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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PORTO SEGURO / Christine Feehan
PORTO SEGURO / Christine Feehan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

— Quer me dizer como demônios nos colocamos nesta confusão? — Exigiu Jackson Deveraux enquanto passava os braços ao redor da cintura de Jonas e lhe arrastava para a débil cobertura de um contêiner industrial de lixo.— Temos um bonito e cômodo trabalho na costa do Mendocino e você te volta louco e decide que está aborrecido, o qual é pura merda, por certo. Qualquer um pensaria que fazer que lhe disparem uma vez seria suficiente.

Se pudesse responder, Jonas teria amaldiçoado ao Jackson, mas só pôde lhe fulminar com o olhar enquanto obrigava a seus pés a seguirem movendo-se. A dor era implacável, apunhalava como um ferro de marcar incandescente. Podia sentir o fôlego estralando em seus pulmões, a bílis elevando-se e a realidade desvanecendo-se. Tinha que permanecer em pé. Ao inferno se ia deixar que Jackson lhe carregasse nas costas... nunca deixaria de ouvir falar disso. Jackson tinha razão. Fizeram-se vidas novas, boas vidas, encontrando um lar. Em que demônios estava pensando?

Por que nunca era suficiente para ele? Por que tinha que seguir voltando atrás, uma e outra vez, arrastando ao Jackson e a outros homens à lama e o lixo do mundo? Ele não era nenhum nobre cruzado, mas uma e outra vez se encontrava com uma arma na mão, perseguindo os tipos maus. Estava cansado à morte, de sua necessidade de salvar o mundo. Não salvava a ninguém, só conseguia que matassem a bons homens.

 

 

 

 

O beco estava escuro, a sombra dos edifícios circundantes se elevavam sobre a pequena entrada, voltando negros os cantos. Mantiveram o contêiner de lixo entre a rua e eles, onde parecia que todo mundo que tivesse uma arma e uma faca estava lhes procurando. Jackson lhe apoiou contra uma parede que cheirava a tempos que Jonas não queria recordar, onde o sangue, a morte e a urina se mesclavam em uma potente beberagem.

Jackson comprovou seu fornecimento de munições.

— Pode enfocar o bastante para disparar, Jonas?

Esse era Jackson, direto ao grão. Desejava endemoniadamente sair dali e ia fazer que ocorresse. Os homens que lhes perseguiam não tinham forma de saber que tinham ao tigre pela cauda. Quando Jackson utilizava esse tom de voz em particular, morriam homens, pura e simplesmente.

Tinham que conseguir chegar à entrada do beco e esta estava bloqueada pelos gansters russos. Tinha sido uma missão de reconhecimento. Nada mais. supunham-se que tinha que ser vistos... demônios... que não tinham que ser vistos... mas tudo se foi ao inferno rapidamente, convertendo-se em um mar de sangue.

Tinham ido filmar o que se supunha que seriam uns quantos soldados do Tarasov de baixo escalão reunindo-se com um par de soldados do Nikitin nos moles de São Francisco. Um agente encoberto tinha informado ao Gray e ele queria saber por que as duas famílias rivais se reuniam. A primeira pontada de alarme tinha chegado quando reconheceu aos irmãos Gadiyan entre os participantes. Não havia nada de baixo escalão neles. Cunhados do Boris e Petr Tarasov, estavam definitivamente no escalão superior da assassina família criminal, tinham reputação de ser tão sangrentos e violentos que inclusive os homens da família Tarasov lhes evitavam. E quando Boris saiu de entre as sombras com seu irmão, Petr, e sua primo Karl, atrás e perto para assegurar a segurança, Jonas soube que algo gordo se estava tramando. Karl tinha reputação de ser muito, muito pior que os irmãos Gardiyan.

Jonas e Jackson se olharam o um ao outro com os estômagos encolhidos e os corações palpitando porque estavam justo em meio de um ninho de vespas e não tinham forma de sair dele. O grupo de gansters russos ficou em pé um momento, rindo todos juntos, e então Karl tinha agarrado a um dos homens com os que estavam conversando e lhe tinha empurrado até lhe pôr de joelhos diante de seu tio. Ao Jonas parecia que todos os homens eram soldados Tarasov. Não pôde identificar ao homem ao que Karl tinha separado. Sua cara estava entre as sombras e tudo ocorreu muito rápido. Petr tirou tranqüilamente uma arma e lhe disparou na cabeça sem uma só palavra. A violência tinha sido rápida e feia, sem nenhuma advertência absolutamente.

Jonas e Jackson tinham o assassinato na gravação e estavam procurando uma forma de sair quando outro homem entrou no mole. Obviamente era consciente da câmara, mantinha a cara oculta e um comprido e volumoso casaco cobria seu corpo. Manteve a cara apartada, falou brevemente com os Tarasovs e então foi quando tudo se transformou no inferno.

Karl Tarasov tinha reagido instantaneamente, correu para a estrada, encontrando o carro e ao condutor e lhe executou sem preâmbulos. Voaram as cercas quando os russos se desdobraram e começaram a caçar ao Jonas e Jackson. Jonas recebeu dois disparos, nenhum deveria ter sido grave, mas estava perdendo suficiente sangue como para que as feridas passassem a ser fatais se não conseguia ajuda rápido. Jackson tinha duas marcas de faca no estômago e peito, feridas sofridas enquanto lutavam por abrir-se passo fora dos moles até o beco. Os gansters queriam de volta a gravação.

De nenhuma forma a terão.

Jackson colocou um carregador cheio na arma do Jonas e lhe pôs esta na mão.

—Está bem para partir. —Pôs no canhão da arma uma carga completa e trocou o peso sobre as pontas dos pés—. vou tomar distancia para me encarregar de alguns deles, Jonas. Você ponha outra bandagem de pressão na ferida de seu flanco, e não importa o que acontecer, permanece em pé. Vou sacudir as coisas um pouco em uns minutos e tem que estar preparado para correr.

Jonas assentiu. O suor gotejava por sua cara e cobria seu corpo. Sim. Estava preparado para correr... e dar com a cara no chão... mas se manteria em pé e a arma apontada e respaldaria ao Jackson em qualquer que fosse o amalucado plano que tivesse. Porque, no final, sempre podia contar com o Jackson.

Jackson se fundiu na noite silenciosamente, como sempre fazia. Tinha voltado para casa com o Jonas quando ambos acabaram doentes da morte de viver entre as sombras... quando Jonas começou a sentir falta endemoniadamente de sua família adotiva. Uniram-se ao departamento do xerife e tinham vivido uma vida cômoda até que Jonas tinha conseguido que lhe disparassem no trabalho e se voltou inquieto e nervoso durante a recuperação. Seu antigo chefe, Duncan Gray, de uma equipe especial enterrada profundamente no departamento de defesa, tinha vindo a lhe ver. Jackson tinha lhe arrojado um olhar duro e teriam permanecido a salvo. Mas não, Duncan tinha sabido como lhe dobrar Jonas, porque Jonas caía com a frase "necessitamos-lhe" cada maldita vez.

Era um inferno o que tinha feito, arrastar ao Jackson a esta confusão. E não era a forma em que tinha planejado morrer, uma suave missão de reconhecimento com os rivais do Nikitin para ver quem ia e vinha e por que. Nada especial, mas aí estavam, disparos e sangue filtrando-se por toda parte. Jonas abriu o pacote de bandagem de pressão com os dentes e o tirou do envoltório, apertando-o em seu lugar antes de poder pensá-lo muito.

O fogo lhe rasgou, apunhalando tão profundamente que seu corpo se estremeceu em reação. Teve que manter-se em pé aferrando-se com força ao contêiner de lixo... não se supunha que isto era terapêutico? Demônios, esta vez tinha autênticos problemas. Cambaleava-se, a única coisa firme era a arma em sua mão.

Procurando em seu bolso, tirou uma fotografia, quão única levava, quão única importava. Deveria havê-la destruído. Podia ver sua própria cara, a terrível e crua verdade capturada em filme. Baixava o olhar para uma mulher e o amor em sua cara, a fome crua, era tão evidente que resultava uma traição, ali para que todo mundo... inclusive ele... visse-a. Seu dedo se deslizou sobre o papel acetinado, deixando uma mancha de sangue. Hannah Drake. Supermodelo. Uma mulher com extraordinários e mágicos dons. Uma mulher tão longe de seu alcance que bem poderia tentar melhor tirar a lua do céu.

Ouviu passos e o sussurro de roupa deslizando-se contra a parede. Colocando a foto de volta no bolso de sua camisa, fechou seu coração, e sacudiu a cabeça para esclarecer-se. Mais suor gotejou em seus olhos e o limpou. Os duros chegavam primeiro, ficando entre as sombras mas avançando definitivamente. O suor fazia que lhe picassem os olhos, e o sangue corria firmemente por seu flanco até sua perna, mesclando-se com a chuva que tinha começado a cair em um toró implacável. Estabilizou a arma e esperou.

No final do beco, um homem caiu e o primeiro disparo chegou quase simultaneamente. Jackson era um inferno sobre rodas a essa distância. Tendido no alto do edifício, podia escolher simplesmente entre eles se eram o bastante estúpidos para seguir avançando... e aí estavam. Jonas se tomou seu tempo, esperando um brilho embaçado quando delatassem sua posição disparando para cima do Jackson. Jonas entrecerrou o olhar e contou dois deles, mas a entrada do beco ainda parecia muito longe quando o fogo cortante se estendia por seu corpo e seu sangue estava derramando-se por todo o chão.

Não seja um asno débil. Não vais morrer neste sujo beco derrubado por um poucos ratos meio mortos. Falou severamente com si mesmo, esperando que o bate-papo animado evitasse que caísse de cara no barro. O problema era, que não só eram ratos meio mortos, eram autênticos mercenários, treinados em táticas como o tinham sido Jackson e ele, e foram tomar o telhado também. Ouvia ruídos no edifício de suas costas... o edifício que deveria ter sido um armazém vazio.

O assassinato captado na cinta de vídeo esta noite bem valia um montão de vidas. Jackson disparou de novo e outro corpo caiu. Jonas esperou o brilho do disparo de resposta, mas nenhuma só bala foi disparada. Gemeu brandamente e a compreensão lhe golpeou. Eles conheciam sua posição exatamente. Deveria haver-se movido no momento em que tinha disparado. Estava inclusive mais fodido do que tinha pensado. Engoliu com força e ficou a coberto, tentando ser parte do contêiner, sabendo que tinha que sair dali, mas temendo que suas pernas não lhe sustentassem. Uma onda de enjôo lhe golpeou com força, quase lhe jogando a terra. Agüentou desagradavelmente, respirando profundamente, desesperado por permanecer em pé. Uma vez caísse, nunca seria capaz de voltar a levantar-se.

Jackson saiu das sombras, com sangue gotejando do peito e braço, a cara sombria e os olhos selvagens. Tocou sua faca e desenhou uma linha ao longo de sua garganta, indicando outra morte... e essa morte tinha sido entre o Jackson e Jonas, o que significava que estavam rodeados. Levantou quatro dedos e dirigiu a atenção do Jonas a duas posições perto e dois atrás deles. Assinalou acima.

Jonas sentiu a seu coração saltar um batimento do coração. Não havia forma de que pudesse subir por uma escada de incêndios de três andares de altura. Duvidava que pudesse ter suportado a tortura de correr beco abaixo, mas isso parecia endemoniadamente muito mais fácil... e rápido... que subir três andares. Tomou fôlego, ignorando o protesto quando mil facas sem fio se retorceram em suas vísceras, e assentiu em acordo. Era sua única oportunidade de escapar.

Jonas deu um passo afastando do depósito de lixo, seguindo ao Jackson. Um passo e seu corpo ficou como um alfavaca com ele, a dor lhe espremeu, lhe roubando toda capacidade de respirar. Merda. ia morrer neste maldito beco, e pior ainda, ia levar se ao Jackson com ele... porque Jackson nunca lhe deixaria.

Seus inimigos se aproximavam em todas direções e simplesmente não havia forma de que pudesse subir por essa escada de incêndios. Necessitavam um milagre e o necessitavam rápido. Havia um único milagre com o que pudesse contar, e sabia que ela estava esperando sua chamada. Sempre sabia quando estava em problemas. Jonas tinha passado toda uma vida protegendo-a, desejando-a tão imperfeitamente que despertava noite detrás noite, suando, com o nome dela ressonando em seu dormitório, seu corpo duro, tenso e tão endemoniadamente incômodo que algumas vezes não estava seguro de poder conter-se de aceitar trabalhos como este no que estava metido... porque que lhe pendurassem se ia fazer que a matassem.

Ainda assim, não tinha escolha. Ela era seu ás na manga e não tinha mais opção que utilizá-la, se queria sobreviver. Estendeu-se na noite e conectou com uma mente feminina. Conhecia-a. Sempre a tinha conhecido. Podia evocá-la em sua mente de pé na alameda do capitão de cara ao mar, seus cachos platinados e dourados caindo em cascata por suas largas costas todo o caminho até seu luxurioso traseiro, sua cara séria, olhando ao mar... esperando.

Hannah Drake. Se inalava, podia respirá-la. Ela sabia que estava em problemas. Sempre sabia. E que Deus lhe ajudasse, possivelmente essa era a razão. Possivelmente desejava sua atenção... necessitava sua atenção... e esta era a única forma que ficava para consegui-la. Podia estar tão fodidamente desesperado que arriscaria não só sua vida mas também a do Jackson? Já não sabia o que estava fazendo.

—Hannah. —Soube que tocava sua mente, ela tocou a sua. Ela tinha sabido em que momento tinha começado o problema e tinha estado esperando, firme como uma rocha, a sua própria maneira tão confiável como Jackson. Esperava sozinho uma direção antes de golpear. Agora tinha uma, o inferno inteiro se estava já desatando. Hannah Drake, uma das sete filhas nascida da sétima filha em uma linhagem de mulheres extraordinárias. Hannah Drake. Nascida para ser dele. Cada esfarrapada respiração atraída a seus pulmões, cada promessa de permanecer em pé, de permanecer com vida, fazia por Hannah.

Jackson assinalou para o edifício e Jonas amaldiçoou pelo baixo. Deu um passo experimental de volta para as sombras, com o estômago pesado, cada coisa que tinha comido ou bebido nas últimas horas empurrando para cima. A terrível contração lhe produziu outra quebra de onda de enjôo e martelos perfuradores que sapatearam uma macabra dança, abrindo seu crânio. O suor gotejou, o sangue correu e a realidade se retraiu sozinho um pouco mais.

Jackson lhe aconteceu um braço sob os ombros.

—Necessita que te leve?

Necessitariam da arma do Jackson se fossem fazê-lo. Jonas tinha que encontrar uma forma de cavar profundamente em seu interior e permanecer em pé, cruzar a distância e escalar para a liberdade com duas balas em seu interior, e uma ferida ainda fresca de um disparo anterior. Sacudiu a cabeça e deu outro passo, apoiando-se pesadamente no Jackson.

—Hannah, neném. Agora ou nunca. —Enviou a silenciosa prece de noite, porque se alguma vez tinha havido um momento em que o realmente necessitasse as incomuns habilidades dela, era agora.

O vento respondeu, elevando-se rápida e furiosamente. Soprou beco abaixo com a força de um furacão, uivando e arrancando partes de madeira dos edifícios. O lixo formou redemoinhos, elevando-se no ar e soprando em todas direções. Caixas de cartão e outros lixos foram lançados pelo ar, golpeando algo a seu passo enquanto o vento se abria passo para a parte de atrás do beco, onde girou e começou a correr em um horrendo círculo mais e mais apertado, mais e mais rápido, agarrando mais velocidade e ferocidade.

O vento nunca tocou nem ao Jackson nem ao Jonas; em vez disso, moveu-se ao redor deles criando um casulo, construindo um escudo de pó e lixo elevados para formar uma barreira entre eles e o mundo.

—Mantenha-se vivo. —Duas pequenas palavras, envoltas em sedas, cetim e suaves cores.

—Temos que nos mover, —disse Jackson.

Jonas obrigou seus pés a continuarem arrastando-se, cada passo retorcia suas vísceras, a dor chiava atravessando seu corpo até que só pôde apertar os dentes e tentar exalá-lo fora. Seus esforços não funcionavam. —Hannah. Neném. Não acredito que vá poder voltar para casa contigo.

O vento se elevou à altura de um chiado de protesto, lançando-o tudo a seu passo pelo ar. Braços e pernas se emaranharam quando os homens caíram ou se estrelaram contra os flancos dos edifícios junto com o lixo. Jonas podia ouvir os gritos e grunhidos de dor quando seus inimigos, capturados pelo antinatural tornado, eram lançados pela fúria do vento.

Jonas cambaleou, arrumando para sustentar-se, mas a dor e as ondas de enjôo e náusea eram seus inimigos agora. Seu estômago se revolveu e o chão se inclinou. A negrume perfilou sua visão. Cambaleou de novo, e esta vez, esteve seguro de que cairia, suas pernas se voltaram de borracha. Mas antes de que pudesse cair, sentiu a pressão do vento quase lhe elevando, lhe sustentando, lhe envolvendo e lhe elevando em braços seguros.

Deixou que o vento tomasse seu peso e lhe carregasse até a escada. Jackson retrocedeu para deixar que Jonas subisse primeiro, todo o momento vigiando o beco e os edifícios circundantes, entrecerrando o olhar contra a força do vento.

Jonas estendeu os braços para o último degrau da escada e uma dor branca e ardente estalou através dele, lhe fazendo cair de joelhos. Imediatamente o vento acariciou sua cara, uma suave rajada, como se uma pequena mão lhe tocasse com dedos gentis. A seu redor rabiava virtualmente um tornado, mas algumas fios se separavam da lhe formem redemoinhos massa e pareciam lhe elevar em fortes braços.

Deixou que Jackson lhe ajudasse a ficar em pé, animado pelo vento, e o tentou de novo, trabalhando com o vendaval da Hannah, permitindo que a força ascendente lhe ajudasse enquanto flexionava os joelhos e saltava para fechar o espaço entre ele e o último degrau. O vento lhe empurrou e alcançou o seguinte degrau antes de que seu corpo pudesse absorver o choque de tomar seu peso.

Em alguma parte na distância, ouviu alguém gemer roucamente de agonia. Sua garganta parecia com o vermelho vivo e seu flanco ardia, mas deixou que o vento empurrasse e empurrasse até que esteve subindo pela escada até o telhado. Engatinhou até o teto, rezando por não ter que subir de novo, mas não tinha escolha.

Jackson deixou cair uma mão sobre seu ombro quando Jonas se ajoelhou sobre o edifício, lutando em busca de ar.

—Tem forças para outra carreira?

Seus ouvidos trovejavam tão ruidosamente, que Jonas quase se perdeu o fraco sussurrou. Demônios não. Era isso o que parecia? Assentiu e apertou a mandíbula, lutando por voltar a ficar em pé. A chuva era implacável, caindo sobre eles, conduzida lateralmente pelo vento, mas ainda parecia envolvê-los em um casulo de amparo.

Abaixo, ouviram gritos quando uns poucos dos homens mais valentes tentaram segui-los pela escada. O vento ganhou força, golpeando o edifício tão duramente que as janelas se sacudiram e a escada de incêndios estralou ameaçadoramente. A escada se balançou com tanta força que os pernos e parafusos começaram a soltar-se e caíram para a rua de abaixo. O vento capturou as pequenas peças de metal e as enviou como mísseis letais para os homens que tentavam subir a toda pressa os degraus.

Os homens gritaram e soltaram a escada, saltando a terra em um tentado por afastar-se da explosão de pernos que se lançavam para eles. Uns poucos dos pernos se afundaram profundamente na parede e outros em carne e osso. Os gritos se voltaram frenéticos.

—Demônios, Hannah está realmente de saco cheio, —disse Jackson—. Nunca vi nada parecido. —Passou o braço ao redor do Jonas e médio lhe elevou sobre seus pés.

Jonas tinha que estar de acordo. O vento era o método de trabalho favorito da Hannah e podia controlá-lo. E demônios, estava-o controlando. Não queria pensar em quanta dessa fúria podia estar dirigida para ele. Tinha prometido às irmãs Drake que não voltaria a fazer este tipo de trabalho. Elas sabiam que tinha miserável ao Jackson com ele, e lhes dizer que Jackson tinha insistido em vir não serviria de nada para lhe tirar do apuro.

concentrou-se em sua respiração, em contar passos, em algo exceto na dor enquanto Jackson lhe arrastava pelo teto até o bordo. Jonas sabia o que se morava. ia ter que saltar e aterrissar no outro coberto, onde poderiam baixar à rua a salvo. Hannah conteria aos gangsters russos tanto como pudesse, mas só Sarah estava no país para ajudá-la e a força da Hannah cedo ou tarde se esgotaria. Estaria totalmente só na alameda do capitão à intempérie. Odiava isso... odiava o que lhe tinha feito.

—Pode fazê-lo, Jonas? —perguntou Jackson, sua voz era áspera e alta.

Jonas evocou a Hannah de pé na alameda do capitão olhando ao mar. Alta. Formosa. Seus grandes olhos azuis ferozes enquanto se concentrava, as mãos no ar, dirigindo o vento enquanto cantarolava.

Se não podia fazê-lo, não voltaria para a Hannah, e não lhe havia dito nenhuma só vez que a amava. Nem uma vez. Nem sequer quando sentada junto a sua cama de hospital lhe dava forças para que se recuperasse lhe havia dito realmente as palavras. Tinha-as pensado, sonhado as dizendo, uma vez inclusive tinha começado, mas não queria arriscar-se a perdê-la assim tinha permanecido em silêncio.

Ele protegia às pessoas... isso era o que fazia, quem era. Sobre tudo, protegia a Hannah... inclusive de si mesmo. Suas emoções sempre eram intensas... sua raiva incontrolável... sua necessidade dela... o puro desejo que sentia quando pensava nela. Tinha aprendido a lhe ocultar suas emoções desde que era um moço, quando tinha compreendido que ela era empática e o como fazia dano ler às pessoas todo o tempo. Tinha estado ocultando seus sentimentos tanto tempo que era uma segunda natureza para ele, e sem importar o momento, sempre caía na velha desculpa de que seu trabalho a poria em perigo.

Parecia bastante estúpido agora... especialmente quando a chamava pedindo ajuda. apartou-se a mão do flanco e olhou o sangue espesso que cobria sua palma. Sem incomodar-se em responder ao Jackson, Jonas tomou fôlego e saltou, com o vento atrás dele, empurrando com força de forma que seu corpo foi arrojado até o outro teto.

Não pôde manter-se em pé ou sequer começar a aterrissar graciosamente. Caiu com força e de cara, o ar abandonou seus pulmões e a dor ardeu através de seu corpo como uma marca candente.

A escuridão se aproximou, lutando pela supremacia, tentando lhe arrastar abaixo. Desejava-a... a paz da inconsciência... mas o vento fustigava a seu redor levando uma voz feminina, suave, suplicante, tentadora. Sussurrava-lhe enquanto o vento alvoroçava seu cabelo e acariciava sua nuca. —Volta para casa comigo. Volta para casa.

Seu estômago se esticou e lutou por ficar de joelhos, seu estômago se retorceu de novo. Jackson enganchou uma mão sob seu braço.

—Eu te levarei.

Fora do teto. Abaixo à rua. Jackson o faria, além disso, mas Jonas não ia arriscar se mais com a vida de seu melhor amigo. Sacudiu a cabeça e forçou seu corpo ao limite. Não ficava nada mais que instinto de sobrevivência e pura força de vontade. Encontrou a escada de incêndios e começou a descender, cada passo chiando, seu corpo gritando. As quebras de onda de enjôo e nauseia começaram a fundir-se até que já não pôde as diferenciar. Sentia a cabeça ligeira e o estou acostumado a parecia muito longínquo, a realidade se distanciava mais e mais até que simplesmente se deixou ir e flutuou.

Em algum lugar na distância acreditou ouvir o grito de uma mulher. Jackson lhe ecoou e uma mão agarrou as costas de sua camisa rudemente, o súbito puxão lhe lançou mais à frente do limite para a escuridão. A última coisa que ouviu foi o som do vento equilibrando-se sobre ele.

Hannah Drake estava em pé na alameda do capitão olhando ao escuro e furioso mar, com os braços elevados enquanto atraía o vento a ela, canalizando-o e enviando-o através da noite para o Jonas Harrington. Medo e raiva se mesclavam, duas poderosas emoções, troando em  seu coração, correndo através de sua corrente sanguínea formando uma bebida de alto octanagem que acrescentava combustível ao poder do vento. Diminutos pontos de luz iluminavam o céu ao redor de seus dedos enquanto continuava acumulando e dirigindo a força de sua vontade. Muito por debaixo dela, o mar se elevava no ar quando as ondas se estrelavam contra as rochas. O oceano se arrojava e balançava, engendrando pequenos ciclones, retorcendo-se na superfície, colunas geme as de água lhe formem redemoinhos com uma raiva como a sua.

Ouviu a voz do Jonas em sua cabeça, o som foi uma carícia, uma suave nota que de uma vez a esquentou e provocou um estremecimento em todo seu corpo. Soava muito perto a um adeus. Puro terror a atravessou. Não podia imaginá-la vida sem o Jonas. O que ia mau? Tinha despertado com o coração palpitando e o nome dele em seus lábios. Tinha sabido que algo terrível estava ocorrendo, que sua vida estava em perigo. Algumas vezes, parecia-lhe que a vida dele sempre estava em perigo.

—OH, Jonas, —sussurrou em voz alta—, por que sente a necessidade de fazer estas coisas?

O vento lhe arrebatou a pergunta e a levou mar dentro. Suas mãos tremiam e se mordeu o lábio com força para manter o controle. Tinha que lhe trazer para casa de uma vez. Fora o que fora no que estivesse metido, era terrível. Quando abriu sua mente a dela, quando conectaram, captou sozinha breves olhadas do interior, como se ele houvesse compartimentado seus sentimentos e lembranças tão apressadamente como fora possível. Viu dor e sangue e sentiu sua raiva em um breve brilho catastrófico que ele cortou abruptamente.

Necessitava direção para lhe manter a salvo, e a encontrou e manteve através do Jackson. Ele estava mais aberto a uma conexão psíquica, enquanto que Jonas estava muito preocupado por estar gastando suas energias. Jackson a deixou ver a situação do beco, a condição em que estava Jonas, e o edifício que tinham que escalar.

Enviou um pequeno reconhecimento, utilizando calidez e cor, sabendo que Jackson entenderia, e uma vez mais elevou os braços. Comandou aos cinco elementos, terra, o mais físico de todos os elementos; fogo, de uma vez poderoso e aterrador; ar, sempre em movimento, seu favorito, seu companheiro constante e guia, proporcionando visualização, concentração e o poder dos quatro ventos; água, a mente psíquica; e é obvio, espírito, a força que unia ao universo mesmo. —Hannah, neném, agora ou nunca.

Hannah tomou um profundo e esclarecedor fôlego e incrementou o poder do vento, apontando e enfocando, utilizando sua mente para fazer que os elementos a ajudassem. Murmurou uma pequena prece de agradecimento e se abriu ao universo e a toda a força potencial que podia reunir para ajudar Jonas. O ar sobre ela se espessou e obscureceu, as nuvens começaram a ferver e borbulhar em uma furiosa beberagem. A eletricidade cintilou e rangeu ao longo dos borde das nuvens mais pesadas e o vento começou a elevar-se ainda mais, fazendo que os ciclones saíssem do mar para crescer mais alto e girar mais rápido sobre a água.

O terror atendeu seu coração e atou seu estômago. Não podia imaginar sua vida sem o Jonas nela. Era arrogante, mandão e sempre queria fazer tudo a sua maneira, mas também era o mais protetor e carinhoso dos homens que tinha conhecido alguma vez. Quantos anos fazia que passava isto? Quantas vezes arriscaria ele sua vida antes de que fossem muitas?

—Mantenha-se a salvo. —Sussurrou em sua cabeça, enviou a mensagem ao Jonas, envolto em suaves e quentes cores e esperou que esta simples petição não revelasse muito. O vento se levantou com seu medo... com sua fúria quando recebeu outro brilho do Jackson. Os dois homens estavam subindo pela escada de incêndios e Jonas fraquejava. Seu coração gaguejou quando lhe viu cair.

—Hannah. Neném. Não acredito que vá poder voltar para casa contigo.

Seu coração quase se deteve. Por um momento houve um instante de calma na tormenta e então a fúria a atravessou e ela a deixou crescer, essa terrível necessidade de vingança estava também dentro dela, estalando, destroçando toda restrição que mantinha tão cuidadosamente sobre si mesmo. Incrementou o vento até um tom feroz, uma fúria demolidora que correu através da noite e caiu como um faminto tornado nesse beco escuro de tão, tão longe.

O vendaval perseguiu os homens com suas armas insignificantes que resultavam inúteis contra as forças da natureza. Violentas baforadas fizeram pedaços as janelas e fizeram chover cristais. Pranchas eram levantadas e atiradas como se um menino revoltoso tivesse uma chilique. A doce e angélica Hannah o dirigia, seu ataque de fúria enviou aos inimigos do Jonas a derrubar-se no chão, impotentes sob o ataque do vento e inclusive o frio granizo.

Em meio de tudo isto, sentiu ao Jonas deslizar-se, afastar-se mais e mais dela, uma dor pungente lhe atravessava... atravessava-a a ela, a conexão começava a rasgar-se. Enviou uma última baforada de ar para lhe elevar, as correntes lhe carregaram mais alto, lhe empurrando para cima pelo flanco do edifício até o telhado e a liberdade. Brincou para sua cara e pescoço com golpes de pequena brisa para tentar lhe manter alerta o suficiente como para que Jackson os levasse a ambos à segurança.

Sentiu-lhe recompor-se a si mesmo em um último e enorme esforço e enviou uma última rajada de vento que girou ao redor dele e lhe levou de um telhado a outro. Sentiu a explosão de dor dilaceradora, uma agonia que a fez cair de joelhos. Ofegou, as lágrimas rabiscaram sua visão, correndo livremente por sua cara. —Vêem para casa comigo. Vêem para casa comigo. —A súplica estava perfilada em vermelhos e dourados, flamejando de luz e necessidade.

Sentiu a reação dele, a luta por ficar em pé, a luta por evitar que o enjôo lhe afligisse... a determinação a conseguir voltar de uma vez. Houve outra explosão de dor e Jonas escorregou ainda mais, a escuridão perfilava sua visão. Desesperada, enviou o vento, um golpe de ar que lhe envolveu, e então a escuridão tomou também a ela.

 

Jonas piscou ao emergir de muito dor.

—Filho da puta, é aterrador, —informou ao Jackson—. De onde demônios tira esse olhar? Praticando no espelho diariamente?

Jackson lhe sorriu, mas seus olhos encerravam preocupação.

—Te seguindo ao inferno e voltando. É tão imbecil, Harrington. Desmaiando como uma garota. Tive que carregar seu pobre traseiro todo o caminho até o carro.

—Sabia que se queixaria. —Jonas inalou e imediatamente franziu o cenho—Outro hospital, não. Deve estar realmente zangado comigo.

—Necessitava umas poucas gotas de sangue.

Jonas se conteve de lhe responder quando viu o doutor, aproximando uma bandeja. Isto não ia ser divertido.

Jackson ignorou ao médico.

—Vai ter que averiguar que demônios está fazendo, rápido Jonas, ou vais obter que matem aos dois.

—Ninguém te pediu que viesse, —disse bruscamente Jonas, sabendo que estava sendo um completo ingrato. Odiava a verdade quando a ouvia, especialmente quando sabia exatamente do que estava falando Jackson. Não de quanto quem.

Jackson sacudiu a cabeça, sem apartar o olhar.

—Não pode salvar ao mundo e vai ter que te acostumar a isso. E maldita seja, deve arrumar as coisas com a Hannah.

—te ocupe de seus próprios assuntos, maldição —disse bruscamente Jonas, sabendo que não tinha direito, mas incapaz de deter-se si mesmo. Detestava os hospitais. Já tinha tido sua cota deles e a ferida não era tão grave. Só tinha sangrado como um porco e se debilitou um pouco. Queria arrancá-la agulha do braço e ir-se.

Jackson o olhou fixamente, seus olhos negros brilhavam com uma iminente tormenta. Ninguém mais era o suficientemente estúpido para fazer cair o inferno sobre si mesmo, só Jonas. Quando tinha perdido o juízo? Jackson não merecia essa merda.

 —Você o converteu em meu assunto, e não trate de fingir que Hannah não é a razão pela que estamos nesta confusão. Se te tivesse feito cargo da mulher, ninguém te teria convencido de participar de nada parecido a esta missão de merda. Teria ficado em zona segura, Jonas, e ambos sabemos.

Jonas abriu a boca para negar a acusação, mas a fechou de repente quando Jackson o olhou firmemente. O doutor orvalhou a ferida com alguma espécie de líquido ardente que lhe roubou o juízo e o fez começar a suar outra vez. Apertou os dentes e tratou de não deprimir-se.

—É complicado, —disse, quando pôde respirar novamente. O doutor lhe pôs várias injeções e Jonas se deslizou um pouco fora da realidade. Borde-os a seu redor se nublaram e obscureceram—. Hannah Drake não é como as demais mulheres. É diferente… especial

Ela o era… tudo. Mágica. Ela era dele… ou seria dele. por que demônios não era dele?

—Está meio verde, —disse Jackson—. Não volte a desmaiar.

Jackson não se perdia quase nada. Notava cada movimento, cada som, observava as janelas, as portas e o tráfico na rua, e ainda assim viu que Jonas fraquejava quando o doutor começava a suturar as feridas.

—Hey! Meu flanco não está anestesiado, —disse Jonas bruscamente, apertando os dentes e os punhos. Se o doutor introduzia a agulha de sutura em sua pele uma vez mais, veria-se obrigado a tirar a arma e lhe disparar ao homem.

—Faça pressa, Doc, não tem porque ficar bonito, —disse Jackson, indo para a porta e aparecendo para fora.

Jonas notou que tinha a mão dentro da jaqueta, onde levava a arma pronta. O doutor lhe pôs outra injeção de anestesia e Jonas apertou os lábios com força para evitar amaldiçoar. Jackson o olhava, sem manifestar muita compaixão.

Jonas fechou os olhos e pensou na Hannah. por que não tinha controlado a situação antes de que chegasse tão longe? Amava-a. Não podia recordar uma época em que não a tivesse amado. Simplesmente tinha passado. Amava a forma em que sorria, a forma de sua cabeça, o brilho de fogo em seus olhos, a pequena careta de seu lábio inferior. Emprestava de tanto que a amava. Era um homem que sempre, sempre, queria ter o controle, e ainda assim Hannah o fazia perder o equilíbrio. Não havia forma de controlar a Hannah. Era como o vento, imprevisível e fluída, sempre deslizando-se o entre os dedos antes de que pudesse agarrá-la e retê-la.

O fazia zangar quando havia poucas pessoas que pudessem afetá-lo. Podia acalmá-lo com um toque. Era feliz com só de olhá-la… observá-la… embora a metade das vezes queria ficar o sobre os joelhos e açoitar seu traseiro belamente formado. Hannah era complicada e ele necessitava simplicidade. Era brilhante e ele era todo músculo. Ela era etérea, intocável, a mulher mais formosa que tinha visto… inclusive mágica, e tão longe de seu alcance.

ia ficar furiosa com ele por ter ficado ferido outra vez. Especialmente devido a que a última vez tinha sido somente umas semanas antes e se não tivesse sido por ela teria morrido. Quase tinha morrido tratando de salvá-lo, sentada a seu lado dias inteiros, consumindo sua força com ele e sem reservar nada para se mesma. Tinha estado muito fraco para apartá-la. Necessitava-a ali a muitos níveis distintos, mas tinha sido um inferno observá-la ficar cada vez mais pálida e frágil enquanto o ficava mais forte.

Logo, então, como lhe tinha agradecido? Não da forma em que se merecia, isso seguro. Tinha estado tão nervoso e agitado, tão mal-humorado. Quando o chefe de seu anterior grupo especial de operações encobertas havia lhe contar a Hannah a verdade sobre quanto lhe afetava. Preferia parecer impassível como um menino desafiante. Tudo devido a que a amava tanto que era um tortura e sabia que nunca poderia tê-la e continuar com sua vida habitual. Não era que Hannah fora a pôr objeções às coisas perigosas que fazia… se é que lhe aceitava… mas ele não ia arriscar se a pô-la em perigo. Com o correr dos anos, feito-se suficientes inimigos como para que, cedo ou tarde, indevidamente algum viesse atrás dele… demônios, já tinha ocorrido mais de uma vez.

Tomou ar e tentou não acovardar-se.

—Vale. Pode que tenha razão. Há uma possibilidade de que ela tenha algo que ver com isso.

Jackson arqueou a sobrancelha.

—Uma possibilidade, —repetiu.

Jonas se zangou

—Você segue assim. Estará de volta em cada guarda de merda durante os próximos dez meses. —Era uma ameaça vazia, mas era tudo o que ficava. sentia-se tão malditamente cansado e vazio que só desejava arrastar-se até um fossa e esconder-se durante um tempo, mas sabia o que se morava e não havia forma de evitá-lo.

Jackson esperou a que o doutor abandonasse a habitação antes de arrastar uma cadeira e sentar-se escarranchado sobre ela, de cara à janela e a porta.

—Digo-o a sério Jonas. Vai fazer que lhe matem. Quando recebeu esse disparo estava de pé justo sob a luz, a plena vista. Deve te haver dado conta que estava exposto.

—Karl Tarasov, esse valentão filho de puta, colocou uma fodida bala na cabeça de nosso condutor, Jackson, —estalou Jonas.

—Foi um movimento de aficionado e sabe. —Jackson ficou em silêncio um momento—. Ou suicida. —Voltou a ficar em silêncio, deixando que a palavra flutuasse entre eles.

Jonas suspirou e sacudiu a cabeça.

—Estou fatigado, Jackson, não sou um suicida. É que estava tão zangado. Não tinha que matar ao condutor. Terres não tinha visto nada. Tarasov o fez como advertência. Assim, que se fodam. Só estava muito zangado.

—Não tem porque fazer este tipo de trabalho, Jonas, disse-lhe isso antes. Simplesmente não pode te desligar. Sobrevivemos todos estes anos porque nos mantivemos frios. Não é responsável pela morte do Terry. Ele escolheu conduzir o carro. Em nenhum momento foi tua responsabilidade o perder a nenhum de nossos homens. —Suspirou. Falar não era seu forte e tinha estado fazendo-o muito para manter ao Jonas em pé. Mas isto… isto era importante. Jonas ia fazer que o matassem—. Não pode sobreviver se lhe tira isso de forma pessoal, não neste negócio.

Havia poucos homens aos que Jackson respeitasse… Jonas era um deles. Ao homem nunca tinha deixado de lhe importar. Não importava que as balas voassem e a selva te rodeasse, o voltava a te buscar. Mas a vida na via rápida cobrava pedágio aos homens que se preocupavam muito e estava comendo-se ao Jonas a pedacinhos.

Jonas se passou os dedos pelo cabelo. Jackson tinha razão. Não havia escapatória.

—Sei. —Mas nunca tinha aprendido a cortar. Demônios sim, sentia-se responsável. A metade das vezes não podia dormir, pensando nos meninos, esses jovens Rangers sob seu mando, que havia trazido de retorno em ataúdes. Tinha havido muitos deles, e ultimamente, perseguiam-no tão de noite como de dia.

—Está enredado, homem. Ela te confundiu. vais ter que resolver isto que há entre vós ou não sobreviverá. Se está esperando a tirar-lhe a da cabeça, não te incomode. Conheço-te há já quase quinze anos e ainda não aconteceu. Estava apaixonado por ela nesse então e agora indubitavelmente estas em pior forma. Não tem nem a mais mínima possibilidade de obter que esses sentimentos desapareçam. Ponto final, irmão, com os anos te tornaste cada vez mais insensato. Não pode seguir com essa merda e trabalhar encoberto.

Jonas jurou pelo baixo. Jackson não lhe estava dizendo nada que não soubesse já. Se tratava de negar que estava tão ido, argumentar que ainda podia controlar-se, seria uma mentira. Pensava na Hannah a cada minuto do dia. De noite, quando conseguia dormir, sonhava com ela. Freqüentemente despertava suado, duro como uma rocha, seu corpo ardendo de necessidade, com o sabor dela na boca, seu aroma nos pulmões. Estava piorando, tanto que temia ir-se dormir cada noite. E quando a via, tinha que encontrar algo que a afastasse ou faria algo insensato como arrastá-la a seus braços e então todo se converteria em um verdadeiro inferno. Porque não sábia como ser outra coisa que o que era.

—É condenadamente afortunado de que não tenha encontrado outro homem, Jonas.

—Não recorra a isso, Jackson.

Jackson levanto a cabeça em estado de alerta, o corpo imóvel, repentinamente ameaçador. ficou de pé abruptamente e fez gestos ao Jonas para que se mantivera em silêncio, indo a pernadas de volta à porta.

—Temos companhia

—Tem que estar brincando. —Não se incomodou em lhe perguntar ao Jackson se estava seguro… os instintos do homem lhe tinham salvado várias vezes ao longo dos anos. Jonas se arranco a agulha do braço e se desceu da cama, olhando freneticamente ao redor em busca da camisa. Esta tinha sido atalho em tirita, o tecido atirado no chão em uma pilha sangrenta. Tomou sua jaqueta, colocando os braços nela—. Em que demônios nos colocou Duncan? Karl Tarasov não vai parar até que recupere a prova. Não vai permitir que seu tio caia por assassinato.

Jackson levantou quatro dedos.

—Estarão esperando fora também. Os irmãos Gadiyan estão rompendo cabeças nos buscando.

—Merda. —Boris e Petr Tarasov comandavam a família de infames mafiosos reconhecidos por sua habilidade para lavar dinheiro em qualquer parte do mundo. Suas atividades criminais eram legendárias e governavam com mão sangrenta. Karl, o filho do Pete, e os irmãos Gadiyan, parentes políticos, eram seus executores principais. Que eles estivessem lhe buscando não eram boas notícias.

Instintivamente Jonas olhou para trás à porta, mas Jackson se colocou frente a ele.

—O que temos contra eles é muito importante para perdê-lo. Se quer disparar a estes homens, faremos um pouco de ruído e os atrairemos, guiaremo-los fora daqui para mantê-los afastados dos inocentes, já que não podemos nos permitir um tiroteio neste lugar.

 Jonas sabia. É obvio que não ia pôr aos civis na linha de fogo, mas podia sentir que começava a enfurecer-se, da mesma forma que antes… e dizia muito que Jackson houvesse sentido que devia recordar-lhe Em que demônios os tinha metido Gray? Sabia que o assunto envolvia a uma ou às duas famílias mais proeminentes da máfia russa que operava em São Francisco. Os Tarasov não se incomodavam em ocultar o que eram, deliberadamente aterrorizavam a sua própria gente, tomando sangrentas vinganças se alguém se interpunha em seu caminho. Era sabido que massacravam a famílias inteiras. Boris e Pete Tarasov regiam seu império por meio do medo.

Sergei Tikitin, seu maior rival, preferia manter as aparências de ser um proeminente homem de negócios e integrante da jet set. Queria aceitação e se movia entre os ricos e poderosos, escondendo seus crimes atrás de seu suave sorriso, todo o tempo dando ordens para matar a algum que se opunha a ele. A emboscada tinha sido para a família Tarasov, e nesse momento, Jonas estava bastante preocupado porque se tinha tropeçado com algo muito maior que um par de pistoleiros matando o um ao outro. Fora o que fora, não era bom.

Jurou pelo baixo enquanto enrolava o lençol que havia na maca, a envolvia ao redor do braço e rompia a janela o mais ruidosamente possível para atrair a atenção dos mafiosos, querendo que os seguissem. Limpando os restos trincados, Jonas se içou rapidamente sobre eles, e se fez a um lado para cobrir ao Jackson que vinha atrás dele.

Encontraram-se em um estreito corredor entre as alas do hospital. Era um labirinto, principalmente plano de terra e concreto e de vez em quando um pouco de grama, mas os vários ângulos do enorme complexo podiam proporcionar cobertura. Esperaram até escutar gritos provenientes do quarto em que tinham estado, e logo, agachando-se para evitar as janelas, correram rapidamente Jonas mantendo pressão sobre seu flanco para evitar deixar um rastro de sangue.

Um grito e um selvagem tiroteio lhes indicou que eram perseguidos. Enquanto forjavam seu caminho ao redor dos edifícios, Jonas tratou de recordar os detalhes que tinham filmado. Tinha passado todo muito rápido. Ao princípio os homens tinham estado falando e rendo. Nenhum particularmente especial, ninguém de uma família rival. E subitamente os irmãos Gadiyan e Karl Tarasov se uniram à pequena reunião. Tinham estado na parte de atrás na penumbra onde Jonas não podia vê-los.

Os homens instantaneamente se tinham posto firmes. E quem não, com esse tipo de poder a seu redor. Quando Boris e Petr Tarasov se deixaram ver, tudo seguia parecendo normal… amistoso. Não tinha havido advertência alguma antes de que Karl me separasse de um puxão a um homem do grupo e Petr lhe disparasse.

Jonas desejou poder evocar os detalhes do homem que tinha ido a advertir aos russos. Caminhava rápido, com a cara coberta e apartada, um chapéu impregnado sobre o rosto, grandes óculos de sol embora estava muito escuro fora. Sabia que a câmara estava fixa neles… e isso significava que era alguém de dentro. Tinham um traidor no Departamento de Defesa… alguém subornado pela máfia russa.

Tinha visto a cara do traidor? Jonas o duvidava. Tinha-o tentado, inclusive tinha movido a câmara lentamente para baixo para captar os sapatos, mas então se desatou o inferno. O grupo de homens se girou para eles, tinha chegado um grito de atrás do grupo, ordens ladradas em russo. Os homens tinham começado a disparar, notando-os no lugar. Karl Tarasov se abriu caminho para o automóvel para lhe arrebentar os aros e matar ao condutor.

Algo terrível se elevou dentro do Jonas quando viu o Karl disparar ao Terres na cabeça. Nem sequer recordava ter saído do amparo que o cobria, só a raiva que lhe tinha alagado. menos de meia hora antes tinha estado falando com o Terres a respeito de sua família, da mãe a que amava e mantinha, da esposa grávida de seu primeiro filho, pelo que se divertia mantendo em forma suas aptidões para conduzir, sendo capaz de trabalhar no que adorava sem arriscar-se muito. Felizmente, Jonas tinha estado sobre uma sombra escura e Jackson tinha atirado dele para trás quando as balas impactaram nele.

Demônios. Jonas queria disparar em alguém outra vez. Quantos meninos tinha visto morrer? Por nada. Por poder ou dinheiro ou a ideologia de outra pessoa. Sua visão se rabiscou e se tocou o rosto, ficando comovido quando seus dedos ficaram úmidos. Estava muito velho para isto. O que estava fazendo?

Jackson lhe pôs uma mão no ombro, e ambos se detiveram, agachando-se mais.

—Não pode salvá-los a todos, —recordou-lhe em voz baixa.

Jonas não respondeu. Diabos, não, sabia, mas deveria ter cuidado do Terry. Estava cansado da morte e a fealdade, de como a gente enredava o mundo. E estava malditamente cansado de correr.

—Esta seguro de quantos são?

—Vi quatro, mas não são os que vêm atrás de nós. Só ouço dois e não são muito silenciosos, definitivamente não são Karl nem os irmãos Gadiyan. Temos a outros dois nos rodeando tratando de nos alcançar. Acredito que estão tirando as armas grandes e deixando as dispensáveis atrás.

Jonas comprovou o carregador de sua arma.

—Por que fariam isso?

—Puseram o hospital de ponta cabeça. Alguém deve ter chamado à polícia, —disse Jackson enquanto girava uma esquina. Deixou de correr e fez gestos ao Jonas para que lhe seguisse.

Uma bala golpeou contra a parede atrás deles e derrubou uma chuva de gesso. Ambos se jogaram contra a parede rodando para ficarem cobertos. Jackson foi para a esquerda e arrumou para deitar esmagado detrás de uma baixa parede de tijolos e Jonas se abriu caminho engatinhando através de uma estreita cerca para agachar-se depois de uma reentrância de um edifício de serviços.

—Viu de onde vinha? —perguntou Jackson, o frio olhar esquadrinhava a área circundante.

—Nop. Mas acredito, pelo ângulo do disparo, que foi de cima. —E isso não era bom. O atirador teria uma vista perfeita.

—Exatamente o que eu pensava. Me cubra. —Jackson deslizou rapidamente ao longo da parede de tijolos, até que chegou a uma pequena abertura—. Preparado?

Jonas  tomou a arma com as duas mãos, com o dedo sobre o gatilho.

—Vê. —Manteve os olhos no teto do pequeno edifício de serviços.

Jackson ficou de pé e subiu à parede, evitando a abertura, para mergulhar em uma cerca que corria ao longo do estreito caminho que se encontrava justo debaixo do edifício onde estavam seguros que se escondia o atirador.

Jonas manteve a arma firme, com o dedo no gatilho. Captou um brilho de movimento sobre suas cabeças e apertou o gatilho, uma firme varrida de um-dois-três tiros. Um corpo se balançou por um momento, para logo cair do telhado, uma arma aterrissou sobre metal e deslizando-se para baixo contra o chão.

Jonas manteve a arma fixa no atirador, levantando-se para comprovar o pulso inclusive quando houve uma erupção de disparos a sua esquerda. Viu o Jackson rodou e aproximou-se disparando. O segundo homem recebeu um tiro na garganta e caiu para trás, caindo para jazer de barriga para baixo na terra.

—Pode ser que tenhamos companhia, —disse Jonas—. Ainda há dois deles ali fora.

—Farei um rápido reconhecimento e farei uma chamada, —respondeu Jackson—. Pode identificar a algum destes?

—Definitivamente são soldados do Boris Tarasov, —respondeu Jonas—. Vi a este uma dúzia de vezes nas fotografias de teleobjetiva. Está por toda parte na habitação de guerra contígua ao escritório do Duncan.

Com dois dos mafiosos e o pior do grupo, os Gadiyan e Karl, ainda sem aparecer, Jonas não ia arriscar se, ficou a talher enquanto Jackson subia ao teto para tratar de chamar pedindo reforços. Duncan tinha muito pelo que responder. mandá-los às cegas como se fossem um par de novatos tinha sido uma loucura. Mais importante até, alguém próximo ao Duncan os tinha traído.

—Já chamei, —disse Jackson, que já estava de retorno—. Duncan enviará uma equipe para que façam a limpeza e nos tirei daqui. Não há sinais dos outros dois. Disse que nos mantivéramos fora da vista.

—Quer dizer que nos mantivéramos afastados de sua equipe?

—Isso foi o que entendi.

Jonas murmurou uma obscenidade e se agachou a certa distância dos corpos, enviando uma chamada silenciosa.  Hannah? Está bem? Sabia o que custava a ela gastar tanta energia.

Uma suave brisa fez que as folhas das árvores se agitassem, mas não lhe respondeu. Sentiu que lhe encolhia o peito.

 —Crê que está bem? –perguntou Jonas—. Tentei contatar mas não me responde.

— Hannah? —Jackson guardou silêncio um momento, elevando a cara ao céu—. Sim, está bem. Está fraca mas já sabia que o estaria.

Hannah, me responda. Jonas desprezava o desespero que sentia quando não podia alcançá-la. sobrecarregava-se de adrenalina, o coração lhe pulsava muito às pressas, muito forte. Até lhe secava a boca. Hannah tinha que estar bem todo o tempo ou ele se fazia pedaços, e para um homem em sua situação, isso era uma sentença de morte. Definitivamente devia resolver este assunto.

O vento varreu o edifício, esta vez mais que uma suave brisa. Moveu energicamente as folhas das árvores as fazendo cair no estreito caminho onde estavam agachados para lhe alvoroçar o cabelo e lhe tocar a cara como se estivesse consolando-o. Ouviu seu nome, um suave sussurro de som, um murmúrio no fundo de sua mente. Jonas. Vêem pra casa comigo.

Olhou ao Jackson por sobre o ombro.

—Escutou isso?

—Sim, escutei-o. –Jackson olhou por cima da cabeça do Jonas para a rua, procurando a seus inimigos enquanto esperavam ao homem que os tinha metido em tantos problemas—. Quanto faz que conhece a família Drake? —perguntou-lhe.

—Acredito que as conheci quando tinha sete anos. Minha mãe estava muito doente e me fiz responsável da família sendo muito jovem. Podia ser muito solitário e, quando minha mãe estava mau, era bastante assustador para um menino, assim passava muito tempo em sua casa. As Drake me deixavam ir e vir enquanto crescíamos. Estava acostumado a subir e entrar por uma janela quando a porta do frente estava fechada porque não queria me incomodar em dar a volta na casa para ir pela parte traseira, mas nunca me disseram nenhuma palavra.

—E agora as garotas fazem o mesmo, —disse Jackson.

Jackson estava forçando a conversação para mantê-lo em pé. Jonas sabia que Jackson raramente falava, nem sequer com ele. Não gostava do contato físico, e ainda assim ali estava, com uma mão sobre o dolorido ombro do Jonas, como tinha estado fazendo toda a noite, como fazia cada vez que entravam em combate juntos.

—Sim, são minha família e não as vou arrastar a meu mundo, especialmente não a Hannah.

Jackson lançou um pequeno sorriso sem humor.

—Odeio lhe arruinar isso irmão, mas ela já é parte de seu mundo, todas o são.

Jonas sacudiu a cabeça e se estendeu novamente. Hannah, está sozinha esta noite? Não havia sentido a presença de nenhuma outra energia como normalmente teria percebido se suas irmãs a tivessem ajudado a provocar a tormenta. Onde está Sarah? Hannah necessitava que alguém a acompanhasse depois de toda a energia que tinha gasto. Sentiu seu toque, um pequeno toque tentativo… como se estivesse muito cansada para fazer algo mais. Ainda está , na alameda do capitão? Era difícil manter a conexão, a distância era muito grande, e Hannah estava muito fraca. Ela era a psíquica mais forte e habitualmente mantinha a ponte aberta entre eles.

Jonas sentiu que o invadia a ansiedade.

—Acredito que ainda está na alameda do capitão, Jackson. Está sozinha, com frio e débil. Não há ninguém ali para ajudá-la. Tenho que voltar com ela. —Ela tinha se sacrificado essa noite por ele... por ambos os homens... e não ia deixá-la sozinha, drenada de energia. Precisava entrar, onde estaria abrigada, com uma taça de seu chá especial entre as mãos e Jonas cuidando-a enquanto descansava o resto da noite.

Aguenta, Hannah. Estarei aí o mais breve possível.

Chegou-lhe essa suave brisa outra vez, tão suave, lhe roçando a cara como o contato de dedos. Viria-me bem um pouco de ajuda esta noite.

Essa era uma estranha admissão vindo da Hannah, e o coração lhe deu uma volta.  Estou a caminho, carinho, só me dê um pouco de tempo para terminar com isto. Consegue dar um jeito de entrar em casa? Não queria que ficasse tendida no frio cortante, muito fraco para mover-se. Estava a uma distância de quatro horas de carro, não mais longe que o vôo de um corvo, mas uma larga distância em serpenteantes estradas.

Estarei te esperando.

Para assombro do Jonas, Duncan chegou e os guiou até o carro enquanto, depois deles, seus homens saíam das sombras para assumir o controle da situação. Duncan conduziu através das ruas da cidade de volta a seu escritório, entrando pela parte de atrás. Não lhes levou muito descobrir o que tinham filmado. Duncan estalou em uma inundação de juramentos. Petr Tarasov tinha assassinado a um oficial disfarçado bem em frente de seus olhos. Era o tipo de evidência que podia conduzir a pena de morte sem muito problema.

—Acreditávamos que tinha uma cobertura sólida ante os Tarasov. —Duncan amaldiçoou outra vez e se passou as mãos pela cara.

—Não sente impressiona o fato de que Karl e os Gadiyan continuassem indo atrás de nós e que logo mandassem a seus soldados quando a coisa ficou muito quente. Certo que já estão tentando sair do país, —disse Jonas.

—Petr Tarasov vai se ferrar por isso, —disse Duncan bruscamente, com fúria na voz.

Os três olharam em silêncio, a única reação foi um fôlego de assombro quando o homem do casaco e o chapéu caminhou para o Boris, a cabeça da família criminal, e Boris girou a cabeça para olhar diretamente à câmara.

— Alguma idéia de quem lhe avisou? —Perguntou Duncan com voz tirante—. Necessitamos aos moços do laboratório para que realcem isto o máximo possível. Temos que descobrir quem é esse filho da puta o antes possível.

—Tem que ser um dos teus. Deve ter avisado ao Tarasov de que tinha um agente encoberto e mais tarde se inteirou de que tinha enviado a alguém a filmar a reunião de sob nível. Só que não havia reunião porque a informação que te deu seu agente encoberto foi a sua própria emboscada. Levaram-no ali para matá-lo, —disse Jonas.

—Encontraremos ao filho da puta. Não sabe quem são vocês. Ninguém sabe. Mantive seus nomes fora disto a propósito.

—Porque suspeitava que tinha um vazamento, —adivinhou Jonas, trocando um longo olhar com o Jackson. Sentia-se doente de pensar que tinha estado filmando enquanto outro agente era assassinado diante dele—. Ao menos tem o suficiente para fritar ao Petr Tarasov.

—Bom trabalho, —adicionou Duncan como um segundo pensamento.

—Sim, obrigado, —respondeu Jonas, esforçando-se por ocultar o sarcasmo de sua voz—.Vou.

—Sente-se, Harrington, não vai a nenhuma parte até que agarremos ao Petr Tarasov e estejamos absolutamente seguros de que está a salvo. Perdi a dois homens e não tenho nenhuma intenção de perder a outro mais.

—Obrigado pelo interesse, Duncan, mas já não sou parte de sua equipe e pode estar seguro que não me atará esta noite, —protestou Jonas—. Tenho que ir a um lugar importante.

—Não até que esclareçamos isto, Jonas, —disse Duncan—. Petr Tarasov assassinou a um agente e lhe pegamos com as mãos na massa. Não há maneira de impugnar essa gravação. Temos um traidor no departamento e não vou correr riscos com sua vida. E se isso não é suficiente para ti, Boris Tarasov acredita no justo castigo. Matou vários de seus soldados. Vai querer sua cabeça em uma bandeja de prata e eu me vou assegurar que não sabe quem é antes de deixá-lo ir para casa. Até que agarremos ao Tarasov, vai permanecer oculto.

—Isso não vai acontecer, —disse Jonas—, Não sou parte da equipe, Duncan. Obviamente sabia que tinha a um traidor ou não teria procurado fora da equipe para efetuar este reconhecimento. Suspeitava de seu agente encoberto, que foi assassinado, verdade? E queria que eu conseguisse provas porque acreditava que talvez tivesse um sócio dentro de sua equipe.

—Algo assim, —disse Duncan, com voz tensa—. E não vou arriscar a perder outro agente. Assim a não ser que queira que esta guerra te siga até sua casa, vai ficar aqui até que me assegure que está a salvo.

Jonas abriu a boca para protestar, e a voltou a fechar. Maldito seja. Não queria ficar, mas de nenhuma maldita forma ia arriscar se a levar o banho de sangue do beco a sua casa em Sea Haven. De nenhuma forma se arriscaria a pôr a Hannah em perigo.

—Preciso fazer uma chamada.

—Isso  não vai a  acontecer e sabe, Harrington. Nada de chamadas, nada de e-mails, nem mensagens de texto. Faremos limpamente sem nada que aponte para ti. Tiraremos você pela saída de atrás e lhe esconderemos até que agarremos ao Tarasov e eu esteja convencido de que não tem seus nomes.

— Quem sabia que estávamos no campo de batalha? –perguntou Jonas.

—Ninguém deveria saber. Pedi-lhes ajuda como um favor pessoal e lhes atribuí ao Terres para que conduzisse. Nenhum outro membro da equipe sabia nada do reconhecimento e quero que permaneça assim. Por isso que lhes recolhi pessoalmente e lhes tirei antes de que a equipe entrasse para carregar os corpos. Os russos jogam para ganhar, Jonas.

—Demônios, Duncan, já sei. E o sinto por seus homens. —Não queria pensar muito no Terres nem no fato que um agente tinha sido assassinado a uma distância de menos de quarenta metros dele enquanto sustentava uma câmara. O pensamento o adoecia e não podia sustentar o olhar ao Jackson. Havia vezes, como agora, em que sentia a alma tão fodidamente abatida que não sabia o que fazer. Necessitava a Hannah ou ia afogar se.

—Não vou adicionar você à lista de homens mortos, —decretou Duncan—. Assim aceite, Harrington.

Jonas se desabou para trás na cadeira, passando-a mão pelo cabelo. Estava sujo, exausto, talher de sangue e sofrendo como o inferno agora que lhe estava passando o efeito da anestesia. Olhou ao Jackson, encolheu-se de ombros e se rendeu.

-Hannah. Não vou conseguir voltar esta noite.

 

-Hannah. Não conseguirei voltar esta noite.

Isso foi o último que lhe havia dito, seguido de quatro compridos, paralisantes, terríveis dias de absoluto silêncio. Maldito fora Jonas Harrington, que se fora ao demônio. Tinha terminado com ele. Não lhe ia dedicar outro dia… outra hora… de seu tempo. Tinha desperdiçado a maior parte de sua vida lhe esperando, e se significava tão pouco para ele, era hora de terminar com isso.

Só umas semanas antes quase tinha morrido por causa de uma ferida de bala e quase a tinha miserável com ele, quando ela trabalhou tão desesperadamente em lhe salvar a vida. O que tinha feito o ingrato imbecil para agradecer-lhe foi-se em busca de mais problemas… e havia tornado a encontrar… outra vez.

Tinha sabido o momento exato em que se encontrou em apuros. Sentiu sua dor, como através de uma grande distancia, e soube imediatamente que estava em São Francisco. Assustada além de toda razão, tinha deslocado a alameda do capitão e enviado ao vento para que lhe ajudasse, mas ele não tinha voltado para ela uma vez o perigo teve passado.

Hannah. Não conseguirei voltar esta noite. Nem sequer se tinha incomodado em chamá-la. Nem para lhe dar as obrigado, nem sequer para assegurar-se que estava bem quando sabia a carga que o uso de seus dons lhe custava. Nem sequer para lhe assegurar que ele mesmo se encontrava bem.

Bom, ela não seria a que chamaria. Já tinha tido o suficiente de passar por idiota.

Ia para New York por outro trabalho. Detestava ir, mas tinha um trabalho que fazer, e esta vez, possivelmente não retornasse. Talvez simplesmente tivesse que permanecer afastada de Sea Haven.

A idéia fez que os olhos lhe brilhassem com lágrimas, ficou de pé na alameda do capitão, três andares acima da interminável vista, e olhou fixamente para baixo, ao turbulento mar. A água era formosa à luz da lua; sombras de negro, azul marinho e brilhante prata ondeavam através da superfície. O sereno saltava no ar com cada investida das ondas que se estrelavam contra as rochas de abaixo. Suspirou e apoiou os cotovelos contra o corrimão enquanto olhava à névoa que se acumulava na distância, começando a expandir brincos por cima das rítmicas ondas. como sempre, o mar a acalmava, levando cada gota de sua fúria, para deixá-la em paz, mas triste e pensativa, consciente de que esta vez teria que agir… realmente tinha que pôr distância entre o Jonas e ela.

—Jonas. —Sussurrou seu nome ao mar, permitiu que o vento transportasse o som sobre a água.

O mar lhe sussurrou em resposta, soprando o vapor terra adentro, formando largas bandagens de névoa branca como a neve, por isso pareceu como se um edredom estivesse sendo lentamente estendido por cima do penhasco. A névoa acrescentava um aura de mistério e beleza etérea de noite. estendia-se sobre o mar e até a taça das árvores, e começava a rodear seu lar. Sempre vinha aqui em busca de paz; esta vez tinha vindo em busca de forças para partir.

Murmurou brandamente ao vento e este se elevou agitando-se, saltando sobre a água alegremente, lançando gotas ao ar com o que pareceu que estivesse chovendo diamantes cintilantes. Inalou os aromas do mar. Os redemoinhos de névoa dançaram na ligeira brisa, formando capas sobre a superfície da água.

Hannah permitiu que os familiares sons do mar a apaziguassem. Este era seu lugar favorito em todo mundo. Na totalidade de suas extensas viagens, nunca tinha encontrado outro lugar ao que queria chamar lar. Podia respirar em Sea Haven, sentia-se cômoda com a camaradagem da gente da pequena cidade. Gostava de conhecer todo mundo, poder ir ao armazém e ver caras conhecidas. Achava consolo em Sea Haven, e a cidade estava rodeada pela pura e poderosa beleza do oceano, que sempre lhe proporcionava paz. O mar era constante, confiável, uma fonte a que podia recorrer em seus piores momentos.

Levantou o rosto ao céu, o fôlego se precipitou fora de seus pulmões quando viu três rastros de vapor começando a formar-se em sólidos círculos ao redor da lua. A gente brilhava com um misterioso vermelho, outro de um amarelo apagado e o último era escuro, de um sinistro negro. Hannah ficou em guarda, a prudência substituiu à relaxada expressão sonhadora que lhe tinha contribuído o vento. levou-se uma mão à garganta em um gesto defensivo.

Era uma das sete filhas nascidas de uma sétima filha na família Drake. o dela era um legado de dons especiais… de maldições, dependendo de como os visse um. Hannah podia chamar e comandar ao vento, podia conjurar feitiços e tinha algum talento com as ervas. Podia mover objetos com a mente e ler as folhas do chá e, se tocava a outras pessoas, freqüentemente podia até ler seus pensamentos. Também podia ler na lua e o céu, e nesse momento lhe estavam enviando uma evidente advertência.

—Hannah!

Franziu o cenho quando a voz masculina fluiu para ela de abaixo, de dentro da casa… a casa que tinha sido fechada. Até tinha posto o cadeado à grade outra vez, travando o dispositivo de segurança com um feitiço, mas sabia que não importava… o pesado cadeado devia estar aberto e atirado no chão como sempre ficava depois de que Jonas o tocava. Tinha-o deixado fora de propósito, zangada porque não a tinha chamado, doída porque ela não era importante para ele. Ignorava-a até que necessitava algo e logo a dava por segura.

Não se incomodou em responder. Ele seguiria gritando até que ela descesse, ou pior, subiria a alameda do capitão e lhe daria um sermão sobre segurança.  Com outro cauteloso olhar à lua se apressou a entrar na casa e descer as escadas. Se Jonas estivesse de bastante mau humor, a lua poderia ter estado rodeada pelo apagado amarelo, mas não com três círculos. Algo não ia bem.

Ao saltar os últimos degraus, Jonas saiu de entre as sombras. Tomou pela cintura, lhe cravando os dedos profundamente enquanto a levantava facilmente e a estabilizava, deixando-a de novo sobre seus pés. O momento de breve contato lhe produziu um intenso calor, que atravessou diretamente seu corpo até os ossos. Jonas sempre tinha semelhante efeito físico nela, quando ninguém mais tinha conseguido penetrar sua deliberada fachada altiva.

—Não se supõe que deva me levantar assim, Jonas, —recordou-lhe, apartando-se, mantendo o rosto afastado para que não pudesse ver o rubor em sua cara—. Não faz tanto que saiu do hospital.

—O suficiente, —respondeu-lhe ele, seus frios olhos, avaliando-a, flutuando sobre ela desde sua altura superior.

Seu coração se afundou. Ambos iam fingir que o recente incidente não tinha ocorrido jamais. Jonas não ia dizer que havia tornado a trabalhar para sua velha equipe e ela era muito covarde para lhe exigir respostas. Sentiu o repentino impulso de tornar a chorar. Tinha-lhe enviado ajuda, talvez até tinha salvado sua vida. Suas novas feridas eram recentes… só quatro dias de antigüidade. No momento em que pôs suas mãos sobre ela, tinha podido sentir sua dor… não era como se pudesse lhe ocultar essa informação. Mas não ia ajudar a se curar esta vez. Que sofresse.

Hannah era alta, ainda assim Jonas parecia sobressair sobre ela quando invadia seu espaço pessoal, o que passava quase todo o tempo. Sempre cheirava a campo, fresco, como o mar e o bosque circundante. Era alto, de larguras ombros e fortemente musculoso, e se movia com graça, eficiência e absoluta confiança. E sempre via muito quando a olhava com esses olhos azul pálido. Ninguém a olhava como o fazia Jonas, despojando a de todas suas cuidadosas defesas deixando-a tão vulnerável que sofria quando ele estava perto. De nenhuma forma deixaria que visse quanto a tinha machucado. Esta vez iria… e não voltaria. Sem brigar, simplesmente com dignidade.

Afastou-se, mantendo o rosto afastado. A irritação cruzou o rosto dele e seus olhos faiscaram ao olhá-la, um sinal seguro de perigo.

—Suas malas parecem e leva maquiagem. Nunca usa maquiagem a não ser que vá a alguma parte.

—Desde aí as malas. —Tratou de passar escapando dele, mas Jonas a apanhou contra o corrimão e se viu forçada a deter-se. Hannah olhou fixamente seu impressionante peito e tratou de não sentir-se intimidada. Era tão arrogante e com razão. Não podia resistir nunca tinha sido capaz de fazê-lo. E por que tinha eleito esse momento para aparecer? por que não podia haver-se demorado outra hora? Sempre arrumava para encontrar o momento exato em que ela se sentia mais vulnerável.

—Aonde vai? —tomou o queixo com os dedos, forçando-a a levantar a cabeça.

Brocou-o com os olhos azuis, lhe deixando ver seu chateio.

—Disse-lhe isso a semana passada. Tenho um trabalho. —E é obvio ele não recordava simplesmente porque ela não era o suficientemente importante para ele.

—Disse-te que não fosse. Supõe-se que estas cuidando de mim.

Estava bastante segura de que suas pernas não se derreteram, mas se sentia enjoada por estar tão perto dele. Odiava que desequilibrasse sua calma habitual. Só Jonas podia fazê-la sentir assim de belicosa e assim de necessitada ao mesmo tempo. Seus sentimentos por ele eram muito complicados para decifrá-los pelo que não se incomodava em tratar de fazê-lo.

—Não está em perigo, Jonas, —assinalou—. Só aborrecido. Odeia não trabalhar e está tão resmungão que ninguém mais suporta estar contigo. —E de qualquer maneira está trabalhando, fazendo exatamente o que prometeu que nunca voltaria a fazer. Não disse as palavras em voz alta... não formavam parte do jogo de “fingir que nunca tinha acontecido” ao que sempre jogavam... mas queria fazê-lo. Até sentia o repentino impulso de lhe levantar a camisa e lhe examinar as costelas. Sabia que haveria uma nova ferida ou dois, mas se manteve em silêncio como sempre fazia, deixando que se aproximasse. O leve sorriso que lhe dedicou em resposta, fez que lhe saltasse o coração e se zangou consigo mesma por essa reação.

—Infelizmente isso poderia ser certo. Todas suas irmãs me abandonaram, não só deixando a cidade a não ser o país. Vou morrer de fome. Sabe, não é assim? Se for, não vou conseguir uma comida decente e então como vou sarar?

—Sarah voltará amanhã de sua viagem com o Damon. Fará o jantar enquanto eu não esteja, —disse Hannah e se apartou. Detestava isto, enquanto se afastava, seu corpo se sentiu frio como se o de lhe tivesse proporcionado um incalculável calor e amparo.

O que mais odiava era que estava indecisa entre a risada e o pranto.

—Não vais morrer de fome.

—Eu gosto como cozinha você. E ela não me faz acontecer um inferno como você. Só se chateia e me diz que vá a casa.

