

Sou o Espírito da treva, A Noite me traz e leva;

 

Moro à beira irreal da Vida, Sua onda indefinida

 

Refresca-me a alma de espuma... Pra além do mar há a bruma...

 

E pra aquém? há Cousa ou Fim? Nunca olhei para trás de mim...

 

Um cansaço feliz

 

Um cansaço feliz, uma tristeza informe

O meu espírito intranquilamente dorme.

Combati, fui o gládio e o braço e a intenção

E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...

Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor

Impregna de cansaço a minha própria dor...

 

Não combati

 

Não combati: ninguém mo mereceu.

A natureza, e depois a arte, amei.

As mãos à chama que me a vida deu

Aqueci. Ela cessa. Cessarei.

 

Dormi, sonhei

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto

Que há entre o mundo e o nada me perdi.

Em bosques de mim mesmo me embebi,

Misto indeciso do que vejo e sinto.

 

‘Stagno incorpóreo. No fiel recinto

leio o transtorno do que nunca li,

e o labirinto nunca ‘stá em si,

nem há mundo no incerto e abstracto plinto.

 

Minha alma é um ser que a verdade engana,

Memória da partida dos navios

Na praia que de espuma se engalana.

 

Não voltaram dos longes os sombrios

Barcos, e o luar mole deixa ver

A praia com a espuma a escurecer.

 

Meu pensamento, dito, já não é

 

Meu pensamento, dito, já não é

Meu pensamento.

Flor morta, bóia no meu sonho, até

Que a leve o vento.

 

Que a desvie a corrente, a externa sorte.

Se falo, sinto

Que a palavras esculpo a minha morte,

Que com toda a alma minto.

 

Assim, quanto mais digo, mais me engano,

Mais faço eu

Um novo ser postiço, que engalano

De ser o meu.

 

Já só pensando escuto-me e resido.

Já falo assim.

Meu próprio diálogo interior divide

Meu ser de mim.

 

Mas é quando dou forma e voz do ‘spaço

Ao que medito

Que abro entre mim e mim, quebrando um laço,

Um abismo infinito.

 

Ah, quem dera a perfeita concordância

De mim comigo.

O silêncio interior sem a distância

Entre mim e o que eu digo!

 

Sono

 

Tenho tal sono que pensar é um mal.

Tenho sono. Dormir é ser igual,

No homem, ao despertar do animal.

 

É viver fundo nesse inconsciente

Com que à tona da vida o animal sente.

É ser meu ser profundo alheiamente.

 

Tenho sono talvez porque toquei

Onde sinto o animal que abandonei

E o sono é uma lembrança que encontrei.

 

Quadras ao gosto popular

 

A quadra é o vaso de flores que o Povo põe á janela da sua Alma.

Da órbita triste do vaso obscuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria.

Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do Povo, humildemente de nós todos e errante dentro de si própria.

 

Fernando Pessoa

1914

 

Quadras ao gosto popular

 

1

Cantigas de portugueses São como barcos no mar - Vão de uma alma para outra Com riscos de naufragar.

 

2

Eu tenho um colar de pérolas Enfiado para te dar: As per’las são os meus beijos, O fio é o meu penar.

 

3

A terra é sem vida, e nada Vive mais que o coração... E envolve-te a terra fria E a minha saudade não!

 

4

Deixa que um momento pense Que ainda vives ao meu lado... Triste de quem por si mesmo Precisa ser enganado!

 

5

Morto, hei de estar ao teu lado Sem o sentir nem saber... Mesmo assim, isso me basta P’ra ver um bem em morrer.

 

6

Não sei se a alma no Além vive... Morreste!  E eu quero morrer! Se vive, ver-te-ei; se não, Só assim te posso esquecer.

 

7

Se ontem à tua porta Mais triste o vento passou - Olha: levava um suspiro... Bem sabes quem to mandou...

 

8

Entreguei-te o coração, E que tratos tu lhe deste! É talvez por ‘star estragado Que ainda não mo devolveste...

 

9

A caixa que não tem tampa Fica sempre destapada Dá-me um sorriso dos teus Porque não quero mais nada.

 

10

Tens o leque desdobrado Sem que estejas a abanar. Amor que pensa e que pensa Começa ou vai acabar.

 

11

Duas horas te esperei Dois anos te esperaria. Dize: devo esperar mais? Ou não vens porque inda é dia?

 

12

Toda a noite ouvi no tanque A pouca água a pingar. Toda a noite ouvi na alma Que não me podes amar.

 

13

Dias são dias, e noites São noites e não dormi... Os dias a não te ver As noites pensando em ti.

 

14

Trazes a rosa na mão E colheste-a distraída... E que é do meu coração Que colheste mais sabida?

 

15

Teus olhos tristes, parados, Coisa nenhuma a fitar... Ah meu amor, meu amor, Se eu fora nenhum lugar!

 

16

Depois do dia vem noite, Depois da noite vem dia E depois de ter saudades Vêm as saudades que havia.

 

17

No baile em que dançam todos Alguém fica sem dançar. Melhor é não ir ao baile Do que estar lá sem lá estar.

 

18

Vale a pena ser discreto? Não sei bem se vale a pena. O melhor é estar quieto E ter a cara serena.

 

18.8.1934

(data provável)

 

19

Rosmaninho que me deram, Rosmaninho que darei, Todo o mal que me fizeram Será o bem que eu farei.

 

20

Tenho um relógio parado Por onde sempre me guio. O relógio é emprestado E tem as horas a fio.

 

21

Quando é o tempo do trigo É o tempo de trigar, A verdade é um postigo A que ninguém vem falar.

 

22

Levas chinelas que batem No chão com o calcanhar. Antes quero que me matem Que ouvir esse som parar.

 

23

Em vez da saia de chita Tens uma saia melhor. De qualquer modo és bonita, E o bonita é o pior.

 

24

Levas uma rosa ao peito E tens um andar que é teu... Antes tivesses o jeito De amar alguém, que sou eu.

 

25

Teus brincos dançam se voltas A cabeça a perguntar. São como andorinhas soltas Que inda não sabem voar.

 

26

Tens uma rosa na mão. Não sei se é para me dar. As rosas que tens na cara, Essas sabes tu guardar.

