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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


POR DECRETO REAL / Shari Anton
POR DECRETO REAL / Shari Anton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

                                                     Inglaterra, 1101

— Isso não é justo! — queixou-se Ardith consigo mesma, pois não havia ninguém mais ali para ouvir-lhe o protesto.

De seu leito de mantas de peles a um canto do quarto, podia ouvir os sons do banquete ecoando do salão da casa, onde sua família e convidados celebravam o heroísmo de Corwin, seu irmão gêmeo de doze anos. Não se ressentia do tributo a ele. Afinal, Corwin salvara sua vida.

Durante a semana anterior, Ardith sofrera a dor de seu ferimento, deitada em sua cama no chão e sorvendo apenas caldos e poções de ervas. Queria uma refeição mais substancial, ansiando por um pedaço do grande javali que a atacara antes de ter perecido sob a espada de Corwin.

Cruzando o braço por sobre as faixas de linho enroladas em torno de sua cintura e abdome, ignorou a dor que sentiu ao se levantar. Moveu-se devagar pelo quarto para pegar seu manto de lã, colocando-o sobre a camisola. Vestida daquela maneira, não poderia tomar parte na festa, mas, se permanecesse oculta nas sombras, talvez pudesse pedir discretamente a Corwin que lhe arranjasse um pedaço do javali assado.

Com passos leves, atravessou o chão de terra batida, recoberto de palha, deixando o quarto. Seguiu pela passagem em arco que separava os dois cômodos da casa, segurando-se à parede enquanto se esgueirava. Aguardando um momento sob o arco para se certificar de que ninguém a avistara, virou à esquerda sorrateiramente junto à parede e foi se esconder debaixo da grande tapeçaria pendurada a um canto do amplo salão.

Abaixou-se devagar até sentar-se. Segura em seu esconderijo, espiou por um vão na lateral da tapeçaria. Criadas estavam retirando as bandejas usadas para servir o pão. Logo, estariam recolhendo as sobras do javali.

Sentado à cabeceira da comprida mesa, seu pai, Harold, senhor de Lenvil, levantou-se do banco para anunciar o fim do banquete. Ao lado de seu pai, achava-se o barão Everart, o suserano normando de Lenvil, esplêndido em seus trajes de lã negra, adornados com pedrarias reluzentes. Perto do barão, estava um menino de cabelos escuros, trajado de maneira semelhante. Uma vez que o menino parecia ter aproximadamente a sua idade, Ardith presumiu que devia ser Stephen, o filho mais novo do barão. Sabia que, em algum lugar em meio à multidão, devia estar o filho mais velho, Gerard, o herdeiro de Wilmont.

Supunha que devia ao barão uma palavra de agradecimento. Se ele não tivesse acolhido Corwin como a um filho e lhe permitido passar a maior parte do verão em seu castelo em Wilmont, onde aprendera a usar uma espada com destreza, ela e o irmão poderiam estar mortos àquela altura.

Duas criadas inclinaram-se para apanhar a grande bandeja de carne. Ardith olhou ao redor, à procura de Corwin, mas não o viu. Planejando acenar discretamente para uma das criadas, começou a se erguer. Mas antes que pudesse sair detrás da tapeçaria, ouviu vozes masculinas que se tornaram mais altas enquanto os homens se aproximavam casualmente de seu esconderijo. Tornando a sentar-se, manteve-se quieta atrás da tapeçaria, esperando que passassem por ali depressa.

— Falei com o rei Guilherme — disse o barão Everart.- Ele questionou minha decisão, mas aprovou-a.

— Fico honrado com sua oferta — respondeu Harold.- Mas, com certeza, poderia encontrar alguém melhor para o seu filho do que a quinta filha de um avassalo saxão.

— Foi essa a opinião do rei, mas Ardith é a minha escolha. O que me diz de selarmos o pacto de casamento, Harold?

O pai dela soltou um suspiro.

— Eu lamento, milorde, mas vejo-me obrigado a recusar. A menina se feriu e ficou… defeituosa.

Depois que os homens passaram e não pôde mais ouvi-los, Ardith ficou aturdida ao se dar conta de que o barão de Everart propusera um pacto de casamento entre ela e um dos filhos. E seu pai recusara.

Eu me feri? Fiquei defeituosa?

Tocou de leve sua barriga dolorida. Teria uma cicatriz permanente naquela região. Mas uma cicatriz a tornava defeituosa, diminuía seu valor num casamento?

De repente, a luz das velas e tochas do salão iluminou o canto escuro. Uma mão masculina afastara a tapeçaria.

— E quem temos aqui? — perguntou uma voz suave, as palavras carregadas com o sotaque francês da Normandia.

Ardith levantou a cabeça para fitar aqueles olhos verdes. Mais do que um rapaz, mas ainda não um homem feito, o nobre normando era incrivelmente bonito. Seus cabelos, em ondas douradas, caíam até os ombros no estilo saxão. Era alto, forte e usava uma túnica ricamente bordada com fios em tons de vermelho e ouro por cima das calças justas.

Foi bondade que Ardith viu na expressão dele e esperou não estar enganada. Nobres normandos eram, em geral, cruéis com os subalternos saxões… ou ao menos era o que Elva, a irmã de seu pai, proferia. Aquele normando devia ser Gerard, o herdeiro de Wilmont.

— Milorde — disse-lhe. Segurando o manto em torno de si, ela se levantou e tentou fazer uma mesura. Foi tomada por súbita tontura ao baixar a cabeça. As mãos fortes de Gerard seguraram seus braços, poupando-a de uma queda.

Ele examinou-a de alto a baixo, longamente. Estudou-lhe, enfim, o rosto e fitou-a nos olhos.

— Você deve ser Ardith, a irmã gêmea de Corwin. Os seus olhos são do mesmo tom impressionante de azul.- Ele franziu o cenho.- Fiquei sabendo que você sofreu um sério ferimento e estava confinada ao quarto. Por que está se escondendo detrás da tapeçaria?

Enquanto o rubor do constrangimento cobria-lhe as fazes, ela se deu conta da tolice de sua atitude. Seu pai ficaria furioso se soubesse. As mãos dele fizeram ligeira pressão em seus braços.

— Eu queria um pedaço daquele maldito javali assado.

A expressão de Gerard suavizou-se, os lábios curvando-se num esboço de sorriso.

— O que feriu você? — perguntou-lhe. Ao vê-la assentir, prosseguiu:- Pedirei que a sirvam. Agora, vou levá-la de volta à sua cama.

Ele a ergueu do chão facilmente, segurando-a em seus braços fortes, e Ardith protestou:

— Eu posso caminhar, milorde.

— Talvez, minha pequena dama, mas não deixarei. As suas forças começam a lhe faltar.

Enquanto ele a carregava na direção do quarto, ela não conseguiu deixar de se perguntar se Gerard poderia, algum dia, ter se tornado seu marido. Era tão forte, tão bonito, e o herdeiro de um título… o sonho de qualquer donzela. Para qual filho teria o barão proposto a aliança de casamento, Gerard ou Stephen? Não que importasse agora. Seu pai a considerava defeituosa de algum modo, inadequada para qualquer um dos lordes normandos.

— Ardith, sua travessa! O que esteve fazendo? — repreendeu-a Elva, seguindo-os até o quarto. Com as mãos nos quadris largos, a tia parecia pronta para uma discussão. Incapaz de suportar nova humilhação, Ardith escondeu o rosto no ombro de Gerard, esperando que ela contivesse novas reprimendas até que ambas estivesse a sós.

— Quem é a harpia? — perguntou-lhe Gerard, num sussurro, enquanto a baixava devagar e com gentileza até o leito de peles.

— Elva, a irmã de meu pai.

— E você é travessa?

Embaraçada, Ardith admitiu:

— É o que me dizem.

Ele piscou-lhe um olho e abriu um sorriso caloroso antes de deixar o quarto, ignorando o olhar duro que Elva lhe lançou.

Depois que Gerard se foi, Ardith perguntou à tia:

— Você sabia que meu pai pensou em me casar um dia com um dos filhos do barão?

— Oh, sim — retrucou Elva, desdenhosa.— Harold havia pensado em dar você ao jovem Leão. Os normandos de Wilmont são bestas cruéis; todos eles. Alegre-se por ter sido poupada de tal infortúnio.

Ao jovem leão.

A Gerard, compreendeu Ardith, e seu coração ficou apertado com a perda. Gerard tinha as características de um majestoso leão… o porte grandioso, aquela cabeleira loira, os brilhantes olhos verdes. Mas não podia imaginá-lo como uma fera cruel.

Ele possuía um sorriso tão maravilhoso…

Virando-se de lado, Ardith deixou que as lágrimas fluíssem.

Isso não é justo!

 

 

 

 

                                                         CAPÍTULO 1

                                   Wilmont, Inglaterra, 1106

Gerard adiantou -se depressa pelo chão congelado do pátio elevado do castelo. Rajadas do vento cortante de início de inverno sopravam-lhe contra o manto de pele. O céu cinzento combinava com seu humor.

A farsa daquela manhã fora idéia sua. Tendo planejado cada detalhe do funeral forjado, ele não esperara o aperto na garganta quando o caixão vazio descera à terra. Sabia que sua inquietação não se abrandaria enquanto não conversasse com seu meio irmão, Richard, que, por bem pouco, escapara de ter estado realmente naquele caixão.

Saltando dois degraus de cada vez, Gerard subiu pela escada externa que levava à ala residencial do castelo. Abriu a pesada porta de carvalho e entrou no grande salão principal.

Olhou apenas de relance para as tapeçarias familiares penduradas em torno do brasão e de armas antigas, mal notando os entalhes ornamentais de mármore feitos nas paredes de pedras caras. Tampouco prestou atenção às criadas atarefadas nos preparativos do banquete que ele ordenara que fosse servido depois da missa do suposto funeral.

A porta maciça fechou-se atrás de si. Gerard olhou por sobre o ombro para Thomas, um serviçal jovem mas de total confiança, uma das poucas pessoas que sabiam da farsa necessária para esconder e proteger Richard. Retirando seu manto de peles, jogou-o para Thomas.

— Vou falar com o monge. Leve-nos cerveja — ordenou ele e, então, subiu a escadaria interna que conduzia aos aposentos da família.

Ao final do corredor bateu duas vezes a uma porta, esperou um momento e, em seguida, bateu mais duas vezes. Como esperado, Corwin abriu-a. Exibindo um sor-riso maroto, ele executou uma exagerada mesura, dizendo:

— Enfim, reforços. Entre, milorde.

— Richard não está se comportando bem? — perguntou Gerard.

Corwin fechou a porta com a tranca.

— Tão bem quanto se poderia esperar, acho eu, levando em conta que se trata do dia do próprio enterro dele.

— Está de mau humor, não é?

— Péssimo.

Da cama, Richard resmungou:

— Você fala como se eu não estivesse presente. Por que não pergunta a mim como estou?

Gerard aproximou-se com um ar pensativo, avaliando a expressão contrariada no rosto de Richard, um rosto que era quase um reflexo do seu. A semelhança era espantosa, muito embora ambos fossem filhos de mães diferentes: uma esposa nobre e uma amante camponesa. Apesar de Gerard ser mais alto, quando montados a cavalo em suas armaduras era praticamente impossível distinguir um do outro.

Por causa da semelhança, Richard quase morrera… vitima de uma emboscada destinada a matar ou a aprisionar Gerard, o novo barão de Wilmont. Basil de Northbryre e seus mercenários logo pagariam caro pela audácia.

— Quanto a isso, Richard, a sua palavra não é confiável — respondeu Gerard, enfim. — Você iria querer me fazer acreditar que está pronto para lutar com sua espada.

— Talvez ainda não, mas já posso sair da cama. Sabia que Corwin não me deixa levantar daqui para nada?

— Por ordens minhas.

— E eu não sobrevivi à travessia do canal?

Confinado a um leito escondido no porão do navio, Richard mal sobrevivera à viagem de volta para casa desde a Normandia, mesmo aos cuidados de um dos médicos do rei Henrique I.

— Você dormiu o tempo inteiro — lembrou-o Gerard.

— E eu suportei a viagem de carroça de Dover até Wilmont.

— Por pouco.

— Com certeza, posso agüentar dar alguns passes para além deste quarto.

Gerard cruzou os braços sobre o peito largo, sua voz soando firme:

— Basil deve ter um espião ou dois à espreita. Depois do que fiz para convencer metade do reino de que você está morto, não vai arruinar tudo saindo do quarto e deixando que o vejam!

Alguém bateu à porta da maneira combinada, e Corwin foi atender. Thomas entrou com o jarro de cerveja. A bebida servida, Gerard dispensou o pajem junto com Cor-win, tornando a fechar a porta com a tranca depois que ambos saíram.

Sentou-se numa cadeira e esticou as pernas na direção da lareira crepitante, sentindo-se um pouco mais relaxado.

— Meu enterro transcorreu bem? — perguntou Ri-chard, sarcástico.

Padre Dominic fez um sermão emocionado durante o funeral. Stephen elogiou a sua bravura e lealdade a Wilmont. As criadas do castelo estão inconsoláveis. Eu diria que sua perda foi devidamente sentida.

Richard esboçou um sorriso.

— As criadas podem estar chorando por mim, mas estariam gritando em desespero por você.

— Acha que elas conseguem nos distinguir um do outro no escuro?

— Quem poderá saber? Bem, como estou confinado à cama, talvez eu mande chamar uma ou duas para tentar descobrir.

Gerard lançou-lhe um olhar de aviso.

— Você está escondido e deve se comportar como o monge doente que fizemos todos pensar que é. Mande chamar uma criada aqui, e eu o manterei confinado neste aposento pelo inverno inteiro!

Richard fez uma careta diante de tal possibilidade.

— Não poderá fazer isso. Você vai precisar de mim na corte. Quando partimos?

— Você ficará aqui até que eu mande alguém vir bus-cá-lo. Provavelmente será logo antes do Natal. Corwin e eu partiremos dentro de dois dias. Ele deseja visitar Lenvil antes de irmos para Westminster.

Ora, você me deixaria aqui com Stephen para cuidar de mim. Tenha compaixão. Jamais terei permissão para deixar esta cama!

— Stephen deixará você se levantar quando padre Do-minic disser que já sarou; não antes disso.

Richard ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Padre Dominic? Você lhe contou?

— Achei que seria prudente contar ao padre, só por precaução.

— Eu lhe asseguro de que não precisarei da extrema-unção. Quem, no total, sabe que ainda estou vivo?

— Stephen, Thomas, Corwin, rei Henrique e seus -médicos. — Gerard soltou um suspiro. — Também achei necessário informar lady Ursula. Eu havia esperado não precisar envolver minha mãe nisto, mas ela atormentaria Stephen com perguntas sobre o estranho monge acolhido num dos quartos da família.

— Imagino que o fato de eu estar deitado neste quarto em vez de naquele caixão, debaixo da terra, aborreça lady Ursula ao extremo.

— Sem dúvida, mas ela não vai interferir nos cuidados a você. Stephen se certificará disso.

— Sua mãe irá atormentá-lo a cada oportunidade, querendo a lealdade dele, tentando colocá-lo contra você.

— Ele aprenderá a lidar com a situação. Confrontar Úrsula o tornará um homem, talvez até o faça conquistar seu título de cavaleiro. — Os dois irmãos trocaram risos. -Gerard, então, sorveu um gole de cerveja, o semblante ficando sério. — Você certamente conquistou o seu. Nós cuidaremos das formalidades na corte para que você seja armado cavaleiro. — levantando-se da cadeira, adiantou-se até a porta.

— Você confia na promessa do rei? — perguntou Richard.

— Quando Henrique negou meu pedido de uma pronta retaliação armada contra Basil, prometeu justiça real. Não tive escolha na ocasião senão obedecer.

— E se não obtivermos justiça?

Os olhos verdes de Gerard brilharam com obstinação.

— Então, sare bem, Richard. Vou precisar de sua habilidade com a espada quando eu buscar vingança.

— A cabeça do capitão mercenário, Edward Siefeld, é minha.

— E a de Basil de Northbryre será minha.

Deitado de bruços, um braço pendendo sobre a beirada da cama, Gerard abriu os olhos devagar. A claridade da manhã ofuscou-lhe os olhos, e a cabeça pareceu-lhe pe-sada demais para que conseguisse erguê-la.

— Milorde. — A voz de Thomas soou baixa, mas seu tom era de urgência.

— Pelos céus, rapaz, espero que tenha uma boa razão para ter me acordado tão cedo.

— Eu o deixei dormir tanto quanto foi possível, milorde. Todos estão à sua espera na capela. Padre Dominic não pode começar a missa antes de sua chegada.

Com relutância, Gerard se levantou. As têmporas latejavam com o excesso de bebida da noite anterior. Tentara aliviar sua frustração com a cerveja. Fora em vão.

Afastando as cobertas de pele, sentou-se na beirada da cama. Sentiu a cabeça girando e respirou fundo algumas vezes, forçando-se a agir. Os músculos ondularam a seu comando enquanto se levantava, o corpo de guerreiro em nada afetado pelo torpor em sua mente.

Com um leve meneio de cabeça, aprovou a túnica de seda escarlate entremeada com fios dourados que Thomas colocou sobre a cama. Enquanto se vestia, ponderou que teria trocado de bom grado as vestes elegantes por traje menos ostentoso. Mas, naquele dia, precisava parecer e agir como o barão que se tornara.

Não se surpreendeu ao encontrar lady Úrsula à frente da capela, esperando sua chegada com um ar de reprovação. Momentos depois que a missa começou, Gerard conteve um bocejo, atraindo um olhar zangado da mãe. Stephen e Corwin trocaram sorrisos significativos. Padre Dominic entendeu a sugestão e apressou a cerimônia.

De volta à ala residencial do castelo, depois que fez seu desjejum de queijo e pão, Gerard chamou lady Ursula e Walter, o intendente de Wilmont, a seus aposentos.

— Como pode ver, senhor barão, Wilmont está em plena prosperidade -disse Walter, apontando para os pergaminhos na mesa do quarto de Gerard.

Ele examinou as anotações de todos os tributos em forma de mercadorias e serviços devidos pelos arrendatários a Wilmont. Não pela primeira vez, sentiu-se grato pela decisão incomum de seu pai de instruir os filhos. Assim, jamais ficaria à mercê de seu intendente para lhe ler mensagens ou apontamentos, ao contrário da maioria dos nobres normandos.

Indicando um espaço em branco nos registros, pergun-tou a Walter:

— E quanto aos tributos destes dois feudos?

— O de Milhurst está atrasado. Infelizmente, seu pai sucumbiu à febre antes que pudesse ter ido visitar Mi-lhurst para fazer a coleta.

Gerard foi tomado por uma onda de raiva. Podia apos-tar que Basil de Northbryre teria, de algum modo, in-terferido com a entrega dos tributos de Milhurst… uma tarefa simples, uma vez que Milhurst era vizinho de Northbryre. Acrescentou a suspeita de tal violação à lista de crimes contra Basil que iria apresentar formalmente ao rei Henrique.

— Há outros impostos ou mercadorias com entrega atrasada?

Com um dedo indicador ossudo, Walter apontou para outro espaço em branco nos apontamentos:

— Sim, milorde, os deste feudo perto de Romsey, também em Hampshire. Os arrendatários devem seis ovelhas no início de cada inverno como tributo. Pode ser que o intendente de lá ainda venha trazê-las, apesar de estar atrasado neste ano.

— Você irá a Hampshire para a coleta de impostos? — interrompeu lady Ursula.

A esperança na voz dela fez com que Gerard se virasse para fitá-la. Embora tivesse quase quarenta anos, sua mãe mal envelhecera. Estudava-o com seus brilhantes olhos cinzentos, cujo viço o tempo não roubara. Cabelos pretos emolduravam-lhe o rosto bem conservado, porém muito pálido das incontáveis horas rezando numa capela escura. Teria Ursula rezado ou sofrido por Everart, enterrado havia apenas dois meses? Gerard duvidava que ela tivesse derramado uma única lágrima pela morte de seu pai.

Sabia por que queria que ele se ausentasse. Ela havia suportado se submeter às ordens do marido. Abominaria ter que acatar as do filho. Ele, porém, não conseguia sentir uma ponta de simpatia.

— Tudo a seu devido tempo — respondeu e, então, virou-se para Walter. — Peça a Frederick que se prepare para a jornada até Hampshire amanhã. Não tenho interesse pelas ove-lhas de Romsey, mas preciso saber se Basil atacou Milhurst. Diga a Frederick que lhe darei instruções antes que parta.

Walter fez uma mesura curvando sua cabeça calva.

— As suas ordens, milorde — disse e deixou o quarto.

Gerard recostou-se na cadeira e virou-se para a mãe:

— Sem dúvida, ficará satisfeita em saber que partirei amanhã. Não para Hampshire, mas para Lenvil e, então, Westminster.

Com as mãos apertadas sobre o colo, ela manteve um ar sério, limitando-se a dizer:

— Muito bem.

Ele quase riu da expressão ardilosa e tão facilmente decifrável naquele rosto, mas conteve o impulso.

— Richard permanecerá em Wilmont. Stephen cuidará de nosso irmão com a ajuda de padre Dominic. Você permitirá que Richard fique naquele quarto dos aposentos da família até que eu mande buscá-lo.

A cada palavra, o semblante de lady Ursula ficava mais carregado, fazendo-o preparar-se para a inevitável ladainha.

— Você parece não hesitar em me envergonhar com a presença dele nos aposentos da família. Nem mesmo seu pai me insultou de tal maneira! Fazia o bastardo dormir em outra ala, no andar de baixo. Não é o bastante que eu tenha que tolerá-lo na minha casa sem que esteja tão próximo?

— Eu fiz a você a cortesia de lhe explicar a necessidade de escondermos Richard. Depois que Corwin e eu tivermos partido, apenas Stephen e padre Dominic, além de você, saberão quem repousa naquele quarto. Esteja avisada de que eu ficarei bastante contrariado se tal informação se espalhar.

Inclinando-se por sobre a mesa, apanhou o crucifixo cravejado de jóias que pendia de uma corrente no pescoço de sua mãe.

— Jure por esta cruz que estima tanto que não irá interferir com os cuidados a Richard e que irá guardar segredo quanto ao fato de estar vivo.

Lívida, a mãe tirou-lhe o crucifixo da mão.

— Que blasfêmia é essa? Você me pede para jurar? Você, que chegou atrasado à capela e quase dormiu durante a missa inteira? Pede-me para profanar os ensinamentos do Senhor permitindo que um bastardo, a prova da luxúria pecaminosa de seu pai, permaneça escondido em meio a estas paredes?

Ele mal pôde conter a fúria. Ursula jamais aceitaria que a decisão de Everart de ter criado Richard como se fosse legítimo havia propiciado a Gerard um irmão leal em vez de um amargo inimigo. Sentia orgulho da lealdade de Richard e da de Stephen, um incomum mas bem-vindo relacionamento numa terra onde filhos conspiravam contra os pais, e irmão lutava contra irmão por uma herança.

Como a maioria dos casamentos da aristocracia, a união arranjada entre Úrsula e Everart criara uma aliança entre duas famílias nobres. Nem amor, nem qualquer tipo de afeição havia desabrochado entre ambos. Ursula suportara o casamento e, pela maior parte do tempo, tolerara os filhos. Mas à criança do meio, nascida da amante camponesa de Everart, Ursula sempre odiara com todas as forças.

— Wilmont é o lar de Richard, pelo desejo de meu pai e agora meu. Já a sua posição aqui está menos segura.

Ursula estreitou o olhar.

— O que quer dizer?

Gerard correu o olhar pelo reluzente crucifixo, pelas jóias nos dedos e pulsos dela e pelo refinado vestido de seda.

— Você agora é uma viúva. Talvez a sua devoção excessiva a chame à vida religiosa. Gostaria disso? Da vida numa abadia?

Ela arregalou os olhos

— Ou talvez prefira se casar novamente. Não tenho dúvida de que haja algum homem neste reino disposto a ter você para assegurar uma aliança com Wilmont.

A mãe empalideceu.

— Você não se atreveria…

— Engano seu, Está pronta para jurar pelo seu silêncio?

Lady Ursula segurou o crucifixo entre os dedos. A voz tremeu ao declarar:

— Eu juro. — Então, largou o crucifixo como se lhe queimasse a pele.

— Que assim seja.

— Tome cuidado — avisou-o ela, enquanto se levantava da cadeira. — Você não herdou apenas o título e os bens de seu pai, mas também sua imoralidade. Um dia você, também, enfrentará o julgamento divino. Talvez o Senhor tenha piedade de sua alma.

Depois que a mãe saiu batendo a porta com força, Gerard se perguntou por que ainda tinha o poder de afetá-lo. Devia estar imune às maldições dela, tendo ouvido a vida inteira sobre como arderia em chamas pela eternidade por uma razão ou outra.

Tratando de afastar tais pensamentos, foi tomado por súbita alegria. Com os negócios das propriedades resolvidos, tinha agora chance de fazer o que estivera ansiando desde que retornara da Normandia… passar tempo com seu filho.

Encontrou Daymon no salão principal, brincando com pequenos pedaços de lenha, enquanto uma criada o olhava, Adiantou-se devagar pelo salão, esperando que o menino se desse conta de sua presença e fizesse a primeira aproximação. Com freqüência, retornara depois de longa ausência e o erguera nos braços, exultante, mas, descobrindo em seguida, que Daymon tinha memória curta.

Como o filho não erguesse o olhar, perguntou à criada:

— Como vai o meu garoto?

— Bem, milorde, exceto pelo fato de que sente falta terrivelmente do barão Everart. Daymon é jovem demais para entender o que é a morte. Apenas sabe que seu amigo favorito não vem mais.

Gerard abriu um sorriso triste, experimentando a mesma sensação de perda.

— Parece bastante saudável — comentou, notando as faces coradas do filho, a vivacidade no olhar e a firmeza com que os pequenos dedos seguravam a madeira.

Então, Daymon virou-se e ergueu os olhos verdes, tão parecidos com os seus. Gerard também viu a mãe do menino de três anos nas feições dele. Se ela tivesse so-brevivido ao parto, teria lhe dado uma cabana no vilarejo e, talvez, até lhe arranjado um marido. Não amara a jovem camponesa. Apenas a achara atraente e receptiva.

Mas amava seu filho.

Ele se abaixou devagar, enquanto Daymon continuava observando-o. Ansiava por abraçá-lo, mas conteve-se. Enfim, um sorriso curvou os lábios do menino. Um brilho de reconhecimento iluminou-lhe os olhos verdes, e estendeu os bracinhos.

Erguendo-o do chão, Gerard levantou-se e estreitou-o num abraço afetuoso. O filho retribuiu, abraçando-o com força. Aquela evidente carência deixou-o com o coração apertado. Daymon não conhecera a mãe, perdera o avô recentemente e, agora, seu pai estava prestes a partir outra vez. Não tinha ninguém, além de amas, a quem pedir afeto.

Gerard respirou fundo, enfrentando o inevitável. Estava com vinte e seis anos de idade, era o novo chefe da família e tinha que se casar. Na verdade, deveria ter se casado anos antes, tanto para o bem de Daymon quanto para o de Wilmont.

Seu pai não deixara de cumprir o dever de tentar arrumar uma esposa para o primogênito. Ele se lembrava vagamente de uma conversa sobre um contrato de casamento com a filha de outro barão, mas a menina não sobrevivera à infância. Vários anos depois, seu pai tentara um acordo envolvendo outra donzela, mas, por alguma razão, não dera certo.

Várias mulheres ansiariam pela honra de se tornarem a senhora de Wilmont. Aquela com quem se casasse deveria proceder de boa linhagem e ser capaz de cuidar de um lar. Não precisava possuir beleza impecável, nem um grande dote, embora ele certamente não objetasse a uma esposa bonita ou a fundos e terras adicionais.

Mais importante para Gerard do que riqueza ou beleza, no entanto, era que sua futura esposa fosse afetuosa. Desejava uma companheira que não demonstrasse a menor reserva no momento de dividir a cama nupcial e de conceber herdeiros. Não precisava de amor… tal sentimento não costumando existir num bom contrato de casamento. Precisava apenas da aceitação da mulher de sua posição na vida dele.

Erguendo o garoto no ar pelos braços, sorriu ao vê-lo soltando um gritinho contente.

Aceitação. Haveria uma mulher em toda a Inglaterra ou na Normandia que abriria seu coração espontaneamente para Daymon, apesar de ser bastardo?

Ao tornar a estreitar o filho nos braços, viu lady Ursula surgindo do lado oposto do salão. A condenação no semblante dela só serviu para deixá-lo ainda mais resoluto.

Uma mulher como a que queria devia existir. Precisava apenas encontrá-la.

Mas primeiro resolveria seu assunto com Basil de Northbryre. Nada deveria interferir em sua obstinação de fazer o miserável pagar por seus crimes.

 

                                                             CAPÍTULO 2

Ardith estava ajoelhada no chão de terra batida do quarto. A sua frente, achava-se o tecido mais macio que já tivera o prazer de costurar. Enquanto sua irmã, Bronwyn, girava devagar, a seda esmeralda ondulava e reluzia sob a claridade do dia que se filtrava pela janela.

 

— Fique quieta — ordenou à irmã antes de poder dar alguns pontos na barra do vestido.

 

— Oh, Kester ficará tão satisfeito!

 

Ardith sorriu. O marido de Bronwyn, Kester, adorava a esposa. Sabendo como vestidos novos a agradavam, ele procurava tecidos exóticos para lhe dar de presente. Com-prara aquela seda rara de um mercador italiano, logo que o vira desembarcando do navio.

 

Bronwyn rumara, então, para Lenvil. Embora tivesse criadas para fazer seus vestidos, sempre recorda a Ardith quando queria algo especial. Segundo anunciara, aquele vestido seria estreado no Natal,

 

— Se você está contento, Kester ficará exultante. Agora, vire-se mais uma vez. — Ardith tornou a examinar as marcas dos ajustes que teria que fazer no vestido antes de dar a sessão como encerrada.

 

Levantou-se, enfim, sacudindo o pó e a palha de seu vestido de lã rústica marrom. Embora possuísse dois vestidos adoráveis.., um de lã amarelo-claro para o inverno e um de linho verde para o verão.., raramente os usava, a menos que estivessem esperando visitas. Para as tarefas do dia-a-dia, roupas de lã rústica eram mais adequadas.

 

Ela afastou a trança alourada da irmã para o lado, começando a abrir-lhe o vestido nas costas.

 

— Agora, você precisa terminar a sua história.

 

— Oh, eu quase me esqueci. Bem, como eu disse, o rei Henrique mandou Kester para receber o emissário do papa. Kester esperou o navio em Hastings e levou o clérigo para pernoitar em nossa propriedade antes de irem para Londres. — Bronwyn retirou o vestido de seda verde e colocou um de lã -azul, enquanto prosseguia: — Pelo que eu soube, o papa Pascoal está bastante zangado com o rei Henrique, ao ponto de ameaçar excomungá-lo.

 

Ardith queria ouvir mais sobre o rei e o representante enviado pelo papa. Tendo passado seus dezessete anos de vida em Lenvil, ansiava por notícias de acontecimentos para além do feudo. Mas os ruídos de rodas de carroça e de cascos de cavalos encerrou a conversa.

 

— Nosso pai chegou mais cedo do que eu esperava — comentou. — Não há dúvida de que sua perna dói e ele abreviou a inspeção. Você lhe prepararia um vinho quente? Costuma aliviar-lhe a dor.

 

— Como você suporta o ogro velho? — perguntou Bronwyn, colocando um véu de linho azul sobre o cabelo.

 

Ardith deu de ombros.

 

— E a mudança de estação que o está deixando ranzinza. Uma vez que o inverno se firmar e ele der descanso a sua perna, o humor dele melhorara.

 

— Por que ele se incomoda em ir inspecionar os campos se a colheita já foi feita? Céus, por que alguém iria querer olhar para uma vastidão de terras vazias? Você poderia lhe dizer em quais campos plantar na próxima primavera e quais deixar em repouso. — A irmã abriu um súbito Sorriso. — Ah, eu entendo. Nosso pai pensa que toma as decisões, não é?

 

— Não farei com que pense o contrário — avisou-a Ardith.

 

— Como quiser, mas não me deixe a sós com ele por tempo demais. Com certeza, ficará se lamuriando sem parar sobre uma coisa ou outra. — Com um suspiro, Bronwyn deixou o quarto.

 

Sacudindo a cabeça, divertida, Ardith reuniu seu material de costura, pensando em como sua vida era diferente das de suas irmãs. Uma a unia, as garotas haviam saído de casa. Edith entrara para o convento, as outras todas haviam-se casado. Por eliminação, ela acabara se tornando a senhora da propriedade, se não no título, ao menos na prática. Algum dia, Corwin iria se casar e levaria a esposa para Lenvil. Mas, uma vez que nem ele nem Harold pareciam ansiosos por tal evento, a posição dela ali estaria segura por mais algum tempo.

 

Para sempre, esperava Ardith. E para assegurar seu lugar, havia estudado as ervas medicinais de Elva. Sabia quais eram as que curavam uma dor de estômago ou de dente, como misturar poções para dores de cabeça e fazer ungüentos para queimaduras. Era capaz de cauterizar uma ferida e até de fazer as vezes de parteira.

 

Só por aqueles talentos já era evidente que Corwin lhe permitiria continuar vivendo em Lenvil, assim como Harold deixara que a irmã permanecesse perto do feudo. Se Elva não tivesse se tornado extravagante com seus rituais estranhos.., lendo ossos de animais e murmurando rezas pagãs… talvez ele a tivesse deixado morar ali. Mas no dia em que Elva abrira um leitão para ler as entranhas, Harold a banira para uma cabana no vilarejo.

 

Embora Ardith ansiasse por um lar para si mesma, sabia que era apenas um sonho. Pousou a mão em sua barriga, sobre a cicatriz que marcava sua pele e lhe selara o futuro. Elva lhe explicara que, embora o ferimento não tivesse sido profundo o bastante para matá-la, o dano fora grave.

 

Ardith jamais poderia se casar porque não seria capaz de dar herdeiro a homem algum.

 

Soltou um longo suspiro. Por que estava pensando em sua infertilidade agora? Por que deixava que as visitas de Bronwyn, o fato de testemunhar a felicidade de sua irmã, causassem-lhe aquelas ondas de auto piedade?

 

Pôde ouvir o riso agradável de Bronwyn e o som de vozes baixas e masculinas ecoando do salão. Ao seguir pela passagem em arco que dividia os dois cômodos da casa, não viu seu pai, mas Corwin.

 

Seu contentamento dissipou de imediato os pensamentos melancólicos. Sem pensar, vendo apenas o adorado irmão gêmeo, exclamou seu nome e avançou pelo salão. Mal Corwin teve tempo de abrir os braços, e ela enlaçou-o pelo pescoço num abraço apertado.

 

Vários passos além, Gerard observava a recepção efusiva que Ardith dava ao irmão. Reconheceu-a de imediato, embora não a tivesse visto por muitos anos. Não havia como confundir seus belos cabelos ruivos e vividos olhos azuis.

 

Corwin ergueu a irmã e rodou-a no ar. Gerard mal ouvia o riso suave das pessoas ao redor, enquanto observava o abraço caloroso dos gêmeos. Estava se lembrando da única vez em que erguera Ardith em seus braços, em que segurara a adorável menina junto a si e a levara de volta ao leito onde estivera se recuperando de seu ferimento.

 

Ardith desabrochara numa linda jovem.

 

Usava um vestido de lã marrom que lhe delineava os seios bem-feitos e a cintura esguia antes de se ampliar em torno da curva dos quadris.

 

Apenas o seu sorriso já era capaz de alegrar o coração de um homem. O sorriso que dirigia a Corwin iluminava-lhe o rosto inteiro.

 

Ele não pôde evitar uma ponta de inveja. De todas as mulheres que haviam passado por sua vida, desde damas da corte a criadas e camponesas, nenhuma jamais o re-cebera com tamanho contentamento.

 

Corwin pousou-a no chão, e Ardith estreitou os olhos ligeiramente.

 

— Ora, seu gêmeo sem consideração, eu poderia dar-lhe umas palmadas!

 

— O que foi que eu fiz agora?

 

— O que você não fez foi responder minhas cartas! Você não me ensinou a ler e a escrever para podermos trocar mensagens?

 

Corwin abriu um sorriso.

 

— Se bem me lembro, eu lhe ensinei por que um certo alguém me implorou para fazer isso, não confiando na vista cansada do velho padre Hugh.

 

— É verdade, mas você não me disse para eu praticar escrevendo-lhe mensagens, as quais prometeu responder? Pelos céus, como pôde me deixar tão preocupada? — Ela recuou alguns passos e observou-o de alto a baixo. — Você parece estar bem.

 

— Sim, estou — confirmou Corwin. Com uma mesura zombeteira, acrescentou: — E arrependido. Mas deve entender que eu tive pouco tempo para escrever. E, acredite-me, você não iria querer ler sobre a guerra.

 

A inveja de Gerard cresceu quando Ardith passou a mão pelo braço do irmão num gesto reconfortante.

 

— Foi horrível? — perguntou ela.

 

— Sim. Mas estou em casa agora e precisando de comida e bebida. Pode providenciar cerveja para celebrarmos?

 

Ardith hesitou antes de responder, obviamente insatisfeita com a resposta sucinta do irmão e a mudança de assunto. Assentiu, então, abrindo um sorriso.

 

— Claro. Diga-me, por quanto tempo pode ficar?

 

Corwin lançou um olhar a Gerard, que respondeu:

 

— Por apenas uns poucos dias.

 

Ardith ficou atônita, o rubor se espalhando logo por suas faces. Com sua completa atenção concentrada nos cumprimentos ao irmão, não notara as demais pessoas ali. Ele não fizera a viagem desde Wilmont sozinho. Vários soldados do castelo se misturavam aos guardas de Lenvil e à escolta de Bronwyn.

 

E havia a inquietante sensação de que conhecia aquela voz. Fez uma prece, embora fosse em vão, para que a voz possante pertencesse a um cavaleiro desconhecido. Mas apenas um outro homem que conhecesse podia soar de maneira tão semelhante ao barão Everart. Gerard… Recobrando a compostura, virou-se.

 

Seu coração disparou quando seu olhar pousou em Gerard. Não era mais o rapaz que a carregara do salão até seu leito e lhe dirigira palavras de consolo, mas um homem feito. O homem com quem talvez tivesse se casado, não houvesse sido por um golpe cruel do destino. -

 

O jovem leão, como Elva se referira ao herdeiro de Wilmont. A comparação adequara-se a Gerard quando rapaz e continuava perfeita.

 

Os olhos verdes, encimando o nariz aristocrático, ainda eram vividos como as folhas da primavera. Os cílios e as sobrancelhas eram espessos, apenas um tom mais es-curo do que os cabelos loiros de comprimento até os ombros.

 

As mechas onduladas estavam um tanto úmidas e amassadas com a pressão de um elmo usado recentemente. Os traços de seu rosto bonito pareciam ter ficado ainda mais definidos e másculos, desde a fronte altiva até o queixo quadrado, tenaz.

 

Por cima de uma túnica preta simples, usava uma cota de malha. Os ombros largos suportavam facilmente o peso da armadura, a imponente espada mantida ao alcance da mão direita. Tinha uma postura confiante. Sua simples presença emanava uma força que apenas um homem seguro de sua posição e poder possuiria.

 

Devia estar achando divertida a maneira como o estudava, pois seus lábios se curvaram num ligeiro sorriso.

 

— Saudações, Ardith. Se eu tivesse sabido de sua preocupação com Corwin, eu teria lhe ordenado que escrevesse, asseguro-lhe!

 

As palavras despertaram Ardith de seus pensamentos. Pelos céus, estivera encarando Gerard como se fosse uma curiosidade de uma terra distante. Contendo a treme-deira em seus joelhos e mãos, fez uma respeitosa mesura. Fechou os olhos ao baixar a cabeça, esforçando-se para manter o controle sobre suas emoções.

 

Não podia deixá-lo perceber o turbilhão em seu íntimo, nem a dor no coração. Ele jamais deveria saber como suas palavras gentis e seu gesto atencioso haviam-na cativado no passado. Nunca podia revelar como aquela lembrança a acalentava em seus sonhos à noite e preen-chia seus momentos de solidão.

 

— Barão Gerard — saudou-o, sua voz um mero sussurro.

 

Gerard descruzou os braços. Na última vez em que Ardith lhe fizera uma mesura, perdera o equilíbrio e, por alguma razão, ele quis que a situação pudesse se repetir, apenas para segurá-la em seus braços novamente.

 

Daquela vez, no entanto, parecia ter o corpo sob controle.. E os pensamentos também, percebeu, enquanto observava aqueles olhos azuis sustentando os seus. Não havia mais a apreensão, nem o breve brilho de ansiedade que ele vira momentos antes.

 

Estendeu-lhe a mão forte. Viu-a hesitando, mas acabou pousando a pequena mão na sua. Num impulso, levou-a aos lábios, beijando-lhe os dedos de leve. Ardith não se esquivou. Em vez disso, apertou-lhe a mão.

 

Ele devia ter imaginado a apreensão que julgara ter visto naqueles olhos azuis. Por certo, ela não o temia, nem se constrangia com seu toque, pelo que se sentiu imensamente gratificado.

 

— Ainda é travessa, pelo que vejo — comentou, aludindo à lembrança do primeiro encontro.

 

Ardith pareceu surpresa que ele tivesse se lembrado, e, então, corou, um tom suave de rosa tingindo-lhe as faces, como um complemento perfeito aos cabelos ruivos sem véu.

 

— Lamento muito, milorde, por não tê-lo cumprimentado primeiro, como deve ser. E, na ceda, está me achando uma tola por ter chamado a atenção de Corwin na presença de outras pessoas.

 

— Que tal dizermos que você é zelosa? Afinal, creio que Corwin mereça a sua reprimenda.

 

Ela lançou um olhar de culpa na direção do irmão.

 

— Na verdade, milorde, eu sempre soube como Corwin esteve passando. O barão Everart achava importante manter meu pai informado sobre a localização de Corwin e sua saúde. O seu intendente, Walter, manteve o hábito.

 

Gerard assentia em aprovação. Não se esqueceria de elogiar Walter pela eficiência. A expressão dela, então, mudou, e ele continuou observando-a, fascinado, enquanto lhe ouvia a voz suave:

 

— Sei que meu pai falará formalmente em nome de Lenvil, mas, até que o faça, eu lhe ofereço nossas condolências pela morte de seu pai… e de Richard. Pelo que Corwin me disse, você estimava muito a ambos.

 

A genuína compaixão de Ardith tocou-o. Quase julgara aquelas palavras de simpatia como mera formalidade. Afinal, era raro algum de seus amigos e conhecidos de-monstrar verdadeira emoção.

 

— Meus agradecimentos — disse, num tom sincero.

 

— Ardith — lembrou-a Bronwyn —, você prometeu trazer cerveja para os homens.

 

Ela olhou para a irmã, confusa por um instante. Mas tornou a corar em seguida e, enfim, libertou a mão.

 

— É claro. Bronwyn, você poderia providenciar para que o barão se acomode confortavelmente à mesa? Cor-win, venha comigo para carregar a cerveja. Com sua li-cença, milorde?

 

Adiantando-se pelo pequeno pátio até a despensa anexa à cozinha, Ardith franziu o cenho para o irmão.

 

— Você poderia ter me avisado que o barão estava observando.

 

— Para ser franco, eu me esqueci que Gerard estava parado lá.

 

Ela se perguntou como alguém poderia esquecer-se da figura imponente do barão Gerard parada no mesmo recinto.

 

— Você poderia ter escrito da Normandia, para nos contar que estava bem — disse-lhe, enquanto entravam na grande despensa.

 

— Ora, se eu tivesse sofrido um ferimento fatal, você teria sabido.

 

Sozinhos em meio a apenas sacas de grãos e arcas de carne salgada, ela sentiu-se segura para falar sobre o elo que partilhava com o irmão gêmeo. Haviam sido avisados por Elva, quando crianças, para nunca falarem a respeito, a fim de que ninguém os acusasse de feitiçaria.

 

— Você acredita mesmo nisso? A Normandia fica tão distante.

 

Ele pousou a mão em seu ombro.

 

— O que você acha?

 

O irmão soava totalmente convencido daquilo, e ela queria acreditar.

 

— Talvez esteja cedo — disse-lhe e, então, concentrou-se na tarefa em questão: — Acho que a melhor cerveja está naquele canto. E forte o bastante para levar o barril?

 

— Eu poderia jogar você sobre meu ombro e não sentiria o peso — assegurou-lhe ele, erguendo o pequeno barril. — Mas acho que terei que vir buscar mais.

 

— Quantos homens estão na guarda que veio de Wilmont?

 

— Vinte, além de mim e do barão Gerard.

 

Ela fez uma rápida avaliação mental dos suprimentos disponíveis.

