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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Quando a vida escolhe / Zibia Gasparetto
Quando a vida escolhe / Zibia Gasparetto

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Quando a vida escolhe

 

                     

 

PRÓLOGO

       Entardecia. A brisa forte do outono varria as alamedas, espalhando as folhas secas que caiam das árvores amarelecidas, e os raios de sol que se filtravam por entre as nuvens cinzentas, não conseguiam aquecer os raros transeuntes que caminhavam por entre as campas naquele domingo.

       Com um maço de flores entre as mãos, um cavalheiro bem vestido, revelando sua linhagem nobre, procurava um nome, lendo atentamente as inscrições das lápides.

       Finalmente, parou.”Aqui jaz Suzane Ferguson que deixou a Terra em 30 de setembro de 1906.” Seus olhos encheram-se de lá­grimas. Pelo seu rosto amadurecido passou uma onda de emoção.

       Finalmente a encontrara. Finalmente, tinha notícias. Ela es­tava morta!

       Como sonhara com o momento do reencontro! Como bus­cara por toda parte sua figura amada! Tudo inútil.

       Quase vinte e cinco anos gastara nessa busca, e, agora, apenas encontrara uma lápide fria, onde a morte matava suas es­peranças, e o coração oprimido apenas dizia:

       — Nunca mais! Nunca mais verei seu rosto amado, ouvirei seu riso cristalino, tomarei suas mãos, beijarei seus cabelos cas­tanhos, abraçarei seu corpo querido sentindo seu coração bater junto ao meu.

       Era muito cruel, e ele curvou-se ao peso da sua dor. Colocou as flores sobre o túmulo e ajoelhou-se deixando que as lágrimas lavassem sua face livremente.

       Se ao menos ela soubesse o quanto ele a amava! Se ao menos pudesse ter-lhe dito o quanto havia sofrido e o quanto se arrependia de sua atitude rude, de sua leviandade, de sua am­bição! Mas, agora tudo estava acabado. Suzane estava morta e nunca mais o ouviria, e ele não poderia abrir-lhe seu coração, falar­lhe dos seus enganos e dos seus remorsos.

       Permaneceu ali, de joelhos, pensando, pensando deses­perado. De que lhe valia agora todo o dinheiro que acumulara? De que lhe valia a posição, o poder, todas as coisas que ambicionara e pelas quais havia trocado o amor puro de Suzane, no casamento sem amor, a serviço do interesse e do qual só lhe restavam desilusão e desconforto?

Ah! As lágrimas que ela havia chorado! Seus belos olhos imploraram que ele não a abandonasse, e ele, frio, quase indiferente, lhe propusera uma ligação extraconjugal, um lar onde ele iria quando seus compromissos sociais e com a esposa lhe permitissem.

Vendo inúteis suas lágrimas, Suzane desapareceu às vésperas do seu casamento. A princípio, pensou que ela houvesse se afastado temporariamente. Afinal, ela o amava, tinham uma ligação íntima, ele a sustentava. Naturalmente, ela voltaria quando o dinheiro acabasse ou a saudade apertasse. Era até bom que ela desaparecesse por algum tempo. Não queria que sua nova posição, desposando uma moça de família tradicional e de grande projeção social, pudesse ser empanada pela sua ligação com Suzane.

Afinal, Maria Helena acreditava que ele a amasse. Represen­tara o papel com tal veemência que ninguém aventara a hipótese dele casar-se por interesse. Ele procedia de uma família de estirpe. Seus pais haviam pertencido à corte no Rio de Janeiro ao tempo do Império e haviam lhe legado seus bens que lhe possibilitavam manter uma boa aparência.

José Luiz gostava do luxo. Vivia rodeado de tudo quanto era de melhor, adorava obras de arte, e sua bela casa no Rio de Janeiro era mobiliada com móveis franceses. Todos os utensílios, até suas roupas eram importados.

Era recebido nas altas rodas e muito considerado pela sua sobriedade e sensatez. Contudo, José Luiz sabia que seus recursos eram poucos. Ele queria mais, muito mais.

Maria Helena pareceu-lhe a mulher ideal para seus planos de poder. Seus pais usufruiam de projeção social, política e eram muito ricos. O pai dela, batalhador pela República, Deputado Federal, ocupava alto cargo de confiança do presidente Floriano Peixoto.

José Luiz aspirava subir. Era advogado, estudara, porém, não acreditava que conseguisse projetar-se sem cartucho.

Conhecera Suzane em seus tempos de estudante em São Paulo. Ela era brasileira, porém havia sido adotada por um casal de ingleses que a educaram muito bem. Falava inglês com naturalidade e sem sotaque. Seu pai adotivo era funcionário da Estrada de Ferro. Não tinham filhos e ao adotar Suzane recém-nascida, o fizeram por amor. Deram-lhe tudo quanto puderam. Ela era linda, inteligente, culta, educada.

José Luiz sentiu-se logo atraido pelo seu ar brejeiro, pelo seu riso franco e cristalino, pelo seu rostinho doce e delicado. Amou-a profundamente. Apesar disso, esquivou-se sempre de um compro­misso sério, alegando os estudos e a necessidade de graduar-se primeiro.

Suzane entregou-se àquele amor de corpo e alma. Tinha certeza de que quando ele se formasse, se casariam. Ele não des­mentia, entretanto, os pais de Suzane, apesar do conforto em que viviam e do nível de educação que possuíam, não eram ricos. Ele vivia do seu salário no emprego que, embora fosse muito bom, não lhe proporcionava projeção social ou política.

José Luiz queria muito mais. Se casasse com Suzane, se transformaria em um advogado medíocre e pobre, para o resto da vida. Precisava cuidar do seu futuro. Por isso, quando ia ao Rio visitar os pais, procurava ambiciosamente alguém que preenchesse suas condições.

Maria Helena foi ideal. Era bonita e fina. Olhos vivos, rosto expressivo. Morena, cabelos negros e lisos, corpo elegante, olhos escuros e brilhantes. Apaixonou-se por ele rapidamente, e José Luiz exultou. Do namoro ao noivado foi um pulo, e seus pais lisonjeados aprovavam com entusiasmo aquela união.

Na sua formatura, todos viriam para S. Paulo assistir às solenidades, e José Luiz resolveu acabar sua ligação com Suzane. Era-lhe penoso esse momento, não queria que ela sofresse. Amava-a muito. Não desejava perder seu amor. Contava com o tempo para que a situação se arranjasse da melhor forma. Suzane o amava muito. Sofreria a princípio, mas , depois, haveria de aceitar. Viria vê-la sempre que pudesse. No futuro, quem sabe, talvez ela pudesse ir morar no Rio de Janeiro. Montaria uma bela casa, onde eles seriam felizes.

Os pais de Suzane iriam voltar a Inglaterra dentro de pouco tempo. Ela lhe prometera ficar com ele. Nas vésperas da formatura, contou-lhe tudo. Sua ambição, seu noivado, seus projetos, tudo. Suzane chorou muito, não aceitou a situação como ele desejara. Disse-lhe que se ele se casasse, nunca mais a veria.

Ele não acreditou. Ela o amava e haveria de reconsiderar. Porém, ela não voltou, desapareceu, e ele nunca mais a encontrou. Tinha-a procurado inutilmente. Soubera que haviam voltado a Inglaterra. Conseguiu uma viagem pretextando negócios e foi até

lá.   Não os encontrou. Colocou um agente a quem pagou regiamente para localizá-la, inutilmente. Parecia que a terra a havia tragado.

As saudades doíam em seu coração. Ele tentou esquecer. Afinal, possuia tudo que queria. Posição, dinheiro, vida social. Maria Helena deu-lhe dois filhos sadios e inteligentes. Era atenciosa e dedicada. O que mais podia desejar?

Porém, o riso de Suzane vinha-lhe à memória, seu rosto alegre e carinhoso aparecia-lhe em sonhos, onde as cenas de amor eram uma constante. José Luiz não conseguia esquecer.

Os anos passaram e com eles, o tédio da vida mundana, a rotina de um casamento sem amor. José Luiz não conseguia continuar a representar com Maria Helena o papel de apaixonado. Cedo ela percebeu que ele não a amava. Discreta e educada, ferida em seus sentimentos, ela fechou-se ainda mais, tornando-se distante e fria com ele. E assim, seu relacionamento foi ficando apenas formal, e José Luiz procurava em outras ligações o amor, sem conseguir encontrar.

Arrependeu-se de não haver desposado Suzane. Intensificou as buscas até que, por fim, localizou, naquele cemitério no Rio de Janeiro mesmo, a singela sepultura.

Olhou o retrato oval encrustado na lápide onde Suzane aparecia sorrindo. Como pudera ser tão cego? Como pudera trocar o amor daquela criatura pelas ilusões mundanas?

Mas era tarde. Agora, só lhe restava chorar. Ficou ali, amargurado, durante algum tempo. Quando se preparava para levantar-se, sentiu que uma mão suave lhe tocou levemente no ombro.

Levantou-se. Uma jovem estava diante dele. Olhou-a admirado. Os mesmos olhos de Suzane, os mesmos cabelos castanhos e anelados, sentiu um choque.

— Desculpe se o assustei. É que não o conheço e nunca o vi

aqui.

          — Está emocionado. Chorou por ela. Diga-me, conheceu minha mãe?

Ele sentiu-se aturdido. Ela era filha de Suzane. Então, ela havia se casado! Claro! Por que nunca pensara nisso?

Uma onda de ciúme o acometeu. O amor de Suzane teria se acabado? Ele precisava saber. Era importante conhecer a verdade.

Olhou o rostinho delicado tão parecido com o de Suzane e respondeu:

— Sim. Conheci muito sua mãe. Faz muitos anos.

Ela suspirou fundo.

— Talvez então possa me explicar algumas coisas — disse pensativa.

— Eu pensava exatamente a mesma coisa.

— Precisamos conversar — tornou ela, séria.

— Certamente. A tarde está fria. Aceitaria tomar um chá comigo?

— Com prazer. Vejo que trouxe flores. Vamos arrumá-las no vaso. Depois, iremos.

Com delicadeza e carinho ela dispôs as flores, enquanto ele esperava e apesar de toda emoção, José Luiz, de repente, sentiu uma sensação de paz.

Eles não viram que o espírito de Suzane estava ali, luminoso e belo, olhando a cena com emoção.

— Finalmente, meu Deus, — pensou ela com alegria — final­mente eles se encontraram.

Seu coração em prece envolveu-os com muito amor, acom­panhando-os quando saíram do cemitério e procuravam um local apropriado para conversar.


CAPÍTULO 1

Sentados frente a frente em uma confeitaria elegante, olhavam-se com disfarçada curiosidade. José Luiz estava muito emocionado. O rosto corado e expressivo da moça lembrava muito o de Suzane, e ele sentia aumentar as saudades.

— Disse que conheceu minha mãe...

— Sim. Conheci muito e vendo-a tão parecida com ela, sinto-me emocionado.

— Por quê?

— Como se chama? — indagou interessado.

— Luciana.

— Meu nome é José Luiz. Sua mãe nunca o mencionou?

— Não — respondeu ela, pensativa.

— Compreendo. Por certo seu marido não compreenderia. Nós fomos namorados.

— Mamãe nunca se casou. José Luiz sentiu um baque no coração. Uma súbita suspeita

começou a despertar dentro dele. Precisava saber mais, queria saber tudo.

Emocionado, colocou a mão sobre a dela apertando-a com força quando disse:

— Luciana, por favor, preciso saber tudo. É importante que me conte sua vida, onde andaram todos esses anos.

— Por quê? — inquiriu ela sentindo-se também envolvida por grande emoção. Pressentia que finalmente ia conhecer o drama de sua mãe. Seu passado, sua origem.

— É preciso. Há quase vinte e cinco anos eu procuro Suzane desesperadamente. Só hoje, descobri que está morta há dez anos. Se ela não se casou... isto é... você...

— Não sei o que dizer... talvez o senhor possa esclarecer-me. Ela nunca me falou sobre o passado. Meus avós diziam-me que não fizesse perguntas, que ela havia sofrido muito e precisava esquecer.

— Quantos anos tem? — inquiriu ele, trêmulo.

— Vinte e quatro — disse ela de sopro. — Por favor, se sabe de alguma coisa, conte-me.

Sem poder conter-se mais, José Luiz disse-lhe com certa euforia:

— É cedo para dizer, porém, tudo leva a crer... que você

seja...

          — Que eu seja? — encorajou ela, vendo-o hesitar.

          — Minha filha! — concluiu ele apertando suas mãos com

Ficaram calados alguns minutos, olhando-se sem coragem de falar. Depois, quando serenou, ela disse:

— Deve ter boas razões para pensar assim. Por favor, conte-me tudo. Depois, direi o que sei.

— Muito bem — concordou ele, fazendo uma pausa, esperando que o garçom dispusesse as iguarias sobre a mesa e lhes servisse o chá.

Olhando o rosto emocionado de José Luiz, ela considerou:

— Vamos tomar o chá. Ambos precisamos de um. Quero saber tudo, com detalhes.

José Luiz sorveu alguns goles de chá e procurou acalmar-se. Depois, sentindo-se mais encorajado, contou tudo sobre seu amor com Suzane. Não omitiu nenhum detalhe. Ao contrário, foi duro consigo mesmo, como que penitenciando-se junto da filha, já que não podia fazê-lo diante de Suzane.

Ela ouviu, sentindo as lágrimas rolarem pelas faces, pensando no sofrimento de sua mãe.

— Estou arrependido — terminou ele — queria pedir-lhe perdão. Dizer que me enganei. Que se fosse hoje, eu não a teria perdido. Mas, agora é tarde! Ela partiu para sempre!

— Engana-se — respondeu Luciana. — Seu corpo morreu, mas seu espírito continua vivo e ao meu lado. Sinto-a junto a mim. Vejo-a de vez em quando.

José Luiz olhou-a admirado. Luciana tinha alucinações.

— É verdade. A morte não é o fim de tudo. Nós somos eternos! Não acredita nisso?

— Não. Sinto desiludi-la. Se isso a conforta, posso compreender. Mas, quem morre, jamais volta. Nunca mais voltaremos a nos ver.

Luciana olhou-o com tristeza.

— Sinto que ainda não tenha descoberto esta verdade. Étriste pensar no “nunca mais”.

— Isso tem me crucificado. Mas, não tem remédio. Agora, conte-me tudo que sabe. Sua idade desperta em mim uma suspeita, ela não se casou... pode ser que... Conte-me tudo.

Luciana concordou com a cabeça e começou:

— Nasci no Brasil no dia 4 de julho de 1892, mas fui criada em Londres, onde vivemos durante oito anos. Em casa, meus avós nunca mencionavam meu pai e, quando perguntava por ele, minha mãe dizia que ele havia morrido antes de eu nascer e que eles nunca tinham se casado. Porém, ela sofria tanto quando eu perguntava, que minha avó repreendia-me dizendo que evitasse o assunto. Que minha mãe guardava grande mágoa no coração. Que eu precisava dar-lhe muito amor para ajudá-la a superar essa dor. Fiz o que pude. Aliás, era fácil gostar de mamãe. Ela era encantadora, amorosa, amiga e bondosa. Desvelava-se por mim abnegadamente, e eu a amava muito. Meu avô morreu em 1899, e vovó ficou muito abalada com essa perda.

Nossa situação financeira não era boa, e minha mãe trabalhava muito para ajudar nas despesas. Foi quando ela decidiu voltar ao Brasil. Vovó havia deixado pequena casa em São Paulo, da qual não recebia dinheiro algum por estar emprestada a uma amiga. Escrevemos a ela e fomos para S. Paulo. A casa era pequena e quando a amiga de vovó se mudou, pudemos nos instalar. Nela, mamãe procurou trabalhar, o que era difícil, apesar do progresso e das novas oportunidades que a mudança do século trouxera. Ela dava aulas de inglês aos filhos de famílias ricas e, naqueles tempos, o francês estava mais em evidência. Apesar de conhecer esse idioma, não sabia o suficiente para ensinar. Conseguiu alguns alunos e assim pudemos ir vivendo com dificuldade.

José Luiz disse como para si mesmo:

— Suzane nunca me disse que estava grávida! Eu jamais soube!

— Acredito. É próprio do seu caráter. Um dia, apareceu em casa muito nervosa. Disse que precisávamos partir. Que havia uma pessoa interessada em descobrir nosso paradeiro. Vovó tentou dis­suadi-la. Afinal a casa era nossa segurança. Mas ela não cedeu. Assim, vendemos a casa e viajamos para cá.

— Que ano foi?

— Fins de 1900 ou começo de 1901, não me lembro bem. O dinheiro da casa foi gasto quase todo, enquanto ela procurava em­prego e pagávamos um aluguel no subúrbio. Ela adoeceu gravemente, e nós passamos por muitas dificuldades. Minha avó possuía jóias que foram vendidas para tentar salvá-la. Foi inútil. Depois que ela morreu, eu e vovó ficamos muito tristes. Mamãe, apesar de todas as suas lutas, sempre nos animava a prosseguir. Era alegre e jamais esmorecia.

Sem ela, sentimo-nos abaladas e sem rumo. Vovó queria voltar para Inglaterra, porém, não tínhamos recursos para a viagem. Depois, eu preferia ficar no Brasil. Era minha terra e eu sentia que aqui era nosso lugar.

Luciana parou, olhos perdidos em um ponto indefinido, imersa nas recordações. Depois de alguns instantes, continuou:

— Mas, nós tínhamos que viver. O dinheiro acabou. Vovó era velha demais para trabalhar, e eu procurei sem sucesso uma colocação qualquer que nos permitisse sobreviver. Uma noite em que estava desesperada, sonhei com minha mãe. Ela estava na cozinha com vovó e dizia com voz firme:

— Suas conservas são deliciosas. Todos gostam. Eu tenho saudade delas. São maravilhosas. Vovó sorria contente. E quando, no dia seguinte, contei-lhe o sonho, ela animou-se dizendo:

— As conservas! Vou fazer para vender. Não acha uma boa idéia? E assim, começamos a trabalhar. Eu ajudava, e fazíamos do­ces, legumes, tudo que ela sabia e vendíamos para os vizinhos, amigos, conhecidos. Aos poucos fomos ficando conhecidas, e nossos produtos eram muito procurados. Graças a isso, pude terminar meus estudos.

Luciana fez uma pausa, olhos perdidos, mergulhada em suas recordações.

José Luiz olhou-a comovido.

— Vocês não precisavam ter passado tudo isso. Apesar do que fiz, eu jamais deicharia de ajudar se houvesse conhecido a verdade.

Luciana levantou o olhar encarando-o.

— Não lamente. O que mamãe fez está certo. Já que o senhor escolheu um outro caminho, ela afastou-se e procurou resolver sozinha seus problemas.

— Vocês sofreram sem necessidade.

— Não diga isso. Nossas lutas foram boas e nos deram experiência. Apesar das dificuldades, conseguimos viver muito bem.

José Luiz olhou-a comovido.

— Não tenho dúvida de que você é minha filha. A coincidência de datas não permite que ela tenha tido outro romance depois do nosso. Dá para perceber que, quando nos separamos, ela já estava esperando você.

Luciana sorriu:

— Se lhe agrada saber, ela jamais teve outro namorado. Vovó não se conformava, vendo-a jovem, bonita, alegre, muito cortejada apesar de não encorajar ninguém, sem querer aceitar nenhum admirador.

José Luiz sentiu uma onda de emoção:

— Apesar de tudo, eu também nunca, a esqueci. Jamais deixei de prezurá-la e, se ela não tivesse se mudado de S. Paulo, eu a teria achado.

Luciana suspirou pensativa.

— Isso não teria mudado nada — ela jamais aceitaria um relacionamento dessa natureza.

— Não sei. Nosso amor era muito grande e puro, só entendi isso muitos anos depois.

— Seja como for, agora tudo mudou.

José Luiz concordou com a cabeça.

— É verdade. Nada mais posso fazer senão conformar-me.

Seu rosto refletia tristeza e desânimo. Continuou pensativo:

— Agora, a vida vai perder todo seu encanto. Antes, eu alimentava a esperança de rever Suzane, sonhava com o reencontro, com as coisas que lhe diria para provar o meu arrependimento. Contava refazer nossas vidas, Infelizmente, tudo acabou.

Luciana olhou-o séria:

— Não deve alimentar tristeza nem pessimismo. A escolha foi sua. A vida sempre coloca em nossa frente várias opções. A escolha é livre, mas uma vez feita a opção, cessa nossa liberdade e somos forçados a recolher as conseqüências.

José Luiz olhou-a admirado.

— Gostaria que fosse diferente — disse.

— Se houvesse se casado com minha mãe, talvez guardasse para sempre a ilusão de que o outro caminho seria melhor. Talvez se arrependesse.

— Você se engana. Se eu a houvesse desposado, teria encontrado a felicidade.

— Será? Acredito que ela saberia fazê-lo feliz, mas seu coração teria se privado de coisas que valorizava, isso não o teria tornado infeliz? Apesar de ter o amor dela, isso, naquele tempo não lhe bastava.

José Luiz sentiu que era verdade. Se houvesse casado com Suzane, por mais felizes que tivessem sido, ele sempre guardaria certa insatisfação, sua ambição não o teria deixado ser completa­mente feliz.

Olhou o rostinho corado da filha, aparentando ser mais jovem do que era e admirou-se de novo.

— Hoje sei que estava errado. Minhas ambições satisfeitas não me deram a alegria que esperava.

Luciana colocou a mão sobre o braço dele dizendo com voz serena:

— Todos os acontecimentos da vida guardam lições preciosas. O senhor precisava compreender isso.

— Agora é tarde.

Luciana sorriu de leve.

— O senhor tem uma missão a cumprir neste mundo. Uma família para manter, orientar, amar. O dever cumprido sempre nos dá muita dignidade.

— Tenho uma esposa indiferente e fria. Um casal de filhos, sempre ocupados com as disciplinas que Maria Helena exige. Não parecem precisar de nada. Eu tenho os negócios, nada mais. Apesar de tudo, foi muito bom haver encontrado você.

Luciana suspirou:

          — Sempre duvidei da morte de meu pai. Nunca me apresen­taram seu túmulo. Nunca se podia falar sobre ele. Agora, compreendo tudo.

— Espero que me perdoe e aceite minha amizade. Sinto-me feliz por havê-la encontrado.

— Eu também. Agora, preciso ir. Vovó deve estar esperando.

— Vou levá-la a casa. Gostaria de falar a sua avó.

— Seria melhor prepará-la primeiro. Não desejo emocioná-la muito.

— Vou até lá, ficarei esperando do lado de fora enquanto conversa com ela e a prepara para receber-me. É muito importante para mim falar-lhe.

— Está bem. Podemos ir.

Luciana morava em pequenina casa no subúrbio. Apesar do combinado, a moça convidou-o a entrar. Vendo-os, Egle levantou-se da poltrona admirada.

José Luiz, emocionado, chapéu entre as mãos, esperava, fi­tando aquele rosto envelhecido com respeito e ansiedade.

— Vovó — foi dizendo Luciana — este é um velho conhecido seu que veio visitar-nos. Estava chorando no túmulo de mamãe.

Egle empalideceu e em seguida passou ao rubor. Quis falar mas a voz não saiu. Durante anos, considerara aquele homem o grande responsável por todos os sofrimentos que Suzane passara. Chegara a odiá-lo. Principalmente por presenciar a dignidade da filha que nunca o depreciara. Suzane sofria mas, ao mesmo tempo, compreendia que ele tinha o direito de escolher outro caminho. Porém, não conseguia esquecer e amar outro homem. Sua vida havia ficado destruída por essa traição.

Egle gostava de José Luiz, embora identificasse nele muita vaidade e ambição. Mas Suzane o amava, e vendo-a feliz com as atenções e o carinho dele, apreciava-o.

Contudo, depois do que ele fizera, seu coração encheu-se de mágoa, ressentimentos, tristeza. Ele não tinha o direito de destruir os sonhos de Suzane.

Era um homem egoísta, frio, capaz de trocar o amor pelo dinheiro e isso o tornara desprezível a seus olhos.

Ajudara a filha a suportar as suas lutas, mas o espinho ainda estava cravado em seu coração.

José Luiz avançou procurando fixar-lhe os olhos angustiados.

— D. Egle. Precisamos conversar.

Foi com voz baixa e dificultada pela emoção que ela respondeu:

— Agora nada mais há para dizer. Não deveria ter vindo.

— Eu precisava. Tenho sofrido muito. Estou arrependido!

Uma onda de indignação coloriu o rosto da velha senhora. A custo dominou-se. Voltou-se para Luciana:

— Deixe-nos a sós.

A moça protestou.

— Sei de tudo, vovó. Estou a par do passado. Agora, conheço minha origem.

A velha olhou-a angustiada.

— O que lhe disse ele? Você acreditou?

— A verdade. Quando terminei com Suzane, não sabia que ela ia ser mãe. Por que não me contou?

Egle deixou-se cair na poltrona sem saber o que dizer. Durante tantos anos, ela e Suzane haviam procurado fugir a esse encontro que mesmo agora, tantos anos depois da morte da filha, ainda a atemorizava.

Guardou silêncio por alguns momentos, depois disse com voz magoada:

— Com que direito o senhor volta depois de tantos anos para remexer a ferida que ainda dói?

— Foi o acaso que nos reuniu — disse ele, emocionado. —Eu nunca soube que tinha essa filha. Não acha que isso também foi injusto? Durante anos procurei por Suzane por toda parte. Jamais deixei de amá-la!

— Seu amor não foi o bastante para defendê-lo da ambição.

José Luiz baixou a cabeça pensativo. Ela prosseguiu:

— Nunca pensou quantas pessoas prejudicou?

Ele levantou a cabeça olhando-a corajosamente.

           - Há muitos anos compreendi o meu erro. Procurei Suzane para pedir-lhe perdão. Se eu pudesse voltar o tempo, tudo seria diferente, mas infelizmente agora é tarde. Ela está morta. Nunca mais poderei dizer-lhe o quanto me arrependi do que fiz. O quanto gostaria de ver seu rosto amado, seu sorriso lindo, que nunca esqueci. Eu também não consegui esquecer. Esse é o meu castigo.

           Amá-la e não poder tê-la comigo. Desejar sua presença e saber que nunca mais a verei. Todas as coisas que tenho na vida não são suficientes para suprir sua ausência. No meu sofrimento, conforta-me saber que aqui estão Luciana e a senhora, a quem posso pedir perdão. A quem posso implorar que me compreendam e me ajudem a suportar a angústia de viver.

Lágrimas rolavam pelas faces de José Luiz, enquanto que ele apertava as mãos nervosas, pronunciando as palavras com dificuldade, sem que pudesse contê-las.

Foi Luciana quem respondeu abraçando-o:

— Não posso perdoar, porque não posso acusar, nem julgar. Sei que está sendo sincero. Sei que toda ilusão que valorizamos, a vida sempre destrói. Nossos enganos têm um preço doloroso: a desilusão. Mas, tem uma colheita preciosa: o amadurecimento. Apesar de tudo, sinto-me feliz porque eu estava órfã e agora tenho pai. Gostaria que fosse meu amigo. Se mamãe o amava tanto, é porque encontrou em seu coração a nobreza de alma, a elevação de sentimentos, a grandeza interior. Eu também quero amá-lo. Agora que a vida nos uniu, tenho a certeza de que mamãe nos abençoará.

José Luiz embargado pela emoção, abraçou a filha sem poder falar.

Ficaram assim, enlaçados, sentindo o coração bater forte, naquele reencontro de almas, e José Luiz sentiu um sentimento novo de paz que há muito tempo não experimentava, invadir-lhe o coração.

Envolvidos pela emoção, apenas Luciana percebeu a forma alva de Suzane que os abraçava e em seu coração elevou silenciosa prece de gratidão a Deus.

Quando a emoção serenou, José Luiz, tendo entre as suas as mãos de Luciana, considerou:

— Você não se parece com sua mãe só fisicamente, possui também uma nobreza de alma que me enternece. Não me condenou pelo passado. Isso aumenta a consciência da minha culpa. Porém, hei de provar-lhe meu arrependimento, verá. Daqui para frente, cuidarei de você.

Egle olhou-o séria.

— Você tem uma família. Não prometa o que não poderá cumprir. Temos vivido bem até aqui. Deixe-nos seguir nosso caminho em paz.

José Luiz fixou-a com firmeza:

— Vejo que ainda não me perdoou — disse.

— O arrependimento não apaga o sofrimento que nos vai na alma.

— Reconheço isso. Mas desejo esforçar-me, tentar pelo menos refazer aquilo que me for possível. O que me resta senão isso? Sua mágoa é tanto quanto a minha, insolúvel. O que podemos fazer agora?

Luciana abraçou a avó com ternura:

— Vovó, não agasalhe o ressentimento no coração. Isso não vai modificar o que passou e não tem remédio. Pelo contrário, além de debilitar sua saúde, fazer-lhe muito mal, ainda entristece mamãe que há muito compreendeu e perdoou. Se ela, que foi a mais prejudicada, não guarda ressentimentos nem mágoas, por que nós vamos fazer isso? Esquece o passado, vovó. Não somos suficientes para julgar e criticar ninguém. Abraça meu pai e vamos esquecer. Procuremos daqui para a frente viver melhor e cultivar amizade e amor. Isso nos fará mais felizes.

— Esquecer os sofrimentos de sua mãe? — tornou ela com voz dorida.

— Sim — respondeu Luciana num sopro — se ela sofreu foi porque Deus permitiu. Deve ter sido por uma razão justa. Ela já perdoou e espera que saibamos compreender. Espera também, antes de tudo, que nos abracemos com otimismo e vontade de sermos melhores.

Egle baixou a cabeça sem saber o que dizer. Luciana tomou a mão da avó e colocou-a sobre a do pai, dizendo:

— O passado está morto e nada poderemos fazer por ele. Mas, hoje, estamos juntos e podemos nos esforçar para vivermos melhor.

Egle não teve mais argumentos, apertou a mão de José Luiz e aceitou o beijo que ele delicadamente depositou nela.

— E agora — continuou Luciana — vamos nos sentar para conversar. Quero saber tudo sobre o senhor, seus hábitos, seus gostos, suas idéias. Vamos nos conhecer melhor, recuperar o tempo perdido.

José Luiz sentiu um brando calor aquecer-lhe o coração. Lu­ciana era encantadora. Ele deixou-se conduzir docilmente até gostosa poltrona onde se sentou, enquanto ela acomodava-se em uma banqueta a seus pés.

Foi com prazer que José Luiz entregou-se àquele momento, descobrindo entre surpreendido e encantado, as belezas daquela alma de mulher, tão jovem ainda, mas possuidora de gosto requintado, instrução e uma espontaneidade que o enlevavam.

José Luiz esqueceu-se do tempo, dos problemas, do passado, de tudo. Só horas depois foi que deixou a modesta casa, sentindo o coração vibrar de alegria e prometendo a si mesmo voltar muito breve.

Passava das 22 horas quando José Luiz entrou em casa, encontrando-a parcialmente às escuras. Todos já haviam se recolhido. A não ser que tivessem algo especial, uma visita ou uma data significativa, às 21 horas, invariavelmente, Maria Helena dava boa noite aos filhos que iam cada um para seu quarto, e ela perguntava ao marido se precisava de alguma coisa. Era como uma formalidade, porque a casa era muito bem administrada e Amélia, a governanta, cuidava muito bem de tudo.

José Luiz tinha tudo à mão e um criado sempre atento aos seus mínimos desejos. Invariavelmente ele respondia um “não, obrigado” e ela, em seguida, depois de simples boa noite, ia para seus aposentos.

Dormiam em quartos separados. A princípio, não fora assim. Eles habitavam suntuoso quarto de casal onde José Luiz dormia ao lado da mulher na belíssima cama importada da França, em alvos lençóis de linho, finamente bordados.

Porém, no final da gravidez do primeiro filho a pretexto de não incomodá-la, José Luiz escolhera dois quartos conjugados da bela e luxuosa vivenda e transformara-os em ricos aposentos, confortáveis e belos, onde passou a dormir.

Nunca mais expressou desejo de voltar a dormir na cama com a esposa, que nunca o convidara ao retorno, ou lhe perguntara o porquê desse afastamento.

Apesar disso, José Luiz cumpria duas vezes por semana suas funções de marido, passando pelo quarto da esposa antes de recolher-se ao seu. Com o correr do tempo, esse contato foi espaçando, e agora, nem se lembrava quanto tempo não ia ter com Maria Helena.

Às vezes, sua consciência o acusava de indiferença, mas ela nunca emitira qualquer queixa. Talvez até não o amasse e aceitasse sua intimidade por obrigação. Cansara-se de fingir um amor que não sentia. Ela era bonita, fina, bem cuidada, aristocrata. No começo do casamento, ela algumas vezes havia aparentado um ardor que o estimulara, fazendo-o ter esperanças de um bom relacionamento conjugal. Mas, depois do nascimento do filho, ela tornara-se fria e fechada, não demonstrando qualquer emoção e José Luiz, temperamento ardente e romântico, justificava com essa atitude seu afastamento cada vez maior da intimidade dela.

Era, porém, um marido socialmente impecável. Fazia questão de ser atencioso com ela, de cumprir seus deveres de chefe de família. Acompanhava-a às visitas de praxe. E, às terças-feiras, sempre estava em casa para o sarau costumeiro, onde após a parte literária e musical, era servido vinho e licor, doces e café, indo os homens para a sala fumar, enquanto as mulheres conversavam e os jovens entretinham-se em brincadeiras de salão. Invariavelmente, entre 22 ou 22:30 horas, despediam-se os amigos e o casal, à porta, agradecia-lhes a presença, convidando-os à semana seguinte.

Maria Helena sabia receber com fidalguia, e José Luiz orgulhava-se de sua classe e finura, do seu bom gosto, dispondo tudo com luxo e distinção. Além disso, era exímia pianista, havendo estudado até na França e, por isso, sempre muito solicitada a que tocasse nesses saraus. Apesar de só tocar os clássicos, ela os escolhia com muito bom gosto e era sempre muito aplaudida.

De vez em quando eles retribuíam comparecendo aos saraus de alguns amigos, para haver reciprocidade. Eram sempre muito bem recebidos, não só pela posição social que ocupavam como também pela classe, simpatia e finura com que se comportavam. Eram tidos por todos como um casal modelo de felicidade e bom­tom.

José Luiz ainda sentia-se emocionado. Despediu o criado que calado o esperava, tendo aprontado o leito e disposto seu traje de dormir. Enquanto se preparava para deitar, seu coração batia descompassado, recordando os últimos acontecimentos.

          Deitou-se, porém a excitação não lhe permitia conciliar o sono.

Quando a noticia da morte de Suzane chegara ao seu conhecimento, uma enorme sensação de perda o abateu. Jamais pensara na possibilidade dela haver morrido. Suzane era a alegria, a própria vida. Como podia haver se transformado em um corpo frio, morto, para nunca mais voltar?

Sentia-se revoltado pensando nisso, porém a presença de Luciana despertara nele emoções novas. Ela era muito diferente dos seus dois filhos. João Henrique era frio e distante como a mãe, e seu relacionamento com ele era seco e disciplinar. Ele só se mostrava tocado em seu amor pela mãe. Era ciumento no seu afeto e muito apegado a ela com quem demonstrava muita afinidade. Maria Lúcia era muito timida e pouco comunicativa. Obedecia sempre sem reclamar e ruborizava-se por qualquer coisa, e se alguém mencionasse esse particular, não continha o pranto. Sua mãe era enérgica com ela, escolhendo seus trajes, seu penteado, tudo, e ficava muito irritada quando a inquiria sobre qualquer assunto e a via indecisa e ruborizada sem saber o que responder. Costumava comentar com o marido as qualidades do filho, tão inteligente, seguro e tendo sempre uma boa resposta para tudo e seu desgosto com relação à filha que, apesar de não ser uma moça feia (era até bonita), não tinha bom gosto, classe e possuia pouca inteligência.

José Luiz ouvia-a e assumindo seu papel de pai, lembrava a pouca idade da menina e sua esperança de que com o tempo, ela viesse a melhorar. Ele também não gostava de vê-la confundida e envergonhada, apagada e sempre em último plano.

Luciana não era igual a eles. Tinha idéias próprias, era culta sem ser pedante ou indiferente, carinhosa sem ser piegas, inteligente, dizendo coisas que o haviam feito refletir. Verdades que ele nunca havia percebido antes.

Sentia enorme atração por ela. Gostaria de contar ao mundo que aquela linda criatura era sua filha, mas reconhecia não poder fazer isso. Todavia, desejava dar-lhe tudo o que pudesse, como a compensar o que negara no passado tanto a Suzane quanto a ela própria.

José Luiz agitou-se no leito procurando posição mais con­fortável. Compraria uma bela casa em lugar aprazível e a decoraria; daria a Luciana uma boa mesada para manter-se com luxo e a riqueza que merecia. Talvez, lhe desse bens que pudessem garantir-lhe boa renda para o resto da vida.

Era o mínimo que podia fazer por ela, depois de tudo quanto ela havia sofrido.

Era já madrugada quando José Luiz finalmente conseguiu adormecer.


CAPÍTULO 2

Sentada ao piano, Maria Helena percorria as teclas com os dedos ágeis, arrancando sons harmoniosos do instrumento que enchiam o ar da bela sala de estar. Sentia o coração apertado por um sentimento opressivo e sem remédio, que a enchia de desalento e de tristeza.

Nesses momentos, recorria à música, procurando extravasar com ela suas emoções, recalcadas e escondidas sob o verniz das conveniências.

Sentia-se muito só. Casara-se por amor. José Luiz represen­tara para ela sua própria razão de viver. Seu riso franco e gentil, seus olhos verdes e emotivos, seus beijos quentes e delicados, sua elegância natural, seu porte altivo e seu jeito encantador, haviam-na conquistado desde o primeiro dia.

Educada de forma rígida e muito disciplinar, procurava ocultar seus sentimentos como se fosse vergonhoso amar, ou desejar ser amada. Porém, ele a cortejara, e ela sentira-se imensamente feliz. Casar-se com ele era tudo quanto podia aspirar. Foi com o coração cantando de alegria que deu o “sim” no dia do casamento e seus olhos encheram-se de lágrimas emocionadas de felicidade.

A gentileza, as atenções, a delicadeza do marido a tornaram mais feliz ainda, e Maria Helena deixara-se embalar nas asas do sonho, julgando haver conquistado o paraíso na Terra.

Aos poucos, entretanto, foi percebendo que o marido não demonstrava o mesmo interesse dos primeiros dias. Era natural, pensara ela. Ouvira contar, através de pessoas mais velhas e experientes, que no casamento, com o correr do tempo, a paixão inicial cede lugar à amizade bem comportada onde o amor acomoda-se ao cotidiano, amadurecendo. Mas, sua percepção de mulher apaixonada foi fazendo-a notar que, sob as atenções de homem educado, não havia o calor que ela gostaria.

Quando José Luiz se aproximava, Maria Helena sentia-se es­tremecer. Seu coração batia mais forte, desejosa de que ele a abraçasse e beijasse. Tremia ao pensar nisso, sentia uma onda de calor envolver seu corpo, porém, dominava-se, lutando contra a emoção, büscando não demonstrar o que lhe ia na alma, percebendo que José Luiz estava indiferente, parecendo não sentir nenhuma emoção com sua proximidade.

A mulher deve ser passiva, pensava ela. Deus nos livre que José Luiz viesse a perceber sua paixão escondida, seu amor descontrolado. Seria humilhante, indigno.

E ela continuava aparentando indiferença, esperando que ele demonstrasse seu amor, para poder aceitar seus carinhos e ainda assim, lutando para não aparecer diante dele, como uma mulher venal e loucamente apaixonada.

Aos poucos, Maria Helena foi vendo José Luiz distanciar-se dela, que engolia sua decepção, seu sofrimento, sufocava seus an­seios e procurava mostrar-se indiferente. Todavia, se ela conseguia esse controle, seu coração aguardava com verdadeira ansiedade os dias em que José Luiz buscava seu quarto. Nessas ocasiões, tentava iludir-se sentindo seus beijos e seus carinhos, pensando que ele a amava mas que essa era a forma de amar no casamento, e que ela deveria contentar-se com isso, deixando suas ilusões de lado.

José Luiz era formal e não a deixava participar de sua vida interior. Muitas vezes, surpreendera-o com olhos perdidos na distância, ar tristonho e rosto contraído. Ela sentia que o marido sofria, desconfiava que ele tivesse um problema, mas, como ele nunca se abria, ela não dizia nada. Além disso, sempre que ela desejava chegar-se mais a ele, tentar maior intimidade, José Luiz esquivava-se educadamente.

Maria Helena sentira, pouco a pouco, aumentar a barreira que havia entre eles, e não sabia como modificar essa situação. Compreendeu, por fim, que o marido não a amava. Quando teria deixado de amá-la? Não sabia. Temia perguntar-se se ele a teria amado algum dia. Preferia acreditar que ele, satisfeitos seus desejos, acomodara-se ao casamento, como muitos casais que conhecia, restando apenas a convivência educada e natural, da tolerância mütua.

 Apesar de entender tudo isso, de repetir-se esses conceitos, Maria Helena amava o marido. Sofria com seu abandono, sentia sua indiferença. Havia momentos em que desejava abraçá-lo, estar com ele, sentindo seus braços envolver seu corpo, descansando a cabeça em seu peito largo. Então, quando a solidão e o desejo a consumiam, sentava-se ao piano e tocava, tocava.

Deixava a emoção fluir com a música e depois, sentia-se melhor, mais serena, em condições de continuar mantendo sua aparente indiferença.

Às vezes, a curiosidade incomodava-a. O marido não a procurava há meses. Teria outras mulheres fora do lar? Essa dúvida atormentava-a e o ciúme a feria fundo. Sentia-se desprezada, recusada como mulher, depreciada e fechava-se ainda mais no orgulho, mostrando-se indiferente para que José Luiz jamais viesse a perceber sua dor.

Mas, o marido era muito discreto. Seu comportamento exemplar nunca a deixara notar nada, nenhum deslize. Será que ele estaria mantendo-se afastado todo esse tempo das mulheres? Ela duvidava, gostaria de perguntar a uma outra mulher mais experiente, porém, sentia vergonha. Jamais teria coragem de falar com alguém sobre sexo.

João Henrique era seu consolo, seu enlevo. Desde a mais tenra idade, ele havia demonstrado seu afeto por ela, preferindo-a a qualquer coisa. Os dois tinham grande afinidade. Gostavam das mesmas coisas e a sós com o filho, Maria Helena abria o coração, demonstrando seu afeto, dando largas aos sentimentos. Ele a compreendia. Há muito notara a frieza do pai e censurava-o por isso. Temperamento apaixonado, João Henrique cobria a mãe de beijos e agrados, como querendo suprir a indiferença paterna.

João Henrique não se preocupava muito com o pai. Desde pequeno sentia ciúmes da mãe, e ficava aliviado quando o pai afastava-se para poder livremente manifestar seu amor por ela. José Luiz era pai severo, embora procurasse ser justo. Exigia do filho obediência e respeito, tal qual ele mesmo fora educado. Percebia haver uma barreira entre ele e o filho, mas não conseguia entender o porquê. Algumas vezes, chegara a surpreender certa animosidade em seus olhos, certa aversão. Nessas horas, sentia remorsos. Pensava: “esse filho foi concebido sem amor. Como não amo sua mãe, ele não me ama”. Tentara aproximar-se mais dele, procurando interessar-se pelas coisas que ele gostava, porém, logo percebia que João Henrique fechava-se, rechaçando seu interesse.

José Luiz sentia-se culpado por haver enganado Maria Helena, desposando-a, amando Suzane. Afastava-se do filho, aceitando sua recusa, ao mesmo tempo tentando dizer a si mesmo que João Henrique era seu filho e precisava amá-lo, compreendê­lo, ser um bom pai.

Mas se José Luiz cumpria todos os seus deveres de pai, cuidando de sua educação, de sua saúde e até do seu futuro, a barreira existente entre os dois nunca pudera ser vencida.

Maria Helena suspirou procurando fixar sua atenção na música que executava. Se ao menos pudesse banir a tristeza!

Pensou na filha. Que aberração! Sempre fechada no quarto, de onde precisava ser tirada quase à força, conservando-se calada, cabisbaixa, apática e insignificante.

A principio, pensara em alguma doença, em debilidade mental, mas os médicos não haviam encontrado nada. Diagnosticaram timidez, sensibilidade excessiva, temperamento. Logo ela, tão forte e controlada, fora ter uma filha fraca e desequilibrada! Por que essas coisas lhe aconteciam? Sentia vontade de chorar, de morrer!

Ficou ali, tocando, tocando, sem parar. João Henrique entrou na sala, colocando as mãos em seus ombros e beijando-lhe os cabelos com carinho.

— Muito linda essa música, mas muito triste. Quase me fez chorar. Não prefere tocar algo mais alegre?

Maria Helena deixou cair as mãos ao longo do corpo. Depois, voltou-se abraçando-o calorosamente.

— Desculpe se o entristeci. Não tive intenção.

— Não gosto de vê-la triste. Fico triste também.

Maria Helena sorriu.

— Não estou triste — mentiu estendendo os lábios em um sorriso.

— Melhor assim. Há momentos, mamãe, que quando toca, sua música expressa enorme tristeza. Como se você estivesse de mal com o mundo.

— De certa forma, eu estou. Este mundo não é um lugar muito feliz.

— De fato. As injustiças, as doenças, a dor, a morte, nos entristecem. Mas de que adianta pensar nisso? Não tem remédio mesmo.

— Falemos de você.

— Não há nada a dizer.

— Como foi o seu dia?

— Muito bem. Aquele projeto que eu fiz foi destacado pelo professor que me permitiu descrevê-lo minuciosamente aos outros alunos. Ao final, recebi muitos aplausos e foi um sucesso.

Os olhos de Maria Helena brilharam orgulhosos. Seu filho seria um grande engenheiro.

— Gostaria de vê-lo. Não entendo dessas coisas, mas saberei apreciar se me explicar.

— Claro, mamãe. Não o tenho agora. Ficou com o professor que desejava estudá-lo melhor. Mas terei prazer em mostrá-lo a você. Tenho muitas idéias novas e sei que você com o seu bom gosto, poderá não só apreciar como até ajudar-me. Ainda hei de mudar a face da nossa cidade. Tantas belezas naturais e tão pouca preocupação com nossa arquitetura e até com a falta de higiene das ruas, o que é uma vergonha.

— Concordo plenamente — disse Maria Helena satisfeita.

— É preciso cuidar das nossas ruas, providenciar sua limpeza. Não se pode andar a pé sem o risco de mergulhar suas botinas na lama ou no excremento dos animais. Estamos no século vinte. Outros países da Europa têm suas ruas limpas, seus prédios bem construídos, bem cuidados. Por que não podemos fazer o mesmo?

— Na Europa as pessoas não atiram lixo nas ruas. Aqui, não só os serviçais ou os negros, mas até as pessoas da elite o fazem. Ë uma lástima.

— Pois eu vou lutar contra isso. Vou transformar esta cidade em civilizada. Você verá.

— Não vai ser fácil, mas creio que o fará. Você foi feito para comandar, sabe como fazer as coisas.

— Tenho você que me estimula.

— D. Maria Helena!

Maria Helena voltou-se.

— O que é, Amélia?

— É a menina, senhora.

— O que tem? — perguntou Maria Helena desgostosa.

— Hoje ainda não saiu do quarto. Não quis almoçar e ainda agora fui chamá-la ao lanche e recusou-se a abrir a porta. Fechou-se lá dentro.

Maria Helena levantou-se tentando conter a irritação.

— Ela me disse que não queria almoçar porque não estava bem do estômago. Teria piorado?

— Não sei, senhora. Não quis abrir a porta para mim. Ela pode estar mesmo doente. É melhor a senhora mesma ir ver.

Com um suspiro contrariado, Maria Helena dirigiu-se ao quarto da filha. Precisava ser paciente com ela, segundo dissera o médico, mas suas infantilidades tinham o condão de irritá-la. Bateu na porta dizendo com voz enérgica:

— Abra a porta, Maria Lúcia. Deixe-me entrar.

A porta abriu-se em seguida, e o rosto de Maria Lúcia surgiu. Maria Helena empurrou a porta e foi entrando.

— O que aconteceu? Você ainda de camisola em plena tarde? Está doente?

A menina baixou a cabeça e nada disse. Maria Helena continuou:

— Nem parece mulher. Tão desleixada. Olhe a desordem deste quarto, mais parece um pardieiro. Isso não pode continuar. Afinal, menina, está doente ou não, responda!

— Não — balbuciou ela, trêmula.

— Você não tinha dor de estômago pela manhã?

— Tinha, mas já passou.

— Então vista-se imediatamente e desça para tomar o lanche. E não se demore como sempre —. Dirigindo-se ao guarda-roupa, apanhou algumas peças: — Vista isso. Trate de arrumar-se. Odeio o relaxamento. Vamos, menina , não se demore, estarei esperando.

Com um suspiro inconformado Maria Helena deixou o quarto. Essa era uma cruz em sua vida. Que mal havia feito para merecer uma filha tão insignificante.

Maria Lúcia olhou com tristeza as peças de roupa que a mãe atirara sobre a cama. Sentiu impulso de rasgá-las. Conteve-se porém. Sentia vontade de gritar, de dizer que não ia vestir nada daquilo, que, queria ficar em seu quarto, onde podia dar vazão à sua fantasia, imaginar ser o que quisesse, onde não se ruborizava à toa e sempre sabia o que fazer.

Ela sonhava ser forte, bonita, ter personalidade. Na intimidade de seu quarto, era que ela imaginava-se reagindo, aparecendo diante de todos altiva, bela, dominadora; quando sua mãe, olhando-a com admiração apresentava-a aos amigos, falando nela com a mesma freqüência e com o mesmo ardor com que se referia a João Henrique.

Maria Lúcia, maquinalmente, apanhou as roupas sobre a cama e as vestiu. Não gostava daquelas peças. Achava-as horríveis.

Olhou-se no espelho e não gostou. Sentiu vergonha. Ela jamais seria bonita, elegante e segura como a mãe. Ela era feia, desajeitada, burra, insignificante. Penteou os cabelos e prendeu-os com uma fita. Olhou-se novamente e arrancou a fita. Esses enfeites ficavam bem em moças bonitas. Nela, estava ridículo. Fez a trança costumeira e prendeu-a na nuca com grampos.

Finalmente desceu. A mãe esperava-a na porta da copa. Olhou-a dos pés à cabeça, mas nada disse.

— Estou horrível — pensou Maria Lúcia sentindo-se mais desajeitada.

— Sente-se para tomar o seu lanche. Você já está adulta o suficiente para saber que precisa alimentar-se. Não vejo necessidade de D. Amélia precisar incomodar-se por causa dos seus caprichos. Cuidado com essa xícara, não vê que vai derrubá­la?

Maria Lúcia que sentara-se à mesa e esbarrara na xícara, tentou segurá-la e não conseguiu. Espatifou-se no chão. A moça levantou-se assustada. Seu rosto coloriu-se de intenso rubor.

— Viu o que você fez? — disse Maria Helena nervosa. — E não me olhe com essa cara de boba. Pelo amor de Deus! Até quando terei paciência com você?

Maria Lúcia tremia ruborizada e lutava para segurar as lágrimas que já afloravam começando a rolar em suas faces.

Maria Helena estava no limite de seus nervos:

— Chorar agora, não! Isso não. Vamos. Sente-se aí. Você vai tomar esse lanche de qualquer jeito. Amélia, providencie outra xícara. Ainda bem que essa não era do jogo. Para ela, nunca ponha nada do jogo, por favor! Isso. Essa está boa. Agora ponha o café com leite e coloque o pão com manteiga no prato. Agora, coma.

Maria Lúcia, sentada, tensa, lutando para dominar as lágrimas, mãos trêmulas, pegou a xícara e levou-a aos lábios. Estava muito envergonhada. Ela não servia para nada, era um empecilho para a mãe, um peso desagradável que se carrega a contragosto. Ela queria morrer. A mãe estava ali, esperando, e ela sorveu um gole de café com leite. Estava amargo como fel, mas ainda assim ela o engoliu.

— Coma o pão. Precisa alimentar-se.

Ela pegou o pão colocando um pedaço na boca. Não sentia nenhuma vontade, mas, mesmo assim, mastigou um pedaço.

Maria Helena deu-se por satisfeita.

— Amélia, fique aqui e se ela não comer tudo, avise-me. Estou exausta. Vou descansar um pouco.

Maria Lúcia não disse nada, lentamente continuou tomando o leite, comendo o pão, misturado ao gosto salgado das lágrimas que por mais que lutasse não conseguia evitar.


CAPÍTULO 3

Nos dias que se sucederam, José Luiz voltou várias vezes à pequena casa do subúrbio para ver a filha.

Quanto mais conversavam, mais ele sentia crescer a admiração e o respeito por Luciana. A moça tinha caráter bem formado e idéias próprias. Foi com carinho que procurou uma casa para comprar. Desejava rodeá-la de luxo e conforto. Pretendia apagar qualquer ressentimento que a moça pudesse guardar do passado. Mostrar seu lado melhor, conquistar-lhe a admiração, a estima.

Tinha intenção de adquirir um palacete na Glória, mas Luciana recusou. Preferia casa mais simples. Recusou-se também a deixar de trabalhar. Era professora no colégio Santo Antônio. Gostava do seu trabalho e desejava continuar.

— Você não precisa — argumentou José Luiz, aborrecido. —Sou seu pai, vou cuidar de você como é de direito. Terá dinheiro suficiente para viver muito bem.

Luciana fixou no pai seus belos olhos luminosos dizendo com voz firme:

— O trabalho pode não ser só o dinheiro que se recebe por executá-lo. Pode ser alguma coisa a mais. Ensinar as crianças a enxergar a vida, mostrar-lhes as belezas do conhecimento, despertar seus espíritos para o bem, para a participação útil e ativa na sociedade, é uma satisfação que não tem preço, que escolhi voluntariamente e que não pretendo deixar.

José Luiz admirou-se. Para ele o trabalho sempre fora um fardo desagradável que se carrega unicamente em função dos proventos que ele dá.

— Mas agora você não precisa. Poderá ocupar-se em coisas mais interessantes. Ter seu tempo livre para fazer o que quiser.

Luciana sorriu alegre:

— Eu quero lecionar. Está claro que eu, como moça pobre, valorizo o dinheiro que recebo pelo meu trabalho. Porém, quando estou dentro da sala de aula, esqueço tudo. Diante daquelas crianças, vendo-as despertar para o conhecimento, mostrando-lhes a perfeição da natureza, a beleza da vida, ensinando-as a desenvolver todo o bem que guardam no coração, sinto-me muito feliz. Eu gosto de fazer isso. Não conseguiria viver na ociosidade, entre um sarau e outro, o salão de modas ou a vida social. A chance de viver é muito importante para que eu gaste meu tempo na inutilidade. Tudo se movimenta no Universo, gerando equilíbrio e progresso. Quero viver em harmonia com ele. O trabalho é para mim como o ar que eu respiro.

José Luiz olhava-a sem compreender.

—  Nunca ouvi tais conceitos. Não está sendo muito severa consigo mesma, privando-se das alegrias a que tem direito?

—  Você não entendeu o que eu disse. Minha alegria está também em meu trabalho. Ele não é um fardo, mas um prazer. Um prazer que toma parte do meu tempo, que não impedirá que eu tenha outras atividades. Entretanto eu não gosto de freqüentar certos meios onde a futilidade e os mexericos ditam regras e os preconceitos deturpam os valores verdadeiros e eternos do espírito. Gosto de fazer amigos, de conviver com as pessoas, de relacionar-me com elas, porém, seleciono os amigos, faço apenas o que eu gosto e o que me alegra o coração. Respeito quem pensa diferente, mas não aceito pressão do convencional, da obrigação social, da hipocrisia.

—  Se todos fossem como você, nossa sociedade se desagregaria. Seria o caos.

—  Engana-se. As pessoas seriam mais leais, mais verdadeiras. Não arrastariam suas vidas com um sorriso nos lábios e a mágoa no coração, tentando fugir de si mesmas, afundando-se nos vícios, na mentira; sentindo-se a cada dia mais sós em seu meio social, mais infelizes e abandonadas, empobrecendo o coração, sentindo o vazio de uma vida sem objetivos nem amor.

José Luiz saiu da casa de Luciana pensativo. As palavras da filha faziam-no pensar em sua própria vida, tão cheia de sonhos, mas que se transformara exatamente em solidão, vazio, desencanto, amargura.

Ele era o homem de sociedade. Requisitado, convencional, fechando o coração para seus sentimentos verdadeiros, mascarando uma felicidade inexistente, carregando o peso do preconceito, lutando para que os outros não descobrissem seu desencanto, sua vida inútil e vazia, fazendo o papel do homem feliz, aparecendo diante dos outros como um vencedor, um forte, alguém que conseguiu conquistar a felicidade, despertando a inveja dos incapazes, a admiração dos fracos.

Sua vaidade satisfazia-se com isso, mas seu coração estava infeliz e a angústia que o cometia estava ficando mais difícil de suportar a cada dia. Apesar disso, ele não pensava em mudar. Não tinha coragem de enfrentar os preconceitos, nem de admitir que não era feliz. Sentia-se preso à situação que o sufocava, mas não queria fazer nada para modificá-la. Carregava o peso da culpa no coração, aceitando as conseqüências de seus atos passados como uma punição merecida da qual não tinha o direito de queixar-se.

Não compreendeu o ponto de vista de Luciana. Ela era inexperiente, sonhadora, pensou. Naturalmente mudaria de idéia quando já estivesse usufruindo de uma posição melhor, e o dinheiro lhe chegasse às mãos.

