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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PREDADOR / Patricia Cornwell
PREDADOR / Patricia Cornwell

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PREDADOR

 

 “A maioria dos psicólogos forenses nunca foi a um depósito de cadáveres. Jamais viram uma autópsia e nem desejam ver as fotografias. Se interessam mais pelos detalhes do perpetrador do que pelo o que este fez a sua vítima, porque o perpetrador é o paciente e a vítima não é mais que o meio que este utiliza para expressar sua violência. Esta é a desculpa que muitos psicológicos e psiquiatras forenses dão. Outra explicação, mais plausível, é a de que carecem de valor ou da inclinação para entrevistar as vítimas ou, ainda pior, para dedicar um tempo a seus cadáveres. Benton é diferente. Depois de mais de uma década com Scarpetta, não poderia ser de outra maneira.”

A forense Kay Scarpetta investiga uma série de assassinatos perpetrados, a priori, por uma mesma pessoa. O caso a levará a investigar na Flórida e em Boston, onde seu companheiro sentimental, Benton Wesley, participa de um estudo científico sobre assassinos em série. Um e outro se servirão de suas respectivas investigações para tentar solucionar o complexo caso.

 

É domingo à tarde e a doutora Kay Scarpetta se encontra em seu escritório da Academia Nacional de Medicina Legal, em Hollywood, Flórida, aonde começam a formarem-se nuvens que pressagiam outro temporal. Não é normal que chova tanto e faça tanto calor em fevereiro.

 

Soam disparos por todas as partes e se ouvem vozes que gritam coisas que não se consegue entender. Durante os fins de semana são muito populares os combates de ficção. Os agentes de Operações Especiais podem correr de cá para lá vestidos com seus trajes negros, disparando a torto e a direito. Scarpetta apenas presta pouquíssima atenção. Segue repassando uma parte do relatório de um médico forense de Luisiana, o exame de uma paciente, uma mulher que assassinou cinco pessoas e afirma não lembrar-se de nada. Scarpetta, vagamente consciente do ruído cada vez mais alto que está fazendo uma motocicleta no recinto da Academia, chega à conclusão de que o mais provável é que o caso não seja um candidato válido para a investigação “Psico-Reguladores de Agressividade Total Reativa”, conhecida como PREDADOR.

 

Escreve uma mensagem eletrônica ao psicólogo forense Benton Wesley: «Seria interessante contar com uma mulher no seu estudo, porém, de que serviriam os dados? Tinha entendido que PREDADOR é um estudo só com homens». A motocicleta se aproxima rugindo do edifício e se detém justo ao pé da janela do escritório de Scarpetta. «Já está usando-a outra vez Pete Marino», pensa irritada enquanto Benton lhe envia uma mensagem instantânea: «É provável que Luisiana não nos deixe incluí-la no estudo. Por aqui gostam muito de estudar pessoas, embora se coma muito bem».

 

Scarpetta chega à janela e vê que Marino desliga o motor, apeia da moto e olha a seu redor com o habitual gesto de macho, sempre atento a quem possa estar olhando. Scarpetta está guardando debaixo de chave vários expedientes de casos PREDADORES na gaveta de sua mesa, quando Marino entra no escritório sem bater e toma assento em uma cadeira.

 

—        Sabe algo do caso de Johnny Swift? Pergunta, com seus enormes braços tatuados sobressaindo de uma camisa esportiva sem mangas, que tem o emblema da Harley nas costas. Marino é o chefe de investigação da Academia e investigador a meio expediente no Instituto de Medicina Legal no condado de Broward. Ultimamente parece uma paródia de motociclista valentão. Larga o capacete sobre a mesa de Scarpetta, um capacete negro cheio de rachaduras e com marcas de orifícios de bala por todas as partes.

—        Refresque-me a memória. Este capacete não é mais do que um enfeite. Aponta para o objeto. — Pura fachada. Não lhe servirá de nada se tiver um acidente com essa motocicleta de desenho animado que usas. Ele joga um pacote sobre a mesa.

—        Um médico de São Francisco com consultório aqui, em Miami. Ele e seu irmão tinham um apartamento em Hollywood, na praia, não muito longe do Renaissance, você sabe, essas duas torres de apartamentos ao lado do parque John Lloyd. Faz uns três meses, no Dia de Ação de Graças, seu irmão o encontrou caído no sofá do apartamento, morto por causa de um disparo de escopeta no peito. A propósito, vinha de operar as mãos e a intervenção não tinha saído bem. À primeira vista, um caso de suicídio.

—        Você não estava ainda no Instituto de Medicina Legal, lembra Scarpetta. Ainda que por aquela data já fosse a diretora de ciência e medicina forense da Academia, não aceitou o posto de patologista do Instituto de Medicina Legal do condado de Broward, até o mês de dezembro passado, quando o doutor Bronson, o chefe, começou a reduzir horário e a falar de demissão. —     Lembro-me de haver escutado algo acerca desse caso, admite, incomodada pela presença de Marino, a quem rara vez se alegrava de ver.

—        Da autópsia se encarregou o doutor Bronson, falou Marino olhando o que havia em cima da mesa, fixando a vista em qualquer coisa menos nela.

—        Você participou?

—        Não. Estava fora da cidade. O caso continua pendente porque a polícia de Hollywood pensava que pudesse haver algo mais. Suspeitavam de Laurel.

—        Laurel?

—        O irmão de Johnny Swift. São gêmeos idênticos. Não havia nada que provasse nada, de modo que o assunto esfriou. Então, anteontem, lá pelas três da manhã, recebi uma ligação telefônica muito rara em casa. A rastreamos e sabemos que foi efetuada de uma cabine de Boston.

—        Massachusetts?

—        Outra que adivinhaste.

—        Achava que seu número não figurava na lista.

—        Pois está lá. Marino retira de um bolso traseiro da calça um papel marrom dobrado e o abre.

—        Vou ler o que me disse esse tipo, porque anotei palavra por palavra. Chamava-se a si mesmo Porco.

—        Animal? A isso se referia? Scarpetta olha fixamente Marino, perguntando-se se ele não estará enganando-a, tentando deixá-la em ridículo. Porque isto é o que estiveram fazendo ultimamente.

—        Se limitou a dizer: «Sou o Porco. Tinham enviado um castigo que era uma brincadeira». Não sei o quer dizer isto. E depois concluiu: «Existe um motivo para que faltassem vários objetos no lugar do crime de Johnny Swift, e se tiver algo no cérebro, deveria dar uma boa vista de olhos no que aconteceu a Christian Christian. Nada acontece por casualidade. Faria bem em perguntar a Scarpetta, porque a mão de Deus arrasará a todos os perversos, incluída essa asquerosa sobrinha lésbica dela». Scarpetta não permite que o que sente se note no tom de voz quando responde:

—        Está certo de que isso é o que disse exatamente?

—        Tenho pinta de ser um escritor de ficção?

—        Porém Christian Christian?

—        Vá alguém saber. A esse tipo não interessava precisamente que me pusesse a perguntar por que duplicou uma palavra. Falava com voz suave, como uma pessoa que não sente nada, em um tom bem inexpressivo, e depois desligou.

—        Chegou a mencionar Lucy por seu nome ou simplesmente... ?

—        Repeti exatamente o que disse, cortou Marino. — É a única sobrinha que tens, não? Portanto é obvio que se referia a Lucy. Além disso, o nome de Porco poderia significar «mão de Deus»1, não é? Resumindo, me pus em contato com a polícia de Hollywood e me pediram que déssemos uma olhada no caso de Johnny Swift o quanto antes possível. Parece que, existe alguma coisa nas provas que demonstra que dispararam de próximo ou de longe. Digo eu que será ou um ou outro, não?

—        Se só houve um disparo, sim. Tem que haver algum erro de interpretação. Temos ideia de quem é esse Christian Christian? E mais: estamos falando de uma pessoa?

—        Até agora não demos com nada de utilidade nas buscas por computador.

—        E por que me conta isso só agora? Estive aqui todo o fim de semana.

—        Estive ocupado.

—        Se obténs informação sobre um caso como este não deveria esperar dois dias para me contar, replica ela com tanta calma quanto possível.

—        Você não é precisamente a mais adequada para falar de se guardar informação.

—        Que informação? Pergunta Scarpetta, confusa.

—        Deverias ter mais cuidado. Não falo mais.

—        Ficando misterioso não é de muita ajuda, Marino.

—        Quase se me esqueço. Em Hollywood sentem curiosidade por saber qual poderá ser a opinião profissional de Benton, adiciona como se acabasse de lhe ocorrer. Como de costume, se dá muito mal ao ocultar o que sente por Benton Wesley.

—        Podem lhe pedir que acompanhe este caso, responde Scarpetta. — Eu não posso falar por ele.

—        Querem que investigue se a chamada que recebi desse tal Porco é uma excentricidade, e eu disse a eles que isso vai ser bem difícil levando em conta que não foi gravada e que a única coisa que vai contar é minha versão particular em taquigrafia escrita em um pedaço de papel.

 

Levanta-se da cadeira e sua enorme presença parece ainda maior, e Scarpetta se sente menor que de costume. Ele apanha seu inútil capacete e põe os óculos de sol. Não olhou Scarpetta uma só vez ao longo de toda a conversa e agora ela não lhe vê os olhos. Não vê que existe neles.

 

—        Dedicarei toda a minha atenção. De imediato. Diz ela ao mesmo tempo em que ele se dirige até a porta. — Se quiser que voltemos a falar do assunto mais tarde, podemos.

—        Bom.

—        Por que não vai à minha casa?

—        Bom, repete ele. — A que horas?

—        Às sete.

 

1 - Mão de Deus, em inglês Hand of God, cujas iniciais formam a palavra hog, «porco». (N. da T.)

 

Na sala de ressonância magnética, Benton Wesley examina seu paciente através de um tabique de plexiglás. A iluminação é tênue, existem vários terminais de vídeo acesos ao longo do mostrador que percorre toda a parede. Colocou o relógio de pulso em cima da mesa. Tem frio. Ao cabo de várias horas dentro do Laboratório de Imagens Neuronais Cognitivas, estava gelado até os ossos, ou ao menos essa é a sensação que tem.

 

O paciente desta tarde não tem um número de identificação, porém tem nome. Basil Jenrette. É um assassino compulsivo de trinta e três anos, inteligente e com uma ligeira ansiedade. Benton evita o termo «assassino em série», tão utilizado e que já não significa nada, e que nunca serviu para outra coisa, do que insinuar vagamente que um criminoso assassinou três pessoas dentro de um determinado período de tempo. O qualificativo «em série» sugere que algo ocorre de maneira sucessiva. Não indica nada acerca dos motivos nem o estado mental de um agressor violento, e quando Basil Jenrette estava ocupado em matar, atuava de maneira compulsiva. Não podia parar.

 

A razão por que se está explorando seu cérebro, mediante um aparelho de obtenção de imagens por ressonância magnética cujo campo magnético é sessenta mil vezes mais potente que o da Terra, é ver se existe algo entre sua matéria branca e sua matéria cinzenta e se suas funções podem explicar seu comportamento. Durante as entrevistas clínicas Benton perguntou numerosas vezes por que o fez.

 

—        Tinha que fazê-lo.

—        Tinha que fazê-lo precisamente naquele instante?

—        Ali mesmo, na rua, não. Tinha que segui-la até ver se me ocorria um plano. Para dizer a verdade, quanto mais calculava mais gostava.

—        E quanto tempo decorria? Segui-la, calcular a situação. Pode me dar um prazo aproximado? Dias, horas, minutos?

—        Minutos. Talvez horas. Às vezes dias. Depende. Eram todas umas idiotas. Refiro-me a que, se você se desse conta de que iam sequestra-lo, ficaria sentado no carro sem tentar fugir sequer?

—        Era isso o que elas faziam, Basil? Ficavam sentadas no carro e não tentavam escapar?

—        As duas últimas não. Você sabe quem sou, porque essa é a razão de eu estar aqui. Não resistiram, porém quebrou o carro. Que tontas. Você preferiria que o matassem ali mesmo, dentro do carro, ou esperar para ver o que ia acontecer quando chegassem a meu lugar especial?

—        Aonde era esse seu lugar especial? Era sempre o mesmo?

—        E tudo porque quebrou o maldito carro.

 

No momento, a estrutura cerebral de Basil Jenrette não revelava nada de particular salvo o achado acidental de uma anomalia na zona posterior do cerebelo, um quisto de aproximadamente seis milímetros que pode ter afetado um pouco seu sentido do equilíbrio, porém nada mais. O que não é do todo normal é o modo como funciona seu cérebro. Não podia ser. Se o fosse, não seria um sujeito candidato para a investigação PREDADOR, e provavelmente não tinha dado seu consentimento. Para Basil tudo é um jogo e, além disso, é mais inteligente que Einstein, que se acredita que seja a pessoa mais superdotada do mundo. Jamais sentiu o mais leve remorso pelo o que fez e é bastante ingênuo para afirmar que, se tivesse oportunidade, mataria mais mulheres. Por desgraça, Basil parece muito com várias pessoas.

 

Os dois guardas presentes na sala de ressonâncias magnéticas se debatem entre a confusão e a curiosidade enquanto observam fixamente o tubo de mais de dois metros de comprimento e o grande imã, situado do outro lado do cristal. Estão de uniforme, porém não usam pistola. Ali dentro não pode haver armas, nada que contenha ferro, de modo que Basil tem os tornozelos e os pulsos presos por braçadeiras de plástico enquanto permanece deitado na cama dentro do aparelho, escutando o desagradável chiado dos impulsos de radiofrequência que soam como se alguém tocasse uma música infernal por grandes alto-falantes... Ou pelo menos assim parece a Benton.

 

—        Atenção. O teste seguinte são blocos de cores. O que quero que faça é nomear a cor, diz pelo intercomunicador a doutora Susan Lane, a neuropsicóloga. — Não, senhor Jenrette, peço que não balance a cabeça. Lembre-se que tem um cinto em cima do queixo para se lembrar de que não deve se mover.

—        Dez-quatro, soa a voz de Basil através do intercomunicador.

 

São oito e meia da tarde e Benton está inquieto. Está há meses inquieto, não tanto pela preocupação de que os Basil Jenrette do mundo venham a ter um acesso de violência entre as elegantes paredes de ladrilho antigo do hospital McLean e matem tudo o que encontrem a sua passagem, mas pela possibilidade de que o estudo esteja condenado ao fracasso, que seja um desperdício do dinheiro das subvenções e uma insensata perca de valioso tempo. O McLean está associado à Faculdade de Medicina de Harvard e nem o hospital nem a universidade aceitam com elegância os fracassos.

 

—        Não se preocupe em acertar tudo, está falando a doutora Lane pelo intercomunicador. — Não esperamos que acerte todos.

—        Verde, vermelho, azul, vermelho, azul, verde. A voz segura de Basil enche a sala. Um investigador marca os resultados em uma folha de dados enquanto o técnico que maneja o aparelho comprova as imagens em seu terminal de vídeo. A doutora Lane aperta de novo o botão para falar.

—        Senhor Jenrette, está indo muito bem. Está vendo tudo?

—        Dez-quatro.

—        Muito bem. Cada vez que veja esse terminal ficar escuro, fique tranquilo e sem se mover. Não fale, só concentre-se no ponto branco do terminal.

—        Dez-quatro. A doutora solta o botão de comunicação e pergunta a Benton:

—        Por que fala com o jargão dos policiais?

—        Porque foi policial. Com certeza por isso conseguia meter a as vítimas em seu carro.

—        Doutor Wesley, diz o investigador girando em sua cadeira. — É para você. O detetive Thrush. Benton apanha o telefone.

—        Que aconteceu? Pergunta a Thrush, um detetive de homicídios que trabalha para a polícia estadual de Massachusetts.

—        Espero que não tenha pensado ir cedo para a cama, diz Thrush. — Se soube do cadáver que encontraram esta manhã junto à laguna de Walden?

—        Não. Estive todo o dia encerrado aqui.

—        Mulher branca, sem identificação, de idade difícil de calcular. Terá uns trinta ou quarenta anos. Tem um disparo na cabeça.

—        Não sabia.

—        Já fizeram a autópsia, porém me ocorreu que talvez você quisesse dar uma olhada.

—        Dentro de menos de uma hora terei terminado, diz Benton.

—        Nos veremos na morgue.

 

A casa está em silêncio e Kay Scarpetta anda de um aposento a outro, acendendo todas as luzes, nervosa, alerta para ouvir o motor de um carro ou de uma motocicleta, avisando que está chegando Marino; ele está atrasado e não retorna as ligações.

 

Aproxima-se ansiosa para verificar se o alarme contra intrusos está ativado e que as luzes estejam acesas. Detém-se junto ao terminal de vídeo do telefone da cozinha para se certificar de que as câmaras que vigiam a parte dianteira, lateral e traseira da casa funcionam corretamente. No terminal de vídeo a casa aparece em sombras e se veem as formas escuras das árvores, as palmeiras e os hibiscos mexendo-se ao vento. O cais que existe detrás da piscina e, mais para lá, a superfície da água são uma mancha negra salpicada de luzes difusas procedentes das luminárias do edifício vizinho. Em uma panela de cobre que tem ao fogo remove um molho de tomate e champignons. Verifica como vai cozinhando a massa e como se embebe a mozarela fresca.

 

São quase nove; e se supõe que Marino deveria ter chegado há duas horas. Amanhã estará cheia com casos e turmas e não terá tempo para aguentar sua má educação. Se sente enganada, está cheia dele. Esteve três horas trabalhando sem parar no caso do presumido suicídio de Johnny Swift e Marino nem sequer se incomoda em aparecer. Se sente doída e, depois, furiosa. É mais fácil ficar furiosa. Cada vez mais chateada, vai até seu quarto sem deixar de prestar atenção no barulho de um carro ou uma moto. Apanha do sofá uma Remington Marine Magnum de calibre doze e se senta. Sentindo o peso da escopeta niquelada no colo, introduz uma chave no seguro, gira até a direita, tira do seguro e o libera. Em seguida desliza o cão até atrás para certificar-se de que não existe nenhum cartucho na câmara.

 

—        Agora vamos ler palavras, diz a doutora Lane a Basil pelo intercomunicador. — Não tem mais que ler as palavras da esquerda para a direita, certo? E lembre que não deve se mover. Está fazendo tudo muito bem.

—        Dez-quatro.

—        Ei, querem saber como ele é? Pergunta o técnico aos guardas. Chama-se Josh. Graduou-se em Física no MIT, trabalha como técnico enquanto prepara outra carreira, é rápido, porém excêntrico e tem um sentido do humor algo retorcido.

—        Já sei como ele é. Acontece que esta manhã o acompanhei ao banho, responde um dos guardas.

—        E depois o que fazia? Pergunta a doutora Lane a Benton. — Que fazia às vítimas depois de colocá-las no carro?

—        Vermelho, azul, azul, vermelho... Os guardas se aproximam um pouco mais do terminal de vídeo de Josh.

—        Levava-as a algum lugar, arrancava os olhos, conservava-as vivas um par de dias mais, violava-as repetidamente, degolava-as, jogava por ali seus cadáveres, colocando-os de maneira que impressionassem a todos, diz Benton à doutora Lane em tom prático, com seu estilo clínico. — Assim são os casos que conhecemos. Suspeito que matou mais. Na mesma época desapareceram na Flórida várias mulheres. Dão-se como mortas, embora ainda não encontrassem seus cadáveres.

—        Aonde as levava? A um motel, a sua casa?

—        Esperem um segundo, diz Josh aos guardas ao mesmo tempo em que seleciona a opção de menu 3D e em seguida SSD, ou seja, Visualização com Sombreado de Superfície. — Isto é verdadeiramente genial. Nunca mostramos aos pacientes.

—        Por quê?

—        Lhes da pânico.

—        Não sabemos onde, está dizendo Benton à doutora Lane sem tirar o olho de Josh, preparado para intervir se o outro passa dos limites. — Porém é interessante. Os cadáveres que deixou abandonados, todos, continham partículas microscópicas de cobre.

—        Do que me estás falando?

—        Mesclado com a terra e tudo o mais que ficou aderido, no sangue, na pele, nos pelos.

—        Azul, verde, azul, vermelho...

—        Isso é muito estranho. Aperta o botão para falar.

—        Senhor Jenrette, como vamos? Encontra-se bem?

—        Dez-quatro.

—        Em seguida vai ver palavras impressas em uma cor diferente do que significam. Quero que nomeie a cor da tinta. Diga somente a cor.

—        Dez-quatro.

—        Que fantástico! Exclama Josh enquanto seu terminal se enche com uma espécie de máscara mortuária, uma composição de numerosas quadrículas de alta resolução, de um milímetro de largura, que formam a imagem escaneada da cabeça de Basil Jenrette, pálida, sem cabelos e sem olhos, que termina bruscamente por baixo da mandíbula, como se o sujeito tivesse sido decapitado. Josh faz rotar a imagem para que os guardas possam vê-la de diferentes ângulos.

—        Por que parece que lhe cortaram a cabeça? Pergunta um deles.

—        É onde se interrompeu o sinal.

—        A pele não parece de verdade.

—        Vermelho, er... Verde, azul, quero dizer vermelho, verde... A voz de Basil chega à sala.

—        Não é pele autêntica. Como vou explicar... O que faz o computador é reconstruir o volume, descrever a superfície.

—        Vermelho, azul, er... Verde, azul, quero dizer verde...

—        Só o usamos com PowerPoint, quase sempre para superpor o estrutural ao funcional. Não é mais do que um pacote de análise de imagens obtidas por ressonância magnética com o que se pode juntar dados e examiná-los como um desenho, brincar com ele.

—        Deus, é muito feio. Benton já não pode mais. O sujeito deixou de nomear cores. Dá uma olhada fulminante a Josh.

—        Josh, está pronto?

—        Quatro, três, dois, um, pronto, responde Josh e, em seguida, a doutora Lane começa ao teste de interferência.

—        Azul, vermelho... Quero dizer... Merda, isto... Vermelho, quero dizer azul, verde, vermelho... A voz de Basil irrompe com violência na sala ao errar todas as cores.

—        Alguma vez disse por quê? Pergunta a doutora Lane a Benton.

—        Desculpe, responde ele, distraído. — Por que, o quê?

—        Vermelho, azul, merda! Isto... Vermelho, azul-verde...

—        Por que retirava os olhos.

—        Disse que não queria que vissem o pênis pequeno.

—        Azul, azul-vermelho, vermelho, verde...

—        Desta vez não o faz tão bem, comenta ela. — De fato, errou em quase todos. Em que departamento de polícia trabalhou, para que me lembre de não provocá-los e evitar que me deem uma multa por excesso de velocidade nessa parte do mundo? Aperta o botão do intercomunicador. — Tudo bem ali dentro?

—        Dez-quatro.

—        No condado de Dade.

—        Lástima. Sempre gostei de Miami. De modo que assim é como conseguiu retirar este da cadeia. Graças a seus contatos no sul da Flórida, responde a doutora voltando a apertar o botão para falar.

—        Não exatamente.

 

Benton observa através do vidro a cabeça de Basil, situada no extremo mais longínquo do imã, e imagina o resto de seu corpo vestido como o de uma pessoa normal, com jeans e uma camisa branca. Aos reclusos não se é permitido usar macacão de presidiário dentro do recinto do hospital; da má imagem.

 

—        Quando começamos a solicitar aas penitenciárias estaduais que nos enviassem sujeitos para nosso estudo, Flórida pensou que este era justo o tipo adequado. Se alegraram de livrar-se dele. Diz Benton.

—        Muito bem, senhor Jenrette, anuncia a doutora Lane pelo intercomunicador. — Agora vai começar o doutor Wesley para lhe dar os comandos. Depois verá uns rostos.

—        Dez-quatro.

—        Alguma vez disse por quê? Pergunta a doutora Lane a Benton.

—        Desculpe, responde ele, distraído. — Por que, o quê?

—        Vermelho, azul, merda! Isto... Vermelho, azul-verde...

—        Por que retirava os olhos.

—        Disse que não queria que vissem o pênis pequeno.

—        Azul, azul-vermelho, vermelho, verde...

—        Desta vez não o faz tão bem, comenta ela. — De fato, errou em quase todos. Em que departamento de polícia trabalhou, para que me lembre de não provocá-los e evitar que me deem uma multa por excesso de velocidade nessa parte do mundo? Aperta o botão do intercomunicador. — Tudo bem aí dentro?

—        Dez-quatro.

—        No condado de Dade.

—        Lástima. Sempre gostei de Miami. De modo que assim é como conseguiu retirar este da cadeia. Graças a seus contatos no sul da Flórida, responde a doutora voltando a apertar o botão para falar.

—        Não exatamente.

 

Benton observa através do vidro a cabeça de Basil, situada no extremo mais longínquo do imã, e vê o resto de seu corpo vestido como o de uma pessoa normal, com jeans e uma camisa branca. Aos reclusos não é permitido usar macacão de presidiário dentro do recinto do hospital; dá má imagem.

 

—        Quando começamos a solicitar às penitenciárias estaduais que nos enviassem sujeitos para nosso estudo, Flórida pensou que este era justo o tipo adequado. Alegraram-se de se livrar dele, diz Benton.

—        Muito bem, senhor Jenrette, anuncia a doutora Lane pelo intercomunicador. — Agora o doutor Wesley vai entrar e lhe passar o mouse. Depois verá uns rostos.

—        Dez-quatro.

 

Em qualquer outro caso a doutora Lane seria quem iria entrar na sala da ressonância magnética e trataria com o paciente. Entretanto no caso do estudo PREDADOR não se permite as doutoras nem as cientistas que tenham contato físico com o sujeito. Os médicos e cientistas masculinos também devem tomar precauções enquanto se encontram dentro da sala. Fora dela, corresponde aos internistas decidir se devem colocar restrições aos sujeitos de estudo durante as entrevistas. Benton entra acompanhado dos dois guardas, acende as luzes da sala e fecha a porta. Os guardas ficam próximos do imã e prestam atenção enquanto Benton apanha o mouse e o coloca nas mãos de Basil.

 

Fisicamente, Basil não é grande coisa: um indivíduo miúdo, de cabelo ruivo que começa a rarear, e uns olhos pequenos e cinzentos, um pouco juntos. No reino animal, os leões, os tigres e os ursos, os predadores, têm os olhos muito juntos. As girafas, os coelhos, as pombas, as presas, têm os olhos mais espaçados e orientados para os lados da cabeça, porque necessitam de visão periférica para sobreviver. Benton sempre se perguntou se esse mesmo fenômeno evolutivo é aplicável aos humanos; uma investigação que ninguém vai financiar.

 

—        Está tudo bem, Basil? Pergunta Benton.

—        Que tipos de rostos? A cabeça de Basil fala desde o extremo do imã, o que faz pensar em um pulmão de aço.

—        A doutora Lane já explicará.

—        Tenho uma surpresa, diz Basil. — Contarei quando tivermos terminado. Tem um olhar estranho, como se através de seus olhos estivesse observando uma criatura maligna.

 

—        Genial. Adoro surpresas. Só uns minutos mais e começamos, responde Benton com um sorriso. — Logo teremos uma conversa para comentar a sessão.

 

Os guardas acompanham de novo Benton para fora da sala e retornam a seus postos enquanto a doutora Lane começa a explicar pelo intercomunicador que o quer que Basil faça é apertar o botão esquerdo do mouse se o rosto que está vendo é de um homem e o direito se for de uma mulher. — Não tem que dizer, nem fazer nada, só apertar o botão, insiste.

 

São três testes, cuja finalidade não é averiguar a capacidade do paciente para distinguir entre os dois gêneros. O que medem estes scanners funcionais é o processo afetivo. Os rostos de homem e de mulher aparecem no terminal atrás de outros rostos que se mostram demasiado rápido para que as detecte o olho, porém o cérebro o vê todo. O cérebro de Jenrette vê os rostos mascarados, rostos de alegria, enfado ou medo, rostos que provocam uma reação .

 

Depois de cada desenho, a doutora Lane pergunta o que ele viu e, se tiver que associar uma emoção aos rostos, qual seria.

 

—        Os rostos masculinos são mais sérios que os femininos, responde Jenrette.

 

Disse basicamente o mesmo de cada desenho. Ainda não significa nada; nada do que acontece nestas salas significará algo, até que se analisem as imagens neuronais. Então os cientistas poderão visualizar que áreas de seu cérebro estiveram mais ativas durante as provas. Trata-se de saber se o cérebro de Jenrette funciona de modo distinto do de uma pessoa à que se supõe normal e de descobrir algo mais fora o fato de que ele tem um quisto que não deve ter absolutamente nenhuma relação com suas tendências depredadoras.

 

—        Algo que tenha chamado à atenção? Pergunta Benton à doutora Lane. — E a propósito, obrigado, como sempre, Susan. É uma boa pessoa.

 

Procuram programar outras explorações de internos para última hora do dia ou para o fim de semana, quando existem poucas pessoas.

 

—        Baseando-nos só nos localizadores, parece estar tudo bem. Não vejo anormalidades de importância, aparte de que não pára de falar, de sua loquacidade. Alguma vez foi diagnosticado um transtorno bipolar?

—        Suas evaluações e sua história me fizeram pensar nisso também. Entretanto não; nunca foi diagnosticado. Não recebeu medicação por desordens psiquiátricas, só esteve um ano na prisão. É o sujeito perfeito.

—        Bom, pois o seu sujeito perfeito cometeu um monte de erros na prova. Eu diria que não se concentra em nada, o qual, de fato, concorda com o transtorno bipolar. Mais adiante saberemos algo mais.

 

Aperta outra vez o botão para falar e diz:

 

—        Senhor Jenrette, já temos terminado. Você o fez estupendamente. Em seguida voltará a entrar o doutor Wesley para retirá-lo de ali. Quero que se levante muito devagar, certo? Muito devagar, para que não enjoe. De acordo?

—        Isto é tudo? Simplesmente estas provas estúpidas? Mostre-me as fotos. A doutora Lane olha Benton e solta o botão. — Você disse que estaria vendo meu cérebro quando eu estivesse vendo as fotos.

—        Se refere a fotografias das autópsias de suas vítimas, explica Benton à doutora Lane.

—        Me prometeu as fotos! Prometeu que eu receberia as fotos!

—        Está bem, diz a doutora a Benton. — É todo seu.

 

A escopeta é pesada é extremamente difícil estender-se no sofá e apontar o cano até seu peito enquanto tenta apertar o gatilho com o dedo do pé esquerdo. Scarpetta baixa a escopeta e imagina tentar isto, depois de ter-se submetido a uma intervenção cirúrgica nos pulsos. Sua escopeta pesa aproximadamente três quilos e meio e as mãos começam a tremer quando a segura pelo cano, que mede quarenta e cinco centímetros. Baixa os pés até ao chão e retira a tênis e o meia do pé direito. Seu pé esquerdo é o dominante, porém terá que tentá-lo com o direito, e se pergunta qual seria o pé dominante de Johnny Swift, se o direito ou esquerdo. Havia diferença, porém não necessariamente significativa, sobretudo se estivesse deprimido e decidido. Não está certa de que se sentisse de um modo nem de outro, não está certa de nada.

 

Pensa em Marino, e quanto mais volta a ele seu pensamento, mais se altera. Marino não tem o direito de tratá-la assim, não tem o direito a faltar-lhe ao respeito da mesma maneira que fazia quando se conheceram, e isso foi há muitos anos, tantos que surpreende que Marino inclusive se lembre a estas alturas de tratá-la como a tratava antes. O aroma da pizza caseira chega até a sala de estar. Enche a casa e o ressentimento acelera o coração e causa um aperto no peito. Deita-se sobre o lado esquerdo, apoia a culatra da escopeta contra o encosto do sofá, aponta o cano para o centro de seu peito e aciona o gatilho com o dedo do pé direito.

 

Basil Jenrette não vai machucá-lo. Está sentado, relaxado, no outro lado da mesa, em frente à Benton, na pequena sala de exploração, com a porta fechada. Permanece calado e em atitude cortês. Sua irritação dentro do imã durou quem sabe uns dois minutos e, quando se acalmou, a doutora Lane já havia saído. Não a havia visto quando a acompanharam para fora da sala e Benton se assegurará de que nunca a veja.

 

—        Tem certeza que não se sente aturdido ou enjoado? Pergunta Benton na sua maneira tranquila e compreensiva.

—        Estou muito bem. Os Testes foram muito bons. Sempre gostei dos testes. Sabia que ia acertar tudo. Onde estão as fotos? Me prometeu.

—        Em nenhum momento falamos sobre algo parecido, Basil.

—        Da próxima vez mostre-me as fotos, tal como me prometeu.

—        Eu não prometi isso, Basil. Foi importante a experiência?

—        Suponho que aqui não se pode fumar.

—        Não.

—        Que aspecto tem o meu cérebro? Tinha boa pinta? Viu algo? É capaz de decidir como é que é uma pessoa, olhando-lhe o cérebro? Se me mostrasse as fotos, veria que coincidem com as que tenho dentro do cérebro.

 

Agora fala depressa e em voz baixa, com os olhos brilhantes, quase vidrados, referindo-se continuamente ao que os cientistas poderiam encontrar em seu cérebro, supondo que fossem capazes de decifrar o que existe nele, e existe sem dúvida alguma, repete uma e outra vez.

 

—        Existe? Pergunta Benton. — Pode explicar a que se refere Basil?

—        A minha memória. Se você pode ver ali dentro, ver o que existe, ver minhas recordações.

—        Acho que não.

—        Não me diga. Tenho certeza de que quando estava fazendo todos esses ruidozinhos e golpezinhos apareceram todo o tipo de imagens. Tenho certeza de que as viu, porém não quer me contar. Eram dez e você as viu. Viu essas imagens, dez, não quatro. Eu sempre digo dez-quatro de brincadeira, para rir um pouco. Você acha que são quatro e eu sei que são dez, e saberia se me mostrasse as fotos, porque então veria que coincidem com as imagens que tenho no meu cérebro. Veria minhas imagens ao entrar em meu cérebro. Dez-quatro.

—        Fale-me de que fotos se refere Basil.

—        Só estou brincando com você, replica ele com um grunhido. — Quero as fotos.

—        Que fotos poderíamos ver em seu cérebro?

—        As dessas mulheres idiotas. Você não quer me dar as fotos.

—        Está dizendo que matou dez mulheres? Benton formula esta pergunta sem dar mostras de surpresa nem fazer juízos de valor. Basil sorri como se lhe tivesse ocorrido algo.

—        Oh. Agora posso mover a cabeça, heim? Já não tenho uma fita no queixo. Me prenderão o queixo com uma fita quando me aplicarem a injeção?

—        Não vão aplicar-lhe nenhuma injeção, Basil. Isto faz parte do trato. Sua sentença foi comutada por cadeia perpétua. Não se lembra de que já falamos disso?

—        Porque estou louco, comenta ele com um sorriso. — Por isso estou aqui.

—        Não. Vamos falar outra vez disto, porque é importante que eu entenda. Está aqui porque concordou em participar de nosso estudo, Basil. O governador da Flórida deu permissão para que você fosse transferido para o nosso hospital estatal, Butler, porém Massachusetts não queria dar seu consentimento a menos que fosse comutada a sentença por cadeia perpétua. Em Massachusetts não temos pena de morte.

—        Sé que você deseja ver as dez mulheres. Deseja vê-las tal como eu as recordo. Estão dentro do meu cérebro.

 

Sabe que não é possível ver os pensamentos e as recordações de uma pessoa com um scanner. Jenrette está comportando-se como o tipo inteligente que é. Quer ver as fotografias das autópsias para alimentar suas fantasias violentas e, tal como ocorre com os sociopatas narcisistas, acha que é um cara bastante divertido.

 

—        É essa a surpresa, Basil? Pergunta Benton. — Que realizou dez assassinatos em vez dos quatro a que foi acusado? Jenrette sacode a cabeça e responde:

—        Existe uma sobre a qual você deseja ter informação. Essa é a surpresa. Especial para você porque foi muito amável comigo. Entretanto quero as fotos. Esse é o trato.

—        Me interessa muito essa surpresa.

—        A mulher da loja de artigos de Natal. Responde Jenrette. — Se lembra dela?

—        Por que não me conta? Pergunta por sua vez Benton, sem saber a que se refere Basil. Não lembra em absoluto de um assassinato cometido em uma loja de artigos de Natal.

—        Que me diz das fotos?

—        Verei que o posso fazer.

—        Jura pelo mais sagrado?

—        Estudarei o assunto.

—        Não lembro a data exata. Vamos ver. Fica olhando o teto com as mãos sobre os joelhos. — Uns três anos, creio que foi mais ou menos em julho. Assim acho que pode fazer uns dois anos e meio. Quem se lembra de comprar merdas de Natal no mês de julho no sul da Flórida? Vendia bonequinhos de Papai Noel, com suas renas, e também calendários e figurinhas do menino Jesus. Entrei naquela loja uma manhã depois de haver passado a noite em claro.

—        Se lembra de como se chamava?

—        Jamais soube. Bem, sim, porém já me esqueci. Se me mostrasse as fotos, pode ser que me refrescassem a memória ou talvez você pudesse vê-la dentro de meu cérebro. Vamos ver se sou capaz de descrevê-la. Vejamos. Ah, sim. Era uma mulher branca, de cabelo longo e tingido da cor de I Love Lucy. Um tanto magra. Teria uns trinta e cinco ou quarenta anos. Entrei, fechei a porta com chave e a ameacei com uma faca. A violei nos fundos da loja, na zona do almoxarifado e cortei o pescoço desde aqui até aqui de um só corte. Fez o gesto de cortar o pescoço. — Foi bonito de se ver. Havia um desses ventiladores que oscilam e o liguei, porque ali dentro fazia um calor descomunal, e o sangue saiu voando para todos os lados... Então, vamos ver... Olha outra vez para o teto, como faz com frequência quando mente. — Aquele dia não ia com meu carro patrulha. Havia ido com minha duas rodas, que havia deixado em um estacionamento pago que existe atrás do hotel Riverside.

—        Se refere a uma moto ou a uma bicicleta?

—        A minha Honda Shadow. Como se eu fosse de bicicleta matar alguém...

—        Então tinha pensado matar a alguém essa manhã?

—        Me pareceu uma boa ideia.

—        Tinha pensado matá-la ou simplesmente achou que devia matar alguém?

—        Lembro que no estacionamento havia muitos patos ao redor das poças porque estava chovendo há vários dias. Mamães pato com seus patinhos por todas as partes. Isto sempre me preocupou. Pobres patinhos, muitos terminam atropelados. Veem-se patinhos esborrachados no asfalto e a sua mamãe dando voltas e voltas ao redor de seu pequeno morto, com uma expressão muito triste.

—        Alguma vez você atropelou os patos, Basil?

—        Eu jamais faria dano a um animal, doutor Wesley.

—        Disse que quando era pequeno matava pássaros e coelhos.

—        Isto foi há muito tempo. Já sabe, os vizinhos e suas carabinas de ar comprimido... Seja como for, para seguir com a história, a única coisa que consegui foram vinte e seis dólares e noventa e um centavos. Tem que fazer algo pelas as minhas fotos.

—        Não pára de dizer isso, Basil. Já disse que farei tudo o que puder.

—        Depois daquilo fiquei um pouco decepcionado. Vinte e seis dólares e noventa e um centavos...

—        Retirados do caixa.

—        Dez-quatro.

—        Deve ter-se manchado muito de sangue, Basil.

—        Aquela mulher tinha um banheiro nos fundos da loja. Volta a levantar a vista até o teto. — Me limpei e limpei-a com Clorox, agora acabo de me lembrar. Para destruir meu DNA, minhas digitais. Agora está você em dívida comigo. Quero minhas fotos. Me tire da cela dos suicidas. Quero uma cela normal, aonde não me espiem.

—        Nos temos certeza de que se encontra a salvo.

—        Quero outra cela e as fotos, me dê-as e contarei mais coisas sobre a loja de Natal. Agora Jenrette tem os olhos muito vidrados e se mexe inquieto na cadeira, com os punhos apertados, dando golpezinhos com o pé. — Mereço uma recompensa.

 

Lucy senta-se aonde possa ver a porta principal, quem entra e quem sai. Observa às pessoas dissimuladamente. Observa inclusive quando se supõe que esteja relaxando. Estas últimas noites se deixou cair por Lorraine e conversou com os garçons do balcão, Buddy e Tônia. Nenhum dos dois conhece o verdadeiro nome de Lucy, porém ambos lembram-se de Johnny Swift, lembram-se dele como aquele médico hetero de aspecto estranho. Um «médico de cabeça que por desgraça era hetero», comenta Buddy. Que lástima. «Sempre só, menos da última vez que esteve aqui», diz Tônia. Essa noite era o seu turno de trabalho e lembra que Johnny tinha os pulsos enfaixados. Quando perguntou o que tinha acontecido, ele respondeu que acabavam de operá-lo e a intervenção não havia saído muito bem. Johnny e uma mulher se sentaram ao balcão e ficaram muito amigos, conversaram como se não houvesse ninguém mais no bar. Ela se chamava Jam e parecia muito inteligente; era bonita e educada, muito tímida, nada caída, jovem. Estava vestida de maneira descontraída, com jeans e camiseta, lembra Tônia. Era óbvio que Johnny a conhecia há pouco, ou melhor, acabava de conhecê-la e que a estava achando interessante, confirma Tônia.

 

—        Estava atraído sexualmente? Pergunta Lucy a Tônia.

—        Não me deu essa impressão. Sua atitude era mais de... Enfim, como se ela tivesse um problema e ele a estivesse ajudando. Você sabe, ele era médico. Isto não surpreende Lucy. Johnny não era egoísta, em absoluto, era extraordinariamente bom.

 

Senta-se ao balcão e imagina Johnny entrando no local do mesmo modo que ela e sentando-se no mesmo balcão, talvez no mesmo banco. Imagina-o em companhia de Jam, uma mulher à que, quem sabe, acaba de conhecer. Não era seu estilo ter encontros casuais. Não gostava dos rolos de uma noite e é muito possível que estivesse ajudando à garota, aconselhando-a. Entretanto sobre o quê? Sobre algum problema médico, algum problema psicológico? O relato sobre essa mulher jovem e tímida chamada Jam é enigmático e desconcertante. Lucy não está certa de por que. Talvez Johnny não se sentisse bem consigo mesmo. Talvez estivesse assustado porque a intervenção do túnel carpiano não havia tido o êxito que ele esperava. Talvez o fato de aconselhar e travar amizade com uma jovem tímida e bonita o fez esquecer-se de seus medos e se sentir importante e poderoso. Lucy bebe tequila e pensa no que Johnny disse em São Francisco quando esteve com ele em setembro, a última vez que o viu.

 

—        Que cruel é a biologia, disse Johnny. — As incapacidades físicas são implacáveis. Ninguém quer a alguém, se este tem cicatrizes.

—        Por Deus, Johnny. Não foi mais do que uma operação do túnel carpiano, não foi uma amputação.

—        Desculpe, disse ele. — Não estamos aqui para falar de mim.

 

Lucy pensa em Johnny no balcão, observando como a clientela, homens em sua maioria, entra e sai do restaurante e se limpam dos flocos de neve.

 

Começou a nevar em Boston. Benton, ao volante de seu Porsche Turbo S, passa adiante dos edifícios Vitorianos de ladrilho do campus médico da universidade e lembra os tempos em que Scarpetta o chamava ao depósito de cadáveres à meia noite. Sabia sempre que se trataria de um caso desagradável.

 

As maiorias dos psicólogos forenses não estiveram nunca em um depósito de cadáveres. Jamais viram uma autópsia e nem sequer desejam ver as fotografias. Seu interesse se concentra mais nos detalhes do perpetrador do que o que este fez a sua vítima, porque o criminoso é o paciente e a vítima não é mais que o meio que ele utiliza para expressar sua violência. Esta é a desculpa que muitos psicólogos e psiquiatras forenses dão. É a de que carecem de valor ou da inclinação para entrevistar as vítimas ou, ainda pior, para dedicar um tempo a seus cadáveres. Benton é diferente. Depois de mais de uma década com Scarpetta não poderia ser de outra maneira.

 

—        Você não tem o direito a trabalhar em um caso se não está disposto a escutar o que têm a dizer os mortos, disse ela, há uns quinze anos, quando estavam trabalhando em seu primeiro homicídio juntos. — Se não é capaz de sacrificar-se por eles, então, francamente, eu não vou me dedicar a você, agente especial Wesley.

—        Me parece justo, doutora Scarpetta. Deixarei que você faça as apresentações.

—        De acordo, pois, ela respondeu. — Venha comigo.

 

Aquela foi a primeira vez que Benton esteve na câmara frigorífica de um depósito de cadáveres. Entretanto se lembra do forte barulho do trinco quando abriu a porta e da lufada de ar frio e viciado que saiu por ela. Seria capaz de reconhecer esse odor em qualquer parte, esse fedor sinistro, a morto. Flutua no ar e sempre lhe pareceu, que se pudesse vê-lo, seria como uma névoa suja, rente ao chão e que emana do morto.

 

Reconstrói sua conversa com Basil, analisa cada palavra, cada gesto imperceptível, cada expressão facial. Os delinquentes violentos prometem todo o tipo de coisas. Manipulam habilmente a todo o mundo para conseguir o que querem; prometem revelar o lugar donde se encontram os cadáveres; reconhecem haver cometido crimes que jamais foram resolvidos; confessam os detalhes do que fizeram; oferecem sua própria opinião acerca de suas motivações e seu estado psicológico. Na maioria dos casos mentem. Neste caso Benton está preocupado; pelo menos uma parte do que confessou Basil, soa a verdade.

 

Tenta localizar Scarpetta pelo telefone celular; ela não responde. Uns minutos mais tarde volta a tentá-lo, porém continua sem conseguir falar com ela. Deixa uma mensagem: «Por favor, me ligue quando ler isto».

Abre-se a porta de novo e com a neve entra uma mulher, como se a tivesse trazido a nevasca. Usa um casaco negro longo que sacode ao mesmo tempo em que joga para trás o capuz. Tem uma cútis clara, rosada por causa do frio, e uns olhos bastante luminosos. É bonita, com as melenas de um ruivo escuro, os olhos castanhos e um corpo escultural. Lucy observa como anda até o fundo do restaurante passando entre as mesas como uma peregrina ou uma bruxa sensual com seu longo casaco negro que flutua ao redor de suas botas negras quando vem até o balcão, onde existem vários assentos vazios. Escolhe um próximo ao de Lucy, retira e dobra o casaco e senta-se sem uma palavra nem um olhar.

 

Lucy bebe um pouco de tequila e fixa a vista no televisor que está sobre o balcão, fingindo interesse no último romance de um famoso. Buddy prepara uma bebida para a recém-chegada, como se soubesse do que gosta.

 

—        Sirva-me outro, se apressa a pedir Lucy.

—        Já está saindo.

 

A mulher do casaco negro com capuz olha a vistosa garrafa de tequila que Buddy apanha de uma prateleira. Observa atentamente como o licor âmbar se transforma em um delicado jorro e vai enchendo o fundo da taça de conhaque. Lucy agita a tequila e sente como seu aroma inunda as fossas nasais e sobe até o cérebro.

 

—        Isto vai lhe dar uma dor de cabeça «endiabrada», adverte a mulher do casaco negro com uma voz rouca sedutora e repleta de segredos.

—        É muito mais puro que outros destilados, responde Lucy. — Estava há muito tempo sem ouvir a expressão «endiabrada». A maioria das pessoas que conheço diz infernal.

—        Os piores dores de cabeça, me causaram as margaritas, comenta a mulher, que toma um gole de Cosmopolitan, um líquido rosa de aspecto letal em copo de champanhe. — Além disso, eu não creio no inferno.

—        Acreditará se continuar bebendo essa merda, replica Lucy. Pelo espelho que existe atrás do balcão vê como se abre de novo a porta e entra mais neve no local.

 

As rajadas de vento que sopram da rua produzem o mesmo som que a seda ao agitar-se com força. Lembra-lhe meias de seda agitando-se em um varal, embora nunca tenha visto meias de seda em um varal nem tenha escutado como soam quando as açoita o vento. Sabe que a mulher usa meias negras porque os banquinhos altos e a saia curta não são a vestimenta mais adequada para uma mulher se sentar a salvo, a não ser que esteja em um bar em que os homens se interessam só por si mesmos, e em Provincetown este é o caso.

 

—        Outro Cosmo, Stevie? Pergunta Buddy. Assim Lucy descobre como se chama a garota.

—        Não. Responde Lucy por ela. — Deixe que Stevie prove o que estou bebendo.

—        Sou capaz de provar o que quiser, acerta Stevie. — Acho que a vi no Piece e no Vixen, dançando com pessoas diferentes.

—        Eu não danço.

—        Pois lhe vi. É difícil não reparar em você.

—        Vens muito por aqui? Pergunta Lucy, que não viu Stevie na vida, nem no Piece nem no Vixen nem em nenhum outro clube nem restaurante de Ptown.

 

Stevie observa como Buddy serve mais tequila e em seguida deixa a garrafa no balcão, se afasta e vai atender a outro cliente.

 

—        Esta é a primeira vez, responde Stevie. — Um presente do Dia de São Valentim que faço a mim mesma, uma semana em Ptown.

—        No inverno?

—        Que eu saiba, São Valentim cai sempre em pleno inverno. É minha festa favorita.

—        Não é festa. Esta semana tenho vindo aqui todas as noites e não lhe vi.

—        Quem você é? A polícia do bar? Stevie sorri e olha para Lucy nos olhos com tanta intensidade que consegue um certo efeito. Lucy sente algo. «Não, pensa. Outra vez, não». — É que não venho aqui todas as noites, como você faz, fala Stevie estendendo a mão para alcançar a garrafa de tequila e roçando no braço de Lucy. A sensação se acentua. Stevie estuda o vistoso rótulo e volta a deixar a garrafa sobre o balcão, sem pressa, tocando com o corpo Lucy. A sensação aumenta. — Corvo? Que tem de especial Corvo? Pergunta Stevie.

—        Como sabe que venho todas as noites? Pergunta Lucy. Força que se dissipe a sensação.

—        Imaginei. Tens pinta de ser uma pessoa da noite, responde Stevie.

 

É ruiva natural? Quem sabe de um tom madeira mesclada com vermelho intenso. O cabelo natural não é assim. E não o tem usado longo, tão longo como agora.

 

—        É uma espécie de vidente? A sensação é terrível. Não quer desaparecer.

—        Não são mais que suposições, responde a sedutora voz de Stevie. — Vai, não me respondeu. Que tem de especial Corvo?

—        Corvo Reserva da Família. Isto é bastante especial.

—        Enfim, algo é algo. Parece que esta é minha noite de estreia em muitas coisas, diz Stevie tocando o braço de Lucy e deixando ali a mão pelo espaço de uns segundos. — É a primeira vez que venho a Ptown. A primeira vez que provo uma tequila cem por cem familiar, e que custa trinta dólares a dose. Lucy se surpreende que Stevie saiba que a tequila custa trinta dólares a dose. Para ser uma pessoa pouco acostumada a tomá-lo, sabe muito a respeito. —        Acho que vou beber outro, diz Stevie a Buddy. — E, a verdade é que poderias encher um pouco mais o copo. Seja bondoso comigo.

 

Buddy sorri enquanto serve de novo. Dois copos mais tarde, Stevie se apoia em Lucy e sussurra:

 

—        Tens algo?

—        Como o que? Pergunta Lucy, rendendo-se por completo. A sensação, avivada pela tequila, não tem intenção de desvanecer-se durante toda a noite.

—        Já sabe o que, responde suavemente a voz de Stevie roçando com seu suspiro a orelha de Lucy, apoiando o peito em seu braço. — Algo para fumar. Algo que mereça a pena.

—        Que a faz pensar que tenho algo?

—        É uma suposição.

—        Você é muito boa em supor.

—        Aqui se consegue em qualquer parte. Tenho visto.

 

Lucy faz uma transação por noite. Sabe exatamente onde fazê-la, no Vixen, o lugar onde não dança. Não se lembra de ter visto Stevie. Não havia tantas pessoas, nunca nesta época do ano. Se havia fixado em Stevie, se havia fixado nela em meio de uma multidão enorme, em uma rua atestada de pessoas, em alguma parte.

 

—        A polícia do bar é você, comenta Lucy.

—        Não tens nem ideia do divertido que é isso, responde a voz sedutora de Stevie. — Onde mora?

—        Não longe daqui.

