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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


POR AMOR DE FILAE / Christian Jacq
POR AMOR DE FILAE / Christian Jacq

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

POR AMOR DE FILAE

 

Na Ilha Santa de Filae, na fronteira meridional do Egipto, a última comunidade fiel à tradição luta contra o invasor.

No século VI depois de Cristo, o cristianismo impôs-se no país e somente o templo de Filae continuou em actividade. Iris, a superiora da comunidade, recusa-se a aceitar uma situação adversa.

No apogeu da sua juventude e da sua beleza, ela assume uma luta incansável contra o todo poderoso bispo Teodoro.

Com Sabi, a quem a liga um amor eterno, Iris devolve a confiança aos adeptos dos antigos mistérios e transmite-lhes um ideal imperecível. Assim, tanto no Norte como no Sul, constrói resistências contra aquilo que ameaça a existência do templo.

POR AMOR DE FILAE é o destino de uma sabedoria milenária que se conta e se reinventa.

 

 

As estrelas dançavam num céu de lápis-lazúli. Isis, a superiora das sacerdotisas do templo de Filae, contemplava a sua claridade emanada do fundo do Universo. Revelava, no coração do além, a presença dos seus ressuscitados; a alma dos faraós desasarecidos protegia ainda o santuário onde a grande deusa velava sobre os seus últimos fiéis, uns cinquenta homens e mulheres que, seis séculos depois do nascimento de Cristo, viviam a fé dos antigos egípcios conforme a pureza de uma regra imemorial, embora a religião nova tivesse conquistado o país inteiro.

Só resistia a montanha santa de Filae, iluminada pelos clarões do levante; no meio de um caos de rochas, a ilha santa de Isis aparecia como um paraíso verdejante, rodeado de muros altos.

Olhar aquela fortaleza, pretendia uma lenda teimosa, abria a porta aos deuses.

A jovem mulher, vestida com o tradicional traje branco, ouviu pipilar os pássaros do aviário sombreado pelas acácias. A luz já não tardaria a triunfar das trevas. Sobre o seu pedestal de granito, suavizado austeramente por uma luxuriante vegetação, de onde emergiam as palmeiras-tamareiras, a ilha defendia o poderoso bispo Teodoro, ao mesmo tempo chefe espiritual e dono temporal daquela região esquecida do Sul do Egipto, nos confins do Império. Para além, ficavam o desconhecido, o perigo e os povos bárbaros.

Isis perfumou os cabelos curtos, pretos como azeviche, e seguiu para o quiosque do imperador Trajano. Destinado a acolher a barca divina, o edifício, de elegantes colunas, não tinha sido acabado; a sacerdotisa via nele uma mensagem de esperança, uma obra a prosseguir, mesmo se o destino parecesse contrário. Como filha do deão da comunidade, e a mais brilhante das discípulas da Casa de Vida, teria ela podido admitir que a civilização egípcia desaparecesse, esmagada sob o peso de um dogma que não hesitava em usar a violência para se impor? Mesmo que o inimigo investisse, despedaçar-se-ia sempre contra as muralhas do templo, última recordação do primordial outeiro, em que a vida, que brotara da pedra e da areia, se tinha tornado em malvaíscos de corolas vermelhas, clematites azuis ou buganvílias de grinaldas cor-de-rosa. Afastando os ramos de um sicômoro, Isis avançou para a margem.

Não, não era o fim do mundo, apenas o termo do vale, onde o Nilo corria por entre margens cada vez mais apertadas, antes de se perder nos turbilhões e nos remoinhos da primeira catarata que se lançava ao assalto de rochedos e de ilhotas. Isis amava aquele espectáculo grandioso, deixava-se enfeitiçar pelas montanhas de areia ruiva, o deserto ocre, as pedras inalteráveis.

Ali, nada mudava. Ali se afirmava o poder das primeiras idades, dos tempos gloriosos, dos gigantes construtores da mais perfeita das culturas. Filae era o coração da primeira província do Egipto; dela nascia a corrente vivificante da cheia, dela renasceria a felicidade.

Isis sentia a necessidade da solidão da alvorada para melhor respirar o unguento da deusa, orvalho misterioso da comunhão entre o céu, a terra e o templo. Tal como a ilha sagrada cativava pelos seus encantos as falésias escuras, a jovem sacerdotisa queria engodar as forças hostis que tinham conduzido os exércitos cristãos às portas do último santuário egípcio. Dado que usava o nome da deusa encarnada em Filae, mostrar-se-ia digna da sua inspiradora.

Isis sentou-se à beira da água. Um vento suave envolveu-a como um xale; sob os seus pés nus, a terra já estava morna.

Como venerava aquele lugar isolado, aquele templo perdido no meio das águas e dos escolhos, aquele hino de argila de poder invisível, aquele canto alegre da rainha das estrelas! Tinha nascido ali, na sala de partos, tinha aprendido a ler, a escrever, e a contar, na Casa de Vida recebeu a iniciação dos pequenos mistérios, desde a idade de dezasseis anos, antes de desenvolver o seu espírito, como as asas de um pássaro, para conhecer a iluminação dos grandes mistérios e o peso da carga superior.

Mas como esquecer as convulsões do mundo exterior, a ocupação bizantina tão dura como a dos Romanos, a penhora do bispo Teodoro sobre a cidade de Elefantina 1, as conversões forçadas dos escribas, dos barqueiros e dos camponeses, constrangidos a esquecer as suas raízes e a comportarem-se como cristãos obedientes? Agora, a velhice deitava abaixo o deão. Cabia a Isis continuar a luta e preservar Filae das agressões. Os fanáticos sonhavam apoderar-se do templo e das suas riquezas. Ela contava com a moderação do bispo, um egípcio que aderira à causa de Cristo.

Quando o deão se apagasse, seria preciso designar um novo superior, apto a reinar com ela. Como não pensar em Sabni, um jovem de parecer severo e fronte ampla, em quem ela pensava com demasiada frequência, naqueles últimos meses, ao ponto de ser perturbada durante a realização dos ritos? Sabni,

 

(*) Cidade situada em frente do moderno Assuão.

 

a seus olhos, possuía as qualidades requeridas para ocupar aquele cargo. Mas não estaria a ceder a uma paixão? Espalhou-se um murmúrio de sistros no ar leve. Isis voltou para o templo donde saíam duas sacerdotisas idosas, manejando os instrumentos de música, cujo som metálico afastava os demónios da noite, que tentavam incrustar-se nas paredes dos edifícios. Uma segurava um sistro com umas hastezinhas que serviam de suporte a serpentes de cobre, a outra, um cabo em forma de pequena coluna que encimava uma cabeça de deusa do amor. Também elas haviam vestido a sua roupa de festa.

A chegada de Isis, inclinaram-se. Apesar da sua pouca idade, a superiora impunha respeito, sorridente, não levantando a voz, fruia do porte distinto inato das egípcias de alta linhagem, cuja beleza fora imortalizada por milhares de baixos-relevos. A de Isis era luminosa; bastava a sua vista para atenuar as angústias.

Dotados do título sagrado de «irmão» e de «irmã», os adeptos decididos a ficar na ilha sabiam que a sua salvaguarda dependia dela.

O Sol transpôs o obstáculo da montanha do Oriente e o seu clarão invadiu o céu. Uma procissão, que juntava todos os adeptos, ultrapassou a porta de Evergete. A cabeça, Sabni ritmando o andamento com uma comprida bengala de madeira dourada; atrás dele, o deão amparado pelo perfumista e o carniceiro; depois, os padres de crânio rapado e as sacerdotisas. Transportavam estatuetas de divindades, vasos de ouro e prata, ceptros e cofres de madeira. Os preciosos objectos, conservados em criptas e salas escuras, saíam para a luz do dia, conforme a expressão ritual.

Isis decidira organizar aquela cerimónia num período tórrido em que, com um orgulho que desencadeava bastantes invejas, só a ilha de Filae se conservava verdejante. A volta, só havia encostas abruptas, rochedos hostis e terras áridas ressequidas pelo vento do sul, portador de doenças. Pouco depois, na parte mais baixa do seu curso, o Nilo deixava aflorar os rochedos da catarata que nenhum barco podia atravessar. Em Elefantina respirava-se cada vez pior. A morte raptora apoderava-se, facilmente, das crianças e dos velhos.

Entre os seus irmãos e irmãs, Isis observava sinais de esgotamento. As forças do deão declinavam; com noventa e cinco anos feitos, desesperava por atingir cento e dez anos, idade dos sábios. Continuava, contudo, a mostrar boa cara, como se as dores atrozes que lhe furavam o peito não passassem de ilusão. Apesar dos cuidados prodigalizados, Isis receava a proximidade de um desfecho fatal, a menos que o pai não triunfasse mais uma vez.

A superiora esperou pela procissão em frente da entrada do quiosque; afastou-se quando Sabni, guiando o cortejo de brancura imaculada, avançou por entre as catorze colunas. A comunidade depôs os objectos sagrados. Depois de um ano de utilização, a energia de que tinham sido encarregados, por ocasião do ritual anterior, tinha-se esgotado. Apenas o Sol os tornaria de novo eficazes e capazes de transformar a fealdade em beleza.

- Como o teu rosto está radioso, luz divina - declamou a ritualista - quando os teus braços modelam a matéria para moldar os deuses, os humanos, os animais e tudo aquilo que existe.

Enquanto o hino, de três milénios de idade, prosseguia, Isis fez parar a decisão que amadurecia havia longas semanas.

- Esta regeneração pela luz deve ser acompanhada de uma saída de barco. Assim procediam os nossos antepassados, assim procederemos nós.

A bela serenidade da comunidade desfez-se, percorreram-na murmúrios reprovadores. Nos olhos do deão passou um clarão de excitação.

- Superiora - disse Sabni respeitosamente - esse projecto parece temerário; já não temos o direito de deixar a ilha. Foram assinaladas concentrações de tropas em Elefantina. Arriscamo-nos a ser desbaratados.

- Devemos desencadear um movimento de resistência. ,Nenhum dos camponeses que trabalha nas nossas terras é cristão. Foram baptizados com a espada sobre a nuca; se a barca da deusa fica invisível, o Egipto continuará a morrer.

- O inimigo dispõe de força.

Isis voltou-se para o deão.

- Não se deve arriscar a vida dos frouxos - referiu ele com uma voz alegre - é demasiadamente indigesta, mesmo para os chacais.

A superiora tomou a mão do pai.

- Tu, que ignoras o medo, sê o guarda deste templo. Põe a teu lado os mais velhos; não quero senão voluntários conscientes do perigo. Se devemos desaparecer, que estes lugares continuem a viver.

 

A comunidade dispunha ainda de várias barcas. Mesmo que as numerosas equipas de carpinteiros e o estaleiro naval não fossem já senão lembranças longínquas, dois adeptos continuariam a manter aquele tesouro inestimável.

Uma delas foi posta na água, em frente do quiosque de Trajano, longe do embarcadouro habitual. Dez padres subiram para ela. Sabni guiava uma pequena barca sagrada com a proa em forma de flor de lótus. Com um olhar, tentou dissuadir Isis de empreender aquela expedição; a superiora instalou-se na frente, saboreando a brisa que lhe batia no rosto. A curta viagem, da ilha à margem desértica, anunciava-se como uma vitória. Filae quebrava a fortaleza invisível que a impedia de comunicar com o mundo exterior; o emblema da grande deusa reapareceria entre os fiéis privados da sua presença e condenados ao desespero.

Um pastor, do cimo de uma colina, foi o primeiro a avistar a procissão. Viu-a organizar-se na margem, com Isis à cabeça.

Louco de alegria, correu a prevenir os camponeses curvados sobre a terra num campo vizinho, minúsculo pedaço arrancado à seca. Um lavrador subiu para cima de um burro, lançou-o a galope e divulgou mais longe a boa nova.

Quando o cortejo atingiu uma das esplanadas rochosas, que dominavam a vila, Isis descobriu, comovida, os subúrbios de Elefentina; a grande cidade do Sul já era só uma guarnição militar, abandonada das divindades, um território profanado onde os templos tinham sido saqueados. Sabni escondeu mal a sua angústia, mas também ele conheceu a alegria de fugir à reclusão, de tornar a ver o lugar onde nascera, de esperar um outro futuro para o seu país.

Os padres, inquietos, olhavam, à direita e à esquerda, temendo a intervenção de forças armadas com reputação de ferozes.

Passo-a-passo, foram-se encorajando; quando atravessaram a primeira vinha onde, por entre as cepas, cresciam palmeiras-tamareiras, já estavam convencidos de que nenhum obstáculo entravaria a sua marcha em frente. A barca da deusa, iluminada pelos raios de um Sol quente, protegia-os. Foram progredindo sem pressa, adoptando um ar solene característico das deslocações no interior do templo. Ao fim da jornada, com o primeiro grupo de quintas, o Egipto inteiro os acolheria; Isis proclamaria o regresso da fé tradicional, o resurgimento da felicidade.

Uma dezena de homens, de rosto fechado, impediram a passagem. Sabni confiou a barca sagrada aos que o seguiam e tornou a aproximar-se de Isis que continuava a avançar. Os camponeses, sem armas, ajoelharam; a superiora levantou-os.

- É da vossa confiança que a grande deusa se alimenta, não é da vossa humilhação.

Os camponeses juntaram-se aos padres. Um deles entoou um canto cujas palavras não compreendia; gabava a beleza dos grãos de centeio, chegados ao amadurecimento graças à benevolência do céu. Um padre retomou o refrão e arrastou os seus irmãos. Quando a procissão chegou à vista do primeiro campo fortificado, proibindo o acesso à cidade, uma voz unida, poderosa, elevou-se de uma centena de peitos; jardineiros, vendedores ambulantes, barqueiros abandonaram o seu labor para se unirem à reconquista.

Isis rezou; salmodiou, a meia-voz, um hino à mãe divina, defendendo-se da exaltação que se apoderava dela. Porquê ter esperado tanto, quando o assalto era tão fácil? O número de devotos da deusa não cessava de aumentar. Mulheres e crianças ousavam sair das suas casas e participavam na festa. O além voltava, o Egipto ressuscitava.

Sabni não se abandonava ao júbilo; cantos e gritos de alegria não o tranquilizavam. Observou o caminho da ronda, onde acabavam de aparecer dois soldados armados de lanças.

O jovem estremeceu; não eram camponeses alistados à força mas mercenários bem equipados, encarregados de vigiar o posto da alfândega, de cobrar os impostos, de escoltar os transportes de alimentação. A sua principal função consistia em assegurar a manutenção da ordem, sem consideração pelas vidas humanas.

Com o corpo coberto por uma couraça e polainas de cabedal, a cabeça dissimulada por uma espécie de capacete provido de duas aberturas para os olhos, eles manejavam naturalmente a lança e o machado de gume duplo. O povo odiava e temia esses bárbaros vindos da Asia. O cortejo avançou para o forte de tijolos, cuja fachada principal era voltada para o sul, de onde tinham surgido, havia bastantes anos, algumas tribos nubianas revoltadas. O sinistro edifício, comunicando com torres de vigia de outros campos, onde estavam as casernas dos outros destacamentos destinados à fronteira, às estradas e às pedreiras, simbolizava a autoridade do bispo.

Abrindo de novo a porta do Egipto, Elefantina, a comunidade faria circular um sopro poderoso no país inteiro. Em algumas semanas, todos saberiam que a grande deusa tinha deixado a ilha santa, a fim de reanimar os antigos santuários e de revivificar os cultos adormecidos. Seria, de novo, por toda a parte, a festa do céu e da terra.

Quatro soldados, andrajosos, correram para o cortejo. Tiraram as botas de papiro e deitaram fora as espadas curtas de gumes gastos; sujos, eriçados, espoliavam todas as semanas as próprias famílias, a quem tinham sido arrancados para se tornarem polícias submissos dos mercenários estrangeiros.

Começava a deserção.

Duzentos, trezentos... Sabni já não contava os aliados que, despojando-se dos seus ouropéis cristãos, libertavam as palavras do coração. Censurava-se por ter duvidado: ninguém mataria a alma do Egipto.

Como Isis estava bela, naquela hora de triunfo! Calma, luminosa, comandava com docura. Embora frágil, parecia indestrutível.

Sabni admirava-a havia tanto tempo, que se espantava com as cores mais quentes tomadas pelos seus sentimentos; nos seus olhares, a deferência tingia-se de um impulso quase apaixonado que ainda refreava. Amor não saberia ser o seu nome. Como reuniria ele dois seres tão diferentes: Isis, a herdeira de uma longa linhagem ilustre de rainhas do Egipto, Sabni um modesto padre de origens humildes? O ataque produziu-se na retaguarda. Entregues ao delírio, os peregrinos não tinham notado a rápida manobra do cerco.

As ordens dos mercenários não sofriam de hesitação: nenhuma perturbação devia ser tolerada. Normalmente, bastonavam um bêbedo ou agarravam um camponês em fuga, que a miséria e a escravatura enlouqueciam. Daquela vez, a situação era muito mais preocupante: um motim, uma rebelião contra a ordem estabelecida. Além disso, tinham assistido à deserção de vários polícias, unidos aos agitadores: assim, o castigo foi aplicado com o máximo rigor.

A primeira linha de mercenários atirou ao arco. As flechas cravaram-se nas costas dos fiéis de Isis; à machadada, os soldados cortaram pernas e narizes dos feridos, furaram o ventre dos últimos revoltados. Em alguns minutos, as tropas da vigilância tomaram-se donas do terreno.

Os que tinham acreditado no regresso da grande deusa, jaziam ensaguentados, na beira do caminho. Um só padre tinha perdido a vida, com a garganta cortada. Um erro devido ao fogo exagerado de um soldado que se lembrara, um pouco tarde, das recomendações do bispo: não atentar contra a vida dos homens e das mulheres vestidos de brancos. Despiu-se o cadáver e vestiu-se com a túnica emporcalhada de um camponês.

Isis, Sabni e os outros membros da comunidade foram reconduzidos, em boa ordem, até à sua barca. Ouviram, abatidos, os gritos dos desertores que os mercenários penduravam pelos pés, depois de lhes terem deitado chumbo derretido nos testículos. Restava queimar os supliciados; o fumo, elevando-se para o azul, marcou o fim da insurreição.

Um graduado agarrou uma pequena barca de proa em forma de flor de lótus. Lamentando a ausência da douradura, desconjuntou-a a pontapés e dispersou-lhe os pedaços sobre o cascalho.

 

Isis, prostrada junto de uma coluna do quiosque de Trajano, não tinha tomado qualquer alimento havia dois dias. A comunidade, desamparada, esperava que a superiora saísse do seu mutismo. O deão, acamado, tinha perdido o uso da fala. A ritualista, contentava-se em recitar textos, enumerando as ofertas às divindades, a fim de preservar o fraco vínculo que ainda unia o Egipto à harmonia celeste. Mergulhado na letargia, indiferente à doçura do dia, o templo não passava de muros silenciosos.

Sabni depôs junto de Isis um odre de água fresca.

- Ninguém te julga responsável pela morte do nosso irmão.

Como os outros, ele conhecia o risco.

- O bispo tinha prometido que a vida dos membros da nossa comunidade seria protegida. Todos esses infelizes assassinados, essa fúria...

- Teodoro nunca traiu a sua palavra. Foi um acidente.

- Tens a certeza?

- Tenciono assegurar-me.

- De que maneira?

- Encontrando Teodoro.

- Não tens o direito de deixar a ilha.

- Como padre, não. Mas quem desconfiará de um camponês?

- É muito perigoso.

- É indispensável.

- E se eu te proibisse essa expedição?

- Obedeceria. Mas sofreríamos de uma angústia insuportável.

Isis levantou-se. Como era difícil não correr para ela! Não a tomar nos braços! A superiora admitia o fundamento de opinião de Sabni.

Aquando da divisão das terras, o bispo não tinha desmantelado o património do templo; este último já não possuía as riquezas de antigamente, mas restavam-lhe campos cultivados que continuavam a alimentar a comunidade. Os camponeses estavam persuadidos de que, se a deusa recebesse a primeira parte das colheitas, a sua sorte seria menos dura. O bispo fechava os olhos e o sistema económico funcionava como dantes: mercadorias, trazidas ao templo, sacralização pela superiora, redistribuição.

- Um outro acontecimento me obriga a ir sem demora a Elefantina.

- Qual?

- O nosso fiel Mersis não nos faz chegar a sua mensagem habitual. Há soldados nas margens e nenhum pescador se pode aventurar nas nossas águas.

Mersis, um egípcio cujo nome significava o vermelho, era um dos homens de confiança do bispo. Convertido de longa data, não suportava ver desaparecer os adeptos dos antigos cultos. Queria salvar Filae e transmitia à comunidade as informações indispensáveis à sua sobrevivência.

- Como procederás?

- Nadarei até ao primeiro posto fronteiro. Só o guardam camponeses alistados à força, ocupados a dormir e a jogar aos dados. Depois tomarei a barca. Em Elefantina, esperarei o tempo necessário para encontrar Teodoro a sós.

Isis voltou-se para Sabni. Nos seus olhos, a inquietação misturava-se com a ternura.

- Não temos escolha...

- Sou teu servidor. A alma de Filae és tu.

- Volta depressa, Sabni.

Sabni atravessou facilmente o braço de água que separava a ilha do abastecimento em que, alfandegários de ocasião, amontoavam despojos de crocodilo e tangas nubianas de má qualidade.

Ninguém frequentava aquele lugar sinistro, onde não havia nada para roubar; ao longe, exactamente antes da primeira catarata, Sabni distinguiu as fortificações do grande posto alfandegário fronteiro, entre o Egipto e o Sul. Iluminado por tochas, mantinha-se em estado de alerta noite e dia, durante o período das marés baixas. O ocupante pouco receava as tentativas de invasão das tribos negras; os últimos assaltos remontavam a mais de dez anos. O que era preciso proteger dos larápios eram os tesouros acumulados nos entrepostos: sacos de ouro, marfim, ébano, peles de animais. Depois do inventário e da avaliação do seu valor, alimentavam o mercado mais animado do país. Os alfandegários acolhiam as caravanas vindas de África, adiantavam as taxas e garantiam a segurança das mercadorias antes delas serem negociadas.

Filae já não dispunha de suficientes moedas de prata convertíveis nesse metal precioso, que servia para cobrir as estátuas divinas e os batentes das portas. Melancólico, Sabni enterrou-se nas trevas. Em criança brincara tantas vezes nas Çmargens e nas falésias, que lhes conhecia a mínima pedra. Alguns atalhos, de aparência fácil, encobriam armadilhas mortais; esquecendo que as pedras, em equilíbrio instável, podiam, a todo o instante, desmoronar as encostas arenosas, vários soldados bizantinos tinham partido o pescoço.

Despiu a túnica de camponês e dormiu no cume de uma colina ao abrigo de um bloco de granito cor-de-rosa. Acordado pelos clarões da aurora, desceu, num passo calmo, para o embarcadouro em que se empurrava uma numerosa multidão. A barca para Elefantina, onde morava o bispo, era de graça; lá se amontoavam cabras, carneiros, burros e agricultores, trazendo alimentos ao dono dos lugares e à guarnição. Sabni aliviou, do seu fardo, uma velhota dobrada sob o peso de um cesto, cheio de résteas de alhos, que ela devia entregar nas quitandas da cidade construída na ponte sul da ilha. Caminhando ao seu lado, e cavaqueando com ela, dava a imagem de um bom filho, ajudando a mãe. Não foram interpelados por soldados nem por polícias; passaram perto do célebre poço que o grego Eratóstenes, em 230 antes de Jesus Cristo, tinha utilizado para confirmar a medida da circunferência da Terra, estabelecida pelos sábios egípcios. Nessa região, durante o solstício de Verão, os raios luminosos caíam na vertical, sem produzir o alastramento da sombra, oferecendo um excelente ponto de partida aos cálculos geométricos.

A maior parte das casas tinha trocado os seus terraços por telhados de caliça. Algumas, arrasadas até aos alicerces, lembravam o castigo aplicado àqueles que recusavam obstinadamente converter-se. A antiga morada do governador egípcio, hostil ao cristianismo, estava abandonada. A sua fachada, despedaçada e enegrecida, parecia o rosto de um supliciado.

Sabni acompanhou a velha até à quitanda do merceeiro, um libanês sempre pronto a gabar os méritos de Bizâncio e a sabedoria do ocupante. Primo de um graduado, tinha comprado uma quantidade de terras, onde explorava, em completa impunidade, várias famílias que, sem ele, estariam mortas de fome.

Estafada, a vendedeira de alhos suplicou a Sabni que lhe carregasse com o seu fardo, embora aligeirado, até casa. Morava no bairro mais pobre e tinha de se dirigir quotidianamente até ao seu pedaço de terra, na margem leste. Durante os períodos de calor forte, trabalhava de noite. Com o marido morto, os filhos aquartelados na Ásia, subsistia com dificuldade.

A casa baixa, dando para uma ruela lamacenta e escura, era construída com tijolos de barro cru, seco ao sol. Na fachada acastanhada, maltratada, abria-se uma janela minúscula, provida de uma grade de madeira. Sabni e a velha treparam um lanço de escada de três degraus gastos. A proprietária usou uma chave enferrujada; acreditava na protecção ilusória que uma fechadura a abanar lhe proporcionava. Uma mobília meio-apodrecida enchia os dois pequenos quartos.

A velha deixou-se cair no chão de terra batida.

- Quem és tu?

- Desejas verdadeiramente saber?

Ela fechou os olhos.

- Não tens maneiras de camponês, a tua voz é firme como a de um padre...Lembro-me das palavras calmas dos adeptos de Isis, quando saíam em procissão antes que o bispo os obrigasse a ficar na ilha. Tinham gestos calmos como tu.

- Esses tempos passaram. Estou aqui para me alistar no exército. Adeus.

A velha conservou os olhos fechados. Denunciar um padre em fuga render-lhe-ia uma bonita quantia. Comeria o que quisesse durante vários meses.

 

Ao lado da morada do bispo elevava-se o mais alto pombal da região Elefantina. Os excrementos dos pombos fornecem um adubo eficaz e apreciado, pricipalmente pelos vinicultores. A casa do dono da província arvorava orgulhosamente dois andares e um terraço.

Sabni conheci-a bem antes de alojar o bispo, a vivenda tinha sido propriedade de um juiz, cujos filhos, a que se juntava de boa vontade o pequeno Teodoro, brincavam com o futuro padre de Isis.

Todos os dias, uma dezena de criados limpava a sala de recepção, os quartos, a cozinha, a sala de águas, os pórticos e as despensas. Sabni tinha pensado tomar o lugar de um deles, mas os soldados verificavam a sua identidade. Assim, entrou para a equipa de manutenção da capoeira, onde figuravam frequentemente novas caras.

Até à noite, Sabni tratou dos porcos, dos gansos e das galinhas. Não tinha desempenhado essa tarefa, no templo, antes de ser admitido na escola de escribas? Trocou algumas palavras com os colegas, sem se misturar com eles; quando abandonaram a capoeira, deixou-se lá fechar.

Quando a noite caiu, Sabni introduziu-se na cave por uma janela baixa, de grades mal seguras, enfiou-se entre duas alas de jarros cheio de um grande vinho da região, depois subiu a escada, que ia dar ao rés-do-chão. O escritório do bispo situava-se no segundo andar.

Sentado à mesa do trabalho, de ébano, Teodoro lia algumas listas de contabilidade, que dois candeeiros de azeite alumiavam.

- Entra, Sabni. Não fizeste quase barulho nenhum, mas eu estava à tua espera. Depois de um tal drama estava convencido de que virias.

O fiel de Isis penetrou no quarto cheio de rolos de papiro arrumados cuidadosamente em arquivos. Teodoro gostava da ordem, detestava o deixa-andar e a negligência. Se bem que reinasse sobre um exército de secretários, continuava a classificar ele mesmo os seus documentos; trabalhador infatigável, concedia a si próprio pouco descanso. Aos trinta anos, já tinha a aparência de um homem maduro, gasto por tarefas demasiado numerosas. Sabni, apenas mais novo do que ele dois anos, parecia muito mais jovem do que Teodoro, cujo rosto alongado. têmporas desguarnecidas e magreza, acentuavam a severidade. Em adolescente, invejava a beleza do seu camarada. a sua natureza triunfante e alegre.

- Senta-te nas almofadas e saboreia esses figos suculentos. Eu tenho de acabar um relatório, porque Deus não teve pena nenhuma de mim, ao confiar-me a administração da província;

os funcionários do imperador não cultivam senão a preguiça.

Como supor que Teodoro fora de origem egípcia, ele o amador de vestuário bizantino com debruns violeta e bordados ornados de uma decoração floral? Havia pelas paredes mosaicos ilustrando cenas da mitologia grega, embutidos helenistas decoravam os móveis, copos e loiça de prata eram provenientes da capital do Império do Oriente. Sabni desdenhava aquele requinte excessivo, mas tinha fome.

Saboreou vários figos doces, quase desprovidos de graínhas.

Os notáveis apreciavam aquela variedade tardia.

- Foi morto um padre, Teodoro.

- Oficialmente, tratava-se de um desertor. Essa versão é preferível.

- Tinhas prometido.

- Vós havieis prometido não deixar a ilha a pretexto algum; morreram fracos de espírito por vossa causa.

- Deves compreender-nos.

- A ti compete admitir que Filae viola a lei de Deus e dos homens há tempo demais. Ignorarás que Constâncio II ordenou o encerramento dos templos pagãos desde o ano de 356, depois do nascimento do Salvador, que o cristianismo é religião do Estado desde 380 e que os cultos heréticos são proibidos desde 392?

- Roma caiu em 410 - lembrou Sabni - A sua queda prova que a crença dos cristãos é perecível e que a mais impiedosa das tiranias se pode despedaçar.

- O Império do Oriente retomou o facho. Filae não subsiste senão num sonho que corre o risco de se transformar em pesadelo. Converte-te.

O bispo virou-se para o padre egípcio.

- Somos amigos e os deuses estão mortos. É a verdadeira fé que reina no mundo. Cristo receber-te-á na sua Igreja, e conhecerás, enfim, a paz... e eu também.

O olhar de Teodoro brilhou de esperança. Enquanto o Ocidente, mal refeito da derrocada de Roma, se desmoronava nas revoluções da barbárie, a herança de Constantino, possuidora das províncias da Ásia Menor, da Síria e do Egipto, elevava o Oriente à categoria de farol da humanidade. Bizâncio, a nova Roma, detinha as chaves da civilização. Só a Alexandria tentava rivalizar com ela, expondo as suas riquezas junto do palácio do patriarca adepto da doutrina monofisita, segundo a qual a natureza divina de Cristo tinha absorvido a sua natureza humana. Condenado pelo imperador, o particularismo egípcio florescia. O bispo Teodoro devia tê-lo combatido com mais energia, mas preocupava-o um outro adversário: Filae, o último templo pagão em actividade.

- Nunca me converterei - afirmou Sabni com a certeza que uma fé inabalável confere.

- Acabo de assinar um novo decreto, por ordem do imperador. Todo o baptizado que pratica um antigo rito, mesmo no segredo da sua casa, será condenado à morte. Lê.

Sabni decifrou o texto, redigido em grego, em escrita demótica e em latim, a fim de que ninguém o ignorasse. Os letrados seriam reunidos, nas praças públicas, onde arautos lhes comunicariam o solene aviso: Que ninguém, seja qual for a sua família, a sua categoria, a sua dignidade, que seja ou não investido de uma autoridade ou de funções públicas, que seja bem nascido ou de modesta condinção, de grande fortuna ou humilde, não sacrifique em qualquer lugar que isso possa ser, em qualquer cidade, a símbolos; e que não faça qualquer oferenda. Senão, que o denunciem.

Sabni enrolou o papiro.

- Eis a vossa nova arma: a delação. Tranquiliza-te, eu não sou baptizado. Os corações são ávidos, a doçura perece, regozijam-se com o mal, o criminoso tem força e lei, cada um baixa o seu rosto para o chão: o país está abandonado aos que o detestam.

- Não te obstines.

- O tempo é aparência. Na desgraça de hoje, esconde-se a felicidade de amanhã.

- Desconheces o ódio dos teus inimigos, as cortes de monges que invadiram os antigos túmulos não suportarão durante muito mais tempo a existência de Filae. Em cada assembleia, os seus representantes exigem a partida da tua comunidadee a destruição do templo. Tento passar sob silêncio a presença dos últimos pagãos da minha jurisdição, mas a vossa estúpida procissão reduz os meus esforços a nada.

- Isis comanda as estrelas e expulsa os demónios. Não persegue ninguém, o seu amor vencerá.

- És um homem de uma outra época, Sabni. Isis... um fantasma esquecido.

- Porque derrama o teu Deus tanto sangue e reduz à escravatura países inteiros?

- Porque adoras divindades com corpo de homem e cabeça de animal?

Sabni sorri.

- Esse argumento é indigno de ti, Teodoro. No animal incarna-se uma força divina; não adoramos nenhum ídolo, mas reconhecemos a mensagem dos símbolos.

O bispo abandonou a sua mesa de trabalho e sentou-se em frente do amigo. Aceitou os figos que ele lhe propunha e deitou vinho branco em duas taças de prata.

- Consentes ao menos em venerar o Senhor ao domingo, dia feriado obrigatório?

- Cada dia deve ser sacralizado. O rito não se interrompe; em cada madrugada, a criação renasce na totalidade. Porquê privilegiar o domingo?

- Exprimes-te como se o mundo não tivesse mudado. A voz dos faraós extinguiu-se para sempre.

- Resta Filae. Vem à ilha, Teodoro, vem meditar no vestíbulo, à sombra das colunas. Percorre as salas e as capelas, relê os hieróglifos gravados nas paredes, experimenta a serenidade de Isis, a rainha celeste.

Sabni acreditou, por um momento, que o bispo o seguiria e lhe abriria o coração, nem que fosse durante o espaço de uma peregrinação aos mistérios da deusa. Que Teodoro fosse de novo tomado pela magia do templo, e a última comunidade renasceria para a esperança.

- És uma criança! Sabes que Filae está povoada de personagens diabólicos, de deuses de formas provocantes, cujas vestes cingidas deixam ver os seios nus? Sabes que a sua roupa é tão transparente que não esconde sequer a sua intimidade, que jóias e adornos são um insulto à pobreza do justo? Um bispo que pusesse os pés nesse lugar, a que chamais templo, seria logo excomungado.

- Não foi o apóstolo Paulo que escreveu: «A mulher foi criada para o homem, é o reflexo do homem?» Não é a minha opinião. Se consideras a mulher como diabólica, porquê admitir que Cristo nasceu da Virgem Maria? José, Maria, Jesus... não serão eles a trindade Osíris, Iris e Hórus?

- Blasfemas.

- Tu repetes um dogma de que só crês em metade.

- Enganas-te! Eu acredito num só deus, o Pai, do qual provêm todas as coisas e pelo qual nascemos. Foi Ele quem me designou servidor da sua Igreja; o meu dever consiste em proteger a fé e lutar contra o erro.

- És também o patrono de um exército de diáconos, de funcionários e de administradores, possuis uma quantidade de terras e de casas, cobras taxas que aumentam a pobreza dos pobres. A tua religião é cruel, não admite outra verdade senão ela própria. Só os escravos aderem a ela. A fé dos faraós não era nem missionária nem conquistadora; só contava a conversão do coração. Apenas se operava a mudança profunda do ser pela iniciação ao tesouro divino.

- Os sacramentos substituíram a iniciação.

- Tu comandas carneiros. Eles sofrem uma revelação em vez de construírem.

- A sua sinceridade vale bem a dos últimos adeptos de Isis.

- Serve Cristo, uma vez que é essa a tua vocação, mas concede a vida à minha comunidade; é portadora de uma espiritualidade que fará tornar a florir o mundo de amanhã.

O bispo elevou as mãos na frente dele, num gesto de oração.

- Suplico-te, Sabni! Convence a superiora a não se enterrar mais na sua loucura. Quanto a ti, ao menos finge converter-te. Eu carregarei com o peso da tua mentira e implorarei a Deus que nos perdoe.

Sabni levantou-se. Os dois homens estavam unidos pela cumplicidade do olhar que oferece uma amizade indestrutível.

- Não renunciarei, Teodoro.

- A história luta contra ti.

- O número e a força também. Não têm razão.

- Juntos teríamos vencido todos os obstáculos, recriado esta região à imagem do paraíso.

- Já existe Filae; protege-a. A nossa sobrevivência depende da tua vigilância.

O bispo voltou-se, tirou um papiro de um compartimento reservado aos assuntos urgentes.

- O incidente de anteontem não me obriga a tomar medidas. Os habitantes da ilha devem tomar-se trabalhadores como os outros. Que forneçam gratuitamente roupa aos soldados da guarnição; primeira entrega no princípio do próximo mês.

- Impossível. As nossas duas velhas tecelas estão quase impotentes e os outros membros da comunidade empregados em tarefas inferiores.

- Nesse caso, suprimo a doação de linho a Filae.

- Contávamos com a próxima para fabricarmos vestidos novos.

- Que me importa! Os súbditos do Império não passeiam de vestidos brancos.

Teodoro pôs-se de novo a escrever.

- Concede-me um salvo-conduto?

- Nunca vieste aqui, Sabni.

O bispo molhou a pena num godé cheio de tinta preta e redigiu, em grego, a proibição formal e definitiva de fornecer linho ao templo pagão.

 

Sem salvo-conduto, Sabni não valia mais do que um fora-da-lei. As patrulhas que calcorreavam os becos de Elefantina exigiriam conhecer a sua profissão, o seu local de trabalho e o nome do patrão. O egípcio tinha esperado uma ajuda material da parte do bispo. Mas este último dava-lhe uma lição; só, numa cidade hostil, era-lhe preciso escapar às rondas para chegar a Filae. Era impossível sair pelo pátio, cuja saída estava guardada.

Deitando um último olhar à janela do bispo, que filtrava a luz dos candeeiros, Sabni saltou o parapeito do terraço e atingiu o telhado de um alpendre. Observou os becos: nenhum soldado à vista. Prosseguindo no seu caminho, de edifício para edifício, afastou-se do quarteirão central e serviu-se dos arcos de uma latada para descer sobre uma praceta cheia de detritos.

Só lhe restava atingir a berma dos antigos jardins do templo; aí se degradavam barcas raramente utilizadas. Evitou uma viela e meteu por uma pequena artéria ao longo das moradas esventradas de padres de Khnum, o deus Aries. De lanço de parede em envasamento, Sabni foi-se aproximando da oficina de um oleiro, aberta sobre o Nilo. Por cima de uma janela subsistia um lintel em madeira de cedro. Pavimentos e revestimentos de calcário tinham sido arrancados. Apesar dos amontoados de tijolos, distinguiu a localização de uma grande sala ornada de nichos, abrigos irrisórios de divindades domésticas, às quais as famílias de outros tempos dirigiam uma oração ao levantar e ao deitar. Ultrapassou os restos de uma porta e pensou que, em menos de uma hora, estaria de regresso à ilha.

- Não te mexas mais. Estás preso.

Dos escombros tinha surgido uma dezena de soldados de capacete que lhe apontavam as espadas.

- Se procurares fugir, abatemos-te.

Sabni voltou-se. Outros soldados lhe impediram a passagem.

Imobilizou-se. O chefe da patrulha, um bizantino seco e nervoso, avançou para ele.

- Quem és tu?

- Um camponês.

- O teu nome?

- Já não sei.

- Que fazes aqui? Ignoras que se trata de um terreno militar? - Perdi-me.

O chefe da patrulha, de espada levantada, andou à volta de Sabni como que a procurar o melhor sítio para lhe enterrar a faca nas carnes.

- És cristão?

- Quem o não é?

- Foste encarcerado?

- Não.

- Levem-no.

Dois soldados agarraram Sabni e empurraram-no à sua frente.

Ele não resistiu; arrastaram-no até ao posto da guarda da guarnição. Escondida atrás de um miliciano, uma velha vendedeira de alhos observava o chefe da patrulha e abanou a cabeça à passagem de Sabni.

O suspeito foi atirado para uma prisão com paredes de tijolos e de chão de terra batida. O telhado era tão baixo que não se podia levantar; quando o calor chegasse ao seu apogeu, abafaria.

Sabni sentou-se na posição do escriba e esvaziou o espírito de toda a agitação. O deão tinha-lhe ensinado a situar-se fora dos acontecimentos imediatos, a tomar-se quase estranho a ele próprio, a fim de orientar melhor o seu pensamento. O jovem esqueceu o reduto malcheiroso, as idas e vindas dos soldados, os barulhos do acampamento. O medo que experimentava deslizou-lhe sobre a pele e afastou-se dele.

Como prevenir Isis? Evadir-se parecia-lhe impossível. Seria necessário assaltar um soldado e transmitir uma mensagem a Filae.

Mas não tinha nada para dar; arranjaria um ser compadecido naquela matilha? Não lhe trouxeram nem de beber nem de comer.

A meio de tudo, Sabni sentiu que a língua se lhe inchava e os músculos se lhe contraíam.

A porta abriu-se. Um soldado da infantaria arrancou-o da cela, puxando-lhe pelo braço esquerdo; Sabni vacilou, faltaram-lhe as pernas. Retomou o equilíbrio com dificuldade. Avançou com a fronte alta. Uma lança raspou-lhe o rosto, andou mais depressa. Empurraram-no para dentro de um escritório de paredes leprosas; pequenas tábuas gravadas jaziam em desordem sobre um cofre. Os infantes afastaram-se Entrou um oficial superior, de uns cinquenta anos. Com a face direita riscada por uma cicatriz, o nariz partido, o homem era portador de restos manifestos de numerosos combates.

Fechou a porta com um pontapé.

- Mersis!

- A velha denunciou-te. Os meus homens prenderam-te.

- Como padre de Isis?

- Como salteador; é esse, pelo menos, o termo que figura na queixa. Bebe isto.

O capitão ofereceu a Sabni uma taça de água fresca.

- Correste o risco de redigir, tu mesmo, o texto?

- O escrivão obedece-me. Ainda tenho algum poder nesta guarnição. Talvez não por muito tempo: o futuro é negro.

O capitão Mersis bateu com o punho na parede.

- O prefeito Maximino chega amanhã, à cabeça de quinhentos homens. Quatrocentos soldados de infantaria e cem cavaleiros; uma tropa de elite, reforço formidável, acrescentando aos mercenários e aos alistados por obrigação. Deram-me ordem de limpar as casernas e de fazer brilhar as armas.

- Esse desdobramento de forças porquê?

- Pacificação definitiva da região.

- Filae?

- Não sei nada, mas a vigilância da ilha será reforçada. Já não posso enviar-te mais mensagens quotidianas.

- O bispo suprime a doação de linho.

Inscreveu-se uma dor viva no rosto casmurro do capitão.

- As batinas dos padres.

- Cuidaremos das que possuímos.

O soldado estava quase a chorar. A morte era-lhe indiferente, a beleza de um cerimonial, não.

- Esse Teodoro é um monstro.

- Está em boas relações com Maximino?

- Não se conhecem. Mas diz-se que o prefeito é um homem muito autoritário. O bispo não vai gostar nada.

- A sorte há-de sorrir-nos.

- Essas centenas de soldados...

- Filae não merece tal exército. Deve existir uma outra razão.

O capitão não via nenhuma. Havia bastante tempo que, ao Norte, as veleidades da revolta tinham sido arrancadas como cepos velhos. Entre o Egipto e o Sul, as fortificações da fronteira votavam ao fracasso qualquer tentativa de invasão. Um só promotor de perturbações se opunha ainda à penhora total do Império: o templo pagão.

- Não te exponhas mais, Mersis. Se soubessem que nos ajudas...

- Não receio o destino. Tu ficarás preso até amanhã de manhã; o interrogatório a que cabo de te submeter, absolve-te. No cais, abandonado, resta uma barca arrombada; deverá aguentar até meio do caminho. Depois irás a nado. Tentarei enviar-te um pombo, logo que deixe de ter notícias; mas os melhores mensageiros, os que voam de noite, estão requisitados pelo bispo. Agora, desculpa-me: um suspeito não torna a sair intacto deste gabinete.

Mersis espancou Sabni por várias vezes, depois abriu a porta com violência e atirou com a sua vítima para fora, não sendo fingidos os seus gemidos de dor.

- Tomem a pôr este na cela. Este ladrãozinho precisava de uma lição.

 

O deão, com os seus dedos gordos, cortou a figurinha em madeira de oliveira: dominando mal o cinzel, esfolou as costas da mão esquerda mas não sentiu qualquer dor, tão essencial lhe parecia a tarefa. Sabni observava-o em silêncio. Logo que regressou a Elefantina, descreveu a situação a Isis e seu pai. Este último, furioso, recuperou o uso da fala antes de meter o jovem na biblioteca do templo.

- Tempo virá em que os deuses deixarão a terra e tornarão a atingir o céu; os estrangeiros desfigurarão o nosso país. Esse lugar entre todos sagrado, essa pátria dos templos estará coberta de cadáveres e de sepulcros. Nada sobreviverá senão alguns sinais gravados na pedra: assim falam os profetas. Não aceito a nossa maldição, lutarei até ao fim!

O velhote entalhou de novo a estatueta. Deu-lhe a forma grosseira de um ser humano, cobriu-a com um pano e colocou-a sobre uma mesa, na frente da qual estavam dispostos um turíbulo de argila e um forno de tijolos. Deitou-lhe carvão de lenha e bolinhas de gordura de ganso.

- Está tudo pronto. Basta acender o lume, pronunciar em voz alta o nome do nosso inimigo e deitar a sua efígie no braseiro. O adversário será destruído. Ah, esquecia-me...

O deão desenrolou um papiro virgem.

- Toma este cálamo e utiliza esta tinta; nunca serviram. Escreve o nome do bispo Teodoro.

- Recuso.

- Porquê?

- Essa magia é vã.

- Foi eficaz milhares de vezes.

- Teodoro não é nosso inimigo. É mesmo o único capaz de nos salvar; não é ele quem seria preciso suprimir mas o império inteiro com as suas coortes de soldados. Nenhuma magia lá saberia chegar.

O deão deitou a estatueta num forno que ele não acenderia.

Com sessenta anos pançudos, o rosto rechunchudo e a pele luzidia de uma pomada que o fazia parecer mais novo, o prefeito Maximino entrou em Elefantina a cavalo, à frente das suas tropas.

Alardeava assim a tomada de poder imediata e incontestável.

As autoridades da região submeter-se-iam sem demora à sua vontade.

Atrás dele um exército temível, bem equipado e bem alimentado. Os quatrocentos soldados de infantaria dispunham de couraças novas, de túnicas limpas, de casacos e de botas. Os cem cavaleiros montavam animais vigorosos; cada soldado recebia quotidianamente duas rações, compreendendo pão, carne, vinho e azeite. O soldo permitia aos mais sensatos economizar um pouco de ouro. Sírios, Gregos, Romanos, Asiáticos e alguns Egípcios formavam uma coorte encarregada de pacificar definitivamente uma região onde a insubmissão latente exasperava o imperador.

A missão desagradava ao prefeito. Ele só amava a Alexandria, o seu luxo piegas, as suas mulheres, os seus banquetes, a doçura da beira-mar. Era a primeira vez, depois de uns quinze anos passados no Egipto, que se embrenhava tão longe para o sul.

O calor oprimia-o, os rochedos despidos e a paisagem ávida da catarata reflectiam uma solidão assustadora. Só ao bairro central da Elefantina, plantado de árvores, alegrado por jardins, não faltava encanto. Mas Maximino aborrecer-se-ia rapidamente nesse burgo de província. Já sonhava voltar a partir; por felicidade, a sua tarefa seria tão fácil como rápida.

Ficou admirado com a boa apresentação das tropas que lhe prestaram honras; relatórios malévolos falavam de uma corja de indigentes esfarrapados, incapazes de se baterem. Na realidade, a sua roupa como o seu armamento não ficavam atrás em qualidade, da dos recém-chegados. O bispo, responsável pela guarnição, tinha efectuado um bom trabalho.

O prefeito recusou a ajuda do infante e desceu sozinho do cavalo. Apesar da sua relativa corpulência, orgulhava-se de uma excelente forma física, que uma vida de prazeres não havia alterado. Teodoro veio ao seu encontro. Os dois homens cumprimentaram-se inclinando a cabeça.

- Estou muito feliz por vos acolher, prefeito Maximino.

- Felicitações, monsenhor. A ordem, em Elefantina, não é uma palavra vã.

- A disciplina é uma virtude que o Senhor ama. Espera-nos uma colação; provavelmente quereis primeiro banhar-vos?

- De bom grado. A viagem foi longa e poeirenta.

Maximino saboreou as delícias de um banho perfumado e de uma água quente circulando por antigas canalizações que o bispo conservava escrupulosamente. Teodoro contava tantos partidários como adversários. Consideravam-no como o mais notável dos prelados egípcios e um excelente administrador. Mas a sua ambição estava à altura da sua fé; reinava como mestre absoluto sobre o Sul, esperando, sem dúvida, por novas responsabilidades. Haviam-no descrito ao prefeito como um homem rude e frio; contudo, Teodoro comportava-se de maneira bastante amável.

A refeição foi digna das melhores mesas: melão branco, peixe do Nilo, borrego assado, legumes verdes, queijo de cabra, pêssegos, figos e romãs. O cozinheiro tinha jogado habilmente com as especiarias e obtido sabores que encantavam o paladar.

Os vinhos, um tinto local e um branco do Delta, não teriam ficado mal numa recepção do imperador. O bispo comeu pouco. Depois de tantas pousadas medíocres, ao longo do caminho, Maximino mostrou o seu apetite.

- Sois um personagem espantoso, monsenhor. Um exército bem apresentado, uma morada sumptuosa, um cozinheiro sem par... não vos sentis com pouco espaço nesta província atrasada?

- Nasci nela.

- Pouco importa. Não descansei enquanto não deixei a aldeia da África do Norte onde vi a luz.

- Esta terra é rude mas não desprovida de riquezas.

- Há uma de que o imperador se acha privado há muito tempo: o ouro da Núbia. Há mais de um ano que não chega à capital nenhum carregamento de metal precioso.

- Foi-me ordenado que consolidasse a fronteira, a fim de desencorajar qualquer tentativa de invasão. As caravanas já não podem penetrar nas zonas auríferas. As tribos negras massacrá-las-iam; não tenho autorização de organizar uma expedição.

- Eu tenho. O general Narsès conduzirá esse exército até à Núbia, enquanto eu verificarei aqui as vossas contas e a vossa gestão.

O bispo pareceu embaraçado.

- Correis ao encontro de dificuldades insuperáveis.

Enfurecido, o prefeito poisou secamente a taça em cima da mesa de madeira de acácia maciça.

- Recusais?

- Ponho à vossa disposição, de bom grado, o meu escritório; examinareis à vossa vontade os documentos administrativos. É a expedição nubiana que suscita a minha apreciação desfavorável.

- Como resistiriam selvagens a uma tropa experiente?

- Experiente ou não, era preciso que ela ultrapassasse a catarata em primeiro lugar.

Maximino enxugou a fronte com um pano.

- Ninguém me assinalou essa dificuldade em Alexandria. Explicai-vos!

- Estamos em período de marés baixas, os rochedos estão à vista. Nenhuma embarcação se arriscará nesse labirinto; se persistis no vosso projecto, mais de três quartos dos vossos homens perecerão.

- Quando a cheia se desencadear, ultrapassaremos nós facilmente o obstáculo?

- Nos primeiros dias, não; depois, tudo dependerá da sua intensidade. Demasiado fraco, apenas disfarçará os rochedos mais perigosos. Demasiado forte, provocará turbilhões a que não escaparão os melhores marinheiros.

Maximino está abatido. Quantos meses lhe seria preciso ter paciência, antes de satisfazer o imperador? A que sanções seria sujeito em caso de derrota? A sua missão, aparentemente tão fácil, transformar-se-ia em pesadelo.

- Tende a certeza da minha inteira colaboração - prometeu Teodoro. - Se a vossa permanência aqui deve ser longa, que, ao menos, seja agradável. As minhas secretárias e o meu pessoal responderão aos vossos menores desejos.

- Há um outro ponto... O imperador recebeu queixas dizendo respeito a um pequeno grupo de pagãos que recusaram converter-se.

- É exacto.

- Onde moram eles?

- Na ilha de Filae, perdida no meio das vagas. O lugar é isolado, ninguém lá vai.

- Um templo?

- Sim.

- Porque não tê-lo fechado? A sua própria existência é contrária à lei.

- Tenho consciência disso, mas hesito em utilizar a força; Filae não incomoda a população. Os cinquenta pagãos que vivem na ilha, longe dos olhares, estão condenados a apagar-se rapidamente. A maioria são velhotes inofensivos. Os seus filhos estão convertidos há muito tempo, alguns são soldados; como lançá-los ao assalto dos próprios pais?

Maximino tornou a servir-se de vinho tinto.

- Não sou partidário da violência... O cristianismo causou muitos mortos, acrescentados aos sofrimentos das perseguições anteriores. Mas esta situação é inaceitável: poder-se-ia expulsar essa gente com cuidado?

- Compreendei-los: são sonhadores, nostálgicos do passado. Muitos nasceram na ilha, viveram nela, quereriam nela morrer. Dentro em breve, esse templo voltará à Igreja. A compaixão dita a minha atitude.

Maximino achou estranha a posição do bispo; a sua reputação era a de um homem intransigente, pouco acostumado a tergiversações e muito preocupado em aplicar a lei. Esconder-lhe-ia algum facto essencial?

- Filae será pois o único templo ainda em actividade.

- Termo excessivo: letargia seria mais apropriado.

- A ilha é acessível?

- De barco, mas...

- Já não seria território do Império?

Teodoro não respondeu.

- Irei a Filae - anunciou Maximino.a- Mostrai-me o vosso escritório. monsenhor.

 

Sabni amparava o deão que saboreava as alegrias do seu passeio quotidiano, sob o pórtico coberto, entre o embarcadouro e o primeiro pilar.

Aproveitando a frescura daquele claustro, onde tantos sábios tinham meditado, parava nos textos rituais e nas figuras divinas que cobriam paredes e colunas. Faraó dialogava com graciosas jovens cujo corpo harmonioso manifestava o amor da terra pelas potências celestes. Embora andasse com dificuldade, o velhote rejubilava.

- Mais abundante em riquezas é um instante passado a servir a Deus do que toda uma existência de homem afortunado. Mais abundante em riquezas é um dia passado a fazer oferenda do que todos os tesouros do mundo. É o que me repetia o meu pai depois de o ter ouvido do dele; tu, Sabni, transmitirás essas palavras?

- Que a deusa me dê forças para isso.

O deão parou e olhou o céu.

- Hoje produzir-se-á o acontecimento que decidirá do futuro da nossa comunidade. Observa o Sol... é a vez dele falar.

Um novo vigor se instalara nas pernas do velhote, capazes de percorrer um caminho mais longo do que o normal. Sabni, oprimido, não ousava fazer-lhe perguntas. Também ele pressentia que as próximas horas não seriam comparáveis a nenhuma outra.

Os dois homens dirigiam-se para a ponte, a sudoeste da ilha, onde se elevava o pavilhão de Nectanebo l, desaprumando o plano de água. Antigamente vinham lá acostar as grandes barcas que transportavam aquelas que trabalhavam no templo durante uma semana, antes de tomar a partir para o mundo exterior.

A tribuna, dantes ocupada por um colégio de músicos cujas melodias acolhiam os que chegavam, ameaçava ruína. Os dois pequenos obeliscos, erigidos em frente da fachada meridional do pavilhão, vacilavam sobre a sua base.

O deão sentou-se sobre o degrau mais alto da escada, descendo para a água, frente à ilha de Biggeh, território sagrado onde Osíris repousava. Nenhum profano devia chegar até ali.

Depois de um longo descanso, o velhote manifestou o desejo de percorrer de novo o pórtico; parou em frente das grandes janelas abertas sobre a paisagem de água e rochas. O seu rosto revelou intensa decepção.

- A minha vista baixa, os meus ouvidos estão surdos, a minha força vai-se embora, a minha boca já não pode falar, os meus ossos são dolorosos e o meu pensamento vacila; serei capaz de ler um presságio? Só me resta uma felicidade, a minha filha. Sabes que Isis pertence à mais ilustre das linhagens, que descende de Cleópatra, a última das grandes rainhas. Não sonhava ela reconstruir o império dos faraós?

O deão desfiou recordações a que o nome da filha voltava constantemente. Por vezes, as suas frases eram incompreensíveis.

Entrechocava as palavras e os sonhos, dividindo o passado num turbilhão de esperanças moribundas.

Com os olhos fixos, levantou-se bruscamente.

- Olha! Olha o Sol!

Da luz deslumbrante soltou-se um voo de patos selvagens, dispostos em triângulo. A ave de comando apontou em direcção ao pavilhão de Nectanebo; os que se seguiam, meteram-se no seu movimento com facilidade. Sabni deixou o abrigo da colunata para melhor observar o admirável bailado. Os patos bravos mudaram de direcção e esvoaçaram, à volta, por cima dele.

- O presságio! - gritou o deão.

Os pássaros, de novo dispostos em triângulo, tomaram a subir para o azul! O velho caiu nos braços do jovem.

- O sinal que eu esperava... És tu quem será o superior da comunidade.

A cerimónia da entronização de Sabni começou em pleno meio-dia.

Uma coruja ululou. Aquele novo prodígio confirmou a decisão do deão. Consultada, Isis tinha-a aprovado.

Possuída de uma exaltação de que não se teria julgado capaz, a comunidade embriagava-se de uma nova juventude. O nascimento de um superior, chamado a formar com Isis o par simbólico que reinaria sobre a ilha, garantia a perenidade do culto.

Tinham-se limpo as salas do templo e arrancado as ervas daninhas; velhos e doentes não tinham poupado as suas forças.

Mesmo se alguns vestidos de linho estavam usados e rotos, brilhariam de brancura depois de várias lavagens sucessivas.

Não houve um objecto ritual que não fosse limpo do pó, uma estátua a que não fosse restituída a sua beleza primitiva. O templo estava pronto para acolher o seu mestre.

Sabni tinha passado a noite em meditação; não compreendia nem a escolha do deão nem a aprovação de Isis. Um superior não devia ser um homem calmo, sereno, afastado das paixões, atento à palavra divina, solto de si mesmo? Sabni sabia-se escravo da sua juventude. Dirigir uma comunidade cujos membros eram mais idosos e mais experientes do que ele ser-lhe-ia impossível. Assim viveu ele com ansiedade as horas que antecediam o ritual da subida do templo.

Dois antigos arrancaram-no da cela onde ele tinha estado fechado. Conduziram-no à extremidade setentrional da galeria coberta, entre dois obeliscos, em frente do primeiro pilar, cujos dois maciços culminavam a uns vinte metros. Dois degraus conduziam à porta fechada; abriu-se lentamente quando a ritualista, com uma voz forte, anunciou a vinda do superior reconhecido pela comunidade. Sabni, antes de se meter pelo caminho das transformações, observou a alta figura do faraó: manejando a moca branca, o soberano despedaçava o crânio dos inimigos visíveis e invisíveis, restabelecia a ordem no caos e iluminava as forças das trevas.

A partir desse instante, o mundo exterior ao templo deixou de existir. Desapareceram o cristianismo, o invasor bizantino, as tropas da ocupação. Não subsistiu senão a ilha santa, preservada da desgraça e da destruição. Sobre o envasamento, personagens ventripotentes, de mamilos pendentes, simbolizavam o Nilo fecundador, e mulheres admiráveis as províncias carregadas de alimentos abundantes destinados às divindades.

Por ordem da ritualista, Sabni imobilizou-se à entrada do pilar, entre as duas torres em que se incarnavam deusas, amas do Sol novo. Uma energia desconhecida percorreu o corpo do impetrante; das pedras jorrou uma claridade benfazeja.

Um homem, com cabeça de chacal, avançou para Sabni; a pedra guiou o adepto para o segundo pilar. O eixo do templo quebrou-se. As portas monumentais deslocaram-se, iniciando uma espiral, matriz do templo voltado em direcção às estrelas imperecíveis, ao norte do universo.

Sabni atravessou o pátio bordado a oeste pelo deambulatório da sala do nascimento; no cimo dos capitéis, Hator sorria.

O escultor tinha dado, a cada um dos rostos da deusa, uma expressão diferente: felicidade, alegria, prazer, ternura compunham uma música de pedras vivas.

Na fachada do segundo pilar, faraó afirma de novo a sua presença; triunfava para sempre dos poderes tenebrosos. O padre da máscara de chacal deu lugar ao irmão da máscara de falcão; de futuro, Hórus orientava os passos de Sabni.

A porta ultrapassada, para além do rochedo em forma de estela onde Ptolomeu VI enumerava as doações ao templo, o futuro superior descobriu uma sala de dez colunas. Verde das palmas desenvolvendo-se no cimo dos capitéis, caules azulados dos vegetais unindo o solo prateado ao tecto coberto de abutres de asas abertas, elos multicores atando ramos de flores e molhos de papiro vermelho e amarelo ritmando as cenas de oferta, folha de ouro cobrindo colunas inchadas de seiva animavam o ritual celebrado pelos «tempos de Deus» que os anais do templo evocavam.

Sabni viu o deão. Este conseguiu conservar-se de pé sem a bengala e mostra ao jovem uma tanga idêntica às que usavam os reis do Egipto quando oficiavam nos lugares santos.

- Despe o teu vestido de linho, graças a esta vestimenta, manifestarás a tua função.

Hórus e Anúbis colocaram-se de um lado e de outro de Sabni, purificaram-lhe o corpo nu, aspargindo-o de água fresca, depois o deão enrolou a grande écharpe de linho em volta dos rins do superior e dobrou a extremidade plissada sobre ela mesma, de maneira a formar uma lingueta saliente, que permitia apertar a roupa a seu gosto. O tecido, passado por entre as pernas e enrolado três vezes à volta do corpo, foi mantido por um cinto de couro. As mãos do deão não tinham tremido.

A juventude de Sabni desfazia-se; aquela simples tanga introduzia-o na corrente ininterrupta dos chefes da comunidade.

- Darás cabo dos ímpios. A raça deles será humilhada, os seus filhos serão sacrificados e as suas mulheres tomadas estéreis, as estátuas das deusas serão reerguidas. O país tornará a rir, graças ao soberano, nascido do Sol. Veremos o fim das nossas desgraças; a nossa terra, a criadora, dará vida a quem ama a vida. Os mortos levantar-se-ão a fim de tomarem parte na felicidade reencontrada. Vai, Sabni. Cumpre por nós esse destino.

O deão abriu os dois ferrolhos que fechavam a porta do venerável Assento; o lugar misterioso onde o poder divino se concentrava estava mergulhado numa escuridão onde se perdiam fracos raios de luz, que minúsculos postigos filtravam.

Tot, de cabeça de íbis, e Sechat, a soberana da Casa da Vida, com o corpo coberto com uma pele de pantera, agarravam o superior pelas mãos; fizeram-no tomar o deambulatório que passava pelo quarto dos tecidos, a sala do tesouro, o quarto da purificação, a sala das ofertas, e levaram-no junto do Santo dos Santos, igualmente fechado por dois ferrolhos.