 

27

Fomos passear na quinta, Fomos à quinta em passeio. Não há nada que eu não sinta Que me não faça um enleio.

 

28

Os alcatruzes da nora Andam sempre a dar e dar, É para dentro e pra fora E não sabem acabar.

 

29

Ó minha menina loura, Ó minha loura menina, Dize a quem te vê agora Que já foste pequenina...

 

30

Tens um livro que não lês, Tens uma flor que desfolhas; Tens um coração aos pés E para ele não olhas.

 

31

Nunca dizes se gostaste Daquilo que te calei. Sei bem que o adivinhaste. O que pensaste não sei.

 

32

O vaso que dei a quem Que não sabe quem lho deu Há de ser posto à janela Sem ninguém saber que, é meu.

 

33

Tive uma flor para dar A quem não ousei dizer Que lhe queria falar, E a flor teve que morrer.

 

34

Quando olhaste para trás, Não supus que era por mim. Mas sempre olhaste, e isso faz Que fosse melhor assim.

 

35

Todos os dias eu penso Naquele gesto engraçado Com que pegaste no lenço Que estava esquecido ao lado.

 

36

Tens uma salva de prata Onde pões os alfinetes... Mas não tem salva nem prata Aquilo que tu prometes.

 

37

Adivinhei o que pensas Só por saber que não era Qualquer das coisas imensas Que a minh’alma sempre espera.

 

38

Ouvi-te cantar de dia. De noite te ouvi cantar. Ai de mim, se é de alegria! Ai de mim, se é de penar!

 

39

Por um púcaro de barro Bebe-se a água mais fria. Quem tem tristezas não dorme, Vela para ter alegria.

 

40

O malmequer que arrancaste Deu-te nada no seu fim, Mas o amor que me arrancaste, Se deu nada, foi a mim.

 

41

Teu xaile de seda escura É posto de tal feição Que alegre se dependura Dentro do meu coração.

 

42

O manjerico comprado Não é melhor que o que dão. Põe o manjerico ao lado E dá-me o teu coração.

 

43

Rosa verde, rosa verde,... Rosa verde é coisa que há? É uma coisa que se perde Quando a gente não está lá.

 

44

A rosa que se não colhe Nem por isso tem mais vida. Ninguém há que te não olhe Que te não queira colhida.

 

45

Há verdades que se dizem E outras que ninguém dirá. Tenho uma coisa a dizer-te Mas não sei onde ela está.

 

46

Quando ao domingo passeias Levas um vestido claro. Não é o que te conheço Mas é em ti que reparo.

 

47

Tenho vontade de ver-te Mas não sei como acertar. Passeias onde não ando, Andas sem eu te encontrar.

 

48

Andorinha que passaste, Quem é que te esperaria? Só quem te visse passar. E esperasse no outro dia.

 

49

Nuvem do céu, que pareces Tudo quanto a gente quer. Se tu, ao menos, me desses O que se não pode ter!

 

50

O burburinho da água No regato que se espalha É como a ilusão que é mágoa Quando a verdade a baralha.

 

51

Leve sonho, vais no chão A andares sem teres ser. És como o meu coração Que sente sem nada ter.

 

52

Vai alta a nuvem que passa. Vai alto o meu pensamento Que é escravo da tua graça Como a nuvem o é do vento.

 

53

Ambos à beira do poço Achamos que é muito fundo. Deita-se a pedra, e o que eu ouço É teu olhar, que é meu mundo.

 

54

Aquela senhora velho Que fala com tão bom modo Parece ser uma abelha Que nos diz: “Não incomodo”.

 

55

Maria, se eu te chamar, Maria, vem cá dizer Que não podes cá chegar. Assim te consigo ver.

 

56

Boca com olhos por cima Ambos a estar a sorrir... Já sei onde está a rima Do que não ouso pedir.

 

57

Quem lavra julga que lavra Mas quem lavra é o que acontece... Não me dás uma palavra E a palavra não me esquece.

 

58

Tinhas um pente espanhol No cabelo Português, Mas quando te olhava o sol, Eras só quem Deus te fez.

 

59

Boca de riso escarlate E de sorriso de rir... Meu coração bate, bate, Bate de te ver e ouvir.

 

60

Quem me dera, quando fores Pela rua sem me ver, Supor que há coisas melhores E que eu as pudera ter.

 

61

Acendeste uma candeia Com esse ar que Deus te deu. Já não é noite na aldeia E, se calhar, nem no céu.

 

62

Eu te pedi duas vezes Duas vezes, bem o sei, Que por fim me respondesses Ao que não te perguntei.

 

63

Não digas mal de ninguém Que é de ti que dizes mal. Quando dizes mal de alguém Tudo no mundo é igual.

 

64

Todas as coisas que dizes Afinal não são verdade. Mas, se nos fazem felizes, Isso é a felicidade.

 

65

Dás nós na linha que cose Para que pare no fim. Por muito que eu pense e ouse, Nunca dás nó para mim.

 

66

Não sei em que coisa pensas Quando coses sossegada... Talvez naquelas ofensas Que fazes sem dizer nada.

 

67

As gaivotas, tantas, tantas, Voam no rio pro mar... Também sem querer encantas, Nem é preciso voar.

 

68

As ondas que a maré conta Ninguém as pode contar. Se, ao passar, ninguém te aponta, Aponta-te com o olhar.

 

69

Todos os dias que passam Sem passares por aqui São dias que me desgraçam Por me privarem de ti.

 

70

Quando cantas, disfarçando Com a cantiga o cantar, Parece o vento mais brando Nesta brandura do ar.

 

71

Não sei que grande tristeza Me fez só gostar de ti Quando já tinha a certeza De te amar porque te vi.

 

72

A mantilha de espanhola Que trazias por trazer Não te dava um ar de tola Porque o não podias ter.

 

73

Boca de riso escarlate Com dentes brancos no meio, Meu coração bate, bate, Mas bate por ter receio.

 

74

Se há uma nuvem que passa Passa uma sombra também. Ninguém diz que é desgraça Não ter o que se não tem.

 

75

Tu, ao canto da janela Sorrias a alguém da rua, Porquê ao canto, se aquela Posição não é a tua?

 

76

Dá-me, um sorriso ao domingo, Para à segunda eu lembrar. Bem sabes: sempre te sigo E não é preciso andar.