Ela lhe pedira para escolher a casa antes de comprá-la, e José Luiz concordou. Apesar de desejar comprar um luxuoso palacete, ele gostou da casa que Luciana escolheu. Era graciosa, bela, rodeada por lindo jardim em um bairro um pouco afastado. Entusiasmou-se vendo sua alegria, percorrendo os aposentos e idealizando a decoração.

José Luiz sentia-se feliz.

— Contrataremos um especialista para escolher o mobiliário.

Luciana colocou a mão no braço do pai dizendo com delicadeza:

— Gostaria de fazer isso eu mesma. Como um estranho poderia saber o que apreciamos? Vovó tem muito bom gosto, me ajudará. Só preciso saber de quanto dinheiro dispomos para isso.

José Luiz abanou a cabeça indeciso.

— Quero que a decoração seja a mais linda possível. Desejo que vocês vivam bem e com alegria. Acha que saberá fazer isso?

— Penso que sim.

— Vamos fazer o seguinte: quero que tudo seja da melhor qualidade: mobiliário, louças, cristais, roupas, etc. Você escolherá tudo. Porém, vou mandar madame Marie para auxiliá-la. Ela entende da qualidade dos fornecedores de tudo e providenciará para você. Quanto ao dinheiro, gaste o que quiser. O que eu quero é que tudo seja do melhor e o mais bonito.

Luciana abraçou-o emocionada.

— Não é preciso tanto. Eu seria feliz com menos.

— Você merece o melhor e o terá.

José Luiz comprou a casa e levou Mme. Marie a Luciana e então começou para elas dias de intensa atividade. A casa foi pintada, mobiliada e José Luiz satisfeito reconheceu o bom gosto da filha.

Um mês depois, mudaram-se para lá. José Luiz contratara criados e pretendia comprar um carro, mas Luciana recusou.

— É demais. Teria que ter chofer e não há necessidade. Quando precisar, tomo um carro de aluguel. Chega já o que fez por nós. Tudo está maravilhoso.

Egle sentia-se feliz, vendo o carinho de José Luiz para com Luciana. Entusiasmara-se com o belíssimo piano que havia na sala, frente ao qual sentava-se todas as tardes e tocava velhas canções inglesas, recordando a pátria distante.

Vendera seu piano depois da morte da filha para poderem sobreviver. Luciana também gostava de tocar. Havia estudado desde criança. Sabia os clássicos, mas preferia as valsas, os lundus, os xotes e os tangos. Nenhuma delas tocava diante de José Luiz. Sentiam-se inibidas. Foi ele quem, uma tarde, sentado no sofá após o chá, costume que Egle conservava religiosamente, lembrou:

— Há aqui um piano. Lembro-me que a senhora tocava muito bem. Nunca esqueci aqueles tempos! Seu piano era lindo. Procurei um igual para comprar, mas não achei.

— Trouxe-o de minha terra. Era um tanto antigo, mas muito bom. Infelizmente tive que vendê-lo.

Pelos olhos da velha senhora passou um brilho de emoção.

— A senhora tocava lindas canções. Eu as adorava. Quer tocá-las para nós?

Egle dirigiu-se ao piano e com graça tocou várias canções. José Luiz, olhos marejados, sentia-se transportado ao passado, com Suzane a seu lado na pequena casa em São Paulo. Por que a perdera? Por quê?

Egle terminou uma canção, e Luciana, observando a tristeza no rosto do pai, disse alegre:

— Vovó, agora sou eu.

Imediatamente Egle levantou-se, e Luciana, sentando-se frente ao piano, começou a tocar um xote muito em voga.

Arrancado do seu mundo interior, olhou a filha admirado. Ela jamais dissera que tocava piano. Luciana não só tocava bem como cantava com voz agradável, sem ser empossada tão ao gosto da época. Graciosa, do xote passou à valsa, da valsa ao tango, que não cantou.

Ele estava deliciado. Quando ela parou, ele perguntou:

— Não toca clássicos?

Ela sorriu.

— Gosto de brincar ao piano, não sou uma virtuose. Gosto de cantar, traz alegria ao coração. Nunca faço isso diante dos outros. Quis alegrá-lo. Você estava triste.

— Mas estudou piano...

— Estudei. Quer ver?

Luciana tocou uma peça de Liszt razoavelmente bem. O pai ficou satisfeito.

— Você toca bem — disse ele — deveria dedicar-se mais aos clássicos.

— Por quê? Gosto deles, há páginas belíssimas. Mas aprecio também as canções em voga. Esta música, por exemplo, é uma delícia.

E a moça tocou um xote malicioso e alegre.

— Tem razão. Possui um jeito especial para essas músicas alegres. Faria muito sucesso em qualquer sarau.

— Deve ser o meu sangue plebeu. Sou do povo e gosto das coisas populares.

José Luiz riu divertido. A jovialidade alegre de Luciana fazia-lhe enorme bem. As horas que passava em casa da filha, passaram a ser os momentos mais felizes de sua vida. Lá, podia ser ele mesmo, sem fingimentos nem dissimulações. Dizer o que pensava, usufruir de uma atmosfera de paz, carinho, alegria, amor. Sentia-se querido, recebido com prazer, valorizado.

Também apreciava conversar com Luciana. Gostava de sua inteligência arguta, seu espírito alegre, sua maneira de enxergar a vida. Por isso, suas visitas eram cada vez mais assíduas, e ele sempre achava um jeito de passar por lá, ainda mesmo quando seus compromissos não lhe permitiam demorar.

Apesar da mudança que a presença de Luciana trouxera em sua vida, ele continuava cumprindo religiosamente suas obrigações sociais com a família.

Maria Helena sentia que o marido estava diferente. Havia um brilho novo em seus olhos, e havia momentos em que ele parecia haver remoçado. Estava menos irritado, mais paciente e mostrava-se algumas vezes distante, pensativo, absorto.

O que teria acontecido? Em casa, nada havia se modificado. Os problemas eram os mesmos. Havia guerra na Europa, mas os negócios iam bem, como sempre. O que estaria acontecendo?

Uma noite em que recebiam os amigos, Maria Helena ao piano executou brilhantemente uma música clássica. Quando terminou, José Luiz aproximou-se dela, dizendo com olhos brilhantes:

— Que beleza! Você é uma artista!

— Obrigada — respondeu ela, sentindo seu coração bater mais forte, tal a emoção. Seu marido jamais elogiara uma execução sua. Parecia-lhe que ele sequer prestava atenção quando tocava. Admirou-se.

José Luiz olhou a filha que sentada a um canto da sala parecia indiferente e só. Aproximou-se dela que vendo-o, levantou-se.

— Fica sentada.

Sentou-se a seu lado. Ela sentara-se novamente, na ponta da cadeira. Estava tensa. Seu pai quase nunca lhe dirigia a palavra, principalmente em público.

— Como vão seus estudos de piano? — perguntou.

A moça corou e baixou a cabeça, sem responder.

— Estou falando com você. Continua estudando piano, não é?

— Sim. — respondeu ela baixinho.

— O que você gosta de tocar?

— Eu toco o que a professora manda.

— Você gosta de tocar?

— Não muito.

— Por quê?

— Eu não sei tocar como mamãe. Nunca vou aprender. Ela nunca acha que está bom. Ela tem razão.. Eu não dou para a música.

 — Você não gosta?

— Não sei. Tenho vergonha. Sei que vou errar as notas. Sempre erro alguma. Prefiro não tocar.

José Luiz olhou-a desanimado. Que diferença de Luciana, tão cheia de vida, sabendo sempre o que quer.

Levantou-se e olhou o filho. Conversava com alguns amigos. Naquele momento, tinha o rosto descontraído e alegre. Era um bonito moço. José Luiz aproximou-se.

Falavam sobre arquitetura, grande paixão de João Henrique. Vendo-o aproximar-se, pararam o assunto ao que José Luiz considerou:

— Por favor, continuem, também me interesso pela beleza da nossa cidade.

Eles retomaram a conversa, mas João Henrique mudara completamente sua expressão. Seu rosto tornara-se frio, ouvia calado as palavras dos demais e José Luiz, entristecido, depois de alguns minutos, afastou-se.

João Henrique não o aceitava. Por quê? Teria sido influenciado por Maria Helena?

Ele era muito afeiçoado a ela. Essa atitude do filho começava a incomodá-lo. Afinal, era seu único filho homem. Era inteligente, culto, por que se afastara tanto dele?

José Luiz preocupava-se com os filhos. O amor de Luciana, a felicidade que sentia a seu lado, despertara nele os sentimentos de pai. Durante aqueles anos, havia se voltado muito aos seus próprios problemas, jamais usufruíra das alegrias da paternidade. Teria sua indiferença os afastado de Si?

Olhou-os. Talvez já fosse muito tarde para tentar modificar as coisas.


CAPITULO 4

Foi uma semana depois, tomando chá em casa de Luciana, que José Luiz mencionou os filhos. Abriu o coração. Falou do desejo que sentia de aproximar-se deles e da culpa que guardava por não haver se dedicado a eles como deveria.

Sentia-se triste, deprimido. Diante de Luciana, ficava àvontade para falar dos seus sentimentos. Desabafou amargurado:

— Não sei porque estou falando nesse assunto. Trazendo meus problemas. Eles não têm remédio. Agora é tarde para fazer qualquer coisa.

Luciana que o ouvira em silêncio, colocou sua mão no braço do pai com carinho.

— Não desanime. Não nos é dado conhecer o futuro. De um momento para outro, tudo pode mudar para melhor.

José Luiz abanou a cabeça com tristeza:

— As coisas não vão mudar.

Luciana sorriu levemente.

— Tudo muda neste mundo. A cada minuto, todas as coisas estão diferentes. É a pulsação da vida. Ninguém consegue parar o tempo, as mudanças. Quer estejamos conscientes delas ou não, quer a desejemos ou não. Minha vida, de repente, modificou-se completamente, para melhor. Encontrei você. Não sou mais a órfã com receio de ficar só no mundo.

José Luiz fixou o belo rosto da filha e um brilho de emoção refletiu em seus olhos.

— É verdade! Para mim tudo mudou depois que nos encontramos. Ter uma filha como você, fez-me sentir que não estou só. Que há alguém que me quer bem e que se preocupa por mim. Que se interessa pelo meu bem-estar.

Luciana sacudiu a cabeça:

— Não está sendo injusto com sua família?

—   Não — respondeu ele. — Eles apenas me suportam. Não demonstram nenhum afeto. Ao contrário, sinto que ficam aliviados quando me afasto.

— Sua esposa também?

— Maria Helena é mulher fria, indiferente, Incapaz de amar.

— Todos somos feitos para amar. O amor é lei da vida. Ninguém pode viver sem amor.

— Maria Helena vive. A ela só interessam os preceitos sociais. Não sente nem um pouco de afeto por mim. Não se importa se me sinto bem ou como gasto meu tempo. Desde que eu compareça pontualmente a seu lado em nossos compromissos sociais, tudo está bem.

— Com os filhos ela também é assim?

José Luiz suspirou com tristeza:

— Com Maria Lúcia é. Não a culpo. Nossa filha desanima qualquer pessoa. É apagada, retraída, tímida. Temos desgosto vendo-a tão insignificante. Maria Helena tenta ajudá-la, mas não consegue nada. Com João Henrique, ela é diferente. Nosso filho éapegado a ela, eu diria até, que de forma doentia. É o seu preferido. Estão sempre juntos, conversando, e ela o defende sempre.

— Eu sabia que ela não agüentaria viver sem dar amor. Ninguém pode. É lei de Deus. Toda a afetuosidade dela canaliza-se para ele.

— Você acha certo isso? Maria Lúcia também é filha.

— O que é certo ou errado só Deus sabe. O que eu percebo é que D. Maria Helena, como todos nós, tem muito amor no coração.

José Luiz admirou-se:

— Ela é uma mulher indiferente, fria. Só com João Henrique ela muda. Isso é egoísmo. Se fosse amorosa, seria afetiva com a filha e com todos que a cercam.

Luciana levantou para o pai os seus olhos brilhantes onde se refletiam compreensão e afeto.

— A indiferença, a frieza, podem ser a forma de impedir o sofrimento, de ferir o coração. Uma maneira de defesa para evitar a dor.

— Maria Helena? Você não a conhece. Sempre teve tudo. Nasceu em berço de ouro. Nunca a vi chorar, nem lamentar-se, mesmo diante dos problemas com Maria Lúcia. É mulher forte, dirige a casa com energia.

— Ela se casou por amor?

Apanhado de surpresa, ele pensou um pouco antes de responder.

— Não sei. Acho que não. As mulheres se casam por vários motivos. Para obedecer os pais, por medo de ficarem solteiras e até por curiosidade.

— Ela nunca lhe disse que o amava?

— Nunca. A princípio, cheguei a pensar que sim. Mas depois, quando nosso filho nasceu, ela apegou-se a ele. Antes dele nascer, para dar-lhe mais conforto, fui dormir em outro quarto. Ela gostou da situação, nunca me chamou de volta.

— Eu também não chamaria.

— Por quê?

— Porque a decisão foi sua. Competia a você tomar a iniciativa.

— Se existisse amor, essas coisas seriam secundárias.

— Pode ser. Mas a forma de educação, os preconceitos e até o orgulho, podem influenciar mesmo quando existe amor. Eu não o chamaria de volta. No lugar dela, eu lutaria. Não teria perdido o seu amor.

José Luiz riu gostosamente.

— Você me aprecia. É diferente.

— Se ela se casou com você, foi porque o apreciava. Uma mulher como ela, sempre sabe o que quer. Deve ter percebido que não era correspondida e retraiu-se. Seu orgulho foi mau conselheiro. Ele sempre prejudica. Por causa dele, ela atirou fora a felicidade.

José Luiz sentiu que a filha podia ter razão. Ele não amava sua mulher. Iludira-a demonstrando um interesse que não sentia.

— A culpa foi minha. Casei com ela apaixonado por outra.

Luciana fixou o pai com seriedade.

— Não se trata de culpar ninguém. A culpa também pode ser uma desculpa para não fazer o que se deve. Reconhecer a culpa, até certo ponto, é válido, contudo, corrigir o erro, refazer o prejuízo, é mais importante.

José Luiz suspirou:

— Nada posso fazer agora. Eles não gostam de mim.

Luciana sorriu.

— Pensar assim é uma maneira cômoda de alimentar a culpa e de justificar a inércia.

As palavras da filha calavam fundo no coração dele. Querendo dissimular a emoção, ele disse em um tom que esforçou-se por tornar natural:

— Nosso casamento começou errado. Jamais daria certo.

— Apesar de tudo, se eu fosse ela, teria tentado. Você é um homem encantador. Tenho certeza de que ela se casou por amor. Eu lutaria para conquistá-lo. Não teria aceitado passivamente os acontecimentos.

— Se ela me amasse, teria feito isso. Porém, entre nós não existe amor.

Luciana sacudiu a cabeça pensativa.

— Ela teve uma educação austera, como todas as mulheres de hoje.

José Luiz assentiu com a cabeça. Ela prosseguiu:

— Essa rigidez de princípios unida ao orgulho podem ter bloqueado seus sentimentos. O medo de não ser correspondida, de sofrer. Nesses casos, é preciso haver um entendimento, uma conversa franca que esclareça a situação.

— Isso não era possível. Eu jamais teria contado a verdade. Não desejava aparecer como interesseiro, nem humilhá-la.

— O seu desinteresse pode tê-la humilhado muito mais do que a verdade o faria. Vocês sequer se conhecem. Ela não sabe o que vai em seu coração e você, por sua vez, desconhece seus sentimentos íntimos. Como pode haver compreensão, afeto, entendimento, sem isso?

— Realmente não há. Respeito-a como mãe dos meus filhos; convivemos educadamente. Mas amor, não há. Vivemos em quartos separados. Hoje, eu teria constrangimento de ir ao seu quarto.

Luciana olhou-o nos olhos dizendo com emoção:

— Ela deve sofrer com isso.

José Luiz sacudiu a cabeça:

— Não creio. Jamais demonstrou desejo de aproximação.

Luciana colocou a mão no braço do pai enquanto dizia:

— Você não está percebendo a verdade. Arrependeu-se de haver abandonado minha mãe, gostaria de pedir-lhe perdão, reconhece que errou casando-se por interesse com outra mulher. Não conseguiu ser feliz. Culpa-se por isso. Diz que deseja reparar o passado. Cerca-me de amor, luxo, conforto. E D.Maria Helena? Não terá sido também uma vítima? Não terá colocado em você todas as suas esperanças de mulher e colhido apenas desinteresse, indiferença, desamor?

José Luiz empalideceu. Era duro para ele admitir que ela tinha razão. No fundo de sua consciência, ele sabia que a havia iludido, representando o papel de homem apaixonado. E que, depois de alcançado o objetivo com o casamento, não mais se dera ao trabalho de continuar a representar seu papel. Vendo que ela não exigia nada, acomodara-se.

Era-lhe agradável pensar que ela não o amava e assim diminuir a consciência de sua culpa.

Cumprindo socialmente o papel de marido, pensava oferecer-lhe certa compensação.

— Você está sendo dura comigo.

— Desculpe, papai. Não desejo entristecê-lo. Mudemos de assunto. Os franceses conseguiram segurar os alemães em Verdum, li nos jornais. Tenho esperanças de que a guerra acabe.

— Pois eu não. Há muitos interesses em jogo. Os alemães estão muito fortes. Estão jogando bombas até no povo nas cidades. Seus Zepelins espalham terror e morte. É monstruoso!

Luciana concordou:

— É cruel a morte de pessoas inocentes que não criaram a disputa e encontram-se desamparadas, dentro de suas casas.

— Nunca houve guerra tão cruel como esta! Se os alemães vencerem, o mundo sofrerá ainda mais. Eles pretendem dominá-lo!

— Não acredito que possam vencer. Todos os que tentaram conquistar esse domínio, nunca conseguiram. César, Napoleão, foram derrotados. O Kaiser também o será. Deus não permitirá.

Luciana falava convicta. José Luiz objetou:

— Se Deus estivesse interessado, teria impedido esse morticínio. Só em Verdum morreram centenas de pessoas dos €ois lados. Por que ele permite tal coisa?

— A guerra foi invenção do homem, sua ambição, sua ânsia de poder, seu egoísmo. O homem tem livre-arbítrio, pode optar, escolher seu caminho. Você mesmo, se decidir amanhã pegar sua arma e matar uma pessoa, nada o impedirá. Contudo, ao escolher um caminho, você provoca uma resposta, uma reação da vida, das pessoas, das coisas ao seu ato e perceberá suas conseqüências, sentindo-lhe os resultados.

— Numa guerra, morrem inocentes. Até os soldados estão obedecendo ordens. Só os governos são responsáveis, mas todos pagam, sofrem.

— É verdade. Porém, amadurecem, ganham experiência. Muitos que são inocentes agora, nesta guerra, em vidas passadas cometeram crimes, acreditaram na violência, abusaram do poder. Numa guerra, o homem é provado em sua fé, em seu amor pelo próximo e em sua dignidade. Aparecem os assassinos e os heróis; os abnegados, os líderes verdadeiros, os sanguinários. Há como uma aferição de valores. É como uma prova difícil, que o próprio homem escolheu, mas que Deus permite para acelerar seu progresso ainda que pela dor.

José Luiz permaneceu pensativo. A filha dizia coisas muito originais obrigando-o a pensar, vendo as coisas sobre outros ângulos.

— Isso de vidas passadas é tolice. Não acredito ter vivido outras vidas. Não me recordo delas. Que utilidade teria?

Luciana olhou o pai e sorriu:

— Se você vivesse só esta vida, que utilidade teria? Como amadurecer, aprender, crescer, vivendo apenas 60 ou 70 anos neste mundo?

— Este é um problema em que o homem se debate há séculos. Nunca conseguiu saber.

— Não lhe parece mais lógico que voltemos ao mundo outras vezes para continuar aprendendo?

— Para quê?

Fomos criados para sermos eternos. Para desenvolvermos nossos potenciais, como espírito, e aprendermos a cooperar com a natureza e as forças da criação.

— Como chegou a essa conclusão?

— Observando. Se fomos criados simples e ignorantes, de onde vêm as diferenças de aptidões, dos graus de inteligência, de bondade, de beleza, de personalidade e até de objetivos? Você tem dois filhos, da mesma mãe, e criados no mesmo lar, por que são tão diferentes um do outro?

— Não saberia dizer.

—   Porque já viveram outras vidas, outras experiências, outras situações; escolheram seus caminhos de forma diferente...

— Mesmo assim, é difícil crer.

— Como conciliar a justiça perfeita de Deus com a desigualdade entre as pessoas no mundo?

— Muitos descrêem de Deus por causa disto.

— Porque sua justiça não se circunscreve a uma só existência. Ela se estende através das muitas vidas que cada um vive na Terra, respondendo as suas escolhas adequadamente.

— Tem lógica, contudo...

Luciana sorriu novamente.

— Não pretendo cansá-lo com minhas idéias. Peço-lhe que observe certos fatos e tente compreendê-los.

Ao sair da casa da filha, José Luiz estava pensativo. As pàlavras de Luciana tinham remexido a ferida que ele lutava por ignorar. Apesar de tudo, reconhecia haver induzido Maria Helena ao casamento, iludindo-a vergonhosamente. Se não a houvesse envolvido em suas ambições, ela teria tido a chance de encontrar outro homem que a pudesse amar, dando-lhe o afeto que ele nunca dera.

Agora, era tarde. Infelizmente não podia fazer nada. Suzane estava morta, e Maria Helena irremediavelmente presa a ele e aos filhos, sem amor nem esperança.

Naquela noite, não conseguiu dormir de pronto. Sua consciência incomodava-o.

Remexia-se no leito pensando:

— O que havia feito de sua vida? Se a vida de fato respondia às escolhas de cada um, já lhe dera uma amarga resposta. Seu egoísmo, sua ambição, haviam sido satisfeitos. Ele quisera dinheiro, poder, projeção social, aparência. Possuía tudo isso, alcançara seus objetivos. Mas, a que preço? Passara por cima de sentimentos, ferira pessoas, enganara, iludira. Vencera. Mas, a vitória mostrava-se insignificante frente ao que perdera. Ele se enganara. Tinha de reconhecer que depreciara os sentimentos e que colocara, em primeiro plano, coisas secundárias. Nunca, como naquela hora, José Luiz sentiu o gosto amargo da derrota, do fracasso.

A única coisa boa de sua vida era Luciana. Fracassara como marido, como pai. Tinha diante de si uma vida vazia, sem felicidade. Sua família não o apreciava. Não os culpava. Ele nunca fizera nada para aproximar-se dos filhos. Respeitavam-no, porém, não o amavam. João Henrique demonstrava até certa aversão.

Naquele instante, José Luiz admitiu sua culpa. Ele criara a situação. Ninguém, senão ele, era o responsável por ela.

Só muito tarde da noite foi que ele conseguiu conciliar o sono.

Nos dias que se seguiram, José Luiz procurou conformar-se. Nada havia para fazer. Sua oportunidade de ser feliz passara. Precisava continuar a levar a vida como sempre, mesmo guardando o arrependimento e a desilusão no coração.

Entretanto, apesar disso, pensamentos novos começaram a incomodá-lo. As palavras de Luciana, por vezes, povoavam-lhe a mente, despertando indagações, chamando sua atenção para outros aspectos de sua vida.

Fixando o rosto bonito de Maria Helena, seu porte elegante, suas maneiras educadas, pensava:

—“Ninguém pode viver sem amor. Maria Helena teria amado? Embaixo daquela indiferença, ela ocultaria sentimentos, desejos de amar?”

Vendo-a controlada, segura, isso parecia-lhe quase impossível. Luciana era inexperiente, não conhecia Maria Helena; enganara-se por certo. Sua esposa só se importava com a sociedade, as aparências, com os filhos. Ou melhor, com o filho.

— “Eu sabia que ela não poderia viver sem dar amor.

Ninguém pode”. Seria essa maneira de amar de Maria Helena?

Teria ela colocado toda sua capacidade de amor em João

Henrique?

Essa idéia, agora, parecia-lhe muito provável. Não amando o marido, nem sendo amada, seus sentimentos canalizaram-se para ele. Apesar de inexperiente, Luciana poderia ter razão.

Seria mesmo verdade que ninguém agüenta viver sem dar amor? Seria esta a razão dele não esquecer Suzane, de sentir esse vazio dentro do peito, essa amargura, esse desconforto?

Ao dar amor para Luciana, experimentava satisfação e alegria. Tornara-se mais sensível, humanizara-se.

Ah! Se pudesse abraçar Suzane, dar-lhe todo amor que sufocara no coração, como seria feliz! Pela primeira vez, sentiu que o amor era o sentimento mais profundo dentro dele, essencial à sua satisfação interior. Como pudera subestimá-lo a ponto de colocá-lo em segundo plano? Como pudera considerar mais importante os valores sociais e materiais?

Olhou para a esposa que sentada à cabeceira da mesa, depois do jantar, tomava tranqüilamente seu café. O filho não jantara em casa, e Maria Lúcia permanecera no quarto, o que era comum.

Preso ao fio de seus pensamentos íntimos, José Luiz perguntou fixando-a:

— Você acha que alguém pode viver uma vida inteira sem dar amor?

A pergunta era inusitada e Maria Helena estremeceu sem encontrar de pronto uma resposta. Procurou ganhar tempo para ocultar a emoção.

— A que vem sua pergunta?

— Eu estava só pensando na importância que cada pessoa dá ao amor. Não só o amor entre um homem e uma mulher, mas de um modo geral, entre pais e filhos. O que pensa a respeito?

José Luiz jamais havia procurado conhecer os sentimentos íntimos da esposa. Ela olhou-o admirada. Ele pareceu-lhe diferente. A que atribuir essa mudança? Procurando controlar-se, respondeu:

— O amor de mãe é muito gratificante. Principalmente quando o filho corresponde e merece ser amado.

O marido continuou a olhá-la, buscando compreender o que ela dizia:

— Sua forma de amar se resume só em seu filho. Você não acha que é egoísmo? Você tem dois filhos e ama só a um?

Ele sabia que, de certa forma, estava sendo maldoso e encontrava até prazer nisso. Queria testar até onde a indiferença dela chegava. Sentia curiosidade em descobrir se ela era mesmo tão fria quanto aparentava.

Maria Helena sentiu brotar dentro de si uma onda de indignação. Ele que a envolvera sem amor, que não amava a família, que era o homem mais egoísta e frio que conhecera, atrevia-se a julgá-la, a classificá-la de egoísta? Ele que sempre só se preocupara com o próprio sucesso, só se interessava em aparecer a seu lado na sociedade, que nunca se importara com sua desilusão, sua mágoa, sua renúncia de afeto, tinha o desplante de chamá-la de egoísta?

Eles nunca haviam discutido antes. Resolviam as questões educadamente. José Luiz não dava à esposa muitas explicações sobre os negócios e deixava sempre a critério dela o governo da casa e dos filhos.

Maria Helena tentou controlar a raiva. Procurou tornar a voz fria quando disse:

— Se há aqui alguém egoísta, não sou eu. Nesses anos todos de casamento, tenho procurado desempenhar minhas responsabilidades com dedicação. Jamais faltou nada a você ou aos nossos filhos. Se tenho mais afinidade com João Henrique, não significa que tenha cuidado menos de Maria Lúcia. Você sabe que ela é diferente. Não se aproxima de nós. Não gosta de mim como ele gosta. Não posso impingir a ela um amor que ela não deseja.

Ele ficou pensativo durante alguns segundos. Teria Maria Helena agido com ele da mesma forma que com a filha? Objetou:

— É assim que você pensa? Só dá afeto a quem demonstra ostensivamente que a ama?

Apanhada de surpresa, ela não encontrou resposta de pronto. Depois, conseguiu dizer:

— Sim. O amor só merece correspondência quando éprovado.

— Você seria incapaz de amar alguém que não a amasse, ou não demonstrasse seu amor?

— Seria. Ainda que sofresse muito, arrancaria esse amor do coração. Por que essa discussão agora? Nunca falamos sobre esses assuntos. Qual a razão desse seu súbito interesse em conhecer minha forma de pensar?

— Estou lendo um livro de um pensador, — mentiu ele — que afirma que ninguém no mundo pode viver sem dar amor. Que o amor é essencial à própria vida. Curiosidade apenas.

Embora aparentando tranqüilidade, Maria Helena ainda lutava com a emoção.

— Para mim, o único amor verdadeiro e capaz de todos os sacrifícios é o amor de mãe. Só ele é sincero e merece ser alimentado.

José Luiz admirou-se:

— Você não crê no amor entre um homem e uma mulher?

Maria Helena conseguiu imprimir um tom frio ao responder:

—   É só um jogo de interesses onde cada um se acomoda às conveniências. Assim, é o casamento. Um arranjo prático, nada mais.

Ele irritou-se com a resposta. Seria ela tão segura de si como parecia? Resolveu provocá-la:

— E os grandes amores da história? E aqueles que abandonam tudo, posição, família, dinheiro para seguir o amor?

Maria Helena abanou a cabeça:

— Ilusão. Só ilusão. A paixão é como doença, destrói os valores e esmaga a quem a sente.

— O amor para você só é válido no casamento.

— Seria , se existisse.

— Você está generalizando. Nós conhecemos casais que se amam, dentro do casamento.

Ela sacudiu a cabeça em negativa enquanto dizia:

— Aparências, conveniências. A família é uma instituição social sagrada. Toda pessoa de bem luta para preservá-la. Acredito na amizade, na convivência educada. É vantajoso para o casal preservar esses valores. Há os filhos.

— E o sentimento? E o amor?

— Não existe. Todos estão tão interessados em demonstrar felicidade, em aparentar, que acabam por iludir-se acreditando que o sentem. Na verdade, só Deus sabe o que guardam no Intimo, escondido no coração.

— Você também esconde o que lhe vai no coração?

Havia uma ponta de ironia em sua voz quando ela respondeu:

— Não posso guardar dentro de mim sentimentos nos quais não creio. Há muito que as ilusões não fazem parte de minha vida. Estou estranhando essas perguntas partindo de você, sempre preocupado com outros interesses.

José Luiz irritou-se. As palavras dela, embora veladas, faziam alusão ao motivo que o levara a casar-se. Colocou-se na defensiva. Ele podia acusar-se, porém, ainda não se sentia com forças para aceitar que ela o fizesse. Olhou-a sério, dizendo com firmeza:

— Engana-se. Se algum dia pensei de forma diferente, hoje sei que estava enganado. O amor existe e é a maior força da vida. Está acima de tudo.

— Do dinheiro, do nome, da posição, do poder? — inquiriu ela, dura.

— Sim. Acima de tudo. Eu concordo com o livro. Ninguém pode viver sem dar amor.

Maria Helena sentiu um aperto no coração. Estaria ele amando alguma outra mulher? Isso explicaria sua mudança, sua humanização. Sentiu medo. Empalideceu.

— Desculpe — disse — estou cansada, vou recolher-me.

— Você não me parece bem. Minha conversa a desagradou?

— Absolutamente. Estou cansada. Vou repousar um pouco e logo estarei bem.

— Minha curiosidade é só literária. Em tese, tudo é possível neste mundo, até o amor.

Ela levantou-se e procurou aparentar a mesma serenidade de sempre, porém, sua respiração um pouco acelerada, sua palidez, o brilho nos olhos, demonstravam o contrário.

— Boa noite — disse ela.

— Tem certeza de que está bem? — insistiu José Luiz que também se levantara oferecendo-lhe o braço. — Acompanho-a até o quarto.

— Obrigada. Não é preciso. Boa noite.

— Boa noite — repetiu ele.

Sentado em uma poltrona em seu quarto, José Luiz tinha entre as mãos um livro entreaberto, sem ler. Seu pensamento tentava compreender a atitude de Maria Helena. De uma coisa tinha certeza: ela não era tão fria e controlada quanto deixara transparecer. Reconheceu que Luciana estava certa em um ponto. Ele não conhecia a esposa tanto quanto pensava.

Acreditava também que ela não guardava ressentimentos pelo passado. Chegara a pensar que ela houvesse aceito sua falta de interesse e de amor, como uma coisa natural na rotina do casamento.

Suas palavras, entretanto, haviam demonstrado o contrário. Apesar dele esforçar-se por ser educado e socialmente irrepreensível como marido, Maria Helena percebera que não era amada, e que ele se casara por conveniência.

Sentiu-se desconfortável. Sabia ter agido mal, arrependera­-se, porém, seu orgulho não aceitava que a esposa soubesse disso. Para encobrir essa verdade é que se esforçava para atender suas obrigações diante dos outros, representando o papel do bom marido e do bom pai.

Pensou em João Henrique. Ele também teria percebido a verdade? Apaixonado pela mãe, seria essa a razão pela qual ele não o apreciava? Guardaria por causa disso algum ressentimento no coração? Julgá-lo-ia também um oportunista, um interesseiro?

Levantou-se sentindo certo mal-estar. Seu filho sempre fora um jovem idealista. Apesar da. falta de afinidade com o pai, pudera observar seus projetos, suas idéias profissionais, sempre objetivando a arte, a beleza, os benefícios para o povo, a vontade sempre manifesta de melhorar o padrão de vida na sua cidade.

João Henrique era muito bem-visto até pelos mais velhos que o elogiavam com entusiasmo. Como pai, orgulhava-se disso. A idéia que ele pudesse conhecer a verdade e desprezá-lo, era-lhe insuportável.

Apesar disso, começou a perceber que as pedras daquele quebra-cabeça começavam a encaixar-se. Pela primeira vez, encontrava um motivo que pudesse justificar a aversão do filho por ele.

Arrasado, sentou-se novamente. Como não percebera isso

Reagiu. Afinal, apesar de não se ter casado por amor, sempre cercara Maria Helena de atenções, apoio. Nunca haviam tido atritos sérios e Maria Helena em tempo algum mostrara-se infeliz.

Passou a mão pela testa como a afastar dali pensamentos desagradáveis.

Não estaria exagerando? Sentindo remorsos pelo passado, não estaria fantasiando?

Suspirou fundo e tentou ler o livro que detinha nas mãos, mas foi-lhe difícil concentrar a atenção na leitura.

Na manhã seguinte, à mesa do café a família reuniu-se. NãO era sempre que isto acontecia. José Luiz fixou o rosto de Maria Helena procurando analisá-lo. Ela estava como sempre. Parecia calma e interessada apenas na disposição da mesa para que nada faltasse.

Depois do “bom dia”, sentados todos ao redor da mesa, enquanto servia-se de café com leite, José Luiz procurou conversar com o filho.

— Vai à universidade?

— Vou.

— Outro dia, o dr. Mezara falou-me com entusiasmo sobre um projeto seu. Teceu muitos elogios. Gostaria de conhecê-lo.

João Henrique surpreendeu-se:

— Você nunca se interessou por arquitetura. Iria maçá-lo.

— Engana-se. Embora não conheça detalhes técnicos, sei apreciar um projeto, seja de uma bela casa, de uma ponte, de uma praça ou de uma rua. Dizem até, os meus amigos, que tenho senso para isso. Quando você tiver tempo disponível, apreciaria vê-lo.

— Está bem. Qualquer dia destes, eu o mostrarei.

— Vale a pena, meu filho — lembrou Maria Helena com entusiasmo. — É uma beleza!

Olhou para o marido ligeiramente desconfiada. Ele estava diferente. Nunca procurara aproximar-se do filho.

— Você exagera, mãe!

— Penso que não — retrucou José Luiz. — Várias pessoas elogiaram esse projeto. Pessoas que entendem do assunto.

Maria Helena sentia-se feliz. Vibrava com a capacidade do filho.

José Luiz fitou Maria Lúcia que, de cabeça baixa, pausadamente, tomava seu café. Tentou conversar com ela.

— E você, minha filha, o que está fazendo de bom?

Ela olhou-o assustada. Gostava de passar despercebida. Ele repetiu:

— Então, filha, o que tem feito de bom? Ela balbuciou:

— Nada. Eu não sei fazer nada.

Maria Helena franziu o cenho, mas nada disse. Olhando o rosto da filha, José Luiz penalizou-se. Ela estava um pouco trêmula. Sabia que, se insistisse, ela chegaria às lágrimas. Não queria isso. Assim sendo, respondeu calmo:

— O que você não sabe, pode aprender. Para isso há professores. Se todos soubéssemos fazer tudo, não precisaríamos deles. O que é preciso é ter vontade de aprender.

— Sim, senhor.

O    silêncio se fez. João Henrique pediu licença e saiu; Maria Helena acompanhou-o até a porta como de costume. José Luiz perguntou à filha:

— Você gosta de música?

— Um pouco.

— Que tipo de música?

— Mamãe diz que é preciso apreciar o clássico.

— Você gosta?

Ela baixou a cabeça. Ele repetiu:

— Você gosta?

Ela queria dizer que odiava, porém balbuciou:

— Mais ou menos.

— Parece que não é uma entusiasta.

— Eu tento, papai. D. Eudóxia quer que eu estude três horas por dia. Não consigo.

— Só música clássica?

— Só. Essa é a boa música. A única que mamãe me permite aprender.

José Luiz sentiu uma sensação desagradável. Maria Helena era muito exigente com a filha. Era preciso tentar ajudá-la, perceber o que ela realmente gostava.

Levantou-se, aproximou-se de Maria Lúcia, colocando a mão em seu ombro.

— Hoje, antes do jantar, gostaria de ver seus cadernos de música.

Ela sobressaltou-se:

— Para quê?

— Para saber o que D. Eudóxia está fazendo com você. Não se preocupe, não vou avaliar você, nem criticar. Preciso ir agora. Até logo, filha.

Beijou-a na testa e fingiu não perceber o rubor que coloriu seu rosto.

— Até logo, — murmurou ela.

Aquela tarde, ao chegar em casa, José Luiz cumpriu o prometido. Mandou chamar a filha e pediu para ver as partituras e os cadernos de música nos quais ela estudava.

A moça obedeceu em silêncio. Ele folheou-os e perguntou:

— Onde você está? O que tem para estudar?

Ela separou as músicas. Ele pediu:

— Toque para mim.

Maria Lúcia estremeceu.

— Desculpe, papai, eu não posso. Iria errar tudo. Acredite, eu não sirvo para pianista. Não consigo aprender!

Maria Helena entrou e tendo ouvido as palavras da filha, Irritou-se. Sua incapacidade era um horror.

— Vamos, menina. Toque. É preciso lutar. — Olhando as partituras, continuou: — Você sabe essa lição, estudou-a muitas vezes. Vamos ver como está.

Maria Lúcia enrubesceu e seus lábios começaram a tremer. José Luiz não queria provocar uma cena. Por isso, interveio:

— Se ela não sente vontade de tocar, não é preciso. A execução de uma música é um prazer, não um sacrifício.

Maria Helena olhou-o com reprovação

— Dessa maneira ela jamais vencerá a timidez. É preciso enfrentar o medo.

— Ela poderá fazer isso depois. Eu não pretendo julgar seus conhecimentos musicais. O que eu quero é conhecer essas musicas. Pode tocá-las para nós?

Maria Helena surpreendeu-se. Decididamente, ele estava diferente. Apanhou as partituras, foi ao piano e executou-as.

José Luiz a custo conseguiu dissimular o enfado. Eram peças pesadas e sem graça. Teve pena da filha, tendo que tocá-las durante três horas seguidas, todos os dias. Lembrou-se de D. Egle, de Luciana, que transformavam o piano em um instrumento agradável e belo.

Quando Maria Helena acabou, ele agradeceu e pediu para Maria Lúcia guardar suas partituras. Quando se viu a sós com Maria Helena, desabafou:

— Que coisa horrível. Não me admira que Maria Lúcia odeie estudar piano.

Maria Helena ressentiu-se.

— Não diga isso. São peças básicas, exercícios que darão segurança à execução.

— Poderiam encontrar músicas mais alegres, mais bonitas com a mesma finalidade. Essa professora pareceu-me antiquada.

— D. Eudóxia é excelente professora! O problema é Maria Lúcia. Temos que reconhecer que ela tem dificuldade de aprender.

— Por isso é preciso ajudá-la. Perceber o que ela gosta, o que lhe dá prazer. Agüentar essas músicas três horas ao dia, é sacrifício para qualquer um.

— Espero que você não me desautorize com nossa filha. D. Eudóxia é excelente. t mulher de boa moral e seriedade.

— Não duvido. Mas gostaria que você procurasse uma outra professora. Mais jovem, talvez, que possa ajudar a desenvolver o gosto de Maria Lúcia pela música. Alguém mais alegre, que não tocasse só clássico.

— Não concordo. Durante a formação musical é preciso só utilizar a música clássica para não deturpar o estilo e comprometer a execução.

— Talvez para alguém que pretenda dedicar-se exclusivamente à música; tornar-se uma virtuose. Maria Lúcia não tem essa pretensão. Depois, não são todas as pessoas que têm habilidade, para os clássicos. Há aquelas que são excelentes musicistas na execução da boa música popular. Dos choros, das valsas, dos lundus.

— Você nunca interferiu em minha orientação com nossos filhos.

— Não quero interferir. Porém, Maria Lúcia não é como as Outras moças. A cada dia se torna mais dependente e insegura. Precisamos estudar uma maneira de ajudá-la. Gostaria que procurasse outra professora.

— Está bem. Vou tentar. Mas desde já asseguro que não vai adiantar. O problema está nela, em sua falta de capacidade e não na professora que é excelente.

— Veremos — respondeu ele.

Maria Helena olhou-o séria. Era-lhe muito desagradável despedir D. Eudóxia. Ela era mulher muito conceituada entre as famílias. Cobrava caro pelas aulas. Estudar com ela era “chic” e de bom-tom. Além disso, Maria Helena reconhecia-lhe os méritos profissionais. Suas execuções eram impecáveis.

Ela não confiava em outra professora. Porém, José Luiz nunca se interessara pelos problemas dos filhos e era a primeira vez que lhe pedia algo. Não desejava parecer intransigente. Mesmo contrariada, resolveu concordar.

Nos dias que se seguiram, ela não conseguiu atender o pedido do marido. D.Eudóxia continuava. Nenhuma das professoras que haviam sido indicadas pelas amigas, conseguira satisfazer suas exigências.

— Eu estou procurando — alegava ela ao marido. — Não éfácil encontrar uma pessoa do nível de D. Eudóxia.

— Não estará sendo muito exigente?

— Não é qualquer pessoa que pode conviver com nossa filha. É preciso ser alguém de confiança.

José Luiz aborreceu-se. Percebia o constrangimento de Maria Lúcia, sendo obrigada a fazer coisas das quais não gostava. Era partidário da boa educação, do respeito, da preservação de valores da família, mas D. Eudóxia era severa demais principalmente para uma menina delicada como Maria Lúcia. Por certo a intimidava com sua maneira rígida, seus trajes escuros, sua mania de perfeição.

Preocupado, desabafou com Luciana:

— Receio que Maria Helena esteja sendo muito exigente com Maria Lúcia.

— Por quê?

José Luiz olhou a filha pensativo. Gostava de conversar com ela, contar-lhe suas preocupações. Nesses momentos, esquecia-se de que ela era jovem e sua filha. Aprendera a respeitar suas opiniões, sempre muito diferentes da maioria das pessoas, às vezes, até da sua própria, porém, muito verdadeiras. Ela percebia coisas que ele não via e mostrava-as com simplicidade e afeto.

— Maria Lúcia não é uma moça como você, ou como as outras. É acanhada, enrubesce, chora por qualquer coisa. Não gosta de estudar, tranca-se no quarto o tempo todo. Maria Helena luta para educá-la, fazê-la aprender, estudar, inutilmente. A cada dia ela me parece pior. Sua mãe preocupa-se em fazê-la mudar e nesse esforço, exige dela coisas que talvez sua inteligência não tenha meios de aprender.

— Acredita que ela não possa aprender?

— Acredito.

— Ela tem alguma deficiência física?

— Aparentemente não. Foi sempre retraída, tímida, mas os médicos não encontram nela nenhuma doença.

— Seu desenvolvimento quando bebê foi igual as outras crianças? Sentou, andou no tempo certo, etc.?

—   Nunca teve problemas quanto a isso. Seu desen­volvimento físico é normal. Poderia dizer que goza de excelente saúde.

— O que pensa D. Maria Helena?

— Que ela é incapacitada. Admira-se porque enquanto João Henrique é dono de brilhante inteligência, Maria Lúcia é o oposto. Sempre apagada. Não gosta de enfeitar-se como as moças de sua idade. Veste-se mal, eu diria que não tem bom gosto. Insiste em parecer mais feia e desajeitada do que é.

— Não é bonita?

José Luiz hesitou, depois disse:

— Não é. Pareceria melhor se tivesse bom gosto. Infelizmente não tem. Maria Helena sofre muito com isso. É mulher bonita, fina, sabe apreciar a beleza.

— Imagino. Ter uma filha com esses problemas, não deve ser agradável para ela. Provavelmente deve ter se ligado muito com o filho.

— Tem razão. Apegou-se a ele. É o seu preferido. O seu orgulho.

— Talvez isso contribua para que Maria Lúcia se sinta mais incapaz.

— Ela é incapaz. João Henrique sempre sobressaiu-se em tudo. Ela sempre foi um fracasso. O que me causa admiração éque ambos são filhos dos mesmos pais. Por que nasceram tão diferentes?

Luciana olhou o pai com carinho. Seus olhos brilhavam mais quando respondeu:

— É que os pais só dão o corpo de carne para os filhos. O espírito que o habita é criado por Deus, que é o dono da vida.

José Luiz surpreendeu-se:

— Não sou contra a religião. Sei que temos uma alma criada por Deus. Mas ainda penso por que Deus os fez tão diferentes? Por que deu tudo a João Henrique e nada a Maria Lúcia?

Luciana sorriu:

— Está afirmando que Deus foi injusto?

Ele deu de ombros.

— Não tenho condição para afirmar isso. O que eu digo é que não posso compreender.

— Se você pensar que Deus cria o espírito das pessoas na hora em que nascem no mundo, não poderá mesmo entender. Mas se perceber que Deus cria os espíritos todos iguais, simples, ignorantes, colocando-os no mundo para desenvolver e aprender, nascendo e morrendo, renascendo de novo e morrendo, muitas vezes, perceberá que cada um vive em uma fase de aprendizagem. Uns têm mais conhecimentos; viveram mais, aprenderam mais, enquanto outros são mais jovens na criação e têm menos experiência.

Ele admirou-se:

— É uma teoria audaciosa. Parece-me fantástica. Nascer de novo! Que idéia! Você já falou sobre isso.

— A reencarnação tem sido estudada por muitas pessoas esclarecidas, sábios, pensadores. Só ela pode explicar diferenças como essas de seus filhos. Se Deus pode colocar um espírito em cada ser que nasce no mundo, por que obrigatoriamente teria que criá-lo nessa hora e fechar a porta a um que viveu apenas uma vez e não teve oportunidade para aprender tudo quanto necessitava? Já pensou como é curta uma vida na Terra, mesmo quando se vive sessenta ou setenta anos? E as crianças que morrem? Teria sido negada a elas oportunidade para aprender?

José Luiz estava boquiaberto. As idéias da filha eram muito avançadas. Os padres passavam a vida inteira estudando e afirmavam coisa diferente. Como uma menina como Luciana poderia saber mais do que eles?

— Essa sua filosofia vai longe demais — disse ele. — A igreja ensina diferente.

— A igreja foi feita por homens. Para conhecer a verdade, precisam olhar as coisas de Deus. A vida é o livro divino onde cada um deve aprender. E a vida nos mostra que a reencarnação é a única crença que explica as desigualdades e as diferenças no mundo e se harmoniza com a justiça de Deus que nunca erra.

José Luiz calou-se. O argumento da filha impressionou-o. Era um bacharel. Militando na justiça dos homens, muitas vezes questionara a justiça de Deus. Estaria errado?

Luciana continuou:

— Tudo é perfeito na obra de Deus. Nosso espírito é eterno. Viveu outras vidas, amou, aprendeu, errou, sofreu, e a cada morte do corpo, liberta-se e regréssa à morada espiritual de onde tinha vindo, guardando o progresso feito. Quando se torna oportuno, volta novamente a nascer na Terra, trazendo no inconsciente as experiências vividas e as condições para desenvolver suas aptidões.

José Luiz abanou a cabeça admirado:

— Para que tudo isso?

— Para aprendermos a responsabilidade de escolher nossos próprios caminhos. Para amadurecermos e nos tornarmos cooperadores do Criador no universo.

— Você vai longe demais em suas fantasias. De onde tirou essa idéia?

— Tem outra melhor, que possa explicar o que vai pelo nosso mundo? Que possa conciliar a justiça e a bondade de Deus com a desigualdade reinante ao nosso redor? Você mesmo tem dois filhos tão diferentes; Deus teria sido injusto dando tudo a João Henrique e nada a Maria Lúcia?

Ele não encontrou palavras para responder. Luciana prosseguiu:

— Tudo está certo da maneira que é. Deus jamais erra ou comete injustiças. É preciso aprender a enxergar a vida com realismo. Fantasia é fechar os olhos á verdade que todos os dias nos bate à porta, para dar lugar a preconceitos que as religiões colocaram em nossa cabeça e nos impedem de perceber o que a vida mostra a cada passo. O conceito de um Deus vingativo que pune, castiga, que é parcial na distribuição de bens e exige severas contas é irreal e ilusório.

José Luiz ouvia estupefato. A voz de Luciana tornara-se mais grave e fê-lo lembrar-se muito de Suzane. Emocionou-se.

— Você diz coisas estranhas — disse — de certa forma incoerentes. Há momentos em que parece ter fé, crer em Deus e há outros em que combate as religiões.

Luciana sorriu levemente:

— Eu posso confiar em Deus, ter fé e não aceitar o que os homens fazem. Gostaria muito de conhecer Maria Lúcia.

José Luiz concordou:

— Seria ótimo para ela conhecer uma moça como você. Poderia ajudá-la muito.

Luciana olhou o pai pensativa, depois disse:

— Não será possível. É pena.

— Por quê?

— Não posso apresentar-me em sua casa como sua filha mais velha. D. Maria Helena não sabe de nada.

Era verdade e ele não respondeu. Como apresentar Luciana à sua família? Maria Helena não conhecia seu passado, seu amor por Suzane e, mesmo que lhe contasse, ela era uma mulher rígida de princípios, não aceitaria a presença de uma filha ilegítima em sua casa, em convivência com seus próprios filhos.

Como não respondesse, Luciana continuou:

— Não importa. Mesmo assim, eu gostaria de ajudar Maria Lúcia. Ela deve sofrer muito.

— Ela é muito calada, prefere passar despercebida em casa. Não tem amigas e se a deixarmos, não sai do quarto.

— Gostaria de conhecê-la. Ninguém em sua casa precisaria saber quem sou.

— Não acho justo. Orgulho-me de você e gostaria de gritar aos quatro cantos do mundo que é minha filha!

— Basta-me seu amor. Não é preciso perturbar a vida de sua família.

José Luiz passou a mão pelos sedosos cabelos da filha.

— Você é muito nobre. Mas, não vejo como conseguir isso.

Luciana sorriu e seus olhos brilharam maliciosos e alegres quando disse:

— Você acha que eu seria uma professora de piano muito ruim?

Ele assustou-se:

— Você não está pensando...

— Estou. Eu poderia dar aulas de piano a Maria Lúcia. Seria um pretexto excelente para estar com ela. Poderia conhecê-la melhor, ajudá-la a encontrar a alegria de viver.

Ele estava indeciso:

— Não sei se daria certo. Depois, você não precisa fazer esse sacrifício. Seria cansativo, trabalhoso. Maria Helena éexigente e muito formal. Tratá-la-ia como uma subalterna. Não acho justo.

Luciana colocou a mão no braço do pai e respondeu:

— Nada disso importa. Maria Lúcia é minha irmã. Sente-se infeliz. Eu sinto que poderia ajudá-la. Terei grande prazer em realizar esse trabalho. Quanto a D. Maria Helena, saberei comportar-me a altura. Você se esquece que sempre trabalhei para viver? Sei como tratá-la, não se preocupe.

— Não duvido. O que me preocupa é vê-la entrar em minha casa como uma assalariada, quando deveria ser recebida como da família.

— Se queremos ajudar Maria Lúcia, temos que deixar o orgulho de lado. Esqueça esse aspecto. O que me preocupa é a parte profissional. Acha que, como professora, D. Maria Helena me aceitará?

— Precisaria ter método, programar as aulas, qualquer coisa assim.

— Quanto a isso não há problema. Vovó deu aulas e tem tudo isso. Inclusive, poderá orientar-me.

Ele abanou a cabeça indeciso, preocupado.

— Mesmo assim, não sei...

— Papai, deixe-me fazer alguma coisa por Maria Lúcia. Sou professora. Entendo um pouco desses assuntos. Por favor!

Ele decidiu-se:

— Está bem. Verei o que posso fazer. Você é muito moça, preciso arranjar um forte argumento para convencer Maria Helena.

Luciana levantou-se e passou os braços pelos ombros do pai, beijando-o levemente na face.

— Obrigada, papai. Não se arrependerá. Vou me preparar muito bem. Verá.

José Luiz sorriu:

— É uma loucura, mas sempre será uma tentativa.

Ao sair da casa de Luciana, José Luiz ia emocionado. A cada dia mais admirava a filha. Seu espírito nobre e generoso impressionava-o.

Ele que infelicitara sua vida pela ambição, percebia que Luciana era o oposto, colocando os sentimentos, o amor, a amizade, sempre em primeiro lugar. Ela já sabia o que ele estava começando a aprender a duras penas. Admirava-a.

Ela, em sua casa, ao lado de Maria Lúcia, seria o raio de sol que levaria a beleza, a bondade, o amor, a alegria.

De volta à casa, foi pensando como convencer a esposa. Na noite seguinte, depois do jantar, foi que José Luiz julgou oportuno tratar do assunto. Sozinho com Maria Helena, perguntou por João Henrique, seus projetos, seus ideais.

O    rosto de Maria Helena iluminou-se. Falar do filho era sua alegria. O marido ouviu-a atencioso, comentando esta ou aquela idéia. Quando ela se calou, ele perguntou:

— E Maria Lúcia, você já despediu D. Eudóxia?

Maria Helena suspirou:

— É uma tarefa desagradável. Depois, ela é tão eficiente! Tem certeza de que devemos substitui-la?

José Luiz olhou-a sério.

— É tão difícil para você atender um desejo meu?

Maria Helena remexeu-se na cadeira e não respondeu imediatamente. Ele olhava-a esperando por uma resposta. Por fim, ela disse:

— Se você faz questão, farei isso amanhã. Ainda não encontrei ninguém à altura de substitui-la. Por isso, guardava a esperança de vê-lo reconsiderar esse assunto.

— Não mudei de idéia. Ainda penso que D. Eudóxia é muito velha e antiquada para agradar a Maria Lúcia.

— Não se trata de agradar Maria Lúcia. Aliás, não há nada que consiga torná-la feliz. Não vejo porque uma preceptora precisa outra coisa que não seja sua competência, sua moral, sua educação. Hoje os costumes estão mudando e precisamos cuidado com esse modernismo que destrói as famílias.

— Você diz bem, os tempos estão mudando e nós não podemos parar. Gostaria que encontrasse uma professora jovem. Quem sabe assim, nossa filha pudesse aprender a alegria de viver!

Maria Helena olhou-o admirada. Positivamente ele parecia-lhe diferente, modificado.

— Verei o que posso fazer — disse por fim.

José Luiz não tocou mais no assunto. Foi dali a dois dias

que disse a Maria Helena:

          — Encontrou a professora para Maria Lúcia?

          — Não. — Foi a lacônica resposta.

— Hoje, eu soube casualmente de uma moça que dá aulas de piano.

— Você a conhece?

— Não — mentiu ele. — Foi o Dr. Alfredo quem me indicou. Trata-se de uma moça de excelente família, que reside com a avó. Ficou órfã. Parece que quer ocupar-se e gosta de dar aulas de piano. Segundo ele, trata-se de moça fina e muito educada. Tomei a liberdade de anotar o endereço para você.

Ela concordou:

— Está bem. Vou conversar com ela, marcar uma entrevista e avaliar seus conhecimentos.

— Se quiser, posso mandar o rapaz de recados solicitar que venha até aqui.

— Fico-lhe grata. Pode mandá-la amanhã às quatro.

— Está bem.

José Luiz baixou os olhos para que Maria Helena não visse a alegria que sentiu. Conversou sobre outros assuntos. Não queria que ela desconfiasse de nada.

No dia seguinte pela manhã, foi pessoalmente à casa de Luciana.

— Você ainda pode desistir — disse com seriedade.

Luciana sacudiu a cabeça.

— Desistir eu? Você não me conhece. Passei estes dias me preparando. Vovó estudou num grande conservatório de Londres. É lá que eu me “formei” professora. Ela contou-me tudo, os métodos, as aulas.

— Veja lá o que vai fazer.

— Não se preocupe. Quando eu programo uma coisa, vou até o fim. Haveremos de vencer! Verá!

— Está bem. Esteja lá às quatro. Maria Helna é muito exigente com pontualidade..

— Eu também. Não se esqueça que tenho educação britânica.

José Luiz sorriu. Quando ele saiu, Luciana procurou pela avó.

— Vamos preparar aquela peça. Precisa estar impecável.

— Está bem — concordou Egle. — Se deseja obter êxito, precisa estudar muito. Lembre-se que vai ser examinada por uma boa pianista.

— D. Maria Helena toca muito bem, mas eu, quando quero, não sou tão ruim assim.

Aproximando-se do piano, sentou-se e pela décima vez, repassou a música que pretendia tocar na entrevista da tarde.


CAPÍTULO 5

Sobraçando sua pasta de música, Luciana tocou a sineta da bela casa de José Luiz. Faltava um minuto para às quatro e enquanto era introduzida na sala onde Maria Helena a esperava, ouviu as quatro badaladas do grande relógio que havia no saguão.

Maria Helena olhou-a enquanto dizia:

— Vejo que é pontual.