- A altura do templo é conforme ao conhecimento - declarou Tot -a sua largura tem a lei do Universo, as suas proporções respeitam a harmonia lá de cima. Toma-se pedra fundamental do edifício, penetra no mistério.

As divindades desapareceram, o silêncio envolveu o santuário. Sabni correu os ferrolhos, colocou-os no chão, empurrou a última porta.

Uma luz cegou-o; o granito brilhava com clarões prateados misturados ao ouro do naos. No cimo do monolito, cobras erguidas cospiam um fogo protector; na sua base, o faraó provocava o céu.

Passada a ofuscação, viu-a. Vestida com uma túnica branca, cingida ao corpo; o pescoço enfeitado com um grosso colar de ouro e os cabelos com um diadema de lápis-lazúli, Isis conservava-se ao canto do naos: com um dedo empurrou a vareta de ouro fechava o relicário onde velava uma estátua da deusa, com olhos perpetuamente abertos.

Sou Isis, mãe de Deus, rainha dos céus, soberana da terra ada. Trouxe a vida à existência, através do que o meu coração concebeu, dei nascimento às divindades, mostrei o caminho das estrelas, regulei o curso do Sol e da luz, ensinei aos humanos a ciação aos mistérios, estabeleci os templos, cacei os demónios, li as leis dos tiranos, pus em ordem o que nenhuma loucura verificará. Pelo meu amor, a terra floresce, o vento sopra com doçura, o calor é suave, o Nilo abundante. Ofereço o ouro ao e a sorte a quem me venera. Sê depositário dessa riqueza, Sabni, superior da comunidade de Filae.

Pondo a sua mão na de Sabni, conduziu-o para fora do santuário; o jovem tremia. A sua existência já não lhe pertencia, vivia ao lado dessa mulher quase irreal que lhe concedia a confiança.

A comunidade tinha-se juntado em frente do segundo pilar; que o par apareceu, os adeptos reconheceram por aclamação a legitimidade do seu poder. Depois, Sabni desenrolou papiro da Regra aplicada a todos, pobre ou rico, nobre ou camponês.

- Vós que cumpris os ritos e guardais este templo - leu - não permitais a nenhum profano que lá penetre. Ninguém lhe tenha acesso se não estiver em graça. Que as rtas sejam levadas aos deuses de maneira que esta terra conheça a paz e um destino feliz pelo tempo fora. Vós que seguis caminho da luz e velais sobre essa morada do Princípio, entrai na plenitude, sede feliz! A vida encontra-se na mão de Deus, felicidade no seu punho. Eu comprometo-me a expulsar o discreto e o violento porque a harmonia da comunidade é o nosso céu. O amor fraternal é o único verdadeiramente duradouro. Avancemos sem receio para as provações e, se se tomarem demasiado pesadas, aumentemos a oferta todos os dias.

Em frente de Sabni, o deão deu-lhe o abraço.

- Tu que és o nosso chefe, procura cada ocasião de proceder com justiça, de maneira que a tua conduta seja irrepreensível. Grande e poderosa é a Regra! Não foi perturbada desde o tempo de Osíris; quando o fim vier, a Regra ainda durará.

 

Sabni estendeu-se no pavimento morno perto de um tanque de água fresca, sombreado por tamargueiras. No fim da sua entronização e da descoberta do templo fechado, onde agora praticavam o culto na companhia de Isis, o novo superior de Filae sentira uma forte lassidão. O deão enganara-se: Sabni não seria digno de dirigir uma comunidade. Tornou a apertar a tanga em volta dos rins como se aquele gesto lhe proporcionasse um assento que não possuía; os seus antecessores, durante a cerimónia, deviam ter sentido exaltação, não esse peso esmagador que o pregava ao solo.

Um líquido quente perfumado correu-lhe pelo peito.

Abrindo os olhos, Sabni contemplou Isis; manejava um frasco de vidro tinto de amarelo com um comprido gargalo verde-escuro. Dele, escorria um fio em tons de âmbar, com perfume de jasmim. O jovem deixou-se inundar por aquele fluido, que lhe distendia os músculos e atenuava o cansaço.

- A última receita do nosso irmão perfumista, foi acabada mesmo antes da sua morte. Levou a fórmula para o país do silêncio.

Sabni teria gostado que a vaga benfeitora não cessasse mais; a sua pele absorveu-a com avidez, tentando reter o fluxo que perfumava todo o seu ser.

Caía a noite. Ele não tirava os olhos de Isis, cujo rosto se esbatia na sombra doce da morte do dia; havia muito tempo que tinha posto junto dela o frasco e a sua rolha, em forma de palma.

- Voltemos para dentro - propôs ela. - Quero mostrar-te o texto da fundação do templo.

Instalaram-se num pequeno compartimento situado no molhe oriental do primeiro pilar, perto da biblioteca. Aí estavam entrepostos os arquivos, consistindo de papiros e de rolos de cabedal cobertos de hieróglifos. Isis encheu de óleo de sésamo o reservatório de um candeeiro de barro, verificou que o respiradouro não estivesse obstruído, e puxou a mecha de linho fiado para fora do bojo. Acendeu; Sabni segurou na pega e iluminou um papiro amarelecido que a superiora tirou de uma arca comprida que repousava sobre quatro patas de leão. Desenrolou-o com precaução.

- Eis a certidão de nascimento de Filae, assinada por Imhotep.

- O criador da pirâmide com degraus?

Isis assentiu.

Incrédulo, Sabni leu o curto documento traçado pela mão perfeita de um escriba do Antigo Império, a idade de ouro da civilização egípcia. Proclamava o carácter sagrado da ilha, onde se tinha unido o primeiro par real, Osíris e Isis, que tinha revelado as regras da arquitectura, da música e da agricultura aos habitantes das margens do Nilo. Imhotep, o sábio entre os sábios, pedia aos seus sucessores que embelezassem Filae e celebrassem o culto da grande deusa até à extinção dos séculos.

Sabni beijou o papiro.

- Agora és o superior desta comunidade Possas tu não trair o mestre da obra.

Isis tomou a pôr o tesouro no seu escrínio. Ao sair da sala dos arquivos, o olhar de Sabni reparou num bloco esculpido, incluído no envasamentO da parede. Tinha gravada uma figura ao mesmo tempo grotesca e inquietante: cabeça simiesca, toucada com um boné às riscas, com dois olhos escavados em amêndoa, enquadrando um nariz espesso, a boca aberta sobre dentes cortados em triângulo com a ponta para cima, o queixo barbudo, o torso musculado, sexo e testículos enormes.

- O que é este monstro?

- Um blemi.

- Um ser sui generis?

- Um membro de uma tribo negra que reside nos territórios inacessíveis do grande Sul, para além da quarta catarata. Os Blemis detestam os cristãos. Veneram o deus Mandulis, hóspede de uma capela do nosso templo. A sua oferta preferida é o vinho de frutas de Núbia, que eles servem em grandes ostras. Antes do nosso nascimento, cortavam em pedaços as guarnições romanas para as virem adorar aqui mesmo com o acordo do meu pai. Também são muito dedicados ao carácter inviolável da ilha de Biggeh, onde Osíris repousa; junto dela, vela o seu mestre celeste, que eles qualificam de senhor do santuário secreto, de alma viva e de leão corajoso que repudia os ímpios. As fortificações da fronteira arruinaram o seu projecto de libertação da província.

- São realmente tão feios?

- É uma caricatura devida a um dos escultores feridos por um archeiro blemi. Tornados febris durante os combates, já não distinguiam aliados de inimigos; talvez a sua raça esteja extinta.

- Tens a certeza?

- Não sonhes, Sabni. É connosco, e connosco apenas, que devemos contar.

O superior pôs um joelho em terra a fim de melhor examinar o fácies bárbaro, sinónimo de esperança.

- Para além da quarta catarata...

- As entradas são-nos desconhecidas. Como superior tens obrigação da defesa do corpo sagrado e da comunidade; abandonar Filae e arriscar são-te interditos. Rejeita a ideia de uma aventura insensata.

Nenhum dos irmãos era bastante jovem para percorrer as pistas de Africa e passar quatro cataratas. Despeitado, Sabni rendeu-se à razão; o aliado Blemi desaparecia tão depressa como aparecera.

- Devias dormir. Ao romper do dia, dirigirás o teu primeiro ritual.

- Gostaria...

Ela pôs-lhe um dedo nos lábios.

- A hora é de silêncio.

Isis afastou-se na noite, branca aparição cujo rasto luminoso persistia nas trevas. Sabni teria desejado retê-la. Confiar-lhe o seu infortúnio, a sua necessidade de uma presença que o tranquilizasse. Mas ela recusara, refugiando-se numa solidão altiva, mais inacessível do que uma fortaleza. Ele, superior, ela, a superiora... estranhos um ao outro, prisioneiros da sua função.

Função tão ilusória, na verdade! O bispo não a suprimiria com um traço do seu cálamo? Quanto tempo ainda Isis fingiria crer na sobrevivência de Filae? Sabni detestou-se. Com aqueles pensamentos tão miseráveis não atraía senão o desprezo de um cobarde. Ele, um superior... que mentira! Contudo, tinha-se comprometido na frente de Imhotep. Essa jura ligava-o a uma tarefa acima das suas forças e acorrentava-o a um dever de que nenhuma vontade quebraria os laços. Sabni já não era livre de viver a seu gosto. De ceder aos seus impulsos. Naquela ausência de escolha, conheceria ele a serenidade daqueles que recebiam a luz porque já não esperavam mais nada deles próprios? Um grito rasgou a paz da ilha. Vinha da margem ocidental, perto do pórtico de Adriano; naquele sítio não havia muro em volta. Sabni apressou-se, ouviu chamar por socorro.

A lua iluminava uma cena horrível; um ser hirsuto e barbudo dava socos a uma tecela. Com o rosto ensanguentado, ela parou de gemer. O seu agressor puxava-a pelos cabelos quando Sabni o obrigou a largar a presa.

O forçado cheirava mal, corriam-lhe parasitas pela pele pergaminhada, semeada de crostas avermelhadas. O superior identificou um dos monges instalados nas tumbas egípcias, depois de ter profanado as cenas religiosas e incendiado as capelas. Acorreram vários membros da comunidade, com fachos na mão. O monge desdentado tentou morder Sabni que o afastou facilmente.

- Matemo-lo! - exigiu uma irmã.

O agressor tinha atacado Filae sozinho; ultrapassou a margem até à sua jangada de troncos e de palmas.

- Vão morrer - profetizou ele - vão morrer todos!

 

De madrugada, Isis e Sabni passaram a entrada do templo fechado, a fim de acordar a grande deusa que residia no coração do venerável Assento. O superior levantou as mãos em sinal de adoração; Isis colocou-se atrás dele e magnetizou a sua nuca.

- Salve, disco alado - disse o superior - surges no oceano das origens, criador dos deuses e pai dos homens, ser único cuja forma continua misteriosa, escultor que ninguém esculpiu; percorres a eternidade e suscitas o júbilo do universo inteiro; para ti, cada dia se assemelha a um instante.

- Vejo o teu segredo - declarou a superiora - reúno para ti o céu e a terra.

Nem Isis nem Sabni conseguiram afugentar do seu pensamento a visão da irmã gravemente ferida. O superior tinha recusado que a comunidade linchasse o monge, que fugira gritando anátemas.

Sabni ofereceu à alma da deusa um modesto pão redondo.

Estavam esquecidos, os altares cobertos de comidas; longínquas, as procissões de portadores de carne fresca, de legumes perfumados, de cores vivas, de jarros de vinho. O fausto de antigamente cedia o lugar à leitura dos textos inscritos nas paredes. Encarnando-se através da palavra, os hieróglifos tornavam-se bois gordos, fumigações, jóias de ouro e de prata, roupas preciosas, unguentos raros.

Isis tirou a estatueta do naos e expô-la à luz de um candeeiro.

Depois de ter atravessado as regiões tenebrosas debaixo da terra, o poder materializava-se no corpo de pedra em que se concentrava a energia indispensável ao tempo. Circularia nos seus relevos, nos sinais gravados e animá-los-ia de uma vida inalterável.

A superiora perfumou a efígie de Isis, alimentada da realidade subtil da oferenda, depois tomou a fechar as portas do naos.

Isis e Sabni saíram do venerável Assento recuando, e inclinaram-se diante da presença divina antes de se cumprimentarem um ao outro. O superior, que tinha feito os gestos milenários ensinados pelos primeiros faraós, e repetidos todas as manhãs, agarrou a mão da jovem; desejava partilhar com ela a emoção do seu primeiro ritual. Os seus dedos misturaram-se, a princípio hesitantes; Sabni quis falar, Isis impôs-lhe o silêncio. Unidos, percorreram a sala de colunas coloridas e passaram a porta do segundo pilar. Um Sol ardente invadiu o pátio interior fechado pelo primeiro pilar; Isis tirou a sua mão.

- A primeira coluna à direita está degradada; deverias restaurá-la.

Sabni aceitou com entusiasmo. O seu talento de desenhador e de pintor já tivera ocasião de se expressar. - Reúno as irmãs no quiosque de Nectanebo - anunciou ela. - Devemos examinar os textos que dizem respeito ao regresso da deusa longínqua; há já muito tempo que negligenciamos este mito.

Rodeada pelas mulheres, que haviam votado a sua existência ao templo, Isis dirigiu os trabalhos. A leitora propôs algumas frases do relato, cada irmã deu-lhe a sua interpretação, a superiora corrigiu e orientou. Pouco antes da refeição do meio-dia, tomou consciência de que nenhuma noviça figurava nas ordens da confraria feminina; o bispo tinha proibido às raparigas deixarem a família e solicitarem um período de noviciado no templo.

A menos idosa das irmãs tinha ultrapassado os cinquenta anos; a confraria masculina não era melhor fornecida e aguentava a mesma lei eclesiástica que condenava Filae a desaparecer por falta de novos adeptos. Uma só mulher poderia dar à luz uma criança: Isis. Mas a sua função opunha-se-lhe; a sua família, os seus filhos eram a comunidade.

Levantou-se uma irmã e apontou com o indicador para a água azulada.

- Acolá! Um barco!

Assustada, agarrou-se ao braço da superiora, que a empurrou brandamente.

- Voltai para as vossas casas.

- Mas tu.

O sorriso de Isis representava uma ordem; as irmãs dispersaram, as mais valorosas amparando os inválidos. A superiora avançou até à extremidade do embarcadouro.

Na embarcação de vela branca, já próxima da ilha, estavam uns vinte soldados. A proa, embrulhado numa túnica vermelha, realçada por fios de ouro, o prefeito Maximino, com os olhos fixos sobre Filae. O seu olhar breve se prendeu ao de Isis. Nem um nem outro deram parte de fracos. Quando o barco atracou, um soldado atirou uma corda, de que a jovem mulher se apoderou com mão firme.

- Esta ilha é território sagrado. Nenhum profano pode pisar o seu solo sem a minha autorização.

Maximino tentou abandonar a ponte, Isis impediu-lhe a passagem. O rosto admirável da superiora, a despeito da suavidade dos seus traços, manifestava uma vontade indomável. Não hesitaria em lutar, mesmo antecipadamente vencida.

- Filae é território de Império. Sou o prefeito Maximino, mandado pelo imperador.

- Se desejardes prestar homenagem à grande deusa, ela vos acolherá; vinde só e sem arma.

Os soldados, imóveis, esperavam as ordens. Bater numa mulher nada acrescentaria à glória de um alto dignitário.

- Aceito.

Isis enrolou o cordame à volta da estaca de ancoragem, depois ajudou o prefeito a saltar o parapeito. O contacto de um braço de pele macia como bisso, pertubou-o.

- Bem-vindo a Filae; aqui gozareis a paz do coração. Não levanteis a voz; a deusa ama a calma.

Isis desembainhou ela mesmo a espada e poisou-a no chão.

O prefeito não reagiu, subjugado pela visão da grande colunata que dominava a torrente e conduzia ao primeiro pilar.

A serenidade do lugar e a sua nobreza enfeitiçaram-no; sentiu as pulsações de um ser vivo escondido na pedra; descobrindo as cenas rituais entrecortadas de janelas abertas sobre a água e as falésias, comoveu-se com a grandeza daquelas figuras antiquadas em que se afirmava o poder dos soberanos, mestres do maior império do mundo. Num instante, julgou que faraó sairia daqueles muros para empreender a reconquista da felicidade perdida.

Maximino tocou numa das esculturas. A argila palpitava.

O prefeito tornou-se cúmplice do rei que tinha imortalizado o escultor. Como o teria ele servido, como teria administrado províncias regurgitando de riquezas? A verdade recusada depois de tantos anos, surgiu com a violência de uma trovoada: vivia numa época medíocre, sem génio; a grandeza com que tinha sempre sonhado, era aqui que ela se exprimia, naquela ilha aprisionada.

- Autorizais-me que visite as salas?

Isis entreabriu a porta do primeiro pilar. No pátio interior tinham-se juntado os irmãos e as irmãs; Maximino observou aqueles homens e aquelas mulheres de uma outra época, hostis à expansão da fé cristã. Porque não fugiam elas, porque não iam para junto das suas famílias, depois de se terem convertido? Teve vontade de lhes gritar a realidade de um mundo implacável, formado de intolerância, mas nenhuma palavra lhe saiu dos lábios. A dignidade daquelas vítimas tolerantes, a sua gravidade tranquila, desnortearam-no. Tinham gerado um universo de funcionamento autónomo fora de um tempo que eles rejeitavam.

E se tivessem razão, se a existência do templo se provasse mais essencial do que a do Império? O prefeito foi tomado de vertigem. Subiu os degraus que conduziam à porta do segundo pilar, que ficara entreaberta, e apoiou-se contra um montante; um suor ácido turvou-lhe os olhos.

- Esse templo deve desaparecer. Viola a lei.

Isis, ao centro do pátio, contentou-se em sorrir. O poder de que se julgava Maximino detentor, desfazia-se a seus pés.

O prefeito sentiu-se sem força, privado de toda a agressividade, quase dócil. Magia de Filae, sortilégios da grande deusa... só loucos teriam dado algum crédito a essas superstições.

Contudo, inclinava-se diante de uma mulher que teria podido abater com as costas das mãos.

Para lhe escapar, forçou a entrada do templo tapado.

De joelhos, em frente de uma coluna, um homem jovem, de fronte larga, acrescentava toques de cor a motivos desbotados. Numa paleta, com pequenos godés, tinha misturado giz e gesso de maneira a obter um branco brilhante; a azurite esmagada produzia um azul durável. O artesão restaurava a coroa de uma deusa, depois de ter reajustado as cavilhas de cabeça dourada que sustentavam uma placa de ouro coberta de hieróglifos.

Maximino deu alguns passos no interior da sala com colunas pintadas, deslumbrado pela abundância de cores que se exaltavam umas às outras; não havia um pano de parede, uma polegada de pedra sem cenas de oferendas, de personagens divinos ou de génios protectores. O templo falava, o templo ensinava. A paleta enfeitada do pintor animava o mais modesto pormenor; nenhum artista grego, romano ou bizantino tinha adquirido tal domínio.

- Deveis abandonar este lugar - disse Sabni levantando-se. - Não é acessível aos profanos.

Maximino deveria ter castigado aquele descarado; contentou-se em lhe obedecer. Arrepiando caminho, parou em frente de Isis e olhou-a longamente.

Quando o prefeito tomou a subir para o barco, os soldados consideraram estranha a sua atitude. Lívido, trémulo, Maximino gaguejou a ordem de voltar a Elefantina: a invasão de Filae não ri&

 

De pé antes da aurora, o bispo Teodoro tornou a ler o relatório que lhe tinha enviado um dos soldados do séquito do prefeito, encarregado de espiar os feitos e os gestos de Maximino; este último parecia perder o juízo. No seu regresso de Filae, tinha-se fechado no quarto da sua vasta casa de trabalho. Desamparado, o seu esquadrão tinha voltado à caserna. Já corria o rumor de que o prefeito, enlouquecido pela feitiçaria dos adeptos de Isis, se preparava para entrar em guerra contra os cristãos. Todos se lembravam das vagas de perseguições que tinham dizimado aldeias inteiras. Em breve, alguns eremitaS percorriam o campo para juntar os fiéis; iriam ao ponto de formar milícias armadas de forquilhas e de pás que as tropas do bispo deveriam combater.

Uma guerra civil entre cristãos...

Teodoro temia a vinda desse prefeito que ignorava as realidades do Sul, mas não supunha que o seu comportamento se revelasse tão desastroso em tão pouco tempo. Para Filae, que vitória! Por causa de Maximino, a ilha emergia do silêncio em que o bispo tinha conseguido fechá-la Aparecia de novo como um perigo a suprimir quanto antes; como conseguir conter o ódio dos seus correligionários e salvar Sabni?

Terminados todos os seus afazeres, Teodoro foi junto do prefeito. Contemplando o Nilo prateado das primeiras horas do dia, e as falésias que se tingiam de vermelho-alaranjado ao saírem da noite, compreendeu a que ponto venerava aquela terra.

Nenhum dos fiéis de Isis lhe sentia a beleza com tanto fervor como ele, o servidor de Deus, encarnado ao mesmo tempo na solidão do deserto e na exuberância da vegetação. Misturava o inferno e o paraíso na mesma paisagem, traçava todos os caminhos, os da esperança e do arrependimento. Filae, a última heresia, o último baluarte contra a vaga de fé desencadeada sobre o mundo, devia sobreviver como resto do paganismo vencido e símbolo de clemência do Senhor. Os ignorantes de ontem tomar-se-iam os crentes de amanhã.

No momento em que o bispo ultrapassou o portão do jardim que rodeava a vivenda do prefeito, foi abordado por um dos seus correios, que lhe entregou um pedaço de papiro amarelecido.

Teodoro reconheceu o sinete do templo; a qualidade do envelope correspondia a uma mensagem solene. Antes mesmo de a decifrar, devia conversar com Maximino.

Segundo disseram os criados, ele dormia. Ninguém ousou interpor-se quando o bispo forçou a porta do quarto; Maximino, estendido numa cama baixa, conservava os olhos abertos e fixava o tecto, decorado de vegetais entrançados. Durante um momento, Teodoro julgou que ele estava morto; mas o prefeito respirava.

- Sois vós, monsenhor... É tão tarde...

- É muito cedo, pelo contrário. Precisava de vos ver.

- Filae.

- Exactamente, Filae.

- É preciso salvar o templo.

- Estareis realmente enfeitiçado?

O prefeito girou sobre o seu assento, ergueu-se e olhou o bispo com uns olhos febris.

- Já estivesteis apaixonado?

- O casamento não me é proibido, mas tenho outras preocupações. Que amor se poderia comparar ao de Deus?

- O de uma mulher.

- Isis?

- Nunca a haveis visto, monsenhor... Nunca lhe desejasteis os seios, a boca, o corpo... Nunca sentiste o seu sorriso como um chamamento ao prazer supremo, a sua presença como uma felicidade em que nos afogamos de alegria. Tem o mesmo nome que a sua deusa. E se...

- Delirais.

Maximino levantou-se.

- É isso o verdadeiro amor... um delírio que vos leva para além de vós mesmo, um fogo que destrói para melhor nos fazer renascer... Julgava conhecer as mulheres, bispo. Dezenas, de todas as idades e de todas as raças, passaram pelo meu leito... Mas esta! Fico como uma criança diante dela. Não um amoroso bebé mas um malandreco caprichoso, de desejo ardente.

- A viagem cansou-vos. Nesta estação o Sol é perigoso.

Maximino comeu algumas tâmaras e serviu-se de um copo de leite.

- Não me tomeis por um demente. Continuo um homem de Estado.

O bispo ficou aliviado. Maximino não cederia à sua paixão.

- O que é próprio de um homem de Estado - prosseguiu o prefeito - é mudar de opinião no momento exacto. Queria fechar o templo de Filae; esquecia-me de Isis.

- Como contais proceder?

- Restabeleçamos os antigos privilégios da ilha.

- Seria um erro dramático. Os cristãos não o suportariam.

O prefeito voltou-se para o bispo.

- Uma ameaça?

- Se desejais salvar Filae, fazei esquecer a sua existência.

Maximino sorriu de uma maneira estranha.

- Será difícil.

- Porquê?

- Porque Isis será minha esposa. E a esposa de um prefeito deve obter aquilo que lhe agrada! Nunca abandonará o seu templo; quererá pois embelezá-lo e tornar a dar-lhe o seu antigo esplendor.

- Espezinhareis as ordens do imperador?

- Isso é comigo. A entrevista está terminada.

A mensagem, marcada com o sinete do templo, anunciava a elevação de Sabni à condição de superior da comunidade de Filae. Em virtude dessa investidura e das prorrogativas que se lhe ligavam, o novo mestre da ilha pedia audiência ao regente de Elefantina, o bispo Teodoro. O texto, redigido em hieróglifos e em escrita demótica, ignorava arrogantamente o grego. Filae lidava com o poder de igual para igual, como se o templo tivesse uma existência legal.

Sabni estava a ficar louco, como o prefeito. O seu título embriagava-o, projectava-o para fora da sua época, num tempo mítico que lhe parecia mais concreto do que o quotidiano. Teodoro, bruscamente, ficava prisioneiro de uma armadilha: salvar o amigo de infância era um dever imperioso, mas as dificuldades e os perigos acumulavam-se. Em primeiro lugar, neutralizar o prefeito, depois, trazer Sabni à razão. Depois de ter respondido favoravelmente à pergunta deste último, o bispo recebeu o general Narsès, um colosso de rosto quadrado cujo queixo se enfeitava com uma fina barba negra. A rigidez do militar de carreira reforçava-se de um belo porte, a despeito da ausência do braço esquerdo, cortado cerce aquando de um corpo a corpo com um egípcio que recusava ceder a sua propriedade ao Exército. Narsès beneficiava de uma excelente reputação. O imperador apreciava o seu rigor e a sua lealdade, os soldados adulavam-no. A sua carreira, já longa, não estava manchada por qualquer fracasso; obstinado, meticuloso, não se comprometia antes de ter estudado meticulosamente uma situação. Alguns julgavam o seu espírito limitado e a sua inteligência medíocre, mas o bispo não se fiava senão na sua própria opinião.

Teodoro continuou sentado à sua mesa de trabalho. Narsès, de pé, conservava os olhos ligeiramente baixos.

- Senti-vos bem em Elefantina, general?

- Tanto faz. Executo as ordens do prefeito.

- A vossa estada arrisca-se a ser mais longa do que estava prevista. Ele disse-vos alguma coisa?

- Falamo-nos pouco. Ele manda, eu obedeço.

- Será a mesma coisa comigo?

- Sois responsável pela guarnição permanente. Somos, pois, chamados a colaborar.

- É essa a minha intenção; sentai-vos.

- Gosto de estar de pé.

- Um pouco de vinho?

- Nunca.

O bispo levantou-se.

- Vamos até ao terraço, general.

Rodeado por altos rebordos, o telhado direito da morada episcopal dominava a cidade. Narsès, ao lado de Teodoro, contemplou Elefantina, os grupos de casas brancas, umas contra as outras, as moitas de acácias e os palmares, as altas falésias bordando o Nilo, os acampamentos fortificados. Se bem que não se inscrevesse qualquer emoção no rosto do general, o bispo apercebeu-se da sua perturbação. Quem não teria saboreado esse espectáculo! A partir daquele instante, Narsès teve vontade de proteger aquela província com cores de eternidade e de lá passar uma velhice sossegada. Ele, o soldado errante, tinha, por fim, descoberto a paz.

- Sois um homem honesto, general.

- Assim o pretendem.

- Como julgais vós a atitude do prefeito?

- É meu superior.

- Sois um bom cristão?

Narsès pestanegou.

- Tereis dúvidas?

- O comportamento de Maximino deveria chocar-vos...

- Não me compete emitir uma opinião.

Narsès concordou em sentar-se num banco de pedra, à sombra de uma latada...

- Tendes demasiada experiência, general, para negligenciar o génio de um lugar. Elefantina está muito arreigada à pureza da sua fé cristã.

- Contudo tolera uma comunidade judia e o último templo pagão.

- Detesto o fanatismo, acredito na conversão dos corações e trabalho nela sem cessar. Mas sou também um súbdito fiel do imperador, como vós. Porque não deixar estiolarem-se esses desaires do passado? O tempo actuará mais eficazmente do que a força; não se deve também atiçar a chama no momento em que ela desaparece. Não poderieis avisar o prefeito?

- Seria uma falta de respeito pela hierarquia.

- Sabeis que se apaixonou pela superiora de Filae e que pensa dar à ilha privilégios legalmente suprimidos?

O militar teve um sobressalto.

- Não... não exagereis?

- Mentir seria pecar, esconder a face também. Se não interviermos, correremos o risco de ver desencadearem-se paixões.

Narsès perdeu a compostura; aquela discussão perturbava-o.

As revelações do bispo ultrapassavam o quadro da sua missão.

Revoltar-se contra um superior equivaleria a uma alta traição; cair em conflitos sangrentos desagradava-lhe.

- Esperemos que Maximino recupere a lucidez. Temos confiança nele. Eu continuo a ocupar-me de Filae. Dentro de alguns dias, receberei o superior da comunidade. Só vós estais informado; é preferível que essa informação permaneça confidencial.

Narsès calou-se. Aquele silêncio tomava-o cúmplice do bispo.

 

De acordo com o que Sabni exigira, o barco que vinha de Filae imobilizou-se a meio caminho da margem. O superior passou para a embarcação ocupada pelos soldados do bispo; depuseram-no à entrada do templo de Khnum, o mais vasto edifício faraónico de Elefantina, reduzido ao estado de ruínas. Pilares despedaçados, tambores de colunas cortados à serra, lintéis e fragmentos de colunas espalhados pelo solo, jaziam abandonados como os membros deslocados de um grande corpo. O santuário do senhor da catarata e do fluxo benfazejo da inundação tinha sido devastado pelos Romanos, depois pelos Cristãos. Segundo dizem os feiticeiros, espectros armados de facas assombravam os lugares. Ninguém tinha o direito de acreditar nessas fábulas; contudo, as ruínas continuavam desertas. Nenhum egípcio se teria aventurado nelas. Quanto aos ocupantes bizantinos, não sentiam qualquer gosto por este triste passado.

Nem o bispo nem Sabni temiam os emissários do deus Aries.

O primeiro porque lhe oporia a cruz de Cristo, o segundo porque conhecia as fórmulas que o acalmariam. Os dois amigos tinham a certeza de gozar de uma perfeita tranquilidade, longe de qualquer ouvido indiscreto. Sentaram-se lado a lado no rebordo de um naos de granito cor-de-rosa, abatido a um lado.

- Assim aceitaste a função de superior.

- O deão pediu-me. Isis aprovou.

- Como lutaria eu contra essa nova loucura? Há mais de vinte anos que Filae passava sem superior! ía jurar que queres ressuscitar a comunidade.

- Tal é o meu único dever: transmitir a iniciação que os nossos antepassados nos legaram.

Teodoro apanhou um fragmento de granito e atirou-o para longe.

- Pareces esta pedra: incapaz de se mexer sozinha, escrava da mão que se apodera dela. És o chefe irrisório de uma assembleia de velhos às portas da morte; se a tua ridícula missiva tivesse caído nas mãos do prefeito, já estarias na prisão.

- A minha dignidade de superior.

- Já não existe, Sabni! A única autoridade religiosa desta região, sou eu que a detenho.

- Tu reinas sobre os Cristãos. Eu sobre os Egípcios. Pouco importa o número; hoje somos iguais. É por isso que gozo antecipadamente uma proposta favorável para o meu pedido.

O bispo, despeitado por não poder arrancar Sabni ao seu sonho, ouviu-o com espanto.

- Certas partes do templo estão em mau estado. Para a armação do telhado, preciso de troncos de palmeira que serraremos nós mesmos em tábuas. Indispensáveis para as portas são a acácia e o sicômoro; alguns pedaços de pinheiro da Ásia servirão para a restauração dos cofres litúrgicos. Precisava também de uma centena de blocos de argila de que te darei as dimensões.

O superior apanhou, por sua vez, um fragmento de granito.

- A tua Igreja não foi construída sobre uma pedra?

Uma ruga funda vincou a testa do bispo.

- Porquê essa provocação?

- É um pedido oficial.

- Supusestes um só segundo que eu acederia à petição?

- Não desespero de te convencer.

- Madeira e pedra são materiais raros, muito caros, reservados ao Exército e aos edifícios públicos. Sou responsável por eles perante o prefeito.

- O templo pertence à divindade; é só a ela que tu e eu prestaremos contas depois da nossa passagem por esta terra. A sua morada deve ser a mais bela e a mais rica, nenhum material será bastante esplêndido para a honrar.

- Deus não mora num templo, Sabni. Fez-se homem para que o homem se torne Deus; não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.

- Que vaidade! Eis a traição suprema do cristianismo: a adoração do indivíduo. Ele não é divino, Teodoro! Nem tu nem eu somos à imagem de Deus; só o templo, construído segundo a Regra, é símbolo do Princípio.

- Fechaste Deus no templo, eu fi-lo sair de lá. Tu confináva-lo a círculos de iniciados, eu revelei-o a todos os homens.

- O indivíduo deve mostrar a sua fraqueza, escreveu Paulo, a fim de que a força de Cristo desça sobre ele.

- Paulo... É por causa dele que a tua religião se tornou fanática e doutrinária. Não há pior raça do que a dos opressores convertidos.

- A tua crítica é estéril. O que foi enviado a este mundo era-lhe estranho antes do seu nascimento; tornou-se homem sem deixar de ser Deus. Das suas entranhas, como de um céu, Maria deu-o à luz de maneira divina. Uma outra luz apareceu; negá-lo era insensato.

- Maria é filha de Isis. É a grande deusa que, amanhã ou dentro de mil anos, orientará de novo este mundo, para uma fé sem dogma.

- Graças a alguns iniciados sem futuro.

- Lembra-te das tuas Escrituras: um só justo bastará.

- Isis está morta. Os seus últimos fiéis vão desaparecer.

- Será essa a famosa tolerância que tu pregas?

- Desejo salvar-vos, tu e a tua comunidade, não as vossas ideias funestas que envenenam o espírito. Quando estiverdes livre delas, a verdadeira fé iluminará os vossos corações.

- Ela espalhou o sangue e as lágrimas. Bizâncio é tão cruel como Roma. No tempo dos faraós, o Egipto era belo, rico e feliz; do camponês ao rei, todos comunicavam no sagrado, o crente por intermédio de uma estátua erguida no seu acampamento, o sábio pela contemplação da luz escondida no templo. Olha o meu país, Teodoro, olha o nosso país... miserável, explorado, arruinado! Já não se tratam os canais, não se irrigam os campos, os ricos são animais selvagens, a violência triunfa, as aldeias são sujas e piolhosas, a corrupção destronou a lei. Onde se esconde o oleiro Khnum que, com os seus braços robustos, inundava o Egipto de alimentos? Lembra-te da nossa Regra, dar o pão ao faminto, roupa a quem ande nu, uma barca a quem não puder atravessar o rio, um caixão a quem perdeu o filho. Hoje, os homens consideram a ignorância como conhecimento e o nocivo como útil. Vivem da morte, alimentam-se dela todos os dias. Estás satisfeito, dás graças ao teu Deus?

- A criação é imperfeita.

- A humanidade emporcalhou-a. O faraó contruiu o céu e a terra, ao preço de um trabalho incessante: fazendo crer a cada homem que traz Deus com ele, conduzes o Universo aos piores conflitos.

- Pareces esquecer que Cristo ensina o amor do próximo.

- Os gregos contentavam-se com palavras bonitas. O Egipto exigia actos, seres desejosos de se construir, talhando a pedra e a madeira. Fechar os templos é parar a corrente mais vital.

- O Egipto pagão será a mãe do mundo?

- Se não estivesses convencido disso, ficarias aqui?

O bispo olhou ao longe. O amontoado dos blocos da catarata fechavam o horizonte. O santuário de Khnum ainda respirava; um sopro extinto, apenas perceptível, circulava entre os capitéis golpeados e as colunas deslocadas.

- Porque não destróis Filae, Teodoro?

- Porque tu és meu amigo.

- Não existe um outro motivo... Não procuras preservar os últimos vestígios do teu passado?

O bispo escondeu o rosto nas mãos.

- Essa procissão... e, agora, esse título de superior, a actividade perigosa que desejas prosseguir... porque me complicas assim a tarefa?

- Para te obrigar a escolher.

- Sabe parar a tempo, Sabni. O Exército de Maximino não é uma miragem. Eu sou constrangido a obedecer-lhe.

- Tenho confiança em ti; não obedeces a mais ninguém senão a ti mesmo. Conceder-me-ás as pedras e a madeira de que tenho necessidade?

- Não. Que Filae se desmorone será a minha maior alegria.

- Até breve, Teodoro.

Sabni afastou-se com um passo firme e tranquilo. O deão não se tinha enganado: o jovem tinha realmente estatura de um superior.

 

O mês de Maio chegava ao fim. Os camponeses ceifavam sob um céu escaldante ao mesmo tempo que a debulha começava.

Uma interrogação perseguia os espíritos: qual seria o nível da próxima cheia? O bispo saberia aproveitar as suas benesses e dominá-la, a exemplo dos faraós e dos grandes padres de Isis? Teodoro tinha consciência de ser o principal motivo de inquietação que voltava constantemente às conversas das ruas. Jantava-se tarde, tagarelava-se à entrada das casas, aproveitava-se a frescura da noite. Mas as brincadeiras e os ditos diminuíam, à medida que se aproximava o momento decisivo, o que decidiria do destino de todo um povo durante um ano a chegar: prosperidade ou miséria? O nervosismo aumentava. Aqui e ali estalavam zaragatas que os soldados reprimiam com brutalidade.

Muitos perdiam o sono; loucos atravessavam as aldeias, predizendo as piores calamidades. Os astrólogos, cuja arte tinha sido condenada pela Igreja, calavam-se.

Maximino convidou as autoridades da província para um banquete digno das mais belas recepções da Alexandria. Nem um diácono, nem um oficial superior, nem um rico proprietário de terras faltou ao chamamento. Fazer acto de fidelidade, da maneira mais ostentatória, dava a segurança de conservar os seus privilégios e de entrever o enriquecimento ou avanço.

Teodoro admirou a habilidade de Maximino, que conhecia a carreira de cada um dos seus hóspedes e os gratificava com observações pessoais. Em menos de três semanas, tinha estudado os arquivos do bispo. Os que jogavam sobre a sua rápida decrepitude mudaram de tom; durante o seu período de isolamento tinha-se informado acerca da casta dirigente.

Vinho e cerveja correram em catadupas. Uma dezena de variedades de carne e peixe foram oferecidas aos convivas, que se regalaram igualmente de frutos e pastelaria. Agora que se aproximava o romper do dia, Maximino pediu ao bispo que o acompanhasse até ao escritório.

- Não bebeste nada, monsenhor?

- A minha condição exige-me ser sóbrio, a vossa não. Contudo, não saboreastes vinhos.

- O tempo do prazer virá mais tarde.

A vasta sala onde o prefeito trabalhava parecia-se, na decoração, com a que Teodoro ocupava.

- Apreciei o vosso sentido de administração, monsenhor. Para dizer a verdade, nunca conheci melhor. Haveis de perdoar-me de vos ter imitado.

- É uma grande honra.

- Um rigor assim, por vezes, prejudica o seu autor.

- De que forma?

- Verifiquei que os notáveis desta região estão todos sobre a vossa influência; pelo menos, metade das terras pertencem-vos.

- Pertencem à minha Igreja.

- A vossa política de aquisição desenvolve-se a um ritmo elevado, abasteceiS e vestis os soldados colocados em Elefantina. Quem procurasse prejudicar-vos, ou opor-se a vós, seria rapidamente eliminado.

- Porque haveriam de atacar o intérprete de Deus? Eu amo esta província. A minha finalidade é torná-la próspera. Será isso uma falta?

- Ao fim de um primeiro exame das vossas contas, não tenho nada a criticar-vos. Sois mais competente do que o tesoureiro do imperador. Em Bizâncio serieis ministro; sem dúvida, tens o estofo de um futuro patriarca da Alexandria. Mas há um certo comportamento que eu reprovo.

- Qual?

- Porquê perseguir Filae?

Teodoro apertou a sua cruz com a mão direita.

- Proibição de entrega de linho, recusa de fornecer madeira e pedra para se restaurar o edifício.. Li os vossos decretos.

- Não são confidênciais. Os arautos proclamam-nos em praça pública.

- Submeteis esta comunidade à tortura.

- Essas censuras surpreendem-me. Terei de vos lembrar que se trata de pagãos?

Nervoso, o prefeito começou a andar de um lado para o outro.

- Fui obrigado a aprovar as vossas decisões.

- Não tendes escolha, com efeito, correspondem às vontades do imperador.

- Não às minhas.

Teodoro não dissimulou a sua indignação.

- Sois vós, o servidor do Império, que vos exprimis assim?

- Admira-me um facto: não fechais este templo, quando podieis ordenar uma evacuação rápida e definitiva. Existe, pois, um freio para a vossa animosidade: por minha vez, desejo obter os favores de Isis. Dado que somos solitários, ganhamos tempo e encontramos uma solução satisfatória para nós dois.

Como o sono lhe fugisse, Teodoro passou a noite sentado à sua mesa de trabalho. Classificou alguns documentos espalhados, estudou o orçamento da cidade para os meses que vinham, verificou a lista das suas terras, rezou a Deus.

Os nomes dos maus pagadores estavam sublinhados a tinta encarnada. Uma vez mais, apelaria para os soldados, a fim de recuperar os fundos que faltavam. Que o prefeito examinasse a sua gestão não incomodava o bispo que, por uma questão de carácter, e prevendo uma inspecção desse género, tinha-se habituado a nada dissimular. A totalidade dos seus afazeres entrara num quadro legal cujos recursos utilizava com uma extrema habilidade. O perigo residia noutro ponto: Maximino estava a perder a cabeça. A sua demência parecia tanto mais profunda, que dava a aparência de um ser responsável e senhor de si.

No entanto, só pensava em Isis, ao ponto de trair os seus deveres para com o imperador. Paixão absurda, votada ao fracasso. Paixão que tornava Maximino tão incontrolável como um argueiro de palha, errando ao sabor dos ventos. Por causa daquele súbito amor, Filae tornava-se um objecto de conflito. O templo, que Teodoro tinha conseguido mergulhar numa sombra protectora, quase no esquecimento, surgia agora de novo em primeiro plano.

Maximino já não era um adolescente pronto a emocionar-se. Os seus sentimentos pela superiora aniquilavam o seu passado. Isis, tão bela, tão atraente, enfeitada com a magia da deusa que ela adorava! O bispo compreendia o envolvimento; corria o risco de desencadear a ira dos Cristãos que ele, Teodoro, não teria o direito de reprimir.

Já não exigia qualquer influência sobre Sabni. Tornando-se superior, o amigo tinha mudado, levava o seu cargo a sério, enchia-se de ilusões e sonhava com proezas impossíveis.

Isis encorajaria as suas acções suicidárias, ou respeitaria a medida e o silêncio suas armas mais eficazes? Teodoro lamentava nunca a ter encontrado. Entre as suas duas solidões, tinha-se instaurado um diálogo mudo. Apercebia-se das suas intenções à distância; mas Sabni e Maximino atrapalhavam o jogo.

Filae, uma parte de ele próprio? Um templo pagão, imagem de uma fé que não teria conseguido desenraizar-se do mais profundo da sua alma. Perguntas desprovidas de sentido. Convertendo-se ao paganismo, tinha mudado de vida. Emergido em Cristo, consagrava-se ao estabelecimento de uma doutrina sólida e durável que extirpasse o erro dos mais teimosos.

Anunciavam-se provações; Teodoro não as temia. Arrancaria o amigo a um destino trágico, converteria Filae sem utilizar a violência e neutralizaria Maximino. Porque Deus o ajudava, conseguiria.

 

A meio do mês de Junho, num dia de calor muito forte, o Nilo mudou de cor. A água tingiu-se de castanho, a saída da corrente acelarou-se. Arrastava lama e lodo. Os trabalhos agrícolas interromperam-se. Em Filae, Isis observou Sirius, a estrela principal da constelação do Cão, cujo erguer helíaco anunciava o começo da cheia, alimentada pelo suor e pela linfa saídos do corpo de Osíris assassinado. Quando a esposa dele vertesse lágrimas de luto, o casamento seria de novo celebrado, dessa vez no Além, e a terra do Egipto fecundada.

O bispo requisitou trabalhadores agrícolas, tarefeiros, comerciantes ambulantes e artesãos, para tratar os canais e limpar os tanques de irrigação onde se reteria o excedente de água.

Na maior parte das províncias negligenciavam-se esses trabalhos penosos que, no tempo dos faraós, tinham feito do Egipto um oásis imenso no coração do deserto. Mais de metade das terras cultivadas tinham-se perdido; sujeita a impostos à discrição, a gente pobre deixou de ser devotada a uma administração que, cada ano, mais a oprimia. Teodoro lutava à sua maneira contra a injustiça. A região de Elefantina parecia-se, em certos lugares, com o paraíso em terra, que as dinastias reais haviam criado. Trabalho e dinheiro não bastavam; era de uma fé entusiasmante que os homens sentiam maior necessidade.

Quem, senão Cristo, a ofereceria? Uma semana depois das primícias da subida das águas, Teodoro e Maximino desceram os noventa degraus da escada do nilómetro. Nas paredes, graduações em côvados permitiam calcular a altura da cheia. Naquele poço, construído em pedras de cantaria, conservava-se, graças a inscrições gravadas em profundidade, a lembrança das inundações anteriores. Todos conheciam a ladainha de cor: doze côvados, fome; treze, ventre esfomeado; catorze, a felicidade; quinze, o fim das preocupações; dezasseis, a alegria perfeita. Teodoro encostou-se contra uma parede húmida e consultou, na parede fronteira, as estrias, distantes de si um côvado. A experiência adquirida permitia uma previsão.

- A vossa conclusão? - interrogou Maximino ansioso.

Duvidoso o bispo recomeçou os seus cálculos.

- Falai, peço-vos.

- Obtenho resultados aberrantes. Voltarei amanhã, a água terá subido.

No dia seguinte, e dois dias depois, Teodoro obteve os mesmos números. Perante a insistência do prefeito, foi constrangido a revelar o seu pensamento: era preciso esperar pelo pior.

Todos espreitavam em vão as águas majestosas que transbordariam fogosamente das margens, se estenderiam pelos campos e transformariam o vale num lago de onde não emergiriam senão as aldeias construídas nos outeiros. Tinha-se esperança no génio do Nilo que, saltando em assédio do céu, afogaria ratos e bicharada, purificaria a terra, depositaria o lodo e prepararia o crescimento do trigo, símbolo do renascimento de Osíris.

Mas o nível da água continuava anormalmente baixo. Se o bispo não se tivesse enganado, não atingiria onze côvados, seria uma fome assustadora. Por isso reuniu ele um conselho de gente notável a que assistia o prefeito.

- As reservas das sementes?

- Quase esgotadas.

- Imprevidência?

- As cheias anteriores foram medíocres. O Império sobrecarregou-nos pesadamente.

- Outros alimentos?

- A Alexandria pilha-nos.

O prefeito editou medidas de urgência. O exército devia ser abastecido em primeiro lugar, durante o mês de Julho, só os soldados comeriam o que tinham na vontade. Os recursos alimentares da província foram divididos pelos oficiais superiores, que pensavam principalmente nas suas tropas. A população indignou-se. Não lhe restava mais do que figos secos e pão duro.

No último dia de Julho, Maximino convocou o bispo: toda a esperança de uma boa cheia estava perdida. Crianças e velhos morriam em grande número... As forças da ordem deviam reprimir duas tentativas de revolta, uma numa aldeia perto da catarata, outra num subúrbio de Elefantina. O número de vítimas elevava-se a uma dezena na opinião dos soldados, a mais de duzentos, segundo a dos autóctones.

Teodoro verificou que os colaboradores do prefeito eram tão preguiçosos como incompetentes. Como admirar-se disso, uma vez que o bispo os tinha, ele próprio, recomendado a Maximino? O melhor meio de o isolar consistia em rodeá-lo de indivíduos bastante medíocres, para lhes dar a ilusão de reinar a meias; quem não conhecia a província do interior perder-se-ia no pormenor dos procedimentos administrativos. Bizâncio tinha acrescentado tantas leis às já promulgadas por Roma que só ao bispo se conseguia enfiar em tal labirinto. Teodoro procurava atravancar o gabinete do prefeito de relatórios inúteis; quanto mais estafado ele estivesse, menos se preocuparia com Filae.

Junto de Maximino, encontrava-se o general Narsès, com a barba preta finamente aparada. O bispo apercebeu-se da hostilidade entre os dois homens. Não tinha conseguido opô-los um ao outro e devia esperar por um assalto em regra. Teodoro não seria um autêntico bode expiatório?

- O povo ralha, monsenhor.

- A guarnição intervirá.

- Será preciso esmagar um motim?

- Eu manterei a ordem, mas essa cheia catastrófica desmoraliza as tropas de Narsès.

O general anuiu.

- Murmura-se que uma maldição pesa sobre Elefantina. Alguns dos meus homens são muito supersticiosos e dão ouvidos aos profetas da desgraça; a cólera dos antigos deuses estaria na origem desta fome.

O bispo encarou os seus interlocutores com severidade.

- Rejeitais, um e outro, essas frivolidades, bem entendido.

Nem o prefeito nem o general responderam. Maximino quebrou o silêncio.

- Um levantamento popular comprometeria a missão que o imperador me confiou.

- Qual é a vossa proposta?

- Passeei pelas ruas da cidade; os habitantes falaram comigo. Para esconjurar a má sorte, peçamos ajuda à superiora de Filae. Conhece as fórmulas que farão subir o nível das águas; que ela celebre o antigo ritual.

- A magia negra é castigada com a morte - objectou Teodoro. - Há um grande número de anos que me obstino a eliminar essas práticas malditas, ousareis vós reanimá-las, desdenhando das leis divinas e humanas?

- Caso de força maior - defendeu o prefeito. Proporcionando a Isis a ocasião de se valorizar e de provar que a religião tradicional perdurava, contava conquistar os seus favores.

- Tendes consciência dos riscos?

Maximino tornou-se menos brusco.

- Como ameaçaria a segurança pública, uma jovem mulher desarmada? O povo gosta da superstição: a sua aparição acalmaria os espíritos. Depois, voltará para a ilha.

- Subestimais a pureza da fé cristã; não tolerará semelhante afronta.

- Sou cristão - lembrou Maximino - Isis não converterá ninguém. Se bem que esteja reclusa, o seu prestígio permanece considerável; uma vez aliada, servirá a causa da paz. Anunciaremos ao imperador que esta região está totalmente submetida.

- Enganai-vos. Isis não pactuará connosco; aproveitará da oportunidade que lhe ofereceis para proclamar a omnipotência da deusa. As consequências...

- Estais tão pouco convencido da fidelidade das vossas ovelhas?

- As ervas daninhas crescem depressa.

- Unamos forças.

- Não estou certo de vos poder ajudar.

Maximino franziu o sobrolho.

- Não é ao homem da Igreja que me dirijo, mas ao meu subordinado. Não ouso encarar uma recusa, que equivaleria a uma deserção.

levou a mão ao punho da espada. O bispo soube que ele não hesitaria em usar a sua arma contra ele.

- Os vossos receios não são fundados - declarou com uma voz gelada.

 

Isis, com um vestido branco comprido, desembarcou junto da mais alta colina de Elefantina. O general Narsès e um esquadrão garantiam-lhe a protecção. Os infantes tinham expulsado uns dez anacoretas, que viviam em grutas vizinhas; fechados no interior de uma caserna, não saberiam nada do ritual celebrado pela superiora de Filae, que tinha aceitado a proposta do prefeito em troca de víveres. Vários membros da comunidade enfraqueciam, alguns já não tinham força para trabalhar.

Antes da partida de Isis, um barco carregado de legumes, de frutas e de farinha tinha ancorado ao templo; Sabni tinha-se encarregado da descarga. Enquanto irmãos e irmãs saboreavam a sua primeira refeição consistente, passados quinze dias, a superiora partiu para o desconhecido. Tinha-se oposto ao pai, certo que Maximino a atraía a uma armadilha, mas o prefeito já cumprira a sua palavra, restabelecendo o abastecimento da ilha.

Do alto da colina, a visão era grandiosa. O rio corria, sonolento, entre falésias escarpadas. Ao longe, a cidade verde e branca.

Naquela época do ano, a falta de água gerava manchas acastanhadas nos campos; por toda a parte, o deserto prevalecia.

- País esplêndido - considerou Maximino, com as mãos atrás das costas, frente ao vácuo.

- Os deuses escolheram-no para o seu domicílio - lembrou Isis que estava a seu lado.

Os infantes, na reserva, não ouviriam nem veriam. O prefeito não ousava olhar a jovem, cuja simples presença lhe espalhava fogo pelas veias; a dor era tão atroz quanto deliciosa.

- A inundação será muito fraca, milhares de pessoas morrerão de fome. Não haverá colheita, as espigas secarão, as crianças já choram e os velhos estão prostrados. A bicharada prolifera. Deveis intervir Isis!

- É demasiado tarde!

- As lágrimas da deusa não desencadeiam a cheia?

- Deixámos passar o momento certo.

- Não existe um ritual de salvaguarda?

- Organizar uma procissão, oferecer ao rio, carne, bolos, fruta e estatuetas de mulheres que ele fecundaria... sim, teria sido indispensável, quando o tom das águas se modificou.

- Não resta nenhum recurso?

- Um só, utilizado por Imhotep há mais de três mil anos, quando houve a mais grave das secas, que pôs em perigo o trono do faraó *ir &.s na.&n& (lo Nilo

- É uma lenda - protestou Teodoro - a nascente do Nilo não se encontra em Elefantina!

Maximino não ficou abalado.

- O que os nossos olhos observam é por vezes ilusório. Isis afirma que o poder está escondido numa gruta perto daqui. Fosteis vós que lhe obstruísteis a entrada.

- Medida indispensável. Os pagãos reuniam-se lá todos os anos, antes do começo da cheia, e celebravam ritos satânicos.

- A superiora aceita ir lá e rezar ao génio do Nilo.

- Eu recuso essa farsa.

- Estão milhares de vidas em jogo. A própria existência da vossa província depende da cheia. Deixai Isis aqui; ela tem as chaves que nós já não possuímos.

- Vós, um cristão, exprimir-vos assim.

- Caso de força maior, torno a dizer. Desobstruamos o acesso a essa gruta.

- Uma boca de inferno.

- Nada de superstições, bispo.

- É uma ordem?

- A executar sem demora.

Ela, a superiora. Ele, o bispo. Ela não baixou os olhos, à maneira de uma boa crente; Teodoro esqueceu, contudo, o sermão que tinha preparado.

Não trocaram qualquer propósito, apressados em acabar uma tarefa tão delicada que os obrigava a aliarem-se.

A localização da santa gruta era um segredo de estado, conhecido por um pequeno número; situada na extremidade oriental da ilha, e protegida por um esporão rochoso, não oferecia mais do que uma estrada estreita acessível a uma só pessoa de fraca corpulência. Apenas Maximino, Teodoro, Isis e um entalhador de pedra usaram o atalho perdido que lá conduzia.

Afastaram troncos e ervas daninhas antes de chegarem a uma minúscula esplanada, que papiro de altura de seis metros disfarçava; Isis guiou os seus adversários a um labirinto em que o mais hábil dos aventureiros se teria perdido.

A vista do antro de deus Aries, Khnum, que soltava a torrente levantando a sandália, o coração de Isis pulou de alegria.

De Elefantina só conhecia aquele lugar escuro; seu pai tinha-a levado lá três vezes, antes de o bispo o decretar inacessível.

Teodoro pediu ao entalhador de pedra que tirasse os blocos que ele próprio tinha amontoado para ocultar o orifício. Quando ele foi libertado, Maximino impacientou-se.

- Entrareis, Isis?

- Não antes de ter recebido o sinal. Não nos devemos dirigir a uma deusa com palavras humanas.

O entalhador sentou-se afastado. A superiora estendeu o braço para o interior da gruta, tirou de lá dois pequenos vasos.

Um continha a água do céu, o outro a do Nilo. Colocou-os de cada lado da entrada. O bispo parecia pouco à-vontade e tocava constantemente na sua cruz de peito, como se se preparasse para esconjurar a aparição de um demónio.

- Quanto tempo?

- Ignoro.

Decorreu uma longa hora. O prefeito, apaziguada a irritação, saboreou a doçura do momento. Admirava Isis; parecia Cleópatra, cujos retratos sublimes decoravam as salas de jantar das velhas famílias alexandrinas, mas com uma maior perfeição no desenho do rosto. A sua pureza solar tornava-a tanto mais desejável, porque a situava fora do vulgar. Contemplá-la era já fazer amor com ela com o infinito respeito das paixões. Isis era sua; não pertenceria a mais ninguém.

Teodoro esperava que o acontecimento, tão temido, não se desse. Sem o sinal, a superiora não penetraria pela gruta e a Igreja não seria humilhada; Isis permanecia serena; a sua esperança tornava-se certeza. Não só Filae não seria destruída, mas ainda retomaria a sua primeira função: formar adeptos, iniciá-los nos mistérios, transmitir o espírito. Nessas circunstâncias, porque não se manifestaria a vontade divina? Desencadeava um combate mudo, sem arma, sem ferimento aparente; do seu êxito dependeria talvez o futuro do templo.

Isis e o bispo desafiavam-se abertamente pela primeira vez.

Estimavam-se e temiam-se. A beleza da jovem deslumbrou Teodoro; no seu foro íntimo, admitiu os impulsos insensatos do prefeito.

O prelado pressentiu a vontade implacável da superiora e a sua aptidão para dirigir. Se Sabni tivesse a inteligência de o ouvir, formariam um par capaz de todas as audácias, ao ponto de ameaçar a paz civil.

Isis ficou admirada de encontrar um adversário daquela envergadura, cujas capacidades reais ultrapassavam a reputação; às qualidades de um chefe, Teodoro acrescentava a maleabilidade de um político e a força inesgotável de um crente. Inimigo irredutível, comportar-se-ia como adversário impiedoso, que nenhuma queixa enterneceria.

- O sinal - observou Isis com calma.

Maximino seguiu a direcção do seu olhar: na entrada da gruta, uma víbora ondulava. A superiora pôs um joelho em terra e, com um gesto vivo, agarrou-a por trás da cabeça. Instintivamente, o prefeito recuou. Brandindo a criatura que se debatia, Isis avançou para a entrada da gruta; Teodoro barrou-lhe o caminho.

- Proibo-vos de utilizar o símbolo do diabo.

- A serpente não é o mal, nasce da terra regenerada pela torrente. Devo levá-la ao génio do Nilo, só, no silêncio e respeito do deus escondido.

- O peixe de Cristo venceu o réptil do demónio. Essa magia é ilusória e perigosa. O bispo de Elefantina não cederá a passagem, e nenhum ritual satânico emporcalhará a sua cidade. Recuai todos.

Impressionado pela veemência do prelado, o prefeito cedeu.

Isis deitou a víbora numa moita de papiro.

- Tapai essa maldita fenda - ordenou o bispo ao entalhador de pedra. - Que a lembrança deste lugar fique perdida para sempre.

O bispo caiu de joelhos e, brandindo a cruz, exorcisou o antro pagão.

 

As vindimas começaram no fim do mês de Agosto. Nem um canto se elevou das vinhas, ordinariamente tão alegres; o país preparava-se para sofrer as consequências da cheia, a mais fraca dos últimos duzentos anos. O bispo seria constrangido a levantar as quantidades de trigo e de cevada exigidas pelo império. Não restaria mais nada para os habitantes da província, e os roedores, que a magra inundação tinha poupado, atacariam as culturas e os pomares.

Que se tinha passado no lugar da santa gruta, nas nascentes secretas do Nilo? Para uns, Isis tentara em vão acalmar a cólera de Khnum; para os outros, Teodoro tinha estancado a corrente, massacrando os génios escondidos nas águas. Alguns pretendiam que nem a superiora nem o bispo tinham ido àquele lugar misterioso, cuja localização estava esquecida havia muito tempo.

O escritório do prefeito desmentia que Maximino tivesse desempenhado qualquer papel nesse caso inventado pelos maus contadores de histórias. Quanto à única testemunha, um entalhador de pedras, ninguém o tornara a ver em Elefantina. Só o general Narsès sabia que o bispo o tinha enviado para o exílio, no oásis de Khargeb, de onde não voltaria.

O prefeito, fechado na sua morada, odiava-se. Porque se tinha portado como um cobarde, porque tinha desapontado Isis, cujo olhar acusador ainda o humilhava, e que desejava ele verdadeiramente, perdido, incoerente? Um sentimento desconhecido, sobre o qual não exercia qualquer controlo, invadia Maximino.

Habituado a dirigir os seus homens, não se comandava a si mesmo. As fontes zumbiam-lhe constantemente, presas de um insecto monstruoso, que já não lhe concedia o menor descanso.

Isis tinha aniquilado uma carreira votada à ordem pública e ao serviço do Estado; com alguns olhares, uma atitude tanto mais provocante que nada lesava a sua nobreza, a sua ausência mesmo, tornava-se, cada hora, mais indispensável e mais inacessível.

O prefeito costumava tomar as mulheres como frutos maduros, a superiora arrancava-lhe o coração, abria, escancarado, um buraco, onde se engolfava uma tempestade. Desenraizado, Maximino sentia crescer em si um estranho que, com uma raiva alegre, destruía as suas antigas certezas.

Por vezes, o prefeito conseguia ocupar-se dos assuntos correntes. O bispo fornecia-lhe grande quantidade de relatórios detalhados sobre as parcelas cultivadas, tanques de irrigação, o transporte de mercadorias; cada documento abordava as dificuldades com uma extrema minúcia que o mais miudinho dos funcionários alexandrinos não teria reprovado. A atenção de Maximino voava depressa, captada pelo rosto de Isis. Como conseguir tornar-se célebre a seus olhos? Ocupar a ilha seria fácil; se procedesse dessa forma, perdê-la-ia. Tinha de desposá-la, ela tinha de amá-lo.

Mais de metade das culturas não fora coberta pelas águas, seria inútil semear na terra estalada. Os camponeses começavam a deixar as suas explorações, e a amontoarem-se nos subúrbios de Elefantina. Por ocasião de uma missa cantada, o bispo tinha implorado ao Senhor que desse aos crentes a força necessária para se sobreporem à adversidade, depois tinha-se preocupado em repartir equitativamente os alimentos. Filae obtinha a sua parte, como se o templo fosse uma simples aldeia que dependesse da autoridade administrativa.

A visão desse país sedento e queimado pelo Sol, dos declives com reflexos ocres, que se enterravam num Nilo demasiado fraco para o fazer subir, suscitou um grande projecto: partir à conquista do ouro nubiano, satisfazer o imperador, dar a Isis uma parte do metal precioso, como das estátuas divinas. Filae brilharia com o seu esplendor passado. Maximino tinha encontrado o seu presente de casamento.