 

77

Tens olhos de quem não quer Procurar quem eu não sei. Se um dia o amor vier Olharás como eu olhei.

 

78

Pobre do pobre que é ele E não é quem se fingiu! Por muito que a gente vele Descobre que já dormiu.

 

79

Não me digas que me queres Pois não sei acreditar. No mundo há muitas mulheres Mas mentem todas a par.

 

80

Água que não vem na bilha É como se não viesse. Como a mãe, assim a filha... Antes Deus as não fizesse.

 

81

Ó loura dos olhos tristes Que me não quis escutar... Quero só saber se existes Para ver se te hei de amar.

 

82

Há grandes sombras na horta Quando a amiga lá vai ter... Ser feliz é o que importa, Não importa como o ser!

 

83

O moinho de café Mói grãos e faz deles pó. O pó que a minh’alma é Moeu quem me deixa só.

 

84

Dizem que não és aquela Que te julgavam aqui. Mas se és alguém e és bela Que mais quererão de ti?

 

85

Tenho um livrinho onde escrevo Quando me esqueço de ti. É um livro de capa negra Onde inda nada escrevi.

 

86

Olhos tristes, grandes, pretos, Que dizeis sem me falar Que não há filhos nem netos De eu não querer amar.

 

87

Meu coração a bater Parece estar-me a lembrar Que, se um dia te esquecer, Será por ele parar.

 

88

Quantas vezes a memória Para fingir que inda é gente, Nos conta uma grande história Em que ninguém está presente.

 

89

Trazes o vestido novo Como quem sabe o que faz. Como és bonita entre o povo, Mesmo ficando para trás!

 

90

A tua boca de riso Parece olhar para a gente Com um olhar que é preciso Para saber que se sente.

 

91

A laranja que escolheste Não era a melhor que havia. Também o amor que me deste Qualquer outra mo daria.

 

92

Se o sino dobra a finados Há de deixar de dobrar. Dá-me os teus olhos fitados E deixa a vida matar!

 

93

Por muito que pense e pense No que nunca me disseste, Teu silêncio não convence. Faltaste quando vieste.

 

94

Tome lá, minha menina, O ramalhete que fiz. Cada flor é pequenina, Mas tudo junto é feliz.

 

95

A vida é pouco aos bocados. O amor é vida a sonhar. Olho para ambos os lados E ninguém me vem falar.

 

96

Dei-lhe um beijo ao pé da boca Por a boca se esquivar. A ideia talvez foi louca, O mal foi não acertar.

 

97

Compras carapaus ao cento, Sardinhas ao quarteirão. Só tenho no pensamento Que me disseste que não.

 

98

Duas horas te esperei. Duas mais te esperaria. Se gostas de mim não sei... Algum dia há de ser dia...

 

99

Tenho um desejo comigo Que me traz longe de mim. É saber se isto é contigo Quando isto não é assim.

 

100

Leve vem a onda leve Que se estende a adormecer, Breve vem a onda breve Que nos ensina a esquecer.

 

101

Quando a manhã aparece Dizem que nasce alegria. Isso era se Ela viesse. Até de noite era dia.

 

102

Nuvem alta, nuvem alta, Porque é que tão alta vais? Se tens o amor que me falta, Desce um pouco, desce mais!

 

103

Teu carinho, que é fingido, Dá-me o prazer de saber Que inda não tens esquecido O que o fingir tem de ser.

 

104

A luva que retiraste Deixou livre a tua mão. Foi com ela que tocaste, Sem tocar, meu coração.

 

105

O avental, que à gaveta Foste buscar, não terá Algibeira em que me meta Para estar contigo já?

 

106

Quando vieste da festa, Vinhas cansada e contente. A minha pergunta é esta. Foi da festa ou foi da gente?

 

107

Rouxinol que não cantaste, Galo que não cantarás, Qual de vós me empresta o canto Para ver o que ela faz?

 

108

Quando chegaste à janela Todos que estavam na rua Disseram: olha, é aquela, Tal é a graça que é tua!

 

109

Nuvem que passas no céu, Dize a quem não perguntou Se é bom dizer a quem deu: “O que deste, não to dou.”

 

110

“Vou trabalhando a peneira E pensando assim assim. Eu não nasci para freira. Gosto que gostem de mim.”

 

111

Roseiral que não dás rosas Senão quando as rosas vêm, Há muitas que são formosas Sem que o amor lhes vá bem.

 

112

Ribeirinho, ribeirinho, Que vais a correr ao léu Tu vais a correr sozinho, Ribeirinho, como eu.

 

113

“Vesti-me toda de novo E calcei sapato baixo Para passar entre o povo E procurar quem não acho.”

 

114

Tua boca me diz sim, Teus olhos me dizem não. Ai, se gostasses de mim E sem saber a razão.

 

115

Quero lá saber por onde Andaste todo este dia! Nunca faz-bem quem se esconde Mas onde foste, Maria?

 

116

O vaso do manjerico Caiu da janela abaixo. Vai buscá-lo, que aqui fico A ver se sem ti te acho.

 

117

O cravo que tu me deste Era de papel rosado. Mas mais bonito era inda O amor que Me foi negado,

 

118

Trazes os sapatos, pretos Cinzentos de tanto pó. Feliz é quem tiver netos De quem tu sejas avó!

 

119

Vem de lá do monte verde A trova que não entendo. É um som bom que se perde Enquanto se vai vivendo.

 

120

Moreninha, moreninha, Com olhos pretos a rir. Sei que nunca serás minha, Mas quero ver-te sorrir.

 

121

Puseste a chaleira ao lume Com um jeito de desdém. Suma-te o diabo que sume Primeiro quem te quer bem!

 

122

Lá vem o homem da capa Que ninguém sabe quem é... Se o lenço os olhos te tapa Veio os teus olhos por fé.

 

123

Loura dos olhos dormentes, Que são azuis e amarelos, Se as minhas mãos fossem pentes, Penteavam-te os cabelos.

 

124

O sino dobra a finados. Faz tanta pena a dobrar! Não é pelos teus pecados Que estão vivos a saltar.

 

125

Traze-me um copo com água E a maneira de o trazer. Quero ter a minha mágoa Sem mostrar que a estou a ter.