 

O Instituto Estadual de Medicina Legal está onde todos normalmente estão, no limite de um bairro da cidade mais agradável, normalmente nos arredores da Faculdade de Medicina. O complexo de ladrilho vermelho e cimento dá as costas à Massachusetts Turnpike e a seu outro lado se encontra o presídio correcional do condado de Suffolk. Não tem vistas e o ruído do trânsito não cessa nunca.

 

Benton estaciona junto à porta traseira e vê em que no estacionamento só existem outros dois carros. O Crowm Vitoria azul escuro é do detetive Thrush. O Honda SUV provavelmente será de um patologista forense, a que não pagam o suficiente e que sem dúvida não se alegrou em absoluto quando Thrush o convenceu a ir trabalhar a esta hora. Benton toca a campainha e percorre com o olhar o deserto estacionamento, porque nunca pressupõe que esteja seguro nem só. Nesse momento se abre a porta e aparece Thrush fazendo sinal para que entre.

 

—        Deus, odeio este lugar à noite, comenta Thrush.

—        Não tem nada de agradável a nenhuma hora do dia, comenta Benton.

—        Agradeço que tenha vindo. Custo a crer que tenha saído à rua nisso, diz olhando o Porsche negro enquanto fecha a porta. — Com este tempo? Está louco?

—        Têm tração nas quatro rodas. Quando fui trabalhar esta manhã não nevava.

—        Os outros psicólogos com os que tive ocasião de trabalhar jamais saíam de casa, chovesse, nevasse ou fizesse sol, diz Thrush. — Nem tampouco os que elaboram perfis. A maioria dos agentes do FBI que conheci jamais viu um cadáver.

—        Salvo os do Escritório Central.

—        É uma merda. Também muitos da Chefatura Central de Polícia. Toma. Entrega a Benton um envelope enquanto ambos caminham por um corredor.

—        Gravei tudo em um disco. Todas as fotografias dos distintos lugares do crime e das autópsias, além dos escritos até a data. Está tudo ai. Dizem que vai continuar nevando.

 

Benton volta a pensar em Scarpetta. São Valentim é amanhã e imagina que vão a passar a data juntos, a desfrutar de uma cena romântica no porto. Está previsto que ela não trabalhe até o fim de semana do Dia dos Presidentes. Estão quase um mês sem se encontrar.

 

—        O prognóstico, pelo que sei, é que nevará um pouco, responde Benton.

—        Aproxima-se uma tormenta proveniente do cabo. Espero que tenha algum outro carro que não seja esse desportivo de um milhão de dólares.

 

Thrush é um velho homem que passou toda sua vida em Massachusetts e fala com o acento da área. Em seu vocabulário não existe nem um só erre. Já cinquentão, usa o cabelo cinzento cortado de a maneira militar e está vestido com um terno marrom enrugado. Provavelmente está todo o dia trabalhando sem parar. Benton e ele avançam pelo bem iluminado corredor. Está imaculado, perfumado com aerossol e cheio de salas com arquivos e armazenamento de provas, para as quais se requer um passe eletrônico. Inclusive existe um carrinho com equipamento de reanimação, -Benton não sabe para que fim- e um microscópio eletrônico. É o mais espaçoso e melhor equipado de todos os depósitos de cadáveres que viu em sua vida. A dotação de pessoal é outra história.

 

O departamento está há anos com graves problemas de pessoal por causa dos salários, tão baixos que não atraem os bons patologistas forenses nem a profissionais competentes de nenhum outro tipo. Além disso, devem-se somar os presuntos, erros e trapalhadas que trazem como consequência as polêmicas e os problemas de imagem que complicam a vida e a morte de todos os implicados. O departamento não está aberto aos meios de comunicação nem aos intrusos e a hostilidade e a desconfiança envenenam tudo. Benton prefere vir aqui de noite; visitar este lugar de dia equivale a se sentir indesejado e mal tolerado.

 

Thrush e ele se detêm em frente à porta fechada de uma sala de autópsias que se usa para os casos muito importantes, estranhos ou que contenham risco para a vida. Nesse momento toca seu telefone celular. Observa o aparelho; quando não aparece a identificação do número só pode ser ela.

 

—        Olá, diz Scarpetta. — Espero que esteja passando melhor noite do que eu.

—        Estou no depósito. E dirigindo-se a Thrush: — Será um minuto.

—        Isto não pode ser nada bom, diz Scarpetta.

—        Contarei depois. Tenho uma pergunta a fazer: alguma vez teve notícia de um fato que teve lugar em uma loja de artigos de Natal há a aproximadamente dois anos e meio?

—        Quando dizes «um fato» suponho que se refere a um homicídio.

—        Exato.

—        Assim, que agora me lembre, não. Quem sabe Lucy possa pesquisar algo. Tenho certeza de que aí está nevando.

—        Irei embora daqui a pouco, nem que tenha de que contratar as renas do Papai Noel.

—        Te amo.

—        Eu também. Benton termina a ligação e Pergunta a Thrush:

—        Quem iremos ver?

—        O doutor Lonsdale teve a amabilidade de me ajudar.

—        Se quer minha opinião, diz Thrush, — As mulheres não deveria fazer isto. Que tipo de mulher ia a querer fazer este trabalho?

—        As boas, responde Benton. — Muito boas. Nem todas chegam até onde chegam devido ao fato de ser mulher. O mais provável é que tenham chegado apesar de ser. Thrush não conhece Scarpetta. Benton nunca a menciona, nem sequer a quem o conhece mais ou menos bem.

—        As mulheres não deveriam ver esta merda, insiste Thrush.

 

Entretanto a autópsia não foi realizada por ele, e sim por ela. «Ela» é a chefa. Chegou até onde chegou porque é mulher.

 

O ar da noite é pungente e de uma cor branco leitosa na Rua Comercial. A neve pisca à luz dos faróis e ilumina a noite até que o mundo começa a resplandecer e adquire um aspecto surrealista, enquanto as duas caminham pelo centro da rua deserta e silenciosa, junto ao meio-fio, em direção à casa que Lucy alugou uns dias depois de que Marino recebera a estranha chamada telefônica daquele indivíduo chamado Porco.

 

Lucy acende o fogo e, em seguida, ela e Stevie se sentam diante dele, sobre umas mantas e fumam um cigarro de erva de muito boa qualidade, da Columbia Britânica. Dão tragadas curtas, conversam e riem, porém Stevie quer mais.

 

—        Só um mais, suplica, enquanto Lucy começa a desnudá-la.

—        Isto sim que é original, comenta Lucy contemplando o esbelto corpo desnudo de Stevie e os desenhos de mãos, na cor vermelha em sua pele, tatuagens talvez.

 

Têm quatro. Dois nos peitos, como se alguém os estivesse agarrando, e outros dois no interior dos músculos, como se alguém estivesse obrigando-a a separar as pernas. Não tem nenhum nas costas, nenhum que Stevie não tenha podido aplicar ela mesma, supondo que sejam falsos. Lucy a olha fixamente. Toca uma deles, pondo uma mão em cima, acariciando o peito de Stevie.

 

—        É só para verificar se sou do tamanho adequado, fala — É falso?

—        Por que não tira a roupa?

 

Lucy faz o que quer, porém não tem intenção de tirar a roupa. Faz o que quer durante horas, ao calor do fogo, sobre as mantas, e Stevie a deixa fazê-lo. Está mais viva do que alguém a quem Lucy tenha tocado. Seu corpo é liso e de contornos suaves, delgado como nunca voltará a ser o seu. Quando Stevie tenta desnudá-la, quase pela força, não o permite, e por fim a outra se cansa e Lucy a leva para a cama. Quando Stevie adormece, Lucy permanece desperta, escutando o gemido do vento, tentando descobrir como soa exatamente, chegando à conclusão de que, depois de tudo, não soa como as meias de seda e sim, parece algo angustiado e dolente.

 

A sala de autópsias é pequena, tem um chão de lajotas e o habitual carrinho de instrumental, uma balança digital, um armário de provas, serras e diversas facas de autópsias, mesas de dissecações e uma mesa portátil anexa à parte dianteira de um lavabo de dissecação mural. A câmara frigorífica tem a porta entreaberta. Thrush entrega a Benton um par de luvas azuis e pergunta:

 

—        Queres botas ou uma máscara ou algo mais?

—        Não, obrigado, responde Benton justo no momento em que sai da câmara frigorífica o doutor Lonsdale empurrando uma maca de aço inoxidável sobre a qual está um cadáver dentro de uma bolsa.

—        Temos que andar depressa, diz estacionando-a próxima do lavabo e travando duas das rodas da maca. — Já estou com merda até o pescoço com minha mulher. Hoje é seu aniversário.

 

Abre a bolsa. A vítima tem o cabelo negro húmido e ensanguentado, cheio de pedaços de massa encefálica e outros tecidos. Quase não sobra nada do rosto. É como se tivesse estourado uma bomba pequena dentro da sua cabeça, o que se aproxima bastante ao acontecido na realidade.

           

—        Deram um tiro na sua boca, explica o doutor Lonsdale. É jovem, fala com um tom de impaciência. — Fratura massiva de crânio, com o cérebro destroçado, o que, em princípio, podemos atribuir a um caso de suicídio, porém nesta ocasião não existe nenhuma outra coisa que indique suicídio. Em minha opinião, a vítima tinha a cabeça muito inclinada para trás quando apertaram o gatilho, o que explicaria por que o rosto desapareceu quase por completo e do sumiço de vários dentes. Uma vez mais, detalhes impróprios de um suicídio. Acende uma lâmpada de aumento e a aproxima da cabeça. — Não existe necessidade de abrir a boca, comenta, — Já que não tem rosto. Demos graças a Deus por estes pequenos favores. Benton se aproxima um pouco mais e aspira o cheiro pútrido do sangue em decomposição. — Lacerações grandes na língua, na pele em redor e no nasolabial, prossegue o doutor Lonsdale. — Devidas ao efeito de estouro produzido pela expansão dos gases na explosão de uma escopeta. Não é uma maneira muito agradável de morrer. Termina de abrir o saco até os pés.

—        Deixei o melhor para o final, comenta Thrush. — Que acha disso? A mim me lembra do Cavalo Louco.

—        Se refere ao índio? O doutor Lonsdale o olha com expressão interrogativa ao mesmo tempo em que desenrosca a tampa de um pequeno frasco de vidro cheio de um líquido transparente.

—        Sim. Eu sei que gravava impressões de mãos vermelhas nas ancas de seu cavalo.

 

A mulher apresenta impressões vermelhas de mãos nos peitos, no abdome e na parte interna dos músculos. Benton aproxima um pouco mais a lâmpada de aumento. O doutor Lonsdale passa um algodão humedecido pela borda de uma das impressões e anuncia:

 

—        É álcool isopropílico, um solvente como este faz desaparecer uma mancha. É obvio que não é solúvel em água. Me faz pensar no tipo de substância que as pessoas utilizam para as tatuagens temporais. Deve ser algum tipo de pintura ou desenho. Também poderiam tê-lo feito com um rotulador indelével, suponho.

—        Suponho que não viu nada parecido em nenhum outro caso por aqui, pergunta Benton.

—        Nunca.

 

Vista com aumento, as impressões de mãos aparecem bem definidas e com os perfis limpos, como se tivessem sido desenhadas. Benton procura traços leves de pincel, qualquer coisa que possa indicar como foi aplicada a tatuagem. Não está certo, porém a julgar pela densidade da cor, suspeita que esta obra artística seja recente.

 

—        Suponho que a vítima poderia ter feito estes desenhos em algum momento anterior. Dito de outra forma: que não guardam relação com sua morte. Conclui o doutor Lonsdale.

—        Isto também penso eu. Concorda Thrush. — Por aqui existe muita bruxaria, como Salem e tudo o resto.

—        O que eu queria saber é com que rapidez estes desenhos começam a apagar. Diz Benton. — Os mediu para ver se são do mesmo tamanho que a mão da vítima? Indica o corpo.

—        A mim me parecem maiores, responde Thrush estendendo sua própria mão.

—        E nas costas? Pergunta Benton.

—        Tem um desenho em cada nádega e outro entre as omoplatas, responde o doutor Lonsdale. — Por seu tamanho as mãos parecem de homem.

—        Sim. Confirma Thrush. O doutor Lonsdale coloca o cadáver parcialmente de costado e Benton estuda as impressões de mãos nas costas.

—        Parece que aqui existe uma abrasão, fala, fixando-se em uma zona raspada do desenho, entre as omoplatas. Está um pouco inflamado.

—        Não conheço todos os detalhes, comenta o doutor Lonsdale. — O caso não é meu.

—        Parece que tivessem pintado o desenho quando já estava feita a abrasão, comenta Benton. — E isso aqui são contusões?

—        Talvez tenha um certo inchaço localizado. Histologia nos dirá. Não é meu caso, insiste o doutor. — Não participei desta autópsia, volta a lembrar. — Só dei uma olhada na vítima. Isto foi tudo, antes de retirá-la da câmara. Li um pouco por cima o relatório da autópsia.

 

Se a chefa fez um trabalho negligente ou incompetente não está disposto a assumir as culpas.

 

—        Tem alguma ideia de quanto tempo está morta? Pergunta Benton.

—        Bom, as baixas temperaturas terão atrasado o rigor mortis.

—        Estava congelada quando a encontraram?

—        Não. Quando chegou aqui, sua temperatura corporal era de trinta e oito graus. Fahrenheit. Eu não fui ao lugar do crime, não posso proporcionar esses detalhes.

—        As dez desta manhã a temperatura era de sete graus abaixo de zero, comenta Thrush com Benton. — As condições climáticas constam no disco que te entreguei.

—        Então o relatório da autópsia já foi escrito, diz Benton.

—        Está no disco, responde Thrush.

—        Temos provas circunstanciais?

—        Um pouco de terra, fibras, outros resíduos com o sangue. Responde Thrush. — Farei com que os analisem no laboratório o quanto antes for possível.

—        Conte do cartucho de escopeta que recuperaste, fala Benton.

—        Estava dentro do reto. Por fora não se via, porém os raios X o detectaram. Que coisa mais asquerosa. Quando me mostraram na primeira vez, achei que estava debaixo do corpo, sobre a mesa de raios X. Não tinha nem ideia de que essa merda estivesse dentro da vítima.

—        De que tipo era?

—        Remington Express Magnum, calibre doze.

—        Bem, se ela mesma disparou, não foi ela quem o colocou no reto, raciocina Benton. — Vai entregá-lo a Balística?

—        Já estão com ele, responde Thrush. — O percursor deixou uma bonita marca. É possível que tenhamos sorte.

 

A primeira hora da manhã seguinte a neve cai obliquamente sobre o cabo Code e derrete quando toca a água. Apenas cobre a areia de praia que se estende em frente as janelas da casa de Lucy, porém se amontoa nos telhados próximos e no peitoril da janela de seu quarto. Lucy puxa o edredom até o queixo e passeia o olhar pela água e a neve, irritada por ter que levantar-se e enfrentar à mulher que está dormindo a seu lado, Stevie.

 

Não deveria ter ido ao bar na noite passada. Lamenta ter ido, não pode deixar de lamentá-lo. Está enojada de si mesma e desejosa de sair desta casa diminuta, com sujeira por todo o redor, seu telhado de goteiras, os móveis sem brilho, por causa do interminável desfile de inquilinos, da cozinha, pequena e com odor a humidade, cheia de eletrodomésticos antiquados. Observa como a manhã joga com o horizonte tingindo-o de diversos tons de cinza e como a neve cai quase com a mesma intensidade que a noite. Pensa em Johnny. Johnny vindo aqui, a Provincetown, uma semana antes de morrer, e conhecer alguém. Deveria ter averiguado essa informação há muito tempo, porém é que não podia. Não podia afrontá-lo. Observa a respiração regular de Stevie.

 

—        Está acordada? Pergunta Lucy. — Tens de levantar.

 

Observa a neve, os patos que nadam na superfície agitada, assombrada de que não congelem. Apesar de que sabe acerca das propriedades isolantes das penas, ainda assim custa crer que uma criatura de sangue quente possa flutuar comodamente na água gélida no meio de uma nevasca. Tem frio debaixo do edredom, está gelada, se sente rechaçada e incomodada por usar a camisa abotoada.

 

—        Stevie, acorda. Tenho que ir, diz levantando a voz.

 

Stevie não se move sequer, suas costas sobem e baixam suavemente com cada lenta inspiração, e Lucy se sente doente de remorso e irritada porque não é capaz de deixar de fazer isto, isto que tanto odeia.

 

Está a quase um ano dizendo que nunca mais, e ainda acontecem noites como a passada. Não é inteligente nem lógico e sempre termina lamentando, porque o considera degradante, e agora tem de sair como puder da situação e contar mais mentiras. Não tem outro remédio. Sua vida já não permite escolher; está demasiado envolvida para escolher algo distinto e existem decisões que outros já tomaram por ela. Ainda não pode acreditar. Toca os seios sensíveis e o ventre inchado para certificar-se de que é verdade, e continua sem entender. Como pode ter acontecido isto a ela?

 

Como Johnny pode estar morto?

 

Nunca chegou a investigar o que aconteceu com Johnny. Foi embora e levou consigo seus segredos.

 

«Sinto», pensa, com a esperança de que, onde quer que ele se encontre, saiba o que está pensando, tal como fazia, só que de um modo distinto. Ou melhor, agora é capaz de ler seus pensamentos. Agora deve entender por que ela se manteve afastada e simplesmente aceitou que ele o havia feito a si mesmo. Vivia deprimido. Sentia-se destroçado. Lucy nunca acreditou que seu irmão o tivesse matado e não aceitava a possibilidade de que o tivesse feito outra pessoa. E então Marino recebeu essa ligação, essa ligação ameaçadora do tal Porco.

 

—        Tem que levantar, fala novamente com Stevie.

 

Lucy estica o braço para apanhar a pistola Colt Mustang 380 que descansa sobre a mesinha de cabeceira.

 

—        Vamos, acorda.

 

 

Na cela de Basil Jenrette, o prisioneiro está deitado em sua cama de aço com uma delgada manta por cima, das que não desprendem gases venenosos como o cianureto se acontecer um incêndio. O colchão é fino e duro, e também se acontecer um incêndio não produz emanações de gases letais.

 

Pensa em como seria se fosse executado. A injeção teria sido desagradável; a cadeira elétrica, pior; porém a câmara de gás, não. A asfixia, o não poder respirar, a sensação de afogamento... «Deus, não.»

 

Ao olhar o colchão enquanto faz a cama, pensa nos incêndios e na impossibilidade de respirar. Agora não está tão mal; pelo menos ele nunca fez isso a alguém como fazia seu professor de educação física, até que Basil deixou de assistir a suas aulas. Largou as aulas e não quis voltar a passar nem uma só vez mais pela situação de chegar a se sentir afogar, de quase asfixiar. Por outro lado, era-lhe indiferente o muito que fora açoitado por sua mãe com o cinto. Não pensava muito nesses assuntos até que surgiu o tema da câmara de gás. Apesar de que sabia que executam as pessoas aqui em Gainesville com a injeção, os guardas o ameaçavam com a câmara de gás, brincavam e davam risadas quando ele se enrolava na cama e começava a tremer.

 

Agora já não tem que se preocupar pela câmara de gás nem por nenhuma outra forma de execução. Agora faz parte de um projeto científico.

 

Escuta abrir a gaveta que existe na parte inferior da porta de aço, e ouve deslizar a bandeja do café da manhã. Não vê que lá fora está claro porque não tem janela, porém sabe que é o amanhecer pelos sons dos guardas que fazem a ronda e as gavetas que se abrem e fecham de golpe para outros reclusos que recebem ovos, às vezes fritos, outros mexidos com toucinho. Chega até ele o cheiro da comida enquanto está estendido na cama debaixo de sua manta inócua e sobre seu inócuo colchão, e pensa em sua correspondência. Está furioso e ansioso como nunca. Ouve uns passos e aparece de repente o rosto negro e gorducho de Tio Remus por trás da abertura com fecho que existe na parte superior da porta. Assim é como o chama Basil: Tio Remus. Por chamá-lo assim deixaram de entregar-lhe a correspondência. Está há um mês sem recebê-la.

 

—        Quero minha correspondência, fala ao rosto do Tio Remus, que continua por trás da abertura. — Tenho o direito constitucional de que me seja entregue.

—        Que o faz pensar que alguém queira escrever a um tipo como você? Replica o rosto de detrás da abertura.

 

Basil não consegue distinguir grande coisa, só a forma escura do rosto e a humidade de uns olhos voltados para ele. Sabe o que fazer com os olhos, como retirá-los para que não o olhem com esse brilho, para que não vejam lugares que não devem ver antes de enlouquecer, antes que ele chegue quase a asfixiar. Aqui dentro, em sua cela de suicida, não pode fazer grande coisa, e a raiva e o desassossego lhe retorcem o estômago como se fosse um trapo de cozinha.

 

—        Sei que tenho correspondência, diz Basil. — Quero que me entreguem. O rosto desaparece e em seguida abre-se a portinhola. Basil se levanta da cama, apanha sua bandeja e a gaveta volta a fechar com um golpe metálico ao pé da grossa porta de aço cinzenta.

—        Espero que ninguém tenha cuspido na comida, diz Tio Remus através da abertura. — Delicie-se com o café da manhã.

 

O chão de largas tábuas está frio ao contato com os pés descalços de Lucy quando esta retorna ao quarto. Stevie continua adormecida debaixo das mantas e Lucy deixa dois cafés sobre a mesinha de cabeceira e mete uma mão debaixo do colchão para apalpar os carregadores da pistola. É possível que à noite fosse um pouco temerária, porém não tanto para deixar a pistola carregada tendo uma desconhecida em casa.

 

—        Stevie, repete. — Vamos. Acorda!

 

Stevie abre os olhos e olha fixamente Lucy, que está de pé junto à cama colocando um carregador na pistola.

 

—        Me assusto ao ver isso, diz Stevie bocejando.

—        Tenho que ir. Lucy lhe dá um café. Stevie continua olhando a arma.

—        Deves desconfiar de mim para ter deixado isso aí, na mesinha de cabeceira, toda a noite.

—        E por que não haveria de desconfiar de você?

—        Suponho que os advogados estão muito preocupados com todas essas pessoas que estão tentando destruir a vida alheia, responde Stevie. — Nos tempos atuais nunca se conhece suficientemente as pessoas.

 

Lucy disse que é uma advogada de Boston. Provavelmente Stevie pensa um monte de coisas que não são corretas.

 

—        Como soube que gosto só de café?

—        Não sabia. Responde Lucy. — Não tenho em casa leite, pão e nem manteiga. Tenho que ir.

—        Pois eu creio que deveria ficar. Aposto que eu consigo que valha a pena. Não terminamos ainda, não acha? Embebedou-me tal maneira que não cheguei a tirar sua roupa. É a primeira vez que me acontece isso.

—        Parece que para você foi a primeira vez em muitas coisas.

—        Você não tirou a roupa. Lembra Stevie tomando o café a goles. — Isto sim é que é novo.

—        Você não estava exatamente sóbria.

—        Estava bastante sóbria para tentar. Não é demasiado tarde para voltar a fazê-lo.

 

Levanta-se e se acomoda contra as almofadas. O edredom desliza até cair abaixo de seus seios, os bicos duros de frio. Sabe exatamente com que conta e o que tem que fazer com isso, e Lucy não acredita que o acontecido à noite tenha sido pela primeira vez.

 

—        Deus, que dor de cabeça, se queixa Stevie observando como Lucy a olha. — E me falou que tequila da boa não dava enxaqueca.

—        Misturou com vodca.

 

Stevie afofa as almofadas a suas costas, com o que o edredom escorrega até ao quadril. Afasta um cacho de cabelo dos olhos. É um quadro muito agradável à luz matinal, porém Lucy já não quer nada com ela e, além disso, esfria de novo ao ver as impressões de mãos da cor vermelha no corpo dela.

 

—        Se lembra de que à noite perguntei por essas tatuagens? Pergunta, sem afastar os olhos delas.

—        À noite me perguntou muitas coisas.

—        Perguntei onde as havias feito.

—        Por que não volta para a cama? Stevie acaricia o edredom e seus olhos queimam a pele.

—        Deve ter doído fazê-las. A não ser que sejam falsas, coisa que me parece que são.

—        Posso retirá-las com óleo para bebê. Estou certa de que você não tem óleo para bebê.

—        Por que as fez? Lucy olha fixamente os desenhos.

—        Não foi minha ideia.

—        Então, de quem?

—        De uma pessoa muito irritante. Ela me faz e eu tenho que retirá-las. Lucy franze o cenho sem deixar de olhá-la.

—        De modo que deixa que alguém lhe pinte o corpo. Bem, fica um tanto excêntrico. Experimenta uma espetada de agulha ao imaginar alguém pintando o corpo desnudo de Stevie. — Não é necessário que me diga quem é, conclui, como se não tivesse importância.

—        É muito melhor ser a pessoa que o faz do que a outra, diz Stevie, e Lucy volta a se sentir preocupada. — Vem para cá, convida Stevie com sua voz tranquilizadora, acariciando de novo a cama.

—        Preciso ir. Tenho coisas para fazer, responde Lucy ao mesmo tempo em que veste umas calças largas negras, um folgado jersey, também negro e apanha a pistola, entrando em seguida no minúsculo banheiro, anexo ao quarto.

 

Fecha a porta e passa a chave. Continua a se vestir sem olhar no espelho, desejando que o que tenha ocorrido com seu corpo seja imaginário ou um pesadelo. No banho, se toca para ver se algo mudou e evita o espelho quando se seca com a toalha.

 

—        Olhe, fala Stevie quando ela sai do banheiro vestida e um tanto alterada, de um humor muito pior do que momentos antes. — Parece um agente secreto. Queria ser como você.

—        Você não me conhece.

—        Depois de ontem à noite, já a conheço o suficiente. Olha Lucy de cima a baixo. — Quem não gostaria de ser como você? Não parece que tenha medo de nada. Existe algo que a assuste?

 

Lucy se inclina para frente e ajeita o edredom em Stevie, subindo-o até o queixo, e o semblante de Stevie muda. Fica rígida e fixa a vista na cama.

 

—        Desculpe, não foi minha intenção ofender, diz Stevie submissa, ruborizada.

—        Aqui dentro faz frio. Só ajeito por que...

—        Está bem. Já me aconteceu isso antes. Levanta a vista. Seus olhos são dois poços sem fundo cheios de medo e tristeza. — Me considera feia, não é verdade? Feia e gorda. Não gosto. A luz do dia não gosto nem um pouco.

—        Você é tudo menos feia e gorda, responde Lucy. — É que... Merda, me desculpe, não era minha intenção...

—        Não me surpreende. Por que uma pessoa como você ia gostar de alguém como eu? Fala Stevie envolvendo-se na manta e afastando-a da cama para se cobrir completamente e levantar-se. — Pode ter a quem quiser. Obrigado. Não contarei a ninguém.

 

Lucy, sem fala, observa Stevie apanhar sua roupa na sala de estar e se vestir, tremendo, fazendo movimentos peculiares com a boca.

 

—        Deus, por favor, não chore, Stevie.

—        Pelo menos me chame como é devido!

—        A que se refere? Com os olhos muito abertos e expressão assustada, Stevie responde:

—        Agora eu queria ir, por favor. Não contarei a ninguém. Obrigado, estou muito agradecida.

—        Por que fala assim? Pergunta Lucy.

 

Stevie apanha seu longo casaco negro com capuz e o veste. Lucy olha pela janela como se estivesse levantando um redemoinho de neve, como seu longo casaco negro ondeando ao redor de suas botas altas, também negras.

 

Meia hora depois, Lucy puxa o zíper do casaco e guarda a pistola e os dois carregadores em um bolso. Fecha a casa com chave e desce os degraus de madeira cobertos de neve para alcançar a rua, pensando acerca de Stevie e de seu inexplicável comportamento, desse sentimento de culpa. Pensa em Johnny e também ela se sente culpada quando se lembra de São Francisco, do dia em que ele a levou a jantar e a tranquilizou dizendo que tudo iria acabar bem.

 

—        Não vai acontecer nada de mal, prometeu.

—        Não posso viver assim, disse ela.

 

Era a noite das garotas no restaurante Meca da rua Market e o local estava abarrotado de mulheres, mulheres atraentes que pareciam satisfeitas, felizes e confiantes em si mesmas. Lucy se sentia observada e isso a irritava de um modo inusual.

 

—        Quero fazer algo ao respeito já, disse.

—        Lucy, você está bem.

—        Não fico tão gorda desde os dez anos.

—        Se deixar de tomar a medicação...

—        Me enjoa e me deixa cansada.

—        Não penso em permitir que cometa uma imprudência. Tem que confiar em mim.

 

Johnny manteve o olhar à luz das velas. Seu rosto permanecerá para sempre em sua lembrança com a expressão daquela noite. Johnny era bonito. Tinha umas feições agradáveis e uns olhos pouco comuns, da mesma cor que os dos tigres, e Lucy não era capaz de ocultar-lhe nada. Johnny sabia tudo o que precisava saber de todas as maneiras que se podia imaginar.

 

A solidão e a culpa a acompanham enquanto prossegue até o oeste pela nevasca. Lembra-se de quando soube da morte de Johnny. Soube como não deveria ninguém saber: pelo rádio.

 

«Em um apartamento de Hollywood encontraram morto a tiro, um famoso médico, e fontes próximas à investigação afirmam que se trata de um possível suicídio...»

 

Não tinha a ninguém a quem perguntar. Supunham que ela não conhecia Johnny e que jamais havia visto seu irmão Laurel nem a nenhum dos amigos de ambos, assim a quem poderia perguntar? Nesse momento toca seu telefone celular. Coloca o auricular no ouvido e responde.

 

—        Onde está? Pergunta Benton.

—        Caminhando em meio de uma nevasca, em Ptowm. Bem, não é uma nevasca literalmente; está começando a amainar. Está enjoada, com um pouco de ressaca.

—        Algo interessante para contar? Lucy pensa na noite passada e se sente desconcertada e envergonhada. Entretanto o que responde é:

—        A última vez que Johnny esteve aqui, na semana antes de morrer, teve companhia. Parece que tinha vindo logo depois de operar e depois foi embora para a Flórida.

—        Laurel o acompanhou?

—        Não.

—        Como se arranjou sozinho?

—        Como disse, parece que não estava sozinho.

—        Quem te contou isso?

—        Um garçom. Parece que conheceu uma pessoa.

—        Sabemos de quem se trata?

—        De uma mulher. Uma garota muito mais jovem.

—        Sabe seu nome?

—        Jam. Só isso. Johnny estava chateado porque a cirurgia não havia ido bem, como sabe. As pessoas fazem muitas coisas quando tem medo e não se sentem bem consigo mesmas.

—        Como você se sente?

—        Bem, mente Lucy. Era uma covarde. Era uma egoísta.

—        Pela sua voz não parece estar muito bem, comenta Benton. — O que aconteceu a Johnny não é sua culpa.

—        Fugi do problema. Não fiz nada em absoluto.

—        Por que não vem passar uma temporada conosco? Kay vai ficar por aqui uma semana. Ficaríamos felizes em vê-la. Encontraremos um tempo de intimidade para conversar você e eu, promete Benton, o psicólogo.

—        Não quero vê-la. Faça-a entender de algum modo.

—        Lucy, não pode prosseguir fazendo isto.

—        Não é minha intenção causar mal a ninguém, responde Lucy pensando de novo em Stevie.

—        Então lhe diga a verdade. É mais simples.

—        Você me chamou. Muda bruscamente de tema.

—        Preciso que me faça um favor o mais rápido possível, diz Benton. — Estou falando por uma linha protegida.

—        A não ser que tenha alguém por aqui com um sistema capaz de interceptar o sinal, eu também. Adiante.

 

Benton conta de um assassinato que parece foi cometido em uma espécie de loja de artigos de Natal, provavelmente na área de As Olas, há mais ou menos dois anos e meio. Conta-lhe tudo o que falou Basil Jenrette. Disse que Scarpetta não se lembra de algum caso parecido, porém que, por aquela data, ela ainda não trabalhava no sul da Flórida.

 

—        A informação vem de um sociopata, lembra, — Assim eu não tenho ilusões de que nos sirva para algo.

—        Da vítima da loja de artigos de Natal foram retirados os olhos?

—        Disso não me falou nada. Não quis fazer demasiadas perguntas até conseguir verificar a veracidade desta história. Pode passar pelo HIT, e ver o que encontra?

—        Porei mãos à obra no avião, responde Lucy.

 

O relógio de parede que existe em cima do armário marca meio dia e meia e, do outro lado da mesa de Kay Scarpetta, o advogado que representa uma criança que provavelmente assassinou seu irmão, um bebê, não está tendo nenhuma pressa em examinar os papéis.

 

Dave é jovem, moreno, com boa aparência, um de esses homens cujas feições irregulares por alguma razão encaixam perfeitamente com um bom resultado. É famoso por sua extravagância no terreno da negligência profissional e cada vez que vem à Academia, as secretárias e as alunas, de repente encontram motivos para passar diante do escritório de Scarpetta, exceto Rose, em princípio.

 

Rose, há quinze anos é secretária de Scarpetta, já passou algum tempo da idade de aposentadoria e não é precisamente vulnerável aos encantos masculinos a não ser que se trate dos de Marino. Este é, provavelmente, o único homem cujos chiliques Rose tolera, e Scarpetta liga pelo telefone para perguntá-la onde está Marino; se supõe que devia assistir a esta reunião.

 

—        À noite tentei localizá-lo, fala a Rose pelo telefone. — Várias vezes.

—        Deixe-me ver se eu posso dar com ele, responde Rose. — Ultimamente vem se comportando de um modo um tanto estranho.

—        Não só ultimamente.

—        Estas últimas semanas foi pior. Tenho a sensação de que se trata de uma mulher.

—        Vá ver se consegue localizá-lo. Dave está estudando o relatório de uma autópsia com a cabeça inclinada para trás e com os óculos de armação de osso apoiados na ponta do nariz.

 

Scarpetta desliga e olha para ver se do outro lado de sua mesa, Dave já está preparado para continuar com suas perguntas sobre outra morte difícil, de que está convencido de poder resolver em troca de uns honorários substanciais. Diferentemente da maioria dos departamentos de polícia, que solicitam a ajuda gratuita dos cientistas e médicos da Academia, os advogados, quando isso acontece, pagam e, portanto a maioria dos advogados que podem pagar representam as pessoas que provavelmente são as culpadas.

 

—        Marino não vem? Pergunta Dave.

—        Estamos tentando localizá-lo.

—        Farei uma declaração dentro de menos de uma hora. Vira uma página do relatório. — Em minha opinião, ao final das contas, os resultados da investigação apontam para um impacto e nada mais.

—        Não penso em testemunhar isso em juízo, diz Scarpetta olhando o relatório, os detalhes de uma autópsia que não foi realizada por ela. — O que direi é que, embora um hematoma subdural possa ser causado por um impacto, no caso do possível tombo do sofá ao chão, é totalmente improvável; o mais provável é que se deva a uma violenta sacudida que gerou ruptura na cavidade cranial, hemorragia subdural e lesão da coluna vertebral.

—        E quanto às hemorragias da retina, não concordamos em que também possam ser causadas por um trauma, como o choque da cabeça contra o chão, que teria como resultado uma hemorragia subdural?

—        Em um tombo de pouca altura como este, em absoluto. Uma vez mais, é mais provável de que a causa esteja em que; a cabeça sacudiu para frente e para trás. Tal como diz claramente o relatório.

—        Parece que não está me ajudando muito, Kay.

—        Se não quer uma opinião imparcial, deveria buscar outro expert.

—        Não existe outro expert. Você não tem rival. Sorri. — E o que me diz de uma deficiência de vitamina K?

—        Se tens uma amostra de sangue retirada antes da morte e que revele uma deficiência de vitamina K... Replica Scarpetta. — Andas procurando estranhos caminhos...

—        O problema é que não temos esse sangue ante mortem. A criança não sobreviveu o suficiente para chegar ao hospital.

—        É um problema, sim.

—        Bem, é impossível demostrar que a criança tenha sofrido sacudidelas. Decididamente não está claro e é improvável. Ao menos isso você poderá dizer.

—        O que está claro é que uma mãe não encarrega um filho de catorze anos, de cuidar de seu irmão recém-nascido, quando esse garoto já passou duas vezes pelo tribunal de menores por ter agredido a outras crianças e que possui um famoso temperamento explosivo.

—        E isso você não vai testemunhar.

—        Não.

—        Olha, a única coisa que peço é que diga que não existem provas definitivas de que esta criança tenha sofrido sacudidelas.

—        Também direi não existem provas irrefutáveis do contrário e que não encontro falha alguma no relatório da autópsia em questão.

—        A Academia é genial, diz Dave levantando-se de sua cadeira. — Entretanto vocês estão me atacando os nervos. Marino não apareceu e agora você me deixa preocupado.

—        Sinto pelo Marino, diz Scarpetta.

—        Talvez devessem controlá-lo melhor.

—        Isto não é assim tão fácil.

 

Dave ajeita sua atrevida camisa listrada, ajeita a gravata de seda e põe o cachecol de seda feito sob medida. Por fim, ordena os papéis na maleta de pele de crocodilo.

 

—        Corre o rumor de que está investigando o caso de Johnny Swift, diz em seguida, fazendo barulho ao manusear os fechos de prata. Scarpetta fica perplexa. Não tem nem ideia de como Dave pode ter sabido disso. Ela responde:

—        Tenho por costume prestar escassa atenção aos rumores, Dave.

—        Seu irmão é dono de um de meus restaurantes preferidos de South Beach. Ironicamente, se chama Rumores, completa. — Laurel tem tido alguns problemas.

—        Eu não sei nada sobre ele.

—        Uma pessoa que trabalha em seu restaurante está fazendo circular a história de que Laurel matou Johnny por dinheiro, pelo que Johnny deixava em seu testamento.

—        Isto soa a mentira. Talvez seja alguém que lhe guarde rancor. Dave vai até a porta.

—        Não tenho conversado com essa pessoa. Sempre que o tento não está. Pessoalmente, acho que Laurel é uma pessoa das mais agradáveis. Simplesmente, me parece muita coincidência que eu comece a ouvir rumores de que vai se abrir de novo o caso de Johnny.

—        Não me consta que estivesse fechado, diz Scarpetta.

 

Os flocos de neve caem gélidos e afiados, o meio-fio e as ruas estão cobertas de branco. Veem-se poucas pessoas.

 

Lucy caminha com passo rápido, bebendo a goles um café com leite fumegante, em direção à Anchor Inn, onde se hospedou a uns dias usando um nome falso para poder ocultar seu Humer alugado. Não o estacionou nem uma só vez junto a casa porque não interessa que os desconhecidos saibam que carro utiliza. Vira para alcançar uma estreita avenida que descreve uma curva antes de chegar ao estacionamento situado sobre a água, onde encontra o Humer coberto de neve. Desbloqueia as portas, liga o motor e conecta o sistema de calefação. O manto branco que cobre as janelas produz a fresca e sombreada sensação de se encontrar no interior de um iglu.

 

Está ligando para um de seus auxiliares, quando de repente vê uma mão que começa a limpar a neve do vidro ao lado do motorista e um rosto com um capuz negro que enche a janela. Corta a chamada e deixa o telefone no assento. Para olhando para Stevie e baixa a janela, enquanto sua mente raciocina a toda pressa um monte de possibilidades. Não é nada bom que Stevie a tenha seguido até aqui. É muito ruim que ela não se tenha dado conta de que a seguiam.

 

—        Que está fazendo? Pergunta Lucy.

—        Só queria dizer-lhe uma coisa.

 

O rosto de Stevie tem uma expressão que é difícil de decifrar. Pode ser que esteja a ponto de chorar e se sinta profundamente perturbada, ou pode ser que seja o vento frio e cortante soprando que faz com que lhe brilhem tanto os olhos.

 

—        É a pessoa mais fascinante que já conheci, diz Stevie. — Acho que é minha heroína. Minha nova heroína. Lucy não está certa se Stevie está brincando com ela. Pode ser que não.

—        Stevie, tenho que ir para o aeroporto.

—        Ainda bem que não começaram a cancelar voos. Entretanto é possível que o resto da semana seja terrível.

—        Obrigado por me posicionar sobre o tempo, responde Lucy, provocando um olhar feroz e desconcertante nos olhos de Stevie. — Olhe, me desculpe. Não foi minha intenção ferir seus sentimentos.

—        Não feriu, respondeu Stevie, como se a ouvisse pela primeira vez. — Na realidade, não acreditei que gostasse de você. Queria lhe ver para dizer isto. Nunca acreditei que gostasse de você de verdade.

—        Não para de falar nisso.

—        Tem graça. Aparenta ser tão certa de você mesma, arrogante na realidade. Dura e distante. Entretanto vejo que não é assim por dentro. É curioso que as coisas sejam tão diferentes do que esperamos. Está aumentando a neve sobre o Humer, humedecendo o interior.

—        Como me encontrou? Pergunta Lucy.

—        Voltei a sua casa, porém já havia saído. Segui suas pisadas na neve que me trouxeram até aqui. Que número calça? Trinta e oito? Não foi difícil.

—        Enfim, sinto que...

—        Por favor, interrompe Stevie, com intensidade, com força. — Já sei que não sou simplesmente outra marca em seu cinturão, como dizem.

—        Não me interessam essas coisas, diz Lucy, porém não é verdade. Sabe disso, embora jamais o houvesse pensado desse modo. Se sente mal por Stevie. Se sente mal por sua tia, por Johnny, por todas as pessoas com quem falhou em todos esses anos.

—        Haverá quem diga que você é que é uma marca no meu cinturão, comenta Stevie em tom jocoso, sedutor, e Lucy não deseja experimentar a mesma sensação de novo.

 

Stevie é outra vez a pessoa confiante em si mesma, outra vez a mulher cheia de segredos, outra vez incrivelmente atraente. Lucy faz um esforço para engatar a marcha à ré enquanto continua caindo a neve. Dói-lhe o rosto pelo açoitar da neve e do vento que sopra desde a água. Stevie rebusca o bolso de seu casaco, apanha um papelzinho e o passa pela janela aberta.

 

—        É meu número de telefone, diz.

 

O código de zona é 617, área de Boston. Stevie não havia dito em nenhum momento onde morava; Lucy tampouco o havia perguntado.

 

—        Isto é tudo o que queria falar, diz Stevie. — E feliz São Valentim.

 

Olham-se uma à outra através da janela aberta, com o motor ronronando, a neve caindo e agarrando-se ao casaco negro de Stevie. É interessante, e Lucy sente o mesmo que sentiu no bar. Acreditava que a sensação havia desaparecido. Entretanto volta a notá-la.

 

—        Eu não sou como as demais, afirma Stevie olhando-a aos olhos.

—        Certo.

—        Meu número do celular, diz Stevie. — De fato moro na Flórida. Quando saí de Harvard não mudei o número do celular. Não importa. É pelos minutos grátis.

—        Esteve em Harvard?

—        Não acho bom mencionar. Pode esfriar as pessoas.

—        Em que parte da Flórida mora?

—        Em Gainesville, responde Stevie. — Feliz São Valentim, repete. — Espero que tenha sido o mais especial de toda sua vida.

 

O quadro eletrônico da turma 1A está ocupado por inteiro com uma fotografia a cores de um torso masculino. A camisa está desabotoada e tem uma faca enorme enfiada no peito cabeludo.

 

—        Suicídio, aponta um dos alunos voluntários desde a sua cadeira.

—        Temos outro dado. Ainda não se pode deduzir a partir da foto, explica Scarpetta aos dezesseis estudantes desta turma da Academia. — Apresenta múltiplas feridas de arma branca.

—        Homicídio. O aluno muda rapidamente sua resposta e todo o mundo começa a rir. Scarpetta põe o diapositivo seguinte, em que se vêm múltiplas feridas agrupadas próximas da que foi fatal.

—        Parecem superficiais, aventura outro aluno.

—        E o ângulo? Se o tipo se tivesse suicidado, não deveriam as feridas serem oblíquas? Fala um terceiro.

—        Não necessariamente, porém tenho uma pergunta, replica Scarpetta. — O que nos diz esta camisa desabotoada?

 

Silêncio.

 

—        Se vai cravar uma faca, o faria sem retirar a roupa? Pergunta. — E, a propósito, tem razão. Dirige-se ao aluno que fez o comentário sobre o superficial das feridas. — A maioria dos cortes apenas feriu a pele. Aponta-os no terminal. — É o que chamamos de «marcas de vacilação».

 

Os alunos tomam notas. São um punhado de pessoas inteligentes e entusiastas, de formação diversa e procedentes de distintas partes do país, dois deles da Inglaterra. Vários são detetives que desejam receber uma formação forense intensiva em criminologia. Outros são investigadores que desejam o mesmo. Alguns são ex-universitários que estudam para ter um título superior em psicologia, biologia nuclear e microscópica. Um é suplente de fiscal de distrito que quer mais condenações nos tribunais.

 

Coloca outro diapositivo no quadro eletrônico, desta vez uma particularmente horripilante de um homem em que estão saindo os intestinos por uma grande incisão no abdome. Vários dos alunos deixam escapar um gemido. Um exclama: «Oh!»

 

—        Quem de vocês conhece sepuku? Pergunta Scarpetta.

—        É o mesmo que o haraquiri, diz uma voz da porta.

 

Trata-se do doutor Joe Amos, membro este ano da Junta de Governo de Patologia Forense, que entra como se esta fosse sua turma. É alto, com uma mata revolta de cabelo negro, um queixo largo e pontiagudo, olhos escuros e brilhantes. Scarpetta lembra-se de um pássaro, o corvo.

 

—        Não queria interromper, diz, porém o faz. — Este tipo, aponta com um gesto de cabeça a imagem horrorosa que enche o terminal, — Agarrou uma grande faca e a enfiou em um lado do abdome cortando até o outro lado. Isto sim e que é motivação.

—        O caso era seu, doutor Amos? Pergunta uma aluna, e bonita. O doutor Amos se aproxima dela com ar de homem muito sério e importante.

—        Não. O que deve saber é o seguinte: a forma de diferenciar um suicídio de um homicídio é que, se for suicídio, a pessoa corta o abdome no sentido horizontal até acima, para formar o clássico L do haraquiri. Entretanto não é isso o que estamos vendo neste caso.

 

Dirige a atenção dos alunos até o terminal. Scarpetta domina sua raiva.

 

—        Em um homicídio é bem difícil fazer isso, continua o doutor Amos.

—        Esta ferida não tem forma de L.

—        Exatamente, responde Amos. — Quem vota a favor de um homicídio? Uns quantos alunos levantam a mão. — Eu também voto por isso, declara Amos com um ar superior.

—        Doutor Amos, quanto tempo supõe que demorou a morrer?

—        Poderá ter sobrevivido alguns minutos, porque o sangue se esvai muito rapidamente. Doutora Scarpetta, queria falar um minuto com você. Lamento interromper, diz aos alunos. Ambos saíram ao corredor.

—        De que se trata? Pergunta Scarpetta.

—        O horrível delito que temos programado para esta tarde, responde Amos. — Gostaria de modificá-lo um pouco.

—        Não podia esperar que eu terminasse a aula?

—        Bem, pensei que você poderia conseguir que se apresente com voluntário um dos alunos. Farão qualquer coisa que você peça. Pergunte se algum deles está disposto a participar esta tarde dessa reconstituição, porém não pode revelar os detalhes diante de todos.

—        E quais são os detalhes, exatamente?

—        Estava pensando em Jenny. Poderia deixar que faltasse a sua aula das três para me ajudar. Refere-se à aluna bonita que perguntou se o caso do eviscerado era seu.

 

Scarpetta os viu juntos em mais de uma ocasião. Joe está comprometido, porém isto não parece ser um obstáculo para que se mostre bastante amistoso com as alunas atraentes, por mais que a Academia o proíba. Até o momento não o surpreenderam cometendo alguma infração imperdoável, e de certo modo Scarpetta desejaria que o tivessem feito. Adoraria livrar-se dele.

 

—        Faremos com que represente o papel de criminoso, explica Amos em voz baixa. — Parece tão inocente, tão encantadora. Escolheremos dois alunos de cada vez, faremos com que entrem no lugar onde foi cometido um homicídio e cuja vítima recebeu múltiplas tiros enquanto estava no banheiro. Isto ocorre no quarto de um motel, em princípio, e então aparece Jenny fazendo-se de mulher destroçada, histérica. É a filha do morto. Veremos se os alunos abaixam a guarda.

 

Scarpetta fica em silêncio.

 

—        Naturalmente, no lugar existirão uns quantos policiais. Digamos que andam por ali olhando, acreditando que o autor dos tiros já fugiu. Queremos é ver se alguém é suficiente inteligente para certificar-se de que essa garota tão chorosa não é a pessoa que acabou de matar a tiros à vítima, seu pai, enquanto estava no banho. E sabe de uma coisa? Realmente foi ela. Os demais baixam a guarda, ela apanha uma pistola, começa a disparar, e os policiais respondem... Voilá... O clássico caso de suicídio por meio da polícia.

—        Pode pedir a Jenny você mesmo depois da aula, diz Scarpetta enquanto tenta decidir por que é tão familiar essa situação.

 

Joe está obcecado com as reconstruções de crimes, uma inovação de Marino, cenas extremas, paródias que se supõe, deva ser um reflexo dos riscos autênticos e dos detalhes desagradáveis dos casos reais de morte. Às vezes pensa que Joe deveria abandonar a patologia forense e vender sua alma a Hollywood. Se é que tem alma. A situação hipotética que acaba de propor lhe lembra de algo.

 

—        Genial, não acha? Diz Joe. — Poderia acontecer na vida real. Então Scarpetta se lembra. De fato, aconteceu na vida real.

—        Tivemos um caso assim na Virginia, lembra. — Quando eu estava na chefia.

—        Verdade? Responde Joe, surpreso. — Penso que não existe mais nada novo debaixo do sol.

—        E, a propósito, Joe, continua Scarpetta, — Na maior parte dos casos de sepuku, de haraquiri, a causa da morte é uma parada cardíaca em consequência de um súbito colapso, produzido por uma caída repentina da pressão intra-abdominal devida à evisceração. Não o fato de sangrar.

—        O caso era seu? Esse ali de dentro? Indica a sala.

—        Meu e de Marino. Há vários anos. E outra coisa, adiciona: — É um suicídio, não um homicídio.

 

A citação X viaja até o sul pela velocidade do som quando Lucy envia arquivos a uma rede virtual privada protegida por tantos firewalls que nem sequer podem penetrar nela os profissionais da Homeland Security.

 

Ela está convencida de que sua infraestrutura de informação é excelente. Tem a certeza de que nenhum pirata informático, nem sequer o Governo, pode controlar as transmissões de dados que gerou o sistema de gestão de bases de dados Transação de Imagens Heterogênicas, cujas siglas são TIH. Ela mesma desenvolveu e programou o TIH. O Governo desconhece sua existência, disso está certa. Poucas pessoas o conhecem, disso também está certa. O TIH é software de seu desenvolvimento e poderia vendê-lo facilmente, porém não lhe faz falta o dinheiro. Fez fortuna há anos com outro software, com vários dos mesmos motores de busca que está dirigindo através do ciberespaço neste momento, tentando localizar mortes violentas que tenham tido lugar em um comércio, do tipo que procura, no sul da Flórida.

 

Fora dos homicídios cometidos, como era previsível, em lojas de licores e de comida rápida, salões de massagens e locais pornôs, não encontrou nenhum crime violento, resolvido ou não, que coincida com o que falou Basil Jenrette a Benton. Existia há algum tempo um comércio chamado A Loja de Natal, na confluência entre a A1A e a Rua de As Olas, junto a uma zona de boutiques para turistas, cafés e lojinhas de sorvetes. Há dois anos A Loja de Natal foi vendida a uma cadeia especializada em camisetas, roupa de banho e souvenires.

 

Joe custa a acreditar nos muitos casos em que trabalhou Scarpetta ao longo de uma carreira relativamente curta. Os patologistas forenses rara vez conseguem seu primeiro trabalho antes de fazer trinta anos, isso supondo que sua árdua trajetória de formação seja contínua. Além dos seis anos de Medicina, Scarpetta cursou mais três de Direito. Aos trinta e cinco era a chefa do sistema forense mais importante dos Estados Unidos. Diferentemente da maior parte dos chefes do dito sistema, ela não era simplesmente uma administradora; ela fazia autópsias, milhares de autópsias.