Luciana olhou o rosto da esposa de seu pai, curvou ligeiramente a cabeça, dizendo:

— A pontualidade é uma qualidade que procuro cultivar.

— Sou Maria Helena.

— Sou Luciana. Recebi seu convite para esta entrevista.

Maria Helena olhou-a atentamente. Luciana estava muito bem vestida e era muito bonita.

— Sente-se, por favor. Foi um amigo de meu marido quem me recomendou a senhorita como preceptora de piano para minha filha. Por acaso dá aulas para muitas moças?

Luciana sentou-se na poltrona que lhe era oferecida, colocando sua pasta no colo.

— Não, senhora. Eu realmente não faço da música um meio de vida. Gosto de tocar, gosto de ensinar. A música é um prazer que enriquece o espírito.

— É idealista. Eu pensei que desse aulas para viver.

— Se eu precisasse, talvez, mas eu e vovó temos uma renda suficiente.

— Então não compreendo.

— Gosto de ensinar.

— Se eu contratá-la, preciso pagar.

— Concordo. Entretanto, eu me reservo o direito de dar aulas só para alunas muito bem escolhidas, coisa que quem luta pela subsistência não pode fazer.

Apesar de admirada, Maria Helena gostou da firmeza e da segurança de Luciana. Por certo, deveria ser muito eficiente, —pensou ela.

— A senhorita estudou em que conservatório?

— Fui educada em Londres e estudei piano no Harmony House.

Maria Helena fitou-a com respeito. Seu sonho sempre fora estudar naquele local. Por certo estava diante de uma grande virtuose.

— Poderia tocar para mim?

— Por certo, senhora.

Maria Helena conduziu-a à sala vizinha, abrindo o piano. Luciana, com segurança, escolheu a partitura e colocou-a no piano. A outra, em pé ao lado, observava-a.

Luciana começou a tocar. Colocou toda alma na peça que executava. Saiu perfeita. Maria Helena deu-se por satisfeita.

— Muito bem. Gostaria de contratá-la. Acertar os detalhes.

— Primeiro, antes de aceitar, desejo conhecer sua filha.

— Desde já posso descrevê-la para a senhorita. Ela tem dificuldade de aprender, precisa muita paciência com ela.

— Poderia apresentar-me? Não posso aceitar sem saber se ela me aceitará.

— Minha filha faz o que eu quero. Obedece. Mas não vejo inconveniente em chamá-la.

Ela tocou a sineta e ordenou à serviçal que fosse buscar a filha. Maria Lúcia apareceu alguns minutos depois. Cabeça baixa, entrou na sala, mal olhou para Luciana.

— Esta é Maria Lúcia. Esta é Luciana, professora de piano.

Luciana levantou-se e estendeu a mão para a moça:

— Como vai?

— Bem. — balbuciou ela pegando a mão de Luciana frouxamente.

— Sua mãe quer que eu venha dar aulas de piano para você. O que acha?

Maria Lúcia baixou os olhos.

— Não sei. Se minha mãe quer, está certo.

Luciana notou que a moça estava tensa. Voltou-se para Maria Helena:

— Está bem. Vamos combinar tudo. Virei duas vezes por semana.

Maria Helena acertou todos os detalhes que Luciana concordou plenamente. Tudo combinado, Luciana levantou-se. Percebeu que Maria Lúcia a observava furtivamente.

— Espero que seja paciente e que realmente goste de ensinar. Maria Lúcia não aprende com facilidade. É preciso muita disciplina e muita insistência.

O  rosto da moça cobriu-se de rubor. Luciana respondeu calma:

— Terei muito prazer em estar com Maria Lúcia e fazê-la sentir a beleza da música e o prazer da execução. Ela vai aprender rapidamente, tenho a certeza disso.

Maria Helena fitou o rosto corado da filha, olhos postos no chão, sem nada dizer. Suspirou e não insistiu. Luciana cedo descobriria o que ela tentara dizer.

Luciana despediu-se. Em casa, sua avó esperava-a ansiosa. Vendo-a entrar, perguntou:

— E então?

Luciana colocou a pasta sobre a mesa e respondeu alegre:

— Consegui! Vovó, estou contratada. Egle balançou a cabeça:

— Acha que dará certo? Se Maria Helena descobrir a verdade, ficará furiosa. Ninguém gosta de ser enganada.

— Ela não saberá, vovó. Serei discreta e muito eficiente. Verá. Se você visse Maria Lúcia, ficaria penalizada. É tímida, dominada. Pareceu-me indiferente, sem vontade de reagir, de lutar e ocupar seu lugar no mundo.

— Não será deficiente mental?

— Papai garantiu que não é. Fez todos os exames médicos. É questão de personalidade.

— Acha que poderá ajudá-la?

          — Acredito que sim. Quero tentar. Você me ajudará.

          — Eu?!

— Sim. Com sua experiência e orientando as aulas. Começarei na próxima terça-feira à tarde. Como deverá ser tecnicamente a primeira aula? O que deverei ensinar?

— Vou preparar tudo.

— Entendo o que papai quis dizer quando mencionou que

Maria Helena era formal. Sequer me ofereceu um chá. Falou o

estritamente necessário. Você tinha razão. Quando mencionei o

Harmony House, ela se impressionou.

— Eu sabia.

— Acho que foi meio caminho andado. Minha execução saiu perfeita. Queria que você estivesse lá.

Egle abraçou a neta com carinho.

— Não duvido. Você é uma feiticeira. Não me surpreenderei se transformar essa menina. Agora, vamos tomar o nosso chá. Está na hora.

Abraçadas, as duas dirigiram-se à cozinha.

José Luiz chegou em casa para o jantar e embora estivesse ansioso para saber, achou prudente não perguntar. Foi Maria Helena quem, depois do jantar, mencionou o assunto.

— A nova professora de piano esteve aqui.

José Luiz procurou dissimular o interesse. Ela prosseguiu:

— Achei-a muito moça. Contudo, pareceu-me muito discreta e educada.

— É boa profissional?

— Parece ser. Depois, estudou em Londres no Harmony House. Executou uma peça com clareza e segurança. Tem uma particularidade curiosa, não dá aulas para viver.

— Não?

— Não. Aliás estava muito bem vestida. Disse que gosta de ensinar música e o faz por prazer.

— Interessante.

— Mas eu disse-lhe que só a aceitaria para dar aulas a Maria Lúcia, se recebesse pelo seu trabalho.

— Fez bem. E ela?

— Concordou. Mas, antes de aceitar ser professora de nossa filha, quis conhecê-la. Tive receio que vendo-a, Luciana desistisse, contudo, ela aceitou.

— Você a contratou?

— Sim. Virá duas vezes por semana, à tarde.

— Como lhe pareceu essa moça?

— Um pouco idealista. Eu fui honesta e falei das dificuldades de Maria Lúcia. Ela não se importou. Cedo perceberá seu engano. Só espero que não venha a desistir.

—   Talvez uma moça educada e fina possa influenciar Maria Lúcia, e desperte nela o gosto pela vida.

Maria Helena suspirou:

— Se isso acontecesse, seria um milagre.

— Vamos ver. Gente jovem precisa de companhia de pessoas de sua idade.

— Maria Lúcia não tem amigas porque não quer. Nos saraus, isola-se, não conversa, e as outras moças cansaram-se de sua indiferença.

— Sei que ela é difícil. Mas, precisamos tentar alguma coisa. Se essa professora for inteligente, poderá ganhar-lhe a estima e aí fazê-la melhorar.

— É, pode ser. Luciana é moça educada e parece muito fina.

— Pelo que sei é de excelente família.

— Vamos ver. Terça-feira ela virá para a primeira aula.

José Luiz exultava. Luciana conseguira. Soubera posicionar-se. Percebera que Maria Helena referia-se a ela com cortesia. Escondeu a alegria. Tinha impulsos de sair, ir à casa da filha saber todos os detalhes, porém, controlou-se. Esperaria pelo dia seguinte.

Na terça-feira, pontualmente, às 14 horas, Luciana, sobraçando sua pasta de música, foi introduzida em casa de Maria Helena.

Na sala, Maria Lúcia esperava, sentada ao lado da mãe. Trajava severo vestido cinza, os cabelos puxados para trás e preso na nuca em birote.

Luciana cumprimentou-as curvando a cabeça. Depois disse:

— D. Maria Helena, antes de iniciar a aula, gostaria de falar-lhe a sós por alguns instantes.

— Está bem. Venha ao meu gabinete, por favor.

Passaram para outra sala e Maria Helena fechou a porta.

— Estou às suas ordens.

— D. Maria Helena, sua filha parece-me uma moça muito tímida. Tenho meus métodos de ensino. Antes de começar a ensinar, preciso de uma avaliação do que ela já sabe. Porém, não quero constrangê-la. Ao contrário, pretendo deixá-la menos tensa, mais serena. Ninguém pode avaliar um músico se ele estiver nervoso.

          Apesar de surpresa, Maria Helena reconheceu que ela tinha

          — O que pretende fazer?

          — Gostaria de conversar com ela, sem que ninguém nos interrompesse e que a senhora não se admirasse se hoje eu não conseguir que ela execute nada. Gostaria de conhecê-la melhor. Desta forma, verei qual o melhor método a ser usado. As pessoas são diferentes umas das outras e o que dá bom resultado com algumas, pode não dar nenhum com outras.

— É interessante seu ponto de vista.

— Essa técnica é usada no Harmony House. Desejo informá­la que, além do curso de piano, sou educadora formada. Preciso conversar com Maria Lúcia.

Maria Helena satisfeita, concordou. Sua filha bem que precisava de uma educadora.

— Faça como achar melhor. Não interferirei.

— Obrigada. A senhora verá que ela vai aprender.

De volta à sala onde Maria Lúcia esperava sentada ainda na mesma posição, Luciana fechou a porta. Depois, sentou-se em frente a moça, conservando-se calada.

Durante dez minutos as duas conservaram-se na mesma posição. Dirfarçadamente Luciana observava. De repente, Maria Lúcia levantou os olhos fixando-os em Luciana. Esta sorriu. A moça baixou novamente o olhar um pouco corada. Luciana continuou em silêncio.

Maria Lúcia remexeu-se na cadeira, tornando a fixá-la. Luciana sorriu de novo. Percebia que a moça começava a ficar curiosa. Preparara-se para uma aula sofrida, odiosa, com uma desconhecida e agora, lá estava ela, parada, sem fazer nada. O que estava acontecendo?

O  silêncio pesava e ela não sabia o que fazer. Sempre esperava pela iniciativa dos outros para tomar qualquer atitude. Por que a outra ficava calada? Se ela estava esperando que ela, Maria Lúcia, começasse o assunto, perdia seu tempo. Odiava piano e não ia aprender nada. Não tinha jeito para a música. Jamais tocaria como a sua mãe. Por que não desistiam?

Essa professora calada em sua frente... Por quê? Talvez ela tivesse mentido e não gostasse de dar aulas. Talvez precisasse mesmo do dinheiro. Mentira para que sua mãe lhe pagasse melhor.

Assim, não precisaria fingir. Podia abertamente dizer que não gostava de estudar música.

Olhou-a novamente, sua curiosidade era evidente.

Luciana sorriu levemente. Decorrera meia hora sem que dissessem uma palavra. Por fim, Maria Lúcia disse com voz muito baixa:

— Você não gosta de dar aulas de música!

— Gosto — respondeu Luciana. — A música alimenta o espírito e alegra a alma, faz bem ao coração.

Maria Lúcia sacudiu a cabeça negativamente. O silêncio novamente colocou-se entre ambas e foi Maria Lúcia quem o quebrou:

—   Você não veio para uma aula de piano?

—   Vim.

— Está esperando o quê?

Maria Lúcia sentia-se inquieta, nervosa, irritada. Por que ela não acabava logo com aquilo?

Queria ir logo para o seu quarto. Estava até disposta a tocar alguns exercícios e depois ficar livre. D. Eudóxia era fria, indiferente, agüentava impávida seus erros ao piano. Sua mãe pagava-lhe para isso. Desprezava-a. Ela agüen­tava tudo por causa do dinheiro.

— Quer começar agora? — perguntou Luciana com voz firme.

— Mostre-me o que estava estudando.

Maria Lúcia obedeceu. Dirigiu-se ao piano, apanhou o livro de exercícios, colocou-o no piano, abrindo-o. Luciana observava-a:

— Pode começar.

Maria Lúcia começou a tocar lento e muito mal. Não foi interrompida por Luciana que ouviu-a até o fim.

— O que mais estava aprendendo?

Maria Lúcia procurou outro exercício e o tocou tão mal quanto o primeiro. Durante meia hora a moça tocou, e Luciana ouviu sem comentar nada.

— Por hoje basta.

A moça levantou-se, guardou as partituras. Ela não mandara parar nem criticara seus erros. Impossível que não os tivesse percebido. Seria uma professora tão ruim assim? Melhor, porque assim, quem sabe, sua mãe desistisse e a deixasse em paz.

         Luciana aproximou-se, olhando-a nos olhos, disse com voz

— Maria Lúcia, apesar de você errar de propósito, de não querer estudar música e de estar louca de vontade de ir fechar-se em seu quarto, de querer que eu desista, sua mãe desista, eu vou dar-lhe aulas de música. E afirmo que você vai adorar.

A moça, corada, cabeça baixa, não encontrou resposta. Seus lábios começaram a tremer e Luciana percebeu que ela ia chorar. Fingindo não notar, prosseguiu firme:

— Eu vou fazer isso, porque acredito que você é capaz de aprender tudo se quiser. Para que você queira, é preciso gostar. Procurarei tornar nosso tempo juntas, muito agradável.

A moça começava a soluçar.

— Agora, eu vou embora. Se quiser chorar, chore. É um direito seu. Mas quero que saiba que gosto muito de você e pretendo ensiná-la a gostar de mim. Passe bem. Voltarei na próxima sexta-feira.

Levantou o rosto de Maria Lúcia e beijou-a delicadamente na face, e saiu.

Maria Helena não estava ali. A moça dirigiu-se à criada.

— Vou embora. Não incomode D. Maria Helena. Dê-lhe meus cumprimentos. Estarei de volta no dia marcado. Passe bem.

Maria Helena ouviu a criada transmitindo-lhe o recado e não disse nada. Sua ausência fora proposital. Ouvira a péssima execução da filha e estava irritada. D. Eudóxia estava habituada com a burrice de Maria Lúcia, mas Luciana não. Temia que ela desistisse. Nesse caso, não teria jeito de chamar novamente a velha professora. Fora-lhe difícil despedi-la. Ela ficara ofendida, apesar da delicadeza que tivera.

Depois que Luciana se foi, entrou na sala, mas a filha já se recolhera. Maria Helena sentou-se no sofá, pensativa. Por que sua filha nascera tão incapaz? Que diferença de João Henrique!

Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. Não sabia de nenhum caso na família. Por que teria acontecido com ela, por quê?

Sentia-se particularmente triste naquela tarde. Luciana era moça bonita, inteligente, culta, que diferença de sua filha!

Pensou no marido. Ele estaria certo colocando junto à filha uma moça tão bonita e cheia de atributos? Não iria deixar Maria Lúcia mais tímida, mais insignificante?

Num ponto concordava com ele: alguma coisa precisava ser feita. Daria resultado? Estava disposta deixar Luciana tentar. Não sabia se a moça teria paciência suficiente.

Quando Luciana saiu, Maria Lúcia parou de chorar. Apanhou sua pasta de música e foi para o quarto. Finalmente estava livre, pensou. Fechou a porta por dentro e atirou a pasta sobre a cama. Se sua mãe visse, iria repreendê-la. Queria cada coisa em seu lugar. Sentiu uma onda de rancor, misturada a um pouco de satisfação. Aquele era o seu território. Podia fazer o que lhe aprouvesse, desde que sua mãe não visse.

Sentou-se no chão e soltou os cabelos. Os grampos a incomodavam. Encostou as costas no lado da cama e fechou os olhos. Seria bom se ela pudesse dormir. Viver era horrível. Abominava sua casa, a disciplina que era obrigada a seguir. Tudo era monótono e sem graça. Olhou a boneca que estava sobre a cama.

— Preferia ser ela — pensou — é bonita e não precisa fazer nada. Não gosta nem odeia. Não sente nada. Aconteça o que acontecer, está sempre com a mesma cara. Se eu fosse ela, eles me deixariam aqui, sem ser nada, sem ter que aprender nada. Mas eu não sou, infelizmente! Logo mamãe vai mandar me chamar para o lanche. Terei que suportar tudo de novo. E se eu jogar tudo no chão? Quero ver a cara dela. Vai ficar furiosa.

Maria Lúcia sorriu levemente. — Ela fica furiosa, mas não chora como eu. Quando eu choro, ela fica ainda mais nervosa. Ela nunca chora! Essa professora de música nem ligou quando eu chorei...

Seu rosto cobriu-se de rubor, e ela levou as mãos às faces.

— Ela percebeu que eu errei de propósito! D. Eudóxia nunca

percebia isso. Essa é mais esperta. — Ela deu de ombros. —Melhor. Assim ela perceberá rápido que eu não dou para a música

e me deixará em paz. Quem sabe mamãe desista!

Ela levantou-se do chão e começou a andar pelo quarto. —Ela não desistirá! Nunca consegui nada dela. Posso morrer que ela não me atenderá. Se eu morrer, ela vai sentir remorso! Vai se arrepender. Vou ficar sem comer até morrer! Ela vai ver!

         Sentou-se na cama.

— Vai se arrepender nada. Ela não gosta de mim. Ela me persegue, me odeia. Vai dar graças a Deus por ver-se livre de mim. Eu sou a sua vergonha.

Seu rosto ruborizou-se novamente. Passou as mãos pelas faces. Lembrou-se do beijo de Luciana. Sua mãe nunca a beijara. Ninguém a beijava. Quem gostaria de beijar uma moça feia como ela? Seu irmão, seu pai, ninguém a beijava.

Maria Lúcia passou os dedos pela face onde Luciana pousara os lábios com doçura. Essa professora de piano dissera que gostava dela. Por que teria mentido? Estaria com pena? Ou pretendia comprar-lhe a obediência? Ela ia ver uma coisa. Não estava disposta a aprender nada, fingir uma amizade que não podia sentir. Ela era feia, sem graça, incapaz. Por que alguém iria gostar dela?

Na sexta-feira, quando Luciana chegou, a moça estava na sala de música, com a mesma postura, o mesmo penteado e vestido tão severo como o da primeira vez.

Luciana fechou a porta, colocou sua pasta sobre a mesa e, aproximando-se de Maria Lúcia, estendeu-lhe a mão.

— Como vai?

— Bem — disse ela, apertando a mão que lhe era estendida, sem levantar o rosto.

— Está um lindo dia. Você já deu uma volta pelo jardim?

         — Não — balbuciou ela.

— Não sabe o que está perdendo. Gostaria que a nossa aula hoje fosse ao ar livre?

Maria Lúcia não entendeu:

— Não há piano no jardim — disse.

— Podemos deixar o piano por hoje. Há outras coisas que eu gostaria de conversar com você.

Essa professora era diferente. O que pensaria sua mãe vendo que ela não lhe dava aula de piano? Por certo, ficaria contrariada. Pagava-lhe para isso!

— Se prefere ficar aqui e ir ao piano, pode dizer — tornou Luciana.

Maria Lúcia sacudiu a cabeça.

— Não. Vamos ao jardim.

Procurou dissimular a satisfação. Aquela professora tinha os dias contados em sua casa. Em breve estaria livre dela.

Luciana abriu a pasta de couro que trouxera e tirou dela um livro finamente encadernado.

— Vamos — disse. Vendo que Maria Lúcia estava interdita, esclareceu: — Não precisa levar nada. O que tenho basta.

Foram ao jardim.

— Vamos procurar um lugar bem bonito — Luciana respirou gostosamente. — Que delícia de perfume — disse. Parou, olhou para Maria Lúcia e perguntou: — O que é?

— Não sei, não estou sentindo nada.

Luciana segurou o braço de Maria Lúcia.

— Experimente prestar atenção. Sinta que coisa deliciosa. Aspire esse ar! Feche os olhos e aspire.

Maria Lúcia obedeceu. Sentiu o perfume.

— Vamos ver de onde vem? — disse Luciana alegre.

— Que importância tem isso? — pensou Maria Lúcia. Queria ver a cara de sua mãe quando soubesse o que se passava.

Luciana puxava-a pela mão. Seguiu-a docilmente.

— Olhe que beleza! Ë desse pé de jasmim! Está coberto de flores. Não é lindo?

O  olhar de Maria Lúcia ia do rosto de Luciana ao pé de jasmim sem saber o que dizer.

— Feche os olhos e sinta o aroma; é delicioso! Ela obedeceu. Luciana continuou:

— São coisas que a mãe natureza faz para enfeitar nossa vida! Vamos nos sentar nesse banco. Nossa aula hoje será aqui.

A outra olhava sem entender. Como iria estudar piano em um banco do jardim? Apesar disso, sentou-se, cabeça baixa. Luciana acomodou-se a seu lado. De repente, disse num murmúrio:

— Olhe um beija-flor. Que lindo! Não se mexa para não asssustá-lo!

Maria Lúcia olhou e viu o pássaro voando sobre o jasmineiro, introduzindo o bico nas flores. As duas ficaram em silêncio observando-o. Quando ele se foi, Luciana considerou:

— As vezes, penso que seria bom ser como ele. Poder voar, sentir o perfume das flores.

 Maria Lúcia havia pensado em ser como a boneca, mas passarinho seria melhor. Poderia voar para o céu, sair dali para sempre. Não disse nada. Luciana, depois de alguns segundos, continuou:

— Só às vezes, porque ele é muito lindo e me comove. Éclaro que ser gente é muito melhor do que ser passarinho.

Maria Lúcia fez pequeno e quase imperceptível gesto de contrariedade, mas Luciana percebeu e indagou:

— Você o que acha?

— Não sei.

— Se você pudesse escolher, o que gostaria mais de ser: um pássaro ou gente?

— Ser uma boneca — disse ela.

Luciana sorriu:

— Não estamos falando em boneca. Você acha que seria melhor do que ser gente, ou beija-flor?

— É bobagem. Nunca vamos ser nada disso.

— Faz de conta. Nunca brincou de fazer de conta?

— Não.

— A gente pode ser tudo o que quiser. É só fazer de conta. Por que preferia ser uma boneca? Para ser muito bonita?

A moça enrubesceu.

— Não é isso — disse.

— Então por quê?

— Porque ela pode ficar no quarto e não tem que fazer nada. Não precisa aprender nada.

Luciana sentiu uma onda de carinho por Maria Lúcia, tomou-lhe as mãos entre as suas e disse com suavidade:

— Maria Lúcia, você não precisa ser uma boneca, nem um pássaro, porque você é um espírito criado por Deus! Tem alma, sentimentos, amor no coração. Tem inteligência para perceber todas as coisas boas do mundo. Pode olhar a natureza, os seres vivos, o céu, as estrelas, o mar, o sol, as flores, sentir a força de Deus que existe em tudo e acordar para a felicidade, para o progresso e para a vida! Você é muito mais do que uma boneca!

Maria Lúcia tremia como folha batida pelo vento. Olhava para Luciana e em seus olhos havia um misto de surpresa e dor.

— Você é um ser humano. Você é criação perfeita de Deus!

Maria Lúcia apertou as mãos de Luciana com uma voz que vibrava disse:

— Não sou nada disso.

Luciana retirou as mãos.

— Deus fez você perfeita. Mas, o que você está fazendo com você, é muito triste.

— Eu?

Ela queria gritar que sua mãe era culpada. Que sempre a desprezara, envergonhava-se dela, punia-a só porque ela não era inteligente ou bonita como João Henrique. Ela nascera assim, que culpa lhe cabia? Mas não disse nada. Baixou os olhos e engoliu a mágoa.

Luciana disse com suavidade:

— O que você faz com você é problema seu. Nada tenho com isso. Agora, eu a vejo como você é; amorosa, inteligente e sozinha. Muito sozinha. Gostaria que aceitasse minha amizade de verdade.

Havia ternura e sinceridade em Luciana que estava comovida. Vendo que ela não respondia, perguntou:

— Você quer?

Maria Lúcia olhou-a e havia tanta dor em seus olhos que Luciana abraçou-a com força. Permaneceram abraçadas durante alguns minutos. Luciana sentia que a moça também a abraçava.

Você ainda não me respondeu — disse.

— Quero — disse Maria Lúcia por fim.

— Muito bem. Agora chega de falar de nós. Já somos amigas mesmo. Quero que veja esse livro que eu trouxe especialmente para mostrar a você. É um livro raro que pertence a minha avó. Veja que linda capa. É trabalho de verdadeiro artista. As letras foram gravadas com ouro mesmo.

Maria Lúcia olhava com admiração. Nunca se detivera para olhar a capa de um livro. Não gostava de ler.

— Passe o dedo sobre as letras e sinta o relevo.

Apanhou o dedo indicador de Maria Lúcia e colocou-o sobre as letras.

— Ele poderia ter feito letras simples, porém, se deu ao trabalho de fazer estas, sabe por quê?

Maria Lúcia sacudiu a cabeça negativamente.

— Por que estas são mais bonitas, têm mais arte e valorizam mais o livro. Não acha que são lindas?

A moça olhava sem responder. Luciana prosseguiu:

— Gostaria que você pudesse ver outras mais simples para perceber a diferença. Não as tenho aqui, mas trarei outro dia para mostrar-lhe.

Segurou a mão da moça e continuou:

— Olha sua mão, a minha mão, elas são preciosas. Possuem o dom de transformar o mundo.

Maria Lúcia olhava boquiaberta.

— Não concorda comigo?

— Não sei...

— Muitas coisas que nos rodeiam foram feitas por mãos humanas. Quer ver?

Ela concordou. Luciana abriu o livro logo no começo onde havia algumas esculturas de mãos famosas.

— Muita gente sabe disso, tanto que estes artistas lhes prestaram homenagem. Aqui mesmo, vamos ver o que foi feito pelas mãos das pessoas. Você percebe aqui alguma coisa feita pela mão?

Ela olhou ao redor, depois disse:

— O banco onde nos sentamos.

— É verdade. Vamos ver quem consegue ver mais coisas. Agora é minha vez. O poste do lampião. Foi o ferreiro.

Maria Lúcia concordou.

— Agora é você. Vamos ver quem vê mais. Temos um ponto cada uma.

Maria Lúcia olhou em volta entretida. Pela primeira vez, Luciana percebeu um brilho mais vivo em seu olhar. Sentiu-se feliz por isso e prosseguiu alegremente conseguindo que Maria Lúcia sorrisse algumas vezes. A certa altura, olhou-a nos olhos e disse com firmeza:

— Você foi feita para sorrir. Tem um lindo sorriso.

A outra corou e imediatamente voltou à postura costumeira. Fingindo não perceber, Luciana continuou:

— Mas para que não se envaideça, acho seu vestido muito triste e em desacordo com a beleza do seu sorriso. Essa cor é muito severa; você, de rosa ou de verde, ficaria mais bonita. Acha que a cor do meu vestido fica bem com o tom da minha pele?

Maria Lúcia olhou-a e achou-a linda. Porém balbuciou:

— Não sei...

— Somos amigas. Entre amigas trocam-se idéias sobre moda, beleza. É verdade que os gostos são diferentes. Você gosta da cor do seu vestido, por certo. Já eu, achõ que ficaria melhor de outra cor. Eu gosto do meu, mas você pode pensar diferente. Ébom trocar opinião. Olhe para mim, o que acha do meu vestido?

— É bonito. Fica-lhe muito bem.

Luciana beijou-lhe a face com alegria.

— Obrigada, querida. Você é gentil.

Fingiu não ver o embaraço e o rubor da outra. Ficaram tão entretidas que o tempo passou rápido. Luciana, vendo que o sol já estava para ocultar-se e que a tarde findava, levantou-se dizendo:

— Já está escurecendo! Passei da hora. Você tinha algum compromisso?

Maria Lúcia balançou a cabeça negativamente e Luciana continuou:

— Sinto muito! Estava tão agradável aqui, conversando com você que esqueci de tudo.

Maria Lúcia queria dizer que apreciara a tarde, mas não teve coragem.

— Desculpe. Vou embora agora. Vamos entrar.

Maria Helena estava curiosa. Aquela professora era diferente. Passara a tarde no jardim, fora além do horário combinado. Ao entrar na sala, Luciana foi logo dizendo:

— Desculpe, D. Maria Helena. Abusei da hora. Estava tão agradável nossa conversa que nem percebemos passar o tempo. Maria Lúcia disse-me que não tinha outro compromisso.

A curiosidade de Maria Helena acentuou-se. Ninguém achava agradável passar a tarde com Maria Lúcia. O que teria acontecido?

— É verdade. Alegro-me que tenham apreciado a aula.

Luciana sorriu levemente ao dizer:

— Hoje, preferi cultura artística. Faz parte da formação musical. Trouxe este livro de arte para ilustrar nossa aula. Gostaria que a senhora o examinasse. Trata-se de obra rara da coleção de minha avó.

Maria Helena apanhou-o admirada. Folheou-o com delicadeza. Era uma preciosidade. Estava satisfeita. Começava a pensar que essa professora fora um achado. Além de não aborrecer-se com a burrice da filha, tinha classe e cultura invejáveis. D. Eudóxia nunca tivera essa idéia. Intrigava-a o ar tranqüilo de Maria Lúcia e a satisfação de Luciana. Achar agradável dar aula para sua filha era de espantar.

Devolveu o livro dizendo com satisfação:

         — É uma preciosidade!

         — Sabia que ia apreciar.

Apanhou sua pasta, guardou o livro e despediu-se. Sentia-se esperançosa e feliz. Haveria de alcançar seu objetivo.


CAPÍTULO 6

Na semana seguinte, ao chegar para a aula, Luciana, con pontualidade que fazia questão de manter, encontrou Maria Lúcia na postura de sempre. Contudo, percebeu que ela vestira um vestido cor-de-rosa. Aproximou-se dela beijando-a na face.

— Como vai? — indagou atenciosa.

— Bem — disse ela. — Você hoje demorou!

Luciana respondeu com naturalidade:

— Senti saudades de você. O tempo custou a passar. Hoje, vamos aproveitar bem nossa aula.

— Aqui nesta sala, tem muitas coisas que foram feitas pelas mãos. Enquanto esperava, fiquei contando.

— Assim não vale. Você vai ganhar. Eu ainda não observei nada!

Maria Lúcia sorriu e seus olhos brilharam. Num gesto carinhoso, Luciana passou a mão pela face da moça.

— Você tem covinhas encantadoras quando sorri. Já percebeu isso?

Maria Lúcia corou. Luciana fingiu não ver. Continuou:

— Nós, mulheres, precisamos descobrir nossos encantos para realçá-los..

— Você é muito bonita — disse Maria Lúcia.

Luciana passou o braço sobre os ombros dela.

— Faço o possível para parecer melhor. Não acredito em feiúra. A beleza está em todas as pessoas. É preciso cultivá-la.

Maria Lúcia abanou a cabeça negativamente.

— Não concorda?

Ela baixou a cabeça sem responder. Luciana não insistiu.

— Vamos nos sentar aqui, neste sofá, para nossa aula.

Maria Lúcia obedeceu e como Luciana não dissesse nada, levantou os olhos curiosa. Luciana detinha nas mãos uma pasta de couro.

— Você trouxe o livro?

         — Trouxe.

Com calma tirou-o da pasta colocando esta sobre uma mesa lateral.

— Hoje eu estou em desvantagem. Você pensou no assunto, eu não, O que mais tem aqui feito pelas mãos?

Com certa ansiedade, Maria Lúcia começou a enumerá-las, e Luciana percebeu que a menina havia conseguido mais do que esperava. Sentiu-se feliz.

— Você viu tudo. Não deixou muita coisa para mim. Ganhou longe. — Tomou a mão de Maria Lúcia e continuou: — Sinta como nossas mãos são preciosas. Eu, às vezes, quando as movimento, agradeço a Deus por possui-las. Se eu quiser, poderei fazer muito mais coisas com elas. Não é uma beleza?

Maria Lúcia olhava suas mãos admirada.

— Há também os pés. — A outra olhou-a curiosa. — Acha que eles só servem para andar?

— É — fez Maria Lúcia. — Nunca olhei para eles.

— Sente-se aqui, perto de mim, vamos ver no livro.

Abriu uma página onde havia uma sapatilha de balé.

         — Você gosta de balé?

Ela deu de ombros.

         — Não sei...

         — Nunca foi ao teatro assistir a um balé?

         — Nunca.

Luciana virou a página onde havia um quadro retratando uma bailarina.

— Essa foi uma das melhores bailarinas do mundo. Quando dançava, encantava pela graça, leveza e arte. Vendo-a em cena, as pessoas choravam de emoção tocadas pelo seu talento. Gostaria de conhecer sua história?

Os olhos de Maria Lúcia brilhavam quando respondeu:

— Sim.

Com voz suave e emocionada Luciana fez a narrativa que Maria Lúcia ouviu encantada.

Maria Helena estava curiosa. As duas moças estavam na sala de música, mas não se ouvia o piano. O que estariam fazendo? Não lhe passara despercebido que a filha mostrava interesse pelas aulas. Procurava dissimular, mas, ainda assim, notava-se que se impacientava pela chegada de Luciana.

Esperou e quando o horário da aula acabou, como as duas ainda permanecessem na sala, ela entrou.

As moças estavam sentadas lado a lado no sofá, o livro aberto no colo de Luciana que falava animada. Olhos brilhantes, Maria Lúcia ouvia-a com muito interesse.

Maria Helena admirou-se vendo a expressão comovida da filha e o brilho de seus olhos. Luciana interrompeu-se, vendo-a entrar.

— Pensei que a aula já houvesse terminado — disse.

— Estou no fim, — esclareceu Luciana. — Permita-me terminar.

— Claro, eu me retiro.

— Pode ficar, D. Maria Helena. Ela fez da arte a expressão dos seus sentimentos. Conseguiu tocar a alma das pessoas, fazendo-as perceber a beleza que guardavam dentro de si. Quem a viu dançar um dia, nunca mais a esqueceu. Veja, Maria Lúcia, como os pés podem expressar a beleza, a alegria, a arte. Nesses dias vamos pensar como os nossos pés são importantes e merecem ser valorizados. Sem eles não poderíamos ir a parte alguma.

Maria Lúcia baixara o rosto na postura costumeira, aparentando indiferença.

— Estão estudando arte? — disse Maria Helena.

— Estamos estudando a vida, a beleza e a manifestação da arte.

— Ótimo, — considerou Maria Helena, satisfeita.

— Um grande artista é sempre um instrumento do belo e da elevação dos sentimentos. Toca a nossa alma e nos aproxima de Deus.

Maria Helena olhou-a com admiração. Luciana falava com segurança, desembaraço e naturalidade. Sentiu vontade de conversar mais com ela.

— Aceitaria ficar e tomar chá conosco?

Luciana balançou a cabeça num gesto gracioso.

— Teria muito gosto. Hoje, porém, não posso demorar-me. Um outro dia, talvez, aceitarei com prazer.

Maria Lúcia, olhos baixos, não escondia a inquietação. Não parecia a moça de momentos antes. Para Luciana, foi fácil perceber que a presença da mãe a constrangia e irritava.

Com naturalidade e calma, guardou o livro e aproximando-se de Maria Helena disse com simplicidade:

— Boa tarde, D. Maria Helena. Obrigada pelo convite. — E voltando-se para Maria Lúcia:

— Até terça-feira. Aproveite bem seu tempo como da outra vez. Sua filha, D. Maria Helena, teve ótimo aproveitamento da nossa aula anterior. Foi melhor do que eu. É muito observadora e inteligente.

A moça corou, porém nada disse. Sentiu uma sensação nova envolvê-la. Acabara de ser elogiada.

Maria Helena não ocultou seu espanto. Estaria Luciana querendo agradá-la? O ar sério da moça não lhe permitia essa suposição.

— Acompanho-a até a porta — disse com amabilidade. Uma vez longe de Maria Lúcia, ela não se conteve:

— Você fez uma afirmativa surpreendente ainda há pouco. Parece-me por demais otimista. Estou ciente dos problemas de Maria Lúcia. A inteligência não é seu forte.

— Desculpe, mas não concordo. Maria Lúcia tem problemas, não nego, mas não é pobre de inteligência. Em alguns momentos tem se mostrado muito perspicaz; tenho testado sua capacidade e apesar do pouco convívio que tivemos, pude perceber que quando ela gosta do assunto, capta com facilidade. Estou observando e estabelecendo um plano para despertar nela a alegria de viver, Isso é o que lhe falta. A depressão em que vive, a impede de sentir entusiasmo, de perceber as coisas boas que poderia desfrutar com sua juventude, sua família, seus amigos e principalmente enriquecer o espírito aprendendo com as experiências do dia-a-dia.

Maria Helena estava boquiaberta.

— Ela não consegue aprender direito. Todos os seus professores disseram isso!

— Ela tem bloqueios psicológicos. Por isso tenho procurado prepará-la para aprender música. Se eu for direto ao piano, ela não vai aprender. Desejo que ela sinta essa necessidade.

— Ela não gosta de nada. Jamais vai sentir isso.

— Se ela não sentir, jamais poderá tocar. A música é a voz do sentimento e para ser um bom intérprete há que senti-la.

Maria Helena suspirou.

— Quero que ela aprenda alguma coisa. Sou mãe, tenho o dever de educá-la.

Luciana sorriu com suavidade:

— Se a senhora me permitir continuar, acredito que ainda se surpreenderá.

— Claro que desejo que continue. Receio que se decepcione e desista.

Luciana sacudiu a cabeça.

— Não vou desistir, D. Maria Helena. Sua filha é como uma pequena planta delicada e cheirosa, sufocada pelos galhos mais fortes dos arbustos que a cercam. Precisa apenas enxergar seu espaço. Um dia crescerá e abrirá seu próprio caminho, transformando a paisagem e encantando com sua beleza, distribuindo seu perfume. A senhora sentir-se-á feliz vendo-a desabrochar. Passar bem, D. Maria Helena.

Com um gesto gracioso, Luciana afastou-se.

Maria Helena entrou pensativa. As últimas palavras de Luciana perturbaram-na. O que teria ela querido dizer? Elogiara Maria Lúcia! Era inusitado. Estaria sendo sincera?

Quando José Luiz chegou, contou-lhe o que se passara.

— Essa moça é diferente dos outros professores. Não estará se iludindo? Elogiar Maria Lúcia! Será ela tão pouco exigente?

José Luiz pensou um pouco antes de responder, depois

— Ela pareceu-lhe leviana?

— Não. Ao contrário. Parece segura do que afirma. Garante que Maria Lúcia é inteligente! Não posso acreditar. Alguma coisa está errada.

— Não a entendo. Você temia que ela desistisse de ensinar Maria Lúcia. Está acontencendo exatamente o contrário. De que se queixa?

Ela age de forma diferente.

— Tem métodos modernos. Estudou na Europa. Não se esqueça que é educadora e pelo que me informaram, das melhores.

— Quando entrei na sala, o rosto de Maria Lúcia parecia outro. Seus olhos brilhavam e sua fisionomia era expressiva. Logo voltou a ser como sempre, mas reconheço que estava modificada. Sabe o que a professora contava? A vida da maior dançarina do mundo.

disse:

— Está certo. Ela deseja que Maria Lúcia aprecie arte. Se despertar-lhe o interesse, facilitará sua aprendizagem. Acho a idéia brilhante!

— Pode ser. Receio que se desiluda. Garantiu-me que não vai desistir.

— Melhor assim. Os outros nunca conseguiram nada. Vamos apoiá-la.

— Quero conhecê-la melhor. Formar uma opinião mais de perto.

— Como quiser. Entretanto, dê-lhe liberdade de ação para ensinar Maria Lúcia. Talvez ela esteja agindo certo.

— Tenho minhas dúvidas. Conheço nossa filha, infelizmente! Mas, não vou interferir por enquanto.

— Melhor assim — concluiu José Luiz, aliviado.

Confiava em Luciana. Sentia necessidade de visitá-la para falar sobre o assunto. Iria vê-la na noite seguinte.

Sentado confortavelmente em gostosa poltrona em casa de Luciana, José Luiz ouvia-a falar sobre Maria Lúcia. Quando ela terminou, disse:

— Não desejo desanimá-la, mas não estará demasiado otimista?

Luciana sacudiu a cabeça negativamente.

— Não. Maria Lúcia não é a pessoa indiferente e inexpressiva que aparenta.

— Ela estará dissimulando? — perguntou ele com ar de incredulidade.

— Isso não. Eu diria que ela se defende.

— Não compreendo.

— Ela se acredita incapaz e por isso receia cometer erros, bloqueia seus sentimentos reais, admite a própria incapacidade para não ter que fazer nada. Agindo assim, julga proteger-se da critica.

Ele admirou-se:

— Por que agiria assim?

Luciana deu de ombros num gesto gracioso e muito seu.

— Não sei. É cedo para que eu possa afirmar alguma coisa. Porém, percebo que D. Maria Helena faz distinção entre os dois filhos. Não esconde sua admiração por João Henrique e sua decepção pela filha.

— Posso perceber isso, porém ela age assim justamente porque eles são muito diferentes. Se Maria Lúcia fosse uma pessoa como todo mundo, por certo Maria Helena reconheceria e seria muito feliz, pode crer. Ela, mais do que ninguém, lamenta a postura de nossa filha.

— Certo. Não estou afirmando que a postura de D. Maria Helena tenha originado o problema. Mas que o tenha agravado, não tenho dúvidas.

— Você acha?

— Acho. Não vai aqui nenhuma crítica. Seu comportamento é, até certo ponto, natural dentro da situação. Ela desconhece os problemas do passado espiritual.

José Luiz remexeu-se na poltrona.

         — Esses seus assuntos são muito complicados.

— Ao contrário. Podem esclarecer muitos problemas como os de Maria Lúcia. Prova, de inicio, que cada pessoa traz ao nascer suas experiências de outras vidas. Mesmo que você não deseje aceitar essa verdade, só a reencarnação pode esclarecer as diferenças de personalidade entre os filhos de um mesmo casal, em igualdade de condições. A gritante disparidade entre seus filhos parece-lhe explicável de outra forma?

José Luiz baixou a cabeça pensativo. Esse enigma sempre lhe ocorria sem qualquer explicação possível.

— Essa idéia de reencarnação parece-me fantasiosa. Ter vivido em outro corpo, ter sido outra pessoa, é loucura!

— Mais loucura é acreditar que se viva na Terra apenas uma vez e que se tenha tão pouco tempo para conquistar a sabedoria. Essa idéia apequena as coisas de Deus e limita muito nossas chances de felicidade. Por outro lado, a possibilidade de voltar a este mundo para desenvolver nossos conhecimentos e amadurecer nosso espírito, abre-nos as possibilidades e faz-nos perceber a bondade de Deus.

— Não deixa de ser um belo sonho, — disse ele. Luciana sorriu.

— É realidade, papai, não sou eu quem afirma isso. Em todas as partes do mundo, na Europa, na América, muitos cientistas estudaram esse assunto e afirmaram essa verdade.

José Luiz olhou-a admirado.

— Não sabia.

— É verdade. Na França, o professor Rivail; na Itália, o grande Bozano; enfim, homens sérios, estudiosos, cientistas interessados em descobrir a verdade o afirmaram. Sem falar das pessoas que se recordam de coisas, fatos ou pessoas que conheceram em vida anterior.

— Vamos supor que fosse verdade — disse ele — em que esclareceria o caso de Maria Lúcia?

— Eu não sei quais os fatos que a tornaram assim, que a fizeram bloquear seus verdadeiros sentimentos, mas, podemos supor que eles tenham sido causados por alguma experiência dolorosa, provavelmente de dependência, onde foi dominada ou se deixou dominar por alguém durante muito tempo e perdeu sua própria identidade. Quando deixamos que os outros nos dominem, por temor ou por amor, por comodismo ou por insegurança, perdemos o contato com nossa própria essência, com nosso eu interior e passamos a agir como autômatos das idéias alheias, produto do meio social ou do condicionamento familiar. Como não usamos nossa força interior, sentimo-nos inseguros e a cada dia mais e mais receamos o fracasso e nos julgamos incapazes.

José Luiz fez um gesto vago.

— Como saber? Se ela teve problemas em outra vida, como descobrir se ninguém se lembra de nada? Como ajudá-la?

— Tanto se lembra que continua agindo sob a ação do passado. Ela não está consciente apenas, mas na ação, esse passado se revela em suas atitudes e comportamento.

— Não seria inútil e injusto isso? Sofrer sem saber a causa.

— Não. Embora nós tenhamos vivido outras vidas na Terra, somos o mesmo espírito, a mesma personalidade que viveu em corpos diferentes, tempos de experiência. A morte não modifica nossa essência e nem nos torna diferentes do que somos só porque nosso estado físico foi modificado. Nossa individualidade aprende sempre e só gradativamente vai conquistando a sabedoria. Só nos libertamos dos nossos problemas íntimos quando conseguimos modificar nosso espírito. Podemos carregar o mesmo desequilíbrio durante muitas encarnações seguidas, até podermos vencê-lo.

José Luiz ficou sério. Seria verdade isso? Luciana continuou:

Os olhos de José Luiz encheram-se de lágrimas:

— Ah! Se eu pudesse vê-la ainda que fosse por alguns segundos!

Luciana olhou-o séria:

— Quem sabe um dia você também possa. Contudo, o fato de você não conseguir, não a impede de estar a seu lado, de abraçá-lo e ajudá-lo sempre.

— Eu não mereço.

— Ela não pensa assim. Sei que lhe deseja todo o bem do mundo.

— O que é próprio de sua alma nobre. Como pude ser tão cego?

Luciana sorriu:

— O passado acabou. Nada poderá modificá-lo. Vamos viver o presente com alegria e amor. Renovando as idéias e procurando ser melhor.

Conversaram durante algum tempo e quando José Luiz saiu, beijou-a na testa com afeto e reverência. As palavras que Luciana lhe dissera, podiam ser questionadas ainda por sua mente cética, mas havia algo nelas que falava ao seu coração e infundia-lhe muito respeito e admiração.


CAPÍTULO 7

Sentadas na luxuosa sala de estar, Maria Helena, Luciana e Maria Lúcia, saboreavam o chá. Naquela tarde, após a aula, Maria Helena insistira e Luciana julgara indelicado recusar. Na mesa auxiliar, guloseimas servidas pela criada impecável.

Maria Helena conversava com Luciana, enquanto que Maria Lúcia permanecia na postura costumeira. Porém , Luciana percebia que sob aquela atitude de indiferença, os olhos da moça, de quando em vez, refletiam um interesse que ela se apressava em esconder.

Conversaram sobre arte e Maria Helena encantou-se com a erudição e a ponderação de Luciana. Depois, interessou-se pela sua vida pessoal, perguntando sobre sua avó e seus pais.

Com naturalidade, Luciana contou-lhe em rápidas palavras a morte de sua mãe e do avõ.

— E quanto a seu pai? — inquiriu ela.

— Morreu antes do meu nascimento.

Julgava a curiosidade de Maria Helena inoportuna e delicadamente contou a história costumeira e que até há pouco julgara verdadeira.

— Ah! Por certo deixou-lhe bens. Vejo que recebeu excelente instrução.

Luciana concordou com a cabeça.

— Minha mãe e também minha avó sempre fizeram questão que eu cursasse bons colégios e tivesse boa formação. Estudei na Inglaterra, como sabe.

— Sei...

Nesse momento, a porta abriu-se e João Henrique entrou acompanhado por dois amigos. Vendo Luciana, olhou-a admirado.

Maria Helena levantou-se. Seu rosto iluminara-se vendo o

filho.

          — Que surpresa agradável, meu filho.

O moço beijou a face da mãe que estendeu a mão aos dois rapazes, dizendo:

— Ulisses e Jarbas, que prazer!

Os moços curvaram-se beijando delicadamente a mão que ela lhes estendia.

— Desejo apresentar-lhes a srta. Luciana, professora de Maria Lúcia. Este é João Henrique e seus colegas de faculdade, Jarbas e Ulisses.

Luciana fez gracioso aceno com a cabeça olhando para os três rapazes.

— Encantado — disse Jarbas.

         — Prazer — disse João Henrique.

         — Como vai? — disse Ulisses.

Maria Lúcia continuava de olhos baixos sorvendo seu chá. João Henrique ignorou-a. Os outros dois disseram um “ Como vai, Maria Lúcia?” mais por hábito, sem esperar nenhuma resposta.

— Chegaram em boa hora — disse Maria Helena. —Acomodem-se e tomem um chá conosco.

Os rapazes aceitaram de bom grado.

Vendo João Henrique, Luciana compreendeu porque a mãe o admirava tanto. Sua figura alta, elegante, seu rosto fino e bem-feito, seus cabelos fartos e naturalmente ondulados de belo tom castanho dourado, eram bela moldura para seus olhos brilhantes e magnéticos. Deve ter força de vontade e sempre conseguir o que quer, pensou ela. Era parecido com a mãe, embora os cabelos se assemelhassem aos do pai.

Jarbas era moreno, alto, cabelos escuros também ondulados, lábios bem-feitos e sorriso agradável, mostrando dentes alvos e bem distribuídos. Ulisses, estatura mediana, louro, olhos claros e sonhadores, barba bem cuidada ao redor de seus lábios rosados.

Os três eram bonitos, elegantes. Conversando alegremente procuravam disfarçadamente observar Luciana.

De onde viera aquela beldade? Nenhum deles se lembrava de tê-la visto nos salões ou nos teatros. Onde se escondera?

Luciana continuava calma e discretamente a tomar seu chá. Maria Helena conduzia a conversação procurando ser agradável. João Henrique levantou-se e foi sentar-se ao lado de Luciana no sofá.

— Permite?

— Certamente. — disse ela.

— Mamãe tem me falado sobre a srta. Seus métodos são diferentes.

— As pessoas são diferentes umas das outras. Não se pode generalizar.

— As coisas quando são certas e verdadeiras o são para todas as pessoas.

— Se se refere às leis da vida, concordo plenamente, mas não posso deixar de perceber que a vida, mesmo tendo suas leis básicas as quais obedece, não conduz as pessoas da mesma maneira. A cada um dá as oportunidades que precisa para desenvolver-se e aprender.

João Henrique surpreendeu-se. Não esperava essa resposta. Estava habituado sempre a dizer as coisas e os outros ouvirem. Felizmente não percebeu o brilho alegre dos olhos dos dois amigos, deliciando-se com a resposta dela.

— Vejo que é observadora, — disse.

Serviu-se de chá e permaneceu silencioso. Luciana terminou seu chá, levantou-se e dirigindo-se a Maria Helena:

— D. Maria Helena, preciso ir. Agradeço seu convite. O chá estava delicioso.

Aproximou-se de Maria Lúcia que parecia mais apática do que nunca, abraçou-a delicadamente, beijando-lhe a face com carinho.

— Até outro dia — disse — não se esqueça do que combinamos. — Curvando-se ligeiramente diante dos rapazes, saiu depois de apanhar sua pasta sob a mesa.

Os rapazes observaram-lhe a figura graciosa que se afastava.

— Que mulher! — disse Jarbas, baixinho.

— Onde se esconde? — indagou Ulisses.

João Henrique olhou-os sério. Maria Helena sorriu:

— Vocês não podem ver uma moça, ficam logo entusiasmados!

— Uma beldade dessas! — tornou Jarbas.

— Uma mulher inteligente. Coisa rara! — disse Ulisses. Notando o olhar de Maria Helena sobre ele, prosseguiu amável: —Um privilégio de D. Maria Helena, tão bela quanto inteligente.

          Maria Helena sorriu maliciosa.

          — Vocês são galanteadores. Sentem-se e continuem seu

chá.

Os rapazes acomodaram-se e conversaram animadamente. Quando Maria Helena deixou a sala, eles passaram a falar da companhia de revista, cuja estrela fazia lotar o teatro todas as noites.

Um pouco corada, Maria Lúcia levantou-se e saiu da sala. João Henrique fez um gesto de aborrecimento.

— Desculpe, João, esqueci que sua irmã estava na sala —justificou-se Ulisses.

— Puxa! Que gafe! Talvez ela não tenha prestado atenção. Ela nunca se interessa pelos nossos assuntos.

João Henrique deu de ombros.

— Não faz mal. Nos distraímos. Voltemos ao assunto, agora estamos sós.

— Eu gostei do espetáculo. É uma bela mulher — opinou Jarbas.

— Pois eu prefiro essa professorinha que estava aqui —ajuntou Ulisses.

— Que idéia! — fez João Henrique. — São tão diferentes. Não há termo de comparação.

Uma é artista, cheia de alegria de viver, empolga multidões; a outra é só uma simples professorinha.

Ulisses suspirou:

— Pois eu a prefiro. O brilho de seus olhos mexeu comigo. Quero voltar a vê-la.

— Se o fizer, que mamãe não saiba.

— Por quê? Tencionava pedir informações a D. Maria Helena.

João Henrique sacudiu a cabeça negativamente.

— Ela não vai gostar. É muito rigorosa com essas coisas. Por certo, despedirá a moça se desconfiar que um de nós está interessado nela.

— Hum! — fez Ulisses, pensativo. — Não faz mal.

— Desistiu? — brincou Jarbas.

— Não. Mas darei outro jeito — respondeu ele.

Maria Lúcia fora para o jardim envergonhada. Os rapazes conversaram sobre mulheres de forma desrespeitosa — pensou ela. Não se lembraram que ela estava ali.

Sua mãe lhe dizia que esse tipo de espetáculo não era próprio para mulheres honestas. Jamais falava sobre isso em sua presença.

De repente, ela sentiu o aroma de jasmim. Era bom sentir esse perfume. Dirigiu-se ao banco onde se sentara com Luciana e sentou-se. Ela era linda! Vira a admiração no rosto dos rapazes. Até João Henrique tinha conversado com ela. Ele nunca dirigira a palavra a D. Eudóxia.

Luciana era forte, pensou, não se intimidava com a presença dos moços nem com a pose de seu irmão. Sorriu pensando na resposta que ela lhe dera. Logo ele, tão sabichão!

Luciana tornara-se seu ídolo. Em suas fantasias, copiava a moça, via-se como ela. Ah! se pudesse ser como ela! Mas isso era impossível. Nunca nenhum moço a olhara como o fizeram para Luciana. Ela era feia e inútil. Tão inútil que ninguém sequer reparava em sua presença.

Sentiu uma raiva surda brotar dentro do peito. Teve vontade de voltar à sala e ver se eles continuariam a conversar assuntos proibidos diante dela. Contudo, ficou ali, trêmula, sentindo as lágrimas rolarem pelas faces e uma imensa angústia no coração.

Aos poucos, foi passando e ela sentiu-se mais calma. Continuou sentada, sentindo o cheiro do jasmim. Lembrou-se das palavras de Luciana:

— Veja como é linda a natureza. Sinta esse perfume. Olhe os pássaros como estão felizes.

Levantou os olhos e olhou ao redor. O céu estava colorido pelos últimos raios do sol que já se ocultara no horizonte, e os galhos dos arbustos balançavam docemente. Olhou aquela cena como se a estivesse vendo pela primeira vez. Que desenhos caprichosos as cores faziam no céu! Era mesmo uma beleza.

— Maria Lúcia!

A moça sobressaltou-se. Ulisses estava no banco a seu lado.

— O quê?

— Desculpe. Não pretendia assustá-la. Você estava tão distraída olhando o céu...

— Ah!

— Preciso de um favor seu. Sua mãe não deve saber.

A moça ruborizou-se. Ele prosseguiu:

           - É sobre a srta. Luciana. Desejo voltar a vê-la. Pode dar-me seu endereço?

— Não o tenho. — disse. — Mamãe é quem sabe. Mas ela vai estar aqui na quinta-feira.

— Obrigado — disse ele contente. Apanhou a mão de Maria Lúcia e a beijou com galanteria: — Fez-me um grande favor.

Saiu rápido e Maria Lúcia sentiu seu coração bater forte. Fora a primeira vez que um moço bonito, elegante, lhe beijara a mão. Levantou o braço e passou as costas da mão pela face. Sentiu uma onda de calor envolver seu coração. Teve vontade de cantar. Ficou ali, pensando até que a noite desceu e a criada surgiu chamando-a para o jantar.

Quando Luciana chegou na quinta-feira, Maria Lúcia esperava-a ansiosa. Luciana percebeu, mas agiu com naturalidade.

— Hoje, faz um mês que nos conhecemos. — disse. —Vamos ao piano?

Maria Lúcia fez um gesto Contrariado.

— Não gostou da idéia? Escolhi alguns exercícios que Considero bons para nós.

— Está bem — disse a moça com ar desanimado.

Luciana colocou a mão em seu ombro.

— Olhe para mim, Maria Lúcia. Pode ser franca comigo. Não quer estudar piano?

Não lhe passou despercebido o rápido lampejo dos olhos da moça.

— É isso? — insistiu Luciana.

— É.

— Por que não me disse?

— Não quero que você vá embora.

           - Ah! Você sabe que eu estou aqui para ensiná-la a tocar piano e que se eu não o fizer, terei que ir embora. Certo?

É.

— Mas você não gosta de piano. Eu diria mesmo que o odeia.

Ela baixou a cabeça e não respondeu. Luciana segurou o seu queixo e levantou-lhe o rosto.

— Olhe para mim, nos olhos. Somos amigas. Não precisa ter segredos comigo. Eu não quero deixar de vir aqui, porque eu gosto de você. Quero ensiná-la a perceber muitas coisas que você não vê e ajudá-la a tornar-se uma pessoa amada, alegre e feliz. Você quer?

O rosto de Maria Lúcia iluminou-se, e ela atirou-se nos braços de Luciana chorando convulsivamente.

Luciana abraçou-a com carinho e esperou que ela se acalmasse. Depois, fê-la sentar-se no sofá e sentou-se a seu lado.