 

126

Olha o teu leque esquecido! Olha o teu cabelo solto! Maria, toma sentido! Maria, senão não volto!

 

127

Já duas vezes te disse Que nunca mais te diria O que te torno a dizer E fica para outro dia.

 

128

Lavadeira a bater roupa Na pedra que está na água, Achas minha mágoa pouca? É muito tudo o que é mágoa.

 

129

O teu lenço foi mal posto Pela pressa que to pôs. Mais mal posto é o meu desgosto Do que não há entre nós.

 

130

Olhos de veludo falso E que fitam a entender, Vós sois o meu cadafalso A que subo com prazer.

 

131

Duas vezes eu tentei Dizer-te que te queria, E duas vezes te achei Só a que falava e ria.

 

132

Meu coração é uma barca Que não sabe navegar. Guardo o linha na arca Com um ar de o acarinhar.

 

133

Tenho um desejo comigo Que hoje te venho dizer: Queria ser teu amigo Com amizade a valer.

 

134

És Maria da Piedade Pois te chamaram assim. Sê lá Maria à vontade, Mas tem piedade de mim.

 

135

Tu és Maria da Graça, Mas a que graça é que vem Ser essa graça a desgraça De quem a graça não tem?

 

136

Caiu no chão o novelo E foi-se desenrolando. Passas a mão no cabelo. Não sei em que estás pensando.

 

137

A tua saia, que é curta, Deixa-te a perna a mostrar: Meu coração já se furta A sentir sem eu pensar.

 

138

Meu amor é fragateiro. Eu sou a sua fragata. Alguns vão atrás do cheiro, Outros vão só pela arreta.

 

139

Vai longe, na serra alta, A nuvem que nela toca... Dá-me aquilo que me falta - Os beijos da tua boca.

 

140

Há um doido na nossa voz Ao falarmos, que prendemos: É o mal-estar entre nós Que vem de nos percebermos.

 

141

Teu vestido porque é teu, Não é de cetim nem chita. É de sermos tu e eu E de tu seres bonita.

 

142

Entornaram-me o cabaz Quando eu vinha pela estrada. Como ele estava vazio, Não houve loiça quebrada.

 

143

O rosário da vontade, Rezei-o trocado e a esmo. Se vens dizer-me a verdade, Vê lá bem se é isso mesmo.

 

144

Castanhetas, castanholas - Tudo é barulho a estalar. As que ao negar são mais tolas São mais espertas ao dar.

 

145

O manjerico e a bandeira Que há no cravo de papel - Tudo isso enche a noite inteira, Ó boca de sangue e mel.

 

146

Tem A filha da caseira Rosas na caixa que tem. Toda ela é uma rosa inteira Mas não a cheira ninguém.

 

147

A moça que há na estalagem Ri porque gosta de rir. Não sei o que é da viagem Por esta moça existir.

 

148

Lenço preto de orla branca Ataste-o mal a valer À roda desse pescoço Que tem que se lhe dizer.

 

149

Aquela loura de preto Com uma flor branca ao peito, É o retrato completo De como alguém é perfeito.

 

150

A tua janela é alta, A tua casa branquinha. Nada lhe sobra ou lhe falta Senão morares sozinha.

 

151

Vem cá dizer-me que sim. Ou vem dizer-me que não. Porque sempre vens assim P’ra ao pé do meu coração.

 

152

Cortaste com a tesoura O pano de lado a lado. Porque é que todo teu gesto Tem a feição de engraçado?

 

153

Ai, os pratos de arroz doce Com as linhas de canela! Ai a mão branca que os trouxe! Ai essa mão ser a dela!

 

154

Frescura do que é regado, Por onde a água inda verte... Quero dizer-te um bocado Do que não ouso dizer-te.

 

155

Ó pastora, ó pastorinha, Que tens ovelhas e riso, Teu riso ecoa no vale E nada mais é preciso.

 

156

A abanar o fogareiro Ela corou do calor. Ah, quem a fará corar De um outro modo melhor!

 

157

Manjerico que te deram, Amor que te querem dar... Recebeste o manjerico. O amor fica a esperar.

 

158

Dona Rosa, Dona Rosa. De que roseira é que vem, Que não tem senão espinhos Para quem só lhe quer bem?

 

159

O laço que tens no peito Parece dado a fingir. Se calhar já estava feito Como o teu modo de rir.

 

160

Dona Rosa, Dona Rosa, Quando eras inda botão Disseram-te alguma cousa De a flor não ter coração?

 

161

Tenho um segredo a dizer-te Que não te posso dizer. E com isto já to disse Estavas farta de o saber...

 

162

Os ranchos das raparigas Vão a cantar pela estrada... Não oiço as suas cantigas Só tenho pena de nada.

 

163

Rezas porque outros rezaram, E vestes à moda alheia... Quando amares vê se amas Sem teres o amor na ideia.

 

164

A senhora da Agonia Tem um nicho na Igreja. Mas a dor que me agonia Não tem ninguém quem a veja.

 

165

Aparta o cabelo ao meio A do cabelo apartado. É a estrelinha em que leio Que estou a ser enganado.

 

166

Esse frio cumprimento Tem ironia p’ra mim. Porque é o mesmo movimento Com que a gente diz que sim...

 

167

Vejo lágrimas luzir Nos teus olhos de fingida. É como quando à janela Chegas, um pouco escondida.

 

168

Trincaste, para o partir, O retrós de costurar. Quem não soubesse diria Que o estavas a beijar.

 

169

Deixaste o dedal na mesa Só pelo tempo da ausência - Se eu to roubasse dirias Que eu não tinha consciência.

 

170

Dá-me um sorriso daqueles Que te não servem de nada Como se dá às crianças Uma caixa esvaziada.

 

171

O canário já não canta. Não canta o canário já. Aquilo que em ti me encanta Talvez não me encantará.

 

172

Rezas a Deus ao deitar-te Pedindo não sei o quê. Se rezasses ao Demónio, Eu saberia o que é.

 

173

Boca que tens um sorriso Como se fosse um florir, Teus olhos cheios de riso Dão-lhe um orvalho de rir.

 

174

Uma boneca de trapos Não se parte se, cair. Fizeste-me a alma em farrapos Bem: não se pode partir.