 

A maioria delas está em uma base de dados à que se supõe que somente ela pode acessar. Inclusive recebeu várias subvenções federais para realizar estudos sobre a violência: violência sexual, violência relacionada com as drogas, violência doméstica, todo o tipo de violência. Em vários de seus antigos casos o investigador principal foi Marino, detetive local de homicídios na época em que ela era chefa. De maneira que, em sua base de dados, guarda também os relatórios dele. É como uma loja de guloseimas. É uma fonte que emana champanhe do bom. É orgásmico.

 

Joe está repassando o caso C328-3, o suicídio por meio da polícia que servirá de modelo para a reconstituição desta tarde. Localiza outra vez as fotografias do lugar do crime, pensando em Jenny. No caso real, a filha que tão alegremente apertou o gatilho está caída no quarto, de boca para baixo em um charco de sangue. Recebeu três tiros: um no abdome e dois no peito, e Joe pensa sobre a maneira de como estava vestida, quando matou seu pai no banheiro e depois fez uma pantomina diante da polícia, antes de sacar de novo sua arma. Morreu descalça, com uns jeans azuis e uma camiseta. Joe revê as fotografias de sua autópsia, não tão interessado pela incisão em forma de E da garota como por seu aspecto, ali nua, sobre a mesa de aço frio. Quando a polícia a matou só tinha quinze anos. E Joe pensa em Jenny.

 

Levanta a vista e sorri do outro lado da mesa, onde ela está aguardando pacientemente à espera de instruções. Joe abre uma gaveta e retira uma Glock nove milímetros, desliza para trás o percursor para certificar-se de que a câmara está vazia, deixa cair o carregador e por último empurra a arma sobre a mesa para a garota.

 

—        Alguma vez já disparou uma arma? Pergunta a sua nova aluna predileta. Jenny tem um precioso narizinho e uns enormes olhos na cor chocolate com leite. Joe a imagina nua e morta, como a garota da fotografia que tem no terminal.

—        Me criei entre armas, ela responde. — O que está olhando, se não se importa que eu pergunte?

—        O correio eletrônico, responde Joe. Nunca o perturbou não dizer a verdade. Gosta de não dizer, gosta muito mais do que desgosta. A verdade não é sempre a verdade? O que é certo? É o que ele decide que é. Tudo é questão de ponto de vista. Jenny torce o pescoço para ver melhor o que está no terminal.

—        Genial. Vejo que as pessoas enviam por correio eletrônico casos inteiros.

—        Às vezes, ele responde localizando uma fotografia distinta; Em seguida põe em funcionamento a impressora a cores que tem atrás da mesa. — Isto é material classificado, agrega. — Posso confiar em você?

—        Claro doutor Amos. Entendo perfeitamente o que é o material classificado. Se não entendesse, não estaria me preparando para esta profissão.

 

Na bandeja da impressora aparece a fotografia a cores de uma rapariga morta estendida em um charco de sangue na sala de estar. Joe vira-se para apanhá-la, dá uma rápida olhada e a passa a Jenny.

 

—        Esta é a pessoa que você vai ser esta tarde, fala.

—        Espero que não literalmente, ela brinca.

—        E esta é a sua arma. Olha a Glock que descansa sobre a mesa, em frente a Jenny. — Onde pensa em escondê-la? Jenny olha a fotografia sem pestanejar e responde:

—        Onde ela escondeu?

—        Na fotografia não se vê, responde Joe. — Em um livro de bolso que, a propósito, deveria ter sido uma pista para alguém. A garota encontra seu pai morto, presumivelmente, chama a emergência, abre a porta quando chega a polícia e tem na sua mão um livro de bolso. Está histérica, em nenhum momento saiu de casa; assim, por que está andando por aí com um livro de bolso?

—        Isto é o que quer que eu faça.

—        A pistola está dentro do livro. Em um dado momento, você procura lenço de papel, porque está chorando, e então saca a pistola e começa a disparar.

—        Algo mais?

—        Em seguida responderão. Procure estar bonita. Ela sorri.

—        Algo mais?

—        A forma como está vestida a garota. Joe a olha tentando transmitir com os olhos o que é o que quer. Ela se dá conta.

—        Não uso exatamente o mesmo, responde brincando um pouco com ele, fazendo-se de ingênua. Jenny é qualquer coisa menos ingênua.

—        Enfim, Jenny, faça o que puder para parecer o melhor possível. Jeans, camiseta, sem meias nem sapatos.

—        Não usa roupa interior, me dá a impressão.

—        Exato.

—        Parece uma gatinha.

—        Está bem. Então pareça com uma gatinha, diz Joe. Jenny acha engraçado. — Quero dizer, que você é uma gatinha, não é? Ele pergunta olhando-a com seus olhos escuros. — Se não, pedirei a outro. Para esta reconstituição preciso de uma gatinha...

—        Não precisa de mais ninguém.

—        Oh, não me diga.

—        Digo. Jenny se volta para olhar a porta fechada, como se estivesse preocupada que pudesse entrar alguém. Joe não diz nada. — Poderíamos ter problemas, diz.

—        Não os teremos.

—        Não queria que me expulsassem, diz ela.

—        Porque quer ser investigadora forense. Jenny confirma com a cabeça sem deixar de olhá-lo, brincando tranquilamente com o primeiro botão de sua pólo da Academia. Cai-lhe muito bem. Joe gosta de como ela parece ser um presente para ele.

—        Já sou uma garota crescidinha, diz Jenny.

—        Você é do Texas, diz Joe então, observando como a pólo gruda no corpo dela, como está apertada a calça cáqui. — No Texas as coisas crescem muito, não é verdade?

—        Por que me diz coisas tão grosseiras, doutor Amos? Ela pergunta fazendo charme.

 

Joe a imagina morta. Imagina-a em um charco de sangue, morta a tiro. A imagina nua sobre uma mesa de aço. Uma das mentiras da vida é a que os cadáveres não têm atrativo sexual. Entretanto um nu é um nu se a pessoa for atraente e não está a muito tempo morta. Dizer que um homem nunca teve pensamentos sobre uma mulher bonita que casualmente está morta é uma piada. Os policiais guardam fotos em suas mesas, imagens de vítimas femininas com um corpo excepcional. Os forenses homens conversam com os policiais e mostram a eles determinadas fotos, escolhem deliberadamente as que sabem que eles vão gostar. Joe viu, sabe que o fazem.

 

—        Se fizer bem seu papel de morta no lugar do crime, fala a Jenny, — A convidarei para jantar em minha casa. Sou um expert em vinhos.

—        E também está comprometido.

—        Ela está em Chicago, em uma conferência. É possível que a neve a retenha. Jenny se levanta. Consulta o relógio e depois olha ao doutor Amos.

—        Quem era sua aluna predileta antes de mim? Pergunta.

—        Você é especial, responde Joe.

 

Transcorrida uma hora desde que partiu de Fort Lauderdale, Lucy se levanta para tomar outro café e fazer uma pausa indo ao banheiro. Pelas pequenas janelas ovais do avião vê o céu encapotado por nuvens de tormenta cada vez mais densas.

 

Volta a se acomodar em sua cadeira de couro e realiza novas solicitações de informação, consultando dados de cálculos de impostos e registros de propriedade imobiliária do condado de Broward, notícias publicadas nos jornais e tudo o que aconteceu, para ver o que pode encontrar sobre a antiga loja de artigos de Natal. Desde meados dos anos setenta até princípios dos noventa era um restaurante chamado Run Runer. Depois durante dois anos foi uma loja chamada Coco Nuts. Mais tarde, no ano 2000, alugou o local a senhora Florrie Ana Quincy, viúva de um paisagista de West Palm Beach.

 

Lucy descansa ligeiramente os dedos sobre o teclado enquanto lê um artigo que saiu publicado em The Miami Herald, não muito tempo depois de ser aberta A Loja de Natal. Diz que a senhora Quincy se criou em Chicago, onde seu pai era agente de Bolsa e todas os natais trabalhava como voluntária fazendo-se de Papai Noel nos grandes armazéns Macy's.

 

«A Natal para nós era a época mágica, dizia a senhora Quincy. Meu pai se encantava com os brinquedos de madeira e, possivelmente devido a que tenha se criado no território madeireiro de Alberta, em Canadá, em casa tínhamos árvores de Natal todo o ano, grandes pinheiros, decorados com luzes brancas e figurinhas talhadas. Suponho que por isso eu gosto de ter ao meu redor o Natal o ano todo».

 

Sua loja é uma impressionante coleção de adornos, caixas de música, bonecos de Papai Noel de todos os tipos, paisagens invernais e trenzinhos elétricos que correm por vias diminutas. É preciso ter cuidado ao se mover pelos corredores de seu frágil mundo de fantasia e fica fácil esquecer-se de que do outro lado da porta o sol brilha, existem palmeiras e o mar. Desde o mês passado, quando inaugurou a Loja de Natal, a senhora Quincy afirma que tem tido muitas pessoas entrando e saindo, porém que são muitos mais os clientes que vão olhar do que os que compram...

 

Lucy bebe um gole de café e olha o pãozinho recheado de creme que espera na bandeja. Está com fome, porém tem medo de comer. Pensa constantemente na comida, está obcecada com seu peso, porque sabe que fazer regime não servirá de nada. Pode se matar de fome, que isso não mudará como se vê e como se sente. Seu corpo era sua máquina melhor afinada e a traiu.

 

Executa mais outra busca e tenta localizar Marino servindo-se do telefone existente no braço de sua cadeira, sem deixar de ler os resultados da consulta. Marino responde, porém a qualidade da comunicação não é boa.

 

—        Estou voando, explica lendo o que aparece no terminal.

—        Quando vai aprender a pilotar essa coisa?

—        Provavelmente nunca. Não tenho tempo para reunir todos os conhecimentos. Ultimamente, apenas tenho tempo para os helicópteros.

 

E não quer ter. Quanto mais pilota, mais gosta, e não quer continuar gostando. Tem de declarar que medicação toma à Administração Federal de Aviação, a não ser que se trate de um medicamento inócuo que se possa adquirir sem receita, e na próxima vez que for ao médico para renovar seu certificado médico terá que adicionar à lista o Dostinex. Farão-lhe perguntas, os burocratas do Governo entrarão em sua intimidade e provavelmente encontrarão alguma desculpa para revogar sua licença. A única maneira de evitar é não tomar o remédio, e já tentou passar uma temporada sem tomá-lo. Ou também pode abandonar para sempre a pilotagem.

 

—        Eu fico com as Harley, está dizendo Marino.

—        Acabo de conseguir uma pista. Não sobre esse caso. Sobre outro distinto, quem sabe.

—        Quem deu? Ele pergunta, perspicaz.

—        Benton. Parece que alguém contou uma história sobre um assassinato sem resolver cometido em As Olas.

 

Escolhe as palavras com cuidado. Marino não está informado sobre o programa PREDADOR. Benton não quer colocar Marino neste assunto, porque teme que ele não o entenda nem seja de utilidade. A filosofia de Marino acerca dos delinquentes violentos consiste em maltratá-los, prendê-los e matá-los da forma mais cruel possível. Seria certamente a última pessoa deste planeta a se importar, se um psicopata assassino é um doente mental em vez de ser um malvado, ou se um pedófilo não pode evitar suas inclinações tanto quanto um psicótico os seus delírios. Marino defende que a exploração física e psicológica por meio de imagens estruturais e funcionais do cérebro não passa de uma estupidez.

 

—        Segundo parece, esta pessoa afirma que, há uns dois anos e meio, violaram e assassinaram uma mulher em um local chamado A Loja de Natal, explica Lucy a Marino, preocupada em que um destes dias lhe escape que Benton está avaliando reclusos.

 

Marino sabe que o McLean, o hospital universitário de Harvard, o modelar hospital psiquiátrico, que atende aos ricos e famosos, não é uma instituição psiquiátrica forense. Se estão transferindo para ali reclusos para avaliá-los, está acontecendo algo inusual e clandestino.

 

—        E? Pergunta Marino. Lucy repete o que acaba de dizer e agrega:

—        Era propriedade de uma tal Florrie Ann Quincy, mulher branca, trinta e oito anos, seu marido tinha vários viveiros em West Palm...

—        De plantas?

—        De árvores. Em sua maioria cítricas. A Loja de Natal ficou aberta só dois anos, de 2000 a 2002.

 

Lucy digita mais instruções e converte arquivos de dados em arquivos de texto que vai enviar por correio eletrônico a Benton.

 

—        Alguma vez escutou mencionarem um lugar que se chama Apetrechos de Praia?

—        Aumente a voz, diz Marino.

—        Está melhor assim? Marino?

—        Agora te ouço.

—        É o nome da loja que está agora no local. A senhora Quincy e sua filha de dezessete anos, Helen, desapareceram em julho de 2002. Encontrei alguns artigos no jornal que contam sobre isso. Não é muito, só um artigo aqui e outro acolá, e no ano passado não saiu nada de nada.

—        Devem ter fechado e a imprensa não fez eco disso, propõe Marino.

—        Nada do que encontrei indica que estejam vivas. De fato, na primavera passada o filho tentou que as declarassem legalmente falecidas, porém não conseguiu. Quem sabe você pudesse consultar a polícia de Fort Lauderdale e ver se alguém lembra algo acerca do desaparecimento da senhora Quincy e de sua filha. Eu tenho pensado em passar amanhã pelo Apetrechos de Praia.

—        Os policiais de Fort Lauderdale não vão me dar informação, sem que eu tenha um bom motivo.

—        Vamos continuar averiguando, responde Lucy.

 

 

Em frente ao guichê de passagens da USAir, Scarpetta continua discutindo.

 

—        É impossível, diz uma vez mais, a ponto de perder os estribos de frustração. — Aqui tem meu recibo impresso. Está bem claro. Primeira classe, partida às seis e vinte. Como pode estar cancelada a minha reserva?

—        Senhora, é o que aparece no computador. Sua reserva foi cancelada as duas e um quarto.

—        De hoje? Scarpetta se nega a acreditar. Deve haver algum erro.

—        Sim, de hoje.

—        Isto é impossível. Eu não liguei para cancelá-la.

—        Pois alguém o fez.

—        Nesse caso, volte a fazer a reserva, ordena Scarpetta mexendo na bolsa em busca da carteira.

—        O voo está lotado. Posso colocá-la em lista de espera para classe turística, porém têm outras sete pessoas na frente da senhora.

 

Scarpetta transfere sua viajem para o dia seguinte e liga para Rose.

 

—        Vai ter que voltar a me apanhar, fala.

—        Oh, não. Que aconteceu? É o mau tempo?

—        Alguém cancelou minha reserva. E para o voo tem lista de espera. Rose, você ligou para confirmar a passagem?

—        Claro que sim. Liguei na hora do almoço.

—        Não sei o que aconteceu, fala Scarpetta pensando em Benton e na ideia de passar juntos Dia de São Valentim. — Merda! Exclama.

 

A lua amarela tem um aspecto esmaecido. Como uma manga demasiada madura cai pesadamente sobre as árvores, a vegetação e as densas sombras. Debaixo da luz desigual dessa lua, Porco consegue ver o suficiente dentro da mata para distinguir do que se trata. O vê chegar porque sabe onde olhar. Está há vários minutos olhando para a sua energia infravermelha pelo detector de calor que move debaixo da escuridão, em uma varrida horizontal, como uma varinha, como uma varinha mágica. No visor posterior do tubo de PVC verde oliva aparece uma linha intermitente de luzinhas vermelho vivo quando o aparelho detecta as diferenças entre a temperatura do ser de sangue quente e do chão.

 

É Porco, e o ser é um objeto que pode abandonar quando quiser, sem que alguém o veja. Ninguém o vê neste momento, na escuridão da noite vazia, sustentando o detector de infravermelho como se fosse um nível enquanto este capta o calor que irradia da carne viva e o avisa com suas luzinhas brilhantes que desfilam em linha reta pelo vidro escuro.

 

Provavelmente se trata de um animal.

 

«Bicho idiota». Porco resmunga em silêncio e se senta com as pernas cruzadas sobre o chão arenoso, sem deixar de olhar pelo visor. Observa as brilhantes luzinhas que cruzam a lente de um lado a outro pelo extremo oposto do tubo com que enfoca a coisa. Explora a área em sombras e sente a suas costas a presença da velha casa em ruínas. Tem a cabeça embotada por culpa dos fones de ouvido e ouve respirar a si mesmo, como se respirasse por um tubo debaixo d’água, submerso e silencioso, sem que ouça nada além da própria respiração, rápida e superficial. Não gosta dos fones, porém é importante usá-los.

 

«Já sabe o que vai acontecer agora, pensa. Como se não soubesse».

 

Observa a forma gorda e escura que avança quase junto ao chão. Move-se como um gato gordo e peludo, coisa que talvez seja. Muito depressa, a forma abre passagem entre grama e juncos, entrando e saindo das densas sombras debaixo das silhuetas espinhentas dos longos pinus e dos restos quebradiços de árvores mortas. Observa a coisa, observa as luzes vermelhas que serpenteiam no interior da lente. A coisa é pouco inteligente, porque a brisa que sopra em contrário impede-a de captar o cheiro de quem a vigia.

 

Porco desliga o detector infravermelho e o põe sobre os joelhos. Em seguida apanha sua Mossberg 835 Ulti-Mag com acabamento de camuflagem; nota a culatra dura e fria contra o ombro ao alinhar o óculo de trítio com o ser.

 

«Aonde acha que vai?», brinca. O ser não começa a correr. Que idiota. «Vamos. Corre». O ser continua avançando lentamente, alheio a tudo, junto ao chão.

 

Porco sente que o coração bate forte e pausadamente; percebe sua própria respiração, rápida, enquanto segue ao ser com o verde luminoso do óculo. Aperta o gatilho e o estrondo da escopeta vara o silêncio da noite. O ser dá uma sacudida e fica imóvel no chão. Porco coloca os fones e escuta com atenção, esperando um grito ou um gemido, porém não ouve nada, só o trânsito da Sul 27 ao longe e o roçar de seus próprios pés ao se levantar e estirar as pernas para desentumecer.

Com movimentos lentos, apanha o cartucho, guarda-o em um bolso e começa a andar cruzando a mata. Ativa o percursor da escopeta e no mesmo instante a luz de tiro ilumina a criatura.

 

É um gato, peludo e rajado, com o ventre inchado. Empurra-o para virá-lo. Trata-se de uma fêmea prenha. Estuda a possibilidade de lhe dar outro tiro. Escuta com atenção. Nada, nem um movimento, nem um ruído, nem um só sinal de vida. Provavelmente a gata se dirigia sigilosamente para a casa em ruínas em busca de comida. Pensa sobre o detalhe de que a gata tenha ouvido a comida; se acreditava que havia comida na casa, certamente é porque pode detectar a ocupação recente da mesma. Sopesando tal possibilidade, coloca a escopeta sobre o ombro e coloca o antebraço sobre a culatra, como um lenhador com o machado ao ombro. Observa o ser morto e pensa na figura do lenhador de madeira que havia em A Loja de Natal, aquele grande situado junto à porta.

 

—        Que idiota, diz, porém não existe ninguém que possa ouvi-lo, só o ser morto.

—        Não, o idiota é você, ressoa a voz de Deus atrás dele.

 

Retira os fones dos ouvidos e dá a volta. Ali está ela, de negro, uma figura negra e fluida à luz da lua.

 

—        Falei que não fizesse isso, diz ela.

—        Aqui ninguém me ouve, protesta ele, passando a escopeta ao outro ombro e vendo o lenhador de madeira como se o tivesse adiante. — Não penso em fazer de novo. Não sabia que estava aqui.

—        Saberá onde estou se se eu quiser que saiba.

—        Trouxe dois exemplares de Campo e Rio. E o papel, o papel laser brilhante.

—        Eu disse que me trouxesse seis, incluídos os dois da pesca com mosca e outros dois da Revista de pesca.

—        Os roubei. Era muito difícil conseguir seis de uma só vez.

—        Pois então volta. Como pode ser tão imbecil? Ela é Deus. Tem um coeficiente intelectual de cento e cinquenta. — Fará o que eu disser.

 

Deus é uma mulher; é ela, não existe outra. Convertera-se em Deus depois que ele cometeu aquela maldade e fora enviado para longe, muito longe, a um lugar em que fazia frio e nevava constantemente. Quando regressou ela havia se transformado em Deus e disse que ele era sua mão. A mão de Deus.

 

Observa como Deus vai embora, como se funde na noite. Ouve o ruído do motor e a ela voando, voando pela estrada. E se pergunta se alguma vez voltará a ter relações sexuais com ela. Pensa o tempo todo nisso. Quando se transformou em Deus, não quis ter relações sexuais com ele. A deles é uma união sagrada, explica. Ela tem relações sexuais com outras pessoas, porém não com ele, porque ele é a sua mão. Riu dele, diz que não é possível ter relações sexuais com sua própria mão. Seria como ter relações consigo mesma. E começa a rir.

 

—        Que idiota foi, hem? Fala Porco ao ser morto que jaz no chão.

 

Tem vontade de sexo. Deseja agora mesmo, enquanto contempla o ser morto e o empurra de novo com a bota pensando em Deus e em vê-la nua, percorrendo seu corpo com as mãos.

 

—        Já sei o que deseja Porco.

—        Sim, afirma ele. — O desejo.

—        Já sei onde quer colocar as mãos. Não errei, não é verdade?

—        Não.

—        Quer colocá-las onde eu permito que as outras pessoas ponham, não é verdade?

—        Quem dera que não permitisse isso a mais ninguém. Sim, é isso o que eu quero.

 

 

Ela o obriga a pintar as impressões de mãos em vermelho em lugares que não quer que outras pessoas toquem, lugares em que ele pôs as mãos quando cometeu aquela maldade e o enviaram para longe, para aquele lugar frio onde neva, aquele lugar onde o meteram na máquina e reordenaram suas moléculas.

 

Na manhã seguinte, se aproximam nuvens vindas do mar distante e a gata prenha e morta está rígida no chão. As moscas já a descobriram.

 

—        Olha o que fez. Matou todas as suas crias. Que idiota és.

 

Porco empurra a gata com a bota e as moscas se dispersam. Observa como retornam zumbindo para a cabeça coberta de sangue coagulado. Fica olhando o corpo morto e rígido e as moscas que se abatem sobre ele. Olha fixamente, sem se perturbar. Agacha-se de joelhos a seu lado e se aproxima o suficiente para voltar a espantar as moscas, e desta vez sente o odor. Cheira a morte, um fedor que durante vários dias invadirá tudo e se notará a vários hectares à volta, dependendo do vento. As moscas depositarão seus ovos nos orifícios e nas feridas, e rapidamente o cadáver será invadido por vermes. Entretanto isso não o incomodará. Gosta de observar o produto da morte.

 

Levanta-se e começa a andar em direção à casa em ruínas com a escopeta entre os braços. Escuta ao longe o rumor do trânsito da Sul 27, porém não há motivo para que alguém venha até aqui. Com o tempo sim, haverá motivo, porém agora não.

 

Sobe ao portal estragado e uma tábua podre cede debaixo de suas botas. Abre a porta de um empurrão e entra em um espaço escuro cheio de pó. Reina lá dentro uma escuridão asfixiante; esta manhã é pior porque se avizinha uma tempestade. São oito horas e o interior da casa está quase tão escuro como se fosse noite. Porco começa a suar.

 

—        É você? A voz vem da escuridão, do fundo da casa, onde deve estar.

 

Contra a parede existe uma mesa bamba de madeira com tampo de ladrilhos cinzentos e, em cima, uma urna de vidro. Porco aponta para a urna com a escopeta, e ativa a luz de xênon, que arranca imediatamente um brilho luminoso do vidro e ilumina a forma negra da tarântula que tem do outro lado. O bicho se encontra imóvel sobre um leito de areia e pedaços de madeira, dentro da urna, serena como uma mão negra e junto à sua esponja de água e da sua pedra favorita. Em algum lugar da urna se agitam vários grilos de pequeno tamanho, irritados pela luz.

 

—        Vem falar comigo, exclama a voz exigente, porém mais fraca do que estava há apenas um dia.

 

Porco não está certo de se alegrar, ao descobrir que a voz não se apagou, porém se alegra. Retira a tampa da urna e fala à aranha em voz baixa e carinhosa. Tem o abdome calvo e com uma crosta seca de sangue amarelo pálido. O ódio o invade quando pensa no motivo dessa calva e por causa do animal que quase morreu dessangrado. Os pelos da aranha não crescerão até o momento da muda, e pode ser que se cure ou pode ser que não.

 

—        Sabe quem tem a culpa, não é verdade? Fala à aranha. — E já resolvi, não é? Vem aqui, chama a meia voz. — Me ouves?

 

A aranha não se move. É possível que morra. Existem muitas probabilidades de que assim seja.

 

—        Sinto ter estado fora tanto tempo. Já sei que deve se sentir só, diz à aranha. Mete uma mão na urna de vidro e acaricia suavemente a aranha, que apenas se move.

—        É você? A voz soa mais débil e rouca, porém exigente.

 

Porco tenta imaginar como será quando desaparecer essa voz, e se lembra do ser morto, no chão, rígido e infestado de moscas.

 

—        É você?

 

Aperta com o dedo o botão de pressão e a luz aponta para onde aponta a escopeta, iluminando o chão de madeira sujo e cheio ovos secos de insetos. Suas botas se movem atrás da luz.

 

—        Quem está aí?

 

No Laboratório de Armas de Fogo e de Marcas de Ferramentas, Joe Amos está abotoando uma jaqueta Harley-Davidson de couro negro ao redor de um bloco de gelatina de trinta e cinco quilos. Em cima deste existe outro bloco menor, de nove quilos, com uns óculos de sol Ray-Ban e um lenço negro com umas tíbias e uma caveira. Joe dá um passo para trás para ver seu trabalho. Está satisfeito, porém um pouco cansado; à noite se deitou muito tarde por culpa de sua nova aluna predileta. Bebeu demasiado vinho.

 

—        Está bonito, não é verdade? Fala a Jenny.

—        Bonito, porém ridículo. É melhor que ele não saiba disso; Não é alguém com quem convenha se meter, responde Jenny sentando sobre um mostrador.

—        A pessoa que menos quer se meter com ele sou eu. Estou pensando em lhe colocar um pouco de corante alimentício. Para que pareça mais com sangue.

—        Genial.

—        E também um pouco de marrom e assim parecerá que está em decomposição. É melhor fazermos algo que impressione.

—        Você e suas reconstruções de crimes.

—        Minha cabeça nunca descansa. Doem-me as costas, se queixa, verificando sua obra. — Este trabalho machucou minhas costas e penso em acioná-la na justiça.

 

As gelatinas, um material transparente e elástico fabricado com osso animal desnaturalizado e colágeno de tecido conjuntivo, não são fáceis de manipular. Os blocos que está utilizando foram dificilíssimos de transportar desde os contêineres de gelo até a parede posterior acolchoada da galeria de tiro. A porta do laboratório está fechada com chave. A luz vermelha que fica acesa na parede lembra que a galeria está sendo utilizada.

 

—        Vestido de cima a baixo para não ir a nenhuma parte, comenta Joe a pouco atraente massa de gelatina.

 

Mais conhecido como hidrolisado de gelatina, é utilizado também para fabricar xampus e condicionadores, batons, bebidas com proteínas, fórmulas para aliviar a artrite e muitos outros produtos que Joe não pensa voltar a provar na vida. Nem sequer beijará a sua noiva se ela estiver com os lábios pintados. A última vez que a beijou fechou os olhos quando ela grudou os lábios aos seus e de repente imaginou uma enorme onda em que fervia merda de vaca, de porco e de pescado. Agora lê as etiquetas. Se existir entre os ingredientes proteína animal hidrolisada, o artigo vai parar na lixeira ou volta para a prateleira.

 

Corretamente preparada, a gelatina simula a carne humana. É um meio quase tão bom como o tecido de porco, que Joe preferiria usar. Escutou falar de laboratórios de armas de fogo em que disparam sobre porcos mortos para verificar a penetração e a expansão da bala em uma variedade de situações diferentes. Joe preferiria disparar em um porco. Preferiria vestir o cadáver de um porco grande que se parecesse com uma pessoa e deixar que os alunos o varassem a tiros de distâncias diferentes e com armas e munição diferentes. Isto sim é que seria uma boa reconstrução de um crime. Para fazê-la ainda pior deveriam disparar em um porco vivo, porém Scarpetta não consentiria em algo assim.

 

—        Acioná-la não servirá de nada, está dizendo Jenny. — Também é advogada.

—        Uma merda.

—        Bem, pelo que você me contou, já tentou em outra ocasião e não conseguiu nada. Seja como for, quem tem o dinheiro é Lucy. Me disseram que é uma pessoa importante. Eu não a conheço. Nenhum de nós a conhece.

—        Não perdes nada. Um destes dias alguém a porá em seu lugar.

—        Como você?

—        É possível que eu já esteja. Sorri. — Vou dizer uma coisa: não penso em sair daqui sem conseguir o que algo muito bom. Mereço algo, depois de toda a merda pela que me fizeram passar. Volta a pensar em Scarpetta. — Me tratam como um merda.

—        Conheci Lucy antes de me formar, diz Jenny pensativa, sentada no mostrador e com o olhar fixo nele e no boneco de gelatina disfarçado de Marino.

—        São todos escória, diz Joe. — A puta trindade. Bem, pois terei uma surpresinha para eles.

—        Qual?

—        Já saberá. Depois te conto.

—        De que se trata?

—        Penso conseguir algo disto, digamos assim. Ela me subestima e isso é um grande equívoco. Ao final do dia vão ser dadas muitas risadas.

 

Uma parte do trabalho de Joe é ajudar Scarpetta no depósito de cadáveres do condado de Broward, onde ela o trata como a um trabalhador normal, obrigando-o a suturar os cadáveres depois das autópsias, a contar as pílulas que os frascos de remédios, que vêm com o morto, contém e catalogar os objetos pessoais, como se Joe fosse um humilde ajudante e não um médico. Deu-lhe a responsabilidade de pesar, medir, fotografar e desnudar os cadáveres, assim como de retirar qualquer material repugnante que possa ter ficado no fundo da bolsa aonde chega o cadáver, sobretudo se se tratar de um afogado pútrido, infestado de vermes e empapado de água suja, ou da carne e dos ossos de restos parcialmente esqueletizados. Mais insultante ainda é a tarefa de misturar uns dez por cento de gelatina nos blocos de Balística que os cientistas e os alunos usam.

 

—        Por quê? Me dê uma boa razão, disse a Scarpetta quando ela encarregou-o no verão passado.

—        Faz parte de sua formação, Joe, ela respondeu como sempre imperturbável.

—        Tento ser patologista forense, não técnico de laboratório nem muito menos cozinheiro, ele se queixou.

—        Meu método consiste em formar forenses partindo de zero, explicou ela. — Não deve existir nada que você não deva poder ou querer fazer.

—        Oh. E suponho que vai contar que você fez blocos com a gelatina e que fazia quando começou, disse ele.

—        Continuo fazendo, e estou muito contente de transferir a outro minha receita favorita. Eu prefiro Wyse, porém serve igualmente Kinde & Knox Type 250A. Deve começar sempre com água fria, entre 7 e 10 °C, e adicionar a gelatina na água, não ao contrário, sem deixar de mexer, porém não muito vigorosamente para não incorporar ar à mistura. Em seguida adicionar 2,5 ml de Foan Eater por cada bloco de 9 kg, tendo certeza de que o molde esteja bem limpo. Para a piece de resistance deve adicionar 0,5 ml de azeite.

—        Isto sim é que é curioso.

—        O azeite impede a proliferação de fungos, explicou ela.

 

Escreveu em um papel a sua receita pessoal e uma lista de equipamentos, a saber: uma balança, uma proveta graduada, solvente, uma seringa hipodérmica de 12 cm3, ácido propanoico, mangueira de plástico, papel de alumínio, uma colher grande, etecetera. Em seguida fez uma demonstração prática na cozinha do laboratório, como se com isso ficasse mais elegante tomar chuvaradas de pó de uns tambores de onze quilos e pesar, levantar ou arrastrar recipientes enormes e colocá-los nos contêineres de gelo ou na câmara frigorífica e depois fazer com que os alunos se reunissem na galeria de tiro ou no campo de tiro ao ar livre antes que essas malditas coisas estragassem, porque se estragam. Derretem-se como marmelada, assim o melhor é servi-las antes que tenham se passado vinte minutos desde que os retirou da câmara frigorífica, dependendo da temperatura ambiente.

 

Retira uma mala de janela de um armário e a coloca na frente do bloco de gelatina vestido com a jaqueta Harley. Em seguida põe fones de ouvido e óculos. Com um gesto da cabeça, indica a Jenny que faça o mesmo. Apanha uma Beretta 92 de aço inoxidável, uma pistola de dupla ação, a melhor de sua gama, com óculo frontal de trítio. Insere um carregador de munição Speer Gold Dot de 147 grãos e seis dentes ao redor da ponta para que o projétil se expanda como uma flor mesmo depois de atravessar a largura de quatro capas de roupa de algodão ou uma jaqueta de couro como as dos motociclistas. O que vai ser diferente nesta prova de tiro é o desenho que se produzirá quando a bala atravessar a mala antes de alcançar a jaqueta Harley e perfurar limpamente o peito do boneco de gelatina que ele montou.

 

Desbloqueia a arma e dispara quinze balas, imaginando que o boneco é na realidade Marino.

 

O vento agita as palmeiras com fúria, no outro lado das janelas da sala. «Vai chover», pensa Scarpetta. Tem pinta de avizinhar-se uma forte tempestade. Marino volta a se atrasar e não responde às suas ligações telefônicas.

 

—        Bons dias, vamos começar, anuncia a sua plateia. — Temos muito que fazer e já são nove menos um quarto.

 

Odeia se atrasar. Odeia quando o causador de seu atraso é outra pessoa, neste caso Marino. Marino outra vez. Está deixando a perder sua organização. Está deixando tudo a perder.

 

—        Esta noite espero estar em um avião a caminho de Boston, diz. — Desde que a minha reserva não tenha sido anulada magicamente outra vez.

—        As companhias aéreas trabalham muito mal, comenta Joe. — Não é de estranhar que estejam todas na bancarrota.

—        Nos pediram que déssemos uma olhada num caso de Hollywood, um possível caso de suicídio, mas ao qual estão associadas certas circunstâncias inquietantes, começa Scarpetta.

—        Antes temos um assunto que eu gostaria de comentar, interrompe Vince, o expert em armas de fogo.

—        Adiante. Scarpetta retira de um envelope várias fotografias de grande formato e começa a passá-las ao longo da mesa.

—        Há aproximadamente uma hora, alguém esteve fazendo provas de tiro na galeria. Olha para Joe. — Não estava programado.

—        Tinha a intenção de reservar a galeria de tiro à noite, porém esqueci, responde Joe. — Não havia ninguém a utilizando.

—        Tem que reservá-la. É a única maneira que temos para controlar a...

—        Estive testando um novo lote de gelatina para a Balística, utilizando água quente em lugar de fria para ver se havia alguma diferença na prova de calibração. Encontrei uma diferença de um centímetro. Uma boa noticia.

—        Tenho certeza de que encontrará diferenças de mais ou menos um centímetro cada vez que mexa nessa substância, replica Vince, irritado.

—        Não devemos utilizar algum bloco que não seja válido. Assim reviso muito a miúdo a calibração e tento aperfeiçoá-la. Isto me exige passar muito tempo no Laboratório de Armas de Fogo. Não é algo que eu tenha decidido. Joe olha para Scarpetta. — A gelatina é uma das coisas das que tenho que me ocupar. Olha-a outra vez.

—        Espero que tenha se lembrado de utilizar blocos firmes antes de começar a golpear a parede posterior com um monte de munição, diz Vince. — Já o lembrei disso várias vezes.

—        Já conhece as normas, doutor Amos, aponta Scarpetta.

 

Diante de seus colegas sempre o chama de doutor Amos em vez de Joe. O trata com mais respeito do que merece.

 

—        Temos que anotar tudo no livro de registro, continua Scarpetta. — Cada arma que se retira da coleção de referência, cada prova de tiro. Temos que respeitar os protocolos.

—        Sim, senhora.

—        Têm repercussões legais. A maior parte de nossos casos termina em um tribunal, conclui Scarpetta.

—        Sim, senhora.

—        Está bem. E começa a falar de Johnny Swift. — Em princípios de novembro foi operado dos pulsos e pouco depois foi para Hollywood e ficou com seu irmão. Eram gêmeos. Um dia antes do dia de Ação de Graças, o irmão, Laurel, saiu para fazer compras e retornou para casa aproximadamente às quatro e meia da tarde. Ao entrar, descobriu o doutor Swift caído no sofá, morto por causa de um tiro de escopeta no peito.

—        Acho que me lembro desse caso, diz Vince. — Saiu nos jornais.

—        Pois eu me lembro muito bem do doutor Swift, interveio Joe. — Deveriam chamar a doutora Self. Em certa ocasião em que eu estava em seu programa, ela chamou-o e fez uma pergunta sobre a síndrome de Tourette. Acontece que eu estou de acordo com ela, porque geralmente não é mais do que uma desculpa para portarem-se mal. Ele falou sem parar da disfunção neuroquímica, de anomalias do cérebro, como um expert, diz com sarcasmo.

 

A ninguém interessa as aparições de Joe no programa da doutora Self. A ninguém interessa suas aparições em nenhum programa.

 

—        E que se sabe do cartucho e da arma? Pergunta Vince a Scarpetta.

—        Segundo o relatório da polícia, Laurel Swift descobriu que havia uma escopeta no chão, a um metro atrás do encosto do sofá. Não encontrou nenhum cartucho.

—        Pois isso não é normal. Disparar contra si mesmo no peito e em seguida, não se sabe como, se levantar para jogar a escopeta atrás do sofá? De novo é Joe o que fala. — Não vejo nenhuma fotografia do lugar do crime em que se veja a escopeta.

—        O irmão afirma que viu a escopeta no chão, atrás do sofá. E eu digo que ele está certo. Veremos isso dentro de um momento, diz Scarpetta.

—        Tinha algum resíduo do tiro?

—        Lamento que Marino não esteja aqui, já que é nosso investigador, e neste caso trabalha estreitamente com a polícia de Hollywood, responde Scarpetta, guardando para si as suspeitas de que Marino tenha encerrado o caso. — A única coisa que sei é que não foi analisada a roupa de Laurel em busca de resíduos.

—        E as mãos?

—        Deram positivo. Entretanto ele afirma que tocou no seu irmão, que o virou, que se sujou de sangue. Assim que, na teoria, isso se explicaria. Existem alguns detalhes mais. Quando morreu, tinha os pulsos enfaixados, a prova de alcoolemia mostrou 0,1 e, segundo o relatório da polícia, na cozinha haviam numerosas garrafas de vinho vazias.

—        Estamos certos de que estava bebendo a sós?

—        Não estamos certos de nada.

—        Segundo parece, não deveria ser muito fácil para ele segurar uma escopeta, se tinha acabado de ser operado.

—        Possivelmente, Concorda Scarpetta. — E se ele não pôde usar as mãos, então, como?

—        Com os pés.

—        É factível. Eu tentei com minha Remington doze. Descarregada é claro, adiciona Scarpetta com um toque de humor.

 

Ela tentou sozinha, porque Marino não apareceu. Nem ligou. Não se importava nem um pouco.

 

—        Não tenho fotografias da demonstração, diz. É suficientemente diplomática para não dizer que a razão pela que não as tem é que Marino não apareceu. — É preciso dizer que o tiro gerou um retrocesso na arma. Talvez aí o pé tenha dado um solavanco, jogado a arma para trás e esta caiu atrás do encosto do sofá. O que mostraria que se suicidou. A propósito, não se encontraram abrasões em nenhum dos dedos gordos dos pés.

—        Alguma ferida por contato? Pergunta Vince.

—        A densidade dos resíduos na camisa, a margem de abrasão, o diâmetro e a forma da ferida, a ausência de marcas em forma de pétalas no algodão que ainda estava no corpo; tudo isso é coerente com uma ferida por contato. O problema é que, em minha opinião, temos uma grave incoerência devido a que o patologista se serviu de um radiologista para determinar a distância à que se efetuou o disparo.

—        De quem?

—        O caso é do doutor Bronson, responde Scarpetta; Vários dos presentes reagiram com um gemido.

—        O radiologista chegou à conclusão de que a ferida de escopeta é, e eu cito textualmente, uma ferida distante, continua Scarpetta. — Efetuada a uma distância de pelo menos um metro. Agora o que temos é um homicídio, porque a uma pessoa não é possível segurar o cano de uma escopeta a três metros do peito, não acham?

 

Vários golpezinhos de mouse e aparece no terminal eletrônico uma nítida imagem digital de raios X da ferida de escopeta em Johnny Swift. Os fragmentos do disparo parecem uma nuvem branca que flutua entre as formas fantasmais das costelas.

 

—        As marcas estão muito dispersas, aponta Scarpetta, — E para conceder certo mérito ao radiologista, a dispersão no interior do peito é coerente com uma distância de entre um metro e um metro e meio; porém o que eu creio que temos aqui é um exemplo perfeito do efeito bola de bilhar.

 

Imprime a imagem de raios X do terminal e apanha vários lápis de diferentes cores.

 

—        Os primeiros fragmentos diminuíram de velocidade ao se chocar com o corpo, e no momento da colisão rebateram e se espalharam formando um desenho que simula um tiro efetuado a certa distância, explica enquanto desenha em vermelho os fragmentos que rebateram e se chocaram com o corpo, desenhado em azul, como se fossem bolas de bilhar. — Portanto, este resultado cria o efeito de uma ferida feita por um tiro dado de longe, quando na realidade não foi um tiro longínquo mais sim uma ferida por contato.

—        Nenhum dos vizinhos ouviu um tiro de escopeta?

—        Parece que não.

—        Quem sabe estavam na praia ou fora da cidade, já que era o dia de Ação de Graças.

—        Quem sabe.

—        Que tipo de escopeta era e a quem pertencia?

—        A única coisa que sabemos é que era de calibre doze, responde Scarpetta. — Parece que a arma desapareceu antes de chegada da polícia.

 

Ev está acordada e sentada em um colchão enegrecido e que agora está certa de que é sangue seco.

 

Espalhadas pelo chão da pequena e suja casa, com o papel de parede cheio de manchas de humidade, se encontram várias revistas. Enxerga muito pouco sem os óculos, e a duras penas consegue ver as capas pornográficas. Distingue apenas as latas de água tônica e os envoltórios de comida rápida que estão pelo chão. Entre o colchão e a parede está um pequeno tênis de cor rosa, de marca infantil. Ev já o apanhou incontáveis vezes perguntando-se o que significa e a quem haverá pertencido, preocupada de que sua dona possa estar morta. Às vezes esconde o tênis atrás do corpo quando ele entra temerosa de que lhe tire. É tudo quanto tem.

 

Nunca dorme mais de uma ou duas horas de uma vez só e não tem ideia de quanto tempo já se passou. Perdeu a noção do tempo. Uma luz cinzenta enche a janela estragada que está no outro extremo da casa e não vê o sol. Não sabe que fez ele com Kristin e com as crianças. Lembra vagamente das primeiras horas, àquelas horas horrorosas e irreais nas quais ele trazia comida e água e a contemplava da escuridão, como um espírito sinistro, de pé no umbral.

 

—        O que está sentindo? Disse ele em um tom suave e frio. — O que se sente quando sabe que vai morrer? A casa sempre é escura. Entretanto muito mais quando ele está lá dentro.

—        Não tenho medo. Não pode tocar minha alma.

—        Diga que lamenta. Não é demasiado tarde para se arrepender.

—        Eu não fiz nada que deva lamentar. Você é que precisa. Deus desculpará até o mais horrendo de seus pecados se te humilhas e te arrependes.

—        Deus é uma mulher. E eu sou sua mão. Diga que lamenta.

—        Blasfemas. Deverias se envergonhar. Eu não fiz nada que deva lamentar.

—        Eu já lhe ensinarei o que é a vergonha. Dirá que lamenta, da mesma maneira que ela disse.

—        Kristin?

 

E depois desapareceu e Ev ouviu vozes procedentes de outra parte da casa. Não conseguiu distinguir o que diziam, porém ele estava falando com Kristin, tinha que ser isso. Estava falando a uma mulher. Na realidade não entendia a conversa, porém os ouvia falar. Não conseguia decifrar o que diziam. Lembra-se de uns pés que se arrastravam e umas vozes do outro lado da parede, e agora de ter escutado Kristin. Imaginou que era ela. Quando pensa nisso, se pergunta se não terá sonhado.

 

—        Kristin! Kristin! Estou aqui! Estou aqui mesmo! Não se atreva a machucá-la!

 

Ouve mentalmente sua própria voz, porém poderia ter sido um sonho.

 

—        Kristin? Kristin? Responda!

 

Então voltou a escutar alguém falar, mas não está certa. Poderia ter sonhado. Poderia ter sonhado que ouviu as botas dele avançando pelo corredor e a porta da rua ao fechar. Tudo isso poderia ter acontecido em questão de minutos, talvez horas. Também ouviu o motor de um carro. Também pode ter sido um sonho, uma fantasia. Ev ficou sentada na escuridão, escutando com o coração acelerado para ver se ouvia Kristin e as crianças, porém não escutou nada. Gritou até que começou a lhe doer a garganta.

 

A luz do dia vem e vai, e algumas vezes aparece a silhueta escura dele trazendo copos de papel cheios de água e algo para comer e em seguida fica ali de pé observando-a, porém ela não pode ver-lhe o rosto. Nunca viu o rosto, nem sequer na primeira vez, quando ele entrou na casa. Usa um capuz negro com aberturas para os olhos, um capuz que parece uma fronha de almofada, longa e folgada ao redor dos ombros. Essa silhueta encapuzada gosta de conversar cutucando-a com o cano da escopeta, como se ela fosse um animal do zoo, tendo curiosidade pelo modo como vai reagir. Toca em suas partes íntimas e fica observando a reação.

 

—        Deveria se envergonhar, fala Ev quando ele a toca. — Pode ferir minha carne, porém não pode tocar minha alma. Minha alma pertence a Deus.

—        Ela não está aqui. Eu sou sua mão. Diga que lamenta.

—        Meu Deus é um Deus único. «Não terás outro Deus a parte de mim».

—        Ela não está aqui.

 

Ele continua tocando-a com o cano da escopeta, às vezes com tanta força que deixa uns círculos negros e azulados marcados na pele.

 

—        Diga que lamenta, repete.

 

Ev senta-se no colchão hediondo e putrefato. Já foi usado antes, provavelmente usado de uma maneira horrível, está duro e manchado de negro, e ela senta nele, nessa casa hedionda, agoniante, entupida de lixo, escutando e tentando pensar, escutando, rezando e pedindo socorro a gritos. Ninguém responde. Ninguém a ouve e Ev se pergunta em que lugar está. Onde estará que ninguém ouve seus gritos?

 

Não pode escapar porque ele, muito inteligente, amarrou-lhe os pulsos e os tornozelos com cordas que passou por cima de uma viga do teto, como se ela fosse uma espécie de marionete grotesca, cheia de hematomas e coberta de picadas de insetos, sentindo seu corpo nu assediado pelos insetos e pela dor. Fazendo um esforço, consegue se colocar de pé. Pode abandonar o colchão para aliviar a bexiga e o intestino. Quando o faz, o dor é tão lacerante que quase perde o conhecimento.

 

Ele faz tudo na escuridão. É capaz de ver na escuridão. Ela o ouve respirar na escuridão. É uma forma negra. É Satanás.

 

—        Deus meu, me ajude, exclama dirigindo-se à janela, ao céu de cor cinzenta que se vê através dela, a esse Deus que está mais além do céu, em alguma parte de seu paraíso. — Te suplico meu Deus, me ajude.

 

Scarpetta ouve ao longe o rugido de uma motocicleta que tem de tubos de escape muito barulhentos. Procura concentrar-se à medida que a motocicleta vai se aproximando e passa adiante do edifício a caminho do estacionamento dos professores. Pensa em Marino e se pergunta se terá que despedi-lo. Não está certa de poder fazê-lo.

 

Está explicando que dentro da casa de Laurel Swift haviam dois telefones e que os dois tinham sido desligados e estavam sem o cabo. Laurel havia deixado o celular no carro e afirma que não conseguiu encontrar o de seu irmão, assim não tinha como chamar para pedir socorro. Preso do pânico fugiu e parou um táxi. Não regressou à casa até que chegou a polícia e então, a escopeta havia desaparecido.

 

—        Esta é informação que recebi do doutor Bronson, diz Scarpetta. — Tenho falado várias vezes com ele e sinto dizer que não tenho mais detalhes.

—        Os cabos dos telefones. Chegaram a aparecer?

—        Não sei, responde Scarpetta, porque Marino não a informou a respeito.

—        Poderia tê-los retirado Johnny Swift, para ter certeza de que ninguém pudesse ligar pedindo socorro em caso de não morrer imediatamente, supondo que se trate de um suicídio. Joe oferece outra de suas criativas situações hipotéticas.

 

Scarpetta não responde por que não sabe nada sobre os cabos telefônicos fora do que disse o doutor Bronson à sua maneira ambígua e um tanto deslavada.

 

—        Falta algo na casa? Alguma outra coisa fora os cabos telefônicos, o motivo do falecido e a escopeta? Como se isso fosse pouco.

—        Terá que perguntar a Marino, responde Scarpetta.

—        Acho que está aqui. A não ser que alguém mais tenha uma motocicleta que faz mais ruído que o transportador espacial.

—        Me surpreende que Laurel não tenha sido acusado de assassinato, se querem saber minha opinião, diz Joe.

—        Não se pode acusar de assassinato a uma pessoa quando ainda não se determinou como morreu a vítima, diz Scarpetta. — A forma da morte continua sem ser clara e não existem provas suficientes para determinar se foi suicídio, homicídio ou acidente, embora eu não consiga compreender como se pode considerar isto um acidente. Se a morte não se resolve à satisfação do doutor Bronson, este terminará por declará-la indeterminada. Nesse momento se ouvem umas fortes pisadas no corredor.

 

—        Que aconteceu com o senso comum? Pergunta Joe.

—        Não se determina a forma de uma morte baseando-se no senso comum, responde Scarpetta. Quem dera que Joe guardasse para si mesmo seus inoportunos comentários.

 

Abre-se a porta da sala e entra Pete Marino carregando uma maleta e uma caixa de donuts Krispy Kreme, vestido com jeans negros, botas e casaco de couro negro com o emblema da Harley nas costas, sua indumentária habitual. Faz caso omisso de Scarpetta, senta-se em sua cadeira de costume, a seu lado, e deixa a caixa de donuts sobre a mesa.

 

—        Gostaria que pudéssemos analisar a roupa do irmão para ver se nela existem resíduos do tiro, diz Joe recostando-se em sua cadeira como faz sempre que se dispõe a opinar, e tende a opinar mais do que o habitual quando Marino está presente. — Dar uma olhada por raios X, Faxitróm, SEM/espectrometria.

 

Marino fica olhando-o como se fosse sacudi-lo pelo pescoço.

 

—        Naturalmente, é possível encontrar pequenos restos em uma pessoa, provenientes de uma fonte que não seja uma escopeta. De material de solda, pilhas, graxa de automóveis, pinturas. Como em minhas práticas de laboratório do mês passado, diz Joe ao mesmo tempo em que apanha um donut de chocolate, com a maior parte do chocolate agarrado à caixa e lambe os dedos com o olhar fixo em Marino, do outro lado da mesa.

—        Foram boas práticas, comenta Marino. — Queria saber de onde tirou esta ideia.

—        O que eu pergunto é se sabem o que aconteceu com a roupa do irmão, diz Joe.

—        Me parece que você viu demasiados filmes de patologistas, responde Marino com seu enorme rosto virado para ele. — Demasiados Harry Potter nesse seu televisor de tela plana. Acredita que é patologista forense, ou quase, advogado, cientista, investigador do lugar do crime, polícia, capitão Kirk e o Coelhinho de Páscoa, tudo isso em um só.

—        A propósito, a reconstrução de ontem foi um rotundo êxito, diz Joe. — É uma lástima que a perdeu.

—        Bem, qual é a história desta roupa, Pete? Pergunta Vince a Marino. — Sabemos o que Laurel estava fazendo quando encontrou o cadáver de seu irmão?

—        O que estava, segundo ele, era nada, responde Marino. — Parece que entrou pela porta da cozinha, deixou as compras em cima da mesa e, em seguida, foi diretamente ao banheiro. Supostamente. Depois tomou um banho porque naquela noite tinha que trabalhar em seu restaurante e, por casualidade, olhou para a porta e viu a escopeta caída atrás do sofá. Naquele momento estava nu, isso ele afirma.

—        A mim tudo isso me parece um monte de merda. Joe fala com a boca cheia.