— Precisamos conversar seriamente. Você confia em mim e quer mudar?

Maria Lúcia, lábios trêmulos, mãos frias e rosto molhado, respondeu baixinho:

— Quero.

Luciana tornou:

— O que disse?

— Quero — disse ela um pouco mais alto.

— Repita. Não ouvi nada.

— Quero! tornou ela, elevando mais o tom.

—O quê?

— Quero — repetiu quase gritando desta vez.

— Repita várias vezes: Eu quero mudar! Fale forte e alto.

Maria Lúcia obedeceu e repetiu a frase e à medida que o fazia, sua voz tornava-se mais firme e forte. Seu rosto modificava-se à medida em que falava. Luciana levantou-se e pegando-a pelo braço disse:

— Venha comigo. Aqui. Olhe no espelho. Veja como você está linda!

Maria Lúcia obedeceu. Olhou-se. Parecia outra pessoa. Não saberia dizer o quê, mas sentia-se diferente. Luciana continuou:

— Você é uma moça muito bonita. Veja que olhos lindos possui. Sua tez é delicada, seu rubor a torna mais bela. Sua boca é bem-feita. Seus cabelos são como os de seu irmão. Por que os prende severamente?

— Ninguém me acha bonita — balbuciou ela.

— Os outros acham aquilo que você acredita. Ë você que precisa gostar de si mesma, realçar sua beleza.

— Posso ficar horas em uma sala que ninguém repara em mim.

— Você se fecha e não permite que ninguém se aproxime. Sente-se apavorada quando alguém chega perto.

— Ontem, os moços olharam para você com admiração. Porque você é bonita. Quando você saiu e mamãe também, falaram coisas impróprias, esqueceram que eu estava ali.

— Você ficou com raiva.

         — Eu saí. Tive vergonha.

         — O que fez depois?

— Fui ao jardim. Senti o perfume das flores e sentei naquele banco.

— Só?

— Eu chorei de raiva. Depois, olhei o céu, estava tão lindo, todo cor-de-rosa. Foi aí que o Ulisses apareceu. Levei um susto.

— E depois?

— Ele queria saber de você. Seu endereço. Eu não sabia e disse-lhe que você viria hoje...

Ela parou um pouco ruborizada e passou as costas da mão pela face.

— Conte o resto.

Ela sacudiu a cabeça negativamente.

         — Vamos, o que foi?

         — Ele disse obrigado e beijou minha mão.

         — Você desejou ser bonita, amada, cortejada!

Maria Lúcia baixou a cabeça sem coragem para confirmar.

— Eu acredito em você — tornou Luciana, — você é bonita, mas falta-lhe colocar fora a chama interior. Você não permite que ela se expresse. Impede-a de todas as formas de manifestar-se. A beleza física só é completa quando vivificada pela força da alma. Éesse algo que atrai, que prende, que alimenta. Você quer mudar. Eu quero ajudá-la.

— Eu não sei como! É difícil!

— Não se faça de fraca, coisa que você não é; nem de burra, o que também não é. Nem de vítima o que não é verdade. É ótimo ficar na posição de vítima, pobre menina, mal-amada pela mãe, ignorada pelos demais e incapaz de aprender as coisas. Porque assim, você envergonha sua mãe, arrasa todo mundo que precisa agüentar sua presença infeliz. Sabe o que eu acho? Que você age assim por vingança.

Maria Lúcia olhava-a, olhos muito abertos, sustendo a respiração.

— Confesse que você atormentava D. Eudóxia errando as lições, e a sua mãe, aparecendo mal-arrumada e deselegante. Olhe para você. Se vinga deles, mas a que preço? E a sua felicidade? E o amor? Posso ver através de você como um livro aberto. E sei que se você não lutar para ser feliz, ninguém a poderá ajudar! Nem eu, nem Deus!

A surpresa emudeceu Maria Lúcia. Não encontrava nada para dizer. Luciana calmamente conduziu-a até o sofá, fazendo-a sentar-se.

— Para que eu possa continuar vindo aqui, precisamos ir ao piano, estudar um pouco. Sua mãe não vai me aceitar se não fizermos isso. Quer correr o risco?

— Não, vamos ao piano.

— Sem errar de propósito.

— Está bem.

— Prometo que escolherei peças bonitas e que estudaremos com prazer.

— Concordo.

Maria Helena, ao passar pela porta da sala de música, ficou agradavelmente surpreendida.

O som do piano se fazia ouvir limpo e sem erros. Teria acontecido um milagre? Teve vontade de abrir a porta para verificar se realmente quem estava tocando era Maria Lúcia. Conteve-se. Era melhor não intervir. Aquela professora era mesmo inteligente. Usara métodos diferentes, mas tinha que reconhecer que dera bons resultados.

Ao terminarem os exercícios, Luciana tornou satisfeita:

— Ótimo. Você tocou tão bem que podemos passar adiante. Não pensei que estivesse tão adiantada.

Maria Lúcia corou de prazer. Fora fácil executar aqueles exercícios. Ao despedir-se, Luciana sentia-se feliz. Fora muito proveitosa a aula, e ela sentia que a cada dia Maria Lúcia despertava para a realidade. Havia em Maria Lúcia alguma coisa que a tocava profundamente. Sentia que lhe queria bem de verdade. Gostaria de poder levá-la para sua casa e estar o tempo todo a seu lado para transformá-la, ensinando-a a ser feliz. Isso ainda não era possível. Precisava ser paciente. Contava obter sucesso.

Saiu sobraçando sua pasta de couro e havia andado alguns passos quando alguém aproximou-se:

— Srta. Luciana!

Ela voltou-se.

- Sr. Ulisses!

— Como vai? — perguntou ele curvando-se com delicadeza.

— Bem. Vai à casa de D. Maria Helena?

— Não. ia passando quando a vi. Posso acompanhá-la?

Luciana sorriu:

— Vou tomar o bonde perto daqui. Não se incomode.

— Absolutamente. Uma dama sozinha pelas ruas, não éprudente. Ainda mais como a srta.

— Está bem, — disse. — Vamos andando.

Ulisses olhou-a com admiração.

— Quando a vi ontem, tive vontade de conhecê-la melhor. No entanto, não tive oportunidade. A srta. retirou-se cedo!

— Não costumo abusar da hospitalidade. D. Maria Helena tem sido muito gentil comigo.

— Ela é muito exigente com suas relações. Seu convite é sempre um cumprimento. Mas, não me lembro de tê-la visto antes. Não gosta da vida social?

— Depende do que chama vida social. Sempre me relaciono com pessoas que aprecio e procuro conviver com elas. Quanto a obrigações, ao relacionamento meramente ocasional e de contato no dia-a-dia, procuro ser cordial, sem intimidade.

— Não freqüenta teatros ou reuniões sociais?

— Moro com minha avó e é com ela que tenho saído. Gostamos de concertos, visitamos museus e confeitarias. Ao teatro, temos ido algumas vezes. Não somos do Rio e aqui temos nos relacionado pouco.

— Não se sente só?

Luciana, fixando nele os olhos brilhantes, respondeu:

— Nunca. Sinto-me muito bem, sou muito feliz.

— Não fala sério. Na sua idade, os bailes, os jogos de salão... Estará comprometida com alguém?

Havia nos olhos dela uma ponta de malícia quando disse:

— Não. Não tenho nenhum compromisso.

O  moço sorriu com alegria acentuando as covinhas da face.

Quando o bonde chegou, ele ajudou-a a subir e depois subiu e sentou-se a seu lado. Tentando desviar a atenção de si mesma, perguntou atenciosa:

— O senhor é estudante?

— Sou. Estou na mesma turma de João Henrique. Nos graduaremos ao fim deste ano.

Foram conversando e Luciana, apesar das maneiras corteses e delicadas de Ulisses, não pretendia estreitar a amizade com ele. Aliás, desgostava-a mesmo que ele a houvesse acompanhado. Receava que ele desejasse freqüentar sua casa, o que poderia vir a tolher a liberdade de seu pai estar com ela. Não queria, de forma alguma, que alguém descobrisse seu parentesco com José Luiz e com isso pudesse criar uma situação embaraçosa que viesse a dificultar suas visitas à Maria Lúcia.

Por mais agradável que ele fosse e por mais interesse que demonstrasse por ela, não poderia aceitar sua amizade. Por isso, assim que desceram do bonde, ela estendeu a mão com um sorriso amável dizendo com voz firme:

— Obrigada, senhor Ulisses, por acompanhar-me.

Ele insistiu:

— Por favor. Ficaria mais tranqüilo se a deixasse em casa.

— Não se incomode. Estou perto. Depois, não precisa preocupar-se comigo. Sou órfã desde muito cedo e habituada a andar sozinha por toda parte.

Ele não se deu por achado:

— Parece que não apreciou minha companhia.

Luciana não gostava de pessoas insistentes. Costumava respeitar a liberdade alheia e apreciava a sua privacidade. Apesar disso, respondeu delicadamente.

— Não se deprecie, sr. Ulisses. E não insista. Agradeço-lhe a companhia. Passe muito bem.

Com um sorriso, Luciana estendeu a mão que ele apertou com galanteria.

— Está bem, — disse. — Não vou contrariá-la. Adeus.

Curvou-se e ficou olhando a moça afastar-se até que a viu desaparecer na curva da esquina. Não se deu por vencido. Ela era arisca, mas isso tornava-a mais tentadora. Estava habituado a ser requestado pelas mulheres que disputavam-lhe a companhia. Haveria de dobrá-la por certo. Era apenas questão de tempo. Colocando o chapéu na cabeça, atravessou a rua para tomar o bonde de volta.

Luciana chegou em casa um pouco preocupada. Egle percebeu assim que a viu.

— O que foi, aconteceu alguma coisa em casa de D. Maria Helena?

Luciana sacudiu a cabeça negativamente.

— Não, vovó. Lá as coisas estão cada dia melhor. Descobri que Maria Lúcia é uma moça como todas as outras, Que pode vir a ser feliz e amada, Isso me alegra.

— Ótimo. Mas você chegou preocupada, o que foi?

A moça contou-lhe o encontro com Ulisses e Egle Concluiu:

— Ele está interessado. Fez muito bem em não aceitar. Já pensou o que poderia acontecer se ele freqüentasse nossa casa e viesse a encontrar com seu pai? O que pensaria?

— Poderia por tudo a perder. Isso, eu não vou admitir.

Egle suspirou, depois disse:

É um moço bom? Bonito?

— É, vovó. Bonito, agradável bem-educado e de boa família.

Egle ficou alguns momentos pensativa depois disse:

— Por causa disso você pode estar jogando fora sua felicidade. Preocupa-me o seu futuro. Gostaria que se casasse e fosse feliz.

Luciana abraçou-a com carinho.

— O que é meu está guardado e quando aparecer, saberei. Não deve temer o futuro. Onde está sua fé? Deus cuida de tudo e nos protege fazendo sempre o melhor em nosso favor. Precisamos sempre abrir a porta do coração para estar com ele e permitir que ele se expresse para escolhermos adequadamente nosso caminho. Sou muito feliz, vovó, e sempre o serei, porque Deus nos criou para a harmonia e o amor, para que temer? Por que acredita que minha felicidade esteja só no casamento? O casamento não tem sido para muitas pessoas uma infelicidade?

— Você é contra o casamento, Luciana?

— De forma alguma. Mas desejo que se um dia eu me casar, o faça conscientemente e por amor. No entanto, sei que nossa felicidade independe disso, vovó. É estado de alma, é ter alegria, amar a vida, que é tão bela e tão rica, usufruir dos bons momentos sentindo a beleza, a bondade, a luz. Não se sente feliz agora?

Egle abraçou-a comovida:

— Sinto. Tenho você. Todos os dias agradeço a Deus tê-la comigo!

A moça beijou delicadamente a face da avó.

— É isso, vovó. Eu também estou feliz. Vamos viver o agora, sem medo ou apreensão do futuro. Deus não tem cuidado de nós até agora?

— Tem razão, minha filha. Sou uma ingrata. — Fez uma pausa, depois sorriu dizendo: — Mas, eu desejo ter alguns bisnetos. Estarei errada?

— Claro que não, vovó. Quando isso acontecer, quero ver se agüenta o barulho das crianças e um homem aqui, querendo dar ordens e mudar tudo.

— Que horror! — fez ela, assustada.

Luciana riu gostosamente. Sua avó era metódica e todas as coisas da casa deviam estar sempre nos devidos lugares. Amava o silêncio e a tranqüilidade.

— Tenho pensado em Maria Lúcia, — tornou Luciana. —Apesar de D. Maria Helena não interferir, lá, eu não me sinto inteiramente à vontade para trabalhar com ela. O ambiente é frio, solene, formal.

— Por que não a convida para vir aqui algumas vezes?

— Isso seria maravilhoso. Mas, não sei se D. Maria Helena permitiria. Ela é muito exigente com as amizades. Me aceitou como professora, mas não sei se concordaria em deixar a filha vir aqui.

— Por que não? — fez Egle, entusiasmada. — Afinal, somos pessoas bem-educadas. Agora temos uma bela casa, onde poderemos receber à altura.

Luciana abanou a cabeça indecisa:

— Não sei, não.

— Ela convidou-a para um chá. Vindo dela, demonstra que a aprecia. Faremos o seguinte: escreverei um pequeno convite para D. Maria Helena vir com a filha tomar um chá conosco no próximo sábado.

— Ela também? Nesse caso, estará presente.

— Sua curiosidade a trará aqui a primeira vez. Se gostar, permitirá que a filha venha nos visitar de vez em quando.

Luciana beijou o rosto da avó com entusiasmo:

— Fará isso por mim? — indagou feliz.

 — Farei por mim. Afinal quero mostrar a essa dama tão requintada como se recebe em minha terra e dar-lhe um banho de civilização. Depois, estou morrendo de curiosidade para conhecer Maria Lúcia. Pobre menina.

Luciana riu divertida.

— Ela não é pobre menina, vovó. É uma moça infeliz, porque ainda não descobriu os tesouros que guarda no coração. Acha que ela aceitará o Convite?

— Você verá. Fá-lo-ei num daqueles meus papéis especiais, como manda a mais nobre Lady inglesa, lacre e tudo mais.

- Pelo que conheço de D. Maria Helena, sei que virá. Não resistirá à Curiosidade

— Uma vez aqui, não a pouparei. Verá nosso álbum de família, Conhecerá nosso lado da nobreza, e tudo quanto temos direito. Sem falar da nossa erudição, dos nossos diplomas e graduações

— Vai lhe falar do nosso trabalho fazendo doces para viver?

— Esse lado ficará esquecido. Afinal, quando seu pai morreu, deixou-nos bom dinheiro.

Luciana ficou séria.

           Não estamos exagerando vovó?

— Não, minha filha. Se queremos que ela nos respeite e permita que a filha nos visite, precisamos falar sua linguagem

— Tem razão, vovó, Como sempre. Vamos planejar tudo.

As duas sentaram-se com alegria e entusiasmo para se organizar.

Maria Helena recebeu o pequeno e elegante envelope admirada.

— Vovó pediu para entregar-lhe.

Ela abriu e leu com atenção. Pensou alguns instantes, depois disse:

— Obrigada pelo convite. Terei prazer em conhecer a senhora sua avó.

— Direi a ela. Será uma honra recebê-la em nossa casa com Maria Lúcia.

Maria Helena hesitou alguns instantes depois disse:

— As vezes Penso que você aprecia Maria Lúcia.

— É verdade eu a aprecio — respondeu ela com voz firme.

— Não consigo entender. Vocês são tão diferentes! Custo a acreditar.

— Posso saber por quê?

— Sou sua mãe, mas reconheço que ela não é uma companhia agradável, sempre tão... calada... sem expressão.

Luciana sorriu levemente.

— Isso é aparência. Na verdade, ela é uma pessoa inteligente, sensível, boa e apaixonada.

Maria Helena olhou-a tendo no rosto uma expressão indefinível.

— Às vezes eu penso, Luciana, que você é uma moça muito boa, porém muito sonhadora. Não pretendo iludir-me. Já aceitei a incapacidade de Maria Lúcia. Não é coisa fácil para uma mãe, mas não há nada para fazer. Tive que resignar-me.

— Não há nada neste mundo que não possa mudar com a ajuda de Deus — disse com voz suave. — Confio nele. Maria Lúcia é uma pessoa normal, está apenas bloqueada. A senhora ainda perceberá isso.

— Embora não creia, desejo realmente que consiga.

Luciana assentiu satisfeita. Foi para a sala em busca de Maria Lúcia para a aula. Maria Helena olhou o delicado convite revirando-o entre os dedos finos. Havia algo em Luciana que a intrigava. Uma moça tão fina, tão bela e de família tão boa, por que se sujeitaria a dar aulas?

É verdade que ela lhe dissera que não precisava do dinheiro para viver. Talvez fosse para mostrar erudição. Há pessoas que satisfazem sua vaidade dessa forma. Mas, com Maria Lúcia? Ela não saberia apreciar nada. Não. Não podia ser por isso.

Aceitara o convite, porque estava curiosa. Jamais se lembrava de ter recebido um cartão tão elegante, com brasão dourado, finíssimo. Estava claro que a avó de Luciana tinha linhagem. Iria conhecê-la.

João Henrique interrompeu o fluxo de seus pensamentos.

          - Mamãe, — disse — vim mais cedo porque pretendo trabalhar em um projeto muito importante.

— Claro — respondeu ela, satisfeita.

— Vou para o gabinete. Estou com sede. Pode mandar-me uma limonada?

— Por certo...

          - EnquantoJoão Henrique instalava-se no gabinete, Maria Helena diligente mandou servi-lo.

          Ela ficava feliz quando ele fechava-se no gabinete para trabalhar. Ele ainda faria grandes coisas, estava certa disso.

          - Fazia meia hora que ele começara a trabalhar quando Ulisses procurou vê-lo. Apesar de um Pouco contrariada Maria Helena Conduziuo ao gabinete do filho.

          Vendo-o, João Henrique foi logo dizendo:

          — Vem em boa hora. Quero mostrar-lhe uma idéia que tive.

          Maria Helena saiu, deixando-osa sós. Afinal, Ulisses estudava com ele na mesma Classe. Poderiam trabalhar juntos, embora ela pensasse que João Henrique ajudava os colegas e sempre sabia mais do que eles.

            Quando ela saiu, Ulisses tornou:

— Não pensei encontra-lo ás voltas com projetos agora. Há tempo de sobra.

João Henrique abanou a cabeça.

— Não para mim. Quero ficar com a noite livre.

Ulisses sorriu malicioso.

            - Já sei. Vai ao teatro. Pelo que sei, tem estado lá todas as noites.

João Henrique Suspirou, olhos perdidos em um Ponto indefinido:

—  Ela é maravilhosa! Nunca Conheci mulher igual.

—  Cuidado. Sei de alguns almofadinhas que estão apaixonados por ela.

         - Estão à Sua volta Como moscas ao mel. Ela não lhes dá atenção.

— Quanto a você?

— Por enquanto só Sorrisos e troca de olhares.

— Mande-lhe flores.

— Já as tenho mandado. Hoje pretendo convida-la a cear. Talvez aceite.

— Estou certo que sim. Você tem Sorte Com as damas. Não resistem aos seus encantos. Sei de algumas que desmaiam quando você chega.

João Henrique Considerou:

— Não brinque. Sabe que não sou de namoricos

— Sei. Nunca se interessou por alguma mulher em especial. Estou admirado. Afinal, sempre chega o dia!

— É só entusiasmo. Ela me atraí como nenhuma outra.

— Então, meu caro, aproveite.

— Por certo o farei. Mas, você aqui esta hora? O que acontece?

— Sabia que estava em casa. — Piscando o olho, malicioso, continuou : — quero rever Luciana.

João Henrique fez um gesto de surpresa:

— A professora de música?

— Sim.

— Aqui não é o melhor lugar, já lhe disse.

— Eu sei. Procurei encontrá-la fora.

Ulisses contou-lhe seu encontro com Luciana e finalizou:

— Ela é delicada, mas firme. Sequer deixou-me conhecer-lhe a casa.

— Talvez seja pobre e tenha vergonha. Ao Jarbas já lhe aconteceu isso.

Ulisses abanou a cabeça:

— Não creio. O lugar onde mora é de bom padrão.

— Tem certeza de que ela mora mesmo lá? Não teria tomado o bonde errado para ludibriá-lo?

— Será? Bobagem dela. Com aquele rostinho, não precisa de mais nada. Ela está aqui hoje? É dia de aula.

João Henrique deu de ombros:

— Não sei.

          — Você não se interessa por sua irmã! — disse ele, queixoso. — Deveria assistir alguma aula. Deve ser muito interessante.

João Henrique riu francamente:

— Não sou lobo como você. Não estou interessado.

— Como eu faço para vê-la, falar-lhe?

— Arrume-se. Mamãe não gostaria que me intrometesse. Iria desconfiar.

— Você não é meu amigo. Podia facilitar um pouco as coisas.

— Você não é o preferido das donzelas do Ouvidor? Onde está sua classe?

— Sua mãe não nos vai chamar hoje para o chá com ela?

— Não sei. Aliás, mamãe nunca convida os professores para tomar chá. Fiquei admirado aquele dia.

—  Isso prova que ela é especial. Até D. Maria Helena notou. Você podia fazer algo, que diabo.

João Henrique sorriu.

—  Para que você não diga que não coopero, vamos conversar na sala. É o máximo que posso fazer.

Os dois foram sentar-se na sala, e João Henrique pediu àmãe que mandasse servir-lhes mais refrescos.

Ficaram conversando animadamente porém, os olhos de Ulisses não pararam de fixar disfarçadamente a porta fechada através da qual Supunha estarem as duas moças.

Finalmente, ela abriu-se e as duas apareceram. Vendo-os, Luciana cumprimentou-oslevemente com a cabeça. Os dois levantaram-se. A criada servia os copos de refresco.

—  Sirva um copo à senhorita — disse João Henrique com delicadeza, — está muito calor.

— Obrigada, aceito.

A moça tomou o refresco, apanhou a pasta que colocara sobre a mesa.

— Já vai? — indagou Ulisses, interessado.

— Já — respondeu ela, séria.

Maria Helena aproximava-se Estendeu a mão a Luciana, dizendo:

— Agradeça a senhora sua avó pelo convite, iremos com prazer.

— Ela ficará feliz. — Voltando-se para Maria Lúcia continuou:

— Espero-a ansiosamente Desejo mostrar-lhe algumas coisas. Passaremos uma tarde deliciosa.

O rosto da moça corou de prazer. Retribuiu o beijo que Luciana lhe deu na face.

João Henrique observava admirado. Aquela cena era inusitada Sua mãe aceitando um convite da professorinha e, o mais estranho, sua irmã mostrando-se afetiva com alguém. Olhou Luciana com curiosidade. Teve que reconhecer que o rosto da moça era expressivo. Talvez por causa dos olhos cujo brilho era vivo, alegre.

Olhou para Ulisses e a custo dominou o riso. O moço estava fascinado. Luciana despediu-se e ele saiu em seguida.

Maria Helena comentou:

— Ulisses está interessado em Luciana. Não gosto disso. Custamos para arranjar alguém que suportasse a esquisitice de sua irmã, não gostaria de perdê-la.

João Henrique deu um tom despreocupado à voz:

— Não se preocupe. O Ulisses é assim com todas. A srta. Luciana por certo não lhe dará trelas.

— Em todo caso, fale com ele. Proíba-o de fazer-lhe a corte.

Apesar de perceber a petulância da mãe, ele habilmente concordou e tentou desviar o assunto.

— Você vai à casa dela?

— Sim. Sua avó convidou-me e a Maria Lúcia para um chá no sábado.

— Por que aceitou? Não a conhece.

— Tive vontade. São pessoas de fino trato. A Luciana dá aulas porque gosta. Não o faz para ganhar a vida. Foi educada na Inglaterra e sua avó é inglesa. Veja o convite, que finura. Gente de linhagem. Depois, ela gosta de Maria Lúcia. Coisa rara. Estou curiosa de ir à sua casa.

— Interessante, não fazia idéia que fosse assim. Por isso convidou-a ao chá. Ela não freqüenta a sociedade. Nunca a vimos nos salões.

— É uma moça diferente. Muito culta. Berço, meu filho. Ela tem berço. Vê-se logo isso. Gosta de arte, de música.

— Vejo que a aprecia.

Maria Helena sacudiu a cabeça pensativa.

— Por enquanto, seu procedimento tem sido irrepreensível.

Garante que Maria Lúcia é pessoa inteligente e normal. Quanto a

isso, não tenho ilusões. Mas sua influência é boa para sua irmã, e

ela aceita a professora, chega a esperá-la com certo interesse.

— Mamãe, isso é Ótimo. Foi a primeira vez que vi Maria Lúcia beijar alguém.

— Ela fez isso?

— Não viu? Ao despedir-se, ela beijou a face da srta. Luciana.

— É, realmente, isso surpreende. Vamos ver. Sábado vou conhecê-la melhor.

— Agora, volto ao gabinete. Preciso trabalhar.

Maria Helena sorriu alegre. Maria Lúcia fechou-se no quarto e dirigiu-se ao espelho. Olhou seu rosto, depois passou a mão lentamente pelas faces. Sua pele era macia e limpa. Era verdade.

Alisou os cabelos e num gesto decidido, tirou os grampos que o prendiam. Eles caíram sobre os ombros, e ela continuou alisando-os pensativa. Luciana elogiara seus cabelos. Aproximou se do espelho. Seriam mesmo iguais aos de João Henrique? Todos elogiavam os cabelos dele.

Gostaria de mudar o penteado, mas temia o olhar critico da mãe. Sábado iria à casa de Luciana. Seu coração bateu mais forte. Que vestido usaria?

Abriu o armário e olhou seus vestidos. Pareceram-lhe feios e sem graça. Que fazer! Luciana lhe falara de cores alegres, do cor-de-rosa. Tinha um nesse tom. Iria com ele. Corou de excitação, Olhou-se novamente no espelho. Tinha vergonha do seu rubor. Luciana dissera-lhe que ele tornava-a mais bonita. Seus olhos brilharam, e ela passou novamente os dedos pelas faces.

Talvez Luciana tenha razão, Pensou, talvez eu possa ser menos feia. Estendeu-se na cama e fechou os olhos. O rosto de Ulisses apareceu-lhe na memória. Lembrou-se do beijo e seu coração bateu descompassado. Ele estava interessado em Luciana, mas ela podia fazer de conta que era por ela que ele Suspirava. Imaginou-o beijando suas faces com amor. Se isso acontecesse, morreria de ventura. Se ela pudesse!

Luciana sabia como ser graciosa, bela, notada. Todos os rapazes a cortejavam. Gostaria muito de ser Como ela. Sábado, teriam muito que conversar.

 

CAPÍTULO 8

João Henrique chegou ao teatro um pouco ansioso. Estava elegantemente vestido e discretamente perfumado. Parou alguns instantes no hall, onde os cartazes da peça encontravam-Se em exposição.

Aproximou-se e fixou-os. Maria Antonieta Rangel era a estrela da companhia. Vinha de vitoriosa excursão pela Europa onde brilhara encantando todos com sua voz e seu desempenho.

Os olhos de João Henrique brilhavam. Ela era maravilhosa! A peça, uma revista musical de alto luxo, estava fazendo muito sucesso. Mandara-lhe flores e delicado cartão convidando-a a cear depois do espetáculo. Aceitaria?

Entrou na sala de espetáculos. Estava repleto. Quando ela apareceu em cena, os aplausos explodiram entusiastas.

João Henrique vibrava de satisfação. Já havia visto a peça mais de dez vezes e sempre se emocionava. Conhecia as canções e até algumas falas.

Ao cair o pano, ela teve que voltar à cena repetidas vezes. João Henrique saiu apressado, dirigindo-se aos camarins.

A custo conseguiu aproximar-se. Abrindo alas entre as pessoas, alguns funcionários cercavam a estrela que sorrindo, dirigiu-se ao camarim. João Henrique continuava fascinado. Um homem saiu do camarim e disse sorrindo:

— Antonieta agradece a todos os cumprimentos, as flores, a bondade dos senhores. Porém, está exausta. Pretende descansar. Ela tem representado todas as noites. Tem conversado- com os admiradores, contudo, hoje, deseja recolher-se. Obrigado por tudo.

Ele entrou novamente, fechando a porta do camarim e, contrariadas, as pessoas foram aos poucos, deixando o teatro.

João Henrique afastou-se um pouco e ficou esperando. Quarenta minutos depois, quando ela saiu, não havia ninguém mais além de João Henrique. Vinha acompanhada pelo homem que falara e duas mulheres. Vendo-a, ele aproximou-se.

— Perdoe-me se fiquei esperando. Fiz-lhe um convite. Desejo resposta.

Longe de enfadar-se, ela sorriu:

— Convite? Não me lembro.

— Sou João Henrique. Convidei-a para cear comigo esta noite.

O  homem interveio:

— Já disse que ela deseja recolher-se. Está cansada.

— Garanto que apreciaria. Conheço um lugar maravilhoso, onde se come muito bem!

Ela olhou-o, sorriu e depois disse:

— Obrigada, mas pretendo repousar. Vamos.

Fez ligeiro aceno com a cabeça e saiu. Os demais a seguiram. Apesar de decepcionado, o moço não desistiu. Aspirava o delicioso perfume que ela espalhara no ar e intimamente formulara projetos para conseguir seu objetivo.

Seguiu-os de longe até o hotel onde se hospedavam. Por certo voltaria à carga no dia seguinte.

Eram 16 horas em ponto, quando o carro de Maria Helena parou frente à bela casa de Luciana no sábado.

Parada frente ao portão de entrada, Maria Helena admirada tocou a sineta e imediatamente uma criada vestida elegantemente abriu a porta, fazendo-as entrar e conduzindo-as à sala de estar.

          Luciana abraçou-as com prazer dando-lhes as boas vindas e apresentando Egle.

Maria Helena cumprimentou-a com prazer.

          — Tem uma linda casa, muito acolhedora, — disse, amável.

— Obrigada, — respondeu ela com simplicidade.

Acomodaram-se e começaram a conversar com animação. Vendo-as entrosadas, Luciana levou Maria Lúcia para conhecer as dependências da casa e o seu quarto. A moça olhava tudo com entusiasmo.

— Você tem bom gosto. Gostaria de ser assim. Posso ver seus vestidos?

— Claro. Venha.

Luciana abriu o armário e Maria Lúcia olhou admirando tudo.

— Eu quis vestir um vestido mais bonito, mas todos os meus são horríveis. Soltei os cabelos, mas não sei como penteá-los.

Luciana passou a mão delicadamente sobre os cabelos dela.

— Você aprenderá — disse. — O importante é querer.

— Será? tudo em mim fica feio. Perde a graça. Em você não. Você é tão bonita!

— Bobinha, você também é muito bonita. Acontece que nunca se interessou por essas coisas antes. Vamos fazer uma experiência. Vista esse vestido branco.

— Agora?

— Sim. Vou fechar a porta. Vamos, experimente.

Era um vestido lindíssimo, justo e de corte elegante. Maria Lúcia vestiu-O.

— Maria Lúcia! Ficou perfeito em você! Agora os cabelos. Deixe-me ver... Precisa cortar um pouco as pontas. Posso?

A moça concordou e Luciana apanhou uma tesoura, um pente e com delicadeza compós um penteado gracioso, cortando algumas pontas, deixando-o fofo na frente e prendendo-o em coque no alto da cabeça. Passou ligeiramente um pouco de pó de arroz, colocou delicado par de brincos em suas orelhas. Em seguida levou-a ao espelho dizendo:

— Você está linda! Veja como lhe fica bem.

Maria Lúcia corou de prazer vendo-se no espelho. Aquela parecia outra pessoa.

— Qualquer cavalheiro se sentiria feliz em dançar com você. Duvido que não lhe façam a corte!

De repente, o rosto de Maria Lúcia sombreou-se e ela desmanchou o penteado dizendo com voz fria:

— Eu não saberia o que dizer, o que conversar com eles. Eu não tenho inteligência, e eles logo veriam que eu não consigo agradar a ninguém.

Foi tirando o vestido e colocando novamente as roupas de sempre.

Luciana olhava calada. Depois disse:

— Perceba que ser feia é uma opção sua. Você prefere ocultar-se para não se expor ao erro. Não sabia que era tão orgulhosa assim. Lembre-se que essa escolha está lhe custando a felicidade. Está renunciando voluntariamente ao amor, ao sucesso, a admiração e alegria dos seus pais. Jamais saberá o prazer da vitória, de um beijo de amor. É um alto preço pelo orgulho e pela covardia.

Maria Lúcia olhava calada.

— Você é orgulhosa e Covarde — repetiu Luciana.

— Você me despreza! — disse Maria Lúcia por fim.

Luciana abraçou-a.

— Engana-se Eu a quero muito bem. Desejo vê-la feliz! Você não é como se coloca. É uma moça bonita, gentil, inteligente, virtuosa, amorosa, só que não acredita nisso. Você está muito enganada. Deixe-me ajudá-la a perceber a verdade. A conhecer-se como realmente é.

Os Olhos de Maria Lúcia encheram-se de lágrimas.

— Nunca ninguém falou assim comigo, — disse.

— Somos amigas. Desejo vê-la feliz. Sei que pode Conseguir tudo que quiser. Não há nada que a impeça. A não ser sua maneira errada de olhar para as coisas.

— Sou covarde mesmo. Tenho receio de tudo. Se um moço quisesse me namorar, morreria de vergonha.

Luciana segurou as mãos frias de Maria Lúcia, forçando-a a sentar-se ao seu lado na cama.

— Diga-me. Do que tem medo? De que sente vergonha?

Os lábios da moça começaram a tremer, e ela não respondeu. Luciana prosseguiu:

— Procure descobrir isso. Pense bastante. Acredita em mim?

Maria Lúcia assentiu com a cabeça.

— Pois eu lhe digo que não há nada do que deva se envergonhar. Já viu hoje que é uma moça bonita, elegante. Pertence a excelente família. É rica, educada, inteligente. Qualquer moço da corte poderia apaixonar-se e chegar ao casamento. Poderia escolher, tenho certeza.

Maria Lúcia ficou pensativa por alguns instantes, depois disse baixinho:

— Acha que um moço como o Ulisses se interessaria por mim?

— Por que não?

           - Ele nem me olha.

—  Como poderia vê-la se se esconde dentro de uma condição de inferioridade? Você gosta dele!

Ela corou ainda mais, retirando as mãos que Luciana retinha entre as suas.

— Não gosto de ninguém.

— É natural que se sinta atraída por ele. É um bonito moço.

— Ele gosta de você!

— Não acredite nisso. Os moços interessam-se em cortejar todas as moças que têm pela frente.

— Ele tem procurado você.

— Foi ocasional. Mas, posso afirmar que não pretendo namorá-lo.

Ela arregalou os olhos admirada:

— Não gosta dele?

— É um moço agradável, bonito, mas não sinto nada por ele. Para namorar, é preciso algo mais. É preciso entusiasmo, amor, emoção. Quando vejo Ulisses, não acontece nada.

Maria Lúcia suspirou:

— Puxa, — disse — se eu fosse você, aceitaria. Sei que ele lhe faz a corte.

— Você o aprecia! O que sente quando o vê?

Novo rubor coloriu as faces de Maria Lúcia.

— Fale o que sente! O amor é um belo sentimento. Não devemos nos envergonhar do que sentimos. Conte-me: o que sente por ele?

— Não sei o que é, — disse ela baixinho — meu coração bate forte, parece querer sair pela boca. Sinto um tremor nas pernas e tenho vontade de fugir, mas ao mesmo tempo quero ficar perto dele. Quando ele está na sala, sinto sua presença o tempo todo. Esqueço das outras pessoas.

Luciana abraçou-a com carinho.

— Você nunca sentiu isso antes por outra pessoa?

— Não. Acha que estou doente?

Luciana sorriu:

— Não, Maria Lúcia. Acho que está muito bem. Melhor do que eu esperava.

— Fico angustiada. Não sei o que fazer. Tenho vergonha.

— O amor jamais será uma vergonha. Você sente-se atraida por Ulisses. Gostaria que ele a abraçasse e beijasse. Talvez até tenha sonhado com isso.

— Como sabe? Já sentiu isso? É amor?

—        Já senti, sim. Se é amor, só o tempo dirá. É uma atração, mas para se transformar em amor, precisa de muito mais. Precisa conhecê-lo melhor e conviver mais com ele para perceber seus verdadeiros sentimentos. Descobrir se gosta realmente dele, de sua forma de ser, ou se está vendo nele apenas um ser que você gostaria que ele fosse.

— Como assim?

— Todas nós sonhamos com o amor, o homem a quem dedicaremos nossa vida, criamos uma imagem ideal e a guardamos no coração. Pode acontecer que sintamos atração por alguém e sem conhecê-lo como realmente é, vemos nele esse ideal que imaginamos. Se chegarmos ao casamento, logo veremos que ele era pessoa muito diferente daquela que imaginamos. Haverá desilusão, amargura. Ás vezes, há uma adaptação, pelas conveniências, pela familia, mas o amor e a felicidade ficam distanciados.

— Terá acontecido isso com mamãe?

— Por que diz isso?

— Porque entre eles não há amor. Não os vejo abraçados. Não se beijam.

— São discretos. Não gostam de demonstrações diante dos outros.

— Nunca vi meu pai olhar para minha mãe com olhos apaixonados.

— Como pode saber? Você sempre fica fechada em seu quarto. Saiba que o amor, o casamento são coisas muito sérias. É preciso conhecer bem um ao outro. Se você não deixar que os rapazes se aproximem, como vai encontrar o verdadeiro amor?

Maria Lúcia pensou um pouco, depois segurou o braço de Luciana com força.

— Tenho medo!

— De quê?

— Dele não gostar de mim.

— Se quer que alguém a ame, não se rejeite. Esse é o primeiro passo.

— Ninguém se interessa por mim.

— Você não se interessa por você! Com pensamentos tão negativos a seu respeito, qualquer pessoa que se aproximar, sentirá vontade de afastar-se.

— Por quê?

— Porque o pensamento é o hálito da alma. As pessoas não trocam só palavras, trocam impressões e essas impressões refletem o nosso pensamento. Se você não se aprecia, se acha que não é interessante, quem chegar a seu lado, vai sentir essa impressão. Sua onda mental as afastará, sem que saibam porquê.

— Será? O que nós pensamos pode influenciar os outros?

— Claro. O pensamento sai de nós como ondas de força. Nunca sentiu vontade de ficar perto de uma pessoa ou de afastar-se dela, sem motivo justo?

— Já. Eu sinto muito isso. Gosto muito de ficar perto de você. Gostei desde o primeiro dia.

Luciana sorriu alegre.

— Você sentiu que gosto muito de você e desejo ficar a seu lado. Mas, sentiu também que eu gosto de mim mesma, sinto-me feliz de viver, agradeço a Deus todos os dias o dom da vida. Sinto-me em harmonia. Por isso você gosta de ficar perto de mim.

— Não sabia que o pensamento podia causar tudo isso.

— Pode muito mais.

Leves batidas na porta e a criada apareceu:

— D. Egle manda avisar que o chá vai ser servido.

— Obrigada. Vamos, Maria Lúcia, não podemos deixá-las esperar. Voltaremos ao assunto. Pense em tudo quanto conversamos.

As duas moças voltaram à sala onde foi logo servido o chá.

Maria Helena estava encantada. Egle mantivera a conversa de forma interessante e agradável. Sabendo que ela também estudara naquele famoso conservatório inglês, disse curiosa:

— A senhora certamente será exímia intérprete. Seria abusar da sua hospitalidade pedir-lhe para tocar alguma coisa?

Egle sorriu.

— Estudei durante muitos anos, fui concertista, mas, agora, gosto de tocar só peças que falam ao meu coração.

— Vovó toca velhas canções de sua terra.

—  Por favor, gostaria muito de ouvi-la.

           Maria Helena estava sendo sincera. A velha senhora não se fez de rogada. Sentou-se ao piano e começou a tocar com graça e maestria. Maria Helena emocionou-se. Fosse pelo ambiente agradável daquela sala, pela simpatia daquela senhora, ou pela beleza da sua execução, ela comoveu-se.

Aplaudiu com entusiasmo. Ela foi tocando, tocando, quando, por fim, parou, Maria Helena suspirou encantada:

 —  Obrigada, D. Egle, por esses momentos. Meu Deus! Está escuro, estamos abusando. Desculpe ter ficado tanto tempo. Está na hora de irmos embora.

Egle sorriu com gentileza.

— Foi uma alegria recebê-la em nossa casa, bem como a Maria Lúcia. Gostaria que viessem outras vezes.

— É muita gentileza sua. Por certo, espero recebê-la também em minha casa. Agora vamos, Maria Lúcia. Mais uma vez, obrigada. Passamos uma tarde maravilhosa. Nem vi passar o tempo.

          Despediram-se e Egle com Luciana as acompanharam até a porta.

Quando se foram, Luciana abraçou a avó alegremente.

— Você esteve maravilhosa! Ninguém poderia resistir aos seus encantos. D. Maria Helena ficou encantada. Obrigada, vovó.

— É uma mulher de classe, talvez um POUCO formal, mas posso afirmar que sob o verniz da educação vibra uma alma apaixonada.

— Papai a descreve como pessoa fria e indiferente.

Egle abanou a cabeça dizendo Convicta:

— Ele se engana. Ela vibra como as cordas de um violino nas mãos de um bom executante. Ninguém pode sentir tanto a música, ter tal sensibilidade que ela demonstrou e ser fria nos sentimentos.

— Foi o que pensei. Talvez ela seja reprimida pelo meio.

— Toda mulher se fecha quando se sente mal-amada. É claro que José Luiz não a amava, ela sentiu isso.

Será essa a causa de sua aparente indiferença?

— Talvez. Contudo, os padrões da educação de uma moça nos dias de hoje, deixam muito a desejar, principalmente no Brasil. A mulher deve obedecer o marido sem questionar. Fazer tudo para agradar seu senhor, que é o dono absoluto até dos seus pensamentos Depois, é feio a mulher mostrar seus sentimentos A iniciativa sempre deve partir do homem. Ele deve insistir na conquista, e a mulher mostrar-se indiferente. Esse é o jogo.

— Isso é triste, vovó.

As duas haviam entrado e se acomodado gostosamente nas poltronas da sala.

— Posso imaginar o que aconteceu, — continuou Luciana. —

D.  Maria Helena, educada nesse sistema, casou-se por amor. Quando descobriu que não era amada como pensava, engoliu seus sentimentos, dissimulou o que sentia, vestiu a capa da indiferença com a qual tenta conservar intacto seu orgulho, acreditando que isso seja dignidade.

— Eu teria agido diferente. — Egle sorriu maliciosa.

— Eu sei, vovó. Você teria mostrado seus encantos, tentado conquistar o amor de seu marido, não ocultaria seus sentimentos.

— Isso mesmo. Estaria errada?

— Não. Teria feito bem.

— Ele amava outra mulher, ela ignorava isso. Mas talvez tenha deduzido com o tempo. Mesmo assim, a outra estava distante, e ela, perto. As esposas têm sempre mais chances de manter o interesse e o amor do marido. Pena que emoções descontroladas e o orgulho as tornem tão cegas a ponto de não as aproveitar.

— Você o teria conquistado.

— Apesar de que ele amava sua mãe. Ela era maravilhosa, seria difícil para qualquer mulher vencê-la.

Seus olhos brilhavam saudosos e seu rosto cobrira-se de um misto de orgulho e alegria.

— Papai jamais a esqueceu. No entanto, vovó, eu que a tenho visto, estado com ela, sentindo seus pensamentos, percebo que ela o ama muito. Mas quer uni-lo a D. Maria Helena. Não posso entender isso.

— Talvez ela mesma algum dia possa explicar. Era muito bondosa. Pode apiedar-se da sua solidão. José Luiz parece-me muito solitário, apesar de viver com a família. Adora ficar aqui conversando com você, e suponho que ele não tenha com eles condições de diálogo.

— Não tem mesmo. João Henrique esquiva-se e é apegado à mãe. Maria Lúcia ainda não tem condições. D. Maria Helena colocou uma barreira entre ambos.

As duas continuaram conversando, animadamente mesmo depois que a noite já havia descido de todo.

Maria Helena chegou em casa e encontrou o marido na sala de estar. Depois de cumprimentá-lo, disse educadamente.

           — Desculpe o atraso. Gosto de estar em casa quando você chega.

Maria Lúcia foi para o quarto. José Luiz, folheando uma revista, levantou os olhos dizendo:

           — Cheguei há alguns minutos. Maria Lúcia saiu de casa felizmente, e junto com você, o que me surpreendeu.

Maria Helena Sorriu levemente.

— Foi de boa vontade. Devo reconhecer que ela está um pouco mais SOciável.

— Estava com boa aparência Não parecia amuada como das outras vezes que a forçamos a sair.

Maria Helena Colocou a pequena bolsa e as luvas sobre o console e sentou-se em uma cadeira ao lado do marido.

— Foi de boa vontade. Tomou chá, comeu, pareceu-me interessada.

— Como conseguiu isso?

Maria Helena deu de ombros:

— Ela gosta muito da Luciana. Aceita de bom grado tudo quanto ela diz ou faz.

José Luiz interessou-se Fechou a revista.

— É mesmo?

— Já percebi isso. Espera com impaciência a chegada da professora e quando nos Convidou para o chá, aceitou prontamente

— Você foi tomar chá em casa da srta. Luciana?

— Fui. Recebi um elegante convite de sua avó, uma senhora inglesa, muito fina.

José Luiz esforçou.se para dissimular sua curiosidade.

— Você nunca aceita convites de pessoas fora de nossas relações, — disse.

— Tive vontade de aceitar este. Luciana tem se mostrado culta, fina, amiga de Maria Lúcia. Fiquei curiosa. Uma moça que trabalha porque gosta, é curioso.

— É, realmente, — Considerou ele. — E que tal?

— Melhor do que esperava. Uma linda casa, graciosa, aconchegante D. Egle, uma senhora de linhagem, vê-se logo o berço. Tudo foi agradável e impecável. Conversamos muito e nem vi o tempo passar. Ela toca piano. Você precisava ouvi-la. Foi concertista, mas executou velhas canções inglesas que me transportaram para um outro mundo. Essa foi a causa do atraso.

           — Ela terminou procurando conter as emoções e dando às palavras a mesma frieza de sempre.

— E Maria Lúcia?

— As duas foram para o quarto de Luciana onde ficaram por longo tempo. Só apareceram na hora do chá. Mas ela não derrubou nada, não tremeu, nem se ruborizou nenhuma vez. Para ser sincera, cheguei a esquecer-me dela.

— Não resta dúvida que ela está melhor. A influência dessa professora está sendo benéfica.

— Talvez. Que bom seria se fosse verdade!

A criada avisou que o jantar estava servido. A família reuniu-se ao redor da mesa. João Henrique conservou-se calado, como sempre, respondendo apenas as perguntas que ora a mãe, ora o pai lhe faziam sobre seus estudos.

José Luiz observou Maria Lúcia e achou que estava um pouco mudada. Em que seria? Não pôde precisar, mas seu rosto parecia-lhe distendido, calmo. Notou que seus cabelos estavam menos esticados e penteados diferentes. Não disse nada. Bastava-lhe perceber algumas mudanças.

Seu coração exultava de alegria. Luciana era a luz de sua vida. Iluminava tudo quanto tocava. Até Maria Helena, exigente e fria, apreciava-a.

Assim que terminou o jantar, João Henrique foi para o quarto, vestiu-se com apuro e saiu. Foi ao teatro. Antes passou numa florista e mandou para a estrela o mais lindo ramalhete que encontrou, juntamente com um cartão, convidando-a novamente a cear.

Era cedo. Dera uma gorjeta ao porteiro que o deixara entrar pela porta dos artistas, e postara-se no corredor, frente ao camarim principal.

Maria Antonieta chegou acompanhada apenas por uma de suas damas. João Henrique interceptou-lhe os passos.

— Maria Antonieta!

—  Você, de novo, — disse ela fingindo-se zangada, mas fixando nele os olhos brilhantes.

—  Tenho vindo todas as noites. Hoje não me afastarei enquanto não prometer aceitar meu convite para a ceia.

Ela sorriu fazendo um gesto vago.

— Poucas vezes ceio sozinha com um homem. Costumo cear com amigos.

— Ceará comigo esta noite — disse ele, convicto.

— O que o faz Pensar isso? — retrucou ela, provocante.

— Meu amor por você. Tenho certeza que desejará estar comigo.

Ela riu divertida.

— Não nego que tem espírito.

João Henrique aproximou seu rosto do dela e Olhando-a nos olhos disse baixinho com emoção:

— Eu quero você! Tanto, e hei de amá-la com tanta força que marcarei sua vida para sempre.

Ela estremeceu levemente, depois, sem desviar os olhos, respondeu:

— Vamos ver isso. Realmente começo a ficar curiosa.

Entrou no camarim e João Henrique, coração batendo forte, foi para o salão esperar a representação começar.

Sentou-se na primeira fila e quando o pano desceu, ele saiu apressado. Em meio às pessoas que aguardavam na porta do camarim, João Henrique espiava com ansiedade. Jamais uma mulher despertara nele sentimentos tão fortes.

Quando ela saiu, protegida pelo homem que sempre a acompanhava e por duas mulheres, sorriu para todos, recebeu cumprimentos e flores, entregando-as para as outras duas. Sorriu para João Henrique, mas nada disse.

Ele seguiu-os até a calçada, quando uma das duas mulheres que a acompanhavam, aproximou-se, colocando-lhe na mão um papel dobrado. Coração batendo forte, João Henrique abriu-o e leu:

“Ceio com amigos no Delfins”.

Isso bastou. Imediatamente foi para lá. No finíssimo restaurante em uma mesa ricamente adornada, ela estava rodeada de pessoas. João Henrique aproximou-se tocando levemente em seu braço:

— Obrigado — disse.

Ela sorriu e indicando a mesa num gesto largo respondeu.

— Acomode-se. Quero apresentá-lo aos meus amigos. Atenção todos. Esse é o João Henrique. Convidei-o a cear conosco.

Ele desejava sentar-se ao lado dela, mas os lugares estavam tomados. Dirigiu-se ao outro lado da mesa e sentou-se. Não era o que ele desejava, mas era um começo. Ensinaria aquela mulher a amá-lo, então, a teria só para si. Afastá-la-ia de todos aqueles amigos boêmios e levianos, cujo maior interesse consistia em gozar a vida, comer, beber, sem responsabilidade ou preocupações.

A ceia decorreu alegre e o champanhe borbulhava nas taças. Maria Antonieta comeu pouco e não tomou nada. João Henrique observava-a com olhos brilhantes. Ela conversava discretamente e, às vezes, quando seus olhos encontravam-se ela lhe sorria levemente.

Ele apanhou um pequeno pedaço de papel e rabiscou algumas palavras. Levantou-se e entregou-o disfarçadamente. Voltou a seu lugar e percebeu quando ela o abriu e leu, guardando-o na bolsa.

João Henrique esperava uma resposta. Ela continuou conversando com os amigos sem demonstrar interesse. Ele pedira-lhe um encontro a sós. Ardia de desejos de falar-lhe sobre as emoções que estava sentindo.

Porém, dela apenas recebeu a mão em despedida, que ele segurou e beijou acaloradamente.

A partir daquela noite, coava com seus novos conhecidos na esperança de conseguir o que pretendia. Foi uma semana depois que conseguiu finalmente.

Maria Antonieta pediu que a fosse buscar na tarde do dia seguinte, em sua casa. Ela deixara o hotel.

João Henrique exultou. Não se preocupou com nada que não fosse aquele encontro tão esperado. Na hora aprazada, tocou a sineta da casa onde Maria Antonieta vivia. Foi introduzido na sala de estar pela criada. Sentou-se e enquanto esperava, passou um olhar curioso pela sala.

Mobiliário sóbrio, mas de bom gosto, algumas obras de arte, objetos de prata, um piano. Nada ali parecia combinar com a moradora.

Ouvindo ruído, levantou-se. Maria Antonieta aproximava-se. Estava linda, cabelos curtos, vestido justo mostrando as formas perfeitas de seu corpo jovem, pernas de fora, protegidas por finíssimas meias de seda.

 —  Foi pontual, — disse estendendo a mão que João Henrique beijou deliciado, envolvido em uma onda de delicado perfume.

— Estava ansioso para conhecê-la melhor — disse ele com um brilho de admiração nos olhos.

Ela sorriu:

— Você foi persistente. Não faço amizades com facilidade, nem costumo receber admiradores.

— Não sou como os outros — respondeu ele. — Tenho por você uma admiração sincera.

Ela sorriu de novo mostrando uma fileira de dentes alvos e bem distribuídos.

— Arriscou-se. Não sabe se sou comprometida.

— Tenho certeza de que é tão livre quanto eu.

— Não tenha tanta certeza assim. Nós, artistas, nem sempre revelamos nossa vida intima. Costumamos guardar segredo.

Ele tomou-lhe a mão, levando-a aos lábios com calor.

— O homem que a tiver, não sairá do seu lado nem por alguns instantes.

— É muito possessivo. Desde já afirmo que não existe ninguém que possa tolher-me a liberdade. É bom saber também que sou eu quem dá as cartas, em qualquer jogo que me interesse.

João Henrique não respondeu. Não estava interessado em palavras. Abraçou-a emocionado, beijando seus lábios apaixonadamente. Não sendo repelido, sentiu aumentar sua paixão, entregando-se a ela ardentemente.

Duas horas depois, quando saiu de lá, sua alma cantava de alegria. Ela era maravilhosa. Jamais conhecera mulher igual, que tocasse todas suas fibras mais Intimas. Sentiu-se loucamente apaixonado. E, enquanto voltava para casa, deu livre curso à sua fantasia.

Amava e era amado! Sabia que sua familia não aceitaria seu relacionamento com uma mulher de teatro. Mas, teriam que ceder quando percebessem que ele estava mesmo disposto a ir até o casamento.

Ao pensar nisso, estremeceu. Era a primeira vez que pensava em casar-se. Ninguém poderia impedir. Seu pai não ousaria. Ele não amava sua mãe, sentia que ele havia se casado por interesse. Não teria moral para fazer nada. Sua mãe ficaria chocada. Mesmo porque cabelos curtos, mostrar as pernas, não era moda no Rio de Janeiro, pelo menos em casa de família. Ser artista de teatro era ainda pior. Contudo, sua mãe amava-o muito. Contava convencê-la. Ela desejava sua felicidade.

Maria Antonieta deixaria o teatro. Ele era suficientemente rico para dar-lhe o luxo a que se acostumara. Cantaria e dançaria só para ele. Seriam felizes para sempre.

Quando chegou em casa, o sol já se escondera nas brumas do entardecer. Sentia-se alegre. Encontrou Maria Lúcia no jardim e saudou-a bem-disposto, beijando-a na face.

— Boa tarde — disse.

— Boa tarde —respondeu ela, admirada. Nunca se lembrava do irmão havê-la beijado.

— Você está linda! — tornou ele querendo ser gentil.

— Obrigada.

Ele sentou-se ao seu lado no banco. Aquele dia, queria que todos fossem felizes.

— Você nunca me beijou antes — disse ela de repente. —Por que fez isso?

Foi a vez dele admirar-se. Sua irmã não tinha o hábito de questionar.

— Estou contente, Maria Lúcia. Desejo que todos saibam da minha alegria.

— Que bom. Aqui em casa ninguém é alegre. Por isso venho ao jardim. Os pássaros cantam e sentem muita alegria.

— Tem razão. Sempre achei você triste. Nunca me disse porquê.

Ela deu de ombros.

— Não tinha coragem. Todos aqui são tristes. Em casa de Luciana tem alegria no ar. Ninguém precisa falar que está alegre, é estar lá e ficar contente.

João Henrique fitou a irmã como se a estivesse vendo pela primeira vez.

— Eu nunca fui triste — contestou. — Ao contrário. Sinto-me feliz. Por que acha isso?

—  Não saberia dizer. Mas, você também não conversa muito. Só com mamãe, às vezes. Papai também não parece feliz.

—  Pensei que não se importasse com essas coisas. Fica sempre no quarto, não diz o que pensa. Isso, para você, é tristeza?

Sentiu pena da irmã naquele instante. Estava feliz, desejava que todos o estivessem.

— Um pouco.

— Por que se fecha no quarto e não gosta das pessoas?

— Gosto de ficar sozinha para pensar. As pessoas não gostam de mim. Tanto faz eu estar como não. É a mesma coisa.

Ele sentiu-se um pouco culpado. Pouco se importava com ela. Mal a olhava.

— Se você recusa a amizade e evita as pessoas, todos vão pensar que você não as aprecia. É o contrário do que pensa. Se você se retrai, as pessoas pensam que você as evita porque não gosta delas.

— Luciana também acha isso.

— Ela está certa. Você precisa mudar. Aproximar-se dos outros, sem receio de nada. Estou surpreendido. Nunca conversou comigo.

Ela baixou a cabeça e não respondeu. Ele percebeu que ela estava envergonhada.

— Se quer saber, prefiro você conversando. Fica bem melhor. O que você fez? Está mais bonita também.

Maria Lúcia corou de prazer. Levantou o rosto e em seus olhos havia mais brilho.

— Vou entrar, — disse João Henrique. — Estou atrasado. Continue assim. Está muito bem.

Levantou-se, beijou novamente a face da irmã e foi para dentro. Maria Lúcia passou as costas da mão lentamente pela face que o irmão beijara levemente. Olhou o céu já com o brilho das primeiras estrelas e sentiu uma onda de alegria no coração.

 

CAPÍTULO 9

          A partir daquele chá em casa de Luciana, Maria Helena permitia que a filha fosse visitar a professora, pelo menos uma vez por semana. E, era em casa de Egle, rodeada pela aprovação e o carinho das duas, que Maria Lúcia começou a encontrar a alegria de viver.