 

175

O que sinto e o que penso De ti é bem e é mal. É como quando uma xícara Tem o pires desigual.

 

176

Levas a mão ao cabelo Num gesto de quem não crê. Mas eu não te disse nada. Duvidas de mim? Porquê?

 

177

Compreender um ao outro É um jogo complicado. Pois quem engana não sabe Se não estava enganado.

 

178

A roda dos dedos juntos Enrolaste a fita a rir. Corações não são assuntos E falar não é sentir.

 

179

Chama-te boa, e o sentido Não é bem o que eu supunha. Boa não é apelido: É, quando muito, alcunha.

 

180

Tu és Maria das Dores, Tratam-te só por Maria. Está bem, porque deste as dores A quem quer que em ti se fia.

 

181

Se vais de vestido novo O teu próprio andar o diz, E ao passar por entre o povo Até teu corpo é feliz.

 

182

Tens um anel imitado Mas vais contento de o ter. Que importa o falsificado Se é verdadeiro o prazer.

 

183

Tenho ainda na lembrança Como uma coisa que veio, O quando inda eras criança. Nunca mais me dás um beijo!

 

184

O ar do campo vem brando, Faz sono haver esse ar. Já não sei se estou sonhando Nem de que serve sonhar.

 

185

Quando ela pôs o chapéu Como se tudo acabasse, Sofri de não haver véu Que inda um pouco a demorasse.

 

186

Quem te deu aquele anel Que ainda ontem não tinhas? Como tu foste infiel A certas ideias minhas!

 

187

Essa costura à janela Que lhe inclinou a cabeça Fez-me ver como era dela Que o coração tinha pressa.

 

188

O  ribeiro bate, bate Nas pedras que nele estão, Mas nem há nada em que bata O meu pobre coração.

 

189

Nunca houve romaria Que se lembrassem de mim... Também quem se lembraria De quem se lamenta assim?

 

190

Comes melão às dentadas Porque assim não deve ser. Não sei se essas gargalhadas Me fazem rir ou sofrer.

 

191

Há dois dias que não vejo Modo de tornar-te a ver: Se outros também te não vissem, Desejava sem sofrer.

 

192

O teu cabelo cortado A maneira de rapaz Não deixa justificado Aquele amor que me faz.

 

193

Se te queres despedir Não te despidas de mim, Que eu não posso consentir Que tu me trates assim.

 

194

Quem te fez assim tão linda Não o fez para mostrar Que se é mais linda ainda Quando se sabe negar.

 

195

Floriu a roseira toda Com as rosas de trepar... Tua cabeça anda à roda Mas sabes-te equilibrar.

 

196

Morena dos olhos baços Velados de não sei quê, No mundo há falta de braços Para o que o teu olhar vê.

 

197

Quando compões o cabelo Com tua mão distraída Fazer-me um grande novelo No pensamento da vida.

 

198

Teus olhos de quem não fita Vagueiam, ‘stão na distância. Se fosses menos bonita, Isso não tinha importância.

 

199

Tocam sinos a rebate E levantaste-te logo. Teu coração só não bate Por a quem puseste fogo.

 

200

O coração é pequeno, Coitado, e trabalha tanto! De dia a ter que chorar, De noite a fazer o pranto...

 

201

Deram-me um cravo vermelho Para eu ver como é a vida. Mas esqueci-me do cravo Pela hora da saída.

 

202

Fiz estoirar um cartucho Contra a parede do lado. Assim farei eu à vida, Que o sonhar fez-me assoprado.

 

203

O malmequer que colheste Deitaste-o fora a falar. Nem quiseste ver a sorte Que ele te podia dar.

 

204

Comi melão retalhado E bebi vinho depois, Quanto mais olho p’ra ti Mais sei que não somos dois.

 

205

Trazes um lenço novinho Na cabeça e a descair, Se eu te beijar no cantinho Só saberá quem nos vir.

 

206

E ao acabar estes versos Feitos em modo menor Cumpre prestar homenagem À bebedeira do cantor.

 

207

Toda a noite, toda a noite, Toda a noite sem pensar... Toda a noite sem dormir E sem tudo isso acabar.

 

208

Puseste um vaso à janela. Foi sinal ou não foi nada, Ou foi p’ra que pense em ti Que te não importas nada?

 

209

Eu vi ao longe um navio Que tinha uma vela só, Ia sozinho no mar... Mas não me fazia dó.

 

210

Corre a água pelas calhas Lá segundo a sua lei. Pareces, vista de lado, Aquela que te julguei.

 

211

Lá por olhar para ti Não julgues que é por gostar. Eu gosto muito do sol, E nem o posso fitar.

 

212

Viraste-me a cara quando Ia a dizer-te, à chegada, Que, se voltasses a cara, Que eu não me importava nada.

 

213

Na quinta que nunca houve Há um poço que não há Onde há de ir encontrar água Alguém que te entenderá.

 

214

Voam débeis e enganadas As folhas que o vento toma. Bem sei: deitamos os dados Mas Deus é sue deita a soma.

 

215

Ribeirinho, ribeirinho, Que falas tão devagar, Ensina-me o teu caminho De passar sem desejar amar.

 

216

Do alto da torre da igreja Vê-se o campo todo em roda. Só do alto da esperança Vemos nós a vida toda.

 

217

Dá-me um sorriso a brincar, Dá-me uma palavra a rir, Eu me tenho por feliz Só de te ver e te ouvir.

 

218

Trazes um lenço apertado Na cabeça, e um nó atrás. Mas o que me traz cansado É o nó que nunca se faz.

 

219

Vi-te a dizer um adeus A alguém que se despedia, E quase implorei dos céus Que eu partisse qualquer dia.

 

220

Eu voltei-me para trás Para ver se te voltavas. Há quem dê favas aos burros, Mas eles comem as favas.

 

221

Deixaste cair no chão O embrulho das queijadas. Riste disso — E porque não? A vida é feita de nadas.

 

222

Deste-me um cordel comprido Para atar bem um papel. Fiquei tão agradecido Que inda tenho esse cordel.

 

223

No dia de Santo António Todos riem sem razão. Em São João e São Pedro Como é que todos rirão?

 

224

Tenho uma pena que escreve Aquilo que eu sempre sinta. Se é mentira, escreve leve. Se é verdade, não tem tinta.

