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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PONTO DE IMPACTO - P.2 / Dan Brown
PONTO DE IMPACTO - P.2 / Dan Brown

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PONTO DE IMPACTO

Segunda Parte

 

Um colossal bloco de gelo deslizou pela plataforma Mime, lançando uma nuvem de fragmentos no ar. O barulho do gelo se rompendo e se atritando contra a geleira era insuportável. Ao descer e penetrar na água, a placa perdeu a aceleração por um momento, e o corpo de Rachel, que flutuava, bateu com força na superfície. Tolland e Corky também se chocaram dolorosamente contra o gelo, próximos a ela.

Mas, com o impulso da queda, o bloco mergulhou fundo no mar. Rachel podia ver a superfície espumante do oceano subindo rapidamente, como o chão se aproximando de alguém que estivesse fazendo bungee-jump com uma corda demasiado comprida. A água veio subindo até chegar no nível deles. O pesadelo infantil de Rachel estava de volta. Gelo... água... escuridão. Era um medo primitivo, instintivo.

A superfície da placa desceu abaixo da linha-d’água, e o gélido oceano Ártico invadiu-a com força pelas extremidades. Com o mar avançando por todos os lados, Rachel sentiu-se sugada para baixo. A pele exposta de seu rosto ficou rígida e ardida quando foi atingida pela água salgada.

De repente, o chão sumiu debaixo dela. Rachel lutou para manter-se acima da superfície, flutuando com a ajuda do gel de sua roupa. Ela afundou brevemente, engoliu uma porção de água e, tossindo, conseguiu voltar à superfície. Podia ver os outros debatendo-se ali perto, ainda presos às cordas. Rachel havia acabado de se equilibrar na água quando Tolland gritou:

— Está voltando!

Suas palavras se misturaram à confusão do momento, e Rachel sentiu a água subindo por baixo dela. Como uma enorme locomotiva revertendo sua marcha, o bloco de gelo havia parado de afundar e começara a se elevar. Poucos metros abaixo, um ronco medonho e grave ressoou pelo mar, à medida que a gigantesca placa submersa rasgava seu caminho de volta à superfície.

O bloco emergiu rápido, acelerando ao chegar mais próximo da superfície e surgindo em meio à escuridão. Rachel sentiu seu corpo ser levantado, e o oceano se transformou num turbilhão ao seu redor quando o gelo finalmente a atingiu. Ela debateu-se em vão, tentando encontrar equilíbrio enquanto era empurrada para cima, junto com milhões de litros de água do mar. Boiando, a enorme massa de gelo oscilou sobre as ondas, subindo e balançando, procurando seu centro de gravidade.

Com água pela cintura, Rachel se remexia sentindo uma extensa superfície plana logo abaixo dela. Quando a água começou a ser drenada, a corrente engolfou Rachel e puxou-a em direção à borda.

Escorregando, estendida no chão, ela podia ver a extremidade da placa se aproximando rapidamente.

Segure firme! dizia a voz de sua mãe dentro de sua cabeça, exatamente como no dia em que ela ficou submersa no lago gelado. Segure firme! Não afunde!

A puxada forte em seu boldrié pressionou a barriga de Rachel, fazendo-a expelir o pouco ar que ainda tinha. Parou a poucos metros da borda. O movimento fez com que seu corpo girasse. A 10 metros dali, podia ver que o corpo flácido de Corky, ainda unido a ela pela cordada, havia parado também. Eles tinham sido empurrados para fora do gelo em direções opostas e acabaram freando um ao outro. A água continuava escorrendo de volta para o mar, e ela viu uma outra forma surgir na escuridão ao lado de Corky. Estava de quatro sobre a superfície, segurando a corda de Corky e vomitando água do mar.

Era Michael Tolland.

Quando o último refluxo escorreu de volta para o oceano, Rachel ficou parada, em um silêncio aterrorizado, ouvindo o som do mar. Logo depois, sentindo o princípio de uma onda de frio, apoiou as mãos e os joelhos sobre o iceberg, que ainda balançava de um lado para outro, como um gigantesco cubo de gelo. Sentindo muitas dores e num estado meio delirante, engatinhou na direção dos outros dois.

Lá em cima, bem alto na geleira, Delta-Um olhou o mar com seus óculos de visão noturna. Viu o Ártico agitando-se em torno de seu mais novo iceberg. Não viu nenhum corpo na água, mas isso não chegava a ser surpresa. Estava escuro e as vítimas vestiam roupas e capuzes pretos.

Examinou cuidadosamente a superfície do bloco de gelo. Era difícil manter o foco, pois ele se afastava rapidamente, puxado para o alto-mar por fortes correntes oceânicas. O soldado estava quase desistindo quando viu algo inesperado: três pequenos pontos pretos no gelo. São corpos? Delta-Um tentou melhorar o foco.

— Você está vendo alguma coisa? — perguntou Delta-Dois.

Delta-Um não respondeu, ampliando a imagem com seu zoom. Ficou impressionado ao distinguir três formas humanas imóveis sobre o iceberg. Era impossível saber se estavam vivos ou mortos. Já não importava mais. Se estivessem vivos, mesmo usando roupas térmicas, morreriam dentro de uma hora, no máximo. Estavam molhados, uma tempestade se aproximava e eles flutuavam sem rumo num dos oceanos mais mortíferos do planeta. Seus corpos nunca seriam encontrados.

— Apenas sombras — respondeu por fim Delta-Um, virando-se. — Vamos voltar para a base.

 

O senador Sedgewick Sexton deixou sua taça de conhaque Courvoisier sobre a prateleira acima da lareira em seu apartamento de Westbrooke.

Depois remexeu o fogo durante algum tempo, coordenando as idéias. Os seis homens em seu escritório esperavam sentados em silêncio. As apresentações e conversas introdutórias tinham terminado. Era hora de o senador vender seu peixe. Eles sabiam disso. Ele também.

Estabeleça uma relação de confiança. Deixe que saibam que você compreende os problemas deles.

— Como vocês provavelmente já sabem — disse Sexton, virando-se para o grupo —, ao longo dos últimos meses eu me encontrei com muitos outros na mesma posição que vocês se encontram agora. — Ele sorriu e sentou-se para se colocar no mesmo nível deles. — Vocês são os únicos que recebi em minha casa. São todos homens extraordinários e estou honrado em conhecê-los.

O senador entrecruzou as mãos e deixou seus olhos circularem pelo escritório, estabelecendo contato visual com cada um de seus convidados. Então focalizou seu primeiro alvo: um grandalhão usando chapéu de caubói.

— Space Industries of Houston — disse Sexton. — Estou feliz de recebê-lo aqui.

O texano resmungou:

— Odeio esta cidade.

— Não o culpo. Washington tem sido muito injusta com você.

O homem olhou para ele por baixo da borda do chapéu, mas não falou nada.

— Há 12 anos você fez uma oferta ao governo — prosseguiu Sexton. — Propôs a construção de uma estação espacial americana por apenas cinco bilhões de dólares.

— É isso aí. Ainda tenho todos os planos.

— Porém, a NASA convenceu o governo de que uma estação espacial americana deveria ser um projeto da NASA.

— Exatamente. E a NASA começou a construção há cerca de 10 anos.

— Uma década. E, não bastasse o fato de que a estação espacial ainda não está funcionando plenamente, o projeto já custou até agora 20 vezes o valor que você havia proposto. Como cidadão e contribuinte, isso me revolta.

Um rumor de aprovação circulou pela sala. O candidato percorreu novamente o grupo com os olhos.

— Estou perfeitamente ciente — disse, dirigindo-se agora a todos – de que várias de suas empresas se ofereceram para lançar ônibus espaciais privados por apenas 50 milhões de dólares por vôo.

Mais sinais de concordância.

— Ainda assim, a NASA promove um dumping no mercado cobrando apenas 38 milhões por vôo, mesmo que seu custo real seja superior a 150 milhões de dólares!

— É assim que eles têm conseguido nos manter longe do espaço – disse um dos homens. — O setor privado não tem condições de competir com uma organização que pode se dar ao luxo de lançar vôos com 300% de prejuízo sem quebrar.

— É totalmente injusto.

Todos assentiram.

Sexton virou-se então para o indivíduo de aspecto austero que estava ao seu lado, cujo perfil ele havia lido com particular interesse. Como muitos dos executivos que estavam financiando sua campanha, esse homem era um engenheiro militar que se cansara dos salários baixos e da burocracia do governo e abandonara sua posição no Exército para buscar riqueza no setor aeroespacial.

— Kistler Aerospace. — O senador sacudiu a cabeça como se estivesse lamentando algo. — Sua empresa projetou e fabricou um foguete que pode lançar cargas por um preço muito baixo, cerca de quatro mil dólares por quilo, o que é excelente quando comparado aos custos da NASA de mil dólares por quilo. — Sexton fez uma pausa dramática. – Ainda assim, você não tem clientes.

— E por que teria? — questionou o executivo. — Na semana passada a NASA ganhou uma concorrência cobrando da Motorola apenas 1.600 dólares por quilo para lançar um satélite de telecomunicações. Em outras palavras, o governo lançou aquele satélite com um prejuízo de 900%!

Sexton balançou a cabeça, num gesto de compreensão. Os contribuintes estão subsidiando, sem saber, uma agência que é quatro vezes menos eficiente do que a concorrência.

— Acho que está claro — disse ele, com uma voz preocupada — que a NASA vem trabalhando consistentemente no sentido de impedir a competição no espaço. Ela mantém as empresas particulares do setor aeroespacial à distância oferecendo serviços abaixo do preço de mercado.

— Estou de saco cheio e cansado de ser forçado a pagar milhões de dólares em impostos sobre meus negócios para que o Tio Sam possa usar esse mesmo dinheiro para roubar meus clientes! — reclamou o texano.

— Entendo seu ponto — disse o senador.

— No caso da Rotary Rocket — disse um homem vestido impecavelmente — o que está nos matando é a impossibilidade de usar patrocínio comercial. As leis contra o patrocínio são criminosas!

— Mais uma vez, estou plenamente de acordo. — Sexton ficara impressionado ao descobrir que, como parte da estratégia para manter seu monopólio no espaço, a NASA tinha conseguido a aprovação de leis federais proibindo a colocação de anúncios em veículos espaciais. As companhias privadas do setor aeroespacial não podiam levantar fundos através de patrocínio ou propaganda de outras empresas, como acontecia nas competições de automobilismo, por exemplo. Qualquer veículo espacial estava limitado, por lei, a exibir apenas as palavras ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA e o nome do próprio fabricante. Num país em que os gastos com publicidade chegam a 185 bilhões de dólares por ano, jamais um dólar sequer de propaganda foi parar nos cofres das empresas aeroespaciais particulares.

— É uma roubalheira — interveio outro executivo. — Minha empresa espera lançar o primeiro protótipo de ônibus espacial para turismo do país dentro de alguns meses. Teremos uma enorme cobertura na imprensa. A Nike acabou de nos oferecer sete milhões de dólares de patrocínio só para pintarmos seu logo e o slogan “Just do it!” na lateral do veículo. Depois veio a Pepsi e nos ofereceu o dobro para colocarmos “Pepsi: para uma nova geração”. Mas, de acordo com as leis federais, se nossa nave tiver qualquer propaganda, seremos proibidos de lançá-la.

— De fato, é o que diz a lei — respondeu Sexton. — Mas, se eu for eleito, vou trabalhar para que essa legislação antipropaganda seja abolida. Isso é uma promessa. O espaço deveria estar tão disponível para publicidade quanto cada milímetro da Terra.

O candidato parou e olhou para sua audiência, seus olhos travando contato com cada um deles, sua voz tornando-se solene.

— Temos que estar cientes, contudo, de que o maior obstáculo à privatização da NASA não são as leis. É a percepção do grande público. Muitas pessoas ainda têm uma visão romântica do programa espacial americano. Ainda acreditam que a NASA é uma agência necessária ao funcionamento de nosso governo.

— Culpa desses malditos filmes de Hollywood! — queixou-se outro homem.

— Afinal, quantas toneladas de lixo no estilo NASA-salva-o-mundo-de-um-asteróide-mortal esses idiotas conseguem produzir? Isso é propaganda!

O boom de filmes sobre a NASA era uma simples questão econômica, como Sexton bem sabia. Depois do grande sucesso de Top Gun: Ases Indomáveis, um dos primeiros filmes de Tom Cruise, que mais parecia uma propaganda de duas horas da Marinha norte-americana, a NASA compreendeu o enorme potencial de Hollywood como centro de divulgação e relações públicas. Discretamente, a agência espacial começou a oferecer aos estúdios de cinema acesso gratuito para filmagens em todas as suas impressionantes locações: torres de lançamento, controle de missões, locais de treinamento de pilotos, etc. Acostumados a pagar caro para obter esse tipo de autorização, os produtores aproveitaram a oportunidade de economizar milhões em seus orçamentos fazendo filmes de ação que se passam nos cenários “gratuitos” da NASA. Claro que Hollywood só tinha acesso aos locais depois que a NASA aprovasse o roteiro.

— Fazem lavagem cerebral em larga escala — reclamou outro executivo. — A pior parte não são os filmes, mas as jogadas publicitárias. Qual o objetivo de enviar um idoso ao espaço? E agora a NASA está pensando em montar uma equipe só de mulheres para o próximo vôo do ônibus espacial. Tudo isso de olho na publicidade!

O senador soltou um suspiro e depois disse em tom trágico:

— Senhores, creio que é hora de fazer com que os americanos compreendam a verdade, pelo bem de nosso futuro comum. — Ele parou teatralmente na frente do fogo. — É hora de os americanos entenderem que a NASA não está nos levando para o infinito, e sim atrasando a exploração do espaço, um negócio igual a todos os outros. Manter o setor privado fora do jogo é quase um crime. Pensem no setor de informática, onde os avanços são tão grandes que tudo muda de uma semana para a outra! E por que isso acontece? Porque o setor de informática funciona com base nas leis de livre mercado: gera maiores lucros para os que são mais eficientes e que têm melhor visão. Imaginem se esse segmento fosse gerenciado pelo governo! Ainda estaríamos nas trevas. Estamos estagnados no espaço. Devemos colocar a exploração espacial nas mãos do setor privado, que é onde ela já deveria estar. O povo ficará admirado com o crescimento, a geração de empregos e os sonhos que se tornarão realidade. Devemos deixar que as leis de mercado nos levem a novos patamares nos céus. Se for eleito, assumirei o compromisso pessoal de abrir as portas rumo à fronteira final, deixando a passagem aberta e desimpedida.

Sexton levantou sua taça de conhaque.

— Amigos, vocês vieram aqui esta noite para decidir se sou merecedor de sua confiança. Espero que eu tenha sido capaz de conquistá-la. Da mesma forma como é necessário ter investidores para criar uma empresa, é necessário ter investidores para chegar à presidência. E, da mesma forma como os acionistas de uma corporação, vocês, como investidores políticos, também esperam retorno. Minha mensagem é simples: invistam em mim e jamais irei esquecer disso. Jamais. Eu e vocês estamos unidos pelos mesmos interesses e os mesmos ideais.

O senador levantou seu copo em direção a eles num brinde.

— Com sua ajuda, meus amigos, em breve estarei na Casa Branca... e vocês estarão colocando seus sonhos em rampas de lançamento.

A alguns passos do escritório, Gabrielle Ashe continuava de pé, imóvel nas sombras. Ouvia os sons alegres de pessoas brindando com taças de cristal e o crepitar da lareira.

 

Em Pânico, um jovem técnico da NASA correu pela habisfera. Algo terrível aconteceu! Ele encontrou o administrador Ekstrom sozinho perto da área de imprensa.

— Senhor, houve um acidente — disse o rapaz, sem fôlego.

Ekstrom virou-se com um olhar distante, como se seus pensamentos já estivessem muito conturbados por outros assuntos.

— Como assim? Um acidente? Onde?

— No poço de extração. Um corpo acabou de emergir. É o doutor Wailee Ming.

O rosto de Ekstrom ficou branco.

— O doutor Ming? Mas...

— Nós o retiramos imediatamente, mas era tarde demais. Ele está morto.

— Meu Deus. Vocês acham que ele estava lá dentro há quanto tempo?

— Cerca de uma hora, talvez. Parece que ele caiu, submergiu e, quando seu corpo se inchou, flutuou de volta à superfície.

O rosto avermelhado de Ekstrom ficou roxo.

— Mas que diabos! Quem mais sabe disso?

— Ninguém, senhor. Apenas dois de nós. Resolvemos tirá-lo do poço, mas achamos melhor contar ao senhor antes de...

— Fizeram bem — disse Ekstrom, soltando um suspiro pesado. — Guardem o corpo do doutor Ming imediatamente. Não digam nada sobre isso.

O técnico ficou perplexo.

— Mas, senhor, eu...

Ekstrom colocou sua larga mão no ombro do homem.

— Preste atenção. Este foi um acidente trágico e lamento profundamente por isso. Obviamente irei lidar com o problema de forma apropriada quando for a hora. A questão, justamente, é que agora não é a hora.

— O senhor deseja que eu esconda o corpo?

Os olhos frios de Ekstrom se fixaram no homem.

— Pense. Poderíamos contar a todos agora, mas o que iríamos estar fazendo? Estamos a cerca de uma hora da coletiva de imprensa. Anunciar que tivemos um acidente fatal iria ofuscar a descoberta que fizemos e teria um efeito moral devastador. O doutor Ming cometeu um descuido mortal e não tenho a intenção de fazer com que a NASA pague por isso. Esses cientistas civis já ganharam uma importância maior do que deveriam, e eu não desejo que um de seus erros, causado por negligência, manche nosso momento público de glória. O acidente sofrido por Wailee Ming permanecerá, portanto, um segredo até que a coletiva tenha terminado. Fui claro?

O jovem assentiu, pálido.

— Vou esconder o corpo.

 

Michael Tolland já havia passado tempo suficiente no mar para saber que o oceano matava sem remorsos nem hesitação. Estava deitado, exausto, sobre o iceberg e mal podia ver o contorno fantasmagórico da imponente plataforma Mune se afastando cada vez mais. Sabia que a forte corrente do Ártico, formada nas ilhas Elizabeth, criava uma imensa espiral em torno da calota de gelo polar para mais tarde se aproximar novamente da costa no norte da Rússia. Não que importasse muito, já que isso levaria meses.

Temos cerca de 30 minutos, no máximo 45.

Sem o isolamento protetor de seus macacões preenchidos com gel, já estariam mortos. Felizmente, com os Mark IX, os três se mantiveram secos, o fator mais crítico para a sobrevivência em baixas temperaturas. O gel térmico ao redor de seus corpos não só havia amortecido a queda, mas também os ajudava a conservar qualquer resto de calor ainda existente.

Em breve o processo de hipotermia iria começar. No início seria apenas uma ligeira dormência nos braços e pernas, à medida que o sangue se retraísse para o centro do corpo a fim de proteger os órgãos vitais.

Depois viriam as alucinações, quando o pulso e a respiração se reduzissem, retirando oxigênio do cérebro. Por último, o corpo faria um esforço final para reter o que restasse de calor, desativando tudo, exceto o coração e a respiração. Ficariam inconscientes a partir desse ponto. No final, até mesmo os centros nervosos responsáveis pela respiração e pelo coração iriam parar de funcionar completamente.

Tolland virou-se para Rachel, desejando que pudesse ao menos fazer algo por ela.

A dormência que se espalhava pelo corpo de Rachel era menos dolorosa do que ela teria imaginado. Quase que uma anestesia bem-vinda. Morfina natural. Ela havia perdido seus óculos protetores quando o gelo se partiu e mal podia abrir os olhos naquele frio.

Podia ver Tolland e Corky próximos a ela. Tolland estava olhando na sua direção, com uma expressão triste. Corky se movia, mas parecia estar com fortes dores. O osso logo abaixo de seu olho direito parecia quebrado e o rosto estava sangrando.

O corpo de Rachel tremia incontrolavelmente enquanto sua mente procurava respostas. Quem? Por quê? Seus pensamentos estavam embaralhados pelo peso que parecia crescer dentro dela. Nada fazia sentido. Era como se seu corpo estivesse aos poucos se desligando, aquietado por uma força invisível que a chamava para um sono profundo.

Rachel resolveu lutar contra isso. Sentiu uma enorme raiva fervendo dentro dela e tentou manter suas chamas acesas.

Tentaram nos matar! Olhou para o mar ameaçador e sentiu que seus agressores haviam sido bem— sucedidos. Já estamos mortos. Mesmo naquele momento, sabendo que provavelmente não viveria para conhecer a verdade oculta por trás do jogo mortal que estava se desenrolando na plataforma Milne, Rachel suspeitava que já sabia quem era o culpado. O administrador Ekstrom era quem tinha mais a ganhar. Ele os mandara lá para fora, para o gelo. Tinha ligações com o Pentágono e com as tropas de elite. Mas o que Ekstrom teria a ganhar inserindo aquele meteorito sob o gelo? O que qualquer um teria a ganhar com aquilo?

Rachel voltou seus pensamentos para Zach Herney, conjeturando se o presidente também era parte da conspiração ou apenas uma peça no tabuleiro? Herney não está sabendo de nada. Ele é inocente. O presidente obviamente fora enganado pela NASA. Em breve ele iria anunciar a descoberta do meteorito, com a ajuda de um documentário em vídeo no qual quatro cientistas civis respaldavam a descoberta.

Quatro cientistas civis mortos.

Rachel já não tinha mais como impedir a coletiva, mas jurou que o responsável pelo ataque não sairia impune.

Juntando todas as suas forças, tentou sentar-se. Seus membros pareciam feitos de pedra, e todas as suas juntas gritavam de dor enquanto ela dobrava braços e pernas. Lentamente, conseguiu ficar de quatro, equilibrando-se sobre o gelo escorregadio. Sua cabeça girava, enquanto ouvia o mar batendo vigorosamente contra o iceberg. Tolland estava deitado bem perto, olhando para ela, sem entender. Talvez ele ache que estou me ajoelhando para rezar, pensou ela. O que não era verdade, lógico, ainda que rezar fosse provavelmente um método tão eficaz para salvá-los quanto o que ela iria tentar.

Com a mão direita, tateou até achar a piqueta de gelo ainda presa em seu cinto. Seus dedos enrijecidos agarraram o cabo. Ela inverteu a piqueta, como um T invertido. Então, com toda a força que lhe restava, bateu com a cabeça da ferramenta contra o gelo. Tum. De novo. Tum. O sangue parecia uma pasta gelada fluindo em suas veias. Tum. Tolland olhou para ela, obviamente perplexo. Rachel bateu de novo com a piqueta. Tum.

Ele tentou apoiar-se sobre o cotovelo.

— Rã... chel?

Ela não respondeu. Precisava de toda a energia disponível. Tum. Tum.

— Eu não acredito... — disse Tolland — ...que um sinal tão ao norte... possa ser captado pela SAA...

Rachel virou-se para ele, surpresa. Ela se esquecera de que Mike era oceanógrafo e poderia ter compreendido o que ela estava fazendo. Sim, a idéia é essa, mas não estou tentando me comunicar com a SAA.

Continuou batendo.

A SAA (Suboceanic Acoustic Array) era uma rede de 59 microfones submarinos espalhados pelo planeta. Relíquia da Guerra Fria, a SAA vinha sendo usada nos últimos tempos por oceanógrafos do mundo inteiro para ouvir as baleias. Como os sons se propagavam por centenas de quilômetros sob a água, a rede era capaz de captar sinais numa enorme área em todos os oceanos. Infelizmente, aquele setor remoto do Ártico não estava dentro da área de cobertura, mas Rachel sabia que outros dispositivos estariam monitorando os sons no fundo dos oceanos, sistemas cuja existência era conhecida apenas por um punhado de pessoas no planeta. Ela continuou batendo. Sua mensagem era simples e clara.

TUM. TUM. TUM.

TUM... TUM... TUM...

TUM. TUM. TUM.

Rachel não tinha nenhuma ilusão de que aquilo salvaria suas vidas. Ela já podia sentir seu corpo enrijecendo com o frio, como se estivesse congelando pouco a pouco. Duvidava que fosse resistir a outros 30 minutos naquelas condições e sabia que não havia uma chance real de serem socorridos. Mas ela não estava pensando em resgate.

— Não vai dar tempo... — disse Tolland.

Isto não tem nada a ver conosco, ela pensou. Tem a ver com a informação no meu bolso. Rachel imaginou a impressão incriminadora do GPR que estava no bolso de velcro de seu macacão Mark IX. Preciso fazer com que esta impressão chegue às mãos do NRO... e rápido.

Mesmo em seu estado quase delirante, Rachel tinha certeza de que sua mensagem seria recebida. Em meados dos anos 1980, o NRO havia substituído a SAA por uma matriz 30 vezes mais poderosa. O NRO tinha agora cobertura total do globo através do Classic Wizard, seu ouvido de 12 milhões de dólares no fundo dos oceanos. Dentro de algumas horas, os supercomputadores Cray do posto de escuta do NRO e da NSA em Menwith Hill, na Inglaterra, iriam indicar uma seqüência anômala de sons em um dos hidrofones do Ártico. Depois decifrariam os batimentos como um S.O.S., triangulariam as coordenadas e um avião de resgate seria despachado da Base da Força Aérea em Thule, na Groenlândia. O avião iria encontrar três corpos em um iceberg. Congelados. Mortos. Um deles seria de uma funcionária do NRO... e ela estaria com um estranho pedaço de papel de impressão térmica em seu bolso.

A impressão de um GPR.

O último legado de Norah Mangor.

Quando aqueles que viessem resgatá-los estudassem a impressão, o misterioso túnel de inserção sob o meteorito seria revelado. A partir daí, Rachel não tinha idéia do que iria ocorrer, mas ao menos o segredo não morreria com ela ali, no gelo.

 

Toda vez que há transição na Casa Branca, o novo presidente faz uma visita a três armazéns muito bem guardados que contêm uma preciosa coleção de móveis e objetos já usados pelos seus antecessores, como mesas, prataria, escrivaninhas, camas e outros itens, voltando no tempo até à época de George Washington. Durante essa visita, o novo presidente é convidado a escolher qualquer objeto do qual ele goste para usá-lo na decoração da Casa Branca durante seu mandato. A única coisa que não pode ser mexida é a cama que fica no Quarto de Lincoln.

Ironicamente, o próprio Abraham Lincoln jamais dormiu nela.

A mesa em que Zach Herney estava agora sentado no Salão Oval havia pertencido anteriormente a seu ídolo, Harry Truman. Apesar de ser pequena pelos padrões contemporâneos, essa mesa servia como um lembrete diário de que as decisões finais saíam dali e de que Herney era, em última instância, responsável por qualquer deficiência ou problema de sua administração. Ele aceitava essa responsabilidade como uma honra e fazia o melhor que podia para transmitir à sua equipe a motivação para fazer tudo o que fosse necessário para que as coisas saíssem a contento.

— Senhor presidente? — sua secretária chamou, olhando para dentro do escritório. — Sua ligação acabou de ser completada.

— Obrigado — disse ele, acenando.

Pegou o telefone. Gostaria de ter aquela conversa em particular, mas estava claro que privacidade era algo que não teria nas próximas horas. Dois maquiadores moviam-se ao seu redor como mosquitos, mexendo e remexendo em seu rosto e em seu cabelo. Bem em frente à sua mesa, uma equipe de TV estava preparando seu equipamento e havia um enxame de pessoas de RP e conselheiros andando de um lado para o outro, discutindo estratégias de comunicação.

Falta apenas uma hora...

Herney apertou um botão em seu telefone pessoal.

— Lawrence? Você está na linha?

— Sim, estou aqui — disse o administrador da NASA com uma voz distante e parecendo muito desgastado.

— Tudo certo por aí?

— A tempestade continua crescendo, mas os técnicos garantiram que a conexão com o satélite não será afetada. Estamos prontos. A contagem já começou...

— Ótimo! Todos animados, eu espero.

— Muito animados. Toda a minha equipe está ansiosa, esperando pelo momento. Aliás, acabamos de tomar algumas cervejas.

O presidente riu.

— É bom saber. Bem, só queria dar este último telefonema e lhe agradecer antes que a coisa toda comece. Faz tempo que estamos esperando por este momento. Esta noite vai ser absolutamente fantástica.

O administrador ficou em silêncio, parecendo estranhamente inseguro.

— Com certeza será, senhor. Há tempos que estamos esperando por algo assim.

Herney hesitou, depois disse:

— Você me parece exausto.

— Esta noite sem fim e a falta de sono estão começando a pesar.

— Vamos lá, falta só uma hora. Sorria para as câmeras, aproveite o momento e logo em seguida mandaremos um avião até aí para trazer vocês de volta a Washington.

— Mal posso esperar — respondeu Ekstrom, ficando depois novamente em silêncio.

Como um negociador hábil, Herney havia sido treinado para ouvir com atenção e perceber o que estava acontecendo nas entrelinhas. Havia algo de errado na voz do administrador.

— Você tem certeza de que está tudo bem por aí?

— Absolutamente. Todos os sistemas a postos. — O administrador parecia querer mudar logo de assunto. — O senhor assistiu à última edição do documentário de Tolland?

— Acabei de ver — disse Herney. — Ele fez um excelente trabalho.

— Sim. O senhor fez bem em mandá-lo para cá.

— Ainda está zangado comigo por ter envolvido os civis no assunto?

— Claro que sim! — resmungou Ekstrom de maneira bem-humorada, a voz firme como de hábito.

Isso fez com que Herney se despreocupasse. Ele está bem, pensou. Apenas um pouco cansado.

— Bem, nos vemos em uma hora, via satélite. Vai ser um impacto.

— Isso.

— E... Lawrence? — O presidente mudou o tom de voz, falando agora de forma solene. — O que você fez por aí foi fantástico. Não vou me esquecer disso.

 

Do lado de fora da habisfera, castigado pelo vento, Delta-Três tinha desvirado o trenó e lutava para recolocar e ajeitar o equipamento de Norah Mangor sobre ele. Quando terminou, puxou de volta a cobertura de vinil e jogou o corpo de Norah por cima, amarrando-o. Estava se preparando para puxar o trenó para fora de seu curso quando seus dois parceiros voltaram esquiando.

— Houve uma mudança de planos — gritou Delta-Um no meio da ventania. — Os outros três caíram do penhasco.

Delta-Três não se surpreendeu com a notícia. Sabia também que isso significava que o plano original da Força Delta de encenar um acidente deixando quatro corpos na geleira não seria mais uma opção.

— Limpamos?

Delta-Um assentiu.

— Vou recolher os sinalizadores enquanto vocês dois se livram do trenó.

Enquanto Delta-Um percorria de volta a trilha dos cientistas, recolhendo qualquer evidência de que eles tivessem passado por ali, Delta-Três e seu parceiro se moveram em direção à costa com o trenó cheio de equipamentos e o corpo. Depois de vencer as três elevações, chegaram ao penhasco no final da geleira Milne. Deram um forte empurrão, e Norah Mangor e seu trenó deslizaram silenciosamente pela borda, mergulhando no oceano Ártico.

Limpeza perfeita, pensou Delta-Três.

Enquanto voltavam para a base, ele ficou feliz ao ver que o vento estava apagando completamente os rastros deixados por seus esquis.

 

O submarino nuclear USS Charlotte estava estacionado no oceano Ártico há cinco dias. Sua presença ali era altamente secreta.

O Charlotte era um submarino da classe Los Angeles, projetado para “ouvir sem ser ouvido”. Suas turbinas de 42 toneladas eram instaladas sobre molas para amortecer sua vibração. Embora um dos seus pré-requisitos fosse a discrição, era um dos maiores submarinos de reconhecimento em operação. Com um comprimento próximo a 110 metros da proa à popa, era do tamanho de um campo de futebol oficial. Era sete vezes maior que o primeiro submarino da classe Holland da Marinha norte-americana e, quando completamente submerso, deslocava 6.927 toneladas de água e chegava à velocidade de 35 nós.

A profundidade normal de cruzeiro dessa embarcação era logo abaixo da termoclina, uma camada de transição térmica abrupta que distorcia os sinais de radar vindos de cima, tornando o submarino invisível para os radares de superfície. Comportando uma tripulação de 148 homens e podendo atingir uma profundidade máxima de submersão de mais de 1.500 pés, o submarino era um dos mais avançados e também um dos mais usados pela Marinha dos Estados Unidos. Seu sistema de oxigenação por eletrólise de evaporação, os dois reatores nucleares e o estoque de comida desidratada permitiam que circunavegasse o globo 21 vezes sem nunca ter que subir à superfície.

O técnico que estava sentado diante da tela do sonar era um dos melhores do mundo. Sua mente era um dicionário de sons e formas de onda. Podia distinguir os diferentes sons de dezenas de propulsores de submarinos russos, o ruído de centenas de criaturas marinhas e até mesmo localizar vulcões submarinos do outro lado do planeta.

No momento, contudo, ele estava ouvindo um eco repetitivo e desinteressante. O som, apesar de facilmente discernível, era completamente inesperado.

— Você não vai acreditar no que estou captando — disse para seu assistente, passando-lhe os fones.

O outro marinheiro colocou os fones e olhou para ele, estupefato.

— Nossa. Absolutamente claro. O que vamos fazer?

O responsável pelo sonar já estava interfonando para o comandante.

Quando o comandante do submarino chegou à sala do sonar, o técnico transferiu o sinal de áudio do equipamento para um par de caixas de som.

O comandante ouviu impassível.

TUM. TUM. TUM.

TUM... TUM... TUM...

Mais lento. Cada vez mais lento. O padrão estava se tornando confuso e se enfraquecendo.

— Quais são as coordenadas? — perguntou o comandante.

O técnico limpou a garganta.

— A parte mais curiosa, senhor, é que está vindo da superfície, cerca de três milhas a estibordo.

 

Na escuridão do corredor, do lado de fora do escritório do senador Sexton, as pernas de Gabrielle tremiam, não tanto pela exaustão de ficar de pé, parada, mas pela desilusão com aquilo que estava ouvindo.

A reunião na sala ao lado prosseguia, mas ela não precisava ouvir mais nada. A verdade estava bem clara.

O senador está recebendo suborno de empresas espaciais do setor privado. Marjorie Tench lhe dissera a verdade.

Gabrielle sentiu-se nauseada com a traição de Sexton. Ela havia acreditado nele. Lutado por ele. Como seu candidato podia estar fazendo aquilo? Gabrielle tinha visto o senador mentir publicamente, aqui e ali, para proteger sua vida pessoal, mas sabia que aquilo fazia parte do jogo político. Isso, porém, era completamente ilegal.

Ele nem foi eleito ainda e já está vendendo a Casa Branca!

Estava claro que ela não poderia mais apoiar o senador. A promessa de aprovar o projeto de privatização da NASA era algo que significava não apenas um profundo desrespeito pela lei, mas também por todo o sistema democrático. Mesmo que o senador acreditasse que era o melhor a fazer, vender aquela decisão antecipadamente fechava a porta para todos os mecanismos de controle e equilíbrio do governo, ignorando as argumentações do Congresso, de conselheiros, eleitores e lobistas.

Pior que isso, ao garantir a privatização da NASA, Sexton teria aberto caminho para uma quantidade enorme de abusos para os que tinham conhecimento prévio de tudo, sendo a venda de informações privilegiadas o mais comum. Isso favoreceria de forma grosseira aquela patota de ricos e poderosos em detrimento de investidores públicos honestos.

Sentindo um profundo enjôo, Gabrielle ficou pensando no que faria.

Um telefone tocou bem alto ao lado dela, quebrando o silêncio do corredor. Assustada, olhou para ver o que era. O som vinha do armário na ante-sala: um celular estava tocando no bolso de um dos casacos pendurados.

— Com licença, amigos — disse alguém com um sotaque texano arrastado —, esse é o meu.

Gabrielle ouviu o homem se levantando. Ele vem para cá! Virou-se e começou a andar em direção à porta de entrada. No meio do corredor, entrou bruscamente à esquerda, agachando-se na cozinha escura bem a tempo. Ficou ali congelada, imóvel nas sombras.

O texano passou sem notar sua presença. Junto com o som de seu próprio coração em disparada, ela podia ouvi-lo mexendo nos casacos à procura do telefone. Finalmente encontrou o aparelho e atendeu.

— Oi?... Quando?... Mesmo? Bom, vamos ligar para ver. Obrigado.

O homem desligou e retornou ao escritório, gritando para os outros enquanto andava.

— Ei! Liguem a televisão. Parece que Zach Herney vai dar uma coletiva de imprensa urgente agora à noite. Oito horas, em todos os canais. Ou estamos declarando guerra à China ou então a Estação Espacial Internacional acabou de cair no oceano.

— Este seria um grande motivo para um brinde! — alguém bradou de volta. Todos riram.

Gabrielle sentiu a cozinha girando em volta dela. Uma coletiva às oito da noite? Parece que Tench não estava blefando, afinal. Aquele era o horário que a consultora havia estabelecido para que Gabrielle entregasse sua declaração assinada, admitindo o caso com Sexton.

“Afaste-se do senador antes que seja tarde demais”, dissera Marjorie.

Gabrielle presumira que aquele prazo era para que a Casa Branca pudesse vazar a informação para os jornais do dia seguinte, mas aparentemente o presidente pretendia levar o assunto a público diretamente.

Uma coletiva urgente? Quanto mais Gabrielle pensava naquilo, mais estranha a coisa lhe parecia. Herney vai denunciar pessoalmente toda essa confusão? Ao vivo?

A televisão foi ligada no escritório, com o volume bem alto. O apresentador mal podia conter sua agitação.

— A Casa Branca não emitiu nenhum pronunciamento prévio sobre a surpreendente coletiva do presidente esta noite e, no momento, há muitas especulações. Alguns analistas políticos acreditam que, depois de se ausentar recentemente dos palanques de campanha, Zach Herney pode estar se preparando para anunciar oficialmente que não irá se candidatar a um segundo mandato.

Uma torcida animada se fez ouvir no escritório.

Isso é absurdo, pensou Gabrielle. Ela sabia que, com toda a sujeira que a Casa Branca tinha contra Sexton, o presidente não ia jogar a toalha naquela noite. O assunto da coletiva é outro. E Gabrielle tinha um mau pressentimento de que já sabia do que se tratava.

Com um sentimento de urgência crescente, ela olhou para o relógio.

Restava menos de uma hora. Ela tinha uma decisão a tomar e sabia exatamente com quem precisava falar. Agarrando-se ao envelope de fotos, saiu do apartamento em silêncio. Deu de cara com o segurança, que parecia aliviado.

— Ouvi o pessoal comemorando aí dentro. Parece que você fez bastante sucesso.

Ela deu um sorriso rápido e foi direto para o elevador.

Na rua, a noite que estava começando lhe trazia uma sensação especialmente amarga. Ela pegou um táxi e tentou assegurar-se de que realmente sabia o que estava fazendo.

— Estúdios de TV da ABC — disse ao motorista. — E rápido.

 

Michael Tolland estava deitado de lado no gelo, a cabeça apoiada sobre o braço jogado acima do corpo. Já não podia mais sentir seu braço.

Suas pálpebras estavam pesadas, mas ele lutava para mantê-las abertas.

Dessa perspectiva peculiarmente inclinada, Tolland observava o mundo — agora reduzido a mar e gelo — pela última vez. Parecia um final adequado para um dia no qual tudo tinha sido estranho.

Uma calma assustadora havia se espalhado sobre a balsa de gelo flutuante. Rachel e Corky estavam em silêncio, e ela tinha parado de bater contra o gelo. À medida que se afastavam da geleira, o vento ia se acalmando. Tolland ouvia seu corpo se aquietar também. Com o capuz apertado contra os ouvidos, podia escutar a própria respiração, amplificada. Estava ficando mais lenta... mais superficial. Seu corpo já não conseguia lutar contra a sensação de compressão provocada pelo sangue abandonando as extremidades como quem foge de um navio condenado, fluindo instintivamente para seus órgãos vitais num último e desesperado esforço para mantê-lo consciente.

Era uma batalha perdida.

Estranhamente, não havia dor alguma. Já tinha passado daquele estágio.

A sensação agora era a de estar inflado. Dormente. Flutuando. O primeiro de seus reflexos motores começou a não obedecer: já não podia piscar. Sua visão estava ficando embaçada. O humor aquoso, que circula entre a córnea e o cristalino, estava se congelando. Tolland olhou para o borrão em que se transformara a plataforma de gelo Milne, uma vaga forma branca sob a lua enevoada.

Sentiu que sua alma admitia a derrota. Flutuando entre a presença e a ausência, contemplou as ondas do oceano ao longe. O vento soprava em torno delas.

Foi então que começou a ter alucinações. Estranhamente, nos últimos segundos de consciência, não fantasiou que estava sendo resgatado. Não teve pensamentos calorosos e reconfortantes. Sua última ilusão foi assustadora.

Um leviatã estava saindo das águas ao lado do iceberg, irrompendo na superfície com um ruído avassalador. Como um mitológico monstro dos mares, emergiu — esguio, preto e de aparência mortífera, cuspindo espuma à sua volta. Tolland fez força para piscar e sua visão melhorou um pouco. A besta estava próxima, chocando-se contra o gelo como um enorme tubarão golpeando um pequeno bote. Imponente, erguia-se bem alto diante dele com a pele cintilante e molhada.

A imagem borrada ficou preta e só sobraram os sons. Metal sobre metal.

Dentes abocanhando o gelo. Aproximando-se. Carregando os corpos.

Rachel...

Tolland sentiu quando o pegaram com vigor.

Depois o mundo em volta se apagou.

 

Gabrielle Ashe estava quase correndo ao entrar no departamento de jornalismo da ABC News, no terceiro andar. Mesmo assim, seu ritmo era mais lento do que o de todas as pessoas lá dentro. A redação era um frenesi 24 horas por dia, mas naquele momento o conjunto de cubículos na frente dela parecia uma versão acelerada da bolsa de valores.

Editores de olhos esbugalhados gritavam uns com os outros por cima de suas divisórias; repórteres corriam de um lado para o outro, sacudindo faxes e comparando suas informações, e estagiários frenéticos comiam barras de cereais e tomavam bebidas energéticas entre suas tarefas.

Gabrielle tinha vindo falar com Yolanda Cole.

Em geral Yolanda estaria num dos aquários da redação — os escritórios privados com paredes de vidro reservados aos executivos que precisavam de algum silêncio para pensar. Naquela noite, contudo, ela estava junto com o resto da plebe, no meio da confusão. Quando viu Gabrielle, soltou seu tradicional grito histérico.

— Gabi! — Yolanda estava usando um xale com estampa indiana e óculos com armação de tartaruga. Como sempre, estava coberta de jóias extravagantes. Ela caminhou na direção de Gabrielle, acenando. — E o meu abraço?

Yolanda Cole estava há 16 anos em Washington trabalhando como editora de conteúdo para a ABC News. Polonesa, de rosto sardento, ela era baixinha, gorducha e tinha cabelos ralos. Todos a chamavam afetuosamente de “Mãe”. Seu jeito matronal e bem-humorado disfarçava uma certa frieza para desencavar os fatos adquirida com os anos de prática. Gabrielle conheceu Yolanda num seminário sobre mulheres na política de que havia participado logo depois de chegar a Washington.

Tinham conversado sobre a experiência prévia de Gabrielle, os desafios de ser mulher no distrito federal e, finalmente, sobre uma paixão em comum: Elvis Presley. A editora colocara Gabrielle sob sua tutela, ajudando-a a fazer contatos na capital. Gabi costumava fazer visitas mensais à amiga para bater papo.

As duas trocaram um forte abraço, e o bom astral de Yolanda fez com que Gabrielle se sentisse um pouco melhor.

Yolanda deu um passo para trás e olhou para ela de cima a baixo.

— Você parece ter envelhecido 100 anos, querida! O que aconteceu?

— Estou em apuros, Yolanda — Gabrielle falou em voz baixa.

— Não é bem o que estão dizendo por aí. Parece que o seu homem está com tudo.

— Há algum lugar onde possamos conversar a sós?

— Puxa, este é um péssimo momento. O presidente vai dar uma coletiva dentro de meia hora e ainda não sabemos do que se trata. Tenho que preparar comentários de especialistas, mas estou voando às cegas.

— Eu sei sobre o que é a coletiva.

Yolanda abaixou seus óculos, olhando para ela com ceticismo.

— Gabrielle, mesmo nosso correspondente dentro da Casa Branca não sabe nada a respeito. Você está me dizendo que o pessoal da campanha de Sexton foi informado com antecedência?

— Não, estou dizendo que eu fui informada com antecedência. Me dê cinco minutos e eu lhe conto tudo.

Yolanda viu o envelope vermelho da Casa Branca na mão de Gabrielle.

— Ei, isso é material interno da Casa Branca! Onde você conseguiu isso?

— Numa reunião privada com Marjorie Tench hoje à tarde.

A editora ficou olhando para ela.

— Bem, então venha aqui.

Na privacidade do aquário de Yolanda, Gabrielle revelou à amiga que tinha ido para a cama com o senador e que Tench conseguira fotos do tórrido encontro dos dois.

Yolanda abriu um largo sorriso e balançou a cabeça, rindo. Ela já estava trabalhando como jornalista em Washington há tanto tempo que aparentemente nada mais a surpreendia.

— Ah, Gabi, eu tinha mesmo um palpite de que algo tinha ocorrido entre você e Sexton. Não me espanta. Ele tem uma longa reputação e você é uma moça bonita. Pena que haja evidências fotográficas. Ainda assim, eu não me preocuparia com isso.

— Não se preocuparia com isso?

Gabrielle explicou que Tench também havia acusado Sexton de receber suborno de empresas do setor espacial, e contou que ela mesma começara a desconfiar de que era verdade depois de bisbilhotar uma reunião secreta da Space Frontier Foundation com o senador.

Mais uma vez, Yolanda olhou para a amiga com uma expressão despreocupada e não demonstrou nenhuma surpresa. Ao menos não até ouvir o que ela tinha em mente.

Yolanda ficou preocupada e disse:

— Gabrielle, se você quer entregar um documento com valor jurídico dizendo que transou com um senador dos EUA e ficou calada enquanto ele mentia a respeito, isso é problema seu. Mas devo lhe avisar que é uma péssima idéia, com conseqüências ruins para você. É melhor pensar bem no que isso significaria para a sua vida.

— Você não está me ouvindo! Meu tempo está quase acabando!

— Sim, querida, eu estou ouvindo, e com muita atenção. Não importa se o relógio está correndo, algumas coisas são simplesmente contra as regras do jogo. Não se entrega um senador americano em meio a um escândalo sexual. É suicídio. Estou lhe dizendo, mocinha, se você vai derrubar um candidato presidencial, é melhor entrar no carro e dirigir para bem longe de Washington, D.C. Você ficará marcada. Muitas pessoas disponibilizam enormes somas para que os candidatos vençam eleições. Há pesos pesados das finanças e do poder envolvidos na campanha – o tipo de gente que não se importa, de mandar matar alguém quando necessário.

Gabrielle ficou em silêncio.

— Minha impressão é de que Tench forçou a barra esperando que você entrasse em pânico e fizesse alguma idiotice, como confessar que teve mesmo esse caso — disse Yolanda. Depois de uma pausa, ela apontou para o envelope vermelho nas mãos de Gabrielle. — Essas imagens não significam nada a menos que você ou ele admitam que são verdadeiras. A Casa Branca sabe que, se deixar vazar isso, Sexton vai a público dizer que as fotos foram forjadas e irá virar a mesa em cima do presidente.

— Eu pensei nisso, mas ainda assim há a questão dos subornos de campanha, que são...

— Querida, raciocine. Se a Casa Branca ainda não foi a público com alegações de suborno, provavelmente é porque não pretende fazer isso. O presidente tem levado muito a sério essa história de não usar propaganda negativa em sua campanha. Eu diria que ele resolveu evitar um grande escândalo envolvendo a indústria aeroespacial e mandou Tench atrás de você com esse blefe para ver se conseguia pressioná-la a assumir o caso publicamente. Em outras palavras, esfaquear seu candidato pelas costas.

Gabrielle refletiu um pouco. O que a amiga estava dizendo fazia sentido, mas ainda assim havia algo que a perturbava. Ela apontou para a parede de vidro que separava a sala de Yolanda da redação em completo tumulto.

— Yolanda, vocês estão se preparando para uma grande coletiva presidencial. Se o presidente não vai falar em público sobre sexo ou suborno, então do que se trata?

A editora olhou para ela, perplexa.

— Ah, espera aí... Você acha que esta coletiva tem a ver com você e Sexton?

— Ou a história do suborno. Ou ambos. Tench me disse que eu tinha até às oito da noite para assinar uma confissão ou então o presidente iria anunciar...

A gargalhada estrondosa de Yolanda fez o vidro da sala tremer.

— Ah, não, pare... Assim não consigo nem respirar... Vou ficar com soluços!

Gabrielle não estava achando graça.

— O que foi agora?!

— Gabi, querida, escute... — disse Yolanda, segurando o riso. — Acredite em mim. Eu lido há 16 anos com a Casa Branca e posso garantir que é impossível que Zach Herney tenha convocado a imprensa do mundo inteiro para dizer que ele suspeita que o senador Sexton esteja aceitando financiamentos questionáveis para sua campanha ou transando com você. Isso é o tipo de informação que se deixa vazar. Presidentes não ganham nada em popularidade se interromperem a programação normal para reclamar e resmungar a respeito de sexo ou de supostas infrações das obscuras regras de financiamento de campanha.

— Como assim? — retrucou Gabrielle. — Vender uma decisão presidencial sobre um projeto de lei em troca de investimentos milionários na campanha não me parece exatamente uma questão obscura!

— E você tem certeza de que é isso que ele está fazendo? — Yolanda falou em um tom mais sério. — Você está certa o suficiente para se expor em cadeia nacional? Pense bem. Nos dias de hoje, muitas alianças são necessárias para que as coisas avancem, e o financiamento das campanhas é sempre uma questão complexa. É possível que a reunião de Sexton seja completamente legal.

— Ele está violando a lei — insistiu Gabrielle. Não está?

— Pelo menos é o que Marjorie quer que você pense. Os candidatos aceitam doações de grandes corporações por trás dos panos o tempo todo. Pode não ser ético, mas não é necessariamente ilegal. Na verdade, muitas das questões sobre a legalidade dos financiamentos não têm a ver com a origem do dinheiro, mas sim sobre como ele é gasto pelo candidato.

Gabrielle hesitou, sentindo-se insegura.

— Gabi, a Casa Branca tentou enganá-la esta tarde. Tentaram fazer com que atacasse seu próprio candidato e, até agora, você está engolindo o blefe deles. Se eu tivesse que escolher em quem confiar, acho que não trocaria Sexton por alguém como Marjorie Tench.

O telefone de Yolanda tocou. Ela atendeu, sacudindo a cabeça e dizendo “ah-ah” enquanto fazia algumas anotações.

— Interessante — disse finalmente. — Já estou indo aí. Obrigada.

Yolanda desligou e virou-se para a amiga, pensativa.

— É, parece que você estava mesmo por fora, como eu havia previsto.

— O que está acontecendo?

— Não tenho os detalhes ainda, mas o que posso dizer é que a coletiva não tem nada a ver com escândalos sexuais ou financiamento de campanha.

Gabrielle ficou animada com a notícia; ela desejava fortemente que aquilo fosse verdade.

— E como você sabe disso?

— Alguém lá de dentro acabou de vazar que a coletiva de imprensa é sobre a NASA.

Gabrielle sentou-se, abruptamente.

— A NASA?

Yolanda deu uma piscadela.

— Esta pode ser uma grande noite para você. Eu diria que o presidente Herney está se sentindo tão pressionado por Sexton que não teve outra escolha senão abortar o projeto da Estação Espacial Internacional. Isso explicaria a cobertura da imprensa mundial.

Uma coletiva para dizer que o projeto da estação será abortado? Gabrielle não conseguia imaginar tal coisa. Yolanda levantou-se.

— Sobre a história com Tench, hoje à tarde... Era provavelmente uma última tentativa desesperada de obter algo contra Sexton antes que o presidente tivesse que ir a público com as más notícias. Não há nada como um escândalo sexual para distrair a atenção de mais um fracasso presidencial. Bom, de qualquer maneira, Gabi, tenho um monte de trabalho para fazer. Meu conselho é que você pegue uma xícara de café, sente-se aqui mesmo, ligue minha TV e veja para onde isso vai caminhar. Ainda temos 20 minutos até a coisa toda começar, e eu lhe garanto que não há a menor chance de que o presidente vá tirar a noite para lavar roupa suja. O mundo inteiro está olhando. Não sei o que ele vai dizer, mas garanto que é algo de impacto — concluiu, com uma piscadela. — Agora me dê esse envelope.

— Como?

Yolanda estendeu a mão e ficou mexendo os dedos, pedindo o envelope.

— Essas fotos vão ficar trancadas na minha mesa até que tudo isso termine. Quero ter certeza absoluta de que você não vai fazer besteira.

Relutantemente, Gabrielle entregou-lhe o envelope.

A editora trancou o envelope em uma gaveta de sua mesa e guardou as chaves no bolso.

— Você ainda vai me agradecer por isso, Gabi. Te juro. — Mexeu de brincadeira no cabelo da amiga enquanto saía. — E fique firme, porque acho que há boas notícias a caminho para você.

Gabrielle ficou sentada sozinha no cubículo de vidro, buscando ânimo no jeitão alegre e confiante de Yolanda. Tudo em que ela podia pensar, contudo, era no sorriso afetado de Marjorie Tench algumas horas antes.

Gabrielle não podia imaginar o que o presidente estava prestes a anunciar, mas definitivamente achava que as notícias não seriam boas para o senador Sexton.

 

Rachel Sexton sentia-se como se estivesse sendo queimada viva.

Está chovendo fogo!

Tentou abrir os olhos, mas tudo o que conseguiu enxergar foram algumas formas vagas e luzes ofuscantes. Estava chovendo. Uma chuva terrivelmente quente. Batendo em sua pele nua. Ela estava deitada de lado e podia sentir o chão quente sob seu corpo. Curvou-se o máximo que pôde em posição fetal, tentando proteger-se do líquido escaldante que caía sobre ela. Sentiu o cheiro de um agente químico, talvez cloro, e tentou arrastar-se para longe, mas não conseguiu. Mãos fortes seguravam seus ombros, mantendo-a no lugar.

Deixem-me sair, estou em chamas!

Instintivamente, lutou para escapar, mas foi novamente detida pelas mãos que não a deixavam sair.

— Fique onde está — disse um homem. O sotaque era de um americano; e o tom, profissional. — Já vai terminar.

O que vai terminar?, pensou Rachel. A dor? Minha vida? Ela tentou ajustar o foco. As luzes daquele lugar eram fortes. Viu que a sala era pequena e atulhada. Teto baixo.

— Estou queimando! — o grito de Rachel saiu como um sussurro.

— Você está bem — assegurou-lhe a voz. — A água está apenas morna. Confie em mim.

Ela percebeu que estava seminua, vestida apenas com suas roupas de baixo encharcadas. Não conseguia sequer se sentir envergonhada: havia outras questões muito mais importantes.

Sua memória começou a voltar numa torrente de imagens. A geleira. O GPR. O ataque. Quem? Onde estou? Tentava juntar as peças, mas sua mente estava entorpecida, como um conjunto de engrenagens enferrujadas. Em meio à confusão completa surgiu um pensamento claro:

Michael e Corky... onde eles estão?

Com a visão ainda turva, só conseguia enxergar os homens que estavam de pé diante dela. Todos usavam os mesmos macacões azuis. Ela queria falar, mas sua boca não se movia. A sensação de ardência em sua pele estava cedendo agora, dando lugar a profundas e pontiagudas ondas de dor que passavam por seus músculos como tremores sísmicos.

— Não tente lutar — disse o homem que a segurava. — O sangue precisa voltar a fluir por seus músculos. — Falava como um médico. – Tente mover seus membros o máximo que puder.

O corpo de Rachel estava sendo dilacerado por uma enorme dor, como se cada um de seus músculos estivesse sendo espancado com um martelo.

Continuava deitada no chão, sentindo seu tórax se contrair e mal conseguindo respirar.

— Mexa seus braços e pernas — insistiu o homem. — Não importa o quanto isso doa.

Ela tentou. Cada movimento era como uma faca sendo enfiada em suas juntas. Os jatos d’água se tornaram novamente mais quentes, como se sua pele estivesse sendo escaldada. A dor avassaladora não cedia.

Quando achou que não iria mais agüentar, alguém lhe deu uma injeção. A dor se dissolveu rapidamente, cada vez menos intensa, retrocedendo. Os tremores diminuíram. Ela sentiu sua respiração se normalizar.

Uma nova sensação se espalhou por seu corpo: estranhas alfinetadas. Em toda parte. Agulhas sendo espetadas, mais pontiagudas a cada vez.

Milhões de golpes de pequenos objetos muito afiados que se intensificavam quando se mexia. Tentou ficar imóvel, mas os jatos d’água continuavam a golpeá-la. O homem que estava de pé segurou seus braços e começou a movê-los.

Deus, como isso dói! Rachel estava fraca demais para lutar. Lágrimas de dor e de exaustão rolavam por seu rosto. Fechou os olhos com força, tentando se esquecer do mundo.

Finalmente, as alfinetadas começaram a se dissipar. A chuva parou. Quando ela reabriu os olhos, sua visão estava mais clara.

Pôde ver Corky e Tolland deitados perto dela, trêmulos, seminus e ensopados. Pela angústia em seus rostos, Rachel sentiu que haviam passado por uma experiência similar. Os olhos castanhos de Tolland estavam injetados e sem brilho. Quando ele viu Rachel, conseguiu dar um sorriso pálido. Seus lábios, ainda roxos, tremiam.

Rachel tentou sentar-se para entender que lugar estranho era aquele.

Todos os três estavam deitados no chão de um pequeno banheiro com chuveiros.

 

Rachel foi levantada do chão e sentiu braços vigorosos secarem seu corpo e colocarem um cobertor em volta dela. Depois de ser acomodada numa espécie de mesa de exames, seus braços, pernas e pés foram vigorosamente massageados. Tomou outra injeção no braço.

— Adrenalina — disse uma voz.

A droga percorreu suas veias como uma força vital, revigorando seus músculos. Apesar de ainda sentir um vazio gélido contraindo suas entranhas, o sangue parecia retornar gradualmente aos seus membros.

De volta do mundo dos mortos.

Tolland e Corky estavam deitados perto dela, tremendo dentro de cobertores enquanto os homens massageavam seus corpos e lhes aplicavam injeções também. Não havia dúvida de que aquele estranho grupo de homens salvara suas vidas. Muitos deles estavam completamente molhados, provavelmente por terem entrado vestidos nos chuveiros para ajudá-los. Quem eram ou como tinham conseguido resgatá-los a tempo era um enigma. Não fazia muita diferença naquele momento. Estamos vivos.

— Onde... estamos? — Rachel conseguiu balbuciar, sentindo uma terrível dor de cabeça simplesmente por ter falado.

O homem que a massageava respondeu:

— Você está na cabine médica de um...

— Comandante presente! — gritou alguém.

Rachel sentiu uma agitação ao seu redor, enquanto tentava sentar-se. Um dos homens de uniforme azul ajudou-a, segurando-a e puxando o cobertor para cobri-la.

O homem que havia entrado era um negro altivo. Bonito e imponente no seu uniforme caqui.

— À vontade — disse ele, aproximando-se de Rachel e fitando-a com seus olhos pretos e cheios de vitalidade. — Sou Harold Brown – continuou com uma voz grave. — Comandante do L7SS Charlotte. E vocês são?

USS Charlotte, pensou Sexton. O nome era vagamente familiar.

— Sexton... — ela respondeu. — Sou Rachel Sexton.

O homem olhou para ela intrigado. Chegou mais perto e examinou-a atentamente.

— Mas que diabos. É você mesma.

Rachel ficou confusa. Ele me conhece? Ela estava bastante segura de que nunca o vira antes. Quando seus olhos desceram do rosto do comandante para as insígnias em seu peito, ela reconheceu o emblema familiar da águia segurando uma âncora com as palavras U.S. NAVY ao redor.

Lembrou-se de onde conhecia o nome Charlotte.

— Bem-vinda a bordo, senhorita Sexton — disse o comandante. — Você compilou muitos dos relatórios de reconhecimento deste submarino. Eu sei quem você é.

— Mas o que vocês estão fazendo nestas águas? — ela balbuciou.

— Para ser sincero, eu ia lhe fazer a mesma pergunta — ele respondeu.

Ao ver que Tolland tinha se sentado e estava abrindo a boca para dizer alguma coisa, Rachel sacudiu firmemente a cabeça, fazendo-lhe sinal para que ficasse em silêncio. Não aqui. Não agora. Ela tinha certeza de que Tolland e Corky iriam querer falar logo sobre o meteorito e o ataque que haviam sofrido, mas certamente não eram tópicos que devessem ser discutidos na frente da equipe de um submarino da Marinha.

No mundo da inteligência, independentemente da dimensão da crise, manter segredo vinha antes de tudo. Todas as questões relativas ao meteorito continuavam sendo informações confidenciais.

— Preciso falar com o diretor do NRO, William Pickering — ela disse ao comandante. — Em local privado e imediatamente.

Ele levantou as sobrancelhas, surpreso por alguém lhe dar ordens, sobretudo em seu próprio submarino.

— Tenho informações confidenciais de que ele precisa ser notificado.

O oficial olhou para ela durante algum tempo.

— Certo. Vamos trazer seu corpo de volta à temperatura normal e então eu coloco você em contato com o diretor do NRO.

— Mas é urgente, senhor, eu... — Rachel parou no meio da frase. Ela havia acabado de ver um relógio na parede em cima do armário de remédios.

Marcava 19h51.

Ela piscou, olhando para ele.

— Aquele... aquele relógio está certo?

— Este é um submarino da Marinha, senhorita Sexton. Nossos relógios são pontuais.

— E este é o fuso de Washington?

— Correto, 19h51, horário de Washington.

Meu Deus!, ela pensou, espantada. São só 19h51? Rachel tinha a nítida impressão de que muitas horas tinham se passado desde que havia desmaiado. Então não eram nem oito horas ainda? O presidente ainda não entrou no ar para falar sobre o meteorito! Ainda posso tentar detê-lo!

Ela deslizou na mesma hora para fora da cama, agarrando o cobertor e enrolando-o em torno do corpo. Suas pernas tremiam.

— Preciso falar com o presidente agora mesmo.

O comandante ficou confuso.

— O presidente de quê?

— Dos Estados Unidos!

— Achei que você queria falar com William Pickering.

— Não há tempo. Preciso falar com o presidente.

O comandante não se moveu. Era um homem grande e seu corpo bloqueava o caminho.