          Ria, brincava, tocava piano, vestia os vestidos de Luciana, participava de jogos, entretendo-se agradavelmente. Todavia, ao retornar para a casa, invariavelmente, a moça voltava às suas roupas e assumia a antiga postura.

— É uma questão de tempo, papai, — afirmava Luciana a José Luiz, em uma de suas visitas.

— Por que aqui ela mostra-se tão diferente?

— Não sei. Acredito que um dia ela entenderá que não precisa mais esconder-se atrás de uma simulada indiferença. Maria Lúcia é muito diferente do que quer parecer. É moça inteligente, apaixonada, emotiva e sensível. Eu diria que sua sensibilidade étanta que percebe e sente muito mais do que diz.

— Isso me surpreende. Até João Henrique percebeu que ela está diferente. Falou qualquer coisa com Maria Helena.

— Comigo também. Uma tarde, quando eu saía, encontrei-o no jardim. Cumprimentou-me e disse-me atencioso:

— Pode conceder-me alguns minutos?

— Certamente — respondi.

— Gostaria de falar um pouco sobre Maria Lúcia. Seu método deve ser muito bom. Está dando resultado.

— Por que diz isso?

          - Porque ela conversou comigo, questionou, expôs idéias, considerações. Nunca aconteceu antes. Surpreendeu-me muito. Confesso que duvidava do seu êxito. Não por sua culpa é claro, mas porque não acreditava que ela mudasse. Poderia explicar-me como procedeu?

— Não foi nada especial. Ela era insegura sentia-se incapaz, rejeitada, preterida

— Em casa sempre teve toda atenção, conforto os melhores professores nada lhe faltou da mesma forma que eu tive.

- Longe de mim a idéia de negar esse fato. O problema estava nela, na maneira como ela olhava para o mundo, de como se posicionava frente aos outros. Fechou-se ainda mais e estabeleceu um círculo vicioso onde seu comportamento provocava mais insegurança e aumentava seu sentimento de rejeição.

— É estranho Como as pessoas são diferentes. Eu nasci dos mesmos pais, fui criado igual a ela e não Sou assim.

- É verdade Deus é muito fértil e criativo.

Ele sorriu interessado

— Mas você, permite que a chame assim, está conseguindo romper o círculo vicioso em que ela se envolveu.

— A receita é simples. Ela não enxergava as belezas da vida. A Perfeição da natureza, a utilidade abençoada do próprio Corpo. Procurei mostrar-lhe isso. Dei-lhe afeto, O amor está muito ligado ao sentimento de segurança Agora, estou tentando fazê-la perceber que tem tanta Capacidade de inteligência como qualquer pessoa.

— Acredita mesmo nisso?

— Certamente Maria Lúcia é arguta e observadora. Pode crer que ainda se surpreenderá com ela. — Como vê, papai, eu já sabia disso.

— Você consegue milagres, João Henrique não é dado a conversas em casa. Fala mais com a mãe.

— Pois comigo ele tem se mostrado atencioso. Tem me procurado para conversar e sinto que ainda seremos amigos.

— Sobre o que ele COnversa? É sempre tão evasivo Comigo!

— Geralmente sobre Maria Lúcia. Problemas Psicológicos e de educação. É muito inteligente, Ainda ontem disse-me que tem procurado conversar Com Maria Lúcia, dar-lhe mais atenção e carinho. Senti que ele acredita mais no Que eu disse e deseja Cooperar.

— Você é mesmo uma feiticeira. Maria Lúcia a estima de verdade. Maria Helena também. Conhecendo-a como conheço, não esperava por isso.

— Está sendo injusto com ela. D. Maria Helena é pessoa boa e não é difícil agradá-la.

Ele sorriu satisfeito.

— Você é bondosa. Sei como Maria Helena é exigente. Não se dobra com facilidade.

— Teve rígida educação. Acha que mostrar seus sentimen­tos é sinal de fraqueza. Para ela, a dignidade está em manter-se impassível; aconteça o que acontecer.

— Isso realmente acontece. Ela possui uma firmeza invejável.

— Atrás da qual se protege, ocultando seus verdadeiros sentimentos. Ela está longe de ser a mulher fria e dominadora que pretende ser.

— Como pode saber disso? Nunca notei.

— Ela controla-se muito bem. Mas eu sinto com a alma. Percebo que se trata de mulher ardente e apaixonada.

José Luiz fitou-a com curiosidade:

— Já me disse isso. Custa-me crer.

Os olhos de Luciana brilhavam um pouco mais quando disse:

— Se pressionar um pouco, perceberá logo. Toda aquela barreira cairá por terra.

Ele ficou pensativo por alguns instantes. Depois disse com um pouco de malícia.

— Por que está me dizendo isso? O que está tramando?

          Luciana sorriu:

— Gostaria de vê-lo mais feliz.

          José Luiz sacudiu a cabeça.

          — A felicidade acabou para mim, no dia em que deixei sua mãe. Agora é muito tarde, só me resta viver para o arrependimento. Infelizmente não posso remediar o erro.

          — Pai, você está optando pela infelicidade a cada minuto, espalhando-a à sua volta. Gostaria que percebesse isso.

          Ele franziu o cenho, e seu rosto sombreou-se de tristeza.

          — Acha que sou infeliz porque quero?

          — Acho — respondeu ela com voz firme.

          — Como pode dizer isso? Sou culpado, errei e reconheço esse erro. Mas ele agora não tem remédio. Ninguém poderá devolver-me Suzane e tudo o que passou.

— Concordo. O passado é irrecuperável. Mamãe vive em Outro mundo. Se ainda estivesse aqui, as coisas não mudariam em nada. Ela nunca aceitaria seu amor em prejuízo de sua família. Era uma mulher digna, que respeitava o direito dos outros.

— Quando a perdi, foi-se minha felicidade. Nunca mais voltará.

— Engano seu. Você escolheu mal e essa escolha não lhe deu a felicidade que gostaria. Optou pelo dinheiro, posição, poder, e realmente os obteve. Mas agora, a verdade arrancou o véu das suas ilusões e você percebeu que esses valores, embora desejáveis, não satisfazem sua ânsia de afeto. Contudo, ao que parece, o passado não lhe tem servido de lição para o presente e ainda continua cometendo outros enganos tão graves quanto o primeiro.

— Você me acusa? — disse ele com amargura. — Estou arrependido. Se fosse hoje, não teria deixado Suzane. A que enganos se refere?

Luciana aproximou-se segurando sua mão com carinho. Havia muita ternura em sua voz ao dizer:

— Perdoe-me, papai, se estou sendo dura. Mas é preciso que acorde para a vida. Não pode viver alimentando um erro passado e tornando-se cego a todas as alegrias que deveria estar usufruindo hoje.

— Engana-se. Minha vida é triste. Só você tem sido a luz que me trouxe um pouco de alegria.

— Por que teima em jogar fora a felicidade que tem em mãos? Por que se coloca nessa posição egoística e ilusória?

— Não compreendo por que diz estas coisas.

— Para que observe a verdade, Escolheu seu destino através de valores errados, casou-se sem amor, ama mamãe, sente saudades dela, mas está casado com uma culta e bela mulher, cheia de virtudes, que o ama com todas as forças do seu coração.

José Luiz assustou-se. Quis interrompê-la, porém não o fez. Havia algo em sua voz que o fazia lembrar-se de Suzane. Não sabia o porquê, sentia como se ela estivesse ali, a dizer-lhe aquelas palavras. Luciana prosseguiu:

— Tem um filho maravilhoso, bonito de corpo e de alma, de inteligência brilhante. Amoroso, digno. Uma filha doce, bonita e inteligente que precisa apenas de amor para desabrochar, que o ama e respeita. O que lhe falta? Obteve na vida muito mais do que podia esperar das circunstâncias em que voluntariamente se envolveu. E o que faz você? Fecha-se no passado. Perde os momentos de vida familiar que poderiam ser de alegria e de amor.

José Luiz estava emocionado. Luciana calou-se, e ele tornou:

— Você está enganada. Minha mulher não me ama, João Henrique não se afina comigo e Maria Lúcia afasta-se. Jamais foi carinhosa comigo.

— A situação seria essa se você procedesse de forma diferente? Se você tivesse procurado conhecer sua esposa como ela realmente é e se esforçado para chegar-se ao coração de seus filhos?

Inquieto, José Luiz passou a mão pelos cabelos.

— Confesso que eu nunca soube fazer isso.

           — É preciso aprender. Você não pode permitir que um erro de mocidade transforme-se em infelicidade para o resto da vida. Não pode permitir que essa culpa o castigue e impeça de ver a verdade. Você é um homem bom, amoroso, inteligente, instruído, bonito, moço. É tempo de lutar pela conquista da felicidade. Ela é um estado de alma que precisamos aprender a cultivar dentro do nosso coração em todos os momentos da nossa vida. Não está fora de nós, na presença das pessoas, por mais que as amemos. Está dentro de nós, na plenitude da vida, quando colocamos nosso amor para fora, e enxergamos as coisas boas que possuímos. É bênção a ser conquistada. Ela flui de dentro para fora, e independe até das outras pessoas. Se você quer ser feliz, esqueça o erro passado, esqueça sua culpa, cultive as bênçãos do presente e perceberá que a felicidade sempre esteve a seu lado sem que a deixasse entrar.

— Não posso esquecer Suzane.

— Nem é preciso. Pode amá-la como sempre fez. Ela tem o seu lugar em seu coração, mas ela seria infeliz onde se encontra, se soubesse que esse amor tem sido empecilho a que possa amar sua família como ela merece.

José Luiz sentiu-se preso de grande emoção. As palavras de Luciana tocavam fundo seus sentimentos, e ele não conseguiu argumentar. Quando se acalmou um pouco, disse:

— Preciso pensar em tudo quanto me disse.

 — Está certo, papai. Pense. Medite. Analise. Perceba o que lhe vai no coração. Seu amor por mamãe, o que sente por D. Maria Helena. Não posso crer que todos esses anos de vida em comum não tenham estabelecido laços de amizade e respeito entre ambos.

Ele olhou-a admirado:

         — Você acredita que nós possamos ainda viver bem juntos?

— Por que não? Vocês formam uma famêlia maravilhosa. Cada um tem nobres qualidades. Precisam só aprender a viver juntos, percebendo o que valem.

José Luiz não se conteve. Levantou-se e beijou o rosto da filha.

— Quando vi você, compreendi que uma luz entrava em minha vida. Obrigado, minha filha. Sinto que algumas coisas mudaram dentro de mim. Estou mais animado, com desejo de melhorar.

Luciana sorriu acariciando o rosto dele ainda umedecido pelas lágrimas.

— Você merece ser feliz, — disse com doçura. — Tenho certeza de que encontrará seu caminho.

Conversaram mais um pouco e quando José Luiz saiu, muitos pensamentos novos fervilhavam em sua mente. Seria mesmo verdade? Maria Helena, atrás daquela frieza, encobriria uma paixão não correspondida? Lembrou-se da lua-de-mel. Apesar da educação rígida que recebera, tolhendo sua espontaneidade, ele muitas vezes a sentira vibrar correspondendo aos seus beijos, entregando-se ardorosamente.

Talvez Luciana estivesse certa. Talvez se ele houvesse mantido o entusiasmo dos primeiros tempos, ela tivesse se tornado uma boa companhia. E ele agora não estaria se sentindo tão só. Afinal, Suzane não voltaria nunca mais. Por que ele deveria privar-se do carinho e do amor de uma mulher? Suas aventuras passageiras eram fúteis e serviam apenas para acentuar o vazio ao seu redor. Por que estivera tão cego? Se era verdade que Maria Helena o amava, como deveria ter se sentido durante aqueles anos todos? Haveria tempo para recomeçar?

Não se sentia encorajado a cortejá-la. E se ela o repelisse? Tinha esse direito. Ele afastara-se da sua intimidade sem que houvesse um motivo plausível. Ela tivera motivos para sentir-se desprezada, diminuída. Apesar disso, mantivera postura digna e fiel. Realmente, também nisso Luciana estava certa. Maria Helena era uma extraordinária mulher. Mãe exemplar, esposa dedicada, cuidara sempre do lar com zelo e capricho.

Afinal, o que havia feito? Casara-se com ela pela sua posição, por interesse, enganara-a, fingira amá-la. Ela percebera isto. Ele tinha certeza. As vezes, Maria Helena deixava transparecer pontas de ressentimentos. Era natural. Ele merecia muito mais. Ela poderia ter se vingado, não ser para ele a esposa prestativa e eficiente que sempre fora. Entretanto, cuidava de tudo com dignidade. Tratava-o com gentileza, principalmente na frente dos outros, como se ele fosse o melhor dos maridos.

Sentiu-se arrasado. Como proceder? Precisava pensar mais, perceber melhor tudo quanto até aquela noite não havia conseguido enxergar.

E João Henrique? Teria compreendido que ele se casara por interesse? Seria essa a causa do seu ressentimento?

Chegou em casa imerso nesses pensamentos. Maria Helena já havia se recolhido. A casa estava às escuras. Foi para o seu quarto. Preparou-se para dormir, contudo, não conseguia conciliar o sono.

As palavras de Luciana voltavam-lhe à mente. O que havia feito de sua vida? O que estava fazendo em seu favor? Aceitara o irremediável como o criminoso que recebe o castigo. Vinte e cinco anos passaram e ele continuava punindo-se por um engano da mocidade, Por quê? Porque merecia. Trocara o amor pelo interesse. Sua consciência o reprovava acusando-o continuamente. Tinha-se em conta de um fraco que não merecia ser feliz. Aceitara o nunca mais como indispensável e durante todos aqueles anos carregara o peso do remorso e do mal sem remédio.

Se Suzane estivesse viva, se ela o houvesse aceitado, teria abandonado a família? Como teria ficado sua consciência?

Remexia-se no leito inquieto. Durante esse tempo, havia pensado que encontrar Suzane, viver com ela, teria sido sua felicidade suprema. Seria mesmo? Criar problemas para pessoas inocentes, teria lhe trazido a felicidade?

Nunca como naquela hora José Luiz sentiu o amargor da derrota. Seu erro fora deixar Suzane e optar por outros interesses, mas, uma vez que o cometera, percebia que sua dignidade apontava-lhe o caminho adequado: tentar encontrar a felicidade com as pessoas que escolhera livremente, envolvendo-as em sua vida. Torná-las felizes, amá-las, poderia devolver-lhe um Pouco da dignidade que perdera. Para respeitar-se, acalmar sua consciência a única forma seria dedicar-se à sua esposa, que se casara com ele ignorando a verdade; e aos filhos a quem amava, era verdade, mas aos quais não dispensara atenção e carinhos suficientes, perdido ainda no passado que voluntariamente truncara, mergulhado na fantasia.

Como fora cego! Era verdade que amava Suzane, que sentia dolorosamente sua falta, mas, era também verdade que ele poderia viver uma vida mais amena dando aos seus afeto e compreensão.

Pensou em Luciana. Tão moça! De onde lhe viriam idéias tão amadurecidas? Como ela Conseguia enxergar coisas Que ele nunca percebera? Iria procurá-la para conversarem novamente sobre esses assuntos, O que mais ela teria notado? Maria Helena o amaria ainda? Duvidava disso. Em todo caso, naquele momento, seria muito bom se ele tivesse a seu lado alguém para abraçar, sentir-se amado e poder dar amor.

E se fosse no quarto dela? Não se lembrava quando a procurara pela última vez. Teve ímpetos de levantar-se e ir. O orgulho o deteve. E se ela o repelisse? Tinha esse direito. Depois, o que lhe diria? Não. Não iria.

Sentiu-se ainda mais só. Mas, em seu coração, estabeleceu o propósito de mudar. No futuro, quem sabe? Se Maria Helena o amasse mesmo, ainda que fosse um Pouco, com o tempo, ele a poderia reconquistar Afinal, talvez já houvesse se castigado o bastante. Dali para frente, as coisas poderiam melhorar. Essa decisão fez-lhe bem. Sentiu-se mais calmo. Era madrugada lá quando finalmente conseguiu adormecer.

Depois que José Luiz saiu, Luciana ficou pensativa. Dissera-lhe Coisas que tocaram profundamente seus sentimentos. Teria feito bem? Estaria preparado para conhecer a verdade? Doía-lhe vê-lo tão infeliz, tão distante da realidade, imerso no Passado, indiferente ao presente. Amava-o muito. Apreciava sua inteligência, sua generosidade, seu sorriso largo, sua sensibilidade, sua capacidade de amar. Desejava que ele percebesse que quando damos amor às pessoas, às coisas, à vida, expandimos nossa alma, alimentamos nOSSO espírito. Ela sentia essa necessidade dentro de si e quanto mais colocava esse sentimento em tudo quanto fazia, em tudo que estava à sua volta, mais felicidade sentia dentro do coração.

Amava o pai, desejava que ele desfrutasse da mesma felicidade, desse estado de alegria interior.

Na penumbra silenciosa da sala, Luciana, encolhida na poltrona, olhos fechados, sentiu-se bem. Sim. Fizera bem. Fora bom para ele ouvir o que lhe dissera.

Nesse momento, uma alegria imensa a invadiu. Acabara de ver o espírito de Suzane aproximar-se. Trazia os olhos brilhantes e iluminados e um sorriso nos lábios. Aproximou-se de Luciana tocando-a levemente. A cabeça da moça, recostada nas costas da poltrona, pendeu para o lado. O espírito de Luciana deixou o corpo e abraçou Suzane maravilhada.

— Mãe! Que bom ver você!

Suzane, abraçada a ela, passou uma das mãos pelos seus cabelos com carinho.

— Filha, Deus a abençoe. Vim buscá-la. Precisamos conversar.

          — Estava com saudades. Faz tempo que não vem buscar-me.

          — Você precisa viver sua vida, não tenho direito de perturbá-la.

— Cada visita sua é uma bênção que me dá forças e alegria.

— Da última vez, eu disse que sua vida iria mudar. Que a ajudaria e, também, que esperava que me auxiliasse. Hoje você sabe a que eu me referia.

— Ao meu pai. Tudo mudou quando nos encontramos. Ele tem sido muito bom para mim.

— Eu sei. Você também tem sido boa para ele e para sua família. Tenho procurado cooperar para que obtenha êxito nas tarefas a que se propôs.

— Várias vezes senti sua presença. Ainda nesta noite, foi você quem me inspirou todas aquelas palavras.

— Tem razão. Obrigada por ter-me ajudado. Quero que saiba que estamos unidos por fortes laços, todos nós, e que torná-los felizes melhorando suas vidas, harmonizando-os, estaremos cuidando da nossa própria felicidade.

           - Sinto que há uma força muito grande unindo-nos. Por quê?

— Porque o passado fala muito forte dentro de nós. Quando for oportuno, voltarei para contar-lhe tudo. Por agora, posso esclarecer que Maria Lúcia está muito melhor e isso alegra-me o Coração.

— Por que ela é tão diferente do irmão? Qual a causa da sua insegurança?

— Em vida passada ela esteve prisioneira dentro de um quarto durante muitos anos, humilhada, doente e com o corpo coberto de feridas. As pessoas olhavam-na com repulsa.

— Pobre menina. Por iSSO esconde-se até hoje.

— Tudo já passou. Agora, ela pode ser feliz, Contudo a lembrança do que foi ainda a perturba, mesmo sepultada em um novo corpo, esquecida,

— O que Posso fazer por ela?

— Dar-lhe amor, carinho como até aqui. Devolver-lhe o gosto de viver, a alegria, a confiança e principalmente o amor por si mesma. Quando Conseguir isso, ela estará curada. Agora, preciso ir.

— Fale mais, conte-me o que aconteceu no passado. Por que estamos juntos agora?

— Meu tempo acabou, Só posso dizer que quanto mais nos amarmos e nos ajudarmos mutuamente, melhor será.

— Não vá ainda...

           - É preciso. Sossegue seu coração. Um dia voltarei para contar-lhe a verdade. Porque eu e José Luiz não ficamos juntos e quais os compromissos que nos separam áinda. Deus a abençoe. Mesmo que você não possa estar comigo como agora, não se esqueça que estarei sempre a seu lado, quando houver necessidade. Diga a mamãe que a amo muito.

Suzane abraçou Luciana com amor, beijando-lhe a testa e com muito cuidado conduziu-a ao corpo adormecido.

Luciana abriu os olhos sentindo ainda na testa o beijo suave de sua mãe. Em seu peito, uma sensação intraduzível de alegria e amor. Suspirou feliz e com gratidão dirigiu seu pensamento a Deus em Comovida prece.

 

CAPÍTULO 10

João Henrique saiu apressado. Havia dois meses que estivera em casa de Maria Antonieta pela primeira vez e a cada dia sentia aumentar seu interesse por ela.

Comparecia ao teatro todas as noites e depois acompanhava-a à casa, onde permanecia durante horas, saindo sempre a contragosto. Falara-lhe do seu amor, dos seus sonhos, e ela não o levava a sério, procurando conduzir o assunto para outros interesses.

Entretanto, João Henrique, cada dia mais apaixonado, alimentava planos para o futuro. Finalmente, acabara seu curso. Dentro de duas semanas, haveria a cerimônia da formatura e o baile de gala. Pretendia comparecer com Maria Antonieta e apresentá-la aos pais e à sociedade. Dias depois, fariam o jantar de noivado e marcariam a data do casamento, para o começo do ano seguinte.

Contava com a tolerância dos pais. Não a apresentaria logo como artista. Depois de conhecê-la, ficariam encantados o que facilitaria as coisas quando descobrissem a verdade.

Não os enganaria durante muito tempo. Ela era muito conhecida para isso. No baile mesmo, depois que a tivessem apreciado, diria tudo.

Olhou as horas e refletiu que não chegaria em tempo de assistir o espetáculo. Resolveu ir mais devagar. Esperaria por ela no final. Chegou ao teatro com a peça em meio e, enquanto esperava, fazia planos para o futuro.

Estava interessado em um projeto para melhorar a cidade. Não podia aceitar que a capital do país fosse tão descuidada com a higiene das ruas e a beleza de suas praças. Contava obter o auxilio do prefeito e da população abastada. Organizaria um escritório, trabalharia muito e contava com o dinheiro dos pais, a influência do seu nome para conseguir seu próprio dinheiro e fazer carreira.

Tinha certeza de poder oferecer à Maria Antonieta uma vida de rainha e todo seu amor.

Naquela noite, quando ela saiu do teatro, rodeada de muitos amigos, quis ir ao restaurante cear. Apesar da sua ansiedade em Conversar com ela sobre o futuro, ele não teve outro remédio senão segui-la. Fazia parte de sua fama, de sua carreira, esses jantares, onde quase sempre, programavam-se novos Contratos e mantinham a popularidade. Passavam da meia-noite quando finalmente João Henrique despediu-se dela na porta de sua casa, para retornar meia hora depois, discretamente

Quando entrou, ele abraçou-a com paixão, beijando-lhe os lábios repetidas vezes. Vestindo longo traje de cetim cor-de-vinho, justo no corpo e aberto dos lados à moda chinesa, ela deixava-se beijar. Quando sentiu-se mais calmo, João Henrique tomou-a pela mão conduzindo-a ao sofá, fê-la sentar-se, sentando-se a seu lado.

— Precisamos ter uma conversa séria - disse olhando-a nos olhos.

          Ela desviou o olhar.

          — Por favor! Hoje não. Estou cansada. Não quero Pensar em nada.

          - É preciso. A cada dia que passa sinto que a amo mais. Não posso mais viver sem você. Diga que também me quer.

Ela aproximou-se e beijou-o levemente nos lábios.

          - Eu gosto de você. Senão, não estaria aqui. Mas, eu preferia que não se precipitasse. Afinal, nos Conhecemos há pouco tempo. Falaremos sobre isso outro dia.

— Não. Tem que ser hoje. Eu a amo. Quero casar com você.

Ela levantou a cabeça assustada.

— Está louco!

— Você me ama, eu a quero para sempre. Juntos seremos felizes.

Ela olhou-o com Preocupação.

— É Cedo demais para pensar nisso. Não estrague nossa amizade.

João Henrique tomou-a nos braços, apertando-a contra ao peito, beijando-a longamente.

— Você me pertence, — disse com voz que a paixão enrouquecia. — Não quero perdê-la!

 — Deixemos os assuntos sérios para depois, — respondeu ela, baixinho. — Venha, vamos viver o momento presente.

Puxou-o pela mão até o quarto, e João Henrique mergulhou novamente em seus braços, sem pensar em mais nada.

Quando Luciana chegou em casa de Maria Helena, encontrou Maria Lúcia um tanto inquieta. A moça melhorava a olhos vistos, contudo teimava ainda em manter a aparência apagada de sempre.

Depois de cumprimentá-la carinhosamente, Maria Lúcia puxou-a pelo braço e pediu:

— Sente-se aqui. Preciso da sua ajuda.

Seu rosto estava ansioso e corado.

— O que é? — indagou Luciana, interessada.

— O baile de João Henrique. Ele acha que eu preciso ir.

— Claro. Isso é ótimo.

— Você não entendeu. Eu não quero ir sozinha. Você vai comigo.

— Não sei. Trata-se da formatura dele. Só irão os convidados.

— Mas ele a está convidando. Olhe. Pediu-me que lhe entregasse o convite, com suas desculpas por não tê-lo feito pessoalmente. É que ele tem aula na hora em que você vem.

— Obrigada. Agradeça o convite.

— Você irá comigo?

— Acha que preciso? Você pode ir a esse baile com sua família.

Os olhos dela brilhavam quando disse:

— É que eu preciso da sua ajuda. Você prometeu.

— O quê?

— Não vai rir de mim? Posso pedir uma coisa?

Ela estava corada e sem jeito.

— Pode. Fale sem medo. O que quer fazer?

— Quero ir bem bonita. Desejo mudar tudo. Fazer como na sua casa, ficar diferente.

Luciana sorriu:

— Que bom ! Será maravilhoso. Sua mãe vai adorar.

— Será? Tem certeza de que não ficarei ridícula?

Luciana beijou-a levemente na face.

—   Ficará linda. Verá. Depois há espelhos nesta casa, poderá ver por si mesma. Já escolheu o vestido?

— Não.

— Tenho excelente modista que o fará para você. Sua mãe aceitaria?

— Não quero que ela saiba. Farei surpresa.

— Está bem. Faremos tudo em segredo. Sábado, quando for a minha casa, ela a esperará lá. Tem tudo que vai precisar.

Maria Lúcia estava alegre e excitada.

— Gostaria que fosse hoje. Estou ansiosa para escolher o vestido. Terei que esperar até sábado!

— Pode ir amanhã, se sua mãe deixar.

— Será melhor. Direi que preciso vê-la. Ela não se oporá.

— Como queira. Amanhã então escolheremos tudo.

Maria Lúcia permaneceu pensativa durante alguns segundos, depois disse:

— Acha que algum moço me notará?

Luciana sorriu alegre:

— Garanto que muitos a notarão e quererão dançar com você.

Maria Lúcia levou a mão ao rosto assustada.

— Dançar?

— Sim.

— Mas eu danço mal. Não terei coragem. Melhor não ir.

Luciana segurou-a pelos ombros e olhou-a firme nos olhos.

— Não seja covarde. Você sabe que pode fazer isso.

Ela baixou os olhos.

— Olhe para mim, — continuou Luciana com firmeza. — O passado está morto. Acabou. Você agora é outra. Não tem mais um corpo doente e humilhante. Sua pele é limpa e sedosa. Você é linda. Merece a felicidade. Daqui para frente, a vida lhe dará só alegria, amor, felicidade.

Maria Lúcia olhava-a admirada e havia um brilho profundo em seus olhos.

— Quem lhe contou?

— O quê?

— Os meus pesadelos. Como sabe?

Luciana acariciou o rosto de Maria Lúcia com suavidade.

— Sente-se aqui, conte-me esses seus pesadelos.

— Você falou sobre eles. Nunca contei a ninguém. Como descobriu?

— Existem pessoas que podem descobrir coisas a nosso respeito. Digamos que converso com meu anjo da guarda e ele me disse.

— Como se faz isso? Nunca conversei com o meu.

— Foi em sonho. A alma de minha mãe vem buscar-me algumas vezes, nos encontramos durante o sono.

— É possível?

— É. As pessoas que morrem vão para um outro mundo e vêm nos ver quando podem. Minha mãe veio ver-me. Sonhei com ela, conversamos e ela contou-me algumas coisas sobre sua vida passada.

— Vida passada? Como assim?

— Eu sei que nós vivemos outras vidas antes desta, aqui na Terra mesmo, de onde trazemos impressões e aprendizagem, necessidades e esperanças para novas experiências e progresso do nosso espírito. Em cada nova experiência, em um novo corpo na Terra, esquecemos o passado para ter liberdade de ação, mas impressões fortes nos acompanham e podem intervir em nosso comportamento de agora.

            — E os pesadelos? De onde vêm?

— Várias causas. Lembranças desagradáveis do passado, desequilíbrio emocional, preocupação, medo, influências dos pensamentos dos outros, etc... Como eram os seus pesadelos?

— Horríveis. Meu corpo coberto de chagas. Mau cheiro, as pessoas afastavam-se de mim correndo. As vezes, eu estava prensada entre quatro paredes, sem poder encontrar saída. Acordava apavorada, sufocada. Ainda agora, ao recordar, sinto meu corpo todo queimar como se minha pele estivesse em carne viva.

— Mas não está. Nada disso está acontecendo agora. São impressões de uma vida que já acabou. Aquele corpo doente já não existe mais. Agora, você tem outro corpo, bonito, sadio, forte; não precisa envergonhar-se dele, ao contrário, deve orgulhar-se em possui-lo, cuidar bem dele.

— O que me diz é extraordinário. Quando disse isso, tudo desapareceu. Estou admirada. Por que ninguém nunca me contou?

— As pessoas não sabem muito sobre essa coisa. Minha mãe tem me ensinado. Há livros sobre isso também. Se quiser, poderemos estudar o assunto.

— Quero. Tenho vivido assustada, sentindo emoções desencontradas, sofrendo, e você tem me ajudado. Deus a abençoe por isso. Gostaria muito de ter uma irmã.

Luciana comoveu-se. Abraçou-a com ternura.

           - Você é minha irmã. Eu a quero muito.

— Eu também.

Permaneceram abraçadas, sentindo alegria e paz no coração.

No dia Seguinte, Maria Lúcia foi á casa de Luciana, onde a modista lá a esperava com o necessário para que ela escolhesse o vestido.

Vendo-a entretida rosto corado, Olhos brilhantes, Egle não se Conteve e comentou:

— Luciana, como ela mudou! Nunca a vi tão bonita!

Luciana sorriu satisfeita. Procurou interferir o menos possível na escolha, deixando-a decidir por si mesma.

           - Confio em seu bom gosto — dissera.

           Observou que ela soube decidir, depois, apenas pedindo opinião a Luciana que aprovou com entusiasmo. Maria Lúcia estava indo muito bem.

Quando a modista se foi, Maria Lúcia considerou:

— Mamãe quer escolher a roupa para mim. O que farei?

           - Diga-lhe que já escolheu uma do seu gosto.

— Ela não confia em mim, teme que eu não me apresente bem.

Luciana sorriu:

— Ela não sabe do que você é capaz. O que faremos então?

— Vou deixá-la escolher uma. Mas, vou pedir-lhe para deixar que eu venha aprontar-me aqui. Irei ao baile com você e D. Egle.

— Vovó não irá. Você poderá ir com seus pais. Fica melhor.

— Nesse caso, você irá conosco, caso contrário, não irei. Não terei coragem. Diga que fará isso por mim. Falarei com papai.

— Sua mãe pode não gostar.

— Gostará sim. Só que eu não vou dançar.

— Por quê?

— Eu já disse, danço mal.

— Vamos ver isso.

 Luciana escolheu um disco e colocou-o no gramofone. Era uma valsa.

— Venha — disse — vamos ver que tal está.

Maria Lúcia olhou-a assustada.

— Vamos, a música não á muito longa.

Ela aproximou-se e Luciana enlaçou-lhe a cintura começando a dançar. Quando a música acabou, Luciana comentou:

— Vamos novamente. Você está muito presa. Precisa soltar mais o corpo. Vamos ver.

Rosto corado, Maria Lúcia recomeçou.

A tarde ia morrendo e o sol já se escondera quando Maria Lúcia voltou para casa. Ao jantar, Maria Helena olhou-a admirada:

— Você demorou em casa de Luciana. O que foi fazer lá?

A moça corou.

— Ela estava me ensinando um jogo e eu fiquei até aprender.

— Seja como for, você parece muito bem. Pelo jeito, gosta de estar lá. — disse José Luiz com naturalidade.

Após o jantar, Maria Helena pediu:

— Antes que se recolha, sente-se aqui, precisamos conversar.

Maria Lúcia obedeceu.

— É sobre o baile de seu irmão. Amanhã a modista virá para provar seu vestido. Já o escolhi. Ficará lindo!

Maria Helena admirou-se porque a filha disse simplesmente:

— Sim, senhora.

Ela não aceitava as coisas com facilidade.

— Fico contente com sua atitude. É melhor assim. Agora, pode recolher-se.

Vendo que Maria Lúcia não se mexia, indagou:

— O que é mais?

— Desejo pedir-lhe um favor. — Maria Helena esperou e, após ligeira hesitação, ela continuou: — João Henrique convidou Luciana. D. Egle não irá. Eu gostaria muito de convidá-la para ir conosco.

Foi José Luiz quem respondeu:

— Certamente, filha. Sua mãe e eu ficaremos encantados. Ela irá conosco.

— Amanhã, quando ela vier, eu mesma farei o convite. —esclareceu Maria Helena.

— Obrigada — respondeu Maria Lúcia, satisfeita.

Quando ela se retirou, Maria Helena comentou:

—  Maria Lúcia realmente está mudada. Pelo menos conversa.

—  É verdade. Em boa hora essa professora apareceu.

—  Maria Lúcia está muito dependente dela. Aposto que foi ela quem pediu a Luciana para vir conosco.

—  Pode ser. Sente-se segura a seu lado. Está começando a perceber a vida. Um dia aprenderá a voar.

José Luiz falara como para si mesmo, olhos perdidos em um ponto vago.

— Espero que ela não quebre a asa.

Ele fixou-a procurando perceber o que se passava em seu íntimo.

— Por que diz isso? Nossa filha é jovem, tem todo o direito de ser feliz.

Maria Helena deu de ombros.

— A felicidade é uma ilusão de poucos. Tenho pena dos jovens que sempre são os mais iludidos.

— Você está muito amarga.

Ela sorriu procurando desviar o assunto.

— Falava por falar. São conceitos sociais que repetimos sem pensar.

José Luiz levantou-se e aproximou-se dela tocando-lhe levemente o queixo, fazendo-a levantar o rosto para ele.

— Talvez, alguém sem pensar tenha destruído suas ilusões. Você era tão cheia de vida!

Maria Helena cerrou os lábios com força. Levantou-se rapidamente.

— Eu era uma ingênua como todas as adolescentes. Felizmente, cresci.

José Luiz olhou-a pensativo, depois considerou:

— As vezes, sinto saudades da juventude!

— Pois eu não. Prefiro conservar os pés no chão, saber com o que se pode contar.

— As aparências enganam. Em alguns casos, pode-se obter muito mais do que se espera. Depende da forma como nos posicionamos.

— O que quer dizer? — admirou-se ela.

— Que formulamos conceitos com facilidade e nos fechamos neles certos de que são verdadeiros. AI, um dia, de repente, percebemos que eles nos limitaram e que além deles há outras coisas, outros valores não considerados que poderiam modificar tudo, criando novas e melhores opções.

         — Não compreendo onde pretende chegar.

— São constatações que tenho feito, nesta fase da nossa vida.

Maria Helena estava tensa e um pouco pálida. Sempre quando conversavam, eles tacitamente não se referiam ao próprio relacionamento. Ela temia tocar nesse assunto e não poder mais controlar seus próprios sentimentos represados. Baixou a cabeça e conservou-se silenciosa.

José Luiz notara seu nervosismo. Luciana teria razão? De repente, sentiu-se mais culpado. Se ela realmente o amasse ainda, depois de tudo e de tantos anos, o que pensaria do seu procedimento?

Uma onda depressiva o acometeu e ele disse simplesmente:

— São pensamentos vagos, sem nenhum sentido. Vou recolher-me. Boa noite.

— Boa noite — respondeu ela com voz baixa.

Vendo-o retirar-se, sentiu-se curiosa. José Luiz estava mudado. Mais humano. Aquela noite chegara a pensar que ele estivesse procurando uma aproximação. Seu coração bateu descompassado. Estaria arrependido de suas atitudes passadas? Talvez se sentisse só e desejasse achegar-se.

Cerrou os lábios com orgulho. Não queria ser para ele apenas uma companhia para ajudá-lo a suportar a própria solidão. Amava-o profundamente, ardentemente, e não aceitaria as migalhas que ele se dispusesse a oferecer-lhe.

A lembrança dos primeiros tempos do casamento, dos momentos de intimidade, fizeram-na vibrar de emoção.

— Preciso controlar-me — pensou assustada.

Devia preservar sua dignidade a todo custo. Recolheu-se, mas não conseguiu dormir. Por que José Luiz não a queria? Por quê? As lágrimas brotaram e ela deixou-as rolar livremente. Só muito tarde conseguiu adormecer.

José Luiz procurou Luciana para conversar. Sentia-se triste e desalentado. Antes, pensava ter na morte de Suzane o seu maior

problema, agora, observando melhor os fatos, compreendia ter Outros mais, além daquele. O sofrimento de Maria Helena, a distância afetiva dos filhos, somavam-se à sua frustração amorosa. Julgara-se um vencedor e percebia ser apenas um vencido. Destruíra suas Possibilidades de uma vida feliz e infelicitara a própria família.

         Luciana recebeu-o com carinho de sempre, notou logo seu estado de espírito. A um ligeiro sinal, Egle afastou-se

discretamente e ela, tendo-o acomodado em Confortável poltrona, sentou-se em um

banquinho a seus pés, segurando suas mãos com afeto.

         José Luiz, observando-lhe a solicitude, disse triste:

         — Ainda bem que tenho você. Apesar do mal que lhe fiz, éboa o bastante para me amar e ajudar minha família.

         — Papai, não se deixe envolver por pensamentos tão depressivos.

         — É verdade, filha. Tenho feito tudo errado. Sou incapaz de fazer a felicidade dos meus. Sinto-me desanimado. Gostaria que tudo houvesse sido diferente.

         Luciana Olhou-o séria dizendo com voz firme:

         — Mas não foi. Tudo é como é. Nada que faça agora poderá mudar o que passou. Por que perde tempo com coisas inúteis?

         Ele protestou:

         — Acha inútil reconhecer minha culpa? Saber que errei e que sou responsável pela infelicidade de várias pessoas?

         — Pai, quando começará a enxergar? Quando verá os fatos como realmente são, sem fantasias ou deturpações?

         Ele apertou as mãos dela fortemente.

         — Agora estou vendo a realidade. O fato de pensar que Maria Helena possa me amar, torna-me ainda mais culpado.

         - Porquê?

         Porque eu a iludi. Fingi que a amava quando era mentira. Porque ela é mulher digna, honesta e apesar de perceber a verdade, não me acusa. Suporta minha presença, atende minhas vontades. Cuida do meu bem-estar. Sinto remorsos, Luciana, pelo que fiz a ela.

         — Pai, você sentiu que se enganou. Arrependeu-se. Isso é bom. Mas não exagere sua culpa. D. Maria Helena escolheu seu caminho livremente. Podia ter-se separado, reconstruído a vida de outra forma. A sociedade pune, mas logo esquece. No entanto, ela preferiu viver a seu lado. Ama-o e respeita-o. Engana-se ao julgar-se responsável pela felicidade dos outros. Essa conquista é interior e independe das outras pessoas ainda que estejam ligadas conosco.

— Se ela me amava, deve ter se sentido infeliz ao perceber por que eu me casara com ela.

— A desilusão dói, mas é a visita da verdade. As pessoas constroem suas fantasias, mas a vida as destrói fatalmente. Assim, vamos amadurecendo, aprendendo os valores verdadeiros. Compreendendo que o amor não condiciona nada, simplesmente é - e inunda nossa vida de felicidade. D. Maria Helena preferiu viver a seu lado, mesmo não sendo amada como sonhara, do que afastar-se, deixar de vê-lo, de estar junto, de cuidar do seu bem-estar. Ela escolheu essa forma de felicidade e tem desfrutado dela. Talvez houvesse sonhado com outra, mas soube aceitar o que a vida lhe deu. Sentiu, sem sombra de dúvida, que você não tinha condições de oferecer-lhe mais e optou pelo possível.

— Acha que foi isso? Tão simples assim?

— Claro, papai. As pessoas sentem o que lhes convém mais e escolhem seu caminho.

José Luiz passou a mão pelos cabelos e permaneceu calado durante alguns instantes.

— Da forma que você fala, não me Sinto tão culpado.

— Seria bom que esquecesse a culpa. Nosso julgamento é muito relativo. Ninguém é vítima nem algoz. Cada pessoa, no jogo da vida, opta, decide, participa. Agora, por exemplo, você escolheu a posição de réu. Quer punir-se para satisfazer seu orgulho ferido pela noção de ter errado.

— Está sendo severa comigo.

— Estou apenas percebendo fatos. Quando quiser, poderá escolher outro caminho, o do bom senso e da sua própria felicidade.

— Não depende de mim.

— Só depende. Se prefere ficar deprimido, recriminando-se por coisas que não pode remediar ou mudar, se sentirá infeliz pelo resto da vida. Será uma pessoa desagradável, triste, incapaz, que a família terá dificuldade em suportar. Se ao contrário, optar pelo esquecimento do passado e desejar a felicidade a cada instante, percebendo as coisas boas que o cercam, valorizando as pessoas, dando-lhes amor, observando-lhes as qualidades e respeitando-lhes os limites. Colocando entusiasmo nas coisas boas do dia-a­dia, agradecendo a Deus a dádiva da vida, da felicidade, do amor, da saúde e da prosperidade, sentirá por fim felicidade e a espalhará ao seu redor.

— É o que você faz, filha. Você leva a felicidade onde entra. Esse é o seu segredo.

— Sim, papai. Sinto no coração a alegria de viver. Cultivo o bem a cada instante e não permito que os pensamentos negativos me escravizem. Mamãe sempre me diz para agir assim, Sinto grande bem-estar.

José Luiz acariciou a cabeça da filha delicadamente. Ela falava de Suzane como se ela não estivesse morrido. Essa fantasia de Luciana o preocupava um pouco. Mas, tinha que admitir que ela era muito sensata e equilibrada e que demonstrava sabedoria muito além de sua idade.

— Acha que, se eu escolher a felicidade, ela virá para mim?

— Claro. Se acreditar nela, se procurá-la adequadamente, verá.

— E como sepultar meus fantasmas?

— Lutando. Procurando esquecer. Dizendo consigo mesmo que quer esquecê-los. Que prefere o presente onde pode fazer em cada instante alguma coisa boa.

— Tentarei. Amanhã será o baile de João Henrique. Maria Helena convidou-a a ir conosco.

Luciana sorriu.

          — Irei. Prepare-se para uma grande surpresa.

          — O que está tramando?

— Já disse que é surpresa. Estou tão entusiasmada! Mal posso esperar.

— Não sabia que gostava de baile.

          — Há muita coisa sobre mim que ainda não sabe.

          — Viremos buscá-la.

          — Obrigada, mas eu irei à sua casa mais cedo. Maria Lúcia

pediu.

          — Como queira.

José Luiz sentia-se tranqüilo e alegre. A crise havia passado.

Eram dezessete horas do dia seguinte quando Luciana desceu do carro, tocando a sineta da casa de Maria Helena. À criada que atendeu, pediu que a auxiliasse a carregar as caixas e

pacotes que trouxera, levando-os ao quarto de Maria Lúcia.

Enquanto subiam a escadaria para o andar superior, Luciana perguntou:

— D. Maria Helena está?

— No momento, descansa em seu quarto.

Maria Lúcia apareceu apressada, fisionomia alegre, auxiliando-as a colocar tudo sobre a cama. Quando a criada saiu, fechou a porta excitada.

— E então? — indagou.

— Não esqueci nada.

— Estou tão nervosa!

— É natural. Quando se vai a um baile, tudo pode acontecer, até encontrar o homem de sua vida.

Maria Lúcia suspirou ruborizada.

— Um baile é como um conto de fadas. Belos vestidos, flores, música, rapazes atraentes, momentos de poesia, encantamento.

Os olhos de Maria Lúcia brilhavam fascinados. Havia comparecido a muitas festas, a um ou outro baile, sempre com sacrifício, terror, obrigação. Sentindo-se horrível, rejeitada, insignificante, desprezada. Agora, tudo parecia-lhe diferente. Sentia-se bonita, não se cansava de passar os dedos sobre sua pele sentindo a maciez, de contemplar seu talhe elegante, prejudicado sempre pela postura inadequada.

Luciana a ensinara andar, manter a postura, dançar, e ela agora percebendo que era capaz de fazer tudo isso bem, não se cansava de treinar diante do espelho. Sentia-se tão alegre que dançar era como se pudesse voar, sentindo o gosto de viver e a alegria da liberdade.

Luciana compreendia e sabia colocar encantamento nas coisas de tal sorte que ela esperava esse baile como se fosse o primeiro.

— Sinto haver dado trabalho a D. Maria Helena ocultando a verdade.

— Veja o vestido que ela escolheu.

Estava pendurado no armário. Era um vestido fino, sóbrio, discreto, sem muitos enfeites. Próprio para não chamar muito a atenção.

—  Ela não sabe que você mudou. Verá quando estivermos prontas.

Conversaram alegremente até a hora do jantar.

Era a primeira vez que Luciana jantava com a família e não pôde deixar de sentir-se emocionada. Discreta, educada, tratada com delicadeza por todos, enquanto comia, ela não podia deixar de observar a classe de Maria Helena, a finura e elegância do pai, a postura costumeira de Maria Lúcia, metida em seu vestido sem graça e conservando a aparência de sempre.

Em seus olhos, porém, havia um brilho novo e arguto, uma vivacidade que ela, mantendo os olhos baixos, escondia e ninguém notou. Havia a beleza viril de João Henrique, deixando transparecer no rosto o entusiasmo e a alegria.

Naquela noite, esqueceu-se da discrição que sempre adotara diante do pai, estava loquaz e bem-disposto. Falou de seus projetos para o futuro, de seu desejo de casar-se e constituir família.

José Luiz sentia-se esperançoso. O ambiente de sua casa estava acolhedor e podia perceber o contentamento em cada semblante. Depois, Luciana estava ali. Não se cansava de observar-lhe a finura, a elegância e a delicadeza.

Maria Helena estava radiante. Seu querido filho estava feliz e ela orgulhava-se dele, de sua formatura com louvor e admiração dos mestres.

Quando o jantar terminou e as duas moças pediram licença para se preparar, Luciana aproximou-se de Maria Helena e disse com sinceridade:

—  Obrigada pelo jantar, D. Maria Helena, e pela honra de ir ao baile com os senhores. Estou muito feliz.

Maria Helena sorriu. Apreciava a delicadeza de Luciana.

— É um prazer, Luciana, tê-la conosco. Gostaria de pedir-lhe um pequeno favor.

— Certamente, D. Maria Helena.

          Havia certa hesitação em sua voz quando ela pediu:

— Você sabe, Maria Lúcia não tem muito gosto, eu apre­ciaria muito se pudesse influenciá-la quanto à sua aparência. Nesta noite, tudo deverá ser alegria.

— Farei o possível. Pode deixar — respondeu Luciana com um sorriso.

José Luiz, Maria Helena e João Henrique estavam prontos esperando no hall

Percebendo a impaciência de Maria Helena, José Luiz sugeriu:

— Nós podemos ir. Os carros estão prontos. João Henrique acompanhará as moças.

— Com prazer — concordou ele de boa vontade.

- — Está bem. Está na hora e não gosto de esperar. Gostaria de verse Maria Lúcia está decentemente vestida.

— Pediu à Luciana, pode ficar tranqüila —lembrou José Luiz. Ele sabia que podia confiar nela.

— Vamos, — resolveu Maria Helena.

Os dois saíram deixando João Henrique no hall. Ele sentia-se eufórico. Convencera Antonieta a comparecer ao baile após o teatro. Era a última apresentação da peça. A companhia partiria para a Europa dentro de alguns dias. Ela concordara em ficar e casar-se com ele. Estava exultante. Finalmente vencera. Há três dias fazia projetos para o futuro. Comprara um belíssimo anel de brilhantes. De vez em quando, colocava a mão no bolso e apalpava a caixinha de veludo, antegozando a alegria de entregá-lo a sua eleita, oficializando o compromisso.

Finalmente, um farfalhar de saias e ele não acreditou no que estava vendo. Luciana, linda, mas seu espanto era para Maria Lúcia. Abriu a boca, mas não articulou nenhum som. Parecia-lhe outra mulher. O que havia acontecido? Um milagre?

Ela parecia-lhe mais alta, mais esbelta, elegante em um maravilhoso vestido rosa seco, lindos cabelos penteados com extremo bom gosto, tendo harmonioso enfeite de flores, a pele aveludada, olhos brilhantes, o brinco delicado, tudo estava per­feito.

Ele não escondia sua admiração. Sua irmã transformara-se em uma linda e elegante mulher.

Luciana sorriu feliz.

— E então? — perguntou — gostou?

— Eu não acredito! Maria Lúcia, você está linda! Que transformação!

Ela sorria alegre, emocionada, sem saber o que dizer. Ele prosseguiu:

— Tem um sorriso encantador! Como não percebi isso

antes?

          — Ela se escondia. — tornou Luciana. — Agora, tudo será

diferente.

— Eu imagino. Esta é nossa grande noite. Grandes coisas acontecerão — disse ele, entusiasmado. — Faço questão de entrar no salão de braço com essas duas beldades. Só quero ver a cara dos meus amigos! Vão chegar como abelhas no mel. Maria Lúcia, prepare-se. Todos quererão dançar com você!

Seu rosto coloriu-se de rubor e suas mãos tremiam um pouco, mas ela disse com voz firme:

— Quero dançar a noite inteira. Aprendi. Luciana ensinou-me.

João Henrique tomou a mão de Luciana e beijou-a com deferência.

— Obrigado. Sei que foi você quem trabalhou para isso. Não imagina o bem que nos fez. Serei grato pelo resto da vida. Tem em mim um amigo sincero, um verdadeiro irmão.

Ela sorriu e havia uma lágrima em seus olhos quando disse:

— Vocês são meus irmãos e os quero muito.

— Agora vamos — propôs ele, alegre. — Quero ver a cara de mamãe quando ver a beldade de filha que tem.

Ofereceu os braços com galanteria, e juntos foram para o carro.

O Palácio das Rosas, como era chamado pela grande quantidade dessas flores que havia em seus magníficos jardins, estava fartamente iluminado. Suas enormes janelas, de lindas e luxuosas cortinas de renda, guarnecidas de veludo dourado, abertas, deixavam aparecer a enorme varanda que conduzia ao hall da chapelaria e à entrada do enorme salão.

Os carros entravam pelos grandes portões de ferro artisticamente trabalhados e seguiam por graciosa alameda, em semicírculo, e paravam frente a escadaria de mármore branco, coberta por larga passadeira vermelha que se estendia desde o local onde parava o carro até a porta de entrada da varanda, indo juntar-se ao grosso tapete vermelho que cobria toda a sala da chapelaria e as toaletes.

Por toda parte, luxo, bom gosto, arte e alegria. Muitas flores, requinte e elegância desde o traje discreto e polido dos criados à distinção e gentileza com que recebiam os convidados. O carro parava, as damas desciam apoiadas pelos cavalheiros, e os grupos entravam alegres entre o farfalhar discreto dos vestidos, o perfume delicioso das mulheres e a postura dos homens galantes e bem-educados.

O salão, caprichosamente adornado, era cercado por frisas onde as mesas estavam parcialmente ocupadas. A orquestra já tocava, quando João Henrique, conduzindo as duas moças pelo braço, entrou. Pararam alguns instantes, vendo a frisa onde seus pais já estavam acomodados, dirigiram-se para lá.

Maria Lúcia vendo tanta gente sentia-se um pouco temerosa. Luciana segurou-a pelo braço dizendo baixinho:

— Você sabe que está linda! Esta é a sua noite! Tudo émagia e beleza. Seu sonho se realiza! Você venceu!

A moça que, copiando atitudes as quais se habituara anteriormente, tentara esconder-se atrás de Luciana, levantou a cabeça e olhou frente a frente para as pessoas que passavam. Percebeu a admiração nos olhares masculinos e sorriu contente. Luciana tinha razão. O passado estava morto. Aquele seria seu primeiro baile.

Quando entraram na frisa, Maria Helena levantou-se admirada. Aquela moça bonita, cabeça erguida, elegante, segura de si, não poderia ser Maria Lúcia! Estava linda!Ficou sem palavras para expressar seu estupor. Foi José Luiz quem tomou a mão da filha com galanteria e disse emocionado:

— Como você está linda! Que bom gosto!

Olhou para Luciana como a dizer que ela transformara Maria Lúcia. Luciana sorriu dizendo:

— O bom gosto é dela. Escolheu tudo. Desculpe. D. Maria Helena, não termos contado a verdade. A senhora teve trabalho, escolheu outro vestido, mas queríamos fazer surpresa. Espero que compreenda.

Maria Helena refez-se um pouco. Estava sem assunto. Finalmente disse:

 —  Esta noite é maravilhosa. Tenho a alegria de ver minha filha interessar-se pela vida.

— Quero desde Já que reserve uma valsa para mim — pediu José Luiz com galanteria.

— Não quero correr o risco de não poder dançar com você.

— Uma para mim também — acrescentou João Henrique. —Já vi uma porção de amigos cumprimentando-me com muito empenho, e posso até perceber por quê.

Maria Lúcia sorria, e Maria Helena reconheceu que ela possuía um sorriso encantador. Como não percebera antes? É que ela nunca sorria.

Sentaram-se ao redor da mesa e logo Ulisses e Jarbas apareceram para cumprimentá-los. Seus olhares iam Surpreendidos de Maria Lúcia a Luciana, galantes e prestativos. João Henrique sorriu divertido. Orgulhava-se da elegância dos pais, sua classe, sua finura, da beleza da irmã e dos encantos de Luciana.

Era muito bom estar ali na noite de sua festa, em meio a seus amigos, com a família e, logo mais, quando Antonieta chegasse, sua felicidade estaria completa.

A orquestra tocava uma valsa de Strauss, e Jarbas pediu:

— Gostaria de dançar com sua filha, senhor José Luiz. Posso?

José Luiz Concordou com a cabeça, e Ulisses pediu para dançar com Luciana. Obtendo a permissão, os quatro dirigiram-se para o salão e logo estavam valsando por entre os pares com graça e alegria.

— Estou vendo, mas ainda não estou acreditando! —comentou Maria Helena. — É bom demais para ser verdade!

—   É verdade, mamãe; Maria Lúcia despertou. Está Começando a sentir o gosto de viver. Daqui para frente, tudo mudará para ela. Graças a Luciana. Abençoada hora em que ela apareceu.

— É verdade. Nunca pensei que ela conseguisse.

— Trata-se de moça bondosa e inteligente — ajuntou José Luiz, Comovido.

— É verdade, papai. Seu método foi muito eficiente. Tenho Conversado com ela a respeito. Hoje, os Conceitos estão mudando. A educação deve ser encarada de forma diferente. A psicologia moderna está descobrindo a causa de muitos problemas humanos.

— Você é um engenheiro, não pensei que se interessasse pelas ciências humanas — considerou José Luiz, disposto a aproveitar a oportunidade para aproximar-se do filho.

— O engenheiro aprende como construir uma casa, uma ponte. Usa cálculos matemáticos, mas sabe que precisa obedecer às leis da natureza para obter êxito. O comportamento humano, o porquê fazemos isto ou aquilo, certamente também obedecerá a certos fatores, certas leis naturais que ainda não conhecemos suficientemente, mas que a psicologia estuda. Ela vai ajudar o homem a aprender a viver melhor e encontrar soluções adequadas aos seus problemas.

— Alguém já me disse que tudo é natureza, tudo é divino, tudo é Deus!

João Henrique surpreendeu-se. Não julgava o pai capaz de filosofar e muito menos de pensar em Deus. Para ele, o pai interessava-se apenas pela vida social, pelo dinheiro, pelo poder. Naquela noite, tudo parecia-lhe mágico. Todos estavam diferentes.

— A natureza é interessante. Tem leis próprias. Não pensei que se interessasse por ela.

— Engana-se. Gosto de observar como tudo se transforma. As estações, os seres, as coisas, as pessoas. Tenho me perguntado o porquê de muitos problemas que preocupam a humanidade. A dor, o sofrimento, a morte, o nascimento, enfim, a vida.

José Luiz falava como para si mesmo, olhos perdidos em um ponto indefinível.

— Encontrou alguma resposta? — João Henrique interessou­-se.

— Ainda não. Tenho várias hipóteses trabalhando em minha cabeça, mas ainda não concluí nada.

— Eu também tenho pensado nesses assuntos, principalmente quando observo a desigualdade social. Parece que Deus não ofereceu a mesma charice para todas as pessoas.

José Luiz fitou-o um pouco assustado.

— Não devemos questionar Deus. Ele sabe mais do que nós.

— Concordo, ele sabe mais. Por isso mesmo, certos fatos devem ter uma explicação

mais justa. Quanto a questionar, não

 penso assim. Temos inteligência, devemos usá-la. É questionando que chegaremosao esclarecimento desejado. Questionar não é ir contra. É apenas olhar a questão por vários ângulos.

           - Tem razão. As questões sempre têm vários aspectos.