 

— Informarei a cozinheira, O jantar porá à prova as habilidades dela. Há pouca carne fresca para preparar.

 

— Os homens não se importarão, desde que a comida esteja quente e seja farta. Talvez você queira enviar alguém ao vilarejo, porém, para ajudar a preparar o jantar e a servi-lo.

 

— Sim, e obter leitos extras para os soldados de Wilmont. O salão ficará apinhado hoje à noite.

 

— Não precisa se preocupar quanto às acomodações para Gerard, ou os demais homens de Wilmont. Já começaram a erguer as tendas.

 

— Tendas? Neste frio?

 

Corwin sorriu.

 

— Esses são soldados de verdade, não convidados frívolos. Venha olhar o campo.

 

Ardith deixou a despensa com o irmão. No campo mais próximo à casa, os soldados de Wilmont erguiam pequenas tendas em torno de uma maior, tingida de escarlate e dourado.

 

— Gerard gosta de sua privacidade — explicou Corwin. — E seria incapaz de pedir a seus homens algo que ele mesmo não estivesse disposto a fazer. Sem dúvida, sua tenda é mais opulenta, mas não deixa de ser uma tenda, de qualquer modo.

 

A tenda escarlate parecia sólida e acolhedora, capaz de bloquear as rigorosas rajadas de vento. Ainda assim, por que Gerard abriria mão do conforto de uma cama? Aliviada, Ardith deu-se conta de que não teria que tentar dormir no mesmo quarto que Gerard. O sono já seria difícil o bastante de conciliar naquela noite.

 

— Bem, isso resolve a questão das acomodações — disse ela. — Agora, tudo o que preciso fazer é arranjar alguém que vá ao vilarejo buscar ajuda para o preparo da comida.

 

Corwin olhou ao redor.

 

— Ah, ali está um rapaz que parece precisar de algo para fazer. Thomas! Aqui!

 

Um garoto de cabelos castanhos atravessou o pátio com passadas rápidas.

 

— Thomas, esta é a minha irmã, Ardith. Tem uma tarefa para você. Seja rápido nisso e talvez ela lhe dê de comer hoje à noite.

 

— Corwin! Que coisa cruel de se dizer! Talvez eu não alimente você hoje.

 

Corwin mudou o barril de ombro e adiantou-se de volta até a casa.

 

— Tenho a cerveja. Isto é tudo o que preciso.

 

Ardith sorriu e tornou a olhar para Thomas bem a tempo de ver a incerteza se dissipando dos olhos dele. Não quanto a ter o que comer, mas à identidade dela.

 

Não podia culpá-lo. Sabia que se parecia mais com uma camponesa do que com uma dama em seu vestido rústico e cabelos sem véu. O que significava que Gerard também devia ter notado…

 

Depois de dar instruções ao rapaz e explicar-lhe onde ficava o vilarejo, ela foi ajudar a cozinheira até que um grupo de mulheres chegou. Quando, enfim, voltou ao in-terior da casa, descobriu que o pai retornara e, para sua consternação, viu Elva sentada no canto escuro perto da tapeçaria.

 

Preocupada, aproximou-se da tia.

 

— Não esperava que você viesse do vilarejo.

 

Os olhos cinzentos e sagazes de Elva percorreram o grande salão e pousaram em Gerard. Apertou os lábios, deixando Ardith apreensiva. A língua de sua tia ficara mais solta e descuidada com a idade. Embora nunca tivesse proferido seu ódio pelos normandos na frente do senhor, feudal de Lenvil, temia que, algum dia, Eva se esquecesse da precaução e dissesse algo que lhe custasse severo castigo.

 

A velha provocou-a:

 

— Está com medo que eu possa despertar a ira de Harold? Não tema, querida. Ele está ocupado demais bajulando o normando para me notar. Vá cuidar de seus afazeres.

 

Ardith lançou um olhar preocupado até o trecho do salão onde o pai fazia um relato de seu dia pelos campos, monopolizando a atenção de Gerard.

 

Bem, talvez não toda a atenção. Vez ou outra, enquanto ela supervisionava a maneira como o jantar era servido, podia sentir Gerard observando-a. Tratou de ignorar os arrepios que lhe percorriam a espinha a cada vez que acontecia de seus olhares se encontrarem, ou o descompasso em seu coração sempre que a voz possante e agra-dável dele lhe chegava aos ouvidos.

 

Depois da refeição, esperou até que Harold tivesse con-vencido Gerard e Corwin a caçarem no dia seguinte antes de perguntar ao irmão onde ele pretendia dormir.

 

— Arranje um leito de mantas de pele para mim no chão do quarto — respondeu. — Já enfrentei frio e umidade o bastante. Gerard pode preferir uma tenda, mas eu não.

 

— O quê? Dormir numa tenda! — exclamou Harold. — Milorde, certamente Ardith deve ter lhe dito que é bem-vindo para usar a cama. Se não o fez, ela negligenciou seus deveres. É o seu direito!

 

Ardith conteve a respiração, temendo que Gerard pudesse concordar quanto a ambos dormirem na cama de estrado do quarto e à sua negligência de deveres.

 

— Não, Harold, fique com sua cama — recusou ele. Então, virou-se e fitou-a nos olhos ao acrescentar: — Estarei bastante confortável… sozinho… em minha cama de mantas de pele.

 

                                                           CAPÍTULO 3

O entusiasmo de Gerard elevou-se com o falcão. A ave predadora voou bem no seu raio de visão, os olhos aguçados examinando a terra abaixo, à procura de quaisquer presas que os cães pudessem ter assustado. Planou, então, contra o céu pálido de meio de tarde.

 

— Outra lebre — disse Gerard, tendo também avis-tado a presa que o falcão pretendia atacar.

 

— Essa ave nunca erra — comentou Harold.

 

O falcão mergulhou no ar, silencioso, certeiro, e atingiu a lebre. Gerard emitiu o assobio que Corwin lhe ensinara pela manhã. O falcão respondeu com um grito de triunfo e voou para a grossa luva de couro no braço estendido dele. Recompensou-o com um pedacinho de carne crua, notando como a apanhou gentilmente de seus dedos. Escolhera aquela ave para a caça seguindo a sugestão de Corwin. Acostumado a treinar falcões, logo pudera avaliar a força e habilidade que demonstrara naquele campo.

 

— Não há nenhuma marca na lebre, exceto numa parte da cabeça, onde as garras se cravaram. Com esta, são quatro abatidas de maneira limpa, milorde — disse o servo que auxiliava na caça, apresentando a lebre para inspeção.

 

— É claro que não está marcada — declarou Corwin. — Glen nunca rasga uma pele e, assim, Ardith pode usá-las para roupas.

 

— Glen? — perguntou Gerard, olhando para a ave.

 

Harold sacudiu a cabeça.

 

— Sim, Ardith colocou-lhe esse nome. É de admirar que o falcão cace, considerando todos os mimos com que aquela jovem o cobre. Eu juraria que esse falcão pousaria no braço dela sem que precisasse chamá-lo.

 

— E costuma fazer isso mesmo — confirmou Corwin para contrariedade do pai. — Ardith o treinou, alimenta-o e nunca usa outra ave quando caça.

 

— Transformou um falcão num rude animal de estimação — reclamou Harold.

 

Gerard resguardou sua reação, surpreso e com um -estranho senso de orgulho em saber que fora ela que treinara a ave. Conhecia damas que gostavam de assistir aos vôos dos falcões, mas nenhuma que tivesse se interessado em treinar algum.

 

— Se Ardith gosta de caçar, por que não se reuniu a nós?

 

— Ela disse que queria terminar de costurar um vestido que Bronwyn deseja usar na corte.

 

— Já era tempo de aquela menina arranjar algo com que se ocupar. Sabe-se que ela tem bem poucas tarefas pela casa — resmungou Harold.

 

Corwin virou-se para ocultar uma expressão aborrecida. Gerard conseguiu manter um ar indiferente. Notara, na tarde anterior e durante a ceia, a eficiência das pessoas de Lenvil. O pulso gentil mas firme de Ardith guiara os criados da casa.

 

Bronwyn, elegantemente trajada, fizera as vezes de anfitriã. Mas Ardith, em seu vestido de lã rústica, assegurara que uma mesa farta fosse servida, instruíra um garoto para alimentar o fogo com a lenha, mantivera vinho e cerveja de prontidão e perguntara a John, capitão dos guardas de Wilmont, se eles iriam precisar de cobertas extras.

 

Ele também notara um lado independente na natureza dela. Ignorara por completo aquele seu convite de partilhar de suas peles na tenda. Talvez Ardith tivesse entendido mal, mas achava que não.

 

— A despeito da preferência por sua dona, o falcão voou bem para mim neste dia. — Tomou o cuidado de manter seus elogios brandos. Se enaltecesse demais as habilidades da ave, Harold se sentiria no dever de oferecer-lhe Glen de presente. Não queria o falcão.

 

Queria a dona dele…

 

Harold mexeu-se, inquieto, na sela do cavalo. Gerard concluiu que a perna do homem devia estar doendo, tendo notado que mancara no dia anterior. Mas a dignidade não lhe permitiria queixar-se na presença do suserano.

 

— Sugiro que retornemos à casa — declarou Gerard, encerrando a caçada. O grupo abatera várias lebres e alguns faisões e perdizes. Ele presumiu que as saídas de Harold para caçar fossem breves e escassas. Então, quem caçava carne fresca? Ardith? Talvez. Não duvidava que a bela jovem fosse capaz, não depois de ter treinado com tanta destreza um falcão magnífico como Glen.

 

— Devo levá-lo, milorde? — ofereceu-se o servo.

 

Gerard olhou para a ave confortavelmente acomodada em seu braço, ajeitando as penas.

 

— Não, ele está contente e não é pesado. Eu o carregarei.

 

— Como desejar, milorde. — O criado pareceu surpreso, mas apressou-se para apanhar o falcão de Harold e o de Corwin.

 

— Está contente em cavalgar comigo, Glen? — per-guntou Gerard num sussurro. Soltou, então, um riso baixo e virou o cavalo na direção da casa.

 

Minutos depois, olhou ao redor à procura de Corwin, que estivera cavalgando a seu lado. Por alguma razão, ele diminuíra o passo do cavalo, estudando um arvoredo à direita.

 

— Meu filho está se lembrando de seu triunfo — declarou Harold, orgulhoso. Elevou a voz na direção dele.- Eu me orgulhei muito de você na época, Corwin. Nunca tivemos refeição melhor do que o javali que você abateu. E você sendo tão jovem e ainda mal começando a aprender a usar uma espada.

 

Corwin voltou a emparelhar o cavalo com o de Gerard.

 

— Matar o javali não foi grande façanha, pai. Era matar ou morrer.

 

Dirigindo-se a Gerard, Harold protestou:

 

— O rapaz está sendo modesto. Foi um grande acontecimento. Aliás, deve estar lembrado do que banquete que fizemos na ocasião, milorde. O barão Everart trouxe você e Richard para nos ajudar a celebrar a bravura de Corwin.

 

— Foi Stephen que veio, pai, não Richard.

 

— Tem certeza? Parece que me lembro de…

 

— Absoluta. Richard estava doente e não pôde vir.

 

Harold olhou para o horizonte por um longo momento e, então, assentiu:

 

— Sim, foi Stephen. Bem, não importa. Foi uma grande festa para honrar a coragem de Corwin.

 

Gerard lembrava-se da ocasião. Estivera sentado entre Bronwyn e Edith, assentindo com a interminável tagarelice da primeira e se perguntando se a outra iria ter-minar logo sua prece para que todos pudessem comer. Em seu tédio, seu olhar correra pelo salão, pousando, enfim, numa cabeça espiando por detrás da tapeçaria a um canto.

 

Depois da refeição, atravessara o salão amplo para investigar e encontrara Ardith encolhida no canto. A descoberta fora o único momento alegre daquele dia fastidioso.

 

— Harold tem razão, Corwin. Você salvou não apenas a sua vida, mas a de Ardith também. Foi uma façanha digna de orgulho — comentou.

 

Notou a expressão sombria passando pelo rosto do rapaz, mas, antes que pudesse perguntar-lhe a respeito, Corwin avançou e apanhou o saco com a caça do carregador.

 

— Se vamos celebrar com esta carne hoje à noite, é melhor eu me apressar até a casa — disse e cavalgou depressa na frente, distanciando-se do grupo.

 

Da porta da cozinha, Ardith avistou Corwin desmontando e olhou para mais além, esperando ver o restante do grupo de caça. Gerard ainda não retornara. Tentou reprimir seu desapontamento, mas foi em vão.

 

Sempre soubera que, algum dia, tornaria a vê-lo. Não soubera, porém, quanto o reencontro seria doloroso para si mesma.

 

Na noite anterior, acordada em sua cama de peles, relembrara o primeiro encontro de ambos, cinco anos antes. Sentira mais uma vez a terna preocupação dele com o seu ferimento, tornara a ouvir aquelas palavras gentis que lhe dissera no intuito de tranqüilizá-la. Mas a lembrança mais marcante da ocasião fora a do momento em que Gerard a erguera em seus braços fortes e a carregara do canto do salão para o quarto.

 

Antes de ter conseguido, finalmente, adormecer durante a madrugada anterior, tentara se convencer de que estava apenas dando demasiada importância a um devaneio de menina. Mas, então, acabara sonhando, com o homem que Gerard se tornara. Em seu sonho, vira-o num dos bosques, os braços estendidos para ela, chamando-a para si. Tentara correr para ele, mas não importando a rapidez com que avançasse, não pudera alcança-lo.

 

Forçada a admitir seu antigo encantamento por ele e assustada com a intensidade de suas atuais reações, resolvera manter o máximo de distanciamento possível do homem. Mais tarde, depois que Gerard partisse de Lenvil, lamentaria apenas mais uma vez o castigo imposto pelo ferimento em seu ventre. Em seguida, trataria de enterrar de uma vez por todas o sonho impossível de um marido e filhos.

 

O irmão aproximou-se, entregando-lhe o saco com a caça. De tão pesado, ela quase o derrubou.

 

— Uma caça farta! — admirou-se, examinando o conteúdo. — Quem abateu as lebres?

 

— Gerard e Glen.

 

— O falcão voou bem para ele, então?

 

— Bastante.

 

Pelas respostas curtas, Ardith sabia que havia algo incomodando seu irmão. As palavras seguintes confirmando-lhe a suspeita:

 

— Eu… poderia conversar com você em particular?

 

Ardith entregou o saco da caça à cozinheira e voltou o pátio, sugerindo-lhe que fossem até o salão. Encontrando-o vazio, sentaram-se na grande mesa, onde poderiam conversar em privacidade.

 

Corwin hesitou, fitando-a com seus intensos olhos azuis. Enfim, desviou-os, como se tivesse captado os pensamentos mais íntimos dela, e prolongou seu silêncio.

 

— Corwin?

 

Ele se inclinou para a frente, os braços cruzados sobre a mesa.

 

— Diga-me, você é feliz aqui em Lenvil?

 

A pergunta foi tão inesperada que fez Ardith levar um momento para responder:

 

— Estou contente — disse, mantendo-se o mais próxima da verdade. — Tenho tarefas para me manter ocupada, pessoas com quem conversar. Meu falcão. Minha égua.

 

Corwin adquiriu um tom sarcástico:

 

— E nosso pai. Ele acredita que você desperdiça os seus dias não fazendo nada. Só se você se ausentasse por algum motivo é que ele se daria conta de quem realmente cuida da propriedade. Pensa que nossa mãe treinou tão bem os criados que eles simplesmente continuaram realizando suas tarefas depois da morte dela. Pelos céus, ele…

 

— Por favor, pare — pediu Ardith, pousando a mão no braço do irmão. — Nosso pai continua sendo como sempre foi. Ele nunca deu o menor valor às suas filhas. Julga-nos todas tolas e inúteis. Nunca gostou de nós. Observe, hoje à noite, como trata Bronwyn. Sabia que nosso pai não lhe dirigiu uma palavra gentil sequer desde que ela chegou para nos visitar?

 

— Bronwyn tem um lar próprio ao qual retornar, um marido que a trata como uma princesa. Mas você se vê obrigada a ficar aqui e a suportar o modo como ele a trata.

 

— É bondade sua pensar nos meus sentimentos. Mas se quer saber, eu aprendi há muito tempo a ignorar a atitude hostil de nosso pai. Quanto mais áspero e ranzinza ele se torna com o avanço da idade, mais eu fecho meus ouvidos.

 

— Não foi apenas nosso pai que sempre ignorou você, mas nossa mãe também, até o dia em que morreu. Então, ele deixou você aos cuidados de Elva, especialmente depois de…

 

Corwin respirou fundo e fechou os olhos.

 

Surpresa em vê-lo tão zangado, ela perguntou:

 

— O que aconteceu para aborrecer você dessa maneira?

 

— Nosso pai reclamou de você a Gerard. E, quando passamos pelo arvoredo onde você foi… ferida, ele começou novamente. Nem por uma vez sequer disse que quase perdeu uma filha naquele dia. Apenas ficou se vangloriando de como o filho arranjara carne para um banquete. Então, Gerard mencionou que eu devia sentir orgulho por… ter salvo você.

 

— Bem, deve mesmo. Se você não tivesse matado o javali, talvez ele tivesse me atacado outra vez. Eu poderia ter morrido.

 

— Se eu tivesse protegido você como deveria, não teria sido ferida. E se não tivesse sofrido aquele ferimento, talvez você já tivesse se casado e escapado do desprezo do nosso pai.

 

A expressão de dor no rosto de Corwin e as palavras amarguradas deixaram Ardith com o coração apertado. Jamais imaginara a terrível culpa que seu irmão carregava, e sabia que, se tentasse abrandá-la agora, ele não lhe daria ouvidos.

 

Harold não demoraria a chegar. E se visse o filho tão aborrecido, certamente a responsabilizaria.

 

De qualquer modo, se seu irmão recusava consolo quanto aos eventos do passado, talvez pudesse, ao menos. tranqüilizá-lo em relação ao presente e futuro.

 

— O passado é passado e não pode ser mudado, não importando quem queira se declarar culpado por isto ou aquilo O que interessa é o dia de hoje e os amanhãs que estão por vir. Estou contente. Tenho um teto sobre a cabeça e comida no prato. Algum dia, nosso pai não será mais o senhor de Lenvil. Você será. Então, você decidirá o meu lugar na casa, julgará se ainda poderei ficar.

 

Corwin pareceu horrorizado.

 

— Eu jamais mandarei você embora daqui. Sempre terá um lugar em Lenvil.

 

Ardith sorriu.

 

— Então, não tenho tristezas — mentiu. Havia uma razão para tristeza… o fato de que jamais poderia ter Gerard.

 

— Eu gostaria… — começou Corwin, mas interrompeu-se.

 

Ardith pôde ouvir o grupo de caça retornando, encerrando sua tentativa de exorcizar os demônios do irmão.

 

— Você me faria o favor de manter Gerard fora da casa por enquanto?

 

— Por quê?

 

— Tenho compressas quentes preparadas para amenizar a dor na perna de nosso pai. Se não as usar, vai esbravejar com todo mundo pelo resto do dia, mas as recusará se Gerard estiver por perto.

 

— Como sabe que está com dor na perna?

 

— Sempre dói depois que ele anda a cavalo.

 

Corwin assentiu, e ambos levantaram-se da mesa. Enquanto Ardith se adiantava pelo salão, algo chamou-lhe a atenção de imediato. O pequeno Kirk, ainda aprendendo andar, estendeu a mão na direção das pedras que circundavam o fogo no centro do salão. Com as saias e a trança esvoaçando, ela correu na direção do garotinho de dois anos e alcançou-o no instante em que pousou a mão numa pedra quente.

 

O menino soltou um grito. Ardith inclinou-se, erguendo-o em seus braços, alheia a tudo mais exceto a raiva que a dominou. Examinou rapidamente a mão da criança, vendo que queimara de leve a ponta dos dedos e olhou ao redor à procura de Belinda, a mãe de Kirk, que não se achava por ali.

 

— Belinda! — gritou.

 

— Pare com esse berreiro, garota — ordenou-lhe Harold, entrando na casa, Gerard seguindo-o. — O que a aborrece desta vez?

 

— Kirk queimou a mão porque Belinda o deixou sozinho outra vez — queixou-se Ardith. — Eu juro que a esganarei quando a encontrar! Se não quer olhar o próprio filho, devia pedir a alguém que o fizesse.

 

Com gentileza, enxugou as lágrimas que rolavam, co-piosas, pelas faces do menino.

 

— Que perda de tempo ficar se preocupando com o rebento de uma prostituta — murmurou Harold.

 

As palavras do pai não surpreenderam Ardith, mas seu gesto seguinte deixou-a boquiaberta. Harold pegou a pequena mão do menino, examinando-lhe os dedos.

 

— Aposto que, com isto, o fedelho aprendeu a ter cuidado com o fogo. — Harold soltou-lhe a mão e afastou-se mancando na direção da mesa.

 

Ele jamais demonstrara o menor interesse por nenhuma criança do feudo, exceto uma… seu filho, Corwin. Uma idéia absurda ocorreu a Ardith, mas não pôde afastá-la. Viu-se estudando o rosto do pequeno Kirk à procura de alguma semelhança com Harold. Mas o menino puxara à mãe e não tinha nenhum traço marcante que desse indício de quem era o pai.

 

Ardith soltou uma exclamação de surpresa quando um jorro de água morna atingiu-lhe as costas, encharcando-lhe o vestido e os cabelos. Virando-se, viu o irmão colo-cando um balde de madeira no chão.

 

— Pelos céus, Corwin! Perdeu o juízo?

 

— Preferiria que eu tivesse deixado você queimar?

 

Ela sentiu o cabelo sendo puxado de leve. Gerard estendeu-lhe a ponta da trança para que a visse. Estava chamuscada abaixo da tira de couro que a prendia.

 

A expressão dele estava pensativa enquanto tocava a trança ruiva e sedosa.

 

— O seu cabelo deve ter encostado nas chamas quando se agachou para erguer a criança.

 

— Oh… — foi tudo o que ela conseguiu murmurar, observando-lhe a grande mão tocando a ponta chamuscada de sua trança. Se o conhecesse melhor, talvez entendesse a expressão estranha que viu passando rapidamente por seu rosto másculo.

 

Gerard estendeu os braços para segurar a criança e começou a esbravejar ordens:

 

— Corwin, encontre a mãe do menino. Ardith, vá trocar o vestido antes que fique doente. Bronwyn, ajude-a.

 

— Eu a ajudarei — anunciou Elva.

 

Ardith não notara a irmã e a tia entrando no salão. Aliás, não lhes prestou muita atenção no momento, pois observava como Gerard lidava facilmente com o garotinho, sentando-o em seus ombros musculosos. Nem sequer pareceu se importar quando Kirk agarrou-lhe mechas dos cabelos loiros para se segurar.

 

Ele lançou um olhar frio a Elva.

 

— Você não é a mulher que cuida das ervas e poções de Lenvil?

 

O olhar com que a velha retribuiu foi ainda mais glacial.

 

— Sou, milorde.

 

— Então, vá cumprir seus deveres. Harold precisa de cuidados.

 

Antes que a tia pudesse retrucar, Ardith interveio:

 

— Há compressas quentes no caldeirão — disse-lhe e, então, virou-se para Gerard: — Meu pai recusará o tratamento se você permanecer no salão.

 

— Ele observou-a por um longo momento antes de assentir:

 

— O menino e eu estaremos em minha tenda até que a mãe seja encontrada.

 

Depois que Gerard se retirou, Corwin comentou num tom baixo:

 

— Ele sente falta de Daymon.

 

— De quem?

 

— O filho de Gerard é cerca de um ano mais velho que Kirk.

 

Ardith sentiu uma súbita opressão no peito.

 

— Eu não sabia que Gerard havia se casado.

 

— Não se casou. Daymon é ilegítimo, mas ninguém adivinharia a julgar pela maneira afetuosa como trata o menino. — Corwin soltou um suspiro. — É melhor eu encontrar Belinda. Se Gerard gostou de Kirk, receio que ela vai receber uma reprimenda pior do que a que você iria lhe dar.

 

Gelada até os ossos, Ardith rumou para o quarto, seguida pela irmã.

 

Bronwyn aparou-lhe rapidamente a ponta da trança, que lhe terminava na altura da cintura.

 

— O seu vestido também está chamuscado e ficou ar-ruinado. É um milagre que você não tenha se queimado.

 

— Bem, já que meu cabelo está molhado, vou aproveitar para lavá-lo.

 

— Vai acabar apanhando uma friagem! — protestou Bronwyn.

 

— Eu tenho que secá-lo perto do fogo, de qualquer maneira.

 

Bronwyn foi buscar um balde de água quente e um pedaço de sabão com aroma de rosas. Ajudou-a a lavar os longos cabelos ruivos, enrolando-lhe, enfim, a cabeça num pedaço de linho.

 

Ardith colocou um vestido de lã amarela que a irmã pusera sobre a cama. Munidas de pentes de ossos, procuraram o calor do fogo no centro do salão e começaram a desembaraçar sua farta cabeleira ruiva.

 

Ardith esperava que Gerard fizesse Belinda realmente temer por ter negligenciado Kirk. De qualquer modo, ela também planejava falar com a prostituta depois do jantar.

 

Precisava fazê-la entender que não devia ignorar o filho daquela maneira. Nem queria pensar na tragédia que podia ter acontecido se não tivesse afastado o menino do fogo a tempo.

 

Também havia uma pergunta importante que precisava fazer a Belinda. Ela nunca dissera quem era o pai de Kirk. Se sua suspeita estivesse correta, se o menino fosse realmente seu meio irmão, Belinda jamais teria que se preocupar com o filho outra vez.

 

Perguntou-se se Harold objetaria aos planos se formando em sua mente. Será que ele reconheceria um filho bastardo? Ela poderia citar Gerard como exemplo.., e o barão Everart. Também podia elogiar o reconhecimento que o próprio rei dera a seus filhos bastardos. Segundo Bronwyn, pelas contas mais recentes, o rei tinha dez filhos, sendo que apenas dois eram legítimos.

 

Será que Belinda protestaria? Iria se recusar a entregar o filho a seus cuidados? Não, duvidava muito. Não ter que cuidar do filho iria deixá-la livre para fazer o que bem lhe aprouvesse.

 

A prostituta certamente tinha o seu lugar assegurado no feudo, evitando que os poucos guardas de Harold fossem molestar as donzelas do vilarejo. Mas havia ocasiões em que o caminho que Belinda escolhera enfurecia Ardith.

 

Como naquele momento, enquanto se perguntava se encontro na tenda resultaria em Belinda oferecendo seu corpo a Gerard… e ele aceitando. Talvez naquele noite, o barão tivesse companhia em sua tenda, em sua cama quente de mantas de pele.

 

                                                  CAPÍTULO 4

O fogo do cozimento já se extinguira até o ponto de brasa, provendo apenas uma tê-nue luminosidade quando Ardith confrontou Belinda na cozinha.

 

— Cuidarei melhor de Kirk, milady — prometeu a prostituta.

 

Ardith não duvidava que ela o fizesse, ao menos enquanto Gerard permanecesse em Lenvil. Segundo Corwin, ele ameaçara mandar Belinda para o posto usado por soldados para a prática de exercícios de guerra, caso algum mal acontecesse a Kirk.

 

A ameaça a assustara. Ficara a noite inteira junto ao filho, como se estivesse grudada ao menino. Mesmo agora, ele dormia no colo da mãe, envolto por seu manto.

 

— Acredito que sim — declarou Ardith. — Minha preocupação com Kirk, porém, vai além de sua segurança. É possível que o meu pai também seja o dele?

 

— Não, milady.

 

Desapontada, Ardith persistiu:

 

— Tem certeza? Sabe quem é o pai de Kirk?

 

— Tenho certeza absoluta que não é lorde Harold. Enquanto um homem envelhece, certas partes de seu corpo… enfraquecem. O pobre Harold teria que se esforçar muito para conseguir fecundar uma mulher.

 

— Oh?! — Ardith tinha uma expressão chocada.

 

— Sim, os dias dele de gerar crianças já estão encer-rados. Sabe, milady, para que a semente frutifique, um homem tem que plantá-la bem dentro de uma mulher. Harold não tem mais o vigor necessário para isso.

 

— Entendo.

 

— Agora, se for um homem jovem e forte como o barão… Deite mulheres o bastante sob ele e poderia formar o seu próprio exército de rebentos. Oh, o homem teria todo o vigor necessário, sem dúvida!

 

Pelos céus!, pensava Ardith, escandalizada. Como Belinda podia se referir com tanta naturalidade a partes privadas de um homem e ao ato que levava a concepção? E estivera falando sobre as particularidades de seu pai… e de Gerard

 

Ardith sabia como acontecia a união carnal entre homens e mulheres. Bastaria passar casualmente pelo salão na calada da noite para ver guardas e criadas entrelaçados nos colchões estreitos de palha espalhados pelo chão.

 

Tais cenas e sons haviam deixado sua irmã Edith tão horrorizada que rumara para um convento. Mas não chocara tanto suas demais irmãs, que tinham sabido que se casariam e haviam se resignado a servir os maridos. Embora Bronwyn nunca tivesse comentado nada a respeito, Ardith suspeitava que a irmã apreciava a experiência com Kester.

 

Da única vez em que Ardith ousara abordar o assunto, enquanto estivera aprendendo o ofício de parteira, Elva havia menosprezado o ato como um inútil desperdício de energia.

 

— São os homens que não conseguem resistir às tentações da carne — declarara a tia secamente. — Medem seu valor de acordo com sua virilidade. Uma mulher precisa apenas ficar deitada quieta e esperar que ele seja rápido. Considere-se com sorte por nunca ter que ser obrigada a suportar as exigências de um homem.

 

Ardith quisera perguntar se Elva sabia daquilo por experiência própria, mas não tivera coragem. Achava que não, porque a tia nunca se casara. Tampouco pudera acreditar totalmente nas palavras dela. Por vezes, vira criadas exibindo sorrisos radiantes pela manhã depois de terem partilhado a cama de um homem, Belinda, por certo, não demonstrava nenhum sinal de sofrimento com as exigências masculinas.

 

Teria se deitado com Gerard? Seria por tal razão que sabia quanto era viril? Não, não se deitara. Ela usara um tom esperançoso, como se desejasse, mas ainda não tivesse partilhado das mantas de pele dele.

 

Constrangida, mas fascinada, perguntou-lhe:

 

— Como pede julgar o… vigor do barão Gerard, ou de qualquer homem… sem ter…

 

Perdeu sua coragem, mas Belinda entendeu.

 

— Ora, basta olhar para ele, milady. Aquele homem irradia virilidade com seu simples porte, com seu olhar. Não tenho dúvida de que seja dotado como um garanhão. Quer que eu descreva como o barão é ou como se comporta na cama, caso ele…

 

— Não! — Ardith respirou fundo e recobrou a compostura. — Entenda que meu interesse não é pessoal. Meus deveres como futura parteira de Lenvil me impelem a perguntar. Só quero entender exatamente como as coi-sas acontecem.

 

— É claro, milady.

 

Ela soube pelo tom risonho na voz de Belinda que não conseguira convencê-la.

 

Gerard afastou seu cálice vazio.

 

O salão estava quieto, exceto pelo crepitar baixo do fogo e algum ronco ocasional. Exausto, Corwin adorme-cera num banco comprido de madeira. Harold dormia debruçado sobre a mesa. Guardas e criados haviam se acomodado nos colchões estreitos de palha distribuídos pelo chão.

 

Notava uma falta de disciplina entre a guarda de Lenvil que achava inquietante. A vigilância era das mais ineficientes. Tivera que acordar vários homens de Lenvil para a ronda noturna. Haviam resmungando, esperando que os soldados de Wilmont assumissem a incumbência. De fato, John, o capitão da sua guarda, tivera a iniciativa de acampar seus homens em pontos estratégicos, designando quantos guardas achara necessário, já que não havia paliçadas em torno da propriedade. Comentara que se sentia desprotegido naquele lugar e que até os homens da escolta de lady Bronwyn haviam lhe pedido para designá-los para algum serviço. Contara-lhe que se achavam ali havia uma quinzena é, como soldados cientes de seu dever, andavam inquietos com a vulnerabilidade do feudo.

 

Gerard franziu o cenho. Não havia dúvida de que a guarda de Lenvil ficara relapsa. Não praticavam regu-larmente o uso de suas armas, não tinham esportes ou trabalho pesado para desenvolver músculos e força. Se um inimigo atacasse, temia que o feudo fosse facilmente dominado antes que um cavaleiro pudesse chegar a Wil-mont em busca de ajuda. Lenvil estava vulnerável demais. No dia seguinte, conversaria mais com John em particular para avaliarem a gravidade do problema. Pediria a ele que organizasse algum esporte para testar a força e a forma física de cada um.

 

De qualquer modo, era inevitável sentir sua raiva crescendo. Estava furioso com Harold por ter permitido que sua guarda ficasse negligente, de si mesmo por não ter percebido a situação assim que chegara. Como suserano, a responsabilidade final pela defesa de Lenvil estava em seus ombros.

 

O simples fato de que algum de seus feudos pudesse estar vulnerável enfurecia-o, especialmente o de Lenvil.

 

Encontrara tranqüilidade ali.

 

A guerra na Normandia fora longa e dura, a morte de seu pai, um amargo golpe. A ira em relação a Basil consumia-o. A frustração com a ordem do rei Henrique para lidar com Basil apenas na corte ia contra a sua natureza de guerreiro.

 

Em Lenvil, encontrara um santuário.

 

Na passagem em arco que separava os dois cômodos da casa, avistou um lampejo de amarelo. Por que Ardith estaria acordada e andando pela casa àquela hora? Certamente, não para lhe falar. Percebera que estava fazendo questão de evitá-lo.

 

Mesmo agora, manteve-se escondida nas sombras do arco. Ele conteve um suspiro. Aquela insistência em evitar sua companhia era exasperante… e representava um desafio. De muitas maneiras, ela era a razão de se sentir contente em Lenvil. Sim, e era por sua causa também que, às vezes, sentia-se um intruso, um pária.

 

Não conseguia mais tirá-la dos pensamentos.

 

Depois do sermão que dera a Belinda sobre os cuidados que deveria ter com o filho, retornara à casa e vira Ardith perto do fogo, os cabelos cascateando-lhe pelas costas. Enquanto os sacudira para secá-los e os penteara, o fogo reluzira nas mechas ruivas, iluminando-as.

 

Havia trocado o vestido por um de lã amarela que lhe moldara a parte de cima do corpo, alargando-se, então, no início da saia comprida. Ele quase perdera o fôlego quando a vira arqueando as costas na direção do fogo, fechando os olhos, os braços erguidos para correr os dedos pelos longos cabelos.

 

A posição sensual alastrara-lhe o desejo. Fizera-o ansiar por vencer a distância entre ambos e estreitá-la junto a si. A simples idéia de erguer-lhe as saias e possuí-la ali mesmo quase o enlouquecera. Fora-lhe necessário um esforço sobre-humano para se conter.

 

De repente, Ardith abrira os olhos e vira-o parado junto à porta. Anunciando que o cabelo secara, retirara-se depressa para o quarto. Voltara pouco tempo depois, os cabelos presos numa trança e com véu, mas mantivera-se o mais distante possível dele, enquanto completara suas tarefas.

 

Por outro lado, agora o espiava, escondida sob o arco, recusando-se a entrar no salão enquanto o visse ali. Sua paciência esgotou-se.

 

— Ardith, saia daí — disse, brusco.

 

Lentamente, ela deixou as sombras da passagem em arco. Não usava mais o véu, a longa trança repousando sobre o peito.

 

— Bem, o que a fez sair da cama a esta hora? — perguntou Gerard, notando-lhe a hesitação em se aproximar.

 

— Vim buscar meu pai. Devia estar deitado na própria cama.

 

Oh, sim, a filha zelosa, preocupada com o bem-estar de Harold, do pai que falava dela apenas para reclamar, que notava a existência da filha somente quando precisava que lhe fizesse algo. Tamanha lealdade era admirável, mas no momento só serviu para deixá-lo ainda mais irritado.

 

— Foi o próprio descuido que o fez embriagar-se a ponto de acabar adormecendo debruçado sobre a mesa. Deixe-o dormir onde está.

 

Ela ergueu o queixo, desafiadora.

 

— É sua a culpa pela embriaguez dele, milorde. Meu pai não podia sair até que você desse a noite por encerrada e se recolhesse à sua tenda.

 

Uma acusação válida, mas Gerard preferiu ignorá-la. Ardith o chamara de “milorde” com um toque de censura na voz. Como soaria o seu nome nos lábios dela, naquela voz doce que ecoava melodiosamente quando sorria; ou melhor, num sussurro ofegante proferido no auge da paixão?

 

Lançou um olhar para Harold. Estava embriagado demais para despertar facilmente. Se a filha insistia que o pai devia dormir na cama, então o velho teria que ser carregado.

 

Gerard levantou-se, depressa demais. Fazia-se vinho forte em Lenvil. Esperou que a ligeira tontura passasse para ordenar:

 

— Segure-o pelos pés.

 

Enquanto Ardith se aproximava, cortando caminho pelos colchões de palha, ele ergueu Harold com firmeza por debaixo dos braços. Virou-o na cadeira, para que ela pu-desse segurá-lo pelas pernas.

 

Um tanto cambaleantes, ambos seguiram na direção do quarto, ela ofegante com o peso e Gerard lutando contra os efeitos da bebida aliados a onda renovada de desejo.

 

Depois que largaram o velho adormecido na cama, ele sentou-se na beirada com um suspiro e olhou ao redor. O quarto não mudara muito ao longo dos anos. A cama de estrado de Harold dominava o aposento. Um braseiro amenizava frio. Três colchões de palha distribuíam-se pelo chão. Bronwyn dormia em um, coberta por mantas de peles. Os outros dois ainda estavam desocupados, um destinado a Corwin e o outro a Ardith.

 

Ela retirou as botas do pai, colocando-as perto do braseiro. Tornou a se aproximar da cama.

 

— Milorde, se fizer a gentileza de se levantar por um momento, eu gostaria de ajeitar as cobertas sobre meu pai.

 

Gerard permaneceu no lugar, estendendo o braço para apanhar-lhe a pequena mão.

 

— Você não gosta de mim? Sou-lhe tão repulsivo que precisa manter distância?

 

— Não se trata disso, milorde. Não quis ofendê-lo. Mas tenho tarefas a fazer e… você veio visitar meu pai, e é Bronwyn que tem habilidade nas maneiras da corte, que sabe conversar e..,

 

— Você não sabe mentir.

 

Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Gerard franziu o cenho e se levantou, devagar daquela vez. Precisava sair para o ar frio da noite e dissipar o efeito do vinho.

 

Ainda segurando-lhe a pequena mão, sentiu o ligeiro tremor que a percorreu. Com a outra mão, tocou-lhe o queixo delicado, erguendo-lhe o rosto para que sustentasse seu olhar.

 

— Diga meu nome.

 

Ela hesitou, mas, então, fez soar sua voz melodiosa:

 

— Gerard.

 

Ele deslizou a mão pela pele alva e acetinada, afagando-lhe a face.

 

Harold mexeu-se na cama.

 

— Ardith, traga-me uma caneca de água.

 

Ela recuou um passo.

 

Gerard precisou de um tremendo esforço para não agir como um tirano e ordenar a Harold que fosse buscar sua maldita água e, então, carregar Ardith para a privacidade de sua tenda.

 

— Até amanhã — disse-lhe e deixou o quarto.

 

 

— Será que os homens perderam o juízo?! — exclamou Ardith.

 

— Não, o que estão fazendo é um jogo — explicou Bronwyn, dando um tapinha na relva congelada a seu lado no alto da pequena colina. — Sente-se aqui e observe. Estamos seguras a esta distância.

 

— Quando Corwin me disse que os homens se ocuparam com um esporte hoje, achei que iriam correr ou lutar. Nunca imaginei essa… confusão.

 

— Nunca viu um jogo de bola?

 

Ardith sacudiu a cabeça e, então, observou, horrorizada, enquanto um homem jogava uma esfera de couro para o que presumiu ser um colega de time no descampado abaixo. Com a bola na mão, o homem desapareceu sob um amontoado compacto de oponentes.

 

— Vão matar uns aos outros.

 

— Oh, talvez você tenha que estancar um ou outro sangramento e pôr uns poucos ossos no lugar, mas duvido que alguém saia seriamente machucado!

 

— E quando o esporte termina?

 

— Quando o time com a bola transpõe o gol, neste caso o final do campo. O time do barão Gerard parece estar quase vencendo.

 

Embora o dia estivesse frio, alguns homens jogavam sem camisa, entre os quais Corwin e Gerard. Pelo que Ardith podia observar, até então ambos haviam escapado de ferimentos. Outros não haviam tido tanta sorte. Sangue escorria do nariz de alguns e de arranhões nos braços e peito. Tentava avaliar a extensão dos machucados, mas seu olhar teimava em acompanhar Gerard.

 

Quando não estava enterrado debaixo de uma pilha de homens, era fácil de avistar. Era mais alto do que os demais, seus cabelos loiros como um raio de sol brilhante que cortasse o dia cinzento.

 

O peito era largo e musculoso, como que esculpido em mármore. As coxas fortes se comprimiam contra o tecido da calça justa com seus movimentos. Botas pretas de couro moldavam-lhe os tornozelos. Movia-se com elegância e agilidade. Como um imenso felino, pensou. O jovem leão.

 

Agora, ele corria com a bola, derrubando os oponentes com seus ombros sólidos. Contagiada pelo entusiasmo em observar a demonstração de pura força, Ardith queria gritar seu nome para incentivá-lo a prosseguir.

 

Os adversários de Gerard continuaram se levantando e atacando até que, finalmente, ele sucumbiu. Foram necessários quatro homens para derrubá-lo.

 

Ardith sentiu um nó no estômago ao vê-lo reaparecendo. Um clamor ecoou pela pequena multidão. Se era pela coragem de Gerard, ou se pelo fato de ter conseguido arremessar a bola para Corwin, ela não soube dizer.

 

Examinou o campo. Quando, enfim, viu Gerard se levantando, soltou um suspiro trêmulo e se pôs de pé.

 

— É um jogo brutal! — reclamou à irmã. — Vou voltar casa para preparar bandagens. Aposto que não terei tempo nem sequer de aquecer a água antes que eles arrastem o primeiro dos feridos até lá.

 

Sua previsão acabou se concretizando. Não demorou para que os feridos se enfileirassem à espera de cuidados. Enquanto limpava arranhões e colocava preparados de ervas em cortes, notou que os guardas de Lenvil tinham sido os que mais haviam se machucado. Quase todos voltaram exaustos e com ferimentos. Pela conversa deles, sabia que os times tinham sido divididos em igualdade, com homens das três guardas de cada lado. Os soldados de Lenvil tinham sucumbido rápido e facilmente, deixando que os de Wilmont e os da escolta de Bronwyn dominassem o jogo.

 

Olhando em torno do saião, à procura do próximo a precisar de bandagens, viu Thomas surgindo à porta. Fez-lhe um gesto, chamando-a. Ele parecia bem, tendo sofrido apenas arranhões leves.

 

— Milady — disse-lhe, numa voz baixa quando ela se aproximou —, quando tiver um momento livre, poderia ir cuidar do barão?

 

Ardith foi tomada pelo pânico. Imaginou Gerard caído e com ossos quebrados, sangrando em profusão, morrendo no campo do jogo.

 

— Onde ele está? Qual é a gravidade do ferimento?

 

— Está na tenda, cuidando de uma pancada na cabeça.

 

— Por que não veio até a casa?

 

O pajem pareceu chocado.

 

— Oh, não, milady, ele não poderia. O barão jamais demonstraria fraqueza diante dos homens.

 

Ardith olhou ao redor do salão.

 

— O jogo já terminou?

 

— Sim, o barão Gerard foi o último a deixar o campo.

 

Ela pensou em perguntar quem vencera, mas concluiu que não se importava. Apanhou pedaços de linho e também uma tigela, entregando-a a Thomas.

 

— A lagoa congelou. Vá até lá buscar gelo e leve-o até tenda do barão.

 

                                                             CAPÍTULO 5

Ardith espiou pela entrada da tenda. Gerard estava sentado num banco diante de uma pequena mesa. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, segurava o rosto nas mãos.

 

— Arranjou um pano embebido em água fria? — resmungou.

 

— Mandei Thomas buscar gelo na lagoa.

 

Ele ergueu a cabeça devagar.

 

— O que você faz aqui?

 

— Thomas disse que você precisava de cuidados.

 

— Na verdade, só preciso de um pano molhado.

 

— Ao que parece, ele achou que alguém devia examinar sua cabeça. Uma vez que estou aqui, permite-me?

 

Gerard hesitou, mas acabou assentindo. O gesto quase o fez perder o equilíbrio. Mordendo o lábio inferior, Ardith atravessou o tapete exótico que revestia o chão da tenda. Sua mão tremeu quando lhe afastou os cabelos úmidos de suor da fronte. O inchaço era grande e já apresentava uma coloração azulada.