Hannah não queria deixar-se cativar por ele. Jonas era tudo o que ela nunca poderia ser… aventureiro, valente, um homem que vivia sua vida com confiança.

—Deveria te mandar pra sua casa, especialmente se for me fazer passar um mau momento. —Deveria fazê-lo, e se tivesse um pouco de têmpera, fá-lo-ia. Lhe deu as costas, enquanto se apressava a percorrer o vestíbulo, temerosa de que pudesse ler a dor em sua cara.

Sentiu sua presença já que a seguia de perto, ia justo detrás dela. Às vezes parecia que sempre sentia ao Jonas, como se fora parte dela, compartilhando sua pele, seu sangue e seus ossos, arrastando-se dentro de seu coração e lhe roubando a alma. Piscou para conter as lágrimas, com cuidado de manter a cara apartada enquanto se abria caminho através da grande casa para a cozinha. Estava tão sensível ultimamente, desde que tinham disparado ao Jonas e quase tinha morrido umas poucas semanas antes. Tinha pesadelos e passava a maioria das noites caminhando ou sentada na alameda do capitão olhando o mar. Tinha que partir precisamente para pôr algo de distancia entre eles e voltar a recuperar o equilíbrio.

Os últimos quatro dias tinham sido um puro inferno. Essa primeira noite tinha esperado durante horas, aterrada por ele. Logo tinha chorado um dia inteiro, esperando junto ao telefone, sem abandonar a casa. E finalmente tinha tido que aceitar que a dava por segura, e que não ia chamar para tranqüilizá-la... ou lhe dizer obrigado... nem sequer supunha que podia estar preocupada. Não lhe importava; seus sentimentos não importavam; quando já não a necessitava, a tirava da mente. Engoliu com força, ardiam-lhe os olhos.

—Por que insiste em ir a Nova Iorque? Nem sequer você gosta de Nova Iorque. São tudo tolices, Hannah. E pode te esquecer de me ignorar como o faz quando não quer me dizer as coisas. Vamos falar. —Jonas lhe rodeou o braço com os dedos.

A ação atraiu sua atenção para a força que ele tinha. Isso definia ao Jonas… força. Ele a tinha toda e ela não tinha nada. Nunca a tinha machucado fisicamente, nem sequer quando estava zangado com ela. E era capaz de lhe zangar em um instante… era o único amparo que ficava.

Como se lhe estivesse lendo a mente, lhe deu uma pequena, impaciente sacudida.

—Não pense que esta vez me vais apartar com suas tolices, Hannah. Temos que resolver isto.

Dedicou-lhe o altivo olhar “por-cima-do-homem” que tinha aperfeiçoado ao longo dos anos em que tinha tido que lutar com sua arrogância.

—Quer dizer que você falasse e se supõe que eu tenho que escutar. Não acredito que haja nada que resolver. Tenho um trabalho e vou a Nova Iorque. Não há nada mais que dizer. —Não podia lhe falar. Uma vez que dissesse as coisas que tinha que dizer, perderia-lhe para sempre. Não haveria marcha atrás, nenhuma esperança. Tinha que aceitar que ela não significava absolutamente nada para ele.

—Sério? —Transladou a mão a sua nuca, os dedos lhe roçando a pele intimamente e enviando um conhecido estremecimento através de seu corpo.

Estava bastante segura de que o fazia a propósito, de que sabia da reação física que lhe provocava, mas não podia estar segura assim tomou o caminho do covarde e simplesmente deu os poucos passos que a separavam da cozinha.

—Farei-te algo de comer.

—Mas você não comerá. —fez uma declaração, concisa e áspera… acusadora.

Tomou ar e o deixou sair, indo direta para a cozinha para pôr a chaleira ao fogo. Jonas se deteve a meio caminho em metade da habitação e pôde sentir seu penetrante olhar sobre ela, exigindo uma resposta.

—Tenho um desfile, Jonas.

Ele disse algo desagradável pelo baixo e ela ficou rígida.

-Não voltarei a discutir isto contigo outra vez, Jonas. Sou modelo. Tenho um trabalho. Não tem porque gostar do que faço, mas é meu trabalho e mantenho minha palavra quando digo que estarei ali.

—Não tenho que gostar, Hannah, tem razão a respeito disso, mas considerando o que te faz, ao menos você teria que gostar de e não é assim. Não te incomode em me mentir. Vejo mentirosos todos os dias em minha linha de trabalho, e um menino o faz melhor que você.

Ondeou a mão para a cozinha, muito cansada para discutir com ele e fazer chá ao mesmo tempo, embora o ritual habitualmente a acalmava. A cozinha se acendeu, ardendo em um círculo de pequenas chamas, a chaleira assobiando sua advertência instantaneamente. Levantou a chaleira e verteu água na bule, pressionando os lábios para evitar lhe dizer que se fosse. Não queria que se fosse, queria que se sentasse tranqüilamente e tomasse chá com ela. Necessitava que se sentasse tranqüilamente e falasse com ela. Antes de que se fosse, tinha que assegurar-se que estava ileso.

Arriscou um rápido olhar. Estava um pouco pálido, cansado, as linhas gravadas no rosto, mas duro como os pregos. Esse era Jonas. Duro como uma rocha. Não necessitava a ninguém, e a ela menos que a ninguém. Era um penugem para ele, nada mais. Sempre deixava isso claro. Sua vida se estava desmoronando e ele era como o mar, uma constante, uma âncora firme com a que contava.

—Simplesmente não pode resistir a ser uma boneca Barbie, não é assim? —disse amargamente.

—Por que tem que fazer isso, Jonas? —voltou-se, com fúria e dor murchando seus olhos—. Eu nunca me burlo de que seja xerife. Poderia fazê-lo, sabe. É autoritário e arrogante e crê que pode controlar a todo mundo e lhes dizer o que devem fazer. Eu não gosto que arrisque a vida, mas o faz também, e nunca te peço que deixe de fazê-lo. —E não o tinha feito. Suas irmãs sim, mas ela tinha permanecido em silêncio, rezando para que o prometesse, mas lhe apoiando fora qual fora a decisão que tomasse—. Entendo que esse é quem é você, quem tem que ser. Por que não pode me outorgar a mesma cortesia?

—Quer que aprove o que exiba seu corpo a cada louco no mundo? Isso não vai ocorrer, carinho. É extraordinária e sabe. Ninguém tem o aspecto que tem você, e seu rosto e seu corpo são reconhecidos em todas partes, por todo mundo. Não acredito que haja uma pessoa neste mundo que não conheça seu rosto. Fala de correr riscos. Eu arrisco minha vida para ajudar a outras pessoas. Você arrisca o teu só para que todo mundo possa ver o bem que te vê.

—Alguma vez te ocorreu pensar o absolutamente egoísta que pode ser, Jonas? —girou-se para enfrentá-lo, com as costas contra a bancada. Estava um pouco horrorizada pela violência que brotava dela. Tinha vontade de esbofetear seu arrumado rosto.

Desde perto sempre a impressionava com seu tamanho. Estava tão perfeitamente proporcionado que não sempre notava sua altura, mas ao estar tão perto dela, olhava-a para baixo, tinha ombros amplos e o peito resultava algo lhe intimidem.

Aproximou-se inclusive mais, de forma que seu corpo se apertasse contra o dela, enjaulando-a, seu ardor esquentando-a.

—De que forma estou sendo egoísta ao te dizer umas quantas verdades, Hannah?

—Vai ao inferno, Jonas.

—De volta a ti, carinho.

Tomo um fundo fôlego e o deixou sair, o ar vaiando entre os dentes.

–Suponho que a algum nível sempre soube que não me valorizava muito, mas do que não me dava conta até agora é de quanto desprezava o que sou. -Endureceu-se para deixá-lo ir… abandonar seus sonhos–. Quero que vá. E por favor respeita o fato que não quero verte durante um tempo, Jonas. Sei que é parte de nossa…

—Te cale, Hannah. Só fecha a maldita boca.

Olhou-o fixamente, comovida, aturdida pela absoluta fúria que denotava sua voz, o cru desejo que obscurecia suas facções, esculpido profundamente em cada linha de seu rosto. Jonas tomou pela cintura e atirou de seu corpo para atraí-lo contra o dele.

—Crê que não desejo ir? —Lhe deu uma pequena sacudida—. Sabe perfeitamente bem que não posso. Não posso respirar sem ti. Não poderia te deixar nem que o tentasse. Aceitei o fato de que conjurou um de seus malditos feitiços e estou perdido… sempre estarei perdido. Assim se me zango um pouco contigo quando te tira a roupa para o mundo, então, maldita seja, bem poderia suportá-lo.

Por um momento não pôde pensar nem respirar. Acabava-a de insultar além do imaginável, mas…

—Que está dizendo, Jonas? Trata de me convencer de que está interessado em mim como mulher? —Mediu detrás dela procurando o balcão, temerosa de que pudesse desmaiar de pura impressão. Havia um terrível zumbido em seus ouvidos e seu fôlego se ficou apanhado em seus pulmões, negando-se a mover-se através de seu corpo. Seu coração começou a acelerar-se, correndo como se pudesse sair-se o do peito. Começou a tremer incontrolavelmente, seu corpo sacudindo-se, os dedos dos pés e das mãos lhe formigando enquanto arfava, sufocando-se, incapaz de inalar.

—OH, demônios, —murmurou Jonas. Logo mais alto e mais autoritariamente—. Respira, Hannah.

—Minhas irmãs… —grasnou.

—Não estão aqui, carinho, mas estou eu e não vou deixar que nada te passe. Sabe que caminharia sobre fogo por ti. —Jonas lhe empurrou a cabeça para baixo—. Só está tendo um ataque de pânico, doçura, não é nada, tiveste-os antes. Só relaxe e respira. Faz essa coisa que faz com os números.

Como sabia isso? Seu coração começou a pulsar ainda mais rápido. Suas irmãs a tinham ajudado a ocultar sua condição durante anos, não obstante agora estava tendo um ataque de pânico completo diante do Jonas, a única pessoa ante a qual se esforçou o inexprimível por ocultá-lo. E ele sabia. Até sabia as pequenas coisas que fazia para tratar de sobrepor-se aos ataques.

Hannah se afundou até o chão, com as costas contra o balcão, e elevou os joelhos, fechando os olhos e forçando a sua mente a apartar do terror. Tratou de lhe afastar, desejando que se fosse e não testemunhasse a absoluta humilhação de ser tão covarde. Não havia nada do qual sentir-se aterrorizada… e entretanto lhe ocorria todo o tempo.

Jonas se sentou no chão a seu lado, levantando seus próprios joelhos, seu ombro roçando o dela. Brandamente lhe apartou com os dedos a massa de encaracolado cabelo.

Isto   é o que te passava na escola, verdade? Todos esses anos em que todo mundo acreditou que foi uma esnobe, estava ocultando o fato de que tinha ataques de pânico.

Seus dedos lhe deslizaram pelo pescoço. Fortes. Seguros. Tão como ele. A lenta massagem a distraiu como nada poderia havê-lo feito. Inclinou a cabeça contra a parede e deixou que seus dedos obrassem a magia.

—C-começaram o p-primeiro dia na creche. —Forçou as palavras para que saíssem, gaguejando… o que mais odiava por cima de todo as demais-. N-não queria ir. Podia haver f-ficado em casa outro par de anos, mas mamãe e papai pensaram que devia ir à e-escola porque já podia ler e fazer contas a um nível de quarto grau. Assim insistiram.

Sua voz era tão baixa que ele tinha que esforçar-se para ouvi-la. mordeu-se sua primeira resposta furiosa. Atacando a decisão que seus pais tinham tomado anos atrás não ia conseguir outra coisa que contrariá-la ainda mais. Toda comunicação com a Hannah era com muita tentativa se não estava rodeada por suas irmãs. E se estava gaguejando diante dele, devia estar realmente contrariada. Havia levado muitos anos de frustrações descobrir o segredo da Hannah e o fato de que suas irmãs a ajudavam a falar em público.

Tomou um fundo fôlego e o deixou escapar, continuando com a suave massagem na nuca, aliviando a tensão e o medo que havia nela. Pela primeira vez, não fugia dele e estava decidido a não perder esta oportunidade.

—Eu sou parte da família, verdade? Por que não me disse isso? —apartou a dor, muito mais a gosto com seu temperamento. Tinha estado zangado durante muito tempo, a conta dela… e com ela.

—M-me sentia humilhada por não p-poder controlá-lo. —fez uma pausa, inalando uma grande baforada de ar e forçando-se a deixar de gaguejar. Suas irmãs a tinham ajudado um ou dois dias antes, e se só permanecia acalmada e falava devagar, estaria bem-. Alguém como você, Jonas, alguém que exerce tanto controle sobre tudo nunca poderia entender o que é estar tão fora de controle… tão assustado de tudo. Não acredito te haver visto nunca assustado de nada nem de ninguém.

Não estava lhe olhando, e sua voz, tão baixa e desamparada, rompeu-lhe o coração.

—Talvez não, Hannah, talvez não tenho nenhuma maldita esperança de entender pelo que acontece, mas o me deixar fora não vai ajudar. Quero te apoiar. Quero que confie em mim.

Hannah o olhou, com os olhos muito abertos, lágrimas banhando-os, mas sem chegar a cair.

—Confio em ti, Jonas.

O negou com a cabeça.

—Não, não o faz. Não realmente. Pensou que burlaria de ti, verdade?

Pressionou-se a mão contra o estômago.

—Odeio-o. Odeio que me veja tão… tão… covarde.

—É assim como te vê ti mesma? Uma covarde? —manteve sua voz aprazível, quando em realidade desejava estrangulá-la. Era a última pessoa na terra que pudesse qualificar-se de covarde. Por que continuava vendo-se si mesmo tão negativamente todo o tempo?

—Sabe que o sou. Inclusive me chamou coelho quando estava no hospital.

—Estava drogado e raivoso como o inferno. Alguém me tinha disparado, Hannah, e você e suas irmãs estavam em perigo. Sabia que me estava dando sua força. Sentava-se ali dia detrás dia te pondo cada vez mais pálida e débil enquanto eu me fortalecia. Isso me voltava louco. Ainda me volta louco quando penso muito nisso.

Inclinou-se mais perto, lhe emoldurando a cara com as mãos, e lhe disse a verdade como a conhecia.

—Supõe-se que eu devo cuidar de ti. Essa é a forma em que funcionam as coisas em meu mundo. Talvez é machista ou qualquer que seja o termo oficial, mas eu gosto de cuidar de ti e de suas irmãs. Não quero que seja ao reverso, especialmente quando posso ver como te apaga.

Percorreu-lhe a bochecha com a gema dos dedos, riscando a forma de seus lábios e se inclinou para roçar o mais doce dos beijos sobre sua boca.

Surpreendida, elevou as pestanas e seu olhar se chocou com o dele. Seu coração quase deixou de pulsar. Um pequeno toque e ela quase se derrete, perdoando-o tudo, cada insulto, suas maneiras cansativos e arrogantes. Lhe perdoando por deixá-la sozinha, assustada e zangada os últimos quatro dias.

—Me devolva o beijo, Hannah, -instigou-a, com dor na voz.

Ao ouvir essa crua necessidade seu corpo respondeu, embora seu cérebro lhe dizia que tinha que haver algum engano. Sua boca era magia pura… igual ao resto. Escuro e sensual e tão suave quando todo o resto nele era duro. Ninguém a beijava como Jonas, estava absolutamente segura disso, sua língua deslizando-se contra a dela até que esteve perdida em seu sabor e aroma e sua pura sensualidade masculina.

Cavou-lhe a cara com a mão, o polegar deslizando-se pela pele, seu corpo aproximando-se, os braços apertando-a possessivamente. Era gentil, terno inclusive, e se sentiu querida… desejada e amada.

Jonas levantou a cabeça e a olhou, aos grandes olhos azuis. Um homem podia perder-se ali, apanhado até o final dos tempos… e lhe tinha acontecido. Nem sequer lhe importava. Não queria escapar. Suas pestanas eram loiras, mas espessas e curvadas e tão condenadamente femininas que fazia que lhe doesse por dentro. Sua pele era a coisa mais suave que jamais houvesse meio doido. Era tão delicada, tão frágil. E o olhar em seu rosto, a via assustada dele, mas o desejava. Via-o ali, junto com o medo.

Podia tratar com seu medo. Só tinha que ir lentamente, sem deixar que ela notasse que queria devorá-la, compartilhar sua pele, encerrar-se dentro dela até que todos os problemas do mundo se terminassem e encontrasse a paz novamente. Só tinha que controlar-se… e acaso não era famoso por seu controle?

Riscou sua clássica estrutura óssea com os dedos, tratando de absorvê-la dentro de sua própria pele. Ninguém tinha uma estrutura óssea como a dela… era uma das coisas que a tinha feito tão famosa e solicitada. Sua pele era tão suave como parecia, tão perfeita que sempre se maravilhava ao ver o rastro de suaves sardas que cruzavam seu pequeno e reto nariz. Sua boca era luxuriosa, feita para ser beijada, feita para fazer que um homem caísse de joelhos, para lhe dar mais agrado do que jamais poderia merecer. Tinha tido suficientes fantasias a respeito de sua boca para encher uma biblioteca.

Equilibrou seu peso, e aproximou a cabeça as escassas polegadas que os separavam para tomar sua boca novamente. O que tinha estado pensando sobre o controle? No instante em que se afundou dentro de seu escuro calor, sua língua acariciando a dela, tomando sua doçura, saboreando-a, soube que ia perder todo o controle rapidamente. Necessitava mais, necessitava sua pele contra a dele, seu corpo envolto apertadamente ao redor do dele. Sempre tinha sabido que seria assim, nunca nada seria suficiente até que a tivesse toda… até que cada polegada de lhe pertencesse.

Ela tremeu, algo entre o desejo e o medo. Deteve a mão que se avançava pouco a pouco por debaixo da blusa e se retirou para olhá-la outra vez.

Hannah tomou um fundo fôlego e lhe dirigiu um sorriso tentativa.

 —Vêem comigo a Nova Iorque, —convidou-o, com um olhar tímida, esperançosa , o convite era inesperado-. Vê o desfile de modas e o que faço.

Tudo nele se imobilizou. Separou-se dela, pondo espaço entre eles porque seguro como o inferno que não podia tocá-la agora e desejá-la, não, necessitava, fazer justamente isso e seria desastroso. Hannah era empática e repentinamente se colocaram em terreno perigoso.

—Não posso ir a algo como isso. —encolheu-se ante a súbita aspereza de sua voz, mas maldita fora, tinha-o surpreso. Nunca tinha sugerido sequer que a acompanhasse. Não se atrevia a aparecer em público com ela. Duncan estava seguro de que ninguém tinha deixado escapar seu nome, mas Jonas não se arriscaria com a vida dela.

A cara dela se fechou, a esperança retrocedeu. Assentiu.

—Entendo.

—Não, não o faz. Quero que fique em casa, Hannah. Vê, não há razão para que vá. Fique aqui onde pertence.

Comigo. Fica comigo. Me salve. Seja meu tudo.

—Tenho um trabalho.

Era um argumento desgastado e ambos sabiam. Ela suspirou e sacudiu a cabeça, seus largos cachos em espiral se dispersaram em todas direções. Algo na forma em que a via tão derrotada, rasgou-lhe o coração.

—Hannah, iria contigo, mas não posso. —Houve uma dor involuntária em sua voz. Sabia que deveria soar duro e zangado e deixá-la pensar que tudo era devido a que ela expor seu corpo, mas o lamento estava ali e ela era muito rápida absorvendo coisas para ignorá-lo. Não deveria ter vindo aqui estando tão cansado e decaído e necessitando-a, mas agora era muito tarde.

A suspeita subiu até a expressão da Hannah e uniu ambas as mãos contra seu peito, lhe colocando uma palma sobre o coração antes de que pudesse fazer nada para evitá-lo, maldição. Sentiu seu espírito mover-se contra o dele. Se alguém lhe tivesse perguntado, teria negado a conexão, mas com a Hannah a sensação sempre era forte. Lançou bloqueios mentais tão rápido como pôde, uma prática que tinha começado anos antes quando se deu conta de que ela podia “lê-lo” a vontade, mas Hannah era muito rápida. Rasgou através de sua mente antes de que pudesse levantar os escudos e tivesse exposto seus mais escuros segredos. Suas mãos se deslizaram abaixo da camisa para a ferida em seu flanco. A palpitação se deteve instantaneamente, ao mesmo tempo que a cara dela cara se ia pondo cada vez mais pálida.

Jonas apanhou suas mãos e as tirou de cima. Que curasse suas feridas não era algo que desejasse dela. Tinha-o feito uma vez e se ficou tão frágil que ainda não estava completamente recuperada.

Ela se afundou novamente contra a parede, as mãos caindo aos flancos, lhe olhando fixamente com seus grandes olhos azuis, o silêncio se alargou entre eles, a tensão cresceu até que desejou golpear a cabeça contra a parede devido à frustração.

—Jonas…

Levantou a mão.

—Não o faça. A sério não o faça, Hannah. Não falaremos disto.

Seus olhos se acenderam ao olhá-lo. As chamas, que não tinham estado ali antes, rangeram na chaminé. Os queimadores da cozinha saltaram até converter-se em anéis de fogo, brilhando ao vermelho vivo, e soube que tinha problemas.

 –Vamos falar disso, Jonas. Prometeu-nos isso.

—Não o prometi. Prometi que não ia trabalhar mais no Departamento de Defesa e não o estou fazendo… estava.

—Estas trabalhando encoberto, você, mentiroso, e é perigoso como o inferno. –Sua voz vaiou, um látego de fúria que só Hannah podia esgrimir contra ele. Podia açoitá-lo cruamente com sua decepção e seu medo. E estava assustada. Exalava medo, a emoção se derramava fora dela como se houvesse aberto um dique de par em par.

—Estava me voltando louco, Hannah, e me pediram que fizesse um pequeno trabalho para eles.

Ficou em silêncio um momento, seus olhos azuis lhe olhando fixamente diretamente aos seus.

—Essa não é a verdade. Me diga a verdade.

Suspirou e se penteou cabelo com os dedos em um gesto de agitação.

—Olhe, carinho, embora queira fazê-lo nem sempre posso contar isso.

—É por isso que continua desaparecendo. De que se trata tudo isto, Jonas? Parecia que tinha superado todo isso, ao aceitar o posto de xerife em Sea Haven. Foi feliz outra vez. Levou-te tanto tempo depois de que retornasse. —Era verdade, havia vezes em que sua aura tinha estado quase negra, e quando o tocava, embora fora um breve toque de sua mão contra ele, a empática nela retorcia devido à opressiva escuridão que havia nele.

Que podia lhe dizer? Sua existência tinha sido uma larga vida cheia de morte e destruição, o lado mais sórdido da vida, os desfeitos, os Senhores da droga, terroristas e mafiosos. retirou-se a Sea Haven precisando trocar sua vida antes de afogar-se no sangue, o açougue e a violência da que nunca parecia capaz de apartar-se. Como podia lhe dizer que ela tinha que lhe salvar? Isso a assustaria a morte, mas era a verdade. Às vezes passava que era muito para permanecer sentado e não fazer algo real, como pôr sua vida em jogo, e a necessitava para que lhe levasse de retorno do bordo do precipício.

Como podia explicar quão verdadeiramente insensato podia ser? Quando tinha visto como matavam ao Terry, tinha saltado a plena vista, sem cobertura, e tinha começado a disparar aos atacantes em um cego arrebatamento, com uma fúria que se localizava em alguma parte entre o gelo e o fogo branco, querendo matá-los a todos. Hannah sairia fugindo e não poderia culpá-la. Demônios, a metade das vezes não podia entender porque fazia nenhuma destas coisas que fazia. Só sabia que quando estava com ela, quando podia vê-la e cheirá-la e respirá-la, sua vida tinha prudência e significado.

Teria que ser como Jackson, capaz de cortar todas as emoções e fazer o trabalho, mas nunca tinha dominado essa arte. preocupava-se com seus homens, por seus ajudantes, pela gente a que protegia. Demônios. Até se preocupava com as famílias dos homens aos que matava. Não podia desconectar-se,nunca tinha sido capaz de fazê-lo... e era excelente no que fazia, assim que seu antigo chefe sempre estava preparado para lhe confiar outro trabalho.

—Jonas, —repetiu Hannah gentilmente, os dedos lhe roçando o rosto—. O que passa?

Havia desespero em seus olhos, lhe via fora de si, sofrendo, não fisicamente, a não ser pura dor emocional, seu coração pulsava muito rápido, seu corpo estava quase rígido. estava-se aferrando a ela com muita força, seu apertão a machucava, quando sempre, sempre , era suave com ela.

 

Hannah não sabia o que dizer para aliviar a dor do Jonas. Ainda não entendia do todo seu desespero, mas via que estava em um ponto limite e isso a emocionou. Jonas era uma rocha em que todos se apoiavam. Todo mundo. Todos e cada um dos habitantes de Sea Haven. Gente ao longo de toda a costa. Os ajudantes. Os bombeiros... Jonas Harrington era o homem a quem acudir quando havia problemas, porque encontrava a forma de te tirar deles. Pela primeira vez, Hannah podia ver que Jonas tinha um verdadeiro problema e não por uma ferida que ameaçasse sua vida.

—Não entendo o que acontece. Me faça entendê-lo.

Fechou os olhos, apartando a vista, mas não havia forma de desconectar seus sentidos. Ela estava em todas partes, em seu interior e não podia liberar-se.

—Estou perdido sem ti, Hannah.

E que Deus lhe ajudasse, era certo. Tinha estado caindo durante muito tempo e fora perigoso ou não, ela tinha que lhe arrastar de volta à luz, onde pudesse respirar de novo. Abriu os olhos, olhou aos seus e se encontrou apanhado neles.

Hannah se ajoelhou no chão frente a ele e emoldurou sua cara com as mãos. Seu coração pulsava tão forte que teve medo de sofrer outro ataque de pânico. Estava-se oferecendo, e se ele a rechaçava, romperia-lhe o coração sem remédio. Ficaria destroçada. Mas encontrar a forma de aliviar essa expressão em sua cara, em seus olhos, isso era quão único importava agora, não seu orgulho ou seu medo.

Apoiou-se nele e beijou a comissura de sua boca. Ele ficou muito quieto, contendo o fôlego. Beijou-o no outro extremo, esta vez deslizando a mão até sua nuca para sustentá-lo. Mordiscou seu queixo, o lábio inferior, imprimindo mais beijos ao longo da mandíbula.

Jonas gemeu e seus dedos se deslizaram pelo cabelo dela, lhe inclinando para trás a cabeça, sua boca aferrando-se a dela. Simplesmente tomou o que lhe oferecia e ao diabo as conseqüências. Tinha que possuí-la. Sempre tinha sabido que Hannah era a única para ele. Todas as demais mulheres empalideciam a seu lado.

Poderia beijá-la eternamente. A sedosa calidez de sua boca e seu sabor doce se convertiam em um vício. Uma vez tinha pensado que, se a beijava, sua necessidade desapareceria, mas agora sabia que beijá-la eternamente não ia ser o bastante. Beijou-a uma e outra vez, aprofundando mais, com beijos mais eróticos. Lhe seguia voluntariamente, devolvendo os beijos, deslizando as mãos sob sua camisa para lhe tocar a pele nua. Seu corpo se sacudiu, endureceu-se, estremeceu-se de necessidade, mas não podia deixar de beijá-la, tomando sua boca, a língua indagando profundamente, desejando seus suspiros, necessitando que o beijasse em resposta com o mesmo desejo crescente, tão forte, tão cru, que lhe rasgava o coração.

Tinha que saborear sua pele, sua boca se separou da dela, só um pouco, seguindo o contorno da cara. Usou os dentes, uma pequena dentada, sentiu sua reação em resposta e continuou descendo por sua larga, formosa garganta. Tinha sonhado percorrendo-a com a boca. Provavelmente não havia nenhuma polegada quadrada sua com a que não tivesse fantasiado e ia explorar cada centímetro.

O corpo dela tremia contra o seu e se obrigou a retroceder, respirando profundamente, pressionando a testa contra a dela, mantendo-a perto.

—Tenho medo, Jonas —admitiu—. Isto poderia ser um terrível engano, um que nunca poderemos desfazer.

Não se retraiu. Não podia perdê-la agora. Não podia. Estalaria em um milhão de pedaços e nunca se recuperaria, nunca encontraria todas as peças para as juntar de novo. Demônios, estava já tão confuso, que Hannah era sua última esperança. Necessitava-a desesperadamente.

—Não dormi em quatro dias, Hannah. Para falar a verdade, em semanas. Não posso deter meu cérebro e me afogo.

Queria calar-se. Era quase seguro que algo que dissesse faria que ela se assustasse ainda mais, mas não podia deixá-la partir, nem podia retirar suas palavras. Suas mãos lhe aferraram os braços, pressionando profundamente com os dedos. Sua boca lhe tinha deslizado para o doce esquecimento até que tudo no que podia pensar era em estar profundamente em seu interior, com seu corpo lhe envolvendo apertadamente.

Sentia que ela o olhava fixamente. Seu coração pulsava tão forte que temeu que hiperventilaria de novo. Abruptamente se levantou, tomando a decisão que deviam ter tomado ambos faz muito tempo.

—Quanto tempo tem antes de sair para o aeroporto?

Por um momento, ela não pôde falar. A enormidade do que estava fazendo a golpeou. Já sabia que seria impossível para alguém como ela viver com ele. Se fazia isto, como poderia lhe olhar à cara dia após dia quando ele viesse a sua casa? Como sobrevivia se ele a evitava?

—Jonas… — se interrompeu, permanecendo perto de seu calor, desejando-o com cada célula de seu corpo—. Se fizermos isto, não há volta atrás. Não poderemos fingir que não ocorreu. Se não der certo…

Passou-lhe o braço pela cintura e a puxou contra ele. Não ia deixá-la partir. Tinha-a esperado mais da metade de sua vida. Agora que ela o estava olhando realmente, agora que seus olhos diziam sim e seu corpo se mostrava suave e flexível e se amoldava contra o seu, não estava a disposto a deixá-la escapar. E que diabos estava dizendo? Sempre tinha sido dela. Sempre. Ao longo dos anos, quando outros homens se aproximavam dela, tinha-os afugentado imediatamente.

Jonas a manteve apanhada contra ele, deixando que seu corpo lhe dissesse o que necessitava. Estava farto de palavras. Podia lhe dizer tudo o que necessitava com as mãos, a boca e todas as demais partes de sua anatomia.

O corpo dela se fundia com o seu, embora inclinou a cabeça para trás, com um olhar inseguro.

—Não sei nada absolutamente sobre sexo, Jonas.

Lhe sorriu abertamente, a risada lhe marcava rugas ao redor de seus olhos.

—Eu sei o suficiente pelos dois, carinho. Não tem que preocupar-se por isso.

Não pôde evitar um ponto de satisfação na voz ante a idéia de que não tinha havido outro homem. Não havia se sentido assim desde a primeira vez que a viu e ela ameaçou lhe convertendo em sapo; as rãs podiam ser príncipes e ele não era um príncipe.

—Sarah não está em casa esta noite, verdade?

—Não. Ela e Damon saíram a alguma parte, voltará amanhã pela tarde.

—Assim temos a casa para nós sozinhos?

Ela assentiu e a beijou outra vez, encontrando sua boca perfeita com a sua e inundando-se em sua erótica calidez. Enterrou os dedos profundamente na sedosa juba, tomando dois punhados, mantendo-a muito perto para absorver a textura de um comprido friso, enquanto a explorava e beijava mais e mais profundamente. Queria viver aqui, com ela, em sua magia e seu mistério para sempre.

Podia sentir seu crescente desejo, mas também havia medo, incerteza. Jonas a atraiu mais perto de seu corpo e enterrou a cara em seu pescoço.

—Necessito-te, Hannah. Nunca pensei que alguma vez seria o suficientemente homem para admiti-lo ante ti, mas o faço. Necessito-te em minha vida.

Ele a debilitava com sua boca dominante e a força de seus fortes braços rodeando-a, mas foram suas palavras, em voz baixa e rasgada, as que a deixaram indefesa. Necessitava-a. Jonas, o forte, do que todos dependiam em Sea Haven, necessitava-a a ela. Ninguém o tinha feito nunca. Sentiu seus músculos ondeando sob a camisa e quis sentir a textura de sua pele. Queria o calor de seu corpo e sentir suas mãos movendo-se sobre ela, fazendo-a sua. Desejava desesperadamente pertencer a Jonas Harrington.

Embora fora só por uma noite. Faria-o e ao diabo com as conseqüências. Talvez em outro momento de sua vida esteve tão confusa que não sabia o que queria, mas isto era diferente. Isto, “a ele”, desejava-o com cada fibra de seu ser. Sempre o tinha feito. Ele era parte dela, tão entrelaçado com sua vida, com sua família, com sua mesma existência, que não podia imaginar um mundo sem ele a seu lado.

Hannah tomou fôlego, expulsou-o e confessou.

—Nunca estive com ninguém, Jonas. Não tenho experiência como todas suas outras mulheres.

Sua sobrancelha subiu rapidamente, um sorriso apenas perceptível suavizou o bordo duro de sua boca.

—Minhas outras mulheres? Não tenho outras mulheres. Foste você e só você a muito tempo.

Anos atrás, quando Hannah tinha sido tão arrogante e altiva, tão bela que doía olhá-la, tinha tratado de provar a si mesmo que podia conseguir a qualquer mulher que quisesse. O problema era que, uma vez que as conseguia, não eram Hannah e ele não as queria. Suas "mulheres" tinham sido uma sucessão de ligue de uma só noite, fugazes relacionamentos satisfatórios, embora finalmente vazio sexo, depois das quais sempre jazia na cama, duro como uma pedra e fantasiando com a Hannah. Sim. Não se orgulhava disso, mas não podia retornar e voltar a viver esses dias.

—Só estou dizendo… —interrompeu ela, ruborizando-se.

—Não se preocupe, carinho. Posso desejar te despir e tomar rápido e duro, mas há uma parte de mim que precisa ir devagar e saborear a cada segundo que estou contigo.

Apartou o cabelo de seu pescoço e a beijou, roçando-a ligeiramente com os lábios e logo com a boca aberta, a língua formando redemoinhos e seus dentes encontrando interessantes lugares para morder e saborear.

De repente não podia suportar não estar pele com pele e se ia fazer isto bem, teria que ter paciência. Queria lhe dar umas lembranças que nunca pudesse esquecer. Tomou em seus braços e a subiu pelas escadas até seu dormitório. Não queria que se metesse em sua cama de novo sem pensar nele... neles...  sem desejá-lo.

Sentou-a, não na cama, a não ser no alto da cômoda de carvalho, rodeando o corpo entre suas coxas. inclinou-se, tirou-lhe as sapatilhas e as deixou cair ao chão. Havia ansiedade nos olhos dela, mas não lhe deu tempo para pensar, inclinando-se para frente, a palma rodeou sua nuca enquanto seduzia sua boca, a língua se deslizou com úmido calor, os dentes atiraram de seu carnudo lábio inferior.

Hannah o era tudo para ele. Sempre o tinha sido. Tinha-a desejado quando ela era muito jovem ainda para considerar possuí-la. E tinha sonhado com ela quando estava longe, no Afeganistão e na Colômbia. Ansiava-a dia e noite. Do momento em que retornou para casa, tinha estado em um constante estado de excitação. E não tinha havido uma maldita coisa que pudesse fazer. até agora.

No momento em que se aproximou dela, precisou tocar sua pele. Ninguém tinha uma pele como a de Hannah. Deslizou a mão por sua cara, saboreando a sensação de seda viva, ardente e tão suave que quis afundar-se nela para sempre. deleitava-se na escura maravilha de sua boca esmagada baixo a dele.

—Não tem nem idéia de como te desejo, Hannah. -Sua mão tremeu ao deslizar a palma do pescoço até o peito. Ao momento os mamilos se contraíram, duros e empinados sob sua mão. Conteve o fôlego quando ela umedeceu o lábio inferior com a língua. A via tão assustada, tão adorável, tão dolorosamente formosa, seus olhos enormes e assustados, mas desejando-o. Podia vê-lo claramente, apesar de seus nervos.

—Pode acender algumas vela para nós, carinho? —perguntou, esforçando-se por tranqüilizá-la—. Só umas quantas, algo que cheire bem. Adoro quando faz isso.

Conseguiu desfazer-se dos sapatos enquanto ela girava a cabeça para dirigir as chamas. Seis velas cobraram vida, sua luz titilando com delicadeza contra as paredes. voltou-se para ele quando estava desprendendo-se da camisa, revelando não só seus fortes músculos, mas também as cicatrizes de anteriores balaços, duas antigas navalhadas e as últimas lesões.

Hannah deixou escapar um pequeno som reprimido de desassossego de sua garganta e suas mãos lhe deslizaram pelo peito, esticando os planos mamilos enquanto as movia por volta das feridas mais recentes. Não sabia que seus mamilos pudessem ser tão sensíveis. Estava como se ela tivesse enviado um raio diretamente à cabeça de seu membro. Seu corpo se estremeceu e se endureceu, atirando do tecido dos jeans. Deixou cair as mãos até a cremalheira, abrindo os jeans e apartando de seus quadris. O calor invadiu as feridas mais recentes, fazendo cócegas quando as mãos da Hannah manipularam a energia curadora.

Baixou-se as calças jeans pelos quadris e seu membro saltou livre, ereto, duro e muito grosso. O olhar da Hannah baixou e se ruborizou. Sentiu-a tremer. Ele era grande e talvez um pouco intimidante para uma mulher que nunca tinha tido relações sexuais. Tomou fôlego e lutou contra o desejo, tão intenso e tão brutal que o sentia como um punção. Com Hannah não era só sexo, e isso quase estava matando-o.

O amor dói. Um velho clichê, mas descobriu que era certo. Era uma dor física, não só o agonizante punho de luxúria enfocado em sua virilha, mas também a tensão em seu coração. Tinha perdido a esperança de conhecer o amor verdadeiro. Tinha acreditado que não poderia ter a Hannah, e ela era a única mulher que poderia trazer calor a esse lugar frio em seu coração... onde parte dele tinha perdido toda esperança de humanidade. Agora lhe trazia de retorno à vida e seu coração doía, uma dor afiada e cortante que lhe dizia que não ia ser fácil amá-la, tê-la, lhe pertencer. Nunca se livraria dela. Nunca voltaria a estar inteiro sem ela.

Havia medo em seus olhos, por isso se inclinou para frente outra vez e capturou seus lábios, beijando-a brandamente, meigamente. trabalhou em excesso em roubar seu coração para substituir o que lhe tinha tirado. A luz oscilante das velas se derramava sobre ela, emprestando a sua pele um fulgor de raso. Jonas empurrou para baixo o decote da blusa para deixar um rastro de beijos para os cremosos montículos do peito.

Quando suas mãos subiram para desabotoar os botões, ela as cobriu com as suas, detendo-o. Beijou-a outra vez.

—Está bem, carinho. Sei que isto é correto, Hannah. Confia em mim.

Queria que lhe cedesse seu corpo. Que fosse dele. Que lhe  pertencesse. Agora e sempre.

Ela engoliu saliva e inclinou a cabeça, lhe beijando a sua vez, relaxando-se contra ele enquanto empregava alguns minutos permitindo-se a si mesmo desfrutar da calidez de sua boca aveludada. Ela gemeu brandamente e o som atravessou seu corpo inteiro. As mãos foram aos ombros, os dedos se cravaram em seus músculos, como ancorando-se, lhe abraçando fortemente contra ela. Aprofundou o beijo de novo, não querendo perdê-la, suas mãos alcançaram outra vez os botões da blusa. Instantaneamente as mãos dela estiveram ali para detê-lo.

Ainda com seu corpo bramando, o cérebro as engenhou para resolver o problema. Apoiou sua frente contra a dela, respirando através do desejo, girando as mãos para esfregar os tensos mamilos com os nódulos, apesar de sua resistência.

—Sempre gostei de seus seios, Hannah. Sei que o asno do Simpson fez que te envergonhasse deles, mas é perfeita para mim. Adoro o fato de que te derreta em minhas mãos, tão suave e incitadora. Demônios, carinho, é tão condenadamente sexy que vou ter um acidente vergonhoso se não me deixa te tocar. Tenho que fazê-lo. Não posso esperar.

Olhou-o aos olhos e pode ver a fome crua em seu olhar. Engoliu saliva e inclinou a cabeça, mas conservou suas mãos sobre as dele, embora aliviando seu agarre.

Jonas tomou cuidado com ela. Era tão magra, tão frágil. Podia apalpar suas costelas e suas vértebras, sua magra cintura, mas os seios tinham recusado perder suas curvas ainda quando ela quase se matava de fome a pedido de seu agente. Eram cheios, suaves e generosos e Hannah tratava de escondê-los do mundo.

Lentamente lhe desabotoou os botões, sentia-se como se fosse a manhã de Natal e desembrulhasse o presente que tinha esperado toda a vida. Seus dedos acariciaram a sensível e cremosa pele, fazendo-a tremer quando o tecido se separou e se abriu para revelar os seios cheios, exuberantes. Seu fôlego ficou apanhado nos pulmões.

—Meu deus, carinho, é formosa. Não podia imaginar isto e tenho uma boa imaginação no que se refere a você.

Baixou-lhe a blusa pelos ombros, deixando que o tecido flutuasse até o chão enquanto desabotoava o sustento. antes de que ela pudesse protestar, capturou sua boca outra vez, introduzindo a língua na escura cavidade de sua boca, suas mãos moldavam os seios possessivamente, lhe acariciando os mamilos com os polegares.

—Quero te ter na cama, onde posso te olhar e posso te sentir a meu lado.

Não queria correr o risco de atemorizá-la sendo ela tão tímida com seu corpo. Quem teria pensado alguma vez que alguém tão formosa como Hannah pudesse ter uma imagem tão pobre e inexata de seu corpo?

Estremecia-se quando a levantou e a levou a cama, recostando-a, observando como se estendia o cabelo sobre o travesseiro, os peitos empurrando incitadores para sua boca. A pele dela brilhava como nata luminosa à luz de vela. O coração lhe pulsava pesadamente no peito e seu corpo reagiu com outra dolorosa sacudida, esticando-se. Ela era como uma febre em seu sistema, tão ardente que temia que se não a possuía sofreria uma combustão espontânea, mas se lhe dizia que não, se estava muita assustada, deteria-se. Passaria os seguintes cinco anos em uma ducha gelada, mas se deteria. O amor fazia isso a um homem.

Ajoelhou-se na cama, percorrendo com suas mãos a pele de leve, lhe cavando os seios, percorrendo suas costelas até chegar a cintura dos jeans.

—Te levante para mim, coração.

Enlaçou o olhar com o dele, fez o que dizia e consentiu em que lhe deslizasse os jeans e a lingerie pelos quadris muito magros, baixando-os pelas longas e gloriosas pernas. Jogou a um lado a roupa e se recostou sobre ela, cobrindo o corpo nu com o seu, polegada a polegada, lenta e devastadoramente, até que estiveram pele contra pele. Ela estava quente e tão condenadamente suave que pensou que seu corpo se afundaria, derreteria-se, diretamente no seu.

Emitiu outro pequeno gemido que lhe estremeceu até os dedos dos pés. Jonas cedeu à tentação. Lhe oferecia o céu, e ele a desejava, queria que lhe pertencesse em corpo e alma. Tinha pouca prática e ele estava… bem… ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Beijou-a repetidas vezes, afogando-se em seu sabor, maravilhando-se de que fosse tão doce por toda parte. Sua pele tinha uma fragrância aditiva e se tomou seu tempo, lambendo e lhe mordiscando o queixo e a garganta, baixando até os seios. Ela conteve o fôlego quando soprou ar quente sobre seus mamilos. Estremeceu-se quando sua língua formou redemoinhos e a provocou, dando golpezinhos aos duros picos antes de que sua boca se fechasse sobre a tentação.

Hannah ficou sem fôlego, seu corpo arqueando-se, os seios sensíveis, as sensações claramente tomando-a quando ele sugou, a boca quente, os dentes raspando sobre a pele, puxando fortemente de seu mamilo. Sua respiração ficou trabalhosa, o peito subia e baixava rapidamente. Ele levantou a cabeça para contemplar o festim, inalando seu perfume e notando com satisfação as marcas de sua posse. A pele dela era sensível e se marcava facilmente, as pequenas dentadas cor fresa só acrescentaram a crescente luxúria além do que alguma vez tinha conhecido..

Lambeu os mamilos, lhe observando o rosto, o escuro rubor, os olhos frágeis. Deslizou a mão mais abaixo, sentindo como os músculos se contraíam no ventre e logo se esticavam sob sua palma.

—Jonas...

Sussurrou talvez em sinal de protesto, mas ele agachou a cabeça outra vez, tomando o mamilo entre os dentes, rodeando-o e atirando brandamente, sua língua raspando sobre a ponta até que ela ofegou e seus quadris se levantaram para ele. Deslizou a mão para cima entre suas coxas, na acolhedora umidade. O coração lhe dava inclinações bruscas no peito. Seu membro se sacudiu, inchando-se até que pensou que explodiria.

Seus olhos encontraram os dela. Parecia tão deslumbrada e aturdida, tão absolutamente erótica ali, tendida com os dedos enredados em seu cabelo, uma tímida confiança mesclada com sobressalto na cara. Cobriu seu monte de Vênus, tão quente que sentiu a mão abrasada quando lhe chupou o outro mamilo, conservando seu olhar fixo no dele. A cabeça golpeando no travesseiro.

Deslizou o dedo dentro do cremoso calor e ela gritou seu nome, sua apertada capa sujeitando-o fortemente enquanto os músculos protestavam pela invasão.

—Está bem, carinho —a apaziguou—.Te desejei por tanto tempo que acredito que vou ter que tomar meu tempo te lambendo como a um caramelo. Você gostará, carinho, prometo-lhe isso.

Beijou seu ventre.

—Tem que confiar em mim, só te relaxe para mim.

Hannah cravou os olhos em sua cara, arrasados de escura sensualidade, os olhos dele estavam escuros pela fome e a olhavam fixamente. Cravou-lhe os dedos nos músculos avultados dos ombros enquanto se preparava para as sensações que balançavam seu corpo. Estava perdida em uma tormenta de prazer que se abatia sobre ela como uma onda gigantesca. Necessitava-lhe... necessitava algo... a força aumentava dentro dela como um furacão. Tremia e não poderia deter-se. Deixava escapar pequenos gemidos e não podia detê-los tampouco.

A boca dele se movia sobre seu ventre, a língua lambia seu umbigo, os dentes a mordiam, o cabelo acariciava sua sensível pele. ficou sem fôlego de novo, quase caindo da cama quando suas mãos lhe separaram as coxas. Observou sua cabeça descender cada vez mais, por debaixo de seus quadris e ficou congelada, incapaz de pensar. Só seu corpo reagiu.

—Jonas? -Não poderia jazer imóvel. Ardiam-lhe os pulmões, sem ar, e amaldiçoou a união entre suas pernas que queimava.

—Esperei isto toda uma vida, carinho, só me dê um minuto. Necessito isto. Sua voz era cortante, com uma fome escura—. É minha agora, Hannah. E seu corpo é meu. Para adorar. Para jogar. Para usar. Para amar.

Era um homem faminto, viciado antes de havê-la provado.

Suas mãos lhe elevaram os quadris ao tempo que agachava a cabeça e com a língua dava um comprido e lento lambida em sua suave carne. Ela gemeu e o fôlego lhe deteve nos pulmões, o tempo deixou de existir quando começou a fazer o que tinha prometido: lambê-la como a um caramelo. Sua língua empurrava profundamente dentro de seu centro, provocando brilhos que lhe serpenteavam pelo corpo. Involuntariamente suas mãos se aferraram ao cobertor e a cabeça se balançou diante e atrás grosseiramente. ele acariciava e mordia, profundamente inserido e provocando sua umidade. deu-se um banquete e a devorou.

Seu organismo se contraiu esticando-se mais e mais, um nó de sensíveis músculos estalaram enquanto essa língua lambia, acariciava e sugava. Em seu interior, cada segredo oculto, cada reação íntima ficaram revelados. Cegava-a de prazer, voltava-a louca, o fogo ardia tão quente e tão fora de controle que já não sabia quem era. Ouviu-se chorando, implorando, enquanto ele a empurrava mais e mais alto.

—Não posso controlá-lo...

Precisava deter-se, recuperar o fôlego. A pressão continuava implacavelmente, aumentando através de seu corpo. Sentiu como se estivesse a ponto de desintegrar-se. Os braços dele eram como bandas de aço, mantendo-a sujeita, enquanto sua boca encontrava o clitóris e sugava. Gritou e seu corpo pareceu voar e fazer-se pedaços. Destroçada. Retorcia-se e balançava, incapaz de pensar, incapaz de saber se lutava contra ele ou lhe suplicava mais.

As sensações eram aterradoras, onda detrás de onda, até que sua boca a levou a um segundo orgasmo. Enquanto gritava outra vez, ele se colocou sobre ela, lhe apartando as coxas. Parecia tão sensual, tão esfomeado.

—Não posso, Jonas. É muito.

—Sim, Hannah. É o que quer, o que eu quero. Confia em mim para te levar e te trazer de volta. Deixe tomar de todas as formas possíveis.

Não ia sobreviver se havia mais prazer. Estalaria em um milhão de pedaços e não haveria forma de juntá-los, mas ele parecia pecaminosamente sexy e ela queria o que pudesse lhe dar, não importava quão assustada estivesse. Engoliu-se o medo e o olhou envergonhada.

—Tenho medo de mim mesma, não de ti, Jonas.

—Sei, carinho. Está-o fazendo bem. Não vou deter-me e te deixar recuperar o fôlego esta vez. Vou levar-te diretamente mais à frente do limite comigo.

A respiração do Jonas era áspera, seus dentes se apertaram com força e se moveu. Sentiu a grossa cabeça de sua ereção pressionando contra sua entrada, agora quente e escorregadia pela nata que ele tinha tirado de seu corpo. Então a estirou, a sensação foi quase uma queimadura quando pressionou mais profundamente, atravessando as apertadas dobras, forçando seus músculos a lhe acomodar. Sentia-lhe grosso, muito grande, impossível que entrasse nela, e então empurrou duro e profundo, atravessando a fina barreira, misturando dor com prazer quando as terminações de seus sensíveis nervos gritaram de necessidade. Destruiu seu controle com aquele duro impulso, logo começou a tira-la da realidade para um êxtase enlouquecedor.

Jonas tratou de recuperar alguma lembrança de controle, mas o corpo dela sujeitava o seu como um apertado punho de veludo,  tão quente para abrasar. Apoiou as mãos junto a seus ombros, seu corpo cobrindo-a, e inclinou a cabeça. Sua boca tomou a dela e começou a introduzir-se ritmicamente através dos músculos interiores tão tensos e relutantes, que lhe sujeitaram quando se mergulhou mais e mais profundo.

Hannah estava sem fôlego, seus quadris se elevavam para encontrar cada impulso. Os poderosos golpes a conduziram mais alto, mais perto da liberação que ele queria lhe dar, embora a reteve, obrigando-a a chegar ao final juntos.

Separou a boca da sua, respirando profundamente, empurrando mais forte, sentindo os músculos femininos esquentar-se, transformando-se em seda viva, pulsando a seu redor. Ela se agitou mais forte sob ele, debatendo-se entre lutar ou atraí-lo mais perto. Murmurava algo, um pequeno grito de alarme,  lhe cravando as unhas profundamente.

Hannah não estava preparada para o doloroso prazer que arrasava seu corpo, a pressão que crescia e crescia até que se encontrou lutando por respirar. Cada empurrão a fazia perder o controle e desfocava sua visão. por cima dela, Jonas era o epítome do pecado carnal, o cabelo úmido, a cara esculpida pelas linhas da paixão, o fôlego áspero enquanto seu corpo montava o dela mais duro e mais profundo, tão profundo e quente que queria... não, necessitava... desfazer-se.

Ele lhe elevou as pernas sobre seus braços, seus quadris empurraram até mais profundo até que os músculos pulsaram ao redor dele, lhe estreitando fortemente, apertando até que soltou um rouco grito e o mundo ao redor dela se voltou negro e depois se encheu de cores. A explosão rasgou seu corpo, uma tormenta de tal intensidade que já não pôde gritar mais. Os múltiplos orgasmos a atravessaram, um após o outro, aumentando em força, os espasmos do corpo dela rodeando o dele.

Jonas não podia conter-se com o corpo dela ondeando e pulsando ao seu redor como um punho quente e sedoso. Sua liberação chegou com um prazer rude e violento, tremendo desde os dedos do pé e derramando-se desde sua cabeça para enfocar-se em sua virilha. Sentiu uma cálida pulsação atrás de outra em seu interior, enchendo-a, acrescentando as ondas do clímax até que ela se arqueou, enviando outro relâmpago de prazer que lhe atravessou. Sofreu um colapso sobre ela, sua respiração era difícil, os pulmões lhe ardiam e o corpo tremia. Enxugou o suor da fronte e tratou de acalmar o tamborilar de seu coração. Nada nunca tinha sido tão bom.

Jonas se retirou a contra gosto e rodou fora dela, lhe arrumando a manta ao redor. Hannah jazia fraca junto dele, com os olhos aturdidos, seu esbelto corpo fraco, mas a mão dele em seu abdômen confirmava que tremores secundários ainda ondeavam através dela.

—Está bem, carinho?

—Não sei —Seus dedos se encontraram. —Estou-o?

Ele sorriu abertamente.

—OH, sim, carinho. É tão maravilhosa que precisaria encontrar uma nova palavra para te descrever.

—Isso dá um pouco de medo.

Havia-a possuído. Não havia volta atrás. Ela pensaria nele, em sua boca, suas mãos, seu corpo, cada vez que se deitasse na cama. Seu organismo cantava para ele, desfazia-se por ele.

—Não era consciente de que tinha estado perdendo algo tão espetacular.

Jonas franziu o cenho e se deu a volta, rodeando com o braço sua cintura.

—Só recorda a quem pertence, Hannah. Não queria ter que disparar a alguém, ou te estrangular.

Hannah se inclinou para lhe beijar o ombro.

—Por que iria estrangular-me?

—É uma morte muito mais pessoal.

—Foste polícia muito tempo. -Puxou o lençol mais acima para cobrir os seios—. Não posso me mover.

—Não tem que te mover. Tão somente durma. Quando despertarmos, mostrarei-te algumas outras coisas muito intrigantes que podemos fazer.

—Há mais? Não pode haver mais. -Bocejou e se aconchegou mais perto dele—. Tenho que tomar um avião pela manhã, Jonas. Sabe que são quatro horas de carro até o aeroporto.

—Toma outro vôo mais tarde.

—Mmm. Talvez.

Logo não podia falar, e muito menos mover-se,  e a idéia de uma viagem em carro de quatro horas e uma viagem adicional em avião até a Costa Leste era desalentadora. E necessitava um banho quente para apaziguar seu dolorido corpo.

—Acredito que me esgotaste.

Instantaneamente ele trocou de posição, seu braço rodeando os quadris dela, a mão apartando o lençol de seu corpo para inspecioná-la.

—Perdi um pouco o controle, Hannah. Deveria ter sido bem mais suave na sua primeira vez. Espera, carinho, prepararei-te um banho.

Havia marcas em suas coxas, nos seios e inclusive no abdômen.

—E melhor me barbeio. Tem abrasões de minha barba na cara.

E no interior das coxas, mas não ia ser ela quem o mencionasse.

—Não estou segura de que possa tomar um banho agora mesmo —admitiu—. Fiquemos aqui e contemos as estrelas.

Agitou a mão e as velas se apagaram. Uma segunda onda abriu as portas francesas para deixar entrar a noite.

Ao momento a brisa esfriou seu corpo e Jonas a atraiu mais perto para mantê-la quente. Era assombroso sentir-se em paz. O corpo depravado. Lhe pertencia. Entregou-se a ele e Hannah nunca fazia as coisas pela metade. Tinha sentido medo, mas sua perda de controle não a tinha afugentado. Tinha aceito sua necessidade física da mesma forma que aceitava seu temperamento e sua arrogância.

Deslizou a mão desço da manta e deixou que sua palma, com os dedos estendidos, vagasse possessivamente sobre seu corpo. Dele. Saboreou-a em sua boca, respirou-a em seus pulmões, tinha estado dentro de sua cálida  e sedosa capa. Se existiam os milagres, ele estava vivendo um. Ela não protestou por seu tato, mas voltou a cabeça e lhe olhou. Manteve-lhe o olhar, não queria apartar a vista enquanto explorava cada polegada quadrada de sua incrível pele. Quente e suave como nada de que tivesse conhecido alguma vez.

—Adoro que seja minha —sussurrou  e afastou com o nariz o lençol de seus peitos para poder desfrutar de do panorama.

Deliberadamente permitiu que sua mão se movesse mais abaixo. Sentiu que os músculos do estômago se contraíam quando seus dedos a acariciaram. Ela se esticou quando cobriu o púbis, descansando ali a mão, deixando-a acostumar-se a  sentir sua posse. Queria tocá-la assim sempre que o desejasse. Queria que se abrisse para ele, lhe amando, oferecendo-se, e mais que algo, queria que ela sentisse o mesmo a sua vez.

Não houve um "se" estavam juntos. Estavam-no. Tinha-lhe deixado isso claro antes de lhe fazer o amor, e queria que ela se desse conta de que era um homem físico. Haveria carícias, montões delas. Suas curvas, seu corpo, pertenciam a ele e o dele a ela. Não estava brincando com ela, amava-a. Necessitava que ela sentisse a diferença.

Seus mamilos se endureceram com o ar fresco da noite e inclinou a cabeça para lamber um deles. Sentiu imediatamente como resposta o líquido quente contra sua palma e deslizou um dedo dentro dela. Estava tão tensa como antes, seus músculos lhe agarravam com força, seda quente lista para ele. Esfregou a cabeça contra a pele suave, piscando pela emoção que ameaçava lhe transbordando.

Hannah estava completa e totalmente relaxada sob sua mão e não fez nenhum movimento para rechaçar seus avanços. Podia estar um pouco nervosa, mas estava aberta ao que ele queria fazer. Escolheu beijá-la. Adorava sua boca. Desfrutou de seu sabor, da resposta que obteve dela.

Quando levantou a cabeça, lhe rodeou com os braços e lhe atraiu de retorno a seu lado.

 —Durma, Jonas. Aqui, comigo.

Girou-se, puxando para pô-la em cima dele para que seu corpo quente estivesse recostado sobre dele. Agasalhou-a com um braço e estendeu o lençol sobre os dois.

—Assim, Hannah. A meu lado, sim.

Com o braço lhe rodeou a cintura e ela se aconchegou contra ele, acomodando o corpo sobre o seu, os seios pressionando firmemente contra sua pele, a cabeça no travesseiro junto à dele.

Jonas ficou adormecido com a mão cavando sua nuca. Hannah jazia sobre seu peito, escutando sua respiração, muito consciente dessa mão. Seu corpo ainda zumbia, ainda cantava. Durante um momento, quando ele estava dentro dela, tinha sabido exatamente onde queria estar. Adorava seu tato. Tinha-lhe dado um susto mortal obrigando-a a ir além de onde alguma vez pensou que pudesse ir, mas confiava no Jonas com seu corpo e lhe tinha dado tudo o que ele tinha exigido.

Assim era Jonas. Acariciou-lhe o cabelo com pequenas carícias. Exigia muito. Sempre o fazia. Mas algumas vezes, era muito vulnerável e se deu conta de que ela tinha igual poder nesta relação. Não tinha esperado isso. Ele era tão vulnerável a ela como ela o era a ele. Unicamente atuava de forma arrogante e mandona, mas no fundo porque lhe importava, ele tampouco queria perdê-la.

Tinha que ir a Nova Iorque, o contrato tinha sido assinado fazia um ano, mas depois contaria ao Jonas a verdade. Já tinha informado a seu agente de que se retirava. Não tinha aceito novos trabalhos nos últimos meses, ia simplesmente cumprir os contratos que já tinha assinado e logo viveria em Sea Haven e esperava estar com o Jonas e começar uma vida inteiramente nova.

 

Jonas se passeava pela sala de estar da residência familiar das Drake, lançando continuamente olhares de ódio ao televisor.

—Leva fora uma semana e nem sequer se incomodou em ligar pra casa, Sarah.

—Ligou, Jonas —lhe recordou Sarah com um exagerado suspiro—. Lhe gritou e não ligou mais.

—Não estava gritando.

—”Volta para a condenada casa” não é gritar?

—Não acredito que seja necessário que esteja ali toda a semana. E por que tem que ir a festas cada noite?

—É parte de seu trabalho.

—Isso é o que diz? Olhe a esses homens. A estão comendo com o olhar. —Golpeou a tela com o dedo, franzindo as sobrancelhas em um cenho feroz.

Sarah dobrou as pernas sob ela, acomodando-se sobre a cadeira acolchoada.

—É o grand finale do maior desfile de modelos que se celebra em Nova Iorque todo ano. Hannah é modelo. É obvio que a olham; leva um vestido avaliado em milhares de dólares. A idéia é fazer ressaltar o vestido. Percorre a passarela, dá umas quantas voltas, a gente diz ohh e ahh e o desenhista está na moda durante esta temporada.

—Não estão olhando o vestido—negou—, estão olhando a Hannah.

—Não Jonas —corrigiu brandamente—. Você esta olhando a Hannah. Eles estão ali para ver os últimos desenhos.

Jonas fez um som de desgosto e se parou em meio da espaçosa habitação, com o olhar preso à tela do televisor. Hannah, alta, esbelta e absolutamente esplêndida, caminhava com absoluta confiança sobre a passarela, fazia uma pausa, com uma mão no quadril, um olhar de altivo desdém em seu belo rosto girando para que as luzes captassem as reluzentes cores do vestido antes de continuar avançando com o palpitante ritmo da música.

—Por que tem que usar uma maquiagem tão extravagante? Demônios, Sarah, esse vestido está talhado até o umbigo e aplicaram brilho ou algo sobre toda sua parte dianteira assim definitivamente cada homem desse lugar não está olhando o vestido. Nem eu posso descrever o vestido e a estou olhando atentamente.

—Por favor não me diga que estas olhando boquiaberto os peitos de minha irmã. —Sarah esfregou suas palpitantes têmporas.

—Todo mundo está olhando seus peitos.

—Vai pra casa —disse Sarah—. Me estas pondo nervosa passeando acima e abaixo. E se golpear o balcão da cozinha uma vez mais, vai romper-se e vou expulsar te da casa durante uma semana.

Jonas fez una  pausa para olhá-la.

—Não pode fazê-lo. Estou-me recuperando de uma ferida de bala e não me deixam trabalhar. Não tenho nenhum outro lugar ao que ir.

A grande casa labiríntica estava situada sobre um penhasco que dava ao oceano. Antes, mais cedo, Sarah tinha aberto as persianas assim que todas as janelas mostravam a incrível vista do mar. Podia ouvir as reconfortantes ondas e sentar-se a tomar o chá enquanto contemplava a água azul brilhar, as brancas cristas importunando a superfície. A ansiedade com que despertou tinha aliviado até que Jonas tinha chegado para ver com ela o desfile de moda. Estava-a convertendo em um molho de nervos e sua cabeça estava a ponto de estourar. Ia ser uma longa tarde se não se desfazia dele.

Jonas nunca era uma pessoa tranqüila, mas em todos os anos que fazia que lhe conhecia, nunca tinha emitido a quantidade de tensão que estava vertendo agora. Sarah não era tão sensitiva como algumas de suas irmãs, mas a energia a estava afetando de todas formas. Sentia-se quase doente de apreensão.

Apoiou o queixo na mão e estudou a forma em que Jonas se movia com rapidez  através do chão, passos inquietos que não faziam ruído. O homem era ligeiro ao caminhar e até mais ligeiro em sua paciência.

—Não me inspira nenhuma simpatia. Logo que posso acreditar que em algum momento tenha estado no exército, Jonas. Comporta-te como um louco. Juro-lhe isso, conseguiste me revolver o estômago.

E seu estômago parecia um nó. Sentia tanta pressão que fazia tudo o que podia por não vomitar. Sarah reprimiu o impulso de lhe gritar. Queria ver a atuação da Hannah. Estava orgulhosa do fato de que Hannah fora uma das modelos mais importantes do mundo. Em muito poucas ocasiões alguma das Drake podia apoiá-la assistindo a um desfile.  Queria ao menos poder lhe dizer que o tinha visto por televisão.

—Queria a todos ali —murmurou, com o olhar pego à tela—. Era muito importante para ela. Libby está em algum lugar do Amazonas e ninguém sabe onde está Elle. Simplesmente às vezes desaparece durante semanas. —adicionou, referindo-se a duas de suas irmãs mais jovens—. Joley está na Europa pela excursão mundial, Kate na Inglaterra investigando para um livro, e Abby está na Austrália fazendo alguma loucura com os golfinhos, me deixando a cargo do forte.

—Todas me abandonaram —disse Jonas—, cada uma delas.

—Você as afastou tolo. Jonas, acredito que é importante que saiba que infelizmente a maior parte do tempo carece de habilidades sociais, e quando estas ferido, estas são inexistentes.

Ele encolheu os largos ombros, com o olhar ainda na televisão. Podia ver porque os cachos loiros da Hannah eram tão famosos. A cascata de cachos naturais descia por suas costas, selvagem e indômita, adicionando adora. Os grandes olhos azuis e a imaculada pele exibiam por si mesmos a perfeição à câmara, que era pelo que estava solicitada por todas as companhias de cosméticos. Tinha um abundante e exclusivo contrato com a companhia mais destacada, mas outras empresas estavam sempre tentando roubar-lhe —Há muito mais em Hannah que seu aspecto —espetou Jonas.

A câmara percorreu a audiência e retornou a um primeiro plano de sua cara. Os músculos do estômago do Jonas se ataram, a tensão na habitação aumentou sensivelmente.

—É tão formosa —disse Sarah—. Algumas vezes a câmara pode realçar o aspecto de uma modelo, mas Hannah realmente se vê assim.

—Há muito mais na Hannah que seu aspecto —espetou Jonas.

Sarah se pressionou os dedos justo no ponto sobre o olho que estava começando a pulsar.

—Quero-te, Jonas, seriamente que sim, mas vai pra casa. Odeia estas coisas e não sei por que esta se incomodando em vê-lo.

—Estou me torturando. —Jonas começou a passear de novo enquanto Hannah se saía da passarela, arqueando os quadris e o vestido quase resplandecendo. Os nós se afrouxaram um pouco e soltou o fôlego—. Por que demônios tem que fazer isso?

Sarah suspirou.

—Fazer que?

—Expor-se assim. Eu não gosto.

—Jonas...  —Sarah franziu o cenho quando seu gênio começou a desatar-se.

—Não há forma de que segurança possa protegê-la. Vê essa multidão. Quantas pessoas crê que há ali? Ao menos dois mil, provavelmente muitas mais —se respondeu ele mesmo, começando a agitar-se de novo—. Cada condenada vez que sai, temo por ela. Há tantos maníacos no mundo, Sarah e quando uma mulher se mostra em todas as revistas do mundo e em televisão batendo as pestanas, sabe condenadamente bem que vai ter problemas. Ela e Jolley têm que ficar em casa, onde eu possa as vigiar. Estou-me voltando muito velho para esta merda e Hannah está fazendo que me saiam cabelos brancos.

Sarah franziu o cenho. Jonas estava suando. Jonas nunca suava, não que ela tinha visto nunca. Definitivamente estava mostrando-se mais possessivo com a Hannah do habitual. Estudou-lhe com um pouco de receio, tentando ler as duras linhas de seu rosto.

—Esteve recebendo Hannah mais cartas do normal e você não me contou?

—Mas você ouve a si mesma? É normal receber cartas de loucos? Não, não houve um aumento, mas as cartas que recebe são arrepiantes e há muitas. E Jolley é pior. Juro-lhe isso, cada maluco do mundo está obcecado com essa garota. Só as quero onde possa as cuidar, não percorrendo meio mundo.

É obvio que Jonas queria as proteger a todas, estava em sua natureza. Tinha começado com sua mãe e agora não podia evitar o precisar as cuidar, disse-se Sarah a si mesmo. Isso era tudo.

Sarah jogou uma olhada fora através da fileira de janelas que davam ao oceano. O mar estava ficando um pouco selvagem. Refletindo seu estado de ânimo. Já fazia horas que estava de mau humor, e lhe jogando a culpa ao crispado humor do Jonas. Brancas cristas faziam espuma e salpicavam gotinhas que se pulverizavam no ar. O vento removia o mar, fazendo girar pequenos redemoinhos como mini ciclones através da superfície. Abaixo, nas rochas as ondas se estrelavam com força. A névoa cinza escuro já subia do oceano, envolvendo lentamente a zona. Sarah se inclinou para diante para obter uma vista melhor.

—Jonas, havia anúncio de uma tormenta? Supunha-se que seria um dia tranquilo. O vento se está levantando e a névoa está entrando.

Ele se voltou a olhar, mais pelo tom receoso dela que por interesse.

—Não prestei atenção ao prognóstico do tempo.

Seu olhar saltou novamente à televisão quando Hannah apareceu uma vez mais, esta vez com um conjunto diferente. Os jeans eram uma magra pincelada, falsos diamantes ao longo dos laterais das pernas e faiscando em arcos gêmeos cruzando a parte posterior, chamando a atenção sobre a silhueta e a forma em que o material embalava carinhosamente seu traseiro. O colete era curto, sem chegar a tocar os ajustados jeans baixos nos quadris da Hannah, expondo uma parte de suave pele, o intrigante umbigo e uma brilhante cadeia de ouro salpicada de diamantes.

 Jonas sentiu uma quebra de onda de calor estendendo-se através do corpo. Não podia olhar a essa mulher sem que seu corpo reagisse. Tinha passado a metade de sua vida caminhando por aí com uma ereção provocada por ela e a outra metade querendo brigar contra cada homem que a olhava. Ainda podia saboreá-la em sua boca, sentir a forma em que era tudo sedoso calor, seu corpo envolvendo-se a seu redor.

—Maldita seja de todos os modos, Sarah por que tem que fazer isso?

Sarah ficou de pé e foi por volta da janela olhando paralisada ao mar.

—Faz-o porque é seu trabalho, vontade e um montão de dinheiro com isso, Jonas. —Murmurou as palavras distraidamente, com a mente na crescente turbulência de fora. O tempo e o furioso oceano pareciam estar a tom com o crispado e sombrio humor do Jonas.

Jonas a olhou fixamente mas seu olhar foi atraído novamente pela Hannah, o estômago lhe revolveu outra vez e os músculos lhe esticaram. Realmente se sentia doente.

—Quero-a fora daí demônios. —passou-se a mão pelo cabelo—. O digo a sério, Sarah. Porei-me firme com ela. Este é o último desfile que faz. Simplesmente vai se retirar.

Isso atraiu a atenção do Sarah.

—Como o vais fazer?

—Simplesmente vou dizer se o pode viver com isso. Tive que agüentar esta merda durante anos.

—Quer que se retire quando está no topo de sua profissão?Sabe que neste momento é a modelo de passarela mais solicitada do mundo e que as carreiras das modelos não são muito longas?

—Importa-me uma merda, e se quer saber minha opinião, esta já durou muito. Faz tempo que não gosta, mas é muito teimosa para admiti-lo...  ou possivelmente simplesmente está muito assustada para admiti-lo... assustada pela reação. Não pode ser pelo dinheiro, tem suficiente para dez pessoas.

—O que quer dizer com isso? —exigiu Sarah.

—Detesta expor seu corpo acima de tudo no mundo, sempre o detestou. Olhe o que lhe têm feito. —Fez um gesto fazia a tela—. Se tornou complacente, se quiserem ossos então lhes dá ossos. Odeio que exiba seu corpo dessa forma acima de tudo no mundo, mas sabe o que, Sarah? Hannah o detesta ainda mais que eu.

