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POLÍCIAS SEM HISTÓRIA / Francisco Moita Flores
POLÍCIAS SEM HISTÓRIA / Francisco Moita Flores

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

POLÍCIAS SEM HISTÓRIA

 

         EPITÁFIO

 

Aqui jaz Ernesto José da Silva Bragantino. O seu corpo ressuscitou, qual Lázaro do conhecido milagre, e goza que nem um perdido o esplendor da Luz Perpétua em amena cavaqueira com arcanjos, anjos, beatos ‑ como se sabe não há beatas no céu ‑ e sob a protecção patriarcal de Santo Ambrósio, doutor da Igreja e santo da sua devoção.

      A alma, por uma incompreensível troca de horários, perdeu o voo que a haveria de transportar ao panteão que acolhe os que se finaram em estado de graça, sem pecado e ungidos pelos sacramentos. Por esta razão ficou sepultada nas páginas deste livro. Quem o folhear poderá tocar‑lhe pedaços da alma, ainda que não toque o Ernesto. Pedaços de vida cinzenta passada sem história, que vida de polícia não tem história para contar.

      Ernesto foi pacato cidadão. Viveu sem voz, muito embora falasse correctamente ainda que com um pouco de sotaque alentejano, e exerceu agradecido todos os direitos, e sobretudo os deveres, que constitucionalmente lhe foram atribuidos como presente de baptismo, ao ter usufruído da ventura de ter nascido português.

Teve direito a votar e votou. O direito a comprar carro a prestações e comprou.A adquirir casa com juro bonificado e adquiriu. A ir ao médico e escolher se queria consulta com recibo verde ou sem recibo verde e escolheu. Mas, sublimidade de todas as coisas sublimes, teve direito ao protesto e não protestou. A fazer greve e não fez. A revoltar‑se contra a arrogância e preferiu o silêncio. A reagir à injustiça e quedou‑se atormentado. A indignar‑se contra a hipocrisia e morder a raiva até espirrar sangue. Foi solidário. Todos os domingos dava esmola a um mendigo e, ainda que por medo, nunca deixou sem gorjeta um arrumador de carros.

      Conseguiu obter esse enorme sucesso de ser um rosto igual a tantos outros. Foi um dos mais ilustres anónimos contemporâneos. O seu nome nunca apareceu em coluna social e muito menos foi citado como exemplo a não seguir. Não se lhe conheceram vícios, pese o facto de abusar de bicas com copo de água, e fiel ao rebanho do Senhor sempre comprou em hipermercados, nos saldos de fim de estação, e não falhou, durante o Verão, qualquer fim‑de‑semana na Costa de Caparica.

      A exemplaridade maior do seu carácter consistiu em ouvir sempre os seus superiores de cabeça baixa, dizer sempre que sim, nunca deixar de achar muita graça às anedotas que contavam e a ele se deve muito da conservação da boa tradição medieval portuguesa que mandava que não se olhasse o poder de frente.

      Ernesto Bragantino nunca deixou caducar a carta de condução, pagou os impostos um mês antes do tempo previsto e não há qualquer documento histórico que permita provar que alguma vez o seu carro tivesse sido rebocado de cima de um passeio.

Um dia teve um sonho. Um demónio visitou‑o quando, indefeso das manhas do Mafarrico, dormia a sono solto, ressonando em dó menor. Pouco ou nada se sabe dessa visita, a não ser que lhe segredou qualquer coisa ao ouvido. A única certeza que consta é que Ernesto acordou e comunicou a quantos com ele privavam que assumira o firme propósito de se transformar num homem livre.

      Passadas algumas horas estava morto!

 

EU PECADOR ME CONFESSO...

Sou polícia e chamo‑me Ernesto. Não sei se por ser polícia se por me chamar Ernesto este livro não é uma ficção. É uma crónica. Não sou escritor. Nem o nome nem a função ajudam. O esforço da criação, esse fogo de cumplicidade que o artista literário ateia, soldando o real ao tamanho do imaginário e, depois, ordenando‑o no papel em substantivos, verbos e adjectivos escolhidos, trabalhados, organizados, não existe dentro de mim. Depois, um dos instrumentos de trabalho do escritor é a metáfora que, pela sua natureza, é a maior inimiga da justiça. Pelo menos é o que o meu Chefe diz quando lhe apresento os relatórios finais dos processos.

      ‑ Você tem a mania da literatice mas um dia lixa‑se! ‑ repetia‑me muitas vezes, e profetizava: ‑ Tem que escolher, ou descreve o facto ou muda de profissão que aqui não há lugar para metaforistas, muito menos para escritores.

      O Chefe tinha razão. Na polícia não há lugares para escritores. O único que conheço teve muito êxito, mas com um livro plagiado, palavra a palavra, vírgula a vírgula. Coisa para dar seis meses de cadeia, mas o plagiador é gente importante, homem acima de toda a suspeita. A culpa não é dele. O Paul Râvier é que não devia ter escrito o livro.

A minha função é descobrir crimes, reconstruí‑los à marretada nos teclados das máquinas de dactilografar e dizer ao juiz:

Aqui está o criminoso. Faça dele o que quiser!...

      O acto criador obriga a pensar fora das rotinas, deixar correr a memória pelo meio das gentes, pelas memórias dos outros, divagar pelas ruas, espreguiçar‑se nos bancos das praças, galgar montanhas, esventrar sentimentos, emoções, e, finalmente, transformar o mundo em palavras cristalinas como o orvalho das madrugadas alentejanas.

      O meu Chefe ralha‑me todos os dias porque nos depoimentos que recolho, na maior parte dos casos, as palavras são borrões. É um conflito irresolúvel entre a máquina de escrever e a minha incompetência dactilográfica. Confesso que nunca percebi. De dois em dois minutos o dedo cai‑me desajeitado sobre o teclado e saltam ao mesmo tempo o A, o Z e o e. Porquê, Santo Deus? Será que no instante em que os indicadores tocam na máquina a minha mão se transforma em casco? Já dei comigo acordando sobressaltado a olhar os dedos, convencido da verdade que Alexandre Herculano inventou: terei mãos e pés de cabra?

      Confesso a minha incompetência, a derrota perante a arrogância da máquina que só faz o que quer, a impossibilidade de alinhavar palavras que não sejam borrões e que conduzem o meu Chefe à invariável sentença depois de ler os autos de declarações que levanto:

      ‑ Isto está uma merda. Você embirra mesmo com o teclado da máquina!

      Tremo de vergonha, pressinto a máquina a rir de gozo e descarrego a ira em murros fortes que fazem ganir as teclas.

      ‑ Agora vai‑te queixar ao procurador!...

Ela responde‑me com o SilênCio carregado de desprezo e dou‑lhe outro murro.

      ‑ A máquina não tem culpa de você ser um desastrado. Se a estraga, participo de si.

      O meu Chefe não tem alma e é surdo. Não ouve as minhas desculpas.

      ‑ Chefe, só sei escrever com dois dedos e mesmo assim foi um trabalhão. Gostava de ser como o senhor, por acaso gostava. Senta‑se à frente deste mostrengo e é um artista. Mãos abertas quase a acariciarem as teclas, um momento de concentração e até parece que vamos assistir a um concerto para piano e auto das declarações. Os dedos correm pelas letras mecânicas e nem um raio de uma nota sai desafinada.

      Pronto! Confesso que não sou nenhum Mozart e, se os dez dedos tivessem valido para alguma coisa, não estaria a ouvir queixas da multidão que aqui vem ditar textos carregados de ofensas e desejos de reparação judicial. Ingénuos, coitados! Nada repara a morte de um infeliz com dois balázios na cabeçorra. Nem que o homicida passe o resto dos dias na choça. É um castigo com cheirinho a vingança, mas digam‑me lá: qual é a alquimia que ressuscita o morto, que seca as lágrimas e o sofrimento dos vivos? Cada vez desconfio mais de que esta oficina de reparações judiciais faz candonga e, às vezes, da grossa.

      Ah, e o frio?! O frio lixa‑me os autos. Nas manhãs de Inverno a sala é uma arca frigorífica. Um gelo do caraças que até a alma treme e nem um miserável aquecedor para que os dois dedos operacionais possam ganhar elasticidade. Mas o meu Chefe é avesso a estes argumentos e acabará sentenciando:

      ‑ Isso é uma conversa de merda!

O Chefe é especialista em palavrões e calão. Até abusa e sem grande imaginação. Aprendeu o dicionário das palavras proibidas durante trinta anos de fadigas atrás de vigaristas e gatunos. Por mim, tudo bem. Sou polícia e não me incomoda o calão. Em primeiro lugar, porque quem me lixa o ordenado, levando metade em impostos, quem me aumenta a gasolina, explica‑se com tal erudição e palavras bonitas que parece falar com os dez dedos da língua. O resultado é sempre o mesmo. O subsídio de Natal é para pagar as facturas dos que contam histórias sem calão, bem ditas e melhor escritas. Mas tenho cá na minha que o calão é uma maneira de dizer coisas bonitas ou feias, tanto como se utilizassem as melhores expressões da boa e mais azul linhagem literária. Vendo bem as coisas é a única maneira de nos entendermos.

      Um tipo entra com a brigada na Curraleira, zona onde as barracas abrigam multidões de seres onde a lei constitucional em vigor manda a que um polícia nem as horas certas se diga, e logo afinam no melhor calão as goelas dos corais que ensaiam anos a fio insultos à bófia, enquanto pelas vielas labirínticas se escapam gatunos e traficantes de droga.

      ‑ Filhos da puta, quem vêm buscar desta vez?...

      ‑ Ranhosos!

      ‑ Vão prà estiva em vez de chatear a pevide ao maralhal!

      ‑ A bófia é bera e rafeirosa...

      ‑ Querem apanhar ladrões, vão aos ministérios...

      ‑ Os gajos da massa não chateiam vocês...

      ‑ Oh, senhor agente... e se fosse para a puta que o pariu?...

      É evidente que nos primeiros minutos já se ouviu o bastante para esquecer os ensinamentos da Enciclopédia Luso‑Brasileira e blasfémias suficientes para fazer corar um cónego. Quem assistisse ao desenrolar dos acontecimentos perceberia que, dez minutos depois, a coisa só ia ao lugar com absolvição cardinalícia.

      Não vale a pena uma pessoa irritar‑se. Fosse um polícia inglês, armado de bloco de notas e ar circunspecto, puxaria indignado do apito e ainda o coro não dissera as primeiras estrofes de palavrões e já uma chusma de policemen cairia em cima do pagode, sentando‑os no banco dos réus de um qualquer tribunal para que se explicassem sobre aquela coisa da mãe, dos ladrões dos ministérios e dos gajos da massa.

      Mas nesta santa terra o melhor é entrar no fandango, que no final fica tudo na harmonia do Senhor.

      ‑ Deixa‑te de merdas e vamos embora...

Vai chamar ranhoso ao raio que ta parta...

      ‑ Começas a levantar cabelo e levas uma lambada nesse focinho que andas três dias a cagar fininho...

      E pronto. Ficamos todos amigos e no domingo vamos juntos ao futebol.

      É claro que esta linguagem só dá para escrever com dois dedos e, como se pode imaginar, não tem nada a ver com políticas criminais nem consta dos zelosos processos que vamos despachando a caminho dos tribunais.

      Nem podia! Um tribunal aplica leis e as leis são coisas escritas por gente que não sabe, e tem desprezo a quem sabe, onde fica a Curraleira ou o Casal Ventoso.

      Mas são pessoas sérias, importantes, que se repartem entre o estudo, as exposições no Centro Cultural de Belém e jantares de caridade. Porém, a treta é mais complicada. Estes senhores sábios e perfumados não passam de servos de um deus maior ‑ o Legislador. Ora bem, o Legislador não existe. Não é o ministro da tutela, não é nenhum juiz por mais prendado que seja, nem procurador, nem advogado e, claro está, nunca poderá ser polícia. Eu explico‑me melhor:

o Legislador É mas não existe, daí que se fale do Espírito do Legislador. A lei é espírito, a forma como os servos a encaram não passa de uma espécie de fato de ganga cheio de óleo, sem valer um tostão furado.

      É um ente divino que só tem comparação com o que vem escrito na Bíblia.

      Quando Javé apareceu a Moisés, este perguntou‑Lhe como diria aos Hebreus que ouvira a Palavra de Deus e qual era o Seu nome, ao que Javé respondeu:

      ‑ Dir‑lhes‑ás: Eu Sou Aquele que É!

      Este ser imaterial, abstracto, invisível, que é princípio e fim, cuja mão etérea se estende aos mais recônditos buracos do país é o Legislador. Ninguém sabe quem é, só se sabe que E. E só não podemos afirmar que ele é Javé porque a sua mão justiceira não vai além de Badajoz nem pode passar a ponte de Vila Real de Santo António. No entanto, ele determina uma ordem eterna prenhe de ideias de felicidade e de justiça que os servos, os tais dos jantares de caridade, põem em leis tão embelezadas pelo rigor das palavras que, por certo, não admitiriam o ultraje de lhes mandarmos um naco de prosa do seguinte teor:

      ‑ Senhor agente, quer dizer que estou feito em papas?!, ao que o agente respondeu: se apanhares um juiz com eles no sítio, mamas para cima de dez anos de pildra!, tendo o arguido exclamado: porra!

      É que o Legislador não conhece a Musgueira nem o bairro da Sé. Legisla num confortável gabinete, que os espíritos querem‑se confortáveis e confortados. E, por amor de Deus?!, não faz sentido que a inteligência, esse produto milagroso e raro que habita togas respeitáveis, entre nos tugúrios fétidos e escuros do Casal Ventoso. Isso é coisa para polícias, brutos e malcheirosos, ordinários por nascimento e dactilógrafos de pacotilha por opção. Sejamos sérios e ponhamo‑nos cada um no seu devido lugar. A Justiça é um dom de deuses, polícias e criminosos um vómito do Diabo num dia em que acordou ressacado.

 

VENENOS

O Chefe entrou na sala e disse:

      ‑     Você e você vão a Sacavém. Estão dois tipos mortos no Café Tropical!

Entregou o papel ao Jorge.

      - E o relatório que o senhor me pediu para hoje? - perguntei.

      - Fica para amanhã! Ou quer que os cadáveres fiquem a apodrecer até o senhor se despachar?...

      ‑     É homicídio? ‑ quis saber o Jorge.

      O Chefe estava maldisposto.

      ‑     Não. Morreram com um ataque de tosse! ‑ dita a gracinha voltou as costas e saiu.

      ‑     A melhor virtude do Chefe é o humor ‑ comentou o Camacho ‑, as gracinhas que diz põem uma manada de elefantes a rir. Querem ajuda?...

Os olhos do Jorge brilhavam de ansiedade:

      ‑     Podes ir por mim? Esta noite o Benfica joga na Luz!

      ‑     Se é por isso, não contes comigo. Não gosto de ver os meus amigos andarem por maus caminhos!

      ‑     Goza à vontade! Este ano o campeonato está no papo...

Eu já sabia.

É o terceiro segredo de Fátima. O Benfica ganha o campeonato este ano!

      Ficava sem paciência quando o Jorge e o Camacho começavam a discutir futebol. Parecia que jogavam pingue‑pon gue sem que a bola caísse definitivamente no chão.

      ‑ Então, a ida a Sacavém é para hoje ou para amanhã?

      Saímos os dois à pressa. O trânsito era um rio de lava vagaroso, gaguejando de semáforo em semáforo. àquela hora parece que a cidade é inundada de automóveis impacientes que soltam gritos nervosos.

      ‑ Não percebo porque buzinam estes gajos. Não se pode andar ‑ refilava eu, procurando um buraco para me escapar.

      ‑ Eles não buzinam, protestam! ‑ o Jorge tinha a mania das grandes tiradas. ‑ Como têm medo de gritar com os chefes, lixam‑nos os ouvidos. Não te metas pela Avenida da República. Levas meia hora para chegares à Segunda Circular.

      ‑ Vamos por onde? Entrar em Sacavém a esta hora...

      O Jorge ficou em silêncio por uns momentos. De repente, deu um salto.

      ‑ Liga a sirene, põe o pirilampo... vamos embora!...

      ‑ Achas?...

      ‑ Não ouviste o Chefe? Estão dois mortos à nossa espera e, se nos despacharmos depressa, ainda vou ver o Benfica

      ‑ És maluco!

      ‑ Pois sou! ‑ o Jorge ligou o pirilampo e teve que levantar a voz por causa da sirene ‑, mas o Benfica é o maior. Não queres ir comigo à bola?

Sorri e acelerei. O som estridente da sirene excita os sentidos, põe os nervos à flor da pele e até parece que o carro ganha uma alma nova.

      Não foi difícil descobrir onde estavam os cadáveres. Uma pequena multidão rodeava a porta do Café Tropical e percebiam‑se os grupinhos que falavam excitados com a presença da morte, ali tão à vista e tão exposta que até apetecia provocá‑la, falar alto, discutir como se provocassem os mortos à espera que reagissem.

      Nunca percebi porque somos assim, com comportamentos tão desencontrados. Basta entrar numa câmara‑ardente para se perceber que o respeito pelos defuntos se expressa em falas mansas, vozes baixas, cumprimentos sóbrios que insinuam a crença de que no caixão não está um morto, mas um corpo que dorme. No meio da rua tudo se transfigura. A morte está ali, desnudada de flores e véus, exibindo‑se sem ademanes nem enfeites.

      ‑ Parece um circo! ‑ rosnou o Jorge maldisposto.

      ‑ Chateia‑me trabalhar com assistência ‑ respondi.

      ‑ Pedimos aos guardas que afastem a cambada de bisbilhoteiros!

      O Jorge foi falar com um dos guardas que impediam a multidão de se aproximar. Procurei as luvas na algibeira e fiquei silencioso e quieto no meio dos homens. As conversas eram nervosas.

      ‑ Vinha do trabalho, vi pessoas a correr, também corri... quando aqui cheguei já estavam nesse estado...

      ‑ Eu estava no café, o Zé gritou‑me, quando olhei o mais velho soluçava e deitava coisas fora... morreu aí...

      ‑ Teria sido um ataque?

      ‑ Dois gajos ao mesmo tempo?! Não são ataques de mais?...

‑     Não houve tiros...

      ‑     Esse mais velho é o Ti João, mora ali em baixo...

      ‑     A cara é‑me conhecida...

      ‑     O Ti João, pá? Vem aqui ao café todas as noites beber o bagaço!... É pedreiro e tem pombos de competição...

      ‑     Pois... mas o preto não conheço...

      ‑     Deve trabalhar nas obras com ele...

      ‑     E ninguém tira daqui os homens? A polícia deve estar a dormir como sempre...

      ‑     Coitado do Ti João. A mulher já sabe?

      ‑     Eh, pá! Isto é um escândalo. Os homens estão mortos há mais de duas horas aí no chão e ninguém faz nada!

      ‑     Vamos afastar! Façam favor de sair daqui ‑ era a voz grossa do sargento.

      Cravaram‑se na farda dúzias de olhares indignados.

      ‑     Porquê? Não estamos a fazer mal...

      ‑     Em vez de tirarem os homens dali, embirram com a gente...

      ‑     Que se há‑de fazer? Isto está neste estado. A televisão é que devia estar aqui...

      ‑     Eh pá, ninguém ligou para a televisão?

      ‑     É verdade!... Boa ideia!...

      Devagar foram‑se afastando. Recuavam em passo miudinho sem tirar os olhos dos cadáveres. A ordem do sargento era sinal de que o folhetim ia continuar.

      O recuo estratégico deixou‑me isolado frente à multidão e senti‑me uma vedeta de televisão que vai cantar a uma romaria. Trezentos pares de olhos a estudarem‑me os movimentos. Ainda ouvi um comentando mais alto, no momento em que o Jorge se aproximava de mim, vindo do interior do café:

            - É a bófia!

‑     Então? - Perguntei.

      ‑     O dono não sabe nada. Morreram antes de entrar... O mais velho é conhecido.

      ‑     É o Ti João, pedreiro de profissão e dedica‑se à columbofilia! ‑ acrescentei.

      O Jorge olhou‑me surpreendido.

      ‑     Esse maralhal não se cala. Sabem a vida de toda a gente!

      ‑     Bom, vamos a isto!

      ‑     As fotografias?

      ‑     O pessoal do piquete tratou de tudo! Tens luvas?

      ‑     Estão aqui.

      ‑     Então, dá volta aos gajos. Eu tiro os apontamentos.

      A multidão ficou de respiração suspensa. Os polícias avançavam para os cadáveres e percebia‑se que ia começar o espectáculo de interditos. Tocar nos mortos provoca repulsa. O horror de uma pele gelada e inerte que não reage ao afecto do toque. De um corpo que já está a apodrecer e que vai cheirar mal. Repetia‑se sempre o mesmo ritual de espanto e eu nunca deixava de ficar surpreendido. A forma como éramos olhados revelava admiração. Levei anos para perceber que essa reacção era o reconhecimento da nossa autoridade. Nós mexíamos nos medos de todos os curiosos. Manipulávamos as inquietações de cada um face à morte. Porque ninguém sabe o que é a morte e todos sabemos que, num dia e numa hora desconhecida, ela vai acontecer.

      O João estava de bruços, as mãos fechadas sobre as pedras da calçada, pernas abandonadas. Vasculhei‑lhe as algibeiras do blusão. Uma carteira de plástico suja e rasgada mostrava o cartão de sócio do Sacavenense, uma medalha de Nossa Senhora de Fátima e o bilhete de identidade.

‑     O homem chama‑se João ‑ passei a carteira ao Jorge

      ‑     E é do Sacavenense! Bom gosto. Já reparaste na boca dos gajos?

      ‑     Espuma

      O rapaz negro caíra de lado, a cabeça pendia sobre o

ombro. Um suco esverdeado escorregava‑lhe pela face e

empapava as pedras. Debrucei‑me sobre ele e cheirei‑lhe a

boca.

      Senti nas minhas costas o murmúrio de admiração da assistência.

      ‑     O que é que o bófia está a fazer?

      ‑     Vai dar um beijo no preto.

      ‑     Se calhar é maricas.

      - Calem a boca! Deixem os homens trabalhar...

      ‑     Mas quase meteu o nariz na boca do preto.

      ‑     Está a armar...

      - Alguma razão deve ter. A Judite sabe disto. São dos melhores do mundo.

      ‑     Dizes isso porque não vês televisão...

      ‑     O homem sabe o que faz. Tu eras capaz?

      - Porra nem que me pagassem todo o dinheiro do mundo...

      ‑     Então vê e não mandes bocas...

      Fiquei sentado no chão olhando os dois cadáveres. O Jorge pôs‑se de cócoras ao meu lado.

      - Tenho razão?

Acenei afirmativamente.

      ‑     Veneno. Seiscentos e Cinco Forte.

      Ficámos em silêncio. De repente, parecia que Sacavém nos acompanhava no silêncio. Deixámos de ouvir os murmúrios do nosso público, as buzinas das bichas intermináveis que agonizavam na Estrada Nacional Número Um.

      ‑     Não pode ser suicídio!

      ‑     Porquê? Agora é moda. Toda a gente se mata com essa porcaria.

      ‑     Há uma testemunha que os viu a caminhar para o café. Começaram a cambalear e depois caíram com convulsões até que esticaram o pernil.

      Sendo assim, suicídio era pouco provável. Quem procura limpar o sarampo a si próprio não costuma passear calmamente pela rua à espera que os venenos lhe estraguem o canastro.

      Por descargo de consciência apalpei‑lhes a cabeça e espreitei o pescoço.

      ‑     Não têm sinais de luta ou ferimentos!

      O Jorge não gostou.

      ‑     Desde quando um veneno deixa um gajo com galos na cabeça?!

      ‑     A que horas morreram?

      ‑     Mais ou menos às duas da tarde.

      Ficámos em silêncio. Mas desta vez os sons de Sacavém não nos acompanharam. Ergueram‑se ainda mais alto os roncos dos autocarros atulhados de gente, rostos espalmados contra os vidros procurando adivinhar o que fazia aquela multidão em volta de dois tipos deitados na rua, acompanhados de outros dois que, de cócoras e cabisbaixos, pareciam rezar.

      A voz do sargento sobressaltou‑nos.

      - Vamos afastar. Estou farto de dizer que se afastem.

      A curiosidade empurrava os espectadores para cima de nós, o sargento e os dois guardas empurravam‑nos para longe. Era o jogo do rato e do gato entre a curiosidade e a autoridade. E a autoridade estava a perder.

      - Que estão os dois gajos a fazer ali de cócoras'?

‑     Se calhar estão a rezar...

      ‑     Só lhes fazia bem, mas a bófia não sabe rezar.

      ‑     Já devem estar cansados. Meia hora de trabalho é muito para o corpinho deles...

      ‑     Não vês que os homens estão a pensar?

      ‑     Eles sabem pensar?

      Tirei as luvas e acendi um cigarro.

      ‑     Só se foram envenenados à hora de almoço!

      ‑     Estava a pensar nisso. E para morrerem só os dois tiveram de almoçar uma coisa que mais ninguém comeu...

      ‑     O João mora aqui perto...

      ‑     Teria sido a mulher que lhes tratou da saúde?

      ‑     O veneno é uma arma das mulheres!

      ‑     É por isso que não me caso!

      Jorge levantou‑se de um salto.

      ‑     Vou saber onde morava o homem!

      O sargento dirigiu‑se, sorridente, ao meu encontro.

      ‑     Alguma conclusão, senhor agente?

      ‑     Talvez... não sei! Quando quiserem podem levantar os cadáveres. Vão para a morgue para serem autopsiados.

      Era o fim do espectáculo. Alguns dos mirones olhavam‑nos com curiosidade e cochichavam segredos que lhes provocavam o riso. Mas a chegada da automaca da polícia, que removeu os corpos e o nosso aparente desinteresse dispersaram a manifestação ávida de contar a história aos amigos e vizinhos das redondezas.

      O Jorge puxou‑me o braço.

      ‑     Já sei onde mora o João! Vamos?

      ‑     Vamos!

      Comecei a andar ao seu lado. O meu colega tacteava o caminho, recordando as indicações que lhe dera o dono do Café Tropical.

‑     Jorge, posso estar a dizer uma bacorada do caraças, mas foi a mulher do mais velho que mandou os dois desta para melhor!

      Não respondeu logo. Olhou para uma rua com hesitação, depois decidiu‑se.

      ‑     É por aqui!

      Uma dúzia de passadas depois respondeu:

      ‑     As mulheres vulgarmente matam os maridos, mas não matam os amigos dos maridos, assim sem mais nem menos...

      ‑     Não sei...

      ‑     Nem eu!

      Olhei‑o de soslaio. Caminhava sério e atento, observando o casario baixo que emoldurava a rua.

‑     Estás chateado?

- Estou!

      Demos mais alguns passos. Jorge estremeceu num suspiro de impaciência e resmungou:

      ‑     Enganei‑me! Deve ser na rua abaixo. Voltámos para trás. Três minutos de silêncio depois, tornei à carga:

      ‑     Tu estás mesmo chateado. Gostava de saber porquê...

      ‑     Porquê? Ainda perguntas porquê?.

      ‑     Claro que pergunto porquê! Trataram‑te mal, algum dos mortos era teu amigo, ou simplesmente estás com a telha?

      ‑     Quais mortos, qual telha, qual caraças!... São oito horas, daqui a uma hora e meia começa o jogo na Luz e eu ando para aqui, armado em parvo, à procura da mulher do Ti João.

      ‑     Jorge, ganha juízo, pá!

      ‑     Eu?... Eu?... Vens‑me falar de juízo, logo tu! Já fumaste quantos maços de tabaco, hen? Quantos? Estás roto, pá! Tão envenenado como aqueles dois que vimos lá em baixo espumando pela boca. Tu é que não tens juízo!...

      Comecei a ficar irritado. O Jorge era assim. Um companheirão, bom polícia, mas quando começava a embirrar fazia perder a paciência a um franciscano.

      - Não vim a Sacavém para receber uma lição de moral. Fumo os maços que quiser. E, se estás atrasado para ir ver a porcaria do Benfica, a culpa não é minha. Tu é que foste perguntar onde morava a merda do morto!

      O Jorge parou. Olhou‑me com azedume, dedo espetado ao meu peito.

      ‑     Não voltes a dizer isso!

      ‑     Eu?... O quê?

      ‑     Que o Benfica é uma porcaria. Nunca foste ver um jogo de futebol.

      ‑     Nem me interessa!

      ‑     Então não digas disparates.

      - Jorge, porra, pá! Temos entre mãos um duplo homicídio e a tua preocupação é que eu não diga que o Benfica é uma porcaria?!... Vai‑te lixar...

      ‑     Os mortos estão mortos e o Benfica, se ganhar, pode ser campeão!...

      ‑     Olha, vai à merda!

      Ia responder‑me mas à nossa frente estava a casa do Ti João.

      ‑     É aqui! ‑ informou aliviado. Dirigiu‑se à campainha para tocar e quando carregou ouviu‑se um som estridente ao mesmo tempo que a porta se abria.

      Fiquei surpreendido.

      ‑     Está aberta!

      ‑     Dizes outra verdade dessas e eu ajoelho‑me à tua frente a rezar!

‑     Não precisas. Tu estás em estado de graça. Entramos?

      ‑     Claro! Quanto mais depressa despacharmos isto, mais depressa chego ao jogo!

      ‑     Jorge, tem calma. E se foi a mulher que os matou?

      ‑     Melhor ainda! Qual é o problema?

      ‑     O problema é que aparece um advogado manhoso a dizer que entrámos numa casa particular sem mandado de busca, vai o homicídio para o caraças e nós papamos com um processo crime por abuso de autoridade!

      ‑     Ernesto, não me lixes. A esta hora o Benfica já deve estar a aquecer e se alguém abusou foi ela. Meteu veneno a mais no bandulho dos desgraçados!

      ‑     Por mim, estou‑me nas tintas.

      ‑     Então, embora! Que se lixe o abuso de autoridade.

      Entrámos os dois ao mesmo tempo. A casa era escura, corredor estreito, com um cão de barro enorme a olhar para nós. Avançámos devagar e o silêncio tocava‑nos a pele. Olhámos um para o outro. Qualquer polícia desconfia do silêncio. É sinal de temporais inesperados. Puxámos das armas e avançámos cautelosamente. O corredor desembocava na cozinha, onde a escuridão só permitia adivinhar a chaminé e um vulto de mulher, hirto, sentado à mesa.

      O Jorge instintivamente fixou‑lhe a cabeça na mira da arma, enquanto eu tacteava a parede à procura do interruptor. A luz escorregou baça e mortiça sobre a mesa e à nossa frente o vulto transformou‑se numa mulher de cabelos grisalhos, com o rosto desenhado num mar de rugas, olhando com indiferença a pistola que o Jorge lhe apontava. Em cima da mesa, decorada com uma toalha de plástico aos quadrados azuis e brancos, estava um tacho com restos de comida, dois pratos sujos e copos manchados de vinho tinto. Não me recordo de outros pormenores. Apenas de duas coisas. Nos pratos e no tacho jaziam, mortas, dúzias de moscas. A segunda recordação foi a voz dela. Rouca, saída do peito, sem raiva nem ansiedade.