 

Incrédula, exclamou:

 

— Você saiu andando do campo?

 

— É claro.

 

Ela sacudiu a cabeça.

 

— Homens e seu maldito orgulho! E eu que achava que meu pai era o homem mais teimoso da Inglaterra. Em seguida, você vai querer me convencer de que não tem nenhuma dor de cabeça.

 

— Isto foi uma simples pancada. Já sobrevivi a coisas muito piores.

 

Ardith engoliu em seco, tentando vencer um nó na garganta. Preferiu não perguntar como ele adquirira a grande cicatriz abaixo das costelas ou a que lhe marcava um dos ombros. Nem queria pensar em quantas mais devia ter pelo corpo.

 

Thomas adentrou pela tenda e colocou a tigela de gelo na mesa.

 

— Precisará de algo mais, milady?

 

— Não — respondeu Ardith, embrulhando um grande pedaço de gelo em linho. — Vá até a casa e peça a uma criada para limpar-lhe esses arranhões.

 

O rapaz quase havia se retirado, quando Gerard esbravejou:

 

— Thomas?

 

Com um suspiro resignado, ele virou-se.

 

— Milorde?

 

O silêncio se prolongou, enquanto Gerard franzia o cenho para o pajem, demonstrando silenciosamente a sua contrariedade.

 

— Encontre John e Corwin e mande-os até aqui.

 

Thomas assentiu e saiu em disparada.

 

Ardith apanhou o gelo embrulhado e bateu-o contra a mesa, esperando quebrá-lo. Conseguiu rachá-lo, mas não parti-lo em vários pedaços como gostaria.

 

— Coloque-o na mesa — disse-lhe Gerard.

 

Ela obedeceu e sobressaltou-se quando ele esmurrou o pano com gelo, espatifando-o. Apanhou, então, o embrulho, pousando-o no alto da fronte.

 

Você deveria se deitar.

 

— Não ainda. Talvez depois que eu tiver falado com John e Corwin.

 

— Deveria vestir uma túnica.

 

— O meu peito despido incomoda você?

 

Ardith corou.

 

— Não, milorde. Apenas achei que, levando em conta o ar frio e o gelo, uma túnica poderia lhe prover algum conforto.

 

— Vai encontrar algumas na arca a um canto.

 

Ela olhou na direção indicada e se aproximou da arca, abrindo-a. Logo acima, havia uma túnica branca de linho. Apanhou-a, levando-a até ele.

 

— Limpe a lama de seu corpo primeiro.

 

— Mais alguma ordem, milady?

 

Ardith não pôde resistir à provocação.

 

— Por enquanto, não. Mas dê-me apenas um momento e, com certeza, poderei pensar em uma ou duas.

 

Ele suspirou, colocou o pano com gelo na mesa e limpou a lama em seu peito e antebraços com outro pedaço de linho umedecido. Sem poder evitar, Ardith acompanhou-lhe os movimentos, os músculos ondulando. Seriam tão firmes ao toque quanto pareciam?

 

Enquanto ele vestia a túnica, John entrou na tenda, seguido de Corwin.

 

— E então? — perguntou Gerard ao capitão de sua guarda.

 

— A situação está como temíamos, milorde — respondeu ele. Olhou de soslaio para Corwin antes de prosseguir: — A quase todos os guardas de Lenvil falta força e agilidade. Se tivessem enfrentado uma batalha, receio que a maioria teria tombado durante os primeiros momentos de ataque. É claro que ainda não os vi manejando armas.

 

Embora John tentasse amenizar o relato, Ardith compreendeu de imediato a razão para o jogo daquela manhã… um teste para a guarda de Lenvil, e havia falhado.

 

— Ontem à noite, encontrei dois guardas de Lenvil dormindo em seus postos — disse Gerard. — Um outro só me ouviu quando tinha me aproximado o bastante para lhe ter cortado a garganta fosse eu um intruso. Apenas um notou minha presença a tempo para ter alertado os demais.

 

— Terei suas cabeças — declarou Corwin, zangado.

 

Gerard esboçou um sorriso.

 

— Eles vão precisar das cabeças. Na verdade, de toda a esperteza que tiverem para o que estamos prestes a lhes fazer. John, informe a todos que teremos treinamento amanhã para os guardas de Wilmont e Lenvil. Os soldados da escolta de Bronwyn podem se juntar a nós se desejarem.

 

— Corwin, inspecione as armas de Lenvil. Se for preciso, poderá tomar emprestadas armas do arsenal de Wilmont. Nenhum homem achará pretexto para se esquivar do dever por falta de espada. E, ouça, cabe a mim falar sobre a fraqueza dos homens de Lenvil a Harold.

 

— Sim, milorde — assentiu Corwin, em seu semblante a óbvia contrariedade em saber sobre o ponto em que a situação chegara.

 

— Agora, fale-me a respeito do capitão de Lenvil.

 

— Sedrick tem sido capitão da guarda desde antes de eu ter nascido. É quase da idade de meu pai. É estranho, pois eu me lembro dele como um homem eficiente, quer em disciplina ou em habilidades. Está pensando a dizer a meu pai que o substitua?

 

— Não! — protestou Ardith. Três pares de olhos atônitos viraram-se para encará-la. Ela sabia que estava interferindo em assuntos fora de sua alçada, mas tirar a capitania de Sedrick era impensável. Ainda assim, cuidara de escoriações e cortes demais. Talvez eles tivessem razão.

 

— Veremos — disse Gerard. Dirigiu-se, então, a John: — Eu havia planejado partir dentro de dois dias, mas não sairei daqui enquanto não tiver certeza de que… Lenvil estará bem defendida.

 

John deu um tapinha no ombro de Corwin.

 

— Venha comigo. Vamos ver quanto de trabalho tem que ser feito.

 

Os dois se retiraram e, durante o silêncio que se prolongou, Ardith aproximou-se da mesa, tornando a apanhar o gelo envolto em linho, entregando-o a Gerard.

 

Quando suas mãos se roçaram, sentiu um inevitável calor percorrendo-a. Por alguma razão que não pôde explicar, as palavras de Belinda ecoaram em sua mente.

 

Basta olhar para ele. Aquele homem irradia virilidade com seu simples porte, com seu olhar.

 

Notando que lhe estudava o rosto sério fixamente, tratou de desviar o olhar e esforçou-se para que sua voz não lhe traísse o turbilhão interior.

 

— Agora há pouco eu falei sem pensar — desculpou-se. — Sei que não cabe a mim opinar quanto ao capitão da guarda.

 

Ele sacudiu a mão no ar, demonstrando que não queria falar sobre a intromissão.

 

— Diga-me, como está Harold?

 

— A dor na perna o incomoda muito quando se exercita mais que o normal.

 

— Há algo mais.

 

De algum modo, Gerard suspeitava de um problema mais sério, embora, no momento, Harold parecesse bem de saúde. Ardith pensou em negar a aflição de seu pai, mas o barão era o senhor feudal de Lenvil, e até então ela não fora tão eficiente na supervisão da propriedade como julgara.

 

— Meu pai está com problema de memória. Em algumas manhãs, é uma vitória para ele quando encontra as botas. Está-lhe sendo mais fácil lembrar-se de eventos de décadas passadas do que o que aconteceu no dia anterior.

 

— Há quanto tempo você está cuidando de Lenvil?

 

— Quase dois anos.

 

— Por que não informou a Corwin ou a meu pai?

 

— A propriedade não foi afetada de maneira alguma, nem o vilarejo ou o nosso povo. Nós sempre temos plantado e feito fartas colheitas e ganhamos o bastante com os moinhos para pagar nossos tributos a Wilmont. eu não notei, no entanto, que a guarda havia ficado relapsa. E peço-lhe desculpas por isso.

 

Gerard sacudiu a cabeça. Mantinha uma expressão grave e zangada, mas a ela não passou despercebido o instante em que contraiu o semblante de dor.

 

— Por favor — sussurrou-lhe. — Você precisa se deitar.

 

Um esboço de sorriso curvou os lábios dele.

 

— Está supondo que posso caminhar até as mantas de pele.

 

— Permite que eu o ajude?

 

Gerard estendeu o braço, e Ardith segurou-o pela cintura, ajudando-o a levantar-se. Aquela proximidade foi-lhe perturbadora, e ela ansiou tanto por deixar a tenda quanto por permanecer aninhada sob aquele braço forte. Os passos até a cama arrumada no chão pareceram levar uma eternidade, mas, por outro lado, terminaram depressa demais.

 

Ele se deitou sobre as peles.

 

— Quero sua palavra de que não dirá nada a ninguém sobre o que transcorreu aqui, nem sobre a guarda, nem sobre minha cabeça.

 

Quanto à guarda, Ardith compreendia, mas no que dizia respeito à pancada na cabeça, não via razão para tanto mistério.

 

— Com certeza, todos já sabem sobre a pancada que levou. Você foi o último homem a deixar o campo.

 

— Por necessidade, pois era o que meus homens esperavam de mim… e porque eu mal conseguia andar em linha reta. Apenas você e Thomas sabem quanto o inchaço é grande e a maneira como me afetou. Apesar de ter chamado você aqui, ele não dirá nada a mais ninguém.

 

Ela protegera o orgulho e a dignidade de seu pai por tanto tempo que não poderia deixar de fazer aquilo por Gerard também.

 

— Tem minha palavra, milorde. — Viu-o ajeitando melhor o pano com gelo e tornou a lembrar-se de sua dor. — Tenho preparados para dor de cabeça em casa. Vou misturar um numa caneca de chá de ervas e pedirei a Thomas que o traga aqui.

 

— Ardith! — O chamado de Elva interrompeu-os.

 

Ardith abriu um ligeiro sorriso.

 

— Bem, para poder guardar seu segredo, é melhor eu despistar minha tia.

 

— Aquela velha harpia intrometida.

 

Ela atribuiu as palavras duras de Gerard à cabeça dolorida. Retirando-se da tenda, quase colidiu com Elva do lado de fora.

 

— Oh, céus! — suspirou a tia, quase envolvendo-a num abraço. — Você está bem? Ele machucou você?

 

— Claro que não. Fique tranqüila — disse-lhe ela, com gentileza, enquanto começavam a se afastar da tenda. — O barão não tem razão alguma para me fazer mal.

 

Elva deteve-se, segurando-lhe os braços com ansiedade.

 

— Você precisa ter cuidado. Tem que se precaver contra a fera. Irá acabar com você.

 

O aviso da tia quanto a Gerard oferecer-lhe algum perigo físico pareceu absurdo a Ardith. Sabia que o único perigo que ele representava era para seu coração, e quan-to àquilo não havia mais volta.

 

— Vamos, Elva — disse-lhe, continuando a conduzi-la na direção da casa. — Não tenha medo. Uma fera não pode fazer mal ao que não consegue caçar.

 

Gerard observava, enquanto Corwin exigia o máximo dos guardas de Lenvil. Depois de uma semana de treinamento, os homens mostravam progressos. Mas Corwin continuava zangado. Tendo encontrado seu futuro legado em perigo, desafiava os soldados a se igualarem à sua destreza. Embora tivesse apenas dezessete anos, sua habilidade com as armas havia-lhe conquistado o respeito até dos cavaleiros de Wilmont.

 

Depois de uma longa conversa com Sedrick, que admitira um problema com sua vista, Gerard reservara-se o direito de escolher um novo capitão. Agora, tendo testado e falado com cada soldado de Lenvil, ainda não fizera uma escolha. A seu ver, nenhum estava pronto, e ele não confiaria a defesa de Lenvil a um homem que não fosse totalmente competente.

 

Havia-se dado conta, nos dias anteriores, que não era a Lenvil que ansiava por proteger. O feudo era excelente e seria herança de Corwin. Se a casa e o vilarejo se incendiassem, os camponeses e os animais se dispersassem, as plantações fossem devastadas, a perda iria despertar a sua ira. Sua sede de justiça seria implacável contra quem ousasse atacar o lugar.

 

Mas uma casa podia ser reconstruída, pessoas e animais reagrupados, glebas replantadas. Intolerável era pensar no destino de Ardith caso o feudo perecesse sob algum inimigo.

 

Visões da adorável Ardith povoavam sua mente, etérea e sutil, mas sempre a seu lado. Via-se à procura dela no pátio e na casa, atento ao som de sua voz doce e feminina. Seu fascínio crescia a cada dia que passava… e a cada noite.

 

Assim como o seu desejo. Não podia olhar para a cativante jovem sem que um fogo voraz percorresse seu corpo, exigindo por ser aplacado.

 

No dia em que ela fora à sua tenda para cuidar-lhe da cabeça, achara que ambos haviam chegado a um acordo. Mas Ardith continuava evitando-o, como se não tivesse tocado sua fronte tão gentilmente e ficado tão próxima que lhe pudera sentir o calor do corpo desejável, a incitante fragrância de rosas.

 

Se o anseio para possuí-la se tratasse da única fonte de sua inquietação, talvez pudesse ter-lhe ordenado que fosse até sua cama. Não fora só por uma vez que se sentira tentado a enrolar-lhe a trança na mão, arrastando-a até sua tenda e a atirar-lhe o corpo despido em meio às mantas de pele. Nada daquilo, porém, teria lhe conquistado a simpatia.

 

Era estranho que estivesse disposto a abrir mão daquele direito a fim de tentar fazê-la entregar-se em seus braços de bom grado. Espontânea e receptiva era como a queria. Sim, ansiava pela paixão dela, mas também queria sua afeição. Desejava mais do que a mera união de seus corpos. E devia ser mantida a salvo, porque depois que ele tivesse resolvido sua questão com Basil, planejava torná-la sua esposa.

 

Precisava de consentimento real para se casar, mas não lhe ocorria nenhuma razão para que o rei Henrique deixasse de aprovar Ardith.

 

Embora não fosse de sangue nobre, ela procedia de boa família. Como quinta filha, não teria nenhum dote, mas se ele próprio não se importava com a falta de um, Henrique não faria objeção. E era saxônia, detalhe que deixaria o rei ainda mais inclinado a dar sua aprovação.

 

Gerard ansiava por começar o delicioso dever de dar um herdeiro legítimo a Wilmont. Gerar filhos com Ardith seria puro prazer.

 

Quanto a Daymon, tinha certeza que ela iria aceitá-lo prontamente e até se afeiçoar a seu filho bastardo. Cada criança do feudo procurava-a para algum curativo. Desconfiava que as palavras afetuosas dela eram mais eficazes para lhes amenizar as dores do que as poções e as bandagens de linho. Ardith adorava crianças e até ameaçara Belinda de severa punição por ter negligenciado o filho bastardo.

 

Mas, pelos céus, por que ele queria tanto a única mulher em todo o reino que insistia em negar o desejo que se alastrava a cada vez que os olhares de ambos se encontravam?

 

Gerard virou-se ao som do galope de um cavalo que avançava na direção da casa, sua mão aproximando-se reflexivamente da espada. Reconheceu, então, o mensageiro que montava um dos cavalos mais velozes de Wilmont.

 

— Barão Gerard — começou o homem, ofegante, enquanto puxava as rédeas do animal. — Trago-lhe uma mensagem de Walter — anunciou, entregando-lhe um rolo de pergaminho. — Ele me pediu para esperar a sua resposta.

 

Gerard desatou a fita e desenrolou o pergaminho. Foi tomando por súbita fúria, enquanto lia.

 

— Quando foi isto? — esbravejou ao mensageiro.

 

— Ontem, milorde.

 

Gerard amassou a mensagem com força em sua mão.

 

— O que houve? — perguntou Corwin, parando a seu lado.

 

— Frederick retornou a Wilmont.

 

— Milhurst foi tomado por Basil?

 

— Frederick não pôde dizer porque estava morto, amarrado ao cavalo feito caça abatida. Alguém o matou e guiou o cavalo até perto o bastante de Wilmont para o animal encontrasse o caminho de casa.

 

— Basil?

 

— Seus mercenários, suspeito eu — explodiu Gerard. — Com mil diabos! A audácia do homem é intolerável. Diga a John que instrua os homens para se prepararem para a partida amanhã cedo. Rumaremos para Westminster.

 

Enfurecido, ele marchou para a tenda. Manejando uma com gestos zangados, rabiscou uma mensagem para Stephen, dando permissão ao irmão para tomar quaisquer medidas defensivas que julgasse necessárias.

 

Depois de Richard ter sido gravemente ferido, seu primeiro- impulso fora o de atravessar Basil de Northbryre com sua espada. Mas a intervenção do rei Henrique dera--lhe tempo para perceber que, se buscasse vingança através -da corte, poderia ganhar direito aos feudos de Basil sem colocar homens no campo de batalha. E agindo assim, recompensar Stephen e Richard generosamente pela lealdade de ambos sem ter que abrir mão de nenhuma das terras de Wilmont.

 

Sentiu quase esperança que Basil tivesse sido tolo o suficiente para saquear Milhurst. O crime daria ainda peso às suas acusações contra ele. Sacudiu a cabeça, descartando a idéia. Deixar Milhurst aberta a ataque, ou não revidar caso Basil tivesse obtido êxito com uma invasão, seria visto como sinal de fraqueza. Acrescentou mais uma ordem à carta a Stephen, a de que enviasse dois cavaleiros e dez guardas a Milhurst.

 

Concentrou, então, sua atenção nos preparativos para a partida de Lenvil. Ainda tinha que escolher um capitão para a guarda dali. O ideal seria deixar Corwin no feudo para resolver a questão, mas precisaria dele na corte.

 

E Ardith?

 

Perguntou-se qual seria a reação dela, quando fosse informada que também iria fazer a jornada até Westminster.

 

— Elva, Ardith precisa da sua ajuda. Você deve ir até a propriedade. Partiremos pela manhã e há muito a ser feito.

 

— Então, ajude-a você, Bronwyn — disse a velha, dirigindo-se à porta fechada de sua cabana no vilarejo. Sacudiu um pedaço quadrado de lã preta e cobriu a pequena mesa. Sobre o tecido, colocou uma reverenciada cruz celta, um presente de sua mãe morta havia muito. Ao lado, pousou uma vela grossa.

 

— Ardith quer que você cuide do feudo enquanto estiver ausente. Está aborrecida com essa jornada. O fato de ter você na casa enquanto se for vai deixá-la mais tranqüila. Por favor — insistiu Bronwyn do outro lado da porta —, se você não for até lá, ela vai ter que deixar alguma outra pessoa encarregada de tudo.

 

Elva não respondeu e logo ouviu Bronwyn resmungando algo ininteligível e seus passos abafados, enquanto se afastava com membros de uma pequena escolta.

 

Acendeu a vela. De um bolso no vestido, tirou um pequeno saco de couro e esvaziou o conteúdo sobre o tecido. Gostaria que fossem maiores, aqueles ossos que conse-guira pegar antes que os cães os abocanhassem. O normando, maldito fosse, jogava seus restos de comida aos cães, em vez de simplesmente atirá-los por sobre o ombro na palha que recobria o chão.

 

Os ossos não tinham sido raspados e limpos. Ainda continham vestígios de carne. Lamentou a falta de tempo para prepará-los adequadamente. Reuniu-os em ambas as mãos.

 

Anos antes, havia julgado mal as forças do destino. Achando que sua preciosa menina estaria a salvo, Elva não se preocupara em adivinhar o futuro do normando. Agora, a fera estava de volta e prestes a levar Ardith dali.

 

Ela a havia salvo das garras de Wilmont uma vez. Seria capaz de fazê-lo novamente? Era preciso.

 

Fechou os olhos, murmurando as palavras de que se lembrava como a reza de sua mãe. Não sabia o signifi-cado, apenas se recordava dos sons.

 

Jogou os ossos no pano preto e leu a espantosa mensagem deles.

 

— Maldição — resmungou entre dentes e, com um gesto brusco, afastou a odiosa profecia de sua frente.

 

                                                                 CAPÍTULO 6

Todas as posses de Ardith cabiam num pequeno baú. Enquanto ajeitava seu véu amarelo acima de seu melhor vestido, protestou:

 

— Ainda não entendo por que tenho de ir junto.

 

— Ardith, quando um barão convida vassalos para uma jornada, eles aceitam — declarou Bronwyn, sentada sobre o próprio baú. Ao lado, havia outro, tão grande e repleto quanto o primeiro. Ela aproveitaria a oportunidade para viajar com o grupo que estava prestes a deixar Lenvil.

 

— O barão Gerard convidou nosso pai. A idéia de eu ir junto para cuidar dele só surgiu depois.

 

— Bem, eu certamente não saberia lidar com nosso pai. Ele não me daria ouvidos. Além do mais, estou contente que você esteja vindo. Podemos fazer companhia uma a outra durante a jornada. Oh, nós teremos momentos tão felizes na corte!

 

— Tem certeza de que Kester não se importará com nossa visita inesperada?

 

Absoluta. A posição de Kester como conselheiro do rei dá-lhe direito a acomodações no Palácio de Westminster. Há espaço mais do que o bastante para todos nós. Por favor, pare de tentar encontrar pretextos para não ir. Está tudo pronto. Você virá.

 

Tudo estava pronto porque Ardith passara a maior parte da noite reunindo provisões, com a ajuda de John, a quem Gerard designara para cuidar de Lenvil na au-sência dela.

 

Ainda não conseguia entender por que Elva havia se recusado a tomar conta do feudo. Achara que a tia adoraria a incumbência, no mínimo para desfrutar o luxo de dormir na cama de estrado.

 

Ardith sentia-se num dilema quanto à jornada.

 

Admitia que seu pai não estivera na corte durante anos para prestar homenagens ao rei. Mas Harold não estava bem, como o próprio Gerard sabia. Por que agora? E qual a razão de tanta pressa? Não poderiam ter tido mais tempo do que apenas uma noite para se prepara-rem? E iniciar uma jornada sob a ameaça de mau tempo era insensato.

 

Por outro lado, ela nunca vira Londres, nem viajara para além do mercado em Bury Saint Edmunds, a meras duas horas de cavalgada a oeste. Bronwyn fazia a corte soar empolgante, repleta de pessoas interessantes e belos ambientes.

 

— Você vai precisar de vários vestidos novos — observou a irmã. — Tenho alguns que talvez lhe sirvam com uns pequenos ajustes. Se não gostar deles, tenho pilhas de cortes de tecido para você costurar os seus próprios vestidos.

 

— Com certeza, não precisarei de tantos assim.

 

— Oh, uns três ou quatro, no mínimo… Ah, eles estão vindo buscar nossos baús! — Bronwyn levantou-se da beirada do baú para deixar que os homens de sua escolta o carregassem e seguiu-os do quarto com suas instruções.

 

Ardith olhou ao redor. Durante toda a sua vida, dormira entre as paredes de Lenvil, naquele aposento.

 

— Ardith? Você está pronta? — perguntou Corwin, surgindo junto à porta.

 

Ela tentou retribuir o sorriso, mas descobriu que não podia.

 

— Por que parece tão triste? Ah, eu entendo. E sempre mais difícil a primeira vez que saímos de casa.

 

— Seu coração ficou apertado na primeira vez em que você deixou Lenvil?

 

O irmão sacudiu a cabeça.

 

— Achei uma grande aventura, ir com o barão Everart para Wilmont. E claro, havia Stephen para me fazer com-panhia. Nós dois nos tornamos logo amigos ao longo daquela jornada. Onde está o seu manto?

 

Corwin adiantou-se pelo quarto, ajudando-a a colocar o manto mais quente que possuía, revestido de pele de coelho. Ela enrolou um longo pedaço de lã em torno da cabeça e pescoço.

 

Ele pegou-lhe a mão e conduziu-a do quarto.

 

— Vamos, Bronwyn está à sua espera na liteira dela. Vocês duas podem ir conversando durante toda a jornada até Westminster.

 

— Pensei em ir montada em minha égua.

 

— Ela carregará provisões.

 

O irmão não lhe deu tempo para um último olhar em torno da casa, levando-a dali rapidamente.

 

— Que grande caravana seremos! — declarou, fazendo um gesto na direção da comprida fila de homens, animais e carroças.

 

No início da fila, achava-se Thomas, segurando as rédeas dos cavalos de Gerard e Harold. Atrás de ambos, marchariam vários dos soldados de Wilmont, seguidos da liteira de Bronwyn e sua escolta. Os soldados restantes, as carroças e os animais de carga completavam a caravana.

 

Ardith examinou o estranho meio de locomoção de sua irmã. Assemelhando-se mais ao fundo de uma grande caixa de madeira cortada ao meio, a liteira era sustentada por dois varais longos, entre os quais estavam atrelados os cavalos. Tinha dois assentos, um de frente para o outro, além de uma cobertura que protegeria da chuva e da neve. Ponderou que devia ser segura, pois Bronwyn não viajava de outra maneira.

 

— Venha, Ardith. Ou você entra, ou a deixaremos para trás! — gracejou Corwin, estendendo-lhe a mão para aju-dá-la a sentar-se na liteira.

 

Ela esboçou um sorriso.

 

— Promete?

 

— Promete o quê? — perguntou Gerard, aproximando-se.

 

— Ardith está sendo difícil — suspirou Corwin. — Parece, milorde, que ela preferiria não viajar com tanto conforto. Gostaria de ir montada em sua égua, a qual carregamos com provisões.

 

Gerard lançou um olhar peculiar a Ardith por um momento.

 

— Bem, talvez possamos acomodá-la de outra maneira mais tarde — disse, enfim. — Se todos estão prontos; vamos partir.

 

Na metade do dia, Ardith já desejava poder ir caminhando até Londres. De algum modo, Bronwyn conseguira adormecer. Certamente, aquela não era maneira de fazerem companhia uma a outra. Não que Ardith se importasse tanto com o abandono da irmã. Adormecida, ela não notaria seu ar preocupado, nem comentaria a respeito.

 

Tinha o estômago um tanto indisposto com os sacolejos da liteira. A estranha sensação de viajar de costas, vendo o que deixava para trás e não para onde estava indo aumentava-lhe o desconforto. O frio era cortante, e nuvens cinzentas encobriam o céu, prometendo chuva.

 

Suas costas doíam do trajeto no assento duro, e as mãos estavam geladas, por segurar-se com força às beiradas da liteira. Corwin passou a cavalo várias vezes a seu lado, acenando-lhe. Ela se recusara a soltar-se até mesmo para retribuir o cumprimento.

 

Enfim, ao ouvir o irmão anunciando que a caravana devia parar, foi tomada por imenso alívio, dirigindo uma prece silenciosa aos céus.

 

Bronwyn despertou no instante em que a liteira parou.

 

— Ora — disse, espreguiçando-se delicadamente —, eu dormi pela maior parte da manhã. Vejo que ainda não choveu. Isso é ótimo. Se o tempo se agüentar, poderemos viajar por uma boa distância antes de buscarmos abrigo. Ah, lorde Gerard, que gentileza de sua parte nos ajudar!

 

Gerard mantinha a portinhola aberta. Bronwyn desceu facilmente da liteira, pousando a mão apenas de leve no braço dele.

 

— Como estão as damas?

 

— Oh, muito bem, milorde. Eu, porém, estou faminta. Posso lhe trazer um pouco de pão e queijo, Ardith?

 

— N-Não quero nada, Bronwyn. Comerei mais tarde.

 

A irmã estudou-a atentamente.

 

— Você está se sentindo bem? Parece um tanto pálida.

 

Ardith respirou fundo para relaxar.

 

— Estou bem. Vá fazer sua refeição.

 

Dando de ombros ligeiramente, Bronwyn afastou-se. Gerard permaneceu junto à portinhola, aguardando.

 

— Já viajou numa coisa destas, milorde?

 

— Não — respondeu ele, examinando a liteira de ponta a ponta. — Da maneira como se move, imagino que a sensação seja a mesma de se estar num navio em mares calmos.

 

— Mares calmos?

 

— Sim.

 

— Viajou em muitos navios?

 

— Cruzei várias vezes o canal entre a Inglaterra e a Normandia.

 

— E qual sua opinião a respeito, milorde?

 

Ardith ficou-lhe grata pela tentativa dele de esconder o sorriso. Sabia que ela estava ganhando tempo, incapaz de se mover dali.

 

— Eu diria que prefiro ter terra firme sob os pés, ou ao menos estar montado num cavalo bom e estável.

 

Gerard, então, estendeu os braços até a liteira, afas-tou-lhe o manto e segurou-a pela cintura. Suas mãos eram quentes e reconfortantes.

 

— Venha. Caminharemos um pouco, e você vai se sen-tir melhor. Agora, coloque suas mãos em meus ombros. Ambas. Muito bem. Aproxime-se um pouco mais de mim. Um pouco mais.

 

— Sinto-me tão tola.

 

— Confia em mim?

 

— Sim, claro.

 

— Então, apóie-se em meus ombros, e eu a tirarei daí. Ardith confiava nele, mas, quando começou a erguê-la, abraçou-o com força pelo pescoço. Gerard ficou imóvel por um momento, mas logo seus braços fortes a tiraram facilmente da liteira.

 

Manteve-a junto a si por alguns instantes antes de depositá-la no chão com gentileza. Sentido-se segura, ela, enfim, soltou-lhe o pescoço, deixando-o erguer-se. Achando- que o veria rindo de sua covardia, arriscou-se a levantar os olhos.

 

Ele abriu-lhe um sorriso, mas não havia sinal de zombaria em sua expressão.

 

— Vamos — disse, oferecendo-lhe o braço. — Vejamos se você consegue caminhar.

 

Caminharam em silêncio pela estrada de terra, ultrapassando homens e cavalos, até que as pernas dela não tremessem mais.

 

— Espero nunca precisar embarcar num navio — declarou, veemente.

 

— Não é tão mau depois que uma pessoa se acostuma ao movimento da embarcação.

 

Com o corpo e a mente mais uma vez em harmonia, ocorreu a Ardith perguntar:

 

— Como está meu pai?

 

— Razoavelmente bem. — Gerard parou de caminhar.

 

— Você se preocupa demais.

 

— Não foi por isso que vim, para cuidar de meu pai?

 

— Em parte. — Ele se deu conta de seu erro assim que proferiu as palavras. Ardith soltou-lhe o braço e fitou-o nos olhos.

 

— Então, deve me esclarecer a situação, milorde. Não fui informada de nenhuma outra razão para eu ter precisado sair de Lenvil.

 

Gerard sabia que aquele não era o momento para lhe contar sobre seus planos. Primeiro, queria falar com o rei Henrique, assegurar-se de que não haveria nenhuma objeção real antes de pedir a mão de Ardith em casamento a Harold e torná-la sua esposa.

 

Mas ela era tão adorável, seu queixo delicado erguido em desafio, os grandes olhos azuis faiscando de raiva. Não seria aquela uma boa hora para ao menos insinuar as alegrias que estariam por vir?

 

Não pretendera beijá-la, nem tampouco afastar-se tanto do resto da caravana. Mas estavam sozinhos junto a um arvoredo, e a tentação era grande demais.

 

Segurou-lhe o rosto entre as mãos.

 

— Eu quis que você viesse. — Inclinou-se, então, roçando-lhe os lábios com os seus.

 

Sentiu-lhe a surpresa no ligeiro tremor que a percorreu. Tentou vencer-lhe a hesitação com o toque persuasivo de seus lábios. Enfim, lentamente, Ardith começou a retribuir.

 

Ele amaldiçoou sua armadura, destinada a defendê-lo de golpes de espada. Não podia sentir as pequenas mãos na altura de seu peito, pousadas na cota de malha, nem o calor do corpo enquanto a envolveu em seu abraço.

 

O fato de estar podendo vislumbrar a natureza passional de Ardith, oculta por trás de um véu de inocência. quase abalou sua determinação de se contentar com apenas um beijo. Com rigoroso controle, conteve-se para não deslizar a mão até o seio dela, para não afagá-lo genti-mente contra o calor de sua palma, como ansiava.

 

Conhecendo seus limites, Gerard interrompeu o beijo. Observou-lhe os lábios úmidos e rosados ainda entreabertos, como se estivesse um tanto ofegante, os olhos fechados.

 

Quando, enfim, viu-a abrindo-os, foi a vez de ele ficar surpreso. Havia uma profunda tristeza naqueles olhos azuis, uma lágrima cintilando junto aos cílios.

 

— Oh, Gerard — sussurrou-lhe. — As vezes, não podemos ter o que gostaríamos.

 

Não, não neste momento, mas muito em breve. Ele conhecia bem os meios de sedução… um beijo aqui, um toque e palavras doces ali. Quando estivesse prestes a poder torná-la sua, Ardith não o rejeitaria. A maneira como retribuíra a seu beijo era prova daquilo. Mas por que o beijo evocara tanta tristeza?

 

Antes que pudesse lhe perguntar, ela já havia se afastado de seus braços. Olhava na direção da caravana, atraída pelo galope de um cavalo que se aproximava.

 

— Temos um problema, milorde — disse Corwin, puxando as rédeas do animal, sua expressão risonha. — Estamos sendo seguidos.

 

Gerard franziu o cenho.

 

— Por quem?

 

— Elva.

 

— O quê? — exclamou Ardith.

 

— Isso mesmo. Eu mandei que retornasse a Lenvil, mas ela se recusa. Disse que quando nosso pai a baniu para o vilarejo, tornou-se uma camponesa. Portanto, afirma que é livre para ir aonde bem entender.

 

— E para onde está indo?

 

Corwin desmontou.

 

— Está seguindo você — disse à irmã. — Insiste que vai precisar dos conselhos dela na corte.

 

Ardith cruzou os braços, sua expressão severa.

 

— Aposto que Elva andou lendo a sorte naqueles malditos ossos outra vez. A cada vez que os joga, vê alguma tragédia.

 

— São superstições tolas — murmurou Gerard e co-meçou a se afastar de volta na direção da caravana.

 

— Sim — concordou Ardith, acompanhando-o. — Mas minha tia acredita nos antigos rituais.

 

— Vamos deixar que se junte a nós? — indagou Corwin. — Ela é mais velha do que meu pai, e a caminhada será árdua.

 

Gerard deu de ombros, como se não se importasse. Ter mais uma pessoa na caravana faria pouca diferença.

 

— Ardith?

 

— Se Bronwyn concordar, coloque Elva na liteira. Eu caminharei.

 

Gerard fez um gesto a Corwin para que fosse ajudar a tia.

 

— E por que desistir do seu lugar?

 

— Abriria mão dele para qualquer pessoa que o quisesse. Eu me recuso a continuar viajando naquele instrumento de tortura.

 

A raiva de Gerard se alastrou. A futura senhora de Wilmont não iria caminhar pela estrada feito uma plebéia.

 

— Thomas! — gritou. — Pegue meu manto.

 

O pajem soltou as rédeas do cavalo de Gerard e adiantou-se depressa até a carroça que transportava a tenda dele e seus pertences.

 

Do meio da caravana elevavam-se vozes numa discussão. Harold repreendia a irmã pela insolência. Parada ao lado da liteira de Bronwyn, Elva gritava de volta.

 

— Oh, céus! — suspirou Ardith, fazendo menção de se aproximar de ambos.

 

Gerard segurou-a pelo braço, detendo-a.

 

— Deixe que resolvam a questão entre si. Os dois sabem se defender sozinhos.

 

Thomas voltou depressa, o manto de pele em mãos. Gerard colocou-o por sobre os ombros, prendendo-o com o fecho de ouro. Apanhou as rédeas de seu cavalo e montou, acomodando-se na sela. Baixou o olhar, franzindo o cenho para Ardith.

 

— Ainda está determinada a caminhar?

 

— Sim, milorde.

 

Ele lançou-lhe um olhar resignado e, então, estendeu--lhe as mãos.

 

— Venha. Cavalgue comigo.

 

A idéia de montar num cavalo de guerra a fez hesitar. Negro como carvão, lustroso feito seda, era vários palmos mais alto que a égua em que ela costumava cavalgar. Cavalos de guerra eram conhecidos como lutadores ferozes, cruéis, além de serem bastante protetores em relação aos donos.

 

— Achei que fosse má sorte um cavalo de guerra carregar uma mulher — argumentou.

 

— Outra superstição tola.

 

Ardith olhou para trás. Todos esperavam. Viajar naquele cavalo seria apenas um pouco melhor do que na liteira. Mas se rejeitasse o convite, todos considerariam a recusa como um insulto ao barão.

 

Levantou as mãos, e Gerard segurou-a com firmeza por debaixo dos braços, começando a erguê-la. Esperando sentar-se atrás dele, pediu-lhe:

 

— Deve remover o seu manto, milorde, para que eu não…

 

Gerard ergueu-a com facilidade, sentando-a de lado à sua frente.

 

— . . .me sente nele.

 

Ardith lançou-lhe um olhar contrariado.

 

— Está assim tão insatisfeita com o lugar onde estará viajando?

 

Na verdade, ela não estava, mas recusava-se a admitir em voz alta o conforto do assento. Sim, sentia-se inquieta. Por mais de uma semana, mantivera seu distanciamento do barão. Agora, estava sentada assim próxima a ele depois de um beijo inesperado e desconcertante.

 

Sentiu o calor do manto, enquanto Gerard lhe cobria as pernas. Colocou, então, o capuz, ocultando os cabelos loiros com o revestimento de peles escuras. Enfim, envolveu a ambos com o manto. Sem olhar para trás, fez pressão com os joelhos, e o cavalo começou a andar.

 

Em meio à confortável acomodação, ela sentiu o torpor que evitara a manhã inteira. A frente, a estrada se estendia interminavelmente através do campo. Podia ouvir a caravana atrás, a marcha dos soldados, o ruído da liteira puxada a cavalos. Tentou endireitar-se a fim de espiar por sobre o ombro dele para os demais atrás.

 

— Por que está tão curiosa? Tem de estar sempre preocupada com todos?

 

— Tem certeza de que todos estavam prontos? Como sabe que alguém não ficou para trás, ou que não houve algum contratempo, como uma roda de carroça que tenha se partido, ou algo assim?

 

— Se algo tivesse acontecido, Corwin me diria. E seu dever certificar-se de que a caravana prossiga sem nenhum incidente, informar-me de algum problema. Se eu ficasse olhando para trás a todo instante para me assegurar de que tudo corre bem, qual seria a necessidade de Corwin levar seu dever tão a sério?

 

— Você confia nele.

 

— Sim. Assim como confio em muitos outros que me servem.

 

— John?

 

— Tenho certeza de que deixei Lenvil em mãos competentes.

 

Ardith assentiu, concordando.

 

— Em quem mais?

 

— Confiei em você, não foi, para guardar um segredo?

 

— Você dá a sua confiança muito facilmente, milorde.

 

— Não. Mas uma vez conquistada, é raro perdê-la. Tantas perguntas. Parece cansada. Deveria dormir.

 

Naquela posição estranha? Aninhada junto a Gerard? Num cavalo de guerra?

 

— Acho que não, milorde.

 

— Milady é teimosa, uma característica que irá colocá-la em apuros algum dia. Você não tem nenhum tra-balho a fazer, ninguém a dar ordens, nenhum machucado precisando de sua atenção. Em cerca de três horas, chegaremos a abadia onde iremos fazer uma refeição e per-noitar. Não vou passar pelo constrangimento de um membro de minha caravana adormecendo em cima do prato, ou durante as preces.

 

— Não farei isso!

 

— Tem certeza?

 

Aborrecida, Ardith decidiu que não falaria mais com Gerard. No que lhe dizia respeito, poderiam cavalgar pelo resto do caminho em silêncio.

 

Os movimentos suaves do cavalo e o calor aconchegante que a envolvia fizeram-na fechar os olhos. Através de todas as camadas de vestes, podia ouvir as batidas do c oração dele.

 

Prestes a adormecer, aninhou-se mais junto ao corpo forte.

 

— Ah, minha doce donzela! Tem muito que aprender — sussurrou-lhe Gerard. — Vai acabar compreendendo que eu sempre consigo o que quero.

 

Ardith acordou com o roçar dos lábios de Gerard em sua fronte, o hálito quente no rosto, despertando-a de seu sono gentilmente.

 

— Chegamos — anunciou.

 

Com um olhar sonolento, ela virou-se para observar a estrutura que surgia adiante. A torre quadrada do sino elevava-se na direção do céu, destacando-se na grande construção de pedra. Monges em hábitos pretos adiantaram-se depressa na direção dos viajantes recém-chegados.

 

Ardith endireitou as costas.

 

— Já esteve na interior de uma abadia? — perguntou ele.

 

— Nunca, embora eu tenha visto a de Bury Saint Ed-munds. Todas as propriedades da igreja são tão imponentes?

 

— Várias são. E muitos dos abades controlam tanta terra quanto alguns barões. E comum membros do alto clero receberem domínios feudais, tornando-se suseranos. Aliás, um bispo que controla várias abadias supervisiona quase tanta riqueza quanto há no tesouro real.

 

Ela, enfim, entendeu a relutância do rei em permitir que a igreja nomeasse bispos.

 

Gerard puxou as rédeas de seu cavalo ao pé das escadas que conduziam à maciça porta dupla de carvalho. A porta se abriu, e um homem magro saiu da abadia. Trajava-se com a mesma simplicidade dos outros monges, mas seu ar de autoridade era evidente.

 

— Abade Cottingham — saudou-o Gerard. — Viemos em busca de sua hospitalidade.

 

— E será dada de bom grado, Gerard de Wilmont. Seja bem-vindo à nossa humilde abadia. Que encontre repouso entre nossas paredes.

 

— Um lugar para estender meu colchão de palha e um pedaço do melhor queijo de toda a Inglaterra é o que anseio.

 

Um sorriso iluminou o rosto enrugado do abade.

 

— Quisera eu todos os nossos hóspedes nobres fossem tão fáceis de agradar. — O sorriso, então, dissipou-se. — O seu pai, que sua alma repouse nos céus com o Senhor, também era fácil de agradar. Sentirei falta da boa companhia de Everart. Mas entrem. Está frio. Há um fogo acolhedor à espera lá dentro.

 

Ardith sentiu o estômago se manifestando ante a menção de queijo, lembrando-a de que não fizera a refeição na metade do dia. Gerard partira depressa, não lhe dando tempo para comer depois que a indisposição em seu es-tômago passara.

 

Gerard atirou as rédeas de seu cavalo para Thomas e, então, segurou Ardith pela cintura.

 

— Está pronta?

 

Ela olhou daquela altura até o chão com um ar preocupado.

 

— Não deveríamos esperar que alguém ajudasse? Talvez Corwin…

 

— Eu a ergui até aqui sem ajuda, não foi?

 

— Bem, sim, mas…

 

— Então, também posso descê-la.

 

E ele o fez, tão facilmente que seu rosto não demonstrou o menor sinal de esforço. Ardith não deveria estar surpresa. Vira-o derrubando homens durante o jogo e, mais tarde, admirara-lhe os músculos do torso e dos braços.

 

Pensamentos tão íntimos, pensou ela, censurando a si mesma. E ainda na presença de um abade! Virou-se na direção do clérigo. Ele olhava para Gerard, a mão estendida para indicar um monge parada a seu lado.

 

— Frei Zachary conduzirá as mulheres à ala de hospedagem das damas. Receberão água quente e uma refeição.

 

— Muito obrigada, sr. abade — disse Ardith.

 

O abade Cottingham não respondeu. Foi como se não tivesse ouvido.

 

— Elas tiveram um dia exaustivo — declarou Gerard.

 

— Tenho certeza que apreciarão a gentileza.

 

O abade assentiu.

 

— Então, também concederei despensa das vésperas para que possam descansar.

 

Gerard desmontou e, durante esses poucos momentos em que esteve de costas, o abade olhou na direção de Ardith. Seus olhos castanhos fitaram-na com puro desprezo, extrema condenação.

 

                                                                 CAPÍTULO 7

— Não, Ardith, você está se deixando levar pela imaginação — declarou Bronwyn.

 

— Não estou imaginando nada. O abade Cottingham não gostou de mim, tenho certeza. Lá fora, no pátio, ele não respondeu quando lhe falei. Olhou para mim apenas uma vez e com todo o desprezo. E esta refeição que nos serviram é prova de como se sente. Isto parece intragável! Você serviria algo assim a convidados?

 

— Não, mas eu também não sou um monge que tem que servir uma refeição a cada membro de uma grande caravana.

 

Ardith baixou o olhar para o pão seco e a fatia grossa de queijo… o qual teve que admitir secretamente que era excelente. Mas apostaria que o abade não ousara servir aquilo a Gerard.

 

— E estamos confinadas à ala das damas — prosseguiu ela. — Você viu a expressão no rosto de frei Zachary quando veio buscar Elva para ir cuidar de nosso pai? Os meus serviços certamente não foram desejados. O abade não me quer andando por sua preciosa abadia.

 

Tendo desistido de comer vários minutos antes, Bronwyn estava sentada na beirada de um catre, entretendo-se com um bordado.

 

— Eu não me admiro. Você é jovem, muito bonita e não é casada.., uma tentação.

 

— Para os monges?