—Convenceste-te que isso para justificar sua atitude.

Jonas sacudiu a cabeça.

—Você o tem feito. Percebo-o cada vez que a vejo em uma passarela ou na capa de uma revista, ou ainda pior, em um anúncio. Tem êxito, mas odeia a cada segundo.

—Não sabe nada da Hannah.

—Não, você não sabe nada da Hannah —respondeu Jonas—, todas crêem que a ajudam, mas não o fazem, porque não a entendem.

Sarah lhe olhou com ódio.

—Realmente me estas fazendo zangar, Jonas. Por que tem que ser tão imbecil a respeito da Hannah? É uma modelo maravilhosa, sempre o foi.

—Detesta sair em público. É modelo porque todas vocês têm feito destaque com suas vidas, que ela acredita que são impressionantes e se esperava dela que fosse espetacular também. E não me diga que não é verdade, Sarah. Quantas vezes quando estava no colégio lhes ouvi dizer a todas que era preciosa e que deveria ser modelo? Mencionava-se em cada conversação sobre seu futuro. Isso e que como é brilhante, como tem um dom para os idiomas e pode falar com fluidez em meia dúzia deles, é obvio tinha que viajar. Isso é o que tens  que fazer quando é brilhante. Que o Céu não permita que uma Drake faça algo tão corriqueiro como ficar em casa e ser uma esposa.

Sarah o olhou com dureza.

—É preciosa. E é perfeita como modelo. Pode viajar e de sempre há alguém cuidando disso, o qual ambos sabemos que necessita. É muito tímida para fazê-lo por si mesmo.

—Para começar nunca quis ir, Sarah. Vocês a empurraram —Levantou as mãos no ar, sua sombria ira igualava a dela—. A transformaram em uma Barbie temerosa de pensar por si mesmo.

—Isso é uma panaquice, Jonas. Hannah queria ser modelo e viajar. Recorda, somos capazes de nos ler umas a outras com bastante facilidade. Acredito que saberíamos se o odiasse.

Jonas girou em redondo, pela primeira vez que pudesse recordar elevando-se sobre ela de uma forma intimidante... e era amedrontador. Realmente deu um passo ameaçador para ela e seus dedos estavam fechados em dois punhos apertados, os nódulos brancos.

—De verdade Sarah? Estas segura disso? Hannah é poderosa, possivelmente muito mais do que pudesse conceber alguma vez. Nunca gostaria que alguma de vocês pensasse que não era feliz. Sem dúvida sabe que tem um transtorno alimentar. Quanto faz que sabe? Ou não sabe? Conseguiu ocultar isso também?

Sarah abriu a boca para protestar, e depois a fechou bruscamente. Hannah realmente tinha um transtorno alimentar. Libby o tinha descoberto só umas poucas semanas antes, mas deveriam ter sabido. Hannah era capaz de ocultar seus verdadeiros sentimentos a suas irmãs… a todas exceto a Elle… possivelmente também a Elle. Sarah franziu o cenho. Em realidade, nem sequer sabia com certeza se Elle podia ler sempre a Hannah. Infelizmente, Jonas estava no certo sobre as habilidades da Hannah. Era poderosa e amava a suas irmãs o suficiente para ocultar seus sentimentos se pensava que se sentiriam mau.

—Não pode ser verdade. —murmurou em voz alta, repentinamente ansiosa. Os ataques de pânico da Hannah tinham começado no colégio e continuaram durante toda sua carreira de modelo. Quase nunca concedia entrevistas porque uma das outras irmãs Drake tinha que ajudá-la a superar os nervos. Quereria realmente ficar em casa e não viajar pelo mundo? Era possível que detestasse seu fascinante trabalho?

—Vamos, Sarah, não quer que seja verdade. Estão muito seguras de saber o que é o melhor para a Hannah e lhes assegurastes que ela saiba também. As únicas vezes que Hannah é realmente ela mesma é quando se está colocando comigo porque a tenho feito zangar-se.

—Quer dizer que a machuca —acusou Sarah começando a perder os estribos, mas mais zangada com ela mesma que com ele porque começava a suspeitar que poderia estar no certo... e isso queria dizer que tinham empurrado a Hannah a fazer algo que não queria fazer. Seria típico da Hannah ficar calada embora se sentisse desgraçada.

Ele bagunçou o cabelo com a mão, claramente agitado.

—Não tenho intenção de feri-la. Quero que se defenda sozinha, que seja quem realmente é, não quem pensa que todos nós queremos que seja. Quando a faço zangar, me acredite, a Hannah real sai à luz.

—Ela não é assim.

—É complacente. Sabe que o é. Quer que todo mundo a seu redor seja feliz. Todas vocês esperam que tenha êxito, e não só um triunfo moderado, exigem-lhe um triunfo importante. Todas vocês são fantásticas no que fazem...

—E ela também.

—Mas o detesta. Preferiria viver tranqüilamente, estar em casa e simplesmente fazer feliz a todo mundo.

Sarah sacudiu a cabeça.

—Esse idiota de seu agente lhe disse que perdesse peso e em lugar de lhe dizer que fosse ao inferno, como teme não ser o bastante perfeita para que vocês a queiram, mata-se de fome. Eu pensava que em algum momento ia acabar com isto e renunciaria, mas está se matando, lentamente possivelmente, mas desemboca no mesmo lugar. De modo que vou pôr lhe fim.

—Acredito que estas equivocado. —disse Sarah, mas já não era verdade.

Jonas amaldiçoou em voz baixa.

—Não deveria ter deixado que fosse.

—Nada poderia havê-la detido, Jonas, comprometeu-se e Hannah sempre cumpre com seus compromissos. —Sarah lhe deu as costas, olhando uma vez mais pelas janelas por volta do mar. Fora ao longe, através da névoa cinza, poderia ter jurado ver duas colunas gêmeas de água, ciclones formando redemoinhos, girando através da superfície. A água se havia posto escura e turbulenta, muito similar a como se estava sentindo ela—. O que ocorreu com meu tranqüilo e pacífico dia, Jonas? Ia a aconchegar-me no sofá e ver minha irmã fazer seu trabalho já que não poderia estar ali em pessoa.

Jonas se girou novamente para a televisão.

—De verdade Hannah te pediu que fosse ao evento?

—Sim.

Houve um comprido silencio enquanto três modelos saíam juntas e percorriam a larga passarela, detendo-se para fazer um giro enquanto se contornavam, sua atitude era um espetáculo em si mesmo.

—Também me convidou.

Sarah ficou rígida, girando-se para enfrentá-lo.

—Ela fez o que? —Um calafrio desceu por sua coluna.

Jonas voltou a cara para ela, e pela primeira vez a deixou ver o gasto e pesaroso que estava.

—Nunca tinha feito antes. Sabe que o odeio. Por que me pediria isso, sabendo que me poria sarcástico e antipático se ia com ela? —Havia sombras em seus olhos—. Não dormi em dias, Sarah.

—Por que não me disse isso em seguida? Pelo amor de Deus, Jonas, é como nós. Sabe que tem seus próprios dons. Se sentir que algo vai mau, tem que dizê-lo.

—Em realidade, não sou como vocês —negou, esta vez passando-se ambas as mãos pelo cabelo, deixando-o mais despenteado e alvoroçado que antes—. Supus que seu algo ia mal na realidade, vocês saberiam. Nenhuma indicou que haja um problema potencial de modo que simplesmente ignorei o pressentimento que tinha. Eu não tenho nenhum poder especial, Sarah. De verdade que não.

Lhe lançou um olhar de incredulidade.

—Por que não pode dormir?

Voltou a encolher-se de ombros, os músculos ondeando ao longo de seus braços e costas enquanto se passeava inquieto. O apresentador de televisão começou a descrever outro vestido de um famoso desenhista europeu, atraindo uma vez mais a atenção do Jonas de modo que se deteve e olhou a tela. Hannah avançava entre as brilhantes luz sendo recebida por um aplauso ensurdecedor, espirais frisadas de platina e ouro penduravam por sua cintura, os famosos olhos azuis sombreados com brilho para igualar os fios de ouro que brilhavam através do vestido.

—Algumas vezes, quando a olho —reconheceu, falando mais para si mesmo que para o Sarah—, não posso respirar. Tenho me sentido assim desde a primeira vez que a vi. —Os punhos caíram aos lados, mas estavam firmemente apertados, tão forte que os nódulos estavam brancos. Um músculo tremia em sua mandíbula e a boca se esticou enquanto uma vez mais a câmara percorria a audiência e o comentarista anunciava maliciosamente que todos os que eram alguém estavam presentes na Semana da moda de Nova Iorque.

—Tem um mordaz senso de humor, as poucas vezes que o deixa aflorar —adicionou—, algumas vezes a provoco apenas para ver sua resposta.

A câmara recolheu imagens de fascinantes estrelas e figuras públicas, ícones de riqueza e proprietários de hotéis tanto como jornalistas e numerosas pessoas identificáveis da indústria da moda. Estrelas de cinema e políticos, sobrenomes de famílias conhecidíssimas, gente da indústria da música, estavam todos representados e, junto a eles, seu guarda-costas. Sarah aspirou bruscamente, levando uma mão à garganta.

—Jonas —sussurrou—, acredito que vi a Ilya Prakenskii entre a multidão. por que estaria ali? É um capanga russo, não?

Os olhos do Jonas brilharam como lascas geme as de gelo.

—Essa é sua reputação, mas nunca ninguém pôde provar nada. Se estiver ali, esta escoltando ao Sergei Nikitin.

—O homem que estava obcecado com o Joley? Sei que tem má reputação como mafioso, mas Nikitin perece muito jovem para ter alcançado tanto poder tão rápido.

—Definitivamente está com a máfia russa. —Olhou-a e logo voltou a vista à tela—. Tem medo do Prakenskii. contatou contigo do incidente com o Aleksandr e Abbey?

—Refere a quando salvou a vida do Aleksandr e tivemos que lhe dar nossa palavra de que lhe devolveríamos o favor? —perguntou Sarah com um pequeno calafrio—. Não, esperava que nunca voltássemos a vê-lo. É um homem muito poderoso. Como Elle, tem enormes dons.

—O que é o que não me estas dizendo?

Sarah se mordeu o lábio.

—Tem um caminho para a magia do Joley. Pode tocá-la, lhe falar, brigar magia contra magia... e é poderoso, Jonas. Para salvar ao Aleksandr, fizemos um trato com o diabo.

—Espero que não ele seja a ameaça que sinto.

—Por que salvaria ao noivo do Abby e logo faria mal a Hannah?

—Nunca entendi nem a metade do que a gente se faz uns aos outros —disse Jonas, passando-a mão pelo cabelo outra vez. E tampouco o fazia agora. por que as pessoas eram tão cruéis umas com outras, por que o dinheiro e o poder os conduziam a assassinar e trair, nunca o poderia entender... nem em um milhão de anos. E como ele mesmo se feito tão bom matando e resolvendo coisas, sua mente tão fria e clínica em uma crise quando era tão emocional no profundo de seu ser onde ninguém o via... ninguém salvo Hannah.

Todo o tempo o comentarista tagarelava a respeito de que a Semana da Moda de Nova Iorque era o maior evento em anos, as melhores colecione, os fabulosos desenhistas. Jonas voltou sua atenção à tela enquanto a câmara abrangia uma vez mais à multidão. Divisou ao elusivo capanga russo, de pé justo à costas do Sergei Nikitin, o mafioso. Seu estômago deu outro tombo, os nós se apertaram, seu punho se fechou. Era possível que Nikitin queria tomar represálias contra as Drake?. Havia algo. Alguém. Só que não podia encontrar a ameaça, mas a sentia nos limites de seu consciência, lhe sussurrando, lhe empurrando, lhe voltando hiper-consciente.

Sarah não olhava a tela a não ser ao Jonas. Seu olhar estava fixo e o corpo completamente imóvel como se estivesse caçando. Apenas se atrevia a respirar, temerosa de interromper sua concentração. Jonas não acreditava possuir talentos paranormais, mas as irmãs Drake sempre tinham sabido de suas habilidades... só que não sabiam em que consistiam exatamente. Indubitavelmente estava em sintonia com elas... e com o perigo. Sua cara tinha a séria expressão que com freqüência surgia quando estava investigando um crime particularmente grave.

Sarah engoliu o nó que tinha na garganta, lutando por manter a calma. A apreensão a carcomia, tão forte que logo que podia respirar. Era a familiar sensação do começo de advertências, da chegada de uma pré-cognição... ou era empatia pelo que fora que Jonas estava sentindo... porque estava começando a ter a impressão de que algo terrível estava a ponto de acontecer.

—O que acontece?

—Demônios, não sei. —O olhar do Jonas se obscureceu pela ansiedade—. Entretanto ela está em problemas. Sei que o está. Deveria ter ido com ela.

Sarah se engoliu o alarme, forçando-se a vencer o pânico.

—Se tranqüilize, Jonas. Quero que se sente e respire fundo.

—Vai te ao inferno, Sarah. Não sou um menino pequeno. Hannah é... tudo para mim.

O coração do Sarah saltou. Jonas nunca tinha admitido o que sentia por sua irmã em voz alta. Nem sequer parecia notar o que estava dizendo, e com o Jonas, isso era um mau sinal. As irmãs Drake tinham nascido com dons especiais, talentos nos que confiavam e que eram uma parte intrínseca de suas vidas. Sempre tinham sabido que Jonas tinha as mesmas habilidades excepcionais simplesmente tão fundamentais para ele como respirar, entretanto ele não parecia compreender inteiramente como desenvolver e utilizar suas habilidades a vontade. As capacidades estavam ali, força a ter em conta. Sarah podia sentir a energia pulsando através da habitação, emanado dele em feitas ondas enquanto tratava de dar com o perigo que se abatia sobre a Hannah.

—A razão pela que vais adivinhar o que é o que vai mal é porque ela o é tudo para ti. Podemos agarrar um avião a Nova Iorque e estar ali em poucas horas. Neste momento está a salvo. Está rodeada de câmaras de televisão e celebridades. Deve haver umas quantas centenas de guarda-costas particulares nesse edifício junto com uma forte segurança.

O olhar do Jonas saltou à tela, sacudindo a cabeça.

—Não está a salvo —repetiu, com os dentes apertados—. Há alguém... —sua voz se foi apagando e sua atenção se separou do Sarah para concentrar-se totalmente na tela. Seus olhos se tornaram frios e calculadores, o corpo absolutamente imóvel, toda a concentração centrada na multidão detrás da Hannah.

Sarah escutou o retumbar do oceano, um augúrio de problemas. Sua cabeça palpitava junto com as ondas. De repente estava muito, muito assustada por sua irmã. Esquadrinhou a multidão, tentando ver o que preocupava ao Jonas. As câmaras saltavam do espetáculo a fora, onde a multidão pressionava ao longo da calçada esperando vislumbrar a alguma das celebridades. Havia muitas estrelas de cinema dentro e seus admiradores tinham vindo a vê-los.

Um jornalista enfocou a vários pequenos grupos que protestavam ao outro lado da rua, cada um lhe gritando ao outro. Estavam os inevitáveis grupos de direitos pró animais protestando contra o uso de peles de animais autênticas na confecção da roupa. Sarah se aproximou tentando vislumbrar as caras. Hannah nunca desfilava com peles de animais, mas se tinha negado a representar ou a unir-se ou a deixar de nenhuma forma que seu nome fosse utilizado unido ao enorme e bem conhecido grupo, já que os tinha investigado muito cuidadosamente.

Tinham saído à luz evidências de que os membros “resgatavam”animais de refúgios onde os animais estavam bem cuidados, mas mantidos em jaulas. Os jornalistas tinham filmado obedientemente os resgates, mas nunca se deram conta de que a verdadeira história era que aos animais lhes praticava a eutanásia imediatamente depois já que não havia onde pô-los nem havia forma de alimentá-los e cuidá-los uma vez eram tirados dos refúgios. Hannah tinha sido eloqüente em sua negativa a unir-se a eles detrás ter feito extensas investigações e muitas outras maldades tinham saído à luz, sacudindo os alicerces do grupo.

—Odeiam-na —assinalou Sarah—, reconheço ao homem de barba. Ameaçou a Hannah quando convenceu aos jornalistas de que investigassem.

—Sim —acordou Jonas—. É um grupo poderoso com muitos famosos emprestando seus nomes sem saber o que passa realmente. Hannah revelou integralmente os segredos da organização e perderam grande parte de seu apoio, e o que é mais importante, a respeitabilidade. Isso quer dizer que perderam recursos.

—Recebeu alguma carta deles recentemente?

Jonas mantinha o olhar pego à tela da televisão.

—Recebe cartas de todo o mundo e sim, especificamente, houve cartas chamando-a puta e dizendo que não ia sair bem em seu intento de arruinar a organização. Falei com os membros da junta e disseram que não podiam controlar aos fanáticos e que não havia forma de saber quem tentaria intimidar a alguém em seu nome. Disseram que estavam agradecidos a Hannah por encontrar as maçãs podres do grupo.

—E engoliu isso?

—Nem por um segundo. —Jonas franzia o cenho enquanto a câmara tomava vistas da multidão e se fixava por um segundo em um grupo de manifestantes. Dando-se conta de que a câmara estava sobre eles, a gente levantou pôsteres, sacudindo-os e gritando, chamando o espetáculo da moda aborrecível e uma abominação contra tudo o que era moral e correto.

Sarah suspirou.

—Agora vai depois da indústria da moda? Esse é o Reverendo RJ. Penso que  RJ se saltou as classes de teologia. É muito carismático e esteve reunindo uma boa quantidade de seguidores. Elle me falou dele. esteve sob vigilância há algum tempo porque é muito veemente e sua “religião” é oficialmente considerada um culto. transladou a seus seguidores às montanhas a umas duas ou três horas de viagem daqui.

—Sim, os ajudantes me comentaram o pouco cooperadores que eram. Não admitem a ninguém em sua propriedade. Está construindo uma fortaleza nas colinas, mas até agora, não tem feito nada mau em realidade e seus seguidores são discretos.

—Vai ser um problema —disse Sarah olhando fixamente ao homem da televisão que agitava seus braços e para gestos violentos—. Está muito longe da Califórnia.

—Tempo grátis em televisão. Pode fazer o importante e assim recrutar novos seguidores —disse Jonas—. Nunca entendi como pessoas educadas são captadas por artistas da fraude como o Reverendo —inalou bruscamente—. Justo ali, à esquerda do pequeno rebanho do Reverendo. Esse é Rudy.

—Rudy?.

—Rude Venturi. Escreve a Hannah quase todo dia. Deveria ter sabido que esse pequeno pervertido iria ao evento. Os idiotas o anunciaram com meses de antecipação e já que estavam poderiam haver gritado a cada louco que há por aí que viesse a procurá-la.

—A idéia é que as pessoas sejam atraídas ao desfile de moda, Jonas.

—Bem, foram —replicou ele torvamente—, e minhas tripas me estão dizendo que Hannah está em apuros. Tenta chamá-la o celular.

—Não vai levar o telefone a mão em meio de um desfile de moda —disse Sarah mas levantou o telefone e começou a marcar os números—. O que devo lhe dizer?

—Lhe diga que hei dito que saia daí de uma maldita vez. Não lhe aceite nenhuma desculpa, Sarah. —Caminhou a pernadas ao longo da habitação, alargando a mão para o telefone—. Aliás, me deixe falar com ela.

Sarah pendurou em seguida.

—Não vai escutar se lhe está ladrando ordens. Não pode lhe dizer simplesmente que crê que está em perigo? Se começar a lhe soltar tacos, vai se pôr teimosa.

Jonas se separou dela, mas não antes de que visse as sombras em seus olhos. Estava realmente preocupado. Não tinha nada que ver com a falta de traje da Hannah, algo sobre o que amassava com regularidade, esta vez, estava segura, estava pensando em pouco mais que a segurança da Hannah. Com o coração martelando, Sarah enviou rapidamente uma mensagem a Hannah lhe dizendo que acreditavam que estava em perigo e que por favor fizesse que um escolta a tirasse da situação.

A Semana da Moda de Nova Iorque era um dos maiores acontecimentos do ano. Sarah duvidava que Hannah recebesse a mensagem, por não falar de que o obedeceria. 

—Inclusive se se vai, Jonas, fará isso que esteja a salvo? Agora mesmo está em meio de uma grande multidão. Possivelmente esteja mais segura ali.

—Estaria fodidamente muito mais segura comigo. —Seu olhar tinha voltado para a tela, seus brancos dentes chiavam com impaciência—. Por que demônios estão mostrando a todos os manifestantes? Quero ver a multidão que está empurrando contra a corda.

—A quem tem Hannah como segurança?

—O idiota de seu agente contratou a alguém. Não posso esperar para lhe dizer que está despedido.

As sobrancelhas do Sarah se arquearam de repente.

—Vais despedir do agente da Hannah? Sabe ela?

—Em realidade me importa um nada.

—Jonas é tão arrogante. Isso não te vai levar a nenhum lugar com a Hannah.

—Ser amável tampouco me levou a nenhum lugar.

Sarah quase se afogou.

—Amável? Foste amável com ela?

—Considerando o que queria fazer, sim, estive sendo amável. Deixa de me distrair. Preciso resolver isto. A quem temos em Nova Iorque?

Sarah sabia que estava pensando em voz alta e se absteve de responder. Não havia ninguém em Nova Iorque. Nenhuma de suas irmãs estava sequer no país. sentia-se impotente para advertir a Hannah. Pressionou forte os dedos contra a têmpora tentando deter a aguda dor. Talvez estava permitindo que Jonas a assustasse. Queria que esse fosse o caso, mas estava tão assustada de que não podia sê-lo. Sabia  —sabia— que Hannah estava em dificuldades. Agora sentia o conhecimento profundamente nos ossos e estava a milhares de milhas sem forma de advertir a sua irmã.

Olhou ao aparelho de televisão esperando que acabasse a pausa publicitária para poder ver sua irmã percorrendo a passarela. Hannah saberia. Sarah cruzou os braços sobre a cintura e se abraçou fortemente.

—Ela saberá, Jonas. Exatamente como você... como eu. Saberá que está em perigo e será cuidadosa.

Jonas lhe lançou um rápido olhar de reprimenda. Era uma perita em segurança. O desfile de moda e a festa que teria lugar depois eram o pesadelo de um guarda-costas e ela sabia. Tinha trabalhado de guarda-costas durante um tempo, e toda aquela gente comprimida em uma habitação com bebida, dançando e com música selvagem ia ser o pior cenário possível para manter a um cliente a salvo.

—Sabia antes de ir ou não me teria pedido que fosse com ela —disse Jonas—. E mesmo assim foi. Maldita seja por isso.

—Jonas, isso não vai ajudar. Hannah tem um trabalho que fazer. Se der sua palavra de que vai estar em algum lugar, tem que estar ali. Sua palavra é tão importante como a tua. As pessoas contam com ela. Ter Hannah desfilando com sua roupa pode significar uma temporada de êxito. É muito importante tê-la a bordo.

—Não posso acreditar que esteja defendendo o que tem feito. Sua vida está em perigo, Sarah. Pode entendê-lo? Sua vida. Está arriscando sua vida por um fodido desfile de moda. me diga em que sentido isso não é definitivamente uma loucura?

 

Hannah sorriu e saudou com a mão no que lhe pareceu a milésima vez em dez minutos. Estava sobrecarregada ao máximo e tinha dito a seu famoso agente, Greg Simpson, numerosas vezes que precisava sair. Ele não tinha feito nada, ignorando deliberadamente seus frenéticos movimentos. Tinha sido bastante difícil fazer o show, ficando só para atender a festa posterior e Greg estava informado disso. Teve o bom julgamento de lhe derramar a bebida justo diante e ele tinha tido que sair. Enviou-lhe um pequeno sinal de advertência, mas ele apenas lhe dirigiu um olhar sufocado, lhe dando as costas, e continuou falando com o Edmond e Penetre Bellingham, os desenhistas Top da temporada.

Hannah suspirou, sabendo que estava zangado com ela por sua decisão de abandonar. Soprou um rápido beijo para a Sabrina, uma modelo a que queria genuinamente. Sabrina lhe mandou um beijo de volta e pôs os olhos em branco, antes de devolver sua atenção a um dos muitos atores que a rodeavam e que não tinha nenhuma maldita oportunidade com ela.

—Hannah, esta noite está magnífica —Russ Craun a saudou e se inclinou para lhe dar um beijo, lhe entregando uma taça de líquido espumoso enquanto o fazia.

Hannah girou a cabeça para assegurar-se de que os lábios aterrissavam em sua bochecha, olhando o relógio enquanto tomava a taça. Suas irmãs normalmente lhe davam um pequeno empurrão para evitar que tivesse um ataque completo de pânico enquanto trabalhava, mas estavam fora da cidade e ela estava muito instável.

Russ era um amigo, um jogador de futebol proeminente com reputação de farrista mas ela o encontrava muito doce. Assistiam bastante a  as mesmas festas e tinha feito um esforço por falar com ela sem tentar algo mais que uma paquera inócua. mais de uma vez tinha vindo a resgatá-la quando os homens se amontoavam muito perto.

—Russ! É sempre um prazer verte. —Jogou um olhar ao redor—. A quem trouxeste contigo esta noite?

Geralmente tinha entrevistas com jovens e bonitas atrizes que se penduravam de seu braço e lhe olhavam fixamente com adoração. Nunca duravam muito, mas se viam bem nas revistas e mantinham seu nome na primeira página dos periódicos.

—Vim sozinho, esperando que não tivesse par.

Hannah riu.

—Sabe que nunca trago par. —Tomou um pequeno sorvo de champanha e deixou que o fogo se deslizasse por sua garganta. Não era muito bebedora, mas necessitava algo que lhe permitisse passar os próximos minutos até que pudesse apartar-se desta multidão e chegar à segurança de sua habitação de hotel.

—E isso por que? —perguntou Russ, agarrando a da mão e guiando-a através da enorme habitação. A festa estava pulsando de vida e música, o som era alto e as conversações empurrando o som a seu nível mais alto ainda. Abriu as portas do balcão e a conduziu fora—. Isto está melhor.

Hannah assentiu de acordo e deu um passo aproximando-se do corrimão. Colocando a taça no brilhante mármore, aferrou o bordo com ambas as mãos e jogou a cabeça para trás para inalar profundamente.

—Você não adora a noite? As estrelas são como gemas. —Levantou os braços para a lua, o comprido cabelo derramando-se a seu redor, a cara elevada para o escuro céu.

—Faz isso deliberadamente? —perguntou Russ—. A luz da lua se derrama sobre ti e te põe no centro de seu feixe. Seu cabelo se volta platina e ouro e parece a mulher mais formosa do mundo com uma pele suave, tentadora e uns olhos misteriosos e os lábios mais pecaminosos e beijáveis que vi nunca.

Hannah piscou e depois rompeu a rir.

—Me diga que não utiliza essa frase com suas namoradas. Não é possível que possam apaixonar-se com isso.

Ele sorriu.

—Que mulher não quereria que lhe dissessem que seus lábios são uma pecaminosa tentação?

—Isso era minha pele, meus lábios são pecaminosamente suaves —assinalou.

—Não te há dito alguma vez seu namorado que é uma pecaminosa tentação? —perguntou.

Hannah duvidou. A pergunta sempre a desconcertava. Não tinha noivo. Em realidade nunca tinha tido noivo. Só havia um homem que lhe interessasse e ele a comeria viva. Ruborizou-se com o pensamento. Mas Jonas queria a alguém muito diferente e Hannah nunca poderia ser essa pessoa. Tinha-o tentado. Ele não se deu conta de que o tinha tentado, mas o tinha feito. Só olhar ao Jonas fazia dano. Tocou-se os lábios. Ainda podia sentir seu beijo. Um crepitante, deslumbrante momento que lhe parava o coração cada vez que o pensava.

Seu corpo formigou, esquentou-se com a lembrança das outras coisas que Jonas Harrington lhe tinha feito. Suas mãos nela, sua boca sobre a dela, seu corpo enchendo o dela, movendo-se dentro dela. Lutou para evitar ruborizar-se, porque as coisas que Jonas fazia fariam que qualquer se ruborizasse, mas não podia dizer que era seu namorado. Tinham tido um sexo estupendo. Sexo alucinante. A classe de sexo que não tinha sabido que existia, mas como sempre, brigaram e ele tinha terminado furioso, desiludido e cortante. Ninguém a podia cortar como fazia Jonas. Não, não podia dizer que era seu namorado.

—Não me diga que não tem namorado —disse Russ, empurrando-a mas perto do corrimão.

A Hannah desgostava que a maioria das pessoas a tocasse. Detestava essa pequena raridade dela. Queria ser amigável e fácil como Sabrina, mas qualquer companhia fazia que começasse um ataque de pânico e uma multidão como esta a devastava. Era humilhante ser uma mulher adulta, com êxito nos negócios, mas incapaz de controlar-se nem sequer como poderia fazer um menino.

—Por que sempre faz um intento, Russ, quando sabe que vou dizer te que não? —perguntou, mantendo-se em seu lugar por consideração ao orgulho.

A careta dele se alargou, chegando a ser diabólica.

—Por duas razões, Hannah, minha pequena tentadora. Primeiro, possivelmente tenha sorte e troque de opinião. E segundo, adoro o olhar apanhado que põe na cara justo antes de que tenta me desiludir brandamente. —Alcançou-a, enjaulando seu corpo enquanto recolhia a taça e a dava. Elevando a sua, fez-lhe um piscou os olhos—. Por outro rechaço.

Hannah o viu  tomar um sorvo, uma pequena careta atirava de sua boca.

—Não seja tolo. Pede-me para sair quando tem uma mulher no braço. Nunca fala a sério.

—É obvio que falo a sério. Qualquer homem não falaria a sério tratando-se de uma oportunidade contigo, Hannah. Quem é o homem misterioso e por que nunca vem contigo?

Hannah tocou a taça com os lábios, mas não bebeu realmente, uma artimanha que muitas das modelos usavam quando assistiam a acontecimentos importantes.

—Isso não é teu assunto.

—Quer dizer que te proteger de outros homens não merece seu tempo? Porque se me pertencesse estaria justo a seu lado, me assegurando que os homens como eu não lhe aproximassem. —Tomou outro sorvo, inclinando a cabeça para estudar sua cara—. Possivelmente não te mereça.

Hannah se encolheu de ombros ao mesmo tempo que tomava outro gole. Queimava-lhe enquanto baixava, mas necessitava da pequena falsa confiança nesta conversação estranha e inesperada. Jonas provavelmente riria se soubesse que pensava nele como dela. Pior, zangaria-se com ela e a acusaria de lhe utilizar para manter a outros homens a distância e possivelmente o fizesse. Nunca tinha havido espaço para nenhum outro homem. Jonas tinha ocupado todos seus pensamentos do momento que lhe conheceu e se temia que sempre fora assim, inclusive muito tempo depois de que ele se casasse com outra pessoa e se estabelecesse para ter uma família própria. Tinham tido sexo alucinante e ele ia casar se com outra e ela ia acabar como uma velha e estranha dama com gatos por toda parte.

Isso a fez desejar chorar. O líquido de sua bebida começou a borbulhar e pôs automaticamente a mão sobre o bordo da taça. Tinha que manter o controle e qualquer pensamento sobre o Jonas sempre lhe roubava o controle. Ainda podia ouvir seus próprios gritos suaves enquanto a língua dele fazia uma lenta incursão sobre cada polegada de seu corpo. Tomou outro gole e permitiu que o fogo se assentasse em seu estômago.

—Vê, aí vai. —Russ passou os dedos por sua cara como se estivesse lhe apagando a expressão—. Parece tão triste. Eu não gosto de verte triste, Hannah. Me dispare. Eu não poria este olhar em sua cara.

Forçou um sorriso rápido.

—Russ, é um coquete e um pouco um cão de caça. Nunca te vi com a mesma mulher duas vezes. Duraria uma noite e até a próxima.

—Possivelmente só necessito uma boa mulher para me endireitar.

—Está bem como está. Quando encontrar à mulher correta, quererá te estabelecer. —Olhou o relógio, ansiosa já de que o temor crescente em seu interior provinha do conhecimento de que o empurrão que suas irmãs lhe davam para evitar os ataques de pânico estava desaparecendo. Tinham estado muito tempo fora do país e seu nível de ansiedade estava subindo mais rápido do normal, seus pulmões lutavam procurando ar quando se deveria haver sentido muito melhor fora, longe da multidão.

Para acalmar-se tomou outro sorvo cauteloso de champanha. Não tocava o álcool muito freqüentemente, e a bebida golpeou duramente seu já revolto estômago. O calor e o frio a atravessaram. De repente teve náuseas. Seu coração reagiu, pulsando rapidamente enquanto se girava longe do Russ, lhe entregando a taça enquanto o fazia.

Russ colocou as taças sobre o corrimão e lhe agarrou do braço.

—Parece um pouco enjoada. Está bem? Posso te levar ao hotel.

Hannah permaneceu silenciosa, avaliando seu corpo. Era uma Drake e as Drake tinham dons especiais. De repente, seu corpo se opunha violentamente à bebida. Que estranho. pressionou-se uma mão contra a boca e tratou de afastar-se dele. Russ apertou seu agarre enquanto ela se balançava.

—Hannah? Está doente?

—Senhorita Drake. Encantado de vê-la outra vez.

Hannah ficou tensa quando ouviu o distintivo acento russo. Deu-se a volta lentamente para encontrar ao Sergei Nikitin, o gângster russo, sorrindo-lhe com uns dentes brancos brilhantes. Gozava das coisas boas da vida; seus trajes e sapatos italianos custavam tanto como um pequeno carro. Tudo o que tinha, tinha-o conseguido a costa do sofrimento de alguém.

Hannah sentia o mal nele quando estava tão perto, e não ajudavam a náusea que lhe revolvia o estômago. Olhou atrás dele e seu olhar foi agarrada e retido pelo de Ilya Prakenskii. Por um momento não pôde respirar, incapaz de apartar o olhar de seus frios e desumanos olhos. Lhe considerava o capanga do Nikitin, e no passado tinha sido treinado pela polícia secreta russa. Estranhamente, Hannah não podia sentir nada... nem bom nem mau...  quando estava perto desse homem.

—Senhorita Drake. —Ilya assentiu com a cabeça, colocando-se diante Nikitin para agarrá-la do cotovelo e apartá-la do apertão do Russ—. Parece doente. Necessita ajuda?

Hannah se jogou o cabelo para trás com uma mão tremente. sentia-se enjoada e desorientada. Precisava tombar-se. Deveria ter sentido medo da Ilya, possivelmente o tinha, mas ele era forte e a sustentava e se sentia confusa assim permaneceu imóvel, temerosa de que se tratava de fugir cairia de bruços. Se respondia possivelmente adoeceria.

—Hannah? —Ilya perguntou outra vez, com voz baixa, mas exigente. Levantou-lhe a cara, olhando-a fixamente aos olhos.

—Estava a ponto de levá-la a sua casa. —disse Russ, franzindo o sobrecenho à maneira despótica de um guarda-costas.

Hannah sacudiu a cabeça, pressionando uma mão sobre o estômago. As modelos não vomitavam nas festas justo depois do maior desfile dos Estados Unidos. Desesperada-se, enxugou as gotas de suor de sua cara e tratou de dar um passo longe da Ilya.

Ilya jogou uma olhada sobre o ombro às duas taças postas no corrimão a e um assobio baixo escapou entre seus dentes. Enquanto estendia a mão para a taça da Hannah, Russ retrocedeu para evitar seu braço e golpeou o corrimão , enviando ambas a estelar se abaixo, no jardim.

—Fica aquieta, Hannah —instruiu Ilya—. Se quer voltar para hotel, estaremos mais que encantados de te acompanhar.

Sergei Nikitin sorriu outra vez, parecendo mais tubarão que nunca.

—É obvio, senhorita Drake, seria uma honra vê-la a salvo em seu hotel. —Voltou sua atenção para o Russ—. Você é o jogador de futebol.

Seu acento se espessou, mau sinal, pensou Hannah. Tinha que fazer-se carrego da situação ou sua família acabaria ainda mais em dívida do que já estavam com os russos, e não que queria ao Nikitin em nenhum lugar perto de sua irmã Joley. Estava confusa e desorientada e muito, muito doente do estômago, mas se aferrou a isso. Sergei Nikitin não era um bom homem e tinha o mau hábito de aparecer em qualquer lugar que sua irmã atuava, procurando uma apresentação.

Hannah fez um concentrado esforço por apartar-se da Ilya e alcançar o braço do Russ. Ilya se moveu sem parecer que se movia. Deslizando-se. Ou possivelmente seus músculos só se esticaram. O que fosse que ocorreu, de repente estava solidamente entre ela e Russ. Ilya falou em russo com seu chefe.

Hannah franziu o cenho. Sabia russo e podia ter jurado que tinha ordenado a seu chefe vigiar ao violador enquanto ele se ocupava dela. Violador? Devia ter entendido mau. Russ era seu amigo. Onde estava seu agente? Precisava sair. Tudo era muito complicado e definitivamente ia vomitar sobre o guarda-costas do gângster russo.

Nikitin respondeu e a cara da Hannah perdeu toda a cor. Sentiu-se empalidecer. Disse a Ilya que atirasse ao bastardo por cima do corrimão. Entendeu-o sem nenhum problema. Não tinha forças para lutar contra dois homens e salvar ao Russ e certamente se feito uma idéia equivocada dele. Tinha estado inquieta toda a noite, mas Russ não precisava violar mulheres. jogavam-se sobre ele.

—É meu amigo —disse, ou pensou que dizia. Sua voz era estranha, metálica, longínqua. O que lhe passava?

Ilya sacudiu a cabeça.

—Entende russo, Sergei. Tome cuidado com o que diz, possivelmente não se dê conta de que está brincando.

Hannah teria rido, mas Ilya parecia estar olhando fixamente ao Russ, seus penetrantes olhos azuis estavam fixos no jogador de futebol com intenção mortal. Russ era muito arrogante e o tinha visto intimidar a outros homens, mas com a Ilya, ou também conhecia a reputação do homem, ou algo nesses frios olhos lhe advertiu.

Russ se encolheu de ombros.

—Hannah, posso ver que está ocupada. Direi a seu agente que está pronta para ir.

Hannah lhe viu atravessar as portas francesas duplas, deixando-a só no balcão com um gângster e seu guarda-costas.

—Devemos levá-la a seu hotel, onde estará a salvo —ordenou Nikitin.

Ilya sacudiu a cabeça.

—Eu posso ajudá-la. Me dê um par de minutos com ela, Sergei. Se seu agente aparecer, distrai-o enquanto vejo que posso fazer.

—Sua irmã deve saber que a ajudamos —lhe recordou Nikitin.

Ilya não respondeu, simplesmente envolveu o braço ao redor da cintura da Hannah e a levo a lado mais afastado do balcão, longe de seu chefe.

—Esse homem não é teu amigo, Hannah. Drogou-te. Liberarei seu corpo disso, mas vai queimar como o inferno. Entende-o?

Não entendia, mas sabia que Ilya Prakenskii tinha os mesmos dons que as irmãs Drake. Sabia como funcionava e que era capaz de eliminar a droga de seu corpo. Também sabia que era um homem muito perigoso, e cada vez que alguém trabalhava com habilidades psíquicas, ou mágicas, fora qual fora o término utilizado, havia uma vulnerabilidade por ambos os lados. A família Drake já estava em dívida com a Ilya e ele tinha um vínculo direto com o Joley. Ela era uma das Drake mais poderosas. Não queria que soubesse nada sobre ela no caso de tinha que proteger a sua irmã.

Hannah sacudiu a cabeça.

—Não. —Foi muito firme. Trataria com a droga. Podia empurrá-la fora de seu próprio sistema agora que sabia com o que tratava.

—Sim —a contradisse—. Não está em condições de tentá-lo você mesma. Sabe que estas coisas podem ser complicadas. Fique quieta. E a próxima vez que aceite uma bebida de um homem, amigo ou não, utiliza seu dom para te certificar de que não há nada mau nela.

Não era de ficar admirada que o homem fizesse que Joley chiasse os dentes. Hannah não era nenhuma aficionada...  e tampouco Joley. Possivelmente Ilya pensasse que era mais poderoso, mas as Drake poderiam com ele se tinham que fazê-lo, enquanto não se abrissem a sua magia. Tratou de lhe empurrar, para sustentar-se por si mesmo e assim poder reverter o que fora que andava mal com ela, mas estava muito enjoada.

A mão da Ilya posou sobre seu estômago, seu braço a rodeou, sujeitando-a no lugar. Era enormemente forte e lhe ter agarrando a com tanta gente à distância de um chiado a manteve em silêncio. Sentiu a calidez fluir de sua palma, através da pele, e entrar em seu revolto estômago. Não queria isto, mas não havia maneira de parar o fluxo de poder dele para ela. Sentiu que seus espíritos conectavam. sobressaltou-se afastando-se dele, captando olhadas de coisas que não queria ver ou saber... coisas escuras e feias que deviam permanecer enterradas.

Sentiu calor, sua temperatura aumentou. Pior, sentiu-lhe em sua cabeça. Instintivamente soube o que faria depois. Ainda enquanto curava seu corpo, procurava lembranças de Joley, de seu poder, de suas habilidades. Queria conhecer o alcance de sua força.. Freneticamente, Hannah lhe empurrou, levantando elevando os braços para o vento.

Ilya lhe agarrou os pulsos e lhe puxou as mãos pros lados.

—Há um preço para tudo. Este é meu preço.

Hannah sacudiu a cabeça, furiosa.

—Trai tudo o que te é dado e não merece seus dons. Permanece fora de minha cabeça. Não venderia a minha irmã por minha própria vida, minha dignidade ou minha virtude.

A mão dele se deslizou até rodeá-la a garganta.

—Não sabe nada de mim.

Hannah lhe olhou fixamente, negando-se a apartar o olhar ou a deixar-se intimidar. Se queria atirá-la do balcão por dizer a verdade, deixaria-lhe fazê-lo. Não ia entregar ao Joley, por nada do mundo.

—Sei que não te quero perto de minha irmã. Seja qual seja jogo ao que está jogando, que saiba que defenderemos a Joley com nossas vidas, não só eu, a não ser cada Drake, homem ou mulher, menino ou adulto, hoje vivos. -Era a absoluta verdade e lhe deixou ver a realidade em seus olhos.

—Estou familiarizado com o perigo, senhorita Drake.

Não havia nenhuma dúvida disso. Sentia-o nele, tinha-o lido em suas lembranças, coisas terríveis, coisas que não podia compreender em seu mundo. Ela tinha crescido com pais amorosos, uma família carinhosa, o povoado onde viviam muito unido e protetor. A vida dele, da infância, tinha sido uma vida de violência.

Assustava-a. Não o pânico normal por ansiedade, a não ser sinceramente, assustava-a até a medula. Sabia que sua irmã atraía aos homens como um ímã. Era escorregadia e selvagem e transpirava sexo no cenário. Hannah olhou de esguelha ao chefe. Sergei Nikitin tinha estado perseguindo o Joley ao longo de três anos. Era isso o que Ilya pretendia? ia utilizar seus talentos psíquicos para pôr ao Joley nas muito sujas mãos do Nikitin?

—Me solte —exigiu. O calor da palma se tornou abrasador, penetrando através do sangue e os ossos e invadindo cada malha do corpo, mas se sentia melhor, a cabeça mais limpa. Não havia dúvida de que tinha ingerido uma droga. Depois de todas as conferências de segurança de Sarah, sentia-se como uma estúpida. Nunca bebia, era sempre cuidadosa, e agora, quando mais necessitava seu bom julgamento, Ilya Prakenskii não só tinha presenciado sua estupidez, mas também tinha tido que salvá-la.

—Soltarei-te se não fazer nada estúpido como chamar o vento.

Hannah jogou a cabeça para trás com os olhos brilhantes, lançando faíscas enquanto seu gênio começava a levantar-se. Sempre permanecia sob controle, a menos que Jonas a provocasse. O temperamento não era uma coisa boa quando uma esgrimia poder, mas o guarda-costas merecia tudo o que estava a ponto de conseguir.

Diminutas piscadas de chamas se içaram das pontas de seus dedos, das mãos até os pulsos, onde os dedos dele se fecharam como uma tenaz. Apartou as mãos quando as chamas cintilaram sobre ele, o suficientemente quente para lhe advertir. Retrocedeu.

 —Uma boa artimanha. Deveria havê-la usado com seu amigo.

—Obrigado por sua ajuda.

Os olhos frios se deslizaram sobre ela, a cara inexpressiva.

—Posso ver quão agradecida está.

—Estou agradecida. Mas não sou estúpida. —Embora o tinha sido ao aceitar a bebida em primeiro lugar—. Não te quero perto da Joley.

—Por que está tão preocupada?

Não lhe podia ler. Se lhe tocava, ou estava perto, deveria ter sido capaz de ler seus pensamentos e emoções, mas era uma piçarra em branco. Os espionagens de lembranças violentas tinham desaparecido. Estudou sua cara. Parecia perigoso. Estava na postura de seus ombros, na forma fluída em que se movia e os diretos, frios olhos.

—Por que preocupar-se pelo Joley? —Ilya deixou cair a voz até que foi um cochicho baixo, impossível que o som fora mais longe de sua orelha—. É uma cantora de feitiços, verdade?

O coração da Hannah deu inclinações bruscas. Lutou por manter a cara serena. Cambaleou. Ele percebeu. Percebeu tudo.

—Não estou segura do que quer dizer.

Havia poucos cantores de feitiços no mundo, não legítimos, não como Joley. Podia chamar o poder da nota perfeita que supostamente tinha sido utilizada para criar ao mundo. As forças do mundo, do universo mesmo, podiam ser atraídas para cumprir suas ordens. Em mãos de alguém como Sergei Nikitin, Joley seria uma arma de destruição. Ele não tinha maneira de controlá-la, ou retê-la, a menos que Ilya Prakenskii tivesse o mesmo talento. Era isso possível?

Resistiu o impulso de passá-la mão sobre a cara, segura de que começava a suar. Era Prakenskii o suficientemente forte para controlar ao Joley? A idéia era aterradora.

—Parece pálida senhorita Drake —disse Nikitin, com seu sorriso solícito. E falso.

Os músculos da Hannah se esticaram. Sentia-se apanhada. Deu um jeito para sorrir, retornando a seu modo profissional. Ninguém podia parecer mais altiva que Hannah Drake. Ficou inclusive uma mão no quadril e adotou uma pose, enquanto lançada seu pequeno sorriso desdenhoso.

—Sinto-me melhor, obrigado, Senhor Nikitin. desfrutou do show?

—Não pude evitar pensar que nenhuma dessas as roupas lhe sentaria bem a sua irmã. Joley tem seu próprio estilo. Não está de acordo?

Nem sequer queria que Nikitin pronunciasse o nome do Joley. Sem um pensamento consciente, deu um passo para o corrimão, movendo as mãos para cima e fora. Prakenskii se deslizou para diante, envolvendo o braço ao redor de sua cintura, lhe sujeitando um braço ao flanco, lhe agarrando firmemente o outro braço e levando-se sua pulso à cara como se a examinasse.

—Não está ferida, verdade? —perguntou, os olhos azuis como adagas. Estará-o se lhe ameaça.

A ameaça foi clara em sua cabeça, como ele tivesse pronunciado dito as palavras em voz alta. Era telepático, algo que já sabia. Joley se queixava frequentemente de que falava com ela. E agora estava na cabeça da Hannah também. A situação ia de mal em pior. Não era de sentir saudades que tivesse visto três anéis ao redor da lua. Não era de sentir saudades que tivesse tido medo de fazer esta viagem sozinha. Deveria ter considerado que este Sergei Nikitin apareceria na Semana da Moda de Nova Iorque. Estava sempre onde estava a ação. Poucas pessoas o conheciam pelo que era.

Hannah se negou a entrar em uma conversação telepática com a Ilya. quanto mais soubesse dela, mais poder esgrimiria, e definitivamente procurava informação sobre o Joley. Todo este tempo, tinha acreditado que Sergei Nikitin estava interessado em sua irmã. A imagem pública do Joley era de selvagem, uma garota de festas. Recentemente tinha havido um terrível escândalo, fotos do Joley com seu comprido cabelo negro, pressionada contra uma janela, nua com seu misterioso amante cobrindo-a. Só que Joley se tingiu o cabelo depois de que as fotos tivessem sido publicadas, e tinha permitido que o escândalo a golpeasse com toda sua força, quando as fotos não eram dela absolutamente. O interesse do Nikitin possivelmente não estivesse na garota das festas e isso significava que tinham um imenso problema.

—Vôo a Madrid amanhã para assistir ao concerto de sua irmã —insistiu Nikitin, ignorando o fato de que seu guarda-costas mantinha a Hannah cativa.

—É muito boa —disse Hannah cortesmente—. Desfrutará.

—Perdi poucos de seus concertos —disse Nikitin—. É uma artista maravilhosa. Há algo extraordinário em sua voz.

Hannah se esticou. Não podia evitá-lo.

Ilya apertou seu agarre. Não reaja. Não sabe nada do Joley além de que é formosa.

Podia ser isso certo? E inclusive se assim fora, por que a advertiria Ilya? Nunca tinha estado tão confusa em sua vida. Não estava feita para a intriga. Forçou a seu corpo a relaxar-se. Ilya a soltou mas não se afastou. Já tinha visto quão rápido era e não ia permitir lhe detê-la outra vez. Isso só a fazia parecer débil.

—Concordo com você, Senhor Nikitin —disse Hannah, cortês como uma menina—, mas sou sua irmã assim não sou imparcial.

—Estamos no mesmo hotel, e damos uma festa ali em um par de horas, apenas uns poucos amigos escolhidos —continuou Nikitin—, se você quiser unir-se.

Hannah abriu a boca para dizer não. Era a última coisa que queria fazer, uma festa com o Nikitin e seus amigos detrás de umas portas fechadas.

—Um convite muito generoso, Hannah —disse Greg, que atravessava as portas enquanto o russo emitia seu convite — Senhor Nikitin. Acredito que nos conhecemos em Paris.

Estendeu a mão e Nikitin tomou.

—É obvio. —Sergei voltou a ser encantador, os dentes brancos brilhando, inclinando a cabeça amavelmente, a realeza ao camponês.

Hannah encontrou interessante como Greg quase o adulava. Nikitin esgrimia muito poder com seu dinheiro e suas conexões. Poucos queriam saber se os rumores sobre ele eram certos. Tinha dinheiro, muito para saber o que fazer com ele. Freqüentemente dava dinheiro a algum novo desenhista e mais de uma vez tinha ajudado a construir carreiras. Suas festas eram famosas e todo mundo queria um convite, com a exceção da Hannah. Ela não podia ignorar os rumores porque estar perto do Nikitin já era suficiente para revelar a feia forme em que tinha feito a maior parte de seu dinheiro. Aparecia suave e sofisticado, mas tinha as mãos metidas em tudo, desde drogas até assassinatos. Ninguém tinha podido prová-lo, e Hannah duvidava sinceramente que alguém fosse fazê-lo jamais. Conhecia muitos políticos, muitos ricos e famosos. Ninguém queria saber que estava sujo.

—Greg. —Estava desgostada pela maneira em que o homem estava disposto a vender sua alma por um convite—. Deveríamos ir.

Nikitin jogou uma olhada a seu relógio.

—Temos um par de pessoas mais às que saudar e depois podemos voltar para hotel. —Agora sua atenção estava inteiramente em Greg .

—Nós adoraríamos —esteve de acordo Greg, tomando o braço da Hannah.

Era um sinal seguro que queria ir. Sabia, igual a ela, que o convite dependia de que lhe acompanhasse. Hannah manteve o sorriso em seu lugar. Tudo o que tinha que fazer era chegar até a porta. O balcão já não se sentia seguro. Nenhum lugar ao redor do Nikitin era seguro. Só podia seguir com o plano, e logo que estivessem fora o porteiro poderia chamar um táxi.

Jogou um olhar furtivo a Ilya. Parecia a viva imagem do guarda-costas perfeito, camuflando-se com o fundo, seus olhos movendo-se inquietamente, examinando os telhados, as janelas do edifício ao outro lado da rua. Era realmente fascinante, como via tudo, ouvia tudo, estava a par de coisas que ninguém mais considerava sequer. Estava totalmente consciente de que tentaria sair correndo no momento em que estivesse fora do edifício. Esperou que dissesse algo, mas Ilya seguiu simplesmente ao Nikitin e ao Greg, que a mantinha sujeita do braço, de volta ao quarto.

O ruído era ensurdecedor e a golpeou duramente. A aglomeração de corpos lhe produziu claustrofobia. O ambiente tinha estado lotado antes de que tivesse saído ao balcão, mas agora não havia espaço para se mexer. As pessoas gritavam saudações e felicitações enquanto abriam passo através da multidão. Os dedos do Greg escorregaram de seu braço e ela partiu rapidamente, dirigindo-se para a porta e a liberdade.

—Hannah —a saudou Sabrina, agarrando suas mãos—. Não posso acreditar que ainda esteja aqui. Te vê pálida céu, está bem?

—Saio agora. Uma aparição rápida e vou —disse Hannah.

—Sua marca registrada. Crê que poderemos chegar até a porta? Deveríamos ter trazido um par de guarda-costas realmente grandes para nos proteger da aglomeração.

Sabrina girou para a Hannah e começou a abrir caminho com sua maneira através da multidão.

—Esperava que alguém importante me convidasse a outro grande acontecimento, mas até agora ninguém importante se incomodou. Juro-lhe isso, Hannah, você nem sequer o deseja e tem uma carreira impressionante e eu morro por estar em seus sapatos e não posso consegui-lo de maneira nenhuma.

—Isso não é verdade, Sabrina. —Hannah tratava de ver sobre a massa de pessoas, julgando como longe estava da porta.

Era alta, mas havia muitos corpos e não podia ver mais à frente do enxame de pessoas que as esmagavam. Olhou atrás dela. Nikitin e Ilya a seguiam rápido, a multidão se apartada para o guarda-costas. Seu agente se apressava para lhes manter o ritmo, decidido a que não lhe deixassem atrás. Não era de sentir saudades que de repente se sentisse doente de medo. Estavam tratando de agarrá-la antes de que fugisse.

Ilya a chamou, separando-se de repente dos outros dois homens e empurrando garçons fora de seu caminho. O coração da Hannah deu inclinações bruscas e girou rapidamente a cabeça ao redor, quase chocando contra Sabrina enquanto tratavam de abrir-se caminho  para frente.

—O que acontece? —exigiu Sabrina, jogando uma olhada sobre o ombro—. Esse homem está te perseguindo?

—Sim —admitiu Hannah, muito assustada para mentir.

—Quem é? —Sabrina colocou o ombro em uma abertura magra entre dois homens e empurrou, arrastando a Hannah com ela.

—O guarda-costas do Nikitin.

—Céu santo, Hannah, por que corre? Todos os que são alguém estarão em sua festa a menos que fizesse algo ao Nikitin. Não o fez, verdade? —Sabrina se arriscou a outro olhar rápido—. Está alcançando, te mova mais depressa. Nikitin tentou se ligar contigo?

O coração da Hannah trovejou em seus ouvidos. Com cada passo, o terror a apertava mais fortemente. Caminhou mais rápido, chocando-se contra a gente enquanto jogava rápidos e nervosos olhares sobre o ombro.

Hannah! Para agora mesmo!

A ordem foi brusca e clara e a dor queimou através de sua cabeça quando sentiu a chicotada de um feitiço de retenção. Rompeu-o, girando a cabeça rapidamente para a porta. Estava justo ali. Liberdade. Dois passos mais e estaria fora, onde poderia chamar as forças da natureza em sua ajuda. Chocou-se com um corpo grande e uma mão a agarrou pelo braço para estabilizá-la.

-Por que não voltou para hotel? —Exigiu Jonas, passeando de um lado ao outro enquanto olhava o televisor—. Qualquer pensaria que comprovaria ao menos seu celular. Nem sequer revisou as mensagens depois do desfile. Não precisava assistir à festa. Isso não é parte de seu contrato, verdade?

Sarah se afundou na cadeira e olhou fixamente a tela. A festa estava em plena atividade, os jornalistas entrevistavam a desenhistas e estrelas de cinema antes que às modelos. Vislumbrou a outro par de modelos de passarela que conhecia pelo nome, mas Hannah tinha desaparecido entre a multidão. Toda a cena era uma loucura. Música alta, roupas extravagantes, muita gente famosa todos rivalizando pela câmara. Não havia maneira de encontrar a Hannah entre a multidão, a menos que o jornalista quisesse uma entrevista e Hannah nunca concedia entrevistas. Imóvel, olhava, forçando os olhos.

Jonas estava tão nervoso que estava afetando à casa da família Drake. As paredes se ondulavam com a tensão que enchia a casa. Parecia difícil respirar, o ar era muito espesso. Sarah  não podia apartar o olhar da tela, temerosa de que se o fazia, algo horrível aconteceria.

—Aí está Sabrina. —incorporou-se, com os olhos pegos à escura mulher de lustroso cabelo enquanto esta se abria passo entre a multidão—. Parece que está falando com alguém mais, justo fora da vista da câmara, Jonas. Apostaria que é Hannah e estão saindo.

A câmara fez uma passada uma vista mais ampla e Sarah divisou a Hannah. Parecia que tinha pressa, sua larga juba fluía atrás dela, sua cara estava tensa enquanto olhava sobre o ombro. Vários passos atrás dela, Ilya Prakenskii arremetia através das massas, claramente perseguindo-a. Sergei Nikitin e o agente da Hannah seguiam a esteira do homem maior.

—OH, Deus, diante de ti, Hannah —gritou Jonas, de repente apressando-se para a televisão—. Diante de ti, maldita seja, olhe diante de ti. OH, Deus, não! Hannah!

Tirou a arma, um gesto automático, mas não havia nada que pudesse fazer enquanto Hannah girava a cabeça e a faca cortava através de sua cara. Olhou impotente, o arco, a determinação do homem enquanto dirigia sem descanso a faca caseira. A cara. O peito. O abdômen. Ela levantou os braços, uma defesa lastimosa contra um louco. O seguia esfaqueando e apunhalando, repetidamente, utilizando a força de seu corpo com cada balanço.

Jonas ouviu um grito cru e quebrado de angústia absoluta, soube que tinha sido arrancado de sua alma. Deixou-se cair de joelhos, incapaz de estar de pé, impotente para fazer algo e deter o assalto. Depois de dele, Sarah chiava e chiava.

O sangue salpicou à multidão elegantemente vestida e o braço seguiu golpeando, esfaqueando e cravando-se. Ouviu o Sarah vomitar, mas ele não podia apartar o olhar.

Ilya Prakenskii agarrou ao agressor por detrás, arrastando-o longe da Hannah, controlando a mão da faca, balançando-a duramente fazendo que a folha sangrenta formasse um arco e a conduziu profundamente contra coração do homem. Ilya o deixou cair, girando para tratar de agarrar Hannah antes de que golpeasse o piso. A câmara a seguiu, mas o corpo da Ilya bloqueou a tomada, deixando sozinho a imagem de um rio de sangre empapando largos cachos espirais enquanto o jornalista tratava de recuperar a calma.

Jonas se afundou completamente no chão, com a mente intumescida, o choque estendendo-se. Jogou uma olhada ao Sarah. Estava estendida no chão, tão imóvel como Hannah tinha jazido, pálida, sua respiração superficial, os olhos em branco. Sentiu-o então, o peso assombroso do conhecimento quando as irmãs Drake foram conscientes da enormidade do ataque. Ouviu gritos de angústia, de uma pena tão profunda que igualava a sua própria.

Tocou-se a cara e soube que as lágrimas caíam descontroladamente. Tinha medo de que possivelmente nunca fora capaz de parar. A porta se abriu de repente e Jackson se parou enquadrado ali, sua cara sombria, a boca um conjunto de linhas duras.

—Vamos.

 

Jonas nunca tinha rezado tanto em sua vida. Olhava cegamente pela janela do avião, alternando entre sentir-se paralisado e perdido, e depois golpeado por uma fúria tão ardente que lhe aterrorizava. Tinha medo de falar, medo de que a raiva saísse de repente e consumisse a todos os que lhe rodeavam.

Pressionou-se as gemas dos dedos com força contra os pontos de pressão ao redor dos olhos, esperando que dor palpitante se aliviasse algo. Joley tinha um jato privado esperando por eles no aeroporto, e sabia que as Drakes estariam voando desde todas partes do mundo, mas como poderiam chegar a tempo para salvar sua vida?

Hannah. Sussurrou seu nome. Não me deixe.

Sempre tinham tido uma conexão, desde que podia recordar. A primeira vez que ela tinha entrado no pátio do colégio, fraca, pálida, toda cabelo loiro com cachos elásticos por toda parte, soube que tinha nascido para ele. Ele era uns anos maior, e se sentiu envergonhado por olhar fixamente a uma menina tão pequena, embora, aos dez anos, não a estava olhando com interesse sexual. Sempre soube que era a única desde o momento em que tinha visitado a casa dos Drake, mas ao vê-la ali, em pátio do colégio… simplesmente o tinha sabido. O conhecimento lhe tinha surpreendido, por ser tão seguro. Desde esse momento foi uma parte dele… como respirar.

É obvio, nunca lhe tinha dado atenção. Demônios. Nem sequer tinha falado com ele… não no colégio em todo caso. Tinha odiado isso. Uma vez se inteirou dos ataques de ansiedade e acanhamento, entendeu-o, mas naquela época, tinha sido demolidor. Tinha atuado com segurança ao redor dela sem importar o que acontecesse sua vida. Inclusive então, tinha necessitado provar que era mais tenaz e mais forte, para ser digno da Hannah.

E no mais profundo de seu coração, tinha sabido que era impossível. Nunca seria digno da Hannah. Ninguém o era. Era tão diferente. Formosa além da razão, mas era muito mais que isso. Doce. Tão endemoniadamente doce. Querendo preocupar-se com todo mundo. E onde deixava isso a um homem que tinha vivido a maior parte de sua vida entre as sombras, caçando aos tipos maus?

Ele a conhecia. Por dentro e por fora. Conhecia-a. Era caseira, não a turista que todos pensavam. Estava cômoda com um par de jeans e uma camisa de flanela, não com as roupas sofisticadas e elegantes que lhe sentavam tão bem. Mas ainda assim ele não podia ter a alguém tão bom que a luz brilhava a seu redor, não quando sempre vivia nas sombras. Vive, carinho, por mim, vive.

—Ainda está viva —murmurou Sarah, como se lesse seu pensamento. Estava sentada junto a ele, com seu prometido Damon lhe agarrando a mão com força enquanto ela se concentrava com cada grama de seu poder em estar conectada com a Hannah. Jonas sabia que todas as Drake o estavam. Irmãs. Tias. Sua mãe. Primas. A família era enorme, como o eram seus poderes, e Jonas soube sem dúvida nenhuma, que todos estavam centrados em salvar a uma pessoa—. Estamos fazendo tudo o que podemos.

—Só permaneçam com ela até que cheguemos ali, Sarah. Uma vez que esteja com ela, poderei ajudar.

—Por que alguém lhe faria isso? —perguntou Sarah, sua voz afogada pelo pesar— Por que alguém quereria ferir a Hannah?

Imediatamente Damon passou um braço a seu redor e se aproximou para aproximar a cabeça à sua, como se a ajudasse a absorver a implacável tristeza.

Jonas poderia lhe haver dito que não serviria de nada. Sarah sabia, igual a ele, que quem quer que tivesse feito isso não tinha querido ferir a Hannah… tinha querido destruí-la. O ataque tinha sido espantoso, chocante, em rede nacional, uma mensagem enviada a milhões de pessoas. O atacante estava morto e podia que nunca averiguassem seus verdadeiros motivos, ou se tinha sido um ato isolado de violência demente. Alguns simplesmente estavam loucos. Com a mente transtornada. Ele tinha visto o suficiente como para que lhe durassem toda uma vida. Às vezes não havia nenhuma razão para que a gente fizesse essas loucuras.

— Com que prontidão pode chegar Libby aqui? —manteve os dedos pressionados sobre os olhos, ocultando sua expressão.

—Não o suficientemente rápido —admitiu Sarah. Sua voz se rompeu—. Isto não pode estar passando. Não Hannah. Ela é tão… —sacudiu a cabeça, pressionando-a mão contra seus trementes lábios— Tenho que me concentrar.

—Tem-na?

Sarah ficou rígida. Era a pergunta que estava temendo. Jonas estava sacudido, destroçado, com um cru pesar gravado com força em sua cara. Acreditaria que tinham possibilidade de salvar a Hannah, se as Drakes a sustentavam a seu cuidado. Jonas já não acreditava em muitas coisas, mas acreditava em sua família e no poderoso vínculo que compartilhavam. Não lhe podia mentir… ao Jonas não.

—A sinto  —disse, com a maior gentileza possível, quando em realidade queria chorar um rio de lágrimas—. Estava muito longe para que pudesse nos alcançar. Ilya Prakenskii a tem. Estaria morta sem ele, inclusive agora, e a levaram a sala de operações.

Jonas se sentou erguido. Pela primeira vez deixou cair as mãos de sua cara.

—Como sabe?

—Ele fala com o Joley e ela nos transmite a informação. Joley… —Sarah conteve um soluço, pressionando sua cara contra o ombro do Damon. Imediatamente ele sussurrou em seu ouvido.

—Joley lhe suplicou que não deixasse morrer a Hannah. Tem medo do Prakenskii, assim pode imaginar como de extrema é a situação para que fique em dívida com ele. —Estava divagando por quão assustada estava, mas não parecia capaz de deter-se. Necessitava tanto consolo como Jonas — Ainda assim, ele salvou a vida a Hannah. Você o viu.

—Também o vi matar ao homem que a apunhalou. —Tinha-o feito com tanta facilidade, tão rápido que o movimento apenas se registrou na tela, tão veloz, praticado e fluido. Jonas sabia que o tinha feito muitas vezes.

Ilya Prakenskii. Aí estava um verdadeiro quebra-cabeças. Jonas tinha tentado encontrar informação sobre ele. O prometido do Abby Drake, Aleksandr Volstov, conhecia a Ilya da infância. Prakenskii tinha sido educado pelo estado e treinado como arma letal, mas a partir daí, o rastro se voltava impreciso e nenhuma pesquisa tinha revelado no que o homem estava envolto em realidade. Aleksandr suspeitava que o atual trabalho do Prakenskii como guarda-costas de um mafioso era só uma coberta de alguma outra coisa, mas se era assim, sua coberta era impecável. Jonas, com todos seus contatos, não tinha sido capaz de encontrar nada. Ilya Prakenskii era uma carta ao azar, que tinha a vida da Hannah em suas mãos.

Prakenskii poderia estar trabalhado para seu governo, ou ser realmente um homem do Nikitin, mas fora como fosse, estava treinado como assassino… e tinha a vida da Hannah em suas mãos.

—Não pôde fazer nada mais —disse Sarah—. Aconteceu tão rápido. Tinha que deter o homem.

Jonas não estava tão seguro de que um homem como Prakenskii tivesse que matar. Tinha eleição e decidiu a morte para o atacante. Por que? Vingança… ou um pouco mais sinistro? Demônios. Jonas já não acreditava em ninguém… especialmente não no homem que tinha salvado a vida da Hannah. Teve que forçar a sua mente a pensar. Era a única forma de permanecer cordato até que estivesse com ela. Quando estivesse com ela, o resto do mundo podia ir-se ao inferno, por isso a ele concernia.

— Trouxe os arquivos dos loucos? —perguntou ao Jackson, que estava sentado ao outro lado do corredor.

O ajudante abriu a maleta.

—Estão todos aqui. Crê que o assassino atuou só? —Jackson lançou um olhar agudo ao Jonas—. Sente que a ameaça passou?

A seu lado, Sarah deixou escapar um pequeno som de angústia.

—OH, Deus, Jonas. —Conteve um soluço—. Crê que mais de um homem poderia estar envolto? Hannah poderia estar ainda em perigo?

Queria tranqüilizá-la, fazer que tudo fosse melhor. Jonas Harrington, o cavalheiro branco, salvador do mundo. Demônios, não tinha salvado à pessoa mais importante para ele.

Hannah.

Com a mesma podia vê-la outra vez, em televisão, sorrindo enquanto as câmaras disparavam, e o olhar rápido por cima do ombro enquanto se avançava rapidamente entre a multidão, o giro, o olhar de comoção, de horror quando a faca se elevou e caiu.

O ar nos pulmões do Jonas ficou apanhado, e permaneceu aí, queimando até que pensou que ia deprimir se. Enfrentou-se com balas, sangue e morte no campo de batalha mais vezes das que queria contar. Tinha visto sua mãe, uma mulher doce e maravilhosa, ser devorada lentamente do interior, sofrendo cada momento de sua existência, e não tinha pensado —não tinha acreditado— que pudesse haver mais dor. Mais fúria. Sentir-se, estar, mais endemoniadamente desamparado.

—Jonas —a voz do Jackson foi brusca e premente—. Concentre. Segue sentindo a mesma ameaça para ela? Foi um tio sozinho?

Esclareceu-se garganta e tentou dominar-se.

—É impossível de saber. O perigo é tão forte que não posso dizer se for porque está perto da morte ou porque ainda há alguém atrás dela.

Sarah esticou a mão para a maleta e tirou algumas das fotografias, sacudindo a cabeça enquanto as olhava.

—Por que demônios consideram sequer a esta gente? —Sustentou em alto duas das fotografias—. Duvido que um grupo pró direitos dos animais considerasse matá-la e continuar enviando assassinos. E inclusive o Reverendo com seu grupo moral teria pouco que ganhar.

—Permaneceriam nas notícias. Quem sabe como pensa a gente retorcida, Sarah —respondeu Damon, aproximando-a mais. Ele tinha sido uma vítima e tinha cicatrizes e a perna que já quase não lhe funcionava para prová-lo—. Poderia haver uma dúzia de razões, todas perfeitamente lógicas em suas mentes. Qualquer que faz este tipo de coisa está realmente mal.

Jonas girou a cabeça para voltar a olhar fixamente mas sem ver pela janela. Nada tinha sentido. Nada salvo Hannah. Tinha perdido tanto tempo esperando a que ela fizesse o primeiro movimento. Por que o tinha feito? Tomava o mando em toda situação, mas não com ela. Porque lhe tinha medo. Suprimiu um gemido. Essa era a verdadeira razão. Era uma pessoa que agradava aos outros, que queria que ele fosse feliz, queria ver sua família feliz, sempre dando de si mesmo, mas nunca tomando. Também queria a ele feliz, mas não a custa de si mesmo. E se conhecia o suficientemente bem para saber que não poderia permitir-se ser tragada por completo.

—Tem gênio —murmurou em voz alta.

Sarah lhe jogou uma olhada.

—Quem?

—Hannah. Tem gênio. E quando está zangada, pode causar estragos.

—Por isso raramente faz algo mais que tomar-se pequenas e molestas formas de vingança, como pôr-se a voar seus chapéus pela rua —disse Sarah.

—Aflijo-a, verdade? —perguntou Jonas. Sabia a resposta. Sempre lhe estava ordenando fazer algo. Raramente o pedia. Demônios, tinha sido tão fodidamente miserável com ela no hospital, que era um milagre que não tivesse tirado uma pistola e disparado.

Sarah sacudiu a cabeça.

—Honestamente não sei. Estou começando a me dar conta de que não conheço a Hannah muito bem, Jonas. Pensava que o fazia, mas todas as coisas que acreditava saber sobre ela, bom, acredito que simplesmente me deixou ver as que acreditava que eu queria.

—É tão malditamente formosa e preparada. Pode me superar qualquer dia da semana. —Jonas se passou ambas as mãos pelo cabelo—. Qualquer um pensaria que deve ter suficiente confiança para dez pessoas. Parece que a tem. É toda toque, cheia de não me toques, com sua atitude de estou-tão-fodidamente-por-cima-de-ti-que-nunca-estará-a-minha-altura.