— Até onde sei, o presidente está prestes a dar uma coletiva muito importante ao vivo. Duvido que possa receber chamadas pessoais.

Rachel ficou tão séria e ereta quanto suas pernas trêmulas lhe permitiam e encarou-o.

— Comandante, o senhor não tem uma posição dentro da hierarquia de segurança que me permita entrar em detalhes sobre a situação, mas o presidente está prestes a cometer um terrível engano. Tenho informações urgentes para ele. Acredite em mim.

O comandante olhou para ela novamente, inquisitivo. Depois consultou o relógio.

— Nove minutos? Não consigo estabelecer uma ligação segura com a Casa Branca em um tempo tão curto. Tudo o que posso lhe oferecer é um radiofone. Em linha aberta. Ainda assim teríamos que emergir até profundidade de antena, o que levaria alguns...

— Faça o que for preciso! Agora!

 

A central de atendimento da Casa Branca ficava no térreo da Ala Leste.

Havia sempre três telefonistas de plantão. Naquele momento, apenas duas estavam sentadas diante do painel. A terceira estava correndo a toda a velocidade em direção à Sala de Imprensa, carregando nas mãos um telefone sem fio. Ela tentou passar a ligação para o Salão Oval, mas o presidente já havia saído em direção ao local da coletiva. Ela havia tentado ligar para os celulares de seus auxiliares diretos, mas, antes de pronunciamentos televisionados, todos os telefones celulares dentro da sala eram desligados para evitar interrupções.

Sair correndo com um telefone sem fio diretamente para o presidente numa hora daquelas parecia no mínimo questionável. Ainda assim, quando a agente de ligação entre a Casa Branca e o NRO ligou dizendo que tinha informações urgentes de que o presidente precisava tomar conhecimento antes de entrar em cadeia nacional, a telefonista não pensou muito e saiu em disparada. A pergunta agora era se ela chegaria ou não a tempo.

 

No pequeno gabinete médico a bordo do Charlotte, Rachel estava com o fone agarrado ao ouvido, esperando para falar com o presidente.

Sentados ali perto, Tolland e Corky ainda pareciam bastante atordoados. Corky estava com uma escoriação profunda no rosto e tinha recebido cinco pontos na ferida. Todos os três haviam recebido roupas de baixo térmicas e grossos macacões de vôo da Marinha, além de grandes meias de lã e botas militares. Segurando uma xícara quente de café requentado, Rachel estava quase se sentindo humana novamente.

— Por que a demora? — perguntou Tolland, agitado. — Faltam só quatro minutos!

Rachel não sabia o que estava acontecendo do outro lado. Ela havia conseguido falar com uma das telefonistas da Casa Branca, explicado quem era e que aquilo era uma emergência. A telefonista pareceu simpática, colocou a chamada em espera e agora, supostamente, estava tentando, com prioridade máxima, passá-la para o presidente.

Quatro minutos, pensou Rachel. Vamos, depressa!

Fechando os olhos, ela tentou se concentrar. Tinha sido um dia daqueles. Estou em um submarino nuclear, pensou consigo mesma, sabendo quanta sorte tinha de estar ali. De acordo com o comandante do submarino, o Charlotte estava em missão de rotina, patrulhando o mar de Bering dois dias antes, quando havia captado estranhos sons vindos da plataforma de gelo Milne — perfurações, ruído de jatos, várias comunicações codificadas por rádio. Tinham sido redirecionados para lá e instruídos a manter silêncio e ouvir. Há cerca de uma hora, captaram uma explosão na geleira e se aproximaram para averiguar. Foi então que ouviram o S.O.S. de Rachel.

— Faltam só três minutos! — Tolland estava bastante ansioso, olhando seu relógio sem parar.

Rachel também estava ficando nervosa agora. Por que estava demorando tanto? Por que o presidente não tinha aceitado seu chamado? Se Zach Herney fosse a público com os dados da forma que eles haviam sido enviados...

Ela evitou pensar naquilo e sacudiu o fone. Vamos, atenda!

 

Quando a telefonista da Casa Branca chegou a poucos metros da Sala de Imprensa, deu de cara com uma barreira humana de membros da equipe do presidente. Todos estavam falando, entusiasmados, e fazendo os últimos preparativos. Ela viu o presidente a uns 20 metros de distância esperando para entrar em cena. O pessoal da maquiagem continuava em volta dele, fazendo retoques.

— Abram caminho! — disse a telefonista, tentando passar no meio daquele monte de gente. — Telefonema para o presidente. Com licença, me deixem passar!

— Entramos no ar em dois minutos! — gritou um coordenador de operações.

Agarrada ao telefone, a moça forçou caminho em direção ao presidente.

— Chamada para o presidente! — ela disse, ofegante. — Abram caminho!

Deu de cara com um poste de concreto bloqueando a passagem à sua frente: Marjorie Tench. Ela olhou para a telefonista com uma expressão crítica:

— O que está acontecendo?

— É uma chamada de emergência... — a telefonista estava sem ar – para o presidente.

Tench olhou para ela, incrédula.

— Agora não, de jeito nenhum!

— É Rachel Sexton. Ela diz que é urgente.

A expressão da consultora parecia ser mais de espanto do que de raiva.

Ela olhou para o telefone sem fio.

— Esta é uma linha comum. Não é uma ligação segura.

— Não, senhora. Mas a ligação está vindo através de uma linha aberta de qualquer forma. Ela está em um radiofone. E precisa falar com o presidente imediatamente.

— No ar em 90 segundos!

Os olhos frios de Tench fulminaram a telefonista.

— Me dê este telefone — disse, estendendo a mão como uma aranha.

A funcionária estava com o coração na mão.

— A senhorita Sexton deseja falar com o presidente Herney diretamente. Ela me disse que a coletiva deveria ser adiada até que ela tivesse falado com ele. E eu prometi que...

Marjorie Tench deu um passo ameaçador na direção da moça, falando num sussurro sibilante:

— Deixe que eu lhe explique como as coisas funcionam por aqui. Não é a filha do adversário do presidente quem dá as ordens, sou eu. E posso garantir que você não passará deste ponto até que eu descubra o que está acontecendo.

A telefonista olhou na direção do presidente, que naquele momento estava cercado por técnicos de som e diversos membros da sua equipe que repassavam com ele as últimas mudanças feitas no discurso.

— Sessenta segundos! — gritou o supervisor de TV.

A bordo do Charlotte, Rachel estava andando freneticamente pelo espaço restrito da cabine quando ouviu um ruído na linha. Uma voz áspera falou do outro lado.

— Alô?

— Presidente Herney? — disse Rachel.

— Marjorie Tench — corrigiu a voz. — Sou a conselheira sênior do presidente. Seja você quem for, devo avisá-la de que passar trotes para a Casa Branca é uma violação da...

Pelo amor de Deus!

— Isto não é um trote! Eu sou Rachel Sexton. Sou sua agente de ligação com o NRO e...

— Eu sei muito bem quem é Rachel Sexton. E tenho sérias dúvidas de que você seja ela. Você ligou para a Casa Branca em uma linha aberta, me pedindo para interromper um importante pronunciamento do presidente. Isso dificilmente é procedimento-padrão para alguém que...

— Ouça — disse Rachel, irritada —, eu fiz uma videoconferência para toda a sua equipe há poucas horas sobre o meteorito. Você estava na fileira da frente. Minha apresentação foi feita por meio de um telão colocado sobre a mesa do presidente! Alguma dúvida?

Tench ficou em silêncio por alguns segundos.

— Senhorita Sexton, qual o sentido desta ligação?

— O sentido é que você precisa deter o presidente! Os dados que ele tem sobre o meteorito estão errados! Acabamos de descobrir que o meteorito foi inserido por baixo da plataforma de gelo. Não sei quem fez isso e não sei o motivo! Mas as coisas não são bem o que parecem por aqui. O presidente está prestes a anunciar dados que estão seriamente comprometidos e eu sugeriria fortemente que...

— Pare imediatamente! — Tench passou a falar em voz baixa. — Você tem alguma idéia do que está dizendo?

— Sim! Suspeito que o administrador da NASA organizou uma fraude em grande escala e que o presidente Herney vai ser colocado bem no meio disso tudo. Você tem que retardar o pronunciamento pelo menos por 10 minutos para que eu possa explicar a ele o que está acontecendo aqui. Alguém tentou me matar... mas que inferno!

A voz de Tench soou mais fria do que gelo.

— Senhorita Sexton, vou lhe dar um aviso. Se você está arrependida de ter ajudado a Casa Branca nessa campanha, o problema é seu. Deveria ter pensado nisso bem antes de sancionar pessoalmente os dados do meteorito para o presidente.

— O quê? — Essa mulher ouviu alguma coisa do que eu disse?

— Sua atitude é revoltante. Usar uma linha aberta é um truque baixo. E dizer que os dados sobre o meteorito foram falsificados! Que tipo de agente de inteligência usa um radiofone para ligar para a Casa Branca e falar a respeito de informações consideradas secretas? É óbvio que você está esperando que alguém intercepte esta mensagem.

— Norah Mangor foi morta por causa disso. O doutor Ming também está morto. Você tem que alert...

— Não diga mais uma palavra sequer! Não sei que tipo de jogo é este, mas devo lembrar-lhe — assim como a qualquer pessoa que possa estar interceptando esta conversa — que a Casa Branca possui depoimentos gravados em vídeo dos principais cientistas da NASA, de diversos cientistas civis de renome, além do seu próprio comunicado, senhorita Sexton. E todos eles dizem a mesma coisa: que os dados sobre o meteorito estão certos. Não posso imaginar por que você resolveu mudar sua versão da história subitamente. Seja qual for o motivo, contudo, considere-se dispensada de seu posto junto à Casa Branca a partir deste momento. E, se tentar macular essa descoberta com qualquer outra alegação de fraude, posso assegurá-la de que a Casa Branca e a NASA irão processá-la por difamação tão rápido que você não terá nem mesmo tempo de fazer uma mala antes de ir parar na prisão.

Rachel abriu a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu.

— Zach Herney foi generoso com você — prosseguiu Tench — e, francamente, isso me cheira a uma das jogadas tolas de publicidade do senador Sexton. Melhor parar agora, antes que a coisa chegue aos tribunais. Acredite em mim.

A linha ficou muda.

Rachel ainda estava de boca aberta quando o comandante bateu na porta.

— Senhorita Sexton? — disse ele, abrindo ligeiramente a porta. – Estamos captando um sinal fraco da Rádio Nacional do Canadá. O presidente Zach Herney acabou de começar sua coletiva de imprensa.

 

De pé sobre o palanque da Sala de Imprensa da Casa Branca, Zach Herney sentia o calor da iluminação de estúdio e sabia que o mundo inteiro estava grudado diante da TV naquele momento. A estratégia de divulgação criada por seu gabinete de imprensa havia gerado uma reação em cadeia na mídia. Qualquer um que não tivesse tomado conhecimento do seu pronunciamento pela televisão, por rádio ou em sites na internet teria ouvido algum comentário de vizinhos, colegas de trabalho ou parentes. Nos bares, em salas e escritórios de todo o mundo, milhões de pessoas estavam aguardando ansiosamente o que o homem mais poderoso do planeta tinha a dizer.

Era em momentos como aquele, quando estava só diante “do mundo”, que Zach Herney realmente sentia o peso de seu posto. Só quem nunca experimentara o poder podia dizer que ele não viciava.

Contudo, ao começar seu discurso, Herney sentiu que havia algo errado.

Ele jamais tivera medo de falar em público; por isso o pequeno formigamento de apreensão que pulsava dentro dele o preocupava. Deve ser por causa da magnitude do evento, disse para si mesmo. Ainda assim, sabia que havia algo mais. Instinto. Algo que ele tinha visto. Uma coisa muito pequena, mas...

Disse a si mesmo que esquecesse. Nada demais. No entanto, era algo que não ia embora.

Tench.

Poucos instantes antes, quando Herney estava se preparando para subir ao palanque, ele vira de relance Marjorie Tench no corredor amarelo falando em um telefone sem fio. Isso já seria um fato estranho, mas ficou ainda mais esquisito porque havia uma telefonista da Casa Branca de pé ao lado da consultora, lívida de medo. Herney obviamente não podia ouvir a conversa, mas percebeu que era uma discussão. Tench estava falando com uma veemência e uma raiva que o presidente jamais testemunhara — mesmo da parte de Tench. Ele fez uma breve pausa e olhou-a nos olhos, curioso.

Marjorie levantou o polegar, fazendo sinal de positivo. Herney nunca vira Tench fazer aquilo. Para ninguém. Foi a última imagem que ficou na sua mente antes que avisassem que era hora de subir ao palco.

 

O administrador Lawrence Ekstrom estava sentado no centro de uma longa mesa, na área de imprensa montada dentro da habisfera da NASA, na ilha de Ellesmere. Tinha ao seu lado funcionários e cientistas importantes da NASA. Diante deles, em um grande monitor, o discurso de abertura do presidente estava sendo transmitido ao vivo. O restante do pessoal da agência estava espremido na frente de outros monitores, sem conseguir conter seu entusiasmo com a participação de seu comandante-em-chefe naquela coletiva.

— Boa noite — disse Herney, soando mais sério do que o normal. – A meus compatriotas e a nossos amigos em todo o planeta...

Ekstrom contemplou a enorme rocha carbonizada que tinha sido colocada de forma destacada à sua frente. Depois olhou para um pequeno monitor no qual podia ver a si mesmo, ao lado de seus austeros companheiros, tendo como pano de fundo uma enorme bandeira americana e o logotipo da NASA. A luz forte fazia com que aquilo tudo se parecesse com uma pintura neomodernista: os 12 apóstolos na última ceia. Zach Herney havia transformado a coisa toda em um grande show político. Ele não teve escolha. O administrador ainda se sentia como um pastor de televisão, empacotando Deus para o consumo das massas.

Dentro de mais cinco minutos o presidente apresentaria Ekstrom e a equipe da NASA. Então, numa espetacular conexão via satélite a partir do topo do planeta, a NASA iria se juntar ao presidente, dividindo as notícias com o mundo. Após um pequeno relato de como a descoberta fora feita, o que significava para a exploração do espaço e uma troca de congratulações mútuas, a agência espacial americana e o presidente iriam dar a palavra ao célebre cientista Michael Tolland, cujo documentário durava cerca de 15 minutos. Logo em seguida, com a credibilidade e o entusiasmo do público no auge, Ekstrom e Herney dariam boa-noite a todos, prometendo que mais informações seriam liberadas pela NASA nos próximos dias em sucessivas coletivas de imprensa.

Enquanto Ekstrom estava sentado lá, esperando sua vez de falar, sentia uma enorme vergonha se avolumando dentro de si. Sabia que iria se sentir assim. Já era esperado. Ele havia contado mentiras... apoiado falsidades. Apesar de tudo, as mentiras pareciam quase irrelevantes naquele momento. Ekstrom tinha um peso bem maior com que lidar.

No completo caos da redação da ABC, Gabrielle Ashe estava se acotovelando com dezenas de estranhos, todos esticando o pescoço para ver melhor o painel com vários monitores de TV suspenso no teto. Um silêncio profundo tomou conta da sala quando o momento chegou.

Gabrielle fechou os olhos, rezando para que, quando os abrisse, não fosse obrigada a ver imagens de seu próprio corpo nu na TV.

 

No escritório do senador Sexton, o ar estava cheio de eletricidade. Todos os seus convidados estavam agora de pé, os olhos fixos no enorme aparelho de televisão de Sexton.

Zach Herney estava ali, diante de milhões de espectadores de todo o mundo e, surpreendentemente, sua saudação havia sido vacilante. Ele pareceu hesitar por alguns instantes.

Ele está abalado, pensou Sexton. Ele nunca se deixa abalar.

— Olhem a cara dele — alguém falou em voz baixa. — Só podem ser más notícias.

A estação espacial?, conjeturou Sexton.

Herney olhou diretamente para a câmera e respirou fundo.

— Prezados amigos, passei muitos dias refletindo sobre a melhor maneira de fazer este pronunciamento...

Bastam duas palavras, pensou o senador. Falhamos miseravelmente.

O presidente falou brevemente sobre como era lamentável que a NASA tivesse se transformado numa questão política diante das futuras eleições e que, devido a essa situação, sentia que era preciso acrescentar um rápido pedido de desculpas ao que se seguiria.

— Eu teria preferido que esta declaração fosse feita em qualquer outro momento da história — disse ele. — O peso das questões políticas deste momento tende a transformar os sonhadores em incrédulos, mas, ainda assim, como presidente dos Estados Unidos, não tenho outra escolha senão compartilhar com todos algo que descobri há pouco tempo — completou, sorrindo. — Tudo leva a crer que a magia do cosmo não obedece aos desígnios dos homens... nem mesmo aos de um presidente.

Todos na sala de Sexton se retesaram ao mesmo tempo.

O quê?

— Há duas semanas — Herney disse — o novo satélite da NASA, o Polar Orbiting Density Scanner, que chamamos de PODS, passou sobre a plataforma de gelo Milne, na ilha de Ellesmere, uma região remota acima do paralelo 80, em meio ao oceano Ártico.

Sexton e os outros trocaram olhares confusos.

— Esse satélite da NASA detectou uma grande rocha enterrada a 60 metros de profundidade no gelo — Herney sorriu, mais relaxado, encontrando seu ritmo. — Ao receber os dados, a NASA suspeitou de imediato que o PODS havia encontrado um meteorito.

— Um meteorito? — disse Sexton para a TV, indignado. — E isso agora virou notícia?

— A NASA enviou uma equipe para a geleira com o objetivo de coletar amostras do meteorito. Foi então que a NASA fez... — ele parou um instante. — Francamente, a NASA fez a maior descoberta científica de nosso século.

Sexton deu um passo incrédulo em direção à televisão. Não... Seus convidados se agitaram, preocupados.

— Senhoras e senhores — Herney anunciou —, há algumas horas a NASA retirou do gelo do Ártico um meteorito de oito toneladas que contém... — o presidente fez mais uma pausa, dando ao mundo tempo suficiente para se inclinar em direção às telas de TV — ...um meteorito que contém fósseis de uma forma de vida. Dezenas deles. Prova irrefutável da existência de vida extraterrestre.

Imediatamente após suas palavras, uma imagem brilhante surgiu na tela atrás do presidente: um fóssil perfeitamente delineado de uma enorme criatura com aparência de um artrópode gigante incrustado numa rocha carbonizada.

No escritório do senador, os seis empresários arregalaram os olhos, aterrorizados com a notícia. Sexton ficou paralisado.

— Meus amigos — prosseguiu o presidente —, o fóssil que estão vendo atrás de mim tem 190 milhões de anos. Foi descoberto dentro de um fragmento do meteorito Jungersol, que caiu no oceano Ártico há quase três séculos. Graças à incrível tecnologia de seu novo satélite, a NASA encontrou esse fragmento enterrado em uma plataforma de gelo. Tanto a agência espacial quanto a minha equipe de governo tiveram um enorme cuidado, durante as duas últimas semanas, para confirmar cada detalhe dessa monumental descoberta antes de torná-la pública. Durante os próximos 30 minutos vocês irão ouvir os depoimentos de diversos cientistas da NASA e de cientistas civis, além de assistir a um pequeno documentário, preparado por alguém que todos conhecem bem e do qual, tenho certeza, irão gostar. Antes de prosseguirmos, no entanto, tenho o enorme prazer de lhes apresentar, numa transmissão via satélite ao vivo do Ártico, o homem cuja liderança, visão e esforços incansáveis são responsáveis por este momento histórico. É com grande honra que lhes apresento o administrador da NASA, Lawrence Ekstrom.

Herney virou-se para a tela em perfeita sincronia.

Com um belo efeito visual, a imagem do meteorito se dissolveu, dando lugar à pomposa equipe de cientistas da NASA acomodada numa longa mesa, no centro da qual estava o corpulento Ekstrom.

— Obrigado, senhor presidente — disse Ekstrom, com ar solene e altivo, levantando-se e olhando diretamente para a câmera. — É um grande orgulho estar aqui e compartilhar com todos vocês este momento de glória para a NASA.

O administrador discursou apaixonadamente sobre a NASA e sobre a descoberta. Com uma fanfarra de patriotismo e triunfo, fez uma transição perfeita para o documentário estrelado pelo misto de celebridade e cientista Michael Tolland.

Olhando para a TV, sem acreditar, o senador Sexton jogou-se de joelhos no chão, agarrando seus cabelos grisalhos com os dedos cerrados. Não! Meu Deus, não!

 

Marjorie Tench estava lívida quando marchou de volta para seu escritório na Ala Oeste, deixando para trás o clima de euforia do lado de fora da Sala de Imprensa. Ela não estava com a menor vontade de celebrar. O telefonema de Rachel Sexton tinha sido totalmente inesperado.

Tench bateu a porta, andou até à sua mesa e ligou para a telefonista da Casa Branca.

— William Pickering. NRO.

Ela acendeu um cigarro e andou pelo escritório enquanto esperava a telefonista encontrar Pickering. Normalmente ele já estaria em casa àquela hora, mas, por conta do frisson criado pela Casa Branca que culminara com a bombástica coletiva de imprensa, Tench achou que Pickering teria ficado em seu escritório, grudado à televisão, pensando no que poderia estar acontecendo que não fosse de conhecimento prévio do diretor do NRO.

A consultora estava se amaldiçoando. Deveria ter confiado em meus instintos. Quando o presidente disse que queria enviar Rachel Sexton para Milne, Tench ficou preocupada, achando que era um risco desnecessário. Mas o presidente tinha sido convincente, persuadindo-a de que a própria equipe da Casa Branca tornara-se incrédula nas últimas semanas e iria suspeitar da descoberta da NASA se a notícia viesse de alguém do seu gabinete. Como Herney previra, o fato de Rachel ter confirmado os dados acabou com qualquer suspeita, evitando um debate entre eventuais céticos dentro da Casa Branca e fazendo com que toda a equipe fosse impelida a seguir adiante em ordem unida. Uma contribuição inestimável, ela tinha que admitir. Ainda assim, agora Rachel havia mudado de idéia.

Aquela filha-da-mãe me ligou em uma linha aberta.

Rachel Sexton obviamente tinha a intenção de destruir a credibilidade daquela descoberta, e o único consolo de Tench era saber que o presidente gravara em vídeo o relatório apresentado horas antes pela agente do NRO. Felizmente. Ao menos Herney tinha tomado essa precaução.

Tench estava começando a achar que poderiam precisar da fita.

No momento, porém, ela estava tentando conter os danos de outra forma.

Rachel era uma mulher esperta e, se realmente pretendia se colocar diretamente contra a Casa Branca e a NASA, teria que recrutar alguns aliados poderosos. A escolha lógica seria Pickering, é claro. Tench já sabia das opiniões dele sobre a NASA. Precisava, portanto, falar com o diretor antes que Rachel o fizesse.

— Senhora Tench? — disse uma voz suave na linha. — William Pickering falando. A que devo a honra?

Ela podia ouvir a televisão ligada do outro lado da linha, transmitindo os comentários da NASA. Podia sentir pelo tom do diretor que ele ainda estava abalado com a coletiva.

— Podemos conversar um pouco, diretor?

— Achei que você estaria ocupada, celebrando. Uma grande noite para você. Parece que a NASA e o presidente estão de volta ao páreo.

Tench podia notar uma certa surpresa em sua voz, combinada com uma pitada de rancor, o que certamente podia ser creditado ao lendário ódio que Pickering tinha de ser informado de coisas importantes ao mesmo tempo que o restante do mundo.

— Peço-lhe desculpas — disse Tench, tentando rapidamente criar uma ponte — pelo fato de a Casa Branca e a NASA terem sido forçadas a não informá-lo antes.

— Você sabe, é claro — cortou Pickering —, que o NRO detectou as atividades da NASA no Ártico há algumas semanas e deu início a uma investigação.

Tench fechou o rosto. Ele está furioso.

— Sim, eu sei. Mas mesmo assim...

— A NASA nos disse que não era nada, que estava realizando alguns exercícios de treinamento em ambientes extremos. Testando equipamentos e coisas do gênero — o diretor fez uma pausa. — Nós engolimos a mentira.

— Não chegou a ser uma mentira — disse Tench. — Foi uma ocultação necessária. Considerando-se a magnitude da descoberta, creio que você compreenderá por que a NASA tinha que manter isso tudo em segredo.

— Do público, talvez.

Tench percebeu que a conversa estava tomando um rumo que não iria levar a lugar nenhum e resolveu ir direto ao assunto.

— Não tenho muito tempo, mas achei que deveria ligar para você e avisá-lo — disse ela, buscando manter sua posição de superioridade.

— Avisar-me? — Pickering ironizou. — Por acaso Zach Herney decidiu designar um novo diretor para o NRO? Alguém com maior paixão pela NASA, talvez?

— Claro que não. O presidente entende que suas críticas à NASA são apenas questões de segurança e ele está trabalhando para resolver isso. Na verdade, estou ligando para falar sobre uma de suas subordinadas. — Fez uma pausa. — Rachel Sexton. Você teve contato com ela esta tarde?

— Não. Eu a enviei à Casa Branca pela manhã a pedido do presidente. Vocês obviamente a mantiveram ocupada, já que ela não retornou até o momento.

Mais tranqüila ao descobrir que tinha conseguido falar com Pickering primeiro, Tench deu um trago no seu cigarro e continuou a falar da forma mais calma possível.

— Eu tenho a impressão de que ela irá telefonar para você em breve.

— Bom. Estou esperando que ela me ligue, de fato. Devo admitir que, quando a coletiva do presidente começou, cheguei a pensar que Zach Herney tivesse convencido a senhorita Sexton a participar disso tudo publicamente. Fiquei feliz ao ver que ele resistiu a essa tentação.

— Zach Herney joga limpo — disse Tench. — Pena que eu não possa dizer o mesmo a respeito de Rachel Sexton.

Houve um longo silêncio na linha.

— Espero ter entendido errado essa última frase.

Tench soltou um longo suspiro.

— Não, meu caro, creio que me ouviu corretamente. Prefiro não dar os detalhes por telefone, mas sua agente, ao que parece, decidiu que deseja minar a credibilidade dessa importante descoberta. Não tenho idéia quanto a seus motivos, mas, após ter revisado e endossado os dados da NASA hoje à tarde, ela resolveu virar o jogo e está fazendo alegações absurdas a respeito de traição e fraude por parte da NASA.

Pickering se irritou.

— Como disse?

— Sim, é perturbador. Odeio ser a portadora dessas más notícias, mas a senhorita Sexton me contatou dois minutos antes da coletiva começar, tentando me convencer a cancelar tudo.

— Baseada em quais alegações?

— As mais improváveis, sinceramente. Ela disse que encontrou sérias falhas nos dados.

O longo silêncio de Pickering demonstrou mais desconfiança do que Tench esperava.

— Falhas? — ele perguntou depois de algum tempo.

— Completamente ridículo, após duas semanas inteiras de experiências da NASA e...

— Acho muito difícil que uma pessoa como Rachel fosse lhe pedir para adiar a coletiva do presidente a menos que tivesse fortes razões para tal. — Pickering parecia preocupado. — Talvez você devesse ter ouvido o que ela tinha a dizer.

— Não me venha com essa! — retrucou Tench, tossindo. — Você assistiu à coletiva. Os dados do meteorito foram verificados e confirmados mais de uma vez por diversos especialistas. Incluindo civis. Não lhe parece suspeito que Rachel Sexton, filha do único homem diretamente atingido pela divulgação desses fatos, resolva mudar de idéia subitamente?

— Não me parece nem um pouco suspeito, senhora Tench, porque eu sei que Rachel e seu pai mal se falam. Não posso imaginar por que a senhorita Sexton, depois de anos servindo o presidente, iria subitamente mudar de time e inventar mentiras para apoiar o pai.

— Ambição, talvez? Realmente não sei. Talvez a oportunidade de se tornar “primeira-filha”... — Tench deixou a frase no ar.

Pickering engrossou na mesma hora.

— Tench, você está pisando em gelo fino. Gelo muito fino.

Do outro lado da linha, a consultora fechou a cara. Que diabos eu esperava? Ela estava acusando uma profissional importante da equipe de Pickering de trair o presidente. Claro que o homem iria se colocar na defensiva.

— Passe o telefone para ela — pediu ele. — Gostaria de falar com a senhorita Sexton pessoalmente.

— Não posso. Ela não está na Casa Branca. O presidente enviou-a para Milne esta manhã a fim de examinar os dados diretamente. Ela ainda não voltou.

O diretor ficou enfurecido.

— Eu não fui informado em momento algum...

— Não tenho tempo para falar sobre seu orgulho ferido, diretor. Estou ligando apenas por cortesia. Queria que soubesse que Rachel Sexton decidiu trilhar seu próprio caminho em relação à descoberta divulgada esta noite. E certamente irá buscar aliados. Se ela contatá-lo, creio que é bom que saiba que a Casa Branca possui uma gravação em vídeo, feita hoje à tarde, na qual ela confirmou todos os dados relativos ao meteorito em frente ao presidente, seu gabinete e toda a sua equipe. Se ela decidir agora, por qualquer motivo que seja, que vai tentar manchar o nome de Zach Herney ou da NASA, então posso lhe garantir que a Casa Branca irá tomar as providências necessárias para que sua queda seja feia — disse Tench, fazendo uma pausa para dar mais ênfase à sua declaração. — Espero que retorne minha cortesia me informando imediatamente se ela entrar em contato com você. Essa moça está atacando diretamente o presidente, e a Casa Branca deseja detê-la para que preste alguns esclarecimentos antes que possa causar maiores transtornos. Estarei esperando seu telefonema, diretor. Era tudo o que eu tinha a dizer. Boa noite.

Marjorie desligou, certa de que ninguém havia se dirigido a William Pickering daquele jeito em toda a sua vida profissional. Pelo menos ele teria certeza de que ela estava falando sério.

 

No último andar do NRO, Pickering estava de pé olhando para o céu da Virgínia através de sua janela. Aquela ligação de Marjorie Tench fora profundamente perturbadora. Ele mordia levemente o lábio enquanto tentava juntar as peças em sua mente.

— Diretor? — chamou a secretária, batendo suavemente na porta. — Há uma outra chamada para o senhor.

— Agora não — respondeu ele automaticamente.

— É Rachel Sexton.

Pickering virou-se. Tench parecia estar vendo o futuro.

— Certo. Transfira para meu telefone imediatamente.

— Senhor, é uma transmissão codificada de áudio e vídeo. Quer transferi-la para a sala de reuniões?

Uma transmissão codificada?

— De onde ela está chamando?

A secretária lhe disse.

Pickering ficou pasmo. Saiu correndo em direção à sala de reuniões. Aquilo era algo inacreditável.

 

A “sala morta” do Charlott — inspirada num espaço similar na Bell Laboratories — era, tecnicamente, uma câmara anecóica: uma sala acusticamente isolada que não continha superfícies paralelas ou reflexivas, absorvendo o som com 99,4% de eficiência. Como o metal e a água são bons condutores acústicos, as conversas a bordo dos submarinos sempre são suscetíveis de interceptação por alguma escuta próxima ou por microfones de sucção “parasitas” colocados na parte externa do casco. Fisicamente, a sala morta era uma pequena câmara dentro do submarino da qual nenhum som poderia escapar. Todas as conversas dentro dessa caixa isolada eram completamente seguras.

A sala se parecia com um pequeno closet cujos teto, paredes e chão tivessem sido totalmente recobertos com uma espuma espiralada que se projetava para dentro em todas as direções. Para Rachel, parecia ser uma estreita caverna submarina cujas estalagmites tivessem proliferado de forma selvagem, crescendo em todas as superfícies. O mais estranho, no entanto, era a aparente ausência de chão.

O “chão” era feito de uma trama de arame gradeado, firmemente presa às.quatro paredes do quarto na horizontal, como uma rede de pescar, dando aos ocupantes da sala a sensação de que estavam suspensos a meia altura das paredes. A teia era emborrachada e rígida quando se pisava nela. Rachel entrou, sentindo-se como se estivesse cruzando uma ponte de cordas sobre uma paisagem surrealista de geometria fractal. A floresta de espuma descia por mais um metro abaixo dela.

Dentro da sala, Rachel ficou desorientada no ar absolutamente morto,-como se toda a energia houvesse sido retirada dali. Sentia uma pressão-nas orelhas, como se tivessem sido preenchidas com algodão. Podia ouvir sua respiração dentro de sua cabeça. Falou seu nome em voz alta e foi como falar com a cabeça enfiada num travesseiro. As paredes absorviam todas as reverberações, de forma que o som da própria voz não retornava aos ouvidos.

Depois que o comandante saiu, fechando a porta acusticamente vedada atrás de si, Rachel, Corky e Tolland sentaram-se no centro da sala, diante de uma pequena mesa em forma de U fixada sobre longas pernas de metal que desciam através da trama. Sobre a mesa havia pequenos microfones, fones de ouvido e um console de vídeo com uma câmera e uma lente grande-angular em cima.

Por trabalhar na comunidade de inteligência dos Estados Unidos e ter acesso aos mais avançados equipamentos, como microfones a laser, escutas parabólicas subaquáticas e outros dispositivos de captação hipersensíveis, Rachel sabia muito bem que havia poucos lugares na Terra onde era possível ter uma conversa realmente segura. Aquela sala morta era um deles. Os microfones e fones de ouvido ligados à mesa permitiam que fossem feitas chamadas em grupo nas quais as pessoas podiam falar livremente, sabendo que a vibração de suas vozes não poderia ser ouvida fora daquele quarto. Suas vozes, ao entrarem nos circuitos dos microfones, seriam criptografadas com total segurança para uma longa viagem através da atmosfera.

— Verificação de volume — disse uma voz materializando-se subitamente dentro de seus fones e fazendo com que os três levassem um susto. — Está me ouvindo, senhorita Sexton?

Rachel aproximou-se de seu microfone.

— Sim, obrigada. Seja lá quem você for.

— O diretor Pickering já está na linha e recebendo o sinal de áudio e vídeo. Estou saindo do circuito agora. Vocês poderão transmitir em poucos instantes.

Rachel ouviu a linha ficar em silêncio. Depois seguiu-se um zumbido de estática e uma série de bipes e cliques nos fones. Com uma nitidez-impressionante, a tela de vídeo na frente deles se acendeu e Rachel viu Pickering na sala de reuniões do NRO. Ele estava sozinho. Levantou a cabeça e olhou para ela.

A agente se sentiu estranhamente aliviada ao revê-lo.

— Senhorita Sexton — ele disse, com uma expressão atônita e preocupada. — Que diabos está acontecendo?

— É o meteorito, senhor — respondeu Rachel. — Creio que temos um sério problema.

 

Dentro da sala morta do Charlotte, Rachel apresentou Michael Tolland e Corky Marlinson a Pickering.

Depois retomou a palavra e fez um breve relato da inacreditável seqüência de eventos do dia. O diretor do NRO ficou sentado, imóvel, ouvindo tudo.

Rachel lhe contou a história completa, desde o plâncton-bioluminescente no poço de extração, passando pela jornada deles na plataforma de gelo, até à descoberta de um poço de inserção localizado sob o meteorito. Finalmente, falou sobre o ataque executado por uma equipe militar que pertencia, ela suspeitava, às forças de Operações Especiais dos EUA.

William Pickering era conhecido por sua capacidade de ouvir informações perturbadoras sem nem mesmo piscar. Ainda assim, parecia cada vez mais preocupado ao tomar ciência da história de Rachel. Ela sentiu que ele ficou impressionado e depois enfurecido ao saber do assassinato de Norah Mangor e da perigosa fuga do restante do grupo, que quase acabara em morte também. Apesar de Rachel ter vontade de falar sobre sua suspeita a respeito do envolvimento do administrador da NASA, conhecia Pickering o bastante para não fazer acusações sem evidências. Ela limitou-se a narrar os fatos, sem emitir opiniões pessoais. Quando terminou, Pickering ficou mudo durante algum tempo.

— Senhorita Sexton, todos vocês... — disse finalmente, olhando para a imagem de cada um deles na tela. — Se o que estão me contando é verdade, e não posso imaginar por que os três iriam mentir sobre esse assunto, vocês têm muita sorte por ainda estarem vivos.

Os três concordaram, em silêncio. O presidente havia convocado quatro cientistas civis. Agora dois deles estavam mortos.

William Pickering soltou um suspiro inquieto, como se não soubesse bem o que dizer em seguida. Os eventos claramente não faziam muito sentido.

— Há alguma possibilidade de que esse poço de inserção que surgiu na impressão do GPR seja um fenômeno natural?

Rachel sacudiu a cabeça.

— É perfeito demais — respondeu, desdobrando a impressão encharcada do GPR e colocando-a frente à câmera. — Sem falhas.

Pickering estudou a imagem, franzindo o rosto.

— Concordo. Não deixe que ninguém pegue esse papel.

— Eu liguei para Marjorie Tench, tentando avisá-la para que impedisse a coletiva do presidente — prosseguiu Rachel. — Mas ela mandou que eu me calasse e desligou.

— Eu sei. Ela me disse.

Rachel olhou para ele, chocada.

— Marjorie Tench ligou para você? Ela foi rápida.

— Acabou de ligar. Está muito preocupada. Ela acredita que você está tentando dar um golpe para desacreditar o presidente e a NASA. Talvez para ajudar seu pai.

Indignada, Rachel levantou-se, sacudindo a impressão do GPR e apontando para seus dois companheiros.

— Nós quase fomos mortos! Isso por acaso tem cara de um golpe? E por que eu iria...

Pickering levantou as mãos, pedindo calma.

— Fique tranqüila. O que Tench não me disse é que vocês eram três.

Rachel não se lembrava se a consultora sequer lhe dera tempo para mencionar Corky e Tolland.

— Nem que havia uma prova material — continuou Pickering. — Eu já estava um pouco cético quanto às alegações dela antes de falar com

você. Agora estou convencido de que Tench está enganada. Não duvido do que você me contou. A questão é saber o que tudo isso significa.

Houve um longo silêncio. Era raro o diretor do NRO ficar confuso, mas ele sacudiu a cabeça, aparentemente sem saber o que pensar.

-Vamos presumir, por enquanto, que alguém de fato inseriu esse meteorito sob o gelo. Isso nos leva à seguinte pergunta: por quê? Se a NASA tinha um meteorito com fósseis, por que iria se preocupar com o local onde ele seria encontrado?

— Aparentemente — disse Rachel —, a inserção foi executada de tal forma que o PODS fizesse a descoberta e que o meteorito parecesse ser um fragmento de um impacto documentado.

— O meteorito de Jungersol — acrescentou Corky.

— Mas qual o valor de associar o meteorito a um impacto registrado? — perguntou Pickering, aflito, enlouquecendo com as hipóteses. — Esses fósseis não seriam uma descoberta impressionante em qualquer lugar, a qualquer tempo? Independentemente de qual fosse o evento de queda de meteoro ao qual ele estivesse associado?

Todos os três assentiram. Pickering hesitou, parecendo descontente.

— A menos, é claro...

Rachel podia perceber as engrenagens se movendo por trás dos olhos do diretor. Por que alguém se daria ao trabalho de colocar o meteorito numa posição equivalente, no substrato geológico, à queda do Jungersol? Pickering havia encontrado a explicação mais simples — e mais perturbadora — para aquela questão.

— A menos que esse posicionamento cuidadoso pretendesse dar credibilidade a dados completamente falsos — concluiu ele, voltando-se para Corky com uma dúvida: — Doutor Marlinson, é possível que esse meteorito tenha sido forjado?

— Forjado, senhor?

— Sim. Falsificado. Fabricado artificialmente.

— Um meteorito falso? — Corky deu uma risadinha estranha. — Totalmente impossível! Aquele meteorito foi examinado por profissionais. Eu mesmo o examinei. Fizemos análises químicas, espectrográficas e uma datação por rubídio-estrôncio. Não se parece com nenhum tipo de rocha encontrado na Terra. O meteorito é autêntico. Qualquer astro geólogo concordará com isso.

Pickering pensou no assunto algum tempo, alisando sua gravata enquanto isso.

— Ainda assim, considerando-se o quanto a NASA se beneficia dessa

descoberta no momento, os sinais aparentes de manipulação das provas e o fato de que vocês foram atacados, a primeira e única conclusão lógica que posso tirar é que o meteorito é uma fraude bem executada.

— Impossível! — disse Corky, zangado. — Com todo o respeito, senhor, meteoritos não são como os efeitos especiais de Hollywood, que podem ser criados num laboratório para enganar um bando de astrofísicos inocentes. São objetos quimicamente complexos com estruturas cristalinas e composição química absolutamente únicas!

— Não estou duvidando de sua análise, doutor Marlinson. Estou apenas seguindo uma cadeia lógica de pensamento. Considerando-se que alguém achou necessário matar vocês para evitar que revelassem que ele foi inserido sob o gelo, estou inclinado a formular algumas hipóteses improváveis no momento. O que, especificamente, faz com que tenha tanta certeza de que a rocha é, de fato, um meteorito?

— Especificamente? Bem, uma crosta de fusão homogênea, a presença de côndrulos, uma taxa de níquel que não pode ser encontrada na Terra. Se você está sugerindo que alguém nos enganou fabricando aquela rocha num laboratório, então tudo o que posso lhe dizer é que o laboratório

teria que ter 190 milhões de anos. — Corky enfiou a mão no bolso e puxou um fragmento do formato de um CD. Colocou-o em frente à câmera.

— Datamos amostras como esta através de vários métodos. A datação por rubídio-estrôncio não é algo que possa ser falsificado!

Pickering parecia surpreso.

— Você tem uma amostra?

Corky deu de ombros.

— A NASA tem dezenas delas soltas por lá.

— Você está me dizendo — retomou Pickering, olhando em seguida para Rachel — que a NASA descobriu um meteorito que acredita que contenha vestígios de vida e não adotou qualquer procedimento de segurança para impedir que as pessoas saiam livremente com amostras?

— O importante — disse Corky — é que a amostra em minhas mãos é genuína. — Segurou a rocha ainda mais perto da câmera. — Você pode dar isto a qualquer prólogo ou geólogo ou astrônomo do planeta. Eles farão testes e vão lhe dizer duas coisas: primeiro, que isto aqui tem 190 milhões de anos; segundo, que é quimicamente diferente de qualquer rocha que tenhamos na Terra.

Pickering inclinou-se para a frente, estudando o fóssil incrustado na rocha. Ficou hipnotizado por um momento. Finalmente, soltou um suspiro e disse:

— Não sou cientista. Tudo o que posso dizer é que, se o meteorito é genuíno, como de fato parece ser, não compreendo por que a NASA não o apresentou ao mundo de forma direta. Por que alguém se deu ao trabalho de inseri-lo cuidadosamente sob o gelo como se estivesse tentando nos persuadir de sua autenticidade?

 

Naquele momento, na Casa Branca, um agente de segurança estava ligando para Marjorie Tench. Ela atendeu ao primeiro toque.

— Sim?

— Senhora Tench — disse o agente —, tenho a informação que me pediu há pouco. A chamada radiofônica que Rachel Sexton fez anteriormente já foi localizada.

— Qual a origem?

— O serviço secreto disse que o sinal veio de um submarino da Marinha, o USS Charlotte.

— O quê?

— Eles não possuem as coordenadas, senhora, mas garantem que veio desse submarino.

— Ah, que droga! — disse Tench, batendo o telefone sem dizer mais uma palavra.

 

A absorção acústica total da sala morta do Charlotte estava começando a deixar Rachel levemente enjoada. Na tela, o semblante preocupado de Pickering voltou-se para Michael.

— Você ainda não disse nada, senhor Tolland.

Como um aluno que não estivesse prestando atenção, Tolland ergueu o olhar para o diretor do NRO.

— Senhor?

— Você acabou de apresentar um documentário muito convincente na televisão — disse Pickering. — Qual a sua visão sobre o meteorito agora?

— Bem, senhor — respondeu Tolland, obviamente sentindo-se mal com aquilo tudo —, devo concordar com o doutor Marlinson. Acredito que os fósseis e o meteorito são autênticos. Tenho uma boa experiência com técnicas de datação, e a idade daquela rocha foi confirmada por diversos testes, assim como seu conteúdo de níquel. Esses dados não podem ser forjados. Não há dúvida de que a rocha tem 190 milhões de anos, exibe uma taxa de níquel inexistente na Terra e contém dezenas de fósseis cuja formação também foi datada como sendo de 190 milhões de anos atrás. Não consigo pensar em qualquer outra hipótese senão que a NASA encontrou um meteorito autêntico.

A sala ficou novamente em silêncio. A expressão no rosto de Pickering era de total incerteza, algo que Rachel nunca tinha visto antes.

— O que devemos fazer, senhor? — perguntou ela. — Obviamente precisamos alertar o presidente de que há problemas com os dados.

Pickering franziu a testa.

— Vamos torcer para que ele ainda não saiba.

Rachel sentiu um nó na garganta. A implicação era clara. O presidente Herney pode estar envolvido. Ela duvidava fortemente daquela hipótese,-mas tanto o presidente quanto a NASA tinham muito a lucrar.

— Infelizmente — disse o diretor —, com exceção dessa análise impressa de GPR que nos mostra um poço de inserção, todos os demais dados científicos apontam para uma descoberta autêntica da NASA. — Ele parou, preocupado.

— E quanto ao ataque que vocês sofreram? — perguntou para Rachel. — Você mencionou Operações Especiais.

— Sim, senhor. — Ela contou novamente sobre as IMs e as táticas operacionais. Pickering parecia cada vez mais tenso. Rachel percebeu que ele estava pensando em quantas pessoas poderiam ter acesso a uma pequena equipe militar de ataque. Certamente o presidente teria.

Provavelmente Marjorie Tench também, já que era a conselheira sênior.

Muito possivelmente o administrador da NASA, Lawrence Ekstrom, devido a seus vínculos com o Pentágono. Enquanto pensava nas diversas possibilidades, Rachel percebeu que o ataque poderia ter sido engendrado por qualquer um com poder político e conexões adequadas.

— Eu poderia ligar para o presidente agora mesmo — disse o diretor —, mas não acho que isso seja sábio, ao menos enquanto não soubermos quem está envolvido. Minha capacidade de protegê-los se torna bastante limitada se eu acionar a Casa Branca neste momento. Além do mais, não estou bem certo do que dizer ao presidente. Se o meteorito é real, como afirmam, então as alegações de que há um poço de inserção e de que vocês sofreram um ataque não fazem sentido. O presidente teria todo o direito de questioná-las. — Fez uma pausa, avaliando suas opções. — Mas, seja qual for a verdade ou quem estiver por trás disso, há pessoas muito poderosas que irão sofrer um baque se essa informação vier a público. Creio que a prioridade é colocar vocês num lugar seguro antes de começar a fazer barulho.

Colocar num lugar seguro? Aquele comentário surpreendeu Rachel.

— Acho que estamos bem seguros dentro de um submarino nuclear, senhor.

Pickering olhou para ela, cético.

— Sua presença nesse submarino não vai permanecer secreta por muito tempo. Vou tirar vocês daí agora mesmo. Francamente, só me sentirei tranqüilo quando os três estiverem sentados em minha sala.

 

O senador Sexton estava jogado sobre o sofá, sentindo-se isolado.

Seu apartamento em Westbrooke Place, que minutos antes estivera cheio de novos amigos e partidários, agora parecia abandonado, com taças de conhaque pela metade e cartões de visita largados para trás por homens que saíram quase literalmente correndo pela porta.

Sexton estava deitado, solitário, em frente à TV, desejando profundamente desligá-la, mas ainda assim incapaz de parar de assistir às infindáveis análises da mídia. Estavam em Washington e não demorou muito para que os analistas passassem das hipérboles pseudocientíficas e filosóficas para se aterem ao que importava de fato — política. Como mestres da tortura esfregando ácido nas feridas de Sexton, os jornalistas estavam repetindo infinitas vezes o óbvio.

“Há poucas horas, Sexton estava alçando vôo rumo à presidência”, disse um analista. “Agora, com a descoberta feita pela NASA, a campanha do senador caiu das alturas e sofreu um duro impacto.”

Sexton virou a cara, pegou o Courvoisier e tomou um gole direto da garrafa. Aquela noite seria a mais longa e mais solitária de sua vida. Tinha ódio de Marjorie Tench por ter preparado uma cilada para ele durante a entrevista. Tinha ódio de Gabrielle Ashe por um dia ter mencionado os gastos da NASA. Tinha ódio do presidente por ter tirado a sorte grande. E tinha ódio do mundo por estar rindo dele agora.

“É óbvio que isso terá um efeito devastador no senador”, prosseguia o analista. “O presidente e a NASA obtiveram um triunfo incalculável com essa descoberta.” Uma notícia dessas iria dar um novo fôlego à campanha de Herney independentemente da posição que Sexton tivesse sobre a agência espacial, mas com sua admissão hoje cedo de que chegaria ao ponto de abolir completamente o financiamento da NASA se necessário...

“Bem, esse pronunciamento presidencial foi um baque do qual o senador não irá se recuperar.”

Fui enganado, pensou Sexton. Aqueles sacanas da Casa Branca me ferraram.

O analista estava sorrindo agora. “Toda a credibilidade que a NASA havia perdido junto ao povo americano voltou com força total. Há um verdadeiro sentimento de orgulho nacional aqui, nas ruas de Washington. E não é para menos. Zach Herney é amado por todos, embora seus admiradores já estivessem perdendo a fé. É preciso reconhecer que o presidente estava na lona e recebeu alguns golpes duros recentemente, mas ele deu a volta por cima de forma gloriosa.”

Sexton pensou no debate na CNN naquela tarde e abaixou a cabeça, nauseado. Toda a antipatia contra a NASA que ele havia cuidadosamente construído ao longo dos últimos meses não apenas havia sido desfeita como também se transformara numa corda em volta de seu pescoço. Agora parecia um idiota completo. Tinha sido vergonhosamente manipulado pela Casa Branca. Estava com medo de ver as charges nos jornais do dia seguinte. Seu nome seria motivo de risadas em todo o país. Obviamente não receberia mais nenhum financiamento discreto da SFF para a campanha. Tudo havia mudado. Os homens que estavam em seu apartamento naquela noite viram seus sonhos correrem pelo ralo. A privatização do espaço tinha acabado de bater de frente contra um muro.

Tomando outro gole de conhaque, o senador se levantou e andou, cambaleando, até à sua mesa. Olhou para o telefone fora do gancho. Sabia que era um ato masoquista de autoflagelação, mas lentamente recolocou o fone no lugar e começou a contar os segundos.

Um... dois... O telefone tocou. Deixou que a secretária eletrônica atendesse.

“Senador Sexton, é Judy Oliver, da CNN. Gostaria de lhe dar uma oportunidade de dizer algo sobre a descoberta da NASA. Por favor, ligue de volta”, disse a moça, e desligou.

Sexton começou a contar de novo. Um... O telefone começou a tocar. Ele ignorou-o, deixando a máquina atender. Era outro repórter.

Agarrado à sua garrafa de Courvoisier, Sexton foi andando até à porta corrediça de sua varanda. Abriu-a e saiu para sentir o ar frio da noite. Apoiado no parapeito, olhou para fora, para a cidade, até chegar à fachada iluminada da Casa Branca ao longe. As luzes pareciam piscar alegremente ao vento.

Canalhas, pensou. Durante séculos estiveram procurando provas de que há vida no espaço. Tinham que encontrar essa droga justo no ano da minha eleição? Aquilo não era coincidência, só podia ser uma profecia! Em todas as janelas, até onde o senador podia ver, as televisões estavam ligadas. Pensou onde Gabrielle estaria naquela noite. Era tudo culpa dela. Ela o havia informado sobre cada uma das falhas da NASA.

Levantou a garrafa para dar mais um gole.

Maldita Gabrielle, é por culpa dela que estou nesta situação.

 

Do outro lado da cidade, em meio ao caos da redação da ABC, Gabrielle Ashe sentia-se desligada do mundo. O pronunciamento do presidente tinha surgido do nada, deixando-a sem ação, num estado quase catatônico. Apenas ficou onde estava, de pé, imóvel no centro daquela agitação, o olhar fixo num dos monitores de televisão enquanto um pandemônio se desenrolava à sua volta.

Nos instantes iniciais do discurso de Herney o salão tinha ficado em completo silêncio. A tranqüilidade durou pouco, antes que o local irrompesse em um delírio ensurdecedor de repórteres correndo por todos os lados. Eram profissionais e não tinham tempo para reflexões pessoais. Poderiam refletir com calma depois de terminar o trabalho.

Naquele exato momento, o mundo queria mais informações e a ABC tinha que fornecer o conteúdo. Aquele evento reunia muitos elementos de interesse público: ciência, história, o cenário político. Era um grande filão. Ninguém ligado à imprensa ou a qualquer veículo de comunicação iria dormir naquela noite.

— Gabi? — chamou Yolanda, com uma voz carinhosa. — Vamos voltar para meu escritório antes que alguém perceba quem você é e comece a lhe fazer perguntas sobre o impacto disso na campanha de Sexton.

Como se estivesse no meio de um sonho, Gabrielle sentiu a amiga guiando-a até seu aquário. Yolanda fez com que ela se sentasse e lhe deu um copo d’água.

— Veja o aspecto positivo, Gabi. A campanha do seu candidato está ferrada, mas você, não — disse a editora com um sorriso forçado.

— Obrigada. Muito reconfortante.

Yolanda adotou um tom de voz mais sério.

— Gabrielle, sei que você está se sentindo um zero à esquerda. Seu candidato acabou de ser atropelado por um trator e não acho que vá se levantar. Ao menos não a tempo de virar a mesa nessa eleição. Mas pelo menos ninguém espalhou suas fotos na TV. É sério. Isso é uma boa notícia. Herney não vai mais precisar divulgar um escândalo sexual. Ele está no auge de sua postura presidencial de “bom moço” e não vai se rebaixar.

Aquilo parecia um pequeno consolo para Gabrielle.

— E sobre as alegações de Tench quanto ao financiamento ilegal da campanha... — Yolanda balançou a cabeça. — Eu ainda tenho minhas dúvidas. É verdade que Herney tem mantido sua postura de não usar propaganda negativa. É verdade também que uma investigação sobre corrupção seria ruim para todo o país. Mas você acha mesmo que Herney é tão patriótico assim a ponto de desperdiçar a chance de esmagar a oposição apenas para proteger a moral da nação? Tenho a impressão de que Tench exagerou um pouco os fatos sobre as finanças de Sexton para tentar criar pânico. Ela jogou com o que tinha, esperando que você se assustasse e entregasse de bandeja, para o presidente, um escândalo sexual. Você sabe que esta noite seria fatal para o senador se sua moral também fosse questionada.

Gabrielle concordou, meio ausente. Um escândalo sexual seria um golpe duplo do qual a carreira de Sexton não iria se recuperar.

— Você não caiu na cilada de Marjorie Tench, Gabi. Ela jogou a isca, mas você não engoliu. Está livre agora. Haverá outras eleições.

A jovem assessora mais uma vez concordou vagamente, sem saber muito o que pensar.

— Olhe, a Casa Branca armou o tabuleiro para Sexton de forma brilhante: atraiu seu foco para a NASA e fez com que se comprometesse em público, obrigando-o a apostar tudo o que tinha nessa questão espacial.

Foi tudo culpa minha, pensou Gabrielle.

— E essa coletiva, meu Deus, foi genial! Deixando de lado a importância da descoberta em si, a produção foi brilhante. Uma conexão direta com o Ártico, um documentário de Michael Tolland... Nossa, como competir com isso? Zach Herney acertou na mosca esta noite. Não é à toa que o homem é presidente. E vai continuar sendo por mais quatro anos...

— Bom, tenho que voltar para o trabalho, amiga. Você pode ficar sentada aqui quanto tempo quiser. Deixe as idéias se assentarem. — Yolanda dirigiu-se para a porta. — Querida, eu volto para ver como você está daqui a pouco.

Sozinha na sala, Gabrielle bebeu o copo d’água lentamente. O gosto era amargo. Tudo tinha um gosto amargo. É culpa minha, pensou, tentando tirar o peso da consciência, lembrando-se de todas as coletivas patéticas da NASA no último ano: os problemas com a estação espacial, o adiamento do X-33, todas as falhas nas sondas enviadas a Marte, rombos infindáveis no orçamento. Ela estava pensando no que poderia ter feito de outra forma.

Nada, disse para si mesma. Você fez tudo certo.

Pena que tudo deu errado.

 

O enorme helicóptero Seahawk da Marinha fora requisitado para uma operação secreta, partindo da Base Aérea de Thule, no norte da Groenlândia. Voava baixo, fora do alcance de radares, enfrentando fortes rajadas de vento para percorrer as 70 milhas de mar aberto.

Depois, executando as estranhas ordens que haviam recebido, o piloto e o co-piloto lutaram com o vento até manter a aeronave pairando sobre um conjunto de coordenadas predefinidas no meio do oceano.

— Onde é nosso ponto de encontro? — gritou o co-piloto, tentando encontrar algo. As ordens diziam para que levassem um helicóptero com um guincho de resgate; então eles esperavam realizar uma operação de busca e salvamento. — Você tem certeza de que as coordenadas estão certas? — Percorreu a superfície agitada do oceano com um forte holofote de busca, mas não havia nada abaixo deles exceto...

— Cacete! — O piloto puxou o manche, fazendo subir o helicóptero.

Uma montanha de aço negro surgiu na frente deles em meio às ondas. Um gigantesco submarino sem identificação emergiu do nada, soltando o lastro e espumando como uma baleia metálica.

Os dois se olharam, impressionados.

— Acho que são eles.

Conforme ordenado, a operação fora executada sem nenhum contato por rádio. A escotilha no alto da torreta abriu-se e um marinheiro usou um sinalizador luminoso para orientar os pilotos.

O helicóptero colocou-se exatamente acima do submarino e desceu a bóia de salvamento para três pessoas — essencialmente alças de borracha na ponta de um cabo retrátil.

Um minuto depois, três desconhecidos estavam balançando abaixo do helicóptero, subindo lentamente, golpeados pelo vento que descia das hélices.

Quando o co-piloto puxou os dois homens e a mulher para dentro, o piloto sinalizou que estava pronto para partir. O submarino desapareceu no mar em poucos segundos, sem deixar pistas de que estivera lá.

Com os passageiros a bordo, o piloto do helicóptero virou, mergulhou o nariz e acelerou em direção ao sul para completar sua missão. A tempestade se aproximava rapidamente, e aqueles três estranhos tinham que ser levados em segurança de volta para a base de Thule a fim de seguir viagem num jato. O piloto não fora informado sobre seu destino final. Tudo o que sabia é que suas ordens vinham do alto escalão e que estava transportando uma carga preciosa.

 

Quando a tempestade de Mune finalmente explodiu, lançando-se com toda a força sobre a habisfera da NASA, o domo estremeceu como se estivesse prestes a se soltar do gelo e voar em direção ao mar. Os cabos estabilizadores de aço foram repuxados contra suas amarras, vibrando como enormes cordas de guitarra e emitindo um tom monótono e triste.

Do lado de fora, os geradores falhavam intermitentemente, fazendo com que as luzes piscassem e ameaçando mergulhar a enorme câmara em total escuridão.

Lawrence Ekstrom, o administrador da NASA, estava andando pelo domo.

Ele queria poder sair logo daquele inferno, mas tinha que ficar mais um dia, dando coletivas adicionais para a imprensa pela manhã e supervisionando os preparativos para transportar o meteorito a Washington. Tudo que ele queria, naquele momento, era dormir um pouco.

Os problemas que surgiram ao longo do dia o deixaram esgotado.

Voltou a pensar em Wailee Ming, Rachel Sexton, Norah Mangor, Michael Tolland e Corky Marlinson. Algumas pessoas da equipe da NASA já haviam começado a notar que os civis tinham sumido.

Relaxe, pensou. Está tudo sob controle.

Respirou fundo, lembrando-se de que o mundo todo estava animado com a descoberta da NASA e com a exploração do espaço naquele momento. A questão da existência de vida fora da Terra não tinha chamado tanta atenção desde o famoso “caso Roswell”, em 1947.

Foi quando uma nave supostamente alienígena teria se chocado contra o solo em Roswell, Novo México, que, a partir daquele momento, se tornara um santuário para milhões de amantes de teorias da conspiração e ovnis.

Nos anos em que trabalhou para o Pentágono, acabou sabendo que aquele caso não passara de um acidente militar durante uma operação secreta chamada Projeto Mogul, envolvendo um balão-espião que estava sendo projetado para captar os sons dos testes atômicos dos russos. Durante um dos vôos experimentais, um protótipo havia saído de seu curso e caído no deserto do Novo México. Infelizmente um civil encontrou os destroços antes que os militares conseguissem chegar ao local.

O fazendeiro William Brazel havia se deparado com os pedaços espalhados de um neoprene sintético radicalmente novo e de metais leves que nunca tinha visto, então chamou imediatamente o xerife. Os jornais divulgaram a descoberta dos estranhos destroços, e o interesse do público cresceu rapidamente. Alimentados pela negativa oficial dos militares de que o material fosse deles, os repórteres começaram a investigar, e o segredo em torno do Projeto Mogul ficou seriamente ameaçado. Entretanto, quando parecia que a delicada questão da existência de um balão-espião estava prestes a ser revelada, algo fantástico aconteceu.

A mídia chegou a uma conclusão inesperada: aquelas substâncias futurísticas só podiam ter vindo de outro planeta, fabricadas por criaturas cientificamente mais avançadas do que os humanos. O fato de os militares negarem qualquer envolvimento com o incidente só podia significar uma coisa: um contato secreto com os alienígenas! Apesar de ter ficado bastante surpresa com essa nova hipótese, a Força Aérea não iria reclamar de uma história tão oportuna. Os militares tomaram partido da teoria dos extraterrestres e fizeram com que crescesse. Uma suspeita mundial de que ETs estavam visitando o Novo México era um risco para a segurança nacional muito inferior à possibilidade de os russos saberem algo a respeito do Projeto Mogul.

Para alimentar a história dos alienígenas, a comunidade de inteligência envolveu todo o incidente em completo segredo e começou a planejar “vazamentos de informações” sobre contatos com extraterrestres, espaçonaves recuperadas e até mesmo um misterioso “Hangar 18” na base da Força Aérea de Wright-Patterson, em Daytona, onde o governo estaria mantendo os corpos dos ETs congelados. O mundo inteiro comprou essa versão, e o interesse por Roswell percorreu o planeta. A partir daquele momento, toda vez que um civil acidentalmente avistava uma aeronave militar americana, a comunidade de inteligência precisava apenas tirar o pó da velha teoria da conspiração.

Não era uma aeronave, era um disco voador!