 

— Acha que um monge está livre de pensamentos lascivos? Não são homens, afinal? Não é de você que o abade não gosta. Quer apenas proteger seus frades do risco de pecar. — Bronwyn abriu-lhe um sorriso. — Você realmente estava uma visão tentadora para qualquer homem no alto do cavalo de Gerard… envolta por peles, sonolenta.

 

Ardith comeu mais um pedaço de queijo para tentar saciar a fome. Uma visão tentadora, pois sim! Parecera sonolenta por que de fato estivera assim, tendo acabado de dormir profundamente nos braços de Gerard. Sua imprudente falta de controle devera-se ao fato de não ter repousado na noite anterior e às horas de martírio na liteira da irmã.

 

E ainda tinha que lidar com o turbilhão em seu íntimo causado pela lembrança do beijo de Gerard. Não deveria ter permitido os avanços dele. Mas como poderia ter evitado aquele beijo?

 

Fora inesperado, desconcertante. Quem teria imaginado que o barão tomaria atitude tão ousada, ali em plena estrada, não muito distante da caravana?

 

         Ela deveria ter se esquivado, mas poderosas emoções haviam penetrado por suas defesas e sido libertadas com inebriante ímpeto. Quando se vira no delicioso calor da-queles braços, não pudera aquietar o descompasso de seu coração, nem reunir forças para resistir.

 

Durante aquele beijo fora como se tivesse pertencido a Gerard, como se o acordo do passado tivesse sido selado e o casamento resultante acontecido. Deixara-se dominar pelo júbilo que o contato daqueles lábios cálidos haviam despertado em seu coração. Quando, porém, o beijo terminara, a fantasia se desvanecera.

 

O desespero que sentira quase fizera com que lágrimas aflorassem nos seus olhos. Mas contivera-as. E ele não lhe explicara por que quisera que ela fizesse a jornada, e não houvera chance naquele momento para questioná-lo a respeito. A interrupção de Corwin e a aparição inesperada de Elva haviam contribuído para fazê-la reprimir a curiosidade.

 

Em seguida, o barão recusara-se a deixá-la caminhar. E tinha a impressão de se lembrar de um roçar de lábios em sua fronte antes de ter adormecido no alto do cavalo, além de uma afirmação arrogante de que ele sempre conseguia o que queria. A lembrança era vaga, quase como se tivesse sido apenas um sonho. Mas bem nítido em sua mente estava o instante em que despertara de seu sono profundo e lhe sentira mais uma vez os lábios na fronte e o hálito quente em seu rosto.

 

Bronwyn soltou um riso repentino.

 

— Ora, agora que pensei a respeito, talvez o abade esteja protegendo você de seus monges! Eu apostaria que ele pensa que você pertence a Gerard, que é sua amante.

 

Ardith lançou-lhe um olhar horrorizado.

 

— E por que o abade pensaria uma coisa dessas?

 

— Por que não? Pense em sua chegada à abadia sob o ponto de vista dele. Foi bastante incomum, tem de admitir.

 

Atônita, Ardith tentou encobrir seu rubor com as mãos.

 

Ainda rindo, Bronwyn prosseguiu:

 

— Deixe-o pensar o que quiser. E provável que você nunca mais veja o abade. — O riso, então, cessou. — Oh, minha querida, é uma pena que você não seja a prometida de nenhum homem. Daria uma esposa maravilhosa!

 

— Não quero a sua piedade — retrucou Ardith, secamente. — A realidade é uma só… e não pode ser mudada.

 

— Eu discordo. Não apenas a sua situação pode mudar, mas quanto antes, melhor. Nosso pai permitiu uma injustiça, uma que o beneficia bastante. Pensei muito sobre esse problema e acredito ter uma solução.

 

Ardith estreitou o olhar.

 

— Solução para que problema?

 

— O de encontrarmos um marido para você.

 

— Bronwyn…

 

— Trate de me ouvir. A sua incapacidade de ter filhos não é um obstáculo tão grande para um casamento como você possa achar. Concordo, teremos que ignorar os me-lhores partidos do reino. Deveremos tirar de nossa lista qualquer homem que precise de um herdeiro.

 

— Lista?

 

Bronwyn deixou o bordado de lado e começou a contar nos dedos:

 

— O homem já deve ter o seu herdeiro. Deve ser alguém precisando de uma esposa para lhe aquecer a cama, cui-dar de sua casa e dos filhos que já tiver. Posso pensar em vários homens que precisem de tal mulher. É claro que há o problema do dote.

 

— Ouça, eu não tenho nenhum dote. Portanto, não tenho pretendentes. Esta conversa sobre casamento é pura tolice. Corwin me prometeu que sempre terei um lugar em Lenvil. Por que eu deveria procurar um marido?

 

— Corwin pode lhe prometer abrigo, mas a futura esposa dele poderá objectar quanto a isso. Nosso irmão terá que se casar algum dia, e sua escolhida poderá ver você como uma rival, não apenas quanto à afeição de Corwin, mas também ao controle de Lenvil. Os camponeses e criados estão tão acostumados a servir você que talvez possam não aceitar bem uma nova senhora. Não percebe quanto sofrimento pode causar a lealdade dividida?

 

Sim, percebia, pensou Ardith, com um profundo suspiro.

 

— Mas você sabe que não tenho dote — argumentou.

 

— Lembra-se de que, quando Agnes se casou, nosso pai quase esgotou os recursos de Lenvil na época para lhe dar um dote razoável? — Ao vê-la assentindo, Bronwyn prosseguiu: — Quando Elizabeth se casou. de algum modo ele conseguiu cumprir mais uma vez o contrato nupcial arranjando outro dote. E a entrada de Edith para o convento não saiu barata.

 

— Você não levou dote.

 

— Não, mas eu tive sorte, porque Kester me quis por mim mesma e não precisava de terras nem de moedas de ouro.

 

— Está querendo dizer que nosso pai talvez consiga juntar fundos para um pequeno dote~?

 

— Possivelmente. Você é a quinta filha de um lorde com terras. mas sem riqueza. Nenhum homem que queira a sua mão em casamento esperará dote muito grande. E eu realmente acho que você terá pretendentes. Quando estiver vestida com elegância e tiver aprendido as boas maneiras da corte, desconfio que vai encantar muitos nobres. Aposto que teremos que afugentar bandos de homens de nossa porta.

 

— Ora, francamente!

 

— Acha que estou caçoando? Você subestima a sua graça e beleza. Além do mais, será um rosto novo, uma jovem inocente numa corte de mulheres experientes e pretensiosas. Acredite, você será disputada. Como eu disse, apenas teremos que ser cuidadosas quanto a quem permitiremos que conquiste sua mão.

 

— Aqueles homens que já tiverem um herdeiro e não precisem de fundos.

 

— Exatamente.

 

Ardith sacudiu a cabeça em incredulidade. Que homem iria querer uma esposa estéril que não poderia lhe acrescer nenhuma riqueza? A idéia era absurda, mas ainda assim…

 

O que estava pensando, afinal? Como poderia se casar com outro homem, sentindo-se daquela maneira por Gerard? Se bem que a afeição era um detalhe raramente levado em conta na escolha de um companheiro. Os contratos de casamento eram baseados em alianças entre famílias e em riqueza. O afeto entre marido e mulher se desenvolvia mais tarde, quando acontecia.

 

Ela descartara a esperança de um casamento vários anos antes. Quando o sonho proibido a atormentava ocasionalmente, não pensava em nenhum outro homem a não ser Gerard para marido.

 

A seu devido tempo e com o distanciamento necessário, seria capaz de amar outro que não fosse Gerard? Algum outro homem conseguiria com seus beijos inebriar-lhe os sentidos, despertar-lhe uma paixão que nem sequer soubera possuir? Conhecera o beijo de apenas um homem. Teria deixado a fantasia de garota de pertencer a Gerard anuviar-lhe o bom senso?

 

Bronwyn disse-lhe num tom gentil:

 

— Não precisa se casar com nenhum homem que não a atraia. Se algum em especial agradar você e conseguirmos convencer nosso pai a dar um dote, poderemos fazer uma petição de fundos a Gerard.

 

Ardith sacudiu a cabeça com veemência diante da última sugestão.

 

— Não faremos isso!

 

— Por que não? Ele é o suserano de Lenvil. Não é incomum para um senhor feudal arranjar dote para a filha de um vassalo.

 

Ardith desconfiou do súbito brilho de alegria que ilu-minou os olhos da irma.

 

— Tem que admitir que o barão gosta de você. Demonstrou isso hoje. A maioria dos cavaleiros estremeceria com a idéia de uma mulher simplesmente tocando seus preciosos cavalos de guerra. Ainda assim, Gerard convidou você para montá-lo. — Bronwyn soltou um risinho divertido. — Deveria ter visto a expressão horrorizada no rosto de nosso pai.

 

A porta rangeu, anunciando a entrada de Elva. Aliviada com a distração, Ardith perguntou:

 

— Como está meu pai?

 

— Como de costume depois de uma longa cavalgada — respondeu a tia. — Está de péssimo humor e a perna dói. Pensei que, em sua idade, Harold tivesse bom senso o bastante para não fazer uma jornada destas.

 

— Você é mais velha do que ele e, no entanto, pensou em fazer a jornada inteira a pé. Por favor, diga-me, quem é mais insensato?

 

— Os sinais dizem que devo estar perto de você, que precisará de mim. Tive pouca escolha a não ser segui-la. Ah, as vésperas! — disse Elva, enquanto os sinos chamavam os monges para as preces.

 

Não demorou para que um coro de vozes masculinas ecoasse pela abadia, a canção se elevando gradativamente, as palavras em latim abafadas, carregando a prece pelo ar frio da noite.

 

— Pense a respeito — sussurrou Bronwyn a Ardith. — Conversaremos mais quando chegarmos a Westminster.

 

No terceiro dia de jornada, não puderam mais contar com a cooperação do tempo. Ardith conduzia sua égua pela longa estrada, não se importando com a neve que caía, desde que continuasse branda e não houvesse ra-jadas de vento cortante.

 

Descobriu que estava gostando da viagem. Gerard mantinha a caravana a um passo rápido mas não exte-nuante. Corwin mostrava-se atencioso, parando vez ou outra para falar-lhe durante uma de suas freqüentes idas e vindas do início ao fim da longa fila. Quando a estrada era larga o bastante, ela seguia ao lado da liteira e conversava com Bronwyn e Elva.

 

Na maior parte do tempo, cavalgava na frente da liteira, atrás de vários soldados de Wilmont. Acima de suas cabeças, podia avistar seu pai e Gerard no inicio da caravana.

 

A inesperada sugestão de sua irmã quanto a um casamento não lhe saía dos pensamentos, embora Bronwyn não tivesse mencionado os planos outra vez desde aquela noite na abadia.

 

Corwin aproximou-se por trás.

 

— Depois da parada que fizermos ao meio-dia, você deverá cavalgar à frente da fila. Gerard quer que você esteja a seu lado quando chegarmos a Londres.

 

— Por quê?

 

— Não lhe questionei a ordem, mas acredito que Gerard esteja zelando pela sua segurança.

 

— Como posso estar mais segura do que entrando na cidade atrás de uma tropa de soldados?

 

— Tenho certeza de que ele deve ter suas razões. Sempre as tem.

 

Depois de uma breve refeição, a caravana tornou a se reunir para a última etapa da jornada. Ardith encontrou sua égua à espera na frente da fila. Gerard ajudou-a a montar.

 

— Depois que passarmos pelos portões, fique perto de mim — instruiu-a e, então, subiu na própria montaria. O cavalo de guerra escoiceou e relinchou na presença da égua. Com suas mãos fortes e pernas musculosas, Gerard manteve-o sob controle.

 

Ao longo da tarde, ela notou mudanças na região. A caravana atravessou vários vilarejos. Grupos de pessoas apinhavam a estrada, avançando pela lama a fim de chegarem aos portões da cidade antes do anoitecer.

 

Corwin ordenou à caravana que se mantivesse o mais compacta possível. Pela primeira vez desde que haviam deixado Lenvil, Gerard se virara para olhar para trás. Com um gesto de sua mão, indicou a Ardith para que se aproximasse mais. Ela obedeceu, guiando a égua na sombra do cavalo de guerra.

 

A muralha de pedra circundando Londres era alta e imponente. Depois de passarem pelo portão aberto, feito de madeira e ferro, olhou boquiaberta para a cidade.

 

Casas de madeira ladeavam a estrada lamacenta, espremendo-se umas contra as outras para formar fileiras compactas. Aqui e ali, uma construção de pedra, geralmente o estabelecimento de um mercador com residência no andar de cima, interrompia a monótona seqüência.

 

Soldados de Wilmont gritavam avisos para a desobstrução do caminho. Se alguém não se movia depressa o bastante, reforçavam a ordem com um empurrão. Ardith jamais vira tanta gente numa área tão pequena.

 

Todos enxotavam os vários mendigos.

 

Ardith manteve os olhos adiante até que tivessem passado pela aglomeração de casas e gente. Notou, então, igrejas com torres altas e casas de pedra com três andares ou mais. Gerard diminuiu o passo enquanto ultrapassavam a Catedral de St. Paul e, então, o Castelo de Baynard, dando tempo a ela de admirar as imensas construções. Quando passaram pelo portão oeste, deixando Londres para trás e prosseguindo até Westminster, Gerard tornou a acelerar o ritmo da caravana.

 

Ardith teve pouco tempo para absorver os cenários e sons de Londres antes de entrarem em Westminster. Próximo ao trecho onde o Tyburn desaguava no Tâmisa fi-cava o imponente Palácio de Westminster, logo atrás a abadia.

 

Depois de entregar sua égua aos cuidados de um cavalariço, Ardith olhou para trás na direção de Bronwyn. De algum modo, Kester soubera da chegada da caravana. Pequeno de estatura, mas grande de coração, Kester saudou a esposa com genuíno afeto.

 

De imediato, Bronwyn começou a explicar como acontecera de seus familiares estarem agora em Westminster.

 

Ardith olhou ao redor à procura do responsável por planos tão inesperados. Gerard desaparecera e, com ele, também Corwin.

 

Naquela noite, enquanto aguardava a ceia, Ardith se perguntava como alguém poderia se manter indiferente ao esplendor do palácio real. Nobres ricamente vestidos adiantavam-se até o refinado salão de jantar através de entradas vigiadas por soldados da guarda real. Chamas bruxuleantes de tochas e velas refletiam-se nos pilares de mármore.

 

Havia uma grande mesa no alto da plataforma de madeira situada numa extremidade, destinada ao rei e a alta nobreza. Fileiras de mesas menores e menos alteadas distribuíam-se pelo restante do extensão do salão. Ela sentou-se a uma das mesas mais baixas e distantes da principal, como cabia ao seu pequeno grau de importância na hierarquia.

 

— Aí está você. Gostaria de companhia? — perguntou Corwin.

 

— Oh, sim, obrigada — respondeu Ardith, com alívio. — Bronwyn me disse para sentar aqui e, em seguida, afastou-se com Kester para ocupar um lugar de maior importância à mesa. Você pode ficar comigo durante a ceia?

 

— Claro. Diga-me, já conheceu um pouco do palácio?

 

— Apenas a ala dos aposentos de Bronwyn e os corredores que conduzem até aqui. Ela prometeu me mostrar mais amanhã.

 

— Eu mesmo levaria você para conhecer tudo, se tivesse tempo. Mas o barão tem alguns assuntos a resolver e estaremos bastante ocupados.

 

Ante a menção ao barão, Ardith olhou para a mesa elevada. Gerard estava parado ali, os braços cruzados sobre o peito forte, enquanto conversava com outro homem de vestes elegantes.

 

Uma mulher se aproximou dele, interrompendo a conversa, pousando a mão em seu braço. Era dona de extraordinária beleza. Com um vestido e véu de tecido esvoaçante num tom claro de azul, abriu-lhe um sorriso radiante. Duas tranças loiras caíam-lhe sobre o peito, fitas azuis entrelaçadas com as mechas sedosas. Aquela distância, ela não pôde distinguir a cor dos olhos da mulher. Via apenas que eram claros. Os lábios, porém, eram de um tom tão vibrante que a levou a se perguntar se ela usara suco de amoras para escurecer a cor natural.

 

Inclinou-se na direção de Corwin.

 

— Quem está falando com Gerard?

 

— Aquele é Charles, o conde de Warwick. E um poderoso aliado de Wilmont.

 

— Eu estava me referindo à mulher.

 

— Lady Diane?

 

— É muito bonita.

 

— Bastante rica também. Ela é protegida do rei Henrique.

 

Corwin passou a dizer-lhe o nome e a fazer um breve relato daqueles que se reuniam nas mesas de maior importância do salão. Condes e barões juntavam-se a mem-bros da ordem dos cavaleiros e a oficiais da corte. Embora Ardith soubesse que no dia seguinte não se lembraria da maioria dos nomes, soube distinguir facilmente os vários graus hierárquicos.

 

— Enfim, vamos comer — comentou o irmão.

 

— Não esperamos pelo rei e pela rainha?

 

— O rei deve estar fazendo a refeição em algum outro lugar. Quanto à rainha, não reside no palácio. Vários anos atrás, recolheu-se à Abadia de Romsey e não comparece à corte com freqüência.

 

Ardith lançou um olhar para seu pai, que estava sentado perto de Bronwyn mas numa mesa abaixo, e perguntou-se o que ele estaria achando de seu lugar.

 

Finalmente, uma longa fila de criados entrou no salão carregando bandejas de comida, oferecendo as iguarias junto à mesa mais alta primeiro. Entre as carnes e aves servidas, Ardith notou javali, carneiro, perdizes e faisões, a maioria costumando haver à mesa também em Lenvil. Filões de pão recém-assados acompanhavam pratos elaborados. O que ela mais apreciou foi um bolo de passas e amêndoas, além das frutas raras.

 

O salão estava barulhento e festivo, as vozes e risos ecoando ao redor. Ardith começou a relaxar e apreciar a companhia daqueles à sua volta. Um jovem, Robert de Bath, parecia determinado a fazê-la rir.

 

— Corwin, você terminou?

 

Ela segurou seu cálice com mais força ao reconhecer a voz de Gerard. Os demais ao redor se levantaram, não lhe deixando escolha senão reverenciar também a pre-sença do barão.

 

— Sim, milorde — respondeu Corwin. — Posso acompanhar Ardith até Bronwyn antes de sairmos?

 

Robert de Bath fez uma ligeira mesura.

 

— Seria uma satisfação acompanhá-la se vocês estiverem com pressa.

 

Gerard observou-o de alto a baixo com certa frieza.

 

— Se a dama permitir, eu mesmo terei prazer em fazer isso. Ardith?

 

Enquanto ela entreabria os lábios, planejando dizer que não precisava de acompanhante algum até a mesa da irmã, Gerard estendeu a mão e arqueou uma sobran-celha. Como já fizera antes, não lhe deu escolha senão aceitar para não insultá-lo.

 

Colocou a mão na dele. O contato fez sua pele se ar-repiar, causando-lhe um tremor que pareceu percorrê-la por inteiro. Gerard colocou-lhe a mão na curva de seu braço e conduziu-a pelo salão apinhado.

 

As pessoas se moviam para o lado, abrindo-lhe caminho. Ela notou a deferência apenas vagamente, todos os seus sentidos concentrados no barão. Não apenas estava elegante, como exalava uma fragrância das mais agradáveis. Depois de ter se banhado e barbeado, não tinha mais o odor de couro e cavalos. Um aroma sutil e totalmente masculino quase lhe roubava o fôlego, levando-a a respirar fundo.

 

Gerard não se deteve para conversar. Cumprimentou Kester rapidamente e, então, afastou-se, deixando o salão depressa, Corwin seguindo-o.

 

Bronwyn franziu o cenho.

 

— Ora, vamos, querida — disse-lhe Kester. — Tem que admitir que foi perfeito. Os falatórios não vão cessar por uma semana.

 

— Se ele tivesse escolhido qualquer outra pessoa que não Ardith, eu aplaudiria.

 

— Duvido que ele tenha causado algum mal à sua irmã.

 

Ardith cruzou os braços.

 

— Algum de vocês quer me dizer sobre o que estão falando?

 

— Sobre o motivo do barão Gerard para seu comportamento incomum — explicou a irmã. — Ele nunca convidou nenhuma mulher para segurar seu braço diante da corte inteira. Há mulheres neste salão que dariam fortunas para serem objeto das atenções do barão.

 

Ardith lembrou-se imediatamente da bela loira vestida de azul, a mão delicada encostando no braço de Gerard. Conteve a onda de ciúme.

 

— O barão estava apenas fazendo uma simples gentileza, Bronwyn. Ele foi até o fundo do salão para buscar Corwin, não a mim.

 

— Pode ser, mas a corte vai fazer especulações a respeito. Alguns vão acreditar que ele rejeitou lady Diane propositadamente. Os avanços dela nesta noite foram bastante evidentes. Bem, quaisquer que tenham sido os motivos do barão, temos que aproveitar a oportunidade. Venha, quero que você conheça sir Percival.

 

                                                       CAPÍTULO 8

A mente de Edward Siefeld vagueava enquanto Basil de Northbryre reafirmava sua contrariedade em relação ao fracassado complô de assassinato.

 

Melhor seria que os eventos na Normandia fossem esquecidos. Edward percebera que havia emboscado o homem errado no instante em que o guerreiro virara-se para lutar. Dos lábios da vítima saíra não o grito de guerra pelo qual Gerard era reconhecido, mas as pom-posas e provocadoras ofensas de Richard.

 

Com a espada reluzindo no ar, o bastardo de Wilmont dirigira-lhe vários insultos e vangloriara-se de sua superioridade. Dois dos homens de Edward haviam morrido. Outros tinham sido feridos. Mas nem mesmo Richard, com sua força invejável, pudera resistir ao ataque de dez homens. O próprio Edward o vira perecendo sob sua espada.

 

Basil andava de lá para cá entre a cama e uma mesa apinhada de rolos de pergaminho com os registros do intendente de Northbryre. Edward duvidava que o próprio Basil soubesse ler, escrever ou contar. E desde que a jovem esposa dele fugira para a Normandia com o filho de ambos, a pilha de pergaminhos crescera. Mas, enquanto o homem pagasse bem pelas tarefas geralmente ilegais e sangrentas que encomendava a mercenários, não se importava em saber como ele mantinha suas contas.

 

O corpulento Basil parou, enfim, diante da luminosidade projetada pelas velas, bloqueando-a. Edward comparava-o a um grande urso. Embora tivesse envelhecido, continuava perigoso. Tinha os cabelos ralos e grisalhos. Com as mãos para trás, o ventre proeminente comprimia-se contra o rico tecido de suas vestes, evidenciando a apreciação pela comida e o vinho sem nenhum exercício para manter o corpo em forma. Mas, afinal, Basil não precisava de sua força física. Com guardas para defender o castelo e mercenários para comandar conforme lhe aprouvesse, o homem jamais segurara uma arma com intento de usá-la.

 

— E agora — dizia ele —, o barão Gerard não vinga seu cavaleiro, nem fortalece seu feudo. É um covarde.

 

— Talvez o barão não saiba quem matou Richard, ou ao cavaleiro de Wilmont que encontramos espionando em Milhurst.

 

— Ele sabe, Siefeld. — Um sorriso desdenhoso passou pelo rosto de Basil. — Gerard sabe e não faz nada a respeito. Se estivesse vivo, Everart já teria reunido um grupo de cavaleiros e me desafiado a esta altura. O filho, porém, prefere ficar de braços cruzados.

 

Edward não era da mesma opinião. Já vira Gerard lutando. Não era um covarde. E, depois de ter lutado com Richard, não estava inclinado a enfrentar o barão.

 

— Por que Milhurst lhe é tão importante, milorde?

 

Basil de Northbryre não tinha o hábito de explicar suas atitudes a subalternos. Como um mercenário seria capaz de entender a indignidade sofrida por sua família quando, pelo rabiscar da pena de um escrivão, a posse da terra fora transferida de Northbryre para Wilmont? Apenas por um irônico golpe do destino havia Wilmont se apossado de Milhurst na época do registro feito pelo rei Guilherme sobre a posse de todas as terras da Inglaterra.

 

Por tudo que era sagrado, aquelas glebas, a casa, os pastos e os camponeses pertenciam de direito a North-bryre. Se olhasse para fora pela ala norte de seu castelo, podia avistar os limites do feudo vizinho. Um rio atravessava campos, bosques e, num trecho onde as margens eram mais estreitas, havia um moinho de grãos que era uma fonte inestimável de riqueza.

 

Ao longo do reinado de três monarcas, os barões de Northbryre haviam lutado tanto com a espada quanto através de petições para recuperar o feudo. Wilmont jamais abrira mão de um simples palmo de terra. Os sucessivos reis haviam ignorado os apelos por justiça.

 

A tentativa fracassada de Edward de matar Gerard enfurecia Basil, mas agora julgava o assassinato do barão desnecessário. Se ele se recusava a lutar, Milhurst estava vulnerável e seria facilmente tomado.

 

Observou os olhos do mercenário se iluminando em entendimento quando, enfim, deu sua resposta:

 

— Um ano de rendimentos com a produção do moinho seria o bastante para manter o seu bando alimentado, vestido e armado por dez anos. Depois do jantar, discu-tiremos sobre a melhor maneira de tomar Milhurst.

 

Gerard fechou o livro com os registros do levantamento de terras da Inglaterra que o rei Guilherme realizara em 1086. Por três dias, ele e Corwin havia examinado as páginas e feito listas das terras pertencentes a Wil-mont e a Northbryre. Como soubera o tempo todo, e agora acabara de confirmar, Milhurst pertencia de direito a Wilmont.

 

— Eu não havia me dado conta de que Basil é tão rico em terras — comentou Corwin, deixando a pena de lado e flexionando os dedos.

 

— Nem eu — admitiu Gerard.

 

— Você tem tudo que precisa para apresentar a sua queixa formalmente ao rei?

 

— Quero saber primeiro se Basil atacou Milhurst.

 

Corwin assentiu, compreensivo.

 

— Então, você poderá alegar que Basil rompeu com a paz no reino, além de ter tentado matar um membro de sua família.

 

Assegurando-se de que a tinta secara, Gerard enrolou os pergaminhos.

 

— Siefeld será nossa isca. Seu choque em ver Richard vivo poderá amedrontá-lo o bastante para confessar tudo.

 

— E se Basil não vier até a corte? E se perceber que se trata de uma armadilha?

 

— Henrique convocou todos os barões, exigindo um voto de lealdade pela ocasião do Natal. Qualquer vassalo do rei que não se apresentar à corte estará colocando em risco o seu título e propriedades. Basil virá e, a seu lado, Siefeld. O homem não sai de seu castelo sem reforços. — Com um pequeno sorriso, Gerard acrescentou: — E se ele não apa-recer, vou fazer uma petição a Henrique para me deixar agir como a espada de punição real.

 

Corwin estudou-o por um momento.

 

— Acredito que você preferiria ir arrancar Basil do castelo dele, em vez de esperar por sua vingança através de Henrique.

 

— Uma perspicaz observação.

 

Corwin riu e, então, levantou-se da mesa.

 

— Bem, se terminamos aqui, acho que vou ver Ardith e descobrir o que a está incomodando.

 

Gerard notou-lhe o quê de preocupação na voz e ficou imediatamente ansioso em relação a Ardith. Ele e Corwin haviam trabalhado durante longas horas nos dias anteriores, anotando as concessões oficiais de terras, parando ape-nas para o jantar… o rapaz sempre se reunindo à irmã numa das mesas menos importantes do salão, ele forçado a apenas observá-la de seu lugar à mesa mais elevada.

 

Gostava cada vez mais do que via e sua certeza de que fizera a escolha certa aumentava. Bronwyn não podia estar zelando melhor pela irmã. Vestira-a com belas rou-pas, enfatizando-lhe a beleza natural. Agora, Ardith parecia-se mais com uma herdeira nobre do que com uma camponesa saxônia. Demonstrava respeito por aqueles que pertenciam a castas superiores, mas sem subserviência em sua postura ou expressão. Sua atitude confiante e independente talvez surpreendesse alguns aristocratas, mas nenhum via-lhe defeito, nem se ofendia. Aqueles da mesma posição dela faziam questão de se sentarem o mais perto possível da adorável jovem. Seu sorriso doce e amabilidade atraíam as pessoas rapidamente.

 

— Ardith está com algum problema?

 

Corwin deu de ombros.

 

— Está aborrecida com algo. Talvez seja pelo fato de se achar num local estranho. Não está acostumada ao confinamento de quatro paredes.

 

Gerard entendia perfeitamente.

 

— Você acha que ela gostaria de cavalgar pelo campo?

 

— Aposto que adoraria.

 

Ele esperava que sim, enquanto ambos se adiantavam pelos corredores do palácio. Depois de ter deixado as listas nos aposentos reservados a Wilmont, conversaram sobre algum trajeto que ela pudesse apreciar mais. Seus planos, porém, tiveram que ser esquecidos quando Bronwyn atendeu à porta de seus próprios aposentos, chorando.

 

— Oh, Corwin, fico contente que esteja aqui. Você também, barão Gerard.

 

— Qual é o motivo das lágrimas? — indagou o irmão.

 

— É Ardith. Você tem que encontrá-la e trazê-la de volta. Está bastante obstinada e não quer dar ouvidos à razão. Elva foi atrás dela, mas receio que Ardith seja veloz demais para as pernas cansadas de nossa velha tia.

 

— O que aconteceu?

 

— Foi por causa de sir Percival. Eu disse a Ardith que ele viria vê-la e que eu tinha certeza de que estava prestes a falar com nosso pai. Achei que ficaria contente! Como eu poderia saber que ela despreza o homem! E agora Percival ficou zangado por que Ardith não estava aqui quando veio para vê-la, nem nosso pai. Então, ele saiu em disparada. Sir Baylor vai chegar a qualquer momento e receio que também ficará com raiva. Oh, que grande confusão…

 

Sem entender muito bem o que se passava, Gerard ouvia em crescente apreensão.

 

— E para onde Ardith foi?

 

Bronwyn sacudiu a cabeça, aflita.

 

— Não faço idéia.

 

— Eu vou encontrá-la. Corwin, fique aqui para o caso de sua irmã voltar.

 

Gerard avançou rapidamente pelos corredores do palácio, fazendo as tochas oscilarem com sua passagem e os criados desviarem-se de seu caminho. Como não a encontrasse no grande salão de jantar, verificou na cozinha e, em seguida, nos estábulos. Encontrou-a, enfim, numa capela. Para seu aborrecimento, também deparou com Percival ali. Nenhum dos dois o ouviu entrando. Estavam absortos demais numa perseguição.

 

Gerard deteve-se junto à entrada, cruzou os braços e sorriu. Céus, Ardith era linda… Seus olhos azuis faiscavam de raiva. Num vestido verde-claro, com o véu trans-parente esvoaçando, ela o lembrava de uma pintura que vira certa vez de uma ninfa do mar. Ergueu as saias e correu por detrás de uma imagem em direção ao altar de mármore.

 

Percival estendeu os braços para capturar a arredia ninfa. Não conseguiu. Gerard sacudiu a cabeça. Corpulento, o cavaleiro estava longe de se mover com elegância, embora num campo de batalha fosse admirável a sua habilidade com uma espada. Guerreiro por natureza, usava a espada para derrubar homens como um camponês ceifaria seu trigo. Mas, ao contrário de um camponês, que saberia quando parar, Percival lutaria até ser vencido pela exaustão, mesmo depois que a batalha já estivesse conquistada. Só parava se alguém conseguisse derrubá-lo ao chão, até que o juízo voltasse à sua mente. Apenas uma vez Gerard tentara tal façanha e agora levava uma cicatriz no ombro, originada daquele encontro.

 

Se a sede de sangue de Percival tivesse vindo à tona no momento, tornando impossível qualquer pensamento coerente, Gerard talvez temesse pela segurança de Ardith. Mas era outro tipo de anseio que dominava o bruto, apenas anuviando-lhe de leve os pensamentos.

 

Os dois circundaram o altar uma vez. Ardith, então, mais veloz, conseguiu colocar uma distância razoável en-re ambos.

 

— Venha aqui, minha pombinha! — disse Percival, persuasivo. — Não pode fugir de mim por muito tempo. Planejo apenas sentir o calor de seus braços uma vez antes de nos casarmos.

 

— Não sou sua pombinha — retrucou ela, furiosa. — E eu não o aceitaria nem que você fosse o último homem de toda a Inglaterra!

 

Imperturbável, Percival persistiu:

 

— Mas você não tem que me aceitar. Harold precisa apenas dar a sua aprovação à união. Você deveria ser mais amável comigo.

 

— Meu pai não me obrigará a casar com um homem que não quero!

 

— Ora, vamos, minha pombinha, deixe-me mostrar-lhe como vamos nos entender bem!

 

Percival avançou pelo altar inesperadamente. Soltando um grito, Ardith recuou e acabou batendo as costas num pilar de mármore.

 

— Toque num fio de cabelo de Ardith, Percival, e você perderá a mão. — A voz de Gerard ecoou ameaçadora pela capela.

 

Ardith murmurou uma prece de agradecimento aos céus pela oportuna intervenção.

 

Percival desceu do altar, estreitando os olhos.

 

— Barão Gerard, o que esta situação lhe diz respeito?

 

— Como o suserano de Ardith, posso opinar com relação a quem irá desposá-la. Receio que a sua proposta não será aceita.

 

O cavaleiro franziu o cenho.

 

— Fui levado a crer em contrário. Lady Bronwyn disse que…

 

— Não a culpe. Ela não sabia o que penso a respeito disto. Não fazia idéia de que eu tenho outros planos para a irma.

 

Que outros planos? Antes que Ardith pudesse perguntar, Percival insistiu:

 

— Não podemos chegar a algum tipo de acordo, lorde Gerard? Com certeza, a minha posição é igual a de qualquer um que possa escolher-lhe, e seríamos grandes aliados, você e eu.

 

De repente, ela entendeu a razão para Gerard querê-la por perto. Ele desejava fazer alguma aliança e pretendia usá-la como parte da barganha. Chocada, ergueu a cabeça com dignidade e fez menção de se afastar em direção à saída.

 

O barão segurou-a pelo braço.

 

— Aonde pensa que está indo?

 

Ardith recusou-se a encará-lo, mas soube que devia responder.

 

— Vou retornar aos aposentos de Bronwyn.

 

— Para lidar com Baylor?

 

Ela baixou a cabeça com um ar desolado.

 

— Achei mesmo que você não iria querer isso. Aguarde um momento, enquanto esclareço as coisas com Percival.

 

Ardith não queria ficar. Gostaria de poder sair em disparada dali. Mas Gerard tinha aquele exasperante hábito de dar ordens aos outros.

 

Virou-se, enfim, para fitá-lo.

 

— Como desejar, milorde.

 

O sorriso arrogante evidenciou que ele ficou satisfeito com sua complacência. Soltou-lhe o braço.

 

— O futuro de Ardith já está decidido — informou ao cavaleiro. — Se você insistir em querer desposá-la estará apenas perdendo o seu tempo e o meu.

 

— Que seja como você quiser. Mas, caso seus planos mudem, peço-lhe que reconsidere minha proposta.

 

Para o desalento de Ardith, Gerard assentiu de leve.

 

Percival fez-lhe uma mesura.

 

— Então, desejo-lhe um bom dia, barão — disse, já deixando a capela.

 

         Gerard tocou o queixo de Ardith com gentileza, erguendo-o para que o fitasse nos olhos.

 

— Ele machucou você? — perguntou, preocupado.

 

— Não, milorde.

 

— Mas a assustou. Você está tremendo.

 

Ardith nem sequer pensou em corrigi-lo. Não lhe diria que era o toque dele que a fazia tremer. Esforçou-se para se lembrar de que o barão planejava entregá-la a outro homem.

 

— Não deveríamos retornar, milorde? Bronwyn ficará preocupada.

 

Ele afagou-lhe o rosto com a ponta dos dedos, seu toque suave, sensual. Ela recuou um passo, levando-o a baixar a mão. Fitou-a com uma expressão séria, seu semblante endurecendo.

 

— Sua irmã tem andado ocupada. Quantos pretendentes arranjou para você?

 

— Cinco.

 

— Cinco! — A surpresa e a contrariedade de Gerard ecoaram pela pequena capela. — Quem são?

 

Ardith observou-o andando de lá para cá, irritado, enquanto lhe dizia os nomes. Perguntou-se se algum dos cinco também era escolha de Gerard. Esperava que não.

 

— Todos são bons partidos.

 

— Minha irmã escolheu-os cuidadosamente.

 

— Algum deles já esteve à procura de Harold para pedir-lhe a sua mão?

 

— Não que eu saiba, milorde. Está sendo difícil localizar meu pai nos últimos dias. Anda tão ocupado revendo velhos amigos que raramente o vemos. Nós nem sequer tivemos tempo para…

 

Ardith conteve-se abruptamente, dando-se conta de que ia revelando demais.

 

— Para quê?

 

Notando-lhe o ar de censura, ela pensou em dar alguma resposta evasiva, até que a irmã estivesse a seu lado para partilhar a reprimenda. Mas a expressão severa do barão não encorajava nenhuma mentira.

 

— Para pedirmos a aprovação dele nos planos de Bronwyn, para perguntar se teria condições de me arranjar um pequeno dote.

 

— Quer dizer que você e sua irmã planejaram encontrar-lhe um marido sem terem consultado seu pai, sem nenhuma orientação masculina?

 

— Kester sabe.

 

— Kester! Ora, ele permite liberdade demais a Bronwyn. E um excelente cavaleiro, um conselheiro inteligente, mas é condescendente demais em relação à esposa — Gerard girou nos calcanhares e adiantou-se até a saída da capela. Ela apressou-se a segui-lo.

 

— Mulheres arranjando casamentos — resmungou, enquanto sacudia a cabeça em incredulidade.

 

— E por que não? — retrucou Ardith, precisando quase correr para alcançá-lo. — Você acabou de admitir que Bronwyn escolheu bem. Haveria mais uniões felizes se as mulheres arranjassem os casamentos.

 

— Uniões felizes? Você quer dizer baseadas nos sen-timentos? Ouça, os sentimentos não são levados em conta num bom contrato de casamento.

 

— Bem, talvez devessem ser.

 

Gerard não respondeu.

 

Ela percebeu, de repente, que estavam num setor do palácio que nunca vira antes.

 

— Este não é o caminho para os aposentos de Bronwyn. Para onde estamos indo?

 

— Vamos ao sapateiro. Você precisa de um novo par de botas.

 

Ardith não argumentou. Na verdade, nem teria conseguido. Quando chegaram ao sapateiro, estava quase sem fôlego. Gerard a fez entrar e sentar-se num banco.

 

O cheiro de couro era forte na oficina pequena e escura. Todos os tipos de calçados, desde botas rústicas de couro a delicadas sapatilhas femininas de tecido apinhavam prateleiras de madeira.

 

Enquanto o sapateiro media o pé de Ardith para o molde, Gerard escolheu uma peça do melhor couro disponível e lhe perguntou se era de seu agrado. Embora ela não entendesse a razão para a compra, sabia que discutir com ele por causa de um par de botas seria inútil. Além do mais, aquelas botas seriam as mais confortáveis que já tivera.

 

— Sim, milorde — respondeu, com franqueza.

 

— Excelente escolha, milorde — comentou o sapateiro.

 

— Esse couro irá manter os pés de sua dama aquecidos e secos.

 

Gerard não esclareceu o tipo de relacionamento entre ambos, enquanto seguia o sapateiro à bancada. Num tom baixo e com gestos discretos, deu-lhe instruções detalhadas. O sapateiro assentia, atento, fazendo anotações. Enfim, anunciou que as botas estariam prontas no dia seguinte.

 

Gerard agradeceu, deixando a sapataria. Ardith começou a ficar furiosa. O exasperante homem nem sequer olhara para trás a fim de ver se ela tornara a colocar o próprio calçado.

 

— Ardith! — esbravejou ele.

 

Ela conteve a raiva, agradeceu ao sapateiro e, então, demorou o máximo que pôde a obedecer ao chamado. Tornou a segui-lo, enquanto Gerard avançava por passagens desconhecidas e subia escadarias. Enfim, deteve-se diante de uma porta, abrindo-a. Entrou nos aposentos, aproximando-se de uma mesa repleta de rolos de pergaminho e encimada por um jarro de vinho e duas taças. Serviu-se da bebida, sorvendo-a de um só gole.

 

Ardith seguiu-o com um ar apreensivo, fechando a por-ta atrás de si.

 

Admirou-se com a simplicidade e o conforto dos apo-sentos destinados a ele no palácio. Na sala íntima, achavam-se uma mesa de carvalho e duas cadeiras de espaldar alto. Reconhecia o tapete exótico do chão como o que vira na tenda. Um grande braseiro amenizava o frio. Uma passagem em arco à direita da sala conduziria, na certa, aos aposentos.

 

— Thomas? — chamou ele, elevando a voz.

 

O pajem apareceu junto ao arco.

 

— Sim, milorde?

 

— Corwin está com lady Bronwyn. Vá lhe dizer que Ardith está comigo e permanecerá aqui para a ceia. Informe-o de que ele e Harold devem se juntar a nós depois que tiverem jantado. Em seguida, você estará dispensado. Só quero vê-lo de volta aqui quando nos trouxer a comida.

 

Thomas retirou-se apressadamente.

 

Gerard tornou a servir-se de vinho e preencheu também a segunda taça, pousando-a na mesa. Sentou-se numa cadeira, indicando a Ardith que ocupasse a outra.

 

O vinho era forte, um agradável calor logo se espalhando pelas veias dela, mas não conseguia relaxar, não até que obtivesse algumas respostas.

 

— Você disse a sir Percival que meu futuro estava decidido. Eu gostaria de ouvir sobre esses planos, milorde.

 

— A seu devido tempo. Irei discuti-los primeiro com Harold.

 

Ardith não pôde conter seu tom de censura:

 

— Quer dizer que você também andou fazendo planos sem consultar o meu pai?

 

Ele sorriu, pousando sua taça na mesa.

 

— Sim. Mas, ao contrário de Percival, não preciso da aprovação ou permissão de Harold para qualquer coisa que eu decida fazer, não é mesmo?

 

Embaraçada, Ardith não pôde discordar.

 

— Por que você estava na capela? — perguntou Gerard de repente.

 

— Fui em busca de um lugar tranqüilo para pensar e rezar, pedindo orientação.

 

— Conseguiu-a?

 

— Não. Percival logo me interrompeu.

 

— Você não deveria ter estado sozinha. Se eu não a houvesse encontrado, Percival poderia tê-la molestado.

 

Ardith já havia chegado à assustadora conclusão.

 

Sem mais uma palavra, Gerard levantou-se e deixou a sala. Voltou depressa do quarto, carregando um pequeno baú de madeira entalhada. Afastando os rolos de perga-minho para o lado, colocou-o na mesa. Abriu-o, tirando dali uma adaga… uma obra de arte em forma de arma.

 

Rubis e esmeraldas reluziam no cabo de ouro trabalhado. Feita de prata, a lâmina era pontiaguda, possuindo dois gumes. Ardith quase estremeceu diante da beleza letal da adaga.

 

Gerard pousou-a na mesa à sua frente.

 

— As Presas de Leão — sussurrou ela, lembrando-se do nome.

 

— Você sabe sobre estas adagas?

 

— Corwin me contou a respeito vários anos atrás. Dis-se-me que foram dadas ao primeiro barão de Wilmont por Guilherme, o Conquistador. — Ardith espiou para dentro do pequeno baú. Estava vazio. — E quanto à outra?

 

Gerard esticou a mão até sua bota. De uma bainha interna, tirou o par da adaga que se achava na mesa.

 

Admirou a lâmina, sua expressão grave.

 

— Tenho carregado isto desde que aprendi a segurar uma arma. Esta adaga quase sempre esteve entre mim e a morte. E como esta me serviu bem… — Apontou para a adaga na mesa ao acrescentar: — . . .esta outra servirá a você.

 

                                                     CAPÍTULO 9

— Milorde, não pode me dar esta adaga! — protestou Ardith. — Ela deve permanecer com seu par. Faz parte da herança de Wilmont.

 

Gerard assentiu.

 

— É, portanto, minha para que eu faça o quiser.

 

— E se eu a perder?

 

— Se o sapateiro seguir minhas instruções corretamente, a sua adaga irá servir na bainha costurada na parte de dentro de sua bota de maneira tão segura quanto na minha.

 

Ardith cruzou os braços, obstinada.

 

— Então, pode poupar a despesa das botas. Não preciso de uma arma.

 

— Uma vez que insiste em andar pelo palácio desacompanhada, carregará uma. Na próxima vez que alguém tentar molestá-la, poderá se defender.

 

— Milorde, eu sei que Percival se excedeu, mas a sua reação está sendo exagerada….

 

— Exagerada? Se eu não tivesse interferido. Percival teria possuído você no chão daquela capela! Ou será que entendi mal o que ele quis dizer ao mostrar como vocês dois iriam se entender bem?