- Morreram os dois?

      Jorge baixou a pistola.

      ‑     Onde está o veneno? ‑ perguntei olhando em volta.

      ‑     Ao pé do fogão! ‑ respondeu. A voz era glacial, sem emoção nem medo, e repetiu:

      ‑     Morreram os dois?

      ‑     Morreram! - respondeu o Jorge.

      Passaram meia dúzia de instantes de silêncio. O tempo suficiente para eu descobrir o frasco de 605 Forte.

      ‑    É pena. O rapaz não tinha culpa nenhuma! ‑ suspirou.

      O Jorge sentou‑se à frente dela, estudando‑lhe com atenção o rosto, enquanto eu vasculhava a cozinha à procura de sacos de plástico para acomodar o veneno, o tacho e os pratos pejados de moscas mortas.

      ‑     A senhora tem consciência da maldade que fez?

      Sorri interiormente. O Jorge tinha esquecido o Benfica.

      ‑     O meu marido é que teve a culpa de o rapaz morrer!

      ‑     O seu marido?

      ‑     Não tinha nada que o convidar para vir almoçar cá em casa!

      Ficámos embaraçados. A mulher está passada dos carretos, pensei enquanto acomodava com cautela os pratos num saco de plástico.

      ‑     E a senhora matou o seu marido, porquê?

      A mulher tinha o olhar vazio, fixo num ponto algures na parede. A cara inundada de rugas, o corpo franzino e magoado, as mãos esqueléticas, lábios secos, tornavam‑na numa personagem de Felími.

‑     Sou católica. Não me podia divorciar.

      Não deixei cair os pratos por milagre. O Jorge nem conseguiu falar. Tossiu e ficou boquiaberto a olhar para ela.

      ‑     Porque foram vinte anos a fazer almoços e jantares. Vinte anos a ouvi‑lo ressonar. De noite não podia voltar‑me na cama para o lado dele. O cheiro a vinho acordava‑me. Vinte anos calada. Dizia‑lhe, João, chegaste das obras, cheiras mal do suor, vai tomar banho. Não me respondia. Pelo menos vai lavar os pés. Não me ouvia. Deixei de ser pessoa. Durante anos repetiu três coisas: o jantar está pronto'?, vai‑me abrir a cama!, traz‑me o garrafão do vinho! Não sabia dizer mais nada. Até do meu nome se esqueceu. Eu tenho nome, senhor agente. Chamo‑me Luzia. Ele não sabia. Fui à igreja. Confessei a minha revolta e mandaram‑me rezar dez padres‑nossos. Tive que me penitenciar porque o meu homem tinha esquecido o meu nome. Mesmo assim rezei e acho que foi Deus quem me mostrou o caminho. Desculpe, senhor agente. Há muitos anos que não falava com uma pessoa. Posso falar, não posso? Fique descansado. Fui eu que meti o veneno no feijão. Confesso tudo. Mas diga‑me, é pecado ser mulher? É mal esperar que o homem com quem a gente vive saiba o nosso nome? Sou contra o divórcio, senhor agente. O que Deus uniu jamais o homem pode separar. Depois era uma vergonha. Os meus pais morriam de vergonha. Na minha terra, eu nasci perto da fronteira, ninguém se divorcia. É pecado. Só podia acabar com isto se ele morresse. Foi por isso que pus o veneno no feijão. Ele gostava de feijão com chispe. Ontem disse‑lhe que ia fazer feijão com chispe ao almoço. Trabalhava nas obras aqui perto e vem almoçar a casa. Quando entrou, fiquei gelada. O servente também gostava de feijão com chispe e ele convidou‑o. Apareceram os dois. Ainda pensei em entornar o tacho, mas ele foi buscá‑lo ao fogão. Eu não queria que o rapaz morresse. Até gostei dele. Tratou‑me por Luzia. Há anos que ninguém me chamava Luzia. Disse‑lhe que não comesse e ele comia, comia. Até limpava com o pão. Desculpe, senhor agente.

      O Jorge ficou em silêncio. Coçou a cabeça e olhou para mim no momento em que vasculhei, nervoso, o que restava do maço de tabaco. Tirei um cigarro e tacteei o isqueiro...

      ‑     Vamos embora? ‑ perguntei.

      ‑     Vamos. Dá‑me um cigarro!

      Estendi‑lhe o maço, enquanto com a outra mão procurava as algemas. Depois desisti. Não me apetecia nada. Nem algemar a mulher. O isqueiro tremelicava na mão do meu colega. Num impulso que não sei explicar, abusei da autoridade. Aproximei‑me dela e afaguei‑lhe os cabelos grisalhos. Num sussurro envergonhado disse‑lhe:

      ‑     Dona Luzia! A senhora está presa.

      Ela esboçou um sorriso triste e agradecido.

      ‑     Eu sei. Obrigado por dizer o meu nome. Gostava de pedir desculpa à família do moço.

      ‑     Depois tratamos disso. Vamos?

      Levantou‑se vagarosamente. Olhou para nós como se fôssemos amigos de longa data e perguntou‑me:

      ‑     Diga‑me, senhor agente. É pecado ser mulher?

      Desviei os olhos, embaraçado com a pergunta. Ela continuava a fitar‑me.

      ‑     Não me respondeu, senhor agente!

      Sacudi nervosamente o ombro do Jorge, que continuava encostado à mesa.

      ‑     Vamos!

      Levantou‑se sobressaltado.

      ‑     Vamos?

      Quando metemos a mulher no carro, chamei‑o.

‑     Jorge! Se quiseres deixamo‑la na polícia e levo‑te ao Estádio da Luz. O jogo já começou. Eu depois trato do expediente.

      Acenou negativamente com um suspiro triste.

      ‑     Não me apetece! Vou contigo para a polícia.

      Liguei a sirene, pus o pirilampo no tejadilho do carro e saímos rapidamente de Sacavém.

 

BUFOS

O Zé Cigano é um dos meus maiores amigos. Conheci‑o durante uma tareia que lhe dei. Não ficou sem concerto por acaso.

      Passávamos ali às Portas de Santo Antão no dia em que o Sporting aviou sete ao Benfica. Quando o jogo terminou, fomos para os copos. Polícia que se preze vai à bola com a mesma devoção com que uma beata vai à missa. No fundo é tudo um problema de fé. Nesse domingo, a religiosidade do Jorge lixou‑lhe a tarde. Passou a noite a pagar apostas, traído pela equipa de coxos objecto da sua adoração.

      Saímos da Ginginha, já todos bêbados, e surge de uma sombra a figura parda de uma toupeira da cidade, habitante da noite. Chega‑se a mim, abre rapidamente o casaco e pergunta quase sem mexer os lábios:

      ‑     Quer comprar?

Olhei‑o sem interesse. A velha história de uma colecção de relógios Omega, à prova de água e antichoque, que tinha de vender ao preço da uva mijona porque precisava de partir para o Porto, pois a mãezinha estava muito doente e o comboio era dali a uma hora. Eu não faria apenas um bom negócio. Ajudaria uma pessoa aflita que, sabe‑se lá, se calhar não chegava a tempo de ver a santa que o pôs neste mundo.

      Ele tornou a abrir o casaco e estremeci. Reluzindo à luz das estrelas (desculpem‑me estou a abusar das figuras de estilo, estrelas em Lisboa só há para enfeitar presépios), dizia eu, reluzindo à luz dos lampiões da rua estreita, uma caçadeira de canos serrados olhava para mim com os dois olhos negros de breu fitos nos meus.

      Deus existe! O murro que lhe atirei à tromba foi de uma força divina. O Zé foi cair com um estrondo do caraças contra as grades dos portões do Coliseu e o som deve ter sido estereofónico, com boa ampliação, tipo concerto dos Xutos e Pontapés.

      Digo isto porque acorreu uma série de passantes, entre eles alguns chulos de profissão, contrabandistas de electrodomésticos, intrujas, dois ou três porteiros de casa de passe e meia dúzia de curiosos.

      ‑     O que foi?

      ‑     Esse gajo. Deu um murro no desgraçado do cigano que não o matou por milagre.

      Há gente sem princípios. Esta cidade está cada vez pior.

      ‑    A polícia é que devia assistir a esta pouca‑vergonha... mas como sempre...

      ‑     São um bando de bêbados.

      ‑     Ou drogados.

      Se fossem para a cadeira eléctrica resolvia‑se o problema. Se eu mandasse. Cambada!

      ‑     Ninguém ajuda o homem? Está a revirar os olhos...

      ‑     Vai dar o peido mestre. Conheci um tipo que antes de morrer fez a mesma coisa...

      Levantei‑o mas foi preciso segurá‑lo. Estava tão atordoado que não se sustinha nas pernas. O Diogo pegou na caçadeira e o distinto grupo de testemunhas compreendeu mal o gesto.

      Se houvesse dúvidas sobre a natureza divina do murro que o Zé encaixou, o que a seguir se passou era a contraprova de que Deus existe. A multidão que à nossa volta rosnava impropérios e justas ameaças de vingança à honra do Zé, desapareceu como se tivesse passado do estado sólido a gasoso, assim uma espécie de sublimação ou lá o que é que lhe chamam os químicos. A caçadeira nas mãos do Diogo e ninguém a norte, ninguém a sul, a Rua das Portas de Santo Antão transformada na avenida do silêncio pela qual as almas caminham seraficamente para o céu.

      O Zé acordou definitivamente quando o Camacho lhe despejou o que restava de uma garrafa de água pela cabeça abaixo. Cambaleou, ganhou o equilíbrio e o Camacho, sorridente, distribuiu parabéns:

      ‑     Foram os dois muito felizes! ‑ e cumprimentando o Zé: ‑ Puseste a cara na posição certa e tu ‑ voltou‑se para mim e exclamou encantado ‑ puseste a mão da maneira ideal. Perfeito ‑ e outra vez para o cigano: ‑ O pá!, depois de um sopapo olímpico como este, um homem renasce. Aposto que és do Benfica. E vê lá a tua sorte. Com tantos milhares de pessoas que andam por aí, muitos deles mais manhosos do que ratos, logo tinhas de vir vender este brinquedo a três tipos da bófia! Olha que isto é quase como acertar na lotaria.

      ‑     Cheira mal! ‑ disse o Diogo.

      ‑     Está cagado.

      ‑     Com o murro que lhe deste, qualquer um se caga...

      ‑     Foi legítima defesa!

      ‑     Porra! Era preferível teres‑lhe dado um tiro. Está com a cara sem concerto... Temos de o levar daqui.

      O Zé estava preso. Identificou‑se logo, pediu pelas alminhas que não lhe batessem mais, contava tudo, sabia onde estavam três quilos de heroína, sustentava quatro filhinhos pequerruchinhos e a mulher era doente dos nervos, até podia mostrar uma receita do hospital que não levantara porque não tinha dinheiro para a farmácia. Mas, por favor, que não lhe batessem mais. Aquele senhor forte era uma besta, quer dizer, uma senhora besta porque só lhe perguntara se queria comprar e não valera a pena aquele disparate, a arma até estava descarregada e podia jurar a pés juntos que nunca a usara.

      ‑     Onde é que arranjaste este objecto de arte? ‑ perguntou o Diogo.

      Parecia uma metralhadora a falar:

      ‑     Em Xabregas, por cinco contos, a um tipo que por acaso nem o nome sei ‑ neste momento íamos a entrar no eléctrico e eu, maldisposto com a tempestade de cerveja que me chocalhava no estômago, levantei a mão para lhe dar outra lambada ‑, não, não, espere aí, já me lembro do nome, baixe lá a mão por amor de Deus, foi o Gaspacho!

      Nome próprio era desconhecido, mas era o Gaspacho há muitos anos, vá lá um homem saber porquê. Saíra da cadeia ia para uns quinze dias e, segundo parecia, estabelecera‑se por conta própria. Vendia caçadeiras de canos serrados a cinco contos sem vigarice nem tretas pelo meio.

      O desgraçado do cigano passou um mau bocado. Os tipos do laboratório mandaram dizer que exactamente aquela arma matara uma rapariga na Póvoa de Santa Iria, ainda não havia duas semanas, e que uma brigada dos homicídios andava em cima da coisa.

Quando soube que havia mortos no meio da confusão, o Zé desatou aos saltos:

      ‑     Alto e pára o baile. Eu cá não matei ninguém!

      Algumas horas depois, os homicídios deitaram a luva ao matador da rapariga. De facto era o Gaspacho, um animal com a cara cheia de borbulhas que passou o tempo que esteve preso a estudar leis. Parecia um doutor.

      ‑     A prisão foi ilegal. Nenhum dos senhores me leu os direitos! ‑ sentenciou.

      ‑     Filhos da puta como tu já sabem os direitos todos, escritos e ditos, e além disso não sei onde pára a merda do papel para ler quando apanhamos ranhosos como tu!...

      ‑     O senhor agente está a injuriar‑me. É um crime previsto e punido pelo Código Penal, artigo...

      ‑     Com o Código Penal levas tu nas trombas se não te calas com esse paleio barato... mataste a desgraçada da miúda e ainda vens para aqui armado ao pingarelho?!...

      ‑     Fiz justiça!

      ‑     Deves ter tirado o curso de juiz na cadeia.

      ‑     Ela devia ter esperado por mim. Só estive preso cinco anos, arranjou outro.

      ‑     És muito bonito para alguém ficar cinco anos à tua espera...

      ‑     Tínhamos jurado...

      ‑     E como ela deu a jura de barato, ferras‑lhe dois tiros na cabeça!

      ‑     Fiz justiça!

      O Zé Cigano, quando soube que o Gaspacho confessara o homicídio, quase que se lançou ao nosso pescoço e por um triz não desatava aos beijos a toda a gente ao ver o outro algemado a caminho dos calabouços.

Tinha a cara inchada do murro que lhe dei. Tive pena dele.

      ‑     Ó Chefe, prendemos o cigano?

      ‑     Vocês é que o apanharam com a caçadeira! A posse desse instrumento, com o cadastro que ele tem, põe‑no de molho aí uns três anos.

      ‑     O desgraçado tem fome. Em vez de cadeia, precisava de comer.

      ‑     Mas prenderam‑no ou não?

      ‑     Bom, quando o agarrámos dissemos‑lhe que estava preso e ele acreditou.

      ‑     Se está preso, está preso. Levem‑no ao Ministério Público.

      ‑     Ó Chefe, mas se não fosse ele não tínhamos filado o Gaspacho. Vendo bem as coisas, foi ele quem nos resolveu o homicídio! Olhe lá para aquela figura...

      O Diogo dera‑lhe um cigarro. Através do vidro que separava as duas salas, via‑se o Zé Cigano de perna cruzada, tronco direito, pequenino, quase sumido na cadeira, olhos brilhantes, felinos, um sorriso de satisfação por perceber que pelo menos metade da embrulhada em que estava metido ia ser repartida com o Gaspacho.

      ‑     O tipo tem piada.

      ‑     Manda o gajo embora ‑ disse o Camacho ‑, já teve o castigo que merecia. Quem leva um murro como aquele que lhe aviaste é como se fosse sentença transitada em julgado.

      ‑     Chefe, então? O senhor andou no seminário. Estudou essas coisas da bondade, se te baterem numa face oferece a outra...

      - Conta essa da face ao cigano a ver se ele vai na conversa!

      O Chefe riu. Era bom sinal. A evocação bíblica inundara‑lhe a alma.

‑     Façam o que entenderem! Que vão inventar?

      ‑     Nada, Chefe. Vou só escrever a pura das verdades. Íamos passando na rua e o Zé Cigano, pacato cidadão e honesto pai de família, chamou‑nos. Pediu‑nos horrorizado que espreitássemos para um embrulho que encontrou num caixote do lixo quando andava ao papel. Que procedeu assim porque nos reconheceu como polícias e, preocupado com a insegurança, resolveu alertar‑nos de imediato.

      ‑     A história é boa. Vá, escreve isso depressa!

      Foi assim que o Zé Cigano se tornou um amigo da brigada. No espaço de poucas horas, a polícia dera‑lhe três alegrias

‑ não o acusara de homicídio, não o prendera e, ainda por cima, saía dali com mil paus na algibeira para beber uns copos.

      Mas afinal quem é o Zé Cigano? Um bufo. Um amigo do povo inseguro, um banco de dados pessoais privativo que cada polícia estima como se fosse uma prenda oferecida pelo pai no dia de Natal. É um dos herdeiros de Judas dos tempos modernos, só que não dá um par de beijos aos que denuncia. Segreda‑lhes o nome ao ouvido do seu agente de confiança entre duas trincadelas nuns tremoços e um gole de imperial.

      ‑     Quem chinou o ourives da Rua da Prata foi o Rissol e o Superman! ‑ a coisa é dita com a maior naturalidade enquanto faz sinal ao empregado para mais um pires de tremoços. ‑ Esconderam a urina toda num barraco ali para os lados de Monsanto! Eu não disse nada, há?! Se eles sabem, estou feito.

      Quem está feito sou eu. Pago as imperiais sem direito a reembolso, que legalmente não há bufos. Nestas coisas, o meu Chefe é pragmático:

      ‑     O que não existe na lei, não existe na vida! A lei é a vida.

Postas as coisas nestes termos, no nosso país não há bufos. Nem para a polícia, nem nas repartições públicas, nem nas empresas. A lei não contempla e se o Legislador não se deu a esse trabalho é porque não existem mesmo. Então, sendo assim, perguntar‑me‑ão: afinal de contas o Zé Cigano é bufo ou não?

      Não é, desculpem, enganei‑me! Também o que se pode esperar de um indivíduo que só sabe escrever à máquina com dois dedos?

      Nos últimos tempos apareceram uns arremedos. Nem bufos, nem informadores, nada disso. O Legislador, o deus pantaísta árbitro do bem e do mal, apito ao pescoço, olhou para os dois fiscais de linha ‑ um fiscaliza as jogadas a favor do Inferno, o outro os ataques a favor do Céu ‑ e proclamou: minhas senhoras e meus senhores, respeitável público, temos o prazer de informar que vai entrar uma nova personagem, o arrependido!

      Desculpem‑me! mas não sei explicar com a sabedoria dos mestres que figura é esta. Um homem passa a vida com as mãos metidas na porcaria, os poucos miolos que não estão ao serviço da máquina de escrever a procurar desencantar o artista que matou aqui, que roubou ali, e não lhe sobra nem tempo nem inteligência para o estudo. De qualquer forma, se compreendi os senhores que legislam, e por isso são deuses criadores da vida, o arrependido é uma espécie de bufo promovido, com uma grande dignidade social, e que só não aparece em comemorações solenes, tipo inauguração da temporada de São Carlos, ou a assistir a desfiles militares porque as cadeiras não chegam para tanta gente ilustre.

      Não dão bocas, como o ordinário do Zé Cigano, a troco de imperiais e tremoços. Negoceiam, discutem, vendem e compram.

‑    Tenho esta informação. Vendo por tanto! ‑ e esse tanto é, por exemplo, não ser condenado por meia dúzia de assaltos à mão armada que fez em tempos em que não pensava, que andava desorientado com a vida, ou por três ou quatro carregamentos de droga em que participou por descuido. Porque nem sabia que a droga podia matar, os galegos que lhe encomendaram o serviço disseram‑lhe que era para fazer remédios para a tosse e ele acreditou. Por isso, quer ser arrependido. E é desta forma encantadora, mágica e sublime que, sacudindo o pó da memória, renascem os mitos. É a versão actualizada de velhas parábolas bíblicas, cuja imagem vigorosa nos é dada pela arrependida Madalena.

      Eu, de Bíblias, catecismos e coisas dessas pouco percebo. Mas parece que quando Cristo andou, coitado, pregando pérolas à multidão de pecadores, às tantas encontrou uma tipa que andava a esfolar uns cabritos e que respondia pelo nome de Madalena. A malta que se tinha servido, quando se descobriu a bronca, para esconder das legítimas as paródias que fizeram com a dita Madalena desataram a chamar‑lhe nomes feios e alguns, mais aflitos, até agarraram em pedregulhos para atirar à mona da rapariga. Cristo aparece no meio da confusão, volta‑se para a cambada de infiéis e diz‑lhes em voz alta e sem papas na língua: ".O primeiro que seja sério, que não tenha culpas no cartório, que lhe amande o primeiro pedregulho!"

      Aquilo foi um ver se te avias, cada qual dando corda aos sapatos e fugindo envergonhado. Há quem diga que os mais entusiasmados com as pedras eram os que tinham comido com a promessa de pagar no fim do mês, mas, fosse como fosse, Madalena deixou‑se dessas vidas, tornou‑se piedosa e prometeu que nunca mais se metia em aventuras. Cristo mandou‑a em paz: ".Vai à vida e não tornes à pouca‑vergonha!", e assim ficou tudo em paz e sossego.

      Nascia uma das mais importantes convertidas da história e é nesta tradição de demência que os servos do Legislador fizeram nascer das cinzas os arrependidos do nosso tempo. Mas as coisas agora são mais civilizadas. Não há pedregulhos, nem ameaças, nem palavrões e muito menos se põe em causa a prostituição, calamidade horrível e medonha que acabou no dia em que Madalena pôs um ponto final na sua carreira.

      Estamos numa economia de mercado, o que importa é o valor do dinheiro, do que se compra e vende. O resto é treta. Qual pecado, qual crime, qual carapuça!

      Dou um exemplo para melhor elucidação, tendo como apoio bibliográfico as palavras perfumadas dos servos do Legislador. Um artista qualquer, acompanhado de uns tantos amigos, matou, roubou, violou, esfolou, numa palavra, pôs a cidade a ferro e fogo. Os polícias, armados em perdigueiros, começaram a farejar por tudo o que é esgoto e caixote do lixo à procura dos rapazes. O artista começa a sentir fogo no rabo e vai daí, pára, olha em volta, sai do buraco e apresenta‑se voluntariamente aos poderes que comandam o baile mandado e diz: ".Pequei e não quero voltar a pecar. Façam de mim um arrependido e dou à morte os manhosos que comigo andaram a matar e a roubar. Mas isto não é para vocês pensarem que voltámos ao tempo de Cristo. Só me arrependo se não me condenarem. Que merda é essa? Quer dizer, contava tudo e ainda por cima comia nas trombas!?"

      É justo. Quem fala assim merece ser arrependido. Reúne‑se o concílio dos servos.

      ‑     Então, arrependemos o homem, ou não?

      ‑     Eu acho que sim...

‑     Não sei. A minha posição sobre o assunto é pública.

      ‑     E depois há a jurisprudência.

      ‑     Eu acho que não...

      ‑     Vejam as coisas assim. Se o arrependermos, metemos na cadeia uma dúzia de criminosos. Meus senhores, é quase o fim da criminalidade em Portugal e depois, imaginem, temos a comunicação social a falar de nós durante uma semana...

      ‑     Uma semana?

      ‑     Mais coisa, menos coisa.

      ‑     Oh, homem, ninguém tem dúvidas. Arrependemos o homem e já!

      E pronto! O concílio fez nascer um novo arrependido.

Um sábio entre sábios, a bondade feita de carne e osso e

mandaram para a cadeia uma dúzia de criminosos que o

arrependido, com o seu beijo justiceiro, condenou.

      Claro que não é neste mundo seráfico que vive o Zé Cigano que, numa noite de grande azar, foi vender uma caçadeira a três maduros da bófia. Mesmo com amnistia policial, está condenado a levar no focinho e não passa de um bufo ordinário.

      ‑     Hoje tenho uma coisa boa para vocês!

      ‑     Um vigésimo premiado...

      ‑     Se em vez de mandares bocas, me ouvisses primeiro...

      ‑     Então? Agora estou a ouvir!

      ‑     Acho que sei quem é o Estripador!

      A sala da brigada ficou em silêncio com a malta toda espantada de olhar fixo no Zé.

      Foi a primeira vez na sua vida que se sentiu importante.

 

ESTRIPADORES

O Zé vinha à mama. Queria uns trocos por fora e naquele tempo não havia melhor pretexto do que uma boca sobre o estripador. O homem limpou o sarampo a três prostitutas. Mas aquilo não lhe deu gozo. Queria ficar na história e vai daí toca a cortá‑las a torto e direito. Tripas à mostra, feridas por todo o lado e a polícia batendo válvulas perante aquele espectáculo, mais parecia a matança dos inocentes.

      O homem atacava de noite. Aspecto banal. Tipo funcionário público que antes de ir para casa ver a novela com a família passa na Avenida Defensores de Chaves, escolhe a miúda, pergunta o preço da visita e vai até à pensão da esquina descansar um bocado. É uma actividade saudável e que aumentou consideravelmente desde que as rádios começaram a transmitir em directo a situação do trânsito à hora de ponta em Lisboa. Aquilo fica quase pelo preço do que um homem gasta em gasolina no para‑arranca até passar as Amoreiras. Descontrai, levanta a moral e, cá para mim, até não é coisa indecente. Se o fosse, o Legislador teria sido inspirado para pôr em letra de lei o crime em que incorria a prostituta ou quem delas se usava. Mas, por mais que aqui o Ernesto rebusque nos Códigos Penais dos últimos cem anos, andar na vida não valia mais que rusga da polícia, uma ou duas noites no Governo Civil e toca a andar que se faz tarde.

      ‑     Ó Chefe, não compreendo! Se a prostituição não é crime porque é que chateamos as miúdas?

      ‑     Não compreende, porque você é uma besta! ‑ era a resposta sábia que recebia às minhas perplexidades científicas.

      A coisa, uma vez, até azedou porque fizemos a rusga numa pensão manhosa ali para os lados do Intendente e deviam ser pelo menos umas oito que estavam a esfolar os cabritos.

      A minha alma ficou parva. Um deles era administrador. Desses tipos que sabem coisas esquisitas, como o valor do PIB, correcções monetárias, variações da taxa de inflação, gravata de seda, que devia custar o meu ordenado do mês, e fato a condizer. Outro era director de uma empresa de seguros.

      ‑     Eh pá! Tu já viste uma coisa destas? ‑ perguntei ao Casimiro. ‑ E eu que pensava que às meninas só vinha maralhal frequentador da feira de Carcavelos e dos saldos nos supermercados!?

      O Casimiro sabia mais de polícia com os dois olhos fechados do que eu com os faróis nos máximos e a jogar à baliza.

      ‑     São os piores, pá! Ou pensas que um gajo deixa de ser ordinário só porque usa gravata de seda?

      O Casimiro era capaz de ter razão, condescendi. De facto, por que motivo é que uma gravata de seda garante que este indivíduo é um senhor e aquele que tem as calças de ganga coçadas no rabo quase de certeza absoluta é um ordinarote? A questão que se me colocava era interessante e fiquei orgulhoso, e o orgulho é um pecado mortal. O castigo veio a seguir quando o Chefe sentenciou:

      ‑     As raparigas vão todas para a polícia para serem identificadas!

E este pianista de máquina de dactilografar espalhou‑se logo ao comprido:

      ‑     E eles? Se elas vão, estes senhores não ficam aqui a fazer nada, pois não? Podemos identificá‑los!

      Mas porque não fiquei calado, Santo Deus? Saem‑me estes disparates da boca para fora e depois oiço o que não quero.

      ‑     Elas é que são prostitutas, seu atrasado mental! Imorais e sem um pingo de vergonha. Os senhores são pessoas respeitáveis, bons chefes de família. Deixe os homens vestirem‑se e que vão em paz. E tire daí os pés que está a pisar as cuecas do senhor doutor.

      Não disse ámen!, porque ficava mal um acto de devoção naquela pensão decorada a pulgas e percevejos. Mas era verdade. Fazia lá agora sentido levar senhores respeitáveis para serem identificados na polícia só porque estavam a fazer horas até que acabasse a bicha de automóveis que se piravam de Lisboa. Se eles compravam o sexo, era porque elas o vendiam. O mal não era comprar, era vender. Não sei explicar bem. Primeiro, porque o Legislador não passa grande cartucho ao caso. Depois, porque isto de oferta e procura cheira‑me a problemas intrincados que só cabeças, tipo ministro das Finanças, sabem explicar com sapiência. E eu, parvalhão sem remédio, devo dedicar‑me a outras actividades. Sobretudo a aprender a escrever à máquina como qualquer polícia decente. O que não era o caso.

      Mas o Zé trazia novas do estripador.

      ‑     O homem tem sida!

      ‑     Há? ‑ e eu gostei da profundidade deste há? que o Diogo pronunciou.

      ‑     Tem sida!

      ‑     Como sabes?

‑     Sei!

      Era curto. O Zé Cigano arriscava‑se a sair dali com as mãos vazias. O polícia é o bicho mais chato que existe à face da Terra.

      Por mais que uma pessoa diga sei!, não se fica a conversa por aí.

      ‑     Porquê? ‑ quis saber o Diogo.

      ‑     Porque sim! ‑ retorquiu o Cigano.

      A emenda era pior que o soneto. Para o Diogo, respostas destas revolviam‑lhe o estômago.

‑     Olha lá, tu queres levar uma lambada nas trombas?

      Confesso. Não sou uma pessoa letrada. Livros é uma coisa que me custa a engolir. Feijoadas vá que não vá, mas livros não é o meu forte. Mas li todos os romances do Conan Doyle e do Simenon e quase que posso jurar que não me recordo de o Sherlock Holmes ou o comissário Maigret terem alguma vez dito:

      ‑     Olha lá, tu queres levar uma lambada nas trombas?

      É gente civilizada. Ingleses, franceses. Países a sério com polícias ainda mais a sério. Mas nesta terra quase tudo nasce torto e o Diogo não fugia à regra. Nem o Zé Cigano. Em vez de se levantar indignado, invocando os seus deveres constitucionais, exigindo advogado e a gritar a sua dignidade, olha para mim, olha para o Diogo e atira com desprezo:

      ‑     Ai não acreditam? Então vão pró caraças! Vou‑me embora que não tenho pachorra para aturar polícias casmurros.

      ‑     Zé, calma! O Diogo não diz por mal que te vai ao focinho. É o jeito dele. Ouve. A gente já vai beber um copo. O estripador tem sida?

      ‑     ".Voceses" não acreditam! Um homem quer ajudar e ninguém acredita. É por isso que não conseguem filar o gajo. Toda a gente goza convosco!...

Olhei para o Diogo e para o Casimiro com condescendência. Nisto, o Zé tinha razão. A malta era gozada porque não conseguia saber nada do animal que esfaqueava as mulheres. Abria‑lhes o bandulho e, ainda por cima, dava‑se ao luxo de lhes arrancar um pedaço de intestino que levava como recordação. Um pedaço de tripa, imaginem!