— João Henrique, as moças olham para cá, e você discutindo filosofia em pleno baile! — atalhou Maria Helena.

— É verdade — aduziu José Luiz. — É melhor fazer as honras, afinal a festa é sua!

João Henrique sorriu. Não estava interessado em nenhuma moça. Antonieta preenchia todas as suas aspirações. Logo mais, ela estaria em seus braços e ficariam juntos para sempre!

- Gosto de pensar sobre esses assuntos — disse. Essas mocinhas dengosas e delicadas não me interessam.

Maria Helena olhou-o preocupada Notava nele alguma coisa nova, uma alegria, uma loquacidade que não lhe era habitual, principalmente suas saídas noturnas, caprichando na roupa, no asseio, até o discreto perfume. Pressentia a presença de uma mulher no coração do filho.

Sentia ciúme, mas ao mesmo tempo, compreendia que um dia ele se casaria e ela teria que aceitar. Ele, por certo, escolheria alguém à altura.

Maria Lúcia Sentia o braço de Jarbas em volta da sua cintura e o rosto alegre do moço, à sua frente, olhando-a como se a estivesse vendo pela primeira vez.

— Você está linda! — disse — não sabia que dançava tão bem. Onde aprendeu a valsar?

— Eu sempre soube.

— Mas você, nos bailes, nunca dançava...

— Eu não queria. Agora resolvi dançar.

Jarbas apertou levemente a mão que com delicadeza

Sustinha na sua.

           — Que outros encantos você escondeu esse tempo todo?

           Ela sorriu.

           — Descubra você mesmo — tornou, misteriosa.

           — Adoro seu sorriso! — considerou ele, galante.

Maria Lúcia sentia-se excitada percebendo que podia agradar, que a admiravam e que os rapazes gostavam de olhá-la. Seu pensamento voou para Ulisses. Ele também a apreciaria?

Mostrava-se interessado em Luciana, mas ela garantira-lhe que não o queria para um namoro. Talvez pudesse despertar-lhe o interesse, quando percebesse que Luciana não lhe correspondia. Dançaria com ela? Estremecia só em pensar nisso.

O baile prosseguia animado. As homenagens aos

formandos, a valsa especial que João Henrique dançou com a

mãe. As duas moças muito solicitadas não paravam de dançar e

quando Ulisses convidou Maria Lúcia, ela sentiu as pernas

tremerem e o coração disparar. Finalmente ele a enlaçou e

começou para ela um novo encantamento. Ulisses olhava-a com admiração:

— Ainda não acredito que seja você. Qual foi o milagre que a transformou?

— Sinto vontade de viver — respondeu ela com alegria. —Agora, quero da vida tudo o que tenho direito!

— É impressionante. Você é linda! Como conseguiu esconder-se tanto tempo?

— Eu sempre estive presente. Você é que não notou.

— Devia estar cego!

Ela sorriu feliz. Sentia brotar dentro de si uma imensa força e muita alegria de viver!

Passava da meia-noite quando ouviu-se um zunzum pelo salão. Parada na porta, acompanhada pela sua dama, estava Antonieta. Vestia um maravilhoso vestido dourado, ajustado ao corpo, abrindo-se um pouco embaixo, deixando aparecer a ponta de seus sapatos. Mangas curtas, decote discreto na frente, abria-se nas costas descendo quase a sua cintura deixando à mostra sua pele maravilhosa e delicada. Dois panos presos nos ombros desciam soltos pelas costas até os pés. Nos cabelos curtos, delicado arranjo de pedraria, com pequenas plumas presas na testa.

João Henrique sentiu seu coração disparar. Imediatamente dirigiu-se a ela, beijando-lhe a mão com galanteria.

Todos os olhares dirigiram-se para eles. Com elegância, João Henrique conduziu-as para a frisa.

José Luiz levantara-se surpreendido. A famosa atriz de teatro, em um baile de formatura! Era inusitado.

Maria Helena estava perplexa. João Henrique conhecia a tal mulher e a recepcionava em pleno baile! Ela estava escandalosamente vestida e ainda mais, tinha os cabelos curtos.

Depois que a guerra se acabara, o modernismo da Europa ameaçava destruir as melhores tradições da família. Tinha ouvido falar a respeito e não aceitava de forma alguma esses modismos.

João Henrique aproximou-se e conduzindo Antonieta pelo braço, entraram na frisa.

José Luiz, apesar da idéia extravagante do filho, conservava

a fisionomia distendida e amável. Maria Helena a custo dominava a

irritação. Não gostava de chamar a atenção pública e sentia o

olhar das pessoas voltado para eles.

— Mamãe, quero apresentar-lhe a grande atriz, Maria Antonieta Rangel.Naturalmente, já a conhece.

Antonieta fitou-a com olhos penetrantes e entreabriu os lábios em ligeiro sorriso.

— Por certo — balbuciou Maria Helena tentando readquirir o sangue frio. — Como vai, minha senhora?

— Senhorita, mamãe — apressou-se a corrigir João Henrique.

— Senhorita? Bem. Como vai?

— Muito bem — respondeu a atriz curvando ligeiramente a cabeça.

— Este é meu pai.

José Luiz curvou-se com galanteria, tomando a mão delicada que Antonieta lhe oferecia, beijando-a levemente.

— Encantado, senhorita. Tem em mim um admirador.

         — Esta é minha amiga Norma Engel.

Após os cumprimentos, José Luiz, vendo que ela não pretendia retirar-se, convidou-as a que se sentassem.

— Está gostando do baile? — indagou ele, cortesmente.

Antonieta passeou o olhar expressivo pelo salão depois disse:

— Está muito belo. O Rio de Janeiro tem lindas mulheres.

         A senhorita é do Rio? — continuou José Luiz.

         — Não. Nasci na Europa!

         — Não parece. Fala sem nenhum sotaque.

— Sou portuguesa. Meus pais vieram para o Brasil quando eu era bebê. Só voltei a Europa na adolescência para estudar.

Era realmente uma mulher encantadora — pensou José Luiz. Maria Helena readquirira a presença de espírito. Afinal, naquela noite, o filho tinha direito a alguma extravagância. O melhor que tinha a fazer era ser gentil com a moça. Tentou interessar-se pela conversa.

— Minha mãe é excelente pianista — comentou João Henrique com orgulho.

— Não diga! Que tipo de música prefere tocar?

— Clássica. Para mim é a verdadeira música.

— Ah! — fez Antonieta.

João Henrique ia dizer alguma coisa mas calou-se. Maria Lúcia e Luciana acabavam de chegar acompanhadas por dois elegantes rapazes. Estavam coradas e alegres.

— Maria Lúcia, quero que conheça Antonieta. Esta é minha irmã.

A moça olhou aquela bela mulher, tão diferente das que estava habituada a ver e a admiração transpareceu em seu rosto ingênuo.

— Como vai? — indagou gentil.

— Bem, e a outra moça?

— É Luciana, amiga e professora de Maria Lúcia.

Luciana olhou-a nos olhos com curiosidade.

— Já vi o seu retrato e sei quem é. É uma honra conhecê-la.

Os rapazes haviam se afastado e as duas sentaram-se.

— Vocês dançaram sem parar. Devem estar cansadas —disse Maria Helena.

— Eu estou um pouco, mas Maria Lúcia parece que tem asas nos pés — respondeu Luciana.

— Estou vendo e ainda não acredito.

Maria Lúcia olhou o rosto da mãe e não disse nada. Sentia vontade de irritá-la, mas aquela era uma noite mágica, estava resolvida a ser feliz.

José Luiz sentia-se contente. Seu relacionamento com os filhos havia melhorado e imaginava que com o tempo poderia melhorar ainda mais. Luciana era como uma luz, onde tocava, iluminava. Havia tomado vinho e sentia-se alegre.

— Vamos dançar — convidou ele.

Maria Helena estremeceu.

— Estou um pouco cansada — disse.

Ele não aceitou a desculpa. Tomou-a pela mão conduzindo-a para o salão.

— Precisamos comemorar esta noite. Afinal nosso filho está graduado.

O  salão em penumbra, o perfume, o encanto da noite, o rosto distendido de José Luiz, envolveu Maria Helena que emocionou-se quando ele a enlaçou. A orquestra tocava um xote e o salão estava repleto de casais alegres. Jarbas com Maria Lúcia, Ulisses com Luciana também dançavam. Só João Henrique permanecia na frisa ao lado das duas mulheres.

Ulisses sentia-se empolgado.

           - Luciana, — disse — não suporto mais suas evasivas. Desde que a vi não Consigo pensar em outra coisa. Peço licença para visitá-la em sua casa.

A moça abanou a cabeça com graça.

— Não recebo visitas de rapazes em casa — disse... — Minha avó não permite.

— Afirmo-lhe que tenho as melhores intenções. Se me autorizar, irei conversar com ela, pedir-lhe permissão

— Não acho necessário, senhor Ulisses.

— Por que me recusa? Não crê na minha sinceridade?

Luciana olhou-o séria.

          - Não se trata disso.

— Então por quê? Não consegue sequer esquecer o trata­mento cerimonioso!

          — Desejo ser sincera. O senhor é amigo de Maria Lúcia, de sua família. Tenho-lhe apreço. Sei que é um moço de bem. Seu interesse muito me honra.

— E então?

— Então, sou uma moça com idéias próprias. Só me comprometerei com alguém por quem eu sinta amor.

— Quer dizer que não gosta de mim? — Havia uma ponta de agastamento em sua voz.

— Nutro pelo senhor um sentimento de amizade. Não o bastante para um namoro.

— Você é dura, não se importa em fazer-me sofrer.

— Não creio que seu desapontamento o impeça amanhã de esquecer-me completamente. É preferível saber logo a verdade do que alimentar ilusões inúteis.

— Você diz isso com muita certeza, O que a faz pensar assim? Não acha que com o tempo poderia vir a me amar?

— Apesar de apreciá-lo, sei que nunca o amarei. Para mim é o bastante.

Ele apertou a mão dela com força.

— Já sei, com certeza ama outro homem. Claro, como não pensei nisso antes? Quem é ele?

Ela abanou a cabeça negativamente. Ulisses estava sendo insistente e desagradável. Fez o possível para contornar a situação. Não desejava criar um caso com ele, principalmente por causa de Maria Lúcia. Não queria que ela se decepcionasse. Um golpe agora poderia desencorajá-la a prosseguir em seu desenvolvimento.

— O senhor não tem o direito de fazer-me perguntas, —respondeu. — Não tenho namorado, nem estou interessada em ninguém.

— Está tentando enganar-me. Saiba que nunca recebi uma recusa. Há muitas moças ansiosas por um olhar, uma palavra minha. Se me recusa, é porque tem outra pessoa.

Apesar de contrariada, Luciana procurou sorrir ao responder:

— Sei que é verdade, O senhor é um moço atraente e sabe disso. Só que as pessoas não são iguais. Pode crer. Peço-lhe que esqueça este desagradável assunto. Prefiro conservar uma boa amizade. Podemos ser bons amigos.

— Não vou insistir. Também não vou desistir. Saberei esperar. Hei de conquistá-la.

Luciana suspirou aborrecida. Maria Lúcia estava iludida. Não conhecia Ulisses, tão pretensioso e arrogante. Seria bom se ela se interessasse por outro. Ele jamais a faria feliz.

Sentiu-se aliviada quando a música terminou e pretextando cansaço,quis voltar à frisa.

A orquestra começou uma valsa de Strauss muito em voga, e José Luiz quis continuar a dançar. Entregando-se ao encantamento daqueles momentos, Maria Helena Sentiu o coração bater mais rápido. Tudo poderia ter sido tão diferente! Olhou o rosto corado do marido, tendo o corpo dele tão próximo ao seu, de repente aquele amor tanto tempo represado, oculto, abafado, veio à tona aumentando sua emoção. Volteando em seus braços ao som da música, todo passado desapareceu. Só havia o momento, o amor, a proximidade dele. Suspirou fundo e José Luiz olhou-a encantado. Parecia-lhe outra mulher, linda, rosto corado, olhos brilhantes, lábios entreabertos, ardente, Suspirando em seus braços. Foi acometido de emoção e um desejo forte. Apertou-a de encontro ao peito, beijando-lhe a face e murmurando4he ao ouvido:

— Você está linda! Nesta hora eu gostaria de estar em casa para amá-la como merece.

Maria Helena fechou os olhos para sentir melhor o encantamento. Estaria Sonhando?

Teve coragem para dizer:

— Sou feliz.

Ele continuava murmurando em seus ouvidos:

— Tenho sido cego. Sinto Vontade de beijá-la! Não consigo Suportar e esperar.

Maria Helena sentiu-se como nos tempos de namoro. Sorriu provocante:

— Você não se atreveria diante de todos.

— Você é minha mulher. Não tem nada de mais.

— Por isso mesmo.

Quando a música parou, voltaram à frisa corados e alegres. Luciana e Maria Lúcia conversavam animadamente, e João Henrique só tinha olhos para sua deusa. Conversavam educadamente e quando Antonieta quis retirar-se, João Henrique dispôs-se a acompanhá-la. Luciana e Maria Lúcia voltariam com os pais. Luciana percebeu o brilho do novo anel na linda mão da atriz e compreendeu a intenção de João Henrique. Sentiu-se inquieta. Sabia que a família não iria aceitar com facilidade um casamento entre os dois. Mas, não era esse o ponto que a preocupava. Não tinha preconceitos. Pensava mesmo que o amor era suficiente justificativa para uma união. No entanto, havia algo em Antonieta que a inquietava. Não sabia ainda o que. Não gostava de sentir essa sensação. Geralmente, ela precedia alguma coisa desagradável.

         Por Outro lado, ficou alegre observando a aproximação do pai com a esposa. Maria Lúcia, por sua vez, estava encantada com tudo.

         — Vamos para casa — resolveu José Luiz — É tarde.

Chegando em casa, as duas moças se recolheram e, uma vez no quarto, deram vazão à alegria.

— Você fez muito sucesso! De agora em diante, será sempre assim. Verá. Receberá muitos convites. Foi muito cortejada esta noite — Considerou Luciana.

— Sim. Vários rapazes sussurraram coisas em meus ouvidos. Fiquei arrepiada.

Luciana riu gostosamente:

— Não se declararam?

— Certamente. Não os levei a sério. Até o Jarbas! Disse que ia sonhar comigo esta noite e que amanhã passará em casa para ver-me.

— É um belo rapaz.

— Prefiro o Ulisses. Tão lindo! Acha que um dia ele me amará? Parecia tão interessado em você!

— Você não o conhece bem.

— É amigo de meu irmão há muito tempo.

— O Jarbas também. Você nunca conviveu muito com eles. Procure aproximar-se mais, conversar, Sentir como eles pensam. Desta forma poderá perceber qual dos dois você gosta.

— Farei isso. Tem certeza de que não gosta mesmo dele?

— Tenho. Jamais o amarei. Quanto a isso, posso afirmar.

Depois que as moças subiram, Maria Helena passou o ferrolho na porta de entrada. José Luiz esperava no hall. Não podia apagar da lembrança o rosto ardente de Maria Helena, o calor que vinha dele. Vendo-a aproximar-se, impaciente tomou-a nos braços, beijando seus lábios com ardor.

— Eu quero você — disse — esta noite é nossa.

Abraçados, foram para o quarto e atiraram-se nos braços um do outro, como se fosse a primeira vez.

 

CAPÍTULO 11

José Luiz abriu os olhos e olhou ao redor admirado. Estava no quarto de sua mulher. Subitamente recordou-se de tudo. Sentiu-­se um pouco desconfortável. O vinho, o champanhe, o baile, tudo contribuíra para quebrar o gelo entre ele e Maria Helena.

Ela já levantara. Ele remexeu-se no leito, inquieto. Aquela noite havia sido mágica. Tantas coisas boas acontecendo! Maria Helena estivera diferente. Havia vida em seu rosto e uma chama ardente em seus lábios, que ele não se lembrava de ter visto antes. Sentira-se atraído por ela, e a lembrança dos momentos vividos juntos, era-lhe muito agradável.

Reconhecia que bebera um pouco além do habitual e ela também. A bebida, às vezes, podia ser reveladora. Luciana teria razão? Maria Helena sob a frieza esconderia uma alma ardente e apaixonada? Brando calor invadiu-lhe o peito. Haveria esperança para eles? Mesmo sem amá-la, poderiam relacionar-se melhor? Como estaria ela? O que pensaria da noite anterior?

José Luiz sentia-se grato. Reconhecia que sempre recebera dela muito mais do que lhe dera. Levantou-se apressado. Olhou o relógio sobre a mesa de cabeceira. Passava das doze e logo seria servido o almoço. Tomou um banho, vestiu-se e desceu para a sala. Encontrou Maria Helena folheando uma revista.

— Bom dia — disse.

          — Bom dia.

Ela pareceu-lhe como sempre. Serena e educada. Queria dizer alguma coisa, mas conteve-se.

— Desculpe o atraso, — disse por fim. — Os outros já se levantaram?

— As moças estão no jardim com João Henrique. Comentam o baile, com certeza. As duas fizeram muito sucesso.

— É verdade. Não foram só elas que fizeram sucesso. Você também estava muito bonita.

Maria Helena estremeceu. Ficou calada durante alguns segundos, depois disse:

— Estava muito feliz. A festa estava linda. Até Maria Lúcia parecia haver saído de um conto de fadas.

— É verdade. Como está ela hoje?

— Muito bem. Nem parece a mesma. Luciana sabe lidar com ela.

          — Essa moça é uma bênção. Onde toca, transforma para melhor.

— Vejo que a admira.

— Por certo. Gosta de Maria Lúcia, dedica-se a ela com carinho, é educada, atenciosa, discreta. Sou-lhe muito grato por tudo de bom que tem feito por nós.

— Eu também a aprecio.

José Luiz aproximou-se, tomando-lhe a mão, levando-a aos lábios com galanteria.

— Obrigado — disse.

Ela olhou-o assustada; ele prosseguiu:

— A noite de ontem foi muito agradável. Desejo que tenha apreciado.

Maria Helena não soube o que responder. Ficou quieta, olhando-o. Percebendo seu embaraço, ele tornou com naturalidade:

— Estamos na hora do almoço. A que horas vai mandar servir?

— Agora, se desejar.

O almoço decorreu agradável, o ambiente, alegre. João Henrique mais loquaz do que o habitual e Maria Lúcia, feliz e bem­-humorada, contribuía muito para isso.

Só Maria Helena estava mais calada e pensativa. José Luiz observava-a disfarçadamente. Teria ela se arrependido pelo arroubo da noite anterior?

A conversa decorria com animação. A certa altura, João Henrique mencionou Maria Antonieta. Maria Helena evitara tocar nesse assunto. Condescendia em aceitar aquela extravagância do filho. Ele sempre fora moço correto e de bons costumes. Seria uma vaidade, exibir-se publicamente com aquela atriz. Capricho, nada mais. Levantou a cabeça ao ouvi-lo perguntar:

— O que acharam de Antonieta? Ela é maravilhosa!

Maria Helena franziu a testa, e José Luiz apressou-se a dizer:

— De fato. É uma bela mulher. Excelente atriz. Canta e dança divinamente.

— Você já a viu no palco?

— Já. Ela faz jus á fama que tem. Ë Conhecida em toda Europa. Representa em francês com perfeição.

— Ela está pensando em deixar o palco, — Continuou João Henrique. — Sua Companhia parte daqui alguns dias, mas ela ficará.

— Por que faria isso no auge dá fama? — indagou José Luiz.

— Ela é mulher. Para as mulheres o amor, o lar, os filhos estão em primeiro lugar. Pretende dedicar-se à vida em família.

— Não sabia que ela era casada — Considerou José Luiz.

Maria Helena ouvia em Silêncio. João Henrique sorriu:

— Ela não é. Vai trocar a fama, o dinheiro, tudo pelo amor. Vai casar-se brevemente.

— Sabe com quem?

João Henrique ficou sério e calado por alguns instantes, depois disse pausadamente.

— Comigo. Pedi sua mão, e ela aceitou.

Houve um silêncio constrangedor. Luciana baixou os olhos para o prato, Maria Lúcia e José Luiz olharam o rosto de Maria Helena que pálida não escondia seu estupor. Levantou-se, aproximou-se do filho, olhos brilhantes de emoção:

— Você está brincando conosco. Não acredito que esteja dizendo a verdade.

Ao que João Henrique respondeu calmo:

— Eu estou. Amo Antonieta. Ela é a mulher da minha vida. Vamos nos casar.

Vendo a palidez de Maria Helena, José Luiz interveio Conciliador.

— Deixem este assunto para depois. O momento não é apropriado. Terminemos a refeição e conversaremos.

— Obrigado, papai. Apreciaria muito que me ouvisse e compreendesse.

Maria Helena fez um esforço enorme para conter-se. Reconhecia que o marido tinha razão. Não podiam tratar de assunto tão preocupante diante das duas moças e dos criados.

          Sentou-se de novo, continuando a refeição. Porém a harmonia fora quebrada. Terminaram em silêncio. Luciana pediu licença para retirar-se, agradecendo a hospitalidade. José Luiz fez questão de mandar o carro levá-la em casa. Maria Lúcia foi para o quarto, e os três reuniram-se no gabinete de José Luiz para conversar.

José Luiz estava contrariado e apreensivo. Seu filho apaixonara-se pela mulher errada. Não era só pelo fato dela ser mais velha do que ele. Ela havia experimentado o gosto da fama, o prazer de ser aplaudida, admirada. Era de educação européia. Aceitaria a vida burguesa que João Henrique podia oferecer? Renunciaria às viagens, ao luxo, ao ambiente artístico, liberal e excitante, pela vida familiar monótona do Rio de Janeiro? Custava a crer.

Por outro lado, reconhecia que não tinha direito de impedir que o filho casasse com a mulher amada. Fora por causa dos preconceitos sociais que ele se casara sem amor e não desejava que o mesmo acontecesse com o filho. Não sabia como agir. Maria Helena jamais concordaria.

Com gestos lentos, fechou a porta, enquanto Maria Helena e o filho sentavam-se tensos nas poltronas diante da mesa atrás da qual ele sentou-se por sua vez. Olhando os dois calados, disse:

— Agora você pode nos esclarecer quanto ao assunto de D. Maria Antonieta.

João Henrique tornou com voz firme:

— Eu a amo. Pedi-lhe que se case comigo.

— Não pode estar falando sério — considerou Maria Helena.

— Estou, mamãe. Ela é o grande amor da minha vida. Sofri muito pensando que ela pudesse não aceitar.

— O que diz não tem cabimento. Uma mulher de teatro! Da vida noturna. Não pode pensar em dar-lhe o nosso nome!

— Sinto que você pense assim. Ela é uma moça honesta e digna de usar qualquer nome.

— Ela não pode amá-lo! Com certeza está interessada em dinheiro, conhece nossa posição social!

João Henrique indignou-se:

— Mamãe! Como pode dizer uma coisa dessas? Ela é rica, famosa, amada, não precisa dos nossos haveres para nada! É uma honra que ela renuncie a tudo para casar comigo! Eu é que não a mereço!

Maria Helena olhou-o furiosa:

— Você está cego! Não pode acreditar nisso. Não vê que ela não pertence à nossa classe? Esse casamento nunca daria certo! Faria a sua infelicidade! Não posso consentir que faça essa loucura. Que jogue sua vida fora, amarrando-se a uma mulher de má vida!

João Henrique trincou os dentes com raiva:

— Não admito que fale de Antonieta dessa forma. É imprudência de sua parte julgar tão severamente alguém que sequer conhece.

Maria Helena voltou-se para o marido, nervosa:

— José Luiz, faça alguma coisa. Ele está enfeitiçado por essa mulher!

— Deixe-nos a sós. — pediu ele. — Acalme-se. Tome um chá, descanse. Você está muito nervosa, não é bom conversar sobre isso agora, Vá descansar um pouco.

Maria Helena levantou-se.

— Faça-o Compreender que está errado, — pediu com voz súplice. — Por favor!

           Não se preocupe. Depois falaremos.

Conduziu-a até a porta fechando-a e Voltou a sentar-se frente ao filho. João Henrique abanou a cabeça nervoso:

— Ela não entende, papai.

— Não culpe sua mãe. Devemos convir que o que pretende não é muito comum.

— Várias vezes conversamos sobre o amor. Ela sempre pedia para que eu só me casasse quando amasse de verdade. Agora que aconteceu, não quer aceitar.

— Ela teme pela sua felicidade futura. Acredita que uma moça de teatro não seja feita para o casamento.

— Ela acha que uma artista não pode ser digna e honesta.

— Não se trata disso. A vida familiar exige certo grau de sacrifício, de dedicação e até de renúncia. Ela tem um preço. Essa moça estará em condições de querer pagar? Após haver vivido livre, coberta de glórias, de aplausos, aceitará a vida burguesa que pode oferecer-lhe?

João Henrique não se deu por achado:

— Ela também me ama. Estará feliz onde eu estiver, com o que eu lhe oferecer. Talvez você não possa compreender. Sei que não se casou com mamãe por amor.

José Luiz sentiu a velha mágoa voltando. Olhou nos olhos do filho, dizendo com sinceridade:

— Amei muito uma mulher, infelizmente ela morreu. Entretanto, gosto de sua mãe e temos vivido bem.

João Henrique surpreendeu-se. O pai não era insensível como sempre pensara. Sua frieza escondia um amor impossível.

— Sinto muito, meu pai. Não sabia. Nesse caso, pode compreender o que sinto por Antonieta. Se a perder, nunca mais amarei outra mulher. Serei infeliz pelo resto da vida.

— Não seja tão radical. Na mocidade, nos apaixonamos várias vezes e confundimos os sentimentos. Como sabe que seus sentimentos para com essa moça são profundos e verdadeiros? Reconheço que ela é belíssima, tem talento, atrai, cativa. Você pode ter se entusiasmado com tudo isso. Pode ser até que se ela renunciar a tudo por você, saindo desse ambiente mágico do teatro para o cotidiano da vida familiar, venha a desiludi-lo e seu entusiasmo desapareça. E o que era sonho transforme-se em pesadelo.

— Isso nunca acontecerá, eu juro!

— Se acontecer, ela o odiará. Como devolver-lhe tudo quanto ela deixou por sua causa?

João Henrique passou a mão pelos cabelos num gesto inquieto.

— Por que me confunde dizendo essas coisas? Claro, pensa como mamãe. Quer “salvar” o nome da família . É o preconceito da nossa sociedade podre e de fachada. Luto pela minha felicidade. Não estou interessado no que os outros possam dizer.

— Calma, meu filho. Não estou contra você, nem contra seu casamento. Contudo, minha experiência de vida faz brotar esses pensamentos. Tenho dúvidas quanto ao futuro. Desejo sua felicidade. Gostaria que não se precipitasse..

— Você duvida do meu amor por ela.

         — Sei que é sincero. Acaba de graduar-se. Precisa consolidar sua situação financeira para que possa casar-se. Claro que lhe darei uma casa, alguns haveres, mas quem quer família precisa mantê-la. Principalmente casando-se com uma moça habituada ao luxo e ao conforto. Para que se sinta digno, precisa Sustentá-la com o mesmo nível.

— Tenho pensado nisso — revelou o moço, preocupado

José Luiz continuou com voz calma:

— Certamente. Precisa fazer carreira, e isso requer certo tempo.

João Henrique estava surpreendido. Não esperava encontrar justamente no pai tanta compreensão. Sentiu-se confortado. Ele referia-se a Antonieta com respeito. Talvez o ajudasse convencer a mãe.

          — Você consente que eu me case com ela?

          José Luiz ficou silencioso durante alguns instantes, depois disse:

— Se você realmente a amar e proceder com bom senso, darei o consentimento.

O  rosto do moço distendeu-se:

          Obrigado, papai. Não esperava que me apoiasse.

— Desejo sua felicidade. Contudo, precisa cuidar do seu futuro. Nesse casamento para sentir-se bem, precisa ter o que oferecer à sua mulher. Não pode começar uma vida em comum sentindo-se inferiorizado, diminuído achando que ela perdeu quando o aceitou para marido.

João Henrique levantou-se e apertou a mão do pai com entusiasmo.

— Obrigado, meu pai. Nunca se arrependerá de haver confiado em mim.

— Muito bem. Amanhã mesmo, trataremos do seu futuro, da sua carreira.

— Trabalharei ativamente. Sabe como desejo modificar a face desta cidade. Antonieta será a minha musa e o meu troféu. Conto com você para abrandar mamãe.

— Farei o possível. Precisa ter paciência com ela.

O  filho saiu entusiasmado, e José Luiz permaneceu pensativo. Tentara contornar a situação. No fundo, não acreditava que aquela mulher experiente e livre concordasse em casar-se com um jovem um tanto provinciano e até certo Ponto ingênuo. Queria dar tempo, pensando que o assunto se resolveria por si mesmo. Em todo caso, se eles se amassem de verdade, ele de fato os ajudaria. Seria a forma de redimir-se dos seus enganos passados.

Procurou Maria Helena e encontrou-a no quarto. Rosto pálido, estava longe de ser aquela mulher fria e senhora de si. Vendo-o, indagou ansiosa:

— E então? Conseguiu esclarecê-lo?

— Calma. Vamos nos sentar.

Lado a lado, ele continuou:

— Conversei com ele, ponderei todos os pontos.

Narrou à esposa minuciosamente tudo quanto conversaram. Quando terminou, ela considerou:

— Você deu o consentimento! Não podia fazer isso de forma alguma!

— Tentei contornar a situação. Ele está determinado. Não ouvirá nada contra o que pretende. Se eu houvesse sido radical, ele teria chegado a extremos que não desejamos. Um jovem apaixonado não atende ponderações. Conseguindo adiar esse casamento, conto com o tempo para que ele perceba o quanto está enganado.

— E se ele não desistir? E se ela o envolver cada vez mais?

— Quanto tempo ela agüentará a ausência do palco, das festas e noitadas para ficar como uma donzela namorando seu jovem apaixonado?

— Pensa mesmo isso? Não acha que ela quer casar com ele por causa do nosso nome e da nossa posição?

— Uma mulher como ela tem muitos apaixonados, tão ricos ou de posição quanto João Henrique.

— Não tão ingênuos a ponto de casar-se.

— Aí é que eu tenho dúvidas. Será que ela realmente deseja casar-se? Prender-se a monotonia da vida familiar? Uma mulher como ela, habituada a brilhar, a viver grandes emoções...

Maria Helena abanou a cabeça:

— Não sei, não.

— Você é mãe. Olha João Henrique com amor. Para ela, ele é apenas um jovem provinciano apaixonado.

— Acha que não chegarão ao casamento?

— Acho. Penso que não será de bom alvitre contrariá-los, mostrar que não queremos. Isso pode fazer com que ele persista. As mulheres são orgulhosas. Se ela perceber que não a aceitamos, pode ofender-se e desejar nos contrariar, dominando João Henrique e manejando-o à vontade.

— Meu Deus, — suspirou ela — como nos aconteceu uma coisa destas? Logo ele, tão bom e tão ajuizado!

— Ele é jovem, cheio de ilusões. Está fascinado.

— Não vou tolerar a presença dessa mulher!

— Faça um esforço. Não é prudente mostrar desagrado. Um amor contrariado exacerba a fantasia.

Maria Helena engoliu a revolta e esforçou-se por aceitar. Não podia perder o amor do filho. Ele deixara claro o que pretendia. Depois, José Luiz estava certo. Ela teria mais possibilidades de êxito se não o contrariasse. Suspirou tentando resignar-se.

— Farei o possível — tornou — por amor a ele.

José Luiz sentiu-se aliviado. Não gostava de discussões ou queixas. Era avesso a situações conflitantes.

— Melhor assim — disse. — Com calma haveremos de encontrar uma saída. Pode ser que o tempo se encarregue de colocar tudo nos devidos lugares.

Nos dias que se seguiram, João Henrique mostrou-se radiante. Informado que Maria Helena não se oporia à realização de seu casamento, deu largas ao júbilo que sentia, mostrando-se afetivo, bem-disposto, feliz, cercando todos de gentilezas e agrados.

Interessado em trabalhar e criar condições para sustentar Antonieta no luxo a que se habituara, procurou o pai, disposto a ouvir-lhe os conselhos objetivando seu progresso profissional. Pela sua situação financeira, seu nome, podia estabelecer-se com um escritório, trabalhando por conta própria. No entanto, não tinha experiência profissional ainda que inspirasse confiança a clientes para os grandes projetos. Costumeiramente, eles davam preferência a engenheiros experientes e com anos de trabalho reconhecido e comprovado. Nunca contratariam um recém-formado.

Sabendo disso, José Luiz aconselhava-o a iniciar-se, engajando-se em um grupo respeitado onde pudesse participar, aprender, até que aos poucos fosse se revelando com projetos próprios.

João Henrique reconhecia que o pai estava certo, entretanto, sujeitar-se a um emprego dessa ordem, o faria esperar muito tempo para conquistar o que pretendia. Ele preferia o caminho mais rápido. José Luiz considerava:

— Precisa dar tempo ao fruto de amadurecer. Para conquistar o que pretende, terá que trabalhar muito, mostrar seu talento. Sei que você é capaz e vai vencer.

João Henrique fez um gesto de contrariedade:

— Quantos anos levarei para conseguir?

— Tem medo que D. Maria Antonieta mude de idéia?

— Não. Claro que não. Antonieta me ama. Eu é que não quero esperar muito. Vivo sonhando com o nosso casamento. Não, papai. Terá que ser de outra forma.

— O que sugere então?

— Um cargo público bem remunerado. O senhor tem amigos influentes. Arranje-me algo e não se arrependerá. Não pretendo encostar-me na função. Tenho capacidade, sei que posso corresponder ao posto.

— Não posso passar por cima de pessoas qualificadas que estão exercendo seus cargos.

Não será tão fácil como pensa.

— Sei que tem prestígio. Se empenhar-se, conseguirá. Prometo que depois do casamento, continuarei a esforçar-me. Um dia, conseguirei o que almejo.

José Luiz não quis prolongar o assunto. Ser-lhe-ia fácil conseguir o que o filho pretendia. No entanto, não desejava contribuir para apressar um casamento que pressentia inadequado. intimamente estava disposto a simular e retardar o mais possível o que ele lhe pedia.

— Vou pensar no assunto — respondeu por fim.

— Obrigado, papai. Sei que conseguirá.

Foi com Luciana que José Luiz conversou expondo seu ponto de vista. A filha ouviu-o com atenção, depois considerou:

— Acredita mesmo que essa união será infeliz?

— Não posso afirmar. Entretanto, tenho experiência suficiente para perceber que João Henrique não é o tipo de homem que a inspirasse a largar tudo o que conquistou e gosta, pela vida pacata do lar.

— É um belo rapaz, ama-a arrebatadamente.

          — Nem sempre é o bastante. Ele é muito inexperiente; ela é vivida. Ë livre, conhece o mundo inteiro, tem outras opções de vida. João Henrique é provinciano, até certo ponto ingênuo, e o que acho pior, pretende afastá-la do palco, definitivamente. Quando me recordo dela no palco, magnífica, recebendo aplausos, cheia de vida, sinto medo. Quanto tempo ela suportará sem pisar o palco? Quanto tempo suportará a mediocridade dos nossos salões, sem ser o foco das atenções, tornando-se uma mulher comum?

       — Você pode ter razão. Contudo, e se for verdade? Se o sentimento que ela nutre por ele for verdadeiro e tão forte que ela o coloque em primeiro plano, e supra todas suas necessidades?

       — Se for assim, serei o primeiro a aceitar. Por isso quero dar tempo. Preciso certificar-me da verdade.

       Luciana permaneceu alguns instantes pensativa, depois disse:

       — Tem razão, papai. Se eles se amam de verdade, o tempo os aproximará ainda mais.

       — Caso contrário, teremos evitado muitos aborrecimentos. Quanto a Maria Lúcia, obteve sucesso total. Ainda não me recuperei da surpresa.

       Luciana sorriu contente.

       — Eu lhe disse que ela poderia desabrochar.

       — Jamais pensei que ela fosse tão bonita. Como não percebi isso antes?

       Luciana fitou-o carinhosamente:

       — Geralmente nós não procuramos ver o que há atrás das palavras e atitudes das Pessoas. Nos contentamos com as aparências.

       José Luiz pensou em Maria Helena. Começava a suspeitar que, também com relação a ela, havia se enganado. Respondeu devagar:

       — Começo a acreditar que tem razão. As pessoas nos Surpreendem.

       — Por que diz isso?

       — De repente tudo se modificou ao meu redor. Maria Lúcia ficou linda, inteligente, normal; João Henrique, sempre sério, ponderado, sóbrio, cheio de idéias convencionais, apaixonado por uma cantora, disposto a colocar esse amor acima de tudo. Maria Helena...

       Ele hesitou, e ela o encorajou:

       — D. Maria Helena?

       — Bem, ela, de repente perdeu aquela frieza, aquela pose de dona do mundo, revelou-se mulher.

Luciana fixou-o com os olhos brilhantes.

— Você agora começa a perceber que todos nós somos apenas pessoas; amamos, sentimos, desejamos ser felizes.

— Ainda não estou certo. Aquela noite foi mágica. Tudo parecia diferente. Nós bebemos um pouco.

— O suficiente para fazer cair as barreiras do orgulho.

— Pode ser.

Luciana, num gesto afetuoso, segurou a mão do pai:

— Foi uma noite feliz!

— Sim. Muito feliz.

— Você pode fazer de sua vida uma felicidade constante. É só querer.

José Luiz comoveu-se e apertou a mão dela fortemente.

— Eu gostaria! Mas temo que esse encanto se desfaça.

Ela sacudiu a cabeça negativamente.

— Não creio. Você tem uma família maravilhosa. Basta abrir o coração e perceber isso.

— Você foi a luz que Deus colocou em minha vida. Com seu carinho, tudo se modificou.

— Gosto muito de Maria Lúcia e sinto-me feliz por havê-la apoiado.

— Você é muito querida por todos nós. Até João Henrique e Maria Helena capitularam. Sinto-me muito bem por isso.

Quando José Luiz retirou-se meia hora depois, sentia-se sereno e muito satisfeito, com a impressão que dali em diante, tudo em sua vida iria melhorar.

 

CAPÍTULO 12

A partir da noite do baile, a vida em casa de Maria Helena começou a modificar-se. Nos serões das terças-feiras, Maria Lúcia interessou-se pelos jogos de salão e pelas danças. Contudo, insistia na presença de Luciana para dar-lhe coragem. Maria Helena, a pedido da filha, convidara-a e Luciana aceitara desejosa de consolidar a mudança de Maria Lúcia. Queria que ela se sentisse mais segura e depois, poderia afastar-se sem problemas.

A moça entusiasmara-se com o sucesso e desejava aceitar todos os convites para festas. Maria Helena aprovava feliz, percebendo o olhar surpreendido dos amigos e conhecidos, diante das mudanças de Maria Lúcia. Se antes desejava esconder a filha, agora, exibia-a satisfeita. Percebendo que a filha só saia com Luciana, convidava a moça para acompanhá-la.

Assim, Luciana passou a tornar-se assídua e até de certa forma indispensável. E onde elas estavam, Jarbas e Ulisses apareciam infalivelmente. Maria Helena estava contente. Casar a filha parecera-lhe um sonho quase impossível, agora tudo estava diferente.

Por outro lado, preocupava-a João Henrique que insistia em manter o noivado. Uma noite, trouxera Antonieta ao serão e pedira-lhe para tocar. Fora preciso muito controle para fazê-lo. Notara o olhar de admiração. dos homens e alguma contrariedade nas mulheres. João Henrique a apresentou como noiva, e Maria Helena sabia que os comentários seriam inevitáveis.

José Luiz, adivinhando a contrariedade da esposa, desdobrou-se em gentilezas com todos, temeroso de que Maria Helena não conseguisse conter-se. Fingiu não perceber o interesse dos homens e o ciúme das mulheres.

João Henrique estava feliz. Cercava Antonieta de atenções, fitava-a com adoração. Maria Helena concentrou-se na execução, empenhando-se para dominar a irritação. Algumas senhoras a fitavam com ar de reprovação.

— Querem ver como eu reajo, pensou ela com raiva. Perdem seu tempo. Não lhes darei o gosto de fazer um escândalo.

Para alívio de José Luiz, Maria Helena tocou com o brilhantismo de sempre. Quando terminou, ele aproximou-se dela oferecendo-lhe o braço.

— Foi uma bela execução — disse com um sorriso. — Posso oferecer-lhe uma taça de champanhe?

— Obrigada, — respondeu ela, passando o braço no dele.

Dirigiram-se à mesa onde José Luiz apanhou duas taças encheu-as e tomando uma ofereceu-a à esposa.

— Beba que lhe fará bem — disse baixinho.

Ela obedeceu enquanto ele por sua vez levava a outra aos lábios.

João Henrique aproximou-se trazendo Antonieta:

— Mamãe, Antonieta deseja cumprimentá-la pela brilhante execução.

— É verdade — disse ela — a senhora é uma virtuose.

Maria Helena conseguiu sorrir.

— Obrigada — disse.

Havia um brilho malicioso nos olhos de Antonieta, ou havia sido impressão? José Luiz interveio com delicadeza, tentando entabular uma conversação, falando de assuntos amenos.

Antonieta respondeu educadamente, e João Henrique satisfeito com a atitude do pai, procurou participar. Só Maria Helena mantinha-se silenciosa. Não lhe agradava a postura desabrida daquela mulher, que parecia olhá-los com a condescendência de uma rainha aos seus vassalos. E o mais submisso deles era João Henrique. Tão orgulhoso, tão sério. Como se deixara apanhar assim?

Quando os dois se afastaram, José Luiz disse baixinho:

— Controle-se. Não dê a perceber o quanto está contrariada com esse noivado.

— Estou fazendo o possível. Não posso entender como João Henrique se envolveu dessa forma.

José Luiz sorriu:

— Eu até que posso. Devemos reconhecer que ela é uma bela mulher.

— Ele está cego! Viu como a fitava?

— Está apaixonado. Seja paciente e procure dissimular. Ele a odiará se demonstrar qualquer animosidade contra ela.

— Meu Deus! Logo João Henrique que sempre foi tão meu amigo!

— Ele está fascinado. Precisamos manter a calma.

Maria Helena fez o possível para conter-se e enquanto atendia seus convidados, procurando demonstrar uma alegria que não sentia, desejava ardentemente que a reunião acabasse.

A partir daquela noite, João Henrique insistia com Antonieta para que freqüentasse sua casa. Depois de acompanhá-lo a um jantar e de comparecer a dois saraus, Antonieta recusou os novos convites.

— Por quê? — indagou ele.

— Porque não gosto das pessoas e não tenho vontade de ir.

Ele ficou magoado.

— Refere-se a meus amigos?

— Essa gente puritana e recalcada que me olha como se eu fosse uma messalina. Quem eles pensam que são? Um bando de ignorantes, não enxergam um palmo diante do nariz.

— Não pode falar assim. Todos a trataram muito bem.

— Sei o que estou dizendo. Não irei mais e está decidido.

— Minha família a recebeu muito bem.

— Deixe sua família fora disso. Não vamos brigar. Não tenho vontade de ir e não irei.

— Está bem. Também não quero brigar. Seja como quiser.

— Faremos novos amigos. Deve haver gente mais interessante nesse Rio de Janeiro.

Ele não disse nada. Conhecia-lhe o temperamento voluntarioso. Com o tempo, haveria de fazê-la compreender.

Porém, ela não compreendeu. A cada dia tornava-se mais irritadiça. Saía todas as noites procurando divertir-se, e João Henrique acompanhava-a contrariado. Tentou conversar, dizer-lhe que gostaria de ficar um pouco em casa. Estava cansado, não tinha tempo para estudar, dedicar-se ao trabalho, nem dinheiro para sustentar esse ritmo de vida. Mas Antonieta não lhe dava ouvidos. Ele que fosse descansar. Ela iria com os novos amigos. João Henrique emagreceu, perdeu o apetite.

Maria Helena preocupava-se. José Luiz chamou o filho para conversar. Percebeu claramente que as coisas não iam bem.

— Não há nada — garantiu ele.

— Você parece cansado, não se alimenta direito, sua mãe preocupa-se.

João Henrique sorriu:

— Estou bem. Mamãe exagera. Agora que Maria Lúcia melhorou, ela voltou toda atenção para mim.

— Não seja injusto. Sua mãe pensa em seu bem-estar. Você não parece bem. Tem se alimentado mal. Por que não nos conta o que o está afligindo?

— Tudo está muito bem. Minha única preocupação agora é o dinheiro. O emprego esperado não sai, você sabe, tenho despesas. Antonieta é mulher de classe. Freqüenta lugares finos. Minha mesada tem sido insuficiente.

— Precisa de dinheiro?

João Henrique corou ao responder:

— De fato. Minha situação financeira não é boa.

— Contudo, dobrei sua mesada depois do noivado. Não acha que estão gastando além de suas posses?

— Minha felicidade é mais importante do que um punhado de moedas. Somos ricos. Não posso fazer triste figura com minha noiva.

—  Sua mesada parece-me capaz de suprir essas necessidades a não ser que você fosse dado a vícios, coisa que não acontece.

João Henrique olhou para o pai escolhendo as palavras para responder. Estava inquieto e atormentado.

—  Pai, a mesada que recebo é generosa. No entanto, Antonieta vivia na Europa, está habituada a gastar sem reservas. Eu não gostaria de ser mesquinho, de contar os tostões.

José Luiz olhava-o pensativo. O problema se agravara antes do que ele pensava.

—  Filho, — retrucou calmo. — Se ela vai casar com você, deve aprender a viver de acordo com suas posses.

—  Por isso desejo trabalhar o mais rápido possível. Preciso ganhar dinheiro.

          — Tem razão. Contudo, para fazer carreira, subir na vida, conquistar prestígio, bens, posição, é preciso tempo e esforço. Ninguém consegue isso de um dia para o outro. Sua noiva é mulher experiente. Deve saber que está compromissada com um moço recém-formado, cujos pais são ricos, mas cujos bens virá a herdar só quando eles morrerem. Fora disso, embora possa receber ajuda, não deverá esperar uma situação brilhante. Começar a vida com seus próprios recursos, subir pelos próprios méritos, valoriza o caráter, solidifica a união.

- Você não pensava assim quando se casou — retrucou ele, sentido.

Ouvindo a alusão sobre o motivo de seu casamento, José Luiz enervou-se. Procurou controlar-se. Não queria brigar com o filho. Manteve silêncio por alguns instantes, buscando agir com calma. Quando falou, estava sério e em sua voz havia um tom de tristeza.

— É verdade. Hoje porém, se pudesse voltar atrás, agiria de outra forma.

Percebendo a atitude digna do pai, João Henrique arrependeu-se.

— Desculpe. Não pretendia ofendê-lo. Na verdade estou mesmo inquieto, queria muito resolver esse problema, casar o quanto antes.

— Casamento não resolve problemas, meu filho. Ao contrário, muitas vezes os acentua. É uma decisão muito séria que modificará toda sua vida. Não pode ser precipitada.

— Pai, eu amo Antonieta. Sinto-me inseguro. Tenho medo que ela se arrependa. Com o casamento, tudo passará.

— Engana-se. A maior segurança da união entre duas pessoas é o amor, o entendimento, a harmonia. Quando não há essas coisas, o casamento não se manterá.

João Henrique passou a mão nervosamente pelos cabelos em um gesto desalentado. José Luiz penalizou-se. Teve a certeza de que aquele compromisso não se prolongaria.

— Felizmente não é esse o nosso caso. Nós nos amamos e nos compreendemos. O único problema é do dinheiro. Você podia arranjar isso, se quisesse. Tem poder, prestígio...

— Está bem, — concordou ele para acalmá-lo. — Vou providenciar.

— Faça isso. Um posto importante, quem sabe até no governo, e tudo estará bem. Por favor, papai. Ser-lhe-ei eternamente grato.

— Está bem. Vou tentar.

— Obrigado.

— Trate de acalmar-se. Quero vê-lo mais satisfeito e disposto.

João Henrique sorriu. Tudo haveria de dar certo.

José Luiz não pretendia facilitar as coisas para que aquele casamento se efetuasse. Percebia claramente o que estava acontecendo. Não acreditava que Antonieta levasse o compromisso até o fim. João Henrique sofreria, mas acabaria por conformar-se. Era jovem e o tempo cura todas as feridas.

Pensou em seu amor perdido, em Suzane e concluiu: quase todas. Embora sua ferida estivesse menos dorida, a saudade e o arrependimento ainda o faziam lamentar as atitudes passadas. Procurou Maria Helena, pondo-a a par da conversa com o filho.

— Sinto que esse noivado não vai durar — concluiu.

— Deus o ouça! — respondeu ela, radiante.

— João Henrique vai sofrer. Está envolvido até o pescoço.

— Não importa. Ele esquecerá. Há de encontrar outras moças que o ajudarão a equilibrar-se. Acha mesmo que as coisas estão mal entre eles?

— Acho. Tenho a impressão que ela não se acostuma longe do palco e da vida noturna. João Henrique não fica em casa uma noite sequer. Tem chegado de madrugada.

— Esta mulher está arrastando João Henrique para a devassidão. Ele nunca foi dado a excessos. E se ela não desistir? Não podemos deixar que se casem. Seria uma desgraça!

— Ele não tem condições financeiras para casar-se de imediato. Quer que eu lhe arranje um emprego que lhe dê condições.

— Você não fará isso!

— Não a curto prazo. As coisas não vão bem entre eles. Não quero que ele fique ressentido comigo. Procurarei arranjar-lhe um bom lugar que o valorize e o coloque em condições de mostrar seu conhecimento. Mas farei isso de forma a não facilitar seu casamento.

— Devia ignorar esse pedido. Seria mais seguro.

José Luiz balançou a cabeça em negativa.

— Não. A amizade de João Henrique é muito importante para mim. Ele nunca se aproximou. Agora que estamos nos entendendo, não desejo afastá-lo.

Maria Helena olhou-o admirada. Seu marido estava mudado. Parecia-lhe mais humano, mais próximo, muito diferente de outros tempos.

           — Só não quero que ele estrague sua vida casando-se com aquela mulher.

— Vamos esperar. Deus conduz a vida e sempre faz o melhor.

Sem perceber, ele repetia palavras de Luciana. Maria Helena calou-se. Aprendera que as coisas sempre podem melhorar.

Luciana e Maria Lúcia estavam na sala de música. A moça conseguira que sua aluna tocasse certinho algumas peças, mas percebia que ela distraía-se constantemente interessada em outras coisas. Decidiu esclarecer o que ocorria.

— Vamos conversar um pouco — sugeriu.

Maria Lúcia suspirou aliviada.

          — Você não se interessa muito pelo piano.

— Não é bem assim. O que posso fazer se não tenho habilidade?

Luciana sorriu.

— Cuidado. Não seria mais adequado dizer que não sente vontade de tocar?

— Não. Se eu disser isso, minha mãe se zangará. Depois, você não será mais minha professora. Irá embora.

Luciana olhou-a nos olhos enquanto dizia:

— Você pode viver bem sem mim. Tem capacidade suficiente para isso.

Maria Lúcia levantou-se do banquinho e aflita segurou as mãos de Luciana.

— Você não vai me abandonar! Por favor. Diga que ficará. Eu prometo estudar, esforçar-me. Não terá motivos para me deixar.

Luciana abraçou-a:

— Não penso em deixá-la. Quem disse isso? Acontece que podemos ser amigas, nos ver, sem que precise dar-lhe aulas de piano. Nada vai mudar entre nós. Só que não acho justo você estudar contrariada, e sua mãe pagar por aulas que não lhe são proveitosas.

— Tenho medo que você não venha mais aqui. Fico esperando ansiosamente sua chegada.

— Nossa amizade está acima de todas as coisas. Lembre-se sempre disso. Agora seja franca, gosta ou não de estudar piano?

Maria Lúcia permaneceu pensativa por alguns segundos, depois disse:

— Adoro quando você toca, D. Egle e até mamãe. Mas não me sinto capaz.

— Você gosta de música, aprendeu a dançar com muita facilidade.

— Mas ao piano sou sofrível, reconheço.

— Pense bem. Na vida, em momentos de decisão como este, é sempre bom parar e observar cuidadosamente nossos verdadeiros sentimentos. Faça isso. Procure descobrir o que torna sua aula de piano tão sem interesse para você. Seja honesta, corajosa. Não tenha medo de ver a verdade. Reconhecer que não gosta de fazer uma coisa, não significa que seja incapaz de fazer maravilhosamente outras, às vezes, até mais importantes e que lhe dariam mais valor do que esta. Aprender a se conhecer é o caminho mais seguro para a felicidade.

— Está bem. Tentarei. Mas prometa que se não houver mais aulas de piano você virá aqui da mesma forma.

— Se você desejar, e sua mãe permitir, virei sempre.

Na aula seguinte, Luciana encontrou Maria Lúcia a sua espera. Assim que se recolheram à sala de música, foi logo dizendo

— Fiz o que você mandou. Pensei, procurei sentir no fundo do coração e já sei do que não gosto.

— Ótimo. O que é?

— Essas músicas complicadas. São enfadonhas, tristes. Deixam-me deprimida. Gostaria de tocar músicas da moda. Gosto de melodias brejeiras, alegres.

—   Estamos descobrindo que você é uma moça alegre e gosta de divertir-se. Podemos tentar de forma diferente. Ao invés de clássicos, aprenderá chorinhos, valsas, modinhas.

—   Minha mãe não concordará. É exigente e não transige quanto a isso. Ou clássico, ou não tocarei nada.

—   Sua preferência por esse tipo de música não é tão forte como pensa.

          — Porquê?

— Porque não está querendo lutar e defender seus gostos, suas idéias. Só merece conquistar o que deseja, quem luta para isso.

— Você fala, mas mamãe é dura. Não permitirá.

— Se você se considera derrotada antes de tentar, não há nada para fazer. E diz que gosta de lutar.

— Gostaria sim. Acredite. Adoraria no sarau tocar as músicas que os jovens apreciam. Quando fomos ao sarau em casa dos Menezes, adorei ver a Celinha ao piano. Reparou como todos se alegraram quando ela tocou? Gostaria de ser como ela. Cheguei a invejá-la.

          — Está bem. Tentaremos. Falarei com D. Maria Helena. Veremos o que acontecerá.

— Tenho medo!

— Não diga isso. Onde está a moça corajosa que venceu todos os medos e brilhou no baile de João Henrique?

          Maria Lúcia respirou fundo.

          — Seja — disse. — Vamos tentar.

          — Assim é que se fala. O que pode acontecer de pior?

          — Ela dizer não...

— Esse fato não vai mudar nada. Continuaremos como até agora por mais algum tempo, depois voltaremos ao assunto.

— Você é maravilhosa. O que seria de mim sem você?

          — Um dia descobriria a verdade e reagiria por si mesma.

Naquela tarde mesmo, ao encerrar a aula, Luciana pediu para conversar com Maria Helena. Uma vez em seu gabinete, foi direto ao assunto.

— Precisamos conversar sobre as aulas de piano de Maria Lúcia.

— Estou à sua disposição. Sente-se, por favor.

Luciana acomodou-se em graciosa poltrona enquanto sua interlocutora sentava-se em outra.

— A senhora tem observado Maria Lúcia ao piano. O que acha?

— Ela tem melhorado. Toca as peças sem errar, é já uma grande vitória.

— Estive pensando que isso não é o bastante para tornar-se um bom executante. É preciso mais.

— É preciso talento, — aduziu Maria Helena, — e isso certamente ela não possui. É isso que quer me dizer.

— Não é exatamente isso, D. Maria Helena. Na Inglaterra, no conservatório, há grandes professores. Todos eles interessados em estudar esse assunto. Fizeram experiências, pesquisas e chegaram a alguns resultados que muito têm contribuído para o incentivo e o desenvolvimento dos instrumentistas.

Maria Helena interessou-se:

— Acha que poderiam ajudar Maria Lúcia a ser uma boa musicista?

— Talvez. Tem ajudado muitas pessoas. Por que não ela?

— Pode ser. Na época moderna tudo está se modificando.

— Diga-me, D. Maria Helena, quando decidiu que Maria Lúcia deveria estudar piano, o que esperava dela? Que se tornasse uma grande virtuose como a senhora, ou outras pessoas famosas?

— Não. Desde o começo eu sabia que Maria Lúcia não tinha condições de tornar-se grande executante.

— Desculpe insistir nesse ponto. É muito importante para o progresso dela que falemos sobre isso.

— É inusitado, Luciana. Mas, concordo. Você tem conseguido com ela o que ninguém jamais conseguiu. Hoje, graças a você, minha filha é uma moça normal, como as outras. Confio em sua capacidade e em seus métodos de ensinar, embora sejam diferentes.

— Desde o início, a senhora acreditava que ela não se tornaria grande pianista.

— Isso mesmo.

— Mas insistiu ainda assim.

— Sim. Pensei que a música pudesse sensibilizá-la, despertar-lhe o interesse pela vida. Maria Lúcia foi sempre uma menina triste. A música tem o dom de falar aos sentimentos.

— É verdade. A senhora pensou com acerto. Se surpreenderia se eu lhe dissesse que sua filha talvez possa tornar-se uma brilhante musicista?

Maria Helena abriu a boca e fechou-a de novo sem saber o que dizer. Ficou silenciosa alguns momentos, depois disse:

          — Você é surpreendente. Pensei que fosse dizer-me que seria melhor desistir dessas aulas; porque ela jamais faria isso bem, e agora... Você realmente me surpreende. Não sei o que dizer... Em que se baseia para afirmar isso?

— Em uma frase que li de famoso autor: o prazer está associado ao processo de aprendizagem. Só faremos o melhor, se tivermos prazer em fazê-lo. Não foi assim com a senhora? Não adorava suas aulas de piano?

— É verdade. Eram para mim os melhores momentos. Aguardava-osansiosamente.

— Ainda hoje quando toca, seu rosto de transfigura de prazer e alegria.