 

Ardith desviou o olhar.

 

— Acho que… ele planejava tentar.

 

— E é provável que teria conseguido forçar você a isso.

 

— Ouça, e se eu prometer que não sairei mais sozinha?

 

— É uma sábia decisão, mas não muda nada.

 

— Não faço idéia de como usar uma adaga.

 

— Saberá usá-la muito bem quando eu tiver terminado de ensiná-la. Começaremos o treinamento amanhã, de-pois que tivermos ido buscar suas botas.

 

Gerard podia ser homem dos mais obstinados. Será que não entendia que ela não desejava carregar uma arma, que nem sequer podia se imaginar empunhando-a para ameaçar alguém, e muito menos ferindo uma pessoa? Tentou seu último argumento:

 

— Milorde, eu passei minha vida inteira aprendendo como curar feridas, não causá-las. Confesso que prefiro enxotar um inseto de um cômodo do que matá-lo. Não tenho uma natureza guerreira.

 

Gerard colocou a própria adaga de volta na bota e guardou a outra do par no pequeno baú.

 

— Alguns insetos merecem ser liquidados.

 

Ardith olhou para a adaga no baú aberto, resignada ao inevitável, mas ainda intrigada com a obstinação dele.

 

— Bem, o seu silêncio significa que concorda?

 

— Não está me dando escolha.

 

— Nenhuma. Se isto a deixar mais tranqüila, saiba que talvez nunca precise usar a adaga a sério. Tire a Presa de Leão da bainha e qualquer um de sangue nobre, ou mesmo nem tanto, saberá que você é protegida de Wilmont e pensará duas vezes antes de tentar lhe fazer algum mal.

 

Ela ergueu a cabeça, fitando-lhe os olhos de tom intenso como o de esmeraldas.

 

— Você é minha protegida — confirmou Gerard, numa voz um tanto rouca. — Com certeza, já deve saber disso. — Aproximando-se mais, parou ao lado da cadeira e afagou-lhe a face com a ponta dos dedos, um toque suave mas de incrível impacto. — Diga-me, quanto àqueles seus pretendentes, está enamorada de algum?

 

Todos os homens que Bronwyn lhe apresentara como maridos em potencial ficavam apagados em comparação a Gerard. E Ardith os havia comparado, desde a cor dos cabelos até a franqueza do sorriso, da postura confiante à autoridade da voz. Nenhum passara nos testes que incluíam, para a encabulação dela, o esplendoroso físico, a evidente virilidade.

 

— Não, milorde — respondeu, um tanto ofegante.

 

O fôlego acabou de lhe faltar quando ele se inclinou para beijá-la. Os lábios cálidos e firmes tocaram os dela com gentileza, persuasivos em princípio. Com seu toque experiente, beijou-a sensualmente, vencendo-lhe a hesitação.

 

A língua contornou-lhe de leve o lábio inferior, até que ela lhe permitisse o acesso. Lentamente, Gerard explorou-lhe a maciez da boca, com carícias sedutoras, até que a sentiu retribuindo com paixão.

 

Céus, como o homem sabia beijar! E quando Ardith já estava achando o prazer intenso demais para suportar, ele ainda intensificou o beijo, despertando reações até então desconhecidas em seu corpo.

 

Correu suas mãos pelos braços fortes, retribuindo com um coração repleto demais de amor por Gerard para considerar algum outro homem digno de ser notado. Se tivera quaisquer dúvidas quanto a seu amor por ele antes, dissiparam-se feito folhas secas ao vento.

 

Gerard deliciava-se com a reação dela, e era impossível não ansiar por maior intimidade. Sabia agora que nenhum dos pretendentes havia provado daqueles doces lábios. Sentia-se exultante com a inocência de Ardith, sabendo que pertencia apenas a ele. Com crescente urgência, inebriou-se com a idéia de lhe desvendar os segredos tentadores e ensinar-lhe sobre os prazeres carnais.

 

Sem interromper o beijo, Gerard a fez levantar da cadeira. Esforçou-se para ser gentil enquanto lhe estreitou o corpo junto ao seu. A forma delicada moldava-se per-feitamente a seu corpo de guerreiro, macia onde ele era sólido, as curvas sedutoras moldando-se a seus músculos.

 

Correu a mão pela cintura esguia, deslizando-a lentamente até detê-la sobre um dos seios arredondados. Através das camadas de tecido das vestes, um mamilo túrgido comprimiu-se contra sua palma. Enquanto lhe afagava o seio demoradamente, ouviu-a soltando um gemido abafado em rendição.

 

Iria possuí-la naquele dia. Não podia esperar mais.

 

Durante semanas, sua mente estivera povoada com pensamentos eróticos com Ardith, imaginando-a em pleno convidativo nos lábios. Imaginara-a respondendo a seu esplendor na maciez de suas mantas de peles, um sorriso toque com total abandono, oferecendo-lhe sua inocência sem incertezas. Prometeu a si mesmo tornar-lhe a iniciação inesquecível, concentrando-a nos fabulosos prazeres partilhados entre um homem e uma mulher.

 

Ardith sabia que não havia como resistir. Suas pernas amoleciam, incapazes de sustentá-la. A mente rodopiava, como que inebriada por aquele vinho que mal havia to-cado. O fôlego quase lhe faltava. Uma espécie de febre consumia seu corpo, correndo por suas veias, exigindo por ser aplacada.

 

Nada para além daquelas paredes importava, seu mundo centrado nas sensações que o beijo e as carícias abrasadoras de Gerard lhe despertavam.

 

Um longo suspiro escapou de seus lábios quando, Gerard terminou o beijo e sussurrou-lhe ao ouvido:

 

— Oh, como eu quero você! Seja minha.

 

O coração de Ardith disparou com aquele tom sedutor, a quase súplica na voz. Sabia o que Gerard queria, não podia fingir ignorância, e também o desejava com a mesma intensidade.

 

Ainda assim, seu coração e mente travavam uma intensa batalha quanto à sensatez de sua rendição.

 

Ele queria saciar o desejo, meramente exercitar seus direitos de senhor feudal. Seria uma tola em acreditar no contrário. Se tivesse lhe adivinhado as intenções correta mente, em breve ela se casaria.., com um homem da escolha do barão. Era como as coisas aconteciam e, embora desolada, Ardith aceitava seu destino.

 

Mas antes de ter que se submeter à luxúria de outro homem, poderia conhecer a alegria de pertencer a Gerard por uma noite, da maneira como uma esposa se entregaria a um marido, e guardar tais lembranças pelo resto de seus dias. Considerando a intensidade com que o amava, não iria se esquivar daquela chance única de tê-lo do modo mais íntimo possível.

 

— De bom grado, milorde — respondeu.

 

Um sorriso triunfante iluminou o rosto bonito de Gerard. Inclinando-se, ergueu-a em seus braços, carregando-a em direção ao quarto.

 

Abraçando-o pelo pescoço, Ardith olhou, surpresa, para a grande cama que dominava o aposento, ocupando o mesmo espaço de, pelo menos, quatro colchões estreitos de palha. Do dossel, pendiam cortinas escarlates, circundando a cama de três lados, a quarta afastada e presa por cordões de seda trançada. Mantas de pele macias recobriam a cama.

 

— Não tenha medo — sussurrou-lhe Gerard.

 

Ardith esboçou um sorriso, dissipando a expressão anterior de seu rosto que traíra seu momento de hesitação.

 

— Temo muitas coisas, mas não a você, não ao que estamos prestes a fazer, milorde.

 

— Gerard — corrigiu-a ele com certa impaciência. — Aqui não sou um barão, mas apenas um homem. — Tornou a beijá-la nos lábios e sentou-a na beirada da cama. Ela afundou no confortável colchão de plumas, não de palha como imaginara.

 

Gerard ajoelhou-se, removeu-lhe as sapatilhas e jogou-as por sobre o ombro. Ergueu-lhe as saias até a altura dos joelhos. Acariciou-lhe os tornozelos com todo o vagar, enquanto lhe removia as meias, tornando a deixá-la ofegante.

 

— Agora os seus cabelos — disse-lhe, segurando-a pelas mãos para fazê-la levantar-se. — Quero vê-los soltos.

 

Rapidamente, removeu-lhe o véu e desfez-lhe a longa trança. Correu, então, os dedos com gentileza pelas mechas sedosas. separando-as, até que os cabelos ruivos lhe cascateassem em ondas reluzentes pelas costas.

 

— Adorável — sussurrou, afastando-lhe as mechas exuberantes para beijar-lhe a nuca. Deslizou as mãos até os laços do vestido verde-claro, desatando-os. Tirou-o, em seguida. por cima da cabeça dela.

 

Através da fina combinação de linho podia entrever-lhe o belo corpo… os ombros delicados, a curva suave das costas até a cintura fina, os quadris arredondados. Parte de seu controle se dissipou, mas suas mãos não tremeram quando desatou o cordão no alto da combinação. O tecido se abriu, expondo-lhe a pele acetinada e convidativa. Com gentileza, alargou a abertura nas costas da combinação.

 

Virou-a para si, estreitando-a em seus braços. Soltou um gemido abafado quando lhe sentiu o corpo macio e feminino contra o seu. Impaciente, deslizou as mãos até a barra da combinação. Ardith pousou a mão no peito e corou. Ele apreciou-lhe a encabulação, mais uma prova de inocência, mas não a deixaria levar o pudor muito longe.

 

— Não — sussurrou-lhe. — Não se esconda de mim. Quero ver você.

 

Ela afastou a mão devagar, o rubor desaparecendo. Gerard acabou de despi-la rapidamente.

 

Céus, Ardith era linda… Colocou os cabelos para a frente numa tentativa de cobrir os seios cheios e desnudos, o que apenas os deixou mais incitantes. Ela, então, tentou cobrir sua nudez com as mãos, fazendo-o ficar ainda mais curioso.

 

Então, lentamente, com determinação nos olhos azuis, ela ergueu as mãos, descobrindo-se. Segurou os cabelos, afastando-os para detrás dos ombros. Vulnerável mas corajosa, permaneceu ali livre das roupas e de qualquer reserva, sua para que a tomasse.

 

Com um desejo febril dominando-o, Gerard contemplou a ninfa que povoara seus sonhos sob a luminosidade do fogo crepitante da lareira. Sua delicada beleza embevecia. Não demorou a responder ao seu convidativo chamado.

 

Ardith ficou com a respiração em suspenso enquanto as mãos grandes e quentes acariciavam seus seios. O toque era ardoroso, sedutor. Sentia os mamilos se enrijecendo, enquanto ele os massajava com os polegares. Pendeu a cabeça para trás e arqueou as costas, buscando mais das deliciosas sensações. Mas não estivera preparada para o contato dos lábios húmidos e cálidos quando Gerard se inclinou e começou a sugar um dos bicos rosados.

 

A ousada carícia deixou-a inebriada de prazer. Afundou as mãos nos cabelos loiros dele, puxando-o mais para si, até que não pudesse suportar mais a doce tortura. Então, procurou-lhe os lábios com os seus e beijou-o com todo o ardor.

 

Gerard sorriu, ergueu-a nos braços e atirou-a na cama macia. Aninhando-se sob uma manta de pele, ela observou-o livrando-se das botas de couro e da calça justa. Abriu e jogou de lado o cinturão. Sua encabulação voltou quando o viu segurando a barra da túnica. Fechando os olhos , ouviu-o soltando um riso divertido.

 

O colchão de plumas afundou com o peso dele quando se sentou a seu lado. Ardith abriu os olhos a tempo de vê-lo soltando o cordão da cortina e fechando-a. Envoltos num mundo particular, iluminado apenas pela luz difusa da lareira filtrando-se através das cortinas escarlates, ela arriscou-se a observá-lo. Ele cobrira sua masculinidade com parte da manta, mas não o restante do corpo de guerreiro. Torneado e musculoso, forte e proporcional, Gerard era magnífico e, ainda que só por um dia, dela.

 

Ele cobriu-a de carícias estimulantes, tomando o cuidado de ir com todo o vagar. Começou com o rosto, beijando-lhe os lábios, o queixo, deslizando até o pescoço. Ao mesmo tempo, insinuava a mão sob a manta de pele, procurando-lhe os seios.

 

Eram quentes, firmes e acetinados ao toque. Ansiando por admirá-la, afastou a manta e contemplou-lhe o corpo perfeito.

 

— Você é tão linda…

 

Enquanto a devorava com os olhos, jurou a si mesmo que em breve Ardith seria sua também no nome.

 

Correu a mão pela pele macia, com a ponta do dedo traçando a longa cicatriz no ventre dela.

 

— Gerard?

 

Ele notou-lhe a inquietação na voz.

 

— Esta é a marca do ataque do javali, não é?

 

— É feia.

 

Surpreso com aquele tom amargo, Gerard assegurou-lhe:

 

— A sua cicatriz foi adquirida com honra. Não sei de nenhuma outra mulher que carregue marca de tamanha coragem. — Inclinou-se, beijando-lhe a cicatriz de ponta a ponta.

 

Elva comentara que uma mulher precisava apenas ficar deitada imóvel e suportar as exigências de um homem, uma façanha impossível com as carícias de Gerard. Será que a estaria achando leviana por retribuir a seus beijos com sofreguidão, por correr suas mãos avidamente por aqueles ombros e peito másculos? Os gemidos abafados dele só podiam significar que gostava de seu toque, dos beijos úmidos que lhe depositava no pescoço, de como lhe mordiscava a pele.

 

Confiante com sua descoberta, continuou ministrando-lhe suas carícias. Correu os lábios, então, lentamente pelo peito dele, deliciando-se com o contato de pele, até detê-los numa grande cicatriz de guerra abaixo das costelas.

 

— Você poderia ter morrido por causa deste ferimento — sussurrou entre seus beijos.

 

— E quase morri mesmo.

 

— E foi adquirida com honra? Ele hesitou antes de responder:

 

— Eu me joguei na frente de um golpe de espada destinado a meu pai. No ardor da minha tenra juventude, eu me achava invencível e acabei aprendendo que não sou.

 

Ardith continuou deixando sua trilha de beijos úmidos ao longo da cicatriz e deteve os lábios na altura no abdome musculoso. Quando lhe beijou em torno do umbigo, sentiu-o estremecendo. Sorriu consigo mesma diante da reação, eufórica com o poder recém-descoberto. Afastou a manta para encontrar o final da cicatriz e acabou deparando com mais do que procurara.

 

— Oh… céus… — O fôlego quase lhe faltou quando lhe roçou a rija masculinidade com a ponta dos dedos. Afastou-os depressa, seus olhos arregalados.

 

— Toque-me — pediu-lhe ele, num tom rouco, afagando-lhe os cabelos ruivos. — Não tema nenhuma parte de mim.

 

Hesitante, com mãos trêmulas, Ardith afagou-o intimamente. Aos poucos, seu temor foi se dissipando e acabou se dando conta de que o fato de tocá-lo fazia o seu próprio desejo aumentar.

 

Gerard, enfim, deitou-a de costas na cama, mal podendo conter o fogo que o consumia. Sabendo que devia despertar ainda mais o ardor dela, para que se igualasse ao seu, deslizou sua mão até o ventre liso, correndo-a até a parte interna das coxas firmes. Afagou-lhe a pele com vagar, num prelúdio às carícias mais ousadas que estariam por vir. Desvendou-lhe, então, as partes mais secretas, tocando-lhe o centro da feminilidade com gentileza. Com carícias íntimas, hábeis, levou-a a um patamar inebriante de desejo.

 

Ardith arqueava-se sob o toque ousado, o corpo se retorcendo como que por vontade própria, um prazer intenso parecendo percorrer cada parte de seu ser.

 

Os lábios de Gerard deixaram o mamilo que estiveram sugando.

 

— Pode haver dor — avisou-a, o tom de lamento claro em seu sussurro.

 

— Eu sei. Por favor…

 

Atendendo-lhe a súplica, ele inclinou-se sobre Ardith, as mãos segurando-lhe os quadris. Erguendo-a de leve, posicionando-a para recebê-lo e, enfim, penetrou-a lentamente.

 

Ela soltou um grito, enquanto a frágil barreira era rompida, as unhas cravando-se nos braços fortes de Gerard.

 

— A dor vai passar — sussurrou-lhe ele de encontro aos lábios. — Abrace-me e, juntos, veremos o paraíso.

 

Não demorou a provar que tinha razão. A dor cessou. Quando ela começou a relaxar, Gerard se moveu, devagar em princípio, depois num ritmo mais acelerado. Acom-panhando-lhe os movimentos instintivamente, Ardith começou a ansiar por algo indefinível, até que onda após onda de êxtase percorreu seu corpo. O paraíso… Com o coração disparado no peito, teve a impressão de alcançar as nuvens.

 

O pulsar do prazer dela logo levou Gerard para além do limite, um clímax simultâneo arrebatando-o.

 

Céus, Ardith o satisfazia em todos os sentidos, tanto de corpo quanto de espírito. Apoiado nos cotovelos, cobriu-lhe o belo rosto de beijos ternos, enquanto recobrava o fôlego e as batidas de seu coração voltavam ao normal. Eufórico e saciado, rolou para o lado a fim de livrá-la de seu peso. Mas manteve-a em seus braços, aninhada no calor de seu corpo. Ouvindo-a soltar um suave bocejo, puxou uma das mantas de pele, cobrindo a ambos e, então, fitou-lhe os olhos de incrível azul.

 

Ardith sorriu e tocou-lhe o rosto, guiando-o até seus lábios para um beijo.

 

— Você estava com a razão.

 

— Naturalmente — respondeu ele, incerto a qual das muitas coisas que lhe dissera ou mostrara na hora anterior ela considerava certa, mas não importava.

 

Ardith riu, divertida.

 

— Você é também um tanto arrogante, mas é um traço que lhe cai bem. — Tornou a bocejar. — Estas… uniões são sempre tão extenuantes?

 

— Apenas quando são muito boas.

 

— Então, você achou que foi… bom entre nós? — perguntou ela, os olhos sonolentos.

 

— Oh, sim, minha querida! Foi fabuloso.

 

Ardith adormeceu com um sorriso nos lábios. Gerard aninhou-a mais junto a si, apoiando-lhe a cabeça delicada em seu peito. Afagou-lhe os sedutores cabelos ruivos len-tamente, sabendo que nunca tivera experiência mais gratificante. Não apenas o seu corpo estava saciado, mas sua mente também. Aquele imenso, pleno contentamento era um sentimento novo. Nenhuma mulher jamais lhe evocara tamanho desejo e, depois, tamanha serenidade e paz. Mas Ardith conseguira, com sua inocência, com o abandono com que se entregara em seus braços. Talvez fosse por aquela razão que ele estava…

 

Gerard interrompeu tal reflexão de imediato. Com certeza, o esplendor da união física entre ambos havia confundido sua mente. Admitia uma certa afeição por Ardith, mas nenhuma emoção mais profunda. Quisera-a com uma obsessão que nenhuma outra mulher já lhe despertara. Mas fora apenas porque planejava tomá-la como esposa, porque estivera curioso para saber se ela o agradaria na cama. Além do mais, ambos se casariam em breve e quan-to antes concebessem um filho, melhor.

 

Afagou-lhe as costas delicadas, depositando-lhe beijos suaves na fronte. Sorrindo, imaginou as maneiras com que a deixaria expressar sua alegria quando lhe dissesse que planejava torná-la sua esposa.

 

Ardith aninhou-se mais na maciez do colchão de plumas e no calor das mantas de pele. Não queria acordar, mas as vozes abafadas de Gerard e Thomas conversando na sala despertaram-na de seu sono. Uma porta, então, fechou-se , e o silêncio voltou a reinar.

 

Lembrando-se dos esplêndidos momentos partilhados com Gerard, espreguiçou-se numa onda de contentamento.

 

Ele prendera uma das cortinas da cama. O luar filtrava-se através das janelas estreitas, e brasas reluziam na lareira de pedra. Surpresa, deu-se conta de que dormira pelo restante da tarde.

 

Gerard abriu a porta, entrando no aposento. Tinha os olhos sonolentos, o peito despido, as calças moldadas a seu corpo como uma segunda pele. Ardith ignorou o breve aperto no coração, afastou o pensamento de que nunca mais o veria assim em todo seu viril esplendor, banhado pelo luar na intimidade de uma alcova. Sabia que deveria sentir culpa e constrangimento por ter se entregado a um homem que não era seu marido, por ter apreciado aquelas horas roubadas, mas não havia o menor arrependimento em sua decisão. Rendera-se de bom grado ao homem a quem amava e o faria novamente.

 

Um sorriso satisfeito iluminou o semblante de Gerard, enquanto se aproximava da cama e apanhava-lhe a combinação do chão.

 

— Esperei que você ainda estivesse dormindo — disse-lhe, sentando-se na cama. — Já que está acordada, arruinando meus planos para despertá-la lentamente, deve pagar com uma punição… um beijo para cada peça de roupa que quer que eu lhe devolva.

 

— E se eu não desejar me vestir?

 

— Então, eu a beijarei do mesmo jeito e nosso jantar esfriará. Em seguida, Harold e Corwin chegarão e…

 

— Oh, céus, eu me esqueci! — Ela estendeu as mãos para a combinação, mas ele tirou-a do alcance.

 

— Meu beijo primeiro.

 

Ardith roçou-lhe de leve os lábios com os seus, mas ele estreitou-a junto a si e beijou-a demoradamente.

 

— Não vamos conseguir nos vestir se você persistir — disse ela, ofegante.

 

Gerard soltou um riso e entregou-lhe a combinação. Levantando-se, abriu um baú e tirou dali um pedaço de linho branco. Jogou-o na cama, para que ela pudesse cuidar de seu asseio, e permaneceu de costas enquanto era removida a prova de que se tornara mulher de todas as maneiras.

 

Gerard demonstrou que, de fato, era um cavalheiro, aju-dando-a a vestir-se e trançando-lhe o cabelo, embora ela se sentisse grata pelo véu para encobrir o entrelaçamento desigual das mechas. Enquanto a ajudava, ia-lhe roubando beijos, cada um mais voluptuoso do que o anterior.

 

Gerard, então, comeu com apetite, enquanto que Ar-dith mal tocou na carne em seu prato.

 

— A comida não é de seu agrado? — perguntou ele.

 

— Ao contrário. Está deliciosa.

 

— Se é assim, por que não está comendo?

 

Porque ela sabia que, quando o jantar terminasse, também estaria encerrado aquele dia especial com Gerard. Porque sabia que Corwin contaria ao pai sobre os planos de Bronwyn quanto a arranjar-lhe um casamento, e ele ficaria furioso. Porque sabia que, em pouco tempo, todo o rumo de sua vida mudaria.

 

Dentro de uma hora, Gerard iria dizer o nome do noivo que arranjara para ela e a entregaria a outro homem.

 

                                                                 CAPÍTULO 10

— Bem menina, eu fiquei sabendo de seus planos secretos e absurdos — declarou Harold, zangado, sentando-se numa das cadeiras da sala. — Achei que você fosse mais sensata. Vejo agora que me enganei. Mas já tomei minha decisão. Vou mandá-la para um convento. Perdoe-me por qualquer problema que ela tenha causado, milorde.

 

Ardith contraiu o semblante.

 

— Sua filha não vai entrar para um convento, Harold — declarou Gerard. — Ela e Bronwyn não deveriam ter tentado arranjar um casamento sem o seu conhecimento, mas nenhum mal acabou sendo causado.

 

— Nenhum mal? — retrucou Harold, desafiador. — Não podemos deixar que isto fique sem punição, milorde. E se outras mulheres acabarem enfiando em suas cabeças de vento que podem escolher os próprios maridos? — O homem estremeceu.

 

— Concordo. Neste caso, porém, Ardith não está escolhendo um marido. Eu já decidi o seu futuro, e ela não pode realizar meus planos do interior de um convento. Quanto a problemas… — prosseguiu Gerard dando de ombros — Na verdade, acho a companhia de Ardith… agradável.

 

Ela sentiu as faces queimando. Podia sentir o olhar significativo de Corwin, mas recusava-se a encontrá-lo.

 

— Está planejando tomá-la como uma concubina, não é? — perguntou Harold.

 

— Pai! — exclamou ela, indignada.

 

Gerard sorriu.

 

— Não. Planejo torná-la minha esposa.

 

O sorriso morreu-lhe nos lábios ao observar a reação de cada um. Corwin tinha as mãos para detrás do corpo, o cenho franzido. Harold sacudia a cabeça em incredulidade.

 

Os expressivos olhos azuis de Ardith ficaram marejados, os lábios, trêmulos.

 

— Oh, não. Oh, Gerard — sussurrou. Virou-se, então, abruptamente, enterrando o rosto nas mãos.

 

Confuso e frustrado, ele não pôde se conter:

 

— O que é isto, afinal? — bradou. — Acabei de me oferecer para tornar Ardith minha esposa. Pela expressão de vocês, até parece que ordenei que fosse chicoteada!

 

Harold encontrou-lhe o olhar e limpou a garganta.

 

— Certa vez, o barão Everart pediu a mão de Ardith em casamento… para você. Lamentei ter que recusar.

 

— Você rejeitou a oferta? — Gerard estava estupefato. — Por quê?

 

— Foi preciso — respondeu Harold, dando de ombros ligeiramente. — Seu pai não lhe contou?

 

Gerard sacudiu a cabeça, um nó contraindo-lhe o estômago.

 

O velho respirou fundo.

 

— O barão Everart queria solidificar ainda mais o elo entre Lenvil e Wilmont e fazer isso através de um casamento. Eu tinha outras filhas para que escolhesse, mas ele havia se decidido por Ardith. Achou que era a mais adequada ao seu temperamento, milorde. Disse-me para pensar a respeito, enquanto pedia permissão real. O rei Guilherme aprovou, embora tivesse achado que Everart poderia ter encontrado alguém de melhor posição para você. Também achei. E cheguei a lhe dizer isso.

 

— Você recusou por que achou que sua filha fosse inferior?

 

— Não. Eu recusei porque, antes que eu pudesse ter concordado, um javali abriu a barriga dela. Arruinou-a por dentro. Eu não poderia lhe dar uma noiva defeituosa, não acha, milorde?

 

Defeituosa! A palavra atingiu Gerard com súbito impacto.

 

— Defeituosa… — repetiu em voz alta, tentando negar o significado.

 

— A garota é infértil. Você precisa de um herdeiro. Ardith não pode lhe dar um.

 

Gerard lembrou-se de ter beijado carinhosamente a cicatriz fina e pálida no ventre dela. De ponta a ponta, reverenciara aquela marca de coragem.

 

Uma sensação de derrota oprimiu-lhe o coração, tomando-o com uma dor insuportável. Até então, sempre que o desapontamento ameaçara dominá-lo, encontrara um meio de derrubar qualquer obstáculo que estivesse no caminho da vitória. Mas nem riqueza, nem influência, nem a força de sua espada poderiam tornar o ventre de Ardith fecundo.

 

Céus, não podia se casar com uma mulher infértil…

 

— Você tem certeza? — indagou. Sabia a resposta, mas protestava contra o inaceitável.

 

— Elva pode ser inconveniente com seus resmungos, ossos e rituais tolos, mas é boa na cura de ferimentos e doenças. Não há razão para duvidarmos de sua opinião a respeito.

 

— Eu duvido — retrucou Corwin.

 

Ardith virou-se para fitá-lo, enxugando as lágrimas.

 

Não era do tipo que se desmanchava em prantos, mas a proposta impossível de Gerard atingira-a a fundo. Ouvira a explicação de seu pai, revivera a dor do ferimento e a tristeza de sua esterilidade. Havia aceitado a palavra de Elva, a exemplo de seus pais. Que seu irmão duvidasse era uma surpresa.

 

Harold soltou um suspiro.

 

— Andou treinando para parteira agora, filho? O que é que entende do ventre das mulheres, afinal?

 

— Entendo tão pouco quanto qualquer outro homem, suponho eu — admitiu Corwin. — Mas eu conheço Ardith. Sei o que se passa com minha irmã gêmea.

 

— Essa tolice outra vez?

 

— Chame como quiser, pai, mas Ardith e eu sabemos que partilhamos isso. — Corwin adiantou-se pela sala e pousou as mãos nos ombros da irmã. Ela fitou-lhe os intensos olhos azuis, olhos que podiam enxergar até sua alma se a necessidade fosse grande. — Você se lembra de quando caí daquela árvore?

 

— Claro que sim. Você havia subido no carvalho. Um galho se partiu e você caiu. Mas o que isso tem a ver com…

 

— Apenas me responda. O que você fez naquele dia?

 

— Eu corri até a casa, fui buscar dois guardas para ajudar. Eu me lembro de ter corrido atrás deles, gritando-lhes para tomarem cuidado porque…

 

— Porque você sabia, sem ter me tocado, sem ter perguntado se eu estava ferido, que eu havia quebrado o braço — terminou Corwin.

 

— Bobagens! — desdenhou Harold.

 

Corwin ignorou-o.

 

— Quem ficou me passando sermões durante uma semana inteira quando eu quase me afoguei no rio? Quem foi que apareceu e atravessou o bosque gritando, ajudando-me a vencer o medo para que eu pudesse lutar contra a correnteza?

 

Ardith lembrava-se de ter sentido o medo de Corwin, sua dificuldade em respirar, e de ter gritado seu nome enquanto correra até o rio.

 

— E quem — prosseguiu ele, num tom grave —, guardou meu segredo mais vergonhoso durante todos estes anos?

 

— Não, não diga nada — sussurrou ela, implorando-lhe que não revelasse sua culpa diante de Harold e Gerard. Nunca, em todos aqueles anos desde o ataque do javali, os gêmeos haviam conversado sobre o que realmente acontecera no passado.

 

— Não entendo, Corwin — disse-lhe Gerard.

 

— Ardith e eu temos um elo, milorde. Embora meu pai desejasse o contrário, esse elo existe. Elva nos avisou, quando crianças, para não falarmos a respeito por medo de que alguém achasse que era sobrenatural. Mas eu juro, essa ligação é real. Ardith sabia que meu braço havia quebrado porque pôde sentir a fratura. Sabia que eu estava em perigo quando quase me afoguei no rio porque sentiu minha aflição.

 

Gerard alternou um olhar entre os gêmeos.

 

— Esse elo de que está falando age de ambos os lados? Um sabe o que o outro está fazendo, sentindo?

 

Corwin sacudiu a cabeça.

 

— Não é constante, embora quando estamos juntos, podemos avaliar o humor um do outro facilmente. A distância enfraquece o elo. Ainda assim, se um de nós estivesse em perigo mortal enquanto distantes, acredito que o outro saberia.

 

Harold bateu com a palma da mão na mesa.

 

— Esse elo que você acha que partilha com sua irmã pura imaginação e não tem nada a ver com a enfermidade passada dela.

 

— Tem, sim! — protestou o filho, mas não olhando para Harold e, sim, para Gerard. — O elo fica mais forte em momentos de grande perigo, ou dor intensa. Assim como Ardith sentiu meu braço quebrando, eu senti sua dor quando o javali rasgou-lhe a barriga. Se a dor dela não houvesse me atingido, penetrado por meu pânico, talvez ambos tivéssemos morrido naquele dia.

 

A tensão, enfim, esvaiu-se de Corwin. Gerard não esboçou reação.

 

O semblante de Harold se contraiu em dolorosa negação.

 

— Você não entrou em pânico. Um filho meu não…

 

— Pai, eu fiquei paralisado. Não pude me mover por causa do absoluto terror. E por eu ter entrado em pânico, Ardith quase morreu. Você teria notado, teria derramado uma única lágrima se a perdesse?

 

— Corwin, por favor! — suplicou-lhe Ardith. Acima de tudo, não queria que o pai e o irmão discutissem. Ao que parecia, nem tampouco Gerard.

 

— O que esse elo tem a ver com a… condição física de sua irmã? — perguntou ele.

 

Corwin passou a mão pelos cabelos.

 

— Quando quebrei meu braço, Elva colocou-o no lugar e envolveu-o com talas, as quais fiquei farto de usar. Um dia, decidi tirá-las. Ardith deteve-me. Esfregou o próprio braço, disse-me que o osso ainda não havia sarado o suficiente para que eu removesse as talas:

 

Gerard estreitou o olhar.

 

— Então, na época em que foi ferida, você também sentiu quando, enfim, ela se recuperou.

 

— Não precisamente, milorde. Isto é difícil de explicar e ainda mais de entender. Não foi do ferimento que Ardith quase morreu, embora tenha perdido muito sangue, mas da febre que a consumia e se recusava a baixar. Desde aquele dia, eu tenho visto homens feridos em batalha sobrevivendo a ferimentos mais profundos, recuperando o uso de braços e pernas, ficando inteiros outra vez. O ferimento no seu peito prova o que quero dizer. Embora atingido por uma espada, os seus músculos sararam e você recobrou a força necessária para empunhar uma espada. Tanto através do elo quanto pelo que sei agora sobre ferimentos, creio que minha irmã tenha sarado por completo. Acredito que esteja em perfeitas condições, que não tenha ficado com defeito algum.

 

Ardith mordeu o lábio inferior, pensativa. Seu irmão poderia estar certo? A cicatriz abaixo das costelas de Gerard falava de um ferimento grave. Seu próprio ferimento parecia um mero arranhão em comparação.

 

— Por que você não contou isso a ninguém antes de hoje se tem tanta certeza? — perguntou Gerard.

 

— Quem teria me dado ouvidos? Elva e minha mãe teriam rido. E meu pai? — Corwin lançou um olhar a Harold, furioso em sua cadeira e, então, tornou a fitar o barão. — A única que poderia ter acreditado seria Ardith, mas de que lhe adiantaria saber minha opinião a respeito enquanto estava em Lenvil? Milorde, eu lhe suplico, se não quer correr o risco de desposá-la, ao menos permita-lhe escolher entre os homens que Bronwyn achou adequados.

 

— E por que eles estariam dispostos a correr o risco?

 

— Bronwyn indicou apenas homens que já têm herdeiros, que não precisam de mais filhos ou de riqueza. Ou se Ardith desejar, deixe-a retornar a Lenvil. Mas, por favor, milorde, não permita que meu pai a mande para um convento.

 

Uma rápida batida à porta precedeu a entrada de Thomas. Percebendo logo a tensão na sala, entregou rapi-damente a Gerard o rolo de pergaminho que segurava.

 

— Perdoe-me interrompê-lo, milorde, mas um mensa-geiro acaba de chegar de Wilmont.

 

Gerard quebrou o selo de cera e desenrolou o pergaminho. Leu a mensagem, sua expressão imperturbável e, então, passou-a às mãos de Corwin.

 

O rapaz leu-a depressa.

 

— Estava certo, milorde. O que fazer agora?

 

— Desça e encontre o mensageiro. Mande-o de volta a Wilmont para dizer a Stephen que traga o monge à corte. Quando você tornar a subir, solicitaremos uma au-diência ao rei Henrique.

 

Corwin hesitou, lançando um olhar a Ardith.

 

— Mais tarde, eu prometo — assegurou-lhe Gerard. Ardith não entendeu, mas foi evidente que seu irmão, sim, pois deixou a sala sem demora.

 

Gerard passou a mão pelos cabelos. Estava bem próximo, ali quase a seu alcance, ainda assim distante demais para confortá-lo. E ela nem sequer tinha certeza de que seu toque seria bem-vindo.

 

— Está dispensado, Harold — declarou ele.

 

O pai de Ardith levantou-se.

 

— Posso lembrar ao barão de que não deve arriscar Wilmont com base na crença tola de um irmão que é de-

 

votado à sua gêmea? Nunca acreditei nesse elo que os dois afirmam ter, e tampouco deve levá-lo em conta, milorde.

 

— Boa noite, Harold.

 

Lançando um olhar zangado na direção da filha, o homem fez uma mesura e retirou-se da sala.

 

Com um aceno, Gerard dispensou Thomas, que desapareceu pela passagem em arco que conduzia aos quartos, deixando o barão e Ardith a sós na sala.

 

— Bem, você esteve muito quieta — observou ele.

 

— Não me pediram para falar.

 

— O que, eu já puder notar, nunca impediu você de dar a sua opinião. Diga-me, esse elo realmente existe entre você e Corwin? Um pode mesmo sentir quando o outro está com alguma dor, ou em perigo?

 

Ardith respirou fundo. Podia quase ouvir o aviso de Elva para jamais falar sobre o elo. Sobrenatural. Bruxaria.

 

— Se estivermos perto um do outro, sim. Quando ele estava em Wilmont, sofria cortes e ferimentos com seu treinamento e eu não podia senti-los, mas quando estava em Lenvil…

 

Gerard segurou-lhe o rosto entre as mãos, erguendo-o para que o fitasse. Ela compreendeu o que iria lhe perguntar antes mesmo de vê-lo entreabrindo os lábios, e lágrimas afloraram-lhe nos olhos azuis outra vez. Maldição, havia chorado mais durante aquela hora do que no ano anterior inteiro!

 

— Então, Corwin pode estar certo? Você pode ter… sarado por completo?

 

Olhos verdes, repletos de esperança, suplicavam pela resposta que ele ansiava por ouvir, e Ardith gostaria de poder dá-la. Devia, porém, usar de total franqueza:

 

— Eu não sei. Homens e mulheres têm constituições físicas diferentes. Não estamos falando de um braço ou perna. Eu quero tanto acreditar, mas… estaria mentindo se lhe dissesse que não tenho minhas dúvidas.

 

A esperança dissipou-se dos olhos de Gerard, mas não a gentileza.

 

— Então, diga-me uma coisa. Se tivesse escolha, você se casaria com outro, ou retornaria para Lenvil?

 

— Nada de convento? — perguntou ela, numa voz embargada.

 

Ele esboçou um sorriso.

 

— Eu não sujeitaria as pobres freiras à sua língua afiada, ou a seu jeito voluntarioso.

 

— Então, eu preferiria voltar a Lenvil, se meu pai permitisse.

 

Gerard puxou-a para si, estreitando-a num abraço apertado, caloroso.

 

— E se tivesse escolha, você se casaria comigo, ou iria para Lenvil?

 

Como ele podia ter alguma dúvida?

 

— Eu ficaria honrada e orgulhosa em poder ser sua esposa.

 

Depois de aninhá-la ainda mais junto a si em resposta, Gerard comentou, com um suspiro:

 

— Seu pai representa um problema. Eu não enviarei a um convento, mas acho que Harold está zangado o bastante para querer mandá-la para longe, antes que possamos resolver este dilema.

 

— Meu pai pode andar um pouco esquecido, mas não perdeu o bom senso. Se você lhe ordenar que desista da idéia, ele não ousará desobedecer.

 

— Não vou correr o risco. — Gerard afrouxou o abraço, mas não a soltou. — Thomas! — chamou. O rapaz apareceu imediatamente sob o arco. — Mande meus cumprimentos a lady Bronwyn. Diga-lhe para arrumar as coisas de Ardith e providenciar para que o baú seja en-tregue aqui.

 

Ela mordeu o lábio inferior, enquanto observava o pa-jem se retirando para cumprir a ordem.

 

— Está prestes a discutir comigo? — perguntou-lhe Gerard.

 

Ardith meneou, negativamente, a cabeça.

 

Thomas não demorou a retornar, acompanhado por dois homens, carregando um grande baú, os três seguidos por Kester, Bronwyn e Elva.

 

— Se estão pensando em pedir para que eu deixe Ardith ir… — começou Gerard, mas Kester interrompeu-o, erguendo a mão no ar.

 

— Não, barão. Considerando a raiva de Harold, tirá-la do alcance dele é uma sábia decisão. Bronwyn e Elva estão aqui para ajudá-la a arrumar as coisas.

 

— E você?

 

— Vim apenas para acompanhar as mulheres.

 

Algo no tom de Kester alertou Gerard. Depois que todos deixaram a sala, indicou-lhe que ocupasse uma cadeira.

 

— Harold contou a situação toda a você?

 

— Digamos que ele não mediu palavras em sua fúria. Receio que o palácio inteiro saberá da história toda em questão de poucas horas.

 

— Eu deveria tê-lo avisado para ficar de boca fechada.

 

— Eu lhe pedi isso, mas… — Kester deu de ombros.

 

— Não é Harold que me preocupa agora. Bronwyn, porem, está mais preocupada com Ardith.

 

— Sua esposa não hesita em interferir em assuntos alheios.

 

Kester sorriu.

 

— Sim, mas é bem-intencionada. Neste caso, acredito que ela tenha razão. Quer proteger a irmã o máximo possível dos mexericos que vão se espalhar. Você nunca foi do tipo que deu importância às intrigas da corte, mas aconselho-o a dar agora. — Kester inclinou-se para a frente. — Muitos aqui começaram a gostar de Ardith. Levando em conta os acontecimentos de hoje, isso irá mudar. Receio que ela não entenderá.

 

Gerard admitia que os sentimentos de Ardith poderiam ser feridos pelos mais maldosos entre os mexeriqueiros da corte. Mas o falatório se espalharia. Não havia como evitá-lo. Iriam acusá-la de ter se tornado sua amante, e, por ora, teriam razão.

 

— Há uma concessão que gostaríamos de lhe pedir que faça, barão. Ardith vai precisar de alguém com quem conversar, de um ombro amigo. Nós lhe pedimos que permita que Elva fique aqui com ela.

 

Gerard fez uma careta.

 

— Admito — prosseguiu Kester, notando-lhe a relu-tância —, a mulher não é das mais agradáveis, mas é da família e gosta da sobrinha. Na verdade, Elva me implorou para lhe perguntar se podia fazer companhia a Ardith. Prometeu que não lhe causará nenhum pro-blema, nem dirá nada em contrário ao acordo de vocês.

 

Resignado, Gerard resmungou:

 

— Se eu ouvir uma palavra de censura escapando dos lábios dela, vir uma expressão reprovadora em seu rosto, vou atirá-la como alimento para os peixes do Tâmisa.

 

Kester levantou-se.

 

— Há outro problema de que deve ficar a par. Não havíamos pensado muito a respeito até agora, mas, al-guns dias atrás, um de nossos serviçais disse a Bronwyn que a criada pessoal de lady Diane estava fazendo perguntas sobre Ardith.

 

Gerard franziu o cenho.

 

— Por que Diane estaria curiosa em relação a ela?

 

— Receio que você seja um dos escolhidos.

 

— Para quê?

 

O conselheiro do rei sacudiu a cabeça.

 

— Não posso crer que você não ficou sabendo. Céus, acho que você é o único nobre solteiro que não está se desdobrando para agradar Diane de Varley. Ela não ape-nas é bonita, como muito rica e cobiçada.

 

— Também tem a língua ferina é tão ardilosa quanto uma raposa.

 

— Detalhes que a maioria dos homens irão ignorar na disputa por sua mão.

 

— Henrique, enfim, decidiu que Diane deve se casar?

 

— Ele a está deixando sugerir uma lista com os nomes daqueles pretendentes que estaria disposta a aceitar.

 

Sabe como ele lhe faz todas as vontades. Se você estiver nessa lista, Ardith poderá ser encarada como uma rival por Diane, especialmente depois que você a desprezou naquele jantar no salão.

 

— Não cheguei exatamente a desprezá-la.

 

— Talvez não, mas você demonstrou sua preferência pela companhia de Ardith. Só por esse motivo, Diane pode tentar conquistar você, apenas para provar que é capaz. A mulher é conhecida por sua obstinação e, caso tenha se decidido por você, não irá deixar que uma jovem saxônia sem estirpe fique no seu caminho.

 

— Terei que deixar claro a Diane o que penso.

 

— Então é melhor agir depressa, antes que ela apresente o seu nome a Henrique. Não me ocorre nenhum outro barão que Sua majestade possa preferir no controle daquelas vastas terras de Varley na Normandia.

 

— Se houver algo mais que deseje, milady, basta me dizer — ofereceu um prestativo Thomas.

 

— Obrigada — disse Ardith.

 

— Um pouco de vinho e uma bacia de água quente estariam bem. Ela vai querer se banhar — interveio Elva.

 

O pajem olhou para Ardith.

 

— Sim, seria ótimo, se não for muito incômodo.

 

— Nenhum, milady — respondeu ele prontamente e, então, apressou os carregadores do baú a saírem.

 

— E de se pensar que você se esqueceu de como lidar com serviçais — disse Bronwyn, num tom de reprimenda.

 

Ardith virou-se para olhar para a irmã, que havia se sentado na beirada da cama que dominava o terceiro e último cômodo dentro dos aposentos reservados a Wilmont. Alta e com colchão de plumas, a cama se parecia com a de Gerard, exceto por seu tamanho menor e cortinas verde-escuras.

 

— Thomas não é meu criado. Não tenho o direito de ficar lhe dando ordens.

 

— Eu diria que Gerard deu certos direitos a você quando mandou que se mudasse para cá. — A irmã olhou em torno do aposento. — Nunca gostei deste quarto. Lady Ursula sempre o manteve tão austero.

 

— A mãe de Gerard usava este quarto?