Convocou Narsès, intimou-o a preparar as suas tropas e a juntar os barcos aptos a passar a catarata.

Felizes por saírem da inacção, os soldados puseram-se quase imediatamente em pé de guerra. Mas o general esbarrou na corporação dos bateleiros, que só lhe cederam três barcas em mau estado. As outras pertenciam ao bispo.

Furioso, Maximino irrompeu pelo escritório do prelado, a braços com espinhosos problemas de irrigação.

- Exijo a totalidade de barcos disponíveis.

- São indispensáveis à vida da cidade.

- Não vos opunhais à minha vontade: eu hei-de passar a catarata.

- O Nilo está muito baixo. Falhareis...

- Passarei.

- Nenhum bateleiro aceitará guiar-vos.

- Eu requisito-os.

A população juntou-se nas margens inclinadas que bordavam o dédalo de rochedos em que o rio, tornado furioso por golpes de vento, se quebrava sobre as rochas tanto desfeitas como pontiagudas, antes de ressurgir em turbilhões imprevisíveis.

O bispo recusara-se a assistir à partida da expedição; apesar das solenes recusas, o prefeito, porém, obstinara-se.

Os soldados foram divididos por pesadas barcas, difíceis de manobrar; o prefeito, depois de ter examinado a flotilha de que dispunha, escolhera esse tipo de embarcação por causa da sua solidez. A proa, um bateleiro sondaria a água com uma comprida vara.

Quando a primeira barca se lançou ao assalto da catarata, os gritos de encorajamento elevaram-se da multidão. O entusiasmo de Maximino revelava-se comunicativo; muitos julgavam a proeza possível, mesmo que os antigos qualificassem a empresa de louca. O prefeito e o general Narsès observaram a cena de um outeiro. O bateleiro, um profissional experiente, evitou um novo rochedo cujo cimo estava disfarçado sob uma água lodosa, contornou um turbilhão que se enfiava num estreito canal, esbarrou num bloco de granito. A garganta de Narsès apertou-se. O piloto, manobrando com destreza, seguiu no sentido de uma corrente cada vez mais violenta; ao desembocar de um segundo canal, o rio acalmava. Maximino pensava que a sua parte estava ganha.

O homem da proa desviou depressa demais a sua atenção.

Quando avistou o segundo rochedo chato, que dormitava sob a superfície, já não tinha tempo de prevenir o piloto; gritando, largou a sua vara e deitou-se de lado. A embarcação embateu no obstáculo, empinou-se e virou-se. Vários soldados foram esmagados, outros afogaram-se. As duas barcas seguintes, abandonadas pelos pilotos, sofreram a mesma sorte. Narsès, impotente, assistiu à morte dos seus homens. Maximino fechou os olhos.

Mais de duzentos infantes tinham desaparecido nas armadilhas da catarata; soldados experientes, dignos de legiões romanas da grande época, heróis saídos incólumes dos piores campos de batalha, bravos vindos dos quatro cantos do Império tinham estupidamente perecido nesse caos rochoso.

Apesar da perda de metade do seu exército, Narsès não sentia qualquer ressentimento por Elefantina. Ele, o militar zeloso, destacava-se a pouco e pouco das exigências do seu cargo e meditava cada vez mais longamente em frente das solidões sobre-aquecidas do deserto, onde se perdiam os ruídos das batalhas passadas.

O caminho de Narsès parava ali. Desde o seu alistamento voluntário, com a idade de doze anos, que não tinha deixado de correr as províncias do Império em busca de uma glória que o destino, generosamente, lhe tinha dispensado. Aquela nova campanha devia confirmar o seu prestígio junto do imperador, que lhe teria atribuído um posto honorífico em Bizâncio, prelúdio de uma velhice dourada. Narsès não deixaria Elefantina; faustos e intrigas da capital já não lhe interessavam. A paz, pela qual tinha combatido, estendia-se sobre aquelas terras desoladas em que o homem fazia figura de intruso.

Maximino não atirou sobre ninguém a responsabilidade do desastre: perante o bispo e o general, reconheceu o seu erro. Recusando parar sobre um fracasso, desvendou os seus projectos: organizar o mais depressa possível uma nova expedição.

- Nenhum dos meus homens sairá da sua guarnição - afirmou Teodoro. - Tenho o dever de assegurar a segurança da minha diocese.

Depois de ter hesitado muito tempo, o bispo rasgou o relatório que contava enviar a Bizâncio para denunciar o procedimento do prefeito. Aquela estratégia conduziria à chamada de Maximino, mas acompanhar-se-ia de um demorado inquérito conduzido por magistrados e militares. Teodoro devia proceder só e desembaraçar-se dos seus adversários, sem a ajuda de quem quer que fosse.

- A vossa atitude não me surpreende, monsenhor. O general e eu traremos o ouro de Núbia.

- Não penseis mais nisso - recomendou Narsès.

Estupefacto, Maximino voltou-se para o seu subordinado.

- Como ousais...?

- Tenho o direito de contestar a vossa autoridade.

- Unicamente em caso de enfraquecimento mental.

Narsès e o bispo olharam-se, subitamente cúmplices.

O bispo ignorava as razões daquela reviravolta inesperada, que logo explorou.

- Esse enfraquecimento quem o negará?

- Tomai cuidado, bispo. Uma palavra minha e...

- Não iremos a Núbia - afirmou Narsès com firmeza.

- Delirais, general.

- A catarata é intransponível. Deveríamos dirigir nós mesmos a navegação e não somos capazes. Não quero ver perecer a outra metade do meu exército; se for necessário, que o poder judicial intervenha.

Maximino conteve a sua cólera. O poder judicial... Por outras palavras, o bispo!

- Qual é a vossa proposta?

- Esperar. Esperar tanto tempo quanto for necessário.

- Mas o ouro...

- O imperador compreenderá. Somos tributários do Nilo e não dos seus caprichos; redigi um relatório neste sentido e eu o rubricarei.

- Evitai mencionar as perdas - recomendou o bispo.

- Eu também as esquecerei. Elefantina é longe de Bizâncio... Se chegassem rumores duvidosos aos ouvidos do imperador, nós desmentiríamos. Aqueles homens, oficialmente, morreram de doença: nos anos de cheia má, as epidemias destroem a população.

O prefeito hesitou. A proposta do bispo só apresentava um inconveniente: constrangia-o a tomar-se seu cúmplice.

- Que pensais disto, general?

- O homem mais valoroso pode cometer um erro. Eu estou pronto a esquecer.

- Em que condição?

- Ser nomeado chefe da guarnição permanente de Elefantina.

- Desejais viver aqui?

- Eu expressei-me. Agora é convosco solicitarem junto do imperador, nesse sentido, com a benção do bispo.

- Preciso de reflectir.

O general e o bispo saíram do escritório do prefeito. Como Maximino conhecia mal os homens... Aquela ilusão também levantava voo. Narsès, esse desmancha-prazeres, frio como a neve das montanhas da Ásia, esse militar intransigente, cujo horizonte se limitava às ordens recebidas, tinha-se apaixonado! Tinha descoberto o seu paraíso e sacrificava-lhe a sua carreira.

Por felicidade, Teodoro e Narsès não conspiravam contra Maximino; o general convertia-se à província do Sul. O milagre serviria os interesses do prefeito. Narsès agarrar-se-ia ao status quo e protegeria Filae tanto como os cristãos.

O sentido diplomático de Teodoro enchia-o de à-vontade.

O bispo também não desejava um conflito aberto. Que Filae fosse um pomo de discórdia não excluía um terreno de entendimento; um homem que era ouvido por Deus devia entender-se com um dignitário do Império.

O horizonte aclarava. Restava um motivo de angústia: Maximino não poderia oferecer a Isis o ouro de Núbia.

 

Isis tinha aprendido a conhecer cada um dos membos da comunidade, sabia apaziguar as suas dúvidas, *décuplar as suas esperanças; uma atitude, um gesto que lhe bastavam para descobrir uma dificuldade. Contudo, o comportamento da bibliotecária surpreendeu-a. Essa mulher, de cinquenta anos, bastante gorda, tinha um temperamento muito alegre, quase divertido. Nenhum desgosto lhe resistia; à força de frequentar os velhos textos, e de tratar dos rolos de papiro, tinha adquirido um equilíbrio bonacheirão.

Isis convivia com ela, todas as manhãs. Passados vários meses, a superiora estudava o ritual do regresso da deusa longíqua. De acordo com a tradição, acrescentava fórmulas às palavras anteriores e especificava «por outras palavras» a fim de sublinhar as suas intervenções. Desde a origem, nunca tinha suprimido uma percepção do absoluto, própria de uma época, recusava uma verdade definitiva e preferia construir o pensamento como uma pirâmide, pedra após pedra.

A bibliotecária, crispada, amarrotou um canto de papiro.

Enlouquecida, correu para a porta da biblioteca, voltou para o centro da sala, explorou as prateleiras. Isis agarrou-a pelos ombros e obrigou-a a acalmar.

- Estás doente?

A irmã baixou a cabeça, tentou fugir; Isis não largou a presa.

- Explica-te.

- É horrível demais. Eu... cometi uma falta tal...

Desatou a chorar.

- É assim tão grave?

- Nem mesmo a ti consigo falar disso. Contudo...

- Contudo?

- A comunidade inteira o verá. Eu...

Ela mordeu os lábios até fazer sangue, antes de gritar a verdade.

- Estou grávida.

Esperou a condenação da superiora. Isis apertou-lhe ternamente as mãos.

- Já não acreditava que isso fosse possível - confessou ela. - Fui imprudente. O immão celeireiro e eu dávamo-nos há tanto tempo... eu não queria isso, juro-te! Eis-me excluída da comunidade.

- Não julgues antecipadamente a decisão que a câmara de Regra tomará.

- A nossa lei não conhece excepção.

- Filae é uma ilha sagrada num mundo profano. Devemos ter isso em conta.

A doçura de Isis tranquilizou a bibliotecária.

Mas as suas esperanças derreteram-se quando entrou na sala de Maat, norma do Universo. Ficou de pé, em frente do tribunal composto pelo deão, por Isis e por Sabni. Este último tomou a palavra: se a regra do templo, que não impunha a castidade senão durante períodos curtos antecedendo as iniciações, desaconselhava às irmãs terem filhos e proíbia-o à superiora, referia-se a uma época em que uma quantidade de neófitos solicitava a sua admissão. Dado que Filae estava condenada a perecer sem contacto exterior, porquê recusar uma criança cuja presença simbolizaria o futuro? A immã bibliotecária e o immão celeireiro deveriam viver sob o mesmo tecto; o deão, de novo privado do uso da palavra, aprovou com um abanar de cabeça. Isis beijou a irmã.

Ao sair da câmara de Regra, a superiora foi abordada por Ahourê. Tomada ritualista, depois de ter ultrapassado diversos graus de hierarquia, representava, frequentemente, o papel de porta-voz da comunidade junto de Isis.

- As nossas irmãs temiam a sentença - confessou ela.

- E tu?

- Tinha a certeza de que te mostrarias clemente.

Ahourê, com quarenta anos feitos, demonstrava um poder singular. Robusta, atarracada, com os ombros quadrados, não lhe faltava, contudo, feminilidade, e cedia mesmo a um coquetismo por vezes excessivo, que se traduzia pelo uso de muitas pinturas. Sem a elevar à condição de confidente, Isis apoiava-se frequentemente nela como num rochedo inabalável, que resistia aos ventos desencadeados.

- Maltratar teria enfraquecido a comunidade. Devemos entreajudar-nos, não nos excluir.

- Mesmo que uma de nós traísse?

- Como podes evocar semelhante enigma, tu que nos diriges?

- O inimigo aproxima-se do templo - lembrou Isis.

- Amanhã estaremos em guerra; terão todos os adeptos a coragem de lutar até ao último sacrifício?

- Não tens direito de duvidar.

- És tranquilizadora, Ahourê.

- Lúcida, Isis. Filae é o nosso bem mais precioso, a última recordação da idade do ouro? Quem seria suficientemente louco para lhe renunciar?

Nem um sopro de vento perturbava a noite sem lua.

Na extremidade meridional da grande colunata, na parte de baixo do quiosque Nectanebo, a água marulhava. Sabni discerniu, no último momento, a barca pintada de preto que atracou, sem ruído, a um rochedo por trás do qual o seu único ocupante, o capitão Mersis, a dissimulou.

- Porque vieste tu mesmo?

- Já não tenho confiança em ninguém. O general exerce um controlo permanente sobre a guarnição; é desconfiado. O clima mudou bastante, já ninguém se diverte. Para rivalizar com Narsès, o bispo impoe-nos uma permanente disciplina; julgar-se-ia que um conflito entre as duas facções se prepara.

- Feliz acontecimento.

- Não te regoziges depressa demais. Estou inquieto, muito inquieto. O bispo, o prefeito e o general reúnem-se frequentemente depois do fracasso da expedição de Núbia, já não têm se não um osso para roer: Filae.

- Decisões concretas?

- Ignoro.

- Esboçam talvez outros projectos.

- Esperemo-lo! Existe um decreto bizarro que incide sobre medidas sanitárias.

- Uma epidemia?

- A parte a fome, nenhum sintoma. Uma invenção do prefeito, sem dúvida, para justificar a morte de um dos seus soldados; esse Maximino é velhaco e venenoso.

- A visita do templo impressionou-o.

- Não creio. Como sabes o que vai por dentro daquela personagem? Sacrifica tudo à sua carreira. Elefantina não será mais do que uma curta etapa; destruir Filae vale-lhe uma promoção, não hesitará. Repito-te, tenho medo. O meu instinto de soldado raramente me enganou: que a tua comunidade esteja pronta para fugir.

Isis acordou Sabni a meio da noite.

- O meu pai está a morrer.

O superior dirigiu-se à pressa à morada do deão, uma pequena casa branca, de dois andares, construída à direita do embarcadouro, em frente do templo. O velhote estava estendido na cama estreita, com os braços ao longo do corpo. O rosto não exprimia nenhum sofrimento, mas o olhar, gasto e lasso, implorava o repouso dos paraísos onde, em canais bordados de flores e de árvores, vogavam as almas dos bem-aventurados.

A mão direita do moribundo segurou o pulso de Sabni. Os lábios tremeram-lhe; tentava falar. Isis ajudou o pai a erguer-se.

- Procurai a sabedoria, meus filhos, procurai-a até à exaustão das vossas forças, até que a morte vos apareça com o sorriso da deusa do Ocidente, que nos levará ao paraíso dos nossos antepasssados. Antes que o receio se espalhe pelo coração dos ceifeiros e dos lavradores. Não choreis mais por mim mas pelo nosso Egipto, de onde se retira a luz divina. Rá deverá recomeçar a criação. O disco solar vela-se, cobrem-no espessas nuvens, os homens são cegos e surdos. Breve se esvaziará o rio, o seu curso será entravado e o limo fértil não chegará mais às duas margens. Países e pássaros morrerão, outros invasores imporão a sua lei e desprezarão os nossos templos. Por toda a parte haverá tumulto. Por toda a parte haverá sangue para se obter pão, risos dolorosos, ventres esfomeados, filhos adversários dos pais, irmãos que se entrematam, o mal no lugar do bem. Gatunos dirigirão o estado, falsearão a Balança. O nosso país estará tão doente que o fraco se tornará poderoso para oprimir os mais fracos. A cidade do Sol, Heliopólis, onde nasceram as divindades, será enterrada sob o ódio e a estupidez. Era tão nobre, a nossa terra, semelhante à Estrela de Alva, doce como o orvalho do céu, terna como o perfume do dia de Ano Novo. Contruía altares para as festas, casava-se com o rio nutriente, as moitas de papiro, os lírios azuis e brancos. Lembras-te Isis? Naveguei até à ilha onde me esperava a tua mãe com os cabelos perfumados, sob uma persea. A sua tez brilhava, os seus olhos falavam de amor. A minha mão ficará na tua mão, prometeu ela, a tua felicidade será a minha única preocupação. Posso ir ter com ela, uma vez que tu também, minha filha, sabes o caminho.

- Fica - suplicou Isis. - Precisamos tanto de ti.

- A morte está hoje na minha frente como uma cura. Tirar-me-á esta velhice que eu já não suporto. O meu corpo desaparece mas o meu espírito não vos abandonará. Prossigam... prossigam a obra de Imhotep.

O nome do grande sábio foi o último pronunciado pelo deão.

A sua boca permaneceu entreaberta, os olhos ficaram fixos.

Isis apertou a cabeça do defunto contra o seio; Sabni deu-lhe o beijo de paz.

- Agora - disse a superiora - estamos sós.

Depois de ter anunciado à comunidade a viagem do deão, feliz aventureiro dos caminhos de além, ordenou ao irmão mumificador que praticasse o seu ofício. Isis violava a lei; o bispo tinha proibido formalmente essa antiga prática. Quando se dava uma morte, o primeiro passo consistia em mandar riscar o nome do morto da lista dos contribuintes, o segundo em pagar o local da sepultura no cemitério local. O irmão assassinado, por ocasião da trágica procissão, tinha sido inumado numa vala comum reservada aos indigentes, o deão merecia outra sorte.

Os adeptos banharam-se nos tanques de purificação e esfregaram-se com óleos. Os irmãos não se barbearam. Com uma faca de sílex, o mumificador abriu o lado esquerdo do cadáver colocado num leito de pedra, tirou-lhe as vísceras, depois conseguiu extrair-lhe o cérebro pela narina esquerda, usando um gancho de metal. Depois de ter lavado o abdómen, com vinho de palma, mergulhou o corpo em natrão, que desidrataria as carnes.

Esse sal divino transformava o despojo, lavado e seco, em corpo de Osíris.

Isis pôs em volta do pescoço do pai, um pilar djeb de ouro, símbolo da esterilidade do deus ressuscitado no fim das provas, e um abutre de pedras preciosas, evocador da mãe celeste.

Cobriu de ouro fino o rosto, repousado, as mãos e os pés.

A cabeça foi enfeitada com uma coroa de flores. Sabni ungiu a múmia de aromas e enrolou-a em duas tiras untadas de resina e de betume. No lugar do coração, pôs um escaravelho, imagem das metamorfoses incessantes. Um véu formou a mortalha; o sarcófago não seria a barca chamada a vogar eternamente no céu? Sobre a cartonagem foram inscritos o nome do defunto, os seus títulos e fórmulas extraídas dos Textos das Pirâmides, o mais antigo livro sagrado. Remontando aos alvores da civilização, tinham sido revelados, há perto de quatro milenários, na pirâmide do rei Unas. Transmitido de Casa de Vida em Casa de Vida, de escriba em escriba, permaneciam a fonte inesgotável do ensino, dispensado aos adeptos, e proporcionavam ao viajante do outro mundo o nome das portas a passar.

A múmia foi transportada para o telhado do templo onde imperava uma capela ornada com cenas que representavam a ressurreição de Osíris. A alma do deão saboreou o seu último Sol terrestre antes de se imergir na energia do oceano original.

Depois de se ter recolhido junto do sarcófago, a comunidade desceu a escada que ligava o telhado à sala das colunas pintadas.

- Não cesses de beber nem de comer - salmodiou a ritualista - continua a viver dias felizes, une-te à deusa, segue o caminho do teu coração. Nada será reprovado ao justo que percorreu o atalho divino. O Ocidente, onde repousas, é uma terra de paz; o calado descobre lá a fonte.

Esquecerás o inútil e o passageiro, lembrar-te-ás do teu nome e tomarás parte no banquete dos deuses.

O sarcófago foi enterrado sob o lajeamento, em frente do primeiro pilar. Pedras pesadas esconderiam para sempre a sepultura do deão. As suas exéquias, dignas da sua classe, permitiam-lhe apresentar-se em majestade na assembleia luminosa dos adeptos ressuscitados.

Quando as lajes foram recolocadas, Isis foi-se abaixo. Conteve, porém, as lágrimas, renunciou a arranhar a pedra com as unhas e a soltar os gritos de desespero das carpideiras, que subiam até às nuvens e atraíam a compaixão dos deuses.

Seres como o deão eram insubstituíveis. Não se habituaria à ausência de um pai que lhe tinha ensinado tudo; das brincadeiras de criança ao mais abstracto ensinamento, devia-lhe pequenas e grandes alegrias. Ultrapassando o desgosto infligido pelo desaparecimento da esposa, três anos depois do nascimento de Isis, tinha conduzido a filha para os mistérios sem lhe impor outra disciplina além do respeito da Regra do templo.

A superiora não tinha, nem o direito, nem o vagar de se deter sobre a sua dor; a comunidade exigia a sua presença tranquilizadora. Ahourê teria gostado de a reconfortar mas ficou de boca fechada, tão insignificantes seriam as suas palavras. Naqueles instantes, Isis parecia-lhe longe das irmãs; a sua alma vogava numa das regiões secretas que o Sol nocturno percorria em busca do seu renascimento. A superiora errou no templo onde seu pai dizia que tinha vindo à existência quando a Terra jazia ainda na obscuridade, antes de alguma criatura, planta, pedra ou animal não fosse manifestada. Entrou nas oficinas, na padaria, no matadouro, explorou os órgãos do grande corpo de pedra onde, nos tempos felizes, um pessoal numeroso preparava os pratos para a mesa do deus, e depois se alimentava com as oferendas sacralizadas e os pensamentos do Criador. Andou ao longo do muro do santuário onde a deusa dava o seio ao seu filho Hórus, que o leite das estrelas tornava luminoso como a claridade da origem.

A superiora parou em frente da grande estela de granito, elevada junto da muralha oriental do segundo pilar. O pai tinha-lhe ensinado o texto da submissão da região do Dodecacheno, compreendendo uma parte da Núbia. Proprietário de terras vastas e ricas, o templo de Filae rendia homenagem ao faraó, em toda a parte presente nas paredes. Imutável, grandioso, indiferente ao tempo profano, com a cabeça no céu e os pés na terra, via um outro mundo cuja energia era o sangue da última comunidade do Egipto. Guiava-a no invisível, nas estradas incertas do sofrimento, através das loucuras da sua época; esquecia que, sem a presença de um santuário na cabeça e no coração da cidade, a barbárie condenava os homens a rojar-se na sua própria imundície.

O deão recusava-se a submeter-se aos invasores que reduziam o corpo e o espírito à escravidão; com a tenacidade dos velhos chefes, cuja matilha de caçadores decuplava as forças, continuava, para além da morte, a preservar a área sagrada. A sua múmia tornava-se a entrada do templo.

Isis avançou no pátio.

De súbito, avistou uma silhueta desconhecida.

Avançava em sua direcção um jovem de uns quinze anos, nu e molhado. Esgotado, vacilava. Ela aproximou-se.

- Quem és tu?

- O meu nome é Cresto. Nadei até aqui. Quero ser iniciado nos mistérios.

 

- Donde vens?

- De Elefantina. O meu pai obrigava-me a alistar-me. Fugi.

Não me tomarei soldado mas padre de Isis.

Enfezado, quase débil, o rapaz tinha ultrapassado os seus recursos físicos. Incapaz de continuar de pé por mais tempo, caiu sobre os joelhos; Isis chamou por ajuda. Sabni acorreu em companhia de alguns irmãos que vestiram Cresto com uma tanga e lhe deram pão.

- Eu nado mal - confessou ele - mas preferia morrer afogado a ser fechado numa caserna. É aqui que eu quero viver.

- Não temos o direito de te acolher.

- Foi a alma do meu pai que guiou este postulante - declarou Isis. - Queres verdadeiramente conhecer os mistérios?

O rosto de Cresto iluminou-se.

- Sonho todas as noites com o templo. Fiz mil perguntas, recusaram-se a responder-me, tentaram desencorajar-me. Uns pretendiam que Filae é o antro dos demónios, os outros um covil de mágicos. Temem-nos e odeiam-nos. Foi um pastor que me reconfortou na minha intuição; além, afirmou ele, designando a ilha santa, corre a última fonte de sabedoria. No dia em que ela estiver seca o mundo afundar-se-á nas trevas.

Sabni tinha seguido o mesmo caminho, dado os mesmos passos, pronunciado as mesmas palavras. Só um fogo interior, violento e imperioso, abria as portas da comunidade. Mas Cresto era um fora-de-lei; a sua presença em Filae arrastaria uma intervenção da Polícia.

- Eu sou favorável à sua admissão - opinou Isis, que o rapaz devorava com os olhos.

Se o superior emitisse uma opinião negativa, o requerente seria rejeitado sem apelo. Nem Sabni nem Isis podiam tomar uma decisão sem o consentimento do seu homólogo.

Sabni renunciou a apresentar argumentos razoáveis que Isis conhecia tão bem como ele e preferiu retirar-se, abandonando Cresto à sua esperança. Como Isis não se mexia, este último imitou-a. Era, sem dúvida, a primeira prova; achava-se capaz de uma paciência infinita, dado que tinha atingido a sua finalidade.

Quando o superior voltou, portador de um recepiente cheio de água, Isis sentiu uma daquelas felicidades tão intensas que o seu eco perduraria para além da morte. Celebrando o rito de acolhimento, Sabni lavou os pés do neófito.

- A ritualista prepara-te uma cama. Na tua cela, a luz brilhará toda a noite. Oferecerás uma libação aos deuses porque lhes deves a vida. Amanhã, ao romper da alva, confirmarás o teu compromisso; se renunciares, partirás imediatamente.

A noite foi cúmplice de Cresto. Isolado no coração do templo, livre de qualquer amarra profana, dialogou com a chama do candeeiro. O seu espírito dançou com ela, desposou os segredos que lhe transmitiam aqueles lugares de eternidade; abolido o templo, a alma em festa, o coração saltando como um cabrito...

Quantas felicidades num instante que não se dissolvia mais, mas se travava na consciência, como um Sol imutável, vencedor das miríades das trevas. Noite cúmplice em que não surgiam demónios com cabeça de burro, armados de facas, mas sombras tranquilizadoras, mais próximas do adolescente do que de parentes e amigos, Cresto tinha encontrado a sua verdadeira morada.

Aquelas paredes austeras eram suas confidentes, aquele silêncio, cheio da voz dos sábios, tranportava-o num sonho tão real como as pedras de Filae.

Como seria bela a madrugada da sua iniciação!

- Desejas pertencer à nossa comunidade? - perguntou Sabni.

- Se me orientas no caminho da vida, dou-te a minha vida.

- Volta o teu rosto para o céu. Não penetres num templo em estado de impureza, não sejas mentiroso nem ávido. Respeita a Regra sem desfalecer. Não reveles o que tiveres apercebido no mistério, não concebas no teu coração um pensamento destruidor. Renuncia à tua vontade própria para cumprir a do Princípio. Sê obediente porque essa virtude te libertará de ti mesmo. A comunidade te protegerá e te abrirá as portas do santuário se te mostrares digno das tarefas que te são confiadas. Purificar-te-ás três vezes por dia, com água, alimentar-te-ás com moderação, velarás pela integridade do templo, nosso bem mais precioso. Comprometes-te a respeitar esses deveres?

- Comprometo-me com todo o meu ser.

- Recebe o abraço que faz de ti um irmão.

Sabni e Cresto congratularam-se. Isis beijou o rapaz cuja face ficou molhada pelas lágrimas da superiora. Como era doce e quente, aquele líquido feliz que saudava o nascimento de um adepto. O deão transformava a sua morte num milagre.

- A partir de agora mostra-te corajoso.

- Nunca me acusarão de cobardia.

- Como todos os irmãos, tens de ser circuncizado.

O rapaz levantou o queixo. O irmão cortador untou-lhe o sexo com um unguento de virtudes anestésicas mas, quando a faca cortou o prepúcio, o nosso adepto não pôde evitar um grito.

O nascimento de um irmão foi festejado com um banquete, infelizmente frugal, em que, contudo, figuraram jarros de vinho saído das reservas quase esgotadas do templo. Todos juraram segredo. Nenhum profano devia ser informado da presença de Cresto em Filae. Isis pensava no nome dele: não era análogo ao de Cristo, o deus da religião cristã, desejoso de destruir o templo? Estranho sinal, na verdade.

Quando terminaram os regozijos, o encarregado da vigilância do embarcadouro, avisou Sabni que uma barca se aproximava.

A bordo, dois soldados. O superior reconheceu-os: pertenciam ao esquadrão que o vinha acompanhar até ao templo de Khnum.

- O bispo quer falar-te. Nós levamos-te.

- Teodoro... é mesmo ele?

O prelado tinha previsto aquela pergunta. Um dos infantes brandiu a cruz peitoral do mestre de Elefantina. Tranquilizado, Sabni entrou na barca.

Uma nova angústia logo o comprimiu: a fuga de Cresto seria conhecida? Nem uma palavra foi trocada até ao cais deserto, onde o bispo o esperava. Arrastou Sabni para um palmar, lugar de meditação e de passeio, à sombra das grandes palmeiras que dispensavam calma e frescura.

- Tenho más notícias.

- Para ti ou para mim.

- Não ironizes, Sabni. Quaisquer que sejam as reclamações do templo, não sou responsável.

Que argumento oporia o superior? Iniciando um fugitivo que qualificariam sem dúvida de desertor, Filae cometeria uma pesada falta.

- O imperador exige a totalidade da colheita de papiro - revelou Teodoro. - Minimizarei as quantidades obtidas, mas sou constrangido a suprimir o lote de pés destinado ao templo.

Ao alívio sucedeu a indignação.

- Sabes que temos necessidade de papiro como suporte de escrita, para fabricar esteiras, cestos, cabos, sandálias, etc...

- Não o ignoro, mas o decreto é assinado pela própria mão do imperador; o prefeito ocupa-se já da organização do transporte.

- Teremos ao menos acesso à floresta, ao norte da cidade?

- Doravante, é zona militar. Soldados tomaram posição e proíbem-na aos civis.

- Privarem-nos de papiro... quem teria criado uma tal crueldade?

- Um cristão não teme qualquer sofrimento; Cristo sofreu por nós, Osíris não.

- O reino virá brevemente. A raça divina saída do peixe celeste penetrará nele; ele fortifica o seu coração porque o Senhor das palavras, doces como o mel, alimenta-a. Tu és meu amigo: converte-te e serás meu irmão. Que te importa o papiro? Deus está mais perto de ti do que tu imaginas.

- Se é assim, não é Deus. O poder criador não saberá estar próximo do homem; ele não passa de uma expressão sempre distante, muitas vezes prevertida. Só a Regra do templo pode rectificá-la. Lembra-te das palavras dos nossos pais: madeira torcida, abandonada no campo, seca e acaba a sua pobre existência no fogo. Se a mão do artesão, guiada por Deus, pensa emapanhá-la, levanta-a e faz com ela um ceptro que o sábio manejará.

- Só uma fé confiante te orientará para a verdade.

Um raio de Sol enfiou-se entre as palmas e iluminou os dois homens.

- Concede-nos alguns pés, Teodoro. Utilizá-los-emos para fabricar os nossos últimos rolos e inscrever neles os nossos rituais mais importantes.

O bispo hesitou; Sabni não suplicaria mais.

- Vai ao entreposto e enche o teu barco. O que tu levares pertencer-te-á.

 

Depois de uma apertada inspecção da sua corporação de elite, o general Narsès montou a cavalo e galopou até à catarata.

Parava todas as noites à altura do mesmo bloco de granito, junto do qual bramiam os remoinhos; sentado no planalto, por vezes molhado por uma vaga, contemplava o rio divino de que dependia a prosperidade do Egipto. Era ali, confrontado com a barragem mineral, que ele afirmava a sua força inesgotável. Indomável, arrastava, à sua vontade, a lama dos limos. Porque se mostrava ele, nesse ano, tão ávaro? A resposta não pertencia senão ao céu, ali onde nascia a torrente antes de escavar o seu sulco largo na terra amada pelos deuses. Narsès tomava gosto pela dúvida.

Não suportava mais saber, prever, organizar; como era bom aceitar as incertezas do Nilo e render-se a ele sem combater! Amanhã, sem dúvida, seria preciso meter-se por estradas perigosas e guerrear na Núbia. Graças àquela cheia má, o grande Sul tornava-se inacessível. O destino concedia-lhe um presente inestimável; só aproveitaria se a situação se fixasse. Que o bispo e o prefeito se neutralizassem, a sua felicidade seria favorecida.

O seu pedido de substituição, apoiado por Maximino, vogava em direcção a Bizâncio. Não esperam nada no seu êxito.

O imperador acreditaria num golpe de azar, exigiria de novo o ouro da Núbia, depois nomearia o general, chefe de um corpo expedicionário de uma partida para a Ásia. Pela primeira vez, na sua existência, Narsès rezou de todo o coração, implorou a catarata que formasse uma muralha inexpugnável para sempre.

O homem, bem vestido e tartamudeando, apresentou-se no posto de Polícia em estado de embriaguez. Gritava e gesticulava. O graduado pô-lo fora mas ele voltou ao assalto, decidido a apresentar queixa. Os seus propósitos, confusos, apelavam para o prefeito e o imperador. Um dos milicianos reconheceu-o: o forcado era o patrão da guilda dos mercadores de figos.

Ele sozinho podia bloquear as entregas de frutos. Estimando-se incompetente, o graduado conduziu o homem à caserna, onde foi recebido pelo especialista dos casos espinhosos, o capitão Mersis.

- Chamo-me Apollo.

- Estás embriagado.

- Tenho as minhas razões, capitão.

- Contra quem queres apresentar queixa?

- Contra Filae.

Sem dúvida um cristão exaltado. Mersis não se assustou.

- Filae não existe.

- Que estás a dizer?

- Os templos estão fechados há muito tempo.

- Esse não.

- Legalmente estão. Trata-se de um edifício inutilizado.

- E a comunidade que lá vive?

- Desconhecida dos novos registos.

- Contudo, paga impostos!

- A fiscalização não entra nas minhas atribuições.

- Estás a brincar.

- Conformo-me com a realidade administrativa.

Apollo teve um sorriso mau.

- Quando um camponês abandona o seu campo e foge... isso é delito?

- Decerto, passível de prisão.

- E mesmo de trabalhos forçados?

- Em certos casos.

- Um dos meus empregados tornou-se culpado. Deveis prendê-lo.

- O nome dele?

- Cresto, meu filho.

- Teu filho?

- Isso é comigo. Trocou a casa pelo templo; foram os adeptos de Isis que o recolheram. Apresento queixa contra eles. Quero que me devolvam Cresto e que os condenem a todos.

- Primeiro é preciso preencher um formulário.

- Tenho tempo.

- Sabes ler e escrever?

- Apenas contar.

Se Apollo falasse verdade, Filae tinha comprometido a sua própria existência. Mersis devia encontrar uma solução imediatamente.

- Quando enviarás os soldados para a ilha?

- Existe um processo. Outros queixosos?

- Não, só eu. Não chega?

- A quem falaste dessa fuga?

- A ninguém. Tinha muita vergonha. Preferi beber; agora vingo-me!

- Tens a prova que o teu filho está escondido na ilha?

- Tenho a certeza. Recusava ser soldado. Desde criança que desejava entrar para o templo.

- Logo não há prova concreta.

- Busquem-no na ilha.

- A que título está Cresto empregado no teu domínio?

Apollo corou.

- A que título... Não compreendo.

Mersis tirou uma tabuinha de uma prateleira. Gravou nela um texto curto em caracteres gregos.

- O teu filho possui um estatuto de escravo?

O mercador de figos exaltou-se.

- É meu filho. Pára de injuriar a minha família.

- Se é trabalhador livre, porque não figura ele na lista das pessoas sujeitas a imposto?

- Capitão... é apenas uma criança...

- Mas digna dos trabalhos forçados. A idade pouco importa; competia-te a ti declará-lo ao fisco.

- Esse domínio não é da vossa competência, lembrem-se...

- Transmitirei a informação ao responsável. Basta-me acrescentar o teu nome nesta tabuinha.

- Corro o risco...

- De prisão perpétua.

- Se nos entendêssemos?

- Porque não?

- Que desejas?

Mersis fez cara de reflectir.

- Abandonas a tua queixa, esqueces Cresto e, principalmente, entregas-me algumas moedas de prata. O Exército está pobre.

Apollo esvaziou a bolsa presa ao cinto.

- Isto bastará?

Mersis baixou-se e contou.

- Se me trouxesses duas ou três moedas suplementares, tornar-nos-íamos excelentes amigos. Esqueceria que tens um filho.

O mercador resmungou. O capitão partiu a tabuinha. Entregaria o mais depressa possível aquele pequeno tesouro a Filae, cujos recursos financeiros não paravam de decrescer.

O melhor ourives de Elefantina acabava uma pulseira cinzelada. Assim que o prefeito Maximino entrou na sua oficina, sentiu-se ao mesmo tempo lisonjeado e inquieto. Que desejava o poderoso personagem? Em caso de requisição, uma patrulha tê-lo-ia acompanhado.

O artesão inclinou-se.

- Sou vosso humilde servo, senhor.

- As tuas jóias, segundo nos dizem, são incomparáveis.

- Gabam-nas...

- Mostra-me as tuas obras-primas.

Nervoso, o artesão procurou um cofre de madeira. Sobre um pano branco, exibiu um colar e várias pulseiras, de pulso e de tornozelo.

- Admirável - apreciou o prefeito.

 

Cresto progredia rapidamente. De manhã, trabalhava a madeira e a pedra em companhia de Sabni. Depois da refeição do meio-dia, Isis iniciava-o na leitura dos hieróglifos e dava-lhe lições de escrita; guiava-lhe a mão, ensinava-o a desenhar com um traço, e sem tremer, a asa dos pássaros, a perna humana ou o papiro selado. Depois, o novo adepto escutava as lições do fabricante de unguentos antes de dar atenção às da ritualista.

A sua sede de conhecimentos parecia inextinguível e o cansaço não tinha qualquer influência nele. A saída da refeição da noite, subia ao telhado do templo onde Isis lhe explicava como decifrar a mensagem das estrelas.

Naquela noite, a superiora não conseguiu esconder a sua lassidão. Cresto, consciente de que a importunava, fez menos perguntas. Ao lado de Isis, saboreou o silêncio da noite, que protegia o santuário, mas não conteve a língua por mais tempo.

- Estou feliz, Isis.

- O templo é a alegria do coração. Não há nada mais vasto.

- Pareces cansada.

- Estás a ser indiscreto.

- A tua força é a nossa. Se enfraqueces, que será de nós?

- O futuro da comunidade não depende de um só ser.

- Hoje, sim. Não estou aqui há muito tempo, mas apercebi-me dessa verdade. Se Sabni e tu desaparecêsseis, sossobrávamos.

- Opinião bem peremptória, neófito.

- Tenho olhos para ver e recuso a hipocrisia.

- E se retomássemos o estudo das estrelas? Escuta a voz dos antepassados que se transmite pela luz. Que os nossos projectos sejam tão generosos como os seus; a sua verdade permanece o mais fabuloso dos tesouros, dado que conduz os nossos pensamentos ao conhecimento.

Os irmãos padeiro e marceneiro pediram audiência ao superior. Sabni recebeu-os na morada do deão, sua a partir de agora.

Os dois homens, de uns sessenta anos de idade, contestavam por vezes as decisões da superiora sem proclamar o seu desacordo.

Quando eles efectuavam uma diligência juntos, tinham-nas amadurecido longamente. Sabni não usou de qualquer fórmula de delicadeza.

- Falai.

- Fala tu - disse o padeiro ao marceneiro.

- É um pouco delicado... Se nos ajudássemos?

- Somos irmãos. Nada seria capaz de nos fazer zangar.

Os dois pedinchões eram parecidos. Rosto arredondado, olhos malandros, lábios espessos, duplo queixo, busto largo, pernas gorduchas.

- É verdade - disse o padeiro. - Por vezes, é difícil...

O olhar severo de Sabni intimidava-o. O marceneiro voou em seu socorro.

- Somos irmãos e devemos dizer tudo um ao outro. Isis cometeu erros graves: a procissão, a visita à gruta... O nosso prestígio está manchado. Como superior, compete-te tomar medidas.

Satisfeito com a sua intervenção, subiu o tom.

- Aceitamos lutar contra o bispo na condição de não corrermos riscos desnecessários. És amigo de Teodoro: livra-nos de Isis, é perigosa. Dois para governar, está um a mais; que ela se ocupe dos rituais.

- Há outros irmãos que compartilham do vosso ponto de vista?

- Somos os mais experientes.

- Isis não recusou a vossa iniciação aos mistérios do templo coberto?

Nem o padeiro nem o marceneiro responderam.

- Tive acesso aos relatórios redigidos pelo deão e pela superiora. Tu, fabricando um assento cambaio, tu, cozinhando um pão segundo uma forma fantasista, julgasteis ser autores de uma obra-prima exigida pela nossa Regra. Os vossos trabalhos eram uma injúria para a comunidade. Quanto ao vosso conhecimento dos hieróglifos, permanece superficial; é a vossa indignidade que pusestes em relevo. Não conteis com a minha indulgência, nada justifica a vossa preguiça. Desempenhai os vossos deveres quotidianos e desembaraçai-vos do fel que estraga o pensamento; caso contrário, não progredireis.

Os dois irmãos olharam-se, embaraçados.

O templo não sofreu a fome. Com as moedas de prata do capitão Mersis, Sabni comprou uma importante quantidade de trigo, que os barcos encaminharam de manhãzinha antes que as patrulhas percorressem as margens.

O ardor contagioso de Cresto revigorou alguns irmãos que, apesar do peso da velhice, começaram a limpeza dos baixos-relevos roídos pelos ventos de areia. Cessando de se dobrar sobre ela mesma, Filae respirou com mais intensidade. As irmãs consertaram instrumentos de música, teceram vestidos brancos, com o pouco de linho que lhes restava, e lavaram as lajes do quarto do nascimento onde, dentro de alguns meses, nasceria um novo adepto. A comunidade saiu de uma letargia que alguns tinham julgado mortal; da madrugada até ao poente, o superior andou de uma capela para um pátio, de uma sala para uma cripta, encorajou, aconselhou, verificou. Logo que um trabalho se acabava, propunha outro, mais exigente.

Isis progrediu no seu estudo do ritual da deusa distante.

O seu labor não seria inútil, dado que Filae breve tentaria vivê-lo. Por várias vezes, censurou-se pela sua distracção, pensou em Sabni, na sua capacidade de vencer. Bastaria ele para transformar uma assembleia votada à decrepitude numa confraria cheia de seiva? A vinda de Cresto, um nascimento próximo... Os sinais multiplicavam-se. Depois de tantos anos marcados com o selo da desesperança, Isis entreviu uma paisagem mais risonha, teve vontade de se abandonar, de confiar as suas dúvidas, e os seus sonhos. Quando o compreenderia Sabni? Cresto decifrou as linhas do ensinamento muito antigo redigido por um faraó por intenção do seu filho: O homem agitado é a confusão de uma comunidade. Introduz a vigilância na tua vida, não te ocupes com a satisfação, porque te tornarás um miserável. A hora do julgamento, o tribunal do além não manifestará qualquer indulgência. Aos seus olhos, a tua vida será como uma hora. Ousa tomar os caminhos mais difíceis; são eles que levam o teu espírito ao conhecimento.

Deus conhece aquele que opera para a sua glória.

Sê construtor. Do teu esforço, nascerá a alegria, da alegria a sabedoria.

O neófito enrolou o pano com cuidado.

- Um homem poderá atingir esse ideal? - perguntou Sabni.

- Os nossos pais conseguiram. Se este templo existe, é porque viveram o céu sobre a terra.

- E tu?

- Eu, sou um jovem superior, tão inexperiente como o noviço a quem me dirijo. A nossa classe é diferente mas a amplitude da nossa tarefa idêntica.

- Passaste aqui muitos anos.

- Possuis o fogo ardente do aprendiz.

- Extinguir-se-á, depois?

- Transforma-se e amplifica-se. Menos violento, mais poderoso; vem o instante da certeza, semelhante a um Sol que nunca mais se pãe. Desejo-to, Cresto. Pertences a este mundo e ao outro; Deus está na luz do templo que formamos com os nossos antepassados e os nossos sucessores. Que a tua inteligência interprete as minhas palavras, e que o teu coração as ponha em prática.

- Tu, Sabni, escutas o teu coração?

- O meu ensinamento desiludiu-te?

- Ultrapassa os meus desejos mais imperiosos.

- Porquê essa tua pergunta?

- Sou muito jovem e não tenho o direito de te falar assim. Mas a comunidade seria mais forte se...

Cresto hesitou. Estava a ir muito longe.

- Que me aconselhas portanto?

- Não negligencies aqueles que te amam mais do que a si próprios.

O novo adepto retomou a sua calma e traçou hieróglifos num pedaço de loiça. Aplicou-se a desenhar um assento com um espaldar alto, símbolo da deusa Isis.

O prefeito desembarcou perto do quiosque de Trajano e o bateleiro reconduziu a vela branca inchada pelo vento. Nenhuma escolta tinha protegido a curta viagem de Maximino; apenas tinha posto pé no solo da ilha santa, esbarrou com Sabni, prevenido pelo vigilante.

- Quero falar com a superiora.

- Está a trabalhar com as irmãs.

- Preveni-a da minha presença.

- Prometei-me, em primeiro lugar, de não dar mais um passo.

Sabni comportava-se como o chefe de uma coorte invencível, que não temia nada de um enviado do imperador. Humilhava Maximino. Ao longo da sua carreira, o prefeito não tinha tolerado a menor observação indelicada em relação à sua função; mas Isis não justificaria o mais doloroso dos sacrifícios?

- Tendes a minha palavra. Despachai-vos.

Sabni dirigiu-se, com um passo lento, para a porta do primeiro pilar. Maximino detestava-o cada vez mais.

O prefeito esperou mais de uma hora sob um Sol ardente, ao qual não prestou atenção. Logo que avistou Isis, cheia de leveza, o templo tornou-se de novo um paraíso.

- Aqui tendes um presente.

Maximino abriu o cofre. As jóias de ouro brilhavam com todo o seu esplendor.

- São magníficas - reconheceu ela - e enfeitarão maravilhosamente as estátuas divinas.

- Eram para vós.

- Antigamente, tê-las-ia usado por ocasião das grandes festas; a superiora devia aparecer como a mais bela das mulheres, sem esquecer que a sua riqueza provinha do templo e voltava para lá.

- Celebraremos novas festas. Estas jóias vo-las anunciam, se aceitardes ser minha mulher.

Admirado com a sua própria audácia, Maximino não ousou mais olhar para Isis. Ele temia uma recusa peremptória; a voz da superiora permaneceu doce e calma.

- A nossa Regra proíbe-nos um casamento profano.

- Costume antiquado. Quando fores minha esposa, Filae renascerá.

O prefeito arrependeu-se imediatamente daquelas palavras ameaçadoras. Não implicavam elas uma chantagem que a desviava dele?

- Vós estais ligada à ilha santa, Isis, eu estou ligado a vós.

Juntaram-se irmãs e irmãos debaixo da colunata e interrogaram-se sobre a razão daquela segunda visita do prefeito. Ahourê propôs uma intervenção violenta; eram suficientemente numerosos para precipitar os seus inimigos no Nilo. Sabni impôs-lhe silêncio; vexada, a ritualista retirou-se para a sua cela.

- Olhai aqueles seres assustados - disse Maximino, designando a comunidade. - Só eu lhes posso tirar a angústia.

- Por amor de Isis, para vos conquistar, assegurarei a perenidade do templo.

O rosto da superiora permanecia indecifrável. Travaria ela um combate contra si própria? Ela não ter afastado a proposta com veemência tranquilizou o prefeito; tinha certamente aberto uma brecha decisiva.

- Voltarei, Isis. Sobretudo, não deveis trair-me.

 

Os documentos conservados em Filae não precisavam o nome dos sábios a invocar para tornar eficaz o ritual do regresso da deusa distante. Isis julgava saber onde descobri-los; numa das tumbas da margem ocidental, escavadas durante o Antigo Império a fim de honrar a memória dos corredores de pistas inexploradas do grande Sul. Abandonado havia muito tempo, o lugar tinha-se tornado a presa dos espíritos errantes. Lá ir representava correr riscos que a superiora não tinha o direito de correr; Sabni, contudo, não conseguiu aconselhá-la. O futuro de Filae não dependia da celebração daquele ritual que insuflaria ao ser comunitário uma indispensável energia? Vencido, Sabni recusou-se a deixá-la agir só. Avisaram a velha tecela de que, na sua ausência, velaria, para que irmãos e irmãs se ocupassem das suas tarefas habituais.

Partiram no momento em que o cimo dos montes se tingia de cor-de-rosa. Sabni manobrou uma barca leve que o vento fresco da manhãzinha fez vogar sobre a água prateada. Como todos os filhos da província, o superior tinha aprendido muito novo a navegar; tinha-se frequentemente divertido a saltar de uma embarcação para a outra quando, no máximo da sua velocidade, se entregavam a corridas loucas. Utilizar as correntes exigia uma longa prática; Sabni progrediu com prudência, contornou a ilha de Elefantina, passou em frente das muralhas de granito que protegiam os fortins espaçados e orientou a proa para o lado ocidental da montanha. Depois de ter dissimulado a barca por entre as canas, e de ter aberto um caminho no meio da confusão vegetal, o par chegou à parte de baixo dos compridos escorregadores em declive, que tinham servido para içar os sarcófagos em direcção à entrada das tumbas.

Sabni tinha levado uma maqueta de barca, em forma de antílope, para oferecer ao deus dos mortos, o único habitante dessas solidões silenciosas. A subida foi longa e penosa; a areia escorregava, cada passo reclamava um esforço. Chegados a uma plataforma rochosa, Sabni agarrou Isis pela mão. O seu gesto, demasiado brusco, atraiu-a a ele; corpo contra corpo, ficaram alguns instantes como que enlaçados. Ela apercebeu-se da sua perturbação e afastou-se brandamente.

Sentaram-se e recuperaram a respiração. A seus pés corria o rio divino; banhava numerosas ilhas antes de se dirigir, majestoso, para Filae e de se lançar sobre as rochas da catarata. O céu imóvel enchia o olhar de um azul-ardente; as velas brancas sulcavam o rio, uma embarcação carregada de camponeses e de animais deixava a margem de leste. Um casal de falcões-peregrinos levantou voo em direcção à nascente.

- A nossa vida deveria parecer-se com aquele rio, Sabni, eternamente semelhante a ele mesmo e constantemente renovado.

- Somos imperfeitos e doentes.

- Servimos uma deusa.

Isis, a mãe de Deus, o ornamento do céu, o desejo dos campos verdes, o alimento inundando o mundo com a sua beleza, o perfume do templo, a dona da alegria, a chuva que torna verde o campo, a doce de amor... Tinha iniciado Sabni na sua função, levando-o para além dele mesmo. Não se encarnava Isis naquela mulher de cabeleira negra, mais brilhante do que o esplendor da noite, mais terna do que as uvas maduras, com os dentes mais brancos do que o leite das estrelas, com o rosto mais açucarado do que os frutos do pomar e mais frescos do que a água do poço, com as pernas mais finas do que as patas das gazelas?

- Procuremos a tumba.

Seguindo um atalho no cimo da falésia, penetraram em caves abandonadas. Por vezes, era a desolação; capelas incendiadas e enegrecidas pelo fumo, estátuas decapitadas ou partidas, baixos-relevos arrancados ou branqueados com cal. Mas algumas moradas de eternidade tinham escapado ao furor iconoclasta dos cristãos. Nas paredes, desenrolavam-se cenas de caça e de pesca, banquetes, combates e jogos em cores intactas. A vida alegre dos tempos antigos recordava que os conquistadores de terras inexploradas tinham voltado a Elefantina para saborear uma velhice feliz. Do alto dos seus túmulos, contemplam longamente a paisagem serena onde tinha terminado a sua errância. O ouro de Núbia, ofereciam-no aos deuses; e os deuses davam-lhes glória e fortuna. Do interior da montanha de Ocidente, cantava-se um dos hinos gravados numa parede, as pedras preciosas rolam em vagas, escondem-se nas moitas de papiro e reaparecem sobre os batentes da porta do templo.

A coragem e a vontade de vencer: eis o que Sabni descobria nas inscrições em que os conquistadores do grande Sul narravam as suas proezas. Numa estela, relegada para um recanto escuro, Isis divisou o fino rosto da deusa da catarata, de coroa de caniços.

Lendo o texto, fez reviver as palavras da cheia: «Faço subir para ti o fluxo da tua vida, as flores crescerão, as colheitas serão douradas, as terras rejubilarão e o coração dos homens será dilatado pela felicidade.» Isis sentiu-se levada por um outro fluxo que a arrastaria para Sabni. Ainda resistiu; era preciso pensar no sepulcro onde estavam inscritos os nomes divinos, últimas palavras do ritual.

Ao fundo de um pátio com colunas abria-se uma entrada rectangular; Sabni passou primeiro. Até ali, nenhum mau encontro tinha entravado a sua busca. O superior mantinha-se, contudo, desconfiado. Alguns anacoretas eram bastante exaltados para atacarem os visitantes daquelas tumbas, que eles consideravam como as bocas do inferno.

Recuou, assustado. Isis veio para junto dele, agarrou-se ao seu braço. Agarrados um ao outro, tiveram a sensação de entrar no caminho estreito conduzido ao reino do além; de um lado e de outro, estátuas brancas, de rosto verde ou preto e de olhos fixos, contemplavam-nos sorrindo. O par avançava, unido, entre aqueles antepassados imortalizados na alegria da ressurreição.

Três degraus subiam para uma capela ornada de uma cena de banquete, onde inesgotáveis iguarias guarneciam a mesa do ser reconhecido como justo pelo tribunal do outro mundo. Colunas de hieróglifos evocavam a comunhão dos fiéis de Isis no momento em que a deusa, depois do seu exílio nas profundezas da Núbia, voltava para Filae.

- A resposta está aqui, Sabni. Apresenta a nossa oferenda.

O superior pousou no solo a barca em forma de antílope.

- Os protectores desta morada são de Osíris. Um e múltiplo, tal é o seu segredo: mil rostos para um só coração. Ele invocará a deusa distante, não nós. Um deus chamará por uma deusa; ela ouvirá a sua voz e tornará à sua morada.

Tomaram lugar nas banquetas de pedra, convivas de um festim imóvel de sabores imateriais. Isis tinha atingido o termo da sua busca; Sabni podia enfim fazer a obcecante pergunta.

- Que queria o prefeito?

- Que fosse sua mulher. Em troca, protegeria Filae e satisfaria os meus desejos. O futuro do templo estaria assegurado; não deveria eu aceitar?

Sabni levantou-se e tomou-a nos braços com ardor.

- A Regra proíbe-to.

- Proclama que o nosso principal dever é salvaguardar a comunidade.

- Amo-te, Isis. Amo-te com todo o meu ser. É a nossa união, e só ela, que preservará o templo do aniquilamento.

Baixou as alças brancas sobre os ombros dourados.

- Não temos o direito de ter filhos.

- Não me importo. És tu, e só tu, que eu desejo.

O vestido branco escorregou ao longo do corpo de Isis, mostrando os seus seios nobres, o seu sexo de azeviche, as suas pernas longas. Tirou a túnica a Sabni; ele acariciou-lhe os rins e beijou-lhe o pescoço. Quando juntaram os lábios, ele inclinou-a ternamente para trás. A seiva que corria no corpo de Isis tinha o ardor de um jovem apaixonado e a suavidade do mel.

Estendeu-se no solo de pedra, entre as ordens de Osíris, e ele desposou o seu desejo. No silêncio feliz da morada da eternidade, onde o casal ressuscitado continuava a banquetear-se e os mortos comungavam com os vivos, descobriram a luz dourada de um amor fulgurante, tal como a chama brotada na alva do mundo, no coração do Oriente.

 

A noite caía. Isis e Sabni continuavam embriagados pelo êxtase na tumba dos antepassados. Se bem que não estivessem saciados dos seus corpos, pensaram em Filae. Só o futuro do templo contava. A sua vida de adeptos ignorava a ambição pessoal; tinham aprendido a combatê-la, a renunciar-lhe, a livrarem-se dela. A paixão não varria aqueles anos de ascese mas exaltava a sua viagem, agora apaixonados e partilhados, na carne como no espírito, em direcção ao invisível.

Sabni foi o primeiro a sair do túmulo. A Lua brilhava.

As estrelas, portas de luz, atravessavam a noite. O superior respirou o ar calmo, confiou o seu entusiasmo ao universo que as deusas teciam e que o obreiro Khnum moldava por sua vez.

Mal ultrapassou a porta uma violenta paulada dobrou-o em dois. O assaltante, um monge de cabelos compridos, gritou de alegria. Bateu segunda vez. Sabni atirou-se de lado, agarrou a extremidade do cacete e desarmou o seu adversário. O cristão, a despeito do seu ódio, não estava à sua altura; interrompeu o combate e fugiu.

Isis aproximou-se de Sabni.

- Estás ferido?

- Voltemos.

Do barco, contemplaram a falésia de Ocidente sepultada numa escuridão azulada. A entrada da sepultura tinha desaparecido, confundida nas trevas; apenas subsistia o impulso das encostas em direcção ao cimo, levando consigo o segredo de um amor vivido para além do tempo.

Segundo o seu costume, Sabni tomou Isis nos braços e ultrapassou a entrada da antiga casa do deão. Aos olhos da comunidade reunida, tomavam-se marido e mulher. Sem necessidade de qualquer documento escrito; o seu compromisso adquiria a força da lei.

Se irmãos e irmãs saborearam aquele momento, Cresto sentiu-o com uma particular intensidade: não era ele responsável por aquele casamento, que os adeptos apreciavam como uma nova benfeitoria? Pela sua união, Sabni e Isis proclamavam a liberdade do templo no coração de um mundo hostil.

- Tomemos cuidado com Maximino - recomendou Isis.

- Está apaixonado a esse ponto?

- Se ele soubesse...

- Cada um de nós está submetido ao segredo. Tem confiança.

Ela refugiou-se nos braços dele, abandonada.

Ahourê pôs sombra nos olhos e perfumou-se com incenso.

Por vezes, censurava a si mesma aquela propensão para o coquetismo, mas a Regra não proíbia às irmãs serem belas; que os irmãos se apaixonassem mais ou menos por ela divertia-a, sem a distrair dos seus sábios trabalhos. Não podia ela gabar-se de ter uma excelente memória e um conhecimento dos ritos tão perfeito como o de Isis? Decerto, não invejava a função de superiora, que acarretava mais preocupações do que satisfações, mas sabia que os seus ombros sólidos suportavam uma boa parte do peso da comunidade. Normalmente, Isis tomava decisões que Ahourê considerava judiciosas. Desta vez, descurava o tempo de reflexão, e arrastava os adeptos para um caminho perigoso. Criticar a superiora requeria uma certa coragem, que alguns qualificariam de atrevida; mas a ritualista, persuadida de ser lúcida, não recuou.

No pomar do templo, Isis estudava os antigos rituais de festa; os pássaros brincavam à sua volta. Na ilha, ninguém os afastava com paus. Um dele, de cabeça prateada e peito amarelo, pousou no ombro esquerdo da superiora, procurou alimento nos seus cabelos untados com mirra e esvoaçou na direcção a uma persea onde se aninhavam passarinhos.

- Que desejas, Ahourê?

- Esse casamento não é precipitado?

- Receias que Sabni e eu arrulhemos, esquecendo os nossos deveres sagrados?

- Decerto que não. Mas o prefeito...

- A sua paixão inquieta-me.

- Porquê menosprezá-la?

- Desejarias que me tornasse sua esposa?

- Se esse sacrifício salvasse o templo e a comunidade?

Isis levantou os olhos para o cimo da persea de folhas verde -escuras em forma de coração; fora numa árvore semelhante que o primeiro sábio do Egipto tinha recolhido o ensinamento de um deus do conhecimento.

- Que nos trará a tua união com Sabni, senão a vossa felicidade egoísta?

- Essas censuras surpreendem-se por que não se justificam. Comprando uma paz precária a Maximino, não estaria a trair o espírito da nossa confraria? O Egipto foi sempre governado por um casal da mesma opinião. Sabni e eu tentaremos fazer reviver uma tradição que é prelúdio talvez de outras ressurreições. Tem a certeza, minha querida irmã, que os nossos actos não são inspirados na busca de um prazer passageiro.

Ahourê afastou-se; a sua inveja entristeceu Isis. A superiora teria de velar para que ela não se transformasse em amargura, veneno temível para as almas frágeis.

Sentado no cimo do enorme bloco de granito, como o fazia todas as noites, Narsès admirava a catarata. O Nilo não tardaria em retirar-se; os camponeses colhiam azeitonas e apanhavam tâmaras, enquanto nasciam as sementes de cereais nas terras pouco irrigadas. A quase totalidade do trigo seria reservada a Bizâncio; as pequenas explorações, encarregadas de alimentar Elefantina, só forneceriam espigas fracas.

Quantos morreriam de fome? Ninguém, contudo, acusaria o Nilo. Aquela terra era demasiado bela, demasiado pura para que os sofrimentos humanos justificassem a menor censura... Narsès buscava um turbilhão caridoso que o pregasse ao fundo do rio.

O general tinha arranjado um rolo de papiro consagrado às aventuras de um célebre explorador de Africa, o egípcio Hirkhuf, enterrado na falésia de Ocidente; três milenários depois das suas proezas lendárias, a sua recordação permaneceu viva. Narsès desenrolou-o e mergulhou numa leitura apaixonante. Abrindo caminhos numa região desconhecida, e dirigindo com um pulso bastante firme um corpo expedicionário organizado com cuidado, o herói tinha voltado da longínqua Núbia à cabeça de um cortejo de trezentos burros, carregados de sacos de ouro, de madeiras de ébano, de incenso, de dentes de elefante e de peles de pantera; o presente que o jovem faraó mais apreciara, fora um jovem pigmeu vindo do país dos habitantes do horizonte, e capaz de executar com entusiasmo a dança do deus.

Quantas vezes o explorador tinha deixado a sua morada para se lançar no desconhecido, antes de voltar, muito velho, para morrer na sua cidade? Narsès deitou o papiro no rio. Aquela existência de tumultos e de honras, de conquista e de glória, abominava-a. Da espécie humana, que havia ainda para aprender? O jogo da felicidade e da infelicidade já não o divertia.

Uma estranha aparição atraiu a atenção do general. Para lá das últimas rochas da catarata, um homem de pele negra, empoleirado num animal de pescoço comprido e pelagem sarapintada, tinha-se imobilizado no flanco de uma colina. Ocupava um excelente posto de observação de onde podia pormenorizar as fortificações da fronteira. Quando o Sol declinou o batedor desapareceu.

O bispo e o prefeito ouviram o relato do general.

- Um blemi cavalgando uma girafa - preconizou Teodoro.

- Esse povo desapareceu - objectou Maximino.

- Eu também o julgava. Redigi relatórios nesse sentido.

- Tem a certeza dessa identificação?

- Receio-o.

- É decerto um sobrevivente perdido.

- Os Blemis tinham o costume de enviar um batedor antes de atacar.

- As nossas fortificações são inexpugnáveis. Um exército três vezes mais numeroso do que o nosso correria para a derrota.

- E se nos enganássemos? - Sugeriu o bispo, irritado com a segurança do prefeito. - Muitas batalhas foram perdidas por causa da vaidade de um chefe.

