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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RAINHA TEMPESTADE / Marion Zimmer Bradley
RAINHA TEMPESTADE / Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

RAINHA TEMPESTADE

 

Na era do Caos, um período de confusão e terrível tirania em Darkover, o planeta do Sol Vermelho, antes da chegada da primeira expedição da Terra, nasce uma criança num Domínio das montanhas que seria conhecida como Rainha da Tempestade.

Com sua imaginação prodigiosa, a autora de As Brumas de Avalon e A Filha da Noite, apresenta aqui uma história fascinante, sobre um mundo estranho, povoado por pessoas diferentes, com poderes peculiares... mas com ambições de poder e perpetuação que são muito parecidas com as nossas.

Allart é o filho mais moço do lorde do Domínio de Elhalyn, angustiado por seu estranho poder, um laran que lhe permite ver não apenas o futuro, mas todos os futuros possíveis a partir de cada ato seu. Recolhe-se a um mosteiro na tentativa de reprimir esse estranho dom, mas um destino inexorável o arranca de lá para um dos muitos futuros que pode prever, mas se recusa a aceitar.

Dorilys é uma estranha criança que nasce em Aldaran, um Domínio nas montanhas, com um fantástico laran, que parece capaz de controlar as tempestades. Única e mimada filha sobrevivente de Lorde Aldaran, é uma menina arrogante e imprevisível, ameaçada pela doença do limiar, que se abate sobre os adolescentes quando sofrem o impacto do surgimento de seu dom, inclusive a telepatia.

Donal é seu meio-irmão, sério, compenetrado, resignado a uma vida tranqüila, em segundo plano no Domínio, quando acontecem duas coisas que haverão de mudar para sempre o seu destino: um grande amor e a ameaça armada a Aldaran.

Renata é uma jovem monitora de Torre, bela, liberada, com o dom da empatia, capaz de sentir os sentimentos alheios como se fossem seus, telepata, lançada de repente no meio de um turbilhão de eventos que escapam ao seu controle...

 

 

A tempestade estava de alguma forma errada.

Era só assim que Donal podia pensar a respeito... de alguma forma errada. Era pleno verão nas montanhas conhecidas como Hellers e não deveria haver tempestades, a não ser pelas nevascas incessantes nas alturas acima da linha da vegetação e as raras explosões de fúria, com raios e trovoadas, que se abatiam sobre os vales, ricocheteando de um pico a outro, derrubando árvores e às vezes deixando o fogo na esteira de seus raios.

Agora, porém, apesar de o céu estar azul e sem nuvens, a trovoada ressoava baixo à distância, o próprio ar parecia impregnado pela tensão de uma tempestade. Donal agachou-se no alto da ameia, afagando com um dedo o gavião aninhado na curva de seu braço. Era a tempestade no ar, a tensão elétrica, ele sabia, que estava assustando o gavião. Não deveria tê-lo tirado da gaiola hoje - bem merecia se o mestre dos gaviões lhe aplicasse uma surra, o que provavelmente aconteceria um ano antes, sem qualquer hesitação. Mas agora a situação era diferente. Donal tinha apenas dez anos, mas houvera muitas mudanças em sua curta vida. E aquela era uma das mais drásticas, que no prazo de umas poucas luas o mestre dos gaviões, os tutores e cavalariços - que antes o chamavam de aquele-pirralho-do-Donal, com cascudos, beliscões e até mesmo socos, merecidos e imerecidos - passassem a tratá-lo, com um respeito novo e adulador, de jovem-mestre-Donal.

Não havia a menor dúvida de que a vida era agora mais fácil para Donal, mas a própria mudança o deixava apreensivo; pois não ocorrera em decorrência de qualquer coisa que ele tivesse feito. Estava relacionada com o fato de que sua mãe, Aliciane de Rockraven, agora partilhava a cama de Dom Mikhail, Senhor de Aldaran, e em breve lhe daria um filho.

Apenas uma vez, há muito tempo (dois festivais de verão chegaram e passaram), Aliciane conversara com o filho sobre essas coisas.

Quero que preste toda atenção, Donal, pois só falarei uma vez e nunca mais repetirei. A vida não é fácil para uma mulher desprotegida.

O pai de Donal morrera numa das pequenas guerras travadas entre os vassalos dos senhores da montanha, antes que o filho pudesse se lembrar como ele era; desde então, mãe e filho passaram a viver como parentes pobres que não mereciam qualquer consideração, em sucessivas casas da família, Donal usando os refugos de um primo e de outro, montando sempre o pior cavalo dos estábulos, pairando por perto, procurando não ser visto, enquanto primos e outros parentes aprendiam o ofício das armas, tentando absorver tudo o que podia só de escutar.

- Eu poderia entregá-lo para adoção, Donal. Seu pai tinha muitos parentes por aqui, e você poderia crescer e se tornar servidor de algum. Mas para mim não haveria coisa alguma, além de servir como criada ou costureira; na melhor das hipóteses, como menestrel na casa de um estranho. Sou jovem demais para achar isso tolerável. Então, aceitei o serviço como cantadora de Lady Deonara. Ela é frágil e idosa, não gerou filhos vivos. Lorde Aldaran, ao que se diz, sente uma atração irresistível pela beleza das mulheres. E eu sou bonita, Donal.

Donal abraçara Aliciane com fervor; ela era de fato bonita, uma mulher esguia, parecendo uma menina, cabelos flamejantes e olhos cinzentos, com uma aparência muito jovem para ser mãe de um garoto de oito anos.

- O que estou prestes a fazer, Donal, será por você, pelo menos em parte. Minha família me repudiou por isso. Não me condene se eu for difamada por aqueles que não compreendem.

A princípio, parecia realmente que Aliciane agira daquela maneira mais pelo filho do que por si mesma: Lady Deonara era gentil, mas tinha a irritação de todas as inválidas crônicas. Aliciane mantivera-se quieta e submissa, suportando a aspereza e tirania de Deonara e a inveja das outras mulheres, sempre com boa vontade e jovialidade. Mas Donal, pela primeira vez na vida, tivera roupas feitas expressamente para ele, seu próprio cavalo gavião, partilhara o tutor e o mestre-de-armas dos filhos de criação e pajens de Lorde Aldaran. Naquele verão Lady Deonara tivera o último de uma série de filhos natimortos; e Mikhail, Senhor de Aldaran, tomara Aliciane de Rockraven como barragana e lhe jurara que sua criança, homem ou mulher, seria legitimada e herdeira de sua linhagem, a menos que ele pudesse algum dia gerar um filho legítimo. Ela era a favorita reconhecida de Lorde Aldaran - até mesmo Deonara a amava e a escolhera para o leito de seu senhor - e Donal partilhava sua eminência. Houvera uma ocasião em que o próprio Lorde Mikhail, grisalho e aterrador, convocara Donal à sua presença e comentara que tinha boas informações a seu respeito do tutor e mestre-de-armas. Abraçara Donal, gentilmente, e acrescentara:

- Eu bem que gostaria que fosse do meu sangue, filho adotivo. E ficarei contente se sua mãe me gerar um filho assim.

Donald balbuciara "Eu agradeço, parente", sem coragem ainda de chamar o velho de "pai adotivo". Embora tão pequeno, sabia que se a mãe gerasse o único filho vivo de Lorde Mikhail, quer fosse homem ou mulher, ele seria o meio-irmão do herdeiro de Aldaran. E a mudança em sua situação já fora acentuada.

Mas a tempestade iminente... parecia a Donal um mau presságio para o nascimento próximo. Ele estremeceu; aquele fora um verão de estranhas tempestades, raios que surgiam do nada, ribombos e estrondos sempre presentes. Sem saber a razão, Donal associava essas tempestades com ira - a ira de seu avô, Lorde Rockraven, o pai de Aliciane, quando soubera da opção da filha. Donal, encolhido e esquecido num canto, ouvira Rockraven chamá-la de sem-vergonha e meretriz, de outros nomes que entendia ainda menos. A voz do velho estava quase abafada naquele dia pelas trovoadas lá fora. Havia também um crepitar de raios furiosos na voz da mãe, quando ela gritara em resposta:

- Que outra coisa posso fazer, pai? Permanecer aqui, remendando minhas roupas, alimentando-me e a meu filho de sua caridade avarenta? Deverei esperar para ver Donal crescer e se tornar um soldado mercenário, uma espada de aluguel, ou escavar em seus jardins para ganhar uma tigela de mingau? Desdenha a oferta de Lady Aldaran...

- Não é Lady Aldaran que eu desdenho - protestou o pai. - E não será a ela que você vai servir e sabe disso muito bem.

- Por acaso tem uma oferta melhor para mim? Devo casar com um ferreiro ou um carvoeiro? É melhor ser uma barragana de Aldaran do que a esposa de um funileiro ou trapeiro!

Donal sempre soubera que não poderia esperar nada do avô. Rockraven nunca fora uma propriedade rica ou poderosa; e se encontrava ainda mais empobrecida porque o avô tinha quatro filhos para sustentar, além de três filhas, das quais Aliciane era a mais moça. Ela comentara um dia, amargurada, que é uma tragédia um homem não ter filhos; mas se tinha demais, era pior ainda, pois haveria de vê-los brigando por sua propriedade.

A última dos filhos, Aliciane casara com um filho mais moço, sem título, que morrera um ano depois, deixando a mulher e o recém-nascido Donal para viverem nas casas de estranhos.

Agora, agachado nas ameias do Castelo Aldaran e observando o céu claro tão inexplicavelmente riscado por relâmpagos, Donal projetou sua percepção para fora, mais e mais... e quase que podia ver as linhas de eletricidade, o estranho tremeluzir dos campos magnéticos da tempestade no ar. Havia ocasiões em que podia chamar o raio; uma vez divertira-se durante uma tempestade ao desviar os raios para onde queria. Nem sempre conseguia fazer isso e também não podia fazer com freqüência ou ficaria enjoado e fraco. Tudo começara no dia em que sentira através da pele (não sabia como) que o próximo relâmpago estava prestes a atingir a árvore em que se abrigara; de alguma forma agarrara-o com uma coisa qualquer de seu íntimo, como se um braço invisível segurasse a corrente de força explodindo e jogasse para longe. O relâmpago abatera-se, com um chiado, sobre uma moita próxima, deixando as folhas enegrecidas e chamuscando um círculo de relva ao redor. Donal caíra no chão, a cabeça girando, os olhos enevoados. Sentira a cabeça rachar em três partes com a dor e durante vários dias não fora capaz de ver direito. Mas Aliciane o abraçara e louvara.

- Meu irmão Caryl podia fazer isso, mas ele morreu jovem - dissera ela. -Houve um tempo em que a leroni de Hali tentou gerar o controle da tempestade em nosso laran, mas era muito perigoso. Eu posso ver as forças da tempestade, pelo menos um pouco, mas não sou capaz de controlá-las. Tome cuidado, Donal. Só use esse dom para salvar uma vida. Eu não gostaria que meu filho fosse destruído pelos relâmpagos que procura controlar.

E Aliciane tornara a abraçá-lo, com uma demonstração de afeto excepcional.

Laran. As histórias a respeito povoaram sua infância, os dons dos poderes extra-sensoriais, uma preocupação fundamental entre os senhores da montanha - e também nas terras baixas. Se ele tivesse algum dom realmente extraordinário, telepatia, a capacidade de impor sua vontade ao gavião, um cão ou ave-sentinela, seria registrado nas árvores genealógicas das leroni, as feiticeiras que mantinham os registros dos que possuíam o sangue de Hastur e Cassilda, lendários antepassados das Famílias Dotadas. Mas ele não tinha nenhuma. Era apenas um pouco sensível às tempestades; pressentia a ocorrência de tempestades e até mesmo de um incêndio na floresta. Algum dia, quando estivesse um pouco mais velho, ocuparia o seu lugar como vigia de incêndio e isso o ajudaria a saber, como já sabia um pouco, para onde o fogo se deslocaria em seguida. Mas era um dom menor, que não valia um registro. Mesmo em Hali já o haviam abandonado, há quatro gerações, e Donal sabia, sem ter uma noção precisa de como viera a saber, que esse fora um dos motivos para que a família de Rockraven não prosperasse.

Mas aquela tempestade estava muito além de seu poder de adivinhação. De alguma forma, sem nuvens ou chuva, parecia se concentrar ali, sobre o castelo. Minha mãe, pensou Donal, tem alguma coisa a ver com minha mãe. Ele gostaria de ter coragem de correr à sua procura, certificar-se de que estava tudo bem, em meio à percepção crescente e aterradora da tempestade. Mas um garoto de dez anos não podia correr como um bebê para se sentar no colo da mãe. E Aliciane estava enorme agora, desgraciosa, nos últimos dias de espera pelo nascimento do filho de Lorde Aldaran. Donal não podia procurá-la com seus próprios medos e angústias.

Controlando-se, ele tornou a pegar o gavião e desceu a escada; em ar tão carregado de raios, naquela tempestade estranha e sem precedentes, não podia soltá-lo para voar. O céu estava azul (parecia um bom dia para o vôo de gaviões), mas Donal podia sentir as correntes magnéticas intensas e opressivas no ar, o crepitar da eletricidade.

É o medo de minha mãe que povoa o ar com relâmpagos, como às vezes acontecia com a ira de meu avô? E de repente Donal foi sufocado pelo medo. Sabia, como todo mundo, que as mulheres às vezes morriam no parto; esforçara-se ao máximo para não pensar a respeito, mas agora, angustiado no terror pela mãe, podia sentir o crepitar do próprio medo nos relâmpagos. Nunca se sentira tão pequeno, tão desamparado. Desejou intensamente estar de volta à pobreza miserável de Rockraven, talvez ser um primo pobre esfarrapado e ignorado no baluarte de algum parente. Tremendo, ele levou o gavião de volta às gaiolas, aceitando a censura do mestre dos gaviões com tanta humildade que o velho pensou que estivesse doente.

Bem longe, nos aposentos das mulheres, Aliciane ouvia o ressoar contínuo das trovoadas; mais vagamente do que Donal, também sentiu a estranheza da tempestade. E teve medo.

Os Rockravens haviam sido afastados do programa intensivo de reprodução para os dons de laran; como a maioria de sua geração, Aliciane achava que o programa de reprodução era uma afronta, uma tirania que o povo livre da montanha não podia admitir nos dias de hoje, procriar a humanidade como gado em busca de características desejadas.

Mas em toda a sua vida sempre ouvira as histórias sobre genes letais e recessivos, as linhas genealógicas com o desejado laran. Como podia qualquer mulher gerar um filho sem experimentar o medo? Mas ali estava ela, aguardando o nascimento de uma criança que podia se tornar a herdeira de Aldaran, sabendo que o motivo para sua escolha não fora a beleza - embora soubesse, sem vaidade, que fora sua beleza o que primeiro atraíra a atenção de Lorde Aldaran - nem a voz magnífica, que a promovera a cantora de baladas predileta de Lady Deonara, mas sim o conhecimento de que tivera um filho forte e vivo, dotado com laran; que era de fertilidade comprovada e podia sobreviver ao parto.

Ou melhor, sobrevivi uma vez. O que isso prova, a não ser que tive sorte?

Como reagindo a seu medo, a criança por nascer mexeu-se abruptamente. Aliciane passou a mão pelas cordas da rryl, a pequena harpa que tinha no colo, a outra mão apertando as barras laterais. Sentiu o efeito tranqüilizador das vibrações. Enquanto começava a tocar, ela percebeu a comoção entre as mulheres que haviam sido enviadas para atendê-la, pois Lady Deonara amava sinceramente a sua cantora e colocara à sua disposição, naqueles últimos dias, as suas mais competentes enfermeiras, parteiras e criadas. E depois Mikhail, Lorde Aldaran, entrou no aposento, um homem enorme, no vigor da vida, os cabelos prematuramente grisalhos; era mais velho do que Aliciane, que completara apenas 24 anos na primavera passada. Os passos soaram pesados no aposento sossegado, parecendo mais o andar vigoroso do campo de batalha do que o deslizar suave que se usava dentro de casa.

- Toca para o seu próprio prazer, Aliciane? Eu pensava que os músicos extraíam o prazer maior dos aplausos, mas agora descubro que você toca para si mesma e suas mulheres. - Ele sorriu, puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado.

- Como está, meu tesouro?

- Estou muito bem, mas cansada - respondeu Aliciane, sorrindo também.

- É uma criança irrequieta e toco em parte porque a música parece ter um efeito calmante. Talvez porque a música acalma a mim, e por isso a criança também fica tranqüila.

- É bem possível. - Como Aliciane largasse a harpa, ele acrescentou: -Não, cante, por favor, se não estiver muito cansada.

- Como quiser, milorde.

Ela dedilhou as cordas da harpa e cantou uma canção de amor das colinas distantes:

- Onde estás agora?

Por onde meu amor vagueia?

Nas colinas não está, na praia não se encontra,

pelo mar não saiu.

Amor, onde estás agora?

 

A noite é escura, cansada eu estou,

Amor, quando cessarei esta busca?

Trevas ao redor, acima, além,

Por onde anda o meu amor?

 

Mikhail inclinou-se para a mulher e passou a mão pesada por seus cabelos brilhantes, gentilmente.

- Uma canção depressiva... tão triste... O amor é mesmo um motivo de tristeza para você, minha Aliciane?

- Claro que não - respondeu ela, assumindo uma jovialidade que não sentia. Medos e dúvidas eram para esposas mimadas, não para uma barragana, cuja posição dependia de manter seu senhor divertido e animado pelo charme e beleza, pela capacidade como artista. - Mas as lindas canções de amor são de pesar, milorde. Preferia que eu escolhesse canções de riso ou bravura?

- Tudo o que você canta me agrada, meu tesouro. E se está cansada ou triste, não precisa fingir alegria comigo, carya.

Mikhail percebeu o lampejo de desconfiança nos olhos dela e pensou: Sou sensível demais, para o meu próprio bem; deve ser agradável jamais ter qualquer percepção das mentes dos outros. Aliciane me ama sinceramente ou apenas preza a sua posição como minha favorita reconhecida? E mesmo que ela me ame, será por mim mesmo ou só porque sou rico e poderoso, posso lhe proporcionar segurança? Ele gesticulou para as mulheres, que se afastaram para a outra extremidade da sala comprida, deixando-o a sós com sua amante; continuavam presentes, a fim de satisfazer os costumes da época, que exigiam que uma mulher grávida não ficasse desacompanhada, mas a uma distância suficiente para não ouvirem coisa alguma.

- Não confio em todas essas mulheres - disse Mikhail.

- Milorde, creio que Deonara gosta sinceramente de mim. Não incluiria entre as mulheres alguém que tivesse ressentimento contra mim ou a criança.

- Deonara? É... talvez não.

Mikhail recordou que Deonara fora Lady de Aldaran por duas vezes dez anos e partilhara sua ânsia de ter um herdeiro. Não mais podia lhe prometer sequer a esperança de um filho; e acolhera com satisfação o conhecimento de que ele tomara Aliciane, uma de suas favoritas, em sua cama e seu coração.

- Mas tenho inimigos que não são desta casa e seria muito fácil infiltrar uma espia com laran, capaz de transmitir tudo o que acontece aqui a alguém que me deseja o mal. Tenho parentes que seriam capazes de muita coisa para impedir o nascimento de um herdeiro vivo de minha linhagem. Não estranho a sua palidez, meu tesouro. É difícil acreditar na insídia que faria mal a uma criancinha. Mas nunca tive certeza se a própria Deonara não foi vítima de alguém que matou as crianças por nascer em seu ventre. Não é difícil fazer isso; até mesmo com um mínimo de laran poderia romper o frágil vínculo com a vida de uma criança.

- Quem lhe desejasse mal, Mikhail, saberia que me prometeu legitimar a criança e voltaria a sua insídia contra mim - tranqüilizou-o Aliciane. - E estou gerando esta criança sem doença. Seu medo é infundado, meu amor querido.

- Queiram os deuses que você esteja certa! Mas tenho inimigos que não se deteriam diante de nada. Antes da criança nascer, chamarei uma leroni para sondá-las. Não permitirei a presença em seu parto de qualquer mulher que não possa jurar sob o encantamento da verdade que lhe deseja o bem. Um desejo maléfico pode frustrar a luta pela vida de uma criança recém-nascida.

- Não se esqueça de que a força de laran é rara, milorde querido.

- Não tão rara quanto eu gostaria - declarou Mikhail, Lorde Aldaran. -Ultimamente tenho acalentado estranhos pensamentos. Descubro que esses dons constituem uma arma para me cortar a própria mão; eu, que usei a feitiçaria para semear o fogo e o caos entre meus inimigos, sinto agora que eles também têm força para fazer o mesmo comigo. Quando eu era jovem, achava que laran era uma dádiva dos deuses; haviam-me escolhido para governar esta terra e me dotaram de laran para tornar o domínio mais forte. À medida que vou envelhecendo, no entanto, descubro que é uma maldição, não uma dádiva.

- Não está tão velho, milorde, e certamente ninguém agora desafia o seu domínio!

- Ninguém ousa fazê-lo abertamente, Aliciane. Mas estou isolado entre os que esperam que eu morra sem herdeiro. Os despojos são grandes... que os deuses lhe concedam um filho, carya.

Aliciane estava tremendo.

- E se não for... oh, milorde...

- Nesse caso, meu tesouro, deverá me gerar outra criança. E, de qualquer maneira, terei uma filha, cujo dote será meu estado e que me trará as alianças fortes de que preciso. Até mesmo uma menina tornará mais forte a minha posição. E o seu filho será o irmão-adotivo e protetor, escudo nas dificuldades, um braço forte. Amo de verdade seu filho, Aliciane.

- Sei disso.

Como ela se deixara envolver assim, descobrindo que amava o homem a quem, a princípio, pensara apenas em conquistar, com a astúcia de sua voz e beleza? Mikhail era gentil e honrado, cortejara-a, quando poderia tomá-la como presa legítima, e garantira, sem que lhe fosse pedido, que o futuro de Donal estava assegurado, mesmo que não lhe desse um filho vivo. Sentia-se segura com ele, passara a amá-lo e agora temia também por Mikhail.

Apanhada em minha própria armadilha! E Aliciane comentou, quase rindo:

- Não preciso de nenhuma garantia, milorde. Jamais duvidei de sua palavra.

Ele sorriu, aceitando a declaração, a cortesia de um telepata.

- Mas as mulheres se tornam amedrontadas em tais ocasiões e é certo agora que Deonara não me dará nenhum filho, mesmo que eu lhe pedisse, depois de tantas tragédias. Pode imaginar como é, Aliciane, ver os filhos que ansiou por tanto tempo, desejou, amou antes mesmo de nascerem, morrerem sem chegarem a respirar? Eu não amava Deonara quando casamos. Nunca vira seu rosto, pois fomos dados um ao outro em aliança de famílias. Mas suportamos muita coisa juntos. Talvez lhe pareça estranho, criança, mas o amor pode vir do pesar partilhado tanto quanto da alegria partilhada.

Mikhail fez uma pausa, a expressão sombria.

- Eu a amo muito, carya mea, mas não foi por sua beleza nem pelo esplendor de sua voz que a procurei. Sabia que Deonara não foi a minha primeira esposa?

- Não, milorde, não sabia.

- Casei pela primeira vez quando era jovem. Clariza Leynier me deu dois filhos e uma filha, todos saudáveis e fortes... É terrível perder filhos ao nascimento, mas é ainda pior perdê-los quando estão quase alcançando a maturidade. E eu os perdi... um depois de outro, na adolescência. Perdi todos os três, com a investida de laran. Morreram em crises e convulsões desse flagelo de nosso povo. E eu estava pronto a morrer de desespero.

- Meu irmão Caryl também morreu assim - murmurou Aliciane.

- Sei disso. A diferença é que ele era apenas um de sua linhagem, seu pai teve muitos filhos e filhas. Você mesma contou que seu laran não surgiu de repente na adolescência, devastando a mente e o corpo, mas cresceu devagar, desde a infância, como acontece com muita gente de Rockraven. E essa característica é dominante em sua linhagem, pois Donal mal completou dez anos e já tem muito laran, embora eu creia que não esteja plenamente desenvolvido. Mas, de qualquer forma, não é provável que ele morra no limiar. Eu sabia que não precisaria temer por seus filhos. Deonara também vem de uma linhagem em que o laran se instala cedo, mas nenhum de seus filhos viveu por tempo suficiente para sabermos se tinham ou não.

O rosto de Aliciane se contorceu em consternação e Mikhail, ternamente, estendeu o braço por seus ombros.

- O que foi, minha cara?

- Durante toda a minha vida senti repulsa por isso... a idéia de reproduzir homens como gado!

- O homem é o único animal que não pensa em melhorar sua raça. Controlamos o tempo, construímos castelos e abrimos estradas com a força de nosso laran, exploramos mais e mais dons da mente... não deveríamos tentar melhorar a nós mesmos, assim como melhoramos o mundo e tudo o que nos cerca? - Mikhail falou com veemência e depois sua expressão se abrandou. - Mas compreendo que uma mulher tão jovem quanto você não pensa em termos de gerações, séculos; enquanto se é jovem, pensa-se apenas em si mesmo e nos filhos. Mas na minha idade é natural pensar em termos de todos aqueles que virão depois, quando nós e nossos filhos já estaremos desaparecidos há séculos. Mas essas coisas não são para você, a menos que deseje pensar nelas. Pense em sua criança, amor, pense que muito em breve a teremos em nossos braços.

Aliciane encolheu-se, sussurrando:

- Do jeito que fala, parece que já sabe que é uma filha que estou lhe dando. Não está zangado?

- Eu disse que não ficaria zangado. E se me sinto aflito, é apenas porque não confiou bastante em mim para me contar assim que soube. - Mikhail falou tão suave que as palavras não chegavam a ser uma censura. - Esqueça seus medos, Aliciane; se não me dá um filho, pelo menos já me concedeu um filho-adotivo vigoroso e sua filha será uma força poderosa para me atrair um genro. E nossa filha terá laran.

Aliciane sorriu e retribuiu seu beijo; mas ainda estava tensa de apreensão ao ouvir o troar sem precedentes da tempestade de verão, que parecia sintonizar com as ondas de seu medo. Será possível que Donal tem medo do que esta criança significará para ele?, especulou Aliciane. E desejou intensamente possuir o dom precognitivo, o laran do clã Aldaran, a fim de que pudesse ter certeza de que tudo correria bem.

 

- Aqui está a traidora!

Aliciane tremeu pela ira na voz de Lorde Aldaran, que entrou intempestivo em seu aposento, empurrando uma mulher com as duas mãos. Por trás dele, a leronis, sua feiticeira doméstica, adiantava-se na ponta dos pés, carregando a matriz ou pedra da estrela azul, que de alguma forma ampliava os poderes de seu laran. Era uma mulher frágil, de cabelos claros, feições pálidas contraídas no terror da tempestade que desencadeara.

- Mayra! - exclamou Aliciane, consternada. - Pensei que era minha amiga e amiga de Lady Deonara. O que aconteceu para que seja minha inimiga e inimiga da criança que tenho no ventre?

Mayra - uma das aias de Deonara, forte e vigorosa, de meia-idade - parou assustada, mas com uma atitude de desafio, entre as mãos implacáveis de Lorde Aldaran.

- Não sei de nada do que essa feiticeira-megera disse a meu respeito. Ela sente inveja de meu lugar aqui. Será que não tem outra coisa mais útil a fazer do que se intrometer com as mentes de quem lhe é superior?

- Não vai adiantar me insultar - declarou a leronis Margali. - Perguntei a todas as mulheres apenas uma coisa, sob o encantamento da verdade, a fim de ouvir em minha mente se mentiam. Sua lealdade é para Mikhail, Lorde Aldaran, ou para a vai domna, sua Lady Deonara? E se diziam sim ou não com uma dúvida ou negativa em seus pensamentos, eu fazia outra pergunta, também sob o encantamento da verdade, se sua lealdade era com o marido, o pai ou senhor. Foi somente desta mulher que não recebi uma resposta sincera, mas apenas o conhecimento de que ela escondia tudo. E informei a Lorde Aldaran que, se havia uma traidora entre suas mulheres, só podia ser ela.

Mikhail largou a mulher e obrigou-a a se virar para fitá-lo, com alguma rudeza.

- Está há muito tempo a meu serviço, Mayra. Deonara a trata com a gentileza que dispensaria a uma irmã de criação. É a mim que deseja mal ou à minha dama?

- Lady Deonara sempre me tratou muito bem e sinto-me furiosa por vê-la preterida - respondeu Mayra, a voz tremula.

A leronis, por trás dela, interveio, em tom impassível:

- Ela também não fala a verdade agora, Lorde Aldaran. Não tem amor por nenhum dos dois.

- Ela mente! - A voz de Mayra estava agora estridente. - Ela mente... não lhe desejo qualquer mal, exceto o que atraiu para si mesmo, ao levar a meretriz de Rockraven para sua cama. Ela é quem pôs um encantamento em sua virilidade, essa víbora-meretriz!

- Silêncio!

Lorde Aldaran tremia, como se estivesse prestes a agredir a mulher. Mas a palavra foi suficiente; não houve quem não fosse dominado por uma paralisia total e Aliciane tremeu. Só uma vez antes ela ouvira Mikhail usar o que se costumava chamar, na linguagem de laran, de voz de comando. Não eram muitas as pessoas com bastante controle sobre seu laran para usá-la; não era um dom inato e exigia talento e treinamento. E quando, naquela voz, Mikhail, Lorde Aldaran, ordenava silêncio, não havia ninguém por perto que fosse capaz de formar uma palavra audível.

O silêncio no aposento era tão intenso que Aliciane podia ouvir os menores ruídos: algum inseto se arrastando pela madeira, a respiração assustada das mulheres, o crepitar distante da trovoada. E ela pensou: parece que durante todo este verão tivemos trovoadas, mais do que posso me lembrar em qualquer ano anterior... Que absurdo pensar nisso agora, quando estou diante de uma mulher que pode ter tramado minha morte, quando chegasse o momento do parto...

Mikhail fitou-a, empertigada e tremula, apoiando-se no braço de uma cadeira. E disse à leronis:

- Cuide de Lady Aliciane, ajude-a a sentar ou deitar na cama, se ela se sentir melhor assim.

Aliciane sentiu as mãos fortes de Margali amparando-a, acomodando-a na cadeira. Tremeu agora de raiva, odiando a fraqueza física que não podia controlar.

Esta criança esgota a minha força como Donal nunca o fez... Por que me sinto tão enfraquecida? É o mal que essa mulher me vota, seus encantamentos insidiosos...? Margali pôs as mãos na testa de Aliciane, que sentiu uma calma tranqüilizante se irradiar. Tentou relaxar, respirar regularmente, conter a inquietação frenética que podia sentir nos movimentos da criança em seu ventre. Pobre criança... ela também tem medo e não é de admirar...

- Você! - A voz de Lorde Aldaran era autoritária. - Vai me dizer agora, Mayra, por que me quer o mal ou tentaria prejudicar Lady Aliciane e sua criança!

- Eu, falar?

- Sabe que acabará falando, de um jeito ou de outro - garantiu Mikhail de Aldaran. - E vai nos contar mais do que jamais acreditou que seria possível, por sua livre e espontânea vontade, sem dor, ou arrancado aos gritos. Não gosto de torturar mulheres, Mayra, mas também não admito uma víbora em minha casa. Poupe-nos o esforço.

Mas Mayra se manteve em silêncio, desafiadora, fitando-o. Mikhail deu de ombros e seu rosto foi dominado por uma tensão que Aliciane conhecia - e não se atreveria a desafiar.

- Como quiser, Mayra. Margali traga sua pedra da estrela.... não. Melhor ainda, mande trazerem kirizani.

Aliciane tremeu, embora Mikhail estivesse demonstrando misericórdia, à sua maneira. Kirizani era o nome de meia dúzia de drogas destiladas das resinas das flores de kireseth, cujo pólen produzia a loucura quando o Vento-Fantasma soprava nas colinas; kirizani era a parte da resina que baixava as barreiras contra o contato telepático, expondo a mente a qualquer pessoa que quisesse sondá-la. Era melhor do que a tortura, mas... Ela se encolheu, contemplando a determinação irada no rosto de Mikhail e o desafio sorridente da mulher chamada Mayra. Todos ficaram em silêncio até o kirizani chegar, um líquido claro, num frasco de cristal transparente. Mikhail destampou-o e disse suavemente:

- Vai tomar sem protesto, Mayra, ou as mulheres terão de agarrá-la e despejar por sua garganta, como se faz com um cavalo?

O rosto de Mayra ficou vermelho; ela cuspiu em Mikhail.

- Pensa que pode me obrigar a falar com sua feitiçaria e suas drogas, Lor­de Mikhail? Pois eu o desafio! Não precisa se preocupar com qualquer mal que eu possa lhe votar... já há o suficiente à espreita em sua casa e no ventre de sua amante-meretriz! Há de chegar o dia em que rezará para ter morrido sem crianças... e não haverá mais nenhuma! Não levará outra para a sua cama, a última foi a meretriz de Rockraven, que estofou com sua filha-bruxa! Meu trabalho está cumprido, vai dom! - Ela fez uma pausa, depois de lançar o tratamento respeitoso como uma zombaria. - Não preciso de mais tempo! Deste dia em diante, nunca mais há de gerar filha ou filho... vai ficar vazio como uma árvore morta no inverno! E vai chorar e orar...

- Silencie esse espírito do mal! - ordenou Mikhail.

Margali começou a se levantar do lado de Aliciane, segurando a matriz.

Mas a mulher tornou a cuspir, riu histericamente e desabou no chão. No silêncio atordoado, Margali adiantou-se, encostou a mão de leve no peito da mulher.

- Ela está morta, Lorde Aldaran. Deve ter sido encantada para morrer sob interrogatório.

Mikhail ficou olhando consternado para o corpo sem vida, as perguntas não formuladas e sem respostas em seus lábios. E murmurou:

- Agora jamais saberemos o que ela fez e como, quem foi o inimigo que a mandou para cá. E posso jurar que Deonara não sabe de nada.

Mas as palavras continham uma indagação. Margali pôs a mão na pedra azul e disse suavemente:

- Por minha vida, Lorde Aldaran, garanto que Lady Deonara não tem má vontade contra a criança de Lady Aliciane. Isso ela me disse muitas vezes, que está feliz por você e por Aliciane... e sei quando estou ouvindo a verdade.

Mikhail acenou com a cabeça, mas Aliciane viu os vincos em torno de sua boca se aprofundarem. Se Deonara, com ciúme dos favores de Lorde Aldaran, tivesse desejado algum mal a Aliciane, isso pelo menos seria compreensível. Mas quem, ela especulou, conhecendo um pouco as hostilidades e lutas pelo poder de Aldaran, poderia desejar o mal a um homem tão bom quanto Mikhail? Quem poderia odiá-lo tanto a ponto de infiltrar uma espia entre as camareiras de sua esposa, fazer o mal à criança de uma barragana, talvez lançar maldições com a força de laran à sua virilidade?

- Tirem-na daqui - disse Aldaran finalmente, a voz não muito firme. - Que o corpo seja pendurado nas alturas do castelo, para os kyorebni buscarem. Ela não merece os rituais fúnebres de uma servidora fiel.

Ele esperou, impassível, enquanto guardas altos e fortes carregavam o cadáver, que seria despido e pendurado para ser dilacerado pelas grandes aves de rapina. Aliciane ouvia a trovoada ressoando à distância, depois mais e mais próxima. Aldaran se aproximou e disse, a voz agora abrandada pela ternura:

- Não tenha mais medo, meu tesouro. Ela se foi e seu mal acabou com a morte. Viveremos para rir de suas maldições, minha querida.

Ele arriou numa cadeira ao lado, pegando a mão de Aliciane entre seus dedos gentis. Mas ela sentiu, através do contato, que Mikhail também estava aflito e até mesmo assustado. E não estava bastante forte para tranqüilizá-lo; tinha a sensação de que estava prestes a desfalecer outra vez. As maldições de Mayra ressoavam em seus ouvidos, como os ecos reverberantes nos desfiladeiros em torno de Rockraven quando era criança, e ali gritava pela diversão de ouvir a própria voz multiplicada mil vezes em todos os quadrantes do vento.

Nunca mais há de gerar filha ou filho... Vai ficar vazio como uma árvore morta no inverno... Há de chegar o dia em que rezará para ter morrido sem crianças... O som parecia aumentar, sufocando-a; ela recostou-se na cadeira, quase perdendo a consciência.

- Aliciane, Aliciane...

Ela sentiu braços fortes envolverem-na, levantando-a, carregando-a para a cama. Mikhail acomodou-a sobre os travesseiros, sentou-se ao lado, acariciando seu rosto gentilmente.

- Não deve se assustar com sombras, Aliciane.

Ela murmurou, tremendo, a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

- Ela lançou uma maldição contra sua virilidade, milorde.

- Não me sinto em perigo - respondeu ele, sorrindo.

- Mas... tenho reparado e pensado... não levou outra para sua cama nestes últimos tempos, quando estou pesada de criança, como seria o costume.

Uma tênue sombra se insinuou no rosto de Mikhail, e nesse momento suas mentes estavam tão próximas que Aliciane se arrependeu das palavras que acabara de pronunciar; não deveria interferir com o medo dele. Mas Lorde Aldaran, disse, a voz firme, convertendo o medo em jovialidade:

- Quanto a isso, minha cara Aliciane, não sou mais tão jovem que não possa viver sem mulher por algumas luas. E creio que Deonara não lamenta estar livre de mim; meus abraços nunca significaram para ela mais do que o dever e crianças mortas. Além do mais, parece que hoje em dia, com exceção de você, as mulheres não são mais tão bonitas quanto na minha juventude. Não tem sido difícil para mim abster-me de pedir o que não seria prazer para você conceder. Mas depois que nossa criança nascer e você estiver bem outra vez, veremos se as palavras daquela tola têm algum efeito pernicioso sobre a minha virilidade. Ainda pode me dar um filho, Aliciane... ou no mínimo passaremos muitas horas alegres juntos.

Ela balbuciou, tremendo:

- Que o Senhor da Luz ouça e conceda! - Mikhail inclinou-se e beijou-a com ternura, mas o contato de seus lábios tornou a uni-los, com o medo partilhado e, abruptamente, a angústia partilhada dilacerando Aliciane.

Ele se empertigou, como se estivesse chocado, e chamou as mulheres.

- Cuidem de minha dama! Aliciane agarrou suas mãos.

- Estou com medo, Mikhail - sussurrou ela e sentiu o pensamento de Lorde Aldaran: Não é bom presságio que ela entre em trabalho de parto com as maldições daquela bruxa ainda ressoando em seus ouvidos... Aliciane também sentiu a disciplina rigorosa com que ele refreava e controlava até mesmo o pensamento, para que o medo não entrasse em espiral, se intensificando a cada mente por que passasse. E Mikhail disse, numa ordem gentil:

- Deve tentar pensar em nossa criança apenas, Aliciane, emprestar-lhe a sua força. Pense apenas em nossa criança... e no meu amor.

Era quase o pôr-do-sol. As nuvens se acumulavam nas alturas além do Castelo Aldaran, nuvens de tempestade, cada vez mais altas; mas onde Donal se elevava o céu estava azul e sem nuvens. O corpo franzino esticava-se numa estrutura de madeira leve, entre asas largas do couro mais fino, envolvendo uma armação estreita. Elevado pelas correntes de ar, ele subia mais e mais, inclinando a mão num lado e outro, a fim de manter o equilíbrio nas fortes rajadas, para esquerda e direita. A pequena pedra-matriz brilhava no travessão. Donal fizera sozinho o planador de levitação, com apenas uma pequena ajuda dos homens dos estábulos. Vários garotos na casa tinham brinquedos assim, a partir do momento em que o treinamento no uso das pedras da estrela era suficiente para lhes permitir a levitação sem qualquer perigo desnecessário. Mas a maioria dos garotos da casa se encontrava em suas aulas naquele instante; Donal se esgueirara para o topo do castelo e subira sozinho, embora soubesse que a penalidade seria a proibição do uso do planador, talvez por muitos dias. Podia sentir a tensão e o medo por toda parte do castelo.

Uma traidora executada, morrendo antes de ser tocada, sob um encantamento de morte. E ela lançara uma maldição contra a virilidade de Lorde Aldaran...

Os rumores corriam desenfreados pelo Castelo Aldaran, como fogo em mato seco, alimentados pelas poucas mulheres que estiveram no aposento de Aliciane e viram alguma coisa; haviam visto demais para se manterem caladas, haviam visto muito pouco para oferecerem um relato verídico.

A mulher lançara maldições para a pequena barragana e Aliciane de Rockraven entrara em trabalho de parto. Lançara uma maldição sobre a virilidade de Lorde Aldaran - e era verdade que ele não levara nenhuma outra para sua cama, logo ele, que sempre tomara uma nova mulher em cada mudança das luas no céu. Uma indagação nova e sinistra nos rumores fizeram Donal estremecer: não teria sido Lady de Rockraven quem lançara um encantamento sobre a virilidade de Lorde Aldaran, a fim de que ele não desejasse nenhuma outra, a fim de manter o lugar que ocupava em seus braços e seu coração?

Um dos homens, um guerreiro rude, soltara uma risada profunda e sugestiva, comentando:

- Aquela não precisa de encantamentos; se Lady Aliciane virasse seus lindos olhos para mim, eu empenharia a minha virilidade com a maior satisfação.

Mas o mestre-de-armas interviera, firme como sempre:

- Cale-se, Radan. Essa conversa é imprópria entre rapazes... e já reparou quem se encontra presente? Volte para o seu trabalho e pare de fazer esses comentários sujos. - Depois que o homem se retirara, o mestre-de-armas acrescentara, gentilmente: - A conversa é imprópria, mas não passa de um gracejo, Donal. Ele está angustiado porque não tem mulher e falaria assim de qualquer uma que seja atraente. Não teve a intenção de desrespeitar sua mãe. Na verdade, haverá grande regozijo em Aldaran se Aliciane de Rockraven nos der um herdeiro. Não deve se zangar com as palavras ditas sem pensar; se der ouvidos a todo cão que ladra, não lhe sobrará tempo para aprender a sabedoria. Concentre-se em suas lições, Donal, e não desperdice tempo a se ressentir com o que homens ignorantes dizem sobre seus superiores.

Donal se afastara, mas não para as aulas; levara seu planador para o topo do castelo, subira nas correntes de ar e agora voava em suas cristas, os pensamentos aflitivos para trás, a memória em suspenso, inebriado por sentir-se como uma ave, ora virando para o norte, ora voltando para oeste, onde o enorme sol escarlate pairava baixo sobre os picos.

Um gavião deve se sentir assim, flutuando no espaço... Sob os seus dedos sensíveis, a asa de madeira e couro inclinou-se um pouco para baixo e ele se concentrou na corrente de ar, deixando-a levá-lo. A mente se abriu para a hiperpercepção da pedra, contemplando o céu não como um vazio azul, mas como uma grande rede de campos e correntes que lhe pertenciam para explorar, flutuando para baixo, cada vez mais, até que parecia que ia se chocar contra um penhasco, para no último instante entrar numa corrente ascendente, cavalgando o vento... E Donal flutuava, a mente sem qualquer pensamento, subindo e subindo, em êxtase.

A lua verde, Idriel, pairava baixo, uma corcova no céu avermelhado; o crescente prateado de Mormallor era a mais pálida das sombras; e a violenta Liriel, a maior das luas, quase cheia, começava a se elevar, lentamente, no horizonte a leste. Um ressoar baixo de trovoada das nuvens acumuladas por trás do castelo despertou a memória e apreensão de Donal. Não podia ser censurado por se afastar da aula num momento como aquele, mas com toda certeza seria punido se permanecesse fora depois do crepúsculo. Ventos fortes começam a soprar após o pôr-do-sol e, há cerca de um ano, um dos pajens do castelo destroçara seu planador e quebrara um cotovelo num dos rochedos lá embaixo. Tivera muita sorte, todos sabiam, por não morrer. Donal lançou um olhar cauteloso para as muralhas do castelo, procurando por uma corrente ascendente que o levasse para o topo - caso contrário, teria de descer até as encostas por baixo do castelo, subindo a pé e carregando o planador, que era leve, mas incômodo. Sentindo as pressões do ar mais tênues, ampliadas através da percepção da matriz, ele pegou uma corrente ascendente, que o levaria, se bem aproveitada, por cima e por trás do castelo, de onde flutuaria até os telhados.

Subindo, ele avistou, com um calafrio, o corpo nu e inchado da mulher que ali estava pendurado, o rosto já desfigurado pelos kyorebni que circulavam no local. Ela já estava irreconhecível e Donal estremeceu. Mayra sempre fora gentil com ele, à sua maneira. Ela teria mesmo lançado uma maldição contra sua mãe? Donal estremeceu com sua primeira percepção real da morte.

As pessoas morrem. Morrem de verdade e são bicadas e dilaceradas por aves de rapina. Minha mãe também pode morrer, no parto... O corpo se contraiu no terror súbito, e Donal sentiu as frágeis asas do planador, livres de controle de sua mente e corpo, adejarem e se inclinarem para baixo, caindo... No mesmo instante ele recuperou o controle, subiu, levitando o corpo, até pegar outra corrente ascendente. Mas agora podia sentir a tensão e choque no ar, a estática aumentando.

A trovoada ressoou por cima; um relâmpago riscou o céu acima do Castelo Aldaran, deixando um cheiro de ozônio e um tênue odor de queimado nas narinas de Donal. Além do troar ensurdecedor, Donal viu sem ouvir o clarão do relâmpago nas nuvens acumuladas por cima do castelo. Em pavor repentino, ele pensou: Preciso descer, sair daqui; não é seguro voar com uma tempestade iminente... Sempre o haviam advertido para esquadrinhar o céu à procura de relâmpagos nas nuvens, antes de alçar vôo em seu planador.

Uma súbita e violenta corrente descendente alcançou-o, empurrando para baixo a frágil estrutura de madeira e couro; Donal, muito apavorado agora, apertou com força as alças, com bastante bom senso para não tentar lutar com a corrente cedo demais. Tinha a sensação de que o destroçaria contra os rochedos lá embaixo, mas forçou-se a permanecer inerte entre as longarinas, a mente vasculhando à frente, à procura da contracorrente. No momento exato, ele contraiu o corpo, concentrando-se na percepção da matriz, sentiu a levitação e a contra-corrente tornou a levá-lo para cima.

Agora. Depressa e com todo cuidado. Devo subir até o nível do castelo, pegar a primeira corrente de descida. Não há tempo a perder... Mas agora o ar parecia pesado e denso, Donal não era capaz de interpretar as correntes. Com medo crescente, ele irradiou a percepção em todas as direções, mas sentiu apenas as fortes cargas magnéticas da tempestade.

Esta tempestade está errada também! É como a do outro dia. Não é absolutamente uma tempestade real, é outra coisa. Mãe! Oh, minha mãe! Parecia ao menino assustado, agarrado nas longarinas do planador, que podia ouvir Aliciane gritando em terror: "Oh, Donal, o que será de meu filho?" Sentiu o corpo se convulsionar em terror, o planador escapando ao seu controle, caindo... caindo... Se fosse menos leve, tivesse menos envergadura, poderia se arrebentar nos rochedos, mas as correntes de ar, embora Donal não pudesse interpretá-las, mantiveram-no flutuando. Depois de algum tempo, a queda cessou e ele começou a deslizar para o lado outra vez. Agora, usando o laran - a força da levitação dada ao corpo e mente pela pedra matriz - e sua percepção treinada procurando por vestígios de correntes em meio à tempestade magnética, Donal começou a lutar por sua vida. Repeliu a voz que quase podia ouvir, a voz da mãe clamando em terror e dor. Repeliu o medo que o fizera ver o próprio corpo estraçalhado nos penhascos lá embaixo. Forçou-se à fusão total no laran aguçado, transformando as asas de madeira e couro em extensões dos braços, sentindo as correntes que sopravam e se chocavam contra elas, como se sacudissem suas próprias mãos, suas pernas.

Agora... trate de subir... só até aqui... tente se deslocar um pouco para oeste... Ele forçou-se a ficar inerte, enquanto outro raio tremendo saltava de uma nuvem, sentindo-o explodir além. Sem controle... não vai a lugar nenhum... não tem percepção... e as máximas da bondosa leronis que lhe ensinara o pouco que sabia: a mente treinada sempre pode dominar qualquer força da natureza... Ritualmente, Donal lembrou-se da informação.

Não preciso temer vento, tempestade ou relâmpago, a mente treinada pode dominar... Mas Donal tinha apenas dez anos e, ressentido, especulou se Margali alguma vez voara num planador em plena tempestade.

Um estrondo ensurdecedor deixou-o momentaneamente sem pensamentos; sentiu a chuva encharcar de repente o corpo enregelado e lutou para reprimir o tremor que procurava arrancar o controle das asas adejantes de sua mente.

Agora. Firme, para baixo, para baixo, nesta corrente... até o solo, ao longo da encosta... não há tempo para brincar com outra corrente ascendente. Descendo aqui estarei a salvo do relâmpago...

Os pés quase encostavam no chão quando outra brusca corrente ascendente apoderou-se das asas largas e arremessou-o para cima, para longe da segurança da encosta. Soluçando, lutando contra o mecanismo, Donal fez força para descer outra vez, esticando-se para a beira e assumindo uma posição vertical, segurando as longarinas por cima da cabeça, deixando que as asas largas reduzissem a velocidade da queda. Sentiu o raio através da pele e projetou toda a sua força para desviá-lo, lançá-lo em qualquer outro lugar. As mãos apertavam frenéticas as longarinas por cima da cabeça, enquanto ouvia o raio e a explosão tremenda, via com olhos atordoados um dos rochedos maiores da encosta ser destruído, com um estrondo assustador. Os pés tocaram no chão; o impacto foi forte e ele rolou e rolou, sentindo as longarinas do planador se fragmentarem em pedaços incontáveis. A dor disparou pelo ombro ao cair, mas ainda lhe restavam força e percepção suficientes para ficar inerte, como aprendera nos exercícios de combate, cair sem a resistência muscular que podia quebrar ossos. Vivo, escoriado, soluçando, ele ficou estendido na encosta rochosa, sentindo os relâmpagos a esmo ao redor, as trovoadas ressoando de pico em pico.

Levantou-se ao recuperar o fôlego. As duas longarinas do planador estavam quebradas, mas poderiam ser recuperadas; tinha sorte por seus braços não se arrebentarem como as longarinas. A visão do rochedo fragmentado deixou-o angustiado e tonto, a cabeça latejava; mas concluiu que, apesar de tudo, tinha sorte, pois estava vivo. Pegou o brinquedo quebrado, dobrou as asas partidas e começou a subir lentamente a encosta, a caminho dos portões do castelo.

- Ela me odeia! - exclamou Aliciane, dominada pelo terror. - Não quer nascer!

Através da escuridão que parecia pairar em torno de sua mente, ela sentiu Mikhail pegar e apertar suas mãos que se debatiam.

- Meu amor querido, isso é um absurdo - murmurou ele, enlaçando a mulher, refreando com firmeza os próprios medos.

Também sentia a estranheza dos relâmpagos que riscavam o céu e troavam pelas janelas altas, o terror de Aliciane reforçava seu temor. Parecia haver outra presença no quarto, além da mulher assustada, além da serenidade de Margali, que estava sentada com a cabeça inclinada, sem olhar para qualquer dos dois, o rosto azulado ao brilho da pedra matriz. Mikhail podia sentir as ondas de calma que Margali irradiava, tentando envolvê-los; fez um esforço para entregar a mente e o corpo a essa calma, para relaxar. Iniciou a respiração profunda e ritmada que aprendera para se controlar e, depois de algum tempo, sentiu que Aliciane também relaxava e flutuava.

De onde então vêm o terror, a luta...

É ela, a que está por nascer... é seu medo, sua relutância...

O nascimento é uma experiência penosa de terror; tem de haver alguém que a tranqüilize, alguém que a aguarde com amor... Aldaran cumprira os seus deveres no nascimento de todos os filhos; sentindo o pavor e a raiva indefinidos da mente informe, projetados por forças que não podia compreender. Agora, vasculhando suas lembranças (algum dos filhos de Clariza fora tão forte? Os bebês de Deonara, pobres coitados, não haviam sido capazes sequer de lutarem por suas vidas...), ele se irradiou, procurando os pensamentos desfocados da criança a lutar, atormentada pela percepção da dor e medo da mãe. Esforçou-se para transmitir pensamentos tranqüilizantes de amor e ternura; não em palavras, pois a criança por nascer não tinha conhecimento da linguagem, mas converteu-os em palavras, por si mesmo e por Aliciane, a fim de concentrar suas emoções, dar-lhes uma sensação de afeto e boas-vindas.

Não deve ter medo, criança; tudo acabará em breve... estará respirando livremente e nós vamos abraçá-la e amá-la... há muito que é esperada, profundamente amada... Mikhail procurou irradiar amor e ternura, banir de sua mente o pensamento assustado dos filhos e filhas que perdera, quando todo o seu amor não pudera acompanhá-los nas trevas que o laran em desenvolvimento projetara em suas mentes. Tentou eliminar da memória as lutas débeis e deploráveis das crianças de Deonara, que não haviam sobrevivido para respirar... Eu os amava bastante? E se amasse Deonara mais, seus filhos teriam lutado com mais afinco para viver?

- Fechem as cortinas - ordenou ele após um momento.

Uma das mulheres no quarto avançou até a janela na ponta dos pés e puxou as cortinas, isolando-os do céu que escurecia. Mas a trovoada ressoava no quarto e o clarão do relâmpago podia ser visto mesmo através das cortinas fechadas.

- Veja como está a pequena - murmurou a parteira.

Margali levantou-se sem fazer barulho e encostou as mãos gentilmente no corpo de Aliciane, transmitindo sua percepção para a mulher, a fim de controlar sua respiração, o progresso do nascimento. Uma gestante com laran não podia ser fisicamente examinada ou tocada, por receio de machucar ou assustar a criança por nascer com uma pressão ou toque descuidado. Era a leronis quem devia fazer isso, usando a percepção de seus poderes telepáticos e psicocinéticos. Aliciane sentiu o contato reconfortante e o rosto conturbado relaxou, mas gritou no instante em que Margali retirou as mãos:

- Oh, Donal, Donal, o que será de meu filho?

Lady Deonara Ardais-Aldaran, uma mulher frágil e envelhecida, aproximou-se de Aliciane na ponta dos pés e pegou os dedos esguios entre os seus, murmurando:

- Não tenha receio por Donal, Aliciane. Avarra proíbe que seja necessário, mas juro a você que, deste dia em diante, serei sua mãe de criação, tão ternamente como se ele fosse um dos meus próprios filhos.

- Tem sido tão boa comigo, Deonara - balbuciou Aliciane -, e tentei tirar Mikhail de você.

- Criança, criança... este não é o momento de pensar nisso; se puder dar a Mikhail o que não fui capaz, juro que será minha irmã e a amarei como Cassilda amou Camilla. - Deonara inclinou-se e beijou o rosto pálido de Aliciane. - Dei­xe a mente descansar, breda; pense apenas na criança que vem para os nossos braços. Eu também a amarei.

Abraçada ternamente pelo pai de sua filha, acalmada pela mulher que jurara receber a criança como se fosse sua, Aliciane sabia que devia se sentir confortada. Mas enquanto os relâmpagos cortavam as alturas e ribombavam pelas muralhas do castelo, ela sentia um terror total dominá-la. É o terror da criança ou o meu? Sua mente flutuava na escuridão sob a serenidade da leronis, sob as garantias de Mikhail, despejando amor e ternura. É por mim ou apenas pela criança? Parecia não ter mais importância; não podia ver mais nada. Antes, sempre tivera um tênue vislumbre do que viria depois, mas agora parecia não haver qualquer outra coisa no mundo além de seu próprio medo, o medo da criança, a ira indefinida e sem palavras. Pareceu-lhe que a raiva sintonizava com a tempestade, que as dores do nascimento que a dilaceravam clareavam e escureciam acompanhando os relâmpagos... a trovoada ressoava não nas alturas lá fora, mas dentro e ao redor de seu corpo violado... terror, raiva, fúria, consumindo-se dentro dela... o relâmpago trazendo fúria e dor. Fez um esforço para respirar e gritar e a mente afundou, quase com alívio, nas trevas, no silêncio, no nada...

- Ah, é uma pequena fúria! - exclamou a parteira, segurando cautelosamente a criança a se debater. - Deve acalmá-la, domna, antes que eu separe sua vida da vida da mãe, ou ela vai se debater e sangrar demais... mas é muito forte, uma mulherzinha robusta!

Margali inclinou-se sobre a criança que berrava. O rosto era de um vermelho escuro, contorcido num grito furioso de raiva; os olhos, quase fechados, eram de um azul ardente. A cabecinha redonda estava coberta por uma penugem avermelhada. Margali estendeu as mãos esguias para o corpo nu da criança, arrulhando suavemente. Sob o contato, a criança acalmou-se um pouco e parou de lutar; e a parteira pôde cortar o cordão umbilical e amarrá-lo. Mas quando a mulher pegou a criança e envolveu-a com uma manta aquecida, ela recomeçou a berrar e se debater. A mulher largou-a na cama, retirando a mão dolorida.