      ‑     Deve ser para fazer enchidos! - suspeitava o Diogo, mas o Diogo era isto mesmo. Bocas e castanha. Não perdoava a ninguém.

      ‑     Nasci para ser juiz. Fiquei na polícia porque me chateia estudar.

      Uma vez este juiz adiado aviou uma sentença num violador que acabou no banco dos réus, contando tintim por tintim porque partiu o nariz ao China.

      A malta da brigada foi toda jurar perante o tribunal que o Diogo era um bacano, amigo do seu amigo, e se porventura o China ficou com o nariz partido é porque o nariz trazia peças deficientes.

      Eu, por acaso, até assisti à prisão. É verdade, Meritíssimo, o artistão ia dar de frosques. A casa onde estava escondido tinha duas janelas. Enganou‑se. Procurou fugir por aquela onde estava o Diogo de atalaia. Ainda o China não havia posto os dois pés no chão e já tinha o nariz partido e sangue a espichar que parecia o fontanário da minha aldeia.

      ‑     Eh pá, grande murro! ‑ exclamei, olhando‑o com admiração.

      ‑     Não deve ter sido maior do que aquele que deste no Zé Cigano! ‑ respondeu‑me enquanto lhe punha as algemas.

      O China até nem era mau rapaz. Só tinha violado três raparigas e assassinado outra. Coisas de rapazes. E depois sabe‑se lá o que elas não fizeram para o pôr em brasa, doido para lhes saltar para a cueca. Já não há respeito, os costumes estão devassados, elas, agora, até fumam e vão sozinhas às discotecas. Vendo as coisas mais de perto, o China era mais vítima do que carrasco. Aliás, como ficou demonstrado, o moço nem queria matar a quarta miúda. Ia lá agora adivinhar que ela sofria de asma quando lhe apertou o gasganete. Merecia piedade e demência, as formas sublimes de justiça. A prisão só lhe agravaria padecimentos antigos e, sobretudo, a falta de afectos.

      Quando o advogado de defesa do China acabou de falar, senti um nó na garganta e duas lágrimas hesitaram nos meus olhos.

      ‑     O homem falou bem!

      ‑     Espera que ainda não acabou! ‑ rosnou o Diogo.

      E era verdade. De repente, volta‑se. Aponta o dedo acusador para o meu colega e, num tom de voz que parecia um dos bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, proclamou:

      ‑     Ali é que está o verdadeiro criminoso. Um agente da polícia, representante da autoridade do Estado. Em vez de prender o meu cliente, parte‑lhe o nariz. Porquê? Porque é esta a polícia que temos. Um bando de torcionários organizados, os verdadeiros inimigos da sociedade. Aquele senhor ‑ e tornava a apontar para o Diogo ‑ é que devia estar sentado no banco dos réus e não o infeliz do China!

      A assistência desinteressou‑se do violador e olhou‑nos como se fôssemos o Billy the Kid e o Aí Capone.

      O Diogo começou a apertar as mãos com força e suspirou entre dentes:

      ‑     Se o tipo não se cala, salto daqui e parto-lhe o nariz mesmo no tribunal!

      Não foi preciso porque o homem não falou mais. Mas a pergunta que deixou no ar não foi esquecida. Quando o meu colega se sentou no mesmo banco onde o China fora alcandorado a um pedestal que o aproximava da santidade, o advogado tornou ao ataque:

      ‑     Porquê, senhor agente? Porque partiu o nariz do China?

      ‑     Não sei!

      ‑     Não sabe? Então o senhor vai realizar uma captura e não sabe o que faz?

      ‑     Eu queria prendê‑lo, não lhe queria partir o nariz!

      ‑     Mas partiu.

      ‑     Ele ia fugir...

      ‑     Não foi isso que perguntei! O China nunca mais vai ter o nariz direito!...

      A indignação com que o advogado falava, pôs‑me a pensar. Afinal, o nariz do China nunca mais seria o mesmo depois do murro do Diogo. Não tem graça um homem com o nariz retorcido. Fica com cara de porco. Mas o Diogo já estava porco com a conversa e respondeu desabrido:

      ‑     O nariz do China fica torto, mas ele está vivo. A rapariga que ele esganou está morta e há mais três que ele violou!

      ‑     O senhor não tem nada a ver com isso! O tribunal é que decide se ele violou e matou, não é a polícia!

      O Diogo ficou calado, mas quem o conhece como nós o conhecíamos, se o causídico ouvisse o que ia no silêncio dele, pedia‑lhe prisão perpétua de certeza absoluta. Nós sabíamos os gritos que lhe abrasavam os lábios cerrados.

      ".Não seja parvo, senhor doutor. Devia era meter no cu o nariz do China. O senhor não pode decidir nada porque não viu, não sentiu, não sofreu. As raparigas violadas vieram aqui oito meses depois contar o que aconteceu. Roupas novas, caras envergonhadas como se tivessem sido as culpadas. Os senhores ouviram‑nas e leram os exames médicos. Eu senti‑lhes o medo no dia em que apareceram na polícia, roupas esfarrapadas, gestos desarticulados da humilhação forçada. O senhor viu as fotografias da rapariga morta, mas fui eu quem a levantou do chão e bateu à porta dos pais para lhe dizer sem jeito: a vossa filha morreu!, e senti que os insultava. Eu devia estar sentado neste banco dos réus por ter insultado os dois velhotes e não por causa da porcaria do nariz do China. A vossa filha morreu. Está na morgue!, e eles olharam‑me como se eu fosse o assassino. O senhor viu‑os chorar lágrimas brandas de saudade quando vieram depor. Eu vi‑os com o rosto transfigurado de espanto e de pranto, abraçados com medo do medo da verdade. É verdade que somos polícias. Que as raparigas violadas não são da minha família, se o fossem não partia o nariz do China, dava‑lhe um tiro nos cornos, e que aquele casal de velhotes não os conhecia de lado nenhum. Não fomos directamente tocados por nada daquilo porque somos profissionais indiferentes à dor, à angústia, ao terror. E tudo é mais estranho porque tudo se repete. A repetição infinita dos mesmos casos, das mesmas palavras, do mesmo cheiro a medo, do mesmo cheiro a podre dos mortos. E se nada daquilo nos diz respeito, afinal tudo o que se passou é nosso. Sabe porquê, senhor doutor? Por um reles e ordinário acto administrativo. O Chefe, quando chega um homicídio, olha para a escala de serviço e diz: ".Este é para vocês. Vão lá!"

      Quando chegamos é o nosso crime. A partir da ordem do Chefe somos tudo. O senhor sabe de leis. Diz o que é ou não e legal, mas é um ignorante. Lê o Código do Processo Penal, mas não lê a vida. Porque não toca o sofrimento, não come com ele à mesa, nem o leva para a cama. Lê papéis. Depoimentos ordinários que aquele meu colega, o Ernesto, dactilografa com apenas dois dedos. E precisamos de ir mais longe, senhor doutor. Entrar na cabeça dos ranhosos iguais ao China, pensar como eles pensaram, pegar nos sinais espalhados por todo o lado, agarrar em todas as forças e emoções, caldeá‑las na cabeça e dizer matei por causa disto e fi‑lo desta maneira por causa daquilo. Ao mesmo tempo, e durante muito tempo, somos vítima e criminoso. O senhor e os tipos que conhecem os crimes pela leitura dos papéis que lhes mandamos, comodamente sentados na secretária, apenas soletram a violência desta marmelada toda. Vendo‑se bem, não passa de um analfabeto. Porque se quer descobrir um assassino como o China tem que enfiar‑se nos intestinos da cidade, cheirando a suor e a merda e o senhor está habituado a saunas e massagens no fim da tarde. Não é capaz de compreender o turbilhão das gentes que se arrastam em multidões, agarrar a violência, metê‑la dentro de si e atirar‑se para a frente à procura do assassino. Fazer com que cada acto de ofensa a qualquer desgraçado nos ofenda, com que cada ferida de todas as vítimas seja uma ferida nossa. E chegará o momento de deitar as unhas aos Chinas de narizes direitos que vamos encontrando escondidos nas sarjetas de Lisboa. Então somos tudo, porque conseguimos perceber tudo, explicámos o que havia por explicar e estamos em condições de escrever o relatório final, carregado de erros, mas contando uma história vivida. O senhor pegará nisso, dá‑lhe três voltas, veste a toga e entra no espectáculo judiciário, com base no guião que escrevemos molhando a pena no sangue dos mortos ou nas lágrimas dos presos. Mas participa num espectáculo medíocre, longe das emoções, com todos os intérpretes devidamente treinados e instalados, quando secaram as lágrimas e dos mortos não restam mais do que meia dúzia de ossos e o mundo já girou duas vezes, às vezes três vezes, em volta do Sol. Sentam‑se os juizes, a plateia silenciosa, a maioria reformados sem dinheiro para ir ao teatro. Infelizmente, repito, é um espectáculo medíocre. às vezes adiado porque nem os actores aparecem. O polícia não tem espectadores. Não veste toga nem diz palavras bonitas, mas teve de vibrar, sentir, pensar o crime que os senhores agora disputam com regras tão abstractas que não conhecem, nem nunca conhecerão, as verdadeiras marcas do sofrimento. O julgamento não passa de um jogo. E um jogo é um jogo, seja no tribunal, ou no bridge ou à bisca de nove. Para nós, infelizmente, é pessoal. Porque cada crime é vivido e digerido. Porque muitas vezes foi vida e morte, insónia e cansaço, tensão e raiva e ninguém pode compreender o que é ser ofendido e criminoso ao mesmo tempo. O China violou e matou. Apanhei‑o. Dei‑lhe uma pêra mal dada e ficou a pão e laranjas, nariz torto para toda a vida. Paciência!"

      Juro que tive uma alegria do caraças quando o Diogo quebrou o silêncio e disse humilde:

      ‑     Não tive intenção de lhe partir o nariz. Desculpem, não foi por mal!

      O Ministério Público ainda pediu ao tribunal que o condenasse a seis meses de prisão e a uma indemnização para o China ficar mais confortado. Mas o juiz percebeu o silêncio do meu colega.

      ‑     Não houve intenção de pôr o nariz do violador à banda, portanto, senhor agente, vá em paz e da próxima vez veja se tem mais cuidado com as pencas da rapaziada que prende.

      Quando saímos do tribunal, não trocámos palavra durante muito tempo. Até que decidi expor as minhas reflexões em dó maior:

      ‑     O juiz fez bem em não te condenar. O China, quando sair da prisão, pode continuar a violar raparigas. O nariz torto não é doença profissional. Olha o Camões. Ficou sem um olho e ainda escreveu Os Lusíadas!

      O Diogo ficou calado e não voltámos a falar do assunto.

      Quem não se cala é o Zé Cigano.

      ‑     Vocês não querem acreditar, pronto! Não posso fazer nada. Mas que o gajo tem sida, tem!

      O Chefe entrou a tempo de ouvir a proclamação.

      ‑     Estão a falar do Estripador?

      ‑     Eu estou, Chefe! ‑ insurgiu‑se o Zé, e denunciou: - Mas eles estão no gozo. Até parece que a bófia sou eu!

      ‑     Venha ao meu gabinete!

      Levantou‑se importante. Seguiu o Chefe sem nos passar cavaco e desapareceu da nossa sala.

      ‑     Bom, o Chefe atura‑o. Onde vamos almoçar?

      ‑     Estou teso! Vou ao come em pé, o bitoque da ordem!

      ‑     Vê se te calha uma febra de uma vaca louca.

      ‑     Não me faz mal. Passado da corneta como estou, já não há vaca que me dê cabo da cabeça.

      ‑     Oiçam lá! ‑ atalhei, hesitante entre o almoço e a conversa que percebia através do vidro entre o Chefe e o Zé Cigano. ‑ E se o Zé Cigano tem razão e o estripador tem mesmo sida?!

      ‑     É natural. A sida está a aumentar.

      ‑     E a gripe também!

      ‑     Para não falar dos impostos, da água, da luz!...

      ‑     Porra, isto é a sério e vocês gozam. O estripador...

      ‑     O estripador a esta hora está a almoçar.

      ‑     E o Zé Cigano?...

      ‑     O Chefe que lhe pague o almoço. Ele não veio cá para outra coisa. Vens com a gente ou não?

      ‑     Eh, pá, não sei...

      ‑     O tipo já esfolou três gajas. É um caso sério!

‑     Algum dos processos é teu?

      ‑     Lá isso...

      ‑     Então deixa‑te de merdas e vamos comer!

      ‑     Vão vocês. Eu espero pelo Zé.

      Saíram. O meu problema não era nem o Zé, nem o estripador. Estava liso. Cada vez faltava mais mês ao fim do dinheiro. O bitoque, mesmo de vaca louca, servia às mil maravilhas, que, depois de passar o estreito, bitoque ou filet mignon são a mesma coisa.

 

LEGISLADOR

Vão pensar que é embirração, mas não é. Numa história de polícias, o Legislador está sempre tão presente como Jesus Cristo num catecismo para crianças. Só que no nosso caso as coisas são mais complicadas, as hierarquias mais rígidas e as entaladelas maiores. A justiça é mais severa do que a religião. Para já começa logo com as porradas. Um mortal faz uns disparates. Entra numa igreja, ajoelha‑se no confessionário, benzeduras feitas, confessa: "Padre, pequei! Ontem à noite ia roubar uma velhota. A parva da mulher resistiu. Dei‑lhe uma mocada e foi‑se desta para melhor!"

      ‑     Meu filho, tu mataste a senhora?

      ‑     Uma chatice. Já viu?

      ‑     E estás arrependido?

      -  Então não estou, senhor padre?!

      ‑     Pronto! Reza vinte padre‑nossos e vai em paz!

      Postas as coisas nestes termos, o mortal benze‑se e vai por ali fora rezando os padres‑nossos, coisa que lhe rouba quinze a vinte minutos, e depois vai à vida.

      Com a justiça complica‑se a situação. Se a cena se repetir, no final o juiz bate com o malhete na mesa e sentencia:

      - Pronto! Vinte anos de cadeia e recolhe aos calabouços!

Aqui já se percebe a diferença. Depois, a Igreja tem um papa e nós um procurador‑geral. Tem cardeais, bispos, cónegos, padres e sacristãos. Nós temos procuradores, delegados dos ditos, directores, inspectores, chefes e finalmente a malta.

      Quer dizer, se não fosse polícia e entrasse na vida religiosa era sacristão. Em vez de andar a correr atrás dos criminosos dava a água benta ao padre para benzer casamentos e baptizados. Isto é o conteúdo. Mas a forma também é diferente. O papa da Igreja veste de branco, o nosso de cinzento. Enfim, cada um tem o papa que merece.

      Mas isto são arrotos de personalidade de um tipo que os padrinhos resolveram chamar Ernesto e que o raio da vida tornou polícia.

      O que é certo, certinho como dois e dois serem quatro, é que, desde que começámos até este momento, andámos por aí feitos doidos, vasculhando a cidade à procura de ladrões e assassinos. Agora sobra‑me algum tempo para me sentar à máquina de escrever e aqui estou no papel de intelectual, teorizando. A palavra é bonita, mas assusta. Sabe‑se que quem teoriza é homem de miolos, pessoa com os parafusos no lugar e do qual se espera conversas acertadas. Sei que no piso superior deste corpanzil há alguns restos de miolos, mas já não vos garanto nem segurança nem teorias acertadas.

      É que sou um investigador criminal e não um cientista criminal. Muitos perguntarão qual é a diferença e o Ernesto responde: em primeiro lugar a gravata. Em segundo, a sapiência!

      Ser investigador é uma espécie de carroceiro, cheio de sebo e com grande disposição para o disparate, enquanto o cientista ‑ servo eminente do Legislador, ou do seu representante na Terra já não tem os pés no chão, anda mais pelos museus, bota discurso que sabe a sentença e, se ainda não tem a dimensão etérea do Pai, para lá caminha.

      O investigador criminal utiliza métodos comuns a qualquer ciência. Problematiza as questões, testa‑as no laboratório da cidade, experimenta as hipóteses distribuindo estaladão, perdendo noites, saboreando vigílias temperadas a litros de café e ginginha, interroga suspeitos e testemunhas e, por fim, na ponta desta confusão que mete coisas de dedução, algumas pitadas de indução e muita analogia, aparece o criminoso. Chegados aqui, meus senhores, acaba a investigação e entram à baila os sábios, que à força de tanto saber se tornaram cinzentos. São homens ilustres, sérios, sisudos, rodeados de livros a abarrotar de fórmulas mágicas às quais os reles mortais não têm acesso. São os donos da poção mágica, o verdadeiro e autêntico segredo de justiça.

      Com um exemplo somos capazes de esclarecer melhor esta questão. O Legislador, criador da ordem e do progresso, declarou em palavras perfumadas: quem matar apanha dez a vinte e cinco anos de prisão.

      Pronto, esta é a Verdade. Quer dizer uma verdadinha, porque pode ser de três a oito anos, de cinco a quinze, de oito a vinte, mais parece que estamos a jogar no Totoloto. O problema científico, que põe meninges a ferver que podemos em casos extremos ver sábios a deitar fumo pelas orelhas, é este: se quem mata é condenado numa pena que oscila entre os dez e os vinte e cinco anos, como saber com precisão cirúrgica se aquele indivíduo deve ser condenado a onze ou catorze, ou dezasseis ou vinte, ou vinte e três ou vinte e cinco anos de prisão. Mas a cientificidade da questão é ainda mais minuciosa. Condená‑lo‑emos a catorze anos, ou a catorze anos e seis meses, ou sete meses? Talvez a dezoito anos e sete meses? E a quantas semanas? E a quantos dias? E a quantas horas?

      Como podem perceber, isto não é para qualquer um. E preciso medir penas, medir responsabilidades. Dizem que agora inventaram umas fitas métricas que medem a responsabilidade, coisa de japoneses, que inventam tudo. Mas com ou sem fita métrica já imaginaram a quantidade de miolos que é preciso haver num crânio para resolver problemas desta natureza. Para não falar de coisas muito mais complicadas. Por exemplo: o polícia tal, quando preencheu os autos, rasurou alguma palavra? E aquele outro, que escreve com dois dedos, escreveu réu ou arguido? Será que o polícia, aquele que tem olhos parecidos com os de um gato, elaborou o auto de apreensão? Terá avisado o advogado? E aquele que usa peúgas azuis terá ido ao futebol? E o outro, sim, aquele que está sempre a mandar à merda as nossas mentes eruditas e sapientes, não andará a fazer alguma? E se lhe arranjássemos uma caldeirada?

      Claro que tão sublimes pensamentos, tão profundas preocupações, a exigência intelectual para resolver questões desta natureza não podem ser equiparados à reles actividade de investigador. São do domínio único e exclusivo de sábios com vozes de deuses, a mais perfeita produção material criada por Deus, de tal forma perfeita que quando a terminou precisou de descansar. Aliás, é esta a razão por que Ele descansou ao sétimo dia.

 

MAIS ESTRIPADORES

Uma vez um professor disse‑me: quem não sabe, teoriza!, e passou‑me o teste para a mão com um cinco escarrapachado no frontispício. Fosse eu mais novo e, por via disso, apanhado a última reforma escolar e cinco seria o orgulho do meu pai, mostrando a inteligência do filho, em forma de número, aos amigos.

      Ia rebentando a escala. É a nota mais alta! repetiria vezes sem conta.

      Mas nunca lhe dei essa alegria. O cinco com que o professor me brindou na escala de zero a vinte significava que eu fora eliminado nos quartos‑de‑final. Não sabia, mas teorizava. A sorte do meu país é que o danado do professor Francisco Almeida, conhecido entre os militantes da cábula e do jogo de lerpa nos intervalos das aulas pelo diminutivo carinhoso de Chico Ranhoso, leccionara a vida inteira num obscuro liceu de província e morrera sem honra nem glória afogado em pilhas de testes encharcados de teoria e tão pobres de sabedoria quanto a bicha de esfarrapados que todos os dias alinha a malga na sopa da Mitra.

É uma coisa endémica. Habita‑nos o sangue, como se fosse irmã da multidão de glóbulos vermelhos. esta propensão nacional para teorizar. Talvez seja o melhor e mais definitivo contributo que Portugal dá para a consolidação da União Europeia. Os outros sabem, nós teorizamos. Foi uma sorte para o país o Chico Ranhoso ter morrido. Chumbava‑nos como povo, todos corridos a cinco ou agora, graças à última reforma pedagógica do ensino, com arrogantes zeros.

      Vem isto a propósito do estripador. O tipo que anda a esfarrapar as prostitutas de Lisboa. Toda a gente conhece.

      Para já chamar‑lhe estripador é um mero acto teórico. ao tivesse existido o tristemente célebre Jack, the Ripper, O estripador londrino que pôs os miolos da nossa congénere inglesa em papas, e em Lisboa ninguém inventaria tão pomposo e aterrador desígnio para o doido que deixou as raparigas com as tripas à mostra. Alguns dos nossos teóricos mais avançados, criminologicamente ilustrados pelos filmes policiais de vão de escada, avançaram a tese mais pomposa do serial kilíer.

      Enfim, seja como for impuseram‑se estados de alerta, mobilizou‑se a tropa fandanga, chamaram‑se à liça os Sherlock e os Colombos dos novos tempos, alarmados os veneráveis poderes com as manchetes dos jornais e as notícias de abertura de telejornais desinteressados da informação e esfomeados de audiências. Desta forma o estripador de Lisboa subiu ao céu da inteligência lusitana com a mesma velocidade com que a Virgem Maria poisou na azinheira onde esteve a dar à língua com os três pastorinhos. Isto é, desde a polícia à sua alma‑mater, esse sacrossanto Ministério Público, que por imaculado e puro se deveria chamar Mistério Pudico, todos concordámos: o estripador é o maior filho da puta que esta cidade alguma vez pariu!

      É evidente que o papa dos polícias não disse desta maneira. Isto são coisas de polícias ordinarotes que nem sabem escrever à máquina com todos os dedos que Deus lhe deu. O nosso papa pensou. Mas não disse. Apenas terá pensado, no seu barroco pensar: este senhor anda a fazer maldades às meninas da rua!

      Foi por pensar fino que os deuses do Olimpo político lhe entregaram uma policia cheia de Ernestos, Diogos, Alfredos e outros teóricos do disparate.

      Apareceram as primeiras duas raparigas de tripas ao léu e houve logo comício na brigada, tendo como único orador o nosso Chefe.

      ‑     Está constituído um grupo para tratar deste caso. Ninguém mete o nariz e quem tiver informação à mão passa‑a ao grupo que trata do estripador!

      O Diogo suspirou de alívio.

      ‑     Então quer dizer que nos safámos desse pincel.

      ‑     Safámos! ‑ desabafou o Chefe, para imediatamente emendar ‑, seja como for ninguém foge com o cu à seringa. Quem puder ajuda, não fica nas encolhas. A malta que ficou com a investigação anda à nora!

      ‑     Oh, Chefe! ‑ atalhou o Casimiro , os grandes processos não são avocados pelo Sumo Pontífice? Corrupções, fraudes, o homem não se farta de dizer que os pecados de maior gravidade são dirigidos por bispos, ficando padres e sacristãos de fora?

      ‑     Você é ignorante!

      Uma onda de alegria inundou‑me o peito. Eu não era o único teórico da brigada. Apurei o ouvido para a arenga do subinspector:

      - O Senhor fica com os pecados importantes porque é uma pessoa importante. Escolhe em primeiro lugar. A gente vai ao que sobra para os saldos. E depois quem é que lhe disse que duas ou três prostitutas assassinadas é coisa importante?

O Chefe tinha razão. Apanhar um presidente de câmara com a mão no pote do mel ou um deputado que construiu uma piscina de água aquecida no quintal é muito mais relevante. É o poder de punir a falar mais forte que o poder de decidir.

      ‑ Oh, Chefe! Quantas putas mortas vale um deputado corrupto? ‑ perguntou o Diogo, enrolando na ponta dos dedos um macaco.

      ‑     Que pergunta parva é essa?

      ‑     É parva?

      ‑     Claro que é!

      ‑     Se fosse esperta, não era pergunta, era resposta! Só pergunta quem não sabe.

      ‑     E quer comparar putas com deputados?

      ‑     Chefe! Não me interprete mal.

      ‑     Posso falar?...

      ‑     Desculpem, o Diogo tem razão. Se os servos do Sumo Pontífice ficam com os processos dos deputados e presidentes de câmara, porque deixam na bófia o processo do estripador?

      ‑     Porque são eles que mandam e acabou‑se a conversa.

      ‑     O senhor não foi capaz de responder!

      ‑     Responder a quê?

      ‑     Ora, a quê!? à minha pergunta: quantas putas assassinadas...

      ‑     Diogo, você quer brincar com o fogo. Ponha‑se a pau!

      ‑     Só queria saber. O homem ofende‑se com uma pergunta?

      ‑     O homem odeia certas perguntas e quem se lembra de as fazer.

      ‑     Mas é o Sumo pontífice!

      ‑     Mas não é Deus! Só Deus é justo, bom e misericordioso.

‑ Amen!

‑     Está a gozar?

‑     Oiçam, posso falar?...

      ‑     De facto, ser puta é coisa triste.

      ‑     Quando for grande quero ser corrupto!

      ‑     Oh, Bernardo, você está bom da cabeça?

      ‑     Chefe! Se for corrupto, sou interrogado em gabinete alcatifado. Se for puta, vou bater com os costados no Governo Civil.

      ‑     Pronto! Acabou a conversa.

      ‑     E não respondeu à minha pergunta. É preciso matar quantas gajas para o homem avocar os processos.

      ‑     Com licença!...

      O olhar que o Chefe atirou ao Diogo quando saiu da sala só não o matou porque olhar não é crime. Eu acho que o meu colega exagerou no gozo, mas o nosso Chefe não precisava de ter fugido à pergunta. A sorte dos dois foi o Chico Ranhoso já estar a fazer tijolo há uma porrada de anos. Ferrava uma negativa e sentenciava: quem não sabe, teoriza!

      Quem sou eu para dizer o contrário? Sou polícia e chamo‑me Ernesto. O exemplo típico de que uma desgraça nunca vem só. Por isso, não tomo posição. Já me aconteceram demasiadas desgraças para acreditar que vale a pena ter posição. Polícia, nem posição nem opinião. A inteligência é o Mistério Pudico, as mãos para revolver o estrume são as nossas. E se me chamo Ernesto e sou polícia, sendo sinónimo de infelicidade não é condenação à parvoice eterna.

      Sejamos sinceros. O grande problema da minha brigada éramos nós. O Chefe estava bem. Só que uma brigada é um Chefe e meia dúzia de polícias, e esta meia dúzia não era de primeira escolha. Mais ou menos o lixo não reciclado que cheirava a romantismo caduco que tresandava. Basta pensar que a literatura policial ‑ resíduo espúrio que nem de alcatifa serviria em biblioteca de erudito ‑ foi a aceleradora das nossas vocações profissionais. Decidimo‑nos nas aventuras sonhadas ao lado de Perry Mason, quando ainda nem fazíamos a barba, que a melhor coisa do mundo era ser detective a sério. Foi a magia de Gardner e Doyle, de Simenon e Ellery Queen que nos encaminhou para essa ideia peregrina de sermos vingadores de uma sociedade ultrajada pela violência alarve. Em cada um de nós havia um Magnum 44 igualzinho ao do Dirty Harry e uma fé justiceira que não envergonharia nem o Charles Bronson, nem a Madre Teresa de Calcutá.

      De certa forma tornámo‑nos polícias porque éramos fracos e daí a propensão para alinhar na defesa dos fracos. Desde a Ala dos Namorados até aos doentinhos que vão a Fátima à procura do milagre curandeiro, a nossa brigada revia‑se em todos os percursos históricos da justiça que serve os amigos dos Robins dos Bosques do mundo inteiro. Era a nossa fraqueza. Não percebíamos uma justiça feita para os fortes. O Legislador passou‑nos a perna. Prometeu‑nos o céu e quando nos apanhou desprevenidos pegou num maço amarrotado de leis e fez a proclamação bíblica: vai e vê! E o que vimos transformou a brigada em bando, a revolução em revolta, o encantamento em sarcasmo.

      O Legislador lá vai parindo leis, tratados, doutrinas, filosofias importadas conforme pode. Mas tantos anos depois, cansados de tantas derrotas, apenas nos resta sorrir e, como é o caso do Diogo, depois de cada decisão legislativa, tirar macacos do nariz.

      Não vou mais longe. No ano da graça em que os meus dois dedos vão hesitantemente chafurdando o teclado da máquina de escrever, a grande preocupação do Legislador é o problema da reinserção social do delinquente.

Uma das maiores confusões que pairam na cachola daquele espírito sereníssimo é a ambição de reinserir um homem na vida livre, retirando‑lhe a liberdade durante dez ou vinte anos, em cura atrás das grades. Isso aprende‑se na escola primária. Um rapaz para aprender a desenhar, desenha. Para aprender a cantar, canta. Para aprender a liberdade, tem de ser livre. Mas o divino Legislador assegura que não. A liberdade aprende‑se na jaula. É a liberdade do leão de circo. Fora da jaula é livre porque está domesticado e faz o que o domador lhe manda. Aqui entramos nós, os livres. Estamos livres porque fazemos o que os domadores mandam fazer. Alguém que se rebela contra o poder do domador é claramente doente e tem de ser ressocializado, ou como agora é moda dizer, reinserido. Para isso volta para a jaula, onde aprende que a liberdade é a mesma coisa que a domesticação. É assim que pensa o Altíssimo Legislador. Sentado ou pairando, que os espíritos não devem ter cu para se sentar, no seu escritório localizado à direita de São Pedro, decorado a Matisses, Vieiras da Silva, Gauguins e outras bugigangas, semáforo vermelho à porta impondo a espera aos peões de brega, a divindade põe as meninges a trabalhar. E por fim debita o seu sábio juízo perante o silêncio sepulcral e pasmado da bicharada atenta:

      ‑     Consultada a escola germânica, vista a exemplar administração judicial americana, atento ao liberalismo inglês, depois de pensada a esclarecida jurisprudência lusa, decidi ‑ quem não está domesticado, quem mija fora do penico, está dessocializado. Logo, povoléu, vamos reinserir! A partir de hoje não há cadeias. São estabelecimentos que preparam a reinserção. Com o mesmo estatuto dos estabelecimentos termais, dispensários de higiene e pavilhões de venda de pipocas e galinhos de Barcelos.

O Chefe chama a malta da brigada e, solene, informa:

      ‑ Saiu o novo Código, a Bíblia a que todos devem obediência. Acabaram‑se os criminosos. Agora só há pessoal a precisar de reinserção. Portanto, vamos todos reinserir!

      ‑     Ó Chefe, explique isso por miúdos, está a querer dizer que vamos todos para o desemprego, acabou a polícia, a cadeia e estas coisas todas?