 

— Como senhora de Wilmont, Ursula tem o direito de usá-lo quando vem à corte. Estes aposentos são mantidos reservados para Wilmont no palácio. Tem sido assim desde que o primeiro barão serviu Guilherme, o Conquistador. Ninguém mais tem a permissão de usá-los, nem mes-mo quando o palácio está apinhado de convidados e ninguém de Wilmont está presente.

 

— E lady Úrsula costuma freqüentar a corte?

 

— Não. Ela fica em Wilmont. Dizem que está de luto por Everart. Acho que não é verdade, mas quem pode saber? A mulher nunca demonstrou seus sentimentos.

 

— Ursula tem suas razões — comentou Elva, adiantando-se até uma mesa de canto, encimada por várias imagens religiosas, um livro de orações e um crucifixo.

 

— Eu não sabia que você a conhecia — disse Ardith.

 

— Eu ainda estava em Wilmont quando Ursula se casou com Everart. — Elva tocou o crucifixo com gentileza. — Tive pena da pobre garota, mas não havia nada que eu pudesse ter feito para ajudá-la. Eu tinha meus próprios problemas.

 

Elva, mulher jovem na época da Conquista, havia servido como a governanta saxônia ao primeiro barão de Wilmont, o avô de Gerard, um cavaleiro normando que recebera terras de Guilherme, o Bastardo, conquistador normando da Inglaterra. Algo horrível acontecera a ela durante aquele confinamento para fazê-la odiar os nor-mandos com tanta veemência. Mas jamais contara sua história. Na verdade, nem sequer havia admitido antes o fato de já ter estado em Wilmont.

 

Antes que Ardith pudesse questioná-la a respeito, Bronwyn interveio:

 

— O problema de Ursula é seu fanatismo religioso. Não há um pingo de alegria na mulher.

 

— Encontra-se pouca alegria sob o domínio de Wilmont.

 

Bronwyn lançou um olhar de aviso à tia.

 

— Lembre-se, você prometeu. Se Kester conseguir con-vencer Gerard a deixá-la ficar com Ardith, você tem de conter essa língua.

 

Desde que Gerard reaparecera em Lenvil, os avisos de Elva para que Ardith evitasse os homens, em especial o barão, haviam aumentado. Ali em Westminster, a tia também havia reclamado sobre os pretendentes visitando os aposentos de Bronwyn, apesar de Ardith lhe assegurar que era indiferente a todos.

 

Ela lançou um olhar para a porta que devia ser de comunicação com o quarto de Gerard. Ter Elva no seu encalço seria, sem dúvida, um problema.

 

— Por que quer ficar comigo? — perguntou-lhe, intrigada.

 

— Eu lhe suplico por isso. A tribulação pela frente será difícil, e você precisará ter a seu lado alguém que a ame.

 

— Kester e eu concordamos — acrescentou Bronwyn.

 

— A presença de Elva aqui pode ajudar a conter os falatórios mais maldosos.

 

Ardith soltou um longo suspiro. Com seu consentimento em ficar nos aposentos reservados a Wilmont estivera concordando silenciosamente com mais do que apenas evitar seu pai até que sua raiva se dissipasse. Ao que parecia, outras pessoas se davam conta daquilo também, incluindo sua irmã e a tia.

 

— Duvido que o barão concordará em ter Elva aqui. É provável que não a deixe ficar.

 

Como se seus pensamentos o tivessem evocado, Gerard entrou no quarto. Depois de olhar rapidamente ao redor, dirigiu-se a Elva:

 

— Kester me informou que você deseja servir Ardith — disse, seu tom ameaçador. — Vou permitir, mas com uma condição.

 

Ardith notou a tensão no semblante da tia e se preparou para uma discussão.

 

— Sua sobrinha não sofrerá mal algum enquanto es-tiver aos meus cuidados — prosseguiu ele. — Se tentar convencê-la do contrário, por palavras ou atitudes, vou banir você destes aposentos, devolvê-la a Harold e dei-xá-la à sua mercê. Não haverá súplicas por uma segunda chance. O primeiro cenho franzido ou palavra de censura selará o seu destino. Você me entendeu?

 

Para a surpresa de Ardith, Elva foi capaz de uma pequena mesura e respondeu sem hesitação, nem ira:

 

— Tem minha palavra, milorde.

 

Gerard fez um gesto na direção da porta. Elva permaneceu imóvel, mas a um sinal de Bronwyn, deixou o quarto sem protestar, a porta se fechando atrás de ambas.

 

— Custo a acreditar — sussurrou Ardith, boquiaberta, quando se viu a sós com Gerard.

 

— Receio que a cooperação de Elva não será duradoura, mas enquanto respeitar minha condição, poderá ficar. — Ele se aproximou mais, afagando-lhe o rosto, seu tom suavizando-se: — Preciso sair, para ir ver o rei. Vai sentir minha falta nesse meio tempo?

 

Ardith soltou um riso.

 

— Duvido que se ausentará o bastante para que eu sinta sua falta. Além do mais, Bronwyn e Elva me farão companhia enquanto arrumo minhas coisas no quarto.

 

Gerard olhou ao redor, uma ex pressão desgostosa surgindo-lhe nos olhos verdes.

 

— Faça quaisquer mudanças que desejar nestes aposentos. Para ser franco, eu gostaria de algumas alterações aqui.

 

Ardith abriu-lhe um sorriso, enquanto ele saía, grata com a permissão para arrumar as coisas à sua maneira. Em primeiro lugar, empacotaria os artigos religiosos de Ursula. A presença deles sempre a lembraria que seu relacionamento com Gerard violava as leis da igreja.

 

Bronwyn e Elva retornaram com a água quente e o vinho.

 

— Tome, minha querida, beba isto — disse a tia, oferecendo-lhe uma taça. — Acalmará você.

 

Ardith sorveu a bebida, mal prestando atenção a seu gosto, enquanto olhava ao redor do quarto.

 

— Se pudesse, Ursula seria a primeira a me exilar para uma terra bem distante, não acham?

 

— Não tem que se preocupar com a mãe de Gerard — assegurou-lhe Bronwyn. — Ele certamente não se preocupa. Ardith, algumas pessoas acharão que isto é uma honra para você, outras vão apenas especular a res-peito. Há também aqueles que farão um julgamento severo e a condenarão. Deve ignorar a todos.

 

— E conseguirei?

 

— Para sua própria paz de espírito, minha irmã, é melhor que aprenda a fechar os seus ouvidos.

 

                                                              CAPÍTULO 11

Com Corwin a seu lado, Gerard achava-se diante do rei Henrique, que, em seus apo-sentos reais, ponderava a respeito dos problemas apresentados no conforto de uma cadeira semelhante a um trono.

 

Ao lado do monarca, estava Kester, seu conselheiro.

 

Recostado numa parede, Charles, conde de Warwick, franzia o cenho. Gerard não se importava com a presença de nenhum dos dois, convocados para testemunhar os procedimentos. Respeitava e confiava em ambos. Nem Warwick, nem Kester repetiriam uma palavra do que se passava ali naquele dia.

 

O rei Henrique I da Inglaterra, acomodado em sua cadeira, parecia entediado com a audiência. Mas Gerard sabia que não era o caso. Vira o brilho de ira passando rapidamente por seus olhos quando fora informado da dimensão da traição de Basil.

 

Sim, Henrique I estava furioso, mas não por causa de nenhum crime cometido contra Gerard de Wilmont. O rei possuía imensa perspicácia. Sabia, sem que ele tivesse precisado emitir uma única palavra de aviso, como a ousadia de Basil podia afetar a estabilidade do trono.

 

Aquela altura, Henrique não estava nas boas graças da maioria dos barões normandos devido à sua tentativa de aplicar justiça com pulso firme, tratando nobres e camponeses da mesma maneira. O povo inglês tomara Henrique em seu coração. Já os barões considerariam qualquer demonstração de fraqueza na monarquia como um pretexto para se unirem numa rebelião civil.

 

O rei moveu-se ligeiramente, traindo sua inquietação. A voz, porém, soou imperturbável:

 

— Agradeço ao leal barão por trazer essas informações à atenção real. Esperarei que Basil de Northbryre apareça na corte e lidarei com essas acusações da maneira apropriada.

 

— Majestade, eu gostaria de me assegurar do comparecimento de Basil — ofereceu-se Gerard.

 

Henrique curvou os lábios de leve.

 

— Acredito que minha convocação será suficiente para garantir a presença dele. Já mandou chamar sua testemunha, Gerard?

 

Ele tratou de ocultar o desapontamento.

 

— Com a saúde permitindo, Richard deve chegar a qualquer dia desses. Com a permissão de vossa majestade, eu gostaria que fosse concedido a ele o título de cavaleiro. Acho que merece a condecoração, assim como uma recompensa.

 

O monarca arqueou uma sobrancelha.

 

— Planeja conceder terras a Richard? Diga-me, de qual propriedade de Wilmont está disposto a se desfazer?

 

Gerard sorriu.

 

— De nenhuma terra pertencente a Wilmont. — Es-tendeu-lhe um pergaminho, a lista das propriedades de Basil na Inglaterra. — Sei que meu rei será generoso quando conceder reparação.

 

Henrique endireitou-se na cadeira, enquanto aceitava o pergaminho e examinava a lista. Gerard esperava receber metade das terras. Sem dúvida, o soberano ficaria com o restante.

 

Ele enrolou o pergaminho e dispensou a parte formal da audiência, ordenando:

 

— Agora, fale-me sobre Ardith. Ouvi dizer que você a está mantendo sob sua proteção.

 

Gerard abriu um ligeiro sorriso com o termo usado, mas ficou inquieto com a súbita mudança de assunto.

 

Warwick perguntou de repente:

 

— Ardith? Essa não é a garota que seu pai tentou tornar sua prometida através de um acordo vários anos atrás?

 

— Meu pai contou a você sobre isso? — indagou Gerard, surpreso.

 

Warwick soltou um riso.

 

— Oh, sim! Seria até de se pensar que ele próprio estava enamorado da menina. Descreveu Ardith como possuindo o rosto de um anjo, o ímpeto de um falcão e a alma de um cavaleiro. Elogios incomuns para uma mulher, mas o fato era que Everart considerava Ardith o par perfeito para você. Ficou bastante desapontado quando seus planos não puderam ter êxito.

 

— E deveria — murmurou Corwin.

 

Gerard concordava, mas lançou-lhe um olhar de aviso, ainda receoso quanto ao propósito do rei.

 

Henrique inclinou-se para a frente em sua cadeira.

 

— Kester me informou sobre o que aconteceu hoje. Essa jovem não tem terras para oferecer a você, nenhuma riqueza. Uma parteira a declarou estéril há tempo. Por que você ainda iria querer tomá-la como esposa?

 

— Majestade, meu pai estava correto em seu julgamento sobre Ardith. A jovem é adorável. Também é bastante prendada. Quanto à sua esterilidade, ela é uma donzela, e paira dúvida sobre o pronunciamento da parteira.

 

Gerard concluiu com o argumento que sabia ser bastante favorável junto ao rei:

 

— Também é saxônia, e ambos sabemos do desejo de vossa majestade de mais casamentos mistos.

 

Henrique acreditava firmemente que seria crucial para o futuro do reino fundir normandos e saxões num só povo.., o inglês. Para o constrangimento da nobreza nor-manda e a satisfação da plebe, ele próprio dera o exemplo casando-se com uma princesa saxônia.

A rainha Matilda não se recolhera a uma abadia em Romsey por falta de sentimentos por Henrique. Simplesmente fora incapaz de suportar a maldade da corte. Gerard também sabia que, embora o rei e a rainha vivessem separados, Matilda tinha um lugar especial no coração dele.

 

A expressão do monarca suavizou-se, embora batesse com o pergaminho no joelho.

 

— Aplaudo sua argumentação, mas eu havia esperado recompensar você de outra maneira. Como sabe, lady Diane precisa de um marido, e eu ficaria contente em ver um barão forte e leal controlando as terras de Varley na Normandia.

 

Gerard procurou manter a expressão inalterada, apesar da íntima contrariedade. A recompensa planejada por Henrique não era de seu agrado, mas era honrosa, de qualquer modo. Diane de Varley como esposa… Céus, ele mal suportava a mulher! Lançou um olhar a Kester. que respondeu com um sorriso de quem tentara avisá-lo.

 

Henrique colocou suas ponderações em voz alta:

 

— Consigo entender, no entanto, por que você pode não considerar a minha sugestão como uma recompensa. E você afirma que há alguma dúvida quanto ao fato de Ardith ser estéril?

 

— Sim, majestade.

 

O monarca levantou-se da cadeira, ajeitou seus ricos trajes reais e proclamou:

 

— Então, declaro o barão Gerard de Wilmont, meu leal e dedicado vassalo, comprometido com Ardith de Lenvil pelo período de um ano. Se, dentro desse prazo ficar comprovado que a dama pode ter filhos, ambos poderão se casar. Mas se for mesmo infértil, declaro o acordo nulo, e Gerard deverá se casar com Diane de Varley e aceitar a custódia das terras normandas que estão em poder dela. O que me diz?

 

Atônito, Gerard protestou:

 

— E quanto a lady Diane, majestade? Não lhe deu liberdade para se casar quando e com quem quiser?

 

— Ela escolheu… você… e com minha aprovação. Diane obedecerá às condições do decreto. E você?

 

Gerard deu a única resposta possível:

 

— Claro. É bastante generoso.

 

O rei fez um gesto a Kester.

 

— Providencie as formalidades necessárias. Warwick será testemunha.

 

Enquanto ambos os nobres assentiam, Gerard mergu-lhava em pensamentos. Em sua mente, ouvia a voz feminina e doce de Ardith, comentando sobre o decreto e, então, conduzindo-o até a cama para iniciar a deliciosa tarefa de provar que não era estéril.

 

Enquanto se retiravam com o encerramento da audiência, Corwin disse-lhe com um ligeiro sorriso:

 

— Fico contente que caiba a você contar a Ardith. Eu poderia apostar que ela vai objetar.

 

A agradável fantasia dissolveu-se de imediato. Sim, era provável que Ardith iria objetar… e com razão. O costume de um acordo nupcial onde acontecia a união e somente depois concretizava-se o casamento com a concepção não era desconhecido. Na verdade era uma prática comum… entre os camponeses.

 

Sentado diante de Ardith na sala dos aposentos usados por Wilmont, Gerard observou as várias reações passando por aquele rosto adorável, enquanto revelava a parte re-levante de sua audiência com sua majestade… o decreto do acordo de casamento. Quando os traços dela, enfim, repousaram numa expressão serena, ele relaxou, recostando-se na cadeira, tomando aquele silêncio como aceitação.

 

Mas o silêncio se prolongou demais.

 

— Está muito quieta — comentou, enfim.

 

— Estou apenas considerando as minhas opções, milorde.

 

Gerard estreitou o olhar.

 

— Que opções?

 

— Bem, eu poderia obedecer à vontade de meu pai e entrar para um convento. Ou eu poderia simplesmente voltar a Lenvil. Quando meu pai retornar, já terá se esquecido do que o deixou zangado e a vida continuará como antes. Ou — acrescentou ela, com um suspiro —, eu poderia me casar com um dos pretendentes. Talvez Gaylord — disse, enfim, referindo-se àquele que lhe parecera um tanto mais simpático.

 

— Gaylord!

 

— De todos os pretendentes, ele é o único que consegue me fazer rir.

 

Nenhuma das opções incluíra o acordo com ele, pensou Gerard, esforçando-se para conter sua irritação.

 

— Um convento? — retrucou. — Você não foi feita para viver enclausurada, dedicando-se apenas a orações. Iria se sentir uma prisioneira. Voltar a Lenvil? Seu pai pode andar com a memória fraca, mas duvido que a raiva de você e de Bronwyn passe tão depressa. Quanto a Gaylord, quando ouvir sobre o decreto, irá retirar prontamente o pedido por sua mão.

 

— Foi o que imaginei. — Ardith tornou a adquirir um ar pensativo. — Talvez, eu pudesse ir para a casa de uma de minhas irmãs. E possível que Agnes me acolha.

 

Ele resistiu à urgência de se inclinar por sobre a mesa e sacudi-la pelos ombros. Contendo-se, perguntou-lhe:

 

— E quanto ao nosso acordo? Como cumpriremos as condições se não estivermos juntos?

 

Ela demonstrou genuína surpresa.

 

— Certamente, você não planeja levar isso adiante?

 

— Ouça, você não me disse que ficaria honrada em ser minha esposa? E geralmente um acordo nupcial não precede um casamento?

 

Ardith adquiriu um tom áspero:

 

— Sim. Mas ambos sabemos que não haverá casamen-to. Este acordo não faz outra coisa senão me tornar sua prostituta por um ano.

 

— Ora, vamos! Como minha prometida, ninguém se atreveria a chamar você assim.

 

— Talvez não pela frente, milorde, mas não pode controlar os pensamentos das pessoas. Do que adiantará me chamarem de milady se, pelas minhas costas, sussurra-rem prostituta?

 

— Você sabia quando se mudou para meus aposentos que dividiríamos uma cama, não é?

 

Com os lábios apertados, ela desviou o olhar.

 

— Sim — murmurou. — E por uma semana ou duas, até que eu voltasse para casa, eu achei que poderia fechar os ouvidos. Mas durante um ano…

 

— Um acordo nupcial é tão sólido quanto um casa-mento. Proclama que você pertence a mim, garante-me os direitos de marido. Quem poderá nos censurar?

 

Olhos de intenso azul, marejados por lágrimas conti-das, encontraram os dele.

 

Talvez, pela lei dos homens, não estejamos fazendo nada errado, mas não aos olhos da igreja. O clero irá condenar não apenas a nós dois, mas ao rei também, por esse decreto.

 

Uma onda de raiva tomou conta de Gerard, e as pa-lavras escaparam-lhe antes que pudesse contê-las:

 

— As favas com a opinião do clero! O que importa o que pensam se os bispos…

 

Uma mão gentil em seu braço, uma súplica nos olhos dela contiveram-no.

 

— Não blasfeme! Não adianta nada.

 

Gerard soltou seu braço, apanhou a taça que ela havia deixado de lado e sorveu um generoso gole. O vinho tinha um gosto amargo, como se tivesse azedado.

 

— De onde veio isto? Está péssimo.

 

— Foi Elva que me serviu esse vinho. Não faço idéia de onde tenha vindo.

 

Gerard levantou-se e esvaziou o restante da taça no braseiro. Tendo dominado sua raiva mais uma vez, virou-se para fitá-la.

 

— O clero pode protestar a respeito, se desejar —. res-pondeu, enfim. — O casamento entre nobres é assunto da coroa. O próprio rei estabeleceu nosso acordo nupcial. Se os bispos quiserem objetar, podem levar sua queixa a Henrique.

 

— E quanto a lady Diane? Concordou com os termos?

 

— Henrique, acredito eu, tem absoluta certeza de que ela concordará. Não é uma mulher paciente. E mais pro-vável que desvie suas atenções a outro homem e peça para ser liberada.

 

— E se não o fizer, se decidir esperar, você se casará com ela?

 

— Se for obrigado… — Ele sacudiu a mão no ar. — Céus, por que estamos falando de fracasso se nem sequer fizemos uma tentativa de vitória?

 

Bronwyn avisara-a para que se preparasse para fala-tórios, para os olhares maldosos daqueles que especula-riam se ela estaria partilhando da cama de Gerard. Não se tratariam mais de especulações. Agora, todos se per-guntariam sobre a vitalidade do barão, enquanto se em-penhasse para gerar vida num ventre estéril.

 

Sua majestade unira-a a Gerard pelo período de um ano. Deveria viver com ele e tentar conceber um filho, e se o impossível acontecesse, ambos poderiam se casar.

 

Por mais que amasse Gerard, como poderia passar um ano inteiro vivendo como sua esposa e, então, perdê-lo para outra mulher? O sofrimento seria insuportável.

 

— E quanto a mim? — perguntou-lhe, num tom grave.

 

— Se não pudermos nos casar, o que me acontecerá? Meu pai pode não me deixar voltar para Lenvil. Depois deste… teste, nenhum homem irá me querer como esposa.

 

— Eu sou o seu suserano. Deve saber que cuidarei de você em qualquer circunstância. Tenho uma porção de feudos que precisariam de uma intendente ou de alguém para cuidar das doenças. E quanto a um marido… — Ele sacudiu a cabeça. — Eu teria que refletir um pouco a respeito. Talvez haja alguém que… — Interrompeu-se abruptamente. — Mas por que estamos falando sobre isto? Quero você para minha esposa. E você me quer para marido. Ouça, se não aproveitarmos esse decreto real, não teremos nenhuma outra chance de nos casarmos.

 

Ardith não podia discordar. Por muitos anos, sonhara com uma vida ao lado de Gerard. Caso se acovardasse agora, jamais saberia com certeza se havia atirado ao vento o seu mais precioso sonho por nada. O sonho, a vida que queria com Gerard, valia o risco, embora não estivesse disposta a admitir seus sentimentos. Ele des-denharia se soubesse que sua rendição era por amor, pela chance remota de realizar uma fantasia.

 

O barão não a amava e, como ele próprio declarara na capela depois de ter ouvido sobre os planos casamen-teiros de Bronwyn, sentimentos não tinham importância quando se selava um contrato nupcial.

 

— Esses feudos de que falou… — começou Ardith, atraindo um olhar surpreso. — Se este acordo acabar não conduzindo a um casamento entre nós, você estaria disposto a deixar um aos cuidados de uma mulher, aos meus cuidados?

 

— Sim. Você tem sido bastante eficiente em Lenvil. Uma pequena propriedade não estaria além de sua capacidade.

 

— Então, milorde, acho que nosso acordo nupcial está selado.

 

Gerard observou-a deixando a sala, satisfeito com o resultado daquela conversa das mais incomuns com uma mulher. Planejara usar de sua riqueza, agradá-la com jóias ou belas vestes, com todas as coisas que as mulheres costumavam achar atraentes. Abriu um sorriso. Sua Ar-dith não era um exemplo típico do sexo oposto. Não dava a menor importância a frivolidades, usava os trajes re-cém-adquiridos com indiferença.

 

Temendo um futuro incerto, ela pedira um lar, um presente permanente e de real valor. Tal desejo o sur-preendera. até que se dera conta da sensatez do pedido.

 

Seu sorriso se dissipando, franziu o cenho. Atendera--lhe a incomum solicitação. Então, perguntou-se, por que ela não lhe parecera feliz?

 

Preparando-se para a noite pela frente, Ardith sen-tou-se num banco e deixou que Elva desmanchasse sua trança e lhe penteasse os fartos cabelos ruivos. Usava uma camisola amarela-clara, a barra quase lhe encobrin-do os pequenos pés.

 

Devolveu sua taça à tia.

 

— Este vinho está com um gosto estranho.

 

Elva sentiu-lhe o aroma.

 

— É apenas de má qualidade. Você se acostumou aos vinhos refinados de Kester. Beba — instruiu-a, tornando a lhe entregar a taça. — Isto irá acalmá-la para a noite que tem adiante.

 

— Meu nervosismo está assim tão evidente?

 

— Sim. Está trêmula. Beba.

 

Ardith respirou fundo para aquietar seu corpo, mas o turbilhão em seu íntimo permanecia. Estava tão nervosa quanto uma noiva em sua noite de núpcias. Mas era ali que a semelhança terminava. Não houvera nenhuma ce-rimônia no altar da igreja, nem a apresentação de seu dote, nem um banquete… enfim, não acontecera nenhum dos rituais praticados quando duas pessoas se uniam pelos sagrados laços do matrimônio. Lançou um olhar para a porta de comunicação entre os dois quartos.

 

— Talvez Gerard não venha nesta noite — disse, num tom suave.

 

— Ele virá — resmungou Elva. — Sabe, minha querida, fiquei bastante orgulhosa de você por ter pedido uma recompensa… e uma bastante vultosa.

 

Ardith havia se perguntado sobre como contar à tia a respeito do acordo, como amenizar o golpe para que Elva não manifestasse sua reprovação, despertando a ira de Gerard. No momento, não podia ver um só indício do ódio que a tia sempre demonstrara por Wilmont. Aceitava as notícias bem… bem demais.

 

— Você nos ouviu conversando na sala.

 

— Sim. Não pude evitar. A voz do barão atravessa grandes distâncias quando fala.

 

— E você não está zangada?

 

— Pelo seu bem, vou conter minha língua. Não vou correr o risco de ser banida. Você ainda precisa de mim, segundo dizem os ossos. —

 

— Os ossos também dizem se posso ou não ter um filho?

 

— Cuidado com o que fala, menina. Não desdenhe do que não compreende. Além do mais, nós duas sabemos que você não pode conceber uma criança.

 

Ardith desviou o olhar, as palavras dolorosas demais para ouvir.

 

— E mesmo que você pudesse — prosseguiu Elva —, quem saberia dizer se um ano é tempo o suficiente? Veja o exemplo de suas irmãs. Agnes e Elizabeth engravidam com facilidade. Ambas tiveram bebês durante o primeiro ano de casamento. Mas Bronwyn, casada há quase dois anos, ainda não tem filhos.

 

A porta de comunicação se abriu. Elva pousou o pente de osso na mesa, apanhou a taça de vinho parcialmente vazia e deixou o aposento em silêncio.

 

                                                         CAPÍTULO 12

O ardor nos olhos verdes de Gerard atraiu Ardith para seus braços, como uma ma-riposa cativada pelo fogo, alheia ao perigo.

 

Mas ela sabia qual era o perigo em se brincar com fogo, estava ciente das conseqüências caso sucumbisse à tentação. Tratou, porém, de afastar as incertezas e apreensão com firmeza. Havia tomado sua decisão, acei-tado seu destino. Pois, enquanto pudesse tê-lo a seu lado, fosse por um ano ou pela vida inteira, com ou sem o decreto, pertencia a Gerard.

 

Se não pudesse lhe dar um filho, iria lhe dar seu amor e, se não o casamento que ele buscava, ao menos um relacionamento inesquecível para ambos.

 

Assim, teriam que começar…

 

Envolta por aqueles braços fortes, ouvia-lhe o pulsar do coração. Batia mais depressa. Ela abriu um sorriso ao pensar em como Gerard logo reagia à sua proximidade.

 

Os homens julgavam-se superiores às mulheres, orgu-lhavam-se de seu domínio e força de guerreiros. Ainda assim, na alcova, se uma mulher tivesse inteligência, podia deixar um poderoso barão totalmente à sua mercê, usando como arma simples mas infalível os seus atributos femininos.

 

E Ardith era inteligente.

 

Levantou os olhos para estudar o rosto de Gerard, um sorriso curvando-lhe os lábios.

 

— Sabe, mulheres deveriam ser guerreiras.

 

A confusão dele evidenciou-se em seus olhos e na voz:

 

— Você está febril?

 

Ardith nunca aprendera sobre a arte de agradar um homem, não sabia se era capaz de seduzir. Se tivesse algum talento, agora seria o momento de descobrir. Bai-xou a voz e fitou-o com olhos semicerrados.

 

— Oh, sim, Gerard! Estou ardendo. Venha aplacar meu tormento.

 

A reação dele foi das mais gratificantes.

 

Gerard movia-se com a elegância de um jovem leão. In-clinou sua cabeça loira, apossando-se dos lábios dela com um beijo faminto, enquanto a erguia nos braços e a car-regava até a cama. Envolta pelos braços fortes, Ardith sen-tiu-se flutuando, como se não pesasse mais que uma pluma, os pensamentos concentrados apenas na promessa de doce prazer daqueles lábios cálidos e experientes.

 

Sua camisola logo foi removida por mãos gentis mas impacientes. Em sua sedutora nudez, Ardith afundava-se nas mantas de pele, enquanto Gerard se livrava das pró-prias roupas. Daquela vez, observando-o despir-se, ela não fechou os olhos, acompanhando cada gesto que ia desnudando à sua frente um corpo de máscula perfeição. Admirou-lhe os ombros largos, o torso de músculos bem-definidos e deixou seu olhar correr pelo corpo viril com vagar, sentindo o seu próprio ardor se intensificando.

 

— Há algo errado? — Um quê de preocupação soou na voz de Gerard.

 

O que poderia estar errado? Certamente, ele devia sa-ber que possuía um corpo magnífico.

 

— Eu queria apenas admirar você. Desculpe-me se o ofendi.

 

O sorriso de Gerard se alargou, enquanto subia na cama, estreitando-a em seus braços. Ardith aninhou-se no calor daquele corpo forte e ergueu os lábios, oferecen-do-os. Ele retribuiu com um beijo voluptuoso, sôfrego, prolongando-o até que ambos estivessem ofegantes.

 

— Você não me ofendeu — disse-lhe, enfim. — Se gosta de ver meu corpo, pode observá-lo quanto quiser. Na verdade, a simples idéia de seus olhos me contem-plando já me enlouquece.

 

Afastou-lhe mechas ruivas da fronte e acariciou-lhe o rosto com ternura, enquanto explicava:

 

— Eu apenas queria saber se você ainda sentia algum temor.

 

Ardith lembrou-se de sua reação inicial daquela tarde quando o vira despido pela primeira vez. Além da enca-bulação, sentira também uma apreensão natural. Outra lembrança logo sobrepôs-se àquela, a de como Gerard a possuíra com toda a ternura e paixão, a dor inicial tendo logo dado lugar a um êxtase fabuloso.

 

— Como eu poderia temer o que me dá tanto prazer?

 

Aliviado com as palavras, ele tornou a encontrar-lhe os lábios com um beijo demorado. Deslizou a mão até os seios arredondados, sentindo-lhes a firmeza no calor de sua palma. Enfim, deitou-se de costas na cama, colocan-do-a sobre seu corpo. Os belos cabelos ruivos cascatearam em torno do rosto dela, até os ombros e as costas, as mechas sedosas reluzindo sob o fogo das velas. Tinham uma fragrância provocante, delicada mas ao mesmo tem-po marcante, como um campo de flores silvestres. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Não pôde conter um riso diante do pensamento repentino de que nenhum guerreiro jamais tivera fragrância tão boa.

 

— Por que disse que as mulheres deveriam ser guerreiras?

 

— Porque os homens são fáceis de subjugar.

 

— Ah, acha mesmo? Veja se sabe se defender disto.

 

— Com um novo riso, ele tornou a virá-la, fazendo-a afundar no colchão de plumas sob seu corpo. Aprisionou--lhe as mãos acima da cabeça, beijando-a nos lábios com todo ardor. Ardith correspondeu com idêntico desejo, re-tribuindo às carícias de seus lábios com abandono, numa troca mútua e intensa.

 

Gerard esforçou-se para manter o controle, até tentou ir mais devagar. Mas ela não lhe deu chance. A persistência para a total união de seus corpos venceu-lhe os resquícios de resistência.

 

Tomado pelo mesmo anseio, atendeu-lhe à súplica si-lenciosa e possuiu-a com arrebatamento. Com movimen-tos lentos e estimulantes, conduziu-a na cadência da pai-xão, levando-a a acompanhá-lo instintivamente. Não de-morou para que os corpos de ambos ondulassem num ritmo frenético, e Ardith fosse dominada por sensações abrasadoras, quase irreais, onda após onda de prazer percorrendo-a por inteiro.

 

O deleite de um êxtase glorioso tomou conta de Gerard em seguida, seu corpo vibrando com a mesma intensidade dos espasmos que acabavam de enlevar Ardith, ambos encontrando a plenitude um nos braços do outro.

 

Ofegante, ele beijou-lhe a fronte úmida.

 

— Você realmente me enlouquece, querida — sussur-rou-lhe. — É claro que teremos êxito. Dê-me um filho… menino ou menina, tanto faz.

 

Ardith abraçou-o com força.

 

— Tenho medo de que você esteja almejando o im-possível. Pode não estar sendo sensato em esperar su-cesso nisto.

 

— Talvez, mas também não aceitarei fracasso, não sem uma batalha. E eu luto para vencer. Sempre.

 

Ardith podia sentir o peso dos olhares de todos. Sen-tada à mesa do jantar ao lado de Corwin, tinha os nervos à flor da pele em meio à evidente curiosidade da corte. Tentava se concentrar na comida em seu prato, os pe-dacinhos de carne que levava aos lábios caindo pesada-mente em seu estômago.

 

Vozes ecoavam ao seu redor, baixas demais para que ouvisse as palavras com clareza.

 

Certamente nem todos cochichavam sobre o incomum acordo nupcial, mas alguns, sim, e tal fato irritava-a. Gostaria de poder esbravejar em sua defesa, dizer a todos que encarassem o rei Henrique, ou a Gerard. O monarca selara o acordo com um decreto e o barão concordara com os termos. Ela era apenas uma parte inocente da-quele acordo.

 

Mas, na verdade, não era inocente. Havia protestado, mas acabara cedendo, não ao decreto, mas a um homem, Gerard. De corpo, alma e coração, sucumbira a ele.

 

E Gerard tomara a recompensa oferecida, repeti-damente, com ternura e paixão. O corpo dela ainda estava um tanto dolorido da vigorosa experiência da noite anterior.

 

— É assim tão ruim? — indagou Corwin, com gentileza.

 

A pergunta sobressaltou-a, mas, então, Ardith deu-se conta de que seu irmão não sentia suas dores. Estava apenas se referindo à situação e ao seu humor.

 

— Vou sobreviver — declarou, surpresa com a convic-ção em sua voz.

 

— Agora que Gerard mandou nosso pai de volta a Lenvil, talvez os falatórios diminuam consideravelmente. Eu sei que ele não gostou do decreto, mas despejar seus comentários maldosos na frente de quem quisesse ouvir… bem, Gerard não podia tolerar. E uma pena que não possa mandar lady Diane para longe também. Está sendo um tanto mais sutil, mas a raiva é a mesma.

 

A opinião de lady Diane de Varley sobre o decreto se espalhara rapidamente pelo palácio inteiro e, na verdade. não continha a menor sutileza. Ardith quase sentia pena da mulher. Devia estar sendo humilhante para ela, ter recebido a ordem de esperar, enquanto o homem que pedira para marido optara por ficar com outra durante um ano.

 

Ardith lançou um olhar para o lugar que a loira ocupava à mesa e, por um breve segundo, seus olhares se encontraram. A fúria de Diane, faiscando em seus olhos claros, fez com que um calafrio lhe subisse pela espinha.

 

Não iria se deixar intimidar, disse a si mesma. Determinada, respirou fundo, ergueu o queixo e olhou ao redor, à procura de rostos mais amistosos. Deparou com o de Gerard.

 

Sentado à mesa mais elevada, ele ria de algum comen-tário feito pelo rei. Embora não estivesse tão ricamente trajado, o seu ar confiante e autoritário o fazia parecer tão poderoso quanto o monarca sentado a seu lado. Era evidente que Henrique tinha o barão em suas boas graças e que, por sua vez, Gerard também o admirava.

 

A um dado instante, ele desviou os olhos pela longa fileira de mesas até onde ela se sentava. Sustentou-lhe o olhar por longos momentos, seus lábios, enfim, cur-vando-se num ligeiro sorriso. Chegou a dar-lhe uma piscadela antes de se virar para ouvir o comentário seguinte do rei.

 

— Eu detesto ter que deixar você sozinha deste jeito, mas tenho tarefas a cumprir — explicou Corwin. — Você ficará bem por alguns minutos até que Gerard venha buscá-la?

 

— Não posso ir com você?

 

— Pode, mas Gerard procurará você aqui quando es-tiver pronto para deixar o salão. É melhor que você o aguarde. Ele tem enfrentado dias de tribulação, e eu não quero lhe causar preocupação desnecessária.

 

Ardith baixou a voz para um sussurro.

 

— Na audiência de ontem com o rei… foi falado sobre mais do que o acordo nupcial, certo?

 

Corwin abriu um sorriso e sussurrou-lhe ao ouvido:

 

— Sim. — Com sua resposta breve, retirou-se.

 

Ardith obrigou-se a terminar o jantar e, então, olhou ao redor em busca de Gerard, mais do que pronta a re-colher-se à privacidade dos aposentos de uso de Wilmont.

 

— Dizem que Gerard está enfeitiçado — declarou uma voz feminina atrás dela. Ardith virou-se no banco para confrontar a mulher cujo tom soara indubitavelmente acusador, rancoroso. Os olhos cinzentos de lady Diane faiscavam de raiva. Um sorriso maldoso curvava-lhe os lábios cheios e bem-feitos. O verde intenso do vestido e do véu destacava-lhe os cabelos e a alvura impecável de sua pele. A expressão em seu rosto bonito era hostil, perigosa.

 

Ardith se levantou, fez uma polida mesura e escolheu as palavras com cuidado:

 

— Eu lhe asseguro, milady, que não tenho nem o desejo nem o poder de afetar a mente de nenhum homem, muito menos a de alguém com a força de vontade do barão Gerard.

 

Diane soltou um riso desdenhoso.

 

— Ele tem mesmo o hábito de fazer o que quer quando sente algum impulso, não é? Essa característica o deixa mais atraente.

 

Ardith procurou manter-se impassível diante do olhar perscrutador da outra. Traço por traço, a dama fez com-parações. Quando a raiva se dissipou do rosto de Diane, ela soube que a loira não a julgara à sua altura. Com um ar altivo, olhou para a mesa de onde Gerard já se levantava.

 

— E Gerard não pôde resistir ao desafio que Henrique lhe apresentou nesse acordo nupcial. Ah, os homens… Gostam de fazer seus jogos.

 

Um jogo? Seria daquela maneira que Gerard enca-rava o acordo? Ardith não era de tal opinião. Ele de-monstrara total sinceridade quanto ao desejo de tor-ná-la sua esposa. Mas se Diane queria pensar o con-trário, por que argumentar?

 

A loira tornou a encará-la, estreitando o olhar.

 

— Será que Gerard pode vencer?

 

Ansiando por poder dizer que sim, por avisá-la a não planejar um futuro como esposa de Gerard, Ardith respondeu:

 

— O tempo dirá, milady.

 

— Um pouco mais para baixo, Ardith.

 

— Gerard, eu não posso…

 

— Claro que pode. Agora, segure com força. Hum… isso mesmo.

 

Ela umedeceu os lábios e tentou se concentrar. Apenas para agradá-lo iria se submeter àquela lição.

 

— Deixe que escorregue por seus dedos, que se molde à sua palma. Sinta o calor, o poder — sussurrou ele, num tom de urgência.

 

Ainda que hesitando, Ardith obedeceu. A bela e letal adaga tornou-se uma extensão de sua mão. Não era de admirar que os homens gostassem de manusear lâminas afiadas, testando sua força no campo de exercícios, ou no auge da batalha. A falsa sensação de imortalidade poderia se tornar um vício perigoso.

 

— Podemos parar agora? — suplicou ela.

 

Gerard permanecia a uma pequena distância, as mãos indicando-lhe que avançasse.

 

— Ainda não. Atire-a em mim.

 

— O quê? Mas você não está com armadura, nem escudo!

 

— Finja que sou Percival, que vim para violentá-la. Lembre-se daquele olhar lascivo, da mão estendida para agarrar você. Atinja-o com sua adaga. Ensine-o a não tentar macular uma mulher que pertence a outro homem.

 

Ardith tentou conter-se, mas seus lábios curvaram-se num sorriso divertido ao ver como ele franzia o cenho, irritado.

 

— Diga-me, a idéia das mãos de Percival em cima de você é divertida?

 

— Claro que não! Estou rindo da sua tentativa de instigar a minha raiva em relação a ele. Você gostaria de poder cravar-lhe uma adaga, não eu.

 

Gerard ponderou a respeito por um instante, sua ex-pressão se abrandando.

 

— É verdade — admitiu. Com um sorriso, observou: — É em lady Diane que você deseja cravar sua adaga.

 

O bom humor de Ardith dissipou-se.

 

— Como já lhe disse, não desejo ferir ninguém.

 

— Você trocou algumas palavras com Diane. O que foi que ela disse que aborreceu você?

 

— Lady Diane parece achar que eu enfeiticei você de algum modo. Eu lhe assegurei que não tenho tal poder, nem você seria vulnerável a esse ponto.

 

— Uma acusação grave.

 

— Acho que não. Diane simplesmente se pergunta por que você preferiria a mim em vez dela; dúvida que, aliás, paira por toda a corte. — Ardith pousou a adaga na mesa e ergueu um olhar perscrutador para fitá-lo.- Eu mesma não entendo. Diane tem tanto mais a oferecer a você.

 

— Apenas terras na Normandia que nem sequer tenho certeza se quero. Essa é uma oferta tentadora, eu admito, mas defender feudos num lugar tão distante espalha ho-mens e suprimentos e acaba dividindo lealdades. Eu pre-feriria que quaisquer terras que eu venha a ganhar es-tejam aqui mesmo na Inglaterra.

 

— Então, por que escolheu a mim? Não estou lhe dando nada em troca. — As palavras escaparam dos lábios de Ardith antes que pudesse contê-las.

 

— Sabe, eu posso lhe dar muitas razões para ter es-colhido você, se quiser ouvi-las, mas, olhando para trás, acho que me decidi por você no dia em que queimou a ponta de sua trança salvando Kirk. Eu soube, então, que você possui aquela rara qualidade que eu esperava en-contrar numa esposa, mas temia não conseguir… a ha-bilidade de defender e cuidar de uma criança que não seja sua, uma criança de nascimento ilegítimo.

 

Ardith lembrou-se de ter afastado Kirk de perto do fogo, de sua raiva por Belinda e do balde de água que fora despejado em cima dela. De repente, entendia a es-tranha expressão no rosto de Gerard quando lhe tocara a trança chamuscada. Ela o havia surpreendido salvando o garotinho da prostituta, um bastardo. E, com esse en-tendimento, voltavam-lhe as lembranças da revelação de Corwin sobre o filho bastardo de Gerard, Daymon.

 

— Eu tenho uma criança assim — prosseguiu ele, pas-sando a mão pelos cabelos loiros. — Esperei encontrar uma esposa que não rejeitasse meu filho por causa das circunstâncias de seu nascimento. Cresci numa casa onde minha mãe mal tolerava os próprios filhos e era física e verbalmente cruel com o bastardo que meu pai reco-nheceu e criou como seu. Pretendo criar Daymon da mes-ma maneira que faria a um filho legítimo, mas eu prefiro que ele não enfrente os maus-tratos que Richard suportou de minha mãe. — Gerard abriu um sorriso ao prosseguir: — Quando vi você, abraçando Kirk, depois de tê-lo salvo de possíveis queimaduras graves, alheia ao próprio risco; furiosa com uma prostituta por ter negligenciado uma criança bastarda, eu soube que poderia lhe confiar o meu próprio filho.

 

Ardith hesitou, sem ter certeza de que queria saber sobre outras mulheres que haviam partilhado da intimi-dade de Gerard.

 

— E quanto à mãe de Daymon?

 

— Morreu ao dar à luz. Agora, se acabou de tentar ganhar tempo, apanhe aquela adaga e vamos continuar com esta lição.

 

Ardith pegou a adaga, ainda refletindo sobre as razões bizarras mas admiráveis dele.

 

— Quer que sua esposa seja uma mãe para Daymon?

 

— Se ela assim desejar. Tudo o que peço é sua aceitação quanto ao lugar dele em minha casa.

 

— Você continua me surpreendendo. Nunca ouvi falar de nenhum homem que rejeitaria mais riqueza apenas para ter alguém que aceite seu filho.

 

— Quero você para mim também, Ardith. Nunca du-vide disso. Além do mais, em alguns dias, se tudo correr conforme planejado, vou ganhar quase tantas terras quanto as de Diane sem ter que me casar com uma víbora daquelas em troca. Agora, posicione-se como lhe ensinei.

 

O comentário aparentemente casual dele sobre ganhar terras confirmou as suspeitas de Ardith. Já percebera que havia algo misterioso acontecendo, e Corwin também dera a entender que sim. Gerard lhe contaria se lhe perguntasse do que se tratava? Talvez, mas algo na expressão dele dizia que era melhor não adiar mais aquela tola lição.

 

Ela tocou de leve a lâmina afiada da adaga com a ponta dos dedos e separou os pés, calçados com os botas sob medida entregues pelo sapateiro.

 

— De todas as suas idéias peculiares, esta é a mais inusitada. Não sei de nenhum outro homem que queira uma guerreira para esposa.

 

Ele se agachou.

 

— Não uma guerreira, apenas uma esposa capaz de se defender. Quando estiver pronta…

 

Ardith segurou o cabo da adaga com firmeza, uma estranha sensação de poder dominando-a.

 

Quando ela avançou, Gerard se colocou de lado e es-tendeu o braço. Bastou torcer-lhe o pulso de leve, e a adaga caiu no chão. Depois, puxou-a para si, fazendo-a colidir contra seu corpo.

 

Envolta pelos braços fortes, Ardith percebeu que ele continha o riso.

 

— Antes de ter atacado, você fechou os olhos. Não se pôde atingir um alvo que não se vê.

 

— Não gosto disso, e você sabe.