- Ah, que Evanda tenha misericórdia, ele é dos que têm! Quando crescer, a pequena donzela não precisará temer o estupro, se já pode golpear com laran. Nunca tinha ouvido falar que se encontrasse numa criança recém-nascida!

- Você a assustou - comentou Margali, sorrindo.

Mas o sorriso se desvaneceu no instante em que ela pegou a criança. Como todas as mulheres de Deonara, ela amara a doce Aliciane.

- Pobre criança, perder tão cedo uma mãe tão amorosa...

Mikhail de Aldaran ajoelhou-se, o rosto contraído pela angústia, ao lado do corpo da mulher que tanto amara.

- Aliciane... Aliciane, minha amada...

E depois ele levantou o rosto, em amargura. Deonara tirara a criança enrolada das mãos de Margali e a comprimia contra o seio murcho, com a ânsia intensa da maternidade frustrada.

- Não está descontente, não é mesmo, Deonara... por saber que agora ninguém lhe disputará o papel de mãe dessa criança?

- Não é um comentário digno de você, Mikhail - protestou Deonara, acalentando a filha de Aliciane. - Eu amava muito Aliciane, milorde. Eu deveria ignorar a filha que ela teve ou posso melhor demonstrar meu amor ao criá-la tão ternamente como se fosse minha? Pode levá-la, meu marido, até que encontre outro amor. - Por mais que tentasse, Lady Aldaran foi incapaz de evitar que a amargura transparecesse em sua voz. E acrescentou: - Ela é a sua única criança viva. E se já tem laran, vai precisar de muito cuidado em sua criação. Meus pobres bebês jamais chegaram a viver por tanto tempo.

Ela pôs a criança nos braços de Mikhail, que a contemplou com infinita ternura e pesar.

A maldição de Mayra ressoou em sua mente: Não levará outra para sua cama... vai ficar vazio como uma árvore morta no inverno... Como se a consternação se comunicasse à criança em seu colo, ela começou a gritar e se debater mais uma vez. E a tempestade se abatia além da janela.

Dom Mikhail contemplou o rosto da filha. Ela parecia infinitamente preciosa ao homem sem prole; e mais ainda, se a maldição se consumasse. Estava rígida em seus braços, berrando, o rostinho contorcido, como se tentasse gritar mais alto do que a tempestade furiosa lá fora, os pequenos punhos rosados cerrados em raiva. Já se podia perceber em seu rosto uma cópia em miniatura e incipiente de Aliciane - as sobrancelhas arqueadas e os malares salientes, os olhos de um azul ardente, a penugem de cabelos vermelhos.

- Aliciane morreu para me dar esta grande dádiva. Devemos lhe dar o nome da mãe, em memória?

Deonara estremeceu e se encolheu.

- Daria à sua filha única o nome da falecida, milorde? Procure um nome de melhor presságio!

- Como achar melhor. Pode escolher o nome que mais lhe agrada, domna. E Deonara balbuciou:

- Eu teria dado à nossa primeira filha o nome de Dorilys, se ela tivesse vivido por tempo suficiente para receber um nome. Deixe-a ter esse nome, como um penhor da mãe que serei para ela. - Deonara tocou com a ponta do dedo na face que parecia uma pétala de rosa. - Gosta desse nome, mulherzinha? Olhe... ela dorme. Está cansada de tanto chorar...

Além das janelas, a tempestade foi amainando para o silêncio e desapareceu, não se ouvia mais qualquer ruído além do gotejar das últimas gotas de chuva.

 

*** Onze Anos Depois ***

Era a hora da escuridão, pouco antes do amanhecer. A neve caía silenciosamente sobre o mosteiro de Nevarsin, já sepultado sob uma profunda camada de neve.

Não houve sino ou, se houve, tocou silenciosamente, sem ser ouvido, nos aposentos do Padre Mestre. Contudo, em cada cela e dormitório, irmãos, noviços e estudantes começaram a se movimentar em silêncio, emergindo do sono, como a um sinal único, sem ruído.

Allart Hastur de Elhalyn despertou abruptamente, algo em sua mente sintonizado e receptivo ao chamado. Muitas vezes dormira além da hora nos primeiros anos, mas ninguém no mosteiro podia despertar outro; parte do treinamento ali era fazer com que os noviços ouvissem o inaudível e vissem o que não havia para ser visto.

Também não sentiu frio, embora estivesse coberto apenas, como era a regra, pelo hábito comprido; já disciplinara o corpo para gerar o calor que o aquecia durante o sono. Sem necessidade de luz, ele se levantou, pôs o hábito por cima do traje interno que usava dia e noite, enfiou os pés na rudes sandálias de palha trançada. Meteu nos bolsos o pequeno livro de orações encadernado, a caixa de pena e o tinteiro de chifre lacrado, sua tigela e a colher; agora, nos bolsos do hábito, estavam todas as coisas que um monge podia possuir ou usar. Dom Allart Hastur ainda não era um irmão de juramento toral de São-Valentino-das-Neves, em Nevarsin. Mais um ano se passaria antes que pudesse alcançar esse desligamento final do mundo lá embaixo - um mundo conturbado, de que se lembrava a cada vez que prendia a tira de couro das sandálias; pois no mundo dos Domínios, usador de sandálias era o insulto supremo a um homem, insinuando comportamento efeminado ou pior ainda. Mesmo agora, enquanto prendia a tira da sandália, foi forçado a acalmar a mente dessa lembrança, com três respirações lentas, uma pausa, três respirações mais aceleradas, uma oração murmurada pela causa da ofensa; mas Allart estava angustiosamente consciente da ironia.

Orar por paz para meu irmão, que me impingiu esse insulto, quando foi ele quem me trouxe para cá, por minha própria sanidade? Consciente de que ainda sentia raiva e ressentimento, ele tornou a fazer a respiração ritual, descartando o irmão de sua mente com firmeza e lembrando as palavras do Padre Mestre:

- Não tem poder sobre o mundo ou as coisas do inundo, meu filho; renunciou a todo desejo por esse poder. O poder que veio procurar aqui é o poder sobre as coisas interiores. A paz só virá quando se tornar plenamente consciente de que seus pensamentos não são de fora; vêm do interior e por isso são todos seus, as únicas coisas no universo sobre as quais é legítimo ter um poder total. Você, não seus pensamentos e memórias, governa a sua mente; e é você, mais ninguém, quem lhes ordena que surjam e desapareçam. O homem que permite que os pensamentos o atormentem é como o homem que pega uma formiga-escorpião e a comprime contra o peito, desejando que o morda ainda mais.

Allart repetiu o exercício e, ao final, a lembrança do irmão se desvanecera de sua mente. Ele não tem lugar aqui, nem mesmo em minha mente e memória. Calmo agora, a respiração entrando e saindo numa pequena nuvem branca em torno da boca, ele deixou a cela e seguiu silenciosamente pelo comprido corredor.

A capela, com acesso por uma passagem curta através da neve a cair, era a parte mais antiga do mosteiro. Há quatrocentos anos os primeiros irmãos haviam chegado ali, a fim de ficarem acima do mundo a que desejavam renunciar, escavando o mosteiro na rocha viva da montanha, aprofundando a pequena caverna em que, segundo a lenda, São-Valentino-das-Neves vivera. Em torno dos restos mortais do eremita surgira uma cidade: Nevarsin, a Cidade das Neves. Agora, havia vários prédios ali, construídos por mãos monacais, em desafio às facilidades daqueles tempos; os irmãos se gabavam de que não havia uma única pedra que tivesse sido deslocada com a ajuda de alguma matriz ou com qualquer outra coisa que não o esforço de mãos e mentes.

A capela estava escura, uma única e pequena luz acesa no santuário em que estava a imagem do Santo Portador dos Fardos, por cima do lugar de repouso final do santo. Allart, movimentando-se em silêncio, os olhos fechados, como a regra determinava, ocupou seu lugar designado nos bancos; como uma só pessoa, a irmandade ajoelhou-se. Allart, os olhos ainda fechados, ouvia o arrastar de pés, o tropeçar ocasional de algum noviço que ainda dependia da visão exterior em vez da interior, deslocando seu corpo desajeitado pela escuridão do mosteiro. Os estudantes, sem terem prestado qualquer juramento, com um ensinamento mínimo, esbarravam em obstáculos na escuridão, ignorando por que os monges nunca permitiam nem precisavam de luz. Sussurrando, acotovelando-se, tropeçavam e às vezes caíam, mas finalmente todos se encontravam em seus lugares determinados. Não houve de novo qualquer som discernível, mas os monges se levantaram num único e disciplinado movimento, acompanhando outra vez algum sinal invisível do Padre Mestre. Suas vozes se elevaram no hino da manhã:

- Um Poder criou

O Céu e a Terra,

Vales e montanhas,

Trevas e luz;

Macho e fêmea,

Humano e não-humano.

O Poder não se vê,

O Poder não se ouve,

O Poder não se mede,

Por outra coisa que não a mente,

Que partilha esse Poder;

O nome que dou é Divino...

Aquele era o momento, todos os dias, em que as indagações, buscas e angústias de Allart se desvaneciam por completo. Ouvindo as vozes dos irmãos se elevando no canto, velhas e jovens, vibrantes de juventude ou enrouquecidas pela idade, soltando a própria voz na grande afirmação, ele perdia todo o senso de si mesmo como uma entidade separada e inquisitiva. Repousava, flutuando, no conhecimento de que era parte de algo maior do que si mesmo, parte do grande Poder que mantinha o movimento das luas, estrelas, sol e o Universo desconhecido além; que ali era um lugar de autêntica harmonia; que se desaparecesse deixaria um vazio do tamanho de Allart na Mente Universal, uma coisa que nunca seria substituída ou alterada. Ouvindo o canto, sentia-se completamente em paz. O som da própria voz, um tenor bem desenvolvido, proporcionava-lhe prazer, mas não mais do que os sons de cada voz no coro, até mesmo a voz enrouquecida, desentoada e tremula do idoso Irmão Fenelon, ao seu lado. Sempre que cantava com os irmãos, Allart recordava as primeiras palavras de São-Valentino-das-Neves que lera, palavras que conhecera nos anos de seu maior tormento e lhe trouxeram o primeiro momento de paz desde que deixara a infância para trás.

"Cada um de nós é como uma única voz num vasto coro. Uma voz diferente de todas as outras; cada um de nós canta por alguns anos nesse vasto coro e depois essa voz silencia para sempre, outras vozes tomam o seu lugar; mas cada voz é única e nenhuma é mais bela do que outra ou pode cantar a canção de outro. Só chamo de mal a tentativa de cantar a canção de outro ou com a voz de outro."

E Allart, lendo essas palavras, compreendera que desde a infância estivera tentando, por ordem do pai e irmãos, tutores, mestres-de-armas e cavalariços, servidores e superiores, cantar uma canção que não era a sua e com uma voz que não lhe pertencia. Tornara-se um cristoforo, o que se julgava inadmissível para um Hastur; um descendente de Hastur e Cassilda, um descendente de deuses, alguém que portava laran; um Hastur de Elhalyn, próximo dos locais sagrados de Hali, em que os deuses outrora haviam pisado. Todos os Hasturs, desde tempos imemoriais, idolatravam o Senhor da Luz. Mas Allart se tornara um cristoforo e chegara o momento em que deixara seus irmãos, renunciara à sua herança e viera para o mosteiro, a fim de ser o Irmão Allart, sua linhagem meio esquecida, até mesmo da irmandade de Nevarsin.

Esquecendo o seu eu, mas ao mesmo tempo consciente de seu lugar individual e único no coro, no mosteiro e no Universo, Allart cantou os longos hinos; depois, ainda sem romper o jejum, foi cumprir o seu trabalho designado pela manhã, levando o desjejum aos noviços e estudantes no refeitório exterior. Levou as canecas fumegantes de chá e o mingau quente de favas para os meninos, despejando o alimento nas tigelas de faiança, notando como as mãos jovens e geladas se curvavam em torno do calor, para se esquentarem. A maioria dos meninos ainda era muito jovem para dominar as técnicas do calor interno e Allart sabia que alguns usavam os cobertores enrolados por baixo dos hábitos. Sentia uma simpatia desligada por eles, recordando seus sofrimentos iniciais com o frio, antes que a mente pudesse aprender a aquecer o corpo; mas eles tinham comida quente e dormiam sob cobertores extras, quanto mais sentissem frio, mais depressa se empenhariam em controlá-lo.

Ele manteve o silêncio (embora soubesse que deveria censurá-los) quando protestaram pela insipidez da comida; ali, nos alojamentos dos meninos, era servida uma comida saborosa e lauta, em contraste. Allart só provara comida quente duas vezes desde que assumira o regime monástico pleno; em ambas as ocasiões, depois de realizar trabalho extraordinário nos desfiladeiros profundos, resgatando viajantes ameaçados pela neve. O Padre Mestre julgara que o frio de seu corpo chegara a um ponto em que havia risco para a saúde e lhe ordenara que comesse um alimento quente e dormisse sob cobertores extras por alguns dias. Em circunstâncias normais, Allart tinha tanto domínio sobre o corpo que verão e inverno lhe eram indiferentes e o organismo aproveitava plenamente qualquer alimento, quente ou frio.

Um jovem desconsolado, filho mimado dos Domínios das Terras Baixas, cabelos bem cortados e encrespados a envolverem o rosto, tremia tanto, encolhido no hábito e cobertor, que Allart, enquanto lhe servia uma segunda concha do mingau - pois os meninos tinham permissão para comer tanto quanto desejassem, por se acharem em processo de crescimento -, comentou gentilmente:

- Não sentirá mais tanto frio daqui a pouco. A comida vai esquentá-lo. E está bem agasalhado.

- Agasalhado? - repetiu o jovem incrédulo. - Nem sequer estou com meu casaco de pele e acho que vou morrer de frio!

Ele estava à beira das lágrimas e Allart pôs a mão compadecida em seu ombro.

- Não, pequeno irmão, não vai morrer. Aprenderá que pode se aquecer sem roupa. Sabia que os noviços aqui dormem sem cobertor e sem hábito, nus sobre a pedra? E ninguém aqui morreu de frio até agora. Nenhum animal usa roupas, seus corpos são adaptados ao clima, onde quer que vivam.

- Os animais têm pêlo - protestou o jovem, soturno. - Eu tenho apenas minha pele!

Allart soltou uma risada.

- E isso é prova de que não precisa de pêlo; se precisasse de pêlo para se manter aquecido, teria nascido peludo, pequeno irmão. Sente frio porque desde a infância lhe incutiram que faz frio na neve e sua mente acreditou nessa mentira. Mas há de chegar o momento, antes mesmo do verão, em que também correrá descalço pela neve e não sentirá qualquer desconforto. Não crê em mim agora, mas lembre-se destas palavras, menino. E agora trate de comer seu mingau, sinta-o entrar em ação na fornalha de seu corpo, levando calor para todos os membros.

Allart afagou o rosto molhado pelas lágrimas e prosseguiu em seu trabalho. Também se rebelara contra a disciplina rigorosa dos monges; mas confiara neles e as promessas se consumaram. Estava em paz, a mente disciplinada para controlar, vivendo apenas um dia de cada vez, sem a pressão angustiante da clarividência, o corpo agora um servo submisso, fazendo o que lhe era ordenado sem exigir mais do que precisava para o bem-estar e saúde.

Em seus anos ali, vira quatro levas daqueles meninos chegarem, chorando com o frio, queixando-se da comida e das camas geladas, mimados, exigentes - e iam embora em um, dois ou três anos, disciplinados para a sobrevivência, sabendo muito da história do passado e competentes para o julgamento do próprio futuro. Aqueles também, inclusive o garoto mimado que tinha medo de morrer de frio sem o manto de pele, iriam embora fortalecidos e disciplinados. Sem deliberação, sua mente deslocou-se para o futuro, tentando ver o que aconteceria ao garoto, a fim de se tranqüilizar. Ele sabia - o rigor com o garoto era justificado...

Allart ficou tenso de repente, os músculos se contraindo, como não acontecia desde o seu primeiro ano ali. Automaticamente, respirou para relaxá-los, mas o temor súbito persistiu.

Eu não estou aqui. Não posso me ver em Nevarsin dentro de um ano... É a minha morte que vejo ou a minha saída do mosteiro? Santo Portador dos Fardos, dê-me forças...

Fora isso que o trouxera ao mosteiro. Não era, como acontecia com alguns Hasturs, um emmasca, nem macho nem fêmea, de vida longa, mas estéril; embora houvesse monges em Nevarsin que haviam nascido assim e só ali encontraram meios de conviver com isso, que era uma aflição naqueles tempos. Não era o seu caso. Soubera desde a infância que era um homem e como tal fora treinado, como convinha ao filho de uma linhagem real, a quinta para o trono dos Domínios. Mas mesmo em criança ele tivera outro problema.

Começara a ver o futuro quase antes mesmo de ser capaz de falar; uma ocasião, quando o pai de criação lhe trouxera um cavalo, assustara-o ao dizer que estava contente por ser o preto em vez do cinzento, que escolhera de início.

- Como soube que escolhi inicialmente o cinzento? Ao que Allart respondera:

- Eu o vi me dando o cinzento e depois me dando o preto; vi quando a mochila caiu e você tratou de voltar e não veio mais.

- Misericórdia de Aldonas! - balbuciara o homem. - É verdade que quase perdi a mochila no desfiladeiro. E teria de voltar se não a recuperasse, dispondo de pouca comida para a viagem.

Só pouco a pouco Allart começara a compreender a natureza de seu laran; via não um só futuro, o futuro verdadeiro, mas todos os futuros possíveis, desdobrando-se à sua frente, cada iniciativa sua gerando uma dúzia de novas opções. Aos quinze anos, quando fora proclamado homem e se apresentara ao Conselho dos Sete para ser tatuado com a marca da Casa Real, conhecera os dias e noites de tortura, pois podia divisar uma dúzia de caminhos se abrindo à sua frente a cada passo, uma centena de opções criando novas opções, até ficar paralisado por completo, jamais se atrevendo a qualquer movimento, com terror do conhecido e do novo desconhecido. Não sabia como desligar e não podia conviver com aquilo. Sentia-se imobilizado no treinamento de armas, vendo em cada golpe uma dúzia de maneiras pelas quais um movimento seu poderia mutilar ou matar outro, três maneiras pelas quais um golpe que lhe era endereçado podia acertar ou deixar de acertar. As sessões de treinamento de armas transformaram-se num pesadelo tão terrível que acabara se mantendo imóvel diante do mestre-de-armas, encolhido como uma menina assustada, incapaz até de levantar a espada. A leronis de sua família tentara entrar em contato com sua mente e mostrar a saída daquele labirinto, mas Allart continuara paralisado pelos diferentes caminhos que o treinamento da mulher lhe indicava; e com sua crescente sensibilidade às mulheres, pudera se ver a agarrá-la numa total insensatez. Ao final, refugiara-se em seu quarto, deixando que o chamassem de covarde e idiota, recusando-se a sair, a dar um passo sequer, com medo do que aconteceria, sabendo que era uma aberração, um louco...

Quando Allart finalmente tomara coragem para a jornada longa e aterradora - a cada instante vendo o passo em falso que poderia lançá-lo no abismo, para morrer ou jazer todo arrebentado nos penhascos abaixo da trilha, vendo-se a fazer a volta, a fugir - o Padre Mestre o acolhera com simpatia, ouvira a sua história e dissera:

- Não, Allart, você não é uma aberração ou um louco, mas sim um homem muito aflito. Não posso prometer que encontrará aqui o seu verdadeiro caminho ou ficará curado, mas talvez eu possa lhe ensinar a conviver com isso.

- A leronis achava que eu poderia aprender a controlar com uma matriz, mas tive medo - confessara Allart.

Fora a primeira vez em que se sentira à vontade para falar em medo; o medo era a coisa proibida, a covardia um vício tão inadmissível que não se podia mencionar para um Hastur. O Padre Mestre balançara a cabeça e murmurara:

- Fez muito bem em ter medo da matriz, pois poderia controlá-lo através de seu medo. Talvez possamos lhe mostrar um caminho para viver sem medo; se não der certo, talvez possa aprender um meio de viver com seus medos. Antes de mais nada, terá de aprender que são seus.

- Sempre soube disso. E tenho me sentido bastante culpado por esses medos...

O velho monge sorrira.

- Se acreditasse mesmo que eram seus, não sentiria culpa, ressentimento ou ira. O que você vê está além de si mesmo e pode ou não acontecer, não está sob seu controle. Mas o medo é seu, somente seu, como sua voz, seus dedos ou sua memória. Assim, somente você pode controlá-lo. Se ainda se sente impotente diante de seu medo, então não admitiu que é seu, para fazer o que bem quiser. Sabe tocar o rryl.

Aturdido com aquele salto mental, Allart admitira que aprendera a tocar a pequena harpa manual.

- Quando as cordas no começo não emitiam os sons que desejava, você condenava o instrumento ou suas mãos ineptas? Mas imagino que chegou o momento em que os dedos obedeciam à sua vontade. Não condene seu laran porque sua mente ainda não foi treinada para controlá-lo. - Ele deixara Allart pensar a respeito por um momento e depois acrescentara: - Os futuros que você vê são exteriores, não gerados pela memória ou pelo medo; mas o medo surge dentro de você, paralisando sua opção para se mover entre esses futuros. É você, Allart, quem cria o medo; quando aprender a controlá-lo, poderá contemplar sem receio os muitos caminhos a trilhar e escolher o seu curso. Seu medo é como a mão inepta na harpa, misturando os sons.

- Mas como posso evitar o medo? Eu não quero sentir medo.

- Gostaria que me dissesse uma coisa - murmurara o Padre Mestre. - Qual dos deuses incute o medo em você, como uma maldição?

Allart permanecera em silêncio, envergonhado, e o monge continuara, suavemente:

- Fala em sentir medo. Mas acontece que o medo é uma coisa que gera em si mesmo, por causa da falta de controle sobre sua mente. Aprenderá a olhar e descobrir por si mesmo quando quiser ter medo. A primeira providência é reconhecer que o medo é seu e pode fazer com ele o que bem quiser. Comece da seguinte maneira; sempre que sentir um medo que impeça a opção, diga a si mesmo: "o que me fez sentir medo? Por que escolhi sentir esse medo que me impede uma opção, em vez de sentir a Liberdade para decidir?" O medo é uma maneira de não permitir a si mesmo a livre opção do que fará em seguida; uma maneira de deixar que os reflexos do corpo decidam por você, não as necessidades da mente. E como disse, ultimamente tem optado por não fazer nada, a fim de que não aconteça nenhuma das coisas que teme. Portanto, as opções não são ditadas por você, mas sim pelo medo. Comece agora, Allart. Não prometo libertá-lo do medo, mas apenas que chegará o momento em que estará no comando e o medo não poderá paralisá-lo.

Ele sorrira e indagara:

- Afinal, veio até aqui, não é mesmo?

- Tinha mais medo de ficar do que de vir - explicara Allart, tremendo. O Padre Mestre se empenhara em animá-lo:

- Pelo menos ainda pode optar entre um medo maior e outro menor. Agora, deve aprender a controlar o medo e olhar além; e virá o dia em que saberá que o medo é seu, um servidor, para fazer o que ordenar.

- Que os deuses assim queiram - balbuciara Allart.

Assim começara a sua vida ali... e já durava seis anos agora. Lentamente, um a um, ele dominara seus medos, as exigências do corpo, aprendendo a procurar entre o leque desconcertante de futuros o que seria menos pernicioso. Seu futuro fora se restringindo, até que se via somente ali, vivendo um dia de cada vez, fazendo o que devia... nada mais, nada menos.

Agora, depois de seis anos, o que via pela frente era um luxo desconcertante de imagens: viagem, rochedos e neve, um castelo estranho, sua casa, o rosto de uma mulher... Allart cobriu seu rosto com as mãos, de novo dominado pelo antigo medo paralisante.

Não! Não! Não permitirei! Quero continuar aqui, viver meu próprio destino, jamais cantar a canção de outro homem, jamais usar a voz de outro homem...

Por seis anos ficara entregue a seu destino, sujeito apenas aos futuros determinados por suas próprias opções. Agora, o exterior estava outra vez envolvendo-o; haveria alguém além do mosteiro a tomar decisões para as quais ele seria atraído, de um jeito ou de outro? Todo o medo que subjugara nos últimos seis anos tornava a invadi-lo; mas depois, devagar, respirando como aprendera, conseguiu dominá-lo.

Meu medo me pertence; estou no comando e somente eu posso decidir... Tentou divisar de novo, entre as imagens tumultuadas, o curso em que poderia permanecer como o Irmão Allart, em paz na sua cela, trabalhando à sua maneira pelo futuro de seu mundo...

Mas não havia tal futuro e isso lhe revelou uma coisa: qualquer que fosse a decisão exterior que o atraía, seria algo a que não poderia escapar. Por muito tempo ele lutou, ajoelhado na pedra fria da cela, tentando forçar o corpo e a mente relutantes a aceitarem esse conhecimento. Mas, ao final, como sabia agora que tinha o poder para fazê-lo, controlou o medo. Quando o chamado chegasse, atenderia sem medo.

Por volta do meio-dia, Allart já contemplara muitos futuros à sua frente, divergindo interminavelmente, para saber pelo menos em parte o que teria de enfrentar. Vira o rosto do pai - irado, persuasivo, condescendente - com bastante freqüência nas visões para saber qual seria a sua primeira provação.

Quando o Padre Mestre chamou-o, foi capaz de confrontar o idoso monge com calma e um controle impassível.

- Seu pai veio procurá-lo, meu filho. Pode falar com ele na câmara de hóspedes da ala norte.

Allart baixou os olhos; demorou um pouco para tornar a levantá-los e indagou:

- Preciso mesmo falar com ele, padre?

A voz era calma, mas o Padre Mestre o conhecia muito bem para saber como ele de fato se sentia.

- Não tenho motivo para negar, Allart.

Allart sentiu o impulso de dar uma resposta furiosa, "Mas eu tenho!"; só que fora treinado muito bem para se apegar à irracionalidade. E acabou dizendo, suavemente:

- Passei a maior parte do dia de hoje me preparando para enfrentar este momento. Não quero deixar Nevarsin. Encontrei a paz aqui, um trabalho útil. Ajude-me a encontrar uma saída, Padre Mestre.

O ancião suspirou. Estava com os olhos fechados - como acontecia na maior parte do tempo, já que enxergava melhor com a visão interior - mas Allart sabia que o contemplavam mais claramente do que nunca.

- Bem que o ajudaria, filho, para seu bem, se pudesse avistar uma saída. Encontrou a satisfação aqui e tanta felicidade quanto um homem com a sua maldição pode desfrutar. Mas receio que o seu tempo de contentamento terminou. Deve se lembrar que muitos homens jamais tiveram um tempo de descanso para aprender o autoconhecimento e a disciplina; seja grato pelo que recebeu.

Ora, já não agüento mais essa conversa devota sobre aceitação dos fardos que nos são impostos... Allart reprimiu o pensamento rebelde, mas o Padre Mestre levantou a cabeça e os olhos, incolores como algum estranho metal, se encontraram com os rebeldes de Allart.

- Está vendo, meu rapaz? Não tem realmente os predicados de um monge. Nós lhe demos algum controle sobre suas inclinações naturais, mas é rebelde por natureza e ansioso em mudar o que pode... e as mudanças só podem ser feitas lá embaixo. - O gesto abrangeu o mundo todo além do mosteiro. - Nunca se contentará em aceitar seu mundo com complacência, filho, e agora tem a força para lutar de maneira racional, não mais em rebelião cega, nascida de sua angústia. Deve partir, Allart, e fazer tantas mudanças em seu mundo quanto puder.

Allart cobriu o rosto com as mãos. Até aquele momento ainda acreditara - como uma criança, como uma criança crédula! - que o velho monge possuía algum poder para ajudá-lo a evitar o que tinha de ser. Sabia que os seis anos no mosteiro não o haviam ajudado a superar aquilo; sentia agora que o último resquício de sua infância ficava para trás e tinha vontade de chorar. O Padre Mestre disse, com um sorriso terno:

- Lamenta não poder permanecer uma criança, aos 23 anos, Allart? Em vez disso, deve sentir-se grato porque, depois de tantos anos de aprendizado, está pronto para ser um homem.

- Fala como meu pai! - protestou Allart, furioso. - Ouvi isso todas as manhãs e noites, servido junto com o mingau... que eu ainda não era bastante amadurecido para ocupar meu lugar no mundo. Não comece a falar assim, padre, ou pensarei que meus anos aqui não passaram de uma mentira!

- Mas não estou expressando a mesma coisa que seu pai quando digo que se encontra preparado para enfrentar o que um homem encontra pelo caminho. Creio que já sabe o que eu quis dizer e não é a mesma coisa que Lorde Hastur. Ou será que eu estava enganado quando o ouvi confortar e encorajar um menino esta manhã? Não finja que não conhece a diferença, Allart. - A voz firme se abrandou. - Está zangado demais para se ajoelhar para a minha bênção, filho?

Allart caiu de joelhos; sentiu o contato do ancião em sua mente.

- O Santo Portador dos Fardos vai fortalecê-lo para o que há de vir. Eu o amo muito, mas seria egoísmo de minha parte mantê-lo aqui; acho que é muito necessário naquele mundo a que tentou renunciar.

Enquanto Allart se levantava, o Padre Mestre puxou-o para um breve abraço, beijou-o e largou-o.

- Tem a minha permissão para vestir trajes seculares, se assim quiser, antes de se encontrar com seu pai. - Ele tornou a tocar no rosto de Allart, pela última vez. - Minha bênção sempre o acompanhará. Talvez nunca mais nos encontremos, Allart, mas estará com freqüência em minhas orações, nos dias futuros. Mande-me seus filhos um dia, se quiser. E, agora, vá.

Ele sentou, deixando o capuz cair sobre o rosto. Allart compreendeu que fora descartado dos pensamentos do ancião tão firmemente quanto de sua presença.

Resolveu não aproveitar a permissão do Padre Mestre para mudar de roupa. Pensou furioso que era um monge; se o pai gostava ou não, era problema do pai e não seu. Mas uma parcela de sua rebeldia derivava do conhecimento de que, ao projetar os pensamentos para o futuro, não podia ser no hábito de um monge ou ali em Nevarsin. Será que nunca mais voltaria à Cidade das Neves?

Seguindo para a câmara de hóspedes, ele tentou disciplinar a respiração, a fim de se acalmar. O que quer que o pai viera lhe dizer, não seria melhorado pela beligerância com o velho assim que se encontrassem. Abriu a porta e entrou na câmara de chão de pedra.

Ao lado do fogo que ardia ali, numa cadeira lavrada, um velho estava sentado, empertigado e sombrio, os dedos comprimindo os braços da cadeira. O rosto tinha a expressão dos Hasturs das terras baixas. Ao ouvir o arrastar do hábito sobre a pedra, ele disse, irritado:

- Mais um de vocês, espectros de hábito? Mandem chamar logo o meu filho!

- Seu filho está aqui para servi-lo, vai dom. O velho fitou-o, aturdido.

- Deuses do alto, é mesmo você, Allart? Como se atreve a vir à minha presença com esse disfarce?

- Eu me apresento como sou, senhor. Tem sido bem tratado? Permita que eu lhe traga alimento ou vinho, como desejar.

- Já fui servido - respondeu o velho, acenando com a cabeça bruscamente para a bandeja e a garrafa na mesa. - Não preciso de mais nada, exceto falar com você, o motivo que me levou a realizar esta jornada miserável!

- E eu repito, senhor, estou aqui para servi-lo. Teve uma jornada difícil? O que o levou a realizar tal viagem em pleno inverno?

- Você! - resmungou o velho. - Quando estará pronto para voltar ao lugar a que pertence e cumprir o seu dever com o clã e a família?

Allart baixou os olhos, cerrando os punhos até que as unhas se cravaram nas palmas e arrancaram sangue; o que via naquela câmara, dali a poucos minutos, o aterrorizava. Pelo menos um dos futuros que divergiam agora de cada palavra sua, Stephen Hastur, Lorde Elhalyn, irmão mais moço de Regis II, que ocupava o trono de Thendara, estava caído no chão de pedra, o pescoço quebrado. Allart sabia que a ira que o invadia agora, a raiva que sentia do pai desde que era capaz de se lembrar, podia explodir com a maior facilidade num ataque assassino. O pai estava falando de novo, mas Allart não ouviu, lutando para forçar a mente e o corpo sob controle.

Não quero me lançar contra meu pai e matá-lo com as minhas próprias mãos! Eu-não-quero! E não o farei! Só quando pôde falar calmamente, sem qualquer ressentimento, é que ele disse:

- Lamento desagradá-lo, senhor. Pensei que soubesse que eu desejava passar minha vida aqui, como um monge e curador. Terei permissão para pronunciar meus votos finais este ano, no verão, renunciando a meu nome e herança, e aqui habitando pelo resto de minha vida.

- Eu sabia que você havia declarado isso uma vez, na doença de sua adolescência - comentou Dom Stephen Hastur -, mas pensei que passaria quando recuperasse a saúde do corpo e mente. Como você está, Allart? Parece forte e muito bem. A impressão é de que esses cristoforos loucos não o fizeram passar fome e não o levaram à loucura com privações... ainda não.

- Tem razão, senhor, isso não aconteceu - respondeu Allart, jovialmente. - Meu corpo, como pode ver, está bem e forte, a mente se encontra em paz.

- É assim mesmo, filho? Então não lamentarei os anos que passou aqui; e quaisquer que tenham sido os métodos com que eles alcançaram esse milagre, eu lhes serei eternamente grato.

- Nesse caso aumente sua gratidão, vai dom, concedendo-me permissão para permanecer aqui, onde me sinto feliz e em paz, pelo resto de minha vida.

- Impossível! Seria uma loucura!

- Posso lhe perguntar por quê, senhor?

- Esqueci que você não sabia. Seu irmão Lauren morreu, há três anos; tinha o seu laran, só que numa forma ainda pior, pois não era capaz de distinguir entre passado e futuro; e quando o envolveu com plena força, retirou-se para dentro de si mesmo, nunca mais falou ou reagiu a qualquer coisa externa, até que acabou morrendo.

Allart ficou triste. Lauren era apenas uma criança, um estranho, quando saíra de casa; mas sentiu-se consternado pelos sofrimentos do menino. Como escapara por um triz a esse destino!

- Pai, lamento profundamente. É uma pena que não o tenha mandado para cá, pois eles poderiam alcançá-lo.

- Um já era suficiente. Não precisamos de filhos fracos; e é melhor morrer jovem do que transmitir tal fraqueza no sangue. Sua Graça, meu irmão Regis, tem um único herdeiro; o filho mais velho morreu em combate contra aqueles invasores em Serrais. O único filho remanescente, Felix, que herdará o trono, tem saúde frágil. Eu sou o seguinte na linha da sucessão e depois vem seu irmão Damon-Rafael. Você é o quarto na fila para o trono e o rei já está com oitenta anos. E você não tem filhos, Allart.

Allart protestou, com um violento ímpeto de repulsa:

- Com uma maldição como a minha, quer que eu a transmita a outro? Acaba de me dizer que isso custou a vida de Lauren!

- Mas precisamos dessa presciência e você foi capaz de dominá-la. A leroni de Hali tem um plano para fixá-la em nossa linhagem sem a instabilidade que pôs em risco a sua sanidade e matou Lauren. Tentei lhe falar a respeito antes de nos deixar, mas não estava disposto a pensar nas necessidades do clã. Fizemos uma aliança com o clã Aillard para uma filha deles, cujos genes foram tão modificados que serão dominantes. Com isso, seus filhos terão a visão do futuro e o controle para usá-la sem perigo. Você casará com essa moça. E ela tem também duas irmãs nedestro. A leroni da Torre descobriu uma técnica que garantirá que você só tenha filhos homens com todas. Se a experiência der certo, seus filhos terão a presciência e também o controle. - Ele percebeu a repulsa no rosto de Allart e acrescentou, furioso: - Será que ainda é um garotinho melindroso?

- Sou um cristoforo. O primeiro preceito do Credo da Castidade é não tomar uma mulher contra a vontade.

- O que é bastante bom para um monge, mas não para um homem! Seja como for, posso lhe garantir que nenhuma delas se mostrará relutante quando a tomar. Se preferir, as duas que não serão suas esposas nem mesmo precisarão saber o seu nome; temos drogas agora que podem assegurar que elas ficarão apenas com a lembrança de um interlúdio agradável. E toda mulher deseja gerar um filho da linhagem de Hastur e Cassilda.

Allart fez uma careta de repulsa.

- Não quero uma mulher que me seja entregue drogada e inconsciente. O preceito não se refere apenas a mulheres gritando no terror do estupro; inclui também aquelas em que a capacidade de dar ou recusar, o livre consentimento, foi destruída por drogas!

- Eu não gostaria de sugerir isso - declarou o velho, irado -, mas você deixou claro que ainda não está pronto para cumprir seu dever para com a casta e o clã por sua livre e espontânea vontade! Na sua idade, Damon-Rafael já tinha uma dúzia de filhos nedestro por igual número de mulheres dispostas! Mas você, usador de sandálias...

Allart inclinou a cabeça, reprimindo o reflexo de raiva que o impulsionava a agarrar aquele pescoço velho e frágil entre as mãos e apertar até que toda a vida escapasse.

- Damon-Rafael me falou muitas vezes sobre o assunto de minha virilidade, pai. Preciso ouvir de você também?

- O que fez para me dar uma opinião melhor a seu respeito? Onde estão seus filhos?

- Não concordo que a virilidade deva ser medida apenas pelo número de filhos, senhor; mas não quero discutir esse ponto agora. Não tenho a menor intenção de passar adiante a maldição em meu sangue. Sei alguma coisa sobre laran. Sinto que está errado ao tentar gerar uma força maior para esses dons. Pode constatar em mim... e pôde muito mais em Lauren... que a mente humana nunca foi feita para suportar tamanho peso. Poderá entender se eu falar em genes recessivos e letais?

- Vai querer agora me ensinar o meu negócio, filho?

- Claro que não. Mas, com todo respeito, pai, não quero ter nenhuma participação. Se eu alguma vez vier a ter filhos...

- Não há se neste caso. Você deve ter filhos.

A voz do velho era categórica e Allart suspirou. O pai simplesmente não o escutava. Ouvia as palavras com os ouvidos, mas não o escutava; as palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro, porque as declarações de Allart não concordavam com as convicções inflexíveis de Lorde Elhalyn - que o principal dever de um filho era gerar os filhos que teriam os fabulosos dons de Hastur e Cassilda, o laran dos Domínios.

Laran, feitiçaria, força psíquica, que permitia a essas famílias se destacarem na manipulação das pedras matrizes, as pedras de estrela que ampliavam os poderes ocultos da mente; conhecer o futuro, impor sua vontade às mentes de homens inferiores, manipular objetos inanimados, controlar as mentes de animais e aves - laran era a chave para o poder além da imaginação e há gerações que os Domínios o geravam.

- Pai, eu lhe suplico que me escute com atenção. - Allart não estava agora furioso ou argumentativo, mas sim desesperadamente ansioso. - Só o mal pode derivar desse programa de reprodução, que transforma as mulheres em meros instrumentos para gerar monstros da mente, sem qualquer humanidade! Tenho uma consciência; não posso fazer isso. O pai disse, desdenhoso:

- É um amante de homens e por isso não quer dar filhos à nossa casta?

- Não, não sou, mas também jamais conheci uma mulher. Se recebi a maldição desse dom maléfico de laran...

Silêncio! Está blasfemando contra nossos antepassados e o Senhor da Luz que nos deu o laran!

Allart estava agora furioso outra vez.

- É você quem está blasfemando, pai, se acha que os deuses podem ser submetidos aos propósitos humanos desse jeito!

- Seu insolente... - O pai levantou-se de um pulo, mas controlou a raiva, com enorme esforço. - Meu filho, você é jovem e está deformado pelas noções dos monges. Volte à herança em que nasceu e aprenderá melhor. O que lhe peço é ao mesmo tempo certo e necessário, para que os Hasturs possam prosperar. Não... - Ele gesticulou quando Allart fez menção de falar. - ...nessas questões você ainda é ignorante e sua educação deve ser concluída. Um homem virgem... - Por mais que tentasse, Lorde Elhalyn não foi capaz de impedir que o desdém transparecesse em sua voz. - ...não é competente para julgar.

- Pode estar certo de que não sou indiferente aos encantos das mulheres - afirmou Allart. - Mas não desejo passar adiante a maldição em meu sangue. E não o farei.

- Não é uma questão passível de discussão - disse Dom Stephen, num tom de ameaça. - Não vai me desobedecer, Allart. Seria uma desgraça para mim se um filho meu gerasse seus filhos drogado, como alguma esposa relutante, mas há drogas que podem fazer isso também, se não nos deixar outra opção.

Santo Portador dos Fardos, ajude-me! Como poderei me controlar e não matá-lo agora?

Dom Stephen acrescentou, mais suavemente, depois de uma pausa:

- Este não é o momento para discutir, meu filho. Deve nos dar a oportunidade de convencê-lo de que seus escrúpulos são infundados. Eu lhe suplico, vá se vestir de maneira condizente com um homem e um Hastur, prepare-se para viajar comigo. É muito necessário, meu filho querido, e... tem alguma idéia do quanto tenho sentido saudade de você?

A sinceridade do amor em sua voz produziu uma pontada de angústia no coração de Allart. Mil e uma lembranças da infância o invadiram, obscurecendo passado e futuro com tanta ternura. É verdade que era um peão do orgulho e herança do pai, mas apesar disso Lorde Elhalyn amava sinceramente todos os filhos e ficara genuinamente preocupado com a saúde e sanidade de Allart - ou nunca o teria despachado para um mosteiro cristoforo, entre todos os lugares do mundo! Allart pensou: Não posso sequer odiá-lo; seria muito mais fácil se eu pudesse!

- Eu irei, pai. Pode estar certo de que não tenho o menor desejo de enfurecê-lo.

- Nem eu de ameaçá-lo, rapaz. - Dom Stephen estendeu os braços. - Sabia que ainda não nos cumprimentamos como parentes? Esses cristoforos o fizeram renunciar aos laços de parentesco, filho?

Allart abraçou o pai, sentindo consternado a fragilidade óssea do corpo do velho, sabendo que a aparência de ira autoritária disfarçava a fraqueza e idade avançadas.

- Que todos os deuses proíbam que eu faça isso enquanto você viver, meu pai. E agora tenho de ir me aprontar para a viagem.

- Pode ir, meu filho. Desagrada-me mais do que posso expressar em palavras vê-lo nesses trajes tão impróprios para um homem.

Allart não respondeu, apenas inclinou a cabeça e foi trocar de roupa. Acompanharia o pai e exibiria a aparência de um filho obediente. E de fato o seria, dentro de determinados limites. Mas agora sabia o significado das palavras do Padre Mestre. As mudanças eram necessárias neste mundo e ele não poderia fazê-las de trás dos muros do mosteiro.

Podia se ver a cavalgar, podia ver um enorme gavião pairando no ar, o rosto de uma mulher... uma mulher. Sabia tão pouco das mulheres! E agora tencionavam entregar a ele não apenas uma, mas três, drogadas e complacentes... e contra isso lutaria até o fim de sua vontade e consciência; não participaria daquele monstruoso programa de procriação dos Domínios. Nunca. Tirando o hábito, ele ajoelhou-se por um instante, pela última vez, nas pedras frias de sua cela.

- Santo Portador dos Fardos, fortaleça-me para suportar minha cota do peso deste mundo... - murmurou Allart.

Depois, ele se levantou e começou a se vestir com a vestimenta normal de um nobre dos Domínios, prendendo uma espada no lado pela primeira vez em mais de seis anos.

- Abençoado São-Valentino-das-Neves, conceda que eu me comporte com justiça no mundo...

Allart suspirou e correu os olhos pela cela. Sabia que era a última vez, tinha certeza, com um conhecimento interior implacável e angustiante, que nunca mais tornaria a ver aquele lugar.

 

O chervine, o pequeno pônei darkovano, escolhia o caminho pela trilha, meticulosamente, sacudindo os chifres em protesto contra nova queda de neve. Estavam livres das montanhas agora, Hali ficava a não mais de três dias de viagem. Fora uma longa jornada para Allart, mais longa do que os sete dias consumidos para percorrer a distância real; sentia que viajara por anos, léguas intermináveis, grandes abismos de mudança; e estava exausto.

Precisara recorrer à disciplina de todos os seus anos em Nevarsin para avançar em segurança pela confusão do que via agora, legiões de possíveis futuros se abrindo à sua frente a cada passo, como estradas diferentes que podia seguir, possibilidades geradas em cada palavra e ação. Ao passarem pelos perigosos desfiladeiros da montanha, Allart pudera divisar cada possível passo em falso que o levaria a cair de um precipício, morrendo lá embaixo, assim como o passo certo que de fato dava. Aprendera em Nevarsin a seguir em frente através do medo, mas o esforço o deixava enfraquecido e exausto.

E havia outra possibilidade sempre presente. Muitas vezes, enquanto viajavam, vira o pai caído a seus pés, morto, num aposento desconhecido.

Não quero iniciar minha vida fora do mosteiro como um patricida! Santo Portador dos Fardos, dê-me forças!... Ele sabia que não podia negar sua raiva; se tentasse, sofreria a mesma paralisia que no medo, quando se recusava a dar qualquer passo com receio de que pudesse levá-lo ao desastre.

A ira é minha, lembrou a si mesmo, com uma disciplina firme. Posso escolher o que farei com a minha ira e posso optar por não matar. Mas perturbava-o contemplar aquela cena insólita, que foi se tornando familiar à medida que viajava com a visão, o cadáver do pai, caído num aposento de cortinas verdes com debruns dourados, junto de uma cadeira grande, cujos entalhes poderia desenhar, de tantas vezes que os vira com seu laran.

Era difícil, ao contemplar o rosto do pai vivo, não assumir a compaixão e horror que sentiria pelo morto recente e chocante; e era uma tensão não deixar transparecer nada disso para Lorde Elhalyn.

Pois o pai, enquanto viajavam, pusera de lado as palavras de desdém pela decisão de Allart de se tornar um monge e deixara inteiramente de discutir com ele a respeito. Só falava gentilmente ao filho, quase sempre sobre sua infância em Hali antes que a maldição dominasse Allart, sobre os parentes e as possibilidades da jornada. Falou de Hali e da mineração que se fazia na Torre, através dos poderes do círculo matriz, trazendo cobre, ferro e prata à superfície; de gaviões e chervines e das experiências de reprodução que o irmão fizera, com mudanças profundas de células, criando gaviões com as cores do arco-íris ou chervines com fantásticos chifres coloridos, como as bestas fabulosas das lendas.

Dia a dia, Allart recuperou alguma coisa do seu amor da infância pelo pai, dos tempos antes que seu laran e a fé cristoforo os separasse; e sentia incessantemente a agonia da lamentação, contemplando aquele aposento maldito, com as cortinas verdes e douradas, a enorme cadeira lavrada, o rosto do pai com a expressão de surpresa por estar morto.

E vezes sem conta, pelo caminho, outros rostos começaram a aflorar da obscuridade do desconhecido para futuros possíveis. Allart ignorou a maioria, como aprendera no mosteiro, mas dois ou três rostos voltavam com insistência, o que o levou a compreender que não eram rostos de pessoas que poderia conhecer, mas sim de pessoas que entrariam em sua vida, de um jeito ou de outro; um deles, que reconheceu vagamente, era o rosto do irmão Damon-Rafael, que o chamara de usador de sandálias e covarde, que ficara contente por se livrar de sua rivalidade, a fim de que fosse o único herdeiro de Elhalyn.

Eu gostaria que meu irmão e eu pudéssemos ser amigos e amar um ao outro, como os irmãos deveriam fazer. Mas não vejo isso em qualquer lugar, entre todos os futuros possíveis...

E havia o rosto de uma mulher, retornando incessantemente aos olhos de sua mente, embora nunca a tivesse visto antes. Uma mulher pequena, delicada, olhos de pestanas escuras no rosto pálido, cabelos como massas de vidro preto entrelaçado; Allart a contemplava em suas visões, um rosto grave de pesar, os olhos escuros virados em sua direção numa súplica angustiada. Quem é você?, especulou ele. Moça morena das minhas visões, por que me obceca desse jeito?

Foi estranho para Allart, depois dos anos no mosteiro, começar a ter também visões eróticas, com aquela mulher, avistar seu rosto risonho e amoroso à espera de uma carícia, os olhos fechados no êxtase de seu beijo. Não!, pensou ele. Não importava o quanto o pai o tentasse com a beleza daquela mulher, haveria de se manter firme em seu propósito; não geraria nenhuma criança para arcar com a maldição de seu sangue! Mas o rosto e a presença da mulher persistiam, em sonhos e durante a vigília, levando Allart a concluir que seria uma daquelas que o pai iria lhe oferecer. Refletiu que talvez fosse incapaz de resistir à sua beleza.

Já estou meio apaixonado por ela, pensou Allart, e nem mesmo sei o seu nome!

Uma noite, ao descerem para um vale amplo e verdejante, o pai pôs-se a falar outra vez do futuro.

- Lá embaixo fica Syrtis. O povo de Syrtis tem sido vassalo de Hastur há séculos; vamos fazer uma parada lá. Ficará contente por dormir outra vez numa cama, não é mesmo?

Allart soltou uma risada.

- É tudo a mesma coisa, pai. Durante a viagem tenho dormido em leitos mais macios do que jamais tive em Nevarsin.

- Talvez eu precisasse dessa disciplina monacal, se os velhos ossos quiserem fazer outras jornadas assim. Pode não fazer diferença para você, mas terei o maior prazer em me estender num colchão. E agora que estamos a apenas dois dias de viagem de casa, já podemos começar a planejar o seu casamento. Não se lembra de que foi firmado um contrato para seu casamento com Cassandra Aillard, quando você tinha dez anos de idade?

Por mais que tentasse, Allart não pôde se lembrar de nada, a não ser de um festival em que vestira roupas novas e fora obrigado a ficar de pé por horas, escutando longos discursos dos adultos. Foi o que disse ao pai, e Dom Stephen comentou, outra vez jovial:

- Não me surpreende. Talvez nem mesmo a garota estivesse presente. Acho que tinha apenas três ou quatro anos na ocasião. Confesso que também tive dúvidas sobre esse casamento. Aqueles Aillards têm sangue chieri e possuem o hábito terrível de gerarem de vez em quando filhas que são emmasca... parecem lindas mulheres, mas nunca se tornam bastante maduras para o acasalamento e não têm filhos. Mas seu laran é forte e por isso arrisquei o contrato. Quando a garota se tornou uma mulher, mandei que a nossa leronis a examinasse, na presença de uma parteira, que deu a opinião de que era uma fêmea plena e podia gerar filhos. Não a vejo desde que era pequena, mas fui informado de que se tornou uma mulher atraente. É uma Aillard, uma família que tem uma aliança forte com o nosso clã, de grande importância para nós. Não tem nada a dizer, Allart?

Allart se forçou a falar com calma:

- Sabe qual é a minha vontade nessa questão, pai. Não discutirei com você a respeito, mas quero que saiba que não mudei de idéia. Não tenho o menor desejo de me casar e não gerarei filhos para terem a maldição que existe em nosso sangue. Não direi mais nada.

Mais uma vez, chocante, o aposento com as cortinas verdes e douradas e o rosto morto do pai afloraram a sua mente, com tanta força que ele teve de piscar os olhos para divisar o pai cavalgando ao seu lado.

- Allart - disse o pai, gentilmente -, durante os dias em que viajamos juntos passei a conhecê-lo muito bem para acreditar nisso. Afinal, é meu filho; e quando voltar ao mundo a que pertence, não manterá mais essas noções monacais. Não mais falemos a respeito, kihu caryu, até chegar o momento oportuno. Os deuses sabem que não tenho a menor vontade de discutir com o último filho que me deixaram.

Allart sentiu um aperto de angústia na garganta.

Não posso evitar. Passei a amar meu pai. É assim que ele vai acabar predominando sobre a minha vontade, não pela força, mas pela bondade? E ele tornou a ver o rosto morto do pai no aposento de cortinas verdes e douradas; o rosto da donzela morena de suas visões surgiu diante de seus olhos enevoados.

A Casa Grande de Syrtis era uma antiga fortaleza de pedra, com fosso e ponte levadiça, com enormes prédios anexos de madeira e pedra, um pátio requintado, sob um dossel de vidro de muitas cores; o chão era de pedras coloridas, reunidas com uma precisão que nenhum artífice seria capaz de produzir. Por isso, Allart sabia que as pessoas de Syrtis se incluíam na classe dos novos ricos, que podiam fazer pleno uso da ornamental e difícil tecnologia de matriz, a fim de construir lindas coisas. Como é possível encontrar tanta gente dotada de laran para cumprir sua vontade?

O velho senhor de Syrtis era um homem baixo e gorducho, que veio pessoalmente ao pátio para receber seu superior, caindo de joelhos, numa polidez aduladora, e se levantando com um sorriso quase afetado quando Dom Stephen o puxou para um abraço de parente. Também abraçou Allart, que se encolheu com o beijo do homem em seu rosto.

Ele é como um gato doméstico adulador!

Dom Marius levou-os para o Grande Salão, repleto de luxo sibarita, sentou-se em divãs com almofadas, pediu vinho.

- Este é um novo tipo de cordial, feito com nossas maçãs e pêras; devem experimentar... Tenho uma nova diversão, mas deixarei para falar a respeito depois que jantarmos. - Dom Marius de Syrtis recostou-se nas almofadas estofadas. - E esse é o seu filho mais moço, Stephen? Ouvi um rumor de que ele abandonara Hali e se tornara um monge entre os cristoforos ou alguma outra bobagem parecida. Fico contente por descobrir que não passa de uma mentira maldosa. Algumas pessoas são capazes de dizer qualquer coisa...

- Eu lhe dou minha palavra, parente, que Allart não é um monge - declarou Dom Stephen. - Eu lhe dei permissão para residir em Nevarsin, a fim de recuperar a saúde, pois sofreu muito durante a adolescência, no limiar da doença. Mas está bem e forte e agora volta para casa, a fim de casar.

- Ah, é mesmo? - Dom Marius olhou para Allart com olhos grandes e piscando, envoltos por dobras de gordura. - E por acaso conheço a afortunada donzela, meu caro rapaz?

- Deve conhecer tanto quanto eu - respondeu Allart, com uma polidez relutante. - Fui informado de que é minha parenta Cassandra Aillard. Só a vi uma vez, quando ela era bem pequena.

- Ah, a domna Cassandra! - exclamou Dom Marius, com um olhar lúbrico. - Eu a vi em Thendara. Ela estava presente no Baile do Festival, no Castelo Comyn.

Allart pensou, repugnado: Ele só quer que a gente saiba que é bastante importante para ser convidado ao castelo!

Dom Marius chamou os servos para servirem o jantar. Adotara a moda recente para servos não-humanos, os cralmacs, gerados artificialmente de inofensivos mateiros dos Hellers, com genes modificados por matriz, pela inseminação artificial. Para Allart, as criaturas pareciam horrendas, nem humanos nem mateiras. Os mateiros, embora estranhos e parecendo macacos, possuíam uma beleza própria, apesar de insólitos. Mas os cralmacs, embora alguns fossem inegavelmente bonitos, tinham para Allart a repugnância de algo antinatural.

- É verdade, já vi a sua esposa prometida. Ela é bastante bela para fazer com que até um monge quebre os seus votos. - Dom Marius soltou uma risadinha. - Não sentirá saudade de seu mosteiro depois que levá-la para a cama, parente. Embora todas as mulheres Aillards sejam esposas desafortunadas, algumas estéreis como riyachiyas e outras tão frágeis que não podem levar uma gravidez a termo.

Ele também é um daqueles que gostam de predizer catástrofes, pensou Allart.

- Não tenho muita pressa por um herdeiro; meu irmão mais velho está vivo e bem e já gerou filhos nedestro. Aceitarei o que os deuses mandarem. - Ansioso em mudar de assunto, ele perguntou: - Criou os cralmacs em sua propriedade? O pai me falou durante a viagem das experiências de meu irmão na criação de chervines ornamentais, através da modificação de matriz. Seus cralmacs são menores e mais graciosos do que os criados em Hali. Pelo que me lembro, são bons apenas para a limpeza de estábulos e trabalhos pesados similares, coisas impróprias para se pedir a vassalos humanos.

Allart falou isso com uma súbita pontada - Como esqueci depressa! - lembrando que em Nevarsin aprendera que nenhum trabalho honesto estava abaixo da dignidade das mãos de um homem. Mas as palavras levaram Dom Marius a se gabar outra vez.