—        Minha opinião é que provavelmente se trate da interrupção de um roubo, diz Marino. — Ou da interrupção de algo. Um médico rico que talvez se enredasse com quem não devia. Alguém viu minha jaqueta Harley? É negra, com umas tíbias e uma caveira em um ombro e uma bandeira americana no outro.

—        Onde estava a última vez que a usou?

—        Tirei-a no hangar no outro dia, quando Lucy e eu estivemos fazendo um exercício aéreo. Quando voltei, já não estava lá.

—        Eu não a vi.

—        Eu tampouco.

—        Merda. Me custou uma nota. E os adornos eram feitos sob encomenda. Maldito seja. Se alguém a roubou...

—        Aqui ninguém rouba, diz Joe.

—        Ah, sim? E que me diz dos que roubam ideias? Marino o olha furioso. — Isto me lembra, se dirige a Scarpetta, — Que já que estamos com o tema das reconstruções de crimes...

—        Não estamos com esse tema, interrompe Scarpetta.

—        Esta manhã trago umas quantas coisas para dizer a esse respeito.

—        Em outra ocasião.

—        Algumas são muito boas, deixei um memorando em sua mesa, fala Marino. — Para que tenha algo interessante em que pensar durante as horas vagas. Sobretudo levando em conta que provavelmente ficará presa pela neve. Suponho que voltaremos a nos ver só na primavera.

 

Scarpetta controla sua irritação, procura mantê-la em um lugar oculto onde espera que ninguém a veja. Marino está desbaratando a reunião de pessoal e tratando-a como fazia há quinze anos, quando era a nova chefa da patologia de Virginia, uma mulher em um mundo sem mulheres, uma mulher com personalidade própria, segundo chegou Marino à conclusão, porque tinha um título de Medicina e outro de Direito.

 

—        Acho que o caso Swift seria muito bom para uma reconstituição do crime, afirma Joe. — Os resíduos do tiro e a espectrometria de raios X e outros fatos contam duas histórias diferentes. Vamos ver se os alunos descobrem algo. Tenho certeza de que não terão a mínima ideia do que é o efeito bola de bilhar.

—        Não perguntei ao público do galinheiro. Marino alça a voz: — Alguém me escutou perguntar ao público do galinheiro?

—        Bem, já sabe qual é minha opinião acerca de sua criatividade, fala Joe. — Francamente, é perigosa.

—        Sua opinião para mim é merda.

—        Temos sorte de que a Academia não esteja quebrada, continua Joe, como se em nenhum momento lhe tivesse ocorrido que um destes dias Marino pode mandá-lo ao outro extremo da sala com um soco. — Realmente é uma sorte, depois do que você fez.

 

No verão passado, uma das reconstituições de crimes de Marino traumatizou uma aluna, que abandonou a Academia e ameaçou com levá-los a juízo e, afortunadamente, dela não se voltou a saber. Scarpetta está paranoica a não permitir que Marino participe na formação dos alunos, seja em reconstruções de crimes, desagradáveis ou não, ou participando de uma aula.

 

—        Não creia que o que aconteceu não me vem à cabeça quando planejo a reconstrução de um crime, prossegue dizendo Joe.

—        Que você planeja? Exclama Marino. — Se refere a todas essas ideias que me roubou?

—        Me parece que isso se chama ciúme. Eu não preciso roubar as ideias de ninguém, e muito menos de você.

—        Não me diga! Acha que não sei reconhecer o que é meu? Você não sabe o suficiente para pensar as coisas que eu penso, doutor Quase Forense.

—        Chega! Intervém Scarpetta e agora levanta a voz: — Já basta.

—        Acontece que tenho um caso muito interessante, um cadáver encontrado no lugar onde aconteceram tiros vindo de um carro, diz Joe. — Porém quando se recuperou a bala descobriu-se que tem um insólito desenho quadriculado, de tecido, não pesado, porque na realidade à vítima dispararam através de um alambrado da janela e depois avermelharam seu cadáver...

—        Isto é meu! Exclama Marino batendo o punho sobre a mesa.

 

O homem desceu de um estropeado caminhão carregado de espigas de milho, estacionado a certa distância do posto de gasolina, e entrou na cabine telefônica. Porco está a um tempo observando-o.

 

—        Algum filho de puta me roubou a carteira e o telefone celular. Acho que foi quando estava no banho, está dizendo o homem na cabine telefônica, de costas para o posto CITGO.

 

Porco disfarça que se diverte ao observar como o homem blasfema sem parar acerca do fato de que outra vez terá que trabalhar de noite, queixando-se e maldizendo porque vai ter que dormir na cabine do caminhão já que não tem telefone nem dinheiro para pagar um motel. Nem sequer tem dinheiro para tomar um banho; embora de qualquer maneira os banhos subiram para cinco paus e isso é muito por um banho quando no preço não entra nem sequer o sabonete.

 

Alguns se juntam de dois em dois para que tenham desconto. Passam atrás de uma cerca sem pintar que existe no lado oeste do supermercado CITGO, amontoam a roupa e o calçado em um banco e se metem em um banheiro minúsculo de cimento, mal iluminado e que tem uma única pia e um ralo grande e oxidado no centro do chão.

 

O banheiro está sempre molhado. A torneira pinga e os metais rangem. Os homens trazem seu próprio sabonete, xampu, escova de dente e dentífrico, normalmente em uma bolsa de plástico. Também trazem sua toalha. Porco nunca tomou banho ali, porém olhou os homens, tentando adivinhar o que trazem na bolsa. Dinheiro. Celulares. Às vezes drogas. As mulheres tomam banho em um lugar parecido, no lado este do supermercado, nunca de duas em duas seja qual for o desconto, e o fazem nervosas e com pressa, envergonhadas de sua nudez e aterrorizadas de que entre alguém para atacá-las, de que venha um homem forte que possa fazer o que quiser.

 

Porco disca o número 0800 do cartão verde que está no bolso traseiro, um cartão retangular, de uns vinte centímetros de largura, com um grande orifício e uma ranhura em um extremo para poder pendurá-lo da maçaneta da porta. Está impresso, além dessa informação, um desenho animado de um limão vestido com uma camisa tropical e óculos de sol.

 

Está fazendo com que se cumpra a vontade de Deus. Ele é mão de Deus e está fazendo o trabalho de Deus. Deus possui um coeficiente intelectual de cento e cinquenta.

 

—        Obrigado por ligar para o Programa de Erradicação de Cancros, diz a gravação, já familiar. — Sua chamada poderá ser gravada por razões de controle de qualidade.

 

A metálica voz feminina continua dizendo que, se ligou para informar acerca de danos em Palm Beach, ou condado de Dade, ou condado de Broward, marque, por favor, o número seguinte. Porco observa como o homem sobe no seu caminhão, e sua camisa de xadrez vermelho lembra a de um lenhador, o boneco de madeira que havia junto à porta da Loja de Natal. Marca o número que informou a voz gravada.

 

—        Departamento de Agricultura, responde uma mulher.

—        Preciso falar com um fiscal, por favor, diz sem tirar o olho do homem e pensando nos indivíduos que lutam com jacarés.

—        Em que posso ajudar?

—        Você é fiscal? Pergunta Porco pensando no jacaré que viu há aproximadamente uma hora na orla do estreito canal que corre paralelo a Sul 27.

 

Pareceu um bom presságio. O jacaré media pelo menos um metro e meio, era muito escuro e seco e não prestava a menor atenção aos grandes caminhões madeireiros que passavam rugindo junto a ele. Teria parado o carro se soubesse onde. Teria observado o jacaré, estudado como vive a sua vida sem medo de nada, tranquilo e silencioso, porém preparado para submergir na água rapidamente ou para apanhar sua incauta presa e arrastá-la até o fundo do canal, onde se afogará e será devorada. Teria observado o jacaré um bom tempo, porém não poderia sair da estrada sem perigo e, além disso, cumpre uma missão.

 

—        Tem algo para informar? Está perguntando a voz feminina na linha.

—        Trabalho para uma empresa de serviços de jardinagem e por casualidade, ontem, quando aparava o gramado, descobri um cítrico afetado por cancro em um jardim situado a uma quadra de distância.

—        Pode me dar o endereço? Dá à mulher um endereço da zona de West Lake Park.

—        Importaria em me dizer seu nome?

—        Prefiro dar parte disto de maneira anônima. Teria problemas com minha chefa.

—        Está bem. Queria fazer umas perguntas. Entrou pessoalmente nesse jardim em que acha que encontrou cancro?

—        É um jardim público, assim entrei porque ali existe um monte de árvores muito bonitas. Supus que poderia aparecer algum trabalho se necessitassem de alguém. Então descobri umas folhas de aspecto suspeito. Tinham várias árvores com pequenas manchas nas folhas.

—        Verificou se essas manchas tinham ao redor uma borda como se fosse água?

—        Me dá a impressão de que essas árvores se infectaram há pouco, provavelmente por isso vocês não detectaram em suas inspeções rotineiras. O que me preocupa são os jardins que têm de cada lado. Tem cítricos, segundo meus cálculos, a menos de sessenta metros das árvores afetadas, o que significa que é provável que estejam também, e os cítricos de outros jardins mais próximos, também segundo meus cálculos, se encontram a menos de sessenta metros. E assim em todo o bairro. De modo que já pode imaginar como estou preocupado.

—        O que o faz pensar que em nossas inspeções rotineiras não detectamos o que você menciona?

—        Que não existe nada que indique que vocês tenham estado aqui. Estou há muito tempo trabalhando com cítricos, estou quase a vida toda trabalhando para serviços de jardinagem profissionais. Tenho visto o pior do pior, jardins inteiros que tiveram que serem queimados. Pessoas que ficaram na ruína.

—        Viu manchas na fruta?

—        Como estou explicando, tenho a impressão de que a doença se encontra na primeira etapa. Vi jardins inteiros queimados por culpa do cancro. Pessoas com a vida destroçada.

—        Entrou no jardim em que acreditou detectá-lo e se desinfetou quando saiu dali? Pergunta a mulher. Porco não gosta do tom que usa. Não gosta desta mulher. É egocêntrica e tirânica.

—        Claro que me descontaminei. Estou há muito tempo no setor de jardinagem. Sempre uso minhas ferramentas com GX-1027, como ditam as normas. Estou sabendo de tudo o que acontece. Vi jardins inteiros destruídos, queimados e abandonados. Gente arruinada.

—        Me desculpe...

—        Aconteceram coisas horríveis.

—        Me desculpe...

—        As pessoas têm que levar a sério o cancro, diz Porco.

—        Qual é o número de registro de seu veículo, o que utiliza para o serviço de jardinagem? Suponho que você levará a obrigatória autorização negra e amarela no lado esquerdo do para-brisa. Preciso desse número.

—        Meu número não vem ao caso, replica Porco à fiscal, que se acha muito mais importante e poderosa do que ele. — O veículo pertence a minha chefa e terei problemas se ela souber que fiz esta ligação. Se ela descobre que seu serviço de jardinagem deu parte de um caso de cancro dos cítricos... Certamente teremos como consequência a perca de todas as árvores do local... O que você acha que acontecerá com nosso negócio de jardinagem?

—        Entendo senhor. Entretanto é importante que me proporcione o número da autorização para nossos arquivos. E também gostaria de saber de que modo poderíamos nos colocar em contato com você, se for necessário.

—        Não, ele responde. — Me despedirão.

 

O Posto de Gasolina CITGO está começando a encher de caminhoneiros que estacionam seus veículos atrás do supermercado e a um lado do restaurante Chickee Hut; estacionam em fila junto as árvores e dormem neles. Os caminhoneiros comem no Chickee Hut, cujo rótulo está mal escrito porque a pessoas que vêm aqui são demasiado ignorantes para saber como se escreve chikee e provavelmente nem sequer sabem o que significa. Chikee é uma palavra indígena que nem sequer os indígenas escrevem bem.

 

Os ignorantes caminhoneiros vivem de quilômetro em quilômetro e param aqui para gastar o dinheiro no supermercado, onde encontram gasolina, cerveja, cachorro quente e cigarros, além de uma seleção de navalhas debaixo de um mostrador de vidro. Podem jogar bilhar na sala de recreativos Golden Tee e consertar seus caminhões no trailer CB de eletricidade e pneus. A CITGO é uma parada que proporciona serviços completos no meio da nada, aonde as pessoas vem e vão sem se meter na vida de ninguém.

 

Ninguém incomoda Porco; apenas olham. Com tantas pessoas entrando e saindo, estranho seria que alguém o olhasse duas vezes, a não ser o tipo que trabalha no restaurante Chickee Hut.

 

O local se encontra atrás de uma cerca de tela metálica, que fica ao lado do estacionamento. Uns cartazes pendurados na cerca anunciam que se processarão advogados, que os únicos cachorros que podem entrar são os K9 e que os animais selvagens podem fazê-lo por sua conta e risco. À noite aparecem alguns animais selvagens, porém Porco não pode saber disso porque ele não gasta o dinheiro na sala de jogos recreativos, nem no bilhar nem na máquina de discos. Não bebe. Não fuma. Não quer deitar com nenhuma das mulheres da CITGO.

 

As mulheres aparecem com seus pequenos shortinhos, a camiseta justa e os rostos ásperos de tanta maquilagem barata e sol. Sentam-se no restaurante ao ar livre, que não mais é do que um telhadinho de folhas de palmeira com o balcão de madeira todo arranhado e oito banquinhos. Pedem o prato do dia e bebem. A comida é boa e feita ali mesmo. Porco gosta do hambúrguer do caminhoneiro, e só custa três e noventa e cinco. Um sanduíche quente de queijo custa três dólares e vinte e cinco centavos. Mulheres baratas; às mulheres assim ocorrem coisas desagradáveis. E merecem. Estão desejando. Estão pedindo aos gritos.

 

—        Um sanduíche quente de queijo e um hambúrguer, Porco pede ao homem que está atrás do balcão. — E vou comer aqui.

 

O homem tem uma enorme barriga e usa um avental branco cheio de manchas. Está ocupado em servir copos de chope porque os guarda no gelo. Já o atendeu em outras ocasiões, porém parece que nunca se lembra dele.

 

—        Quer o sanduíche de queijo junto com o hambúrguer? Pergunta enquanto empurra dois copos de chope até um caminhoneiro e sua garota, que já estão bêbados.

—        Você tenha certeza de que o sanduíche de queijo esteja quente.

—        Pergunto se quer os dois ao mesmo tempo. O tipo não parece irritado, mas indiferente.

—        Quero.

—        E para beber?

—        Água corrente.

—        E que diabos é isso de água corrente? Pergunta quase gritando o caminhoneiro bêbado enquanto sua garota dá uma risadinha e aperta o busto contra o enorme braço tatuado de seu companheiro. — Uma garrafa de água com patas para correr?

—        Só água corrente, repete Porco ao atendente.

—        Eu não gosto de nada correndo não é verdade, céu? Sussurra a garota bêbada do caminhoneiro bêbado abraçando o banquinho com suas pernas rechonchudas enfiadas num minúsculo shortinho. Tem uns peitos tão grandes que parecem a ponto de pular do enorme decote. — Para onde vai? Pergunta a garota bêbada.

—        Para o norte, responde Porco.

—        Pois tenha cuidado quando dirigir por aqui sozinho, fala rindo a mulher. — Anda muito louco solto por aí.

 

—        Temos alguma ideia de onde está? Pergunta Scarpetta a Rose.

—        Não está em sua mesa e tampouco responde ao celular. Quando liguei ao terminar a reunião para falar que você precisava vê-lo, me disse que tinha um assunto para resolver e que voltaria em seguida, lembra Rose. — Isto já faz hora e meia.

—        A que hora me disse que tínhamos que sair para o aeroporto? Scarpetta olha pela janela para as palmeiras que se agitam ao vento e pensa outra vez em despedi-lo. — Vamos ter tempestade, uma muito forte. Tem toda a pinta. Bem, não penso em ficar sentada a esperá-lo. Deveria sair agora mesmo.

—        Seu voo não sai antes das seis e meia, lembra Rose, e entrega a Scarpetta vários recados telefônicos.

—        Não sei por que me irrito. Por que deveria me irritar em falar com ele? Dá uma breve olhada nos recados.

 

Rose a olha de um modo em que só ela pode olhá-la. Está de pé na porta, em silêncio, pensativa, com o cabelo cinzento amarrado em um coque francês alto e com um vestido de linho pérola fora de moda, porém elegante e bem passado. Ao cabo de dez anos, seus sapatos cinzentos continuam parecendo novos.

 

—        Primeiro quer falar com ele, e no minuto seguinte já não quer. O que está acontecendo? Aponta Rose.

—        Acho que devo ir.

—        Não perguntei o que você quer, e sim o que está acontecendo.

—        Não sei que vou fazer com ele. Não deixo de pensar em despedi-lo, porém prefiro isso a falar com ele.

—        Acho que você esqueceu, mas Marino é um dos seus investigadores, de maneira que não vai escapar dele demitindo-o da Academia para terminar trabalhando a jornada completa no Instituto de Medicina Legal. Poderia aceitar o posto de chefa, lembra Rose. — Se você aceitasse, obrigariam o doutor Bronson a se aposentar, deveria pensar seriamente nisso.

 

Rose sabe o que faz. Pode parecer muito sincera quando sugere algo que sabe que no fundo Scarpetta não deseja fazer e o resultado é previsível.

 

—        Não, obrigado, responde Scarpetta. — Já conheço essa história... Quem é a senhora Simister, a que Igreja pertence? Pergunta, desconcertada por causa de um dos recados telefônicos.

—        Não sei quem é, porém falava como se a conhecesse.

—        Não a conheço nem pouco nem muito.

—        Ligou há uns minutos e me disse que queria falar com você acerca de uma família desaparecida na zona de West Lake Park. Não deixou seu número, disse que voltaria a ligar.

—        Família desaparecida? Aqui, em Hollywood?

—        Isto é o que disse. Seu voo sai de Miami, por desgraça. É o pior aeroporto do mundo. Eu diria que não é necessário sair até as... Enfim, já sabe como está o trânsito. Acho que deveria sair lá pelas quatro, entretanto não irá a nenhuma parte até que eu confirme o voo.

—        Está certa de que vou pela primeira classe e de que não anularam a reserva?

—        Tenho a reserva impressa, porém vai ter que pagar mais porque se trata de uma reserva feita na última hora.

—        É incrível. Anulam a reserva e agora a que tenho é de última hora porque tive que fazer uma reserva nova.

—        Está tudo pronto.

—        Não se irrite, porém você me disse isso mesmo o mês passado, Rose. E no fim eu não figurava no computador e terminei indo na classe turística. A viajem inteira até Los Angeles. E olhe o que aconteceu ontem.

—        A primeira coisa que fiz esta manhã foi confirmar a reserva. Farei de novo.

—        Você acredita que tudo isto é por causa das reconstituições de crimes de Marino? Talvez seja esse o seu problema.

—        Acho que tem ele a impressão de que depois daquilo você o rechaça, que não acredita dele nem o respeita.

—        Como vou confiar em seu critério?

—        Eu continuo sem estar certa de que foi exatamente o que Marino fez, diz Rose. — Aquela reconstituição em particular eu datilografei a máquina exatamente como faço com todas as suas reconstituições. Como já disse outro dia, no rascunho não aparecia nenhuma agulha hipodérmica dentro do bolso daquele morto grande, velho e gordo.

—        Ele preparou a cena. E a supervisionou.

—        Ele jura que outra pessoa colocou a agulha no bolso. Provavelmente foi ela. Por dinheiro, que, graças a Deus, não obteve. Não reprovo o Marino por se sentir assim. As reconstituições de crimes foram sua ideia, e agora o doutor Amos está tendo toda a atenção dos alunos enquanto que a Marino tratam como...

—        Não é amável com os alunos. Desde o primeiro dia.

—        Bem, pois agora é pior. Eles não o conhecem e o consideram um dinossauro de mal carácter, uma excêntrica velha glória. E eu sei bem o que é ser tratado como um velho excêntrico ou, pior ainda, se sentir um.

—        Você é qualquer coisa menos uma velha glória excêntrica.

—        Pelo menos está de acordo em que sou velha, comenta Rose ao mesmo tempo em que retorna a sua mesa adicionando: — vou tentar localizá-lo outra vez.

 

No quarto 112 do motel Última Parada, Joe Amos está sentado a uma mesa barata situada ao lado de uma cama barata, procurando no computador a reserva de Scarpetta para obter o número de voo e outras informações. Liga para a companhia aérea.

 

—        Preciso mudar uma reserva, solicita.

 

Em seguida recita os dados da reserva e muda o assento para a classe mais econômica, tão perto do fundo do avião o quanto seja possível, preferivelmente um assento no meio, porque a sua chefa não gosta de janela nem corredor. Justo o que fez da última vez e que se saiu tão bem, quando ela se dirigia a Los Angeles. Poderia voltar a cancelar a passagem, porém isto é mais divertido.

 

—        Sim, senhor.

—        Pode expedir uma passagem eletrônica?

—        Não, senhor, tratando-se de uma mudança tão próxima à hora de embarque. Terá de se apresentar no balcão de pagamento.

 

Joe desliga, entusiasmado. Já está imaginando a toda poderosa Scarpetta enganchada entre dois desconhecidos, podendo ser dois indivíduos enormes e mal encarados, durante três horas. Sorri e conecta uma gravadora digital em seu auricular telefônico de sistema híbrido. O aparelho de ar acondicionado instalado na janela faz ruído, porém não é eficaz; está começando a ter uma incômoda sensação de calor e a detectar o leve cheiro a ranço de carne putrefata vindo de uma recente reconstituição de um crime em que haviam espetos de costela de porco, fígado de vaca e pele de frango enrolados em um pano e escondidos debaixo do chão de um armário.

 

Programou esse exercício justo depois de um almoço especial, cuja fatura mandou debitar à Academia, consistente em costelas à barbacoa com arroz. Em consequência disso, vários alunos tiveram náuseas quando se descobriu o asqueroso vulto lotado de fluidos putrefatos e invadido de vermes. Em sua pressa por recuperar aqueles restos humanos simulados e limpar o lugar, a Equipe A não prestou atenção em um pedaço de unha que também se encontrava no fundo do armário, perdido naquele líquido hediondo e pútrido, e que era a única prova capaz de revelar a identidade do assassino.

 

Joe acende um cigarro recordando com satisfação o êxito daquela reconstituição, um êxito que ainda foi maior devido ao escândalo de Marino, a sua insistência de que Joe, uma vez mais, havia roubado a ideia. Esse polícia pateta ainda não descobriu que o sistema de controle de comunicações escolhido por Lucy, que se conecta com o PABX da Academia, permite, uma vez informada a apropriada senha de segurança, controlar a qualquer um.

 

Lucy foi descuidada. A intrépida superagente Lucy deixou seu Treo (um instrumento de comunicações da mais alta tecnologia que cabe na palma da mão e que é por vez assistente pessoal digital, telefone celular, correio eletrônico, câmara fotográfica e tudo o mais) dentro de um de seus helicópteros. Isto aconteceu há quase um ano. Ele apenas começava quando teve o mais assombroso golpe de sorte: estava no hangar com uma de suas alunas, uma especialmente bonita, mostrando-lhe os helicópteros de Lucy, quando encontrou por acaso um Treo no Bell 407.

 

O Treo de Lucy.

 

Ela estava conectada como usuário, assim ele não necessitou utilizar a contrassenha para acessar a tudo o que havia dentro. Ficou com o Treo o tempo suficiente para descarregar todos os arquivos antes de devolvê-lo ao helicóptero e deixá-lo no chão, parcialmente debaixo de um assento, onde Lucy o encontrou naquele mesmo dia sem saber do ocorrido. E continua sem ter nem ideia.

 

Joe tem contrassenhas, dezenas de contrassenhas, incluída a do administrador de sistema de Lucy, que permite a ela, e agora a ele, acessar e introduzir modificações no computador e nos sistemas de comunicações da sede regional do sul da Flórida, da sede central de Knoxville, das delegações de Nova Iorque e Los Angeles, assim como acessar Benton Wesley e seu ultrassecreto estudo de investigação PREDADOR e a tudo o que Scarpetta e ele confiam um ao outro. Joe pode redirecionar arquivos e correio eletrônico, saber dos números telefônicos ocultos de tudo o que alguma vez tenham tido algo a ver com a Academia, provocar desastres. Acaba o seu contrato dentro de um mês e, quando passar a se dedicar a outra coisa, e tem pensado em fazê-lo, quem sabe terá conseguido que a Academia e todos os seus inquilinos se danem e, sobretudo, que esta besta imbecil do Marino e a autoritária Scarpetta, se odeiem.

 

É fácil entrar na linha da mesa do imbecil e ativar a escuta. Marino dita tudo, inclusive as reconstituições de crimes, e Rose as digita corrigindo, porque ele tem uma gramática e uma ortografia que dá pena, lê em raras ocasiões e é praticamente analfabeto. Joe experimenta uma onda de euforia enquanto joga um pouco de cinza do cigarro em uma lata de Coca-Cola e entra no sistema do PABX. Conecta-se na linha da mesa de Marino para ver se ele está preparando alguma coisa.

 

Quando Scarpetta concordou em ser a patologista do projeto PREDADOR o fez sem o menor entusiasmo. Advertiu a Benton, tentou convencê-lo para que abandonasse o projeto, recordou uma e outra vez que para os criminosos do dito estudo não importa que ele seja médico, psicólogo ou professor de Harvard.

 

—        Cortarão o seu pescoço ou arrebentarão com sua cabeça contra uma parede da mesma maneira que fazem com todo o mundo, disse. — Não tens nenhuma imunidade por ser do projeto.

—        Estou quase toda a vida tratando com pessoas assim, respondeu ele. — A isso é ao que me dedico Kay.

—        Entretanto nunca o fez em um local como este, um hospital psiquiátrico da Ivy League onde nunca trataram com assassinos convictos. Não só está próximo do abismo, como está instalando nele escadas e um trampolim, Benton.

 

Ouve Rose falar do outro lado da parede de seu escritório.

 

—        Onde demônios se enfiou? Está dizendo.

—        Bem, e quando vai me deixar que a leve para dar uma volta na moto? Responde Marino em voz alta.

—        Já falei, não penso subir naquele traste. Acontece alguma coisa com seu telefone...

—        Sempre tive a fantasia de vê-la vestida de couro negro.

—        Fui procurá-lo, porém você não estava em seu escritório. Ou pelo menos não abriu a porta...

—        Estive fora toda a manhã.

—        Entretanto sua linha está acesa.

—        Não está.

—        Estava há alguns minutos.

—        Já está me controlando outra vez? Parece que está apaixonada por mim, Rose.

 

Marino continua falando em seu tom escandaloso enquanto Scarpetta revisa um correio eletrônico que acaba de receber de Benton, outro anúncio de trabalho que vai ser publicado no The Boston Globe e na Internet. Vários cientistas adjuntos à Faculdade de Medicina de Harvard estudam atualmente a estrutura e o funcionamento do cérebro no Centro de Imagens Cerebrais do Hospital McLean de Belmont, Massachusetts.

 

—        Vamos, a doutora Scarpetta está esperando e já voltou a se atrasar. Ouve Rose reprender Marino em tom firme, porém carinhoso. — Tem de parar de desaparecer de repente.

 

ADULTOS SÃOS PARA ESTUDO IRM.

OS CANDIDATOS DEVEM REUNIR OS SEGUINTES REQUISITOS:

 

•          SEXO MASCULINO ENTRE 17 E 45 ANOS

•          PODER COMPARECER AO HOSPITAL MCLEAN EM NO MÍNIMO CINCO VISITAS

•          NÃO TER SOFRIDO TRAUMATISMOS NA CABEÇA NEM TER CONSUMIDO DROGAS

•          NUNCA TER SIDO DIAGNOSTICADO ESQUIZOFRENIA OU TRANSTORNO BIPOLAR

 

Scarpetta lê rapidamente o resto do anúncio até chegar à melhor parte, um aditivo de Benton:

 

«Ficaria espantada ao descobrir quantas pessoas se acham normais. Quem dera que parasse de nevar de uma vez. Te amo».

 

A enorme presença de Marino enche o vão da porta.

 

—        Que foi? Pergunta.

—        Feche a porta, por favor, diz Scarpetta desligando o telefone.

 

Marino entra, fecha a porta e senta-se em uma cadeira, não diretamente em frente a ela, mas em ângulo, para não ter que olhá-la diretamente quando ela sentar atrás de sua grande mesa na sua grande cadeira de couro. Scarpetta já conhece esses truques, conhece todas as suas toscas manipulações. Marino não gosta de tratar com ela desde o outro lado de sua grande mesa; preferiria que estivessem sentados sem que houvesse nada entre eles, como iguais. Scarpetta entende de psicologia de escritório, entende muito mais do que ele.

 

—        Me dê só um minuto, fala.

 

BONG-BONG-BONG-BONG-BONG-BONG. Os rápidos sinais dos impulsos de radiofrequência fazem com que um campo magnético excite os prótons. No laboratório de IRM está se efetuando uma varrida na estrutura de outro cérebro provavelmente normal.

 

—        Há muito mau tempo por ai? Está perguntando Scarpetta no telefone.

 

A doutora Lane aperta o botão do intercomunicador.

 

—        Está bem? Pergunta ao atual objeto do estudo de PREDADOR, um sujeito que afirma ser normal, porém provavelmente não é. Não tem nem ideia de que se procura comparar seu cérebro com o de um assassino.

—        Não sei, responde desconcertado.

—        Não faz mau tempo, diz Benton a Scarpetta por telefone, — Se não você volta a se atrasar. Entretanto parece que até amanhã à tarde vai piorar...

 

BUAU... BUAU... BUAU... BUAU...

 

—        Não ouço nada! Exclama exasperado.

 

A cobertura é péssima. Às vezes o celular sequer funciona aqui dentro, e ele está ficando nervoso, frustrado, cansado. A exploração não vai como deveria. Hoje nada foi como deveria. A doutora Lane está desanimada. Josh, sentado diante de seu terminal, está com sonolento.

 

—        Não tenho mais esperanças, fala a Benton a doutora Lane com uma expressão de resignação no rosto. — Nem sequer com os fones nos ouvidos.

 

Duas vezes hoje, sujeitos normais se negaram a serem escaneados alegando claustrofobia, um detalhe que não mencionaram quando foram entrevistados para o estudo. E agora este outro se queixa do ruído, diz que ouve como se alguém estivesse tocando uma guitarra elétrica no inferno. Pelo menos é criativo.

 

—        Ligarei antes de partir, está dizendo Scarpetta no telefone. — O anúncio ficou muito bom, como os demais.

—        Obrigado pelo entusiasmo. Necessitamos que muitas pessoas respondam, porque as baixas são cada vez mais numerosas. As fobias flutuam no ar. E, como se fosse pouco, aproximadamente um de cada três sujeitos normais não é normal.

—        Já não estou certa do seja normal. Benton tapa o outro ouvido e caminha pela sala tentando captar melhor o sinal.

—        Acho que apareceu um caso importante, Kay. Vamos ter um monte de trabalho.

—        Que tal aí dentro? Pergunta a doutora Lane pelo intercomunicador.

—        Não muito bem, volta a se ouvir a voz do sujeito.

—        Sempre acontece o mesmo quando estamos a ponto de nos encontrar, está dizendo Scarpetta segurando o que parece um martelo e que bate com insistência em uma tábua de madeira. — Ajudarei o quanto puder.

—        Na realidade começo a alucinar, diz a voz do sujeito normal.

—        Assim não vai. Benton olha através do plexiglás ao sujeito, localizado no extremo oposto do imã. O sujeito balança a cabeça, presa com fita adesiva.

—        Susan, diz Benton à doutora Lane.

—        Já vi, responde. — Vou ter que realocá-lo.

—        Boa sorte. Eu creio que terminamos, diz Benton.

—        Destruiu o ponto de referência, diz Josh levantando o olhar.

—        Está bem, diz a doutora Lane ao sujeito. — Vamos terminar. Em seguida o tiro daí.

—        Sinto, porém não consigo suportar, diz a voz tensa do sujeito.

—        Desculpe. Outro que não serve, diz Benton a Scarpetta por telefone enquanto observa como a doutora Lane entra na sala do imã para liberá-lo. — Acabo de passar duas horas testando este indivíduo para nada. Josh, ordena. — Ligue para pedir um táxi.

 

Marino faz barulho com o couro negro de sua jaqueta Harley enquanto se acomoda. Esforça-se para demonstrar que está relaxado, esparramando-se na cadeira com as pernas estiradas.

 

—        Que anúncio é esse? Pergunta quando Scarpetta desliga o telefone.

—        Para outro estudo de investigação em que anda metido, isso é tudo.

—        Ah. Que tipo de estudo? Pergunta Marino como se suspeitasse de algo.

—        De neuropsicologia. Como distintas pessoas processam tipos de informação distintos, esse tipo de coisas.

—        Ah. Esta resposta é muito boa. Provavelmente é a mesma que fala sempre que liga um jornalista, uma resposta inócua. Porque queria me ver?

—        Recebeu minhas mensagens? Desde domingo à noite deixei quatro.

—        Sim, recebi.

—        Teria sido um mero detalhe se respondesse.

—        Não falou que era um nove-um-um.

 

Esse era o código que utilizavam nos anos em que se enviavam mensagens, quando não se usavam tanto os telefones celulares e, mais tarde, porque não estavam seguros. Agora Lucy tem distorsionadores de voz e Deus sabe o que mais para proteger a intimidade, assim já se pode deixar uma mensagem de voz explícita.

 

—        Quando é uma mensagem telefônica não digo nove-um-um, replica Scarpetta. — Como funciona isso? Tenho que dizer nove-um-um depois do sinal?

—        Não disse que se tratasse de uma emergência. Que queria?

—        Me deixou esperando. Íamos repassar o caso Swift, não se lembra? E, além disso, preparou uma cena, porém isso ela prefere pular.

—        Estive ocupado, viajando.

—        Importaria em me dizer o que anda fazendo e onde?

—        Estive testando a minha nova moto.

—        Dois dias inteiros? Não parou para colocar gasolina, nem para ir ao banheiro? Não teve nem um momento para ligar pelo telefone? Scarpetta se reclina contra a grande cadeira, atrás de sua mesa, mas se sente pequena olhando-o.

—        Por que tenho que dizer a você o que faço?

—        Porque sou a diretora de Medicina e Ciência Forense, embora só seja por isso.

—        E eu sou o chefe de Investigação, que de fato está debaixo de Formação e Operações Especiais. De maneira que na realidade minha supervisora é Lucy, não você.

—        Lucy não é sua supervisora.

—        Suponho que será melhor que fale com ela a respeito.

—        Investigação faz parte de Medicina e Ciência Forense. Você não é um agente de Operações Especiais, Marino. Seu salário é pago por meu departamento. Está a ponto de pular no pescoço dele e sabe que não deve.

 

Marino a olha com seu rosto grande e rude, tamborilando com seus dedos sobre o braço da cadeira. Cruza as pernas e começa a mover um pé enorme embutido em uma bota Harley.

 

—        Seu trabalho consiste em me ajudar com os casos, diz ela. — É a pessoa de mais dependo.

—        Melhor será que discuta isso com Lucy.

 

Segue tamborilando e move o pé com lentidão, com seus olhos duros como pedras fixos além dela.

 

—        Supõe que eu tenho que lhe contar tudo e você não me conta uma merda, se queixa. — Faz o que lhe vem na telha e nunca pensa que possa me dever uma explicação. Estou aqui sentado, escutando-a como se fosse um imbecil incapaz de nada entender. Não me pergunta nem me conta nada, a menos que lhe convenha.

—        Eu não trabalho para você, Marino. Não pode evitar dizê-lo. — Mais acho que acontece justo ao contrário.

—        Ah, sim?

 

Marino se aproxima um pouco da enorme mesa com o rosto avermelhado.

 

—        Pergunte a Lucy, diz. — Ela é a dona deste maldito lugar. Ela paga o salário de todo o mundo. Pergunte a ela.

—        É evidente que não estava durante a maior parte de nossa conversa sobre o caso Swift, diz Scarpetta mudando de assunto, tentando dar fim ao que está a ponto de se converter em uma batalha.

—        Para que deveria estar? Sou eu quem tem a maldita informação.

—        Tínhamos a esperança de que a dividisse conosco. Estamos juntos nisto.

—        Deixa de história. Todo o mundo está metido em tudo. Já não tenho nada meu. Abriram a janela para meus casos antigos e minhas reconstituições de crimes. Você se limita a contar o que quer e não se importa com o que eu sinta.

—        Isto não é verdade. Quem dera que se acalmasse um pouco. Não quero que tenha um ataque.

—        Está sabendo da reconstituição de ontem? De onde acredita que saiu? Este tipo está entrando em nossos arquivos.

—        Isto é impossível. As cópias impressas estão guardadas debaixo de chave e as eletrônicas são completamente inaccessíveis. E quanto à reconstituição de ontem, estou de acordo em que se parece muito com a...

—        Se parece é o cacete. É idêntica!

—        Marino, foi publicado na imprensa. Circula na Internet. Eu verifiquei.

 

O enorme rosto congestionado de Marino a olha fixamente, um rosto tão pouco amistoso que não mais o reconhece.

 

—        Podemos falar um momento de Johnny Swift, por favor? Pergunta Scarpetta.

—        Pergunte o que quiser, responde Marino, taciturno.

—        Me confunde a possibilidade de que o celular tenha sido roubado. Foi um roubo ou não?

—        Não se deu por falta de nada de valor, salvo o que não pudemos encontrar da merda do cartão de crédito.

—        Que merda de cartão de crédito?

—        Na semana posterior a sua morte, alguém sacou um total de dois mil e quinhentos dólares em espécie, em notas de quinhentos paus, de cinco caixas distintos, na área de Hollywood.

—        Descobriu de quais? Marino encolhe os ombros e diz:

—        Sim. Dos caixas situados em estacionamentos, em dias e horas diferentes, tudo diferente salvo a quantidade. Sempre quinhentos paus. Quando a companhia do cartão de crédito tentou informar a Johnny Swift, que então já estava morto, acerca de um comportamento que não coincidia com a pauta habitual e que poderia indicar que seu cartão estava sendo utilizado por outra pessoa, as retiradas cessaram.

—        E as câmeras? Existe alguma possibilidade de que essa pessoa apareça em um vídeo?

—        Escolheu caixas sem câmera. O tipo sabia o que fazia, provavelmente não era a primeira vez.

—        Laurel tinha a senha?

—        Johnny não podia dirigir devido à intervenção cirúrgica. Assim Laurel teve que encarregar-se de tudo, inclusive sacar dinheiro no caixa.

—        Alguém mais tem a senha?

—        Não, que soubéssemos.

—        Agora, a coisa não pinta bem para ele, comenta Scarpetta.

—        Porém eu não me creio que matasse seu irmão pela senha do caixa automático.

—        Têm pessoas que matam por muito menos.

—        A mim me parece que se trate de outra pessoa, talvez alguém com quem Johnny Swift teve algum encontro. Talvez essa pessoa tivesse acabado de matá-lo quando de repente ouviu chegar o carro de Laurel. Assim se escondeu o que explica por que a escopeta estava no chão. Depois, quando Laurel saiu correndo da casa, apanhou a arma e fugiu.

—        Por que estava a escopeta no chão, em primeiro lugar?

—        Devia estar preparando o lugar para que parecesse um suicídio quando o interromperam.

—        Está me dizendo que não tem nenhuma dúvida de que foi um homicídio?

—        Está me dizendo que não acredita que foi?

—        Não faço mais do que perguntar.

 

Os olhos de Marino passeiam pelo escritório, pousam na superfície da mesa de Scarpetta, percorrem os montes de papéis e memorandos de casos. Em seguida olha para ela com uma expressão dura que intimidaria a Scarpetta se esta não tivesse visto tantas vezes nesses olhos, insegurança e dor. Marino parece diferente e distante só porque enfeita a cabeça calva e tem um pendente de diamante. Exercita-se no ginásio de maneira obsessiva e está mais musculoso do que nunca.

 

—        Agradeceria que revisse minhas reconstituições de crimes, diz Marino. — Neste disco gravei todas as que me lembrei. Gostaria que as estudasse detidamente, já que vai estar sentada em um avião sem nada melhor para fazer.

—        Está certo. Não tenho algo melhor a fazer. Sua intenção é conseguir que melhore o ânimo. Entretanto não funcionou.

—        Rose gravou-as todas, desde a primeira do ano passado, no disco que está dentro da pasta. Em um envelope selado. Indica uns memorandos que estão em cima da mesa. — Quem sabe possa abri-lo em seu portátil e dar uma olhada. A bala com as estrias em quadrícula produzidas por tecido também está ali. Essa merda. Juro que fui eu o primeiro que a encontrou.

—        Faz uma busca na Internet sobre tiroteios e lhe garanto que encontrará casos e provas com armas de fogo em que aparece uma bala disparada através de um tecido, diz Scarpetta. — Acho que na realidade já não existam muitas coisas novas nem particulares.

—        Esse cara não é mais do que um rato de laboratório que até a um ano morava dentro de um microscópio. Não pode conhecer as coisas sobre as quais escreve. É impossível. É pelo que aconteceu na Granja de Corpos. Pelo menos poderia ter sido sincera nisso.

—        Tem razão, responde Scarpetta. — Deveria ter lhe contado e depois daquilo deixei de receber suas reconstituições de crimes. Como todos nós. Deveria ter sentado e explicar, porém você estava tão furioso e tão combativo que ninguém queria conversar com você.

—        Se lhe fizessem a cama como fizeram para mim também estaria furiosa e combativa.

—        Joe não estava na Granja de Corpos nem em Knoxville quando aconteceu aquilo. — Lembra Scarpetta. — Assim que, por favor, me explique como conseguiram colocar uma agulha hipodérmica no bolso do casaco de um morto.

—        Aquele exercício sobre o terreno tinha por finalidade colocar os alunos ante um cadáver real que está apodrecendo na Granja de Corpos e ver se eram capazes de dominar as náuseas e apanhar várias provas. Uma agulha suja não era uma delas. Isto ele preparou para me pegar.

—        Nem todo o mundo está empenhado em pegá-lo.

—        Se ele não queria puxar meu tapete, porque a garota não nos denunciou? Porque era tudo mentira, por isso. A maldita agulha não estava infectada, sabia? Nunca foi utilizada. Um pequeno descuido desse safado. Scarpetta se levanta de sua mesa.

—        O problema principal é o que vou fazer com você, diz ao mesmo tempo em que fecha com chave a sua maleta.

—        Eu não sou o único que guarda segredos, ele comenta, observando-a.

—        Você tem um monte de segredos. Nunca sei onde está nem que faz.

 

Apanha o casaco na parte posterior da porta. Marino a olha tranquilamente com seus olhos duros como pedras. Deixa de tamborilar na cadeira. Depois se levanta fazendo barulho com o couro.

 

—        Benton deve de sentir como um autêntico peixe gordo trabalhando com todas essas pessoas de Harvard, comenta, e não é a primeira vez que o diz. — Todos esses cientistas com seus segredos. Scarpetta para e o olha com a mão na maçaneta da porta. Também está paranoica. — Sim. Deve ser emocionante o que faz ali. Entretanto, se quiser minha opinião, diria que não percas o tempo com isso. Não é possível que se refira a PREDADOR. — Para não mencionar que é jogar dinheiro fora. Um dinheiro que sem dúvida alguma poderia ser gasto muito melhor. Eu não suportaria a ideia de usar tanto dinheiro e atenção com criminosos.

 

Ninguém pode estar ao corrente do estudo PREDADOR, salvo a equipe que está realizando-o, o diretor do hospital, o Conselho Interno de Revisão e alguns funcionários de prisões importantes. Nem sequer os sujeitos em estudo sabem como se chama nem para que serve. Marino não pode saber dele a não ser que de alguma maneira tenha acessado a sua correspondência eletrônica ou as cópias impressas que ela guarda chaveada nos arquivos. Pela primeira vez pensa que, se alguém está violando a segurança, pode ser que seja ele.

 

—        Do que está falando? Pergunta em voz baixa.

—        Quem sabe você deveria ter um pouco mais de cuidado quando enviar arquivos, certificando-se de que não levem nenhum documento anexo, replica Marino.

—        Ao enviar arquivos?

—        As notas que tomou depois de sua primeira reunião com o querido Dave sobre esse caso do bebê que sacudiram e que ele quer que todo o mundo pense que foi um acidente.

—        Não enviei nenhuma nota para você.

—        Enviou sim. Na semana passada, só que não abri a mensagem até passar o domingo. Eram umas notas anexadas de forma acidental a um correio que Benton lhe enviou. Um correio, que eu tenho certeza, não teria que ter visto.

—        Não fui eu, ela insiste cada vez mais alarmada. — Eu não lhe enviei nada.

—        Quem sabe o fez sem notar. É curioso como se pega as pessoas em uma mentira, comenta Marino ao mesmo tempo em que soam uns leves golpezinhos na porta.

—        Por isso não foi na minha casa o domingo à noite? Por isso não foi à reunião de ontem pela manhã com Dave?

—        Desculpem, diz Rose entrando na sala. — Acho que um de vocês deveria se ocupar de uma coisa.

—        Poderia ter dito algo, ter dado uma oportunidade para me defender, diz Scarpetta. — Pode ser que eu não comente tudo, porém não minto.

—        Não falar por omissão é mentir de qualquer maneira.

—        Desculpem, interrompe de novo Rose.

—        PREDADOR, fala Marino a Scarpetta.

—        É a senhora Simister, interrompe Rose subindo o tom de voz. — A senhora da igreja que ligou há pouco. Parece urgente.

 

Marino não faz esforço algum para se aproximar do telefone, como se quisesse lembrar a Scarpetta de que não trabalha para ela e que ela deve atender pessoalmente a ligação.

 

—        Oh, pelo amor de Deus! Exclama Scarpetta retornando a sua mesa. — Transfira para cá.

 

Marino afunda as mãos nos bolsos dos jeans e se apoia na porta para ver como se arruma Scarpetta com a tal senhora Simister.

 

Nos velhos tempos gostava de passar horas sentado no escritório de Scarpetta, escutando-a enquanto tomava café e fumava. Não se importava em lhe pedir que explicasse o que não entendia, não importava de esperar quando interrompiam ela, coisa que sucedia a miúdo. Tampouco importava que ele chegasse tarde.

 

Agora as coisas são diferentes e por culpa dela. Não tem a menor intenção de esperá-la. Não quer que explique nada e prefere continuar na ignorância sem fazer qualquer pergunta médica, profissional ou pessoal, embora esteja se mordendo por dentro, quando antes perguntava tudo o que podia. Entretanto ela o traiu. O humilhou, com toda a intenção, e está fazendo-o de novo, também intencionadamente, diga o que disser. Sempre justifica o que faz, sempre faz coisas que doem em nome da lógica e da ciência, como se o considerasse um imbecil incapaz de ver além de seu nariz.

 

O mesmo que aconteceu a Dóris. Chegou um dia em casa chorando, ele não soube se de fúria ou de tristeza, porém estava muito alterada, quem sabe mais alterada do que a havia visto alguma vez.

 

—        O que aconteceu? Perguntou Marino, que estava bebendo uma cerveja, sentado em sua poltrona favorita e vendo as notícias. Dóris se sentou no sofá e começou a soluçar. — Merda. Que aconteceu, nena?

 

Ela cobriu o rosto com as mãos e chorou como se fosse morrer alguém, assim Marino se sentou a seu lado e a rodeou com o braço. Manteve-a abraçada vários minutos e, como ela não contava nada, exigiu que explicasse o que acontecera.

 

—        Me tocou, respondeu ela chorando. — Eu sabia que aquilo não estava certo e não parava de perguntar por que o fazia, porém ele me disse que relaxasse, que era médico, mas uma parte de mim sabia o que estava fazendo, porém tinha medo. Eu deveria saber o que fazer, deveria ter dito não, porém tinha medo. Ele em seguida explicou que o dentista, o especialista em raízes, como demônios se chamava a si mesmo, havia descoberto que eu tinha sofrido uma infeção por ter quebrado uma raiz e ele tinha que examinar as glândulas. Essa foi a palavra que empregou, segundo Dóris. Glândulas.

 

—        Não desligue, está dizendo Scarpetta à tal senhora Simister. — Tenho aqui comigo um investigador.

 

Dá um olhar a Marino para fazê-lo entender que está preocupada pelo que conversam e ele tenta tirar Dóris da cabeça. Entretanto pensa nela com frequência e, quanto mais velho vai ficando, mais se lembra do que houve entre ambos e do que sentiu quando a tocou aquele dentista e quando ela o abandonou pelo vendedor de carros, aquele condenado vendedor de carros de merda. Todo o mundo o abandona. Todo o mundo o trai. Todo o mundo quer o que ele possui. Todo o mundo o considera demasiado idiota para aceitar suas maquinações e suas manipulações. Nas últimas semanas a situação ultrapassou o suportável.

 

E agora isto. Scarpetta mente sobre esse estudo que estão levando a cabo. O exclui, o degrada. Toma tranquilamente o que precisa e quando ele concorda, o trata como se não fosse alguém.

 

—        Quem dera que tivesse mais informação. A voz da senhora Simister entra no espaço onde se encontram, uma voz mais velha que a de Matusalém. — Espero que não tenha acontecido alguma desgraça, porém temo que assim tenha acontecido. É horrível que à polícia não se importe o mínimo.

 

Marino não tem nem ideia de que está falando a senhora Simister nem de quem é nem por que ligou para a Academia Nacional de Medicina Legal, e também não consegue exorcizar Dóris. Quem dera que tivesse feito algo a mais do que ameaçar aquele maldito dentista, o especialista em raízes ou que fosse. Deveria ter quebrado o rosto daquele sem vergonha ou, quem sabe, ter lhe quebrado uns quantos dedos.

 

—        Explique ao investigador Marino a quando se refere com isso de que a polícia não se importa, diz Scarpetta.

—        A última vez que vi algum sinal de vida foi segunda passada à noite. Quando caí na real de que todo o mundo havia desaparecido sem deixar rastro, liguei imediatamente para o nove-um-um e enviaram um agente de polícia até a casa, e que chamou uma detetive. Está claro que não se importam.

—        Você se refere à polícia de Hollywood, aclara Scarpetta, olhando a Marino.

—        Sim. A uma tal detetive Wagner.

 

Marino revira os olhos. Isto é incrível. Com a má sorte que está tendo ultimamente tinha que aparecer isto. Pergunta da porta:

 

—        Se refere à Reba Wagner?

—        Como? Responde uma voz cansada.

 

Marino se aproxima um pouco mais do telefone que descansa sobre a mesa e repete a pergunta.

 

—        A única coisa que sei é que as iniciais que figuram em sua identidade são R. T., assim suponho que possa se chamar Reba.

 

Marino volta a virar os olhos e dá uns golpes na cabeça para indicar que a detetive R. T. Wagner é tão inteligente quanto um ladrilho.

 

—        Deu um olhar pelo jardim e pela casa e disse que não havia nada que a polícia pudesse fazer.

—        Você conhece essas pessoas? Pergunta Marino.

—        Eu moro em frente a eles, do outro lado do canal. E vou à mesma igreja. Estou certa de que aconteceu alguma desgraça.

—        Está bem, responde Scarpetta. — O que quer que nós façamos senhora Simister?

—        Que pelo menos venham ver a casa. A igreja é a locatária, e desde que os inquilinos desapareceram está fechada com chave. O aluguel vence dentro de três dias e o caseiro diz que vai evacuá-la porque já tem outro inquilino. Algumas das senhoras da igreja estão pensando em passar por ali na primeira hora da manhã e encaixotar tudo. Assim, o que acha que aconteceu segundo todos os indícios?

—        Está bem, diz outra vez Scarpetta. — Vou dizer o que podemos fazer. Vamos chamar a detetive Wagner. Nós não podemos entrar na casa sem a permissão da polícia. Não temos jurisdição a não ser que solicitem nossa ajuda.

—        Entendo. Muito obrigado. Mas, por favor, façam algo.

—        Muito bem, senhora Simister, voltaremos a ligar para a senhora. Precisamos do seu número de telefone.

—        Hum, diz Marino quando Scarpetta desliga. — Provavelmente será um caso mental.

—        Que tal se você chamasse a detetive Wagner, já que parece que a conhece? Propõe Scarpetta.

—        Antes era uma policial de moto. Burra como ela só, porém dirigia muito bem sua Road King. Custo a acreditar que tenha chegado a detetive.