— É verdade. Contudo, não vejo a relação que isso possa ter com minha Filha. Ela sempre sentou-se ao piano Como quem vai ao sacrifício.

— Tem razão nisso também. A princípio também pensei como a senhora e procurei incentivar-lhe o gosto pelas artes e tudo o mais. Observando sempre, COnversando com ela, cheguei à Conclusão de que ela não aprecia os CLÁSSICOS.

          — Como? A verdadeira música. A música eterna!

— É verdade. A senhora já tem sensibilidade para sentir isso. Mas, as pessoas são diferentes umas das outras. O que comove uma até as lágrimas, deixa a outras indiferentes, e a recíproca é verdadeira.

— Onde quer chegar?

— Descobri que Maria Lúcia não aprecia os clássicos, mas comove-se e adora músicas populares. Aprender a executá-las seria para ela enorme prazer.

— Ela disse isso?

— Não claramente Receia desgostá-la Ficou entusiasmada com a Celinha.

Maria Helena, cenho fechado, olhava séria e calada.

          — Disse-me que gostaria de ser como ela e alegrar uma festa.

          — Fazer ruídos Como eles fazem.

— Os Costumes estão mudando. Ela é jovem, deseja viver sua época.

— O que sugere?

          — Gostaria da sua permissão para ensinar-lhe algumas peças atuais. Terei cuidado ao escolher. Isso lhe daria prazer e incentivaria ao estudo. Depois que ela adquirir gosto, talvez desenvolva a sensibilidade que lhe falta.

Maria Helena suspirou.

— Está bem. Confio em seu bom senso. Confesso que se conseguir que ela se torne uma executora brilhante, será um milagre. Vamos ver isso.

Luciana levantou-se alegre.

— Obrigada, D. Maria Helena. A senhora é uma mulher compreensiva e inteligente. Obrigada mais uma vez.

Notando a euforia de Luciana, Maria Helena sorriu. Gostava muito dela e agradecia a Deus havê-la colocado em seu caminho.

Luciana voltou a entrar na sala de música, olhos brilhantes de prazer. Maria Lúcia a esperava.

— D. Maria Helena concordou. — disse alegre.

          — Parece mentira! Só você poderia ter conseguido isso! Qual nada. Sua mãe mostrou-se muito compreensiva.

Maria Lúcia entusiasmou-se:

— Quero aprender aquele chorinho que mexeu com todas as pessoas. Ao ouvi-lo, até os mais sisudos marcavam o compasso com os pés.

— Eu sei. Vovó tem boa coleção de Nazaré. Na próxima aula, trarei algumas para escolhermos juntas. Sabe o que faremos?

— O quê?

— Surpreenderemos a todos. Você vai escolher duas músicas e estudá-las. Quando estiver tocando bem, as executará em nosso sarau.

Maria Lúcia enrubesceu, mas seus olhos brilharam de prazer.

— Acha que serei capaz?

— Você é capaz. Resta descobrir se quer e se gosta.

— Vamos tentar. Se você diz, eu acredito.

Uma vez em casa, Luciana aconselhou-se com a avó que a

ajudou a escolher algumas músicas que, mesmo sendo populares e

estando em voga, ofereciam boas condições de desenvolvimento e

aprendizagem.

Egle entusiasmou-se:

— Agora, tenho comigo que essa menina irá apreciar as aulas. Nem todos possuem sensibilidade para sentir a música mais elaborada. Os jovens gostam de coisas alegres.

Luciana concordou satisfeita. A partir daquele dia, Maria Lúcia passou a interessar-se mais pelo piano, e sua execução melhorou sensivelmente. Luciana estava radiante. Além do mais, descobrira que Maria Lúcia possuía belo timbre de voz, muita afinação e gostava de cantar, embora tentasse não demonstrar. Com o tempo, haveria de fazê-la mudar de idéia.

Em pouco tempo, Maria Lúcia executava as duas músicas bastante bem. Um chorinho e uma valsa de Nazaré.

— Amanhã à noite, no sarau, você vai executá-la.

Apesar de um pouco assustada, os olhos de Maria Lúcia brilharam.

— Acha que conseguirei? Uma coisa é tocar só para nós, outra é estar na frente de todos. Sinto um frio no estômago. Não tenho coragem!

— Por quê? Você está tocando muito bem. Não tem que se preocupar. Ë só fazer de conta que estamos só nós duas aqui, como sempre.

— Ulisses virá?

— Ele e Jarbas nunca faltam. São os primeiros a chegar e os últimos a sair. O Jarbas só tem olhos para você.

— Eu preferia que fosse o Ulisses. Esse só olha para você.

— Um dia ele há de perceber que perde seu tempo e desistirá.

— Você não gosta mesmo dele?

         — Claro que não.

— Eu não gostaria de magoá-la. Vê-se que ele está interessado e que vocês não namoram porque você não quer.

— Não quero mesmo. Não me interesso por ele. Não pretendo namorá-lo.

— Posso tentar conquistá-lo? Você não me julgaria mal?

         — Por certo que não.

         — Sonho com ele todas as noites. Estou apaixonada.

Luciana sentiu-se apreensiva. Não considerava Ulisses capaz de fazer Maria Lúcia feliz. Jarbas seria mais indicado, possuía caráter, delicadeza e parecia sinceramente interessado nela.

— Não sente nada pelo Jarbas? Ele está apaixonado por você.

— Pode ser. Mas prefiro Ulisses. Quando ele aparece, meu

coração bate mais forte, fico trêmula. Quando danço com ele, a

emoção toma conta de mim.

         Luciana sorriu:

         — Não tem jeito mesmo.

         — Acha que ele pode interessar-se por mim?

— Claro. Entretanto, às vezes, essas coisas não acontecem como imaginamos. Sabe por quê?

— Não.

         — Porque Deus escolheu para nós coisa melhor.

         — Para mim, se Ulisses me amasse, seria a felicidade.

— Você pensa assim agora. Imagina apenas. Não experimentou viver com ele num relacionamento dia-a-dia. Deus sabe tudo e quando não nos dá o que desejamos é porque nos reserva coisa melhor.

— Gosto dele. Se ele não quiser, não caso com mais ninguém.

— Não seja radical nem injusta. Está agindo como uma criança mimada. Como pode saber o futuro? Quem nos garante que esse seu entusiasmo não acabe e amanhã apareça outra pessoa que desperte seu afeto de forma mais profunda e verdadeira do que agora?

— Não creio. Não me interesso por mais ninguém. Luciana mudou de assunto dizendo:

         — Vamos repassar essas músicas. Amanhã surpreenderemos a todos.

Maria Lúcia riu excitada. Tocar no sarau! Teria coragem?

— Imagine que o sarau já começou. Todos estão aqui, sua mãe, seu pai, Ulisses, Jarbas, todos.

— Fico tremendo só em pensar.

— Eles estão aqui, mas você vai tocar só para mim, só eu estou perto de você. Vai ser um sucesso. Vamos. Toque.

Maria Lúcia, trêmula, obedeceu e aos poucos foi se firmando e conseguiu tocar bem.

— Muito bem, — aprovou Luciana. — Vamos novamente e durante a execução vai sentir a música e mergulhar nela de corpo e alma. Nesta sala não haverá mais ninguém. Só você, a música e seus sentimentos. Não existe mais nada. Deixe-se levar e perceba o que cada nota desperta dentro de você.

Maria Lúcia começou a tocar, e Luciana continuou falando e a moça aos poucos foi se envolvendo com a melodia, sentindo vibrar de emoção, num crescendo de entusiasmo e expressão. Quando ela terminou, Luciana não conteve o entusiasmo. Beijou-a na face carinhosamente. Maria Lúcia olhou-a emocionada sem encontrar palavras para descrever o que lhe acontecera. Luciana considerou:

— Hoje, sua alma conseguiu expressar-se através da música. Sinto que daqui para frente você encontrará seu próprio caminho dentro da arte.

— Foi uma emoção muito forte. Não posso explicar. Uma felicidade, alguma coisa muito grande, muito boa, dentro de mim.

— Eu sei. Amanhã fará tudo bem, tenho certeza.

 

CAPÍTULO 13

João Henrique apressou-se. Estava impaciente para ver Antonieta. Naquela noite, pretendia falar com ela longamente. Fazê-la compreender que a situação precisava mudar. Aquela vida boêmia não tinha sentido. Não que eles não pudessem sair de vez em quando para as noitadas alegres das quais ela tanto gostava. Mas, a vida não se resumia apenas nisso. Eles haveriam de constituir uma família, viver vida regular, como todas as pessoas. Antonieta o amava muito e acabaria por compreender. Deu os últimos retoques nos cabelos e olhou-se no espelho satisfeito. Estava elegante e muito bem vestido.

Desceu as escadas apressado. Sua mãe, no hall, o interpelou:

- Vai buscar Antonieta?

- Não, mamãe. Hoje não viremos ao sarau.

Maria Helena não perdeu a oportunidade.

— Tenho a impressão de que sua noiva não gosta de freqüentar nossa casa. Nunca mais apareceu em nossos saraus.

Ele fez um gesto vago:

             - Não é isso, mãe. Temos tido alguns compromissos inadiáveis. Hoje pretendemos ficar em casa e programar nosso futuro. Temos saído muito e estamos cansados. Na semana que vem, viremos com certeza.

             - Está bem, meu filho. Fica para a outra semana. João Henrique saiu apressado. Maria Helena suspirou resignada. Nada podia fazer. Circulou pelos salões, ultimando os detalhes. Os amigos já começariam a chegar.

             Luciana estava no quarto de Maria Lúcia, observando-a en­quanto se preparava.

             - Você está linda - disse. - Esse vestido assenta-lhe muito bem.

Maria Lúcia corou de prazer.

- Eu o escolhi.

— Você tem muito bom gosto,

— Obrigada. Vamos descer. Mamãe faz questão da pontualidade

Vendo a filha aparecer no salão, Maria Helena sorriu satisfeita. Ela estava linda.

— Você está muito elegante — disse. — Luciana escolheu o seu vestido?

— Não, — apressou-se em responder Luciana. — Também gostei muito dele, D. Maria Helena. Maria Lúcia tem muito bom gosto.

Maria Helena não respondeu. Ainda tinha suas dúvidas, mas o que lhe importava era que agora sua filha estava apresentável. Qualquer mãe se orgulharia dela.

Luciana, de repente, levou a mão à testa e empalideceu.

— O que foi, não se sente bem? — indagou Maria Helena com Preocupação.

Luciana fechou os olhos por alguns instantes e não respondeu. Quando os abriu, as duas olhavam-na assustadas.

— O que foi? — perguntou Maria Lúcia.

— Nada, — balbuciou a moça. — Já passou. — Sua voz estava um pouco ansiosa ao perguntar: — João Henrique onde está?

— O que aconteceu? Por que pergunta? Não estou entendendo... — disse Maria Helena, admirada.

Ele está em casa?

— Não. Acaba de sair. Foi à casa de Antonieta.

— Ele vai precisar muito do nosso apoio. Vamos pedir a Deus por ele.

A voz de Luciana estava firme.

— O que está acontecendo? — perguntou Maria Helena, angustiada.

         José Luiz chegara e vendo-as aproximou-se curioso.

— Vai acontecer alguma Coisa que o deixará perturbado. Sinto que ele precisa de oração.

— Meu Deus! É estranho! — fez Maria Helena. — Como pode saber?

- A mãe dela costuma avisá-la das coisas – esclareceu – Maria Lúcia. – Já aconteceu antes.

Maria Helena olhou o marido sem saber o que dizer. Luciana sempre lhe parecera equilibrada.

- Vamos rezar -- pediu Luciana fechando os olhos e permanecendo silenciosa.

- Vamos rezar -- disse José Luiz com seriedade. -- A prece é sempre um bem.

Todos fecharam os olhos e permaneceram orando. Ao fim de alguns minutos, Luciana abriu os olhos dizendo:

- Graças a Deus. Ele está protegido.

Maria Helena desejava saber.

- Que perigo é esse que João Henrique corre?

- Não sei, D. Maria Helena. Senti que ele não está bem. Sofreu uma grande contrariedade. A oração ajuda muito nesses casos.

          Maria Helena olhou o marido interdita.

          - Não se preocupe - tornou Luciana - não acontecerá mais.

Os amigos começaram a chegar, e Maria Helena com o marido apressaram-se a recebê-los.

O sarau decorreu animado e várias pessoas, como habitualmente, apresentaram-se tocando, declamando poesias, cantando. Quando José Luiz preparava-se para encerrar as apresentações, Luciana levantou-se e dirigindo-se ao piano anunciou:

- Senhoras e senhores, tenho a alegria de apresentar-lhes minha aluna, Maria Lúcia, que executará modinhas de Ernesto Nazaré.

Um zunzum de curiosidade encheu a sala, enquanto Maria Helena, entre a preocupação e a surpresa, trocava olhares com o marido.

Luciana tomou Maria Lúcia pela mão e conduziu-a ao piano dizendo-lhe baixinho:

- Ficarei aqui a seu lado. Toque sentindo a música, como ontem.

A moça, um pouco trêmula, sentou-se ao piano e começou a tocar. Seu coração batia descompassado e ela pensou: “Não há ninguém aqui. Só eu e Luciana. A música e eu”.

A execução que se iniciara tímida foi se firmando, e ela tocou a valsa e ao terminar, os aplausos foram insistentes e entusiásticos.

Os olhos de Maria Helena brilhavam quando ela tocou o chorinho com graça e emoção. Quando acabou, as pessoas aplaudiam, pedindo bis ínsistentemente. Luciana disse emocionada:

— Toque de novo. Foi um sucesso.

Maria Lúcia, rosto corado, sentindo a alegria vibrar no coração, executou novamente o choro, com entusiasmo. Quando terminou, foi muito aplaudida e abraçada por todos. Maria Helena sentia-se comovida. Nunca permitira esse tipo de música em sua casa. Mas era inegável que, surpreendentemente, sua filha as executara bastante bem. Luciana era realmente milagrosa.

— Maria Helena, hoje o sarau foi muito bom. Nunca esteve tão alegre!

— Foi o melhor dos saraus! Que beleza! Estava Ótimo. Minha filha gostaria de ter vindo.

O entusiasmo e a alegria das pessoas foi grande e se referiam a Maria Lúcia com admiração e carinho.

José Luiz sentia-se feliz. Luciana transformara Maria Lúcia em uma artista. Acontecera um milagre. Aproximou-se dela dizendo:

— Você fez de Maria Lúcia uma artista.

Luciana sacudiu a cabeça.

— Não concordo. Ninguém conseguiria isso, se ela não tivesse talento. Apenas ajudei a descobrir sua verdadeira personalidade. Ainda tem mais. Aguarde novas surpresas.

— Depois desta, acredito em tudo quanto me disser. O que ainda falta acontecer?

— É segredo. Quando chegar a hora, saberá.

Maria Lúcia sorria feliz. Jarbas e Ulisses a fitavam com admiração.

— Você é maravilhosa — disse Jarbas sem conter o entusiasmo.

Estava apaixonado por Maria Lúcia. Adorava seu sorriso, o brilho de seus olhos, seu jeito meigo de dizer as coisas, a brejeirice que transparecia em alguns momentos, faziam-no supor que ela guardava ainda novos segredos que ele sentia vontade de desvendar. Não lhe passava despercebida a predileção dela por Ulisses. O amigo, no entanto, estava ardentemente apaixonado por Luciana. Esperava que com o tempo, Maria Lúcia acabasse por desiludir-se e então, ele teria sua chance.

Quando saíram, Ulisses despediu-se de Jarbas dizendo-se cansado. Fingiu ir embora, mas escondeu-se na rua próxima. Precisava falar a sós com Luciana. Não queria perder a oportunidade. Maria Helena sempre mandava o seu carro levá-la em casa. Estugou o passo e tomou um carro de aluguel para chegar depressa. Sabia onde ela morava. Desceu nas proximidades da casa e esperou. Quando a viu chegar, entrar no jardim, e o carro saiu, aproximou-se chamando-a:

- Luciana!

A moça voltou-se surpreendida.

-   Você? O que deseja?

-   Falar-lhe.

-   É tarde. Preciso entrar. Vovó está me esperando.

-   Por favor. Só um momento. Estou desesperado! Se não me quiser, faço uma loucura.

Luciana aproximou-se do portão.

-   Não seja criança. Conversaremos outra hora.

Ele agarrou a mão dela com paixão.

-   Deixe-me entrar. Abra o portão! Não agüento mais sua indiferença.

-   É muito tarde. Por favor, vá se embora. - disse ela tentando soltar a mão que ele segurava com força através das grades do portão. - Está me machucando. Não compreende que eu não desejo nada com você?

-   Por quê? Será que o entusiasmo que Maria Lúcia tem por mim a impede de me aceitar?

— Não se trata disso. Quem pôs essa idéia em sua cabeça?

— Por que não? Maria Lúcia me quer. Você faz tudo para agradá-la. Ainda não entendi por quê. Qual seu interesse por ela? Freqüentar as altas rodas? Eu tenho posição e nome. Minha família é tão importante quanto a dela. Posso dar-lhe tudo isso se me quiser.

           Luciana ficou furiosa. Sua aversão por ele aumentou. Num gesto decidido, puxou a mão e disse com raiva:

— Está enganado, Ulisses. Compreenda que não me interesso por você nem pelo seu nome de família. Deixe-me em paz.

Virou as costas e rapidamente galgou a varanda batendo na porta. Antes de entrar, ouviu-o dizer:

— Você me paga. Hei de descobrir o que está por trás desse seu interesse. Não brinque comigo. Pode se arrepender.

Luciana fechou a porta, e Egle que a esperava, abraçou-a preocupada.

— Filha, o que aconteceu?

A moça contou-lhe, e ela decidiu:

— De agora em diante, não irá sozinha aos saraus. Eu irei com você.

Luciana beijou-lhe o rosto carinhosamente.

— Obrigada, vovó. Você tem sido sempre convidada. Será bom participar.

Egle, depois da morte de Suzane, afastara-se do convívio social. Agora, percebia que não poderia abster-se. Luciana precisava de sua guarda e ela não lhe faltaria. Com entusiasmo, Luciana relatou-lhe o sucesso de Maria Lúcia.

— Dentro em pouco, ela não precisará mais de mim, — disse satisfeita.

— Você gosta muito dela.

— Gosto, vovó! É como uma flor que está desabrochando.

— Está se apegando a toda família.

— É verdade. São pessoas que admiro e respeito. Amo meu pai, admiro João Henrique, tão inteligente. Tanto ele como a mãe têm nobres sentimentos. Vovó, sinto que ele não está bem. Tive um dos meus pressentimentos. Eu o vi desesperado, apertando a cabeça entre as mãos.

— É preciso rezar, filha. Você nunca se engana.

— Faço votos que desta vez tenha me enganado. Sabe como acontece. Não pude esconder. Maria Lúcia, a mãe, meu pai notaram. Rezamos juntos.

— Vou rezar também. Nada acontecerá a ele.

As duas recolheram-se para dormir.

No dia seguinte, à tarde, a sineta da porta tocou com certa insistência. Maria Helena entrou assim que a criada abriu. Egle recebeu-a gentilmente.

— Desculpe vir sem avisar, — disse ela após os cumprimentos. — Estou muito nervosa. Posso falar com Luciana?

         — Claro.

         Luciana atendeu prontamente.

         — D. Maria Helena, o que aconteceu?

— Preciso da sua ajuda. João Henrique desapareceu. Não voltou para casa ontem à noite. José Luiz saiu para procurá-lo. Foi imediatamente em casa de Antonieta e lá recebeu a informação de que a casa estava vazia. Ela havia viajado sem dizer para onde. Estamos aflitos.

Luciana olhou para a avó preocupada.

         — Ele teria viajado com ela? — perguntou Egle.

— Pensamos que não. Saiu com a roupa do corpo e sequer dispunha de dinheiro para isso. Luciana, você pressentiu que algo ia acontecer. Pode nos ajudar?

— Sente-se, D. Maria Helena. Vamos pensar com calma, confiar em Deus.

Maria Helena sentou-se dizendo:

— Não sabemos o que realmente aconteceu. Se ela partiu sem avisá-lo, ele deve estar desesperado. Infelizmente, nos últimos tempos, vive obcecado por essa mulher. Temo que cometa alguma loucura.

—   Deus não há de permitir — tornou Egle. — Talvez ele esteja em casa de algum amigo, tenha bebido um pouco a mais, sabe como são essas coisas.

—   Pensamos nisso. José Luiz esteve com seus amigos e ninguém sabe dele.

—   A senhora o viu ontem quando saiu? — inquiriu Luciana.

—   Sim. Pedi-lhe para trazer Antonieta ao nosso sarau. Ele respondeu que pretendiam ficar em casa conversando, estavam cansados, viriam na próxima semana.

—   Está claro que ele não sabia que ela pretendia viajar.

—   Isso é o que me preocupa. Se ela o deixou dessa forma, ele deve estar desatinado.

—   Vamos pedir ajuda a Deus — sugeriu Egle. — Ele tudo sabe e tudo vê. Por certo virá em nosso auxilio.

—   Tem razão, vovó.

         — Vamos para nossa saleta, — propôs ela.

 Acomodadas em agradáveis poltronas na sala graciosa, Egle proferiu uma prece, pedindo a ajuda de Deus. Quando ela se calou, Luciana levantou-se e aproximando-se de Maria Helena colocou a mão direita sobre sua testa dizendo com voz suave:

— Acalme seu coração. A desilusão é força que muitas vezes se manifesta com violência, parecendo arrasar tudo por onde passa. Contudo, ela traz consigo a revelação da verdade, que com o tempo fará renascer em seu lugar, as flores da alegria e do bem. Guarde seu coração em paz. Confiemos em Deus.

Luciana sentou-se e abriu os olhos.

         — Sente-se melhor? indagou EgIe.

         — Sim, respondeu Maria Helena. A prece fez-me muito bem.

— Vamos tomar um chá. A mensagem foi de confiança —disse Egle saindo para providenciar.

— O que ela quis dizer? — perguntou Maria Helena.

         — Que precisamos confiar. Deus nos ajudará.

— Isso eu sei. Mas o que precisamos fazer? Quero encontrar João Henrique.

— Vamos tomar o chá — disse Luciana. — Se tivermos que fazer alguma coisa, Deus nos guiará.

Maria Helena olhou-a admirada. De que forma Deus as guiaria? Notou que Luciana estava um pouco diferente. Seus olhos pareciam fixos em um ponto distante. Guardou silêncio. Egle serviu o chá e ao estender a xícara para Maria Helena disse:

— Beba, D. Maria Helena. Vai fazer-lhe bem.

Serviu-se por sua vez, mas não se dirigiu a Luciana. As duas tomaram o chá em silêncio. Depois de alguns minutos, Luciana deu um salto do sofá.

— Eu sei onde ele está — disse.

         — Sabe? — indagou Maria Helena, admirada.

         — Sim. Vamos buscá-lo. Está com o carro aí?

         — Estou.

         — Então vamos.

— Vou com vocês — disse Egle saindo para apanhar a bolsa e o chapéu.

Com o coração aos saltos, Maria Helena as acompanhou. Parecia-lhe loucura agir assim, mas Luciana estava decidida. Uma vez no carro, Maria Helena perguntou:

— Onde ele está?

Vi o lugar, mas não sei onde fica. Não se preocupe, mamãe está aqui e nos guiará.

 E dirigindo-se ao motorista disse:

          — Pode seguir até o fim da rua e virar à direita.

Maria Helena sentiu-se inquieta. Era loucura. Um morto não podia aparecer assim, sem mais aquela e ensinar as coisas. Olhou a fisionomia de Egle e ela estava calma. Acreditaria naquilo?

Egle olhou-a e vendo-lhe o olhar perturbado, disse com um sorriso:

— Não se preocupe. Luciana sabe o que está fazendo. Vamos ajudar com nossa oração e confiança em Deus. O mais importante é encontrar seu filho. Não é isso o que quer?

— Sim. É isso o que eu mais quero no mundo.

— Então reze e confie.

Maria Helena obedeceu. Rezou de todo coração pedindo ajuda para João Henrique. Luciana imperturbável dizia ao motorista por onde deveria ir. Passaram marginando as praias. O local era deserto e as casas tinham ficado para trás. Luciana pediu:

— Bem devagar, por favor. Deve ser por aqui.

— Santo Deus, não há viva alma!

— Calma, D. Maria Helena. Vamos encontrá-lo. Pare aqui, por favor. Vamos descer e dar uma olhada. Ele está sentado no chão, encostado em uma pedra.

— Santo Deus, — gemeu Maria Helena, assustada.

Luciana saiu do carro e as duas a seguiram. O terreno era irregular, e o mar bramia com certa violência. Ao passarem por uma das rochas que havia no local, elas depararam com João Henrique. Sentado no chão, encostado em uma elevação do terreno, olhos fechados parecendo dormir, roupas em desalinho, sujo e descomposto, lá estava ele.

Maria Helena não se conteve:

— Meu filho! Deus do céu, o que aconteceu?

Debruçou-se sobre ele chamando-o com insistência. Ele não acordava. Egle tornou:

— Vamos chamar o motorista e colocá-lo no carro.

Luciana foi até o mar e tirando uma echarpe que trazia ao pescoço, molhou-a e torcendo-a voltou colocando-a sobre a testa do moço. Ao contato da água, ele abriu os olhos um tanto alheio.

— Graças a Deus. Meu filho, fale comigo, o que aconteceu?

Ele olhou-as incerto, e Luciana disse com voz firme:

— Está tudo bem, João Henrique. Tudo bem. Vamos para casa. Você precisa de repouso.

Ele fez menção de levantar-se, mas não conseguiu. Luciana passou seu braço sob o dele dizendo:

— Apóie-se em mim. Vamos para casa.

Maria Helena ia dizer algo, mas Luciana fez-lhe sinal para que se calasse. Ela obedeceu. Auxiliado pelas três, ele conseguiu erguer-se e caminhar lentamente para o carro.

Luciana conversava com ele repetindo que tudo estava bem. Vendo-o acomodado no carro entre a mãe e Luciana, Egle sentada na frente ao lado do motorista disse com alegria:

— Em nosso coração só deve haver a satisfação do reencontro. Os esclarecimentos virão depois, quando for oportuno. Não nos esqueçamos da gratidão. Vamos pensar em Deus.

Maria Helena fechou os olhos e silenciosamente começou a rezar.

 

CAPÍTULO 14

Maria Helena apanhou a xícara de chá que Egle lhe estendia.

— Beba, D. Maria Helena. Seu filho ficará bom, tudo vai passar.

— O que teria acontecido? — indagou ela não escondendo a preocupação.

— O médico acredita que ele tenha sofrido alguma emoção forte. Está em choque. O calmante que lhe deu o fará dormir algumas horas e quando acordar, tudo terá passado.

Maria Helena colocou a xícara sobre a mesinha próxima e apanhando a mão de Egle disse comovida:

— Nunca esquecerei o que estão fazendo por nós. Luciana tem sido o anjo bom que transformou nossa casa. O que ela fez hoje foi inacreditável. Como podia saber onde ele estava?

— Há pessoas que possuem a faculdade de perceber além dos cinco sentidos físicos.

Luciana tem sensibilidade.

— Nunca pensei que isso existisse. Agora sei. O que aconteceu foi um verdadeiro milagre.

— Deus ajuda sempre. Seu filho é um moço bom.

Maria Helena ainda estava trêmula. Apesar do médico haver dito que ele parecia ter apenas um abalo nervoso e que logo estaria bem, ela sentia-se angustiada. Só se acalmaria quando o visse em seu estado normal. Fez menção de levantar-se e Egle pediu:

— Descanse um pouco. Tome mais chá. Far-lhe-á bem. João Henrique dorme, Luciana e Maria Lúcia estão velando. Qualquer coisa nos avisarão. A senhora está muito nervosa. Procure recuperar-se.

Maria Helena obedeceu. Precisava ficar bem para cuidar do filho.

— Tenho certeza de que aquela cantora lhe pregou uma peça. Vai ver que viajou e sequer o avisou. Ele saiu ontem tão animado! Tenho certeza de que ignorava a partida dela.

— Pelo que sei, ele estava muito apaixonado.

— Obcecado, D. Egle. Só pensava nela. Tanto eu como José Luiz pressentimos que esse noivado não ia dar certo. Mas ele quis e com tal veemência que resolvemos contemporizar.

— Sábia decisão. A paixão tolda a razão. A vida sempre corrige nossos enganos, mas a desilusão é difícil de superar. João Henrique precisará de todo apoio e carinho.

— Por certo. Depois do que ela lhe fez, o rompimento será inevitável.

— O tempo cura todas as feridas. Um dia ele encontrará um amor de verdade e será feliz.

— Deus a ouça. É só o que eu peço, sua felicidade.

No quarto de João Henrique, enquanto ele dormia, as duas moças velavam, trocando idéias em voz baixa.

— O que terá acontecido? — conjeturou Maria Lúcia. —Papai disse que Antonieta viajou e ninguém sabe para onde. Suspeita-se que tenha deixado o Brasil. Ontem à noite saiu um vapor rumo à Europa. Ela pode ter seguido nele.

— Pobre João Henrique, que desilusão! — considerou Luciana. — Ele é louco por ela.

— Tem paixão. E agora, como vai ser?

— Ele é um homem. Sofrerá, mas há de superar. Talvez tenha sido melhor assim. Um casamento com Antonieta não ia dar certo. Eles são muito diferentes. A separação seria inevitável.

A criada havia ido ao banheiro apanhar a roupa de João Henrique para lavar e apareceu no quarto com alguns objetos.

— Estavam nos bolsos — disse — colocando-os sobre a cômoda.

Maria Lúcia aproximou-se dizendo:

— Veja Luciana, há uma carta amarrotada. Vamos ver o que diz.

Luciana aproximou-se também.

          — Pode nos esclarecer. Abra.

Maria Lúcia abriu e as duas leram: “João Henrique. Preciso partir. Embora goste de você, não consigo suportar a vida burguesa do Rio de Janeiro. Tenho necessidade dos aplausos, da platéia, dos amigos, do brilho, das noitadas alegres. Não sou a mulher que você sonha. Voltarei ao palco. Vou em busca de tudo que eu sempre amei. Perdoe-me e não me procure mais. É definitivo. Um dia encontrará outra que se contente em viver para o lar e para a família. Seja feliz. É o que eu desejo. Adeus. Antonieta. Ps. Não insista. Ninguém lhe dará meu endereço. Quero que seja assim”.

As duas olharam-se. Então fora isso. Ela o abandonara definitivamente.

— Vamos mostrar a D. Maria Helena, — sugeriu Luciana.

— Vá você. Eu fico ao lado dele.

Luciana pegou a carta, dirigiu-se a outra sala e aproximando-se de Maria Helena estendeu-lhe o papel em silêncio. Ela leu e passou-o a Egle.

— Foi o que suspeitei. De certa maneira, foi melhor assim. Finalmente ela se revelou. José Luiz previu isso.

— Ela foi sincera — reconheceu Egle. — Antes assim.

— Sequer se deu conta do mal que fez a meu filho. Brincou com os sentimentos dele. Nunca pretendeu abandonar a vida que levava.

Pelos olhos de Egle passou um brilho de emoção quando considerou:

— Talvez estejamos sendo muito rigorosos com ela. João Henrique é um belo homem, pode tê-la atraído realmente. Entretanto, as emoções do palco são muito fortes. Ao que sei, quem as experimenta, dificilmente consegue abster-se. Nota-se que ela ficou dividida entre o amor e a carreira. Optou por sua vocação artística.

— Porque não o amava o bastante — tornou Maria Helena.

— Talvez. A paixão pelo palco foi maior. Seja como for, ela foi sincera.

— Melhor assim, D. Egle. Dói-me vê-lo sofrendo deste jeito, mas se o casamento se consumasse, se houvesse filhos, seria pior.

— Certamente.

—  Luciana voltou ao quarto e sentou-se ao lado de Maria Lúcia, fazendo-lhe companhia na vigília. José Luiz avisado, chegou pouco depois. Na sala, com Egle, Maria Helena contou-lhe tudo, emocionando-o. Maria Helena considerou:

— Coisas estranhas aconteceram hoje. Foi um verdadeiro milagre. A maneira como Luciana nos conduziu, encontrou o local onde João Henrique estava, foi impressionante. Ela fez isso com naturalidade, sem nervosismo ou como se alguém invisível a orientasse. Maria Lúcia nos contou que ela vê a alma de sua mãe, que a orienta e ajuda.

José Luiz lutou para reter as lágrimas.

— É verdade isso, D. Egle? Ela vê a mãe e conversa com ela?

— Sim. Ela e a mãe tinham muita afinidade. Quando Suzane morreu, Luciana estava com quatorze anos. Nos primeiros dias, chorava muito, sentia saudades. Até que um dia, ela lhe apareceu. Disse-lhe que estava bem e que não devia chorar. Prometeu-lhe visitá-la sempre. E tem cumprido sua promessa. Quando temos algum problema, ela sempre aparece.

— É extraordinário! — comentou Maria Helena — Nunca pensei que fosse possível. E a senhora não se preocupou vendo-a às voltas com essas coisas?

— Fiquei atenta. Sei que a vida continua depois da morte do corpo, em Outros mundos. Mas procurei certificar-me de que era mesmo Suzane.

— E obteve a confirmação? — indagou José Luiz, ansioso.

— Sim. Inúmeras vezes, ela identificou-se dizendo coisas que Luciana desconhecia e que só eu sabia. Algumas delas do passado, que nem ela, Suzane, soubera em vida.

— Não lhe pareceu uma coisa mórbida para uma jovem, relacionar-se com a alma de sua mãe? — inquiriu Maria Helena.

Egle sorriu e sacudiu a cabeça negativamente.

— Essa relação nunca foi mórbida. Suzane é alegre e muito Sensata. O fato dela estar vivendo em outro lugar não a modificou. Os senhores podem observar. Luciana é moça equilibrada, inteligente. A proximidade de Suzane só a ajudou. Acrescentou conhecimento, percepção, enriqueceu. Sua influência é saudável e nos transmite muita alegria e paz.

Maria Helena abriu a boca e fechou de novo, não encontrando palavras para dizer. Foi José Luiz quem considerou:

— Uma vez, Luciana fez menção a isso, mas para ser franco não acreditei.

— Agora, depois do que houve hoje, seria bom começar a pensar e compreender o que Shakespeare já dizia há séculos: “Há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”. — respondeu Egle.

— É verdade — concordou José Luiz. — Diga-me, D. Egle, a senhora também a vê?

— Infelizmente não. Adoraria. Mas, não tenho essa felicidade.

— Apreciaria muito poder vê-la, conversar com ela —observando os olhos de Maria Helena fixos nele, explicou — seria interessante. Gostaria de agradecer-lhe o que fez por João Henrique.

— Faça isso, Dr. José Luiz, ore por ela. Os espíritos percebem nossos pensamentos.

Apesar dos acontecimentos, o ambiente da casa era tranqüilo. O moço dormia ainda e as duas moças permaneciam velando. Só concordaram em jantar depois que os demais já o haviam feito, e Maria Helena com Egle as substituíram.

José Luiz, na sala, tinha um livro aberto entre as mãos, que fixava sem ler. Seus pensamentos divagavam. As saudades de Suzane doíam. Recordava os velhos tempos e nunca seu amor por ela esteve tão presente. Ah! se ele pudesse vê-la por um instante que fosse! Seu sorriso lindo, seus olhos emotivos e belos! Abraçá-la de novo, ouvir-lhe a voz! Se pudesse dizer-lhe o quanto se arrependia das atitudes passadas, o quanto ainda a amava... Mas ele não merecia e pelo resto da vida arrastaria o remorso e o arrependimento.

Fundo suspiro escapou-se-lhe dos lábios.

— Não desanime. Procure amar as pessoas, torná-las felizes. É o melhor caminho para conquistar felicidade.

José Luiz abriu os olhos, e Luciana estava diante dele.

— Por que me diz isso? — indagou ligeiramente surpreendido.

— Não sei. ia passando e pediram para dar-lhe este recado.

Vendo que Maria Lúcia se demorava na copa e que Luciana estava só, não se conteve:

— Foi Suzane!

— Foi.

José Luiz sentiu aumentar a emoção.

— Daria alguns anos de minha vida para vê-la ainda que por um momento.

— Acalme-se. Ela sabe o que se passa dentro do seu coração. Procure entender seu recado. Ela só deseja a felicidade de todos.

Vendo Maria Lúcia aproximar-se, José Luiz disse com naturalidade:

— Deve ser emocionante poder prever as coisas e ver o que está oculto à maioria.

Luciana sorriu:

         — É uma condição como outra qualquer.

Maria Lúcia abraçou Luciana com carinho:

— Ela é uma fada escondida. Só exibe seus poderes de vez em quando.

Todos riram e enquanto as duas moças voltavam ao quarto de João Henrique, José Luiz permaneceu pensativo.

Seria mesmo possível conversar com os que já morreram?

Não estariam sendo vitimas de uma alucinação? A figura de Suzane acudiu forte em sua lembrança. A recordação foi tão viva que, de repente, ele sentiu uma onda de perfume no ar.

Imediatamente reconheceu: era dela!

— Suzane — pensou. — É você? Que saudade!

Enterrou a cabeça entre as mãos, deixando que as lágrimas

corressem livremente. Jamais poderia esquecer. Se ela estava viva

em outro mundo, se ela estava ali naquele instante, teria algum dia

a chance de encontrá-la de novo? Também vou morrer — pensou.

         — Irei para onde ela está?

Abriu os olhos e procurou controlar-se. E se alguém o surpreendesse em crise? Ninguém a não ser ele mesmo fora culpado pela sua dor. Devia agüentar sozinho as conseqüências dos seus enganos. Lembrou-se das palavras de Luciana:

— Não desanime. Procure amar as pessoas, torná-las felizes. É o melhor caminho para conquistar a felicidade.

Teria mesmo sido um recado de Suzane? Preocupar-se com ele, com sua felicidade, era bem típico da sua nobreza de alma. Como poderia ser feliz sem ela? Lembrou-se de seus filhos.

Amava-os. Quanto a Maria Helena, respeitava-a. Mas, amor, era outro sentimento. Não seria loucura continuar amando uma morta?

Ele estava vivo e ansiava por afeto.

         Suspirou fundo e levantou-se. Maria Helena e Egle estavam diante dele.

— Desculpe — balbuciou contrafeito. — Não as vi chegar. Fiquei perturbado com o que aconteceu.

Egle aproximou-se sorrindo com suavidade.

João Henrique está bem — disse. Uma desilusão amorosa dói, mas passa. Ele é jovem. Vai refazer-se.

—  Assim espero. — considerou Maria Helena.

José Luiz sacudiu a cabeça.

—  Não sei... As vezes marcam pelo resto da vida.

        Ele pensava em seu amor por Suzane. Egle não disse nada. Ela se lembrava que sua filha também nunca conseguira esquecer.

Era tarde da noite quando João Henrique acordou. Remexeu-se no leito e apesar dos olhos abertos ainda parecia um pouco alheio.

Maria Helena aproximou-se solícita, fixando-o com amor. Estava só no quarto. Egle e Luciana haviam se retirado e os demais dormiam. Ela recusara o oferecimento das duas moças para passarem a noite velando. Quando João Henrique despertasse, ela queria estar a seu lado, apoiá-lo e verificar a profundidade da ferida.

De repente, ele sentou-se no leito assustado.

— Mãe? O que aconteceu?

— Nada, meu filho. Está tudo bem. Você está em sua cama, e eu estou aqui.

Ele passou a mão pela testa como querendo afastar um pensamento ruim.

— Mãe! Então foi isso! Estava dormindo! Tive um pesadelo horrível. Ainda bem que acordei. Que susto!

Maria Helena tentou ocultar a preocupação.

— Seja o que for, agora tudo passou.

Ele insistiu:

— Tive um pesadelo terrível. Sonhei que Antonieta havia partido, me abandonado. Foi sonho, não foi? — indagou num misto de ansiedade e esperança.

Maria Helena não respondeu.

— Saí de casa feliz para vê-la. Mas quando cheguei lá, ela havia partido. Resolvera voltar ao palco. Deixou-me uma carta de despedida. Mãe, responda, por favor! Diga que eu sonhei e que isso não aconteceu! Que a carta tão cruel não existe!

Maria Helena baixou os olhos sem coragem para falar.

— Por que não responde? Aconteceu mesmo? Ela me deixou? Foi verdade? A carta, onde está. Levantou-se e, embora atordoado ainda, tentou encontrá-la. Maria Helena tentou fazê-lo deitar-se novamente.

— Calma, meu filho.

— Eu quero a carta.

— Sei onde ela está. Só vou entregá-la se se acalmar. Deite-se. O médico deu-lhe um calmante. Não está em condições de levantar-se.

— Está bem. Quero a carta.

— Acomode-se. Tente acalmar-se. Vamos, relaxe um pouco o corpo.

          — Não estou doente. Quero a carta.

— Vou buscá-la. Estava no bolso de sua calça que foi para lavar.

Maria Helena tirou-a da gaveta e entregou-a ao filho. Ele apanhou-a e aproximou-a do abajur. Maria Helena apreensiva observava os ritos de dor e o nervosismo dele enquanto lia. Ao terminar, deixou-se cair na cama desalentado.

— Tudo acabado! — disse num sopro. — Ela não me quer mais!

— Precisa compreender e aceitar. Ela escolheu livremente.

— Ela disse que me amava! Como pôde esquecer tudo e partir para o mundo da fantasia que é o palco?

— Ela é uma artista! O palco é a vida do artista!

          — Mas eu dei-lhe todo meu amor! Ela parecia tão feliz! Maria Helena não respondeu. Sabia que sequer seria ouvida.

Melhor deixá-lo desabafar a desilusão, o desapontamento. João Henrique sempre fora sensato, equilibrado. Com o tempo, refletiria melhor e acabaria por aceitar os fatos.

Com carinho alisou-lhe os cabelos enquanto ele extravasava seu desgosto. Durante mais de uma hora, ele se lamentou, até que exausto, adormeceu. Maria Helena sentiu-se mais calma. Acomodou-se no sofá e pensou:

— Amanhã será outro dia. — Apesar da preocupação, no fundo sentia alivio. Ficar livre de Antonieta fora Ótimo. Um dia seu filho encontraria uma boa moça, digna dele, e seria feliz. Pensando assim recostada nas almofadas adormeceu.

 Nos dias que se seguiram, João Henrique não saiu do quarto. Caiu em grande depressão. Ninguém e nada conseguia interessá-lo. Maria Helena, José Luiz, Maria Lúcia tentaram fazê-lo deixar o quarto, sem êxito. Maria Helena comentou com o marido:

- Faz uma semana que ele não sai do quarto, mal toca nos alimentos e permanece na cama, apático, triste, distante. Não é natural! Precisamos fazer alguma coisa! Desse jeito ele adoecerá de verdade.

- Tem razão -- concordou José Luiz. -- Já era para ter melhorado.

— Devemos chamar o médico novamente?

José Luiz balançou a cabeça:

- Não vai adiantar. Ele vai receitar outro calmante e pronto.

- Maria Lúcia e Luciana fizeram várias tentativas de interessá-lo em algumas coisas, inutilmente. Parece que ele nem as vê.

José Luiz não pôde furtar-se a uma sensação de tristeza. Uma vez ouvira um padre dizer que os filhos pagam pelos pecados dos pais. Antonieta causara a seu filho a mesma dor que ele provocara em Suzane. Seu sentimento de culpa apareceu mais forte, aumentando sua depressão. Teria que arcar com mais esse remorso?

Acabrunhado, José Luiz não teve ânimo para responder. Era inegável que o problema do filho reavivava a ferida que ele trazia no coração. Se ao menos pudesse fazer algo para melhorar as coisas, sentir-se-ia mais confortado. A sensação da própria impotência o deprimia, a culpa sufocava-o. Não era justo que os outros sofressem pelo seu erro. Seu filho não merecia ser punido. Era um moço correto e idealista. A vida era cruel e vingativa!

Sentindo-se oprimido e triste, resolveu andar um pouco. Passava das dez, mas ele sequer percebeu. Saiu a pé e caminhou durante algum tempo. Pensou em Suzane. Se fosse verdade que ela vivesse em outro mundo, talvez tivesse respostas às suas indagações.

Ela falava com Luciana, poderia falar com ele também. Sentia necessidade de conforto, de esclarecimento de compreensão. Dirigiu-se à casa de Luciana, sem pensar no adiantado da hora. Apesar de já se terem recolhido, Egle recebeu-o com carinho.

— Desculpe incomodar — foi dizendo ele assim que ela abriu a porta. — Estou muito triste. Gostaria de conversar com Luciana.

Egle fixando-lhe o rosto atormentado sugeriu.

— Entre. Sente-se. Vou chamá-la. Aceita uma xícara de chá enquanto espera?

— Obrigado. O que eu quero é conversar. Quero saber de Suzane. Estou desesperado.

— Acalme-se. Desesperar-se não o ajudará em nada. Venha. Vou servir-lhe um chá, e Luciana virá num instante.

— José Luiz deixou-se cair em uma poltrona, e Egle dirigiu-se à cozinha. Depois de alguns minutos, voltou com uma xícara fumegante que colocou nas mãos dele dizendo:

— Beba. Far-lhe-á bem. Vou avisar Luciana.

José Luiz começou a tomar o chá e sentiu um calor agradável no corpo. A sala aconchegante, a atenção e a solicitude de Egle, deram-lhe de pronto agradável sensação de bem-estar.

Quando Luciana chegou, ele sentia-se mais calmo. Retribuiu o beijo que ela lhe deu na face com carinho.

— Desculpe. Já é tarde. Estou muito triste hoje. Há pessoas como eu que só causam dor e não merecem viver.

Luciana olhou-o surpreendida.

— Não diga isso! Por favor!

— É verdade. Sou o culpado de tudo. Meu filho está sofrendo por minha culpa. Estou sendo punido!

— Não estou entendendo — murmurou Luciana, sentando-se no banquinho em frente ao pai, segurando as mãos dele e olhando-o nos olhos, procurando sentir o que ele desejava expressar.

— Eu fiz Suzane sofrer. Eu a abandonei depois de havê-la iludido. Eu fui muito pior do que Antonieta. Ela seguiu sua vocação, eu fiz isso por dinheiro, posição! Eu sou culpado. Meu filho está sendo castigado por minha culpa. Minha dor é maior porque feri um inocente. Eu deveria pagar, não ele! Isso é injusto.

Luciana fixou-o incrédula:

— Você acredita nisso mesmo? Acha que João Henrique está sendo punido por sua culpa?

          — Sim. Só pode ser isso. Ele é um moço bom, e nada fez para merecer. Eu, sim, estraguei a vida de várias pessoas, inclusive de sua mãe e a sua. Acha que posso suportar o peso da culpa depois disso?

Luciana balançou a cabeça negativamente.

— Isso não pode ser. Você, um homem inteligente, como pode pensar dessa forma? Como pode ofender assim a bondade de Deus? Seu orgulho o cega a ponto de julgar-se o centro do universo?

José Luiz olhou-a surpreendido. A voz de Luciana era enérgica e firme. Ele não encontrou palavras para responder. Ela prosseguiu:

— Por que é tão cruel consigo mesmo? Por que é tão rigoroso em seu julgamento? Por que exige de si mesmo uma atitude que ainda não tem condições de assumir? Você é humano, e um ser humano é limitado, passível de erros. Errou e vai errar outras vezes ainda, isso é natural no estado de evolução em que nos encontramos. Embora desejando fazer o melhor, seria muita pretensão admitir que já possuímos a habilidade de acertar sempre. Você escolheu o que lhe pareceu melhor naquela ocasião. A vida não lhe ofereceu tudo ao mesmo tempo. Era uma coisa ou outra. Você queria as duas. Quis ludibriar a vida, pretendendo ir além do que ela lhe deu. Optou por uma, mas não desistiu da outra. A vida é livre. Não se deixa manipular. E você nunca se conformou com isso. Ficou frustrado. Se houvesse escolhido a outra opção, teria se conformado em não possuir a posição que hoje ocupa? Como aceitaria a viuvez? Não estaria se culpando por haver perdido o que tem hoje?

José Luiz olhou-a um pouco pálido.

          Está sendo muito dura comigo.

Ela abanou a cabeça:

— Não. Estou tentando mostrar-lhe a verdade. Você ficou dividido a vida inteira. Chorando um amor impossível, deixando passar a felicidade que a vida lhe ofereceu e está lhe oferecendo agora.

— Sinto-me deslocado. Amo Suzane. Ë ela que eu quero!

— Não banque a criança caprichosa. Sabe que isso é impossível no momento.

          — Se ao menos João Henrique estivesse bem...

          — Ele está. Cada pessoa atrai para si as experiências que necessita para desenvolver seus potenciais e alcançar a maturidade. O que aconteceu com ele nada tem a ver com seus problemas passados. Cada um é responsável pelo próprio destino. Atrai sempre de acordo com o que irradia. João Henrique estava iludido. Antonieta não era a mulher que ele imaginava. Tinha outros interesses. Após uma ilusão, a desilusão é fatal. A verdade aparece e recicla conceitos, idéias e até sentimentos. É da vida. Ninguém é culpado por isso. A maturidade do ser é objetivo da natureza. E ela se conquista dentro desse processo, na vivência, na experiência nem sempre agradável, porém adequada, perfeita. Deus não erra, por isso, tudo quanto ele faz está certo e é para o bem. — Antonieta de fato não era mulher para ele. Um dia, ele teria que descobrir. Ele está sofrendo. Dói-me vê-lo tão diferente do que sempre foi. Fiquei imaginando o que Suzane sofreu, abandonada, com um filho para nascer. Ë isso que torna aguda minha culpa!

— Isso já aconteceu e nada que fizer pode alterar esse fato. O tempo não volta. Contudo, eu já lhe disse, mamãe nunca amou outro homem, mas jamais foi triste. Aceitou com coragem o que a vida lhe ofereceu e procurou ser feliz com o que possuía. Cantava, sorria, distribuía amor e carinho onde quer que fosse. Jamais guardou mágoa ou ressentimentos. Compreendeu, aceitou. Posso garantir-lhe que fomos felizes apesar do que lhe aconteceu.

— Ela era uma mulher excepcional!

— Era uma mulher lúcida, inteligente. Tornava o momento presente sempre o mais importante. Fazia tudo com alegria. Não se lamentava, não se posicionava como vitima, nem procurava culpados para justificar o que lhe acontecera.

— Era uma mulher forte!

          — Como qualquer pessoa.

          — Eu sou um fraco.

          — Não acredito na sua fraqueza. O que faz pensar assim é o excesso de auto-piedade. É o hábito de mimar-se querendo fugir à responsabilidade de viver. Por que se coloca como um ser incapaz, desprovido de energia, para tomar conta de sua própria vida? Por que se subestima? Você foi forte bastante para assumir sua ambição, seu desejo de ser socialmente um vencedor, agora, que experimentou essa satisfação e ela não lhe deu tudo quanto sua alma quer, por que se acovarda? A força que usou naquele tempo, ainda está ai dentro de você. É só direcioná-la para um objetivo que lhe dê mais alegria. Não existe fraqueza. Ninguém é fraco. É só medo de escolher novos objetivos e seguir adiante.

-   Tudo acabou para mim depois que Suzane se foi.

-   Se você escolhe ser infeliz, eu lamento. Se quisesse, tudo poderia ser diferente.

Luciana largou a mão dele que segurava entre as suas e levantou-se. Ele levantou-se por sua vez abraçando-a suavemente.

— Não me abandone. Sinto que preciso de você. Eu a quero

muito.

Luciana olhou-o com olhos brilhantes de emoção.

-   Eu também o quero muito, -- disse com doçura.

José Luiz apertou-a nos braços com carinho.

-   Você fala como se eu fosse dono do mundo. Como se eu pudesse mudar as coisas, como se minha felicidade dependesse só de mim... Não é bem assim...

Ela afastou-se um pouco segurando seus braços e olhando-o nos olhos:

-   Só é assim. Você é dono do seu pensamento, da forma como escolher acreditar, assim será.

— Não posso mudar os fatos passados.

— Não pode mesmo. Mas pode perceber que eles não

existem mais e que será inútil revivê-los. A vida é como é, e

ninguém conseguirá manipulá-la. Por isso, esquecer o que já foi, é

uma escolha sábia e proveitosa.

-   Como esquecer Suzane? O que fazer com a saudade?

— Esquecer o passado não significa esquecer as pessoas que amamos. Eu nunca a esqueci e também sinto saudade. Mas esquecer coisas desagradáveis, enganos, situações que já não podemos modificar é necessário. Por outro lado, como eu já lhe disse uma vez, enquanto se ilude e se emaranha no passado, sequer percebe o quanto poderia ser feliz agora, no momento presente.

— Você já me disse isso.

— É verdade. Gostaria que percebesse que a felicidade é conquista de cada minuto, na intimidade da nossa alma, sentindo-a em cada coisa, em cada instante, em todos os momentos de nossa vida. Fazer-se feliz é um poder do homem consciente, lúcido, que sabe perceber a grandeza e a beleza de cada instante para conservar esse estado de alma vivendo o presente. É buscar a alegria, a essência a luz, a dignidade, o amor. A vida nos oferece tudo isso, o tempo todo. É preciso irradiar, sentir, escolher, para Conquistar.

-  Ouvindo-a dizer essas coisas, sinto-me encorajado. Gosta­ria de acreditar.

Ela sorriu alegre:

-   É só experimentar Este nosso encontro hoje é um mo­mento feliz.

-   É verdade. Você tem o dom de acalmar e devolver-me a coragem de viver.

-   Para viver não é preciso coragem, só alegria. É ter olhos para enxergar a verdade.

Continuaram conversando mais algum tempo e quando José Luiz se despediu, sentia-se bem melhor. Luciana acompanhou-o até a varanda, e José Luiz abraçou-a beijando-lhe o rosto com carinho.

-   Obrigado, - disse. - Deus a abençoe.

Ela sorriu satisfeita e entrou em casa fechando a porta. José Luiz saiu, entrou no carro e foi para casa. Nenhum dos dois percebeu que alguém observava a cena entre a surpresa e o rancor.

-   Então é isso! Bem que eu suspeitei que havia algo para ela me desprezar. Pudera! Ela já tem um amor. Há quanto tempo se encontrariam na calada da noite? E a avó? Com certeza encobria tudo. Ruminando sua decepção, Ulisses voltou para casa.

Por que não percebera antes? Lembrava-se agora que, sem­pre ao referir-se a Luciana, os olhos de José Luiz brilhavam de maneira especial. Sempre a elogiava.

Pobre D. Maria Helena. Enganada despudoradamente Sorriu levemente. Agora, de posse desse segredo, as coisas haveriam de mudar. Luciana não mais o recusaria. Claro que ele agora não precisaria chegar ao casamento. Sabia como conseguir o que queria.

 

CAPÍTULO 15

Maria Helena entrou no quarto do filho com um sorriso nos lábios e disposição. Enquanto abria as janelas, foi dizendo:

— Bom dia, meu filho. Está um lindo dia, cheio de sol. É hora de você sair desse quarto. Chega de cama. Vamos, levante-se.

João Henrique levantou a cabeça contrariado, passou a mão pelos cabelos e tornou a mergulhar no travesseiro.

A voz de Maria Helena tornou-se súplice:

— Vamos, meu filho. Não deixarei que fique deitado nem mais um minuto. Você nunca foi preguiçoso.

— Deixe-me em paz — resmungou ele.

— Você não pode continuar fechado nesse quarto. Precisa reagir. Vamos, levante-se.

Ela tentou puxar as cobertas.

— Pare com isso — disse ele com raiva. — Se insistir, vou para a rua e não volto mais. Deixe-me em paz.

Maria Helena sentiu que ele falava sério. Fez um gesto de desalento e sentiu vontade de chorar. Controlou-se a custo. Saiu do quarto sentindo que não conseguia reter as lágrimas.

Luciana e Maria Lúcia a encontraram prostrada, na sala de estar.

          — D. Maria Helena, a senhora está triste. Aconteceu alguma coisa?

          — João Henrique não quer sair do quarto. Tentei ajudá-lo, mas ele ameaçou ir embora de casa. Ele está transtornado! Aquela mulher desgraçou nossa vida!

— A senhora não acredita nisso — esclareceu Luciana.

— Jamais vi meu filho desse jeito. Está acabado.

— De forma alguma! — A voz de Luciana era enérgica. —Não deve deixar-se abater. Afaste de seu coração esse pensamento. Ele vai reagir, por certo.

— Eu quero ajudar.

— É preciso dar um tempo para que ele amadureça. E isso é só ele mesmo quem pode escolher.

— Ele não vai sair sozinho dessa mágoa. Está ferido.

— A verdade machuca, mas sempre é mais proveitosa do que a ilusão. Vai chegar a hora em que ele, esgotada essa fase, desejará sair dela e tudo se resolverá.

— Não posso ficar de braços cruzados enquanto meu filho sofre sozinho.

— Ele não quer dividir sua dor. É um processo interior que ninguém tem o direito de intervir.

Maria Helena, num súbito impulso, levantou-se e segurou as mãos de Luciana com força:

— Luciana! Ajude-me! Sei que você pode! Peça à sua mãe. Ela foi tão boa. Sem ela talvez não o tivéssemos encontrado. Dizem que as almas podem nos ajudar. Você a vê! Peça-lhe esse favor. Ela é mãe, sabe como me encontro. Temo que ele fique seriamente doente.

Luciana retribuiu o aperto de mão, e seus olhos brilharam quando disse:

— Está bem. Irei vê-lo. Tentarei falar com ele mais uma vez.

Dirigiu-se ao quarto do moço e vendo que as duas a seguiam, voltou-se dizendo:

— Quero vê-lo a sós.

— Está bem, estaremos esperando na sala.