      O homem faz uma ginástica do caraças para explicar tudo direitinho cada vez que o Altíssimo resolve debitar sentença:

      ‑     Quer dizer, isto acabar não acaba. Vai ficar tudo na mesma, quer dizer, vão mudar coisas, mas coisa pouca, vocês sabem como são estas coisas, merda, mas porque me fazem perguntas dessas? Sei lá o que este tipo quer. Cada vez que mija toma conselho! ‑ E a sessão de explicação acaba com o pessoal todo a beber uns copos, confortando o Chefe e mostrando‑lhe que a vida não acaba e que, como é hábito, quem se lixa éo mexilhão do velho e sábio aforismo popular.

      Basicamente tudo assenta em dois: os polícias são uns filhos da mãe, os criminosos, categoria já pré‑histórica, são pacatos cidadãos que precisam de ser reinseridos. Isto e, como saltaram da jaula e não obedeceram ao domador, tornam à jaula para serem mansos, bem comportadinhos, na ordem e com a bola baixa. O polícia não pode fazer isto, nem aquilo e muito menos aqueloutro. Agora, em vez de pistola passa a usar um cardápio com uma oração que é maior que o padre‑nosso e cada vez que apanhar um assassino não lhe pode dizer: vais de cana!, tem de lhe contar um chorrilho de direitos, alguns dos quais o homem nem lhe passara pela cabeça que tinha e a arenga é tal que no final até quer ir de cana porque com tanto direito aquilo não deve ser mau. O bófia esqueceu‑se do cardápio com a lengalenga e volta à velha fórmula: vais de cana!, e o manhoso cala‑se, chega ao juiz e diz: veja lá, senhor doutor, para além de cometerem a injustiça de dizerem que matei fulano, nem sequer me leram os direitos. E o juiz, cansado de ver tanto manhoso à frente, mesmo com vontade de lhe mandar às twmbas o Código que tem mais à mão, tem de se submeter à vontade do Altíssimo, declarar a prisão ilegal e pôr tão distinto cidadão na rua.

      Uma vez entrámos no Casal Ventoso, aí pelas cinco da manhã,. Éramos uns sete ou oito, que enfiar naquele labirinto de barracas tresandando a mijo e a suor precisa de todos os olhos abertos e mais alguns suplentes, pois o maralhal da droga não brinca em serviço. Diga‑se, aqui só para nós, que se esse piroso do Altíssimo conhecesse aqueles buracos aprendia umas coisas sobre reinserção.

      Nessa madrugada tínhamos mandados de busca e captura para os moradores de uma barraca que, segundo fontes bem informadas, albergava uma série de bons cidadãos que cuidavam de uns saquitos de heroína. O sol aparecia aí pelas cinco e meia e avançávamos pé ante pé para sermos pontuais. Como toda a gente sabe, sem sol o polícia não incomoda pacato e exemplar pai de família, e não é por traficar heroína e andar armado com canhangulos que não envergonhariam qualquer sentinela à porta de armas de um quartel que o supracitado indivíduo deixa de ser legalmente pacato.

      Nós é que não somos pacatos, razão por que essa história do manda quem pode, obedece quem deve às vezes vai para as urtigas. Nessa madrugada foi. Quem manda diz que devemos bater à porta e informar, se possível com voz de tenor:

      ‑     Abra, se faz favor, desculpe o incómodo, mas é a polícia. Como temos um mandado de busca, agradecíamos que não resistisse e com a ajuda de Deus tudo correrá pelo melhor. Portanto, abra, se faz favor, e mais uma vez desculpe!

Quem começa nestas vidas fica a saber que, se obedecer assim, enquanto a porta abre e não abre a heroína vai pelo esgoto, as fuscas são atiradas para os telhados de outras barracas, ou pior ainda, lá dentro alguém se lembra que aquilo dá tiros e toca a fazer pontaria para a porta e toma disto que se faz tarde. Ora, que eu saiba, ninguém se levanta às quatro da manhã, bebe dois cafés, para logo ficar deitado outra vez, agora sem hipóteses de tornar a tomar café que não saia por um dos buracos a mais que lhe fizeram no bandulho. Visto o problema com menos gravidade, mas sempre no campo do chato, não dá muito jeito chegar à brigada e dizer ao Chefe:

      ‑ Chefe, os tipos da barraca do mandado de busca são cidadãos de grande utilidade para a Nação. Bons trabalhadores, pais de família, honrados e vivendo em condições indignas. Merecem o nosso apoio, Chefe. Nem um pozinho de heroína, o único que encontrámos parecido era para os calos. Armas, nem vê‑las. Um corta‑unhas, um canivete para descascar pinhões e pouco mais.

      Por tal razão, naquela madrugada ‑ e só conto isto porque já passaram dez anos para a prescrição, veio cá duas vezes o Papa, o Presidente da República foi eleito duas vezes e tanta amnistia e perdão já não pode entalar a malta

‑     cumprimos o primeiro artigo do Código Florestal:

      ‑ Ernesto, dá‑lhe já! ‑ disse o Casimiro mal o sol espreitou aos Prazeres.

      Até nem deu muito gozo. Ao primeiro pontapé a porta ficou escancarada, parecia o portão principal da Praça da Ribeira. Lá dentro, sonhando com anjos, talvez ouvindo harpas celestiais, daquelas que entoam sempre em volta do trono de São Pedro, seis admiráveis cidadãos dormiam o mais pacato dos sonos. O problema foi entrar. Sete marmanjos à pressa, todos querendo ir à frente, cumprindo a velha táctica policial de tudo ao molho e fé em Deus, atulhando a nauseabunda barraca, onde se amontoava a meia dúzia de corpos, misturados com restos de comida e os clássicos penicos, devidamente carregados de imundícies, foi uma barafunda. Alguém que visse de longe, pensaria: "Aqueles devem ir todos fugidos à polícia para se esconderem num buraco tão malcheiroso."

      Nem tiveram tempo de dizer ai!, e já estávamos todos instalados. O Diogo rosnou para um:

      ‑ Tira a merda da mão devagar debaixo da almofada para que não te enfie um balázio nas trombas! ‑ e o outro tirou e pendurada nos dedos vinha uma Walther quase nova, sussurrando, borradinho de medo:

      ‑ Calma, senhor agente, não vou fazer mal, ia só entregar‑lhe isto!

      ‑ Olha uma granada! ‑ exclamou o Raul, até parecia que encontrara o Pai Natal detrás da porta. O André serviu‑se do que se encontrava no interior de uma mochila com mais sebo do que pano, duas caçadeiras de canos serrados e algumas dezenas de cartuchos de caça grossa. O Jorge coçara o Rapa‑o‑Tacho e das calças extraira mais uma pistola automática, bem cuidada, que o Rapa‑o‑Tacho sempre fora um rapaz cuidadoso com os seus pertences. Eu fui dos que tiveram maior azar. O Tigre só tinha uma catana e um revólver 32, coisa pouca no meio de tal arsenal, e o herói foi o Sebastião. Debaixo de uma enxerga tirou dois sacos e disse:

- Está aqui o produto, dois quilos!

      Os seis admiráveis e pacatos indivíduos de que acabámos de abusar, detentores dos mais sagrados direitos, a partir de agora precisavam de ser reinseridos e, diga‑se em abono da verdade, de tomar um banho e cortar as unhas dos pés.

O Diogo sentenciou:

      - Toca tudo a vestir, pois vão para a reinserção! ‑ e já vínhamos no corredor de barracas, com muitas cabeças a espreitar por detrás das cortinas de fantasia, mas ainda muito ensonados para nos chamarem os nomes da praxe, quando o Sebastião estacou:

      ‑     Eh, malta, parem todos. Esquecemo‑nos de ler os direi tos!

      E foi lindo! Quase me vieram as lágrimas aos olhos. Os sete polícias sacaram do cardápio ao mesmo tempo. Uma fila de bófias de um lado, outra fila de honrados cidadãos a reinserir do outro, entre os quais o Tigre, que ia ser reinserido pela sétima vez. O Casimiro deu o tom e logo entrou o coral, parecia canto gregoriano. A companhia de presos ouvia cabisbaixa, não passando grande cartucho, um ou outro tirando cera dos ouvidos com o dedo mindinho, mas conforme o concerto aumentava de dramaticidade e emoção às janelas apareciam mais cabeças fascinadas, quais Ulisses ao ouvir o cântico das sereias. Se o tipo que de longe nos vira entrar na barraca nos olhasse agora, modificaria a opinião:

      ‑     Afinal são frades franciscanos que vieram rezar missa às seis da manhã no Casal Ventoso. Deve ser penitência, coitados!

      Quando acabámos e soou o toque de marcha havia tanta surpresa e emoção nos olhos dos espreitas que temi que alguns pedissem para vir connosco, ou pior ainda, que desatassem a aplaudir, pedindo que repetíssemos o espectáculo.

      Como se vê, com algumas nuances sem importância, cumpríamos as ordens do Altíssimo. Agora íamos dizer‑lhes que cadeia nunca mais. Estavam doentes, uma doença que não era do corpo, daquelas em que se precisa de ir ao médico. Nem de alma, das que reclamam a presença de um padre. Estavam dessocializados e a prescrição era reinserir. Quem diagnosticara? O Legislador! Quem havia de ser? Pois, pois, está bem, já sei que ele não os conhece. Ou melhor, vocês é que não o conhecem, porque ele sabe e conhece tudo, pelo que descobriu esse terrível mal que é a dessocialização. E está certo porque é omnipotente e omnipresente e só não é Deus porque não é uno. Nós temos um, os espanhóis têm outro, os franceses outro e assim por diante. Por isso vão ser internados, tenham calma. Não, não é um hospital porque a doença não é do corpo, nem em nenhum convento, já que também não é da alma. O sítio onde se faz essa cura é num estabelecimento prisional.

      ‑     Ora merda, isso é a cadeia. Vamos para a cadeia, quer você dizer.

      ‑     Não se fala assim! ‑ refilei, para em voz doce de terapeuta continuar: ‑ Antigamente havia cadeias, prisÕes, mais conhecidas por jaula ou xelindró. Mas agora acabou.

      ‑     Já não é no Linhó nem em Vale dos Judeus? ‑ quis saber o Pepe Rápido que fora ressocializado três vezes, a última pelo tempo de dez anitos.

      ‑     O sítio é o mesmo mas tudo mudou. Por exemplo, comecei, pondo ali toda a minha experiência pedagógica e algumas centelhas de génio doutrinal: ‑ Antigamente no Martim Moniz havia um teatro. Deitaram‑no abaixo e fizeram um centro comercial, mas o Martim Moniz deixou de existir? Não, tem outra função. Dantes mostrava teatro, coisas de merda que não fazem falta a ninguém, agora, para alegria de toda a malta, vende hamburguers, carrinhos de corda, malas e pronto‑a‑vestir. Outro exemplo! O Saldanha. Noutros tempos tinha o Monumental, aquele edifício onde passava cinema, teatro e coisas dessas a dar para o reviralho. Cá para mim, se mandasse, tudo o que era teatro ia abaixo. Esses tipos põem‑se a mostrar umas coisas do Garrett, do Fassbinder, do Beckett, do Santareno e é só para desestabilizar. Já para não falar dos ordinários da revista que põem isto de rastos. Gozam com tudo! É por isso que felizmente o Saldanha continua. Centro comercial, um cineminha para disfarçar, abarrotando de sinais de um país que teve a honra, a graça e a mercê de entrar na União Europeia. O mesmo se passa com o Linhó e Alcoentre.

      - Tu é que devias ser preso! ‑ atalhou o Tigre, amigalhaço de longa data, pois era a terceira vez que o prendia.

- Da última vez que me meteste à sombra estive seis anos no Linhó. Não fosse o Papa gostar tanto disto que não tira de cá o cu, ainda lá estava à espera mais quatro anos para sair. Vá lá, perdoaram‑nos. Oxalá ele volte depressa! Mas, dizia eu, saí há três meses e já estou outra vez com bilhete de ida. Se chamas àquilo tratamento e estou doente de dessocialização, pois bem, invoco os meus direitos de homem livre e não quero tratar‑me. Quero estar doente, gosto dessa doença e por isso posso ir‑me embora!

      ‑     Calma aí! ‑ rosnei, preparado para aviar duas lambadas nas fuças porcas do Tigre que com aquela argumentação me estava a lixar a pedagogia.

      ‑     Ah, pronto, não digas mais. Já percebi. Tou preso, vim de saco, estou engomado. Com armas e drogas estou servido para uns dez anos. Portanto, acaba com essa merda de paleio e desde já te digo que é uma pena que continues a escrever à máquina só com dois dedos. Desde a última vez não aprendeste nada...

      ‑     Tá bom, acabou‑se a conversa! ‑ interrompi vencido. ‑ Dá ai um cigarro que se acabaram os meus.

      E assim terminaram as conversas que o Altíssimo imaginou entre as cambraias do seu fino pensar. O que ele não quer dizer, mas o Tigre sabe, é que a cadeia é a lixeira da nossa vergonha social. A cobardia heróica de uma sociedade respeitavelmente reinserida, domesticada como deve ser. Querem ver? Imaginemos isto por absurdo, porque a ideia só vale na imaginação, que estes marmanjos todos, um dia, chegavam à porta da prisão e diziam:

      ‑     Cidadãos socializados, pessoal reinserido, nós matámos, roubámos, vendemos droga, passámos moeda falsa. Ao juiz dissemos que era invenção da polícia, mas aqui, neste tribunal popular, confessamos os nossos crimes. Oh, gente boa e amiga, povo da minha terra, herdeiros, como nós, da padeira de Aljubarrota, estivemos presos dez, quinze, vinte anos, temos cadastros que parecem as páginas amarelas, mas agora acabou! Queremos ser como vocês, gente irmã, queremos trabalhar, ter um rebanho de filhos, suar as estopinhas nas bichas e ficar espalmados nos transportes públicos. Até queremos pagar o I.R.S. e, já nem se fala, desejamos ver as telenovelas todas. Queremos estar reinseridos como vós, sangue do nosso sangue. Dai‑nos trabalho, meus irmãos, dai‑nos uma casa que possamos pagar à Caixa, mesmo que da renda apenas sobre dinheiro para comer uma sopinha por dia. Com a mãe para os filhos não vos incomodeis, cada um de nós encarrega‑se da sua. Mas esqueçam que somos cadastrados e deixai‑nos reinserir, meus irmãos!

      Era uma merda! O Altíssimo ia ficar à rasca porque, de um momento para o outro, ficava aí com uns milhões de gajos a bater válvulas e olhar desconfiado perante tanto arrependimento.

      ‑     Ó patrão, eu não me quero meter onde não sou chamado, mas olhe que o Manel saiu da cadeia há cinco meses. Esteve preso por gamanço, ponha‑se a pau!

      E o patrão não se põe, dá‑lhe logo com o pau: rua! Mas não fica por aqui. Quer entrar para a função pública? Mas você esteve preso e tem o atrevimento de concorrer

para as ordeiras fileiras dos servidores do Estado!? Não metas esse tipo na lista para as eleições na junta de freguesia: esteve no Linhó. Como podes pensar nesse cadastrado para tesoureiro do clube, se meteu a mão no pote do mel, vai para cinco anos, no banco onde trabalhava?

      E pronto! Lá voltamos à mesma. Os inseridos têm medo dos votos de arrependimento daqueles que o Altíssimo mandou reinserir, não esquecem porque a memória foi treinada para dizer sim e não, conforme estímulos que nos entregaram quando ainda andávamos de fraldas. O menino não faça isso que vai para o Inferno, não faça aquilo que vem o papão, coma a sopa por causa do monstro, quem não souber a tabuada dos três não passa de classe!

      É claro que Gaspacho, Rapa‑o‑Tacho e companhia, que se estiveram nas tintas para a tabuada, mandaram à fava a história do papão, que nunca comeram sopa e conhecem o Inferno de ginjeira, borrifam‑se em tais conselhos, metem medo aos que obedeceram e poderiam declarar milhões de perdões que os domesticados jamais acreditariam. E pronto, aí os teríamos outra vez a marchar para as barracas mais escondidas, até que uma noite discutiriam acaloradamente o ponto da situação política e, após várias horas de profundo debate intelectual, concluiriam

      ‑     Eles não acreditam em nós, que há a fazer?

      Pensariam um segundo e a solução estava à vista: vamos a isto!, e cá estamos outra vez numa história de polícias e ladrões, com homicidas e um estripador à mistura.

 

ANJOS E ARCANJOS

Não uso gravata. É uma porra! Nunca poderei ser considerado. O primeiro passo é um tipo ser doutor. Depois franzir a testa, falar alto com os amigos e nem olhar para o lado quando alguém passa e diz bom dia!

      Se tivesse juízo tinha sido doutor, testa franzida, gravata a condizer, fazer de conta que se sabe umas coisas atenção, que eu disse fazer de conta que se sabe, não quer dizer que se saiba ‑ e não demorava muito era filho dilecto do Legislador.

      Mas atenção!, queria ser um doutor como deve ser. Nem filósofo, nem historiador, nem antropólogo, que não passam de um bando de tesos e a maior parte deles com uma pancada na mona que nem o meu Chefe teria paciência para os aturar. Até são capazes de ganhar umas massas, mas em vez de porem aquilo no banco a render, pensar numas férias, numas coisas de gozo, não! Recebem agora, vão logo esgalgados, língua de fora, por uma livraria dentro e toca a comprar livros esquisitos e vá de gastar o guito todo e, ainda, deixar cheque para o fim do mês.

      Eu sei isto tudo porque há um artista destes que frequenta a livraria onde compro o jornal ao fim‑de‑semana. O homem já deu mais de dez voltas aos calhamaços que o Silva tem exposto nas estantes. Olha, volta a olhar, folheia devagar, parece gozar com as páginas como se estivesse a acariciar uma miúda e, às vezes, fica de livro aberto, olhos fundidos num infinito qualquer, saboreando ideias e sonhos que as páginas escondem.

      O Silva é que decide os dias de festa.

      ‑ Senhor doutor, hoje chegaram novidades!

      Parece um puto a quem prometeram uma guloseima. Ri nervoso, fala em voz alta, parece uma borboleta a esvoaçar impaciente em torno do livreiro enquanto desfaz os embrulhos. Depois fica horas a fio a olhar, a correr os dedos pelas folhas, deixando escapar risinhos nervosos quando encontra alguma coisa que lhe interessa.

      Sai derreado com o peso dos livros, bolsos vazios e dívidas a perder de vista, sorrindo a toda a gente.

      ‑ Tu aceitas cheques deste tipo? Um dia prega‑te uma partida.

      ‑ É teso, mas sério. Nunca vi um gajo assim. Larga a massa toda aqui. Eu não sei onde é que ele ganha dinheiro para comer.

      Não sabe o Silva, mas sei eu. O homem entra no supermercado, enche um saco de plástico com iogurtes, bolachas de água e sal, meia dúzia de maços de tabaco e lá vai todo contente abancar à frente dos livros que o Silva lhe vendeu a prestações.

      Não vale a pena ser doutor para viver desta maneira. Para se ser sério e pobrezinho não é preciso estudar tanto. Vem para a polícia e acabou‑se. Um tipo, quando entra para a faculdade, precisa de pensar em grandes cavalgadas. Grandes carros, miúdas a fartar e cagar de alto para o pagode.

Direito é o único curso que vale a pena. E não é para ser advogado, inspector da polícia ou juiz. São uns desgraçados. Condenados a aturar gatunos o resto da vida. Mas um tipo ser doutor e entrar nas fileiras dos servos do Legislador é o sonho de qualquer homem sensato. Dizer ámen ao Chefe já estou habituado, ignorante sempre fui, só precisava de ter o canudo.

      Se lá chegasse havia de ser bonito. O ranhoso do Jeremias, o tipo da segurança que nos dias em que o Sporting faz das suas põe um sorrisinho de gozo mal meto o pé na polícia, era o primeiro a baixar a bola: que merda é essa, ó sua besta? Está a rir dos desgostos cá do doutor? Ponha‑se a pau que eu lixo‑o. Mais nada. Só gravatas, daquelas ecológicas tinha uma dúzia e havia de frequentar tudo o que é clube de sauna e massagens, para além de uma agenda carregada de jantares onde arrotava e ria de piadas ordinárias com os meus amigos.

      Eu acho que a gravata, o cabelo lustroso de gel, um carro cheio de cavalos e um ar arrogante dão classe. Então se um tipo conseguir fazer parte dos corpos gerentes de um clube de primeira divisão é o máximo.

      ‑ São um bando de imbecis! ‑ o Casimiro discordava sempre.

      ‑ Mas aparecem na televisão.

      - Toda a gente aparece na televisão. Ministros, cadastrados, corruptos, filhos da puta, dirigentes de clubes desportivos.

      ‑ Dizes isso porque tens dor de corno. Cantas num coro e nunca ninguém viu lá o teu focinho.

      ‑ Não canto para aparecer na televisão. Canto porque gosto de cantar.

      ‑ Mas a televisão...

OCasimiro irrita‑se sempre que se fala da pantalha. Sobretudo quando toca a telenovelas.

      ‑     Tirando aquela que o nosso colega escreveu, é só merda!

      ‑     Eu não gostei. O gajo trata mal a polícia. Andou com a malta aqui a fossar na merda e agora caga de alto.

      ‑     Seguiu a vida dele, qual é o problema? Foi mais esperto do que a gente, que ainda estamos a aturar inspectores, delegados, procuradores e não sei quantos generais.

      ‑     O gajo não tinha nada que escrever uma novela sobre a polícia. Ainda por cima mostra a malta a dar porrada, sempre nos copos e a meter‑se com as miúdas.

      ‑     E é mentira?

      ‑     Pois é. E depois, o Chefe. O homem parecia um atrasado mental. 'Tá mal!

      ‑     A tua cabeça é que está mal. Confundes ficção com a nossa vida.

      ‑     Ele foi polícia! Não tem o direito.

      Porquê? É menos do que os outros? Agora há leis para os polícias e para os não polícias?Infelizmente há aqui muito rapazinho a pensar assim.

      O Casimiro tem razão. Lei é lei. Só existe o que está na lei. A vida, o mundo, os homens só existem porque a lei determina que existam. Quer isto dizer que, se não houvesse Legislador, a vida apagava‑se como o morrão de uma vela, o mundo encerrava para saldos e os homens voltavam a subir às árvores e a coçar a barriga como os macacos. Sem Ele, venerável poderoso, Zeus do Olimpo de todas as sabedorias, não passávamos de um zero à esquerda.

      ‑     Já estás a meter política nisto - avisou‑me o Jorge ‑, na polícia não há nem esquerda nem direita!

      ‑     Mas não estava a fazer política!

‑     Estavas. Tu não deixas o homem descansado. O tipo gosta de mandar, deixa‑o mandar, pá! O presidente da República chateia‑se? Já ouviste o primeiro‑ministro a protestar?

      ‑     Mas eu não estou a falar de ninguém em particular!

      ‑     Então porque é que não te calas com essa merda do Legislador? Quem é esse gajo? O procurador‑geral da República não é!

      ‑     Não, mas é santo!

      ‑     Se ele é santo, o nosso inspector é beata e o nosso chefe um querubim!

      ‑     Ainda bem que falam nisso ‑ atalhou o Raul ‑, o que é mais importante: anjo ou arcanjo?

      ‑     Não sei. Mas arcebispo é mais do que bispo ‑ esclareci hesitante.

      Entra o Chefe.

      ‑     Linda vida, sim senhor! Não há nada para fazer?

      O Jorge saudou‑o entusiasmado.

      ‑     Ainda bem que chegou, Chefe! O senhor deve saber. Raul, pergunta agora!

      ‑     Mas pergunta o quê?

      ‑     Estávamos a discutir. Ser anjo é mais ou menos importante do que ser arcanjo?

      O Chefe não queria acreditar. Havia ódio nos olhos.

      ‑     Anjos e arcanjos? Vocês estão a discutir anjos e arcanjos?

      ‑     Qual é o mal? Não é política!

      ‑     Vocês é que me saíram uns anjinhos. Pensando melhor, arcanjinhos!

      ‑     Isso é gozo, Chefe! A malta estava...

      ‑     Estavam mas não estão. Toca a trabalhar. Diogo, Alfredo, há um tipo com uma facada nas goelas no bairro da Curraleira. Despachem‑se. Raul, Ernesto ‑ era eu ‑, vão ajudar a quarta brigada. O estripador matou outra gaja.

      ‑     Puta?

      ‑     Puta! Toca a andar.

      ‑     Chefe, a gente vai, mas só mais uma pergunta. É sobre o sexo dos anjos!

      ‑     Raul!

      ‑     Espere, não se irrite, homem! Está sempre aos berros. Sobre os anjos estamos conversados. Diga‑me: qual é o sexo do Legislador?

      ‑     Do Legislador? Quem é esse gajo? Onde é que anda a roubar?

      ‑     O Ernesto é que sabe!

      ‑     O Legislador não tem sexo ‑ atalhei antes que o Chefe desatasse aos berros ‑, é todo sabedoria. Até os tomates são inteligência.

      ‑     Vão trabalhar ou tenho que participar de vocês todos?

Saímos a galope. Um homicídio na Curraleira, outra prostituta de tripas ao léu, era coisa séria. Mortos a mais para a paciência do Chefe e, de facto, polícia não nasceu para discutir leis e legisladores. Portanto, alça quatro e fogo à peça que o Ernesto vai na ganga da moina à procura do estripador.

 

ESTRIPADOR E DESAPARECIDOS

O título deste capítulo é foleiro. Bastava pôr desaparecidos e já incluía o homem. É que dele nem rastos. E posso dizer‑vos que ali se não há milagre anda dedinho do Diabo. Ao princípio ainda acreditei numa tese original mas interessante: o assassino é o director de informação de um canal de televisão!

      ‑     'Tás maluco, meu? ‑ reagiu o Camacho ofendido.

      ‑     Aumenta as audiências. São os principais interessados em que as mulheres vão aparecendo de barriga escancarada. Olha‑me para os intestinos dessa.

      ‑     Cheira mal!

      ‑     Pois cheira. Tem tripas espalhadas por todo o lado.

      ‑     Não estou a falar das tripas. A tua hipótese é porca! O direito à informação é sagrado.

      ‑     Também o meu prato de sopa!

      ‑     Ernesto, tu estás bêbado?

      ‑     Quando janto à hora dos noticiárioS aparece sempre tanto sangue que eu fico sempre à espera que escorra do ecrâ para o meu prato de sopa.

      ‑     Estás bêbado. Agarra aí nesse braço da mulher. Vamos dar‑lhe volta.

‑     Achas que ela não enjoa?

      ‑     Está morta, pá!

      ‑     Também eu. Só que tenho as tripas bem guardadas. Estou morto de fome.

Então, ajuda‑me para irmos comer.

      ‑     Depois de ver tanta tripa vou passar uns tempos sem comer enchidos ‑ comentou o Bernardo.

      ‑     Essa é de mestre. Os enchidos devem ter muita culpa do que o cabrão do estripador anda a fazer às miúdas.

      ‑     Esta terá sida?

      ‑     Porque não lhe perguntas? Traz‑me esse bocado de intestino grosso.

      ‑     Encontrei o baço debaixo de um pneu abandonado!

      ‑     O gajo não lhe arrancou o coração!

      ‑     Não conhece a História de Portugal. Se fosse o Dom Pedro... ó Camacho, qual foi o Dom Pedro que arrancou a cachola aos manguelas?

      ‑     O Dom Pedro 1!

      ‑     Gosto deste rapaz por ser tão culto. A miúda sangrou que nem um porco. Está branquinha.

      ‑     É a Branca de Neve!

      ‑     Não. É puta!

      ‑     Vocês não respeitam os mortos?

      ‑     Respeito, porquê? Tu respeitas os vivos?

      ‑     Depende. Se for gatuno, leva nos cornos até me doer a mão.

      ‑     Tenho pena que não digas isso à frente do delegado. Ainda não chegou a ambulância para levar o cadáver?

      ‑     Já. Um dos maqueiros está a vomitar. Faz‑lhe mal tanta tripa à solta.

      ‑     O resto da malta?

      ‑     Estão a interrogar testemunhas.

‑     Estou cheio de fome. Há aqui perto um tasco que tem umas bifanas do caraças!

      ‑     Onde?

      ‑     É ali, depois da segunda esquina à direita.

      ‑     Raul, vens?

      ‑     Vocês são capazes de comer depois deste espectáculo?

      ‑     Quando vou às touradas também me farto de ver o touro sangrar e não é por isso que não vou cear.

      ‑     Não têm alma, é o que eu digo. Não têm alma.

      ‑     Raul, se tenho alma é coisa que não sei, mas tenho uma fome do caraças, vens?

      ‑     Passo!

      ‑     Então passa bem. Ernesto, embora?

      ‑     EmBora!

      Não há bifanas como as de Lisboa. Bifanas, pataniscas e pastéis de bacalhau. Não sei quem foi o inventor mas ninguém tem dúvidas de que foram os galegos os seus principais artífices. Galegos, digo bem. Ainda não há cinquenta anos o filme era o contrário. Lisboa, cais de tanta partida, cresceu, ganhou os braços do gigantesco polvo metropolitano à custa dos que durante séculos foram chegando. Não sou especialista em contas de cabeça, mas era capaz de jurar aos pés juntos que nos últimos duzentos anos Lisboa recebeu mais galegos do que portugueses emigraram para as Astúrias. Vieram como nós fomos a caminho das Franças,Alemanhas e Suíças. Com uma mão à frente e outra atrás e polvilharam a cidade de tasquinhas, foram aguadeiros no Passeio Público, marçanos que levavam as mercearias finas às senhoras aristocratas da Lapa, moços de estrebaria, limpa‑chaminés e outras tantas profissões de alto gabarito socioprofissional. Nas casas de putas que Salazar mandou fechar tratavam das toalhinhas de bidé onde os senhores limpavam as partes, espécie de eunucos condenados a passar fome em casa de tanto pão. Ninguém acredita na minha tese. O meu Chefe acaba sempre chamando‑me parvo, mas ninguém me tira da cabeça que a oposição cresceu não sei quantos centos de descontentes no dia em que Salazar decidiu tal desmando. Foi o descontentamento geral e, quanto a mim, sem razão.

O homem não queria acabar com a prostituição. Proibia apenas que houvesse tabuleta à porta. Mas houve muita gente que não entendeu assim. Primeiro, porque as miúdas vieram para a rua. Desceram do Bairro Alto à Avenida e não dava jeito nenhum andar com a artista atrás à procura de uma pensão com águas correntes, quentes e frias, ambiente familiar. E depois se, por azar do destino, a legítima passa na avenida e vê um homem naquelas aflições? É um sarilho.

      Desde então nunca mais acabaram os protestos e depois foi o que se viu.

      A única pessoa que concorda comigo é o Casimiro, que crê numa regra: quem se mete com putas, lixa‑se!