 

— É porque você ainda não tem habilidade. Tente outra vez.

 

Enquanto prosseguia com suas instruções, Gerard pon-derou sobre a sensatez de ter-lhe dado a adaga. Ela fazia tudo o que lhe dizia. Segurava a arma com naturalidade, aprendia facilmente a flexão apropriada do pulso e mo-via-se com graça. Reconhecia-lhe o talento, mas lamen-tava a sua falta de empenho.

 

— É o bastante por hoje.

 

Ardith soltou um suspiro aliviado.

 

— Ouça — começou Gerard, num tom grave, seguran-do-a com gentileza pelos ombros. — Tem que me fazer uma promessa. Jamais, não importando qual seja a pro-vocação, aponte a adaga para um inimigo se não estiver preparada para derramar sangue.

 

Ela fitou-o com intensidade, os olhos azuis inquiridores.

 

— O seu desagrado pela arma fica evidente em seu rosto, essa é uma falha que você deve superar ou aprender a mascarar. Qualquer hesitação de sua parte no uso da adaga dá vantagem ao inimigo. Agora, prometa.

 

— Não tenha medo quanto a isso. Do fundo do meu coração, eu prometo — declarou Ardith com firmeza e guardou a adaga na bainha interna da bota.

 

                                                     CAPÍTULO 13

Ardith colocou as últimas estátuas religiosas de Ursula numa caixa de madeira. Seriam levadas por Thomas, e ela não se importava em saber para onde.

 

Agora que terminara, precisaria de nova tarefa para ocu-par seu tempo, para permitir-lhe permanecer nos aposentos de Wilmont, longe dos olhares curiosos lançados na sua direção a cada vez que saia. Faltava apenas uma semana para o Natal. A cada dia, mais pessoas surgiam no palácio. Nobres das partes mais distantes do reino chegavam à corte para endossar seus juramentos de lealdade ao rei Henrique . Em cada lugar que se reuniam, eles conver-savam e observavam. Alguns até ousavam olhar direta-mente para o ventre dela, revelando total falta de cortesia.

 

Bem, os curiosos ficariam desapontados por mais algum tempo. O período de Ardith começara naquela manhã…

 

Vozes altas na saia íntima despertaram-na dos pensa-mentos. Ela sorriu, sabendo que Gerard devia ter voltado.

 

Um grito estridente cortou o ar. Elva correu para o aposento e fechou a porta com a tranca.

 

— Temos que nos esconder! — exclamou, os olhos ar-regalados pelo pavor. — Não, devemos fugir. Depressa! Junte suas coisas. Não, não, partiremos sem elas.

 

— Acalme-se, sim? Diga-me, o que a deixou assim tão amedrontada?

 

— Isto é obra do demônio, estou lhe dizendo. Não avisei você sobre o mal de Wilmont? Ele está morto, mas anda e fala.

 

Ardith sentiu-se gelando por inteiro. Algo acontecera com Gerard. Mas enquanto ainda era tomada pelo pânico, ouviu um riso sonoro ecoando pelo corredor. Se tivesse acontecido algo a ele, os sons seriam bem diferentes.

 

— Elva, não entendo nada do que está dizendo.

 

— O bastardo. Oh, que os céus nos protejam, o bastardo voltou dos mortos!

 

Ignorando os protestos da tia, Ardith atendeu ao ouvir uma batida à porta, abrindo a tranca para dar passagem a Thomas.

 

— Milady, temos convidados. Lorde Gerard deseja a sua presença.

 

Elva arregalou os olhos e segurou o braço de Ardith com quase desespero.

 

— Não! Minha querida, eu lhe imploro que não saia!

 

O terror da tia e o ar divertido de Thomas despertaram a curiosidade de Ardith. O pajem certamente não estava com medo de quem quer que Elva julgasse um espírito.

 

Libertou seu braço.

 

— Pode ficar aqui, se quiser — disse-lhe. — Mas não posso desobedecer ao chamado de Gerard.

 

Enquanto seguia pelo pequeno corredor e se aproxi-mava da sala, reconheceu a voz dele; a da pessoa que ouviu respondendo pareceu-lhe familiar.

 

Passando sob o arco, abriu um sorriso para Stephen, o Irmão mais novo de Gerard. Ele havia amadurecido desde a última vez que o vira. Os ombros pareciam mais largos.

 

Estava mais alto do que se lembrava. Os cabelos escuros, em acentuado contraste com os do irmão, reluziam sob a luz das velas. Apenas nos olhos verdes e no queixo quadrado as semelhanças entre ambos eram evidentes.

 

Jovem e forte, Stephen não era certamente um espírito, e quando ele se virou para cumprimentá-la, disse-lhe aquilo. Stephen riu.

 

— Não, Ardith. Não foi por minha causa que Elva saiu gritando — comentou e, então, pôs-se de lado para permitir-lhe ver o último homem na sala. — Foi Richard que fez a velha fugir como o diabo da cruz.

 

Richard? Mas ele havia… morrido, derrotado por uma espada na Normandia! Ainda assim, diante dela acha-va-se um homem quase do mesmo porte físico de Gerard. Os cabelos eram de idêntico tom de loiro, os olhos do mesmo verde intenso…

 

Ardith empalideceu.

 

— Por favor, não desmaie, milady — pediu Richard, estendendo-lhe a mão. — Não sou um espírito, embora, nas últimas semanas, Stephen tenha desejado por mais de uma vez que eu tivesse partido deste mundo.

 

Hesitante, ela tocou-lhe a mão, confirmando que era quente e forte. Lançou um olhar a Gerard, em busca de uma explicação.

 

— Nós deixamos todos pensar que Richard havia mor-rido e foi por uma boa razão. O fato de ele ter se recu-perado totalmente deve permanecer em segredo por mais algum tempo.

 

Apesar de não entender a necessidade, com um mero olhar a Gerard, Ardith deu sua promessa de silencio.

 

Stephen fez uma mesura zombeteira.

 

— Tendo entregue este monge ranzinza em suas mãos, Gerard, eu me retiro. Pretendo encontrar Corwin; depois, uma jovem ou duas e me embebedar a valer.

 

Gerard franziu o cenho, mas antes que pudesse dizer algo, Richard pousou a mão em seu braço. Os irmãos trocaram um olhar e, enfim, Gerard assentiu, dando sua permissão. Stephen saiu rapidamente dos aposentos de Wilmont.

 

— Ele pode deixar escapar alguma coisa enquanto es-tiver embriagado — comentou Gerard.

 

— Acho que não — disse Richard. — Stephen pode ser jovem e de temperamento forte, mas não é tolo. E certamente merece se divertir um pouco.

 

Gerard ergueu uma sobrancelha com um ar inquiridor.

 

— Minha mãe?

 

— Lady Ursula empenhou-se para tentar roubar a leal-dade de Stephen. Os dois discutiram com freqüência. Ele se manteve firme. — Richard, então, franziu o cenho e coçou-se vigorosamente na altura do peito. — Pelos céus, este hábito está me deixando em carne viva.

 

— Está cansado dos trajes de monge?

 

— Claro, estou farto deste hábito e de esconder meu rosto com este capuz infernal. Por quanto tempo mais precisaremos continuar com esta farsa?

 

— Por mais um pouco. Meus informantes me disseram que Basil deve chegar amanhã, ou, no mais tardar, daqui a dois dias.

 

Notando que o irmão ainda se coçava, Gerard virou-se para Thomas.

 

— Vá até minhas coisas e arranje algo para ele vestir antes que realmente acabe se esfolando.

 

Richard acompanhou o pajem de imediato pelo corredor que conduzia aos quartos.

 

Ardith observou-o retirando-se, ainda um tanto admi-rada com a espantosa semelhança entre ele e Gerard, além de intrigada com as misteriosas razões que os -teriam levado ao extremo de fingir sua morte.

 

Notando-lhe as perguntas no olhar, Gerard decidiu con-tar-lhe o bastante da história para aquietar-lhe a mente.

 

Começou comentando sobre o ferimento de Richard na Normandia, falou-lhe de seu desejo de retaliação imediata Contra o homem responsável e da ordem de Henrique para aguardar e resolver a questão na corte. Em poucos minutos, a história fora revelada. Gerard surpreendeu-se com sua franqueza. Não planejara contar-lhe tudo. Ho-mens não se queixavam de suas tribulações às mulheres.

 

Mas sentiu-se bem por ter contado. O grande peso em sua mente abrandara-se, e Ardith não apenas entendeu seus planos como pareceu aprová-los.

 

Com um suspiro, ela levantou-se da cadeira.

 

— Devo ir até Elva, assegurar-lhe de que Richard não é um espírito. A propósito, presumo que seus irmãos dor-mirão aqui. Devemos providenciar acomodações?

 

— Duvido que vejamos Stephen outra vez hoje à noite. Richard poderá dormir na minha cama. Eu vou partilhar da sua.

 

Ela corou. Como se dizia a um barão que devia en-contrar outro lugar para dormir? Ele interpretou o seu rubor de maneira equivocada.

 

— Meus irmãos sabem sobre nosso acordo. Nenhum dos dois ficará surpreso, nem se importará se eu dormir na sua cama.

 

— Não é a opinião de seus irmãos que me preocupa. Há uma outra coisa… Eu não posso… oh, céus…

 

— Não pode o quê?

 

Ardith obrigou-se a falar, seu tom quase de murmúrio:

 

— Você não deve dividir minha cama hoje. Meu período…

 

— Ah! — disse ele, compreendendo, grande desapon-tamento em seu tom. Se era por significar que ambos não poderiam partilhar de intimidade por alguns dias, ou por que ela ainda não havia concebido, Ardith não perguntou. Apenas aceitou o consolo dos braços que ele lhe abriu.

 

— Então, nos deitaremos quietos, aquecendo um ao ou-tro. Acostumei-me a ter você perto de mim enquanto durmo.

 

A confissão amenizou a inquietação dela. Depois de beijá-la na fronte, Gerard interrompeu o abraço, dizendo:

 

— Devo ir falar com Richard.

 

— E eu com minha tia.

 

— Ouça, eu confio em você, mas não em Elva. Diga-lhe que não saia destes aposentos até que eu dê ordem em contrário.

 

Thomas adentrou pela porta principal dos aposentos, ofegante.

 

— Basil está aqui, milorde.

 

Gerard trocou um rápido olhar com Richard antes de perguntar:

 

— Edward Siefeld está com ele?

 

— Sim. Stephen me pediu para lhe dizer que Basil parece exausto. Não há dúvida de que cavalgar pela neve o esgotou.

 

Gerard conteve a onda de ansiedade que preparava seu corpo e sua mente para a batalha. Resistiu à urgência de apanhar sua espada e buscar vingança imediata.

 

Henrique queria fazer um julgamento, aplicar o devido castigo. Levando em conta a inclinação do rei para punições cruéis, matar Basil logo talvez fosse piedoso demais.

 

— Incomodou-se com um pouco de neve, não é? Bem, em breve o faremos esquecer dos pés frios e roupas úmidas — prometeu Gerard secamente. — Informe a Kester que estamos prontos para uma audiência com sua majestade.

 

Thomas obedeceu rapidamente, deixando a sala.

 

— Acho que isto significa que tenho que vestir outra vez o hábito de monge — resmungou Richard.

 

— Não tão depressa e, quando o fizer, será por pouco tempo.

 

— Desde que seja a última vez — comentou Richard, quando a porta tornou a se abrir.

 

Stephen entrou, apanhando uma taça e preenchendo-a com vinho.

 

— Última vez para quê?

 

— Para submeter meu corpo à tortura daquele maldito hábito. Onde está Basil?

 

Stephen ocupou uma cadeira e virou-se para os irmãos.

 

— Talvez tenhamos um problema. O intendente do palácio recusou aposentos a Basil em Westminster.

 

A posição de Basil assegurava-lhe acomodações no pa-lácio. Por direito, um nobre de casta inferior deveria ser desalojado para liberar aposentos, se necessário. Apenas por ordem direta do rei o intendente ousaria o insulto de recusar acomodações a um barão.

 

— E como Basil reagiu a afronta?

 

— Ameaçou o intendente, mas o homem respondeu-lhe calmamente que encaminhasse sua queixa ao rei e, então, designou-o para a residência de um rico mercador.

 

— Então, agora Basil sabe que não está nas boas graças do rei — declarou Gerard, exasperado.

 

— Será que ele vai encarar o insulto como um aviso e partirá? — indagou Richard.

 

— Acho que não — disse Gerard, pensativo. — Basil sabe que tem que ficar para aplacar a ira de Henrique, qualquer que tenha sido a causa. Mas, de qualquer modo, temos que nos precaver para a possibilidade de Basil partir repentinamente. Stephen, designe alguns homens…

 

— Já o fiz. Corwin e dois soldados nossos estão vigiando a casa. Avisei-os para não se deixarem notar.

 

— Muito bem — assentiu Gerard, satisfeito, erguendo sua taça num brinde. — Acreditem, Basil não nos esca-pará desta vez.

 

O rei Henrique havia decidido fazer de Basil de Northbryre um exemplo, julgando o caso de Wilmont diante de toda a assembléia de nobres. Ardith e Bronwyn assistiam aos procedimentos em meio à multidão no salão de audiências de Westminster. Vestindo seus mais ricos trajes, os nobres da Inglaterra se reuniam para a ceri-mônia formal em que colocavam suas mãos entre as pal-mas do monarca e juravam servir ao reino.

 

Gerard estivera entre os primeiros a fazer o juramento. Agora, achava-se ao lado de Kester, alguns passos à di-reita do trono. Ardith podia sentir-lhe a tensão, embora se esforçasse para parecer relaxado.

 

Richard estava recostado numa parede num canto es-curo, o capuz de seu hábito de monge puxado para a frente a fim de ocultar-lhe o rosto. Ela olhou ao redor, tentando encontrar Stephen e Corwin, mas não os viu.

 

Finalmente, Basil de Northbryre adiantou-se até o tro-no e ajoelhou-se diante do rei, apresentando as mãos postas e murmurando o juramento.

 

— Mentiroso! — A voz possante de Gerard ecoou pelo salão. Inúmeros pares de olhos se viraram em sua direção em estupefação coletiva. Exclamações chocadas seguiram a acusação e, então, o absoluto silêncio pairou no ar.

 

Ardith gostaria de poder ver o rosto do acusado, avaliar sua reação, mas o homem estava de costas para a as-sembléia. O rei Henrique soltou-lhe as mãos e recostou-se de volta no trono.

 

— O que Gerard está pretendendo? — sussurrou Bronwyn.

 

— Ouça! — murmurou Ardith, impaciente.

 

— Uma grave acusação, barão Gerard — comentou orei.

 

— E totalmente sem fundamento — defendeu-se Basil, esforçando-se para se levantar.

 

Em duas passadas largas, Gerard alcançou-o e o fez abaixar-se.

 

— Fique de joelhos, a melhor maneira de implorar pela demência do rei.

 

— Não preciso de demência! — Basil dirigiu-se ao rei num tom respeitoso: — Majestade, a audácia de Wilmont é uma afronta à coroa. Exijo um pedido de desculpas por esse ultraje.

 

Henrique abriu um sorriso indulgente.

 

— Deixe o homem se levantar, Gerard.

 

Ele recuou um passo, e Basil tornou a se levantar com esforço. Ardith franziu o cenho. Será que Henrique simpatizava com o acusado?

 

— Oh, puxa — disse Bronwyn —, Basil está em sérios apuros, não? — Ante o olhar inquiridor da irmã, pros-seguiu: — Todos sabem que se deve ter cuidado com o perigo escondido por trás de um sorriso de Henrique. Dizem que esse sorriso só é visto no rosto dele quando está ponderando sobre punições cruéis a aplicar. E em suas sentenças severas, não chega nem a poupar mem-bros da família, quando se trata de punir alguma ofensa.

 

— Céus…

 

Com a mão erguida, o rei silenciou os murmúrios entre os nobres.

 

— Este homem se diz um leal vassalo do rei, Gerard. Você o acusa de mentir. Tem alguma prova de sua deslealdade?

 

Gerard discorreu sobre suas acusações, as quais Basil rebateu prontamente, alegando inocência.

 

Sem hesitar, ele negou que roubara tributos de Mi-lhurst destinados a Wilmont. Por que iria roubar do barão Everart?, argumentou. Por que correr o risco de desper-tar-lhe a ira por soma tão modesta?

 

Se estava cobiçando Milhurst? Jamais.

 

Estar cercando o feudo com a intenção de invadi-lo e tomá-lo para si? Um completo absurdo.

 

— Majestade, eu realmente devo protestar — declarou Basil. — Ouvi dizer que a propriedade tem sido vítima de saqueadores. Enviei meus homens para observar. Eu apenas queria proteger os interesses de Wilmont até que o barão Gerard pudesse tomar uma atitude para proteger suas terras.

 

— Os seus homens não foram para observar — retrucou Gerard, sombrio. — Ficaram de tocaia durante dois dias e, depois, atacaram.

 

— Um infeliz incidente — alegou o acusado. — Quando descobrimos nosso erro, recuamos de imediato.

 

— Vocês foram expulsos!

 

— Majestade, é óbvio que o barão não acredita que eu agi apenas com a melhor das intenções. Parece que não há nada que eu possa dizer que o faça mudar de opinião. Apelo para o seu julgamento de soberano.

 

Gerard colocou-se de lado, aguardando. Mãos que podiam tocar tão gentilmente o corpo de Ardith para acariciar ou confortar pareciam prontas para o ataque, os punhos cer-rados com força ao longo do corpo. Olhos que podiam ficar calorosos, divertidos ou cintilar de paixão, agora faiscavam numa fúria implacável. Ele parecia… letal.

 

Ela temeu que Gerard avançasse e acabasse com Basil com suas próprias mãos. Mas, na verdade, virou-se na direção da porta e fez um gesto para os guardas. Dois membros da guarda real abriram a ampla porta dupla.

 

Um homem se aproximou, todo vestido de preto, seguido de Stephen e Corwin, que guardaram suas espadas na bainha enquanto entravam.

 

A fachada de compostura de Basil abalou-se.

 

— Mais uma vez, Wilmont está desrespeitando as form-alidades da cerimônia. O barão traz um mercenário para o nosso meio! Por tudo quanto é sagrado, eu exijo uma reparação para este imperdoável insulto.

 

Gerard ignorou-o, fazendo um gesto para que o trio recém-chegado se aproximasse mais. O homem de preto não se moveu, até que Stephen lhe deu um empurrão.

 

— Majestade, este capitão mercenário é Edward Sie-feld — anunciou Gerard. — Deve estar lembrado dele da Normandia. Siefeld e seu bando serviram como sol-dados a Basil de Northbryre.

 

O mercenário fez uma mesura ao monarca. Pelo canto do olho, Ardith notou alguém se movendo… Richard, sain-do das sombras onde se mantivera até então.

 

— E lutaram distintamente, pelo que eu soube — con-firmou Basil.

 

— Sim, lutaram bem — admitiu Gerard.- Tivesse ele limitado sua luta apenas às batalhas, eu não teria queixa contra Siefeld. Mas ele também optou por seguir ordens suas, Basil, ordens que recebeu antes de ter dei-xado a Inglaterra.

 

Ardith moveu a cabeça para conseguir ver melhor. Com as mãos para trás, os pés ligeiramente separados, Siefeld permanecia imperturbável, como se não estivesse envol-vido naquela disputa entre barões. Em deferência aos nobres que assistiam, supôs ela, Gerard relatou em ordem cronológica os acontecimentos que culminaram no ataque a Richard na Normandia. Acusou, então, Siefeld formal-mente de tentar assassinar premeditadamente um mem-bro da nobreza, por ordem direta de Basil de Northbryre.

 

— Ora, vamos! — retrucou Basil. — O seu irmão bas-tardo foi ferido em batalha e morreu desses ferimentos.

 

— É mesmo? — Gerard abriu um sorriso perigoso.

 

Siefeld moveu-se ligeiramente e lançou um olhar a Basil.

 

— A Inglaterra inteira sabe que ele morreu — retrucou Basil, sacudindo os braços no ar em exasperação. — Você causou todo aquele alvoroço trazendo o homem para casa e enterrando-o em Wilmont. Majestade, eu exijo punição severa para este ultraje a que estou sendo submetido! Gerard tenta manchar meu bom nome com acusações que não pode provar.

 

Gerard fez outro sinal com a mão. Richard aproximou-se mais e removeu o capuz.

 

Bronwyn soltou um grito e, no instante seguinte, per-dia os sentidos. Ardith amparou-a de imediato.

 

O caos reinou.

 

Gerard ignorou as exclamações de incredulidade, os gestos rápidos de mãos fazendo o sinal da cruz, os rostos empalidecendo e as mulheres que desfaleciam. Basil en-carava Richard, incapaz de encontrar a fala. Para a sa-tisfação de Gerard, a reação de Edward Siefeld ao vê-lo foi a esperada.

 

O mercenário deixou escapar os seus pensamentos em voz alta:

 

— Não. Isto não é possível. Você está morto, maldição! Está morto!

 

— É o que você gostaria, não? — retrucou Richard, secamente. Dirigiu-se, então, ao rei: — Majestade, foi Edward Siefeld que achou ter-me dado o golpe mortal. Na verdade, eu poderia mesmo ter morrido não fosse pelos excelentes cuidados de seus médicos.

 

Basil recobrou-se do choque. Limpou a garganta e sa-cudiu uma poeira imaginária dos trajes, como se estivesse removendo o estigma de qualquer ato errado associado com sua pessoa.

 

— Já que não houve nenhum assassinato, não vejo razão para continuarmos com este drama. O bastardo foi apenas ferido, portanto…

 

Gerard deu um passo à frente e desfechou um murro certeiro no rosto de Basil. Sangue jorrou-lhe do nariz quebrado enquanto o homem caía ao chão.

 

— Minhas desculpas, majestade, pelo derramamento de sangue. Pagarei de bom grado para que o chão seja limpo.

 

Henrique abriu um sorriso mordaz.

 

— Posso imaginar. — Então, bradou: — Basil de North-bryre foi acusado de crimes contra Wilmont e a coroa. Algum homem nesta assembléia deseja ser testemunha de seu caráter?

 

O silêncio foi absoluto.

 

Henrique chamou os guardas, instruindo-os para con-duzirem os prisioneiros a White Tower.

 

— Eu os deixarei refletindo sobre seus crimes e aguar-dando a devida punição nas masmorras.

 

O monarca estendeu a mão na direção de Kester, que lhe entregou um rolo de pergaminho atado com uma fita vermelha. Henrique passou-o às mãos de Gerard.

 

— Acho que ficará satisfeito.

 

Gerard fez uma respeitosa mesura. Sabia que o per-gaminho continha a lista das terras de Northbryre que o rei estava lhe dando a título de reparação. Embora ansioso por lê-la, resistiu ao impulso:

 

— Agradeço-lhe, majestade.

 

O rei se levantou. O salão tornou a ficar silencioso.

 

— Richard, aproxime-se. O barão Gerard julga-o merecedor do título de cavaleiro, e eu estou de pleno acordo. Diante desta assembléia, eu lhe concedo a honraria.

 

Com orgulho e um senso de realização, Gerard obser-vou, enquanto Richard se ajoelhava diante de Henrique e com voz possante, fazia o juramento de servir à coroa e ao país. A cerimônia de condecoração terminada, Gerard passou o rolo de pergaminho às mãos de Stephen.

 

— Guarde bem isto. Aqui dentro está o seu futuro também.

 

                                                                  CAPÍTULO 14

— Mais vinho! — ordenou Gerard, enquanto outro grupo de nobres entrava na sala de estar. Vendo-se na constrangedora posição de anfitriã, Ardith esperava que a visitação ter-minasse logo. Ao menos, a sorte parecia a seu favor. Os nobres ignoraram-na, centrando as atenções em Gerard e seus irmãos. Durante a maior parte do dia, ele recebera cumprimentos de barões, condes, nobres de menor im-portância e cortesãos nos aposentos reservados a Wilmont.

 

O fato de que muitos tinham ido simplesmente olhar estupefatos para Richard não incomodou Gerard nem um pouco. Nem tampouco o próprio Richard ficou aborrecido com a curiosidade alheia, conversando animadamente com todos, como se fosse comum ter voltado dos mortos.

 

Stephen fez uma narrativa de como encontrara Richard depois do ataque da Normandia e o levara para a segu-rança do acampamento, entregando-o aos cuidados dos médicos do rei. Corwin permanecia por perto, acrescen-tando algum detalhe que Stephen esquecia durante o relato.

 

Gerard recebeu os cumprimentos pela demonstração de poder e influência como raramente se viam na corte.

 

— Desejo-lhe sorte na tentativa de controlar esse homem — disse Bronwyn secamente. Ardith não pôde evitar um sorriso ao pensar na reação de sua irmã. O fato de ter desmaiado ao ver Richard deixara-a bastante constrangida.

 

Controlar Gerard? A idéia nunca lhe ocorrera. Podia dar sua opinião, mas ele fazia exatamente o que queria com uma tenacidade que chegava a assustar às vezes.

 

Como agora. Gerard decidira celebrar. Exultante com a vitória, pedia vinho e iguarias, saudava barões e nobres menos importantes com igualdade, aceitava cumprimentos- dos sinceros e dos dissimulados com a mesma cortesia.

 

Murmúrios baixos substituíram repentinamente os ri-sos eufóricos. Ardith virou-se na direção da porta para a causa.

 

Lady Diane de Varley acabara de surgir na entrada. Não demorou para que a pequena multidão lhe abrisse minho até Gerard.

 

O firme senso de dever de Ardith logo sobrepôs o desejo pessoal de evitar a mulher. Apanhando uma taça de vinh-o, encontrou-a no meio da sala.

 

— Honra-nos com sua presença, milady — disse-lhe, estendendo-lhe a taça. — Aceitaria vinho?

 

Diane estreitou os frios olhos cinzentos.

 

— Você está passando dos limites de sua posição aqui. Desapareça da minha frente.

 

Perplexa, Ardith baixou a taça.

 

— Milady, eu… — Interrompeu-se ao sentir a mão de Gerard em seu ombro.

 

— Saudações, Diane — a voz dele soou baixa.

 

A loira piscou e, numa questão de segundos, a frieza de seus olhos deu lugar a um brilho sedutor.

 

— Milorde, o seu desempenho na sala de audiências resta manhã foi esplêndido. Meus cumprimentos.

 

Gerard apenas assentiu em resposta.

 

— E, céus, quantas pessoas vieram parabenizá-lo! Só ouvi há pouco sobre esta reunião, ou teria vindo antes.   Deveria ter mandado que me chamassem. Mas estou aqui agora e vou acertar tudo.

 

— Não me dei conta de que houvesse algo errado.

 

Diane abriu um doce sorriso.

 

— É claro que não. Você vem tão raramente à corte que não é de se esperar que saiba de todas as formali-dades a serem observadas. E depois da lição que deu a Basil nesta manhã, ninguém se atreveria a esnobar você pela falta de algumas cortesias, aquelas que uma dama faria para poupar constrangimento ao seu companheiro.

 

Ardith fervilhou por dentro com a audácia da mulher, sabendo que todas as formalidades de uma celebração haviam sido seguidas… com a ajuda de Bronwyn.

 

A mão de Gerard fez uma ligeira pressão em seu ombro.

 

— Meus convidados e eu não temos razão para queixas. Ardith tem sido atenciosa com todos. Eu diria que é uma anfitriã impecável.

 

Diane corou graciosamente e pousou a mão no braço dele, dizendo-lhe num sussurro de cumplicidade:

 

— Pode até ser. Mas um lorde não permite que sua amante sirva convidados de tão alta estirpe. Foi por isso que vim tão depressa quando ouvi.

 

— Se você veio para tentar substituir Ardith, perdeu seu tempo. Ela não é minha amante. É minha prometida. E, como minha futura esposa, receberá meus convidados.

 

— Milorde, todos sabem que esse acordo nupcial está fadado ao fracasso. E quando terminar, eu e você nos casaremos. O meu lugar é aqui a seu lado. — Diane correu os dedos pelo braço dele numa discreta carícia.- Para dizer a verdade, se você quisesse terminar com esse jogo que faz, desistir do desafio de tentar ajudá-la a con-ceber num ventre estéril, eu assumiria de bom grado a tarefa de lhe dar o herdeiro que almeja ter.

 

Ardith segurou a taça com firmeza. Fez um esforço sobre-humano para não atirar o vinho no rosto da mulher.

 

— Uma generosa oferta — comentou Gerard.

 

O sorriso de Diane se alargou.

 

Ardith pensou em jogar o vinho no rosto dele, até que o ouviu prosseguindo:

 

— Mas não tenho o menor desejo de me casar com você e muito menos o de partilhar de sua cama. Eu o farei, se Henrique insistir, mas me empenharei ao máximo para evitar casamento tão desagradável. Fique se ser, mas a sua presença aqui não é necessária, nem especialmente desejada.

 

A rejeição de Gerard atingiu Diane como se tivesse o um golpe físico. Seu sorriso dissipou-se. O rosto adquiri-u uma expressão aturdida e, então, furiosa, afastou a mão do braço dele abruptamente.

 

— Um dia, Gerard de Wilmont, você vai se arrepende-r amargamente de ter falado assim comigo — jurou e, com a altivez de uma princesa, virou-se e deixou aposentos.

 

Ardith soltou um suspiro quando a loira se retirou, a veemência nas derradeiras palavras dela impediram-na de sentir alívio completo. Como protegida do rei Henrique, Diane tinha algum poder. Seria suficiente para mente prejudicar Gerard?

 

— Você fez uma inimiga.

 

Ele deu de ombros.

 

— Não lhe dê importância. Venha, quero que conheça uma pessoa — disse-lhe, já ignorando o incidente.

 

Pelo restante da tarde, ele manteve-a a seu lado, apesar -do desejo de Ardith de se refugiar outra vez na obs-curidade. Mas foi somente quando o último dos convida-s, se foi que Gerard lhe deu algum espaço, sentando-se beirada da mesa e indicando a Stephen e a Richard ocupassem as cadeiras. Com um sorriso satisfeito nos lábios, estendeu a mão para o irmão mais novo, que entregou um rolo de pergaminho.

 

Com todo vagar, desatou a fita, desenrolou-o e leu. Tirou, então, sua adaga da bota e cortou uma tira no alto do pergaminho.

 

— Henrique vai ficar com menos feudos de Northbryre para si do que pensei. — Sacudiu no ar a tira que cortara. Este é meu.

 

— O castelo de Basil em Hampshire! — adivinhou Richard.

 

— É bastante perspicaz. — Gerard cortou o restante do pergaminho no meio, dividindo-o em partes iguais e estendeu-as para ele. — Faça sua escolha.

 

Richard hesitou.

 

— Stephen deveria escolher. Não é apenas seu meio irmão como eu.

 

— Um detalhe de nascimento que todos ignoramos. Além do mais, você agora tem uma posição superior à dele. Há os seus privilégios nisso.

 

— Não fosse por Stephen, eu não teria sobrevivido para receber a condecoração da ordem dos cavaleiros. Ele deveria ser o primeiro a…

 

— Com mil diabos! — interveio Stephen. — Escolha de uma vez por todas, homem.

 

Richard, enfim, concordou e, em seguida, Gerard en-tregou a lista restante ao irmão mais novo.

 

— Vocês ficarão com esses feudos em sistema de vas-salagem a Wilmont. Negociaremos tributos e serviços de cavalaria amanhã. Estas concessões devem satisfazer nosso pacto.

 

Ardith não sabia nada a respeito do mencionado pacto. Só sabia que Gerard, surpreendentemente, estava divi-dindo a maior parte dos feudos confiscados de Basil entre os dois irmãos. O contentamento deles significava que uma promessa fora feita e, agora, cumprida.

 

— Depois que tivermos acertado todos os detalhes e o registro da transferência das terras tiver sido feito. o aviso da mudança de suserano será enviado a cada feudo com o selo do rei.

 

Stephen ergueu o olhar de repente depois de ter es-tudado atentamente o pergaminho com a lista de sua recém-adquirida riqueza.

 

— Posso entregar os avisos?

 

— Todos?

 

— Sim — persistiu Stephen. — Devemos aproveitar esta oportunidade, Gerard. Se um de nós entregar os avisos pessoalmente, proclamar a autoridade de Wilmont desde o início, menos problemas teremos mais tarde. Posso identificar alguma rebelião e resolver o problema antes que se alastre.

 

— Além do mais, você quer conhecer as suas propriedades.

 

Stephen abriu um sorriso.

 

— Bem, isso também, mas ainda acho que minha idéia é boa.

 

— Ele tem razão — concordou Richard, pensativo. — Se visitar todos os feudos, teremos um parecer verdadeiro da situação de cada um.

 

Como se estivessem se preparando para uma grande campanha, os três começaram a falar sobre homens, montari-as e provisões. Gerard apanhou um mapa, e definiram uma rota.

 

— Talvez eu deva ir junto — sugeriu Richard, obviam-ente ansiando pelos rigores da estrada depois de tanto tempo de confinamento.

 

Gerard apontou-lhe um dedo, sua expressão severa.

 

— Você vai voltar a Wilmont. Não vou deixá-lo andar ao léu antes que tenha recobrado totalmente suas forças. Além do mais, alguém tem que ir informar Walter sobre novos feudos.

 

— Você não vai regressar a Wilmont depois desta visita à corte?

 

— Tenho outros planos.

 

O anúncio foi uma completa mas não indesejável surp-resa. Ardith presumira que Gerard iria querer passar o inverno em Wilmont. Sabia que sentia falta do filho, e o inverno era a estação em que os lordes faziam o planeja-mento do plantio das glebas nos meses mais quentes. Por sua vez, ela não estava ansiando nem um pouco pelo en-contro com lady Ursula. Sentia-se grata pelo adiamento.

 

Richard pareceu adivinhar-lhe o rumo dos pensamentos.

 

— Lady Ursula não ficará contente quando souber so-bre como você nos favoreceu com essa partilha, Gerard, especialmente a mim. Vai espernear e gritar até que ninguém ouse atravessar seu caminho.

 

Gerard abriu um sorriso.

 

— Você vai se esconder?

 

— Planejo dormir no arsenal e fazer minhas refeições na cozinha do castelo.

 

— Covarde.

 

— Dê-me uma espada e um inimigo para enfrentar, e eu lutarei até o último fôlego para defender Wilmont, mas tenho que admitir, enfrentar a sua mãe tirana enche meu coração de pavor.

 

— Ela é apenas uma mulher. Você é um cavaleiro. Diga-lhe para se lembrar de sua posição.

 

— Você lhe diga. Acredito que parte do problema seja o fato de lady Ursula não ter nenhuma posição e saber muito bem disso.

 

Ignorando a conversa dos irmãos, Stephen ainda es-tudava o mapa.

 

— Talvez eu deva levar Corwin comigo. É provável que goste da aventura.

 

— Eu preferiria que não o fizesse. — Ardith levou a mão aos lábios. Mais uma vez interferira, atraindo a ime-diata atenção de três pares de olhos verdes, sobrancelhas arqueando-se em surpresa.

 

— Você se preocupa com Corwin? — perguntou Gerard, enfim.

 

— Não, não com ele. Eu estava esperando que meu irmão pudesse voltar a Lenvil para olhar por nosso pai. Não deve ficar sozinho.

 

Gerard perguntou-se por que, afinal, ela deveria se importar. Céus, Harold só lhe causara sofrimento, tra-tando-a praticamente como uma serviçal. Ainda assim, fez questão de tranqüilizá-la:

 

— Antes que Harold partisse para Lenvil, os médicos lhe fizeram um exame completo. Exceto pela dor na perna, o corpo dele está bastante saudável para a idade. Quanto ao problema de memória.., bem, John está a par disso.

 

Vendo-a morder o lábio inferior, ele reconheceu o gesto.

 

Ardith queria protestar, mas pareceu achar melhor não fazê-lo na frente de seus irmãos.

 

Richard levantou-se da cadeira, espreguiçando-se.

 

— Se não precisam mais de mim, vou me deitar. A missa de amanhã começará bem cedo e será um evento pomposo. Pretendo, porém, aproveitar as festividades agora que estou vivo outra vez.

 

— E eu vou procurar Corwin — anunciou Stephen. Depois que ambos ficaram a sós, Gerard estreitou Ar-dith no calor de seus braços, antecipando os momentos de prazer que teriam na privacidade do quarto dela.

 

— Gerard, quando partirmos, para onde iremos, se não é para Wilmont?

 

— Vamos até um pequeno feudo perto de Romsey. Os tributos de lá estão atrasados. Agora parece um momento tão oportuno quanto qualquer outro para descobrir a razão.

 

— Romsey? O nome me soa familiar, mas não sei por quê.

 

— A rainha Matilda se recolheu a um convento de lá alguns anos atrás. — Ele observou-lhe os lábios bem-feitos e desejáveis e inclinou a cabeça por roçá-los com os seus. — Talvez você tenha ouvido o nome associado com ela.

 

— Hum… — sussurrou Ardith de encontro aos lábios de Gerard, enquanto o abraçava pelo pescoço. — Deve ter razão.

 

Com um fogo conhecido, bem-vindo, começando a per-correr suas veias, ele perdeu o rumo da conversa.

 

Nunca, em seus dezessete anos de vida, Ardith se lembrava de ter sentido tanto frio. Apesar da proteção da tenda grossa contra as rajadas de vento cortantes, do calor do braseiro, seu corpo recusava-se a se aquecer.

 

O rigor do tempo não afetava a habilidade de Elva para dormir. Aninhada entre as peles num colchão de palha perto do braseiro, roncava de leve.

 

Com um suspiro, Ardith encolheu-se sob as mantas de peles, desejando que Gerard fosse menos impulsivo, mas sabendo que ele não mudaria.

 

A paciência dele conhecia limites.

 

Quase uma quinzena se passara desde que o rei Hen-rique confinara Basil de Northbryre e Edward Siefeld às masmorras de White Tower, onde ainda permaneciam prisioneiros. Gerard, sabendo que não podia apressar o rei ou influenciar na severidade da sentença de Basil, havia decidido partir. Como fizera antes em Lenvil, dera ordens num certo dia para a partida na manhã seguinte, deixando guardas e serviçais afobados com o repentino empacotamento das coisas.

 

Ardith não argumentara contra a impetuosa decisão, pois estivera ansiosa para deixar o palácio. Não teria mais que tolerar os comentários ferinos de lady Diane, nem os sussurros velados da corte.

 

Tampouco queria testemunhar qualquer que fosse a punição que Henrique julgaria adequada para Basil. Bronwyn comentara mais sobre pessoas que haviam so-frido as torturas do monarca, contando-lhe sobre os cruéis castigos.

 

Assim, naquele dia, a caravana do barão de Wilmont se reunira e partira de Westminster ao amanhecer, pros-seguindo viagem quase até o cair da noite, quando Gerard saíra da estrada e ordenara que as tendas fossem ergui-das. Depois de uma refeição leve de pão e queijo, Ardith buscara o calor da tenda e de suas mantas de peles. aceitando de bom grado o vinho quente e aromatizado que Elva lhe preparara.

 

Um vento frio soprou nas mantas de peles quando alguém entrou na tenda, e ela ocultou o rosto sob as cobertas, estremecendo. Instantes depois, Gerard deitou--se a seu lado, despido como viera ao mundo. Descobriu-lhe o rosto.

 

— Aí está você. Eu sabia que devia estar aqui em algum lugar sob as cobertas.

 

— Estou gelada até os ossos.

 

— Deixe que eu a aqueça. — Gerard estreitou-a nos braços, notando que ela não se despira completamente, permanecendo de combinação. Abraçou-o com força, sol-tando, enfim, um suspiro de contentamento que o fez sentir-se culpado.

 

Havia feito a caravana viajar num ritmo acentuado sem ter-lhe ocorrido que seria árduo para ela. Os soldados não haviam reclamado… mas jamais se queixariam de cansaço, ou do frio. Elva havia se metido numa carroça, aninhando-se num amontoado de peles. Thomas, jovem e intrépido, achara a jornada uma grande aventura.

 

Apenas Ardith sofrera. O manto revestido de pele de coelho e as botas de couro não a haviam aquecido. Seguro-u-lhe as mãos frias. Como ela segurara as rédeas com os dedos tão enregelados? Felizmente, a égua que mon-tava era mansa, fácil de conduzir.

 

Ele a envolveria em seu manto de castor pelo restante jornada. Deviam chegar ao feudo no dia seguinte, algu-mas horas depois de terem levantado acampamento. Naquela noite, ela partilharia de seu calor. Esticou o braço até barra da combinação de Ardith, que prontamente lhe deu um tapa na mão.

 

— Não pode estar querendo isto agora — sussurrou-lhe.

 

— Pode pensar em maneira mais agradável de dissipar o frio de seu corpo?

 

— Não — disse ela, com um sorriso na voz. — Mas não estamos em privacidade.

 

— Elva está dormindo. A menos que você grite quando seu corpo estiver se contorcendo de prazer, ela não se dará conta de nosso encontro sob as cobertas. — Gerard começou a lhe inebriar os sentidos com o toque experiente seus lábios e mãos.

 

— É bastante persuasivo… — sussurrou Ardith, enquanto -retribuía, começando a acariciá-lo com intimidade.

 

De perto do braseiro, achou ter ouvido um ruído. Olhou na direção da tia. Mas não viu nenhum movimento, nem mais som algum. Sem pensar mais a respeito, sucumbiu ao delicioso e irresistível método de aquecer seu corpo.

 

Gerard fez sinal para que a caravana parasse no alto de uma colina que dava para o feudo perto de Romsey.

 

— A casa parece abandonada — notou Ardith.

 

Ele concordou silenciosamente Não havia camponeses ao redor da construção, cuidando de suas tarefas. Ne-nhuma fumaça saía da chaminé. A total quietude aler-tava seus instintos de guerreiro.

 

Desmontou e tirou sua espada da bainha.

 

— Thomas, eu vou levar dois homens. Diga aos demais para guardar as mulheres e as carroças.

 

Certificando-se de que Ardith estava cercada de soldados, desceu a pe-quena colina acompanhado de dois homens, aproximan-do-se da casa com cautela.

 

— Há alguém ai? — gritou.

 

A porta se abriu, revelando um homem alto e magro. O medo em seus olhos destoava do cenho franzido e da postura firme. Gerard admirou-lhe a coragem. Embora diante de três homens armados, o camponês não tinha os joelhos trêmulos.

 

— Como se chama? — indagou ele, guardando a espada de volta na bainha.

 

— Sou Pip — disse o homem. Surpreendeu-o, então, acrescentando num tom de desafio: — E quem é você?

 

— Sou o seu senhor feudal, barão Gerard de Wilmont.

 

— Lorde Everart é o barão.

 

— Não é mais. Meu pai morreu vários meses atrás. — Gerard fez um sinal para Ardith e o restante da ca-ravana no alto da colina, indicando-lhes que podiam se aproximar. — Você é o intendente? Vou querer uma jus-tificativa para o estado de abandono desta propriedade.

 

— É o velho Biddle que está procurando, milorde. Ele repousa ali adiante.

 

A sepultura não era recente.

 

— Biddle morreu há quase um ano — explicou Pip. — Acho que foi de velhice.

 

— Então, quem cuida do feudo?

 

— Os camponeses, milorde. Nós nos revezamos ficando na casa, mantendo as coisas em ordem. Sabíamos que o suserano iria aparecer algum dia, querendo seus tributos.

 

Gerard perguntou-se por que seu pai teria deixado aquela propriedade declinar a tal estado, ficando vulne-rável a invasões, mas teve pouco tempo para refletir a respeito, enquanto o restante da caravana se aproximava.

 

Ajudou Ardith a desmontar.

 

— Ardith, conheça Pip. Hoje é o dia dele de guardar a casa.

 

— É um prazer, milady — disse o camponês, com uma leve mesura. — Não gostariam de entrar agora para se protegerem do frio?

 

Com Ardith a seu lado, Gerard seguiu-o ao interior da casa. Havia um odor forte ali que os fez soltar espirros, e logo viram a razão. Várias ovelhas se espalhavam ao redor do único cômodo.

 

— Os seus impostos, milorde — declarou Pip. orgulhoso.

 

— Montem as tendas! — ordenou Gerard, à porta.

 

Dois dias depois, Ardith colocou uma bandeja com car-neiro assado na pequena mesa diante do sisudo senhor feudal.

 

— Vamos, Gerard. O lugar não está mais tão ruim. Acho que até poderíamos dormir aqui nesta noite.

 

Gerard respirou fundo e torceu o nariz.

 

— Eu não.

 

— As mulheres trabalharam arduamente para deixar a casa habitável para seu suserano.

 

— Assim como os homens também trabalharam para construir um estábulo para os cavalos e um abrigo para as malditas ovelhas. Eu concordei em fazer minhas re-feições aqui. Não tente me convencer a mais nada.

 

Ardith estava cansada demais para argumentar. As esposas dos camponeses tinham dedicado dois dias in-teiros de seu tempo para varrer, esfregar e lavar, trans-formando o abrigo provisório de ovelhas de volta numa casa digna de acomodar o barão.