—É tão dolorosamente tímida que gagueja, Jonas; isso não é algo que dê segurança a uma mulher. —Esfregou a bochecha contra o ombro do Damon—. Tivemos que ajudá-la a fazer aparições públicas.

Jonas fechou as mãos em dois apertados punhos. Isso claramente lhes deveria ter demonstrado algo. Se Hannah não podia sair em público sem que suas irmãs a ajudassem, não lhes tinha ocorrido que a tensão seria muita para ela? Não manifestou o óbvio. Do que serviria? Sarah estava começando a dar-se conta por si mesmo, e lhe doeria. Queria a Hannah. Culparia-se a si mesmo por não dar-se conta de que Hannah não tinha sido feliz. Todas as Drakes o fariam.

Hannah. Carinho. Amo-te tanto. Tão fodidamente tanto. Alguma vez lhe disse isso? Não o podia recordar. Tinha-lhe dado tudo o que era, tinha-a venerado com seu corpo, mas tinha pronunciado as palavras? Covarde. Tinha sido um fodido covarde inclusive quando ela lhe tinha entregue.

—Jonas. —A voz baixa do Jackson irrompeu suas recriminações—. Te vais voltar louco. Olhe estes arquivos. Faz o que é melhor. Se Prakenskii eliminou a ameaça para ela, bem, mas se houver mais, se houver um grupo detrás disto, vamos fazer que esteja segura quando despertar.

Jackson não havia dito “se” despertava. Jonas se aferrou a isso enquanto agarrava um dos arquivos e o abria para olhar a cara infantil do Rude Venturi.

—Este não. Está tão concentrado nela que nunca a compartilharia. Em sua mente tem uma fantasia desenvolvida com ela. —Passou- o arquivo ao Sarah—. Lê-o, Sarah, olhe a ver se sentir o mesmo. —Sarah tinha boa cabeça e um talento para “sentir” coisas às que ele não chegava. Apostaria o que fora a que o ataque não tinha sido uma conspiração que envolvesse ao Rudy, mas não estava disposto a correr riscos com a vida da Hannah. Sem importar o que dissesse Sarah, Rude seria interrogado, mas possivelmente estaria nos postos baixos da lista.

Jackson lhe aconteceu o seguinte arquivo aberto, lhe dando uns golpezinhos quando Jonas o agarrou.

—Este parece problemático. —disse Jackson—. Eu não gosto das cartas que tem escrito ou as coisas que tem que dizer. Tem muitos membros de seu “rebanho” lhe apoiando e as cartas desses são mais fanáticas que as suas. O Reverendo acredita que Hannah, e as modelos como ela, estão tentando a garotas jovens a cometer atos perversos, luzindo seus corpos e promovendo a sexualidade e promiscuidade.

Jonas jurou.

—Pequeno safado filho de uma cadela. É ele o que força a garotas jovens a atos perversos. Esteve reunindo um pequeno harém, garotas das ruas, que se escaparam. E os homens de seu rebanho não são ovelhas… mas bem lobos. Até agora não fomos capazes de pilhá-lo em nada, mas suspeitamos que tem um dos negócios ativos de drogas maior.

—Nikitin se dedica às drogas? —perguntou Sarah, devolvendo ao Jackson o arquivo do Rudy.

—Nikitin tem a mão metida em virtualmente tudo, mas Tarasov, seu maior competidor, dirige a maior parte dos negócios na Rússia. —disse Jonas. Não queria falar sobre o Boris Tarasov, não depois de ter visto o material explosivo que tinha havido no filme que ele e Jonas tinham entregue a sua comandante. Karl Tarasov e os irmãos Gadiyan tinham conseguido sair do país, mas Petr tinha sido capturado tranqüilamente quando tentava escapar, e estava sendo retido em um lugar não revelado. Com toda segurança Jonas não queria saber sua localização, mas queria inteirar-se de quem tinha sido o traidor dentro do Departamento de Defesa.

—Algum destes arquivos tem algo que ver com algum dos russos? —insistiu Sarah—. Possivelmente Nikitin estava aí por alguma razão.

—Nikitin tem uma razão para tudo o que faz —esteve de acordo Jonas—, mas nenhum deles ameaçou nunca a Hannah, ou se comunicou com ela. E ela não tem nem idéia de drogas, assim podemos eliminar aos russos. Freqüentemente Nikitin assiste a festas destacadas, em particular às da indústria da música e a moda. Acredito que é seguro dizer que foi ali para ser visto, mais que para ver a Hannah. —mas não estava descartando nada por completo. Todos eram suspeitos, inclusive Ilya… especialmente Ilya.

—Também quero jogar uma olhada mais de perto ao Reverendo —disse Jonas—. Sarah, estuda sua pasta e me diga se perceber alguma sensação dela. —Pôs a pasta no colo.

—Posso-te dizer que é repulsivo —disse ela, sua mão se deslizava sobre os papéis—. E não se opõe à violência… nem ao dinheiro. Também tem uma fixação com a Hannah e Joley.

—Genial. —Jonas se esfregou as têmporas palpitantes.

Sarah tomou ar.

—Tem uma parede com imagens e artigos de nossa família. Posso vê-la.

—Põe-me muito nervoso quando faz isso —disse Damon—. Nunca vou me acostumar a isto. Está segura, Sarah?

Ela assentiu.

—Para alguém como o Reverendo, minha família deve ser o mais próximo a Satã que se possa encontrar nesta terra. Se tiver descoberto que alguma de nós pode fazer as coisas que fazemos, pode ser razão suficiente para agitar a seus seguidores à violência.

—Houve um breve momento durante uma entrevista com um repórter em que citou algo da Bíblia a respeito de que cada um recebe o que planta —apontou Damon—. Parecia muito devoto.

—Safado maluco —grunhiu Jonas—. Ponha à cabeça da lista.

—Este outro está em Deixa que os Animais Vivam Livres, o grupo DAVL. Fizeram muitos ameaças contra Hannah desde que os rechaçou quando lhe pediram que fosse seu porta-voz. Têm muita massa e uma reputação desastrosa graças a ela e a um amigo seu repórter de investigação. Têm a reputação de ser violentos, tudo em nome dos direitos dos animais, é obvio, e sabemos que alguns membros do grupo a ameaçaram muitas vezes. —Jackson aconteceu com Jonas a pasta—. Acredito que temos que examiná-los a fundo. Um dos homens que apresentou provas contra eles, Benjamin Larsen, desapareceu o verão passado.

—É o que se desfazia dos corpos dos animais, e se estava levando partes de tigre e as vendendo no mercado negro. —Jonas forçou a sua mente a recordar, a pensar em algo que não fosse Hannah, jazendo tão perto da morte. Logo que podia concentrar-se com o ruído em seus ouvidos e o protesto pulsando grosseiramente em suas tripas.

—Exato. Um negócio muito lucrativo hoje em dia. A pele, as partes do corpo, podem valer uma fortuna se a gente souber o que faz. DAVL protestava contra um refúgio de animais, obtinha um mandato judicial, tirava os animais e lhes praticava a eutanásia logo que os jornalistas se foram. DAVL afirma que nunca receberam nem um centavo pela morte dos animais, mas Larsen afirmou que os mascotes eram entregues a centros de investigação e os grandes felinos foram vendidos por partes no mercado negro.

—Isso é horroroso —disse Sarah.

—Como demônios se viu Hannah envolta? —perguntou Damon.

Jonas suspirou.

—Quando lhes deu a mão, percebeu todo tipo de imagens e partiu daí, lhe pedindo a um amigo jornalista de investigação que rebuscasse. Toda a confusão saiu do chapéu e foi um escândalo enorme. DAVL o minimizou, têm muita influência política. Aos políticos e celebridades gostam da imagem de salvar a vida selvagem e DAVL é muito bom conseguindo publicidade. Jogaram-lhe a culpa a alguns membros muitos entusiastas e contrataram a uma importante empresa de publicidade para trocar por completo sua imagem. Mas após a Hannah esteve recebendo cartas.

Hannah. Ela tinha chorado ante o conhecimento, ante as impressões que tinha obtido quando lhe tinha dado a mão ao presidente. Jonas a tinha encontrado na praia com lágrimas caindo pelas bochechas. Foi uma das poucas vezes que se atreveu a abraçá-la. Encaixava tão perfeitamente em seu corpo, feita para ele, esse era seu lugar. Quis matar a todos os dragões para evitar que derramasse mais lágrimas.

Tinha sido suave e cálida, e totalmente feminina, seu cabelo havia fluído ao redor deles como a seda. O mar tinha estalado em colunas tormentosas de espuma branca, golpeando contra as rochas em harmonia com sua própria tormenta selvagem de lágrimas. O vento se formou redemoinhos em torno deles, apartando-os do resto do mundo, lhe fazendo sentir como se estivessem sozinhos e juntos, o sol passando por cada matiz de vermelho e laranja, uma bola gigante e brilhante vertendo ouro fundido na água revolta. Tudo tinha sido precioso e maravilhoso, tudo em Hannah era mágico… inclusive suas lágrimas.

Jonas afastou a vista do Jackson, assegurando-se de não lhe tocar. Sabia que Jackson era um poderoso psíquico, seu talento era distinto ao das Drakes. Sempre se tinha perguntado se Jackson podia ler às pessoas, captar pensamentos deles, mas Jackson preferia o silêncio a falar. Raramente revelava algo sobre si mesmo. Certamente nunca falava sobre seus dons psíquicos.

Jonas se sentia quebrado, incapaz de deixar de estar aflito pela Hannah. Não necessitava que Jackson visse seu interior feito pedaços, que visse a profundidade de seus sentimentos e necessidade pela Hannah.

—Assim que o DAVL vai à cabeça da lista de suspeitos —disse Damon.

—Deixa que Sarah o “leia” —disse Jonas.

—Quase tenho medo —disse Sarah, e a contra gosto agarrou a pasta do regaço do Jonas. Tremiam-lhe as mãos—. Estou percebendo um montão de coisas mescladas. Muitos deles estão autenticamente comprometidos a salvar aos animais. Infelizmente há um par que estão usando a organização para seus próprios fins, que são basicamente dinheiro e poder. E sim, há ódio para a Hannah. Posso senti-lo, mas não te posso dar um nome. Sinto-o masculino e feminino, assim há mais de um. Poderia ser uma conspiração. —Fez uma careta—. O sinto, Jonas, há muita gente para conseguir uma boa leitura, e de todos os modos são tudo impressões.

—Está-o fazendo genial, Sarah.

Parecia pálida e cansada. Jonas esperava não ter esse mesmo aspecto, destroçado e exposto, e tão malditamente vulnerável à vista de todos. Tirou de repente seus óculos de sol e as pôs no nariz para esconder seus olhos, temeroso de que estivessem tão vermelhos como os do Sarah. Queimava-lhe a garganta, sentia-se como se tivesse areia encaixada no interior. Parecia um desastre, e se supunha que era a pessoa com a que as Drakes podiam contar.

Hannah. Carinho. Não me deixe. Possivelmente se o dizia um milhão de vezes, se o lançava ao universo, de alguma forma ela o escutaria. Saberia todas as coisas que lhe deveria ter contado. Como que ela era sua prudência. Era magia pura. Tudo o que tinha sonhado… o que sempre tinha querido. Era a mulher que o fazia ser completo. O fazia rir, acalmava-lhe, zangava-lhe, dava-lhe uma razão para voltar para casa de uma peça. Escuta-me, Hannah? Não vá. Espera por mim. Fica comigo.

Inclusive seu coração doía. Dor física. Quantas vezes tinha ido a uma casa e contado a quão ocupantes um ser querido tinha morrido? Tinha havida dor em suas caras, emoções tão devastadoras que tinha abandonado a casa doente… e tinha acudido junto à Hannah. Despertaria com pesadelos disto. Nunca superaria a imagem de alguém esfaqueando a Hannah, com um olhar vicioso e decidido. Duvidava que alguma vez lhe permitisse afastar-se mais de metro e meio dele.

—Por que demônios não evitei que fosse?

—Não siga, Jonas —disse Sarah com suavidade—. Nem sequer pense nisso. Hannah assinou um contrato. Tinha um compromisso. Inclusive se não desejava ir, teria mantido sua palavra.

—Quem vai depois? —Perguntou Damon—. Tem um montão de pastas aí.

Jackson estirou a mão para a maleta.

—Permanece concentrado, Jonas.

Jonas sentiu a maleta entre as mãos, soube que o tinha arrancado ao Jackson das mãos.

—Quer-me fodidamente concentrado? —lançou a maleta pelo corredor e o seguiu, golpeando-o com força com sua bota, depois se girou para estampar um punho no assento vazio mais próximo.

Um estrondo trovejou em seus ouvidos, os olhos lhe queimavam, sentia a garganta descarnada.

— Que demônios há sem ela? Diga-me isso Jackson. me diga que como vou fazer sem ela. Porque não sei. —Então levantou a vista, desamparado, perdido—. Estava aí de pé olhando-a, olhando-a, enquanto esse bastardo a trinchava. —Estirou as mãos—. O que passa comigo e as mulheres que amo? —Deu-se a volta e partiu furioso pelo corredor para a parte traseira do avião, deixando a outros sentados em um silêncio assombrado.

—Maldição —disse Jackson—. Está perdendo os nervos, Sarah.

—Isto é muito próximo de sua infância ele. Já sabe como foi sua vida, sua mãe, verdade? Não pode suportar que as coisas estejam fora de seu controle.

Damon lhe apertou o ombro.

—Sempre fui curioso.

—Pais muito ricos. Deixaram-lhe uma fortuna e uma propriedade preciosa. Já eram velhos quando o tiveram, e sempre tinham desejado ter meninos. Ambos lhe adoravam. Seu pai morreu quando ele tinha cinco anos, e para quando teve seis ou sete, sua mãe estava virtualmente confinada a uma cama. Ele se encarregava totalmente de dirigir sua casa. Fazia a compra, pagava as faturas, lia para sua mãe, como se fosse maior. Era enlouquecedor.

Esfregou-se as têmporas.

—Não estou explicando isto muito bem. Depois de dar a luz, o sistema imunológico lhe falhou por alguma razão. Os médicos disseram que tinha sido um sucesso traumático e que seu corpo tinha reagido ante ele, mas em realidade ninguém sabe. Desde esse momento foi muito frágil, mas ela se negou, negou-se absolutamente a deixar-se vencer pela enfermidade. Jonas se ocupou das responsabilidades porque está em sua natureza e porque a queria… lhe pertencia. Era sua família. Ao final lhe diagnosticaram um câncer. Foi horrivelmente doloroso, mas tinha uma vontade de ferro. Ao Jonas quase matou não poder evitar seu sofrimento. Vinha a nossa casa quando a coisa ficava tão mal que não podia olhá-la ou pensar mais nela.

Damon jogou uma olhada à parte traseira do avião, por volta do quarto de banho.

— Não deveria falar com ele?

— O que posso lhe dizer? Sabe tão bem como eu que as possibilidades de salvar a Hannah são muito pequenas. Estávamos ali. Olhando. Hannah é sua família. O amor de sua vida. É o que lhe faz querer levantar-se cada manhã. Pertencem-se. Sente-se completamente impotente, e para o Jonas, não há nada muito pior quando se refere a alguém a quem ama. Tudo isto —assinalou aos arquivos—, não importará se ela morrer.

Golpeou a cabeça contra o assento.

—Porquê não me mostrou estes arquivos antes, quando esteve tão desagradado com respeito a que ela fosse trabalhar. Poderia ter apoiado.

Passou- um ao Damon.

—Olhe isto. Esta é uma mulher que acossou a Hannah durante uns dez meses. emitiu-se uma ordem de afastamento e a mulher se voltou um pouco louca, e destroçou uma coleção de roupa da que Hannah era modelo. Como penetrou entre bastidores ninguém sabe, mas Hannah não estava no edifício; já se tinha partido.

Jonas reapareceu, lhe tirando o arquivo das mãos e sentando-se a seu lado.

—Ponha em prioridade alta porque usou uma faca, foi capaz de transpassar a segurança, e recentemente saiu da prisão. O desenhista a denunciou e foi encarcerada. —Jackson pôs o arquivo em mãos do Jonas—. Seu nome é Susan Briggs, é de meia idade, parece normal mas obviamente está doente.

—Definitivamente não está de tudo bem e é capaz de uma violência extrema. Ouve vozes, provavelmente esquizofrênica. Ponha no montão de alta probabilidade. —Sarah tentou manter a voz serena inclusive quando o que queria era lhe rodear com os braços e lhe consolar—. Deveria ter me mostrado tudo isto.

Jonas baixou o olhar para ela e Sarah fez uma careta de dor. Ela sabia que os arquivos existiam. Provavelmente Joley tinha mais. Não tinha querido sabê-lo porque não queria ser como Jonas, sempre com medo por elas, zangada com elas, querendo que ficassem em casa e estivessem a salvo. Possivelmente tinha sabido todo o tempo que estavam aí, tantos loucos, atraídos pelo glamour do trabalho da Hannah e sua beleza imaculada.

—OH, Jonas, o que lhe fez esse homem. —Sarah se pressionou ambas as mãos sobre o rosto—. Não posso suportá-lo. Inclusive se viver…

—Viverá —disse Isso Jonas é tudo o que importa. Não pode pensar em nenhuma outra coisa. —Porque ele não podia. Não podia permitir a sua mente contemplar isso outra vez. Não sabia o que faria se acontecia o pior.

—Mas Hannah é tão diferente. Frágil e amável. Como conseguirá superar o trauma de um ataque deste tipo?

Damon a envolveu entre seus braços.

—Hannah é mais forte do que pensa. Reporá-se disto. Espera e verá. É uma Drake por todos os lados e tem a todos para ajudá-la. Superará-o.

Sarah olhou ao Jonas. Soube instintivamente que se alguém ia ajudar a superar isto, esse seria Jonas… mas quem ajudaria a ele? Nunca lhe tinha visto tão cansado. Até a data nada tinha sacudido a confiança do Jonas em si mesmo, mas se tinha comportado como um selvagem, fora de controle, assustando-a tremendamente nos momentos posteriores ao ataque da Hannah. Pôs-se como louco, destroçando a habitação, esmagando coisas, sua cara tão contorcida de angústia que ela tinha sido capaz de deixar a um lado sua própria dor desenfreada para ajudar ao Jackson a lhe controlar. E ainda podia ver —e sentir— a fúria selvagem ardendo agora nele. De novo a tinha posto sob controle, mas podia surgir a menor provocação.

Não havia dúvida de que Jonas amava a Hannah. Nunca tinha havido duvida na mente de ninguém salvo na da Hannah, mas ninguém tinha conhecido a força desse amor, a necessidade profunda e arraigada que tinha dela. A Sarah ainda se o fazia difícil olhá-lo… estava tão devastado. Jonas. Sua rocha. Quebrada em tantas partes. Mantendo-se unido por pura força de vontade.

—Necessitamos a suas irmãs. Libby tem que chegar rápido. —Jonas se passou ambas as mãos pelo cabelo—. Vem de caminho pra casa, verdade?

Sarah assentiu. Libby era uma curadora. Jonas sabia que podia realizar o que virtualmente equivalia a milagres. Tinha-lhe salvado a vida a ele com a ajuda das outras irmãs Drake, mas não foram chegar a tempo esta vez. Nenhuma delas. Se Ilya Prakenskii não podia sujeitar a Hannah, estaria perdida para eles. Jonas necessitava desesperadamente acreditar que Sarah e suas irmãs podiam salvar a Hannah, mas ela precisava acreditar que Prakenskii poderia fazê-lo.

—Me diga o que saiba sobre o guarda-costas. Quem é Sergei Nikitin e o que faz exatamente Prakenskii para ele? E Jonas, esta vez, me diga a verdade. Sei que sabe mais sobre ele do que deixa entrever. Não me importa se for um grande segredo de estado, tenho que saber quem é. Agora mesmo é tudo o que temos.

—Pode que seja Abby a que consiga um pouco de informação sobre o Prakenskii. —Disse Jonas—. Já te disse que me tinha encontrado com uma parede de pedra quando tentei averiguar mais sobre ele. Usei todos os contatos que tinha no Departamento de Defesa e também nos Rangers do Exército, e não consegui nada. O tipo não é o que aparenta ser, e tem capas e capas de amparo ao redor de seu arquivo.

Sarah permaneceu em silêncio, seus pequenos dentes mordiam o lábio inferior enquanto repassava a informação em sua cabeça.

—E o que passa com o Sergei Nikitin? O que sabe dele?

—É um tipo totalmente distinto de peixe… um peixe gordo. Ninguém foi capaz de pilhá-lo com nada, nem neste país nem na Europa. Interpol leva vários anos tentando-o. Surgiu forte de uma guerra territorial bastante sangrenta. Os botas de cano longo estavam divididos de várias formas até que de repente apareceu ele em cena, e depois de uma batalha muito desagradável entre facções, Sergei Nikitin e Boris e Petr Tarasov permaneceram no posto. Há outros, mas não como eles. Os que ficaram dividiram entre as duas famílias e o resto é história. Ambas as famílias são extremamente violentas, dispostas a matar e torturar para deixar clara sua idéia, que basicamente é que será melhor que ninguém se meta com eles… e ninguém o faz.

—São amigos?

—Trabalham juntos, mas não, mantêm uma pose para o outro. Houve algumas matanças entre as duas facções, mas a maior parte do tempo, deixam-se em paz os uns aos outros

—Alguma das modelos consome drogas? —Perguntou- Jackson ao Sarah—. Alguma vez mencionou Hannah que estava preocupada com alguma? Poderia captar isso ao trabalhar tão perto delas. Ou possivelmente algum dos desenhistas. Trazem roupas e profissionais de todas partes do mundo.

Sarah deixou cair a cabeça para trás contra o ombro do Damon.

—Mencionou que acontecia. Sobre tudo às garotas que as consumiam. Disse que não iriam triunfar no negócio. Algumas começaram a tomar para estar magras. É o risco do trabalho, como os transtornos alimentícios. É muita pressão, Jonas.

Jonas tomou ar profundamente. Não lhe importava nada o trabalho ou por que alguma delas decidiria tomar drogas. Só lhe importava o fato de que involuntariamente alguma tivesse posto a Hannah em uma situação perigosa.

—Quando chegar Libby, se Hannah ainda está viva, pode voltar a arrumá-lo tudo, não? —Jonas não estava seguro do que queria dizer, mas tinha que perguntar, que ser tranqüilizado—. Diga-me que pode fazê-lo.

—Se Hannah ainda estiver viva, uniremo-nos e a ataremos a nós. —Disse Sarah. Isso é o que fizemos a ti, usando a conexão que tem Hannah contigo.

Houve um curto silêncio.

—Não sei o que quer dizer isso. Estou conectado com todas vocês. —Jonas franziu o cenho e se voltou a esfregar a cabeça.

Sarah pressionou ambas as mãos contra sua cabeça antes de que ele pudesse protestar. Uma calidez fluiu dela a ele, eliminando a latente dor de cabeça.

Apartou-a de repente.

—O que faz? Guarda suas forças para a Hannah.

—Sei, mas não pude evitá-lo —admitiu Sarah—. Sim, todas estamos conectadas a ti, Jonas, mas não como Hannah. Seu vínculo com ela é um dos mais fortes que vi. Em nossa família, desenvolvemos conexões muito fortes com nossos companheiros. Mamãe e Papai têm um vínculo tremendo entre eles. Todas brincamos e dizemos que está forjado em aço, mas Hannah e você… —sua voz se apagou.

—O que acontece a nós?

—Isto vai soar estúpido, mas acredito que suas almas estão conectadas. Estava quase morto quando lhe alcançamos, Jonas, quando lhe dispararam faz uns meses. Certamente eu não podia chegar até ti, e acredito que nem sequer Elle podia. Tentou-o, todas o fizemos. Unimo-nos e lhe alcançamos, mas foi Hannah a que te agarrou com rapidez. Ela estava segura de que tinha sido Elle, mas não foi assim. O resto de nós soubemos que era ela.

—Como é que ela não soube?

—Quando nos unimos em um círculo, nossa energia flui de uma a outra. É difícil nos diferenciar, e ela estava muito distraída. Hannah é muito característica para o resto de nós.

—Assim se formarem seu círculo de energia, podem salvar sua vida.

—Prakenskii está fazendo isso. Quando estivermos juntas poderemos agarrá-la.

— E o trauma e as cicatrizes?

Sarah se encolheu de ombros.

—Não tenho idéia do que poderemos ou não poderemos fazer. Teremos que vigiar a Libby. Tem a tendência de ir muito longe e Hannah resistirá se pensar que uma de nós está sendo machucada no processo de curá-la. Os poderes da Hannah são fortes, Jonas. Se luta contra nós, todas podemos ter problemas. É mais forte que muitas de nós e sempre nos cuida.

—Deixa que eu me ocupe disso. Hannah cooperará.

Sarah lhe olhou bruscamente.

—O que significa isso?

—Significa que agora mesmo está em um estado débil e que não vai ter nenhuma opção. Pode zangar-se por isso quando estiver aos cem por cento. Até então poderia viver com uma ditadura.

—Não vá tão longe —lhe aconselhou Sarah. Não sabia do que Jonas era capaz com a Hannah. Tinha talentos ocultos que raramente reconhecia, mas estava seguro de que poderia forçar a cooperação da Hannah, e isso era algo de que nem sequer Sarah estava segura.

—O avião está a ponto de aterrissar. —disse Jackson recolhendo os arquivos e voltando a colocá-los na maleta—. Haverá um carro esperando para nos levar a hospital.

 

—Está viva? —exigiu Jonas ao aproximar-se dos russos na sala de espera. A seu lado, Sarah se apoiava pesadamente no Damon.

Ilya Prakenskii assentiu com a cabeça, cambaleou-se e estirou a mão para estabilizar-se apoiando-se na parede.

—Esteve em cirurgia várias horas, mas acabam de lhe levar a recuperação. Está em estado crítico e muito débil. —Jogou uma olhada ao Sarah—. Mais vale que suas irmãs cheguem logo.

—Todas estão em caminho. Ao igual a mamãe e papai e minhas tias.

—Eu não gosto da sensação aqui, Harrington. O representante da Hannah está ali. —Ilya assinalou a um homem esbelto com um traje cinza falando com a polícia—. Está bastante transtornado.

Sarah agarrou ao Jonas quando este deu um passo agressivo para o representante, e se aferrou firmemente ao sentir que um tremor lhe percorria.

—Não, Jonas. Está realmente afetado e poderia lhe fazer dano. Não quero que nos joguem daqui.

Estudou ao Prakenskii de perto. Era um homem bonito em certa maneira dura. Nesse momento sua cara estava sulcada por linhas de cansaço por sujeitar a Hannah.

—Vai cair? —Tinha visto sua irmã Libby, com o mesmo tintura cinza, o corpo tremendo de cansaço e os olhos afundados. Prakenskii estava mostrando os clássicos sinais de sobrecarga psíquica. Tinha gasto muita energia em manter a Hannah viva.

—Se formos salvar, terá que me ajudar —admitiu Prakenskii, afundando-se na cadeira da que se levantou quando se aproximaram—. Está tão perto da morte que não estou seguro de que lhe possamos dar tempo suficiente até que chegue sua família. Fiz o que pude na cena, mas havia tantas feridas, tanta perda de sangue, e ela já estava indo. Quase não tive oportunidade de me vincular com ela. —Levantou o olhar para o Jonas—. Pronunciou seu nome Harrington. Inclusive com a garganta cortada em dois, queria que estivesse ali.

O coração do Jonas se encolheu em resposta, uma dolorosa constrição que lhe roubou todo o ar dos pulmões. Tinha-o chamado. Procurado. Necessitado… e ele não tinha estado ali. Todo este tempo tinha pensado que a podia manter fora de perigo, mas ainda assim este a tinha encontrado. Ironicamente, o perigo não tinha nada que ver com ele. Todos esses anos perdidos, todo esse tempo. Tinha sido parecido a  um mártir, mantendo-se longe pelo bem dela, e Hannah tinha ido trabalhar, fazia seu trabalho e um louco a tinha atacado. Deveria ter estado com ela. Seu nome era a última coisa... a única, que ela havia dito.

Engoliu com força e empurrou a um lado o pesar.

—Deram-lhe alguma indicação do tempo que pode levar isto?

—Esteve aí durante horas. saíram duas vezes para dizer que está viva. —obviamente para o Prakenskii era exaustivo falar—. Faz só uns minutos nos comentaram que estava em recuperação mas… —sua voz se apagou.

—Mas o que? —exigiu Jonas.

—Não sabem o que a mantém viva. Perdeu tanto sangue que lhes preocupa o dano cerebral. Nenhum deles acredita que sobreviva mais à frente do seguinte par de horas.

—Você a está mantendo viva —disse Sarah—. Por isso não está morta. —afundou-se na cadeira que havia frente à dele—. À medida que cheguem os outros, irá-se aliviando a carga que suporta. Obrigado por salvá-la por nós. me permita te ajudar. Posso conectar contigo. —Fez o oferecimento sem vacilar. Isso dava ao Prakenskii uma vantagem decisiva se decidia utilizá-la porque, uma vez conectado com o Sarah, teria outro caminho que seguir até a fonte de energia das Drakes, mas isso agora não importava. Quão único importava era manter viva a Hannah.

Assentiu com a cabeça e ela se surpreendeu... porque se se abria a si mesmo e a sua magia a ele... ele teria que fazer o mesmo com ela. Sarah se acomodou na cadeira, lhe olhando de frente, e tomou ar profundamente, permitindo que sua mente que se abrisse, que alcançasse, estirasse-se e se fundisse.

Prakenskii a olhou diretamente, seus olhos trocando a um profundo azul esverdeado. Por um momento ficou aturdida pela vibrante cor, como se o mar se tornou turbulento, mas então a cor se formou redemoinhos e obscureceu e se encontrou olhando uns espelhos vazios e insondáveis. Não havia forma de “lhe ler”. Ilya Prakenskii permanecia como um livro fechado, e isso era virtualmente impossível estando vinculados. Deveria ter sido capaz de lhe ler da mesma forma que certamente a estava lendo ele.

Podia sentir seu cansaço e desgaste. A luta por manter a Hannah com vida lhe estava custando boa parte de sua tremenda força, embora sua aparência física não refletia a extrema situação. Estava lutando com tudo o que tinha para mantê-la viva, e sua força estava definitivamente minguando. Mediu dentro de sua mente procurando o caminho para sua irmã. A dor a golpeou, rasgando por sua mente e rasgando através de seu corpo fazendo que fora lançada para trás, longe do Prakenskii.

Sarah ofegou e se dobrou.

—Não deveria estar sentindo nada. Está inconsciente, verdade? —Olhou a Ilya—. Não está?

—Parece estar inconsciente, mas está mais perto da superfície do que deveria porque está esperando por ele. —Ilya assinalou ao Jonas.

A respiração do Jonas ficou apanhada em seus pulmões. Isso seria tão próprio da Hannah. Não se deixaria ir com facilidade, não se dela dependia.

—Vai ter que entrar com ela —disse Sarah—. Faz que lhe deixem, Jonas. Não pode suportar esta classe de dor e sobreviver. Vá sentar com ela, e o senhor Prakenskii e eu a sustentaremos até que chegue a família.

Jonas assentiu e partiu para procurar à chefe das enfermeiras. Requereu um montão de persuasão assim como mostrar seu distintivo e mencionar várias vezes o perigo, mas sempre tinha sido um homem persuasivo, de modo que se encontrou entrando na habitação onde Hannah jazia totalmente quieta, rodeada de máquinas.

Jonas se afundou no assento junto à cama. A maior parte do corpo da Hannah estava envolto em ataduras. Sua cara estava torcida e azulada pelos golpes. Apenas um lençol lhe cobria o corpo. Baixo ela a via muito magra e pequena, para nada a alta e imponente mulher que era Hannah Drake. Suas pestanas impossivelmente largas descansavam nas gema meias luas sobre suas clássicas facções, parecendo incongruentes junto à gaze manchada de sangue.

Seu coração se encolheu tão forte que pareceu que estava em um parafuso de sujeição... uma autêntica dor física.... e se pressionou a mão com força contra o peito enquanto levantava o lençol para inspecionar o corpo da Hannah. Estava enfaixada como uma múmia, do pescoço para abaixo. Engoliu a bílis que subiu quando notou que tinha sido rachada no pescoço assim como na cara, torso e abdômen. Seu atacante tinha sido tão cruel como tinha parecido em televisão. Jonas tinha esperado que fosse pelo ângulo da câmara, mas resultava óbvio que o homem tinha estado decidido a matá-la.

Suas tripas se ataram em tensos nós, e sua garganta ardeu com crueldade. Afundou-se na cadeira que tinha sido colocada junto à cama e a percorreu com o olhar, procurando um lugar no que pudesse tocar sua pele... e não a espantosa gaze grosa que parecia estar em todas partes. Suas mãos e braços estavam enfaixados, assim como todo o resto. Sabia que teria feridas defensivas, havia-as visto suficientes vezes em vítimas, mas por alguma razão não estava preparado para as ver em Hannah.

Jonas engoliu várias vezes enquanto deslizava com cuidado sua mão por debaixo da feminina enfaixada. Só as pontas dos dedos apareciam. Elevou-lhe a mão com grande cuidado, e se aproximou os dedos à boca. Tinha que beijá-la, tocá-la, encontrar uma forma de acariciá-la. Necessitava contato pele com pele porque tinha que ter uma prova evidente de que estava viva e seguiria assim. Sua respiração parecia muito superficial, seu torso logo que elevando-se e baixando sob o fino lençol, inclusive com o ventilador.

—Hannah, neném, está-me rompendo o coração. —Simplesmente lhe olhá-la doía. Não podia imaginar a ninguém lhe fazendo dano desta forma. O que tinha feito que fora um crime tão grande? Era tão formosa com sua pele imaculada e seu cabelo pouco corrente, e alta, elegante, com uma figura tão clássica, e suas facções tinham atraído a atenção para ela. Realmente alguém quereria matá-la por ser tão formosa?—. Nada tem sentido —murmurou, escutando às máquinas respirar por ela.

Baixou a cabeça sobre a cama enquanto os aromas e sons assaltavam seus sentidos. Seu estômago saltou, protestou. Hannah estava conectada a máquinas. Sua querida Hannah com sua risada e seu gênio e seu truque tolo de lhe atirar os chapéus com o vento. Tinha um armário cheio de chapéus, e às vezes a provocava a propósito, só para sentir o toque de seu vento. Seu toque. Feminino e suave cheio de seu perfume particular. Às vezes imaginava que sentia seus dedos lhe acariciando a cara, lhe riscando a mandíbula, e então o golpe de vento lhe arrancava o chapéu… mas esse só momento que lhe paralisava o coração valia a pena.

—Sabe que tem que viver por mim, Hannah —disse em voz alta, voltando a sentar-se. Beijou-lhe a gema dos dedos, introduziu-os um por um na calidez de sua boca. Doía-lhe por ela… por ele—. Não posso imaginar minha vida sem ti nela —sussurrou—. Não haveria propósito para mim. —Não era um homem poético, mas tinha que encontrar uma forma de que ela o entendesse. Parecia-lhe tão importante que entendesse o que significava para ele. Todo o bom em seu mundo jazia nessa cama com uma máquina respirando por ela.

inclinou-se mais perto.

—Hannah? Pode me ouvir? —Sua cara estava parcialmente coberta por ataduras, e ver suas pestanas descansando tão grosas contra sua pálida pele fez que lhe ardessem os olhos—.Deveria haver isso dito faz muito tempo. —passou-se uma mão pelo cabelo e lhe depositou vários beijos na massa de cabelo no topo de sua cabeça.

Havia tantas coisas que deveria haver dito… que deveria ter feito. Tempo perdido. Agora não podia pensar por que, só que não lhe havia dito o muito que lhe importava. Se tão preocupado estava por ela por causa das coisas que tinha feito... e fazia... em sua vida, deveria havê-lo deixado. Ela era mais importante. Não tinha respostas ou perguntas. Só podia rezar porque, ao final, ela era tudo o que realmente importava.

Jonas, sabia que viria. É muito difícil falar em voz alta.

A voz dela em sua cabeça lhe sacudiu. aproximou-se mais, lhe tocando o cabelo, beijando seus dedos, tentando lhe fazer saber que estava ali e não partiria.

—Estou aqui, doçura. Aqui mesmo contigo. Pode me ouvir? Não vou a nenhum lugar. —Tinha um tubo descendo pela garganta, uma boa razão para não poder falar em voz alta. Saberia ela?—. Recorda o que aconteceu? Está no hospital. Precisa descansar e agüentar até que chegue sua família.

Está bem?

Seu coração deu um tombo. Era tão próprio da Hannah, perguntar se ele estava bem quando ela estava lutando por sua vida.

—Medo. Tenho medo, Hannah. Tem que agüentar até que chegue sua família. Libby está de caminho ao igual às outras. Todas estão vindo, Hannah, porque é importante para nós e não podemos te perder. Eu não posso te perder.

Tinha que te dizer que o sinto.

Seu coração quase se parou.

—Que o sente? Não tem nada pelo que te desculpar. —Beijou-lhe de novo os dedos, pressionando-os contra sua boca—. Eu sou o que deveria ter estado ali contigo. Recorda o que aconteceu?

Lembrava de ter estado assustada e então houve dor, tanto dor.

Sua voz se rompeu e ele sentiu a dor derramando-se em seu interior como se houvesse tanto que ela não pudesse conter em seu frágil corpo.

—Descansa, Hannah, vá dormir e deixa que Prakenskii e Sarah lhe sujeitem até que sua mãe e irmãs cheguem. Só vá dormir. Estarei aqui mesmo. —Não queria que dormisse, queria que continuasse falando. Era aterrador que não tivesse aberto os olhos e que pudesse estar imaginando a conversação porque precisava ouvir sua voz.

Jonas mordiscou as gemas de seus dedos.

—Amo-te, Hannah. Fique.

O som das máquinas lhe respondeu. Se ela tinha estado ali, o suficientemente perto da superfície consciente para lhe falar, para ser consciente de sua presença, já não o estava. Olhou ansioso para as telas. Seu coração ainda pulsava. Não esperavam que vivesse. O doutor o havia dito, com a cara séria, os olhos encontrando os seus, depois desviando o olhar, enquanto lhe dava as notícias. Jonas apartou a lembrança e o sentimento de total desespero. O doutor não conhecia as Drakes. Não sabia nada da magia, a maravilha e a unidade familiar. Hannah era parte de algo extraordinário, e através dela, também o era ele. Viveria porque as Drakes a salvariam.

Dirigiu seu olhar para a separação de cristal que dava à habitação em que Sarah e Damon esperavam com o Prakenskii e Jackson. Seu olhar ficou fixo em Sarah. A maior das irmãs Drake, era a que ao final teria a última palavra. Era muito atlética... ele sempre a tinha admirado no colégio. Rápida e brilhante, podia correr mais rápido que a maioria dos meninos, e tinha o estranho dom de desaparecer a simples vista. Era preciosa, com a pele das Drakes, grandes olhos e um arbusto lustroso de cabelo, e ainda assim podia desaparecer em segundo plano quando queria. Tinha trabalhado em segurança para uma grande companhia, irrompendo em edifícios para os clientes, lhes mostrando todas suas debilidades e depois encontrando formas de melhorar a segurança. Às vezes atuava de guarda-costas, e com seus talentos especiais, era realmente boa.

Jonas a admirava e a queria, e freqüentemente procurava seu conselho quando se encontrava com casos de roubos. Tinha bom olho e uma mente rápida. Estava comprometida com o Damon Wilder, um homem brilhante ao que Jonas respeitava. Agora mesmo, Sarah parecia cansada e esgotada, com um pesar que a afundava. Parecia assombroso, já que era uma pessoa muito forte e otimista, e lhe fez ter mais medo pela Hannah.

Durante toda a longa manhã as Drakes mais velhas foram chegando, uma a uma, as mulheres foram enchendo a sala de espera, murmurando em voz baixa, suas caras sulcadas de lágrimas, abraçando umas a outras tentando dar-se valor. As tias da Hannah e sua mãe, sentadas, umas frente às outras com o Prakenskii e Sarah.

Os pais da Hannah entraram para tocar a sua filha, sacudindo as cabeças quando Jonas ia ficar de pé e a contra gosto ceder seu lugar junto a ela. Abraçaram-lhe, mas nenhum falou, e isso lhe deixou uma sensação vazia e oca no estômago. Sempre tinha contado com a força familiar das Drakes, sua habilidade para tirar alguém adiante. Ele tinha resultado ferido, e ainda assim tinha sobrevivido. Certamente poderiam trazer para a Hannah de qualquer lugar que estivesse.

Elle foi a seguinte das irmãs Drake em chegar. A irmã mais jovem. Seu comprido cabelo vermelho brilhante estava amarrado em um rabo. Sua cara não tinha nada de maquiagem, e estava sulcada de lágrimas. Parecia tão jovem, uma mulher com tanto ou mais poder que todas suas irmãs juntas, e era a destinada a passar os dons a suas filhas. Jonas sempre a tinha querido como a uma irmã pequena. Era preciosa com seus brilhantes olhos verdes e seu rápido temperamento. Era tranquila e reservada para a maioria das pessoas, embora, igual a suas irmãs, era protetora e fechava filas… às vezes contra ele.

Não tinha nem idéia do que Elle fazia para viver. Como a maioria de suas irmãs, tinha mais inteligência do normal e uma boa educação. Elle era boa em tudo, desde criminalística a química. Podia passar com facilidade por uma menina de doze anos ou por uma sensual sereia dependendo de como se vestisse e da maquiagem. Jonas se preocupava mais por ela que por nenhuma das outras irmãs Drake. Parecia perdida e sozinha, e possivelmente o estava. Não havia forma de aproximar-se de Elle. Podia querê-la, mas só te deixava passar até certo ponto.

Sabia que seu melhor amigo Jackson tinha alguma conexão com ela. O que fosse que havia entre eles, Jackson nunca tinha falado disso, mas estava ali, e às vezes Jonas queria advertir a Elle que não provocasse muito ao Jackson. Era território perigoso, mas permanecia calado porque Elle não convidava a confidências. Jonas só sabia que o que havia entre eles era escuro e forte, e destinado a lhes explodir na cara qualquer dia destes.

Elle tocou o ombro da Ilya Prakenskii a modo de silencioso agradecimento, e percorreu a habitação com o olhar até que seu esta se centrou na Hannah através da separação de cristal. Durante um momento, o pesar foi uma máscara terrível, e estirou a mão para tocá-las lágrimas da cara. Seu olhar se chocou com a do Jonas, e brevemente, estiveram unidos, sua tristeza e medo os mantinha prisioneiros. Então lhe lançou um beijo, rompendo o feitiço. Afundou-se com elegância no chão diante do Sarah, e abaixou a cabeça, por isso foi impossível lhe ver o rosto.

Jonas sentiu que lhe envolvia o alívio. As tias, sabia, tinham os mesmos dons que as irmãs Drake, mas não as conhecia tão bem. Era nas irmãs nas que acreditava… as irmãs as que sabia que queriam a Hannah com tudo o que tinham.

Kate foi a seguinte em chegar. Kate, uma mulher de caráter doce que ria e amava e escrevia best-sellers de mistérios e assassinatos. Era a mais tranqüila das Drakes, a que preferia manter-se à margem e observar. Os livros eram seus melhores amigos junto a suas irmãs. Recordava-a de menina, rondando pelas bibliotecas e livrarias, sempre com um livro na mão e outro na mochila. Freqüentemente entretinha à família com suas histórias. Nas férias, quando estavam crescendo, tinha escrito um teatro para que suas irmãs —e Jonas— atuassem.

Kate montava a cavalo e ainda assim sempre a via imaculada, sem um cabelo fora do lugar, sua maquiagem tão perfeita que nem sempre estava seguro de que o levasse. Seu prometido, Matt Granite, era um antigo Ranger do Exército, ao igual a Jonas e Jackson. Tinham formado juntos um estreito vínculo, e sua amizade tinha começado bastante atrás. Jonas se sentia protetor com o Kate, e se tinha alegrado muito de que Matt fosse sua eleição. Kate beijou ao Elle, abraçou ao Sarah, chorou com sua mãe e seu pai antes de aproximar-se com o Matt até o cristal. Kate lhe saudou com a mão através do cristal e olhou fixamente a Hannah com olhos tristes e vermelhos, e com linhas de cansaço ao redor da boca.

Um calafrio desceu pelo espinho do Jonas. Todas sentiam que Hannah estava tão perto da morte que não havia esperança? A idéia de falhar penetrou sem ser convidada, mas uma vez dentro, negou-se a partir. As Drakes se estavam reunindo, mas em vez de parecer seguras, estavam tensas e abatidas.

—Me escute, neném —sussurrou contra a gaze que cobria a orelha da Hannah—. Faz isto por mim. Agüenta por mim. É tudo para mim, neném. Todas estão vindo. Sei que as pode sentir contigo. Sua mãe e suas tias já estão aqui. Igual a Sarah, Elle e Kate. Os homens também estão todos. Seu pai, Damon, Jackson e Matt. Estão-lhe sustentando e eu estou aqui contigo. Vive por mim, Hannah, porque nossas vidas são melhores contigo nelas.

Abby entrou a toda pressa com seu prometido, Aleksandr Volstov, com o cabelo vermelho veio escuro revolto, lágrimas na cara quando se lançou aos braços de sua mãe e depois se girou para olhar a Hannah. Ficou uma mão sobre a boca, assentiu com a cabeça para o Jonas, com aspecto triste e esgotado. Tomou assento no chão muito perto do Kate, que a agarrou da mão.

Abby tinha afinidade com o mar e todas suas criaturas. Ao Jonas freqüentemente recordava a uma sereia, com seu cabelo vermelho desdobrado na água e seu ágil corpo nadando com força. Era uma bióloga marinha, famosa por seu trabalho com golfinhos, assim como por ter talento para averiguar a verdade e um vasto amor pelo mar. Abby era a mais séria das Drakes, depois de Elle. Tomava cuidado ao falar, por uma boa razão, mas desde que Aleksandr tinha voltado para sua vida, ria mais. Jonas acreditava que formavam um bom casal e ao final esperava utilizar as habilidades policiais do Aleksandr.

—Abby está aqui, Hannah —respirou, lhe jogando o cabelo para trás e fazendo uma careta de dor ao notar como sua pele se sentia fria e suarenta.

Queria gritar a todas as Drakes que se apurassem. Fazer que os aviões fossem mais rápido, conseguir que chegasse todo mundo. Podia ver que as irmãs da Hannah se estavam unindo ao Sarah e Prakenskii ao entrar em formar parte do círculo na sala de espera, porque com a chegada de cada irmã, a presença da Hannah parecia mais próxima, como se lentamente a estivessem trazendo de volta de uma enorme distancia.

Jonas sentiu o corpo da Hannah sacudir-se, e girou a cabeça para ela com alarme, e depois para as Drakes no apertado círculo. Ilya Prakenskii jogava uma enorme parte na conexão mental das Drakes com a Hannah. Jonas sabia que a reação da Hannah tinha vindo da Ilya. Olhou para a porta e Joley se deslizou na habitação. Joley, a mais famosa das Drakes. Selvagem, desinibida Joley. Tinha uma voz que podia acalmar ou agitar a milhares de pessoas. Nunca caminhava simplesmente. Quando se movia, fluía, cada curva transpirando puro sexo sem adulterar. Jonas às vezes sentia pena por ela. Tinha nascido com um atrativo que poucos podiam resistir, por isso sentia pelo homem que iria amá-la.

Joley era ferozmente independente, e muito, muito poderosa em sua magia. Era uma alegria e uma presença. Todas as irmãs cuidavam das outras, mas Joley fez verdadeiros sacrifícios com sua reputação para proteger ao Libby. Como um irmão, freqüentemente se preocupava com ela. Podia parar o tráfego simplesmente passeando pela rua embainhada em um par de jeans. Poucos eram conscientes de quão inteligente era. Menos ainda sabiam que tinha cinturão negro terceiro DAM, que se tinha treinado no Krav Maga, ou que era uma atiradora mortal com uma pistola.

Jonas a observou com curiosidade enquanto avançava pela habitação, sua presença incrementava visivelmente a tensão. Joley deixou escapar o fôlego e imediatamente seu olhar se cravou no de Prakenskii. A energia estalou e as paredes se ondularam. As mulheres da habitação ficaram congeladas. Os homens ficaram rígidos e prestaram atenção, Jackson colocou seu corpo protetoramente diante do Elle. Lhe disse algo e o olhar do Jackson se deslizou sobre ela, frio como o gelo, e simplesmente negou com a cabeça.

Durante todo esse momento, Ilya Prakenskii não piscou. Não desviou o olhar do Joley. Parecia estar-se levando a cabo uma estranha batalha, e então Joley desviou o olhar, começando a ruborizar-se desde pescoço e subindo pela cara. Brilharam lágrimas em seus olhos e nem sequer o russo pôde resistir a Joley com a aflição marcando sua cara e as lágrimas em suas pestanas. Falou, sua voz foi um murmúrio baixo que Jonas logo que captou, algo em russo, mas ante o que fosse o que dissesse, Joley assentiu com a cabeça e se sentou junto ao Elle, que a tirou da mão.

—Libby deveria chegar em qualquer momento —sussurrou Jonas a Hannah—. Estava investigando pequenos vermes letais, ou o que seja, nas folhas de árvores de uma granja no Amazonas. —aproximou-se seus dedos de volta à boca—. É tão preparada, Hannah, e não há nada de malícia em seu corpo. Tirará você dessa. Não deixará que te aconteça nada.

Era mais uma prece que outra coisa, e o reconheceu como tal. Libby Drake era uma curadora… fazia milagres. Tinha salvado a seu prometido, Tyson Derrick, e tinha salvado ao Jonas. Libby parecia frágil, com sua pele clara, seu corpo esbelto e o cabelo negro azulado, mas podia posar suas mãos em alguém e arrumar o que estivesse quebrado. A família, o povo, e especialmente Tyson, cuidavam-na, porque era muito difícil para ela rechaçar às pessoas que necessitava ajuda, e a carga que lhe supunha era tremenda.

Jonas sabia que necessitava um homem como Tyson em sua vida. Ele era capaz de frear Libby e protegê-la. Normalmente Jonas teria estado ombro com ombro com ele, mas não esta vez. Esta vez Jonas estava preparado para fincar-se de joelhos e lhe suplicar que salvasse a Hannah. Isso era egoísta e estava mau. Queria ao Libby e sabia que sanar a Hannah seria um risco, mas ela tinha que manter a Hannah viva… simplesmente não havia outra opção.

Sentiu a mudança em todo mundo no momento em que Libby deu um passo atravessando a porta da sala de espera. O medo se converteu em cautelosa esperança. Era uma terrível responsabilidade a que todos estavam pondo nela e Jonas sabia que Hannah não quereria essa responsabilidade de vida ou morte para sua irmã… mas não lhe importava, que Deus lhe ajudasse… porque por muito  que as quisesse a todas, nenhuma lhe importava como o fazia Hannah. Odiava-se por essa veia egoísta, mas era o suficientemente sincero para admitir que as arriscaria a todas elas e a si mesmo para salvar a Hannah.

Observou ao Libby através do cristal. Parecia pequena e frágil, para nada uma mulher capaz de reunir a força das outras e usá-la para curar a sua irmã. Se tivesse estado caminhando por uma rua cheia de gente, ninguém teria suspeitado o poder que esgrimia. Saudou seus pais e irmãs, todo o tempo aferrando com força a mão do Tyson. Jonas suspeitava que seu prometido não estava muito contente com o que estava a ponto de fazer, e não lhe culpava. Se fosse Hannah a que estivesse arriscando a vida, ele teria sentido o mesmo.

Envergonhado, baixou a cabeça até o colchão ao lado dela.

—Amo-te, Hannah. Mais que a minha própria vida, mais que a qualquer outra. Sei que não serei capaz de me olhar ao espelho durante bastante tempo depois disto, mas tem que viver, neném. Por todos nós. Escuta-me? Toma o que Libby te dê e volta conosco.

Jonas sentiu a reunião de poder começando a ricochetear nas paredes. A sala de espera se alagou de um brilho de muitas cores, uma brilhante explosão de amarelos e laranjas que ocupavam os espaços ao redor das mulheres Drake maiores. Levantou a cabeça para ver o poder e a energia na habitação na forma de várias cores ricocheteando nas paredes. As mulheres se cambalearam ligeiramente, seus corpos gráceis.

E então as irmãs da Hannah se levantaram juntas, suas vozes elevando-se em um canto melódico. Joley tirava as cores do fogo, vermelho, laranja e dourado; Sarah tinha as cores do ar, amarelos e verdes; as cores do Abby vinham da água, azul e verde marinho; Kate era terra, suas cores marrons e verdes; Elle estava rodeada por todas as cores dos elementos em vários tons, representando-os a todos. Por último, Libby as unia a todas em espírito, uma luz branca com bordos violetas a rodeava, movendo-se para fora para abranger os outros.

Jonas pôde sentir a corrente de eletricidade e soube que estavam obtendo energia de todas as fontes que os rodeavam. As seis irmãs da Hannah, sua mãe e suas seis tias. Treze mulheres extraordinárias reunidas em um lugar com um único propósito… curar a Hannah.

Ilya Prakenskii se levantou, seu corpo ainda cambaleando-se pelo esforço de sustentar a Hannah. Para assombro do Jonas, também vibrantes cores brilharam misteriosamente a seu redor. Vividamente brilhantes, eram mas bem como os do Elle com todas as distintas cores, mas ainda assim diferentes, os tons distintos dos das mulheres. Só os vermelhos e dourados e amarelos combinavam exatamente com os do Joley, tanto que as cores pareciam fundir uns em outros. Pequenas faíscas vaiavam e brilhavam no ar entre eles, somando-se ao poder que se reunia.

O pessoal do hospital estava inquieto, olhando a cena com precaução nascida da crescente tensão na sala de espera. O ar estava carregado dela. Sentado ao lado da cama da Hannah, Jonas se negou a abandonar seu sítio. Iam entrar —e o fizeram; nada, nem sequer a segurança os deteria— ele ia ser testemunha da cura. Tinha que acreditar que Hannah viveria. Tinha que sair da habitação acreditando que ela viveria, ou não sobreviveria a esta noite.

Os cabelos de seus braços se arrepiaram quando as mulheres encheram a habitação, de uma em uma. A enfermeira protestou, mas ninguém lhe prestou atenção, e imperiosamente a mãe da Hannah a mandou calar com um gesto. As mulheres Drake rodearam a cama; Libby e uma das tias que Jonas reconheceu como Nanci posaram as Palmas de suas mãos na Hannah enquanto as outras juntavam as mãos.

O efeito foi um espetáculo de luz deslumbrante, embora a habitação não estava invadida de luz… o estava o corpo da Hannah. Deslizava-se sobre ela, a seu redor, atravessando-a. A luz jogava sobre sua pele e pressionava para diante por seus poros, ou possivelmente brotava do interior. Jonas não podia dizer o que ia primeiro. Um baile de cores cintilava a seu redor, e a pele da Hannah passou de branca pálida a luminosa.

Jonas manteve posse de seus dedos e foi consciente do calor lentamente tirando o suor frio de sua pele. Calidez pulsou através dela em ondas. Sentiu como ela se estirava em sua mente. Uma suave investigação. Alarme. Hannah surgindo. Suas largas pestanas se agitaram e o coração do Jonas quase parou. O cântico nunca fraquejou, mas sim continuou baixo e melodioso.

Jogou um olhar ao monitor do coração. O batimento do coração débil e errático se reforçou a algo muito mais estável, e o alívio o fez cair de volta em seu assento. Esperou, mas ela não abriu os olhos.

—Suficiente, Libby —disse Tyson—. Pode voltar amanhã, mas hoje é suficiente. Digo-o a sério.

As mãos do Libby permaneceram na Hannah, mas as mulheres que cantavam pararam, suas cores desaparecendo à medida que retiravam seu apoio. A senhora Drake pôs seu braço ao redor do Libby e fisicamente a separou de sua irmã.

—Tyson tem razão, Libby, não podemos correr nenhum risco. Ela está melhor, mais forte. Isto é tudo o que podemos fazer hoje.

—Vai viver, Jonas —lhe assegurou Sarah quando  teria protestado.

Jonas queria grunhir ao Tyson, lançar algo contra as máquinas enquanto ajudavam ao Libby a sair da habitação. Sua cor se foi e tropeçava, obviamente debilitada. Deste modo as Drakes mais velhas ajudaram a Nanci, embora ela não se via tão mal como Libby. Hannah não se moveu. A parte de um bater de asas de suas pestanas, não tinha melhorado.

Elle lhe tocou a mão. Kate o beijou. Abby roçou seus dedos por cima de sua mão e a da Hannah unidas. Joley ficou ao lado da cama soluçando.

— Como pôde acontecer isto, Jonas?

—Não sei, carinho. De verdade não sei.

—Mas o averiguará. Assegurará-te de que quem quer que seja o responsável não se volte a aproximar dela, verdade?

—Prakenskii agarrou a faca, e na resistência, seu atacante morreu.

Joley levantou sua cara sulcada de lágrimas para olhar ao russo.

Este tinha a cara cinza, cansada, esculpida com linhas profundas.

—Obrigado outra vez. Conhecia-o? Reconheceu-o? Quando o tocou, percebeu algum sentido de por que atacaria a minha irmã?

—Senti seu medo. Isso só. Derramava-se dele.

Jonas franziu o cenho.

—Ele brigou contra ti. Eu estava vendo a retransmissão. Lutou contra ti e continuou tentando ir a por ela.

Joley emitiu um pequeno som de angústia, de protesto.

—Sinto muito, carinho —disse Jonas—. Isto não é algo que precise escutar. Falarei com o Prakenskii mais tarde. Os dois estão exaustos. Vou ficar com a Hannah. Por que não lhes reorganizam?

—Levo-te a hotel —disse Ilya, fazendo que fosse uma declaração—. Tem a seu pessoal de segurança contigo?

Ela assentiu.

—Não pude atravessar aos repórteres.

—Tiraremos-lhe fora —disse com firmeza—. Vamos, Joley. Precisa descansar.

Jonas a beijou e a abraçou antes de girá-la com um pouco de relutância para a Ilya Prakenskii. Sem dúvida nenhuma o homem tinha salvado a vida da Hannah, mas Jonas temia seus motivos. Era o guarda-costas de um dos mafiosos russos mais poderosos e era temido da Europa aos Estados Unidos.

—Seus estado está melhor —disse a enfermeira quando estiveram sozinhos, distraindo o de seus pensamentos. O ambiente estava tranqüilo e não havia cores piscando ou sensação de poder. Depois da impressionante exibição, sentia-se abandonado.

Jogou uma olhada à enfermeira em seu traje azul e sua etiqueta com o nome, seu cabelo jogado para trás. Via-se esmerada e eficiente. Esperava que também fosse competente.

—O que fizeram exatamente? Há uma mudança definitiva nela. Não tem sentido, mas se vê como se pudesse respirar por si mesmo.

Jonas permaneceu em silêncio enquanto a enfermeira consultava com o doutor, e durante as seguintes horas, permitiram a Hannah que respirasse cada vez mais por sua conta. Foi um enorme alívio quando finalmente a desconectaram do respirador, o primeiro sinal de que poderia viver.

Jonas se aproximou as gemas dos dedos da Hannah a seus lábios e se inclinou para diante até que sua cabeça descansou no colchão ao lado do corpo feminino. Nunca tinha sido capaz de suportar os hospitais, não depois de que se levassem a sua mãe de sua habitação, para não voltar. Os sons e aromas eram os mesmos. As máquinas pareciam vivas quando fechou os olhos e escutou, como tinha feito tantos anos atrás. Rezando. Rezando por um milagre, justo como estava fazendo agora.

Não foi consciente do passado do tempo. Às vezes sussurrava a Hannah, outras dormia. A enfermeira se mantinha perto, vigiando a Hannah. Manteve a cabeça baixa e se permitiu cochilar, ficando apagado até que esteve em algum lugar entre o sono e acordado, onde sua mãe o olhava fixamente com olhos cheios de dor e um homem esfaqueava a Hannah com violência enquanto ele estava detrás de uma parede, golpeando com os punhos, tentando destroçá-la e chegar até elas.

Jonas despertou de repente, quando uma enfermeira diferente entrou na habitação. Olhou ao redor procurando à enfermeira habitual da Hannah. Gostava e confiava nela.

A mulher o olhou e apartou os olhos, possivelmente, pensou, pelo malditamente consternado que parecia. Queria que Hannah mostrasse sinais dramáticos de ter respondido a cura das Drakes. Não se deveria ter levantado e exigido o jantar, ou algo assim? Destroçado as ataduras e lhe haver sorrido? Em lugar disso jazia dormindo como em pausa, seu coração e pulmões ainda sendo controlados.

Tentou aliviá-la opressão no peito, lhe lançando à enfermeira um falso sorriso.

—Acreditava que Katherine era a enfermeira do turno de noite da Hannah. — Era Katherine o nome correto? A enfermeira se apresentou, mas não o podia recordar. Estava tão confuso… tão zangado.

—Katherine me pediu que lhe desse seus remédios. —a enfermeira não o olhou enquanto caminhava ao redor da cama, com uma seringa de injeção em sua mão.

O radar do Jonas de repente reagiu violentamente. levantou-se, espreguiçando-se de forma enganosamente vaga, com os olhos atentos sobre a enfermeira, notando o fato de que suas mãos estavam instáveis. Sua voz era um tom liso monocórdio, e em nenhum momento o olhou diretamente. A dúvida se deslizou por seu espinho dorsal… duvida e alarme.

—É muito amável que lhes ajudem umas a outras. Supunha que Katherine ia voltar em seguida. Supõe-se que Hannah ainda não pode ficar só assim. O que a atrasa? —pôs censura em sua voz. O nome não tinha sido Katherine. Possivelmente Kelley, mas definitivamente não Katherine. Tinha estado em sua placa. Um nome com “K”.

A enfermeira não se deteve. Não o olhou.

—Tinha que usar o banheiro, voltará em seguida. —entreteve-se com o acesso da Hannah, lhe dando um rápido e nervoso sorriso quando ele começou a andar ao redor da cama para ela.

—O que é isso? —Indicou a seringa de injeção que tinha na mão enquanto a espreitava pouco a pouco.

—Um analgésico —respondeu a mulher. Suas mãos tremeram enquanto dirigia torpemente ao acesso. A habitação estava fria, mas ela estava suando.

—Espera um minuto. —Jonas se aproximou com rapidez, obedecendo a seus instintos mais que a seu cérebro—. Para que está fazendo. —Saltou a distância entre eles, interpondo seu corpo entre o da Hannah e o da enfermeira. Agarrou-lhe o braço, falhou, e enquanto ela se girava, agarrou-a por cabelo.

Ouviu seu soluço, um vaio de ar e um grito cheio de terror quando deu a volta, golpeando-o para tirar-lhe de cima. Antes de que pudesse detê-la, cravou-se a agulha em sua própria veia, apertando o êmbolo, seus olhos mantendo terror enquanto caía ao chão. Jonas se ajoelhou a seu lado, mas era muito tarde. Sua respiração saiu em gemidos entrecortados, seus olhos se voltaram opacos e então houve um silêncio aterrador.

 

Jonas golpeou a parede com a mão diretamente junto à cabeça do detetive.

—Não me venha com essa merda, reserve-lhe para os civis. Quem demônios é esta... como chegaram tão longe?

O detetive Steward suspirou e se rendeu.

—O atacante era um homem chamado Albert Werner. Era um eletricista, tinha esposa e uma filha. As câmaras agarraram um par de tira dele durante o desfile de moda. Estava falando com o Reverendo RJ em uma delas. —Steward entregou ao Jonas a fotografia aumentada de um homem alto e de boa constituição que falando com o  Reverendo com gente que obviamente gritava protestos ao fundo.

—O que tinha que dizer o Reverendo?

—Só que era uma alma atormentada e que estava inquieto. O Reverendo lhe convidou a ser salvo, ou algo a esse efeito, mas o homem o rechaçou. A opinião do Reverendo parece ser que era que a Senhorita Drake colheu o que semeava.

Jonas amaldiçoou, seus dentes se apertaram com um ruído seco e desumano.

—Encontrou alguma conexão entre esse falso evangelista e Werner?

—Estamos trabalhando nisso. O perpetrador fez uma doação importante ao grupo dos direitos para os animais a semana passada. —O detetive lhe entregou outra fotografia desfocada. Albert Werner estava de pé com o grupo de direitos dos animais gritando aos repórteres.

—O que tem que a enfermeira que tentou matá-la? Estava implicada com um ou outro grupo?

—Não era uma enfermeira. É uma técnica de veterinária e seu nome é Annabelle Werner. É a esposa do atacante.

—Sua esposa? Sua esposa veio ao hospital e tentou terminar o trabalho? Isto não tem nenhum sentido. Não recordo estes nomes em nenhuma das cartas ameaçadoras escritas a Hannah—disse Jonas—Encontrou algo? Uma ameaça contra ela, uma razão para que a odiassem tanto como para fazer algo como isto?

—Não. Examinamos os arquivos dos pirados e não estão ali.

—E que tem que sua filha? Tinha aspirações de fazer-se modelo?

—Está em um hospital para desordens alimentícias, o qual poderia ser um motivo. Totalmente gasta. Tem doze anos. Tem fotografias de estrelas de cinema na habitação, mas não da Senhorita Drake, mas de todos os modos, poderia ser a conexão. A menina se priva da comida querendo ser uma modelo como Hannah Drake. Todo mundo conhecem a cara e o nome. É um objetivo fácil a quem lhe jogar a culpa.

—Ambos os pais queriam matar a Hannah? Em represália pelo da menina? —Não tem lógica—. Albert Werner não podia esperar escapar disto. As câmaras estavam sobre ele. Tinha que sabê-lo. Havia muito público a não ser que queria fazer uma declaração. Tinha-a atacado como se queria destruí-la, destruir sua beleza...  e logo sua vida. Os primeiros golpes não foram para matar. Foram para desfigurá-la.

Só pronunciar as palavras em voz alta lhe trouxe para a mente as imagens que simplesmente não podia esquecer. Suas vísceras se retorceram. A faca cortando com crueldade, brutalmente uma e outra vez, cortando em pedaços a Hannah. A bílis subiu. O suor estalou.

—O médico disse que os primeiros golpes eram deliberados e exatos mas baixos, lhe cortando a cara, o pescoço, o peito, a cintura e o estômago antes de começar a apunhalá-la o suficientemente profundo para matá-la -se defendeu contra a onda de náuseas, tentando manter a voz, tentando não deixar que fosse pessoal, não pensar que a vítima era Hannah, sua Hannah—. Eu gostaria de consultar com meu amigo, um psiquiatra, mostraria o que tem sobre os atacantes e lhe pediria sua opinião, por que isto não tem sentido para mim.

Parecia-lhe mais provável que tivessem sido programados, talvez hipnotizados ou que tivessem utilizado magia... mas como podia lhe dizer isso ao detetive?

—Para mim tampouco—admitiu o Detetive Steward—Por que se o marido estava morto, a esposa tinha que estar preocupada com quem ia cuidar da menina. por que vir ao hospital e arriscar-se a matá-la com você dentro da habitação? Isto não tem sentido.

—Comprovou se Werner pertencia à pequena congregação do Reverendo? Talvez a conversação foi algo distinta ao que o Reverendo diz.

Steward assentiu com a cabeça

—OH, estou seguro de que foi distinta. Interroguei ao Reverendo algumas vezes e acredito que esse homem é um louco... carismático... mas ainda assim um louco. esteve recrutado a jovenzinhas da rua para levar-lhe a sua casa. Diz que tenta as salvar, mas eu não engulo isso.

—Por que lhe tinha interrogado? —perguntou Jonas com curiosidade.

—Houve um ataque a uma jovem prostituta. Tem apenas quinze anos. Alguém a golpeou quase até a morte. Fizeram-lhe tudo o que podiam lhe fazer. Suas amigas juram que foi o Reverendo. Certamente ele tem um álibi hermético. Os membros de sua igreja dizem que esteve com eles toda a noite rezando.

—Mas você não crê.

—Nem por um minuto. Mas a garota estava muito assustada para falar. Acredito que o Reverendo pode conseguir que a gente diga ou faça algo por ele. Acredito que entregam a seus filhos e seu dinheiro. E se houver uma conexão entre ele e os Werner, não me surpreenderia. Acredito que o Reverendo poderia convencer a alguém para cometer um assassinato.

—É de nossa parte do país —admitiu Jonas— e tentamos lhe apanhar faz tempo. Possui muitas terras e as mantém hermeticamente fechadas. Uma vez que as moças são levadas ali, ninguém as volta a ver. Lamentavelmente  encontra a meninas nas que ninguém está interessado, de maneira que pode livrar-se. Acredita que poderia haver ordenado a um de seus seguidores que fizesse o trabalho de esfaquear a Hannah?

—É capaz —disse Stewart— E quem quer que fora a pela prostituta a cortou imperfeitamente... com uma faca. Sua cara nunca voltará a ser a mesma.

—Pode trabalhar com ela e ver se lhe identifica?

—Desapareceu. Quando saiu do hospital, partiu longe.

—Acredita que fugiu ou que alguém a levou?

Steward se encolheu de ombros.

—É uma rata da rua, quem sabe? Mas inclusive se seus amigos se equivocarem e não foi o Reverendo, ele é um problema. É preparado. Pode vê-lo quando fala. Soa muito bem até que começa seu enfático e fanático discurso sobre as mulheres e como são a queda dos homens bons e ele tem que salvar os deles mesmos.

—Então, o que tem da mulher do Werner?

—Não muito. Não tem mais que uma multa por mau estacionamento. Extremamente respeitada como técnica  veterinária tanto por seus colegas de trabalho como por seus vizinhos aos quais lhes caía bem. Conseguiu a droga no trabalho. Utilizam-na na eutanásia de animais. Todos os que os conheciam parecem sinceramente impressionados por que qualquer dos Werner estivesse comprometido em um assassinato. O marido tampouco é que tenha em realidade um histórico. Não faço mais que lhe dar voltas à cabeça. Umas poucas multas, uma briga a murros.

Jonas tamborilou com os dedos na mesa da sala de espera, franzindo o cenho enquanto se concentrava. Cada vez parecia mais e mais como se os pais pudessem ter sido programados para matar. Mas por que? E por quem?

—Entrevistou à filha?

—Está bastante destroçada. Não pude fazer muito com ela. Conhecia a Hannah Drake e a admirava, mas o mundo inteiro conhece  a cara da Senhorita Drake. Não notei que fosse muito fanática dela e além do mais, quando procuramos na casa, havia fotografias de estrelas de cinema, não de modelos, em sua habitação. Encontramos duas revistas na casa nas que saía a Senhorita Drake, mas isso não é insólito tampouco. Sua cara está na capa de muitas revistas. —O detetive não podia evitar as olhadas rápidas e curiosas que seguia lançando a Hannah através do cristal— Acredito que a Senhorita Drake está bastante a salvo no que diz respeito à menina e não há nenhuma família que vá atrás dela.

Contendo o impulso de derrubar ao Stewart, Jonas se passou as mãos pelo cabelo e seguiu o olhar do detetive. Para seu assombro, Hannah lhe devolveu o olhar. Seu coração saltou.

—Faria-me o favor de me manter informado de cada aspecto da investigação? Assim que seja possível, levaremos a Hannah para casa.

—Terei que falar com ela. Os doutores disseram esta manhã que tinha melhorado de maneira espetacular.

—Não o suficientemente espetacular como para que fale com ela. Avisarei-lhe se disser algo ou se estiver em condições de ser interrogada.