- Pôr-me-ieis em causa?

- Se um ataque se prepara, preservemos Elefantina.

O general Narsès achou bem intervir.

- Estamos a inquietar-nos, certamente sem razão. Os conhecedores estão convencidos que os Blemis são capazes de formar uma tropa de assalto. Contudo, inspeccionarei as nossas fortificações.

Essa decisão reconfortou Teodoro. Nada receava tanto como esses invasores vindos do sul; adversários cruéis do cristianismo, enraiveciam-se por já não terem acesso a Filae, residên>cia do seu deus, Mandulis, de que estavam separados havia vinte anos.

Narsès cumprimentou os seus superiores e saiu. Maximino mirou o bispo.

- Não torneis a proferir censuras contra a minha pessoa.

- Só a minha missão me guia.

- Crer-te-ieis capaz de me abrir os olhos?

- Isis nunca vos desposará.

- Não tem outra escolha.

- Desenganai-vos. Não cederá a qualquer chantagem.

- Sacrificaria ela a sua comunidade?

Aquela pergunta, tinha Teodoro feito a si próprio cem vezes.

- A Regra do templo...

- Palavras! É a própria existência de Filae que está em jogo.

- Impedir-vos-ei de ir muito longe - afirmou o bispo com gravidade. - Esse santuário pagão já não tem existência legal; dando-lhe um brilhantismo insolente, os cristãos erguer-se-ão contra vós.

- Estais consciente do alcance dos vossos propósitos?

- Podeis estar apaixonado, Maximino, mas sem ofender Cristo.

O prefeito conservou a calma. Ausente, dirigiu-se para os arquivos cheios de papiro, e consultou um documento com um olhar distraído.

- Quero saber o que se passa nessa comunidade. Falta-nos lá um espião.

- A lei proíbe a Filae receber um novo adepto. Se nós enviarmos alguém, desconfiarão e expulsá-lo-ão.

- Sabni é um insubmisso e um conspirador.

Teodoro temia, também ele, as iniciativas do amigo. A ideia do prefeito não deixava de ter interesse; ser informado do interior evitaria bastantes aborrecimentos.

- Talvez haja uma solução...

Ao norte da catarata, a alguma distância do templo, um pescador aproveitava as primeiras horas da manhã para bater a água com um pau comprido e atrair algumas presas às suas redes. Acabava de apanhar uma soberba perca, quando um marulhar denunciou a aproximação de um nadador.

Mersis reconheceu Sabni que, para descansar, se agarrou à proa da barca e manteve a cabeça fora da água. O capitão continuou a pescar sem olhar na direcção do amigo.

- Uma notícia inquietante. Foi visto um blemi perto da catarata.

- É verdade?

- Narsès procede a uma inspecção aprofundada das fortificações. Outro perigo: Maximino faz correr o rumor do seu próximo casamento com Isis. O bispo está assaltado de protestos.

Tem cuidado, Sabni: tu és o único verdadeiro obstáculo entre o prefeito e a superiora.

- Ainda mais do que o imaginas.

Cresto não deixava ninguém em paz. Os mais velhos tinham de suportar as suas perguntas e tentar responder-lhe. Arrancava os mais preguiçosos ao seu entorpecimento e obrigava-os a pôr-se ao trabalho. A pouco e pouco, a emulação instalava-se; cada um se empenhava a provar que ocupava um lugar importante na comunidade. Irmãos e irmãs trocavam propósitos de novo, interrogavam-se sobre o significado dos símbolos, perscrutavam as paredes do templo em que os antigos tinham gravado os princípios da sabedoria. No alto dos capitéis, o sorriso da deusa Hator desabrochava.

Novembro, em que começam as gradaduras, foi um encanto.

A fraca cheia tinha-se retirado; a vida, com sabor a tâmaras que se desfaziam, decorreu com suavidade. A gravidez da bibliotecária evoluiu de maneira favorável; Isis rezou todas as noites às divindades do parto.

Filae retomou confiança na sua própria fé. Os adeptos tinham adormecido sobre o tesouro de que reconheciam o valor inestimável. A grande deusa não os protegia de um cerco odiento que, depois de ter feito fi&ura de vencedor, perdia a sua virulência?

Sabni recusou abandonar-se ao optimismo. Isis, louvando a sua lucidez, insistiu, contudo, na renovação visível da comunidade.

O superior não devia fraternizar, mais do que qualquer outro, com o futuro do templo?

 

O pombo-correio poisou no cimo da muralha oriental do primeiro pilar; Cresto foi encarregado de o recuperar. A ave trazia uma mensagem do bispo: a mãe do irmão marceneiro agonizava.

Se este desejasse, beneficiaria da autorização excepcional de deixar a ilha e de ir para a cabeceira da moribunda. Soldados esperá-lo-iam na margem e escoltá-lo-iam. Ser-lhe-ia proibido conversar com a população.

Nem Isis nem Sabni se opuseram a este procedimento. Muito abalado, o marceneiro partiu imediatamente; o pombo servir-lhe-ia de salvo-conduto.

Os milicianos obrigaram-no a vestir uma túnica castanha e a usar uma gorra de lã escondendo-lhe o crânio calvo. Não o conduziram junto da mãe, aos bairros pobres, mas levaram-no até à morada do bispo onde foi introduzido por uma porta baixa. Graças à prontidão da operação, ninguém identificou o visitante.

Em presença do prelado e do prefeito, o marceneiro perdeu a cabeça. Não teria sido atraído por uma armadilha? Teodoro tranquilizou-o acerca do estado de saúde da mãe que, com oitenta e quatro anos, geria ela própria a sua quinta. Obrigou o adepto, que o olhar frio de Maximino impressionava, a sentar-se num assento dobrável.

- Não te queremos mal nenhum - garantiu o prefeito - e precisamos da tua ajuda.

Este preâmbulo espantou o irmão.

- Ouvi falar muito de ti. Segundo parece, és um excelente marceneiro, e prestas ao templo os mais notáveis serviços, se bem que não sejam apreciados pelo seu justo valor.

O adepto aprovou.

- Porque continuas nessa comunidade?

- É a minha verdadeira família. Foi ela que me educou.

- Ultrapassaste a porta dos grandes mistérios?

- Isis impediu-me; Sabni aprovou-a.

O irmão arrependeu-se de se confiar a profanos. Mas o superior e a sua companhia tinham a responsabilidade do seu rancor.

- Se tu não celebrasses um culto ímpio, contratava-te de boa vontade; ficarias rico.

- A fortuna não me interessa. Amo Filae.

- Não amas mais a vida? - interrogou o prefeito.

O adepto empalideceu.

- Se for assim, mostra-te falador. Senão, os meus soldados serão obrigados a abater um fugitivo que perturbou a ordem pública.

- Que esperais de mim?

- Informações sobre a comunidade.

- Filae está a ressuscitar. Os mais abatidos retomam esperança.

- A que actividades vos entregais?

- Tratamos do templo, apresentamos as oferendas, celebramos a grande deusa.

- Conspirais contra o imperador?

- Não. claro que não.

- Quem vos encoraja assim?

- Sabni, Isis e também...

Os irmãos censuravam ao marceneiro ter a língua muito comprida. Mais uma vez, tinha falado sem reflectir. O prefeito aproximou-se e colocou as mãos nos ombros do adepto, que teve a sensação de ser agarrado pelas garras de uma ave de rapina.

- E também?

O marceneiro tinha jurado guardar silêncio. Traindo o seu juramento, condenava a comunidade a desaparecer. Mas como resistir à tortura? O seu suplício não salvaria o templo. Outros confessariam; sacrificar-se seria inútil.

- Um camponês foi admitido entre nós. O seu entusiasmo é uma promessa de futuro.

- Como se chama?

- Ignoro-o.

O bispo prometeu a si mesmo identificar o fugitivo. Filae, acolhendo-o, cometera uma falta de que não saberia tirar proveito.

Maximino não deu importância alguma a esse pormenor.

Desejava obter informações de outra ordem.

- Sabni preparará uma acção subversiva?

- O superior não se preocupa senão com templo. É um homem duro e intransigente.

- Os irmãos estão prontos a revoltar-se contra ele?

- Não ousarão. Nenhum contesta a sua autoridade.

- E Isis?

- Isis... Não o condena.

Maximino percebeu o embaraço do irmão: não dizia a verdade e tentava esconder um facto mais importante. Os seus dedos engalfinharam-se-lhe nos ombros: o marceneiro soltou um grito abafado.

- Não passa de uma dor ínfima em face dos sofrimentos que te reservo se continuas a mentir. Isis e Sabni detestam-se, não é? Ela quer desposar-me e ele opõe-se.

- Sim, ele recusa.

No meio da sua paixão, o prefeito conservava um olhar lúcido. O adepto confessava o que ele tinha vontade de ouvir.

Esbofeteou-o. O marceneiro chorou, o bispo voltou-se.

- Levem esse homem para longe da minha vista.

- Já não durará muito... Se não falar, estrangulo-o.

O prisioneiro soube que o furor do prefeito não era fingido.

Calar-se mais tempo seria suicidário.

- Sabni e Isis desposaram-se segundo o costume. Passando unidos a entrada de sua casa, tornaram-se marido e mulher.

Maximino largou a presa. Teve vontade, por um momento, de esmagar a socos o rosto mole do adepto.

- Volta para a ilha. Serás lá o nosso espião.

O marceneiro saiu recuando e inclinou-se. Sobreviver pareceu-lhe a mais maravilhosa das recompensas.

- Esse casamento não tem qualquer valor legal - declarou o prefeito - mas Isis enganou-me. Filae e Sabni serão castigados. Os cristãos ficarão satisfeitos, bispo. Gozareis a vossa vitória e eu submeterei à minha lei a mulher que amo.

Ahourê encheu um vaso de prata com água do Nilo e deitou-a sobre as mãos dos adeptos. O precioso líquido provinha do Nun, o oceano de energia em que se banhava o universo inteiro.

A terra não passava de um montículo emergido de manhãzinha quando o criador, nascido dela mesmo, pronunciara a primeira palavra. Cada templo do Egipto lembrava essa origem reactualizada pelo rito da alva.

Ahourê apresentou o vaso à superiora, evocou o momento decisivo em que o coração do Princípio foi tornado consciente pelo filho, Vida, que juntou os membros e tornou-os móveis.

Ele, o único, trouxe o seu corpo para a existência graças à magia do verbo e colocou na alma de cada ser o desejo de partilhar, graças à iniciação aos mistérios, a eternidade daquele instante.

Enquanto a comunidade saudava o Sol, elevando para ele as mãos puras, Cresto interpelou Sabni.

- Porque me esqueceu a ritualista?

Ahourê voltou-se vivamente para o jovem.

- Cala-te, neófito.

- Cometi alguma falta grave para ser assim negligenciado? Nesse caso, indiquem-ma.

- Que esse descarado seja corrigido como merece. Peço ao superior autorização para o castigar severamente.

Cresto não baixou a voz.

- Sou um irmão igual aos outros e peço o que me é devido.

Se a injustiça reina neste templo como no mundo profano, que seja expulsa já.

Excedida, Ahourê apoderou-se do pau que o marceneiro lhe estendia.

- Fareja o chão, rebelde! Quando as tuas costas terão experimentado este mestre, a tua vaidade será menos arrogante.

Cresto implorou Sabni e Isis com o olhar. Nem um nem outro interromperam o gesto da ritualista. Com os lábios e os punhos cerrados, o jovem estendeu-se no solo e recebeu cinco bastonadas que não lhe arrancaram grito algum.

O unguento acalmou a dor. Sabni maçajou de novo o ombro esquerdo de Cresto, ainda inchado.

- O meu corpo importa-me pouco. Porque não me defendeu a superiora contra a iniquidade?

- O impulsivo é semelhante a uma árvore que cresce depressa e cujos rebentos dos ramos se lançam ao fogo antes de se cortarem. O silencioso verdeja, os seus frutos são doces, a sombra que dispensa no jardim, agradável.

- Nem sempre nos podemos calar!

- É difícil ficar silencioso, perante as palavras injustas, mas vão responder ao ignorante. Replicar aos seus propósitos arrasta a discórdia porque o seu coração não suporta a verdade.

Os olhos do jovem chamejavam - Admites pois que a ritualista cometeu um erro! Descura a sua missão... esta irmã é uma ignorante. Nunca mais lhe dirigirei a palavra.

- Não sejas pretensioso por causa do teu saber, Cresto. Consulta o ignorante como o sábio porque ninguém atinge um domínio total. A palavra excelente está mais escondida do que a pedra verde; descobri-la-ás, contudo, nos mais humildes, junto dos servidores do templo, que se dão a ele sem esperar nada em troca.

- Não é o caso de Ahourê!

- Não a julgues de uma forma tão peremptória.

- Não podes ser cego... tu não!

- Desprezavas-me?

Embaraçado, o jovem baixou a cabeça.

- Não, mas aquela irmã...

- O adepto que deseja atingir os grandes mistérios deve defrontar com um coração igual as mais duras provas. É no interior da comunidade que as sofrerás, não no mundo exterior.

Esquece crítica, rancor e revolta para te preparares a vivê-los.

 

Do alto da mais elevada das torrinhas, o vigia avistou dois negros vestidos com uma pele de felino. Avançaram para os meandros da catarata com uma incrível agilidade, saltaram de rocha em rocha até ao ponto onde foram parados por um bloco de granito, em volta do qual as águas redomoinhavam. Alertado, o capitão Mersis identificou os batedores que observavam a sua linha de defesa.

- Blemis! Mantinham-se a boa distância, fora do alcance das flechas.

Inútil enviar um destacamento ao longo das margens, teria feito o inimigo retirar-se sem o poder interceptar.

Durante mais de duas horas, os negros perscrutaram a paliçada e os fortins, proibindo o acesso da província de Elefantina.

Depois, velozes como o vento, desapareceram.

Mersis redigiu imediatamente um relatório, em duplicado, que levou ao seu superior directo, o bispo Teodoro. Este último foi ter com o prefeito, cujo escritório estava atravancado por uma enorme quantidade de tabuinhas de contas.

- Está tudo impecável, bispo. Desta vez, Filae não sairá indemne da prova. Prometo-lhe duros sofrimentos.

- Há coisas mais urgentes.

- Quem o pretende?

- Lede.

O relatório de Mersis era claro e conciso.

- Ontem um só, hoje dois, amanhã um exército... os Blemis preparam-se para nos atacar.

- As fortificações os dissuadirão. Continuai a observá-los: se esses selvagens são dotados de razão, renunciarão.

- A notícia propagar-se-á rapidamente e a população perderá a cabeça. Devereis proceder a uma inspecção das tropas e organizar os desfiles.

Se bem que fosse insolente, a sugestão do bispo tinha algum valor. Irritado com esse contratempo, Maximino abandonou as contas da província e preencheu a sua função de chefe militar.

Visitou as casernas, mostrou-se nas praças fortificadas, falou com os soldados, presidiu a uma parada e marchou à frente de um destacamento nas ruas de Elefantina. Essa demonstração de força e de confiança tranquilizou o povo.

Se os Blemis cometessem a loucura de assaltar a cidade, seriam exterminados.

Sabni levou ao marceneiro uma cabeceira de cama, rachada ao meio. Desde que regressara, o artesão conservava uma expressão contristada.

- Poderás consertá-la?

- Não sei.

- A tua mãe sofre muito?

- Está a apagar-se e mal me reconhece; certamente voltarei a ir vê-la. Mostra-me o objecto.

O marceneiro parecia receoso.

- Encontraste o bispo?

- Eu! Mas porquê?

- Teodoro sabe que os adeptos deixaram a sua família carnal para conhecerem a do espírito. Normalmente, não voltam atrás. Porquê essa curiosa deligência senão para te interrogar sobre os segredos do templo?

Furioso, o marceneiro atirou a cabeceira ao chão.

- Ousarias acusar-me de perjúrio? Prometi guardar silêncio, mas restam sentimentos humanos; eu não me pareço contigo.

A força de te submeteres a essa famosa Regra, perdes a bondade toda. Tornas-te seco, implacável. Ninguém gosta de ti, Sabni.

Quando o compreenderes, será demasiado tarde. Eu estou isento de censuras.

- A palavra de um irmão é sagrada; nenhuma outra justificação será necessária.

O marceneiro prometeu a si próprio que obedeceria ao prefeito. Senão, Maximino não hesitaria em suprimi-lo. Sabni, esse, nunca poria a mão num adepto.

Pouco à vontade, o superior retirou-se. Se suspeitava de traição de um dos membros da comunidade, não se revelaria indigno da sua função? Mas Filae estava em guerra e o superior não tinha o direito de ser ingénuo. O inimigo não se contentaria em atacar do exterior.

Tão pesada se tornava a carga... Como não conceder uma confiança total aos seres com quem lidava havia tantos anos? O bispo pediu aos seus secretários que conduzissem um inquérito administrativo sobre as recentes fugas de camponeses.

Os resultados foram decepcionantes, os relatórios de polícias não assinalaram senão pequenos roubos, a destruição voluntária de alfaias agrícolas, o roubo de um burro e a queixa abortada do comerciante Apollo. Nenhuma menção de um fugitivo. Consultados os graduados encarregados da segurança interna não forneceram mais detalhes. O seu coordenador, o capitão Mersis, não detinha no seu calaboiço senão um caseiro acusado de estragos no pomar do vizinho. Reconheceu ter interrogado Apollo; perdido de bêbedo, o suspeito só tinha pronunciado palavras incompreensíveis.

Teodoro achou estranho o comportamento daquele personagem importante. Por isso o convocou.

Brusco, tenso, o comerciante imobilizou-se à entrada do escritório.

- Que tipo de queixa desejavas tu fazer?

- Tinha bebido.

- Porquê?

- Por prazer... nem toda a gente é asceta.

- Tens filhos?

- Quatro. Dois rapazes e duas raparigas.

- Em idade de trabalhar?

- Ajudam, de tempos em tempos.

- Nenhum deles fugiu?

- Deus me livre de uma tal infelicidade! A minha família é unida.

- Deus protege os justos. Continua a fornecer-nos excelentes figos.

Apollo ficou feliz por se ter saído bem. Vendo-o escapar-se, o bispo ficou convencido de que estava metido num caso turvo.

Talvez não tivesse qualquer relação com o fugitivo. Seria bom, no entanto, ter a certeza.

Ahourê reuniu, perto do poço principal, uma dezena de irmãs que, sem serem hostis à superiora, eram sensíveis à eloquência da ritualista. Enquanto enchiam as bilhas de água fresca, queixaram-se de condições de vida cada vez mais difíceis. Uma delas clamou o seu medo do futuro; como combater um prefeito cuja omnipotência não se acomodaria durante muito tempo com a existência dos insurrectos, principalmente se o bispo lhes desse a mão? Ahourê recomendou que conservassem a confiança na vontade inflexível de Isis.

- A intransigência de Sabni ameaça-nos. É muito jovem para dirigir uma comunidade como a nossa; é por isso que o poder o embriaga e o despoja das suas qualidades. Breve será um tirano, esquecerá até os rituais e submeter-nos-á às suas exigências. Que cada um o saiba: o superior está a dar duelo ao bispo. O destino de Filae não lhe importa senão na medida em que o templo desempenha o papel de fortaleza e a confraria o de um exército.

- Uma tropa tão pequena contra centenas de soldados? Inverosímil!

- Sabni não se importa - afirmou Ahourê. - Desafiar Teodoro é já uma vitória: que sejamos reduzidos à escravatura ou deportados é-lhe indiferente. Sacrificar-nos-á à sua louca paixão e, chegado o momento, abandonar-nos-á à punição em troca da sua liberdade.

As terríveis palavras da ritualista perturbaram as irmãs.

As mais reticentes proclamaram a integridade do superior, o seu sentido do dever, a sua rectidão que nenhuma falta manchava.

- Não o acuso de duplicidade - protestou Ahourê - mas  

- Que propões?

- Entendamo-nos discretamente com os irmãos mais experientes. Se alguns de entre eles partilham as nossas angústias, consultemo-los mais adiante e reflitamos juntos.

Nessa mesma noite, depois da refeição, o marceneiro e a ritualista conversaram ao abrigo do quiosque de Trajano. Insensíveis ao pôr do Sol rosando as encostas cinzentas das falésias, desconfiaram um do outro. Até àquele instante, nenhum adepto tinha fomentado a cabala. Tiveram consciência de encetar um processo que arrastaria um conflito aberto com o superior; o rosto frio e o olhar odioso do seu irmão assustaram Ahourê.

Lamentou a sua diligência, mas era demasiado tarde para bater em retirada.

- Sabni é um falador - declarou o marceneiro. - Crê que somos gado submisso e que ninguém se atravessará na nossa estrada. Se nós lhe resistimos, deixará a ilha e converter-se-á com o apoio do seu amigo Teodoro. A superiora não terá outra escolha senão desposar o prefeito e a ilha será salva.

Ahourê achou o plano excelente. Os irmãos e as irmãs, que os dois conjurados se comprometeram em reunir, formariam uma coorte capaz de deitar abaixo Sabni e de iluminar o futuro do templo.

Cresto calafetou uma barca, seguindo as directivas de Sabni.

Depois, ergueram um novo mastro, talhado no último cepo de cedro que o templo possuía.

- O Sol mal desponta no horizonte... Será necessário trabalhar tão cedo?

- O sábio levantou-se cedo para criar, diziam os nossos pais, o imbecil para se agitar. Este último nada quer escutar e vive do que faz morrer. Logo que o rito da alva é celebrado, um mundo novo renasce. Que importa o cansaço uma vez que temos sorte de o contemplar?

- Não quero tornar-me um imbecil e estou bem decidido a permanecer indemne de mãos, de boca e de coração, como a regra o reclama; mas desejo conhecer tudo, possuir as tuas qualidades, as de Isis e da comunidade inteira!

- Livra-te da avidez, Cresto. É uma doença incurável; envilece os seres, torna azeda a mais bela amizade, afasta o discípulo do mestre, o ávido já não tem morada e perde a eternidade.

Aborrecido com a repreensão, o rapaz observou a obra em que colaborava.

- Está pronta a vogar?

- Ainda não. Será preciso verificar o seu equilíbrio e adaptar um leme correcto.

- O leme... Não usa ele o mesmo nome que Maat, a Regra do Universo?

Sabni sentiu uma alegria intensa, que teve o cuidado de disfarçar. Cresto apercebia-se da necessidade de reaproximar os hieróglifos entre si, a fim de lhes soltar o significado profundo.

Poucos iniciados se comprometiam tão depressa neste caminho; vaidade espreitava-o e dar-lhe um suficiente arriscava fazê-lo voltar atrás.

- Tens razão: a barca é de origem celeste e serve aos poderes divinos para viajar nos espaços invisíveis. Ninguém a conduz, a não ser um leme com olhos que descobre o caminho certo. Como os navegadores, atravessamos o mundo; Filae, imóvel na aparência, move-se sobre as vagas. Em ti, Cresto, o leme compõe-se do coração e da língua. Que estejam de acordo, senão, naufragarás.

- Provar-te-ei que a barca do templo é a minha carne e o meu sangue.

- Serias tu presunçoso?

- O destino sorri-me. Agarro esta oportunidade com mãos ambas e desejo penetrar os grandes mistérios escondidos atrás das portas do santuário.

- Eles não se dissimulam; os teus olhos não suportariam o seu brilho. É por isso que a vida comunitária educa o teu olhar e o amplia.

- Será demorado?

- A duração depende de ti.

- Vários anos?

- Para alguns, jamais.

- Jamais? Eu, revoltar-me-ia.

- Seria inútil. As paixões não ultrapassam a entrada do templo coberto.

- Se fosse teu filho, serias mais indulgente?

- Muito mais severo.

- Que injustiça? Desconfiarias de mim?

- Como dos outros.

- São nossos irmãos e nossas irmãs!

- Louvar-te-ão por causa da tua bondade, castigar-te-ão por causa da tua fraqueza. A comunidade não me perdoará nenhum erro e terá razão.

- Porquê tanta severidade contigo mesmo? A fraternidade não será o elo que nos permite resistir aos assaltos do mundo profano?

- Uma coisa é ser adepto, outra superior.

- Não compreendo...

- É normal, Cresto. A minha função implica a solidão.

- Esquecerias tu Isis?

Sabni subiu para a barca e verificou a amarra do mastro.

- Tentarias tu sondar o coração do superior?

- Sou teu discípulo e tenho o direito de saber tudo o que te diz respeito. Se não amas verdadeiramente Isis porque a desposaste?

Sabni sorriu.

- Tranquiliza-te meu irmão.

 

As gradaduras acabaram e os aldeões apanharam as últimas azeitonas. O bispo celebrou o Natal numa igreja demasiado pequena, que uma população entusiasta assaltou; afluia a fim de aclamar o nascimento de Cristo ou na intenção de se disputar os presentes do episcopado? Evitando levar demasiado longe as investigações, Teodoro, indiferente à emoção do prefeito, contentou-se em observar aquele desdobramento de forças pacífico.

De cada casa, saíram mulheres, crianças, velhos, doentes e enfermos; invadiram Elefantina, onde os homens válidos entoavam cânticos a plenos pulmões. Roçou-se o escândalo quando o exército distribuiu sacos de trigo; músicos ambulantes apaziguaram os espíritos. Da barulhenta confusão humana, Deus saiu vencedor.

Maximino, constipado, tinha a cabeça embrulhada num pano perfumado e os pés colocados sobre uma almofada. Por detrás dele, uma braseira dava um agradável calor, muito apreciável naquele período de frio, que assolava a grande cidade do Sul, varrida por rajadas de vento gelado. Os bateleiros renunciavam navegar no Nilo, arrebatado por violentas convulsões.

Apesar desses contratempos, o prefeito estava contente consigo. Não tinha trabalhado em vão. Graças a uma série de medidas constrangedoras, melhoraria o sistema de imposição da província. De futuro, mais ninguém escaparia aos impostos directos e indirectos. Taxas e sobretaxas seriam aplicadas aos indivíduos, às terras, às actividades profissionais, às rendas, às heranças, às deslocações, às propriedades rústicas e urbanas.

A colectividade pagaria pelo insolvente. Em troca, o Estado asseguraria o bom funcionamento do correio, a manutenção dos edifícios públicos, a mantença do soldo da guarnição permanente e dos empregados do bispo. Este repor em ordem da economia, traduzia-se, certamente, por uma lista de uma centena de impostos; mas a sua precisão satisfaria o imperador. Com o seu apoio, Maximino teria as mãos livres e amordaçaria Teodoro.

O prefeito convidou-o para jantar. O prelado comeu pouco e recusou o vinho.

- Fazeis mal, bispo. É o melhor remédio contra o frio.

- A vossa saúde melhorou?

- O ar fresco tomou a dar-me vigor.

- Examinei o vosso plano fiscal: é esmagador.

- Não é mais do que o vosso. O imperador exige resultados.

- Terei de lembrar-vos que a cheia foi muito insuficiente?

- As terras, sejam elas cultiváveis ou não, devem ser taxadas. E uma só escapa à lei: Filae.

Teodoro temia essa atestação. Classificando o templo dentro da categoria dos terrenos estéreis, tinha-lhe evitado pesados levantamentos.

- Fixei a quantia que a comunidade nos deve, tendo em conta os atrasados e as multas.

- Ela não poderá pagar.

- Deixará pois os lugares e o superior será preso por fraude fiscal. Examinarei o caso da superiora. Livre do peso desse clã pagão, voltará à razão.

- Enganai-vos; resistirão.

- Como? O agente do fisco mostrar-se-á impiedoso. E esse agente, sereis vós.

O bispo teve de aguentar uma semana antes que o vento se acalmasse. A impaciência do prefeito, respondeu pela preocupação de não arriscar a vida de uma tripulação. No princípio de Janeiro, um barco chegou à ilha santa e trouxe de lá Sabni.

O superior tinha vestido em espesso casacão de linho e estava calçado com sandálias em casca de papiro. Os reposteiros de lã obstruíam as janelas do escritório do prelado, que aquecia as mãos à chama de um candeeiro.

- A ilha é declarada campo cultivável por Maximino. Deves-me uma grande quantia, Sabni.

- Há cinco anos tinhas afastado essa ameaça.

- Desta vez o prefeito está no seu lugar. Sou obrigado a obedecer-lhe. Se recuso, manda os fundos eclesiásticos para Bizâncio e a província fica arruinada.

- Não te podes desembaraçar desse Maximino?

- És tu o insubmisso, não ele.

- O templo dispõe de um fraco rendimento.

- Será preciso partir e abandonar a ilha aos lavradores.

- O prefeito ousará enviar a tropa?

- Receio-o.

- Porquê esse encarniçamento?

- Quer desposar Isis. A comunidade que tu diriges é um obstáculo entre ela e ele.

- Esse homem é louco.

- Está loucamente apaixonado. Primeiro utilizará a lei, depois a manha e por fim a força.

- Defender-nos-ás contra ele?

- Eu desejo a ruína de Filae, Sabni, e nunca te o escondi. Se a estratégia do prefeito chegar a aniquilar os restos do paganismo, serei seu aliado.

- São palavras de bispo. Que aconselha o amigo?

- Converte-te e trabalha comigo. Maximino é o instrumento de Deus. A sua acção significa que a tua aventura insensata terminou.

Sabni meditou em frente dos arquivos cheios de papiros.

Voltaram-lhe à memória longas conversas com o jovem Teodoro; apaixonado de Direito, partilhava o seu saber de boa vontade.

- Se Filae pertence à categoria de terras cultiváveis, não sou considerado como um lavrador?

- Exacto.

- Em consequência, recupero as antigas possessões do templo que compunham então o seu domínio explorável: campos, vinhas e jardins.

- Se for aplicada a carta da lei, tens razão. Esse aspecto escapa felizmente, ao prefeito. Senão, as taxas seriam triplicadas.

- Pois bem, triplica-as.

- Em que combate absurdo desejas ainda comprometer-te?

- Maximino deseja uma prova de força: tê-la-á. Um prefeito é passageiro, o templo eterno.

Quando pôs de novo o pé sobre o solo da ilha santa, Sabni sentiu-se ao mesmo tempo aliviado e ansioso. Aliviado, porque só o universo do templo lhe oferecia a serenidade que os humanos se encarniçavam a destruir, ansioso porque lançava um desafio cego. Num mês, seria a expulsão. Irmãos e irmãs agarrar-se-iam às colunas, resistiriam em vão a soldados prontos a atirá-los para os barcos de partida, para o nada.

Isis acolheu-o no embarcadouro. O Sol deslizava ao longo do seu vestido moldante; tomou-a nos braços e fechou os olhos, esperando que o contacto de um corpo com a suavidade de uma noite de Verão afastasse os demónios.

- É assim tão grave, meu amor?

- O prefeito impõe-nos o estatuto de domínio cultivável. Devemos impostos, taxas e sobretaxas ao mesmo tempo sobre a ilha e as suas dependências antigas. A quantia é considerável, quando a nossa insolvência for proclamada, seremos despojados dos nossos bens e constrangidos a abandonar o santuário.

- Não poderíamos obter um empréstimo?

- Os ricos são cristãos e obedecem a Teodoro. Resta-nos preparar irmãos e irmãs para o mais cruel dos destinos.

Isis e Sabni caminharam ao longo do templo e passaram em frente da representação da grande deusa, toucada com o despojo do abutre, símbolo da mãe universal, que encimava o disco solar nascendo entre dois cornos. Na mão direita, segurava um ceptro que fazia florir a terra e, na esquerda, a chave da vida, abrindo aos adeptos o mundo dos deuses. As paredes poderosas reflectiam-se nas águas azuis. A superiora parou em frente de um baixo-relevo: faraó, com um pau, batia numa péla, imagem do mau olhado. No seu punho, o rei apertava uma corda e ligava quatro figurinhas inimigas, encantações dos poderes maléficos, prontos a surgir dos quatro pontos cardeais.

- Enquanto o céu estiver assente sobre os seus quatro suportes e a Terra estável sobre os seus alicerces, a luz divina aparecerá sob o aspecto do Sol; enquanto a inundação vier no seu tempo e o solo oferecer as suas plantas, enquanto o vento do norte soprar à sua hora, os decanos cumprirem o seu serviço e que as estrelas brilharem no seu lugar, restará um pouco de alegria, o último fogo, a proibição de renunciar.

- Se tu decidires entregar-te a Maximino, para salvar o templo, matar-te-ei.

Ela acariciou-lhe a fronte.

- Tira essa preocupação do teu pensamento. Nunca lhe pertencerei. O amor que te dou, nenhum o retomará; existe outro caminho: pagaremos o imposto.

 

Foi necessária uma noite inteira para convencer Sabni.

O superior recusava obstinadamente desmantelar o património legado pelos antepassados. Isis conseguiu demonstrar-lhe que o prefeito, julgando arruinar o templo, oferecia-lhe uma nova prosperidade. Dado que a lei colocava Filae no centro de um domínio explorável, porque não tirar disso proveito? Muitos camponeses ficariam felizes por trabalhar em benefício da ilha santa; utilizando os seus próprios recursos, não dependeria nem do bispo nem das boas vontades depressa esgotadas. Restava pagar as taxas; depois, seria preciso pedir ao Nilo, a fim de ele conceder uma boa cheia que fertilizaria campos e jardins.

O superior cedeu; agarrava-se ao passado, Isis abria o futuro.

Depois do rito da alva, reuniram os adeptos em frente do primeiro pilar.

- Por decisão do prefeito, o templo está de novo considerado como propriedade terrícola. Filae tornar-se-ia rica se ela se livrasse das suas dívidas para com o imperador. A comunidade já não possui uma única moeda de prata, mas está rica de objectos e de móveis antigos; proponho-vos vendê-los ao antiquário.

O marceneiro insurgiu-se.

- Tens o acordo da superiora?

- Quando um de nós se exprime perante a comunidade - respondeu Isis - traduz o pensamento do outro.

- Será preciso separarmo-nos dos papiros antigos? - inquiriu a bibliotecária.

- Não, são a alma do templo.

- O mobilário também - protestou um irmão.

- Podeis recusar a nossa proposta - admitiu Sabni.

- Nesse caso, o exército despoja-nos e expulsa-nos. Seria preferível ter cometido um assassínio do que fraudes ao fisco.

- Não roubámos nada!

- O prefeito estima que não estamos em regra com o Estado.

- Basta de discussões - interveio Cresto. - Se a comunidade colocou Isis e Sabni à sua cabeça, é para a dirigir. Que decidam e nós obedeceremos.

Estas palavras apagaram o ardor dos contestatários. O encarregado do embarcadouro foi para a sua casa, donde tirou um jarro para vinho de gargalo direito e asas arredondadas, objecto favorito de um dos escanções de Ramsés II. O cozinheiro despejou as arcas cheias de louça preciosa, cujas mais belas peças eram taças de ouro real,cadas de pétalas de lírios, e de copelas do mesmo metal ornadas de figuras femininas aspirando um lírio. Bacias de prata, candeeiros de bronze, perfurmador de cobre, trabalhado por artesãos de génio, acumularam-se no átrio. Isis acrescentou-lhe o tesouro legado de superiora para superiora: espelhos de ouro e de cobre, vasos de unguento talhados em lápis-lazúli e obsidiana, frascos de perfume em massa de vidro esmaltado de cor azul-esverdeada, pentes decorados com girafas e uma taça de porfírio datando do reino de Quéops.

Uma irmã chorou, Isis confortou-a.

- Quando formos ricos, tornaremos a comprar os nossos bens.

Quando Sabni desembarcou, no começo da tarde, os soldados fizeram círculo à volta dele e depois conduziram-no junto do capitão Mersis, que logo alertou o bispo.

O superior pediu autorização de ir e vir livremente, entre a ilha e o território da província; a sua condição de proprietário terrícola oferecia-lhe menos direitos do que a qualquer habitante de Elefantina. Teodoro não opôs nenhum argumento àquele administrado, tanto mais que renunciara a qualquer provocação, trocando a veste branca dos padres por uma túnica castanha, cosida dos dois lados e apertada na cintura por um cinto.

- Quais são as tuas intenções, Sabni?

- Pagar os meus impostos. Não será o primeiro e principal dever de um fiel súbdito do imperador?

- Quem encontrou a parada... tu ou Isis?

- O seu génio ultrapassa o meu talento.

Teodoro sorriu.

- Ousarias enganar o teu mais velho amigo?

- A regra impõe-me dizer a verdade, mesmo a um inimigo.

- Quando compreenderás...

- Compreendi e sofro tanto como tu.

- Onde te levará este novo desvio?

- A respeitabilidade, monsenhor.

Sabni foi ao antiquário, um libanês instalado na capital do Sul havia dois anos. As suas lojas na Alexandria e em Bizâncio tinham fama; acumulava lá riquezas do passado faraónico oferecidas como pasto a alguns altos personagens gulosos do exotismo.

Baixo, trigueiro, de olhar vivo, o comerciante recebeu o egípcio com suspeição.

- Quem vos envia?

- O meu nome é Sabni.

- Serieis...

- O superior de Filae, com efeito.

- Não tenho nada para vender.

- Eu tenho.

O libanês julgou sonhar. Clientes ricos esperavam a queda de Filae, persuadidos que o templo regurgitava de obras-primas e de raridades. Propunham quantias consideráveis ao antiquário para serem os primeiros no negócio; mas a última comunidade paga levantava uma fronteira tão intransponível entre o santuário e o mundo que o mais hábil dos negociantes renunciava. Assim, conversar com o chefe espiritual dos fora-da-lei, na sua loja, parecia extravagante.

- Terieis trazido... uma peça de escolha?

- Vinde comigo.

- Onde?

- A Filae.

- Devo prevenir os meus assistentes...

- Só.

- A minha segurança...

- Eu vo-la garanto.

- Eu, só frente à confraria, num território proibido e povoado de demónios...

- Esperam-vos dezenas de objectos inestimáveis...

O libanês não ficou indeciso muito tempo. Se Sabni não mentisse, viveria as horas mais exaltantes da sua carreira.

- Quando?

- Já.

- Infelizmente, ninguém tem autorização para pisar o solo da ilha! Se o bispo...

- Estais mal informado. Porque havia uma simples exploração agrícola de estar cortada da província?

A todo o comprimento do percurso, o antiquário conservou-se tenso. O medo deu-lhe um nó nas entranhas durante a travessia de barca; os soldados não os interceptariam para os meter na prisão? Não se produziu qualquer incidente. Maravilhado, com o coração a bater, chegou às pedras do embarcadouro; o que ele contemplou preencheu as suas mais loucas esperanças. Sobre esteiras em fibras de palmeira, estava exposta uma quantidade de objectos antigos que, sem dúvida alguma, provinha do tesouro do templo.

A superiora, cuja beleza se gabava, impressionou o libanês.

Nenhuma mulher do Oriente podia rivalizar com ela. A delicadeza do rosto e ao esplendor das formas, acrescentava-se a vivacidade de uma inteligência perceptível no menor dos olhares.

Foi preciso ao antiquário muito sangue-frio para não cair aos pés de Isis e venerá-la como a uma deusa; o sentido do negócio permitiu-lhe arrancar-se ao êxtase nascente e poisar os olhos nas maravilhas que brilhavam.

- Vós... ides vendê-las?

- Pela maior oferta - respondeu o superior. - Se o preço que propuserdes nos parecer insuficiente, procuraremos outro aquisidor.

O antiquário sabia, por experiência, que, numa transacção daquela importância, o primeiro a dar um número era vencido; a ocasião parecia tão excepcional que saiu da sua habitual prudência: os apaixonados precipitar-se-iam sobre peças extraordinárias e as grandes ofertas seriam numerosas. Assim indicou uma quantia que se elevava a metade do valor corrente.

Isis elevou-o um quarto. O antiquário entabulou uma discussão objecto por objecto, criticou a qualidade das madeiras, o acabamento das pinturas ou o estilo arcaico do conjunto que a corte de Bizâncio detestaria. A superiora conhecia o gosto dos coleccionadores: não exploravam as regiões do império à procura das obras-primas antigas, a fim de as amontoar nas caves ou nas casas de província? Ao fim de um dia lento de palavreado, foi obtido um compromisso. O antiquário fazia fortuna, o templo obtinha uma quantia inesperada, que lhe proporcionava, pelo menos durante um ano, a independência económica.

Sabni levou o comerciante para Elefantina e interrompeu o fluxo de cumprimentos de que ele foi alvo. A difícil missão do superior não ficou por ali; preocupado, tomou a direcção do centro dos impostos onde reinava um déspota, o segundo diácono Filamon, nomeado recebedor principal em virtude de uma longa carreira de funcionário zeloso; chegado pouco depois ao cimo da hierarquia, tinha afastado os seus rivais, implicando-os em negócios de corrupção. Crente convicto, Filamon era um pequeno homem seco, nervoso, quase calvo. Amava Deus e os números, detestava tudo o resto. O Senhor exprimia-se pelo código dos impostos, os números prestavam a melhor das justiças; quem não se lhe dobrava merecia a prisão, as galés ou a morte. Os ricos só representavam um papel: pagar. Quando o bispo, por intimação do prefeito, lhe tinha entregado uma dezena de tabuinhas e outros tantos rolos de papiro respeitantes à nova base de imposição de Filae, na qualidade de exploração agrícola, o seu coração tinha saltado de satisfação. Não teria sabido dizer qual, do cristão ou do recebedor, mais se regozijava. Sobre um pedaço de calcário, tinha colocado três colunas: na primeira, os nomes de um irmão e de uma irmã tão idosos que a sua mais dura condenação seria o exílio; na segunda, os da quase totalidade dos adeptos que seria submetida a trabalhos forçados; na terceira, o superior não escaparia à tortura e seria julgado por injúria ao imperador, recusa de pagamento, insubmissão e fraude.

Isis estava ausente da lista. Futura convertida, seria colocada sob a protecção de Maximino.

Filamon fazia questão do rigor do processo. Cada adepto benefeciaria de uma acusação redigida em boa e devida forma antes de ser transmitida ao capitão Mersis, encarregado de proceder às prisões.

O recebedor saboreava os figos do seu amigo Apollo. Como recusar os presentes oferecidos por cidadãos afáveis, felizes de serem correctamente administrados? O dinheiro não interessava nada a Filamon. Só possuía uma casa modesta e um campo de trigo; só o serviço do Estado contava. Se Deus podia mostrar-se clemente para com um pecador, ele não tinha o direito de poupar um defraudador.

Quando o soldado de sentinela, em frente do seu escritório, reduto malcheiroso nas entranhas da velha cidade, lhe anunciou a visita de Sabni, o recebedor fez repetir o nome. Sem dúvida um homónimo desejoso de protestar contra o peso das taxas.

Seria mandado embora com uma penalidade suplementar.

O homem entrou. A sua estatura impressionou Filamon: alto, solidamente construído, o contribuinte não parecia inquieto. Ordinariamente, aqueles que passavam aquela porta dissimulavam mal a sua angústia.

- Quem és tu?

- Sabni.

- Profissão?

- Proprietário terrícola.

- Localização da exploração.

- Filae e as suas dependências.

Portanto era mesmo ele! O pagão ousava desafiar a administração nos seus próprios locais. Ataque de loucura ou última das provocações? A sanção não variaria. Uma vez que o superior se tinha deslocado, Filamon concedeu-se uma satisfação suplementar: indicar-lhe oralmente a enorme quantia a pagar e explicar que dispunha do prazo de um mês não renovável.

- Não será necessário - diz Sabni poisando no chão um saco de moedas de prata. - Eis o que eu devo ao Império: impostos do ano, taxas, sobretaxas e multas. Estarei em regra?

De joelhos, incrédulo, o recebedor contou as moedas uma a uma.

 

Por ocasião da inspecção quinzenal das tropas, o general Narsès estava aborrecido. A disciplina a que tinha votado a sua existência parecia-se com uma amante gasta. Naquele mês de Fevereiro, em que começavam os preparativos da colheita, Elefantina mergulhava num torpor tranquilizante. Os Blemis não tinham reaparecido. Um Sol pálido mal aquecia a morada do prefeito, amarrado pela sua própria lei. Constrangido a redigir um relatório sobre a situação financeira da província, explicou ao imperador que o pedido de transferência de Narsès proibia qualquer tentativa de expedição a Núbia, se bem que a passagem da catarata fosse encarável. Passados vários dias, o bispo mostrava-se frio com o prefeito, pelo seu erro de estratégia, não tornava ele a dar uma existência legal a Filae? Enquanto Isis permanecia no templo, Sabni ia frequentemente às suas terras, a fim de remunerar os camponeses felizes por trabalharem no interesse da ilha santa.

Maximino acabava de arruinar anos de esforço. Os pagãos saíam da sombra; já havia cristãos abalados pela forte personalidade de Sabni. Não procurando nem convencer nem converter, o superior atraía numerosas simpatias. Alguns jovens manifestavam o seu desejo de conhecer a Regra do templo.

O que Teodoro tinha receado tanto, aparecia como um pesadelo: Sabni, o adversário de Deus, tornava-se o seu mais temível inimigo. Semelhante a uma erva daninha, o paganismo renascia com um vigor tanto maior que tinha julgado morrer.

O casal reinante em Filae dispunha da autorização e do poder de convicção necessários para voltar progressivamente a situação a seu favor. De oprimida, Filae passou a conquistadora.

O prefeito sonhava com Isis. O bispo preparava a sua resposta. Narsès lançava um olhar negligente aos seus soldados, pensando no instante privilegiado em que estaria só, sobre o seu rochedo, em frente da catarata. Contudo, uma anomalia o tocou; por isso interrogou o capitão Mersis.

- Não faltam homens?

- Uns vinte.

- Motivo?

- Febre e doenças de intestinos.

- Epidemia?

- Ainda não se sabe. Os médicos examinam os doentes.

A informação perturbou o general. Rememorou as campanhas africanas durante as quais a desinteria tinha dizimado regimentos inteiros. Os homens morriam no meio de sofrimentos atrozes depois de terem perdido o líquido que o seu corpo continha.

- A vossa opinião, capitão?

- Estou inquieto.

- Se outros casos se declararem, ponha-me imediatamente ao corrente.

Narsès voltou ao seu posto de comando. Naquela noite não contemplaria a catarata.

Primeiros a levantarem-se, Isis e Sabni percorriam as salas do templo depois de terem celebrado o ritual da alva. A ilha santa, estava cada dia mais bela, mais radiosa.

A sua felicidade e a intensidade da sua comunhão nasciam daquelas pedras de alma sorridente. A voz dos antepassados morava nos corredores onde o casal parava frequentemente, atento ao silêncio formado por séculos de oferendas.

O amor que os ligava no céu como na terra, crescia com o vigor das manhãs e a ternura das noites.

No pátio, entre dois pilares, o marceneiro tinha reunido uns vinte irmãos e irmãs. Apertados uns contra os outros, formavam um grupo compacto e hostil. Ahourê, com o acordo do cabecilha, não apareceria; recopiava um ritual e mantinha-se assim afastada do conflito de maneira a conservarem, em caso de fracasso, a confiança da superiora.

Isis e Sabni imobilizaram-se ao cimo das escadas, conduzindo à entrada da sala das colunas.

- Que desejais? - perguntou o superior.

- Estamos em desacordo contigo. Vender os nossos bens é uma infâmia! Desejaríamos ficar na sombra; batermo-nos contra o prefeito e o bispo é uma empresa demasiado perigosa.

- Não temos escolha - lembrou Isis. - O templo sai do seu isolamento.

- Eis o que era preciso evitar - observou a perfumista.

- Queremos envelhecer em paz, longe da multidão odiosa dos cristãos. Tu e Sabni obrigais a voltar-nos contra eles e a travar-lhes uma batalha antecipadamente perdida.

- Não é verdade - objectou Sabni. - Tentando estrangular o templo, o prefeito oferece-lhe um meio de sobreviver. Dobrar-mo-nos sobre nós mesmos seria cobardia.

- Que sabes tu da coragem? - exaltou-se uma música de mãos deformadas pelo reumatismo. - És um superior muito novo! Nós, suportámos muitos sofrimentos.

Isis sentou-se nos degraus. Nada, na sua atitude, traduzia qualquer irritação. Sabni imitou-a; com um gesto, convidou irmãos e irmãs a vir para junto deles. Alguns ficaram de pé.

- Qual é a vossa proposta?

- Voltemos ao nosso antigo estatuto - exigiu o marceneiro. - Que nos devolvam os nossos bens e que nos esqueçam.

- Sabes que é utópico.

- Não se o desejardes verdadeiramente.

- Porquê essas mágoas inúteis? - interrogou Isis. - Mascarar a realidade é uma falta contra a nossa Regra. O destino que os deuses nos enviam, utilizemo-lo com conhecimento de causa.

- Não se trata dos deuses mas do prefeito! Não nos arrasteis para uma estrada sem saída. A nossa comunidade tem de se calar.

- Subsistimos assim durante vários anos - admitiu o superior. - Esse tempo está terminado. Quem recusaria o renascimento de Filae?

- Nós - responderam os adeptos do marceneiro.

- Se persistis nas vossas intenções nefastas - prometeu ele - abandonaremos a comunidade.

Uma vez sós, Isis e Sabni juntaram as mãos. Aquele ataque vindo do interior, mortificava-os. Como condenar homens e mulheres com os quais tinham partilhado tantas provas, como julgá-los? Livres por sua escolha, podiam voltar para o mundo exterior a todo o momento.

- Nenhum de entre eles passou a porta dos grandes mistérios - constatou Sabni. - O irmão marceneiro não estará a tentar fomentar uma revolta, a fim de conhecer as fórmulas de poder? - Seria o fracasso certo. Receio um mal mais grave: o nosso immão esquece que não somos só uma assembleia humana preocupada com a sua posteridade mas uma comunidade ao serviço do divino. Se recuamos em frente da aventura do espírito, condenamo-nos à morte.

- O marceneiro sabe-o. É um dos adeptos mais perspicazes.

- Nesse caso, o veneno da traição invade a sua alma.

Sabni empalideceu. Isis trazia as acusações que ele temia ouvir.

- Tens razão - admitiu ele. - Já não é ao templo que ele obedece mas ao prefeito e ao bispo.

- Possuis uma prova?

- Nenhuma. É por isso que te proponho reunir de novo a câmara da Regra.

- Quem desejas tu como assessor?

- A bibliotecária. Deixemos a ritualista de lado; em virtude da insolência do marceneiro, mostrar-se-ia impiedosa. Devemos obter a verdade e, se ele estiver desviado, tentar trazê-lo para nós.

- Não convocarei portanto Ahourê. Se não se tratar de uma mudança de humor e de uma revolta passageira, o amor fraternal acalmará o nosso irmão.

Um marceneiro arrogante, mal barbeado, de fato profano, apresentou-se perante os seus juízes: Isis, Sabni e a bibliotecária grávida. Isis pediu a Maat, a Regra universal, que ensinasse aos seus fiéis o caminho direito em que o coração se desenvolvesse.

O acusado não sentiu qualquer emoção ao ouvir palavras que, dantes, faziam vibrar a sua alma. A sua posição, tornada insuportável, ditava-lhe uma conduta: mostrar-se odioso a fim de ser rejeitado e de acreditar o aparecimento de uma sedição interna, justificação da sua partida aos olhos do prefeito. Este último não poderia reprovar-lho e escolheria outro espião.

- Sentes-te culpado ou inocente? - interrogou Sabni.

- Estás consciente de ter violado a Regra?

- Não quero saber. Tu e a tua companheira levais a comunidade ao desastre.

- A tua voz não se opôs, contudo, à nossa nomeação.

- Isso foi ontem; o poder dá-vos volta à cabeça. Credes na ressurreição de Filae. Loucura! Recuso a vossa autoridade.

Estou decidido a deixar a ilha e não irei embora sozinho. Muitos outros partilham a minha opinião e preferem a razão à vossa demência.

A bibliotecária, indignada, quis protestar. Isis impôs-lhe silêncio.

- A minha designação como superior está na origem desta revolta - observou Sabni. - Sob o sábio governo de Isis, nenhum protesto se levantou. Existe uma solução simples, meu irmão: demito-me do meu cargo e tu suporta-lo em meu lugar.

O marceneiro recuou um passo.

- Não emiti esse voto.

- Cumpriste o teu dever, criticando a minha maneira de agir. Agora tens a obrigação de rectificar os meus erros e de tornar a comunidade mais harmoniosa.

- Recuso essa função.

- Estou pronto a confiar-ta - declarou Isis. - Constrói a obra que esperamos e obedecer-te-emos.

- Deixem-me em paz!

- Mentes a ti mesmo, meu irmão. De que demónio és escravo?

- Espezinho a vossa Regra... expulsem-me!

- Esqueces a tua vocação ao ponto de detestares os teus irmãos?

Sem ter sido convidado a isso, o marceneiro deixou a pequena sala onde, sobre o solo, brilhava o côvado de ouro de Maat de onde nasciam as medidas do templo.

 

Isis e Sabni conversam com cada um dos adeptos, seduzidos pelos argumentos do marceneiro. Pouco à vontade, hesitantes, teimaram. A decepção do superior foi imensa. Como podiam, seres que tinham votado a sua existência ao templo, renegar e trair a sua vocação? Voltavam as mesmas desculpas: medo de lutar contra um adversário demasiado poderoso, vontade de ficar na sombra, desejo de uma velhice descansada longe dos conflitos. Para eles, Filae já não existia; não sonhavam senão com o regresso a Elefantina, os reencontros familiares e o anonimato.

Nem a doçura de Isis nem a firmeza de Sabni convenceram os sediosos a voltar atrás na sua decisão. Assustado, o marceneiro dirigiu-se à biblioteca onde trabalhava Ahourê.

- O caso está a tomar mau caminho.

Com raiva, a ritualista, partiu o seu cálamo.

- Sabni recusa-se, pois, a ceder!

O homem baixou os olhos.

- Propôs-me ficar no seu lugar.

- Recusas?

- É demasiado arriscado.

- Sentes-te incapaz, não é?

- E não é caso para isso! Aborrecimentos, um trabalho esmagador, eis o que acarreta essa posição indefensável. Temos de fugir desta ilha, Ahourê. A nossa cabala resultou bem demais; vários adeptos nos acompanharão e voltarão a uma existência normal.

- Tu também?

O marceneiro hesitou.

- Amo Filae, talvez mais do que Isis e Sabni, mas o dia chega em que é preciso renunciar a tradições moribundas. Estamos fechados num sonho; aceitemos as realidades da nossa época e esqueçamos aquele templo. Não demores mais.

Ela conservou os olhos fixos no seu papiro.

- Não posso.

- Não sejas obstinada. Um depois dos outros, irmãos e irmãs abandonarão o par que as governa. Isis e Sabni, breve se entredespedaçarão. Achas necessário assistir a esse triste espectáculo?

- Vai-te embora.

- Ahourê...

- És um incapaz e um cobarde. Enganei-me ao escolher-te como aliado. Louvado seja; não cometerei duas vezes o mesmo erro.

O marceneiro foi juntar-se aos seus companheiros, tristonho.

Quando os barcos se afastaram, levando aqueles que tinham retomado a palavra dada, Cresto brandiu o punho.

- Sede malditos, perjuros!

- Compreende-os - recomendou o superior.

- São as mais miseráveis das criaturas! A grande deusa tinha-os acolhido dando-lhes todo o seu amor. Eu perdoo aos cristãos e aos meus inimigos, não a esses traidores.

- Poucos seres seguem o caminho até às portas dos grandes mistérios - indicou Isis. - Não veneres o passado de uma forma ingénua; nas épocas mais gloriosas, o caminho da sabedoria era tão estreito como nos nossos dias.

- Estamos em guerra. Um desertor não merece senão a morte.

- O nosso papel é dar a vida, Cresto, prolongando a obra da divindade.

- Que sejam, na mesma, condenados - resmungou o adolescente.

Os adeptos lançaram-se nos braços dos soldados que tinham observado a sua travessia. Alguns anunciaram a sua conversão imediata; outros, incapazes de profanar o seu juramento, contentaram-se em afirmar que iriam para junto da família e que não se ouviria mais falar a seu respeito. Ocultando o seu papel de dirigente, o marceneiro juntou-se à fileira.

Os milicianos, primeiro surpreendidos por aquelas demonstrações de amizade, reagiram em seguida com brutalidade.

A golpes de lança, repudiaram os adeptos. Uma irmã caiu, ferida no ventre. Vários irmãos ficaram com os braços e as pernas dilacerados. O marceneiro tentou interpor-se, mas um irmão bateu num soldado. Essa agressão foi reprimida com o maior dos vigores; os revoltados, acorrentados, foram conduzidos à fortaleza principal. Três morreram no caminho. Atiraram os seus cadáveres para os canais de irrigação abandonados, cheios de lodo fedorento onde se decompunham os despojos de burros e bois.

Quando o capitão Mersis viu entrar o triste cortejo no pátio ensaibrado, imediatamente se apercebeu da extensão do desastre. Metade da comunidade tinha-se oferecido, vítima que consente, aos golpes de um inimigo de que não adivinhava a violência. Os soldados afirmaram que um grupo organizado os tinha atacado. Mersis dobrou-se às instruções e atirou com os facciosos para uma enxovia onde ficariam uns quinze dias antes de partirem para um campo de trabalhos forçados, na Asia, com o próximo envio de deportados. Se alguns sobrevivessem à viagem, morreriam nas minas. Incapaz de se mexer, arrastado por dois velhos adeptos, o irmão marceneiro não parava de gritar.

Teodoro rezou a Cristo, suplicou-lhe que esclarecesse o seu espírito e que lhe mostrasse o caminho. Depois de uma tal catástrofe, como salvar Sabni? O bispo sabia que o amigo era portador de uma verdade que merecia ser preservada. Extraída dos vícios de erro e de ilusão, seria uma fé triunfante, Deus confiou a Teodoro a tarefa de conduzir um padre pagão até à luz da verdadeira crença: existiria vocação mais nobre, mais exaltante? Sabni tinha a estatura de um grande prelado e possuía o dom de mandar. Lado a lado, os dois homens seriam completamente como os Gémeos do Zodíaco; nenhuma prova os assustaria. Mas era preciso arrancar Sabni à prisão onde ele próprio se tinha fechado, logo destruir a última comunidade que o amarrava ainda aos cultos malditos. A loucura do prefeito tornava-se uma arma decisiva para servir a causa do Senhor.

Maximino escreveu uma décima carta a Isis, em que implorava o seu perdão. Rasgou-a, como as nove anteriores, fazendo pouco caso da carestia do papiro. Como explicar à superiora que a estupidez de um marceneiro era a causa de tanta desgraça? Utilizando os serviços de um informador, o prefeito não desejava pôr em perigo uma comunidade que, contudo, queria destruir a fim de livrar Isis dos elos mágicos que a entravavam.

Maximino perdia-se nos próprios pensamentos. Não suportando mais a atmosfera do seu escritório, pediu ao bispo que o recebesse. Teodoro acolheu-o com frieza.

- Detestais-me.

- Estais satisfeito com a vossa iniciativa?

- Como prever que aquele marceneiro tomaria o comando de uma facção?

- Uma revolta armada de velhos e de doentes... Quem acreditará nessa fábula? O vosso espião assustou-se e tentou fugir na companhia dos fracos que soube convencer.

- Considerais-me como responsável de alguns cadáveres sem importância?

- Estou pronto a ouvir-vos de confissão.

Maximino, abalado pelo olhar do bispo, compreendeu porque governava aquele homem uma província e, amanhã, reinaria sobre um Egipto inteiro. Não subia o tom para dar uma ordem e ser obedecido.

O prefeito ajoelhou-se. Naquele instante, acreditou em Deus.

A sua presença brilhava através da do seu servo. Os lábios do prefeito tremeram e mummuraram as suas culpas.

Isis e Sabni passaram o pórtico de Adriano e desceram até ao Nilo. As friagens do Inverno afastavam-se, a Primavera despontava, desabrochavam as primeiras flores que enfeitariam, em breve, a ilha santa, de vermelho, de azul e de branco.

Os dois jovens passearam pela margem húmida de orvalho.

Passo a passo, asseguravam-se da realidade daquela terra sagrada abandonada por metade da comunidade.

Na véspera, Isis não tivera a coragem de prosseguir a redacção do ritual destinado a favorecer o regresso da deusa longínqua. Sabni tomou a distribuir o trabalho, mas várias tarefas não seriam asseguradas. O templo teria falta de artesãos qualificados; sem marceneiro, como cuidar o mobiliário ritual, reparar as camas e as arcas da roupa? Sabni aperfeiçoar-se-ia nessas técnicas, de que conhecia os rudimentos, e transmitiria a Cresto que saberia fazer frutificar o ensinamento recebido.

- Não deixei de pensar na partida dos nossos irmãos e das nossas immãs - confiou Isis. - Revejo constantemente os seus rostos, relembro as suas alegrias, os seus desgostos, as provas vividas com eles, a sua descoberta progressiva da sabedoria. Ainda ressinto a sua sinceridade, a força do seu compromisso. Cederam a um momento de desnorteamento. Voltarão.

- Perde essa esperança.

- Porquê?

- Mersis enviou uma mensagem. Desejaria evitar-te...

- Fala.

- Desejas sofrer mais?

- Detesto o sofrimento; o nosso povo viveu pela felicidade. Recuso-me a enterrar-me.

- Os que nos deixaram estão mortos ou presos. Motivo oficial: revolta contra o Exército. Mesmo Mersis não pode melhorar a sua sorte.

Isis chorou brandamente, agarrada a Sabni. O Sol aqueceu o par, sentado junto a uma tamargueira; o vento do deserto levantou-se, professor de dança das acácias, cujos troncos se inclinaram a compasso. Reinou sobre Filae uma paz profunda, herdeira de uma idade de ouro em que cada ser saudava a luz nascente antes de pensar em si mesmo.

- Tens de partir, Sabni.

- Estás a mandar-me embora?

- O prefeito vai perseguir-te com o seu ódio, o bispo exigirá a tua submissão. Aqui, estás em perigo. Vai para o norte, reúne os fiéis dispersos, toma a dar-lhes esperança. Só o superior de Filae pode encarregar-se dessa tarefa urgente.

- O meu lugar é junto de ti, à frente da comunidade que nos designou para a guiar. O corpo só vive em função do coração; hoje, o coração do Egipto, o da nossa tradição, é Filae.

- Uma vez que é assim, serei a muralha mais sólida e um dique intransponível. Os últimos adeptos desdobrarão a sua energia e serão mais indomáveis do que as feras. Aproveitemos o nosso pequeno número para acrescer a nossa coerência, respirar de um só sopro e nos alimentarmos de um só poder.

- Este templo é a morada da deusa de que usas o nome. Obedecer-lhe enche-me de uma alegria que não me pertence e de que tu só deténs o segredo.

Isis inclinou a cabeça sobre o ombro de Sabni.

- Quem saberia cantar o amor que eu sinto por ti? Ele é mais vasto do que o céu, mais fértil do que a terra preta, mais brilhante do que as estrelas.

Os seus lábios encontraram-se, os seus corpos abraçaram-se e o amor uniu-os à sombra cor-de-rosa da tamargueira.

 

Na extremidade do átrio tinham sido postos cestos cheios de peixe, ervilhas, melões, figos e tâmaras.