- Tenho uma leronis de Ridenow, capturada em batalha, que é muito eficiente com essas coisas. Ela achou que a tratei gentilmente, ao garantir que nunca seria usada contra seu próprio povo... e como eu poderia confiar nela em tal batalha?... e não hesitou em me prestar outros serviços. Criou-me esses cralmacs, mais graciosos e bem-formados do que quaisquer outros que já tive antes. Eu lhe darei um casal de reprodução, se quiser, como presente de casamento, Dom Allart. Não tenho a menor dúvida de que sua dama ficaria feliz com servos tão bonitos. Além disso, a leronis criou para mim uma nova espécie de riyachiyas. Quer conhecer, primo?

Lorde Elhalyn acenou com a cabeça. Ao terminarem a refeição, as prometidas riyachiyas foram trazidas. Allart contemplou-as com um espasmo interior de repulsa. Eram brinquedos exóticos para gostos decadentes. Na forma, eram mulheres, de rosto atraente, esguias, seios bem torneados levantando as dobras translúcidas da túnica, mas com quadris muito estreitos, cinturas muito finas e pernas compridas para serem mulheres genuínas. Eram quatro, duas louras, duas morenas; afora isso, eram idênticas. Ajoelharam-se aos pés de Dom Marius, em movimentos sinuosos, a curva dos pescoços esguios, ao se inclinarem, refinada e lembrando cisnes. Em meio à repulsa, Allart não pôde deixar de sentir um inesperado princípio de desejo.

Pelos infernos de Zandru, como elas são belas, tão belas e antinaturais quanto as fúrias demoníacas!

- Acreditaria, primo, se eu lhe dissesse que elas nasceram em ventres de cralmacs? Derivam do meu sêmen e da leronis. Assim, um homem mais escrupuloso poderia dizer, se fossem humanas, que são minhas filhas. E, de fato, o pensamento faz algum sentido... mas só um pouco. - Dom Marius soltou uma risada e apontou para a dupla loura. - Duas no mesmo nascimento, Lella e Relia. As morenas são Ria e Tia. Não incomodam com muita fala, embora sejam capazes de falar e cantar. Eu as ensinei a dançar e tocar a rryl, além de servir comida e bebida. Mas, é claro, seus maiores talentos são para o prazer. Têm um encantamento de matriz, como não podia deixar de ser, para se submeterem e obedecerem... Estou vendo que não consegue desviar os olhos delas... - Dom Marius soltou outra risadinha. - ...nem seu filho.

Allart estremeceu e, furioso, desviou os olhos dos rostos horrivelmente cativantes, dos corpos fascinantes daquelas criaturas de uma beleza inumana, que inspiravam tanto desejo.

- Não sou ganancioso, primo, e por isso deixarei que sejam suas esta noite. - Dom Marius soltou uma risada lúbrica. - Uma ou duas, como quiser. E você, jovem Allart, depois de passar seis anos de frustrações em Nevarsin, deve estar precisando de seus serviços. Eu lhe mandarei Lella, a minha predileta. Ah, as coisas que essa riyachiya sabe fazer... até mesmo um monge jurado cederia a seus encantos.

Ele se tornou grosseiramente específico e Allart olhou para o outro lado.

- Eu lhe suplico, parente - disse ele, fazendo um esforço para disfarçar a repulsa -, que não se prive de sua favorita.

- Não? - Os olhos de Dom Marius se reviraram, numa simpatia simulada. - É o que sente? Depois de tantos anos num mosteiro, prefere desfrutar seus prazeres entre irmãos? Pessoalmente, quase nunca desejo um ríchiyu, mas mantenho alguns, por uma questão de hospitalidade, pois alguns hóspedes sempre desejam uma mudança de vez em quando. Quer que eu lhe mande Loyu? É um belo rapaz e todos eles foram modificados para não terem quase nenhuma reação à dor. Assim, poderá usá-lo da maneira como desejar, se quiser.

Percebendo que Allart estava prestes a explodir, Dom Stephen apressou-se em interferir:

- As garotas serão suficientes para nós. E lhe dou os parabéns pela competência de sua leronis em criá-las.

Depois que foram conduzidos a seus cômodos, Dom Stephen disse ao filho, furioso:

- Você não vai nos desgraçar ao recusar essa cortesia! Não permitirei que se comente por aqui que meu filho é menos que um homem!

- Ele é como um sapo enorme e gordo! Pai, será que afeta a minha virilidade o fato de sentir uma profunda aversão diante de uma coisa tão abominável? Eu gostaria de jogar os presentes nojentos em sua cara desprezível!

- Você me cansa com seus escrúpulos de monge, Allart. A melhor coisa que as leronis já fizeram foi a criação das riyachiyas; e saiba que sua futura esposa não ficará agradecida se se recusar a ter uma em casa. Será que é tão ignorante que ignora que uma mulher grávida pode abortar se for para a cama com ela? E a parte do preço que pagamos por nosso laran. A dificuldade para procriar. Nossas mulheres são frágeis e propensas a abortos, por isso devemos poupá-las quando estão com criança. Se você concentrar seus desejos apenas numa riyachiya, ela não precisa ter ciúme, como aconteceria se suas afeições fossem dirigidas para uma mulher de verdade, que teria alguma reivindicação a seus pensamentos.

Allart desviou o rosto; nas Terras Baixas, aquele tipo de conversa entre as gerações era o cúmulo da indecência, desde o dia em que o casamento coletivo era comum e qualquer homem da idade de seu pai podia ser seu pai, qualquer mulher da idade de sua mãe podia ser sua mãe; assim, o tabu sexual era absoluto entre as gerações. Dom Stephen acrescentou, na defensiva:

- Jamais perdi a cabeça até hoje, Allart, mas isso vai acontecer se você se recusar a cumprir seu dever para com a nossa casta. Mas tenho certeza de que é bastante meu filho para adquirir vida com uma mulher em seus braços! - Uma pausa e ele arrematou, bruscamente: - E não precisa sentir qualquer escrúpulo: as criaturas são estéreis.

Allart pensou, dominado pela repulsa: Talvez eu não espere pelo aposento de cortinas verdes e douradas, talvez eu o mate aqui e agora. Mas o pai já se retirara para o outro quarto.

Enquanto se aprontava para dormir, ele refletiu como todos haviam se tornado corrompidos. Nós, os sagrados descendentes do Senhor da Luz, com o sangue de Hastur e Cassilda... ou será que isso não passava de um belo conto de fadas? Seriam os dons de laran das famílias descendentes de Hastur apenas a obra de algum mortal presunçoso, mexendo com genes e células cerebrais, alguma feiticeira com uma pedra matriz modificando o plasma, como a leronis de Dom Marius fazia com aquelas riyachiyas, produzindo brinquedos exóticos para homens corrompidos?

Os próprios deuses - se é que existem mesmo deuses! - devem ficar repugnados ao nos contemplarem!

O aposento aquecido e luxuoso deixou-o enojado; gostaria de estar de volta a Nevarsin, no solene silêncio da noite. Apagou a luz ao ouvir passos leves. Um momento depois, a moça Lella, em seus trajes diáfanos, estava ao seu lado.

- Estou aqui para o seu prazer, vai dom.

A voz era um murmúrio meio rouco; apenas seus olhos indicavam que não era humana, pois eram animais, de um castanho escuro, grandes, suaves, estranhos, indecifráveis.

Allart sacudiu a cabeça.

- Pode ir embora, Lella. Dormirei sozinho esta noite.

Imagens sexuais o atormentaram, todas as coisas que poderia fazer, todos os futuros possíveis, um conjunto de probabilidades infinitamente divergentes a se desdobrarem naquele momento. Lella sentou-se na beira da cama; os dedos esguios e macios, tão delicados que pareciam quase sem ossos, deslizaram para os de Allart. E ela murmurou, suplicante:

- Se eu não o satisfizer, vai dom, serei punida. O que gostaria que eu fizesse? Conheço muitas maneiras de proporcionar prazer.

Allart sabia que o pai manobrara aquela situação. As riyachiyas eram geradas, ensinadas e encantadas para serem irresistíveis; Dom Stephen esperava assim romper as inibições do filho?

- Meu amo ficará muito zangado se eu não lhe proporcionar prazer. Quer que eu chame minha irmã, que é tão morena quanto eu sou loura? E ela é ainda mais competente. Ou será que sentiria prazer em me bater? Gosto de apanhar. Juro que gosto.

- Cale-se, cale-se! - Allart não agüentava mais. - Ninguém poderia querer alguém mais bela do que você.

E, na verdade, o corpo jovem e perfeito, o rostinho encantador, a fragrância que se desprendia dos cabelos soltos, tudo era irresistível. Por algum motivo, antes de tocá-la, Allart pensara que as riyachiyas tinham um cheiro animal, não humano.

O encantamento dela está em mim, pensou ele. Como poderia resistir? Com uma sensação de cansaço total, enquanto ela passava os dedos por seu pescoço nu, da orelha até o ombro, Allart refletiu: Que diferença isso faz? Eu já tinha resolvido viver sem mulher, jamais passar adiante esta maldição que carrego. Mas essa pobre criatura é estéril, não posso gerar um filho nela, mesmo que quisesse. Talvez, quando souber que cumpri a sua vontade agora, meu pai não se sinta tão propenso a me lançar insultos e me chamar de menos que um homem. Portador dos Fardos, dê-me forças! Só estou apresentando desculpas para o que desejo fazer. E por que não deveria? Por que devo ser o único a resistir ao que é um direito de todos os homens de minha casta? A mente de Allart girava vertiginosamente. Mil futuros alternativos surgiam à sua frente: em um deles, agarrava a moça e torcia seu pescoço, como o animal que sabia que ela era; em outro, via a si mesmo e à moça enlaçados em ternura, uma imagem que aumentava, despertando a consciência do desejo em seu corpo; em mais outra, via a donzela morena caída à sua frente, morta... Tantos futuros, tanta morte e desespero... Tremendo, desesperado, tentando apagar os múltiplos futuros, Allart tomou a moça em seus braços e levou-a para cama. Mesmo enquanto os lábios se encontravam, seus pensamentos de desespero e inutilidade persistiram: De que adianta, quando tudo o que existe à minha frente é desgraça...?

Ele ouviu, como se saíssem do nada, os pequenos gritos de prazer. E pensou, em sua angústia: Pelo menos ela não é tão passiva assim. E depois não pensou mais nada, o que foi um enorme alívio.

 

A moça não estava mais ali quando Allart acordou. Permaneceu deitado, sem se mexer, por um momento, dominado pela repulsa e desdém de si mesmo. Como posso não matar aquele homem, que me impingiu isso? Mas enquanto o rosto morto do pai aflorava diante de seus olhos, no aposento de cortinas verdes e douradas agora familiar, ele disse a si mesmo, firmemente: A opção foi minha; ele apenas proporcionou a oportunidade.

Mesmo assim, Allart experimentou uma intensa repulsa por si mesmo enquanto se movimentava pelo aposento, preparando-se para a viagem. Na noite passada aprendera uma coisa a seu respeito que preferia nunca ter sabido.

Nos seis anos em Nevarsin não tivera qualquer dificuldade em se manter na área sem mulheres do mosteiro, viver sem pensar em mulheres; nunca se sentira tentado, nem mesmo no festival de verão, quando até os monges tinham permissão para participar das diversões, procurar amor ou sua contrafação na cidade baixa. Por isso, nunca lhe ocorrera que poderia ser difícil manter a sua determinação - de não casar, de não gerar filhos com a monstruosa maldição do laran. Contudo, apesar de toda; a sua repulsa pela coisa que Lella era, nem mesmo humana, seis anos de celibato auto-imposto foram postos de lado em poucos minutos, ao contato dos dedos obscenamente macios de uma riyachiya.

O que vai me acontecer agora? Se não fui capaz de manter minha determinação por uma única noite... Nos futuros incontáveis e divergentes que via à sua frente a cada passo, podia divisar mais um, que muito o desagradava: podia se tornar alguém como o velho Dom Marius, até se recusando ao casamento, apenas saciando o seu desejo naquelas criaturas do prazer de criação antinatural, se não pior ainda.

Sentiu-se grato porque o anfitrião não apareceu ao desjejum; já lhe era bastante difícil confrontar o pai, e a visão do rosto morto quase ofuscou por completo o rosto vivo e real do velho, jovial, enquanto comia pão com manteiga e mingau. Sentindo a ira silenciosa do filho (Allart especulou se o pai recebera informações dos servos ou se teria se rebaixado a interrogar a moça Lella, a fim de confirmar que o filho provara sua masculinidade), Dom Stephen manteve-se em silêncio, até o momento de vestirem os trajes de montaria, quando disse:

- Deixaremos as montarias aqui, filho. Dom Marius nos ofereceu um carro aéreo, que nos levará diretamente a Hali. Os servos poderão levar os animais dentro de poucos dias. Não viaja num carro aéreo desde que era pequeno, não é mesmo?

- Não me lembro de ter viajado em qualquer ocasião - respondeu Allart, outra vez interessado, contra a sua vontade. - Não eram muito comuns naquele tempo.

- Tem razão, não eram mesmo comuns. São brinquedos para os ricos, exigindo um competente operador com laran. São inúteis nas montanhas, onde os ventos lançariam qualquer veículo mais pesado do que o ar contra os penhascos. Mas aqui, nas Terras Baixas, são bastante seguros e pensei que tal vôo poderia distraí-lo.

- Confesso que estou curioso. - Allart refletiu que Dom Marius de Syrtis não poupara esforços para se insinuar nas boas graças de seu superior. Primeiro, pusera sua favorita à disposição dos hóspedes, agora oferecia seu carro aéreo! - Mas ouvi dizer em Nevarsin que esses aparelhos também não eram muito seguros nas Terras Baixas. Enquanto há guerra entre Elhalyn e Ridenow, são atacados com a maior facilidade.

Dom Stephen deu de ombros.

- Todos temos laran e poderemos enfrentar qualquer atacante. Depois de seis anos no mosteiro, sem dúvida a sua capacidade de combater ficou embotada, quando se trata de empunhar espada e escudo, mas tenho certeza de que pode revidar a alguém que nos ataque do céu. E tenho talismãs de fogo. - Ele olhou insinuante para o filho e acrescentou: - Ou vai querer me dizer que os monges o transformaram num homem de paz tão total que nem mesmo defenderá sua vida ou a vida de seus parentes? Parece que me lembro, Allart, que em criança você não tinha disposição para a luta.

Não tinha mesmo, pois a cada golpe eu via a morte ou o desastre, para mim mesmo ou para outro. É cruel de sua parte zombar de mim pela fraqueza infantil, que não era culpa minha, mas sim da sua maldita e hereditária dádiva do sangue... Mas, em voz alta, Allart limitou-se a dizer, forçando-se a ignorar o chocante rosto morto que teimava em aparecer diante de seus olhos, sobrepondo-se ao rosto vivo do pai:

- Enquanto eu viver, defenderei meu pai e senhor até a morte, que os deuses me ajudem se eu falhar ou titubear.

Surpreso, aturdido pela veemência na voz de Allart, Lorde Elhalyn estendeu os braços e enlaçou o filho. Pela primeira vez, ao que Allart podia se lembrar, para ele ou qualquer outro, o velho disse:

- Perdoe-me, filho querido, o comentário não foi digno. Não deveria acusá-lo de imerecido.

Allart sentiu lágrimas arderem nos olhos. Que os deuses me perdoem. Ele não é cruel ou então, se o é, assume a atitude apenas em medo por mim, também... Deseja sinceramente ser gentil...

O carro aéreo era comprido e fino, feito de algum material vítreo lustroso, com faixas ornamentais prateadas por toda a extensão, uma cabine de quatro lugares, aberta ao céu. Cralmacs empurraram-no do galpão para o piso colorido do pátio interior. O operador, um jovem magro de cabelos vermelhos, que indicavam a nobreza inferior das Colinas Kilghard, aproximou-se deles com uma mesura brusca e uma reverência apenas superficial; um experto altamente treinado, um laranzu daquele tipo, não precisava ser deferente com nenhum homem, nem mesmo o irmão do rei de Thendara.

- Sou Karinn, vai dom. Tenho ordens para levá-los a Hali. Por favor, ocupem seus lugares.

Ele deixou os cralmacs levantarem Dom Stephen para o assento e prenderem as tiras de couro. Mas enquanto Allart se instalava, Karinn permaneceu ali por mais um momento, indagando:

- Já viajou antes num aparelho assim, Dom Allart?

- Não, desde que posso me lembrar. É acionado por uma matriz que somente você pode manipular? Isso seria incrível!

- Não é bem assim. Ali... - Karinn apontou - ...tem uma bateria carregada com energia para acionar as turbinas. Haveria necessidade de mais força do que um homem tem a seu dispor para levitar e deslocar um aparelho como este. As baterias são carregadas pelos círculos de matriz e meu laran, neste momento, só é necessário para guiar... e pressentir os atacantes e me esquivar. - Sua expressão era sombria. - Eu não contestaria meu senhor e não é parte do meu dever recusar-me a fazer o que me mandam, mas... você possui laran?

Enquanto Karinn falava, a apreensão em Allart clareou, com uma visão súbita e nítida do carro aéreo explodindo e caindo do céu como uma pedra. Seria apenas uma probabilidade distante ou o que tinham de fato pela frente? Allart não tinha meios de saber.

- Tenho laran bastante para me sentir apreensivo em confiar nessa engenhoca. Pai, seremos atacados. Sabe disso?

- Dom Allart - disse Karinn -, essa engenhoca, como a chama, é o meio mais seguro de transporte já criado pela tecnologia da pedra de estrela. É vulnerável ao ataque daqui até Hali mesmo que vá a cavalo, numa jornada de três dias; num carro aéreo, chegará lá antes de meio-dia e eles precisariam dispor os atacantes com absoluta precisão. Além disso, é mais fácil defender-se com laran do que contra as armas que homens em terra podem empunhar. Creio que chegará o dia em Darkover em que todas as Grandes Casas terão armas e artefatos assim para se defenderem contra rivais invejosos ou vassalos rebeldes; e quando isso acontecer, não haverá mais guerras, pois nenhum homem são se arriscará a esse tipo de morte e destruição. Engenhocas como esta, vai dom, podem ser agora apenas brinquedos dispendiosos para homens ricos, mas nos trarão uma era de paz como Darkover jamais conheceu antes!

Ele falou com tanta convicção e entusiasmo que Allart duvidou de sua visão cada vez mais intensa de uma guerra terrível, com armas ainda mais terríveis. Karinn devia estar certo. Certamente armas tão assustadoras impediriam os homens sãos de entrarem em guerra; quem inventava as armas mais destruidoras era quem mais trabalhava pela paz. Ocupando seu lugar, Allart murmurou:

- Que Aldones, Senhor da Luz, conceda que você fale com a verdadeira visão, Karinn. E agora vamos ver este milagre em ação.

Tenho visto muitos futuros possíveis que nunca se concretizaram. Descobri esta manhã que amo muito a meu pai e vou me apegar à convicção de que nunca porei as mãos nele, assim como não torci o pescoço daquela pobre e inofensiva riyachiya na noite passada. Também não temerei um ataque, mas ficarei atento, enquanto desfruto todo o prazer que pode haver neste novo meio de transporte. Ele deixou Karinn mostrar-lhe como prender as correias para segurá-lo no assento se o ar ficasse turbulento, e o mecanismo que virava a cadeira por trás do painel de vidro de aumento, proporcionando uma visão instantânea de quaisquer atacantes ou ameaças.

Allart escutou atentamente enquanto o laranzu, sentado em seu lugar e prendendo as correias, inclinava a cabeça em concentração alerta e a turbina acionada pela bateria carregada entrava em funcionamento. Já praticara bastante na infância, nos pequenos planadores levitados por pedras matrizes e subindo nas correntes de ar em torno do Lago de Hali, para ter conhecimento dos princípios elementares do vôo mais pesado que o ar, mas mesmo assim achava incrível que um círculo de matriz, um grupo de mentes telepatas em contato, pudesse carregar uma bateria com bastante força para turbinas tão grandes. Mas o laran podia ser poderoso e uma matriz podia amplificar as correntes elétricas do cérebro e corpo de forma extraordinária, até cem vezes, mil vezes. Ele especulou quantas mentes com laran seriam necessárias, operando por quanto tempo, para carregar as baterias com a tremenda energia que acionava as ruidosas turbinas. Gostaria de perguntar a Karinn - mas não podia interferir na concentração do laranzu - por que um veículo assim não poderia ser adaptado para o trânsito no solo, mas logo compreendeu que haveria então necessidade de estradas. Talvez algum dia as estradas se tornassem viáveis, mas no terreno difícil das Colinas Kilghard, ao norte, o trânsito no solo provavelmente seria sempre limitado aos pés de homens e animais.

Rapidamente, com o zumbido de energia, eles deslizaram por uma pista plana coberta por material vítreo, que também devia ter sido despejado ali por força de matriz; e no instante seguinte alçaram vôo, subindo depressa por cima das copas das árvores, a caminho das nuvens, com uma velocidade tão vertiginosa que deixou Allart sem fôlego. Era muito além das alturas a que ele subira em planadores, que ficavam acima do lento caminhar dos chervines! Karinn fez um gesto e o carro aéreo virou as asas imensas para o sul, sobrevoando as florestas que havia nessa direção.

Já estavam voando há um tempo considerável. Allart começava a sentir que as correias restringiam seu corpo, muito apertadas, e desejou poder afrouxá-las um pouco. Foi nesse instante que sentiu, com um ímpeto de excitamento súbito, alerta e medo.

Estamos sendo perseguidos... seremos atacados! Olhe para oeste, Allart...

Allart estreitou os olhos para a claridade. Pequenos objetos apareciam ali, um, dois, três - seriam planadores? Se fossem, um carro aéreo como aquele poderia distanciá-los num instante. E, de fato, com movimentos rápidos das mãos, Karinn manobrava o carro aéreo para se esquivar aos perseguidores. Por um momento, pareceu que não seriam seguidos; um dos objetos voadores - Não são planadores! Serão gaviões? - elevou-se mais e mais, por cima deles. Era mesmo um gavião, mas Allart pôde sentir inteligência humana, uma percepção humana, observando-os com uma vontade maligna. Nenhum gavião natural jamais tivera olhos assim, brilhando como enormes jóias! Não, essa não é uma ave normal! Dominado pela apreensão, ele observou o vôo da ave, subindo mais e mais, com movimentos longos e suaves das asas pelo céu por cima...

E, de repente, um objeto estreito e reluzente desligou-se da ave e caiu, disparando como uma flecha na direção do carro aéreo. A visão de Allart, antes mesmo do pensamento, proporcionou-lhe o conhecimento do que aconteceria se aquele objeto mortífero, brilhando como vidro, atingisse o carro aéreo; eles explodiriam em fragmentos, cada fragmento envolto pelo terrível fogo viscoso, que aderia a tudo em que tocava e ardia e ardia, consumindo metal e vidro, carne e osso.

Allart pegou a matriz que usava no pescoço e tirou-a das sedas protetoras com dedos trêmulos. Há tão pouco tempo... Concentrando-se nas profundezas da pedra, ele alterou sua percepção do tempo, de forma a que o objeto caísse mais devagar. Pôde focalizá-lo, como se o pegasse entre dedos invisíveis de força... Devagar, bem devagar, com todo cuidado... não podia se arriscar a quebrá-lo perto do carro aéreo e fragmentos de fogo viscoso destruírem carne e metal. A percepção abrandada acelerou os futuros através de sua mente - viu o carro aéreo explodindo em fragmentos, o pai caindo, com o fogo viscoso ardendo em seus cabelos, Karinn subindo como uma tocha, o carro aéreo escapando ao controle, mais pesado do que uma pedra... mas não permitiria que nenhuma dessas coisas ocorresse!

Com infinito cuidado, sua mente concentrou-se nas luzes pulsantes da matriz. Com os olhos fechados, Allart manipulou a forma vítrea, afastando-a do carro aéreo. Sentiu resistência, compreendeu que a mente que guiava o artefato estava lhe disputando o controle. Lutou em silêncio, sentindo como se as mãos físicas tentassem segurar uma coisa engraxada e se debatendo, uma coisa viva, enquanto outras mãos tentavam arrancá-la de seu controle, arremessá-la em sua direção.

Karinn, depressa, suba o mais alto que puder, a fim de que exploda por baixo de nós...

Allart sentiu o corpo arriar contra as correias, enquanto o carro aéreo subia abruptamente; viu, com um fragmento da mente, o pai desfalecer no assento, pensando com alguma compunção: Ele é velho, frágil, seu coração não pode suportar isso... mas a parte principal de sua mente ainda se encontrava naqueles dedos de força que lutavam com o artefato a se debater, parecendo espernear sob o controle de sua mente. Estavam quase livres agora...

Explodiu com um tremendo estrépito, que pareceu abalar todo espaço e tempo. Allart sentiu uma intensa pontada de dor nas mãos; rapidamente, retirou a percepção das proximidades do artefato explodido, mas a queimadura ainda ressoou em suas mãos físicas. Abriu os olhos agora e constatou que o artefato explodira abaixo deles e fragmentos de fogo viscoso caíam numa chuva de chamas para incendiar a floresta. Mas um fragmento da granada incendiária fora projetado para cima, atingindo a beira do carro aéreo. O fogo espalhava-se pela beira da cabine, línguas se estendendo para o lugar em que o pai estava derreado, inconsciente.

Allart fez um esforço tremendo para reprimir o primeiro impulso - o de inclinar-se e bater com as mãos no fogo para apagá-lo. O fogo viscoso não podia ser extinto assim; qualquer fragmento que tocasse em suas mãos queimaria através das roupas, carne e osso, continuaria a arder enquanto houvesse alguma coisa para consumir. Tornou a se concentrar na matriz - não havia tempo para pegar o talismã de fogo que Karinn lhe dera, deveria tê-lo deixado à mão! -, criando o seu próprio fogo e lançando-o para cima do fogo viscoso. Flamejou alto por um instante e depois, com um último clarão, o fogo viscoso se extinguiu.

- Pai, você está ferido?

O velho estendeu as mãos trêmulas. A parte superior e o dedo mínimo estavam queimados, enegrecidos, mas não havia lesões maiores, até onde Allart podia ver. Dom Stephen balbuciou:

- Que os deuses me perdoem por ter duvidado de sua coragem, Allart. Você salvou a todos nós. Acho que estou muito velho para uma luta assim. Mas você controlou o fogo prontamente.

- O vai dom está ferido? - indagou Karinn dos controles. - Olhem só! Eles estão fugindo!

No horizonte, bem baixo, Allart divisou os pequenos vultos se afastando. Seriam aves genuínas sob encantamento de matriz para carregar as armas terríveis? Ou seriam coisas monstruosas, mutantes, tão aves quanto os cralmacs eram humanos? Ou algum artefato mecânico, impulsionado por matriz, que se elevara pelo ar para disparar a arma mortífera? Allart não podia adivinhar e no estado em que se encontrava o pai não se sentia em liberdade para perseguir os atacantes, mesmo em pensamento.

- Ele está chocado e um pouco queimado - comunicou Allart a Karinn, com grande ansiedade. - Quanto tempo mais vamos demorar para chegar?

- Só mais um ou dois momentos, Dom Allart. Posso avistar o brilho do lago. Ali está...

O carro aéreo descreveu uma volta e Allart pôde ver a praia, as areias reluzentes, como pedras preciosas... A lenda diz que as areias em que Hastur filho da Luz pisou se transformaram em pedras preciosas desde esse dia... E lá estavam as insólitas ondas mais leves do que a água que se desmanchavam incessantemente na praia. Ao norte estavam as torres brilhantes, a Grande Casa de Elhalyn, e no outro lado do lago a Torre de Hali, com um tênue brilho azul. Enquanto Karinn descia o carro aéreo, Allart desfez as correias e foi para o lado do pai. Pegou a mão queimada entre as suas e concentrou-se na matriz, a fim de ver com os olhos da mente e avaliar as lesões. O ferimento era mínimo; o pai apenas se encontrava em estado de choque, o coração disparado, mais assustado do que ferido.

Lá embaixo, Allart pôde divisar os servos com as cores de Hastur correndo pelo campo de pouso, enquanto o carro aéreo descia. Continuou segurando a mão do pai, tentando apagar tudo o que podia prever. Visões, nenhuma delas verdadeira... o carro aéreo não explodiu em chamas... o que eu vejo não precisa acontecer... é apenas o que pode vir, gerado por meus temores...

O carro aéreo pousou e Allart gritou no mesmo instante:

- Tragam os servos de milorde! Ele está ferido e devem levá-lo para dentro imediatamente!

Allart levantou o pai e baixou-o para os braços à espera dos servos, depois seguiu-os, enquanto carregavam o corpo tão frágil. De algum lugar soou uma voz, tão odiada no passado:

- O que aconteceu com ele, Allart? Foram atacados no ar?

Era a voz de seu irmão, Damon-Rafael. Allart descreveu rapidamente o ataque e Damon-Rafael disse, acenando com a cabeça:

- É a única maneira de enfrentar essas armas. Quer dizer que eles usaram as coisas-gaviões, hem? Já as mandaram para nos atacar apenas umas poucas vezes antes, mas em uma delas queimaram um pomar e as nozes foram escassas naquele ano.

- Em nome de todos os deuses, irmão, quem são esses homens de Ridenow? São do sangue de Hastur e Cassilda, para poderem nos atacar com essas armas de lararíl

- São arrivistas. Eram bandidos das Cidades Secas no começo e foram para Serrais, obrigando as famílias antigas locais a lhes dar suas mulheres como esposas. Alguns habitantes de Serrais tinham um laran forte e pode ver agora o resultado... eles se tornaram ainda mais fortes. Falam em trégua e acho que devemos promover uma trégua, pois essa luta não pode continuar por mais tempo. Mas seus termos são inadmissíveis. Querem a propriedade incontestável do Domínio de Serrais e alegam que têm esse direito por causa de seu laran... Mas este não é o momento de falar em guerra e política, irmão. Como está nosso pai? Parecia não estar muito ferido, mas de qualquer maneira devemos chamar uma curandeira para vê-lo imediatamente. Vamos embora...

Dom Stephen fora estendido num banco acolchoado no Grande Salão. A curandeira ajoelhou-se ao seu lado, passando ungüento nos dedos queimados e enfaixando-os com panos macios. Outra mulher levou uma taça de vinho aos lábios do velho lorde. Ele estendeu a mão para os filhos, que se adiantaram, apressados. Damon-Rafael também se ajoelhou ao seu lado. Contemplando o irmão, Allart pensou que era como olhar para um espelho meio embaçado; sete anos mais velho, Damon-Rafael era um pouco mais alto, um pouco mais corpulento, também de cabelos louros, olhos cinzas como todos os Hasturs de Elhalyn, o rosto começando a mostrar sinais da passagem dos anos.

- Que os deuses sejam louvados por tê-lo poupado, pai!

- Deve agradecer por isso a seu irmão, Damon; foi ele quem nos salvou.

- Se não por mais nada, eu lhe dou as boas-vindas por isso - disse Damon-Rafael, virando-se e puxando o irmão para um abraço de parente. - Seja bem-vindo, Allart. Espero que tenha voltado para nós em saúde, sem as fantasias doentias do tempo em que era um menino.

- Está ferido, meu filho? - indagou Dom Stephen, olhando para Allart com preocupação. - Eu o vi com uma expressão de dor.

Allart estendeu as mãos. Não fora tocado fisicamente pelo fogo, mas com o contato da mente manipulara o artefato de fogo e as ressonâncias vibraram em suas mãos físicas. Havia marcas avermelhadas nas palmas, subindo até os pulsos, mas a dor, embora intensa, era como um sonho, um pesadelo da mente, não o resultado de carne lesionada. Ele concentrou sua percepção e a dor diminuiu, as marcas vermelhas começando a se desvanecer, lentamente. Damon-Rafael disse:

- Deixe-me ajudá-lo, irmão. - Ele pegou os dedos de Allart entre as mãos e concentrou-se neles. Sob o seu contato, as marcas vermelhas se tornaram brancas. Lorde Elhalyn sorriu.

- Estou muito satisfeito - murmurou ele. - Meu filho mais moço voltou para mim forte e um guerreiro, e meus filhos estão juntos como irmãos. O trabalho deste dia foi bem feito, se serviu para lhes mostrar...

- Pai!

Allart saltou na direção do pai, no instante em que a voz do velho cessou, de maneira súbita e chocante. A curandeira também se adiantou, enquanto o velho lutava para respirar, o rosto escurecido e congestionado; depois, ele resvalou para o chão e ali ficou estendido, imóvel. O rosto de Damon-Rafael estava contraído em horror e dor.

- Oh, meu pai... - balbuciou ele.

Allart, de pé ao seu lado, dominado pelo choque e terror, correu os olhos em torno do Grande Salão, pela primeira vez, constatando o que não percebera antes, na confusão: as cortinas verdes e douradas, a enorme cadeira lavrada na extremidade.

Então era o Grande Salão de meu pai o lugar em que ele estava morto e só percebi quando já era tarde demais... Minha visão era verdadeira, mas me enganei quanto à causa... O conhecimento de muitos futuros de nada adianta para evitá-los...

Damon-Rafael inclinou a cabeça, chorando. Estendeu os braços para Allart e disse:

- Nosso pai está morto, foi para a Luz.

Os irmãos se abraçaram, Allart tremendo de choque pela consumação repentina e inesperada do futuro que previra. Ao redor deles, um a um, os servos ajoelharam-se, virando-se para os irmãos; e Damon-Rafael, o rosto contraído pela dor, a respiração irregular, fez um esforço para manter o controle, enquanto os servos pronunciavam a fórmula:

- Nosso lorde está morto; vida longa para o lorde.

Ajoelhados, todos estendiam as mãos, em homenagem a Damon-Rafael. Allart também se ajoelhou e, como era condizente nos termos da lei, foi o primeiro a prestar obediência ao novo senhor de Elhalyn, Damon-Rafael.

 

Stephen, Lorde Elhalyn, foi levado para o repouso eterno no antigo cemitério nas praias de Hali; e todo o clã Hastur dos Domínios das Terras Baixas, dos Aillards das planícies de Valeron aos Hasturs de Carcosa, vieram lhe prestar a última homenagem. O Rei Regis, encurvado e idoso, parecendo quase frágil demais para cavalgar, parou ao lado da sepultura do meio-irmão, apoiando-se no braço do único filho.

O Príncipe Felix, herdeiro do trono de Thendara e da coroa dos Domínios, foi abraçar Allart e Damon-Rafael, chamando-os de "queridos primos". Felix era um jovem franzino e efeminado, de cabelos dourados e olhos descoloridos, o rosto pálido, comprido e estreito e as mãos do sangue chieri. Depois que terminaram os rituais fúnebres, houve uma grande cerimônia. O velho rei, alegando a idade e saúde precária, foi levado para casa por seus cortesãos, mas Felix permaneceu para homenagear o novo Lorde de Elhalyn, Damon-Rafael.

Até mesmo o senhor de Ridenow mandara um enviado de Serrais, oferecendo uma trégua espontânea de duas vezes quarenta dias.

Allart, recebendo os convidados no salão, deparou subitamente com um rosto que conhecia - embora nunca a tivesse visto antes. Cabelos escuros, como uma nuvem de trevas sob um .véu azul; olhos cinzentos, mas de pestanas tão escuras que por um momento os próprios olhos pareciam tão escuros como os de um animal. Allart sentiu uma estranha pressão no peito ao contemplar a mulher morena cujo rosto o obcecara por tantos dias.

- Parente - murmurou ela, cortês.

Allart não foi capaz de baixar os olhos, como exigia o costume, na presença de uma mulher solteira que lhe era estranha.

Eu a conheço muito bem. Você me assediou, em sonhos e vigília. Já estou mais do que meio apaixonado por você... Imagens eróticas invadiram-no, impróprias para aquele momento. Ele fez um esforço para reprimi-las.

- Parente - repetiu ela -, por que me olha dessa maneira tão imprópria? Allart sentiu o sangue subindo ao rosto; era descortesia, quase indecência, olhar assim para uma mulher que lhe era estranha. Ele ficou embaraçado ao pensar que ela podia possuir laran, podia estar a par das imagens que o atormentavam. Conseguiu finalmente recuperar um fio de voz e balbuciou:

- Mas não lhe sou um estranho, damisela. Nem é descortesia um homem contemplar assim o rosto de sua esposa contratada. Sou Allart Hastur e em breve serei seu marido.

Ela levantou os olhos e fitou-o com firmeza. Mas havia tensão em sua voz quando disse:

- Mas é verdade? Não posso acreditar que tenha mantido minha imagem em sua mente desde que me viu pela última vez, quando eu era uma criança de quatro anos. E me disseram, Dom Allart, que havia se retirado para Nevarsin, que estava doente ou louco, desejava se tornar um monge e renunciar à sua herança. Quer dizer que eram apenas rumores infundados?

- É verdade que acalentei tais pensamentos por algum tempo. Passei seis anos entre os irmãos de São-Valentino-das-Neves e teria permanecido lá com a maior satisfação.

Se eu amo esta mulher, vou destruí-la... Gerarei filhos que serão monstros... ela morrerá ao gerá-los... Abençoada Cassilda, mãe dos Domínios, não me deixe ver tanto agora do meu destino, já que posso fazer tão pouco para evitá-lo...

- Não sou doente nem louco, damisela. Não precisa me temer. A jovem fitou-o nos olhos.

- É verdade. Não parece demente, apenas perturbado. E a perspectiva de nosso casamento que o perturba, primo?

Allart disse, com um sorriso nervoso:

- Não acha que eu deveria estar contente ao contemplar a beleza e a graça que os deuses me concederam numa noiva contratada?

- Essa não! - Ela sacudiu a cabeça, impaciente. - Este não é um momento para discursos bonitos e lisonjas, parente! Ou é um daqueles que pensam que uma mulher é uma criança tola, a ser dispensada com um ou dois elogios?

- Pode estar certa de que não tive a menor intenção de fazer uma descortesia, Lady Cassandra, mas aprendi que é inadmissível partilhar meus problemas e medos quando ainda são indefinidos.

Outra vez o olhar direto daqueles olhos de pestanas escuras.

- Medos, primo? Mas sou inofensiva e uma mulher! Afinal, um lorde dos Hasturs não tem medo de nada, muito menos de sua esposa prometida!

Allart encolheu-se diante do sarcasmo.

- Quer saber a verdade? Tenho uma estranha forma de laran. Não é apenas a presciência. Não vejo apenas o futuro que vai acontecer, mas os futuros que podem acontecer, as coisas que talvez ocorram com azar ou fracasso. Há ocasiões em que não posso determinar quais deles são gerados por causas agora em ação e os que derivam de meu medo. Fui para Nevarsin a fim de aprender a controlar isso.

Ele a ouviu respirar fundo.

- Misericórdia de Avarra, que maldição para se carregar! E conseguiu adquirir o controle, parente?

- Até certo ponto, Cassandra. Mas quando estou perturbado ou indeciso, volta tudo, de tal forma que não vejo apenas a alegria que o casamento com alguém como você poderia me proporcionar.

Como uma dor física em seu coração, Allart sentiu a percepção amarga de todas as alegrias que eles poderiam conhecer, se fosse capaz de fazê-la retribuir seu amor, os anos pela frente que poderiam ser maravilhosos... Com todo ímpeto, ele bateu a porta interior, fechando a mente. Ali não estava uma riyachiya, a ser tomada sem qualquer pensamento, por um momento de prazer! E ele acrescentou, bruscamente, sem saber que sua angústia deixava a voz rouca e a fala fria:

- Mas vejo também todos os pesares e catástrofes que podem acontecer. Enquanto não encontrar o caminho através dos falsos futuros, nascidos de meus temores, não posso encontrar alegria na perspectiva do casamento. Como falei antes, não tive a menor intenção de descortesia, minha dama e noiva.

- Estou contente que tenha me falado tudo isso. Deve saber que meus parentes estão furiosos porque nosso casamento não ocorreu há dois anos, quando entrei legalmente na maioridade. Acharam que você me insultara ao permanecer em Nevarsin. E agora desejam ter certeza de que você me reivindicará sem mais demora. - Ela fez uma pausa, os olhos faiscando de humor. - Não que se importem um sekal por minha felicidade conjugal, mas não param de me lembrar como você está perto do trono, como sou afortunada e como devo cativá-lo com meus charmes, a fim de que não escape. Vestiram-me como um manequim de moda e arrumaram-me os cabelos com fios de cobre e prata, cobriram-me de jóias, como se você fosse me comprar no mercado. Eu esperava que você me abrisse a boca e olhasse os dentes, a fim de verificar se sou saudável! Allart não pôde conter uma risada.

- Sob esse aspecto, Lady Cassandra, seus parentes não precisam temer coisa alguma. Tenho certeza que nenhum homem vivo poderia encontrar qualquer defeito em você.

- Mas acontece que tenho um defeito - murmurou ela. - Eles esperavam que você não percebesse, mas não tentarei esconder. - Ela estendeu as mãos estreitas e cheias de anéis. Havia seis dedos e Cassandra ficou ruborizada quando os olhos de Allart se fixaram no sexto. - Por favor, Dom Allart, eu lhe suplico que não olhe assim para a minha deformidade.

- Não me parece uma deformidade. Você toca a rryl. Tenho a impressão de que pode dedilhar os acordes muito mais facilmente.

- É verdade, mas...

- Então não vamos mais pensar nisso como um defeito ou deformidade, Cassandra. - Allart pegou as mãos de seis dedos e comprimiu-as contra seus lábios. - Vi em Nevarsin crianças com seis ou sete dedos. Só que os dedos extras não tinham ossos nem tendões, não podiam ser mexidos ou flexionados. Mas vejo que tem controle total dos seus. Também sou músico.

- É mesmo? Porque era um monge? A maioria dos homens não tem paciência para tais coisas, ou dispõem de pouco tempo para aprendê-las, junto com as artes da guerra.

- Prefiro ser músico a guerreiro - disse Allart, tornando a comprimir os dedos estreitos contra os lábios. - Que os deuses nos concedam bastante paz em nossos tempos, a fim de que possamos fazer canções em vez de guerra.

Mas enquanto ela sorria, fitando-o nos olhos, a mão ainda comprimida contra seus lábios, Allart notou que Ysabet, Lady Aillard, observava-os atentamente, assim como seu irmão, Damon-Rafael. Pareciam tão satisfeitos que ele se sentiu nauseado. Estavam manipulando-o a fazer o que desejavam, apesar de sua determinação! Ele largou a mão de Cassandra, como se o queimasse.

- Posso conduzi-la à sua parenta, damisela?

A noite foi avançando, as festividades decorosas, mas não sombrias - o velho lorde fora sepultado com toda decência e tinha um herdeiro apropriado, não havia a menor dúvida de que o Domínio continuaria a prosperar. Damon-Rafael procurou o irmão. Apesar das celebrações, Allart notou que ele estava sisudo.

- Amanhã partiremos para Thendara, onde serei investido como Lorde do Domínio. Deve nos acompanhar, irmão; deve ser guardião e herdeiro-designado de Elhalyn. Não tenho filhos legítimos, apenas nedestro; e não legitimarão um nedestro enquanto não tiverem certeza de que Cassilde não me dará nenhum filho.

Ele olhou através da sala para a esposa, com uma expressão fria, quase amargurada. Cassilde Aillard-Hastur era uma mulher pálida e franzina, doentia e cansada.

- O Domínio estará em suas mãos, Allart, e de certa forma estou à sua mercê. Como é mesmo o provérbio? "As costas estão nuas se não se tem um irmão."

Allart especulou como, em nome de todos os deuses, irmãos podiam ser amigos ou qualquer outra coisa que não os rivais mais impiedosos, com leis de herança tão rigorosas. Pessoalmente, não tinha a menor ambição de desalojar o irmão do comando do Domínio, mas será que Damon-Rafael acreditaria nisso?

- Eu preferia que tivesse me deixado no mosteiro, Damon.

O sorriso de Damon-Rafael foi cético, como se temesse que as palavras do irmão escondessem alguma trama insidiosa.

- É mesmo? Mas observei-o quando conversava com a mulher Aillard e parecia evidente que mal pode esperar pela cerimônia. Talvez tenha um filho legítimo antes de mim; Cassilde é frágil e sua prometida parece forte e saudável.

Allart disse, com uma veemência contida:

- Não tenho a menor pressa em casar! Damon-Rafael assumiu uma expressão irritada.

- O Conselho não aceitará um homem de sua idade como herdeiro a menos que concorde em casar imediatamente. É escandaloso que um homem na casa dos vinte anos ainda esteja solteiro e nem mesmo tenha filhos naturais. - Ele fitou Allart nos olhos, atentamente. - Ou será que sou mais afortunado do que imagino? Por acaso é um emmasca? Ou mesmo um amante de homens?

Allart sorriu, amargurado.

- Lamento desapontá-lo. Quanto a ser emmasca, viu-me despido e apresentado ao Conselho quando entrei na maioridade. E se queria que eu me tornasse um amante de homens, deveria ter impedido a minha convivência com os cristoforos. Mas voltarei ao mosteiro, se você assim quiser.

Ele pensou por um momento, quase com exultação, que seria a solução para seu tormento e perplexidades. Damon-Rafael não queria que ele gerasse filhos que pudessem ser rivais dos seus; talvez assim pudesse escapar à maldição de gerar filhos que herdariam seu trágico laran. Se retornasse a Nevarsin... Allart ficou surpreso com a angústia que o pensamento lhe causou.

Nunca mais veria Cassandra...

Damon-Rafael sacudiu a cabeça, não sem pensar.

- Não posso contrariar os Aillards. São os nossos aliados mais fortes nesta guerra e já estão irritados porque Cassilde não consolidou a aliança me dando um herdeiro com o sangue de Elhalyn e Aillard. Se você evitar o casamento, terei mais um inimigo e não posso me dar ao luxo de ter os Aillards como inimigos. Eles já receiam que eu tenha encontrado um partido melhor para você. Mas sei que nosso pai reservara duas meias-irmãs nedestro do clã Aillard para você, com genes modificados. O que farei se você tiver filhos de todas as três?

A repulsa tornou a dominar Allart, como já acontecera quando Dom Stephen lhe falara a respeito pela primeira vez.

- Eu disse a meu pai que não desejava isso.

- Eu preferia que quaisquer filhos de sangue Aillard fossem meus, mas não posso tomar a sua esposa prometida. Já tenho uma esposa e não posso converter uma dama de um clã tão importante em minha barragana. Seria uma causa para uma briga de família! Mas se Cassilde morresse no parto, como podia ter acontecido nos últimos dez anos e ainda é provável em qualquer momento no futuro, então...

Os olhos de Damon-Rafael procuraram Cassandra, que estava entre as parentas, avaliando seu corpo, de alto a baixo; e Allart sentiu uma raiva inesperada. Como Damon-Rafael se atrevia a falar assim? Cassandra era sua!

- Quase que me sinto tentado a protelar seu casamento por um ano, Allart. Se Cassilde morresse ao gerar a criança que agora carrega, eu ficaria livre para fazer de Cassandra minha esposa. Imagino que eles ficariam até agradecidos, quando ela viesse partilhar meu trono.

- O que fala é traição - protestou Allart, genuinamente chocado agora. - O Rei Regis ainda ocupa o trono e Felix é seu filho legítimo e o sucederá.

Damon-Rafael deu de ombros, desdenhosamente.

- O velho rei? Ele não viverá por mais um ano. Fiquei ao seu lado hoje, junto da sepultura de nosso pai. Também tenho um pouco de presciência dos Hasturs de Elhalyn. Ele também estará numa sepultura antes das estações completarem mais um ciclo. Quanto a Felix... tenho ouvido rumores e estou certo de que você também os ouviu. Ele é emmasca. Dizem que um dos anciãos que o viram despido foi subornado e que outro tinha visão defeituosa. Qualquer que seja a verdade, ele está casado há sete anos e a esposa não parece uma mulher que tem sido bem tratada no leito conjugal. Também nunca houve qualquer rumor de que ela estivesse com criança. Traição ou não, Allart, posso lhe garantir que estarei no trono dentro de sete anos. Veja com sua presciência.

Allart murmurou, suavemente:

- No trono ou morto, meu irmão.

Damon-Rafael fitou-o com uma hostilidade indisfarçável.

- Aqueles velhos efeminados do Conselho podem preferir o filho legítimo de um irmão mais moço ao nedestro do mais velho. Estenderia sua mão na chama de Hali e juraria apoiar a reivindicação de meu filho, legítimo ou não?

Allart esforçou-se para descobrir a visão verdadeira entre as imagens de um reino devastado pelas chamas, um trono ao seu alcance, tempestades varrendo Hellers, uma fortaleza desabando como se destruída por um terremoto... não! Era um homem de paz; não tinha qualquer vontade de lutar como irmão por um trono, ver os Domínios ensangüentados por uma terrível guerra fratricida. Ele inclinou a cabeça.

- Os deuses tudo ordenaram, Damon-Rafael, quando você nasceu como o filho mais velho de meu pai. Prestarei o juramento que me exige, meu irmão e meu senhor.

O desdém misturava-se com a expressão de triunfo de Damon-Rafael. Allart sabia que teria de lutar até a morte por sua herança se as posições fossem invertidas. Ficou tenso de aversão quando Damon-Rafael abraçou-o e disse:

- Terei então o seu juramento e a sua mão forte para defender meus filhos. Talvez o velho ditado seja verdadeiro e eu não precise sentir as costas, sem irmão.

Ele tornou a olhar com pesar para o outro lado da sala, onde estava Cassandra, envolta pelo véu azul.

- Imagino... Não, infelizmente, é melhor você tomar sua esposa. Todos os Aillards ficariam ofendidos se eu a fizesse uma barragana, e não posso manter os dois sem casar por mais um ano, contando com a possibilidade de Cassilde morrer e eu ficar livre para casar de novo.

Cassandra... nas mãos daquele homem? De Damon-Rafael, que só pensava nela como um peão para uma aliança política, para consolidar o apoio de seus parentes? O pensamento deixou Allart angustiado. Mas ele recordou sua própria determinação: não tomar nenhuma esposa, não gerar filhos para carregarem a maldição de seu laran.

- Em troca de meu apoio, irmão, dispense-me desse casamento.

- Não posso - respondeu Damon-Rafael, pesaroso. - Por mais que me agradasse tomá-la para mim, isso não é possível. Não posso ofender os Aillards. Mas não se preocupe, pois talvez não tenha de carregar o fardo por muito tempo. Ela é jovem e muitas das mulheres Aillards têm morrido ao gerarem o primeiro filho. É provável que o mesmo aconteça com Cassandra. Ou ela pode ser como Cassilde, bastante fértil, mas gerando apenas bebês que nascem mortos. Se você a mantiver gerando e abortando por alguns anos, meus filhos estarão seguros e ninguém poderá alegar que não fez melhor pelo nosso clã. A culpa será dela, não sua.

Allart protestou:

- Eu não gostaria de tratar qualquer mulher assim!

- Irmão, não me importo como você vai tratá-la, desde que case com ela e a leve para a cama, fazendo com que os Aillards fiquem ligados a nós por vínculos de parentesco mais fortes. Apenas sugeri uma maneira de se livrar dela sem descrédito para a sua virilidade. - Damon-Rafael deu de ombros, descartando o assunto. - Mas já chega dessa conversa. Partiremos para Thendara amanhã e depois que a questão da herança estiver resolvida voltaremos a Hali para o seu casamento. Quer beber comigo?

- Já bebi demais - mentiu Allart, ansioso em evitar mais contato com o irmão.

Sua visão fora genuína. Entre todos os mundos de probabilidades, não estava escrito em lugar algum que ele e Damon-Rafael seriam amigos; e se Damon-Rafael acabasse ascendendo ao trono - e o laran de Allart dizia que era bem possível que isso acontecesse - talvez Allart precisasse lutar para resguardar a sua própria vida e as vidas de seus filhos.

Santo Portador dos Fardos, dê-me forças! Outro motivo para que eu não tenha filhos acaba de me ocorrer - terei que temer também por eles nas mãos de meu irmão!

 

Num ânimo amável, ansioso em homenagear seu jovem parente, Sua Graça Regis II concordara em celebrar a cerimônia de casamento; o rosto idoso e vincado irradiava bondade ao pronunciar as palavras rituais e ajeitar a pulseira de cobre, as catenas, primeiro no pulso de Allart e depois no de Cassandra. Tornando a abrir as pulseiras, ele declarou:

- Que nunca fiquem separados de fato, no espírito e no coração. - Eles trocaram um beijo, enquanto o velho rei acrescentava: - Que sejam um só para sempre.

Allart sentiu Cassandra tremer, de pé ali, suas mãos unidas pelo metal precioso.

Ela tem medo e não é de admirar, pensou Allart. Nada sabe a meu respeito; seus parentes a venderam a mim, como poderiam ter vendido um gavião ou uma égua para a reprodução.

No passado (Allart lera alguma coisa sobre a história do Domínio em Nevarsin), casamentos como aquele seriam inconcebíveis. Era considerado uma forma de egoísmo para as mulheres gerarem filhos de um único homem, e o conjunto genético fora ampliado pelo aumento donúmero de combinações possíveis. Por um instante, Allart especulou se não teria sido assim que fora criado o laran maldito em sua raça; ou seria verdade que descendiam dos filhos dos deuses que tinham vindo a Hali para gerar uma prole que governaria sua espécie? Ou seriam verdadeiras as histórias de que cruzamentos com chieri não-humanos é que davam à sua casta tanto o emmasca assexuado quanto o dom do laran).

O que quer que tenha acontecido, aqueles dias do passado distante, quase esquecidos, de casamento coletivo haviam ficado para trás à medida que as famílias iniciavam sua escalada para o poder; a herança e o programa de reprodução tornavam importante o conhecimento da paternidade exata. Agora um homem é julgado apenas por seus filhos e uma mulher por sua capacidade de procriação - e ela sabe que é apenas por isso que me foi dada!

A cerimônia chegava ao fim e Allart sentiu as mãos frias e trêmulas da esposa nas suas, ao se inclinar para tocá-la de leve nos lábios, no beijo ritual de encerramento. Depois, levou-a para dançar, em meio a uma explosão de congratulações, votos de felicidade e aplausos de seus parentes e nobres ali reunidos. Allart, hipersensível, sentiu as implicações e insinuações nas palavras e refletiu que bem poucos ali estavam sendo sinceros. O irmão, Damon-Rafael, provavelmente era sincero. Allart postara-se diante das coisas sagradas em Hali naquela manhã, estendendo a mão para o fogo frio que não queimava, a menos que a pessoa soubesse que não estava dizendo a verdade. Empenhara a sua honra como Hastur na defesa dos interesses do irmão no comando do clã e no apoio da sucessão dos filhos dele ao trono. Os outros parentes lhe deram os parabéns porque fizera uma aliança politicamente poderosa com o forte clã dos Aillards de Valeron, porque esperavam se aliar a ele através do casamento com os filhos e filhas que aquela união poderia produzir ou apenas porque sentiam prazer em presenciar um casamento e porque a bebida, a dança e as festividades constituíam uma pausa agradável no luto oficial por Dom Stephen.

- Está silencioso, meu marido - murmurou Cassandra.

Allart estremeceu, percebendo um tom suplicante em sua voz. É pior para ela, pobre criança. Fui consultado - de certa forma - a propósito do casamento; ela nem sequer teve permissão para dizer sim ou não. Por que fazemos isso com nossas mulheres, já que é por intermédio delas que mantemos as preciosas heranças que passaram a significar tanto para nós! Ele respondeu, suavemente:

- Meu silêncio não é por você, damisela. Este dia me deu muito o que pensar; isso é tudo. Mas estou sendo grosseiro ao pensar tão profundamente em sua presença.

Os olhos calmos, tão profundos que pareciam escuros, encontraram-se com os seus, com um brilho de humor em suas profundezas.

- Outra vez está me tratando como uma donzela que se faz calar com um elogio bonito; e me permita lembrá-lo, milorde, que não é mais apropriado me chamar de damisela, pois agora sou sua esposa.

- Que Deus me ajude, é verdade - balbuciou ele, desesperado. Cassandra fitou-o atentamente, franzindo um pouco a testa lisa.

- Foi com tanta relutância que casou? Fui criada desde a infância com o conhecimento de que deveria casar conforme meus parentes desejassem, mas sempre pensei que um homem fosse mais livre para escolher.

- Creio que nenhum homem é livre... pelo menos não aqui, nos Domínios. Allart especulou se não seria por isso que havia tanta festa num casamento, tanta dança e bebedeira... para que os filhos e filhas de Hastur e Cassilda pudessem esquecer que eram reproduzidos como garanhões e éguas em favor do amaldiçoado laran que proporcionava o poder à sua linhagem!

Mas como poderia esquecer? Allart estava outra vez dominado pelo senso de tempo desfocado que era a maldição de seu laran, futuros divergindo daquele momento exato, com a terra devastada pela guerra e luta, gaviões como os que haviam lançado o fogo viscoso contra seu carro aéreo, planadores enormes, de asas largas, com homens pendurados, incêndios se elevando nas florestas, estranhos picos nevados da cordilheira além de Nevarsin que ele nunca vira, o rosto de uma criança cercado pelo brilho de relâmpagos... - Todas essas coisas vão mesmo entrar em minha vida ou serão apenas coisas que podem acontecer?