 

Apanha seu Treo com medo de ouvir a voz de Reba e desejando poder tirar Dóris da cabeça. Liga para a delegacia de Hollywood e pede que digam à detetive Wagner que se ponha em contato com ele o mais rápido possível. Terminada a ligação percorre com a vista o escritório de Scarpetta olhando tudo exceto a ela, sem deixar de pensar em Dóris, no dentista e, que diabos, no vendedor de carros. Pensa que com quanta satisfação teria dado uma surra no dentista, até deixá-lo inconsciente, em lugar de se embebedar e irromper em sua sala exigindo que saísse e, no meio de um vestíbulo cheio de pacientes, lhe perguntar por que havia sido necessário examinar as tetas de sua mulher e lhe pedir que, por favor, explicasse o que tinham a ver as tetas com as raízes dos dentes.

 

—        Marino?

 

É um mistério porque aquele incidente continua retornando com tanta insistência depois de todos esses anos. Não entende por que reapareceu um monte de coisas que começaram a irritá-lo de novo. As últimas semanas foram um inferno.

 

—        Marino?

 

Volta à realidade e olha para Scarpetta ao mesmo tempo em que nota que está vibrando seu celular.

 

—        Sim, responde.

—        Sou a detetive Wagner.

—        Investigador Pete Marino, diz ele, como se não a conhecesse.

—        O que precisa, investigador Pete Marino? Ela também fala como se não o conhecesse.

—        Soube que uma família desapareceu na zona de West Lake. Pelo visto, desapareceu na segunda pela noite.

—        Como soube disso?

—        Comenta-se por lá que vocês não estão sendo de muita ajuda.

—        Se achássemos que aconteceu algo inusual estaríamos investigando a fundo. De qual fonte vem a sua informação?

—        De uma senhora da igreja da tal família. Tem os nomes das pessoas que presumivelmente desapareceram?

—        Deixe-me pensar. Tem uns nomes um tanto estranhos, Eva Christian e Crystal, ou Christine, Christian. Algo assim. Os nomes das crianças não me recordo.

—        Poderia ser Christian Christian? Scarpetta e Marino se olham.

—        Algo que se parece muito. Não tenho diante de mim as notas sobre o caso. Se você quiser investigar, será benvindo. Meu departamento não vai dedicar demasiados recursos a um caso enquanto não tivermos alguma prova de...

—        Isto eu já entendi, corta Marino de forma grosseira. — Parece que amanhã a congregação vai começar a embalar os pertences dessa casa. Se quisermos dar uma olhada, esta é a ocasião.

—        Não estão nem há uma semana desaparecidos e a igreja já quer fazer a mudança? Eu tenho a sensação de que saíram e não pensam em voltar. O que você acha?

—        Eu acho que deveríamos nos acertar, responde Marino.

 

O homem que está atrás do balcão é maior e mais distinto do que Lucy esperava. Achava que o tipo pareceria um velho surfista, curtido e coberto de tatuagens. Esse é o tipo de indivíduo que trabalharia em uma loja chamada Apetrechos de Praia.

 

Deixa no chão a caixa da câmera e começa a passar os dedos pelos cabides de camisetas, com estampados enormes de tubarões, flores, palmeiras e outros motivos tropicais. Observa com atenção os vários chapéus de palha, os cestos com bugigangas e os expositores de óculos de sol e cremes solares, sem interesse em comprar nada, porém pensando que oxalá pudesse fazê-lo. Disfarça para passar o tempo até que apareçam outras clientes. Pergunta-se como se sentiria sendo como as demais, preocupada com souvenires e em passar o dia ao sol, como seria se sentir bem com a própria imagem, seminua em traje de banho.

 

—        Tens creme que contenha óxido de zinco? Pergunta uma das clientes a Larry, que está sentado atrás do balcão.

 

Larry, de cabelo branco e espesso, usa a barba cuidadosamente recortada. Tem sessenta e dois anos, nasceu no Alaska, tem um Jeep, jamais foi dono de uma casa, não foi à Universidade e em 1957 o detiveram por embriaguez e alteração da ordem pública. Larry está há uns dois anos à frente da Apetrechos de Praia.

 

—        Desse eu não gosto, responde.

—        Pois eu sim. Não me destrói a pele como os demais cremes. Acho que sou alérgica ao aloés.

—        Estes cremes solares não contém aloés.

—        Tem óculos de Maui Jim?

—        Muito caros, céu. Os únicos óculos de sol que temos são os que você está vendo.

 

A coisa prossegue assim um tempo, as duas realizam pequenas compras e por fim vão embora. Então Lucy se aproxima do balcão.

 

—        Em que posso servi-la? Pergunta Larry reparando-se em como está vestida. — De onde saiu você, de um filme de Missão impossível?

—        Vim de moto.

—        Ah, pois você é uma das poucas pessoas com bom senso. Olhe pela janela. Todo mundo está de camiseta e shorts, sem capacete. Alguns inclusive estão de chinelos.

—        Você deve ser Larry. Ele faz cara de surpresa e diz:

—        Já veio aqui outras vezes? Não me recordo de você, e olha que gravo muito bem os rostos.

—        Queria falar de Florrie e Helen Quincy, diz ela. — Entretanto gostaria que fechasse a porta com chave.

 

A Harley-Davidson Screaming Eagle Deuce, com suas labaredas desenhadas sobre fundo azul e cromo, está estacionada em uma esquina, ao fundo do estacionamento do professorado. Marino aperta o passo enquanto se aproxima.

 

—        Maldito filho da puta. E começa a andar mais rápido. Grita várias obscenidades, suficientemente forte para que Link, o encarregado do estacionamento, que está aparando um canteiro de flores, deixe o que está fazendo e se levante rapidamente.

—        O que foi?

—        Filho da puta! Repete Marino.

 

O pneu dianteiro de sua nova moto está esvaziado até a reluzente fita cromada. Marino se agacha para olhá-lo bem, alterado e furioso, buscando um caco ou um prego, algum objeto pontiagudo que pudesse ter-se enfiado na roda esta manhã no caminho de ida ao trabalho. Move a moto para diante e para trás e descobre o que aconteceu; um corte de aproximadamente meio centímetro, aparentemente causado por algo afiado, possivelmente uma navalha. Talvez por um bisturi de aço inoxidável. Olha em seguida para um e outro lado, procurando Joe Amos.

 

—        Sim, eu já vi, diz Link, que se aproxima limpando a sujeira das mãos no macacão azul.

—        Muito amável de sua parte que me diga, diz Marino furioso, procurando na maleta o equipamento de conserto e pensa indignado em Joe Amos.

—        Deve ter passado por cima de um prego, aventura Link agachando-se para inspecionar o pneu mais de perto.

—        Viu por aqui alguém olhando para a minha moto? Onde diabos está meu equipamento para conserto?

—        Estive aqui o dia todo e não vi ninguém rondando próximo de sua moto. É uma moto estupenda. Ela tem uns mil quatrocentos centímetros cúbicos de cilindrada? Eu tinha uma Springer até que um maluco parou de repente diante de mim e saí voando por cima. Comecei a trabalhar nos canteiros lá pelas dez da manhã. E nessa hora o pneu já estava vazio.

 

Marino faz contas. Ele tinha chegado entre as nove e quinze e nove e meia.

 

—        Com um furo assim e o pneu tão vazio não teria chegado a este maldito estacionamento, e tenho a certeza de que não estava furado quando parei para comprar os donuts, recapitula. — Só pode ter sido depois que parei aqui. Marino olha a seu redor pensando em Joe Amos. Vai matá-lo. Se mexeu na moto, é um homem morto.

—        Não quero nem pensar, está dizendo Link. — Tem que ser maluco para vir aqui em plena manhã e fazer algo assim. Se foi isso o que aconteceu.

—        Maldito seja, onde estará? Você tem algo para selar o buraco? Que diabos. Continua rebuscando. — Ainda assim é mais provável que não dê certo com um buraco tão grande, maldito seja!

—        Vai ter que trocar o pneu. No hangar tem alguns de sobra.

—        E que me diz de Joe Amos? Ele esteve aqui? Viu seu asqueroso cu a um quilômetro à volta?

—        Não.

—        E a algum dos alunos? Os alunos o odeiam. Todos sem exceção.

—        Não, responde Link. — Teria visto se alguém viesse ao estacionamento e tivesse mexido em sua moto ou em um dos carros.

—        Ninguém? Marino continua insistindo e, então, começa a criar a suspeita de que Link tenha algo a ver com o assunto.

 

Provavelmente Marino não cai bem a ninguém da Academia. Meio mundo tem raiva de sua preciosa Harley. É verdade que a pessoas ficam olhando quando entra nos postos de gasolina e estacionamentos.

 

—        Vai ter que empurrá-la até a garagem ali debaixo, junto ao hangar, diz Link.

 

Marino está pensando nas portas da entrada dianteira tanto como na traseira da Academia. Ninguém pode entrar sem um código. Foi alguém de dentro que fez isto. Volta a pensar em Joe Amos e lembra-se de um detalhe importante: Joe já estava na reunião de pessoal. Estava ali sentado falando bobagem, quando ele chegou.

 

A casa de cor alaranjada e telhado branco foi construída na mesma década em que nasceu Scarpetta, nos anos cinquenta. Imagina como serão as pessoas que vivem nela e percebe sua falta ao caminhar dando a volta ao jardim.

 

Não retira da cabeça a pessoa que disse que se chamava Porco, sua críptica referência a Johnny Swift e ao que Marino pensou que era Christian Christian. Acredita que o que disse Porco de fato foi Kristin Christian. Johnny está morto. Kristin desapareceu. Com frequência ocorre-lhe pensar que no sul da Flórida existem lugares de sobra para desaparecer com cadáveres: numerosos pântanos, canais e extensos lagos. Nas zonas subtropicais a carne se decompõe com rapidez e os insetos fazem a festa; os animais roem os ossos e os espalham por ali como pedras e paus. Na água a carne não dura muito e o sal do mar branqueia o esqueleto e o dissolve totalmente.

 

O canal que passa por trás da casa tem a cor do sangue putrefato. Em suas águas pardas e estancadas flutuam folhas mortas como escombros de uma explosão, cocos verdes e marrons que bamboleiam semelhantes a cabeças cortadas. O sol surge e se esconde atrás de grossas nuvens de tempestade, o ar cálido está pesado e úmido, o vento é forte.

 

A detetive Wagner prefere que a chamem Reba. É atraente e sensual, com um estilo pretencioso, queimada pelo sol, com o cabelo desgrenhado e tingido de ruivo e os olhos muito azuis. Não tem cérebro de mosquito. Não é tão idiota como uma vaca e está muito longe de dar a impressão de ser uma cachorra sobre rodas, para citar Marino, que a chamou também de persegue galinhas, embora Scarpetta não tenha muito claro o que isso significa. O que está claro é que a Reba falta experiência, porém se esforça. Scarpetta não sabe se conta ou não sobre a ligação anônima acerca de Kristin Christian.

 

—        Estão morando aqui à uma temporada, porém não estão registradas, diz Reba acerca das duas irmãs que vivem nesta casa com duas crianças, na situação de refugiados. — São de origem sul-africana. As duas crianças também, certamente por isso as trouxeram para viver com elas. Se quiser minha opinião, os quatro voltaram para o lugar de onde vieram.

—        E por que razões iam desaparecer, talvez fugir, para a África? Pergunta Scarpetta olhando fixamente o estreito e escuro canal; sente a humidade oprimindo-a como uma mão quente e pegajosa.

—        Soube que queriam adotar as duas crianças. E não era muito provável que o conseguissem.

—        Por que não?

—        Parece que as crianças têm parentes na África, que querem recuperá-las. Só que elas não iam conseguir adotar até mudar para uma casa maior. E as irmãs são fanáticas religiosas, o que pode ter atrapalhado muito.

 

Scarpetta olha para as casas do outro lado do canal, olha para os jardins de um verde intenso e as pequenas piscinas azuis claras. Não está certa de qual casa é a da senhora Simister e se pergunta se Marino já terá falado com ela.

 

—        Que idade as crianças têm? Pergunta.

—        Sete e doze. Scarpetta dá um olhar para o seu caderno de notas e retrocede várias páginas.

—        Eva e Kristin Christian. Não está claro por que cuidam deles. Tem muito cuidado em falar dos desaparecidos no presente.

—        Não, não é Eva. É sem a, corrige Reba.

—        Ev ou Eve?

—        É Ev, como Evelyn, só que ela se chama só Ev. Sem mais. Só Ev.

 

Scarpetta escreve «Ev» em seu caderno negro pensando, que nomezinho! Em seguida contempla o canal, cujas águas tinham adquirido uma cor de chá forte ao serem tocadas pelo sol. Ev e Kristin Christian. Que nomes para umas mulheres religiosas que se esfumaçaram como fantasmas. De repente o sol se esconde outra vez atrás das nuvens e a água se torna escura.

 

—        Ev e Kristin Christian são seus verdadeiros nomes? Tem certeza de que não são sobrenomes ou apelidos? Tem certeza de que não mudaram o nome em algum momento, quem sabe para dar uma conotação religiosa? Pergunta Scarpetta contemplando as casas da outra orla do canal, que parecem desenhadas com giz.

 

Olha para uma figura de calça escura e camisa branca que entra no jardim dos fundos de alguém, possivelmente o da senhora Simister.

 

—        Que saibamos, são seus nomes autênticos, responde Reba olhando para o mesmo lugar que Scarpetta. — Estes malditos fiscais do cancro estão por toda a parte. Política. Empenham-se em impedir que a pessoas cultivem seus próprios frutos para que tenham de comprá-los.

—        Na realidade, não é bem assim. O cancro dos cítricos é uma praga terrível. Se não for controlado, ninguém voltará a cultivar cítricos no jardim.

—        É uma conspiração. Escutei o que dizem os comentaristas no rádio. Alguma vez escutou o programa da doutora Self? Deveria ouvir o que ela fala.

 

Scarpetta não escuta a doutora Self, se puder evitar. Observa que a figura do outro lado do canal se agacha no jardim e mexe no interior do que parece ser uma bolsa escura. Em seguida retira um objeto.

 

—        Ev Christian é reverenda, ou sacerdote, ou como se queira chamar, de uma Igreja minoritária um tanto excêntrica que se chama... Vou ter que procurar, é demasiado longo para recordar de memória, diz Reba passando as páginas de seu caderno. — As Verdadeiras Filhas do Selo de Deus.

—        Jamais escutei falar dela, comenta Scarpetta com ironia ao mesmo tempo em que toma nota. — E Kristin? O que faz?

 

O fiscal de cítricos se põe de pé e monta um instrumento. O levanta até uma árvore e joga para baixo um fruto que vai aterrissar sobre o jardim.

 

—        Kristin também trabalha no templo, de ajudante. Encarrega-se das leituras e das rezas durante o serviço religioso. Os pais das crianças morreram em um acidente de moto há aproximadamente um ano. Uma dessas Vespas.

—        Onde?

—        Na África.

—        E de onde vem essa informação? Pergunta Scarpetta.

—        De uma pessoa da congregação.

—        Tem um relatório desse acidente?

—        Como disse, teve lugar na África, responde a detetive Wagner. — Estamos tentando verificar. Scarpetta continua deliberando se deve falar da inquietante ligação do Porco.

—        Como se chamam as crianças?

—        David e Tony Fortuna. Tem graça, quando se pensa. Fortuna.

—        Não está conseguindo colaboração das autoridades da África? De que parte da África?

—        De Cidade do Cabo, na África do Sul.

—        E as irmãs são dali também?

—        Isto é o que me disseram. Ao falecer os pais, as irmãs tomaram as crianças a seu encargo. Seu templo se encontra há uns vinte minutos daqui, na Rua David, justo ao lado de uma dessas lojas de animais de companhia exóticos, lógico.

—        Consultou o Departamento de Medicina Legal da Cidade do Cabo?

—        Ainda não.

—        Posso ajudá-la nisso.

—        Seria estupendo. Tudo encaixa, não acha? Aranhas, escorpiões, rãs venenosas, essas crias de rata branca que se compram para dar de comer as serpentes, diz Reba. — Tem toda a pinta de existir por aqui uma seita de fanáticos.

—        Nunca permito que alguém fotografe um local meu a menos que se trate de algo que incumba à polícia. Em certa ocasião me roubaram. Isto aconteceu há algum tempo, explica Larry detrás do balcão.

 

Do outro lado da janela se vê o trânsito constante e, mais além, o mar. Começou a cair uma chuva fina e se avizinha uma tempestade que se dirige até o sul. Lucy pensa no que disse Marino há uns minutos acerca da casa e das pessoas desaparecidas, e sobre o furo do pneu, que foi do que mais se queixou. Pensa no que deve estar fazendo sua tia neste mesmo instante e na tempestade que vem até ela.

 

—        Claro que escutei muitos comentários sobre isso. Larry volta ao tema de Florrie e Helen Quincy após uma longa digressão sobre o muito que mudou a Flórida, o muito que está a pensar seriamente em se mudar de novo para o Alaska. — É como tudo. Com o tempo, os detalhes terminam azedando tudo. Mas me parece que não quero que você grave meu local em vídeo, volta a dizer.

—        É um caso policial, insiste Lucy. — Me pediram que investigasse de maneira particular.

—        E como eu vou saber que você não é uma repórter ou algo assim?          

—        Trabalhei para o FBI e para a ATE. Escutou falar da Academia Nacional Forense?

—        É esse gigantesco campo de treinamento que fica no parque Everglades?

—        Não fica exatamente no Everglades. Temos laboratórios privados, técnicos, e um acordo com a maioria dos departamentos de polícia da Flórida. Os ajudamos quando necessitam.

—        Isto soa a caro. Deixe-me adivinhar, a contribuintes como eu.

—        De forma indireta. Um serviço em troca de outro. Eles nos ajudam e nós os ajudamos. Em todo o tipo de coisas.

 

Lucy coloca a mão em um dos bolsos de trás da calça e retira uma carteira negra que entrega a Larry. Ele estuda suas credenciais: uma identidade falsa, uma placa de investigadora que não vale o papel onde está porque é também falsa.

 

—        Onde está a foto? Pergunta.

—        Não é uma permissão para dirigir.

 

Larry lê o nome fictício em voz alta e também que ela pertence a Operações Especiais.

 

—        Exato.

—        Se você diz... E devolve a carteira.

—        Conte o que soube, Lucy pede, colocando a câmera de vídeo em cima do balcão.

 

Dá um olhar para a porta da rua, fechada com chave. Uma dupla de jovens com exíguos trajes de banho tentam abri-la. Olham pelo vidro e Larry nega com a cabeça. «Não, não está aberto».

 

—        Está me fazendo perder negócios, fala para Lucy, porém não parece se importar muito. — Quando apareceu a oportunidade de ocupar este local, ouvi falar muito do desaparecimento das Quincy. O que me contaram é que ela sempre chegava às sete e meia da manhã para ligar os trenzinhos elétricos, acender as luzes das árvores, colocar música natalina e todas essas coisas. Parece que naquele dia não chegou a abrir a loja. O cartaz de fechado continuou na porta quando seu filho por fim começou a se preocupar e veio procurá-las, a ela e à filha.

 

Lucy procura em um bolso da calça e apanha uma caneta negra com uma gravadora oculta. Apanha também um pequeno caderno.

 

—        Importa-se que eu escreva algumas notas?

—        Não tome tudo o que eu disser como se fosse o Evangelho. Quando aconteceu aquilo, eu não estava aqui. Não estou fazendo mais do que contar a você o que contaram a mim.

 

—        Entendi que a senhora Quincy ligou para um restaurante, diz Lucy. — No jornal dizia algo a respeito.

—        O Floridian, esse velho restaurante que tem do outro lado da ponte levadiça. É um lugar muito ruim, se não o conhece.

—        Encomendou também algo para a filha, Helen?

—        Disso não me lembro.

—        A senhora Quincy ia apanhar ela mesma?

—        A não ser que estivesse seu filho por aqui. Ele é uma das razões por eu saber umas quantas coisas sobre o que aconteceu.

—        Gostaria de falar com ele.

—        Há um ano que eu não o vejo. No princípio, durante uma temporada, vinha aqui, olhava, conversávamos. Suponho que se pode dizer que esteve obcecado mais ou menos um ano pelo desaparecimento de sua família, e depois, e é minha opinião, já não pode suportar mais pensar nisso. Vive em uma casa muito bonita em Hollywood. Lucy passa um olhar pela loja. — Aqui não temos artigos de Natal, diz Larry, se for isso o que está se perguntando o seu visitante.

 

Lucy não pergunta nada sobre o filho da senhora Quincy. Já sabe pelo HIT que Fred Anderson Quincy tem vinte e seis anos. Conhece seu endere3ço e sabe que trabalha como autônomo em infografia e desenho de páginas web. Larry continua dizendo que, no dia em que desapareceram a senhora Quincy e Helen, Fred tentou muitas vezes falar com elas e finalmente foi até a loja e a encontrou fechada, porém que o Audi de sua mãe continuava estacionado atrás.

 

—        Temos certeza de que naquela manhã chegaram a abrir a loja? Pergunta Lucy. — Existe alguma possibilidade de que tivesse acontecido alguma coisa ao saltarem do carro?

—        Suponho que é possível qualquer coisa.

—        O caderninho de endereços da senhora Quincy e as chaves de seu carro estavam na loja? Tinha feito café, utilizou o telefone, fez algo que pudesse indicar que Helen e ela haviam estado ali? Por exemplo, as árvores estavam iluminadas e os trenzinhos funcionando? Ligada a música de Natal? As luzes da loja acesas?

—        Acho que não chegaram a encontrar o caderninho nem as chaves do carro. Escutei contar diferentes histórias sobre as coisas da loja. Uns dizem que estavam ligadas, outros dizem que não estavam.

 

A atenção de Lucy se concentra na parte traseira. Pensa no que contou Basil Jenrette a Benton. Não compreende como é possível que Basil violasse e assassinasse uma pessoa ali. Custa crer que pudesse limpar tudo e retirar o cadáver, colocá-lo em um carro e sair sem que ninguém o visse, em plena luz do dia e nessa área, muito movimentada inclusive em julho, fora de temporada. Além disso, a hipótese não explica o que aconteceu à filha, a não ser que Basil a sequestrasse e quem sabe a matasse em outro lugar, como fez com suas outras vítimas. Uma ideia espantosa. A garota tinha dezessete anos.

 

—        Que aconteceu com este local após o desaparecimento das duas? Pergunta Lucy. — Voltaram a abri-lo?

—        Não. De qualquer maneira, não havia muito mercado para artigos de Natal. Se quiser que lhe dê a minha opinião, era mais uma excentricidade dela do que outra coisa. O negócio não voltou a abrir e o filho levou toda a mercadoria um mês ou dois depois. Em setembro chegaram os de Apetrechos de Praia e contrataram a mim.

—        Gostaria de dar uma olhada na parte de trás, diz Lucy. — Depois o deixarei.

 

 

Porco apanha duas mais laranjas, em seguida coloca-as na cesta em forma de garra que tem no extremo do longo instrumento. Depois olha para o outro lado do canal e observa como Scarpetta e a detetive Wagner caminham ao redor da piscina.

 

A detetive gesticula muito. Scarpetta toma notas e olha tudo. Porco tem um prazer enorme em contemplar o espetáculo. Idiotas. Nenhuma das duas é tão inteligente como acredita ser. Ele os supera a todos. Sorri imaginando Marino chegando um pouco tarde, atrasado por um inesperado furo, situação que poderia remediar de maneira fácil e rápida vindo até aqui em um veículo da Academia. Entretanto ele não. Ele não pode suportar, tem que consertar tudo imediatamente. Porco se agacha no jardim, desmonta o aparelho desenroscando os segmentos de alumínio que o compõem e volta a guardá-lo na grande bolsa negra de nylon. Pesa muito e coloca-a no ombro como um lenhador carregando um machado, igual ao lenhador da Loja de Natal.

 

Cruza o jardim sem ter pressa, a caminho da casinha branca de estuque que tem ao lado. A vê andando pelo pórtico luminoso, enfocando com binóculos a casa de cor alaranjada que tem do outro lado do canal. Estão há vários dias vigiando a casa. Que divertido. Porco já entrou e saiu dela três vezes e ninguém se deu conta. Tem entrado e saído para lembrar-se do que aconteceu, para reviver, para passar ali dentro todo o tempo que quiser. Ninguém pode vê-lo; é capaz de desaparecer.

 

Entra no jardim da senhora Simister e começa a examinar uma de suas árvores. Ao cabo de um momento abre a porta corrediça, porém não sai do jardim. Não a viu no jardim nem uma só vez. O jardineiro vai e vem, porém ela jamais sai da casa nem fala com ele. Fica em casa em companhia sempre do mesmo indivíduo. Pode ser que seja um familiar ou um filho, quem sabe. A única coisa que ele faz é entrar com as bolsas na casa, nunca fica por muito tempo. Ninguém se preocupa com ela. Deveria estar agradecida a Porco. Muito rápido receberá atenção de sobra. Muitas pessoas ouvirão falar dela quando sair no programa da doutora Self.

 

—        Não toque em minhas árvores, exclama em voz alta a senhora Simister com um marcado acento. — Esta semana vocês já vieram três vezes, isto é absurdo.

—        Perdão, senhora. Já quase terminei, diz Porco com amabilidade ao mesmo tempo em que arranca uma folha e a examina.

—        Saia de minha propriedade ou chamo à polícia. Sua voz adquire um tom mais agudo.

 

Está assustada e irritada porque não quer perder suas apreciadas árvores, e as perderá, porém então já não terá importância. As árvores estão infectadas. São velhas, pelo menos vinte anos, e não existe solução para isso. Foi fácil. Por onde quer que passem os caminhões que recolhem as árvores infectadas de cancro, sempre caem folhas na estrada. Ele as apanha, põe em água e observa como sobem as bactérias em forma de pequenas borbulhas. Em seguida enche uma seringa, a que Deus lhe deu.

 

Porco abre o zíper de sua enorme bolsa e apanha uma lata de pintura vermelha em aerossol. Em seguida pinta uma faixa vermelha em redor do tronco da árvore. Uma marca de sangue no dintel da porta, como o anjo da morte, só que ninguém se salvará. Porco ouve uma oração em algum lugar escuro e recôndito de sua cabeça, como uma caixa de som oculta e fora de alcance.

 

Um falso testemunho será castigado.

Não penso dizer nada.

Os mentirosos são castigados.

Eu não disse nada. Nada.

O alcance de minha mão não tem fim.

Não disse nada. Nada!

 

—        Que está fazendo? Não toque em minhas árvores!

—        Com muito gosto lhe explicarei o que está acontecendo senhora, responde Porco educadamente, solidário.

 

A senhora Simister sacode a cabeça em um gesto negativo. E em seguida, irritada, fecha a porta corrediça de vidro e passa a chave.

 

Ultimamente tem feito um tempo insolitamente quente e chuvoso, e Scarpetta sente a grama esponjosa debaixo dos pés. Quando o sol aparece de novo por trás das nuvens escuras, irradia uma luz intensa e quente sobre sua cabeça e ombros enquanto ela perambula pelo jardim traseiro da casa.

 

Observa os hibiscos rosados e vermelhos, as palmeiras, umas árvores com uma faixa vermelha pintada ao redor do tronco e fica olhando o fiscal que, do outro lado do canal, nesse momento está fechando o zíper de sua bolsa. Pergunta-se se a anciã que acaba de aumentar a voz não seria a senhora Simister. Marino ainda não chegou na casa, supõe. Sempre se atrasa, nunca tem pressa para fazer o que lhe pede Scarpetta, se é que faz. Aproxima-se de um muro de concreto que desce verticalmente até o canal; é provável que não tenha jacarés, porém sem cerca de proteção uma criança ou um cachorro poderia cair facilmente e se afogar.

 

Ev e Kristin assumiram a custódia de duas crianças e não se se preocuparam em colocar uma cerca ao longo do jardim traseiro da casa. Scarpetta imagina o lugar de noite, deve ser fácil esquecer-se de onde termina o jardim e onde começa a água. O canal vem do oeste e afunila ao passar atrás da casa e depois alarga de novo. Ao longe se vêm veleiros amarrados atrás de casas muito melhores do que a casa em que moravam Ev, Kristin, David e Tony.

 

Segundo Reba, as duas irmãs e as crianças foram vistas pela última vez na segunda à noite, dez de fevereiro. Na manhã seguinte, Marino recebeu a ligação telefônica daquele homem que disse se chamar Porco. Então a família já havia desaparecido.

 

—        Foi publicado algo nos jornais sobre seu desaparecimento? Pergunta Scarpetta a Reba. Quem sabe o anônimo comunicante poderia ter descoberto o nome de Kristin pelo jornal.

—        Não, que eu saiba.

—        Você escreveu o relatório policial.

—        Não era um caso interessante para a imprensa. Temo que aqui desapareçam pessoas todos os dias, doutora Scarpetta. Bem vinda ao sul da Flórida.

—        Conte-me o que mais descobriu sobre a última vez que os viram.

 

Reba responde que Ev pregou em seu templo e que Kristin fez várias leituras da Bíblia. Ao ver que nenhuma das duas aparecia na igreja no dia seguinte para assistir a uma oração comunitária, um fiel ligou, porém não obteve resposta, assim o dito fiel, uma mulher, veio até a casa de carro. Tinha uma chave e entrou. Nada parecia fora do normal, fora que Ev, Kristin e os garotos haviam desaparecido e haviam deixado uma frigideira vazia sobre um fogão da cozinha aceso. O detalhe da cozinha é importante e Scarpetta prestará atenção quando entrar na casa, porém ainda não está preparada. Aproxima-se do lugar onde foi cometido um crime, vindo da periferia até o centro, deixando o pior para o final.

 

Lucy pergunta a Larry se o almoxarifado é diferente agora de como era quando ele se instalou, há aproximadamente dois anos e meio.

 

—        Não mudou nada, responde Larry.

 

Percorre com o olhar as grandes embalagens de cartolina e as estantes repletas de camisetas, cremes solares, toalhas de praia, óculos de sol, produtos de limpeza e demais à fraca luz de uma única lâmpada que pende do teto.

 

—        Não vale a pena se preocupar com o aspecto que tem tudo isto, comenta Larry. — O que é lhe interessa, exatamente?

 

Lucy vai até o banheiro, apertado e sem janelas, com uma pia e um vaso. As paredes são de ladrilho com uma ligeira capa de pintura verde pálida e o chão é de cerâmica marrom. Do teto pende outra lâmpada de luz fraca.

 

—        Não pintou nem trocou o piso? Pergunta Lucy.

—        Quando eu cheguei isto estava exatamente como agora. Não está pensando que algo aconteceu aqui, não é?

—        Gostaria de voltar com outra pessoa, diz Lucy.

 

Do outro lado do canal, a senhora Simister está vigilante.

 

Anda em seu corredor envidraçado e empurra a porta corrediça com o pé, para frente e para trás, tocando apenas o chão com os sapatos e fazendo um suave barulho de deslizamento. Está procurando à mulher ruiva de traje escuro que andava pelo jardim da casa alaranjada. Também procura o fiscal intruso que se atreveu a mexer outra vez em suas árvores, a pintá-las com tinta vermelha. Foi embora. Também a ruiva se foi.

 

No princípio, a senhora Simister pensou que a mulher ruiva era outra fanática religiosa, porque ultimamente tem havido muitas como ela rondando a casa. Entretanto depois de observá-la com os binóculos já não está tão certa. A ruiva tomava notas e estava com uma bolsa preta ao ombro. Seria uma bancária ou uma advogada, estava a ponto de decidir quando apareceu a outra mulher, esta bastante bronzeada, de cabelo ruivíssimo, calças caqui e uma arma em um coldre. Pode ser a mesma que esteve ali outro dia. Era de pele morena e muito ruiva. Entretanto a senhora Simister não está certa.

 

As duas mulheres estavam conversando e em seguida desapareceram da vista por um canto da casa, em direção à frente. Pode ser que voltem. A senhora Simister está atenta para ver se reaparece o fiscal, o mesmo que foi tão agradável da primeira vez, perguntando por suas árvores, quando as havia plantado e o que significavam para ela. E agora vem outra vez e as pinta! Esse homem conseguiu que pense na sua arma pela primeira vez em muitos anos. Quando seu filho a presenteou, ela disse que a única coisa para que serviria, seria para que ele a utilizasse para matá-la. Guarda-a debaixo da cama, fora das vistas.

 

No fiscal não teria disparado. Ainda que tivesse gostado de assustá-lo um pouco. Todos esses fiscais a quem o governo paga para que arranquem árvores que as pessoas tem tido a vida toda em sua casa. Ouve quando falam disso pelo rádio. É provável que suas árvores sejam as próximas. Adora suas árvores. O jardineiro cuida delas, apanha as frutas e as deixa no corredor. Jake plantou o jardim inteiro de árvores quando comprou a casa, logo depois que se casaram. A senhora Simister está absorta em seu passado quando de repente soa o telefone da mesa que existe junto à porta corrediça.

 

—        Alô, responde.

—        É a senhora Simister?

—        Quem é?

—        O investigador Pete Marino. Já falamos anteriormente.

—        Ah, sim? E quem é você?

—        Você ligou para a Academia Nacional de Medicina Legal.

—        Posso garantir que não. Você vende algo?

—        Não, senhora. Queria passar um momento para falar com a senhora, se for possível.

—        Não é possível, replica ela, e desliga.

 

Agarra-se ao frio braço metálico da cadeira com tanta força que suas juntas empalidecem debaixo da pele flácida e salpicada de manchas das velhas e inúteis mãos. Não param de ligar para ela pessoas que nem sequer conhece. Recebe inclusive ligações automáticas; não entende como existem pessoas capazes de ficar sentadas escutando uma gravação de algum agente que pede dinheiro.

 

De novo toca o telefone, porém não faz caso e empunha os binóculos para observar a casa alaranjada em que vivem as duas mulheres com esses dois pequenos encrenqueiros. Foca o canal e agora outra vez a casa. Imediatamente a piscina aparece com um intenso verde azulado, porém a ruiva de traje escuro e a bronzeada que está com a arma não são vistas em nenhuma parte. Que estarão procurando? Onde estarão as duas mulheres que vivem ali? E os encrenqueiros? Hoje em dia todas as crianças são encrenqueiras.

 

Soa a campainha da porta e a senhora Simister deixa de se mexer, com o coração aos pulos. Quanto mais velha fica, se sobressalta mais facilmente com os movimentos e os sons repentinos, teme a morte e o que esta implica, se é que implica em algo. Passam-se vários minutos; a campainha volta a soar e ela permanece imóvel, esperando. Toca uma vez mais e alguém golpeia vigorosamente a porta. Finalmente se levanta.

 

—        Um momento, já vou, murmura nervosa. Espero que não seja um vendedor. Entra na sala arrastando os pés descalços. Já não pode levantá-los como antes, apenas pode caminhar. — Um momento, estou indo, diz impaciente quando volta a soar a campainha.

 

Deve ser a UPS. Às vezes seu filho compra coisas pela Internet. Dá uma olhada pela viseira da porta. A pessoa que aguarda não veste uniforme azul nem marrom, nem traz correio nem embrulhos. É ele outra vez.

 

—        Que aconteceu agora? Pergunta irritada com o olho pegado à viseira.

—        Senhora Simister? Trago uns impressos para que leia.

 

No jardim dianteiro, Scarpetta está observando uns frondosos hibiscos que separam a casa da alameda que desemboca no canal.

 

Não existem ramos quebrados, nem grandes nem pequenos, nada que indique que alguém tenha entrado na propriedade abrindo caminho por entre eles. Mete a mão na bolsa de nylon negro que sempre leva ao lugar do crime e apanha um par de luvas de exploração de algodão branco, sem deixar de olhar o automóvel estacionado no remendado concreto do caminho de entrada, um mono-volume velho e cinzento parado de qualquer maneira, com um pneu parcialmente sobre a calçada. Calça os luvas pouco a pouco se perguntando por que Ev ou Kristin terão estacionado o carro dessa forma, supondo que estivesse ao volante uma das duas.

 

Observa pelas janelas do veículo os assentos de vinil cinza e o GPSdelicadamente colado no interior do para-brisa. Toma mais notas. Começa a ver uma linha de comportamento. O jardim traseiro e a piscina estão escrupulosamente cuidados; o pátio e o mobiliário do exterior, também; dentro do carro não viu lixo nem objetos velhos, fora um guarda-chuva preto no banco de trás. Em troca o carro está estacionado de maneira descuidada, sem esmero, como se o motorista tivesse muita pressa. Agacha-se para olhar mais próximo, a terra e os restos de vegetação incrustados no desenho do pneu. Observa a grossa capa de pó que deu a parte de baixo do carro um tom acinzentado de ossos velhos.

 

—        Pelo que está parecendo, saiu da estrada em algum lugar de terra, comenta Scarpetta. Levanta-se e continua estudando os sujos pneus, indo de um a outro.

 

Reba a segue em seu exame do carro, olhando, com expressão de curiosidade no rosto bronzeado e cheio de rugas.

 

—        A terra incrustada no desenho dos pneus me diz que o chão estava úmido ou molhado quando o carro saiu da estrada, diz Scarpetta. — O estacionamento da igreja é asfaltado?

—        Bem, pode ter saído daqui, aponta Reba olhando a grama debaixo de um pneu traseiro.

—        Isto não basta para explicar. Os quatro pneus têm terra incrustada.

—        O centro comercial onde se encontra a igreja tem um grande estacionamento, mas nessa área não existe nada sem asfaltar.

—        O carro estava aqui quando veio a pessoa da igreja procurar Kristin e Ev? Reba dá a volta, interessada pela sujeira dos pneus.

—        Parece, e posso garantir que estava na tarde que eu vim.

—        Não seria má ideia examinar o GPS para descobrir por onde passou o carro e quando. Abriu as portas?

—        Sim. Não estava trancado. Não vi nada que me chamasse atenção.

—        De modo que o carro não foi examinado detalhadamente em nenhum momento.

—        Não posso pedir aos técnicos que examinem algo quando não existem indícios de que se cometeu um crime.

—        Entendo o problema.

 

O rosto escuro e bronzeado de Reba observa a sua colega outra vez através das janelas cobertas por uma fina capa de pó. Scarpetta retrocede ligeiramente e caminha ao redor do carro estudando-o centímetro a centímetro.

 

—        Quem é o proprietário? Pergunta.

—        A paróquia.

—        De quem é a casa?

—        Da paróquia também.

—        Me disseram que a paróquia só a aluga.

—        Não, é de sua propriedade, pode estar certa.

—        Conhece uma tal senhora Simister? Pergunta Scarpetta. Começa a ter uma sensação estranha que nasce no estômago e sobe pela garganta, a mesma que teve quando Reba mencionou a Marino o nome de Christian Christian.

—        Quem? Reba franze o cenho e, nesse momento, se ouve um estampido atenuado do outro lado do canal.

 

As duas param de falar. Aproximam-se um pouco mais do canal e observam as casas do outro lado. Não se vê ninguém.

 

—        Terá sido o tubo de escapamento de um carro, chega Reba à conclusão. — Por aqui as pessoas dirigem muito mal. A maioria não deveria sequer ter carro. São todos mais velhos que Matusalém e mais cegos que um morcego.

 

Scarpetta repete o nome Simister.

 

—        Nunca o escutei, responde Reba.

—        Disse que falou várias vezes com você. Acho que disse três, para ser exata.

—        Não me soa nada e nunca falou comigo. Suponho que é a pessoa que falou mal de mim dizendo que não me preocupo com esse caso.

—        Desculpe, diz nesse momento Scarpetta. Chama Marino pelo celular. Ninguém atende. Deixa recado na caixa postal para que ele retorne o mais breve possível.

—        Quando descobrir quem é essa tal senhora Simister, diz Reba, — Gostaria que me avisasse. Em tudo isto existe alguma coisa estranha. Quem sabe deveríamos ao menos limpar o pó do interior do carro para ver se existem impressões. Já que não para outra coisa, pelo menos para excluir algumas hipóteses.

—        O mais provável é que não consiga as impressões das crianças no interior do carro, diz Scarpetta. — Já se passaram quatro dias. E provavelmente tampouco as encontrará dentro de casa. As do menor, o de sete anos, com certeza não.

—        Não entendo por que diz isso.

—        As impressões dos pré-adolescentes duram pouco. Horas, um par de dias se muito. Não estamos totalmente certos do motivo, porém é provável que tenha algo a ver com o tipo de gordura que segregam as pessoas quando alcançam a puberdade. David tem doze anos? Talvez encontre suas impressões. Talvez, insisto.

—        Isso é novo para mim.

—        Sugiro que leve este carro ao laboratório, examine em busca de provas e verifique o interior o mais rápido possível para ver se ficaram impressões. Podemos fazer na Academia, se quiser; dispomos de instalações para examinar veículos e poderíamos nos ocupar disso.

—        Quem sabe não seja má ideia, aceita Reba.

—        Devemos encontrar impressões de Ev e de Kristin dentro da casa. E também DNA, incluindo as duas crianças. Nas escovas de dente, nas escovas de cabelo, nos sapatos, na roupa.

 

E em seguida conta a Reba do comunicante anônimo que falou o nome de Kristin Christian.

 

A senhora Simister vive só em um pequeno bangalô de estuque branco. O que só pode se encontrar no sul da Flórida. A garagem está vazia, o que não quer dizer que não esteja em casa porque já não tem carro nem permissão de dirigir em vigor. Marino também vê que as janelas situadas à direita da porta principal estão com as cortinas fechadas e em que não tem nenhum jornal no jardim. Entregam-lhe diariamente o The Miami Herald, o que mostra que enxerga o suficiente para ler, se estiver com os óculos.

 

Seu telefone está ocupado há meia hora. Marino desliga o motor da moto e salta enquanto passa pela rua um Chevy Blazer branco com as laterais pintadas. É uma rua tranquila; provavelmente muitas das pessoas que vivem neste bairro são anciãs, estão há muito tempo aqui e não podem pagar os impostos sobre a casa. Marino se indigna ao pensar que uma pessoa passa vinte ou trinta anos morando no mesmo lugar e quando por fim termina de pagar a casa, descobre que não pode assumir o pagamento dos impostos por culpa de pessoas ricas que querem viver junto ao canal. A velha casa da senhora Simister está valorizada em quase três quartos de milhão de dólares e terá que vendê-la, provavelmente dentro de pouco tempo. Só tem três mil dólares guardados.

 

Marino se informou muito bem sobre Dagmara Schudrich Simister. Depois de falar no escritório de Scarpetta com uma pessoa que, segundo suspeita agora, era alguém que afirmava ser ela, fez uma busca no HIT. A senhora Simister responde pelo apelido de Daggie e tem oitenta e sete anos. É judia e membro de uma sinagoga local à que já não vai há vários anos. Jamais foi da mesma paróquia que as pessoas desaparecidas do outro lado, de modo que, o que disse por telefone não era verdade, supondo que a do telefone fosse Daggie Simister, e Marino não acredita que tenha sido ela.

 

Nasceu em Lublin, Polônia, sobreviveu ao Holocausto e não deixou seu país natal até aos trinta anos, o que explica a marcada pronúncia que notou Marino quando tentou ligar à uns minutos. A mulher com que falou agora não tinha pronúncia, simplesmente parecia idosa. O filho da senhora Simister vive em Fort Lauderdale e, ao longo dos dez últimos anos foi acusado em duas ocasiões por condução temerária e em três por violação. O irônico é que é promotor imobiliário, ou seja, é um dos responsáveis pelo aumento dos impostos de sua mãe.

 

Quatro médicos tratam da senhora Simister por suas artrites, problemas de coração, de pés e da visão falha. Não viaja, pelo menos em linhas aéreas comerciais. Segundo parece, passa a vida em casa e é muito possível que esteja atenta ao que ocorre a seu redor. Em lugares como este, é frequente que pessoas que vivem reclusas se dediquem a observar, e Marino espera que a senhora Simister seja uma delas. Abriga a esperança de que tenha observado o que aconteceu no outro lado do canal, na casa alaranjada. Também abriga a esperança de que tenha uma ideia de quem ligou para o escritório de Scarpetta afirmando ser ela, supondo que foi isso o que aconteceu.

 

Toca a campainha, com a carteira preparada para mostrar a identidade, que não é exatamente legal, já que está afastado, nunca foi policial na Flórida e deveria ter entregado a pistola e suas credenciais quando deixou o último departamento de polícia para o qual trabalhou, em Richmond, Virgínia, onde sempre se sentiu forasteiro, rechaçado e subestimado. Toca a campainha outra vez e de novo tenta falar com a senhora Simister por telefone.

 

—        Polícia! Tem alguém em casa? Exclama em voz alta ao mesmo tempo em que golpeia a porta.

 

Scarpetta tem calor com a roupa escura, porém não pensa em fazer nada para evitá-lo. Se retirar o casaco terá que deixá-lo em alguma parte e não se sente cômoda no lugar de um crime, ainda mais quando a polícia não ache que seja. Agora que entrou na casa, está a ponto de chegar à conclusão de que uma das irmãs sofre um transtorno obsessivo-compulsivo. As janelas, os pisos e os móveis estão impecáveis e primorosamente limpos. Há um tapete escrupulosamente centrado com os fios tão arrumados que parece que os tenham desenredado. Descobre um termostato na parede e anota em seu caderno que o ar acondicionado está ligado e que a temperatura da sala é de vinte e dois graus.

 

—        Mexeram no termostato? Pergunta. — Estava assim?

—        Tudo ficou tal como estava, responde Reba da cozinha, onde se encontra em companhia de Lex, investigadora forense da Academia. — Exceto o queimador do fogão, que foi apagado. A senhora que veio aqui ver porque Ev e Kristin não apareceram na igreja o apagou.

 

Scarpetta toma nota de que não existe sistema de alarme.

 

Reba abre a geladeira.

 

—        Eu seguiria adiante e passaria o pincel pelas portas dos armários, Reba fala a Lex. — Pode passar o pincel em tudo, já que estamos aqui. Não tem muita comida para duas crianças em idade de crescimento, diz para Scarpetta. — Não tem muita coisa para comer, de qualquer maneira. Acho que são vegetarianos. Fecha a porta da geladeira.

—        O pó estragará a madeira, objeta Lex.

—        Isto é problema seu.

—        Sabemos a que hora chegaram em casa, se é que chegaram, ao voltar da igreja? Pergunta Scarpetta.

—        O serviço religioso terminou as sete e Ev e Kristin ficaram um tempo mais, falando com as pessoas. Em seguida tiveram uma reunião na sala de Ev. É uma sala pequena. A igreja é muito pequena. No espaço em que celebram os serviços não cabem mais de cinquenta pessoas, me deu a impressão. Reba sai da cozinha e passa para a sala.

—        Uma reunião com quem? Onde estavam as crianças? Pergunta Scarpetta, levantando uma almofada do sofá estampado de flores.

—        Se reuniram várias mulheres. Não sei como as chamam. São as que organizam coisas na igreja e, segundo entendi, as crianças não assistiram a essa reunião, estavam fora da sala, brincando. Depois saíram com Ev e Kristin, isso às oito da noite.

—        Sempre fazem as reuniões na quarta à tarde, depois do serviço religioso?

—        Acho que sim. Os serviços se celebram habitualmente as terças, assim se reúnem um dia antes. Não mencionam Jesus Cristo, só a Deus; não falam além do pecado e de ir para o inferno. É uma Igreja um pouco excêntrica, como uma seita, diria eu. Provavelmente manipulam serpentes ou coisas assim.

 

Lex coloca uma pequena quantidade de óxido em pó Silk Black em uma folha de papel. A superficie branca da mesa da cozinha está arranhada, porém limpa e completamente vazia. Apanha com um pincel de fibra de vidro o pó do papel e começa a passar suavemente, com movimentos circulares, pela superfície da mesa, até ficar de cor cinza uniforme onde o pó adere à gordura e a outros resíduos que não se notam a simples vista.

 

—        Não encontrei nenhuma carteira, nenhum caderno de endereços, nada pelo estilo, conta Reba a Scarpetta. — O qual ratifica a minha suspeita de que fugiram.

—        Alguém pode ser sequestrado quando está com seu caderno de endereços, diz Scarpetta. — As pessoas são sequestradas com a carteira, as chaves, o carro, os filhos. Há uns anos trabalhei em um caso de sequestro e homicídio em que à vítima foi permitida que levasse a maleta.

—        Eu também sei de casos em que tudo se falseia para parecer um delito quando o que aconteceu na realidade é que o interessado fugiu. Essa estranha ligação telefônica que me falou pode ter sido de algum pirado da congregação.

 

Scarpetta entra na cozinha para examinar o queimador. Em cima dele tem uma frigideira de cobre coberta com uma tampa; o metal é cinza escuro.

 

—        É este o queimador que estava aceso? Pergunta levantando a tampa.

 

No interior da frigideira, de aço inoxidável, se vê um descolorido cinza escuro. Lex desgruda um fragmento de fita adesiva de um sonoro puxão.

 

—        Quando a senhora da paróquia chegou, esse queimador esquerdo estava no mínimo e a frigideira tremendamente quente, sem nada dentro, explica Reba. — Isto me disseram.

 

Scarpetta repara em um pó esbranquiçado na frigideira.

 

—        Pode ser que tivesse algo dentro, talvez azeite. Comida não. Não havia comida sobre a mesa? Pergunta.

—        Está vendo tudo tal como estava quando eu cheguei. E a paroquiana disse que não havia encontrado comida fora da frigideira.

—        Se vê algum detalhe em relevo, porém em geral são borrões, anuncia Lex desgrudando a fita. — Não vou me preocupar com os armários; a madeira não é uma superfície muito boa. Não vale a pena estragá-la sem motivo.

 

Scarpetta abre a porta da geladeira e sente o ar frio no rosto enquanto vai olhando as prateleiras uma a uma. Um pedaço de ave sugere que pelo menos alguém não é vegetariano. Há batata, repolho, cenoura, aipo e hortaliças, montes de hortaliças, dezenove bolsas de hortaliças pequenas e peladas: um grupo baixo de calorias.

 

A porta corrediça de vidro da senhora Simister não está fechada a chave; Marino fica em frente a ela, de pé no jardim, olhando ao redor.

 

Olha para o outro lado do canal, perguntando-se se Scarpetta está encontrando algo na casa alaranjada. Já deve ter chegado, porque ele se atrasou. Teve que colocar a moto em um caminhão, ir ao hangar e trocar o pneu; tudo isso levou algum tempo. Perdeu outros minutos ao falar com o pessoal da manutenção e com uns quantos alunos e membros do professorado cujos carros se encontravam no mesmo estacionamento, com a esperança de que alguém tivesse visto algo. Entretanto ninguém viu nada. Ou pelo menos isso é o que disseram.

 

Abre um pouco a porta corrediça da senhora Simister e a chama. Ninguém responde, de modo que bate no vidro fazendo um pouco de ruído.

 

—        Tem alguém em casa? Fala. Volta a apanhar o telefone e a linha continua ocupada. Vê que Scarpetta tentou localizá-lo há um tempo, provavelmente quando vinha na moto. Devolve a chamada.

—        Que aconteceu? Pergunta falando baixo.

—        Reba diz que jamais escutou o nome da senhora Simister.

—        Alguém está brincando conosco, replica Marino. — E a senhora Simister não responde a campainha da porta. Vou entrar.

 

Uma vez mais se volta para olhar a casa alaranjada do outro lado. Em seguida, abre a porta corrediça e entra na casa.

 

—        Senhora Simister? Pergunta falando mais alto. — Há alguém em casa? Polícia!

 

Topa com uma segunda porta corrediça, também fechada sem chave, e passa ao interior da cozinha, faz uma pausa e volta a chamar a dona. Dentro da casa tem uma televisão ligada a todo volume; avança até o ruído sem deixar de anunciar-se aos gritos, agora com a pistola na mão. Percorre um corredor e descobre que se trata de uma comédia televisiva, com muitas risadas.

 

—        Senhora Simister? Tem alguém aí?

 

A televisão se encontra na parte traseira, provavelmente em um quarto, cuja porta está fechada. Titubeia, volta a chamar à dona. Primeiro dá uns golpes na porta e agora a abre de um empurrão. Ao entrar vê sangue, um corpo pequeno sobre a cama e o que sobra da cabeça.

 

Dentro de uma gaveta do escritório existem lápis, canetas e rotuladores. Dois dos lápis e uma caneta estão mordidos e Scarpetta observa as marcas de dentes na madeira e no plástico, perguntando-se qual das crianças será a que morde nervosa as coisas.