Sobre esteiras, havia uma dezena de jarros de vinho tinto.

No meio das comidas, imperava o jovem Cresto, portador de um tabuleiro de barro, carregado de pães redondos.

- Que se passa? - inquiriu Sabni.

- Os alimentos que provêm dos nossos domínios! Foram trazidos por dois camponeses e um pescador. Logo que decidas, estaremos prontos a banquetearmo-nos.

- Que desejas tu festejar?

- A partida dos traidores! Nunca deveriam ter entrado no templo. Mandando-os embora, a deusa purificou a comunidade e abriu-lhe um novo caminho. Que importa o nosso pequeno número... Agora, somos um só ser. A nossa rectidão teve este prémio.

Nem Isis nem Sabni replicaram. Com o ardor de neófito, Cresto aniquilava o passado. Inteiro, devastador, desprezando os cambiantes, corria para a realidade mais crua sem se preocupar com os remorsos.

- É então o nascimento de uma comunidade que saudaremos, deitando a luz nas nossas taças.

O general Narsès terminou o seu relatório oral com uma conclusão pessimista: a epidemia alastrava. Nem os médicos militares nem os práticos de Elefantina conseguiam travá-la.

Contavam-se já umas vinte mortes na caserna principal. Novos casos se declaravam todos os dias; a doença breve atacaria a população. Senão se parava a sua expansão, os exércitos de Narsès e do bispo seriam dizimados. Quem asseguraria a defesa da cidade? Realmente, os Blemis não tinham tornado a aparecer, mas o perigo não continuaria latente, escondido atrás dos blocos da catarata?

- Celebrarei uma missa e implorarei publicamente a ajuda do Senhor - prometeu Teodoro.

- Não vo-lo aconselho - objectou Maximino. - Não deveis comprometer a vossa autoridade. Que cada cristão reze ao Cristo compadecido sem implicar o Estado através da vossa pessoa; Deus poderia estar surdo...

- A rua propõe uma outra solução - indicou Narsès - apelar para uma curandeira.

O prefeito indignou-se.

- Não tornaremos a cair na magia negra!

- O povo pretende que a superiora de Filae detém poderes que a deusa lhe confiou. Teria conseguido desviar uma doença parecida, há uns anos atrás. Será verdade, monsenhor?

Contra vontade, Teodoro reconheceu os factos. Mas ergueu-se com veemência contra um recurso a Filae, que tornaria a pôr em vigor superstições de que o povo continuava guloso.

O prefeito não discordou; mas como recusar a ocasião de tornar a ver Isis? Deu ordem a Narsès de ir buscar a superiora sem utilizar o constrangimento. Se ela recusasse, que se contentasse em anotar.

O bispo sentia-se tranquilizado: Isis não aceitaria deixar a ilha santa para ajudar o inimigo.

- A vossa barca está pronta, meu general. Bastarão quatro remadores.

- Que fiquem em terra.

- Só, como?...

- Eu sei manejar o remo.

Para surpresa do oficial e dos soldados, Narsès lançou-se no rio em direcção a Filae. Desejava errar naquelas águas sagradas, sobrevoadas por garças brancas e íbis de imensas asas, e navegou indolentemente em direcção ao templo, fortaleza do divino, construída em cima do rochedo, emerso do oceano de energia, pai e mãe do universo. A medida que se aproximava, Narsès foi cada vez mais subjugado. Que arquitecto inspirado tinha ousado conceber aquele esplendor, ao mesmo tempo austero e atraente, aquele santuário colocado como um navio de partida para o céu? Como se poderia viver fora daquele lugar sacrilizado pelo brilho do Sol e o sopro do vento? O vigilante do embarcadouro correu a prevenir Sabni da aproximação de uma embarcação que apenas um homem ocupava. Era evidente que não se tratava de uma invasão; por isso, o superior não alertou o conjunto da comunidade.

O remador imobilizou-se a uns vinte côvados da margem e pôs-se de pé.

- Sou o general Narsès - anunciou com voz forte.

- E eu, o superior de Filae. Que desejas?

- Pedir à superiora que venha a Elefantina e que lute contra a epidemia que ataca a guarnição.

Sabni pensou imediatamente no capitão Mersis, o homem devotado a Filae com risco da própria existência. Só a ele justificava a intervenção de Isis. O comportamento de Narsès intrigou o superior, a sua expressão de uma gravidade cativante, traía o cansaço. Quem teria reconhecido naquele pacato navegador, o soldado responsável por tantas carnificinas? Não ousava abordar o território da deusa e contemplava a esplanada que coroava a fachada do primeiro pilar, como se o seu olhar o arrastasse para onde as pernas se recusassem a levá-lo.

- A superiora que decida - declarou Sabni.

- Vê se consegues convencê-la. A situação é desesperada. Espero pela tua resposta.

Isis ditava a Ahourê uma frase sobre o brilho do Sol assimilado à serpente uraeus cujo fogo afastava as forças tenebrosas.

Sabni interrompeu-a.

- Perdoa-me esta incursão: o general Narsès suplica-te que utilizes a nossa terapêutica para salvar o seu exército em perigo. Sem dúvida a desinteria. A aterrorizadora, saída do seu mutismo, abate os nossos inimigos com o seu sopro pestilento.

- Uma ajuda celeste... Mas não podemos abandonar Mersis. Um ser de excepção não merecerá todos os sacrifícios?

Isis foi para o lado norte do pilar e meditou em frente da parede horizontal, onde estava inscrito o ritual, para apaziguar Sekmet, a deusa aterrorizadora que a comunidade dos poderes cósmicos encarregava de propagar as doenças e de castigar a humanidade culpada de profanar o mundo, omitindo a celebração dos ritos. A superiora leu o texto a meia-voz e relembrou as fórmulas da cura.

Narsès não se tinha mexido. Do alto do embarcadouro, Isis dirigiu-se-lhe.

- Dizeis a verdade, general?

- Ignoro a mentira e sou garante da vossa segurança no território de Elefantina.

- Sois meu adversário e do templo.

- Pensava-o, antes de descobrir a catarata.

- Tereis mudado de opinião?

- De visão.

- Isis iluminou-vos com a sua graça.

- Sou um solitário, o meu caminho é o do silêncio, não de uma religião ou de uma comunidade! O meu braço está cansado de destruir. Os meus homens sofrem; só a vossa ciência pode atenuar a sua desgraça e criar problemas aos demónios com dentes agudos.

- Se os curo, voltarão a ser soldados.

- Sob o meu comando.

- Se receberdes ordem de atacar a ilha santa, obedecereis?

- Se traísse a minha palavra de oficial, compreenderíeis?

Isis voltou-se para o primeiro pilar. Sentou-se ao lado de Sabni que lhe desaconselhava a aventura; dando assistência ao adversário, não apareceria como uma traidora aos olhos dos adeptos? A superiora rebateu o argumento. Se vencesse, os frutos da vitória recaíriam sobre a grande deusa. Com os ódios e os ciúmes desacreditados, a confraria gozaria de novo a estima do povo, como nos tempos felizes em que, cada um, sabia que um médico do templo ia junto da cabeceira dos mais carentes e não lhe reclamava qualquer remuneração.

Sabni tirou do laboratório um estátua de granito preto; representava um padre com serpentes nas mãos, espezinhando escorpiões e cujo corpo estava coberto de hieróglifos. Com a ajuda do irmão mais forte, o superior levou o estranho personagem até junto da barca para onde ele desceu na companhia de Isis.

A saída da travessia, os soldados recusaram tocar no diabo de pedra. O próprio Narsès teve de dar uma ajuda ao superior para o depor num carro; depois, o cortejo dirigiu-se até à caserna principal, onde reinava um silêncio fora do habitual. De manhãzinha, quatro infantes tinham sucumbido. Enterravam-se os cadáveres à pressa, fora do acampamento.

A estátua foi instalada ao centro do pátio, onde a parada prevista não se realizaria. O superior não se afastou, enquanto Narsès levava Isis para o interior do edifício reservado aos oficiais. Ela recuou, agredida por um fedor insuportável. O olhar doloroso do general deu-lhe a coragem necessária. Os doentes estavam estendidos sobre camas de palha, a maior parte delas suja; os enfermeiros tentaram fazê-los beber. A superiora examinou os doentes um por um, poisou-lhes a mão direita na testa e a esquerda sobre o ventre. Duas vezes, pronunciou o terrível diagnóstico: «Uma doença que eu conheço mas que não posso vencer.» Em todos os outros casos, tentaria curar. Não pôde pronunciar a mais tranquilizadora das frases: «Uma doença que eu conheço e que vencerei.»

- Transportai-os lá para fora, para perto da estátua.

- O Sol vai matá-los.

- Pelo contrário. Obedecei-me, general, ou volto para a ilha. Que cada um destes homens seja levado e que se queimem as suas vestimentas. Mostrai-me a farmácia do acampamento.

Isis encontrou lá os ingredientes indispensáveis para fabricar um remédio contra a febre quarta e a infecção intestinal: sumo de sílfio, mirra, meimendro, cicuta, heléboro-branco e ópio.

Ela misturou as substâncias num vaso, obtendo uma solução que vazou sobre a estátua. O líquido impregnou-se de textos mágicos, proclamando a vitória da luz sobre os demónios portadores de sofrimento. Sabni recolheu a preciosa beberragem numa taça. Enquanto administrava a poção aos pacientes, Isis pronunciou os versículos de uma encantação muito antiga:

- Que sejam identificados com Hórus, o filho divino, preservado de qualquer afecção; que a grande deusa os livre da morte macho que ataca pela direita e da fêmea pela esquerda; que os vasos ligados ao coração difundam a energia a cada membro, expulsando os fluidos nocivos.

A superiora exigiu que eles acomodassem igualmente os simples soldados, aos quais dispensou cuidados idênticos.

Depois, fez transportar a totalidade dos doentes para dentro do edifício, em pedra, onde as janelas foram escancaradas, de modo a que o ar circulasse, numa obscuridade repousante.

- Que não haja mais nenhum barulho. Estes homens devem dormir.

Narsès deu as ordens; a caserna calou-se. Isis magnetizou cada desgraçado até ele mergulhar num sono profundo, palpou a mão e a nuca, a fim de afugentar as forças más que se tinham apoderado dos corpos; algumas fugiram como se vissem fantasmas, outras resistiram.

Quando o Sol se pôs, a superiora estava esgotada. O general Narsès ofereceu-lhe o seu quarto. Sabni passou a noite encostado à estátua que os soldados observavam com inquietação. A sua salvação seria devida àquela figura inquietante, àquele médico de pedra surgido de um outro mundo e coberto de sinais incompreensíveis.

A partir da alva, a superiora preparou uma nova poção.

Ao longo de todo o dia, ocupou-se dos doentes. Dois de entre eles sucumbiram, três conseguiram levantar-se. A febre dos outros desceu. Isis teve de tratar novos casos; os de boa saúde beberam um remédio preventivo.

À noite, já nenhum soldado apresentava sintomas agudos.

Em Elefantina, já se espalhava um rumor que breve atingiria toda a província: a deusa de Filae vencera a epidemia.

O sorriso furtivo do capitão Mersis, preocupado em manter uma atitude distante, quase indiferente, foi a mais doce recompensa de Isis. O general Narsès persuadiu Sabni a aceitar, à guisa de agradecimento, uma centena de garrafões de vinho. Os infantes conduziram a estátua curandeira que tocou à passagem em dezenas de basbaques; vários deles gritaram o nome de Isis e aclamaram o superior.

Em frente do embarcadouro, encontravam-se o prefeito e o bispo. Maximino avançou para Isis. Tinha preparado um discurso mas foi incapaz de se exprimir.

- Porque salvastes os vossos inimigos? - perguntou Teodoro.

- Os soldados garantiram a segurança dos proprietários terrícolas. Estamos-lhes reconhecidos.

- Utilizásteis ritos pagãos formalmente proibidos pela lei.

- Os meus remédios são eficazes; quanto a esta estátua, só constitui uma ajuda de memória. Porquê ver o diabo em toda a parte? A natureza é obra de Deus, graças às plantas, curamos as mais temíveis doenças. Quando a magia dos hieróglifos se acrescenta à sua virtude, a medicação torna-se mais eficaz.

Indignado, Teodoro voltou-se, não sem notar, nos olhos do superior, um clarão que considerava irónico. Mais um sucesso daquele tamanho e acabaria por rir de Cristo.

 

A Primavera triunfava. Mal o Sol brilhava, a frescura matinal cedia o seu lugar a uma suavidade que penetrava na pele como um bálsamo em cada manha. Isis passeava na companhia da bibliotecária, cuja gravidez chegaria ao seu termo em breve Filae vivia momentos inesperados de felicidade. Sabni ocupava-se das terras do templo, onde os camponeses trabalhavam com um crescente entusiasmo; os espectros da fome e da pobreza afastavam-se. O superior sofria por consagrar demasiado tempo e esforço a tarefas materiais pouco propícias à meditação; mas regozijava-se da serenidade que enchia de novo o coração dos adeptos. Depois de tantos anos de incerteza e de ansiedade, o templo, inscrito de novo num quadro legal, desempenhava o seu papel de castelo da alma, que ninguém pensava em assediar.

O prefeito passava por fases de exaltação e de neurastenia Detestava-se, decidia ir à ilha depois de todos os assuntos tratados, hesitava, recaía no torpor. Tinha abandonado ao bispo a gestão dos assuntos públicos. Sem Isis, o quotidiano **eSva va-se dos seus sabores. Sabê-la tão próxima, mostrar-se incapaz de ir ter com ela... haveria suplício mais infernal?

O imperador calava-se. Nem uma mensagem de Bizâncio, depois da chegada do exército de conquista a Elefantina. Ou as intrigas da corte o ocupavam mais, ou tinha pronunciado a desgraça de Maximino, que se traduziria pela chegada de um administrador dotado de plenos poderes.

O ouro de Núbia... o prefeito tinha-o esquecido. O amor de uma mulher inacessível levava-o a estragar uma carreira brilhante; não se estaria a comportar como um rapaz estúpido, a braços como uma ilusão? Maximino convocou Narsès.

- Preparai um corpo expedicionário.

- Quantos homens?

- Uns trinta, com um batedor. O bispo fornece-vo-lo.

- Missão?

- Passagem da primeira catarata e avanço para o sul, pela pista caravaneira. Interrogatório aos indígenas e localização das minas de ouro. Logo que chegarem tomaremos o comando do exército.

- Portanto, ireis...

- Que dúvida! Estarei ao vosso lado e traremos montes de ouro.

Três dias depois da partida do corpo expedicionário, o batedor voltou. Gravemente ferido no ombro, com um ferro de lança ainda cravado na carne, morreu uma hora depois de ter relatado ao general Narsès, o extermínio da guarda-avançada.

Graças a bateleiros experientes, os soldados passaram a catarata sem sofrer perdas. Durante uma manhã de marcha na pista, não encontram vivalma. Por ocasião da sua primeira paragem, junto de uma duna, esbarraram com dezenas de guerreiros negros, armados de lanças e de mocas. Apesar da sua valentia, os de infantaria não resistiram muito tempo. Embora cada um deles massacrasse vários adversários, a horda dos assaltantes engrossava sempre. Por ordem do seu superior, o batedor fugira antes de prevenir o quartel-general. À vista das fortificações tinha-se julgado a salvo; decerto, as flechas lançadas do alto das muralhas dispersaram os perseguidores, mas um deles, tão poderoso como preciso, não falhou o seu alvo.

- Blemis - disse o batedor ao morrer - centenas de Blemis.

Maximino estava aterrado. O ouro de Núbia, também ele se tomava inacessível. O seu exército não conseguiria exterminar um inimigo numeroso, móbil e feroz.

- Reforcemos as nossas defesas - propôs o bispo. - Que os vossos homens, unidos aos meus, tornem a fronteira ainda mais intransponível. Estou persuadido de que os Blemis, tarde ou cedo, atacarão.

- Não é certo - objectou Narsès. - Em sua casa, eles é que mandam e provam-no da maneira mais bárbara. O imperador não mobilizará regimentos na perspectiva única de pacificar esta região perdida. Os Blemis atingiram o seu fim.

- Deus nos oiça.

Teodoro esperou ficar só com o prefeito para sublinhar um facto mais inquietante do que a vitória Blemi: o diabo insinuava-se na alma de Elefantina.

- A intervenção de Isis revelou-se desastrosa.

- Salvou muitas vidas.

- Perturbou muitos espíritos frágeis. Vários notáveis sugerem que o sistema de doação ao templo deveria ser reposto em vigor. Em troca, a superiora encabeçaria a corporação dos médicos e ensinaria a antiga terapêutica. Uma dezena de jovens, rapazes e raparigas, pediram a sua entrada para a comunidade. Mandei-os prender e deportar para o Norte, mas outras vocações despertarão.

O rosto do prefeito iluminou-se. Se Isis aceitasse desempenhar essa nova função, seria obrigada a morar em Elefantina.

Vê-la-ia todos os dias, inventaria cem doenças, queixar-se-ia de mil males incuráveis e insuportáveis, exigindo cuidados constantes. A sorte sorria-lhe de novo: assim, apoiou com força o projecto dos notáveis.

- Percebe mal a situação - observou o bispo. - A verdadeira fé, em numerosas consciências, é numa luz trémula que o vento do paganismo poderia apagar. Os poderes das trevas utilizam esta mulher para destruir a mensagem de Cristo.

- Isis é amor; nela não há nada de obscuro.

- Serve a causa do diabo. Vós também...

A gravidade de Teodoro fez estremecer Maximino.

- Isso significa...

- Isso significa que vos ameaço de excomunhão. O imperador tinha-vos confiado duas missões: levar-lhe o ouro de Núbia e fechar o último dos templos pagãos. Não só falhais mas ainda vos ergueis contra a igreja e contra Cristo.

O prefeito não tomou o aviso em vão; uma tal medida condená-lo-ia à perda dos seus títulos e ao exílio. Contudo, resistiu.

- Isis é a minha razão de ser.

- Nesse caso, deixai-me agir.

Escoltado por soldados e diáconos, o bispo dirigiu-se à extremidade sul de Elefantina, onde estavam acampados os mercenários, os judeus e os aramaicos. Celebravam o culto de Yaho, se bem que o santuário tivesse sido arrasado por ocasião de longínquas perseguições; o triunfo do cristianismo tomava a dar-lhes um discreto direito de cidade, embora o bispo mantivesse a proibição de um costume que escandalizava os habitantes da província.

Aquela visita surpreendeu os mercenários. Teodoro, ordinariamente, esmagava-os com o seu desdém: não eram mais do que uns rejeitados, encarregados das mais baixas tarefas, e receavam ter cometido uma falta, pretexto para faxinas suplementares.

O bispo contentou-se em ordenar aos seus chefes que o seguissem até um cerrado onde dormitavam carneiros.

Sabni retomou o caminho do templo, quando um camponês o avisou que se acabavam de dar terríveis acontecimentos. Os Judeus tinham quebrado as paliçadas do cerrado para carneiros, propriedade de Filae desde a fundação do templo, e tinham-se apoderado daqueles animais que continuavam sagrados na memória do povo. Em Elefantina, não se matava um único carneiro por respeito por Khnum, guarda do segredo das nascentes do Nilo.

O superior verificou o roubo, foi a casa do bispo sem tardar, mas teve de esperar mais de uma hora na antecâmara.

Teodoro recebeu-o com afabilidade.

- Não digas vitupérios, Sabni. Já me informaram.

- Então foste tu quem favoreceu este sacrilégio?

- Matar um carneiro não ofende a Deus.

- Autorizando este massacre, feres a alma de todos os egípcios.

- Os Egípcios são cristãos. A colónia judia alimenta-se de carne desses animais pela Páscoa. São esganados em glória de Yaho.

- Antigamente, a população arrasou-lhes o santuário para lhes fazer expiar uma falta semelhante.

- Isso era dantes, amigo. Hoje, Filae já não governa a província e o poder de Khnum apagou-se. Já não mora no corpo do seu animal sagrado; carne para consumo, mais nada.

- Houve roubo, arrombamento de vedação: delitos graves...

- Se tivessem sido cometidos, poderias apresentar queixa. Mas disponho de um relatório estabelecido pela polícia militar. Dois cultivadores dignos de confiança viram os carneiros arrombar o cerrado.

- O acaso levou-os até ao acantonamento dos mercenários judeus...

- A mão de Deus, Sabni. É ele que dirige os nossos destinos.

- Que contas empreender contra o templo?

- Filae fez mal em sair da sombra. Converte-te e vem para junto de mim. Eu espero. Eu espero com impaciência.

O bispo julgou que o superior hesitava. O seu olhar pareceu vacilar. Com os lábios apertados, saiu do escritório.

- A nora já não funciona - verificou o camponês. - As peças de ferro estão escangalhadas. Será preciso substituí-las; senão, é impossível irrigar.

O homem não denegria a realidade. Os bois, habituados a andar à volta, accionando a grande roda de madeira a que estavam atrelados, amadorravam de tanto repouso. A engrenagem da nora, comandando a corrente sem fim de baldes que se enchiam, mergulhando na água e esvaziando-se no cimo da sua volta, tinha deixado de ranger.

- Utilizemos mais os picanços - recomendou Sabni.

O camponês abanou negativamente a cabeça. Conduziu o superior à beira de um canal de irrigação onde estavam cravados postes, presos a forquilhas, permitindo-lhes baloiçar de trás para a frente. Numa das extremidades, havia um recipiente de barro para tirar a água; na outra, o necessário contrapeso para endireitar o poste quando o recipiente estivesse cheio.

Forquilhas serradas, postes quebrados, recipientes partidos... os vândalos nada tinham poupado.

- Sabe-se quem é o culpado?

- Tudo se passou durante a noite. Ninguém viu nada.

Cada camponês devia vigiar o seu picanço. A roda de irrigação, em compensação, pertencia ao Estado. Assim se sentou Sabni, de novo, no escritório de Teodoro. Na sua ausência recebeu-o um secretário que anotou o pedido e derigiu o superior para um colega encarregado do cadastro. Este último, verificou que o campo existia realmente, e exigiu uma descrição precisa da parte do proprietário. A reparação da roda, não sendo da sua competência, apresentou Sabni ao funcionário responsável pela irrigação. Este último fez numerosas perguntas técnicas e anotou as respostas. A roda também tinha uma existência legal, que ele reconheceu sem rodeios. O fornecimento das peças de recarga provinha de um outro serviço, cujos escritórios estavam instalados a norte da cidade. O superior foi lá recebido por um velho grego, particularmente mesquinho; no fim de uma longa conversa, explicou que só se ocupava de peças de madeira. Tratando-se de peças de ferro, como Sabni tinha indicado, era preciso ir ao arsenal e dirigir-se a um graduado. O superior não desistiu e gastou a paciência dos soldados que se recusassem a ouvi-lo; finalmente introduzido no escritório do intendente militar, não teve oportunidade de expor o seu caso. Qualquer fornecimento de metal, mesmo para uso civil, estava proibido até nova ordem, por causa do estado de alerta. O pedido nem mesmo seria registado, por não poder ser atendido.

Içando a vela do barco, que o tornaria a levar ao templo, Sabni enfureceu-se. Com que então o bispo escolhia destruir Filae, a pouco e pouco, privando-a de meios de subsistência que o prefeito concedia. Sem furor, sem violência, começava a mais impiedosa das guerras. Alguns meses mais cedo, teria talvez cedido ao desespero; o amor de Isis transformava-o. Saboreava a felicidade e não a queria perder.

 

O padeiro pisou a semente num almofariz, e peneirou-a implorando aos deuses que velassem por Filae. Quando descobriu Isis, imóvel, perto do forno, abandonou a forma cónica destinada a receber a massa do primeiro pão do dia.

Os lábios espessos do artesão contraíram-se. Incapaz de esconder o seu embaraço, recuou.

- Porque tens tanto medo da superiora?

- Espanta-me... nunca vindes aqui.

- Inventa uma melhor explicação, meu irmão. Não há semana em que não aspire o perfume delicioso dos teus pães e dos teus bolos. Os teus olhos têm um brilho vago: mentem.

O padeiro estremeceu.

- De inquietação, Como todos os adeptos...

- O teu melhor amigo não era o irmão marceneiro?

- O seu desaparecimento é cruel.

- Não faziam nada um sem o outro. Porque não o seguiste?

O artesão baixou a cabeça.

- Seria o receio de um mundo hostil - interrogou Isis - ou a recusa de trair? Desejo conhecer a natureza da tua alma. Comungará com o templo ou perder-se-á nos lagos tenebrosos do rancor?

O padeiro apanhou a forma e limpou-a.

- Detestei Sabni porque exigia muito de nós. Ele, um homem novo, trata os irmãos idosos como crianças, e não solicita os seus conselhos.

- Quais seriam?

- Renunciar e entrar na ordem. Em Elefantina simularíamos uma conversão e manteríamos reuniões secretas a fim de venerar Isis. A grande deusa ficaria bem satisfeita com essa devoção. Não somos incapazes de manter um templo tão vasto, cuja simples existência atrai sobre nós a ira do bispo?

- Conheci-te mais pugnaz. Tu e o marceneiro repudiáveis a mínima concessão à Igreja e declarei-vos prontos a bater.

- Éramos novos.

- Não existirá outra causa: a recusa de vos admitir aos grandes mistérios?

O olhar do padeiro levantou-se.

- A nossa antiguidade dava-nos o direito de os conhecer.

- É falso e tu sabe-lo. Só a perfeição do teu trabalho e o conhecimento da língua sagrada abrem a última porta.

- É verdade... Mas como admitir ter de parar no caminho?

- És o meu único mestre desse destino. Pelos teus actos, situas-te na hierarquia do templo e escolhes os teus alimentos.

O irmão peneirou de novo a farinha, a fim de obter a finura desejada.

- Aceitei os meus limites: agora, o ódio extinguiu-se. Concede-me a alegria de continuar na comunidade, até ao meu último sopro, e de participar na obra conforme as minhas capacidades.

- Se tal é a tua felicidade, modela-a como o pão quente e estaladiço.

O rosto do artesão modificou-se. Sob a moleza aparente, adivinhava-se uma convicção renascente.

- Tenho de te informar, superiora.

Isis temeu uma nova felonia.

- Nem tu nem Sabni estais suficientemente conscientes de que a comunidade vos ama e vos venera com um só coração. As provações amadureceram-na e confortaram-na; crede nela como ela crê em vós.

O bispo consultou a lista das pessoas desaparecidas: uma dezena de agricultores em fuga, incapazes de pagar os seus impostos, e três filhos de bateleiros, espancados por um pai bêbedo. Tinham sido encontrados e encerrados; o prefeito julgá-los-ia quando lhe parecesse bem. Indiferente aos assuntos públicos, fechava-se na sua morada, sonhava, meditava, e escrevia poemas sobre a beleza de Isis. À noite, bebia até à embriaguez.

O prelado já não duvidava que Maximino estivesse atacado de loucura. Como podia o amor por uma mulher degradar um homem àquele ponto? O povo, de imaginação tão fértil como ingénua, falava de feitiço. Teodoro agradecia a Deus, por intermédio de Isis, o Altíssimo favorecia os seus desígnios. Continuando o senhor absoluto da província, o prelado arruinaria Filae, constrangeria a superiora ao exílio e salvaria Sabni.

O bispo tinha o costume de ler todos os documentos que lhe eram dirigidos: listas intemmináveis de contribuintes, grandes ou pequenos, notícias das deliberações dos patrões de associações comerciais, relatórios da gestão dos bancos, curtas mensagens redigidas pelos seus espiões misturados nas discussões das ruas; não se esquecia de nada, memorizava cada pormenor, redescobria, dia após dia, os segredos dos seus súbditos.

O Senhor não lhe ditaria a sua conduta, Ele que sondava o coração das criaturas? A descrição de uma festa celebrada em casa de Apollo intrigava-o. O diácono, autor do relatório, notava a ausência de um dos filhos do mercador de figos que, muito orgulhoso da sua fortuna crescente, tinha contudo convidado numerosos amigos e os filhos destes. Vários camaradas de Cresto se tinham admirado. Apollo respondera que o filho partira para Lycopolis, onde residia seu avô. Teodoro verificou esse último ponto.

Restava-lhe assegurar-se que o chamado Cresto se tinha apresentado nas outorgas que balizavam as estradas entre Elefantina e Lycopolis.

Durante a primeira semana de Março, os vinte adeptos que residiam na ilha santa prepararam magicamente a colheita.

Depois de ter celebrado o rito do levantamento do cosmos, graças ao qual o sopro de vida circulava entre céu e terra, imploraram os poderes do solo, escondidos no corpo das serpentes. Estas, deslizando pelos campos, e metendo-se por entre as culturas para encontrarem buracos escuros onde se abrigarem, fecundavam as espigas. A deusa cobra, a-que-ama-o-silêncio, ouviu as preces secretas dos ceifeiros. Graças à multiplicação dos picanços, reparados com os meios de ocasião, a água não faltou.

Elevaram-se cantos por toda a parte. As velhas árias e os estribilhos continham imensas alusôes às divindades desaparecidas e aos espíritos benfazejos escondidos no trigo maduro.

Aqueles tempos de esperança eram também horas de receio: medo de uma má colheita, de rapinas cometidas pelos numerosos jornaleiros vindos do norte. À noite, os camponeses, armados de forquilhas, guardavam os seus bens. Sabni velava junto deles. Depois da sabotagem da grande roda, temia outras malevolências.

Filae abandonava-se à euforia. Dentro dalguns dias, nasceria o filho da bibliotecária; Cresto progredia a grandes passos no estudo da língua sagrada; Isis sentia um maravilhoso fervor no andar solto dos adeptos que, formando uma comunidade mais coerente, livre de pieguices e de lentidões, seguiam pelo caminho de um Deus único, celebrado a partir das origens do Egipto.

Como Sabni teria gostado de estar entre eles, à sombra protectora das colunas do templo. Mas os deveres do seu cargo, passavam à frente dos seus desejos.

Assegurando a protecção do campo, preservava a própria existência do santuário. Punha-se a sonhar com o dia em que Cresto estaria apto em substituí-lo, em que ele tornaria a ser um irmão unicamente preocupado com a oferenda e a pureza do ritual.

Numerosos molhos de cores de ouro foram juntos e carregados em burros que transportaram à grande eira da aldeia.

O Estado tomaria a sua parte e calcularia o imposto sobre as quantidades atribuídas a Filae. Antes de ocupar a cabeça do cortejo, Sabni deu ordem de se amontoar a casca do grão com cuidado; durante o Inverno, aquele excelente combustível permitia que se aquecessem as canalizações e que se obtivesse uma temperatura agradável nas salas de água.

Uma multidão barulhenta de proprietários e de camponeses empurrava-se à volta da eira; o recebedor Filamon ordenou que se armassem pequenos quiosques de madeira onde, ao abrigo do Sol, os funcionários procedessem ao registo dos molhos e calculassem os impostos. Novas idas e vindas foram necessárias para encaminhar a totalidade da colheita. Não só Filae seria bem alimentada mas também venderia uma parte do seu trigo.

Enquanto muitos agricultores, vítimas da insuficiência da cheia, arvoravam uma expressão desfeita, Sabni regozijava-se da generosidade das suas terras.

Como em cada ano, os inspectores do fisco foram de uma lentidão exasperante: nem um grão devia escapar à sua vigilância. Libertados uns após outros, os molhos voltavam ao dorso dos jumentos que tanto tomaram a direcção dos celeiros públicos como a das propriedades privadas. Trincando cebolas e biscoitos, Sabni esperou na companhia dos outros proprietários. Enquanto o Sol declinava, o produto do seu campo continuava bloqueado na eira. Os escribas tinham de se apressar se queriam terminar antes da noite. Breve, junto dos escritórios provisórios abandonados, apenas ficariam Sabni e um lavrador dono de magras terras.

Inquieto, o superior dirigiu-se ao recebedor que começava a fazer as malas.

- Gostaria de conhecer o montante dos meus impostos e de retomar o que me é devido.

- Denominação do proprietário?

- Bem o sabeis: Filae.

- Vou verificar.

Filamon conversou alguns instantes com o escriba, que estava com pressa de se ir embora.

- Os seus impostos são nulos. Só pagará a instalação dos burros.

- É estranho... A minha colheita é abundante.

- Com efeito, mas está reservada ao exército, na totalidade.

- Está enganado.

- Em vinte anos de carreira, não cometi um só engano.

- Filae é um domínio privado. Interrogue o prefeito.

- Se tem uma queixa a fazer, apresente-se amanhã no meu escritório.

Os locais de administração fiscal abriram pela alvorada. Já se tinha formado uma bicha, fommularam-se numerosas constestações, poucas entre elas atendidas. Quando chegou a vez de Sabni, o inspector condescendeu em consultar o colega, que tinha dado ordem para expedir para a caserna, a colheita do templo. Com pouca amabilidade, tomou a ler o texto e pareceu embaraçado. Sem dar explicação, desapareceu e voltou alguns minutos mais tarde em companhia de Filamon.

- O meu subordinado cometeu um erro - reconheceu o recebedor.

Sabni respirou melhor.

- Desejais apresentar queixa contra a administração?

- Quando obterei o trigo?

O homenzinho mordiscou o indicador.

- Esse pormenor cria um problema... Vai ser extremamente difícil.

- Então porquê?

- A vossa colheita já está armazenada nos celeiros militares. Assim pertence ao Exército. Seria preciso um decreto episcopal, contra-assinado pelo prefeito, para se operar uma transferência.

- Vais assinar esse decreto, Teodoro. Tu, um homem de Deus, não podes aceitar uma injustiça.

- Não te exaltes, Sabni. Não pretendem que um adepto de Isis conserve a sua calma em todas as circunstâncias?

- Queres reduzir o templo à fome e obrigar-nos a deixá-lo, mesmo ao preço da ilegalidade que tanto combateste?

O bispo aguentou o olhar do amigo.

- Deus situa-se acima das leis humanas.

- No tempo dos faraós formou-se o pedestal com elas.

O teu Deus justifica demasiado facilmente as defraudações dos seus servos.

- A tua visão é bem curta; as paredes do templo limitam-na. O tempo acaba de as abater para tua própria salvação, mas assinei o decreto que te restitui os teus bens. Se já não tens confiança em mim, leva-o tu mesmo a Maximino.

- Expulsar-me-á como um cão tinhoso.

- És um cidadão respeitável, dado que pagas os teus impostos. Tens certamente razão de desconfiar de Maximino; é um homem imprivisível. Volta esta noite.

Durante a noite, Sabni errou pelos becos de Elefantina, matou a sede numa taberna, andou ao longo do cais. Meteu-se nas conversas em que aparecia frequentemente o nome de uma curandeira cujo saber seria o único capaz de fazer subir as águas da próxima cheia. Falava-se também do massacre de um regimento enviado para sul, para descobrir o ouro jacente e feito em pedaços por milhares de Blemis; donde vinha a proclamação do estado de urgência e a consolidação das fortificações.

Morria o dia quando Teodoro mandou entrar Sabni para o seu escritório. Sobre a mesa de trabalho, estava o decreto com o sinete do bispo.

- Maximino recusa-se a assinar. O trigo de Filae continua a ser propriedade de Filae. Serás indemnizado.

- Dentro de quanto tempo?

- Logo que o orçamento de província seja liquidado.

- Em que data?

- Talvez no princípio do próximo ano, talvez mais tarde. O trabalho dos serviços de contabilidade anuncia-se lento e delicado; não podem cometer nenhum erro, sob pena de sanções, Além disso, só o prefeito concede penas e benesses. Procedimento melindroso, Sabni, no momento em que o financiamento do exército é prioritário.

 

Cansado, desapontado, o superior avançou com dificuldade sobre as águas prateadas. Escondida sob o disco da lua cheia, a lebre de Osíris favoreceria os nascimentos e renovaria as energias; Sabni pediu-lhe a força para remar e manter o ritmo até à ilha santa.

Mais poderoso e mais determinado do que nunca, Teodoro não largaria a presa; espoliando o templo, condenava-o a chorar a sua miséria. O prefeito não era mais do que um fantoche nas mãos de um prelado consciente de que a relegião de Isis, apesar de um pequeno número de adeptos, ganhava terreno.

A pouco e pouco, seduzia os espíritos mais renitentes e tornava Filae perigosa.

Por fim, o embarcadouro.

Com o corpo partido, o espírito lasso, o superior amarrou a barca e deixou-se cair no rebordo de pedra. Isis logo o ajudava a levantar-se.

- Vem depressa, a nossa irmã está a dar à luz.

Passaram a porta do primeiro pilar e tomaram a passagem que conduzia ao templo do nascimento. Sete irmãs, simbolizando as sete Hator, debruçadas sobre o berço do recém-nascido, a fim de lhe concederem os seus dons, formavam um círculo em volta da parturiente. Batiam em cadência, num tambor, salmodiando um hino ao rei acabado de nascer, filho de Isis e de Osíris com quem se identificava o novo adepto.

- Compete ao superior trazer o torno do oleiro.

Sabni tirou o precioso objecto da sala do tesouro. Era com ele que Khnum modelava o mundo cada dia, e criava os seres.

Esquecendo o cansaço, seguiu Isis que, manipulando um bloco montado num rolamento encaixado num entalhe, deu acesso a uma pequena sala para onde as irmãs conduziram a bibliotecária. Com uma pressão lateral, a superiora fez entrar a pedra num buraco da parede e disfarçou a entrada.

Duas irmãs mantiveram de pé a futura mãe, por cima de um leito de pedras quentes de onde subia um fumo perfumado.

Isis deitou água aromatizada com substâncias calmantes. Uma luz doce reinava naquele lugar fechado onde, na origem do tempo, tinha aparecido a grande deusa sob a forma de uma mulher preta e cor-de-rosa.

O parto foi lento e doloroso. Quando Isis teve de admitir que a criança era um nado-morto, perdeu os sentidos.

A bibliotecária morreu uma semana mais tarde, abatida pelo desgosto. O pai enlouqueceu. Sabni ficou à cabeceira da esposa, que se recusou, durante muito tempo, a admitir a realidade.

O destino revelava-se demasiado cruel; a notícia daquele nascimento não teria entusiasmado Elefantina, a província, o Egipto inteiro? A ternura de Sabni curou a superiora do desespero. Recusando deixar-se abater sob o peso da infelicidade, transmitiu-lhe a sua determinação. Se a perdessem, a comunidade dispersava-se.

Isis sobrepôs-se ao seu desgosto; quando reuniu as irmãs, conseguiu insuflar-lhes uma nova alegria. Filae tinha perdido uma criança mas conservaria Cresto. A juventude não fugia do templo.

Se bem que o Sol desaparecesse no reino das sombras, o seu calor permanecia. A doçura das tardes que os adeptos passavam nos jardins que rodeavam o templo, era ritmada com leitura de contos e de poemas. Isis e Sabni eram os últimos a deitarem-se; depois de terem contemplado a Lua e as estrelas.

- O trigo vai faltar-nos dentro em breve. Porque continuará vazio o nosso armazém, uma vez que a colheita foi abundante?

- O bispo e o prefeito requisitaram os nossos bens. Não nos resta uma espiga. Deveríamos ser indemnizados mas a nossa queixa perder-se-á nos labirintos da administração.

- Ficaremos privados de alimento?

- A partir de amanhã, volto às nossas terras. A irrigação oferecer-nos-á uma segunda colheita antes da cheia; nenhum funcionário a desviará.

O acesso ao campo era guardado por soldados. Nenhum camponês lá trabalhava; contudo, seria preciso lavrar a terra e drená-la.

- Requisição? - perguntou Sabni a uma sentinela.

- O acesso à vossa terra é livre.

- onde estão os cultivadores?

- Porquê este desdobramento de forças?

- Também o ignoro. Recebemos ordem de o vigiar. O resto não nos diz respeito.

- O vosso oficial?

- Voltou à caserna.

Foi em Elefantina, nos escritórios do bispo, que Sabni obteve a resposta. Atendendo à cheia, Teodoro preocupava-se em desimpedir os canais principais, e em reparar os diques, a fim de que as águas fossem dirigidas para tanques de reserva.

Assim, submetia um pessoal numeroso a uma tarefa que duraria pelo menos dois meses; colmatar as brechas, limpar até às esquadrias, exigiria um intenso labor.

Entre os operários agrícolas, constrangidos a abandonar o seu trabalho, figuravam aqueles que dependiam de Filae.

- O bispo aceita receber-vos - anunciou o plantão.

Conduziu Sabni a um pequeno jardim interior onde Teodoro cultivava plantas medicinais. Ajoelhado, regava a salva.

- Tiraste-me todos os meus empregados.

- A necessidade faz lei.

- Os outros proprietários tiveram a mesma sorte?

- Que importância tem isso?

- Os meus protestos têm alguma hipótese de conclusão?

- Nenhuma. A requisição é um acto legal, o serviço do Estado um dever imperioso.

- Impedes-me de obter uma segunda colheita.

- Preocupo-me com o interesse geral, melhorando o sistema de irrigação da província. Censurar-me-ias por isso?

- Tu serves o teu Deus, Teodoro.

O bispo arrancou uma erva daninha.

- Eu quero a felicidade de Elefantina. Os seus habitantes devem colaborar; os adeptos de Isis como os outros.

- Que queres dizer?

- Para levantar os diques, a boa altura, tenho necessidade de muitos homens. Os inactivos não mandriarão mais: a começar pelos habitantes de Filae.

- Como é que tu, um padre, te podes exprimir assim? Nenhum religioso sairá da ilha. Ignorarás que nós trabalhamos para fazer circular a energia divina e torná-la perceptível nesta terra!

- Já não há padres em Filae, apenas os que não trabalham. Se querem comer que participem na tarefa.

- És impiedoso.

- Não tenho escolha, Sabni. Interrompe esse calvário renunciando aos teus erros e seguindo Cristo. Conhecerás a maior das beatitudes.

- Um cobarde e um perjuro. Aceitá-lo-ias como amigo?

- A misericórdia de Deus é infinita, O teu passado já não contará.

- Não me obrigues a adoptar medidas mais constrangedoras.

- Eu não. Não tenho escolha.

Sabni não escondeu nada à comunidade reunida no pátio situado entre dois pilares. Filae só conservava vinhas e uma terra árida que apenas produzia um pouco de espelta. Graças à venda de objectos antigos, o templo dispunha de moedas de prata que lhe permitiria comprar trigo, peixe seco e frutos. O superior iria à cidade e negociaria.

- O teu rosto é conhecido demais - interveio o especialista dos unguentos, um velho teimoso de que ninguém ouvia a voz, fora das liturgias. - Os agentes recusar-se-ão a vender-te géneros. O bispo deve ter-lhes prometido as piores pe financeiras se negociassem com o templo. Eu irei. Há q anos que não deixo esta ilha. Os meus antigos amigos s3 e respeitados, possuem terras e rebanhos; obterei os melhores preços e alugarei burros e barcos.

- Os soldados vão interpelar-te.

- Compreenderão demasiado tarde. Embarcarei clo do deserto e atingirei Filae pelo norte. Ninguém tomará..;

caminho.

Isis interrompeu.

- Há demasiados perigos.

- E então como? Costumo obedecer e calar-me.

vez imporei a minha vontade porque está de acordo com a

- Compete-te a ti julgar?

- O superior deve salvaguardar a comunidade tanto interior como no exterior. Que me delegue a sua função defrontar o mundo profano. Dentro de três dias, voltarei com alimentos.

Isis interrogou Sabni com o olhar. Ele inclinou a cabeça.

O especialista dos unguentos cumprimentou-o e, com um p decidido, dirigiu-se para o embarcadouro.

Uma irmã muito magra, com cara de lâmina de faca, c cou-se na primeira linha.

- Eu parto com ele.

- É melhor para o nosso irmão trabalhar só; a tua é frágil.

- Não compreendes, Isis. Aproveito a viagem para deixar a comunidade; entre estas paredes, a existência torna-se demasiado implacável. O bispo, o prefeito, os cristãos odeiam-nos.

obrigar-nos a morrer de fome e a abandonar-lhes a ilha.

- Tinhas oferecido a tua vida, por juramento, à grande deusa.

Ela já não nos protege da vindicta dos nossos inimigos.

Lembras-te da sorte reservada àquelas que fugirem? E,& não fujo. Quero sobreviver. Fizeram mal de partir em po. E& só, passarei despercebida.

Sabni agarrou o punho de Cresto, cuja cólera subia. A irmã voltou-se para o pilar onde faraó, representado como um gigante, ava a& chão o adversário.

- Tudo isto não passa de lenda. Breve& uma ruína. Em menos de um século, a humanidade terá esquecido que um templo se erguia aqui. O nosso heroísmo é ridículo e vós deve-seg-i ir&me Corl&ell para junto do barco, para onde o especlahsta de unguentos acabava de descer. Isis fechou os olhos e agarrou-se ;&ndo os abriu, uma alegria muito doce temperou a sua aO; ninguém tinha seguido a irmã com cara de lâmina.

 

Depois do átrio que precedia o primeiro pilar, Sabni admirou o pórtico do Ocidente, cujos capitéis cantavam a glória de uma natureza sacralizada. Encadeado pelo sol, refugiou-se na sombra das colunas e, através de uma das janelas da pacífica fortaleza, abismou-se na contemplação das águas de um azul violento. O templo parecia cada vez mais imenso aos adeptos que tinham escolhido ali ancorarem as suas vidas.

A grande esplanada, os pátios, o templo do nascimento, o quiosque de Trajano, o santuário de Hator, o pórtico de Adriano, a sala das colunas, o venerável assento, a biblioteca, o laboratório, o tesouro, as criptas e os aposentos dos padres destinavam-se a uma numerosa comunidade.

A mão de Isis pousou sobre o peito de Sabni.

- Não serve de nada torturares-te. O nosso destino está na mão da deusa. Não passamos de argila e de palha com as quais ela constrói a obra do seu coração.

- Como não sonhar com o passado? Há tanta força em nós, tanto desejo de fazer viver o espírito... porquê aquela decadência? Porque corre este mundo para a sua perdição?

- Talvez não passe de ilusão.

- Esquecerias tu a predicção do Livro de sair para a luz: Destruirei o que criei, anuncia o Princípio. Este país voltará ao seu primeiro Estado, o do oceano primordial. Retomará a forma da vaga. Eu sou o que permanecerá na companhia de Osíris, quando me tiver de novo transformado na serpente, que os homens não podem conhecer e que os deuses não podem ver.

- Tu não te agarras senão ao aspecto mais triste da profecia.

Para quem ressuscita em Osíris desvenda-se a vida eterna. É o nosso papel, Sabni: preparar em vida a nossa ressurreição. Enquanto a sabedoria dos grandes mistérios for transmitida, o espírito brilhará. A nossa tradição é o futuro da humanidade.

- Teodoro reduz-nos à fome.

- Obriga-nos a acordar as nossas magias mais secretas.

Enlaçou-a.

- Serás indestrutível, Isis?

Os corpos deles harmonizavam-se às mil maravilhas. Unidos um ao outro, formavam um único ser. Um raio de Sol iluminava uma cena de oferenda e banhava-os com o seu calor.

Um grito de socorro arrancou-os ao seu êxtase. Debruçando-se por uma das ameias abertas na muralha, Sabni avistou um nadador que se debatia, agarrando-se aos destroços de uma jangada de ocasião. O superior correu para o embarcadouro e mergulhou. Em poucas braçadas, chegou junto do náufrago e trouxe-o para a margem. A comunidade foi rapidamente reunida à volta do recém-chegado que uma vez os pulmões despejados, retomou a respiração.

- Quem és?

- Chamo-me Khusu e trabalhava numa das quintas do bispo; fugi porque já não posso pagar o imposto. Se os soldados me tornam a apanhar, mandam-me para a cadeia. Dai-me hospitalidade, escondei-me!

- Eles seguiram-te?

O som de uma trompa deu a resposta. Duas barcas carregadas de homens armados dirigiram-se para a ilha santa; os remadores apressaram a manobra.

- Quem te denunciou?

- O meu sobrinho. Fiz mal em me abrir com ele; o bispo dar-lhe-á um bom prémio.

Teodoro não tolerava o delito de fuga, porque condenava uma quantidade de terras ao abandono, demasiados governadores de província davam provas de tolerância.

- Protegei-me - implorou Khusu.

- Esquadrinharão a ilha.

- O templo, não! O exército teme Isis.

- Estamos submetidos a uma Regra - lembrou Sabni.

- Se queres que morramos por ti, dá-nos a tua vida. Toma-te um adepto e derramaremos até à última gota do nosso sangue para te defender.

Assustado, o camponês observou a atracação das barcas.

De uma delas surgiu o capitão Mersis; o oficial intimou os seus soldados a não se mexerem.

Sabni veio ao seu encontro. Conversaram familiarmente a meio da grande esplanada.

- Como estou feliz por tomar a ver Filae.

- Como eu estou feliz por te tornar a ver, Mersis; não temos o direito de nos abraçar.

- O assunto é sério. Conheces a lei: tenho de voltar com o fugitivo.

- Devo salvaguardar a existência de um irmão.

Mersis coçou a cicatriz que lhe atravessava a face direita.

- Receava ouvir essas palavras. Sou obrigado a prender-vos a todos e a decretar a ocupação da ilha.

- Recusaremos seguir-te.

- Não desembanharia a espada contra ti.

- Mas será preciso.

- Prefiro voltá-la contra mim mesmo.

- Deus proíbe-to. Só ele pode retomar a nossa vida.

O velho soldado conteve as lágrimas. Mataria esse maldito fugitivo e levaria o seu cadáver.

- Quero falar com esse Khusu.

Como se o superior tivesse lido no pensamento do capitão, colocou-se na frente do camponês, ao lado do qual estava Isis.

Mersis nada podia tentar sem correr o risco de ferir aquela que amava.

- És um adepto?

Khusu tremia.

- Não...

- Tomaste o compromisso de o vir a ser e de oferecer a tua vida à grande deusa?

O camponês encarou, cada um por sua vez, a superiora, Sabni e o capitão Mersis.

- Não! Sou cristão e creio no verdadeiro Deus!

Mersis agarrou-o bruscamente pelo antebraço e puxou-o para si.

- Nesse caso, meu atrevido, vem comigo! Vai ser preciso confessares-te demoradamente por teres ousado pisar o solo deste templo pagão. Aqui é o inferno, ignorava-lo?

Com um pulso de ferro, Mersis arrastou o fugitivo para uma barca, onde logo foi acorrentado.

O capitão, de cuja testa escorria suor, voltou para junto de Sabni.

- Isis protege-nos. Este criminoso será entregue à justiça.

- Se ele tivesse consentido...

- Estalou uma revolta em Mênfis. Se os insurrectos soubessem que Filae continua a celebrar os ritos, o seu ardor seria reforçado. É preciso unir o Norte e o Sul, como antigamente. Envia uma mensagem, Sabni; torna-te o chefe espiritual porque o Egipto espera.

Teodoro afastou os relatórios que lhe tinham enviado os encarregados da alfândega entre Elefantina e Lycopolis.

Nenhum deles mencionava a passagem de um jovem chamado Cresto. Apollo, seu pai, tinha pois mentido.

O bispo aprofundaria esse assunto mais tarde, porque um acontecimento grave requeria a sua intervenção em Mênfis, a antiga e prestigiosa capital dos edificadores de pirâmides, um clã de fanáticos anunciava o apocalipse. Por causa dos pecados e da impiedade dos cristãos, o fim do mundo aproximava-se: a polícia bizantina sentia alguma dificuldade em controlar os amotinados que, por felicidade, actuavam em desordem.

Por entre as suas absurdas reivindicações, figurava a libertação dos cultos. Se viessem a saber que o templo de Filae não estava definitivamente fechado, o movimento tomaria vulto.

Porque submeteria Deus a tais provas os seus servos? Sem cessar, renascia o paganismo, sem cessar ressurgiam os demónios que julgavam aniquilados. Um tíbio teria acusado o Altíssimo de indecisão, mas um bispo via naquelas transformações uma forma disfarçada de reforçar a fé espalhada pela terra inteira.

Competia a Teodoro proceder para que o diabo não se apoderasse da alma de Sabni.

Cresto embriagava-se com a noite do templo. Quando os adeptos dormiam, contando com o velho vigilante a dormir em cima da sua bengala, o rapaz ia sentar-se na margem, em frente da ilha de Biggeh, domínio do silêncio eterno de Osíris.

Em Elefantina, os antigos falavam ainda com um temor respeitoso dos mistérios que marcavam a união do deus e da deusa.

Depois da origem do Egipto e da subida ao trono do primeiro faraó, os livros dos iniciados permaneciam fechados.

Ninguém tinha levantado o véu colocado sobre o ritual, cujas fases marcavam a ressurreição de Osíris, juiz dos humanos e modelo da sua supervivência. Agora Cresto conhecia o maior dos segredos: o amor infinito de Isis, capaz de introduzir a vida no coração da morte. Para descobrir o deus, era preciso passar pela deusa.

À sua esquerda, uma luz intrigou o jovem adepto. Estrela cadente, reflexo na água? Quando se reproduzia à altura do quiosque de Nectanebo, deixou de duvidar de que alguém manipulava uma lanterna.

Deslocando-se sem ruído, breve identificou a irmã ocupada com aquela estranha tarefa: Ahourê, a ritualista. Enviava sinais e repetia-os a intervalos regulares. Cresto, depois de ter observado a outra margem donde não vinha qualquer resposta, interveio.

- Com quem tentas comunicar?

Surpreendida, Ahourê deixou cair a lanterna, que desapareceu nas águas escuras.

- Espiavas-me malandro. Sob as ordens de Sabni, aposto!

- Não me insultes, minha irmã, e responde-me.

- Nada me obriga.

Cresto avançou. Ahourê teve medo.

- Ousarias pôr-me a mão em cima?

- Sinto uma aversão sem limites pelos traidores. Fala sem demora.

O furor do jovem era perceptível. A ritualista não tomou a ameaça ligeiramente.

- Não... não conseguia dormir.

- E a lanterna?

- Sem ela, partiria o pescoço.

- Conheces estes rochedos melhor do que eu.

A voz de Ahourê foi estrangulada por um suspiro...

- Não podes compreender.

- Dá-me os meios: a tua sinceridade abrir-me-á o espírito.

- Tento todas as noites chegar àqueles que partiram. A sua ausência é-me insuportável.

- Ignoras que foram presos ou deportados?

- Recuso-me a crer. Se um deles fugiu, tentará prevenir-nos e verei o seu sinal.

- Não dissiparás essa miragem?

Ahourê parecia muito comovida.

- As irmãs desaparecidas eram as minhas melhores amigas. Sem elas, o templo parece-me vazio. A Regra exige que me sobreponha ao meu desgosto, mas não consigo. A tua juventude saberá admiti-lo?

- Definirás tu mesma o teu dever.

 

O correio bizantino funcionava de mal a pior. Cartas perdidas, atrasos, erros de destino multiplicavam-se. Os funcionários, encarregados de encaminhar o correio, recusavam-se firmemente a trabalhar; alguns pagavam avaramente a mendigos para viajarem em seu lugar, e que perdiam a correspondência pelo caminho.

O irmão lavadeiro, voluntário para levar a Mênfis a mensagem de Sabni, contava tirar partido da situação. O superior, proclamando a soberania espiritual de Filae, reacenderia a chama da antiga fé; reuniria Mênfis, às cidades do Delta, reanimaria a vontade de independência escondida no coração de cada egípcio. Na comunidade reunida, Sabni tinha lido o texto destinado aos revoltados do Baixo Egipto.

Não estais isolados, a grande deusa IJOS inspirará.

Na ilha santa perdura uma comunidade votada ao respeito da regra ancestral e alimentada pela tradição imortal.

Sabni propunha encontrar o chefe dos insurrectos numa pequena aldeia de Faium.

O lavadeiro apertou contra o peito o precioso papiro, que o selo do templo fechava, distinguindo-se nele o rosto de Isis, entre o Sol e a Lua. A inquietação apoderou-se dele quando, à saída do lado norte de Elefantina, viu um número anormal de soldados, em volta da cabana e da repartição de cobranças.

Cada viajante era revistado minuciosamente e tinha de responder a múltiplas perguntas. O irmão interrogou um burriqueiro.

- Que é que se passa?

- O bispo proibiu qualquer troca de correspondência entre a província e o exterior. O Exército intercepta as cartas e prende os autores julgados subversivos.

O lavadeiro saiu da fila de espera e arrepiou caminho.

Nervoso, empurrou um funcionário dos celeiros que o abordou com veemência. O incidente atraiu a atenção de um soldado.

- Tu, aí! Aproxima-te.

Assustado, o irmão desatou a fugir. Felizes por terem identificado um suspeito, dois infantes lançaram-se em sua perseguição. Depressa o apanharam. Tinha acabado de destruir a mensagem quando uma violenta pancada na cabeça o fez perder os sentidos.

Com a paciência de um homem habituado a manipular inúmeros documentos, Teodoro juntou os pedaços de papiro espalhados. Identificou facilmente o selo do templo e a bela caligrafia de Sabni, próxima da que tinham os melhores escribas do Antigo Império. O seu cursivo, fruto de um treino rigoroso, respeitava a forma primitiva dos hieróglifos. O bispo ficou feliz por reler aquela língua por vezes abstracta e carnal em que os símbolos se tornaram palavras. Não lhe chamavam a «palavra dos deuses?» «Fantasmagoria», protestou o prelado, furioso contra si próprio. O irmão lavadeiro estava morto, com a nuca quebrada.

Ninguém podia censurar ao infante obedecer às ordens, tanto mais que ele chocava uma conspiração contra a segurança do Estado. O superior de Filae, a partir dos fragmentos da sua carta, lançava um autêntico apelo à revolução. Todavia, possuía uma prova de excepcional gravidade contra ele, que era susceptível de o condenar a um fim desonroso; mas a sua vigilância não evitaria perturbações graves, mesmo uma guerra civil? Valer-lhe-ia recompensas e promoção: o imperador confiaria ao prelado o governo do Alto Egipto, antes de o chamar para funções mais altas. Bizâncio, levando ao grau de refinamento mais subtil a arte da conspiração, apreciava os estrategas capazes de a fazer abortar.

Teodoro combateu contra si próprio durante uma noite; tanto o homem de Deus ganhava como o amigo. Pregando a revolta, Sabni espezinhava a sua confiança; proclamando a sua legitimidade espiritual, procedia com a mesma determinação que um mártir. Compreender, revoltar-se, perdoar, assinar a ordem de arresto... Teodoro hesitou, decidiu, recomeçou. Nenhuma inspiração celeste lhe ditou a sua conduta.

De manhã, convocou os seus secretários.

- Examinei esses fragmentos: não contêm nada de interessante. O conjunto é incomprensível; contas privadas, segundo parece. Anotareis que a morte desse indivíduo foi acidental.

É inútil prosseguir com o inquérito.

O bispo queimou os restos de papiro. Sabni já não tinha nada a recear. Deus protegia-o.

O especialista dos unguentos bebia cerveja fresca, ao fundo da taberna situada perto da entrada do mercado. O cansaço parecia-lhe leve, se bem que não tivesse dormido havia dois dias; tinha recebido o melhor acolhimento por toda a parte.

A sua qualidade de padre de Isis não incomodava os seus velhos amigos, acordava neles um interesse benevolente. Uma vez que o adepto pagava bem, porque não vender-lhe o que ele pedia? Que o templo pagão prosperasse era uma consequência inapreciável, para além dos limites do comércio. Assim conseguiu ele reunir mercadorias, animais de carga, e embarcações ligeiras. Um camponês e dois bateleiros, fortemente remunerados, ajudá-lo-iam a atingir a abordagem da ilha.

Quando o regimento penetrou no estaminé, deitando uma mesa ao chão, à sua passagem, a garganta do adepto apertou-se.

Era para ele que se dirigia, Nunca conhecera o medo. Não baixou os olhos quando o polícia o invectivou.

- És um padre de Isis?

- É verdade.

- O teu papel consiste em fabricar unguentos?

- Tenho essa honra.

- Estás em Elefantina há dois dias?

- Para quê negá-lo?

- Então segue-me.

- De que sou acusado?

O ricto do polícia traduziu uma satisfação maliciosa.

- De teres seduzido uma cristã e de a teres violado.

- Na minha idade... É absurdo!

- Não há idade para o fazer. Levanta-te e não tentes fugir.

O irmão obedeceu.

- Quem é essa mulher?

- Estás a troçar de mim?

- O seu nome?

- Para salvaguardar a sua honra, não deve ser mencionado.

- Viste-a?

- Apresentou queixa ao bispo e descreveu-te minuciosamente... Já não é nova mas atraente, com o seu rosto em forma de lamina de faca.

A ilha santa fora cortada do resto do Egipto. Uma mensagem de Mersis tinha dado a saber a Sabni a morte trágica do irmão lavadeiro e a supressão das trocas postais. Os insurrectos de Mênfis ignorariam a existência da comunidade de Filae e veriam a sua revolta dissolver-se nas suas desavenças internas. O sonho de uma grande revolta abrasando o Egipto, desfazia-se.

Uma segunda notícia desastrosa desolou os adeptos. Preso por violação de uma cristã, o especialista de unguentos fora condenado à lapidação. Dado que se tratava de um pagão que se recusava a renegar a sua fé, o velho suplício seria tornado a pôr-se em vigor.

- Procurarei o bispo e obterei o seu perdão - afirmou Isis.

- Vais humilhar-te - objectou Sabni.

- Se for preciso, beijar-lhe-ei as mãos. A vida de um irmão está em jogo.

Teodoro acolheu com deferência a superiora, vestida com uma túnica de linho verde-claro. Pouco maquilhada, e de pés descalços dentro das sandálias decoradas com pérolas, testemunhava orgulhosamente a sua ilustre linhagem; continuavam a viver nela rainhas e grandes sacerdotisas.

- Estava convencido de que efectuarieis esta deligência.

- Portanto conheceis-lhe o teor.

- A queixa foi declarada aceitável pelo escritório do prefeito. Foi um tribunal de excepção que condenou o vosso irrnão. Nesse domínio, não disponho de nenhum poder. A lei é a lei; uma culpa tão grave deve ser impiedosamente sancionada. Os faraós não testemunharam qualquer indulgência em relação aos violadores, parece-me.

- Quem acreditará que um velho padre caiu em tais erros?

- Anos demasiadamente longos, passados na ilha, ter-lhe-ão virado o espíito. Os reclusos cedem por vezes aos seus sentidos exacerbados por um jejum mal suportado.

- Sois o senhor da província. As nossas antigas leis proibiam a uma criatura de Deus pôr a mão numa outra criatura de deus.

- Um pagão é uma criatura do diabo. Esse acto ignóbil demonstra-o.

Isis compreendeu que nenhum caminho conduziria ao coração do juiz. Fingiu, pois, submeter-se ao seu domínio.

- Que desejais obter?

- Que deixeis a ilha e vos separeis de Sabni.

- A vida do nosso irmão será poupada?

O bispo não respondeu. Deixou a Isis o cuidado de interpretar o seu silêncio.

- Posso vê-lo?

- A sua cela não é das mais confortáveis. Duvido que uma mulher da vossa classe...

- É indispensável.