      Claro que não é o caso do estripador que as vai lixando uma a uma com a malta da bófia a ver navios, meninges em brasa à procura do malandro.

      Será que o tipo é rabo?

      ‑     Se fosse rabo matava homens, ou pensas que faz isto por causa da concorrência?

      ‑     Não sei!

      ‑     Então não digas disparates!

      ‑     Pois.

      ‑     Ninguém me tira da cabeça que é um marado. Para que quer ele a porcaria da tripa? Não lembra ao Diabo o gajo levar um pedaço de intestino.

      ‑     Para fazer enchidos não deve ser de certeza absoluta!

‑     Ó Ernesto, você não pode fechar a torneira dos disparates?

      ‑     Chefe, mas eu...

      ‑     Deixe o Jorge falar. Jorge, fale!

      ‑     A tripa, Chefe! O segredo está na tripa.

      ‑     A tripa?

      ‑     Será para algum ritual esquisito? Estas seitas novas que há por aí têm ideias do catano!

      ‑     Há uma ao pé da minha casa que faz milagres às segundas, quartas e sextas.

      ‑     Jorge, desde quando são precisas tripas para fazer milagres?

      ‑     Estava a falar das seitas. As tripas, e aqui o Ernesto tem razão, que eu saiba servem para fazer enchidos.

      O problema da polícia não é pensar. É a dificuldade em pensar. Mal se arremeda o princípio de uma discussão aparece logo alguém a estragar a festa.

      Desta vez foi o Raul.

      ‑     Chefe, está ali fora uma senhora que perdeu o marido!

      ‑     Enganou‑se no número da porta. Que vá à Secção de Perdidos e Achados. Encontra rádios, carteiras, guarda‑chuvas e maridos!

      ‑     É a sério, Chefe! Estive a falar com ela. A coisa é complicada.

      ‑     É boa? ‑ o Diogo é assim mesmo. Ordinário a toda a hora.

      ‑     Não sei. Acho que sim.

      ‑     Vou espreitar.

      ‑     Diogo!

      ‑     Oh, Chefe! É só espreitar.

      ‑     Ernesto, veja lá o que a senhora quer.

      ‑     É sempre o Ernesto!

‑     É o único decente.

      - Se calhar é o único banana. Não engata nada.

      A mulher estava sentada, aflita. Precisara de ir ao Porto. O coração da mãe resolvera começar a engasgar com as válvulas gripadas e entrou para reparações no Hospital de São João. Saiu de Lisboa numa terça, regressou numa quarta e, ao abrir a porta de casa, descobriu que não havia marido para ninguém.

      ‑     Há quanto tempo é que isso foi, minha senhora?

      ‑     A semana passada.

      ‑     E a sua mãe, está melhor?

      ‑     Morreu no sábado.

      Engoli em seco. Há pessoas com um galo do caraças. Esta, por exemplo, no espaço de uma semana vê o marido dar corda aos sapatos, sabe‑se lá para onde, e a mãe resolve ajustar contas com Deus, farta de aturar bichas, aumentos de preços e reformas miseráveis.

      ‑     O seu marido não deixou nenhuma carta, não telefonou?

      ‑     Não.

      ‑     Já agora, desculpe a curiosidade, mas porque veio aqui, a esta brigada, à procura do seu marido?

      ‑     Esta notificação estava na caixa do correio.

      Fora eu quem enviara o postal.

      ‑     Já sei! ‑ exclamei. ‑ O senhor Sinfrónio.

      ‑     É o meu marido.

      ‑     Deixei‑lho em casa. Também não me atendeu.

      ‑     Então quer dizer...

      ‑     Quer dizer o quê?

      ‑     Não está preso.

      ‑     Não, não está. Pelo menos eu não o prendi.

      Suspirou de alívio. O seu Sinfrónio não estava preso. Era uma coisa que não me deixava de surpreender. Cada pessoa que recebe um postal da polícia adivinha sempre desgraça. Não é uma notificação. É uma ameaça. Há casos em que reúne o conselho de família, chamam‑se parentes até ao terceiro grau, reconhecem‑se notarialmente partilhas e testamentos, gravatas pretas, olhares soturnos e, se alguém pergunta: mas afinal quem morreu?, a resposta cava e lacrimejante dramatiza a situação: "Bia. O teu pai foi chamado à polícia. Vai ser preso ou espancado. Oxalá que no meio de tanta desgraça seja apenas preso."

      E toda a família lamenta o notificado.

      ‑     Vá lá, homem, coragem! Não lhe vão bater.

      ‑     Não sei... já não sei...

      ‑     São apenas uns dias na cadeia.

      ‑     Pai, anime‑se. Vou contratar quarenta advogados.

      E por aí fora. Outro dia pus‑me a fazer contas. Vêm à polícia, diariamente, quatrocentas pessoas. Ao fim de um ano, descontando uns feriados e festas de guarda, mais ou menos dez mil almas entram aquele portão, de notificação na mão e o coração aos saltos, queixos trementes de medo:

      ‑     Mandaram‑me isto para casa.

      Logo à porta começa a surpresa. O recepcionista, com gestos indiferentes, informa:

      ‑     É pelo corredor da direita.

      Porra! E os polícias? Não estão à minha espera quatro tipos barbudos, armas aperradas, tilintando algemas que me ameaçam os pulsos?

      Estas perguntas indignadas tornam‑se em rugidos escandalizados quando o agente, em vez de lhe começar a bater mal põe o pé na brigada, o manda sentar e questiona o notificado:

      ‑     Há cerca de um ano furtaram‑lhe o leitor de cassetes do carro. Está recordado?

‑     Mas... desculpe, deve haver um mal‑entendido. Eu fui notificado!

      ‑     Pois foi. Vem prestar declarações.

      É o desapontamento completo. Nem prisão, nem espancamento, nada. Perde uma pessoa meio dia de trabalho, quatro noites de insónias à espera do juízo final para depois ser confrontado com o furto do leitor de cassetes e nem um estaladão, nem uma ordinarice, nada! E se o senhor agente fosse à merda?

      Não tenho dúvidas de que, mais coisa menos coisa, é o que pensam nove mil e quinhentas das dez mil criaturas que vão todos os anos à polícia e, no caso concreto, o Sinfrónio fazia parte deste exército de medrosos adiados.

      - O seu marido é testemunha de um atropelamento com fuga. Foi por essa razão que o notifiquei.

      ‑     De facto, ele falou‑me nisso.

      Ficou pensativa, o olhar fixo na janela, perdido algures sobre o telhado da Gomes Freire.

      ‑     Estou apoquentada, senhor agente. Qualquer coisa estranha aconteceu ao meu marido. Posso fumar?

      Acendi‑lhe o cigarro, que não parava de tremer entre os dedos nervosos. Na cabeça ia‑me uma teoria explicativa do que acontecera, de tal forma rigorosa e precisa que não admitia engano.

      Ela começou a falar.

      ‑     As luzes estavam ligadas (saiu e esqueceu‑se de desligar o interruptor; argumentei mentalmente), a cama não estava desfeita (dormiu noutra mais quentinha com alguém a dar‑lhe bafo no pescoço], a carteira com o dinheiro e os documentos está em casa (anda a papar alguma que conhece há muito tempo e não precisa de pagar nada], a loiça da cozinha não estava mexida e ele comia sempre o pequeno‑almoço em casa (a outra dá‑lhe de comer à borla, minha toninha] e até o sobretudo, o único com que anda sempre, ficou em casa.

      ‑     Ele não tem mais nenhum sobretudo? Nem um blusão? Nem outro agasalho?

      ‑     Só o sobretudo, senhor agente. Viemos de Angola e lá não usávamos roupa de Inverno. Comprou este o ano passado, quando visitámos Paris e não o larga. Não é que a gente precise. Já lhe disse que tinha de comprar mais roupa de Inverno, mas ele insiste naquele. E sabe o que é mais estranho? É que as chaves da porta de entrada estão na algibeira do sobretudo.

      Quando percebi que a pergunta era parva já estava cá fora, por isso paciência!, que o Legislador perdoa:

      - A senhora viu bem se ele não está em casa?

      - Oh, senhor agente!? São quatro assoalhadas e o meu marido não se ia esconder no guarda‑fato!

      Lá isso era verdade. Porque haveria o homem de se esconder no guarda‑fato? Só se fosse por amor ao sobretudo e, desta forma, dormir agarrado a ele. Ainda por cima ficava mal alguém que se chama Sinfrónio, com apartamento nasAmoreiras e cheirando a dinheiro que tresandava, esconder‑se num guarda‑fato. Malta de bago quando se quer esconder navega até às Bermudas. Por acaso, uma vez, na Musgueira, apanhámos um tipo escondido num guarda‑fato. Mas é bairro de pelintras, onde entre um guarda‑fato e as Bermudas não há escolha. Houve um outro que se escondeu numa arca frigorífica e aí esteve aquela alma quase uma hora, enquanto nós fazíamos uma rusga. O Camacho tirou um do interior de uma arca, daquelas onde se guardam roupas com bolas de naftalina. Estava mais enrolado do que uma cobra e quase foi preciso enfiar‑lhe um pau pelas goelas abaixo para o pôr direito.

Porém, o esconderijo preferido de gatuno que se preze é debaixo da cama, mesmo por detrás do penico. Não tenho dúvidas! Não há profissão no mundo onde se vejam tantos penicos como na polícia. Chega‑se a uma casa à procura de um meliante e à porta dizem logo: ele não está!, mas a gente entra, procura e está. Vamos logo ver debaixo da cama. Pelo menos encontramos o penico ou, usando uma linguagem mais decente (que esta senhora não precisa de tal objecto nas Amoreiras), o bacio. Existem de vários formatos e modalidades. Alguns são de loiça, até com adornos floridos, outros são de esmalte, quase sempre azul às pintinhas, mas a esmagadora maioria, o verdadeiro bacio do povo das barracas de Lisboa, é de plástico.

      A senhora era nova, aí pelos trinta e cinco anos, e os olhos eram ternos. Falava timidamente, quase envergonhada, e a entoação denunciava quanto estava assustada. Na verdade, aquela história do sobretudo com as chaves na algibeira punha no prego a minha teoria de o homem recolher nos braços quentes de um amor clandestino enquanto a sogra estrebuchava entre a vida e a morte num hospital do Porto.

      O Chefe berrou:

      ‑     Ernesto!

      Fui lá.

      ‑    Há azar? ‑ cruzou os braços e recostou‑se na cadeira.

      ‑     Chefe, isto cheira‑me mal! O homem, veja lá que lhe puseram o triste nome de Sinfrónio, desapareceu de casa.

      ‑     Desapareceu ou pirou‑se?

      ‑     Desapareceu

      ‑     Como é que você sabe isso?

      ‑     Já se esqueceu de que me distribuiu este caso? Um atropelamento com fuga? O tal Sinfrónio foi testemunha do crime e eu fui notificá‑lo. Não o encontrei.

‑     Não quer dizer nada. O tipo pode andar nos copos.

      ‑     Chefe! É impossível. São copos a mais. Há quatro dias que ninguém sabe dele. Exactamente no dia em que o senhor me entregou isto. E eu, que até sou dedicado ao serviço, começo a trabalhar. Caçamos o pintarola que atropelou a senhora e fugiu. Ouvimos duas testemunhas. Faltava ouvir o Sinfrónio. Começo a telefonar ao homem. Nada. Pensei que andasse nas curvas. Copiei o número de telefone e levei para casa. Nessa noite deu o jogo de Portugal na televisão. Ligo‑lhe à hora do jogo e nada. Nada era também o que estava a fazer a selecção contra aqueles amadores. Só chamam maralhal do Benfica, pés trocados e olhos em bico, e depois dá naquilo. Mudei para o segundo e estava a dar um filme daqueles de puxar ao sentimento, O Homem de Alcatraz. O Burt Lancaster faz um papelão do caraças. Acabou aí para as duas da manhã e resolvi telefonar outra vez. E isto todos os dias e todas as noites. Ontem de manhã fui lá bater à porta e zero!, à hora do almoço telefonei e o filho da puta não responde e agora aparece‑me a mulher a dizer que foi ao Porto ver a mãe, que já não voltará a ver porque a senhora esticou o pernil no sábado passado, e ao chegar a Lisboa do Sinfrónio nem sombras, por isso veio aqui perguntar por ele.

O filme está ao contrário, Chefe. Quem devia fazer a pergunta era eu. Depois a casa, diz ela, tem as luzes acesas, está tudo nos conformes e, para estragar qualquer teoria manhosa, o sobretudo com a chave da porta está no cabide.

      ‑     Não estará para aí achantrado com alguma donzela?

      ‑     Ora aí está uma teoria manhosa e que mostra bem como comungamos de corpo e alma dos mesmos ideais. Pensei o mesmo. Mas, Chefe, sendo assim porque não levou as chaves de casa? Como é que entrava depois de dar a queca? E com o frio que tem feito sai sem sobretudo, roupeta que é o grande amor da vida dele e até vai embrulhado nele para a praia no mês de Agosto?

‑     De facto é estranho. Diga à senhora para vir aqui...

      A senhora foi, mas o Chefe não foi mais longe do que eu. Nem morgues, nem hospitais, nada. O Sinfrónio eclipsara‑se.

      Reuniu‑se o concílio da brigada. Cada um a mandar postas de pescada, mas ia parar tudo ao mesmo ‑ onde é que se meteu o raio do Sinfrónio?

‑     Será que o tipo é o estripador?

‑     Porquê?

‑     Sei lá. Quer um quer outro estão desaparecidos.

‑     Ideias de merda!

‑     Obrigado, Chefe.

      Se isto fosse um romance policial, era chegado o momento de o comissário Maigret mudar de cachimbo, ir até à janela para observar com ar distraído as carrinhas dos costumes que partiam para mais uma rusga, ou então meter pelo Boulevard du Palais, atravessar o Sena e ir beber um pernod à Place de St. Michel, reflectindo nas diferentes maneiras de descobrir o Sinfrónio. Mas se o herói fosse o bom Sherlock, o nosso caro Doyle estava a descrevê‑lo febril, sem passar cartucho a ninguém, enquanto o "caro Watson" ficaria a fazer de pau‑de‑cabeleira, à espera de que o seu amigo ‑ sobre o qual existem fortes suspeitas de ser larilas e chutar uns drunfos botasse o primeiro sinal de acção. Estes heróis, e mais alguns que por agora vamos deixar sossegados nas prateleiras da nossa colecção Vampiro, dariam três saltos horrorizados se observassem as práticas e atitudes destes polícias. Tudo a mandar bocas, não há organização, não existe um fio condutor para as histórias, é tudo à molhada e acabou‑se. Não está certo. Até deveria ser proibido escrever sobre estas coisas.

No romance policial, os Gardner, os Agatha, os Doyle

‑ trato‑os assim porque são todos pessoas íntimas ‑ vão construindo um discurso narrativo em que falha aqui uma coisita, mais adiante juntam outra, metem logo dez interessados em que morra o morto, o principal suspeito nem se dá por ele e no penúltimo capítulo (o último é sempre para explicar o que não se disse nas primeiras duzentas páginas) arreia‑se a bronca. O Holmes junta todo o maralhal interessado, alguns curiosos, dois ou três polícias a fazerem de totós e tira o coelho da cartola: meus senhores, ao Sinfrónio aconteceu isto!, e toda a gente embasbaca.

      Mas romance policial é assim mesmo e a vida dos polícias exactamente ao contrário. Depois, como poderia eu, pobre Ernesto, vinte anos polícia de profissão, adivinhar que ao meio de uma tarde de Inverno me aparecia uma senhora, gestos finos, cheirando a rica, indignada porque o marido desaparecera, ainda por cima sem levar o sobretudo?!

      ‑     Chefe, posso dizer uma coisa?

      ‑     Diga!

      ‑     Só há uma hipótese. Sacaram o homem à bruta.

      ‑     Desculpe, não percebi.

      ‑     Um assalto à mão armada em casa. O Sinfrónio vai abrir a porta, filam‑no e depois levam‑no.

      ‑     A mulher diz que não falta nada. Até lá está o sobretudo.

      ‑     É verdade. Pois, não pode ser.

      ‑     E agora?

      ‑     Manda‑se a mulher embora.

      ‑     Assim, sem mais nem menos?

      ‑     Não me importo de a convidar para jantar.

      ‑     Diogo!?

      ‑     Pronto, Chefe! Já cá não está quem falou.

Foi o João quem resolveu o assunto quando toda a brigada, cansada de pôr hipóteses e discutir os invios caminhos do Sinfrónio, se preparava para o jogo da moeda de todos os fins de tarde.

      ‑     Há azar? ‑ perguntou, observando com curiosidade a algazarra que fazíamos na sala do Chefe.

      ‑     Desapareceu o marido dessa mulher que está sentada aí à porta.

      ‑     Todos os dias desaparecem maridos.

      ‑     Só que este foi esquisito. Não deixou rastos.

      ‑     Já viram na morgue?

      ‑     Não está em lado nenhum.

      ‑     Ainda por cima chama‑se Sinfrónio.

      ‑     Sinfrónio? Sinfrónio da Silva?

      Ficámos todos de olhos pregados no João que, incomodado, começou a examinar a roupa.

      ‑     Que foi? Estou sujo?

      ‑     Donde conheces o homem?

      ‑     Do cemitério. Vi‑o esta manhã.

      ‑     Como?

      ‑     Está morto. Apareceu morto na estrada de Loures. Fomos lá hoje. Cheira mal que tresanda. Vejam na capela do cemitério.

      ‑     Homicídio?

      ‑     Não sei. Estávamos a tratar de outro caso. O coveiro é que nos contou a história.

      O Chefe explodiu.

      ‑     Alguém é capaz de me explicar quem é o cabrão que está por detrás disto tudo?

      Ficámos perplexos a olhar para ele.

      ‑     O Chefe pode esclarecer quem éo cavalheiro promovido a cornudo no meio desta porcaria toda? ‑ quis saber o Alfredo.

‑     O animal que mandou o cadáver desse Sinfrónio para o cemitério e não ligou cavaco a ninguém!

      ‑     Isso só pode ter sido obra de algum discípulo do Legislador.

      ‑     Se apanho esse gajo, enforco‑o! Uma tarde inteira à procura de um tipo que está a fazer tijolo num cemitério.

      ‑     O facto de estar num cemitério acho bem. É para isso que servem.

      ‑     Eles é que mandam, Chefe!

      Eles mandam nos inspectores, estes no Chefe e a gente faz o que o Chefe manda. E desta forma não é de admirar que o vosso amigo Ernesto, o Alfredo e o Casimiro arrancassem a caminho do cemitério. Bateu certo. Lá estava o nosso Sinfrónio. Estudado, revirado, despido, voltado do avesso, a perplexidade aumentou:

      ‑     Mas o homem está perfeito!

      ‑     Alfredo, quando estiveres assim perfeito, estás feito num oito.

      ‑     Não gozes, pá. O homem não foi agredido, não foi esburacado por nenhuma bala, não tem nenhuma faca enfiada no lombo. Está simplesmente morto.

      - Antigamente havia um folhetim radiofónico que era o Simplesmente Maria. Agora o simplesmente morto, não conheço.

      ‑     Está aqui. Isto não é trabalho de polícia. O homem precisa de um cangalheiro.

      ‑     Esperem aí. Há aqui um problema!

      ‑     Ernesto, não comeces...

      ‑     Como é que o homem aparece simplesmente morto a vinte quilómetros de casa?

      ‑     E qual é o problema?

‑     Sai de casa sem sobretudo, não traz chaves, as luzes ficam acesas, vimos encontrá‑lo aqui, de corpinho bem feito, como se tivesse ido à tabacaria da esquina comprar uma cigarrilha?! Meninos, acordem, esta semana a temperatura em Lisboa não subiu dos dez graus.

      ‑     Se calhar não é friorento ‑ justificou o Casimiro. - Eu, por exemplo...

      ‑     Casimiro, vê o que vais dizer.

      ‑    Pois. Tens razão. Era capaz de ir largar um disparate.

      ‑     Então, como é? Ficamos aqui o resto do dia a velar o Sinfrónio?

      As palavras do Alfredo tiveram um efeito contrário ao pretendido. Ficámos os três em silêncio a olhar o cadáver e, não fosse o coveiro entrar avisando que tinha de fechar o cemitério que ninguém lhe pagava as horas extraordinárias, ainda ali estávamos cabisbaixos e meditabundos. Não há coisa que dê mais gozo a um polícia do que uma boa charada.

      É por isso que gostam tanto de fazer palavras cruzadas e adivinhar quais as sete diferenças entre os dois desenhos idênticos oferecidos pela Capital. Um enigma dá tanto gozo como um incêndio a um incendiário. As mãos transpiram, o corpo dança ao ritmo do frenesim da excitação, a cabeça fervilha de perguntas, de respostas para as perguntas do abecedário policial, onde?, quando?, como?, quem?, porquê?, vem a insónia, o cigarro nervoso, o café para acabar com a tensão.

      ‑     Deves ser o único gajo que conheço que bebe café para acalmar.

      ‑     Porquê?

      ‑     Porque é um estimulante.

      ‑     A mim, torna‑me mais calmo. Qual é o problema?

      ‑     Nenhum.

      ‑     Ah, bom, pensava que não podia beber café.

‑     Não foi isso que eu disse. Apenas que é um estimulante.

            ‑     No meu organismo é ao contrário. Tenho alguma culpa?

            ‑     Pronto, pá! Não te enerves. Ou será o café que não te acalma?

            ‑     E se parasses com o gozo? Temos um tipo simplesmente morto, a não sei quantos quilómetros de casa, e andamos aqui à nora!

            ‑     Só se o gajo começou a morrer em casa e deu o badagaio aqui.

            ‑     O Ernesto falou e disse. Agora não se leva horas ou dias a morrer. Levam‑se quilómetros! O Sinfrónio levou vinte quilómetros a morrer.

            ‑     Não era isso que eu queria dizer.

            ‑     É do café. Faz‑te dizer o que não queres.

            ‑     Hoje estás a embirrar comigo.

            ‑     Não estou nada. Mas onde é que já se viu um tipo morrer ao quilómetro? Não é nenhum carro de aluguer.

Ficámos em silêncio.

            ‑    E agora? Continuamos a olhar uns para os outros, a fazer figura de parvos, ou vamos para a bófia?

            ‑     Na minha opinião ‑ declarou solenemente o Alfredo ‑ vamos para a bófia, embora não deixemos de fazer figura de parvos. Tenho uma ideia.

      O Casimiro e eu quedámo‑nos atentos.

            ‑     Vá, qual é a ideia?

            ‑     É simples. Quem dirige a investigação?

            ‑     O Ministério Público!

            ‑     Então porque estamos a estragar as meninges? Faz‑se a informação de serviço, manda‑se ao delegado e ele que diga o que temos a fazer.

‑     Alfredo, estás a gozar.

      ‑     Porquê? Não é o homem que dirige?

      - Percebe tanto de investigação como eu de bridge!

      - A lei é lei. Ele é que manda. Essa história do povo é quem mais ordena é chão que já deu uvas.

      ‑     Não conheces o moço? Ele até é bom rapaz. Licenciou‑se, fez o curso para ascender a servo do Legislador e entregaram‑lhe um gabinete carregado de processos.

      ‑     E que tenho eu a ver com isso?

      ‑     Alfredo, tens trinta anos de vida chafurdando nesta marmelada. Quando começaste, ainda o rapaz andava a passear nos tomates do pai. Isso é uma maldade.

      ‑     Mas ele é quem manda. Esses cursos todos devem ter‑lhe trabalhado os miolos de uma maneira que coisas destas, para ele, são canja!

      Calei‑me. De certa forma, o Alfredo tinha razão. Um gajo não é doutor por dá cá aquela palha. Sabe coisas que deixam nabos e ignorantes mortais como nós de cara à banda.

      ‑     O homem nem barba ainda tem! ‑ lamentou‑se o Casimiro.

      ‑     Mas manda! ‑ teimou o Alfredo. - Vamos embora. Ele é que vai dizer o que temos a fazer.

      Olhei desconfiado para o meu colega. O Alfredo estava em vésperas de reforma, passara mais tempo na polícia do que a maior parte dos delegados tinham de idade, conhecia a morte e a vida por dentro e por fora e possuía uma virtude rara: a intuição ‑ a poção mágica dos polícias. Apanhava as coisas no ar pelo olfacto. Era vê‑lo calado, olhos escancarados, cravados no tampo da secretária, mãos postas como se estivesse a rezar padres‑nossos, ausente das nossas discussões, para uma ou duas horas depois nos sobressaltar com o tradicional murro que dava nos processos.

‑     Só pode ter sido assim!

      Debitava sentença. As vezes parecia tão absurdo o que dizia que o olhávamos embaraçados.

      ‑     Alfredo, tens a certeza de que não bebeste um copo a mais?

      Não bebera. Nós servíamo‑nos dos argumentos dele e lá estava, no fim do raciocínio, o autor do crime que o levava ao clássico murro e à não menos clássica conclusão:

      ‑     Só pode ter sido assim!

      Conhecia‑o suficientemente para duvidar daquela derrota antecipada que o fazia recorrer com tanta urgência ao delegado que dirigia a investigação.

      ‑     Ouve, não estas a ser mauzinho para o rapaz?

      ‑     Porquê? ‑ e havia ironia na voz ‑, não é ele que é o patrão da investigação? Então, que decida.

      ‑     Alfredo! O delegado não merece. Até é um tipo compreensivo.

      ‑     Lei é lei. Seja o homem compreensivo ou não.

      O Casimiro já estava impaciente.

      ‑     Ao menos a gente pode saber o que estás a pensar?

      ‑     Por enquanto, não. Preciso de tempo. De saber o resultado da autópsia. Preciso de tempo, mas há uma hipótese. Pois! Não pode ser de outra maneira.

      Falava consigo outra vez.

      ‑     Então, abres‑te com a malta ou não?

      - Tem calma, pá. Já disse que preciso de tempo. Fazemos a informação dizendo que o morto está no cemitério. Amanhã o inspector despacha. Depois de amanhã vai para a nossa secretaria, na próxima semana chega à secretaria do Ministério Público, na outra chega ao delegado, depois o homem decidirá quando tiver tempo, volta à secretaria do Ministério Público, depois à secretaria da Polícia, só depois deste caminhar todo conheceremos o que o senhor ordenou. Já sabemos o resultado da autópsia, já fomos chateados trinta vezes pela viúva, cinquenta vezes pelo advogado da família, e o Sinfrónio já passou de simplesmente morto a simplesmente podre. Seja como for, dá tempo para pôr as ideias em ordem.

      A profecia do Alfredo cumpriu‑se. Aqueciam os dias a anunciar a entrada do Verão quando a direcção da investigação fez chegar o douto despacho à secretária do Alfredo: "Cumpra‑se o disposto nos artigos tais e tais do Código de Processo Penal. Prazo: trinta dias."

      ‑    Mas dirigir a investigação é isto? ‑ perguntei perplexo.

      ‑     Claro! Ou o senhor quer trabalhar na ilegalidade? - rosnou o Chefe, maldisposto.

      ‑     Mas isso não chega para saber como o Sinfrónio apareceu morto a vinte quilómetros de casa.

      - Esse problema é nosso. Ou queria estar aqui de perna traçada à espera do ordenado no fim do mês?

      ‑     Pois, lá isso. Mas se o homem dirige, não é só mandar. É ensinar como se faz.

      ‑     Ernesto!

      ‑     Pronto, Chefe, já cá não está quem falou. E o estripador?

      ‑     O estripador acabou. Não há. Finish!

‑     Finish?

‑     O processo não é nosso, portanto acabou a conversa. Obrigado, Chefe.

‑     O problema é o Sinfrónio.

      ‑     Com esses artigos todos do Código de Processo Penal que vêm no douto despacho vai ser fácil.

      ‑     Voltamos à mesma, é?!

‑     Não é preciso. Eu sei o que aconteceu ao Sinfrónio! As palavras do Alfredo caíram na sala com o estrondo de uma manada de elefantes em fuga.

      ‑     Sabe?

      ‑     Sabes? Mas não leste os artigos do douto despacho.

      ‑     Se estivesse à espera do douto despacho sem comer já tinha ido desta para melhor.

      ‑     Por acaso, só te fazia bem. Estás gordo que nem uma vaca.

      ‑     Ernesto, deixe o Alfredo falar. Alfredo, diga!

      ‑     Não houve crime.

      ‑     É impossível.

      ‑     Não houve crime?

      O Chefe estava a ficar nervoso com as minhas interrupções. Levantou‑se e encarou o meu colega.

      ‑     Alfredo, não responda a este gajo. Não houve crime?

      ‑     Quer dizer, crime, crime não houve. Quem matou o Sinfrónio foi a cidade.

      ‑     A cidade?!

      ‑     O Chefe irrita‑se comigo, mas eu sei o que digo. O Alfredo está com os copos.

      Não me respondeu, cumprindo à risca as ordens que recebera.

      ‑     O Sinfrónio estava sozinho em casa. Lia o jornal e tinha a televisão desligada. Quando deixámos o cemitério passei lá por casa. A mulher não tinha mexido em nada. O jornal estava em cima do sofá, aberto na página das palavras cruzadas, e por baixo o isqueiro e um maço de tabaco onde só lhe faltava um cigarro. O candeeiro da sala ficou ligado. Portanto, o homem estava a ler. Telefonei para o Instituto de Meteorologia. Nessa noite, porque tudo se passou de noite, por volta das nove horas, a temperatura em Lisboa era de cinco graus. Ora não faz sentido um homem sair de casa sem um sobretudo, sem as chaves de casa, quase nu, sem uma razão qualquer muito forte. Fosse como fosse, saiu. Nem o telemóvel levou, pois estava no chão e com a pilha descarregada.

      ‑     Portanto... ‑ ia pensar o Chefe em voz alta.

      ‑     Das duas, uma. Ou sacaram o homem à força de casa. Do género toca a campainha, é telegrama!, o Sinfrónio abre a porta e três ou quatro meliantes carregam com ele sem que tenha tempo de perguntar pelo telegrama...

      ‑     Nós pensámos essa hipótese.

      ‑     É o teu problema. Como tens uma carola complicada, pensas logo em coisas complicadas. O segredo é outro. Pensar nas coisas mais simples. Mas és capaz de me dizer para que iam raptar o Sinfrónio? Alguém pediu resgate? Roubaram‑lhe alguma coisa de casa? Não. Nada. Mesmo que fossem uns tarados que quisessem violar o homem, faziam o serviço mesmo ali. Não precisavam de o levar para tão longe.

      ‑     Se era assim tão simples, porque não disseste nada à malta naquele dia que fomos ao cemitério?

      ‑     Queria confirmar umas coisas. Entre elas, qual o douto despacho que o nosso distinto director de investigação iria escrever.