 

225

O capilé é barato E é fresco quando há calor. Vou sonhar o teu retrato Já que não tenho melhor.

 

226

Baila o trigo quando há vento Baila porque o vento o toca Também baila o pensamento Quando o coração provoca.

 

227

Fizeste molhos de flores Para não dar a ninguém. São como os molhos de amores Que foras fazer a alguém.

 

228

Se houver alguém que me diga Que disseste bem de mim, Farei uma outra cantiga, Porque esta não é assim.

 

229

Manjerico, manjerico, Manjerico que te dei, A tristeza com que fico Inda amanhã a terei.

 

230

Ris-te de mim?  Não me importo. Rir não faz mal a ninguém. Teu rir é tão engraçado Que, quando faz mal, faz bem.

 

231

Ouves-me sem me entender. Sorris sem ser porque falo. É assim muita mulher. Mas nem por isso me calo.

 

232

Se eu te pudesse dizer O que nunca te direi, Tu terias que entender Aquilo que nem eu sei.

 

233

Bailaste de noite ao som De uma música estragada. Bailar assim só é bom Quando a alegria é de nada.

 

234

Não sei que flores te dar Para os dias da semana. Tens tanta sombra no olhar Que o teu olhar sempre engana.

 

235

Descasquei o camarão, Tirei-lhe a cabeça toda. Quando o amor não tem razão É que o amor incomoda.

 

236

Cabeça de ouro mortiço Com olhos de azul do céu, Quem te ensinou o feitiço De me fazer não ser eu?

 

237

São já onze horas da noite. Porque te não vais deitar? Se de nada serve ver-te, Mais vale não te fitar.

 

238

Tiraste o linho da arca, Da arca tiraste o linho. Meu coração tem a marca Que lhe puseste mansinho.

 

239

Ao dobrar o guardanapo Para o meteres na argola Fizeste-me conhecer Como um coração se enrola.

 

240

Quando eu era pequenino Cantavam para eu dormir. Foram-se o canto e o menino. Sorri-me para eu sentir!

 

241

Meia volta, toda a volta, Muitas voltas de dançar... Quem tem sonhos por escolta Não é capaz de parar.

 

242

Fui passear no jardim Sem saber se tinha flores Assim passeia na vida Quem tem ou não tem amores.

 

243

No dia em que te casares Hei de te ir ver à Igreja Para haver o sacramento De amar-te alguém que ali esteja.

 

244

Quando apertaste o teu cinto Puseste o cravo na boca. Não sei dizer o que sinto Quando o que sinto me toca.

 

245

Toda a noite ouvi os cães P’ra manhã ouvi os galos. Tristeza — vem ter connosco. Prazeres — é ir achá-los.

 

246

Deram-me, para se rirem, Uma corneta de barro, Para eu tocar à entrada Do Castelo do Diabo.

 

247

Quando te apertei a mão Ao modo de assim-assim, Senti o meu coração A perguntar-me por mim.

 

248

Tinhas um vestido preto Nesse dia de alegria... Que certo!  Pode pôr luto Aquele que em ti confia.

 

249

Só com um jeito do corpo Feito sem dares por isso Fazes mais mal que o demónio Em dias de grande enguiço.

 

250

Esse xaile que arranjaste, Com que pareces mais alta Dá ao teu corpo esse brio Que à minha coragem falta.

 

251

Tem um decote pequeno, Um ar modesto e tranquilo; Mas vá-se lá descobrir Coisa pior do que aquilo!

 

252

Teus olhos poisam no chão Para não me olhar de frente. Tens vontade de sorrir Ou de rir? É tão dif’rente!

 

253

Quando passas pela rua Sem reparar em quem passa, A alegria é toda tua E minha toda a desgraça.

 

254

A esmola que te vi dar Não me deu crença nem fé, Pois a que estou a esperar Não é esmola que se dê.

 

255

Caiu no chão a laranja E rolou pelo chão fora. Vamos apanhá-la juntos, E o melhor é ser agora.

 

256

Quando te vais a deitar Não sei se rezas se não. Devias sempre rezar E sempre a pedir perdão.

 

257

É limpo o adro da igreja. É grande o largo da praça. Não há ninguém que te veja Que te não encontre graça.

 

258

Quando agora me sorriste Foi de contente de eu vir, Ou porque me achaste triste, Ou já estavas a sorrir?

 

259

Boca que o riso desata Numa alegria engraçada, És como a prata lavrada Que é mais o lavor que a prata.

 

260

Por cima da saia azul Há uma blusa encarnada, E por cima disso os olhos Que nunca me dizem nada.

 

261

Fazes renda de manhã E fazes renda ao serão. Se não fazes senão renda, Que fazes do coração?

 

262

Todos te dizem que és linda. Todos to dizem a sério. Como o não sabes ainda Agradecer é mistério.

 

263

Eu bem sei que me desdenhas Mas gosto que seja assim, Que o desdém que por mim tenhas Sempre é pensares em mim.

 

264

A tua irmã é pequena, Quando tiver tua idade, Transferirei minha pena Ou fico só com metade?

 

265

Quando me deste os bons dias Deste-mos como a qualquer. Mais vale não dizer nada Do que assim nada dizer.

 

266

Tenho uma ideia comigo De que não quero falar. Se a ideia fosse um postigo Era pra te ver passar.

 

267

Andorinha que vais alta, Porque não me vens trazer Qualquer coisa que me falta E que te não sei dizer?

 

268

Tenho um lenço que esqueceu A que se esquece de mim. Não é dela, não é meu, Não é princípio nem fim.

 

269

Duas horas vão passadas Sem que te veia passar. Que coisas mal combinadas Que são amor e esperar!

 

270

Houve um momento entre nós Em que a gente não falou. Juntos, estávamos sós. Que bom é assim estar só!

 

271

“Das flores que há pelo campo O rosmaninho é rei...” É uma velha cantiga... Bem sei, meu Deus, bem o sei.

 

272

O moinho que mói trigo Mexe-o o vento ou a água, Mas o que tenho comigo Mexe-o apenas a mágoa.

 

273

Aquela que tinha pobre A única saia que tinha, Por muitas roupas que dobre Nunca será mais rainha.