O detetive assentiu com a cabeça e se afastou, jogando uma olhada uma vez mais para a Hannah enquanto o fazia.

Jonas murmurou lhe amaldiçoando enquanto voltava para a habitação trocando imediatamente a um sorriso

—Despertou, Hannah. Levava dormindo já alguns dias. Assustou-me infernalmente —Se sentou em uma cadeira, com o coração palpitando, tentando parecer depravado e otimista.

Parecia uma múmia, envolta em gaze dos quadris até as bochechas. Sua cara, o pouco que se podia ver, estava torcida e machucada. Tinha a pele tão branca que parecia confundir-se com as ataduras e os lençóis a seu redor. Seu olhar estava fixo nele e se ele não se equivocava, estava a ponto de chorar.

Jonas se inclinou para frente e lhe pressionou a palma sobre a cabeça, lhe proporcionando contato e calor

—Tudo vai bem, carinho. Tudo o que tem que fazer é ficar deitada aí e melhorar. Está se fortalecendo. —Nunca conseguiria tirar esta visão dela de sua mente. Nunca esqueceria o pânico que lhe atravessava. Nunca superaria  a terrível e profunda pena que impregnava até os ossos. Não podia fechar os olhos sem ver a faca. O sangue. Nunca se havia sentido tão necessitado nem tão inútil e impotente em sua vida. Deveria ter estado ali. Deus do céu. Eu deveria ter estado ali.

Jonas

Ouviu o medo em sua voz, o eco em sua própria mente. Seu estômago se encolheu em reação. Lutou contra a resposta física e se obrigou a lhe sorrir tranquilizadoramente.

—Sei, carinho. Ele já não pode te fazer dano. Ninguém voltará a te fazer dano outra vez. Como está? Sente dor?

—Minha garganta —Me dói ao falar. Minha garganta esta áspera. Dói-me por toda parte. Inclusive a boca.

O doutor havia dito que sua voz nunca seria a mesma.

—A enfermeira pode te dar mais medicação para a dor.

Não. Só quero ir para casa. Me leve para casa. Pareço um monstro de feira. Todos me olham, inclusive as enfermeiras.

—Vamos levar te a um quarto particular onde possamos te vigiar mais facilmente. Tiraremos você daqui o quanto antes.

Não posso recordar muito.

Ele utilizou o polegar para lhe limpar uma lágrima da bochecha. As pestanas estavam molhadas e de ponta e resultava tão enternecedora que desejou abraçá-la e protegê-la contra tudo e todos.

—Não tem que recordar. Todos estamos aqui contigo e vamos te levar para casa.

—Que aspecto tenho?—Levantou uma mão enfaixada e tocou a vendagem de gaze que lhe rodeava a cara.

Uma sombra caiu sobre eles e Jonas girou bem a tempo para ver um homem vestido de carregador de maca fazendo uma fotografia a Hannah com seu celular. Amaldiçoando, Jonas saltou sobre ele e agarrou ao homem que se afastava rapidamente. lhe arrancando o telefone, deixou-o cair ao chão e o pisou com força.

—EI! Não pode fazer isto.

—Tem sorte que não lhe detenha—Jonas olhou a etiqueta do homem— George Hodkins. Ficará sem trabalho por isso.

—Vale  muito dinheiro, homem. Vou à escola e preciso.

—Vai pro inferno—Jonas lhe apartando de um empurrão e chutando o telefone quebrado com tanta  força que golpeou a parede. Assinalou à enfermeira encarregada, empurrando o homem para ela— Tentava tirar proveito tirando fotografias de sua paciente. Assim se ocupe disto, eu gostaria que a transferissem a outro quarto onde possamos protegê-la melhor.

A enfermeira lhe franziu o cenho ao homem.

—Sim, certamente, Senhor Harrington. —Dirigiu sua atenção ao carregador de maca—Como ousa invadir a intimidade de uma de meus pacientes?

Jonas os deixou e voltou com a Hannah. Tinha sido muito fácil. Se o homem tivesse tido uma arma em vez de uma câmara, poderia ter disparado a distância. Não podia proteger a Hannah aqui. Tinha que levá-la a algum lugar onde pudesse controlar todo movimento ao redor dela. Quanto antes. Tinha que leva-a a casa. Joley lhes poderia proporcionar um avião. Afundou-se na cadeira junto ela, sua mente repassando os detalhes.

Não pode continuar tão aborrecido, Jonas. Vão haver fotografias. Essas revistas horríveis devem ter um dia de glória. Reprimiu um soluço, mas não antes de que ele captasse em sua mente como se girava apartando a cabeça.

—Fodidos repórteres, Hannah. Posso tratar com eles. Tomaremos medidas para te levar pra casa assim que o hospital nos dê permissão. Suas irmãs e tias se alternassem para te ajudar a acelerar a recuperação durante o dia assim que ninguém se cansará, mas elas podem te sarar muito mais rápido em casa. Sairemos daqui em pouco tempo. —E ele poderia controlar a segurança a seu redor muito mais facilmente.

O enérgico golpe na porta fez que Hannah se encolhesse. Seu agente, Greg Simpson, passou roçando ao Jonas sem lhe jogar um olhar, inclinando-se para depositar um beijo no cocuruto da Hannah.

—Não me deixaram entrar até hoje, Hannah. Isto é terrível. Tão terrível. Quem faria algo tão brutal e imperdoável? Os repórteres não me deixam em paz. Tive que conceder tantas entrevistas que perdi a voz.

Hannah não girou a cara para seu agente, mas se manteve quieta, quase congelada. Jonas sentiu que a tensão  e a angústia aumentavam e rodeou ao Simpson para lhe agarrar a mão enfaixada. Ela apertou os dedos ao redor dos seus.

—Dissesse não.

Simpson se girou como se só então notasse a presença do Jonas.

—O que? —perguntou rigidamente, olhando com o cenho franzido para as mãos entrelaçadas.

—Podia dizer que não às rodas de imprensa. Lhes dizer que se vão ao inferno. Estão dando voltas como abutres.

—Certamente que o fazem. Hannah é conhecida e adorada em todo mundo. Todos querem saber como está... se vai viver... se pode voltar a recuperar seu lugar no mundo da moda outra vez. São grandes notícias. Deve ter visto todas as flores, os cartões e os admiradores.

Jonas sentiu um pequeno tremor que atravessava a Hannah.

—É muito querida—Admitiu, querendo que ela soubesse que era consciente da adulação do mundo inteiro.

—Por isso certamente tem que dizer algumas palavras para tranqüilizar a seus admiradores. Posso selecionar a quão repórteres foram bons com ela, os que se preocupam...

Hannah se estremeceu e fez um pequeno som de consternação na mente. Não girou a cabeça ou olhou a seu agente.

Jonas se levantou, obrigando ao Simpson a dar um passo atrás.

—Assim está aqui para comprovar se Hannah está preparada ou não para dar uma roda de imprensa. Não, não o fará. Não falará com os repórteres. E não entrarão fotógrafos em seu quarto também.

—Não há nenhuma necessidade de zangar-se, senhor…Quem é você de todos os modos?

—Sou o prometido da Hannah—Quando a mente da Hannah se estendeu para a dele em sobressaltada reação, Jonas se inclinou para lhe levar seus dedos à boca. Não se preocupe, carinho, não te tirarei de circulação ainda. Só me estou desfazendo deste verme por ti.

Pela primeira vez, houve um fantasma de sorriso na resposta que se produziu em sua mente.

É um pouco verme. Mas faz muito bons acordos quando se trata de conseguir trabalhos.   

É um sabujo da publicidade.

—Hannah não tem prometido. Eu saberia.

—E de algum jeito a notícia se filtraria à imprensa.

—A imprensa é parte da vida da Hannah —Simpson parecia de repente triste, com a boca queda e os olhos como os um cachorrinho perdido—. Embora não posso ver como nossa Hannah recuperará alguma vez a incrível beleza que a tem feito tal estrela. Deus minhas meu—Ambas as mãos revoaram, indo para sua angustiada cara—. A cortou em farrapos.

O corpo da Hannah se esticou como se alguém lhe tivesse pego um tiro. Sua reação foi tanto física como mental, afastando-se do Jonas, negando-se a olhar a qualquer deles.

Simpson atravessou a habitação evitando Jonas enquanto franzia o cenho e se esfregava as Palmas acima e abaixo sobre o peito.

—Terei que um controle de danos com as contas. Há tantas. A empresa cosmética, o perfume. Estávamos negociando com a principal cadeia de uma marca de roupa. Terei que conseguir a alguém que se prepare para fazer-se cargo ou o perderemos tudo. Há gente que conta contigo. Falaste com algum cirurgião plástico? Será capaz de te deixar a cara como antes quando lhe operarem?

—Fora. Daqui. Já. —Jonas articulou cada palavra entre os dentes apertados.

—Não. Não. Não o entende. Acredita que não tenho compaixão, mas meu trabalho é deixar a um lado as emoções e manter o negócio da Hannah em funcionamento. Sou o responsável por esclarecer esta confusão.

—É responsável por estar aqui —grunhiu Jonas, sabendo que era injusto—. Ela não deveria ter estado ali em primeiro lugar. Vai te ao inferno e nos deixe sozinhos.

—Voltarei, Hannah, quando for você mesma e possamos falar disto— disse Simpson enquanto abandonava a habitação.

—Maldito pequeno sapo —vaiou Jonas pelo baixo. afundou-se de novo em sua cadeira—. Tudo no que pensa é em sua comissão.

Hannah não voltou a cara para ele. Seus dedos se abriram e sua mão escorregou da dele. Lhe encolheu o peito e conteve uma quebra de onda de medo misturado com cólera. Suas emoções estavam por toda parte e tinha que as refrear se ia fazer lhe a ela algum bem. Sentou-se largado sobre a cadeira e a observou durante um momento, a linha tensa de seu corpo, a cara apartada.

—Está preocupada com o que disse? Cicatrizes? Perder sua carreira? —Não lhe tinha preocupado outra coisa que sua vida. Queria-a viva de qualquer modo que pudesse consegui-lo.

Não o está você?

Conteve sua primeira resposta e analisou a voz de sua cabeça. A vantagem da telepatia consistia em que a emoção ia com a voz e ela estava ferida, mas sobretudo terrivelmente assustada. E sentia apreensão por como se veria.

—Você não é seu corpo, Hannah. Nunca o foste para mim. Não sei para o resto do mundo, tudo o que posso te dizer é que te amo... à pessoa. A única que me faz rir e zangar tanto que poderia te sacudir. Faz-me sentir vivo. Faz-me sentir querido. Nunca tinha tido isto, sabe. Minha casa não era como a tua. Agora, quando vou, dá-me chá, bolachas e a metade do tempo me espera uma comida. Faz-me sentir importante e que faço parte. —esclareceu-se garganta, sentindo-se um pouco parvo quando não lhe olhou—. Me faz sentir como um homem deveria sentir-se... bem... quando não me faz o inferno em cima.

Apesar de seu medo, Hannah respondeu, voltando-se para ele, com o olhar azul colidindo com a sua e a impressão de um pequeno sorriso em sua mente.

Você também me confunde. Obrigado. É aterrador não saber que aspecto tenho.

—Libby não pode curar a malha da cicatriz?

Crê que faz milagres?

Pergunta-a ficou ali pendurada. Ridícula. Comovedora. Absurda. E logo sentiu a explosão da risada rompendo as paredes de sua mente e quis chorar. O som era suave, verdadeiro e tão perfeitamente Hannah... sua Hannah. A que poucos conheciam. Tinha que abraçá-la. Seus braços ansiavam agarrá-la, mas tinha medo de lhe fazer dano.

Hannah alargou a mão e lhe acariciou a bochecha. Tem lágrimas nos olhos, Jonas. Não te entristeça. Eu estou o bastante triste pelos dois.

Engoliu o nó que ameaçava lhe afogando e lhe agarrou a mão, atraindo-a para seu peito. As gemas de seus dedos eram a única pele real que podia alcançar e esfregou as gemas de seus próprios dedos para diante e para trás, necessitando o contato com ela.

—É triste pensar que pudesse ter cicatrizes?

Tinha sido tão formosa, tão assombrosamente formosa. Podia entendê-lo e talvez isto lhe incomodaria quando terminasse o medo porque quase tivesse morrido ante seus olhos... não nesta vida... nem na seguinte... mas algum dia.

Não sabia que alguém pudesse me odiar tanto. O que posso ter feito para fazer que alguém queria me fazer dano desta maneira? Não o entendo.

Ele levou seus dedos à boca, beijando-os, mordiscando-os com os dentes, defendendo-se das quebras de onda de náuseas e de cólera e do absoluto medo cru de pensar em um louco apunhalando-a brutalmente.

—Nada, Hannah. Absolutamente nada. Era um desequilibrado. Não há nenhuma explicação.

Ela engoliu com força e provou a voz.

—Tem que havê-la. —Sua voz era baixa e rouca, ainda melódica, mas soava como um sussurro.

Aquele pequeno sussurro viajou direto a sua coluna e por seu corpo, comovendo-o, como só Hannah podia fazer. Não havia nada atrativo em estar deitada na cama de um hospital, coberta de ataduras, mas sua voz, seus olhos, o sussurro que atravessava sua coluna, levaram a seu corpo uma alerta imediata.

—Estou fodidamente contente de que esteja viva, Hannah.

Hannah piscou, impressionada pela explosão de emoções que surgiu dele quando no geral era tão reservado, tão cuidadoso para não afligi-la.

 —Estou aqui. —Foi tudo o que lhe ocorreu lhe dizer quando ele estava tão esmigalhado. Podia sentir sua dor e lhe surpreendeu que ele o permitisse.

Ele negou com a cabeça.

—Esteve muito perto, Hannah. Muito perto. Se Prakenskii não tivesse estado ali…

As sobrancelhas dela se uniram. Agora o recordo. Ele me perseguia. Entre a gente. Tive medo pelo Joley. Ela fez um som de angústia e lhe olhou. Perguntou-me se era uma cantora de feitiços.

Jonas sacudiu a cabeça e jogou uma olhada para a enfermeira. Não sei que é isto. O que significa? Só pensá-lo a transtornava. Podia ver que ela estava inquietando e a obrigou a passar o ar por seus pulmões em um esforço por tentar acalmá-la.

—Relaxe, carinho, nada ocorrerá ao Joley. Tenho guardas vinte e quatro horas ao dia com ela. Está muito alterada por você para zangar-se comigo além disso, o que é uma vantagem.

Hannah fechou os olhos, débil e esgotada, sua voz era ainda esse fio rouco.

—Forte. —Era muito problema falar em voz alta pelo que trocou. Sua magia é forte e antiga. Conhece os velhos caminhos, os caminhos tradicionais.

Jonas lhe jogou para trás os selvagens cachos elásticos.

—Durma, amor. Prakenskii te manteve viva assim agora mesmo não me preocupa se ele for o diabo em pessoa. Ocuparemo-nos de tudo isso mais tarde.

Ternura. Quem teria pensado que ele era capaz de uma emoção tão profunda? E começava a preocupar-se com o fato de que ela não pudesse falar. A faca lhe tinha atravessado a garganta. Havia ali mais dano do que o médico tinha pensado em um princípio? Provavelmente. Muito provavelmente. Inclusive com as Drake unidas para saná-la, elas tentavam mantê-la viva, não se preocupavam com essas pequenezes

Jonas. Não me deixe aqui sozinha. Quero ir pra casa. Não me sinto a salvo aqui.

Sorriu ao redor das gemas dos dedos dela.

— Não tem que preocupar-se de que te deixe sozinha, Hannah. Vou te colocarem um quarto em casa. —Sentiu seu estremecimento, mas havia algo mais em sua mente e franziu o cenho—. Você não gosta da idéia.

Houve um pequeno silêncio. Acreditou que poderia não lhe responder.

Se tivesse estado fora, ninguém poderia  ter me feito isto. Tenho pouco poder dentro. Sinto-me segura fora.

Jonas franziu o cenho.

—Hannah, não acredito que entenda o que está fazendo.

Está bem. Não sei o que estava dizendo.

A voz se atenuou outra vez como se o esgotamento a afligisse, mas Jonas não estava disposto a deixá-la ir. Mentia. Sabia o que estava dizendo e era importante—. Pode controlar os elementos fora —disse ele—, e isso te faz sentir a salvo.

Não lhe respondeu, mas ele sentiu como assentia em sua mente.

Jonas sacudiu com  a cabeça.

—Hannah, está-me dizendo que não se sente a salvo dentro? Aqui? No hospital? —Ele sentia a mesma tensão no estomago antes de que os alarmes chiassem. Lhe tinha pedido que fosse a Nova Iorque. Ele não a tinha escutado então mas estava malditamente seguro de que a ia escutar agora.

—Quando você está comigo.

—Ainda sente que está em perigo? —Tinham ao casal. A menina não podia representar uma ameaça. Estava sedada na clínica de desordem alimentícia. Era natural, tranqüilizou-se, que ela tivesse medo. Tinha passado por um ataque brutal que lhe tinha trocado a vida. Ter medo era simplesmente isso...  não precognição. De todos os modos lhe tinha secado a boca e o coração lhe tinha acelerado.

 O que quer dizer com... casal?

Jonas amaldiçoou pelo fora. Que classe de idiota era? Um aficionado? Ela girou a cabeça para ele e abriu os olhos. Sentiu o impacto desse olhar azul todo o caminho através de seu corpo, como uma sacudida elétrica. Não estava contente com ele. Tinha captado seu pensamento como se o tivesse formulado em voz alta. Deveria ser mais preparado a seu redor, especialmente quando ela falava telepaticamente. Deu-se de patadas mentalmente.

Beijou os dedos outra vez, desejando poder embalá-la em seu regaço e abraçá-la.

—A esposa do homem tentou injetar Buethanasia em seu acesso —O olhar da Hannah não vacilou. Era impossível apartar o olhar

Disse por que me queria morta?

—Não disse nada. —Ao menos isso não era uma mentira. Ela saberia que estava mentindo, sempre sabia. Hannah continuou lhe olhando fixamente—. Por Deus —exclamou exasperado—Isto não é importante agora mesmo. Eu me encarrego de tudo.

Então ela piscou. Largas pestanas baixando, proporcionando seu corpo outra sacudida. Deus. O fazia tão facilmente. Sempre o fazia. Inclusive envolta em ataduras como uma múmia, podia fazer que cada célula de seu corpo se excitasse..

Estou ferida, Jonas, não mentalmente incapacitada. Conta, tenho esse direito e não sou uma frágil flor que vá murchar se ou a ser esmagada, assim conta.

Frágil era exatamente o que era. Lhe tocou a cara com as gemas dos dedos, acariciando mechas de seu cabelo.

—Acredito que tenho direito a te proteger, Hannah. Levou aproximadamente dez anos de minha vida. Não oculto nada. A mulher está morta. Não temos nem idéia de que motivação tinha, mas estamos procurando. Enquanto isso, fico contigo. Não há nenhuma necessidade de ter medo.

Esperava ter razão. Rezava por ter razão.

Tem que haver uma razão, Jonas. Conhecia-os? Desprezei-os de algum modo? Talvez pensaram que tinha sido grosseira com eles. Às vezes a gente tenta dirigir-se a mim quando saio do carro e não posso falar sem gaguejar assim só sorrio e saudo com a mão.

Doía-lhe o coração por ela. Inclinou-se aproximando-se mais, sua postura protetora, carinhosa. Importava-lhe uma merda se todo mundo sabia como lhe voltava do reverso.

—Isto não é tua culpa. Deixa de tentar que tenha sentido. Não há nenhum sentido nisso, Hannah —Utilizou a gema do polegar, lhe fazendo pequenas carícias na frente—.Te amo, Hannah. Sabe, verdade? Sabe que te amo.

Sentiu-a retrair-se, sua mente separando-se da sua. Imediatamente cautelosa. Não tem que dizer isso, Jonas. Não quero que o faça, não agora, quando não sei que aspecto tenho.

—Agora te está tirando sarro de mim, mulher. Crê que está falando com esse pequeno roedor do Simpson? Por que demônios o mantém como agente?

Hannah piscou quando passou a zangar-se e logo ao Greg Simpson.

É assombroso no mundo da moda. Realmente tem um sexto sentido para os desenhistas, quem vai conseguir o e quem não. É mordaz e arrogante, mas há construído as carreiras de alguns dos nomes maiores do negócio. Eu nunca teria conseguido sem ele.

Jonas não estava seguro de que isso fora realmente certo, mas o que sabia ele da indústria da moda? Greg Simpson era um nome respeitado no negócio e certamente consegui bons entendimentos para a Hannah. Jonas em realidade nunca tinha perguntado muito pela classe de dinheiro que fazia Hannah, mas sabia que era muito... mais do que gostava de pensar.

—É sempre assim?

Não. É um tubarão nas negociações dos contratos e os clientes lhe adoram. Sabe exatamente o que lhes dizer. Esgrime muito poder na indústria.

Havia algo mais... algo que lhe escapava. Se Greg Simpson era um agente tão bom, então seria lógico que fora o suficientemente preparado para tratar a seu cliente número um com luvas de seda, mas não o fazia. Era insultante e grosseiro. Dava rodas de imprensa quando deveria estar protegendo-a. Algo não funcionava.

—Hannah, disse-lhe que iria deixá-lo?

Permaneceu calada, mas ele viu o brilho de lágrimas em seus olhos. Seu estômago se apertou e retorceu em tensos nós. Tudo em seu interior ficou imóvel o poli assumiu o controle

—Quando lhe disse que o deixava?

Hannah apartou a cara. Isso não importa.

—Por isso se comporta como uma pequena doninha pomposa. Não teria trabalhado com ele se sempre te tratasse assim. Disse que o deixava. É sua cliente número um e consegue muito sendo o agente da número um. Maldita seja, Hannah por que não me disse que o deixava? —inclinou-se sobre ela, o bastante molesto para lhe agarrar o queixo coberta de ataduras e atirar para que lhe olhasse—. Quando estivemos juntos, por que não me disse isso? Já o tinha deixado, verdade?

Houve um pequeno assentimento. Mas  tinha contratos que cumprir. Disse que não mais, que não agarraria nenhum mais.

—Quando? —Exigiu-lhe.

Recorda quando entrou e Greg estava ao telefone faz alguns meses? Sugeriu-me que me fizesse uma redução de peito. Houve uma dolorosa vergonha na voz... na mente dele. Vergonha inclusive. Nem sempre encaixo no modelo padrão feito para as modelos de passarela e com os enormes desfile de modelos ao cair, aparentemente alguns desenhistas se queixaram.

Jonas se havia posto furioso, recordou. Hannah já passava fome e Simpson a empurrava a perder inclusive mais peso. Estava tão magra como um trilho, mas ainda tinha uns peitos generosos, um pouco não bem-vindo na indústria da moda ao parecer.

Isso tinha sido fazia vários meses.

—Realmente lhe disse então que o deixava? —Definitivamente ia examinar o laço entre o casal que a tinha atacado e Simpson, embora não tivesse sentido, mas era um paranóico no que a ela concernia. Simpson perderia muito dinheiro se ela o deixava.

Levava no negócio muito tempo. Fiz suficiente dinheiro para viver comodamente onde queira e não ia fazer uma redução de peito.

    —Agradeço a Deus que te desse um pouco de sentido comum. Me dê um calendário disto, Hannah. Quando o disse... como reagiu? Quando começou a comportar-se repugnantemente contigo?

As sobrancelhas da Hannah se uniram.

No que está pensando? Que Greg quereria me fazer dano por que lhe havia dito que deixava o negócio?

    —Certamente que não. —Isso era exatamente o que o policial nele estava pensando. Simpson conseguia muita cobertura nos meios de comunicação com o ataque e o que teria sido perder a seu cliente mais famosa? Bem podia imaginar-se ao Simpson arder de raiva e desejando vingar-se dela. Agora, não só se tratava da antipatia que lhe inspirava mas sim tinha inclusive mais contra ele.

Jonas não podia esquecer o fato de que um casal sem nenhum motivo, nem insinuação de enfermidade mental, tinha desenvolvido um ódio tão profundo para tentar matar a Hannah de uma maneira tão violenta. O ataque, tinha pessoal escrito" por toda parte. Isto era dramático, tinha sido por televisão. Inside Entertainment, o popular programa de intrigas sobre celebridades, tinha anunciado até não poder mais que celebrariam o que proclamavam como a festa do século... essa a que assistiria todo estrela. Isso significava que Albert Werner tinha querido que o ataque fosse filmado. Tinha querido que o mundo o visse. Sabia que o agarrariam e devia haver-se preparado para terminar com sua vida, ao igual a sua esposa.

E isto o devolvia toda a questão ao assunto dos poderes psíquicos. Quem os tinha e quem ganharia algo obrigando ao casal a matar a Hannah Drake? Ia começar a procurar uma conexão com o Simpson. O homem sairia disto como o favorito dos meios de comunicação. E, tudo fora dito, tinha que aprofundar um pouco no Prakenskii.

Jonas

Jonas lhe mordiscou os dedos.

—Estou aqui mesmo , carinho. Não se preocupe tanto. Conhece-me. Eu gosto de tudo claro e ordenado. —Olhou sobre o ombro quando ouviu que chegavam as Drake—. Sua família está aqui para outra sessão de cura e logo trocaremos para outro quarto.

Os dedos da Hannah se entrelaçaram com os seus.

Quando poderei ir pra casa?

—Logo, carinho. Prometo-lhe isso. Levarei-te pra casa logo.

 

Hannah permanecia no centro do quarto, sacudindo-se, com a bílis subindo por sua garganta. A seu redor, virados para cima no chão, estavam fragmentos de um espelho de corpo inteiro, reproduzindo uma e outra vez uma horrível, monstruosa imagem de seu corpo. Parecia uma colcha de patchwork, irreal, que alguém costurou conjuntamente. Pressionou os dedos nos olhos com força, detendo o fluxo de lágrimas. Não faria isto. Não o faria. Estava viva. Suas irmãs a estavam curando. Qualquer outro estaria morto. Morto. Precisava estar agradecida pelo milagre que lhe tinham dado, não era tão vaidosa para fazer frente aos resultados. As navalhadas de seu corpo se desvaneceriam com o tempo, mais rápido do normal. Libby estava segura de que as irmãs Drake podiam evitar que as cicatrizes ficassem aparentes. Precisava estar agradecida.

—Hannah? —A chamada na porta foi suave. Dúbia. Persistente—. Carinho, ouvimos um golpe. Está bem?

Hannah engoliu com dificuldade e agarrou sua bata, cobrindo-se rapidamente o corpo. Não se atrevia a dar um passo com os pés descalços. Os cristais estavam disseminados por todo o chão da habitação. Grandes peças irregulares e diminutos fragmentos. Arruinados. Como sua vida. Como sua cara. Seu corpo. Tudo.

—Estou bem, Sarah. Só deixei cair algo. Estava a ponto de me deitar.

—Me deixe entrar, carinho. Ajudarei-te a recolhê-lo. Ouvi que algo se rompia.

—Já o tenho feito. —Necessitava que Sarah fosse. Todos tinham que deixá-la só e lhe dar um pouco de tempo. Estava rota em um milhão de partes, como o espelho, e tinha que encontrar a maneira de reunir-se a si mesmo. Tinha que encontrar o modo de acreditar em si mesmo. Não queria estar assim, ferida e perdida sentindo-se tão sozinha.

Principalmente não podia suportar mais a decepção. Podia sentir a pena de suas irmãs. Pobre Hannah. O que fará? Temos que pensar por ela. Imaginem sua vida, agora que está arruinada. A compaixão a estava matando. Não podia estar na mesma habitação com elas, e que sussurrassem. Sussurrassem. Como se estivesse em seu leito de morte. Possivelmente era o modo em que todos a viam agora. Hannah Drake, a modelo, definitivamente se foi. E agora, quem demônios era agora?

—Hannah? —Sarah chamou outra vez—. Me deixe entrar.

—Sarah —A voz da Hannah se rompeu. afogou-se—. Têm que me dar um pouco de espaço. Sinto muito. Só necessito tempo. Me dêem tempo.

Houve um momento de silêncio. Podia sentir o peso da dor de Sarah e a pena esmagando-a, as esmagando às duas.

—Hannah, abre a maldita porta.

Não havia nada suave ou dúbio na ordem ou na voz. Jonas não acreditava nos mímicos. Ele tinha visto quão covarde era. Tinha pensado que era vaidosa. Pobre pequena Hannah, incapaz de suportar não ser uma boneca Barbie.

Imediatamente detrás da ordem do Jonas, pôde ouvir os sussurros de suas irmãs para ele, furiosas por que tivesse usado esse tom e talvez incomodá-la. Protegendo-a, apoiando-a e ela não se merecia algo assim. Odiava que queriam protegê-la, elas sentiam que era necessário. Todas saltaram sobre ele, lhe exigindo que retrocedesse e as deixassem dirigi-la. Porque a pobre rota Hannah precisava ser dirigida.

Sentiu a insistente queimação das lágrimas. Quão totalmente patética podia chegar a ser, de pé em meio de sua habitação com cristais quebrados rodeando-a —burlando-se dela—, e suas irmãs e Jonas amontoando-se juntos fora de sua habitação sussurrando. Se não fosse tão miseravelmente triste, gritaria.

Tinha conseguido evitar a todo mundo na baía a primeira semana em casa simplesmente permanecendo na cama, mas sua negativa em comer tinha alterado muito a todas, e podia ver que as estava desgastando enquanto elas tentavam curá-la, assim fez o esforço de levantar-se.

—Hannah. Não estou brincando contigo. Abre a fodida porta já. —Havia um fio em sua voz, como se estivesse chiado os dentes e mordendo cada palavra. Seu coração se acelerou e sua garganta pareceu inchar-se.

Houve mais sussurros. Podia haver dito a todas suas irmãs que todas as ordens do mundo não funcionariam com o Jonas. Ia entrar. Não havia muros entre o Jonas e Hannah. Ele nunca os permitiu a menos que fora ele o que os levantasse. Simplesmente derrubava cada barreira. Fechou os olhos. Quando ele abrisse a porta, e o faria, suas irmãs veriam o desastre que tinha feito e a compaixão surgiria delas com tal força que a afligiria e afogaria instantaneamente.

Desejou poder simplesmente desaparecer. Em vez disso, quando ouviu o Jonas acionar a fechadura, estendeu-se para ele. Por favor não deixe que outros olhem dentro, Jonas. Custou-lhe o pouco orgulho que ficava, mas fez o pedido. Suas irmãs não precisavam ver a fraca e inútil que era na realidade. Jonas já sabia. Talvez elas também, talvez era isso pelo que sempre lhe jogavam um cabo, pensavam por ela, dirigiam-na e a mimavam. Não tinha sido capaz de suportar a expressão na cara de sua mãe assim que lhe pediu que se fosse junto com as tias. Se uma pessoa mais a consentia, poderia saltar pelo balcão.

—Sarah, Kate, fiquem fora —ladrou Jonas, sustentando a porta fechada—. Não vou feri-la. É bastante capaz de me pôr em meu lugar se necessitar. Vão e me deixem falar com ela a sós.

—Ela é frágil, Jonas. Não seja um urso com ela. —A voz do Kate era baixa e ansiosa—. Não pode incomodá-la nem gritar.

—Por que pensa que faria isso? —perguntou Jonas.

 

—Talvez o uso da palavra com “F” seja uma pista —disse Kate.

Hannah encontrou que a agitação de seu estômago se aliviava um pouco.

Jonas não ia tratá-la como se pudesse romper-se em qualquer instante, inclusive se já o estava.

Jonas se deslizou dentro, fechou a porta e passou a chave. Permaneceu muito quieta enquanto ele examinava o dano. Seu espelho antigo de corpo inteiro parecia em pedaços, só dois pequenos cristais dentados penduravam do marco. O cristal estava por toda parte, espalhado por todo o chão, as partes se sobressaíam como pequenas adagas, brilhando como prata.

—Não se mexa neném —disse—. Nem um passo.

—Apesar do que todo mundo pensa, não sou uma suicida, só irracional. —Sua voz saiu em um sussurro enrouquecido, um dos doutores disse que teria que acostumar-se. Manteve a mão frente à cara. Ele a havia visto envolta em ataduras, mas as tinha tirado para olhar-se e a visão tinha sido horrenda. Não queria olhar-se em um espelho e não queria ver o reflexo nos olhos dele. Mais que nada, não queria ver compaixão em sua cara.

Jonas caminhou através dos cristais e a levantou, embalando-a em seus braços.

—Na cama ou no balcão?

Ela avermelhou. Não só a cara, o corpo inteiro. O fôlego dele era quente em seu pescoço. Sua bata se ficou aberta e ele estava olhando para baixo às navalhadas que destacavam tão cruas e inflamadas em sua carne nua.

—Jonas. Não olhe.

—Por que demônios não?

—Deixa de amaldiçoar ante mim. E você sabe por que. É ho-horrível. —Fechou os olhos. Não gaguejaria. Negava-se a ser mais desastre do que já era.

Jonas a levou a bordo das portas francesas e a pôs sobre os pés, suas mãos indo à frente do roupão e abrindo-o antes de que ela pudesse lhe deter.

—Estou fodidamente contente de que esteja viva, realmente crê que me preocupa como se vêem as suturas? Quero ver se te está curando adequadamente. Os médicos não queriam que viesse pra casa ainda.

Foi toda a cor da cara. Ficou boquiaberta. Um só gemido estrangulado escapou enquanto tentava dar um passo atrás e puxar seu roupão para fechá-lo. Mas ele sustentava o tecido aberto sem piedade.

—Não sei, neném —murmurou—, ainda parece doloroso. —As gemas de seus dedos lhe acariciaram a curva do peito—. Libby deu uma olhada nisto? Porque tem que fazê-lo. Está muito vermelho. Pode estar infeccionado.

Só umas poucas semanas antes, Jonas lhe havia tocado os seios, sua boca tinha estado exatamente onde estavam suas mãos, quente e faminta pela necessidade e o desejo. Esperava sentir sua repulsão e indignação, mas em vez disso, havia uma tranqüila aceitação mesclada com preocupação por ela e aprovação na avaliação de que suas irmãs a estavam curando. Não com tanta rapidez como para que isto drenasse sua energia e as deixasse incapazes de funcionar, mas estava viva e as feridas estavam curando de dentro a fora.

Mas não onde ninguém podia as ver.

Se sentia  muito vulnerável estando ali nua, seu roupão aberto enquanto ele inspecionava as feridas tão clinicamente como se ela fosse uma estátua quebrada e não uma mulher real, de carne e osso. Realmente não sabia que era pior. As lesões foram desde sua cara até seu ventre. Horríveis navalhadas profundas e espetadas, alguns superficiais que rasgavam sua pálida pele.

—O que disse Libby sobre os meninos? —Sua voz se voltou áspera. As gemas dos dedos vagaram para sua garganta, deslizaram-se sobre os cortes dali, riscaram um caminho ao longo de seu peito, descendo por suas costelas até seu estômago, e finalmente para seu abdômen, onde situou a palma, com os dedos abertos estendidos—. Ainda podemos ter meninos, Hannah?

Piscou apartando as lágrimas ante a aspereza de sua voz. A emoção dele não se transbordou para afligi-la mas estava ali, enterrada profundamente, e a ouviu em sua voz.

—Não há um “nós”, Jonas, não pode havê-lo.

—Não me venha com tolices justo agora, Hannah. —Soltou o roupão e passou o agarre a seus braços, puxando com força, apertando-a forte contra ele. Enterrou a cara em seu pescoço—. Pensei que tinha isto sob controle. Está a salvo. Maldita seja, está a salvo.

Jonas falou em voz alta, precisando ouvir as palavras, mas um tremor lhe percorreu, uma terrível corrente de inconfessável terror enquanto as imagens enchiam sua mente. Pressionou a cara mais forte contra seu pescoço, esmagando-a em seus braços, tentando sustentá-la o bastante perto, o bastante forte, para eliminar o inconcebível. Pensava que tinha superado esse momento além de quando isto atormentava seus sonhos. Cada noite despertava suando, com seu nome nos lábios, a bílis em sua garganta e uma pistola na mão. Mas a vista de seu corpo trazia de volta cada navalhada e cada brutal punhalada da faca. Sabia onde estaria cada marca. Quão comprido e profundo, com total horror tinha observado a cena desenvolvida em televisão até que sua mente ficou intumescida.

Por um momento não pôde respirar. Tinha acreditado que estava além de tudo, embora aqui estava, aferrando-se a ela, necessitando consolo, em vez de dar-lhe. Ela estava confusa. Tinha-o esperado. O que não tinha esperado era sua retirada, ou a negação de sua relação, mas deveria havê-lo feito. Tinha que tornar-se para trás, manter os pés no chão e pôr tudo em ordem.

Hannah permaneceu congelada em seu abraço, surpreendida além das palavras —ou do consolo—e consolar a outros era sua inclinação natural. Jonas era uma rocha. Sempre. Tinha estado tão estóico no hospital, nunca lhe teria ocorrido que estivesse tão aterrorizado. As mãos foram, por própria vontade, a sua nuca enterrando-se  em seu cabelo.

—Estou bem, Jonas —mentiu.

Ele levantou a cabeça e pressionou a frente com a sua.

—Ainda não, carinho, mas o estará. E não respondeste a minha pergunta. O que disse Libby sobre os meninos?

Hannah não podia negar a si mesmo que lhe amava, não quando estava tão frágil.

—Posso ter meninos, Jonas, mas... —Sua voz se desvaneceu, com ambas as mãos em seu cabelo. Ele estava tremendo, seu poderoso corpo revelando a extensão de seus medos. De algum modo, já que precisava ser forte, descobriu que podia sê-lo. Talvez, podia estar bem outra vez. Talvez podia encontrar um modo de acreditar em si mesmo. Hannah Drake. Quem era? O que a definia?

—Estou tão contente, neném. Teria estado bem. Amaria a um menino que adotássemos, sabe. Pensei nisso um montão, Hannah, assim se Libby está preocupada com que isso possa te danificar, ou ser perigoso, iremos pelo caminho da adoção.

Ela negou com a cabeça, apertando os dedos em seu cabelo. Ele não ia escutar a sobre o final de sua relação. Por isso a ele concernia, tinham cruzado juntos uma ponte e não havia volta atrás. Sinceramente não sabia como se sentia a respeito.

Ele pressionou um beijo contra a ferida irregular que dividia um lado de sua cara em dois.

—Sente-se fora no balcão enquanto limpo isto. Não quero que caminhe pela área descalça.

—Por favor não diga nada a minhas irmãs. —Deu um passo longe dele, atirou da bata com força seu redor, com cuidado de manter-se de costas ao oceano. Podia ouvir o helicóptero dando voltas sobre sua cabeça—. Desejaria que os fotógrafos se fossem.

Lhe piscou os olhos um olho.

—Bom, está fazendo maravilhas pela economia dos arredores. Os preços dos aluguéis triplicaram e inclusive quadruplicaram em Sea Haven. Especialmente quando são habitações para os paparazzi. Todo mundo está tratando de te proteger a seu modo. O Salt Bar and Grill onde trabalha Trude Garret colocou um novo sinal, não sem camisa, não sem sapatos, não paparazzi, embora não é que pareça dissuadi-los. Nenhuma de suas irmãs dá um passo fora daqui sem ser fotografada.

—Me dê minha manta. —Indicou-lhe a que estava ao pé da cama.

Jonas triturou mais cristais sob seus pés quando agarrou a suave manta e alcançou. Hannah a jogou pela cabeça como uma capa com capuz, escondendo a cara nas dobras.

Girou para ele, mantendo-se nas sombras de uma esquina, mas levantou uma mão e fez entrar em vento que vinha do mar. Este se apressou dentro, forte e rápido, empurrando ao helicóptero de modo que o piloto não teve mais opção que afastar o da casa.

—Se mantiver o vento soprando forte, não podem vir para mim pelo ar e posso conseguir um pouco de paz. —Empurrou o cabelo detrás da orelha e se afundou na cadeira que tinha posto em uma esquina do balcão onde podia olhar por volta do mar.

Era reconfortante saber que as pessoas do povoado procurassem encontrar modos de afugentar aos fotógrafos e repórteres. Era uma das coisas que adorava de Sea Haven. Embora era verdade que eles conheciam os assuntos alheios, também eram abertos e amistosos e um apoio em cada crise ou cada maravilhoso acontecimento.

Jogou um olhar abaixo à praia e se surpreendeu de ver o Joley e Elle caminhando pela areia a plena vista das câmaras. Elle levantou as mãos como em brincadeira, fazendo gestos imprudentemente para o Joley, que se voltou e lhe soprou um beijo acima para a Hannah.

Hannah se mordeu o lábio. Só Deus sabia o que as duas irmãs mais jovens poderiam fazer. Não lhe levou muito tempo averiguá-lo. A areia se levantou em resposta às gráceis mãos de Elle.

O vento da Hannah tomou os grãos de areia, fazendo-os zumbir em apertados redemoinhos que se balançaram em altas colunas pela praia, dando nas lentes das câmaras, golpeando com força aos homens e mulheres que tratavam tão desesperadamente de conseguir um close da cara arruinada da Hannah. O vento se elevou, lançando as partículas mais forte de modo que morderam a carne e cobriram o cabelo, meteram-se nas bocas e as equipes, afugentando aos intrusos.

Hannah sacudiu a cabeça enquanto Joley e Elle uniam as mãos, giravam-se para ela e faziam uma reverência varrendo o chão. Hannah não pôde evitar sorrir. Eram tão extravagantes. Fez um gesto para o penhasco sobre elas onde câmaras com zoom enfocavam sem compaixão a casa das Drake. As duas garotas se olharam a uma à outra e suas risadas subiram até a Hannah.

—O que estão planejando? —perguntou Jonas, depois de usar primeiro um aspirador de mão, esvaziando os cristais quebrados no cesto de papéis e saindo ao balcão. Essa é sua risada de bruxa, a que sempre me diz que não estão planejando nada bom.

—Tenho que estar de acordo —disse Hannah.

—Normalmente você está justo no meio do problema —acrescentou—. As três herdaram o gene dos problemas. —Descansando suas mãos no corrimão, ele entreabriu os olhos olhando para baixo às duas mulheres Drake, as quais olhavam ao norte esta vez, para os compridos escarpados fora, no oceano onde os pássaros por milhares descansavam sobre as ondas e a branca espuma. Os pássaros se elevaram quase ao mesmo tempo, enchendo o ar com suaves asas estendidas, girando no ar e dirigindo-se diretamente para o penhasco. O céu se obscureceu com a migração. O som das gaivotas chiando se mesclou com os gritos de alarme humanos quando os pássaros caíram em cima para os fotógrafos, afugentando-os. Um genuíno toró de excrementos de pássaro aterrissou nos escarpados, cobrindo as câmaras, a gente e os carros nas cercanias.

Jonas se inclinou sobre o corrimão e assobiou.

—Caramba! Amigo! Não levante a vista. Boa, Joley, um alvo perfeito! Aggghh, isso foi simplesmente repugnante, deve ter sabor de merda.

Hannah sacudiu a cabeça.

—É tão mau como minhas irmãs.

—Bom, esses pequenos ratos desagradáveis podem ir fazer fotos de outro. —sentiu-se bem ao encontrar um pouco de humor na situação. As Drakes tinham seu próprio modo de dirigir as coisas e provavelmente este era  melhor que o seu. Queria fazer pedaços o caro equipamento e sentir a satisfação de seu punho golpeando caras. Sendo um oficial eleito —o xerife— essa provavelmente não era a melhor ideia ou a mais apropriada.

—Suponho que deveríamos estar preocupados com a gripe aviária, embora talvez se todos a pegarem, teríamos um pouco de paz durante um momento.

—Elle se encarregará disso —disse Hannah—. Deixemos que se desafoguem. É muito mais seguro com travessuras.

Ele se girou para olhar a de frente, estudando sua cara escondida tão cuidadosamente dentro da manta.

—Como a brincadeira do chapéu que sempre está fazendo. O que queria fazer em vez de me roubar meus chapéus?

Ela se encolheu de ombros.

—Tenho um temperamento terrível, Jonas. A maioria de nós o tem. Libby não, naturalmente, teria que ser realmente horrível para conseguir irritá-la, mas é mais seguro fazer coisas divertidas ou inofensivas que desafogar-se com ira.

—Assim estava realmente zangada comigo —persistiu.

—Às vezes.

—O que atirou ao espelho?

Um golpe na porta lhe fez franzir o cenho e a ela suspirar.

—Hannah, é hora de que descanse —Libby colocou a cabeça na habitação, com olhos suspeitos enquanto olhava ao Jonas—. Não quero que a esgote.

Hannah não pôde evitar jogar um olhar ao chão para ver se os restos do espelho estavam recolhidos. Não só tinha desaparecido o cristal, mas sim Jonas tinha afastado o marco e o tinha guardado fora da vista. Transmitiu-lhe um sorriso agradecido.

—Só estou aqui sentada, Libby.

—Bem, não pode te exceder, carinho. Deveria estar ainda no hospital. —Libby fez vários gestos para o Jonas, tratando de lhe insinuar que se fosse.

Ele cruzou os braços sobre o peito e manteve  seu olhar.

—Assegurarei-me que não se exceda —lhe assegurou.

Libby lhe olhou com o cenho franzido.

—As visitas a cansam, Jonas.

—Felizmente, não sou uma visita —lhe devolveu brandamente—. Sou da família.

Libby jogou um olhar a seu relógio de pulso.

—De verdade acredito que ela precisa deitar e tirar um cochilo.

Uma sobrancelha do Jonas se elevou.

—De verdade? Você que crê, Hannah?

Era uma oportunidade para desfazer-se dele. Por outro lado, Hannah estava cansada de ser tratada como uma menina e lhe pedia sua opinião em vez de tê-la por ela. Estava farta de que todo mundo tomasse suas decisões.

—Não estou cansada, Libby. Quando o estiver, despacharei ao Jonas.

—Está segura?

Hannah assentiu, temerosa de confiar em sua voz. Estava bastante rouca e de repente se fechou pelas lágrimas. Teve uma visão de suas irmãs reunindo-se escada abaixo. Pobre Hannah, temos que apresentar um futuro para ela. Às vezes pensava que ouvia a casa sussurrando-o. Apartou a cara e fechou os olhos, a pena rasgando-a. Havia fases pelas que tinha que acontecer uma vítima? Porque agora mesmo, tudo o que queria fazer era chorar. Sentia-se confusa e assustada e queria estar sozinha —embora estaria aterrorizada se ninguém mais estava na casa com ela.

Libby duvidou, disparou ao Jonas um olhar de advertência e logo saiu, fechando a porta atrás dela. Imediatamente os sussurros começaram de novo.

—Tentei-o, mas não partiu —disse Libby.

—Ela não estava chorando verdade?

Essa era Kate e a ansiedade em sua voz fez que Hannah fizesse uma careta. Olhou ao Jonas com uma pequena dúvida e um ligeiro encolhimento de ombros.

— Não acreditam que posso lidar com isso.

—Lhes demonstre que pode.

Hannah suspirou.

—Você o vê tudo branco ou preto, Jonas.

Ele descansou o quadril no corrimão.

—Isso quer dizer que não pode lidar com isso. Não é grande coisa, Hannah. Foi um crime atroz, é natural necessitar tempo de recuperação.

Ela sustentou a mão em alto.

—Ainda não quero falar disso.

—Bem, ao menos vêem aqui e faz um gesto ao Joley e Elle antes de que se zanguem conosco. Joley está movendo os braços como um pássaro. Pensa que acredita que pode voar?

Hannah entreabriu os olhos por cima do corrimão. Suas irmãs estavam fazendo gestos grosseiramente, Joley fazendo uma exagerado linguagem de sinais e Elle estava escrevendo na areia.

—Que demônios estão fazendo agora?

—Tentando te dizer algo, obviamente. Por que Elle não usa a telepatia como uma Drake normal?

—Porque lhes pedi que se mantiveram fora de minha cabeça. Não quero me arriscar a captar suas emoções ou às ter sentindo as minhas.

—Falou-me.

—Estava desesperada. Não queria que vissem o espelho quebrado. —inclinou-se sobre o corrimão do balcão até que ele a envolveu com os braços, manta e todo—. O que está escrevendo Elle?

Abaixo ao longe na praia, Elle estava desenhando com uma parte de madeira na areia úmida, fazendo letras de um metro de comprimento.

—Essa é uma “R” e uma “Ou” —traduziu Jonas—. E por que não queria que suas irmãs vissem o espelho?

—faz-se difícil estar a seu redor, Jonas. Elas... sofrem... por compaixão. Às vezes acredito que me estou afogando nela.

—Claro que são compassivas, Hannah. Querem-lhe.

—Sei. Crê que não sei? Caminhariam através do fogo por mim. Sei como me sentiria se isto lhe tivesse ocorrido a uma delas, mas não foi assim. Ocorreu-me e não posso respirar com toda essa lástima nesta casa.

—Compaixão —corrigiu estreitado seus olhos enquanto olhava para baixo a impressionante escritura—. O que desenhou aí é uma “S” duplo –ou uma serpente. Talvez está perguntando se for uma serpente. É uma serpente? E diz que têm compaixão por ti. Estavam todas aterrorizadas, carinho, como eu, igual ao estavam seus pais e suas tias. É natural que queiram cuidar de ti.

—Sei —Agora se sentia culpada. Sempre era culpada. Nadava na culpa. Levantou a vista ao céu e desejou poder voar.

Jonas atirou dela para aproximá-la, trazendo-a sob seu ombro.   

—Suas irmãs sempre lhe afogaram, Hannah. Não podem evitá-lo. Talvez, agora mesmo está um pouco mais sensível a isto. E isso está bem. Lhes diga que lhe dêem seu espaço. —Jogou um olhar de volta à praia—. Joley está de barriga para baixo. Realmente perdeu a cabeça.

Hannah olhou para baixo e conteve o fôlego.

—Diz “Russo”. Elle está escrevendo a palavra “Russo”. Joley a está varrendo se por acaso algum fotógrafo está ainda pelos arredores, para que não possa vê-la. O russo deve estar em algum lugar perto.

—Como saberiam?

—Joley saberia. Lhe fez algo—a marcou de algum modo. Pode lhe sentir e em ocasiões lhe fala. —Hannah moveu as mãos para a praia e o vento levantou a areia alvoroçando, pulverizando as letras, escondendo de maneira efetiva a evidência—. Sei que ele salvou minha vida, Jonas, mas o que não sei é por que. Está muito interessado em Joley. Ao princípio pensei que era porque é um homem e todos os homens estão interessados nela.

Jonas a beijou no alto da cabeça.

—Joley é sexy. Compreendi rapidamente que ia ter que passar muito tempo moendo a pauladas aos meninos de sua escola se não os fazia algumas advertências. E para sua informação, Joley não me interessa desse modo. Nunca quis a ninguém mais que a ti.

—É um mentiroso. Sempre foste um coquete terrível. E lembro a noite que houve uma invasão de rãs e uma de suas frescas saiu voando pela janela de sua casa.

—Sabia o que fez isso. —riu, e lhe deu golpezinhos na cara.

Hannah se separou dele antes de que pudesse beijá-la. Não podia resistir que olhasse a ruína de sua cara. Não podia resistir pensar nele vendo seu corpo. por que não tinha pensado que era bela quando teve a oportunidade? Sempre estava de dieta e trabalhando para conseguir o corpo adequado para a carreira em vez de desfrutar do que tinha. Nunca tinha cuidado de si mesmo e gostado do que via. Nunca. Não desde que se deu conta que não podia falar em público e as multidões lhe davam pânico. Não desde que se deu conta que não era em nada como suas belas e bem-sucedidas irmãs.

—O que acontece, Hannah?

Ela se afundou na poltrona. Não ia dizer lhe que estava pensando que nunca a veria tão formosa outra vez. Deixaria alguma vez de lamentar-se? Apartou sua pena pessoal e procurou algo substancial, algo real pelo que preocupar-se. Algo de verdade, de modo que ele não soubesse que era tão superficial.

Obrigou-se a si mesmo a encontrar seus olhos e expressar uma preocupação que tinha tido da festa de Nova Iorque.

—Estou preocupada com o que Prakenskii possa querer com o Joley. Ele e Nikitin a mencionaram justo antes de... que... isto passasse. E Prakenskii me perguntou se era uma cantora de feitiços.

Jonas piscou. Não tinha como saber ao certo o que era um cantor de feitiços. Joley tinha uma voz que podia pertencer a um anjo ou a um demônio. De qualquer modo podia hipnotizar a uma multidão. Mas Hannah estava preocupada; isso não era difícil de ver.

Pressionou uma mão contra sua cabeça.

—Estava fugindo dele. Senti-me tão ameaçada. Não deixava de pensar que se saísse fora, estaria bem. Lembro de ter medo por Joley.

—Respira, carinho. Simplesmente agarra ar e deixa-o sair. Libby disse que sua memória podia começar a voltar, mas se não o faz, não passa nada. Ao final entenderemos as coisas. Me dê uma pista sobre os cantores de feitiço. O que significa?

—Sergei Nikitin esteve seguindo ao Joley a todas partes durante muito tempo, tentando conseguir que lhe apresentassem, tentado encontrar um modo de chegar a ela.

—Escreveu-lhe um par de cartas, mas seu manager as interceptou. Afortunadamente  sempre entrega as cartas por segurança, mesmo que Nikitin alcançou um pouco de fama e pretendia ser um legítimo homem de negócios. Gosta de estar “à última” e Joley definitivamente o está. Qualquer um que seja visto com ela tem uma reportagem em cada tablóide de todo o mundo. Ela é notícia, neném, e Nikitin queria mesclar-se com a alta sociedade. Acredita que pode esconder o que é.

—Até agora conseguiu fazê-lo —apontou Hannah—. Acredito que é mais que isso, embora, ou por que Prakenskii me perguntaria se for uma cantora-feiticeira?

—Ainda não me explicaste o que é isso.

—É perigoso, Jonas. Ela pode ser potencialmente mortal. O som pode causar um montão de dano e inclusive pode matar. Joley é capaz disso, por não mencionar que pode agarrar um lugar cheio de gente —um estádio cheio de gente— e conseguir que façam o que ela queira.

Jonas estava assombrado. Sentou-se ali tentando evitar que lhe abrisse a boca. Sempre tinha aceito as coisas que as Drake podiam fazer como algo bom. Inclusive com a Hannah enviando o vento a lhe resgatar, ela tinha salvado sua vida. Não tinha pensado muito em outros, não tão afortunados, os que tinham sido agarrados por sua fúria.

—Joley é muito forte para ser usada dessa maneira.

—É, Jonas? Não sei, mas Prakenskii foi capaz de evitar que morresse e deveria estar morta. Libby podia ter sido capaz de me manter com vida durante muito tempo sem ajuda, mas sinceramente não sei se poderia havê-lo feito. Leva-se força, resistência e um montão de poder. Um montão de poder. Ele já marcou Joley. E a cansa, lhe sussurrando de noite. Só um grupo pequeno de gente no mundo sabe o que é uma cantora-feiticeira e o que podem fazer. Ilya Prakenskii sabe e aquela noite ele e Nikitin me queriam levar a hotel com eles. Crê o que Joley faria se Nikitin me pusesse uma pistola na cabeça?

Jonas ficou muito quieto.

—Não acreditará que ele pôde ter arrumado o ataque para ti e que logo fez que Prakenskii salvasse sua vida de modo que Joley sentiria que o devia, verdade?

—Prakenskii não fala muito, mas quando salvou a vida do Alexander, disse-nos que o devíamos. Imagino que sente que é uma dívida muito grande.

—Ele pode ser um cantor-feiticeiro? —Porque se Joley podia hipnotizar a um estádio cheio de gente para fazer o que ela quisesse, não poderia Ilya Prakenskii hipnotizar a um casal para que assassinassem?

—Vejo aonde quer ir parar com isso e não acredito que pudesse esconder de nós. Estivemos em sua cabeça muito. Uma de nós teria que sabê-lo.

Outro pequeno golpe na porta fez que Jonas deslizasse a mão dentro da jaqueta para agarrar sua pistola.

Sarah entrou com um amplo e forçada sorriso.

—Hannah, acredito que talvez você gostaria de algo para comer. Realmente deveria conservar suas forças.

—Eu também deveria —lhe recordou Jonas relaxando-se—. Se for trazer uma bandeja a Hannah, me traga uma, também, por favor.

O olhar do Sarah varreu o quarto. Franziu o cenho.

—Hannah? Onde está seu espelho?

—Tive uma pequena confrontação com ele —disse Jonas—. Ela me quer de todos os modos verdade, neném? —agachou-se frente a Hannah e lhe agarrou a mão, levantando o olhar por volta do Sarah com ironia—. Suponho que isso traz sete anos de má sorte.

Kate apareceu a cabeça pela porta.

—Hannah, tem uma visita. Ilya Prakenskii está aqui para verte.

Um calafrio se deslizou pela coluna da Hannah. Não podia esconder sua inquietação ao Jonas, não quando estava tão perto e lhe sustentando a mão.

—Descerei —disse ele.

Hannah afastou a mão, farta de ser mimada. Sim, estava assustada, mas Joley era sua irmã, sua responsabilidade, e não ia enviar ao Jonas descer enquanto se encolhia de medo em seu quarto.

—Enquanto se veste —acrescentou ele—. Não demore todo o dia.

—Não —Sarah negou com a cabeça—. Não precisa descer. Fique aqui, Hannah. Kate e eu podemos ir com o Jonas e ver o que quer.

—Não, necessito que Hannah venha comigo. Quero suas impressões sobre algo que Prakenskii diga ou faça. Ela é a empática mais forte entre vocês.

—Elle e Libby são empáticas e Elle é mais forte que qualquer de nós —corrigiu Sarah.

—A de Libby é a cura, Sarah —disse Jonas com um leve tom de irritação—. E Elle é volátil. Se Prakenskii estiver aqui para algo mais que investigar a Hannah, não quero que Elle comece uma guerra. Mantenham Joley e ao Elle longe dele.

—Hannah não pode descer —disse Sarah—. O proíbo.

—Hannah. —Jonas se voltou para ela, seu tom era absolutamente neutro, seu olhar terno—. Me diga o que quer fazer, neném. Preferiria que ficasse mas se seu preferir que não... diga.

—Jonas —vaiou Sarah—. Deixa de pressioná-la. Sempre a está pressionando. Acabou de sair do hospital. Precisa cuidar-se.

Hannah se umedeceu os lábios repentinamente secos com a língua. O coração lhe pulsava com força no peito e pequenas agulhadas se moviam por suas têmporas, mas isto tinha que ser feito. Não pelo Jonas ou pela Sarah. Se não por ela. O devia a ele e além disso, queria olhar em seus olhos e ler do modo em que podia fazer com a maioria das pessoas, porque se representava uma ameaça para o Joley, todos precisavam sabê-lo.

—Jonas tem razão, Sarah. Quero ver o Prakenskii por mim mesma. Preciso lhe dizer obrigado por me salvar a vida, e como Jonas, quero ver se posso lhe ler. Passei muito tempo conectada a ele.

—E ele tem uma abertura para seu espírito, Hannah. Para sua alma. Sabe quem é e o que pode fazer.

—Isso é verdade —admitiu Hannah—, mas ao mesmo tempo, eu tenho uma abertura para seu espírito. Não pode nos bloquear a todas e preciso encontrar informação.

—Mas… —Sarah protestou.

—Veste-se, neném —disse Jonas com decisão—. Nos encontraremos contigo escada abaixo—. Manteve a porta aberta—. Sarah? Kate? vamos ver que quer Prakenskii.

 

—Ilya, é bom voltar a verte —Jonas estendeu a mão para o Russo.

Ilya se levantou da cadeira em que Libby o tinha sentado e estreitou a mão do delegado. Saudou com a cabeça ao Kate e Sarah.

—Esperava poder ver a Hannah.

—Descerá em uns minutos —lhe assegurou Jonas—. Está muito melhor.

—Surpreendeu-me que lhe permitissem voltar para casa, uns poucos dias mais no hospital lhe teriam feito bem —disse Prakenskii.

—Precisava estar em casa conosco —disse Sarah—. E Libby é médica. assegura-se que Hannah este bem cuidada.

Jonas estudava ao Russo. No hospital, tinha estado muito preocupado pela Hannah para fazer outra coisa salvo estar a seu lado e assegurar-se de que vivesse, mas agora observou atentamente ao homem que lhe tinha salvado a vida. Ilya Prakenskii deu ao Jonas a impressão de um tigre enjaulado, calmo e atento, o e letal instinto escondido e preparado para saltar com as garras afiadas. Era impossível tratar de ler o que havia detrás desses penetrantes olhos. Frios como o gelo e afiados como adagas, os olhos do Prakenskii não revelavam absolutamente nada, nem sequer a um profissional como Jonas.

—E é fácil protegê-la aqui, em seu próprio território —disse Prakenskii, de forma casual. Não havia nada casual na forma em que varria a habitação com o olhar, registrando cada detalhe. Por um momento se enfocou no intricado mosaico de azulejos da entrada. Um músculo lhe pulsou na mandíbula e o olhar encontrou o de Sarah brevemente antes de desviá-la para a entrada. Enquanto se levantava esboçando um educado sorriso mostrando brancos dentes e nada mais—. Aí esta. É bom ver-te de pé e circulando, Hannah.

Vestia uma solta saia larga e uma blusa de manga larga. Jonas fechou os olhos brevemente quando entrou na habitação. Para ele, era formosa —completamente— absolutamente formosa. As cicatrizes eram dentadas e atrozes, de um vermelho brilhante e em carne viva, costuradas na cara e no pescoço como furiosos emplastros, mas não importava. Para ele Hannah era etérea, misteriosa e sexy e o epítome da coragem feminina. Escondeu-se dele… de suas irmãs… de repórteres e fotógrafos, mas tinha se negado a esconder-se de um potencial inimigo. Com os ombros direitos, o cabelo caindo em largas espirais, e inclusive sem maquiagem, e com as horríveis feridas ainda tão frescas, parecia elegante, graciosa e acolhedora.

O orgulho o alagou e Jonas ficou de pé, instantaneamente cruzou a habitação para ela e lhe deslizou um braço ao redor da cintura, seu olhar encontrando ao do Prakenskii. Era tanto uma advertência como uma declaração entre homens.

Prakenskii tomou a mão estendida da Hannah e fez uma pequena reverência.

—Estas sarando bem. Logo, não haverá evidências. Estas dormindo bem? Algumas vezes, depois destes incidentes, a gente tem problemas.

Para surpresa do Jonas, Hannah disse a verdade.

—Tenho problemas, mas Jonas e Sarah me advertiram que isso poderia ocorrer, por isso não me surpreendeu nem me transtornou —Lhe assinalou a cadeira—. Por favor sente-se. Você gostaria de beber um chá?

—Eu gostaria, obrigado.

Hannah ondeou a mão para a cozinha e se sentou frente a Prakenskii.

—Realmente era desnecessário que percorresse todo este caminho para ver-me, mas o aprecio —Lhe sorriu ao homem, mas deslizou a mão pelo braço do Jonas até que seus dedos estiveram entrelaçados e os apertou tão forte que lhe puseram brancos os nódulos.

—É obvio que queria saber como estava —disse Prakenskii—. Quando a gente desenvolve semelhante conexão, o interesse está sempre aí.

O acento lhe deu um giro às palavras e manteve o olhar firme sobre o rosto dela. Sarah se agitou com inquietação e Jonas sentiu uma onda de poder na habitação, não podia dizer de onde provinha, mas Ilya Prakenskii balançou a cabeça em estado de alerta, como um lobo agarrando o aroma da presa. Jonas o observou atentamente e pôde ver como tudo mudava e se concentrava debaixo desse cometido comportamento. Joley entrou na habitação. Pareceu como se todos estivessem contendo a respiração. A tensão subiu outro ponto. 

Ele sabia. Viu isso Hannah?  A sentiu antes de que entrasse.

A cabeça do Prakenskii se voltou para trás, levemente, o justo para que esses penetrantes olhos pudessem deslocar-se entre o Jonas a Hannah, e pela primeira vez, havia surpresa neles.

Sabe. Enrouquecida a voz da Hannah se deslizou dentro da mente do Jonas. Sabe que é telepata e lhe surpreende.

A mim também surpreende, admitiu Jonas com sinceridade.

Uma vez mais Prakenskii ficou de pé.

—Joley. Sempre é um prazer ver-te.

Não lhe deu a mão, mas lhe sorriu e inclinou a cabeça, de rainha para camponês, os olhos café escuro se voltaram quase negros enquanto percorria com o olhar ao russo da cabeça aos pés.

—Não se levante, Prakenskii, não é necessário.

—É, entretanto, gentil —disse com uma pequena inclinação.

Joley se ruborizou, a cor lhe subiu pelo pescoço até chegar à cara, e os olhos cintilaram, pontos gêmeos de obsidiana negra. O chão se moveu sob seus pés, as luzes piscaram, as cortinas revoaram, inclusive as paredes ondularam com pulsantes ondas quando a sala se agitou com o poder. Uma pintura que estava sobre a chaminé caiu. deteve-se abruptamente no ar e então, antes de que me chocasse com o chão, ascendeu lentamente para voltar a pendurar ordenadamente em seu lugar. Todos na sala ficaram imóveis absortos ante a óbvia reprimenda do Prakenskii.

Hannah soltou a mão do Jonas e se levantou com a graça usual, indo para Joley, colocando-se entre o Prakenskii e sua irmã e deslizou um braço ao redor da cintura do Joley.

—Obrigado por tratar tão eficientemente com os jornalistas, Joley. Fez-me rir e poucas coisas me fazem rir estes dias.

—Desfrutei-o, embora nada os detém por muito tempo. Rodearam o lugar. A única razão pela que a cerca não foi colocada abaixo e pisoteada é porque temos uma força de segurança protegendo-a.

A bandeja de chá entrou flutuando com várias taças fumegantes e a dirigiu para o Prakenskii, como se todos os dias da semana a gente visse bandejas flutuando.

—As bolachas as fez Libby, por isso são particularmente boas para ti, além de ter um sabor genial. O mel está no pote para a nata.

O Russo tomou uma taça e uma bolacha agilmente, elevando a taça para a Hannah em uma saudação enquanto se acomodava novamente no assento. Não aparentava estar nem um pouco incomodado pela pouco entusiasta bem-vinda de Joley, mas a tensão persistia na habitação.

—O lugar está invadido não só com fotógrafos e jornalistas, mas também com admiradores. Na multidão é impossível dizer quem é amigo ou inimigo.

Jonas se inclinou para diante, apoderando-se da mão da Hannah e puxando ela até que se sentou a seu lado. Moveu-se ligeiramente, o suficiente para colocar o corpo em uma posição em que pudesse defender Hannah se necessário. Não confiava no Prakenskii, não com essa aura de perigo rodeando-o e com cada uma das irmãs Drake em alerta. Desejava que Sarah e Kate tivessem mantido ao Joley fora do enredo. Obviamente Joley e Prakenskii se levavam mau e apesar das inexpressivas expressões do Prakenskii, podia ver, bastante claramente, a tormenta que espreitava debaixo da superfície quando olhava ela.

Por alguma razão está zangado com Joley, confirmou Hannah, mas não posso dizer por que. Não só zangado, Jonas, está furioso com ela. Posso ver vestíios disso, como uma raiva candente, e nem sequer está bem escondida. Acredito que não lhe interessa se sei ou não.

Era uma complicação inesperada. E as veladas advertências do Prakenskii incomodavam ao Jonas.

—Se souber algo, só diga-o, diretamente, Prakenskii. Por que pensa que há inimigos em Sea Haven? Estão mortos.

Sarah ofegou e Kate fez um som de angústia. Libby franziu o cenho e deixou de pegar uma taça de chá da bandeja quando passou frente a ela.

—Não acredito que seja necessário discutir isto frente a Hannah —interveio Sarah.

Hannah aferrou a mão do Jonas mais forte. Estavam-no fazendo novamente, protegendo-a. Tinha sido sempre tão cria que sentiam a necessidade de envolvê-la em algodões e defender a de qualquer perigo? Ou era devido ao ataque? Tinham mudado a suas irmãs tanto como a ela?

Jonas colocou a outra mão sobre a dela, lhe apanhando os dedos e escondendo os brancos nódulos do agudo olhar do Prakenskii.

—É obvio que Hannah quer saber se Ilya acredita que há mais perigo. Todos queremos.

—Não acredito que tenha pensado nem por um momento que o perigo para a Hannah passou — disse Prakenskii—. A mim pareceram um capangas. Os assassinos de aluguel, tão principiantes como estes, são em geral pagos e ordenados por outro indivíduo escondido nas sombras. Mas já sabe isso, Sr. Harrington.

—Jonas? —Hannah o olhou, forçando-o a encontrar o inquisitivo olhar.

—Maldita seja!, Hannah, não me olhe assim.

—Não a amaldiçoe, Jonas —disse Libby rapidamente.

Ambos a ignoraram.

—Não se acabou?

—Você tampouco o pensava, assim não comece com isso. Esse par eram uns idiotas. Como disse Prakenskii, principiantes. Alguém tem que estar detrás disto. por que crê que não está no hospital neste momento? Necessitava que estivesse onde tivesse amparo todo o tempo.

—Te passou pela mente que se estiver em perigo, e me traz aqui, também o estão minhas irmãs? —Hannah vaiou as palavras entre os dentes, com o cabelo crepitando com eletricidade e o líquido da taça de chá fervendo.

—Sarah é uma perita em segurança. Suas irmãs são todas psíquicas e têm suficientes poderes para ajudar. Aqui podemos ver quem vem por nós.

—Não vou pôr a minhas irmãs em perigo, Jonas, nem por um minuto. Devia me dizer imediatamente que era o que pensava.

—Estou de acordo com a Hannah —disse Prakenskii, unindo-se à discussão sem remorso—. As demais não deveriam ficar no foco de atenção. Isso só faz que haja mais objetivos e portanto mais suspeitos.

Joley lhe atirou a taça de chá, apontando com mortal precisão. Prakenskii ondeou a mão e o projétil e o líquido se detiveram no meio do ar. Dirigiu-lhe um olhar mortal, os olhos azuis obscurecendo-se até assemelhar um mar turbulento. Disse-lhe algo em russo.

Hannah fez um pequeno som estrangulado e a respiração do Joley foi um vaio de advertência.

O que disse? Ameaçou-a?

—Se tiver algo que lhe dizer ao Joley, diga-o para todos. Se estas ameaçando-a…

Disse-lhe que deixasse de ser infantil, assegurou- Hannah ao Jonas.

—Joley é perfeitamente capaz de cuidar de mim, verdade? —disse Prakenskii

—Certamente —reconheceu Joley e ondeou a mão para a taça de chá. O líquido encheu a taça e flutuou de volta—. Não se preocupe Jonas, estarei bem —lhe disse algo em resposta ao Prakenskii no idioma dele e logo trocou a português—. E para sua informação, Hannah é nossa irmã. Não nos esconderemos em um canto enquanto esteja em perigo, assim vá golpear o peito a algum outro lugar.

Que disse?  perguntou Jonas.

Chamou-o com alguns nomes vis.

—Um dia destes, Joley, vou vingar me então que fará? —perguntou quedamente Prakenskii, lhe sustentando o olhar.

—Não —interveio Hannah—. Necessito que me diga que pensa que está passando, Prakenskii. Joley por favor.

Olhe, Jonas, contínua dirigindo a atenção para o Joley. Que quer dela? Tenho medo por ela. Poderia isto tratar-se de Joley?

Jonas lhe deu voltas à idéia na mente. Parecia incorreto. Tudo até agora parecia incorreto. Não achava a peça crucial do quebra-cabeças, a que faria encaixar tudo em seu lugar.