      ‑     Era o que eu dizia. Quiseste pôr o homem sem saber se havia de cagar, se dar corda ao relógio.

      ‑     Não comento. Só havia uma hipótese, Chefe. O homem saiu de casa à pressa porque recebera ou fizera um telefonema que o deixou alarmado. O telemóvel no chão era isso. Quando acabou a chamada, abandonou‑o. Nem o desligou, fazendo com que a pilha descarregasse.

      Este passeio do processo pelas secretarias, gabinetes e coisas dessas deu um jeitão dos diabos. Pedi à viúva que quando chegasse a conta do telemóvel dissesse qualquer coisa. E ela disse. A última chamada que o homem fez eram vinte e uma e quinze. Como sabe, os números de telefone vêm discriminados na factura. Pelo número cheguei à pessoa com quem ele falou. O engenheiro Freitas Albuquerque.

      ‑     Quem é esse tipo?

      ‑     Deve ser descendente do Afonso Albuquerque.

      ‑     O Afonso Albuquerque?

      ‑     Sim, um tipo que há um par de anos se fartou de distribuir fruta entre os infiéis quando era governador da Índia.

      ‑     É pena que não saiba de investigação como de história. Deixe o Alfredo acabar.

      ‑     O Freitas tinha nas mãos uma alegria. Um cheque careca de cinco mil contos com que o Sinfrónio lhe comprara um carro.

      ‑     Cinco mil mocas? Careca?

      ‑     O homem ligou para todo o lado. Não encontrou o Sinfrónio e este, à noite, resolveu telefonar para saber o que é que o outro queria dele.

      ‑     Essa é velha. Não sabia que o tal Freitas estava aos gritos com o cheque careca.

‑     Não, não sabia. Enganou‑se no número da conta. Passou‑lhe um cheque de uma conta que não movimenta há não sei quanto tempo e não tinha mais do que uns trocados. O engenheiro estava de partida para Londres e diz‑lhe: ou isto se resolve ainda hoje, ou amanhã a minha secretária leva o teu cheque à bófia. O Sinfrónio dá pelo engano e grita‑lhe em pânico: eu vou já para aí. Deve ter apanhado um táxi. Sai na zona onde esse tal descendente do Afonso de Albuquerque mora, mas não se lembra da casa. Só lá tinha estado uma vez. Não tinha a direcção com ele, nem o número de telefone. Entra numa tasca que ainda estava aberta e pede a lista. O taberneiro contou‑me que se lembra de o ver, transtornado, folhear as páginas. Não valia a pena. O engenheiro tinha o número confidencial para não ter qualquer maluco a chatear‑lhe a molécula. Saiu desesperado, atirando com a lista telefónica para o chão. Há ainda um guarda‑nocturno que o vê a correr ofegante de rua em rua. Parecia que procurava qualquer coisa, disse‑me o guarda. E procurava a casa do primo ou filho, ou lá o que é, do Afonso de Albuquerque. Acabou por morrer numa rua paralela. Um enfarte que a autópsia descobriu, despachou‑o ali mesmo.

      ‑     E o engenheiro?

      ‑     Esperou, esperou. Como o outro não apareceu, partiu para Londres e mandou a secretária meter o cheque na bófia. Foi‑se embora pensando que o Sinfrónio o quisera enganar. Duas semanas depois, quando chegou, ficou a saber que o Sinfrónio morrera porque se tinha enganado no livro de cheques. É esta a história, Chefe. O único crime que existe é de cheque sem provisão que corre os seus termos nesta polícia, sob a direcção do douto delegado, contra um tipo que cometeu o crime já depois de ter morrido!

      Ficámos em silêncio. O Alfredo parecia o Sherlock Holmes quando se chega ao penúltimo capítulo do livro. Só faltava rematar com o clássico é elementar!, e ter um Watson ao lado que exclamasse, espantado de admiração: brilhante!

      O Chefe estava hesitante. Não sabia se haveria de rir de satisfação se embirrar com o Alfredo. Talvez por isso, a pergunta tinha saído, tipo salada mista:

      ‑     Foi um bom trabalho. Porque não me avisou que andava atrás dessa história?

      ‑     Porque não andava.

   ‑   Hen?

   ‑ Pois.

      ‑     Explique lá isso.

      ‑     E não mintas, Alfredo! Tens a mania de fazer caixinha. Explica lá isso.

      ‑    A única coisa que fiz foi falar com a viúva naquele dia. O resto soube jogando à bisca na tasca onde o Sinfrónio foi telefonar.

      - Jogando à bisca?! Oh, Alfredo, você está a gozar com...

      ‑     É verdade, Chefe. É que eu moro no bairro onde vive esse engenheiro Afonso de Albuquerque, primo do Freitas de Albuquerque que foi rei da Índia. Bastou‑me mudar de tasca onde jogo à bisca e ir fazendo umas perguntas.

      Dito isto, saiu.

      O Chefe caiu na cadeira, pensativo. Aqui, o pobre Ernesto na cadeira à frente dele, sem força para uma palavra.

      Pela janela entravam os sons dos eléctricos a cruzar a Gomes Freire e as sirenes de ambulância a caminho da Estefânia.

      Ao fim de cinco minutos, arranjei forças para dizer.

      ‑     Belo serviço, Chefe!

- É. O Alfredo sabe disto.

      ‑     Uma lição.

      ‑     Pois foi.

      - E agora?

      ‑     Agora, o quê?

      - Isso aí. O douto despacho que tem em cima da secretária!?

      ‑     Temos que cumpri‑lo.

      ‑     Mas o que o homem manda fazer não leva a lado nenhum.

      - E qual é o problema?

O problema não há. O caso está resolvido. Ernesto! Uma coisa é o caso, outra é o despacho. Já

que está aqui, trate disto. Vá ouvir as testemunhas, o médico‑legista, a viúva.

      ‑     E o engenheiro Albuquerque?

      ‑     Esse não. O douto despacho não fala nele.

      ‑     O senhor está a mandar‑me trabalhar para o boneco.

      ‑     Não. Estou a dizer‑lhe que cumpra ordens.

      ‑     São ordens disparatadas. O senhor não vê que...

      ‑     Acabou‑se a conversa. Acabou‑se! Estou farto de o ouvir refilar. Está aqui para cumprir ordens. O douto despacho é a mais sagrada das ordens. Ponha‑se a mexer daqui!

      Peguei no processo. Cabisbaixo, dirigi‑me à porta. Antes de sair, olhei o Chefe com tristeza.

      ‑     Chefe!

      ‑     O que é agora?

      ‑     Responda‑me só a uma pergunta. Com sinceridade.

      ‑     Qual pergunta?

      ‑     O senhor acredita naquilo que me disse?

      Hesitou. Percebi que apertava os dentes com raiva e respondeu‑me de olhar fixo na janela:

      ‑     Não! Infelizmente chegámos a este estado.

      Acenei a cabeça, pensativo. Fechei a porta e dirigi‑me à minha sala. Dois minutos depois estava a preencher notificações para cumprir o douto despacho.

 

CIDADE ASSASSINA

Uma das coisas que me chateiam no Alfredo são as tiradas filosóficas tão profundas quanto misteriosas. Digo isto e parece que é inveja por não conseguir chegar à morte do Sinfrónio como ele chegou. Mas não é. Alfredos há poucos. Também não há Eusébios e Pelés por aí a nascer em qualquer canto! Cada um é para o que nasce. O Alfredo foi fadado para ser detective, a minha sina ditou que fosse aprendiz de feiticeiro.

      Mas não me julguem tão mal. Admiro a inteligência e venero a sabedoria. O Alfredo, para mim, é um deus porque é inteligente, sábio e, ainda por cima, detentor de uma virtude rara ‑ é humilde. Talvez por ser tão grande. O que irrita nele é nunca dizer tudo à primeira. Manda uma boca, tipo pontapé para a frente, e só volta a tocar no esférico quando se prepara para marcar golo.

      Por exemplo, há bocado, quando começou a falar da malta, afirmou com uma solenidade que me deixou de cara à banda que quem matara o Sinfrónio fora a cidade. Diz uma destas e sai porta fora. Agora até que se explique vai ser o cabo dos trabalhos. Já folheei os Códigos de trás para a frente e da frente para trás e sobre a cidade, nada. Não consta nos arquivos da polícia nem novidades há que algum jornal tivesse lançado a suspeita de que Lisboa fosse passadora de droga, estranguladora de menores e, muito menos, não corriam rumores de que ela e o estripador fossem a mesma pessoa.

      - O tipo é bom, deixa a malta a pão e laranja com a maneira que tem de resolver os casos, mas diz coisas daquela boca para fora! ‑ comentei com o Bernardo.

      ‑     Não sei. Esta cidade é lixada!

      Olhei‑o desconfiado.

      ‑     Não me vais querer convencer de que um amontoado de casas e de pessoas a correrem de um lado para o outro é um bando de assassinos. Se calhar, uma associação criminosa.

      ‑     Ernesto, esta cidade não existe. Ou melhor, só existe em função da violência que gera. Se não fosse violenta não existia e para que exista necessita de violência.

      O Bernardo incomodava‑me por isto. Não conseguia falar a linguagem dos pobrezinhos. Tinha estudos, faltavam‑lhe meia dúzia de disciplinas para ser doutor e, em vez de acabar o raio do curso, resolveu encafuar‑se numa brigada de policias, cheirando a suor, infestada de pulgas e percevejos.

      ‑     Não percebi.

      ‑     O quê?

      ‑     O que disseste!

      ‑     Paciência. Estou sem pachorra para grandes explicações. Pensa só nisto. Imagina que, de repente, a cidade de Lisboa era cercada por arame farpado. Não podia vir para aqui trabalhar a multidão de maduros do Barreiro, passando por Almada, indo até Cascais e acabando em Vila Franca, que encharca as ruas em hora de ponta. Que acontecia?

      ‑     Isto era uma paz de alma. Não precisávamos de estar nas bichas do restaurante à espera de uma mesa.

‑     Boa, Ernesto! Não esperava tanto de ti.

      ‑     Vai gozar com o caraças.

      ‑     A sério, pá! E depois quem vive em Lisboa? Quem vem para cá trabalhar? São lisboetas? Ou é uma procissão de alentejanos, beirões, ribatejanos e sei lá quem mais?

      ‑     Muitos nasceram à volta. Na Brandoa, em Loures.

      ‑     Mas são lisboetas? Conhecem Lisboa? Ou doutra forma, Lisboa absorveu‑os, entregou‑lhes a sua identidade cultural? Numa outra perspectiva, há uma socialização urbana dos utentes da cidade, ou há conflitos culturais entre memórias passadas e impressão dos quotidianos que produzem as chamadas culturas suburbanas em permanente conflito com a cidade e expressando desajustamentos sociais graves? Por acaso conheces o teu vizinho do lado? Qual é o teu núcleo de interesses para além da polícia? Qual é o teu território, Ernesto?

      ‑     E se fosses à merda, Bernardo?

      ‑     Ofendi‑te?

      ‑     EsTás‑me a fazer dor de cabeça com essa treta toda. Não compreendo essas palavras de sete mil e quinhentos e não tenho pachorra para aturar intelectuais.

      ‑     Quiseste saber! ‑ lamentou‑se o Bernardo.

      ‑     A falar dessas coisas não há ninguém que pesque nada. Vou tomar um café.

      ‑     Ficaste chateado comigo.

      ‑     Não, mas fico à rasca. Ao menos o Chefe diz palavrões. Entendo‑os. Agora essa história de socializações, cheira‑me a reviralho.

      ‑     Mas ouve.

      ‑     Não oiço. Quando quiseres falar com o Ernesto, despe a fardamenta de intelectual. Não estou para apanhar um esgotamento por causa dessas palavras complicadas. Eu já volto!

Saí para tomar um café. O Bernardo não fazia por mal nem era para armar ao pingarelho. Ele sabia. Deixara a faculdade em meio, mas nunca parara de estudar. Lia tudo, aquele gajo. Sociólogo, antropólogo que filasse num escaparate qualquer, mandando bocas sobre violência, criminalidade e coisas afins, filava‑o logo. Parecia o doutor que era meu vizinho e comprava a crédito na livraria do Silva. Embora não fosse o mesmo exagero, o meu colega lia e, mais do que ler, sabia. Porque há tipos que lêem muito mas só para entreter, fazer pose e impressionar a roda de amigos.

      ‑     O gajo é sublime. Deu uma dimensão telúrica àquela personagem, estás a ver? Telúrica!, tirando o Tolstoi nunca vi nada assim.

      ‑     Mas falta interioridade, preocupa‑se pouco com os aspectos ontológicos.

      ‑     Sim, isso é verdade, a projecção introspectiva falha...

      ‑     E com uma escrita fragmentarizada. O homem está velho.

      ‑     Não acompanhou a pós‑modernidade. Continua um impressionista. Eh pá, e o Monet, Renoir e companhia já tinham dado o que tinham a dar. O Marinetti, o Francis Bacon estoiraram com esses tipos. Impressionistas, realistas...

      ‑     Há um problema escatológico para resolver. A arte, assim. Não sei.

      E ficam aquelas almas horas a fio resolvendo os problemas escatológicos da arte, testas franzidas de desespero, e a arte à espera que eles acabem o charro e o uísque com gelo.

      O Bernardo não ia atrás de capelinhas. Não tinha pretensões a reformador. Até era calado, educado, e acho que, tirando o Alfredo, era o único que o Chefe ouvia com atenção. Gostava de saber o porquê das coisas. Um porquê mais complicado do que o porquê que nos era pedido pelo Legislador. Enquanto para este interessava apenas saber quem matou, se tinha intenção de matar, porque matou, os porquês do Bernardo iam mais fundo. Não se contentava com esta inteligência simplista e medíocre. Perguntava degrau a degrau, cada vez mais fundo, e quando encontrava respostas ficava num silêncio tranquilo a saborear tudo como se tivesse acabado de papar uma lagosta.

      ‑     Traz‑me outro café, se faz favor!, hoje tive sorte. Trabalha neste café um empregado que nasceu na minha vila e que quando está de serviço me põe os cabelos em pé contando as aventuras que vive cada fim‑de‑semana que se escapa de Lisboa.

      Puxei de um cigarro, tenho que reduzir o tabaco, três maços por dia é de mais. Se calhar é a nicotina que me emperra os dedos quando enfrento a máquina de escrever. Não sei. Esta história de uma cidade assassina deve ser um arroto de personalidade do Alfredo. E aquela história do arame farpado do Bernardo cheira‑me a figura de estilo.

      A única coisa que sei é que existem muitas Lisboas dentro desta Lisboa, que vivem vizinhas, todas ao mesmo tempo, onde todas dependem de todas, propagando‑se em ondas, que ficamos sem saber onde acaba Lisboa e começa a Amadora ou a Buraca ou Odivelas. Os políticos falam de área metropolitana, mas desconfio que é demagogia. O único metropolitano que conheço vai de Alvalade à Cidade Universitária, muito embora estejam a esburacar o ventre da capital para o levar mais longe.

      Seja como for. Se Lisboa já não existe, se foi promovida a área metropolitana, não sei. Certo, certo é a multidão que vai e vem pelas ruas, que passa horas impacientes em bichas, que da Praça de Espanha ao tabuleiro da Ponte range os dentes entre as seis e as oito, mordendo revoltas impotentes. Que tem o esplendor das Amoreiras e o campo de concentração da Curraleira, entulhado de heroína, cheiro a suor e valas escorrendo de urina. Que é feita de Avenidas Novas e Alfamas tão antigas que sabem histórias de séculos de varinas e marinheiros, e que olhando para o Castelo, quando passamos na Praça da Figueira, nos lembra um conto de fadas e, ao viajarmos na Avenida de Ceuta, olhando o Casal Ventoso, sentimos arrepios de filme de terror. Não sei se são territorialidades ou confrontos culturais como prescreve o Bernardo. Mas conheço pequenas aldeias nadas e criadas, no Alto do Pina onde só vivem ciganos, em Benfica onde só vivem negros, que se multiplicam por centenas de outras, fechadas numa cidade aberta, esquecidas, ignoradas, e claro está recordadas de quatro em quatro anos quando toca a reunir para voto.

      Lisboa vive ao pulsar de multidões silenciosas, famintas de esperança, que escorrem por corredores cada vez mais apertados, murados por exércitos de desempregados, bandos de crianças condenadas a ser homens desde muito meninos, que comem fruta roubada, dormem em casas abandonadas e cheiram cola para adormecer, sonhando mundos fantásticos iluminados de afectos e ternuras. A cidade abre as entranhas e não distingo a solidão das velhas enfeitadas de fantasias, lendo as revistas da coscuvilhice social na Suprema ou na Mexicana, da solidão dos toxicodependentes que preparam a morte no muro das lamentações, da solidão de contingentes de idosos que, cabisbaixos e olhares vazios, esperam a morte em asilos espúrios, infectados de desprezo. Não sei se o Bernardo tem razão, mas a cidade que acorda para a vida, que se agita febril pelas ruas, escritórios e centros comerciais, vive cruzada por medos que gargalham, roncam e gritam, fechando os rostos que correm apressados para a bicha do eléctrico. Posso enganar‑me, que eu não estudei estas coisas, apenas as sinto, vejo‑as, vivem connosco, cada vez que o nosso carro parte a caminho de bairros, de casas, de espaços cruzados por homens hirtos, inquietos, com a ansiedade estampada no rosto.

      Tivesse eu jeito para o estudo, como desejava o Chico Ranhoso, e estaria aqui a discutir com o Bernardo, pois não haverá melhor laboratório para estudar a cidade do que este punhado de brigadas por onde desfila dia após dia a indignação, o sofrimento, a revolta, o ódio, a alegria, o encontro e o desencontro. Uma pessoa vê tantas coisas! Muitas que entende, outras que não percebe, algumas que lhe provocam repulsa, muitas mais que nos deixam à rasca porque uma lágrima se quer escapar ou uma migalha de ternura nos estremece nas mãos, que mesmo sem querermos somos obrigados a sentir a cidade.

      Talvez seja isso que o Raul costuma dizer:

      ‑     O maior problema desta gente é a solidão!

      ‑     A solidão?

      ‑     É como o soneto de Camões. Andam solitários entre as gentes, enquanto nós servimos a quem serve o vencedor.

      O Raul teria razão. Talvez a solidão fosse o manto mais negro que cobria a cidade, mas ela vivia rodeada de outros medos, qual corte de fantasmas reinando e comandando os destinos de mortos‑vivos. O medo do desemprego será o camareiro da solidão, o medo da noite ‑ o aio, o medo da doença ‑, a dama de companhia, o medo de ser assaltado ‑ o pajem, o medo da droga ‑, o escudeiro, o medo da polícia ‑ o moço de estrebaria, o medo de envelhecer ‑, o amante privativo, o medo da morte, pai do medo de todos os medos ‑ o patriarca Abraão olhando Lisboa do alto do Parque. Talvez fosse o maior inquilino da cidade, que assustava as mães que acorriam a levar os filhos a jardins‑de‑infância, que nem eram jardins nem eram de infância, onde os mais novos aprendiam o medo; que fazia despertar bancários e inspectores de seguros às quatro da madrugada para estacionarem o carro junto do local de trabalho e dormirem o sono da manhã enroscados entre o volante e a caixa de velocidades, que fazia os Ernestos servidores dos servos dos vencedores calarem raivas, bramarem ironias, sorrirem de escárnio, ironizarem com os vencedores que prometiam novas terras, novos mundos, novos sonhos, ignorando que eram vencidos, desconhecendo as alquimias da redenção que os homens ansiavam, porque o mundo que clamavam em palavras era do tamanho do seu umbigo egoísta e devotado.

      Nenhum vencedor sabia que D. Sebastião morrera. Nenhum se incomodou em descobrir que medos são estes que empurram as pessoas para a frente, que as fazem voltar as costas aos vizinhos, que as torna sisudas, medrosas, encolhidas com medo do futuro que se adivinha em cada aurora. A cidade grita de mãos estendidas para que a salvem dos medos e do desespero de tantas solidões, mata para se salvar, sem perceber que em cada morte mirra o abraço solidário, mingua o sorriso fraterno, se esquece a palavra amigo.

      O Alfredo tinha razão. A cidade, às vezes, mata.

 

A MORTE ERA UM HÁBITO

Quando entrei para a bófia, a bófia chamava‑se Judite. Nome feminino que sugeria cumplicidades, paixões, uniões sedimentadas pela proclamação condenatória do estilo até que a morte vos separe, e recordo que essa palavra era vulgar na boca dos colegas mais velhos. A morte era um hábito, um quotidiano, um acontecimento tão trivial como a peregrinação à carrinha das bifanas que às três horas da madrugada se instalava na Praça José Fontana, local certo de romaria para os polícias que da noite faziam o seu dia de trabalho.

      O casarão da Gomes Freire era habitado por esses homens de rosto fechado, ricto endurecido por mil mistérios e, nunca mais vou esquecer, que se movimentavam como sombras, silenciosas com gestos calmos. Só os olhos brilhavam. Um brilho de prata incandescente que denunciava os segredos calados, as confidências nunca reveladas, as verdades tristes recolhidas da tristeza da vida que, dia após dia, desembocava no piquete da polícia. Que homens são estes?, perguntei várias vezes, perplexo, sem compreender os silêncios profundos, as frases lacónicas, os ombros curvados, Tântalos sequiosos, carregando a fome e a sede com que se alimentavam as desgraças dos outros. Descobri com o correr do tempo que eram assim porque conheciam a morte, esse momento único e mágico que ninguém pode conhecer.

      - Há aqui homens que levantaram mais cadáveres do que cabelos tens na cabeça! ‑ disse‑me uma vez o Casimiro, cansado da perplexidade, e rematou num trocadilho: ‑ Sabem mais da morte do que alguma vez tu saberás da vida e por essa razão conhecem a vida como jamais alguém conhecerá a morte!

      Era complicado para a minha pobre cabeça. Entendia que polícia era um investigador que pegava em indícios como quem pega em pauzinhos de fósforos e reconstruia histórias vividas que acabavam com o carimbo vermelho em capa do auto de notícia com o rótulo de "crime". Era assim como o Perry Mason, advogado‑detective que resolvia na barra do tribunal o puzzle de peças intrincadas que o assassino criara para fugir ao dedo acusatório da justiça e, mais perto do real, a pachorrenta paciência de Maigret arrefecendo cachimbos à velocidade com que arrefecia as meninges durante os passeios de quilómetros nos poucos metros do seu gabinete no Quai de Orfévres. Nenhum deles olhara para um cadáver mais do que o tempo suficiente para que o romance policial tivesse argumento forte para desenvolver a intriga. Já para não falar de Sherlock Holmes, cujo desprezo pelos mortos e a exaltação do exercício da razão o transformou, para grande desilusão minha, no mais idiota dos polícias.

      ‑     Os mortos dizem mais verdades sobre os crimes do que a maior parte dos vivos! ‑ proclamava o meu Chefe cada vez que o telefone repenicava anunciando mais um cadáver para examinar. E diziam. Ao princípio, ficava hesitante entre o vómito e a repugnância, quase escondido do olhar dos meus colegas que lhe apalpavam o crânio, lhe descobriam o peito, examinavam a roupa com a lentidão com que se vasculha minuciosamente cada milímetro de corpo.

      ‑     Levou o tiro na outra sala. Onde começa o rasto de sangue!...

      ‑     O segundo tiro foi aqui. O ranhoso que o matou disparou de baixo para cima, da esquerda para a direita. Despachou‑o à queima‑roupa. Olha a orla junto ao orifício de entrada da bala.

      ‑     Tem as unhas cheias de uma porcaria qualquer...

      ‑     É cera do soalho. Repara nos sinais das unhas no chão.

      ‑     O parietal está desfeito! Morreu de bruços. Os livores cadavéricos estão fixados no peito.

      ‑     Morreu há bastante tempo. A rigidez cadavérica está a desaparecer... talvez anteontem...

      ‑     O tipo que o matou era mais baixo do que ele!

      ‑     E conhecia‑o. Abriu‑lhe a porta e estiveram sentados no sofá a falar antes do primeiro disparo.

      Eu, pobre Ernesto medroso da morte, ficava ali a ouvi‑los discutir sobre um corpo inerte e sujo de sangue coalhado, como se estivessem à mesa do café prognosticando o resultado do próximo Sporting‑Benfica, entre duas bicas.

      Há um tipo francês, um tipo marado da corneta, que resolveu escrever sobre a morte. Um dia fui lê‑lo na esperança de nele encontrar a explicação para este convívio com os cadáveres que entregava aos homens da Gomes Freire a dimensão de sombras misteriosas com olhos faiscantes de prata. Não encontrei a explicação que procurava, mas descobri a mais terrível das verdades. Terrível porque a sua evidência é tão quotidianamente vivida que custa aceitar que não nos acompanhe como acto assumido. Vamos morrer em dia e hora que desconhecemos, e sabemos que esse dia e essa hora chegarão, talvez hoje, talvez daqui a cinquenta anos, talvez de manhã, talvez à noite, talvez quando menos se espera. Mas esta certeza encerra uma recusa. Ninguém quer que chegue esse dia, essa hora, acreditando numa ilusão, num sonho que cabe na palma da mão mas que se amplia como os ecos de um trovão, invadindo os sentidos, cimentando os alicerces da confiança ingénua e ao mesmo tempo tão solidamente assumida que nos garante a certeza de que a imortalidade é possível. Vamos morrer e queremos ser imortais. Marcar encontro na encruzilhada das crenças com a eternidade, dominando o tempo por forma que a vida parta por aí, através de todos os milénios da história por viver. Por isso, os cadáveres que os meus colegas manipulam na repugnância dos meus medos se transformam no testemunho irremediável de que o sonho da imortalidade não passa de um pesadelo donde ninguém desperta.

      ‑     Se acabasse com a filosofia barata e escrevesse os relatórios que tem atrasados, ganhava mais! ‑ rosnava o Chefe, incomodado com a confusão que eu armava. ‑ Para mim, há vida para além da morte e acabou‑se a conversa!

      ‑     Sobretudo, depois da morte acaba‑se a conversa! - ironizava o Diogo.

      - Porquê?

      ‑     Porque quando damos o peido mestre, Chefe, acaba‑se o piar.

      ‑     Não sei, não sei! ‑ duvidava o Jorge. ‑ Na minha rua há uma gaja que chama os mortos e fala com eles. É vidente!

      ‑     É bruxa!

      ‑     Chama‑lhe o que quiseres. Mas que fala, fala!

‑     Como é que sabes isso? Já lá foste alguma vez?

      ‑     Por acaso, não fui. E se fosse qual era o mal?

      ‑     Nenhum. Até me fazia um jeito. Dizem que há um tipo da minha terra que antes de morrer enterrou um baú cheio de ouro num sítio desconhecido. Se lá fores, diz à senhora que fale com ele e o convença a abrir‑se com o lugar onde achantrou a massa...

      ‑     A mulher faz curas, pá! Põe coxos a andar e cegos a ver.

      ‑     Se me garantisses que punha o Sporting a ganhar o campeonato, amanhã estava lá caído!

      ‑     Não acredito nessas merdas. Bruxas, videntes, pastores, padres e companhia são os profissionais daquilo que o Ernesto falava. Da confiança que queremos ter de que somos imortais, fazendo de conta que a morte é a mesma coisa que um espirro!

      Esta tirada do Alfredo deixou‑me encantado. Até me levantei da secretária onde desgraçava o teclado da máquina para despachar relatórios.

      ‑     Estão a ver? Afinal o Alfredo concorda comigo.

      ‑     Concordo, o caraças! Sei que vou morrer, mas dá‑me um jeito do caraças acreditar que isso é mentira.

      - Porquê?

      ‑     Porque assim, ao menos, tenho uma razão para vir trabalhar.

      ‑     Apoiado!

      ‑     Sebastião, pá!... Ainda esta manhã estavas a dar volta a um cadáver com dois balázios na corneta. Tiveste a morte nas mãos. Não me venhas com essa cantiga. Tu sabes como é!

      ‑     Não. Não sei!

      ‑     Não sabes?

‑     Não. Porque eu mexi num morto e não na morte.

Quem estava lixado era o Raul.

      ‑     Vocês podem acabar com essa conversa de merda? Não basta ter que chafurdar nisso todos os dias para ainda estarmos a gastar tempo com tretas?

      - Por mim, tudo bem. Mas uma coisa é certa. Aquela mulher da minha rua fala com os mortos. Então com o Sousa Martins é tu cá, tu lá!

      O Chefe reentrou na sala e pôs ponto final na conversa.

      ‑     Ernesto, Jorge, vão à morgue. Está lá uma mulher que é capaz de nos interessar.

      ‑     É boa, Chefe? ‑ perguntou o Diogo, mais uma vez interessado.

      ‑     Sei lá se é boa. Está morta!

      ‑     Pois, é capaz de ter razão. Na morgue vulgarmente as pessoas estão mortas.

      ‑     E se em vez de dizer parvoices fosse trabalhar? Fomos. A mulher não era nem boa nem má. Transformara‑se num corpo com os ossos da cabeça serrados, o cérebro em cima de uma bandeja e mostrando descaradamente pulmões e intestinos. Cheirava a talho. O cheiro doce da carne fresca e mais uma vez rompi a promessa de deixar de fumar, aspirando nervosamente o fumo que afastasse o odor pegajoso que as vísceras exalavam.

      ‑     Então, doutor Moisés, qual é a novidade?

      ‑     Não há!

      ‑     Não há? Mas o senhor telefonou a dizer que havia um caso para a gente.

      ‑     E desde quando isso é novidade? Olhem‑me para isto. Isto, era a massa de intestinos, fígado, estômago da mulher espalhados em cima da mesa da dissecação.

      - São tripas! ‑ observou o Jorge. ‑ E depois?

‑     Depois, meu caro, este baço e este pâncreas estão numa lástima! ‑ lamentava‑se o Moisés, e eu ficava sempre embasbacado com as considerações anatomo‑patológicas do velho médico‑legista.

      ‑     Tem um fígado bonito, e ainda por cima o coração está uma maravilha!

      ‑     Uma maravilha, doutor Moisés?! Chamou‑nos aqui para apreciar esta mulher feita em pedaços?

      Olhou‑me com um sorriso misterioso e meneou depreciativamente a cabeça.

      ‑     Estás a esquecer uma coisa, filho. Os mortos falam!

      O Jorge olhou o cadáver com atenção. Depois enfrentou o médico:

      ‑     E já conversou com este cadáver? O que é que discutiram? Futebol? Modas e bordados?

      ‑     Jorginho, já me conheces há mais anos que aqui o idiota do Ernesto para saberes que não gosto de faltas de respeito para com os mortos.

      ‑     Pronto, já cá não está quem falou! Que lhe disse a mulher?