Teria algum controle sobre qualquer daquelas coisas ou todas lhe seriam impostas por um destino implacável? Como lhe haviam imposto Cassandra Aillard para esposa, aquela mulher de pé à sua frente... Uma dúzia de Cassandras, não apenas uma, fitando-o - iluminada pelo amor e paixão que ele sabia que podia despertar, atormentada pelo ódio e aversão (era verdade, também podia despertar isso), inerte de exaustão, morrendo com uma maldição, morrendo em seus braços... Allart fechou os olhos, num vão esforço para excluir os rostos da esposa. Cassandra disse, com um alarme genuíno:

- Meu marido! Allart! Eu suplico, diga-me o que está errado com você! Ele sabia que a assustara e procurou controlar os futuros tumultuados, aplicar as técnicas que aprendera em Nevarsin, reduzir a dúzia de mulheres em que ela se transformara - podia se tornar, haveria de se tornar - e fundir a todas na que se encontrava agora à sua frente.

- Não é qualquer coisa que você tenha feito, Cassandra. Já lhe disse como sou amaldiçoado.

- Não há nada que possa ajudá-lo?

Há, sim, pensou Allart, selvagemente. Ajudaria muito, acima de tudo, se nenhum de nós jamais tivesse nascido; se nossos ancestrais, que eles possam congelar para sempre no inferno mais sinistro de Zandru, pudessem se abster de incluir essa maldição em nossa linhagem! Ele não falou, mas Cassandra captou o pensamento e seus olhos se arregalaram em consternação.

Mas naquele instante os parentes interromperam a solidão momentânea dos dois. Damon-Rafael tirou Cassandra para uma dança, comentando, arrogante:

- Ela será toda sua muito em breve, irmão!

Outra pessoa pôs um copo na mão de Allart, exigindo sua participação nas comemorações, que, afinal de contas, eram em sua homenagem!

Tentando ocultar a raiva e a rebeldia - afinal, não podia culpar os convidados por todo o sistema! -, ele se deixou persuadir a beber e a dançar com jovens parentas, que obviamente tinham tão pouco a ver com seu futuro que os rostos permaneciam tranquilizadoramente únicos, não alterados continuamente pelas probabilidades de seu laran. Não tornou a ver Cassandra até que Cassilde, a esposa de Damon-Rafael, e suas parentas levaram-na do salão para a câmara nupcial formal.

O costume exigia que os recém-casados deitassem na presença de todos, como prova de que o casamento fora devidamente realizado. Allart lera em Nevarsin que houvera uma época, logo depois da instituição do casamento por herança e das catenas, em que a consumação pública também era indispensável. Felizmente, Allart sabia que isso não lhe seria exigido. Não podia deixar de se perguntar como alguém conseguiria consumar um casamento à vista de todos.

Não demorou muito para que o levassem, num tumulto dos gracejos habituais, à presença de sua esposa. O costume exigia também que a camisola nupcial fosse mais reveladora do que qualquer outra coisa que ela já vestira antes - ou jamais tornaria a usar depois. Allart refletiu, cinicamente: a fim de que todos possam verificar que ela não tem qualquer defeito secreto que prejudique o seu valor como reprodutora!

Que os deuses permitam que não a tenham drogado à complacência... Allart observou atentamente para verificar se ela não estava com os olhos toldados, se não a haviam enchido de afrodisíacos. Ponderou que isso até era misericordioso para uma jovem entregue contra a vontade a um estranho total; ninguém teria muita disposição para lutar com uma moça apavorada até levá-la à submissão. Outra vez futuros conflitantes, possibilidades e obrigações conflitantes, afloraram em sua mente, com imagens de sensualidade disputando com outros futuros, em que a via morta em seus braços. O que Damon-Rafael lhe dissera? Que todas as irmãs de Cassandra haviam morrido no nascimento do primeiro filho...

Com um coro de congratulações os parentes se retiraram, deixando-os a sós. Allart levantou-se e foi puxar a tranca da porta. Voltando para a cama, percebeu o medo no rosto de Cassandra e o bravo esforço que ela fazia para escondê-lo.

Será que ela receia que eu a ataque como um animal selvagem! Mas, em voz alta, ele disse apenas:

- Eles a drogaram com aphrosone ou alguma outra droga parecida? Cassandra sacudiu a cabeça.

- Eu recusei. Minha mãe de criação queria que eu bebesse, mas falei que não tinha medo de você.

- Então por que está tremendo?

Ela respondeu com o lampejo de espírito que Allart já observara antes:

- Estou com frio, milorde, nesta camisola que me obrigaram a usar e que me deixa quase nua!

Allart não pôde deixar de rir.

- Parece que estou levando a melhor, já que me cubro de pele. Mas pode se cobrir, minha dama... tal exposição não seria necessária para que eu a desejasse... ora, aqui estou outra vez esquecendo de que não gosta de ser elogiada ou lisonjeada! - Ele se adiantou e sentou-se na beira da cama grande, ao lado de Cassandra. - Posso lhe servir um pouco de vinho, domna?

- Obrigada.

Ela pegou o copo e a cor veio ao seu rosto quando tomou um gole. Agradecida, Cassandra aconchegou-se na túnica de pele. Allart também serviu-se de vinho, virando a haste da taça entre os dedos, tentando imaginar como podia dizer o que precisava sem ofendê-la. Outra vez os futuros e possibilidades ameaçavam engolfá-lo, a tal ponto que podia se ver ignorando seus escrúpulos, tomando-a nos braços com toda a paixão acumulada de sua vida. Com ela adquiriria uma vida intensa com amor e paixão, os anos de alegria que partilhariam... e de novo, desconcertante, toldando o rosto da mulher e o momento à sua frente, o rosto de outra mulher, moreno e risonho, envolto por massas de cabelos avermelhados...

- Cassandra... você queria este casamento? Ela não o fitou.

- Eu me sinto honrada por este casamento. Fomos prometidos quando eu era muito pequena para me lembrar. Deve ter sido diferente para você, é um homem e tem opção. Mas eu não tive nenhuma. Em tudo o que fazia quando era criança, sempre ouvia que isso ou aquilo não seria apropriado quando me casasse com Allart Hastur de Elhalyn.

Ele disse com dificuldade, as palavras quase que arrancadas à força:

- Deve ter sido uma segurança e tanto ver apenas um futuro, em vez de uma dúzia, uma centena, mil... não ter de avançar entre os futuros possíveis como um acrobata que dança na corda bamba no Festival da Feira!

- Nunca pensei nisso. Só me ocorria que sua vida era mais livre do que a minha, podia escolher...

- Livre? - Allart riu, sem qualquer diversão. - Meu destino estava tão definido quanto o seu, Lady Cassandra. Apesar de tudo, porém, ainda poderemos escolher entre os futuros que posso divisar, se estiver disposta.

Ela respondeu, num murmúrio:

- O que nos resta para optar agora, milorde? Estamos casados; eu diria que não há mais nenhuma opção. Só uma: você pode me usar brutalmente ou gentilmente e eu posso suportar tudo com paciência ou desgraçar minha casta ao lutar para repeli-lo e obrigá-lo, como a vítima de alguma velha canção obscena, a exibir as marcas de minhas unhas e dentes. - Ela ergueu os olhos brilhantes numa risada. - O que, na verdade, eu acharia muito vergonhoso para fazer.

- Que os deuses me proíbam de lhe dar um motivo para isso, Cassandra.

Por um momento, tão pungentes foram as imagens despertadas pelas palavras de Cassandra, parecia que todos os outros futuros haviam sido eliminados. Ela era sua esposa, que lhe fora dada com consentimento, até mesmo disposta, inteiramente à sua mercê. Podia até fazer com que ela o amasse.

Então por que não nos entregamos juntos ao nosso destino, meu amor...! Mas Allart forçou-se a dizer:

- Ainda resta uma terceira opção. Conhece a lei; qualquer que seja a cerimônia, não há casamento enquanto não o consumarmos. Até mesmo as catenas podem ser abertas, se assim solicitarmos.

- Se eu assim irritasse meus parentes e provocasse a ira dos Hasturs, então desmoronariam todas as alianças em que se baseia o reino dos Hasturs. Se você quisesse me devolver a meus parentes porque não lhe agradei, não haveria paz nem felicidade para mim. - Os olhos de Cassandra estavam arregalados e desolados.

- Pensei apenas... Talvez chegue o dia em que será dada a alguém que seja mais de seu gosto.

Ela murmurou, timidamente:

- O que o faz pensar que eu poderia encontrar alguém mais a meu gosto?

Allart compreendeu, com um pavor súbito, que o pior acontecera. Temendo ser dada a um bruto insensível, que pensaria nela apenas como uma égua reprodutora, descobrindo em vez disso que ele lhe falava como a uma igual, a jovem estava pronta para adorá-lo!

Sabia que bastava encostar a mão em Cassandra para que sua determinação se desvanecesse; iria cobri-la de beijos, puxá-la para seus braços... quanto menos não fosse para apagar os futuros múltiplos que podia ver a se desdobrarem daquele momento crucial, eliminar a todos num único momento com alguma ação positiva, qualquer que fosse. Quando ele falou, sua voz soou tensa, até para si mesmo:

- Conhece a maldição que carrego. Não vejo apenas o futuro verdadeiro, mas uma dúzia de futuros... e qualquer um pode acontecer ou escarnecer de mim ao jamais se concretizar. Decidi jamais casar, a fim de não transmitir essa maldição para qualquer filho meu. Por isso é que resolvi renunciar à minha herança e me tornar um monge. Posso ver, com nitidez demais, o que o casamento com você pode acarretar. Pelos deuses lá em cima, pensa que sou indiferente a você?

- Suas visões são sempre verdadeiras, Allart? Por que devemos renegar o nosso destino? Se essas coisas são determinadas, acontecerão de qualquer maneira, independente do que fizermos agora; se não forem, não poderão nos incomodar. - Ela ficou de joelhos e enlaçou-o. - Não estou relutante, Allart. Eu... eu... eu amo você...

Por uma fração de segundo, Allart não pôde evitar abraçá-la também. Depois, lutando contra a lembrança vergonhosa da maneira como se rendera à tentação da riyachiya, segurou-a pelos ombros e afastou-a, com toda a sua força. E ouviu sua própria voz, áspera e gelada, como se pertencesse a outra pessoa:

- Ainda espera que eu acredite que não foi drogada com afrodisíacos, milady!

Ela enrijeceu, lágrimas de raiva e humilhação brotando em seus olhos. Ele queria, como jamais desejara outra coisa em toda a sua vida, puxá-la de volta para repousar junto de seu coração.

- Perdoe-me - suplicou Allart. - Mas procure compreender. Estou lutando para... para encontrar a saída desta armadilha em que nos jogaram. Não pode imaginar o que tenho visto? Todos os caminhos levam para lá, ao que parece... que farei o que se espera de mim, que gerarei monstros, crianças atormentadas pelo laran ainda mais do que eu, morrendo como meu irmão mais moço ou, pior ainda, vivendo a nos amaldiçoarem por terem nascido. E quer saber o que tenho visto para você, ao final de cada caminho, minha pobre menina? Sua morte, Cassandra, sua morte ao ter meu filho.

Ela sussurrou, o rosto muito pálido:

- Duas de minhas irmãs morreram assim.

- E você ainda pergunta por quê. Não a estou rejeitando, Cassandra. Apenas tento evitar o terrível destino que vi para nós dois. Deus sabe que seria bastante fácil... Entre a maioria das linhas do meu futuro, posso ver claramente, seria o curso mais fácil; que eu a amasse, que você me amasse, que seguíssemos de mãos dadas para a tragédia horrível que o futuro nos reserva. Tragédia para você, Cassandra. E para mim também. Eu... - Allart engoliu em seco, tentando firmar a voz. - Eu não suportaria a culpa por sua morte.

Ela começou a chorar. Allart não se atreveu a tocá-la; ficou imóvel, de pé, contemplando-a, desesperado, com um aperto no coração.

- Faça um esforço para não chorar - balbuciou ele. - Não posso suportar. A tentação está sempre presente, de fazer a coisa mais fácil e confiar na sorte. Ou, se tudo o mais falhar, dizer: "E o nosso destino e ninguém pode lutar contra seu destino." Pois há alternativas. Você pode ser estéril, pode sobreviver ao parto, nossa criança pode escapar à maldição do laran comum. Há tantas possibilidades, tantas tentações! E decidi que este casamento não será consumado enquanto eu não puder ver claro à minha frente. Eu lhe suplico, Cassandra, concorde com esta proposta.

- Parece que não tenho opção. - Ela levantou os olhos para fitá-lo, desconsolada. - Mas também não há felicidade em nosso mundo para uma mulher que não encontra favor junto de seu marido. Enquanto eu não engravidar, minhas parentas não me darão sossego. Elas também têm laran e se o casamento não for consumado haverão de saber, mais cedo ou mais tarde. Com isso, os mesmos problemas que previmos que poderiam acontecer se recusássemos o casamento acabarão ocorrendo. Seja como for, meu marido, parece que somos a caça que pode ficar na armadilha ou pular para a panela; para qualquer lado, está a desgraça.

Acalmado pela seriedade com que ela procurava pensar e avaliar a situação, Allart disse:

- Tenho um plano, se quiser me acompanhar, Cassandra. A maioria de nossos parentes, antes de chegar à minha idade, passa um período numa Torre, usando seu laran num círculo de matriz que pode proporcionar energia e uma boa vida a nosso povo. Fui eximido desse dever por causa da saúde precária, mas a obrigação ainda deve ser cumprida. Além disso, a vida na corte não é a melhor possível para uma jovem esposa que... - Ele teve dificuldade para pronunciar as palavras. - ...que pode estar com uma criança. Pedirei permissão para levá-la à torre de Hali, onde teremos nossa cota de trabalho num círculo de matriz. Assim, não precisaremos encarar suas parentas ou meu irmão e poderemos viver separados sem provocar comentários. E talvez, enquanto estivermos lá, possamos encontrar alguma saída para o nosso dilema.

A voz de Cassandra era submissa:

- Seja feita a sua vontade. Mas nossos parentes podem estranhar que tomemos tal decisão logo nos primeiros dias do casamento.

- Que eles pensem o que quiserem. Não acho que seja um crime entregar moedas falsas a ladrões ou mentir para alguém que faz perguntas além da cortesia. Se alguém que tenha direito a uma resposta me perguntar, direi que me esquivei a esse dever no início da vida adulta e desejo cumpri-lo agora, a fim de que nós dois possamos prosseguir em frente sem obrigações incumpridas a ofuscar nossas vidas. E você poderá dizer o que mais lhe agradar.

O sorriso de Cassandra reapareceu e Allart sentiu de novo um aperto no coração.

- Ora, meu marido, não direi coisa alguma. Sou uma esposa e vou para onde você quiser ir, não precisando de qualquer outra explicação além dessa! Não digo que adoro esse costume ou que obedeceria sem protesto se você me exigisse isso. Duvido muito que vá encontrar em mim uma esposa submissa, Dom Allart. Mas posso usar o costume quando serve a meus propósitos!

Santo Portador dos Fardos, por que o destino não poderia ter me dado uma mulher que eu não hesitaria pôr de lado, sem qualquer escrúpulo, em vez de Cassandra, que seria tão fácil de amar? Exausto de alívio, Allart inclinou a cabeça, pegou os dedos esguios da esposa e beijou-os. Ela percebeu o esgotamento em seu rosto e murmurou:

- Está muito cansado, meu marido. Não quer deitar agora e dormir um pouco?

As imagens eróticas torturavam Allart outra vez, mas ele tratou de reprimi-las.

- Não sabe muita coisa sobre os homens, não é mesmo, chiya!

Ela sacudiu a cabeça.

- Como poderia? E parece agora que jamais saberei.

Sua expressão era tão triste que Allart sentiu um remorso distante, apesar de toda a sua determinação.

- Deite você e durma, se quiser, Cassandra.

- Mas você não vai dormir?

Ela falou com tanta ingenuidade que Allart não pôde deixar de rir.

- Dormirei no chão. Tenho dormido em lugares muito piores e isto aqui é um luxo depois das celas de pedra de Nevarsin. Abençoada seja você, Cassandra, por aceitar minha decisão!

Ela exibiu um débil sorriso.

- Fui ensinada que o dever de uma esposa é obedecer. Embora seja uma obediência diferente da que eu previa, ainda sou sua esposa e farei o que me ordenar. Boa noite, meu marido.

As palavras eram gentilmente irônicas. Estendido sobre os tapetes macios da câmara nupcial, Allart recorreu a toda disciplina dos anos em Nevarsin e finalmente conseguiu apagar da mente todas as imagens de Cassandra despertada para o amor; nada mais restou, a não ser aquele momento de sua determinação. Mais uma vez, pouco antes do amanhecer, ele pôde ouvir o som de uma mulher chorando, baixinho, como se abafasse o ruído em sedas e colchas.

No dia seguinte, eles partiram para a Torre de Hali; e lá permaneceram por meio ano.

 

Era outra vez início da primavera nas Hellers, e Donal Defleray, chamado Rockraven, estava no topo do Castelo Aldaran, especulando ociosamente se os antepassados Aldaran haviam escolhido aquele pico alto para sua fortaleza porque dominava uma grande parte da região ao redor. Descia para as planícies distantes e por trás se elevava para os picos intransponíveis em que nenhuma coisa humana habitava, mas apenas os mateiros e os meio lendários chieri das Hellers distantes, em seu reduto cercado pelas neves eternas.

- Dizem que no ponto mais distante daquelas montanhas, tão longe nas neves que nem mesmo o montanhista mais experiente conseguiria encontrar o caminho através de picos e desfiladeiros, há um vale de verão interminável, para onde os chieri se retiraram desde o advento dos filhos de Hastur. É por isso que nunca os vemos agora, nos dias de hoje. Lá os chieri habitam por toda a eternidade, imortais e belos, entoando suas estranhas canções e sonhando sonhos imortais.

- Os chieri são mesmo tão bonitos assim?

- Não sei, irmãzinha - respondeu Donal. - Nunca vi um chieri. - Ele tinha vinte anos agora, alto e esguio, bronzeado, um jovem empertigado e solene, que parecia muito mais velho do que sua idade. Após uma pausa, ele acrescentou: - Mas quando eu era muito pequeno, minha mãe me contou que um dia viu uma chieri na floresta, por trás de uma árvore, e que ela possuía a beleza da Abençoada Cassilda. Dizem também que se algum mortal consegue alcançar o vale em que os chieri habitam, se come de sua comida e bebe de suas águas mágicas, também será presenteado com a imortalidade.

- Agora você está inventando histórias - protestou Dorilys. - Sou muito velha para acreditar nessas coisas.

- É verdade, está mesmo velha - zombou Donal. - Todos os dias contemplo suas costas encurvadas pela idade e os cabelos que se tornam grisalhos.

- Já tenho idade bastante para ser prometida em casamento - declarou Dorilys, com dignidade. - Estou com onze anos e Margali diz que pareço já ter quinze.

Donal lançou um olhar longo e pensativo à irmã. Era verdade; aos onze anos, Dorilys já era mais alta do que muitas mulheres e seu corpo esbelto já apresentava alguma insinuação das curvas de uma mulher.

- Não sei se quero ser prometida em casamento - acrescentou ela, mal-humorada. - Não sei de nada a respeito de meu primo Darren. Você o conhece, Donal?

- Conheço. - O rosto de Donal assumiu uma expressão sombria. - Ele foi criado aqui, junto com muitos outros rapazes, quando eu era um menino.

- Ele é bonito? É gentil e cortês? Gosta dele, Donal?

Donal abriu a boca para falar, mas prontamente tornou a fechá-la. Darren era filho do irmão mais moço de Lorde Aldaran, Rakhal. Mikhail, Lorde Aldaran, não tinha filhos e aquele casamento significaria que seus descendentes herdariam e consolidariam as duas propriedades; era assim que se construíam os grandes Domínios. Seria inútil indispor Dorilys contra o marido prometido por causa de divergências infantis.

- Não deve julgar por isso, Dorilys. Éramos crianças quando nos conhecemos e brigamos como os garotos costumam fazer. Mas ele está mais velho agora e eu também. E posso lhe adiantar que ele é bastante bonito, do jeito como as mulheres julgam essas coisas.

- Não me parece justo, Donal. Você tem sido mais do que um filho para meu pai. E foi ele próprio quem disse isso! Por que você não pode herdar sua propriedade, já que ele não tem filho?

Donal forçou-se a rir.

- Compreenderá essas coisas melhor quando estiver mais velha, Dorilys. Não sou parente de sangue de Lorde Aldaran, embora ele tenha sido um generoso pai de criação para mim. Não posso esperar mais do que a parte devida a um filho de criação em sua herança... e isso apenas porque ele prometeu à nossa mãe que me sustentaria. Não terei mais nada além disso.

- É uma lei absurda - insistiu Dorilys, com veemência.

Donal, percebendo os indícios de emoção irada nos olhos da irmã, apressou-se em dizer:

- Olhe ali embaixo, Dorilys! Está vendo, na passagem entre as colinas, os cavaleiros e as bandeiras? Só podem ser Lorde Rakhal e sua comitiva, subindo para o castelo, para o contrato de seu casamento. Deve correr para os seus aposentos e se preparar para a cerimônia.

- Está bem. - Dorilys estava apaziguada, mas ainda franziu o rosto e acrescentou, ao começar a descer a escada: - Se eu não gostar dele, não vou casar. Está me entendendo, Donal?

- Estou, sim... mas sei também que é uma garotinha que fala, chiya. Será mais sensata quando se tornar uma mulher. Seu pai escolheu com todo cuidado para fazer um casamento conveniente. Não a daria em casamento se não tivesse certeza que seria o melhor para você.

- Ora, já ouvi isso muitas vezes... do pai, de Margali. Todos dizem a mesma coisa, que devo fazer o que me mandarem e compreenderei o motivo quando for mais velha! Mas se eu não gostar do primo Darren, não casarei com ele... e você sabe muito bem que não há ninguém que possa me obrigar a fazer alguma coisa que eu não queira!

Ela bateu com o pé, o rosto rosado se avermelhando na ira, depois correu para o castelo. Como num eco às suas palavras, houve o ressoar débil e distante de uma trovoada.

Donal permaneceu lá em cima, imerso em pensamentos sombrios. Dorilys falara com a arrogância consciente de uma princesa, da única filha mimada de Lorde Aldaran. Mas era mais do que isso e até mesmo Donal sentia uma pontada de medo quando a irmã falava de maneira tão categórica.

Não há ninguém que possa me obrigar a fazer alguma coisa que eu não queira. Era a pura verdade. Voluntariosa desde o nascimento, ninguém jamais se atrevera a irritá-la demais, por causa do estranho laran com que ela nascera. Ninguém conhecia a extensão daquele estranho poder; ninguém jamais ousara provocá-lo de propósito. Mesmo antes de ser desmamada, quem quer que a tocasse contra sua vontade sentia o poder que ela podia irradiar - expresso então apenas como um choque doloroso - mas os rumores das criadas haviam-no exagerado e se espalharam histórias assustadoras. Mesmo um bebê, quando ela gritava em raiva, fome ou dor, relâmpagos e trovoadas se abatiam sobre o castelo; não apenas os servos, mas também as crianças em criação no castelo haviam aprendido a temer sua ira. Certa ocasião, em seu quinto ano, quando uma febre a prostrara, deixando-a delirante e inconsciente por vários dias, sem sequer reconhecer Donal ou o pai, relâmpagos haviam riscado o céu dia e noite, abatendo-se perigosamente perto das torres do castelo, ao acaso, aterradores. Donal, que podia controlar um pouco os relâmpagos (embora não assim), especulara que fantasmas e pesadelos atormentavam a irmã em delírio para que ela reagisse com tanta violência.

Felizmente, à medida que se tornara mais velha, ela ansiara por aprovação e afeto. Lady Deonara, que amava Dorilys como se fosse sua própria filha, pudera lhe ensinar algumas coisas. A criança tinha a beleza e o jeito gracioso de Aliciane, e durante o último ano fora menos temida e mais apreciada. Mas servos e crianças ainda a temiam, chamando-a de feiticeira quando ela não podia ouvir; nem mesmo a mais destemida das crianças se atrevia a ofendê-la frontalmente. Ela nunca se virara contra Donal, o pai ou a mãe de criação Margali, a leronis que a trouxera ao mundo; e também nunca se opusera à vontade de Lady Deonara, enquanto esta vivera.

Mas desde a morte de Deonara, pensou Donal (tristemente, pois também amara a gentil Lady Aldaran), ninguém jamais contrariou Dorilys. Mikhail de Aldaran adorava a linda filha e nada lhe negava, com ou sem motivo, de tal forma que Dorilys, aos onze anos, possuía as jóias e os brinquedos de uma princesa. As servas não a contrariavam, porque temiam sua ira e o poder que os rumores haviam exagerado muito. As outras crianças também não a contrariavam, em parte porque ela ocupava a posição mais alta e em parte porque era uma pequena tirana voluntariosa, que nunca hesitava em impor seu domínio com tapas, beliscões e cascudos.

Não é tão ruim assim para uma garotinha - uma garotinha bonita e mimada - ser voluntariosa além de toda razão e que todos a temam e lhe dêem tudo o que quer. Mas o que acontecerá quando ela se tornar uma mulher, se não aprender que não pode ter todas as coisas que deseja? E quem, temendo seu poder, ousará lhe ensinar isso?

Perturbado, Donal desceu a escada, pois também deveria estar presente nas cerimônias do contrato de casamento.

Na enorme câmara de recepção, Mikhail, Lorde Aldaran, aguardava os convidados. Envelhecera bastante desde o nascimento da filha; um homem alto e corpulento, agora encurvado e grisalho, tinha de certa forma a aparência de um velho gavião na muda; e quando levantava a cabeça, não era muito diferente do movimento de uma dessas aves - um farfalhar de penas, uma insinuação de poder oculto, ainda latente.

- É você, Donal? - indagou Lorde Aldaran. - É difícil ver direito com esta luz.

Donal, sabendo que o pai de criação não gostava de admitir que sua vista já não era mais tão aguçada quanto no passado, tratou de se adiantar.

- Sou eu mesmo, milorde.

- Venha até aqui, meu caro rapaz. Dorilys está pronta para a cerimônia desta noite? Acha que ela está contente com a perspectiva deste casamento?

- Acho que ela é muito jovem para saber o que isso significa. - Donal pusera um traje de couro tingido e ornado, com botas altas de couro de andar em casa, os cabelos presos por uma faixa de pedras preciosas e no pescoço uma pedra de estrela, faiscando vermelha. - Mas ela está curiosa. Perguntou-me se Darren era bonito e cortês, se eu gostava dele. Receio que na última questão não dei uma resposta muito favorável, mas ressaltei que não devia julgar um homem pelas brigas de meninos.

- E você também não deve fazer isso, meu rapaz - disse Aldaran, com extrema gentileza.

- Pai de criação... tenho um grande favor a lhe pedir. Aldaran sorriu.

- Há muito que já sabe, Donal, que basta me pedir qualquer coisa, desde que seja razoável.

- Nada vai lhe custar, milorde, a não ser algum pensamento. Quando Lorde Rakhal e Lorde Darren se apresentarem esta noite para discutir o dote de Dorilys, poderá me apresentar pelo nome de meu pai e não como Donal de Rockraven, que é o que costuma fazer?

Os olhos míopes de Lorde Aldaran piscaram, dando-lhe mais do que nunca a impressão de uma gigantesca ave de rapina ofuscada pela claridade.

- Por que isso, filho de criação? Está repudiando sua mãe e o lugar que ela ocupou aqui? Ou o seu?

- Que os deuses proíbam.

Donal foi se ajoelhar ao lado de Lorde Aldaran. O velho pôs a mão em seu ombro. Ao contato, as palavras não pronunciadas foram bem claras para ambos: Mas apenas um bastardo usa o nome da mãe. Eu sou um órfão, mas não um bastardo.

- Perdoe-me, Donal - disse o velho, depois de um longo momento. - Eu sou o culpado. É que preferia... preferia não me lembrar que Aliciane já pertencera a outro homem. Mas quando ela... quando ela me deixou, eu não suportava pensar que você não era meu próprio filho. - Era como um brado de angústia. - Ah, como desejei tantas vezes que você o fosse!

- Eu também.

Donal não podia se lembrar de nenhum outro pai, não desejava nenhum outro. Mas a voz provocante de Darren parecia ainda ressoar em seus ouvidos com a mesma força de dez anos atrás:

- Donal de Rockraven? Ah, sei quem é, o pirralho da barragana. Por acaso sabe quem o gerou ou é um filho do rio? Sua mãe deitou na floresta durante um Vento-Fantasma e voltou para casa com o filho de nenhum homem no ventre?

Donal o atacara em fúria, golpeando com os punhos e pés. Foram apartados com a maior dificuldade, ainda berrando ameaças um para o outro. Mesmo agora, não era agradável pensar no olhar desdenhoso do jovem Darren, nas zombarias que ele fizera.

- Se errei, foi por minha ânsia em chamá-lo de meu filho. - Havia um tom de desculpa atrasada na voz de Lorde Aldaran. - Mas pode estar certo de que nunca tive a menor intenção de lançar qualquer dúvida sobre a honra de sua linhagem nem escondê-la. Creio que vai descobrir no que pretendo fazer esta noite o quanto o prezo realmente, filho querido.

- Não preciso de mais nada além disso.

Donal sentou-se ao seu lado, num banquinho. Aldaran pegou sua mão e ficaram sentados assim até que um servo, segurando luzes, anunciou:

- Lorde Rakhal Aldaran de Scathfell e Lorde Darren.

Rakhal de Scathfell era como o irmão fora dez anos antes, um homem enorme e vigoroso no auge da vida, o rosto franco e jovial, com a amabilidade, que os homens insidiosos muitas vezes assumem, como um meio de proclamar que não estão escondendo nada, quando a verdade é justamente o oposto. Darren era como ele, alto e largo, apenas um ou dois anos mais velho do que Donal, os cabelos vermelhos se projetando da testa larga, uma expressão franca, que levou Donal a pensar, à primeira vista: É verdade, ele é mesmo bonito, como as mulheres julgam essas coisas. Dorilys vai gostar dele... Ele disse a si mesmo que seu tênue presságio era apenas o desagrado por ver a irmã arrancada de sua proteção e cuidado e entregue a outro homem.

Não posso querer que Dorilys permaneça comigo para sempre. Ela é herdeira de um grande Domínio; sou seu meio-irmão, não mais do que isso, e seu bem-estar deve estar nas mãos de outro.

Lorde Aldaran se ergueu e adiantou-se alguns passos para o irmão, pegando suas mãos afetuosamente.

- Saudações, Rakhal. Já faz muito tempo que não me visita aqui em Aldaran. Como estão as coisas em Scathfell? E você, Darren?

Ele abraçou os parentes, um depois do outro, levando-os para se sentarem ao seu lado.

- Já conhece meu filho de criação, Darren, o meio-irmão de sua noiva, Donal Delleray, o filho de Aliciane.

Darren alteou as sobrancelhas em reconhecimento e disse:

- Aprendemos juntos a prática-de-armas e outras coisas. Mas eu pensava que seu nome era Rockraven.

- As crianças sempre têm idéias erradas - declarou Lorde Aldaran, firmemente. - Devia ser muito jovem na ocasião, sobrinho, a linhagem pouco significava então. Os avós de Donal foram Rafael Delleray e sua esposa di catenas Mirella Lindir. O pai de Donal morreu jovem e sua mãe viúva veio para cá como uma cantora. E gerou minha única criança viva. A sua noiva, Darren.

- É mesmo?

Rakhal de Scathfell olhou para Donal com um interesse cortês, que Donal desconfiou ser tão espúrio quanto o resto de seu bom humor.

Donal especulou por que lhe era tão importante o que o clã de Scathfell pensava a seu respeito.

Darren e eu seremos irmãos pelo casamento. Não é um relacionamento que eu teria procurado. Ele, Donal, nascera honrosamente e fora criado honrosamente numa Grande Casa; isso deveria ser suficiente. Olhando para Darren, porém, ele compreendeu que nunca seria suficiente e se perguntou o motivo. Afinal, por que Darren Aldaran, herdeiro de Scathfell, se dava ao trabalho de odiar e acalentar ressentimentos contra o meio-irmão de sua esposa prometida, o filho de criação do pai dela?

Observando o sorriso falsamente cordial de Darren, ele percebeu de repente a resposta. Não chegava a ser um telepata completo, mas era como se Darren lhe gritasse.

Pelos infernos de Zandru, ele teme minha influência sobre Lorde Aldaran! As leis de herança pelo sangue ainda não estão consolidadas nas montanhas e por isso ele não tem certeza do que pode acontecer. Não seria a primeira vez que um nobre tentaria deserdar o herdeiro legítimo por alguém que considerasse mais apropriado; e ele sabe que meu pai de criação pensa em mim como um filho de verdade, não como um de criação.

Diga-se a crédito de Donal que o pensamento nunca antes lhe passara pela mente. Conhecia o seu lugar - ligado a Lorde Aldaran pela afeição, mas não pelo sangue - e o aceitava. Agora, o pensamento despertado porque o homem de Scathfell o provocara, ele especulou por que não podia ser assim; por que o homem a quem chamava de "Pai" e de quem fora um filho obediente não podia escolher o herdeiro que preferisse? Os Aldarans de Scathfell tinham aquela herança; por que deviam aumentar suas terras às proporções de um reino, acrescentando Aldaran ao que já possuíam?

Mas Lorde Rakhal desviara sua atenção de Donal e disse, efusivamente:

- E agora estamos reunidos para acertar esse casamento, a fim de que nossos filhos, após nossa partida, juntem os domínios que deixarmos. Quando veremos a criança, Mikhail?

- Ela virá cumprimentar os hóspedes, mas achei que seria mais conveniente discutir a parte de negócios do nosso encontro sem a sua presença. Ela é uma criança, não tem paciência para ouvir anciãos discutirem questões de dote, presentes e herança. Virá para assumir o compromisso, Darren, e dançar com você nas festividades. Mas eu lhe suplico para lembrar que ela é muito jovem e o casamento não poderá se realizar pelo menos por mais quatro anos, talvez até mais.

Rakhal soltou uma risada.

- Os pais quase nunca pensam que suas filhas estão maduras para casar, Mikhail.

- Mas, neste caso, Dorilys não tem mais do que onze anos - insistiu Aldaran, firme. - O casamento di catenas só pode ocorrer no mínimo daqui a quatro anos.

- Ora, meu filho já é um homem. Quanto tempo deve esperar por uma esposa?

- Deve esperar esses anos ou procurar outra. Darren deu de ombros.

- Se devo esperar que uma criança cresça, então suponho que não haja outro jeito. Um costume bárbaro esse, o de prometer um homem adulto a uma criança que ainda não largou as bonecas!

- Sem dúvida - interveio Rakhal de Scathfell, à sua maneira exuberante e jovial -, mas sempre achei que esse casamento seria importante, desde que Dorilys nasceu, e durante os últimos dez anos muitas vezes falei a respeito com meu irmão.

- Se meu tio opôs-se antes, por que cedeu agora? - indagou Darren. Os ombros de Lorde Aldaran subiram e desceram num gesto de cansaço.

- Acho que foi porque estou envelhecendo e finalmente me resignei ao conhecimento de que não terei um filho; e prefiro ver Aldaran passar para as mãos de um parente do que ficar com um estranho.

Por que, naquele momento, depois de dez anos, perguntou-se Aldaran, deveria pensar na maldição lançada por uma feiticeira, há tanto tempo morta? Deste dia em diante você estará vazio. Era verdade que nunca pensara a sério, desde a morte de Aliciane, em levar outra mulher para sua cama.

- É claro que se pode alegar que meu filho é de qualquer maneira o herdeiro legítimo de Aldaran - declarou Rakhal de Scathfell. - Os legisladores podem achar que Dorilys não merece mais do que uma parcela do casamento e que um sobrinho legítimo está mais próximo da herança do que a filha de uma barragana.

- Não reconheço o direito desses supostos legisladores em fazer qualquer julgamento a respeito!

Scathfell deu de ombros.

- Seja como for, o casamento acertará tudo, sem necessidade de apelar para a lei, já que os dois pretendentes estarão unidos. As propriedades se tornarão uma só. Estou disposto a legar Scathfell para o filho mais velho de Dorilys e Darren ficará com o Castelo Aldaran como o tutor de Dorilys.

Aldaran sacudiu a cabeça.

- Não. O contrato de casamento tem de estipular que Donal será o tutor da irmã até que ela complete 25 anos.

- Isso é um absurdo! - protestou Scathfell. - Será que não tem outra maneira de prover seu filho de criação? Se ele não tem propriedade deixada pelo pai ou a mãe, não poderia lhe dar alguma coisa?

- Já fiz isso - respondeu Aldaran. - Quando ele entrou na maioridade, dei-lhe a pequena propriedade de Penhascos Altos. Encontra-se num estado lastimável, já que os antigos detentores passavam mais tempo empenhados em guerras contra os vizinhos do que a cuidar da agricultura. Creio que Donal pode fazer com que volte a ser fecunda. Resta apenas lhe encontrar uma esposa adequada e isso também será providenciado. Mas ele será o tutor de Dorilys.

- A impressão é de que não confia em nós, tio - protestou Darren. - Acha mesmo que privaríamos Dorilys de sua legítima herança?

- Claro que não; e como não acalentam tais pensamentos, por que se importariam com quem será o guardião de sua fortuna? Mas se tivessem essa intenção, teriam de protestar contra a escolha de Donal. Um mercenário contratado poderia ser subornado, mas isso seria impossível com o irmão.

Donal estava aturdido. Não soubera, quando o pai de criação o mandara preparar um relatório sobre a propriedade de Penhascos Altos, que Aldaran pretendia dá-la a ele; discorrera sobre o trabalho que seria necessário para recuperá-la e as excelentes possibilidades, sem jamais pensar que ele pudesse dá-la como uma herança. Também não tinha a menor idéia de que o contrato de casamento o faria guardião de Dorilys.

Mas, pensando bem, até que isso era razoável. Dorilys não era nada dos Aldarans de Scathfell, exceto um obstáculo em seu caminho para a herança de Darren. Se Lorde Aldaran morresse amanhã, somente ele, como guardião, poderia impedir que Darren tomasse Dorilys em casamento imediatamente, apesar de sua extrema juventude. Depois disso, Darren poderia fazer o que bem quisesse com o domínio. Não seria a primeira vez em que uma mulher seria descartada sem hesitação, depois que sua herança estivesse segura nas mãos do marido. Poderiam esperar até que ela gerasse um filho, a fim de fazer com que fosse legal; mas todos sabiam que jovens esposas eram propensas a morrer de parto, uma probabilidade que aumentava quanto mais jovens fossem. Uma tragédia, é claro, mas sem nada de excepcional.

Com Donal como guardião, até que Dorilys completasse 25 anos, com idade suficiente para casar legalmente e gerar filhos, haveria quem protegesse seus interesses e da criança que pudesse nascer; assim, a herança não cairia no poder incontestado de Darren.

Donal pensou. Meu pai de criação falou a verdade quando disse que esta noite eu saberia o quanto me apreciava. Pode ser que ele confie em mim porque não tem mais ninguém em quem confiar. Mas pelo menos ele sabe que protegerei os interesses de Dorilys antes dos meus.

Aldaran de Scathfell não aceitou isso pacificamente; continuou a discutir e só cedeu quando Lorde Aldaran lembrou que três outros lordes das montanhas haviam manifestado seu interesse por Dorilys e que ela podia ser prometida em casamento a qualquer momento e a qualquer um que o pai escolhesse, até mesmo um dos Hasturs ou Altons das Terras Baixas.

- Ela já foi até prometida uma vez, pois os parentes Ardais de Deonara estavam ansiosos em reclamá-la para um de seus filhos. Achavam que tinham esse direito, já que Deonara não me dera nenhum filho vivo. Mas o garoto morreu pouco depois.

- Morreu? E como foi? Aldaran deu de ombros.

- Pelo que me disseram, foi algum acidente. Não estou a par dos detalhes. Donal também não estava. Dorilys visitava os parentes Ardais na ocasião e voltara chocada com a morte do noivo prometido, apesar de quase não conhecê-lo e não gostar dele. Ela dissera a Donal:

- Ele era grande e rude e quebrou minha boneca.

Donal não a interrogara a respeito. Agora, no entanto, não pôde deixar de especular. Por mais jovem que fosse, Donal sabia que uma criança que se interpunha no caminho de uma aliança vantajosa podia não viver muito tempo.

E a mesma coisa se podia dizer de Dorilys...

- Nesse ponto, minha decisão é irrevogável - declarou Lorde Aldaran, jovial, mas firme. - Donal, e somente Donal, será o guardião de sua irmã.

- Isso é um insulto a seus parentes, tio - insistiu Darren. Mas o Lorde de Scathfell silenciou o filho, dizendo:

- Se assim tem de ser, então que seja. Devemos ser gratos porque a donzela que será de nossa família tem um parente de confiança para protegê-la; os interesses dela são os nossos também, é claro. Será como deseja, Mikhail.

Mas seu olhar para Donal, com uma expressão velada e pensativa, deixaram o jovem prevenido.

Devo tomar muito cuidado, pensou ele. Provavelmente não haverá perigo até que Dorilys esteja crescida e o casamento seja consumado, pois Aldaran poderia indicar outro guardião se ainda estivesse vivo.

Mas se Aldaran morresse ou Dorilys casasse e fosse levada para Scathfell, minhas chances de viver não seriam das maiores.

Ele desejou subitamente que Lorde Aldaran não estivesse lidando com parentes. Se as negociações fossem com estranhos, haveria uma leronis presente, com o encantamento da verdade para tornar impossível a mentira ou traição. Aldaran podia não confiar muito em seus parentes, mas também não podia insultá-los com a exigência da presença de uma feiticeira e o uso do encantamento da verdade para confirmar o acordo.

Todos estenderam a mão sobre o contrato e assinaram-no, inclusive Donal.

O assunto estava resolvido. Depois, abraçaram-se como parentes e desceram para a sala em que os outros convidados haviam se reunido para celebrar a ocasião, com um banquete, baile e alegria.

Mas Donal, percebendo que Darren de Scathfell o observava, pensou de novo: Preciso tomar muito cuidado.

Esse homem é meu inimigo.

 

Quando desceram para o Grande Salão, Dorilys já se encontrava ali, com sua mãe de criação, a leronis Margali, recebendo os convidados. Pela primeira vez, ela estava vestida não como uma criança, mas sim como uma mulher, num vestido azul comprido,com rendilhadosdourados no pescoço e mangas. Os cabelos avermelhados lustrosos estavam trançados e presos na nuca pela travessa de uma mulher. Parecia muito mais velha do que a sua idade; poderia passar por quinze ou dezesseis anos e Donal ficou impressionado por sua beleza, embora não se sentisse muito satisfeito com aquela mudança abrupta.

Seu presságio foi justificado quando Darren, ao ser apresentado, piscou para Dorilys, obviamente fascinado. Inclinando-se sobre a mão de Dorilys, ele disse, galante:

- Parenta, é um grande prazer. Seu pai me levou a acreditar que eu estava sendo prometido a uma garotinha e descubro agora uma mulher adorável a me aguardar. É como eu pensei... nenhum pai jamais acredita que sua filha está pronta para o casamento.

Donal foi invadido por outro súbito presságio. Por que Margali fizera aquilo? Aldaran incluíra no contrato que o casamento só poderia ocorrer depois que Dorilys completasse quinze anos. Enfatizara com insistência que ela era apenas uma garotinha e agora desmentiam esse argumento ao apresentarem Dorilys a todos os convidados como uma mulher crescida. Enquanto Darren, ainda murmurando galanteios, levava Dorilys para a primeira dança, Donal adiantou-se, apreensivo.

Interrogou Margali a respeito e ela sacudiu a cabeça.

- Não foi por minha vontade, Donal. Dorilys quis assim e eu não podia contrariá-la quando estava tão decidida. Sabe tão bem quanto eu que não é sensato provocar Dorilys quando ela quer alguma coisa de qualquer maneira. O vestido era de sua mãe. Lamento ver minha garotinha tão crescida, mas o fato é que ela cresceu...

- Mas ela não é tão crescida assim e meu pai de criação passou muito tempo convencendo Lorde Scathfell que Dorilys ainda era uma garotinha, jovem demais para casar. Ela é apenas uma garotinha, Margali... e você sabe disso tão bem quanto eu!

- Tem razão... e muito infantil ainda por cima. Mas eu não podia discutir com ela na véspera de um festival. Dorilys manifestaria seu desprazer com força demais. Sabe disso tão bem quanto eu, Donal. Posso às vezes fazê-la aceitar minha vontade em coisas importantes, mas se tentasse obrigá-la em coisas menores ela deixaria de me escutar nas mais sérias. Será que faz alguma diferença o vestido que ela usa na festa de seu contrato de casamento, já que Lorde Aldaran, como você disse, determinou que não haverá casamento antes dos seus quinze anos?

- Creio que não, enquanto meu pai de criação continuar saudável e forte para impor sua vontade. Mas a lembrança deste momento pode acarretar problemas, se alguma coisa acontecer nos próximos anos.

Margali não o trairia - sempre o tratara gentilmente desde a infância, fora amiga de sua mãe - mas ainda assim não era sensato falar mal do senhor de um Domínio; por isso, Donal baixou a voz ao acrescentar:

- Lorde Scathfell não teria escrúpulos em forçar a criança ao casamento por suas próprias ambições e se apoderar de Aldaran. Darren também não teria qualquer hesitação. Se ela se apresentasse esta noite como a criança que é, a opinião pública poderia frustrar esse plano, mesmo que apenas um pouco. Agora, aqueles que a vêem esta noite, vestida como uma mulher, não se sentirão propensos a indagar sobre sua idade real; lembrarão simplesmente que por ocasião do contrato de casamento ela parecia uma mulher adulta e irão presumir que os senhores de Scathfell estavam certos.

Margali parecia preocupada agora, mas tentou não dar importância ao caso.

- Acho que está se deixando dominar por pesadelos sem motivo, Donal. Não há razão para pensar que Lorde Aldaran não viverá por mais uma vintena de anos, tempo suficiente para proteger a filha de ser tomada em casamento antes de ter idade suficiente. E você conhece Dorilys... ela é uma criatura caprichosa. Esta noite pode lhe agradar bancar a dama com o vestido e jóias da mãe, mas amanhã terá esquecido e estará brincando de pular carniça com as outras crianças. Assim, ninguém poderia pensar que ela seja outra coisa que não a criança que é.

- Que Avarra misericordiosa permita que assim seja - murmurou Donal, solene.

- Não vejo motivo para duvidar, Donal... E agora você também deve cumprir seus deveres com os convidados de seu pai de criação. Há muitas mulheres esperando para dançar com você e até Dorilys deve estar se perguntando por que o irmão ainda não a tirou para dançar.

Donal tentou rir, vendo Dorilys voltando ao lado de Darren, cercada por um grupo de rapazes, a nobreza menor das montanhas, os Guardas de Aldaran. Podia ser verdade que Dorilys estava se divertindo, bancando a dama, mas era uma farsa bem-sucedida, em que ela ria e flertava, obviamente desfrutando a lisonja e admiração.

O pai não vai censurá-la. Ela parece demais com nossa mãe; e ele sente orgulho de sua bela filha. Por que eu deveria me preocupar ou negar essa diversão a Dorilys? Nenhum mal pode lhe acontecer entre nossos parentes, num baile formal; e amanhã, sem dúvida, será como Margali previu, Dorilys com a saia levantada até os joelhos e os cabelos presos numa trança comprida, correndo como a criança que é. Darren poderá então contemplar a verdadeira Dorilys, a criança que é bastante pequena para se divertir com as roupas da mãe, mas ainda está muito longe de se tornar uma mulher.

Fazendo um esforço para reprimir suas apreensões, Donal empenhou-se em cumprir seus deveres como anfitrião, conversando polidamente com algumas viúvas idosas, dançando com jovens que por algum motivo haviam sido esquecidas ou negligenciadas, discretamente se interpondo entre Lorde Aldaran e visitantes importunos que podiam incomodá-lo com pedidos inconvenientes tão públicos que não poderiam ser recusados. Mas sempre que se virava na direção de Dorilys, descobria-a cercada por ondas recorrentes de jovens, obviamente desfrutando a sua popularidade.

A noite já ia avançada quando Donal teve finalmente uma oportunidade de dançar com a irmã. Ela fez beicinho, como a criança que era, quando Donal se aproximou.

- Pensei que não dançaria comigo, irmão, que me deixaria para todos esses estranhos!

Sua respiração era doce, mas Donal pôde sentir o cheiro de vinho e indagou, o rosto franzido:

- Quanto você já bebeu, Dorilys?

Ela baixou os olhos, com expressão culpada.

- Margali disse que eu não deveria beber mais que uma taça de vinho, mas seria lamentável se na festa do meu contrato de casamento me tratassem como uma criança que deve ir para a cama ao cair da noite!

- É verdade, acho que você não é mais uma criança - murmurou Donal, quase rindo da criança inebriada. - Mas tenho a impressão que seria melhor que eu chamasse Margali e pedisse para levá-la a seu quarto. Vai passar mal, Dorilys, e então ninguém pensará que é uma dama.

- Não estou me sentindo mal, apenas feliz. - Ela inclinou a cabeça para trás e sorriu. - Vamos, Donal, não me censure. Durante a noite esperei para dançar com meu irmão querido. Não quer dançar comigo?

- Como quiser, chiya.

Ele levou-a para a pista de dança. Dorilys era uma excelente dançarina, mas de repente tropeçou na saia comprida a que não estava acostumada e caiu em cima do irmão. Donal amparou-a para que não caísse e ela o enlaçou, encostando a cabeça em seu ombro e rindo.

- Talvez eu tenha bebido demais, como você disse... mas cada um dos parceiros me convidou para beber ao final da dança e eu não sabia como recusar e ser polida. Tenho de perguntar a Margali o que é polido dizer nessas cir... circunstanças. - A língua não conseguiu pronunciar a palavra direito e ela riu de novo. - É essa a sensação de ficar embriagada, Donal, ficar tonta e sentir que todas as juntas estão moles, como as bonecas que as velhas vendem nos mercados de Caer Donn? Se é isso, acho que gosto.

- Onde está Margali? - indagou Donal, olhando ao redor, à procura da leronis, pois já concluíra que a irmã precisava ouvir algumas palavras mais rigorosas. - Vou levar você até ela imediatamente, Dori.

- Oh, pobre Margali... Ela não está se sentindo bem. Disse que estava com muita dor de cabeça, não podia ver direito. Eu a fiz ir se deitar e descansar. - Dorilys falou com uma expressão de inocência, mas depois acrescentou, na defensiva: - Eu estava cansada de ver Margali me olhando de cara amarrada, como se ela fosse Lady Aldaran e eu não passasse de uma serva! E não vou receber ordens de uma serva!

- Dorilys! - censurou-a Donal, furioso. - Não deve falar assim. Margali é uma leronis e uma nobre, além de parenta do pai. Não deve falar dela desse jeito! Não é nenhuma serva! O pai julgou conveniente entregar você aos cuidados dela e é seu dever obedecer a Margali, até que tenha idade suficiente para ser responsável por si mesma! É uma garotinha muito ousada! Não deve provocar dores de cabeça em sua mãe de criação e lhe falar rudemente. Preste muita atenção... você se desgraçou ao ficar embriagada na festa, como se fosse alguma rapariga de baixa extração dos estábulos! E Margali nem mesmo está aqui para cuidar de você!

Interiormente, Donal sentia-se consternado. Ele próprio, o pai e Margali eram as únicas pessoas a quem Dorilys jamais impusera sua vontade.

Se Dorilys não mais permite que Margali a controle, o que faremos com ela? É mimada e incontrolável, mas eu esperava que Margali pudesse mantê-la sob domínio, até que crescesse.

- Estou envergonhado pelo que fez, Dorilys, e tenho certeza de que o pai ficará bastante desagradado quando souber como tratou Margali, que sempre foi tão boa e gentil com você!

A criança disse, levantando o queixo, com expressão obstinada:

- Sou Lady Aldaran e posso fazer tudo o que quiser!

Donal sacudiu a cabeça, assustado. A incongruência lhe ocorreu, que ela parecesse tanto com uma mulher crescida - e das mais atraentes, diga-se de passagem - mas falasse e se comportasse como a criança mimada e impulsiva que era. Eu gostaria que Darren pudesse vê-la agora; ele compreenderia como Dorilys ainda é uma criança, além do vestido e das jóias de uma dama.

Mas ela não é tão criança assim, pensou Donal; seu laran, já tão forte quanto o dele, permitira-lhe provocar uma violenta dor de cabeça em Margali. Talvez devêssemos nos considerar afortunados por ela não atrair trovoadas e relâmpagos sobre nós, como tenho certeza de que poderia fazer se estivesse realmente zangada! Donal agradeceu aos deuses porque Dorilys, apesar de seu estranho laran, não era uma telepata e não podia ler seus pensamentos, como ele às vezes era capaz, descobrindo o que pensavam pessoas ao seu redor. E ele disse, persuasivo:

- Mas não deveria continuar aqui, chiya, quando está embriagada. Deixe-me levá-la para o seu quarto. Já é tarde e nossos hóspedes estarão se recolhendo em breve. Vamos deitar, Dorilys.

- Não quero ir para a cama - insistiu Dorilys, irritada. - Só tive esta dança com você e o pai ainda não dançou comigo. Além disso, Darren me fez prometer que lhe concederia outras danças. Olhe ali... lá vem ele para reclamá-las.

Donal exortou-a, num sussurro apreensivo:

- Mas você não está em condições de dançar, Dorilys. Está tropeçando nos próprios pés.

- Não estou, não... Darren... - Ela se aproximou do noivo, fitando-o com uma malícia que parecia adulta. - Dance comigo. Donal está me censurando. Como irmão mais velho, ele acha que tem esse direito e já estou cansada de escutar.

- Eu estava tentando convencer minha irmã de que esta festa já se prolongou por tempo suficiente para uma garota tão jovem - disse Donal. - Talvez ela esteja mais disposta a ouvir palavras sensatas de você, Darren, que se tornará seu marido.

Se ele está embriagado, pensou Donal, furioso, não entregarei Dorilys aos seus cuidados, mesmo que isso acarrete uma discussão em público.

Mas Darren parecia estar em pleno domínio de suas faculdades e disse:

- Ele tem razão, Dorilys, já é muito tarde. O que acha...

E nesse instante houve um clamor de gritos na outra extremidade do salão.

- Bom Deus! - exclamou Darren, virando-se na direção do tumulto. - É o filho mais moço de Lorde Storn e aquele estouvado do Darriel Forst. Estão trocando insultos e daqui a pouco empunharão o aço.

- Tenho de ir até lá - murmurou Donal, consternado, recordando seus deveres como mestre-de-cerimônias do pai, anfitrião oficial da festa.

Ele lançou um olhar perturbado para Dorilys e Darren disse, com uma cordialidade inesperada:

- Pode deixar que cuidarei dela, Donal. Vá dar um jeito naqueles dois.

- Eu lhe agradeço - murmurou Donal, afastando-se, apressado.

Darren estava sóbrio e tinha algum interesse em evitar que sua esposa prometida se comportasse escandalosamente em público. Donal encaminhou-se para o local em que os dois membros mais jovens de famílias rivais empenhavam-se numa discussão ruidosa e irada. Era eficiente na tática para contornar problemas assim. Entrou na discussão, convencendo a cada um dos homens ao seu lado, e depois apartou-os com todo o tato necessário. O velho Lorde Storn tomou conta de seu filho belicoso e Donal afastou-se com o jovem Padreik Darriel. Demorou um pouco para que o jovem se acalmasse, pedisse desculpas e fosse para junto dos parentes, a fim de se retirar. Donal correu os olhos pelo salão de baile, à procura da irmã e Darren. Não os encontrou e se perguntou se Darren conseguira persuadir Dorilys a deixar a festa e se recolher a seus aposentos.

Se ele tem influência sobre Dorilys, talvez devêssemos até lhe agradecer por isso. Alguns Aldarans possuem a voz de comando; o pai tinha, quando era mais jovem. Será que Darren conseguiu usá-la com Dorilys?

Donal procurou em vão por Darren e começou a experimentar um vago senso de presságio. Como a enfatizar seus medos, ouviu o ressoar distante de uma trovoada. Nunca podia ouvir aquele som sem pensar em Dorilys. Mas disse a si mesmo que não devia ser ridículo; era a estação das tempestades nas montanhas. Mesmo assim, ele estava com medo. Onde estaria Dorilys?

Assim que Donal se afastou para controlar os convidados beligerantes, Darren pôs a mão sob o braço de Dorilys e murmurou:

- Suas faces estão coradas, damisela; é o calor do salão de baile, com tanta gente, ou dançou até a exaustão?