 

Haviam conversado em meio ao trabalho, contando-lhe alguns fatos passados para a informarem sobre a história do feudo. Portanto, ela agora sabia como o velho Biddle fora zeloso com suas tarefas, quais habilidades as mu-lheres tinham, quem fazia o plantio das glebas e quem cuidava das ovelhas.

 

O feudo não possuía nenhum vilarejo nas suas proxi-midades. Camponeses livres tinham pequenas plantações espalhadas pela região. Alguns tinham rebanhos de ove-lhas, outros criavam porcos. O que não conseguiam cul-tivar ou criar, adquiriam através de trocas no mercado nas proximidades de Romsey.

 

As mulheres perguntarem-lhe timidamente a respeito de seu novo senhor feudal. Ardith tranqüilizara-as, di-zendo que ele era enérgico mas justo. Como guerreiro inigualável, iria proteger as fazendas e o meio de sustento dos camponeses de ataques.

 

Não querendo que as camponesas entendessem mal a sua posição, ela também lhes contou sobre o decreto real que selara o acordo de casamento.

 

Meg, uma jovem esperando um bebê, confessara-lhe:

 

— Bem, eu e Pip ainda não nos casamos. Se acontecer de um pároco estar na região e tivermos tempo, diremos os votos. Se não… — Ela dera de ombros e sorrira.

 

Aliviada com a ausência de condenação, Ardith super-visionara o trabalho como se realmente fosse a senhora da casa.

 

Gerard terminou a refeição e esfregou os olhos, pare-cendo tão fatigado quanto ela.

 

— Por quanto tempo ficaremos aqui?

 

— Por mais algum tempo ainda. Tenho que designar um intendente e providenciar um pouco de defesa para essas pessoas.

 

— As mulheres acham que guardas são desnecessários. Sentem-se seguras, estando tão perto da cidade… e da abadia. Meg me disse que, no último verão, alguns ban-didos pensaram em atacar na região, mas que os soldados da rainha os afugentaram.

 

— Foi o que os homens também me disseram. Mas os soldados lutam apenas para proteger a rainha de algum possível perigo, não aos camponeses.

 

— Este feudo não comporta muitos soldados.

 

— Outra falha que pretendo sanar. Acho que passa-remos o inverno aqui. Talvez eu mande buscar Daymon para passarmos uma temporada tranqüila neste lugar.

 

Ardith sentiu uma onda de pânico ao pensar em conhecer o menino. Adorava crianças. Um garotinho que se parecesse com Gerard seria impossível de resistir. Iria se afeiçoar de imediato ao filho do homem a quem amava. Se ele mandasse buscá-lo, se vivessem ali como uma fa-mília, sua eventual partida seria ainda mais dolorosa.

 

— Talvez não seja sensato.

 

— Não deseja passar o inverno aqui? — Gerard ficou surpreso em vê-la relutando. Pensara que ela estivesse contente.

 

— Estou me referindo a você mandar buscar Daymon. Está frio demais para que uma criança tão pequena faça uma jornada longa dessas.

 

— É um menino saudável. Com os cuidados adequados…

 

Ela retirou a bandeja da mesa, interrompendo-o:

 

— Ouça, crianças, especialmente as pequenas, tendem a adoecer. Não deve pôr a saúde dele em risco. Se deseja vê-lo, vá passar algum tempo em Wilmont.

 

Gerard notou que ela sugeria que fosse até Wilmont sozinho. Intrigado, viu-a franzindo o cenho de leve e des-viando o olhar. Até então, sempre que questionara suas decisões, Ardith lhe sustentara o olhar e deixara clara a sua opinião. Ele se perguntou a que se deveria aquela estranha mudança de atitude.

 

Estaria objetando à sua idéia de mandar buscar Day-mon por causa do rigor do tempo, ou por que não queria o seu filho bastardo por perto?

 

De imediato, afastou o pensamento indesejável de que ela pudesse rejeitar o menino. Ardith amaria qualquer criança que estivesse a seus cuidados, legitima ou não, fosse sua própria ou de outra mulher. Lembrou-se de como ela sentira frio durante a jornada. Certamente, só estaria querendo poupar Daymon.

 

Ardith, enfim, tornou a fitá-lo, e a fadiga se evidenciou em seus olhos azuis. Ele sorriu, aliviado. Sua jovem guer-reira estava apenas cansada, esgotada demais para agir com seu jeito direto de sempre.

 

Tirando-lhe a bandeja das mãos, sentou-a em seu colo.

 

— Acho que tem razão — concordou, não sem alguma reserva, mas respeitando o bom senso dela. — O tempo ainda deve estar mesmo rigoroso demais para que Day-mon faça uma jornada tão longa.

 

Relaxando, Ardith abraçou-o pelo pescoço.

 

— E você irá a Wilmont?

 

— Você me acompanhará?

 

— Eu teria escolha?

 

— Não. — Gerard correu a mão pelo corpo dela, de-tendo-a sobre um seio arredondado, afagando-o por cima do tecido grosso do vestido que usara para ajudar na limpeza. — Temos um filho nosso para gerar, lembra-se? Onde eu for, você também irá. Onde você estiver, eu também estarei.

 

Ardith sentiu uma instantânea onda de calor percor-rendo seu corpo e arqueou as costas, pressionando o seio macio contra a mão experiente que o afagava. Recuou, então, abruptamente.

 

— Devemos nos recolher à tenda?

 

— Por quê? Estamos sozinhos.

 

— Estamos? — Ela endireitou as costas, olhando ao redor. Os homens da guarda de Wilmont haviam termi-nado de comer e saído, preferindo não se deter para beber mais vinho. Meg não estava mais ajoelhada junto à tina de madeira, esfregando travessas. Nem mesmo Elva e Thomas se achavam mais ali. — Para onde foram todos? Você ordenou que se retirassem?

 

— Você me ouviu dando alguma ordem para que todos saíssem?

 

— É bastante estranho que tenham desaparecido e nos deixado a sós.

 

— Acha isso inquietante?

 

— Não — admitiu Ardith, mas, então, acrescentou: — Apenas… estranho.

 

                                                 CAPÍTULO 15

— Milorde, se não precisa mais de mim, eu gostaria de ver como o trabalho está progredindo — disse Thomas, pendurando um arreio consertado na parede do estábulo.

 

Gerard assentiu, dando sua permissão e correu a mão pelo flanco de seu cavalo, notando vagamente o som dos martelos de onde seus homens estavam construindo um arsenal.

 

— Eu também, milorde. Com o seu consentimento, é claro — pediu Pip.

 

Gerard lançou-lhe um olhar, aprovando o interesse dele nas melhorias que estavam acontecendo. Se recebesse alguma instrução nos números e nas letras, talvez desse um bom intendente. E Meg se sairia bem como sua aju-dante. Deixando a cabana onde o casal vivia, ela o acom-panhava à casa a cada manhã. Enquanto ele trabalhava no estábulo ou auxiliava na carpintaria, ela ajudava Ar-dith na casa.

 

Com um meneio de cabeça, Pip deixou o estábulo de-pressa, fazendo uma breve mesura a Ardith, que parara junto à porta. Mesmo àquela distância, a várias baias da entrada, Gerard podia lhe ver a preocupação no rosto.

 

— Se não estiver muito ocupado, eu gostaria de lhe falar. — Ela ergueu a barra do manto longo de pele que ele insistira que usasse a cada vez que deixava a casa, adiantou-se até uma caixa de madeira virada e sentou-se.

 

— O que aconteceu? — perguntou Gerard, prometendo a mesmo resolver de imediato o que a estivesse aborrecendo. Ela sacudiu a mão no ar, indicando o interior do estábulo.

 

— Olhe à sua volta. O que vê?

 

Confuso, Gerard respondeu:

 

— Um estábulo. Cavalos, feno, couro…

 

— Mas não pessoas. Tão logo apareci à porta, Thomas Pip desapareceram como coelhos perseguidos por falcões.

 

— A saída deles não teve nada a ver com você. Tinham terminado suas tarefas e quiseram ir observar os homens trabalhando no arsenal.

 

— Ah, o arsenal! Os seus homens nem sequer pensa-m em dormir na casa. Têm que construir um lugar para si mesmos.

 

— Eles estão acostumados a passar o inverno no ar-senal em Wilmont. Se querem ocupar seu tempo constr-uindo um aqui, não vejo razão para negar o pedido.

 

Ardith sacudiu a cabeça.

 

— Eles querem um lugar próprio para escaparem da minha presença. Seus homens não gostam de mim.

 

Gerard quase riu da idéia absurda, mas ao ver-lhe os azuis marejados deteve-se abruptamente.

 

— Não gostam de você? — repetiu, gentil. — Aqueles homens dariam a própria vida para protegê-la.

 

— Apenas porque pertenço a você.

 

Gerard sabia que seus homens estendiam sua lealdade ela por afeição também, não apenas por dever. Ora, eles se desdobravam para conquistar-lhe a aprovação.

 

— Quando você expressou o desejo por uma mesa comprida e bancos, eles não os fizeram imediatamente?

 

— Apenas porque se cansaram de comer sentados no chão.

 

Os homens dele já haviam comido sob condições que teriam deixado horrorizada. O ato de se sentarem no salão de uma casa quente, apoiando travessas nos joelhos enquanto faziam refeições fartas e saborosas podia ser chamado de luxo. Na noite em que Ardith fizera um co-mentário sobre a necessidade de uma mesa maior, os homens haviam ficado honrados com a oportunidade de atender-lhe o desejo.

 

Nem tampouco os esforços espontâneos deles tinham cessado com o término da mesa e dos bancos. Todos se mantinham atentos a sua menor palavra, em busca de algum indício de como servi-la. Nenhuma incumbência era árdua demais, nenhuma tarefa impossível. Os pés dela estavam gelados? Eles cortavam e empilhavam le-nha extra para o fogo. Milady precisava de um balde de água? Levavam-lhe quatro do riacho. Havia uma corrente de ar em algum canto? Misturavam barro e palha e o vão nas tábuas era tapado. Sem saber, Ardith havia transformado seus soldados em prestativos serviçais, e eles não se importavam nem um pouco.

 

— Devo enfileirá-los e deixar que se ajoelhem a seus pés? — gracejou.

 

Ela pareceu horrorizada.

 

— Não! Bem que seriam capazes disso em lealdade a você. E não são apenas os homens de sua guarda que se esquivam de mim, mas os camponeses também. O que fiz para ofendê-los?

 

— Com certeza, você deve estar fazendo troça!

 

— Não. Falo sério — assegurou ela, uma lágrima es-correndo-lhe pelo canto do olho.

 

Os camponeses a admiravam tanto quanto os soldados, talvez até mais. Os arrendatários, suas esposas, as crian-ças… todos a adoravam. Gerard realmente não compreendia a razão para aquela súbita incerteza. Aproximando-se mais, tomou-lhe as pequenas mãos nas suas com gentileza.

 

— Diga-me, por que acha que não gostam de você?

 

— Meg recusou meu convite para que ficasse para o jantar.

 

— E o que mais?

 

— Você não percebe? Em Lenvil, as pessoas se de-moravam bastante à mesa das refeições, bebendo e con-versando. Aqui, ninguém fica na casa por muito tempo, nem mesmo Pip ou Meg, que prefere voltar à sua ca-sa quando termina as tarefas aqui. Até Elva sai e vai junto com ela.

 

Uma bênção, pensou Gerard.

 

— Sua tia fica na cabana porque Meg está para dar a luz a qualquer dia desses e quer estar por perto. Assim o bebê nascer, Elva voltará.

 

— Talvez, mas e quanto às demais pessoas? Será que um dia me aceitarão. Eu havia pensado em…

 

Gerard completou-lhe o pensamento silenciosamente. Ela faria daquela casa o seu lar. Vira-a empenhar--se para deixar a casa mais confortável, para fazer amizade com os camponeses. Até pensara em interferir. Aquele não era o feudo que destinava para ela, caso se tornasse necessário acomodá-la em algum no futuro. Era distante demais de Wilmont.

 

Ardith prosseguiu, um quê de raiva na voz:

 

— As mulheres não aparecem a menos que tragam presentes, como se eu fosse algum ogro que tem que ser agradado. Então, saem depressa, mal dizendo duas pa-lavras. Tenho tentado fazê-las sentarem-se por alguns minutos, para um chá e uma conversa, mas elas se re-cusam. Os únicos dias em que consigo fazer com que uma fique mais um pouco são aqueles em que você vai caçar.

 

— Então, talvez seja por minha causa que os camponeses evitam a casa — sugeriu ele, pensativo. — Thomas e meus soldados sabem que gosto de minha privacidade. Talvez tenham comentado a respeito com os camponeses, que tomaram isso como um aviso para permanecerem afastados.

 

— Não, é de mim que não gostam. Devia ouvir como elogiam seu novo suserano. Essas pessoas adoram você.

 

— E já as ouvi elogiando você. Será que… — Gerard Interrompeu-se, não ousando proferir em voz alta a inusi-tada explicação que lhe ocorreu. Tinha que comprová-la primeiro. Ajudou-a a levantar-se da caixa, conduzindo-a pela mão. — Venha comigo. Vamos inspecionar a cons-trução do arsenal.

 

Momentos depois da chegada de ambos, os martelos ficaram silenciosos. Gerard andou pelo interior da cons-trução, verificando, mostrando a ela detalhes do compe-tente trabalho. Os homens haviam feito um excelente serviço. E também haviam desaparecido…

 

— Vê o que quero dizer? Tudo o que tenho que fazer é aparecer diante dos soldados, e eles se vão num instante.

 

Gerard sacudiu a cabeça.

 

— Não, não é você. Somos nós. Vamos fazer mais um teste. Entre na casa. Eu seguirei você num momento.

 

Ardith observou-o, intrigada, mas obedeceu.

 

Gerard aguardou em silêncio. Não demorou para que os soldados voltassem, carregando pedaços de troncos de que não precisariam por várias horas. Abriu um sorriso, mais convicto da possibilidade que lhe ocorrera. Quando chegou à casa, mais uma vez o som dos martelos cortavam o silêncio.

 

Na casa, Ardith agradecia a esposa de um agricultor por um queijo de cabra que acabara de lhe levar. Meg tirava filões de pão recém-assados do fogo. Elva lavava alguns utensílios na tina de água. Gerard mal havia se sentado à mesa quando o silêncio pairou na casa, apenas ele e Ardith permanecendo.

 

Cortou um pedaço do pão quente quando ela se sentou. Tentou não sorrir, mas foi em vão.

 

— Diga-me, você contou às mulheres sobre o decreto do acordo nupcial?

 

— Sim. — Ardith soltou um longo suspiro. — Receio que elas estejam mantendo essa distância porque não aprovam.

 

O sorriso dele alargou-se.

 

— Não. Todos desaparecem porque nos desejam êxito. Aposto que eu poderia levantar suas saias e possuir você em qualquer lugar, a qualquer momento que eu desejasse, e não seríamos incomodados por ninguém. Tome cuidado da próxima vez em que for me procurar no estábulo. De agora em diante, deixarei uma baia de prontidão, sem nenhum cavalo mas repleta de feno macio.

 

O rubor espalhou-se pelas faces de Ardith.

 

— Você não pode estar querendo dizer que… Eles não iriam… Oh, então acha que nos dão privacidade para… céus… — Encabulada, enterrou o rosto nas mãos.

 

Gerard não pôde mais conter o riso.

 

— Os soldados e camponeses conspiram a nosso favor. Estão nos dando a oportunidade de conceber aquele her-deiro que precisamos. Como posso deixar de aprovar?

 

Ardith apanhou um jarro de vinho e preencheu a taça de Gerard quando se sentou à mesa depois de mais uma tarde inspecionando as glebas. Como sempre, a casa se esvaziou de pessoas tão logo ele apareceu, e ficaram a sós. Com freqüência, ambos usavam aquela privacidade como os camponeses pretendiam, amando-se durante hor-as entre as mantas de peles. Em outras ocasiões, apenas partilhavam de uma conversa agradável. Ocasionalmente—, mas por vezes demais para o gosto dela, Gerard in-sistia em continuar ensinando-a a usar a adaga, elogiand-o-a por seus progressos.

 

Sim, ela admitia que conseguia sacar a adaga depressa bainha, que tinha ótima pontaria quando a atirava e que talvez até pudesse usá-la para ameaçar um possível agressor. Mas matar, cravar a adaga pontiaguda em a-lguém? Jamais. A simples idéia lhe embrulhava o estômago.

 

Depositando o jarro na mesa, Ardith também se sen-tou, perguntando-lhe casualmente sobre as glebas. Ge-rard percebeu que ela continuava desejando se inteirar a respeito do que acontecia no feudo e achou que aquele era o momento oportuno de deixá-la a par de seus planos.

 

— Sabe, eu estive pensando. Pip é um jovem esperto. Conhece as terras e os camponeses. Com algumas lições sobre letras e números, acredito que ele daria um ótimo intendente aqui.

 

O desapontamento ficou evidente naqueles intensos olhos azuis.

 

— Entendo — murmurou ela.

 

Gerard não teve remorso em lhe tirar as esperanças de um dia se tornar a intendente dali. Julgou necessário. Ardith deveria estar se preparando para se tornar a se-nhora de Wilmont, não a intendente daquele feudo pe-queno e distante.

 

Como que sabendo que seu nome fora mencionado, Pip entrou devagar na casa. Parecendo aliviado em ver o barão e sua dama no centro do salão, totalmente ves-tidos, dirigiu-se a Ardith.

 

— Milady… É Meg. Suas dores começaram.

 

Ela se levantou de imediato do banco.

 

— Onde ela está?

 

— No pátio. Nós havíamos começado a caminhar de volta à nossa cabana quando…

 

— Bem, traga-a aqui para dentro! Gerard, vamos pre-cisar de um colchão de palha perto do fogo. Há água naqueles baldes?

 

— Suponho que isso signifique que tenho que dormir no arsenal nesta noite — resmungou ele.

 

— Dependerá do bebê — disse Ardith, absorta. — Al-guns nascimentos transcorrem facilmente. Outros não, especialmente quando se trata do primeiro filho.

 

Meg entrou na casa, apoiada por Pip de um lado e Elva do outro. Ele parecia quase tão pálido quanto a jovem. Uma forte dor dominou-a quando se deitou no colchão de palha que acabara de ser arrumado. Soltou um gemido.

 

Gerard colocou um pequeno barril de cerveja no ombro e deu um tapa nas costas de Pip.

 

— Este não é lugar para nós, homens — anunciou, colocando-lhe cálices nas mãos e virando-o na direção da porta. — Vamos encontrar um lugar aquecido para nos sentarmos e esperarmos o nascimento.

 

Decidiu que aguardariam no arsenal. De seus soldados, três iniciavam a vigilância, enquanto outros três dormiam. Os demais se entretinham num jogo de dados. Ele sentou-se num colchão estreito de palha e abriu o barril.

 

Com a cerveja, Pip acabou parecendo menos apreensivo.

 

— Sei que é Meg quem está tendo todo o trabalho, mas a espera não é fácil.

 

Gerard não podia dizer. Não fizera vigília para esperar pelo nascimento de Daymon. Ninguém lhe dissera a res-peito do iminente nascimento antes que tivesse aconte-cido. Somente depois haviam-lhe colocado o filho nos bra-ços, dizendo que a mãe morrera no parto.

 

Será que Meg também não resistiria?

 

E Ardith, quando chegasse o momento? A idéia cau-sou-lhe um calafrio.

 

A tarde chegou ao fim, a noite caindo por completo, e não receberam nenhuma notícia. Ele enviou um soldado para buscar mais um barril de cerveja.

 

Depois que Pip adormeceu, Gerard se deitou no colchão de palha e fechou os olhos. Mas não conseguia se sentir confortável, nem conciliar o sono.

 

Não era nada típico de um valente cavaleiro ansiar tanto pela suavidade das mantas de pele e a proximidade uma determinada mulher a ponto de não conseguir dormir. E como era insensato se preocupar com a possi-bilidade daquela mesma mulher morrer do parto sendo que Ardith nem sequer dava nenhum sinal de estar es-perando um filho.

 

Quando o dia amanheceu, a mulher que povoara seus pensamentos espiou para dentro do arsenal. Gerard le-vantou-se e seguiu-a até o lado de fora.

 

Ela abriu-lhe um sorriso.

 

— É um menino. A mãe e o bebê estão passando bem e dormindo.

 

— Assim como o pai… — Gerard riu. — Na verdade, o pai está embriagado. Nós brindamos à chegada do bebê e à saúde de Meg até que Pip não conseguisse mais falar com lucidez. Devo acordá-lo?

 

— Deixe-o dormir. Essa será a última noite de sono ininterrupto que ele terá por uns tempos. — Ardith es-tudou-lhe as sombras escuras sob os olhos. — Você não dormiu bem.

 

— Nem você.

 

— Eu estava ocupada.

 

— E eu também.

 

Ele abraçou-a pelos ombros, conduzindo-a na direção da casa. Agora, ambos poderiam ter o repouso necessário.

 

— Meg quer colocar no bebê o nome de seu novo senhor feudal. Isso agradaria você?

 

Gerard parabenizou-se pela maneira como ocultou o orgulho que lhe encheu o peito.

 

— É uma prática comum.

 

Ela levou a mão aos lábios, indicando-lhe que fizesse silêncio enquanto entravam na casa. Meg dormia perto do fogo, o filho envolto numa manta e adormecido a seu lado.

 

Gerard olhou para o rosto rosado do bebê.

 

— Foi um parto difícil para a mãe e o bebê — sussurrou Ardith. — O menino custou a nascer. Quase mandamos buscar a irmã Bernadette na abadia.

 

— Uma freira?

 

— Sim. Ela é uma excelente parteira, segundo me disseram as mulheres.

 

Gerard guardou a informação, aliviado em saber de alguém, além de Elva, que pudesse auxiliar Ardith caso fosse necessário.

 

Ela ouviu-o soltando um suspiro e perguntou-se por que não teria dormido. Certamente, não teria se preo-cupado com o nascimento do filho de Meg e Pip. Ainda assim, os traços dele haviam se suavizado quando olhara para a criança que recebera seu nome.

 

Gerard tinha a tendência de enterrar o lado mais sensível de sua natureza por trás de uma fachada brusca. Poucas pessoas saberiam do gentil coração batendo no peito do jovem leão. Sua companheira, talvez, ou seu filho…

 

Seu filho. Daymon. Gerard devia ter olhado para o bebê de Meg e lembrado do nascimento do próprio filho, que lhe despertara o sorriso terno. Ela foi tomada por uma onda de culpa. Pensara apenas nos próprios senti-mentos quando o convencera a não mandar buscar o menino. Que direito tinha de manter pai e filho separados?

 

— Gerard? Talvez eu estivesse enganada. Talvez deva mandar buscar Daymon.

 

Um largo sorriso iluminou o semblante dele, não um de alívio como Ardith esperara, mas de vitória.

 

                                                               CAPÍTULO 16

Na manhã seguinte, Ardith observou carroça se aproximando pelo pátio, perguntando-se se Gerard ignorara seu protesto ante-rior e já havia mandado buscar o filho, de qualquer modo. A criança sentada ao lado do condutor da carroça só podia ser Daymon. A semelhança com Gerard, e com Richard, que cavalgava ao lado da carroça, acompa-nhado de uma escolta montada de cinco soldados, todos de armadura, era espantosa demais para que o menino não fosse filho dele.

 

A menos que fosse de Richard.

 

A idéia dissipou-se de imediato quando Gerard gritou uma saudação ao irmão, deixando o estábulo e atraves-sando o pátio depressa para estender os braços até a criança. O menino hesitou, mas acabou soltando um riso e lançou-se para a frente. Gerard segurou-o facilmente num abraço apertado.

 

Ardith aproximou-se devagar dos dois, comparando-os. Contra sua vontade, seu coração enterneceu-se. Não qui-sera pôr os olhos no filho de Gerard, mas agora mal podia esperar para segurá-lo.

 

Daymon descansava a cabeça no ombro do pai, o po-legar metido na boca. Observava-a aproximando-se com atentos olhos verdes. Ela parou a poucos passos de dis-tância e sacudiu os dedos no ar num cumprimento, O menino tirou o dedo da boca.

 

Richard desmontou e dispensou os cavaleiros e a car-roça. Ardith mal lhes prestou atenção, seu olhar fixo na criança. Com um gesto lento, suave, tocou-lhe a face rosada, removendo um vestígio de poeira. Seus olhos ficaram marejados quando ele lhe abriu um sor-riso angelical.

 

Incentivada, ela afastou um pouco manta de pele em que estava embrulhado e tocou-lhe a orelha, fazendo-lhe leves cócegas abaixo do lóbulo. Daymon encolheu o ombro e soltou risinhos, um som alegre e enternecedor.

 

— Já se tornaram amigos? — murmurou Gerard, um brilho satisfeito nos olhos verdes.

 

— Ainda não, mas seremos em breve. Saudações, Richard.

 

— Ardith — disse ele, cumprimentando-a.

 

Contente com o progresso já obtido com Daymon, ela tornou a ajeitar-lhe melhor a manta de pele em torno do rosto.

 

— Devemos conduzi-los para dentro, onde há calor e comida. Por certo, estão cansados da jornada.

 

— Num momento — assentiu Gerard e, inesperada-mente, estendeu-lhe o garotinho de três anos. Sem he-sitar, ela segurou-o em seus braços. Pôde sentir-lhe a tensão, mas ele não esperneou para ser colocado no chão.

 

Estreitou-o num abraço gentil, esperando transmitir-lhe segurança.

 

— E então? — perguntou Gerard a Richard num tom de voz que exigia resposta imediata.

 

— Eu retornei a Wilmont e informei Walter sobre os novos feudos, como me ordenou que fizesse. Eu estava certo quanto à sua mãe. Está bastante contrariada com a sua decisão de presentear Stephen e a mim tão gene-rosamente, embora esteja bem menos aborrecida em re-lação ao que você deu a ele do que a mim. Tão logo me senti forte o bastante para montar num cavalo por várias horas seguidas, eu parti, como tenho certeza de que você sabia que eu faria.

 

— Sim, mas pensei que você iria à procura de Stephen e Corwin. Por que vir até aqui? E qual a razão de trazer Daymon?

 

— Bem, como você não retornasse logo a Wilmont, ocorreu-me que, talvez, estivesse planejando passar o in-verno aqui. Está?

 

— Sim.

 

Richard abriu um sorriso e, num gesto afetuoso, passou a mão pelo trecho da manta de pele que cobria a cabeça de Daymon.

 

— Ótimo. Então, todos nós poderemos desfrutar de paz por alguns meses.

 

Ardith mordeu o lábio inferior para se conter e não dizer algo indevido sobre a mãe de Gerard. Ele lhe con-tara o que Richard sofrera com Úrsula pelo fato de ser bastardo. A desconfiança de que o pequeno Daymon ti-vesse recebido tratamento semelhante desolava-a tanto que lágrimas ameaçaram aflorar em seus olhos.

 

Então, Richard dirigiu seu sorriso a ela, e a expressão de simpatia em seus olhos verdes, ou mais exatamente de compaixão, disse-lhe que também fora objeto da raiva da mulher.

 

Gerard cruzou os braços sobre o peito forte.

 

— O que aconteceu? — indagou ao irmão.

 

— Nada que deva surpreender você. Ursula também sabe sobre o decreto real que selou o compromisso de casamento. A ira dela em relação ao fato de você nos ter dado aquelas terras não é nada em comparação à fúria cega por você ter concordado com esse acordo de casa-mento. Anunciou a quem quisesse ouvir que jamais apro-vará a sua imoralidade, que não permitirá que sua… que Ardith fique na presença dela. Talvez seja melhor você não levá-la a Wilmont antes que o decreto seja cumprido.

 

Ardith deu-se conta de que Richard estivera prestes a repetir as exatas palavras de Ursula:

 

Sua prostituta.

 

As desagradáveis lembranças dos olhares de reprova-ção, das insinuações, dos sussurros maldosos que suportara na corte voltaram a inquietá-la. Sentira-se bem-vind-a ali naquele pequeno feudo, contente com a aceitação dos camponeses. Fizera o que Bronwyn lhe aconselhara… fechara os ouvidos àqueles que a haviam condenado. Ago-ra, porque conseguira se isolar tão bem do resto do mundo e deixara de lado as conseqüências de seu egoísmo, Ri-chard estava aconselhando o irmão a ficar longe do pró-prio lar.

 

Prostituta. A palavra ecoava em sua mente, enquanto a girava nos calcanhares e caminhava de volta à casa, ignorando a ordem severa de Gerard para parar. Esforç-ou-se para lutar contra a onda de angústia que a invadiu, para bloquear os pensamentos desesperadores, e o fez através da única maneira que sabia: trabalhando.

 

— Pip, temos convidados. A carroça precisa ser des-carregada. Traga os pertences deles para a casa- anun-ciou, num tom autoritário.

 

Retirou a manta de pele que envolvia o menino.

 

— Elva, esta criança precisa de um banho. Aqueça água.

 

A tia pareceu surpresa com aquele tom, mas também obedeceu.

 

Ardith recusava-se a pensar para além da tarefa segu-inte. Fecharia sua mente para tudo exceto a necessid-ade imediata de agir de maneira hospitaleira com os visitantes. Fecharia seu coração para a dor que abalaria sua compostura caso ponderasse a respeito da revelação de Richard.

 

Desatou seu manto de pele, deixando-o cair de seus ombros. Daymon pareceu um tanto agitado em seu colo, enquanto olhava para Meg e o pequeno Gerard. Sabendo que a distração iria mantê-lo ocupado por algum tempo, sentou-o ao lado dela.

 

— Este é Daymon — disse-lhe. — O filho de Gerard.

 

Elva soltou uma exclamação de perplexidade. Ardith ignorou-lhe a reação, o quê de censura.

 

Mantenha-se ocupada!, ordenou a si mesma.

 

Arrastou a banheira de madeira até perto do fogo. A água no caldeirão estava morna o bastante para um ba-nho. Despejou-a na banheira. Adivinhando-lhe o próximo passo, Daymon levantou-se depressa e correu, mas ela foi mais rápida. Depois de uma breve disputa pela posse de sua túnica, o menino sentou-se na banheira, espir-rando água ao redor alegremente. Ajoelhando-se ao lado da banheira, ela observou-o brincando com a água, dei-xando-o molhar-se antes de lavá-lo com o sabão.

 

A porta da casa foi escancarada, e Gerard adentrou pelo salão com um ar furioso.

 

Apenas uma vez Ardith o vira tão possesso, no dia em que esmurrara o rosto de Basil de Northbryre. Agora estava zangado com a sua impertinência no pátio, por ter desafiado uma ordem. Embora o visse com os punhos cerrados, não sentiu medo. No fundo, sabia que, não im-portando quanto estivesse irado, ele jamais a machucaria.

 

— Coloque seu manto, Ardith — ordenou-lhe.

 

— Estou ocupada, milorde. Com certeza, está vendo que…

 

Com largas passadas, ele cobriu a distância entre ambos, apanhou o manto e colocou-o em torno dos om-bros dela.

 

— Venha.

 

Ardith fez menção de protestar, mas não teve chance. Gerard ergueu-a nos braços, deitando-a atravessada so-bre seu ombro como se fosse uma saca de grãos.

 

— Elva, cuide de Daymon — ordenou e, então, anun-ciou aos demais: — Ardith e eu vamos sair por algum tempo. — Girando nos calcanhares, deixou a casa, fe-chando a porta com força atrás de si.

 

— Para onde estamos indo?

 

— Espere e verá. — Enquanto atravessavam o pátio, ele chamou em voz alta: — Richard, eu vou levar seu cavalo.

 

Não demorou a sentá-la na sela do cavalo de guerra e subiu em seguida, acomodando-se atrás dela. Uma leve batida de calcanhares nos flancos do animal, e ambos se punham a caminho.

 

O galope era veloz, uma corrida frenética num imenso cavalo. Gerard não diminuía o passo, nem mesmo quando havia algum obstáculo ou o terreno era irregular.

 

Ardith tinha certeza de que ele acabaria matando a am-bos, mas não conseguia fechar os olhos enquanto cortavam aquelas terras como o vento de inverno. Era assustador.

 

Era, ao mesmo tempo, empolgante. E terminou depressa. Ele parou o cavalo diante de uma cabana abandonada.

 

Tivesse havido uma porta, certamente a teria aberto com violência, mas contentou-se em aplacar parte da rai-va num pequeno banco de madeira que chutou de seu caminho. Na verdade, parecia um pouco menos furioso, mas ainda fervilhava. Ela fechou melhor o manto à sua frente e esperou pela inevitável reprimenda.

 

— Por quê? — perguntou Gerard, enfim, num brado menos severo do que o esperado.

 

— O seu filho estava com frio e precisava de um banho, então eu…

 

— Mentirosa. Eu sei por que você correu. Quero saber por que não parou quando ordenei.

 

A necessidade de desafogar a própria raiva tomou con-ta de Ardith.

 

— O que mais quer de mim? Tenho sido obediente! Até demais!

 

Céus, Ardith ficava linda quando zangada. Os olhos azuis faiscavam feito safiras. Mechas finas dos cabelos ruivos haviam se desprendido da trança e brincavam-lhe em torno do rosto adorável.

 

Ele a levara até ali para deixar claro que, embora pudesse tolerar muitas coisas, não permitiria desobediên-cia. A segurança dela, algum dia, poderia depender de obediência imediata.

 

Mas primeiro tinha que lhe aplacar a raiva. Deu um passo à frente.

 

— Fique aí mesmo onde está!

 

— Então, venha até mim.

 

— Não! Você está pensando em me acalmar. Não é o que quero. E nem quero que me toque.

 

Nunca mais tocar Ardith, nem beijar seus lábios se-dutores, nem sentir-lhe o corpo perfeito em seus bra-ços?, perguntou-se Gerard. Aquela era uma exigência impossível.

 

— Quero desistir deste acordo nupcial. Enviarei uma mensagem ao rei Henrique pedindo-lhe que me libere, que permita que eu regresse a Lenvil.

 

Ela não podia estar falando sério. A simples possibi-lidade tornava a despertar a ira de Gerard.

 

— Retornar a Lenvil? Acho que não. Não vou permitir que volte para servir de escrava a Harold.

 

— Isso não pode ser pior do que estar ao lado de um homem de quem não gosto muito no momento. Eu poderia odiar você!

 

— Jamais poderia me odiar. Você me ama!

 

Ardith arregalou os olhos, a respiração em suspenso. Ele reconheceu-lhe o terror, a vulnerabilidade. Seu co-ração disparou no peito, dando-lhe um aviso contra a tolice que estava prestes a fazer.

 

— Você me ama — disse, com veemência.- É a isso que odeia. Você odeia essa fraqueza que a deixa exposta à dor, a tanta dor que mal poderia suportar. — Pousou o punho no próprio peito. — Odeia ter entregado seu coração a mim, temendo que eu a faça sofrer.

 

— Gerard, por favor… — suplicou ela, num sussurro trêmulo.

 

— E há vezes em que você acha que seu coração irá transbordar de alegria, em que um toque abre os por-tões do paraíso. Quando estamos separados, você anseia pelo som da minha voz, por me ver. E quando juntos, anseia pelo meu toque, por uma palavra gentil, por um sorriso.

 

Ardith sentou-se num outro banco e fechou os olhos. Ele não sentia prazer na profunda tristeza dela por ter-lhe desvendado o segredo, mas também não estava arrependido.

 

Ajoelhou-se no chão diante dela, como alguém implorando um favor. Onde estava o seu orgulho? Dissipara-se co m a razão e o bom senso.

 

Tomando-lhe as pequenas mãos, segurou-as junto ao peito.

 

— Ardith, minha querida. Como acha que sei sobre a alegria e tristeza? Sinta como meu coração pulsa. Você não sabe? Não pode adivinhar? Olhe para mim, meu amor.

 

Ela abriu os olhos, reprimindo as lágrimas.

 

— Eu lutei com todas as forças, mas perdi a batalha — admitiu ele. — O meu coração pertence tanto a você quanto o seu a mim. Seja gentil, pequena guerreira. Não estou acostumado à derrota.

 

Fitando-o, Ardith notava que a veemência naquela exp-ressão reafirmava os sentimentos. Gerard sucumbira a ma emoção, ao amor, e odiava a própria fraqueza. Podia ma-la, mas não encontrava felicidade naquele sentimento -por razões bem diferentes das dela.

 

Abriu-lhe um sorriso triste.

 

— É tão orgulhoso, o meu jovem leão.

 

— Pelos céus, mulher, eu me ajoelho a seus pés e lhe conto tudo o que se passa em meu coração. Onde está o orgulho nisso?

 

— Você perdeu uma batalha, mas, ainda assim, pre-nde vencer a guerra. Eu lhe imploro, se você me ama, deixe-me ir. Permita que nos separemos enquanto existe-m lembranças boas e nenhuma amargura.

 

— Não.

 

Ela realmente não havia esperado outra resposta. Gerar-d considerava-a sua e a manteria a seu lado, não im-portando a sua vontade. Continuaria lutando pelo impos-sível, ignorando a razão, não importando como o acon-selhassem. Ainda assim, tinha que tentar convencê-lo.

 

— Ouça, não importando que nos amemos, vai chegar dia em que você terá que se casar com outra.

 

— Já tivemos esta conversa antes, e meus sentimentos respeito continuam os mesmos. Nenhuma mulher antes de você me trouxe tamanha alegria e paz. E nenhuma depois de você conseguirá fazê-lo. O que quer que o futuro traga, você sempre será a esposa do meu coração.

 

Ardith soltou um suspiro.

 

— Oh, puxa, o que é que eu devo fazer com você? O que posso dizer para que enxergue a insensatez de con-tinuarmos juntos?

 

— Não, não poderá me convencer de que isto seja in-sensato. Assim, diga que me ama e nunca mais fale em separação.

 

— Outra ordem, milorde?

 

— Uma que espero que seja totalmente obedecida.

 

— Eu realmente amo você. Desconfio que sempre amei e tenho certeza de que sempre amarei.

 

A intenção de lhe passar um sermão em reprimenda pela desobediência desvaneceu-se da mente de Gerard. Ela normalmente obedecia sem argumentar. As vezes, até antecipava seus desejos antes que ele fizesse um pe-dido. E não podia culpá-la por ter corrido. As notícias de Richard tinham-na abalado.

 

Não pretendia prolongar a discussão. Seu coração es-tava radiante demais. Com Ardith receptiva e sedutora em seus braços, tinha outras idéias de como passar o resto do dia.

 

Depositou-lhe um beijo úmido no pescoço e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha. Aquele lugar era frio, mas iria aquecê-la em seus braços.

 

— Preciso de você, querida, de seu amor.

 

— Eu o amo tanto…

 

Deitada sobre o próprio manto, o vestido erguido mas não retirado, Ardith entregou-se com abandono ao febril desejo de Gerard. Com palavras ternas e corpo quente, ele demonstrou seu amor, aquela dádiva preciosa que ela jamais esperara receber. Com lábios e mãos ansiosas cobriu-a de carícias inebriantes.

 

E ela retribuiu, mostrando também quanto o amava. Enfim, Gerard possuiu-a com arrebatamento.

 

— Oh, meu amor — sussurrou-lhe, ardoroso.

 

Ardith foi tomada por um êxtase mais intenso do que qualquer outro, seu coração vibrando com o amor que ambos haviam confessado, o corpo tomado por onda após onda de deliciosos espasmos.

 

Gerard desabou, finalmente, ao lado dela, ofegante, cansado, mas plenamente saciado. E a havia sentido vibrando em seus braços por longos momentos e tão in-tensamente… Será que a admissão do amor levava a união física a um patamar mais elevado de prazer? Po-deria um homem morrer de êxtase?

 

Se fosse o caso, morreria jovem mas feliz. Estreitou-a mais junto a si e fez uma prece silenciosa pela primeira vez em muitos anos.

 

Que fosse daquela vez, pensou, com fervor… Precisava tanto dela. Que tivessem concebido o filho que os uniria definitivamente!

 

— Gerard?

 

— Sim?

 

— Quanto a essas outras mulheres de quem acabou de falar. Com quantas tentou encontrar a alegria?

 

Ele abriu um sorriso sonolento. Pensou em provocá-la, em dizer-lhe que centenas de mulheres poderiam atestar quanto à sua virilidade, mas então achou melhor não tornar a despertar-lhe a raiva.

 

— Não tantas quanto pode achar.

 

— Alguma delas ainda interessa você?

 

O que havia de errado com ela? Não acabara de lhe assegurar, e de demonstrar, que era a única mulher a quem queria? Que jamais precisaria de qualquer outra.

 

Julgou-lhe as incertezas um tanto exasperantes, mas o quê de ciúme nas perguntas foi bastante gratificante.

 

— Depois de ter estado com você, eu jamais poderia ter a expectativa de encontrar alegria nos braços de al-guma outra mulher. Nem dormi com cada mulher em quem pus os olhos e nem pretendo fazê-lo. Isso tranqüi-liza você?

 

— Um pouco. Mas, meu amor, fique avisado. Caso me engane algum dia, eu vou separar você de suas partes masculinas.

 

Gerard começou a rir da ameaça selvagem, mas, então, deteve-se, interrompido pelo contato frio de metal na par-te interna de sua coxa. A adaga de Ardith. Tinha vencido sua guarda.

 

— Surpresa — disse ela com suavidade, uma imensa satisfação contida na simples palavra.

 

                                                               CAPÍTULO 17

Gerard manteve-se imóvel. A ponta da adaga estava bastante próxima às partes que ela havia ameaçado.

 

— Muito bem. Agora, afaste a adaga. Com cuidado.

 

— Sim, milorde. — Lentamente, ela afastou a Presa Leão da perna dele antes de guardá-la na bota.

 

Ele soltou um suspiro de alívio, fazendo-a rir. Deitou-a, então, de costas, segurando-lhe as mãos acima da cabeça.

 

— Sua travessa! Eu deveria puni-la pela insolência.

 

— Faça amor comigo em vez disso.

 

— Ora, você ousa ameaçar-me de castração e, em seguida, pede o prazer que posso lhe dar? — Gerard negou ofendido, sacudindo a cabeça. Tentou manter a expressão séria. — Primeiro, precisa se mostrar arrependida.

 

— Eu ameacei meu amante, mas orgulhei o meu mes-tre de armas, não foi? Devo pedir perdão por ter apren-dido minhas lições tão bem?

 

Ora, se ela havia aprendido bem… Mas ele a avisara somente apontar a adaga para valer. Por outro lado, Ardith sacara a adaga sem que tivesse que lhe ordenar.

 

Talvez tivesse vencido a relutância em usá-la, um sinal e que passara a aceitar a arma como sua.

 

— O seu mestre de armas pode querer elogiá-la, mas seu senhor exige reparação. Acha que pode apontar a adaga para um barão e esperar escapar sem puniçã-o? Se um de meus homens me apontasse uma arma, tarja arriscando a vida.

 

O sorriso satisfeito dela dissipou-se.

 

— Você deve saber que não tive má intenção.

 

— A despeito de suas intenções, o crime foi cometido e você deve sofrer o castigo.

 

— Qual?

 

Ele beijou-lhe o cenho que se franzia em preocupação.

 

— Talvez eu lhe dê a sentença de uma semana dei-tando-se nua nas mantas de peles, à minha espera, sem-pre receptiva a mim e ao que ameaçou decepar.

 

Ardith corou graciosamente, um sorriso tornando a ilu-minar-lhe o semblante. Gerard beijou-lhe os lábios ten-tadores, afastando uma das mãos dos pulsos dela para corrê-la pelo corpo feminino e sedutor. Afagou-lhe os seios demoradamente por sobre o vestido, sentindo os mamilos se enrijecendo contra sua palma.

 

Ela soltou um gemido abafado, esforçando-se para li-bertar as mãos, mas não conseguiu.

 

— Pensando bem — murmurou-lhe Gerard de-encontro aos lábios —, acho que seria uma punição ainda maior deixar você deitada sozinha, ansiando por meu toque.

 

— Você seria assim cruel? — sussurrou-lhe ela, fitan-do-o com um olhar ardente.

 

O fogo que o consumia intensificou-se. Levantando-lhe a barra do vestido, deslizou a mão pelas coxas macias, insinuando os dedos pela pele acetinada até que começou a acariciá-la com intimidade. Ardith arqueou o corpo, seu próprio desejo se alastrando.

 

— Você sofreria, meu amor? — perguntou ele, acen-tuando as carícias, alimentando as chamas.

 

— Tanto quanto você.

 

Ardith o conhecia muito bem. Não podia mais viver sem ela. Gerard censurou-se por tê-la deixado descobrir aquilo. Recriminou-se por ter lhe dado o poder de dila-cerar seu coração caso assim quisesse. Deitou-se sobre ela, posicionando-a para recebê-lo, buscando o prazer que aquele o corpo ardente prometia.