—Por favor aceita minhas desculpas, Hannah —disse Prakenskii—. Não era minha intenção te incomodar. Queria me assegurar que estava melhor e acautelar ao Sr. Harrington de que ainda sinto que a ameaça é iminente. Infelizmente não posso dizer de onde vem nem a quem lhe está dirigida

—Por que nos avisa? —perguntou Jonas com aspereza.

Prakenskii suspirou e baixou a taça de chá.

—Possivelmente é tão simples quanto a irmã da Hannah vai casar se com um dos poucos homens no mundo ao que posso chamar amigo —Desviou o olhar para onde Joley estava apoiada rígida contra a parede—. Ou possivelmente queria ver, uma vez mais, se a razão pela que não posso dormir pelas noites vale a pena.

Joley se pressionou contra a parede como se quisesse fazer-se pequena, ainda assim cada linha do corpo denotava desafio.

—Não te devo nenhuma explicação absolutamente.

—Então requeiro um dos favores que você família me deve. Não é sua dívida pessoal, mas uma dívida de honra que me deve sua família.

Joley empalideceu.

—Por que? Devemos-lhe duas vidas, ainda assim requererá uma em troca de uma simples explicação de meu comportamento? Não é o mais brilhante do planeta verdade? —A melódica voz levava um látego de insulto e levantou a cabeça desafiante—. Pensei que sabia tudo. Não é nem de perto tão poderoso como quer que todos creiamos.

—Muito poderoso para ser aguilhoado por uma mal educada e ingrata covarde que ainda é uma menina jogando a ser adulta.

Mas os insultos o tinham alcançado. O equilíbrio na habitação tinha trocado das Drake ao Prakenskii e tanto Hannah como Jonas o sentiram. Hannah interveio de novo.

—Sou eu quem lhe deve, Sr. Prakenskii. Se fosse tão amável de me disser que implica seu favor, farei o melhor que possa para ajudá-lo.

—Eu gostaria de uma explicação…

—Não. Não pergunte —disse Joley—. Por favor não pergunte.

—Dava-te todas as oportunidades para que me explicasse isso.

—Caçou-me dia e noite, me atormentou. Fez-me zangar. Não é teu assunto. É parvo usar um favor de nossa família por uma coisa tão corriqueira.

—Corriqueiro —Parou, e sua ira se derramou na sala, queimando, justo como Hannah havia dito, um vulcão em erupção, tanto que as paredes se incharam, incapazes de conter a energia vermelha e negra que rompia na sala. O chão se sacudiu e sombras se moveram no mosaico de azulejos. Vozes femininas articularam misteriosas advertências, elevando-se do chão e as paredes.

As irmãs Drake se levantaram de um salto, e Jonas interpôs o corpo entre as mulheres e o furioso Russo. Não olhava a ninguém exceto a Joley. Ambos de pé, olhares travados em uma batalha da que ninguém mais era parte ou podia entender.

—Basta —Hannah os olhou ferozmente—. Por favor sente-se, Sr. Prakenskii —Quando não se moveu, aproximou-se mais—. Ilya. Por favor.

Prakenskii lentamente apartou o olhar do Joley e tomou assento. Joley sacudiu a cabeça enquanto outros se relaxavam visivelmente e logo girou sobre os calcanhares e deixou a habitação. A tensão diminuiu instantaneamente.

 —Por favor aceita minhas desculpas novamente, Hannah —disse o Russo—. Devia ter mais cuidado. Dificilmente me zango. Não tenho desculpas —Se levou a taça de chá à boca, soprou para acalmar o fervente líquido e tomou um gole.

—Não entendo. por que está tão zangado com o Joley? Está em algum tipo de perigo?

Hannah se forçou a abrir a mente, alcançando —expandindo— para captar um fio de verdade nele. Sentiu uma descarga de emoções, a intensidade quase entristecedora, mas rapidamente, escorou as defesas e se voltou frio como o gelo.

—Joley se arrisca deliberadamente.

Hannah se afundou na cadeira e olhou brevemente ao Jonas. Prakenskii acreditava estar dizendo a verdade. Captou isso tanto como que enterrava profundamente o temperamento que o acompanhava.

—O que quer dizer? —Por um momento logo que pôde respirar. Estava alguém detrás de sua irmã, da mesma forma em que alguém a queria morta?

Sarah abriu a boca mas Hannah levantou a mão imperiosamente, detendo eficientemente algo que queria dizer. Hannah nunca se colocava e isso emocionou a suas irmãs.

Joley voltou para a habitação, com os escuros olhos cintilando.

—Quer saber a respeito das fotografias nas revistas? Eu com meu último amante? —Olhou ferozmente ao Prakenskii, ambas as mãos nos quadris, sacudindo a cabeça de forma que o cabelo flutuava em todas direções—. É publicidade. O homem já é história, por isso não necessita o nome, mas o fotógrafo nos seguiu à casa que Tyson tinha comprado para o Libby e nos pilhou. Grande coisa.

Prakenskii nunca apartou os olhos da cara Joley enquanto fazia a declaração. Lhe escapou um comprido e lento vaio e se levantou com um fluido movimento, com toda a graça e ameaça depredadora e mortal perigo de um tigre adulto.

—Quando se requer um favor, dizemos a verdade. Solicito a verdade e o nome desse homem que pôs as mãos e a boca sobre ti.

—Que diferença há em quem é ele? —O queixo do Joley estava elevada, os olhos lançavam faíscas.

—Não queria matar ao homem equivocado.

—Epa!. Detenha aí —Jonas se levantou de um salto—. Não pode fazer ameaças assim.

—É uma questão de honra —Não havia emoção em sua voz, absolutamente. Prakenskii se encolheu de ombros como se uma vida não lhe importasse nada.

As Drake se olharam entre elas, perplexas, e logo ao Joley. Ela inspirou.

—Ilya — começou e logo se deteve, olhando desamparadamente ao Libby.

Ilya Prakenskii seguiu o olhar e franziu o cenho.

—Devem-me a verdade e pedi que me dissessem isso. Uma de vocês me dirá isso.

Hannah olhou em redor a suas irmãs.

—Tenho uma tremenda dívida, todas temos, mas este não é meu segredo para dizê-lo. Se fosse, daria  a informação que requer, mas sinto, não posso.

Prakenskii olhou as caras ao redor da habitação.

—Perguntei isso como uma dívida de honra a ser devolvida. Negam-me isso?

Libby agitou a cabeça.

—Não, não o fazemos —A cor lhe subiu à cara, mas lhe manteve o olhar—. Estava com o Tyson na casa e alguém queria lhe fazer, nos fazer dano… O homem tomou fotografias dos dois. Sou médica e não estou acostumada aos tablóides e as terríveis coisas que fazem à vida de uma pessoa. Joley se tingiu o cabelo e acabou assumindo que as fotografias eram dela, para que minha reputação não fora danificada —disse Libby—. Foi generosa e terna por sua parte fazê-lo.

Prakenskii permaneceu de pé absolutamente imóvel em meio da habitação. Seu olhar sobre a cara desviada do Joley.

—Foi perigoso. E ela sabe que foi. Me olhe —Quando não o fez, a voz lhe endureceu—. Me Olhe.

Joley elevou o olhar para ele.

—Deveria ter dito quando te perguntei.

—Não era de sua incumbência.

Hannah lhe sujeitou a mão.

—Porquê segue dizendo que estas fazendo algo perigoso, Joley?

Joley se encolheu de ombros.

—Não sei. Pensa que estou atraindo a todos os loucos.

Hannah empalideceu e se estendeu para o Jonas, inconsciente disso.

—Sei que tem pré-cognições, Ilya. Se Joley estiver em perigo, vêem e diga-o. Nos diga de onde vem o perigo.

—Já disse. E se soubesse de onde vem o perigo, eliminaria-o —disse Prakenskii—. Sei que não confia em mim, Hannah, nenhuma de vocês, e em realidade não importa, mas quem seja que tenha organizado o ataque contra você estava fazendo uma advertência. Foi brutal, cruel e direto. Trataram de destruir sua cara, seu corpo e logo terminar com sua vida. Virão detrás de ti de novo. E Joley está atraindo o mesmo tipo de atenção, mas por que? Terá que lhe perguntar a ela —Estendeu as mãos.

Voltou-se e se dirigiu para a porta.

—Estarei no povoado algum tempo. Sei que não me pedirão ajuda, mas a terão de todas formas.

—Está Nikitin no povoado? —perguntou Jonas.

—OH sim. Joley está aqui. A imprensa está aqui. Nitikin estará justo no centro de tudo. Pode fazer negócios de qualquer parte do mundo, graças aos celulares e os computadores pessoais.

—Por que trabalha para ele? —perguntou Jonas.

Prakenskii se encolheu de ombros.

—Onde um homem como eu pode encontrar trabalho?

A respiração do Joley vaiou entre os dentes.

—Sim, volta te arrastando e protege a esse idiota desprezível. Não é como se pudesse trocar o que é.

Prakenskii se deteve na porta, os olhos cintilaram quando vagaram sobre a furiosa cara dela.

—Não, não posso. Não mais do que pode você.

Jonas o seguiu fora.

—Está Nikitin envolto no ataque a Hannah?

Os olhos do Prakenskii se tornaram frios como o gelo.

—Se tivesse estado, estaria morto. Apesar do que pensa de mim, as Drake estão sob meu amparo. Mas ouvi rumores... sussurros... e até agora não fui capaz de encontrar quem contratou ao assassino, mas aí há um —Gesticulou para a congregação de gente que havia ao redor da perto—. Tem um problema aqui. Quem quer que seja voltará a atacar e o farão de diferente modo esta vez. Têm a atenção dos meios e fizeram sua declaração. Agora a querem morta.

Jonas dirigiu um longo olhar assassino ao montão de gente ao redor da perto. Havia flores, pelúcias e velas por todos lados. Mas reconheceu a um par dos guardas próximos ao Reverendo e divisou ao Rude Venturi, um homem que seguia a Hannah a todas partes às que ia, justo diante, sujeitando flores nas mãos.

—Se não lhe houver isso dito antes, Prakenskii, obrigado por lhe salvar a vida. Disse-me que nunca o teria obtido sem ti.

Prakenskii baixou os degraus, voltou-se, agitando a cabeça, refletindo em voz alta.

—Foi um ataque brutal, Harrington. Para mim há algo que não está bem. Esse tipo de ódio deveria ser bastante singelo de avistar —Se deteve e olhou lentamente ao redor—. Quem queira que a desejem morta está aqui. Estão justo aqui em sua cidade natal e esperando a oportunidade para atacar. Posso senti-los.

—Obrigado. Encontrarei-os.

—Não duvido que o fará… Mas chegará a tempo?

A cara do Jonas de endureceu.

—OH, sim. Farei-o a tempo —Olhou ao Prakenskii afastar-se, perguntando-se que jogo estava jogando esse homem e que planejava Joley. Precisava falar com ela e rápido. A última coisa que queria era adicionar outra complicação a este desastre.

Respirou fundo e deixou sair o ar, aprofundando na advertência do Prakenskii enquanto dava outro lento e cuidadoso olhar à multidão. Jonas o sentia também. Prakenskii não estava jogando fumaça para se fazer de importante, algo malvado espreitava no ar.

 Abaixo perto da porta de entrada, Matt Granite, noivo do Kate, chamou-o. Matt estava de pé frente a Rude Venturi. Rude era pequeno e ligeiro, com o brilhante e tingido cabelo levantado em puas, com uma cara indefinível. Sem o cabelo seria fácil perdê-lo entre a multidão. Jonas imaginou que a maioria das pessoas não o perceberiam.

Tomou seu tempo, caminhando lentamente para o homem, não querendo assustá-lo. A última vez que tinham falado não tinha sido prazenteira. Jonas o tinha interrogado durante horas depois de que Hannah tinha recebido uma ameaçadora carta dele, chamando-a uma estirada cadela... e o homem tinha dinheiro. Montões e montões de dinheiro... dinheiro suficiente para contratar um brutal e desalmado ataque contra Hannah. Teria se zangado tanto ao advertir o desprezo? Tinha estado tão furioso para lhe pagar a alguém para que lhe cortasse a cara e o corpo em tirita antes de usá-la como um saco de boxe com uma faca apertada no punho?

As imagens retornaram, vividas e repugnantes, tão reais que podia contar os respingos de sangue pulverizados pela habitação. Lhe retorceu o estômago, deram-lhe nauseias e cambaleou, o corpo estalando em suor. Bruscamente apartou as imagens e forçou um sorriso quando se deteve frente a Rudy, mantendo a voz amigável.

—É Rude Venturi? Hannah me disse que vai a todos seus atos —Sabia que Hannah jamais tinha falado com o Venturi. Jonas o tinha deixado bem claro... tinha-lhe ordenado...  manter-se afastada dele. O homem tinha um respeitável problema mental, devido a um acidente de carro que o deixou sem família e um leve dano cerebral. Viajava muito, a maior parte do tempo seguindo a Hannah de ato a ato.

Rude assentiu, apertando as flores.

—Os doutores disseram que não podia ver ninguém neste momento. Precisa descansar —disse Jonas, levantando as mãos para as flores—. Onde estava quando foi atacada?

Rude assentiu e a contra gosto entregou o grande ramo ao Jonas.

—Dd-deveria ter um g-guarda-costas.

—Estou de acordo. É por isso que estou aqui agora. Não permitirei que nada lhe aconteça —adicionou—. Viu o homem que a apunhalou?

Rude se pressionou a mão contra a boca e assentiu vigorosamente.

—H-havia tanto s-sangre. Pensei que estava m-morta e quis m-morrer.

—Não, ela está bem viva. Viu o homem que a atacou falando com alguém mais antes do ataque?

Rude golpeou as mãos contra as coxas com agitação.

—Sim! Sim. Não parava de s-sacudir a cabeça para diante e para trás. Vi-o s-tirar a faca. O outro homem l-o golpeou nas costas quando ia para a linha de corda. T-tratei de lhe dizer à polícia, mas o p-pregador estava gritando e o policial foi imediatamente a l-lhe falar.

—Realmente o viu, Rudy? —perguntou Jonas, tratando de manter a voz acalmada e uniforme. Rude nunca seria uma boa testemunha, e vivia em um mundo alterno mas se estava dizendo a verdade, poderia ser uma grande oportunidade para eles—. Realmente poderia ajudar a Hannah se me descrevesse isso.

Deliberadamente se aproximou mais ao homem, criando uma sensação de urgência e camaradagem.

—Aqui, entra pela cerca e me fale onde ninguém mais possa te ouvir —Segurou a grade e viu como o peito do Rude se expandia dando-se importância e entrou na propriedade das Drake—. Quer ajudá-la, verdade?

—Ela é tão agradável. Sempre me sorri. Todos outros olham através de mim, mas ela me vê… e me sorri.

—Também penso que é agradável —disse Jonas—. Foi bondoso de sua parte lhe trazer flores —Haviam flores a todo o comprido da perto de admiradores de todo o mundo, mas Jonas fez toda uma demonstração ao  olhar o acerto—. Realmente ama as flores.

A metade do maldito mundo estava enviando flores e ainda assim não tinha ocorrido a ele fazê-lo. Tudo o que queria fazer era sustentá-la. Senti-la. Tocá-la. Saber que estava a salvo. Um homem como Rude Venturi sabia o suficiente para lhe trazer flores, mas Jonas nem sequer o tinha pensado.

—Rudy, tem que ajudá-la agora. Trata de recordar tudo o que possa sobre o homem que falou com o atacante da Hannah.

—Não tenho uma nova fotografia assinada dela. Sempre me dá uma, mas não o fez esta vez em New York.

—Hannah te deu uma fotografia? —Se era verdade a ia sacudir até que lhe tocassem castanholas os dentes. Sabia bem que não devia aproximar-se muito ao passado os laços. Um ano antes lhe tinha advertido que deixasse de assinar autógrafos às pessoas.

—Assinou-me —continuou Rudy—. Diz “Te desejo o melhor, Hannah”. Em cada ato me dá uma nova e não o fez.

Jonas apertou fortemente os dentes e se engoliu uma maldição. Era tão próprio da Hannah sorrir e assentir quando estavam discutindo a respeito de segurança e logo fazer qualquer merda que queria fazer.

—Provavelmente tinha uma, quando foi atacada, não pôde dar lhe assinalou isso, mantendo a voz acalmada.

Rude assentiu e franziu um pouco o cenho.

—Mas se te digo que aspecto tinha, conseguirá-me a foto autografada? Tem que dizer, “Desejo-te o melhor, Hannah”. Dever dizer isso, porque sempre me dá uma.

Ia fazer mais que sacudi-la. Que demônios estava pensando? Rude possivelmente parecia inofensivo, mas se o ia distinguir e fazê-lo sentir especial, deveria ter um guarda de segurança cuidando-a. Jonas se forçou a sorrir.

—Assegurarei-me de que esteja assinada, Rudy. Me diga que recorda.

Rude enrugou a cara e realizou pequenos sons, como um computador tratando de acessar à informação quando estava velha e cansada.

—Era grande.

Jonas esperou, mas Rude parecia contente consigo mesmo.

—Grande. Bem. Tenho isso. Que cor de cabelo? Era curto ou comprido?

—Loiro e curto. Muito curto. E se via mesquinho. Sorria, mas não era real. Era o mesmo tipo de sorriso que tem você.

Jonas ficou quieto. Rude poderia ter sofrido dano cerebral no acidente, e aparência infantil, mas ainda era agudo, ou possivelmente como um menino, podia perceber a verdade mais facilmente que um adulto.

—Sinto muito. Estou molesto pelo que esse homem fez a Hannah.

Rude assentiu.

—Eu também —As sobrancelhas lhe juntaram quando estudou a cara do Jonas—. Te conheço. Falou-me antes. Não foi amável.

Jonas suspirou. Tinha temido que Rude o reconhecesse cedo ou tarde. Não, não tinha sido amável. Interrogou ao Rude duramente, amassando-o com esforço enquanto o homem ficava cada vez mais confuso e molesto.

—Sou cuidadoso com a segurança da Hannah e tinha recebido algumas cartas ameaçadoras.

Rude baixou a cabeça.

—Eu lhe escrevi.

—Sei, li as cartas. Escreveu várias —Rude a tinha chamado por alguns nomes desagradáveis e a ameaça era mais implícita que manifesta. Jonas tinha querido cruzar a mesa e fazê-lo pedaços até que se deu conta que estava tão obcecado conseguindo uma fotografia da Hannah que de fato superava o desejo de falar com a Hannah. Ou Rude era o suficientemente inteligente para aparentar ser débil e gago? Jonas tinha descoberto que os assassinos eram muito manipuladores e enganadores.

—Estava zangado porque não me deu a fotografia. Quando estava na Austrália, não me deu isso. Sempre me da uma.

—Sim, sei que o faz —disse Jonas com tanta paciência como pôde reunir—. Te darei uma dela, assinada da maneira que você gosta. Que mais recorda? Ouviu algo do que disseram? Tinha cicatrizes o homem? Uma tatuagem?

Rude pareceu excitado.

—Na mão, justo aqui —Se esfregou o nódulos—. Tinha algo na mão. Nunca o tinha visto antes.

Jonas tratou por vários minutos mais de lhe extrair informação, mas claramente Rude não sabia nada mais. Estava disposto a inventar-lhe se Jonas queria que o fizesse, pela fotografia, mas realmente não recordava nada mais.

—Farei que receba suas flores, Rudy, a menos que queira as deixar na cerca com todas as demais —ofereceu Jonas.

Rude tomou devolvida as flores e as pôs frente a todos outros arranjos, olhando para as janelas da casa das Drake.

—Pode as ver daqui. Conseguirá minha fotografia agora?

—Sim. Pode, por favor, esperar atrás da cerca agora, para que a segurança não fique preocupada?

Rude voltou a sair pela grade e se aproximou.

—Conseguirá? assinada?

Jonas assentiu e se afastou depressa, topando-se com o Matt, que estava patrulhando o perímetro da perto com um par de homens da família e a segurança que contrataram.

—Viu ao Jackson por aqui?

 Matt indicou colina acima.

—Acreditou ver um par de jornalistas escalando a perto e foi nessa direção para verificá-lo.

Jonas amaldiçoou brandamente.

—Por que não se vão todos pra casa?

—Não acredito que isso aconteça por um tempo —disse Matt—. Mas os negócios em Sea Haven estão florescendo. Cada hotel está cheio e as lojas e cafés estão ganhando como bandidos. Acredito que os preços triplicaram.

—Isso ouvi —Jonas se arranhou a mandíbula com a mão—.Diga ao Jackson que precisamos revisar todas as fitas de novo… as que tomaram as emissoras à multidão que estava fora tanto do desfile de moda como da festa.

—Pensa que tem informação nova.

Jonas se encolheu de ombros.

—Vale a pena tentá-lo.

 

As Drakes estavam lhe esperando no salão —todas menos Hannah. Sabiam que estava zangado pela atitude de seu corpo. Sarah saltou para interceptá-lo quando começou a subir as escadas, mas ele levantou a mão para pará-la, lhe jogando um único olhar cheio de emoção.

—Não —lhe advertiu.

Ela assentiu.

—Nos conte, Jonas.

Ele olhou sobre sua cabeça, para Joley.

—Você cuida desta. —Assinalou com a cabeça para ela—. E eu cuidarei de Hannah—. Dirigiu outro olhar ainda mais furioso a Joley e subiu correndo as escadas para a habitação da Hannah.

A porta estava fechada com chave e esta vez não se incomodou em chamar. Ao inferno com isso. Começou a trabalhar na fechadura. Joley chegou atrás dele com o Sarah.

—Tem que deixá-la sozinha, Jonas. foi muito para ela, enfrentar-se assim com o Prakenskii —disse Sarah—. Precisa descansar.

—E você precisa se colocar em seus assuntos. Hannah é uma mulher adulta. É minha mulher. —Fez esta declaração enquanto forçava a fechadura, abria a porta e entrava, fechando-a na cara furiosa da Sarah.

Hannah estava tirando roupa de sua cômoda, com lágrimas caindo pela cara, enquanto a lançava em uma pequena bolsa esportiva que tinha aberto em cima da cama. Pôde ver a fadiga e os escuros círculos que rodeavam seus olhos. Lhe encolheu o  coração apesar de seu aborrecimento. Hannah era uma mulher de grandes contrastes. Parecia frágil e delicada, mas ainda assim tinha um coração de ferro. Tinha ataques de pânico, mas defendia valorosamente a suas irmãs. Era tímida, mas se converteu em um personagem público.

Nunca poderia, enquanto vivesse, superar vê-la entrar na sala, levantar a cabeça, com a cara golpeada dura e profundamente, mas com o olhar firme enquanto enfrentava ao Prakenskii com a dignidade de uma rainha. Deu-se conta de que isso lhe estava custando seu orgulho. Soube que não queria ser vista. Mas permaneceu de pé frente a todos e insistiu em ser tratada como uma adulta. Nunca tinha estado tão orgulhoso dela. Ainda assim, aqui estava ele, para brigar com ela. Outra vez. Suspirou.

Ela levantou a vista, suas úmidas pestanas de ponta, quase lhe romperam o coração. Levou a mão defensivamente à garganta —onde lhe tinham feito três cortes deliberados, lhe danificando as cordas vocais para sempre. Quis atraí-la a seus braços e apertá-la forte.

—Sai —lhe disse ela—. Tem que sair e me deixar sozinha.

A fúria o atravessou. Muito para suas boas intenções. Voltou a fechar a porta de repente, esta vez contra Joley quando ela tentou entrar, e fechou o trinco, cruzando a habitação em três amplas pernadas.

—Que demônios acreditava que estava fazendo, Hannah? —Jonas a agarrou pelos ombros e lhe deu uma pequena sacudida—. Você gosta de brincar com fogo? Disse-te que se mantivesse afastada do Rude Venturi. Pode parecer indefeso, mas está vivendo em uma fantasia e não sabe o que pode acontecer se sua fantasia é interrompida.

—Jonas! protestou Sarah, do outro lado da porta—. O que está fazendo?

—Vou sacudir lhe, isso é o estou fazendo —exclamou Jonas—. Por que não pode, embora seja por uma vez, estar de acordo com algo que eu diga, Hannah? Esse homem é um caipira louco e lhe leva uma fotografia assinada pessoalmente! Sei do que te estou falando quando referimos a segurança, mas não, você simplesmente tinha que me desafiar. —Seus olhos se obscureceram, brilhando sobre sua cara volta para cima, enquanto lhe dava outra sacudida, com a fúria percorrendo-o, crescendo e crescendo enquanto as imagens de uma faca apunhalando-a enquanto ele estava a milhares de milhas dali dançavam por sua cabeça—. Faz o que todo mundo te diz como um maldito mascote, mas comigo, tem que discutir e me desafiar em cada curva. Inclusive se está arriscando sua própria vida.

—Para, Jonas —o chamou Joley, golpeando a porta—. Para. Soa como se fosse fazer lhe dano.

—Nunca lhe faria mal —declarou Jonas, soltando a Hannah abruptamente—. Nos deixe de uma maldita vez, Joley. Você também, Sarah. Isto é entre a Hannah e eu.

—Estou bem, Joley —lhe assegurou Hannah—. Nos deixe.

—Está segura, Hannah? —perguntou Sarah—. Não tem por que lhe agüentar que te grite.

—Eu não me intrometi entre você e Damon, Sarah —vaiou Jonas—. nos Conceda a mesma cortesia. Vai. —passou-se ambas as mãos pelo cabelo, esperando até escutar os passos amortecendo-se antes de olhar a Hannah—. Maldita seja. Por que arriscou assim sua segurança?

Retrocedeu afastando-se dela, as mãos lhe tremiam enquanto cruzava o quarto. Seu peito se inchava enquanto tentava encher-lo de ar, enquanto tentava afastar as imagens que entravam em turba. Tinha havido muito sangue. Seu comprido cabelo estava por toda parte, mas em vez de ser platino e dourado, os cachos eram vermelhos. Quase não podia respirar e de fato cambaleou, procurando cegamente algo ao que agarrar-se.

Hannah o agarrou pelo braço.

—Sente-se, Jonas. Não dorme faz dias.

—Semanas —a corrigiu e se afundou na cadeira grande junto à chaminé. Ele a abraçou pela cintura, enterrando a cara contra seu estômago. Seus braços apertaram, duas bandas de aço, fechando-a contra ele, mantendo-a tão perto como pudesse conseguir. Um estremecimento atravessou seu corpo—. Maldita seja, Hannah. Está-me matando.

Os dedos da Hannah se enterraram em seu cabelo, fazendo pequenos círculos tranqüilizadores contra seu couro cabeludo em um intento de lhe acalmar.

—Tudo está bem, Jonas. Estou viva. Tudo vai bem.

Ajoelhando-se, descansou sua cabeça contra a dele, sem estar segura de estar dizendo a verdade. Não estava segura de ter sobrevivido. Estava vivendo, mas vivia com o terror e a compreensão de que alguém a odiava tanto para destruí-la. Ela não era forte como suas irmãs. Preferia o amparo de seu lar, de seu povo, a familiaridade das coisas com as que tinha crescido. Sempre se tinha sentido segura em Sea Haven. Agora não sabia onde estaria a salvo. Quem quer que a odiava estava aqui em Sea Haven e não podia arriscar-se a que ferissem suas irmãs —ou ao Jonas. Tinha que partir e tinha que ir-se sozinha.

Jonas normalmente a protegia da intensidade de suas emoções, mas justo agora, estava muito transtornado. Sentia nele o mesmo desespero que recordava de fazia tanto tempo, quando ele tinha tratado de ter a sua mãe com ele, de salvá-la, de encontrar uma forma de afastá-la da dor. A dor do Jeanette Harrington tinha sido, como o da Hannah, dos dois tipos, físico e emocional. Não queria morrer e deixar a seu filho só no mundo. Hannah não sabia como viver. Jonas se sentia responsável por ambas —sempre o tinha feito— e justo agora, tudo isto se mesclava com a fúria e o pesar.

Nesse momento soube, com assombrosa claridade, que sua própria incerteza não lhe importava. Sentiu o estremecimento que percorreu o corpo do Jonas e tinha que encontrar uma forma de lhe afastar da dor. Captou as imagens de seu ataque em sua mente. A desesperada necessidade de chegar a ela, a agonia do pensamento de perdê-la. A fúria contra si mesmo por não estar com ela para protegê-la. Não encontrou compaixão, ou horror pela vista de seu corpo mutilado, e isso foi um dom inesperado. Mas o amor que encontrou aí, forte —intenso, desesperado quase— a sufocou. Como poderia deixá-lo se ela se sentia da mesma forma?

—Estou zangado contigo, Hannah —sussurrou ele, mantendo a cara enterrada na calidez de seu pescoço—. Estou realmente zangado contigo.

—Sei. —Lhe sustentou a cabeça entre seus braços, mantendo-o perto—. Está bem. Conseguiremos. Não sei como, mas o faremos. —Estava agradecida que não houvesse testemunhas do pânico do Jonas. Era um homem forte e orgulhoso, e desabar diante dos outros —especialmente de sua família, a quem ele acreditava que precisava proteger sempre— o humilharia.

—Tem que me escutar, Hannah, quando é em assuntos de sua segurança. Não posso funcionar assim. O medo é paralisante, desmoralizador, nem sequer posso respirar pensando em ti assim. Tem que fazer ao menos isto por mim. Me dê isso.

Lhe beijou na fronte.

—Não o faço de propósito, Jonas. Não é um desafio. Não senti uma ameaça por parte do Rudy, só solidão. Eu sei o que é isso. Às vezes, inclusive rodeada por minhas irmãs, sentia-me sozinha.

—Porque crê que ninguém conhece seu verdadeiro eu —disse ele—. Mas eu sim. Eu te vejo, Hannah. Nunca estiveste sozinha. —Mas ela não o tinha visto. Não tinha podido ler nele e não tinha visto sua passada frustração e ira. Ele a tinha protegido de saber seus verdadeiros sentimentos. Ela as tinha arrumado durante tanto tempo, bombardeada pela gente que a rodeava, e ele não tinha querido lhe acrescentar essa carga. Ao final quase perde suas oportunidades com ela.

—Hannah. —Apertou seu abraço sobre ela—. Rude Venturi é instável. Te deu pena, mas não te ocorreu que em sua mente ele não é uma ameaça. Não a sentiu nele porque não acredita que esteja fazendo nada incorreto. Se ele decidir que tem que te matar para manter aos homens maus longe de ti, não acredita que seja incorreto. Não pode sentir maldade ou inclusive ameaça porque sua intenção é te ajudar. Nem tudo é como você crê que é.

Hannah suspirou.

—Sinto muito, Jonas. Não tive intenção de te transtornar tanto. Deu-me pena dele. Não acreditei que lhe levar uma fotografia fosse para tanto. Devia ter escutado.

—Está bem —murmurou ele—. Está bem. me fale do Reverendo. Falou também com ele?

A brusca mudança de tema a fez vacilar. Hannah tentou apartar-se, mas ele manteve seus braços a seu redor, levantando a cabeça e olhando-a para baixo.

—Fez-o, verdade?

—Ele esta aqui, justo no condado do lado, virtualmente um vizinho, e eu pensei que se ele podia simplesmente ver que eu não estava tentando influenciar mal às jovens…

Jonas fechou os olhos e gemeu.

—Hannah, está a um par de horas. Não tem nada a ver contigo.

—Alguns de seus seguidores estavam em quase todo evento protestando. Estavam dizendo coisas sobre mim especialmente à imprensa. Simplesmente pensei que se me conheciam, veriam que eu não era tão má pessoa.

—E o que aconteceu no encontro que sabia que eu disse que não ocorreria de jeito nenhum?

Hannah tomou ar profundamente e o deixou sair, afastando seu olhar dele.

—Fez-me zangar, certo? —Ela se soltou de seu abraço e ficou de pé, cruzando a habitação com passos rápidos e largos —passos de passarela— inconscientemente gráceis e sexys. Girou-se, com seus grandes olhos obscurecidos pela fúria—. Honestamente, Jonas, é o homem mais irracional que conheci e muito sórdido. Tratei de não me intrometer e ler seus pensamentos, mas estava difundindo-os tão alto e era tão repugnante  —um pervertido.

Jonas gemeu e se passou uma mão pela cara.

—Não me diga que lhe chamou a atenção por isso? Não o fez, verdade, Hannah?

Ela ficou as mãos nas, muito, esbeltos quadris, levantando o queixo.

—É obvio que o fiz. Estava ali de pé com sua atitude pomposa e piedosa, tudo dono de si mesmo diante de seu pequeno grupo de seguidores, e atuava de forma tão presunçosa, me dizendo que o que fazia era uma abominação. Não era como se eu estivesse me deitando com os desenhistas. E assim o disse.

Os nós no ventre do Jonas se estavam voltando permanentes.

—Disse-lhe que também sabia que ele estava deitando-se com suas jovens seguidoras, verdade?

—Bom, faz-o! Garotas inocentes que confiam nele. Apontei-lhe que era ele o que estava seguindo o caminho do diabo. —Ela franziu os lábios—. E deveria lhe haver feito uma pequena demonstração de poder quando ficou realmente desagradável comigo.

Jonas gemeu, quase arrancando-os cabelos com sua exasperação.

—Não sente admira que tenha uma fixação contigo. Deveria ter permanecido longe dele. Teria ido atrás de uma presa mais excitante se você não o tivesse comprometido.

—É um pervertido, Jonas, e deveria encerrá-lo.

—Isto está ficando pior. Deveria ter dito que o enfrentou. —De repente franziu o cenho—. O que te fez enfrentá-lo? Nunca faz este tipo de coisas. Por que diabos teve que começar com o Reverendo?

Ela se encolheu de ombros, parecendo repentinamente cautelosa.

—Greg pensou que seria uma boa idéia acenar a bandeira branca. Não acreditava que nos viesse bem nos meios de comunicação ter a um pregador protestando em cada evento. Pensou que se nos encontrávamos, o Reverendo seria razoável.

Ambos puderam ouvir que alguém manipulava a fechadura.

—Jonas, Hannah realmente precisa descansar —gritou Sarah—. Quero dizer que se não deixar de discutir com ela, vamos entrar e a fazer que vá. Deixa de intimidá-la.

—Fora —gritaram Hannah e Jonas simultaneamente.

Jonas apertou os dedos em um punho e se girou afastando-se dela. Estava voltando a querer sacudi-la para lhe colocar um pouco de prudência.

—Escutou a Greg Simpson em assuntos concernentes à segurança e não a mim?

—Está fazendo disso algo pessoal, Jonas. —Hannah se tocou a garganta como se lhe doesse—. Greg é meu representante…

—Era. —corrigiu Jonas—. Se esse bastardo aparecer por aqui, vou jogá-lo em uma cela.

Hannah fechou a boca abruptamente para algo que fora a dizer, um pequeno tremor a percorria. Estava voltando-se difícil respirar. Sentia o peito tenso e os pulmões lhe ardiam, privados de ar.

—Não quero discutir sobre isto. Fiz o que acreditei que era melhor para minha carreira.

—Sim, porque sua carreira é muito mais importante que sua vida.

Hannah lhe vaiou, com os brilhantes olhos jogando faíscas.

—Está-me fazendo zangar, Jonas. É isso o que quer? Como está zangado comigo vai dizer coisas que me contrariem? Não tem que me recordar que me feriram. Sou a que tem a cara cortada em pedaços.

Sarah empurrou a porta aberta, seus gritos estavam inquietando a todos os Drakes, dando a Sarah o que ela acreditava que eram suficientes razões para intervir. Hannah ondulou a mão e o vento correu do balcão fechando de repente a porta antes de que Sarah pusesse um pé na habitação.

—Não te atreva a fazer isso —estalou Jonas, adiantando um passo, invadindo o espaço da Hannah, seguindo-a pela habitação enquanto ela retrocedia—. Não jogue comigo seu triunfo de “pobre de mim, acabo de sair do hospital”. Não sobre isto. Quantas vezes te disse como dirigir a estes malucos? Estive no ofício durante anos, Hannah. É meu trabalho saber como dirigi-los, e ainda assim fica com a palavra de um profano antes que com a minha?

—Não foi assim, Jonas —protestou Hannah, apoiando-se contra a parede—. E deixa de tentar me intimidar. Só me faz enfurecer.

—Te enfureça então. Possivelmente o entenda esta vez, pequena, porque estou me pondo malditamente doente de ser sempre o último em sua lista. Quando te digo algo, crê que o faço simplesmente para te incomodar?

Hannah foi duramente derrotada em sua réplica e se deu conta que, pela primeira vez desde que foi atacada, sentia-se viva. O sangue estava lhe cantando nas veias e o coração lhe pulsava nos ouvidos. Jonas recusava tratá-la como se fosse uma frágil e delicada flor, muito machucada para ver a luz do dia. Estava zangado e deixava que ela soubesse. Sentiu-se normal. Jonas a fazia sentir-se normal e isso era bom. Só uns momentos antes estava perto de sofrer um ataque de pânico, mas ele simplesmente o tinha aniquilado.

—Algumas vezes, sim o faço. Aporrinha-me de propósito, especialmente no que se refere a meu trabalho. Sempre o odiou e se divertia. Greg dirigia minha carreira. Tinha que acreditar que o que ele me sugeria era o melhor.

Jonas ficou muito quieto, seu corpo apertando o seu, tão perto que seus peitos se roçavam contra seu peito e ele era consciente de cada uma de suas respirações.

—Está me dizendo que Simpson te sugeriu que desse ao Venturi uma foto com um autógrafo em cada evento a que assistisse?

Lhe pôs uma mão no peito, estendendo os dedos, preparando-se para a tormenta.

—Queria fazer algo, e lhe perguntei se podia fazer que Rude recebesse minha foto. Disse que deveria dar-lhe eu mesma cada vez que Rude assistisse. Tomou fotos umas poucas vezes e um par delas escreveu sobre isso. Eu lhe disse que não queria que usasse para fazer publicidade, mas os artigos já tinham sido enviados.

Jonas jurou de novo, mastigando as palavras entre os dentes, deslizando-os dedos pelo cabelo até chegar à nuca.

—Tem um grande problema, Hannah. —Havia uma advertência e uma lenta carícia em sua voz—. Por que não te ocorreu que eu me preocupava realmente por seus interesses?

—Possivelmente foi o comentário de “boneca Barbie”. Ou a acusação de “tirar a roupa para que o visse o mundo inteiro”, ou o milhão de sarcasmos que você gosta de me jogar. —Ela se esfregou a garganta de novo, dando um pequeno coice quando a gema de seu dedo se deslizou sobre os profundos cortes, ainda em carne viva.

Jonas lhe agarrou a mão e a levo para seu peito, capturando-a aí enquanto se inclinava a roçar os cortes com beijos.

—Não o toque. Dói-te a garganta? —Sua voz era inclusive mais um sussurro que um som.

—Por dentro. Sinto-a rasgada e ardente.

—Então não discuta comigo. Tenho toda a razão e sabe. Deveria ter me escutado. —Jonas pressionou beijos ligeiros como plumas por sua garganta e pela curva de sua mandíbula—. Diga-o, Hannah. Diga que deveria ter me escutado.

Ela não podia pensar muito bem com seu corpo pressionado tão perto do dela e sua boca deslizando-se por sua pele. Tinha estado decidida a mantê-lo a um braço de distância. Apesar do que os outros pensassem, ela soube instintivamente que o perigo a rodeava. Não vinha de uma direção particular, mas o vento o disse. Permaneceu à margem tanto como foi possível, esperando localizar a seu inimigo, mas a identidade da pessoa a evitou. Só podia tentar proteger às pessoas que amava. E ela amava ao Jonas. Não podia recordar um tempo em que não o tivesse feito.

—Jonas… —Inseriu ambas as mãos entre ela e seu peito, tentando conseguir um pouco de espaço—.  Sabe que isto não pode funcionar. —Só o pensamento do perdê-lo fazia gelar-se por dentro, mas inclusive Jonas necessitava amparo. Ele não acreditava, mas ela o havia visto vulnerável e doído. Melhor que se zangasse com ela e soubesse a verdade completa, embora depois a desprezasse.

A impaciência cruzou rapidamente sua cara.

—Não comece, Hannah. Já me chateaste bastante por um dia.

—Não pode funcionar, Jonas. Você crê que viu quem sou, mas vê o que quer ver, igual a minhas irmãs.

—Suas irmãs vêem o que projeta deliberadamente para elas —a corrigiu ele—. Eu te vejo.

—Sou uma covarde, Jonas —admitiu ela, desesperada -Poderia me salvar e me amaria um tempo, e então quando te desse conta do que sou realmente, converteria-se em desprezo.

Ele estalou em risadas, inclinando-se para lhe beijar a ponta do nariz.

—Possivelmente fosse uma covarde para admitir que me amava, mas não é uma covarde, pequena.

—Sou-o, entretanto. —Pânico. Estava voltando como sempre o fazia. Completamente ofegante, atacando como o tinha feito o homem que a tinha apunhalado. Agarrando-a apertando os dedos, até que teve que lutar por seu fôlego, até que não pôde pensar claramente. Tinha sido a pior desde que tinha sido apunhalada. As paredes se fechavam sobre ela, e apanhada como estava agora, com o corpo do Jonas lhe impedindo de sair correndo, teve que esforçar-se profundamente para manter o controle.

—Porque prefere ficar em Sea Haven que viajar pelo mundo? Porque é um pouco tímida em público? Ou porque gagueja um momento quando está entre pessoas que não conhece? Se fosse uma covarde, Hannah, não teria tentado agradar a sua família saindo a perseguir uma carreira que nem sequer quer —uma carreira muito pública.

—Tinha que me defender por mim mesma.

—Sim, tinha, mas tentar agradar às pessoas que ama não te converte em uma covarde. Exasperante possivelmente, mas não covarde. E nunca teve problemas para me enfrentar.

Ela baixou o olhar para a evidência dos cortes nas mãos e os braços.

—Sim os tenho.

—Não, quer me agradar, da mesma forma que quer agradar a suas irmãs, mas te mantém firme e faz qualquer maldita coisa que quer fazer e quando quer fazê-lo. Estão-me saindo cabelos brancos, deveria sabê-lo.

Hannah franziu o cenho. O fazia? Já não sabia nada. Sua vida tinha trocado dramaticamente em segundos. Tocou as terríveis feridas em sua cara e pescoço, mas evitou tocar seus peitos. Ainda via cada imperfeição de seu corpo, cada libra extra, e agora estavam as terríveis feridas abertas em sua carne. Jonas tinha embalado seus peitos, tinha-a cuidadoso como se fora a mulher mais formosa do mundo. Não podia suportar as lembranças dele olhando-a tão reverentemente, tão amorosamente.

Abruptamente, ela agarrou a manta e se refugiou no balcão. Apesar do por do sol já ter ocorrido e ser difícil para um fotógrafo conseguir uma foto clara dela, deslizou-se a manta como um capuz sobre a cabeça para manter a cara nas sombras.

Jonas a seguiu com um pequeno cenho. Nunca tinha sido bom com as palavras quando tinha a ver com a Hannah. Estava certo de poder encantar aos pássaros das árvores quando se referia a outros, mas Hannah lhe virava do avesso e lhe convertia em um idiota. Odiava que ela estivesse ferida. Cada instinto, corpo e mente, queria protegê-la, queria fazer-lhe tudo mais fácil, mas não tinha idéia de como. Estava desorientado, cometendo enganos e perdendo a calma.

Impacientemente, foi ao corrimão para ter uma melhor vista do que os rodeava. Não havia construções próximas nas que alguém pudesse tender-se com rifles, mas alguém podia conseguir um ângulo dos penhascos. Os fortes ventos trocando sobre os escarpados podiam fazer o disparo extremamente difícil, de todas formas. Provavelmente só havia uma dúzia de homens no mundo que pudessem fazer esse disparo e duvidava que nenhum deles tivesse ressentimento contra Hannah.

—Estou segura aqui. O vento me avisará.

Jonas revisou a água, notando as rochas. Os navios não poderiam aproximasse o suficiente e as ondas eram muito fortes e variáveis. De novo, seria difícil conseguir um bom disparo.

Apoiou um quadril contra o corrimão e olhou para a cabeça inclinada da Hannah. Ainda não o estava olhando realmente, lhe ocultando a cara com a manta. Não queria que se escondesse dele. Ela tinha permanecido abertamente em frente da Ilya Prakenskii, feridas severas e cruas na cara e o pálido pescoço, mas se escondia dele. O nó na garganta estava estrangulando-o e o vento que trazia sal marinha, queimava-lhe nos olhos.

—Sabe que não vou permitir te que te afaste com isto. O que estava fazendo preparando uma bolsa? —Manteve o olhar fixo em seu rosto. Nunca tinha sido boa lhe escondendo suas emoções.

Hannah se envolveu mais na manta, tratando obviamente de lhe esconder mais sua expressão.

—Só necessitava um pouco de espaço.

Jonas se sentou no corrimão e balançou um pé daqui para lá, permitindo que o silêncio se alargasse e crescesse. As aves marinhas se chamavam entre elas enquanto sobrevoavam em círculos preguiçosos, lançando-se para baixo alguma ocasionalmente para desaparecer no mar antes de remontar de novo com um peixe por volta da rocha em que se encarapitaria durante a noite. O oceano se agitava e girava, uma música ensurdecedora que diminuía e aumentava ao longe.

Ele deixou escapar um suspiro.

—Está me mentindo outra vez, Hannah. —inclinou-se para frente para captar seu elusiva olhar—. Crê que vou te deixar sair com a tua só porque tem uma cicatriz ou duas?

Ela se tocou as feias linhas feias de sua cara outra vez com as pontas dos dedos.

—Não estou perguntando isso. Não é seu problema, Jonas.

Ele levantou uma sobrancelha.

—Realmente? Você não é meu problema? —Ele bufou burlonamente—. Você foste meu problema no jardim de infância. Por que preparava uma bolsa, Hannah?

As faíscas estalaram em seus olhos e seus brancos dentes se apertaram em um arranque de gênio.

—Estou protegendo a minhas irmãs, e a ti. —Furiosa com ele, lhe escapou a verdade sem querer e se arrependeu imediatamente.

Deveria saber —Ter adivinhado. Hannah que pensava que era tão covarde. Teve uma curiosa sensação comovedora na zona do coração. agachou-se diante dela e lhe emoldurou a cara com ambas as mãos, inclinando-se para roçar sua boca com a sua. O mais suave de contatos, apenas ali, só um suspiro de lábios sobre os seus.

Hannah se tornou para atrás, piscando para afastar as lágrimas.

—Não pode fazer isto mais. Por favor, Jonas, só vai.

Ele se sentou sobre seus calcanhares, estudando sua expressão causar pena.

—Conhece-me melhor que isso. Começa a falar, Hannah, e será melhor que tenha sentido, porque você e eu sabemos, que não vou permitir andar aí fora sozinha. Se quer sair, sairemos juntos, mas não vai a nenhum lugar sozinha.

—Não posso estar contigo. Simplesmente não posso. Tem que aceitar que esta é minha decisão.

—Nunca na vida, pequena.

—Jonas. Deus. por que não pode simplesmente deixar estar? Me olhe. Não posso me olhar sem adoecer. —A admissão foi feita com seu suave, rouca voz, mas o sussurro de reserva criava intimidade entre eles—. Não posso suportar que você me olhe assim. E eu nunca, nunca quero ser vista contigo em público.

—OH por Deus. —Exasperado, olhou-a—. Está brincando comigo?

—Jonas, é muito bonito e muito conhecido por aqui. Tem um cargo político. Apresentou a xerife e foi eleito. Pode nos ver o um ao lado do outro? Pobre Jonas com sua monstruosidade de noiva.

—Não está fazendo isto, Hannah.

—É a verdade. Não posso sair sem fotógrafos que querem me roubar uma foto e estalar meu retrato e pegá-la em todos os jornalecos de intrigas. Tenho um pouco de vaidade e orgulho.

—Eu não escuto essa merda. —parou, por um momento destacando sobre ela, criando uma sombra escura na cara dela, sua mandíbula quadrada, a boca apertada uma linha dura, então simplesmente a agarrou em braços e a sustentou contra seu peito, sentando-se em uma cadeira, pondo-a em seu colo, com manta e tudo—. É tão tonta às vezes, Hannah, volta-me louco. Importa-me um nada o que digam os outros. Nunca importou.

Beijou-lhe uma esquina do olho, lhe apartando a manta, para poder roçar com o queixo o topo de seus cachos sedosos e lhe beijar a sobrancelha, acendendo um atalho para a esquina de sua boca, roçando os irritados cortes vermelhos com diminutos beijos como mariposas enquanto ia. Sua boca fechou a dela com deliciosa ternura. Os lábios dela eram suaves e plenos, e tremiam sob os seus. Sua resposta foi tentativa, relutante, assim que ele seguiu enrolando-a, lhe mordiscando o lábio inferior, medindo o contorno de sua boca com a língua, deslizando os lábios adiante e atrás sobre os dela, atirando com os dentes até que cedeu e abriu sua boca para ele.

Derramou tudo o que ele era em seu beijo, lhe dando amor, ternura e apoio, misturado com desejo e calor e crua necessidade. Rodeou-lhe a nuca com a palma da mão, seus dedos encontraram  o tesouro de cachos dourados e cor platino, sustentando-o para poder explorar sua boca. Foi cuidadoso, gentil, não permitindo nunca dar rédea solta a sua paixão, sem permitir nunca que o levasse. O peito, as costelas e o estômago estavam cheios de feridas e tomou cuidado para não roçar a pele embora sustentá-la não era suficiente.

A boca da Hannah era quente e úmida e saborosa como ela, mel e especiarias e ultra feminina. Poderia passar a vida beijando-a. Ao princípio, ela permaneceu passiva, lhe permitindo beijá-la, mas quando a enrolou, ela começou a animar-se, a respirar com ele, a enredar a língua com a sua, enviando pequenas e deliciosas pinceladas elétricas cantando através de suas veias. Com muito cuidado, atraiu-a mais perto, orientando sua boca para um mais profundo, mais satisfatório beijo.

Os lábios dela se esquentaram, abrandaram-se, aderiram-se aos seus. Seu corpo se voltou de aço, duro e quente e tão vivo que podia sentir um relâmpago arqueando-se por sua corrente sanguínea e um trovão nos ouvidos. Sustentava-lhe a nuca com a palma da mão e a moveu um pouco para que estivesse mais cômoda em seu colo. Manteve-a apanhada, mas tomou cuidado de lhe fazer sentir-se segura, não capturada. Amar a Hannah não era fácil. Ela estava sempre ao limite de sair fugindo, quase como se tivesse medo da intensidade da paixão que ele despertava nela.

Uma mão desceu por seu espinho dorsal, uma lenta viagem de descobrimento, enquanto sua boca tentava saciar cada vez mais o crescente desejo. A luxúria foi aguda e profunda, mesclada com o amor, tão plena que ele não poderia dizer onde começava uma e acabava o outro. Hannah era uma mescla explosiva de exótico, inocência e puro sexo autêntico. Ela se moveu e ele ficou fascinado instantaneamente. Não aprofundou muito nisso. Não tomou muito. Inclusive sua nova voz lhe parecia erótica. Hannah se ajustava a ele. Tinha sabido de alguma forma incluso quando eram meninos, que ela era a única. Estava feita para ele. Beijou-a uma e outra vez. Beijos suaves e aprazíveis, beijos duros e famintos, tentando e explorando sua cálida e apaixonada boca.

Hannah se moveu contra ele inquieta, seu corpo fundindo-se, sua necessidade dele trocando de mental a física. Sua boca parecia estar devorando-a, ainda assim ela queria mais, queria estar mais perto, queria sentir o calor de sua pele sob suas mãos e sua boca. Era tão egoísta. Sempre era sobre ela. O que ela queria. Suas necessidades. Punha ao Jonas em perigo, assim como estava pondo a suas irmãs em perigo permanecendo ali. Bruscamente levantou a cabeça, sofrendo por querer o ter perto, atemorizada com não ter o valor necessário para deixá-lo partir.

—Jonas… —ia ter um ataque de pânico. Ia ter. De novo. Justo em frente dele. Não podia respirar.

Não podia pensar com o batimento do coração ensurdecedor do terror nos ouvidos e o medo golpeando-a através de seu corpo. Odiava a debilidade insidiosa que se arrastava e se equilibrava sempre que estava segura de que podia ser forte. Roubava-lhe muita vida, tomava sua capacidade de funcionar e raciocinar.

—Não o diga, pequena, por favor. —Ele apoiou a cabeça contra a sua—. Deixa-o por agora. —Inspirou duramente, tentando voltar à realidade.

Ela estava preparando-se para fugir. Hannah dava um passo atrás, longe dele, e não ia ganhar nada discutindo. Estava tão decidida a protegê-los a todos, estava-se fazendo adoecer. E se tinha outro ataque de pânico e se desfazia diante dele, ia agarrar a e levar-lhe longe onde ninguém mais os encontraria jamais, como um cavernícola. Isso é o que ia passar

Jonas ignorou seu próprio medo e a beijou na boca e na fronte, tornando-se para trás gentilmente. Deixou-a sobre os pés enquanto se levantava, estendendo a mão para ela, decidido a não perdê-la.

—Juro, Hannah, que está pensando tanto que está saindo fumaça das orelhas. Simplesmente para. Fiquemos juntos aqui fora até que esteja muito cansada e eu me deitarei contigo. Se isso te der medo, sentarei-me aqui fora no sofá de novo e passarei outra noite ao relento.

Hannah vacilou, e então estendeu lentamente a mão até colocar os dedos sobre sua palma. Ele apertou seu agarre instantaneamente, sem lhe dar tempo a trocar de opinião. O ar era mais frio enquanto soprava a brisa do mar, trazendo sal, névoa e o sabor do oceano. Preferia jazer junto a seu quente e suave corpo, embora isso significasse que o seu estaria duro e dolorido, que passar outra noite preocupado enquanto se sentava no sofá observando de longe

—Sabia que estava ali. Fez-me me sentir segura.

—Está a salvo comigo. —Voltou-a a envolver na manta para protegê-la do vento mais forte. Quando ela se sentou, ele puxou de sua cadeira para aproximá-la a dele. Inclinando-se para diante, emoldurou-lhe a cara entre as mãos e a olhou diretamente aos olhos, capturando seu olhar de forma que ela não pôde apartar a seu.

—Sei que tem medo, pequena, mas isso não te converte em uma covarde. Há algo especial entre nós. Não pode permitir que este louco nos tire isso.

Hannah não pôde evitá-lo. Apesar de sua decisão de protegê-lo, inclinou-se para aproximar-se, apoiou-lhe a cabeça no ombro, e se aconchegou contra ele.

—Sei o que fazemos, Jonas. Simplesmente não sei o que fazer com isso. —Ela apertou os lábios contra seu pescoço e se incorporou outra vez, tornando-se para atrás.

—Eu sim —respondeu ele—. Sei exatamente o que fazer.

Isso não ia comove-la. Em vez disso, Hannah levantou os joelhos e olhou fixamente para o oceano, onde o sol já se afundou em suas profundidades. Antes, o sol, parecendo-se com um balão de praia vermelho gigantesco, resplandecendo como uma oferenda, com raios vermelhos e laranjas inclinando-se enquanto ficava, tinha parecido verter lava fundida nas batentes cheire. O céu inteiro tinha sido talher por uma cor brilhante e vívida. pôr-do-sol era sempre muito formosa, mas ela adorava esta parte do dia, justo enquanto a noite e o dia se encontravam e passavam, como dois navios sobre o mar.

O céu se obscurecia lentamente, como se uma manta se desenhasse lentamente sobre ele. As nuvens se foram preguiçosamente e as estrelas brilharam como gemas. A lua, em qualquer etapa que estivesse, brilhava como formosa prata, orvalhando sua luz através das escuras ondas. A paz reinava.

Jonas deliberadamente a tinha mantido aqui fora, fora onde ela poderia respirar livremente e sem muita preocupação. Tinha notado seu pulso apressado, os pulmões funcionando com dificuldade e o desespero crescendo nela. Pensava que tinha sido pronta escondendo-o, sempre podia esconder de todos —mas não do Jonas.

Hannah se esfregou a frente. A cara lhe picava e lhe ardia, mas se o tocava, a sensação seria pior. Sentiu a repulsão na boca do estômago. Não podia suportar ver sua a cara em um espelho e não tinha a menor ideia de quanto mais poderia seguir encarando ao Jonas sentindo-se tão quebrada. Estendeu as mãos para ele como evidência. Tremiam-lhe.

Jonas lhe agarrou ambas e as levou a boca, riscando com os lábios os cortes.

—Dê um tempo para si mesma, Hannah, mas não pense que pode me dispensar. Não vou permitir isso

—Agora estou apanhada aqui, Jonas. Não posso sair em público. Não posso recordar o que fiz para que alguém me odeie tanto. Não posso fazer o amor contigo nunca mais… —Sua voz se rompeu e ela se soltou de suas mãos, atirando da manta para cima para tampá-la cara e cobrir seus soluços—. Odeio esta... esta auto compaixão. Prometi-me que não o faria, mas tenho que me afastar de ti. Se te vejo, Jonas, é muito pior. Não posso te ver.

Sentiu-se aberto, como se lhe tirassem os intestinos. Deixou cair a cara entre as mãos por um momento, tratando de esclarecer seu cérebro, tentando permitir-se pensar claramente. Inspirou profundamente estremecendo-se e quadrou os ombros.

—Está confusa, Hannah, e o entendo. Felizmente para ambos, eu não. Necessita-me, tanto se o crê como se não, e sei malditamente bem que te necessito.

Esperou até que levantou a vista para ele.

—Faço-o, Hannah. Nunca pensei que podia olhar a uma mulher e saber que ela é a razão pela que o sol sai pelas manhãs, mas você o é.

—O que acontece se te ferem? Ou a minhas irmãs? Jonas, o que acontece se algum louco agarra uma faca e vem a por ti na escuridão? Você simplesmente vira e ele está te esfaqueando. Dizendo “o sinto, sinto muito,” mas te cortando em pedaços. Não poderia suportá-lo. Realmente não poderia. Prefiro te deixar e que esteja vivo, ileso.

A cabeça do Jonas se levantou vivamente.

—O que foi o que ele te disse? —estendeu-se e lhe tirou as mãos da cara—. me Olhe, Hannah. Disse-te algo?

Ela franziu o cenho, tratando de recordar.

—Estou muito cansada, Jonas, e não posso pensar com claridade quando estou cansada. —Olhou para dentro, para a cama—. Me dá medo me deitar.

Ele aplacou a impaciência, deslizando o polegar pela parte de atrás dos dedos, acariciando a sensível pele.

—Eu também. Os pesadelos não são divertidos. —Puxou sua mão, determinado a conseguir que se deitasse na cama com ele e descansasse. Estava esgotada, levantando-se noite detrás noite. Possivelmente tinha sido um engano trazê-la a casa do hospital tão logo. Pelo menos ali, poderiam-na ter sedado para que pudesse descansar.

—Vamos, pequena, não aceitarei um não por resposta e você está muito cansada para discutir comigo quando sabe que não vais ganhar. —Atirou de sua mão, levando-lhe com ele de volta à habitação.

Foi com ele a contra gosto, ficando a seu lado, insistindo em que mantivesse as venezianas abertas. Jonas lhe passou um braço pela cintura para mantê-la perto. Ela ficou tensa ao princípio, mas lentamente, enquanto lhe acariciava o pescoço com o nariz e lhe dava beijos no cabelo sem pretender nada mais, relaxou contra ele, com seu corpo suave e feminino.

—Estou magoando minhas irmãs. Odeio-o. Posso as sentir todo o momento agora —exceto ao Elle. Mantém-se afastada de mim. Não quer misturar-se em minha privacidade. Mas me sinto muito mal porque não posso voltar a ser meu outro eu.

Apoiou-se mais contra ele, encaixando seu corpo mais perto do dele, lhe roçando a virilha com seu traseiro e enviando uma corrente elétrica através de sua corrente sangüínea. Jonas apertou os dentes e resfolegou.

—Pode as sentir? A casa está cheia de pena e simpatia e confusão. Eu tenho feito isto, Jonas, e não sei como desfazê-lo.

Roçou com beijos sua sobrancelha e desceu pelas selvagens feridas para a esquina de sua boca e depois para a garganta.

—Você não o fez, um homem com uma faca o fez. Queremo-nos os uns aos outros, Hannah, e seremos mais fortes quando sairmos disto. Não pode destruir nossa família. Suas irmãs lhe darão tudo o que necessite para te enfrentar a isto, e elas o enfrentarão a sua própria maneira. Não lhe tratam como um bebê porque crêem que não o pode dirigir, fazem-no assim porque querem te demonstrar que lhe querem.

—Por que estou tão incômoda com elas?

Havia desespero em sua voz. Jonas a moveu contra seu peito, para que a cabeça descansasse sobre seu ombro e ele pudesse abraçá-la com ambos os braços.

—A ira é uma parte da recuperação e todos nós estamos aqui, perto de ti. Alguém te fez mal, Hannah, traumatizou-te, estará zangada um momento e atemorizada ao seguinte. Isso é natural e todos o esperamos.

—Eu não o faço, não o fazia. Envergonho-me de não poder parar de ferir todo mundo.

A mão dele se deslizou sobre seu cabelo, enredando-se nos sedosos fios.

—Durma, pequena, e deixa que eu me preocupe esta noite. Suas irmãs estão unindo-se para te ajudar. Posso sentir a quebra de onda de poder em casa. Quando desperte, suas feridas não serão tão doloridas e é de esperar que se sinta um pouco mais em paz.

Hannah permitiu que seus olhos se fechassem enquanto inalava, introduzindo o aroma do Jonas nos pulmões. Ele se sentia, cheirava-se e sabia de forma muito familiar para ela. Seguro. Forte. Muito Jonas —e ele tinha razão. Sentia a ascensão do poder feminino, forte, seguro e amoroso, tudo dirigido para ela. As lágrimas lhe arderam nos olhos e umedeceram suas pestanas. Por muito que suas irmãs a aporrinhassem lhe chegaram ao coração com amor e cura.

—Amo ser uma Drake —sussurrou ela.

—Eu também —respondeu ele e a roçou com mais beijos com o passar do pescoço.

 

   Jonas despertou totalmente alerta. Tinha-lhe tomado horas relaxar, muito consciente de Hannah  a seu lado. Seu sonho era irregular, seu corpo se movia constantemente e seus braços golpeando-o como se se defendesse.  Gritou uma vez, lhe rompendo o coração. Jazeu na escuridão, lhe acariciando o cabelo e murmurando brandamente até que se acalmou.  Agora repousava na escuridão com a arma na mão  apertando-a na palma com o dedo no gatilho, escutando os suaves gemidos de angústia com um nó no estomago Hannah, coração, é apenas um mau sonho, assegurou-lhe, enquanto colocava o braço ao redor de seu quente e suave corpo para incorporar-se com deliberada lentidão, cuidando de não fazer nenhum ruído. Seus instintos o golpeavam com força e possivelmente não fora um sonho depois de tudo.

Colocou a mão sobre sua boca e se inclinou para ela. Fica quieta. Me diga que sente.

O olhar da Hannah, tão azul durante o dia, parecia negro e enigmática na noite.  Franziu o cenho sob sua palma e ele se sentiu alcançado, sua mente, ampliar-se em busca de… um ofego escapou.  Estão aqui. Temos que descer agora. Havia urgência em sua voz, em sua mente, no modo que se elevou e lhe agarrou o braço.

As portas do balcão estalaram perto sem fazer nenhum som. As cortinas voavam com a rajada. Jonas franziu o cenho, o desgosto atravessou rapidamente seu  rosto.

—Não era necessário, Hannah.  Acidentalmente poderia ter feito ruído e alertar os de que somos conscientes de sua presença. Além disso, de qualquer maneira sairei para ver quem  está aqui.  Desce e chama o 911.

Hannah sacudiu a cabeça,

—Não fui eu Jonas, a casa esta em estado defensivo temos que descer as escadas agora —, tremia.

Jonas a ajudou a sair da cama. Os dois estavam vestidos, assim simplesmente pegou o casaco e um o suéter e a guiou até  a porta.

—Levarei-te abaixo com suas irmãs neném, mas devo sair.

Hannah deslizo uma mão entre as suas,

—Não, não o entende, não deve sair.

Jonas a deixou empurrá-lo fora do quarto para o escuro corredor. Desceram pelas escuras escadas até a sala. Podia ver as velas, piscando em um amplo círculo ao redor do intrincado mosaico no pórtico.  Um segundo círculo que encerrava ao primeiro em um amplo atalho que continha pequenas manchas negras cada tantas polegadas.

Sarah estendeu a mão e abraçou a Hannah guiando-a para o centro do círculo.  Hannah lhe manteve sujeita a mão até que ele deu um passo dentro.  No momento em que o fez, Joley e Elle fecharam o circulo detrás deles.

—Sente-se Jonas —, disse Sara. Assinalando para um ponto no alto do mosaico.

—Coração,  tenho que sair onde serei mas útil.

 Olhou ao redor,  ao círculo de caras das irmãs Drake. À luz das velas sua beleza o impactou, todas diferentes, todas exóticas. Podia bem acreditar que eram velhas almas de longos tempos atrás com os cabelos soltos e seus frescos e assertivos olhos. Mas o que mais o impactou era sua ausência de medo. Tremiam como Hannah, mas não era por que tivessem medo  dos homens que se arrastavam para seu lar através das árvores e a maldade.

—A casa nos protegerá agora, Jonas—. Disse Sarah. —Devemos permanecer dentro.

Odiava quando suas crenças e rituais se chocavam com seu território.

—A casa não te protegeu o ano passado quando os homens que foram detrás de seu prometido irromperam aqui e quase lhe matam—, apontou. —Não vou correr riscos. Chama o xerife e me consiga reforços.

Hannah lhe pegou, recusando deixá-lo partir,

—Isso foi diferente Jonas, tínhamos aberto a casa a esses homens. Deixamos as portas abertas e elas lhes davam as boas-vindas. Colocamos a casa em estado de amparo quando retornei pra casa do hospital. Por favor sente-se conosco. Não pode sair.

Sarah sacudiu a cabeça.

—Em qualquer caso, o telefone não funciona, estamos por nossa conta.

—Mais razão que nunca para que saia aonde posso as proteger.

Joley tomou sua outra mão e Libby estendeu a sua sacudindo a cabeça. Kate e Abby se colocaram detrás. Então Elle pôs a mão sobre ele e sentiu... a sacudida da terra e a repentina mudança da casa como se despertasse. O estomago lhe retorceu em protesto e o coração começou a acelerar-se ao fluir a adrenalina.

—O que acontece se Jackson vem? Sempre sabe quando estas em perigo Elle—, repentinamente teve medo, não sabia com que classe de poder lutava.

—A casa julgará suas intenções para nós, não para ninguém mais—, assegurou-lhe Sarah, —e atuará em conseqüência.

—A casa nunca machucaria ao Jackson—, respondeu Elle com calma.

Olhou às sombras ao redor e suspirou. Não podia imaginar que a casa os protegesse, mas ele sim poderia as proteger, a todas elas, ainda de dentro se tivesse que fazê-lo,

—Me diga que tem um revolver Sarah.

—Tenho um eu também—, disse Joley. —E sim, tenho permissão de levá-lo, assim não pergunte.

Sarah se sentou diante do mosaico e as irmãs se colocaram ao redor dos azulejos engenhosamente trabalhados. Jonas tomou seu lugar entre a Hannah e Elle. O poder aumentou no momento em que o círculo se completou e o piso continuou trocando e movendo-se como si  estivesse vivo. As irmãs  se deram as mãos e começaram a balançar-se, cantando brandamente, as palavras, mais que escutar-se sentiam, ecoando em sua mente. O som era melódico e doce, ultrapassando o silêncio da noite em um sussurro de  dramáticas notas até que pensou poder as ver brilhar na escuridão.

No chão frente a ele, o mosaico começou a formar redemoinhos- com vapor, rosas de fumaça ou névoa ligeira como se a brisa tivesse vindo a esclarecer a cinzenta névoa e deixar os azulejos do mosaico incompreensíveis aos que olhassem. Para seu assombro podia ver as terras que rodeavam a casa, como se os ladrilhos fossem a tela de uma câmara rota em fragmentos, mas que proviam uma imagem do mundo exterior. Pôde ver a névoa pendurando pesadamente em cima e ao redor da casa, protegendo a de olhos curiosos, mas os arredores eram tão claros como o cristal nos azulejos do mosaico.

Algo se moveu furtivamente pelos arbustos, tratando de ganhar acesso à casa mesma. As sombras se moveram e as figuras de vários homens se arrastaram  para frente. Estavam vestidos de negro e cinza, confundindo-se com a noite, seus rasgos faciais distorcidos como se levassem máscaras sob os capuzes. Luvas e botas com as calças embutidas dentro, moviam-se pelo atalho e carregavam armas, que indicaram ao Jonas que eram atacados por profissionais.

Seu coração saltou e tratou de soltar-se da mão do Elle para poder alcançar a arma outra vez, mas ela o sujeitou com força. Estava sentado sobre seu traseiro e olhando como ao menos cinco homens trabalhavam com afinco em encontrar um caminho através dos sebes, para a casa. Que classe de policial era ele?

Então os arbustos se moveram, as raízes saíram da terra e açoitaram como um látego de nove caudas. Varrendo rapidamente o chão com um dos homens de negro. A chicotada o golpeio no estomago com força, levantando-o e arrojando-o vários pés adiante para aterrissar estendido contra o beiral.

Jonas pestanejou e olhou ao redor, ao círculo de sóbrias caras.  Femininas, Suaves. Pensava nas Drake como aprazíveis e amáveis. Sem fazer mal a ninguém. Ainda assim nenhuma delas piscava ou se estremecia, ou olhava a outro lado.  A vibração sob ele continuava e a madeira rangeu, elevou-se viva e alerta, esperando que os intrusos se aproximassem.

O homem que tinha sido arremessado ficou de pé sem entendê-lo e se segurou à cerca para sustentar-se.  Gritou e separou a mão enluvada. A fumaça se elevou da madeira onde sua luva se derreteu contra a barra.  Se apressou a descer a costa, evitando o arbusto onde algo o tinha golpeado, tomando uma rota alternativa que o levou para um grupo de árvores. Moveu-se com muita mais confiança uma vez que chegou à mescla de sequóias, carvalhos, pinheiros e outras árvores.

Jonas teve medo de tirar os olhos do homem refletido no mosaico quando este começou a correr pelo labirinto de árvores. A tensão  se elevava no quarto. O canto  ascendeu, as palavras evocavam amparo contra o mal, e detrás deles, no segundo círculo, as sombras se alargaram e cresceram, formando  imagens insubstanciais, diáfanas, de mulheres vestidas com trajes antigos de séculos já idos. As figuras nebulosas se colocaram em um círculo fechado ao redor das Drake e Jonas, como se alguém pudesse querer atravessá-los para chegar ao círculo interno.

Jonas se inclinou para frente para ver melhor o mosaico. Quando o intruso começou a escalar uma alta e grossa árvore, a folhagem arranhava no muro, largas e curvas os ramos proviam uma escada para que o homem subisse. Uma delas alcançava o balcão do segundo piso. A quarto de Joley.  O homem colocou o pé nele e começou a cruzar.   

A árvore se estremeceu, com um ondular da casca. As agulhas tremeram. O homem se deteve, olhando ao redor apreensivamente. Houve um momento em que Jonas contou seus próprios batimentos do coração do coração. Um. Dois. O ramo descendeu rápido e duro. A boca do intruso se abriu amplamente com um grito enquanto se agarrava por vários ramos mais pequenos para impedir de cair. O grosso segmento se elevou rápido, os ramos menores se romperam, catapultando ao intruso vários pés sobre a rampa.  Girando, os braços e as  pernas se estenderam, como um moinho de vento, antes de cair longe, abaixo no turbulento mar.

—Santo inferno, Hannah.

—Demora um tempo em acostumar-se.