- Nada disso - respondeu Dorilys, levando as mãos ao rosto quente. - Mas Donal acha que bebi muito vinho e veio me censurar. Como se eu fosse uma criança ainda aos seus cuidados, queria me levar para a cama!

- Não me parece que você seja uma criança - sussurrou Darren, sorrindo, enquanto ela se aconchegava mais contra ele.

- Eu sabia que você concordaria!

Darren pensou: Por que me disseram que ela era uma garotinha? Ele contemplou de alto a baixo o corpo esguio, ressaltado pelo vestido justo. Nenhuma criança é assim! E ainda pensam em me manter à distância! Será que aquele bode velho do meu tio espera ganhar tempo, na esperança de encontrar um casamento mais vantajoso ou ter condições para proclamar o bastardo de Rockraven como seu herdeiro?

- Está mesmo quente aqui dentro - murmurou Dorilys, aproximando-se ainda mais de Darren, os dedos suados em seu braço.

Ele sorriu e disse, levando-a para uma das portas com cortinas:

- Então vamos sair para a sacada, onde está mais fresco.

Dorilys hesitou, pois fora criada com rigor por Margali e sabia que não era apropriado para uma moça deixar um salão de baile com um homem que não fosse seu parente. Mas ela pensou, na defensiva: Darren é meu primo e futuro marido.

Dorilys sentiu o ar frio das montanhas em torno do Castelo Aldaran e deixou escapar um longo suspiro, apoiando-se na grade da sacada.

- Estava muito calor lá dentro. Obrigada, Darren. Estou contente por ter escapado daquele lugar tão apinhado. Está sendo muito gentil comigo.

Ela falou com tanta ingenuidade que Darren, franzindo o rosto, fitou-a em surpresa. Como ela era infantil para uma garota tão obviamente adulta! Ele especulou, por um instante, se a moça não seria débil mental ou mesmo uma idiota completa. Mas que importância isso tinha? Ela era herdeira do Domínio de Aldaran e precisava conquistar sua afeição. Assim, ela protestaria se seus parentes, por algum motivo, tentassem romper o contrato de casamento. E quanto mais cedo ocorresse o casamento, melhor seria; era lamentável que o tio o obrigasse a esperar por quatro anos! Era evidente que a moça já tinha condições para casar agora e a insistência no adiamento parecia completamente absurda.

E se ela era mesmo tão infantil, sua tarefa seria ainda mais fácil! Darren apertou a mão que ela pôs na sua, confiante, e murmurou:

- Nenhum homem vivo hesitaria por um instante sequer em fazer essa gentileza, Dorilys... manobrar para ficar a sós por um momento com sua noiva prometida! E quando ela é tão adorável como você, até a gentileza se torna mais um prazer do que um dever.

Dorilys sentiu que corava outra vez pelo elogio.

- Sou mesmo bonita? Margali disse que eu era, mas ela não passa de uma velha e não creio que seja capaz de julgar a beleza.

- Você é realmente bonita, Dorilys.

À luz suave que se filtrava do salão de baile, ela viu o sorriso de Darren. E pensou: Ele fala sério! Não está apenas sendo gentil comigo! Sentiu os primeiros impulsos infantis do conhecimento de seu poder, o poder da beleza sobre os homens.

- Disseram-me que minha mãe era linda. Ela morreu quando nasci. O pai diz que pareço com ela. Chegou a conhecê-la, Darren?

- Eu a conheci quando era apenas um menino, mas é a pura verdade. Aliciane de Rockraven era considerada uma das mais belas mulheres do Kadarin à Muralha ao Redor do Mundo. Houve quem dissesse que ela lançou um encantamento sobre seu pai, mas Aliciane não precisava de outra feitiçaria que não a própria beleza. E você é mesmo muito parecida com ela. Também canta tão bem?

- Não sei. Posso cantar afinada, pelo que diz minha mestra de música. Mas ela também diz que ainda sou muito jovem para saber se terei uma linda voz ou apenas um amor pela música e um pouco de habilidade. Gosta de música, Darren?

- Conheço pouco a respeito. - Sorrindo, ele chegou mais perto. - Mas não é preciso uma linda voz para fazer com que uma mulher seja adorável a meus olhos. Venha... sou seu primo, parente e futuro marido. Não quer me beijar, Do­rilys?

- Se é o que você quer... - murmurou Dorilys, muito dócil.

Ela estendeu a face para o seu beijo. Darren, especulando outra vez se a moça o estava provocando ou simplesmente era obtusa, pegou seu rosto entre as mãos, levantou-o e beijou-a nos lábios, os braços envolvendo-a para puxá-la contra seu corpo.

Dorilys, submetendo-se ao beijo e através das sensações inebriadas, sentiu um débil impulso de cautela. Margali a advertira. Ora, Margali está sempre tentando estragar a minha diversão! Ela encostou-se em Darren, deixando-o apertá-la, apreciando o contato, abrindo a boca para seus beijos repetidos. Dorilys não era telepata, mas tinha laran e captou uma projeção vaga das emoções de Darren, o excitamento que o invadia, a impressão indefinida. Isso pode não ser tão ruim, no final das contas! Perguntou-se por que ele deveria estar surpreso. Afinal, ela imaginava que devia ser irritante para um rapaz a obrigação de casar com uma prima que não conhecia. E sentiu-se contente porque ele a achara bonita. Darren continuou a beijá-la, devagar, com insistência, percebendo que ela não protestaria. Dorilys estava muito embriagada para compreender direito o que estava acontecendo. Mas quando os dedos de Darren abriram seu corpete e se insinuaram para pegar os seios nus, ela sentiu-se subitamente embaraçada e empurrou-o.

- Não, Darren, isso é impróprio. Não pode.

Dorilys sentiu a língua engrolada. Pela primeira vez, refletiu que talvez Donal estivesse certo; não deveria ter bebido tanto. O rosto de Darren estava afogueado e ele parecia relutante em largá-la. Dorilys pegou suas mãos com firmeza e afastou-as.

- Não, Darren, não!

Ela recolheu as mãos para cobrir os seios expostos, ao mesmo tempo em que tentava amarrar de novo o corpete.

- Não, Dorilys - balbuciou Darren, a voz tão pastosa que se perguntou se também não bebera demais. - Está tudo bem. Não tem nada de impróprio. Podemos casar assim que você quiser. Gostaria de casar logo comigo, não é mesmo?

Ele tornou a enlaçá-la e beijou-a mais uma vez, com força, insistente. E murmurou:

- Escute, Dorilys... Se me deixar possuí-la agora, então seu pai terá de permitir que os rituais do casamento sejam realizados imediatamente.

Dorilys começava a se sentir mais cautelosa agora; afastou a boca, recuou o corpo, já duvidando se deveria ter saído sozinha para a sacada com Darren. Ainda era bastante inocente para não saber direito o que Darren queria, mas sabia que era algo que não deveria fazer e, mais do que isso, algo que ele não deveria pedir. E ela murmurou, as mãos trêmulas, tentando prender o corpete:

- Meu pai... Margali diz que ainda não tenho idade bastante para casar.

- Ah, a leronis. O que uma velha virgem pode saber de amor e casamento? Dê-me outro beijo, meu amor. Não, não, fique quieta em meus braços. Pronto, deixe-me beijá-la... assim...

Dorilys podia sentir agora a intensidade no beijo de Darren, assustando-a. O rosto à sua frente era o de um estranho, intumescido, sombrio de determinação, as mãos não mais apenas acariciantes, mas fortes, insistentes.

- Largue-me, Darren! Você não pode fazer isso! - A voz de Dorilys tremia em pânico. - Meu pai não vai gostar. Tire suas mãos de mim! Eu lhe suplico, parente... primo!

Ela o empurrou, mas era uma criança e ainda estava meio embriagada, enquanto Darren era um homem plenamente desenvolvido e se achava sóbrio. O laran anuviado de Dorilys captou a sua determinação, o indício de crueldade por trás.

- Não lute comigo, Dorilys. Depois que tudo acabar, seu pai ficará satisfeito em dar você a mim imediatamente... e tenho certeza de que isso não vai desagradá-la. Não é mesmo, minha bela? Deixe-me abraçá-la...

Dorilys começou a se debater, dominada por um terror súbito.

- Largue-me, Darren! Deixe-me ir embora! Meu pai ficará zangado... Donal vai brigar com você. Largue-me, Darren, ou gritarei por socorro!

Ela viu a percepção da ameaça nos olhos de Darren e abriu a boca para gritar por socorro. Mas ele previu sua intenção e levantou a mão, dura e decidida, tapando-lhe a boca, sufocando o grito, enquanto a apertava ainda mais contra seu corpo. O terror subitamente foi substituído pela raiva em Dorilys. Como ele se atreve afazer isso comigo? Sob o fluxo de ira, ela se projetou, de uma maneira que era capaz de fazer desde que nascera se alguém a tocasse contra sua vontade, atingindo-o...

Darren retirou a mão abruptamente, com um grito abafado, sentindo a dor intensa.

- Ah, sua diabinha, como ousa fazer isso comigo? - Ele desferiu um golpe com o dorso da mão, atingindo-a com tanta força no rosto que Dorilys foi jogada para trás, quase perdendo os sentidos. - Nenhuma mulher viva pode fazer isso comigo! Você não está relutante, apenas quer ser provocada e lisonjeada! Mas já chega! É tarde demais para isso!                                                          

Enquanto ela arriava no chão, Darren ajoelhou-se ao seu lado, rasgando-lhe as roupas. Dorilys, em raiva e pavor, tornou a golpear, ouvindo o estrondo da trovoada através de seu próprio grito, vendo o clarão branco que atingiu Darren. Ele foi arremessado para trás, o rosto contorcido, depois caiu sobre ela. Em terror, Dorilys empurrou-o para o lado e levantou-se, ofegante, nauseada, exausta. Darren continuou estendido no chão, imóvel. Nunca antes ela golpeara com tanta força... Oh, não, o que eu fiz?

- Darren... - suplicou ela, ajoelhando-se ao lado do corpo imóvel. - Levante-se, Darren! Não tive intenção de machucá-lo, mas você não devia fazer isso comigo. Não gosto. Darren! Darren! Eu o machuquei muito? Primo, parente, fale comigo!

Mas ele se manteve em silêncio. Em terror total, indiferente aos cabelos desgrenhados e ao vestido rasgado, Dorilys correu para a porta do salão de baile.

Donal! Era o único pensamento em sua mente. Donal saberá o que fazer! Preciso encontrar Donal!

Donal, alerta ao grito de pânico da irmã, ressoando em sua mente, embora não fosse audível no salão de baile, ofereceu uma desculpa apressada ao amigo idoso de seu avô que viera lhe falar e saiu à procura de Dorilys, orientado pelo grito silencioso.

Aquele miserável do Darren! Ele abriu a porta da sacada e a irmã se jogou em seus braços, os cabelos meio soltos, o vestido aberto na garganta.

- Dorilys! O que aconteceu, chiya!

O coração de Donal estava disparado, a garganta apertada pelo pavor. Pelos deuses lá em cima, seria possível que Darren fosse capaz até mesmo de pôr as mãos rudes numa garota de onze anos?

- Venha, bredilla. Ninguém deve vê-la assim. Arrume seus cabelos, chiya. E prenda o corpete, depressa.

Angustiado, Donal refletiu que deveria esconder o incidente do pai, pois ele brigaria com os parentes de Schathfell. Em nenhum momento passou pela mente de Donal que tal briga poderia redundar em seu benefício pessoal.

- Não chore, irmãzinha. Sem dúvida ele estava bêbado e não sabia o que fazia. Agora você compreende por que uma moça não deve beber tanto, a ponto de não ser capaz de manter o controle e evitar que os homens tenham idéias assim. Vamos, Dorilys, não chore...

Ela balbuciou, a voz trêmula:

- E Darren... Eu o machuquei. Não sei o que está errado. Ele continua caído ali e não quer falar comigo. Beijou-me com muita insistência. A princípio eu queria ser beijada, mas depois ele ficou muito rude e o fiz parar. Ele me bateu... fiquei furiosa e... e fiz o relâmpago vir. Mas não queria machucá-lo. Juro que não queria. Por favor, Donal, veja o que está errado com ele.

Avarra, deusa misericordiosa! Donal, a respiração ofegante, seguiu a irmã pela sacada escura, ajoelhou-se ao lado de Darren, mas já sabia o que encontraria. Darren, o rosto virado para o céu escuro, estava imóvel, o corpo já esfriando.

- Ele está morto, Dorilys. Você o matou.

Donal puxou a irmã para seus braços, num gesto de proteção determinada. Sentiu todo o corpo de Dorilys a tremer, como uma árvore ao vento. Ao redor do Castelo Aldaran, as trovoadas explodiram e ressoaram, depois foram se desvanecendo lentamente até o silêncio.

 

- E agora - disse Lorde Scathfell -, se os deuses quiserem, ouviremos a verdade sobre essa terrível tragédia.

Os convidados haviam se retirado, escoltados para seus aposentos ou para seus cavalos. Por cima do Castelo Aldaran o enorme sol vermelho começava a exibir uma face úmida e escarlate, através da densa camada de nuvens. O corpo de Darren fora levado para a capela no fundo do castelo. Donal jamais gostara de Darren, mas não pudera deixar de sentir pena ao ver o jovem rígido e atônito, as roupas em desalinho, a cabeça lançada para trás no espasmo de agonia e terror em que terminara sua vida. Ele teve um fim indigno, pensou Donal. Pensara em arrumar as roupas do jovem de uma maneira mais apropriada, mas depois lhe ocorrera que isso removeria todos os vestígios da única defesa de Dorilys.

Culpado por ter atacado uma criança, pensara ele, estremecendo e depois saindo à procura de Lorde Aldaran.

Margali fora despertada do sono profundo em que mergulhara com a cessação da dor de cabeça; estava ali, um xale espesso sobre a roupa de dormir, com Dorilys chorando em seus braços. Ela parecia agora uma criança exausta, o rosto inchado de tanto chorar, os cabelos caindo desgrenhados, as pálpebras pesadas sobre os olhos. Quase parara de chorar, mas de vez em quando um espasmo renovado de soluços sacudia seus ombros frágeis. Estava sentada no colo de Margali como a criança que era, as pernas compridas encostando no chão. O vestido requintado estava sujo e amarrotado.

Por cima da cabeça da criança, Margali olhou para Lorde Mikhail de Aldaran e disse:

- Vai querer mesmo o encantamento da verdade, milorde? Está bem, mas pelo menos deixe-me chamar a aia e pôr a criança na cama. Ela passou a noite inteira acordada e pode ver...

Margali inclinou a cabeça, indicando Dorilys, desgrenhada e chorosa, agarrada a ela, em desespero.

- Sinto muito, mestra, mas Dorilys deve permanecer aqui - declarou Aldaran. - Precisamos ouvir também o que ela tem a dizer e sob o encantamento da verdade... Dorilys, deixe sua mãe de criação e venha sentar-se ao lado de Donal. Ninguém lhe fará qualquer mal, criança. Só queremos saber o que aconteceu.

Relutante, Dorilys desprendeu os braços do pescoço de Margali. Estava rígida, ainda dominada pelo terror. Donal não pôde deixar de pensar num coelho-de-chifres acossado por uma matilha de bestas das montanhas. Ela veio sentar-se no banco baixo ao seu lado. Donal estendeu-lhe a mão e os dedos infantis seguraram-na, apertando com toda força. Com a mão livre, ela limpou o rosto manchado com a manga do vestido.

Margali tirou a pedra matriz da bolsa de seda pendurada no pescoço. Por um momento, contemplou em silêncio a pedra azul e depois falou, a voz baixa, mas nitidamente audível no silêncio da câmara de audiências.

- À luz do fogo da pedra, que a verdade ilumine esta sala em que nos encontramos.

Donal já testemunhara muitas vezes o encantamento da verdade e nunca deixara de impressioná-lo. Um clarão se irradiou da pequena pedra azul, iluminando lentamente o rosto da leronis, espalhando-se pela sala, projetando-se em cada rosto. Donal sentiu o tremeluzir da luz em seu próprio rosto, viu-a incidir no rosto inchado da criança ao seu lado, iluminar o rosto de Rakhal de Scathfell e do pajem atrás. Ao clarão azul, Mikhail de Aldaran parecia mais do que nunca uma envelhecida ave de rapina, imóvel em seu poleiro. Mas quando ele levantou a cabeça, o poder e a ameaça estavam ali, um potencial silencioso.

- Está feito, milorde - anunciou Margali. - Só a verdade poderá ser falada aqui, enquanto esta luz durar.

Donal sabia que se falsidades fossem proferidas deliberadamente sob o encantamento da verdade, a luz desapareceria de seu rosto, indicando no mesmo instante que se tratava de uma mentira.

- E agora, Dorilys, deve nos contar o que sabe de tudo isso - disse Mikhail de Aldaran. - Como Darren morreu?

Dorilys levantou o rosto. Parecia deplorável, o rosto inchado de tanto chorar, os olhos intumescidos. Tornou a limpar o nariz na manga do vestido. Apertou ainda mais a mão de Donal, que podia senti-la tremendo. Aldaran nunca antes usara a voz de comando com a filha. Após um momento, Dorilys balbuciou:

- Eu... eu não sabia que ele estava morto.

Ela piscou rapidamente, como se estivesse prestes a chorar outra vez. Rakhal de Scathfell interveio:

- Ele está morto. Meu filho mais velho está morto. Não tenha a menor dúvida quanto a isso, sua...

- Silêncio! - Ao som da voz de comando, até mesmo Lorde Scathfell se calou. - E agora, Dorilys, diga-nos o que aconteceu entre você e Darren. Como os relâmpagos o atingiram?

Ela adquiriu lentamente o controle da voz.

- Estávamos sentindo calor no baile e ele disse que deveríamos sair para a sacada. Começou a me beijar e... - A voz tremeu outra vez, incontrolável. - Abriu o meu vestido e me tocou, não quis parar quando pedi.

Ela piscou com força, mas a luz da verdade em seu rosto não vacilou.

- Ele disse que eu deveria deixá-lo me possuir agora, a fim de que o pai não protelasse o casamento. E me beijou com força, me machucou.

Dorilys levantou as mãos para cobrir o rosto e estremeceu com uma nova explosão de soluços. O rosto de Aldaran parecia esculpido em pedra.

- Não tenha medo, minha filha. Mas deve deixar que nossos parentes vejam seu rosto.

Donal pegou as mãos de Dorilys. Pôde sentir a agonia de seu medo e vergonha, como se estivessem pulsando através das mãos pequenas. E ela disse, gaguejando, sob a luz implacável da verdade:

- Ele... ele me bateu com força quando o empurrei e me derrubou no chão, agachou-se ao meu lado e eu... fiquei apavorada e o atingi com os relâmpagos. Não queria machucá-lo... queria apenas que tirasse as mãos de mim!

- Então você o matou! Atingiu-o com seus raios de feiticeira, filha do inferno!

Scathfell levantou-se e avançou, as mãos erguidas, como se fosse agredir.

- Pai! - gritou Dorilys, aterrorizada. - Não o deixe me machucar!

Um clarão azul se projetou e Rakhal de Scathfell cambaleou para trás, levando as mãos ao coração. O pajem adiantou-se e amparou seu senhor, ajudando-o a sentar. Donal declarou:

- Milordes, se ela não o tivesse atingido, eu mesmo o teria desafiado! É inconcebível tentar estuprar uma garota de onze anos!

Ele apertou o punho da espada, como se o morto estivesse à sua frente. A voz de Aldaran estava dominada pelo pesar e perplexidade ao virar-se para Lorde Scathfell e dizer:

- Foi testemunha, meu irmão. Lamento o que aconteceu, mais do que tenho palavras para expressar. Mas viu a luz da verdade no rosto da criança. E me parece que ela não teve qualquer culpa. Como seu filho pôde tentar uma coisa tão monstruosa, em sua festa de contrato de casamento... querer estuprar a futura esposa?

- Nunca me ocorreu que ele precisaria estuprá-la - disse Scathfell, a raiva vibrando em sua voz. - Apenas lhe sugeri que garantisse a conquista. Pensou mesmo que concordaríamos em esperar por anos, enquanto você procurava um casamento mais vantajoso? Um cego poderia perceber que a moça era casadoira e a lei é evidente: se um casal prometido vai para a cama, o casamento se torna legal a partir desse momento. E fui eu quem disse a meu filho para garantir sua noiva.

- Eu deveria ter imaginado - murmurou Aldaran, amargurado. - Não confiou em mim, irmão? Mas ali está a leronis que trouxe minha filha ao mundo. Sob o encantamento da verdade, Margali, qual é a idade de Dorilys?

- É verdade - disse a leronis, envolta pela luz azul da verdade. - Tirei-a do corpo morto de Aliciane há onze verões. Mas mesmo que ela estivesse em idade casadoira, Lorde Scathfell, por que deveria ser conivente com a sedução de sua própria sobrinha?

- Devemos saber disso também - interveio Mikhail de Aldaran. - Por que, meu irmão? Não podia confiar nos vínculos do parentesco?

- Foi você quem esqueceu os vínculos do parentesco - respondeu Scathfell. - Precisa perguntar, irmão? Quantos anos obrigaria Darren a esperar, enquanto tramava para encontrar alguma maneira de entregar tudo ao bastardo de Rockraven, a quem chama de filho de criação? Um filho bastardo que nem mesmo reconhece!

Sem pensar, Donal levantou-se e avançou para o lugar do pajem, três passos atrás de Mikhail de Aldaran, a mão pairando alguns centímetros acima do cabo da espada. Lorde Aldaran não olhou para Donal ao declarar:

- Ah, que todos os deuses fizessem com que suas palavras fossem verdadeiras! Ah, como eu gostaria que Donal tivesse nascido de meu sangue, legítimo ou ilegítimo! Nenhum homem poderia pedir mais em parente ou filho! Mas, infelizmente... e como eu lamento!... tenho de dizer, à luz do encantamento da verdade, que Donal não é meu filho.

- Não é seu filho? Realmente? - A voz de Scathfell estava distorcida pela fúria. - Então por que um velho esqueceria os vínculos do parentesco, se não estivesse obscenamente enamorado pelo rapaz? Se não é seu filho, então só pode ser seu amante!

A mão de Donal baixou para o punho da espada. Aldaran, pressentindo sua intenção, inclinou-se e agarrou o pulso de Donal com dedos de aço. Apertou até que Donal relaxou e deixou a espada resvalar de volta na bainha, sem chegar a sacá-la.

- Não sob este teto, filho de criação; ele ainda é nosso hóspede. - Aldaran largou o pulso de Donal e avançou para Lorde Scathfell, fazendo o filho de criação pensar outra vez num gavião se abatendo sobre a presa. - Se algum outro homem que não meu irmão tivesse pronunciado essas palavras, eu arrancaria a mentira de sua garganta. Saia daqui! Leve o corpo daquele estuprador repulsivo a que chamou de filho e todos os seus lacaios, deixe o meu teto antes que eu esqueça as obrigações de parentesco!

- Seu teto, é verdade, mas não por muito tempo - disse Scathfell, entre os dentes semicerrados. - Desmontarei pedra por pedra em torno de sua cabeça, para que não fique coisa alguma para o bastardo de Rockraven!

- E eu queimarei tudo sobre a minha cabeça antes que qualquer coisa fique para um filho de Scathfell - declarou Lorde Aldaran. - Saia de minha casa antes de meio-dia ou mandarei meus servos expulsarem-no a chicotadas! Volte para Scathfell e se considere afortunado por eu não expulsá-lo também de lá, onde só está por meu favor. Dou o desconto por sua dor ou teria me vingado no sangue de seu coração pelo que disse e fez aqui hoje! Volte para Scathfell ou vá para onde quiser, mas nunca mais venha à minha presença nem torne a me chamar de irmão!

- Não há mais irmão, não há mais suserano - declarou Scathfell, com uma ira incontrolável. - Os deuses sejam louvados, tenho outros filhos e chegará o dia em que teremos Scathfell por direito próprio e não por sua permissão e favor. Haverá de chegar o dia em que teremos também Aldaran. A feiticeira assassina que se esconde por trás da máscara de uma criança chorosa pagará então por tudo o que fez com seu próprio sangue! De hoje em diante, Mikhail de Aldaran, trate de se cuidar, à sua filha-feiticeira e ao bastardo de Rockraven que não chama de seu filho! Só os deuses sabem o poder que ele tem sobre você! Algum infame encantamento de feitiçaria! Não vou mais respirar este ar poluído por sórdidas feitiçarias!

Virando-se, com o pajem em seus calcanhares, Lorde Scathfell encaminhou-se para a porta, em passos lentos. Seu último olhar foi para Dorilys, uma expressão tão carregada de ódio que Donal ficou gelado.

Quando irmãos estão em conflito, os inimigos se interpõem para alargar o abismo, pensou Donal. Agora, o pai de criação brigara com todos os parentes. E eu, que sou o único que permanece a seu lado... eu nem mesmo sou seu filho!

Depois que o pessoal de Scathfell se retirou, Margali disse, firmemente:

- E agora, milorde, com sua permissão, levarei Dorilys para a cama. Aldaran, emergindo de uma apatia pensativa, murmurou:

- Muito bem, pode levá-la, mas volte para cá assim que ela dormir. Margali saiu com a criança a soluçar e Aldaran continuou sentado, imóvel, cabeça baixa, imerso em pensamentos. Donal não quis incomodá-lo, mas indagou, quando Margali voltou:

- Devo me retirar?

- Não, rapaz, pois isso também o envolve. - Aldaran suspirou, olhando para a leronis. - Não a culpo, Margali, mas o que faremos agora?

Margali sacudiu a cabeça.

- Não posso mais controlá-la, milorde. Ela é forte e voluntariosa, muito em breve estará sentindo as tensões da puberdade. Eu lhe suplico, Dom Mikhail, para entregá-la aos cuidados de alguém mais forte do que eu, em melhores condições de ensiná-la a controlar seu laran... ou coisas piores do que esta podem acontecer.

Donal se perguntou: O que poderia ser pior do que isto? Como a responder à sua pergunta, Aldaran disse:

- Todas as outras crianças que já gerei morreram na adolescência da doença que é a maldição de nossa linhagem. Devo temer isso por ela também?

- Já pensou, milorde, em mandá-la para as vai leroni da Torre Tramontana? - indagou Margali. - Elas cuidariam da criança e a ensinariam a usar seu laran. Se há alguém que pode levá-la ilesa pela adolescência, são elas.

Donal pensou: Não resta a menor dúvida de que é a solução certa. E ele disse, ansiosamente:

- Isso mesmo, pai. Deve se lembrar de como elas me trataram bem sempre que estive lá. E teriam o maior prazer em me acolher, se tivesse podido me dispensar de seu lado. Sempre me receberam como hóspede e amigo, muito me ensinaram sobre o uso do meu laran e muito mais teriam feito por mim, com satisfação. Mande Dorilys para elas, pai.

O rosto de Aldaran se animara, de maneira quase imperceptível; mas logo ele tornou a franzi-lo.

- Para Tramontana? Haveria de me envergonhar diante dos meus vizinhos, Donal? Devo demonstrar minha fraqueza, a fim de que possam espalhar a notícia por todo o povo das Hellers? Devo me tornar o alvo de rumores e desdém?

- Pai, acho que está enganado em relação às pessoas de Tramontana. Mas Donal sabia que não adiantaria. Não pensara no orgulho de Dom Mikhail. Margali interveio:

- Se não deseja confiá-la a Tramontana, Dom Mikhail, então eu lhe suplico que a mande para Hali ou Neskaya ou para alguma das Torres nas Terras Baixas. Não sou mais bastante jovem ou forte para ensiná-la ou controlá-la. Todos os deuses sabem que não tenho o menor desejo de me separar da criança. Eu a amo como se fosse minha própria filha, mas não posso mais contê-la. Numa Torre as pessoas estão preparadas para fazer isso.

Aldaran pensou a respeito por algum tempo. E, finalmente, disse:

- Acho que ela é muito jovem para ser enviada para uma Torre. Mas há antigos laços de amizade entre Aldaran e Elhalyn. Em nome dessa velha amizade, talvez o senhor de Elhalyn envie uma leronis da Torre de Hali para cuidar dela. Isso não despertaria qualquer comentário. Toda casa com laran tem necessidade de uma pessoa assim, para ensinar seus jovens. Pode ir até lá, Donal, e pedir que alguém venha a Aldaran para habitar em nossa casa e ensiná-la?

Donal levantou-se e fez uma mesura. O pensamento de Dorilys segura na Torre Tramontana, entre amigos, o atraíra; mas talvez fosse pedir demais a seu pai de criação deixar que sua fraqueza fosse conhecida pelos vizinhos.

- Partirei hoje mesmo, milorde, se assim quiser, tão logo reúna uma escolta condizente com sua posição e dignidade.

- Não - disse Aldaran, cansado. - Você irá sozinho, Donal, como convém a um suplicante. Fui informado de que no momento há uma trégua entre Elhalyn e Ridenow. Estará bastante seguro. E se for sozinho, ficará evidente que estou suplicando pela ajuda deles.

- Como quiser - declarou Donal. - Posso então viajar amanhã. Ou ainda esta noite.

- Amanhã está bem. Deixe o pessoal de Scathfell se afastar bastante. Não quero que a notícia se espalhe pelas montanhas.

 

A Torre erguia-se na extremidade do Lago de Hali, uma estrutura estreita e alta, feita de pedra translúcida. A maior parte do trabalho mais extenuante do círculo de matriz era realizada à noite. A princípio, Allart não compreendera o motivo, achando que era superstição ou um costume sem sentido. À medida que o tempo foi passando, no entanto, ele percebeu que as horas da noite, enquanto a maioria das pessoas dormia, eram as mais livres de pensamentos interferentes, as vibrações ao acaso de outras mentes. Nas horas desertas da noite, os integrantes do círculo de matriz podiam transmitir sua mentes unidas para os cristais de matriz, que amavam muito as vibrações eletrônicas e energônicas do cérebro, transformando poder em energia.

Com a tremenda força das mentes unidas e as gigantescas redes artificiais de matriz construídas pelos técnicos, essas energias mentais podiam minerar metais nas profundezas, fazendo-os aflorar à superfície em fusão; podiam operar as baterias de carros aéreos ou os grandes geradores que iluminavam os castelos de Elhalyn e Thendara. Tinha sido aquele círculo que elevara as torres brancas reluzentes do castelo em Thendara da rocha viva do pico da montanha em que se encontrava. Das muitas Torres como aquela fluía toda a energia e tecnologia de Darkover, e eram os homens e mulheres nos círculos de Torre que as criavam.

Agora, na câmara de matriz protegida - não apenas pelo tabu e tradição e o isolamento de Hali, mas também por campos de força que podiam matar um intruso ou deixá-lo atordoado -, Allart Hastur sentava-se à uma mesa baixa e redonda, mãos e mente ligadas com as seis outras pessoas de seu círculo. Todas as energias de seu cérebro e corpo concentravam-se num único fluxo para o Guardião do círculo. O Guardião era franzino, mas forte como aço; chamava-se Coryn e era primo de Allart, mais ou menos de sua idade. Sentado diante do enorme cristal artificial, ele captava os fluxos de energônio das seis pessoas em torno da mesa, despejando-os para as intrincadas redes de cristal e dirigindo essa energia para as fileiras de baterias na mesa baixa. Coryn não se mexia nem falava, mas à medida que apontava a mão estreita e autoritária para uma bateria depois de outra, os membros ligados e de rostos impassíveis do círculo despejavam cada átomo de suas energias focalizadas na matriz e através do corpo do Guardião, transmitindo enormes cargas de energias para as baterias, uma depois de outra.

Allart estava gelado e com cãibra, mas não sabia disso; estava inconsciente de seu corpo, inconsciente de qualquer outra coisa que não fosse o fluxo de energia. Vagamente, sem pensar, a situação lembrava-o da extasiada união de mentes e vozes nos hinos matutinos em Nevarsin, a singular sensação de união e separação simultâneas, de ter encontrado seu lugar na música do universo...

Fora do círculo de mãos e mentes ligadas estava sentada uma mulher, numa túnica branca, o rosto nas mãos, nada visível além dos compridos cabelos avermelhados. Sua mente se deslocava incessantemente em torno do círculo, monitorando as figuras imóveis, uma depois de outra. Ela aliviava a tensão de um músculo antes que pudesse prejudicar a concentração, acalmava uma súbita câimbra ou comichão antes que pudesse interferir com o foco do homem ou mulher no círculo; cuidava para que a respiração não se alterasse nem qualquer outro dos pequenos movimentos automáticos que mantinham os corpos negligenciados em bom funcionamento - as piscadelas ritmadas dos olhos para evitar a tensão, a ligeira mudança de posição. Se a respiração de alguém se tornava irregular, ela entrava em contato com a pessoa e restabelecia o ritmo suave, assim como também normalizava um coração vacilante. Os membros ligados do círculo não estavam conscientes de seus próprios corpos, o que acontecia há horas. Só tinham consciência de suas mentes ligadas, flutuando nas energias intensas que se despejavam nas baterias. O tempo parara para eles num instante interminável de maciça união; apenas a monitora estava consciente da passagem da hora. Agora, sem ver, mas sentindo que a hora do amanhecer ainda estava a alguma distância, ela percebeu alguma tensão no círculo que não deveria existir e projetou sua mente inquisitiva de uma para outra das figuras vinculadas.

Coryn. O Guardião, treinado há anos em corpo e mente para suportar aquela tensão... não, ele não se encontrava em aflição. Estava com cãibra e a monitora verificou sua circulação, aliviando-a; ele também sentia frio, mas não sabia disso. Seu estado não se alterara desde as primeiras horas da noite. Depois que seu corpo estivesse ligado e fixado numa das posturas equilibradas e confortáveis, podia muito bem se manter imóvel por horas.

Mira? Não, não era ela. A velha que fora monitora antes de Renata estava tranqüila e alheia a tudo, flutuando serenamente nas redes de energia, concentrada nos fluxos de força, sonhando ao acaso, feliz e satisfeita.

Barak! O homem robusto e trigueiro, o técnico que construíra a rede artificial de matriz, de acordo com as exigências do círculo, estava com cãibra. Automaticamente, Renata insinuou-se na percepção de seu corpo e atenuou a câimbra, antes que a dor pudesse interferir com a concentração. Não havia mais nada de errado com ele.

Allart! Como um recém-chegado ao círculo podia ter tanto controle? Teria sido seu treinamento em Nevarsin? Sua respiração era profunda e lenta, firme, o fluxo de oxigênio para os membros e coração incessante. Ele aprendera até o segredo mais difícil de um círculo de matriz, as longas horas imóveis, sem dor ou cãibra indevidas.

Arielle! Ela era a mais jovem do grupo em idade, mas aos dezesseis anos já estava há dois anos em Hali e alcançara o posto de mecânica. Renata conferiu-a com todo cuidado: respiração, coração, os canais que às vezes lhe causavam problema por causa da umidade ali, à beira do lago. Arielle era das planícies do sul. Nada encontrando de errado, Renata procurou ainda mais. Não, não havia nenhum problema, nem mesmo uma bexiga cheia para causar tensão. Renata pensou: Imaginei que Coryn podia tê-la engravidado, mas não é isso. Eu a conferi com todo cuidado antes de sua entrada no círculo e Arielle sabe muito bem o que faz...

Então deve ser a outra recém-chegada, Cassandra... Renata verificou coração, respiração, circulação. Cassandra estava com cãibra, mas não muita dor, não o suficiente para notar. Renata sentiu a percepção de Cassandra, uma agitação perturbada, e tratou de transmitir um pensamento tranqüilizante para acalmá-la, antes que pudesse incomodar os outros. Cassandra era nova naquele trabalho e ainda não aceitava plenamente a intromissão do contato da monitora em seu corpo e mente. Renata levou alguns segundos para acalmar Cassandra, antes de se lançar mais fundo na monitoração.

Isso mesmo, é Cassandra. E sua tensão que todos estamos partilhando... Ela não deveria ter entrado no círculo a esta altura, com seus ciclos de mulher. Pensei que ela sabia disso... Mas não ocorreu a Renata culpar Cassandra, apenas a si mesma. Eu deveria ter me certificado. Renata sabia como era difícil, nos primeiros dias de aprendizado, confessar fraqueza ou admitir limitações.

Ela entrou em comunicação com Cassandra, tentando acalmá-la, aliviar sua tensão. Mas logo percebeu que Cassandra ainda não era capaz de trabalhar com ela naquele tipo de intimidade total. Ela transmitiu um pensamento de alerta a Coryn, um toque gentil, como o mais suave dos murmúrios.

Devemos romper em breve... esteja preparado quando eu lhe der o sinal. O fluxo de energias não parou nem vacilou, mas uma fração mínima de atenção exterior de Coryn respondeu: Ainda não; há toda uma fileira de baterias que precisam ser carregadas. Depois, ele tornou a se fundir totalmente no círculo, sem qualquer hesitação.

Renata estava agora perturbada. A palavra do Guardião era lei no círculo, mas era responsabilidade da monitora zelar pelo bem-estar dos corpos dos membros ligados. Até agora, ela protegera com todo cuidado seus pensamentos e sua preocupação de todos, mas sentiu naquele momento uma tênue percepção, uma retirada da energia total do círculo, que não deveria existir. Allart está consciente de Cassandra. Consciente demais para este estágio. Não deveria, ligado ao círculo como está, nem mesmo saber que ela se encontra viva. Mas era apenas um lampejo e ela tratou de compensar, gentilmente levando a percepção de Allart de volta a seu próprio foco de energia. Tentou manter Cassandra firme, como se numa escada estendesse o braço para amparar outra mulher. Mas a partir do momento em que a intensidade de concentração era rompida, alguma coisa no fluxo de energias faltava, vacilava, como um vento ondulando a superfície da água. Renata sentiu o distúrbio percorrer o círculo, um a um, apenas um lampejo, mas pernicioso naquele nível de concentração. Barak mudou a posição do corpo, inquieto, Coryn tossiu, Arielle fungou. Renata sentiu a respiração de Cassandra titubear. Agora, imperativa, ela transmitiu uma segunda advertência:

Devemos romper, Coryn. Está quase na hora...

Desta vez o recuo foi inequivocamente perturbador e reverberou pelas mentes ligadas como uma campainha de alarme. Allart ouviu o som em sua mente como escutava os sinos silenciosos de Nevarsin. Lentamente, começou a recuperar seu foco independente. A irritação de Coryn era como uma bofetada violenta; sentiu-a como o repuxar de um filamento interno, ao mesmo tempo em que percebia a consciência de Cassandra se retirando. Era como arrancar um filamento encravado, como se alguma raiz profunda em seu ser fosse puxada, sangrando. Um a um, ele sentiu o círculo se romper e se desintegrar, não em uma retirada suave, como acontecera nas ocasiões anteriores, mas desta vez se desagregado dolorosamente. Ele ouviu Mira a ofegar com o esforço, Arielle fungando como se estivesse prestes a chorar. Barak gemeu, esticando uma perna com cãibra. Allart já sabia o suficiente para não se mexer muito depressa a princípio; e seus movimentos foram lentos e cuidadosos, como se despertasse de um sono muito profundo. Mas estava perturbado e aflito. O que acontecera com o círculo? Era certo que o trabalho ainda não fora concluído...

Um a um, em torno da mesa, os outros emergiam das profundezas do transe da matriz. Coryn estava pálido e abalado. Não falou nada, mas a intensidade de sua ira, dirigida a Renata, era angustiante para todos.

Eu lhe disse que ainda não. Agora teremos de fazer tudo isso de novo, para menos de uma dúzia de baterias... Por que rompeu justamente agora? Havia alguém neste círculo fraco demais para agüentar só mais um pouco? Somos crianças brincando de amarelinha ou um círculo de mecânicos responsáveis?

Mas Renata não deu atenção. Allart, a mente consciente recuperando o foco, constatou que Cassandra caíra para o lado, os longos cabelos escuros espalhados sobre a mesa. Ele empurrou sua cadeira baixa para trás e levantou-se, mas Renata chegou junto de Cassandra antes dele.

- Não! - disse ela, impondo sua voz de comando ao consternado Allart. - Não toque nela! É minha responsabilidade!

Em seu estado de extrema sensibilidade, Allart captou o pensamento que Renata não expressara em voz alta: Você já fez demais; é responsável por isto...

Eu? Santo Portador dos Fardos, dê-me forças! Eu, Renata?

Renata ajoelhou-se a lado de Cassandra, estendendo as pontas dos dedos para a nuca da mulher desfalecida, pressionando o centro nervoso que havia ali. Cassandra mexeu-se e Renata murmurou:

- Está tudo bem, querida. Vai ficar boa agora. Cassandra balbuciou:

- Estou com frio, muito frio...

- Sei disso. Vai passar em poucos minutos.

- Lamento muito. Não tive a intenção... não queria...

Cassandra olhou ao redor, atordoada, à beira das lágrimas. Encolheu-se diante da expressão irada de Coryn.

- Deixe-a em paz, Coryn - disse Renata, sem levantar os olhos. - Ela não teve qualquer culpa.

Coryn protestou, com um gesto de ironia:

- Z’par servu, vai leronis... Temos sua licença para testar as baterias... enquanto você cuida da jovem esposa?

Cassandra fazia um tremendo esforço para reprimir as lágrimas. Renata murmurou:

- Não se importe com Coryn. Ele está cansado, como todos nós. Não quis magoá-la.

Arielle foi até uma mesa lateral, pegou um instrumento de metal - os círculos de matriz tinham prioridade sobre todos os escassos metais de Darkover -, envolveu a mão com o material isolante e aproximou-se das baterias, tocando em uma depois de outra, para produzir a centelha que indicava que se encontrava carregada. Os outros membros do círculo levantaram-se, cautelosos, esticando os corpos dominados por cãibras. Renata continuou ajoelhada ao lado de Cassandra; finalmente retirou as mãos dos circuitos de pulsação na garganta da outra mulher.

- Tente se levantar agora. Mexa-se um pouco, se puder. Cassandra esfregou as mãos finas.

- Sinto tanto frio como se tivesse passado a noite no inferno mais frio de Zandru. Obrigada, Renata. Como soube?

- Sou uma monitora. É meu dever perceber essas coisas.

Renata Leynier era uma jovem franzina e morena, cabelos dourados-avermelhados, a boca um pouco larga demais para a beleza, os dentes ligeiramente tortos, o nariz manchado por sardas. Os olhos, no entanto, eram grandes, cinzentos e bonitos.

- Quando tiver um pouco mais de treinamento, Cassandra, também poderá sentir e nos dizer quando não se encontra bastante bem para participar de um círculo. Nessas ocasiões, como eu pensei que você sabia, sua energia psíquica deixa o corpo junto com o sangue e precisa de toda a sua força para si mesma. Agora deve ir para a cama e descansar por um ou dois dias. Antes disso, não deve voltar a integrar o círculo nem fazer qualquer trabalho que exija muito esforço e concentração.

Allart aproximou-se, apreensivo.

- Está passando mal, Cassandra? Renata respondeu por ela:

- Muito cansada, não mais do que isso, precisando de boa alimentação e repouso.

Mira fora a um armário na extremidade da sala e estava retirando comida e vinho que eram guardados ali, a fim de que os membros do círculo pudessem se revigorar do tremendo consumo de energia do trabalho. Renata foi procurar entre as provisões por uma barra comprida de castanhas comprimidas, com mel. Pôs na mão de Cassandra, mas a mulher de cabelos escuros sacudiu a cabeça.

- Não gosto de doces. Esperarei pelo desjejum normal.

- Coma - disse Renata, em sua voz de comando. - Precisa de forças. Cassandra partiu um pedaço da barra e pôs na boca. Fez uma careta pelo gosto que lhe era desagradável, mas mesmo assim mastigou, obediente. Arielle aproximou-se, pegou um punhado de frutas secas e pôs na boca, voraz. E informou, quando pôde falar:

- Há doze baterias que não estão carregadas, e as três últimas em que trabalhamos terão de ser refeitas, pois não estão com sua plena capacidade.

- Mas que droga! - exclamou Coryn, olhando irritado para Cassandra.

- Deixe-a em paz! - insistiu Renata. - todos nós já fomos principiantes! Coryn serviu-se de vinho e tomou um gole.

- Desculpe, parenta - disse ele finalmente, sorrindo para Cassandra, sua natureza jovial tornando a prevalecer. - Está muito cansada, prima? Não deve se exaurir por causa de umas poucas baterias.

Arielle limpou os dedos, pegajosos das frutas com mel.

- Se existe algum trabalho mais tedioso do que carregar baterias de Dalereuth às Hellers, eu não posso imaginar qual seja.

- É melhor do que mineração - comentou Coryn. - Sempre que trabalho com metais fico exausto por meia lua. Estou contente que não haja mais trabalho a fazer este ano. Cada vez que entramos na terra para a mineração, recupero a consciência com a sensação de que levantei cada colherada com as duas mãos!

Allart, disciplinado pelos anos de árduo treinamento físico e mental em Nevarsin, estava menos cansado do que os outros, mas sentia os músculos doloridos da tensão e inatividade. Viu Cassandra partir outro pedaço da barra de castanhas e mel, sentiu a sua careta quando o pôs na boca. Ainda estavam em comunicação e ele sentiu a repulsa de Cassandra pelo alimento doce demais, como se ele próprio o estivesse comendo.

- Não coma, se não quiser. Deve haver alguma coisa mais a seu gosto nas prateleiras.

Ele foi vasculhá-las. Cassandra deu de ombros e comentou:

- Renata disse que isto me restauraria mais depressa do que qualquer outra coisa. Não me importo.

Allart serviu-se também de um pedaço. Barak, que estava tomando vinho, aproximou-se.

- Está recuperada, parenta? O trabalho é de fato fatigante quando se começa. Além do mais, não temos aqui os reconstituintes apropriados. - Ele soltou uma risada. - Talvez devesse tomar uma colher do mel kireseth. É o melhor reconstituinte depois de esforços cansativos e você deve estar especialmente...

Abruptamente, ele tossiu e virou o rosto, fingindo que engasgara com o último gole do vinho, mas todos ouviram as palavras em sua mente como se as tivesse pronunciado em voz alta. Você deve estar precisando especialmente desses reconstituintes, já que acabou de casar e por isso tem mais necessidade... Mas antes que as palavras escapassem, Barak recordara o que todos sabiam, por se manterem em comunicação telepática com Allart e Cassandra: a verdadeira situação entre os dois.

A única correção que ele podia fazer ao gracejo sem tato era se virar, fingindo que não pensara as palavras, da mesma forma como não as dissera. Houve um breve momento de silêncio na câmara de matriz, depois todos se puseram a falar muito alto e ao mesmo tempo sobre outra coisa. Coryn pegou o instrumento de metal e conferiu pessoalmente duas ou três baterias. Mira esfregou as mãos geladas e comentou que estava pronta para um banho quente e uma massagem.

Renata passou o braço pela cintura de Cassandra.

- Você também, minha querida. Está com frio e cãibras. Pode descer agora; peça um bom desjejum e tome um banho quente. Mandarei minha própria serva cuidar de você. Ela faz uma massagem excelente, poderá relaxar seus músculos e nervos tensos, a fim de que consiga dormir. E não precisa se sentir culpada. Todos nós ficamos esgotados na primeira temporada aqui. Ninguém gosta de admitir fraqueza e isso acontece com todo mundo. Depois que comer alguma coisa quente, tomar um banho e fizer a massagem, trate de se deitar e dormir. Ponha tijolos quentes nos pés e cubra-se bem. Cassandra hesitou:

- Não me agrada privá-la dos serviços de sua serva.

- Chiya, eu não fico mais nesse estado. Pode ir despreocupada. Diga a Lucetta que mandei que cuidasse de você como faz comigo quando estou fora do círculo. Faça o que estou dizendo, prima. Esta é a minha função, saber o que você precisa, até quando você mesma não sabe.

Allart refletiu que ela parecia maternal, como se fosse uma geração mais velha do que Cassandra, em vez de ser praticamente da mesma idade.

- Também vou descer - anunciou Mira.

Coryn puxou a mão de Arielle através de seu braço e se retiraram juntos. Allart já ia segui-los quando Renata pôs a mão em seu braço, leve como uma pluma.

- Se não está muito cansado, Allart, eu gostaria de conversar com você.

Allart estava pensando em seu quarto luxuoso num andar inferior, em tomar um banho frio, mas não se sentia realmente cansado; foi o que disse, e Renata balançou a cabeça.

- Se esse é o treinamento da irmandade de Nevarsin, talvez devêssemos adquiri-lo para os nossos círculos. Você está tão firme e descansado quanto Barak, que participa de nossos círculos quase há tanto tempo quanto estou viva. Deveria nos ensinar alguma coisa de seus segredos. Ou os irmãos fazem o juramento de sigilo?

Allart sacudiu a cabeça.

- É apenas uma disciplina de respiração.

- Vamos sair para o sol?

Eles desceram para o nível térreo, atravessaram o campo de força que protegia a Torre contra qualquer intromissão quando estavam trabalhando e saíram para o brilho crescente da manhã. Allart foi andando em silêncio, ao lado de Renata. Não se sentia muito cansado, mas estava tenso e insone, os nervos à flor da pele. Como sempre acontecia quando relaxava a barreira, mesmo que apenas um pouco, seu laran projetava futuros conflitantes e divergentes, mas tão perceptíveis quanto os gramados verdes que se estendiam suaves até o lago e as praias enevoadas de Hali.

Calados, eles foram caminhando pela praia. Liriel, a lua violeta, que acabara de ficar cheia, punha-se quase indefinida sobre o lago. A verde Idriel, o mais pálido dos crescentes, pairava alta sobre a borda distante das montanhas.

Allart sabia - soubera assim que pusera os olhos em Renata pela primeira vez - que ali estava a outra das duas mulheres que vira com freqüência nos futuros divergentes de sua vida. Desde o primeiro dia na Torre se mantivera em guarda contra ela, falando-lhe apenas as cortesias mínimas, evitando-a tanto quanto era possível evitar alguém no recinto restrito da Torre. Mas passara a respeitar sua competência como monitora, apreciar seu riso fácil e bom humor. Naquela manhã, observando-a cuidar do colapso de Cassandra, ficara comovido por sua gentileza. Mas até aquele momento não haviam trocado qualquer palavra fora da linha de seus deveres no círculo.

Agora, afetado pela fadiga, via o rosto de Renata não como era - gentil, impessoal, retraído, a expressão de uma monitora treinada da Torre, falando de assuntos profissionais -, mas como poderia ser em qualquer dos futuros divergentes que poderiam acontecer. Embora se defendesse contra isso, jamais concedendo liberdade a tais pensamentos, ele a vira aquecida pelo amor, conhecera a ternura que ela podia oferecer, possuíra-a como um sonho. Isso, sobrepondo-se à situação real entre os dois, confundia-o e embaraçava-o, pois tinha de encarar uma mulher com quem sonhara eroticamente e escondê-lo. Mas não era possível. Nenhuma mulher entraria em sua vida, com exceção de Cassandra, e já decidira firmemente como essa participação seria limitada. Revestiu-se de coragem contra a ameaça dessas barreiras e fitou Renata com a expressão fria e impessoal, quase hostil, de um monge de Nevarsin.

Foram andando, ouvindo o murmúrio suave das ondas-nuvens. Allart crescera nas praias de Hali e ouvira aquele som por toda a sua vida, mas agora lhe parecia novo, pois o escutava através dos ouvidos de Renata.

- Nunca me canso desse som. É tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente da água. Não dá para se nadar nesse lago, não é mesmo?

- A pessoa afunda. Devagar, é verdade, mas afunda sempre. Não há como se agüentar na superfície. Mas como se pode respirar, não tem importância se você afundar. Muitas vezes, na infância, andei pelo fundo do lago, contemplando as coisas estranhas que há lá dentro.

- Dá para respirar? A pessoa não se afoga?

- Não, porque não é água. Não sei direito o que é. Se você respira por tempo demais, acaba ficando fraco e se sente cansado demais até para respirar. Há algum perigo de que a pessoa fique inconsciente e morra sem lembrar de respirar. Mas, por algum tempo, é inebriante. E há estranhas criaturas. Não sei se deve chamá-los de peixes ou aves, e também não posso dizer se nadam ou voam, mas são lindas. Dizia-se antigamente que respirar a nuvem do lago proporcionava uma vida longa e era por isso que os Hasturs viviam tanto tempo. Diziam também que Hastur, o filho do Senhor da Luz, ao cair nas praias de Hali concedeu a imortalidade aos que viviam ali. Mas nós, os Hasturs, perdemos essa dádiva por causa de nossas vidas pecaminosas. Mas essas coisas não passam de contos de fadas.

- Pensa assim por ser um cristoforo?

- Penso assim por ser um homem de razão - respondeu Allart, sorrindo. - Não posso admitir um deus que interfira com as leis do mundo que ele próprio criou.

- Mas os Hasturs realmente têm uma vida longa.

- Fui informado em Nevarsin que os Hasturs têm sangue chieri... e os chieri são imortais.

Renata suspirou.

- Também ouvi que eles são emmasca, nem homem nem mulher, livres assim dos perigos de ser qualquer das duas coisas. Creio que os invejo.

Ocorreu a Allart que Renata dava incessantemente a sua própria força; mas não havia com que se preocupar, se ela estivesse cansada demais.

- Vá descansar, parenta. O que quer que tenha a me dizer, não pode ser tão urgente que não possa esperar até que se alimente e descanse.

- Prefiro falar enquanto Cassandra está dormindo. Preciso dizer a um dos dois. Sei que vai achar que é uma intromissão, mas é mais velho do que Cassandra e tem melhores condições de suportar o que devo dizer. Mas já chega de pedir desculpas e de preâmbulos... Não deveria ter vindo para cá com Cassandra como esposa recente e o casamento ainda por consumar.

Allart abriu a boca para falar, mas ela gesticulou para que se mantivesse em silêncio.

- Deve estar lembrado de que o adverti que acharia uma intromissão na privacidade dos dois. Estou na Torre desde os quatorze anos, conheço as cortesias dessas coisas. Mas também sou monitora e responsável pelo bem-estar de todos na Torre. Qualquer coisa que interfira... não, Allart, não fale, apenas escute... qualquer coisa que prejudique o seu funcionamento afeta a todos nós. Três dias depois de chegarem aqui, eu já sabia que sua esposa ainda era virgem, mas não me intrometi na ocasião. Pensei que talvez tivessem casado por motivos políticos e não gostassem um do outro. Mas agora, depois de meio ano, é evidente que estão perdidamente apaixonados. A tensão entre vocês está afetando a todos nós e deixando Cassandra doente. Ela passa o tempo todo tão tensa que nem sequer pode controlar direito os próprios nervos do corpo, o que já deveria conseguir a esta altura. Posso ajudá-la um pouco, quando vocês estão no círculo, mas não posso fazê-lo durante todo o tempo e não devo fazer o que ela precisa aprender a fazer por si mesma. Tenho certeza que houve uma boa razão para virem até aqui. Mas quaisquer que fossem as suas razões, conhecia muito pouco sobre o funcionamento de um círculo da Torre. Você pode agüentar, já que teve o treinamento de Nevarsin e é capaz de operar mesmo quando se sente infeliz. Cassandra não é capaz. Esse é o problema. Allart retrucou, na defensiva:

- Não sabia que Cassandra se sentia infeliz. Renata fitou-o nos olhos e sacudiu a cabeça.

- Se não sabe, é apenas porque não se permitiu saber. O mais sensato neste momento seria levá-la embora, até que as coisas entre vocês estejam resolvidas e definidas. Depois, se quiserem, podem voltar. Precisamos sempre de pessoas preparadas e seu treinamento em Nevarsin é valioso. Quanto a Cassandra, creio que ela possui o talento para se tornar uma monitora, até mesmo uma técnica, se isso a interessar. Mas não agora. Este é um momento para vocês dois ficarem a sós, em vez de prejudicarem a todos nós com suas necessidades não resolvidas.

Allart estava gelado de consternação. Sempre vivera sob uma disciplina tão rígida que nunca lhe ocorrera que suas necessidades ou a infelicidade de Cassandra pudessem interferir com o círculo. Mas é claro que deveria ter imaginado que não era esse o caso.

- Leve-a daqui, Allart. Esta noite não seria muito cedo. Allart murmurou, em meio a uma angústia crescente:

- Acho que eu daria tudo o que possuo se tivesse liberdade para fazer isso. Mas Cassandra e eu prometemos um ao outro...

Ele virou o rosto, mas os pensamentos estavam claros em sua mente e Renata ficou aflita.

- Primo, o que poderia impeli-lo a um juramento tão precipitado? E não falo apenas de seu dever para com os parentes e o clã.

- Não fale sobre isso, Renata, nem mesmo em amizade. Já ouvi demais a respeito e não preciso de ninguém para me lembrar. Mas sabe qual é o tipo de laran que possuo, a maldição que tem sido para mim. Não quero perpetuá-lo em filhos e netos. O programa de reprodução entre as famílias com laran, que a leva a falar em dever com a casta e os parentes, está errado, é maléfico. Não passarei adiante! - Allart falou com veemência, tentando bloquear a imagem do rosto de Renata não como estava, grave, com uma gentil preocupação, mas como poderia ficar, a compaixão despertada, dominado pela ternura e paixão.