O administrador ficava surpreso por aquele truque continuar funcionando nos dias de hoje. Todas as vezes que a mídia relatava um súbito aumento de aparições de ovnis, Ekstrom ria. Na maioria dos casos, algum civil tinha visto de relance um dos 57 Global Hawks do NRO: aviões de reconhecimento em formato de charuto que eram operados por controle remoto e se moviam a altíssima velocidade e de forma única.

Ekstrom achava patético que muitos turistas ainda fizessem peregrinações até o deserto do Novo México para ficar observando o céu noturno com suas câmeras de vídeo. De vez em quando alguém dava sorte e conseguia uma “prova concreta” de um ovni: luzes fortes cruzando rapidamente o céu e fazendo manobras radicais a velocidades muito superiores às de qualquer avião existente. O que essas pessoas não sabiam é que havia cerca de 12 anos de diferença entre o desenvolvimento de projetos para o governo e sua divulgação para o grande público. Os caçadores de discos voadores estavam apenas tendo uma rápida visão da próxima geração de aeronaves americanas sendo construídas e testadas na Área 51 — muitas das quais eram resultado de idéias de engenheiros da NASA.

É claro que o setor de inteligência nunca corrigia esse engano: era preferível que todos acreditassem em outro misterioso objeto voador avistado a que ficassem a par da capacidade real dos novos aviões militares.

Mas tudo mudou agora, pensou Ekstrom. Em poucas horas, o mito dos extraterrestres teria se tornado uma realidade confirmada para sempre.

— Administrador! — Um técnico da NASA veio correndo atrás dele. – Há um chamado de emergência em uma linha segura na cabine de comunicação.

Ekstrom suspirou e virou-se para ir até lá. Que diabos querem comigo agora? Ele foi caminhando na direção do trailer, e o técnico continuou andando ao seu lado.

— O pessoal que opera o radar está curioso, senhor...

— É? — Ekstrom estava pensando em várias coisas ao mesmo tempo.

— Sabe aquele enorme submarino nuclear que está estacionado a poucos quilômetros da costa? Nós ficamos imaginando por que o senhor não nos contou nada a respeito.

Ekstrom virou-se para ele.

— Como assim?

— O submarino, administrador. O senhor poderia ao menos ter prevenido o pessoal que está operando o radar. É compreensível ter uma cobertura adicional no mar, porém a equipe do radar ficou bastante surpresa.

Ekstrom parou subitamente e disse:

— Que submarino?

O técnico também parou, pois não esperava aquela reação.

— Não é parte da nossa operação?

— Não! Onde ele está?

O técnico engoliu em seco.

— A cerca de cinco quilômetros da costa. Nós o pegamos no radar totalmente por acaso. Subiu à superfície apenas alguns minutos. Uma mancha impressionante no radar. Muito provavelmente um submarino nuclear da classe Los Angeles. Pensamos que o senhor tivesse pedido à Marinha para vigiar a operação sem nos informar nada.

O administrador ficou olhando para ele.

— Pode estar certo de que não pedi nada à Marinha!

A voz do técnico tinha ficado trêmula.

— Bem, senhor, então creio que é melhor informá-lo de que um submarino acabou de se encontrar com uma aeronave aqui, bem perto da costa. Pareceu uma troca de pessoal. Na verdade, ficamos bastante impressionados que alguém fosse tentar um resgate vertical com um vento desses.

Ekstrom ficou tenso. Mas o que um submarino está fazendo bem perto da costa de Ellesmere sem que eu saiba disso?

— Você viu em que direção a aeronave partiu depois do encontro?

— De volta para a Base Aérea de Thule. Provavelmente para uma conexão com um transporte até o continente, suponho.

Ele não disse mais nada enquanto caminhava rumo à cabine. Quando entrou naquela escuridão atulhada de coisas, a voz áspera na linha era bem familiar.

— Temos um problema — disse Tench, tossindo ao falar. — É a respeito de Rachel Sexton.

 

O senador Sexton não tinha idéia de quanto tempo passara olhando para o infinito. Quando percebeu que aquele barulho não era sua cabeça latejando por conta da bebida, e sim alguém batendo na porta de seu apartamento, levantou-se do sofá, guardou a garrafa de Courvoisier e andou em direção ao hall.

— Quem é? — gritou Sexton, que não queria ver ninguém.

Seu guarda-costas, do outro lado da porta, anunciou o nome do visitante inesperado. O senador ficou instantaneamente sóbrio. Ele foi rápido. Achou que só seria forçado a ter aquela conversa na manhã seguinte.

Respirou fundo e ajeitou o cabelo. Abriu a porta. O rosto à sua frente era bem familiar: os dois tinham se encontrado naquela manhã na minivan branca estacionada numa garagem de hotel. Foi mesmo esta manhã?, pensou Sexton. Deus, como as coisas haviam mudado.

— Posso entrar? — disse o homem.

O senador chegou para o lado, abrindo passagem para o testa-de-ferro da Space Frontier Foundation.

— A reunião correu bem? — perguntou enquanto Sexton fechava a porta.

Se correu bem? Sexton ficou imaginando se o homem tinha se trancado em um casulo durante todo o dia.

— Estava tudo ótimo até o presidente aparecer na televisão. O velho concordou, com ar descontente.

— É. Uma vitória incrível. Irá atrapalhar bastante a nossa causa.

Atrapalhar a nossa causa? O sujeito definitivamente era um otimista.

Com o triunfo da NASA naquela noite, o velho estaria morto e enterrado antes que a SFF pudesse atingir seus objetivos de privatização.

— Durante anos eu suspeitei de que iriam encontrar uma prova — disse o testa-de-ferro. — Não sabia quando ou como, mas era claro que cedo ou tarde teríamos certeza disso.

Sexton ficou espantado.

— Você não está surpreso?

— A matemática do cosmo requer outras formas de vida — continuou o homem, seguindo em direção ao escritório. — Não estou surpreso com essa descoberta. Intelectualmente, estou fascinado. Espiritualmente, abismado. Politicamente, profundamente preocupado. Não poderia ter acontecido num momento pior.

Sexton ainda não entendera o motivo daquela visita. Certamente não tinha sido para animá-lo.

— Como você bem sabe, as companhias que fazem parte da SFF gastaram milhões tentando abrir a fronteira do espaço para o setor privado. Recentemente, boa parte desse dinheiro foi vertido em sua campanha.

O senador ficou na defensiva.

— Eu não tinha como prever o que iria acontecer esta noite. A Casa Branca preparou uma armadilha e me fez atacar a NASA!

— É. O presidente sabe o que faz. Ainda assim, nem tudo está perdido. — Havia um estranho brilho de esperança nos olhos do velho.

Ele está esclerosado, concluiu Sexton. Era claro que estava tudo perdido. Todas as estações de TV naquele momento só falavam do fim da sua campanha.

O testa-de-ferro entrou no escritório sem esperar um convite, sentou-se no sofá e olhou para Sexton.

— Você se lembra dos problemas que a NASA teve inicialmente com o software para detecção de anomalias existente no satélite PODS?

O senador não tinha idéia de onde ele pretendia chegar com aquilo. E que diferença isso faz agora? O PODS encontrou a porcaria do meteorito com fósseis!

— Lembre-se bem — continuou o velho. — O software que foi enviado com o satélite não funcionou bem logo no início. Você fez um grande

estardalhaço a respeito na imprensa.

— É claro! — disse Sexton, sentando-se em frente ao homem. — Aquilo foi outra falha gritante da NASA!

O visitante assentiu.

— Concordo. Só que pouco depois disso a NASA deu outra coletiva anunciando que tinha encontrado uma solução, algum tipo de correção para o software.

Sexton não tinha visto aquela coletiva específica, mas ouvira dizer que havia sido curta, chata e de pouco interesse para a imprensa. O gerente do projeto PODS tinha dado uma descrição técnica tediosa sobre como a NASA conseguira resolver um pequeno problema com o software de detecção e colocara tudo para funcionar.

— Tenho prestado muita atenção no PODS desde que ele falhou — disse o homem, tirando uma fita de vídeo do casaco, andando até à TV de Sexton e colocando a fita no videocassete. — Acho que você irá gostar disto.

O vídeo começou. Mostrava a Sala de Imprensa da NASA em sua sede em Washington. Um homem bem vestido subiu ao palanque e cumprimentou os jornalistas. Embaixo de sua imagem apareceu a seguinte legenda na TV:

CHRIS HARPER, GERENTE DE PROJETO POLAR ORBITING DENSITY SCANNER SATELLITE (PODS)

Chris Harper era alto, refinado e falava com a afetação sutil de um americano descendente de europeus que fazia questão de deixar clara sua origem. Seu sotaque era erudito e polido. Estava se dirigindo à imprensa com confiança, dando-lhe más notícias sobre o PODS.

— Ainda que o satélite PODS esteja em órbita e funcionando bem, temos um problema com os computadores de bordo. Houve um pequeno erro de programação pelo qual assumo toda a responsabilidade. Especificamente a tabela de voxels do filtro FIR possui uma falha, o que significa que o software de detecção de anomalias não está funcionando bem. Estamos trabalhando para encontrar uma forma de resolver esse problema.

A audiência soltou um murmúrio de lamento, aparentemente acostumada às falhas da NASA.

— O que isso significa em relação à eficácia atual do satélite? — perguntou um repórter.

Harper respondeu profissionalmente. Impassível e confiante.

— Imaginem olhos perfeitos funcionando sem um cérebro. Basicamente o satélite está com uma visão perfeita, só que não sabe avaliar aquilo que está vendo. O propósito da missão PODS é procurar por bolsões de degelo na calota polar, mas, sem que o computador possa analisar os dados de densidade que recebe ao fazer as varreduras, o PODS não pode discernir onde estão os pontos que interessam. A situação deve ser corrigida após a próxima missão do ônibus espacial, quando serão feitos ajustes no computador de bordo.

O velho voltou-se para Sexton:

— Ele é bom para apresentar notícias ruins, não é?

— Ele é da NASA — resmungou o senador. — É só isso que eles fazem.

A fita ficou sem sinal durante um instante e, de repente, entrou a gravação de outra coletiva da agência espacial.

— Essa segunda coletiva foi dada poucas semanas depois — comentou o homem da SFF. — Bem tarde da noite, de forma que poucas pessoas assistiram às boas notícias dadas pelo doutor Harper.

O vídeo da entrevista começou. Dessa vez Chris Harper parecia desgrenhado e pouco à vontade.

— Tenho o prazer de anunciar — disse ele, com voz de quem não estava tendo o menor prazer — que a NASA encontrou uma forma de contornar o problema no software do satélite PODS.

Ele explicou, meio atabalhoadamente, qual tinha sido a alternativa encontrada: algo como redirecionar os dados diretamente do PODS para computadores na Terra, em vez de usar o computador do próprio satélite. Aparentemente todos ficaram impressionados, pois a solução parecia bem simples e trazia resultados animadores. Quando Harper terminou, recebeu aplausos entusiasmados.

— Para quando podemos esperar os primeiro dados? — perguntou um jornalista.

Harper respondeu, suando.

— Algumas semanas.

Mais aplausos. Vários repórteres levantaram as mãos para fazer perguntas adicionais.

— Isso é tudo o que posso lhes dizer no momento. — Harper começou a juntar seus papéis, visivelmente desconfortável. — O PODS está funcionando e teremos resultados em breve — concluiu, antes de sair praticamente correndo do palco.

Sexton franziu o rosto. Tinha que admitir que aquilo fora estranho.

Por que Harper estava tranqüilo ao apresentar notícias ruins e, depois, tão estranho ao falar da solução encontrada? Deveria ser o contrário. O senador não tinha visto essa coletiva quando ela foi ao ar, mas havia lido sobre a alternativa encontrada para o software. Na época, aquilo lhe pareceu irrelevante, pois a percepção do público continuava a mesma: o PODS era mais um projeto da NASA que havia funcionado mal e estava sendo “ajeitado” de qualquer maneira usando uma solução longe do ideal.

O velho desligou a televisão.

— A NASA disse depois que o doutor Harper não estava se sentindo bem naquela noite. Eu acredito que ele estava mentindo.

Mentindo? Sexton ficou olhando para ele, sem conseguir encontrar uma razão para que Chris Harper fosse a público mentir sobre o software.

Por outro lado, o senador tinha experiência no assunto — ele já contara muitas mentiras durante sua vida e sabia reconhecer um mau mentiroso. O doutor Harper definitivamente parecia suspeito.

— Talvez você ainda não tenha entendido — prosseguiu o velho. — Essa rápida declaração que você ouviu Harper fazer é provavelmente a coletiva de imprensa mais importante da história da NASA. O “jeitinho” conveniente que ele disse ter encontrado para solucionar o problema no software foi o que permitiu que o PODS encontrasse o meteorito.

Sexton ficou intrigado. Mas se você acredita que ele estava mentindo...

— Se Harper mentiu e o software do PODS não está funcionando na prática, então como diabos a NASA pôde encontrar o meteorito?

O velho sorriu.

— Exatamente.

 

Os EUA Possui uma pequena frota de aviões apreendidos em operações de repressão ao tráfico de drogas que são usados para o transporte de figurões das Forças Armadas. A frota reúne uma dúzia de jatos particulares, incluindo três G-4 reformados. Cerca de meia hora antes, um desses G-4 havia decolado da pista de Thule e lutado para subir acima das nuvens em meio à tempestade. Agora o jatinho rumava para o sul, envolto pela noite.

Naquele momento sobrevoava o Canadá, dirigindo-se para Washington. A bordo estavam Rachel Sexton, Michael Tolland e Corky Marlinson, sozinhos em uma cabine para oito passageiros, parecendo jogadores exaustos voltando de alguma competição, uniformizados com macacões e bonés com a inscrição USS Charlotte.

Na parte de trás da cabine, Corky roncava quase tanto quanto as turbinas Grumman. Tolland estava sentado mais para a frente, completamente esgotado, olhando pela janela para as nuvens abaixo deles. Rachel estava do outro lado do corredor, sabendo que não conseguiria dormir nem mesmo se lhe dessem comprimidos. Sua mente estava girando em torno do mistério do meteorito e da conversa na sala morta do submarino com Pickering. Antes de encerrar a conexão, o diretor tinha transmitido a Rachel duas informações perturbadoras.

Primeiro, Marjorie Tench havia afirmado que possuía uma gravação em vídeo do depoimento privado de Rachel para a equipe da Casa Branca.

Tench agora ameaçava usar esse vídeo como prova caso a agente do NRO tentasse voltar atrás e negar a autenticidade dos dados do meteorito.

Aquela notícia era particularmente irritante porque Rachel dissera muito claramente ao presidente que seu relatório era destinado somente à equipe da Casa Branca. Aparentemente, Zach Herney ignorara o acordo que fizera com ela.

A segunda revelação inquietante dizia respeito a um debate na CNN ao qual seu pai havia comparecido mais cedo, naquela mesma tarde.

Aparentemente, Marjorie Tench fizera uma rara aparição em público e habilmente levara seu pai a definir de forma inequívoca sua posição contra a NASA. Mais especificamente, Tench o obrigara a proclamar de forma crua seu ceticismo quanto à possibilidade de se encontrar vida fora da Terra.

Comer seu chapéu? Foi o que Pickering contou que o senador prometeu fazer se a NASA encontrasse vida extraterrestre. Rachel ficou pensando no que Tench teria feito para conseguir extrair aquela declaração tão conveniente de seu pai. A Casa Branca havia armado o tabuleiro com cuidado, alinhando impiedosamente suas forças e preparando o grande colapso de Sexton. Como uma equipe numa competição de luta livre política, o presidente e Marjorie tinham cercado seu adversário e preparado o ataque final. Enquanto Herney permanecia dignamente fora do ringue, Tench batia pesado, circulando e posicionando o senador para o nocaute do presidente.

Zach Herney dissera a Rachel que tinha pedido à NASA para adiar o anúncio da descoberta com a finalidade de confirmar a veracidade dos dados. Rachel percebia agora que a espera trouxera outras vantagens para o presidente. O adiamento permitiu que a Casa Branca aprontasse cuidadosamente a corda na qual o próprio senador iria se enforcar.

Rachel não sentia pena de seu pai, mas agora enxergava claramente que, por baixo daquela aparência calorosa e gentil do presidente Zach Herney, havia um tubarão astuto. Afinal, para chegar ao cargo mais poderoso do mundo é preciso ter instinto assassino. A questão era saber se esse tubarão era um espectador inocente ou um participante ativo daquele jogo.

Ela se levantou para esticar as pernas. Enquanto andava pelo corredor do avião, sentia-se frustrada porque as informações que possuía eram muito contraditórias. Com sua lógica absoluta, Pickering havia concluído que o meteorito deveria ser falso. Por outro lado, Corky e Tolland, com suas certezas científicas, insistiam que era autêntico.

Rachel só podia fiar-se no que tinha visto: uma rocha carbonizada, cheia de fósseis, sendo retirada do gelo.

Passou ao lado de Corky e olhou para ele, ainda bastante machucado depois da fuga no gelo. O inchaço na bochecha estava diminuindo e os pontos tinham boa aparência. Ele dormia com as mãos rechonchudas segurando a amostra do meteorito, como se fosse um ursinho.

Ela inclinou-se e gentilmente retirou a amostra das mãos de Corky.

Olhou para o fragmento, observando novamente o fóssil. Elimine todas as suposições, repetiu para si mesma, forçando-se a reorganizar seus pensamentos. Restabeleça a cadeia de provas. Era um velho ensinamento do NRO. Reconstruir uma prova desde o início, ou “voltar à estaca zero”, como costumavam dizer, era algo que todos os analistas faziam quando as peças não se encaixavam perfeitamente bem.

Reconstrua as provas.

Voltou a andar pelo corredor.

Esta pedra de fato representa prova de que há vida extraterrestre?

Uma prova, ela sabia, era uma conclusão construída sobre uma pirâmide de fatos, uma vasta base de informações já aceitas sobre as quais afirmações mais específicas eram feitas.

Elimine todas as suposições básicas. Comece de novo. O que temos?

Uma rocha.

Ela pensou nisso durante algum tempo. Uma rocha. Uma rocha com criaturas fossilizadas. Andando de volta para a frente do avião, sentou-se ao lado de Tolland.

— Mike, queria lhe propor um jogo.

Ele olhou para Rachel, mas parecia distante, profundamente imerso em seus pensamentos.

— Um jogo?

Ela entregou-lhe a amostra do meteorito.

— Faça de conta que você está vendo essa rocha fossilizada pela primeira vez. Eu não lhe disse nada sobre sua origem ou sobre como foi encontrada. O que você me diria a respeito?

Tolland soltou um suspiro tristonho.

— Engraçado você me perguntar isso. Eu acabei de pensar em algo bem estranho...

Centenas de quilômetros atrás do jato que levava Rachel, Tolland e Corky, um avião de aparência peculiar voava bem baixo em direção ao sul, sobre um oceano deserto. A bordo, a equipe da Força Delta estava em silêncio. Aqueles homens já haviam sido retirados de outros lugares às pressas, mas nunca daquela forma.

O controlador estava furioso.

Mais cedo, Delta-Um informara-lhe que eventos inesperados na plataforma deixaram sua equipe sem outra escolha senão exercer a força, o que tinha incluído matar quatro civis, incluindo Rachel Sexton e Michael Tolland.

O controlador ficara chocado ao saber. Apesar de matar ser um ato autorizado como último recurso, aquilo obviamente não fazia parte dos planos.

Mais tarde, a insatisfação do controlador em relação às mortes se transformara em pura raiva quando ele descobriu que os assassinatos não tinham saído como planejado.

— Sua equipe falhou! — disse o controlador. O tom de voz andrógino da máquina não conseguia mascarar a fúria de quem estava do outro lado. — Três de seus quatro alvos ainda estão vivos!

Impossível!, pensou Delta-Um ao ouvir aquilo.

— Mas nós vimos quando...

— Eles fizeram contato com um submarino e agora estão a caminho de Washington.

— O quê?

O controlador prosseguiu num tom mortífero:

— Ouçam bem o que vou dizer. Vou lhes dar novas ordens. E não há espaço para falhas desta vez.

 

O senador Sexton já estava se sentindo mais esperançoso quando foi acompanhar seu visitante até ao elevador. O testa-de-ferro da SFF não viera, afinal de contas, castigá-lo, e sim ter uma boa conversa para restaurar sua confiança e dizer-lhe que a guerra não havia terminado.

Uma possível brecha na armadura da NASA.

A fita de vídeo daquela estranha coletiva de imprensa convenceu Sexton de que o velho estava certo: o diretor da missão PODS, Chris Harper, estava mentindo. Mas por quê? E, se a NASA não consertara o software do PODS, como é que havia encontrado o meteorito?

Enquanto andavam em direção ao elevador, o velho disse:

— Algumas vezes, para desmanchar uma trama, basta encontrar uma ponta pela qual puxar a linha. Talvez possamos descobrir uma maneira de tirar proveito da vitória da NASA. Levantar algumas dúvidas. Quem sabe aonde isso poderá nos levar? — Os olhos do homem se fixaram nos de Sexton. — Ainda não estou pronto para cair na lona, senador. E espero que você também não esteja.

— Claro que não — afirmou Sexton, mostrando resolução em seu tom de voz. — Já caminhamos bastante.

— Chris Harper mentiu sobre o conserto do PODS — disse o velho ao entrar no elevador. — E precisamos saber por quê.

-Vou descobrir isso o mais rápido possível — respondeu o senador. Sei exatamente a quem perguntar.

— Excelente. Seu futuro agora depende disso.

Sexton voltou para seu apartamento sentindo-se mais leve e com as idéias mais frescas. A NASA mentiu sobre o PODS. A única questão era como provar aquilo.

Ele já estava pensando em Gabrielle Ashe. Seja lá onde fosse que ela estivesse naquela hora, provavelmente estaria se sentindo por baixo.

Com certeza sua assessora tinha assistido à coletiva e devia estar perto de alguma janela, preparando-se para pular. Sua proposta de tornar a NASA uma questão central para a campanha havia sido o maior erro em toda a carreira de Sexton.

Ela me deve essa, pensou o senador. E sabe disso.

Gabrielle já tinha demonstrado que possuía um “jeitinho” para obter informações secretas da NASA. Ela tem um contato. Há semanas a assessora vinha conseguindo informações confidenciais. Tinha conexões que não estava compartilhando com Sexton. Conexões que ela poderia acionar para obter informações sobre o PODS. Além disso, naquela noite Gabrielle estaria especialmente motivada: tinha uma dívida a pagar, e o senador acreditava que ela faria de tudo para voltar às boas graças com ele.

Quando Sexton chegou à porta de seu apartamento, o guarda-costas o cumprimentou.

— Boa noite, senador. Fiz bem em ter deixado Gabrielle entrar hoje? Ela disse que era urgente falar com o senhor.

Ele parou.

— Como?

— A senhorita Ashe. Ela apareceu com informações importantes hoje, mais cedo. Foi por isso que eu a deixei entrar.

Sexton ficou paralisado, olhando para a porta de seu apartamento. O que esse sujeito está falando?

A expressão do segurança mudou. Ele parecia confuso e preocupado.

— Senador? Está tudo bem? O senhor se lembra, não? Gabrielle entrou enquanto estavam todos reunidos. Ela falou com o senhor, não foi? Tem que ter falado, pois passou um tempão aí dentro...

Sexton sentiu seu pulso subir às alturas. Esse imbecil deixou a Gabrielle entrar em meu apartamento durante uma reunião fechada com a SFF? Ela ficou andando pela casa e depois saiu sem me dizer nada? Ele podia imaginar o que sua assessora tinha ouvido. Esforçando-se para controlar a raiva, deu um sorriso forçado para o guarda-costas.

— Ah, sim! Perdoe-me, estou muito cansado. E bebi um pouco, também. A senhorita Ashe falou comigo, claro. Sim, está tudo certo.

O homem relaxou.

— Ahn... Por acaso ela disse para onde ia quando saiu? — perguntou o senador.

— Não, ela estava com muita pressa.

— Tudo bem, obrigado — disse Sexton, entrando em seu apartamento, furioso. Minhas ordens eram bem simples! Nenhuma visita! A suposição mais lógica era que, se Gabrielle tinha passado algum tempo lá dentro e saído sem dizer nada, então devia ter ouvido mais coisas do que deveria. Logo hoje...

Sexton sabia que, acima de tudo, não podia se dar ao luxo de perder a confiança de Gabrielle. As mulheres muitas vezes se tornavam vingativas e faziam horrores quando se sentiam traídas. Ele precisava dela. Naquela noite mais do que nunca.

 

No quarto andar dos estúdios da ABC, Gabrielle Ashe estava sentada sozinha olhando para o carpete gasto na sala de Yolanda. Ela sempre tinha se vangloriado de ter bons instintos e de saber em quem confiar.

Agora, pela primeira vez em muitos anos, sentia-se perdida, sem saber que rumo tomar. Seu celular tocou, despertando-a de seus devaneios.

Relutantemente, pegou-o.

— Gabrielle Ashe.

— Gabrielle? Sou eu.

Reconheceu a voz do senador no mesmo instante, ainda que ele parecesse estar surpreendentemente calmo, considerando-se tudo o que havia acontecido.

— Esta foi uma noite e tanto por aqui, então deixe eu lhe contar as notícias. Com certeza você assistiu à coletiva do presidente. Minha nossa, nós realmente entramos no barco errado. Você provavelmente está se culpando pela coisa toda, mas não faça isso. Quem poderia ter adivinhado? Não é sua culpa mesmo. De qualquer maneira, preste atenção. Acho que há uma forma de nos sairmos bem dessa.

Gabrielle levantou-se, incapaz de imaginar do que Sexton poderia estar falando. Essa definitivamente não era a reação que ela esperava.

— Eu tive uma reunião — prosseguiu o senador — com representantes das indústrias privadas do setor espacial e...

— Você teve? — deixou escapar Gabrielle, surpresa por ouvi-lo admitir aquilo. — Quero dizer... eu não sabia de nada.

— É, mas não foi nada demais. Eu teria chamado você para se juntar a nós, mas esses caras se preocupam muito com questões de privacidade. Alguns deles estão fazendo donativos para minha campanha e não é algo que eles queiram anunciar por aí.

Gabrielle sentiu-se totalmente desarmada.

— Mas... isso não é ilegal?

— Ilegal? Claro que não! Todas as doações estão abaixo do limite permitido. O dinheiro não é tão relevante para a campanha, mas eu preciso dar atenção a esses caras mesmo assim. Digamos que é um investimento no futuro. Não falo muito disso porque, honestamente, pode parecer estranho. Se a Casa Branca soubesse de algo, com certeza faria um grande estardalhaço. Enfim, olhe, não foi por isso que liguei. É que, logo após a reunião, eu conversei com o dirigente da SFF...

Durante alguns minutos, apesar de Sexton continuar falando, tudo o que Gabrielle conseguia sentir era o sangue subindo por seu rosto, agora vermelho de vergonha. Sem que ela tivesse perguntado, o senador tomara a iniciativa de lhe contar sobre a reunião daquela noite com o setor aeroespacial. Tudo perfeitamente legal. E pensar no que ela quase tinha chegado a fazer! Ainda bem que Yolanda estava lá para impedi-la.

Eu quase caí no conto de Marjorie Tench!

— ...e então eu disse ao dirigente da SFF que você talvez pudesse obter a informação de que precisamos — concluiu Sexton.

Gabrielle voltou à realidade e disse apenas:

— Tudo bem.

— Aquele contato de quem você obteve todas as informações internas da.NASA durante esses últimos meses... Devo presumir que você ainda tem acesso a ele?

Marjorie Tench. Gabrielle trincou os dentes, pensando que nunca poderia contar ao senador que fora manipulada por sua informante durante todo aquele tempo.

— Ahn... Acho que sim — mentiu.

— Ótimo. Há informações importantes que você precisa obter. Agora mesmo.

Enquanto ouvia, Gabrielle ficou pensando no quanto ela tinha subestimado o senador Sedgewick Sexton ultimamente. É certo que parte do brilho daquele homem havia se perdido desde que ela começara a seguir de perto os seus passos. Mas naquela noite ele estava em plena forma. Em face do que parecia ser um golpe mortal para sua campanha, Sexton estava planejando um contra-ataque. E, ainda que Gabrielle fosse responsável por ele ter trilhado aquele caminho azarado, o senador não a culpou. Em vez disso, estava lhe dando uma chance de se redimir. E era exatamente isso que ela pretendia fazer, qualquer que fosse o preço.

 

William Pickering estava olhando pela janela de seu escritório para as luzes dos carros que cruzavam a Leesburg Highway. Muitas vezes pensava nela quando ficava lá, sozinho, no topo do mundo.

Todo este poder... e não consegui salvá-la.

A filha de Pickering, Diana, havia morrido no mar Vermelho enquanto fazia um treinamento a bordo de um pequeno navio de escolta da Marinha. Seu navio estava ancorado num porto seguro em uma tarde.ensolarada quando uma pequena embarcação feita à mão, carregada de explosivos e manejada por dois terroristas suicidas, moveu-se lentamente pelo porto e explodiu ao bater no casco. Diana Pickering e 13 outros jovens soldados americanos morreram naquele dia.

William Pickering ficou arrasado. O sofrimento tomou conta dele durante um longo tempo. Quando descobriram que o ataque partira de uma célula terrorista já conhecida que a CIA estava tentando encontrar havia anos, a tristeza de Pickering transformou-se em fúria.

Enraivecido, foi até o quartel-general da CIA e exigiu respostas.

O que descobriu era difícil de digerir.

Aparentemente, a CIA estava preparada para atacar aquela célula havia alguns meses e estava apenas esperando pelas fotos de alta resolução de um satélite para planejar um ataque certeiro aos terroristas em seu esconderijo nas montanhas do Afeganistão. As fotos deveriam ter sido tiradas pelo satélite de 1,2 bilhão de dólares do NRO chamado Vortex 2. Mas o satélite tinha sido destruído quando o foguete que iria colocá-lo em órbita explodiu na plataforma de lançamento.

Por causa do acidente da NASA, o ataque da CIA fora adiado e, agora, Diana Pickering estava morta.

Racionalmente, o diretor do NRO sabia que a NASA não era diretamente culpada, mas sentimentalmente não conseguia perdoá-la. A investigação sobre a explosão do foguete revelou que os engenheiros da agência responsáveis pelos sistemas de injeção de combustível tinham sido forçados a usar materiais de qualidade inferior para não estourar o orçamento.

— Para missões não-tripuladas — explicou Lawrence Ekstrom numa entrevista coletiva —, a NASA procura acima de tudo uma boa relação custo/benefício. Neste caso, devemos admitir que os resultados foram indesejáveis. Iremos examinar o assunto.

Indesejáveis. Diana estava morta.

Para piorar, como o satélite era obviamente secreto, o público jamais veio a saber que a NASA havia desintegrado um projeto de 1,2 bilhão de dólares do NRO e, junto com ele, indiretamente, diversas vidas de americanos.

— Senhor? — a secretária de Pickering interrompeu suas divagações. — Linha um. É Marjorie Tench.

Pickering deixou de lado seus pensamentos sobre o passado e olhou para o telefone. De novo? Uma luz piscava na linha um, parecendo pulsar com uma urgência irritada. Fechando a cara, ele atendeu o telefone.

— Pickering falando.

Tench parecia fora de si do outro lado.

— O que ela lhe disse?

— O quê?

— Rachel Sexton falou com você. O que ela lhe disse? E que diabos ela estava fazendo em um submarino? Explique isso!

O diretor percebeu que não seria possível negar aquele fato. Tench havia feito suas próprias investigações. Ele estava surpreso de que ela tivesse descoberto sobre o Charlotte, mas parece que a consultora havia usado seu poder político para obter respostas.

— Sim, a senhorita Sexton entrou em contato comigo.

— E você providenciou para removê-la do submarino sem falar comigo?

— Providenciei um transporte. Isso é um fato.

Faltavam ainda duas horas para que os três passageiros chegassem à base de Bollings, da Força Aérea, ali perto.

— E ainda assim você decidiu não me informar?

— Rachel Sexton fez algumas acusações muito perturbadoras.

— Sobre a autenticidade do meteorito e sobre um suposto ataque contra a vida dela?

— Entre outras coisas.

— É óbvio que ela está mentindo.

— Você está ciente de que ela está em companhia de outras duas pessoas que corroboraram a história dela?

Tench fez uma pausa.

— Sim. É muito constrangedor. A Casa Branca está bastante preocupada com as alegações desses indivíduos.

— A Casa Branca ou você, pessoalmente?

O tom de voz dela tornou-se cortante como uma lâmina.

— Até onde isso lhe diz respeito, diretor, não há diferença alguma hoje à noite.

Pickering não se deixou impressionar. Não era novidade para ele que membros da equipe presidencial ou políticos exaltados tentassem estabelecer uma posição de força junto à comunidade de inteligência. E poucos faziam isso com tanto vigor quanto Marjorie Tench.

— O presidente sabe que você está me ligando?

— Francamente, diretor, estou chocada que você alimente devaneios desse tipo.

— Você não respondeu à minha pergunta. Não encontrei nenhuma razão lógica para que essas pessoas tenham decidido mentir. Só posso concluir que elas estejam dizendo a verdade ou, então, cometendo um engano de boa-fé.

— Engano? Dizendo que eles foram atacados? Falhas nos dados do meteorito que a NASA deixou escapar? Não me venha com essa! Isso obviamente é uma jogada política.

— Se for, os motivos não estão nada evidentes.

Tench soltou um suspiro profundo e baixou seu tom de voz.

— Diretor, há forças envolvidas nisso sobre as quais você talvez não esteja ciente. Podemos debater o assunto mais tarde, mas neste momento preciso saber onde a senhorita Sexton e os outros estão. Preciso chegar ao fundo dessa história antes que provoque algum dano permanente. Onde eles estão?

— É uma informação que prefiro não compartilhar neste momento. Entrarei em contato depois que eles chegarem.

— Errado. Eu estarei lá para recebê-los quando chegarem.

Você e quantos agentes do serviço secreto?, pensou Pickering.

— Se eu lhe informar a hora e o local da chegada, teremos uma oportunidade de conversar amigavelmente, ou você pretende levar um exército pessoal para colocá-los sob custódia?

— Essas pessoas representam uma ameaça direta ao presidente. A Casa Branca tem o direito de detê-las e questioná-las.

Ela estava certa, e Pickering sabia disso. De acordo com o parágrafo 18, seção 3.056 do Código dos Estados Unidos, agentes do serviço secreto podem usar armas de fogo, matar e realizar prisões sem mandado judicial simplesmente por suspeita de que uma pessoa tenha cometido ou esteja pensando em cometer um crime ou qualquer ato de agressão contra o presidente. O serviço tinha carta-branca. Costumavam ser detidos regularmente mendigos maltrapilhos que vagavam do lado de fora da Casa Branca e crianças em idade escolar que, por brincadeira, mandavam e-mails ameaçadores para o presidente.

Pickering tinha certeza de que o serviço secreto poderia justificar a

prisão de Rachel e dos dois cientistas no subsolo da Casa Branca, assim como também poderia mantê-los lá indefinidamente. Seria uma jogada arriscada, mas Tench parecia querer correr o risco. A questão era o que iria acontecer depois, se Pickering deixasse que Tench tomasse o controle da situação. Ele não tinha a menor intenção de descobrir.

— Farei o que for necessário — declarou a consultora — para proteger o presidente de falsas acusações. A simples implicação de que houve uma ação maliciosa jogaria uma sombra profunda sobre a Casa Branca e a NASA. Rachel Sexton abusou da confiança que o presidente lhe deu e não tenho a menor intenção de deixar que ele pague por isso.

— E se eu requisitar que seja permitido à senhorita Sexton que apresente seu caso frente a uma comissão oficial de inquérito?

— Então você estaria indo contra uma ordem presidencial direta e dando a ela uma plataforma para armar uma grande confusão política! Eu vou lhe perguntar mais uma vez, diretor. Para onde eles estão se dirigindo?

O diretor do NRO soltou um suspiro pesado. Quer ele dissesse ou não que o avião iria aterrissar na base de Bollings, Marjorie tinha seus próprios meios de descobrir. A questão era se faria isso ou não. E, pelo tom de voz dela, Pickering podia perceber que a consultora não iria descansar enquanto não tivesse as respostas. Marjorie Tench estava com medo.

— Marjorie — disse Pickering, com uma clareza na voz que não deixava espaço para dúvidas. — Alguém está mentindo para mim. Disso eu sei. Ou Rachel Sexton e dois cientistas civis, ou então você. Acredito que seja você.

Tench explodiu do outro lado.

— Como você ousa...

— Sua indignação não me afeta, então sugiro que a guarde para outra hora. Você deve saber que tenho provas concretas de que a NASA e a Casa Branca não contaram toda a verdade esta noite.

Tench ficou em silêncio, e Pickering deixou que ela pensasse um pouco.

— Assim como você, não quero começar um conflito político. Mas andaram espalhando mentiras por aí. Mentiras que não vão ficar de pé por muito tempo. Se você quer que eu a ajude, precisa começar a ser honesta comigo.

Tench pareceu tentada a aceitar a oferta, mas ainda cautelosa.

— Se você está tão certo de que alguém está mentindo, por que não se pronunciou?

— Não me meto em assuntos políticos.

Tench murmurou algo que se parecia muito com “vá pro inferno”.

— Você está me dizendo, Marjorie, que o pronunciamento do presidente esta noite foi completamente verdadeiro?

Houve um longo silêncio na linha. Pickering sabia que o jogo era dele agora.

— Ouça, nós dois sabemos que isso é uma bomba-relógio que vai explodir alguma hora. Mas não é tarde demais. Certamente podemos chegar a um acordo.

Tench não disse nada durante alguns segundos. Finalmente suspirou e respondeu:

— Temos que nos encontrar.

Na mosca, pensou Pickering.

— Há algo que preciso lhe mostrar — disse Tench. — Acredito que vai esclarecer as coisas.

— Vou até o seu escritório agora mesmo.

— Não — ela respondeu rapidamente. — Já é tarde e sua presença aqui iria gerar boatos. Prefiro manter esse assunto entre nós.

Pickering leu nas entrelinhas. O presidente não está sabendo de nada.

— Posso recebê-la aqui, se preferir. Tench pareceu desconfiada.

— Vamos nos encontrar em algum lugar discreto.

Como Pickering esperava.

— O Memorial de Roosevelt é próximo à Casa Branca — disse ela. — A esta hora da noite deve estar vazio.

Pickering pensou a respeito. O Memorial de Roosevelt ficava entre o Memorial de Jefferson e o de Lincoln, numa parte bastante segura da cidade. Depois de refletir um pouco, ele concordou.

— Dentro de uma hora — disse Tench. — E venha sozinho. — Desligou.

Imediatamente após desligar, Marjorie ligou para Ekstrom. Sua voz estava tensa.

— Pickering pode se tornar um problema.

 

De pé na sala de Yolanda Cole na ABC, Gabrielle Ashe, radiante, discava para o auxílio à lista telefônica.

Se as suspeitas de Sexton fossem confirmadas, teriam um potencial destrutivo. A NASA mentiu sobre o PODS? Gabrielle assistira àquela coletiva de Chris Harper e se lembrava de que tinha sido realmente estranha. Ainda assim, como já fazia algum tempo, ela havia esquecido os detalhes. O PODS não era uma questão relevante algumas semanas atrás. Naquela noite, porém, tinha se tornado a questão central.

Agora o senador precisava de informações — e rápido. Ele esperava que o “informante” de Gabrielle pudesse ajudá-los. E ela prometera fazer todo o possível para conseguir o que ele queria. O problema era que sua informante, Tench, não iria ajudar nem um pouco. Então Gabrielle tinha que encontrar outra saída.

— Auxílio à lista — disse a voz ao telefone.

Gabrielle pediu a informação que desejava, e a telefonista forneceu três números para Chris Harper em Washington. Ela começou a tentar um por um. O primeiro era uma firma de advogados. O segundo não respondeu. O terceiro estava tocando agora.

Uma mulher atendeu.

— Residência dos Harper.

— Senhora Harper? — disse Gabrielle da forma mais educada possível. — Espero não tê-la acordado.

— Ora, claro que não! Acho que ninguém vai dormir hoje. — Ela parecia bastante animada. Gabrielle podia ouvir a televisão ao fundo, ainda noticiando a incrível história do meteorito. — Você está procurando o Chris?

— Sim, ele está? — perguntou Gabrielle, o coração batendo acelerado.

— Lamento, mas ele não está aqui. Saiu correndo assim que o presidente terminou seu pronunciamento. — A mulher deu uma risadinha do outro lado da linha. — Claro que não acho que eles estejam trabalhando por lá. Provavelmente estão todos festejando. O comunicado foi uma grande surpresa para ele. Aliás, para todo mundo. Nosso telefone não parou de tocar a noite inteira. Acho que toda a equipe está celebrando na sede da NASA.

— Obrigada. Vou procurá-lo por lá.

Desligou. Saiu correndo pela redação e encontrou Yolanda. Ela tinha acabado de reunir um grupo de especialistas do setor aeroespacial que entraria no ar dentro de alguns instantes para fazer comentários entusiásticos sobre o meteorito.

Yolanda sorriu quando viu a amiga chegando.

— Ei, você está me parecendo bem melhor — ela disse. — Começou a ver o lado bom das coisas?

— Acabei de falar com o senador. Sua reunião desta noite não foi bem o que eu estava pensando.

— Eu lhe disse que Tench queria fazer você de tola. Como foi que o senador recebeu as notícias sobre o meteorito?

— Bem melhor do que eu imaginava. Yolanda ficou um pouco surpresa.

— Achei que ele ia se jogar embaixo de um ônibus depois daquilo.

— Ele acha que talvez os dados da NASA sejam falsificados.

— Hum... Você tem certeza de que ele viu a mesma coletiva que a gente? Ele precisa de mais dados e confirmações?

— Vou até à NASA verificar uma coisa.

As sobrancelhas delineadas de Yolanda se arquearam. Ela estava intrigada.

— O braço-direito do senador Sexton vai entrar de peito aberto na sede da NASA? Esta noite? Você tem idéia do que seja “apedrejamento público”?

Gabrielle contou a Yolanda sobre a suspeita de Sexton de que o gerente de projeto do PODS tivesse mentido sobre a solução para os problemas no software. Mas a editora não acreditou muito naquilo.

— Nós fizemos a cobertura daquela coletiva, Gabi. Admito que Harper estava meio esquisito naquela noite, mas a NASA disse que ele estava passando muito mal.

— Sexton está convencido de que ele mentiu. Outras pessoas concordam com o senador. Pessoas poderosas.

— Se o software de detecção do PODS não foi consertado, como o satélite poderia ter encontrado o meteorito?

A questão é exatamente essa, pensou Gabrielle.

— Não sei ainda. Mas o senador quer que eu consiga algumas respostas para ele.

Yolanda sacudiu a cabeça.

— Sexton está mandando você para a toca do dragão em um devaneio desesperado. Não vá. Você não deve nada àquele homem.

— Eu acabei com a campanha dele.

— Não, foi uma terrível falta de sorte que destruiu a campanha do senador.

— Mas, se ele estiver certo e Harper tiver realmente mentido sobre o PODS...

— Querida, se Harper mentiu para o mundo inteiro, por que iria contar a verdade justamente para você?

Gabrielle já havia se perguntado a mesma coisa e estava elaborando um plano.

— Se eu encontrar uma boa história por lá, prometo te ligar.

Yolanda deu um risinho cético.

— Se você encontrar uma boa história por lá, eu como meu chapéu!

 

Esqueça tudo o que você sabe sobre essa amostra de rocha.

Michael Tolland vinha lutando contra suas próprias inquietações a respeito do meteorito, mas, com as perguntas de Rachel, ficara ainda mais incomodado com o assunto. Olhou para a amostra na sua mão.

Suponha que alguém lhe deu isso sem qualquer explicação sobre onde foi encontrado ou o que é. Qual seria sua análise?

Aquele era um bom exercício analítico. Se tivesse que descartar todos os dados que recebera ao chegar à habisfera, Tolland teria que concordar que sua análise dos fósseis fora profundamente influenciada por um pressuposto peculiar: o de que a rocha na qual eles se encontravam era um meteorito.

E se NÃO tivessem me dito que era um meteorito?, perguntou a si mesmo.

Apesar de ainda não ser capaz de dar qualquer outra explicação, o oceanógrafo decidiu prosseguir com a hipótese e remover “o meteorito” como pressuposto. Ao fazê-lo, os resultados se tornaram um pouco diferentes.

Agora Tolland e Rachel avaliavam as possibilidades. Corky, que havia acordado mas ainda estava meio grogue, se juntou a eles.

— Mike — repetiu Rachel, empolgada —, quer dizer então que, se alguém lhe desse essa rocha fossilizada sem qualquer explicação adicional, você concluiria que ela veio da Terra?

— É claro — respondeu Tolland. — O que mais eu poderia concluir? É muito mais complicado afirmar que você encontrou vida extraterrestre do que dizer que descobriu fósseis de algumas espécies terrestres até então desconhecidas. Os cientistas descobrem dezenas de novas espécies a cada ano.

— Tatuzinhos de 60 centímetros? — indagou Corky, soando cético. — Você pode imaginar um artrópode desse tamanho aqui na Terra?

— Talvez não agora — respondeu Tolland —, mas não precisa ser uma espécie que tenha sobrevivido até os dias de hoje. Esse fóssil tem 190 milhões de anos. Corresponderia mais ou menos ao nosso Jurássico. Muitos fósseis pré-históricos são criaturas gigantescas que nos surpreendem quando encontramos seus restos fossilizados: enormes répteis com asas, dinossauros, pássaros.

— Não é porque sou físico, Mike — interveio Corky —, mas há um problema sério em sua argumentação. Todas as criaturas pré-históricas que você acabou de mencionar tinham esqueletos internos, o que lhes dava a capacidade de crescer de maneira absurda, apesar da gravidade da Terra. Mas este fóssil... — Ele pegou a amostra e olhou-a novamente. — Estes caras aqui têm exoesqueleto. Você sabe que qualquer bicho com esse tamanho só poderia ter evoluído em um ambiente com baixa gravidade. Do contrário, seu esqueleto externo teria colapsado com o próprio peso.

— Correto — respondeu Tolland. — Essa espécie jamais poderia ter andado na superfície da Terra.

Corky olhou para ele sem entender.

— Então, Mike, não vejo como você pode imaginar que este bicho é de origem terrena.

Tolland sorriu para si mesmo, achando incrível que Corky não estivesse percebendo algo tão simples.

— É que há uma outra possibilidade. — Fitou o amigo. — Corky, você está acostumado a olhar para cima o tempo todo. Olhe para baixo. Há um enorme ambiente antigravitacional bem aqui na Terra. E está aqui desde os tempos pré-históricos.

Corky continuou sem entender.

— Do que você está falando?

Rachel também não estava acompanhando o raciocínio de Michael. Ele apontou pela janela para o mar, que agora podia ser visto, iluminado pela Lua, reluzindo abaixo do avião.

— O oceano.

Rachel deu um assobio baixo.

— É claro.

— A água é um ambiente com baixa gravidade — prosseguiu Tolland. — Tudo pesa menos sob a água. O oceano abriga enormes e frágeis estruturas que nunca poderiam existir em terra: anêmonas, lulas gigantes, enguias, etc.

Corky concordou, apesar de ainda não estar inteiramente convencido.

— Tudo bem, mas o oceano pré-histórico nunca teve artrópodes gigantes como esses.

— Claro que teve. Na verdade, ainda tem. As pessoas os comem diariamente. São considerados iguarias em muitos países.

— Mike, quem diabos come esses bichos?

— Qualquer um que coma lagostas, caranguejos e camarões.

Corky ficou parado, olhando para ele.

— Os crustáceos são artrópodes marítimos gigantes. São uma classe do filo dos artrópodes. Por exemplo, tatuzinhos, caranguejos, aranhas, gafanhotos, escorpiões, lagostas e insetos em geral são todos aparentados. São invertebrados com corpo segmentado e exoesqueleto.

Corky parecia estar ficando enjoado.

— Do ponto de vista taxonômico, são bastante similares — explicou Tolland. — O límulo se parece com um trilobita gigante. E as pinças de uma lagosta se parecem muito com as de um grande escorpião.

Corky ficou verde.

— Tudo bem, nunca mais vou comer lagosta.

Rachel parecia fascinada.

— Então os artrópodes que vivem em terra não crescem muito porque a gravidade limita seu tamanho. Mas, na água, seus corpos flutuam, então eles podem crescer bem mais.

— Exatamente. O caranguejo do Alasca poderia ser incorretamente classificado como uma aranha gigante se tivéssemos como evidência apenas um fóssil.

A animação de Rachel transformou-se em preocupação.

— Mike, novamente deixando de lado a questão da aparente autenticidade do meteorito, me diga uma coisa: você acha que os fósseis que vimos em Milne poderiam ter vindo do fundo do mar? De algum oceano aqui da Terra?

Tolland sentiu o verdadeiro peso daquela pergunta.

— Hipoteticamente, eu diria que sim. O fundo do mar possui seções que têm 190 milhões de anos. A mesma idade que os fósseis. E, teoricamente, os oceanos poderiam ter acolhido formas de vida que se parecessem com essas.

— Ah, pára com isso! — zombou Corky. — Não posso acreditar no que você está dizendo. Deixando de lado a questão da autenticidade do meteorito? A autenticidade do meteorito é irrefutável. Mesmo que a Terra possua locais do oceano formados na mesma época que o meteorito, não temos um fundo do oceano com crosta de fusão, conteúdo anômalo de níquel e côndrulos. Vocês estão procurando sarna para se coçar.

Tolland concordava com Corky, mas, ainda assim, imaginar aqueles fósseis como criaturas marinhas havia tirado um pouco de seu fascínio por eles. Pareciam mais familiares agora.

— Mike, por que nenhum dos cientistas da NASA considerou a possibilidade de que os fósseis fossem de criaturas marinhas, mesmo que de oceanos de outro planeta? — perguntou Rachel.

— Há duas razões básicas. Amostras de fósseis pelágicos, ou seja, aqueles que vêm do oceano, tendem a exibir grande número de espécies misturadas. Qualquer ser que exista nos milhões de metros cúbicos de água do oceano vai morrer um dia e descer até o fundo. Isso significa que, com o tempo, o fundo do oceano se torna um cemitério de espécies de diversas profundidades, níveis de pressão e temperatura. Mas a amostra de Milne era limpa, havia apenas uma espécie. Os fósseis pareciam-se mais com os que podem ser encontrados no deserto. Um grupo de animais similares enterrados durante uma tempestade de areia, por exemplo. Rachel assentiu.

— E a segunda razão?

Tolland sorriu.

— Puro instinto. Os cientistas sempre acreditaram que, se o espaço fosse povoado, seria por artrópodes terrestres, pois, pelo que já conseguimos observar do espaço, há muito mais poeira e rochas lá fora do que água.

Ela ficou em silêncio.

— Apesar de que... — Tolland acrescentou, refletindo melhor sobre a pergunta de Rachel — ...existem camadas muito profundas do oceano que nós, oceanógrafos, chamamos de “zonas mortas”. Não compreendemos inteiramente seu funcionamento, mas são áreas nas quais as condições das correntes e as fontes de alimentação não permitem que quase nada viva, com exceção de umas poucas espécies de animais que vivem no fundo e se alimentam de bichos mortos. Se fôssemos levar isso em conta, suponho que um fóssil contendo uma única espécie não estaria completamente fora de questão.

— Alô? Câmbio? — resmungou Corky. — Vocês já se esqueceram de novo da crosta de fusão? Do conteúdo de níquel e dos côndrulos? Por que continuamos falando nisso?

Tolland não respondeu.

— A respeito do conteúdo de níquel — Rachel disse para Corky —, você poderia me explicar novamente? O conteúdo de níquel em rochas terrestres é muito alto ou muito baixo, mas em meteoritos o níquel se encontra sempre dentro de uma janela de valores intermediários?

Corky balançou a cabeça.

— Exato.

— E o conteúdo de níquel nessa amostra está precisamente dentro do intervalo de valores esperado.

— Está bem próximo.

Rachel ficou surpresa com a resposta.

— Espere aí. Próximo? O que você quer dizer com isso?

Corky estava ficando irritado.

— Como eu já expliquei antes, a mineralogia de cada meteorito difere.

À medida que vamos encontrando novos meteoritos, nós, cientistas, atualizamos nosso cálculo do que consideramos um nível aceitável de conteúdo de níquel.

Rachel ficou perplexa. Segurou a amostra e perguntou:

— Então este meteorito fez com que você reavaliasse o que considera um nível aceitável de conteúdo de níquel num meteorito? Ele ficou fora do intervalo padrão?

— Apenas ligeiramente — retrucou Corky.

— E por que ninguém mencionou isso antes?

— Isso não está sendo questionado. A astrofísica é uma ciência dinâmica, constantemente atualizada.

— Atualizada durante uma análise especialmente crítica?

— Olhe — disse Corky, exasperado —, posso lhe assegurar que o conteúdo de níquel dessa amostra está absurdamente mais próximo do encontrado em outros meteoritos do que em qualquer rocha do nosso planeta.

Rachel virou-se para Tolland:

— Você sabia disso?

Tolland relutantemente fez que sim. Não parecia ser uma questão importante horas atrás.

— Tudo o que me disseram foi que esse meteorito exibia um conteúdo de níquel ligeiramente mais alto do que o de outros meteoritos, mas os especialistas da NASA não estavam preocupados com isso.

— E não tinham por quê! A prova mineralógica que temos não demonstra que o conteúdo de níquel caracterize definitivamente a amostra como sendo um meteorito — interveio Corky. — No entanto, ela caracteriza a amostra como algo que definitivamente não é da Terra.

Rachel balançou a cabeça.

— Lamento, mas no meu ramo é esse tipo de lógica falha que faz com que pessoas sejam mortas. Dizer que uma rocha parece não ser da Terra não prova que ela seja um meteorito. Apenas prova que é algo que nunca encontramos na Terra.

— E onde está a diferença?

— Não há nenhuma — ironizou Rachel. — Contanto que você já tenha examinado todas as rochas da Terra.

Corky ficou em silêncio durante algum tempo.

— Certo — disse ele —, vamos ignorar a questão do conteúdo de níquel, já que isso a deixa tão aflita. Ainda temos a crosta de fusão perfeita e os côndrulos.

— Certamente — disse Rachel, sem muita convicção. — Duas provas em três não é de todo mau.

 

O prédio-Sede da NASA era um enorme retângulo de vidro localizado na Rua E, 300, em Washington, D.C. O edifício continha um emaranhado de mais de 300 quilômetros de cabos de dados e uma quantidade impressionante de computadores. Abrigava também 1.134 funcionários civis que administravam os 15 bilhões de dólares do orçamento anual da NASA e o dia-a-dia operacional das 12 bases espalhadas pelos Estados Unidos.

Apesar de já ser tarde, Gabrielle não se surpreendeu ao ver o saguão do prédio cheio de gente. Parecia uma confraternização entre animadas equipes de imprensa e membros da NASA ainda mais eufóricos. Ela entrou. O local parecia um museu, decorado dramaticamente com réplicas em escala natural de cápsulas de missões famosas e de satélites artificiais, todas pendendo do teto. As equipes de televisão estavam coletando depoimentos no enorme saguão de mármore, entrevistando funcionários da NASA que passavam por ali.

Gabrielle correu os olhos pela multidão, mas não viu ninguém parecido com Chris Harper. Metade das pessoas no saguão tinha passes de imprensa e a outra metade, crachás da NASA pendurados no pescoço.

Gabrielle não possuía nem um nem outro. Ela viu uma jovem com crachá da NASA e correu até ela.

— Oi. Estou procurando Chris Harper. Você sabe onde ele está?

A mulher olhou para Gabrielle de um jeito estranho, como se a conhecesse de algum lugar, mas não soubesse bem de onde.

— Acho que vi o doutor Harper algum tempo atrás. Talvez ele tenha subido. Conheço você de algum lugar?

— Creio que não — disse Gabrielle, virando-se. — Como eu chego lá em cima?

— Você trabalha para a NASA?

— Não.

— Então você não pode subir.

— Ah. Tem algum telefone que eu possa usar para...

— Ei! — disse a mulher, subitamente se irritando. — Já sei quem você é. Eu a vi na televisão com o senador Sexton. Não acredito que você tenha tido a coragem de...

Gabrielle sumiu no meio da multidão. Atrás dela ainda podia ouvir a mulher contando a outras pessoas que a assessora de Sexton estava ali.

Fantástico. Dois segundos aqui dentro e já estou na lista dos mais procurados. Mantendo a cabeça baixa, andou rapidamente em direção ao outro extremo do saguão. Uma placa indicando as salas do prédio estava afixada na parede. Ela procurou alguma referência a Chris Harper.

Nada. A placa não continha nomes, estava organizada por departamentos.

Ela resolveu então procurar qualquer coisa que tivesse a ver com o PODS. Também não encontrou nada. Estava com medo de olhar para trás e defrontar-se com uma turba de funcionários da NASA vindo apedrejá-la.

A indicação mais interessante era de uma sala no quarto andar:

EARTH SCIENCE ENTERPRISE, FASE II SISTEMA DE OBSERVAÇÃO DA TERRA (EOS)

Escondendo o rosto, Gabrielle andou em direção ao hall de elevadores, onde havia um bebedouro. Ela procurou os botões para chamar os elevadores, mas tudo que encontrou foram fendas. Droga! Os elevadores possuíam um sistema de segurança e só podiam ser acionados pelos crachás dos funcionários.

Alguns homens aproximaram-se dos elevadores falando em voz alta e rindo. Todos usavam crachás da NASA. Gabrielle rapidamente curvou-se sobre o bebedouro, prestando atenção aos homens atrás dela. Um deles inseriu seu cartão de identificação na fenda e abriu o elevador. Ele estava rindo, sacudindo a cabeça, impressionado.

— O pessoal do SETI deve estar completamente alucinado! — disse, entrando no elevador. — Seus radiotelescópios vasculharam fluxos abaixo de 200 milijansky durante 20 anos e a prova física estava enfiada no gelo, bem aqui na Terra, esse tempo todo!

As portas se fecharam e os homens sumiram de vista.

Gabrielle levantou-se, secou a boca e ficou pensando sobre o que faria em seguida. Olhou em volta procurando um interfone. Nada. Pensou se teria alguma chance de roubar um passe de segurança, mas algo lhe dizia que não era uma boa idéia. Tinha que fazer algo rápido, porque a mulher com quem falara ao entrar estava vasculhando a multidão à sua procura, acompanhada de um segurança da NASA.

Um homem bem vestido, careca, caminhou em direção ao hall. Gabrielle mais uma vez inclinou-se sobre o bebedouro. O homem pareceu nem notar sua presença. Ela ficou observando, em silêncio, enquanto ele inseria o cartão na fenda. As portas de outro elevador se abriram e o homem entrou.

Dane-se, pensou Gabrielle, decidida. É agora ou nunca.

Quando as portas começaram a se fechar, ela correu e esticou o braço, bloqueando-as. O elevador parou e Gabrielle entrou com uma cara de grande alegria.

— Puxa, você já viu isso aqui assim? — puxou conversa com o careca, que olhava para ela espantado. — Minha nossa, uma loucura completa.

O homem levantou uma sobrancelha.

— O pessoal do SETI deve estar completamente alucinado! — disse ela. — Seus radiotelescópios vasculharam fluxos abaixo de 200 milijansky durante 20 anos e a prova física estava enfiada no gelo, bem aqui na Terra, esse tempo todo!

O careca parecia confuso.

— É... bom, realmente, isso foi muito... — ele olhou para o pescoço dela, preocupado por não encontrar um crachá. — Perdão, mas você...

— Quarto andar, por favor. Eu saí de casa tão rápido que esqueci meus documentos! — disse, aproveitando para ler rapidamente o crachá do homem: JAMES THEISEN, Administração Financeira.

— Você trabalha aqui? — Ele estava ficando desconfiado. — Senhorita...?

Gabrielle deixou cair o queixo.

— Ei, Jim! Estou magoada! Não há nada pior para uma mulher do que saber que ninguém olha para ela!

Thelsen ficou pálido por um instante, sem saber bem o que fazer. Passou a mão pela testa, constrangido.

— Desculpe. Toda essa agitação, você sabe... Sim, claro que você me parece familiar. Em que programa está trabalhando?

Merda. Gabrielle deu um sorriso confiante.

— EOS.

Ele apontou para o botão do quarto andar, aceso.

— Obviamente. Eu quis dizer qual projeto?

Gabrielle sentiu seu coração bater mais rápido. Só podia pensar em uma resposta.

— PODS.

O homem ficou surpreso.

— É mesmo? Eu achei que já conhecia todo mundo da equipe do doutor Harper.

Ela deu um risinho, com uma expressão envergonhada.

— O Chris tem me mantido um pouco afastada. Eu sou a programadora imbecil responsável pela confusão com a tabela de voxels do software de detecção de anomalias.

O careca ficou de queixo caído.

— Sério? Foi você?

Gabrielle fez uma cara triste.

— É, faz semanas que não durmo.

— Mas Harper levou toda a culpa pelo que aconteceu.

— Eu sei. O Chris é assim. Mas ele acabou resolvendo tudo. E que grande notícia tivemos esta noite, não é? O meteorito. Estou abismada.

O elevador parou no quarto andar. Gabrielle saiu.

— Bom te ver, Jim. Mande um abraço para o pessoal do financeiro.

— Tá legal — disse ele enquanto as portas se fechavam. — Foi um prazer reencontrá-la.

 

Zach Herney, como a maioria dos presidentes antes dele, sobrevivia com apenas quatro ou cinco horas de sono por noite. Durante as últimas semanas, contudo, ele tinha dormido bem menos. Agora que a empolgação gerada pelos eventos daquela noite começara a diminuir lentamente, Herney sentiu o peso das horas sem sono se avolumando em seu corpo.

Ele e alguns outros membros do alto escalão do governo estavam no Salão Roosevelt tomando champanhe, comemorando e assistindo às incontáveis repetições do pronunciamento, a trechos do documentário de Tolland e aos comentários de especialistas na televisão. Naquele momento um canal de TV mostrava uma exuberante repórter em frente à Casa Branca.

— Além das implicações que isso terá para a humanidade como um todo, esse achado da NASA terá algumas repercussões políticas bem duras aqui em Washington — ela dizia. — A descoberta desse meteorito contendo fósseis não poderia ter chegado num momento mais oportuno para a campanha do presidente. — Adotando um tom mais sombrio, a repórter prosseguiu: — Nem em momento pior para o senador Sexton. — A edição de imagens cortou para um replay do patético debate daquela tarde na CNN.

— Após 35 anos, acho que está bem claro que não vamos encontrar vida extraterrestre.

— E se o senhor estiver errado? Sexton olhou para cima, com desdém.

— Ah, pelo amor de Deus, senhora Tench, se eu estiver errado, como meu chapéu.