Inclinou-se, lhe aproximando o corpo, lhe oferecendo amparo, sem soltar jamais o vinculo com suas irmãs.

Sarah se inclinou para sopro uma das velas escuras frente a ela, justo fora do dobro circulo.  A luz piscou em vermelho sangue extinguindo-se depois, chispando na cera.

Jonas trocou sua atenção a dois homens escalando as paredes da casa.  Ao mesmo tempo dois mais se dirigiam ao nível inferior. Um dos dois homens que escalavam o edifício era extraordinariamente forte e imediatamente se distanciou de seu companheiro,  subiu ao lado norte do a edificação, perto da torre. Usava a esquina para ajudar a impulsionar-se para cima.  O mosaico brilhou vermelho-laranja.  Fumaça escapava sob cada mão e pé até que o homem ascendeu mais e mais rápido até que finalmente saltou para o balcão. Deu um passo sobre a superfície doída e se deteve apoiando-se e respirando com força.

Ao redor dele, o ferro forjado começou a dobrar-se e moldar-se,  passando de um corrimão ao que pareceu ao Jonas como um animal com uma cauda com espinhos e um corno em espiral. O homem retrocedeu, tirando uma arma, suas luvas queimadas e ainda fumegantes de tocar o flanco da casa. O animal se encabritou sobre os cascos, ultrapassando ao intruso e logo baixando a cabeça. O homem disparou várias rajadas uma atrás de outra, mas o animal chutou a terra e se lançou sem piedade. O intruso era rápido, fustigando a um lado, agarrou o corno para dar-se impulsiono em um tentou desesperado de salvar sua vida. A cola  se sacudiu, flagelando ao redor, perfurando o estômago do homem e levantando-o no ar antes de jogá-lo sobre o piso do balcão.

Detrás dele Hannah lançou um pequeno som de angústia. Instintivamente tratou de soltar-se das mãos para tentar confortá-la. Mas Elle e Hannah o sustentaram apertadamente, sacudindo as cabeças. Franziu o cenho enquanto observava o mosaico. A imagem do piso do balcão e o corpo caindo à terra baixo ele.

Ao menos teria um corpo com o qual trabalhar, alguém ao que podia identificar. O enorme homem se movia de uma forma que com segurança tinha visto antes.

Enquanto observava, os arbustos e árvores se moveram, as folhas rangeram e através da terra, cepas de videira envolveram o corpo com força, como se fossem um tapete e o rodaram para o bordo do escarpado.

—Alto!—. Gritou Jonas. —Façam que se detenha, necessito esse corpo, que desaparecerá se não conseguir recuperá-lo do mar.

O intruso se deslizou fora do bordo do penhasco e mergulhou nas turvas águas abaixo. Sarah se inclinou e soprou sobre uma segunda vela. Esta chispou, brilhou vermelha e gotas de cera caíram sobre o piso como brilhantes pontos de sangue antes de que se apagasse.

O segundo escalador havia alcançado  um balcão no segundo piso, o quarto do Elle  orientado ao oeste. O mesmo rastro de Palmas fumegantes e rastros de pés deixadas a um lado da casa, balançou-se sobre o passamanes de ferro forjado e aterrissou escondido. Quase imediatamente o piso se balançou sob seus pés. Olhou para baixo e o chão sólido se converteu em uma substância parecida com o sabão líquido. Começou a afundar-se nela. Enquanto isto acontecia, o gel o sujeitava e tragava, devagar mas firmemente, recobrindo-lhe o corpo. Disparou sua automática, rajada detrás rajada no gel, mas este seguiu formando-se ao redor.  Tratou de liberar-se golpes, mas a casa o comeu,  polegada por polegada, absorvendo-o para a viscosidade até que esteve completamente dentro, rodeado pelo balcão mesmo

Jonas sentiu o estomago sacudir-se.

—É uma ilusão, certo? me diga que é uma ilusão  Hannah, por que isto é uma loucura.

Apertava-lhe fortemente a mão, subitamente temeroso por todos, se a casa estava viva ninguém estava seguro. Desejava agarrar a todas as mulheres e sair dali.

—Parte ilusão, parte realidade. Acreditam- assim é assim—. Disse Elle. —Vieram nos matar Jonas A casa é feita dos espíritos de nossos ancestrais. Pensou que repousariam ociosamente enquanto somos atacados?

—Claro que sim, acaso os ancestrais de todos se levantam e destroem inimigos? Encontra-os e lhes diga que me conservem um corpo.

O balcão se sacudiu e cuspiu ao intruso  sobre o topo de três ramos. Estas se moveram e enviaram o corpo ao mar. Jonas amaldiçoou enquanto Sarah soprava para a seguinte vela.

Os dois homens que tentavam entrar pela planta baixa estavam agora nas janelas. Um em que dava à cozinha e o outro no lado contrário da sala. Cada instinto do Jonas insistia em que tomasse sua arma, mas Elle e Hannah sustentavam suas mãos apertadas, mantendo-o  encerrado dentro do círculo. O pêlo dos braços se arrepiou e o quarto rangeu por causa da energia e o poder. O piso seguiu trocando e as paredes pareciam  ondular. Depois deles, as transparentes e diáfanas figuras se balançavam e dançavam, com os braços estendidos, as mãos unidas.

Jonas logo que podia manter-se quieto e sentado no círculo, quando sabia que em qualquer momento os dois homens podiam introduzir-se através das janelas.  Escutou um grito abruptamente silenciado e o som de disparos. Olhou ao mosaico bem a tempo para ver gretas formando-se no chão e a terra abrindo-se ao longo da cozinha onde o homem tratava de chegar ao banco das janelas. Cada passo que dava produzia uma greta cada vez mais larga. Não existia nada a que lhe disparar. Só o enorme abismo olhando-o. Finalmente cessou de tentar chegar à casa e começou a retroceder com cuidado,  colocando os pés brandamente sobre o chão enquanto se retirava. 

Jonas trocou a vista para o ultimo homem no mosaico,  então compreendeu que  a janela pela que o homem tratava de entrar se encontrava justamente em frente.  Observou com uma espécie de horror fascinado enquanto o intruso usava o dorso de sua arma para golpear o cristal e rompê-lo. De novo devorou as mãos, mas Hannah e Elle lhe aferraram com força.

Tudo ao redor cantava brandamente. Não danificará, não danificará que diabos queria dizer? Teria que lhe pegar um tiro ao pobre filho de cadela. Mas talvez  era muito melhor que os horrores que a casa tinha planejado. Era o caminho ao inferno para os homens que estavam morrendo,  ainda se o mereciam.  Não estava do todo seguro isto si  era realidade ou ilusão. 

A janela se rompeu com um estalo de vidros rotos.  Estilhaçando-se em lascas dentadas que exploraram no interior da casa, detendo-se no meio do ar retornando e mantendo-se quietas na escuridão. Jonas se encontrou contendo o fôlego. O intruso colocou a arma através do marco. O dedo começou a apertar o gatilho. Quando as lascas se lançaram para diante, o sangue brotou, o homem grito grosseiramente lhe dando um puxão ao braço para fora enquanto seus dedos apertavam e as balas golpeavam em um flanco da casa.

A seu redor as nebulosas figuras se retorceram, gemendo como se absorvessem o impacto das balas. O intruso gritou novamente e o som decresceu como se os passos se afastassem. Uma vez mais a terra se estremeceu e varreu tudo. Os gritos minguaram enquanto os borde da terra se fechavam. Jonas olhou em o  mosaico e observou ao outro homem retornar a perto, escalá-la deixando marcas de queimadura. 

—Não posso dizer que ao menos poderei recolher amostras de DNA — murmurou —porque cada vez que abro a boca as evidências desaparecem.

Com um pequeno sinal observou às pequenas manchas de sangue serem absorvidas pela madeira e a janela reformar-se.

—Tenho que dizê-lo, vi algumas coisas estranhas sobre vocês garotas, mas nada como o de hoje, só tenho uma pergunta, hão-lhe dito a seus prometidos algo sobre isto? Porque francamente, isto me assusta um inferno.

—Nunca deve ter medo Jonas—, asseguro-lhe Hannah. —A casa julga as intenções.

—Hannah carinho, a metade do tempo desejo te estrangular. E não tenho dúvidas de que quem termine com Joley ou Elle desejasse fazer algo pior que isso.

—Hey! —, Elle objetou e Joley golpeou seu braço com força.

Observou a seu redor, às tênues figura cinzas, como começaram a desvanecer uma a uma confundindo-se com as sombras ou com as marcas no solo.  A tensão no quarto descendeu lentamente e os movimentos baixo eles diminuíram.  Passou as mãos entre seu cabelo.

—Elas não flutuam ao redor todo o tempo, ou sim? Porque definitivamente arruínam o meu… apetite.

Os lábios da Hannah se torceram quando o fantasma de um sorriso cruzou por seu rosto.

—A maior parte é ilusão, Jonas.

—Então como é que quatro homens morreram? Morreram, não é assim ou só foi uma ilusão?

—Estão mortos—, disse Sarah.

—E onde estão os corpos? Não vão aparecer no oceano, ou sim? E se ainda reviso a casa não acharei DNA na madeira. Não acham isto um tanto atemorizante?

—Eu encontro a um homem que quer matar a minha irmã atemorizante—, Joley disse firmemente.

—Não, não...  Tem razão nisso.

Hannah colocou os braços ao redor dele.

—Não há nada de mau nisto, eu não gosto dos filmes de terror tampouco.

Estava agradecido pelo apoio que lhe dava quando que o resto de suas irmãs o olhavam com intenções malignas. Levou os dedos da Hannah para sua boca.

—Devo sair neném, assim acalma à casa, não quero ser arremessado ao oceano.

Joley lhe sorriu satisfeita.

—Não acredito que te faça mal ir nadar.

—Joley—, Hannah lhe advertiu. —Deixa de assustá-lo. Estará perfeitamente a salvo fora.

Sarah observou a Hannah com olhos velados, cheios de sombras.

—Mas Hannah, não é assim. Não terminou ou sim Jonas? Realmente estão atrás dela.

—Eles, quem diabos são eles?— perguntou Jonas. —Essa é a pergunta chave e todas vocês vão ter que considerar que isto provém de alguém poderoso. Investigamos mas todos dizem o mesmo. Não há pistas, nada que seguir mas... O que poderia fazer que tentassem assassinar um casal  perfeitamente normal se não sob alguma classe de compulsão?

—Não é Ilya Prakenskii—, disse Hannah. —E é o único que conhecemos com essa classe de poder. Não o senti, sei que não o fiz, me teria movido automaticamente para responder.

—Então, se não for uma compulsão me digam: O que levaria a alguém a fazer isto?

—Não acredito que os homens que nos atacaram esta noite tenham estado sob uma compulsão—, disse Kate. —Poderiam ter estado seguindo ordens, mas não tinham tomado medidas contra a ilusão e essa seria a primeira coisa que faríamos se estivéssemos manipulando a alguém e corresse para um problema.  Se alguém os dirigia e sabe como manipular a energia os teria ajudado.

Todas a mulheres assentiram, Jonas suspirou e se levantou sobre seus pés tomando cuidado das velas.

—Vou dar uma olhada fora.

—Já que estamos aqui—, disse Libby. —... E há muito poder a disposição, eu gostaria de fazer outra sessão de cura a Hannah.

Hannah sacudiu a cabeça,

—Já estas exausta Libby, todas o estamos.

—Olhe ao redor de ti carinho—, sugeriu Libby. —Pode sentir a energia, sinto-me revigorada, não exausta.

Jonas saiu do círculo sacudindo a cabeça, “revigorado” não é a palavra que usaria. Aterrorizado. Sobressaltado.

Ainda não sabia do que se tratava... e a essa altura duvidava  que queria saber.

De pé, fora no frio ar da noite, colocou cautelosamente a mão na culatra da arma, não é que servisse de algo se a casa repentinamente cobrava vida e o jogava no oceano. Sempre, sempre pensou nela como em um lar. Tinha escalado a árvore uma dúzia de vezes, essa mesmo que tinha arremessado a um intruso ao oceano. Balançou-se em seus ramos  e saltado ao balcão, quando sua mãe tinha tanto dor e ele não podia evitar seus prantos e gemidos, quando as coisas estavam particularmente más, introduzia-se lentamente através da mesma janela da cozinha e se refugiava dentro escutando às Drake rir  e orava silenciosamente por ser parte disso algum dia.

Tinha desejado uma família e agora tinha uma... por estranha que esta fosse e teria que encontrar a maneira de as manter a salvo.  Ao princípio, quando viu a Hannah empacotando uma bolsa pensou que era algo bom, que a afastaria das outras e diminuiria o risco de que alguém ser machucado por acidente. Mas depois de ver o que a casa podia fazer tinha trocado de opinião, enquanto se mantivesse dentro ninguém poderia tocá-la.

A névoa era escura, pegajosa, cinza e úmida, rodeando a casa e os terrenos, disseminando-se pela estrada, reduzindo os sons e apagando os sinais. Ainda assim Jonas sabia que não estava sozinho, assobiou brandamente, curto... uma... duas notas... que atravessaram a noite. Não se surpreendeu absolutamente quando retornou um  assobio de resposta.  Baixou a costa até que viu o Jackson.

—Um espetáculo infernal —. O saudou Jackson.

—Viu-o? Fez-me pensar que alucinava.

Jonas elevou a sobrancelha novamente e sacudiu a cabeça.

—Faz que me pergunte no que me coloquei.

A sobrancelha do Jackson  voltou a elevar-se ligeiramente.

—Meteu-te nisto faz muito tempo.

—Certo, é algo desagradável observar à casa tragar-se a um homem e cuspi-lo depois.

—Estou de acordo contigo nisso.

Jackson observou através dos manchas de névoa sobre as paredes, onde os rastros queimados de mãos e pés seguiam na madeira.

—Supõe que podemos tomar isto como evidência? Poderíamos cortá-lo em seções.

Jonas soprou.

—Poderia tentar e se acertar com a casa, mas o pessoal não trataria de tomar qualquer coisa  se por acaso isso se transforma em uma arma.

—Tem inimigos no laboratório criminal?

Jonas lhe sorriu.

—Jackson, é um grande filho de uma cadela.

—Sim... bem, tento-o—. Olhou para o Jonas. —Hannah está bem?

—Estará, assusta-se e preocupa-se com suas irmãs, Jackson, esteve no hospital quando a esposa fez seu intento com a Hannah, sentiu algo? Poderia dizer se estava sob alguma classe de compulsão.

—Está-me perguntando se Prakenskii pôde ter dirigido o ataque?

—Ele me agrada, não sei porque, é um assassino,  posso vê-lo em seus olhos, mas ele me agrada e isso não tem sentido, tenho problemas quando as coisas não tem sentido.

Jackson lhe lançou outro olhar, uma que Jonas preferiu não interpretar.

A luz começava a raiar através do céu, trocando a escuridão da noite a uma cor cinza defumada. A névoa seguiu deslizando-se em forma de comprimentos dedos ossudos e brumosos, que cruzavam sobre o oceano e a terra, movendo-se para está. Os homens se aproximaram de um lado da casa cautelosamente, estudando a terra circundante antes de dar cada passo. Não havia uma só greta em parte alguma, nem perto nem na casa mesma. Os balcões pareciam intactos e completamente estáveis. Não se via nenhuma gota de sangue, de fato a área inteira parecia antiga, à exceção da mão enegrecida e rastros de botas queimadas em um lado da casa.

—Tem uma câmara?— Perguntou Jackson. —Poderíamos tomar umas fotografias e possivelmente obter um rastro ou dois se tivermos sorte.

Jonas sacudiu a cabeça.

—Provavelmente teríamos a um montão de fantasmas e isso, simplesmente me voltaria louco.

Jackson lhe lançou um ligeiro sorriso.

—Está a salvo, debilitaram-se já.

As marcas enegrecidas se foram atenuando, começando a diminuir  enquanto o céu se iluminava, perdendo gradualmente a cor até que finalmente desapareceram por completo.

—Aí se vai ultima de nossas evidências. Não há nem sequer casquilhos vazios, armas, corpos, sangue e rastros, tudo foi absorvido. O que significa isto Jackson?

O aludido se encolheu e procurou dentro da jaqueta até tirar um par de cigarros.

—É uma confusão do inferno Jonas.

Elevou a vista para a casa, seu olhar percorreu cada janela antes de dobrar a cabeça até o fósforo resguardado entre suas mãos.

Um débil brilho provinha do interior da casa e Jonas soube que as irmãs Drake sustentavam outra sessão de cura para a Hannah. Entre o cirurgião plástico e Libby, o corpo físico da Hannah seria mais delicioso. Jonas não estava seguro sobre seu estado emocional.

—Não foi Prakenskii, estou seguro disso, mas o que tem que o Sergei Nikitin?Poderia saber Prakenskii se seu chefe tiver as mesmas habilidades?. Pensamos que as Drake eram únicas, então veio Prakenskii por que não outro mais? Nikitin é um guia de ruas ardiloso, rápido e violento, mas bastante preparado para cobrir seus rastros de modo que seja aceito, e isso é algo condenadamente difícil de fazer. Nikitin poderia ter a capacidade psíquica.

Jonas levantou a mão para  tomar o cigarro.

—Diria-nos Prakenskii se Nikitin o tivesse feito?

Quando Jackson o passou, inalou uma lenta e satisfatória imersão. Poucas vezes fumava, mas de vez em quando, como agora, quando seu mundo se sacudia, sua mulher quase era assassinada diante de seus olhos e tinha observado a uma casa tragar a um homem e cuspi-lo...  pensou que uma chupada ou duas era apropriada.

—Quem sabe? Prakenskii tende a guardar tudo no peito, vive nas sombras e homens como esses não confiam em ninguém —, Jackson tomou novamente o cigarro.

Jonas se absteve de comentar que Jackson tendia a ser da mesma maneira. Em vez disso andou até o bordo do abismo e olhou as escolhos cheire. Não se surpreendeu ao não encontrar corpos, não tinha esperado encontrar algum, mas devia olhar.

Deu a volta para o Jackson.

—Alguém perdeu a quatro homens esta noite, não há corpos e não vão acreditar no que retornou O que é que dirá a seu chefe? A casa cobrou vida e comeu a seus amigos? Terão que jogar uma olhada e talvez dessa maneira deixem rastros. Esperemos escutar o que procuramos, se alguém perguntar sobre desaparecimentos ou feitos estranhos, possivelmente terremotos ou algo que eles poderiam pensar como uma explicação razoável.

Jackson exalou uma coluna de fumaça e assentiu.

—Quem odiaria a Hannah tanto? Alguém fez disto algo pessoal.

—Venturi esteve aí lhe levando flores e o reverendo está no povo com sua banda de guarda costas,  vejamos se podiam servir para isto, possivelmente poderia lhes fazer uma visita agradável e rápida e ver se estiverem em suas camas.

—Não há problema.

Jackson tomou outra grande imersão do charuto quando este flamejou ao vermelho vivo em sua mão e se desintegrou em cinzas.  O deixou cair, sacudindo sua mão pela queimadura e amaldiçoou, olhando airadamente ao fogo.

—Não te meta no que não lhe importa, !— gritou sem fôlego.

Imediatamente o vento se elevou com um chiado ultrajado e selvagem, que puxou sua jaqueta expondo o pacote de cigarros, apanhando-os com uma estalo veloz antes de que Jackson pudesse segurar o maço de cigarro.

—Ladra de carteiras, — gritou. —Para trás Elle —, conseguiu sujeitar com as gemas dos dedos o pacote, fez malabarismos por um momento lutando para mantê-lo, e logo o vento o golpeou enviando-o longe, por volta de fora e sobre o mar.

—Isso é roubo, — gritou — e posso fazer que lhe prendam por isso.

A caixa estalou em chamas e as cinzas caíram sobre a água.

A janela se deslizou abrindo-se e Elle tirou a cabeça, o comprido cabelo vermelho caindo como uma cascata de seda.

—Sinto-o tanto, Jackson. Fumar sempre começa minha asma e reagi sem  pensar.

—Arrumado que o fez, estou fora e você dentro com a janela fechada—, olhou-a duramente. —Asma meu rabo...

—Sou sensível. E Jonas, a Hannah gostaria de falar contigo.

Elle sorriu docemente e voltou a desaparecer fechando a janela.

—OH Diabos— Jonas jurou —Hannah deve ter olhos na parte traseira da cabeça.

Jackson continuou olhando à janela por onde Elle tinha desaparecido.

—O vento fala com ela, Jonas, e tudo, vozes, aromas, informação de todas as classes é transportada pelo vento. Não há muito que possa escapar a essa mulher, se isso for o que estas pensando.

—Que há com o Elle? Hannah me disse que tinha todos os talentos.

—Elle vai ter umas palavras comigo cedo ou tarde, ela prefere tarde mas estou perdendo a paciência.

Jackson era paciente, a diferença do Jonas, essa era uma das coisas que o faziam tão bom em seu antigo emprego como um ranger do exército.  Jackson tomava isto a mau, o que era estranho porque a metade do tempo Jonas não acreditava que tivesse sido emocional. Era leal a algumas pessoas aos que chamava amigos, mas nada o tinha sacudido como a casa. Ele tinha visto o que a casa tinha feito mas somente encolheu de ombros e passou. Jonas entretanto ia ter alguns pesadelos.

Algo... algum instinto lhe fez girar a cabeça... e viu a Hannah deslizar-se fora da casa.  Todo em seu interior se deteve enquanto a observava dirigir-se para ele. Movia-se com o vento, com graça e elegância, seu famoso cabelo... espirais de platina, prata e ouro caíam até passar além da cintura e envolviam seus magros ombros flutuando como uma capa ao redor do corpo. No amanhecer  parecia um sonho movendo-se pela névoa.

—É tão fodidamente formosa —, sussurrou em voz alta, apertando as mãos sobre o coração. Não era o que outros viam, não para ele, nunca tinha sido assim. Roubava-lhe o fôlego com um sorriso, a maneira em que seus olhos se acendiam com seu temperamento... amava essas chispadas de temperamento. Achava-a tão quente como o inferno.

—Hannah—, Jackson a saudou. —Parece como se sentisse um pouco melhor.

—Estou-o, Jackson e obrigado por vir nos dar uma olhada, Elle disse que te estava aqui fora.

—Ela me advertiu  de não entrar na propriedade —, disse-lhe.

Jonas franziu o cenho. Sabia que Jackson e Elle tinham uma estranha relação e podiam comunicar-se, mas raramente o admitiam... E Jackson não havia dito uma palavra sobre Elle, adverti-lo.

—Na realidade não há muito que escrever em meu relatório, Jonas. Não vou dizer que a casa engoliu a um homem, se isso for o que estas pensando, não preciso fazer mais testes psicológicos —, disse Jackson decisivamente. Tocou as costas da Hannah em um estranho gesto de afeto.

 —Se necessitar algo, só chama.

—O farei  — lhe assegurou Hannah. 

Jonas a conhecia tão bem.  Sabia o que lhe custava olhar diretamente ao Jackson, deixá-lo ver as cicatrizes da navalhada em sua cara. Estavam menos severas, menos vermelhas, já começavam a sarar com a ajuda contínua de suas irmãs, mas lhe era difícil deixar a qualquer ver suas feridas. Estava orgulhoso de seu valor, a maneira em que estava de pé,  alta e firme. Tão magra e de tão frágil aparência. Seus lábios tremiam mas seu olhar nunca duvidou.

—Vejo-lhes dentro de um momento—, disse Jackson. —Preciso dormir um pouco.

—Esteve aqui toda a noite?— perguntou Hannah.

—Não, não os vi chegar nem vi as luzes dos carros, acredito que levavam uma equipe muita sofisticada.  Usavam auriculares para manter a pista de cada um e o que escapou pediu que o recolhessem em algum lugar próximo. Não estive em posição de me fazer uma idéia sobre o veículo.

Levantou uma mão e deu a volta para afastar-se. A névoa o engoliu até que já não se ouvia o som de seus passos.

Jonas se deteve um momento, só para olhar a Hannah, porque isto lhe causava grande prazer.

—É muito valente para sair. Os fotógrafos estão ainda por toda parte, embora duvide que possam penetrar a névoa.

Lhe sorriu e se aproximou um passo, —Vim por ti.

—Por mim? Está bem?

—Sim, mas você não, posso sentir que está… —Se deteve para encontrar a palavra correta, —angustiado — soltou finalmente.

O nó no estômago começou seu retorcer familiar.

—Estou preocupado por ti, Hannah.  Sabia que isto não tinha terminado. Não é uma surpresa para nenhum de nós, mas ao menos ajuda estar zangado.

—Irritação não é quão mesmo angustia Jonas, possivelmente esteja zangado em algum nível por minha causa, mas isto é diferente, nada por minha causa.

Franziu o cenho e volteou a cara ao vento, deixo-o deslizar-se sobre sua pele e através de seus cabelos enquanto esperava a que lhe dissesse a verdade.

Jonas olhou para baixo a suas mãos. Não havia utilidade alguma em tratar de esconder algo a Hannah, nunca mais. Tinha construído duros escudos com o passar dos anos, mas uma noite juntos e ela parecia ter derrubado alguns buracos nos muros.

—De acordo, sim, zanga-me. Não posso imaginar quem esta atrás de você sem saber quem são. E…

Sacudiu a cabeça, relutante a admitir a verdade até para se mesmo.

Hannah tomo suas mãos e as levou para seu coração,

—E? — perguntou.

O assentiu sentindo-se tolo, sentindo-se como um traidor.

—Não posso deixar de pensar que esses homens tinham famílias, pais ou parentes ao menos, alguém que se preocupava com eles. Essas pessoas passarão o resto de sua vida perguntando-se que aconteceu com aqueles que amavam.

Soltou uma de suas mãos e a deslizou através do cabelo, incapaz de encontrar-se com a azul intensidade de seus olhos. Preocupava-se com as famílias dos homens que tinham tentado matá-la. O que dizia isso dele?

O silêncio se alargou e estirou pelo que pareceu uma eternidade. Finalmente olhou para baixo a seu rosto imutável, encontrando-se com seu olhar e sujeitando-se dela. Capturado pelo amor que viu.

—É um bom homem Jonas, não é uma debilidade ter compaixão pelos outros.

Não pôde aproximá-la mas, simplesmente se inclinou e sem beijá-la,  com os lábios colocados sobre os dela... brandamente... meigamente...

—E saiu aqui com este frio só para me dizer isso?

—É exatamente por isso que saí.

 

—A névoa natural não é tão densa e mantê-la ao redor da casa é perigoso e exaustivo, mas odeio a idéia de entrar. Sinto-me um pouco presa e claustrofóbica —disse Hannah.

Depois de ver o que a casa podia fazer, Jonas a queria dentro, segura, onde ninguém pudesse chegar até ela. Acariciou seu rosto com um dedo, percorrendo a marca da faca e descendo pelo pescoço, onde os cortes eram mais profundos. O atacante tinha começado com navalhadas ligeiras, atravessando seu corpo, daqui para lá. Ele tinha murmurado que o sentia. Talvez não tinha querido destruir seu aspecto. Talvez tinha sido algo inteiramente diferente.

Jonas deslizou sua palma por seu magro braço, sentindo as feridas defensivas, recordando como levantou suas mãos, um escasso amparo contra o cruel assalto. Seus dedos se enlaçaram com os dela e a atraiu para frente.

—A névoa é naturalmente densa ao longo da praia sob sua casa. Podemos caminhar por ali. Você e suas irmãs podem lhes encarregar facilmente de qualquer câmara com teleobjetiva, verdade?

Um sorriso atravessou a cara dela.

—Acredito que isso será bastante fácil.

Foram escada abaixo para a praia em silêncio. Hannah tremia um pouco. Vestia bermudas e jaqueta vaqueira, mas obviamente não a protegiam do frio do oceano. Quando alcançaram a areia, tirou os sapatos de um chute e esperou enquanto ele tirava os seus.

Jonas tirou sua jaqueta, mais grosa.

—Toma isto, protegerá você do frio.

Hannah negou com a cabeça.

—Estou acostumada ao clima. Estou todo o tempo sentada fora, recorda? Não quero que passe frio.

—É minha oportunidade de lhe mostrar quão viril sou depois de parecer um brando.

Deixou-lhe envolvê-la no calor de sua jaqueta.

—Brando? Quando pareceu um brando?

—Sabe como me revolvem o estômago os filmes de terror. A casa me produziu a mesma sensação horripilante e suas irmãs se deram conta. Seu viril homem parecia um bebê. Foi humilhante. Consegui encontrar a maneira de me desforrar.

Ela riu brandamente, o som flutuava sobre as intermináveis cheire. As ondas apareciam na água como se os animais marinhos respondessem. Enlaçou sua mão com o braço do ele, seus olhos azuis brilhantes de diversão. Para Jonas, Hannah criava um mundo mágico a seu redor, e sempre o incluía. Havia tanta beleza no mundo, e quando estava com ela, podia vê-la claramente.

—Qualquer homem a quem têm disparado tantas vezes como a ti, não deveria preocupar-se porque alguém o chame brando —apontou ela.

—Que me disparem quer dizer que sou lento, não valente.

—É valente. Tampouco eu gosto dos filmes de terror. Provocam-me pesadelos. Joley é inclusive pior. Se vir um filme de medo, tem que dormir com as luzes acesas e a maioria das vezes não quer dormir sozinha.

—Então por que os vêem?

—Joley gosta de assustar-se, e não pode os ver sozinha.

—Não sei como pode fazer que soe perfeitamente lógico.

Sua risada trouxe nervuras de prata brilhando intermitentemente na superfície da água. Espuma branca contornava as ondas ao romper. A espuma saltava pelas rochas golpeando os sulcos formados durante séculos anteriores pelo mar. Jonas inspirou profundamente e se sentiu em paz.

—Sabe o que, Hannah? Recupero meu equilíbrio quando estou contigo. Minha mente pode relaxar-se e desfrutar do mundo a meu ao redor. Dava-me conta disso quando era um menino e as coisas foram tão mal com minha mãe. Ouvia seu pranto, nunca diante de mim, de noite, quando sua porta estava fechada. Não podia fazer nada, nada de nada. Deus, me fazia sentir tão fodidamente indefeso, e vinha a sua casa. Percorria os cômodos até que te encontrava. Não tinha que falar comigo, bastava com que estivesse ali, minha mente se acalmava e a fúria que ardia em meu interior desaparecia.

Deslizou sua mão na dele, entrelaçando seus dedos.

—Surpreende-me que não fosse Libby, mas agradeço por ter sido eu.

—Definitivamente foi você. Nesses dias, não pensava no motivo, estava muito confuso. Não queria que Mamãe morresse, queria-a comigo todo o tempo, mas sofria tanta dor que sabia que estava sendo egoísta e que deveria poder encontrar a força para lhe dizer que estaria bem se ela se ia.

—Jonas —Hannah tocou sua cara com dedos suaves—, ela queria estar contigo. Sei que queria. Fui ali muitas vezes com minha mãe e sua vontade era clara.

Levou as pontas de seus dedos até sua boca e logo as beijou, antes de deixá-la ir.

—Por isso é que ainda quando me tira do eixo, ainda posso sentir esta… esta… Paz era a única palavra em que podia pensar, olhava-o com estrelas em seus olhos e tudo o que queria fazer era beijá-la.

—Case comigo, Hannah.

Piscou, pálida pela impressão.

—Jonas...

—Não, Hannah, não pense. Simplesmente diga-o. Me diga que quer ser minha esposa. Que quer ter filhos comigo. Que quer que volte para casa contigo cada noite. Diga-me isso para que não tenha que seguir pensando que se disser ou faço algo incorreto, vou perder te —empurrou sua mão através de seu cabelo, alvoroçando-o e em completo desastre—. Demônios. Sinto-me como se estivesse pisando em ovos contigo.

—Você? Não o tinha notado.

—Quer tudo isso? Quer te deitar comigo pelas noites? Despertar comigo pela manhã? Voltar-me louco verte tão sexy e sonolenta com seu chá? Passa sua vida comigo, Hannah. Envelhece comigo. Poderemos estar sentados no alpendre em nossas cadeiras de balanço e te juro, carinho, que ao final de tudo, saberá que ninguém te pôde ter querido mais ou melhor. Posso lhe dar isso juro que posso, carinho. Me ame, Hannah.

Jonas tinha parecido tão vulnerável ou esmigalhado. Fazia que ela quisesse envolver-se em seus braços, perder-se em seus olhos, aproximar-se do refúgio de seu corpo. Inspirou profundamente e expulsou o ar.

—Amo-te com cada célula de meu corpo, Jonas. Com meu coração e minha alma. Quero todas essas coisas contigo, faço-o, mas não agora mesmo. Não me sinto bem agora. Apenas me mantenho firme em minha prudência e tenho que saber que vou ser capaz de me entregar a ti completamente —emoldurou sua cara com as mãos—. Necessito que compreenda isso e tenha paciência comigo. Nunca haverá outro homem para mim. Sempre foi você, mas tenho que averiguar por que trabalhei durante anos em um trabalho que odiava. Tenho que saber por que não posso ver o que todos outros vêem em mim. Não me sinto formosa. Quando me olho no espelho, nunca vejo beleza. Que isto ocorra a alguém como eu é devastador, Jonas. Não quero que pense que é vaidade, não o é. Não posso me ver e preciso poder fazê-lo. Preciso averiguar o que sou e o que quero. Tenho que estar cômoda em minha pele antes de que possa começar uma relação como a que quer.

Conteve o fôlego em seus pulmões. Não podia olhá-la, não quando lhe estava rompendo o coração. Apertou a mandíbula e se engoliu o repentino nó de sua garganta.

—Não o faça —Hannah pressionou as pontas de seus dedos sobre sua boca—. Não entende o que digo. Sim, quero me casar contigo. Absolutamente. Só que… agora não.

Jonas retrocedeu um par de passos para evitar arrastá-la contra ele. Hannah era tão esquiva, como água escapulindo-se por seus dedos. Tinha-a amado durante tanto tempo, teve-a por uma noite, e agora se ia outra vez.

—Quero entender, Hannah, mas me parece que está complicando-o quando é realmente simples. Amo-te. Quero-te. Se sentir o mesmo, deveríamos estar juntos.

—Não poderia fazer o amor contigo. Sei que não poderia. Quero, Jonas, mas…

—Não vai estar dolorida, Hannah, e isso não é importante.

Ela suspirou, desejando desesperadamente dizer o apropriado ainda a gastos de seu orgulho.

—Sabia que tinha problemas com o aspecto de meu corpo antes de que isto ocorresse —envergonhada, olhou para o oceano, observando a ascensão das ondas. como sempre, o movimento, o som e a beleza disso a apaziguaram e a animaram—. Ainda não posso me olhar em um espelho, Jonas, e muito menos pensar em ti me olhando.

—Eu te olhava, Hannah, antes e depois. É a mulher mais bela e sexy que vi. Vale, as feridas são recentes, mas estão já curando-se e se desvanecerão. Não dizem quem ou o que é. Não para mim, nunca para  mim.

—Fazem-no para mim. Preciso me sentir formosa e sexy, não feia e repugnante.

Jonas a olhou carrancudo.

—Hannah, Meu deus, realmente não se sente assim a respeito de ti mesma? As cicatrizes vão desvanecer-se. O cirurgião plástico era um dos melhores no país e suas irmãs…

Deu um passo mais perto dele. Ondas de angústia emanavam dele, não angustia por si mesmo, mas sim por ela. Não lástima, notou com alívio, a não ser genuína preocupação por ela.

—Conheço minha cara e o corpo se recuperará com o tempo, mas agora mesmo não te quero me olhando.

—Não tem que estar perfeita para mim, Hannah —sua voz era baixa e furiosa—. Esse fodido Simpson te fez isto. Fez-te pensar que tinha defeitos e que não foi o bastante boa. Ouvi-lhe te gritar que perdesse peso e que seus seios eram muitos grandes. Que se foda. E que se foda o maldito trabalho. É formosa. Demônios, carinho, detém o tráfego. Sempre o fez.

—Qualquer que seja o problema, Jonas, é algo do que tenho que me ocupar.

Abriu sua boca para seguir discutindo, persuadir a de que tinha razão e que deveria estar com ele. Fechou-a bruscamente, tragando-a frase. Amava-a e precisava compreendê-la. Não era o melhor expressando-se, mas tinha que pensar em uma forma de lhe dizer as palavras corretas.

Guardou silêncio por um momento, olhando fixamente sua cara, sua pele era tão perfeita que pedia ser acariciada, ainda com as cicatrizes que a atravessavam. O que queria lhe dizer exatamente? Sempre tinha querido que se defendesse por si mesmo, que escolhesse o que queria fazer, com quem queria estar, mas o que estava dizendo em realidade? Queria que sua eleição fosse ele, que ficasse em casa e tivesse a seus filhos e fora seu melhor amiga e seu amante.

Jonas suspirou. Orgulhava-se dela por ser o suficientemente valente para olhar-se e querer encontrar sua própria força. E a amava com toda sua alma, de modo que, se Hannah queria e necessitava tempo, o daria. Além disso, sua admissão tinha um montão de interessantes lacunas por investigar.

Deslizou um dedo desde sua sobrancelha até a comissura de sua boca.

—O que está dizendo é que me ama, que não há outro homem, mas que não crê que possa fazer amor comigo agora mesmo porque se sente feia. Compreendi bem?

—Isso é parte do problema —seu estômago começou a reacomodar-se. Não estava furioso com ela, ou ferido, lutava por entender e isso era tudo o que podia pedir—. É difícil sentir desejo quando não se sente desejável, Jonas.

A gema seu dedo se deslizou por sua boca, percorrendo seu carnudo lábio inferior antes de deslizar-se sobre a curva de seu queixo para moldar seu pescoço. Seus dedos se curvaram, a palma rodeando sua garganta.

—Assim é que agora mesmo não me deseja fisicamente, mas crê que poderia acontecer mais tarde, quando se sinta melhor contigo mesma?

Seu toque foi elétrico, enviando pequenas correntes através de suas veias. Não se sentia desejável, mas Jonas, aproximando-se e tocando-a tão possessivamente, ainda podia provocar o desejo. Que loucura era isso? Tinha pensado que seria impossível despir-se e lhe mostrar as cicatrizes de novo, mas agora, com sua palma contra ela e as gemas de seus dedos acariciando tentadoramente sua pele, seu corpo revivia.

—Só poderia te oferecer caos e comoção, comigo sofrendo uma crise nervosa a três por quatro, e merece algo melhor que isso, Jonas —ignorou o selvagem desejo que sua voz, suas mãos e a expressão de sua cara lhe provocavam.

Sujeitou um de seus cachos detrás de sua orelha, deslizando sua mão até a nuca para sujeitá-la.

—Se sofrer uma crise nervosa, posso estar ali contigo.

—Isso não é como quero que sejamos. Não quero que tenha que recolher os pedaços —agora sabia exatamente o que queria dizer—. Quero averiguar o que quero.

O olhar do Jonas se voltou escura e quente, baixando até seus lábios. Seu estômago saltou. O calor abrasador se propagou através de seu abdômen.

—Não me importa te ajudar a resolver o que quer, Hannah. Pode… falar… comigo de tudo o que queira.

A evidente insinuação em sua voz curvou os dedos de seus pés na areia. Sua palma rodeou sua nuca, suave e quente, sujeitando-a eficazmente diante dele. De repente ele estava perto. Soube que se moveu, aproximando-se. Não o tinha visto, mas repentinamente ele estava ali, seu corpo a uma só polegada do dela. Podia sentir o calor de seu corpo, os poderosos músculos das coxas e do peito, mas não eram tão comovedores como a mão que rodeava sua nuca. O sussurro de seu fôlego descendeu sobre ela, dentro dela. Sentia que respirassem juntos.

—Jonas —tratou de pôr advertência, censura em sua voz, mas era impossível, não quando seus olhos eram tão escuros e famintos. 

Não se incomodou em disfarçar-lhe ou envolver-lhe em algo bonito. Deixou-a ver a necessidade sombria nele, a pesada protuberância na frente de seu jeans, a carreira de seu pulso e seu sorriso travesso e sexy quando seu cálido olhar percorreu sua cara. Tocou com a língua seu lábio inferior e instantaneamente ele dirigiu ali sua atenção.

—Não vais seduzir me —elevou sua mão em advertência, indecisa entre o desejo de correr, rir ou lançar-se a seus braços.

—Não? Está segura disso? —seu polegar acariciou sua têmpora que pulsava fortemente.

—Distrai-me, Jonas. Não posso manter a névoa abaixo se estiver distraída e queria caminhar pela praia.

Havia desespero em sua voz. Não podia suportar, sentia-se desesperada. Se a beijava, não ia resistir. Derrubaria-se. Já lhe podia saborear em sua boca, de maneira selvagem e louca e masculina. Jonas poderia fazer que se desfizera em seus braços se sentisse formosa ou não e esse não era o ponto. Queria entregar-se completa, não só uma parte. Estava muito ferida, e agora tinha uma segunda oportunidade para fazer as coisas bem. Mais que qualquer outra coisa, queria que sua relação com o Jonas fosse bem.

Ele inclinou sua cabeça e acariciou com seus lábios brandamente os dela.

—Vou amar te, Hannah. Para sempre. Para sempre. O sexo é parte disso, assim pode esperar um pouco de sedução de vez em quando. Não tenho nenhuma dúvida de que posso te fazer sentir formosa. E posso fazer que me queira. E posso te fazer gritar meu nome e esquecer tudo menos o prazer. Posso não ser bom em um montão de coisas, mas posso te dar isso.

Ela cavou sua cara com a mão, seu polegar deslizando-se ao longo de sua mandíbula escurecida.

—Quero isso de ti. Simplesmente me dê um pouco de tempo.

Seus olhos procuraram os ela, evidentemente viram o que necessitava, e se inclinou para depositar um beijo suave como uma mariposa em seus lábios antes de soltá-la.

—Para o que seja que necessite, carinho, sou seu homem —começou a andar pela praia, com um pequeno e satisfeito sorriso em sua cara.

Hannah introduziu os dedos no bolso de atrás dele e caminhou a seu lado, o peso esmagador que parecia estar sempre presente em seu peito se aliviou. Era seu homem e, embora não fosse estúpida sabia que estava dizendo bastante mais que o que aparentava, Jonas estava disposto a esperar a que resolvesse sua vida e isso o significava tudo.

As gaivotas chiavam e a água rompia sobre a costa, estrelando-se contra rochas para orvalhar gotinhas brancas no ar. A água formava espuma e chispava, deixando diminutos ocos na areia ao retirá-las ondas. Passearam em amigável silêncio até que Hannah olhou atrás, para seus rastros na areia molhada.

—Tem pés grandes, Jonas.

Olhou-a, diretamente à cara.

—Tenho tudo grande.

Ela pôs os olhos em branco e riu, sem poder conter-se. Era bom rir.

—Já o comprovei, recorda?

—Sim. Assim é que estive pensando nesta situação.

—OH, Senhor, isso dá medo. Que situação?

—Nós. Você e eu. Estamos juntos, de acordo? Certo. Mas basicamente não podemos ter relações sexuais a menos que te agarre despreparada.

Tinha que deixar de dizer “sexo” ou inclusive pensar nisso. Ela detestava seu corpo. Assegurava que não queria que a olhasse, mas cada vez que seus olhos se deslizavam sobre ela com esse olhar faminto e possessivo, cada vez que dizia em voz baixa: Estou esfomeado e preparado para te comer para jantar, derretia-se. Se se derretia mais, seria um atoleiro a seus pés. Nunca tomaria a sério e ela realmente necessitava tempo para resolver as coisas.

—Não vai me agarrar despreparada, Jonas, assim é que não vá por aí. Queria… —se apartou, ruborizando-se.

—Tenhamos sexo. Façamos amor —suplicou ele, com um tom de diversão sua voz.

Olhou-o carrancuda, embora era impossível intimidar ao Jonas.

—Sim. Isso. Mas ao final, teria que me tirar a roupa e estaria coibida e me sentiria fatal e estaria frustrado e louco por mim. Assim é que é melhor simplesmente parar, não vá por aí.

Seu sorriso se alargou o suficiente para fazer que retivera o fôlego em seus pulmões. Não deveria ser tão atrativo ou tão sexy. E não deveria ter esse olhar em sua cara, a que dizia que era um predador a ponto de saltar ao ataque e engoli-la.

—Posso pensar a respeito de um bom número de formas de fazer amor sem te tirar toda a roupa. quanto mais penso nisso, mais erótico é, você com uma bonita saia larga e sem calcinhas. Ou calcinhas que possa te arrancar. Não, digamos que não leva nada e começo a deslizar minha mão sobre seu pequeno e sexy traseiro. Só porque parece o bastante boa para te comer.

Sua mão cavou o corpo dela através da malha de seu jeans, e fez um lento percurso como se procurasse o bordo de suas calcinhas. A cor subiu por sua cara e um calor úmido se derramou pelo interior dela.

—Sem calcinhas. Diria que leva tanga. Sim, carinho, isso é sexy, mas baixo esta suposta saia larga, não levaria nada exceto pele nua —sua mão se deslizou por seus quadris e subiu por sua cintura, sob a blusa. Seus dedos passaram roçando brandamente, com cuidado de não tocar onde pudesse machucá-la. Embalou seu peito, descansando o peso em sua palma—. E tampouco levaria posta esta insignificante coisa de encaixe que chama sutiã. Assim é que quando inclinar minha cabeça assim… —sua boca se fechou sobre seu peito através da camisa, sugando brandamente través do tecido, seus dentes atirando do mamilo, enviando um brilho de fogo crepitando através de seu corpo.

Seus olhos se voltaram opacos, frágeis, seu fôlego retido nos pulmões. Jonas tomava cuidado de ignorar suas próprias necessidades, apartando sua mente da dureza quase dolorosa entre suas pernas. Hannah era tudo o que contava para ele. Tinha que saber que era uma mulher bela, desejável e que a necessitava. O conhecimento seria bastante para os dois por agora. Retrocedeu, exalando ar quente sobre a mancha úmida, os dentes atrasando-se por um momento no mamilo antes de soltá-la.

—Assim é que quando inclinar minha cabeça assim, poderia apartar a blusa, essa pequena coisa camponesa de encaixes que leva posta me volta louco, tira-me de minhas casinhas.

Não sabia que sua blusa camponesa de encaixe o voltava louco. Sua boca e suas mãos sim a voltavam louca a ela. Permaneceu quieta, querendo mais de sua fantasia, na segurança de que estava roçando a linha de perigo com ele, mas querendo continuar um pouco mais ainda, antes de ter que retornar e enfrentar-se com a realidade. Ansiava-o e ele a fazia sentir-se viva. Podia notar os cortes em sua cara, garganta e corpo, mas Jonas conseguia fazê-la sentir como se sua cara -sua pele- fora perfeita quando a olhava.

—Adoro esse olhar em sua cara, sonhadora e sexy e um tanto travessa. Não tenho nem idéia de como pode parecer sedutora e inocente ao mesmo tempo.

—Desejaria poder espiar através de seus olhos —certamente o fazia sentir-se bela, embora não o pudesse ver por si mesmo.

 

Ele puxou sua mão e começaram a caminhar de novo, deixando seus rastros um junto ao outro na areia molhada, caminhando entre algas e algumas pequenas medusas para contornar a baía onde se formavam charcos com a maré. A maré estava baixa, assim contornaram as rochas e alcançaram a praia, observando as ondas colidir contra as covas incrustadas de ignorantes e rochas. As aves agitaram suas asas impacientemente, em espera de que sol ficasse livre da névoa, antes de lançar-se ao ar para tomar o café da manhã.

—Quando te recolher, Hannah, ponha essa saia larga e vaporosa que se move com cada passo que dá. Essa azul claro com estampados em azul mais escuro e que vai com sua blusa de encaixes.

Não podia evitar que a agradasse o que pudesse descrever um de seus conjuntos favoritos.

—Eu gostaria que pudesse te arriscar a sair comigo. Sinto-me como se estivesse encerrada e alguém tivesse atirado a chave. E agora que sei que o perigo ainda está aí, vou ficar em meu quarto para sempre.

—Não pode lhes deixar fazer de ti uma prisioneira. Só temos que ser um pouco imaginativos. Poderíamos ir a minha casa amanhã pela tarde, ou talvez ao farol. Inez tem as chaves.

—Como é que Inez tem as chaves do farol? Dirige a loja de comestíveis.

—Inez tem as chaves do povo inteiro. Como não saber que as tem? Poderíamos ter um pic-nic privado ali, no farol. Ninguém saberia. É facilmente defensável. E não tem mais que preparar suas bolsas e escapar.

Estava um pouco envergonhava disso. É obvio que a casa os tinha protegido, ela a tinha ouvido durante anos crescendo, mas nunca o tinha visto realmente. Ela ainda tinha algumas dúvida, mas não ia admitir o em voz alta.

—Quer me levar ao farol, para um picnic com gente tentando me matar?

—É isso ou te sentar em seu quarto, Hannah, e um ou dois dias mais e vais pendurar-se pela parede lateral da casa, tratando de escapar. Podemos conseguir escapulir. Suas irmãs podem distrair a todos e nós passaríamos inadvertidos na escuridão.

Considerou sua proposta. Já enlouquecia por causa do confinamento, mas com os repórteres, e agora com o conhecimento de que alguém que queria matá-la estava nos arredores, enviando a assassinos, deixar o amparo da casa parecia aterrorizante. Não queria ir a nenhuma parte sozinha.

Jonas a apanhou pela cintura e a levantou sobre um largo canal de água fria que sulcava a areia por volta do mar. Apoiou as mãos sobre seus ombros, sentindo o feixe de músculos. Pareceu elevá-la sem nenhum esforço. Era um pouco como voar, embora estava ancorada e segura. Colocou-a sobre seus pés e seguiu caminhando afastando-se da casa.

—O banco de névoa não vai se manter para sempre, Jonas —lhe recordou.

—Não, mas você e suas irmãs podem manipular a alguns fotógrafos.

Endireitou seus ombros. Era certo. por que tinha estado tão assustada? Jonas estava tão seguro dela. Acreditava nela e era difícil não acreditar em si mesmo quando tinha uma convicção tão absoluta.

—Assim se me ponho minha saia azul e minha blusa camponesa, e vamos ao farol, o que faríamos exatamente?

—Levaria música assim é que poderíamos dançar.

Sabia que era um bailarino maravilhoso. Tinha sido uma das coisas que lhe separavam dele na escola. Tinha dançado com as Drake, aprendendo cada dança do baile de salão ao molho, e isso lhe tinha feito muito popular em cada baile escolar. Gostava de dançar e Jonas sabia. Inclusive quando era uma menina, tinha flutuado ao redor da casa, fingindo ser uma bailarina em um concurso de bailes de salão. Jonas incluso tinha dançado o Linde e o Jitterbug com ela.

—Esse picnic começa a soar tentador.

—Um refresco italiano de morango —subornou ele, conhecendo suas debilidades—. E pão francês.

Duas de suas coisas favoritas.

O farol estaria deserto e ao Jonas seria bastante fácil conseguir permissão para ir ali. Se realmente pudessem conseguir escapulir-se, seria um grande alívio ter algumas horas nas que não sentir-se apanhada. E gostava de estar com o Jonas. Era realmente tão singelo. Necessitava tempo para organizar-se, mas adorava cada instante em sua companhia.

—Crê realmente que poderíamos conseguir escapar ?

Havia esperança em sua voz. Jonas lhe dirigiu outro sorriso travesso.

—Amanhã de noite te raptarei —prometeu.

—Sarah terá um ataque —advertiu Hannah.

—Não, não o fará. Sabe que não pode permanecer enjaulada na casa e não pode sair em público, assim que isto é o melhor. Ninguém pensará em te buscar ali. Estará a salvo, Sarah o passará, e conseguirei averiguar de uma vez por todas se levar tanga ou nada absolutamente

—Está terrivelmente obcecado com minha lingerie —brincou ela.

—Ou pela falta dela —admitiu ele—. Penso nisso mais do que deveria.

Advertiu a honestidade em sua voz. Como podia fazer essa simples admissão que fazia que se esquentasse por toda parte?

—Me deixe te assegurar que quase sempre uso lingerie —teve que apertar os dentes para evitar rir de sua expressão.

—Quase sempre? Isso não está bem, Hannah. Agora não vou ter nunca um momento de paz a seu redor.

Pareceu satisfeita.

—Sei.

Jonas riu, um som intenso e verdadeiro, pleno de diversão e que fazia que seu coração remontasse. Deu uns passos de baile na areia, estendendo os braços, esquecendo completamente por um momento que estava desfigurada e que alguém a odiava o suficiente para matá-la. Ela olhou para o céu.

—Provavelmente poderíamos construir um castelo de areia antes de que a névoa se vá.

—Não temos ferramentas.

—Ferramentas? —ela deu um bufido desdenhoso—. Aficionado.

—Acaba de me chamar afeiçoado.

—Fiz-o. Constrói seu castelo de areia por aí. Tem doze minutos. Isso é tudo e teremos que ir.

Ele já estava ficando de cócoras, cavando em busca de areia mais úmida. Ela estava de joelhos fazendo o mesmo. Minutos mais tarde, quando Jonas a olhou, estava fazendo armadilha, dirigindo pequenas rajadas de vento para construir as paredes do castelo. Abriu sua boca para reprovar-lhe mas parecia tão concentrada, como uma menina jogando, despreocupada e feliz, que não queria interrompê-la nem sequer para brincar.

Hannah afundou suas mãos na areia, guiando distraidamente pequenas rajadas de vento para esculpir o castelo. A areia se sentia bem, terrosa e granulada, o castelo tomava forma rapidamente. Construiu uma ponte sobre o fosso defensivo enviando uma rajada de vento a que esculpisse um túnel através da areia. Explorou pelo outro lado, salpicando ao Jonas o bastante forte para lhe picar.

Cobriu-se a boca, amortecendo a risada quando ele girou tão rápido que perdeu o equilíbrio e caiu na areia úmida que tinha estado amontoando cuidadosamente.

—Pobrezinho. Seu castelo de areia parece um pouco anêmico —ela se inclinou para colocar seu dedo na ladeira onde a areia se derrubava—. Tem que apertá-la forte, Jonas.

Apanhou seus braços e puxou fortemente até que perdeu o equilíbrio e caiu sobre ele. Tomou suas mãos molhadas, cheias de areia e as secou no tecido de seu jeans, deixando-os cheios de manchas.

—Você o mereces  por fazer armadilha.

—Não fiz armadilha.

—Usou o vento.

—Não posso evitá-lo se eu gosto e você não —permaneceu tombada desagradavelmente sobre ele, levantando-se olhá-lo aos olhos.

—É um homem bonito, Jonas Harrington. De verdade o é.

Acariciou o cabelo que caía por sua frente.

—Me alegro de que pense isso, Senhorita Drake.

—Se te beijar depois de tudo, pensará que perdi o julgamento?

—Beijar não quer dizer que vamos ter relações sexuais, Hannah.

—Sei, mas me deste… —se interrompeu. Esperança. A palavra brilhou tenuemente em sua mente e a enviou para a dele. Risada. inclinou-se para depositar um beijo em seu queixo. Minha vida anterior. Beijou a comissura de sua boca, acariciando com seus lábios os dele. Sentia-me destroçada, Jonas, e me faz me sentir inteira.

Pôs seus lábios sobre os dele, deslizando timidamente sua língua ao longo de sua boca, não lhe importava que visse sua cara no amanhecer. Precisava lhe beijar, encontrar a maneira de lhe demonstrar que o amava. Porque o fazia. Profundamente. Com todo seu coração. Inclusive com sua alma. Derramou seu amor em seu beijo, abrindo sua mente um pouco, querendo que sentisse o que significava para ela. Querendo lhe fazer saber o que o fazia. Podia confrontar seu futuro. E podia ser forte ainda quando se sentisse como se queria esconder-se em um buraco.

—Você me deu isso —murmurou ela contra sua boca—. Obrigado.

Enlaçou-a pela nuca, mantendo-a junto a ele.

—Amo-te, Hannah. O que seja que necessite, estarei aí por ti.

Sorriu olhando-o aos olhos.

—Assim é que essa atitude mandona era só uma atuação?

—É obvio, para te impressionar. E deu resultado —levantou a cabeça para cobrir as escassas polegadas que os separavam e capturou seu lábio inferior com os dentes, atirando brandamente—. me Beije outra vez.

Não a esperou, tomando a iniciativa, deslizando sua boca sobre a dela, com beijos suaves, delicados, como asas de mariposa, repetidas vezes, acariciando os lábios dela com os seus, lambendo as comissuras de sua boca com a língua, degustando seu sabor, devagar e languidamente, tomando-se seu tempo, levando-a com ele em uma viagem de textura e sabor. Um calor lhe fundam que começou como uma lenta chama aumentou seu calor grau a grau deliberadamente.

Os dedos dele enredados em seu cabelo, sujeitavam-na em seu lugar enquanto tomava, deixando que a paixão se deslizasse lentamente mais à frente do controle para o desejo desatado. Quando não se apartou, ele pressionou mais, sua boca cálida e exigente, afundando o beijo, derrubando cada uma de suas defesas. Tinha esperado já bastante para reclamá-la. Ela era muito jovem, logo ele se foi, depois tinha sido muito duro e selvagem, e mais tarde ele tinha feito muitos inimigos. Mas tinha sonhado com ela, seu corpo doía, faminto por sentir seu sabor na língua, a percepção de sua pele sedosa sob suas mãos, seu corpo suave e flexível, pertenciam a ele.

Cheirava como o paraíso, e se sentia inclusive melhor, com os seios pressionando contra seu peito e sua ereção, grosa e dura e plena de sua necessidade dela, empurrava contra seu suave abdômen. A necessidade era escura e quente, precipitava-se através dele como uma onda gigantesca. Sua boca era veludo suave, tão quente e escuro como sua necessidade. Borde-os da razão começavam a empanar-se. Deixou que uma de suas mãos descesse de sua cara até seu peito e sua boca a seguiu. Ela se sobressaltou quando arrastou seus dentes através de seu peito.

Instantaneamente retrocedeu, golpeando a areia com a parte de atrás de sua cabeça.

—Sinto muito, carinho. Perdi o controle e não pensei. Que asno.

Ela emoldurou sua cara com as mãos e se inclinou para depositar um beijo em seus lábios.

—Sabe algo, Jonas? Esqueci-o, também. Por um momento, estava completamente bem. Deu-me um momento perfeito. Obrigado.

Não pôde responder. Seu corpo ainda pulsava de necessidade e se amaldiçoou a si mesmo por ser um idiota insensível e egoísta. Sua generosidade esteve a ponto de desfazê-lo.

Hannah rodou para jazer na areia a seu lado, respirando profundamente, encontrando a mão dele com a sua. Tratando de pensar em algo seguro que dizer, ela ficou com o olhar fixo na névoa que flutuava espessa sobre suas cabeças, tentando valorosamente lhes dar privacidade.

—O que vais fazer hoje?

—Jackson e eu vamos comprovar se alguém arquivou um relatório de pessoas desaparecidas. Tiraremos um bote e procuraremos os corpos. Estará tratando de tirar as provas da casa e vamos ver se podemos identificar ao que estava aqui ontem à noite. Rastrearemos o bairro. Damon e Sarah são seus vizinhos mais próximos. Sarah estava aqui e Damon disse que estava dormido, assim não há testemunhas.

—Está bem. Realmente não temos poderes para fazer que as pessoas esqueçam o que vêem. Sei que odiou o de ontem à noite.

—Não esteve bem.

—Seria melhor que disparasse contra eles a que o terreno e casa nos proteja?

Franziu o cenho.

—Eu não gosto de chamar magia ao que faz. É mágica, mas o resto… tem dons. E todas vocês tratam de usar os dons para o bem, mas ontem à noite, senti a magia. E os espíritos na casa… nunca faremos amor ali dentro outra vez. O que ocorre se um deles flutua ao redor?

Ela apertou seus lábios fortemente para evitar sorrir.

—Isso realmente te dá medo?

—Prefiro uma bonita e poda bale —guardou silêncio um momento—. Por outra parte, nunca pensei no destino do receptor quando enviou o vento em minha ajuda quando estava em São Francisco. Teria morrido nesse beco sem ti. Estava tão enfocado em me mover, em me manter em pé e não fazer ao pobre Jackson me levar, que não pensei mais à frente.

—Eu tampouco. Alguém estava tratando de te matar, Jonas, e fiz o que devia para te proteger. Ontem à noite, faria o que fosse para nos proteger. E a casa, e nossos antepassados, fizeram o que deviam para assegurar que nossa linhagem continue.

—Sei, carinho —deu um pequeno suspiro e se endireitou, elevando-se sobre seus pés com sua graça fluída e atirando de sua mão para ajudá-la.

—Te incomoda o que posso fazer? —o temor que sentia se mostrava em sua cara. Não se incomodou em tratar de ocultar seus sentimentos ao Jonas. Sempre se dava conta de todas formas.

inclinou-se para depositar outro beijo em sua boca.

—É uma parte de ti, uma parte de sua família, não se pode separar o um do outro, Hannah. Isso é quem é. Me acredite, carinho, não me importa me aproveitar em um tiroteio.

Hannah sacudiu a areia das costas dele e de seu traseiro e logo se voltou para lhe deixar fazer o mesmo. Suas mãos se atrasaram muito tempo, moldando seu traseiro, massageando quando já tinha sacudido a areia. Justo quando ela pensava que teria que protestar, quando seu corpo reagia acalorando-se, suas mãos se apartaram e lhe apartou o cabelo detrás da orelha, com expressão inocente.

Ela negou com a cabeça.

—Espero que tenha desfrutado.

—Muitíssimo, obrigado. Necessita ajuda com a parte de diante? —ele tinha tomado cuidado de manter a areia fora de suas feridas—. Talvez deva fazer uma inspeção.

—Talvez deveria começar a considerar como vamos subir as escadas da casa sem que nos disparem cem teleobjetivas —ela se ateu mais a jaqueta para proteger-se.

—Esse é seu departamento, Hannah —deslizou seu braço ao redor de seus ombros e a atraiu contra ele quando começaram a caminhar de retorno para a casa—.Poderia te atirar sobre meu ombro como um bombeiro e sair a toda pressa, mas tomariam fotos de seu lindo traseiro e o publicariam daqui até o inferno, ida e volta. Isso me zangaria e logo apunhalaria a um deles e perderia meu trabalho, assim é que suponho que terá que fazer suas coisas, mulher, e nos tirar disto.

—Perder seu emprego? —sorriu-lhe—. Não teria que me preocupar com que lhe disparassem outra vez.

—Mas então morreríamos de fome.

—Jonas, ganhava bastante bem a vida e a maior parte está no banco ou investido em ações muito seguras. Não vamos morrer de fome.

—Dá-me dor de estômago. Não quero saber que tem mais dinheiro que eu.

Golpeou-o forte nas costelas.

—É um machista.

—Absolutamente. Manterei-te enquanto fica em casa e cria a nossos meninos. Não quero a uma desconhecida criando-os. E não os quero indo à escola a uma idade aborrecível somente porque sejam preparados. Manteremo-los em casa e cuidaremos nós deles.

—Faremos?

Olhou-a.

—Sim. A menos que tenha uma idéia melhor

—Essa era minha idéia. Contei-lhe isso quando tinha oito anos. Ignorou-me por essa horrível Sherrie Rider. Graças a Deus que se mudou quando tinha dez anos. Arrotava todo o tempo. Não tenho nem idéia de por que a encontrava interessante.

—Fazia esporte, Hannah. E você queria brincar com bonecas ou algo do estilo. Geez. O basquete ou as Barbies, venha já.

A risada dela fluiu sobre ele outra vez, lhe fazendo querer sorrir.

—Estamos em zona de perigo e suas irmãs estão nos esperando. Está preparada, carinho? Porque te levarei embora mesmo que tenha que compartilhar seu traseiro com os fotógrafos.

—Meu herói. Entretanto, não será necessário —levantou seus braços para o céu e começou a mover suas mãos em suaves padrões.

Ouviu vozes femininas no vento como se proviessem do oceano, conduzindo o banco de névoa diante dele para as luzes circundantes. As aves sulcaram o ar, voando terra adentro, avançando para as escarpadas e as árvores quando Hannah e Jonas, agarrados da mão, correram a toda velocidade subindo as escadas que conduziam à casa das Drake.

 

—Hannah, pode descer? —chamou Sarah—, Nós gostaríamos de te fazer outra sessão curativa. Libby se sente em plena forma. Jonas não está e a casa está em modo amparo, assim é que deveríamos ter algumas horas sem interrupções.

Hannah fechou os olhos brevemente e arrastou a manta mais próxima a seu redor. Jonas não se foi para todo o dia, e então, por que estava deprimida? Não sabia. Detestava estar enjaulada em seu quarto, mas onde podia ir? Se descia a escada, então todo mundo lhe falaria no tom apaziguador que tinha chegado a desprezar. Não podia dizer nada porque não queria machucar os sentimentos de ninguém. Assim é que mantinha uma lastimosa festa de primeira classe em sua quarto em espera de que Jonas retornasse e a tratasse normalmente outra vez.

—Hannah! —Esta vez a voz do Sarah soava imperiosa, tanto como podia unicamente uma irmã maior—. Desce aqui.

Hannah lhe fez uma careta à porta, sentindo-se infantil. Sarah os poderia reduzir a todos a meninos quando estava em seu cilindro. Era mais fácil simplesmente estar de acordo com o que queria que tratar de discutir com ela. Hannah atirou sua manta na cama e a contra gosto abriu a porta de seu dormitório. Imediatamente, os familiares perfumes encheram o ar. O assobio alegre do bule e a risada contagiosa do Joley misturada com a do Libby. Hannah se deteve no vestíbulo por um longo momento, respirando tudo. Amava-os, sobre tudo a suas irmãs embora a matassem com tanta bondade. E ninguém ria como Joley. Poderia iluminar uma cidade inteira, e muito mais um quarto.

Hannah descendeu as escadas de caracol e descobriu que o piso inferior estava iluminado só com velas. O perfume de canela e a mescla de flores secas de maçã encheram o ar. A luz oscilante projetava dançantes sombras nas paredes. Esperou que a luz das velas também aliviasse o efeito das feridas em sua cara.

Seu corpo já estava cicatrizando. Suas irmãs se reuniam duas vezes ao dia, empurrando para impulsionar à habilidade de seu corpo para recuperar-se. As feridas se fecharam e esta tarde se deu conta de que a coloração vermelha crua já se desvanecia. Infelizmente, as sessões de cura tinham pouco efeito no trauma. Com o Jonas a seu lado, podia dormir um pouco, mas sozinha, aterrorizava-lhe fechar os olhos.

Algumas vezes tratava de recordar o momento do ataque em um esforço por contar ao Jonas mais detalhes, mas sua mente não fazia frente adequadamente ao trauma e se empenhava em recusar-se a recordar qualquer outra coisa que lhe pudesse ajudar. Quão único recordava com absoluta certeza era o ofensivo corte da faca. Embora tinha pouco sentido, poderia jurar que recordava a seu assaltante murmurando uma desculpa enquanto lhe afundava a faca uma e outra vez.

Suas irmãs estavam juntas na sala de estar grande, onde usualmente se encontravam pelas tardes quando todos retornavam a casa. O tempo no que a casa familiar se enchia por completo com seus habitantes tinha passado. Sarah vivia ao lado com o Damon, e Kate e Matt fizeram uma casa do velho moinho no penhasco. Abby e Alexander estavam comprando uma casa de dois pisos com vistas ao mar a uma milha por debaixo da casa Drake, e Tyson e Libby tinham uma extraordinária casa que ele tinha encontrado para ela rodeada por fantásticos acres de terra privada. Só Hannah, Joley e Elle usavam ainda a casa familiar como base permanente quando não viajavam.

 

Hannah ondeou sua mão para a chaminé e as chamas saltaram com vida.

—Assei bolachas mais cedo, mas não pensei nisso —saudou suas irmãs, forçando um alegre sorriso.

—Isso está bem —disse Kate—. Eu mesma fiz algumas —arqueou um olhar sobre o ombro para o Joley—. Todo eu mesma.

—Ouça! —objetou Joley—. Comecei a primeira fornada e me tirou patadas fora da cozinha.

—Acendeu o forno —esclareceu Sarah.

—Não foi minha culpa —disse Joley—. Pus as bolachas e simplesmente me esqueci de que estavam no forno. Sabia que as bolachas podem converter-se em carvão vegetal se estiverem no forno o tempo suficiente? E logo realmente podem sair ardendo.

—Encontrou as bolachas em chamas, Joley? —Hannah cobriu a boca para afogar uma risada, e apartou a vista de sua irmã menor. Pela primeira vez do acidente, sentiu-se mais cômoda com suas irmãs, e se deu conta de que não podia advertir essa entristecedora piedade nelas. Se a sentiam, tinham o cuidado de proteger a de suas emoções. Estavam atuando muito mais normalmente, e a brincadeira do Joley era habitual. Ela simplesmente lhes tinha dado tantas oportunidades.

—Sim, realmente o fiz, e foram surpreendentemente resistentes a serem arrumadas.

O alarme se difundiu.

—Usou magia para as arrumar? —Hannah repartiu um olhar aterrorizado quase zombadora—. Ninguém as comeu, alguma o tem feito?

Suas irmãs sacudiram suas cabeças. Joley ficou em jarras.

—Não sinto amor aqui. Foi muito problemático tratar de arrumar essas bolachas; quão mínimo poderiam fazer é ao menos tentá-lo. Que bando de galinhas.

—Joley, não pode arrumar bolachas queimadas com magia —disse Hannah—. Que feitiço usou?

—Rebati-o —disse Elle—. O sinto, Joley, mas isso era o mais seguro. Considerando o humor no que estava e a forma em que resmungava a respeito do Prakenskii, tive medo de que seu feitiço tomasse um giro equivocado e as convertesse em explosivos ou algo assim.

—Está bem, carinho —disse Libby, posando o braço ao redor do Joley—. Ao menos seu coração tinha boa intenção.

As garotas lançaram travesseiros ao chão e formaram seu círculo familiar.

—Falando do Prakenskii, o que passa contigo e com ele? —perguntou Hannah—. Me perguntou se era uma cantora feiticeira. Eu não gostei do significado que lhe pôde dar a isso.

Houve um pequeno silêncio enquanto todas intercambiavam olhadas ansiosas.

—É quase possessivo contigo —acrescentou Sarah—. E aproveitar um favor pessoal simplesmente para obter o nome do homem com quem supostamente foi fotografada em uma posição comprometedora em um periódico sensacionalista, é simples e sinceramente uma loucura.

Joley passou rapidamente a mão pelo cabelo. Estava um pouco mais curto e de uma nova cor, já não era escuro como o do Libby, mas tinha mechas de rico vermelho escuro e café escuro com nervuras douradas. Hannah tocou seu cabelo, tão difícil de trabalhar com ele, pesava o suficiente para lhe dar dores de cabeça, e desejou ter o valor de fazer o que quisesse como fazia Joley. Exceto que todo mundo amava seu cabelo. Era tão incomum, tão belo, mas ninguém mais que ela tinha que enfrentar-se aos enredos e a seu peso.

Inclinou-se para sua irmã menor.

—Se não quer responder, Joley, não o faça. Simplesmente me preocupa.

Joley suspirou excessivamente.

—Não sei o que responder. Acredito que me enfeitiçou ou algo assim.

As irmãs Drake ficaram audivelmente sem fôlego, quase em estéreo. Joley deteve sua mão.

—Um momento. Não em sentido literal. Acredito que saberia se realmente o fizesse. Penso que saberiam. Não o fariam?

Hannah estendeu a mão, mas não tocou seu braço.

—Posso? —porque nunca invadiria outra vez a privacidade de sua irmã sem permissão. Nenhuma das Drake gostavam que sua privacidade fosse invadida e não empurraria mais à frente os limites de Joley.

Joley inclinou a cabeça.

—Quero me inteirar.