Encolhido a um canto da fossa húmida onde o tinham fechado, o especialista de unguentos cantarolava o canto do boieiro que, na travessia do vau, constrangia à imobilidade o crocodilo e os espíritos malignos escondidos à superfície da água. Logo que viu Isis, levantou-se e ajoelhou em frente dela.

- Não fiqueis aqui; deveis conservar uma recordação melhor do vosso irmão.

- Permite-me salvar-te.

- Qual é o preço da minha existência?

A superiora revelou-lho.

- É demasiado elevado. Sou um homem velho e aspiro ao repouso supremo; teria certamente preferido morrer na ilha. O maior sábio poderá escolher o seu destino? Não me desonreis cedendo às exigências do bispo.

- Sabes...

- A lapidação? Temo o sofrimento, mas será breve: a minha cabeça não resistirá muito tempo às pedras. Ver triunfar Teodoro seria um ferimento mais cruel do que a morte. Não creio ter exigido alguma coisa da comunidade desde a minha admissão; infelizmente, delapidei a sua fortuna, falhando na minha missão! Que importa o suplício; de vós, exijo a salvaguarda de Filae...

- A vida de um irmão...

- ...é menos preciosa do que a do templo. Assim se exprime a nossa Regra. O vosso papel consiste em preservar o espírito e a transmiti-lo. Servi-a com fidelidade durante toda a minha existência; porque a trairia na hora da minha morte? Tornaremos a ver-nos no outro mundo.

Isis abraçou o seu irmão com o rosto maculado pela vaidade.

 

Não havia dúvida de que Ahourê mentia; tentava encontrar um contacto com o inimigo e informar os soldados do bispo acerca da revolução da comunidade. Mas porque continuava escura a margem oposta? Ninguém respondia à traidora como ela se dirigisse ao nada. Subitamente compreendeu: a outra luz só brilharia na véspera do assalto.

Cresto deveria ter-se precipitado para junto de Sabni e revelar-lhe todo o caso; mas um remorso refreou a sua vontade. Tornar-se culpado de delacção desagradava-lhe; enganando-se, sujaria uma irmã. Desde o primeiro encontro que tiveram, Ahouré tinha-lhe parecido antipática e, depois, não tinha deixado de esbarrar; competia-lhe desconfiar das suas inimizades, calar os seus sentimentos profanos e recolher a benevolência ritualista.

Aquela conversão, desencadeou-lhe uma formidável gargalhada: quanta vaidade! Cresto julgava descobrir uma conspiração, e enquanto Sabni não era ingénuo ao ponto de ignorar as tramóias de uma irmã, se tolerava o seu comportamento, era em virtude da sua inocuidade. Louca de dor, perdida, Ahourê nada mais buscava do que a imagem apagada do seu passado.

A ritualista desconfiava. A partir de agora, não alumiaria mais o caminho com a chama de uma lanterna; certa de não ser espiada por esse maldito Cresto, só acendia a mecha à borda de água. O rapaz era capaz de se dissimular por detrás de um bloco de granito ou de uma coluna; então tomava múltiplas precauções antes de assinalar a sua presença à irmã com rosto em forma de lâmina de faca que, tarde ou cedo, viria a encontrar, viria ao seu encontro e anunciaria que a via se libertava. Ahourê já não conhecia ninguém em Elefantina; a sua aliada arranjar-lhe-ia alojamento e trabalho, indicar-lhe-ia também a maneira mais rápida de se converter e de não esbarrar com a população.

A valente ritualista morria de medo. Deixar Filae apavorava-a; da ilha conhecia ela a mínima pulsação. Fora daquele universo, esperava-a uma miríade de perigos; só, sentia-se incapaz de os defrontar. Agitavam-se sentimentos contraditórios: por um lado, queria atingir a terra profana; por outro, agarrava-se ao templo. A ausência da amiga angustiava-a, mas temia a sua aparição. A lembraça do exílio definitivo, lembrava-se das horas maravilhosas passadas na companhia da jovem Isis, ainda despreocupada a respeito do seu destino; junto da futura superiora, os dias eram transparentes e leves. Sem aquele casamento com Sabni, o santuário ter-se-ia refugiado numa paz obscura, afastada das paixões e das guerras.

Continuar na ilha seria loucura. Por isso, cada noite, Ahourê agitaria a sua lanterna na intenção da irmã libertada.

A irmã com o rosto em forma de lâmina de faca, saiu do leito de Apollo. Ordinariamente, o comerciante de figos preferia as mulheres mais jovens; mas aquela agarrara-se a ele como uma sanguessuga, usando todas as armas de sedução, das olhadelas às atitudes lascivas. Um comerciante consciencioso não desprezava uma boa ocasião; Apollo censurava-se, contudo, por não ter discutido o preço antes de consumir. O seu carácter impulsivo, por vezes, desorientava-o.

- Quanto queres?

- Não quero dinheiro.

Apollo franziu o sobrolho. A mulher não era uma cortesa.

- Não... não desejo tornar a ver-te, minha bela.

- Ajuda-me a deixar a cidade.

- Não é fácil. As estradas estão guardadas por soldados, que verificam a identidade dos viajantes.

- Dá-me um nome qualquer e faz-me seguir num comboio de mercadorias. Não te peço mais nada.

- Quem és tu?

- Uma pessoa sem importância. E tu um rico negociante de coração acolhedor.

- Se não arranjares aborrecimentos...

- O meu silêncio pertence-te e não ouvirás mais falar de mim, juro-to.

- Por Cristo?

A irmã hesitou.

- Por Cristo.

Que aquela mulher clamasse que tinham partilhado a mesma cama, não arruinaria a reputação comercial de Apollo; em Elefantina, cada um sabia que o comerciante de figos possuía um temperamento vigoroso e não desdenhava aquelas que passavam, mesmo que fossem nubianas. Mas as suas maneiras e a sua distinção punham-no pouco à vontade. Incapaz de sentir prazer, representava uma comédia tão sórdida como desastrada.

Apollo achou preferível denunciá-la a Mersis. Aumentar o seu crédito junto do capitão representava uma vantagem certa, mais dia menos dia, o rugoso soldado subiria de posto e lembrar-se-ia dos serviços prestados. Por ocasião da próxima entrega de frutos na caserna, o comerciante propor-lhe-ia dividir um dos benefícios ocultos que faziam o encanto da profissão.

Mersis prendeu a irmã nessa mesma noite. Assustada, trepou para o rebordo do terraço e tentou precipitar-se no vácuo; um soldado agarrou-lhe a perna e obrigou-a a ajoelhar, trémula, em frente do capitão.

- O teu nome...

Ela escondeu o rosto nas mãos; Mersis segurou-lhe os punhos e descobriu-lhe as feições.

- Uma irmã de Filae - murmurou, enojado. - Que fazes tu neste bordel?

- Procurava um homem rico.

- Com que intenção?

- Ajudar-me a sair da cidade.

- Só?

- Certamente.

- Não acredito em ti.

A irmã levantou a cabeça e o seu rosto tornou-se mais pontiagudo.

- Imaginais que organizei uma fileira de evasão? Eu quero lá saber da comunidade! Roubou-me a minha juventude. Ninguém reconheceu os meus talentos. Poderia ter sido médica, ritualista, superiora... Em vez disso, Isis isolou-me em tarefas subalternas.

E a imbecil da Ahourê que está à espera da minha ajuda. Fujo só, estás a ouvir-me, só!

Horrorizado, o capitão entregou-a aos seus homens. Ela estendeu-lhe os braços.

- Não me abandones! Sou bela e terna... Goza o meu corpo como te apetecer e liberta-me.

Mersis tapou os ouvidos.

Dois dias depois, a irmã com rosto em lâmina de faca passou a fronteira da província acorrentada ao carro do oficial, a caminho da Ásia. Alguns instantes antes da primeira paragem, atirou-se para baixo das rodas que lhe trituraram os ossos.

À hora em que morreu, Ahourê agitava a sua lanterna, perscrutando as trevas.

Mersis verificou os remos e o estado do casco. Estranha missão, na verdade! Oficiais subalternos teriam podido encarregar-se dela, mas as ordens de Narsès não se discutiam.

Quando o general o encarou, o capitão perturbou-se.

Os olhos acusadores do grande soldado, cuja doença não alterava o poder, pressagiavam uma catástrofe.

Mersis tinha sido denunciado.

- Tranquiliza-te, capitão. Ninguém sabe; ninguém, menos eu.

- General...

- Não mintas que me desgostarias. Com que então, és aliado de Filae e arriscas a tua vida para salvar um templo que tudo condena. Conservas-te, pois, pagão?

- Não, sou cristão. Creio num só Deus, todo poderoso, na ressurreição dos corpos e no paraíso; mas o meu Deus é amor, tolerância e bondade. Porque exigiria ele a destruição de uma comunidade votada ao sagrado, de um santuário onde se venera o princípio criador, e ritos que perpetuam essa tradição?

- A nossa tradição... és um estranho cristão. Compreendo-te Mersis. Eu também a vi. Não se trata de uma mulher, mas da superiora de Filae. O Egipto e os seus mistérios exprimem-se através dela. Encanta mas não como diabólica, à maneira de uma luz quente de fim de Verão; põe a alma em repouso, desperta sentidos desconhecidos, um desejo de universal, uma sede de céu e de sol. Tu, o discípulo de Cristo, permaneces apaixonado pela grande deusa.

Narsès desceu para o barco.

- Invejo-te Mersis. Cada parcela do teu ser reflecte a grandeza desta terra onde nasceste. Eu começo a descobri-la. É por essa razão que contemplo o seu nascimento: a catarata. Dentro de alguns séculos, poderemos dialogar.

- General, como...

- Como é que te descobri? Não cometeste nenhuma falta. É a prática do comando, capitão! O meu olhar arrasta-se por toda a parte. Observo cada homem sem querer. Uma atitude bizarra, um comportamento insólito... eis o que me toca e trai frequentemente um mal-estar que devo dissipar a fim de manter o moral das tropas, agora, a minha única preocupação. Reparei em ti quando ela curava os doentes. Não a contemplavas como um soldado mas com a deferência de um adepto. Toma cuidado, Mersis, e que os deuses te protejam.

O general mergulhou os remos e afastou-se da margem.

O coração do capitão ficou muito tempo a palpitar.

 

No interior do santuário, Sabni contemplava o relevo mostrando Isis que, com as suas imensas asas, envolvia o corpo de Osíris arrancado à morte. Ainda prisioneiro de uma mortalha, o deus levantava-se; da cinta mortuária saíam-lhe as mãos agarradas a um ceptro, cuja extremidade representava a cabeça do deus Set, seu irmão e assassino. Graças ao sopro da mulher celeste e ao seu poder mágico, a luz triunfava das trevas.

O escultor tinha dado à esposa de Osíris os seus traços delicados e um rosto calmo, semelhantes aos de Isis. A superiora, encarnação simbólica da deusa de que usava o nome, não ressuscitava a comunidade? Ao amor da esposa juntava-se a admiração do superior.

Onde ia Isis buscar a coragem para fazer face à adversidade, senão ao conhecimento do divino? Esquecia-se de si própria para preservar a comunidade da desesperança. A superiora estava animada de uma alegria comunicativa: na sua presença, o mundo sorria. Irmãos e irmãs tinham vagar para as suas ocupações, como se os acontecimentos falhassem ao pé da fortaleza da alma, como se nenhuma infelicidade ultrapassasse a porta do templo.

Cresto multiplicava-se, cozia o pão, lavava as vestes rituais, fabricava unguentos. Trabalhava depressa demais, queimava, rasgava, mas as cerimónias do culto decorriam com nobreza, sem que à presença divina faltassem oferendas quotidianas.

Sabni meteu pela escada que dava acesso ao cimo do primeiro pilar; Isis, de braços cruzados, com os cabelos revoltos pelo vento do norte, olhava a ilhota rochosa de Biggeh, o território sagrado onde Osíris repousava.

Enlaçou a esposa. O contacto da pele perfumada produziu-lhe uma indizível sensação de felicidade. Ao seu desejo, misturava-se uma veneração pelo ser radioso, animando aquele corpo de mulher que as divindades modelaram até à perfeição. A luz do meio-dia, esmagando a água e as margens com a sua violência, isolava o templo e tomava-o inacessível. Por causa dela, durante séculos, nenhum exército tinha ousado abater aqueles muros, que nenhum guerreiro defenderia. O eterno arquitecto, Imhotep, tinha rodeado a ilha de um círculo mágico. Celebrado num pequeno santuário, ao sul da porta de Evergete, era o criador da primeira obra monumental da civilização egípcia, a pirâmide com degraus de Saqqarah, e da última, o templo de Filae. Durante quatro milénios, um só arquitecto reencarnado de geração para geração, tinha construído as moradas eternas.

Aos pés do casal, estendia-se o domínio de Isis. Ao grande pátio, que acolhia os raios de Sol, sucedia a sala das colunas, fracamente iluminada por lucarnas; para além, o venerável Assento era iluminado pela única claridade do interior. As pedras falantes chamavam o espírito para o derradeiro conhecimento e faziam-lhe ultrapassar as portas que separavam o aparente do real.

Não beneficiaria Sabni de uma sorte insolente? Amado por uma mulher excepcional, elevado à mais alta função religiosa, operava na ilha das origens, perto da grande deusa, à sombra doce da sabedoria. Longe de um tempo de guerra e de ódio, celebrava os rituais num espaço preservado, repetia os gestos dos seus antecessores com a certeza do coração que proporciona um trabalho completado, portador do amanhã.

Face contra face, sentia a força de Isis. O mais vivo dos sofrimentos não destruiria a sua vontade de transmitir, encastoada como a mais pura das esmeraldas.

- Que nos resta, Sabni?

- Uma má terra, na colina. Até agora, tinha-a desprezado. Trabalha lá um camponês idoso; contratarei um outro.

- O bispo vai requisitá-los todos.

- Eu mesmo me ocuparei da ceifa.

- O teu estatuto de superior...

- A superiora autorizar-me-á a alimentar a comunidade?

- Perdoa-me; por vezes esqueço-me das necessidades.

- Também somos proprietários de uma vinha; todos sabem que as uvas contêm o sangue de Osíris e ninguém lhes ousará tocar.

- Lutemos, Sabni. Teodoro é um adversário implacável que se dotou de poderes consideráveis; quer separar-nos porque o seu triunfo tem esse preço.

- Nesse caso, falhará.

Apollo empanturrava-se de puré de favas e de cerveja morna.

Quando os negócios se anunciavam excelentes, o seu apetite redobrava. Tinha contratado uma quantidade de jornaleiros a baixo preço. No fim da boa estação, compraria uma nova quinta e, dentro de cinco ou seis anos, incluir-se-ia no número de notáveis de Elefantina. Soberba carreira, na verdade, para o filho de um zé-ninguém. Apollo utilizava as chaves do êxito: mentir, vigarizar e roubar sem se deixar prender. A nova religião convinha-lhe às mil maravilhas. Deus não tirava os pecados a quem confessava tê-los cometido? Todas as noites, Apollo acusava-se das suas faltas e implorava o perdão de Cristo. Uma vez por ano, oferecia a um diácono uma confissão completa e vários quilos de figos. Em paz com a sua consciência, tinha o sentimento de ser um perfeito cidadão e um excelente cristão.

O seu intendente ousou interromper a refeição.

- Quando como, exijo estar sossegado.

- O bispo...

- O que é que tem o bispo?

- Está aqui.

- Onde?

- Inspecciona uma cabana, no extremo do pomar.

Apollo empurrou a malga.

- Não te enganastes?

- É mesmo ele.

Incrédulo, o comerciante consentiu em deslocar-se. Quando viu Teodoro, que esquadrinhava o casebre, assistido por vários soldados, reteve a respiração.

- Monsenhor, vós... na minha modesta casa...

- Procuro o teu filho.

- O meu filho... qual deles?

- Cresto.

- Partiu para Lycopolis.

- Mentes, Apollo. Cresto não deixou a província.

- Prometo-vos...

- Não blasfemes. Onde está ele escondido?

- Ignoro. Partiu. Queria fazer dele um soldado, recusou e rebelou-se. Não sou responsável.

- Cresto não se teria refugiado em Filae?

Apollo fez má cara.

- Encorajaste-o a adoptar a religião dos pagãos?

- Pelo contrário. Sou um bom cristão, eu terei faltado a uma só missa de domingo?

O bispo agarrou Apollo pelo braço e levou-o para o meio do pomar longe de ouvidos indiscretos.

- O teu filho esqueceu a família para entrar para uma confraria satânica. Omitindo de o denunciar, cometeste uma pesada falta.

- Mas eu denunciei-o!

- A quem?

- Ao capitão Mersis... Mas fui vítima de uma chantagem.

Teodoro não manifestou nenhuma emoção. A informação era, contudo, surpreendente: com que então o aliado de Filae era o mais íntegro dos velhos soldados. Prendê-lo sem demora? Mais valia evitar a precipitação e reflectir quanto ao melhor meio de utilizar a nova arma que a Providência punha nas suas mãos.

- É preciso partir, Apollo.

- Eu, partir? Para quê?

- Porque és cúmplice de um crime: calares-te a respeito do destino de um fugitivo condenar-te-ia à perda dos teus bens.

- Foi Mersis que...

- Esquece esse nome. Nunca mais o pronuncies. Com uma recomendação assinada por mim, irás estabelecer-te no Faium. Ocupar-me-ei da venda das tuas terras e enviar-te-ei o produto.

- Nasci aqui e...

- Se recusas a minha proposta, serei obrigado a culpar-te.

Vencido, Apollo baixou a cabeça.

- Tem confiança em mim. Se calares a boca, gozarás uma velhice feliz.

- E Cresto?

- Esquece-o também. A partir de hoje, não existe.

Na hora em que Apollo, com as lágrimas nos olhos, deixava Elefantina com armas e bagagens, o prefeito dirigiu uma súplica ao bispo. Meio bêbedo, Maximino pediu a Teodoro que proclamasse urbi et orbi, que Isis se tinha convertido ao cristianismo.

A jovem, o que quer que acontecesse, escaparia à ira da igreja.

Arruinada a sua reputação, a comunidade pagã afundar-se-ia. Teodoro ouviu com paciência a conclusão do prefeito, mas mostrou-se inflexível. A fé não tolerava qualquer condescendência. Maximino continuou a defender a sua causa. Isis não era uma mulher vulgar; a Igreja devia conceder-lhe um favor.

Esbarrando com uma nova recusa, ofereceu ao prelado uma parte da sua fortuna, mas Teodoro não cedeu.

De regresso a casa, o prefeito bebeu vinho e estendeu-se na cama; no tecto desenhou-se o rosto de Isis. Os seus lábios animaram-se, falou-lhe, ele não a ouviu. O prefeito levantou-se, estendeu os braços, tentou tocar na mulher amada; no instante em que a atingiu, ela desapareceu.

- Isis - gritou ele - não repudies o meu amor.

 

Descamado, sujo, vestido com uma pele de carneiro malcheiroso, o eremita saiu do túmulo pagão que tinha escolhido para domicílio. Do alto da margem do Ocidente, contemplou a ilha de Elefantina, o curso do Nilo e, ao longe, o lugar maldito de Filae. Havia trinta anos que Paulo infligia a si próprio penitências e mortificações, lutava contra o diabo tão pronto a meter-se nos sonhos ou no corpo de uma mulher; por isso dormia pouco e encarniçava-se a destruir as figuras das deusas impúdicas expostas em profusão sobre as paredes das sepulturas ímpias.

Paulo não cessava de protestar contra a existência do último templo demoníaco, mas esbarrava com a resposta categórica de Teodoro, bispo tolerante até à complacência. Desde a véspera, a sua omnipotência fragilizava-se: o eremita, nomeado porta-voz pelo conjunto dos seus correligionários e frades da província, tornava-se um personagem oficial de que gabavam a fé ardente e a vontade de arrancar as raízes do mal.

Com os olhos febris, Paulo apoiou-se ao pau nodoso que lhe servia para esmagar a cabeça das serpentes. Aquela paisagem grandiosa, tão propícia ao recolhecimento, breve voltaria ao grémio do Senhor. Teodoro conduzia um combate de retaguarda; os verdadeiros crentes saberiam fazer os inimigos do Altíssimo renderem-se.

A terra estava seca e estalada, mas a ceifa forneceria um pouco de alimento ao templo. Como esperar mais de um campo de cevada mal situado e de dimensões modestas? Assistido por dois camponeses, que tinham escapado à requisição, Sabni trabalhava duramente. Um magnífico espectáculo recompensava-o dos seus esforços. Vista da colina, a ilha santa parecia um navio cuja proa era formada por um enorme bloco disfarçando o venerável Assento, onde o poder divino continuaria para sempre inacessível ao entendimento humano.

A esquerda, a colunata de acesso, precedida de um obelisco; à direita, o quiosque de Trajano abrigado por detrás de um grupo de palmeiras.

Ao meio-dia, Isis aparecia no cimo do primeiro pilar; a sua silhueta branca coroava os cimos verdes. Saudava Rá, luz escondida, revelada pelo disco solar no apogeu da sua corrida.

A comunidade inteira tomava de novo as palavras da superiora, dirigidas ao cosmos há quatro anos milenários. Ao longe, as montanhas ocres fechavam o horizonte.

O superior redobrava de ardor; a cevada era tão medíocre que ninguém a cobiçava. Os adeptos contentar-se-iam com ela.

Não restavam mais do que três ou quatro horas de castigo; cortadas as espigas, Sabni juntá-las-ia em molhos e transportá-las-ia até Filae.

Debaixo de um Sol morno, Sabni subiu a encosta com um passo regular. Na véspera, os dois camponeses tinham-lhe manifestado a sua recusa de continuar a colaborar. O superior não se comoveu com aquela renúncia, ao fim da tarde o labor estaria terminado.

A alguns metros do campo, parou. Cabras e carneiros tinham destruído a vedação e espezinhado a colheita. Alguns atrasados regalavam-se com as últimas hastes de cevada.

Sabni chorava de raiva. Dessa vez, a reparação ser-lhe-ia concedida.

- A tua causa é justa - reconheceu Teodoro. - Podes apresentar queixa contra os vizinhos exploradores; se advogares bem, os proprietários dos animais pagar-te-ão o dobro do preço da colheita esperada.

- O prefeito presidirá o tribunal?

- O caso é demasiado insignificante. Pertence à jurisdição eclesiástica.

Os habitantes de Elefantina conheciam-na bem demais.

Num só dia, examinava mais de uma centena de litígios. Muito antes do nascer do Sol, organizava-se a longa fila de espera dos queixosos, cuja maioria não poderia apresentar os seus danos.

Teodoro, como os outros bispos, agarrava-se em primeiro lugar, aos casos maiores de processo civil: nomeação de magistrados locais ou de chefes de aldeia, promoção de funcionários, libertação de prisioneiros, ajustamento de taxas, depois, no tempo que lhe restava, regularizava os pleitos menores.

- Quando abrirás as portas do teu tribunal?

- Quando um número suficiente de casos impuser a minha intervenção.

- Tenho pressa, Teodoro.

- Dá um óbulo à Igreja. Apressará a minha decisão.

- As leis não são as mesmas para todos. Se um rico comete uma infracção, escapa à tua vindicta, se é um pobre, é-lhe infligida uma severa pena, a menos que não deixe este mundo antes do julgamento. É monstruoso ter de pagar para que a justiça lhe seja feita.

- Em Bizâncio, diz-se que um processo ultrapassa facilmente o termo de uma existência humana e que é quase imortal. A justiça de Deus não prevalece sobre esta terra, admito-o; se desejas melhorar a nossa sorte, converte-te e trabalha ao meu lado. Serás um excelente juiz.

- Quando abrirás o teu tribunal, Teodoro?

- Talvez no Outono, depois da cheia.

Em meditação sobre o seu rochedo, o general Narsès sentia-se cada vez mais estranho ao exército e às suas exigências, embora ninguém lhe censurasse uma falta aos seus deveres.

Pensava em Filae cada vez com mais frequência. Numa outra época, numa outra vida, haveria talvez solicitado a sua admissão naquela comunidade que o imperador o tinha mandado expulsar Um imperador tão silencioso e tão diferente que perdia toda a realidade.

O Egipto não era fácil de conquistar. Os invasores sucessivos, asiáticos, assírios, persas, gregos, romanos tiveram de submeter-se às suas leis; quem queria governá-la recebia a iniciação aos mistérios da realeza, antes de usar a coroa dupla de faraó. Embora moribunda, a tradição sobrevivia aos seus ritos e símbolos. Bizâncio e o cristianismo impunham outras regras; enganavam-se e pagariam caro o seu erro.

Narsès não teria de executar as ordens; Filae estava arruinada.

Moedas de prata, depositadas no tesouro do bispo, depois da prisão do especialista de unguentos, pessoal requisitado, trigo desviado em proveito do exército, terras tomadas inutilizáveis... a fome aproximava-se da porta do templo. Esgotadas as suas reservas, como se alimentaria ele? Aquela morte lenta servia os seus desígnios. Já não sentia a menor vontade de intervir contra essa ilha santa onde tinha aflorado a serenidade, e contentar-se-ia de a olhar de longe, sonhando com uma sabedoria desaparecida e confiando os seus pensamentos ao vento do sul; um sopro levá-los-ia para regiões inexploradas.

Maximino exultava. Desde que tinha renunciado a suplantar o bispo voltava a ter esperança. Teodoro mostrava do que era capaz, submetendo o templo à sua vontade; desfeita, Filae agonizava. Isis, breve escaparia ao domínio de Sabni. Por isso, Maximino ia até às autoridades de Elefantina para proclamar alto e bom som que a superiora renunciaria ao paganismo e se tornaria sua esposa.

Teodoro não interveio. Tornando-se ridículo, o prefeito perdia a sua última onça de dignidade. Sem proferir uma única crítica a seu respeito, o bispo assistia à sua queda num abismo onde não tornaria a subir. O enviado do imperador não tivera razão em considerar a província de Elefantina como terra conquistada e desdenhar dos seus sortilégios; quem não deixava errar o seu espírito ao sabor do rio, não se familiarizava com as falésias e os blocos da catarata, condenava-se a perder o juízo.

O capitão Mersis estava nervoso. Do alto de uma torre de tijolo olhava em direcção ao Grande Sul. Já não acreditava num ataque dos Blemis; a sua demonstração de força manteria à distância as tropas bizantinas, de que as tribos negras constatavam a impotência; muito tempo ameaçado de extermínio, o povo Blemi obtinha a certeza de viver em segurança no seu território durante muitos anos. Porque se lançaria numa louca conquista em que pereceriam milhares de homens? Durante a refeição da noite, um oficial, cujo primo trabalhava no escritório dos impostos indirectos, fez eco de um rumor persistente: Teodoro previa uma taxa sobre os barcos de tamanho médio e exigiria dos particulares, como das instituições, um inventário detalhado. Logo, Mersis pensou em Filae. O novo imposto seria insuportável; Sabni devia livrar-se o mais depressa possível, das embarcações mais atravancadoras.

O soldado redigiu uma mensagem e, ao pôr do Sol, dirigiu-se ao pombal. O pássaro voou para o templo, Mersis sentiu-se aliviado; Isis e Sabni saberiam preparar-se para os assaltos mais violentos se fossem informados a tempo das intenções do adversário.

Do terraço da sua morada, o bispo assistiu ao voo do pombo que os seus archeios abateriam por cima das colinas.

O falso rumor propagado pelo prelado, breve se tinha estendido, provocando a perturbação do traidor e a sua rápida reacção.

Mersis era, sem dúvida, um adepto de Isis. Antes de lhe infligir o castigo justificado, Teodoro utilizá-lo-ia sem que ele se aperceber. Agora, Isis já não tinha o mínimo aliado. Defrontaria apenas o representante de Cristo; era para ele, para a verdadeira fé, que Teodoro devia arrastar a confraria pagã, a fim de que a vontade do Senhor se cumprisse. Se a superiora se tornava escrava do prefeito, era preciso abater não importa como, a muralha mágica que se levantaria entre Deus e Sabni. Teodoro avançava em paz por um caminho sem meandros, instrumento nas mãos do arquitecto dos mundos. Com o desaparecimento definitivo da religião faraónica nasceria um novo universo cujo impulso não deveria ser refreado por Filae. Uma só comunidade, coerente, ameaçava mais o cristianismo do que milhares de pagãos dispersos. Bastaria uma figura de proa, como o par formado por Isis e Sabni, para tornar a dar força e vigor aos antigos cultos e provar a sua necessidade. Desde a alvorada dos tempos, o Egipto afirmava a sua vocação de mãe das civilizações. Atormentada, humilhada, subjugada, continuava a engendrar ideias que determinavam o futuro. Aí residia o poder infinito da ilha santa. Só pelas suas orações e a celebração dos ritos, orientava o olhar do coração. Teodoro não subestimava o perigo; quanto mais a comunidade material enfraquecia, mais a confraria espiritual se reforçava.

O bispo tratava com a superiora um combate invisível; se bem que ela fosse assediada, dispunha de uma arma eficaz: o amor de Sabni. Era ele que era preciso destruir, antes de encarar uma vitória.

A palmeira do Egipto erguia o seu fuste liso para o azul.

Sentada à sua sombra, Isis lia um hino a Hator, obra da primeira superiora de Filae. A selvajaria da natureza morria à borda do jardim onde, a partir do nascimento da Primavera, era agradável saborear o Sol através das palmas. Sabni levou-lhe água fresca, figos e pão. Descontraída, parecia quase despreocupada.

- Teodoro julga-nos vencidos e sem recursos.

- É demasiado perspicaz para cometer esse género de erro - objectou Sabni. - Enquanto estivermos unidos, há-de importunar-nos.

- O Egipto sofreu numerosos jugos mas a sua fé sobreviveu. Os cristãos querem extirpá-la do nosso solo e da memória dos homens. Teodoro não se porta como um simples servo do seu deus; exige uma verdade total e definitiva, a que Cristo lhe revela e sobre a qual constrói um mundo novo. Para que ele surja, Filae deve desaparecer.

Sabni estremeceu. Anunciaria Isis o fim da comunidade?

- Tranqualiza-te, meu amor. Qualquer que seja o invasor do Egipto, será repudiado ou apodrecerá no chão. Os séculos pouco importam. A nossa mensagem é imortal porque não nasceu no cérebro de um homem mas exprime o segredo do universo; o bispo não se engana.

- Foi um amigo sincero e leal.

- Continua a sê-lo e espera por ti, Sabni. Desfazes-lhe a alma; se poupa a comunidade, é por tua causa.

- Nunca partilharei a sua crença; ele sabe-o.

- O seu deus não faz milagres?

Sentou-se junto dela, acariciou-lhe os pés.

- Como alimentaremos a comunidade?

- Quando não tivemos pão, desceremos até às criptas. O acesso é murado há mais de dois séculos; o meu pai comunicou-me o plano.

- Que contêm elas?

- Fica para mais tarde; chama-me uma tarefa urgente: prestar homenagem a Osíris.

 

Isis abordou a ilhota de Biggeh, território sagrado de Osíris.

Só a superiora de Filae lá se podia aventurar. Era ali, debaixo de uma acácia imortal, que se escondia o túmulo do deus; até à extinção da humanidade esperaria a vinda de sua esposa, detentora das fórmulas de ressurreição.

Isis subiu uma escada de pedra, passou uma porta com as umbreiras ornados de textos de boas-vindas e passou pelas estátuas de gloriosos faraós do Novo Império cujo Ka residia perto do grande deus; no além começava o reino proibido onde homem algum, sábio ou ignorante, rico ou pobre, está autorizado a penetrar.

Afastou as moitas, descobriu um atalho e enfiou-se num bosque de tamargueiras. Lá se enterrava a efígie do deus dos Blemis; segurava uma gazela com a mão esquerda e um ramo de flores com a direita. Senhor do território secreto ao lado de Osíris, usava o sobrenome de «bom viajante» companheiro da filha de Rá, soberana do circuito solar aberto às almas dos renegados.

Avançando muito lentamente, Isis teve o cuidado de não provocar barulho algum; Osíris exigia o silêncio. Não tolerava nenhum canto, nenhum som de flauta, de harpa ou de tambor.

À volta do túmulo, erguiam-se trezentos e sessenta e cinco altares; sobre cada um deles, a superiora deitou um pouco de água.

Graças a essa libação, cada dia do ano se tomava santuário de Osíris e portador de um renascimento que proclamava o Sol à sua saída das trevas. Depois, aproximou-se do sarcófago de pedra, meio enterrado num outeiro em forma de cúpula.

Dialogou a sós com o espírito, que se movia sobre o sepulcro e, por ocasião das festas da lua nova, tomava a forma de um milhafre fêmea, de cabeça humana, cujo ruído das asas acordava Osíris. Isis não implorou qualquer ajuda e não se alargou em súplicas; piedade, desespero e prece pessoal teriam desnaturado o culto. Pôs no presente as palavras de poder, alimento da alma de Osíris; revelavam a natureza secreta do deus, Sol da noite, príncipe das mutações incessantes. Na voz da superiora sobressaía a de gerações de adeptos, unidos no acto de oferenda.

À popa da barca, que os levava a Elefantina, Isis e Sabni tomaram a ler a estranha citação para comparecer na frente do bispo. Teodoro abria o seu tribunal muito mais cedo do que previsto, seguindo um processo anormal. Ordinariamente, um arauto anunciava o acontecimento; o prelado não tinha o costume de convocar os queixosos dessa maneira.

Para grande surpresa sua, não havia qualquer fila de espera formada na frente do comprido edifício de muros caiados, cuja entrada era guardada por dois soldados. Ao fundo da sala vazia, pontificavam o bispo e o prefeito. À esquerda deste último, debruçado sobre a sua secretária, um escrivão a anotar o resumo da sessão. As portas fecharam-se atrás do casal.

- A reparação ser-nos-á concedida? - perguntou Sabni, irónico.

- Preocupa-nos um assunto mais grave - respondeu o bispo. - É por isso que eu pedi ao prefeito Maximino que estivesse presente.

- Existirá preocupação maior do que de fazer justiça?

- Tal é a minha intenção. Pagar-vos o imposto como proprietários do dito lugar Filae; mas proprietários sereis vós realmente?

Sabni teve medo de compreender.

- Toda a posse de uma terra assenta num acto jurídico; o meu secretariado examinou as peças do cadastro: nenhuma delas menciona Filae. Não pertence portanto a ninguém. Caída na falta de herdeiros, essa terra passa a ser bem da Igreja.

O ataque surpreendeu o superior. Preparado com cuidado, era trazido por um homem convicto que se apodera da ilha santa sem luta. O jurista aplicava a lei. Ninguém lhe poderia censurar de ser desumano ou cruel.

- Enganais-vos - rectificou Isis com uma voz doce.

- Uma prova?

- Quereis examiná-la?

- É indispensável.

- Deveis ter paciência alguns dias.

Maximino não tirava os olhos dela; tinha esperado um grande discurso, propósitos inflamados de indignação. Isis conservava-se muito calma, isso tomava-a tanto mais atraente.

- Aceitamos - concluiu ele.

O escrivão anotou o adiamento para uma próxima sessão.

Três dias mais tarde, um vasto cortejo apresentou-se no tribunal. Cresto e as irmãs tinham ficado no templo; os irmãos ajudaram Sabni a levar o documento prometido ao bispo, uma pesada estela de calcário extraída das trevas de uma cripta.

Via-se nela a deusa Maat, encarnação da Regra de vida, em frente do deus Tot com a cabeça de íbis. Ditado pela mulher celeste, redigiu um texto em hieróglifos.

- Eis a prova de que Filae pertence aos deuses e não aos homens - indicou Isis.

O escrivão pousou o seu cálamo. Não só não era pago à linha, como ainda estragara a sua juventude para aprender grego e aramaico, a fim de redigir arrendamentos, contratos e testamentos. Ler os hieróglifos não entrava nas suas obrigações.

O prefeito levantou-se e veio examinar de perto o surpreendente acto de propriedade. Pôde assim respirar o perfume de Isis.

- Ninguém conhece esta língua. Como julgar da validade deste testemunho?

Sabni observava Teodoro. O bispo confessaria que decifrava a escrita sagrada dos antigos egípcios?

- Traduzi - ordenou ele. - Tu, escrivão, regista a declaração.

O superior leu destacando as frases.

- Este templo é como o céu em todas as suas partes. Foi construído por faraó, por ordem do Princípio criador e constantemente renovado para resplandecer como o horizonte. No termo da construção, o arquitecto entregou a casa ao seu dono; nestes lugares reside a grande deusa Isis.

O escrivão consultou as suas tabuinhas. Na qualidade de tabelião, aplicava o direito mais severo. Era por isso que o bispo o tinha notificado, a fim de que ninguém ignorasse e que o julgamento fosse tocado com o cunho da rectidão.

- Ocupação vale possessão. Uma pessoa chamada Isis ocupa esses lugares?

Sorridente, a superiora avançou.

- Sois vós a herdeira e autentificais este acto?

Isis inclinou a cabeça. O prefeito estava dividido entre o desejo de se apoderar dela e o de estrangular Sabni; odiava aquele egípcio que se intrepunha entre ele e a sua felicidade.

- Perfeito - considerou o tabelião. - Esta estela será colocada nos arquivos do cadastro; na próxima vez, trazei uma cópia manejável.

Sabni e Isis cumprimentaram o bispo, impassível.

A colheita acabava-se a toda a pressa; os destinados à debulha trabalhavam sem parança, apressados de a terminar antes do princípio da cheia. O Sol de Junho, fogoso, abrasava as colinas de Elefantina. No templo, Sabni impôs o racionamento. Não contrariou nada os adeptos, à excepção de Cresto, dotado de um sólido apetite. Durante dois meses, pelo menos, não faltaria alimento.

Antes do ritual do meio-dia, Isis e Sabni banhavam-se nus, ao pé do pequenino templo de Hator, em frente das falésias de Leste. Nadar fazia desaparecer as fadigas e preservava a juventude do corpo. Não se afastavam muito da margem, desapareciam sob a água, roçavam pelos peixes e, sob o olhar protector da deusa do amor, abandonavam-se às suas brincadeiras ternas e apaixonadas. Isis, com a pele gotejante de pérolas de água, estava parecida com a estrela brilhante do ano novo.

Sabni beijava os botões em flor dos seus seios, acariciava a moita do seu sexo, bebia os seus lábios embriagadores. Como era doce abraçar a mulher amada, alimentar-se do seu olhar, vê-la banhada de luz e de se unir a ela sob a protecção de uma acácia! O amor não semeava no céu a esmeralda e a turquesa para criar as constelações? Deitados no chão, um contra o outro, com os olhos meio-fechados, saboreavam aqueles instantes de prazer que se transformavam em felicidade de existir.

 

Cresto decorava os papiros da biblioteca. Medicina, astrologia, geometria, mitologia... Nenhum assunto esgotava a sua curiosidade. Lia os hieróglifos com uma incrível facilidade, como se a língua sagrada lhe fosse natural. Umas vezes sob a autoridade de Sabni, outras sob a de Isis, disciplinava o seu pensamento, diferençando o saber do conhecimento. «O perigo», observava Sabni, «é acumular noções sem as viver. Esquece, experimenta, formula, segundo o teu coração e nunca segundo a tua fantasia.» O jovem adepto dormia pouco e recusava repousar. O calor não o incomodava, as tarefas materiais não o cansavam. Não tinha ele séculos de sabedoria que estudar, milénios de iniciação a percorrer? Quanto mais aprendia, mais tinha necessidade de aprender. De noite, em cima do telhado do templo, fazia mil perguntas a Sabni e a Isis; eles eram bem mais do que um pai e uma mãe, formavam uma verdadeira família cujos membros se tinham escolhido livremente.

Em meados de Junho, Cresto passou a porta da sala das colunas. Todos os adeptos tinham reconhecido a sua capacidade de conhecer novos mistérios. Na frente dos olhos maravilhados do rapaz, iniciou-se um caminho fabuloso. Conforme a altura do ano, e a hora do dia, os raios de luz, filtrados pelas lucarnas, iluminavam este ou aquele pormenor de uma coluna, revelavam esta ou aquela figura de divindade, realçavam esta ou aquela parte de texto. A Cresto cabia ver ou aperceber-se; juntando os elementos espalhados, perguntando porque alguns ficavam na sombra, familiarizar-se-ia com as leis do mundo dos deuses, e apreenderia talvez o seu funcionamento. Agora, tudo lhe era dado; nada mais lhe restava do que errar nesse labirinto de símbolos com a esperança de lhe atingir o centro. Meteu-se nele com fervor.

Depois do seu fracasso, Teodoro parecia inactivo. Na realidade, a aproximação da cheia, desabava sob o peso do trabalho administrativo. Cada relatório do curador dos canais devia ser examinado com cuidado. Em muitos dos sítios, os camponeses requisitados tinham-se encarregado da empreitada com negligência. Se a cheia não fosse bastante abundante, a irrigação seria mal assegurada; ora as reservas de alimento chegavam ao esgotamento. Mesmo os celeiros do Exército breve estariam vazios.

O bispo ia aos terrenos, inspeccionava os diques, verificava a localização das margens, exortava os vigilantes a melhor enquadrarem os camponeses. A disciplina relaxava-se. Filae, Cresto, o capitão Mersis... O prelado não os esquecia um instante, mas relegava-os para segundo plano das suas preocupações, tanto o obcecava a salvaguarda da província.

Por entre as múltiplas oferendas do culto maior, figurava a do vinho. Em Elefantina como noutro lado, no Egipto, a vinha possuía um carácter sagrado; os cristãos reconheciam o valor simbólico do sumo escondido nos bagos da uva e não destruíam as vinhas dos templos. Durante a missa, o padre comparava-o ao sangue de Cristo como o adepto ao de Osíris.

Por isso ficou Sabni estupefacto por constatar que o pequeno vinhedo de Filae tinha sido destruído pelos vândalos: cepos cortados rentes, terra revolvida e salgada, pêndulo da máquina de irrigar partido em vários pedaços... Quando os três últimos jarros estivessem vazios, o superior não poderia tornar a encher os vasos de vinho que elevava, no naos, até ao rosto da estátua.

Plantada no meio do vinhedo, havia uma cruz com o nome de Jesus gravado. Tinha uma forma semelhante à da cruz de asas que, na língua sagrada, significa «vida». A um dos seus troncos estava agarrado um pedaço de pele de chacal que assinalava a malvadez, obra dos monges que ocupavam os túmulos dos nobres e dos artesãos. Destruíam os rostos das mulheres, encarnação do diabo, decapitavam as estátuas, queimavam as paredes ou cobriam-nas de gesso. O bispo controlava-os mal.

Receosos, não ousavam entrar na cidade, onde os soldados os interpelavam; havia muito tempo que sonhavam destruir Filae.

A cor da água mudou, tornou-se opaca e mais pesada.

Isis voltou à margem. Quando Sabni se lhe juntou, ela oferecia ao Sol o seu corpo de mel perfumado a jasmim.

- O nosso último banho antes da cheia.

O superior amassou com a ponta dos dedos um pouco de terra molhada.

- Virá atrasada.

- É cedo para o dizer. A vaga, é verdade, deveria ser mais lamacenta.

Tentaram tranquilizar-se mas os sinais percursores não enganavam. O Egipto viria a conhecer um ano das hienas durante o qual as feras, esfomeadas, atacariam as casas? Entraria num período de sete anos catastróficos condenando metade da população a desaparecer? Se os camponeses estavam reduzidos à penúria, não poderiam mesmo oferecer, fraudulentamente, um pouco de trigo à comunidade. O Exército ficaria com a totalidade da sua colheita.

- Teodoro não te acusará de magia negra?

- O povo não o ouvirá. Não estou inquieta por mim mesma mas por os nossos velhos; um jejum prolongado matá-los-á.

- Nas aldeias do Norte, encontrarei alimentos.

- Tem paciência. Esperemos o começo da cheia.

O exército de Narsès tinha-se habituado às delícias de Elefantina. Por causa da sua inactividade forçada e da impossibilidade de se lançar sobre as pistas de Núbia, o general, de acordo com o prefeito, tinha dobrado as rações de vinho, aumentado o soldo e multiplicado as licenças. Esquecidos os Blemis, os soldados bizantinos frequentavam as tabernas e o mercado onde se vendia marfim, perfumes, peles de pantera e outras mercadorias exóticas, objectos de rudes negociações. O bordel da cidade não se esvaziava; aos desgraçados, incapazes de pagar o preço, prostitutas de ocasão vinham em sua ajuda. Narsès fechava os olhos; só temia uma cheia abundante que taparia o seu rochedo e o impediria de meditar em frente da catarata.

O prefeito já não conseguia afastar o seu olhar do rosto de Isis; por várias vezes, tinha pensado em suplicar ao bispo que o exorcizasse, mas preferia aguentar uma dor intolerável e não perder uns olhos, uns lábios, umas faces, contudo, inacessíveis. Aceitava o suplício porque conservava a esperança de a conquistar.

No antiquário, tinha descoberto uma recolha de poemas adaptados do antigo egípcio; os versos evocavam o encontro do amante e da amante num jardim sombreado, ao abrigo dos curiosos, perto de um tanque de água fresca onde eles se banhavam depois de terem manifestado a sua paixão. Como não sonhar com uma Isis nua, escorregando numa onda azulada? Nesses textos de Sol e de sensualidade, Maximino admirava o respeito pela mulher amada; esse sentimento raro torava a paixão semelhante ao ouro mais brilhante. Ele, o desprezador de fêmeas, submetia-se à superiora de Filae; aquela obediência do coração elevava a alma. Se Isis se recusava não deveria conquistá-la à força, mas abrir, a pouco e pouco, o caminho da sua confiança. Maximino teria paciência de granito; que o julgassem doido era-lhe indiferente.

Isis guiou a barca até Biggeh, onde ofereceria a Osíris uma libação de leite que um pescador tinha levado ao templo durante a noite. Alguns comerciantes, avisados do despojo da comunidade, não receavam devotar-se por ela. Decerto, Teodoro não tinha promulgado nenhum édito proibindo à população negociar com Filae, mas cada um conhecia os riscos: prisão arbitrária e deportação. Por felicidade, as rondas espaçavam-se, numerosos soldados estavam encarregados de vigiar a limpeza dos tanques de irrigação e de impedir a fuga dos camponeses submetidos à tarefa.

Enquanto a superiora amarrava a embarcação, uma cabeça negra surgiu da água. O homem, um atleta de cabelos crespos, fez movimentos lentos com os braços e manteve-se a distância respeitosa.

- Sou um Padre blemi. Recebe este testemunho da minha veneração e da do meu povo. Sei que só tu podes andar sobre o solo de Osíris. Por isso me manterei afastado.

- Que desejas?

- Saber se os cristãos violaram este território entre todos sagrado.

- Respeitaram-no.

- Saber também se a capela e a estátua de nosso deus estão intactos.

- Fica descansado.

- Saber enfim se a vossa pessoa está ao abrigo de qualquer agressão.

- Não corro qualquer risco.

- Levarei essas notícias ao meu rei.

- Atacareis Elefantina?

- Veneramos a superiora de Filae. Vive acima das guerras e dos assuntos humanos.

O blemi desapareceu e nadou debaixo de água. Isis, pensativa, dirigiu-se aos altares para lá deitar o leite da oferenda.

 

Sabni parou em frente das figuras enigmáticas da pequena capela próxima da porta de Adriano, em frente de Biggeh.

Cresto identificou o Sol e a Lua entre os quais circulavam as estrelas e o pilar com um olho evocador de Osíris ressuscitado, mas interrogou-se acerca do significado do personagem acocorado no interior de uma caverna, rodeada de uma serpente.

- É o génio do Nilo - indicou o superior. - O seu poder está escondido nas entranhas da terra, ela própria imersa num oceano de energia. O personagem tem dois vasos que contêm os fluidos terrestre e celeste. Só o casamento deles gera uma boa cheia; nas estrelas, leremos o destino tal como ele no-lo reserva: a lua desencadeá-la-á, o Sol estabilizá-la-á.

- Como descrever-te a minha alegria, Sabni? Nesta floresta de símbolos, estou em minha casa. É isso, o paraíso: a linguagem dos deuses, os mistérios do templo e o calor das colunas.

Por vezes, tenho medo; não perderei este tesouro se não for capaz de ultrapassar outras portas?

- Segue o teu desejo durante o tempo da tua vida; nenhuma riqueza o aproveita se for menos prezado. Aquele que ele guia, não pode perder-se.

- Quero fazer falar estas imagens de pedra. Como porei à prova as minhas palavras na balança da verdade?

- Se a escuta for boa, a palavra é boa; ouvir é melhor do que tudo o que existe: resulta daí que o amor será perfeito.

Se o discípulo acolher as palavras do mestre, atingirá o seu cumprimento. Deus ama aquele que escuta, odeia o que fica surdo. Possuirás o seu coração se o escutares; dele nascerão as palavras de rectidão.

Cresto não perdeu uma palavra. O ensinamento recebido tornava-se a sua carne e o seu sangue.

A calma de Teodoro era apenas aparente. Aos olhos dos seus subordinados, mascarava um nervosismo crescente. A cheia anunciava-se menos abundante do que a anterior; a província corria para a desgraça.

O prelado seria constrangido a implorar a ajuda do imperador e a reclamar víveres de Bizâncio; esquecendo-se dos caprichos do Nilo, a orgulhosa capital condenaria a imprevidência do governador.

Não só o fluxo estaria atrasado, mas ainda apenas aumentaria, incapaz de depor limos sobre as terras sedentas. Apesar das recomendações do bispo, a má notícia tinha-se difundido depressa nas ruas de Elefantina e nos campos da vizinhança.

A angústia aumentava; por isso se admirou Teodoro da cara satisfeita do prefeito.

- O povo é unânime: Isis deve intervir. Só ela saberá fazer provocar a subida das águas, celebrando o ritual da cheia.

Para Maximino era a certeza de estar junto dela vários dias seguidos.

- Recuso.

- Não sejais hostil, bispo! Estou a oferecer-vos a melhor das soluções, se celebrares a missa em vão, quantos cristãos perderão a fé? É impossível correr o risco. Se a superiora falha, a multidão precipitar-se-á sobre o templo. Ela, retê-la-ei aqui.

- E se ela conseguir?

- O povo aclamá-la-á durante algum tempo, depois obedecerá. Atravessareis uma tempestade mas encontrareis facilmente um meio de atribuir o milagre a Cristo; as divindades egípcias já não cumprem promessas há muito tempo.

O bispo resignou-se: cabia-lhe convencer Isis. Ela recusaria ver o prefeito e não ouviria um enviado qualquer. Ir a Filae humilhava-o mas, nas ruas de Elefantina, não se parava de salientar o nome de Isis. A curandeira não era também uma mágica, detentora de poderes sem limite? Os adivinhos prediziam uma cheia tão fraca que nenhuma haste de trigo cresceria; os esfomeados atacariam os mais fracos, os pobres roubariam os ricos, o Nilo tingir-se-ia de sangue.

A barca do bispo atraca ao embarcadouro onde, prevenida pelo vigilante, Isis o esperava. O seu vestido branco, comprido, brilhava.

- Saúdo a superiora de Filae.

- Que a grande deusa proteja os seus fiéis e torne próspera a sua terra. Quereis entrar no templo?

- Sou obrigado a requerer a vossa assistência.

- Acreditareis na nossa magia?

- De modo algum.

- Contudo foi eficaz milhares de vezes.

- Não vos enganeis com as vossas próprias lendas. O povo tem apenas necessidade de maravilhoso.

- Estais persuadido de que a cheia será insuficiente e desejais utilizar métodos que reprovais. Porquê esta deligência?

- A fatalidade impõe-mo. Evitar uma miséria é a minha única preocupação.

- Impondo a minha presença, não insultais a Cristo?

- O meu diálogo com Deus não vos diz respeito. Aceitais ajudar-me?

- Eu também desejo a prosperidade desta província.

Ela desceu para a barca e instalou-se à proa, enquanto Teodoro se sentava à popa. Os remadores manobraram em cadência.

- Uma simples oferenda não bastará. Preciso de consultar os arquivos do templo de Khnum.

- Esqueceis que foi destruído?

- É verdade que os fanáticos o reduziram a um miserável amontoado de pedras; o rumor pretende que salvastes o papiro da Casa de Vida contígua ao santuário.

- Afirmação audaciosa.

Drapeado no seu comprido vestido vermelho, de gola avivada a um debrum de ouro, Teodoro desencadeava um dos mais difíceis combates da sua carreira. Se bem que se defendesse, aquela mulher não o punha à vontade. Não conseguia submetê-la, como se a vontade de Deus esbarrasse com uma muralha indestrutível.

- Sabeis ler os hieróglifos, a sabedoria do Egipto é o vosso alimento, como o meu. A nossa tradição funda-se num conhecimento e não num saber; expressa-se em textos que respeitais. Vós, monsenhor, não sois um destruidor.

- Esses papiros são-vos necessários?

- Vós e eu desejamos uma cheia benéfica. Sem as fórmulas, a minha voz permaneceria ineficaz.

Os arquivos da Casa de Vida estavam arrumados cuidadosamente nas caves da morada do bispo onde ninguém penetrava.

Teodoro tinha salvo a maior parte, por ocasião do incêndio, por causa de uma frase tão frequentemente lida num ensinamento do antigo império: «Ama os livros como amas a tua mãe.» O bispo sonhava com uma imensa biblioteca reunindo os escritos nascidos em terra do Egipto depois da aparição da civilização. Para propagar a nova religião, não seria preciso conhecer os erros do passado? Emocionada, Isis atingiu os veneráveis papiros cobertos de hieróglifos traçados pelos padres de Khnum na época em que o santuário pontificava sobre a ilha de Elefantina. Entre eles, um texto assinado por Imhotep em pessoa. Nele revelava as palavras que constrangeria Khnum a levantar a sua sandália e a libertar a torrente.

- Deverieis restituir-nos esses documentos, monsenhor.

- Não conteis com isso.

- Recearieis que os utilizássemos contra vós?

- Substimai-vos. Não temo a vossa pequena comunidade. Que poderia ela empreender contra milhões de cristãos?

- Testemunhar a sua fé e provar que o número é secundário.

A festa do sacrifício no Nilo reuniu a população de Elefantina e um grande número de camponeses vindos da sua aldeia.

Milhares de olhos seguiram os gestos da superiora que deitou na corrente dois jarros de vinho doce, leite, azeite, cheiros, dezasseis grinaldas, dezasseis bolos e dezasseis palmas. Depois, desceu até ao rio, entrou nele até meio da perna e recolheu um pouco de água nova num vaso de ouro consagrado a Isis. Elevou-se a voz da superiora cantando a glória da deusa, orvalho celeste e olhar do Sol. No coração da cidade crista foram pronunciadas as orações pagas dedicadas ao nascimento da cheia.

Sete dias depois da intervenção de Isis, o nível elevou-se muito depressa. As águas redemoinharam, afogaram os canaviais e os bancos de areia, depois treparam ao assalto das margens. A grande vaga, alegre e bravia, espalhou o limo fertilizador, suavizou o solo e estendeu-se pelos campos. O vale tornou-se um lago de onde emergiam apenas os diques e os outeiros sobre os quais estavam construídas as casas. Espectáculo fascinante e sublime daquele país tomado semelhante ao oceano das origens, em que um navio costeava uma enxada, um remo as charruas, em que o lavrador se transformava em marinheiro, em que um cardume de peixes nadava ao pé de uma manada de vacas. A inundação, o ouro do pobre, trazia o júbilo a todos os seres vivos. Por toda a parte, a festa, os cantos e as danças.

Quando o rio tornou a cobrir o Egipto, as aldeias rodeadas de bosques, de palmeiras e de árvores de fruta, apareceram como ilhotas verdejantes no seio de um mar imenso. Numerosas barcas vogaram sobre aquela estrada fácil. Cada um ia visitar um parente ou um amigo. Até o Nilo se retirar, seria a época do repouso e do regozijo.

Nos lábios dos bateleiros nasceram canções com a glória de Isis a mágica, capaz de transformar a miséria em prosperidade. O rio obedecia-lhe como aos faraós. Os diáconos bem puderam explicar que as primícias da cheia tinham sido mal interpretadas e que a superiora tirava vantagem de um facto natural, ninguém os ouviu. Porque se continuariam a privar dos poderes de uma sacerdotisa cujos actos engendravam a felicidade? Nos cristãos mais fervorosos, murmurava-se que o bispo deveria mostrar-se menos intransigente. A antiga religião não venerava um deus único, manifestado sob diversas formas e não oferecia ela ao cristianismo o modelo da Trindade? Alguns desenterraram as estátuas escondidas nas suas caves ou perto do cemitério, tornaram a pô-las em altares domésticos e dirigiram-lhes súplicas. Reapareceu a efígie da deusa serpente aquela-que-ama-o-silêncio, a protectora das searas.

Na margem de oeste, monges, que o prestígio crescente da superiora tornava furiosos, tentaram incendiar os túmulos intactos dos exploradores do Grande Sul.

Pescadores impediram-nos de o fazer e ameaçaram-nos de lhes quebrar os rins a golpes de remo.

O andamento dos acontecimentos não surpreendia o bispo.

Feliz por saber a província ao abrigo da miséria, satisfeito por poder reconstituir reservas de alimentos, tirava lições da sua derrota. A sua amizade por Sabni desnorteava-o da sua missão sagrada; o seu papel de servo de Deus consistia em impor a verdadeira fé e não a escutar os seus sentimentos. Muito tempo, no Oriente como no Ocidente, o culto de Isis e de Osíris afirmara-se como um temível rival do cristianismo. Num século em que a Igreja julgava ter arrancado as raízes do mal, ameaçava renascer no próprio lugar em que a grande deusa ocupava o seu assento mais venerável e mais prestigioso.

Filae estava arruinada, enxangue, sem forças, mas triunfava por causa de um casal que as provocações engrandeciam.

Sabni não se converteria; amanhã, encabeçaria uma corrente religiosa que rapidamente se desdobraria num movimento sedicioso contra o imperador. O Egipto não renunciaria nem ao seu génio nem à sua independência; acreditaria sempre que o tempo não passa de ilusão, o cristianismo descaminho passageiro e a eternidade da sua tradição e o verdadeiro conhecimento.

O homem que Teodoro mais amava no mundo tornava-se o seu inimigo mais perigoso. O bispo não tinha o direito de tapar o rosto: o que Deus exigia dele, era preciso cumpri-lo sem fraqueza.

 

Quando as águas, a meio do mês de Agosto, atingiram o seu ponto culminante, começaram as vindimas. Dezasseis côvados: a altura perfeita da cheia suscitou louvores apaixonados, dirigidos a Isis. Por ocasião do conselho dos notáveis, ordinariamente empenhados em aprovar as decisões do bispo, estas reclamações medidas a favor da comunidade, indemnização pelas colheitas perdidas, atribuição de terras de cultivo e de uma vinha, entrega de blocos de granitos e de grés, a fim de reparar o edifício. Um insolente ousou mesmo pedir a abertura de um inquérito sobre o suplício inflingido, demasiado activamente, ao especialista de unguentos.

Teodoro repudiou, com firmeza, o conjunto dessas exigências.

Não se considerando vencidos, os seus interlocutores pediram audiência ao prefeito. Maximino passava a parte mais importante do seu tempo a navegar em volta do templo, a fim de avistar Isis, quando ela subia ao cimo do primeiro pilar; por ocasião de uma breve entrevista, ouviu-os contudo atentamente, mas não soube que posição adoptar. Favorecer Filae era reforçar o poder de Sabni; lutar contra ela, descontentar Isis e perdê-la para sempre. O prefeito mandou os seus notáveis embora, na frente do senhor da província.

O povo murmurava. Sabni, que nem a Polícia nem o Exército interpelavam, sabia falar-lhes. Sem invectivas nem queixas, contentava-se em evocar as dificuldades materiais do templo.

Nem uma vez o nome de Teodoro foi pronunciado. O superior só reclamava um pouco de justiça. Algumas mulheres fizeram calar um diácono, que lembrava, alto e bom som, que os pagãos estavam fora da lei. Empurrado, atirado ao chão, ficou a dever a sua salvação a ter fugido. A partir do dia seguinte, barcos trouxeram pão, frutos, legumes e vinhos; Isis agradeceu a cada um dos comboieiros. De regresso a Elefantina. Gabaram a sua beleza.

Os espiões do bispo foram açoitados, os seus secretários expulsos das reuniões públicas, enquanto alguns negociantes protestaram contra as taxas impostas por Teodoro.

Os notáveis encarregaram Sabni de procurar o prelado e de ampliar o eco das reinvidicações; breve chegariam à administração e ao exército. Narsès recusava-se a tomar uma iniciativa qualquer, e esperava ordens. Maximino enterrava-se em casa, Mersis continha dificilmente a calma dos seus homens, invejosos dos de Narsès e desejosos de gozar dos mesmos privilégios.

Se o senhor da província não reagisse depressa, poderia ser, talvez, expulso do seu trono.

Foi, porém, um homem tranquilo que recebeu o superior.

Teodoro parecia solto, quase indiferente, como se já tivesse renunciado ao poder. Nenhuma desordem, contudo, maculava o seu escritório.

- Que vens anunciar-me, Sabni?

- Estás consciente de ter perdido o crédito?

- Ser humilhado não me assusta nada.

- Consentirias em tornar a ser um simples padre?

- Porque não, se Deus assim quiser.

- E tu, também o queres?

- Amo esta província e quero a felicidade dos seus habitantes. Enquanto o imperador não me expulsar, governarei. Desejarias tomar o meu lugar?

O superior desatou a rir.

- É, contudo, a função para que serás chamado se o paganismo prosperar; Elefantina quererá Isis como mágica e seu marido como guia.

- Não sejas cínico, Teodoro. Não possuo nenhuma competência administrativa.

- Não creio na tua ingenuidade; não organizas a rebelião?

- Peço justiça para Filae; fica sabendo que nunca te pus em causa.

- Eu sei, mas o resultado é idêntico. Tu e a comunidade arruinaram a minha obra e conduzis a gente pobre a uma repressão de que não imaginais a violência. O imperador não suportará uma insurreição pagã. Tentei proteger Filae, fazendo esquecer a sua existência; à guisa de agradecimento, prega a rebelião e precipita desgraçados no abismo.

- Morreríamos de inanicão; a tua benevolência não passa de uma maneira hábil de nos abafar.

- Agora estás desconfiado.

- És cristão e desejas converter a terra inteira.

- Cristo exige-o.

- Alimentas uma religião medíocre; o choque, em contra-partida, será aterrorizador. Dentro de dois séculos ou de dez, milhares de homens vão entrematar-se em nome da verdade absoluta que cada um julgará possuir.

- Irrisório apocalipse: a mensagem de Cristo engendrará a fraternidade.

- Favorecerá guerras e trevas.

- Os mistérios da iniciação são desvendados a uma elite: eis a maior das injustiças, é essa a razão pela qual os antigos cultos desaparecerão. Porque seria o divino reservado aalguém? - Os seres humanos são desiguais. Quem deseja a iniciação deve soltar-se deste mundo sem o negar e conservando a sua beleza. Cabe a cada adepto passar uma sucessão de portas, dirigir-se para a inacessível presença revelada no naos. Ninguém explicará alguma vez a vida. É por isso que o culto não tagarela: o rito não dissipa o mistério mas coloca-o no coração do iniciado.