 

Coloca os lápis, as canetas e os rotuladores em bolsas de provas distintas. Fecha a gaveta e olha ao seu redor pensando na vida dos sul-africanos órfãos. Na casa não se encontram joguinhos, nem cartazes nas paredes, nem algum indício de que os irmãos gostem de garotas, de carros, de filmes, de música ou esportes, nem que tenham heróis, nem sequer que se divirtam. O banheiro está uma porta mais além. É um banheiro velho com azulejos verdes, um lavabo e uma banheira brancos. Scarpetta vê o seu rosto no espelho do armário de primeiros socorros quando o abre. Percorre com o olhar as estreitas prateleiras metálicas cheias de pasta dental, aspirinas e sabonetes sem abrir, dos que só se pode encontrar nos banheiros dos motéis. Apanha um pote de remédio de plástico alaranjado pela tampa branca, lê a etiqueta e se surpreende ao encontrar o nome da doutora Marilyn Self.

 

A célebre psiquiatra, a doutora Self, receitou Ritalin a David Fortuna. Toma dez miligramas três vezes ao dia; no mês passado, exatamente há três semanas, receitou outra centena de pílulas. Scarpetta fecha a tampa e coloca em sua mão as pílulas verdes. Conta quarenta e nove. Ao final de três semanas na dose prescrita deveriam restar trinta e sete, calcula. O garoto provavelmente desapareceu há cinco dias, então são quinze pílulas. Quinze mais trinta e sete são cinquenta e duas. Bastante aproximado. Se o desaparecimento de David foi voluntário, por que deixou o Ritalin? E por que deixaram aceso o fogão da cozinha?

 

Devolve as pílulas ao pote e o guarda em uma bolsa de provas. Ao final do corredor encontra o outro quarto da casa, que obviamente é dividido pelas duas irmãs. Existem nele duas camas, ambas com uma colcha verde esmeralda. O papel pintado e a janela são verdes. Os móveis estão laqueados de verde. As lâmpadas e o ventilador de teto são verdes e umas cortinas verdes fechadas não deixam passar nem um raio de luz. A lâmpada da mesinha de cabeceira está acesa e seu débil brilho, somado à luz do corredor, constitui a única iluminação do quarto.

 

Não existem espelho nem quadros, só duas fotografias envelhecidas em cima do toucador: uma do sol se pondo sobre o oceano com as crianças na praia sorridentes em traje de banho, os dois muito ruivos; a outra de duas mulheres com muletas e os olhos entrefechados por causa do sol, rodeadas de um enorme céu azul. Atrás delas se vê a caprichosa forma de uma montanha que se eleva sobre o horizonte e cujo cimo aparece oculto por uma capa de nuvens que sobem desde as rochas como um denso vapor branco. Uma das mulheres é baixa e está com o cabelo longo e acinzentado preso, enquanto a outra é mais alta e delgada e tem cabelos negros ondulados que está afastando do rosto por culpa do vento.

 

Scarpetta apanha uma lupa da bolsa e estuda as fotografias mais de perto, fixando-se detidamente na pele das crianças, em seus rostos. Estuda também a pele e o rosto das duas mulheres em busca de cicatrizes, tatuagens, anomalias físicas, joias. Passa a lente por cima da mais delgada das duas, a do cabelo longo e negro, e repara que sua pele não parece boa. Talvez seja a iluminação ou um bronzeador sem sol o que dá a sua pele um tom ligeiramente amarelado, porém diria que sofre de icterícia.

 

Abre o armário. Contem sapatos e roupa comum e inexpressiva, assim como algumas blusas de medidas oito e doze. Scarpetta apanha todas as de cor branca ou muito clara e examina o tecido em busca de manchas amarelas de suor. As encontra nas axilas de várias blusas da medida oito. Depois volta a centrar sua atenção na fotografia da mulher de cabelo longo e pele amarelada; pensa nas verduras cruas que tem na geladeira, nas hortaliças e também na doutora Self.

 

No quarto não existe outro livro fora uma Bíblia de couro marrom sobre uma mesinha de cabeceira. É velha e está aberta nos Apócrifos. A luz da lâmpada cai sobre suas frágeis páginas, secas e escurecidas pelo passar de muitos anos. Scarpetta põe os óculos e se inclina um pouco mais. Anota que a Bíblia está aberta no livro da Sabedoria e que o versículo vinte e cinco do capítulo doze está marcado com três pequenos xis a lápis: «Por isto, como as crianças que não tem uso de razão, haveis enviado um castigo que era um logro».

 

Liga para o celular de Marino e novamente ele não atende. Abre as cortinas para ver se as persianas corrediças que as ocultam estão fechadas, ao mesmo tempo em que insiste de novo com Marino e deixa outra mensagem urgente. Começou a chover e as gotas de chuva caem sobre a superfície da piscina e do canal. As nuvens de tempestade se amontoam como grandes edifícios. As palmeiras se agitam furiosamente e os hibiscos que crescem a um e outro lado estão cheios de flores rosadas e vermelhas que sacodem ao vento. Vê dois borrões no vidro; têm uma forma que lhe parece familiar.

 

Encontra Reba e Lex na área de serviço, examinando o que tem dentro da lavadora e da secadora.

 

—        No quarto principal tem uma Bíblia, informa Scarpetta. — Está aberta nos Apócrifos. E também existe uma lâmpada acesa, junto à cama. Reba parece desconcertada. — Minha pergunta é: está o quarto exatamente como quando veio àquela paroquiana a casa? Está da mesma maneira que da primeira vez que você o viu?

—        Quando eu entrei no quarto não parecia que alguém o tivesse mexido. Lembro que as cortinas estavam fechadas. Não vi nenhuma Bíblia nem nada parecido, e não lembro que tivesse uma lâmpada acesa, responde Reba.

—        Existe uma fotografia de duas mulheres. São Ev e Kristin?

—        Isto disse a senhora da congregação.

—        A outra é de Tony e David?

—        Acho que sim.

—        Uma das mulheres sofre de algum tipo de desordem alimentícia? Está doente? Sabemos se uma delas ou as duas se encontram em tratamento médico? E sabemos quem é quem na fotografia?

 

Reba não tem respostas. Até agora as respostas não pareciam ter demasiada importância, a ninguém ocorrem perguntas como as que as está formulando Scarpetta.

 

—        Você ou alguma outra pessoa abriu a porta corrediça de vidro do quarto, a verde?

—        Não.

—        Não está fechada com chave e reparei que o vidro tem umas manchas por fora. São impressões de orelhas. Gostaria saber se já estavam ali quando você deu uma olhada na casa.

—        Marcas de orelhas?

—        Duas são de uma orelha direita, responde Scarpetta quando seu telefone toca.

 

Chove intensamente quando se detém à frente casa da senhora Simister. Diante dela estão estacionados três carros de polícia e uma ambulância.

 

Scarpetta desce do carro e sem se preocupar em apanhar um guarda-chuva, continua a ligação com o Instituto de Medicina Legal do condado de Broward, que tem jurisdição sobre todas as mortes súbitas e violentas que acontecem entre Palm Beach e Miami. Examinará o cadáver in situ porque já está no lugar dos fatos, está falando, e necessitará o mais rápido possível de um meio para transportar o cadáver ao depósito. Recomenda que a autópsia se realize imediatamente.

 

—        Não pode esperar até manhã? Acho que pode ser um suicídio, já que a falecida tem uma história de depressão, comenta o administrador com cautela, porque não quer que pareça que questiona o critério de Scarpetta.

 

Não deseja falar de que não está certo que o caso é urgente. Tem muito cuidado ao escolher as palavras, porém Scarpetta sabe o que está pensando.

 

—        Marino diz que não tem nenhuma arma no lugar do crime, explica, apressando-se em subir as escadas da casa, empapada.

—        Está bem. Isto eu não sabia.

—        Não tenho noticia de que alguém ache que se trate de um suicídio.

 

Scarpetta pensa na presumível explosão de um tubo de escape que escutaram há um tempo Reba e ela. Tenta se lembrar do momento exato.

 

—        Então, vem para cá?

—        Claro, responde Scarpetta. — Diga ao doutor Amos que tenha tudo preparado.

 

Quando alcança a porta e passa ao interior afastando o cabelo molhado dos olhos, vê que Marino já a está esperando.

 

—        Onde está Wagner? Ele pergunta. — Suponho que virá. Por desgraça. Merda, não nos faz nenhuma falta que venha a manejar o hospício, alguma atrasada mental.

—        Saiu uns minutos depois de mim. Não sei onde está.

—        É provável que tenha se perdido. Tem o sentido da orientação mais nefasto que eu já vi.

 

Scarpetta fala da Bíblia encontrada no quarto de Ev e Kristin e do versículo marcado com vários xis.

 

—        É o mesmo que me disse o tipo que me ligou! Exclama Marino. — Deus. Que acontece aqui? Maldita imbecil! Protesta, referindo-se outra vez a Reba. — Vou ter que afastá-la e procurar um detetive de verdade para que não foda este assunto.

 

Scarpetta já está farta dos comentários depreciativos de Marino.

 

—        Faz-me um favor: ajuda-a em tudo o que puder e guarde suas rivalidades pessoais. Fale o que sabe.

 

Observa, atrás de Marino, o que se vê pela porta da casa, que está entreaberta. Dois enfermeiros de urgências estão apanhando suas maletas, pondo fim a um esforço que resultou ser uma perda de tempo.

 

—        Morta por um tiro de escopeta na boca que arrancou a parte superior da cabeça, recita Marino parando no meio para deixar passar os enfermeiros, que saíam com destino a ambulância. — Está estendida sobre a cama de costas e completamente vestida. A televisão está ligada. Não vi nada que indique que tenham forçado a entrada ou que tenha sido uma tentativa de roubo nem de agressão sexual. Encontramos um par de luvas de látex no lavabo do banheiro. Uma está manchada de sangue.

 

—        Que banheiro?

—        O do quarto.

—        Algum outro indício de que o assassino tenha limpado o lugar antes de sair?

—        Não. Somente as luvas do lavabo. Nem toalhas manchadas de sangue nem água ensanguentada.

—        Tenho que dar uma olhada. Estamos certos da identidade da falecida?

—        Sabemos a quem pertence a casa: a Daggie Simister. Ainda não posso dizer com segurança quem é que está estendida na cama.

 

Scarpetta mexe no interior de sua bolsa procurando um par de luvas e passa ao vestíbulo. Detém-se a olhar ao redor pensando nas portas corrediças sem chave que viu no quarto principal da outra casa. Percorre com o olhar o chão, a parede azul claro e a pequena sala. Está abarrotada de móveis, fotografias, pássaros de porcelana e outras figurinhas fora de moda. Nada parece estar fora de lugar. Marino a conduz até a cozinha do outro lado da casa, onde se encontra o cadáver, em um quarto que dá para o canal.

 

A anciã, vestida com um penhoar rosa e chinelos de mesma cor, está estendida de costas sobre a cama. Tem a boca aberta e os olhos inexpressivos e fixos debaixo de uma tremenda ferida que lhe abriu a parte superior da cabeça como uma casca de ovo. Massa encefálica e fragmentos de osso estão espalhados pela almofada empapada de sangue, de um vermelho escuro, que começa a coagular. Também se encontram pedaços de pele e ossos agarrados à cabeceira da cama e à parede, ambos salpicados de resíduos sanguinolentos.

 

Scarpetta mete uma mão por debaixo do penhoar ensanguentado para apalpar o peito e o ventre, e depois toca as mãos. O corpo ainda está fresco e não aparece o rigor mortis. Abre o penhoar e coloca um termômetro de mercúrio no sovaco direito. Enquanto espera a leitura da temperatura corporal, busca outras lesões fora da óbvia da cabeça.

 

—        Quanto tempo calcula que está morta? Pergunta Marino.

—        Ainda está muito quente. Nem sequer apareceu a rigidez.

 

Pensa outra vez no que Reba e ela acharam que era um tubo de escapamento de um carro e chega à conclusão de que foi há aproximadamente uma hora. Aproxima-se de um termostato que está na parede. O ar acondicionado está funcionando, e no quarto a temperatura é de vinte graus. Toma nota e em seguida olha a seu redor, sem pressa, percorrendo tudo com o olhar. O pequeno quarto tem chão de cerâmica coberto em boa parte por um tapete azul escuro que vem desde o pé da cama, coberta por um edredom de bolinhas azuis, até a janela que dá para o canal. As persianas estão fechadas. Sobre uma mesinha de cabeceira está um copo que parece ser de água, uma edição em letra grande de uma novela de Dan Brown e uns óculos. A primeira vista, não existem sinais de arrombamento.

 

—        Assim a mataram antes de eu chegar, está dizendo Marino com certo desassossego. — De modo que pode ter ocorrido minutos antes que eu chegasse de moto. Me atrasei. Alguém me furouumpneu.

—        De propósito? Pergunta Scarpetta, intrigada pela coincidência.

 

Se Marino tivesse chegado antes, talvez a mulher não estivesse morta. Então fala do que agora supõe que foi um tiro de escopeta. Nesse momento sai do banheiro um agente uniformizado carregado de remédios que deposita sobre um toucador.

 

—        Sim, foi de propósito, responde Marino.

—        Obviamente, não estava morta há muito tempo. Que horas quando a encontrou?

—        Quando liguei para você já estava aqui há uns quinze minutos. Queria ter certeza de que a casa estivesse limpa antes de fazer algo, de que quem a havia matado não estivesse escondido em um armário ou algo parecido.

—        Os vizinhos não escutaram nada?

 

Marino responde que não tem ninguém nas casas de ambos os lados, já verificou um dos agentes uniformizados. Sua profusamente e tem o rosto congestionado e os olhos muito abertos, com expressão perturbada.

 

—        De verdade que não sei aonde vai tudo isto, volta a dizer, enquanto a chuva bate sobre o telhado. — Tenho a sensação de que de alguma maneira nos pegaram. Wagner e você estavam na outra margemdo canal. E eu cheguei tarde por culpa de um furo.

 

—        Havia um fiscal aqui, diz Scarpetta. — Um tipo que andava inspecionando os cítricos. Conta do instrumento para apanhar fruta que o indivíduo desmontou e guardou em uma bolsa grande. — Eu verificaria isso imediatamente.

 

Retira o termômetro de debaixo do braço da morta e anota trinta e quatro vírgula oito graus. Em seguida entra no banheiro e olha no chuveiro, no vaso e na cesta de papel usado. O lavabo está seco, não tem rastro de sangue, o que não tem lógica. Volta-se até Marino e pergunta:

 

—        As luvas estavam no lavabo?

—        Estavam.

—        Se o assassino... Ou a assassina, suponho, retirou-as depois de matar à anciã e as jogou no lavabo, deveria ter deixado um rastro de sangue, ou pelo menos manchas.

—        A não ser que o sangue já tivesse secado.

—        Não deveria, replica Scarpetta abrindo o armário, onde encontra a típica mescla de fármacos para dores e doenças intestinais. — A menos que o assassino tenha ficado com elas o tempo suficiente para que o sangue secasse.

—        Não seria tanto tempo assim.

—        Pode ser que não. Estão a mão?

 

Saem do banheiro e Marino apanha de uma maleta um envelope grande de provas, de papel marrom e abre-o para que Scarpetta olhe dentro sem tocar as luvas. Uma está limpa, a outra parcialmente do avesso e manchada de sangue seco marrom escuro. As luvas não estão com talco, e parecem novas.

 

—        Necessitaremos analisar o DNA do interior, também. E procurar impressões, diz.

—        Tenho certeza de que o assassino não sabe que se podem deixar impressões no interior das luvas de látex, aponta Marino.

—        Então é que não vê televisão, comenta um agente.

—        Não me fale da merda que sai na televisão. Está me destruindo a vida, comenta outro com meio corpo debaixo da cama, e adiciona: — Bem, bem.

 

Levanta-se segurando nas mãos uma lanterna e um pequeno revólver de aço inoxidável com culatra de pau rosa. Abre a câmara procurando tocar o metal o menos possível.

 

—        Está descarregado. De bem pouco serviu à vítima. Tem pinta de não haver sido disparado desde a última vez que foi limpo, se é que se disparou alguma vez.

—        De qualquer maneira analisaremos as impressões, fala Marino. — Lugar estranho para esconder uma arma. Estava muito lá dentro?

—        Demasiado longe para ser alcançado sem se abaixar até ao chão e arrastar-se debaixo da cama, como eu fiz. Calibre vinte e dois. Que demônios é uma Viúva Negra?

—        Está de brincadeira, diz Marino dando uma olhada. — Armas norte-americanas, de um só tiro. Uma pistola absurda para uma velhinha de mãos artríticas.

—        Alguém a presenteou para que se protegesse e ela não fez caso.

—        Viu em alguma parte uma caixa de munição?

—        De momento, não.

 

O agente mete a pistola em uma bolsa de provas, que deposita sobre o toucador em que outro agente começa a fazer inventário dos frascos de remédios.

 

—        Accuretic, Diurese e Enduron, diz lendo as etiquetas.

—        Um inibidor da ACE e diuréticos. Para a hipertensão, explica Scarpetta.

—        Verapamil, com a validade já vencida. É do mês de julho.

—        Hipertensão, angina, arritmia.

—        Apresoline e Lonitem. Quero ver quem é o esperto que sabe pronunciar isto. Está a um ano vencido.

—        São vasodilatadores. Para a hipertensão, também.

—        Viodim. Isto eu sei o que é. E Ultram. Estes remédios são mais novos.

—        São analgésicos. Possivelmente para a artrite.

—        E Zithromax. Isto é um antibiótico, não? Venceu em dezembro.

—        Nada mais? Pergunta Scarpetta.

—        Não, senhora.

—        Quem disse ao Instituto de Medicina Legal que a vítima tinha uma história de depressão? Pergunta, olhando para Marino. Em princípio não responde ninguém. Então Marino responde:

—        Eu não fui.

—        Quem ligou para o Instituto de Medicina Legal? Os dois agentes e Marino se olham.

—        Merda, resmunga Marino.

—        Um momento, diz Scarpetta; liga para ao Instituto de Medicina Legal e consegue que o administrador atenda ao telefone. — Quem lhe informou sobre o caso de morte por tiro de escopeta?

—        A polícia de Hollywood.

—        Que agente?

—        A detetive Wagner.

—        A detetive Wagner? Scarpetta fica perplexa. — Que hora está anotada no registro de ligações?

—        Pois... Vamos ver. Às duas horas e onze minutos. Scarpetta olha outra vez para Marino e pergunta:

—        Sabe a que horas você me ligou? Ele consulta seu telefone celular e responde:

—        As duas e vinte e um. Scarpetta consulta o relógio de pulso; já são quase três e meia. Não vai conseguir chegar ao voo das seis e meia.

—        Tudo bem? Pergunta o administrador por telefone.

—        Aparecia algo no identificador de chamadas quando recebeu esta ligação, a que provavelmente lhe fez a detetive Wagner?

—        Provavelmente?

—        Porque foi uma mulher que ligou...

—        Sim.

—        Tinha algo estranho em sua maneira de falar?

—        Não, responde e faz uma pausa. — Não tinha nada de suspeito.

—        Alguma pronúncia diferente?

—        O que está acontecendo, Kay?

—        Nada bom.

—        Estou olhando... Aqui está, as duas e onze. Número desconhecido.

—        Certo, diz Scarpetta. — Nos veremos dentro de uma hora.

 

Em seguida se inclina sobre a cama e observa detidamente as mãos da anciã antes de virá-las com suavidade. Sempre trabalha com suavidade, independentemente do fato de que seus pacientes já não sentirem nada. Não vê abrasões, cortes nem contusões que sugiram que a tenham amarrado ou que tenha se defendido. Volta a olhar com ajuda da lupa e encontra fibras e sujeira agarradas nas palmas de ambas as mãos.

 

—        É possível que em algum momento tenha estado no chão, diz. Nesse momento entra Reba no quarto, pálida e molhada por causa da chuva, e toda agitada.

—        Aqui as ruas são um labirinto, comenta.

—        Ouça, interpela Marino, — A que horas ligou para o Instituto de Medicina Legal?

—        Em relação a que tema?

—        Em relação ao preço dos ovos na China.

—        Como? Ela responde olhando o cadáver na cama.

—        Em relação a este caso, replica Marino furioso. — De que diabos imagina do que estou falando? E por que não compra um maldito GPS?

—        Eu não liguei para o Instituto de Medicina Legal. Por que ia ligar, tendo a ela a meu lado? Responde Reba olhando para Scarpetta.

—        Ponham sacos nas mãos e nos pés, diz Scarpetta. — E quero que a envolvam na colcha e em um plástico limpo. As roupas de cama também levarão.

 

Aproxima-se de uma janela que dá para o jardim traseiro da casa e o canal. Observa como a chuva golpeia as árvores e pensa no fiscal de cítricos. Estava neste jardim, disso não tem nenhuma dúvida, e trata de calcular com exatidão a hora em que o viu. Sabe que não foi muito antes de ouvir a explosão que agora suspeita que foi um tiro de escopeta.

 

Volta a correr o quarto com o olhar e repara em duas manchas escuras que estão no tapete, próximo da janela que dá para as árvores e o canal. Custa muito a vê-las sobre o fundo azul escuro. Decide apanhar em sua bolsa equipamento para analisar amostras que supõe sejam de sangue, assim retira produtos químicos e um conta-gotas. Existem duas manchas, a vários centímetros de distância uma da outra, mais ou menos do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos e de forma ovalada. Passa um algodão por uma delas e, em seguida, coloca nela umas gotas de álcool isopropílico, depois fenolftaleína e, por último, peróxido de hidrogênio; o algodão adquire uma cor rosa vivo. Isto não prova que as manchas sejam de sangue humano, porém existem muitas possibilidades de que sejam.

 

—        Se é sangue da vítima, que faz aqui tão longe? Scarpetta fala para si mesma.

—        Quem sabe tenha salpicado até aí, aventura Reba.

—        Não é possível.

—        As gotas não são redondas, aponta Marino. — É como se quem estivesse sangrando se encontrasse erguido, ou quase. Procura mais manchas ao redor. — É bem estranho que estejam aqui e em nenhum outro lugar. Se alguém sangrou muito, poderíamos esperar mais gotas, segue dizendo, como se Reba não estivesse presente.

—        Dá trabalho distingui-las sobre uma superfície escura como esta, responde Scarpetta. — Entretanto não vejo mais nenhuma.

—        Talvez devêssemos voltar com luminol. Marino fala sem incluir Reba na conversa e começa a se notar a raiva no rosto dela.

—        Colheremos uma amostra das fibras deste tapete quando chegarem os técnicos, diz Scarpetta dirigindo-se a todo o mundo.

—        Vamos aspirá-lo e procurar rastros, adiciona Marino evitando o olhar de Reba.

—        Vou ter que lhe pedir uma declaração antes que se vá, já que foi você quem encontrou a vítima, fala Reba a Marino. — Não estou certa do que esperava entrando na casa.

 

Marino não responde. Reba não existe.

 

—        Mark, Reba se dirige a um dos agentes. — Que tal examinarmos o investigador Marino, para ver se encontramos resíduos do tiro de uma escopeta?

—        Que se fodam, responde Marino.

 

Scarpetta reconhece o tom de sua voz; só pode ser o prelúdio de um arrebato descontrolado.

 

—        Não é mais do que um exame pró-forma, diz Reba. — Já sei que não quer que alguém o acuse de algo.

—        Para isso... Reba, diz o agente que responde ao nome de Mark. — Nós não temos material. Os técnicos terão que fazê-lo.

—        Bem, e onde demônios estão? Pergunta Reba irritada, sem cuidado, porque ainda é nova neste trabalho.

—        Marino, diz Scarpetta, — Que acha de se encarregar do serviço de retirada do cadáver?

—        Sinto curiosidade, diz Marino aproximando-se tanto a Reba que esta se vê obrigada a dar um passo atrás. — Quantas vezes você foi a única detetive presente em um lugar onde tivesse um cadáver?

—        Vou ter que pedir que saiam daqui, ela responde. — Os dois, você e a doutora Scarpetta. Assim poderemos começar a trabalhar.

—        A resposta é não. Marino continua falando. — Definitivamente não. Eleva a voz. — Olhe, dê um olhar nas suas notas de detetive para tontos. Leia que quando se descobre que o cadáver cai dentro da jurisdição do forense, passa a mandar a doutora, não você. E já que se dá o caso de eu ser investigador juramentado, além de todos os meus outros títulos, dos mais estrambóticos e que sou ajudante da doutora quando necessário, tampouco pode ordenar ao meu cu que saia daqui.

 

Os agentes uniformizados fazem esforços para não começar a rir.

 

—        Tudo leva a uma importante conclusão, prossegue Marino: — Que a doutora e eu somos os que mandam aqui e que você não tem nem puta ideia e já está estorvando.

—        Não pode me falar assim! Exclama Reba, quase as lágrimas.

—        Poderia algum de vocês localizar um detetive de verdade? Pergunta Marino aos policiais uniformizados. — Porque não penso sair até então.

 

Benton está sentado em seu escritório, situado no primeiro andar do Laboratório de Imagens Neuronais Cognitivas, um dos poucos edifícios contemporâneos em um campus de quase noventa e cinco hectares construído com ladrilhos e pedrascentenárias e cheio de árvores. Diferentemente da maioria dos escritórios do McLean, o seu não tem vistas. Dá para um estacionamento, que fica em frente à janela, uma estrada e, mais além, a um terreno famoso por ter gansos do Canadá.

 

Seu escritório, no centro do leque que o laboratório forma, é pequeno e está entupido de papéis e livros. Em cada canto do laboratório se encontra um escâner de ressonância magnética que em conjunto criam um campo eletromagnético suficientemente potente para fazer descarrilar um trem. Ele é o único psicólogo forense cujo escritório se encontra dentro do laboratório; tem que estar a mão dos neurocientistas por causa do estudo PREDADOR. 

 

Liga para o coordenador do estudo.

 

—        Voltou a ligar para o nosso último indivíduo normal? Observa pela janela dois gansos que perambulam pela estrada. — Keny Jumper?

—        Um momento, pode ser que seja ele. E em seguida adiciona: — Doutor Benton, ele está ao telefone.

—        Olá, cumprimenta Benton. — Boas tardes, Keny. Sou o doutor Wesley. Como se encontra hoje?

—        Não demasiado mal.

—        Pela sua voz parece um pouco encatarrado.

—        Quem sabe é alergia. Ganhei um gato.

—        Vou fazer umas quantas perguntas mais, Keny, diz Benton olhando um formulário telefônico.

—        Já me fez várias perguntas.

—        Estas são distintas. Perguntas de rotina, fazemos a todos os que participam em nosso estudo.

—        Está bem.

—        De onde liga? Pergunta Benton.

—        De uma cabine. Você não pode me ligar, eu é que tenho de ligar.

—        Não tem telefone onde mora?

—        Como já disse, estou em casa de um amigo aqui, em Walthan, e não tem telefone.

—        Está bem. Queria confirmar umas quantas coisas que me disse ontem, Keny. É solteiro.

—        Sim.

—        Tem vinte e quatro anos.

—        Sim.

—        É de raça branca.

—        Sim.

—        Keny, você é destro ou canhoto?

—        Destro. Não tenho carteira de dirigir, se quiser uma identificação.

—        Não importa, responde Benton. — Não nos faz falta.

 

Não só não faz falta, mas pedir um documento de identificação, fotografar os pacientes ou fazer qualquer tentativa de verificar quem são, constitui uma infração da Restrição de Informação para a Proteção da Saúde da HIPPA.

 

Benton percorre todas as perguntas do questionário e vai interrogando Keny. Se ele usa dentadura ou aparelho de ortodontia, implantes médicos, placas ou cravos metálicos e como se mantém. Pergunta sobre possíveis alergias fora aos gatos, problemas respiratórios, enfermidades ou medicação; também se alguma vez sofreu uma ferida na cabeça ou se aconteceu de se auto machucar ou causar mal a outras pessoas, se se encontra atualmente seguindo uma terapia ou em um período de testes. O típico é que as respostas sejam negativas. Mais de um terço dos que se apresentam como sujeitos normais são eliminados do estudo porque de normais não têm nada. Até o momento Keny parece prometedor.

 

—        Quais foram seus hábitos com a bebida ao longo do mês passado? Benton continua fazendo perguntas da lista, que já está ficando odiosa.

 

Os questionários por telefone são tediosos, embora não seja ele que os realize. De qualquer maneira sempre termina ao telefone, porque não se fia na informação coletada pelos ajudantes de investigação e do pessoal sem qualificação. Não serviria de nada apanhar na rua um potencial sujeito de estudo e descobrir, após investir incontáveis horas de valioso tempo em interrogatórios, entrevistas de diagnóstico, classificações, provas neuro-cognitivas, obtenção de imagens cerebrais e trabalho de laboratório, que não é um sujeito adequado, que é instável ou potencialmente perigoso.

 

—        Bem, quem sabe uma ou duas cervejas de vez em quando, está dizendo Keny. — A verdade é que não bebo muito. E não fumo. E quando posso começar? O anúncio dizia que me pagariam oitocentos dólares e que vocês se encarregariam do táxi. É que não tenho carro, de modo que não tenho transporte, e não me cairia mal o dinheiro.

—        Por que não vem segunda? Às duas da tarde. 

—        É para o escâner?

—        Exato.

—        Não, melhor terça às cinco. Terça às cinco eu posso ir.

—        Muito bem, pois, terça às cinco. Benton toma nota.

—        E vocês me enviam um táxi.

 

Benton diz que mandará um táxi e pede o endereço. A resposta de Keny o deixa desconcertado: diz para mandar o táxi à funerária Alfa e Ômega de Everett, uma casa de pompas fúnebres que ele jamais escutou falar e que se encontra em uma zona não muito agradável da periferia de Boston.

 

—        Por que uma funerária? Pergunta Benton dando golpezinhos com o lápis sobre o papel.

—        Porque é próxima de onde eu moro. E tem cabine telefônica.

—        Keny, gostaria que me ligasse outra vez amanhã para confirmar que vai vir na terça, as cinco. De acordo?

—        De acordo. Ligarei desta mesma cabine.

 

Wesley desliga e consulta a lista para ver se existe em Everett uma funerária chamada Alfa e Ômega. Existe. Liga e o põem em espera escutando «A razão de Hoobastank». A razão de que? Pensa com impaciência. — De morrer?

 

—        Benton?

 

Levanta os olhos e vê a doutora Susan Lane na porta do escritório, com um relatório na mão.

 

—        Olá, cumprimenta, desligando o telefone.

—        Tenho notícias de seu amigo Basil Jenrette, diz a doutora olhando-o fixamente. — Você parece estressado.

—        E como não? Já está terminada a análise?

—        Talvez devesse ir para casa, Benton. Tem cara de estar esgotado.

—        Preocupado. Deito demasiado tarde. Explique como funciona o cérebro de nosso rapaz. Estou ansioso, diz Benton.

 

A doutora entrega uma cópia das análises das imagens estruturais e funcionais e começa a explicar:

 

—        Aumento da atividade amigdalar como reação aos estímulos afetivos. Sobretudo nos rostos, que foram mostradas abertamente ou ocultos e que revelavam medo ou possuíam um conteúdo negativo.

—        É uma informação interessante, comenta Benton. — É possível que o tempo nos revele algo aproximado sobre a maneira de como eles escolhem as vítimas. Uma expressão facial que interpretaríamos como de curiosidade ou surpresa, eles poderiam interpretá-la como de cólera ou medo.

—        Inquieta pensar.

—        Tenho que insistir mais energicamente sobre esse ponto quando falar com eles. Começando por Basil. Em seguida abre uma gaveta e apanha um vidro de aspirinas.

—        Vamos ver. Durante o exercício de interferências de Stroop, diz a doutora olhando o relatório. — Verificamos uma diminuição da atividade do cíngulo anterior, tanto na região dorsal como na sub-genual, acompanhada de um aumento da atividade pré-frontal dorso-lateral.

—        Faz um resumo, Susan. Tenho dor de cabeça.

 

Sacode o vidro para fazer cair três aspirinas na palma de sua mão e as engole sem água.

 

—        Como demônios faz isso?

—        Com a prática.

—        Tá. Recomeça a leitura da análise do cérebro de Basil. — Em conjunto, o estudo reflete sem dúvida uma conectividade anômala das estruturas límbicas frontais, o que sugere uma má inibição das reações, devido provavelmente a um déficit em vários processos em que intervém a área frontal.

—        E isso afeta a sua capacidade para controlar e inibir a conduta, diz Benton. — Estamos vendo isto uma e outra vez em nossos encantadores convidados de Butler. Encaixa com o transtorno bipolar?

—        Sim. Com este e com outros transtornos psiquiátricos.

—        Desculpe-me um minuto, diz Benton apanhando o telefone. Disca a extensão da coordenadora do estudo e pergunta: — Pode consultar seu registro de entradas e dizer de que número ligou Keny?

—        Era uma chamada sem identificar.

—        Ah, responde. — Não sabia que nas chamadas de uma cabine telefônica não ficasse anotado o número.

—        De fato, deveria ficar. Acabo de desligar de um telefonema de Butler, diz ela. — Parece que Basil não está bem. Perguntou se poderia ir vê-lo.

 

São cinco e meia da tarde e o estacionamento do Instituto de Medicina Legal do condado de Broward está quase vazio. Os empregados, em particular os que não pertencem à área médica, rara vez ficam por ali fora do horário.

 

O laboratório se encontra no número 31 da avenida Southwest, em meio de um terreno meio urbanizado, repleto de palmeiras, carvalhos, pinos e salpicado de folhas. Típico da arquitetura do sul da Flórida, o edifício de um só andar é revestido de coralina e estuque. A parte posterior dá para um estreito canal de água salobra infestada de mosquitos e onde os jacarés em várias ocasiões já apareceram, fora de seu hábitat. Junto ao prédio se encontra o serviço de resgate e anti-incêndio, o que lembra constantemente aos de emergências onde terminam seus pacientes menos afortunados.

 

Praticamente deixou de chover e Scarpetta e Joe vão se esquivando de poças quando se encaminham para um Humer H2 prateado; ela não o escolheu, porém é bastante útil para ir a lugares afastados da estrada onde se cometeram crimes e para transportar equipamento complexo. Lucy gosta dos Humer; Scarpetta se preocupa em estacioná-los.

 

—        Não entendo como uma pessoa se preparou para entrar com uma escopeta em pleno dia, diz Joe, um comentário que não deixa de repetir à uma hora. — Tem que haver um modo de saber se era recortada.

—        Se não lixaram o cano depois de recortá-lo, poderia haver marcas de serra,  responde Scarpetta.

—        Entretanto a ausência de marcas de serra não significa que não tenha sido serrada.

—        Exato.

—        Porque ele mesmo poderia ter limado o cano. Se o fez, não temos forma de saber sem recuperar a arma. É de calibre doze. Até aqui nós sabemos.

 

Até aqui ele sabe, porque se baseou na bala de plástico Power Piston de quatro pétalas da Remington, que Scarpetta recuperou do interior da cabeça destroçada de Daggie Simister. Fora isso, Scarpetta só pode confirmar uns quantos fatos mais, como por exemplo, o tipo da agressão sofrida pela senhora Simister, que, segundo revelou a autópsia, foi diferente da que todo o mundo imaginava. Se não tivessem lhe dado um tiro, as possibilidades de que tivesse morrido eram muitas. Scarpetta está certa de que a senhora Simister se encontrava inconsciente quando seu assassino colocou o cano da escopeta na sua boca e apertou o gatilho. Não foi fácil chegar a esta conclusão.   

 

Grandes feridas abertas na cabeça podem mascarar lesões que talvez tivessem sido produzidas antes do trauma mutilador e definitivo. Em algumas ocasiões a patologia forense requer cirurgia plástica. No depósito Scarpetta fez o que pôde para reconstruir a cabeça da senhora Simister, encaixando pedaços de osso e de couro cabeludo e depois recolocando o cabelo. Assim encontrou uma laceração na parte posterior da cabeça e uma fratura de crânio. O ponto do impacto estava se sobrepondo a um hematoma subdural, em uma zona subjacente do cérebro que havia ficado relativamente intacta após a explosão da escopeta.

 

Se as manchas do tapete que ficava junto à janela do quarto forem do sangue da senhora Simister, é possível que tenha sido ali onde a agrediram inicialmente; isso também explicaria a sujeira e as fibras azuladas que tinha nas palmas das mãos. Golpearam-na atrás fortemente com um objeto rombudo e ela caiu. Em seguida seu agressor a tomou nos braços, levantando seus quarenta e três quilos e a deixou sobre a cama.

 

—        É muito fácil levar uma escopeta de cano recortado em uma mochila, Joe está dizendo.

 

Scarpetta aponta com o comando a distância para desbloquear as portas do Humer e responde em tom cansado:

 

—        Não necessariamente. Joe a cansa. A cada dia que passa a cansa mais. — Ainda que o assassino serrasse trinta ou quarenta centímetros do cano e quinze da culatra, observa, — Seria uma arma de quarenta centímetros de comprimento, pelo menos, supondo que se tratasse de uma de carga automática. Pensa na bolsa negra grande que o fiscal de cítricos usava. — Se se tratasse de uma de carga manual certamente seria mais longa, adiciona. — Em nenhuma das duas hipóteses caberia em uma mochila, a não ser que essa fosse enorme.

 

—        Num equipamento, então.

 

Scarpetta pensa outra vez no fiscal de cítricos, no longo equipamento que desmontou e guardou em sua bolsa negra. Já observou fiscais de cítricos em outras ocasiões e nunca viu utilizarem um equipamento deste tipo. Normalmente fiscalizam o que fica na sua altura.

 

—        Tenho certeza de que estava num equipamento, diz Joe. 

—        Não tenho ideia. Scarpetta está a ponto de pular em seu pescoço.  

 

Durante toda a autópsia, Joe não deixou de assuntar o que ela estava pensando. Parecia necessário anunciar tudo o que ia fazendo, tudo o que ia escrevendo no protocolo anexo a seu caderno. Parecia necessário falar o peso de cada órgão e deduzir o que a senhora Simister havia comido na última vez a julgar pela carne e as verduras parcialmente digeridas que se encontravam no estômago. Acertou-se de que Scarpetta ouvisse o barulhinho dos depósitos de cálcio quando abriu as coronárias entupidas com o escalpelo e anunciou que a arteriosclerose em breve a teria matado.

 

Enfim, a senhora Simister não tinha muitas esperanças. Estava doente do coração. Seus pulmões apresentavam obstruções, provavelmente por causa de uma antiga pneumonia, e seu cérebro estava um tanto atrofiado, de maneira que o mais certo era que tivesse Alzheimer.

 

—        Se alguém tem que morrer assassinado, disse antes Joe, é melhor ter má saúde. — Estou pensando que o assassino a golpeou na cabeça com a culatra da escopeta, diz agora. — Assim. Arremete com uma culatra imaginária contra uma cabeça imaginária. — Ela nem sequer chegava ao metro e meio de altura, continua explicando sua hipótese. — De modo que, para golpear a sua cabeça com a culatra de uma arma que pesa, quem sabe, três ou quatro quilos, supondo que não tivesse sido recortada, o assassino precisaria ser razoavelmente forte e mais alto do que ela.

—        Não podemos afirmar isso em absoluto. Scarpetta sai com o carro do estacionamento. — Depende muito de sua posição em relação à vítima. Depende de muitas coisas. E não sabemos se a golpeou com a arma. Não sabemos nem se o assassino é homem. Tenha cuidado, Joe.

—        Com o quê?

—        Em seu entusiasmo por reconstituir exatamente como morreu a senhora Simister, corre o risco de confundir a teoria com a realidade e de transformar a realidade em ficção. Isto não é uma reconstituição, isto é um ser humano de verdade que morreu.

—        A criatividade não tem nada de ruim, protesta ele com a vista fixa na frente, os lábios apertados e o queixo longo e pontiagudo em tensão, o gesto que adota sempre que está de mau humor.

—        A criatividade é boa, diz Scarpetta. — Deve sugerir-nos até onde olhar e o que procurar, porém não necessariamente coreografar reconstituições como as que se veem na televisão e no cinema.

 

A pequena sala para convidados se encontra atrás de uma piscina de azulejos espanhóis, rodeada de árvores frutíferas e arbustos coalhadosde flores. Não é um lugar normal para atender pacientes nem, provavelmente, o melhor lugar para fazê-lo, porém o entorno é poético e está repleto de símbolos. Quando chove, a doutora Marilyn Self se sente tão criativa como a terra cálida e úmida.

 

Tende a interpretar o tempo atmosférico como uma manifestação do que acontece quando os pacientes saem pela porta de seu consultório. As emoções reprimidas, algumas delas torrenciais, se liberam na segurança de seu entorno terapêutico. As veleidades do tempo têm lugar a seu redor e são unicamente para ela, vão dirigidas a ela. Estão repletas de significados.

 

«Bem vindo a minha tempestade. Agora falemos da sua».

 

É uma boa frase e a emprega com frequência em seu consultório, em seu programa de rádio e, agora também, em seu novo programa de televisão. As emoções humanas são sistemas atmosféricos interiores, explica a seus pacientes, ou a multidão de ouvintes. Todas as tempestades têm uma causa. Nada é por nada. Falar do tempo não é nem ocioso nem trivial.

 

—        Estou vendo a expressão de seu rosto, diz desde a sua poltrona de couro, na acolhedora salinha. — Voltou a ter essa expressão quando parou de chover.

—        Repito de novo que não tenho nenhuma expressão no rosto.

—        É interessante que adote essa expressão cada vez que a chuva para. Não quando começa chover nem quando está em seu pior momento, e sim quando cessa de pronto, como ocorreu agora, insiste ela.

—        Eu não tenho nenhuma expressão no rosto.

—        Quando deixou de chover você adotou essa expressão, repete a doutora Self. — É a mesma que aparece quando nossa sessão chega ao fim.

—        Não é.

—        Afirmo que sim.

—        Não pago trezentos dólares por uma puta hora para falar de tempestades. Eu não tenho nenhuma expressão no rosto.

—        Pete, estou falando o que vejo.

—        Eu não tenho nenhuma expressão, repete Pete Marino desde o divã colocado em frente à doutora. — Isto é uma estupidez. Por que ia me ocupar com uma tempestade? Estive toda a vida vendo tempestades. Não me criei em um deserto.

 

A doutora estuda seu rosto. É bem parecido, de uma forma muito rude e masculina. Observa os olhos cinza escuro atrás dos óculos de armação metálica. Sua calvície lembra a bundinha de um bebê, pálida e nua à suave luz da lâmpada. Essa calva arredondada e carnosa é uma nádega branquinha que pede que lhe deem uma palmada.

 

—        Me parece que temos um problema de confiança, diz.

 

Ele a olha desde o divã com cara de poucos amigos.

 

—        Por que não me conta porque se preocupa com as tempestades, e também porque se preocupa quando acaba, Pete. Porque eu vejo que é assim. Inclusive enquanto estamos conversando continua com esta expressão no rosto. Ainda a tem, ela fala. Marino toca o rosto como se fosse uma máscara, como se fosse algo que não lhe pertencesse.

—        Meu rosto é normal. Não mudou nada. Nada. Toca a larga mandíbula e depois a ampla fronte. — Se tivesse uma expressão especial, eu notaria. Entretanto não tenho nenhuma.

 

Os últimos minutos se passaram em silêncio dentro do carro, enquanto vão para o estacionamento do Departamento de Polícia de Hollywood, onde Joe poderá apanhar seu Corvette vermelho e deixá-la tranquila o resto do dia. De repente ele diz:

 

—        Eu contei que apanhei a carteira de mergulhador?

—        Me alegro por você, responde Scarpetta sem fingir interesse.

—        Vou comprar um terreno nas ilhas Cayman. Bem, não exatamente; vamos comprar minha noiva e eu, juntos. Ela ganha mais dinheiro que eu, diz. — O que acha? Eu sou médico e ela é ajudante de um advogado, nem sequer é uma advogada de verdade e ganha mais do que eu.

—        Nunca soube que tivesse cursado patologia forense por dinheiro.

—        Não me meti nisto com a intenção de continuar pobre.

—        Nesse caso, deveria pensar em se dedicar a outra coisa, Joe.

—        Pois não me dá a impressão de que a você não falte dinheiro.

 

Vira-se até ela quando param em um sinal. Scarpetta sente seu olhar.

 

—        Imagino que não cai mal ter uma sobrinha tão milionária quanto Bill Gates, adiciona. — E um noivo de uma família rica da Nova Inglaterra.

—        Que está insinuando exatamente? Diz Scarpetta, pensando em Marino. Pensa em suas reconstituições de crimes.

—        Que é fácil não se preocupar com dinheiro quando se tem em abundância. E, quem sabe,  você não o ganhou exatamente.

—        Minhas finanças não são de sua incumbência, porém, se trabalhar tantos anos quanto eu trabalhei e for inteligente, poderá ficar muito bem.

—        Depende do que queira dizer com isso de «ficar».

 

Scarpetta como Joe era impressionante no papel. Quando solicitou a entrada para a Academia, parecia que seria o estudante mais promissor que tivera. Não entende como pôde errar tanto.

 

—        Nenhum dos seus, que eu saiba, se limita a participar, afirma Joe, cada vez mais sarcástico. — Até Marino ganha mais do que eu.

—        E como você sabe quanto ganham?

 

O Departamento de Polícia de Hollywood aparece em frente, à esquerda. É um edifício de concreto de quatro andares tão próximo a um campo de golfe que não é raro bolas perdidas sobrevoarem a cerca e atingirem os carros patrulha. Acha o apreciado Corvette vermelho de Joe em um lugar longínquo, afastado da trajetória de qualquer coisa que o pudesse tocar sequer de raspão. 

 

—        Todo o mundo sabe mais ou menos quanto ganham os demais, está falando Joe. — É de domínio público.

—        Não é.

—        Em um lugar tão pequeno não se pode guardar um segredo.

—        A Academia não é tão pequena assim e nela existem muitas coisas confidenciais. Como os salários.

—        Eu deveria ganhar mais. Marino não é um puto médico, apenas terminou o instituto e ganha mais do que eu. E Lucy, a única coisa que faz, é andar por ali brincando de ser agente secreto com suas Ferraris, seus helicópteros, seus aviões e suas motos. Gostaria de saber que diabos ela faz para ter todas essas coisas. É um peixe gordo, uma supermulher, pura arrogância, pura pose. Não é estranho que os alunos a detestem tanto.

 

Scarpetta para o carro atrás do Corvette e se volta para Joe com o semblante mais sério do que nunca.

 

—        Joe, fala, — Falta um mês. Vamos passá-lo em paz.

 

 

Na opinião profissional da doutora Self, a causa das maiores dificuldades na vida de Marino é a expressão de seu rosto, que ela vê neste preciso momento.

 

É a sutileza dessa expressão facial de negatividade, que contradiz a expressão facial em si, que dificultam as coisas. Quando ele precisa de algo a expressão o torna mais difícil. Quem dera que ela não precisasse ser sutil para se aproximar de seus medos secretos, as coisas que detesta, suas imoralidades, sua insegurança sexual, seu fanatismo e outras negatividades reprimidas. A doutora ainda detecta a tensão em sua boca e em seus olhos, o que outras pessoas provavelmente não o fazem, pelo menos não de forma consciente. Entretanto inconscientemente a captam e reagem em consequência.  

 

Marino é frequentemente vítima de insultos, o tratam mal, com falta de sinceridade, o rechaçam e o traem. Ele mesmo procura as confusões. Afirma ter matado várias pessoas ao longo de sua exigente e perigosa carreira. Fica claro que quem quer que seja suficientemente insensato para se meter com ele, sai pior do que merece, porém Marino não vê assim. Acha que a pessoas se metem com ele sem motivo algum. Segundo ele, essa hostilidade tem a ver em parte com seu trabalho. A maioria de seus problemas nascem dos prejuízos, porque se criou pobre em Nova Jersey. Não entende por que as pessoas o prejudicaram a vida toda, diz com frequência.

 

Nas últimas semanas tem ficado pior. E esta tarde está pior ainda.

 

—        Nos minutos que nos restam, vamos falar de Nova Jersey. A doutora Self lembra que a sessão está a ponto de terminar. — Na semana passada mencionou Nova Jersey várias vezes. Por que pensa que esse lugar continua tendo importância?

—        Se você tivesse se criado em Nova Jersey, saberia por que, replica Marino, e a expressão de seu rosto se intensifica.

—        Isto não é uma resposta, Pete.

—        Meu pai era um bêbado. Ficávamos no lado errado das vias. As pessoas continuam me vendo como uma pessoa de Nova Jersey, e ai me arrancam tudo.

—        Quem sabe deva ser ao rosto que põe, Pete, não ao que os demais põem, repete a doutora. — Quem sabe você seja a causa de tudo.

 

Nesse momento o telefone situado na mesa contigua à poltrona de couro da doutora Self toca e no rosto de Marino aflora a mesma expressão, desta vez muito mais intensa. Não gosta que uma ligação interrompa sua sessão, embora a doutora não atenda. Não compreende por que continua utilizando uma tecnologia tão antiquada em lugar da secretária eletrônica, que é silenciosa e não faz ruidozinhos quando alguém deixa uma mensagem, que não irrita, lembra a miúdo à doutora. Ela, discretamente, olha o relógio de pulso, grande e de ouro, com números romanos que enxerga bem sem os óculos.

 

Dentro de doze minutos terminará a sessão. Pete Marino tem dificuldades com os finais, com tudo o que termina, se extingue, ou morre. Não é por casualidade a doutora Self programa suas conversas para as últimas horas da tarde, preferivelmente ao redor das cinco, quando começa a escurecer e cessam os chuviscos e as tempestades do meio-dia. Marino é um caso curioso; se não fosse assim, ela não o trataria. É só questão de tempo para conseguir convencê-lo a ir como paciente convidado a seu programa de rádio ou talvez a seu espaço na televisão. Seria impressionante diante da câmera, muito melhor do que esse insípido e néscio doutor Amos.

 

Nunca teve um policial como convidado. Quando ela foi a palestrante convidada de uma sessão de verão da Academia Nacional de Medicina Legal, e ele se sentou a seu lado, colocou na cabeça que aquele homem poderia ser um convidado fascinante para seu programa, possivelmente um convidado assíduo. Desde aquela época, necessitava de terapia. Bebia demasiado. Tomou quatro whiskies diante dela. Fumava, se notava no hálito. Também comia compulsivamente: serviu-se de três pastéis. Quando ela o conheceu se encontrava próximo da autodestruição, cheio de ódio até de si mesmo.

 

—        Eu posso ajudá-lo, disse naquela noite.

—        Em que? Reagiu como se o tivesse chutado por baixo da mesa.

—        Com suas tempestades, Pete. Suas tempestades internas. Fale-me de suas tempestades. Afirmo o mesmo que afirmei a todos estes jovens alunos tão inteligentes. Pode dominar esse tempo intempestivo, pode fazer o que quiser. Pode ter tempestades ou tempo ensolarado. Pode agachar-se e esconder-se ou caminhar ao descoberto.

—        Em meu tipo de trabalho, preciso ter cuidado de caminhar ao descoberto, disse ele.

—        Eu não quero que se mate Pete. Você é um homem interiormente grande, inteligente, aposto. Eu quero que continue muito tempo conosco.

—        Entretanto se nem sequer me conhece.

—        Conheço-o melhor do que você imagina.

 

E começou a vê-la. Ao cabo de um mês, reduziu a dose de álcool e tabaco e emagreceu cinco quilos.

 

—        Agora mesmo não tenho esse rosto. Não sei do que fala, diz Marino apalpando-se com os dedos como faria um cego.

—        Sabe que tem. No instante em que parou de chover, você adotou essa expressão. Pete, seja o que for o que sente, se reflete no seu rosto, afirma com ênfase. — Me pergunto se essa expressão não é da época de Nova Jersey. O que acha?

—        Acho que tudo isto é uma bobagem. No princípio vim vê-la porque não conseguia deixar de fumar e estava comendo e bebendo um pouco de mais. Não vim porque tivesse uma expressão estúpida no rosto. Nunca reclamaram que eu tivesse uma expressão estúpida no rosto. Ela não me deixou por culpa de nenhum rosto que eu tivesse. Nenhuma das mulheres com quem saí o fez.

—        E a doutora Scarpetta?

 

Marino fica tenso, pois uma parte dele sempre foge quando surge o tema Scarpetta. A doutora Self esperou intencionadamente que a sessão estivesse a ponto de terminar para colocar o tema Scarpetta.

 

—        Agora mesmo deve estar no depósito.

—        Sempre está, mesmo que não seja como paciente... Comenta a doutora com ligeireza.