 

274

Tens uns brincos, sem valia E um lenço que não é nada, Mas quem dera ter o dia De quem és a madrugada.

 

275

Loura, teus olhos de céu Têm um azul que é fatal. Bem sei: Foi Deus que tos deu. Mas então Deus fez o mal?

 

276

Vai alta sobre a montanha Uma nuvem sem razão. Meu coração acompanha O não teres coração.

 

277

Dizem que as flores são todas Palavras que a terra diz. Não me falas: incomodas. Falas: sou menos feliz.

 

278

Duas vezes jurei ser O que julgo que sou, Só para desconhecer Que não sei para onde vou.

 

279

O pescador do mar alto Vem contente de pescar. Se prometo, sempre falto: Receio não agradar.

 

280

Todos lá vão para a festa Com um grande azul de céu. Nada resta, nada resta... Resta sim, que resta eu.

 

281

Andei sozinho na praia Andei na praia a pensar No jeito da tua saia Quando lá estiveste a andar.

 

282

Onda que vens e que vais Mar que vais e depois vens, Já não sei se tu me atrais, E, se me, atrais, se me tens.

 

283

Quando há música, parece Que dormes, e assim te calas, Mas se a música falece, Acordo, e não me falas.

 

284

Trazes uma cruz no peito. Não sei se é por devoção. Antes tivesses o jeito De ter lá um coração.

 

285

O guardanapo dobrado Quer dizer que se não volta. Tenho o coração atado: Vê se a tua mão mo solta.

 

286

“À tua porta está lama. Meu amor, quem na faria?” É assim a velha cantiga Que como tu principia.

 

287

Menina de saia preta E de blusa de outra cor, Que é feito daquela seta Que atirei ao meu amor?

 

288

Lavas a roupa na selha Com um vagar apressado, E o brinco na tua orelha Acompanha o teu cuidado.

 

289

Duas vezes te falei De que te iria falar. Quatro vezes te encontrei Sem palavra p’ra te dar.

 

290

Velha cadeira deixada No canto da casa antiga Quem dera ver lá sentada Qualquer alma minha amiga.

 

291

Trazes a bilha à cabeça Como se ela não houvesse. Andas sem pressa depressa Como se eu lá não estivesse.

 

292

Trazes um manto comprido Que não é xaile a valer. Eu trago em ti o sentido E não sei que hei de dizer.

 

293

Olhas para mim às vezes Como quem sabe quem sou. Depois passam dias, meses, Sem que vás por onde vou.

 

294

Quando tiraste da cesta Os figos que prometeste Foi em mim dia de festa, Mas foi a todos que os deste.

 

295

Aquela que mora ali E que ali está à janela Se um dia morar aqui Se calhar não será ela.

 

296

Mas que grande disparate É o que penso e o que sinto. Meu coração bate, bate E se sonho minto, minto.

 

297

Puseste por brincadeira A touca da tua irmã. Ó corpo de bailadeira, Toda a noite tem manhã.

 

298

Dizes-me que nunca sonhas E que dormes sempre a fio. Quais são as coisas risonhas Que sonhas por desfastio?

 

299

O teu carrinho de linha Rolou pelo chão caído. Apanhei-o e dei-to e tinha Só em ti o meu sentido.

 

300

A vida é um hospital Onde quase tudo falta. Por isso ninguém te cura E morrer é que é ter alta.

 

301

Que tenho o coração preto Dizes tu, e inda te alegras. Eu bem sei que o tenho preto: Está preto de nódoas negras.

 

302

Na praia de Monte Gordo. Meu amor, te conheci. Por ter estado em Monte Gordo É que assim emagreci.

 

303

Saudades, só portugueses Conseguem senti-las bem. Porque têm essa palavra Para dizer que as têm.

 

304

“Mau, Maria!” — tu disseste Quando a trança te caía. Qual “Mau, Maria”, Maria! “Má Maria”, “Má Maria!”

 

305

Era já de madrugada E eu acordei sem razão, Senti a vida pesada. Pesado era o coração.

 

306

Boca de romã perfeita Quando a abres p’ra comer. Que feitiço é que me espreita Quando ris só de me ver?

 

307

Tenho um segredo comigo Que me faz sempre cismar, É se quero estar contigo Ou quero contigo estar.

 

308

Trazes já aquele cinto Que compraste no outro dia. Eu trago o que sempre sinto E que é contigo, Maria.

 

309

Teu olhar não tem remorsos Não é por não ter que os ter. É porque hoje não é ontem E viver é só esquecer.

 

310

Disseste-me quase rindo: “Conheço-te muito bem!” Dito por quem me não quer. Tem muita graça, não tem?

 

311

Fica o coração pesado Com o choro que chorei. É um ficar engraçado O ficar com o que dei...

 

312

Este é o riso daquela Em que não se reparou. Quando a gente se acautela Vê que não se acautelou.

 

313

Tens vontade de comprar O que vês só porque o viste. Só a tenho de chorar Porque só compro o ser triste.

 

314

Baila em teu pulso delgado Uma pulseira que herdaste... Se amar alguém é pecado. És santa, nunca pecaste.

 

315

Teus olhos querem dizer Aquilo que se não diz... Tenho muito que fazer. Que sejas muito feliz.

 

316

Água que passa e canta É água que faz dormir... Sonhar é coisa que encanta, Pensar é já não sentir.

 

317

Deste-me um adeus antigo À maneira de eu não ser Mais que o amigo do amigo Que havia de poder ter.

 

318

Linda noite a desta lua. Lindo luar o que está A fazer sombra na rua. Por onde ela não virá.

 

319

O papagaio do paço Não falava — assobiava. Sabia bem que a verdade Não é coisa de palavra.

 

320

Puseste a mantilha negra Que hás de tirar ao voltar. A que me puseste na alma Não tiras.  Mas deixa-a estar!

 

321

Trazes os brincos compridos, Aqueles brincos que são Como as saudades que temos A pender do coração.

 

322

Deixaste cair a liga Porque não estava apertada... Por muito que a gente diga A gente nunca diz nada.

 

323

Não há verdade na vida Que se não diga a mentir. Há quem apresse a subida Para descer a sorrir.

 

324

No dia de S. João Há fogueiras e folias. Gozam uns e outros não, Tal qual como os outros dias.