- É mesmo uma maldição, Allart. Também tenho muitos medos e dúvidas sobre o programa de reprodução. Não creio que qualquer mulher dos Domínios esteja livre deles. Mas a infelicidade de você e Cassandra é desnecessária.

- Há mais e pior - acrescentou Allart, desesperado. - Ao final de cada curso que posso prever, vejo Cassandra morta ao gerar meu filho. Mesmo que eu pudesse forçar minha consciência a gerar um filho que pudesse nascer com essa maldição, não seria capaz de lhe impor esse destino. Por isso, assumimos o compromisso de uma vida separada.

- Cassandra é muito jovem e uma virgem, Allart, pode ser desculpada por não entender direito a situação. Mas me parece que é errado manter uma mulher na ignorância de uma coisa que afeta tanto a sua vida. Seja como for, a sua decisão é muito difícil, pois é evidente, até para os estranhos, que vocês se amam. Não creio que ignore que há meios...

Renata desviou o rosto, embaraçada, enquanto falava. Nem mesmo marido e mulher costumavam falar de tais coisas. Allart também ficou embaraçado.

Ela não pode ser mais velha do que Cassandra! Em nome de todos os deuses, como uma moça, tão bem criada, de boa família e ainda solteira, veio a saber dessas coisas?

O pensamento estava bastante nítido em sua mente e Renata não pôde deixar de captá-lo. E disse, secamente:

- Era um monge, primo, e só por esse motivo estou disposta a admitir que talvez não saiba realmente a resposta para essa indagação. Talvez ainda acredite que só os homens sentem essas necessidades e que as mulheres são imunes. Não quero escandalizá-lo, Allart, mas as mulheres na Torre não precisam e não podem viver por leis absurdas e pelos costumes ultrapassados desta época, que fingem que as mulheres não passam de brinquedos para atender aos desejos dos homens, sem terem nenhum, salvo o de gerarem filhos para seus clãs. Não sou mais virgem, Allart. Qualquer um de nós, homem ou mulher, deve aprender, antes de estar há muito no círculo, a confrontar as próprias necessidades e desejos, ou não seríamos capazes de empenhar toda a nossa força no trabalho. Se tentássemos, poderiam acontecer coisas como as que ocorreram esta manhã... ou pior ainda, muito pior.

Allart sentiu-se mais embaraçado do que nunca. Seu primeiro pensamento, quase automático, foi pura reação aos ensinamentos da infância. Os homens dos Domínios sabem disso e ainda assim deixam suas mulheres virem para cá?

Renata deu de ombros, respondendo à pergunta silenciosa:

- É o preço que eles pagam pelo trabalho que realizamos... que as mulheres sejam libertadas até certo ponto, durante a permanência aqui, das leis que enfatizam a herança e reprodução. Tenho a impressão que a maioria prefere não saber muita coisa. E também não é seguro para uma mulher trabalhando nos círculos interromper seu tempo de serviço por uma gravidez. - Ela fez uma pausa e depois acrescentou: - Se você quiser, Mira pode instruir Cassandra... ou eu mesma. Talvez ela aceite mais facilmente de uma mulher de sua idade.

Se alguém me dissesse, enquanto eu estava em Nevarsin, que havia alguma mulher viva com quem eu poderia conversar abertamente sobre essas coisas... e que tal mulher não era esposa nem parente... nunca teria acreditado. Jamais imaginaria que pudesse haver tamanha franqueza entre um homem e uma mulher.

- Isso resolveria nossos maiores temores, enquanto habitássemos na Torre. Talvez pudéssemos ter... pelo menos isso. Para dizer a verdade, chegamos a conversar um pouco a respeito.

As palavras de Cassandra ressoaram nos ouvidos de Allart como se pronunciadas apenas momentos antes, não há meia estação.

- Posso suportar a situação como está agora, Allart, mas não sei se serei capaz de manter essa determinação. Eu amo você, Allart. E não posso confiar em mim mesma. Mais cedo ou mais tarde haveria de querer um filho seu e assim é mais fácil, sem a possibilidade e a tentação...

Ouvindo o eco na mente de Allart, Renata declarou, indignada:

- Talvez mais fácil para ela... - Renata se controlou. - Desculpe-me, não tenho esse direito. Cassandra também tem suas necessidades e desejos, não o que você ou eu pensamos que ela deve sentir. Quando uma moça foi ensinada, desde que tinha idade suficiente para entender as palavras, que a razão de viver de uma mulher é gerar filhos para a casta e o clã do marido, não é fácil mudar ou descobrir algum outro propósito na vida. - Ela ficou em silêncio e Allart refletiu que sua voz parecia amargurada demais para alguém com a sua juventude. Especulou quantos anos teria.

A comunicação entre os dois era tão intensa que Renata respondeu sem que ele precisasse enunciar a pergunta:

- Sou apenas um ou dois meses mais velha do que Cassandra. Ainda não estou livre do desejo de gerar um filho algum dia, mas tenho apreensões muito parecidas com as suas sobre o programa de reprodução. Claro que somente os homens têm permissão para manifestar tais temores e escrúpulos; as mulheres não deveriam pensar nessas coisas. Às vezes tenho a impressão de que as mulheres nos Domínios nem sequer deveriam pensar! Mas meu pai foi indulgente comigo e lhe arranquei a promessa de que não me casaria antes dos vinte anos e poderia trabalhar numa Torre. Assim, aprendi muita coisa. Por exemplo, Allart, se você e Cassandra decidirem ter um filho e ela engravidar, será possível sondar até o próprio plasma, com a ajuda de uma monitora. Se portasse o tipo de laran que você teme ou qualquer recessivo letal que poderia matar Cassandra no parto, ela não precisaria levar a gravidez a termo.

Allart protestou, com veemência:

- Já é bastante terrível que os Hasturs interfiram com a essência da vida ao criarem riyachiyas e outras abominações pela manipulação genética de nosso sêmen! Mas fazer isso com meus próprios filhos e filhas? O simples pensamento me repugna!

- Não sou a guardiã de sua consciência ou da de Cassandra. É apenas uma opção; deve haver outras, mais a seu gosto. Contudo, creio no mal menor. Sei que algum dia serei obrigada a casar. Se tiver de assumir o compromisso de gerar filhos para minha casta, ficarei entre duas opções que me parecem igualmente cruéis: talvez gerar monstros de laran para minha casta, ou destruí-los antes de nascer em meu ventre. - Ela fez uma pausa e Allart viu-a estremecer. - Foi por isso que me tornei uma monitora, a fim de não contribuir, sem saber, para esse programa de reprodução que gerou monstruosidades em nossa raça. Agora, sabendo o que devo fazer, a coisa se tornou ainda mais insuportável. Não sou uma deusa para decidir quem viverá e quem morrerá. Talvez você e Cassandra, no final das contas, tenham adotado a decisão certa, de não gerar uma vida que depois deverão tirar.

- E enquanto esperamos por essas opções - comentou Allart, amargurado -, carregamos as baterias, a fim de que pessoas ociosas possam se divertir com seus carros aéreos e iluminar suas casas sem sujar as mãos com resina e breu, e mineramos metais para poupar os outros do trabalho árduo de tirá-los do fundo da terra, criamos armas cada vez mais terríveis para destruir vidas sobre as quais não temos nenhum direito.

Renata empalideceu:

- Oh, não! Eu não ouvi isso! Allart, a sua presciência diz que a guerra vai irromper de novo?

- Vi e falei sem pensar - murmurou Allart, fitando-a em pavor. Os sons e cenas da guerra já estavam ao seu redor, ofuscando a presença de Renata. E ele pensou: Talvez eu caia morto em batalha, sendo poupado assim de continuar a lutar com o destino ou a consciência!

- É sua guerra, não a minha - declarou Renata. - Meu pai não tem qualquer desavença com Serrais e não deve nenhuma fidelidade a Hastur; se a guerra tornar a irromper, ele me chamará, exigindo que eu volte para casa e me case. Ah, Avarra misericordiosa, estou cheia de bons conselhos sobre a maneira como você e sua esposa devem conduzir seu casamento e não tenho coragem nem sabedoria para enfrentar o meu! Gostaria de ter a sua presciência, Allart, para saber qual das muitas opções perniciosas seria a menos errada para mim.

- Isso eu poderia lhe dizer - anunciou ele, pegando-lhe as mãos por um momento. Com o gesto, o laran de Allart mostrou claramente Renata e ele cavalgando para o norte, juntos... para onde? E com que propósito? A imagem desbotou e desapareceu, substituída por um turbilhão de imagens: o vôo de uma grande ave... ou não seria uma ave? O rosto de uma criança aterrorizada, paralisada ao clarão de um relâmpago. Uma chuva de fogo viscoso caindo, uma grande torre partindo, desmoronando, desfazendo-se em escombros. O rosto de Renata iluminado pela ternura, o corpo sob o seu... Atordoado com as imagens, Allart fez um tremendo esforço para reprimir os futuros divergentes.

- Talvez seja esta a resposta! - exclamou Renata, com uma súbita violência. - Gerar monstros e deixá-los à solta sobre a nossa gente, produzir armas ainda mais terríveis, extinguir nossa raça amaldiçoada e deixar que os deuses criem outra, um povo sem essa maldição terrível e monstruosa do laran!

Depois de uma explosão, tudo ficou tão quieto que Allart podia ouvir em algum lugar os sons matutinos das aves canoras despertando, o murmúrio das ondas-nuvens pelas praias de Hali. Renata respirou fundo, o corpo tremendo todo. Mas era outra vez a monitora calma e disciplinada quando tornou a falar:

- Mas isso está muito longe do que me foi determinado que lhe dissesse. Pelo bem de nosso trabalho, você e Cassandra não devem voltar a trabalhar no mesmo círculo de matriz, até que esteja tudo acertado entre os dois; até que tenham dado e recebido seu amor e cheguem a um acordo; ou até que decidam de uma vez por todas que nunca será, e possam se tornar amigos, sem indecisões nem desejos. Por enquanto, talvez vocês possam ser postos a trabalhar em círculos diferentes; afinal, somos dezoito aqui e vocês podem operar separados. Mas se não forem embora juntos, um dos dois deve se retirar. Mesmo em círculos separados, há muita tensão entre vocês para que possam habitar juntos sob o mesmo teto. E acho que é você quem deve partir. Recebeu em Nevarsin algum ensinamento para controlar seu laran, o que já não aconteceu com Cassandra. Mas é você quem vai decidir, Allart. Nos termos da lei, o casamento o converteu no amo de Cassandra e, se quiser exercer o direito, também no guardião de sua vontade e consciência.

Ele ignorou a ironia.

- Se acha que seria benéfico para Cassandra permanecer aqui, então irei embora e ela ficará.

A desolação dominava-o. Encontrara a felicidade em Nevarsin e fora expulso, para nunca mais voltar. Agora, encontrara um trabalho útil ali, a plena posse do seu dom de laran... será que também teria de seguir adiante?

Será que não existe um lugar para mim neste mundo? Devo ser eternamente impelido, expatriado, pelos ventos das circunstâncias? E Allart achou uma graça amarga de si mesmo. Queixara-se porque seu laran lhe mostrava futuros demais, mas agora sentia-se consternado porque não via nenhum. Renata também estava tangida por opções sobre as quais não tinha nenhum controle.

- Trabalhou durante a noite inteira, prima - disse -, depois ficou para tentar resolver os problemas meus e de minha esposa, sem pensar em seu próprio cansaço.

Um sorriso brilhou no fundo dos olhos de Renata, embora não alcançasse a boca.

- Sempre me alivia pensar nos problemas dos outros, em vez dos meus.

Não sabia disso? Os fardos dos outros são mais leves em nossos ombros. Mas irei dormir agora. E você?

Allart sacudiu a cabeça.

- Não estou com sono. Talvez eu dê uma volta pelo lago, contemple os estranhos peixes ou aves, o que quer que sejam, tentando me decidir mais uma vez sobre o que são. Não posso deixar de especular: foram nossos antepassados que os criaram, em sua paixão por gerar coisas estranhas? E talvez eu encontre também um pouco de paz ao pensar em alguma coisa que não sejam os meus próprios problemas. Abençoada seja, parenta, por sua gentileza.

- Por quê? Não resolvi coisa alguma. Só lhe dei novas preocupações, mais ainda. Mas irei dormir agora e talvez sonhe com uma resposta para todos os nossos problemas. Será que existe um laran assim?

- Provavelmente - respondeu Allart -, mas com toda certeza foi concedido a alguém que não sabe como usá-lo para o seu próprio bem. É assim que tais coisas acontecem neste mundo. Caso contrário, poderíamos de alguma forma encontrar a saída para nossas preocupações e ser como a caça que consegue se esgueirar da armadilha sem ser capturada. Vá dormir, Renata. Que todos os deuses a proíbam de arcar com o fardo de nossos medos e preocupações, mesmo em sonhos.

 

Naquela noite, quando se juntou aos membros de seu círculo no salão inferior da Torre, Allart encontrou a todos falando muito excitados, os seis com que trabalhara pela manhã e todos os outros. Seus olhos fizeram contato com os de Renata, no outro lado do salão; ela estava pálida de pavor. Ele perguntou a Barak, que se achava à beira do círculo:

- O que aconteceu?

- A guerra irrompeu outra vez. Ridenow desfechou um ataque com arqueiros e flechas de fogo viscoso. O Castelo Hastur, nas Colinas Kilghard, está sitiado por carros aéreos e incendiários. Todos os homens aptos de Hastur e Aillard estão sendo chamados para combater o incêndio nas florestas ou defender o castelo. Recebemos notícias dos retransmissores em Neskaya. Arielle estava na rede esta manhã e ouviu...

- Pelos deuses do alto! - exclamou Allart. Cassandra aproximou-se e fitou-o, transtornada.

- Lorde Damon-Rafael mandará chamá-lo, meu marido? Terá de ir à guerra?

-Não sei. Passei tanto tempo no mosteiro que meu irmão pode pensar que sou pouco competente em campanha e estratégia, preferindo que outro comande os homens. - Allart ficou em silêncio, pensando: Se um de nós tem de partir, talvez seja melhor que eu vá para a guerra. Se eu não voltar, então Cassandra estará livre, encontrando a saída para este impasse irremediável. A mulher o fitava, os olhos marejados de lágrimas, mas ele manteve o rosto frio, impassível, a expressão disciplinada e impessoal do monge. E disse: - Por que não está descansando, milady? Renata falou que não se sentia bem. Não deveria permanecer deitada?

- Ouvi falar em guerra e fiquei assustada - murmurou ela, procurando por sua mão.

Mas Allart a retirou, gentilmente, e virou-se para Coryn, que declarou:

- Creio que é melhor que continue aqui, Allart. Possui a força que torna o nosso trabalho mais fácil. Como a guerra tornou a irromper, tenho certeza de que nos pedirão a produção de fogo viscoso para armas. E como vamos perder Renata...

- Como assim?

- Ela é neutra nesta guerra. O pai já comunicou pelos retransmissores que deve voltar para casa sob um salvo-conduto. Deseja que ela saia da área de combate imediatamente. Sempre lamento perder uma boa monitora, mas creio que Cassandra, com algum treinamento, pode se tornar igualmente eficiente. O trabalho de monitora não é difícil, mas Arielle é melhor como uma técnica. Acha que terá tempo, Renata, de instruir Cassandra nas técnicas de monitoração antes de sua partida?

- Tentarei - respondeu Renata.  - E ficarei aqui pelo máximo de tempo que puder. Não gostaria de deixar a Torre...

Ela olhou para Allart, desolada. Ele se lembrou do que Renata lhe dissera naquela manhã mesmo.

- Lamentarei a sua partida, parenta - murmurou ele, pegando as mãos de Renata entre as suas, gentilmente.

- Eu preferia continuar aqui. Gostaria de ser um homem como você e ter liberdade para optar.

- Ah, Renata, os homens também não são livres, não podem se recusar à guerra e aos perigos. Eu, que sou um lorde de Hastur, posso ser enviado à batalha a contragosto, como se fosse o mais insignificante dos vassalos de meu irmão.

Ficaram imóveis por um momento, de mãos dadas, alheios aos olhos de Cassandra que os observavam. Também não repararam quando ela se retirou do salão. Coryn aproximou-se.

- Vamos precisar muito de você, Renata! Lorde Damon-Rafael já nos pediu um novo suprimento de fogo viscoso e projetei uma nova arma que estou ansioso em experimentar. - Ele sentou-se descontraído na janela, alegre como se estivesse inventando um novo esporte ou jogo. - Um artefato teleguiado ligado a uma matriz para matar apenas um inimigo específico. Se mirássemos, por exemplo, para Lorde Ridenow, não adiantaria os pajens se jogarem na frente de seu corpo. E claro que teríamos de obter seu padrão de pensamento, talvez.ressonâncias de alguma roupa sua ou, melhor ainda, de jóias que usou junto do corpo. Ou pela sondagem de algum dos seus homens capturados. A arma não afetaria a mais ninguém, pois somente o padrão específico do alvo a detonaria. Voará em sua direção e apenas para ele, matando-o no instante em que atingir o alvo.

Renata estremeceu e Allart, distraído, afagou-lhe a mão.

- É muito difícil produzir o fogo viscoso - comentou Arielle. - Gostaria que pudessem encontrar uma arma melhor. Primeiro, precisamos minerar o material vermelho do fundo da terra, depois separá-lo, átomo por átomo, com uma destilação em calor elevado, o que é bastante perigoso. Da última vez em que trabalhei com isso, um dos recipientes de vidro explodiu. Por sorte, eu estava usando um traje protetor. Mas mesmo assim... - Ela estendeu a mão, mostrando uma cicatriz horrível, arredondada, uma depressão profunda na carne, antes de acrescentar: - Apenas um fragmento, um único grão, mas queimou até o osso e foi preciso cortar.

Coryn levantou sua mão até os lábios e beijou-a.

- Tem uma honrada cicatriz de guerra, preciosa. Não são muitas as mulheres que podem exibir um galardão assim. Criei recipientes que não se partirão com calor nenhum. Todos nós aplicamos um encantamento compulsivo neles, a fim de que não se espatifem, não importa o que aconteça. E mesmo que rachem ou quebrem, o encantamento os manterá intactos em sua forma, a fim de que fragmentos não voem e atinjam as pessoas nas proximidades.

- Como conseguiu? - indagou Mira.

- Foi muito fácil - respondeu Coryn. - Fixa-se o padrão com uma matriz, para que não possam assumir qualquer outra forma. Podem rachar e o conteúdo pode vazar, mas a desintegração é impossível. Se forem esmagados, os fragmentos mais cedo ou mais tarde vão cair, suavemente, já que não se pode eliminar totalmente a gravidade. Mas não voarão com força suficiente para cortar alaguém. O problema é que, para trabalhar com uma matriz de nono nível, como é indispensável para refinar o fogo viscoso, precisamos de um círculo de nove e um técnico... ou, melhor ainda, um Guardião, para manter o encantamento dos recipientes. - Coryn fez uma pausa, olhando para Allart e depois acrescentando: - Você não poderia se tornar um Guardião, com o treinamento apropriado?

- Não tenho tais ambições, parente.

- Mas isso o manteria longe da guerra - explicou Coryn, com toda franqueza. - Se isso o faz sentir-se culpado, deve se lembrar que será mais útil aqui e que haverá riscos. Nenhum de nós está a salvo de cicatrizes. Olhe... - Ele levantou as mãos, mostrando uma queimadura longa e profunda. - Fui atingido uma vez, quando um técnico vacilou. A matriz era como um carvão em brasa. Pensei que queimaria até os ossos de minhas mãos, como o fogo viscoso. Quanto ao sofrimento... ora, se vamos trabalhar em círculos de nove, noite e dia, para a fabricação de armas, também sofreremos, bem como nossas mulheres, se passarmos tanto tempo nos círculos.

Arielle corou quando os homens ao redor começaram a rir baixinho. Todos sabiam qual era a insinuação de Coryn: o principal efeito colateral do trabalho com a matriz, para os homens, era um longo período de impotência. Vendo o sorriso tenso de Allart, Coryn riu ainda mais.

- Talvez devêssemos todos ser monges, treinados para suportar isso, com frio e fome - comentou ele, ainda rindo. - Gostaria que me dissesse uma coisa, Allart. Fui informado que, ao sair de Nevarsin, você foi atacado por um artefato de fogo viscoso que explodiu... mas conseguiu evitar sua aproximação, de tal forma que a explosão ocorreu à distância. Fale-me a respeito.

Allart relatou o que podia lembrar do episódio e Coryn balançou a cabeça, solenemente.

- Pensei em fazer um míssil assim, enchendo de fogo viscoso ou material incendiário comum. Projetei um artefato que atearia fogo a uma floresta inteira, para que eles fossem obrigados a desviar combatentes para lutar contra o incêndio. E também tenho uma arma que é como as gotas de fantasia que nossos artesãos fabricam. Podem ser marteladas ou pisoteadas por animais sem se romperem, porém o mais leve contato da cauda de vidro faz com que explodam em mil fragmentos. Não podem ser prematuramente explodidas, como você fez com o artefato lançado contra seu pai, porque nada, absolutamente nada, as detonaria além dos pensamentos de quem as projetou. Não lamento o fim da trégua. Precisávamos da oportunidade de experimentar essas armas em algum lugar!

- Seria melhor se ficassem para sempre não experimentadas! - exclamou Allart, estremecendo.

- É o monge quem fala - interveio Barak. - Alguns anos serão suficientes para curá-lo dessas bobagens traiçoeiras, meu rapaz. Os usurpadores de Ridenow que atacam nosso Domínio são muitos e férteis, alguns pais chegam a ter seis ou sete filhos, todos famintos por terras e belicosos. Dos sete filhos de meu pai, dois morreram no nascimento e outro na adolescência, quando o laran aflorou. Mas me parece que é quase pior ter muitos filhos que sobrevivem até a vida adulta, pois com isso uma propriedade tem de ser dividida em fatias, a fim de sustentar a todos. Ou então é preciso se expandir, como os homens de Ridenow fazem agora, procurando novas terras para conquistar e dominar.

Coryn sorriu, sem o menor vestígio de humor.

- É verdade. Um filho é necessário, tão necessário que eles farão qualquer coisa para garantir a sobrevivência de um; mas se dois viverem, já é demais. Fui o filho mais moço e meu irmão mais velho está bastante satisfeito por eu estar aqui, como Guardião, sem interferência nos grandes eventos de nosso tempo. Seu irmão é mais afetuoso, Allart... pelo menos lhe providenciou um casamento!

- Tem razão - disse Allart. - Mas jurei apoiar sua pretensão ao trono, caso alguma coisa aconteça ao Rei Regis... que seu reinado possa ser longo.

- Seu reinado já foi longo demais - comentou um Guardião de outro círculo. - Mas não antevejo com prazer o que acontecerá quando seu irmão e o Príncipe Felix começarem a lutar pelo trono. A guerra com Ridenow já é bastante terrível, mas uma guerra entre irmãos, no Domínio Hastur, seria ainda pior.

- O Príncipe Felix é emmasca, pelo que ouvi dizer - interveio Barak. - Não creio que ele lute para manter a coroa... ovos não podem lutar com pedras!

- Ele está seguro enquanto o velho rei viver - garantiu Coryn. - Depois disso, no entanto, será apenas uma questão de tempo até que seja desafiado e denunciado. E quem teria sido subornado para que ele fosse indicado como herdeiro? Seja como for, Allart, talvez você tenha sido bastante afortunado para que seu irmão precisasse tanto de apoio a ponto de lhe encontrar uma esposa... e adorável e cativante, diga-se de passagem.

- Pensei tê-la visto aqui um momento atrás, mas agora sumiu - comentou outro Guardião.

Allart olhou ao redor, dominado subitamente por um presságio indefinido. Um grupo das mulheres mais jovens da Torre dançava numa extremidade do salão; pensara que Cassandra estava entre elas. Tornou a vê-la morta em seus braços... mas descartou a imagem como uma ilusão nascida do medo e apreensão.

- Talvez ela tenha subido para seu quarto. Renata lhe disse que ficasse na cama, pois não estava passando bem. Fiquei surpreso por ela ter descido esta noite.

- Mas ela não está no quarto - informou Renata, aproximando-se, o rosto pálido. - Para onde ela poderia ter ido, Allart? Fui indagar se ela queria que eu a instruísse para ser uma monitora, mas não a encontrei na Torre.

- Avarra misericordiosa! - Abruptamente, os futuros divergentes tornaram a desabar sobre Allart e ele soube para onde Cassandra fora. Sem dizer nada, afastou-se apressado, atravessando salas e corredores, passando pelo campo de força e deixando a Torre.

O sol, uma enorme bola escarlate, pairava como fogo nas colinas distantes, cobrindo o lago de chamas.

Ela me viu com Renata. Não toquei em sua mão, embora ela estivesse chorando; mas beijei Renata em sua presença. Apenas em amizade, como poderia confortar uma irmã, apenas porque podia tocar Renata sem a agonia do amor e culpa. Mas Cassandra viu e não compreendeu.

Ele gritou o nome de Cassandra, mas não houve resposta, apenas o murmúrio das ondas-nuvens. Allart tirou o traje externo e começou a correr. Na beira da areia viu as duas sandálias pequenas, de saltos altos, tingidas de azul, não largadas de qualquer maneira, mas alinhadas com extremo cuidado, como se Cassandra tivesse se ajoelhado ali, protelando o momento da decisão. Allart tirou as botas e correu para o lago.

As estranhas águas-nuvens o envolveram, escuras e densas, com uma sensação de nevoeiro. Ele respirou fundo, sentindo a curiosa exultação que proporcionava a princípio. Podia ver claramente, como se fosse através de uma neblina do início da manhã. Criaturas brilhantes - peixes ou aves? - passavam deslizando, as tonalidades laranjas e verdes tremeluzindo, diferentes de tudo o que já vira, exceto as luzes por trás de seus olhos quando tomara uma dose de kirian, a droga telepática que abria o cérebro... Allart sentiu os pés afundando um pouco no fundo coberto de vegetação do lago, enquanto corria.

Alguma coisa passara por ali. Os peixes-aves se concentravam, à deriva nas correntes-nuvens. Allart sentiu que os pés já não corriam tão depressa. O gás denso da nuvem começava a sufocá-lo. Soltou um grito desesperado:

- Cassandra!

A nuvem do lago não transmitiu o som; era como estar no fundo de um poço silencioso, cercado e engolfado pelo silêncio. Os peixes-aves passavam por ele, sem qualquer ruído, curiosos, as cores luminosas despertando reflexos em seu cérebro. Estava tonto, inebriado. Forçou-se a respirar, lembrando que na estranha nuvem gasosa do lago não havia o elemento que acionava o reflexo de respiração no cérebro. Tinha de respirar pela vontade e esforço; o cérebro não manteria o corpo respirando automaticamente.

- Cassandra!

Um brilho distante, tênue...

- Vá embora...

Ele não viu mais nada. Respire! Allart estava começando a cansar; a vegetação ali era mais profunda, mais densa, tinha de forçar a passagem. Respire! Aspire, expire, não se esqueça de respirar... Ele sentiu uma touceira de vegetação se enroscar no tornozelo, teve de se agachar para se desvencilhar. Respire! Forçou-se a seguir em frente, embora os peixes-aves de cores brilhantes se agrupassem ao redor, uma mancha colorida desfocada diante de seus olhos. O laran aflorou, como sempre acontecia quando se encontrava transtornado ou fatigado. Viu-se a resvalar e resvalar pelo gás e limo, deitando ali, tranqüilo e contente, sufocando na paz feliz porque esquecera de respirar... Respire! Allart fez um grande esforço para aspirar o gás úmido, lembrando a si mesmo que sustentaria a vida indefinidamente; o único perigo era esquecer de respirar. Cassandra já teria chegado a esse ponto? Ela estaria deitada, morrendo confortavelmente - uma morte sem dor, extasiada - ali no fundo do lago?

Ela queria morrer e eu sou culpado... Respire! Não pense em qualquer outra coisa agora, lembre-se apenas de respirar.

Ele se viu saindo do lago carregando Cassandra, imóvel, sem vida, os cabelos compridos caídos sobre seu braço, pretos e pingando... viu-se inclinado sobre ela, estendida na vegetação a balançar no fundo do lago, tomando-a nos braços, afundando ao seu lado... nada mais de laran, nada de problemas, nada de medo, a maldição da família encerrada para sempre.

Os peixes-aves agitavam-se ao redor. Diante de seus pés ele divisou um faiscar de azul claro, uma cor que não existia no fundo do lago. Seria a manga comprida do vestido de Cassandra? Respire... Allart inclinou-se sobre ela, levantou-a em seus braços. Cassandra estava inconsciente, desfalecida, o corpo oscilando. Respire! Respire na boca de Cassandra; é o gás na respiração expelida que aciona a respiração... Allart apertou-a em seus braços, comprimiu os lábios contra os dela, forçando a respiração em seus pulmões. Como em reflexo, Cassandra respirou, um respiro longo e profundo, para depois ficar imóvel outra vez.

Allart levantou-a e começou a carregá-la de volta pelo fundo do lago, na claridade enevoada, avermelhada agora pelo sol poente. O terror invadiu-o abruptamente: Se ficar escuro, se o sol se pôr, jamais encontrarei o caminho para a praia na escuridão. Morreremos juntos aqui. Ele inclinou a cabeça, forçando sua respiração expelida a entrar pela boca de Cassandra; sentiu-a respirar de novo. Mas o mecanismo de respiração automática desaparecera em Cassandra e ele não sabia por quanto tempo ela poderia sobreviver sem isso, mesmo com o oxigênio das respirações de reflexo que estava forçando, a cada dois ou três passos, ao expelir em sua boca. E tinha de se apressar, antes que a luz acabasse. Fez um esforço para avançar mais rápido na crescente escuridão, com Cassandra em seus braços, mas tinha de parar a cada dois ou três passos, a fim de lhe incutir a respiração vital. Se ao menos ela respirasse... se ao menos pudesse despertá-la o suficiente para que ela se lembrasse de respirar...

Os últimos passos foram como um pesadelo. Cassandra era uma mulher franzina, mas Allart também não era um homem grande. Enquanto o nevoeiro-nuvem se tornava menos denso, ele abandonou qualquer tentativa de carregá-la e passou a arrastá-la, abaixado e segurando-a pelos ombros, ainda parando a cada dois ou três passos para forçar a respiração em seus pulmões. A cabeça de Allart finalmente aflorou no ar e ele ofegou, ouvindo o ar entrar e sair dos pulmões de forma ruidosa. Com um esforço final, levantou Cassandra e manteve-a com a cabeça acima da nuvem, cambaleando para a praia como se estivesse embriagado e indo arriar junto com ela sobre a relva. Ficou respirando na boca de Cassandra, comprimindo-lhe as costelas, até que, após várias respirações, ela estremeceu e ofegou, deixou escapar um estranho gemido, não muito diferente do grito de uma criança recém-nascida quando os pulmões se enchem na primeira respiração. E, depois, ele a ouvia respirar normalmente outra vez. Cassandra permanecia inconsciente, mas logo, na escuridão que se adensava, ele sentiu seus pensamentos entrarem em contato. E ela sussurrou, ainda débil:

- É você, Allart?

- Estou aqui, minha amada.

- Sinto frio.

Allart pegou a roupa que havia tirado e cobriu-a. Abraçou-a, murmurando palavras de carinho.

- Preciosa... bredhiva... meu tesouro, minha querida, por que... como... pensei que a tinha perdido para sempre. Por que queria me deixar?

- Deixar você? Não... Mas estava tão quieto no lago e tudo o que eu queria era ficar ali para sempre, sem ter mais medo, sem chorar mais. Pensei que podia ouvir você me chamando, mas estava tão cansada... Deitei para descansar um pouco e me descobri exausta, não conseguia levantar. Parecia que não podia também respirar e tive medo... e depois você apareceu... mas eu sabia que não me amava.

- Não amar você? Não querer você? Cassandra...

Allart descobriu que não podia falar mais nada. Aconchegou-a, beijou-a nos lábios frios.

Momentos depois, tornou a levantá-la em seus braços e levou-a para a Torre, passando pelo salão inferior. Os outros membros dos círculos de matriz, reunidos ali, observaram com choque e espanto, mas havia alguma coisa nos olhos de Allart que os impediu de falarem ou se aproximarem do casal. Ele sentiu Renata observando-os, sentiu a curiosidade e o horror de todos. Por um instante, sem pensar a respeito, viu-se como devia parecer aos olhos dos outros, encharcado e sujo, sem botas. Os trajes encharcados de Cassandra molhavam o manto com que a envolvera, os cabelos compridos e escuros pingavam, com fragmentos de vegetação emaranhados. Diante da sombria concentração em seu rosto, todos recuaram para lhe dar passagem. Allart subiu a escada, seguindo não para o quarto em que ela dormira desde que haviam chegado ali, mas sim para o seu próprio quarto.

Ele fechou e trancou a porta, depois foi se ajoelhar ao lado de Cassandra, tirando as roupas encharcadas com as mãos trêmulas, envolvendo-a com seus cobertores. Ela estava imóvel como a morte, o rosto pálido contra o travesseiro, os cabelos úmidos espalhando-se ao redor.

- Não - balbuciou Cassandra. - Você vai deixar a Torre e nem mesmo me disse. Senti que seria melhor morrer do que ficar aqui sozinha, com todos os outros escarnecendo de mim, sabendo que sou casada mas não esposa, que você não me amava nem me queria.

- Não amar você? - Allart tornou a sussurrar. - Eu amo você como meu abençoado antepassado amou a filha de Robardin nas praias de Hali, há muitos séculos. Não querer você, Cassandra?

Ele a abraçou, cobrindo-a de beijos. Sentiu que seus beijos lhe incutiam vida, assim como sua respiração lhe dera vida nas profundezas do lago. Ele estava quase além do pensamento, além de se lembrar do compromisso que ambos haviam assumido. Mas um pensamento final e desesperado insinuou-se em sua mente antes que puxasse as cobertas para o lado.

Nunca poderei deixá-la partir, não agora. Avarra misericordiosa, tenha piedade de nós!

 

Allart estava sentado ao lado de Cassandra, contemplando seu rosto adormecido. Fisicamente, ela não se encontrava em condição pior por causa da experiência no lago. Mesmo agora, ele não tinha certeza se fora uma genuína tentativa de suicídio ou apenas um impulso nascido da infelicidade profunda, agravado pela doença e exaustão. Mas quase não saíra de seu lado em todos os dias desde que havia acontecido. Estivera tão perto de perdê-la!

Os outros na Torre deixaram os dois entregues a si mesmos. Como sabiam antes da verdadeira situação entre ele e Cassandra, Allart tinha a impressão de que haviam percebido que a mudança ocorrera, mas parecia não ter a menor importância.

Allart sabia que agora, assim que Cassandra pudesse deixar a cama, seria preciso tomar uma decisão. Ele deveria deixar a Torre e levá-la, mandando-a para um lugar seguro (pois se estavam fabricando armas ali, a Torre também seria atacada), ou deveria partir sozinho, deixando-a ali para o treinamento de laran que sabia ser indispensável?

Mas, com insistência, seu próprio laran lhe oferecia visões de uma cavalgada para o norte, com Renata ao seu lado. A ausência de Cassandra nessas visões o assustava. Oque lhe aconteceria?

Via estranhos estandartes erguidos, guerra, o confronto de espadas, a explosão de estranhas armas, fogo, morte. Talvez assim seja melhor para nós dois...

Descobriu ser impossível manter a calma disciplinada que aprendera em Nevarsin. Cassandra estava sempre presente em sua mente, os pensamentos e emoções tão hipersensíveis a ela quanto o corpo.

Rompera o juramento que haviam feito um ao outro.

Depois de sete anos em Nevarsin, ainda sou fraco, ainda sou tangido pelos sentidos e não pela mente. Eu a tomei sem pensar, como se ela fosse uma das garotas de prazer do velho Dom Marius.

Allart ouviu a batida leve na porta, mas já sabia, antes mesmo que se registrasse em seus ouvidos: chegara o momento. Ele inclinou-se e beijou a mulher adormecida com um senso angustiado de despedida, depois foi até a porta e abriu-a, uma fração de segundo depois da batida, deixando Arielle surpresa.

- Allart - sussurrou ela -, seu irmão, Lorde Elhalyn, está lá embaixo, na Sala dos Estranhos, querendo falar com você. Ficarei com sua esposa.

Allart desceu para a Sala dos Estranhos, o único lugar da torre em que se permitia o acesso de forasteiros. Damon-Rafael lá estava, o pajem silencioso e imóvel atrás.

- Sua presença nos honra, irmão. Em que posso servi-lo?

- Já soube do fim da trégua?

- Então veio me chamar para as armas? Damon-Rafael soltou uma risada desdenhosa.

- Acha mesmo que eu viria pessoalmente para isso? Seja como for, você me serviria melhor aqui. Não tenho muita fé, depois de tantos anos na reclusão monacal, em sua capacidade com as armas. Não é isso, irmão. Tenho outra missão para você, se quiser aceitá-la.

Allart precisou de toda a disciplina adquirida com tanto esforço para se manter em silêncio diante do escárnio, limitando-se a murmurar que estava à disposição do irmão e senhor.

- Já habitou além do Kadarin. Alguma vez viajou às terras de Aldaran, perto de Caer Donn?

- Nunca. Estive apenas em Ardais e Nevarsin.

- Mesmo assim, deve saber que o clã de lá está se tornando cada vez mais poderoso. Possui o Castelo Aldaran, em Caer Donn, além do Saint Scarp, em Scathfell; e mantém alianças com todos os outros, com Ardais, Darriel e Storn. São da família Hastur, mas Lorde Aldaran não compareceu à minha elevação como senhor de Elhalyn, e há muitos anos não aparece no festival de verão em Thendara. Agora, com a guerra voltando a irromper, ele é como um grande gavião em seu ninho na montanha, pronto para atacar nas Terras Baixas quando estivermos abalados pela luta e não pudermos mais resistir. Se todos os que devem fidelidade a Aldaran nos atacassem ao mesmo tempo, a própria Thendara não poderia agüentar. Posso prever um dia em que todos os Domínios, de Dalereuth às Colinas Kilghard, estarão sob o controle de Aldaran.

- Não sabia que tinha a presciência, irmão. Damon-Rafael sacudiu a cabeça, num gesto rápido e impaciente.

- Presciência? Não é preciso nada disso! Quando parentes brigam, os inimigos se interpõem para aumentar o abismo que os separa. Estou tentando negociar outra trégua... de nada nos adianta deixar a terra em chamas... mas não é fácil, com nossos primos do Castelo Hastur sitiados. Nossas aves-mensageiras estão voando noite e dia com mensagens secretas. Além disso, também tenho leroni trabalhando na transmissão de mensagens, mas é claro que não podemos lhes confiar nada que seja muito secreto. O que uma sabe, todas sabem, por causa do laran. Agora, vamos ao serviço que vim lhe pedir, irmão.

- Estou escutando.

- Há muito tempo que um Hastur não envia um parente em missão diplomática a Aldaran. Mas precisamos estabelecer a ligação. Os Storns possuem terras a oeste de Caer Donn, perto de Serrais, no outro lado das colinas. Poderiam achar que lhes seria útil uma aliança com Ridenow neste momento. Se isso acontecesse, todas as alianças das Hellers poderiam ser atraídas para a guerra. Acha que poderia persuadir Lorde Aldaran a se manter neutro nesta guerra, junto com seus vassalos? Não creio que ele aderisse a nosso lado, mas pode estar disposto a permanecer completamente de fora. Você possui o ensinamento de Nevarsin e conhece a língua das Hellers. Poderá fazer isso por mim, Allart, tentar evitar a participação de Mikhail, Lorde Aldaran, nesta guerra?

Allart estudou o rosto do irmão. Parecia uma missão muito simples. Damon-Rafael tramava alguma traição ou queria apenas afastar Allart, a fim de que os Hasturs de Elhalyn não tivessem lealdades divididas entre os irmãos?

- Estou à sua disposição, Damon-Rafael, mas pouco sei desse tipo de diplomacia.

- Levará cartas minhas e escreverá despachos secretos, que enviará através das aves-mensageiras. Escreverá despachos abertos, que espiões dos dois lados com toda certeza verão, mas também escreverá os secretos, com uma tranca de matriz, que somente eu poderei abrir ou ler. Não pode encontrar uma tranca encantada, a fim de que as mensagens sejam destruídas se outros olhos as virem?

- É bastante simples. - Allart podia agora compreender. Não devia haver muitas pessoas a quem Damon-Rafael pudesse confiar o padrão singular de seu corpo e cérebro para fazer uma tranca de matriz; uma tranca assim era um instrumento muito usado por assassinos, enviando um artefato como o mencionado por Coryn.

Então sou uma das duas ou três pessoas vivas a quem Damon-Rafael confiará esse poder sobre ele; porque prestei o juramento de defendê-lo e a seus filhos.

- Já providenciei tudo para que você tenha uma cobertura na missão - acrescentou Damon-Rafael. - Capturamos um enviado de Aldaran, temendo que ele tivesse sido enviado para comunicar o apoio a Ridenow. Mas o mensageiro, quando a minha leronis sondou-o no sono, disse que cumpria uma missão pessoal para Lorde Aldaran. Não estou a par de todos os detalhes, mas sei que não têm nada a ver com a guerra. Sua memória foi esvaziada com matriz. Quando ele falar com seu Guardião, o que deverá acontecer muito em breve, não saberá sequer que foi capturado ou muito menos sondado. Já acertei com nosso primo Coryn que você estará ostensivamente no comando da bandeira de trégua que escoltará o mensageiro de Aldaran para o norte, até Kadarin. Ninguém vai notar se você simplesmente continuar em frente, até Aldaran. É uma missão satisfatória para você?

Que opção eu tenho? Mas há dias que já sei que deveria seguir para o norte; apenas não sabia que iria para Aldaran. E o que Renata tem a ver com isso? Mas, em voz alta, ele limitou-se a dizer a Damon-Rafael:

- Parece que já pensou em tudo.

- Ao pôr-do-sol, meu pajem estará aqui com os documentos que o credenciarão como meu embaixador, instruções para enviar mensagens e acesso às aves-mensageiras. - Ele se levantou. - Se quiser, farei uma visita de cortesia à sua esposa. Todos devem pensar que esta é uma visita familiar, sem qualquer propósito secreto.

- Eu lhe agradeço, mas Cassandra não tem passado bem e está de cama. Mas transmitirei os seus cumprimentos respeitosos.

- Está certo, Allart. Mas creio que não há motivo para lhe enviar congratulações, já que você decidiu residir com ela aqui na Torre. Não acredito que ela já esteja carregando um filho seu.

Não agora, talvez nunca... Allart sentiu outra vez o ímpeto de desolação. Mas disse apenas:

- Tem razão, ainda não tivemos essa felicidade.

Damon-Rafael não tinha como saber a verdadeira situação entre ele e Cassandra, não podia conhecer o juramento que haviam feito um ao outro ou as circunstâncias em que fora rompido. Estava apenas dando um palpite no escuro. Não havia necessidade de desperdiçar ira com a malícia do irmão, mas mesmo assim Allart ficou irritado.

Apesar disso, estava obrigado a obedecer a Damon-Rafael como o senhor de Elhalyn. Também não podia esquecer que a posição de Damon-Rafael era correta. Se os nortistas das Hellers entrassem na guerra, haveria devastação e desastre.

Eu deveria me sentir grato, refletiu Allart, porque os deuses me ofereceram uma maneira tão honrosa de servir nesta guerra. Se conseguir persuadir os Aldarans a se manterem neutros, estarei servindo aos vassalos de Hastur.

Quando Damon-Rafael preparava-se para partir, Allart disse:

- Eu lhe agradeço, irmão, com sinceridade, por me confiar esta missão. - As palavras eram tão sinceras que Damon-Rafael ficou surpreso. Havia algum afeto no abraço que ele deu em Allart. Os dois nunca seriam amigos, mas naquele momento estiveram mais próximos disso do que em qualquer outra ocasião anterior... e Allart refletiu, tristemente, que um instante assim nunca mais se repetiria.

Mais tarde, naquela noite, ele foi chamado outra vez à Sala dos Estranhos. Imaginou que iria se encontrar com o enviado de Damon-Rafael, trazendo os salvo-condutos e despachos.

Coryn esperava-o no lado de fora da porta.

- Allart, você fala as línguas das Hellers?

Allart acenou com a cabeça, especulando se Damon-Rafael tomara Coryn em sua confiança e por qual razão.

- Mikhail de Aldaran nos enviou um mensageiro - disse Coryn. - Acontece que seu domínio de nossa língua é precário. Pode conversar com ele em sua própria língua?

- Claro.

Allart pensou: Não é o enviado de Damon-Rafael, mas sim o mensageiro de Aldaran. Damon-Rafael disse que sua mente foi sondada. Acho isso injusto, mas estamos em guerra.

Assim que entrou na Sala dos Estranhos, acompanhando Coryn, ele reconheceu o mensageiro. Seu laran já o mostrara várias vezes, embora Allart nunca soubesse o motivo; um rosto jovem, de cabelos escuros, fitando-o com uma cordialidade hesitante. Allart cumprimentou-o na língua formal das Hellers.

- Você nos honra com sua presença, siarbainn - disse ele, com a inflexão especial que fazia com que a palavra arcaica para estranho significasse amigo-ainda-desconhecido. - Em que posso servi-lo?

O jovem levantou-se e fez uma mesura.

- Sou Donal Delleray, filho de criação e pajem de Mikhail, Lorde Aldaran. Trago suas palavras, não as minhas, aos vai leroni da Torre de Hali.

- Sou Allart Hastur de Elhalyn. Este é meu parente e primo, Coryn, tenerézu de Hali. Pode falar livremente.

Ele pensou: Com toda certeza, é mais do que coincidência que Aldaran envie um mensageiro no momento em que meu irmão formula seu plano. Ou será que ele calculou tudo para se ajustar à chegada do mensageiro? Que os deuses me dêem forças... estou vendo conspirações e contraconspirações em toda parte!

Donal disse:

- Primeiro, vai domyn, devo apresentar o pedido de desculpas de Lorde Aldaran por me enviar em seu lugar. Ele não hesitaria em vir como suplicante, mas está velho e não tem muitas condições de suportar a longa viagem desde Aldaran. Além disso, posso viajar mais depressa. Pretendia chegar aqui em oito dias, mas parece que perdi um dia no caminho.

Damon-Rafael e sua maldita sondagem da mente, pensou Allart. Mas ele não disse nada, ficou esperando que Donal definisse o seu pedido.

- Temos todo prazer em prestar uma cortesia a Lorde Aldaran - interveio Coryn. - O que ele deseja?

- Lorde Aldaran me manda dizer que sua filha, sua única criança viva e herdeira, está amaldiçoada com um laran como nunca se conheceu antes. A idosa leronis que cuidava da criança desde o nascimento não sabe mais o que fazer. A criança se encontra numa idade em que o pai teme que a doença do limiar possa destruí-la. Por isso, vem como suplicante perguntar aos vai leroni se conhecem alguém que cuide dela durante essas estações cruciais.

Não era uma novidade que uma leronis treinada numa Torre fosse orientar e cuidar de um jovem herdeiro durante os anos conturbados da adolescência, quando a doença do limiar ceifava de forma tão terrível os filhos e filhas de sua casta. Um laranzu da Torre Ardilinn fora o primeiro a aconselhar Allart a procurar refúgio em Nevarsin. E, refletiu Allart, se Aldaran ficasse devendo tal serviço a Hali, certamente se mostraria mais disposto a se abster de irritar Elhalyn pela participação na guerra.

- Os Hasturs de Elhalyn e aqueles que os servem na Torre de Hali terão o maior prazer em servir a Lorde Aldaran nessa questão. - Allart perguntou depois a Coryn, em sua própria língua: - A quem podemos enviar?

- Pensei que você iria - respondeu Coryn. - Não parece muito ansioso em permanecer e se envolver nesta guerra.

- E eu irei, a pedido de meu irmão, em missão sua. Mas não é conveniente que um laranzu assuma o treinamento de uma donzela. Ela precisa de uma mulher para orientá-la.

- O problema é que não posso dispensar ninguém. Agora que vou perder Renata, precisarei de Mira para ser a monitora. E Cassandra ainda não está preparada para sequer ser monitora, muito menos para realizar esse tipo de trabalho, o de ensinar uma garota a controlar seu dom.

- E Renata não poderia cumprir essa missão? - indagou Allart. - Parece-me que isso a afastaria da zona de combate, voltando para Neskaya.

- Tem razão, Renata é a escolha óbvia. Mas ela não vai mais para Neskaya. Ainda não soube? - Coryn respondeu à própria pergunta: - Claro que não podia saber. Estava cuidando de Cassandra e não tomou conhecimento da notícia. Dom Erlend Leynier comunicou que ela não deve ir mais para a Torre Neskaya, seguindo em vez disso para casa, a fim de casar. O casamento já foi adiado duas vezes. Não creio que ela queira adiá-lo mais uma vez, viajando para um canto das Hellers, esquecido dos deuses, só para ensinar a alguma garota descalça das montanhas a controlar seu laran!

Allart olhou para o jovem Donal, apreensivo. Ele teria ouvido o comentário insultuoso? Mas Donal, como um mensageiro correto, olhava fixamente para a frente, dando a impressão de não ouvir nem ver coisa alguma que não tivesse uma relação direta com sua pessoa. Se ele conhecia o suficiente da língua das Torres Baixas para compreender as palavras de Coryn ou se possuía bastante laran para ler seus pensamentos, era algo que nem Allart nem Coryn jamais saberiam.

- Não creio que Renata esteja com tanta pressa de casar - comentou Allart.

Coryn soltou uma risada.

- Tenho a impressão de que é você quem não está querendo que ela case depressa, primo. - Percebendo o brilho de raiva nos olhos de Allart, ele se apressou em acrescentar: - Eu estava brincando, primo. Diga ao jovem Delleray que perguntaremos à damisela Renata Leynier se ela está disposta a fazer a viagem para o norte.

Allart repetiu as frases formais para Donal, que fez outra mesura e disse:

- Comunique à vai domna que Mikhail, Lorde Aldaran, não lhe pediria que prestasse esse enorme serviço sem qualquer recompensa. Em gratidão, ela receberá um dote como se fosse sua filha mais jovem, quando chegar o momento de seu casamento.

- É uma grande generosidade - murmurou Allart.

E era mesmo. O uso do laran não podia ser comprado ou vendido como um serviço comum; a tradição estipulava que só devia ser usado a serviço da casta ou clã, não podia ser alugado. Esse era o acordo geral. Os Leyniers eram ricos, mas não tanto quanto os Aldarans; aquilo daria a Renata o dote de uma princesa.

Depois de mais algumas cortesias, eles conduziram o jovem Donal a um aposento, onde aguardaria os acertos finais. Coryn disse, pesaroso, quando ele e Allart passavam pelo campo de força, entrando na parte principal da Torre:

- Talvez eu devesse ter arrumado essa viagem para Arielle. Ela é uma Di Asturien, mas é também uma nedestro e praticamente não tem dote. Mesmo que meu irmão me desse permissão para casar, o que não é provável, não me deixaria casar com uma moça pobre. - Ele riu, amargurado, antes de acrescentar: - Mas não faria a menor diferença... mesmo que ela tivesse como dote as jóias de Carthon, um Hastur de Carcosa não poderia casar com uma nedestro de Di Asturien; e se Arielle tivesse um dote assim, o pai, com toda certeza, a ofereceria a outro e eu acabaria perdendo-a.

- Você já deveria ter casado há muito tempo - comentou Allart.

Coryn deu de ombros.

- Meu irmão não está interessado em que eu tenha um herdeiro. Tenho bastante laran e já gerei meia dúzia de filhos para o amaldiçoado programa de reprodução, com várias mulheres. Mas não me dei ao trabalho de ver os bebês, embora me dissessem que todos possuem laran. É melhor não me afeiçoar muito, pois sei que todas as tentativas de transmitir o dom de Hastur aos Aillards ou Ardais acabaram com a morte das crianças na doença do limiar. É terrível para as mães, mas não tenho a menor intenção de me deixar dominar pela consternação.

- Como podem aceitar essa situação com tamanha despreocupação?

Por um momento, a máscara da indiferença se rompeu e Coryn fitou-o com uma angústia profunda.

- O que mais posso fazer, Allart? Nenhum filho de Hastur leva uma vida que possa chamar de sua, enquanto as leroni desse maldito serviço de reprodução que classificam como nossa casta promovem todos os casamentos e até supervisionam a geração de bastardos. Mas nem todos somos como você, capazes de suportar a vida de um monge! - No instante seguinte, ele voltou a se mostrar impassível. - Mas, no final das contas, não é tão desagradável assim o dever para com o meu clã. Enquanto estou aqui, como Guardião, há muitas ocasiões em que não sou de utilidade para qualquer mulher, o que é quase a mesma coisa que ser um monge... Arielle e eu estamos dispostos a aproveitar tudo o que pudermos quando a ocasião permitir. Não sou como você, um romântico procurando um grande amor. - Coryn disse as últimas palavras em tom defensivo, depois virou o rosto e perguntou: - Vai perguntar a Renata se ela quer ir ou prefere que eu cuide disso?

- Fale você com ela.

Allart já sabia o que ela diria, sabia que viajariam juntos para o norte. Vira isso muitas vezes; não havia como evitar.

Mas também seria inevitável que ele amaria Renata, esquecendo seu amor, sua honra e seu juramento a Cassandra?

Eu nunca deveria ter deixado Nevarsin, refletiu Allart. Seria preferível que tivesse me lançado do penhasco mais alto antes de permitir que me forçassem a partir!

 

Renata hesitou à porta do quarto, mas depois, sabendo que Cassandra estava consciente de sua presença, entrou sem bater. Cassandra se levantara, embora ainda parecesse muito pálida e exausta. Tinha um trabalho de bordado nas mãos e fazia pontos pequenos e precisos na pétala de uma flor. Mas quando Renata olhou para o trabalho, Cassandra corou e largou-o.

- Sinto-me envergonhada por perder tempo num passatempo tão tolo e feminino.

- Por que, Cassandra? Também fui ensinada a nunca permitir que minhas mãos se mantivessem ociosas, para que a mente não se ocupasse com meus próprios problemas e angústias. Mas é verdade que meus pontos nunca foram tão bons como os seus. Está se sentindo melhor agora?

Cassandra suspirou.

- Estou, sim. Acho que posso voltar a trabalhar com vocês. Acho...

Renata, a própria empatia, soube que a garganta de Cassandra se fechou, incapaz de pronunciar as palavras. Acho que todos sabem o que tentei fazer; e todos me desprezam...

- Nenhum de nós sente qualquer coisa por você que não simpatia; e pesar porque se sentiu tão infeliz aqui e ninguém tentou lhe falar ou aliviar seu sofrimento - comentou Renata, gentil.

- Mas ouço murmúrios ao meu redor e não posso entender o que está acontecendo. O que escondem de mim, Renata? O que estão evitando me dizer?

- Já sabe que a guerra irrompeu de novo.

- Allart vai à guerra! - Era um grito de angústia. - E ele não me contou nada!

- Se ele hesitou em lhe falar, chiya, é apenas porque receia que possa se deixar dominar outra vez pelo desespero e agir de maneira precipitada.

Cassandra baixou os olhos; por mais gentis que fossem as palavras, eram uma censura e bem merecida.

- Isso não vai mais acontecer. Não agora.

- Allart não vai à guerra, Cassandra. Em vez disso, está sendo enviado para fora da zona de combate. Chegou um mensageiro de Caer Donn e Allart vai escoltá-lo, sob uma bandeira de trégua. Lorde Elhalyn mandou-o em alguma missão junto ao povo das montanhas.

- E irei com ele?

Cassandra prendeu a respiração, um rubor de alegria espalhando-se por seu rosto, o que fez com que Renata relutasse em continuar. Mas ela acabou dizendo:

- Não, prima. Esse não é o seu destino agora. Deve permanecer aqui. Precisa muito do treinamento que podemos lhe oferecer, a fim de controlar seu laran, para que nunca mais se sinta tão desesperada. E, como vou deixar a Torre, será necessária aqui como monitora. Mira começará a instruí-la imediatamente.

- Eu, uma monitora? Jura?

- É verdade. Já trabalhou por tempo suficiente no círculo para que conheçamos seu laran e seus talentos. Coryn disse que você será uma monitora de grande competência. E será necessária muito em breve. Com a partida de Allart e a minha, não haverá aqui trabalhadores em quantidade suficiente para formar dois círculos e ainda menos monitoras treinadas.

- Ah... - Cassandra ficou em silêncio por um momento. - Seja como for, meu fardo é mais fácil que o de outras mulheres do meu clã, que nada têm para fazer além de ver os maridos partirem para a batalha e talvez a morte. Tenho um trabalho útil a realizar aqui e Allart não precisa temer por me deixar com criança. - Ela fez uma pausa e depois acrescentou, respondendo à expressão inquisitiva de Renata: - Estou envergonhada, Renata. Provavelmente você não sabe... Allart e eu assumimos um compromisso, de que nosso casamento não seria consumado. E eu... eu o tentei a romper esse juramento.