—        Hoje não estou com humor para brincadeiras. Trabalhava em um caso e me afastaram dele. Ultimamente, essa é a história de minha vida.

—        Foi Scarpetta quem o afastou?

—        Não teve tempo de fazê-lo. Eu não desejava que se criasse um conflito de interesses, assim não assisti à autópsia, porque alguém poderia me acusar de algo. Além disso, é bastante óbvio do que morreu essa mulher.

—        Acusá-lo de que?

—        As pessoas estão sempre me acusando de algo.

—        Na semana que vem falaremos de sua mania de perseguição. Tudo termina girando ao redor da expressão de seu rosto. Não acredita que Scarpetta pode ter captado alguma vez esse gesto? Porque eu estou certa de que sim. Deveria perguntar.

—        Isto é uma puta merda.

—        Lembre que o que falamos nos aproxima dos fatos. Lembre o pacto que fizemos. Falar sobre fatos não é mais do que uma representação. Eu quero que me fale o que sente não que me faça uma interpretação.

—        Pois o que sinto é que isto é uma puta merda. A doutora Self sorri como se fosse uma criança travessa que necessita de uma palmada. — Não teria iniciado isto porque tenho uma expressão concreta no rosto, uma expressão que você acha que eu tenho e que eu acho que não tenho.

—        Por que não pergunta a Scarpetta a respeito?

—        Porque sinto que não devo fazê-lo.

—        Falemos disso, sem representar.

 

Realiza-se ao falar isso. Pensa na frase com que promove seu programa na rádio: «Fale disso com a doutora Self».

 

—        O que aconteceu hoje? Pergunta a seu paciente.

—        Está brincando comigo? Encontrei com uma anciã à que haviam estourado a cabeça. E não adivinha quem era o detetive?

—        Eu diria que é você, Pete.

—        Não estou precisamente no comando, replica ele. — Nos velhos tempos estaria. Já falei isso. Posso ser o investigador do assassinato e ajudar o médico. Entretanto não posso responsabilizar-me globalmente pelo caso a não ser que a jurisdição à que corresponda me passe, e Reba não fará isso de modo nenhum. Ela não sabe uma merda.

—        Que eu me lembre, você teve contato com ela até que ela lhe faltou ao respeito e tentou humilhá-lo, segundo o que você me disse.

—        Não deveria ser uma puta detetive, exclama Marino com o rosto congestionado.

—        Fale-me disso.

—        Não posso falar de meu trabalho. Nem sequer com você.

—        Não estou pedindo detalhes de casos nem de investigações, embora possa me falar o que quiser. O que acontece nesta sala jamais sai daqui.

—        A menos que comente pelo rádio ou por esse novo programa de televisão que tem agora.

—        Isto não sai no rádio nem na televisão, ela responde com outro sorriso. — Se quiser ir a um dos programas, posso ajeitar. Sua participação seria muito mais interessante que a do doutor Amos.

—        Esse é um imbecilem tempo integral.

—        Pete... Adverte a doutora, com amabilidade naturalmente. — Sei muito bem que não gosta do doutor Amos e que também tem ideias paranoicas sobre ele. Neste momento nesta sala não tem nenhum microfone nem nenhuma câmera, tão só você e eu.

 

Marino olha ao redor como se não estivesse certo de acreditar nela e diz:

 

—        Não gostei que falasse com ele justo diante do meu nariz.

—        Suponho que se refere à Benton e Scarpetta.

—        Me obriga a reunir com ela e agora se põe a falar por telefone tendo a mim sentado à frente.

—        Se parece muito ao que acontece quando meu telefone faz ruídos.

—        Poderia ter ligado quando eu não estivesse. Fez de propósito.

—        É um costume que tem, não é verdade? Comenta a doutora Self. Questionar a sua amante diante de você quando sem dúvida sabe o que sente, mas têm suspeitas.

—        Suspeitas? De que? Ele é uma criança rica, um antigo elaborador de perfis do FBI de fancaria.

—        Isto não é verdade. É psicólogo forense, membro do professorado de Harvard, e provém de uma distinta família da Nova Inglaterra. Parece bastante impressionante.

 

Ela não conhece Benton. Gostaria de conhecê-lo. Ficaria feliz em tê-lo em seu programa.

 

—        É uma velha glória. As velhas glórias se dedicam a ensinar.

—        Acho que ele faz alguma coisa a mais do que ensinar.

—        É uma puta sacanagem.

—        Parece que as maiorias das pessoas que conhece já são velhas glórias. Inclusive Scarpetta. Também disse isso dela.

—        Eu falo como vejo.

—        Me pergunto se você não se sente também uma velha glória.

—        Quem, eu? Está de brincadeira? Eu sou capaz de levantar o dobro do meu peso, e o outro dia estive correndo na rua. A primeira vez em vinte putos anos.

—        Está quase acabando o nosso tempo, lembra a doutora de novo. — Falemos de sua raiva de Scarpetta. Tem a ver com confiança, não é?

—        Tem a ver com respeito. Com o fato de que me trata como se fosse um merda e de que mente para mim.

—        Você pensa que ela já não confia em você pelo que aconteceu o verão passado nesse lugar de Knoxville em que estão realizando todas essas investigações sobre cadáveres. Como se chama? A Investigação da Morte ou algo assim.

—        A Granja de Corpos.

—        Ah, sim.

 

Que interessante tema de conversa para falar em um de seus programas: «A Granja de Corpos não é o nome de um balneário”. O que é a morte? Fale disso com a doutora Self». Já tem a frase de promoção.

 

Marino consulta seu relógio levantando o pulso com teatralidade para ver as horas, como se não se importasse que estivesse a ponto de esgotar o tempo, como se estivesse desejando isso.  Entretanto ela não se deixa enganar..

 

—        Medo. A doutora Self inicia seu resumo. — Um medo existencial de não valer para ninguém, de não ser importante para ninguém, de estar completamente só. Quando termina o dia, quando termina a tempestade. Quando acabam as coisas. Dá medo que acabem as coisas, não é verdade? Acaba o dinheiro, acaba a saúde, acabam a juventude e o amor. Talvez acabe a sua relação com a doutora Scarpetta? Ou pode ser que finalmente a refaça?

—        Não há nada para acabar, exceto o trabalho, e isso vai durar para sempre porque as pessoas são uma merda e continuarão matando-se muito depois de eu receber minhas asinhas de anjo. Não penso voltar mais aqui para ouvir todas estas sandices. A única coisa que você faz é falar da doutora. Acho que é bastante óbvio que meu problema não é ela.

—        Agora sim que temos que deixá-lo. Levanta-se de sua poltrona e sorri.

—        Parei de tomar esse remédio que me receitou. Faz já um par de semanas, porém me esqueci de contar. Marino se levanta também e sua enorme presença parece encher a sala. — Não faz nenhum efeito, assim parei, diz.

 

Quando Marino está de pé, a doutora Self sempre fica um pouco surpreendida de como é grande. Suas mãos bronzeadas pelo sol lembram luvas de beisebol ou dois melões. Imagina-o afundando o crânio ou pescoço de alguém, fazendo picadinho dos ossos de outra pessoa como se foram batatas fritas.

 

—        Falaremos do Effexor a semana que vem. Marcaremos para... Apanha a agenda de consultas, — Na próxima segunda às cinco.

 

Marino olha pela porta aberta, escudrinhando a pequena e ensolarada sala exterior, com sua mesa, suas duas poltronas e suas plantas, várias delas palmeiras, tão altas que quase tocam o teto. Não existem outros pacientes esperando, nunca a esta hora do dia.

 

—        Sim, responde. — Menos mal que nos apressamos e terminamos na hora. Odeio fazer as pessoas esperarem.

—        Me pagará na próxima consulta? É a maneira que a doutora Self tem de recordar que lhe deve trezentos dólares.

—        Sim, sim. Esqueci o talonário de cheques, responde.

 

Naturalmente que esqueceu. Não é sua intenção dever dinheiro à doutora. Pensa em retornar.

 

Benton estaciona seu Porsche em um local reservado para visitas, do outro lado da alta cerca metálica, curvada como uma onda a ponto de romper e coroada por arame farpado em espiral. As torres de vigilância se elevam em cada esquina do recinto, recortadas contra o céu frio e nublado. Paradas em um estacionamento lateral se encontram várias camionetes brancas e sem distintivos, que têm painéis divisórios de aço, sem janelas nem portas interiores; são celas que são utilizadas para apanhar do recinto a pessoas como Basil.

 

Os oito andares de concreto com janelas protegidas por tecido de aço do hospital estatal Butler ocupam uma superfície de oito hectares. Rodado de bosques, o edifício se encontra a menos de uma hora a sudoeste de Boston. Ao Butler enviam a quem infringe a lei devido a alguma enfermidade mental; é considerado um modelo de bom tratamento por suas condições especiais de alojamento, onde cada um é especializado em acolher pacientes que requerem diferentes graus de segurança e de atenção. No Pavilhão D, independente e não muito longe do edifício de Administração, se alojam aproximadamente uma centena de perigosos criminosos.

 

Segregados do resto do hospital, passam a maior parte do dia, dependendo de sua condição, em celas individuais, cada uma delas com seu banheiro, que podem utilizar dez minutos ao dia. Os vasos sanitários podem ser utilizados duas vezes por hora. O Pavilhão D tem um grupo de psiquiatras forenses e de outros profissionais do sistema judicial e de saúde mental, que entram e saem, como Benton, com regularidade. Dizem que o Butler é um espaço humano e construtivo, um lugar onde se restabelecer. Entretanto para Benton não é mais que um belo lugar de confinamento de máxima segurança para pessoas que jamais poderão se reabilitar. Não abriga ilusões. Os indivíduos como Basil não têm uma vida e nunca a tiveram. São criminosos e sempre serão se tiverem oportunidade.

 

No vestíbulo pintado de branco, Benton se aproxima de um vidro blindado e fala por um intercomunicador.

 

—        Como vai, George?

—        Não muito melhor que da última vez que me perguntou.

—        Lamento que fale isso, diz Benton. Nesse instante, um sonoro rangido metálico permite a entrada na primeira série de portas herméticas. — Isto quer dizer que ainda não o convenceram a ver o seu médico?

 

A porta se fecha às suas costas e ele deposita sua maleta sobre uma mesinha metálica. George tem sessenta e tantos anos e nunca está bem. Odeia seu trabalho, a sua esposa, o tempo que faz. Também odeia os políticos e, quando pode, retira a fotografia do governador que fica na parede do vestíbulo. Está a um ano lutando contra o esgotamento extremo, problemas de estômago e a sensação de que lhe dói todo o corpo. Também odeia os médicos.

 

—        Não penso em tomar remédios. Para que? Isto é o que fazem agora os médicos, enchê-lo de remédios. George revista a maleta de Benton antes de devolvê-la. — Seu amigo está no lugar de sempre. Que se divirta.

 

Outro rangido e Benton atravessa uma segunda porta de aço. Um guarda de uniforme marrom, Geoff, o conduz por um corredor muito brilhante e o faz passar por outra série de portas herméticas que ficam na unidade de segurança máxima em que os trabalhadores de saúde mental e os advogados se reúnem com os internos em umas salas pequenas e sem janelas, de ladrilhos cinzentos.

 

—        Basil diz que não lhe entregam a correspondência, comenta Benton. 

—        Basil diz muitas coisas, responde Geoff sem sorrir. — A única coisa que faz é reclamar. Em seguida abre uma porta de aço cinzenta para que Benton entre.

—        Obrigado, diz Benton.

—        Estarei aqui mesmo. Geoff dirige um olhar fulminante para Basil e fecha a porta.

 

Basil está sentado a uma mesinha de madeira e não se levanta. Não está algemado e está usando a roupa normal da cadeia: calça azul, camiseta branca e sandálias com meias. Tem os olhos injetados de sangue e o olhar distraído.

 

—        Como está, Basil? Pergunta Benton sentando em frente a ele.

—        Tive um mal dia.

—        Isto me disseram. Fale.

—        Estou nervoso.

—        Está dormindo bem?

—        Passo quase toda a noite acordado. Não paro de pensar em nossa conversa.

—        Parece agitado, fala Benton.

—        É que não consigo ficar quieto. É por culpa do que disse. Preciso de algo, doutor Wesley. Preciso de Ativam ou que seja. Já viu as imagens?

—        Que imagens?

—        As de minha cabeça. Deve tê-las visto, sei que é um homem curioso. Por aqui todo o mundo sente curiosidade, não é? Fala com um sorriso nervoso.

—        É para isso que queria me ver?

—        Principalmente.. Além disso, quero minha correspondência. Não querem me dar e eu não posso comer nem dormir, alterado e estressado que estou. E quem sabe também um pouco de Ativam. Espero que tenha pensado naquilo.

—        Em que?

—        No que contei da mulher que foi assassinada.

—        A mulher da Loja de Natal.

—        Dez-quatro.

—        Sim, estive pensando no que me contou, Basil, afirma Benton, como se aceitasse que o que falou Basil é verdadeiro.

 

Não pode deixar que descubram que ele pode identificar quando um paciente está mentindo, em nenhum caso. Neste não está certo de que Basil minta, nem muito menos.

 

—        Voltemos a esse dia de julho, há dois anos e meio, propõe Benton.

 

Marino se irrita porque a doutora Self fechou a porta e passou imediatamente o ferrolho, como se ele não existisse. Se sente insultado por esse gesto e pelo que implica. Sempre lhe acontece o mesmo. Ela não se importa, ele não passa de um cliente. Alegra-se de encerrar no horário e de não precisar suportar sua companhia até a próxima semana, e então aguentará cinquenta minutos justos, nem um segundo mais, embora tenha deixado de tomar os remédios. O remédio é uma merda. Se quer se deprimir, tome um antidepressivo que anule as relações sexuais.

 

Fica um instante de pé em frente à porta fechada do consultório, no ensolarado portal, contemplando com expressão aturdida as duas poltronas com almofadas verde claro e a mesa de vidro verde com uma pilha de revistas. Já leu todas as revistas, porque sempre chega cedo às consultas. Isto também o irrita. Preferiria chegar tarde, passar à sala como se tivesse melhores coisas a fazer do que ir ao médico, porém se ele se atrasa perde minutos, e não pode se permitir o luxo de perder nem sequer um, quando cada minuto conta e custa tão caro.

 

Seis dólares, para ser exatos. Cinquenta minutos e nem um mais, nem um segundo a mais. A doutora não vai exceder-se um ou dos minutos por acaso, nem como gesto de boa vontade nem por nenhum outro motivo. Poderia ameaçar se matar, que ela olharia o relógio de pulso e diria: «Temos que encerrar.» Ele poderia estar contando um caso de assassinato, a ponto de apertar o gatilho, que ela diria: «Temos que encerrar».

 

—        Entretanto não sente curiosidade? Perguntou no passado. — Como pode terminar assim, de repente, quando nem cheguei ainda à parte interessante?

—        Me contará o resto na próxima ocasião, Pete. Sempre sorri.

—        Não. Terá sorte se eu contar, ponto. Muitas pessoas pagariam para conhecer o resto da história, a história verídica.

—        Na próxima ocasião.

—        Esqueça. Não haverá próxima ocasião.

 

A doutora não discute com ele quando é hora de encerrar. Faça o que fizer para roubar outro minuto, ou dois, ela se levanta, abre a porta e espera que saia para passar o ferrolho. Quando é hora de encerrar, não existe negociação. Seis dólares o minuto, em troca de quê? De ser insultado. Não sabe por que continua voltando.

 

Observa a pequena piscina em forma de rim com sua borda de azulejos espanhóis em cores. Observa as flores e as árvores carregados de fruta, as faixas vermelhas pintadas ao redor dos troncos. Mil e duzentos dólares ao mês. Por que o faz? Com esse dinheiro poderia comprar uma dessas camionetes Dodge com motor Viper V-10. Com mil e duzentos dólares por mês poderia comprar um monte de coisas.

 

Nisto ouve a voz da doutora atrás da porta fechada. Está ao telefone. Marino finge ler uma revista e escuta.

 

—        Perdão, quem é? Está falando a doutora Self.

 

Possui uma voz potente, uma voz radiofônica, que se projeta e transmite tanta autoridade como uma arma ou uma placa. Essa voz agarra de verdade. Gosta dela e ela também causa certo efeito sobre ele. E é bonita, é muito bonita, tanto que fica difícil sentar-se em frente a ela e imaginar outros homens sentados nessa mesma poltrona e vendo o que ele vê: esse cabelo escuro e essas feições delicadas, esses olhos brilhantes e esses dentes brancos e perfeitos. Não gosta que tenha começado a aparecer em um programa de televisão, não quer que outros homens vejam o sensual que ela é.

 

—        Quem é você e como conseguiu este número? Diz ela ao outro lado da porta fechada. — Não, não está e tampouco atende pessoalmente esse tipo de ligação. Quem é você?

 

Marino escuta, cada vez mais inquieto no ensolarado portal. Faz uma tarde quente e a água goteja das árvores e se condensa sobre a grama. A doutora Self não parece muito contente; fala com alguém a quem pelo visto não conhece.

 

—        Compreendo sua preocupação pela privacidade e estou certa de que entende que não é possível verificar a veracidade de sua afirmação se não diz quem é. Estas coisas têm que se submeter a uma ordem e ser verificada, do contrário a doutora Self não pode se ocupar delas. Entretanto isso é uma alcunha e não um nome autêntico. Ah, sim, entendo. Muito bem.

 

Marino se da conta de que ela está fingindo ser outra pessoa. Não sabe quem fala no telefone e isso a coloca nervosa.

 

—        Sim, muito bem, diz a pessoa que finge ser. — Pode fazer isso. Naturalmente, pode falar com o produtor. Reconheço que é interessante, certo, porém tem de falar com o produtor. Sugiro que o faça imediatamente porque o próximo programa trata desse tema. Não, o de rádio não; o novo programa de televisão, diz com a mesma voz firme, uma voz que atravessa com facilidade a madeira da porta e se derrama sobre o portal.

 

Por telefone fala muito mais alto do que durante as sessões. Isto é bom; não ficaria bem se os outros pacientes sentados no portal ouvissem tudo o que diz a Marino durante os breves, porém intensos cinquenta minutos de consulta. Quando estão juntos após essa porta fechada ela não fala tão alto. Claro, durante sua sessão nunca tem alguém aguardando no portal; ele sempre é o último, razão a mais para que afrouxasse um pouco e adicionasse uns quantos minutos. Ninguém esperaria, porque nunca tem alguém. Nunca. Um destes dias vai dizer algo tão importante e tão comovedor que concederá uns minutos adicionais. Pode ser que seja a primeira vez que faça algo assim em sua vida, e o fará com ele. E pode ser que nessa ocasião não seja ele quem disponha de mais tempo.

 

«Tenho de ir». Imagina-a falando, «Por favor, termine. Estou desejando saber o que aconteceu». «Não posso. Tenho que ir a um lugar». Se levanta da poltrona. «Na próxima ocasião. Prometo que contarei como acaba, quando... Vamos ver... Na semana que vem. Lembre-me».

 

Marino se dá conta de que a doutora Self já não está ao telefone; então cruza o portal silencioso como uma sombra e sai pela porta de vidro. Fecha-a sem fazer ruído e toma o caminho que rodeia a piscina, atravessa a horta de cítricos pintados com uma faixa vermelha e passa junto à pequena casa branca de estuque em que mora a doutora Self, porém não deveria morar. Simplesmente, não convém viver ali. Qualquer um poderia chegar andando até a porta da sua casa. Poderia até chegar andando ao seu consultório, situado na parte de trás, junto à piscina sombreada pelas palmeiras. Não é seguro. Todas as semanas escutam-na milhões de pessoas e ela morando desta maneira. Não é seguro. Deveria dar meia volta, bater à porta e falar isso.

 

Marino se irrita porque a doutora Self fechou a porta e passado imediatamente o ferrolho, como se o excluísse. Se sente insultado por esse gesto e pelo que implica. Sempre lhe acontece o mesmo. Ela não se importa, ele não passa de uma consulta. Alegra-se de encerrar no horário e de não precisar suportar sua companhia até a próxima semana, e então aguentará cinquenta minutos justos, nem um segundo mais, embora tenha deixado de tomar os remédios. O remédio é uma merda. Se quiser se deprimir, tome um antidepressivo que anule as relações sexuais.

 

Permanece uns instantes de pé frente à porta fechada do consultório, no ensolarado portal, contemplando com expressão aturdida as duas poltronas com almofadas verde claro e a mesa de vidro verde com uma pilha de revistas. As revistas já as leu todas, porque sempre chega cedo as consultas. Isto também o irrita. Preferiria chegar tarde, passar à sala como se tivesse melhores coisas a fazer do que ir ao médico, porém se ele se atrasa perde minutos, e não pode se permitir o luxo de perder nem sequer um, quando cada minuto conta e custa tão caro.

 

Seis dólares, para ser exatos. Cinquenta minutos e nem um mais, nem um segundo a mais. A doutora não vai exceder-se um ou dos minutos por acaso, nem como gesto de boa vontade nem por nenhum outro motivo. Já poderia ameaçá-la em se matar, que ela olharia o relógio de pulso e diria: «Temos que terminar.» Ele poderia estar contando um caso de assassinato, a ponto de apertar o gatilho, que ela diria: «Temos que terminar».

 

—        Entretanto não sente curiosidade? Perguntou no passado. — Como pode terminar assim, de repente, quando nem cheguei ainda à parte interessante?

—        Me contará o resto na próxima ocasião, Pete. Sempre sorri.

—        Não. Terá sorte se eu contar, ponto. Muitas pessoas pagariam para conhecer o resto da história, a história verídica.

—        Na próxima ocasião.

—        Esqueça. Não haverá próxima ocasião.

 

A doutora não discute com ele quando é hora de terminar. Faça o que fizer para roubar outro minuto, ou dois, ela se levanta, abre a porta e espera a que saia para passar o ferrolho. Quando é hora de terminar, não existe negociação. Seis dólares o minuto, em troca de que? De ser insultado. Não sabe por que continua voltando.

 

Observa a pequena piscina em forma de rim com sua borda de azulejos espanhóis em cores. Observa as flores e as árvores carregados de fruta, as faixas vermelhas pintadas ao redor dos troncos. Mil e duzentos dólares ao mês. Por que o faz? Com esse dinheiro poderia comprar uma dessas camionetas Dodge com motor Viper V-10. Com mil e duzentos dólares ao mês poderia comprar um monte de coisas.

 

Nisto ouve a voz da doutora atrás da porta fechada. Está ao telefone. Marino finge ler uma revista e escuta.

 

—        Perdão, quem é? Está falando a doutora Self.

 

Possui uma voz potente, uma voz radiofônica, que se projeta e transmite tanta autoridade como uma arma ou uma placa. Essa voz agarra de verdade. Gosta dela e ela também causa certo efeito sobre ele. E é bonita, é muito bonita, tanto que fica difícil sentar-se em frente a ela e imaginar outros homens sentados nessa mesma poltrona e vendo o que ele vê: esse cabelo escuro e essas feições delicadas, esses olhos brilhantes e esses dentes brancos e perfeitos. Não gosta que tenha começado a sair em um programa de televisão, não quer que outros homens vejam a sensual que ela é.

 

—        Quem é você e como conseguiu este número? Diz ela ao outro lado da porta fechada. — Não, não está e tampouco atende pessoalmente esse tipo de ligação. Quem é você?

 

Marino escuta, cada vez mais inquieto no ensolarado portal. Faz uma tarde calorosa e a água goteja das árvores e se condensa sobre a grama. A doutora Self não parece muito contente; fala com alguém a quem pelo visto não conhece.

 

—        Compreendo sua preocupação pela privacidade e estou certa de que entende que não é possível verificar a veracidade de sua afirmação se não diz quem é. Estas coisas têm que se submeter a um seguimento e serem verificadas, do contrário a doutora Self não pode se ocupar delas. Entretanto isso é uma alcunha não um nome autêntico. Ah, sim, entendo. Muito bem.

 

Marino se da conta de que está fingindo ser outra pessoa. Não sabe quem fala no telefone e isso a coloca nervosa.

 

—        Sim, muito bem, diz a pessoa que finge ser. — Pode fazer isso. Naturalmente, pode falar com o produtor. Reconheço que é interessante, certo, porém tem de falar com o produtor. Sugiro que o faça imediatamente porque o próximo programa trata desse tema. Não, o de rádio não; meu novo programa de televisão, diz com a mesma voz firme, uma voz que atravessa com facilidade a madeira da porta e se derrama sobre o portal.

 

Por telefone fala muito mais alto do que durante as sessões. Isto é bom; não ficaria bem se os outros pacientes sentados no portal ouvissem tudo o que diz a Marino durante os breves, porém intensos cinquenta minutos que passam juntos. Quando estão juntos após essa porta fechada ela não fala tão alto. Claro, durante sua sessão nunca tem alguém aguardando no portal; ele sempre é o último, razão a mais para que afrouxasse um pouco e adicionasse uns quantos minutos. Ninguém esperaria, porque nunca tem alguém. Nunca. Um destes dias vai dizer algo tão importante e tão comovedor que concederá uns minutos adicionais. Pode ser que seja a primeira vez que faça algo assim em sua vida, e o fará com ele. E pode ser que nessa ocasião não seja ele quem disponha de mais tempo.

 

«Tenho que ir», imagina-a falando. «Por favor, termine. Estou desejando saber o que aconteceu». «Não posso. Tenho que ir a um lugar». Se levanta da poltrona. «Na próxima ocasião. Prometo que contarei como acaba, quando... Vamos ver... Na semana que vem. Lembre-me».

 

Marino se dá conta de que a doutora Self já não está ao telefone; então cruza o portal silencioso como uma sombra e sai pela porta de vidro. Fecha-a sem fazer ruído e toma o caminho que rodeia a piscina, atravessa a horta de cítricos pintados com uma faixa vermelha e passa junto à pequena casa branca de estuque em que mora a doutora Self, porém não deveria morar. Simplesmente, não convém viver ali.

 

Qualquer um poderia chegar andando até a porta da sua casa. Poderia até chegar andando ao seu consultório, situado na parte de trás, junto à piscina sombreada pelas palmeiras. Não é seguro. Todas as semanas a escutam milhões de pessoas e ela morando desta maneira. Não é seguro. Deveria dar meia volta, bater na porta e falar isso.

 

Sua decorada Screamin Eagle Deuce está estacionada na rua; dá uma volta a seu redor para certificar-se de que ninguém tenha feito algo enquanto estava com a doutora. Pensa no pneu furado. Quando colocar as mãos em cima de quem fez isso, seja quem for... Uma ligeira capa de pó cobre a pintura azul e os cromados, e isso o irrita profundamente. Limpou a moto esta manhã, poliu centímetro a centímetro, e primeiro acontece um pneu furado e agora esta capa de pó. A doutora Self deveria ter um estacionamento coberto, deveria ter uma maldita garagem. Sua bonita Mercedes branca conversível se encontra no caminho de entrada, onde não cabe outro carro, de modo que seus pacientes estacionam na rua. Não é seguro.

 

Desbloqueia a moto e o contato e em seguida passa uma perna por cima do selim, pensando em que gosta muito de não precisar mais viver como o pobre polícia de cidade que foi durante quase toda sua vida. A Academia fornece um Humer H2, negro com motor V8 turbo diesel de 250 cavalos, transmissão de quatro velocidades, área exterior para transportar pesos, elevador e equipamento para todo o terreno. Comprou a Deuce e a decorou tal como pedia o corpo e, além disso, pode se permitir o luxo de ter um psiquiatra.

 

Põe em ponto morto e aperta o botão de ignição enquanto contempla a atraente casinha branca em que mora, porém não deveria morar a doutora Self. Acelera um pouco o motor, fazendo rugir os tubos de escapamento Thunder Head, enquanto, ao longe, se distingue o fulgor dos relâmpagos e um sinistro exército de nuvens que retroceden para descarregar sua artilharia sobre o mar.

 

Basil volta a sorrir.

 

—        Não encontrei nada parecido a um assassinato, está falando Benton. — Porém há dois anos e meio desapareceram uma mulher e sua filha de uma loja chamada A Loja de Natal.

—        Não contei isso? Diz Basil sorrindo.

—        Você não disse nada sobre o desaparecimento de alguém, nem da existência de alguma filha.

—        Não querem me dar a correspondência.

—        Já providenciei isso, Basil.

—        Me disse isso mesmo há uma semana. Quero minha correspondência. E quero hoje. Pararam de me entregar quando tive essa disputa.

—        Quando se aborreceu com Geoff e o chamou de Tio Remus?

—        E por isso não me entregam a correspondência. Acho que cospem na minha comida. Quero toda, toda a correspondência atrasada que estou a um mês esperando. Depois me mudará para outro lugar.

—        Isto eu não posso fazer, Basil. É para seu próprio bem.

—        Então imagino que não quer saber nada, replica Basil.

—        Que tal se eu prometer que terá sua correspondência antes que termine o dia?

—        Ou me entregam ou acabará nossa conversa sobre a Loja de Natal. Estou começando a me encher do seu projetinho científico.

—        A única loja de artigos de Natal que encontrei é uma que havia na praia, diz Benton. — Em catorze de julho desapareceram dali Florrie Quincy e sua filha de dezessete anos, Helen. Lhe diz algo, Basil?

—        Não me dou bem com nomes.

—        Descreva o que se lembra da Loja de Natal, Basil.

—        Árvores com luzes, trenzinhos e muitos enfeites, responde Basil, que já não sorri. — Já contei tudo isso. Fale-me do que encontrou dentro de minha cabeça. Viu as imagens? Aponta para a cabeça. — Deveria ver nelas tudo o que quer saber. Olhe, está me fazendo perder tempo. Quero minha maldita correspondência!

—        Já não prometi?

—        Também havia um baú na parte de trás, um desses grandes. Era uma estupidez. Dentro guardava um monte de enfeites fabricados na Alemanha, em caixas de madeira pintada. Coisas como Hansel e Gretel, Snoopy e Chapeuzinho Vermelho. Guardava debaixo de chave porque eram muito caros e eu disse: «Para quê? A única coisa que um ladrão precisa fazer é levar o baú inteiro. Acha mesmo que guardando estas coisas aqui debaixo de chave vai impedir que as roubassem?»

 

Imediatamente emudece e fica olhando fixamente para a parede de ladrilhos cinzentos.

 

—        O que mais falou com ela antes de matá-la?

—        Eu disse: «Vais morrer, puta.»

—        Em que momento falou do baú?

—        Não fiz nada disso.

—        Entretanto acaba de dizer que...

—        Em nenhum momento disse que falara do baú, replica Basil impaciente. — Quero que me deem algo. Por que não pode me dar algo? Não consigo dormir, não consigo ficar sentado quieto. Me dão ganas de foder tudo e agora entrei em depressão e não consigo me levantar da cama. Quero minha correspondência.

—        Quantas vezes ao dia se masturba? Pergunta Benton.

—        Seis ou sete. Quem sabe dez.

—        Mais do que de costume.

—        Você e eu tivemos nossa conversa à noite e durante o dia não fiz outra coisa. Não me levantei da cama a não ser para urinar e comer. Não me preocupei em tomar banho. Sei onde está essa mulher, diz então. — Quero minha correspondência.

—        A senhora Quincy?

—        Olhe, estou aqui dentro. Basil se reclina na cadeira. — Que tenho a perder? Que incentivo tenho para fazer o certo? Favores, um pouquinho de tratamento especial, colaboração quem sabe. Quero minha puta correspondência.

 

Benton se põe de pé e abre a porta. Fala para Geoff ir à sala do correio e descobrir o que aconteceu com a correspondência de Basil. Pela reação do guarda, descobre que está sabendo o que aconteceu e que não acha nenhuma graça em Basil se ocupar de algo que lhe transforme a vida em mais agradável. Assim, provavelmente é verdade: estavam retendo.

 

—        Preciso que o faça agora mesmo, fala Benton a Geoff, sustentando o olhar. — É importante.

 

Geoff confirma com a cabeça e sai. Benton fecha outra vez a porta e volta a sentar-se à mesa. Quinze minutos depois, Benton e Basil terminam a conversa, um conjunto de desinformação e joguinhos. Benton está chateado, porém dissimula; experimenta uma sensação de alívio quando aparece Geoff.

 

—        Sua correspondência está sobre a cama, lhe esperando, diz Geoff da porta, observando Basil com um olhar inexpressivo e frio.

—        Espero que não tenha roubado as revistas.

—        Não interessa a ninguém suas putas revistas de pesca. Desculpe doutor Wesley. E adiciona, dirigindo-se outra vez a Basil: — Tem quatro em cima da cama.

 

Basil lança a linha de uma imaginária vara de pesca.

 

—        O que escapa sempre é o maior, diz. — Quando eu era pequeno meu pai me levava para pescar. Quando não estava dando uma surra na minha mãe.

—        Estou lhe avisando Basil, diz Geoff. — Estou lhe avisando diante do doutor Wesley. Se voltar a me foder, Jenrette, sua correspondência e suas revistas de pesca não serão o único problema que vai ter.

—        Veja que é a isto me refiro, fala Basil a Benton. — Assim é como me tratam aqui.

 

Na loja, Scarpetta abre uma maleta para recolher provas que trouxe do Humer. Apanha uns vidros de perclorato sódico, carbonato sódico e Luminol, mistura-os com água destilada em um recipiente, agita e transfere a solução para um pulverizador negro.

 

—        Não é exatamente assim que pensava passar a sua semana de férias, não é? Diz Lucy enquanto fixa uma câmera de trinta e cinco milímetros a um tripé.

—        Nada como um pouco de tempo de qualidade, responde Scarpetta. — Pelo menos nos encontramos.

 

As duas estão protegidas com macacões brancos descartáveis, protetores para o sapato, óculos de segurança, máscaras e gorros. A porta do almoxarifado está fechada. São quase oito da noite e, uma vez mais, Apetrechos de Praia fechou antes da hora habitual.

 

—        Me dê só um minuto para fotografar o contexto, diz Lucy enroscando um disparador com o cabo no interruptor da câmera. — Lembra-se da época em que você tinha que usar uma meia?

 

É importante que o pulverizador não saia na fotografia e isso não é possível a não ser que o frasco e a boca sejam negros ou estejam cobertos com algo negro. Se não há outra coisa a mão, uma meia negra cai à perfeição.

 

—        É agradável contar com mais equipamentos, não é? Adiciona Lucy apertando o botão do disparador para abrir a objetiva. — Há muito que não fazíamos algo assim juntas. Seja como for, os problemas de dinheiro não são engraçados.

 

Enquadra uma área das estantes e do chão de concreto com a câmera em posição.

 

—        Não sei, diz Scarpetta. — Sempre os tivemos. Em muitos sentidos era melhor, porque os defensores não tinham uma lista interminável de perguntas às quais temos de contestar de forma negativa: você utilizou um microscópio Mini-CR? Utilizou fita métrica especial? Utilizou marcadores de trajetória à laser? Utilizou ampolas de água estéril? O quê? Utilizou água destilada engarrafada? E a comprou onde? Em um Seven-Eleven? Comprou artigos para recolher provas em uma loja vinte e quatro horas?

 

Lucy tira outra fotografia. 

 

—        Verificou o DNA das árvores, dos pássaros e a grama do jardim? Continua Scarpetta, pondo um pedaço de plástico negro em cima do pedaço de algodão que já tem na mão esquerda. — E pulverizou o setor inteiro em busca de alguma evidência?

—        Parece que está de muito mau humor.

—        E a mim me parece que estou cansada de que me evite. Só liga em ocasiões como esta.

—        Nenhuma melhor.

—        E o que eu sou para você? Um item da sua lista?

—        Não acredito que me pergunte isso. Pronta para que apague a luz?

—        Adiante.

 

Lucy puxa uma corda e apaga a lâmpada do teto. A sala fica completamente às escuras. Scarpetta começa por pulverizar com Luminol uma amostra de sangue de controle, uma única gota de sangue seca sobre um quadrado de papelão: resplandece um momento com um brilho azul esverdeado e se desvanece. Então começa a pulverizar à direita e à esquerda humedecendo áreas ladrilhadas que começam a brilhar intensamente, como se o chão inteiro estivesse em chamas, chamas de neon azul esverdeado.

 

—        Deus santo, exclama Lucy. A objetiva funciona de novo e Scarpetta pulveriza um pouco mais. — Nunca havia visto algo assim.

 

A intensa luminescência azul esverdeada se desvanece após uns segundos ao ritmo lento e fantasmal da pulverização. Quando esta termina, a escuridão volta e Lucy acende a luz. Scarpetta e ela estudam o chão de cimento.

 

—        Eu não vejo nada além de sujeira, diz Lucy, frustrada.

—        Vamos varrer antes de pisá-lo mais do que já pisamos.

—        Merda! Exclama Lucy. — Quem dera que tivéssemos utilizado antes o microscópio Mini-Cr.

—        Poderemos fazê-lo mais tarde, diz Scarpetta.

 

Com ajuda de um pincel limpo, Lucy varre um pouco de sujeira do chão e a coloca em uma bolsa de plástico para provas. Em seguida volta para a câmera e o tripé. Tira mais fotografias do contexto, agora das estantes de madeira; apaga a luz e desta vez o Luminol reage de um modo diferente. Iluminam-se de azul elétrico várias áreas manchadas que dançam como chispas, e a câmera dispara uma e outra vez, e Scarpetta não para de pulverizar, e o intenso azul palpita rapidamente, se ilumina e se apaga muito mais depressa do que é o normal no caso de sangue e da maioria das substâncias que reagem à luminescência química.

 

—        Detergente, diz Lucy, porque várias substâncias dão falsos positivos e o detergente é uma delas; seu aspecto é característico.

—        É algo com um espectro diferente; embora se pareça bastante com detergente, responde Scarpetta. — Poderia ser um produto de limpeza que contenha detergente com base de hipoclorito. Clourox, Drano, Fantastic, The Works, Babo Cleaner, para nomear uns quantos. Não me surpreenderia encontrar algo assim neste lugar. 

—        Ok?

—        Ok.

 

A luz se acende e ambas piscam os olhos ao brilho da lâmpada do teto.

 

—        Basil disse a Benton que havia limpado com detergente, aponta Lucy. — Entretanto o Luminol não vai reagir ao detergente ao cabo de dois anos e meio, não é?

—        Quem sabe, se infiltrou na madeira e ficou tal qual. E digo quem sabe por que não sei o que aconteceu na realidade, não sei se alguém realizou alguma vez uma prova como esta, diz Scarpetta procurando uma lupa com luz em sua bolsa. Em seguida olha através dela pelas bordas das estantes, lotadas de bugigangas e camisetas. — Se olhar bem, agrega, — Distinguirá a madeira um tanto descolorida aqui e acolá. Possivelmente tem um desenho em forma de salpicos.

 

Lucy fica a seu lado e empunha a lupa.

 

—        Acho que vi, anuncia.

 

Hoje esteve entrando e saindo e a ignorou por completo, exceto para trazer-lhe um sanduíche de queijo e mais água. Ele não mora aqui. Nunca está à noite, e se está é mais silencioso que um morto.

 

É noite, porém não sabe se muito ou pouco, e do outro lado da janela a lua se ocultou atrás de umas nuvens. Ouve-o se mover pela casa. Seu pulso acelera quando escuta suas passadas se aproximarem dela e esconde o pequeno tênis rosa às costas porque ele o tirará se descobrir que tem importância para ela. Agora aparece na forma de uma sombra escura que faz desaparecer um longo faixo de luz. Está com a aranha na mão. É a maior aranha que já viu em sua vida.

 

Tenta escutar para ver se ouve Kristin e as crianças enquanto a luz explora seus pulsos e seus tornozelos inchados e em carne viva. A luz explora o colchão e a túnica suja de cor verde escandaloso que tem sobre a parte baixa das pernas. Levanta os joelhos e os braços na tentativa de se cobrir quando a luz toca partes privadas de seu corpo. Encolhe-se sobre si mesma ao notar que ele a está olhando fixamente. Não consegue ver o seu rosto. Não tem ideia de como é. Sempre está de negro. De dia tapa o rosto com o capuz e se veste de negro dos pés a cabeça; de noite não pode vê-lo em absoluto, só distingue uma forma, porque ele lhe tirou os óculos.

 

Foi a primeira coisa que fez quando entrou a força na casa.

 

—        Me dê os óculos, ordenou. — Vamos.

 

Ela ficou paralisada na cozinha. O terror e a incredulidade a haviam deixado insensível. Não conseguia pensar, sentia como se o sangue tivesse escapado de seu corpo. Então o azeite de oliva que havia na frigideira começou a fumegar, as crianças desandaram a chorar e ele apontou a escopeta para elas. Também apontou para Kristin. Estava com o capuz, a roupa negra, quando Tony abriu a porta traseira e ele apareceu. Todo aconteceu muito depressa.

 

—        Me dê os óculos. 

—        Dê para ele, aconselhou Kristin. — Por favor, não nos faça mal. Leve o que quiser.

—        Se não fechar a boca mato a todos.

 

Ordenou as crianças que deitassem de cara para baixo no chão da sala e lhes deu um forte golpe na nuca com a culatra da arma para que não tentassem correr. Depois apagou todas as luzes e ordenou a Ev e a Kristin que arrastassem os corpos inertes das crianças pelo corredor e os apanhou pela porta corrediça do quarto principal. O chão manchou-se de sangue e não deixa de pensar que alguém deve ter visto esse sangue. A estas alturas, alguém deve ter estado na casa tentando descobrir o que aconteceu e deve ter visto o sangue. Onde está a polícia?

 

As crianças não saíram do jardim da piscina e ele as amarrou com cabos de telefone e as amordaçou com toalhas, embora não se movessem nem emitissem nenhum som. Em seguida, obrigou a Ev e a Kristin a ir caminhando na escuridão até o mono volume. Ev ficou ao volante. Kristin se instalou no assento dianteiro e ele se acomodou atrás, com o cano da escopeta apontando para a sua cabeça.

 

Sua voz fria e apagada disse onde devia ir.

 

—        Vou levar vocês a um lugar e depois retornarei para apanhar as crianças, disse a voz fria e apagada enquanto ela dirigia.

—        Por favor, chame alguém, rogou Kristin. — Precisam ir para um hospital. Por favor, não deixe que morram ali. São crianças.

—        Já disse que voltarei para apanhá-los.

—        Precisam de ajuda. Não são mais do que crianças pequenas. Órfãos. Seus pais morreram.

—        Bem, assim ninguém dará falta deles.

 

Sua voz era fria e inexpressiva, inumana, uma voz impessoal e sem sentimentos.

 

Lembra-se de ter visto sinais na estrada que indicavam Naples. Dirigiam-se ao oeste, até as Everglades.

 

—        Não consigo dirigir sem óculos, disse Ev. O coração batia com tanta força que acreditou que ia partir-lhe as costelas. Apenas conseguia respirar. Chegou a sair da calçada e então ele lhe devolveu os óculos, porém voltou a apanhá-los quando chegaram naquele lugar sinistro e horroroso em que se encontra desde então.

 

Scarpetta pulveriza as paredes de ladrilho do banheiro, que brilham formando um desenho, invisível com a luz acesa.

 

—        Limparam, aponta Lucy às escuras.

—        Não vou mexer mais, não quero correr o risco de destruir o sangue, se é que ainda existe. Fotografou?

—        Sim. Acende a luz.

 

Scarpetta apanha um equipamento de análise de manchas de sangue e passa um algodão pelas áreas em que viu reagir o Luminol, introduzindo a ponta do algodão no concreto poroso onde pode haver sangue incrustado, inclusive depois de limpo. Servindo-se de um conta-gotas, coloca sua mistura química sobre o algodão e este passa a ser de uma cor rosa forte, o que pode confirmar que o que brilhou na parede pode ser sangue, possivelmente sangue humano. Terá que verificar no laboratório.

 

Se for sangue, não se surpreenderia que fosse velho, de há dois anos e meio. O Luminol reage à hemoglobina dos glóbulos vermelhos e, quanto mais antigo é o sangue, mais se oxida e mais intensa é a reação. Continua passando o algodão empapado de água destilada, recolhendo amostras e guardando-as dentro de caixas de provas que em seguida etiqueta, com fita e as iniciais. Todo o trabalho durou uma hora, e ela e Lucy sentem calor com os trajes de proteção. Ouvem Larry do outro lado da porta, movendo-se pela loja. Em várias ocasiões toca o telefone.

 

Regressam ao almoxarifado e Lucy abre uma robusta maleta negra e apanha dela uma fonte luminosa forense para um microscópio Mini-Cr, uma unidade metálica portátil, quadrada e com entradas laterais, e uma lâmpada alógena de alta intensidade com braço flexível que parece uma mangueira de aço brilhante. A unidade tem uma luz guia que permite mudar a longitude de onda. Liga o microscópio, aciona o interruptor de corrente e um ventilador começa a zumbir. Ajusta com o comando a intensidade e fixa a longitude de onda em 455 nanômetros. As duas colocam óculos alaranjados que aumentam o contraste e protegem os olhos.  

 

Uma vez apagada a luz, Scarpetta carrega a unidade segurando pela asa e vai passando lentamente a luz azul pelas paredes, as estantes e o chão. O sangue e outras substâncias que reagiram ao Luminol não reagem a esta fonte luminosa, e as áreas que antes brilharam agora permanecem escuras. Entretanto aparecem várias manchas pequenas no chão de um tom vermelho intenso. Acendem a luz e Lucy volta a situar o tripé em posição e põe um filtro alaranjado sobre a lente da câmera. De novo com a luz apagada, fotografa as marcas vermelhas fluorescentes. Com a luz outra vez acesa as manchas apenas são visíveis, não são mais que uma suja decoração de um chão sujo e descolorido, porém ao olhá-lo com a lente de aumento Scarpetta detecta um ligeiríssimo tom vermelho. Seja o for, essa substância não se dissolve em água destilada, e não quer utilizar um solvente e arriscar-se a destruí-la.

 

—        Precisamos apanhar uma amostra. Scarpetta estuda o cimento.

 

Lucy abre a porta e chama Larry, que se encontra uma vez mais atrás do balcão, falando no telefone. Quando alça a vista e a vê coberta de papel plastificado dos pés a cabeça, se surpreende visivelmente.

 

—        Fui transportado em um raio luminoso à estação espacial Mir? Pergunta.

—        Tem ferramentas aqui? É para evitar ir até o carro.

—        Ali atrás tem uma caixa de ferramentas pequena. Na estanteria que está contra a parede. Mostra a parede em questão. — É uma caixa vermelha pequena.

—        Pode ser que eu tenha que estragar um pouco o chão. Só um pouco.

 

Parece que Larry vai dizer algo, porém muda de opinião, encolhe de ombros e ela fecha a porta. Apanha um martelo e uma cunha da caixa e, com uns quantos golpes, faz saltar lascas que contêm parte das manchas vermelhas e as guarda em bolsas de plástico. Em seguida Scarpetta e ela retiram os trajes protetores e os jogam numa lata de lixo. Apanham o equipamento e se vão.

 

—        Por que faz isto? Ev faz a mesma pergunta sempre que ele aparece, falando com voz rouca enquanto ele aponta a luz, que se crava nos olhos dela como se fosse uma faca. — Por favor, afaste esta luz do meu rosto.

—        É a porca mais gorda e feia que vi em minha vida, replica ele. — Não estranho que ninguém goste de você.

—        As palavras não podem me fazer mal. Você não pode me fazer mal. Eu pertenço a Deus.

—        Olhe. Quem ia querer ficar consigo? Pode agradecer que eu preste atenção.

—        Onde estão os outros?

—        Diga que sente. Sabe perfeitamente o que fez. Os pecadores devem ser castigados.

—        Por que fez isso? Faz a mesma pergunta de sempre. — Me solte. Deus te me desculpará.

—        Diga que sente. Empurra-lhe os tornozelos com as botas; a dor é horrível.

—        Deus santo, perdoa-o, reza Ev em voz alta. — Não vais querer ir para o inferno, fala. — Não é demasiado tarde.

 

A noite está muito escura, a lua se vê como uma forma desvaída em uma radiografia, imprecisa atrás das nuvens. Pequenos insetos voam ao redor das lâmpadas da rua. O trânsito não para em nenhum momento e a noite está cheia de ruído.

 

—        O que está lhe chateando? Pergunta Scarpetta a Lucy, que vai ao volante. — Esta é a primeira vez que estamos as duas a sós desde... Não lembro quando. Por favor, fale.

—        Poderia ter chamado Lex. Não era a minha intenção obrigá-la a vir.

—        E eu poderia ter dito que o chamasse. Não era necessário que eu fosse sua sócia esta noite.

 

As duas estão cansadas e de mau humor.

 

—        Pois aqui estamos, diz Lucy. — Me aproveitei deste caso para ter uma oportunidade de que nos coloquemos em dia. Poderia ter chamado Lex, repete, dirigindo com o olhar fixo à frente.

—        Não consigo decidir se está rindo de mim.

—        Em absoluto. Lucy se volta para ela sem sorrir. — Lamento algumas coisas.

—        E com razão.

—        Não precisa se apressar em ficar de acordo. Pode ser que nem sempre saiba como é minha vida.

—        O problema é que eu quero saber. Entretanto você constantemente me deixa de fora.

—        Tia Kay, na verdade não sabe tanto quanto imagina. Alguma vez pensou que estou lhe fazendo um favor? Que quem sabe deveria me ver tal como me conhece e esquecer-se do resto?

—        O que é o resto?

—        Eu não sou como você.

—        No importante sim, Lucy. Nós duas somos inteligentes, decentes, trabalhadoras. Tentamos fazer diferença. Assumimos riscos. Somos honradas. Quando tentamos, tentamos de verdade.

—        Eu não sou tão decente como você pensa. A única coisa que eu faço é machucar as pessoas; Se me dou bem, vou continuando com o tempo. E cada vez que faço me importo menos. Quem sabe eu esteja me convertendo em um Basil Jenrette. Quem sabe Benton deveria me levar para esse seu estudo. Tenho certeza de que minha cabeça é como a de Basil, como todos os demais putos psicopatas.

—        Não sei o que está acontecendo com você, diz Scarpetta reservadamente.

—        Eu creio que é sangue. Lucy faz de novo um de seus cortes bruscos, muda de tema de uma forma tão abrupta que fica chocante. — Acho que Basil está falando a verdade. Acho que matou essa mulher na loja. Tenho a impressão de que será sangue o que encontramos.

—        Esperemos para ver o que dizem no laboratório.

—        Iluminou o chão inteiro. Isto é muito estranho.

—        E por que Basil ia falar nisso? Por que agora? Por que a Benton? Responde Scarpetta. — Isto me intriga. Preocupa, de fato.

—        Com essas pessoas sempre existe um motivo. Por manipulação.

—        Me preocupo.

—        Fala para conseguir algo que deseja. Como poderia inventar?

—        Poderia estar sabendo do desaparecimento dessas pessoas da Loja de Natal. Saiu no jornal e ele era polícia de Miami. Pode ter escutado outros policiais falarem, sugere Scarpetta.

 

Quanto mais falam disso, mais se preocupam que Basil realmente tenha algo a ver com o que aconteceu a Florrie e Helen Quincy. Entretanto não entende como pode violentar e assassinar a mãe na loja; como retirou dali seu cadáver ensanguentado, ou os dois cadáveres, supondo que também tivesse matado Helen.

 

—        Sei, diz Lucy. — Eu também não entendo. E se as matou, por que não as deixou ali, simplesmente? A menos que não queria que soubessem que haviam sido assassinadas, a menos que queria que as dessem por desaparecidas, desaparecidas por vontade própria.

—        Isto me sugere a existência de um motivo, diz Scarpetta. — Não um homicídio sexual compulsivo.

—        Me esqueci de perguntar, diz Lucy. — Estou levando-a para casa, não é?

—        A estas horas, sim.

—        Que vai fazer com Boston?

—        Temos que nos encarregar do lugar do crime da senhora Simister, e neste preciso momento não estou para nada. Já tenho o suficiente por hoje. E Reba provavelmente também.

—        Nos terá dado permissão para entrar, suponho.

—        Sempre que ela nos acompanhe. Faremos já pela manhã. Estou pensando em não ir a Boston, porém isso não é justo com Benton. Não é justo para nenhum dos dois, se queixa Scarpetta, incapaz de eliminar de seu tom de voz a frustração e a desilusão que sente. — Claro, é sempre o mesmo. De repente aparecem casos urgentes para mim e de repente aparecem para ele. Não fazemos outra coisa a não ser trabalhar.

—        Que caso apareceu?

—        Uma mulher que encontraram próxima da lagoa de Walden, nua e com umas peculiares tatuagens falsas no corpo. Acho que as fizeram depois de assassiná-la. Umas impressões de mãos vermelhas.