Todos riram no Salão Roosevelt. A forma como Tench havia acuado o senador poderia soar cruel e grosseira após o anúncio do presidente, mas ainda assim os espectadores não pareceram notar. O tom da resposta era tão presunçoso que Sexton parecia ter recebido aquilo que merecia.

O presidente olhou pela sala, procurando sua consultora. Ele não a vira mais desde a coletiva, e Tench também não estava lá agora.

Estranho, pensou. Esta comemoração é uma vitória dela, tanto quanto minha.

A reportagem estava terminando, enfatizando mais uma vez a incrível vantagem política obtida pela Casa Branca e a enorme derrota sofrida por Sexton.

Quanta diferença pode fazer um dia, pensou o presidente. Na política, seu mundo inteiro pode mudar de uma hora para outra.

Ao amanhecer ele iria descobrir o quanto aqueles pensamentos tinham sido proféticos.

 

Pickering pode se tornar um problema, Tench lhe dissera. O administrador Ekstrom estava tão preocupado com isso que nem notou que a tempestade do lado de fora da habisfera se intensificara ainda mais.

Os gemidos dos cabos haviam subido de tom, e a equipe da NASA andava de um lado para o outro conversando em pequenos grupos, nervosamente, em vez de dormir. Os pensamentos de Ekstrom estavam perdidos em outro tipo de tempestade — uma que estava se armando para desabar sobre Washington. As últimas horas tinham sido complicadas, e o administrador estava tentando lidar com os imprevistos. Ainda assim havia uma questão que o preocupava mais do que todas as outras juntas.

Pickering pode se tornar um problema.

Não podia haver um adversário pior do que Pickering. Durante anos, aquele homem tinha mantido Ekstrom e a NASA sob rédeas curtas, tentando controlar a política de segurança, fazendo lobby para alterar as prioridades das missões e criticando firmemente o crescente índice de falhas da agência espacial.

Ekstrom sabia muito bem que a birra de Pickering com a NASA ia muito além da recente perda do satélite NRO SIGINT, de mais de um bilhão de dólares, que explodira durante o lançamento. Ou dos vazamentos de informações confidenciais, ou da constante disputa para contratar valiosos profissionais do setor aeroespacial. O descontentamento de Pickering com a NASA tinha a ver com uma seqüência infindável de desilusões e ressentimentos.

O projeto do avião espacial X-33, que deveria substituir os ônibus espaciais, estava cinco anos atrasado, o que significava que dezenas de missões de manutenção e lançamento de satélites do NRO tinham sido abandonadas ou estavam na fila de espera. Recentemente, a raiva de Pickering em relação ao X-33 chegara ao auge quando ele descobriu que a NASA havia cancelado totalmente o projeto, sofrendo um prejuízo estimado em 900 milhões de dólares.

Ao chegar ao seu escritório, o administrador puxou a cortina e entrou.

Sentado em sua mesa, apoiou a cabeça nas mãos. Tinha que tomar decisões. Aquele dia, que havia começado tão bem, estava se tornando um grande pesadelo. Ele tentou se colocar no lugar de William Pickering. O que aquele homem faria em seguida? Alguém com a inteligência de Pickering perceberia claramente a importância daquela descoberta para a NASA. Ele teria que desculpar algumas escolhas feitas por puro desespero. Teria que compreender o dano irreversível que seria causado se aquele momento triunfal fosse questionado.

O que Pickering faria com as informações que possuía? Deixaria o barco correr ou faria com que a NASA pagasse por seus erros?

Ekstrom fechou a cara. Não tinha muitas dúvidas de qual seria a escolha.

Afinal, o diretor do NRO tinha questões ainda mais profundas com a NASA... Uma antiga dor pessoal que ia muito além de qualquer questão política.

 

Na cabine do G-4, Rachel estava em silêncio, perdida em pensamentos. O avião seguia para o sul, ao largo da costa do Canadá, cruzando o golfo de São Lourenço. Tolland estava sentado ali perto, conversando com Corky. Apesar das evidências sugerirem, em sua maioria, que o meteorito era autêntico, a admissão de Corky de que o conteúdo de níquel ficara “ligeiramente fora do intervalo-padrão” tinha servido para reforçar a suspeita inicial de Rachel. Colocar secretamente um meteorito sob o gelo só fazia sentido se fosse parte de uma fraude brilhantemente concebida.

Ainda assim, as provas científicas restantes confirmavam a legitimidade do meteorito.

Rachel voltou a olhar para a amostra em suas mãos. Os pequenos côndrulos brilhavam. Tolland e Corky discutiam há algum tempo sobre os côndrulos metálicos, usando termos científicos que estavam muito acima do conhecimento de Rachel — níveis equilibrados de olivina, matrizes de vidro metastáveis e rehomogeneização metamórfica. Ainda assim, o resultado era claro: Corky e Tolland concordavam que os côndrulos eram definitivamente de um meteorito. Esses dados não podiam ser fraudados.

Ela girou o fragmento em forma de disco em sua mão, passando um dedo sobre a borda externa na parte em que a crosta de fusão estava visível. A carbonização parecia relativamente recente e não algo que acontecera 300 anos atrás. Corky explicou que o meteorito ficara hermeticamente selado no gelo, evitando assim a erosão atmosférica.

Parecia lógico. Rachel já tinha assistido a um documentário mostrando que pessoas desenterradas do gelo após quatro mil anos ainda possuíam a pele quase perfeita.

Enquanto estudava a crosta de fusão, um pensamento estranho veio à sua mente: um dado importante fora omitido. A analista do NRO pensou se havia sido apenas um descuido em meio à grande quantidade de informações despejadas sobre ela ou se alguém tinha realmente se esquecido de mencionar aquilo.

Virou-se bruscamente para Corky.

— Alguém datou a crosta de fusão?

O astrofísico olhou de volta, meio confuso.

— O quê?

— Alguém datou essa carbonização? Ou melhor, nós podemos afirmar que a carbonização ocorreu no mesmo momento que a queda do Lungersol?

— Lamento — respondeu Corky —, mas isso é impossível de datar. A oxidação invalida todos os marcadores isotópicos necessários. Além disso, as taxas de decaimento de isótopos radioativos são muito lentas para se medir algo mais recente do que 500 anos.

Rachel pensou sobre aquilo por alguns instantes, entendendo então por que a data da queima não fazia parte dos dados.

— Em outras palavras, até onde somos capazes de analisá-la, esta rocha poderia ter sido carbonizada na Idade Média ou no fim de semana passado, certo?

Tolland riu.

— Ninguém aqui disse que a ciência tem todas as respostas.

Ela continuou raciocinando em voz alta:

— Uma crosta de fusão é essencialmente apenas uma queima muito severa. Tecnicamente falando, esta rocha poderia ter sido queimada a qualquer momento durante a última metade do século de várias formas diferentes?

— Errado — retrucou Corky. — De várias formas diferentes? Não. Queimada de uma única forma: caindo através da atmosfera.

— Alguma outra possibilidade? Uma fornalha, talvez?

— Uma fornalha? Você está brincando. Essas amostras foram examinadas com um microscópio eletrônico. Mesmo a fornalha mais limpa do planeta teria deixado resíduos de combustível por toda parte, fosse ela nuclear, química ou à base de combustíveis fósseis. Impossível. E o que dizer das estrias geradas ao cruzar a atmosfera? Não dá para reproduzir isso em uma fornalha.

Rachel tinha se esquecido das estrias direcionais no meteorito. Ele de fato parecia ter atravessado a atmosfera.

— E o que você me diz de um vulcão? — tentou. — Algo ejetado violentamente durante uma erupção?

Corky balançou a cabeça.

— A queima é muito limpa.

Ela virou-se para Tolland, que apenas assentiu.

— Lamento, eu já tive algumas experiências com vulcões, tanto em cima quanto embaixo da água. Corky está certo. Rochas arremessadas numa erupção ficam impregnadas de dezenas de toxinas, como dióxido de carbono, dióxido sulfúrico, sulfeto de hidrogênio, ácido hidroclorídrico; e todas essas substâncias teriam sido detectadas por nossas varreduras com feixes de elétrons. Por mais que eu desejasse encontrar outra explicação, essa crosta de fusão foi causada por pura fricção com a atmosfera.

Rachel suspirou, virando-se para a janela e olhando para fora. Uma queima limpa. A frase não saía de sua mente. Ela perguntou a Michael:

— O que você quer dizer com uma queima limpa?

— Nada demais. Apenas que, ao fazer um exame com microscópio eletrônico, não é possível detectar nenhum resíduo de elementos combustíveis, então sabemos que o aquecimento foi causado por energia cinética e fricção, em vez de agentes químicos ou nucleares.

— Se você não achou nenhum elemento combustível estranho à rocha, o que encontrou? Especificamente, qual era a composição da crosta de fusão?

— Encontramos — disse Corky — exatamente o que esperávamos encontrar. Elementos puros que compõem nossa atmosfera: nitrogênio, oxigênio, hidrogênio. Nenhum vestígio de petróleo. Nenhum elemento sulfúrico ou ácido vulcânico. Nada anormal, em suma. Apenas as coisas que vemos quando os meteoritos caem na atmosfera.

Rachel recostou-se em sua poltrona. As peças começavam a se juntar em sua cabeça.

Corky inclinou-se para a frente a fim de olhar melhor para ela.

— Por favor, não venha me dizer que sua nova teoria é que a NASA colocou uma rocha fossilizada no ônibus espacial e depois a jogou na Terra, esperando que ninguém notasse a bola de fogo, a enorme cratera ou a explosão!

Rachel não tinha pensado naquilo, embora fosse uma idéia interessante.

Impossível de executar, mas interessante ainda assim. O que ela estava pensando era bem mais simples, na verdade. Elementos que compõem a atmosfera. Uma queima limpa. Estrias direcionais por ter cruzado o ar em alta velocidade. Uma pequena luz se acendeu num canto distante de sua mente.

— As taxas dos diferentes elementos atmosféricos verificadas — ela continuou. — Elas eram exatamente as mesmas que você costuma encontrar em outros meteoritos com uma crosta de fusão?

— Por que você está perguntando? — quis saber Corky, aparentemente tentando se esquivar da pergunta.

Ao perceber a hesitação dele, Rachel sentiu seu pulso se acelerar.

— As taxas estavam fora do padrão, não é?

— Há uma explicação científica.

O coração de Rachel estava batendo forte agora.

— Por acaso você teria encontrado um conteúdo inesperadamente alto de um elemento em particular?

Tolland e Corky se entreolharam, surpresos.

— Sim, mas...

— Teria sido hidrogênio ionizado?

O astrofísico olhou para ela, perplexo.

— Como você sabe disso?

Tolland também estava impressionado. A agente do NRO olhou para ambos.

— Por que ninguém me disse isso antes?

— Porque há uma explicação científica perfeitamente plausível! — afirmou Corky.

— Estou ouvindo — respondeu ela.

— Há um excesso de hidrogênio ionizado porque o meteorito cruzou a.atmosfera sobre o Pólo Norte, onde o campo magnético da Terra gera uma concentração particularmente alta de íons de hidrogênio.

Rachel franziu a testa.

— Infelizmente, tenho outra explicação.

 

O quarto andar da sede da NASA era menos impressionante do que o saguão de entrada. Tinha longos corredores de aparência austera, com as portas dos escritórios espaçadas igualmente ao longo das paredes. O local estava deserto. Placas de alumínio apontavam para os dois lados:

LANDSAT 7

TERRA

ACRIMSAT

JASON l

AQUA-*

 

Gabrielle seguiu a seta apontando para o PODS. Percorrendo uma série de longos corredores e interseções, chegou a uma pesada porta de aço, onde havia a inscrição:

POLAR ORBITING DENSITY SCANNER (PODS) GERENTE DE PROJETO, CHRIS HARPER

A porta estava trancada. Só podia ser aberta com a inserção de um crachá e a digitação de uma senha de acesso. Ela pressionou o ouvido contra o metal frio da porta. Achou que tinha ouvido pessoas falando.

Discutindo. Talvez não. Pensou se deveria socar a porta até que alguém a deixasse entrar. Infelizmente, seu plano para obter a informação que queria de Chris Harper requeria um pouco mais de sutileza. Olhou em volta, procurando outra entrada, mas não encontrou nada. Havia um quartinho de serviço ao lado da porta, e Gabrielle entrou lá, procurando no escuro algum molho de chaves para faxina ou um passe.

Nada. Apenas vassouras e esfregões.

Voltando até à porta, colou o ouvido contra o metal novamente. Desta vez pôde ouvir as vozes distintamente. Estavam ficando mais altas.

Ouviu passos e, de repente, a tranca se ativou do lado de dentro.

Gabrielle não teve tempo de se esconder. Quando a porta de metal se abriu, ela se jogou para o lado, apoiando-se contra a parede enquanto um grupo de pessoas passava por ela, andando rápido e falando em voz alta. Os comentários soavam irritados.

— O que deu no Harper? Achei que ele estaria eufórico!

— Numa noite como a de hoje o sujeito quer ficar sozinho? — disse um outro, enquanto o grupo seguia pelo corredor. — Ele deveria estar comemorando!

À medida que os homens se afastavam, a porta de aço, puxada por um mecanismo hidráulico, começou a se fechar, deixando Gabrielle exposta.

Ela ficou estática, rígida, torcendo para que ninguém a notasse. Esperou o máximo possível e, quando a porta estava quase se fechando, atirou-se para a frente e segurou a barra poucos centímetros antes que ela se fechasse. Ficou ali, imóvel, até que todos virassem o corredor, envolvidos demais em sua conversa para olhar para trás.

Com o coração sobressaltado, Gabrielle entrou na sala pouco iluminada e fechou a porta silenciosamente.

Era uma grande área de trabalho, a imagem típica dos laboratórios que aparecem nos filmes científicos, com computadores, mesas de trabalho cheias de equipamento e muitos dispositivos eletrônicos. Quando seus olhos se adaptaram à escuridão, Gabrielle viu que havia planos e folhas de cálculos espalhados pelas mesas. Toda a área estava na penumbra, à exceção de um escritório do outro lado do laboratório, de onde uma luz saía por baixo da porta. Ela andou até lá sem fazer barulho. A porta estava fechada, mas, pela janela, reconheceu o homem sentado na frente do computador. Era o mesmo que tinha visto na coletiva de imprensa da NASA sobre o PODS. A placa na porta confirmava:

CHRIS HARPER

GERENTE DE PROJETO, PODS

Embora tivesse conseguido chegar até lá, a assessora de Sexton estava tensa, questionando se realmente conseguiria se sair bem. Lembrou-se do quanto o senador estava certo de que Chris Harper tinha mentido.

Aposto minha campanha nisso, dissera ele. Parece que outras pessoas também pensavam dessa maneira e contavam com ela para descobrir a verdade. Assim, poderiam intimidar a NASA e recuperar pelo menos um pouco de terreno após os últimos eventos catastróficos. Depois da forma como Tench e o governo Herney haviam tentado manipulá-la naquela tarde, ela estava mais do que feliz em poder ajudar.

Gabrielle levantou a mão para bater na porta, mas parou o gesto em pleno ar. A voz de Yolanda ecoava em sua cabeça: Se Harper mentiu para o mundo inteiro, por que iria contar a verdade justamente para VOCÊ?

Por medo, respondeu para si mesma. Gabrielle sabia bem o que era aquela sensação. Quase se deixara levar pelo pânico poucas horas antes. Agora ela tinha um plano. A idéia era usar uma tática que o senador costumava empregar para obter informações contra a vontade de seus oponentes políticos. A jovem assessora havia absorvido muitas coisas sob a tutela de Sexton, embora nem todas fossem bonitas ou éticas. Naquela noite, porém, qualquer vantagem era bem-vinda. Se pudesse convencer Chris Harper a admitir que mentira, não importando qual fosse a razão, ela teria aberto uma nova possibilidade para a campanha do senador. Desse ponto em diante, Sexton era o tipo de homem que poderia livrar-se de praticamente qualquer confusão. Tudo de que precisava era de um milímetro para manobrar.

O plano de Gabrielle para lidar com Harper era algo que Sexton chamava de “indução”, uma técnica de interrogatório inventada por antigas autoridades do Império Romano para obter confissões de criminosos que insistiam em mentir. O método era engenhoso e simples:

— Afirmar com segurança a informação que devia ser confessada.

— Em seguida alegar algo muito pior.

O objetivo era dar ao oponente a chance de escolher o menor entre dois males: no caso, a verdade.

O truque essencial estava em mostrar-se extremamente confiante, um desafio e tanto para Gabrielle naquele momento. Respirando fundo, ela repassou mentalmente o script que havia preparado e então bateu com firmeza na porta do escritório.

— Já disse que estou ocupado! — gritou Harper, com seu familiar sotaque britânico.

Ela bateu de novo, mais alto.

— Eu disse que não vou descer!

Desta vez ela socou com força.

Chris Harper levantou-se e abriu a porta, furioso.

— Mas que diabos, você .... — parou no ato, surpreso ao ver Gabrielle.

— Doutor Harper — disse ela, com a voz mais firme que conseguiu.

— Como você chegou até aqui?

A expressão de Gabrielle era impassível.

— Você sabe quem eu sou?

— Claro! Seu chefe vem surrando meus projetos há vários meses. Como você entrou?

— O senador Sexton me enviou.

Harper olhou para o laboratório vazio.

— Quem a trouxe até aqui?

— Não é problema seu. O senador tem muitos contatos.

— Dentro deste prédio? — Harper tinha suas dúvidas.

— Você foi desonesto, doutor. E vim lhe informar que meu candidato convocou, há algum tempo, uma comissão parlamentar de inquérito no Senado para investigar suas mentiras.

O gerente deixou transparecer um profundo cansaço.

— Do que você está falando?

— Pessoas inteligentes como você não podem se dar ao luxo de passar por ignorantes. Você está em apuros, e o senador Sexton me mandou aqui para lhe fazer uma proposta. A campanha do senador sofreu um duro golpe esta noite. Ele não tem nada a perder. Se cair, está disposto a levar outras pessoas com ele, se necessário.

— Mas do que você está falando?

Gabrielle respirou fundo e jogou suas cartas na mesa:

— Você mentiu naquela coletiva de imprensa sobre o software de detecção de anomalias do PODS. Sabemos disso. Muitos outros sabem. A questão não é essa. — Antes que Harper pudesse abrir a boca para contra-argumentar, ela foi em frente: — O senador poderia expor suas mentiras agora mesmo, mas não é isso que ele quer. Ele está interessado em pegar os manda-chuvas por trás disso tudo.

— Não, eu...

— A proposta do senador é a seguinte. Ele não dirá nada a respeito de suas mentiras sobre o funcionamento do software se você lhe disser o nome do alto executivo da NASA que faz parte do esquema de desvio de verbas com você.

Chris Harper ficou totalmente perplexo.

— O quê? Eu não estou desviando verbas!

— Sugiro que tome muito cuidado com o que diz, doutor. A comissão de inquérito está coletando provas há meses. Você e seu cúmplice realmente acreditavam que passariam despercebidos? Alterando a papelada do PODS e redirecionando fundos da NASA para contas pessoais? Mentiras e desvio de verbas são crimes graves.

— Mas eu não fiz nada!

— Você está dizendo que não mentiu sobre o PODS?

— Não, estou dizendo que não faço parte de nenhum esquema de desvio de dinheiro!

— Então você está dizendo que de fato mentiu sobre o PODS.

Harper ficou olhando para a frente, sem saber o que dizer.

— Tudo bem, vamos deixar as mentiras de lado por um instante – disse Gabrielle, tentando outro caminho. — O senador Sexton não está interessado no fato de você ter mentido numa coletiva de imprensa. Estamos todos acostumados a isso, não é? A NASA achou um meteorito e ninguém se importa exatamente como isso ocorreu. O que interessa ao senador é a questão do desvio de verbas. Ele precisa atingir alguém no alto escalão da NASA. Apenas me diga com quem você está trabalhando e ele dará um novo rumo à investigação. Você pode fazer isso da maneira mais fácil e nos dizer quem é a outra pessoa, ou Sexton pode complicar as coisas e começar a falar sobre o software de detecção de anomalias e as falsas soluções anunciadas.

— Você está blefando. Não há desvio de verbas algum.

— E você é um péssimo mentiroso, doutor. Eu vi os documentos. Seu nome está em toda parte. Há muita evidência contra você.

— Eu juro que não sei de nada sobre isso!

Gabrielle soltou um suspiro de desapontamento.

— Coloque-se na minha posição. Só há duas conclusões possíveis. Ou você está mentindo para mim, da mesma forma que mentiu naquela coletiva de imprensa; ou então está dizendo a verdade e alguém muito poderoso na agência armou para cima de você, deixando-o como bode expiatório na questão das verbas.

Essa afirmação deixou Harper pensativo. Ela olhou para o relógio.

— A proposta continua válida durante mais uma hora. Você pode salvar sua carreira e dar ao senador o nome do executivo da NASA que o está ajudando a desviar dinheiro dos contribuintes. Eu lhe asseguro que ele não está atrás de você. Ele quer o figurão por trás de tudo. Seja quem for, obviamente é alguém com muito poder aqui na agência, já que conseguiu manter sua identidade fora de toda a papelada, deixando você exposto.

Harper sacudiu a cabeça.

— Você está mentindo.

— Você pretende dizer isso na corte?

— Sim, vou negar tudo.

— Sob juramento? — disse Gabrielle, em tom irônico. — E se jogarmos o software do PODS na balança, também irá negar isso na justiça? – O coração da assessora estava quase explodindo enquanto olhava no fundo dos olhos de Harper. — Avalie com cuidado suas opções, doutor. As prisões americanas não são tão confortáveis quanto este escritório.

O gerente do PODS olhou de volta para ela. Tudo o que Gabrielle queria era que ele se desse por vencido. Por um instante achou que Harper iria render-se, mas, quando ele finalmente falou, sua voz era fria como aço:

— Senhorita Ashe — ele declarou, furioso —, você está caçando fantasmas. Nós dois sabemos que não há qualquer irregularidade financeira aqui na NASA. O único mentiroso nesta sala é você.

Gabrielle sentiu seu corpo inteiro se retesar. O olhar do gerente era duro e penetrante. Ela quis se virar e sair correndo. Você tentou um blefe contra um cientista da NASA. Que diabos estava esperando?

Forçou-se a manter a cabeça erguida.

— Minha única certeza — prosseguiu, aparentando total confiança em si mesma e completa indiferença quanto ao que Harper dissera — são as provas conclusivas de desvio de verbas que temos contra você. O senador apenas me pediu para vir aqui e lhe oferecer uma saída: ou você diz o nome de seu parceiro ou enfrenta o inquérito sozinho. Eu direi a Sexton que você preferiu tentar a sorte diante de um juiz. Você poderá alegar à corte que não está desviando fundos e que não mentiu sobre o software do PODS. — Ela deu um sorriso sarcástico. — Porém, após aquela patética coletiva de duas semanas atrás, tenho sérias dúvidas de que isso vá funcionar. — Gabrielle virou-se e saiu andando pelo laboratório. Estava pensando se não seria ela quem iria conhecer de perto uma cela em vez de Harper.

Ela manteve sua postura ereta enquanto saía, esperando que Harper a chamasse de volta. Silêncio. Abriu a porta de metal e prosseguiu pelo corredor, torcendo para que os elevadores dos andares não fossem acionados também por crachás, como no saguão. Ela tinha perdido o jogo. Harper não mordera a isca. Talvez ele estivesse dizendo a verdade na coletiva, afinal.

Um ruído metálico ressoou pelo corredor quando a porta atrás dela foi aberta com vigor.

— Senhorita Ashe — chamou Harper. — Eu juro que não sei nada sobre desvio de verbas. Sou um homem honesto!

Gabrielle sentiu seu coração pular. Concentrou-se e continuou andando..Deu de ombros, casualmente, e disse, olhando para trás:

— E ainda assim você mentiu na coletiva.

Silêncio. Ela seguiu no mesmo passo.

— Espere! — gritou Harper, correndo até ela, pálido. — Sobre as verbas — disse ele, num tom de voz baixo —, acho que sei quem armou isso tudo.

Gabrielle parou de imediato, pensando se havia ouvido direito.

Virou-se vagarosamente.

— Você quer que eu acredite que é tudo armação? Harper suspirou.

— Juro que não sei nada sobre essa questão de dinheiro. Mas, se há evidências contra mim...

— Uma pilha.

— Então foram todas forjadas. Para me desacreditar, se necessário. E só há uma pessoa que poderia ter feito isso — falou o gerente, ainda sem ar.

— Quem?

Ele a fitou, sério.

— Lawrence Ekstrom. Ele me odeia.

Gabrielle ficou atônita.

— O administrador da NASA?

Harper assentiu, com uma expressão amarga.

— Foi ele quem me obrigou a mentir naquela coletiva.

 

Mesmo com o sistema de propulsão de metano da aeronave Aurora sendo usado a meia potência, a Força Delta estava cruzando o céu a Mach 3, ou seja, pouco mais de 3.500 km/h. O ruído repetitivo dos PDEs — propulsores por detonação de ondas em pulsos — que vinha da parte traseira era hipnótico. Trinta metros abaixo deles, o oceano agitava-se fortemente, chicoteado pela onda de vácuo do Aurora, que fazia a água subir em longas lâminas paralelas de 15 metros de altura logo atrás do avião.

Foi por isso que o SR-71 Blackbird foi tirado de serviço, pensou Delta-Um.

O Aurora era um daqueles aviões experimentais a respeito dos quais ninguém deveria saber nada, mas todos sabiam. Até mesmo o Discovery Channel fizera um documentário sobre os testes do Aurora no lago Groom, em Nevada. Ninguém tinha certeza se os vazamentos de informação tinham sido causados pelos repetidos “terremotos celestes”, ouvidos até mesmo em Los Angeles, ou pelo profundo azar de uma testemunha ter avistado o avião a partir de uma plataforma de petróleo no mar do Norte. Ou ainda se eram resultado de uma tremenda gafe administrativa, em que algum funcionário desavisado teria deixado passar uma descrição do Aurora numa cópia pública do orçamento do Pentágono. Não importava.

As notícias haviam se espalhado: “Os militares americanos possuem um avião capaz de atingir Mach 6 e não é apenas um protótipo, ele voa de fato.”

Fabricado pela Lockheed, o Aurora lembrava muito seu predecessor, o SR-71 Blackbird. Tinha 34 metros de comprimento, 18 de largura e sua superfície era formada por placas de cerâmica resistentes a altas temperaturas, como as que são usadas no ônibus espacial. A velocidade era resultado de um novo e exótico sistema de propulsão por detonação de ondas em pulsos, que queimava metano e deixava um rastro de fumaça em forma de anéis facilmente identificável no céu. Por isso, ele só voava à noite.

Naquela noite, graças a essa extrema velocidade, a Força Delta tinha escolhido uma rota mais longa até à base, em meio ao oceano aberto.

Mesmo tendo que percorrer uma distância maior, estavam ultrapassando sua presa. Nessa velocidade, a equipe iria chegar à costa leste dos Estados Unidos em menos de uma hora, ou seja, pelo menos duas horas antes de seus alvos. A possibilidade de encontrar e derrubar o avião em questão havia sido debatida, mas o controlador temia que o ataque fosse captado pelos radares ou que os destroços carbonizados pudessem dar início a uma grande investigação. Por isso, ele decidira que seria melhor deixar o avião aterrissar conforme o planejado. Uma vez que estivesse claro onde suas vítimas pretendiam pousar, a Força Delta poderia entrar em ação.

O Aurora estava percorrendo o desolado mar de Labrador quando o CrypTalk de Delta-Um recebeu uma chamada. Ele atendeu.

— A situação mudou — informou a voz eletrônica. — Vocês têm um novo alvo antes que Rachel Sexton e os cientistas pousem.

Um novo alvo. Delta-Um podia sentir que os acontecimentos estavam se desdobrando. Havia ocorrido um novo vazamento e o controlador precisava que fosse contido o mais rápido possível. Isso não estaria acontecendo, ele culpou-se, se tivéssemos acertado nossos alvos na plataforma de Mune. Delta-Um sabia muito bem que estava limpando sua própria sujeira.

— Um quarto indivíduo entrou no jogo — disse o controlador.

— Quem?

O controlador fez uma pausa antes de dizer o nome.

Os três homens trocaram olhares espantados. Era um nome que todos conheciam bem.

O chefe tinha bons motivos para soar relutante!, pensou Delta-Um.

Considerando-se que, originalmente, aquela era uma missão de “fatalidade zero”, nada estava saindo como o esperado: a contagem de corpos subia a cada momento e o perfil dos alvos mudara drasticamente.

Ele sentiu seus músculos se contraírem enquanto o controlador se preparava para informá-los exatamente como e onde iriam eliminar aquele novo indivíduo.

— As apostas subiram consideravelmente — disse o controlador. – Ouçam com atenção. Vou dar essas instruções uma única vez.

 

Sobrevoando o norte do estado do Maine, o G-4 continuava sua rota em direção a Washington. A bordo, Tolland e Corky olhavam para Rachel. Ela estava explicando aos dois sua teoria sobre o que poderia ter provocado um aumento nos íons de hidrogênio na crosta de fusão do meteorito.

— A NASA possui uma base de testes chamada Estação Plum Brook – disse Rachel, surpresa consigo mesma por estar contando aquilo. Ela jamais havia divulgado informações secretas sem seguir rigidamente o protocolo, mas, considerando-se as circunstâncias, Tolland e Corky tinham o direito de saber.

— Plum Brook é basicamente uma área de testes para os sistemas de propulsão mais avançados da NASA. Há dois anos eu preparei um relatório sobre um novo projeto que a agência espacial estava testando. Era chamado de PCE — Propulsor de Ciclo de Expansão.

Corky olhou para ela, desconfiado.

— Os propulsores de ciclo de expansão ainda estão em fase de discussão teórica. No papel. Ninguém está fazendo testes, serão necessárias algumas décadas até que isso seja possível.

Rachel balançou a cabeça.

— Não, Corky. A NASA já tem protótipos em teste.

— O quê? — ele continuava cético. — Os PCEs funcionam à base de uma mistura de oxigênio e hidrogênio líquidos, sendo que ambos congelam no espaço. Esses propulsores não têm valor para a NASA, que disse que somente iria tentar construir um modelo quando a questão do congelamento dos combustíveis estivesse superada.

— Já foi. Tiraram o oxigênio e criaram uma “pasta de hidrogênio”, uma combinação de hidrogênio sólido e líquido que resulta num combustível criogênico de hidrogênio puro, em estado semicongelado. É muito poderoso e sua queima é bem limpa. É um forte candidato a ser o sistema de propulsão escolhido quando a NASA enviar missões a Marte.

Corky estava chocado.

— Isso não pode ser real.

— Acho bom que seja — respondeu Rachel. — Escrevi um resumo a respeito para o presidente. Pickering, meu chefe, estava revoltado porque a NASA queria anunciar publicamente o sucesso da “pasta de hidrogênio”. Ele pediu que a Casa Branca forçasse a NASA a manter os resultados como segredo de estado.

— Por quê?

— Não importa — respondeu Rachel, que não tinha a menor intenção de divulgar mais informações do que o necessário. A verdade era que Pickering queria que o combustível fosse classificado como “secreto” por uma questão de segurança nacional que muitos desconheciam: a alarmante expansão da tecnologia espacial da China. Os chineses estavam desenvolvendo uma plataforma de lançamentos “comercial”, que pretendiam alugar para quem fizesse a melhor oferta. A maior parte dos interessados, naturalmente, seria de inimigos dos EUA. As implicações para a segurança da nação eram devastadoras. O NRO sabia, contudo, que a China estava trabalhando com um modelo obsoleto de propulsores para sua plataforma de lançamentos, e Pickering achava que seria bastante sensato manter silêncio completo sobre o promissor sistema da NASA.

— Resumindo — disse Tolland, parecendo preocupado —, quer dizer que a NASA possui um sistema de propulsão limpo que funciona com hidrogênio puro?

Rachel confirmou.

— Não tenho os números de cabeça, mas as temperaturas de exaustão desses propulsores, até onde me lembro, eram muito superiores a qualquer outra coisa já desenvolvida até o momento. Esses propulsores fizeram com que a NASA tivesse que criar novos materiais para os bicos injetores. — Ela fez uma breve pausa. — Uma grande rocha, colocada logo atrás de um desses PCEs, seria queimada pelas chamas de exaustão dos propulsores, ricas em hidrogênio, sendo cuspidas para fora a uma temperatura sem precedentes. Isso criaria uma boa crosta de fusão.

— Ah, de novo, não! — disse Corky. — Vamos voltar àquela história do meteorito falso?

Tolland, no entanto, parecia intrigado.

— Na verdade, a idéia é interessante. Seria aproximadamente o mesmo que deixar uma rocha na plataforma de lançamento de um foguete durante a ignição.

— Meu Deus — murmurou Corky —, estou preso num avião com dois bobalhões...

— Corky — disse Tolland —, pense nisso como uma hipótese, apenas. Se uma rocha fosse colocada na saída de exaustão de um foguete, ela iria exibir características de queima similares às de uma rocha que caiu pela atmosfera, não é? Veríamos as mesmas estrias direcionais e o deslizamento do material derretido para a parte posterior.

Corky resmungou:

— Suponho que sim.

— E o combustível de hidrogênio de queima limpa que Rachel descreveu não deixaria resíduos químicos, apenas hidrogênio. O que justificaria o aumento dos níveis de hidrogênio na crosta de fusão.

O astrofísico continuava descrente.

— Olhe, se esses propulsores de ciclo de expansão de fato existirem e usarem “pasta de hidrogênio” como combustível, suponho que isso tudo que vocês estão dizendo seja possível. Mas é extremamente implausível.

— Por quê? — perguntou Tolland. — O processo me parece bastante simples.

Rachel concordou.

— Só seria necessário encontrar um fóssil de 190 milhões de anos, que seria colocado na exaustão do PCE e posteriormente escondido no gelo. E, como num passe de mágica, o “meteorito” estaria pronto!

— Para um leigo, com certeza — respondeu Corky —, mas não para um cientista da NASA! Vocês ainda não explicaram os côndrulos!

Rachel tentou se lembrar da explicação exata de Corky para o processo de formação dos côndrulos.

— Você disse que são causados pelo rápido aquecimento e resfriamento no espaço, certo?

Ele suspirou e repetiu a explicação.

— Côndrulos são formados quando uma rocha, esfriada ao extremo no espaço, subitamente se torna superaquecida ao ponto de atingir um estágio de fusão parcial, em torno de 1.550° Celsius. Então a rocha precisa esfriar de novo, muito rapidamente, de forma que os bolsões líquidos sejam enrijecidos sob a forma de côndrulos.

— E esse processo não poderia acontecer na Terra? — perguntou Tolland, observando o amigo.

— Acho impossível. Este planeta não possui a variação de temperaturas necessária para provocar uma mudança tão brusca. Estamos falando de dois extremos: calor termonuclear e o zero absoluto do espaço. Estes dois extremos não existem na Terra.

Rachel pensou um pouco e disse:

— Ao menos não naturalmente.

Corky virou-se para ela:

— O que você quer dizer com isso?

— Bem, por que o aquecimento não poderia ter acontecido na Terra, artificialmente? — perguntou ela. — A rocha teria sido queimada por um propulsor de hidrogênio e depois rapidamente congelada em um freezer criogênico.

O astrofísico ficou olhando, estarrecido.

— Côndrulos manufaturados?

— É uma idéia.

— Bem ridícula — respondeu ele, exibindo sua amostra. — Você talvez tenha esquecido, mas esses côndrulos foram irrefutavelmente datados como tendo 190 milhões de anos. — Seu tom de voz se tornou quase arrogante. — Até onde fui informado, senhorita Sexton, há 190 milhões de anos ninguém tinha propulsores de hidrogênio e freezers criogênicos.

Com ou sem côndrulos, pensou Tolland, existem evidências de uma possível fraude. Estava em silêncio há vários minutos, profundamente inquieto com a última revelação de Rachel a respeito da crosta de fusão. A hipótese dela, embora bastante radical, havia aberto novas possibilidades e feito com que Tolland começasse a pensar em novas direções. Se a crosta de fusão pode ser explicada, que outras possibilidades isso levanta?

— Você está muito quieto — disse Rachel, ao lado dele.

Michael virou-se para ela. Por um instante, na luz tênue do avião, viu uma suavidade nos olhos de Rachel que fizeram com que ele se lembrasse de Célia. Afastou suas lembranças e continuou, cansado.

— Eu? É, estava apenas pensando...

Ela sorriu.

— Sobre meteoritos? — perguntou Rachel.

— E no que mais?

— Vasculhando todas as provas, procurando encontrar o que foi que deixamos passar?

— Mais ou menos isso.

— Chegou a alguma conclusão?

— Não, na verdade, não. Estou um pouco perturbado com a quantidade de dados que caíram por terra simplesmente por termos descoberto aquele poço de inserção sob o gelo.

— Evidências hierárquicas são como um castelo de cartas – disse Rachel. — Retire seu pressuposto básico e o resto todo se torna muito instável. A localização em que o meteorito foi encontrado era um pressuposto básico. Quando cheguei a Milne, o administrador me disse que o meteorito havia sido encontrado dentro de uma matriz intacta de gelo com 300 anos de idade e que era mais denso do que todas as rochas que poderiam existir em locais próximos. É claro que entendi tudo isso como sendo uma prova lógica de que a rocha só poderia ter caído do espaço.

— Você e todos nós.

— O conteúdo de níquel, apesar de ser persuasivo, aparentemente não é conclusivo.

— Está próximo da faixa ideal — disse Corky, acompanhando a conversa entre os dois.

— Mas não exatamente dentro dela.

Ele concordou com um gesto relutante.

— E essa criatura espacial nunca antes vista — interveio Tolland —, apesar de ser bastante bizarra, poderia muito bem ser apenas um crustáceo muito antigo de águas profundas.

Rachel assentiu.

— E agora há a crosta de fusão...

— Odeio dizer isso — completou Tolland, olhando para Corky —, mas começo a achar que temos mais evidências negativas do que positivas.

— A ciência não é feita de palpites — disse Corky. — É feita de provas. Os côndrulos nessa rocha são definitivamente de um meteorito. Concordo com vocês que tudo o que descobrimos é profundamente incômodo, mas não podemos ignorar os côndrulos. A evidência a favor é conclusiva, enquanto a evidência contrária é circunstancial.

A analista olhou para ambos.

— Então qual a conclusão que podemos tirar de tudo isso?

— Nenhuma — disse Corky. — Os côndrulos provam que estamos lidando com um meteorito. A grande questão é por que alguém o enfiou por baixo do gelo.

Tolland queria muito acreditar na lógica simples de seu amigo, mas sentia que havia algo errado ali.

— Você não me parece muito convencido, Mike.

O oceanógrafo olhou para ele e suspirou:

— Eu realmente não sei. Duas provas em três era bom, Corky, mas agora só nos restou uma. Eu estou com a impressão de que deixamos algo de lado.

 

Fui pego, pensou Chris Harper, sentindo um arrepio enquanto se imaginava na cela de uma cadeia americana. O senador Sexton sabe que menti a respeito do software do PODS.

Chris conduziu Gabrielle Ashe de volta ao seu escritório. Fechou a porta. Seu ódio pelo administrador da NASA continuava crescendo.

Naquela noite, ele havia descoberto até que ponto Ekstrom podia chegar. Além de forçar Harper a mentir a respeito da correção do problema no software, ele parecia ter criado um mecanismo de segurança caso o gerente do PODS mudasse de idéia e decidisse botar a boca no trombone.

Evidências de desvio de verbas, pensou Harper. Chantagem. Muito astuto. Ninguém acreditaria num cientista envolvido em desvio de verbas que tentasse desacreditar a NASA naquele momento de glória da aventura espacial americana. Ele sabia que o administrador faria qualquer coisa para salvar a agência, principalmente agora, com o impacto mundial que o anúncio do meteorito com fósseis provocara.

Harper andou em torno da grande mesa na qual fora colocado um modelo em escala reduzida do satélite PODS — um prisma cilíndrico com várias antenas e lentes por trás de escudos refletores. Gabrielle sentou-se, observando com seus olhos negros e esperando. Harper estava se sentindo nauseado como no dia daquela infame coletiva. Ele tinha feito um papelão naquela noite e todos vieram lhe fazer perguntas a respeito. Tivera que mentir novamente e dizer que estava se sentindo mal durante a entrevista e um pouco fora de si. Seus colegas e a imprensa deram pouca atenção a seu desempenho patético e rapidamente se esqueceram do assunto.

As mentiras tinham retornado para assombrá-lo.

Gabrielle olhou para ele com simpatia.

— Doutor Harper, tendo o administrador como inimigo, você irá precisar de um aliado poderoso. O senador Sexton talvez seja seu único amigo neste momento. Vamos começar pela coletiva e pela mentira a respeito do software do PODS. Conte-me o que aconteceu.

Harper respirou fundo. Hora de contar a verdade. Já deveria ter dito tudo isso há muito tempo!

— O lançamento do PODS ocorreu sem problemas — começou ele. – O satélite foi posicionado em uma órbita polar perfeita, conforme o planejado.

Gabrielle Ashe parecia entediada. Já sabia daquilo tudo.

— Prossiga.

— Então vieram os problemas. Quando nos preparamos para começar a vasculhar o gelo atrás de anomalias na densidade, o software para detecção de anomalias a bordo falhou.

— Sim...

Harper começou a falar mais rápido.

— O software deveria ser capaz de examinar rapidamente dados de milhares de metros quadrados e encontrar locais no gelo que estivessem fora do padrão normal de densidade. Ele estava, antes de mais nada, procurando por pontos de degelo — indicadores do aquecimento global. Mas, se encontrasse qualquer outra incongruência na densidade, estava programado para marcar esses lugares também. O plano era que o PODS varresse o Círculo Polar Ártico durante várias semanas para identificar qualquer anomalia que pudéssemos usar para medir o aquecimento global.

— Porém, se o software não estava funcionando — disse Gabrielle —, o PODS não era muito útil, não? A NASA teria que examinar as imagens de cada metro quadrado do Ártico à mão, procurando os locais com problemas.

Ele concordou, revivendo o pesadelo de seu erro de programação.

— Levaríamos décadas. A situação era terrível. Por causa do erro na programação, em essência o PODS não servia para nada. E com a eleição se aproximando e o senador Sexton criticando a NASA sem parar... – ele suspirou.

— Seu erro se transformou em algo devastador para a agência e para o presidente.

— Não podia ter acontecido num momento pior. O administrador ficou lívido. Eu prometi a ele que poderíamos resolver o problema durante a próxima missão do ônibus espacial: era só trocar o chip que continha a programação do PODS. Mas isso viria tarde demais. Ele me mandou para casa, oficialmente de licença, mas na prática eu tinha sido demitido. Isso foi há um mês.

— Apesar disso, você voltou à televisão duas semanas depois anunciando que havia descoberto uma forma de contornar o problema.

O gerente estava prestes a desabar.

— Cometi um erro terrível. Foi naquele dia que recebi um chamado do administrador. Ele me falou que surgira algo novo, uma possível forma de me redimir. Disse que viesse até seu escritório imediatamente para me encontrar com ele. Pediu-me que desse uma coletiva de imprensa e contasse a todos que havia encontrado uma solução para o problema no software do PODS e que teríamos os dados em poucas semanas. Prometeu que me explicaria os detalhes mais tarde.

— E você concordou?

— Não, eu recusei! Mas, uma hora depois, o administrador estava aqui, em meu escritório, acompanhado pela conselheira sênior da Casa Branca!

— O quê! — exclamou Gabrielle, chocada com a revelação. – Marjorie Tench?

Criatura medonha aquela, pensou Harper, fazendo que sim.

— Ela e o administrador sentaram-se comigo e me disseram que meu erro havia literalmente colocado a NASA e o presidente à beira de um colapso completo. A senhora Tench me contou os planos do senador de privatizar a NASA. Ela me pressionou, afirmando que eu tinha uma dívida com o presidente e com a agência e que era meu dever consertar as coisas. Então me disse o que eu deveria fazer.

— Continue — solicitou Gabrielle.

— Marjorie Tench me informou que a Casa Branca, por uma incrível sorte, descobrira uma forte evidência geológica de que havia um enorme meteorito enterrado na plataforma Milne. Um dos maiores já encontrados na história. Um meteorito daquele tamanho seria um grande achado para a NASA.

A assessora estava perplexa.

— Espere aí. Quer dizer que alguém já sabia que o meteorito estava lá antes que o PODS o descobrisse?

— Sim, claro. O PODS não teve nada a ver com a descoberta. O administrador sabia que o meteorito existia. Ele apenas me deu as coordenadas e me disse para reposicionar o PODS sobre o platô. Fizemos de conta que a descoberta havia sido feita por ele.

— Você deve estar brincando.

— Foi exatamente a minha reação quando me pediram para participar desse engodo. Eles se recusaram a me dizer como haviam descoberto que o meteorito estava lá, mas Tench insistia o tempo todo que isso não importava e que era a oportunidade ideal para eu me redimir do fiasco do PODS. Se pudesse fingir que o satélite tinha localizado o meteorito, então a NASA poderia falar do projeto como um grande sucesso, extremamente útil ao país, o que daria um novo impulso à campanha do presidente antes da eleição.

Gabrielle estava chocada.

— E naturalmente você não podia dizer que o PODS havia encontrado um meteorito antes de ter anunciado que o software de detecção de anomalias estava funcionando.

Harper assentiu.

— Foi por isso que contei aquela mentira na coletiva de imprensa. Fui obrigado a fazer aquilo. Tench e o administrador foram impiedosos. Eles não paravam de me dizer que eu deixara todos em péssima situação: o presidente havia providenciado os fundos para o meu projeto, a NASA passara anos trabalhando nele e, no final, eu tinha arruinado tudo por conta de um erro na programação.

— Então você finalmente concordou em ajudá-los.

— Eu não tinha escolha. Minha carreira estaria acabada se não aceitasse. E, na realidade, se eu não tivesse cometido aquele erro no software, o PODS teria encontrado o meteorito. Então, na época, parecia uma pequena mentira conveniente. Eu racionalizei a coisa toda me dizendo que o software poderia ser corrigido alguns meses depois, quando o ônibus espacial fosse lançado. Eu estaria apenas anunciando essa correção um pouco mais cedo.

Gabrielle olhou para ele, abismada.

— Uma pequena mentira para tirar proveito de uma oportunidade meteórica.

Harper sentia-se mal simplesmente por ter que falar naquilo.

— Pois é... então... eu fui em frente. De acordo com as ordens de Ekstrom, convoquei uma coletiva e anunciei que havia encontrado uma solução para a falha no software. Depois esperei alguns dias e reposicionei o PODS sobre as coordenadas do meteorito que o administrador me fornecera. Então, seguindo a cadeia de comando normal, liguei para o diretor do EOS e informei-o de que o PODS tinha localizado uma anomalia de alta densidade na plataforma de gelo Milne. Eu lhe dei as coordenadas e disse que a anomalia parecia ser densa o suficiente para ser um meteorito. Animada, a NASA enviou uma pequena equipe até Milne para perfurar o gelo e recolher algumas amostras do núcleo. Foi quando a operação passou a ser secreta.

— Então você não fazia idéia de que o meteorito continha fósseis até esta noite?

— Ninguém aqui sabia. Foi um choque. Agora todos estão achando que sou um herói por ter encontrado prova de vida extraterrestre, e eu não sei o que dizer.

Gabrielle ficou em silêncio durante um longo tempo olhando para Harper.

— Mas, se o PODS não localizou o meteorito no gelo, como Ekstrom podia saber que o meteorito estava lá?

— Alguém o encontrou primeiro.

— Alguém? Quem foi?

— Um geólogo canadense chamado Charles Brophy. Ele estava fazendo pesquisas na ilha de Ellesmere quando, por total acaso, descobriu a existência do que parecia ser um grande meteorito no gelo. Brophy transmitiu a descoberta pelo rádio e a NASA interceptou essa transmissão.

— Mas esse canadense não está furioso com o fato de a NASA ter levado todo o crédito pela descoberta?

— Não — respondeu Harper, nervoso. — Convenientemente, ele está morto.

 

Michael Tolland fechou os olhos e ficou ouvindo o zumbido grave das turbinas do G-4. Tinha desistido de continuar pensando sobre o meteorito até voltarem a Washington. Segundo Corky, os côndrulos eram prova conclusiva: a rocha na plataforma Milne só podia ser um meteorito. Rachel queria ter uma resposta definitiva para William Pickering quando chegassem, mas suas hipóteses esbarravam sempre na questão dos côndrulos. Apesar de as provas coletadas serem cada vez mais duvidosas, o meteorito ainda parecia ser autêntico.

Nada a fazer, então.

Rachel evidentemente ficara abalada com a experiência traumática na.geleira. Mas sua capacidade de recuperação deixara Tolland impressionado. Ela já estava totalmente concentrada na questão.principal, que era buscar uma forma de invalidar ou de legitimar o meteorito, bem como descobrir quem havia tentado assassiná-los.

Durante a maior parte da viagem, Rachel ficara sentada ao lado de Tolland. Tinha sido bom conversar com ela, apesar do cansaço e das circunstâncias. Quando Rachel se levantou para ir ao banheiro, Michael notou, meio surpreso, que estava gostando da companhia dela. Ficou pensando há quanto tempo não sentia isso em relação a uma mulher desde que Célia se fora.

— Senhor Tolland? — disse o piloto, que havia aberto a porta da cabine para chamá-lo. — Você me pediu que lhe informasse quando pudéssemos contatar seu navio por telefone. Já posso fazer a ligação, se quiser.

— Obrigado. — Ele se levantou e foi em direção à cabine. Lá, fez um chamado para sua equipe. Queria avisá-los de que só estaria de volta dentro de um ou dois dias. Claro que não tinha a intenção de contar-lhes o tamanho da encrenca em que estava metido.

O telefone tocou várias vezes e Tolland ficou um pouco surpreso ao ouvir o sistema de comunicação Shincom 2100 do barco atender a ligação. A mensagem gravada não era a saudação profissional usual, e sim a voz do bagunceiro-mor da equipe de Tolland.

“Óia, óia, aqui é do Goyal — dizia a mensagem. “Lamentamos que não haja ninguém a bordo, mas fomos todos abduzidos por um tatuzinho gigante! Na verdade, resolvemos tirar uma folga temporária em terra firme para celebrar esta grande noite de Mike. Rapaz, como estamos orgulhosos! Vocês podem deixar seu nome e número, talvez retornemos a chamada amanhã, quando estivermos sóbrios. Té mais! Vamos, ET!”

Tolland riu, sentindo falta de sua tripulação. Obviamente eles haviam assistido à coletiva. Estava feliz que tivessem aproveitado para tirar uma folga. Ele saíra meio bruscamente ao ser chamado pelo presidente e não fazia sentido todos ficarem sentados no barco, à toa. Apesar de a mensagem dizer que não tinha ninguém a bordo, Tolland presumia que não deixariam o barco vazio, sobretudo na região de fortes correntes onde estava ancorado naquele momento.

Digitou o código numérico para tocar qualquer mensagem de voz interna que houvessem deixado para ele. Ouviu um único bip: uma mensagem. A voz era a do mesmo gaiato:

“Oi, Mike, foi um grande show, cara! Se você está ouvindo este recado, provavelmente está ligando de alguma festa classuda da Casa Branca e pensando onde diabos fomos parar. Lamentamos ter abandonado o navio, amigão, mas esta noite tinha que ser celebrada com boas doses de álcool. Não se preocupe, o Goya está bem ancorado e deixamos uma luz acesa no convés. Temos o desejo secreto de que ele seja roubado para que você deixe a NBC comprar aquele novo barco que nos prometeu! Ei, só brincando, cara. Não se preocupe mesmo, Xavia decidiu ficar a bordo e cuidar do forte. Ela disse que preferia ficar sozinha a festejar com um bando de pescadores bêbados! Você acredita nisso?”

Tolland riu, aliviado ao saber que alguém estava a bordo do navio.

Xavia era uma pessoa responsável e definitivamente não fazia o tipo festeiro. Geóloga marinha de respeito, tinha a reputação de dizer o que pensava com uma honestidade ácida.

“Bom, Mike”, continuou a mensagem, “esta noite foi realmente demais. Um daqueles momentos em que ficamos felizes por sermos cientistas, não é? Na TV, todo mundo está falando sobre o quanto isso foi oportuno para a NASA. Quer minha opinião? A NASA que se dane! Isso foi ainda mais oportuno para nós! Maravilhas dos mares deve ter subido milhões de pontos em audiência hoje. Você é uma estrela, cara. Pra valer!

Parabéns, foi um ótimo trabalho.”

Mike ouviu o ruído de algumas pessoas falando por trás do fone na gravação, depois a mesma voz voltou:

“Ah, por falar em Xavia, só para você não ficar muito convencido, ela quer te perturbar com alguma coisa. Vou passar pra ela.”

A voz rascante de Xavia surgiu na gravação:

“Mike, aqui é Xavia. Como gosto muito de você, resolvi ficar aqui cuidando carinhosamente desta ruína pré-histórica. Com toda a sinceridade, vai ser bom passar algumas horas longe desses arruaceiros que você chama de cientistas. Mas, enfim, além de cuidar do navio, como eu sou a chatonilda-mor por aqui, a tripulação toda me pediu que fizesse alguma coisa para evitar que você se torne um metido a besta insuportável, o que vai ser bem difícil depois desta noite... Bom, eu tinha que ser a primeira a lhe dizer que você falou uma pequena bobagem no seu documentário. É, isso mesmo. Um raríssimo exemplo de burrice da parte de Mike Tolland. Ah, mas não se preocupe, só umas três pessoas no planeta inteiro vão reparar — e todas são geólogos obsessivos sem o menor senso de humor. Mais ou menos como eu. Você conhece a velha piada sobre geólogos, não é? Dizem que estamos sempre procurando por uma falha!”, ela riu.

“Não é nada demais, apenas um pequeno detalhe a respeito da petrologia dos meteoritos. Só estou dizendo isso para arruinar sua noite. E, claro, pode ser que alguém ligue para fazer perguntas, então achei melhor avisá-lo antes para você não acabar parecendo o grande bobalhão que no fundo é!”, ela riu de novo. “Enfim, não sou muito chegada a festas, você sabe, então vou ficar a bordo. Nem tente me ligar, tive que deixar o telefone no atendimento automático porque os malditos repórteres estão ligando o tempo todo. Você é a verdadeira estrela desta noite, apesar da mancada. Conversamos com calma quando você voltar. Tchau!”

A linha ficou muda. Michael Tolland colocou o fone de volta, intrigado. Um erro no meu documentário?

 

Rachel estava no banheiro do avião, olhando-se no espelho. Parecia pálida e mais abatida do que tinha imaginado. O susto daquela noite tinha mexido com ela. Ficou pensando em quanto tempo levaria até que parasse de tremer ou conseguisse chegar de novo perto do mar. Tirando o boné do USS Charlotte, soltou o cabelo. Melhor assim. Quase dá para.me reconhecer.

Olhando dentro de seus próprios olhos, viu um enorme cansaço. Por baixo daquela superfície, contudo, havia uma forte resolução. Aquilo vinha de sua mãe. Ninguém diz o que você pode ou não fazer. Rachel pensou se sua mãe teria visto o que havia acontecido naquela noite.

Alguém tentou me matar, mãe. Alguém tentou matar todos nós...

Como vinha fazendo nas últimas horas, pensou de novo na lista de nomes.

Lawrence Ekstrom... Marjorie Tench... Zach Herney. Todos tinham motivos e, pior, todos tinham meios. O presidente não está envolvido nisso, Rachel dizia para si mesma, agarrando-se à muito mais do que ao próprio pai, fosse apenas um espectador inocente naquele incidente misterioso.

Ainda não sabemos de nada.

Nem quem... nem se... nem por quê.

Rachel queria encontrar respostas para Pickering, mas, até aquele ponto, tudo o que tinha conseguido era levantar novas perguntas.

Quando saiu do banheiro, ela ficou surpresa ao ver que Tolland não estava em lugar nenhum. Ao olhar em volta, avistou Corky tirando um cochilo numa poltrona mais adiante. Logo em seguida Michael saiu da cabine de comando. O piloto estava colocando o radiofone de volta no lugar e Tolland parecia muito preocupado.

— O que houve? — ela perguntou.

Tolland falou sobre a mensagem telefônica, em tom grave.

Um erro na apresentação? Rachel achou que ele estava exagerando.

— Não deve ser nada demais. Ela não disse exatamente qual foi o erro?

— Alguma coisa relacionada com petrologia.

— A estrutura da rocha?

— É. Ela disse que as únicas pessoas que iriam notar isso seriam alguns poucos geólogos. Parece que, seja lá qual for o meu erro, tem a ver com a composição do meteorito em si.

Rachel compreendeu a gravidade da questão.

— Os côndrulos?

— Não sei dizer, mas é uma coincidência e tanto.

Rachel concordou. Os côndrulos eram o último fragmento de evidência que ainda apoiava categoricamente a alegação da NASA de que aquilo era mesmo um meteorito.

Corky aproximou-se, esfregando os olhos.

— O que está acontecendo?

Tolland lhe contou.

Corky sacudiu a cabeça, fazendo uma careta.

— Não tem nada a ver com os côndrulos, Mike. Não pode ser. Todos os seus dados vieram da NASA. E de mim. Estava tudo perfeito.

— Mas que outro erro eu poderia ter cometido na parte de petrologia?

— Como eu vou saber? Além disso, o que uma geóloga marinha sabe a respeito de côndrulos?

— Não sei, mas ela é extremamente inteligente.

— Considerando-se as circunstâncias — disse Rachel —, acho que deveríamos entrar em contato com ela antes de falarmos com Pickering.

Tolland olhou para ela.

— Já liguei quatro vezes para lá e sempre cai no atendimento eletrônico. Ela provavelmente está enfurnada no laboratório e não está nem ouvindo o telefone. Só vai receber os recados amanhã pela manhã, no mínimo. — Ele parou e olhou para o relógio. — Apesar de que...

— Apesar do quê?

Tolland virou-se para ela, sério.

— Essa conversa com Xavia... É tão importante assim falarmos com ela antes de encontrarmos seu chefe?

— Se ela tiver algo a dizer sobre os côndrulos, me parece algo crítico. Mike, no momento estou com a cabeça cheia de dados contraditórios. William Pickering gosta de obter respostas claras. Quando o encontrarmos, queria poder apresentar uma boa hipótese.

— Então é melhor fazermos uma escala.

Rachel sobressaltou-se.

— Em seu navio?

— Ele está ao largo da costa de Nova Jersey. É no caminho para Washington. Podemos falar com Xavia e ver o que ela sabe. Corky ainda tem a amostra do meteorito e, se Xavia quiser realizar testes geológicos nela, o barco tem um laboratório razoavelmente bem equipado. Não acho que leve mais do que uma hora para chegarmos a algumas respostas conclusivas.

Rachel sentiu uma onda de ansiedade. A idéia de ter que se defrontar tão cedo com o mar a deixava nervosa. Respostas definitivas, ela pensou consigo mesma, seduzida pela possibilidade. Pickering certamente vai querer algumas respostas.

 

Delta-um estava feliz por estar em terra firme. Apesar de ter voado apenas à metade de sua velocidade máxima e ter percorrido uma rota mais longa pelo oceano, a aeronave Aurora completara o trajeto em menos de duas horas. Isso deixava à Força Delta um bom tempo para se preparar para matar a outra vítima, conforme o controlador havia solicitado.

Depois de aterrissar em uma pista militar nos arredores do Distrito de Colúmbia, a equipe deixou o Aurora para trás e entrou em seu novo meio de transporte: um helicóptero OH-58D Kiowa Warrior, que já estava à sua espera.

Mais uma vez o chefe nos mandou o melhor, pensou Delta-Um.

O Kiowa Warrior havia sido originalmente projetado como um helicóptero ligeiro de observação e reconhecimento, mas desde então fora “expandido e aperfeiçoado” para dar origem à nova geração de helicópteros militares de ataque. O Kiowa possuía equipamentos eletrônicos de visualização térmica por infravermelho, permitindo que seu sistema de seleção de alvos fornecesse uma orientação autônoma para armas de precisão guiadas a laser, como os mísseis ar-ar Stinger e o sistema de mísseis AGM-1148 Hellfire. Um processador digital de sinais de alta velocidade possibilitava o acompanhamento simultâneo de até oito alvos. Poucos inimigos tinham visto um Kiowa de perto e sobrevivido para contar a história.

Delta-Um sentiu uma sensação familiar de poder ao se acomodar no assento do piloto do Kiowa e afivelar os cintos. Ele havia treinado naquele helicóptero e voado com ele em operações secretas três vezes.

Porém, aquela era a primeira vez que iria caçar um figurão americano.

O Kiowa era a aeronave perfeita para aquele trabalho. Sua turbina Rolls-Royce Allison e a dupla hélice de quatro pás semi-rígidas podiam operar no modo “silencioso”, o que impedia os alvos no solo de ouvirem o helicóptero até que estivesse bem em cima deles. Como era capaz de voar no escuro, sem luz alguma, e geralmente era pintado de preto fosco, sem designações em cores vibrantes na cauda, na prática era invisível à noite, a menos que o alvo tivesse um radar.

Helicópteros pretos e silenciosos.

As pessoas que gostavam de “teorias de conspiração” ficavam loucas com aquilo. Alguns diziam que a invasão de helicópteros pretos e silenciosos era uma prova de “tropas de choque da Nova Ordem Mundial”, comandadas pelas Nações Unidas. Outros diziam que os helicópteros eram sondas silenciosas dos alienígenas. Os que já haviam visto Kiowas voando em formação cerrada à noite tinham a ilusão de estar vendo luzes piscando em uma aeronave muito maior — um único disco voador que dava a impressão de se locomover verticalmente.

Estava tudo errado. Mas os militares adoravam o sigilo que isso lhes proporcionava.

Em uma recente missão clandestina, Delta-Um pilotara um Kiowa equipado com uma tecnologia militar americana extremamente secreta: uma engenhosa arma holográfica cujo codinome era S&M. Apesar das associações óbvias com sadomasoquismo, S&M significava smoke and mirrors, fumaça e espelhos — tecnologia que permitia “projetar” imagens holográficas no céu sobre território inimigo. O Kiowa já tinha usado a S&M para projetar hologramas de aeronaves americanas sobre uma instalação antiaérea inimiga. Em pânico, os soldados atiraram violentamente em cima dos fantasmas voadores que circulavam a base.

Quando a munição finalmente acabou, os Estados Unidos lançaram o ataque real.

Acompanhado de seus homens, Delta-Um decolou com o helicóptero. Ele.ainda podia ouvir as palavras do controlador. Vocês têm um novo alvo.