- Cassandra, Allart não é uma criança ou um rapaz inexperiente. É um homem adulto, perfeitamente capaz de tomar essa decisão. - Renata reprimiu um impulso de rir. - Duvido que ele se sinta elogiado pela sugestão de que você o seduziu contra sua vontade.

Cassandra ficou vermelha.

- Mas se eu fosse mais forte, se fosse capaz de dominar minha infelicidade...

- Está feito e não pode mais ser remediado, Cassandra; nem todos os ferreiros nas forjas de Zandru podem consertar um ovo quebrado. Agora, você deve apenas olhar para a frente. Talvez seja até melhor que Allart a deixe por algum tempo. Assim, os dois terão a oportunidade de decidir o que desejam fazer no futuro.

Cassandra sacudiu a cabeça.

- Como eu poderia tomar sozinha uma decisão que envolve a nós dois? Cabe a Allart dizer o que virá depois. Ele é meu marido e meu senhor!

Renata ficou subitamente irritada.

- É essa atitude que levou as mulheres à situação em que se encontram agora nos Domínios! Em nome da abençoada Cassilda, criança, ainda pensa em si mesma apenas como uma reprodutora de filhos e um brinquedo sensual? Desperte, criança! Acha que é apenas por isso que Allart a deseja?

Cassandra piscou, aturdida.

- O que mais eu sou? O que mais qualquer mulher pode ser?

- Você não é uma mulher! - exclamou Renata, furiosa. - Não passa de uma criança! Cada palavra sua deixa isso evidente! Preste atenção ao que vou dizer, Cassandra. Primeiro, você é um ser humano, uma descendente dos deuses, uma filha de seu clã, possuindo laran. Acha que tem isso apenas para poder transmitir a seus filhos? Trabalha num círculo de matriz e muito em breve será uma monitora. Pensa sinceramente que não é bastante boa para Allart em qualquer outra coisa que não seja partilhar sua cama e lhe dar filhos? Pelos deuses lá em cima, criança, isso ele poderia ter de uma concubina ou uma riyachiya...

As faces de Cassandra estavam cobertas por um vermelho furioso.

- Não é apropriado falar sobre essas coisas!

- Mas apenas fazê-las? - reagiu Renata, veemente. - Os deuses nos criaram como criaturas pensantes. Acha que tencionavam que as mulheres fossem apenas animais de reprodução? Se é esse o caso, por que temos cérebros e laran, línguas para expressar nossos pensamentos, em vez de recebermos apenas rostos bonitos, órgãos sexuais e ventres para gerar nossos filhos e seios para amamentá-los? Acredita que os deuses não sabiam o que estavam fazendo?

- Nem mesmo acredito que existam deuses!

A amargura na voz de Cassandra era tão intensa que a raiva de Renata se desvaneceu. Ela também experimentara aquele tipo de amargura; e ainda não estava completamente livre. Passou os braços pela outra moça e disse, ternamente:

- Prima, você e eu não temos razão para discutir. Ainda é jovem, não sabe de muita coisa. À medida que aprender, talvez passe a pensar de maneira diferente sobre o que você é, dentro de si mesma... não apenas como a esposa de Allart. Algum dia talvez possa ser a guardiã de sua própria vontade e consciência, sem transferir para Allart as decisões por ambos, sem atribuir a ele o fardo por seus pesares, além dos próprios.

- Nunca pensei nisso - murmurou Cassandra, escondendo o rosto no ombro de Renata. - Se eu fosse mais forte, não teria lhe acrescentado esse fardo. Incuti-lhe o sentimento de culpa por minha própria infelicidade, que me levou ao lago. Mas ele fazia apenas o que achava que devia. Será que me ensinarão aqui a ser forte, Renata? Tão forte quanto você?

- Espero que mais forte, chiya.

Renata beijou-a na testa, mas seus pensamentos eram sombrios. Estou cheia de bons conselhos para ela, mas não sou capaz de cuidar de minha própria vida. Pela terceira vez, agora, fujo do casamento, partindo para essa missão desconhecida em Aldaran, para ajudar uma garota que não conheço e com quem não me importo. Deveria ficar aqui e desafiar meu pai, não fugir para Aldaran, a fim de ajudar uma garota desconhecida a usar o laran que seus antepassados insensatos projetaram em sua mente e corpo! O que essa garota significa para mim, a ponto de eu negligenciar minha própria vida só para ajudá-la a adquirir o controle da sua?

Contudo, ela sabia que tudo fora determinado pelo que era - uma leronis, nascida com o talento e bastante afortunada para receber treinamento na Torre para dominá-lo. Assim, a honra lhe impunha fazer o que pudesse para ajudar outras pessoas, menos afortunadas, a controlar o laran indesejável, que não haviam pedido. Cassandra estava calma quando disse:

- Allart não vai embora sem se despedir de mim, não é mesmo?

- Claro que não, criança. Coryn já lhe deu permissão para se retirar do círculo e assim poderão passar juntos, na despedida, esta última noite sob o mesmo teto.

Ela não disse que acompanharia Allart na viagem para o norte; caberia a ele contar isso, no momento que julgasse mais oportuno, a sua maneira. Renata limitou-se a acrescentar:

- Seja como for, do jeito como está a situação entre vocês dois agora, um dos dois deve partir. Sabe que deve permanecer apartada e casta quando começar o trabalho sério no círculo.

- Não posso compreender, Renata. Coryn e Arielle...

- ... trabalham juntos no círculo há mais de um ano, conhecem os limites do que é permitido e o que é perigoso. Chegará o dia em que vocês também saberão, mas no momento seria difícil recordar ou manter esses limites. Esse é o seu momento de aprender, sem distrações, e Allart seria... - Ela sorriu, maliciosamente. - ... uma distração. Ah, os homens! Não podemos viver em paz com eles... e também não podemos viver sem eles!

O riso de Cassandra foi momentâneo. Depois, o rosto voltou a se convulsionar no choro.

- Sei que tudo o que você diz é verdade, mas mesmo assim não suporto a idéia de Allart me deixar. Nunca esteve apaixonada, Renata?

- Não, não como você está pensando, chiya.

Renata manteve Cassandra abraçada, engolfada por seu laran de empatia, angustiada pelo sofrimento da outra mulher, que soluçava desamparada contra seu peito.

- O que posso fazer, Renata? O que posso fazer?

Renata sacudiu a cabeça, olhando desolada para o espaço. Algum dia saberei o que é amar assim? Quero saber ou será que um amor desse tipo não passa de uma armadilha em que as mulheres caem por sua livre e espontânea vontade, a tal ponto que não têm mais forças para governar suas próprias vidas? Foi assim que as mulheres do Comyn se tornaram apenas geradoras de filhos e brinquedos sensuais? Mas a angústia de Cassandra era bastante real para ela. Renata finalmente disse, hesitante, inibida diante das profundezas das emoções da outra mulher:

- Pode fazer com que seja impossível para ele deixá-la, prima, se lamentar desse jeito. Ele ficaria apreensivo por você, culpado pelo pensamento de largá-la em tamanho desespero.

Cassandra fez um esforço para controlar os soluços e disse:

- Tem razão. Não devo aumentar o sentimento de culpa e angústia de Allart com meus problemas. Não sou a primeira nem serei a última esposa de um Hastur que vê o marido partir sem saber quando ou se algum dia ele voltará. Mas sua honra e o sucesso da missão de que foi incumbido estão em minhas mãos. Não é uma carga leve. Mas... - Ela empinou o queixo, numa expressão obstinada. - ...encontrarei a força necessária para despachá-lo; se não com alegria, pelo menos tentarei fazer com que ele parta sem sentir medo por mim.

Foi um grupo pequeno que seguiu para o norte, saindo de Hali no dia seguinte. Donal, como suplicante, viera sozinho. Allart levava apenas o porta-bandeira, a que tinha direito como herdeiro de Elhalyn, e o mensageiro com a bandeira de trégua; nem mesmo levava um único servo pessoal. Renata também dispensara as criadas, alegando que em tempo de guerra não havia necessidade de respeitar tal etiqueta; levava apenas sua aia Lucetta, que a servia desde a infância. Teria dispensado até mesmo essa companhia, se não fosse inadmissível que uma mulher solteira dos Domínios viajasse sem uma acompanhante feminina.

Allart foi avançando em silêncio, apartado dos outros, atormentado pela lembrança de Cassandra no momento da separação, os olhos adoráveis marejados de lágrimas, que lutara tão bravamente para não derramar em sua presença. Pelo menos ele não a deixara grávida; até agora, os deuses haviam sido misericordiosos.

Se é que existiam deuses e se é que se importavam com o que acontecia à humanidade...

Podia ver Renata à frente, conversando animadamente com Donal. Pareciam muito jovens. Allart sabia que era apenas três ou quatro anos mais velho do que Donal, mas tinha a impressão de que nunca fora tão jovem assim. Contemplando o que será, o que pode ser, o que talvez nunca aconteça, parece que vivi uma vida inteira ao final de cada dia. Ele invejava o rapaz.

Estavam atravessando uma terra com os sinais de devastação da guerra: campos enegrecidos, com os vestígios do fogo, casas sem telhados, fazendas abandonadas. Encontraram tão poucos viajantes pelo caminho que depois do primeiro dia Renata nem mesmo se deu ao trabalho de manter o capuz do manto recatadamente puxado sobre o rosto.

Houve uma ocasião em que um carro aéreo voou baixo sobre eles; circulou, baixou ainda mais para inspecioná-los, depois fez a volta e voou para o sul. O homem com a bandeira de trégua foi para o lado de Allart.

- Com ou sem bandeira de trégua, vai dom, eu gostaria que tivesse concordado com uma escolta. Aqueles miseráveis de Ridenow podem achar que não são obrigados a respeitar uma bandeira de trégua; e, vendo seu estandarte, talvez achem que seria muito vantajoso capturar o herdeiro de Elhalyn e pedir um resgate aos parentes Hasturs. Não seria a primeira vez que isso aconteceria.

- Se eles não respeitarem uma bandeira de trégua - respondeu Allart, sensatamente -, também de nada nos adiantaria derrotá-los nesta guerra, pois não honrariam nossa vitória ou os termos da rendição. Acho que devemos confiar que nossos inimigos respeitarão as regras da guerra.

- Não tenho muita fé nas regras da guerra, Dom Allart, desde que vi pela primeira vez uma aldeia ser reduzida a cinzas pelo fogo viscoso... não apenas os soldados, mas também velhos, mulheres e crianças. Preferia confiar nas regras da guerra com uma escolta considerável na retaguarda!

- Não previ qualquer ataque com meu laran. O guarda limitou-se a dizer, secamente:

- Então é afortunado, vai dom. Não tenho o conforto da presciência ou qualquer outra feitiçaria. - E caiu num silêncio obstinado.

No terceiro dia da viagem atravessaram um desfiladeiro que descia para o Rio Kadarin, que separava os Domínios das Terras Baixas dos territórios ocupados pelos senhores das montanhas - Aldaran, Ardais e os lordes menores das Hellers. Antes de descerem, Renata virou-se para contemplar as terras de que tinham vindo, a maior parte dos Domínios estendendo-se diante de sua vista. Ela observou as Torres e colinas distantes e soltou um grito de consternação, ao divisar um incêndio devastando a floresta na Colina Kilghard, ao sul.

- Olhem só o incêndio! Vai acabar se estendendo às terras de Alton!

Allart e Donal, ambos telepatas, captaram seu pensamento: Minha casa também estará em chamas lá embaixo, por causa de uma guerra que não é nossa? Em voz alta e tremula, ela disse apenas:

- Eu gostaria agora de ter a sua presciência, Allart.

O panorama dos Domínios lá embaixo toldou-se diante dos olhos de Allart; ele fechou-os com força, numa tentativa inútil de excluir os futuros divergentes de seu laran. Se o poderoso clã dos Altons fosse atraído para a guerra por um ataque a suas casas no campo, nenhuma residência ou propriedade estaria segura nos Domínios. Não faria diferença para os Altons se suas casas haviam ardido em incêndios deliberados ou por um fogo que escapara ao controle após ter sido ateado em outro lugar.

- Como eles ousam usar o incêndio na floresta como uma arma - indagou Renata, furiosa - sabendo que não podem controlá-lo, e que está à mercê dos ventos, sobre os quais não têm nenhum poder?

- Não é bem assim - respondeu Allart, tentando confortá-la. - Algumas leroni... e você sabe disso... podem usar seus poderes para levantar nuvens e fazer chover, apagando o fogo, ou mesmo fazer a neve cair e abafá-lo.

Donal levou sua montaria para perto de Renata.

- Onde fica sua casa, milady! Ela apontou com a mão esguia.

- Ali, entre os lagos de Miridon e Mariposa. Minha casa fica além das colinas, mas pode-se ver os lagos.

O rosto moreno de Donal tinha uma expressão firme quando disse:

- Não tenha medo, damisela. Está vendo ali... o incêndio vai subir por aquela crista... - Ele apontou. - ...e naquele ponto os ventos o empurrarão de volta. O incêndio vai se extinguir antes do pôr-do-sol de amanhã.

- Rezo para que esteja certo... mas é apenas um palpite, não é mesmo?

- Não, milady. Poderá constatar também, se se acalmar um pouco. Sendo treinada na Torre, não deve ter dificuldade para saber como as correntes de ar vão se levantar ali e o vento vai soprar naquela direção. É uma leronis; deve saber disso.

Allart e Renata trocaram um olhar espantado. Depois, Renata comentou:

- Quando eu estudava o programa de reprodução, li certa ocasião sobre um laran assim. Foi abandonado porque não podia ser controlado. Mas não estava na família Hastur nem na Delleray. Por acaso não é parente do pessoal de Storn ou Rockraven?

- Aliciane de Rockraven... a quarta filha do velho Lorde Vardo... foi minha mãe.

- É mesmo? - Renata fitava-o com franca curiosidade. - Pensei que esse laran estivesse extinto, já que era um dos que surgiam na criança antes do nascimento e geralmente matava a mãe no parto. Sua mãe sobreviveu ao seu nascimento?

- Sobreviveu, mas morreu ao dar à luz minha irmã, Dorilys, que será entregue aos seus cuidados.

Renata sacudiu a cabeça.

- Então o malfadado programa de reprodução da família Hastur também deixou sua marca nas Hellers. Seu pai tinha algum laran?

- Não sei. Não me lembro de jamais ter contemplado seu rosto, mas minha mãe não era telepata e Dorilys, minha irmã, também não é capaz de ler pensamentos. A telepatia que possuo deve ser o dom de meu pai.

- Seu laran surgiu na infância ou abruptamente na adolescência?

- Tenho a capacidade de sentir as correntes de ar e tempestades há tanto tempo quanto posso me lembrar. Não pensava então que era um laran, mas apenas um sentido que todos tinham, em maior ou menor grau, como um ouvido para a música. Quando fiquei mais velho, podia controlar um pouco os relâmpagos. - Ele relatou como, na infância, desviara um relâmpago que de outra forma poderia ter atingido a árvore em que se abrigava junto com a mãe. - Mas só consigo fazer isso raramente e em momentos de grande necessidade. Como passo muito mal, procuro apenas ler essas forças, não controlá-las.

- E a atitude mais sensata - concordou Renata. - Tudo o que sabemos do laran mais excepcional ensinou-nos como é perigoso interferir com essas forças; a chuva em um lado acarreta a seca em outro. Foi um homem sensato que disse: "Está errado acorrentar um dragão para assar sua carne." Mas vejo que você tem uma pedra de estrela.

- Bem pequena e apenas para me divertir. Posso levitar e controlar um planador, coisas assim. Apenas as coisas menores que a leronis da minha família pôde me ensinar.

- Também é um telepata desde a infância?

- Não. O dom só me surgiu depois dos quinze anos, quando eu não mais esperava.

- Sofreu muito com a doença do limiar? - perguntou Allart.

- Não muito, apenas vertigem e desorientação por meia estação. A maior angústia foi porque meu pai de criação proibiu-me o planador nessa ocasião!

Donal riu, mas ambos puderam ler seus pensamentos: Nunca soube o quanto meu pai de criação me amava até que senti o quanto ele receou então me perder quando tive a doença do limiar.

- Não houve convulsões?

- Nenhuma.

Renata balançou a cabeça.

- Algumas linhagens sofrem mais intensamente do que outras. Parece que você teve a forma relativamente leve, enquanto a da linhagem de Lorde Aldaran é a forma letal. Existe sangue Hastur em sua família?

- Não tenho a menor idéia, damisela.

Donal falou um tanto tenso e os outros sentiram seu ressentimento, como se tivesse enunciado as palavras em voz alta: Sou um chervine de corrida ou algum reprodutor que deve ser julgado por seu pedigree? Renata soltou uma risada.

- Desculpe, Donal. Talvez eu tenha vivido por tempo demais na Torre e não me ocorreu como outra pessoa pode considerar insultuosa essa pergunta. E passei tantos anos estudando essas coisas! Mas é verdade, meu amigo; se vou cuidar de sua irmã terei de estudar sua linhagem e pedigree, tão seriamente como se ela fosse um animal de corrida ou um gavião premiado, a fim de descobrir como esse laran entrou em sua linhagem, quais são os seus genes letais e recessivos. Mesmo que estejam reprimidos agora, poderão causar problema quando ela se tornar mulher. Mas peço que me perdoe, porque não tive a menor intenção de ofendê-lo.

- Eu é que devo pedir perdão, damisela, por ser tão rude, quando está estudando maneiras de ajudar minha irmã.

- Pois então vamos perdoar um ao outro e sermos amigos, Donal. Observando-os, Allart sentiu uma súbita e amarga inveja daqueles jovens que podiam rir, flertar e desfrutar a vida, mesmo quando ameaçados por desastres iminentes. Mas no instante seguinte ele se envergonhou de si mesmo. Renata não tinha um fardo leve; poderia ter transferido toda responsabilidade ao pai ou marido, mas trabalhava desde a infância para saber o que deveria fazer, como melhor assumir a responsabilidade, mesmo que isso implicasse a destruição de uma criança por nascer e arcar com o opróbrio de uma mulher estéril nos Domínios. Donal também não tivera uma juventude despreocupada, vivendo com o conhecimento de seu estranho laran, que poderia destruí-lo e à irmã.

Ele especulou se todos os seres humanos não andariam pela vida num precipício tão estreito quanto o seu. Allart concluiu que estivera se comportando como se fosse o único a carregar uma maldição intolerável e todos os outros fossem alegres e despreocupados. Observou Renata e Donal rindo e gracejando, e um pensamento novo e estranho lhe ocorreu: Talvez Nevarsin tenha me proporcionado uma seriedade exagerada diante da vida. Se eles podem viver com os fardos que carregam e ainda assim sentirem alegria e desfrutarem a vida, talvez sejam mais sensatos do que eu.

Ele estava sorrindo quando se adiantou para se juntar aos dois.

Chegaram a Aldaran ao final da tarde de um dia cinzento e chuvoso, com pequenos fragmentos de granizo escondidos no vento e na chuva. Renata se envolvera com o manto e protegia o rosto com um lenço. O porta-bandeira recolhera a bandeira para protegê-la e exibia uma expressão contrariada. Allart descobria que a altitude cada vez maior fazia seu coração disparar, a tal ponto que se sentia um pouco tonto. Mas a cada dia de viagem Donal parecera mais alegre, despreocupado e juvenil, como se a altitude e a piora do tempo constituíssem apenas sinais do retorno ao lar; mesmo na chuva ele cavalgava de cabeça descoberta, o capuz caído para trás, ignorando o granizo no rosto, já avermelhado pelo vento e frio.

Ele parou na base da encosta comprida que levava ao castelo e fez um sinal, rindo. A serva de Renata resmungou:

- Vamos subir em animais comuns por esta trilha de cabras ou eles pensam que somos gaviões que podem voar?

Até Renata parecia pouco intimidada por aquele último caminho.

- É essa a fortaleza de Aldaran? Parece tão inacessível quanto o próprio Nevarsin!

Donal riu.

- Nos tempos antigos, quando os antepassados de meu pai de criação tinham de defendê-la pela força das armas, isso a tornava inexpugnável... milady - disse ele, arrematando a última palavra com repentina inibição.

Durante os dias da jornada eles haviam se tornado "Allart", "Renata" e "Donal", entre si. O súbito retorno de Donal à cortesia formal fez com que compreendessem que aquele período de esquecimento, não importava o que tivesse acontecido, já terminara e carregavam outra vez os fardos de seus destinos separados.

- Espero que os soldados naquelas muralhas saibam que não estamos aqui para desfechar um ataque - comentou o guarda que carregara a bandeira da trégua.

Donal riu.

- Tenho a impressão de que somos bem poucos para uma expedição de guerra. Olhem ali... é o meu pai de criação na ameia, junto com minha irmã. É evidente que ele estava informado de nossa chegada.

Allart viu a expressão vazia se estampar no rosto de Donal, a expressão do telepata em comunicação com alguém à distância. Depois de um momento, Donal riu alegremente e disse:

- A trilha para os cavalos não é tão íngreme assim. E no outro lado do castelo há degraus esculpidos na rocha, num total de 289. Preferem subir por lá? O que me diz, mestra! - A serva de Renata soltou uma exclamação de desolação e Donal acrescentou. - Vamos indo. Meu pai de criação nos aguarda.

Durante a longa viagem, Allart usara a técnica aprendida em Nevarsin para manter à distância os futuros divergentes. Como não podia fazer coisa alguma em relação a eles, sabia que se permitir os medos mórbidos era uma forma de auto-indulgência que não mais podia aceitar. Devia enfrentar o que surgisse e só olhar para a frente quando houvesse alguma possibilidade razoável de decidir qual dos futuros possíveis podia ser alterado por alguma opção concreta ao seu controle. Mas ao chegarem ao topo da encosta íngreme, saindo do granizo e vento das alturas para um pátio coberto, os servos ao redor para pegar os cavalos, Allart compreendeu que já vivera aquela cena antes, em memória ou presciência. Em meio à desorientação momentânea, ele ouviu o grito de uma voz infantil e estridente. Teve a impressão de avistar o clarão de relâmpagos e por isso encolheu-se fisicamente ao som da voz, um momento antes de ouvi-la de fato, nitidamente. Era muito simples, no final das contas, não havia perigo, não havia o clarão de estranhos relâmpagos, mas apenas uma voz alegre de criança a gritar o nome de Donal... e uma garotinha com tranças compridas esvoaçando, correndo do abrigo de uma arcada para envolvê-lo com os braços.

- Eu sabia que tinha de ser você e os estranhos. É essa a mulher que será minha guardiã e mestra? Qual é o seu nome? Você gosta dela? Como são as Terras Baixas? As flores realmente desabrocham por lá durante o ano inteiro, como me disseram? Viu algum não-humano durante a viagem? Trouxe-me algum presente? Quem são essas pessoas? Que animais são esses que estão montando?

- Calma, Dorilys, calma - disse uma voz profunda. - Nossos hóspedes pensarão assim que nós das montanhas somos bárbaros, se continuar a falar como uma gallimak mal-educada! Largue seu irmão e cumprimente nossos hóspedes como uma dama!

Donal deixou a irmã segurar sua mão enquanto se virava para o pai de criação, mas largou-a quando Mikhail de Aldaran o envolveu num abraço apertado.

- Meu caro rapaz, senti uma enorme saudade. E agora pode nos apresentar nossos honrados hóspedes?

- Renata Leynier, leronis da Torre de Hali - disse Donal. Renata fez uma reverência profunda diante de Lorde Aldaran.

- Estamos profundamente honrados com sua presença. Permita que lhe apresente minha filha e herdeira, Dorilys de Rockraven.

Dorilys baixou os olhos timidamente, enquanto fazia uma mesura.

- S'dia shaya, domna - murmurou ela. Lorde Aldaran apresentou Margali a Renata.

- Esta é a leronis que cuidou dela desde o nascimento.

Renata observou atentamente a velha. Apesar das feições pálidas e frágeis, os cabelos grisalhos e os sulcos da idade no rosto, ela ainda possuía a impressão inconfundível do poder. Renata pensou: Se ela esteve aos cuidados de uma leronis desde que nasceu, e ainda assim Aldaran achou que precisava de um cuidado e controle mais forte... o que então, em nome de todos os deuses, ele teme por esta criança encantadora?

Donal estava apresentando Allart a seu pai de criação. Allart, fazendo uma mesura para o velho, levantou os olhos para fitar o rosto parecido com um gavião de Dom Mikhail. Abruptamente, ele compreendeu que já vira aquele rosto antes, em sonhos e presciência, com uma mistura de afeição e medo. De alguma forma, aquele lorde das montanhas detinha a chave de seu destino, mas ele podia ver apenas uma câmara abobadada, de pedra branca como uma capela, chamas bruxuleantes e desespero. Allart fez um esforço para descartar as imagens confusas e indesejáveis, até que pudesse fazer uma opção racional.

Meu laran é inútil, pensou ele, a não ser para me assustar!

Ao serem conduzidos através do castelo para seus aposentos, Allart descobriu-se a procurar nervosamente pela câmara abobadada de sua visão, o lugar das chamas e tragédia. Mas não viu nada e se perguntou se seria mesmo no Castelo Aldaran. Podia ser em qualquer lugar - ou, pensou ele, amargurado, em nenhum lugar.

 

Renata despertou sentindo a presença de uma pessoa estranha; um instante depois, divisou o rosto bonito e infantil de Dorilys espiando de trás de uma cortina.

- Desculpe - murmurou Dorilys. - Eu a acordei, domna!

- Acho que sim. - Renata piscou, apreendendo vagamente fragmentos de um sonho a desaparecer, fogo, as asas de um planador, o rosto de Donal. - Mas não tem importância, criança. Lucetta teria me acordado daqui a pouco para o jantar.

Dorilys contornou a cortina e foi sentar-se na beira da cama.

- A viagem foi muito cansativa, domna? Espero que se recupere logo da fadiga.

Renata não pôde deixar de sorrir diante da mistura de infantilidade e cortesia adulta.

- Fala casta muito bem, criança. Costuma-se falar muito por aqui?

- Não. Mas Margali estudou nos Domínios, em Thendara, e disse que eu deveria aprender a falar muito bem, para que ninguém me chamasse de uma bárbara das montanhas se algum dia eu fosse a Thendara.

- Então Margali trabalhou muito bem, pois sua pronúncia é excelente.

- Também foi treinada numa Torre, vai leronis?

- Fui, sim, mas não há necessidade de ser tão formal - disse Renata, sentindo uma afeição espontânea pela garota. - Chame-me de prima ou parenta, como achar melhor.

- Parece muito jovem para ser uma leronis, prima - disse Dorilys, escolhendo a mais íntima das duas palavras.

- Comecei quando tinha mais ou menos a sua idade.

Renata hesitou, pois Dorilys parecia infantil para os quatorze ou quinze anos que aparentava. Se ia educar Dorilys como a filha de um nobre, devia pôr um paradeiro a uma garota tão grande correndo pelos pátios, os cabelos esvoaçando, gritando como uma menininha. E não pôde deixar de especular se ela carecia de inteligência.

- Quantos anos você tem... quinze? Dorilys riu e sacudiu a cabeça.

- Todos dizem que pareço assim e Margali me cansa dia e noite, falando que sou muito velha para fazer isso, muito grande para fazer aquilo, mas tenho apenas onze anos. Vou fazer doze na colheita do verão.

Abruptamente, Renata revisou suas percepções da garota. Não era uma moça infantil e mal-educada, como parecia, mas uma pré-adolescente extremamente precoce e inteligente. Talvez fosse um infortúnio parecer mais velha do que sua idade, pois todos esperavam que tivesse um grau de experiência e discernimento que não podia ainda possuir.

- Você gosta de ser uma leronis? - perguntou Dorilys. - O que é uma monitora?

- Vai descobrir isso quando eu a monitorar, como tenho de fazer antes de começar a ensinar sobre seu laran.

- O que fazia na Torre?

- Muitas coisas. Como trazer metais do fundo da terra à superfície, carregar baterias para luzes e carros aéreos, trabalhar na retransmissão para falar sem voz com as pessoas nas outras Terras, a fim de que qualquer coisa que acontecesse num Domínio pudesse ser conhecida de todos, muito mais depressa do que um mensageiro poderia viajar...

Dorilys escutou, atenta, e ao final deixou escapar um suspiro longo e fascinado.

- E vai me ensinar a fazer essas coisas?

- Talvez não todas, mas saberá tudo o que precisa saber, como a dama de um grande Domínio. E, além disso, ensinarei também todas as coisas que as mulheres devem saber se quiserem ter o controle de suas vidas e corpos.

- Vai me ensinar a ler pensamentos? Donal, o pai e Margali podem ler pensamentos e eu não posso. Eles podem conversar separados e eu não escuto nada, o que me deixa zangada, porque sei que falam a meu respeito.

- Não posso lhe ensinar isso, mas se tiver o talento poderei desenvolver seu uso. Ainda é muito jovem para saber se o tem ou não.

- Terei uma matriz?

- Quando puder aprender a usá-la.

Renata estranhou que Margali ainda não tivesse testado a criança, ensinando-a a usar uma matriz. Mas Margali já estava avançada em anos; talvez temesse o que sua pupila, obstinada e carecendo de julgamento maduro, pudesse fazer com o enorme poder de uma matriz.

- Sabe qual é o seu laran, Dorilys? A criança baixou os olhos.

- Um pouco. Sabe o que aconteceu na festa de meu contrato de casamento...

- Apenas que seu prometido marido morreu subitamente. Dorilys começou a chorar.

- Ele morreu... e todos disseram que fui eu que o matei. Mas não fui eu, prima. Não queria matá-lo... queria apenas que ele tirasse as mãos de mim.

Contemplando a criança a soluçar, o primeiro e espontâneo impulso de Renata foi abraçar Dorilys e confortá-la. Claro que ela não tivera a intenção de matá-lo! Era muita crueldade deixar que uma criança tão jovem arcasse com tamanho sentimento de culpa! Mas um instante antes de Renata se mexer, um lampejo intuitivo a manteve imóvel.

Por mais jovem que fosse, Dorilys tinha um laran que podia matar. Esse laran, nas mãos de uma criança muito jovem para exercitar um julgamento racional a respeito... o mero pensamento fez Renata estremecer. Se Dorilys já tinha idade bastante para possuir aquele laran terrível, então tinha também - não podia deixar de ter - para aprender a controlá-lo e usá-lo de forma apropriada.

Controlar o laran não era fácil. Ninguém sabia melhor do que Renata, uma monitora treinada em Torre, como podia ser difícil, o trabalho árduo e a autodisciplina indispensáveis até mesmo nos primeiros estágios de controle. Como podia uma garotinha mimada, cada palavra sua sendo lei para os companheiros e a família que a adorava, encontrar a disciplina e a motivação interior para avançar por esse caminho tão difícil? Talvez a morte que ela causara e o sentimento de culpa e medo a respeito pudessem ser afortunados, a longo prazo. Renata não gostava de usar o medo em seu ensinamento, mas no momento não sabia o suficiente a respeito de Dorilys para desperdiçar qualquer vantagem, por menor que fosse, na instrução.

Por isso, não tocou em Dorilys; deixou-a chorar, fitando-a com uma ternura desapaixonada, que não deixava transparecer na expressão e atitude calmas. Finalmente disse, repetindo a primeira coisa que aprendera em seu próprio treinamento, na Torre de Hali:

- O laran é um dom terrível e uma responsabilidade terrível e não é fácil aprender a controlá-lo. É sua opção aprender a controlá-lo ou deixar que ele a controle. Se está disposta a trabalhar com afinco, chegará o momento em que estará no comando, em que usará seu laran, em vez de permitir que ele a use. É o que vim lhe ensinar, a fim de que tal coisa nunca mais possa acontecer.

- É mais do que bem-vindo aqui em Aldaran - declarou Mikhail, Lorde Aldaran, inclinando-se para a frente em seu assento alto e fitando Allart nos olhos.

- Há muito tempo que não tenho o prazer de receber um dos meus parentes das Terras Baixas. Mas não me lisonjeio com o pensamento de que o herdeiro de Elhalyn fez o serviço que qualquer pajem ou porta-bandeira poderia fazer apenas para me prestar uma homenagem. Não quando o Domínio de Elhalyn está em guerra. Quer alguma coisa de mim... ou o Domínio de Elhalyn quer alguma coisa, que talvez não seja a mesma. Não vai me dizer qual é a sua verdadeira missão, parente?

Allart ponderou uma dúzia de respostas, observando os reflexos do fogo no rosto do velho e sabendo que era a curiosa presciência de seu laran que fazia com que aquele rosto exibisse uma centena de aspectos - benevolência, ira, orgulho ofendido, angústia. Apenas sua missão tinha o poder de despertar todas aquelas reações em Lorde Aldaran ou mais alguma coisa ainda se passaria entre os dois? Por fim, avaliando cada palavra, ele disse:

- Milorde, o que diz é verdade, embora tenha sido um privilégio viajar para o norte com seu filho de criação, e eu não lamente estar a alguma distância da guerra.

Aldaran alteou uma sobrancelha.

- Eu pensaria que em tempo de guerra você relutaria em deixar o Domínio. Não é o herdeiro de seu irmão?

- Sou regente e substituto, senhor, mas jurei apoiar as pretensões de seus filhos nedestro.

- Parece que poderia ter feito melhor. Caso seu irmão morra em batalha, parece mais capacitado a comandar um Domínio do que um bando de garotinhos, legítimos ou bastardos... e sem dúvida o povo de seu Domínio também preferiria assim. Há um dito antigo: quando o gato é um gatinho, os ratos brincam na cozinha. O mesmo acontece com um Domínio; em tempos como este, há necessidade de mão forte. Na guerra, um filho mais moço ou de linhagem indefinida pode conquistar uma posição de poder, como nunca teria oportunidade em outras circunstâncias.

Allart pensou: Mas não tenho qualquer ambição de governar meu Domínio. Só que ele sabia que Lorde Aldaran jamais acreditaria nisso. Para gente assim, a ambição era a única emoção legítima para um homem nascido numa casa dominante. E é isso que nos mantém atormentados por guerras fratricidas... Mas ele não fez qualquer comentário a respeito; se o fizesse, Aldaran no mesmo instante concluiria que era um efeminado ou, pior ainda, um covarde.

- Meu irmão e senhor achou que eu poderia servir melhor ao Domínio nesta missão, senhor.

- E mesmo? Então deve ser mais importante do que eu julgava possível.

- A expressão de Mikhail era sombria. - Pois muito bem, parente, fale-me sobre essa missão tão importante que seu irmão precisou confiá-la a seu rival mais próximo!

Ele parecia irritado e cauteloso e Allart compreendera que não causara boa impressão. Mas à medida que Allart expôs a missão, Aldaran relaxou lentamente, recostando-se na cadeira. Quando o jovem acabou, ele balançou a cabeça e deixou escapar um suspiro longo.

- Não é tão terrível como eu receava. Tenho bastante presciência e pude ler um pouco seus pensamentos... não muito; onde aprendeu a protegê-los assim?... e sabia que veio me falar da guerra. Mas temia que me pedisse, em nome da antiga amizade entre seu pai e eu, para entrar na guerra ao lado de vocês. Eu amava muito a seu pai, mas relutaria em fazer isso. Poderia até ajudar na defesa de Elhalyn, se a situação fosse precária, mas não gostaria de atacar Ridenow.

- Não lhe trouxe tal pedido, senhor, mas poderia me explicar por quê?

- Por quê? Você pergunta por quê? Qual é o ressentimento que você tem contra Ridenow?

- Eu, pessoalmente? Não tenho nenhum, senhor, a não ser pelo fato de que eles atacaram o carro aéreo em que eu viajava com meu pai, o que acabou acarretando sua morte. Mas todos os Domínios das Terras Baixas têm um ressentimento contra Ridenow, porque eles entraram no velho Domínio de Serrais e tomaram suas mulheres em casamento.

- E isso é tão ruim assim? - indagou Aldaran. - As mulheres de Serrais pediram a ajuda de vocês contra esses casamentos ou declararam que haviam casado contra a vontade?

- Não, mas... - Allart hesitou. Sabia que não era legítimo das mulheres de sangue Hastur casarem fora da família.

Quando o pensamento passou por sua mente, Aldaran captou-o e disse:

- Como eu pensava. É apenas porque vocês querem aquelas mulheres para seu próprio Domínio e para os parentes. Disseram-me que a linhagem masculina de Serrais está extinta; foi essa endogamia que levou à extinção. Se as mulheres de Serrais casassem de volta na família Hastur, conheço o bastante sobre genealogia para prever que o laran dela não sobreviveria por mais cem anos. Elas precisam de sangue novo naquela Casa. Os Ridenow são saudáveis e férteis. Nada melhor poderia acontecer às mulheres de Serrais do que os casamentos com os homens de Ridenow.

Allart sabia que seu rosto deixava transparecer a repulsa, embora fizesse um esforço para esconder.

- Se me perdoa pela franqueza, senhor, acho revoltante falar dos relacionamentos entre homens e mulheres apenas em termos desse amaldiçoado programa de reprodução dos Domínios.

Aldaran soltou uma risada.

- Mas acha apropriado deixar que as mulheres de Serrais tornem a casar com Hasturs, Elhalyns e Aillards? Isso não é também usá-las na reprodução por seu laran?. Posso lhe garantir que não sobreviveriam por mais três gerações! Quantos filhos férteis nasceram em Serrais nos últimos quarenta anos? Acha mesmo que os lordes que dominam em Thendara são tão caridosos que tentam preservar a pureza de Serrais? Você é jovem, mas não pode ser tão ingênuo assim. Os Hasturs deixariam Serrais se extinguir antes de permitirem o acesso de forasteiros. Mas os homens de Ridenow têm outras idéias. E essa é a única esperança para Serrais... alguns genes novos! Se vocês, dos Domínios, forem sensatos, darão as boas-vindas aos homens de Ridenow e lhes entregarão suas filhas em casamento!

Allart estava chocado.

- Os Ridenows... casando com Hasturs? Mas eles não têm nada do sangue de Hastur e Cassilda!

- Seus filhos terão - disse Aldaran, bruscamente. - E com esse sangue novo a velha linhagem de Serrais pode sobreviver, em vez de se reproduzir para a esterilidade, como acontece com os Aillards em Valeron e já começa a ocorrer com alguns Hasturs. Quantos emmascas nasceram dos Hasturs de Carcosa, Elhalyn ou Aillard nos últimos cem anos?

- Muitos, infelizmente. - Contra sua vontade, Allart pensou nos jovens que conhecera no mosteiro; emmasca, nem homens nem totalmente mulheres, estéreis, alguns com outros defeitos. - Mas nunca estudei o assunto.

- Mas não tem uma opinião a respeito? - Aldaran tornou a altear as sobrancelhas. - Soube que se casou com uma filha de Aillard; quantos filhos e filhas saudáveis você tem? Nem precisaria perguntar, é claro. Se os tivesse, não se mostraria tão disposto a jurar fidelidade aos bastardos de outro homem.

Espicaçado, Allart protestou:

- Minha esposa e eu estamos casados há menos de meio ano.

- E quantos filhos legítimos seu irmão tem? Pense bem, Allart. Sabe tão bem quanto eu que se seus genes sobreviverem será em seus filhos nedestro, da mesma forma como aconteceu comigo. Minha esposa era uma Ardais e não me deu crianças vivas, como provavelmente também acontecerá com sua esposa Aillard.

Allart baixou os olhos, refletindo com um espasmo de pesar e culpa: Não é de admirar que os homens de nossa linhagem recorram a riyachiyas e outras similares. Não encontramos muita alegria em nossas esposas, entre a culpa pelo que lhes fazemos e o medo pelo que poderá lhes acontecer!

Aldaran percebeu a emoção intensa no rosto do jovem e se compadeceu.

- Calma, calma, parente, não há necessidade de discutirmos. Não pretendi ofendê-lo. Mas a verdade é que adotamos um programa de reprodução, entre os descendentes de Hastur e Cassilda, que pôs em risco nosso sangue mais do que quaisquer bandidos arrivistas poderiam conseguir... e a salvação pode assumir as formas mais estranhas. Parece-me que os homens de Ridenow serão a salvação de Serrais, se vocês de Elhalyn não os impedirem. Mas isso não importa no momento. Diga a seu irmão que mesmo que eu tivesse desejo de entrar na guerra, o que não acontece, nada poderia fazer agora. Também estou sob grande pressão. Briguei com meu irmão de Scathfell e me perturba que ele ainda não tenha procurado vingança. O que estará tramando? Os despojos aqui de Aldaran são suculentos e penso às vezes que os outros lordes das montanhas são como kyorební, circulando, esperando... Estou velho. Não tenho herdeiro legítimo, nenhum filho homem vivo, nenhuma criança do meu próprio sangue, a não ser minha jovem filha.

- Mas é uma linda criança... saudável, ao que parece... e possui laran. Se não tem um filho, pode contar com um genro para herdar seu Domínio.

- Era o que eu esperava. Mas penso agora que talvez fosse melhor casá-la com um dos homens de Ridenow... só que isso atrairia a hostilidade também de Elhalyn e Hastur. E tudo vai depender da capacidade de sua parenta de ajudá-la a sobreviver à doença do limiar na adolescência. Perdi três filhos crescidos e uma filha assim. Procurarei casar com uma linhagem em seguida... como a de minha falecida esposa, Deonara de Ardais... cujo laran aflorava cedo, mas as crianças morreram antes do nascimento ou na primeira infância. Dorilys sobreviveu ao nascimento e à infância, mas temo que não sobreviverá à adolescência com seu laran.

- Que os deuses não permitam que ela morra assim! Minha parenta e eu faremos tudo o que for possível. Já existem muitas maneiras de se evitar a morte na adolescência. Eu mesmo estive bem próximo, mas continuo a viver.

- Se isso é possível, então sou seu humilde suplicante, parente - murmurou Lorde Aldaran. - O que eu tenho é seu, basta pedir. Mas lhe suplico que fique aqui e salve minha criança desse destino!

- Estou inteiramente a seu serviço, Lorde Aldaran. Meu irmão me determinou que aqui permanecesse enquanto lhe puder ser útil ou por todo o tempo necessário para persuadi-lo a permanecer neutro nesta guerra.

- Isso eu posso lhe prometer.

- Então pode me ordenar como quiser, Lorde Aldaran. - Um momento de hesitação, depois a amargura de Allart aflorou: - Se não me votar grande desprezo por eu não estar ansioso em voltar ao campo de batalha, que parece considerar o lugar mais apropriado para os jovens do meu clã!

Aldaran inclinou a cabeça.

- Falei em raiva. Perdoe-me, parente. Mas não tenho a menor vontade de entrar nessa estúpida guerra nas Terras Baixas, muito embora ache que os Hasturs devam testar os homens de Ridenow, antes de permitirem que ingressem em sua família. Se os homens de Ridenow não forem capazes de sobreviver, talvez não mereçam realmente ingressar na linhagem de Serrais. Talvez os deuses saibam o que estão fazendo quando promovem guerras entre os homens, a fim de que as antigas linhagens, amolecidas pelo luxo e decadência, possam se extinguir e que novas prevaleçam ou se misturem, gerando um novo material genético com características comprovadas por sua capacidade de sobrevivência. Allart sacudiu a cabeça.

- Isso pode ter sido verdade nos velhos tempos, quando a guerra era de fato um teste de força e coragem, fazendo com que o mais fraco não sobrevivesse para se reproduzir. Não posso acreditar que também seja assim agora, milorde, quando coisas como o fogo viscoso matam igualmente o forte e o fraco, até mesmo as mulheres e as crianças pequenas que não têm nada a ver com as hostilidades entre os lordes...

- O fogo viscoso! - murmurou Lorde Aldaran. - Então é assim... quer dizer que já começaram a usar o fogo viscoso nos Domínios das Terras Baixas? Mas certamente só podem usar em pequena escala. Afinal, é difícil minerar a matéria-prima do fundo da terra, e ela se deteriora muito depressa depois de exposta ao ar.

- O material é produzido pelos círculos de matriz nas Torres, milorde. Esse é um dos motivos pelos quais eu estava ansioso em deixar a área de guerra. Talvez não fosse enviado para a batalha, mas seria obrigado a produzir esse material infernal.

Aldaran fechou os olhos, como se quisesse assim excluir o insuportável.

- Quer dizer que estão todos loucos abaixo do Kadarin? Pensei que a sanidade, pura e simples, haveria de impedi-los de usar armas que vão devastar tanto o conquistador quanto o conquistado! É muito difícil para mim acreditar que qualquer homem honrado seja capaz de lançar armas tão terríveis contra os seus semelhantes. Permaneça aqui, Allart. Que todos os deuses me impeçam de enviar qualquer homem para uma guerra tão desonrosa! - Aldaran fez uma pausa, o rosto se contraindo. - Talvez, se os deuses forem generosos, eles exterminem uns aos outros, como os dragões da lenda que se consumiam nos fogos mútuos, deixando a presa para vicejar sobre a terra calcinada.

 

Renata, a cabeça baixa, atravessou apressada o pátio do Castelo Aldaran. Em sua preocupação, esbarrou em alguém, murmurou um pedido de desculpas e teria seguido em frente se alguém não surgisse para detê-la.

- Espere um instante, parenta! - pediu Allart. - Quase não a tenho visto desde que chegamos.

Levantando os olhos, Renata indagou:

- Está se preparando para voltar às Terras Baixas, primo?

- Não. Lorde Aldaran convidou-me a permanecer aqui, a fim de ensinar a Donal alguma coisa do que aprendi em Nevarsin. - Contemplando-a mais atentamente, Allart soltou uma exclamação consternada: - Prima, o que a perturba? O que está acontecendo de tão terrível?

Confusa, Renata fitou-o nos olhos e balbuciou:

- Não sei...

Depois, entrando em plena comunicação com os pensamentos de Allart, ela se viu como parecia aos olhos dele - tensa, pálida, o rosto contraído pela angústia e tragédia.

E isso o que eu sou ou o que serei? Num medo súbito, ela se segurou a Allart por um instante. Ele amparou-a, gentilmente.

- Perdoe-me, prima, se a assustei. Para ser franco, começo a sentir que muito do que vejo só existe em meu próprio medo. Afinal, não há nada de assustador aqui, não é mesmo? Ou a damisela Dorilys é mesmo um pequeno monstro, como dizem todos os servos?

Renata riu, mas ainda parecia perturbada.

- Claro que não. É uma criança doce e adorável e só me mostrou até agora sua face mais afetuosa e dócil. Mas... Oh, Allart, é verdade! Estou apavorada por ela. A criança tem um laran terrível e temo pelo que devo dizer a Lorde Aldaran, seu pai! Vai deixá-lo furioso!

- Só estive com ela por uns poucos minutos - disse Allart. - Donal estava me mostrando como controla o planador, ela apareceu e pediu para voar com a gente. Mas Donal mandou que ela fosse pedir permissão a Margali, pois ele não assumiria a responsabilidade. A criança ficou irritada e se afastou num tremendo mau humor.

- Mas não o atacou?

- Não. Ficou contrariada e disse que ele não a amava, mas obedeceu. Eu não a deixaria voar enquanto não fosse capaz de controlar uma matriz. Mas Donal me disse que recebeu uma quando tinha nove anos e aprendeu a usá-la sem qualquer dificuldade. É evidente que o laran se manifesta cedo nos Dellerays.

- E também no pessoal de Rockraven. - Renata continuava perturbada. - Acho que ainda não se deve confiar uma matriz a Dorilys, talvez nunca. Mas conversaremos sobre tudo isso mais tarde. Lorde Aldaran concordou em me receber e não posso deixá-lo esperando.

- Não deve mesmo.

Renata se afastou, o rosto franzido. Encontrou Dorilys no lado de fora da câmara de audiências de Lorde Aldaran. A criança parecia mais controlada e civilizada hoje, os cabelos presos em tranças impecáveis, com um vestido todo bordado.

- Quero ouvir o que tem a dizer a meu pai a meu respeito, prima - disse ela, confiante, entrelaçando a mão na de Renata.

Renata sacudiu a cabeça.

- Não é bom para crianças escutarem as conversas dos mais velhos. Devo dizer muitas coisas que você não entenderia. Mas dou minha palavra de que tudo relativo a você lhe será contado quando chegar o momento oportuno... mas esse momento não é agora, Dorilys.

- Não sou mais uma garotinha - protestou Dorilys, espichando o lábio.

- Então não deve se comportar como uma, fazendo beicinho e batendo o pé como se tivesse cinco anos de idade! Seu comportamento não me convence de que já tem idade suficiente para escutar com maturidade uma conversa sobre o seu futuro.

Dorilys parecia mais rebelde do que nunca.

- Quem você pensa que é para me falar desse jeito? Sou Lady Aldaran!

- Você é uma criança que um dia se tornará Lady Aldaran - respondeu Renata, friamente. - E eu sou uma leronis a quem seu pai julgou conveniente confiar a missão de ensiná-la a se comportar de uma maneira condizente com esse alto posto.

Dorilys desvencilhou-se da mão de Renata abruptamente, olhando mal-humorada para o chão.

- Não admito que ninguém me fale assim! Vou me queixar a meu pai e ele a mandará embora se não for gentil comigo!

- Você não conhece o significado da palavra rudeza - disse Renata, com suavidade. - Quando entrei na Torre de Hali como uma noviça, para aprender a arte da monitora, ninguém teve permissão para me falar ou me fitar nos olhos por quarenta dias. O propósito era reforçar a confiança no meu laran.

- Eu não teria suportado que fizessem isso comigo! Renata sorriu.

- Se eu não agüentasse, eles teriam me mandado de volta para casa, sabendo que eu não tinha a força e autodisciplina para aprender o que precisava. Nunca serei rude com você, Dorilys, mas deve se controlar antes de poder comandar os outros.

- Mas é diferente no meu caso - argumentou Dorilys. - Sou Lady Aldaran e já comando todas as mulheres no castelo e a maioria dos homens também. Você não é a lady de seu Domínio, não é mesmo?

Renata sacudiu a cabeça.

- Não, mas sou uma monitora da Torre. E até mesmo um Guardião é ensinado assim. Conheceu o amigo de seu irmão, Allart. Ele é o Regente de Elhalyn, mas em Nevarsin, durante seu treinamento, dormiu nu sobre as pedras por três invernos e nunca falava na presença de qualquer monge que lhe era superior.

- Isso é horrível. - exclamou Dorilys, fazendo uma careta.

- Não é, não. Aceitamos essas disciplinas voluntariamente, porque sabemos que precisamos disciplinar nossos corpos e mentes para nos obedecer, a fim de que o nosso laran não nos destrua.

- Se eu obedecer a você - indagou Dorilys, insinuante -, vai me dar uma matriz e me ensinar a usá-la, a fim de que eu possa voar com Donal?

- Farei isso quando achar que está preparada, chiya.

- Mas eu quero agora! Renata tornou a sacudir a cabeça.

- Não. E agora volte para seus aposentos, Dorilys. Irei procurá-la depois de conversar com seu pai.

Ela falou com firmeza e Dorilys começou a obedecer, mas virou-se depois de alguns passos, batendo com o pé, furiosa.

- Nunca mais vai usar comigo a voz de comando!

- Farei o que achar conveniente - declarou Renata, inabalável. - Seu pai a entregou aos meus cuidados. Devo dizer a ele que a acho desobediente e pedir que lhe ordene que me obedeça em todas as coisas?  

Dorilys se encolheu.

- Não, por favor... não diga nada ao pai, Renata!

- Então me obedeça imediatamente - insistiu Renata, usando a proibida voz de comando. - Volte a seus aposentos, diga a Margali que foi desobediente e peça a ela para puni-la.

Os olhos de Dorilys se encheram de lágrimas, mas ela se afastou, saindo para o pátio. Renata deixou escapar um suspiro.

Como eu a obrigaria a obedecer se ela recusasse? E chegará o momento em que ela vai recusar e terei de estar preparada para isso!

Uma das servas a observava, de olhos arregalados. Renata captou os pensamentos da mulher, mesmo sem tentar: Nunca vi minha pequena dama obedecer assim... sem qualquer palavra de protesto!

Então era a primeira vez que Dorilys tinha de obedecer contra a sua vontade, pensou Renata. Sabia que Margali puniria Dorilys gentilmente, limitando-se a pô-la para costurar saias e anáguas e proibindo-a de tocar em seus bordados. Não fará mal nenhum à nossa criança aprender a fazer coisas para as quais não tem o menor gosto ou talento.

Mas a confrontação fortalecera sua vontade para o que sabia ser uma reunião difícil com Lorde Aldaran. Estava grata porque ele concordara em recebê-la no pequeno estúdio em que escrevia suas cartas e via o coridom no trato dos negócios de Estado, em vez da câmara de audiências formal.

Encontrou-o ditando para seu secretário particular, mas Lorde Aldaran parou quando ela entrou e mandou que o homem se retirasse.

- E então, damisela, como está se dando com minha filha? Acha-a obediente e dócil? Ela é voluntariosa, mas muito doce e amorosa.

Renata sorriu.

- Infelizmente, ela não se sente muito amorosa neste momento. Tive de puni-la, enviá-la a Margali para passar algum tempo empenhada na costura e aprender a pensar antes de falar.

Lorde Aldaran suspirou.

- Suponho que nenhuma criança pode ser criada sem alguma punição. Dei permissão aos tutores de Donal para espancá-lo, se fosse necessário, mas fui mais gentil com ele do que meu pai foi comigo, pois proibi que os tutores batessem com força suficiente para deixar equimoses. Quando eu era pequeno, muitas vezes fui espancado com tanta força que não conseguia me sentar direito por vários dias. Mas não precisará bater assim em minha filha, não é mesmo?

- Prefiro que isso não aconteça. Sempre achei que a meditação solitária sobre alguma tarefa tediosa é punição suficiente para a maior parte do mau comportamento. Mesmo assim, gostaria que dissesse a ela, milorde, em algum momento, o que acabou de me contar. Ela parece achar que sua posição deve eximi-la de qualquer punição ou disciplina.

- Gostaria que eu dissesse a ela que meus tutores tinham permissão para me surrar quando era pequeno? - Lorde Aldaran soltou uma risada. - Muito bem, farei isso, para lembrá-la de que até eu tive de aprender a me controlar. Mas veio apenas pedir permissão para punir minha filha, milady? Pensei que assumiria isso como um fato consumado quando a entreguei aos seus cuidados.

- E eu também - disse Renata. - Tenho um assunto muito mais sério a discutir. Pediu que eu viesse para cá porque temia a força do laran de sua filha, não é mesmo? Eu a monitorei de forma meticulosa, corpo e cérebro; calculo que ela ainda se encontra a várias luas da puberdade. Antes que isso aconteça, eu gostaria de pedir permissão para monitorá-lo, milorde, e também a Donal.

Lorde Aldaran franziu as sobrancelhas, curioso.

- Posso perguntar por que razão, damisela?

- Margali já me contou tudo o que pode lembrar da gravidez e parto de Aliciane. Assim, sei alguma coisa sobre o que Dorilys herdou da mãe. Mas Donal também tem a herança de Rockraven e eu gostaria de saber quais os recessivos que Dorilys pode possuir. É mais simples verificar Donal do que sondar o embrião. O mesmo se aplica em seu caso, milorde, pois Dorilys possui não apenas a sua herança, mas também toda a sua linhagem. Eu gostaria ainda de ter acesso a suas genealogias, a fim de saber se há vestígios em sua linhagem de certos tipos de laran.

Lorde Aldaran acenou com a cabeça em concordância.

- Compreendo que precisa estar armada com esse conhecimento. Pode dizer ao guardião dos arquivos de Aldaran que lhe dei liberdade para vasculhar todos os nossos registros. Acha então que ela sobreviverá à doença do limiar na adolescência?

- Eu lhe direi isso quando souber mais de seus genes e herança. Juro que farei o que puder por ela e tenho certeza de que essa é também a disposição de Allart. Mas preciso saber o que estou enfrentando.

- Não tenho qualquer objeção a ser monitorado, milady, embora não esteja familiarizado com a técnica.

- A monitoração profunda desse tipo foi desenvolvida pelos círculos de matriz trabalhando nos níveis superiores - explicou Renata. - Depois que começamos a usá-la com esse propósito, descobrimos que tinha outros usos.

- E o que devo fazer?

- Nada, milorde. Basta deixar a mente e o corpo tão serenos e relaxados quanto puder e tentar não pensar em nada. Confie em mim. Não vou me intrometer em seus pensamentos, mas apenas em seu corpo e nos segredos mais profundos.

Aldaran deu de ombros.

- Quando quiser.

Renata se projetou, iniciando o lento processo de monitoração; primeiro, monitorou a respiração de Aldaran, a circulação, foi se aprofundando mais e mais, nas células do corpo e cérebro. Após um longo momento, ela se retirou gentilmente e agradeceu; mas parecia perturbada e distraída.

- Qual é o veredicto, damisela?