 

Lucy segura o volante com mais força.

 

—        Porque acha que são falsas?

—        Porque são pintadas. Arte corporal define Benton. Apareceu com um capuz na cabeça, um cartucho de escopeta enfiado no reto, colocada em uma postura especial, degradante, etecetera. Não sei muito ao respeito, porém já saberei.

—        Sabem de quem se trata?

—        Sabem muito pouco.

—        Aconteceu algo parecido nessa zona? Homicídios semelhantes? Incluídas as impressões de mãos?

—        Pode desviar a conversa, Lucy, porém não vai lhe servir de nada. Não é você mesma. Engordou, então aconteceu algo grave, muito grave. Não é que se sentes mal, em absoluto, porém eu sei como é. Cansa-se muito a miúdo e não tem muito boa cara. Já me falaram. Eu não disse nada, porém sei que aconteceu algo ruim. Já estou sabendo há um tempo. Vai me contar?

—        Preciso saber mais sobre essas impressões de mãos.

 

—        Contei o que sei. Por quê? Scarpetta não afasta os olhos do rosto tenso de Lucy. — O que está acontecendo?

 

Ela continua olhando em frente e parece estar calibrando a forma de dar uma resposta adequada. Dá-se muito bem, é muito esperta, muito rápida e sabe reorganizar a informação até que suas invenções terminam sendo mais críveis que a verdade, e rara vez alguém dúvida ou pergunta. O que a salva é que ela não acredita nas suas próprias distorções nem manipulações da informação. Nem por um instante se esquece de quais são os fatos nem cai nas suas próprias invenções. Lucy sempre tem um motivo racional para o que faz, e às vezes é um bom motivo.

 

—        Deve ter fome, diz Scarpetta nesse momento. Fala em voz baixa, com suavidade, da mesma maneira que dizia as coisas quando Lucy era uma menina impossível, sempre fingindo que ela a fazia sofrer muito.

—        Quando já não pode comigo, sempre me dá de comer, diz Lucy com voz mansa.

—        Antes funcionava. Quando era pequena, era capaz de convencê-la do que fosse em troca de minha pizza.

 

Lucy fica em silêncio, com o semblante sério e desconhecido à luz vermelha de um sinal.

 

—        Lucy? Pensa em sorrir ou me olhar só uma vez?

—        Estive fazendo besteira. Rolos de uma noite. Machuquei pessoas. Na outra noite em Ptowm, voltei a fazer. Não quero ter intimidade com ninguém, quero que me deixem em paz. Parece que não posso evitar. Desta vez cometi uma autêntica estupidez. Porque não prestei atenção. Porque não me importo.

—        Nem sequer sabia que tivesse estado em Ptowm, aponta Scarpetta sem que soe a crítica. Não é a orientação sexual de Lucy o que a preocupa. — Antes tinha cuidado, diz Scarpetta. — Mais do que ninguém.

—        Tia Kay, estou doente.

 

A forma negra da aranha cobre o dorso da mão, e se aproxima dela flutuando, atravessando o facho de luz e se movimentando a poucos centímetros de seu rosto. Nunca havia aproximado tanto a aranha. Deixou as pernas sobre o colchão e as ilumina brevemente com a luz.

 

—        Diga que sente, insiste. — Tudo isto é sua culpa.

—        Abandona sua maldade antes que seja demasiado tarde, responde Ev, já com as pernas a seu alcance.

 

Está tentando-a para que as pegue. Apenas consegue vê-las, debaixo do facho de luz. Escuta para ver se ouve Kristin e às crianças, com a aranha em frente ao rosto como uma forma borrada.

 

—        Não deveria acontecer nada disto. Você procurou. Agora chegará o castigo.

—        Isto pode remediar-se, diz ela.

—        É a hora do castigo. Diga que sente.

 

Ev nota como bate o coração, seu medo é tão intenso que sente vontade de vomitar. Não pensa em pedir perdão. Não cometeu nenhum pecado. Se disser que sente, ele a matará. De alguma maneira, sabe.

 

—        Diga que sente! Exclama ele.

 

Nega-se a falar.

 

Ordena-lhe que diga que sente e ela não quer. Fica a rezar. Reza essa oração estúpida que a aproxima de seu débil Deus. Se esse seu Deus fosse tão poderoso, não estaria no colchão.

 

—        Poderíamos fazer como se isto não tivesse acontecido, diz ela com seu tom de voz rouco e exigente.

 

Nota seu medo. Ele exige que diga que sente. Por muitos sermões que lhe faça, está assustada. A aranha a faz tremer, suas pernas dão pulos sobre o colchão.

 

—        Serás perdoado. Serás perdoado se te arrependeres e nos deixar livres. Não contarei à polícia.

 

—        Não, não o fará. Jamais contará nada. As pessoas que contam coisas são castigadas, castigadas de um modo que nem sequer imagina. Tem uns dentes capazes de atravessar um dedo, de cravar-se na unha até o fundo, diz, referindo-se à aranha. — Existem tarântulas que mordem sem parar.

 

A aranha quase toca o rosto de Ev. Esta joga a cabeça para trás com uma exclamação surda.

 

—        Atacam uma e outra vez, e não param até que as arranque de cima. Se o mordem em uma artéria importante, morres. São capazes de lançar fluidos nos olhos e o deixar cego. É muito doloroso. Diga que sente.

 

Porco ordenou que dissesse, que dissesse que sentia, e então vê que a porta se fecha, a madeira velha com a pintura descolorida e o colchão sobre o chão velho e sujo; depois ouve o som da pá cavando na terra porque ele disse a ela que não contaria a ninguém a má ação que havia cometido e que as pessoas que contam coisas são castigadas por Deus, são castigadas de maneiras inimagináveis até que aprendem a lição.

 

—        Pede perdão. Deus te perdoará.

—        Diga que sente!

 

Enfoca com o facho os olhos de Ev, que os fecha de repente e afasta o rosto da luz, porém ele a encontra de novo.

 

Não pensa em chorar.

 

Quando cometeu aquela má ação, ela chorou. E disse que ia chorar, claro, se alguma vez contasse. E finalmente o fez. Contou, e então Porco não teve outro remédio a não ser confessar porque era verdade que ele havia cometido aquela má ação, e a mãe de Porco não acreditou nem uma palavra, disse que Porco não poderia haver feito aquilo, que não era possível, que ficava claro que se encontrava doente e transtornado.

 

Fazia frio e nevava. Ele não conhecia um tempo assim, havia visto pela televisão e no cinema, porém não o conhecia por experiência própria. Lembra-se de edifícios antigos de ladrilho, lembra-se de vê-los pelas janelas do carro quando estiveram ali, lembra-se do pequeno vestíbulo em que se sentou com sua mãe para esperar o médico, um lugar muito iluminado em que havia um homem sentado em uma cadeira e movendo os lábios, colocando os olhos em branco, conversando com alguém que não estava presente.

 

Sua mãe entrou para falar com o médico e deixou-o sozinho no vestíbulo. Ela contou ao médico a má ação que Porco afirmava ter cometido, disse que não era verdade e que ele estava muito doente, que se tratava de um assunto privado e que a única coisa que importava era que Porco fosse embora e não ficasse por ali falando daquela maneira, destroçando o bom nome da família com suas mentiras.

 

Ela não acreditava que Porco tivesse cometido a má ação.

 

Disse a Porco o que ele deveria falar ao médico: «Que você não está bem. Que não pode evitar. Imaginas coisas, mente e se deixa influir facilmente. Vou rezar por você. E seria bom que você também rezasse para você mesmo, que pedisse a Deus que o perdoe, diga que sente muito ter causado mal as pessoas que não fizeram outra coisa a não ser serem boas consigo. Sei que está doente, porém deveria ter vergonha».

 

—        Vou colocá-la em cima de você, diz Porco se aproximando da luz. — Se a machucar, toca-a com o cano da escopeta, — Saberá qual é o verdadeiro significado da palavra castigo.

—        Deveria ter vergonha.

—        Já falei que não repita isso.

 

Empurra o cano da escopeta com mais força, até o osso, e ela grita. Dirige a luz até seu rosto feio, rechonchudo e cheio de manchas. Está sangrando. Corre sangue pelo seu rosto. Quando a outra a jogou no chão, a aranha machucou o abdome e derramou sangue amarelo.

 

—        Diga que sente muito. Ela disse que sentia. Sabe quantas vezes disse?

 

Imagina-a sentindo o movimento das patas peludas da aranha sobre o ombro direito, imagina-a sentindo como se move o animal por sua pele, como se detém e a ferra suavemente. Ela se senta contra a parede e estremece violentamente, olhando as patas que estão sobre o colchão.

 

Todo o caminho, até Boston foi uma viagem muito longa e fazia frio na parte de trás, onde ela viajava nua e amarrada. Ali atrás não tem bancos, só um chão de metal frio. Ela tinha frio.

 

Lembra-se dos edifícios antigos de ladrilho e os telhados de telhas cinzentas. Lembra quando sua mãe o levou ali em carro depois de que cometera a má ação, e de novo anos mais tarde, quando regressou por sua conta e morou entre os ladrilhos velhos e as telhas, porém não durou muito. Por culpa da má ação, não durou muito.

 

—        O que fez com as crianças? Ev tenta falar com vigor, tenta não dar a impressão de ter medo. — Solte-os.

 

Toca com a escopeta as suas partes íntimas e ela grita, e ele ri, chama-a de feia e gorda, diz que ninguém mais vai gostar dela, a mesma coisa que disse quando cometeu a má ação.

 

—        Estranho, continua, olhando fixamente seus peitos caídos, seu corpo gordo e fofo. — Tem sorte de que eu esteja fazendo isto. Ninguém mais faria. É demasiado repugnante.

—        Não contarei a ninguém. Solte-me. Onde estão Kristin e as crianças?

—        Voltei para apanhá-los, esses pobres órfãozinhos. Tal como disse. Inclusive voltei para deixar seu carro em casa. Eu tenho um coração puro, não sou um pecador como você. Não se preocupe. Os trouxe para aqui, tal como disse.

—        Não os ouço.

—        Diga, também os levou a Boston?

—        Não.

—        Na realidade não levou Kristin...

—        Lhe dei algo em que pensar. Estou certo de que ela ficou impressionada. Espero que saiba. E logo saberá de um modo ou de outro. Já não resta muito tempo.

—        A quem se refere? Comigo pode falar, eu não te odeio. Agora parece solidária.

 

Porco sabe o que ela tenta fazer. Ela acredita que vão ser amigos. Se falar com ele o necessário e fingir que não tem medo, até o ponto de dar a entender que gosta, ficarão amigos e ele não a castigará.

 

—        Não vai funcionar, diz Porco. — Todas tentaram e não funcionou. Foi genial. Se soubesse, ficaria impressionado. Estou mantendo muito ocupado aos dali de cima. Já não sobra muito tempo. Mais vale que o aproveite ao máximo. Diga que sente muito!

—        Não sei do que está falando, ela responde no mesmo tom hipócrita.

 

A aranha se agita sobre seu ombro; então ele estende uma mão na escuridão e a aranha volta a subir nela. Em seguida cruza a sala deixando-a sobre o colchão.

 

—        Corta esse cabelo asqueroso, diz. — Corte tudo. Se quando voltar não o tiver cortado, será pior para você. E não tente cortar as cordas, não existe nenhum lugar para que possa ir.

 

A neve brilha à luz da lua fora da janela do escritório de Benton, no andar superior. Sentado em frente a seu computador, com a luz apagada, olha fotografias no terminal até que encontra as que andava procurando.

 

Existem cem noventa e sete imagens perturbadoras e grotescas. Foi um autêntico calvário encontrar estas duas em particular porque está desconcertado com o que vê à frente. Se sente inquieto. Percebe que existe algo mais do que aparentemente aconteceu e está acontecendo, e se sente pessoalmente insultado com esse caso, que a estas alturas, com sua experiência, custa acreditar. Distraído, não havia anotado os números de série, pelo que demorou quase meia hora para encontrar as fotografias em questão, a 62 e a 74. Está impressionado com o detetive Thrush, com a polícia do estado de Massachusetts. Em um homicídio, sobretudo um como este, nunca se pode fazer grande coisa.

 

Nas mortes violentas nada melhora com o tempo. O lugar do crime desaparece ou se contamina e não se pode voltar a ele. O corpo muda com a morte, sobretudo após a autópsia, e não se pode voltar atrás. Assim os investigadores da polícia do estado colocaram todo o seu empenho nas câmeras, e agora Benton se sente entristecido pelas fotografias e as gravações de vídeo que está estudando desde que chegou a casa após sua visita a Basil Jenrette. Em seus vinte e tantos anos no FBI, acreditava ter visto tudo. Como psicólogo forense supunha que havia visto todas as combinações possíveis de excentricidades. Entretanto nunca viu nada parecido com isto.

 

As fotografias 62 e 74 não são tão explícitas como a maioria porque não mostram o que sobrou da destroçada cabeça dessa mulher sem identificar. Não a mostra em todo seu horror, ensanguentada e sem rosto. A morta lembra uma colher, uma casca vazia saindo de um pescoço, o cabelo negro e cortado a tesouradas irregulares com partes de matéria cinzenta, tecido e sangue seco. As fotografias 62 e 74, primeiros planos do cadáver do pescoço até os joelhos, causam uma impressão indefinível, a mesma que experimenta quando algo lembra um fato perturbador que não consegue recordar. Essas imagens estão tentando falar algo que já sabe, porém não consegue identificar. O quê? De que se trata?

 

Nas 62 se vê o torso colocado para cima sobre a mesa de autópsias. Na 74 está de colocado para baixo. Benton passa repetidamente de uma imagem à outra, estudando este torso nu, tentando encontrar alguma lógica nas impressões de mãos vermelho vivo e na abrasão da pele entre as omoplatas, uma zona de quinze por vinte centímetros em carne viva que parecem ser «fragmentos de madeira e terra», segundo o relatório da autópsia.

 

Imaginou a possibilidade de que as impressões de mãos tenham sido pintadas antes da morte, de que não tenham nada a ver com seu assassinato. Quem sabe, por alguma razão, a vítima já havia pintado essas impressões antes de se encontrar com seu agressor. Tem que pensar sobre isso, porém não acredita. O mais provável é que tenha sido o assassino que converteu o torso em uma obra de arte, um quadro que está degradando e que sugere violência sexual, umas mãos que agarram os peitos e a obrigam a abrir as pernas, símbolos que o assassino pintou no corpo enquanto a mantinha prisioneira, possivelmente quando ela se encontrava indefesa ou morta. Benton não sabe, não pode saber. Quem dera que este caso fosse de Scarpetta, oxalá tivesse ela ido ao lugar do crime e tivesse ela feito a autópsia. Quem dera que estivesse aqui. Entretanto, como de costume, algo aconteceu. 

 

Repassa mais fotografias e relatórios. Calcula que a vítima tivesse trinta e tantos ou quarenta e poucos anos, e seus restos mortais confirmam o que disse o doutor Lonsdale, que não estava morta há muito tempo quando acharam seu cadáver em uma estradinha que cruza o bosque de Walden, na próspera cidade de Lincoln. As amostras físicas retiradas deram negativo quanto a fluído seminal e o primeiro pensamento de Benton é que quem a matou e colocou seu cadáver no bosque estava motivado por fantasias sádicas, o tipo de fantasias sexuais que fazem da vítima um objeto.

 

Qualquer que seja a vítima, para ele não significa nada. Não é uma pessoa, mas sim um símbolo, uma coisa para fazer o que imaginasse, e o que imaginou foi degradá-la, aterrorizá-la, castigá-la, fazê-la sofrer, obrigá-la a enfrentar a sua própria morte iminente, violenta e humilhante, provar o sabor do cano da escopeta na boca e ver quando ele apertava o gatilho. Talvez a conhecesse ou talvez fosse uma completa desconhecida. Quem sabe a cercou e a sequestrou. Em toda Nova Inglaterra não se deu parte do desaparecimento de alguma pessoa que coincida com sua descrição, segundo a polícia estatal de Massachusetts. Não foi comunicado um desaparecimento como este em parte alguma. 

 

Além da piscina se encontra a garagem de barcos. É suficiente grande para uma embarcação de vinte metros, embora Scarpetta não tenha nenhuma nem nunca desejou ter, de nenhum tamanho nem modelo. Gosta de observar os barcos, sobretudo de noite, quando as luzes de proa e de popa se movem como as dos aviões ao longo do escuro canal, silenciosos salvo pelo rumor dos motores. Se as luzes dos camarotes estão acesas, observa como se movem as pessoas de um lado para outro, riem ou ficam sérias, ou simplesmente observa, e não sente nenhum desejo de ser um deles, nem de estar com eles.

 

Nunca foi como eles. Nunca quis ter nada a ver com eles. Desde pequena, quando era pobre e se sentia marginalizada, não se parecia com eles e não poderia estar com eles, e não por decisão própria. Agora sim, é por decisão própria. Sabe o que sabe, está aqui fora se imiscuindo em vidas que não têm interesse para ela, que são deprimentes e vazias, que dão medo.

 

Sempre temeu que ocorresse algo trágico a sua sobrinha. É natural que tenha pensamentos mórbidos sobre as pessoas de quem gosta, porém sempre tendeu mais a tê-los com Lucy. Scarpetta sempre teve medo de que Lucy sofresse uma morte violenta. Jamais havia pensado que pudesse adoecer, que a biologia pudesse voltar-se contra ela.

 

—        Comecei a ter sintomas absurdos, diz Lucy na escuridão, onde ambas estão sentadas em cadeiras de teca, entre dois pilares de madeira.

 

Sobre uma mesa se encontram bebidas, queijo e biscoitos salgados. Não tocaram no queijo nem nos biscoitos. Estão na segunda rodada.

 

—        Às vezes gostaria de ser fumante, agrega Lucy esticando a mão para apanhar sua tequila.

—        Você fala cada coisa estranha...

—        Não lhe era estranho em todos os anos que fumou. E continua sentindo vontade.

—        O que eu desejo não importa.

—        Isto é só uma frase, como se você estivesse a salvo de ter os mesmos sentimentos que outras pessoas, replica Lucy na escuridão, olhando a água. — Claro que importa. Importa tudo o que cada um deseja. Sobretudo quando não se pode ter.

—        Deseja-a? Pergunta Scarpetta.

—        A quem se refere?

—        A última mulher com quem ficou, lembra sua tia. — Sua conquista mais recente. Em Ptowm.

—        Não as considero conquistas, as vejo como breves fugas. Como fumar maconha. Suponho que isso é o mais deprimente. Que não significa nada. Só que desta vez pode ser que signifique algo, algo que não entendo. Pode ser que tenha me envolvido em algo. Tenho sido uma cega e uma imbecil.

 

Conta a Scarpetta de Stevie, de suas tatuagens, das impressões de mãos. É muito difícil falar disso, porém procura parecer indiferente, como se estivesse falando do que fez outra pessoa, como se estivesse falando friamente de um caso. Scarpetta fica em silêncio. Apanha seu copo e tenta pensar sobre o que Lucy acaba de falar. 

 

—        Quem sabe não signifique nada, continua Lucy. — Quem sabe seja uma coincidência. Existem muitas pessoas que gostam de arte corporal, pintam em cima todo o tipo de coisas estranhas, com tinta acrílica e látex.

—        Já estou me cansando das coincidências. Ultimamente têm acontecido muitas, diz Scarpetta.

—        Esta tequila é muito boa. Neste momento não me importaria em fumar um baseado.

—        Tenta me surpreender?

—        O fumo não é tão ruim como você pensa.

—        Então, você agora é médica.

—        É verdade.

—        Por que eu tenho a impressão de que você odeia a si mesma, Lucy?

—        Sabe uma coisa, tia Kay? Lucy se levanta e se volta até ela, com uma expressão tensa e marcada sob as tênues luzes da garagem. — Na realidade, não tens nem ideia do que eu fiz ou que estou fazendo. Assim que não finja que não sabe.

—        Isto parece uma espécie de acusação. Se eu falhei em algo, sinto muito. Sinto mais do que você possa imaginar.

—        Eu não sou você.

—        Naturalmente que não. E não para de repetir isso.

—        Eu não procuro algo permanente, alguém que me importe de verdade, uma pessoa com quem eu queira viver. Eu não quero ter um Benton, quero pessoas que possa esquecer. Rolos de uma só noite. Quer saber quantos eu já tive? Porque eu não contei.

—        Este ano, praticamente não teve nenhum contato comigo. Foi por isso?

—        É mais fácil.

—        Tens medo que eu a julgue?

—        Deveria.

—        O que me chateia não são estas acusações, e sim todo o resto. Na Academia se mostra muito reservada, não tem contato com os alunos, praticamente nunca está lá e, quando está, é se matando no ginásio ou subindo em um helicóptero ou na galeria de tiro ou testando algo, preferivelmente uma máquina, uma que seja bem perigosa.

—        Pode ser que utilizar máquinas seja a única coisa que eu faça bem.

—        Seja o que for que te falta, está frustrando-a, Lucy. Como bem sabe.

—        Também o meu corpo.

—        E o seu coração e sua alma? Que acha se começamos por aí.

—        Frios. Demasiado.

—        Eu sinto qualquer coisa menos frio. E sua saúde me interessa mais do que a minha própria.

—        Acho que ela preparou a jogada, sabia que eu estava no bar, trazia algo entre mãos.

 

Volta a falar dessa mulher, a das impressões vermelhas tão parecidas com as do caso de Benton.

 

—        Tem que falar a Benton sobre Stevie. Qual era seu sobrenome? Que sabe dela? Pergunta Scarpetta.

—        Sei muito pouco. Estou certa de que não tem relação, porém é muito estranho. Estava lá ao mesmo tempo em que matavam essa mulher e se desfaziam de seu cadáver. Nessa área.

 

Scarpetta não diz nada.

 

—        Pode ser que tenha alguma seita por essa área, diz Lucy. — Pode ser que exista um monte de pessoas que pintam impressões de mãos por todo o corpo. Não me julgue. Não preciso que me diga a imbecil e irresponsável que eu sou.  Scarpetta a olha em silêncio. Lucy seca os olhos.

—        Não estou julgando-a. Tento entender por que virou as costas a tudo que importava para você. A Academia é sua, era sua ilusão. Você odiava a autoridade organizada, em particular os federais. Assim criou uma unidade própria, seu próprio pelotão. E agora seu cavalo sem ginete deambula sem rumo pelo pátio do desfile. Onde está você? E nós, todas as pessoas que atraiu para a sua causa estamos nos sentimos abandonados. A maior parte dos alunos do ano passado não chegou a conhecê-la e temos professores que não a viram nunca e que não a reconheceriam se a vissem.

 

Lucy observa um veleiro com as velas arriadas que cruza adiante na noite. Seca outra vez os olhos.

 

—        Tenho um tumor, anuncia. — Na cabeça.

 

Benton amplia outra fotografia, uma que foi tirada no lugar onde encontraram o corpo.

 

A vítima parece uma repugnante criação de pornografia violenta, estendida de costas e aberta de braços e pernas, com uma calça branca ensanguentada ao redor dos quadris como um cinto e um par de calcinhas brancas ligeiramente ensanguentadas e com manchas de evacuação sobre a destroçada cabeça, como uma máscara, com duas aberturas para os olhos. Benton se reclina em sua cadeira, pensando. Seria simples imaginar que quem a deixou no bosque o fez só para chamar a atenção. Há algo mais.

 

Este caso o lembra de algo.

 

Medita sobre a calça dobrada como um cinto. Está do avesso, o que sugerem várias possibilidades. Em um dado momento, a vítima poderia ter-se visto obrigada a retirar ela mesma e em seguida voltar a vestir. Também poderia ser que o assassino a tivesse retirado depois de morta. É de linho. Na Nova Inglaterra nesta época do ano, a pessoas não usam nada de linho branco. Em uma fotografia que mostra a calça sobre uma mesa de autópsias forrada de papel, o desenho das manchas de sangue é revelador. A calça está cheia de sangue escuro na parte da frente, do joelho para cima. Do joelho para baixo mais umas quantas manchas e nada mais. Benton a imagina de joelhos no momento do tiro. Imagina-a ajoelhando-se. Tenta localizar Scarpetta pelo telefone. Não responde.

 

Humilhação. Controle. Completa degradação, deixar a vítima absolutamente desamparada, tão desamparada como uma criança pequena. Encapuzada como alguém a ponto de ser executado, possivelmente. Encapuzada como um prisioneiro de guerra a quem é necessário torturar e aterrorizar, possivelmente. O assassino monta uma cena que é parte de sua própria vida. Provavelmente de sua infância. Abusos sexuais, talvez. Sadismo, quem sabe. Isto é muito frequente. Faz à vítima o mesmo que fizeram com ele. De novo tenta ligar para Scarpetta, porém sem êxito.

 

Basil vem a sua mente. Basil deixou algumas de suas vítimas colocadas numa certa postura, reclinadas contra objetos, e, em um dos casos contra a parede de um banheiro de senhoras. Benton relembra o lugar do crime e as fotografias da autópsia das vítimas de Basil, e revê os rostos ensanguentados e sem olhos dos mortos. A semelhança está nisso; as aberturas para os olhos nas calcinhas lhe trazem à memória as vítimas sem olhos de Basil.

 

Entretanto claro, a chave poderia estar no capuz. Por alguma razão parece estar no capuz. Encapuzar uma pessoa é dominá-la por completo, eliminar toda a possibilidade de luta e de fuga, atormentá-la, aterrorizá-la, castigá-la. Nenhuma das vítimas de Basil aparecia encapuzada, que se saiba, porém sempre existem muitas coisas que se desconhecem a respeito do que acontece durante um homicídio sádico. E a vítima não vai contá-las.  

 

Benton se preocupa com a possibilidade de que tenha dedicado demasiado tempo ao cérebro de Basil. Tenta uma vez mais localizar Scarpetta.

 

—        Sou eu, anuncia quando ela responde.

—        Estava a ponto de ligar, diz ela laconicamente, friamente, com voz trêmula.

—        Parece alterada por algo.

—        Você primeiro, Benton, responde no mesmo tom, impróprio dela.

—        Esteve chorando? Benton não entende por que se comporta assim. — Queria falar do caso que tenho nas mãos. Ela é a única pessoa capaz de fazê-lo sentir-se assim, assustado. — Esperava poder falar consigo dele. Estou estudando-o neste preciso momento.

—        Me alegro de que queira falar comigo de algo. Ressalta a palavra «algo».

—        O que está acontecendo, Kay?

—        É Lucy, ela responde. — Isto é o que está acontecendo. E você já sabe há um ano. Como pôde me fazer isto?

—        Então ela contou para você, diz Benton, esfregando a testa.

—        Fizeram um escâner em seu maldito hospital e você não me disse nada. Bem, pois sabe de uma coisa? Lucy é minha sobrinha, não sua. Não tem o direito a...

—        Ela me fez prometer que...

—        Pois você não tinha esse direito.

—        Claro que tinha Kay. Ninguém pode falar com alguém sem o seu consentimento. Nem sequer os médicos.

—        Entretanto a você ela contou.

—        Por uma boa razão...

—        Isto é grave. Vamos ter que falar a sério. Não estou certa de que possa continuar acreditando em você.

 

Benton suspira. Sente o estômago encolhido como um punho. Raras vezes brigam e, quando o fazem, é terrível.

 

—        Agora vou desligar, diz Scarpetta. — Voltaremos a falar disso depois, repete.

 

Scarpetta desliga sem se despedir e Benton fica incapaz de se mover durante uns instantes em sua poltrona. Observa com o olhar perdido uma desagradável fotografia no terminal do computador e começa a digitar ociosamente, repassando de novo o caso, lendo relatórios, revisando o relato dos fatos que escreveu Thrush, tentando afastar de sua mente o que acaba de acontecer.

 

Foram encontradas marcas de arrasto na neve, que iam desde uma área de estacionamento até o ponto onde se achou o cadáver. Não existem impressões de pisadas que pudessem pertencer à vítima, só as de seu assassino. São aproximadamente do número nove, do dez quem sabe, e longas, de algum tipo de bota de motorista.

 

Não é justo que Scarpetta jogue a culpa nele. Não teve alternativa. Lucy o fez jurar que guardaria o segredo, disse que nunca o desculparia se falasse com alguém, sobretudo com sua tia ou Marino.

 

Não aparecem gotas nem manchas de sangue ao longo do rastro que deixou o assassino, o que sugere que envolveu o cadáver em algo antes de arrastá-lo. A polícia recuperou várias fibras das marcas do chão.

 

Scarpetta está provocando, ataca a ele porque não pode atacar Lucy. Não pode atacar o tumor de Lucy. Não pode se irritar com uma pessoa doente.

 

Entre as provas encontradas no cadáver existem fibras e resíduos microscópicos debaixo das unhas e colados com o sangue à pele aranhada e ao cabelo. A análise preliminar indica que em sua maior parte os ditos resíduos são fibras de tapete e de algodão; além disso, encontram-se minerais, fragmentos de insetos, de vegetação e de pólen do chão, que o médico legista chamou tão eloquentemente de «sujeira».

 

Quando toca o telefone da mesa de Benton, no identificador de chamadas aparece que é um número desconhecido e Benton imagina que se trata de Scarpetta. Assim se apressa a atender.

 

—        Alô, responde.

—        Quem está falando é a operadora do hospital McLean.

 

Titubeia um momento, profundamente desiludido. Scarpetta já poderia ter ligado; não lembra quando foi a última vez que atendeu ao telefone.

 

—        Queria falar com o doutor Wesley, diz a operadora.

 

É raro que o chamem assim. Há muitos anos que obteve este título, desde sua carreira no FBI, porém nunca insistiu para que as pessoas o chamassem de doutor.

 

—        É ele, responde.

 

Lucy se levanta na cama do quarto de convidados de sua tia. As luzes estão apagadas. Estava com muitas doses de tequila em cima para dirigir. Olha o número que aparece no terminal iluminado de seu Treo, o que tem prefixo 617. Se sente um pouco enjoada, um pouco bêbada.

 

Pensa em Stevie, lembra como fingiu se sentir irritada e foi embora bruscamente da casa. Pensa como Stevie a seguiu até o Humer estacionado e se transformou outra vez na mulher sedutora, misteriosa e segura de si mesma, da mesma maneira quando a conheceu no bar e, ao pensar nesse primeiro encontro no bar, sente o que sentiu então. Não quer sentir nada, porém sente e isso a inquieta.

 

Stevie a inquieta. Ela sabe de algo. Estava na Nova Inglaterra mais ou menos quando assassinaram essa mulher e deixaram na lagoa de Walden. As duas tinham impressões de mãos em vermelho no corpo. Stevie comentou que ela não as fizera que fora outra pessoa.

 

Quem?

 

Lucy aperta a tecla de discar, um pouco adormecida, um pouco assustada. Deveria ter investigado o número 617 que Stevie lhe deu, saber a quem pertence, se realmente é o número de Stevie ou mesmo se ela se chama Stevie. 

 

—        Alô.

—        Stevie? É o seu número. — Se lembra de mim?

—        Como ia esquecer? Ninguém poderia.

 

Sedutora. Seu tom de voz é doce, profundo, e Lucy sente o mesmo que sentiu no bar. Tem que se esforçar para lembrar por que está ligando. As impressões de mãos. Onde foram feitas? Quem?

 

—        Estava certa de que jamais voltaria a saber algo de você, diz a voz sedutora de Stevie.

—        Pois errou, responde Lucy.

—        Por que fala tão baixo?

—        Porque não estou em minha casa.

—        Suponho que não devo perguntar o que quer dizer isso. Entretanto faço muitas coisas que não deveria fazer. Com quem está?

—        Com ninguém, responde Lucy. — Continua em Ptown?

—        Saí depois de que você foi embora. Fiz a viagem de carro de uma só vez. Estou em casa.

—        Em Gainesville?

—        E você onde está?

—        Não me disse seu sobrenome, sonda Lucy.

—        Em que casa está se não é a sua? Achei que morasse em uma casa. Entretanto não sei.

—        Alguma vez voltará ao Sul?

—        Posso ir onde quiser. Ao Sul, onde? Em Boston?

—        Estou na Flórida, diz Lucy. — E gostaria de vê-la. Temos que conversar. Que tal se me disser seu sobrenome, para que não sejamos duas desconhecidas.

—        De que quer falar?

 

Não quer falar a Lucy qual é o seu nome completo. Não vale a pena perguntar outra vez; provavelmente não dirá, pelo menos por telefone.

 

—        Falaremos pessoalmente, diz Lucy.

—        Isto sempre é melhor.

 

Fala a Stevie que se encontre com ela em South Beach no dia seguinte às dez da noite.

 

—        Conhece um lugar que se chama Deuce? Pergunta.

—        É bastante famoso, fala Stevie com sua voz sedutora. — Conheço-o bem.

 

A redonda cabeça de metal brilha como uma estrela sobre o terminal.

 

No Laboratório de Armas da Polícia Estadual de Massachusetts, Tom, um forense especialista em armas de fogo, está sentado em meio a um conjunto de computadores e microscópios de comparação em uma sala tenuemente iluminada. Finalmente a Rede Nacional Integrada de Informação sobre Balística, a NIBIN, respondeu a sua pergunta.

 

Observa com atenção as imagens aumentadas das estrias e raspaduras transferidas das partes metálicas de uma escopeta e as cabeças de metal de dois cartuchos. Ambas as imagens estão superpostas, centradas, e as assinaturas microscópicas, como as chama Tom, perfeitamente alinhadas.

 

—        Claro, oficialmente, considerarei uma coincidência até que possa validá-la com o microscópio de comparação, está explicando por telefone ao doutor Wesley, o legendário Benton Wesley. «Isto é genial», não pode evitar pensar. — O que quer dizer que o forense do condado de Broward deve me enviar sua prova. Afortunadamente, isso não constitui nenhum problema, prossegue Tom. — De maneira provisória, permita que lhe diga que não acredito que exista a menor dúvida de que seja um acerto casual do computador; e em minha opinião, uma vez mais de maneira provisória, os dois cartuchos foram disparados pela mesma escopeta.

 

Aguarda a reação tenso, excitado, tão eufórico como se tivesse bebido dois whiskies sozinho. Dizer que foi um acerto é como falar ao investigador que ganhou na loteria.

 

—        Quem sabe sobre este caso de Hollywood? Pergunta o doutor Wesley sem sequer mostrar uma sombra de gratidão.

—        Para começar, que está solucionado, responde Tom, sentindo-se insultado.

—        Não estou certo de ter entendido, diz o doutor Wesley no mesmo tom descortês.

 

Está mostrando-se desagradecido e despótico, e é lógico. Tom não o conhece pessoalmente, nunca havia falado com ele e não tinha nem ideia do que poderia esperar. Entretanto escutou falar dele, escutou falar de sua antiga carreira no FBI, e todo o mundo sabe que o FBI se aproveita, que explora os demais investigadores, tratam-nos como se fossem inferiores e depois se atribui o mérito dos resultados que surjam do caso. É um prepotente. Lógico. Não é de estranhar que Thrush o tenha obrigado a falar diretamente com o legendário doutor Benton Wesley; Thrush não quer tratar com ele nem com ninguém que esteja ou tenha estado no FBI.

 

—        Foi fechado há dos anos, está falando Tom, recolhendo sua atitude amistosa.

 

Parece um lerdo. Isto sua mulher diz quando ferido em seu ego reage de maneira justificada. Tem direito a reagir, porém não quer comportar-se como um lerdo, como se tivessem lhe golpeado a cabeça com um porrete, como diz sua mulher.  

 

—        Em Hollywood houve um roubo, em uma loja das que abrem vinte e quatro horas, diz, procurando não parecer idiota. — Entrou um tipo com uma máscara apontando uma escopeta. Disparou contra um garoto que estava varrendo o chão e, em seguida, o encarregado do turno da noite disparou contra ele, com a pistola que guardava debaixo o balcão, acertando-o na cabeça.

—        Examinaram o cartucho na Balística?

—        Parece que sim, para ver se esse tinha relação com outros casos ainda por resolver.

—        Não entendo, repete o doutor Wesley impaciente. — O que aconteceu com a arma depois da morte do tipo da máscara? A polícia deveria tê-la recolhido. E agora voltam a utilizá-la em um homicídio, aqui, em Massachusetts?

—        Eu perguntei o mesmo ao forense do condado de Broward, Tom tenta com todas as suas forças não parecer um obtuso. — Me disse que depois de efetuar a prova de tiro com a arma, a devolveu ao Departamento de Polícia de Hollywood.

—        Bem, pois posso garantir que não está aqui, diz o doutor Wesley como se Tom fosse um simplório.

 

Tom morde uma parte do dedo até sair sangue da cutícula, um velho costume que irrita muito a sua mulher.

 

—        Obrigado, diz o doutor Wesley retirando-se do telefone, despedindo-o.

 

A atenção de Tom vaga até o microscópio da NIBIN em que está montado o cartucho em questão, do calibre doze, de plástico vermelho, com uma cabeça de metal que apresenta uma inusual marca causada pelo percussor. Fez deste caso uma prioridade. Passou o dia inteiro sentado em sua cadeira e também parte da noite, empregando iluminação anular, iluminação lateral e as devidas orientações nas posições três e seis, guardando cada imagem digitalizada, repetindo o resultado uma e outra vez com as marcas da câmera, a impressão do percussor e a marca do ejetor antes de procurar na base de dados da NIBIN.

 

Depois teve que esperar quatro horas até o resultado, enquanto sua família ia ao cinema sem ele. Em seguida Thrush saiu para jantar e pediu que ligasse para o doutor Wesley, porém esqueceu-se de dar o número do telefone direto, de modo que teve que chamar o serviço geral do hospital McLean e permitir que no princípio o tratassem como se fosse um paciente. Menos mal que aqui o apreciam um pouco. O doutor Wesley sequer agradeceu ou comentou «você fez um bom trabalho» ou «não posso acreditar que tenha conseguido o resultado tão rapidamente». É que não sabe como é difícil examinar um cartucho de escopeta na NIBIN. Na realidade a maioria dos investigadores nem sequer tenta.

 

Fica olhando o cartucho. Nunca havia visto um apanhado do ânus de um morto. Consulta o relógio e liga para Thrush em sua casa.

 

—        Só me diga uma coisa, diz quando Thrush atende, — Como é que me fez falar com esse doutor do FBI? Não seria nada demais se ele agradecesse.

—        Está falando de Benton?

—        Não, estou falando de Bond. James Bond.

—        É uma pessoa agradável. E sabe de outra coisa, Tom? Continua falando Thrush, um tanto irritado. — Vou lhe dar um conselho. A NIBIN pertence ao FBI, e, portanto você também. De onde diabos acha que conseguiu todos esses bonitos equipamentos para trabalhar e toda essa formação para poder ficar ai sentado e fazer o que faz todos os dias? Não adivinha de onde? Pois foi do FBI.

—        Neste momento não me interessa nada disso, replica Tom com o telefone metido debaixo do queixo enquanto digita no computador fechando arquivos, preparando-se para ir para casa, a sua casa vazia, enquanto sua família se diverte no cinema sem ele.

—        Além disso, como sabe, Benton deixou o departamento há muito tempo e já não tem nada a ver com ele.

—        Pois deveria ficar agradecido. Isto é tudo. É a primeira vez que temos na NIBIN uma coincidência em um cartucho de escopeta.

—        Agradecido? Agradecido, por quê? Porque o cartucho que apanharam do cu dessa mulher coincide com a arma de um crime, e que se supõe que a mesma esteja debaixo da custódia da maldita polícia de Hollywood, mas que a estas alturas terá sido vendida como escória? Exclama Thrush em voz alta; quando bebe tende muito a maldizer. — Olhe, ele não sente nenhum maldito agradecimento. Como eu, a única coisa que desejaria fazer neste momento é chutar o balde.

 

Faz calor dentro da casa em ruínas, e o ar está pesado e imóvel. Cheira a mofo, a comida rançosa; o lugar está empesteado com se fosse uma latrina.

 

Porco se move na escuridão seguro de si mesmo, de um cômodo a outro. Distingue pelo odor e pelo tato onde se encontra exatamente. É capaz de passar agilmente de um lugar a outro e, quando tem lua, como nesta noite, seus olhos captam o brilho e enxerga com tanta clareza como se fosse meio dia. Vê mais além das sombras, tanto que elas poderiam não existir. Vê as marcas vermelhas que a mulher tem no rosto e no pescoço, sua pele suja e reluzente de suor, vê o medo em seus olhos, seu cabelo cortado espalhado pelo colchão e pelo chão, porém ela não pode vê-lo.

 

Caminha até ela, até o colchão cheio de manchas jogado no chão de madeira podre; está sentada, apoiada contra a parede, com as pernas cobertas por uma túnica verde, estendidas em frente a si. Tem várias pontas no cabelo, como se tivesse metido os dedos em uma tomada, como se tivesse visto um fantasma. Teve a sensatez de deixar a aranha sobre o colchão. Ele a apanha e, com a ponta da bota, toca a túnica verde ouvindo-a respirar, sentindo seu olhar, esses olhos semelhantes a duas manchas úmidas sobre ele.

 

Levou a bonita túnica verde que estava sobre o sofá. Ela acabava de trazê-la do carro, da igreja onde a havia vestido horas antes. Apanhou-a porque gostou. Agora está sem cor e enrugada, e lembra um dragão morto. Ele capturou o dragão. É seu, e a decepção que o invade ao ver o que sobrou dele o irrita e o incita à violência. O dragão falhou, o traiu. Quando o dragão verde se movia pelo ar em completa liberdade as pessoas o escutavam e não podiam afastar os olhos dele. O desejava. O amava, quase. E olhe-o agora.

 

Aproxima-se um pouco mais e dá um pontapé nos seus tornozelos cobertos pela túnica e atados com arame. A mulher apenas se move. Estava mais atenta há um tempo, porém a aranha parece tê-la deixada sem forças. Não fez o sermão de costume com essa expressão justiceira. Não disse nada. Desde que ele esteve aqui, não faz nem uma hora, urinou. O odor a amoníaco penetra com força em suas fossas nasais.

 

—        Por que é tão asquerosa? Diz Porco, olhando-a.

—        As crianças estão dormindo? Não as ouço. Fala como se delirasse.

—        Pare de falar neles.

—        Já sei que não quer machucá-los, sei que é uma boa pessoa.

—        Não vai lhe servir de nada, replica Porco. — Assim já pode fechar o bico. Você não sabe uma merda, nem nunca saberá. É feia e idiota. É asquerosa. Ninguém gosta de você. Diga que sente muito. Tudo isto é por sua culpa.

 

Dá outro pontapé nos seus tornozelos, desta vez mais forte, e ela grita de dor.

 

—        Que graça. Olhe. Quem é agora a pequena bonita? É uma escória, uma mocinha malcriada, uma desagradecida sabe tudo. Já lhe ensinarei humildade. Diga que sente muito.

 

Dá-lhe outro forte pontapé nos tornozelos e ela chora, enchendo os olhos de lágrimas que reluzem como o vidro à luz da lua.

 

—        Agora não é tão arrogante nem tão poderosa, não é verdade? Achava-se melhor, muito melhor que os demais? Olhe. Já vi que vou ter de procurar uma maneira mais eficaz de castigar. Vou colocar os seus sapatos.

 

Nos olhos dela se lê confusão.

 

—        Vamos voltar a sair. Diga que sente muito!

 

Ela o olha fixamente com seus olhos como vidros, muito abertos.

 

—        Quer outra vez o tubo de pasta de dente? Diga que sente muito!

 

A toca com a escopeta e seus pernas estremecem.

 

—        Vai me dizer o quanto sente, não é? Agradeça, porque é tão feia que ninguém vai querer lhe tocar jamais. Isto é um honra para você, não é? Fala baixando o tom de voz, ele sabe como assustá-la.

 

A toca de novo, desta vez nos peitos.

 

—        É feia e tonta. Ponha os sapatos. Não me deixou outra alternativa.

 

Ela não diz nada. Ele dá mais pontapés nos tornozelos, pontapés fortes, e volta a caírem lágrimas por seu rosto manchado de sangue. Provavelmente tem o nariz quebrado.

 

Ela quebrou o nariz de Porco, deu uma bofetada tão forte que o nariz esteve sangrando várias horas e Porco entendeu que o havia quebrado. Nota o inchaço na ponta do nariz. Ela o esbofeteou quando ele cometeu a má ação, a má ação que teve lugar na sala da porta de pintura estragada. Então sua mãe o levou para esse lugar em que os edifícios são antigos e neva. Nunca havia visto a neve, nunca havia passado tanto frio. Ela o levou ali porque havia mentido.

 

—        Dói, não é verdade? Diz Porco. — Dói muito quando se tem os tornozelos amarrados com arame que se cravam no osso e te dão um pontapé. Isto acontece por que me desobedeceu. Por mentir.

 

Volta a chutá-la e ela deixa escapar um gemido. Tremem-lhe as pernas debaixo da túnica verde, debaixo do dragão verde morto que a cobre.

 

—        Não ouço às crianças, diz ela, e sua voz é cada vez mais débil, está perdendo energia.

—        Diga que sente muito.

—        Te perdoo, ela responde com os olhos brilhantes e muito abertos.

 

Porco levanta a escopeta e aponta à cabeça de Ev, que olha fixamente o cano, o olha como se já não se importasse, e ele arde de fúria.

 

—        Pode me perdoar tudo o que quiser, porém Deus está comigo, fala. — Merece o seu castigo. Por isso está aqui. Entende? É sua culpa. Você mesma colocou estes carvões acesos na cabeça. Faz o que digo! Diga que sente muito!

 

Suas grandes botas fazem muito pouco barulho quando se move no ar denso e quente, até que se detém no umbral da porta e olha de novo para a sala. O dragão morto se agita e pela janela quebrada passa o ar quente. A sala está construída para o oeste e a tarde o sol se filtra pelos buracos da janela e sua luz toca o brilhante dragão verde, que reluz e brilha em chamas esmeraldas. Entretanto não se move. Já não é nada. Está quebrado e feio, e é por culpa dela.

 

Porco observa suas carnes pálidas, suas carnes cobertas de picadas de insetos e de erupções. Percebe seu fedor, que alcança até a metade do corredor. O dragão verde morto se agita quando ela se agita e o deixa doente lembrar quando capturou o dragão e descobriu o que havia debaixo dele. Era ela. Foi um engano. É culpa dela. Ela quis que acontecesse isto, o enganou. É culpa sua.

 

—        Diga que sente muito!

—        Te perdoo. Seus olhos grandes e brilhantes estão fixos nele.

—        Suponho que já sabe o que vai acontecer agora, diz Porco.

 

Ev apenas move a boca e dela não sai nenhum som.

 

—        Me parece que não sabe.

 

Olha-a fixamente, observa sua figura maltratada e repugnante sobre o sujo colchão e sente frio no peito, e esse frio é como a morte, como se a única coisa que sentiu em sua vida esteja tão morta como o dragão.

 

—        Me parece que realmente não sabe.

 

Empurra para trás o deslizador da escopeta, que produz um sonoro barulho na casa vazia.

 

—        Corre, ele ordena.

—        Te perdoo, articula ela com os lábios, com seus olhos grandes e aquosos fixos nele. Imediatamente Porco sai ao corredor, surpreso pelo ruído da porta principal ao fechar-se.

 

—        Quem está ai? Pergunta. Baixa a escopeta e vai até a parte dianteira da casa com o pulso cada vez mais acelerado. Não a esperava.

—        Já lhe disse que não faça isso, cumprimenta a voz de Deus, porém não pode vê-la. — Só deve fazer o que eu disser.

 

Então se materializa na escuridão, seu ser negro flui até ele. É bonita, e tão poderosa que a ama e já não poderia viver sem ela.

 

—        Que acha que está fazendo? Ela pergunta.

—        Continua sem dizer que sente. Não quer falar, tenta explicar Porco.

—        Não é a hora. Lembrou-se de trazer a pintura antes de se entusiasmar ali dentro?

—        Não a tenho aqui. Está no carro. Onde a utilizei com a última.

—        Traga-a. Primeiro tem que se preparar, sempre tem que se preparar. Se perder o controle, o que acontece? Já sabe o que tens de fazer. Não me decepcione.

 

Deus se aproxima dele fluindo. Possui um quociente intelectual de cento e cinquenta.

 

—        Quase terminou o tempo, diz Porco.

—        Não é nada sem mim, diz Deus. — Não me decepcione.

 

A doutora Self, sentada a sua mesa, contempla a piscina, cada vez mais nervosa. Todos os dias pela manhã deve estar no estúdio lá pelas dez para preparar-se para o programa de rádio.

 

—        Não posso afirmar em absoluto, diz por telefone; se não tivesse tanta pressa curtiria esta conversa por todos os motivos inadequados.

—        Não tenho nenhuma dúvida de que você receitou Ritalim a David Fortuna, responde a doutora Kay Scarpetta.

 

A doutora Self não pode evitar pensar em Marino e em tudo o que falou sobre Scarpetta. Não se sente intimidada. Neste momento tem vantagem sobre esta mulher, que só viu em uma ocasião e de quem ouve falar de forma incessante todas as semanas, sem falta.

 

—        Dez miligramas três vezes ao dia, soa na linha, a forte voz da doutora Scarpetta.

 

Parece cansada, talvez deprimida. A doutora Self poderia ajudá-la. Assim pensou quando se encontraram no mês de junho passado na Academia, no jantar que deram em sua homenagem.

 

—        As mulheres motivadas e profissionais de êxito como nós, devem ter cuidado para não descuidar de nosso cenário emocional, disse a Scarpetta quando se encontraram casualmente no banheiro das senhoras.

—        Obrigado pelas aulas. Sei que os alunos estão adorando, respondeu Scarpetta, e a doutora Self se calou em seguida.

 

As Scarpetta que existem pelo mundo são experientes em burlar as perguntas pessoais ou qualquer coisa que possa deixar ao descoberto sua secreta vulnerabilidade.

 

—        Estou certa de que é você uma inspiração para os alunos, disse Scarpetta lavando as mãos no lavabo como se estivesse se preparando para uma operação. — Todo o mundo agradece que tenha encontrado tempo em sua agenda apertada para vir aqui.

—        Vejo que na realidade não acredita no que diz, respondeu a doutora Self com candidez. — A grande maioria de meus colegas de profissão despreciam aquele que trabalha, em algum lugar que não seja atrás de portas fechadas, em terreno aberto, no rádio e televisão. A verdade, naturalmente, é que têm ciúmes. Acho que a metade das pessoas que me criticam venderia sua alma ao diabo para estar no ar.

—        É provável que tenha razão, respondeu Scarpetta secando as mãos.

 

Foi um comentário que se prestava a interpretações muito diversas: a doutora Self está no rádio e a maioria de seus colegas de profissão a deprecia, ou a metade das pessoas que a criticam é por ciúme. Por mais que rememorasse esta conversa do banheiro de senhoras e por mais que analisasse esse comentário em particular não consegue decidir o quis dizer a doutora Self e se a estava insultando de maneira muito inteligente e sutil.

 

—        Você fala como se estivesse preocupada com algo, fala a Scarpetta pelo telefone.

—        Quero saber o que aconteceu com seu paciente, David. Esquiva-se do comentário pessoal. — Faz pouco mais de três semanas que receitou cem comprimidos, agrega.

—        Isto eu não posso confirmar.

—        Não preciso que confirme; recolhi o pote correspondente à receita na casa de David. Sei que você receitou Ritalim e sei exatamente onde o remédio foi comprado: na farmácia do centro comercial onde está o templo de Ev e Kristin. A doutora Self não confirma, porém está correto. O que diz é:

—        Você deve entender o que é a confidencialidade.

—        Pois eu esperava que você entendesse que estamos sumamente preocupados com o bem estar de David e de seu irmão, e também pelo das duas mulheres com quem moram.

—        Alguém considerou a possibilidade de que os garotos pudessem sentir saudades da África do Sul? Não estou falando que sentissem, adiciona. — Simplesmente é uma hipótese.

—        Seus pais faleceram no ano passado na Cidade do Cabo, diz Scarpetta. — Conversei com o forense que...

—        Sim, sim, interrompe a doutora Self. — Foi uma tragédia terrível.

—        As crianças eram seus pacientes?

—        Imagina o trauma que foi isso? Segundo soube por comentários que chegaram aos meus ouvidos, fora das sessões que possa ter tido com eles, seu lar adotivo era provisório. Acho que sempre se deu por certo que quando chegasse o momento apropriado retornariam a Cidade do Cabo, para morar com uns familiares que deveriam se mudar para uma casa maio