- As almas simples não podem compreender as tuas palavras; têm contudo direito, também elas, a Deus. Cristo nasceu para difundir uma crença universal, não será reservada a alguns adeptos. Os teus mistérios afundam-se perante a História.

- Uma religião nascida na História, morre nela. Se bem que o cristianismo pareça triunfar, traz consigo o germe do fim.

- Um baptizado conhece a vida eterna porque participa da ressurreição de Cristo.

- Antes de ressuscitar em Osíris, o adepto defronta a prova do julgamento; só morrem os que não comungarem com o Princípio.

- Ignorarás a redenção e a piedade?

- O essencial não é crer mas conhecer.

Teodoro serviu uma taça de vinho a Sabni.

- Estranha intenção, na verdade. Hoje pareces estar em posição de força. O povo ama Filae, detesta-me; se tu soubesses utilizar a sua cólera deitavas-me abaixo.

- Não tenho intenção.

- Erro fatal: o tempo joga contra ti, e a opinião é versátil.

Quando verificar que nada mudou, retomará confiança em mim e censurar-te-á a tua fraqueza; os teus amigos tomar-se-ão teus adversários.

- Dá a Filae os meios para viver em paz e permite-lhe acolher novos adeptos.

Um meio-sorriso animou o rosto frio do bispo.

- Não infrigiste já a lei?

Sabni não respondeu.

- Tem cuidado, meu amigo: é o meu último aviso. Já não posso poupar Filae; convence Isis a fechar o templo. Que a comunidade se disperse.

- Porquê tanto ódio?

- Não o ignoras: no meu lugar, procederias do mesmo modo. Depois das proezas de Isis, Filae não tomará a cair num anonimato salvador. A ilha ameaça o cristianismo.

Sabni reflectiu. O bispo, animado de uma última esperança, conservou os olhos fixos nele. Abalado pela intransigência do amigo, tomando por fim consciência dos riscos, o superior renunciaria à sua vocação caduca?

- Tudo isso são palavras - observou Sabni. - Tu admiras Filae, faz parte do teu ser. Sem ela, a província parecer-te-ia vazia e pobre.

O bispo não protestou.

- Eu volto para a ilha. Protege-a, Teodoro. O mundo tem necessidade dela.

 

Apenas o cimo da rocha emergia. Utilizando a corrente com habilidade, Narsès abordou-a sem embate. Apesar das posições de defesa necessárias, fazia questão em navegar só, cada dia manejava melhor os remos e se familiarizava com a vaga cujos riscos a atraíam.

A catarata desaparecia sob as águas; a fronteira do Egipto, afogada, voltava ao invisível.

O general não lamentava nada: nem os combates encarniçados, nem os mortos, nem a sua espada vermelha de sangue.

A derrota tão temida, os rochedos queimados, a terra ocre e o oceano que brotou do Grande Sul, ele infligiu. Desfeito o desejo de vencer, aprendia a observar: até ao fim dos tempos, contentar-se-ia enchendo os olhos de luz, de água e de rocha.

Vencido, triunfava.

Porque morremos nós na poeira, perguntavam os jovens recrutas arrancados à sua família e à sua aldeia? Narsès não era nem seu confessor nem seu director de consciência. Cabia-lhe contudo recolher um último olhar de protesto, um grito mudo contra o imperador, contra ele, contra uma humanidade apaixonada de crime e de violência.

Com o seu exército inactivo, Narsès já não dava ordens.

Os seus tenentes mantinham uma vaga disciplina. Ninguém se preocupava em cuidar das armas amontoadas no arsenal de ocasião. O capitão Mersis enraivecia: a epidemia apoderava-se da guarnição. Se os soldados de elite não estavam para pressas, os mercenários, menos bem pagos, acabariam por lhes seguir o exemplo.

Noutros tempos, o general teria restabelecido a ordem e o espírito de corporação em poucos dias; uma vez que o mundo era mau, colaborar na sua manutenção aparentava-se com a alta traição. Era a catarata que tinha de decidir a sua sorte.

Narsès não se interessava nada pelo bispo se bem que estivesse à beira da derrota. Havia uma semana que o povo conspurcava o seu nome. Em vez de se apoderar da cabeça do movimento, o superior tinha-se retirado para a ilha a fim de celebrar os ritos que assegurariam a fertilidade da cheia.

Desiludidos, os seus mais calorosos partidários criticavam a sua tibieza e abandonavam a ideia de atacar a morada do bispo.

Nem um fiel faltou à missa de domingo. Todos notaram o ar sereno do prelado. Não provaria esse ar que ele controlava a situação e que o exército, sob as suas ordens, esmagaria qualquer tentativa de revolta? Apenas Teodoro, Narsès e Mersis sabiam que uma parte dos seus homens não obedeceria. Os bizantinos porque se recusavam a participar numa guerra civil, os egípcios porque não se queriam matar uns aos outros.

Durante a celebração do sacrifício, o bispo respirou com dificuldade mas não deu parte de fraco. Como cada um dos fiéis, esperou pela chegada de Sabni. Abriria as portas da igreja, proclamaria o seu título, exigiria o reconhecimento dos cultos tradicionais e da dignidade do governador da província. Os cristãos aclamá-lo-iam, Elefantina estaria alegre, os soldados jurar-lhe-iam fidelidade. Um exército entusiasta correria para o norte e, em marchas forçadas, atingiria Mênfis. A própria Alexandria não resistiria muito tempo.

Sabni não veio.

Ao elevar o corpo e o sangue de Cristo ao céu, Teodoro compreendeu que Deus o salvara da decadência e lhe lembrara o seu dever mais sagrado: aniquilar o paganismo.

Sabni limpou o baixo-relevo com um pano húmido. O faraó, colocado sob a protecção de uma fila de cobras, recebia a unção de Tot e de Hórus que seguravam sob a sua cabeça dois vasos de que saíam cruzes com asas, símbolo de uma vida inalterável. Baptizando-o, conferiam-lhe a única legitimidade: a dos poderes criadores. Assim o exigia o espírito do Egipto, indiferente às querelas humanas e à História. Quando, amanhã, o faraó voltasse, bastava-lhe ler os textos e animar as cenas reveladas sobre as paredes dos templos, para reviver o fogo das primeiras eras, transmitido de monarca para monarca.

- Estás preocupado - notou Isis.

- Faço mal em não actuar da maneira mais directa.

- Pensas em derrubar Teodoro?

- Tomar o poder parece-me indispensável. Se nós não governarmos, ficaremos exilados na nossa própria terra.

- Podes vir a ter razão, mas é muito cedo. Os teus partidários arrastar-te-ão para uma guerra antecipadamente perdida, e morrerão inocentes por tua culpa. É a nossa alma que tu perderás nessa aventura. O nosso único exército é o dos adeptos, a nossa única força será a do pensamento; ora nós não estamos prontos porque nos falta coerência, a mais decisiva de todas.

- Não será demasiado tarde?

- Criemos o tempo, Sabni, e preocupemo-nos em transmitir a Regra, nela estão dadas as respostas.

O elegante barco branco deslizava com facilidade sobre a água turva da cheia. O bateleiro, que manejava a vela quadrada, era o melhor marinheiro de Elefantina. Naquele fim de Agosto, alegrado por um vento de norte, cujo sopro não atenuava a canícula, tinha a honra de transportar o prefeito e o bispo, sentados à sombra de um pálio.

Maximino, nervoso, bebia copázios de vinho fresco. Se tivesse sabido nadar, de boa vontade teria mergulhado naquele mar confundido com o horizonte. O bispo, insensível ao calor, saboreava uvas.

- Podereis explicar-me, finalmente, a razão deste interminável passeio?

- Tende paciência, Maximino. Não saboreais a magnificência destes lugares? Se desejas comungar com a alma do meu país, é aqui que a sentireis.

- Não sois um poeta, monsenhor. Cada um dos vossos actos traduz uma intenção. Exijo conhecer aquela que me diz respeito.

- A situação é delicada... Não a esquecerei mais.

- Temeis uma insurreição?

- Já a evitámos por pouco.

- Sabni?

- Acaba de provar que não era um chefe de guerra; erro imperdoável aos olhos da população.

- onde me levais?

- Perto da catarata. É o único sítio onde poderemos conversar com Narsès.

O general, cuja barca estava amarrada a uma ponta rochosa, levantou-se à aproximação da embarcação. Que energúmeno ousaria perturbar a sua meditação? Quando o bispo o chamou não reagiu, embora a presença do prefeito o intrigasse; um facto grave devia estar na origem daquela expedição.

Teodoro e Maximino puseram o pé na estreita plataforma; os três homens, estranhos bípedes que pareciam andar sobre a água, perdiam-se no meio da água.

- O lugar é fascinante - reconheceu Teodoro.

- Exige a solidão e o silêncio.

- Estou desolado de os quebrar, mas chegou um documento oficial, ontem, de Bizâncio.

O prefeito teve um sobressalto.

- Deverieis ter-me prevenido imediatamente.

- Não há nada de grave que vos diga respeito; o imperador admite as vossas explicações a propósito do ouro de Núbia.

- Nenhuma censura?

- Nenhuma.

- E... Filae?

- Supõe que o problema está regularizado e espera o vosso regresso.

- Esse documento oficial era-me dirigido e tivesteis o atrevimento de o ler?

- Foi a mim que o imperador escreveu, encarregando-me de tomar as iniciativas desejadas; consultareis o decreto no meu escritório.

- Um decreto! Isso significa...

- Que as minhas decisões têm força de lei e que obedecereis às minhas ordens sem qualquer possibilidade de as discutir.

Portanto, Maximino já não era mais do que um alto funcionário sem poder. O imperador não o distituía mas confiava a autoridade ao bispo. De regresso a Bizâncio, o antigo prefeito ocuparia um posto honorífico, bastante enfadonho, longe de Isis, longe daquela felicidade, tornada sua razão de viver.

- O imperador tomou outra decisão: aceita a petição do general Narsès. Este último é nomeado chefe da guarnição permanente de Elefantina e colocado sob o meu comando. Quando acabar o seu tempo de serviço, receberá terras e uma casa.

O general abraçou o bispo. Doido de alegria, julgou possuir ainda o seu braço arrancado e agitou-se como uma criança.

Ele, o veterano, o soldado não vencido, o bravo entre os bravos, renegado pelo Estado Maior! Tinham-no julgado tonto ou impotente. Acedendo ao seu pedido insensato, relegando-o para um posto miserável, nos confins do Império, os seus rivais desembaraçavam-se dele com a satisfação de o condenar a um exílio definitivo. Ninguém saberia que o seu desdém lhe oferecia o mais inestimável dos tesouros.

A água lodosa atraía Maximino; não pretendia uma certa lenda que os afogados entravam, sem julgamento, no reino de Osíris? Morrer era privar-se do olhar de Isis. Talvez ela também tivesse piedade de um homem deposto, de um prefeito que não possuía outro poder senão um título vazio da sua substância.

Elefantina, o extremo do mundo, gastava os conquistadores desfazia-lhes as armas, roía-lhe as garras. Nem ele nem Narsès escapavam à regra. Voltar a Bizâncio... a última humilhação! Os sorrisos ambíguos dos cortesãos, as palavras de conforto cheias de fel dos seus colegas, os risinhos dos antigos subordinados; essas provas, ele não as suportariam se não levasse Isis consigo.

- Conceder-me-eis um favor...?

O bispo interrompeu-o.

- É tempo de pensar na vossa partida; juntai os vossos bens e dizei-me com precisão qual o número de burros e de camelos necessários. Uma escolta vos acompanhará até Alexandria.

Narsès não ouvia. A catarata pertencia-lhe. De futuro, não tornaria a entrar na caserna; construiria uma cabana na margem, perto dos rochedos que os redemoinhos assaltavam, não voltaria a falar com ninguém, só dialogaria com o vento e a vaga, abandonaria o seu espírito à corrente. Tratá-lo-iam como demente e esqueceriam a sua existência.

- A nossa colaboração começa hoje mesmo, general.

Foram precisos vários segundos para Narsès tomar consciência de que o bispo se lhe dirigia.

- Já não sou general.

- Resta-vos um ano de serviço e obedecereis; senão, será a prisão e o exílio. Um oficial superior da vossa classe conhece o preço da insubordinação.

Narsès olhou a sua catarata.

Um ano... Um ano ainda, antes de poder gozar cada segundo, longe daquela humanidade ignóbil. Obedecer, não perguntar nada a si próprio, proceder como um boneco articulado.

- Estou às vossas ordens.

Teodoro abraçou o general.

- Realizaremos um excelente trabalho. Preparai uma centena de homens e de barcas.

- De novo a Núbia?

- Decerto que não. A operação deve ficar secreta e colocada sob a vossa única responsabilidade. Que o capitão Mersis não seja avisado.

 

Isis esfregava com areia fina a mais bela peça do templo, um vaso de bronze em forma de seio, decorada com uma figura de deusa do céu, escondida no interior de uma árvore. No fundo do precioso objecto, o Sol nascia de uma flor de lótus. A superiora contava enchê-lo de água do Nilo; descia os degraus do nilómetro quando ecoaram gritos, provenientes de Biggeh. Isis apressou-se e, da margem, assistiu ao assalto executado pelos soldados do general Narsès contra a terra sagrada de Osíris. Armados de lanças, encorajavam-se gritando, enquanto trompas saudavam a proeza.

Sabni empurrava já uma barca para a água: Isis impediu-o de subir para ela.

- Torna a pôr esta peça no tesouro do templo - exigiu ela.

- Vou bater-me.

- A Regra proíbe-te de ir a Biggeh.

- Não podes defrontar sozinha aquela matilha.

- Não tenho nada a recear.

Oprimida, a superiora remou sem retomar a respiração; viu mercenários meterem-se pelo bosque, violarem o segredo da água pura repousando no outeiro misterioso. Aí, unia-se à deusa que trazia para a existência o que o seu coração havia concebido; do seu casamento nascia a cheia. Nunca um profano ousara perturbar a serenidade daqueles lugares.

Dois soldados, zombateiros, quiseram ajudar a jovem a desembarcar.

- Olá, minha linda. Somos muito desconfiados.

- Sou a superiora de Filae. Afastem-se e deixem esta ilhota; senão amaldiçoá-los-ei.

Os infantes tinham ouvido falar da mágica; impressionados com a firmeza do tom, recuaram. A chegada do barco do bispo tornou a dar-lhes acometividade. O mais novo agarrou o pulso da superiora.

- É apenas uma mulher! Olha, agarrei-a.

Saltando a terra, Teodoro esbofeteou o atrevido com as costas da mão.

- Ela insultou-nos - queixou-se ele.

- Guardem o meu barco e não se mexam daqui.

Com o corpo apenas coberto pelo seu vestido branco de linho, Isis fez frente ao bispo.

- Lembrem aos vossos veteranos! Biggeh pertence a Osíris.

- Respeitai este mistério, suplico-vos.

Teodoro, desdenhando a superiora, tomou a direcção do bosque. O corpo expedicionário cortava as árvores e desmantelava os altares. Um gigante barbudo atirou-se à estátua de Mandulis e deitou abaixo a efígie pagã. O «bom viajante» acabou a sua corrida no meio de uma poeira ocre, ao abrigo de uma tamargueira logo abatida à machadada.

A sacerdotisa não perdeu tempo com aquele triste espectáculo; ao centro de Biggeh desenvolveu-se um drama ainda mais horrível. O general Narsès subia o outeiro que protegia o sarcófago do deus. Com a ajuda de dois soldados malandros, fez-lhe girar a tampa.

- Parai - suplicou ela.

- É inútil - declarou Teodoro. - Estão a actuar sob minhas ordens.

Isis não conseguiu conter as lágrimas. Os vândalos atiraram ao chão a tampa do sarcófago e encarniçaram-se sobre ele a golpes de martelo, a mortalha de pedra deslocada, passou a não ser mais do que blocos espalhados e martirizados.

- O caixão está vazio - verificou o bispo. - O vosso falso deus nunca existiu.

Isis estava sentada no interior do quiosque de Noctanebo I, construtor e guerreiro, que tinha marcado com o seu desejo de independência a última dinastia egípcia. Por cima dos capitéis florais, o rosto de Hator sorria.

- A minha intervenção foi irrisória - confessou ela a Sabni - Biggeh foi profanada e não é mais do que um campo de ruínas.

Os soldados tinham rido, felizes por expurgarem uma agressividade contida há demasiado tempo! Elefantina fazia eco dos barulhos da sua vitória.

Convertidos de longa data tinham aspargido a cabeça de pó, em sinal de luto por Osíris. Dessa vez, a relegião dos antigos vivia as suas últimas horas; como pretender, doravante, que qualquer poder protegesse os lugares santos?

- Nenhuma muralha porá Filae ao abrigo das tramóias do bispo.

- Sim - objectou Sabni - tu. Só a tua presença impedirá o bispo de ir mais longe.

Isis lembrava-se da atitude do prelado, a respeito de Biggeh: tinha-a defendido contra os seus soldados. Porquê dar-lhe provas de respeito, uma vez que a detestava?

- Afirmemos que o bispo se atirou a uma ilha deserta.

- Impossível, Sabni. Todos conhecem a importância do território sagrado de Osíris. Teodoro não se enganou no alvo; as duas ilhas são apenas uma: Biggeh profanada, Filae enfraquece. Que a nossa última barreira mágica se afunde e o desaparecimento do templo será inevitável.

- Eu recuso-o.

Isis apertou as mãos de Sabni entre as suas.

- Filae está intacta: eis a única realidade à qual a nossa comunidade se deve agarrar.

- Preparemo-nos para uma nova tortura. Teodoro quer-nos obrigar a fecharmos nós mesmos o templo, e a fugirmos.

O sorriso voltou aos lábios de Isis.

- A destruição de Biggeh foi, pois, inútil.

O recebedor principal Filamon não tinha pé de marinheiro.

Bastava-lhe entrar num barco para isso lhe provocar náuseas. Foi contudo constrangido a ir até ao embarcadouro de Filae, para inventariar os barcos do tamanho médio que o templo possuía.

Ao padre que o observava, intrigado, lembrou a existência de uma taxa especial sobre esse tipo de bem, e da declaração obrigatória. Sabni afirmou ignorar a existência dessa disposição administrativa; as penalidades atingiam um montante considerável, exigível dentro de oito dias. Filamon não ouviu os protestos do superior; com pressa de se ir embora, pediu ao bateleiro que activasse a marcha. Antes de atingir terra firme, vomitou.

Sabni perguntava a si mesmo porque razão o capitão Mersis não preveniu o templo; o pombal estava, sem dúvida, fechado.

Não pagar seria privarem-se de um indispensável meio de circularem. Isis propôs abandonarem a maior parte da flotilha, e de não conservarem senão um barco de carga e uma pequena barca.

A taxa seria reduzida ao mínimo.

- Visitemos as criptas - propôs ela.

Uma pedra corrediça dava acesso a divisões alongadas e muito baixas. Sabni enfiou-se nelas com dificuldade, o seu archote alumiou uma série de objectos rituais de ouro e prata, utilizados por ocasião das esplêndidas cerimónias de antigamente.

Vasos, incensórios, estatuetas dormiam na escuridão.

- Não temos o desejo de os vender. Formam o depósito da fundação do santuário; sem eles, afundar-se-ia. As comunidades de amanhã precisarão deles.

Isis fechou a primeira cripta. Na segunda jaziam os elementos de uma barca; reconstituída, permitia à comunidade vogar no além.

A terceira, quase vazia, continha apenas um adereço de superiora: colares de ouro, coifa de pérolas, anéis, pulseiras.

- Este tesouro - disse ela - vamos negociá-lo.

O colar que a superiora propunha para pagar a taxa e as multas embaraçou o recebedor principal, mais atrapalhado ainda por causa do cálculo destas, tendo em conta o estado de abandono de quase toda a frota. Em que base se fixaria o montante? Ao fim de numerosas operações, que não eram desvantajosas para a sua administração, propôs um número. Isis não o contestou. Filamon avaliou o colar ao peso do ouro, numa das raras balanças de Elefantina desprovidas de trucagem; admitiu que a comunidade estava em ordem, precisou que a utilização de uma barca, mesmo modesta, não submetida ao imposto, acarretaria uma pena de prisão e entregou um recibo em que figurava a descrição exacta das duas últimas embarcações do templo.

Isis atravessou as ruas de Elefantina ao pôr do Sol. Andava depressa, indiferente ao espectáculo da rua. Uns basbaques julgaram reconhecê-la mas ninguém a interpelou. A superiora tinha amarrado a barca no extremo sul da ilha, não longe de uma aldeia miserável onde se amontoavam famílias nubianas convertidas ao cristianismo. A inundação arrastava muitas vezes as suas cabanas de terra.

Navio perdido no seio de um oceano que os últimos clarões do dia avermelhavam, a cidade tornou a superiora nostálgica.

Aconselhando Sabni a não se meter numa aventura militar, não esquecia que os faraós nunca se tinham soltado das realidades terrestres. O templo, embora estivesse afastado como o de Filae, ocupava o coração da cidade. Se os muros altos tornavam a iniciação inacessível ao profano, era para marcar a fronteira entre a curiosidade e o desejo de conhecer. Do centro do santuário, brotava a grande alegria do coração; se o templo não se situava na origem de uma reconquista da terra amada dos deuses, quem o substituiria? Isis afastou um ramo de tamargueira. Na frente do seu barco, estava o prefeito Maximino.

 

- Não tenhais medo. Desejo falar-vos... Há tanto tempo que espero este instante! Não vos recuseis a ouvir-me, peço-vos.

Nenhum vestígio de soberba ou de desafio na atitude de um homem de rosto emagrecido; às portas da velhice, Maximino já não tinha a capacidade de dar uma ordem ou de assegurar um decreto. O seu último privilégio seria uma escolta zombateira, impotente para o defender dos bandidos da estrada. Teodoro enviava-o para uma morte solitária e vergonhosa na poeira de uma estrada campestre.

Isis sentou-se num bloco meio enterrado, vestígio de uma capela desmantelada. A noite caíra depressa no lago imenso, a prata lunar sucedia ao ouro solar. O disco alaranjado enfiava-se no horizonte, onde defrontaria os domínios das trevas antes de subir a encosta de areia que levava à ressurreição da manhã.

Quando o Sol, vencido, renunciasse a combater a serpente gigantesca, a humanidade enterrar-se-ia no grande sono.

- O que eu sinto por vós, Isis...

- Calai-vos.

O prefeito revoltou-se.

- Não, já não me quero calar! Foi por me deixar enganar pelo silêncio que me diminui aos olhos de todos. Sou um homem rico; restam-me domínios em Bizâncio...

- Que vos façam bom proveito.

- Recusais escutar-me... Teodoro arrasará Filae e deportará os membros da comunidade. Já cá não estarei para vos defender. O imperador reclama-me; tenho de partir.

- Que a viagem vos seja agradável.

Os últimos raios, misturados com a claridade lunar, faziam Isis uma mulher cor-de-rosa e branca; apagavam a frágil protecção do seu vestido leve e desenhavam as curvas de um corpo perfeito, apelo ao mais louco amor.

Uma chama queimou a boca e os dedos de Maximino.

- Se ficardes em Filae, sereis condenada. Vinde comigo; ensinar-vos-ei a amar-me, construíreis uma capela em que adorareis Isis. O imperador não saberá de nada.

- Esquecereis Sabni?

- Ele só pensa em si e serve-se de vós para acentuar o seu domínio sobre a comunidade; é um intrigante e um cobarde, incapaz de deitar abaixo o bispo.

- Esses termos não desenharão a vossa própria pessoa?

Maximino baixou a cabeça.

- Só pensei em vós e menosprezei a minha função. É mesmo assim. Os jogos da política e do poder já não me divertem. Sonho com um imenso jardim povoado de árvores em flor, onde passeareis a meu lado, com um lago de recreio onde vos banhareis, com uma morada sumptuosa onde, adornada como uma rainha, recebereis os vossos convidados. Sabni oferece-vos pobreza e desespero.

- É aquele que eu amo com todo o meu ser, com um amor que vivemos no coração do templo.

- Nem uma pedra subsistirá.

- Estou persuadida do contrário. Filae desafiará os séculos e cansará o tempo; enquanto soprar o vento do norte, tanto tempo quanto o Sol sairá do ventre de sua mãe celeste, o templo resplandecerá e a ilha, imóvel, vogará sobre a vaga.

- Enganai-vos. Não vos apercebesteis do aviso de Teodoro? Biggeh era a última etapa antes de Filae.

- O bispo julga ter morto um deus, violado uma pedra santa cujo desaparecimento nos incitará ao desespero; continuará a irritar-nos mas respeitará a nossa presença.

- Ele mudou. Sabni tornou-se o seu pior inimigo. E vós...

- Sou assim tão temível?

- Vós encarnais o amor da deusa. Só o de Cristo deve reinar no mundo.

- O amor não se decreta, nem mesmo por um dogma. Quanto mais Isis for escarnecida, mais ela se esconderá na alma dos seres. Chegado o momento, a sua glória desabrochará como uma flor de perfume embriagador, e os peregrinos voltarão a Filae.

- É um sonho.

- Conheceis mal o Egipto. Desde o seu nascimento que suscita invejas e desejos de conquista. Bastantes povos desejaram ocupar o nosso solo, furar o mistério dos nossos templos e roubar os segredos das nossas moradas de eternidade. Alguns julgaram lá chegar e enfiaram-se nos seus próprios pesadelos. Hoje reinam no mundo os exércitos cristãos; a sua religião tenta apagar a nossa tradição. Ameaçam-nos perigosos adversários, que cobiçam o nosso delta verdejante e o santo vale do Nilo.

Amanhã, sofreremos talvez a golilha das crenças beduínas ou árabes; proclamar-se-á o desaparecimento da nossa civilização, afirmar-se-á que os nossos deuses estão mortos. Estarão apenas adormecidos, prisioneiros de um longo Inverno!

- Nem vós nem eu podemos esperar uma Primavera ilusória. Agarremos a felicidade, vinde comigo!

Um íbis de asas imensas sobrevoou as águas e desapareceu no ocidente. Nele se encarnava o espírito de faraó que voltava à sua morada celeste, para lá se banquetear em companhia dos deuses seus irmãos. Isis levantou-se e encaminhou-se para a barca.

- A vossa sinceridade toca-me, mas imaginais uma mulher que não se parece comigo.

- Estais aqui, junto de mim...

- O templo é a minha pátria; longe dela, esmoreço. Voltai para Bizâncio; amanhã conhecereis outro amor e relegar-me-eis para a ordem das recordações.

- Já não existe uma parcela do meu ser que não esteja impregnada da vossa presença; não tendes o direito de me abandonar.

- Adeus, Maximino.

Ele agarrou-lhe as mãos.

- Vinde comigo.

- É impossível!

- Satisfarei todos os vossos desejos.

- Só tenho um: servir a grande deusa.

- O vosso universo enterra-se na noite. Não fiqueis num barco naufragado; em Bizâncio sereis livre.

- A verdadeira liberdade consiste em já não se escolher. A Regra do templo ofereceu-ma.

- Ninguém vos ama tanto como eu; reservei para vós o mais fabuloso dos destinos.

- O de Filae chega-me.

- Não me repudieis.

- Que esperáveis?

- Se não me amais, Isis, serei obrigado a matar-vos.

- Divagais.

- Depois, suprir-me-ei. Ao menos seremos unidos na morte.

Com uma prontidão e uma violência que a surpreenderam, tentou estrangulá-la. A superiora debateu-se mas Maximino, com o olhar alucinado, apertou mais; resmungou palavras incompreensíveis. Isis parou de lutar. O seu último pensamento voou para Sabni, no instante em que os seus olhos se velaram de sangue.

Um sopro escaldante rasgou-lhe o peito; deixou de sentir as mãos do prefeito na garganta. Ajudaram-na a levantar-se, aspirou o ar delicioso da noite, viu o seu salvador: o blemi encontrado perto de Biggeh.

- Senti que a vossa vida estava ameaçada, foi por isso que não vos perdi de vista.

- Que Isis vos conceda força e saúde.

- Quem é este miserável?

- O prefeito Maximino.

O Blemi cuspiu sobre o corpo inerte.

- Está...?

- Quem ousa pôr a mão na superiora de Filae não merece viver. É verdade que os soldados do bispo violaram o território sagrado de Osíris?

- Os meus protestos foram vãos.

- O túmulo foi profanado?

- Biggeh está em ruínas.

- A estátua do nosso deus foi destruída?

- Os vândalos não pouparam nada.

O padre negro foi tomado por um tremor, como se o seu corpo cedesse a uma febre violenta. Com os braços estendidos, o rosto voltado para as nuvens, soltou um berro, saído do mais fundo da sua raça, e depois mergulhou no Nilo.

Isis aproximou-se do cadáver de Maximino, que jazia de costas com os olhos abertos. Com o indicador, traçou uma cruz sobre a fronte, os lábios e o coração.

 

O aguadeiro, espantado, depôs o seu fardo. O que viu horrorizou-o. Que crime tinha cometido aquele homem para sofrer um tal suplício? Comovido, ao ponto de perder a voz, bateu ao postigo da baiuca mais próxima da caserna. O proprietário, descobrindo por sua vez o corpo martirizado e pendurado de cabeça para baixo, no alto das muralhas, acordou a mulher e os filhos. Quando a alva cedeu lugar ao Sol da manhã, centenas de habitantes de Elefantina empurraram-se em frente da porta principal da caserna. O espectáculo do sofrimento fascinava.

As conversas andaram depressa, cada um forneceu uma explicação: violação, assassínio, blasfémia, conspiração... Mas porquê expor assim o desgraçado? Uma mulher reconheceu-o; preveniu o marido, guarda do cemitério; transmitiu a nova ao primo, um pescador; este último avisou um dos adeptos que atirava a sua rede junto do embarcadouro.

Uma hora mais tarde, Sabni rompeu a multidão e chegou à primeira fila.

- Mersis... não, tu não!

Com o corpo dilacerado pelas chicotadas, o capitão ainda mexia...

- Mersis - gritou Sabni - estou aqui!

O supliciado, a preço de um esforço considerável, entreabiu os olhos. Da boca, correu-lhe um fio de sangue.

- Este comportamento é indigno de ti, Teodoro.

- Mersis tornou-se culpado de alta traição. Os seus pares julgaram-no e castigaram-no.

- Eu não lutaria nesse terreno.

- Prudência elementar, Sabni! Quando lhe dei a saber a sua acusação, Mersis não negou; conhecia os riscos. Se tivesse prendido um pirata como ele, ter-se-ia mostrado impiedoso.

- Há quanto tempo sabias tu que o capitão pertencia à nossa confraria?

- Que te importa? Expia o seu crime. Já não tens aliado.

- Mersis não merece um fim tão desonroso; serviu o seu país com devoção.

- O seu país, não; Filae.

- Pelo amor do teu Deus, Teodoro, solta-o e deixa-o morrer em paz. Eras tu que falavas de piedade e de compaixão; o Egipto não gosta de crueldade.

- Clemência? Seja! Dirige-te ao templo de Khnum antes do pôr do Sol.

Na presença de Narsès, o bispo dirigiu-se aos soldados reunidos no pátio da caserna; lembrou-lhes que o seu principal dever consistia em defender o cristianismo contra os seus inimigos e que os traidores seriam, como Mersis, condenados à mortee expostos aos olhares da multidão.

O corpo foi solto, colocado numa mortalha e transportado até ao santuário do deus Aries. Quando Sabni se debruçou sobre ele, Mersis teve a coragem de respirar; o mais magro dos sopros fazia bater o seu coração. A caminho para o reino das sombras, perdera o uso da palavra. Sabni segurou-lhe a cabeça ao longo de toda a agonia à qual o bispo assistiu.

- Um pagão não pode ser enterrado num cemitério cristão; utiliza esse terreno vago.

Com as suas mãos, o superior cavou uma sepultura, depôs nela o cadáver do irmão e tomou a tapar a fossa com fragmentos de blocos de granito. Mersis dormiria sob o material que tinha servido para construir o templo de Khnum.

O bispo pronunciou uma das fórmulas de extrema-unção; Sabni ficou admirado.

- Este pagão pagou cá em baixo as suas culpas. Cabe a Deus perdoar-lhe: a Sua misericórdia é infinita.

Teodoro, como ele o pretendia, não era responsável pelas torturas infligidas a Mersis. Informados da sua traição, os oficiais bizantinos tinham votado um castigo exemplar ao qual o bispo não se podia opor. Mas quem lhes tinha atirado o capitão como pasto, senão o prelado, jogando com a denúncia e o rumor? Sabni considerava-se culpado da morte do amigo: deveria tê-lo intimado a abandonar a caserna e a fugir para o norte.

- Mersis não te teria obedecido - objectou Isis - era tão obstinado como valente. Não chores sobre ti mesmo.

- Agora estamos sós.

- Somos uma comunidade.

Sabni gravou o nome egípcio de Mersis, «o filho da enxada», numa estela erguida entre os pilares. Viveria ali na companhia dos irmãos e das irmãs, agora habitantes da luz donde eles tinham vindo. Todas as manhãs o Sol alumiaria os hieróglifos, elementos imortais do seu ser. Cresto limpou os utensílios e varreu as lascas de calcário.

- Teremos de bater-nos contra o exército de Narsès?

- Não, Cresto, contra o fanatismo e a injustiça. São adversários muito mais temíveis.

- Não os temo.

- Não sejas presunçoso; serviram-se dos caracteres mais enérgicos.

- Com a tua ajuda, resistirei.

- Com a ajuda da comunidade inteira: não desdenhes dos mais fracos e dos menos inteligentes; posssuem virtudes que tu não tens. Em cada um descobre a qualidade que entra na construção do templo invisível.

- Não me inculcaste o sentido do inacessível?

- Ensinar-te-á o caminho do santuário.

- E o dos grandes mistérios?

- A sua chave é a fraternidade, não a simples afeição ligando entre eles os adeptos mais a união da confraria inteira com os poderes celestes. Não desprezes as pequenas tarefas; quando fazes correctamente o mais humilde dos trabalhos, vives na rectidão e tomas-te um receptáculo do amor divino.

- Terei falhado?

- Terei esquecido de te o assinalar?

O jovem adepto ajoelhou em frente da estela. Sabni tinha uma mão admirável; o seu estilo de gravura apresentava-se digno c** m&lh&)rf c f&c& tor&c

- Quem te ensinou a escrever?

- O pai de Isis. Estraguei centenas de lascas de calcário antes de traçar um hieróglifo bonito; depois, cavei a pedra para lhe inscrever a forma. Dez vezes julguei que o deão me daria cabo das costas: não suportava a minha falta de jeito. Quando via o seu pau às voltas, procurava entrar para debaixo da terra. Mas ele tinha boa pontaria! Apliquei-me; quando compreendi que servia a Regra do templo: ser imperecível para além de mim próprio, amor pela vida que ultrapassava e englobava a minha própria vida, as minhas mãos tomaram-se hábeis.

Cresto brandiu o maço e o cinzel.

- Se eu tentasse? Há pedras gastas atrás do quiosque de Trajano?

Sabni hesitou.

- Falta-nos um utensílio.

- Encontrá-lo-ei.

- Traz-me um pau.

O adolescente recuou, desatou a rir e correu em direcção ao monumento onde o seu mestre se juntaria a ele; pouco importavam as bastonadas uma vez que participava na obra.

O cadáver do prefeito só foi descoberto três dias depois da morte; a polícia interrogou os habitantes da aldeia nubiana mas não recolheu nenhum indício acerca das circunstâncias do drama. Graças a Deus, uma denúncia pemmitiu identificar o culpado: um Judeu antes acusado de roubo. O criminoso não resistiu muito tempo à tortura e, por causa da gravidade do seu gesto, foi empalado em praça pública. Teodoro redigiu um relatório detalhado à atenção do imperador, lamentando o desaparecimento do prefeito; mencionou a organização de exéquias oficiais e lamentou que o calor forte impedisse a transferência do cadáver para Alexandria; por isso Maximino foi enterrado num lugar de honra no cemitério da ilha.

Narsès construiu a sua cabana. Quando passou nela uma primeira noite, de olhar fixo nas estrelas, prometeu a si próprio perder o sono para saborear sem interrupção as visões oferecidas. Depois da proeza de Biggeh, o bispo já não parecia encarar as operações militares; por isso, o general abandonava a intendência a quatro oficiais, dois bizantinos e dois egípcios encarregados de substituir o capitão Mersis. A partir da sua primeira conversa, instalou-se uma franca discórdia. Recebendo ordens contraditórias, os soldados não executaram nenhuma.

O Sol de Agosto era tão opressivo que as rondas de dia foram suprimidas. Abandonado, o alto das muralhas dormitava sob a canícula. Dois metros abaixo, as águas da cheia brilhavam.

Sob o rochedo da catarata, o general murmurava uma velha canção ouvida nas ruas de Elefantina: o bom vento do norte proporcionava um sopro de vida e de frescura, tomava o fluxo fértil; o do sul abria caminho à inundação saída da caverna do oceano primordial, de forma a alimentar o país e carregar os altares de vitualhas; o de leste elevava a alma para as estrelas; o de oeste, criava a água no céu a fim de que resplandescessem os frutos da terra e que crescessem as flores.

Ao correr das horas, das estações, dos anos, Narsès deleitar-se-ia em companhia dos ventos.

O padeiro comia com avidez o pão comprido saído do forno.

Os adeptos ficariam contentes com ele; um alimento daquela qualidade bastaria para encher os ventres e libertar a energia indispensável ao pensamento. O Ka do pão, o seu poder subtil incluía-se na imensa corrente de forças que uniam a estrela à pedra. Assim, de conformidade com a Regra, a função do padeiro não era inferior à da ritualista.

Uma ritualista crispada, antigamente tão orgulhosa que não entrava na casa do forno do templo, temendo sofrer os dissabores do calor.

- Terminaste? - perguntou Ahourê.

- Mais uma micha.

- Ela pode esperar, eu não.

- Um trabalho inacabado é uma derrota da alma.

- Tens confiança em Sabni?

Ordinariamente, a ritualista não se mostrava tão directa.

Os olhos vivos do padeiro, que desmentiam a grosseria do rosto, interrogaram a irmã.

- Ele conduz-nos ao desastre - afirmou ela. - Se ele tivesse tomado conta do poder, teríamos conhecido melhores dias; os seus adiamentos condenam-nos.

O padeiro voltou para o seu forno.

- Ambição, vaidade, necessidade de conspirar... os humanos não mudam. Se os deuses decidem destruir esta raça, o universo não a chorará.

- Ajuda-me a expulsar Sabni e a tornar-me superiora - implorou Ahourê. - Eu saberei negociar a nossa sobrevivência.

O odor do pão cozido encheu as narinas do padeiro.

- Ter-me-iam sido precisos quarenta anos, minha irmã, para descobrir uma só virtude e praticá-la: a obediência a um mestre autêntico. Graças a ela, os fogos destruidores extinguiram-se e gozo enfim da paz que procurava. Isis e Sabni são maiores do que nós porque o céu predestinou-os à sua tarefa; admito essa verdade e pára de te agitar em vão. Satisfazer-se com o seu dever é a mais doce das felicidades.

 

O céu limpo, o ocre das dunas, o verde-vivo das palmeiras, os rochedos negros e a luz loira compunham, com a água calma, o paraíso da idade de ouro que nenhuma presença humana manchava. Para além do caos, os desertos do grande Sul e as solidões africanas velavam sobre a catarata com o mesmo olhar imóvel que o do general Narsès. Da alva ao crepúsculo, saboreava cada momento; cada hora era mais doce do que a anterior.

Por isso não cobriria ele a sua cabana com um tecto, de maneira a poder contemplar a noite.

Agora, já sabia. O inimigo era o movimento. Só a pedra, na sua inércia, realizava o mais alto ideal de sabedoria. Insensível à esperança e ao desespero dos seres animados, ignorava as insípidas variações do desejo. No coração da rocha jazia a verdade.

Depois do seu primeiro combate, o general duvidava que o caminho tivesse um fim e a existência uma finalidade; contudo, cada passo o levava em direcção a essa solidão de água e de granito. De campo de batalha o juncar de despojos, de assalto a proeza, de conquista a matança, nenhum risco.

Como era saboroso já não ter nada que desejar e renunciar! Nenhum mentiroso, chame-se ele prazer ou sofrimento, se aventuraria tão longe. Solto do passado, privado de futuro, Narsès tornava-se mineral.

A agressão tomou-o de surpresa. Os dois homens tinham nadado debaixo de água. Armados de facas, lançaram-se sobre Narsès que, com o braço direito, agarrou um dos negros pela garganta. Se não tivesse sido amputado, o general, mesmo de mãos nuas, teria saído vencedor do combate. Viu a lâmina saltar em direcção ao seu flanco esquerdo, que ele não podia proteger. Enterrou-se entre duas costelas e perfurou o coração.

Narsès morreu de pé, com os olhos fixos na catarata.

Os Blemis deitaram nela o cadáver da sua primeira vítima.

Os guerreiros negros tinham esperado o início da baixa das águas, geradora de redemoinhos e de correntes, para se enfiarem nos canais naturais de que conheciam os traçados na perfeição; utilizaram pangaios de papiro, com lugar para dois homens.

Um remava, o outro esvaziava a embarcação da água que a carregava, à medida do seu avanço muito rápido. Zombavam com os remoinhos, dos fluxos e refluxos, metiam-se nos amontoados rochosos contra os quais se tinham espatifado numerosos barcos.

Lançados a toda a velocidade atingiram o primeiro fortim ao meio-dia. O Sol cegava o único vigia de costas para o rio. Os Blemis furaram-no com flechas, antes que ele desse o alerta e suprimiram o primeiro destacamento adormecido debaixo de um telheiro.

A incursão prosseguiu. Os pangaios enterravam-se no rio com tal violência que pareciam sossobrar. Mas a proa ressurgia e lançava-se de novo em direcção ao seu alvo, o forte de Elefantina.

Centenas de embarcações terminaram silenciosamente a sua corrida contra os postes. Subindo aos ombros uns dos outros, os assaltantes ultrapassaram sem custo o cimo das fortificações que a cheia tornava acessíveis.

Os berros, saídos do peito dos agressores, acordaram por fim a guarnição. Os soldados lançaram-se desordenadamente sobre os seus arcos e as suas espadas, tentaram proteger-se opondo os seus escudos aos arremessos de pedras e de flechas. Tomados de um frenesi que apavorou os mais endurecidos, os guerreiros negros assanharam-se. Os muros já ardiam. Saltando do alto das muralhas para o pátio da caserna, os Blemis manejavam machados e paus cravejados de pregos com uma destreza incrível.

Cabeças e membros cortados ensaguentaram o chão. Um oficial bizantino tentou organizar a resistência e logo foi lapidado.

Os que escaparam abandonaram o forte e desdobraram-se em direcção às estrebarias, onde se bateram passo a passo até à intervenção do corpo expedicionário bizantino cujo ardor parou os Blemis. Uma carga furiosa conduzida pelos manejadores de lanças compridas obrigou os africanos a recuar. Atravessando as chamas que roíam a caserna, bateram em retirada a bordo dos pangaios.

Uma segunda vaga de assalto abateu-se contra o mercado e os bairros pobres. Os guerreiros negros massacraram os mercadores, roubaram montes de alimentos e incendiaram os edifícios públicos que nenhum soldado defendia.

A razia durou menos de uma hora, poupando apenas Filae.

Mulheres e crianças enterravam-se nas caves. Os homens válidos apagaram os incêndios e apanharam os feridos. Uma só certeza, em todos os lábios: os Blemis voltariam.

Narsès desapareceu, Teodoro tinha retomado mão. Só lhe restava uma centena de soldados, um m fraco para resistir a um segundo assalto. Do forte, senão destroços calcinados. Reconstruí-lo exigiria por isso o bispo ordenou que se espetassem estacas com pontas aceradas em direcção ao Nilo. Ordens embuscados por detrás desses abrigos, retardariam um.

A toda a pressa, os soldados ensinaram o manejo aos voluntários.

O bispo assistiria, impotente, ao fim de Elefantina, aniquilamento da sua obra? Pela primeira vez, revoltou-se contra Deus e teve vontade de consultar o oráculo proibido de Khnum, atento às súplicas dos humanos. Perdeu-se das ruínas, sentiu-se rodeado de demónios que lhe que abandonasse o serviço de Cristo e que voltasse, dos seus antepassados. Por detrás de um gigantesco granito cor-de-rosa, jaziam os fragmentos de urn&- de madeira que os padres levavam para o grande r&i se reuniam os consultores. A pergunta feita, o deus re& um «sim» ou por um «não» inclinando a cabeça. A juntar esses membros dispersos, reerguer o persor tico, interrogá-lo? O bispo detestou-se. Com pontapés dos, despedaçou as mãos de oleiro, talhadas em sicôn O único responsável naquele massacre, era ele, A sua brandura tinha engendrado um desastre.

Filae atraía os Blemis como insectos destruidores; Foi morto o prefeito Maximino e o general Narsès. O bispo encontrava-se só em frente de Isis e de Sabni; nenhum obstáculo entre eles. A guerra seria cada vez mais cruel. Sabni, no fim, do conflito, não seria poupado. Teodoro tinha-o prevenido: compreenderia ele que devia fugir daquela confraria da missa do meio-dia, o bispo dirigiu um sermão à concentrada no adro. Pediu a Deus todo-poderoso lutar contra o invasor. Dos cristãos, exigiu coragem. Elefantina não tinha falta de armas nem de comba

desejava com toda a sua alma sobreviver à desgraça, defender-se.

mensagem enviada para Alexandria, para expor a situação.

¨ ajuda, não esperava nenhuns resultados. Deslocar asenviá-las para fronteira do sul levaria tempo, muito mais valia contar só consigo. Se o segundo assalto dos ava, não voltariam tão breve.

Teodoro brandiu a espada do general Narsès. Sobre ela, nome de Cristo, salvar a província.

dezena de monges desgrenhados romperam a multidão.

deles, um personagem tão magro que os seus ossos furar a pele. Com os olhos febris e a voz alta, o bispo.

.que não me dizes a verdade? &Estás a ac-lsar-me de mentir?

- Tenho o nome do apóstolo Paulo e vivo num túmulo que L&i pelo fogo. Os eremitas reconheceram-me como seu . Nós saberemo-nos bater. Defrontámos as feras no deserto: feiros negros não nos assustam. Dêem-nos armas e mos todos os pagãos! & grito& a sua aprovação. Nas presentes circunstâncias, não podia menosprezar nenhum aliado. Aceitou. Reuni- remitas formavam uma temível coorte.

o dizeis a verdade - continuou Paulo - porque omi- gnar o verdadeiro culpado: Filae! É para te vingares da violação de Biggeh e dar satisfação aos pagãos que os Blemis nos atacaram. Esse templo tem entendimentos com o nosso pior inimigo. Os assassinos são Isis e a sua gente. É preciso destruir Filae! Os outros eremitas fizeram eco a esta exigência. Depois, uma mulher gritou. O marido e os filhos juntaram-se a ela, breve imitados por dez famílias, cem e mil. Teodoro suportou o sinistro concerto.

- Se atacamos Filae, a reacção dos Blemis será aterradora - predisse ele. - Sobre a ilha, foi construída a capela do seu deus, colocada sob a protecção da superiora. Se esta for agredida, se o santuário for danificado, reduzirão Elefantina ao fogo e ao sangue. Preocupemo-nos, em primeiro lugar, com a nossa salvaguarda. Depois, pensaremos em Filae.

Apesar da sua excitação, a multidão rendeu-se à razão. Paulo, sentindo que ela não o seguiria, meteu-se por outro terreno.

- Cessemos de conceder favores ilegais a essa comunidade de pagãos! Que morram de fome na ilha do diabo. Os Blemis nada poderão censurar-nos.

- Esqueces a lei. São proprietários terrícolas que pagam imposto. Têm direito de comprar e de vender.

O argumento utilizado por Teodoro atingiu numerosos espíritos. Quem se desobrigava das suas taxas não poderia ser tratado como pária ou como escravo.

- Filae injuriaria Deus e os seus servos.

- Tens razão - reconheceu o bispo - tomarei as medidas necessárias. O mais urgente é reforçar as defesas da cidade e prepará-la para um novo assalto. Logo que os negros forem vencidos, ocupar-nos-emos do templo pagão.

O eremita sorriu. O prelado tinha tomado um compromisso em frente da comunidade cristã reunida; chegado o momento, não se poderia subtrair. E o momento viria, uma vez que Deus combatia ao lado dos seus.

Cresto tinha limpo a oficina.

- Aqui estão as nossas armas - disse ele a Sabni, apresentando-lhe uns utensílios. - Vamos bater-nos.

- Teodoro não atacará Filae. A capela do deus africano protege-a.

- Por quanto tempo?

- Tanto quanto as forças blemis forem superiores à dos cristãos. O bispo enviou uma mensagem para Alexandria para pedir reforços.

- Quando chegarão?

- No fim da baixa das águas, na entrada do Inverno, nunca... O imperador interessar-se-ia pela sorte de uma província tão distante? Se nos desprezar, estaremos salvos. A ameaça blemi proibirá a Teodoro destruir-nos.

- E se tu tornares a pegar no teu bastão? Tenho vontade de esculpir, e as minhas costas são fortes.

Enquanto o superior e o seu jovem irmão chegavam ao sul da ilha, onde Cresto, ao preço de chagas e de suores, aprendia a talhar a pedra, Isis e as suas irmãs reconstituíam o pequeno templo de Hator onde seria celebrado o ritual consagrado ao regresso da deusa longínqua. Refrescavam as cores dos capitéis, limpavam colunas e relevos do pó, projectado pelas tempestades de areia. Serena, quase alegre, a superiora leu o texto que ela aperfeiçoava. Do seu poder dependeria o futuro da comunidade. Se a deusa ouvisse o seu apelo, voltaria das terras queimadas e traria ao templo o ouro das montanhas onde se formava a carne dos deuses. Que os adeptos se alimentassem de imortal era a principal exigência fora da qual nenhuma obra se cumpriria.

Lá fora, a guerra. De novo, os homens se entrematavam em nome dos seus credos. Na ilha santa, ninguém levantava a voz. De madrugada, a figura de faraó, gravada nas paredes, animava-se e pronunciava as palavras que tornavam efectiva a presença divina. Isis elevou as mãos num gesto de oração.

O templo vibrou.

 

No dia 10 de Setembro, as festividades do ano novo reduziam-se a uma distribuição de uvas. Ninguém tinha gostado de festejar um acontecimento que, de costume, dava lugar a muitas libações. Todos viviam na angústia. O bispo não tinha recebido resposta nenhuma da Alexandria; por isso mandou um segundo mensageiro. Em vez de seguir pelo rio, costearia o Nilo porque, à altura de Lycopolis, no médio Egipto, os piratas atacavam os bancos e quadrilhas não identificadas desbaratavam os viajantes. Um homem só passaria mais facilmente do que um destacamento de soldados de que os salteadores cobiçavam as armas.

O Nilo retirava-se, preguiçoso. Tinha deixado nas terras, o precioso limo. Os camponeses treinavam-se no manejo das armas sob a autoridade dos instrutores bizantinos. Os eremitas, saídos do deserto e dos túmulos, não cessavam de percorrer a cidade para exortar os habitantes a combater. Graças a eles, Elefantina forjava um moral de vencedor; se o medo dava um nó nos ventres, o desejo de cortar os pagãos aos bocados aumentava.

Postados nas imediações da catarata, vigias assinalavam a aparição dos Blemis. No fim de Setembro, não tinham sequer avistado um batedor. Os seus receios esbateram-se. Teodoro continuou a reforçar o sistema de defesa. Várias ordens de piedosos, muito cerrados, impediam, de futuro, o acesso às margens.

Os Blemis deveriam sacrificar centenas de homens, com uma magra esperança de sucesso.

Cansados pelas lamúrias dos eremitas, os negociantes propuseram reabrir o mercado. O bispo concedeu-lhes a satisfação do pedido. Sobre os balcões amontoaram-se peixes secos, queijos, cebolas, pombos, aves, farinha, mechas de candeeiro, louças, especiarias e outras mercadorias cujo preço tinha aumentado de maneira considerável. A inflação, que o bispo tinha travado durante o período de paz, recomeçava com mais força: trinta por cento sobre o fermento, cinquenta sobre a madeira e sobre o azeite, cem por cento sobre a carne. O estado de urgência justificava-o. Amanhã, Elefantina seria talvez arrasada. Quem queria aproveitar a vida não devia sucumbir à avareza.

As conversas interromperam-se quando Sabni apareceu na entrada do mercado onde deu uma esmola aos pobres. Depois de ter vendido a coifa de pérolas a um criador de carneiros, o superior contava comprar legumes secos, alho e figos de Verão.

À sua aproximação, os clientes afastaram-se. Quando perguntou os preços aos mercadores, estes ficaram mudos, demonstrando assim a sua recusa em conversar com um estrangeiro. Sabni insistiu. Acorreu em direcção a ele, um indivíduo descarnado, de rosto imundo, brandiu um pau nodoso.

- Vai-te, filho do diabo! Ninguém te venderá alimentos!

Sabni ignorou o fanático dirigiu-se aos comerciantes.

- Não vos suplico; reservai a caridade aos cristãos. Possuo algumas moedas.

- Quem as aceitar será maldito! - profetizou Paulo.

O superior voltou-se para o eremita.

- Um homem de Deus não levanta a voz. És menos nobre do que um animal para gritar assim. Se fosses meu discípulo, perderias depressa o gosto pelo barulho.

Sabni apoderou-se do pau com que Paulo o ameaçava e partiu-se ao meio.

- A tua religião não exclui a violência para com o teu próximo? «Não matarás», ordenou Deus a Moisés. Não respeitas os seus mandamentos?

- Não é um pagão que me instruirá sobre a verdadeira fé.

- Pouco importa quem te ensina. Apenas conta o ensinamento que tu recebes. Os teus antepassados são os meus: egípcios respeitosos do homem porque veneravam Deus. Seres como tu deveriam carregar pesados fardos enquanto seguiam junto dos burros.

O eremita recuou. Sentia a cólera do superior e temia a sua força.

- Não me toques, pagão! O povo me defenderá.

- Não me sujarei.

Mercadores e basbaques rodearam Sabni. Um vendedor de queijos apontou-o com o dedo.

- És aliado dos Blemis. Foi por tua causa que eles massacraram e incendiaram.

- Calúnias.

- O eremita viu Isis selar um pacto com um blemi. Negá-lo-ás tu?

- Nego-o.

- Se as nossas mulheres e os nossos filhos quisessem encontrar refúgio na ilha, abrir-se-iam as portas do templo?

- Os profanos não podem lá penetrar. É a Regra.

- Os Blemis possuem lá uma capela. Eles seriam acolhidos com alegria. Aí está uma prova de cumplicidade.

O círculo apertou-se mais. Uns empunharam pedras, outros facas.

- Filae garante a vossa sobrevivência, Bizâncio traz-lhes a fome. Venderá o Egipto ao que mais oferecer. Só o templo preservará a nossa unidade e independência do país.

Aquelas palavras semearam a perturbação. Muitos pensavam assim.

- Os Blemis hão-de matar-nos - estimou um carniceiro.

- Que propões tu? - interrogou um criador. - Quem possui a chave da riqueza?

Nos olhos do perguntador brilhava uma esperança que Sabni não tinha o direito de encorajar. Não devia suscitar uma revolta e tomar-lhe o comando.

- Quando a paz tiver voltado, reconheceremos o Egipto. Filae será o seu coração.

- Tu és um incitador de desavenças - acusou o eremita. - Os que te escutarem serão castigados como o traidor Mersis.

A lembrança do suplício gelou os últimos partidários do superior; este rompeu a multidão e seguiu em frente.

O pequeno templo de Hator ressuscitava, as cores vivas encantavam o olhar. As irmãs redescobriam flautas e tamborins, repetiam cadências e melodias. Cresto limpava as máscaras de madeira que os adeptos usariam na celebração do ritual, durante o qual rezariam à mestra da dança e dos cantos, o ouro do céu, a senhora da embriaguez pura que lhes revelasse o amor que liga os mundos entre si.

Entristecido por voltar com as mãos vazias e embaciar a alegria dos que preparavam a festa, Sabni esperou que a comunidade dispersasse para revelar o seu fracasso a Isis.

- Se não podermos fazer mais compras alguém as fará no nosso lugar.

- Mas quem?

- Um banqueiro.

Três bancos geriam os fundos dos habitantes de Elefantina.

O mais importante pertencia à Igreja, o segundo a um financeiro bizantino, o terceiro a um grego. Este último, como os seus colegas, recolhia as taxas destinadas ao estado, praticava operações de câmbio, emprestava a juros usurários, encarregava-se de transferências de divisas e de negócios mais privados.

Amontoando uma fortuna, antes de abrir o seu escritório, tinha respeitado a moral da sua profissão: ser rico para vir a ser banqueiro, de maneira a enriquecer ainda mais. Menos rigoroso do que o bispo e mais astucioso do que o bizantino, o grego não hesitava a servir de testa-de-ferro, quando a remuneração lhe parecia certa. Com o rosto borbulhento, a obesidade escondida sob a túnica branca, consagrava os seus tempos livres aos prazeres da carne.

Examinou os colares, os anéis, as pulseiras que Sabni lhe propunha.

- Bonitas peças. Quer um empréstimo?

- Quero vendê-las.

- Oferecer-vos-ei um preço menor do que um antiquário.

- Pouco importa.

- Como empregará o seu dinheiro?

- Vós tratareis disso.

- Tende a certeza que o farei frutificar. Ficareis encantado com os meus serviços.

- Podereis adquirir géneros no meu lugar?

- É muito delicado... essa deligência corre o risco de acarretar despesas.

- Vós as calculareis.

- Posso encarregar-me da entrega, muito discretamente, mas...

- Juntai-lhe essas despesas.

O grego inclinou-se. O templo seria um bom cliente.

Logo após a partida de Sabni, entregou a banca ao seu adjunto e dirigiu-se ao mercado. Os agricultores, cujos bens ele geria, conceder-lhe-iam importantes descontos que aumentariam de outro tanto os seus lucros. Com o espírito ocupado no cálculo das margens, esbarrou com Paulo.

- Afasta-te eremita. Cheiras mal.

- Um instante, grego. Terás tu a intenção de socorrer Filae?

- O segredo é a alma do negócio.

- Quem ajudar os pagãos será traidor e perjuro, na minha opinião. Lembra-te de Mersis. Não me desafies e respeita a vontade do Senhor.

No princípio de Outubro, o Nilo retirou-se. A colheita de azeitonas e das tâmaras começou. Como o templo não tinha recebido nenhuma entrega Sabni foi ter com o banqueiro. Elefantina, ao abrigo das suas fortificações, cada dia reforçadas, renascia das suas cinzas. Reconstruíam com tijolos as casas incendiadas, pedreiros reparavam as paredes da caserna. A ameaça blemi apagava-se.

- Avaliei mal - explicou o grego. - Os teus adereços não tinham valor.

- Recusas negociar no meu lugar?

- Claro que não... mas seriam precisos verdadeiros tesouros. Diz-se que o templo de Isis está cheio de ouro, gaba-se a beleza das estátuas. Com certeza que as criptas contêm objectos preciosos; se me trouxeres essas maravilhas, obterás alimentação.

- Terás perdido a cabeça?

- Um banqueiro deve viver na sua época.

- És escravo dos cristãos.

- Os preços variam em função das necessidades. Hoje, um pagão tem de pagar caro para sobreviver. E a minha profissão é muito mais perigosa do que se imagina.

- Devolve-me as minhas jóias.

- Quais jóias? Se mas tivesses entregado, ter-te-ia dado um recibo. Se tu duvidas da minha boa-fé, iremos para tribunal. Não te atrevas a brutalizar-me; a polícia protege-me.

Sabni pensou nas mesas de oferendas cheias de vitualhas e consagradas por faraó antes de serem apresentadas à grande deusa. Rico, feliz, o templo não tinha outra preocupação senão viver a Regra e transmitir o seu espírito.

- Osíris condena o ladrão. Talvez Cristo seja mais clemente.

 

Cresto com água até à cintura, apanha por fim uma perca do Nilo. No momento em que a brandia, vitorioso, um milhafre abateu-se sobre ele e arrancou-lhe o peixe das mãos. Com a presa no bico, indiferente aos protestos do pescador, desapareceu no céu azul.

Furioso, o adolescente bateu com o punho na superfície, fazendo brotar um ramalhete prateado.

- Um adepto enfurece-se assim?

O rapaz corou de vergonha na frente de Isis.

- Havia duas horas que não conseguia nada.

- Não é desculpa.

Envergonhado, Cresto voltou à margem. A gravidade da superiora intrigou-o.

- As distracções não se dão comigo; prefiro o estudo.

- Decifraste os textos das colunas?

- São difíceis, mas não desespero. Se Sabni me ajudasse mais, progrederia mais depressa.

- Talvez exista outro meio.

Cresto seguiu Isis que, a meio do dia, meteu por um caminho desusado. Trepou os degraus mais íngremes de uma escada que acabava no telhado do templo; ordinariamente, o adolescente ia até lá a fim de estudar o movimento dos planetas e a disposição das estrelas. A superiora arrastou-o para o canto em que se erguia uma pequena capela de portas fechadas. Cresto tinha reparado na existência do estranho santuário de que ninguém, salvo Sabni se aproximava; fazer perguntas a seu respeito parecia-lhe incongruente. Confusamente, sentiu que aqueles muros continham um dos segredos mais importantes do templo.

Isis puxou o ferrolho de bronze. O jovem adepto estremeceu, certo de que o seu destino se firmaria naquele lugar.

- Entra, olha e medita.

Habituando-se à penumbra, observou os baixo-relevos que ornavam as paredes; o conjunto ilustrava as fases da ressurreição de Osíris, saído do seu caixão e tornado vivo para sempre pelo amor de Isis à qual dava um filho, Horus, chamado a vencer o mal e a reunir as duas Terras.

A superiora fechou a porta da capela. Cresto sentou-se no meio do lajeamento e teve o cuidado de escutar a voz dos hieróglifos, as palavras de Deus; dos sinais gravados na pedra, emanou uma luz doce e tranquilizadora. Com os olhos fechados, o adepto via.

A pequena peça não parou de crescer; tomou a forma de uma barca imensa, que vogava sobre lagos de fogo em que os trigos cresciam sob o azul do céu, banhados por um Nilo imaterial. Subitamente, o viajante viu o trono do paraíso de que falavam os livros sagrados; do seu pedestal, nasciam as cartas das mães.

Utilizavam os raios do Sol e vinham imobilizar-se, aparentemente, nos muros do templo. Na fonte dos signos, o espírito de Cresto aprendeu a ler o Universo.

Quando a superiora, sorridente, o libertou, o adolescente tinha realmente mudado de vida; a sua já não lhe pertencia mas assimilava a de Osíris. No seu sangue circulava agora o conhecimento da idade de ouro.

- Isis, tu...

- Tal é o primeiro passo no caminho dos grandes mistério.