Luciana entrou no quarto. João Henrique fechara novamente as janelas, correra o reposteiro e deitado de costas, olhos fechados, parecia dormir.

Luciana parou diante da cama e silenciosamente estendeu as mãos sobre ele, em prece. Com amor, imaginou João Henrique cheio de vitalidade e bem-estar. Com alegria, percebeu que Suzane aproximava-se colocando-se à cabeceira dele, estendendo sua mão direita sobre sua testa. Dirigiu-se a Luciana, pedindo:

— Fale com ele.

Em seguida, colocou sua mão esquerda na testa dela. A moça sentiu uma onda de alegria invadir-lhe o coração.

— João Henrique, — chamou — sei que não está dormindo. Olhe para mim. — Vendo que ele não atendia, repetiu: — Abra os olhos. Há algumas coisas que desejo lhe dizer.

Vendo que ele permanecia quieto, prosseguiu:

—   Por que se comporta qual criança caprichosa? Por que se castiga dessa forma? Até quando vai agir de maneira tão infantil? Você é um homem, por que não se permite crescer? Acha que fazendo birra a vida vai lhe dar o que deseja? Não percebeu que ela não é como sua mãe que sempre lhe fez todas as vontades?

Ele abriu os olhos fitando-a com raiva.

— Pode zangar-se à vontade. Vou dizer-lhe o que precisa ouvir. Você é forte o bastante para compreender que não se pode forçar os sentimentos de ninguém. Antonieta amava mais sua arte do que você. Preferiu a vida movimentada à vida burguesa que lhe ofereceu. Era um direito dela. Ela podia escolher e decidir o que fazer com sua própria vida. Por que a recrimina? Ela fez o que lhe pareceu melhor. E você a amava realmente? Não estaria fascinado pela sua arte, pela sua beleza, pelo seu talento, ou até pela sua fama? Tem certeza de que deixando-o, ela não machucou mais sua vaidade do que seu coração?

Ele trincou os dentes de raiva.

— Não tem o direito de falar assim comigo. Você não sabe de nada.

— Talvez. Mas, tenho certeza de que você não é fraco, capaz de ser destruído por uma mulher que não o amou o bastante.

Ele sentou-se no leito como movido por uma mola.

— Você é forte e inteligente para compreender. A vida só faz o que é certo. Se a afastou do seu caminho, foi para seu bem. Aliás, a vida sempre trabalha para nos dar o melhor. Pena que nem sempre temos condições de ver. Você é um cego. Olhe para sua vida. Belo rosto, corpo saudável, bonito, cultura, posição, família, respeito, estima, amizade. Tudo lhe pertence, você tem o poder de escolha nas mãos. Por que escolhe a infelicidade? Abra os olhos e olhe à sua volta. Observe! Ser recusado pode ser amargo, mas você não o foi por valer menos, ou por não ser bom o suficiente. Foi recusado apenas porque os sonhos dela eram diferentes dos seus. Seus anseios eram sua arte, os aplausos, a música, o palco. Você não. Essa diferença definiu os caminhos, alterou os rumos. Por que não pode aceitar uma coisa tão simples e clara? Por que exagera sua dor? Não vê que seu orgulho prefere a posição de “vítima” do que o reconhecimento de que estava enganado e que juntos nunca seriam felizes?

João Henrique olhou para Luciana, abriu a boca, tornou a fechá-la, por fim disse:

— Eu acreditei nessa felicidade.

— Mentira. Você sempre soube que não ia dar certo. No fundo, no fundo, sentia isso.

Ele passou de novo a mão sobre os cabelos. Por fim admitiu.

— É verdade. Eu temia que ela me deixasse.

— De onde lhe vinha esse temor? Por que você sentia que ela não pensava da mesma forma que você. Não tinha os mesmos anseios. É claro que ela o amou. A seu modo. Mas entre sua paixão pelo teatro e você, ela não resistiu.

— Eu também acho isso. Ela me amou. Eu sinto que toquei seu coração. Por isso me iludi. Não esperava o que aconteceu.

— Você sabia que um dia ela o deixaria. Era fatal. Mulheres como Antonieta dedicam a vida à carreira. Não conseguem viver sem isso. Por outro lado, você não conseguiria deixar seus projetos e segui-la. De uma certa forma, também a abandonou. Por um momento, estiveram juntos. A vida é isso. Reúne e separa as pessoas. Mesmo vivendo juntos uma vida inteira há sempre a hora da separação onde cada um deve seguir seu rumo. Entretanto, o amor não tem tempo, momento, lugar, ele brota em nossa alma como dádiva que ilumina e alimenta. Nesse sentimento, o reencontro acontecerá um dia.

          — Não desejo vê-la nunca mais.

— Reconheça que não a amava de verdade. A paixão ilude e passa. As coisas estão certas como estão. Não adianta machucar­se por causa disso.

Ele suspirou fundo, olhou para ela e sorriu:

— Obrigado — disse. — Você tem razão. Tenho agido como uma criança caprichosa. Nenhuma mulher tem força suficiente para me derrubar.

Luciana sorriu alegre:

— Sinto-me aliviada. Não agüentava mais olhar sua cara de pobre coitado.

— Não sou nenhum coitado.

— É o que parecia. Mas eu sabia que você nunca foi fraco. Ao contrário, dentro de você há muita força para vencer tudo na vida, com a ajuda de Deus. Vamos tomar um chá lá embaixo?

Precisamos contar aos outros que você é o João Henrique de sempre.

          — Está bem. Irei. Na verdade sinto vergonha. Fiz papel de tolo.

— Também agora não vamos bancar o homem de ferro. Basta ser apenas o homem que você é.

Ele sorriu outra vez. Parecia haver acordado de um pesadelo. Teve fome:

— Pode ir que eu já vou. Quero melhorar a aparência.

Luciana saiu do quarto satisfeita. intimamente agradeceu a ajuda de sua mãe. Sabia que ela contribuíra decisivamente para que João Henrique saísse da ilusão em que se envolvera. Vendo o olhar ansioso de Maria Helena, foi logo dizendo:

— D. Maria Helena, pode mandar preparar um chá completo porque João Henrique nos fará companhia.

O rosto de Maria Helena iluminou-se:

— Ele vai descer?

— Sim. Está se arrumando. Quando ele vier, nada de emoção. Vamos agir normalmente, como se nada houvesse. Ele sente-se envergonhado.

— Por certo — concordou Maria Helena, satisfeita. —Vamos, quero que ele se sinta muito bem. Obrigada, minha filha. Você é o anjo bom que apareceu em nossa vida.

— É melhor nos apressarmos. Não gostaria que nos surpreendesse falando no assunto.

— Tem razão, — apoiou Maria Lúcia.

— Lembrem-se: alegria e serenidade.

Dirigiram-se à copa e Maria Helena mandou preparar a mesa para o lanche, verificando os detalhes com carinho. As duas moças esperavam conversando em um gracioso sofá a um canto da copa. Maria Lúcia comentava seu assunto predileto: Ulisses. Luciana tentava conduzir a conversa para outro lado, mas Maria Lúcia insistia.

— Você acha que ele me ama?

— Como posso saber?

— Você percebe as coisas, sempre descobre o que eu estou pensando.

          Luciana sorriu:

—   Você é como uma irmã e estamos sempre juntas. Além do mais, seus olhos são reveladores.

— Os dele, não são?

Luciana tentou desviar o assunto:

— Ele é homem e pensa diferente de nós. Não tenho experiência para tratar com eles.

— Contudo, percebeu que Jarbas se interessa por mim.

— Ele dá muito na vista.

— Talvez Ulisses não me ame. Ele sempre anda atrás de você.

— Já falei que ele não me interessa.

Maria Helena juntou-se a elas.

— Está tudo pronto. Ele virá mesmo?

— Ele vem vindo.

De fato, João Henrique entrava na copa.

— Que bom tê-lo conosco, meu filho. Vamos nos sentar.

Acomodaram-se. João Henrique estava magro, pálido, porém vestido elegantemente como sempre fora, e Maria Helena sorriu com satisfação. Luciana com delicadeza começou a conversar sobre a vida na Inglaterra, seus costumes, seu povo, e João Henrique animou-se falando de sua viagem a Europa , suas impressões ao contato com outros povos e a conversa decorreu agradável.

Foram para a sala de estar e, animado, ele foi buscar um livro onde havia gravuras dos lugares que ele mais gostava. Maria Lúcia, que antigamente não participava dessas conversas, juntou-se a eles com entusiasmo. Maria Helena admirou-se vendo-a discorrer sobre o assunto com segurança mesmo sem nunca haver saído do Brasil. Sua filha aprendera muito com a convivência de Luciana.

Observando os três jovens entretidos, conversando animadamente, ela sentiu que seu coração enchia-se de paz. Pensou na mãe de Luciana com carinho e gratidão. Começava a sentir que, de fato, os que morrem não só continuam vivos em outro mundo como podem intervir em nossas vidas.

Suzane por certo ajudara-os. Inúmeras vezes Luciana tentara convencer João Henrique a reagir, sem conseguir. No entanto, agora, após ela haver pedido, finalmente ele atendera.

Deveria rezar para agradecer? Ouvira dizer que é bom rezar para as almas e pedir por elas. No entanto, a alma de Suzane não precisava de orações, ela estava em condições de ajudar.

— Se eu pudesse vê-la! — pensou. — Dar-lhe-ia um beijo de gratidão. Dizem que os espíritos sabem ver o que se passa em nosso coração. Se fosse verdade, se ela estivesse ali, deveria saber de seu amor pelo marido. Seu amor sofrido, sufocado, escondido, que a custo tentava conter. Poderia ajudá-la também nisso? Ah! Se ele viesse a amá-la! Sonhara a vida inteira com isso. Nunca acontecera. Talvez Suzane a ajudasse a esquecer. A apagar esse amor do coração.

Suzane estava ali, emocionada, abraçou-a com carinho dizendo-lhe ao ouvido:

— Infelizmente, não tenho esse poder. Eu mesma ainda não apaguei a chama que arde em meu coração. Apesar de tudo, eu gostaria muito de estar em seu lugar, ao lado dele. Maria Helena, esqueça as mágoas do passado. Procure conquistá-lo agora, aproveite essa convivência, essa chance que a vida lhe deu de estar a seu lado! Ame-o, compreenda-o, ajude-o a descobrir os tesouros de amor que ele guarda dentro do coração. Você é uma mulher bela, cheia de vida, tem todas as vantagens. Não deixe passar o tempo inutilmente.

Maria Helena, de repente, sentiu-se animada. Agora que seu filho estava melhor, era hora de pensar nela, em cuidar de si, da sua felicidade.

Lembrou-se da noite do baile e sentiu-se alegre. Talvez ela houvesse negligenciado muito e aceitado a derrota. O orgulho não fora bom conselheiro. De agora em diante, tudo seria diferente. Ela mudaria. Talvez pudesse reconquistar o marido.

Pensando assim, deixou os três na sala e foi para o quarto. Desejava estar bem bonita quando José Luiz chegasse.

          Naquela noite, o jantar decorreu alegre como há muito não acontecia. José Luiz participava alegremente surpreendido. Chegara em casa desanimado, certo de encontrar o ambiente triste e pesado dos últimos tempos e inexplicavelmente havia como que um brilho novo em cada coisa. João Henrique um tanto magro, calmo, as duas moças alegres e animadas e até Maria Helena, olhos brilhantes, com melhor aparência. O que acontecera durante sua ausência?

O jantar decorreu leve e alegre e, ao final, Maria Helena propós uma sessão musical onde cada uma tocaria algo da sua especialidade.

Luciana tocou belas canções inglesas; Maria Lúcia, modinhas e valsas modernas, e Maria Helena, belas peças de musica ligeira.

Sentados no sofá com um cálice de Porto entre as mãos, os dois homens deixaram-se ficar gostosamente ouvindo.

Suzane aproximou-se de José Luiz e abraçando-o com carinho, disse-lhe ao ouvido:

— Isso é felicidade! Aproveite esses momentos de beleza e de alegria. Viva sua vida agora. Esqueça o passado. Cada um precisa viver seu momento, consciente das riquezas que a vida oferece. Eu o amo muito, mas esse amor é luz de libertação e de alegria. Minha felicidade é contribuir para seu crescimento espiritual e seu bem-estar. A vida nos colocou de lados opostos. Ela age sempre certo. Talvez nós ainda não estejamos prontos para uma união mais verdadeira. Apesar de desejar estar a seu lado, não gosto de ser obstáculo à sua felicidade. Meu amor é profundo e verdadeiro e desejo que você tenha da vida o melhor. Quero libertar você. O amor não é exclusivista. Maria Helena é uma bela mulher, ela o ama! Você nunca a viu como ela é. Nunca a olhou a não ser para servir a seus projetos. Contudo, ela é uma alma nobre, cheia de beleza e amor.

José Luiz, segurando o cálice entre os dedos, pensamento perdido no tempo, lembrava Suzane, mas aos poucos, envolvido pelo ambiente agradável, começou a pensar que era homem privilegiado. Tinha uma bela e bem formada família. Fixando Maria Helena, notou que havia algo diferente. Ela parecia-lhe mais jovem, mais mulher. Ouvindo-a tocar com tanta sensibilidade, pela primeira vez começou a pensar que ela não era tão fria e indiferente quanto parecia ser. Por que uma mulher tão sensível para a arte, mostrava-se conformada em viver sem amor? Como ela aceitaria isso?

Maria Helena, sentindo o olhar do marido sobre ela, a custo dominava o desejo de abraçá-lo e dizer-lhe o quanto o amara em silêncio durante todos aqueles anos.

— Ele vai me amar! — pensou com veemência. — Hei de conquistá-lo. Por que não? Estamos juntos, unidos pela família.

Naquele instante, ela sentiu que o orgulho não mais importava e sim a realização desse amor com o qual sonhara durante toda sua vida.

Foram momentos agradáveis e quando Luciana disse que precisava ir para casa, João Henrique ofereceu-se para acompanhá-la e Maria Lúcia pediu permissão para ir junto.

Maria Helena ficou só com o marido. Em outras ocasiões, ela teria logo dado boa noite e se recolhido, porém, naquela noite aproximou-se dele dizendo com um sorriso:

—  Esta noite estou feliz! Adoraria dançar! Pena que não temos ninguém para tocar para nós.

Ele levantou-se cortês:

—  Podemos colocar um disco na vitrola.

—  Eu adoraria.

Subitamente José Luiz sentiu-se alegre. Dirigiu-se à estante de discos e logo parou indeciso.

—  Você gosta de clássico.

Ela sorriu bem-humorada:

—  Para ouvir, para tocar, mas para dançar é claro que deve ser outra.

—  O que por exemplo?

—  Uma valsa, um foxtrote.

Enquanto ele a olhava admirado, ela com desenvoltura, escolheu um disco e deu-o ao marido.

—  Eu gosto deste.

Ele colocou o disco e logo uma música agradável e suave encheu o ar. José Luiz enlaçou-a e começaram a dançar. Ele não se conteve:

— Você nunca me disse que apreciava essa música!

— Você nunca perguntou. Não é linda?

De fato. A orquestra tocava um belo foxtrote, e eles dançaram com prazer. A emoção foi tomando conta de ambos. A música, a proximidade, o perfume de Maria Helena e principalmente o calor que vinha dela, envolvera José Luiz fazendo-o apertá-la mais entre os braços, cedendo a uma atração irresistível.

— Maria Helena, — murmurou ele ao seu ouvido, — você hoje está diferente!

Ela sentiu o coração bater mais forte.

— Estou alegre! Nosso filho está bem. É só questão de tempo.

— A alegria fez-lhe bem. Você está linda!

         — Esta noite, sinto vontade de viver, de amar, de ser feliz!

José Luiz parou de repente e seus braços afrouxaram. Fixando o rosto corado de Maria Helena, palpitante de vida e desejo não se conteve:

— Perdão — disse.

         — Por quê?

— Eu não soube fazê-la feliz. Tenho sido egoísta, pensando só em mim, fechado em meus problemas, esqueci que você tem suas necessidades de afeto, de felicidade.

O acento de sinceridade da voz do marido contribuiu para que ela se deixasse envolver mais pela emoção que não tentava dominar.

— Sim — respondeu ela com voz apaixonada. — Eu posso amar, e quero ser amada de verdade! Não agüento mais viver recalcando meus sentimentos, fingindo uma frieza que não sinto.

Ele passou a mão pelos cabelos procurando palavras para não feri-la ainda mais. Ela abraçou-o com carinho, dizendo:

— José Luiz, o que aconteceu conosco? Eu o amei desde o primeiro dia! E esse amor ainda vibra dentro de mim! Por que tudo não continuou como nos primeiros tempos? Por que apareceu entre nós essa barreira, onde o orgulho ganhou espaço transformando-nos em pessoas indiferentes e dissimuladas? O que nos separa? Por que não podemos nos amar de verdade? Essas perguntas têm me angustiado toda a vida!

José Luiz sentiu desejos de abrir o coração, dizer a verdade, falar do seu amor por Suzane, do seu erro, assumir sua culpa. Sentindo o corpo palpitante da esposa, vendo seu rosto ansioso, percebendo o sentimento que a envolvia, não teve coragem. Apenas disse comovido:

— Você me ama!

— Sim — concordou ela com paixão. — Eu o amo! Sempre. Não suporto mais calar esse sentimento.

José Luiz sentiu uma onda de calor envolver seu coração. Como fora cego! Essa mulher vibrante, bela, apaixonada, o amava, estava ali, em seus braços, sequiosa de amor, e ele cultivando um amor impossível! Reconheceu que Maria Helena tocava seus sentimentos. Apertou-a em seus braços beijando-a repetidas vezes com emoção.

— José Luiz, — disse ela por fim — diga-me, o que nos separa?

— Nada. Tenho sido cego até agora. Acreditava que você não me quisesse mais. Agora que sei que me ama, que começo a vê-la como é, nada nos há de separar. Seremos felizes. O passado está morto. De hoje em diante, lhe darei todo amor que merece. Você é uma mulher extraordinária.

— Você não disse que me ama!

— Eu a amo! Prometo recuperar o tempo perdido!

Abraçando-a com carinho, beijou-lhe os lábios repetidas vezes, sentindo a emoção crescer dentro de si. Depois, abraçados, foram para o quarto, esquecidos de tudo o mais.

O  espírito de Suzane, vendo-os abraçados, não pôde evitar uma lágrima. Uma bela mulher aproximou-se dela dizendo emocionada:

— Você realmente libertou-se de séculos de apego.

Suzane olhou-a serena:

— Ainda dói um pouco — murmurou esforçando-se para sorrir.

A outra passou o braço sobre seus ombros com afeto:

          — Eu sei. Entretanto o amor só é verdadeiro quando liberta. O apego revela imaturidade e falta de confiança na vida.

          — Eu sei. Para libertar-me desse velho hábito foi que escolhi minha última encarnação na Terra. Eu sabia que tudo quanto eu mais amava ser-me-ia tirado para que eu aprendesse a suprema alegria de dar, o prazer de facilitar a que cada um encontre seu próprio caminho de crescimento, livre, de acordo com sua necessidade interior.

—  O que pensa fazer agora?

—  Ainda ajudar um pouco mais. Minha missão com eles está quase no fim.

—  E depois?

            — Quero cuidar de mim. Aprender, crescer, tornar-me mais madura. Sinto que minha felicidade está nisso. Durante anos tenho cultivado meu amor por José Luiz, sofrendo sua ausência mesmo sabendo que no momento seria impossível viver a seu lado!

A amiga estreitou o braço como a infundir-lhe coragem, e ela prosseguiu:

— Quando eu ainda estava na Terra, acreditava que ele me houvesse esquecido. Trocara-me por outra e, mesmo sabendo que sua ambição o estimulara, pensava que seu interesse por mim fora transitório e sem profundidade. Esse pensamento ajudou-me a aceitar a separação. Não se pode forçar o amor e eu, sentindo-me preterida, mal-amada, tratei de viver da melhor forma possível, apesar de não conseguir amar outra vez.

Fez pequena pausa e vendo que a outra ouvia-a atentamente, continuou:

— Contudo, quando voltei para cá, comecei a sentir que José Luiz me chamava constantemente. Seu rosto triste me aparecia, e eu sentia seus pensamentos de tristeza e de culpa. Onde quer que eu estivesse, ouvia-o chamar-me angustiado e descobri que ele não era feliz. Eu também sentia saudades e muitas vezes, quando dei por mim, eu o estava abraçando apaixonada, atormentada pela sua angústia!

— Pobre amiga. Avalio sua luta.

—   Felizmente, sempre contei com o apoio de amigos dedicados, e você também contribuiu muito para meu reequilíbrio.

—   Infelizmente, as pessoas na Terra ainda ignoram a força do pensamento ao qual imprimimos nossas emoções. Não sabem que entregar-se ao desânimo, à culpa, à auto-condenação, nos prejudica, não só atraindo mais infelicidade, como essas energias atingem também as pessoas envolvidas, conturbando-as.

— Durante algum tempo vivi a seu lado, sem poder afastar-me. Se por um lado sentia-me triste constatando sua infelicidade, por outro, a certeza de ser amada, a comprovação de que ele nunca me esquecera, dava-me alegria e eu pensava: “É por minha causa que ele sofre! Eu sou responsável de alguma forma pela sua infelicidade!”

— Que ilusão!

          — É verdade. Cheguei a esse ponto, confusa e apaixonada. Sempre que podia, tentava confortá-lo, abraçá-lo, dizendo a seu ouvido que o perdoava e o amava de todo o coração. Eu que regressara da Terra bem, deixando-me envolver por esse problema, adoeci. Você sabe como foi difícil para mim, deixá-lo por algum tempo e submeter-me ao tratamento adequado. Querida Anita, sou-lhe muito grata! Foi você quem me ensinou a perceber a verdade. Freqüentar suas aulas foi maravilhoso. Conhecer as leis cósmicas, perfeitas e belas que movem a vida, olhar para dentro de mim, sentir o que sou, minha essência, descobrir o eu superior, encontrar Deus, desenvolver minha maturidade, mostrou-me o glorioso destino de todos os seres vivos.

— Você estava madura, foi só despertá-la e logo desabrochou maravilhosamente.

— Crescer traz uma alegria consciente e insubstituível. Em nossa ilusão, queremos agarrar nas pessoas, segurá-las, conduzi­las, a pretexto de amar e proteger e as escravizamos com nossas energias, bloqueando seu desenvolvimento, obstruímos sua visão. Sabe o que descobri?

—  Não.

—  Que esse sentimento que às vezes chamamos de amor, na realidade tem outro nome.

—  Qual?

—  Obsessão!

—  Não está sendo dura com você?

—  Não. Eu e José Luiz, a pretexto de nos amar, nos obsediávamos mutuamente. Quando ele me deixou, essa ilusão bloqueou meus sentimentos. Eu me julgava dócil, conformada, naquele tempo. Descobri agora, que foi o orgulho que me conduziu. Não me revoltei, não guardei ressentimentos ou mágoa, felizmente, mas qual criança orgulhosa e mimada, se a vida não me deu o que eu queria, eu não quis mais nada. Não me permiti ser feliz com outra pessoa, bloqueei os sentimentos. Depois, a vaidade de saber que era amada, continuou me unindo a ele e nossa insatisfação, nossa ilusão, roubou largo tempo de nossa felicidade que teria sido possível se tivéssemos encarado a situação com realismo.

— Tem razão. A vida sempre sabe o que é melhor e cumpre seu papel de conduzir a felicidade.

          — Agora eu sei. Eu acreditava na dor e no sofrimento. Ignorava que fomos criados para a felicidade. Que esse é o nosso destino e vontade de Deus. Depois que aprendi que o amor liberta, que senti a alegria de amar de verdade, que é grande o prazer de dar amor, a satisfação foi grande e eu pensei que, assim como eu descobrira essas coisas, o melhor que poderia fazer seria tentar passar essas idéias para aqueles a quem amo.

—  Você se preparou para isso. Conseguiu unir Luciana ao pai.

—  Luciana é um espírito lúcido e adorável que muito nos tem ajudado. Uni-los foi maravilhoso. Porém, José Luiz guarda ainda a ilusão do passado. Acredita me amar. As vezes, me pergunto se seu amor não é apenas a raiva da criança por que um dos seus brinquedos foi-lhe tirado. Ele poderia ter me escolhido. Não o fez. Ele queria tudo. Pensou em ter as duas e quando não conseguiu, frustrou-se.

—  Você está sendo severa. Não acredita que ele a ame?

—  Acredito sim. A seu modo, contudo, sinto que no momento, nossos caminhos são diferentes. A vida nos separou. Ela deseja nossa felicidade. Eu agora desejo de todo coração que ele possa usufruir do presente, das bênçãos que possui, do amor da bela família, de uma alma generosa e fiel que o ama e pode embelezar seus momentos, oferecendo-lhe o que eu não lhe posso dar. Sinceramente, desejo que me esqueça e seja feliz com Maria Helena.

—  Você é generosa!

—  Não sei se é generosidade. O que sinto é que agora a vida despertou dentro de mim com a força da alegria. Neste momento, quero ser eu mesma. Descobrir o que é melhor para mim agora. Sem amarras nem obstáculos! Beber da fonte da espiritualidade e revigorar minha alma na lucidez palpitante da consciência universal. Sinto que o amor tem outro significado para mim, mais real e , ao mesmo tempo, mais profundo. Quero encontrar outras almas como eu, e trocar energias com elas. Quero crescer ainda mais e aprender a viver plenamente. Não sinto mais vontade de um amor terreno.

Anita sorriu com satisfação.

—  Sim, Suzane. Sua luz brilha e você poderia desde já deixar a Terra para sempre, rumo a outros planos.

          — Desejo um pouco mais de tempo. Acabar o que comecei. Preparar o terreno, depois irei. Quando mergulhamos no estado de alegria, quando tomamos consciência do que somos, do poder que temos de criar nosso destino; quando descobrimos que todo nosso sofrimento foi criado por nós, pelos nossos pensamentos e atitudes, não podemos conceber deixar as coisas como estão; nos sentimos desejosos de contar, mostrar. Tanta simplicidade na vida, na realidade das coisas, tanta facilidade na conquista da felicidade, nos impulsionam e nos motivam a nos comunicar com as pessoas, numa tentativa justificada de melhorar as condições de vida na Terra, de apressar o momento da maturidade de cada um.

—  Isso é natural, querida, mas deve lembrar-se que cada um só percebe isso quando está preparado. Não adianta forçar. As coisas acontecem como devem e no momento exato.

—  Mas de vez em quando, podemos dar um empurrãozinho.

Anita sorriu alegre, passando o braço sobre os ombros de Suzane, lembrou:

—  Precisamos ir agora. Está na hora.

Suzane concordou e ainda abraçadas saíram, desaparecendo rapidamente no horizonte.

 

CAPÍTULO 16

Maria Helena acordou feliz no dia seguinte. Por que demorara tanto a demonstrar ao marido seu amor? Por causa do seu orgulho, por tantos anos sofrera amargando o ciúme e a angústia. Como fora tola! Felizmente havia mudado. Rompera a barreira do preconceito e descobrira que, ao contrário do que havia temido, o marido correspondera a seu amor, com ardor inesperado.

Aquela noite juntos fora maravilhosa. Seu coração batia descompassado só em lembrar-se dos seus arroubos, de como dera vazão a sua paixão, deixando-a fluir plenamente com toda força do seu coração, vencendo os preconceitos da sua educação repressora e formal.

Sentia-se feliz. Agora acreditava nó amor do marido. Sentira nos seus olhos, nos beijos, na sua emoção, que ele a queria e essa descoberta aumentava sua felicidade. Quanto tempo perdido! Mas agora, dali por diante, tudo seria felicidade. Seu filho logo esqueceria o amor impossível e por certo encontraria alguém que o fizesse feliz.

Naquela tarde, quando Luciana chegou para tocar com Maria Lúcia, ela sentia-se alegre e bem-disposta. Recebeu a moça com carinho e fez-lhes companhia na sala de música, interessando-se pelas novidades musicais que Luciana trouxera, atrevendo-se a tocar uma delas, apesar de tratar-se de uma música popular.

Luciana sentia-se contente observando a mudança de Maria Helena, e Maria Lúcia, surpreendida com a atitude materna, inibia-­se. Quando ela saiu, considerou:

— O que aconteceu com ela? Nunca a vi desse jeito. Ainda ontem estava irritada e num dos seus piores dias.

— Alguma coisa boa. Ela estava radiosa, feliz.

          — É estranho!

          — Por quê?

          — Ela nunca foi assim.

          — Pois eu gostei. D. Maria Helena parece outra pessoa.

— Não sei, não. Será que ela está bem da cabeça?

Luciana riu francamente.

— Claro. Afinal não era você quem se queixava do ar “duro” de sua mãe? Ela está mudando e para melhor. Não lhe parece?

— Bem... de fato... hoje ela estava como sempre eu desejei que fosse, mas...

— Mas nada. Vamos aproveitar esse estado de espírito, essa alegria só nos fará bem.

— Você sabe que ando triste. Ulisses não tem aparecido.

— Jarbas tem vindo sempre — respondeu Luciana com voz intencional.

— Ele não me interessa. Gosto de Ulisses, acho que estou apaixonada por ele.

Luciana não respondeu. Depois de alguns instantes, tornou:

— Você já tocou essa valsa? Ë linda. Experimente.

Maria Lúcia olhou a partitura e pediu:

— Toque você. Ainda não sei essa.

Luciana começou a tocar, e Maria Lúcia envolvida pela música, esqueceu a preocupação de momentos antes. Luciana contudo, pensava com tristeza na atração que Maria Lúcia sentia por Ulisses. Ele não era digno dela e não a amava. Era a ela, Luciana, que ele dizia amar. Apesar de não corresponder a esse amor, temia que Maria Lúcia descobrisse e se sentisse preterida. Mesmo tendo mudado, ela sabia que a moça ainda não se sentia plenamente segura. Por vezes, pequenas coisas a afetavam, fazendo-a retomar, embora fracamente, algumas atitudes antigas.

Luciana sabia que Maria Lúcia ainda precisava de certo apoio para poder definitivamente conquistar a alegria de viver. Sentia imenso carinho por ela e não desejava que nada pudesse feri-la. Ela ainda não estava madura o bastante para enfrentar os problemas da vida. Necessitava um pouco mais de tempo. Vendo-a alegre e atenta, procurou afastar a preocupação.

A porta abriu-se e João Henrique entrou, acompanhado de Ulisses e Jarbas.

— Sabia que eram vocês! Com essa música linda! — Foi logo abraçando Luciana e beijando a irmã.

Após os cumprimentos, João Henrique tornou:

— Fiquem aí, vou tomar um banho e desço em seguida.

Maria Lúcia estava pouco enrubescida pela surpresa, calada. Luciana tomou a palavra:

— Vamos nos sentar. Preferem Conversar, certamente

— Por favor, Continue tocando. Não queremos interromper. Essa música é nova? — indagou Jarbas, interessado.

           - É.

— É linda. Não acha, Ulisses?

— Acho. Toque por favor, desejamos ouvi-la. Ulisses a olhava com admiração.

Luciana não disse nada. Começou a tocar e Jarbas aproximou-se de Maria Lúcia, olhando-a embevecido.

— Está cada dia mais bonita, — disse.

A moça baixou os olhos para esconder seu desagrado. Quando ele perceberia que ela não o queria? Temia que Ulisses, para respeitar o amigo, não a quisesse namorar. Afastou-se dele dirigindo-seao piano, ao lado de Luciana que procurou acabar o constrangimento,animando a Participação de todos, tocando modinhas em voga e quando João Henrique voltou, o ambiente estava alegre e descontraído.

Os rapazes despediram-se e Luciana ficou um pouco mais. No fim da tarde, ela saiu. Havia caminhado alguns passos quando Ulisses a interceptou.

—    Luciana.

A moça parou. Vendo-o, esperou.

— Preciso falar-lhe.

Ela esboçou ligeiro gesto de Contrariedade.

— Estivemos juntos até a pouco. Por que só agora?

           - É um assunto sério, particular Não podia falar diante dos Outros.

— De que se trata?

— Venha, permita-me levá-la em casa. Pelo Caminho Conversaremos.

— Não. Diga logo o que quer. Pretendo ir só para casa.

           — Talvez mude de idéia depois da nossa conversa. Vamos pelo menos sair daqui, a não ser que não se importe que nos vejam juntos.

           Luciana pensou em Maria Lúcia e Concordou:

—    Está bem, vamos andar um pouco.

Quando se distanciaram, Ulisses disse com voz suave:

— Luciana, desde que a vi não consigo pensar em outra coisa. Estou apaixonado!

Luciana parou constrangida.

— Por favor, — pediu — não continue.

— Estou louco por você! Não tenho dormido, não consigo sequer trabalhar!

Ele tomou as mãos dela apertando-as com força enquanto ela tentava desvencilhar-se.

— Ulisses! Contenha-se!

— Não suporto mais sua indiferença! Você vai ser minha de qualquer jeito.

Enrubescida, Luciana, tendo conseguido desvencilhar-se, disse nervosa:

— Deixe-me em paz. Não estou interessada em você. Nunca alimentei suas esperanças.

Dominado pela emoção, ele tentou abraçá-la.

— Por favor! Estamos na rua. Contenha-se!

Ele sequer parecia ouvi-la, abraçou-a forte, tentando beijar-lhe os lábios. Assustada, Luciana empurrou-o com força sem conseguir sair. A rua estava deserta, já começava a escurecer. Ulisses puxou-a para um portão, encostando-a, dizendo sôfrego:

— Hoje não a deixarei ir, antes que saiba o quanto a quero.

Beijava-a na face ardorosamente, apertava-a com redobrada força. Luciana entre a raiva e o receio, sentia o rosto afogueado e lágrimas descerem pelas faces. Atordoada, colérica, disse com voz que lutou por tornar firme:

— Deixe-me! Tenho nojo de você. Jamais serei sua!

Ulisses sentiu como se lhe jogassem um balde de água fria.

— Por que se faz de santa? Não se envergonha com o que faz? Eu é que deveria ter nojo de uma mulher tão baixa como você! Não vai se livrar de mim dessa forma. Vai agora comigo para um lugar onde estaremos a sós, ou eu conto tudo que sei! Desmascaro sua pouca vergonha. Quero ver se D. Maria Helena a receberá depois de saber a verdade!

Imobilizada pela surpresa, Luciana sentiu um mal-estar. Tudo começou rodar à sua volta. Foi quando o portão em que estavam encostados abriu-se e uma voz enérgica perguntou:

— O que está acontecendo aqui?

Luciana antes de desmaiar ainda teve forças para dizer:

— Socorro! Ajude-me por favor!

Quando acordou, estava estendida em um sofá, e um rosto ansioso de mulher debruçava-se sobre ela. Ainda atordoada, Luciana perguntou:

— O que aconteceu? Onde estou?

— Graças a Deus. Está tudo bem. Você desmaiou. Está em minha casa.

Luciana tentou sentar-se, conseguindo com alguma dificuldade.

— Desculpe — disse.

— Sente-se melhor?

Sim. — calou-se recordando-se de Ulisses. — Meu Deus, foi horrível!

Tome um pouco de água. Sentir-se-á melhor.

Luciana aceitou, segurando o copo com as mãos trêmulas. Fixou o rosto da sua interlocutora Gostou dela. Mulher dos seus quarenta, rosto bonito e agradável, fina e bem vestida. Acanhada, Luciana passou as mãos pelos cabelos, tentando ajeitar-se e compor a roupa em desalinho

— Meu nome é Margarida Fontes, e este é meu irmão José Antônio.

Foi aí que Luciana viu o moço alto, magro, cabelos castanhos, rosto claro, queixo proeminente, testa larga, traje elegante, que se levantara de uma poltrona e aproximava-se.

— Meu nome é Luciana. Sou muito grata pela ajuda. Lamento haver dado trabalho. Agora creio que já posso ir. Vovó deve estar preocupada, já escureceu!

— Apesar do Susto que dei no atrevido, não é aconselhável sair sozinha por essas ruas escuras.

— Antes de ir, gostaria de dizer que jamais poderei agradecer o bastante. O portão abriu na hora em que eu não suportava mais.

— Eu estava lendo na varanda quando ouvi um ruído e vi o portão balançar. Aproximei-me, ouvi o que diziam. vi logo que você estava sendo agredida. Abri o portão e aproveitando o Susto do patife, dei-lhe um safanão e obriguei-o a correr. Segurei você que desabou de vez. Chamei Margarida para ajudá-la.

— Gostaria de dizer que não tenho nada com esse moço. Ele é amigo dos filhos do Dr. José Luiz e D. Maria Helena. freqüenta a casa , parecia-me de bons costumes. D. Maria Helena quase sempre manda seu chofer levar-me. Hoje, como era cedo, não quis molestá-la. Ulisses esperou-me fora e não aceitou minha recusa. Eu nunca lhe dei esperanças. Além de não amá-lo, Maria Lúcia, a quem estimo como irmã, é apaixonada por ele.

— Pobre moça — comentou Margarida. — Apaixonar-se por um patife desses.

— Seja como for, não desejo desgostá-la.

— Sugiro que se acautele. Ele é um mau-caráter. Nunca erro quando vejo um — sugeriu José Antônio com um sorriso.

Possuía lindos dentes e covinhas quando sorria. Luciana sorriu mais calma.

— Não facilitarei mais as coisas para ele. Agora preciso ir. Vovó deve estar preocupada.

— Mandei preparar um chá, aceita uma xícara? — ofereceu Margarida.

— É muita gentileza sua, contudo preciso ir.

— Aceite. Dez minutos a mais não fará diferença. Depois José Antônio a levará até sua casa.

— Não será preciso. Estou bem, creia.

— Depois do que houve, não podemos permitir que saia sozinha. Acompanharei você até sua casa.

— Está bem. Aceito.

— Assim é que se fala — concluiu Margarida levantando-se.

           — Vou mandar servir o chá.

Saiu da sala e José Antônio esclareceu:

— Se não aceitasse, ela se sentiria frustrada. Sente-se por favor. Conhece os Camargo há muito tempo?

— Sou amiga de Maria Lúcia. Dou-lhe aulas de piano.

— É professora de piano?

— Oh! Não. Maria Lúcia vivia muito só e foi a forma de nos tornarmos amigas. Com o tempo, isso aconteceu realmente. Nos vemos com freqüência. Tanto eu quanto vovó gostamos muito de toda a família.

— Meu pai foi muito amigo do pai de D. Maria Helena. Quando eu era criança, freqüentávamos a casa. Depois do falecimento de papai e do casamento dela, não nos vimos mais.

— Vamos ao nosso chá — convidou Margarida aparecendo na porta.

Depois de lavar as mãos e certificar-se de que estava apresentável, Luciana sentou-se junto com seus novos amigos, ao redor de pequena mesa redonda, arrumada com gosto, onde além do bule fumegante de chá, havia deliciosas iguanas.

Mas isso é uma festa! — Considerou Luciana com Sinceridade

A vida é uma festa. Há que reverenciá-la constantemente

                — Concordou Margarida.

                Luciana sorriu alegre. Sentia-se á vontade como se os conhecesse de longa data. Após o chá e a palestra agradável, Luciana quis ir para casa. Não desejava preocupar a avó. Abraçou Margarida com gratidão e ofereceu a casa. Abraçaram-se novamente e Luciana instalou-se no automóvel de José Antônio.

Sentia-se protegida e grata. Indicou o caminho e ao chegar Convidou-o a conhecer Egle. Esta os recebeu com atenção, convi­dando José António a entrar. Na sala, instalados em gostosa poltrona, Luciana relatou o que lhe acontecera. Egle ouviu em silêncio. Luciana finalizou:

— Pois é, vovó, o Sr. José António e D. Margarida foram muito gentis. Ele fez questão de acompanhar-me.

— Não sei como agradecer-lhe. — disse Egle com um brilho agradecido nos olhos. — Luciana é um tesouro. Deus os abençoe por isso.

— Qualquer pessoa teria feito o que fizemos. Apesar do fato desagradável, creia que tivemos grande prazer em conhecer Luciana. Margarida a apreciou muito.

— São tão bondosos! — Considerou Luciana.

— Conheço minha irmã. Afirmo que ela não faz amizades com facilidade. Creia, conhecê-la nos deu grande prazer.

A conversa decorreu amena e quando José Antônio se des­pediu, as duas sentiam que haviam reencontrado novos amigos. Quando se viram a sós, Egle comentou:

— Que moço agradável. Fino, educado. Tenho impressão de conhecê-lo de algum lugar.

— Você também? Vovó, sinto que tanto ele quanto Margarida são Velhos conhecidos.

— A irmã também é gentil?

— Muito. Gostei dela. Alegre, cheia de vida, ao mesmo tempo, serena. Ë uma pessoa iluminada.

— Tanto assim?

— A primeira impressão foi essa.

— Você nunca se engana com as pessoas. Quero conhecê-la. Podemos convidá-la a um chá aqui em casa. Desejo agradecer o que fez por você.

— Seria ótimo.

— Quanto a Ulisses, não deve mais sair sozinha.

— Ele estava furioso. Parecia louco. Falava coisas que não entendi. Ameaçou-me.

— Seria prudente falar a Maria Helena. Não é aconselhável receber esse patife dentro de casa.

Luciana abanou a cabeça.

— Não. Isso não. Ele é amigo de João Henrique. Depois Maria Lúcia sofreria muito.

— Seria bom para ela. Essa ilusão poderá prejudicá-la.

— Tenho medo. Ela ainda não se sente de todo segura. Tenho comigo que ela acabará por esquecer essa paixão, sem que seja preciso fazê-la sofrer.

— Ainda penso que seria melhor contar.

— Não. Tomarei cuidado. O que houve hoje não se repetirá. Não andarei sozinha pelas ruas. Pelo menos por algum tempo, até que esse capricho de Ulisses passe.

— Você quer jantar?

— Não, vovó. O lanche de Margarida estava delicioso.

Egle passou o braço sobre os ombros de Luciana:

—  Quem sente Deus dentro do coração sempre está protegida. Hoje, em minhas preces de gratidão, estarão mais duas pessoas.

Luciana concordou:

— Sabe, vovó? Apesar de tudo, sinto-me muito feliz.

           Luciana não viu o brilho comovido nos olhos de Egle, nem sentiu que além dela, Suzane também abraçava-a com amor. Seu pensamento estava longe, perdido em uns olhos castanhos e profundos, um sorriso franco e acolhedor, que lhe dava ares de menino e colocava deliciosas covinhas em sua face.

 

CAPÍTULO 17

Naquela tarde, Maria Helena sentia-se particularmente feliz. Sentou-se ao piano e seus dedos percorreram o teclado com prazer. Enquanto tocava, seu pensamento recordava os momentos de intimidade com o marido. Um milagre acontecera. O sonho de toda sua vida concretizara-se por fim. José Luiz transformara-se em outro homem. Apaixonado, atencioso, como ela sempre desejara. Desde que ela lhe confessara seu amor, tudo mudara.

Por que demorara tanto para vencer o orgulho? Quem ama não deve ter preconceitos. Se houvesse feito isso antes, por certo não teria sofrido tanto.

A idéia de que ele se casara pelo seu dinheiro e posição a transformara e cavara um abismo que por pouco arruinaria para sempre suas vidas. Arrependia-se também de haver permitido que o formalismo de uma educação moralista, rígida e preconceituosa, a transformasse em uma mulher fria, cheia de regras e papéis sociais, manietando sua alma de mulher ardente e cheia de amor.

Rompera essa barreira, vencida pela paixão, pela necessidade de amar e assim pudera despertar no marido o sentimento que ele deveria sentir por ela, mas que não encontrava espaço para expressar-se, frente sua indiferença sempre presente.

Maria Helena sorriu embalada pelos pensamentos que a enchiam de alegria e felicidade.

A criada entrou com uma salva na mão e colocou-a sobre o piano sem dizer nada. Sabia que quando Maria Helena tocava, não queria ser interrompida. Passando os olhos sobre a salva, Maria Helena parou de tocar. Havia uma carta sobre ela. Apanhou-a, abriu-a e leu:

“Prezada senhora. Há já algum tempo, seu marido vem se encontrando com uma senhorita altas horas da noite. Como amigo da família, não acreditei no que meus olhos viram e fui investigar. Descobri entre outras coisas que a casa onde ela mora foi comprada por ele. Poderia dar outros detalhes, porém, o melhor será verificar com seus próprios olhos. Fique preparada. Oportunamente avisarei e poderá surpreendê-los. Sou seu amigo e admirador que muito a estima”.

Não havia assinatura. Maria Helena, pálida, mãos trêmulas, acionou a campainha. A criada apareceu solícita:

— O que é isto? Quem trouxe?

— Um portador. Disse para entregar à senhora imediatamente.

Ela olhou o envelope e leu seu nome.

— Está bem. Pode ir.

Quando a criada saiu, Maria Helena deixou-se cair no sofá. Uma amante! José Luiz tinha uma amante! Era de esperar uma vez que durante tantos anos eles viveram sem relacionar-se intimamente.

Esse pensamento, longe de confortá-la, perturbava-a ainda mais. Logo agora, que ela acreditara no seu amor! Seria José Luiz tão venal a ponto de fingir amá-la para usufruir de uma situação que ela provocara?

Seu rosto pálido coloriu-se de súbito rubor. Ela se declarara. Que vergonha! José Luiz não a amava. Apenas dera vazão as emoções do momento, nada mais. Fora leviana, expondo-se desse jeito.

Agoniada, torceu as mãos em desespero. Seria mesmo ver­dade? Se ele de fato comprara até uma casa para ela, a história deveria ser antiga. Como saber? O ciúme apareceu forte. Quem teria escrito essa carta? Leu novamente. Ele lhe pedia para aguardar. Prometeu-lhe provas. Claro. Era uma carta anônima. Poderia ser uma infâmia.

Mil pensamentos circulavam em sua cabeça, e ela procurou acalmar-se. Não poderia fazer nada antes de obter a prova prometida. Como poderia viver até lá? Precisava encontrar forças para que ninguém desconfiasse. Só assim, poderia descobrir a verdade. Habituada a ocultar seus sentimentos, compôs 3 fisionomias, porém, sentia a dor aguda do ciúme ferindo seu coração.

Ninguém notou nada. Ela conseguiu seu intento. A carta, es­condida no bolso do vestido, fazia-a sentir que tudo era verdade.

Sempre se perguntara como José Luiz suportara os anos em que estiveram separados. Agora sabia. Amaria essa mulher? Por certo. Teria filhos com ela?

A esse pensamento seu coração apertou-se. Ardia por saber.

No dia seguinte, à tarde, enquanto Luciana e Maria Lúcia conversavam animadas na sala de música, João Henrique chegou com Ulisses. Maria Helena recebeu-os com carinho. João Henrique subiu para trocar de roupa. Vendo-se sozinho com ela, Ulisses disse respeitoso:

— Poderia conceder-me alguns minutos? Preciso falar-lhe a sós.

— Por certo. Pode falar, estamos sozinhos.

— Preferia um lugar reservado, O assunto é muito grave.

— Está bem. Venha ao escritório. Ninguém nos interromperá.

Uma vez lá, ofereceu a Ulisses uma cadeira e sentou-se a seu lado.

— Pode falar.

Ele hesitou.

— Não sei se devo...

— Do que se trata? Alguma coisa com João Henrique?

— Não. Não é nada com ele. Acho melhor não dizer. Afinal, não tenho nada com isso.

— Você me assusta. Fale logo.

— A senhora me conhece há muitos anos, desde menino. Sabe como estimo sua família. João Henrique é como meu irmão! Só por isso que vou contar o que sei.

— O que é?

— Não leve a mal, D. Maria Helena. Estou revoltado. A senhora, uma pessoa tão boa, ser enganada dessa forma! Logo por quem.

Maria Helena empalideceu.

— Pelo amor de Deus, — pediu. — O que você sabe que eu —       Seja lá o que for, quero saber já. Não contarei a ninguém que foi você. Agora fale.

— Fui eu quem lhe escreveu aquela carta.

— Você!

— Sim.

— Então você sabe tudo a respeito.

— Sei!

— Fale, pelo amor de Deus!

— Está bem! O doutor José Luiz tem uma amante. Eu o vi sair várias vezes, tarde da noite, da casa dela. Despediam-se amorosamente. Preocupado, passei a vigiá-los. Ele vai lá regularmente. Descobri que a bela casa onde ela mora, foi ele quem comprou.

— Isso você já disse na carta. Quero saber mais. Como é ela?

— Jovem e bela. Rosto angelical, atrás do qual eu jamais poderia supor havia uma pessoa tão baixa. Capaz de tanto fingimento.

— Jovem.., bela... . Então não pode ser coisa antiga.

— Talvez uns dois anos.

— Quem é ela?

— A senhora vai surpreender-se tanto quanto eu...

— Fale.

— Essa jovem traidora, hipócrita, que se finge de amiga para roubar-lhe o marido é Luciana.

— Luciana? — o rosto de Maria Helena contraiu-se em dolorosa surpresa. — Não posso acreditar! Isso não pode ser verdade. Você está enganado.

— Infelizmente não. Gostaria de poupar-lhe esse desgosto, mas não posso deixar que a senhora seja tão cruelmente enganada. Essa moça insinuou-se em sua casa interessada em seu marido. Descobri que ela era muito pobre antes dele comprar-lhe a casa. Além da casa, mobiliada com luxo, deu-lhe dinheiro, comprou-lhe jóias. Ela e a avó mudaram de vida. Claro. O Dr. José Luiz é generoso!

Maria Helena passou a mão na testa como a querer libertar­se daquela idéia. A situação era tão angustiante que ela não queria acreditar. De repente, lembrou-se: fora José Luiz quem sugerira Luciana como professora da filha. Ele sempre se interessava pela moça, dedicava-lhe especial atenção.

— Meu Deus! — gemeu ela — Que horror!

Os olhos de Ulisses brilharam de satisfação enquanto ele dizia com voz aflita:

— Por favor, D. Maria Helena. Tenha calma. Sei que a situação é negra, mas não se precipite. Precisa ser mais esperta do que ela. Afastá-la de sua casa e do convívio de sua família. Acabar com essa imoralidade!

Lágrimas corriam pelas faces de Maria Helena, embora lutasse para as conter. A violência da surpresa prostrava-a. Quando conseguiu controlar-se, disse com voz trêmula:

— Vou pensar. Encontrarei uma forma. Você verá. Obrigada por haver me alertado.

— Lamento haver sido eu o portador. Contudo, não poderia ficar calado, diante de tal ousadia.

— Obrigada, ser-lhe-ei eternamente grata. Agora vá, antes que alguém o veja aqui comigo.

Ele saiu rápido, acomodando-se gostosamente na sala de estar, esperando por João Henrique. Maria Helena, sentindo não poder conter-se, foi para seu quarto, trancou a porta e atirou-se no leito chorando convulsivamente.

As duas moças saíram da sala de música e encontraram Ulisses. Maria Lúcia sorriu com prazer indo abraçá-lo. Luciana cumprimentou-o com um aceno de cabeça. Ulisses, bem-humorado, cortejou Maria Lúcia, dirigindo-lhe galanteios e a moça não escondia o contentamento.

Luciana sentiu aumentar a preocupação. Sabia que Ulisses não amava Maria Lúcia, temia que ela viesse mais tarde a sofrer por isso. Contudo, sentiu que não podia fazer nada. Pensou em Suzane. Se ela pudesse ajudar! Teve vontade de sair dali, ir para casa.

— Maria Lúcia, vou para casa.

          — Que pena. Não vai ficar para jantar?

          — Obrigada, meu bem, hoje não posso. Vovó me espera.

          — Você disse que ia ficar... — fez ela, pesarosa.

— É, eu disse, mas lembrei-me agora que não posso. Fica para outro dia.

Despediu-se e saiu. Precisava ir para casa. Sentia um aperto no coração e não sabia explicar por quê.

Quando ela saiu, Ulisses segurou a mão de Maria Lúcia dizendo:

— Deixe-a ir. Será melhor. Vem, sente-se a meu lado. Pre­cisamos conversar.

A moça corou de emoção. Ele prosseguiu:

— Sabe que está muito linda e que eu gosto muito de você?

— Você nunca disse.

— É. Eu estava cego. Depois, fui iludido pela sua melhor amiga.

— Luciana?

— Sim. Luciana. Há muito desejo falar-lhe sobre ela. Sabe que está apaixonada por mim?

Maria Lúcia foi do rubor à palidez sucessivamente.

— Não é verdade! Ao contrário, ela sempre disse que não o aprecia. Aliás, sempre pensei que você é que gostasse dela!

— Impressão sua. Eu gosto mesmo é de você. Várias vezes disse isso a ela. Queria que me ajudasse a conquistar você. Sempre faz tudo que ela manda!

Maria Lúcia irritou-se:

— Não é isso, não. Sou dona do meu nariz. Sempre só faço o que quero. Nem mamãe me vencia.

— Pois não parece. Luciana conduz você com facilidade. Ela me afastava do seu lado, dizendo que você me detestava. Mas quando ela disse que me amava, entendi tudo. Ela queria me afastar de você!

— Ela fez isso? — disse ela dolorosamente surpreendida.

— Fez. Sofri muito. Mas, agora, resolvi contar a verdade. Ela nunca foi sua amiga. É falsa e interesseira.

— Não diga isso dela!

— Ainda a defende? Depois do que ela fez? Pois eu vou contar-lhe mais.

Maria Lúcia tapou os ouvidos:

— Não quero. Chega! Não suportarei!

— É um segredo. Posso confiar em você?

Ela hesitou. Desejava saber, mas ao mesmo tempo sentia medo.

— Não sei — disse.

— Então não conto. É um segredo muito sério.

— O que é?

          — Jura que não conta a ninguém?

— Juro.

— Vou contar o que eu descobri sobre ela.

Ulisses contou a mesma história que a Maria Helena.

— Não pode ser. Não acredito!

— Juro que vi. Estou dizendo a verdade.

— Meu Deus. Que horror!

— Ela nunca foi sua amiga. Aproximou-se de você por causa de seu pai. Quer o dinheiro dele, mas ao mesmo tempo, o meu amor. Acha que eu podia concordar?

Maria Lúcia, pálida, coração apertado, não queria acreditar.

— Não pode ser — disse com voz sumida. — Você deve ter se enganado.

— Juro que é verdade. Gostaria de estar enganado. Sei como vocês a estimam. Pensei muito antes de tomar essa decisão. Como esconder a verdade se vocês são como minha família? João Henrique é meu melhor amigo. Respeito seus pais como os meus próprios. Depois, há você que, quem sabe um dia, ainda será a mãe de meus filhos!

O rosto pálido da moça coloriu-se de rubor. Apesar de tudo, ele a amava. Era por ela que estava ali, tentando defender seu amor.

— Preciso pensar — disse ela — conversar com Luciana, saber a verdade.

— Duvida de mim? Acha que ela vai declarar-se culpada? Ela sempre tentou me indispor com você. Nunca foi favorável ao nosso amor.

Maria Lúcia reconheceu que Luciana não se entusiasmava quando confidenciava seu amor por Ulisses.

— Minha mãe sabe?

— Sim. Contei-lhe tudo. Não podia permitir que ela continuasse sendo enganada dessa forma. Fiz mais, pedi-lhe que comprove a verdade. Não será difícil. Seu pai vai sempre lá.

— Custo a crer. E D. Egle?

— Encobre a neta, certamente.

— É uma grande senhora, tem classe.

—   Mas faz o que Luciana quer. Ela é astuciosa. Consegue tudo o que quer. Você sempre a obedeceu!

— Eu sou livre. Sempre fiz o que quis.

— Pois não parece. Estou mostrando a verdade e você está tão cega por ela que não consegue ver.

Maria Lúcia baixou a cabeça confundida. Percebia o fascínio que Luciana sempre exercera em sua vida. Seria verdade? Estaria sendo enganada? Teria sido manipulada todo esse tempo?

Ulisses abraçou-a com entusiasmo, procurando seus lábios. O coração batendo forte, Maria Lúcia entregou-se a esse beijo que mil vezes sonhara receber; Sentia as pernas trêmulas e forte calor no corpo. Ele amava-a! Que importância tinha o resto? Sabia que o queria e que faria tudo para conservar o seu amor.

— Diga que me ama — pediu ele.

— Sim. Eu o amo! — confessou ela afinal.

— Isso é o que eu queria ouvir de seus lábios. Só peço para esperar um pouco para contar à sua família. No momento, não tenho condições financeiras para pedir sua mão. Seu pai é rico, tem posição. Não posso chegar a ele de mãos vazias. Vamos namorar em segredo, por algum tempo. Só enquanto eu me preparo. Assim que tiver condições, oficializo o pedido.

Maria Lúcia ouvia-o fascinada.

— Mal posso acreditar — disse enlevada.

— É verdade.

— Acha que vai demorar? Gostaria de gritar a todos a nossa felicidade.

— Eu também. Tenho alguns negócios que se se efetivarem, brevemente farei o pedido.

— Sinto-me tão feliz! Apesar da desilusão com Luciana.

— Prometa-me que não mais a receberá nesta casa.

— Não sei. Precisamos conversar. Há muitas coisas que eu gostaria de dizer-lhe.

— Por favor, não! Será doloroso para você. Desejo poupá-la. Depois, tenho medo. Ela não vai conformar-se em ser desmascarada. Fará tudo para enganá-la de novo. Vai querer nos separar. Não posso permitir.

— Se ela vier, não posso deixar de esclarecer tudo.

— Prometa que não a receberá. Jure que pelo menos desta vez não obedecerá aos desejos dela!

           — É difícil.

— Vê como está dependente?

— Não sou dependente.

— É. Só faz o que ela quer.

— É mentira.

— Então prove. Está sabendo que ela os enganou o tempo todo, é sem caráter, desrespeitou sua mãe, impediu nosso amor e ainda assim quer justificá-la? Dar-lhe chance de enganá-la de novo? A verdade é que você é medrosa. Não quer admiti