—Então deixa a Elle também. É forte de diferentes modos, e entre as duas, se ele estiver aí, encontraremos —disse Hannah—. Está preparada?

Joley apertou seus lábios.

—Sim. Ignora algo que encontre sobre como me sinto a respeito dele, porque é uma loucura.

Hannah e Elle trataram de alcançá-la ao mesmo tempo e imediatamente a energia rangeu no ar, manifestando-se com diminutos arcos brancos e ziguezagueando a grande velocidade entre as três garotas. Houve um pequeno silêncio e um único e descontínuo chiado de eletricidade e logo Hannah e Elle deixaram cair suas mãos dos braços do Joley. Olharam-se a uma à outra por cima de sua cabeça.

—Sabe tudo sobre ti, Joley —disse Hannah—. E é mimado. Deixa-lhe entrar em ti.

—Entretanto, não o faço. Não realmente. Simplesmente continua murmurando em meu ouvido, dia e noite, e sua voz é tão erótica. Deus, não, mais que isso, mais que erótica. Fascinante. —Esfregou a palma em sua coxa sem ser consciente do que fazia—. Simplesmente já não lhe podia resistir mais. Queria lhe ver, realmente lhe ver. Pensei que eu seria mais forte e que poderia lhe obrigar a me deixar, mas ele… —Se interrompeu negando com a cabeça—. Estou tão cansada. Estava tão zangado comigo pelo do periódico sensacionalista.

—Por que não lhe disse simplesmente a verdade? —perguntou Hannah amavelmente.

—Porque me enche o saco muito. E se alguém com habilidades mágicas manipulou o ataque contra ti, Hannah, não foi ele. Saberia. Sei que não é ele.

—O que quer? —perguntou Kate.

—A mim. Quer-me —admitiu Joley—. Lhe disse que não tenho encontros com criminosos e me disse que ele não era um encontro. Não me atreveria nunca a estar a sós com ele. Tenho a impressão de que não poderei resistir por muito tempo. Consegui me rodear de gente quando sei que está pela zona, mas… —Se interrompeu outra vez.

—Lhe diga que não quer fazer nada com ele, que não te atrai —sugeriu Abbey.

—Hei-lhe dito que se mantenha afastado, mas sabe que me atrai fisicamente. Não o posso ocultar, não quando está em minha cabeça. É horrível, como uma dessas traças com a chama, uma estúpida e idiota atração. Tenho melhor critério. Nunca, nunca me encontrarei com ele, cara a cara.       

—Bem, carinho —disse Hannah—, não te aterrorize. Deveria ter vindo a nós faz muito tempo, antes de que obtivesse uma posição real sobre ti. Esta noite, faremos uma sessão cicatrizante para ti em lugar de mim. Agora estou o suficientemente forte e as feridas se estão curando bastante bem. Uma sessão ou duas com todas nós te dará alguma pausa e eu investigarei um pouco e verei o que há nos livros para lutar contra isto.

Hannah olhou a seu redor ao círculo de caras. Todas estavam, de fato, com ela, tratando-a normalmente, em vez de afligi-la com sua simpatia. Podia respirar outra vez. Permitindo-se baixar seu guarda um pouco. Mas se sentia bem sendo secundada por todas elas nesse momento.

—Não, não, não pode fazer isso, Hannah. Esta noite é toda para ti. Planejamo-lo —disse Joley—, e é importante para mim, para todas nós, que goze de esta noite. Precisamos te mostrar algo. —Olhou a seu redor, ao círculo que formavam suas irmãs—. Sou primeira em te falar claro.

Hannah retrocedeu suspeita.

—O que é isto? Fizeram uma armadilha?

—Você gostará—prometeu Joley. Esperou até que Sarah desse o livro a Hannah e esclareceu—: esta é a página que fiz para ti. Escrevi uma carta, juntei um par de minhas fotos favoritas de nós, e também escrevi uma canção para ti. Não está acabada por completo. Polirei-a antes de registrá-la, mas é de minha parte para ti.

Hannah se aproximou o livro assim poderia ler a carta escrita pelo Joley rabiscada em itálico.

 

Hey, neném

Como está? Realmente espero que esteja bem. estive recordando nossas vidas, Hannah, e há tantas coisas assombrosas que temos feito juntas. Você e eu fomos e sei que somos as melhores amigas e isso nunca trocará, aconteça o que acontecer.

Verdadeiramente é uma pessoa assombrosa, Hannah. É tão bela por dentro. É uma das pessoas mais fortes com quem alguma vez me encontrei, dando tantíssimo precisamente a sua família. Nunca aproveitei realmente a oportunidade de exteriorizar meu amor e meus sentimentos por ti, e deveria me desculpar por isso. Sempre te admirei. Foi sempre meu modelo a seguir. É sempre amável e tenra com todo mundo, mas tão divertida e excitante. Sempre passo bem contigo, seja dançando ao redor da casa, cantando a pleno pulmão, ou tomando o sol na praia e admirando aos surfistas ardentes.

Sempre estiveste ali para mim e sempre estarei aqui para ti. Nada alguma vez poderá trocar meu amor por ti. Preocupo-me tanto por nossa relação e espero que veja que sempre estarei aqui para ti. A canção que tenho escrito para ti está titulada "All of Teme"" Espero que você goste, porque é como sinto realmente.

Amor para sempre, Joley

 

Hannah contemplou a sua irmã e logo ao círculo de caras. As lágrimas brilhavam tenuemente em seus olhos.

—Joley, isto é belo. Realmente, não sabe quanto. Não sabe. Luto, mas lhes amo a todas e simplesmente trato de encontrar uma forma para resolver as coisas, e o farei. Sinto ter sido tão difícil.

 

—Não, Hannah —disse Sarah—. Somos nós as que nos desculpamos e por uma razão muito boa. Joley, lhe mostre minha página.

Joley se inclinou e voltou as páginas até que encontrou a primeira. Havia fotos do Sarah e Hannah em diversas idades, tudo eram lembranças que evocavam ao Sarah escovando cuidadosamente os terríveis matagais que as espirais de apertados cachos sempre causaram, e lhe enxaguando as lágrimas quando alguém lhe chamou cão de lãs. Ao ter o cabelo com cachos amaciados, todas as garotas lhe chamavam cão de lãs mulherengo como brincadeira, porque Hannah tinha sido incapaz de controlar seu cabelo.

As lembranças lhe trouxeram uma opressão no peito de Hannah. Sarah sempre tinha sido tão boa com ela, velando por ela quando ia à escola cedo e ajudando-a a não gaguejar diante dos outros. Pressionou o álbum contra seu peito e brigou contra o nó de sua garganta que ameaçava estrangulando-a.

—Tem que ler minha carta, carinho. —Animou-a Sarah.

—Não acredito que possa. Fará-me chorar —disse Hannah.

—Supõe-se que te fará te sentir melhor —assinalou Sarah—. Vem de meu coração.

—Lerei-o, mas se me faz chorar, então vou converter-te em um sapo —prometeu Hannah—, e quem, supõe-se que faz o chá?

—Sempre o faz você —disse Kate—. Sabe qual é o favorito de todos e ninguém mais lhe dá o sabor que você lhe dá. Nunca tive claro o que lhe faz.

—Acrescenta amor —disse Elle—. Esse sempre foi o segredo da Hannah.

Para proporcionar um momento, Hannah ondeou a mão para a cozinha e em um instante o chá da bule começou a assobiar. Suas mãos seguiram um patrão familiar, gracioso quando teceu um feitiço que lhe traria para cada uma de suas irmãs seu chá favorito. Só quando os tigelas flutuavam fora em uma bandeja, e suas irmãs tinham escolhido sua beberagem, fizeram a Hannah olhar para baixo à escritura remarcada, precisa e muito sincera que só podia ser do Sarah.

 

Queridísima Hannah,

Quando você nasceu e fui primeira em te ter entre meus braços, estava claro que sua alma era tão velha como o tempo e que irradiaria uma luz calmante de cura que atrairia a quem olhasse. Sim, por fora, sempre te pareceu com uma deusa dourada. Entretanto, estimada irmã, sempre foi sua luz e beleza interna o que nos atraiu e nos manteve perto de ti.

É minha irmã e te amo eternamente, mas você me conhece. Nunca dei muita importância à beleza ou aspecto exterior, porque algumas das pessoas mais belas têm as almas e as intenções mais feias. Precisa saber que me orgulho de ti e até que ponto a sua irmã maior importa como pessoa. Sempre foi tão duro para ti estar ali fora no mundo, e a gente que compete contigo não tem nem idéia do duro o que é para ti estar ali, mas você o faz e sempre consegue vir ao resgate de todos nós. Não importa quão difícil seja para ti.

Nenhum desses insistentes fotógrafos alguma vez tomou o tempo para te conhecer, e muito menos o que valoriza na vida, ou quanto daria para estar em casa, em uma poltrona, desfrutando de uma taça de saboroso chá rodeada da gente e as coisas que você ama. Em vez de te sentir morta de calor, tímida e pronta para te arrastar fora de sua pele e querendo sair correndo e te esconder.

Possivelmente, estimada irmã, também lhe falhamos, sempre pensamos que mostrar quão bela é e como assombrava ao que te olhava era importante para ti. Sempre pensamos que queria viajar, que queria estar em primeiro plano e que foi feliz em sua carreira embora emocionalmente te custava. Verdadeiramente não vimos o grande quadro, e muito menos tínhamos conhecimento de que lhe tínhamos posto a jogar tão alto e que tínhamos posto as coisas tão difíceis para ti. Compreende isto, Hannah, o que for que queira fazer na vida, onde quer que precise estar, está simplesmente bem para nós. Amamos a ti e completamente assumimos suas decisões sejam as que sejam. Verdadeiramente, lamento tanto que tenha levado tanto tempo ver que estava fazendo todas estas coisas por nós e não para ti mesma. Por favor, nos perdoe por nossa ignorância e entende que lhe amamos incondicionalmente com todos nossos corações.

Amo-te, como sempre, Sarah

 

—De acordo, agora realmente me tem feito chorar —acusou Hannah, enxaguando-as lágrimas que corriam por sua cara com uma careta—. Tem que saber que não me deve nenhuma desculpa. Deveria-te haver dito como me sentia. Realmente deveria ter feito, Sarah.

—Por que não o fez? —perguntou Sarah, inclinando-se para frente.

—Simplesmente odeio decepcionar às pessoas que mais amo. Inclusive estive a ponto de te falar disso. Quantas vezes todas nos sentamos aqui juntas, nem uma vez te disse quão infeliz era.

—Jonas o viu quando nenhum de nós o fez —disse Sarah— Nos Aprofundamos em uma discussão a respeito disso e então repentinamente pude ver claramente o que dizia e me envergonhei de mim mesma. Sou sua irmã e deveria ter visto quão infeliz foi.

Hannah negou com a cabeça.

—Não, Sarah, era minha vida, e minha decisão. Deveria haver dito isso tudo. Por favor, não te responsabilize de meus enganos. Se algo bom sair disto, então é que estou decidida a tomar decisões sobre o que realmente quero.

—É Jonas o que realmente quer? —perguntou Libby—. Os dois gritaram um montão ontem, mas hoje as coisas parecem ir melhor.

Hannah se mordeu o lábio inferior.

—Realmente lhe amo, totalmente, com toda minha alma. Deveria-o haver dito faz muito tempo.

Joley e Elle intercambiaram um rápido olhar de alarme enquanto Sarah e Kate sorriam burlonamente e Libby gesticulava com a boca “te disse que ia ser assim” ao Abbey.

—Não crê que é um pouco mandão? —perguntou Joley esperançosamente—. O digo de verdade, Hannah, como vai agüentar?

—Não a escute —disse Abbey—. Ela pensa em sua pele. Se você cair, então é a seguinte na lista.

 

—Não vá tão depressa. —Joley se estremeceu visivelmente—. Não terei um encontro nunca mais, simplesmente não me apanharão. Pode-me imaginar vivendo com um dos tipos assobiados aos que atraio? Tenho escrito com letras de néon perdedor em minha testa. Se forem grandes e maus, e mais quentes que o inferno, sou sua garota. Logo abrem sua boca e me incomodam e se acabou —suspirou—. Serei a senhora velha com os gatos.

Kate fez gestos com as mãos para a cozinha e um prato de bolachas flutuou fora dela. Hannah esperou até que todo mundo tivesse uma antes de voltar a página à entrada da Abigail. As fotos do oceano e garotas cabeludas correndo da mão pela areia, trouxeram-lhe lembranças risonhas.

Abigail se inclinou e apontou por volta de uma com ela rodeando com seus braços a Hannah quando tinha aproximadamente treze anos.

—Essa é minha favorita. Vê a luz derramando-se ao redor de você? Assim é como te vejo sempre, brilhando do interior para fora.

Hannah agachou a cabeça, tomando um lento sorvo de chá. Por um momento se sentiu quase afligida de amor. Sempre tinha sabido que tinha sorte. Todos a tinham. Nos bons ou maus momentos, juntavam-se em grupo e compartilhavam. Tomou uma respiração e a deixou sair olhando a carta do Abbey.

 

Estimada Hannah

Somente queria que soubesse quanto te amo e admiro. É sempre tão forte e está aí para todo mundo, ainda quando é tão duro para ti. Nunca te queixa e é primeira em entrar de um salto e dar uma mão.

Quis te recordar algo do que me fez, que fosse especial para mim mas não o posso limitar a uma coisa. Sempre foste meu suporte e não sei o que teria feito sem ti. Quando estava sendo tola ou impulsiva, ajudou-me a superá-lo. Quando meu temperamento (que ainda digo que não tenho) mostrava sua feia cabeça, está ali para me trazer de retorno para mim mesma.

Me fazendo maior, quando me machucava, foi sempre a que me abraçava forte e a dor se ia. Se alguém me chateava na escola, então estava ali antes de que alguma vez tivesse que te chamar. Mais de uma pessoa que me chateava caiu misteriosamente doente. Sempre disse que não foi você quem o fazia mas estou segura de que foi você me protegendo.

Acredito que o que trato de te dizer é que a meus olhos é perfeita e não posso esperar para ter algum dia a minha pequena Hannah correndo de um lado a outro protegendo a sua irmã maior de todo problema. Não posso imaginar nada mais promissor que isso na vida. Quero que saiba que te amo incondicionalmente e não importa o que faça em sua vida sempre te amarei e te respaldarei. Tem meu ombro, tal e como eu sempre tive o teu.

Amo-te, Abbey

 

Hannah se engoliu o nó de sua garganta.

—Eu mesma, sou muito afortunada por lhes ter a todas vocês. Sempre me fazem sentir tão amada e tão especial. Não sei o que pensava, assustada de que não pudesse aceitar que não fosse mais modelo.

—Pensou realmente isso, carinho? —perguntou Libby amavelmente—, ou tem problemas te aceitando a ti mesma?

Houve um pequeno silêncio. Hannah tomou outro sorvo de seu chá. O mel e o leite combinado com o chá, serenou sua garganta.

—É obvio que tenho problemas me aceitando. Me olhe, Libby. Me olho e vejo cada defeito, real ou imaginário. Uma parte de mim busca arrastar-se a um buraco e não sair nunca. —Franziu o cenho, tratando realmente de analisar seus sentimentos—. Uma parte de mim está aterrorizada e me põe doente que alguém queria me fazer isto, mas há uma parte diminuta de mim que se sente livre. Senti que se podia enfocar a atenção nesse pequeno triunfo em lugar de na ruína de minha cara e meu corpo, poderia encontrar a maneira de emergir vitoriosa. Sinto realmente pesar ao haver deixado fora a todas vocês.

—Não é isso —disse Sarah—. Foi bom para que nós tivéssemos claro o que fazíamos mau. Jonas disse algo o outro dia que tinha um montão de sentido. Disse que quando Damon e eu temos uma briga, ele não interfere. Realmente pensei nisso. Jonas sempre foi protetor conosco, e nunca atuou contra qualquer de nossos homens quando discutimos. Seguro que quer interferir mas não o faz porque estaria mau. E estava mau que nós tratássemos de viver sua vida por ti, ainda quando nossas intenções fossem boas.

Hannah olhou as caras sorridentes que a rodeavam. A aceitação, era o que as mantinha tão unidas. Joley, com sua maneira selvagem de ser; Elle, tão acalmada e com fogo fervendo a fogo lento sob a superfície; Abbey, mais em casa estando no mar; E Libby, sem um osso mesquinho em seu corpo. Sarah, organizada e confiável; e a querida doce Kate, a quem todo mundo tinha que amar.

—Vocês são todas umas irmãs geniais —disse Hannah, tentando não chorar.

Kate mordeu sua bolacha.

—É obvio que o somos. Quando foi um pouco menor, estava muito zangada conosco porque tínhamos que ir à escola e não queria ir. Quantos anos tinha, Sarah? Recorda, falo de quando…

—OH, não conte essa história —disse Hannah e escondeu a cabeça na curva do braço, rendo-se—. Joley e Elle não sabem e simplesmente não a pode contar.

—Cristo, e nós que pensávamos que era tão perfeita que nunca poderia fazer nada mau —disse Joley—. Conta-nos Kate.

—Quantos anos tinha, Sarah? Recorda o momento no que nos apressávamos, tratando de estar prontas para a escola, e decidiu que de maneira nenhuma ia?

—Seis —informou Sarah—. Tinha só seis anos.

Hannah gemeu e tomou outro sorvo de chá.

—Ambas vão lamentar contar esta história.

—Valerá a pena —disse Kate—. Estava sentada sobre as escadas cruzada de braços, deslumbrante ante nós, e se a tocávamos, então ficavamos torradas.

—Uma sacudida elétrica —acrescentou Sarah—, uma cãibra real. Eletrocutou-nos, inclusive a papai e a mamãe. Aos seis anos já sabia dirigir feitiços.

Houve um pequeno silêncio. Joley se sentou mais direita.

—Vejo-te com novos olhos, Hannah. É uma deusa. Realmente eletrocutou a papai? Desejaria ter sabido esse feitiço. Apanhou-me saindo de noite pela janela e, me deixe te dizer que teria sido realmente útil saber esse feitiço.

Todas estalaram a rir. Quando se acalmaram, Libby tomou o livro e um pouco timidamente o abriu em sua página. As fotos tinham sido tomadas o dia que tinham estado caminhando juntas pelo bosque. Hannah recordava aquele dia porque tinha sido perfeito, tanto pelo clima como pela companhia.

—Este foi um de meus momentos favoritos contigo —disse Libby—. Falamos de tudo e estava tão triste. Estava na faculdade de medicina e as horas eram criminais. Era menor que todos outros e alguns dos outros estudantes não eram muito simpáticos. Fez esse dia tão maravilhoso, Hannah. Soube, depois desse passeio, que poderia confrontar a todo mundo e que podia fazer o que quisesse e ainda mais. Deu-me esperança —apontou para sua carta—. Não sou muito eloqüente, mas é de coração.

Hannah dirigiu seu olhar ao gancho de ferro do Libby.

 

Hannah

Preciso te dizer simplesmente quanto significa para mim. É tão, mas tão especial e uma parte grande de meu coração te pertence, só a ti.

Compartilhamos tantas risadas e lágrimas através dos anos e temos tantas lembranças juntas como para que nos durem sempre. Ainda ponho um sorriso em minha cara cada vez que lembro o tempo que fomos adolescentes e ríamos histéricas cada vez que soava o telefone. Não podíamos responder porque não podíamos deixar de rir e quando finalmente respondeu era um número equivocado que só nos provocou outra ronda de risadas até que nos doeu o estômago.

Minha vida não seria o que é hoje se não fosse uma grande parte dela. Estava sempre ali para mim com seu amor e apoio, e freqüentemente seu amparo. Muitas vezes, vi-te sair um momento de sua zona de comodidade para me ajudar assim como também a muitos outros. É uma das pessoas mais carinhosas e generosas que alguma vez conheci.

Querida doce Hannah, jamais haverá nada que possa fazer ou dizer para trocar meus sentimentos por ti. É uma parte enorme de minha vida, e te amo justamente porque você é VOCÊ!

Sua carinhosa irmã, Libby

 

Hannah fechou o livro com um pequeno estalo.

—Agora você me tem feito chorar.

—Simplesmente bebe mais chá —sugeriu Elle é o que faço eu.

A porta se fechou ruidosamente e Jonas se apressou a entrar, o vento e a névoa entrando detrás dele.

—Faz frio aí fora —saudou, caminhando a grandes passos dentro do quarto e parando bruscamente. Franziu o cenho—. Não estarão tendo uma de suas coisas de garotas, em que, todo mundo chora e fica sentimental?

—Isso é exatamente o que estamos fazendo —disse Joley alegremente— Vêem te aproxime, sente-se e te una a nós.

Hannah sentiu o prazer atravessando-a. Tinha sido por tanto tempo desta maneira. As sete irmãs e Jonas. Sempre tinha estado no círculo com elas. queixava-se, claro, e algumas vezes punha os olhos em branco e se tirava sarro, mas sempre terminava no chão e se converteu em uma parte dos quais eram e o que eram. Observou como tomava seu lugar entre ela e Joley, pressionando sua coxa contra o dela e deslizando seu braço ao redor de sua cintura, seus dedos na nuca, lhe dando lentamente uma massagem.

—Alguém se incomodou em fazer o jantar? Morro de fome

Houve outro estalo de risada. Olhou-as com o cenho franzido.

—O que?

—Sempre pergunta isso, a cada momento —esclareceu Hannah—. Sempre tem fome, Jonas.

Inclinou-se e lhe deu um beijo na bochecha a Hannah, sem reparar nas mortiças feridas como se não estivessem ali. Seu beijo finalizou na comissura de sua boca.

—Estão sendo horríveis comigo, neném. Não pode as converter em sapos ou algo assim?

—Sim, agora quer sua ajuda, agora que está de seu lado —disse Joley.

—Não se preocupe, Joley —disse Jonas quando agarrou um tigela de chá flutuando perto e recolheu umas poucas bolachas do prato—. Realmente só quer sexo. No momento no que obtenha o que quer e que comece a lhe dar continuamente ordens, estará de volta contigo para que as sete possam lhes pôr contra um só homem.

Hannah se engasgou com o chá e Jonas teve que lhe dar um forte golpe nas costas.

—Tem razão, sabe —começou a falar Elle—. Pensa nisso, Hannah, antes de que faça qualquer estupidez. O sexo é genial e isso, mas vai estar tão mandão. Quer realmente agüentar isso dia e noite?

Jonas agarrou ao Elle em uma chave de cabeça e esfregou seus nódulos sobre a parte superior da mesma.

—Já lhes dou ordens a todas, dia e noite, a ti, pequeno gato montês. Alguém tem que fazê-lo, ou você e todas andariam descontroladas. —Soltou-a, ignorando o murro em sua coxa—. Estão lendo as cartas?

—Sabia? —perguntou Hannah.

—Sei tudo —respondeu Jonas, inchando o peito.

—Agora começa com minha página —disse Kate timidamente—. Por favor, Hannah, recorda que sou melhor com a ficção que com a realidade. É-me tão difícil me expressar.

—Não com o Matt —disse Jonas—. Com ele o faz muito bem.

Kate lhe deu um tapa pouco digno em seu braço enquanto Hannah olhava as fotografias.

Eram de uma sessão de fotos que Hannah fazia. Primeiro se viu encantada em vários trajes de noite e logo ela ria, com as calças jeans e o suéter, o cabelo alvoroçado na cabeça, fazendo gestos.

—Essas amo, porque mostram a pessoa tão real que é debaixo de todo esse glamour.

Hannah aspirou profundamente para aquietar o entristecedor amor que sentiu para sua família para poder ler o que Kate lhe tinha escrito.

 

Queridísima Hannah,

Quando penso no amor, na família, na maneira em que as irmãs deveriam ser, penso em ti. Quando penso em ânimos, na incrível força pessoal, é sua cara a que vejo. Embora nunca te deu conta disso, é a mais forte, a mais valente, de todas nós.

Sei o que sofre quando sai em público. Somos ambas tão semelhantes nesse sentido. O estar rodeada de desconhecidos, o ser o centro de atenção, sentir as emoções palpitando em ti: Nunca o poderia fazer. Sempre peguei às sombras, à segurança da solidão, mas você nunca o tem feito. Não te posso dizer quanto te admirei sempre por isso.

Precavi-me agora que sua valentia sempre foi por nosso benefício, não pelo teu, e isso deve deter-se. Amo a ti, Hannah. O que quero para ti é tudo o que alguma vez quis: Sua felicidade. Que seja valente para ti mesma, não para nós. Vive sua vida da forma que queira, a felicidade te espera aí fora. E nos deixe amar à irmã que você é, não à irmã que pensa que queremos que você seja.

Amo-te por sempre, Kate

 

—Obrigado, Katie —disse Hannah simplesmente e se inclinou para beijá-la—. Não sei o que faria sem vocês. Realmente.

—Felizmente não temos que nos inteirar. —Esteve de acordo Kate—. Assustou a todos, Hannah. De verdade, de verdade nos assustou. Não podia pensar ou respirar. Quando caiu, levou-te a todas nós contigo, e por um terrível momento, soubemos que a vida sem ti não seria igual. —Percorreu com o olhar ao Joley—. Sei que Prakenskii é perigoso. Todas tocamos sua mente, e podíamos perceber vislumbres de um homem extremamente horripilante, mas sempre lhe estarei agradecida pelo que fez, quaisquer que fossem seus motivos. Salvou sua vida. Manteve-te viva para nós e teve que pagar um alto preço. Sabia que lhe faria vulnerável a nossa magia, mas ainda te preservou para nós. Rezo cada dia por sua saúde e sua felicidade.

—Reza por sua saúde, Kate, mas omite a parte da felicidade —resmungou Joley.

Jonas a rodeou com um braço fraternal.

—Se fosse seu homem, então não teria que me preocupar com ti nem um pouquinho. Afugentaria a todo mundo. Talvez lhe deveria subornar.

Joley lhe beliscou forte e lhe colocou de um empurrão uma bolacha na boca.

—É tão gracioso, Jonas. Ha, ha. Muito cômico.

Hannah se reclinou contra Jonas e instantaneamente seus braços a rodearam. Seu queixo acariciou a parte superior de sua cabeça.

—Que mais há nesse álbum? —perguntou.

—Minha página —disse Elle, com acanhamento em sua voz—. As primeiras fotos são de ti dirigindo o vento. Eu gosto de ver o poder em ti, seu cabelo ao vento e seus braços estendidos para o céu. Resplandece, Hannah, e te vê tão feminina. Nada me orgulha mais que verte desse modo. E as demais são de ti na cozinha. Quando volto para casa e estou tão cansada e… —Se interrompeu, olhou ao redor às caras de suas irmãs e logo abaixo, a suas mãos—. Quando sinto tão rendida que penso que não posso seguir, ali estas você. No momento em que te vejo, sei que estou em casa. Isso é o que representa para mim, Hannah. O lar. A segurança. O amor e a aceitação.

Hannah ocultou sua cara no peito do Jonas para ter um momento e ignorar as emocionais lágrimas. Elle era tão acalmada e raramente falava de si mesmo ou de seus sentimentos, e quando o fez, Hannah se sentiu privilegiada.

—Essa é a coisa mais bela que me disseram, Elle. Obrigado.

—É a verdade —respondeu Elle simplesmente.

Houve inclinações de cabeça em todas partes.

—Tem razão, Hannah. Agora que Elle o há dito, você representa o lar e a família para todas nós. —Esteve de acordo Sarah.

Hannah não podia falar assim é que leu a carta em lugar disso.

 

Hannah

Hey, chave dourada, embora não sou escritora como Kate e seguro que não tenho o toque da Joley, não posso deixar acontecer outro dia sem te dizer quanto te amo. E o que significa, em minha vida.

Sabe que uma de minhas primeiras lembranças é o de despertar em meu berço cantando Hann, Hann, Hann na segurança de que viria correndo? Levantaria-me sobre a barra do berço, abraçaria-me perto e dançaria comigo ao redor do quarto. Quando chorava me fazia cócegas e me fazia rir. Ouça, ainda tenho o diminuto pingüim que me deu quando fiz cinco anos. É um tesouro que mantenho em minha bolsa e o agarro quando estou um pouco triste ou sozinha, e preciso recordar quanto sou amada. Quem poderia esquecer nosso passo de pingüim nos rindo até que chorávamos? E minha entrevista para o baile de graduação… quando destruí meu vestido e Joley fritou meu cabelo… recorda como me manteve apertada, me reconfortando quando acreditava que era o fim do mundo? como sempre, secou minhas lágrimas e arrumou tudo, melhor que novo. Fez-me me parecer com um casal de conto de fadas, entretanto, meu encontro resultou ser uma rã e não um príncipe encantado. Em certa forma, inclusive fez que me risse desse desastre. Sempre penso em ti na alameda, girando em espiral sob o vento e a chuva e o céu da noite… foi quem me mostrou as estrelas.

Hannah, sempre soube que estava ali para mim e mais importante ainda que entenderia como me sentia. Através de todos estes anos foste a que me ajudava a aliviar minha carga quando comecei a sentir a pressão de ser sétima de sete. Fazia-me brincadeiras e me fazia rir e recordar que estamos juntas nisto… as irmãs para sempre. Sabia que seu doce sorriso sempre foi uma das cunhas comerciais mais brilhantes de minha vida? É valente e audaz e uma das pessoas mais generosas que alguma vez terei o privilégio de conhecer. Talvez nunca te precaveste que sinto pesar por não te haver dito nunca antes quanto te admirei sempre (brincadeiras incluídas) e quanto suas travessuras realmente me trazem alegria e me fazem rir tão forte que um mundo triste se converte em bonito. Sempre estiveste ali para nós, sendo o que necessitávamos que você fosse, guardando o sorriso fortemente em nossos corações. Agora é seu turno. Por favor, seja valente e forte simplesmente para ti esta vez. Merece-te todo o bom e maravilhoso. Amo-te muitíssimo.

Com amor, sua irmã pequena, Elle

 

Agora Hannah chorava a sério.

—Elle, eu amo a ti, também. Obrigado por tudo. Isto foi o mais doce, a coisa mais considerada que podia me haver feito. Entesourarei estas páginas pelo resto de minha vida. —Abraçou o álbum apertadamente contra ela.

—Não acabaste —disse Jonas—. Te fiz uma página, também. Este livro se trata de coisas que amamos de ti. Não se preocupe, não pus nenhuma fotografia abafadiça, porque não tinha nenhuma.

—De verdade me fez uma página? —Elevou sua cara para a dele, o coração lhe dando inclinações bruscas.

—É obvio que o fiz. pus uma mescla de minhas fotos favoritas, ali há uma ou dois que são realmente tuas, mas em sua major parte são de animais. Sei que você ama aos cães, embora não tem um próprio.

—Não seria justo. Não estou nunca em casa o tempo suficiente para passar tempo com um mascote. Entretanto, quero aos cães de Sarah.

Abriu o álbum pela página do Jonas. Houve um pequeno silêncio quando ficou com o olhar fixo na série de fotos da Hannah e Jeanette Harrington em 1920 vestida com roupas chamativas. Recordou essa tarde claramente. Tinha sido convidada ao chá e Hannah tinha encontrado um armário cheio de espetaculares roupas. Olhou as fotos, tratando de ver através das lágrimas nos olhos. Era tão pequena, com cachos em todas partes, envolta em um casaco muito comprido com uma banda e uma pluma de pavão na cabeça. Agarrava a mão da senhorita Harrington.

Pestanejou rapidamente para esclarecer lágrimas, enfocou a atenção no gancho de ferro masculino da seguinte página, e a pesar do nó em sua garganta, lançou uma apagada risada rota. Razões pelas que Hannah deveria casar-se com o Jonas, leu o título em voz alta e forte.

—Fiz uma lista com todas elas. —Apontou para a larga coluna—. Joley me fez pôr razões pelas que não deveria, e como pode ver, há muito poucas e são pouco convincentes.

—Pouco convincentes? —repetiu Joley. Cravou com o dedo na primeira—. Essa é razão bastante. Sou a seguinte candidata a grande queda e por isso é seu dever me proteger detendo os solteiros para sempre. E… —Olhou furiosamente ao Jonas—. pus asteriscos na seguinte e três sinais de exclamação.

Jonas olhou com atenção sobre o ombro da Hannah.

—Fez isso depois de que terminasse, pequena trapaceira. Não sou arrogante nem mandão. Sou encantador.

Hannah sufocou e suas irmãs choraram da risada. Joley e Elle caíram agarrando-os estômagos. Libby tratou de manter a compostura, mas ainda ela sucumbiu, rindo-se com suas irmãs.

—Estão todas loucas —disse com grande dignidade—. Não sei do que riem em primeiro lugar. —Agarrou outro punhado de bolachas para consolar-se, e quando Hannah redobrou as gargalhadas, ele se apoiou, retirou-lhe o cabelo e atacou seu pescoço como vingança, deixando uma enorme marca vermelha. Farto, entrou na cozinha procurando algo mais substancial que comer, deixando às mulheres para que se tranqüilizassem.

 

—JONAS! Jonas, desce aqui —chamou Sarah justo do exterior da porta.

Jonas resmungou um ofensivo protesto o suficientemente forte como para que parasse de golpear a porta. Quando ouviu que se desvanecia o ruído dos passos do Sarah abaixo no vestíbulo, deu-se a volta, tomando a maioria dos lençóis com ele, gemendo quando o sol lhe golpeou na cara através da janela.

—Neném, está nos chamando.

—Está chamando a você, não a mim —disse Hannah—. Ainda estou dormindo —não é que tivesse conseguido dormir algo com o Jonas acariciando-a e lhe dando pequenos toques nas costas toda a noite.

Ficar na cama ao lado do Jonas tocando-a tinha sido uma lição de frustração. Certamente tinha aproveitado cada oportunidade de tocá-la, deixando-a com os nervos de ponta e o corpo hipersensível. Não podia contar quantas vezes suas mãos tinham passado roçando seu traseiro. Seu travesseiro de algum jeito tinha conseguido estar à altura exata de seus peitos, assim é que tinha estado uma grande quantidade de tempo respirando ar quente sobre seus mamilos, sua boca a umas polegadas de sua carne tensa.

Desesperadamente, e para abster-se de rogar, deu-se a volta, mantendo-se de costas, e ele imediatamente amoldou seu corpo ao redor do dela, pressionando sua grosa ereção apertadamente contra o traseiro enquanto sua mão descançava com muita naturalidade diretamente sob seu peito. No momento no que pensava que podia ficar adormecida, sua mão mudava, seus nódulos passavam roçando a parte inferior do peito, e uma jogava fumaça de cólera através de seu sistema inteiro e os músculos se esticavam. Nunca em sua vida havia se sentido assim tensa, pulsando com calor e desejo.

Era suficiente para enfurecer a qualquer mulher e Hannah não era uma Santa. Levantou a cabeça para lhe olhar.

—Vai e me deixe dormir —não tinha dormido nem dez minutos—. Se supõe que estou descansando e que sustenta meus pesadelos sob cerco.

Seu aberto sorriso foi lento e erótico. Inclinou-se e voltou a beijá-la brandamente nos lábios.

—Logo cumpri com meu trabalho. Não teve pesadelos. Não me esqueci que vamos sair esta noite. Tenho-me proposto ir ao escritório e trabalhar um pouco. Ver as fitas do pessoal outra vez. Jackson trata de inteirar-se se alguém desapareceu.

—Simplesmente um dia normal no trabalho. Encontrando quem tentou matar a sua noiva.

Saboreou a palavra e se sentiu estranha. Noiva. Nunca tinha sido a noiva de alguém.

—Faz-te isso meu noivo? —riu brandamente de sua expressão.

—Não sou um menino, Hannah, sou um homem viril.

Sua risada subiu de súbito um grau.

—Um homem viril encantado.

—Ria, neném —girou sobre sua parte superior, capturando ambas as bonecas e apertando-lhe de repente contra o colchão a ambos os lados de sua cabeça—. Mas vou recordar e me vingar.

Ante sua ação repentinamente agressiva, seu coração golpeou a um compasso temerário e seu corpo inteiro cantou. Tinha-a tão excitada com seu manuseio de toda a noite que o sangue o martelava nas veias aliando-se com o ponto baixo e imoral dentro do corpo. As pernas dele deram um empurrão às suas com o fim das afastar e acomodar seus quadris entre as coxas. Ele puxou seu lóbulo com os dentes, lambeu o tamborilar do pulso de seu pescoço e lhe beijou o brilhante chupão que ele tinha feito ali a noite anterior.

Quase podia ver o arco de eletricidade entre eles. Ela sem dúvida o sentia. ficou com o olhar fixo em sua ardente boca, sedutora e se sentiu fraca ao olhá-lo. Incrivelmente, lhe podia saborear e além a estava olhando, seu faminto olhar indo à deriva possessivamente sobre sua cara. Um urgente calor líquido alagou um ponto baixo e malvado dentro de seu corpo em resposta. Quando sua pecaminosa boca cobriu a sua, esqueceu-se completamente do corpo e do porquê não ia fazer o amor com o Jonas Harrington.

Fechou os braços a seu redor, os lábios derretendo-se baixo os dele, as mãos encontrando seu cabelo e lhe arrastando mais perto. Os brilhos de fogo bateram através de seu corpo, enquanto sua língua acariciava ao longo a dela com demanda. Sexualmente não tinha dúvidas a respeito do Jonas. Tomou o que quis e se assegurou que ela também o queria.

—Bom dia —murmurou.

Ela engoliu saliva, absorvendo a escura luxúria em sua voz. Havia algo embriagador naquele som, áspero, rouco e sedutor, que caía e engatinhava pela coluna vertebral, fazia que os peitos lhe doessem e respirava a seus músculos, já excitados e quentes, a agarrar com necessidade. Logo que podia respirar através da excitação, o interior das coxas tão sensíveis que quando ele se moveu, sentiu o coração mais feminino começar a pulsar e ondear em resposta.

—Jonas, de verdade, sinto te incomodar, mas tem uma chamada telefônica. Atende-a —insistiu Sarah.

Se tinha tocado o telefone, não o tinha ouvido. Ainda descansando sobre ela, tratou pesarosamente de alcançar o telefone.

—Harrington.

—Duncan Gray, Jonas. Esta é uma linha segura. Queria te informar de que Boris Tarasov tratou de resgatar a seu irmão faz duas noites. Souberam onde estava sendo retido e quando o transladaríamos. No tiroteio, recebeu disparos e está em estado crítico.

—O traidor?

—Ainda não, mas estou perto.

—Obrigado pela informação, Duncan.

Hannah piscou enquanto ele pendurava o telefone.

—Do que ia todo isso?

—Um velho caso, nada de especial importância —arrastou beijos por sua cara até a comissura de sua boca.

—Está seguro? Suas linhas de preocupação estão de volta.

—Estão? Não são por este caso. As pessoas em custódia e isso não têm nada que ver já comigo. Estou bem fora dessa ocupação —e assim era. Pela primeira vez, deu-se conta que ouvir a voz do Duncan Gray não lhe tinha feito sentir-se culpado. Não lhe tinha feito sentir como se precisasse sair e liberar ao mundo do mal. Era um homem com uma mulher a que entesourava, e estando com ela, assegurando-se de que estava a salvo, de que sua família estava a salvo, era suficiente para ele. Poderia ser o oficial e voltar para casa de noite e estar satisfeito.

Sorriu abertamente a Hannah.

—Sou feliz, neném, e o tem feito você sozinha.

Sarah esmurrou a porta outra vez.

—Jonas! Jackson já está aqui para te recolher. Diz que convocaste uma grande reunião e que já esta atrasado —lhe deu ao mesmo tempo um golpe mais forte à porta—. E não volto a subir. Não sou seu mensageiro.

Jonas suspirou, roçou outro beijo sobre os lábios trementes da Hannah, seus dentes puxando seu desconcentrado lábio inferior.

—Obrigado, Sara. Descerei em seguida —se levantou para sentar-se, os músculos de suas costas ondearam sob sua pele—. Estarei em casa esta tarde para te recolher, neném. Sairemos às escondidas daqui e passaremos um bom momento. Não pense muito. Simplesmente descansa. Libby disse que necessita montões de descanso.

Sem prévio aviso se voltou para ela, subindo sua camiseta sem mangas, expondo seu estômago suave e o rajado entrecruzado feito pela faca, dobrando sua cabeça e pressionando um beijo justo debaixo de seu umbigo. Sua língua se sentia como um grosso veludo quando delineou uma das raias conduzindo-se para baixo, sob a dianteira do pijama, junto aos quadris.

Hannah ficou sem fôlego, seu estômago se esticou com força, e entre suas coxas, o calor úmido crepitou e faiscou, demandando satisfação.

Seu sorriso foi perpendicularmente confiada, seus olhos intensos com desejo, sua boca emocionada com uma escura luxúria.

—Verei-te esta noite, neném —havia sedução em sua voz, uma arruda promessa de excitação.

Hannah se deu a volta, tomando os lençóis com ela, escondendo seu corpo e tratando de desacelerar sua respiração enquanto o ruído de seus passos se extinguia fora. Jonas Harrington podia provocar mais paixão nela em três segundos que qualquer outro homem em toda uma noite.

Hannah gemeu e ficou direita, o corpo zumbindo, os peitos também sensíveis, e a doença entre as pernas crescendo quando pensou nele. Então, de acordo, teria que revisar um pouco a maneira de pensar.

Escada abaixo podia ouvir suas irmãs circulando e endireitou os ombros. Hoje ia ser diferente. Hoje ia atuar com normalidade e tomar boas decisões apoiadas no que queria fazer, não o que todo mundo pensava que tinha que fazer. Hoje ia ser o princípio da nova Hannah Drake.

Hannah gastou a maior parte da manhã e a tarde lhes assegurando a suas irmãs que era capaz de fazer os afazeres domésticos e cozinhar. Reconheceu que Libby tinha razão, parecia ter menos energia e frequentemente tinha que descansar, mas logo que podia, retornava e fazia os afazeres normais da casa, interagindo com suas irmãs o máximo possível.

Planejou um jantar para suas irmãs, embora sabia que Jonas a levaria a um picnic noturno. A maior parte do dia conseguiu abster-se de pensar constantemente no ataque. Antes lhe tinha consumido cada pensamento de vigília, mas estava feliz de ter conseguido substituir o temor e o medo pela antecipação de ver o Jonas e a idéia de que realmente podia ser o suficientemente valente para seduzi-lo.

Todo o tempo, era consciente de que os repórteres e o povo não se foram. Havia um pouco menos, pensou, mas podia ouvir o Reverendo RJ gritando e uma vez, quando percorreu com o olhar ao exterior pela janela, viu que se subiu a um tamborete pequeno e agitava seus  braços aproximadamente como se desse seu sermão com sua teatral voz.

—Ouça, garota, sonhando acordada outra vez —disse Joley—. Te vê doente de amor e isso está simplesmente equivocado. Não posso confrontar isso, Hannah —fez uma careta aos conteúdos do refrigerador—. E se realmente te apaixonar loucamente do Jonas, então o que vai ocorrer-me? E a Elle? Disse que não estava a ponto de cair como nossas irmãs maiores. Fizemos um pacto, Recorda?.

—Sai da geladeira. Farei o jantar —Hannah fechou a pesada porta e se apoiou contra ela—. Fiz o pacto contigo e com o Elle, mas não pensei que tivesse uma oportunidade com o Jonas. Não pensei que lhe interessasse.

Joley pôs os olhos em branco.

—Amo-te, Hannah, mas no que se refere a homens não sabe nada.

—E você sim?

—Sei o suficiente para me manter longe deles. Que diabos é todo esse alvoroço aí fora? —dirigia-se já à sala de estar, onde poderia olhar com atenção fora pela grande janela panorâmica.

Sarah apartou o olhar da revista que lia.

—Te separe dai, não quererá lhe dar a qualquer deles essa satisfação.

—Esse horrível homem, o Reverendo algo, está plantado ali diante das câmaras outra vez, Sarah —vaiou Joley, apertando os dentes com força—. Não poderia Jonas tê-lo detido?

—Por que? Por pregar? Isso se veria precioso nas notícias. Perderia seu emprego, o Reverendo lhe demandaria e haveria mais publicidade. Justo agora mesmo está absorvendo a imprensa e estão tão aborrecidos ali fora que farão algo por uma história.

A sobrancelha do Joley subiu rapidamente.

—Você crê?

—Sei —Sarah baixou sua revista quando o tom do Joley apanhou sua atenção—. O que está pensando, Joley? Não faça nenhuma loucura —quando Joley a ignorou e continuou olhando pela janela, Sarah pôs a revista na mesa ao lado de seu chá, realmente alarmada.

—Hannah —chamou, colocando sua cabeça na cozinha—. Diga algo a Joley ou vai ter que detê-la. Nunca escuta a ninguém mais.

Hannah se secou as mãos em uma toalha e seguiu ao Sarah.

—O que acontece, carinho? E se afaste da janela antes de que um fotógrafo obtenha uma foto de ti.

Joley se encolheu de ombros.

—O que é uma foto mais? Ao menos esta vez será por um bom motivo. Esse Reverendo idiota está ali fora usando o ataque contra ti para pregar a todo mundo a respeito das conseqüências do pecado.

Hannah se imobilizou.

—Está falando de mim? Está segura? Onde está Jonas?

Sarah pôs o braço ao redor da magra cintura da Hannah.

—Não há necessidade de preocupar-se. Não parece ter interesse em entrar aqui a nos dirigir a palavra a nenhuma de nós. Quer seu momento de fama ante as câmaras de televisão e a imprensa.

Hannah se molhou o lábio inferior com a língua.

—Ele é lama, Joley, não um pregador real. Fundou sua igreja com o propósito de atrair pessoas com enganos para lhes tirar seu dinheiro e se deita com cada mulher de seu pequeno rebanho doente. É asqueroso. Sei, porque lhe toquei. Senti-me suja por uma semana. Mantenha-se longe dele, Joley.

—Jonas se dá conta de como é o Reverendo? —perguntou Sarah.

—Sim, tivemos um par de conversações a respeito dele.

—E o Reverendo, dá-se conta do que sabe, Hannah? —perguntou Sarah, com suspeita na voz.

Hannah cruzou ante a janela e, ficando a um lado, jogou uma rápida olhada fora. O Reverendo estava rodeado e gritava seu sermão, sua voz trovejando sobre o povo elogiando os méritos do perdão procurado de joelhos e evitando às rameiras do mundo.

—É um clichê —vaiou—. Simplesmente deveria sair ali e deveria lhe dizer ao mundo o que realmente é.

—Hannah, não te atreverá a fazê-lo. Em primeiro lugar, não tem provas. Poderia te processar por fazer esse tipo de alegações.

—São certas.

—Verdadeiro ou não, tem que ter provas.

—Assim é que lhe gostam das mulheres? —aventurou Joley e partiu dando meia volta antes de que Hannah pudesse dizer nada. Correu a toda velocidade escada acima.

—Hannah —insistiu Sarah, antes de que pudesse seguir ao Joley—. Enfrentou ao Reverendo? Sim ou não?

—Protestava em cada evento ao que ia. No caso de que não fora o Reverendo pessoalmente, tem quatro ou cinco homens que viajam com ele e protestavam. Não ia dirigido contra um desenhista, ou ainda contra as peles, a não ser contra mim pessoalmente. Meu agente teve medo de que perdêssemos atribuições se ele continuava atraindo publicidade negativa. Tanto que, lhe fui visitar com a idéia de que uma vez que me conhecesse, veria que não era a filha do diabo.

—E? —perguntou Sarah, apertando os lábios com força.

Hannah suspirou. o dos lábios era sempre um mau signo com o Sarah.

—Bem, ao final acredito que justamente lhe provei que era a filha do diabo, lendo sua mente e lhe deixando saber que me dava asco —olhou para cima quando Joley voltou a descer correndo as escadas e foi diretamente à porta principal—. OH, não. Sarah. Detenha-a.

Joley estava vestida com uns ajustados jeans, amoldando-se a seus quadris e ressaltando a forma de seu adorável traseiro. Seu ajustado Top rosa abraçava a curva cheia de seus peitos e terminava em sua pequena cintura, mostrando uma intrigante tira de seu plano ventre. Uma chuva de ouro brilhava com intensidade justamente debaixo de sua cintura e por cima de suas calças jeans. A forma em que ia vestida gritava sexo. Seu cabelo era selvagem, intenso, com seus lábios pintados de um vermelho escuro como uma sereia. Simplesmente não caminhava, fluía, toda exuberantes e suaves curvas e o cabelo açoitado pelo vento. Era a tentação envolta em casual elegância.

O povo na cerca ficou louco, gritando e fazendo gestos com as mãos. As câmaras voltaram as costas ao Reverendo e enfocaram sua atenção sobre ela.

Joley fez gestos com as mãos e passeou para eles, fazia de cada passado uma resposta para os sonhos eróticos dos pervertidos.

Hannah agarrou firmemente a mão do Sarah.

—Vai provocar um distúrbio. Onde estão os seguranças? Matt não está aqui e nem Aleksandr ou Damon.

—Joley pode manipular a uma multidão —a reconfortou Sarah, rezando silenciosamente para que fosse certo.

O Reverendo RJ, dando-se conta que estava perdendo sua entrevista, levantou suas mãos ao céu e gritou mais forte para que o Senhor perdoasse os pecados da Hannah Drake, desfilando seu corpo, pavoneando-se ao redor deliberadamente para tentar aos homens para que pecassem e atraindo a outras mulheres para que ficassem as roupas da tentadora.

Joley foi direita para ele, mostrando em cada polegada sexo e pecado, sua fragrância lhe envolvendo na tentação deliberadamente. Mostrou seus perfeitos dentes brancos e agitou suas largas pestanas.

—Reverendo RJ? Sou Joley, a irmã da Hannah —tendeu sua mão, sua voz soando baixa, o ritmo hipnótico fascinando até. Deixou cair outra oitava a fim de que soasse exuberante e tentadora—. É tão doce por sua parte orar por sua alma.

O Reverendo abriu a boca, mas nada saiu. Joley freqüentemente tinha esse efeito nos homens. Escorregou a mão na dela e ela acariciou com a almofadinha de seu polegar o dorso de sua mão, lhe lendo, lendo seus pervertidos pensamentos e seus segredos mais escuros, de tal maneira que ela se estremeceu.

Joley ignorou o ataque de lembranças e se concentrou em seus pervertidos pensamentos. Não podia deixar de pensar em seus peitos e amava sua cadeia. Em sua major parte seus pensamentos eram todos a respeito do que gostaria de lhe fazer a ela. Dedicou-lhe um lento sorriso, sedutora, que fez reagir a seu corpo e correr a sua mente.

—É tão compassivo por preocupar-se pela alma de minha irmã —se moveu, um suave ondulação de seu corpo, o suficiente para fazer alarde de seus exuberantes curva sem parecer que fazia outra coisa. Foi fácil, o suficiente para empurrar de abaixo os microfones quando o Reverendo falasse, e interviesse quando lhe enganasse para que na emissão só se ouvisse a luxúria e a excitação em sua voz.

Sorriu-lhe, seu sorriso um abafadiço convite.

—É uma lástima que você não goste das mulheres, é um homem bonito e nós poderíamos... —encolheu-se de ombros, deixando que seu corpo apenas se deslizasse contra o dele, os dedos escapando dos dele quase a contra gosto. Antes dele pudesse responder a sua alegação, aproximou-se um pouco mais para que sua respiração esquentasse sua orelha —Me diga se poderia me salvar inclusive?

Reagiu visivelmente, um tremor de excitação passando através de seu corpo. Ela inclinou a cabeça, o olhar mantendo o seu, tanto que por um momento foram as únicas duas pessoas ali. Sua voz era um suave sussurro.

—Você gosta dos jogos, verdade?

Estava-a imaginando em sua misericórdia, atada e tomando algo que lhe desse, enquanto ele pregava que era por seu bem. Aumentou sua imaginação, lhe deixando saborear o poder que teria sobre ela.

lambeu-se os lábios e a protuberância em suas calças cresceu.

—Poderíamos explorar possibilidades se quer te salvar.

—Pensa que me poderia salvar? Fiz coisas —entoou sua voz um grau mais baixo e insinuou todo tipo de coisas pecaminosas, malvadas e muito sexuais.

O Reverendo engoliu várias vezes.

—Poderia te salvar, menina.

Esta vez quando ela deu um passo mais perto, os peitos roçaram seu peito e logo se deslizou fora outra vez, seus lábios em um sedutor sorriso.

—O que faria? Me diga. Diga-me isso agora mesmo.

 Sua mão deslizou para baixo por seu peito e sua barriga, detendo-se abruptamente na parte dianteira de suas calças, os dedos ligeiramente golpeando e logo deslizando-se fora.

Ele engoliu a saliva, as imagens em sua cabeça vencendo todo o resto. Tratou de alcançá-la, suas mãos reacomodando-se ao redor de seus braços, lhe cravando profundamente os dedos.

—Teria que te atar para não deixar que o diabo te apanhasse. Enfrentará-se para mim por ti. Vê quão necessário é.

Ela pestanejou para ele, com cara de menina, seus olhos ardentes de desejo por ele. Podia saboreá-la, senti-la já. O Reverendo se esqueceu de seus homens, que tratavam de lhe separar das câmaras. Havia aprovação em seus olhos, necessidade por ela. Deixaria-lhe porque ele tinha o poder.

—A flagelação é bela em uma mulher e algumas vezes é a única forma.

—Tenho um montão de pecados —disse. Sua mão arrastando-se por seu peito, o olhar ainda travada com a dele—. Te sentirei profundamente em meu interior? —ignorou a seu guarda-costas tal como o fazia ele.

—OH, sim —inclinou a cabeça, apenas capaz de respirar de tanto querê-la.

—Vou fodê-la até te enlouquecer. Farei-te gritar. Estará preciosa com o sangue correndo por suas costas, seus peitos e seu traseiro —estava tão fascinado, estava completamente alheio a que falava em voz alta.

Joley escolheu esse momento para dar um passo a um lado para que as câmaras pudessem captar a imagem perfeita de um homem muito pervertido cobiçando a uma mulher.

—Em parte falas de tolices, Rev, mas dentro de ti é um bastardo doente. Basicamente, diz que para me salvar a alma, tem que me despir, me atar, me flagelar e logo me matar? Caray. Retorcido. Mas não, obrigado.

Calado sob o feitiço de sua voz e corpo, o Reverendo contemplou as câmaras piscando, sua mão tratando de alcançá-la enquanto se afastava andando.

Joley o tirou de cima, esfregando-as mãos nas coxas.

—Repugna-me. Vai depois do sexo, limpo e despojado, e você gosta de machucar às mulheres. Põe-te assim? Machucando às mulheres? Sabe por que? Não te levanta de nenhuma outra forma.

O guarda-costas mais alto golpeou ruidosamente suas costas com uma mão para seu peito enquanto agarrava ao Reverendo, lhe separando de sua hipnótica voz, lhe apartando protetoramente de um empurrão detrás deles.

Joley se cambaleou e quase caiu, mas se freou. Deliberadamente passando sua língua ao longo de seus lábios, enviou-lhe ao Reverendo outro sedutor sorriso.

—Pensa que minha irmã é a diaba? Estava equivocado.

—Cadela —o mais alto dos guarda-costas do Reverendo se equilibrou sobre ela outra vez.

Joley esperou, com as Pelotas nos pés, o golpe. Queria que o homem a assaltasse. Veria-se tão maravilhoso para as câmaras e faria ainda mais mal ao Reverendo que já tinha gravemente danificada sua reputação.

Antes de que seu punho pudesse aterrissar, Ilya Prakenskii deu um passo entre eles, um fluxo de músculo e coordenação, sua mão apanhou o punho no ar e o deteve. O homem caiu sobre os joelhos, a agonia na cara.

Joley deu um passo atrás, uma mão indo à garganta em um gesto defensivo quando sentiu o aumento da quente e negra energia da cólera, pulsando no ar.

—Não lhe mate —murmurou—. Ilya. Não o faça.

O russo voltou a cabeça, seu olhar ao vermelho vivo encontrando-se com o dela.

—Entra na casa agora —ordenou com os dentes apertados.

Cada vestígio de cor desapareceu da cara do Joley, mas trocou de direção e voltou rapidamente para a casa, diretamente nos braços da Hannah.

—Está bem, neném, estou aqui —a consolou Hannah.

—Sinto-me tão suja. Incitei tanto a esse homem a atacar e logo Ilya veio. Não sabia que estava ali. Não lhe senti, e viu tudo o que fiz —Joley, que nunca chorava, pôs-se a chorar.

—Alguém tinha que deter esse horrível homem.

A porta se abriu de repente e Ilya Prakenskii parou ali, seus ombros largos enchendo o espaço. O quarto pulsou com negra fúria. Deu duas largas pernadas e ondeou a mão detrás dele. A porta se fechou golpeando ruidosamente.

—Está deliberadamente tratando de que lhe matem? —ignorando a Hannah e Sarah, puxou bruscamente Joley tirando dos braços da Hannah e a fez voltar-se para lhe confrontar—. Porque esse homem não é simplesmente um pervertido, é perigoso, e deve ter percebido no momento no que lhe tocou. Destruiu-lhe em televisão ao vivo. Que diabos estava pensando?

Joley se mordeu fortemente os lábios para tratar de deixar de chorar. Humilhava-a que Prakenskii a tivesse pego em tal momento de debilidade. Particularizou cada palavra com uma dura sacudida e quis liberar-se e lhe cuspir à cara, mas tinha razão. Tinha toda a razão e havia meio enlouquecido a um monstro e isso a desgostava.

—Nikitin viu tudo. Está obcecado contigo, também. O que pensa que será o primeiro que me dirá quando estivermos sozinhos? Vai querer ao filho de puta que te golpeou morto. Maldita seja, Joley. Não pensa alguma vez antes de atuar?

—Fez por mim —disse Hannah, dando um passo perto de sua irmã menor— Me protegia.

—Usou sua voz e seu corpo com ele. Ficará mais obcecado e não se irá —Ilya soltou ao Joley depois de uma dura sacudida mais, frustrado e afastando-se dela, passando-a mão pela cara.

—Se sua voz tivesse sido tomada pelo microfone, obcecaria a mais de um. Que diabos está equivocado contigo?

—Talvez foi um pouco impulsiva —defendeu Hannah—, mas foi com boa intenção.

—Igual a quando se fez passar pela Libby? Meio mundo pensa que está metida em retorcidas orgias sexuais e a outra metade está obcecada com ela, são perigosos.

Joley se limpou os olhos e levantou o queixo, sua expressão teimosa, desafiante.

—Talvez esteja metida em retorcidas orgias. Não é teu assunto se o estiver.

Vaiou.

—Não me empurre agora mesmo, garotinha. Ou te encontrará sobre meus joelhos ante os olhos de suas irmãs. Estou furioso com contigo.

—Não te atreveria. Deteria-te.

—Não, Joley, não o faria. Ambos sabemos, assim é que dá marcha atrás e me deixe vociferar a respeito disto como merece. Mas lhe advirto isso —se aproximou mais a ela—, a próxima vez que faça algo tão tolo, tão perigoso, vou te dar uma lição que nunca esquecerá.

Afastou-se, caminhando de cima abaixo pela parte de quarto como um tigre inquieto, visivelmente acalmando-se e recuperando o controle. Quando deu a volta, não estava menos furioso, não era menos aterrador, mas esta vez sua fúria era fria.

—E o que acontece com vocês? —as outras Drake tinham ido à deriva pelo quarto, uma por uma, tomaram posições em um círculo solto lhe vigiando com olhos cautelosos—. Crêem honestamente que ela é tão resistente? Tão forte? Por que equivocadamente não cuidam de sua irmã menor?.

A veloz aspiração do Joley foi audível.

—Sou assim de resistente e se fosse você não ameaçaria a minhas irmãs ou justamente se inteirará que tão resistente realmente sou.

A cabeça da Hannah pulsava, as emoções balançando fora de controle. Isto era culpa dela. Joley se expor ao perigo por sua culpa. Embora detestasse muitíssimo ao Prakenskii, estava no certo. Joley era impulsiva e atuava à boa de Deus ante a segurança quando protegia à família. Era possível que quem quer que odiasse a Hannah trocasse esse ódio de direção enfocando-o em Joley?

—Tem razão —disse, sua voz estrangulada pelas lágrimas —Tem razão. Joley, carinho, tem que ser mais cuidadosa. Está ali fora, nas notícias, e as pessoas equivocadas lhe podem observar.

O golpe na porta sacudiu seus nervos. Pressionou os dedos apertadamente contra os lábios e partiu dando meia volta para tratar de evitar que outros vissem quão afligida estava. de repente todo o ocorrido voltou. A faca. A dor. O absoluto horror. E agora teria que preocupar-se se por acaso alguém o fazia o mesmo ao Joley.

Ilya deteve Sarah com a mão quando deu um passo para a porta.

—É Nikitin —disse—. Tome cuidado. Não sabe nada de suas capacidades.

Elle se moveu perto da Hannah e rodeou sua cintura com um braço, situando seu corpo diante de sua irmã. Hannah franziu o cenho. Elle era a mais jovem, a mais tranqüila, e definitivamente a mais letal. Hannah não queria já o amparo de Elle. Mais que tudo, isso deveria ser à inversa, mas o coração golpeava, lhe ardendo os pulmões, e logo que podia pensar com o zumbido da cabeça. Estava-lhe dando um ataque de pânico em toda a extensão da palavra.

—Joley, leva acima a Hannah —ordenou Ilya— Te apresse.

Joley passeou o olhar dele à pálida cara da Hannah. Sem protestar, agarrou a mão da Hannah e a tirou do quarto, subindo as escadas. Atrás deles, podia ouvir o Prakenskii abrindo a porta principal e deixando entrar o gângster.

—E-Eu não apodreci posso respirar —gaguejou Hannah, sua respiração entrecortada e dificultosa.

—Sim que pode, carinho —disse Joley—. Estará a salvo em seu quarto.

—Fora —Hannah indicou o balcão—. Poderia respirar fora. Estava a salvo com o vento e o mar. Andou a provas ao longo das paredes para o biombo e abriu, dando um passo com alivio no balcão lajeado.

—Melhor? —perguntou Joley, arrastando a cadeira da Hannah mais perto.

—Sim. Sinto muito, Joley, e me causar pena que sentisse que tinha que sair ali e me proteger desse bastardo pervertido. É uma irmã assombrosa.

—As pessoas como essa me enchem o saco tanto, Hannah —guardou silêncio um momento, a mão lhe tremia quando se tornou para atrás o cabelo—. Odeio que Ilya me olhasse assim. Fez-me me sentir barata e suja.

—OH, Joley —Hannah se entristeceu, estendendo a mão para ela—. Não te olhou como se fosse barata ou suja, estava preocupado, alterado e assustado por ti. Fez-me ter medo por ti.

—Odeio que tenha razão. Fiz uma tolice, mas ainda me alegro de havê-lo feito. Muito poucas pessoas vão seguir ao Reverendo depois de sua pequena demonstração.

—Tome cuidado, Joley. Tenha muito cuidado de agora em diante. Tem-te feito com um inimigo —Hannah se balançou daqui para lá, tratando de encontrar o equilíbrio outra vez.

—Jonas vai estar realmente zangado comigo, também —esclareceu.

—Mas vais sair com ele esta noite e isso lhe deveria adoçar.

—Talvez não deveria ir com ele. Não quero que me ame assim. Quero ser perfeita para ele. Forte para ele.

—Jonas te amou sempre, Hannah, foi a única que não sabia. Não vai deixar de te amar porque você lhe diga.

—Então, pensa que deveria ir? —comprometer-se-ia se ia—. Entendia, e se repetia que se dava por entendido que se ia com ele, então ia seduzir lhe e isso seria um vinculo no que ao Jonas concernia. Estava preparada? Honestamente não sabia.

—Ama-lhe, Hannah? Realmente lhe ama? —perguntou Joley.

—Com cada respiração de meu corpo. Até os ossos. De todas as formas.

—Por que? Por que lhe ama tanto, Hannah?

Hannah se afundou na cadeira e pôs os pés no passamanes, a tensão escapando de seu corpo.

—Faz-me me sentir viva. Vê-me. Não posso me esconder dele. Vê-me e me ama de todas formas. Faz-me me sentir bela quando não me faz sentir isso ninguém mais. Posso ver-me em seus olhos e me faz ser melhor pessoa do que sou.

—Que mais?

—Sabe como divertir-se e também diverte-se comigo. Não lhe importa se sou rica ou famosa. Não lhe importa se for um enorme êxito no mundo. Faz-me sentir como se as coisas que quero fazer, estar em casa, cozinhar e ser esposa e mãe, fosse tão importante como o mundo econômico.

—E? —advertiu Joley com um pequeno sorriso aberto.

Hannah sorriu abertamente para trás.

—E é ardente na cama.

Joley riu.

—Então te digo, que tem sua resposta. O resto, tudo entrará em seu lugar. Te deixe ser feliz, Hannah.

—O que há a respeito de meus ataques de pânico? Não se vão.

—Merece ter uns quantos ataques de pânico depois de que algum louco tratasse de te costurar a punhaladas com uma faca. Ao Jonas não importa. Não nos importa. Por que deveria te importar a ti? Seja feliz.

Hannah inclinou a cabeça.

—Tem razão. Como chegou a ser tão preparada? Vou tomar meu banho e me preparar e logo te chamarei e me ajudasse com uma coisa, algo importante.

—Claro. Estarei de retorno com o 911 de algo que ocorra escada abaixo —Joley piscou e a deixou sozinha.

Hannah retornou a seu quarto, fechando cuidadosamente o biombo e abrindo as persianas. deteve-se em seu quarto à espera de que seu coração deixasse de pulsar tão rápido. Não tinha decidido que seria sincera com ela mesma? O que queria que ocorresse esta noite com o Jonas? Era a que tratava de postergar estar com ele fisicamente porque a envergonhava seu corpo, mas lhe queria com tal intensidade que a sacudia. Quando a noite caía, a estreiteza de seu corpo parecia só aumentar. Queria estar baixo ele, sobre ele, com ele, seu corpo tomando o dela uma e outra vez. E que a ajudasse Deus, queria esse olhar tão agudamente possessivo em sua cara uma e outra vez.

Tudo o que havia dito ao Joley era verdade. Amava ao Jonas. Não tinha havido ninguém antes dele e nem haveria ninguém depois dele. Se lhe queria, então precisava ficar de pé e tomar.

Caminhou lentamente para o espelho e cravou os olhos em sua cara. Para ela, as lesões eram tudo o que podia ver, sua cara atalho era uma ruína, emendada, igual a Frankenstein, mas quando respirou profundamente e se forçou a si mesmo a analisar suas feridas, estava claro que a etapa mais dura já tinha passado e se desvaneciam. O rajado era vermelho, mas não inflamado. A pele se via saudável e suave outra vez. As contusões e o inchaço fazia tempo que tinham desaparecido. Suas irmãs realmente tinham obtido um milagre, junto com um cirurgião plástico genial que se tomou seu tempo para assegurar-se de que meticulosamente tinha costurado o dorso da cara de uma vez.

Lentamente, Hannah se despiu, ainda cravando os olhos no espelho. A garganta, os peitos e as costelas se viam muito melhor, tal como passava com a cara. As lesões mais profundas estavam um pouco mais vermelhas, mas mesmo assim, inclusive essas tinham cicatrizado mais rápido, graças a suas irmãs. Franziu o cenho quando tratou de ver o que diziam que Jonas via. Era tão bela como todos diziam? Quis sê-lo para o Jonas. E talvez ao fim, quão único tinha importância era como ele a visse. Se Jonas pensava que seu corpo era belo e o desfrutava.

Ruborizou-se, pensando no muito que desfrutou ao tocá-la. Fez-se seu dono, quase como se lhe houvesse dito que seu corpo lhe pertencia. Encheu a banheira e verteu sai aromáticas nela, querendo se agradar mais do que nunca. Queria que seu corpo lhe pertencesse, queria ver esse mesmo olhar de absoluta posse e aguda fome em sua cara e em seus olhos.

Hannah cuidou especialmente sua aparência, aplicando-se sua fragrância favorita para que assim sua pele tivesse o ligeiro perfume do pêssego. Usou loção para que a pele fora mais suave e se lavou o cabelo com o xampu do mesmo aroma. aplicou-se a maquiagem com cuidado, o suficiente, como o usaria um profissional para realçar seu aspecto natural, ressaltando e pronunciando seus olhos sem exceder-se.

Esteve muito tempo escolhendo a lingerie, um sutiã e uma tanga um jogo de um azul trêmulo. Qual era sua fantasia? Ficou uma saia fluída, o suave azul do mar formou redemoinhos meia-noite, e orvalhada de estrelas de prata. Amava o tato do suave e sensual material, diminuindo sobre seus quadris e lhe roçando os tornozelos. Envolveu uma cadeia de estrelas de prata ao redor do tornozelo esquerdo e outra ao redor dos quadris. ficou com o olhar fixo no espelho do quarto de banho, amaldiçoando por não ter um espelho de tamanho normal. Queria ver se podia escapar sem calcinhas.

A respiração se entupiu na garganta e o coração trovejou com a idéia de ser tão atrevida. Simplesmente para saber como se sentiria, Hannah tirou a lingerie e atravessou andando pelo quarto. Só ela saberia. Seria tão consciente de que estava nua e pronta para ele. Veria-o ele em seus olhos? Fez um pequeno giro em espiral e observou o curso da saia. Não se notava, nem sequer quando caminhava e os renda se assentavam agradando na união das pernas, mas se sentia sexy.

Alcançou e desenganchou o sustento. No espelho, divisou os peitos nus vibrando enquanto se dava lentamente a volta. Colocou lentamente a blusa camponesa que ao Jonas tanto gostava sobre os cheios peitos, tinha outro aspecto. Estava completamente coberta, sem nenhuma pista de que estava nua sob suas roupas, em espera de seu toque.

—Hannah? —Joley colocou a cabeça dentro do quarto—. Elle me deu este arquivo para você. Disse que é o que você pediu de todos os loucos que lhe escrevem. É certo que quer lê-lo?.

Estava segura quando se despertou pela manhã, mas agora já não estava tão segura.

—Só ponha no penteadeira. Pensarei nisso.

—Bem, dá uma volta para que te possa ver?

Hannah assentiu com a cabeça, contendo o fôlego enquanto o fazia, esperando para saber se Joley advertia algo diferente nela.

—Está preciosa. Jonas amará esse traje.

Nenhuma ardilosa brincadeira. Só Hannah se daria conta de seu atrevimento. Por alguma razão, esse secreto conhecimento lhe deu coragem. Recolheu as tesouras que tinha colocado fora e as tendeu a sua irmã.

—Quero que me corte o cabelo.

Joley cravou os olhos nas tesouras com força.

—Do que está falando?

—Quero me cortar o cabelo.

—Tem um cabelo precioso, Hannah.

—Todo mundo gosta de meu cabelo, mas eu não. Quero que me corte isso. Você faz toda classe de coisas com seu cabelo. Não te estou dizendo que tinja de rosa ou qualquer outra coisa, simplesmente que corte isso.

Joley agarrou as tesouras a contra gosto.

—Está segura?

—Absolutamente. E enquanto o faz, me diga o que aconteceu quando Nikitin apareceu —foi para o balcão. As aves apreciariam seu cabelo para seus ninhos.

—Sarah disse que Nikitin realmente se desfez em comprimentos. Perguntou por ti e disse o que sentia muito o que te tinha acontecido. Disse que se alegrava de que Ilya estivesse perto para  deter o louco.

—Ilya o deteve. Estava Nikitin perto do lugar?

—Só repito o que disse Sarah. Quis vê-la. Libby lhe disse que estava descansando, que estava estremecida pelo acontecido.

—Acreditou?

—Não penso que tivesse outra opção. Disse a Sarah que queria que eu tomasse cuidado porque a costa estava cheia de russos.