A realidade era bem mais complexa, considerando-se a pessoa em questão. No entanto, Delta-Um sabia que não estava em posição de questionar nada. Sua equipe havia recebido uma ordem que seria executada de acordo com as instruções recebidas, por mais estranho que tudo parecesse.

Espero sinceramente que o controlador tenha total certeza de que este é o melhor procedimento.

Uma vez no ar, o Kiowa seguiu para sudoeste. Delta-Um já tinha visto o Memorial de Roosevelt duas vezes, mas nunca do ar.

 

— Este meteorito foi originalmente descoberto por um geólogo canadense? — Gabrielle Ashe estava olhando, espantada, para Chris Harper. — E o canadense está morto?

Harper concordou, desgostoso.

— Há quanto tempo você sabe disso? — ela perguntou.

— Uma ou duas semanas. Depois que o administrador e Marjorie Tench me forçaram a mentir naquela coletiva, sabiam que eu não poderia voltar atrás. Contaram-me a verdade sobre como o meteorito havia sido encontrado.

O PODS não é responsável pela descoberta do meteorito! Gabrielle não sabia aonde todas aquelas informações iriam levá-la, mas era um escândalo e tanto. Más notícias para Tench. Excelentes notícias para o senador.

— Como eu disse — prosseguiu Harper, mais sombrio agora —, o meteorito foi descoberto por meio de uma transmissão de rádio interceptada. A NASA possui um programa experimental que consiste numa série de receptores de rádio de baixíssima freqüência, próximos ao Pólo Norte, que ouvem os sons da Terra — emissões de ondas de plasma da aurora boreal, pulsos de banda larga emitidos por tempestades elétricas e outros fenômenos do gênero.

— Certo.

— Algumas semanas atrás, um dos receptores de rádio captou, por acaso, uma transmissão vinda da ilha de Ellesmere. Um geólogo canadense estava pedindo ajuda em uma freqüência excepcionalmente baixa. — Harper fez uma pausa. — Na verdade, a freqüência era tão baixa que ninguém poderia tê-la captado, à exceção dos receptores de VLF da NASA. Presumimos que o canadense estivesse transmitindo em ondas longas.

— Como?

— Achamos que estivesse transmitindo na freqüência mais baixa possível para que a mensagem fosse captada a uma grande distância. Ele estava no meio do nada, lembre-se... Uma freqüência de transmissão comum provavelmente não adiantaria muito.

— E o que a mensagem dizia?

— Era curta. Ele disse que estava fazendo sondagens no gelo na plataforma Milne e havia detectado uma anomalia ultradensa enterrada no gelo. Suspeitava que fosse um meteorito gigante e, enquanto fazia novas medições, viu-se preso numa tempestade. Mandou suas coordenadas, pediu socorro por causa da tempestade e desligou. O posto de escuta da NASA enviou um avião da base de Thule para tentar resgatá-lo. Procuraram por ele durante horas e finalmente o encontraram, a várias milhas de sua coordenada original, morto no fundo de um precipício com seu trenó e seus cães. Parece que ele tentou ser mais rápido que a tempestade, desviou-se da rota e caiu no abismo.

Gabrielle pensou sobre tudo aquilo, intrigada.

— Então, do nada, a NASA teve conhecimento de um meteorito sobre o qual ninguém mais sabia.

— Exato. Ironicamente, se meu software tivesse funcionado direito, o satélite PODS teria encontrado esse mesmo meteorito uma semana antes do canadense.

A coincidência fez com que Gabrielle o interrompesse.

— Um meteorito que esteve enterrado durante 300 anos quase foi descoberto duas vezes na mesma semana?

— Eu sei. Soa estranho, mas algumas vezes coisas altamente improváveis acontecem na ciência. A questão é que o administrador acreditava que o meteorito deveria ter sido uma vitória nossa. Seria, se eu tivesse feito minha parte direito. Ele me disse que, como o canadense estava morto, ninguém iria notar se eu simplesmente redirecionasse o PODS para as coordenadas transmitidas no S.O.S. A partir daí, eu poderia simular a descoberta do meteorito e isso nos traria um ponto positivo em cima do que se tornara um fracasso vergonhoso.

— E foi o que você fez.

— Como eu já disse, não tive escolha. Aquela missão fracassou por minha causa. — Ele fez uma pausa. — Hoje à noite, contudo, quando ouvi a coletiva do presidente e soube que o meteorito que eu supostamente havia detectado continha fósseis...

— Você entrou em parafuso.

— Fiquei em estado de choque.

— Você acha que Ekstrom já sabia que o meteorito continha fósseis antes de lhe pedir que simulasse a descoberta por meio do PODS?

— Não vejo como. Aquele meteorito estava enterrado e ainda não fora tocado quando a primeira equipe da NASA chegou lá. Minha teoria é que a NASA não tinha idéia do que havia encontrado até mandar uma equipe para o local, extrair amostras do meteorito e submetê-las a raios X. Pediram-me que mentisse sobre o PODS achando que teriam um pequeno ganho por encontrarem um grande meteorito. Então, ao chegarem lá, descobriram as verdadeiras proporções dessa história.

Gabrielle mal podia respirar de tanta excitação.

— Doutor Harper, o senhor estaria disposto a testemunhar que a NASA e a Casa Branca o forçaram a mentir sobre o software do PODS?

— Não sei — respondeu, amedrontado. — Não posso imaginar os danos que isso irá causar à agência... a essa descoberta.

— Nós dois sabemos que esse meteorito continuará sendo fantástico, não importa como tenha sido encontrado. A questão aqui é que você mentiu para os americanos, para o povo. Eles têm o direito de saber que o PODS não é nada do que a NASA tem afirmado que é.

— Ainda assim, não sei. Eu desprezo o administrador, mas meus colegas... são pessoas boas.

— E merecem saber que estão sendo enganados!

— E a evidência de desvio de verbas que há contra mim?

— Pode apagar isso de sua mente — respondeu Gabrielle, tendo quase se esquecido de sua trama original. — Vou dizer ao senador que você não sabe nada sobre o desvio. É simplesmente uma armação, um “seguro” forjado por Ekstrom para mantê-lo calado a respeito do PODS.

— O senador pode me proteger?

— Completamente. Você não fez nada errado, estava apenas cumprindo ordens. Além disso, com a informação que me deu sobre o geólogo canadense, creio que o senador sequer levantará a questão do desvio de verbas. Podemos focar apenas a forma como a NASA enganou a todos com o PODS e o meteorito. Uma vez que Sexton traga a público as informações sobre o canadense, o administrador não poderá arriscar-se a desacreditá-lo com outras mentiras.

O gerente continuava tenso e preocupado. Ficou em silêncio, com a expressão fechada, enquanto avaliava suas opções. Gabrielle deixou-o pensar por alguns instantes. Ela percebera, um pouco antes, que havia uma outra coincidência bastante perturbadora nessa história. Não pretendia mencioná-la, mas estava vendo que Harper precisava de um último empurrãozinho.

— Você tem cães, doutor?

Ele levantou o rosto e olhou para ela.

— O quê?

— Achei isso estranho. Você me disse que, pouco após o geólogo canadense ter transmitido as coordenadas do meteorito, os cães de seu trenó se atiraram cegamente em um precipício?

— Estavam em meio a uma tempestade e bem fora da rota.

Gabrielle deu de ombros, deixando seu ceticismo transparecer.

— Sei... certo.

Harper sentiu claramente o peso daquela hesitação.

— O que você está insinuando?

— Não sei, mas há muitas coincidências em torno dessa descoberta. Um geólogo canadense transmitindo coordenadas em uma freqüência que somente a NASA pode ouvir. Depois os cães que puxam seu trenó se atiram cegamente em um penhasco... — Ela fez uma pausa. — Você compreende que foi a morte desse geólogo que abriu caminho para todo esse triunfo da NASA, não?

Ele ficou branco como papel.

— Você acha que o administrador chegaria a matar por causa desse meteorito?

Jogos de poder e grandes somas envolvidas, pensou Gabrielle.

— Deixe-me falar com o senador e entraremos em contato. Há uma saída discreta daqui?

Gabrielle Ashe deixou um pálido Chris Harper no corredor e desceu por uma escada de emergência que dava em um beco deserto atrás da NASA.

Sem chamar muita atenção, fez sinal para um táxi que tinha acabado de trazer mais gente para a comemoração na agência espacial.

— Westbrooke Place Luxury Apartments — disse ela para o motorista. Em poucos minutos ela tornaria o senador Sexton um homem muito feliz.

 

De pé, perto da entrada da cabine de comando do G-4, Rachel pensava nas implicações do que estava prestes a fazer. O cabo do radiotransmissor estava esticado ao máximo para que ela pudesse fazer a chamada sem que o piloto a ouvisse. Corky e Tolland observavam.

Apesar de Rachel e o diretor do NRO terem planejado não se comunicar até que ela chegasse à base de Bollings, próxima a Washington, a agente tinha agora novas informações que Pickering com certeza gostaria de ouvir imediatamente. Rachel ligou para o celular que o diretor sempre usava e que possuía uma linha segura. Quando ele atendeu, sua voz estava bem séria.

— Fale com cuidado, por favor. Não posso garantir a segurança desta conexão.

Rachel entendeu.

O celular de Pickering, como a maioria dos telefones do NRO para uso externo, tinha um indicador para chamadas transmitidas em linhas abertas. Como Rachel estava em um radiofone, uma das formas de comunicação menos seguras, o telefone o havia alertado. Aquela conversa precisaria ser vaga. Sem nomes, sem locais.

— Minha voz é minha identidade — disse Rachel, usando o procedimento padrão dos agentes de campo neste tipo de situação. Havia esperado que o diretor ficasse zangado por ela ter decidido contatá-lo, mas a reação de Pickering pareceu positiva.

— Sim. Eu mesmo estava pensando em tentar falar com você. Precisamos redirecionar. Estou preocupado que você tenha um comitê de recepção.

Rachel estremeceu. Alguém está nos vigiando. Podia ouvir o tom de emergência na voz do diretor. Redirecionar. Então Pickering iria gostar de saber que era justamente esse o plano dela, apesar das razões serem totalmente diferentes.

— A questão da autenticidade — disse Rachel. — Nós a discutimos. Creio que encontramos uma forma de confirmar ou negar categoricamente.

— Excelente. A situação evoluiu e, com isso, terei uma base para prosseguir.

— Esta prova envolve uma parada adicional em nosso caminho. Um de nós tem acesso a um laboratório...

— Sem localizações exatas, por favor. Para sua segurança.

Rachel não tinha a menor intenção de transmitir seus planos naquela linha.

— É possível obter uma permissão de pouso em GAS-AC?

Pickering ficou em silêncio por um segundo. Rachel sentiu que ele estava tentando processar a palavra. GAS-AC era uma sigla interna obscura do NRO para designar a Estação Aérea do Grupamento da Guarda Costeira de Atlantic City. Ela esperava que o diretor se lembrasse disso.

— Sim — respondeu ele finalmente. — Pode ser providenciado. É seu destino final?

— Não. Precisaremos de transporte adicional em helicóptero.

— Uma aeronave estará à sua espera.

— Obrigada.

— Recomendo que tenham enorme cuidado até obtermos novas informações. Não fale com ninguém. Suas suspeitas geraram profunda preocupação em pessoas poderosas.

Tench, pensou Rachel, lamentando não ter conseguido falar diretamente com o presidente.

— Estou exatamente agora no meu carro, indo para um encontro com a pessoa em questão. Ela pediu uma reunião privada em local neutro. Deve ser reveladora.

Pickering está indo para algum lugar encontrar-se com Marjorie Tench?

Seja lá o que ela tenha a dizer, deve ser bem importante, já que se recusou a lhe contar por telefone.

Ele prosseguiu:

— Não dê suas coordenadas finais para ninguém. E não nos comunicaremos mais por rádio. Está claro?

— Sim, senhor. Chegaremos a GAS-AC dentro de uma hora.

— O transporte estará lá. Quando chegar a seu destino final, você pode me contatar por um canal mais seguro. — Fez uma pausa. — Devo enfatizar ao máximo a importância do segredo para sua segurança. Você fez inimigos poderosos esta noite. Tome as precauções necessárias — disse Pickering, desligando em seguida.

Rachel estava tensa ao final da ligação. Virou-se para Tolland e Corky.

— Novos rumos? — perguntou Tolland, parecendo ávido por uma resposta.

Rachel assentiu, relutante.

— O Goya.

Corky suspirou, olhando para a amostra de meteorito em sua mão.

— Ainda não consigo imaginar que a NASA possa ter... — sua voz se transformou em um murmúrio indistinto. Ele parecia mais preocupado à medida que o tempo passava.

Saberemos em breve, pensou Rachel.

Ela foi até à cabine e devolveu o fone ao piloto. Olhando para a planície de nuvens iluminadas pelo luar abaixo deles, teve a incômoda sensação de que não iriam gostar do que descobririam a bordo do navio de Tolland.

 

William Pickering estava seguindo de carro pela Leesburg Highway.

Sentia-se estranhamente solitário. Eram quase duas da manhã e a estrada estava vazia. Há anos ele não dirigia tão tarde.

A voz de Marjorie Tench parecia um ruído agudo e desagradável se repetindo em sua cabeça: Encontre-me no Memorial de Roosevelt.

Pickering lembrou-se de quando havia encontrado Marjorie pessoalmente pela última vez. A experiência nunca era muito agradável. Tinha sido há dois meses. Na Casa Branca. Tench estava sentada bem na sua frente, numa longa mesa. Também estavam presentes membros do Conselho de Segurança Nacional, do Estado-Maior, da CIA, o presidente Herney e o administrador da NASA.

— Prezados — disse o diretor da CIA, olhando diretamente para Marjorie. — Mais uma vez estou aqui, perante todos, pedindo que esta administração tome uma atitude quanto à contínua crise de segurança na NASA.

Aquela solicitação não era novidade para as pessoas reunidas naquela sala. Os problemas de segurança na agência espacial haviam se tornado uma questão permanente para a comunidade de inteligência.

Dois dias antes, mais de 300 fotos de alta resolução de um dos satélites de observação da Terra de propriedade da NASA tinham sido roubadas por hackers que invadiram um banco de dados da agência espacial. As fotos revelavam a localização de uma base militar secreta que os americanos usavam para treinamento na África do Norte.

Colocadas à venda no mercado negro, foram compradas por agências de inteligência de países hostis do Oriente Médio.

— Apesar de suas boas intenções — prosseguiu o diretor da CIA, deixando transparecer uma certa contrariedade em sua voz —, a NASA continua sendo uma ameaça à segurança nacional. Colocando as coisas de forma simples, nossa agência espacial não está equipada adequadamente para proteger os dados e as tecnologias que desenvolve.

— Eu compreendo — respondeu o presidente — que aconteceram algumas imprudências. Vazamentos que nos afetaram negativamente. Isso me perturba bastante, é claro. — Fez um gesto para o outro lado da mesa, na direção da fisionomia austera do administrador da NASA, Lawrence Ekstrom. — Estamos mais uma vez buscando formas de melhorar a segurança da NASA.

— Com o devido respeito — disse o diretor da CIA —, sejam quais forem as mudanças de segurança que a NASA implementar, elas não serão eficazes enquanto as operações da agência espacial permanecerem fora do abrigo da comunidade de inteligência dos Estados Unidos.

Aquela declaração causou uma movimentação incômoda nos presentes.

Todos sabiam onde a discussão iria parar.

— Como sabemos — continuou, num tom mais duro —, todas as entidades participantes do governo norte-americano que lidam com informações sensíveis de inteligência seguem regras estritas de segurança: os militares, a CIA, a NSA, o NRO — todos precisam obedecer a leis rígidas no que diz respeito à segurança dos dados que recolhem e às tecnologias que desenvolvem. Então eu lhes pergunto mais uma vez: por que a NASA — a agência que atualmente produz a maioria das tecnologias de ponta aeroespaciais, de imagem, de vôo, de programação, reconhecimento e telecomunicações —, por que ela pode continuar/ora desta cobertura de proteção e segredo?

O presidente soltou um longo e impaciente suspiro. A proposta era clara. Reestruturar a NASA de forma a torná-la parte da comunidade de inteligência militar dos EUA. Apesar de reestruturações similares já terem ocorrido com outras agências, Herney se recusava a sequer pensar em colocar a NASA sob as diretrizes do Pentágono, da CIA, do NRO ou de qualquer outra agência ligada ao setor militar. O Conselho de Segurança Nacional estava começando a se dividir nitidamente em relação à questão, sendo que muitos concordavam com a comunidade de inteligência.

Lawrence Ekstrom não gostava nem um pouco daquelas reuniões. Cravou um olhar duro no diretor da CIA e disse:

— Correndo o risco de repetir minhas próprias palavras, senhor, as tecnologias que a NASA desenvolve são para aplicações acadêmicas e não-militares. Se a sua comunidade de inteligência quer virar ao contrário um de nossos telescópios espaciais para observar a China, é problema seu.

O diretor da CIA estava prestes a explodir. Pickering sentiu a tensão no ar e resolveu intervir:

— Larry — dirigiu-se a Ekstrom, tomando cuidado para parecer impassível —, a cada ano a NASA se ajoelha perante o Congresso para pedir mais dinheiro. Vocês estão operando com pouco financiamento e acabam pagando um alto preço a cada missão que falha. Se pudermos incorporar a NASA à comunidade de inteligência, não será mais preciso pedir ajuda financeira ao Congresso. Vocês seriam financiados pelas verbas militares, num patamar significativamente maior. Não há perdas nessa escolha. A NASA teria o dinheiro necessário para gerenciar seus projetos da forma adequada e a comunidade de inteligência ficaria tranqüila, sabendo que as tecnologias da agência estariam protegidas.

Ekstrom balançou a cabeça.

— Por uma questão de princípios, não posso aprovar que a NASA receba patentes militares. Lidamos com a ciência do espaço. Questões de segurança nacional não nos dizem respeito.

O diretor da CIA se levantou, algo que o protocolo proíbe fazer quando o presidente está sentado. Ninguém o impediu. Ele olhou o administrador da NASA de cima a baixo.

— Você está dizendo que ciência não tem nada a ver com a segurança nacional? Larry, os dois são a mesma coisa! É a liderança científica e tecnológica deste país que nos mantém seguros e, querendo ou não, o papel da NASA tem sido cada vez maior no desenvolvimento dessas tecnologias. Infelizmente, sua agência deixa as coisas vazarem como se fosse uma peneira e tem nos mostrado, sucessivamente, que seus sistemas de segurança são um risco para a nação!

A sala ficou em silêncio.

Então foi a vez do administrador da NASA se levantar e encarar seu adversário.

— E qual é a sua sugestão? Trancar 20 mil cientistas da NASA em laboratórios dentro de bases militares e colocá-los para trabalhar para vocês? Realmente acha que os novos telescópios espaciais da NASA teriam sido concebidos se não fosse pelo desejo pessoal de nossos cientistas de ver cada vez mais longe no espaço? A NASA obtém progressos impressionantes por uma única razão: nossa equipe deseja entender o cosmo mais a fundo. São sonhadores que cresceram olhando para um céu de estrelas e imaginando o que mais havia lá. Paixão e curiosidade são o que impulsiona as inovações da NASA, não a premissa de superioridade militar.

Pickering limpou a garganta e falou de forma suave, tentando acalmar os ânimos na mesa:

— Larry, tenho certeza de que a CIA não está querendo recrutar os cientistas da NASA para projetar satélites militares. A missão da NASA permaneceria a mesma. A agência continuaria funcionando como agora, mas vocês teriam mais dinheiro e segurança. — O diretor do NRO olhou para o presidente. — Segurança custa caro. Todos nesta sala sabem que as falhas da NASA são o resultado da insuficiência de fundos. Na situação atual, a agência precisa economizar, precisa cortar custos nas medidas de segurança e ainda criar projetos em conjunto com outros países para dividir as despesas. Estou propondo que a NASA permaneça essa entidade admirável, científica e não-militar que é, só que com mais verbas e mais discrição.

Diversos membros do Conselho de Segurança balançaram a cabeça, concordando silenciosamente.

O presidente Herney levantou-se devagar, olhando diretamente para

William Pickering, claramente irritado pela maneira como ele havia tomado as rédeas da discussão.

— Bill, quero lhe fazer uma pergunta. A NASA deseja chegar a Marte na próxima década. Como a comunidade de inteligência se sentiria em relação a gastar uma boa parcela dos fundos militares para financiar uma missão a Marte? Uma missão que não possui nenhum benefício imediato para a segurança nacional?

— A NASA poderia fazer aquilo que desejasse.

— Pura babaquice — respondeu Herney, sem se alterar.

Todos se voltaram para ele. O presidente Herney raramente dizia palavrões.

— Se há uma coisa que aprendi durante este mandato é que o controle das coisas está nas mãos de quem controla o dinheiro. Eu me recuso a colocar as verbas da NASA sob o domínio de pessoas que não compartilham os objetivos que são a base da fundação da agência. Posso imaginar muito bem quanta ciência pura restaria se os militares pudessem decidir quais missões da NASA são viáveis.

Os olhos de Herney percorreram a mesa. Lentamente, incisivamente, retornaram a William Pickering.

— Bill, seu descontentamento com a participação da NASA em projetos conjuntos com agências espaciais estrangeiras é uma visão muito limitada. Ao menos alguém aqui está trabalhando de forma construtiva com os chineses e os russos. A paz neste planeta não será construída por meio da força militar. Será forjada por aqueles que conseguirem se unir apesar das divergências de seus governos. Penso que as missões conjuntas da NASA vão mais longe no sentido de promover a segurança nacional do que qualquer satélite-espião de bilhões de dólares, e certamente elas trazem a esperança de um futuro muito melhor.

Pickering sentiu uma raiva enorme crescendo dentro de si. Como um político ousa falar comigo com esse desdém? O idealismo de Herney talvez soasse bem numa sala de conferências, mas, no mundo real, fazia com que pessoas morressem.

— Bill — interrompeu Marjorie, sentindo que Pickering estava prestes a explodir —, sabemos que você perdeu uma filha. Sabemos que essa é uma questão pessoal para você.

Pickering não ouviu nada além de condescendência na voz dela.

— Lembre-se, porém, que a Casa Branca está mantendo fechada a comporta para uma horda de investidores que desejam ver o espaço aberto ao setor privado. Na minha opinião, mesmo com todos os erros, a NASA tem sido uma grande aliada da comunidade de inteligência. Talvez vocês todos devam repensar o assunto.

 

Um sinalizador sonoro na estrada trouxe Pickering de volta ao presente. A via de acesso que teria que pegar estava se aproximando.

Pouco antes dela, passou por um cervo morto e sangrando ao lado da estrada. Sentiu uma hesitação estranha, mas continuou dirigindo.

Ele tinha um encontro marcado.

 

O Memorial de Franklín Delano Roosevelt é um dos maiores dos Estados Unidos. Situado num parque com quedas-d’água, estátuas e um lago, o memorial se divide em quatro galerias externas, uma para cada período em que Roosevelt ocupou a presidência, cobrindo 12 anos da história do país.

A 1.500 metros do memorial, um Kiowa Warrior atravessava silenciosamente o ar, bem lá no alto, com as luzes de navegação reduzidas. Numa cidade como Washington, que tinha tantos VIPs e equipes de imprensa, helicópteros no céu eram tão comuns quanto pássaros. Delta-Um sabia que, enquanto ficasse bem longe do que era chamado de “domo” — uma bolha de espaço aéreo protegido em torno da Casa Branca —, não iria chamar muita atenção. Sua equipe não ficaria ali muito tempo.

O Kiowa estava a 500 metros de altitude quando reduziu sua velocidade para se aproximar do memorial, apagado àquela hora. Delta-Um sobrevoou vagarosamente o local, verificando sua posição. Olhou para Delta-Dois, à sua esquerda, que manejava o sistema telescópico de visão noturna. A câmera de vídeo mostrava uma imagem esverdeada da estrada que levava ao memorial. A área estava deserta.

Agora iriam esperar.

Aquele não seria um assassinato silencioso. Havia algumas pessoas que não se podia matar de maneira discreta. Independentemente do método, haveria repercussões, investigações, inquéritos. Nesses casos, a melhor dissimulação era fazer muito barulho. Explosões, fogo e fumaça davam a impressão de que alguém tinha a intenção de deixar um recado, e a primeira suspeita recairia sempre sobre terroristas estrangeiros.

Especialmente quando o alvo era um funcionário do alto escalão.

Delta-Um examinou a transmissão do visor noturno, que mostrava a área cheia de árvores abaixo deles. Tanto o estacionamento quanto a estrada estavam vazios. Em breve, pensou. Apesar do encontro ter sido marcado em uma área urbana, ficava num local convenientemente deserto àquela hora. Delta-Um desviou os olhos do monitor e concentrou-se nos controles de armas.

O sistema Hellfire fora a arma escolhida para aquela noite. O Hellfire é um míssil guiado a laser, capaz de perfurar blindagens e também de encontrar um alvo previamente indicado. O projétil pode perseguir alvos designados por um laser operado por um observador no solo, por outras aeronaves ou pela própria aeronave que efetuou o disparo.

Naquela noite, o míssil seria guiado de forma autônoma por meio de um indicador a laser num visor acoplado à parte superior do rotor do Kiowa. Depois que o alvo fosse “pintado” com um feixe de laser, o míssil Hellfire encontraria seu caminho por conta própria. Como o Hellfire podia ser disparado tanto do solo quanto do ar, seu emprego ali, naquela noite, não iria revelar que uma aeronave estivesse envolvida. Além disso, era uma munição bem difundida entre os vendedores de armas do mercado negro, o que reforçaria a hipótese de um ataque terrorista.

— Sedan — disse Delta-Dois.

Delta-Um olhou para a tela. Um sedan preto de luxo, sem marca aparente, estava se aproximando pela estrada exatamente na hora. Era um carro típico de uma agência governamental. Ao entrar no memorial, o farol foi apagado e o carro circulou algumas vezes antes de parar perto de algumas árvores. Delta-Um ficou observando a tela, enquanto seu parceiro focava o sistema telescópico de visão noturna na janela do veículo. Em pouco tempo tinham uma imagem clara do rosto da pessoa.

Delta-Um respirou fundo.

— Alvo confirmado — disse seu parceiro.

Delta-Um olhou para a tela novamente, com sua mortífera cruz indicadora do alvo, sentindo-se como um franco-atirador mirando em um membro da realeza.

Alvo confirmado.

Delta-Dois virou-se para o lado esquerdo do compartimento de eletrônica embarcada e ativou o feixe a laser. Quinhentos metros abaixo deles, um pequeno ponto de luz apareceu no teto do sedan, invisível para seu ocupante.

— Alvo marcado — disse.

Delta-Um disparou.

Ouviram um chiado agudo debaixo da fuselagem, seguido por um rastro de luz deixado pelo míssil partindo em direção ao solo.

Um segundo depois, o carro parado no estacionamento explodiu em chamas. Pedaços de metal se espalharam para todos os lados. Pneus pegando fogo rolaram pelo bosque.

— Alvo eliminado — disse Delta-Um, já acelerando o helicóptero para fora da área. — Chame o controlador.

A cerca de três quilômetros dali, o presidente Zach Herney estava se preparando para dormir. As janelas blindadas Lexan da “residência” tinham 2,5 centímetros de espessura. Herney nem chegou a ouvir a explosão.

 

A estação aérea do Grupamento da Guarda Costeira de Atlantic City está situada em uma zona de segurança no Aeroporto Internacional de Atlantic City. A área de atuação do grupamento abrange a costa do Atlântico, de Asbury Park até o cabo May.

Rachel Sexton despertou com os solavancos do avião aterrissando na pista deserta entre dois enormes galpões de carga. Ficou surpresa ao descobrir que havia dormido. Olhou o relógio, sonolenta. 2h13 da manhã. Achou que tinha dormido vários dias.

Estava agradavelmente aquecida por um cobertor do avião que havia sido colocado com cuidado em volta dela. Ao seu lado, Michael Tolland também estava acordando. Ele lhe deu um sorriso cansado.

Corky vinha caminhando ao longo do corredor e fez uma cara engraçada ao ver os dois.

— Ah, droga, vocês ainda estão aqui? Acordei agora há pouco torcendo para que tivesse sido só um pesadelo.

Rachel sabia como ele se sentia. Vou ter que voltar ao mar.

O avião taxiou na pista até parar. Os três desceram em meio ao nada. A noite estava encoberta, mas o ar da costa era denso e quente. Em comparação com Ellesmere, Nova Jersey se parecia com os trópicos.

— Aqui! — ouviram alguém gritar.

Rachel e os outros se viraram. Um dos tradicionais helicópteros vermelhos HH-65 Dolphin da Guarda Costeira estava parado ali perto e um piloto uniformizado acenava para eles, enquadrado pela brilhante listra branca da cauda do helicóptero.

Tolland fez um gesto com a cabeça, olhando para Rachel:

— Seu chefe não brinca em serviço!

Você não tem idéia, ela pensou.

Corky ficou se lamentando.

— De saída, já? Não tem pausa para o jantar?

O piloto lhes deu as boas-vindas e ajudou-os a subir no helicóptero.

Sem perguntar quem eram, fez apenas algumas brincadeiras e falou sobre precauções de segurança. Pickering certamente deixou claro para a Guarda Costeira que a natureza daquele vôo não era de conhecimento público. Ainda assim, apesar da discrição do diretor do NRO, Rachel logo percebeu que suas identidades não permaneceriam secretas durante muito tempo: o piloto não conseguiu esconder sua surpresa ao ver uma celebridade da TV entrando na aeronave.

Sentada ao lado de Tolland, Rachel já estava se sentindo tensa ao colocar o cinto de segurança. O motor da Aérospatiale soltou um gemido e as enormes hélices do Dolphin começaram a girar, logo se transformando num borrão prateado. O gemido inicial tornou-se um ronco e o helicóptero decolou na noite.

O piloto virou-se e perguntou:

— Fui informado que vocês me diriam o destino quando estivéssemos em vôo.

Tolland lhe deu as coordenadas de um local ao largo da costa, cerca de 50 quilômetros a sudoeste de onde estavam.

O navio dele está a 20 quilômetros do litoral!, pensou Rachel, sentindo um arrepio.

O piloto programou as coordenadas em seu sistema de navegação, ajeitou-se na cadeira e acelerou. O helicóptero inclinou-se ligeiramente para a frente e partiu em direção ao navio.

Quando as dunas escurecidas da costa de Nova Jersey começaram a ficar para trás, Rachel desviou os olhos do oceano negro que se estendia abaixo deles. Apesar do medo, ela tentou reconfortar-se, sabendo que estava em companhia de um homem para quem o oceano era um amigo de toda a vida. Tolland estava apertado ao lado dela na fuselagem.estreita. Seus corpos estavam colados, mas nenhum dos dois parecia desconfortável com a situação.

— Sei que não deveria dizer isso — o piloto disparou, do nada, vibrando de felicidade —, mas você obviamente é Michael Tolland e, puxa, eu preciso lhe contar... Todos nós ficamos vendo televisão a noite inteira! O meteorito! É absolutamente fantástico! Você deve estar... não sei, em êxtase!

Tolland assentiu, pacientemente:

— Nem tenho palavras.

— Rapaz, o documentário foi fantástico! Sabe, a TV está reprisando constantemente. Nenhum dos pilotos que está de serviço hoje quis pegar este vôo porque todos queriam ficar lá, vendo TV. Eu perdi nos palitinhos. Você acredita nisso? Perdi nos palitinhos e aqui estou eu! Puxa, se os rapazes soubessem que iriam levar o verdadeiro...

— Nós lhe agradecemos pelo vôo — cortou Rachel —, mas precisamos que mantenha nossa presença aqui em sigilo. Ninguém deve saber que estamos aqui.

— Sim, naturalmente, senhora. As ordens foram claras. — O piloto hesitou um pouco, depois voltou a sorrir. — Ei, por acaso estamos indo para o Goya?

Michael concordou, relutante.

— Sim, estamos.

— Caramba! — exclamou o piloto. — Ah, perdão, mas é que eu vi o barco no seu programa tantas vezes... Ele tem casco duplo, não é? É bem estranho! Na verdade, eu nunca estive em um barco do tipo SWATH. E jamais pensei que o primeiro fosse ser justo o seu!

Rachel se desligou da conversa do piloto, sentindo-se cada vez mais nervosa por estar em meio ao oceano. Tolland virou-se para ela.

— Está tudo bem? Você poderia ter ficado em terra. Eu lhe disse que não havia problema.

Eu deveria ter ficado em terra, pensou Rachel, sabendo muito bem que seu orgulho jamais permitiria aquele tipo de comportamento.

— Não, obrigada. Estou bem.

Tolland sorriu.

— Fique tranqüila, vou ficar de olho em você.

— Obrigada — respondeu ela, surpresa ao perceber como o tom carinhoso da voz dele a acalmava.

— Você já viu o Goya na televisão, certo? Ela fez que sim.

— É um barco... ah... hum... Ele tem um visual interessante, não?

Ele riu.

— Tem sim. Era um protótipo extremamente radical quando foi construído, mas nunca “pegou” de fato.

— Não posso imaginar por quê — disse ela, irônica, lembrando-se do design bizarro do navio.

— A NBC está querendo que eu o troque por um navio mais novo. Algo... não sei bem, mais impressionante, mais sexy. Acho que dentro de uma ou duas temporadas eles vão acabar me forçando a trocar de barco. — Tolland falou, meio tristonho.

— E você não gostaria de um navio novinho em folha?

— Não sei... O Goya me traz muitas lembranças.

Rachel sorriu carinhosamente.

— Minha mãe costumava dizer que, mais cedo ou mais tarde, todos temos que deixar nosso passado para trás.

Os olhos de Tolland se fixaram nos dela por alguns instantes.

— Sim, eu sei.

 

— Que droga! — disse o motorista de táxi, virando-se e olhando para Gabrielle. — Parece que houve um acidente lá na frente. Vai demorar um bocado para conseguirmos sair daqui.

Gabrielle olhou pela janela e viu as luzes de emergência de ambulâncias e carros de bombeiro cortando a noite. Diversos policiais estavam posicionados um pouco à frente, bloqueando o tráfego.

— Deve ter sido um grande acidente — disse o motorista, apontando para as chamas que subiam perto do Memorial de Roosevelt.

Gabrielle fez uma cara desanimada ao olhar para o local. Mas logo agora! Ela tinha que chegar até o senador Sexton para lhe contar as novidades sobre o PODS e o geólogo canadense. Ficou calculando se as mentiras inventadas pela NASA gerariam um escândalo grande o suficiente para dar novo fôlego à combalida campanha do senador.

Talvez não, se fosse outro político, pensou, mas aquele era Sedgewick Sexton, um homem que havia construído toda a sua campanha ampliando a dimensão dos erros dos outros.

Algumas vezes Gabrielle tinha um pouco de vergonha da habilidade do senador em explorar qualquer erro político de seus oponentes. Contudo, era sempre eficaz. Como tinha total domínio da arte de fazer insinuações maliciosas e sabia usar a indignação de maneira astuciosa,

Sexton poderia tornar a mentira interna da NASA numa enorme questão de caráter que contaminaria toda a agência espacial — e, por associação, o presidente.

Do lado de fora da janela, as chamas no Memorial de Roosevelt pareciam ter aumentado. Algumas árvores próximas tinham se incendiado e os bombeiros agora jogavam água sobre elas. O motorista ligou o rádio do táxi e começou a passar pelas estações, procurando notícias.

Com um suspiro, Gabrielle fechou os olhos, sentindo-se profundamente exausta. Quando chegara a Washington, seu sonho era fazer uma carreira no meio político e, quem sabe, um dia trabalhar na Casa Branca. No entanto, ela estava decepcionada com a política. Não estava disposta a ter aquele tipo de vida para sempre. Naquele dia, já tinha passado pelo duelo com Tench, visto as fotos perversas dela com o senador e, finalmente, ouvido as mentiras da NASA...

Um repórter no rádio falou algo a respeito de uma bomba num carro, uma ação possivelmente associada a terroristas.

Tenho que sair desta cidade, pensou Gabrielle pela primeira vez desde que havia chegado lá.

 

Era raro o controlador se sentir cansado, mas aquele dia tinha sido pesado. Nada havia saído de acordo com o planejado — a trágica descoberta do poço de inserção sob o gelo, as dificuldades de manter essa informação em segredo e, agora, a crescente lista de vítimas.

Ninguém deveria ter sido morto... exceto o canadense.

Parecia irônico que a parte tecnicamente mais complexa do plano tivesse sido a menos problemática. A inserção, feita meses atrás, havia decorrido sem um único problema. Uma vez que a “anomalia” fora colocada no lugar, bastava esperar que o satélite PODS fosse lançado.

O PODS deveria varrer enormes seções do Círculo Ártico e, mais cedo ou mais tarde, seu software de detecção de anomalias encontraria o meteorito, presenteando a NASA com uma grande descoberta.

Tudo corria às mil maravilhas até que... o maldito software não funcionou.

Quando o controlador descobriu que o software falhara e que não teria a menor chance de ser consertado antes das eleições, todo o plano ficou ameaçado. Sem o PODS, o meteorito não seria detectado. O controlador teve que pensar em alguma forma de alertar alguém na NASA sobre o meteorito, de forma dissimulada. A solução acabou sendo forjar a transmissão de uma mensagem de emergência por rádio feita por um geólogo que estava relativamente perto do ponto de inserção. O geólogo, por motivos óbvios, tinha que ser eliminado logo depois, e sua morte precisava parecer acidental. Atirar um geólogo inocente do alto de um helicóptero havia sido apenas o início. Agora as coisas estavam se desencadeando rápido demais.

Wailee Ming. Norah Mangor. Ambos mortos.

Aquele assassinato ousado no Memorial de Roosevelt.

Em breve, Rachel Sexton, Michael Tolland e Corky Marlinson seriam acrescentados à lista.

Não há nenhuma outra forma, pensou o controlador. Há muitos interesses em jogo.

 

O Dolphin da Guarda Costeira ainda estava a três quilômetros das coordenadas do Goya, voando a três mil pés, quando Tolland gritou para o piloto:

— Este helicóptero tem sistema NightSight?

— Claro, é uma unidade de resgate — respondeu o piloto.

Era o que Tolland havia imaginado. Desenvolvido pela Raytheon, o NightSight é um sistema de visualização térmica do mar capaz de localizar sobreviventes de um naufrágio no escuro. O calor que se desprende da cabeça de uma pessoa na água aparece como um ponto vermelho contra o fundo preto do oceano.

— Ligue-o — pediu Tolland.

O piloto não entendeu bem o que ele queria.

— Por quê? Estamos tentando localizar alguém?

— Não, mas há algo que gostaria que vocês vissem.

— Não vamos conseguir enxergar nada no visor térmico a esta altitude, a menos que haja uma mancha de óleo pegando fogo.

— Por favor, ligue-o — insistiu Tolland.

O piloto olhou desconfiado para o apresentador e depois ajustou alguns controles, orientando o captador térmico na parte de baixo do helicóptero para varrer uma faixa do oceano cinco quilômetros à frente deles. Uma tela de LCD se iluminou no painel exibindo uma imagem incrível.

— Mas que diabos! — O helicóptero balançou ligeiramente por conta da surpresa do piloto, que se recuperou logo em seguida e continuou olhando para a tela.

Rachel e Corky inclinaram-se para a frente, igualmente surpresos com o que estavam vendo.

O fundo negro do oceano estava iluminado por uma enorme espiral em movimento de uma cor vermelha pulsante.

Rachel virou-se para Tolland, preocupada.

— Parece um ciclone.

— De fato é — respondeu Tolland. — Um ciclone de correntes quentes.

Tem cerca de uma milha de diâmetro.

O piloto deu uma risadinha, espantado.

— Este é um dos grandes. Já vi alguns outros por aí, mas ainda não tinha ouvido falar deste em particular.

— Veio à tona semana passada e provavelmente não vai durar mais do que alguns dias — explicou o oceanógrafo.

— Qual é a causa? — perguntou Rachel, perplexa com o enorme vórtice de água em movimento no meio do oceano.

— Uma bolha de magma no oceano — respondeu o piloto.

Rachel virou-se para Tolland, nervosa.

— Um vulcão?

— Não. Em geral não há vulcões ativos na costa leste, mas ocasionalmente aparecem alguns bolsões de magma que se abrem no fundo do oceano, fazendo com que a temperatura se eleve em determinados locais. Esses pontos quentes criam um gradiente reverso de temperatura, ou seja, a água fica quente no fundo e fria na superfície. O resultado são essas gigantescas correntes em espiral. São chamadas de megaplumas. Elas giram durante algumas semanas e depois se dissipam.

O piloto olhou para a espiral que pulsava em sua tela.

— Parece que esta corrente está em plena atividade. — Fez uma pausa, consultou as coordenadas do navio de Tolland e olhou para ele, surpreso. — Senhor Tolland, parece que seu barco está estacionado perto do meio dela.

Ele assentiu.

— As correntes são mais fracas perto do olho do ciclone. Dezoito nós. É como estar ancorado num rio de correntezas rápidas. Nossa âncora trabalhou bastante esta semana.

— Nossa! — disse o piloto. — Correntes de 18 nós? Melhor ninguém cair na água! — disse ele, rindo.

Rachel não estava achando a menor graça.

— Mike, você não me falou de megaplumas, bolhas de magma e toda essa história de correntes quentes.

Ele colocou a mão sobre o joelho dela, com um gesto tranqüilizador.

— É completamente seguro, pode confiar em mim.

Rachel franziu a testa.

— Então o documentário que você estava fazendo por aqui era sobre esse fenômeno da bolha de magma?

— Megaplumas e Sphyrna mokarran.

— Claro. Você falou disso mais cedo... Como pude me esquecer?

Tolland deu um sorriso envergonhado.

— Os Sphyrna mokarran amam a água quente e, neste momento, todos os indivíduos dessa espécie que se encontram num raio de 100 milhas à nossa volta estão se reunindo neste círculo quente de uma milha no oceano.

— Ótimo — Rachel disse, sacudindo a cabeça com um certo desespero. — Mas, se não for pedir muito, você poderia me dizer o que é um Sphyrna mokarran?

— Um dos peixes mais feios do mar.

— Linguado?

Tolland riu.

— Não. Grandes tubarões-martelo.

Rachel ficou dura da cabeça aos pés.

— Há tubarões-martelo em volta de seu navio?

— Relaxe, não são perigosos — disse Tolland, com uma piscadela.

— Você não estaria me dizendo isso se eles não fossem perigosos.

Tolland deu uma risada gostosa.

— Acho que você está certa. — Chamou o piloto num tom brincalhão e perguntou: — Ei, qual foi a última vez que vocês salvaram alguém de um ataque de tubarão-martelo?

O piloto deu de ombros.

— Puxa. Acho que faz décadas que não salvamos ninguém de um tubarão martelo.

— Viu? Décadas! Não há com o que se preocupar — disse Tolland para Rachel.

— No mês passado, por exemplo — acrescentou o piloto —, tivemos um ataque porque um mergulhador estava...

— Ei, espere aí! — disse Rachel. — Você acabou de dizer que não salva ninguém há décadas!

— Isso mesmo — respondeu o piloto —, eu disse que não salvamos ninguém. Sempre chegamos tarde demais. Aqueles safados matam muito rápido.

 

Do helicóptero já era possível ver a silhueta do Goya crescendo no horizonte. A cerca de um quilômetro, Tolland podia distinguir as fortes luzes do convés que Xavia havia sabiamente deixado acesas.

Sentiu-se como um viajante cansado chegando em casa.

— Eu achei que você tinha dito que só havia uma pessoa a bordo — disse

Rachel, surpresa ao ver tantas luzes.

— Você não acende a luz quando está sozinha em casa?

— Só uma, não a casa inteira.

Tolland sorriu. Apesar de Rachel tentar parecer despreocupada, ele podia sentir que ela estava extremamente apreensiva. Michael queria abraçá-la e reconfortá-la, mas sabia que não havia nada que pudesse dizer para ajudar. — As luzes ficam acesas por segurança. Elas fazem com que o barco pareça estar em plena atividade.

— Com medo de piratas, Mike? — perguntou Corky, rindo.

— Não, o maior perigo, na verdade, são os idiotas que não sabem interpretar o que vêem no radar. A melhor defesa contra uma colisão é fazer com que todos possam avistar seu barco.

Corky apertou os olhos para enxergar melhor o barco.

— Ver o barco? Aquilo lá parece uma festa de réveillon num cruzeiro. Obviamente a NBC tem pago sua conta de eletricidade.

O helicóptero da Guarda Costeira reduziu a velocidade e voou em torno da embarcação, manobrando em direção ao heliponto que ficava na popa.

Mesmo lá de cima, Tolland podia ver a forte corrente puxando o navio.

Ancorado pela proa, o Goya estava a favor da corrente, tensionando sua enorme amarra como se fosse uma besta aprisionada.

— É realmente lindo — disse o piloto, rindo.

Tolland sabia que o comentário era sarcástico. O Goya era feio. “Esquisitão”, segundo o comentário de um jornalista. Com casco duplo e pequena área de contato com a água, ele tinha todas as vantagens de ser uma das 17 embarcações do tipo SWATH (Small Waterplane Área Twin-Hull), mas certamente a beleza não era uma delas.

O barco era, essencialmente, uma grande plataforma horizontal flutuando cerca de nove metros acima do oceano, apoiado em quatro enormes suportes que, por sua vez, terminavam em flutuadores. Olhando de longe, parecia uma plataforma de petróleo bem baixa. De perto, se assemelhava a um catamarã suspenso. Os alojamentos da tripulação, os laboratórios de pesquisa e a ponte de comando ficavam localizados numa série de estruturas na parte superior, dando a impressão de que o barco era uma gigantesca mesa de café flutuante sobre a qual haviam sido empilhados diversos andares.

Apesar de sua aparência meio “quadrada”, o projeto do Goya proporcionava maior estabilidade porque a área de contato com a água era bem menor do que na maioria dos barcos. A plataforma suspensa permitia melhores filmagens, facilitava o trabalho nos laboratórios e provocava menos enjôo nos cientistas. Mesmo assim, a NBC vinha pressionando Tolland a trocar seu navio por um mais moderno, o que ele se recusava a fazer. É verdade que havia embarcações melhores atualmente e até mesmo mais estáveis, porém o Goya tinha sido seu lar durante os últimos 10 anos. A bordo dele, Mike lutara para recolocar sua vida em ordem após a morte de Célia. Havia noites em que ainda podia ouvir a voz dela no convés, sussurrando no vento. Quando os fantasmas partissem, ele pensaria em outro barco.

Ainda não era a hora.

Quando o helicóptero pousou na popa do Goya, Rachel Sexton se sentiu apenas ligeiramente aliviada. A boa notícia era que não estava mais voando sobre o oceano. A má era que agora estava de pé sobre ele. Ao descer do helicóptero, tentou se desligar do tremor em suas pernas e olhou em volta.

O convés era incrivelmente atulhado, sobretudo com o helicóptero pousado ali. Olhando em direção à proa, Rachel examinou a peculiar estrutura de andares sobrepostos que constituía o grosso da embarcação.

Tolland aproximou-se e ficou ao lado dela.

— Eu sei — ele disse, falando alto para se fazer ouvir em meio ao forte barulho da corrente. — Parece maior na televisão, não?

Rachel concordou.

— Mais estável também.

— Este é um dos navios mais seguros do oceano. Eu juro. — Mike colocou sua mão sobre o ombro de Rachel e conduziu-a pelo convés.

Seu toque caloroso era mais tranqüilizador do que qualquer palavra. Ainda assim, quando ela olhou para a popa do navio e viu a corrente turva espumando atrás deles, como se estivessem a pleno vapor, sentiu um arrepio. Estamos sobre uma megapluma...

No centro da seção principal do convés de popa, Rachel viu o pequeno e familiar submersível Triton, suspenso em um grande guincho. O Triton — uma referência ao deus grego dos mares — não se assemelhava em nada ao seu predecessor feito de aço, o Alvin.

Tinha um domo acrílico na parte frontal, fazendo com que parecesse mais um aquário do que um submarino. Rachel não conseguia pensar em muitas coisas mais assustadoras do que submergir centenas de pés no oceano não tendo nada entre ela e o mar a não ser uma lâmina de acrílico transparente. É claro que, de acordo com Tolland, a única parte desagradável de andar no Triton era ser lentamente abaixado pelo guincho através de uma abertura no convés do Goya, pendurado como um pêndulo a nove metros da água.

— Creio que Xavia está no laboratório — disse Tolland, andando pelo convés. — Vamos por aqui.

Rachel e Corky seguiram Tolland. O piloto da Guarda Costeira ficou no helicóptero, com ordens estritas para não usar o rádio.

— Dêem uma olhada nisso — disse Michael, parando rapidamente na grade da popa do navio.

Hesitante, Rachel aproximou-se. Estavam bem alto sobre o mar, mas, ainda assim, era possível sentir um vento quente vindo da água, nove metros abaixo deles.

— Está quase na mesma temperatura de um banho morno — continuou Tolland. — Vejam só. — Ele acionou um interruptor na grade.

Um grande arco de luz se espalhou pela água atrás do navio, iluminando-a por dentro como uma piscina acesa à noite. Rachel e Corky engoliram em seco ao mesmo tempo.

A água em torno do navio estava cheia de sombras fantasmagóricas.

Poucos metros abaixo da superfície iluminada, um exército de formas escuras e esguias nadava em paralelo contra a corrente, com suas inconfundíveis cabeças em formato de martelo balançando de um lado para o outro, como se estivessem acompanhando algum ritmo pré-histórico.

— Meu Deus, Mike — gaguejou Corky. — Que bom que você nos mostrou essa coisa linda.

Rachel ficou paralisada com aquela visão. Queria sair correndo dali, mas não conseguia se mover.

— Eles são incríveis, não? — disse Tolland, passando o braço pelos ombros dela. — Vão ficar circulando nessa área quente durante semanas. Esses caras têm o melhor olfato dos mares, possuem lobos olfativos telencefálicos superdesenvolvidos. Podem sentir o cheiro de sangue a uma milha de distância.

Corky ficou olhando para ele, desconfiado.

— Lobos olfativos telencefálicos superdesenvolvidos?

— O que, não está acreditando? — Tolland começou a remexer numa caixa de alumínio próxima ao local onde estavam. Pouco depois, tirou de dentro um peixe pequeno e morto. — Perfeito. — Pegou uma faca lá dentro e fez alguns talhos no peixe, que começou a pingar sangue.

— Mike, pelo amor de Deus — disse Corky. — Isso é nojento.

O oceanógrafo jogou o peixe ensangüentado no mar. Assim que bateu na água, seis ou sete tubarões arremessaram-se em sua direção, numa disputa feroz, suas fileiras de dentes brancos arrancando pedaços do peixe sangrento. Em poucos instantes não havia mais nada.

Horrorizada, Rachel virou-se para Tolland, que já estava com outro peixe nas mãos. Mesmo tipo, mesmo tamanho.

— Olhem, desta vez não haverá sangue — disse, jogando o peixe na água sem cortá-lo. O peixe bateu na superfície, mas nada aconteceu. Os tubarões pareceram nem notar. A isca foi levada pela corrente, sem despertar nenhum interesse.

— Eles atacam apenas por conta do cheiro — disse Tolland, levando-os para longe da grade. — Vocês poderiam até nadar aí em total segurança, contanto que não tivessem nenhuma ferida aberta.

Corky apontou para os pontos em seu rosto. Tolland franziu o rosto.

— Tudo bem. Você, não!

 

O táxi de Gabrielle estava preso no engarrafamento perto do Memorial de Roosevelt.

Olhando para os carros de bombeiros ao longe, ela tinha a impressão de que uma bruma surreal baixara sobre a cidade. As reportagens que chegavam pelo rádio diziam que um funcionário de alta patente do governo podia estar dentro do carro que havia explodido.

Gabrielle pegou o celular e ligou para o senador. Ele com certeza já devia estar preocupado com a demora dela.

A linha estava ocupada.

Ela olhou para o taxímetro correndo e pensou no que fazer. Alguns dos outros carros que estavam presos no trânsito começaram a subir pelas calçadas para dar a volta, em busca de um caminho alternativo.

O motorista olhou para ela.

— Quer esperar? É você quem está pagando.

Gabrielle viu que havia mais veículos de emergência e da polícia chegando ao local.

— Não, é melhor darmos a volta.

O motorista resmungou que estava tudo bem e começou a manobrar o carro para sair dali. Ela tentou ligar para Sexton de novo.

Continuava ocupado.

Alguns minutos depois, tendo feito uma grande volta, o táxi estava subindo a Rua C. Gabrielle viu o edifício de gabinetes do Senado se aproximando. Pensara em ir diretamente para o apartamento do senador, mas já que seu escritório estava tão próximo...

— Pode parar ali na frente — pediu ao motorista. — Aí mesmo. Obrigada.

O táxi parou. Gabrielle pagou a corrida e acrescentou 10 dólares.

— Você pode me esperar 10 minutos?

O motorista olhou para o dinheiro, depois para o relógio.

— O.k., mas nem um minuto a mais.

Gabrielle se apressou. Estarei fora daqui antes disso.

Os corredores de mármore desertos pareciam quase um cemitério àquela hora. Os músculos de Gabrielle estavam tensos ao passar rapidamente pela fileira de estátuas austeras alinhadas no corredor de acesso do terceiro andar. Aqueles olhos de pedra pareciam vigiá-la, como sentinelas.

Ao chegar à porta principal do conjunto de cinco salas que compunham o gabinete do senador Sexton, Gabrielle usou seu cartão magnético para entrar. Havia um abajur aceso na recepção que iluminava suavemente o ambiente. Atravessando a sala de espera, andou até seu escritório.

Entrou, acendeu as luzes fluorescentes e foi direto para os arquivos.

Ela tinha uma pasta inteira sobre o Sistema de Observação da Terra da NASA, incluindo várias informações sobre o PODS. Sexton certamente iria querer todos os dados disponíveis sobre o projeto assim que ela lhe contasse sobre Harper.

A NASA mentiu sobre o PODS.

Enquanto procurava em seus arquivos, seu telefone celular tocou.

— Senador? — falou, sem checar o número no visor do seu aparelho.

— Não, Gabi, é Yolanda. — A voz de sua amiga estava ligeiramente diferente.

— Você ainda está na NASA?

— Não, estou no escritório.

— Descobriu algo por lá?

Você não imagina o quê. Gabrielle, no entanto, sabia que não podia dizer nada a Yolanda enquanto não tivesse falado com o senador. Ele certamente teria idéias muito específicas sobre a melhor maneira de lidar com aquela informação.

— Eu lhe conto tudo depois que tiver conversado com Sexton. Estou indo para o apartamento dele agora.

Yolanda ficou em silêncio.

— Gabi, sabe aquelas coisas que você me contou sobre o financiamento da campanha de Sexton e a SFF?

— Ah, mas eu lhe disse que estava errada e que...

— Bom, eu acabei de descobrir que dois de nossos repórteres que fazem a cobertura da indústria aeroespacial estão trabalhando numa história bem parecida.

Gabrielle ficou surpresa.

— E o que isso quer dizer?

— Não sei. Mas esses caras são bons e parecem estar convencidos de que Sexton está recebendo algum dinheiro por trás dos panos do pessoal da SFF. Achei que era melhor avisá-la. Eu sei que lhe disse, mais cedo, que a idéia toda era maluca. Marjorie Tench me pareceu uma péssima fonte neste caso, mas nosso pessoal... Não sei, acho que você deveria falar com eles antes de se encontrar com o senador.

— Se os repórteres estão tão convencidos disso, por que não divulgam a informação? — questionou Gabrielle, mais na defensiva do que teria desejado.

— Eles não têm provas. O senador conseguiu cobrir seus rastros de forma muito eficaz. Algo que quase todos os políticos sabem fazer.

— Acho que não tem nada aí, Yolanda. Eu lhe falei que o senador admitiu estar recebendo doações da SFF, mas todas elas dentro do limite permitido.

— É, eu sei que foi isso que ele lhe disse, Gabi, e não estou afirmando que sei qual a verdade nisso tudo. Só me senti na obrigação de lhe contar o que estava acontecendo porque falei que Marjorie Tench não era uma fonte confiável, mas acabo de descobrir que há outras pessoas que também acham que o senador pode estar na folha de pagamentos da SFF. Só isso.

— Quem são esses repórteres? — Gabrielle sentiu uma raiva enorme tomando conta dela.

— Sem nomes. Posso providenciar uma reunião. São espertos e conhecem a fundo as leis de financiamento de campanhas... — Yolanda parou, hesitando.

— Sabe, eles realmente acham que o senador está desesperado por dinheiro. Talvez até mesmo falido.

No silêncio de seu escritório, Gabrielle podia ouvir as acusações ácidas de Tench ecoando. Depois da morte de Katherine, ele desperdiçou quase toda a sua herança em investimentos malsucedidos, luxos pessoais e na compra ao que parecia ser uma vitória certa nas primárias. Há cerca de seis meses, seu candidato estava falido.

— Nossos rapazes adorariam conversar com você — disse Yolanda.

Aposto que sim, pensou ela.

— Eu te ligo depois.

— Você parece irritada.

— Nunca com você, Yolanda. Nunca com você. Obrigada.

Desligou.

O segurança adormecera numa cadeira no hall, do lado de fora do apartamento do senador Sexton. Levou um susto ao ser acordado pelo toque de seu celular. Ajeitando-se melhor, esfregou os olhos e pegou o telefone no bolso do blazer.

— Alô?

— Owen, aqui é Gabrielle.

O segurança reconheceu a voz dela.

— Ah, oi.

— Preciso falar com o senador. Você poderia bater na porta dele para mim, por favor? Não estou conseguindo falar por telefone. A linha está ocupada o tempo todo.

— Já está bem tarde.

— Ele está acordado, eu tenho certeza. — Gabrielle parecia ansiosa. — É uma emergência.

— Outra?

— Não, a mesma. Passe o telefone para ele, Owen. Eu tenho uma pergunta importante a fazer.

O segurança suspirou e levantou-se.

— Tudo bem. — Esticou o corpo e caminhou até a porta do senador. — Mas só vou fazer isso porque ele ficou feliz por eu ter deixado você entrar hoje mais cedo. — Um pouco relutante, fechou a mão para bater na porta.

— O que você disse? — perguntou Gabrielle.

O segurança parou, punho levantado no ar.

— Disse que o senador ficou feliz por eu ter deixado você entrar mais cedo. Você estava certa, não havia problema nenhum.

— Você e o senador falaram sobre isso? — Gabrielle ficou surpresa.

— É. Por quê?

— Não, é só que eu não achei que...

— Bom, na verdade foi meio estranho. O senador levou um tempinho para se lembrar de sua visita. Acho que ele e os outros caras andaram bebendo.

— Quando você falou com ele, Owen?

— Ah, logo depois que você saiu. Tem alguma coisa errada?

Silêncio na linha.

— Não... não, nada. Olhe, estava aqui pensando... é melhor não incomodarmos o senador agora, sabe? Vou continuar tentando falar com ele por telefone e, se não conseguir, volto a procurá-lo e peço para bater na porta.

O guarda-costas olhou para o alto, com uma expressão de impaciência.

— Como quiser, senhorita Ashe.

— Obrigada, Owen. Desculpe incomodar.

— Sem problemas. — Ele desligou, se jogou de volta em sua cadeira e voltou a dormir.

Sozinha em sua sala, Gabrielle ficou parada durante algum tempo antes de desligar o telefone. Sexton sabe que estive lá... e não me disse nada?

Aquela noite estava ficando cada vez mais estranha. Gabrielle repassou mentalmente a chamada do senador para seu celular quando ela estava nos estúdios da ABC. Ele a surpreendera com sua admissão espontânea de que estava se encontrando com companhias do setor aeroespacial e recebendo dinheiro delas. Sua honestidade havia feito com que Gabrielle voltasse a confiar em Sexton e ficasse até mesmo envergonhada por ter pensado mal dele. Agora sua confissão parecia bem menos nobre.

As doações estão abaixo do limite permitido, Sexton dissera. Tudo perfeitamente legal.

Subitamente todos as dúvidas de Gabrielle a respeito do senador vieram à tona de uma só vez.

Do lado de fora, o táxi estava buzinando.

 

A ponte de comando do Goya era um cubo de plexiglas que ficava dois níveis acima do convés principal. Dali, Rachel tinha um panorama de.360° do mar escuro que os cercava, uma visão aterradora que tentou afastar de sua mente para concentrar-se nos problemas imediatos.

Tolland e Corky tinham saído à procura de Xavia, e ela ficou na ponte para contatar Pickering. Rachel prometera ao diretor que ligaria quando chegasse e estava curiosa para saber o que ele havia descoberto em seu encontro com Marjorie.

O sistema de comunicações digitais do Goya, um Shincom 2100, era um equipamento que ela conhecia bem. Sabia que, se não passasse muito tempo na linha, sua comunicação dificilmente seria detectada.

Ligou para o número pessoal de Pickering e esperou, segurando o fone do Shincom no ouvido. Achou que o diretor fosse atender ao primeiro toque, mas a linha estava apenas chamando.

Seis toques. Sete. Oito...

Rachel olhou para o oceano lá fora. O fato de não estar conseguindo alcançar o diretor não melhorava em nada sua apreensão por estar no mar.

Nove toques. Dez. Atenda!

Ela andou de um lado para o outro, ansiosa. O que está acontecendo?

Pickering levava seu telefone com ele o tempo todo e havia dito expressamente a Rachel que ligasse para ele.

Após 15 toques, ela desligou.

Com uma preocupação crescente, pegou novamente o fone do Shincom e ligou outra vez.

Quatro toques. Cinco toques.

Onde ele foi parar?

Finalmente ouviu um clique, indicando que a conexão tinha sido feita.

Rachel sentiu um grande alívio, mas durou pouco. Não havia ninguém na linha. Só silêncio.

— Alô? — perguntou. — Diretor?

Três cliques rápidos.

— Alô?

Uma forte estática surgiu na linha, soando bem alto no ouvido de Rachel e fazendo-a afastar o fone. A estática parou de repente e ela aproximou novamente o fone. Ouviu uma série de tons oscilando rapidamente, pulsando em intervalos de meio segundo. Sua confusão foi substituída por compreensão. E depois por medo.

— Merda!

Virando-se para trás, na direção dos controles da ponte, socou o fone de volta em seu gancho, terminando a conexão. Ficou alguns minutos olhando para o aparelho, aterrorizada, tentando calcular se havia desligado a tempo.

No meio da embarcação, dois deques abaixo, estava o laboratório do Goya. Era uma grande área dividida por longas bancadas e algumas estações de trabalho entupidas de equipamento eletrônico: varredores de fundo, medidores de corrente, bancadas para análise, fluxos laminares, um enorme freezer para preservar espécimes, diversos computadores e uma pilha de caixas rotuladas para armazenar os dados das pesquisas, além de equipamento eletrônico sobressalente para manter tudo em funcionamento durante as viagens.