Contém todos os outros. Faz crescer essa visão no silêncio e trabalha sem cessar: o que tu sentes, transcreve-o.

Teodoro dispunha de uma arma para abater as muralhas de Filae: a presença de Cresto. Constituía um delito de uma tal gravidade que arrastaria a condenação da comunidade inteira. O templo violava a lei admitindo um novo adepto, um fugitivo culpado de escapar ao imposto. Sem mesmo evocar os motivos religiosos, o bispo podia expulsar os adeptos e pôr fim ao culto de Isis.

A ameaça blemi impedia-o de agir; às convulsões que o fecho acarretaria, acrescentar-se-ia o assalto lançado pelas tribos negras.

Mas esse receio não justificava, só por si, a espera de Teodoro, julgava Elefantina capaz de resistir.

Uma força misteriosa proíbia-lhe dar o golpe fatal que arruinaria para sempre a esperança dos pagãos, como se os últimos representantes de uma época temlinada testemunhassem da brandura divina. Os seus elos com Sabni não eram de origem humana. Desde a sua juventude, tinham sentido um gosto idêntico pelo sagrado. Separando-os ao ponto de os opôr, a Providência não ensinaria ao prelado que uma parcela de erro no coração da verdade fazia resplandescer melhor a luz de Cristo? Teodoro sentia-se cansado. Demasiados conflitos, demasiadas mortes, demasiada selvajaria... Como era bom reflectir na companhia de Sabni e consagrar-se a querelas teológicas saborosas como figos frescos! O dogma de um lado, a amizade do outro: rasgado entre dois caminhos, incapaz de unir as duas margens, levantava a atestação de um fracasso. Antigamente, ter-se-ia confiado a Sabni e ter-lhe-ia pedido a sua ajuda; hoje, decidia da sua sorte enquanto ele próprio se perdia nos pântanos da incerteza. Renunciar a Deus... A tentação aflorava-o, semelhante a uma folha de acácia, suave e irritante.

Os eremitas enganavam-se, impondo ao mundo a conversão ou o nada. A voz do Mestre espalhava o calor do amor e não a frieza do ódio. Teodoro não queria essa crença de exaltados; sentia-se mais próximo da sabedoria do templo e da beleza deslumbrante de Isis.

O bispo não desejava a chegada de um exército de socorro.

Romperia o frágil equilíbrio que se tinha estabelecido. Se Teodoro tivesse tido o poder de parar o tempo, teria parado a sua acção sobre Filae.

Paulo empurrava na sua frente uma jovem e bonita mulher; com a cabeça velada, avançava contravontade. Alguns citadinos tinham-na identificado. Por isso se admiravam do incrível espectáculo que o eremita lhes oferecia. Como aceitava ele, o propagador da fé mais austera, o contacto daquela criatura? Paulo exigia ver o bispo. A alguns passos da sua morada, juntavam-se basbaques e apontavam o casal inverosímil. O eremita fez tanto barulho que o prelado saiu do seu escritório.

- Que desejas Paulo?

- Conhecei-la?

- Ela que tire o véu.

A cativa assim fez.

- Quem é?

- Uma prostituta. Este diabo vende o corpo ao que mais lhe oferecer.

- Não é a única da sua espécie e o seu comércio é legal. Vinhas incomodar-me por tão pouco?

- Esta pecadora propõe os seus serviços a clientes ilustres e muito generosos. Gostarieis de lhes saber os nomes?

- Não cometem qualquer delito.

- Um deles viola contudo a Regra do seu templo e trai a esposa.

- Estás a insinuar...

Paulo sacudiu a prostituta.

- Confessa-te, pega! É o único meio que tens de salvar a tua alma! Confessa que Sabni partilha a tua cama e te maltrata.

A mulher contentou-se em inclinar a cabeça.

- O superior de Filae, um ser vil rolado na lama... eis a verdade. Amanhã, toda a província a conhecerá e tu, nosso bispo, condená-lo-ás.

A superiora viu o marido seguir à beira do deserto em direcção a uma aldeia abandonada; de uma choupana saiu uma mulher de beleza provocante. Chamou Sabni que, depois de ter hesitado foi ter com ela. No momento em que ela o tomou nos braços, estes tornaram-se escorpiões e picaram o infiel no pescoço.

Isis acordou bruscamente, com a fronte a arder; aquele sonho horrível tinha-a a atormentado ao ponto de interromper o seu sono. Contemplou Sabni, estendido na cama estreita, com a nuca repousando numa cabeceira munida de uma almofada.

Perturbada, a superiora foi à biblioteca onde consultou uma chave dos sonhos pacientemente enriquecida no decorrer dos séculos. A cena que a perseguia encontrava-se nela descrita com os mínimos pormenores. Não se tratava pois de um simples pesadelo mas de uma vidência; segundo o tratado, predizia um futuro funesto ao homem posto em causa. Por isso cortou uma madeixa de cabelos de Sabni adormecido, que colocou numa placa de ouro coberta de hieróglifos; desenhavam uma oração dirigida ao Salvador um génio benfazejo encarregado de modificar os destinos funestos.

Isis meteu a mão na almofada do que dormia, na esperança de que a magia das palavras ancestrais afastassem a endemoninhada.

Enquanto o eremita espalhava o veneno pelas ruas de Elefantina, Teodoro conversou com a prostituta. Ela recusou dizer-lhe o seu nome, que ele obteve sem dificuldade graças a um dos seus secretários. A consulta das suas notas fornece-lhe esclarecimentos mais úteis. A jovem chamava-se Myrta; filha de Leónidas, comerciante aramaico arruinado por causa de má colocação de dinheiros, vendia-se havia um ano para auxiliar às necessidades da família e recebia os amantes ou no seu próprio quarto ou na portagem norte de Elefantina ou num bordel que acolhia os viajantes afortunados que, no fim de uma longa estrada, sentiam a necessidade de se descontrair. De acordo com a lei, pagava os seus impostos declarando escrupulosamente o número de passes de que seu pai fazia a contabilidade.

Um superior do templo, segundo um direito não escrito, devia fidelidade à mulher. Se, além disso, ela ocupava o lugar de superiora, formavam um casal simbólico, imagem terrestre de Osíris e de Isis. O eremita desacreditando Sabni, destruía as fundações espirituais da comunidade. Provar a vilania de um chefe atirava com o opróbrio para cima dos seus fiéis e conspurcava a alma do templo.

- Sabni comprou o teu corpo?

- Sim - respondeu ela.

- Quantas vezes?

- Uma só. Mas bateu-me.

- Quando?

- Há uma semana. Ainda tenho as marcas.

Descobriu as costas semeadas de chagas roxas.

- De que arma se serviu?

- De um atacador de cabedal. Apresentei queixa. Ele não me pagou e deve-me reparação.

Se a prostituta falava verdade, ganharia a causa.

- Dia e hora exactos do vosso encontro.

Myrta precisou-os e alargou-se sobre os maus tratos que lhe tinham sido infligidos pelo superior. Feita a verificação, Sabni, nessa data, encontrava-se realmente em Elefantina.

- Apresento queixa - repetiu ela, com ar teimoso.

Que houvesse maquinação, o bispo não duvidava. Por isso tentou retardar a abertura de um processo de que o amigo sairia mortificado e sujo. O inquérito levado a efeito pelas secretárias acumulava os indícios contra ele. O dono do bordel tinha-o identificado e dois eremitas, que mendigavam na portagem norte, juravam ter visto um homem atirar ao Nilo um atacador ensanguentado. Nenhuma testemunha de defesa se manifestou.

Eremitas e prostitutas uniram forças para reclamar justiça.

As últimas ameaçaram fazer greve se o bispo não acedesse à sua justa reclamação. Teodoro perguntava a si próprio: Sabni não teria cedido aos seus desejos e, enojado com a conduta dela, não se teria vingado batendo na rapariga susceptível de revelar a sua natureza demasiado falível? A reflexão, o processo seria uma excelente manobra: Sabni passaria algum tempo na prisão, ao abrigo de uma tragédia e fora do alcance dos fanáticos.

Obrigada a pagar uma pesada multa de que o prelado fixaria o montante, a comunidade venderia os seus últimos bens antes de se dispersar. Isis, atingida por um desgosto de que não se recomporia, já não teria força para fazer frente à adversidade.

Se houvesse perturbações, Sabni seria posto de lado.

Sabni apresentou-se só no tribunal presidido pelo bispo.

Ouviu com calma o depoimento da queixosa, prolixo em pormenores que escandalizaram a assistência. Sem ser convidada a isso, Myrta desnudou as costas e forneceu a prova do que dizia.

Quando o superior quis tomar a palavra, os apupos impediram-no de se expressar. A polícia teve de evacuar algumas prostitutas tomadas de histeria.

- Como se chamam os pais desta mulher?

- A mãe morreu. O pai chama-se Leónidas.

- Um aramaico que negoceia em azeite?

- Conhece-lo?

- Era no meu lugar que ele devia estar. Não agrediu ele uma irmã que se recusou a ceder aos seus avanços?

Levantaram-se murmúrios.

- Apresentou queixa?

- Foi declarada irrecebível.

Apenas exposto, o sistema de defesa desabava.

- O meu coração - disse o superior - incita-me a cumprir o meu dever; ele é a minha testemunha. Não transgrido as suas directrizes, receio faltar aos seus mandamentos. Se eu fui elevado às minhas funções, foi graças às suas orientações acerca dos meus actos. Ouvindo os seus ensinamentos vivi na rectidão. Nos nossos dias, a mentira abre frequentemente caminho, contudo, perde-se e não atravessa de barco. Quem enriquece servindo-se dele será estéril; quem navega na sua companhia não chegará a um porto de amarração.

- São bons preceitos - admitiu Teodoro - mas estamos no tribunal e julgamos os factos. Reconnhece-los?

- Essa rapariga reconhece-me?

- És mesmo tu! Violaste-me e feriste as minhas costas.

- Nesse caso descreve-me a minha nudez.

Embaraçada, Myrta olhou para o bispo.

- Obedece - ordenou ele.

- É... é um homem.

Estalaram risos.

- Sê mais precisa. Se eu sou o teu torcionário, deves ter notado uma particularidade que nenhuma mulher saberia esquecer.

A prostituta ficou louca. Daquele ponto, o eremita não lhe tinha fornecido qualquer indicação.

Myrta rebolou uns olhos assustados e recuou até à parede do tribunal.

- És... és circuncizado!

- É verdade - admitiu Sabni. - A nossa Regra exige-o; aqui todos o sabem.

A prostituta tentou fugir; os guardas agarraram-na.

- Essa mulher mentiu; vemo-nos nesta sala pela primeira vez. Se tivéssemos feito amor saberia que um sinal me destingue dos outros homens. Foi-me gravado na carne na minha entronização.

Sabni desatou a tanga na frente do bispo. Por cima da coxa, na concavidade da virilha, era visível uma cruz de vida.

 

Acumulavam-se nos mercados tâmaras, azeitonas e cachos de uvas. O Nilo afastava-se. Esquecidos os passeios de barco; desaparecidos os longos dias de repouso e de conversa. Os camponeses ocupavam de novo as suas terras fecundadas pelo limo que o rio divino tinha deixado em abundância.

Isis estava inquieta; o templo breve teria falta de mercadorias frescas. Se bem que Sabni tivesse sido considerado inocente, a sua reputação não tinha saído limpa do processo. O rumor público pretendia que o superior se entregava aos prazeres da carne e traía a sua vocação sagrada. Filae já não respeitava a Regra; não tinham vários adeptos deixado a comunidade por causa dessa decadência? Murmurava-se que, apesar da sua idade avançada, algumas irmãs se entregavam ao deboche. A relegião de Isis concedia muitas liberdades à mulher; segundo as recomendações de Agostinho, não devia ela usar o véu em vez de provocar os homens exibindo os seus encantos? A fim de acabar com as tentações que algumas criaturas do diabo infligiam aos mais virtuosos, era preciso restringir as suas aparições em público.

O discurso dos eremitas, cem vezes repetido, tocou o povo.

A imagem de uma Isis bela e luminosa cansou-se como um baixo-relevo gasto pelo tempo. Os que, às escondidas, levavam frutos e legumes, desviaram-se do templo; temiam Paulo, o bispo, a prisão e o castigo de Deus.

Apesar dos esforços de Cresto, a comunidade adormecia.

Ao sair de um Verão ardente, a maioria dos adeptos sentia-se esgotada; a velhice tolerava mal o ardor do Sol de Elefantina e, sobretudo, a angústia do amanhã. Não que os doentes e os inválidos se preocupassem com eles mesmos, mas inquietavam-se com o futuro de Filae. Ali onde eles veneravam os deuses e recolhiam o saber, chegariam os seus sucessores a viver? O adolescente atingia, por vezes, também ele, o limite das suas forças embora ele ignorasse o desânimo, dado que Isis e Sabni lhe ofereciam uma energia constantemente renovada.

A fome irresistível de Cresto não se atenuava; aprendia novos hieróglifos, estudava um papiro esquecido nos arquivos, falava com o superior sobre a natureza do deus Tot, escriba da luz e detentor do poder inscrito em cada palavra da língua sagrada.

De manhã, quando assistiam à purificação das oferendas, o jovem adepto agradecia aos deuses ter-lhe concedido uma felicidade tão intensa. Pronunciava com Isis os versículos do hino ao Sol renascente, fazia com Sabni os gestos de consagração que abriam a boca e os olhos do templo.

- Tu assistirás a superiora - ordenou Sabni - levarás o ceptro e seguirás atrás dela quando se dirigir para o naos.

- Eu, tomar o teu lugar?

- É dizer demais - rectificou o superior divertido. - Substituir-me algum tempo, mais nada.

- Uma viagem.7

- Ao Norte. Quando o ventre tem fome, o espírito atrapalha-se.

- Não é perigoso?

- Não há pior perigo que a renuncia.

- Gostaria...

- Tu ficas aqui, Cresto. Depois de mim, és o homem mais robusto da comunidade.

No degrau mais alto do embarcadouro, à sombra do obelisco, Isis e Sabni abraçaram-se. Um e outro temiam aquela expedição para terras incertas de onde o superior talvez não voltasse.

Na portagem norte, o viajante evitou dar a sua identidade, pagou o que devia e recebeu um pedaço de papiro de má qualidade que exibiria junto dos chefes de patrulhas, que andavam pelas estradas à procura de gatunos e de camponeses em fuga. Apesar dos seus receios, Sabni não foi submetido a qualquer interrogatório. Logo que atravesou a primeira aldeia, alugou um camelo; se conseguisse chegar aos arredores de Tebas, rodeada de ricas explorações agrícolas, poderia adquirir mantimentos em grande quantidade. Longe de Elefantina ninguém o identificaria.

O superior saiu da província com uma surpreendente facilidade. Nenhum escriba do bispo o seguiu; em cada portagem, regularizou e passou sem outra qualquer forma de processo.

Por uma quantia módica, alugou um barco de carga; o bateleiro aconselhou-lhe que desembarcasse numa pequena aldeia, ao sul de Tebas, cujo conservador ele conhecia bem. Este foi acolhedor e eficaz. Em menos de um dia, sacos de trigo, de frutos e de legumes foram instalados no dorso de uns vinte burros alugados a um preço razoável. A pacata caravana, umas vezes pelos caminhos de terra, outros, graças aos navios de transporte que asseguravam ligações curtas entre os grandes burgos, fez em quatro horas a distância entre a província de Amon e Elefantina.

Uns alfandegários mesquinhos inspeccionaram o conteúdo dos sacos. Sabni receou que eles apanhassem uma parte do carregamento, mas eles contentaram-se com inventariar as mercadorias. O superior entregou ao chefe da alfândega o salvo-conduto destinado aos arquivos da administração.

Perto da cabeça do cortejo, um homenzinho quase calvo examinava um burro. Sabni reconheceu o recebedor principal.

- Este animal é estranho à província. Mostre-me o seu certificado de aluguer.

- Não tenho.

- O nome do proprietário?

- Um conservador de Tebas.

- É extremamente grave - observou Filamon. - Segundo o regulamento da associação dos burriqueiros, não tendes o direito, na qualidade de residente em Elefantina, de alugar animais a concorrentes. Sereis constrangido a pagar uma multa, de lhes depositar um ano de quotas e de regularizar as despesas do seu banquete de Outono.

- Posso passar?

- Não. Os burros da província, nesta estação, só transportam utensílios, enchidos e vasilhas. A regulamentação em vigor reserva transportes de alimentos aos cameleiros. Estais, pois, numa situação ilegal e eu sou obrigado a reter estas mercadorias fraudulentas.

- Gostaria de as recuperar sem demora.

- A administração decidirá.

- Quem, exactamente?

- Este negócio parece-me complexo. Ultrapassa o quadro das minhas atribuições e diz respeito, sem qualquer dúvida, a vários serviços; ser-me-á preciso consultar especialistas e examinar as minutas do tribunal. Que sereis condenado, é certo; de que jurisdição dependereis, eis a questão.

Sabni voltou-se. Os esbirros de Teodoro tinham-se contentado em esperar pelo seu regresso e instalar a mais legal das armadilhas; crendo ainda no impossível, o superior foi visitar quatro dos membros principais da associação de burriqueiros.

O primeiro recusou-se a recebê-lo, o segundo e o terceiro não dispunham de nenhum animal em ordem, o quarto propôs-lhe dois animais doentes, incapazes de suportar cargas pesadas.

Sabni renunciou. A associação obedecia ao bispo. Com o coração lasso, o corpo exposto a um cansaço próximo do desespero, dirigiu-se para Filae. O lugar onde tinham costume de embarcar já não estava deserto.

Na margem, no interior de uma cabana construída à pressa, estava um funcionário encarregado de receber um direito de portagem exorbitante, relativo ao trajecto entre a terra e a ilha santa. O recebedor deu um recibo em troca do pagamento.

Obedecia escrupulosamente às indica&ões dadas pelo bispo.

No exterior do templo, tapeçarias de linho, esteiras de palha e fibras de palmeira estavam expostas ao Sol purificador; túnicas, casacos e aventais beneficiariam os mesmos cuidados. Cresto reparava os odres onde a água conservaria a sua frescura; os outros adeptos limpavam as vestes quotidianas e rituais, cantando melopeias muito doces cujo texto gabava o encanto da brisa e a doçura dos dias.

Quando Sabni apareceu, um só olhar bastou a Isis para compreender que ele tinha falhado. O silêncio do superior instrui os adeptos; interromperam o seu labor.

Ahourê avançou. O padeiro interpôs-se.

- Peçamos-lhe contas - propôs ela.

- As suas primeiras palavras são reservadas à superiora. Terás esquecido a obediência?

A ritualista bateu em retirada enquanto Isis e Sabni se sentavam à sombra de uma tamargueira.

- Segui-te em pensamento. Não corrias perigos mas o destino não te sorria.

- Teodoro isola-nos. Só nos restam as duas barcas; com a mais pesada, e com bom vento, tornarei a subir o Nilo logo que o vento seja favorável. Ser-me-á fácil atingir uma aldeia e obter trigo.

- Os marinheiros do bispo impedir-te-ão.

- É preciso tentar.

- Manobrarás só?

- Conseguirei.

- A comunidade aguenta-se.

- Graças a ti, Isis.

- A tua coragem e a tua vontade tranquilizam-na. Enquanto lutares, não perderá confiança.

- A traição?

- Caminha.

- Quando nos atingirá de novo?

- Olha para ela. Dirige-se a nós.

Escapando a Cresto e ao padeiro, Ahourê interpelou o casal.

- Exigimos explicações. O superior encontrou comida?

- Não - confessou Sabni - e a minha missão anuncia-se difícil.

- Estamos condenados a morrer de fome?

- Ainda não.

A ritualista riu de escárnio.

- Por outras palavras, estamos cortados do mundo. O bispo deixa sair o superior a fim de lhe provar que o manipula à sua vontade mudar de atitude.

Irmãos e irmãs aproximaram-se; Ahourê não tinha falta de soberba nem de convicção.

- Que preconizas? - perguntou Isis.

- Negociemos com Teodoro. Abandonemos-lhe a ilha na condição de que nos permita deixar a província.

- Cada um para seu lado?

- É evidente.

- Pregas a dissolução da comunidade.

- Reconstituir-se-á noutro lugar, numa grande cidade onde passaremos despercebidos.

- Se nos separarmos - observou Sabni - desapareceremos. Filae não nos pertence; este domínio de Isis, preservá-lo-emos, qualquer que seja o preço.

- Recuso essa bravata. Eu, Ahourê, ritualista do templo, acuso o superior e a sua esposa de trair a Regra. Em consequência, que a cabeça da comunidade seja substituída e uma outra orientação adoptada.

Nem Isis nem Sabni se insurgiram. A todo o momento, um adepto poderia formular semelhante censura.

- Quem será o nosso novo chefe? - interrogou a superiora.

- Essa responsabilidade recai sobre mim - disse Ahourê. Nenhuma ambição me empurra; apenas me guia o desejo de servir a vontade da comunidade.

- Algum de nós poria em dúvida?

- Eu - declarou Cresto. - Ahourê quer-nos apodrecer por dentro. É a sua própria regra que ela impõe, não a do templo.

A ritualista assassinou o adolescente com o olhar.

- A minha intervenção pode parecer chocante - admitiu ela - mas penso na sobrevivência das minhas irmãs e dos meus irmãos. Teimar no caminho escolhido até agora é um desafio inútil. Ser expulso de uma maneira vergonhosa, apanhar pancada, ver morrer os mais fracos... será que vós o desejais realmente? Teodoro multiplica os avisos e nós fazemos orelhas moucas porque cremos ser os mais fortes. Vaidade! Admitamos a fatalidade, submetamo-nos à lei do bispo e salvemos o que possa ser.

- São palavras sensatas - julgou Sabni - mas a nossa pretensão situa-se acima do razoável. Por amor de Filae, conservaremos o templo. Se um ou outro está em desacordo, que se vá embora. Se a comunidade aprova a ritualista, que a eleja. Isis e eu não partiremos nunca e continuaremos a servir.

Ahourê olhou à sua volta. Nenhuma voz se levantou em seu favor.

- Vai-te embora - reclama Cresto. - A tua alma está tão conspurcada como a roupa dos eremitas.

Sabni intimou o jovem que se calasse.

- Tu que és nossa irmã - lembrou Isis - ainda amas a nossa Regra?

- Ela renega-me. Ficar junto de vós é-me impossível; como vós me chorareis!

O padeiro levou-a até à margem do mundo profano. Durante a curta viagem ela não deixou de olhar o templo. A antiga ritualista hesitou em pôr os pés em terra, molhou o vestido e correu para a cabana do alfandegário.

Em infracção por causa da veste ritual e da ausência de salvo-conduto, Ahourê foi imediatamente interpelada e presa.

Dois dias mais tarde, uma brisa do sul permitiu ao superior pôr o seu projecto em execução. Com a grande vela branca desenrolada, contornou Elefantina e deslizou numa corrente favorável. Na fronteira da província, dois barcos carregados de soldados barraram-lhe o caminho. Sabni não pôde exibir o documento exigido, uma ordem de viagem que só a repartição do bispo podia passar. Como não foi capaz de pagar a multa, a saber o preço do barco multiplicado por três, abandonou-o aos funcionários e voltou para Filae num charuto de papiro.

A única hipótese de sobrevivência residia no regresso da deusa distante. A celebração do ritual exigiria palavras certas e não toleraria qualquer aproximação; por isso a superiora não o sacrificaria à urgência. A comunidade apta a suportar o fardo do infortúnio, não a importunaria; cada adepto tomava consciência do indispensável rigor presidindo ao diálogo entre o humano e o divino. Isis, na luta contra a adversidade, preparava a arma mais eficaz mas também a mais difícil de trabalhar. Só a interrompiam lufadas de sofrimento quando pensava em Ahourê, já tão longe de Filae, sob o peso das correntes e do exílio.

 

Naquele domingo, evocação da ressurreição, o bispo celebrou uma missa cantada na basílica de Elefantina cuja cúpula dourada a ouro fino, brilhava sob a luz do Verão que acabava.

Numerosos fiéis não entraram no lugar santo em que Teodoro, vestido com uma casula vermelha, brandiu um pau com a extremidade em forma de espiral e apelou à protecção do Senhor para a província. Os excluídos empurraram-se no adro ou subiram ao telhado das casas à volta.

Uma barreira de madeira separava o santuário do resto da Igreja; no seu centro, uma porta que um véu disfarçava. Teodoro afastou-o e ajoelhou em frente do altar, uma mesa de pedra que provinha do templo de Khnum. Um diácono pôs-lhe pão cozido no forno situado perto da casa de Deus e vinho saído do lagar.

«Creio e confesso até ao meu último sopro», declarou o bispo, que isto é a carne de Jesus. Creio que a divindade não foi separada um só instante da sua humanidade.» Depois, traçou um sinal da cruz sobre o pão, beijou-o, deu três vezes a volta ao altar e incensou-o. O odor teimoso agrediu as narinas dos fiéis sentados sobre esteiras e tapetes. Com a cabeça coberta, descalços, os notáveis de Elefantina escutaram a voz poderosa do prelado transmitir a Epístola e o Evangelho. No termo do ensinamento, clérigos cantaram um salmo glorificando o amor do próximo.

Conservar ódio no coração impedia de comungar com Deus e com outrem.

O bispo purificou as mãos e rezou pelos cristãos espalhados pela superfície do Globo, os seus inimigos e os descrentes. Partiu o pão, tirou-lhe uma parcela e proclamou: «As coisas santas aos santos.» Pelos seus gestos, revelou a presença invisível mas real do Mestre celeste, cujos fiéis dividiam a refeição, anúncio do banquete do último dia para o qual os justos serão convidados. Invocando o Espírito Santo, o celebrante bebeu vinho, consagrou-o e desejou-lhe: «A paz seja contigo.» Depois de ter posto uma parcela de pão no cálice, Teodoro lembrou as palavras do apóstolo Paulo: «Cada vez que comerdes deste pão e que beberdes deste vinho, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha. Aquele que comer o pão ou beber a taça do Senhor indignamente, será culpado do Corpo e do Sangue do Senhor. Aquele que come e bebe sem discernimento, come e bebe o seu próprio julgamento.» Quando saiu do santuário, o bispo deu a comunhão aos diáconos. Esperavam-no os subdiáconos, os leitores, os salmonistas, os notáveis, as viúvas, as virgens e as mulheres de bons costumes. Teodoro teve de interromper a celebração; do fundo da igreja subiram gritos de pânico. As filas de crentes abriram-se, dando passagem a um personagem aterrorizador, com corpo de homem e rosto de chacal.

- O diabo! - exclamou uma velha patrícia que fugiu berrando.

- É Anúbis! - gritou a vizinha dela. - Anúbis voltou.

A maior parte da assistência deitou-se ao chão. Outros fecharam os olhos, outros ainda fugiram. Os diáconos, impressionados, tentaram em vão retê-los. A missa caiu na maior desordem.

Anúbis olhou o bispo durante alguns segundos, depois arripiou caminho sem que ninguém ousasse levantar-se contra ele. Teodoro impôs silêncio. Os diáconos deram vergastadas nos mais excitados e expulsaram-nos do lugar sagrado onde se refugiava uma multidão assustada.

- Não era Anúbis - afirmou ele.

- Nós vimo-lo - protestaram dez testemunhas.

- Vós nunca haveis visto senão um homem mascarado; o superior brincou com a vossa credulidade. O seu templo não é um antro de demónios invisíveis mas um refúgio de almas perdidas. Amanhã, Cristo convertê-las-á.

Alguns contraditores injuriaram o bispo e puseram em dúvida as suas afirmações; o prelado evocou as procissões em que padres representavam o papel de divindades a fim de deslumbrar uma população ávida de maravilhoso. Alguns, envergonhados, lamentaram a sua atitude ridícula. Muitos continuaram persuadidos de que Anúbis tinha de novo encarnado, a fim de provar a permanência da antiga fé. O homem com cara de chacal não tinha interrompido a missa sem ter sido atingido pelo fogo do céu? Amargo, Teodoro isolou-se no santuário e ajoelhou diante de Cristo.

A irmã encarregada de tratar da capoeira empanturrou o último ganso que lá andava. Galinhas e galo erravam ainda em liberdade; breve seria preciso caçá-los como se fossem peças de caça. A superiora tinha ordenado que se servisse carne aos doentes, preservando as aves para a festa da deusa distante.

No armazém principal onde estavam conservados os alimentos, Cresto filtrava azeite. Economizá-lo tomava-se indispensável, numa terra onde os olivais se mostravam contudo tão generosos, mas o azeite já não pertencia ao Egipto do imperador. A ilha proibida, cortada do mundo, sobrevivia pelo respeito das suas próprias leis, fossem elas contrárias às do cristianismo. O jovem adepto tirava da adversidade um vigor que nenhuma desgraça saberia lesar. Os deuses impunham essas provas a Filae, a fim dos adeptos revelarem as suas energias mais vitais. Julgando abater o templo, o bispo reforçava-o.

Sabni arrumou a máscara de Anúbis no tesouro.

- Como reagiram eles? - perguntou Isis.

- Como eu esperava: tiveram medo. O receio insinuou-se nos seus espíritos e a sua bela unanimidade desmanchou-se.

- Temerão eles Filae, o bastante para a respeitar?

- Anúbis ressuscitou; abre as portas do além e conduz a alma ao paraíso.

- Já ninguém o respeita, fora daquele recinto.

- É o único combate que podemos ter: testemunhar a nossa fé.

- Ter um combate... não é a nossa vocação. Pressentir a luz divina e oferecer-lhe uma morada, eis o nosso papel. O poder do rito é sem igual; inscreve-se nele o próprio processo da criação.

Quando nós o celebramos, a harmonia realiza-se como na primeira manhã. A deusa distante voltará.

O Outono aproximava-se. Ao poente, já os muros do templo se tingiam de ouro argental. Quem teria suposto que o navio de pedra da deusa Isis vogava num mar desenfreado? Na oração, Teodoro experimentava a virtude do reconforto.

Elevando o seu pensamento para o Senhor, julgava desprezível a sua função de administrador e de chefe do Exército; a sua vocação não o destinava àquelas missões irrisórias. Porquê ocupar-se dos assuntos terrestres quando Deus exigia cada instante? O prelado teve vontade de abandonar tudo, de confiar a província à Providência. Cobardia... a palavra queimava-lhe os lábios. Seria tão fácil abandonar as suas ovelhas, abrir a porta ao fanatismo e dialogar com o céu sem se preocupar com a miséria e a infelicidade de outrém. Ele, o egípcio, ligava o antigo ao novo mundo porque compreendia o passado e construía o futuro.

Não se iludiria crendo modificar o destino? Salvar Sabni... esse êxito desejava-o ele com o ardor da mais pura amizade. Falhar seria o mais severo dos castigos; infligindo-lho Deus dilacerava a sua alma.

Surpreendeu-se a sonhar com a noite abençoada em que seria um velho impotente e solitário, silencioso sob as sombras do seu jardim, incapaz de pesar sobre a existência de outrém. Sonho oco, naquelas horas em que se jogava a sorte de Elefantina e a do cristianismo. De uma parte e de outra do destino, o templo e a igreja, o superior e o bispo, Sabni e Teodoro.

O poder... ele não o tinha procurado. Essa febre tinha-se apoderado dele insidiosamente; misturada ao seu pensamento e aos seus actos, a sua função guiava-o e privava-o de liberdade.

Não se parecia ele com o amigo, também ele constrangido a obedecer à vontade do alto?

 

Paulo e os eremitas foram surpreendidos com a solicitude do bispo: cada um recebeu uma túnica de linho, figos e peixe seco. Porquê, depois de os ter, durante tanto tempo, ignorado, mesmo desdenhado, os gratificava agora assim? Desconfiado, Paulo estava persuadido de que Teodoro tentava comprar o seu silêncio. Um eremita que não passava frio e comia o que tinha na vontade, já não lutava por Cristo; perdia o seu entusiamo, mergulhava numa tolerância culpada.

O bispo teria alguma falta a esconder? Paulo andou pelas ruas, interrogou, procurou. Não recolheu nenhum elemento sério.

Como o receava, a existência de Teodoro não se obscurecia com algum pecado maior. Deveria, decerto, havia muito tempo, ter decretado a expulsão dos pagãos e a destruição do templo; mas as suas últimas decisões traduziam um endurecimento muito nítido da sua posição de acordo com o seu compromisso espiritual. Acusar o bispo de moleza não arrastaria nenhumas adesões.

Paulo desencadeava uma outra estratégia. O trabalho e a oração enchiam os dias do prelado, que raramente saía do seu domínio. Assim, o eremita procurou as faltas a essa regra de conduta, sem ter em conta as deslocações oficiais. A sua paciência foi recompensada: soube que Teodoro tinha visitado um mercador de figos chamado Apollo. Dois dias mais tarde, o comerciante, cujos negócios prosperavam, tinha contudo deixado a cidade como um gatuno, para surpresa dos seus empregados e dos seus colegas. O eremita não obteve qualquer explicação para aquela partida, mas ficou a saber que um dos filhos de Apollo, Cresto, tinha desaparecido. O pai tinha-se dirigido à caserna para apresentar queixa; Paulo fez falar um soldado partidário da intransigência dos combatentes de Deus. Confirmou o encontro entre Apollo e o capitão Mersis. Mersis o pagão, o traidor, o cúmplice dos adoradores de Isis. Paulo ficou cheio de uma alegria selvagem: conhecia o ponto fraco do bispo.

Metade da igreja estava vazia. A aparição de Anúbis continuava a semear a perturbação nos espíritos, ao ponto de afastar os mais tíbios da verdadeira fé. Não se murmurava que o deus egípcio enfeitiçava as paredes do santuário cristão de forma que transmitisse uma doença mortal? Apesar dos sermões enérgicos, Teodoro não conseguia reconquistar o terreno perdido.

Ao fim de uma celebração em que os cantos tinham falta de entusiasmo, o bispo esbarrou com Paulo. O eremita exigiu uma entrevista imediata; pelo seu olhar inflamado, o prelado compreendeu que o fanático detinha uma arma contra ele.

Teodoro propôs a Paulo um passeio nos jardins da igreja.

Plantados de sicômoros, ofereciam uma sombra suave aos diáconos que liam os textos sagrados antes do ofício.

- Que esperas de mim, meu irmão?

- O respeito sem fraqueza da lei de Deus.

- Essa missão preocupa-me a cada instante. Terei falhado?

- Receio-o.

- De que maneira?

Paulo apertou mais o seu pau nodoso.

- Cobrindo um caso criminal.

- Os teus indícios?

- Mersis não era um oficial traidor?

- Foi castigado.

- Não recebeu um chamado Apollo, que haveis constrangido ao exílio?

- Esse mercador de figos preferia fazer fortuna noutro lugar.

- Não o haveis obrigado a deixar a província por causa do seu filho Cresto?

O bispo não respondeu.

- Todos apreciam o vosso sentido da honra e do dever; como servo de Deus, recusais a mentira. Estou persuadido que esse Cresto, filho de Apollo, se refugiou na ilha dos pagãos. Violação grave da lei sagrada: é proibido ao templo acolher um novo adepto sob pena de ser aniquilado.

- As tuas provas?

- Obtê-las-ei. Porque não intervieste?

- Não tenho de que me justificar, meu irmão. A razão do Estado ultrapassa-nos, a ti e a mim.

- Gostais dos pagãos.

- Desejo convertê-los.

- Quando a doçura falha, é a força que deve intervir. Se recusais utilizá-la, revelarei o vosso pecado aos fiéis; a sua justa cólera desencadear-se-á contra Filae.

Teodoro imaginava Paulo à frente da província. Em menos de um ano estaria arruinada. Os cristãos entredespedaçar-se-iam.

Nuvens escuras cobririam Elefantina.

- Providenciei quanto às necessidades dos eremitas.

- Isso não basta. É preciso que uma cabeça role. Além disso, Teodoro, associar-me-eis ao vosso poder. Nós dois venceremos os demónios.

- Ponho as minhas condições, eu também.

- Ainda tendes capacidade?

- Sem mim, não passarás de um fantoche.

Paulo, com uma violenta paulada, bateu no tronco de um sicômoro. Infelizmente, o bispo tinha razão! O eremita não beneficiaria, como prelado, da confiança do povo; dirigir uma facção, fosse ela conquistadora, não bastaria para assentar a sua preponderância. Ainda durante algum tempo, transigiria.

- Quais são as vossas condições, monsenhor?

- O respeito pela vida humana.

- Os pagãos serão homens? Os vossos soldados mataram um certo número e não haveis excumungado os responsáveis.

- Lamentáveis incidentes, Paulo; rezamos pelos nossos inimigos e pedimos a Deus a sua conversão, não o seu extermínio.

- Deus perdoa ao pecador arrependido e condena a heresia.

- Uma cabeça rolará, afirmavas tu.

- A justiça deve reinar sobre a nossa província; absolver o criminoso seria injuriar o Altíssimo. Vós, seu representante, não admitireis essa infâmia.

- Grava no teu espírito a mais importante das minhas condições: que essa cabeça não seja a de Sabni.

Foram numerosos os habitantes de Elefantina que assistiram à demolição de um velho edifício situado perto do escritório do recebedor principal. Os pedreiros expulsaram o mendigo, seu único locatário, e deitaram abaixo as paredes. Um contramestre, alcunhado de o Encolhido, acompanhou a manobra de ordens secas e precisas.

Subitamente, deu um grito.

Os operários pousaram os maços. O contramestre acabara de descobrir um cofre de prata e alertou imediatamente o recebedor principal. Filamon acorreu e procedeu à abertura do cofre, cheio de moedas de ouro e de barras de prata.

- Reconheço este tesouro - declarou ele. - Foi roubado ao bispo há um ano; tenho de proceder a um inventário.

Geralmente, o funcionário trabalhava ao abrigo dos olhares. Desta vez, operou diante de numerosas testemunhas. Roubar os bens da Igreja, merecia ser castigado com severidade; Teodoro exigiria um inquérito aprofundado.

- O culpado assinou o seu crime - constatou Filamon.

- Olhai! Mostrou uma pulseira de marfim com o nome de Cresto gravado.

A polícia do bispo procurou em vão o rapaz para o interrogar. Vizinhos e amigos identificaram a pulseira de marfim que Cresto tinha abandonado antes de deixar a morada familiar; era o seu adereço preferido, símbolo do seu passado, indigno do templo: o nome do seu proprietário não suscitava pois qualquer dúvida. As línguas soltaram-se; desde tenra idade, Cresto tinha a mão demasiado leve. A avareza do pai constrangia-o a cometer pequenos roubos. Um alfandegário forneceu uma preciosa informação: tinha prendido o garoto que levava para casa um pente de marfim que roubara a contrabandistas. Em virtude da idade do ladrão, tinha-se contentado em ficar com o objecto.

o diácono, encarregado da instrução acumulou provas gravosas contra o perigoso personagem. No fim do processo, organizado na ausência do fugitivo, foi pronunciada a sentença: condenação a trabalhos forçados no deserto da Líbia. Restava apenas encontrar o rasto de Cresto, levá-lo para a prisão e deportá-lo.

Teodoro pediu alguns dias de reflexão a Paulo antes de ordenar ao Encolhido que difundisse um rumor segundo o qual o gatuno teria sido visto na ilha de Filae. Reflexão inútil, uma vez que o prelado não podia romper o pacto feito com o eremita.

O bispo implorou ao Senhor. Porque não tinha sabido destruir Filae, era obrigado a fazê-la sofrer. Na tormenta saberia ele salvar o seu único amigo? Cresto não escaparia ao suplício; não existia nenhum meio de o livrar. Paulo exigiria a crucifixão a fim de que nenhum adolescente fosse tentado a abraçar a causa dos pagãos. Se o método era condenável, o seu ideal respondia às exigências da fé.

Teodoro hesitava ainda em convocar o Encolhido, de madrugada Paulo exigiu o que lhe era devido. Que anjo desceria das nuvens e levaria nas suas asas a alma de um rapaz consciente dos rigores do seu tempo? o guarda bateu à porta do escritório, onde a luz de um candeeiro tinha brilhado toda a noite. O eremita não perdia um instante.

- Entrai.

A sentinela introduziu um oficial da guarnição.

- É muito grave, monsenhor. Dois batedores assinalam uma forte concentração de tropas blemis ao sul da primeira catarata.

 

Paulo, furioso, virou-se contra a sentinela.

- Sabes tu quem eu sou?

- Isso não mudará nada. O bispo está ausente.

- É falso! Liberta o acesso ao seu escritório.

- Se tentais passar, abato-vos. São as ordens.

- Onde se encontra ele?

- Na caserna.

- Se me mentiste...

Embora mantivesse a cabeça erguida, o miliciano não ia muito longe. Como outros, temia o eremita.

Paulo forçou a entrada do quartel-general onde Teodoro conversava com os principais oficiais.

- Não estás habilitado a assentares-te neste conselho - lembrou o bispo. - Sai.

- Não sem que seja ordenada a prisão do curioso.

- Regulariaremos mais tarde esse assunto. Preciso de todos os soldados.

Os olhos do eremita brilharam de raiva.

- Mesmo se o estado de urgência for decretado, não conteis prolongar indefinidamente a execução da sentença.

- Não é minha intenção.

- Tende a certeza que os combatentes de Deus manifestam as suas exigências.

SegUros da impunidade, doze eremitas queimaram a vinha do templo e um campo onde trabalhavam camponeses suspeitos de cumplicidade com os pagãos. Paulo e as suas tropas semearam mais medo do que Anúbis. A população, depois de ter balançado entre as ameaças do antigo deus e os anátemas do novo, alista-se resolutamente ao lado dos cristãos mais exaltados Se o eXército não intervinha contra eles, era porque tinham obtido a bênção do bispo o templo não morria de fome. Nessa tranquila tarde de Outubro, em que um Sol temo transformava as pedras em ouro, os adeptos foram convidados para um banquete. Perto do pequeno Santuário de Hator, provaram azeitonas e tâmaras frescas, apreciaram galinhas-da-índia assadas, saborearam vinho tinto e cerveja de cevada. O Nilo formava um estojo protector, banhando com as suas águas acalmadas a ilha da grande deusa. Tangas plissadas dos irmãos e vestidos de linho das irmãs brilhavam de brancura.

Sabni usava um avental de couro bordado a ouro e Isis um vestido branco com alças. Radiante, a superiora pediu ao mais velho dos padres que escondesse o rosto sob uma máscara de leão.

Assim começou o ritual destinado a fazer reviver a deusa distante das solidões do deserto.

Organizando-se procissão, os adeptos transportaram o mentos para o interior do recinto do bom encontro onde, as palavras pronunciadas tocassem o seu coração, a exiíada se u à comunidade. Metade dos adeptos permaneceu prostrada, tada sobre os calcanhares; a outra, guiada pela superiora, tou-se do edifício e derigiu-se a um quiosque onde est& armazenados instrumentos de música.

- Estamos na aflição - declarou Sabni.

- A luz deu-se lá em baixo nas terras vermelhas onde nada cr O olhar do Sol, saído da sua fronte, fugiu para o deserto massacrar os humanos que lá se refugiaram, julgando fugir; cólera.

- Sou porta-voz da humanidade - disse Cresto. - que falta cometeu ela?

- Esqueceu o céu, traiu a regra da vida, desdenh sagrado. C&s seres acusaram-se uns aos outros. Em vez de defI os deuses, esconderam-se. O Sol afastou-se da Terra. De criador o seu fogo passou a destruidor. O sofrimento substituiu a alegria.

- Quem apaziguará a deusa distante?

- A comunidade partiu ao seu encontro. Pela m os cantos e a dança tentará dissipar a sua cólera e trazê-la ao seu templo. Se ela faltar, morreremos. Confundir-nos-á os revoltados e, com as suas garras de leoa, rasgar-nos-á.

Espalharam-se no ar laranja do fim do dia os sons da I triangular, do tambor inchado, do clarim de corneto ala] em cálice de lótus, de flauta, de címbalos e de crótalos. Um c barulhento tocou uma ária ritmada, com entoações mar Duas rimas& ainda ágeis, esboçaram passos de dança. As graves dos irmãos entoaram um canto que suplicava a aterrorizadora que aceitasse o amor da comunidade. A mente, um macaco domesticado tocava alaúde e uma saltava em frente dos músicos.

A orquestra parou à entrada do templo, em frente de uma figura do deus Bés, anão atarrecado e barbudo de rosto grosseiro.

Debaixo da fealdade daquele iniciador, o adepto devia descobrir a beleza. O riso tonitruante de Bés dissipava as mágoas e clarificava as nuvens; quem o visse no seu caminho sabia que o destino lhe seria favorável.

A comunidade cantou um salmo lento e recolhido, implorando à deusa distante que viesse em paz. Quando a música acabou, Sabni levantou-se e fez frente aos adeptos.

- O olho do Sol brilha entre vós?

- Procurámo-lo e encontrámo-lo - respondeu o harpista.

- O massacre da humanidade cessou?

- Prosseguirá enquanto o olho não assentar num lugar sagrado.

- Esse lugar construimo-lo nós com as nossas mãos.

- Dá-me o seu nome.

- A ilha da grande deusa. O Sol está presente, noite e dia no seu santuário.

- Quem apaziguará a cólera do olhar?

- Eu, o superior do templo.

- Como procederás?

- Pelo conhecimento da natureza divina.

- Qual é o nome do olhar?

- Aquele que cria. O olhar de luz engendra os seres e as coisas.

- Qual é o nome da deusa?

- A aterrorizadora que se tornará sorriso, a afastada do nosso coração, o nascer da primeira estrela.

- Que lhe oferecerás?

- Um banquete está preparado para ela. Os adeptos comungarão na felicidade dos reencontros.

- Reconhecê-la-ás se ela se te apresentar?

- Que se digne revelar-se à comunidade prostrada diante da sua beleza.

Os membros da orquestra afastaram-se. A máscara de leão avançou, feroz. Anunciava febres, desinteria, cegueira e miséria; se triunfasse um vento malcheiroso, pesado de miasmas, varreria o templo.

- Não te receio - disse Sabni. - Assustas os cheios de medo. Afasta-te do caminho da deusa.

A máscara desapareceu. Agitando os sistros, cujo som metálico afastava os demónios encarniçados a entravar a sua marcha, Isis apareceu. Um largo cinto vermelho ornava-lhe a cintura e uma pintura verde sublinhava a linha das suas sobrancelhas. A sua coifa, a coroa com duas plumas altas enquadrando um Sol, iluminava o caminho que, do fundo do deserto, a trazia para o templo.

- Tu, o ouro dos deuses e o sorriso da criação, une-te a este corpo de pedra. Ilumina-o com o teu amor sem limite, concede-lhe a vida, a força e a coerência.

No instante que entrava no recinto do chamamento, Isis hesitou. O ritual seria celebrado com a fé dos primeiros tempos, a comunidade demonstraria a energia dos obreiros que as tarefas mais árduas exaltavam? O padre da máscara de leão tocou no seu alaúde uma melodia grave; os fogos do poente embrulharam o recinto do chamamento com uma luz do além.

A aterrorizadora transformou-se em Benfazeja.

Isis avançou para o interior da morada de Hator no instante em que Sabni acendeu um archote: o fogo voltava ao fogo.

- Voltaste para os teus. O templo ressuscitou.

 

- Estamos prontos a pagar, - afirmou Sabni. Isis tem à tua disposição peitorais, gargantilhas, colares e anéis.

- Não será suficiente - retorquiu Teodoro.

- Não pretendias que tudo se compra?

- A justiça, não.

- Ousas chamar «justiça» àquela condenação insensata?

- As provas existem. Cresto foi reconhecido culpado por uma assembleia de cidadãos em que eu nem sequer figurava.

- Assim o teu nome não será associado a um crime.

- Cresto roubou e fugiu. Se não o entregas à jurisdição eclesiástica, os eremitas tomarão o comando de uma multidão furiosa e atacarão Filae.

- Pedes-me para abandonar um irmão e de o enviar para uma morte atroz.

- Cometeu faltas imperdoáveis. Na minha prisão estará em segurança. A cólera do povo acalmará.

- A sua encarceração será de curta duração! Como os outros, será deportado, humilhado, submetido a trabalhos forçados e perecerá nas minas junto das crianças e dos velhos.

- Serei responsável pelo seu erro? Escolhendo Filae, conhecia os riscos. Ou é ele que desaparece ou a comunidade inteira.

- És tu quem fala, Teodoro? És mesmo tu?

- Não, Sabni. É a vontade de Deus.

Sabni tomou Isis nos braços e abraçou-a longamente.

A sentença dada contra Cresto seria executória dentro de dois dias e o superior deveria entregar o criminoso aos polícias.

- Façamos apelo ao patriarca da Alexandria.

- Na condição de obter os serviços de um mensageiro rápido, uma semana de viagem... e a certeza de ver confirmado o julgamento do tribunal de Elefantina.

- Não existe nenhuma jurisdição susceptível de arquivar esta condenação?

- Nenhuma.

- Não cederemos - disse Isis.

- Eles virão e levar-nos-ão a todos.

- E se a grande deusa nos protegesse, os impedisse de atravessar o braço de água que nos separa deste mundo pervertido? Resistamos, Sabni. A nossa liberdade é mais ardente do que o fogo, mais inatingível do que o vento. Renunciar reserva-nos uma sorte pior do que a morte: perder a vida Sobre o ventre de um escaravelho, Cresto gravou um texto maior; Permitia exactamente ultrapassar a primeira porta do além, respondendo à pergunta de um guarda inflexível: «O meu cora&ão é o cora&ão da luz divina; tu não cessas de estar viw, para sempre e todo o sempre, rejuvenescerás além do tempo.» Desde que trabalhava no templo, o jovem tinha-se despojado da angústia, peso insuportável dos seus dias de adolescente. Mesmo quando se evadia para os campos bordados de diques, se escondia nas moitas de tamargueiras ou nos bosques de sicômoros, se enterrava nos pântanos cheios de junças, não encontrava a paz. Na ilha santa, já não tinha vontade de fugir.

Do espírito, verdadeiro mestre daqueles lugares, agarrava a alvorada; esse clarão de origem tornava-se seu.

Ordinariamente, Sabni arrancava-o ao trabalho e pedia-lhe para ir jantar. Naquela noite, foi a escuridão que interrompeu o escultor. Intrigado, limpou os seus utensílios, poisou o escaravelho sobre um bloco de granito e correu em direcção ao refeitório instalado perto do templo de Hator.

Irmãos e irmãs comiam em silêncio. Para o superior, o grão de bico tinha o gosto da argila e a cerveja parecia-se com água salobrosa. Cresto sentou-se junto dele.

- Que desgosto vos aflige?

Os adeptos levantaram-se uns após outro e, a passos lentos, dirigiram-se para os seus aposentos. Só ficaram Sabni e Isis.

- Será que vos desagradei?

- Tu és a esperança da nossa comunidade.

- Porque me fogem?

- Quem ousaria dizer-te a verdade?

Cresto olhou à sua volta. A água azul estremecia sob o vento da noite, os muros erguiam a sua massa serena, intransponível.

- Tu, ousarás.

- Destesto a minha função.

Sabni sentiu pesar sobre ele o olhar de Isis.

- De que me acusam7

- De roubo de bens eclesiásticos. A existência de provas formais precipitou o julgamento: o bispo exige a tua expulsão.

- Que sorte me reserva ele?

- No melhor dos casos, a prisão perpétua. No pior, a deportação e os trabalhos forçados.

- E se me esconder nesta ilha?

- Os eremitas e os seus sectários invadi-la-ão.

- Acreditas nessas acusações?

- Eu próprio te teria expulso deste lugar.

- Qual é a tua decisão?

- Como podes duvidar? Proteger-te-emos até ao nosso último suspiro.

- Quando virão eles?

- Amanhã, quando o Sol atingir o cimo do seu percurso.

Cresto estendeu a sua malga.

- Tenho fome.

Isis serviu-o. O jovem adepto comeu com bom apetite.

- A vossa determinação não servirá para os repelir.

- Metendo-te na minha sombra, não terás nada a temer. Pôr a mão numa superiora de Filae condená-los-ia à errância eterna: Nunca, na história do Egipto, tal ultrage foi perpetrado.

O jovem adepto olhou a superiora com respeito.

- Amanhã ficarei no templo: depois de amanhã também, e para a eternidade.

O sorriso de Isis perdeu-se na noite que subia. Cresto bebeu da cerveja de festa.

A semente morria na terra, no silêncio do limo fértil; o homem não desempenhava qualquer papel naquele mistério de palavras invariáveis. A entrar na embriaguez, Cresto pensou no hino do templo coberto, consagrado a Isis, a habitante das estrelas onde a alma encontrava a esperança e brincava com a morte.

O adepto subiu ao cimo do primeiro pilar, com o indicador, desposou cada um dos sinais gravados nas paredes da escada.

Pássaros, árvores cestos se animaram sob o calor da sua mão e avançaram em companhia do leitor, para o topo do templo.

Cresto queria gozar da madrugada como um cabrito saltando de alegria aos primeiros raios do Sol ressuscitado. Restava-lhe uma longa estrada a percorrer, numerosas portas a passar, um rude trabalho a realizar. Era verdade que o seu espírito se soltava, a vaidade, se não tinha cuidado mataria esses primeiros impulsos. Exigir a perfeição da obra sem crer na do homem: nunca esqueceria a lição da comunidade, fornecedora de ser.

Só o dom total de si, para além do êxito e do fracasso, acordava uma sensibilidade digna da imortal confraria presente no coração de cada pedra.

Não, não pertencia só a ele o futuro de Filae. Como se teria o templo encarnado num indivíduo? Pelo contrário, ameaçava a própria existência dos adeptos, suscitando o furor dos cristãos; que ele fosse vítima da mais odiosa das injustiças não contava nada. O amor da ilha santa ditava-lhe o seu comportamento.

Cresto encheu o olhar do santuário em que a luz vencia as sombras da noite agonizante; breve, Sabni e Isis penetrariam no naos e acordariam em paz o poder divino. Naquele dia de Outono, quatro mil anos depois do nascimento do Egipto faraónico, Filae permanecia serena, inalterável. O seu dever de irmão consistia em protegê-la afastando dela o causador das perturbações.

Do alto do pilar, Cresto lançou-se no vácuo.

 

Os basbaques, mais numerosos a cada encruzilhada, seguiram o homem tranquilo que transportava nos braços um estranho fardo. O superior parou em frente da morada do bispo e depôs sobre uma entrada de pedra, perante os milicianos, o cadáver de Cresto, embrulhado numa mortalha branca.

Só aparecia o rosto, belo e calmo.

Alertado pelo rumor, o prelado saiu do escritório. Quando apareceu, a multidão calou-se. Teodoro aproximou-se do cadáver e pôs um joelho em terra.

Levantou os olhos para Sabni.

- Eu não quis esta morte.

- Ofereceu a sua vida para salvar Filae. O sacrifício será suficiente?

Nos olhos do superior não havia ódio mas uma revolta escaldante que palavra alguma poderia exprimir.

- Eu não a quis, Sabni.

- Deixa-me sepultá-lo segundo os nossos ritos.

- Não! - berrou o eremita Paulo, brandindo o seu bastão. - Um pagão deve ser queimado. Que o corpo seja remetido aos corredores das areias.

Os «devoradores de cadáveres», como lhes chamava o povo, viviam no deserto longe das habitações. Enterravam os indigentes e faziam desaparecer os restos dos criminosos e dos gatunos.

Essa última humilhação Sabni esperava evitá-la.

- Este pagão foi julgado e condenado - lembrou Paulo.

- Que não beneficie de nenhum privilégio.

Um clamor aprovou as suas palavras.

- Resistirás a esta barbárie, Teodoro?

- Tens de te submeter à lei de Deus, Sabni. Eu tenho de a fazer respeitar.

- Não mistures Deus com essa ignomínia.

- A vaga é demasiado violenta. Eu tinha-te prevenido; as muralhas desmoronam-se. Parte, meu amigo; modifica um destino contrário.

O superior não voltou para Filae. Obrigado a abandonar o cadáver de Cresto aos rapaces humanos, errou pelos carreiros abandonados da margem Oriental. Naqueles lugares desolados, vazios de toda a presença havia décadas, reinava um calor pesado. O vento do norte quebrava-se contra as massas de granito de onde os mestres de obras de faraó tinham extraído pedras explêndidas destinadas aos templos. Os construtores de pirâmides não hesitavam em ultrapassar a enorme distância que separava Mênfis de Elefantina para aí cortarem os blocos gigantescos que eram levados em barcas para o norte.

Sabni parou no obelisco por acabar, o mais imponente monolito jamais extraído da pedra de que, no entanto, ficaria prisioneiro, por causa de uma fissura que o condenava a ficar deitado na pedreira. Os Gregos tinham-no medido: 42 metros de comprimento, um peso de 1200 toneladas. Centenas de homens lá tinham estragado a espinha, a tirar a crosta superficial que protegia um granito cor-de-rosa de uma excepcional beleza, a sienite, a par da diorite e do quartzo.

Nesta paisagem de rochas espalhadas e de monumentos interrompidos, o superior descerniu o inacabamento da sua própria aventura. Esquecidas as pedreiras, perdida a comunidade que operava em glória do Princípio. Estendia-se um véu espesso sobre o universo luminoso dos faraós. A alguns metros do peregrino, um colosso tentava em vão arrancar-se à sua mortalha mineral; o colosso de Ramsès II, portador da coroa branca, com os braços segurando ceptros, cruzados sobre o peito, esperavam a mão do escultor apto a libertá-lo da matéria. Sabni teve vontade de agarrar num malho e num cinzel, para ir ajudar o rei defunto, provar-lhe que os seus olhos se podiam abrir e a sua boca falar.

Mas renunciou, desencorajado pela enormidade da tarefa.

Sobre uma estela despedaçada, havia uma inscrição ainda legível: «Quem quer que sejais, procuraí obter o louvor do vosso deus; ser-vos-á dado gozar plenamente a vossa função, depois, transmiti-la ao vosso sucessor, deixará o vosso coração em repouso.» Para além dos séculos, aquele discurso era-lhe destinado.

Sabni não jazia, como o colosso, numa prisão de que não sairia? A inscrição abria um caminho: transmitir. Nunca o superior de uma comunidade seria o seu próprio mestre; apenas importavam a sua função e o serviço da confraria. Interrogar-se sobre a sua própria pessoa era traição; ora, num mundo privado de palavras certas, esquecido da Regra, o coração do homem não se preocupava senão com ele mesmo.

A noite anunciava-se desgastante. O colosso parecia encolher-se; as trevas agrediam-no por todos os lados. Naquele caos mineral, as estradas esfumavam-se. O viajante mais experiente breve se perderia, incapaz de sair das pedreiras. Sabni sentiu o chamamento do deserto de pedras, cuja catarata, ao gosto de África, apenas alegrada por algumas manchas verdes, formava o único horizonte. Quem teria esperado naquele dédalo estéril, planícies verdejantes e campos dourados? Aquela solidão, mais rugosa do que o granito, colava-se-lhe à pele como uma roupa molhada. Só o amor de Isis o impedia de fugir de si mesmo e de se persuadir de que, deixando a comunidade, a salvaria. Era ele, e mais nenhum outro, que suscitava a reprovação de Teodoro e o ódio de Paulo. Sabni desaparecido, ninguém pensaria em atacar Filae; a verdadeira coragem consistia em se demitir. Reconhecendo que só a sua presença exercia uma acção nociva, provaria aos adeptos a sua fraternidade.

Voltando as costas ao Nilo, o superior enterrou-se no labirinto. Mais alguns passos e tornar-se-ia nómada, livre de toda a amarra, andaria até aos fins do grande Sul, onde os rios se lançavam no abismo e a sua raça humana não existia mais.

Debruçando-se, Sabni descobriu aos seus pés um falcão morto, com as asas dobradas. O superior escavou o solo com um estilhaço pontiagudo e sepultou o pássaro de Hórus, filho de Isis, vindo do céu e desejoso de voltar para lá; segundo o ensinamento do templo, os olhos do rapace, erguidos nas muralhas das nuvens, desvendavam-lhe o cimo para sempre. Guardava o acesso ao santuário dos deuses, construído de luz e de amor, modelo dos edifícios terrestres.

Era o seu próprio cadáver que o superior encontrava, o despojo de um ser de ontem, com o voo quebrado; mas no olhar do falcão, eternamente vivo, traçcava-se a via certa.

Auroleada de luz prateada, Isis mantinha-se à borda do embarcadouro. A barca encostou sem ruído; Sabni amarrou-a e subiu em direcção à esposa.

- No mundo dos deuses - disse ela - não se passa nada. Ignoram os acontecimentos a que estamos submetidos, os momentos de felicidade e de infelicidade que nos agitam como os brinquedos das crianças.

- Isis, se tu soubesses...

- A prova das pedras abandonadas... que superior não a viveu? Voltas-te, Sabni, e eu amo-te.

 

Isis não se levantou; uma febre forte impediu-a de cumprir as suas obrigações rituais. Logo que ele saiu do naos onde, como cada manhã, despertou a grande deusa, o superior voltou para a cabeceira da esposa. Só ela conhecia os segredos da arte de curar mas não tinha a força de se tratar ela mesma. A sua brusca lassidão inquietou Sabni.

- Podes receitar um remédio?

- O meu espírito está tão fraco, que o meu corpo e a minha energia se dissipam, tal como uma bruma de Verão sobre o Nilo... Do outro lado, sobre a margem do Ocidente, a deusa será acolhedora. Eu não a temo, tantas vezes falámos em tom de cumplicidade.

- Não! Não tens o direito de ceder.

Sabni tomou Isis nos seus braços e levou-a ao pequeno templo de Imhotep, o curandeiro. Quando a medicina humana se revelava impotente, era preciso voltar-se para vontade do sábio que entrou vivo na imortalidade. Depois do invisível, continuava a conservar a beleza do templo e a integridade dos seus sucessores.

O superior depôs a doente sobre o lajeado da capela que os Romanos chamavam o sanatório; um senador. paralisado, foi encontrar ali o uso dos seus membros. Depois de ter jurado guardar silêncio sobre o que veria ou ouviria, tinha tornado a partir, curado.

- Toma a minha mão direita - pediu Isis.

Desde sempre que sabia que a morte raptora se meteria nela por aquele lado; a presença de Sabni afastá-la-ia. Com a palma da mão esquerda aberta e voltada para o tecto do pequeno edifício, de olhos fechados, com a respiração apenas perceptível, a superiora escutou o canto das pedras. Algumas eram provenientes de Gizé, outras das pedreiras de Turah, o Gebel Silsileh ou de Elefantina; do norte ao sul, formavam o ser dos templos e dos pontos altos onde o espírito nunca cessaria de brilhar mesmo se a barbárie tentasse cobri-los com um véu de trevas e de ignorância.

Quando Isis viu aparecer o rosto hierático de Imhotep, iluminado do interior, endireitou-se a fim de lhe manifestar a sua deferência. Sabni amparou-a; o seu olhar exprimia de novo o desejo de viver.

Sabni reuniu a comunidade e anunciou-lhe que contava empreender trabalhos no santuário de Imhotep. O padeiro lembrou que Filae já não recebia nen