 

325

Santo António de Lisboa Era um grande pregador, Mas é por ser Santo António Que as moças lhe têm amor.

 

Algumas poesias

para crianças

 

Perto da mesma inspiração popular andam também, os Poemas para Lili e outras poesias para crianças ou afins, onde por vezes não falta o humor. Pessoa, como se sabe, gostava de crianças e gostava de as divertir. Escreveu essas poesias, não só para a pequena sobrinha Manuela, filha do coronel Caetano Dias, mas endereçando-as à sua boneca Lili, como também para outras sobrinhas e crianças. A quem gostava de os recitar para os divertir.

 

No comboio descendente

 

No comboio descendente

Vinha tudo à gargalhada,

Uns por verem rir os outros

E os outros sem ser por nada –

No comboio descendente

De Queluz à Cruz Quebrada...

 

No comboio descendente

Vinham todos à janela,

Uns calados para os outros

E os outros a dar-lhes trela –

No comboio descendente

Da Cruz Quebrada a Palmela...

 

No comboio descendente

Mas que grande reinação!

Uns dormindo, outros com sono,

E os outros nem sim nem não –

No comboio descendente

De Palmela a Portimão.

 

Pia, pia, pia

 

Pia, pia, pia

O mocho. Que pertencia

A um coxo. E meteu o mocho

Na pia, pia, pia...

 

Levava eu um jarrinho

 

Levava eu um jarrinho P’ra ir buscar vinho Levava um tostão P’ra comprar pão: E levava uma fita Para ir bonita.

 

Correu atrás De mim um rapaz: Foi o jarro p’ra o chão, Perdi o tostão, Rasgou-se-me a fita... Vejam que desdita!

 

Se eu não levasse um jarrinho, Nem fosse buscar vinho, Nem trouxesse uma fita Pra ir bonita, Nem corresse atrás De mim um rapaz Para ver o que eu fazia, Nada disto acontecia.

 

Poema Pial

 

Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)

 

Toda a gente que tem as mãos frias Deve metê-las dentro das pias.

 

Pia número UM Para quem mexe as orelhas em jejum.

 

Pia número DOIS, Para quem bebe bifes de bois.

 

Pia número TRÊS, Para quem espirra só meia vez.

 

Pia número QUATRO, Para quem manda as ventas ao teatro.

 

Pia número CINCO, Para quem come a chave do trinco.

 

Pia número SEIS, Para quem se penteia com bolos-reis.

 

Pia número SETE, Para quem canta até que o telhado se derrete.

 

Pia número OITO, Para quem parte nozes quando é afoito.

 

Pia número NOVE, Para quem se parece com uma couve.

 

Pia número DEZ, Para quem cola selos nas unhas dos pés.

 

E, como as mãos já não estão frias, Tampa nas pias!

 

O carro de pau

 

O carro de pau

Que bebé deixou...

Bebé já morreu

O carro ficou...

 

O carro de pau

Tombado de lado...

Depois do enterro

Foi ali achado...

 

Guardaram o carro

Guardaram bebé.

A vida e os brinquedos

Cada um é o que é.

 

Está o carro guardado.

Bebé vai esquecendo.

A vida é pra quem

Continua vivendo.

 

E o carro de pau

É um carro que está

Guardado num sótão

Onde nada há...

 

Dois poemas satíricos

 

António de Oliveira Salazar

 

António de Oliveira Salazar,

Três nomes em sequência regular...

António é António.

Oliveira é uma árvora.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem.

 

Este senhor Salazar

É feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A água dissolve

O sal,

E sob o céu

Fica só azar, é natural.

Oh, cos diabos!

Parece que já choveu...

 

Coitadinho

Do tiraninho!

Não bebe vinho.

Nem sequer sozinho...

 

Bebe a verdade

E a liberdade.

E com tal agrado

Que já começaram

A escassear no mercado.

 

Coitadinho

Do tiraninho!

O meu vizinho

Está na Guiné

E o meu padrinho

No Limoeiro

Aqui ao pé.

Mas ninguém sabe porquê.

 

Mas enfim é

Certo e certeiro

Que isto consola

E nos dá fé.

Que o coitadinho

Do tiraninho

Não bebe vinho,

Nem até café. (1)

 

In “Diário Popular”, 30 de Maio e 6 de Junho de 1974.

Publicado por Jorge de Sena

 

«Sim, é o Estado Novo»

 

Sim, é o Estado Novo, e o povo

Ouviu, leu e assentiu.

Sim, isto é um Estado Novo

Pois é um Estado Novo

Pois é um estado de coisas

Que nunca antes se viu.

 

Em tudo paira a alegria

E, de tão íntima que é,

Como deus na Teologia

Ela existe em toda a parte

E em parte alguma se vê.

 

Há estradas, e a grande Estrada

Que a tradição ao porvir

Liga, branca e orçamentada,

E vai de onde ninguém parte

Para onde ninguém quer ir.

 

Há portos, e o porto-maca

Onde vem doente o cais.

Sim, mas nunca ali atraca

O Paquete “Portugal”

Pois calado de mais.

 

Há esquadra... Só um tolo o cala,

Que a inteligência, propícia

A achar, sabe que, se fala,

Desde logo encontra a esquadra:

É uma esquadra de polícia.

 

Visão grande! Ódio à minúscula!

Nem para prová-lo tal

Tem alguém que ficar triste:

União Nacional existe

Mas não união nacional.

 

E o Império? Vasto caminho

Onde os que o poder despeja

Conduzirão com carinho

À civilização cristã,

Que ninguém sabe o que seja.

 

Com directrizes à arte

Reata-se a tradição,

E juntam-se Apolo e Marte

No Teatro Nacional

Que é onde era a Inquisição.

 

E a fé dos nossos maiores?

Forma-a impoluta o consórcio

Entre os padres e os doutores.

Casados o Erro e a Fraude

Já não pode haver divórcio.

 

Que a fé seja sempre viva.

Porque a esperança não é vã!

A fome corporativa

E derrotismo. Alegria!

Hoje o almoço é amanhã. (1)

 

In “Diário Popular”, 30 de Maio e 6 de Junho de 1974.

Publicado por Jorge de Sena

 

                                                                                 Fernando Pessoa 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

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