Quando Tolland e Corky entraram, a geóloga de bordo, Xavia, estava reclinada na frente de uma televisão a todo o volume. Ela nem se virou.

— E aí, o dinheiro para as cervejas já acabou? — disse ela sem olhar, achando que alguns dos membros da equipe tinham voltado.

— Xavia — disse Tolland. — Sou eu, Mike.

Ela se virou, engolindo um pedaço do sanduíche que estava comendo.

— Mike? — Ela estava surpresa por vê-lo ali. Levantou-se, diminuiu o volume da televisão e caminhou na direção deles, ainda mastigando. — Achei que parte do pessoal tivesse chegado da noitada. O que vocês estão fazendo aqui?

Xavia era corpulenta e tinha uma pele morena. Sua voz era aguda e tinha um jeitão meio grosseiro. Ela apontou para a televisão, que continuava passando reprises do documentário de Mike sobre o meteorito.

— Vocês não ficaram muito tempo lá pela geleira, não é? Tivemos algumas surpresas, pensou Tolland.

— Xavia, você certamente já ouviu falar de Corky Marlinson.

Ela acenou com a cabeça.

— É uma honra conhecê-lo.

Corky não parava de olhar para o sanduíche que ela estava segurando.

— Isso aí parece gostoso.

A geóloga olhou para ele sem entender.

— Recebi sua mensagem — Tolland falou. — Você disse que eu cometi um erro na minha apresentação? Queria conversar com você a respeito.

Xavia soltou uma gargalhada aguda.

— Foi por isso que você voltou? Ah, Mike, pelo amor de Deus, não foi nada demais. Só queria te perturbar um pouco. A NASA obviamente te deu alguns dados ultrapassados. Nada relevante. Sério, somente três ou quatro geólogos marinhos no mundo devem notar o furo.

Tolland prendeu a respiração.

— Esse furo... por acaso teria a ver com os côndrulos?

A geóloga olhou para ele, espantada.

— Minha nossa! Algum maluco já ligou para você?

Tolland ficou preocupado. Os côndrulos. Olhou para Corky e depois de volta para ela.

— Xavia, preciso que você me conte tudo o que sabe sobre os côndrulos. Que erro eu cometi?

Ela percebeu que Tolland de fato estava falando sério.

— Mike, não é nada mesmo. É só um pequeno artigo que li em uma revista técnica há algum tempo. Mas não entendo por que você está tão preocupado com isso.

Ele suspirou.

— Xavia, por mais estranho que isto possa parecer, quanto menos você souber esta noite, melhor. Peço apenas que nos conte o que você sabe sobre os côndrulos e, depois, vamos precisar que examine uma amostra de rocha.

Ela ficou olhando, perplexa e levemente chateada por não lhe contarem os detalhes.

— Tudo bem, vou pegar aquele artigo. Está na minha sala.

Ela deixou o restante do sanduíche sobre uma mesa e dirigiu-se para a porta. Corky gritou:

— Posso comer o resto?

Xavia parou no meio do caminho e disse:

— Você quer comer o resto do meu sanduíche?

— Não, eu estava só pensando que você talvez já tivesse...

— Ah, vá pegar o seu próprio sanduíche! — disse ela, saindo. Tolland riu e apontou para o freezer do laboratório.

— Prateleira de baixo, Corky. Entre a garrafa de Sambuca e os sacos com as lulas.

 

Do lado de fora, no convés, Rachel desceu a escada que saía da ponte e foi em direção ao helicóptero. O piloto tinha adormecido, mas acordou quando ela bateu na cabine.

— Já terminaram? — ele perguntou. — Isso foi rápido. Rachel balançou a cabeça, nervosa.

— Você tem radar de superfície e aéreo?

— Claro. O alcance é de 10 milhas.

— Ligue-o, por favor.

Sem entender muito bem, o piloto apertou alguns botões e a tela se acendeu. O traço de varredura do radar começou a girar lentamente na tela.

— Pode ver algo? — perguntou Rachel.

O piloto deixou que o traço completasse várias voltas. Ajustou alguns outros controles e observou. Não havia nada.

— Há algumas pequenas embarcações bem no limite de nosso alcance, mas todas estão se afastando de nossa posição. Não há nada perto. Somente milhas de mar aberto se estendendo em todas as direções.

Rachel suspirou, ainda que aquilo não a deixasse particularmente tranqüila.

— Por favor, se alguma coisa se aproximar — barco, avião, qualquer coisa —, me avise imediatamente.

— Certo. Está tudo bem?

— Acho que sim. Só gostaria de saber se vamos ter companhia.

— Vou ficar de olho no radar, senhorita. Se alguma coisa aparecer, aviso em seguida.

Os sentidos de Rachel estavam zunindo quando entrou no laboratório.

Corky e Tolland estavam sentados, na frente de um monitor, comendo sanduíches.

Corky disse para ela, com a boca cheia:

— O que você prefere? Frango com gosto de peixe, peito de peru com gosto de peixe ou salada de ovo com gosto de peixe?

Rachel não prestou atenção.

— Mike, de quanto tempo você precisa para obter as informações e podermos sair deste barco?

 

Tolland andava pelo laboratório enquanto esperava Xavia voltar. A possibilidade de haver algum erro nas informações sobre os côndrulos era quase tão preocupante quanto as notícias de Rachel sobre sua tentativa de contatar Pickering.

O diretor não atendeu. E alguém tentou descobrir a localização do Goya rastreando a chamada.

— Relaxem — disse Tolland. — Estamos seguros. O piloto da Guarda Costeira está observando o radar. Ele nos avisará a tempo se alguém vier nesta direção.

Rachel concordou, apesar de ainda estar tensa.

— Ei, Mike, que é isso aqui? — perguntou Corky, apontando para a tela de um computador Sparc, que exibia uma imagem psicodélica pulsando e se agitando como se estivesse viva.

— É um analisador de correntes por doppler acústico — respondeu Tolland. — Ele mostra um corte transversal das correntes e dos gradientes de temperatura do oceano embaixo do navio.

Rachel ficou olhando para a tela.

— Nós estamos ancorados sobre isso aí?

Tolland tinha que concordar que aquela imagem amedrontava. Na superfície, a água aparecia com tons verde-azulados se revolvendo, mas, olhando em direção ao fundo, as cores aos poucos mudavam para um vermelho-alaranjado ameaçador à medida que as temperaturas se elevavam. No fundo do oceano, mais de uma milha abaixo deles, o vórtice de um ciclone se agitava numa tonalidade vermelho-escura.

— É a megapluma — disse Tolland.

— Parece um tornado submarino — resmungou Corky.

— O princípio é o mesmo. Os oceanos em geral são mais frios e mais densos perto do fundo, mas aqui ocorre o inverso. A água do fundo, que está aquecida e mais leve, sobe à superfície, ao mesmo tempo que a água da superfície, mais fria e pesada, desce em espiral para preencher o vazio. O resultado são essas correntes parecidas com um escoadouro no oceano. Enormes redemoinhos.

— E essa grande protuberância bem no fundo? — perguntou Corky, apontando para uma região onde havia uma bolha subindo em forma de domo. O vórtice estava se formando diretamente acima dela.

— Essa bolha é um domo de magma. É nesse ponto que a lava está empurrando o fundo do oceano — respondeu Tolland.

— Entendo. Como uma grande bolha de pus.

— Mais ou menos isso.

— E se ela estourar?

Tolland fechou a cara, lembrando-se do evento com a placa Juan de Fuca, em 1986, quando milhares de toneladas de magma, a uma temperatura de 1.200° Celsius, jorraram no oceano de uma só vez, amplificando a intensidade da megapluma quase instantaneamente. As correntes da superfície foram amplificadas à medida que o vórtice se expandia com rapidez para cima. O que aconteceu em seguida era algo que ele não tinha a menor intenção de contar para Corky e Rachel naquela noite.

— Os domos de magma do Atlântico não estouram — disse Michael. — A água fria que circula em torno da bolha está continuamente resfriando e enrijecendo a crosta da Terra, mantendo o magma em segurança sob uma grossa camada de rocha. Em algum momento a lava que está embaixo se resfria e a espiral desaparece. Megaplumas em geral não são perigosas.

Corky apontou para uma revista em mau estado que estava ao lado do computador.

— Então você quer dizer que a Scientific American publica artigos fictícios?

Tolland viu a capa e franziu a testa. Alguém tinha tirado aquela revista dos arquivos do Goya. Era um exemplar de fevereiro de 1999. A ilustração da capa mostrava um superpetroleiro sendo tragado por um enorme redemoinho no oceano. A manchete dizia: MEGAPLUMAS — ASSASSINAS GIGANTESCAS DAS PROFUNDEZAS?

O oceanógrafo fez uma brincadeira para disfarçar.

— Ah, isso é totalmente irrelevante. Esse artigo fala sobre megaplumas que ocorrem em zonas de terremoto. Foi uma hipótese popular sobre o Triângulo das Bermudas há alguns anos, tentando explicar o desaparecimento de navios. Tecnicamente falando, se houvesse algum cataclismo geológico no fundo do oceano, algo que nunca ocorreu aqui, o domo se romperia e o vórtice ficaria grande o bastante para... bom, vocês sabem...

— Não, nós não sabemos — respondeu Corky. Tolland deu de ombros.

— Ahn... O vórtice subiria até à superfície.

— Fantástico. Fico muito feliz que tenha nos convidado para visitar seu navio.

Xavia entrou carregando alguns artigos.

— Admirando a megapluma?

— Ah, é formidável — disse Corky, sarcástico. — Mike acabou de nos contar como sairíamos rodando num grande redemoinho se essa bolha se rompesse.

— Redemoinho? — Xavia deu uma risada. — Seria mais como descer descarga abaixo na maior privada do planeta!

Do lado de fora, no convés do Goya, o piloto do helicóptero da Guarda Costeira estava observando atentamente a tela do radar. Em seu trabalho de resgate, já tinha visto muitas pessoas com medo. Rachel Sexton estava, com certeza, em pânico quando lhe pediu para vigiar se visitantes inesperados estavam se aproximando.

Que tipo de visitantes ela está esperando? — pensou ele.

Até onde podia ver, nas 10 milhas em torno do Goya, não estava acontecendo nada atípico nem no ar nem no mar. Havia um barco de pesca a oito milhas dali. Um ou outro avião aparecia no limite do campo do radar e sumia rapidamente, seguindo alguma rota para longe deles.

O piloto suspirou e contemplou o mar, que se movia ruidosamente ao redor de todo o navio. Era uma sensação muito singular e incômoda: estar navegando a toda a velocidade apesar do barco estar ancorado.

Voltou a olhar para o radar e ficou observando, alerta.

 

Tolland tinha acabado de apresentar Xavia a Rachel. A geóloga do navio estava cada vez mais impressionada com os passageiros ilustres diante dela no laboratório de hidrografia. Além disso, a pressa de Rachel para terminar logo os testes e sair dali o mais rápido possível a deixava nervosa.

Vá com calma, Xavia, pensou Tolland. Precisamos de todos os detalhes.

A geóloga estava explicando de forma bem direta:

— Em seu documentário, Mike, você disse que aquelas incrustações metálicas na rocha só poderiam ter sido formadas no espaço.

Tolland estava com medo do que ela diria em seguida.

— Côndrulos só se formam no espaço. Foi o que a NASA me disse.

— Mas, de acordo com estas anotações — disse a geóloga, mostrando as páginas que segurava —, isso não é inteiramente verdadeiro.

— É claro que é verdade! — irritou-se Corky.

Xavia olhou de cara feia para o astrofísico e sacudiu as anotações que trazia.

— No ano passado, um jovem geólogo chamado Lee Pollock, da Drew University, estava usando um novo tipo de robô marinho para coletar amostras em águas profundas do Pacífico, na fossa das Marianas, e conseguiu retirar de lá uma rocha solta contendo uma característica geológica jamais vista. Essa característica era muito similar, em sua aparência, aos côndrulos. Ele a chamou de “inclusões de plagioclásio por estresse” — pequenas bolhas de metal que aparentemente haviam sido re-homogeneizadas durante eventos de pressurização em grandes profundidades. O doutor Pollock ficou impressionado por ter encontrado bolhas metálicas numa rocha de origem oceânica e formulou uma teoria especial para explicar sua presença.

— Suponho que seja realmente especial — Corky resmungou.

Xavia prosseguiu, não lhe dando ouvidos.

— O doutor Pollock afirmou que a rocha fora formada num ambiente oceânico de enorme profundidade, onde a pressão extrema metamorfoseou uma rocha preexistente, fazendo com que alguns dos metais, antes separados, se fundissem.

Tolland pensou a respeito. A fossa das Marianas tinha cerca de 11 mil metros de profundidade, sendo uma das últimas regiões inexploradas do planeta. Pouquíssimas sondas-robôs tentaram descer tão fundo e quase todas foram esmagadas pela pressão bem antes de chegar lá embaixo. A pressão da água na fossa é enorme — 1.800 libras por polegada quadrada, contra míseras 14 libras na superfície do oceano. Os pesquisadores ainda tinham pouca compreensão das forças geológicas nos lugares mais profundos dos oceanos.

— Então esse tal de Pollock acha que a fossa das Marianas pode gerar rochas com características similares a côndrulos?

— É uma teoria bem pouco divulgada — disse a geóloga. — Na verdade, não chegou nem mesmo a ser publicada formalmente. Por acaso eu encontrei algumas anotações pessoais de Pollock na internet mês passado, quando estava fazendo pesquisa sobre interações entre fluidos e rochas para o nosso programa sobre megaplumas. Do contrário, eu mesma não teria ouvido falar nisso.

— Eu sei por que a teoria nunca foi publicada — retrucou Corky. — Porque é ridícula! É preciso calor para gerar côndrulos. Não vejo como a pressão da água possa reorganizar a estrutura cristalina de uma rocha.

— A pressão — devolveu Xavia — por acaso vem a ser o fator mais importante de mudanças geológicas em nosso planeta. Você já ouviu falar em rochas metamórficas? Talvez se lembre disso, de suas aulas de Introdução à Geologia.

Corky ficou calado.

Tolland percebeu que Xavia havia levantado uma questão interessante. Ainda que o calor tivesse um papel importante em parte das transformações geológicas da Terra, a maioria das rochas metamórficas era formada sob extrema pressão. As rochas que se encontram em camadas profundas da crosta de nosso planeta estão sob tamanha pressão que agem mais como um caldo espesso do que como rochas sólidas, tornando-se elásticas e sofrendo mudanças químicas no processo. Ainda assim, a teoria de Pollock parecia um pouco forçada.

— Xavia, eu nunca ouvi falar de um caso em que a pressão da água fosse o único fator na alteração de uma rocha. Você é uma geóloga... Qual a sua opinião? — perguntou Michael.

— Parece que a pressão da água de fato não é o único fator — respondeu Xavia enquanto olhava suas anotações. Ela encontrou o trecho que estava procurando. — Vou ler textualmente o que Pollock escreveu: “A crosta oceânica na fossa das Marianas, que já se encontra sob enorme pressão hidrostática, pode ser ainda mais comprimida por forças tectônicas das zonas de subdução da região.”

É claro, pensou Tolland. A fossa das Marianas, além de estar sob a pressão de uma coluna d’água de 11 mil metros, era uma zona de subdução — uma linha de compressão onde as placas do Pacífico e do Índico se moviam uma contra a outra e colidiam. As pressões combinadas no interior da fossa deveriam ser enormes, mas, como o acesso ao local era difícil e perigoso, se houvesse côndrulos por lá, dificilmente alguém saberia.

A geóloga continuou a leitura:

— “As forças combinadas das pressões hidrostática e tectônica têm o potencial de forçar a crosta até que ela atinja um estado elástico ou semilíquido, permitindo que elementos mais leves se fundam em estruturas similares a côndrulos, que até agora acreditávamos ocorrerem apenas no espaço.”

Corky revirou os olhos, impaciente.

— Isso é impossível.

O oceanógrafo voltou-se para o amigo:

— Há alguma outra explicação para os côndrulos na rocha encontrada por Pollock?

— Fácil — disse Corky. — Pollock encontrou um meteorito. Eles caem no oceano o tempo todo, vocês sabem disso. Talvez ele não tenha suspeitado que se tratasse de um meteorito porque a crosta de fusão poderia ter sido erodida devido aos muitos anos que a rocha esteve sob a água, fazendo com que se parecesse com uma rocha normal. – O astrofísico virou-se para Xavia: — Por acaso esse tal doutor Pollock se lembrou de medir o conteúdo de níquel? Ou seria pedir muito?

— Na verdade, ele mediu, sim — respondeu ela prontamente, já procurando em seus papéis. — Eis o que Pollock diz: “Fiquei surpreso ao descobrir que o conteúdo de níquel da amostra recaiu nos níveis intermediários que geralmente não são associados às rochas terrestres.”

Tolland e Rachel trocaram olhares espantados. Xavia continuou lendo:

— “Ainda que a quantidade de níquel não recaia exatamente nos níveis intermediários normalmente aceitos para determinar que uma rocha é um meteorito, encontra-se muito próxima desse patamar.”

Rachel estava bastante inquieta.

— Quão próxima? É possível que essa rocha oceânica possa ser confundida com um meteorito?

Xavia sacudiu a cabeça.

— Não sou especialista em petrologia, mas, até onde posso entender, há muitas diferenças químicas entre a rocha que Pollock encontrou e meteoritos de verdade.

— Quais são as diferenças? — perguntou Tolland, com um sentido de urgência na voz.

Ela olhou para um gráfico em seus papéis.

— De acordo com isto aqui, uma diferença importante está na estrutura química dos côndrulos em si. Parece que as proporções titânio/zircônio são diferentes. Os côndrulos da amostra proveniente do oceano possuíam pouquíssimo zircônio. — Ela olhou para Tolland. — Apenas duas partes por milhão.

— Duas ppm? — disse Corky, subitamente. — A taxa encontrada nos meteoritos é milhares de vezes maior.

— Exato. E foi por isso que Pollock concluiu que os côndrulos de sua amostra não vieram do espaço.

Michael inclinou-se e falou baixinho para Corky:

— Por acaso a NASA mediu as proporções de titânio/zircônio na rocha encontrada em Milne?

— Claro que não! — respondeu Corky em voz alta. — Ninguém iria medir isso. É como olhar para um carro e resolver medir o conteúdo de borracha dos pneus para confirmar que de fato se trata de um carro!

Tolland respirou fundo e virou-se para Xavia novamente:

— Se lhe dermos uma amostra de rocha contendo côndrulos, você conseguirá fazer um teste para determinar se essas incrustações são côndrulos de origem meteórica ou... uma dessas “coisas” resultantes da compressão em oceano profundo que Pollock descreveu?

Ela pensou um pouco.

— Suponho que sim. O microscópio eletrônico é suficientemente preciso. Mas aonde vocês querem chegar com isso, afinal?

— Corky, dê a amostra para ela.

O astrofísico pegou relutantemente o fragmento do meteorito em seu bolso e estendeu-o para Xavia.

Ela olhou para o disco de pedra, franzindo o rosto. Observou a crosta de fusão e depois o fóssil na rocha.

— Meu Deus! — exclamou. — Isto aqui não é parte do...?

— É sim — respondeu Tolland. — Infelizmente.

 

Sozinha em sua sala, Gabrielle Ashe ficou olhando pela janela, pensando no que faria a seguir. Menos de uma hora antes, tinha saído da NASA animada e ansiosa por contar logo ao senador os detalhes da fraude do PODS que Chris Harper lhe revelara.

Agora tinha dúvidas.

De acordo com Yolanda, dois repórteres da ABC suspeitavam que Sexton estava recebendo propinas da SFF. Além disso, Gabrielle tinha acabado de descobrir que Sexton soubera que ela havia entrado em seu apartamento durante a reunião com a SFF e, ainda assim, não comentara nada a respeito com ela.

O táxi de Gabrielle já havia partido há algum tempo. Claro, ela poderia chamar outro rapidamente, mas sabia que tinha algo a fazer antes.

Não acredito que vou tentar esta maluquice. No entanto, não restavam muitas opções. Já não sabia em quem acreditar.

Saiu de sua sala, atravessou a recepção e foi para um corredor largo do outro lado. No final estavam as grossas portas de carvalho do escritório de Sexton, ao lado das quais havia duas bandeiras: à direita, Old Glory, como é carinhosamente conhecida a bandeira dos EUA; e, à esquerda, a bandeira do estado de Delaware. Suas portas, como as da maioria das salas dos senadores naquele prédio, eram reforçadas com chapas de aço e trancadas por chaves convencionais.

Além disso, era preciso digitar um código num terminal numérico para desativar o sistema de alarme.

Se ela conseguisse entrar, teria todas as respostas. Andou em direção às portas altamente seguras, mas não tinha a menor pretensão de passar por elas. Seus planos eram outros.

A três metros do escritório de Sexton, ela virou à direita e entrou no banheiro feminino. As luzes fluorescentes se acenderam automaticamente. Gabrielle parou diante do espelho e ficou se olhando, enquanto se acostumava à claridade. Como de hábito, suas feições pareciam mais suaves do que ela gostaria. Quase delicadas. Ela sempre se sentia mais durona do que aparentava ser.

Você está certa de que vai mesmo fazer isso?

A assessora sabia que o senador estava esperando ansiosamente sua chegada para ouvir os detalhes sobre o PODS. Infelizmente, ela compreendera que tinha sido manipulada por Sexton naquela noite. E Gabrielle não gostava de ser controlada. O senador havia propositalmente ocultado informações importantes. A questão era quanto ele havia escondido. As respostas estavam na sala do outro lado da parede daquele banheiro.

“Cinco minutos”, disse ela em voz alta para si mesma, reafirmando sua decisão.

Andou em direção ao quartinho de suprimentos do banheiro, estendeu o braço e passou a mão por cima do batente da porta. Uma chave caiu no chão. Os encarregados da limpeza do edifício de gabinetes do Senado eram funcionários públicos e sumiam toda vez que havia uma greve em qualquer setor, deixando o banheiro sem papel higiênico nem absorventes. Cansadas de serem pegas de surpresa, as mulheres que trabalhavam no escritório de Sexton decidiram dar um jeito naquilo e fizeram uma cópia da chave do quartinho de suprimentos para essas “emergências”.

Esta noite certamente é uma emergência, pensou Gabrielle, entrando na pequena despensa.

O interior estava abarrotado de material de limpeza, vassouras, esfregões e prateleiras com papel sanitário e papel-toalha. Há cerca de um mês, Gabrielle tinha aberto aquele mesmo quartinho, procurando papel-toalha, quando fez uma descoberta inusitada. Como não estava conseguindo alcançar a prateleira mais alta, ela havia usado a ponta de um cabo de vassoura para tentar derrubar um rolo da prateleira. Ao fazer isso, bateu, sem querer, numa das placas que revestiam o teto.

Quando subiu nas prateleiras para recolocar a placa no lugar, ficou surpresa ao ouvir a voz do senador em alto e bom som. Pelo eco, percebeu que Sexton devia estar falando consigo mesmo enquanto estava em seu banheiro pessoal, aparentemente separado do banheiro feminino apenas por algumas placas de revestimento removíveis.

Agora lá estava ela buscando um pouco mais do que papel-toalha. Gabrielle tirou os sapatos, subiu nas prateleiras, empurrou a placa e se enfiou pela abertura. Que se dane a segurança nacional, pensou, imaginando quantas leis estaduais e federais estava prestes a quebrar. Saindo do outro lado, dentro do banheiro pessoal do senador, ela apoiou os pés na pia fria de porcelana e então pulou para o chão.

Prendendo a respiração, entrou no escritório de Sexton.

Seus tapetes orientais eram macios e aconchegantes.

 

A 30 milhas de distância, um helicóptero Kiowa de ataque, preto, cruzava o céu sobre os pinheiros do norte do estado de Delaware.

Delta-Um verificou as coordenadas que estavam programadas no sistema de navegação automática.

Tanto o dispositivo de transmissão a bordo do navio onde estava Rachel quanto o celular de Pickering eram codificados para proteger suas comunicações. No entanto, ao rastrear a chamada vinda do mar, a Força Delta não queria interceptar o conteúdo da conversa. O objetivo era mais simples: determinar a localização do emissor. Os sistemas de GPS e as triangulações calculadas por computadores indicavam com precisão as coordenadas de transmissão, uma tarefa bem mais simples do que decodificar o conteúdo de uma mensagem.

Delta-Um achava curioso o fato de que, em geral, os usuários de celulares não tinham sequer idéia de que, toda vez que faziam ou recebiam uma ligação, um posto de escuta do governo poderia detectar, com uma margem de erro de apenas três metros, a posição do aparelho em qualquer lugar da Terra. Um pequeno “detalhe” que as companhias de celular não faziam muita questão de anunciar. Naquela noite, após ter obtido acesso às freqüências de recepção do celular de Pickering, a Força Delta determinou rapidamente as coordenadas das chamadas recebidas.

Voando em linha reta rumo ao alvo, estavam agora a 20 milhas de distância.

— A proteção está pronta? — perguntou, virando-se para Delta-Dois, que manejava os sistemas de radar e armamentos.

— Afirmativo. Aguardando perímetro de cinco milhas.

Cinco milhas —, pensou Delta-Um. Tinha que penetrar na área de alcance do radar do Goya antes que pudesse usar as armas do Kiowa. Provavelmente alguém a bordo do navio estaria observando os céus com apreensão, e, como a tarefa atual da Força Delta era eliminar o alvo sem dar qualquer chance de alguém pedir socorro pelo rádio, ele sabia que tinha que se aproximar de forma discreta.

Quando ainda estava a 15 milhas de distância, fora do alcance do radar, Delta-Um virou o Kiowa 35 graus para oeste, subiu a 900 metros — a altitude usual para pequenos aviões — e ajustou a velocidade para 200 quilômetros por hora.

No convés do Goya, o radar do helicóptero da Guarda Costeira emitiu um bipe quando um novo objeto entrou em seu perímetro de 10 milhas. O piloto sentou-se, examinando a tela. O contato parecia um pequeno avião de carga indo para oeste, seguindo a costa.

Provavelmente Newark.

Mantendo a trajetória, o avião passaria bem perto do Goya. Ainda que isso parecesse mera casualidade, o piloto, vigilante, ficou olhando o ponto na tela percorrer lentamente sua linha, a 200 quilômetros por hora, em direção ao lado direito de seu visor. No ponto mais próximo do navio, o avião estava a umas quatro milhas de distância a oeste.

Conforme o esperado, a aeronave continuou em sua rota, afastando-se deles.

4, l milhas. 4,2 milhas.

O piloto respirou aliviado.

Então uma coisa muito estranha aconteceu.

 

— Proteção ativada — informou Delta-Dois, fazendo o sinal de “positivo” diante do painel de controle de armas no Kiowa. — Barragem, ruído modulado e pulso de cobertura estão ativos e operando.

Delta-Um respondeu à indicação fornecida por seu companheiro e puxou o helicóptero abruptamente para a direita, colocando-o em rota direta para o Goya. Essa manobra seria completamente invisível para o radar do navio.

— Bem melhor que folhas de alumínio! — disse Delta-Dois.

Delta-Um concordou. As técnicas de bloqueio de radar foram inventadas durante a Segunda Guerra Mundial, quando um esperto aviador inglês começou a lançar de seu avião vários fardos de feno enrolados em folhas de alumínio durante missões de bombardeio. Os radares alemães detectavam tantas superfícies reflexivas que as baterias antiaéreas não sabiam em que direção atirar primeiro. As técnicas tinham sido substancialmente aperfeiçoadas desde então.

O sistema de bloqueio de radar do Kiowa usava uma “cobertura de elétrons”, um dos sistemas eletrônicos de defesa mais eficazes. Ao transmitir uma cobertura de ruído de fundo sobre um determinado conjunto de coordenadas de superfície, o Kiowa conseguia eliminar os olhos, os ouvidos e a voz de seu alvo. Há pouco minutos, todas as telas de radar a bordo do Goya teriam ficado em branco. Quando a tripulação notasse que precisava transmitir um pedido de socorro, já não poderia mais fazer isso. Em um navio, todas as comunicações se baseavam em rádio ou microondas, já que não havia linhas físicas de telefone. Se o Kiowa estivesse próximo o bastante, todos os sistemas de comunicação do Goya iriam parar de funcionar totalmente, pois seus sinais de portadora estariam encobertos pela nuvem invisível de ruído térmico transmitida pelo Kiowa, como uma luz ofuscante.

Isolamento absoluto, pensou Delta-Um. Estão indefesos. Seus alvos tiveram uma enorme sorte ao conseguir escapar de forma engenhosa da geleira Milne, mas aquilo não iria se repetir. Ao trocar a segurança da terra firme por uma embarcação no meio do mar, Rachel Sexton e Michael Tolland haviam feito uma grande besteira. Seria a última decisão errada de suas vidas.

 

No interior da Casa Branca, Zach Herney sentia-se meio zonzo, sentado em sua cama, segurando o telefone.

— Agora? Ekstrom quer falar comigo agora?

Ele olhou para o relógio ao lado da cama: 3h17 da manhã.

— Sim, senhor presidente — respondeu o oficial encarregado de comunicações. — Ele diz que é uma emergência.

 

Enquanto Corky e Xavia se acotovelavam no microscópio eletrônico, medindo o conteúdo de zircônio dos côndrulos, Rachel seguiu Tolland até uma pequena sala do outro lado do laboratório. O oceanógrafo ligou um computador para verificar alguma coisa.

Enquanto esperava o monitor acender, ele se virou para Rachel, como se fosse dizer algo, mas fez uma pausa.

— O que houve? — perguntou Rachel, surpresa ao perceber a forte atração física que sentia por ele, mesmo em meio a todo aquele caos. Ela queria poder deixar tudo aquilo para trás e ficar só com Mike, ainda que fosse por apenas um minuto.

— Eu lhe devo desculpas — disse Tolland, com ar de arrependimento.

— Por quê?

— Lá em cima. A história dos tubarões. Eu fiquei empolgado. É que algumas vezes me esqueço de que o oceano pode parecer extremamente ameaçador para muitas pessoas.

Perto dele, Rachel se sentia como uma adolescente com um novo namorado.

— Foi bom você ter dito isso. Obrigada. Está tudo bem, mesmo.

Algo dentro dela lhe dizia que Tolland queria beijá-la.

Após um instante de silêncio, ele desviou o olhar timidamente.

— Eu sei. Você quer voltar para terra firme. Melhor trabalharmos.

— Por enquanto — acrescentou Rachel, com um sorriso.

— Por enquanto — repetiu Tolland, sentando-se diante do computador. Rachel suspirou, de pé atrás dele, aproveitando aqueles momentos de privacidade. Observou Michael navegar por uma série de pastas no computador.

— O que estamos fazendo?

— Procurando algo semelhante a um grande isópode das profundezas. Queria ver se conseguimos encontrar algum fóssil marinho pré-histórico que se pareça com o que vimos naquele meteorito. Ele abriu uma página de pesquisa que trazia a seguinte inscrição na barra superior: PROJETO DIVERSITAS. Enquanto percorria alguns menus, Tolland foi dando explicações para Rachel:

— O Diversitas é um banco de dados de biologia marinha permanentemente atualizado. Quando algum biólogo marinho encontra uma nova espécie ou um fóssil, ele pode compartilhar as informações que conseguiu alimentando esse banco com dados e fotos. Como há muita coisa sendo descoberta toda semana, essa é, na prática, a única forma de manter as pesquisas atualizadas.

— Então você está acessando a web agora? — perguntou Rachel.

— Não. O acesso à internet é meio complicado no mar. Guardamos todos esses dados em um dispositivo contendo vários discos óticos na outra sala. Toda vez que aportamos, nos conectamos ao banco de dados do Projeto Diversitas e atualizamos as informações. Assim podemos acessar tudo de qualquer lugar, mesmo sem uma conexão com a web, e nossos dados nunca ficam desatualizados mais do que um ou dois meses.

Tolland deu uma risadinha enquanto digitava algumas palavras-chave no computador.

— Você provavelmente já ouviu falar naquele programa de troca de arquivos de música chamado Napster.

Rachel disse que sim.

— O Diversitas é considerado a versão dos biólogos marinhos para o Napster. Nós o chamamos de LOBSTER* — Lonely Oceanic Biologists Sharing Totally Eccentric Research.

Rachel riu. Mesmo naquela situação tensa, Michael Tolland tinha um senso de humor meio irônico que apaziguava seu medo. Ela estava começando a pensar que sua vida andava muito pouco divertida naqueles últimos tempos.

— Nosso banco de dados é enorme. — Tolland fez uma pausa para reler as palavras-chave da sua consulta. — Temos mais de 10 terabytes de descrições e fotos. Há informações aqui que ninguém nunca viu e provavelmente nunca verá. O número de espécies existentes no oceano é muito vasto. — Clicou no botão de “pesquisar”. — Bom, vamos descobrir em breve se alguém já viu um fóssil parecido com nosso isópode espacial.

Após poucos segundos, a tela foi atualizada, exibindo quatro entradas relativas a animais fossilizados. Tolland clicou em cada uma delas, examinando as fotos. Nenhuma se parecia sequer vagamente com os fósseis do meteorito de Milne.

Ele coçou o queixo.

— Vamos tentar outra coisa. — Ele retirou a palavra “fóssil” e clicou em “Pesquisar” novamente. — Vamos procurar todas as espécies ainda vivas. Talvez possamos encontrar um descendente que possua as características fisiológicas do fóssil de Milne.

O resultado surgiu na tela.

Tolland ficou pensativo. O computador havia retornado centenas de respostas possíveis. Reclinou-se na cadeira, novamente coçando o queixo.

— Agora há coisas demais. Vamos tentar refinar um pouco a pesquisa.

Rachel observou enquanto ele acessava um menu onde estava escrito “habitat”.

A lista de opções parecia infinita: poça de maré, pântano, lagoa, recife, plataforma oceânica, enxofre vulcânico. Tolland percorreu a lista e escolheu uma opção onde estava escrito: PLACAS DESTRUTIVAS/FOSSAS OCEÂNICAS.

Boa escolha, pensou Rachel. Tolland estava limitando sua pesquisa apenas a espécies que vivessem próximo ao ambiente onde, teoricamente, as características similares aos côndrulos pudessem se formar.

A página de respostas retornou somente três entradas desta vez.

— Ótimo!

Rachel olhou para o primeiro nome da lista. Limulus poly... qualquer coisa. Tolland clicou sobre o nome. Uma foto foi exibida: o bicho se parecia com um límulo gigante sem cauda.

— Não — disse ele, voltando à página anterior.

Rachel leu o segundo nome na lista. Camaronicus abominabilis. Achou aquilo estranho.

— Esse nome é verdadeiro?

O oceanógrafo riu.

— Não. É alguma nova espécie que ainda não foi classificada. Seja lá quem for que a descobriu, tem senso de humor e está sugerindo Camaronicus abominabilis como classificação taxonômica oficial.

Tolland clicou para exibir a foto, que mostrava uma criatura impressionantemente feia, parecida com um camarão de enormes bigodes e antenas fluorescentes cor-de-rosa.

— Acho que ele escolheu um bom nome — disse Tolland —, mas certamente não é a criatura que procuramos. — Retornou ao índice. — E nosso último candidato é... — clicou na terceira entrada e uma nova página foi exibida — ...Bathynomus giganteus. — Logo depois apareceu a imagem em close, com cores perfeitas.

Rachel assustou-se.

— Minha nossa! — A criatura na tela dava medo.

Tolland assobiou baixinho.

— É... Este cara aqui me parece bem familiar.

Rachel balançou a cabeça, perplexa. Bathynomus giganteus. A criatura lembrava um gigantesco tatuzinho e se parecia muito com a espécie fossilizada do meteorito encontrado pela NASA.

— Há algumas diferenças sutis — disse Tolland, examinando alguns desenhos anatômicos e esboços. — Mas é muito próximo. Especialmente considerando-se que teve 190 milhões de anos para evoluir.

Próximo é o termo exato, pensou Rachel. Próximo demais.

Tolland leu a descrição que estava na tela:

— Acredita-se que o Bathynomus giganteus seja uma das mais antigas espécies de nossos oceanos. Raramente encontrado e tendo sido classificado apenas recentemente, é um isópode de águas profundas que se alimenta de restos, assemelhando-se a um grande tatuzinho. Podendo chegar a 60 centímetros de comprimento, essa espécie exibe um exoesqueleto de quitina segmentado em cabeça, tórax e abdômen. Possui apêndices articulados, antenas e olhos compostos similares aos dos insetos que vivem na superfície terrestre. Não possui predadores e vive em ambientes pelágicos estéreis que, até recentemente, eram tidos como não habitáveis. — Tolland olhou para Rachel. — Isso poderia explicar a ausência de outros tipos de fósseis naquela amostra!

Rachel examinou a criatura na tela. Estava empolgada, mas ao mesmo tempo em dúvida sobre o significado real daquilo tudo.

— Imagine — prosseguiu Tolland, animado — que há 190 milhões de anos uma ninhada de Bathynomus tenha sido enterrada por um deslizamento de lama no oceano profundo. À medida que a lama fosse se transformando em rocha, as criaturas teriam se fossilizado na pedra. Ao mesmo tempo, o fundo do oceano, num movimento contínuo e lento próximo às fossas oceânicas, levou os fósseis até uma zona de alta pressão na qual a rocha forma côndrulos! — Tolland ia falando cada vez mais rápido. — E, se parte dessa crosta cheia de côndrulos e fósseis se desprendesse e fosse parar entre os sedimentos que ficam na camada superior da fossa, o que é relativamente comum, estaria numa posição perfeita para ser descoberta!

— Mas se a NASA... — Rachel titubeou. — Quero dizer, se tudo isso for uma grande mentira, a NASA saberia que, mais cedo ou mais tarde, alguém iria descobrir que esse fóssil se parece com uma criatura marinha, não é? Assim como nós acabamos de fazer!

Tolland começou a imprimir as fotos do Bathynomus na impressora a laser.

— Não sei. Mesmo se aparecesse alguém mostrando as semelhanças entre os fósseis e um desses isópodes marinhos atuais, isso não provaria nada. Há diferenças na fisiologia das duas espécies. Quase o suficiente para reforçar a afirmação da NASA.

Rachel compreendeu, num estalo.

— Panspermia! — A vida na Terra foi semeada a partir do espaço.

— Exatamente. As semelhanças entre os organismos terrestres e os do espaço fazem muito sentido cientificamente. E esse isópode das profundezas na prática só reforçaria as afirmações da NASA.

— Exceto se a autenticidade do meteorito estivesse em questão.

Michael concordou.

— Se o meteorito for questionado, toda a teoria vem abaixo. Nosso tatuzinho gigante deixa de ser um amigo da NASA e se torna um “dedo-duro”.

Rachel ficou em silêncio olhando as páginas de informações sobre o Bathynomus saírem da impressora. Estava tentando se convencer de que fora simplesmente um erro da NASA, sem qualquer má intenção. Mas sabia que não era. Pessoas honestas que cometem erros não tentam matar outras pessoas.

A voz anasalada de Corky se fez ouvir do outro lado do laboratório.

— Impossível!

Tanto Tolland quanto Rachel se viraram.

— Meça essas malditas taxas de novo! Não faz sentido!

Xavia veio correndo na direção deles com um papel nas mãos. Estava lívida.

— Mike, não sei como dizer isso, mas... — A geóloga se engasgou. – As proporções de titânio/zircônio que encontramos nesta amostra... – Ela limpou a garganta de novo. — Bem, está claro que a NASA cometeu um grande engano. O meteorito deles é uma rocha oceânica.

Tolland e Rachel se entreolharam em silêncio. Compreenderam naquele instante que todas as suas dúvidas e suspeitas eram reais. Sentiram-se como se estivessem na crista de uma onda prestes a quebrar. O oceanógrafo concordou, com um olhar triste:

— Eu sei. Obrigado, Xavia.

— Mas eu não entendo — disse ela. — A crosta de fusão, a localização no gelo...

— Vamos lhe explicar tudo no caminho de volta — disse Michael. — Estamos de partida.

Rapidamente, Rachel pegou todas as folhas e provas que haviam reunido.

As evidências eram conclusivas: a impressão do GPR mostrando o poço de inserção na plataforma de gelo Milne, as fotos da criatura marinha similar ao fóssil da NASA, o artigo do doutor Pollock sobre formação de côndrulos no oceano e, finalmente, os dados do microscópio eletrônico evidenciando a baixíssima taxa de zircônio no suposto meteorito.

Só havia uma conclusão possível: fraude.

Tolland olhou para os papéis na mão de Rachel e soltou um suspiro.

— Acho que Pickering já tem as provas de que precisa.

Ela concordou, ainda pensando por que motivo o diretor do NRO não teria atendido à sua chamada.

Michael pegou um fone que estava próximo e estendeu-o na direção de Rachel.

— Você quer tentar novamente daqui?

— Não, melhor irmos. Vou tentar falar com ele do helicóptero.

Rachel já havia decidido que, se não conseguisse entrar em contato com Pickering, mandaria o piloto da Guarda Costeira deixá-los diretamente no NRO, que ficava a uns 300 quilômetros dali.

Tolland ia desligar o telefone, mas parou de repente. Parecendo confuso, colou o ouvido ao fone e franziu a testa.

— Curioso. Não há ruído de linha.

— O que você quer dizer? — perguntou Rachel, tensa.

— É estranho — disse ele. — Linhas diretas para o COMSAT nunca perdem a portadora...

— Senhor Tolland? — O piloto da Guarda Costeira entrou correndo no laboratório, assustado.

— O que é? — perguntou Rachel. — Alguém se aproximando?

— Este é o problema — respondeu o piloto. — Não sei. Os radares e sistemas de comunicação do helicóptero pararam de funcionar.

Rachel colocou todos os papéis bem fundo dentro de sua blusa.

— Vamos para o helicóptero. Temos que sair daqui. AGORA!

 

O coração de Gabrielle batia em disparada enquanto ela atravessava, no escuro, o amplo escritório de Sexton. A sala era decorada com elegância: havia painéis de madeira entalhada recobrindo as paredes, pinturas a óleo, tapetes persas, cadeiras de couro e uma imensa mesa de mogno.

A assessora foi direto para a mesa do senador e ligou o computador, banhando a sala com uma luz néon.

Sexton tinha adotado integralmente o conceito de “escritório digital”, chegando às raias da obsessão. Deixou de lado os enormes arquivos com pastas em troca da simplicidade compacta e da facilidade de consulta de seu computador pessoal, no qual colocava enormes quantidades de informação: anotações de reuniões, artigos de jornais e revistas digitalizados, discursos, idéias. Para proteger seus dados, o senador mantinha o computador trancado o tempo todo no escritório. Chegou ao ponto de recusar-se a ter uma conexão de internet com medo de que hackers pudessem entrar em seu sagrado cofre digital.

Um ano atrás Gabrieile não teria acreditado que qualquer político fosse burro o bastante para guardar cópias de documentos que pudessem incriminá-lo, mas desde então ela havia aprendido muitas coisas sobre Washington. Informação é poder. Gabrieile ficou espantada ao descobrir que era prática comum, entre os políticos que aceitavam contribuições questionáveis para suas campanhas, manter uma prova factual dessas doações — cartas, extratos de banco, recibos, registros – escondida num local seguro. Essa tática de “contrachantagem”, eufemisticamente conhecida em Washington como “segurança siamesa”, protegia os candidatos de doadores que viessem a acreditar que sua generosidade de alguma forma os autorizava a exercer uma pressão política intolerável sobre aqueles que tinham ajudado a eleger. Se alguém que contribuísse para a campanha se tornasse exigente demais, bastava que o político lhe mostrasse uma prova da doação ilegal, lembrando ao doador que ele também infringira a lei. A prova assegurava que tanto candidatos quanto doadores estavam unidos até o fim — como irmãos siameses.

Gabriele sentou-se na cadeira de Sexton. Respirou fundo, olhando para o computador. Se o senador estiver mesmo aceitando propinas da SFF, qualquer prova que ele possua estará aqui.

O protetor de tela do computador exibia uma sucessão de imagens da Casa Branca e seus jardins. Havia sido criado por um dos membros mais entusiásticos da equipe, que acreditava profundamente em visualização e pensamento positivo. Junto com as imagens aparecia uma tarja de texto que dizia: Sedgewick Sexton, Presidente dos Estados Unidos...

Sedgewick Sexton, Presidente dos Estados Unidos... Sedgewick Sexton...

Gabrieile moveu o mouse e a caixa de diálogo apareceu na tela.

DIGITE A SENHA:

Ela já esperava por isso. Não seria problema. Na semana anterior, Gabriele entrara no escritório justamente quando o senador estava digitando sua senha. Ela viu Sexton repetir a senha três vezes, rapidamente.

— Isso é uma senha? — ironizou.

Sexton olhou para ela sem entender:

— O quê?

— E eu achei que você se preocupasse com segurança — disse ela. – Sua senha só tem três dígitos? Pensei que o pessoal de sistemas nos aconselhasse a usar pelo menos seis.

— Só tem adolescentes na área de informática. Queria ver eles se lembrarem de seis dígitos aleatórios depois dos 40 anos. Além disso, a porta tem um alarme. Ninguém entra aqui.

A assessora aproximou-se.

— E se alguém entrasse discretamente enquanto você está no banheiro?

— E tentasse todas as combinações de senhas? — questionou ele, com uma risadinha irônica. — Posso demorar no banheiro, mas não tanto!

— Aposto um jantar no Davide que consigo adivinhar sua senha em 10 segundos.

O senador olhou para ela, intrigado e achando graça no desafio.

— Você não pode pagar a conta do Davide, Gabrielle.

— Então você vai fugir da briga?

Sexton quase sentiu pena da assessora ao aceitar a aposta.

— Dez segundos?

Ele travou a máquina novamente e fez um gesto para que Gabrielle se sentasse diante do computador.

— Você sabe que sempre peço o saltimbocca no Davide. Não é um prato barato...

— Tudo bem, você vai pagar a conta mesmo — disse ela, com um sorriso irônico, enquanto sentava.

DIGITE A SENHA:

— Dez segundos — repetiu Sexton.

Gabrielle estava achando graça. Ela precisaria de apenas dois. Mesmo de longe, da porta, viu que o senador havia digitado a senha muito rapidamente usando apenas o dedo indicador. Obviamente pressionou a mesma tecla três vezes. Nada esperto. Também percebeu que a mão dele estava bem no canto esquerdo do teclado, reduzindo as possibilidades a umas nove letras. Escolher a letra correta era simples. Sexton amava a aliteração tripla de seu título: Senador Sedgewick Sexton.

Nunca subestime o ego de um político.

Ela digitou SSS e a proteção de tela desapareceu.

Sexton ficou olhando, abismado.

Aquilo acontecera havia uma semana. Agora, lá estava ela, novamente sentada diante do mesmo computador, certa de que Sexton não tinha se dado ao trabalho de pensar em outra senha. E por que deveria? Ele confia em mim sem restrições.

Digitou SSS.

SENHA INVÁLIDA — ACESSO NEGADO

Gabrielle olhou para a tela, surpresa.

Aparentemente ela havia superestimado o nível de confiança do senador.

 

O ataque começou sem aviso prévio. A silhueta letal de um helicóptero Kiowa surgiu bem baixo no céu, vinda do sudoeste e descendo sobre o Goya como uma vespa gigante. Rachel entendeu rapidamente o que estava acontecendo.

Em meio à escuridão, uma rajada foi disparada do nariz do helicóptero, perfurando o convés de fibra de vidro do navio e traçando uma linha na popa. Rachel se atirou no chão procurando um abrigo, mas demorou demais e sentiu o calor de uma bala ferindo seu braço de raspão. Caiu de mau jeito e depois rolou sobre o próprio corpo, tentando ficar atrás do domo transparente do submersível Triton.

O estrondo dos rotores ressoou acima deles enquanto o helicóptero dava um rasante no Goya. O som transformou-se num assobio assustador à medida que a aeronave se afastava para descrever um círculo aberto e voltar para uma segunda investida sobre o alvo.

Deitada no convés, trêmula, Rachel segurou o braço e olhou ao redor, procurando Tolland e Corky. Os dois tinham buscado proteção atrás de um paiol e agora observavam o céu, apavorados, enquanto se levantavam.

Rachel ficou de joelhos. O mundo inteiro parecia estar se movendo em câmera lenta. Agachada atrás da curvatura transparente do Triton, ela olhava em pânico para a única possibilidade de fuga que tinham: o helicóptero da Guarda Costeira. Xavia já estava embarcando na aeronave, gesticulando freneticamente para que todos subissem a bordo. Rachel viu o piloto se ajeitando na cabine e mexendo freneticamente em seus controles. As hélices começaram a girar, mas muito devagar.

Lentas demais.

Rápido!

Rachel levantou-se e preparou-se para correr, pensando se conseguiria atravessar o convés antes que os agressores retornassem. Atrás dela, ouviu Corky e Tolland correndo em sua direção e para o helicóptero, que esperava. Isso, rápido!

Então ela viu.

A cerca de 100 metros, no céu, surgindo no meio da escuridão, um feixe de luz vermelha varria a noite, procurando seu alvo no convés do Goya.

Ao encontrar o helicóptero da Guarda Costeira, o feixe parou.

Levou apenas alguns segundos para que ela compreendesse o sentido da imagem. Naquele instante terrível, Rachel sentiu toda a ação no navio transformar-se num borrão, uma colagem indistinta de formas e sons.

Tolland e Corky correndo ao seu encontro, Xavia gesticulando no helicóptero e o laser cortando o céu.

Tarde demais.

Ela virou-se no sentido oposto, em direção a Corky e Tolland, que se moviam a toda a velocidade tentando chegar ao helicóptero.

Arremessou-se contra eles, com os braços abertos para bloquear o caminho. Foi uma pancada forte e os três caíram no chão, num emaranhado de pernas e braços.

Um flash de luz branca surgiu ao longe. Aterrorizada, Rachel acompanhou o rastro de luz que seguia rumo ao helicóptero, perfeitamente alinhado com o laser.

Quando o míssil Hellfire se chocou contra a fuselagem, o Dolphin da Guarda Costeira explodiu em fragmentos como se fosse de brinquedo. O calor e o ruído ensurdecedor da onda de choque percorreram o convés enquanto pedaços de metal em chamas choviam do céu. O esqueleto flamejante do helicóptero dobrou-se para trás, sobre sua cauda fraturada, oscilou por um instante e finalmente caiu do navio, batendo contra o oceano e levantando uma nuvem fervilhante de vapor d’água.

Rachel fechou os olhos, sem conseguir respirar. Ouviu os destroços em chamas borbulhando e chiando enquanto afundavam, levados para longe do Goya pelas fortes correntes. Em meio ao caos, Tolland gritava algo que ela não conseguia compreender. Rachel sentiu mãos fortes tentando levantá-la, mas seu corpo não respondia.

O piloto e Xavia estão mortos.

Somos os próximos.

 

A tempestade na plataforma de gelo Mune tornara-se mais branda e a habisfera estava novamente em silêncio. Mas o administrador da NASA, Lawrence Ekstrom, nem tinha tentado dormir. Ele havia passado as últimas horas sozinho, andando pelo domo, contemplando o poço de extração, passando a mão pelas ranhuras da gigantesca rocha carbonizada.

Finalmente tomou uma decisão.

Agora estava sentado diante do videofone, na cabine de comunicação da habisfera, olhando para o rosto cansado do presidente dos Estados Unidos. Zach Herney usava um roupão e parecia bastante irritado. E, com certeza, ficaria ainda mais nervoso depois que ouvisse o que Ekstrom tinha a dizer.

Quando o administrador terminou de falar, a expressão no rosto do presidente era de estranhamento e desconforto, como se achasse que ainda estava muito sonolento e não houvesse entendido direito o que Ekstrom acabara de lhe contar.

— Espere aí — disse Herney. — Acho que estamos com algum problema de comunicação. Você está me dizendo que a NASA interceptou as coordenadas desse meteorito a partir de uma transmissão de emergência e depois fingiu que o PODS o encontrara?

Ekstrom ficou em silêncio, sozinho no escuro, desejando que pudesse acordar daquele pesadelo.

Seu silêncio não foi bem recebido pelo presidente.

— Pelo amor de Deus, Larry, me diga que eu entendi errado!

A boca do administrador estava seca.

— O meteorito foi encontrado, senhor presidente. Isso é tudo o que importa neste caso.

— Eu lhe pedi para me dizer que eu havia entendido errado!

O silêncio cresceu até se transformar numa pressão ensurdecedora nos ouvidos de Ekstrom. Eu tinha que contar, pensou ele. E ainda vai ficar pior antes de melhorar.

— Senhor presidente, a falha no PODS estava prejudicando sua campanha e repercutindo negativamente nas pesquisas. Quando interceptamos a transmissão de rádio que mencionava um grande meteorito alojado no gelo, achamos que era uma chance de voltar à briga.

Herney estava aturdido.

— E fizeram isso falsificando uma descoberta do PODS?

— O PODS estaria operacional em pouco tempo, mas não o suficiente para ajudá-lo nas eleições. Os resultados das pesquisas estavam cada vez piores e Sexton não parava de bater na NASA, então...

— Você é louco? Você mentiu para mim, Larry!

— A oportunidade estava bem na nossa cara, senhor. Decidi aproveitá-la. Interceptamos a transmissão de rádio do canadense que descobriu o meteorito. Ele morreu numa tempestade e ninguém mais sabia do meteorito. O PODS estava numa órbita próxima. A NASA precisava de uma vitória e nós tínhamos as coordenadas.

— E por que você resolveu me contar isso agora?

— Achei que devesse saber.

— Você tem a mínima idéia do que Sexton fará com essas informações, se ele descobrir?

Ekstrom preferiu nem pensar.

— Ele dirá ao mundo inteiro que a NASA e a Casa Branca mentiram ao povo americano! E, o que é pior, ele estará falando a verdade!

— Mas o senhor não mentiu, fui eu. E pedirei demissão imediatamente se...

— Larry, você está deixando de lado o mais importante. Eu tentei basear o meu mandato na verdade e na honestidade! Mas que inferno! A jogada desta noite tinha sido limpa. Digna. Agora eu descubro que menti para o mundo inteiro?

— Apenas uma pequena mentira, senhor.

— Não existem “pequenas mentiras”, Larry — disse Herney, furioso.

Ekstrom sentiu o trailer se fechar em torno dele. Precisava contar muitas outras coisas ao presidente, mas percebeu que era melhor esperar até o dia seguinte.

— Lamento tê-lo acordado, senhor. Eu achei que era importante que o senhor soubesse.

 

Do outro lado de Washington, Sedgewick Sexton tomou um gole de conhaque e continuou andando de um lado para o outro de seu apartamento, exasperado.

Onde Gabrielle se meteu?

 

Gabrielle Ashe estava sentada na sala do senador Sexton, olhando para o monitor com um misto de raiva e desapontamento.

SENHA INVÁLIDA — ACESSO NEGADO

Ela havia tentado diversas outras senhas que pareciam prováveis, mas nenhuma delas funcionara. Depois de procurar em todo o escritório alguma gaveta destrancada ou outra pista deixada ao acaso, estava quase desistindo. Ia se levantar para sair quando viu algo estranho brilhando no calendário de mesa de Sexton. Alguém tinha assinalado a data da eleição com canetas fosforescentes das cores da bandeira americana: vermelho, azul e branco. Aquilo certamente não era coisa do senador. Gabrielle pegou o calendário para olhar de perto. Envolta em bordas vistosas havia uma exclamação em letras enfeitadas e cintilantes: POTUS!

A entusiasmada secretária de Sexton devia ter feito aquele desenho colorido como mais um pensamento positivo para o senador no dia da eleição. O acrônimo POTUS era o codinome do serviço secreto para President Of The United States. No dia da eleição, se tudo corresse bem, Sexton se tornaria o novo presidente dos Estados Unidos.

Gabrielle recolocou o calendário na posição em que estava antes, preparando-se para sair. Subitamente parou, com os olhos fixos na tela.

DIGITE A SENHA:

Olhando para o calendário, sentiu que ainda havia uma chance. De alguma forma, POTUS parecia o tipo de senha perfeita para Sexton.

Simples, positiva e auto-referente.

Digitou rapidamente as letras: POTUS.

Prendendo a respiração, apertou “Enter”. O computador emitiu um bipe.

SENHA INVÁLIDA — ACESSO NEGADO

Gabrielle baixou a cabeça, desistindo. Desligou o computador e foi andando devagar em direção à porta do banheiro para sair da mesma forma que havia entrado. Na metade do caminho, seu celular tocou. Já estava nervosa por estar ali, e o som inesperado lhe deu um grande susto. Parou e pegou o telefone, olhando para uma das preciosidades de Sexton, o relógio de parede Jourdain. Quase quatro da manhã. Àquela hora, a única pessoa que poderia estar ligando era o senador. Ele certamente estaria à sua procura. Atendo ou deixo tocar? Se atendesse, Gabrielle teria que mentir. Mas, se não atendesse, Sexton poderia suspeitar de algo.

Decidiu atender.

— Alô?

— Gabrielle? — Sexton soava impaciente. — Por que você ainda não chegou aqui?

— Foi o Memorial de Roosevelt — disse ela. — O táxi ficou preso e agora estamos...

— Pelo som, você não está dentro de um táxi.

— Não — disse ela, rapidamente. — Não estou. Resolvi passar na minha sala para pegar alguns documentos sobre a NASA que podem ser importantes para a questão do PODS. Ainda não encontrei o que queria.

— Bom, ande logo. Pretendo agendar uma entrevista coletiva logo pela manhã e precisamos acertar os detalhes.

— Já estou chegando.

Houve um silêncio do outro lado da linha.

— Você disse que está em sua sala? — Sexton parecia intrigado.

— Isso. Mais uns 10 minutos e saio daqui.

Outra pausa.

— Tudo bem. Vejo você daqui a pouco, então.

Gabrielle desligou, preocupada demais para notar o som bem nítido do pêndulo do precioso relógio Jourdain a poucos metros dela.

 

Tolland notou que Rachel tinha sido ferida no braço, ao puxá-la para um local protegido atrás do Triton. Ela estava tão catatônica que nem parecia sentir dor. Depois de ajudá-la, Michael virou-se para procurar Corky. O astrofísico vinha se arrastando pelo convés para juntar-se a eles, os olhos arregalados em completo terror.

Temos que encontrar algum esconderijo, pensou Tolland, antes mesmo de perceber a gravidade da situação.

Instintivamente, seus olhos percorreram os níveis superiores do Goya. As escadas que levavam para a ponte ficavam a céu aberto, desprotegidas. A própria ponte se assemelhava a uma grande caixa de vidro — um alvo transparente para quem estivesse no ar. Subir seria suicídio, o que lhes deixava uma única opção.

Durante um rápido momento, o oceanógrafo olhou para o Triton, pensando se conseguiria colocar todos a salvo embaixo da água.

Absurdo. O Triton só tinha espaço para uma pessoa e, de qualquer forma, seriam necessários pelo menos 10 minutos para descê-lo pela abertura no convés até o oceano. Além disso, sem que suas baterias e compressores estivessem carregados, o submersível não teria condições de fazer qualquer manobra.

— Eles estão voltando! — gritou Corky apontando para o céu, sua voz trêmula de medo.

Tolland nem olhou para cima. Apontou para uma antepara próxima, onde havia uma escada de alumínio que descia para os conveses inferiores.

Não foi preciso dizer mais nada. Corky saiu correndo na direção da abertura e sumiu lá embaixo. Michael passou um braço em torno da cintura de Rachel e fez com que ela descesse com ele. Ambos desapareceram no nível inferior segundos antes do helicóptero retornar, disparando balas para todos os lados.

Tolland ajudou Rachel a descer a escada até uma plataforma suspensa.

Quando chegaram, ele sentiu o corpo dela subitamente se enrijecer.

Virou-se, com medo de que tivesse sido atingida por trás pelo ricochete de um projétil, mas logo percebeu que o problema era outro.

Ao acompanhar seu olhar petrificado para baixo, Michael compreendeu imediatamente o que estava acontecendo.

 

Imóvel, sem conseguir dar nem mais um passo, Rachel encarava o mundo bizarro que se descortinava abaixo dela.

Por causa de seu design, o Goya parecia um catamarã gigante, apoiado sobre grandes flutuadores. Eles haviam acabado de descer do convés principal para uma passarela gradeada suspensa sobre um abismo: nove metros abaixo, o mar se agitava provocando um ruído ensurdecedor que ecoava até onde estavam. O terror de Rachel era ainda maior porque os holofotes do navio sob a água lançavam uma luminosidade esverdeada nas profundezas do oceano, evidenciando seis ou sete silhuetas fantasmagóricas. Eram enormes tubarões-martelo, suas longas sombras sempre no mesmo lugar enquanto nadavam contra a corrente — os corpos flexíveis como borracha remexendo-se na água.

Tolland aproximou-se e falou no ouvido dela:

— Rachel, está tudo bem. Olhe para a frente. Estou logo atrás de você.

Gentilmente, Mike tentou fazer com que ela soltasse os punhos do corrimão.

Foi quando Rachel viu um pingo de sangue vermelho-rubi respingar de seu braço e cair pelo gradeado. Seus olhos seguiram a trajetória da gota até o mar. Não chegou a ver o sangue bater na água, mas soube o momento exato em que isso aconteceu porque, em um segundo, todos os tubarões próximos se moveram ao mesmo tempo para aquele local, impulsionados por suas caudas vigorosas, chocando-se uns contra os outros numa fúria de dentes e barbatanas.

Lobos olfativos telencefálicos superdesenvolvidos...

Podiam sentir o cheiro de sangue a uma milha de distância.

— Olhe para a frente — repetiu Tolland, num tom de voz firme e reconfortante. — Estou logo atrás de você.

Rachel sentiu que ele estava segurando sua cintura, tentando encorajá-la a sair do lugar. Ela fez um esforço para esquecer o vazio lá embaixo e começou a andar. Em algum lugar acima deles, podia ouvir os rotores do helicóptero novamente. Bem à frente dos dois, Corky cambaleava pela passarela numa espécie de pânico cego.

— Vá até o suporte mais distante, Corky! Depois desça as escadas — Tolland gritou para orientá-lo.