      Pigarreou, puxou do quarto cigarro desde que chegáramos à morgue e respondeu:

      ‑     O cadáver entrou aqui como tendo sido vítima de morte súbita. Vulgarmente são acidentes cardiovasculares. Estão a ver aqueles dois que estão naquelas macas? Marcharam com enfartes. Um deles com um enfarte fulminante. Nem tempo teve de dizer, ai! Esta mulher chegou com o mesmo diagnóstico provisório.

      Parou para aspirar o fumo do cigarro e continuou:

      ‑     Não foi nada disso. Tem o baço e o pâncreas desfeitos. Morreu vítima de agressão. Possivelmente a pontapé e era capaz de jurar que quem a matou usava botas de biqueira pontiaguda.

‑     Porquê? ‑ perguntei impressionado.

      ‑     Porque tem várias infiltrações na parede abdominal. No mínimo, quem a matou ferrou‑lhe cinco pontapés.

      O Jorge mordeu os lábios, pensativo.

      ‑     Ela não lhe disse mais nada?

      ‑     Filho, se me contasse tudo para que é que servia a polícia?

 

MORTOS QUE FALAM

O Dr. Moisés sabia falar com os mortos ou, neste caso, os mortos contavam‑lhe coisas, desvendavam segredos que o silêncio da morgue não deixava transparecer. Talvez fossem esses segredos que o tornavam tão resmungão. Desconhecia o nome do primeiro‑ministro, ignorava qual o cantor que estava na moda, mas conhecia os recantos dos últimos pedaços de alma que ficaram encalhados nos corpos putrefactos que lhe cercavam os quotidianos. Uma vez disse‑me:

      ‑     O que assusta os vivos não é apenas a ideia da morte. É saber‑se que ela destrói, que apodrece a carne, que transforma o belo no disforme, o cheiro suave em odores ácidos!

      O velho médico‑legista tinha razão. A podridão é um mundo de horrores que fez a fortuna de vendedores de detergentes e perfumes. Cheirar mal, a sujo, os líquidos negros que escorrem pelos esgotos a céu aberto nos bairros de lata são profanadores da sacralidade da vida feita de sol, de sorrisos, de gestos belos e grandes.

      Estas ideias vieram‑me à cabeça quando ouvi o Jorge praguejar. Descuidado, metera o pé num charco de água fedorenta que escorria da porta da barraca ao lado daquela onde vivera e morrera a mulher que o Dr. Moisés nos mostrara, espalhada em pedaços, na mesa de autópsia.

      Foi uma voz rouca e arrogante que nos perguntou: quem é?, quando batemos à porta. O vozeirão denunciava o dono. Um tipo enorme, com mãos de tenaz e um tufo de pêlos a saltar‑lhe pela abertura da camisa, enfrentou‑nos:

      ‑     Há azar?

      O Jorge, olhos nos olhos com ele, ripostou:

      - Há! Tem duas nódoas de vinho tinto na camisa.

      A resposta desconcertou‑nos. O homem olhou instintivamente para a camisa e eu para o Jorge sem perceber o raio da conversa.

      ‑     E depois? esTá suja. Foi para isso que me bateram à porta?

      ‑     Não. Queria informá‑lo que o corpo da sua mulher está na morgue. Foi ela que nos pediu que viéssemos aqui.

      Deu um passo ameaçador na direcção do meu colega, mas estacou.

      ‑     Ela pediu...

      ‑     É verdade! E também que nos explicasse porque lhe deu aqueles pontapés na barriga. É que morreu sem perceber porquê...

      Vocês conhecem o milagre das rosas? Há duas versões. Uma que mete reis, rainhas e povo com fome. Outra, mais actual, que mete guarda, cavalos e ladrões. Como isto são histórias de polícias opto pela segunda, já que polícia, guarda, arrumador de carros é tudo a mesma coisa.

      Andava no Alentejo a roubar azeitonas nos olivais de Moura um vadio que dava pelo nome de Bitolas. Ninguém sabia donde viera, alguns mais temerosos das suas façanhas contavam lendas que o davam como nascido na noite de São Bartolomeu, filho unigénito do Diabo, e poucos se atreviam a predizer para onde iria. Que era ladrão de muitas manhas e actos não havia dúvidas. Pilhava galinheiros, vestia‑se de roupas que nos estendais as mulheres deixavam a secar ao sol, conhecia as entradas de todas as adegas, que invadia pela calada da noite bebendo directamente das pipas de vinho que, acabada a orgia, deixava a correr até à última pinga. Tinha o sortilégio dos ciganos. Aparecia e desaparecia como se tivesse um pacto com o vento que, ao mínimo sinal de perigo, o transformava em remoinho, escondendo‑o nas matas e covis que cercavam o povoado. Mas, nesse dia em que o Bitolas roubava os olivais prenhes de azeitonas, o vento esqueceu‑se dele. Uma patrulha da guarda ferrou as esporas nos cavalos, o Bitolas não teve tempo de esconder o saco e, cambaleante, perante tão inusitada visita, olhou suplicante as duas fardas que o contemplavam do alto das suas alimárias e, segundo a tradição oral dos contos nunca escritos, tê‑los‑á interpelado:

      ‑     Boa tarde, meus senhores. Ao que vindes?

      ‑     Bitolas! ‑ teria dito um dos guardas, iludindo a pergunta e dedo espetado indicando o saco. ‑ Que levais no regaço?

      Ao que o Bitolas, ar seráfico e sorriso luminoso, respondeu:

      ‑     São rosas, senhor!

      ‑     Mostrai‑mas, então!

      Bitolas, vadio de profissão, filho do Diabo e irmão do vento, baixou humildemente a cabeça, abraçando com mais força o saco contra o peito.

      ‑     Quereis vê‑las?...

      O guarda foi tonitruante:

      ‑     Mostrai‑me já essas rosas!

Hesitou. As mãos estremeceram de emoção e largou o saco, que se abriu aos seus pés desnudando azeitonas a correr saltitantes pelo terreno rugoso do olival.

      Dizem os antigos que o céu se encobriu de repente, que os pássaros se calaram, que as cigarras deixaram à uma de cantar, que as folhas se aquietaram à brisa que afagava as oliveiras, que os cavalos dos guardas quiseram tomar o freio nos dentes e terá a terra tremido quando o Bitolas caiu de joelhos, mãos postas, e louco de felicidade, olhando a Deus, exclamou:

      - Milagre! As rosas transformaram‑se em azeitonas!

      Vem esta história que busquei no fundo do tempo a propósito do homem que agora estava à nossa frente. De súbito, mirrou. As manápulas ficaram nervosas como as mãos de um bebé, o vozeirão desmaiou num balido, o corpo tremia‑lhe de frio, ou talvez medo, quando num murmúrio balbuciou:

      ‑     São da polícia?

      Não tivesse visto as vísceras da mulher contar os horrores que sofreram à mercê das botas do gigante e eu iria jurar que aquele menino frágil não podia ter morto ninguém.

      ‑     Porquê? ‑ voltou o Jorge à carga, como se não tivesse visto nem ouvido nada.

      Meneou vencido a cabeça desgrenhada.

      ‑     Não pensei. Perdi a cabeça!

      E desatou a chorar em roncos que ecoavam pelo bairro de lata, assustando os cães vadios que desataram a ladrar sem que soubessem porquê.

      Não voltou a abrir a boca. Nem mesmo quando, na polícia, o Diogo lhe atirou com desprezo:

      ‑     Só és valente a bater em mulheres. Devias ter marrado comigo. Partia‑te todo!

      O Raul levou‑o para os calabouços. Na brigada ficou um silêncio constrangedor.

‑     O tipo é uma besta!

      ‑     Só porque matou a mulher?

      ‑     Eh pá, dar‑lhe umas lambadas vá que não vá, agora matar. Porra!

      ‑     Quer dizer, bater não tem problema. Só matar.

      ‑     Não foi isso que eu disse. Mas, enfim, entre marido e mulher ninguém mete a colher.

      ‑     É por palermices como essa que elas levam no focinho e ninguém faz nada!

      ‑     Para fazer alguma coisa é preciso que se queixem. Não se queixam e, quando o fazem, passada meia dúzia de dias vêm dizer que desistem.

      ‑     Gostam de levar nas trombas!

      ‑     Não sejas ordinário. Ninguém gosta de levar porrada...

      ‑     É complicado.

      ‑     O quê?

      ‑     Isto tudo. Mulheres espancadas, homens que batem até matar, crianças maltratadas, o nosso país é isto?

      Ficaram a olhar para mim. De facto, a tirada fora grandiloquente, cheirando a oratória parlamentar, coisa imprópria para ser usada numa brigada que cheirava a sofrimento, sem direito a passadeira vermelha, chão pejado de nódoas da enxúndia que escorria do quotidiano da cidade.

      - Se tens dito de outra forma, tinha batido palmas!

      ‑     Como?

      ‑     As mulheres e os homens são isto? Ou pensas que é só em Portugal que elas comem e calam?!

      O Sebastião tinha razão, facto que o colocava em conflito com a razão do meu Chefe quando proclamava do alto do seu comando: só existe o que está na lei. A lei é a vida!

      Olha, eu a falar nele e o homem a entrar, carregado de papéis que vai distribuindo pelas secretárias.

Ainda bem que entrou. Outro dia chamou‑me asno porque lhe disse que a vida vai muito para além da lei. Não se lembra? Pronto, é só cheirar‑lhe que a conversa lhe desagrada, esquece‑se. Mas eu lembro‑o. Para o senhor, o Legislador é o caminho, a verdade e a vida. Ele é tudo e, por isso, o que ele não sabe, não existe. Veja as mulheres espancadas, Chefe. Pode parecer uma das minhas parvoices, mas é assim! Aqui o Diogo, às vezes, quando está com os azeites, manda umas lambadas nuns ranhosos que não sabem fazer outra coisa senão roubar, violar, matar. Têm deixado o rabo do Diogo em brasa com processos disciplinares e descasca nos tribunais que eu nem sei como ele ainda não foi às trombas de um advogado qualquer. Portanto, o Diogo bate, é crime. Um tipo chega a casa, ou porque o Benfica perdeu, ou porque um outro animal o insultou na bicha para casa, ou porque o chefe dele, não é o senhor, o chefe dele lhe axocrinou as orelhas, vai daí, anda cá ó santa esposa que vais ver com quantos paus se faz uma canoa. E lá vai disto! O que é bizarro é a promessa no dia do casamento. Prometem amor e ajuda mútua até que a morte os separe. E a promessa de amor lá vai pelo cano abaixo a toque de porrada. Pelo menos, o Diogo não promete amor eterno aos gatunos. Nem amor, quanto mais eternidades. Com ele vem marrar toda a gente. Desde o Chefe aos jornalistas, que se pelam por ver um bófia malhar com os ossos no banco dos réus. O artista que deixou a mãe dos filhos a pão e laranja é absolvido por toda a gente e é a desgraçada que ainda fica na merda, se chega à polícia e diz: o meu marido bateu‑me! Afinal, no meio deste jogo todo, onde pára a polícia? Ofensas corporais é crime grave quando é o Diogo que molha a sopa, quando se trata de um marido frustrado lá vem a conversa de que entre marido e mulher ninguém mete a colher. O Legislador das duas, uma: ou embirra com o Diogo ou é panasca. Não gosta de mulheres.

      Mas prendemos este!

      Porque matou. Matar está na lei, portanto é vida. Mas na lei não estão escritas as lágrimas humilhadas, a hesitação entre acabar com a violência ou armar‑se de paciência necessária à espera do dia, de um dia que possivelmente nunca chegará, em que o pai dos filhos deixe de descarregar em si a cobardia que o cala quando o chefe, não é o senhor, é o chefe dele, lhe faz voz grossa. Na lei não está esse tempo de amargura, de fêmea ferida que estrebucha num silêncio de lágrimas, calando revoltas, mordendo raivas, abrindo as asas cansadas sobre as crias. O Legislador e os seus servos chamam‑lhe a cifra negra. O conjunto de crimes que a polícia e os tribunais não conhecem. Por isso não existem. Porra, Chefe! Não existem? Ou a porra da vida de milhares de mulheres é do tamanho de um zero, sem direito a um grito, a um banal grito de protesto?

      ‑     Oiça lá, e os relatórios que lhe pedi'? ‑ o Chefe estava irado.

      ‑     Faltam‑me dois. Estão quase.

      ‑     Então acabe com essa porcaria antes que o inspector venha chatear.

      ‑     Quer dizer, não tenho razão!

      ‑     Tem, mas não tem!

      O Casimiro deu uma gargalhada.

      ‑     Eh, Chefe, essa foi profunda! Troque lá isso por miúdos.

      ‑     O que é que a polícia pode fazer? Vá, digam‑me.

      ‑     Nada!

      ‑     Então, se não pode, o Ernesto tinha razão mas perdeu‑a. Porque somos polícias, mais nada. Acabou‑se a conversa e toca a trabalhar.

 

 


DROGAS

 

O cadáver estava deitado de lado, encolhido de tal forma que os joelhos tocavam a cabeça. Parecia que morrera com frio. Se calhar era a verdade. A morte é fria e indiferente. Pega‑nos pelo gasganete e duas sacudidelas bastam para nos roubar o último alento de vontade com que nos prendemos à vida.

      Nunca me deixou de impressionar a indiferença dos mortos. às vezes, quando um homicídio mais complicado me obriga a assistir à autópsia, não sei porquê fico sempre à espera que o morto grite quando o técnico lhe enterra a faca no peito para rasgar pele e músculo até ao abdómen. Bem sei que há uma voz interior a gritar‑me: não sejas parvo, Ernesto! O homem está morto. Mas, seja como for, não deixa de me espantar a indiferença quase lasciva, com que se deixa cortar sem um esgar de dor ou um gemido de protesto.

      A morte na morgue é diferente da morte na capela mortuária e os cadáveres espalhados pelo chão da cidade são bem mais feios que os outros que mandaram a vida às urtigas deitados em leitos assépticos de clínicas e hospitais. Talvez eu esteja enganado e só haja uma morte na qual se albergam todos os mortos.

- Dá‑me uma ajuda. Precisamos de voltar o corpo! - pediu‑me o Jorge.

      Puxámos os contentores do lixo e com os pés afastámos as espinhas de peixe que partilhavam o recanto do vão das escadas onde o rapaz morreu. Disse ao Jorge:

      ‑     Não vale a pena mais voltas. Olha aí a causa da morte.

      O Jorge acocorou‑se para agarrar uma colher e um pedaço de limão abandonados junto às pernas.

‑     Overdose!

      ‑     Mais um!

      ‑     Dantes era de vez em quando, agora é todas as semanas.

      Com um ligeiro empurrão no ombro fez rolar o cadáver, que ficou de olhar vítreo pregado na escada em caracol. Cravada no braço esquerdo pendia uma seringa.

      ‑     O tipo é só ossos. A droga comeu‑o antes de o matar!

‑ exclamou o Jorge, e voltou à pergunta de sempre: ‑ Como é possível chegar a isto?

      Não sei. Estou para aqui a escrever sobre esta memória de mortos descarnados, sugados pelo vício, e juro‑vos que esta alma de polícia, pistola à cintura e vozeirão autoritário, estremece de perplexidade face ao poder da heroína. O Legislador não sabe. Nem os políticos que prometem a salvação. Nem os padres que garantem a verdade salvífica. Porque nunca voltaram um cadáver expurgado de vida até ao tutano dos ossos, que morreu muito tempo antes, no tempo em que ainda se julgava vivo. Porque a droga é omnipotente, de tal maneira sôfrega de vida que o seu primeiro gesto é conquistar a liberdade de quem a consome, tornando‑se num garrote de vício que molda a vontade de ser livre à incessante necessidade de se alimentar com uma dose, mais outra dose, até ao dia em que um polícia puxa o cadáver do vão da escada.

‑     Como é possível chegar a isto? ‑ repetiu o pai do rapaz quando lhe demos a notícia. Deixou‑se cair num sofá, olhar cheio de memórias magoadas, que foram gravadas na procissão dos dias sem esperança

      ‑     Tratámos de tudo. Fez três curas, voltava sempre ao mesmo. Obrigou‑nos a viver com as portas fechadas à chave porque nos roubava tudo. Depois saía daqui e ia roubar os outros. Foi overdose, senhor agente?

      ‑     Deve ter sido. Lamento o que aconteceu.

      Não respondeu ao Jorge, e não sei porquê fiquei com a impressão de que ele não lamentava nada. Quase que se lhe adivinhava um suspiro de alívio nos lábios, enquanto as rugas que lhe vincavam a fronte rememoravam lamentos antigos que começaram no dia em que o acaso lhe batera à porta para lhe dizer sem rodeios: o teu filho injecta‑se!

      Nesse dia, imagino eu agora reparando‑lhe na crispação do rosto, procurou desesperadamente a bússola que existe dentro de cada um de nós, em busca da direcção para onde fugiria daquele acaso que lhe dissera, nas palavras por dizer: vai por aí e descobre como salvas o teu rapaz. Terá corrido pelas ruas implorando ajuda aos sábios que, de cabeção ou bata branca, o olhavam condescendente prometendo‑lhe piedosas salvações ou curas milagrosas. Terá penitenciado pecados que não cometeu, trocado com a mulher actos de contrição por culpas inventadas que lhe atiravam para cima as responsabilidades com que desculpara o filho e a pergunta sempre repetida, milhares de vezes repetida em milhares de apartamentos da cidade, ficara sem resposta: onde é que nós errámos?

      Juro‑vos que não foi nada disto. E quem sou eu, polícia pelintra que nem habilidade arranjou para dedilhar uma máquina de escrever como quem dedilha uma guitarra, para dizer a este pai sem lágrimas que a culpa talvez seja de todos nós?! E repito talvez, porque acredito que os arautos da esperança, os profetas adormecidos que despertam em vésperas de eleições ou quando se acendem os projectores da televisão, conhecem alquimias que escapam aos mortais entontecidos pela procissão de jovens destruidos, roídos pelo vício até ao tutano, lúpen dos cadáveres adiados que Fernando Pessoa inventou.

      Dizem‑me que não, mas eu insisto que sim. Fui treinado, domesticado, convencido a acreditar que a fonte que segrega o poder é a mesma donde brota a sabedoria e que a sapiência, a nobre arte que se alimenta da humildade de questionar cada certeza certa, é um exercício mágico que rasga os caminhos onde nos espera o futuro. Por isso é que ao ouvir legisladores, profetas, iluminados doutores, ilustres abades discursando em palcos de comicio, em púlpitos de fé, em debates televisivos, renasce dentro de mim a centelha da fé que me levou à primeira comunhão depois de uma catequese onde fui considerado aluno exemplar. Os sábios que oiço produzem discursos luminosos, metáforas encantatórias, convicções tão decisivas que solta‑se‑me o impulso de rezar, pedir aos deuses de todo o panteão religioso que lhes garantam longa vida e longos anos investidos no poder sacralizado que lhes outorga o direito de pensar por nós e, acima de tudo, de decidir por nós.

      O Casimiro não me perdoa a fé.

      ‑     Ernesto, és um totó do caraças!

      Ao que o Sebastião acrescenta:

      ‑     São tansos destes que dão mau nome à polícia!

      ‑     Eh pá, vocês são lixados. Claro que eles sabem como combater a droga. Fartam‑se de dizer que o problema não é da polícia, é da sociedade e essas coisas.

      ‑     Olha lá, e a sociedade sabe?

      ‑     Se acabasse a droga, era a ruína do país.

‑     EsTás maluco!

      ‑     Ai, estou? Imaginem só isto. Acabavam a maior parte dos assaltos.

      ‑     Era bom. Diminuíam os processos.

      ‑     Era mau. Ficavam centenas de advogados com as calças nas mãos e os servos do Legislador sem voz para gritarem que tinham falta de meios.

      ‑     E qual era o mal? Era da maneira que sobravam os meios.

      ‑     Mas diminuía‑lhes o poder, meu caro Ernesto. O poder vicia mais do que a heroína.

      O Diogo, de dedo espetado, deambulava pela brigada enumerando argumentos.

      ‑     Centenas de médicos perdiam o emprego, milhares de enfermeiras e assistentes sociais iam para o caraças, dezenas de empresários ficavam com as clínicas de recuperação às moscas.

      ‑     Para já não falar na ruína da indústria farmacêutica e na crise de nervos de centenas de assessores com a responsabilidade de escrever discursos demolidores ao combate à droga cada vez que há eleições, e não te esqueças que quase todos os anos a malta vai votar ‑ acrescentava o Sebastião.

      ‑     Vocês são uns cínicos de merda! Ainda acabam a dizer que os homens são traficantes.

      Os dois riam que nem perdidos.

      ‑     Tanto também não, ó companheiro!

      ‑     Pois claro. São grandes combatentes contra a droga, mas devagarinho. Porra, pá!, os homens também precisam de almoçar, ver um cinema, dar umas curvas pelo estrangeiro.

      Saí da sala irritado. Como pode um homem ter uma conversa a sério com encomendas daquelas? Não há dúvidas. A polícia produz homens sem fé.

 

DROGAS EM DISCURSO DIRECTO

O Jorge falava com o Chefe quando entrei na tasca. O empregado recebia‑me sempre aos gritos:

      ‑     Então, ó patríciO, tens ido à terra? É grande terra, a nossa terra, hen? ‑ e depois em tom de censura: ‑ Pá! Tens que aparecer, meu'. A tua mãe está cada vez mais velha. Se não te despachas, vão‑se os velhos sem te darem o último abraço.

      Eu lembrava todos os dias esse abraço adiado. Vou hoje, vou amanhã, e aparecia sempre qualquer desculpa estúpida que não me deixava ir. Desculpas inventadas que não justificavam nada. Apenas ganhavam força na promessa, que antecipadamente sabia mentirosa, de que no próximo fim-de‑semana, custasse o que custasse, iria dizer-lhes que estou vivo e jurar-lhes que aquele não seria o último abraço.

      Tinha saudades. Dos meus pais e da minha terra. Eram saudades doridas, onde se misturavam os cheiros já idos das memórias de infância e a nostalgia melancólica de pisar as pedras das ruas onde tropeçámos nos primeiros passos. Não sei porquê, cada regresso às origens, ao café da praça, às noites silenciosas polvilhadas de cantar dos grilos, às conversas mornas com o zé Correia e com O Augusto, sabe a dor.

Não apetece ir porque depois significa partir, romper outra vez com os sinais espalhados pelas ruas, pelas praças da minha vila cada vez mais longe, perdida para lá do sol‑nascer.

      ‑     Desta vez vai o quê, ó Ernesto? Café?

      ‑     Bica e água!

      - Ao menos podias variar. Sempre o mesmo. Da última vez que fui à terra comi uns caracóis no Bento Rijo que até se me enrolaram as unhas dos pés.

Dirigi‑me à mesa do Chefe.

      ‑     Sente‑se, Ernesto! Que quer tomar?

      ‑     Já pedi ao Chico.

      ‑     Você anda triste, homem!...

      ‑     Cansado, Chefe.

      ‑     O Ernesto nasceu cansado.

      ‑     Tinha uma porrada de relatórios atrasados. Ainda me falta um.

      ‑     Mas quando eu ralhava consigo por ter a secretária cheia de papéis andava bem‑disposto. Este Ernesto escreve‑me cada coisa!

      ‑     Ó Chefe, o senhor sabe que eu e a máquina de escrever nunca nos demos bem.

      ‑     Então essa cara é porque se chateou com a máquina de escrever.

      ‑     Não! O Jorge sabe o que é.

      ‑     Eu? Porquê?

      ‑     Ora aqui está o café e a água. Este ano tens que ir à festa, pá! A nossa terra vai ficar cheia de espanhóis.

      ‑     Pronto, está bem, eu vou à festa. Posso beber o café?

      ‑     Eh pá, foste malcriado para o homem.

      ‑     Anda sempre a zunir‑me aos ouvidos por causa da terra. É um chato do caraças!

      ‑     Você está mesmo com a mosca, Ernesto!

‑     É verdade, já me esquecia. Eu sei porque estás assim?

      ‑     Foi o caso desta manhã. O puto com a overdose. O pai do gajo deixou‑me na merda.

      ‑     Não chorou, não foi?

      ‑     Como é que o Chefe adivinhou? Porra, o puto não tinha mais de vinte e três anos.

      ‑     Vinte e dois. Tenho o bilhete de identidade em cima da secretária.

      ‑     Vinte e dois, Chefe. E nem uma lágrima.

      ‑     Eu sei.

      ‑     Sabe, como?

      ‑     Tive um sobrinho que era toxicodependente.

      ‑     Não sabia.

      ‑     Nem eu.

      ‑     É verdade. Suicidou‑se.

Ficámos em silêncio. O Chefe roeu O charuto com raiva.

      ‑     Ninguém chorou no funeral.

      ‑     Ninguém?

      ‑     Porque já não havia lágrimas para chorar. Estávamos secos de tantas lágrimas e lamentos.

      ‑     Imagino.

      ‑     Não, não imagina. Acho que a primeira vez que o meu irmão dormiu uma noite tranquila dos últimos seis anos foi depois do funeral do filho.

      ‑     Porra.

      ‑     A droga é uma merda.

      ‑     Pior. É uma tragédia. Oiça, traga‑me outra imperial. Vocês querem mais alguma coisa?

      ‑     Eu também quero.

      ‑     Chega. Hoje já bebi seis cafés.

      ‑     Duas imperiais. Quando era agente, uma vez estava de piquete e fomos chamados para um cadáver encontrado numa daquelas ruelas do Bairro Alto. Um caso igual ao que vocês tiveram hoje. Overdose. Fomos a casa dos pais. Quando lhes demos a notícia, a senhora disse: "Até que enfim. Acabou o pesadelo!" Nem uma lágrima. Nem um esgar de dor, mas também lhes digo que foi o par de olhos mais tristes que tinha visto em toda a minha vida. Depois voltei a ver a mesma tristeza crescer no olhar do meu irmão e da minha cunhada.

      ‑     É do caraças.

      ‑     Deve ser.

      ‑     Hoje o pai do puto estava assim.

      ‑     A droga é uma porra. Ó Chico, traz outra imperial. Olha‑me para isto, está morta. O Chefe não quer?

      ‑     Não, Jorge. Obrigado.

- Agora é o Chefe que está com cara de enterro.

      ‑     Dói lembrar certas coisas.

      ‑     Pois dói. É por isso que não gosto de ir à minha terra.

      ‑     É a minha sorte. Não tenho terra. Sou nado e criado na Madragoa.

      ‑     A vida prega‑nos cada partida.

      ‑     Lá isso...

      ‑     Não haverá solução para isto, Chefe?

      ‑     Era precisa muita coragem e não há.

      ‑     Os polícias são medrosos.

      ‑     Se isto se resolvesse com polícias! Acho que o segredo desta porcaria está numa nova organização das comunidades.

      ‑     Boa, Chefe. Gosto de o ouvir teorizar. Aqui o Ernesto é que embirra com os teóricos.

      ‑     Deixa‑te de merdas, pá.

      ‑     Se a malta investisse na ocupação dos tempos livres...

      ‑     Quando tenho tempo livre vou para os copos.

- E eu jogar à lerpa.

      ‑     É esse o problema. Para vocês, tempos livres é ócio, é não fazer a ponta de um corno. Não basta passarem o tempo na brigada a coçar a barriga.

      ‑     Chefe, não faça juízos temerários. Deus castiga‑o.

      ‑     Já me castigou. Tenho que os aturar todos os dias.

      ‑     Estava a falar tão bem. Então, Chefe?'. Falávamos dos tempos livres.

      ‑     De ocupar os tempos livres. A rapaziada anda por aí a roçar o cu pelas paredes quando sai da escola.

      ‑     Olhe que os mandões desta xaropada dizem que a culpa é da família, da escola. Dessas coisas.

      ‑     Porque é a única forma de não se culparem a si próprios.

      ‑     Desculpe. Não percebi.

      ‑     Na escola, os responsáveis são os professores, na familia, os responsáveis são os pais. Quando se fala dos tempos livres somos todos responsáveis.

      ‑     Eu, também?

      ‑     Também! Se fizessem um julgamento para condenar os responsáveis pela droga, íamos todos bater com os ossos no banco dos réus.

      ‑     O senhor acha?

      ‑     Ernesto! Nesta história não há inocentes.

 

MILAGRES I

Não há nada como ter um estripador. Para o país é uma prenda melhor do que quaisquer miseráveis milhões de contos recebidos da União Europeia. Por uma razão simples: é coisa para falatório.

      Somos o país do mundo que mais gosta de dar à língua. Começa logo na minha brigada, onde, e eu sou o primeiro, não há cão nem gato que não goste de dar palpites. Depois não há esquina, café, praça, para não falar do enxame de bares nocturnos onde multidões de intelectuais, completamente bêbados de cultura, todos os dias constroem revoluções e grandes feitos pátrios mais ou menos da medida do umbigo de cada um. Fascinam‑me sobretudo os bares do Bairro Alto e as discotecas da 24 de Julho.

      Foi o Diogo quem me levou a visitar esse mundo mágico encharcado de vedetas do espectáculo, da política e das administrações das empresas.

      - Não gosto dessas merdas, pá! Cansa‑me tanto barulho.

‑     Deixa‑te disso. Aquilo está cheio de gajas boas. A sério?

      - Anda daí.

Fomos. O Diogo tinha razão. A cidade que pensa, que constrói o futuro, estava ali apinhada, de copo de uísque na mão, discutindo em grupos multicolores que misturavam calças de ganga e brocados de seda, perfumes inebriantes com cheiro a sovaco, num jogo misterioso de luz e sombra que escondia misérias e exaltava grandezas.

      ‑     Eu não te disse? Olha‑me para elas. É só fominha! - garantia o Diogo, copo na mão, olhar de caçador à procura da presa desatenta.

      Mas aqui o Ernesto não conseguia respirar da admiração. Acho que em cada bar em que entrámos, levava no mínimo três minutos a fechar a boca de tanto espanto. Depois despertava em frenesim e uma voz heróica dizia‑me cá de dentro: goza Ernesto. Estás acompanhado da inteligência nacional. Não te envergonhes. Faz de conta que és alguém. Levanta‑me essa cabeça, pega no copo com ar displicente, põe uma expressão de quem estás preocupado com o futuro do mundo, torna‑te bonito como eles e fala e discute. Raios, pá!, ao menos dá uma gargalhada.

      Mas eu não ouvia a voz, esmagado pela excessiva descoberta de caras que conhecia todos os dias da televisão, dos jornais, das revistas de coscuvilhice mundana. Os heróis de um país de gente anónima e que viviam na minha casa de duas assoalhadas, amontoados na desarrumação dos papéis que semana após semana iam despedindo a mulher‑a‑dias, que, vencida, invariavelmente me entregava a chave do apartamento, num lamento: "Tenha paciência, senhor Ernesto. Nunca vi uma casa tão desarrumada. Não sou capaz de pôr ordem nisto. Escolha outra!"