Rachel viu para onde se dirigiam. Logo adiante havia uma série de escadas descendo em ziguezague. Ao atingir o nível do mar, elas desembocavam num deque estreito, similar a uma prancha, que se alongava por todo o comprimento do barco. Partindo desse deque, várias docas pequenas e suspensas formavam uma espécie de marina em miniatura acoplada ao navio. Uma grande placa indicava:

ÁREA DE MERGULHO

MERGULHADORES PODEM EMERGIR SEM AVISO

BARCOS: MANOBRAR COM CUIDADO

Rachel esperava sinceramente que Michael não estivesse pensando em sair dali a nado. Seu medo aumentou quando ele parou na frente de uma fileira de paióis de trama de aço que ficavam ao lado da passarela. O oceanógrafo abriu as portas, deixando entrever roupas e material de mergulho pendurados, coletes salva-vidas e arpões. Antes que Rachel pudesse dizer algo, ele pegou um sinalizador.

— Vamos em frente.

Continuaram andando. Enquanto isso, Corky havia chegado às escadas em ziguezague e já estava na metade do caminho em direção ao deque lá embaixo.

— Já estou vendo! — gritou ele com uma voz quase alegre em meio ao ruído da água.

Vendo o quê? — pensou Rachel, observando Corky correr pela passagem estreita no convés. Tudo o que podia enxergar era o oceano infestado de tubarões ficando cada vez mais próximo. Tolland fez com que ela continuasse andando e, de repente, Rachel percebeu o que tinha deixado Corky tão animado. No outro lado do deque inferior havia uma pequena lancha ancorada. O astrofísico acelerou o passo em sua direção.

Rachel ficou olhando, incrédula. Fugir de um helicóptero numa lancha?

— Tem um rádio lá — explicou Tolland. — Se pudermos nos afastar o suficiente da interferência provocada pelo helicóptero...

Ela não ouviu mais nada. Acabara de ver algo que fez seu sangue gelar.

— Tarde demais — disse ela, apontando com um dedo trêmulo. É o nosso fim...

Quando Tolland se virou, soube que estavam liquidados.

No outro extremo do navio, como um dragão olhando para dentro de uma caverna, o helicóptero negro descera ao nível em que estavam, seu nariz voltado na direção deles. Por um momento, Tolland achou que seus agressores iriam voar sobre eles pelo vão embaixo do barco. Contudo, o Kiowa começou a virar, preparando sua mira.

Michael viu para onde os canos das armas estavam apontados. Não!

Agachado ao lado da pequena lancha, soltando as amarras, Corky olhou para cima segundos antes de as metralhadoras posicionadas sob o helicóptero começarem a cuspir balas violentamente. Ele caiu de lado, como se houvesse sido atingido. Desesperado, arrastou-se por cima da amurada e jogou-se dentro do barco, deitando para se proteger. As metralhadoras pararam. Tolland viu o amigo se esconder no fundo da lancha. A batata de sua perna direita estava coberta de sangue.

Agachado debaixo do painel, Corky estendeu a mão e tateou os controles até encontrar a chave. Ligou o motor Mercury de 250 HP.

Logo em seguida o helicóptero, ainda parado no ar, direcionou o laser vermelho para a pequena embarcação e se preparou para lançar outro míssil.

Tolland reagiu por instinto, usando a única arma que possuía.

O sinalizador que estava segurando sibilou quando ele puxou o gatilho e uma ofuscante linha luminosa percorreu uma trajetória horizontal diretamente para o helicóptero. Apesar disso, Michael sentiu que agira tarde demais. Enquanto a chama do sinalizador atravessava o ar em direção ao vidro frontal do Kiowa, um clarão partiu do lançador de foguetes sob o helicóptero. No exato instante em que o míssil foi disparado, a aeronave desviou bruscamente, saindo da linha de visão.

— Cuidado! — gritou Tolland, fazendo com que Rachel deitasse no chão da passarela.

Com a mudança de trajetória, o míssil errou Corky por pouco, atravessou o espaço vazio sob o Goya e chocou-se contra a base de um dos suportes do navio, nove metros abaixo de Rachel e Tolland.

O som foi apocalíptico. Água e chamas irromperam abaixo deles. Pedaços de metal retorcido voaram pelos ares espalhando-se pela passarela.

Ouviram o ruído de metal se atritando contra metal e o barco balançou até atingir um novo ponto de equilíbrio, ligeiramente torto.

Quando a fumaça se dispersou, Tolland viu que uma das quatro estruturas principais do Goya havia sido severamente danificada.

Fortes correntes passavam pelo flutuador, ameaçando arrancá-lo. A escada em ziguezague que descia até o convés inferior parecia estar presa apenas por um fio.

— Vamos! — gritou Tolland, puxando Rachel exatamente naquela direção.

Temos que descer!

Mas já era tarde. Com um ruído de metal se rasgando, as escadas se separaram da fixação danificada e caíram no mar.

 

Pouco acima do navio, Delta-Um lutou com os controles do Kiowa até estabilizá-lo. Temporariamente ofuscado pelo sinalizador, desviara por puro reflexo, fazendo com que o Hellfire errasse seu alvo.

Irritado, ele manteve o helicóptero parado sobre a proa do navio, preparando-se para descer novamente e terminar o serviço. Eliminar todos os passageiros. A exigência do controlador tinha sido clara.

— Merda! Ali! — Delta-Dois gritou do banco de trás, apontando para a janela. — Uma lancha!

Delta-Um virou-se e viu uma Crestliner crivada de balas afastando-se do Goya na escuridão.

Era necessário tomar uma decisão rapidamente.

 

As mãos ensangüentadas de Corky seguravam o volante da lancha Crestliner Phantom 2100 enquanto ela saltava velozmente pelo mar. Ele tinha empurrado o acelerador até o limite, tentando atingir a maior velocidade possível. Só depois de deixar o Goya sentiu uma dor lancinante na perna direita. Olhou para baixo e ficou tonto ao ver o sangue jorrando da ferida.

Apoiando-se no volante, virou-se para trás, torcendo para que o helicóptero estivesse no seu encalço. Como Tolland e Rachel haviam ficado presos na passarela, não fazia sentido esperá-los. Teve que tomar uma decisão instantânea.

Dividir para conquistar.

Corky calculou que, se conseguisse fazer com que o helicóptero o seguisse até bem longe do navio, talvez os amigos pudessem usar o rádio para pedir socorro. Infelizmente, olhando para o navio iluminado atrás dele, viu que o Kiowa ainda estava pairando sobre o Goya, como se os atacantes estivessem indecisos.

Andem, seus filhos-da-mãe! Venham atrás de mim!

Mas o helicóptero não o seguiu. Em vez disso, manobrou até a popa do navio, alinhou-se com ele e desceu sobre o convés. Não! Corky olhava, aterrorizado, pensando que deixara Tolland e Rachel para trás, indefesos.

Seria ele, então, quem teria que enviar a mensagem de rádio pedindo ajuda. Tateou pelo painel e achou o rádio. Apertou o botão de ligar.

Nada aconteceu. Nenhuma luz se acendeu. Não havia sequer estática.

Virou o volume até o máximo. Nada. Droga! Largou o volante e se ajoelhou, gritando ao sentir uma fisgada na perna. Olhou para o rádio, mas não podia acreditar no que via. O painel de controle tinha sido atingido pelas balas e estava destruído. Havia fios saindo pela frente. Corky ficou sem ação.

Mas que azar desgraçado...

Tremendo, levantou-se novamente, pensando no que mais poderia dar errado. A resposta veio do Goya. Olhou para o barco e viu dois soldados armados saltarem do helicóptero. Depois a aeronave decolou novamente, vindo na direção da lancha a toda a velocidade.

O astrofísico ficou arrasado. Dividir para conquistar. Aparentemente não tinha sido o único que tivera aquela idéia brilhante.

 

Delta-Três atravessou o convés e aproximou-se da escada que levava ao nível inferior. Pela abertura, ouviu a voz de uma mulher gritando em algum lugar lá embaixo. Virou-se e fez sinal para Delta-Dois avisando que iria descer para verificar. Seu parceiro concordou e ficou no convés principal para cobrir os deques superiores. Os dois manteriam contato pelo CrypTalk, já que o sistema de bloqueio do Kiowa deixava uma faixa de freqüência pouco usual aberta para comunicações internas.

Segurando sua metralhadora de cano curto, Delta-Três moveu-se em silêncio. Com a atenção de um matador profissional, começou a descer a escada lentamente, arma em ponto de mira.

Como a visibilidade era ruim, Delta-Três resolveu agachar-se para enxergar melhor. Os gritos se tornaram mais audíveis. Continuou descendo os degraus. Já bem perto da passarela, avistou a escada em ziguezague retorcida na parte inferior do Goya. Os gritos estavam cada vez mais altos.

Logo em seguida pôde vê-la. No meio da passarela que atravessava o barco, Rachel Sexton estava olhando por cima de uma antepara para o mar lá embaixo, gritando desesperada por Michael Tolland.

Tolland teria caído? Talvez durante os disparos?

Se fosse isso, o trabalho de Delta-Três seria ainda mais simples. Só precisava percorrer mais alguns metros para ter uma mira perfeita. Sua única preocupação era que Rachel estava perto de um paiol de equipamentos, o que significava que podia estar armada — talvez com um arpão ou um rifle contra tubarões —, mas nada que pudesse fazer frente à sua metralhadora. Confiante de que tinha total controle da situação, o soldado se moveu com cuidado.

Rachel Sexton estava quase totalmente visível agora. Ele preparou a arma.

Apenas mais um degrau.

Delta-Três ouviu um ruído de movimento abaixo dele. Ficou confuso, mais do que assustado, ao ver Michael Tolland arremessando um bastão de alumínio em direção a seus pés. Apesar de ter sido enganado, quase riu daquela tentativa tola de fazê-lo cair.

Então sentiu a ponta do bastão chocar-se contra sua bota, no calcanhar.

Uma dor terrível percorreu seu corpo quando seu pé direito explodiu debaixo dele com um forte impacto. Perdeu o equilíbrio e caiu no chão, rolando pela escada. Sua metralhadora escorregou ruidosamente, caindo no mar, enquanto ele se espatifava na passarela. Em total desespero, dobrou a perna para segurar seu pé direito, que não estava mais lá.

Um instante depois Tolland estava de pé sobre seu agressor, sua mão ainda segurando o bang-stick fumegante. O bastão de alumínio de um metro e meio trazia, na ponta, uma bala de escopeta calibre 12, que era disparada quando pressionada. Geralmente era usado por mergulhadores para autodefesa em casos de ataque de tubarão.

Tolland já recarregara o bang-stick com outra bala e mantinha a ponta fumegante encostada na garganta de seu agressor. Deitado de costas, paralisado, o homem olhava para Tolland com uma expressão de surpresa, à qual se misturavam raiva e enorme dor.

Rachel veio correndo pela passarela. O plano original era que ela pegasse a metralhadora, mas infelizmente a arma havia caído no oceano.

O dispositivo de comunicação no cinto do homem fez um barulho e transmitiu uma voz robótica:

— Delta-Três? Responda. Ouvi um tiro.

O homem não se moveu para responder. A voz retornou.

— Delta-Três? Confirme. Você precisa de ajuda?

Quase simultaneamente, uma nova voz surgiu na linha. Também era robótica, mas era fácil saber de onde vinha por causa do som dos rotores ao fundo.

— Aqui é Delta-Um — disse o piloto. — Estou perseguindo a lancha em fuga. Delta-Três, confirme. Você está ferido? Precisa de ajuda?

Tolland pressionou o bastão contra a garganta do soldado.

— Diga ao piloto para voltar e deixar a lancha partir. Se matarem meu amigo, você também morre.

O homem gemeu de dor ao pegar seu dispositivo de comunicação e aproximá-lo da boca. Olhou nos olhos de Tolland ao apertar o botão e dizer:

— Delta-Três falando. Estou bem. Destrua a lancha.

 

Gabrielle Ashe voltou ao banheiro particular de Sexton e preparou-se para fazer o caminho de volta até seu escritório. O telefonema do senador a deixara ansiosa. Quando Gabrielle lhe dissera que estava na sala dela, ele hesitara como se soubesse, de alguma forma, que era mentira. De qualquer maneira, ela não havia conseguido descobrir a senha do computador de Sexton e agora não sabia bem como proceder.

O senador está me esperando.

Quando subiu na pia, preparando-se para entrar pelo buraco no teto, ouviu alguma coisa caindo no chão de lajotas. Ela olhou para baixo, irritada ao ver que tinha derrubado um par de abotoaduras de Sexton que estavam sobre a pia.

Deixe tudo exatamente como você encontrou.

Gabrielle desceu, pegou-as e recolocou-as sobre a pia. Quando ia subir de novo, parou de repente e olhou para as abotoaduras. Normalmente a assessora as teria ignorado. Mas naquela noite um detalhe chamou sua atenção. Como a maioria dos objetos pessoais de Sexton, elas tinham seu monograma: duas letras entrelaçadas — SS. Lembrou-se da primeira senha que o senador havia usado: SSS. Depois lembrou-se de seu calendário... POTUS... e a proteção de tela com imagens da Casa Branca e a mensagem positiva que se repetia infinitamente:

Sedgewick Sexton, Presidente dos Estados Unidos... Sedgewick Sexton, Presidente dos Estados Unidos... Sedgewick Sexton...

Gabrielle pensou durante alguns segundos. Ele seria arrogante a este ponto?

Ela não levaria muito tempo para descobrir. Correu de volta para a mesa do senador, ligou o computador e digitou uma senha de sete dígitos:

POTUSSS

A proteção de tela sumiu imediatamente.

Gabrielle olhou, incrédula.

Nunca subestime o ego de um político.

 

Na parte de trás da Crestliner Phantom, que sacolejava sobre as ondas, Corky analisava o ferimento em sua perna. Ele havia abandonado o volante, pois sabia que a lancha seguiria em linha reta mesmo sem ninguém na direção.

Uma bala tinha entrado pela parte da frente de sua panturrilha, errando por pouco o osso. Não havia nenhuma ferida na parte posterior da perna, então ele concluiu que o projétil ainda estava alojado lá dentro. Procurou em volta por alguma coisa que pudesse deter o sangramento, mas não achou nada de útil. Encontrou algumas nadadeiras, um respiradouro e dois coletes salva-vidas. Nenhum kit de primeiros socorros.

Nervoso, abriu uma pequena caixa e encontrou algumas ferramentas, panos, fita isolante grossa, óleo e outros itens de manutenção. Olhou para sua perna sangrando e ficou pensando o quanto ainda teria que andar para sair do território dos tubarões.

Certamente bem mais do que isso.

 

Delta-Um estava fazendo um vôo rasante com o Kiowa sobre o oceano, procurando na escuridão pela lancha que havia escapado. Supondo que o barco em fuga seguiria em direção a terra firme tentando se distanciar o máximo possível do Goya, Delta-Um havia seguido a trajetória original da Crestliner, afastando-se do navio.

Eu já deveria ter passado por ele a essa altura.

Normalmente seria muito simples encontrar a lancha: bastaria usar o radar. Contudo, com os sistemas de interferência do helicóptero transmitindo um cobertor de ruído térmico num raio de vários quilômetros, o radar era inútil. Por outro lado, ele não podia desligar o sistema de interferência até que soubesse que todos a bordo do Goya tinham sido eliminados. Ninguém iria transmitir um chamado de emergência naquela noite.

O segredo sobre o meteorito vai morrer. Aqui e agora.

Felizmente Delta-Um tinha outras formas de procurar a lancha. Mesmo contra o pano de fundo do oceano quente, descobrir a assinatura térmica de uma lancha era fácil. Ligou a varredura térmica. O oceano em volta dele estava a 35°C. O motor externo de 250 HP a plena potência estaria centenas de graus mais quente.

 

A bordo da lancha, Corky estava perdendo a sensibilidade na perna e no pé. Sem saber o que fazer, ele havia limpado a ferida na panturrilha com um pano e depois recoberto o machucado com várias camadas de fita isolante. Usou o rolo de fita até o fim, envolvendo toda a parte inferior da perna, do tornozelo ao joelho, criando uma apertada tala prateada. O sangramento havia parado, mas suas roupas, o curativo improvisado e suas mãos ainda estavam recobertos de sangue.

Sentado no chão da Crestliner, o astrofísico tentava entender por que o helicóptero ainda não tinha conseguido encontrá-lo. Levantou o rosto para olhar por cima da balaustrada, examinando o horizonte atrás dele.

Esperava ver o Goya ao longe e o helicóptero se aproximando.

Entretanto, não podia ver nenhum dos dois. As luzes do navio tinham sumido. Não poderia ter ido assim tão longe, não é?

Corky sentiu-se esperançoso de que pudesse escapar. Talvez não fosse tão fácil detectar a lancha no escuro. Talvez ele conseguisse chegar até à costa!

Então notou que a trilha deixada pelo motor da lancha não era reta.

Parecia curvar-se gradualmente, como se estivesse navegando num arco aberto e não em linha reta. Confuso, seguiu com a cabeça o arco formado pela espuma atrás do barco, extrapolando uma curva aberta sobre o mar. Logo em seguida ele compreendeu.

O Goya estava a bombordo, a menos de uma milha de distância.

Apavorado, Corky entendeu seu erro, mas já era tarde. Sem ninguém ao volante, a lancha havia se alinhado o tempo todo na direção da forte corrente — o fluxo circular de água gerado pela megapluma. Estive andando num maldito círculo.

Ele estava retornando ao ponto de partida.

Sabia que ainda estava dentro da megapluma e, portanto, no território dos tubarões. Corky lembrou-se das palavras sombrias de Tolland: Lobos olfativos telencefálicos.superdesenvolvidos... os tubarões-martelo podem sentir o cheiro de sangue a uma milha de distância.

Bastaria uma gota para atraí-los. Corky olhou para a perna, envolta em fita isolante mas ainda assim ensangüentada. Depois para o sangue em suas mãos.

O helicóptero logo o encontraria.

Rasgando a roupa, arrastou-se, nu, em direção à popa. Sabendo que nenhum tubarão poderia nadar tão rápido quanto a lancha, lavou-se da melhor forma possível no jato d’água que saía do motor.

Uma única gota de sangue...

Levantou-se, secando o corpo no vento noturno. Ele sabia que só havia uma coisa a fazer. Havia aprendido que os animais marcavam seu território com urina porque o ácido úrico era o fluido com o cheiro mais forte que o corpo podia produzir.

Mais poderoso do que sangue, ele esperava. Queria ter tomado muito mais cerveja naquela noite. Esforçou-se para apoiar sua perna ferida sobre a balaustrada da lancha e tentou urinar sobre a fita. Vamos! Ele esperou. Não há nada como a pressão de ter que urinar sobre si mesmo com um helicóptero caçando você.

Finalmente conseguiu. Encharcou toda a fita isolante. Usou as últimas gotas de sua bexiga para molhar um pano, que passou, então, por todo o corpo. Muito agradável.

No silêncio do céu acima dele, um feixe de laser surgiu, pairando sobre a lancha como a lâmina brilhante de uma enorme guilhotina. O helicóptero apareceu vindo de um dos lados da Crestliner, provavelmente confuso quanto ao curso que o astrofísico havia tomado.

Corky enfiou-se rapidamente num colete salva-vidas e moveu-se para a popa da lancha. Um ponto vermelho e brilhante apareceu no chão manchado de sangue, bem próximo de onde ele estava.

É agora ou nunca.

A bordo do Goya, Michael Tolland não viu quando a Crestliner Phantom 2100 irrompeu em chamas e voou pelos ares em espirais de fogo e fumaça. Mas ele ouviu o som da explosão.

 

A ala oeste era normalmente silenciosa àquela hora, mas a aparição inesperada do presidente vestindo roupão e chinelos havia tirado o pessoal de apoio e a equipe residente de suas camas improvisadas ou de seus quartos na Casa Branca.

— Não estou conseguindo encontrá-la, senhor presidente — disse um jovem assistente, andando rápido atrás de Herney em direção ao Salão Oval. O rapaz já tinha procurado em todos os lugares possíveis. — A senhora Tench não está atendendo nem o pager nem o celular.

O presidente estava irritado.

— Você já procurou no...

— Ela saiu do prédio, senhor — informou outro assistente. — Há um registro de saída há cerca de uma hora. Achamos que ela pode ter ido para o NRO. Uma das telefonistas disse que ela e Pickering se comunicaram esta noite.

— William Pickering? — perguntou Herney, espantado. Tench e Pickering estavam longe de serem amigos. — Você já ligou para ele?

— Ele também não está respondendo, senhor. O NRO não conseguiu entrar em contato com Pickering. As telefonistas disseram que o celular do diretor não está nem mesmo tocando. É como se ele tivesse desaparecido da face da Terra.

Herney ficou olhando para seus dois assistentes por um instante, depois foi até o bar e serviu um copo de uísque. Estava prestes a tomar um gole quando um agente do serviço secreto entrou afobado.

— Senhor presidente? Eu não ia acordá-lo, mas devo informá-lo de que explodiram um carro no Memorial de Roosevelt esta noite.

— O quê? — Herney quase deixou cair o copo. — Quando?

— Há cerca de uma hora — respondeu, tenso. — E o FBI já identificou a vítima...

 

O pé de delta-três doía enormemente. Ele se sentiu flutuando em meio a uma consciência turva. Isso é a morte? Tentou se mover, mas estava paralisado, mal conseguindo respirar. Só via alguns borrões. Voltou no tempo, lembrando-se do barulho da explosão da Crestliner no mar.

Lembrava-se da expressão de raiva nos olhos de Michael Tolland, de pé acima dele, pressionando o cilindro explosivo contra sua garganta.

Certamente Tolland me matou...

No entanto, a dor insuportável no pé direito de Delta-Três lhe dizia que estava bem vivo. Lentamente as coisas voltaram à sua memória. Ao ouvir a explosão da lancha, o oceanógrafo dera um grito de raiva e angústia pela morte do amigo e se curvara sobre o soldado preparando-se para enfiar o bastão na garganta dele. Mas, no mesmo instante, Tolland pareceu hesitar, como se sua própria moralidade o impedisse de ir em frente. Brutalmente frustrado e enfurecido, afastou o bang-stick e chutou, com força, o pé dilacerado de Delta-Três.

A última coisa de que o soldado da Força Delta se lembrava era ter vomitado de dor enquanto o mundo inteiro era engolido por um delírio negro. Agora estava voltando a si, sem saber muito bem quanto tempo tinha passado inconsciente. Podia sentir que seus braços tinham sido amarrados atrás de suas costas com um nó tão apertado que só podia ter sido feito por um marinheiro. Suas pernas também estavam presas, dobradas para trás e amarradas a seus pulsos, deixando-o imobilizado numa posição extremamente desagradável. Tentou gritar, mas nenhum som.saiu. Algo fora enfiado em sua boca.

Ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Ao sentir a brisa fresca e ver luzes brilhantes, percebeu que estava no convés principal do Goya. Olhou ao redor à procura de ajuda, mas tudo o que viu foi uma imagem distorcida de si mesmo, refletida na bolha de plexiglas do submersível Triton. O submarino estava suspenso bem à sua frente, e Delta-Três notou que estava deitado sobre um gigantesco alçapão no convés. Tudo aquilo, contudo, era menos perturbador que a outra pergunta, mais óbvia.

Se estou no convés, onde foi parar Delta-Dois?

 

Delta-Dois estava nervoso.

Apesar de seu parceiro ter afirmado ao CrypTalk que estava bem, o único tiro que ele ouvira não era de metralhadora. Tolland ou Rachel haviam disparado uma arma. Delta-Dois moveu-se para investigar a escada por onde seu parceiro havia descido e encontrou sangue.

Arma em punho, foi para o convés inferior, onde seguiu o rastro de sangue ao longo de uma passarela que dava na proa do navio. Lá, a trilha vermelha o levou de volta, por outra escada, até o convés principal, que estava deserto. Cada vez mais cauteloso, o homem seguiu os pingos de sangue pela lateral do convés de volta à parte posterior do navio, passando ao largo do acesso à escada por onde ele havia descido inicialmente.

Mas que diabos está acontecendo? O rastro parecia descrever um grande círculo ao redor do Goya.

Movendo-se com cuidado, a arma apontada à sua frente, Delta-Dois passou pela entrada para os laboratórios do navio. Os pingos continuavam na direção do convés de popa. Muito cautelosamente, fez uma curva aberta quando chegou ao canto. Seus olhos acompanharam a trilha de sangue... até que encontrou seu companheiro.

Minha nossa!

Amarrado e amordaçado, Delta-Três fora jogado sem a menor cerimônia diante do pequeno submersível do Goya. Mesmo daquela distância, seu parceiro podia ver que ele perdera boa parte do pé direito.

Atento para não cair numa armadilha, Delta-Dois manteve a arma em posição de tiro e seguiu em frente. Delta-Três estava se retorcendo agora, tentando dizer algo. Ironicamente, a forma como ele havia sido amarrado, com os joelhos fortemente dobrados para trás, provavelmente salvara sua vida. O sangramento em seu pé parecia contido.

Delta-Dois aproximou-se do submarino, notando que tinha o raro luxo de ser capaz de vigiar a própria retaguarda, já que todo o convés do navio estava refletido no domo esférico do cockpit do submarino.

Caminhou até o parceiro, que se debatia, mas demorou demais para notar o aviso em seus olhos.

O objeto prateado surgiu sem aviso.

Uma das garras mecânicas do Tnton saltou para a frente repentinamente e agarrou a coxa esquerda de Delta-Dois com uma força esmagadora. Ele tentou se livrar, mas não foi bem-sucedido. Gritou de dor, sentindo um osso se quebrar. Seus olhos se voltaram para o cockpit do submersível. Por trás do reflexo do convés, do outro lado do vidro, Delta-Dois podia vê-lo agora, encoberto pelas sombras no interior do Triton.

Michael Tolland estava lá dentro, manipulando os controles.

Péssima idéia, pensou o soldado, furioso, deixando de lado a dor e empunhando sua metralhadora. Mirou um pouco para cima e para a esquerda, na direção do peito de Tolland, que estava a apenas 30 centímetros de distância, do outro lado do domo de plexiglas do submarino. Puxou o gatilho e a arma urrou. Louco de raiva por ter sido enganado, Delta-Dois apertou o gatilho até a última de suas balas cair no convés, esvaziando todo o pente. Sem fôlego, largou a arma e olhou para o domo estilhaçado à sua frente.

— Morto! — sibilou o soldado, fazendo força para soltar sua perna da garra. Quando girou, o metal cortou fundo sua pele, abrindo uma grande ferida. — Merda! — Moveu-se para pegar o CrypTalk em seu cinto, mas, quando ia levá-lo até à boca, uma segunda garra robótica projetou-se na direção dele e agarrou seu braço direito. O CrypTalk caiu no convés.

Foi quando Delta-Dois viu o fantasma na janela diante dele. Um rosto pálido, virado de lado e olhando através de um pedaço do vidro que não havia sido atingido. Perplexo, olhou para o centro do Triton e só então percebeu que sua metralhadora sequer chegara perto de penetrar o grosso domo, crivado com marcas de balas.

Pouco depois a escotilha superior do submarino se abriu e Michael Tolland saiu lá de dentro. Estava assustado, mas ileso. Desceu pela escadinha de alumínio até o convés e olhou para a janela esférica de seu submarino, arruinada pelas balas.

— Dez mil libras por polegada quadrada — disse Tolland. — Melhor usar uma arma mais poderosa da próxima vez.

 

Dentro do laboratório de hidrografia, Rachel sabia que seu tempo era curto. Ouvira os tiros no convés e estava rezando para que as coisas tivessem saído exatamente como Tolland havia planejado. Já não se importava em saber quem estava por trás da fraude do meteorito — se tinha sido Ekstrom, Tench ou mesmo o presidente.

Os culpados não vão se safar dessa. A verdade virá à tona.

A ferida no braço de Rachel parará de sangrar e a adrenalina que fluía por seu corpo, além de reduzir a dor, ajudava a manter sua concentração. Pegou caneta e papel para escrever um bilhete de duas linhas. O texto era seco e sem requintes, mas não havia tempo para floreios. Acrescentou o bilhete à pilha de papéis incriminadores que estava em suas mãos — a impressão do GPR, imagens do Bathynomus giganteus, fotos e artigos sobre côndrulos oceânicos e uma impressão da varredura de elétrons. O meteorito era falso e ali estavam todas as provas.

Rachel inseriu os papéis na máquina de fax do laboratório. Ela sabia poucos números de fax de cor e, portanto, suas escolhas eram bem limitadas. No entanto, já tinha decidido quem seria o destinatário daquelas páginas e de seu curto bilhete. Digitou cuidadosamente o número que tinha em mente.

Pressionou “Enviar”, rezando para ter escolhido o destinatário sabiamente.

O aparelho de fax emitiu um bipe.

ERRO: SEM SINAL DE CHAMADA

Rachel já estava esperando aquilo. As comunicações do Goya continuavam sendo bloqueadas pela interferência. Ela ficou ao lado do fax, esperando que aquele modelo funcionasse como o de sua casa.

Vamos lá!

Após cinco segundos, a máquina emitiu outro sinal.

REDISCANDO...

Isso! Rachel observou a máquina entrar num ciclo sem fim.

ERRO: SEM SINAL DE CHAMADA REDISCANDO...

Rachel deixou o aparelho de fax à espera de um sinal de chamada e saiu correndo do laboratório de hidrografia bem no instante em que as hélices do helicóptero rugiram acima dela.

 

A mais de 250 quilômetros do Goia, Gabrielle Ashe olhava para a tela do computador do senador Sexton em estado de choque. Suas suspeitas estavam certas. Ela só não imaginava quanto.

Tinha acabado de ver imagens digitalizadas de dezenas de cheques entregues a Sexton por corporações do setor espacial e depositados em contas numeradas nas ilhas Cayman. O menor cheque que havia encontrado era de 15 mil dólares. Vários deles passavam de meio milhão de dólares.

Ilegal? Claro que não!, dissera Sexton. Todas as doações estão abaixo do limite permitido.

O senador tinha mentido o tempo todo. Gabrielle estava diante de provas de financiamento ilegal de campanha em larga escala. A traição e a desilusão doeram no fundo de seu coração. Ele mentiu para mim.

Sentiu-se uma completa idiota. Sentiu-se desonesta. E ficou possessa.

Sentada na sala apagada, Gabrielle não tinha a menor noção do que fazer a seguir.

 

Enquanto manobrava o Kiowa em direção à popa do Goya, Delta-Um olhou para baixo, fixando os olhos em algo completamente inesperado.

Michael Tolland estava de pé no deque ao lado de um pequeno submarino.

Delta-Dois estava preso às garras mecânicas do Triton, como se tivesse sido imobilizado por um inseto gigante. Ele lutava em vão para livrar-se das enormes garras.

Mas que diabos está...?

Viu então outra imagem inusitada. Rachel Sexton havia acabado de chegar ao convés e se posicionara sobre um homem amarrado e ensangüentado que estava logo abaixo do submersível. Aquele só podia ser Delta-Três. Rachel apontava uma das metralhadoras da Força Delta para o soldado e olhava para o helicóptero, como se o desafiasse a atacá-los.

Delta-Um ficou temporariamente confuso, incapaz de imaginar como aquilo poderia ter acontecido. Os deslizes da sua equipe na plataforma de gelo Milne haviam sido uma ocorrência rara, mas explicável. Aquilo, porém, era impensável.

Em circunstâncias normais, Delta-Um já se sentiria terrivelmente humilhado. Mas naquela noite sua vergonha era ainda maior devido à presença de outra pessoa a seu lado no helicóptero, uma participação extremamente incomum naquele tipo de operação. O controlador.

Após o assassinato no Memorial de Roosevelt, o chefe ordenara que Delta-Um voasse até um parque público deserto, não muito longe da Casa Branca. Seguindo suas orientações, ele pousara numa pequena colina gramada em meio a algumas árvores enquanto o controlador, que havia estacionado seu carro ali perto, saía da escuridão e subia a bordo do Kiowa. Em poucos segundos partiram novamente.

Apesar do envolvimento direto de um controlador ser raro, Delta-Um não tinha como reclamar. Irritado com os erros da Força Delta e preocupado com o aumento das suspeitas e investigações de diversos grupos, o controlador lhe informara que iria supervisionar a missão pessoalmente.

Agora ele estava ao seu lado, testemunhando falhas cujas proporções iam muito além de quaisquer outras já cometidas por Delta-Um.

Isso precisa terminar. Agora.

O controlador olhou do helicóptero para o convés do Goya imaginando como podiam ter chegado àquele ponto. Nada tinha dado certo: das suspeitas sobre o meteorito até à incompetência dos assassinos da Força Delta em Milne, culminando com a necessidade de eliminar uma figura do alto escalão no memorial.

— Controlador — gaguejou Delta-Um, num tom de vergonha e perplexidade diante da situação —, não posso imaginar...

Nem eu, pensou o controlador. Obviamente haviam subestimado aquele grupo.

Ele observou Rachel Sexton, que, por sua vez, estava tentando enxergar através do vidro reflexivo do helicóptero. A agente do NRO aproximou o dispositivo CrypTalk da boca. Quando sua voz sintetizada soou dentro do Kiowa, o controlador esperava que ela fosse exigir que a aeronave recuasse ou desligasse o sistema de interferência eletrônica para que Tolland pudesse mandar um pedido de ajuda. Contudo, Rachel foi muito mais dura.

— Vocês chegaram tarde — ela disse. — Outras pessoas já sabem.

Aquelas palavras ressoaram por alguns instantes dentro do helicóptero.

A afirmação parecia pouco provável. Ainda assim, a menor possibilidade de que a ameaça fosse real era assustadora. O sucesso daquele projeto dependia da eliminação de todos os que sabiam da verdade e, por mais que essa contenção de danos terminasse em rios de sangue, o controlador precisava estar certo de que aquele era de fato o fim.

Outras pessoas já sabem...

Considerando-se a reputação que Rachel tinha de seguir rigidamente o protocolo quanto a informações confidenciais, o controlador achava muito difícil acreditar que ela tivesse decidido compartilhar os dados com uma fonte externa.

A analista de inteligência falou no CrypTalk novamente:

— Recuem e nós pouparemos os prisioneiros. Aproximem-se e eles morrem. De qualquer forma, a verdade será revelada. Minimizem as perdas. Recuem.

— Você está blefando — respondeu o controlador, sabendo que Rachel iria ouvir uma voz andrógina e robótica. — Não contou a mais ninguém.

— Está disposto a apostar? — retrucou ela. — Não consegui falar com Pickering mais cedo, então fiquei preocupada e decidi tomar algumas precauções.

O controlador fechou a cara. Era possível.

— Eles não vão cair nessa — comentou Rachel, virando-se para Tolland.

O soldado que estava preso nas garras do Triton desafiou-os num tom irônico.

— Essa arma está descarregada e o helicóptero vai mandá-los para o inferno. A única chance de vocês é nos deixar sair daqui.

Jamais, pensou Rachel, calculando seu próximo movimento. Olhou para o homem amarrado e amordaçado a seus pés, que já estava meio delirante devido à perda de sangue. Agachando-se ao seu lado, ela falou com firmeza:

— Vou tirar sua mordaça e segurar o CrypTalk para que você convença o piloto do helicóptero a recuar. Está claro?

O homem concordou com veemência. Assim que Rachel tirou a mordaça, o soldado deu uma cusparada de saliva ensangüentada no rosto dela.

— Piranha — gritou, tossindo. — Vou ver você morrer. Meus parceiros vão sangrá-la como um porco e vou me divertir com cada minuto do seu sofrimento.

Rachel limpou a saliva do rosto enquanto Tolland a puxava para longe.

Depois de ajudá-la, ele pegou a metralhadora das suas mãos. Estava transtornado. Caminhando até um painel de controle a poucos metros de distância, colocou a mão sobre uma alavanca e encarou o homem amarrado no convés.

— Foi sua segunda chance — disse Tolland. — No meu barco, é também a última.

Com enorme raiva, puxou a alavanca para baixo. O alçapão no convés abaixo do Triton abriu-se como a base de uma forca. Delta-Três deu um curto grito de terror e desapareceu através da abertura, caindo no mar nove metros abaixo. Uma grande mancha avermelhada surgiu na água. Em segundos, os tubarões se lançaram sobre o soldado.

Trêmulo de raiva, o controlador viu o que sobrara do corpo de Delta-Três sair flutuando de baixo do barco, puxado pela forte corrente.

Iluminada pelos holofotes do Kiowa, a água parecia ter sido tingida de rosa. Diversos tubarões ainda brigavam por algo que parecia ser um braço. Que horror.

— Tudo bem — berrou o controlador no CrypTalk. — Esperem. Esperem só um instante.

De pé no convés, Rachel olhava para o Kiowa. Mesmo à distância, o controlador podia sentir que ela estava decidida. A agente levantou o CrypTalk e tornou a falar:

— Ainda acha que estamos blefando? Ligue para a central telefônica do NRO. Chame Jim Samiljan, da Divisão de Planejamento e Análise. Ele está trabalhando no turno da noite e irá confirmar que eu lhe contei tudo o que sei sobre o meteorito.

Ela está me dando um nome específico? Aquilo soava estranho. Rachel não era tola e sabia que, se estivesse mentindo, poderia ser desmascarada em poucos minutos. O controlador não conhecia ninguém no NRO com aquele nome, mas a organização era grande. Antes de ordenar a eliminação dos alvos, ele precisava descobrir se aquilo era mesmo um blefe — ou não.

Delta-Um olhou para trás.

— Devo desativar o sistema de interferência eletrônica para que o senhor possa ligar e verificar?

O controlador olhou para Rachel e Tolland. Ambos estavam bem à vista.

Se qualquer um dos dois tentasse alcançar um celular ou um rádio, ele sabia que Delta-Um podia reativar os sistemas e interromper a chamada.

O risco era mínimo.

— Desligue tudo — disse o controlador, pegando o celular. — Vou confirmar que ela está mentindo. Então vamos pensar numa forma de resgatar Delta-Dois e terminar logo com isso.

 

Em Fairfax, a telefonista do NRO estava quase perdendo a paciência.

— Como eu acabei de lhe dizer, não estou encontrando nenhum Jim Samiljan na Divisão de Planejamento e Análise.

A pessoa do outro lado da linha continuava insistindo.

— Você já procurou o mesmo nome com outra grafia? Verificou outros departamentos?

Ela já havia verificado tudo, mas olhou novamente. Após um tempo, respondeu com bastante segurança:

— Não há ninguém em nossa equipe chamado Jim Samiljan, seja lá como se escreva.

O interlocutor parecia ter ficado feliz com essa notícia.

— Então você tem mesmo certeza de que o NRO não possui nenhum

funcionário chamado Jim Samil...

Uma agitação súbita invadiu a linha. Alguém disse um palavrão bem alto e desligou.

A bordo do Kiowa, Delta-Um estava praguejando, enfurecido, enquanto mexia nos controles para reativar o sistema de interferência. Ele tinha demorado demais para perceber o que estava acontecendo. Em meio à enorme quantidade de indicadores e controles no painel, um pequeno medidor de LEDs indicou que um sinal de dados SATCOM estava sendo transmitido do Goya.

Mas como? Ninguém saiu do convés!

Antes que Delta-Um conseguisse reativar os sistemas, a conexão terminou por conta própria.

Dentro do laboratório de hidrografia, a máquina de fax emitiu um bipe.

PORTADORA ENCONTRADA... FAX TRANSMITIDO

 

Matar ou morrer. Rachel havia descoberto um aspecto de sua personalidade que nem sabia que existia: uma força selvagem alimentada pelo medo. Era como se seu instinto de sobrevivência tivesse assumido o controle da situação.

— Qual o conteúdo do fax que foi transmitido? — perguntou a voz no

CrypTalk, exigindo uma resposta.

Rachel ficou feliz ao ouvir a confirmação de que o fax fora enviado como ela planejara.

— Deixem a área — ela ordenou, falando pelo CrypTalk e olhando para o helicóptero. — Está tudo acabado. Seu segredo foi revelado. — Rachel informou a seus agressores tudo o que havia divulgado. Meia dúzia de páginas contendo imagens e textos. Provas incontestáveis de que o meteorito era falso. — Atacar-nos só irá piorar as coisas para vocês.

Houve uma longa pausa.

— Para quem você enviou o fax?

Rachel não tinha a menor intenção de responder àquela pergunta. Ela e Tolland precisavam ganhar tempo. Estavam perto da abertura do convés, em linha direta com o Triton, tornando impossível para o helicóptero acertá-los sem atingir o soldado que estava suspenso nas garras do submersível.

— William Pickering — disse a voz, soando estranhamente esperançosa. — Você enviou o fax para Pickering.

Errado, pensou Rachel. O diretor do NRO teria sido sua primeira opção, mas ela resolvera escolher outra pessoa, temendo que seus agressores houvessem eliminado Pickering — uma manobra cuja audácia comprovaria a obstinação de seus inimigos. Pouco antes, num momento de desespero, a agente enviara os documentos sobre a farsa do meteorito para o único outro número de fax que sabia de cor.

O do escritório de seu pai.

Aquele número ficara dolorosamente gravado na memória de Rachel após a morte de sua mãe, quando o senador decidiu resolver vários detalhes do inventário sem ter que lidar com a filha pessoalmente. Ela nunca teria imaginado que precisaria pedir ajuda a seu pai, mas o senador possuía duas qualidades essenciais para enfrentar aquela situação: todas as motivações políticas possíveis para divulgar a fraude sem a menor hesitação e poder suficiente para ligar para a Casa Branca e pressioná-la, por meio de chantagem, a chamar de volta aquele esquadrão da morte.

Seu pai provavelmente não estaria no escritório àquela hora, mas Rachel sabia que ele mantinha sua sala trancada e protegida por um sofisticado sistema de alarme. Era como se ela tivesse transmitido o fax para um cofre com abertura programada para determinado horário.

Mesmo se os agressores descobrissem para onde as informações tinham sido enviadas, havia poucas chances de que conseguissem burlar a estrita segurança federal do edifício de gabinetes do Senado e arrombar o escritório de Sexton sem que ninguém notasse.

— Seja lá para onde for que tenha enviado o fax — disse a voz lá de cima —, você colocou a vida de alguém em perigo.

Rachel sabia que precisava manter uma postura firme, não importando o medo que estivesse sentindo. Fez um gesto na direção do soldado preso nas garras do Triton. As pernas dele estavam suspensas sobre o abismo, pingando sangue no mar.

— Acho que a única pessoa em perigo aqui é seu agente — disse ela no CrypTalk. — O jogo acabou. Vão embora. Os dados já foram enviados. Vocês perderam. Evacuem a área ou esse homem morre.

A voz no CrypTalk retrucou de imediato:

— Senhorita Sexton, você não entende a importância...

— Não entendo? — explodiu Rachel. — Eu entendo perfeitamente que vocês mentiram sobre o meteorito e mataram pessoas inocentes! Mas não vão se safar dessa história! Mesmo que nos matem agora, está tudo acabado para vocês.

Houve um longo silêncio. Finalmente a voz disse:

— Vou descer.

Rachel sentiu seu corpo se retesar. Descer?

— Estou desarmado — disse a voz. — Não tente nenhum gesto desesperado. Você e eu precisamos conversar frente a frente.

Antes que Rachel tivesse tempo de reagir, o helicóptero pousou sobre o convés do Goya. A porta de passageiros se abriu e um homem desceu. Sua aparência era bastante comum e ele usava casaco preto e gravata. Por alguns instantes a agente do NRO não conseguiu pensar em nada.

Estava diante de William Pickering.

William Pickering olhou para Rachel Sexton com tristeza. Nunca imaginou que tudo terminaria assim. Andou na direção dela, vendo a perigosa combinação de emoções espelhada em seus olhos.

Perplexidade, desapontamento, confusão, raiva.

Perfeitamente compreensível, pensou. Há tantas coisas que ela não entende.

Lembrou-se de sua própria filha, Diana. O que ela teria sentido antes de morrer? Tanto Diana quanto Rachel eram vítimas da mesma guerra — e Pickering tinha jurado nunca abandonar aquele campo de batalha.

Algumas vezes as baixas podem ser muito cruéis.

— Rachel — disse o diretor —, nós ainda podemos encontrar uma solução. Há muitas coisas que preciso lhe explicar.

Ela estava em choque, enojada. Tolland também parecia confuso.

— Não se aproxime! — gritou o oceanógrafo, apontando a metralhadora para o peito de Pickering.

O diretor do NRO parou a cinco metros de Rachel.

— Seu pai está recebendo suborno. Dinheiro de companhias do setor aeroespacial. Ele planeja desativar a NASA e abrir o espaço para a iniciativa privada. Era necessário fazer alguma coisa para impedi-lo, por questões de segurança nacional.

Rachel permaneceu impassível.

Depois de um longo suspiro, Pickering disse:

— A NASA, apesar de todos os seus erros, precisa continuar sendo uma agência governamental.

Ela certamente compreende os perigos da privatização. As melhores mentes da NASA iriam para o setor privado. O capital intelectual se dispersaria. Os militares não teriam mais acesso a tecnologias de importância estratégica. Interessadas em maximizar seus lucros, as companhias particulares venderiam patentes e idéias da agência espacial para qualquer nação que oferecesse uma boa quantia.

— Você falsificou o meteorito e matou pessoas inocentes... em nome da segurança nacional? — questionou Rachel, com a voz trêmula.

— Não era isso que eu pretendia — respondeu Pickering. — Queria apenas salvar uma agência importante do governo. Matar inocentes não estava nos meus planos.

Como a maioria das propostas de inteligência, a farsa do meteorito era um produto do medo. Há três anos, num esforço para colocar os hidrofones do NRO em águas mais profundas, onde não pudessem ser encontrados por sabotadores inimigos, Pickering liderara um programa que usava um novo material desenvolvido pela NASA para projetar um submarino incrivelmente resistente, capaz de levar o homem às regiões mais profundas do oceano, inclusive à fossa das Marianas.

Feito com uma cerâmica revolucionária, o submersível com capacidade para dois tripulantes foi elaborado a partir de planos furtados do computador de um engenheiro californiano chamado Graham Hawkes, um brilhante projetista que sonhava construir um submarino de águas profundas que batizara de Deep Flight II. Enquanto Hawkes enfrentava dificuldades para conseguir financiamento para a construção de seu protótipo, Pickering, por outro lado, tinha um orçamento ilimitado.

Usando o submersível secreto, ele enviara uma equipe de operações especiais para o fundo do oceano com o objetivo de fixar os novos hidrofones às paredes da fossa das Marianas, fora do alcance de seus inimigos. Durante as perfurações, a equipe se deparara com estruturas geológicas nunca vistas. As descobertas incluíam côndrulos e fósseis de várias espécies desconhecidas. Obviamente, como a capacidade do NRO de descer àquela profundidade era segredo de estado, nenhuma dessas informações poderia ser divulgada.

Há pouco tempo, novamente impulsionados pelo medo, Pickering e uma discreta equipe de consultores científicos do NRO decidiram colocar seu conhecimento da geologia peculiar da fossa das Marianas a serviço de uma operação para salvar a NASA. Transformar uma rocha tirada das profundezas do oceano num meteorito fora uma tarefa engenhosamente simples.

Usando um propulsor de ciclo de expansão à base de pasta de hidrogênio, a equipe do NRO carbonizara a rocha, gerando uma convincente crosta de fusão. Depois, com o auxílio de um pequeno submarino de transporte, o falso meteorito foi levado até o fundo da plataforma de gelo Milne e inserido por baixo do gelo. Depois que o poço de inserção congelou novamente, parecia que aquela rocha estivera lá por quase 300 anos.

Infelizmente, como acontecia muitas vezes no mundo das operações secretas, os planos mais ambiciosos podiam ser estragados pelo menor dos empecilhos. Há menos de 24 horas, toda a ilusão que Pickering se esforçara para criar tinha sido desfeita por um punhado de plâncton bioluminescente.

Ainda sentado na cabine do Kiowa, Delta-Um observava atentamente a cena à sua frente. Rachel e Tolland pareciam ter controle total da situação, mas o soldado quase riu do truque infantil que os dois tentavam usar para enganá-los. A metralhadora que o cientista segurava não serviria para nada. Mesmo de longe, Delta-Um podia ver que o ferrolho estava para trás, indicando que não havia mais balas no pente.

Delta-Um olhou seu parceiro se debatendo na garras do Triton. Ele precisava se apressar. O foco no convés desviara-se para Pickering, dando-lhe maior liberdade para entrar em ação. Deixando os rotores em baixa rotação, o soldado saiu do Kiowa discretamente pela parte traseira da fuselagem e, ocultado pelo helicóptero, conseguiu chegar à passarela de estibordo sem ser visto. Empunhando sua metralhadora, seguiu para a proa. Pickering lhe dera ordens bem claras antes de pousarem no convés, e Delta-Um não pretendia falhar naquela tarefa tão simples.

Em poucos minutos a situação estará resolvida, disse para si mesmo.

 

Sentado diante de sua mesa no Salão Oval, ainda de roupão, Zach Herney sentia a cabeça latejar. Mais uma peça do quebra-cabeça acabara de ser revelada.

Marjorie Tench está morta.

Os assistentes de Herney lhe disseram que as informações obtidas indicavam que Tench teria ido até o Memorial de Roosevelt para uma reunião secreta com William Pickering. Como o diretor do NRO não estava sendo localizado, o temor era de que ele também pudesse estar morto.

Nos últimos tempos o presidente e Pickering vinham se desentendendo.

Há poucos meses, Herney soubera que Bill se envolvera em atividades ilegais para tentar salvar sua campanha à reeleição.

Usando recursos do NRO, Pickering havia discretamente coletado evidências contra Sedgewick Sexton: fotos escandalosas do envolvimento sexual do senador com sua auxiliar, Gabrielle Ashe, bem como registros financeiros incriminadores, provando que o candidato estava recebendo suborno de empresas privadas do setor espacial. Sem se identificar, Pickering enviara as provas para Marjorie Tench, supondo que a Casa Branca iria usá-las em seu proveito. Só que Herney não permitiu que Tench lançasse mão daquele artifício. Escândalos sexuais e subornos eram uma praga em Washington, e o presidente estava convencido de que aquele tipo de jogada só iria aumentar a descrença no governo.

O cinismo está matando este país.

Ainda que Herney soubesse que podia destruir Sexton com um bom escândalo, ele achava que macular a dignidade do Senado norte-americano era um custo muito alto a pagar.

Chega de propaganda negativa. O presidente estava decidido a vencer o senador com base em suas propostas políticas.

Irritado com a recusa da Casa Branca em usar as provas que ele tinha fornecido, Pickering tentou divulgar o escândalo por conta própria, deixando vazar rumores de que Sexton tinha ido para a cama com Gabrielle Ashe. Infelizmente, o senador declarou sua inocência com uma indignação tão convincente que, no final das contas, o próprio presidente teve que se desculpar pelos boatos. William Pickering havia atrapalhado mais do que ajudado. Herney foi duro com o diretor do NRO e ameaçou indiciá-lo se ousasse interferir na campanha novamente. A maior ironia nisso tudo é que Pickering nem mesmo gostava do presidente. Suas tentativas de ajudá-lo a se reeleger eram resultado de seu medo em relação ao destino da NASA.

Zach Herney era o menor de dois males.

E agora alguém havia assassinado Pickering? Herney não podia imaginar algo assim,

— Senhor presidente? — interrompeu um auxiliar. — Conforme sua solicitação, falei com Lawrence Ekstrom e contei-lhe sobre Marjorie Tench.

— Obrigado.

— Ele deseja falar com o senhor.

Herney ainda estava furioso com Ekstrom por ter mentido a respeito do PODS.

— Diga a ele que eu entro em contato pela manhã.

— O administrador pediu para falar com o senhor imediatamente. — O auxiliar não sabia bem o que fazer. — Ele está transtornado.

ELE está transtornado? O presidente sentiu que sua paciência estava no limite. Saiu do Salão Oval para falar com Ekstrom, pensando no que mais poderia dar errado naquela noite.

 

A bordo do Goya, Rachel sentia-se zonza. A perplexidade que havia tomado conta dela como uma névoa densa estava se dissipando, e uma realidade aterradora começava a entrar em foco. Ela mal conseguia ouvir o que aquele estranho à sua frente estava dizendo.

— Precisávamos reconstruir a imagem da NASA — falava Pickering. — A queda de popularidade da agência e os problemas de financiamento tornaram-se perigosos em diversos níveis. — Ele parou, encarando-a com seus olhos castanhos. — Rachel, a NASA precisava desesperadamente de um triunfo. Alguém tinha que fazer com que isso acontecesse.

Algo tinha que ser feito, pensou Pickering.

A fraude do meteorito foi uma atitude extrema de desespero. Ele e um pequeno grupo já haviam tentado salvar a NASA de diversas formas, inclusive fazendo lobby para que a agência fosse incorporada à comunidade de inteligência, onde disporia de mais recursos e maior segurança. Mas a Casa Branca se negava a tomar aquela decisão, considerando a manobra como um ataque à ciência pura. Idealistas com visão de curto prazo, lamentava Pickering.

Diante da crescente popularidade da retórica de Sexton, contrária à NASA, o diretor do NRO e um grupo de militares influentes perceberam que era preciso agir rápido. Concluíram que a única maneira de resgatar a imagem da NASA e impedir a privatização do espaço era capturar a imaginação do povo e do Congresso. Para que pudesse sobreviver, a agência espacial precisaria de uma nova aura de grandeza, algo que fizesse o público se lembrar dos dias gloriosos do Projeto Apollo. E, se Zach Herney pretendia derrotar o senador Sexton, com certeza precisaria de auxílio.

Tentei ajudá-lo, pensou Pickering, recordando todas as evidências negativas que enviara para Marjorie Tench. Infelizmente, Herney havia proibido seu uso, deixando o diretor sem outra escolha senão tomar medidas drásticas.

— Rachel — retomou Pickering —, as informações que você acabou de transmitir por fax são perigosas. Você precisa entender isso. Se forem divulgadas, farão com que a Casa Branca e a NASA pareçam cúmplices nessa história. O impacto negativo para o presidente e para a agência seria enorme. Nenhum dos dois sabe nada disso. Eles são inocentes. Acreditam que o meteorito é autêntico.

Pickering nem havia tentado convencer Herney ou Ekstrom a participar daquilo porque ambos eram idealistas demais para concordar com qualquer armação, não importando qual fosse seu potencial para salvar a presidência ou a agência espacial. O único crime do administrador da NASA tinha sido persuadir o gerente da missão PODS a mentir sobre o software de detecção de anomalias — um ato de que Ekstrom sem dúvida se arrependeria ao compreender a importância daquele meteorito em particular.

Marjorie Tench, frustrada com a insistência de Herney em fazer uma campanha limpa, havia conspirado com Ekstrom na questão do PODS, esperando que um pequeno sucesso da NASA ajudasse o presidente a reverter a trajetória ascendente de Sexton.

Se Tench tivesse usado as fotos comprometedoras do senador e os dados de suborno que eu lhe passei, nada disso teria acontecido.

O assassinato da consultora do presidente, apesar de lamentável, se tornou absolutamente necessário a partir do momento em que Rachel ligou para Tench e falou sobre suas suspeitas em relação ao meteorito.

Pickering sabia que Marjorie faria uma apuração minuciosa até esclarecer os motivos por trás das alegações desmedidas de Rachel — e aquela era uma investigação que o diretor do NRO não podia deixar acontecer jamais. Ironicamente, a consultora talvez pudesse ser mais útil ao presidente agora que estava morta, pois seu assassinato brutal traria um voto de simpatia para a Casa Branca, assim como lançaria suspeitas sobre a campanha de Sexton, um candidato desesperado que tinha sido humilhado publicamente por Marjorie na TV.

Rachel não se moveu, olhando fixamente para seu chefe.

— Entenda — disse ele — que, se as notícias da fraude do meteorito se espalharem, você terá destruído um presidente e uma agência inocentes. Também terá colocado um homem muito perigoso no Salão Oval. Eu preciso saber para quem os dados foram enviados.

Ao ouvir as palavras de Pickering, Rachel não conseguiu esconder sua apreensão. Compreendeu naquele instante que podia ter cometido um erro grave.

 

Tendo dado a volta pela proa e retornado ao convés de bombordo, Delta-Um estava agora no laboratório de hidrografia, de onde vira Rachel sair quando se aproximava do navio com o helicóptero.

Um computador exibia uma imagem preocupante — um gráfico colorido mostrando o vórtice que pulsava nas profundezas, em algum lugar no fundo do oceano sob o Goya.

Mais uma razão para dar o fora daqui, pensou ele, movendo-se para seu alvo.

A máquina de fax estava num balcão no outro extremo da sala. A bandeja continha um punhado de papéis, exatamente como Pickering tinha previsto. Delta-Um pegou as folhas. Havia uma nota de Rachel bem em cima. Apenas duas linhas. Ele leu o pequeno texto.

Curto e preciso, pensou.

Folheou rapidamente as páginas, impressionado e preocupado com a quantidade de dados que Tolland e Rachel haviam reunido ao desvendar a farsa do meteorito. Quem visse aqueles papéis não teria a menor dúvida de seu significado. Delta-Um não precisou nem apertar “Rediscar” para descobrir o número do destinatário. O último número chamado ainda estava sendo exibido no visor de LCD do fax.

Um prefixo de Washington, D.C.

Copiou cuidadosamente o número do fax, juntou todas as folhas e saiu do laboratório.

As mãos de Tolland suavam de nervoso enquanto ele mantinha a metralhadora apontada para o peito de William Pickering. O diretor do NRO continuava pressionando Rachel. O oceanógrafo começou a desconfiar de que Pickering estava simplesmente tentando ganhar tempo. Para quê?

— A Casa Branca e a NASA são inocentes — repetiu ele. — Vamos, junte-se a mim. Não deixe que meus erros destruam a pouca credibilidade que restou à NASA. A agência vai parecer culpada aos olhos do povo se essas informações vazarem. Nós dois podemos chegar a um acordo. O país precisa desse meteorito. Me diga para onde você enviou o fax antes que seja tarde demais.

— E por que eu diria? Para que você possa matar mais alguém? — questionou Rachel. — Você me dá nojo.

Tolland estava impressionado com a bravura de Rachel. Ela desprezava o pai, mas não tinha a menor intenção de colocar a vida dele em risco.

Infelizmente, seu plano de enviar as informações para o senador tinha sido um tiro pela culatra. Ainda que Sexton visse o fax ao chegar a seu escritório e ligasse para o presidente para questionar a fraude do meteorito e exigir que suspendesse o ataque, ninguém na Casa Branca teria a menor idéia de quem estava por trás daquela história.

— Só vou repetir isso mais uma vez — disse Pickering, com olhar ameaçador. — Essa situação é complexa demais para que você possa compreender todos os detalhes. Você cometeu um erro enorme ao enviar.os dados e colocou sua nação em perigo.

William Pickering estava de fato ganhando tempo, concluiu Tolland. E a razão para isso era o homem que vinha caminhando tranqüilamente pelo convés de estibordo do navio. Michael entrou em pânico ao ver o soldado andando na direção deles, fortemente armado e com uma pilha de papéis na mão.

O oceanógrafo reagiu rápido e sem hesitar. Empunhando a metralhadora, virou-se, apontou para o soldado e puxou o gatilho.

A arma soltou um estalido inócuo.

— Já descobri o número do fax — disse Delta-Um, entregando ao controlador uma folha com o número anotado. — E o senhor Tolland está sem munição.

 

Sedgewick Sexton atravessou correndo o saguão do edifício de gabinetes do Senado. Não tinha a menor idéia de como Gabrielle havia conseguido entrar em sua sala, mas sabia que ela estava lá. Enquanto falavam ao telefone, Sexton ouvira claramente o ruído do pêndulo de seu relógio Jourdain ao fundo. Concluiu que, ao entrar em seu apartamento e espionar a reunião com a SFF, a assessora devia ter escutado alguma coisa que a deixara desconfiada. Então, ela teria ido ao escritório do senador à procura de provas.

Como ela conseguiu entrar na minha sala?

Sexton ficou feliz por ter trocado a senha de seu computador.

Quando chegou ao seu escritório, ele digitou rápido o código para desativar o alarme. Pegou as chaves no bolso, destravou as pesadas portas, abriu-as subitamente e entrou, certo de que pegaria Gabrielle em flagrante.

A sala, contudo, estava vazia e escura. Ele acendeu as luzes e começou a analisar cada detalhe do escritório. Tudo parecia estar no mesmo lugar. O silêncio completo era rompido apenas pelo relógio.

Onde ela se meteu?

O senador ouviu alguma coisa se movendo em seu banheiro e correu para lá, acendendo a luz. Também estava vazio. Olhou atrás da porta. Nada.

Desconcertado, Sexton examinou o próprio rosto no espelho, pensando se teria bebido demais naquela noite. Eu ouvi algo. Sentindo-se confuso, voltou ao escritório.

— Gabrielle? — chamou em voz alta, atravessando o corredor até à sala dela. Não havia ninguém lá e as luzes estavam apagadas.

Ouviu o som de descarga no banheiro das mulheres e caminhou naquela direção. Chegou à porta exatamente quando Gabrielle ia saindo, secando as mãos. Ela saltou para trás, assustada.

— Nossa! Você me deu um susto! — disse, parecendo realmente espantada.

— O que está fazendo aqui?

— Você disse que tinha vindo pegar documentos da NASA no seu escritório — falou, olhando para as mãos vazias da assessora. — Onde estão os papéis?

— Eu não consegui encontrá-los. Procurei em todos os lugares. Foi por isso que demorei tanto.

Ele olhou bem no fundo dos olhos de Gabrielle.

— Você esteve em minha sala?

Devo minha vida àquela máquina de fax, pensou Gabrielle.

Poucos minutos antes ela estava sentada diante do computador de Sexton, tentando imprimir as imagens digitalizadas de cheques de doações ilegais. Os arquivos estavam protegidos por algum programa e ela precisaria de mais tempo para descobrir uma forma de imprimi-los.

Provavelmente estaria tentando até agora se a máquina de fax do senador não tivesse recebido uma chamada, assustando-a e trazendo-a de volta à realidade. Gabrielle considerou aquilo um aviso para sair dali. Sem nem mesmo olhar o que havia no fax que estava chegando, desligou o computador, arrumou tudo e voltou por onde havia entrado.

Ela acabara de subir no teto do banheiro de Sexton quando ele entrou no escritório.

Agora o senador estava parado na frente dela, olhando-a fixamente, à procura de algum sinal de que estava mentindo. Sedgewick Sexton podia sentir o cheiro de uma mentira melhor do que qualquer pessoa que já tivesse conhecido. Se tentasse enganá-lo, ele descobriria.

— Você estava bebendo — disse Gabrielle, dando as costas para o chefe.

Como é que ele sabe que eu estive em sua sala?

Sexton pegou-a pelos ombros e virou-a de frente para ele.

— Você esteve em minha sala?

A assessora sentiu uma pontada de medo. Sexton de fato tinha bebido e seu toque foi rude.

— Na sua sala? — ela perguntou, dando uma risada forçada, como se estivesse confusa. — Como? Por quê?

— Pude ouvir meu relógio Jourdain quando liguei para você. Gabrielle tremeu por dentro. O relógio? Sequer tinha pensado naquilo.

— Você não acha que isso é ridículo?

— Eu passo o dia naquela sala. Sei exatamente qual é o som daquele relógio.

Ela percebeu que precisava acabar com aquela conversa rápido.

A melhor defesa é o ataque. Pelo menos era o que Yolanda Cole sempre dizia.

Colocando as duas mãos na cintura, Gabrielle partiu para cima do senador com tudo. Chegou bem perto, fitando-o com um olhar penetrante.

— Vamos resolver esse assunto agora, senador. São quatro da manhã, você bebeu a noite toda, ouviu um ruído em seu telefone e veio até aqui por causa disso? — Apontou o dedo, indignada, em direção à porta do escritório dele no final do corredor. — Só para deixarmos isso claro, você está me acusando de ter desarmado um sistema de alarme do governo federal, de destravar dois cadeados, invadir sua sala, ser burra o bastante para atender o telefone enquanto estava cometendo um crime, depois reativar o sistema de alarme ao sair e usar o toalete feminino calmamente antes de fugir de mãos vazias? É essa a sua teoria?

Sexton piscou, sem entender nada.

— Há bons motivos para não ficar bebendo sozinho, sabe? Bem, vamos falar sobre a NASA ou não?

O senador foi andando com ela de volta até o seu escritório, sentindo-se bastante confuso. Foi direto para o bar, pegou um refrigerante e se serviu. Ele certamente não estava bêbado. Teria mesmo se enganado? Do outro lado da sala, o Jourdain continuava batendo cadenciado, como se risse dele. Tomou o refrigerante num gole e encheu novamente o copo, servindo também a assessora.

— Você quer um, Gabrielle? — perguntou. Ela ainda estava de pé na porta, com ar ofendido. — Puxa, mas que coisa! Vamos, entre. O que você descobriu lá na NASA?

— Pensando bem, estou cansada — disse ela, distante. — Vamos conversar amanhã.

Sexton não estava a fim de brincadeiras. Precisava das informações naquele instante e não tinha a menor intenção de se ajoelhar para consegui-las. Soltou um suspiro cansado. Confiança é tudo, pensou.

— Desculpe, estraguei tudo — falou. — Hoje foi um dia infernal. Não sei o que passou pela minha cabeça.

Gabrielle continuava na porta.

Sexton colocou o refrigerante de Gabrielle sobre a mesa. Fez um gesto, apontando para a cadeira de couro — a posição de poder.

— Vamos, sente-se. Beba seu refrigerante. Vou até o banheiro jogar uma água fria no rosto — disse ele, dirigindo-se para o banheiro.

A assessora não saiu do lugar.

— Acho que há um fax na máquina — comentou Sexton ao entrar no banheiro. Mostre que você confia nela. — Você poderia ver o que é, por favor?

O senador fechou a porta e encheu a pia com água fria. Molhou o rosto, mas continuava se sentindo confuso. Aquilo nunca tinha acontecido com ele antes: estar tão certo de alguma coisa e, ao mesmo tempo, tão errado. Ele confiava em seus instintos e algo lhe dizia que Gabrielle estivera em sua sala.

Mas como? É impossível.

Concluiu que era melhor esquecer aquela história e se concentrar no assunto mais urgente: a NASA. Precisava de Gabrielle agora. Não podia se dar ao luxo de brigar com ela. Tinha que saber o que ela havia descoberto. Esqueça seus instintos. Você estava errado.

Enquanto secava o rosto, deixou a cabeça pender para trás e respirou fundo.

Relaxe. Não perca a concentração. Fechou os olhos e respirou profundamente outra vez. Já estava se sentindo melhor.

Quando saiu do banheiro, ficou feliz ao ver que a assessora deixara aquela disputa de lado e entrara na sala. Muito bom, pensou ele. Agora podemos falar de trabalho. Gabrielle estava de pé diante do aparelho de fax, mexendo nas páginas que tinham chegado. Sexton ficou confuso ao ver a expressão no rosto dela. Estava lívida.

— O que foi? — perguntou, indo até ela.

Gabrielle deu um passo para trás, como se fosse desmaiar.

— O quê? — insistiu Sexton.

— O meteorito... — disse ela, sem ar, entregando com as mãos trêmulas vários papéis ao senador. — É a sua filha... ela está em perigo.

Estupefato, Sexton pegou o fax da mão de Gabrielle. A primeira página era um bilhete escrito à mão. Ele reconheceu imediatamente a letra. O comunicado era chocante em sua simplicidade.

O meteorito é falso. Aqui estão as provas. NASA/Casa Branca estão tentando me matar. Socorro!

O senador dificilmente se sentia perdido, mas, ao reler as palavras de Rachel, não conseguia entender o que aquilo significava.

O meteorito é falso? A NASA e a Casa Branca estão tentando matá-la?

Num transe cada vez mais profundo, Sexton começou a folhear as páginas. A primeira continha uma imagem gerada por computador com o cabeçalho “GPR — Radar de Penetração do Solo”. Parecia a impressão de uma sondagem do gelo. O senador viu o poço de extração do qual tinha ouvido falar na TV. Depois seu olho foi atraído pelo contorno esmaecido do que parecia ser um corpo flutuando no poço. Então viu algo ainda mais impressionante: um segundo poço feito exatamente abaixo de onde o meteorito fora encontrado, como se a pedra tivesse sido inserida por baixo do gelo.

Mas que diabos...

Na página seguinte, ele se deparou com a fotografia de um animal marinho contemporâneo chamado Bathynomus giganteus. Olhou para aquilo, abismado. Este é o mesmo bicho do meteorito!

Virando as folhas mais rápido, viu um gráfico mostrando o conteúdo de hidrogênio ionizado na crosta do meteorito. Naquela página alguém havia escrito à mão: Queima limpa de pasta de hidrogênio? Propulsor de ciclo de expansão da NASA?

Sexton não podia acreditar no que estava vendo. Chegou à última página e olhou atentamente para a foto de uma rocha contendo bolhas metálicas exatamente iguais às que havia no meteorito. O mais incrível era a descrição ao lado, dizendo que aquela rocha era produto de atividades sísmicas no oceano. Uma rocha marinha? Ele ficou pensativo. Mas a NASA afirmou que os côndrulos só se formam no espaço!

Colocando os papéis sobre a mesa, desabou na cadeira. Levara apenas 15 segundos para juntar tudo o que tinha visto. As implicações das imagens naquelas folhas eram transparentes como cristal. Qualquer idiota poderia entender o que revelavam.

O meteorito da NASA é falso!

Nenhum outro dia em toda a sua carreira havia transcorrido em meio a tantos altos e baixos. Era como se estivesse numa montanha-russa de esperança e desespero. Sua perplexidade ao tentar entender como aquela enorme armação fora montada se tornou completamente irrelevante quando percebeu o que aquilo significava politicamente para ele.

Quando eu levar essas informações a público, a presidência será minha!

Entusiasmado com a volta por cima que daria em breve, Sedgewick Sexton havia temporariamente se esquecido do pedido de socorro da filha.

— Rachel está em perigo — lembrou Gabrielle. — O bilhete dela diz que a NASA e a Casa Branca estão tentando...

A linha do fax de Sexton começou a tocar novamente. Gabrielle virou-se para a máquina. O senador também fixou os olhos no aparelho. Não podia imaginar o que mais Rachel iria lhe enviar. Mais provas? Não era possível que houvesse muito mais, aquilo já era suficiente!

O fax atendeu o chamado automaticamente, mas não entrou mais nenhuma página. Como não havia sinal de fax, a máquina passou para a secretária eletrônica.

— Oi — começou a resposta gravada. — Você ligou para o escritório do senador Sedgewick Sexton. Se está tentando passar um fax, pode iniciar a transmissão. Caso contrário, deixe sua mensagem após o sinal.

Antes que Sexton atendesse, a máquina emitiu um bipe.

— Senador Sexton? — A voz do homem do outro lado da linha era seca. — Aqui é William Pickering, diretor do NRO, o Escritório Nacional de Reconhecimento. O senhor provavelmente não está em seu gabinete a esta hora, mas preciso lhe falar com urgência. — Fez uma pausa, como se esperasse alguma resposta.

Gabrielle estendeu o braço para pegar o fone, mas Sexton voou sobre a mão dela, puxando-a de volta. A assessora ficou aturdida: — Mas é o diretor do....

— Senador — Pickering continuou, num tom quase feliz por ninguém ter atendido à chamada —, lamento estar ligando com notícias perturbadoras, mas acabei de saber que sua filha, Rachel, está em grande perigo. Há uma equipe minha tentando ajudá-la neste momento. Não posso discutir a situação em detalhes por telefone, mas fui informado de que ela pode ter lhe enviado algumas informações relativas ao meteorito da NASA. Não vi os dados nem sei do que se trata, mas as pessoas que estão fazendo essas ameaças me avisaram que, se o senhor levar essas acusações a público, sua filha morrerá.

— Perdoe-me se isso soa rude, senhor, mas estou falando desta forma para que não haja enganos. Rachel corre perigo de vida. Se ela de fato lhe enviou alguma coisa, não divulgue para mais ninguém. Ainda não. A vida dela depende disso. Fique onde está, eu o encontrarei em breve. — Fez outra pausa. — Com um pouco de sorte, senador, tudo isso estará resolvido antes mesmo que o senhor tenha acordado. Se, por qualquer motivo, receber esta mensagem antes que eu chegue a seu escritório, fique onde está e não ligue para ninguém. Estou fazendo todo o possível para resgatar sua filha.

Pickering desligou. Gabrielle estava tremendo.

— Tomaram Rachel como refém?

Apesar de sua desilusão com o senador, a assessora demonstrava uma dolorosa empatia ao pensar na brilhante jovem em perigo. Curiosamente, o próprio Sexton não estava sentindo nada daquilo: parecia uma criança que havia acabado de ganhar seu presente de Natal mais desejado e se recusava a deixar que qualquer um o tirasse de suas mãos.

Pickering quer que eu mantenha tudo em silêncio?

Ponderou o assunto por algum tempo, tentando se decidir quanto ao sentido de tudo aquilo. O lado frio e calculista de sua mente estava simulando todos os cenários e avaliando cada resultado possível. Ele olhou para a pilha de faxes em suas mãos e sentiu o poder daquelas imagens. O meteorito da NASA havia despedaçado seus sonhos de se tornar presidente. Mas era tudo mentira. Uma armação. Agora, seus inimigos iriam pagar caro. O meteorito forjado para destruí-lo serviria para torná-lo mais poderoso do que qualquer um poderia imaginar. Sua filha havia possibilitado aquela reviravolta.

Há apenas uma saída aceitável, ele sabia agora. Apenas um curso de ação para um verdadeiro líder.

Sentindo-se hipnotizado pelas imagens resplandecentes de sua própria ressurreição, Sexton foi até à fotocopiadora e ligou-a, preparando-se para tirar xerox das folhas que Rachel enviara por fax.

— Mas o que você está fazendo? — perguntou Gabrielle, chocada.

— Eles não vão matar Rachel — declarou o senador.

Mesmo se algo saísse errado, Sexton sabia que perder sua filha para o inimigo só o tornaria ainda mais poderoso. De qualquer maneira, ele venceria. Era um risco aceitável.

— Para quem são essas cópias? — insistiu a assessora. — William Pickering acabou de falar para você não contar a ninguém!

Sexton estava de frente para a copiadora. Olhou para Gabrielle, surpreso ao perceber como ela lhe parecia pouco atraente agora.

Naquele instante, o senador era uma ilha. Intocável. Tudo de que precisava para realizar seus sonhos estava em suas mãos. Nada podia detê-lo. Nem acusações de suborno nem escândalos sexuais. Nada.

— Vá embora, Gabrielle. Não preciso mais de você.

 

Está tudo acabado, pensou Rachel. Ela e Tolland estavam sentados lado a lado no convés, olhando para o cano da metralhadora do soldado da Força Delta.

Infelizmente Pickering havia descoberto que Rachel transmitira o fax para o escritório do senador Sexton.

Rachel duvidava que seu pai sequer chegasse a receber a mensagem que o diretor do NRO tinha deixado em sua secretária. Pickering provavelmente entraria no escritório de Sexton antes de qualquer outra pessoa pela manhã. Se fosse capaz de retirar as folhas do fax em segredo e apagar a mensagem telefônica antes da chegada do senador, não precisaria eliminá-lo. William Pickering era provavelmente uma das pouquíssimas pessoas em Washington que podia entrar de forma ilícita no escritório de um senador americano sem despertar nenhuma suspeita.

A analista de inteligência sempre se impressionava com o que podia ser feito “em nome da segurança nacional”.

Claro que, se aquilo falhasse, o diretor podia simplesmente passar com seu helicóptero em frente à janela de Sexton e disparar um míssil Hellfire, destruindo o escritório todo, pensou Rachel. Mas algo lhe dizia que Pickering não precisaria tomar uma medida tão drástica.

Perdida em pensamentos, ela sentiu Tolland pegar a sua mão carinhosamente. O toque dele era ao mesmo tempo firme e suave, e os dois entrelaçaram os dedos com tanta naturalidade que pareciam se conhecer desde sempre. Tudo o que Rachel queria naquele exato momento era aconchegar-se nos braços de Mike, protegida do rugido oprimente do mar noturno que revolvia em espirais em torno deles.

Nunca, pensou ela. Não é nosso destino.

Tolland se sentia como um condenado que encontrara esperança a caminho da forca. A vida está brincando comigo.

Desde a morte de Célia, ele experimentava uma enorme solidão. Durante muito tempo, achou que a única saída para o seu sofrimento seria a morte. Naquela noite, pela primeira vez, Tolland compreendera o que os amigos tentavam lhe dizer há anos: “Mike, você não tem que passar o resto da vida sozinho. Ainda pode encontrar outro amor.”

Sentir a mão de Rachel junto à sua tornava toda aquela ironia ainda mais difícil de aceitar. O destino sabia ser cruel. Em seu coração, os escudos de defesa se quebravam e se desfaziam. Por um momento, naquele convés tão familiar do Goya, o oceanógrafo sentiu o fantasma de Célia olhando por ele, como muitas vezes fazia. Sua voz estava nos murmúrios da água, repetindo as últimas palavras que dissera antes de morrer:

“Você é um sobrevivente. Prometa que irá encontrar um novo amor.”

Tolland respondera que jamais amaria outra pessoa, mas agora percebia que Célia estava certa ao afirmar que ele acabaria encontrando alguém.

Com Rachel, ele estava finalmente redescobrindo o amor. Uma grande felicidade tomou conta dele. E, com ela, veio um enorme desejo de viver. Quando se dirigiu aos dois prisioneiros, Pickering sentiu uma estranha tranqüilidade. Parou diante de Rachel, surpreso que aquilo não lhe causasse nenhum arrependimento.

— Algumas vezes — disse — as circunstâncias exigem decisões impossíveis.

Rachel não se abalou.

— Você criou essas circunstâncias.

— A guerra sempre provoca baixas — Pickering endureceu o tom de voz. Pergunte a Diana ou a qualquer um dos que morrem a cada ano defendendo esta nação. — Você deveria saber disso, Rachel. — Olhou-a de frente e concluiu: — lactura paucorum serva muitos.

A agente se lembrava do lema, bastante usado pelo pessoal da área de segurança nacional: A sobrevivência de muitos justifica o sacrifício de poucos. Rachel devolveu o olhar, mal conseguindo acreditar naquela situação.

— E agora eu e Michael nos tornamos parte dos “poucos” que devem ser sacrificados?

Pickering sabia que não havia outra saída. Virou-se para Delta-Um e ordenou:

— Liberte seu parceiro e acabe com isso.

O soldado fez um gesto afirmativo.

O diretor olhou longamente para Rachel, depois caminhou até à balaustrada do navio e ficou contemplando o mar revolto. Preferia não assistir àquele desfecho.

Delta-Um se sentiu novamente no controle ao segurar a arma e olhar para seu parceiro, ainda preso pelas garras. Bastava fechar o alçapão sob os pés de Delta-Dois, libertá-lo e eliminar Rachel e Michael.

Ele teria, porém, que lidar com o complexo painel, composto por uma série de alavancas e vários outros comandos sem nenhuma indicação, que controlava a abertura e fechamento do alçapão. E não tinha a menor intenção de apertar o botão errado e arriscar a vida do parceiro fazendo com que o submersível fosse lançado ao mar por engano.

Elimine todos os riscos. Nunca se apresse.

Seria melhor forçar Tolland a realizar a operação. E, para garantir que ele não faria nada de errado, Delta-Um iria tomar providências, usando aquilo que, em seu ramo, era conhecido como “efeito colateral biológico”.

Use seus adversários um contra o outro.

Delta-Um apontou o cano da arma diretamente para o rosto de Rachel, parando a poucos centímetros de sua têmpora. Ela fechou os olhos e o soldado viu os punhos de Tolland se contraírem, numa fúria protetora.

— Senhorita Sexton, levante-se — disse ele.

Ela obedeceu.

Com a arma firmemente pressionada contra as costas dela, Delta-Um fez com que andasse até uma pequena escada de alumínio que levava ao topo do Triton pela parte traseira.

— Suba e fique em cima do submarino.

Rachel estava amedrontada e confusa.

— Faça o que estou mandando — disse o homem.

Rachel parecia estar vivendo um pesadelo ao subir a escada de alumínio atrás do Triton. Ela parou no último degrau, com medo de ir para cima do submersível, suspenso sobre o vazio, com o oceano abaixo dele.

— Vamos, fique sobre o submarino — disse Delta-Um, andando até Tolland e apontando a arma contra a cabeça dele.

Na frente de Rachel, o soldado preso nas garras observava todos os seus movimentos, mexendo— se dolorosamente e obviamente ansioso para sair dali. Ela olhou para Tolland, que estava sob a mira da metralhadora. Subir no submarino. Não havia escolha.

Sentindo-se como se estivesse à beira de um precipício, Rachel deu um passo e ficou sobre a tampa do motor do submersível, uma pequena parte plana atrás da escotilha. O Triton estava suspenso como um enorme prumo acima do alçapão aberto. Mesmo sustentado apenas pelo cabo de seu guindaste, o submarino de nove toneladas quase não se moveu quando ela subiu nele, balançando apenas alguns milímetros enquanto se ajustava ao peso.

— Levante-se — Delta-Um ordenou a Tolland. — Vá até os controles e feche o alçapão.

Sob a mira da arma, ele caminhou em direção ao painel de controle com o soldado atrás dele. Movendo-se lentamente, Tolland encarou Rachel no alto do submersível como se estivesse tentando lhe dizer algo. Olhou diretamente para ela, depois um pouco mais para baixo, em direção à escotilha aberta na parte superior do Triton.

Rachel olhou para baixo. A seus pés, a pesada tampa circular da escotilha estava aberta. Ela podia ver o interior da cabine para uma pessoa. Ele quer que eu entre? Achando que estava enganada, Rachel olhou para Tolland novamente. Ele estava quase chegando ao painel de controle. Encarou-a novamente e dessa vez foi menos sutil. Moveu os lábios, dizendo:

— Pule para dentro! Agora!

Delta-Um percebeu o movimento de Rachel com o canto dos olhos e virou-se instintivamente, abrindo fogo enquanto ela se jogava dentro da escotilha, protegendo-se da chuva de balas. Os projéteis ricochetearam sobre a tampa circular, soltando fagulhas e fechando-a ruidosamente sobre a cabeça de Rachel.

Quando Tolland sentiu que a metralhadora não estava mais apontada na sua direção, levou adiante sua parte do plano. Atirou-se para a esquerda, para longe do alçapão, batendo com o corpo no convés e rolando para o lado segundos antes que o soldado se virasse atirando. As balas zuniram atrás dele enquanto buscava abrigo atrás do cabrestante do navio — um enorme cilindro motorizado em torno do qual estavam enrolados centenas de metros do cabo de aço que segurava a âncora.

Tolland tinha um plano e precisava agir rápido. Quando o soldado correu em sua direção, o oceanógrafo esticou os braços e, usando as duas mãos, deu um puxão para baixo na trava da âncora.

Instantaneamente o cabrestante começou a soltar o cabo e o Goya inclinou-se na forte corrente. O movimento súbito fez com que as pessoas e objetos que estavam sobre o convés fossem jogados para o lado. À medida que o barco acelerava para trás, seguindo a corrente, o cabo da âncora se soltava cada vez mais velozmente.

Vamos lá, mais rápido, pensou Tolland.

O soldado recuperou o equilíbrio e foi atrás dele. Esperando até o último segundo possível, Tolland se segurou firme e empurrou a alavanca de volta com toda a força, travando o cabrestante. O cabo estalou e esticou até o limite, parando o navio imediatamente e fazendo com que o Goya estremecesse. Os objetos no convés saíram voando. Delta-Um cambaleou e caiu de joelhos perto do oceanógrafo.

Pickering foi jogado da balaustrada em que estava apoiado sobre o deque. O Triton sacudiu vigorosamente. Um rangido de ferro se rasgando percorreu o barco como um terremoto quando o suporte danificado finalmente cedeu. O canto da popa direita do Goya começou a desabar sob o próprio peso. O navio se desestabilizou, inclinando-se na diagonal como uma enorme mesa que houvesse perdido uma de suas quatro pernas. O ruído que vinha lá de baixo era ensurdecedor: um gemido de metal sendo dobrado e retorcido que era somado ao rugido da corrente marinha batendo no casco.

Com os dedos brancos pelo esforço, Rachel se segurava como podia dentro da cabine do Triton enquanto a máquina de nove toneladas balançava sobre o alçapão e o convés, que agora estava bem inclinado. Pela parte inferior do domo de vidro ela podia ver o mar raivoso lá embaixo. Quando olhou para cima, procurando Tolland, viu uma cena bizarra se desenrolar em poucos segundos.

A apenas um metro de distância, preso às garras do Triton, Delta-Dois gritava de dor enquanto era sacudido como uma marionete numa vareta. William Pickering atravessou rastejando o campo de visão de Rachel e agarrou-se a um balaústre no convés. Perto da trava da âncora, Tolland também estava se segurando, tentando não deslizar pelo lado do barco para dentro d’água. Quando Rachel viu o soldado armado se reequilibrar perto de Michael, gritou de dentro do submarino:

— Mike, cuidado!

Mas Delta-Um ignorou Tolland. Estava olhando para trás, na direção do helicóptero, com uma expressão de pânico no rosto. Rachel também se virou para entender o que estava acontecendo. O Kiowa, com seus enormes rotores girando em baixa velocidade, havia começado a deslizar lentamente para a frente pelo convés inclinado. Seu trem de aterrissagem estava funcionando como um par de esquis numa rampa.

Rachel percebeu que a enorme máquina vinha na direção do Triton. Delta-Um escalou o convés inclinado até à aeronave e conseguiu subir na cabine. Não tinha a menor intenção de permitir que o único meio de fuga existente escorregasse pelo convés e caísse no mar. Ele pegou os controles do Kiowa e puxou violentamente o coletivo. Decole! Com um ruído ensurdecedor, as hélices começaram a acelerar, lutando para levantar a aeronave pesadamente armada do convés. Para cima, droga! O helicóptero estava seguindo diretamente na direção do Triton e de Delta-Dois, ainda suspenso em suas garras.

Como seu nariz estava virado para baixo, as hélices do Kiowa também se inclinavam nesse ângulo. Assim, quando o helicóptero começou a se mover pelo convés, andou mais para a frente do que para cima, acelerando numa rota de colisão com o Triton, como uma serra elétrica gigante. Para cima! O soldado da Força Delta continuava puxando o coletivo, desejando ter uma forma de soltar a meia tonelada de mísseis Hellfire que impediam sua decolagem. As lâminas passaram rente à cabeça de seu parceiro e pouco acima do submersível, mas o helicóptero estava se movendo rápido demais. Seria impossível evitar o choque com o cabo do guindaste do Triton.

Quando as hélices do Kiowa colidiram a 300 rpm com o cabo de aço do guincho, capaz de sustentar 15 toneladas, a noite foi cortada pelo grito agudo de metal contra metal. Os sons evocavam imagens de uma batalha épica. Da cabine blindada do helicóptero, Delta-Um viu seus rotores cortarem o cabo do submarino como um gigantesco cortador de grama passando por cima de uma corrente de aço. Um jato de faíscas irrompeu acima dele e as pás do Kiowa se partiram. O piloto sentiu a aeronave cair, sua estrutura chocando-se violentamente contra o convés. Tentou controlá-la, mas perdera a sustentação. O helicóptero bateu duas vezes no deque inclinado e depois deslizou, chocando-se contra o guarda-corpo do navio.

Por um instante, Delta-Um achou que o guarda-corpo iria agüentar. Depois ouviu o ruído de algo se quebrando. O aparelho, pesadamente carregado, tombou do navio e mergulhou no mar.

No interior do Triton, Rachel Sexton estava paralisada, seu corpo pressionado contra o assento. O minissubmarino havia sido violentamente chacoalhado quando os rotores do helicóptero se chocaram contra o cabo, mas ela conseguira se apoiar. As hélices não chegaram a atingir o corpo do submersível, mas Rachel acreditava que o cabo estivesse muito danificado. Tudo em que conseguia pensar, naquele momento, era sair dali o mais rápido possível. O homem preso às garras estava olhando para ela, quase inconsciente, sangrando e queimado pelos fragmentos de metal lançados pelo atrito das lâminas com o cabo.

Onde está o Michael? Ela não conseguia vê-lo. Seu pânico durou apenas um instante, pois havia algo ainda pior com que se preocupar. Acima dela, o cabo dilacerado do guindaste do Triton soltou um pavoroso ruído, como uma chicotada. Depois ouviu-se um estalo bem alto e ele se partiu.

Rachel flutuou por alguns instantes sobre o assento dentro da cabine enquanto o submersível despencava em direção ao mar. O convés desapareceu acima dela e as passarelas inferiores do Goya passaram voando diante dos seus olhos. O soldado preso às garras ficou branco de medo, encarando Rachel à medida que o Triton se aproximava do mar.

A queda parecia nunca ter fim.

Quando o submarino bateu contra as ondas, a pancada foi tão forte que cravou Rachel no assento. Sua espinha se comprimiu e o oceano iluminado escorreu acima do domo. Ela sentiu um puxão sufocante quando o Triton desacelerou dentro d’água e depois começou a acelerar de volta em direção à superfície, balançando como uma rolha.

Os tubarões se lançaram sobre o novo alvo no mesmo minuto. Da cabine, Rachel assistiu, chocada, ao espetáculo cruel se desenrolando a dois metros dela.

Delta-Dois sentiu a cabeça retangular do tubarão bater nele com uma força inacreditável. Dentes afiados como lâminas envolveram seu braço perto do ombro, cortando até o osso e prendendo-o com firmeza. Uma dor inimaginável tomou conta dele quando o tubarão se remexeu vigorosamente, balançando a cabeça para arrancar seu braço. Outros tubarões se aproximaram. Facas penetrando em sua perna. Torso. Pescoço. Delta-Dois não tinha ar para gritar em agonia enquanto os tubarões-martelo despedaçavam seu corpo. A última visão que teve foi uma boca em formato semicircular virando-se de lado e várias fileiras de dentes agarrando sua cabeça.

O mundo foi engolfado pela escuridão.

As pancadas de pesadas cabeças cartilaginosas chocando-se contra o domo finalmente cessaram. Rachel abriu os olhos. O homem não estava mais lá e a água que envolvia o submarino ganhara um tom avermelhado.

Bastante perturbada, Rachel contraiu-se dentro da cabine, em posição fetal. Ela sentia que o submersível estava sendo levado pela corrente, raspando ao longo do convés de mergulho inferior do Goya. Percebeu que ele também estava se movendo em outra direção: para baixo.

Do lado de fora, o ruído nítido de água borbulhando para dentro dos tanques de lastro aumentou. O oceano subia aos poucos no vidro à frente dela.

Estou afundando!

Rachel foi tomada por um profundo terror e levantou-se como um raio. Estendendo os braços, alcançou o mecanismo da escotilha. Se pudesse subir para o topo do submarino, ainda teria tempo de pular dali até o deque de mergulho do Goya. Estava a poucos metros dele.

Tenho que sair daqui!

O mecanismo da escotilha trazia uma indicação bem clara sobre o lado que devia ser empurrado para abri-la. Ela fez força. A tampa não se moveu. Tentou novamente. Nada. Estava emperrada, torta. O medo foi crescendo dentro dela como a água subindo do lado de fora do submersível. Rachel usou toda a força que tinha.

Ainda assim, a escotilha não se moveu.

O Triton afundou mais alguns centímetros, chocando-se contra o Goya pela última vez antes de ser levado para fora do casco destroçado... rumo ao alto-mar.

 

— Não faça isso! — Gabrielle implorou ao senador, que acabara de tirar cópias dos documentos. — Você está colocando em risco a vida de sua filha.

Sexton ignorou o que ela estava dizendo e retornou à sua mesa com 10 pilhas idênticas de papel. Cada uma delas continha fotocópias do dossiê que Rachel lhe enviara, incluindo sua mensagem escrita à mão alegando que o meteorito era falso e acusando a NASA e a Casa Branca de tentar matá-la.

Os kits de imprensa mais chocantes já preparados até hoje, pensou Sexton, começando a inserir cada pilha num envelope de linho branco com seu nome, endereço oficial e o selo do Senado. Não haveria dúvidas quanto à origem daquelas informações incríveis. O escândalo político do século será revelado por mim!

A assessora continuava pedindo que ele pensasse na segurança de Rachel, mas Sexton não estava ouvindo nada. Enquanto preparava os envelopes, ele se fechara em seu próprio mundo. Toda carreira política possui um momento decisivo. Este é o meu.

A mensagem que William Pickering deixara na secretária era bem clara.

Se o senador levasse a público aquelas informações, a vida de sua filha estaria em perigo. Infelizmente para Rachel, Sexton também sabia que, se divulgasse as provas da fraude da NASA, aquele gesto de ousadia iria colocá-lo na Casa Branca. E de uma forma mais decisiva e dramática do que tudo que acontecera até então na política norte-americana.

A vida é cheia de decisões difíceis, pensou ele. Os vencedores são aqueles capazes de tomá-las.

Examinando o rosto do senador, Gabrielle Ashe chegou à conclusão de que já conhecia aquele olhar antes. Ambição desmedida. Ela sempre teve medo daquilo e agora percebia que estava certa. Sexton claramente estava pronto para arriscar a vida da filha para ser o primeiro a anunciar a armação da NASA.

— Você não vê que já ganhou? — insistia Gabrielle. — Zach Herney e a NASA não têm nenhuma chance diante desse escândalo. Não importa quem o tornará público! Nem quando será divulgado! Espere até que Rachel esteja em segurança. Espere até falar com Pickering!

Sexton continuava não lhe dando a menor atenção. Abriu a gaveta e tirou uma folha metalizada na qual estavam grudados vários selos auto-adesivos, do tamanho de uma pequena moeda, contendo suas iniciais. Ele geralmente os usava para convites formais, mas achou que selos de cera vermelha dariam um toque adicional de dramaticidade.

Foi desgrudando-os da folha um a um e colando-os na aba dos envelopes, selando-os como uma epístola com monograma.

O coração da assessora pulsava com enorme raiva. Ela pensou nas imagens digitalizadas dos cheques ilegais no computador do senador.

Contudo, se mencionasse aquilo, ele poderia apagar as evidências.

— Não faça isso — disse ela — ou vou contar a todos sobre o nosso caso.

Sexton deu uma risada alta enquanto continuava a colar os selos.

— É mesmo? E você acha que vão acreditar numa assistente sedenta de.poder que não recebeu um cargo em minha administração e está procurando vingança a qualquer custo? Eu já neguei nosso envolvimento uma vez e todos acreditaram em mim. Vou simplesmente negar tudo outra vez.

— A Casa Branca possui fotos — declarou Gabrielle.

Sexton nem levantou a cabeça.

— Eles não têm fotos. Mesmo que tivessem, elas não fazem mais sentido — disse, colando o último selo. — Eu tenho imunidade. Estes envelopes são um trunfo maior do que qualquer coisa que possam levantar contra mim.

Gabrielle sabia que o senador tinha razão. Sentia-se impotente enquanto Sexton admirava sua grande obra: 10 elegantes envelopes de linho branco, com seu nome e endereço impressos em relevo e fechados com selos de cera vermelha com suas iniciais manuscritas. Pareciam cartas da nobreza. Com certeza, reis já haviam sido coroados por conta de revelações muito menos poderosas.

Sexton pegou os envelopes e preparou-se para sair. Gabrielle deu um passo para o lado e bloqueou seu caminho.

— Você está cometendo um erro. Isso pode esperar.

O senador encarou-a.

— Eu fiz você, Gabrielle, e agora vou desfazer você.

— Esse fax de Rachel vai levá-lo à presidência. Você lhe deve algo! — continuou a assessora.

— Já dei muitas coisas a ela.

— E se alguma coisa acontecer a sua filha?

— Então ela terá garantido alguns votos de simpatia para mim.

Gabrielle não podia acreditar que aquele pensamento sequer tivesse passado pela cabeça de Sexton, muito menos que ele pudesse dizer algo tão mesquinho em voz alta. Revoltada, ela pegou o telefone.

— Vou ligar para a Casa...

O senador virou-se e deu-lhe um forte tapa no rosto.

Ela cambaleou, sentindo que seu lábio estava sangrando. Apoiando-se na mesa, reequilibrou-se e olhou, com total espanto, para o homem que um dia havia venerado.

Sexton encarou-a com uma expressão selvagem.

— Se você sequer pensar em me trair agora, vou fazer com que se arrependa durante o resto de sua vida. — Ficou parado, segurando a pilha de envelopes. Uma agressividade cruel brilhava em seus olhos.

Quando a assessora saiu do prédio, tomada pelo ar frio da noite, seu lábio continuava sangrando. Chamou um táxi e entrou no carro. Então, pela primeira vez desde sua chegada a Washington, Gabrielle Ashe desmoronou em lágrimas.

 

O Tríton caiu...

Michael Tolland ficou de pé, cambaleando no convés inclinado, e olhou por cima do cabrestante na direção do cabo do guindaste que antes sustentava o submarino. Virando-se para a popa, procurou-o no oceano.

O Tríton tinha acabado de sair de baixo do Goya, levado pela corrente.

Feliz por ver que ele ao menos estava intacto, Tolland colou o olhar na escotilha, desejando que Rachel a abrisse e saísse lá de dentro sem nenhum arranhão. A escotilha, contudo, não se abriu. Ele ficou imaginando se Rachel teria se machucado devido à queda violenta.

Mesmo dali, Tolland podia ver que o submersível estava mais imerso do que o normal — bem abaixo de sua linha-d’água usual. Está afundando. O oceanógrafo não conseguia entender por que aquilo estava acontecendo, mas razões já não importavam.

Tenho que tirar Rachel de lá. Agora.

Quando Michael se levantou, pronto para correr até à popa, uma metralhadora disparou sobre ele uma saraivada de balas, que ricochetearam no maciço cabrestante mais acima. Ajoelhou-se de novo.

Merda! Levantou um pouco a cabeça, o suficiente para ver que Pickering estava no convés acima dele, mirando como um franco-atirador. O soldado da Força Delta havia deixado sua metralhadora cair antes de subir no helicóptero condenado, e Pickering conseguira pegar a arma. O diretor, então, subiu para o outro nível.

Agachado atrás do cabrestante, Tolland olhou em volta para o Triton, que afundava lentamente. Vamos, Rachel! Saia! Esperou que a escotilha se abrisse, mas nada aconteceu.

Durante alguns segundos, avaliou a distância entre a sua posição e a balaustrada da popa do navio. Cerca de seis metros. Um percurso longo para completar sem nenhuma proteção.

Tolland respirou fundo e decidiu-se. Tirando a camisa, jogou-a para a sua direita. Enquanto Pickering a enchia de balas, ele saiu correndo pela esquerda, cortando em diagonal pelo convés inclinado em direção à popa. Com um grande salto, pulou por cima da balaustrada. Descrevendo um arco no ar, ainda ouviu as balas sibilando ao seu redor e pensou que um único arranhão faria com que se tornasse petisco de tubarão assim que encostasse na água.

 

Rachel se sentia como um animal selvagem enjaulado. Tinha tentado abrir a escotilha várias vezes, sem sucesso. Podia ouvir que havia um tanque abaixo dela se enchendo de água e percebia que o submarino estava ficando mais pesado. A escuridão do oceano tomava conta aos poucos do domo transparente, como uma cortina negra vinda do fundo.

Pela metade inferior do vidro, Rachel podia ver o vazio do oceano atraindo-a para seu túmulo. A imensidão abaixo dela ameaçava engolfá-la por inteiro. Agarrou o mecanismo da escotilha e tentou movê-lo mais uma vez, porém nada se mexia. Começou a arfar, as narinas tomadas pelo cheiro ácido do excesso de dióxido de carbono.

Em meio a tudo aquilo, um único pensamento apavorante se repetia em sua mente.

Vou morrer sozinha embaixo da água.

Ela olhou os painéis de controle do Triton, procurando algo que pudesse ajudá-la, mas todos os indicadores estavam apagados. Não havia-energia. Estava presa numa cripta inerte de aço mergulhando em direção às profundezas do oceano.

Um dos tanques parecia estar borbulhando mais rápido agora e a água estava quase tapando completamente o vidro. Ao longe, visível através da infindável extensão do mar, uma faixa violeta surgia no horizonte.

Estava quase amanhecendo. Rachel temia que aquela fosse a última luz que iria ver. Fechou os olhos, tentando não pensar em seu destino, mas encontrou as imagens aterrorizantes de sua infância projetadas em sua mente.

Caindo através do gelo em direção ao fundo.

Sem ar. Incapaz de subir à tona. Afundando.

Sua mãe repetindo seu nome: “Rachel! Rachel!”

Um ruído de batidas do lado de fora tirou Rachel de seu devaneio.

Abriu os olhos. Um rosto surgiu, apertado contra o vidro, de cabeça para baixo, com o cabelo negro solto na água. Ela quase não conseguia vê-lo na escuridão do oceano.

— Michael!

Tolland emergiu, respirando aliviado ao ver que Rachel estava bem. Ela está viva. Nadou, com braçadas vigorosas, até à parte posterior do Triton e subiu na plataforma do motor, quase submersa. No mar, as correntes o envolviam com um calor pesado. Posicionou-se para agarrar a tarraxa do portal circular, mantendo o corpo abaixado e torcendo para estar fora do alcance da arma de Pickering.

O casco do Triton já estava quase todo submerso e Tolland sabia que teria que se apressar para abrir a escotilha e tirar Rachel dali. Sua margem era inferior a 30 centímetros e diminuía rapidamente. Se a escotilha ficasse submersa, seria impossível abri-la, pois isso faria com que um jato de água do mar invadisse o Triton, aprisionando Rachel lá dentro e lançando o submarino em uma queda livre até o fundo.

Agora ou nunca, pensou, segurando o volante da escotilha e forçando-o no sentido anti-horário. Nada aconteceu. Tentou novamente, usando mais força. Ainda assim, a escotilha se recusava a se mover.

Podia ouvir a voz de Rachel lá dentro, do outro lado do portal. Estava abafada e carregada de medo.

— Já tentei! — gritou ela. — Não consegui girar!

A água já estava batendo na tampa do portal.

— Vamos girar juntos! — gritou Tolland. — Você vai na direção horária!

— Ele sabia que a direção estava marcada de forma clara. — Vamos lá, agora!

Apoiando o corpo nos tanques de lastro, ele usou toda a sua força.

Podia ouvir Rachel fazendo o mesmo lá dentro. O volante girou um ou dois centímetros e parou.

De repente, o oceanógrafo percebeu que a tampa do portal não estava corretamente encaixada na abertura. Como a tampa de uma jarra que foi fechada meio torta e depois forçada, a escotilha tinha emperrado. A vedação de borracha estava corretamente posicionada, mas as braçolas estavam recurvadas, o que significava que aquela tampa só sairia com o auxílio de um maçarico.

Quando o topo do submarino mergulhou abaixo da superfície, Tolland sentiu um pânico súbito tomando conta dele. Rachel Sexton não iria escapar do Triton.

Cerca de 600 metros abaixo deles, a fuselagem retorcida do Kiowa afundava a toda a velocidade, prisioneira da gravidade e atraída pelo vórtice no fundo do oceano. Dentro da cabine, Delta-Um estava morto, seu corpo completamente desfigurado pela enorme pressão da água.

Enquanto a aeronave descia em espiral, com os mísseis Hellfire ainda presos a ela, o domo de magma jazia no fundo do oceano à sua espera, como um heliponto saído do inferno. Abaixo de sua crosta com três metros de espessura, um pontão de lava estava em ebulição a mais de 1.000 Celsius.

Um vulcão prestes a explodir.

 

Tolland estava sobre a plataforma do motor com a água batendo em seus joelhos. O Triton continuava afundando e ele tentava descobrir uma maneira de salvar Rachel.

Não deixe o submarino afundar!

Olhou para trás, em direção ao Goya, pensando se havia alguma forma de conectar um gancho ao Triton para mantê-lo perto da superfície.

Impossível Seu navio já estava a 50 metros de distância, e Pickering encontrava-se no alto da ponte, de pé, como um imperador romano com assento privilegiado num espetáculo sangrento no Coliseu.

Pense! Por que o submarino está afundando?

A mecânica da flutuação de um submarino é extremamente simples: tanques de lastro cheios de água ou de ar ajustam sua flutuabilidade para que ele possa emergir ou submergir.

Obviamente os tanques de lastro estavam se enchendo.

Mas não deveriam.

Os tanques de lastro de todos os submarinos tinham orifícios tanto na parte superior quanto na inferior. Os orifícios inferiores, chamados de “válvulas de enchimento”, ficavam sempre abertos, enquanto os superiores, as “válvulas de ventilação”, podiam ser abertos e fechados para deixar o ar sair de forma que a água pudesse encher os tanques.

Será que as válvulas de ventilação do Triton estavam abertas? Tolland se ajeitou sobre a plataforma do motor, agora submersa, e percorreu com as mãos um dos tanques de lastro de compensação. As válvulas de ventilação estavam fechadas. Porém, enquanto tateava, seus dedos se depararam com outra coisa.

Buracos de bala.

Merda! O submersível havia sido perfurado por balas quando Rachel pulou para dentro. Tolland mergulhou imediatamente e nadou para baixo do Triton, passando a mão cuidadosamente pelo tanque de lastro mais importante — o de imersão. Os ingleses chamavam aquele tanque de “expresso para baixo”. Os alemães costumavam se referir a ele como “botas de chumbo”. De qualquer forma, o sentido era o mesmo. Quando o tanque de imersão se enchia, levava o submarino para o fundo.

Ao passar as mãos pela lateral do tanque, o apresentador de Maravilhas dos mares encontrou dezenas de buracos de balas. Podia sentir a água entrando. O Triton estava se preparando para um mergulho profundo, quer Tolland gostasse ou não.

O submarino estava agora a quase um metro de profundidade. Nadando para a frente, Tolland encostou o rosto no domo e olhou para dentro. Rachel estava socando o vidro e gritando, apavorada. Michael sentiu-se impotente, a mesma sensação que experimentara anos antes, ao ver a mulher que amava morrer num quarto frio de hospital. Movendo-se debaixo d’água, ele pensou que não suportaria passar por tudo aquilo novamente. Célia dissera que o marido era um sobrevivente, mas ele não queria continuar a viver sozinho pela segunda vez.

Seus pulmões estavam ardendo, mas ainda assim Tolland permanecia lá, na frente dela. A cada vez que Rachel batia no vidro, ele ouvia bolhas de ar saindo e o submarino afundava mais um pouco. Ela estava fazendo gestos para mostrar que havia água entrando pela janela.

Havia um vazamento no domo.

Um buraco de bala na janela? Pouco provável. Com os pulmões quase arrebentando, Tolland preparou-se para subir. Percorreu com as palmas das mãos a grande janela de plexiglas e seus dedos encontraram uma peça de borracha solta. Uma das vedações externas fora danificada quando o submarino caiu. Por isso estava ocorrendo um vazamento no interior da cabine. Mais notícias ruins.

Subindo até à superfície, Tolland respirou fundo três vezes, tentando concentrar-se. A água que estava entrando na cabine só iria acelerar a descida do Triton. O submersível já estava a 1,5 metro de profundidade e o oceanógrafo mal conseguia tocá-lo com os pés. Mas ainda podia sentir Rachel batendo desesperadamente no domo.

Havia apenas uma possibilidade em sua mente. Se ele mergulhasse até à plataforma do motor e encontrasse o cilindro de alta pressão, poderia usá-lo para expulsar a água do tanque de lastro. Aquilo seria um exercício de futilidade, já que o Triton se manteria na superfície por apenas mais um minuto ou dois, antes que os tanques perfurados se enchessem de água novamente.

E depois?

Sem ter encontrado nenhuma outra opção, Tolland preparou-se para mergulhar. Inspirando mais profundamente do que o normal, expandiu seus pulmões muito além de seu estado natural, quase a ponto de doerem. Maior capacidade pulmonar. Mais oxigênio. Maior tempo sob a água. Entretanto, quando sentiu seus pulmões se dilatarem, pressionando suas costelas para fora, um pensamento estranho lhe ocorreu.

E se ele aumentasse a pressão do ar dentro do submarino? Uma das vedações no domo estava danificada. Se ele aumentasse a pressão no interior da cabine, poderia explodir a janela para fora e tirar Rachel de lá.

Ele expirou, boiando na superfície por alguns instantes, tentando calcular se aquilo era mesmo possível. É perfeitamente lógico, não?

Afinal de contas, submarinos são construídos para resistir a pressões monstruosas vindas de fora, mas nenhuma de dentro.

Além disso, o Triton usava válvulas reguladoras idênticas para reduzir o número de peças sobressalentes necessárias no Goya. Bastava que Tolland soltasse a mangueira de recarga do cilindro de alta pressão e a redirecionasse para um regulador de ventilação de emergência no lado esquerdo do submarino! Pressurizar a cabine poderia ser fisicamente doloroso para Rachel, mas talvez lhe proporcionasse uma forma de escape.

Tolland respirou fundo e mergulhou.

O Triton estava agora a uns 2,5 metros de profundidade. Tanto as correntes quanto a escuridão tornavam difícil para Michael orientar-se. Ao encontrar o tanque pressurizado, ele rapidamente redirecionou a mangueira e se preparou para insuflar ar na cabine.

Quando agarrou o registro, a pintura amarela fosforescente ao lado do tanque fez com que percebesse quão arriscada era aquela manobra:

PERIGO: AR COMPRIMIDO — 3.000 PSI.

Três mil libras por polegada quadrada, pensou Tolland. Sua esperança era de que a janela do Triton fosse empurrada para fora antes que a pressão dentro da cabine esmagasse os pulmões de Rachel. O que ele estava prestes a fazer era o equivalente a enfiar uma mangueira de água de alta pressão num balão de borracha e torcer para que ele estourasse bem rápido.

Segurou a válvula e tomou sua decisão final. Mergulhando cada vez mais fundo com o submarino, Tolland abriu o registro. A mangueira ficou rígida no mesmo instante e o ar entrou na cabine com uma força enorme.

 

Dentro do Triton, Rachel sentiu uma dor de cabeça alucinante. Abriu a boca para gritar, mas o ar forçou a entrada em seus pulmões com uma pressão tão dolorosa que ela pensou que seu peito fosse explodir. Seus olhos pareciam estar sendo enfiados para dentro. Uma pressão ensurdecedora entrou em seus ouvidos, quase fazendo com que desmaiasse.

Instintivamente, fechou os olhos e colocou as mãos sobre os ouvidos. A dor estava aumentando.

Ouviu batidas contra o vidro e forçou-se a abrir os olhos apenas o suficiente para ver a silhueta de Michael nadando na escuridão. Seu rosto estava apoiado contra o domo e ele gesticulava para que ela fizesse algo.

Mas o quê?

Mal podia vê-lo na escuridão. Sua visão estava turva, seus globos oculares pareciam distorcidos pela pressão. Mesmo assim, podia perceber que o submersível havia mergulhado além dos últimos restos de luz dos holofotes do Goya. Em volta dela havia apenas um abismo infinitamente escuro.

Tolland agarrou com todo o corpo a janela do Triton e continuou a bater. Seu peito queimava e ele precisaria voltar à superfície em pouco segundos.

Empurre o vidro, Rachel! Ele podia ouvir o ar pressurizado escapando pelo domo, borbulhando em direção à superfície. Em algum lugar a vedação estava solta. Suas mãos procuravam desesperadamente uma borda, algo em que pudesse enfiar os dedos e puxar. Nada.

Seu oxigênio estava acabando e sua visão começou a escurecer. Bateu no vidro uma última vez. Não podia nem mesmo vê-la, estava escuro demais.

Usando o último sopro de ar em seus pulmões, gritou embaixo d’água.

— Rachel... empurre... o... vidro!

Suas palavras, contudo, saíram como um gargarejo abafado.

 

Aprisionada no submersível, Rachel se sentia como se sua cabeça estivesse sendo comprimida por um aparelho de tortura medieval. De pé, curvada ao lado do assento da cabine, podia sentir as garras da morte se fechando em torno dela. Na sua frente, o domo estava vazio. Escuro. As batidas haviam cessado.

Tolland tinha ido embora, deixando-a para trás.

O silvo do ar pressurizado entrando na cabine fazia com que ela se lembrasse do vento catabático ensurdecedor na geleira Milne. O piso do submarino já tinha quase 30 centímetros de água. Quero sair! Milhares de pensamentos e memórias cruzavam sua mente, como uma luz estroboscópica.

Na escuridão, o Triton começou a emborcar e Rachel perdeu o equilíbrio, caindo por cima do assento. Seu corpo foi projetado para a frente, batendo com força no domo esférico. Seu braço doeu. Ao estatelar-se contra a janela, sentiu algo inesperado: uma redução na pressão no interior da cabine. O aperto nos ouvidos se reduziu sensivelmente. Além disso, escutou uma golfada de ar sair do submarino.

Num instante entendeu o que havia acontecido. Quando caiu de encontro ao domo, seu peso forçou o plexiglas para fora o suficiente para que parte da pressão interna fosse liberada por uma brecha na vedação. Era óbvio, portanto, que o vidro da janela estava solto!

Rachel compreendeu o que Tolland pretendia ao aumentar a pressão dentro do submarino.

Ele está tentando explodir a janela!

Acima dela, o cilindro continuava bombeando ar comprimido. Naquele instante, sentiu a pressão aumentar novamente. Desta vez era algo quase bem vindo, embora a pressão sufocante quase fizesse com que perdesse a consciência. Ajeitando-se, Rachel empurrou o vidro para fora com toda a sua força.

Desta vez, não aconteceu nada. O vidro mal se moveu.

Jogou seu peso novamente contra a janela. Nada. Examinou o ferimento no braço, que doía. O sangue estava seco. Preparou-se para tentar novamente, mas não teve tempo. Sem nenhum aviso, o minissubmarino avariado começou a inclinar-se para trás. O motor pesava mais do que os tanques de compensação, agora cheios d’água, e o Triton começou a afundar com a parte traseira voltada para baixo.

Rachel caiu de costas contra a parede posterior da cabine. Com metade do corpo imerso na água que esguichava para dentro do submersível, ela olhou para o domo que estava vazando, pairando sobre ela como uma clarabóia.

Do lado de fora havia apenas a noite... e centenas de toneladas de água empurrando-a para baixo.

Ela queria se levantar, mas seu corpo parecia pesado e entorpecido.

Outra vez sua mente regressou àquele momento em que estava presa sob um lago congelado.

“Lute, Rachel!”, sua mãe gritava, esticando o braço para tirá-la da água. “Segure firme!”

Fechou os olhos. Estou afundando. Seus patins pareciam feitos de chumbo, puxando-a para baixo. Podia ver sua mãe deitada sobre o gelo, braços e pernas abertos para distribuir o próprio peso, tentando alcançá-la.

“Chute, Rachel! Use os pés e chute!”

Rachel chutou com toda a força que tinha. Seu corpo subiu ligeiramente no buraco de gelo. Uma centelha de esperança. Sua mãe conseguiu pegá-la.

“Isso!”, gritou a mãe. “Me ajude a tirar você daí! Continue chutando!”

Com sua mãe puxando-a de cima, Rachel usou a energia que ainda lhe restava para chutar com seus patins. Foi o suficiente para que Katherine Sexton conseguisse tirá-la da água. Depois de arrastar a filha, ensopada, até um banco coberto de neve, ela caiu em prantos.

De volta ao presente, na crescente umidade e calor do submarino, Rachel abriu os olhos em meio à escuridão que a cercava. Ouviu a mãe sussurrando, sua voz era nítida no interior da cabine do Triton.

Use os pés e chute.

Olhando para o domo acima dela, Rachel reuniu a coragem que lhe restara e subiu no assento, que estava quase na horizontal naquele momento, como a cadeira de um dentista. Apoiada em suas costas, ela dobrou os joelhos, puxou as pernas para perto do corpo o máximo que pôde, apontou seus pés para cima e soltou-os numa explosão. Com um grito selvagem de desespero e força, enfiou os pés no centro do domo de plexiglas. Pontadas de dor aguda se espalharam por suas pernas.

Seus ouvidos estalaram e ela sentiu a pressão se equilibrar de repente. A vedação no lado esquerdo do domo se rompeu, deslocando a janela parcialmente, abrindo-a para o lado como uma porta.

Uma torrente de água invadiu o submarino, empurrando Rachel de volta à sua cadeira. O oceano rugia em torno dela, pegando-a pelas costas e levantando-a da cadeira, virando-a de cabeça para baixo como uma meia numa máquina de lavar.

Ela tateou desesperadamente à procura de algo em que se segurar, mas estava girando sem controle. Seu corpo foi precipitado para cima na cabine e ela se sentiu imobilizada. Um jato de bolhas irrompeu em torno dela, fazendo-a girar, puxando-a para a esquerda e mais uma vez para cima. Uma aba de acrílico duro se chocou contra a sua bacia.

Subitamente ela estava livre.

Girando e revirando na infinita escuridão da água quente, Rachel estava quase sem ar. Vá para a superfície! Ela abriu os olhos, procurando alguma luz, mas não havia nenhuma. O mundo parecia igual em todas as direções.

Escuridão. Nenhuma gravidade. Impossível saber o que era “para cima” ou “para baixo”.

Naquele momento de pânico, ela percebeu que não sabia em que direção nadar.

Mais de 1.500 metros abaixo, o helicóptero Kiowa continuava seu mergulho em direção ao fundo, esmagado pela pressão que crescia sem parar. Os 15 mísseis AGM-1148 Hellfire que ainda estavam a bordo, altamente explosivos, deformavam-se, seus tubos de cobre e ogivas detonadas por pressão inclinando-se perigosamente para dentro.

Trinta metros acima do fundo do oceano, o poderoso vórtice da megapluma agarrou os destroços do helicóptero, puxando-os para baixo e arremessando-os contra a crosta incandescente do domo de magma. Como uma caixa de fósforos se acendendo, um após outro, os mísseis Hellfire explodiram, abrindo um rasgo no topo do domo de magma.

Michael Tolland subiu para respirar e depois mergulhou novamente, desesperado, tentando discernir algo em meio à escuridão. Estava a cinco metros da superfície quando os mísseis explodiram. O flash de luz branca se espalhou pelo oceano, fazendo com que ele visse uma imagem da qual jamais se esqueceria.

Rachel estava três metros abaixo dele, como uma marionete enrolada em seus fios, flutuando na água. Abaixo dela, o Triton descia rapidamente, seu domo solto na frente. Os tubarões daquela área se dispersavam e fugiam, pressentindo o perigo iminente.

A felicidade de Tolland ao ver Rachel fora do submarino foi quase instantaneamente superada pela compreensão do que iria acontecer a seguir. Memorizando a posição exata em que ela se encontrava, Tolland mergulhou o mais rápido que pôde para alcançá-la antes que a luz se extinguisse totalmente.

A crosta rompida do domo de magma explodiu centenas de metros abaixo deles, e o vulcão submarino entrou em erupção, lançando magma a 1.200° Celsius para cima no oceano. A lava de altíssima temperatura vaporizava toda a água com a qual entrava em contato, criando um gigantesco pilar de vapor quente que se projetava como uma flecha em direção à superfície no eixo central da megapluma. Impulsionada pelas mesmas propriedades cinéticas que davam força aos tornados, a transferência vertical de energia do vapor era contrabalançada pela vorticidade anticiclônica que circulava em torno do poço, levando energia no sentido contrário.

Em torno dessa coluna de gás emergente, as correntes oceânicas começaram a se intensificar, girando e descendo em direção ao fundo. O vapor que escapava criava um enorme vácuo que sugava milhões de litros de água do mar para dentro, jogando-os contra o magma. Quando esta água mais fria chegava ao fundo, também era vaporizada, juntando-se à crescente coluna de exaustão de vapor que subia, puxando cada vez mais água para baixo. Em meio a esse movimento, o vórtice se intensificava.

A pluma hidrotérmica se alongava e o imenso redemoinho ficava mais forte a cada segundo, com sua borda superior se movendo inexoravelmente em direção à superfície.

Um buraco negro marítimo acabava de nascer.

Rachel se sentia como um bebê no útero, envolvida por uma escuridão aquosa e quente. Seus pensamentos estavam embaralhados em meio àquele calor escuro. Respire. Ela lutou contra o reflexo. O clarão de luz que viu só podia vir da superfície, mas parecia estar tão distante. Uma ilusão. Vá para a superfície. Quase sem forças, começou a nadar na direção da luz. Podia ver mais luz agora... um estranho brilho vermelho ao longe. Está amanhecendo? Nadou com mais vigor.

Uma mão segurou seu tornozelo. Ela tentou gritar debaixo d’água e quase deixou escapar o pouco ar que lhe restava.

Sentiu um puxão para trás. Alguém a girava e apontava para a direção oposta. Logo depois Rachel reconheceu aquele toque familiar. Michael Tolland estava lá, segurando sua mão e puxando-a com ele na direção certa.

A mente de Rachel lhe dizia que estava sendo levada para o fundo. Seu coração, entretanto, respondia que Tolland sabia o que estava fazendo.

Use os pés e chute!, podia ouvir a voz de sua mãe sussurrando.

Rachel chutou com todas as forças.

 

Assim que Tolland e Rachel emergiram, ele compreendeu que era tarde. O domo de magma havia se rompido. Quando a parte superior do vórtice atingisse a superfície, o gigantesco tornado submarino iria começar a sugar tudo para o fundo. Estranhamente, o mundo fora d’água não era mais a madrugada silenciosa de instantes atrás. Havia um ruído ensurdecedor e o vento batia em sua cara como se uma tempestade tivesse chegado depois que ele mergulhou.

Tolland estava quase inconsciente pela falta de oxigênio. Tentou manter o corpo de Rachel acima da superfície, mas ela estava sendo puxada de seus braços. A corrente! Ele fez o possível para segurá-la, mas a força invisível aumentou, ameaçando arrancá-la de seus braços.

De repente, não conseguiu mais segurá-la e o corpo de Rachel acabou deslizando de suas mãos — estranhamente, subindo.

Confuso, Michael observou enquanto Rachel saía do mar, levitando.

Acima dele, uma aeronave Osprey, com rotores basculantes, da Guarda Costeira, estava parada no ar e puxou Rachel para dentro. Há 20 minutos tinham recebido um relatório de uma explosão no mar. Como haviam perdido contato com o helicóptero que deveria estar na mesma área, temeram que fosse um acidente. Digitaram as últimas coordenadas conhecidas do Dolphin no sistema de navegação do Osprey e rezaram para chegar a tempo.

Quando estavam a cerca de meia milha do Goya, ainda todo iluminado, viram destroços em chamas flutuando na corrente. Pareciam restos de uma lancha. Ali perto, um sobrevivente acenava vigorosamente com os braços, pedindo socorro. A Guarda Costeira puxou o homem para cima.

Estava completamente nu, exceto por uma perna coberta com fita isolante.

Exausto, Tolland olhou para a parte de baixo do enorme avião. As hélices, em posição horizontal, como as de um helicóptero, lançavam fortes rajadas de vento sobre ele. Rachel foi içada por um cabo e várias pessoas ajudaram a puxá-la para dentro da aeronave. Enquanto Tolland observava a operação de resgate, viu de relance um homem agachado, sem camisa, perto da abertura na fuselagem. Seu rosto era familiar.

Corky? O coração de Tolland se encheu de alegria. Você está vivo!

Logo em seguida a bóia de salvamento foi lançada do avião novamente.

Caiu a três metros dele. O oceanógrafo tentou nadar até lá, mas já podia sentir a pluma sugando a água para baixo. O punho forte do mar fechou-se em torno dele, não querendo que partisse.

A corrente puxava-o para baixo. Lutou para manter-se na superfície, mas sentia um cansaço enorme. Você é um sobrevivente, dizia uma voz dentro dele. Bateu as pernas, impulsionando seu corpo em direção à superfície. Quando emergiu, em meio às rajadas de vento, a bóia ainda estava fora de alcance. A corrente tentava arrastá-lo para baixo novamente. Olhando para cima, em meio à confusão do vento e do ruído, Tolland viu Rachel. Seu rosto estava voltado para ele, desejando que logo pudessem estar juntos.

Tolland deu quatro braçadas vigorosas para chegar até à bóia. Numa última tentativa, conseguiu passar o braço e a cabeça para dentro da alça de borracha e deixou-se levar.

O mar inteiro estava sendo drenado bem embaixo dele.

Olhou para o mar a tempo de ver o enorme vórtice se abrir. A megapluma havia finalmente atingido a superfície.

William Pickering estava de pé, na ponte do Goya, olhando, em estado de choque, o espetáculo que se desenrolava em torno dele. Alguns metros a estibordo da popa do navio, uma enorme concavidade, como uma bacia, estava se formando na superfície do oceano. O redemoinho tinha centenas de metros de diâmetro e estava aumentando rapidamente. O mar descia em espiral para dentro dele, precipitando-se com uma suavidade amedrontadora pela borda externa. Ao seu redor, de todas as direções emanava um ruído gutural vindo das profundezas.

Pickering, estarrecido, olhava aquele buraco se expandir em sua direção, como a boca escancarada de um deus mitológico sedento de sacrifícios.

Estou sonhando, pensou.

Subitamente, com um sibilar explosivo que partiu as janelas da ponte — do Goya, uma majestosa pluma de vapor irrompeu do vórtice, lançando-se em direção aos céus. Um imenso gêiser subia vertiginosamente, seu ápice desaparecendo no céu ainda escuro.

Ao mesmo tempo, as paredes do funil se tornavam mais íngremes e seu