      Acho que só me libertei do espanto aí pelas duas da manhã, quando o Diogo, de braço dado com uma rapariga três palmos mais alta do que eu, dedos tão finos e compridos como o cigarro que tinha nos lábios, me tocou no ombro e disse:

      ‑     É a Lulu. É modelo e minha amiga de longa data. Conhecemo‑nos há meia hora.

      Ela olhou‑me do alto da sua beleza, testada em posters e capa de revista, e não só porque senti que o lacónico olá! que me deixou vinha carregado de ironia.

     Balbuciei qualquer coisa, envergonhado com tanta beleza, e o copo tremeu‑me na mão. O Diogo segredou-me:

      ‑     Atira‑te, pá! Isto é só pose. Caem que nem ginjas. Amanhã encontramo‑nos na brigada.

      E saíram os dois. Velhos amigos de meia hora, rindo gargalhadas cúmplices de afectos representados.

      ‑     Uma cambada de frustrados!

      A voz pastosa que assim falou, obrigou‑me a virar de repente. Era um velho de barbas brancas, pança proeminente, olhos inchados de bebedeiras.

- Desculpe...

      ‑     O senhor não é daqui, pois não? Está demasiado encolhido, com ar de parvo, boca aberta de espanto a olhar estes palermas. Convido‑o para um copo!

      Não sei se foi o descaramento com que o velho me insultava, se a voz cavernosa cheirando a segredos que me levou a sentar‑me ao lado dele.

      Pediu dois uísques e disparou de rajada.

      ‑     Sou homossexual!

      O primeiro impulso foi saltar do banco, desconfiado.

      ‑     Mas não sou maricas! ‑ concluiu, para me olhar com alguma displicência e desabafar: ‑ Além disso, você não é

o meu tipo. Gosto de homens loiros e sem pêlos na cara. Tranquilizou-me um pouco. Pegámos nos copos e bebemos.

‑     O que é que o senhor faz na vida? Político, jornalista, actor?

      Sorri, hesitante e envergonhado. Mas a frontalidade do homem fez‑me ser sincero:

      ‑     Polícia!

      ‑     Boa! ‑ respondeu de pronto. ‑ Vem prender estes gajos todos?

      Sorri condescendente, olhando os grupos luzidios que tagarelavam pela sala.

      ‑     Não. Estou de folga.

      ‑     É pena, é pena - lamentou‑se.

      As conversas estavam agora mais animadas. Os copos eram trocados a uma velocidade superior e os cigarros mais nervosos. Dois tipos discutiam acaloradamente ao nosso lado. Um com uma pêra rala a deixar‑lhe adivinhar os contornos do queixo e outro com uns óculos redondinhos e tão pequenos que levei um bom quarto de hora para descobrir que o homem não tinha falta de vista.

      ‑     O tipo anda a lixar‑nos, pá!

      ‑     Só pensa em vender papel. Tu sabes que eu tenho bons contactos no meio. Eh, pá, não tenho culpa, mas quando fiz a campanha eleitoral de 95 conheci os tipos. Tenho‑os na mão. Era uma história do caraças, 'tás a ver? O gajo sabe que assim me lixa...

      ‑     O jornalismo está uma merda. Este país está a acontecer, percebes? Está...

      O peras gozava deleitado a descoberta que fizera. Este país que acontecia não agradava ao dos óculos redondinhos.

      ‑     O país é tonto. É do tamanho do jornalismo que temos, estás a ver?! O gajo lixou‑me a peça, pá!, por embirração.

      ‑     O homem não tem estaleca para o lugar. E depois são as injustiças que me lixam. Vê o meu caso. Há dois anos que estou à espera de ser redactor-principal, percebes? Dois anos. Rebentei com a bronca do leite estragado, fui à Bósnia desmascarar a hipocrisia da paz forçada. Perseguem-me, percebes?

      Desisti. Só já ouvia percebes e estás a ver, quando o velho resmungou:

      - Estamos decadentes. Embebedamo-nos todas as noites para acordar tarde. Temos medo da luz do sol. Não olhe para mim com essa cara de espanto. Olhe aqueles três ali ao canto.

Conhece-os? Estrelas de televisão. Galãs de cinema, multidões de miúdas atrás deles. Gostam tanto delas como eu.

      - Desculpe, não percebi! - atalhei, desconfiado de que tinha percebido.

      ‑     porque é cego. São homossexuais.

      Engoli em seco. Eu tinha ouvido histórias do Clark Gable, do Rock lludson, galãs de todos os tempos que puseram milhões de mulheres a ofegar com arrepios de cio, mas que aquilo espremido não dava sumo nenhum. No entanto, esses eram américas, podiam fazer o que lhes dava na cabeça. Agora aqui, em pleno Bairro AltO, no ventrículo esquerdo do coração da cidade, tinha à minha frente os Clark Gable à portuguesa.

      ‑     Bom, seja como for cada um tem direito de ter a vida sexual que quiser! ‑ argumentei- sacudindo a perplexidade que me toldava os miolOs.

      ‑     Mas não tem O direito de mentir. O meu amigo é polícia devia perceber iSSO. Aquele que está a olhar para nós deu uma entrevista a semana passada falando das namoradas da vida dele.

      ‑     Eu li!

      ‑     Claro, um polícia é isso mesmo. Lê tudo o que é merda. Não se ofenda. Não gosto de polícias. Aliás, aqui, ninguém gosta de polícias. Vocês são a ordem e nós gostamos da desordem. É a maneira de fazermos a revolução. Estou a exagerar. Eu já desisti. Embebedo‑me, espero que apareça por aí um miúdo loiro sem barbas e ouço‑os a fazer a revolução. Estou velho de mais e cansado de tanta mentira. Isto tudo é uma grande mentira. Tal como a entrevista daquele cavalheiro que de dia sonha multidões de namoradas e à noite, quando sai daqui, vai contorcer‑se na cama louco de desejo de abraçar e beijar um homem. Não fique com essa cara, meu caro senhor. Esta gente mente. Para fora e, pior do que isso, para dentro. É tudo a fazer de conta.

      O velho calou‑se. Procurei nervoso o cigarro e aspirei o fumo com sofreguidão. Fiquei de olhos pregados num outro grupo onde uma rapariga dava gargalhadas estridentes e, entre dois goles de uísque, abraçava e beijava um tipo de cabelo desgrenhado e barba por fazer que, com o olhar brilhante da cocaína, dissertava:

      ‑     É preciso outro teatro. Vocês têm que entender, estão a ver? Há quantos anos não vai à cena um Beckett, um lonesco? As massas precisam de entender que...

      ‑     Que estás a fazer agora?

      ‑     Estou aí à espera de umas coisas, e tu?

      ‑     Acabei uma novela.

      ‑     Porra! É uma merda...

      - Mas tu começaste na novela!

      ‑     Eram outros tempos. Agora interessam‑me outros horizontes... é preciso levar as massas ao teatro, ou o teatro às massas... Tenho um projecto, uma coisa para fazermos na rua.

      ‑     Estão a fazer castings para o Nacional.

      ‑     Tu sabes como eu sou nessas coisas. Ou me convidam ou não tenho pachorra para lhes bater à porta.

‑     Mas se um tipo não trabalha...

      ‑     Porque Os produtores são umas bestas. Só escolhem pessoas sem talento... O talento está aqui. Somos nós. Tu, ele, ela, eu! Temos preocupações, pá. Preocupações e eles não querem pessoas com projecto... É o nosso problema. Nós temos projecto, estão a topar?

      ‑     O que é importante... já nem sei o que é importante...

      O que assim falava, tremiam‑lhe as mãos. Nervoso. Depois tomou balanço:

      ‑     Estou a pensar em voltar ao Conservatório!

      ‑     Para quê? Aquilo é alguma coisa? ‑ retorquiu o defensor de lonesco. ‑ E depois estudar o quê? Se tivéssemos o Actor's Studio... e mesmo assim. Li umas merdas dos gajos. Para fazerem o que fazem também não percebo porque estudam tanto.

      ‑     Viste a Taylor e o Burton no Quem Tem Medo de Virgínia Wolff?

      ‑     Vi, e depois?...

      ‑     Sinto‑me pequenino quando vejo representar assim. Tanto trabalho!...

      ‑     Tantos copos!

      ‑     E muitas quec as!

      ‑     Não é nada que a gente não saiba fazer...

      Riam todos em voz alta. O velho resmungou:

      ‑     Um bando de falhados a coçarem o umbigo uns aos outros. Aquele que fala mais alto, o maior papel que fez na vida dele deu para bocejar toda a noite.

      ‑     São actores?

      ‑     Actores, aqui, vêm pouco.

      ‑     Estão a conversar...

‑     São gajos que se pensam actores. Mas não passam de candidatos. Sobretudo são bêbados, cocainómanos e preguiçosos. O senhor é polícia. Não pode ser pessoa dada às coisas das artes. Já alguma vez leu um livro? Ou viu uma peça de teatro? Talvez, mas coisa pouca com certeza. Eu tive a sorte de ver, meu caro senhor. E é tão belo que mete medo. Ver alguém que a gente sabe que é de carne e osso, se calhar antes do espectáculo até jantou ao nosso lado, e depois, quando abre o pano de boca de cena, percebemos que esse alguém se transfigurou por um golpe mágico e, sabendo‑se que é actor, engana‑nos, entrega‑nos a ilusão de que é personagem, que é outro sem deixar de ser actor e vai crescendo conforme cresce a peça, ganha asas e as asas com que voa são as asas onde nós voamos por mundos imaginários onde se confunde emoção e racionalidade, e deixamos de ser espectadores, tornamo‑nos nefelibatas a vogar no texto dito, ali naquele momento, transformado em texto vivido. Eu vi, meu caro senhor. Corri os palcos de Lisboa, um a um, de Londres, de Paris, de Nova Iorque. Chorei e ri. Cantei de alegria, tremi de medo renascendo em cada gesto, em cada palavra, em cada marcação. Ouviu aquele palerma a desprezar o Richard Burton? Sabe que o Burton, quando lhe entregavam um papel, passava horas, dias a fio, estudando, pesquisando, sofrendo, talvez o que o senhor como policia nunca sofreu, para transformar a personagem naquele acto criador que nos atirava para o céu e quando terminava e nós despertávamos do encanto, ao som dos aplausos vibrantes da assistência, quase o odiávamos porque a peça acabara e esse fim era uma injustiça porque nos obrigava a olhar outra vez a vida, a caminhar pelas ruas friorentas, a encontrar os mesmos vagabundos de mão estendida, as mesmas putas, os mesmos bares iguais a este, cheios de estrume. Aqueles que o senhor vê ali vociferando contra o mundo são precocemente vencidos, porque naquelas cabeças só há expectativas; dizem que fazem e não fazem. Nunca verá o nome de nenhum deles a cobrir o frontispício de uma sala de teatro e, se alguma vez aparecer, são letras pequeninas no meio de uma lista de outras letras pequeninas, tão pequeninas como os miolos adormecidos pela cocaína.

      ‑     Mas os actores...

      ‑     São deuses! ‑ a voz do velho ficou hirta. Olhou a assistência como se procurasse qualquer coisa. ‑ Teve azar. às vezes aparece por aqui um ou outro, mas é raro.

      Eu já não o ouvia. A acidez do raio do velho estava a chatear‑me. Ainda por cima aquele era o país que eu admirava quando me livrava do Chefe, do rebuliço da brigada, do cheiro dos cadáveres. Até parecia que os conhecia desde menino e por simples crueldade o velho ia‑me destruindo os mitos e os heróis que eu revia quase todas as semanas nos escaparates dos quiosques onde comprava o jornal da tarde. Talvez fosse por isso que não lhe chamei a atenção para quatro homens que ao balcão discutiam com prazer.

      ‑     Hoje, aquilo foi quase um fuzilamento. O senhor deputado ia desfazendo os homens.

      ‑     Não se lhes pode dar tréguas. É preciso ferrar‑lhes o dente com força.

      ‑     Mas o senhor, hoje... há muito tempo que não via uma coisa daquelas. Acho que desde os gloriosos tribunos da velha república.

      ‑     O senhor é amigo. Não exagere...

      ‑     Juro‑lhe! O que perdeu em retórica ganhou em doutrina. O seu discurso é um tratado, um tratado, digo‑lhe eu.

      ‑     De facto, devo confessar que me saiu bem.

      ‑     Deixou‑os de rastos.

      ‑     Deu‑lhes uma sova!

      ‑     Não os matou por milagre.

‑     Obrigado. Os senhores dizem isso porque são meus amigos.

      - Pode crer.

      ‑     Não tenha dúvidas.

      ‑     Amigos e admiradores, senhor deputado!

      ‑     Eu sei. Também sou vosso amigo. Este bar está cada vez melhor, não está?

      ‑     Cada vez melhor.

      ‑     Uma maravilha.

      ‑     Que brilha ainda mais com a presença de Vossa Excelência.

      ‑     O meu amigo é um lisonjeador. Mas afinal a que se deveu o telefonema desta tarde? Quando saí do hemiciclo a minha secretária deu‑me o recado dizendo que era urgente...

      ‑     É verdade. Uma chatice.

      ‑     Se não fosse grave, não lhe telefonaríamos. O país precisa do senhor ali, a defender o futuro.

      ‑     O problema é que o nosso futuro está tremido...

      ‑     Do país?

      ‑     Não, o nosso. A polícia apareceu‑nos hoje no escritório.

      ‑     A polícia?...

      ‑     Procurava facturas falsas.

      ‑     Estão a falar a Sério?

      ‑     Pior. Estamos entalados. Os tipos levaram um maço delas!

      O homem ficou em silêncio. Olhou em volta de cenho carregado. Procurava, desconfiado, qualquer coisa. Foi nesse momento que os nossos olhares se cruzaram. Ou o meu sorriSO me traiu ou qualquer campainha de alarme lhe retiniu nos sentidos, que, apagando nervosamente o cigarro, sentenciou.

      ‑     Vamos embora daqui!

Saíram a galope. Bebi o que restou do copo e levantei‑me.

      ‑     Já se vai? ‑ perguntou o velho, pestanas sonolentas a fecharem‑lhe os olhos.

      ‑     Já! Chegou a hora da partida.

      ‑     Gostou?

      ‑     Não sei. É mais um dos apeadeiros da noite.

      ‑     Uma sarjeta. Aqui só existe imundície e ratos

      ‑     As sarjetas por onde ando durante o dia são piores. Albergam assassinos e mortoS.

      ‑     Bom, lá isso, assassinos não tenho para lhe mostrar. Vigaristas, drogados, corruptoS, mortos...

      ‑     Mortos?

      ‑     Olhe à volta. Acha que estamos vivos?

      Sorri condescendente. Acenei‑lhe.

      ‑     Até um dia destes.

      ‑     Não chegou a dizer‑me como se chama!

      ‑     Ernesto!

      ‑     Teve azar. É um nome de merda. Se o porteiro soubesse, não o tinha deixado entrar!

 

MILAGRES II

Desde que comecei a contar‑vos estas histórias, passaram meses. Na vida de um polícia uma mão‑cheia de meses tem o tempo de um relâmpago. Porque se multiplicaram os crimes, os relatórios não param de crescer, o raio da máquina de escrever enferrujou, mas devo informar‑vos que fiz progressos. Agora escrevo com três dedos. Descobri que, enquanto com os indicadores martelo as teclas com as letras, com o polegar bato o travessão dos espaços.

      Fiquei tão feliz no primeiro dia em que isto aconteceu que corri a dar a notícia ao meu Chefe. O homem não acreditou. Veio espreitar e eu fiz a demonstração. Bateu‑me no ombro amigavelmente.

      ‑     Muito bem, Ernesto. É um grande passo em frente. A continuar assim, quando se reformar sabe escrever com os dez dedos.

      ‑     Pode ser que depois vire pianista!

      ‑     Talvez, mas pelo que tem sido a sua vida vejo‑o mais como carregador de pianos.

      Não havia ninguém que conseguisse ser tão encorajador como o Chefe. Apesar de resmungão, gostava dele. Estudara pouco mas aprendera tudo o que a vida esconde porque aprendera a olhá‑la de frente.

      ‑     Chefe!

      ‑     Diga.

      ‑     Nunca mais se falou no estripador.

      ‑     Para quê? Já vendeu os jornais que tinha de vender, já deu as viagens que tinha de dar, apareceram outras coisas para fazer discursos. Agora é a insegurança.

      ‑     Mas o tipo não foi preso.

      ‑     Qual é o problema? Prenderam‑se Outros. Apanharam‑se toneladas de droga.

      ‑     O senhor sabe como é que essa droga é capturada.

      ‑     Sei, mas não me interessa. Não quero saber.

      ‑     Mas, Chefe...

      ‑    Ernesto, meta‑se na sua vida. Não arranje problemas.

      ‑     Fico indignado, Chefe.

      ‑     Quem se devia indignar, consente. E você, cale‑se! Dê graças a Deus por já saber escrever com três dedos.

      ‑     É uma vergonha. Eu...

      ‑     Ernesto!

      ‑     Pronto! Já cá não está quem falou.

      O Chefe saiu. Voltei a conferir os processos, a verificar os prazos que os servos do Legislador tinham fixado em sábios despachos do género: "Tome‑se declaração à testemunha tal. Prazo, cinco dias. Proceda‑se à notificação do ofendido do meu douto despacho. Prazo, três dias. Adorai e servi a minha sapiência. Prazo: até à eternidade."

      Puxei de um cigarro e recostei‑me no banco, olhar fixo na parede. Afinal de contas, o estripador não existira. Não passava de uma ficção. Uma história que serviu para tudo, que mobilizou os teorizadores do país inteiro, que tirou o sono nas redacções de jornais, rádios e televisão, que vendeu quilos de publicidade nos intervalos de cada mesa‑redonda, que serviu de pretexto para ridicularizar a polícia e garantiu argumentos do género: o problema policial português é viver à margem da lei. E a culpa é dos juizes de instrução criminal. Não fazem nenhum, não dirigem a investigação, ainda por cima têm a mania de que fazer justiça é ouvir quem acusa e quem se defende. Cambada de inúteis, responsáveis pelo estado calamitoso a que chegaram os tribunais. Bananas e burocratas. O Legislador tinha as suas razões. Gabinetes encharcados de processos. Como podiam fazer justiça? É evidente que não haveria estripador que não se escapasse.

      O santo Legislador pensou, as meninges etéreas resplandeceram de inteligência, e numa tarde, depois de uma sesta retemperadora, abriu as janelas do quarto, estendeu os braços num gesto de preguiça inteligente e gritou, fulminante, qual Arquimedes lusitano: Eureka!

      O grito correu pelas cidades e povoados do país inteiro. Fez estremecer montanhas e ecoou pelos vales. Os últimos lobos, descendentes em vias de extinção dos uivantes lobos de Aquilino, correram a esconder‑se medrosos, e as gentes de norte a sul ficaram embasbacadas com o clamor que a todos petrificou, incapazes elas próprias de um grito de indignação. De facto, o país desistira da revolução e optara pelas zaragatas. Os revolucionários de ontem não passavam de revoltados que se humilhavam em bebedeiras ou em silêncios sem mordaças.

      O grito salvífico do Legislador inventou o milagre que a santa da Ladeira, a bruxa da Castanheira, a Igreja Universal do Reino de Deus há muito tempo prediziam ‑ a investigação não é competência da polícia e juiz de instrução criminal é cancro devorador do sistema judiciário.

Acabou! Juizes, para o olho da rua! Policias, reduzi‑vos à vossa insignificância de escribas! Deixai que o Ministério Público, criador da razão pura, de que o Kant é um plagiador, fonte da Vida Eterna, que a Bíblia é um livro de beatas, governe a justiça, desfaça num ápice estripadores e todos os criminosos à solta e se converta na única referência moral de uma pátria vencida, arruinada pelos vícios de uma democracia mal aprendida. Olhai a Itália, cambada de ignorantes! Respeitai a Espanha, bando de analfabetos! Não fosse a audácia dos deuses da verdade que salvaram os povos, que seria das multidões perplexas com medo de assassinos e violadores?

      Nem um grito, nem uma palavra, nem um gemido! O Ministério Público é o verdadeiro rio por onde escorre a única Verdade e a única Vida!

      ‑     A mandares bocas dessas, vais malhar com os ossos no banco dos réus! - avisou‑me o Casimiro.

      ‑     Não acredito. É a minha opinião. Ou não posso ter opiniões?

      ‑     Podes, desde que não embirres com a divindade!

      - Não estou a embirrar com ninguém. Nem conheço as pessoas.

      ‑     Houve muito rapaz que nunca fez outra coisa que não fosse ir à missa todos os dias e não foi por causa disso que a Inquisição teve pena deles. Puxou‑lhes fogo!

      ‑     Tu achas que...

      ‑     Ernesto, as fogueiras já não ardem, mas talvez fosse melhor que ardessem.

      ‑     Não digas disparates!

      ‑     Agora as fogueiras vivem em lume brando. Não serás promovido, acusar‑te‑ão de falta de solidariedade hierárquica, vai cair sobre ti o Carmo e a Trindade.

Fiquei em silêncio. Hesito agora se devo ou não continuar a escrever. Porque a liberdade conquistada continua impregnada de medos, amordaçada na arrogância de poderes guardados ciosamente em mãos ávidas de atear antigas fogueiras.

      O Chefe tem razão. Puxa‑me o pé para O disparate. Sou mais uma vítima de más leituras. O Chico Ranhoso é que teve culpa. Ensinava‑nos coisas. Desvendava‑nos os segredos guardados nos livros, parecia ébrio quando evocava Eça, Camilo, Camões. Quase fazia lembrar a mulher que, na rua do Jorge, falava com todos os espíritos em geral e com o Sousa Martins em particular. Professor de um raio! Tinha a habilidade velhaca de nos encantar, presos das suas palavras, umas vezes épicas, outras melancólicas, pregando‑nos às carteiras, hipnotizados. Talvez fosse o único momento do dia em que o toque da campainha para a saída da aula não soubesse a alívio.

      Foi o Chico Ranhoso quem me apresentou aquele homem. Talvez dos maiores homens que Deus fez nascer nesta terra, e quando o conheci já morrera há mais de cem anos. Chamava‑se Antero, era poeta, mas posso dizer‑lhes que só quem o conheceu por alto é que o pensava assim: poeta!

      Mas o meu professor de Português conhecia‑o bem. Talvez por isso proclamasse tantas vezes: "Nesta terra, ser poeta é ser abaixo de cão. Só depois de mortos lhes cantam louvaminhas!"

      Antero, nem poeta era. Os sonetos nasciam‑lhe não do peito, mas da cabeça, e era terrível, para um badameco como eu, perceber que alguém conseguiu transpor para a mente o bater do coração, e proclamar o amor, a vida, a morte com palavras que pareciam pedras balizando os caminhos do pensamento. Chamava‑se Antero e com este nome morreu um dia, algures no meio do mar num largo chamado Esperança. Mas continuou vivo, latejando, trazido nos temporais que nascem do fundo das invernias e nos trespassa, em arrepios de frio, com a fúria inteligente do que escreveu e pensou.

      ‑     Esse teu professor pôs‑te a cachola a bater válvulas! ‑  desabafou o Casimiro incomodado com a conversa.

      ‑    Tens razão, Casimiro. Pôs‑me a mona a andar à roda. - Quis saber mais, sempre mais. E por cada coisa que aprendi precisei de descobrir outra e mais outra.

      ‑     Vais acabar dizendo que foi por causa do Antero que vieste para a polícia. Ele foi criminologista? Foi?

      O Casimiro estava exaltado e eu não percebi porquê.

      ‑     Não. Nem tinha cadastro na polícia. Mas era um homem estranho, Casimiro. Continua a atormentar‑me.

      E o Casimiro cada vez mais exasperado.

      ‑     Vai à bruxa que é vizinha do Jorge. Pode ser que te resolva o problema.

      Mas eu não o ouvia. A voz do Chico Ranhoso martelava‑me a cabeça e levantei‑me excitado.

      ‑     Para ele a lei não era tudo. O Legislador era um monte de esterco. Recusava‑se a aceitar que isto tudo, vida e morte, princípio e fim, bons e maus, fosse assim uma espécie de pão, pão, queijo, queijo. Estes são os bons, os tipos bacanos, os porreiros, e aqueles são os manhosos, os maus da fita. Entre os dois grupos não há linha nenhuma. Os heróis do lado de cá, os cobardes do lado de lá. A virtude aqui, o pecado ali. O Homem pôs isto tudo ao contrário, Casimiro, olhando para as coisas do seu tempo com a minúcia com que a gente olha para os indícios que o criminoso deixou no local do crime. Pronto! Estás chateado. Então deixa‑me pôr isto de outra maneira. Gostava que sorrisses comigo. No tempo em que Antero viveu, deve reconhecer‑se que por mero acidente histórico, Portugal estava na cauda da Europa, como hoje se costuma dizer. Gosto desta da cauda porque fico sempre com vontade de ir ao jardim zoológico e perguntar a um tratador: "Por favor, sabe‑me dizer onde está o animal chamado Europa? É que queria ver os Portugueses empoleirados na cauda do bicho, fazendo de pulgas, ao lado dos Gregos e dos Turcos."

      "Antero não teve o condão nem a felicidade de viver os dias de prosperidade que nos couberam em sorte. Talvez não tivesse escrito o que escreveu. Talvez eu esteja baralhado porque os tempos são outros. Talvez ele não tivesse razão quando apelava à inquietação do espírito, a procurar a essência da vida para além do que conhecíamos. Ou será que conhecemos tudo, Casimiro? Vamos ficar aqui de braços cruzados, convencidos de que esta terra é a ordem do Legislador, que a lei é tudo, e sendo tudo obriga‑nos a ser iguais. Temos que ser iguais, Casimiro? Gostar do mesmo petisco, das mesmas miúdas, irmos à mesma igreja, comprarmos no mesmo hipermercado, votarmos nos mesmos rapazes, mijarmos ao mesmo tempo?! Eles querem‑nos assim. Que obedeçamos, que o teu rosto seja igual ao meu, que nos submetamos à mesma ordem, ficando sem outra coisa que não seja o direito à indignação silenciosa. Eles precisam de droga, dos estripadores, dos gatunos, para que essa linha que separa o bem do mal persista. Porque nos sustentamos do mal e sem o mal não há o bem. Casimiro, diz‑me cara a cara: tu achas que a justiça que Antero sonhava é esta justiça? Esta hipocrisia cinzenta? Este fazer que se faz e não se faz, esta seriedade fingida de quem troca segredos por tronos, este jogar com a esperança, com a nossa esperança, para resolver partilhas de poder no segredo dos gabinetes alcatifados?

      O Casimiro deu um murro na mesa, descontrolado:

      ‑     Chega! Não falas mais.

      ‑     Porquê?

      ‑     Porque não quero ouvir, não posso Ouvir. Tu estás doido!

      - Estou doido, Casimiro? Estou doido porque quero que, sendo iguais, sejamos diferentes?

      ‑    Isso é palavra de ordem para dizer em manifestação... Estás proibido de falar assim!

      ‑     Mas a lei...

      ‑     Exactamente por causa da lei!

      Foi quase um urro. Depois, suspirou e olhou‑me nos olhos.:

      ‑     Ernesto, sou teu amigo. Ouve‑me. Não perguntes nada, não queiras saber de nada, faz relatórios, apanha assassinos e cala‑te.

      ‑     Eu sou livre. A Constituição diz...

      ‑     O que a Constituição diz não interessa. Lê essa porra e diz‑me quantos artigos se cumprem. Não és livre porque

usas algemas. Porque tiras a liberdade e quem te manda tirar

a liberdade do outro também te quer prisioneiro.

      ‑     Não pode ser. Antero...

      - Eu conheci‑o primeiro que tu!

      ‑     Tu? Mas...

      ‑     É perigoso, ainda hoje. Os velhos monstros desse tempo ainda estão vivos, nunca morreram, são os mesmos velhos do Restelo de Camões. Ouve, Ernesto. Eles ganharam! Vão ganhar sempre. Qual Justiça Universal, qual Bem Universal, qual caraças! Egoísmo, Ernesto, cada vez mais egoísmo e fome de poder.

Apetecia‑me chorar. Aprisionei as lágrimas e, desesperado, perguntei‑lhe:

      ‑     Tu achas que vai ser sempre assim?

      ‑     Acho!

      ‑     E aceitas?

      ‑     Não, mas preciso do ordenado para comer.

      ‑     Então, és cobarde!

      ‑     Sou!

      ‑     É mentira. Eu vi‑te de arma nas mãos, entrando por ruelas onde nos esperava a morte. Apanhei‑te do chão a sangrar quando o Texugo disparou contra ti e mesmo assim não lhe largaste as canelas. Eu sei que não és cobarde!

      ‑     Um tiro disparado à queima‑roupa é menos perigoso do que as tempestades que Antero quis desencadear. Por isso, não digas mais nada, não penses mais nada. Come e cala‑te.

      Hesitei por uns instantes.

      ‑     E se não quiser comer e calar?

      ‑     Faz as malas e vai‑te embora daqui.

      Fiquei silencioso. Na maldita máquina de escrever estava o último relatório que o raio da conversa não me deixara acabar. Olhei o Casimiro. Depois a porta da rua e ele percebeu:

      ‑     Não faças o que estás a pensar. Ninguém muda o que há para mudar. D. Quixote lixou‑se e D. Sebastião não regressará de Alcácer Quibir. Vamos todos continuar a fazer de conta.

      Voltei a sentar‑me frente à máquina de escrever e furiosamente acabei o que restava do relatório. Casimiro fitava‑me inquieto.

      ‑     Ernesto, não leves a mal, não te quis ofender.

      ‑     Eu sei.

‑     Para que nos deixem viver, estamos proibidos de sonhar. Afinal de contas, neste espectáculo fazemos de bons da fita. Somos actores secundários, é certo, mas servimos os heróis.

      ‑     Eu não quero ser herói, Casimiro!

      ‑     Então, cala‑te!

      ‑     Eu não quero ser o mau da fita!

      ‑     Então, cala‑te!

      ‑     A vida é importante para mim!

      ‑     Então, cala‑te!

      ‑     Mas não consigo viver sem sonhar!

      Saí da minha secretária. Uma lágrima rebelde saltou‑me dos olhos quando o abracei. Voltei as costas e nem a porta fechei, e por isso ainda ouvi a voz do Chefe que, surpreendido, perguntava ao Casimiro:

      ‑     Que aconteceu ao Ernesto?

      ‑     Cansou‑se de ser servo de servos. Para ele o jogo acabou!

      ‑     Esse gajo é doido! ‑ ainda o ouvi gritar. ‑ Vai acabar na Mitra!

      Sabia que o Chefe tinha razão. Por isso nem procurei outro caminho. Desci aos Anjos e encostei‑me à parede, no lugar que me cabia, na bicha interminável de mendigos à espera da sopa dos pobres.

 

                                                                                Francisco Moita Flores  

 

                      

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