- Prefiro esperar para falar qualquer coisa depois de estudar os arquivos e trabalhar com Donal - murmurou Renata, fazendo uma mesura e se retirando.

Poucos dias depois, Renata mandou perguntar se Lorde Aldaran poderia recebê-la de novo.

Quando ela chegou à sua presença desta vez, não perdeu tempo com circunlóquios:

- Milorde, Dorilys é sua única criança viva?

- É, sim. Já lhe disse isso.

- Sei que é a única criança que reconhece. Mas isso é apenas uma maneira de falar ou a verdade literal? Não tem bastardos não reconhecidos, qualquer criança nascida de seu sangue?

Aldaran sacudiu a cabeça, perturbado.

- Não, absolutamente nenhuma. Tive vários filhos do primeiro casamento, eles morreram na adolescência, da doença do limiar; e todos os bebês de Deonara morreram antes de serem desmamados. Na juventude, gerei alguns filhos aqui e ali, mas nenhum sobreviveu à adolescência. Até onde sei, Dorilys é a única pessoa neste mundo que tem o meu sangue.

- Não quero irritá-lo, Lorde Aldaran, mas deve ter outro herdeiro imediatamente.

Ele fitou-a e Renata viu a consternação e o pânico em seus olhos.

- Está querendo me dizer que ela também não sobreviverá à adolescência?

- Não é isso - respondeu Renata. - Há todos os motivos para acreditar que ela vai sobreviver; pode até se tornar uma telepata. Mas sua herança não deve apenas depender de Dorilys. Como Aliciane, ela pode até sobreviver à geração de uma única criança. Seu laran, até onde posso dizer, é vinculado ao sexo; um dos poucos dons assim. É recessivo nos homens; Donal possui a capacidade de sentir as correntes e pressão do ar, sentir os ventos e o movimento das tempestades, até mesmo controlar um pouco os relâmpagos, embora não os atraia nem os gere. Mas esse dom é dominante nas mulheres. Dorilys pode sobreviver ao nascimento de um filho. Não poderia sobreviver ao nascimento de uma filha que possua esse laran antes mesmo de nascer. Donal também deve ser advertido a gerar apenas filhos homens, a menos que queira ver suas mães destruídas pelo laran das filhas por nascer.

Aldaran absorveu a informação lentamente. Demorou algum tempo para indagar, o rosto pálido pelo tormento:

- Está dizendo que Dorilys matou Aliciane?

- Pensei que sabia disso. É um dos motivos pelos quais o dom de Rockraven foi abandonado pelo programa de reprodução. Algumas filhas, sem a força total do laran, mesmo assim o transmitiram a suas filhas. Creio que deve ter sido o caso de Aliciane. E Dorilys tinha o laran pleno... Diga-me uma coisa: houve uma tempestade durante o seu nascimento?

Aldaran sentiu a respiração presa na garganta, recordando como Aliciane gritara em terror: "Ela me odeia! Não quer nascer!"

Dorilys matou a mãe! Ela matou minha amada, minha Aliciane... Desesperado, fazendo um tremendo esforço para ser justo, ele murmurou:

- Ela era uma criança recém-nascida! Como pode culpá-la?

- Culpá-la? Quem falou em culpa? As emoções de uma criança são incontroláveis. Ainda não há qualquer treinamento que permita o controle. E o nascimento é aterrador para uma criança. Não sabia disso, milorde?

- Claro! Eu estava presente quando todos os bebês de Deonara nasceram, mas consegui acalmá-los até certo ponto.

- Acontece que Dorilys era mais forte do que a maioria dos bebês. Em medo e dor, ela atacou... e Aliciane morreu. Ela não sabe disso e espero que jamais descubra. Mas com esse conhecimento pode entender por que não é seguro contar apenas com Dorilys para transmitir seu sangue a gerações futuras. Na verdade, seria mais seguro se ela nunca casasse, embora eu possa lhe ensinar, quando se tornar mulher, como conceber apenas filhos homens.

- Ah, se Aliciane recebesse esse ensinamento... - murmurou Lorde Aldaran, amargurado. - Eu não sabia que essa técnica era conhecida nos Domínios.

- Não é comumente ensinada, embora aqueles que criam riyachiyas a conheçam, a fim de produzir apenas fêmeas. Não tem sido ensinada para que os lordes dos grandes Domínios, ansiosos por filhos homens, não afetem o equilíbrio da natureza, com o nascimento de poucas mulheres. Mas, num caso como este, em que um terrível laran pode dominar a criança por nascer, creio que é justificado. Ensinarei a Dorilys e a Donal também, se ele quiser.

O velho baixou a cabeça.

- O que vou fazer? Ela é minha única filha!

- Lorde Aldaran, gostaria que me desse permissão, se eu julgar necessário, para extinguir o laran de Dorilys na adolescência, pela destruição dos centros psíquicos no cérebro. Pode salvar-lhe a vida... ou a razão.

Ele ficou horrorizado.

- Destruiria a mente de minha filha?

- Não. Mas ela ficaria livre do laran.

- É monstruoso! Eu me recuso a permitir!

- Posso lhe jurar uma coisa, milorde: se Dorilys fosse uma criança de meu próprio ventre, eu também lhe pediria permissão. Sabia que ela já matou três vezes?

- Três? Aliciane, Darren, o filho de meu irmão... mas nesse caso foi justificado, pois ele tentou violentá-la!

Renata balançou a cabeça.

- Ela já tinha sido prometida uma vez antes e a criança morreu, não é mesmo?

- Pensei que fosse um acidente.

- E foi mesmo. Dorilys não tinha seis anos. Sabia apenas que ele quebrara sua boneca. E bloqueara o incidente em sua mente. Quando a forcei a lembrar, ela chorou tão desesperada que teria derretido o coração do próprio Zandru. Até agora, ela só atacou em pânico. Acho que nem mesmo queria matar o parente que tentou estuprá-la, mas não tinha controle. Não podia atordoar, apenas matar. E pode matar de novo. Não sei se alguma pessoa viva será capaz de lhe ensinar a ter controle sobre esse tipo de laran. E eu não lhe atribuiria qualquer culpa, se ela tornar a atacar, num momento de medo ou pânico. - Renata hesitou, mas acabou acrescentando: - E um fato incontestável: o poder corrompe. Mesmo agora, tenho a impressão de que ela sabe que ninguém ousa desafiá-la. É voluntariosa e arrogante. Pode gostar do conhecimento de que todos a temem. Uma garota à beira da adolescência tem muitos problemas; nessas ocasiões, as garotas detestam seus rostos, seus corpos, a cor dos cabelos. Pensam que outros também as detestam, porque sentem tantas ansiedades que ainda não podem perceber as coisas. Se Dorilys se confortar por essas ansiedades com o conhecimento de seu poder... eu ficaria apavorada com ela nessas circunstâncias!

Aldaran olhou para o chão, preto e branco, com um mosaico de aves.

- Não posso consentir na destruição do laran, Renata. Ela é minha única filha.

- Nesse caso, milorde, deve se casar de novo e providenciar outro herdeiro antes que seja tarde demais; e, na sua idade, não deve perder tempo.

- Pensa que já não tentei? - disse Aldaran, amargurado. - Depois, hesitante, ele falou a Renata de sua maldição.

- Milorde, um homem de sua inteligência sabe que o poder de tal maldição está em sua mente e não em sua virilidade.

- Foi o que eu disse a mim mesmo, por muitos anos. Mas não senti desejo por qualquer mulher, pelos muitos anos desde que Aliciane morreu. Quando Deonara morreu também, pensei que só tinha uma filha nedestro e levei outras para minha cama, mas nenhuma engravidou. Ultimamente, comecei a acreditar que a maldição já me dominara antes mesmo que a feiticeira a lançasse, pois não tive outra mulher enquanto Aliciane estava esperando minha filha. Para mim, isso foi inédito, viver meio ano sem uma mulher em minha cama. - Ele fez uma pausa, sacudindo a cabeça. - Perdoe-me, damisela. Tal conversa é imprópria para uma mulher de sua idade.

- Ao falar em tais coisas, milorde, não sou uma mulher, mas sim uma leronis. Não se preocupe com isso. Nunca foi monitorado para verificar o que aconteceu, milorde?

- Não sabia que uma coisa assim era possível.

- Posso verificar, se quiser - garantiu Renata, como se fosse algo sem maior importância. - Ou se preferir... Margali é sua parenta e mais próxima de sua idade... se isso o perturbaria menos...

Aldaran não tirava os olhos do chão e respondeu, em voz baixa:

- Acho que eu me sentiria menos envergonhado se fosse com uma estranha.

- Como quiser.

Renata relaxou e se concentrou na tarefa de monitorar corpo e cérebro, até a profundidade da célula. Depois de um momento, ela informou, pesarosa:

- Está mesmo amaldiçoado, milorde. Seu sêmen não tem qualquer centelha de vida.

- Mas tal coisa é possível? A mulher apenas conhecia minha vergonha ou causou essa... essa...

A voz se extinguiu, entre raiva e consternação. Renata disse, suavemente:

- Não tenho como saber, milorde. Imagino que é possível que algum inimigo lhe tenha feito isso. É verdade que ninguém que use uma matriz nas Torres poderia fazer algo assim. Prestamos um juramento contra o abuso de nossos poderes.

- Pode ser invertido? O que os poderes da feitiçaria fizeram não podem também desfazer?

- Receio que não, senhor. Se fosse sabido imediatamente, talvez se pudesse fazer alguma coisa... mas depois de tantos anos, receio que seja impossível.

Aldaran tornou a baixar a cabeça.

- Então devo rezar a todos os deuses para que você possa, de alguma forma, conduzir Dorilys ilesa através da adolescência. Ela é a única que tem a herança de Aldaran.

Renata sentiu pena do velho; ele tivera de enfrentar naquele dia algumas verdades terríveis e humilhantes. Ela disse gentilmente:

- Milorde, tem um irmão e seu irmão tem filhos. Mesmo que Dorilys não sobrevivesse... e suplico a Avarra que a proteja de todo o mal... a herança de Aldaran não estará totalmente perdida. Eu lhe peço, senhor, que se reconcilie com seu irmão.

Os olhos de Aldaran arderam com uma ira súbita, terrível e explosiva.

- Tome cuidado, minha jovem! Sou grato por tudo o que tem feito e tudo o que fará por minha criança, mas há algumas coisas que nem mesmo você pode me dizer! Jurei que destruirei este castelo pedra por pedra antes que caia em poder de qualquer filho de Scathfell! Dorilys reinará aqui depois de mim ou não haverá ninguém!

Velho cruel e arrogante! Renata descobriu-se a pensar. Seria bem merecido se isso de fato acontecesse! Seu orgulho é mais forte do que o amor por Dorilys, ou a pouparia desse terrível destino! Ela fez uma mesura.

- Então não há mais nada a dizer, milorde. Farei o que puder por Dorilys. Mas peço-lhe que não esqueça, senhor, que o mundo continuará como quiser e não como você ou eu pudermos desejar.

- Parenta, eu lhe rogo que não fique zangada. E lhe peço para que não deixe que a ira deste velho de língua ferina afete sua amizade por minha filha.

- Não poderia fazer isso - respondeu Renata, abrandando-se a contragosto diante do charme do velho. - Amo Dorilys e a protegerei até onde puder, inclusive de mim mesma.

Depois de deixar Lorde Aldaran, Renata ficou andando pelas ameias por longo tempo, perturbada. Enfrentava um problema ético muito sério. Dorilys provavelmente não seria capaz de sobreviver a um parto. Poderia conciliar com seu código tão rigoroso deixar que a criança se tornasse mulher sem ter conhecimento daquela maldição chocante? Deveria advertir Dorilys sobre o que o futuro lhe reservava?

Ela pensou, outra vez furiosa, que Lorde Aldaran preferia expor Dorilys a uma morte assim a aceitar o conhecimento de que seu irmão de Scathfell poderia herdar o Domínio.

Cassilda, abençoada mãe da família Hastur, pensou Renata. Abençoados sejam todos os deuses por eu não ser lorde de um Domínio!

 

O verão nas Hellers era uma beleza; as neves retrocediam para os picos mais altos, e mesmo ao amanhecer havia pouca neve ou chuva.

- Uma linda estação, mas perigosa, primo Allart - disse Donal, no topo do castelo. - Temos menos incêndios que os Domínios das Terras Baixas, pois nossas neves permanecem por mais tempo, mas nossos fogos são mais demorados por causa das árvores de resina. No calor destes dias, desprendem óleos voláteis que pegam fogo num instante com os relâmpagos das tempestades de verão. E quando as árvores de resina pegam fogo... - Ele deu de ombros, abrindo os braços. Allart compreendeu; ele também já vira as árvores voláteis se inflamarem como tochas, lançando como que chuvas de faíscas, espalhando as chamas por toda a floresta.

- É um milagre que ainda restem árvores de resina, se isso acontece ano após ano!

- Tem razão; se não crescessem tão depressa, as encostas estariam nuas e as Hellers seriam uma terra devastada do Karadin à Muralha ao Redor do Mundo. Mas as árvores crescem depressa e as encostas recuperam-se em apenas um ano.

Allart comentou, prendendo as correias do planador na cintura:

- Não vôo num artefato desses desde que era menino. Espero não ter perdido o jeito.

- Nunca se perde. Quando eu tinha quinze anos e passava mal com a doença do limiar, não pude voar por quase um ano. Sentia-me tonto e desorientado. Quando me recuperei, pensei que havia esquecido como voar. Mas meu corpo lembrou, assim que me vi no ar.

Allart prendeu a última fivela.

- Temos de voar muito?

- Montando, seria mais do que a maioria dos animais poderia fazer em dois dias, pois as trilhas sobem e descem. Mas como os kyorebni voam, é pouco mais que uma hora de vôo.

- Não seria mais simples se pegássemos um carro aéreo? - Só depois de falar é que Allart recordou que não vira nenhum na Hellers.

Donal respondeu:

- O pessoal de Darriel andou fazendo experiências com esses carros. Mas há muitas contracorrentes entre os picos; mesmo com um planador, é preciso escolher com todo cuidado o dia para voar e ter cautela com as tempestades e mudanças do vento. Houve uma ocasião em que tive de passar horas sentado num penhasco, esperando que uma tempestade de verão passasse. - Ele riu da recordação e acrescentou: - Voltei para casa sujo e desolado como um coelho-de-chifre que teve de ceder sua toca a um texugo-de-árvore. Mas creio que hoje não teremos qualquer problema. Allart, você que é treinado na Torre, conhece o pessoal em Tramontana?

- Ian-Mikhail de Storn é o Guardião ali e falei com todos eles nas retransmissões periódicas, durante o meio ano que passei em Hali. Mas nunca estive pessoalmente em Tramontana.

- Sempre me receberam muito bem ali. Tenho a impressão de que eles sempre gostam dos visitantes. Ficam sentados como gaviões em seu ninho, não vendo ninguém desde o festival do solstício do verão à noite do solstício do inverno. Será um prazer para eles recebê-lo, primo.

- E para mim também - disse Allart.

Tramontana era a mais remota e a mais setentrional das Torres, num isolamento quase total das outras, embora seus integrantes transmitissem mensagens e trocassem informações sobre o trabalho que realizavam no desenvolvimento de novos usos para a ciência da matriz. Haviam sido os trabalhadores de Tramontana, recordou Allart, que criaram os agentes químicos para combate ao fogo, partindo de elementos encontrados nas cavernas profundas sob as Hellers, refinando-os, inventando novos meios para usá-los, tudo com as artes da matriz.

- Não é verdade que eles têm trabalhado com matrizes até o 259 nível?

- Acho que sim, primo. Afinal, há trinta pessoas ali. Pode ser a mais distante das Torres, mas não é a menor.

- O trabalho deles com produtos químicos é brilhante, embora eu pense que teria medo de fazer algumas coisas que eles vêm realizando - comentou Allart. - Mas seus técnicos dizem que depois que se controla das redes, uma matriz do 262 nível não é mais perigosa que uma do quarto nível. Não sei se eu gostaria de me confiar à concentração de 25 outras pessoas.

Donal sorriu, tristemente.

- Eu bem que gostaria de saber mais sobre essas coisas. Só conheço o que Margali me ensinou e o pouco que eles tiveram tempo para me dizer, quando os visito... e raramente eles me deram permissão para ficar por mais de um dia.

- Creio que você poderia ser um mecânico ou talvez mesmo um técnico - disse Allart, pensando como o rapaz reagira depressa a seu ensinamento, - mas seu destino será outro.

- Tem razão. Eu não abandonaria meu pai e minha irmã, e precisam de mim aqui. Por isso, há muitas coisas que jamais farei com uma matriz, pois só podem ser realizadas na segurança de uma Torre. Mas estou contente por ter aprendido o que pude e nada me deixa tão satisfeito quanto isto - acrescentou Donal, pondo a mão no planador de madeira e couro. - Está pronto para partir, primo?

Ele foi até a beira do parapeito, balançou os flapes de couro das asas do planador para pegar as correntes de ar e depois se projetou no espaço, subindo no mesmo instante. Allart, os sentidos aguçados, pôde apenas sentir a beira da corrente; avançou pelo parapeito, sentindo um frio interior pela altura, o vislumbre do abismo assustador lá embaixo. Mas se um garoto como Donal podia voar sem medo naquela altura... Ele se concentrou na matriz e se lançou no espaço, sentindo a vertigem súbita da queda longa e o puxão da corrente que o levou para cima. O corpo balançou rapidamente, entre as longarinas internas, inclinando-se para um lado e outro, enquanto absorvia o equilíbrio do planador. Avistou o planador de Donal, elevando-se como um gavião por cima do seu, e pegou uma corrente ascendente, até que estavam voando lado a lado.

Durante os primeiros minutos, Allart ficou tão absorto no domínio do planador que não olhou para baixo, toda a sua percepção concentrada nos delicados equilíbrios, a pressão do ar e as correntes de energia que podia vagamente sentir ao redor. De certa forma, isto o fez pensar em seus dias em Nevarsin, quando começara a dominar seu laran e aprendera a ver os seres humanos como redes de energia, sem a percepção de carne e osso, do corpo sólido. Sentia agora que o ar insubstancial estava repleto das mesmas correntes de força. Se muito ensinei a Donal, ele não me retribuiu com menos, ensinando-me esse domínio das correntes de ar e os fluxos de força que impregnam o ar, da mesma forma que a terra e as águas... Allart nunca antes tivera percepção daquelas correntes no ar; agora, quase podia vê-las, podia escolher entre elas, cavalgando-as até uma altura em que os ventos arremetiam contra o frágil planador, disparando por uma corrente vertiginosa, pegando outra corrente conveniente para descer a uma altura mais segura. Depois, estendido entre as longarinas, deixando um fragmento da percepção para controlar o planador, ele começou a contemplar o panorama da montanha.

A paisagem montanhosa se estendia por toda parte, encostas sucessivas cobertas por florestas escuras, interrompidas de vez em quando por fileiras de árvores - as plantações de castanhas ou fungos comestíveis. Encostas haviam sido limpas para a relva em que manadas pastavam, pontilhadas com as cabanas pequenas em que viviam os pastores. Aqui e ali, ao lado de um regato descendo da montanha, havia uma roda d'água para a produção de queijos ou das fibras que podiam ser extraídas do leite com a ajuda de matriz. Numa encosta rochosa ele divisou a entrada de uma rede de cavernas em que residiam os forjadores e percebeu o clarão de seus fogos, num lugar em que as centelhas voando não podiam pôr em risco as florestas ou áreas povoadas.

À medida que continuaram a voar, as colinas foram se tornando mais altas e mais desertas. Ele sentiu o contato de Donal em seus pensamentos - o rapaz estava se tornando um competente telepata, que podia atrair sua atenção sem perturbá-la - e desceu atrás dele entre duas colinas, para o lugar em que a pedra branca da Torre Tramontana brilhava à claridade intensa do meio-dia. Allart viu uma sentinela no topo levantar a mão em saudação e seguiu Donal para baixo, dobrando as asas do planador ao pousar, caindo de joelhos e se levantando num único e controlado movimento e se desvencilhando das asas do planador; mas Allart, menos eficiente na operação, tropeçou e caiu, numa confusão emaranhada de hastes e cordas. Donal, rindo, veio ajudá-lo a se desemaranhar.

- Não se preocupe, primo, também já pousei assim muitas vezes - disse ele, levando Allart a especular há quantos anos isso não acontecia. Apontando para o velho encurvado que estava parado ao seu lado, Donal acrescentou: - Arzi cuidará de seu planador e o manterá seguro até voltarmos.

- Mestre Donal, é uma alegria, como sempre, recebê-lo de novo - disse o velho, num dialeto tão forte que Allart, embora conhecesse a maioria dos dialetos das Hellers, teve dificuldade para entender. - Presta-nos uma grande honra, dorriyn.

Ele fez uma mesura brusca, incluindo Allart na saudação. Donal disse:

- Este é o meu velho amigo Arzi, que já servia na Torre antes do meu nascimento e me recebe aqui três ou quatro vezes por ano desde que eu tinha dez anos de idade. Arzi... este é meu primo, Dom Allart Hastur de Elhalyn.

- Vai dom. - A reverência de Arzi foi quase cômica na profundidade e deferência. - Lorde Hastur nos presta uma grande honra. Ah, é um dia feliz... o vai leronis terá a maior satisfação em recebê-lo, Lorde Hastur.

- Não Lorde Hastur - disse Allart, gentilmente -, mas apenas Lorde Allart, meu bom homem. Mas, de qualquer forma, agradeço por sua acolhida.

- Já se passaram muitos anos desde que um Hastur nos visitou pela última vez - disse Arzi. - Por gentileza, vai domyn, queira me acompanhar.

- Veja só o que os ventos nos trouxeram! - exclamou uma voz jovial.

Uma jovem alta e esguia, os cabelos tão claros quanto a neve no pico distante, correu para Donal com as mãos estendidas em saudação, enquanto acrescentava: - Que prazer tê-lo de volta entre nós, Donal! Mas trouxe alguém para nos visitar!

- Estou contente por voltar, Rosaura - disse Donal, abraçando a jovem como se fossem parentes que há muito não se encontravam.

A jovem estendeu as mãos para cumprimentar Allart, com o contato rápido de telepatas, para quem isso era mais natural do que o contato de pontas de dedos. Allart, é claro, já sabia quem ela era antes mesmo que Donal pronunciasse seu nome. Mas quando se tocaram, o rosto da jovem se iluminou num sorriso.

- Mas você é Allart, que passou meio ano em Hali! Soube que estava nas Hellers, mas não tinha a menor idéia de que a sorte o traria até aqui, parente. Veio trabalhar com a Torre Tramontana?

Donal observava o encontro, espantado. E disse a Allart:

- Mas você nunca esteve aqui antes, primo!

- É verdade - disse Rosaura. - Até este momento, nenhum de nós jamais vira o rosto de nosso parente, mas já entramos em contato muitas vezes em transmissões. Este é um dia feliz para Tramontana, parente! Venha conhecer os outros.

Rosaura levou-os para dentro e logo estavam cercados por mais de uma dúzia de rapazes e moças - alguns dos outros trabalhavam nas transmissões e havia também os que dormiam, depois de uma noite de trabalho - todos acolhendo Donal quase como se fosse um deles.

As emoções de Allart eram confusas. Conseguira não pensar muito no que deixara na Torre de Hali e agora se encontrava pessoalmente com as mentes com que já mantivera contato em transmissões, pondo rostos, vozes e personalidades nas pessoas que conhecera apenas no contato impalpável de mente para mente.

- Vem a Tramontana para ficar, primo? Bem que podemos aproveitar um bom técnico.

Pesaroso, Allart sacudiu a cabeça.

- Tenho coisas a fazer em outro lugar, embora nada pudesse me agradar tanto. Passei muito tempo em Aldaran, quase sem notícias do mundo exterior. Como está a guerra?

- Praticamente a mesma coisa que antes - respondeu Ian-Mikhail de Storn, um jovem esguio e moreno, de cabelos crespos. - Houve um rumor de que Alric Ridenow, a quem chamam de Raposa Vermelha, foi morto, mas era rebate falso. O Rei Regis está gravemente doente e o Príncipe Felix foi convocado pelo Conselho. Se o rei morrer, que seu reinado seja longo, haverá necessidade de outra trégua, enquanto Felix é coroado, caso ele venha a ser. Entre os seus parentes, Allart, veio a notícia de que um filho nasceu à dama de seu irmão, no primeiro dia do mês rosa. O menino passa bem, embora Lady Cassilde não tenha recuperado as forças e não pudesse amamentá-lo pessoalmente. Há algum receio de que ela não consiga se restabelecer. Mas o menino já foi proclamado herdeiro de seu irmão.

- Abençoados sejam os deuses e que Evanda a misericordiosa sorria para a criança.

Allart disse a fórmula com um alívio genuíno. Damon-Rafael tinha agora um herdeiro legítimo; não havia mais o problema do Conselho ter de escolher entre um irmão legítimo e um filho nedestro.

Mesmo assim, entre os muitos futuros, Allart se viu coroado em Thendara. Furioso, ele tentou fechar a porta a seu laran e às possibilidades indesejáveis. Será que, no final das contas, tenho alguma coisa do tipo de ambição de meu irmão?

- Falei com sua esposa há três dias numa transmissão - informou Rosaura. Allart sentiu um aperto doloroso no coração, um impacto nas costelas.

Cassandra! Há quanto tempo não evocava a imagem de Cassandra em sua mente?

- Como ela está?

- Parece muito bem e contente - respondeu Rosaura. - Já sabia, não é mesmo, que ela foi promovida a monitora plena do círculo de Coryn em Hali?

- Não, não sabia.

- Ela é uma poderosa telepata nas redes de transmissão. Não sei como pôde deixá-la para trás. Afinal, não são casados há muito tempo, não é mesmo?

- Não tem um ano - disse Allart.

É verdade, um tempo terrivelmente curto para se deixar uma esposa amada... Allart esquecera que estava entre telepatas treinados, um círculo de Torre; por um momento, baixara as barreiras e viu a angústia de seus pensamentos refletida ao redor.

- Creio que se pode dizer que a guerra nos separou. O mundo segue o seu curso como quer, não como você ou eu desejaríamos.

Ele se sentiu pomposo e afetado ao pronunciar o clichê, mas os outros exibiram as expressões impassíveis da ausência de contato, a retirada mental que é a cortesia entre telepatas quando verdades muito reveladoras afloram. Allart recuperou o controle, enquanto Donal explicava a missão que os levara a Tramontana:

- Meu pai mandou-me buscar a primeira remessa de agentes químicos de combate ao fogo, para levar ao posto no coração da floresta de árvores de resina. O resto pode ser despachado mais devagar, em animais de carga. Estamos construindo um novo posto de combate ao fogo no pico. Não se fala em outra coisa, com o começo da estação e as primeiras tempestades.

Um dos leronyn levou Donal para fazer um pacote dos agentes químicos que pudesse ser levado nos planadores, enquanto Rosaura conduzia Allart para um canto.

- Lamento as necessidades que o separaram tão cedo de sua esposa, parente; mas se quiser, e se Cassandra estiver nas transmissões, pode falar com ela.

Confrontado com a possibilidade, Allart sentiu um aperto no coração. Já se resignara a nunca mais ver Cassandra; pelo menos assim evitariam o mais sinistro dos futuros que já vira. Mas sabia que não podia se abster daquela oportunidade de falar com ela.

A câmara de matriz era como qualquer outra, o teto abobadado e janelas de luz azuladas embaixo, deixando passar uma suave radiância, a tela de monitor, a rede grande de transmissão. Uma jovem na túnica solta de uma trabalhadora de matriz ajoelhava-se diante da rede, o rosto impassível e sereno, com a expressão distante de uma técnica com a mente sintonizada em outro lugar, os pensamentos concentrados na rede, que ligavam todos os telepatas em todas as Torres de Darkover.

Allart instalou-se ao lado da jovem, a parte interior de seus pensamentos ainda perturbada.

O que direi a ela? Como posso encontrá-la outra vez, mesmo dessa maneira?

Mas a velha disciplina prevaleceu, os rituais de respiração para acalmar a mente, o corpo se fixando numa das posturas confortáveis que podiam ser mantidas indefinidamente, sem muita fadiga.

Ele se projetou na vasta escuridão turbilhonante, como o vôo do planador sobre o enorme abismo. Pensamentos rodopiaram ao seu redor, como conversas distantes numa sala apinhada, sem sentido, porque estava alheio à sua origem ou contexto. Lentamente, à medida que se tornou mais consciente da estrutura da rede de transmissão naquela noite, sentiu um contato mais definido, a voz de Rosaura.

Hali...

Estamos aqui. O que você tem?

Se Lady Cassandra Aillard-Hastur está entre vocês, seu marido se encontra conosco em Tramontana e pede para lhe falar...

E você, Allart? Tão reconhecível quanto os cabelos brilhantes, o sorriso alegre e infantil, ele fez contato com Arielle. Acho que Cassandra está dormindo, mas por isso ela terá o maior prazer em ser despertada. Transmita meus cumprimentos à minha prima Renata; penso nela muitas vezes, com amor e bênçãos. Vou acordar Cassandra para falar com você.

Arielle rompeu o contato. Allart estava de volta ao silêncio flutuante, mensagens passando ao redor sem se registrarem em qualquer parte de sua mente. E depois, sem qualquer aviso, ela estava ali, ao seu lado, ao redor, uma presença quase física... Cassandra!

Allart, meu amado...

A textura de lágrimas, espanto, incredulidade, reencontro; um instante, intemporal (três segundos? Três horas?), de união absoluta, extasiada, como um abraço. Não era como nenhuma outra coisa, a não ser como o momento em que a possuíra pela primeira vez, e Allart sentiu as barreiras caírem, sentiu a mente de Cassandra ceder e se fundir na sua, uma união mais completa, uma rendição mútua mais total do que o encontro dos corpos. Sem palavras, mas completa; ele estava perdido na união e sentia que Cassandra também se perdia.

Não era possível manter por muito tempo um nível assim; Allart sentiu que retrocedia, desvanecia-se para pensamento comum, contato comum.

Allart, como foi parar em Tramontana?

Vim com o filho de criação de Aldaran, afim de buscar a primeira remessa de agentes químicos de combate a incêndio para a estação do fogo; o problema é intenso nas Hellers. Ele lançou uma imagem do vôo longo e fascinante até ali, o movimento do planador, o vento soprando por sua cabeça e corpo.

Também tivemos incêndios por aqui. A Torre de Hali foi atacada por carros e projéteis incendiários. Allart viu as chamas vorazes na praia, explosões, um carro aéreo derrubado e queimando como um meteorito ao cair, explodido pelas mentes ligadas de onze pessoas de Hali, os gritos agonizantes do piloto que o trouxera, drogado e suicida...

Mas você está segura, minha amada?

Estou, sim, embora todos nos sintamos exaustos de trabalhar dia e noite... Muitas coisas me aconteceram, meu marido. Tenho muita coisa para lhe contar. Quando voltará para mim?

Será quando os deuses desejarem, Cassandra, mas não me demorarei por mais tempo do que o necessário... Ao formular as palavras-pensamentos, Allart compreendeu que eram verdadeiras. A parte de sabedoria podia ser a de nunca mais tornar a vê-la. Mas mesmo agora podia prever um dia em que tornaria a tomá-la em seus braços; abruptamente, teve certeza de que, mesmo que a morte fosse a penalidade, não recuaria... nem Cassandra.

Allart, devemos temer a entrada dos Aldarans nesta guerra? Desde que nos deixou para ir às Hellers, todos receamos isso mais do que qualquer outra coisa.

Não. Aldaran está bastante preocupado com uma rivalidade com o irmão; não tem lealdade nem ressentimento para qualquer lado. Estou aqui para ensinar o laran ao filho de criação de Lorde Aldaran, enquanto Renata cuida de sua filha...

Ela é muito bonita? Nos pensamentos de Cassandra, sem palavras mais inconfundíveis, ele sentiu rancor, ciúme. Seria por Renata ou pela filha desconhecida? Ele ouviu a resposta silenciosa: as duas...

Muito bonita mesmo... Allart manteve os pensamentos leves, divertidos.

Ela tem onze anos de idade... e nenhuma mulher neste mundo, nem mesmo a Abençoada Cassilda em seu santuário, é de longe tão bonita quanto você, minha amada... Outro momento de fusão, feliz, extasiada, como se fossem apenas um, com tudo o que eram, corpos, mentes, almas... Ele devia rompê-la. Cassandra não poderia manter por muito tempo, não se estivesse trabalhando como monitora. Lentamente, relutante, ele deixou o contato retroceder, desaparecer, desvanecer-se para o nada, mas toda sua mente e corpo ainda estavam cheios de Cassandra, como se pudesse sentir a impressão de seu beijo na boca.

Atordoado, exausto, Allart retornou à percepção da câmara de matriz, fria e azul, ao seu redor, voltou ao próprio corpo, tremulo e com cãibras. Devagar, após um longo momento, ele se mexeu, levantou-se, saiu da câmara na ponta dos pés, deixando imperturbáveis os operadores na rede de transmissão. Ao descer pela longa escada em espiral, ele não sabia se devia ou não sentir-se grato pela oportunidade de falar com Cassandra.

Renovou um vínculo que seria melhor romper. Naquele longo momento de união, ele captara muitas coisas que não compreendia muito bem com a mente consciente, mas sentia que Cassandra também tentara, à sua maneira, romper o vínculo. Não estava ressentido. Ainda estavam ligados, mais fortes do que nunca, pelos laços do desejo e frustração. E amor? E amor?

Mas o que é o amor? Allart não tinha certeza se o pensamento era seu ou se o captara de alguma forma da mente confusa de sua jovem esposa.

Rosaura encontrou-o na base da escada. Se notou seu rosto atordoado, os vestígios de lágrimas em torno dos olhos, ela não disse nada; havia certas cortesias entre os telepatas das Torres, já que nenhuma emoção forte podia ser escondida. Rosaura limitou-se a dizer, suavemente:

- Deve estar cansado e exaurido depois de um contato por distância tão longa, primo. Venha se revigorar.

Donal juntou-se a eles na refeição, assim como meia dúzia de operadores de Tramontana que não estavam de serviço nem repousando. Eram todos obcecados pelo relaxamento da tensão, a iguaria rara de uma visita naquele lugar tão isolado. O pesar de Allart e o anseio renovado por Cassandra foram sufocados por uma maré de gracejos e risos. A comida era estranha para Allart, embora saborosa; um vinho branco das montanhas bastante doce que ele nunca provara antes, cogumelos e fungos preparados em uma dúzia de maneiras diferentes, um tubérculo ou raiz branco e mole em bolinhos fritos em óleo fragrante, mas não havia qualquer carne. Rosaura explicou que haviam resolvido experimentar ali uma dieta sem carne animal, a fim de verificar se isso lhes aguçava a percepção. Parecia estranho e absurdo para Allart, mas por anos vivera numa dieta assim em Nevarsin.

- Antes de sua partida, Donal, temos uma mensagem para seu pai de criação - comunicou Ian-Mikhail. - Scathfell enviou delegações a Sain Scarp, Storn, Ardais e Scaravel, assim como aos Castamirs. Não sei qual o propósito, mas acho que ele deve ser informado, como suserano de Scathfell. Já que Scathfell não quis confiar as mensagens às redes de transmissão, receio que seja alguma conspiração secreta. Temos ouvido rumores de um rompimento entre seu pai e Lorde Scathfell. Lorde Aldaran deve ser informado.

Donal parecia perturbado.

- Agradeço em nome de meu pai de criação. Claro que sabíamos que tais coisas deviam estar acontecendo, mas nossa leronis é velha e fica muito absorvida com minha irmã. Por isso, não tomamos conhecimento do que acontece no mundo exterior.

- Sua irmã está bem? - indagou Rosaura. - Gostaríamos de tê-la aqui em Tramontana para seu teste.

- Renata Leynier veio de Hali para cuidar dela durante a adolescência - informou Donal.

Rosaura sorriu e disse:

- Renata de Hali; eu a conheço bem das transmissões. Sua irmã está em boas mãos, Donal.

Chegou o momento de se aprontarem para a partida. Uma das monitoras trouxe os pacotes com agentes químicos, que seriam misturados com água ou outros fluidos para se expandirem de maneira incrível, como uma espuma branca que cobriria uma vasta extensão de fogo. Mais remessas seriam despachadas assim que se pudesse organizar um comboio por terra. Donal subiu para o passadiço por trás da Torre e esquadrinhou o céu. Ao descer, tinha uma expressão preocupada e anunciou:

- Pode haver tempestades antes do pôr-do-sol. Não podemos perder tempo, primo.

Desta vez Allart não sentiu qualquer hesitação em se lançar no espaço, flutuando numa corrente ascendente e usando a força de sua matriz para subir cada vez mais. Mas não podia se entregar totalmente ao desfrute da experiência.

O contato com Cassandra, por mais feliz que tivesse sido, deixara-o esgotado e perturbado. Tentou reprimir todos esses pensamentos, pois o vôo exigia concentração na matriz; a preocupação com pensamentos exteriores era um luxo que não podia se permitir. Mas, insistentemente, via rostos projetados por seu laran: um homem enorme e exuberante que parecia estranhamente com Dom Mikhail de Aldaran; Cassandra, chorando sozinha em seu quarto em Hali, depois subindo e se controlando para trabalhar nas transmissões; Renata enfrentando Dorilys num desafio irado... Pela pura força da vontade, ele tornou a se concentrar nas alturas, no ar passando impetuoso pelo planador, as correntes de ar empurrando dolorosamente os seus dedos estendidos, como se cada dedo fosse uma pena de asa de gavião, ele próprio nem homem nem ave, circulando pelo espaço. Sabia que naquele momento partilhava a fantasia interior de Donal.

- Há tempestades pela frente - informou Donal. - Lamento ter de obrigá-lo a um desvio tão longo, quando não está acostumado a voar, mas precisamos contorná-las. Não é seguro voar tão perto de uma tempestade. Siga-me, primo.

Ele pegou uma corrente de ar conveniente e, ajudado pela matriz, afastou-se da linha reta para Aldaran. Allart podia divisar a tempestade pela frente, sentindo mais do que vendo as cargas de eletricidade saltando de nuvem para nuvem. Circularam numa espiral lenta e longa quase até o solo. Allart pôde sentir a exasperação de Donal.

Teremos de pousar em algum lugar e esperar que a tempestade passe? Eu poderia correr o risco, mas Allart não está acostumado a voar...

Assumirei esse risco com você, parente Donal.

Pois então me siga. É como se esquivar a uma chuva de flechas, mas já fiz isso mais de uma vez... Ele inclinou as asas, subiu numa corrente rápida, depois projetou-se velozmente entre duas nuvens. Depressa! Uma carga de relâmpago acaba de ser desencadeada, e há bem pouco tempo até que outra possa se acumular!

Allart sentiu um prurido estranho e intenso e outra vez eles desafiaram o relâmpago. Se a decisão lhe competisse, teria recuado, mas confiou no laran de Donal para conduzi-los. Afinal, Donal sabia onde e exatamente quando o relâmpago riscaria o céu. Mas mesmo assim Allart sentia calafrios. Voaram por uma pequena rajada de chuva e Allart, encharcado e gelado, apertou com toda força as hastes do planador, as roupas grudadas na pele. Seguiu Donal numa corrente descendente, longa e vertiginosa, passando para uma corrente ascendente no último momento e tornando a subir, até que circulavam sobre o Castelo Aldaran.

Donal deu instruções, uma voz em sua mente: Não podemos descer imediatamente; há muita carga nos planadores e roupas. Quando puséssemos os pés no chão, a descarga nos deixaria sem sentidos. Devemos circular por algum tempo; suba, abra bem as mãos para expelir a carga...

Allart, seguindo as instruções, flutuou em círculos lentos e sonhadores. Sabia que Donal era outra vez o gavião-pessoa, projetando-se na mente e pensamentos de uma grande ave. Circulando por cima do castelo, Allart teve tempo à vontade para observar Aldaran lá embaixo. Naqueles últimos meses tornara-se um segundo lar para ele, mas agora ele divisou com um senso de presságio, uma longa caravana de cavaleiros subindo para os portões. Virando-se, Allart transmitiu um grito de advertência silencioso para Donal, enquanto o líder da caravana desembainhava e brandia uma espada, o som de seu grito - quase audível para Allart, pairando muito acima das ameias, acima da íngreme queda d'água.

- Mas não há ninguém ali, parente! - exclamou Donal, perplexo. - O que o aflige? O que viu? Não há mesmo ninguém ali!

Atordoado, Allart piscou, a vertigem fazendo suas asas adejarem. Ele se inclinou, automaticamente, para manter o equilíbrio no ar. A estrada para Aldaran estava deserta no crepúsculo que se adensava - não havia cavaleiros, homens armados ou estandartes. Seu laran lhe mostrara, apenas seu laran, a visão do que poderia acontecer... ou talvez não. Mas já desaparecera.

Donal sacudiu as asas, voou de lado. Seu alarme agitado impeliu Allart a segui-lo rapidamente.

- Devemos descer, mesmo que a descarga nos deixe sem sentidos! - gritou ele.

Um momento depois, um novo e agitado pensamento alcançou a mente de Allart: Há outra tempestade se aproximando.

Mas não vejo nuvens.

Esta tempestade não precisa de nuvens, pensou Donal, consternado. E a ira de minha irmã, gerando relâmpagos. As nuvens vão aparecer. Ela não nos atingiria, se soubesse, mas de qualquer maneira devemos descer o mais depressa possível.

Donal deixou-se cair numa corrente rápida, mudando a posição do corpo no planador, a fim de pender verticalmente, usando o peso e torcendo o corpo para fazer o planador descer. Allart, mais cauteloso e menos experiente, seguiu uma espiral descendente mais moderada, porém ainda assim sentiu a dolorosa descarga de eletricidade no instante em que seus pés tocaram no solo, por trás do castelo. Donal, desafivelando as correias e empurrando o planador numa confusão de cordas para o servo que se aproximou correndo, murmurou:

- O que pode ter sido? O que aconteceu para irritar ou assustar Dorilys?

Com uma palavra de desculpa para Allart, ele se afastou, apressado.

 

Renata também ouviu o ressoar da trovoada de verão, sem pensar muito a respeito, enquanto atravessava o castelo, a caminho dos aposentos de Dorilys, para a aula diária do final da tarde.

Como Dorilys era mais jovem do que as operadoras noviças em qualquer Torre - e também porque Dorilys não procurara o treinamento por sua livre e espontânea vontade, como elas faziam, não assumira o compromisso de suportar sem qualquer queixa todos os desconfortos e dificuldades do trabalho - Renata tentava fazer com que o ensinamento fosse fácil e agradável, criando jogos e diversões que desenvolveriam o uso do laran pela garota, sem exercícios enfadonhos para cansá-la ou entediá-la. Dorilys ainda era muito jovem para ser testada formalmente pela telepatia, que quase nunca se desenvolvia antes da puberdade; mas outras formas de laran podiam aflorar mais cedo e Renata calculava que Dorilys possuía uma grande quantidade de clarividência e talvez algum poder telecinético, além de seu formidável dom de gerar ou controlar relâmpagos. Por isso, ela vinha usando jogos simples na instrução: esconder doces e brinquedos e deixar que Dorilys os descobrisse com seu laran; vendar seus olhos e determinar que encontrasse o caminho entre cursos de obstáculos intrincados ou partes desconhecidas do castelo; pedir que ela descobrisse, vendada, objetos pessoais misturados com coisas similares, pela "sensação" de seu magnetismo pessoal. Dorilys era uma discípula rápida e gostava das aulas, a tal ponto que em duas ou três ocasiões Margali controlara sua jovem e rebelde pupila com a ameaça de privá-la das lições, como fazia com as aulas de música, a menos que ela concluísse de maneira satisfatória as outras tarefas de que não gostava tanto.

Até onde Renata podia determinar, Dorilys não possuía os dois dons que a tornariam uma operadora treinável de Torre: telepatia, definida como a capacidade de ler ou captar pensamentos deliberados; e empatia ou a capacidade de sentir as emoções ou sensações físicas de outra pessoa em sua própria mente e corpo. Mas qualquer das duas coisas podia se desenvolver na adolescência - o que acontecia com bastante freqüência - e se, na ocasião, ela tivesse algum controle sobre as correntes e fluxos de energia, haveria menos perigo da temida doença do limiar.

Se ao menos pudesse se desenvolver mais cedo... ou mais tarde! Era o flagelo de todas as famílias com laran que esses dons desconcertantes se desenvolvessem ao mesmo tempo em que a criança sofria as convulsões físicas e emocionais da puberdade. Muitos dos que possuíam esses dons descobriam que o súbito afloramento dos poderes psíquicos se somava ao desequilíbrio temperamental e hormonal do período para formar uma sobrecarga sobre o corpo e cérebro. Ficavam completamente transtornados; às vezes sobrevinham crises, convulsões e até mesmo a morte. A própria Renata perdera um irmão para a doença do limiar; nenhuma família com laran sobrevivia incólume.

Dorilys tinha sangue Aldaran pelo lado do pai, não o Delleray relativamente estável, que era próximo do Hastur. O que Renata sabia das linhas de Aldaran e Rockraven não a deixavam muito esperançosa, mas quanto mais Dorilys soubesse das correntes de energia em seu corpo, fluxos nervosos e energônicos, maior seria a probabilidade de sobrevivência às convulsões da adolescência, sem uma tensão extrema.

Agora, ao se aproximar dos aposentos de Dorilys, Renata sentiu vibrações de irritação, paciência cansada (a própria Renata considerava a velha leronis uma santa por aturar aquela garota difícil e mimada) e a arrogância da moça quando se zangava. Dorilys raramente exibia aquele seu lado mesquinho para Renata, pois admirava a jovem leronis e queria sua boa vontade e aprovação. Mas nunca fora disciplinada com firmeza e tinha dificuldade para obedecer quando suas emoções eram contrárias. E não ajudava o fato de Margali, desde a morte de Darren de Scathfell, sentir medo de sua pupila e não ser capaz de escondê-lo.

Também tenho medo dela, pensou Renata. Mas ela não sabe disso; se algum dia eu deixá-la saber, nunca mais poderei lhe ensinar coisa alguma!

Fora da porta, ouviu a voz de Dorilys, um murmúrio petulante. Renata aguçou a sensibilidade para ouvir a resposta firme de Margali.

- Não, criança. Seu ponto é uma desgraça. Não haverá aula de música ou qualquer aula com Lady Renata, até que desfaça todos os pontos malfeitos e refaça tudo direito. - Uma pausa e Margali acrescentou, em tom persuasivo: - Não é tão desajeitada assim, apenas não está se esforçando. Pode costurar muito bem quando quer, mas hoje resolveu que não deseja costurar e por isso faz tudo errado deliberadamente. E agora desfaça esses pontos... não, criança, use o instrumento apropriado! Não tente tirar os pontos com os dedos ou vai rasgar o pano! O que há com você hoje, Dorilys?

- Não gosto de costurar. Quando eu for Lady de Aldaran, terei uma dúzia de costureiras para me servir, por isso não tenho a menor necessidade de aprender. E Lady Renata não vai me privar da aula só porque você está querendo!

O tom rude e desdenhoso levou Renata a tomar uma decisão. A costura não era importante, mas a autodisciplina de se empenhar de forma meticulosa e conscienciosa numa tarefa para a qual não se tinha talento nem gosto era um ensinamento valioso. Renata, uma empática e monitora treinada, sentiu ao abrir a porta a dor lancinante na testa de Margali, os vincos de cansaço no rosto da mulher mais velha. Dorilys recorria ao expediente antigo de provocar dores de cabeça em Margali, quando esta não fazia tudo o que ela queria. Sentada com a odiada costura, Dorilys parecia doce e dócil, mas Renata pôde ver, o que era impossível para Margali, o sorriso de triunfo em seu rosto, ao passar pela porta. Ela largou a costura no chão e se levantou, correndo para Renata.

- Está na hora da minha aula, prima? Renata disse friamente:

- Pegue a costura e guarde direito na gaveta... ou, melhor ainda, sente-se e termine o serviço direito.

- Não preciso aprender a costurar - protestou Dorilys, amuada. - Meu pai quer que eu aprenda coisas que você pode me ensinar!

- O que melhor posso lhe ensinar é que deve fazer o que tem de fazer, quando tem de fazer, da melhor forma que puder, quer queira ou não fazer - declarou Renata, com firmeza. - Não me interessa se sabe costurar direito ou se seus pontos são trôpegos como um chervine bêbado de maçãs derrubadas pelo vento... - Dorilys soltou uma risadinha triunfante. - ...mas não vai usar suas aulas comigo para levar a melhor sobre sua mãe de criação ou se esquivar ao que ela quer que você faça. - Renata olhou para Margali, que estava pálida com a dor, e decidiu que era o momento para uma confrontação. - Ela está lhe provocando dores de cabeça outra vez?

Margali balbuciou:

- Ela não sabe o que faz.

- Então terá de aprender. - A voz de Renata era gelada. - O que quer que esteja fazendo, Dorilys, vai livrar sua mãe de criação imediatamente, ajoelhar-se e pedir seu perdão... e depois, talvez, eu continue a lhe dar aulas.

- Pedir perdão? - murmurou Dorilys, incrédula. - Não vou fazer isso! Alguma coisa na pequena inclinação do queixo, embora se dissesse que Dorilys parecia com a mãe falecida, fez Renata pensar subitamente em Lorde Aldaran. Ela tem o orgulho do pai, pensou Renata. Mas ainda não aprendeu a disfarçá-lo com a cortesia, concessão conveniente e charme. Ainda é jovem e podemos ver essa teimosia em toda a sua feiúra nua e crua. Já não se importa com quem magoa, desde que possa impor sua vontade. E, para ela, Margali não é muito melhor do que uma serva. Nem eu; ela só me obedece porque isso lhe convém.

- Estou esperando, Dorilys. Peça o perdão de Margali imediatamente e nunca mais torne a fazer isso!

- Está bem, mas só se ela prometer que nunca mais vai me dar ordens - respondeu Dorilys, mal-humorada.

Renata contraiu os lábios. Então haveria mesmo uma confrontação. Se eu recuar, se permitir que ela imponha suas condições, Dorilys nunca mais me obedecerá. E o ensinamento pode salvar sua vida. Não quero o poder sobre ela, mas se tenho de ensiná-la, é preciso que aprenda a obediência, que se baseie em meu julgamento, até que eu possa confiar no seu próprio e controlá-lo.

- Não perguntei quais seriam as suas condições para pedir perdão, Dorilys. Apenas lhe mandei que fizesse. Estou esperando.

- Renata... - murmurou Margali.

- Não se intrometa, Margali. Sabe tão bem quanto eu qual é a primeira coisa que ela deve aprender. - Para Dorilys, Renata acrescentou, a voz como um açoite, usando o tom de comando: - Ajoelhe-se agora e peça perdão à sua mãe de criação!

Dorilys automaticamente caiu de joelhos, mas no instante seguinte levantou-se de um pulo, gritando em voz estridente:

- Eu disse que nunca mais você devia usar a voz de comando comigo! Não vou permitir e meu pai também não! Ele não vai querer que eu me humilhe pedindo perdão a ela!

Renata pensou: Dorilys devia ter sido surrada com rigor antes de ter idade e força suficientes para acalentar idéias tão exageradas da própria importância. Mas todos sempre tiveram medo dela e não queriam irritá-la. E não posso culpá-los. Eu também tenho medo dela.

Ela sabia que estava enfrentando uma criança furiosa cuja raiva podia matar. Mesmo assim, tenho de prevalecer. Ela é uma criança e sabe que está errada, enquanto eu sou uma técnica e monitora treinada na Torre. Tenho de ensiná-la agora, quando sou mais forte. Porque chegará o dia, quando ela estiver plenamente crescida, em que ninguém será bastante forte para controlá-la; e antes que esse momento chegue, ela deve ser capaz de controlar a si mesma.

A voz de Renata tornou a soar como um açoite:

- Dorilys, seu pai a entregou aos meus cuidados em todas as coisas. Disse-me que eu tinha permissão para surrá-la, se você desobedecesse. É uma garota crescida e eu não gostaria de humilhá-la assim, mas estou lhe dizendo... a menos que me obedeça agora e peça perdão à sua mãe de criação, farei exata-mente isso, como se fosse uma criança muito pequena para escutar a voz da razão. Faça o que estou mandando e agora mesmo! - Não vou fazer e você não pode me obrigar!

Como se um eco às suas palavras, houve um ressoar de trovoada além das janelas. Dorilys estava furiosa demais para ouvir, mas sentiu e se encolheu.

Renata pensou: Isso é átimo. Ela ainda sente um pouco de medo do próprio poder. Não quer matar de novo...

E foi nesse instante que Renata sentiu uma dor lancinante na testa, como uma cinta a apertá-la... estaria captando aquilo de Margali, com seu poder de empatia? Não; um rápido olhar para a criança irada mostrou que Dorilys se achava tensa, o rosto franzido, concentrada numa raiva intensa. Dorilys fazia com ela o que fizera com Margali.

A diabinha!, pensou Renata, dividida entre a raiva e a admiração involuntária pelo poder e espírito da criança. Se toda essa força e desafio puderem ser convertidos para algum propósito útil, que mulher ela se tornará! Concentrando-se em sua matriz - o que nunca fizera antes na presença de Dorilys, a não ser para monitorá-la - Renata começou a reagir, refletindo a energia para Dorilys. Pouco a pouco, sua dor diminuiu e ela viu o rosto da garota empalidecer com a tensão. Mantendo a voz calma, ela disse, com algum esforço:

- Está vendo? Não pode me dominar, Dorilys. Sou mais forte do que você. Não quero machucá-la e você sabe disso. E agora me obedeça e teremos a nossa aula.

Renata sentiu Dorilys revidar, furiosa. Recorrendo a toda a sua força, pegou e imobilizou a criança como se a envolvesse fisicamente em seus braços, tolhendo seu corpo e mente, voz e laran. Dorilys tentou gritar "Largue-me!" e descobriu, aterrorizada, que a voz não lhe obedecia, que não podia fazer um movimento sequer... Renata, sensitiva, empática, sentiu o terror de Dorilys como se fosse em seu próprio corpo, angustiou-se em compaixão por ela.

Mas Dorilys precisa saber que sou bastante forte para protegê-la de seus próprios impulsos, que não pode me atacar sem pensar, como fez com Darren. Precisa saber que está segura comigo, que não a deixarei machucar a si mesma ou a qualquer outra pessoa.

Dorilys estava agora com um medo genuíno. Por um momento, observando seus olhos esbugalhados, os pequenos e frenéticos movimentos acuados de seus músculos, Renata experimentou tamanha compaixão que não pôde mais agüentar. Não quero machucá-la ou destruir seu espírito, mas apenas ensiná-la... protegê-la de seu terrível poder! Algum dia ela saberá disso, mas agora está tão assustada, a pobre coitada...

Ela viu os pequenos músculos na garganta de Dorilys se mexendo, fazendo um esforço para falar, e liberou o controle da voz da criança; viu as lágrimas escorrendo dos olhos de Dorilys.

- Largue-me! Largue-me!

Margali fitou-a com uma expressão suplicante; ela também sofria pelo desamparo de sua amada filha de criação. E a velha leronis murmurou:

- Solte-a, Lady Renata. Ela será boazinha... não é mesmo, minha criança? Renata disse, gentil:

- Como pode perceber, Dorilys, ainda sou mais forte do que você. Não permitirei que machuque ninguém, nem a si mesma. Sei que não quer realmente machucar ou matar ninguém por um momento de raiva, só porque não pode impor sua vontade em todas as coisas.

Dorilys começou a chorar, ainda completamente imóvel, sob o controle do laran de Renata.

- Largue-me, prima, eu lhe suplico. Serei boa. Prometo. Sinto muito.

- Não é a mim que deve pedir perdão, criança, mas sim à sua mãe de criação - lembrou Renata suavemente, ao soltar Dorilys.

A garota caiu de joelhos e conseguiu balbuciar:

- Desculpe, Margali. Não tive a intenção de machucá-la. Estava apenas zangada.

E, depois, Dorilys desatou num choro incoerente. Os dedos finos de Margali, encarquilhados pela idade, afagaram o rosto de Dorilys.

- Sei disso, meu coração. Nunca machucaria ninguém. Apenas faz as coisas sem pensar.

Dorilys virou-se para Renata e sussurrou, os olhos arregalados pelo horror:

- Eu poderia... poderia ter feito com você o que fiz com Darren... e amo você, prima, amo de verdade.

Ela abraçou Renata, que também a enlaçou, ainda tremendo.

- Não chore mais, querida. Não vou deixar que machuque ninguém. Prometo. Nunca mais deixarei que machuque alguém. - Ela pegou seu lenço e enxugou os olhos de Dorilys. - E agora guarde a sua costura direito e vamos começar as nossas aulas.

Ela sabe agora do que é capaz de fazer e está começando a ser bastante sensata para ter medo. Se ao menos eu conseguir controlá-la até que ela tenha sensatez suficiente para se controlar!

Lá fora, a tempestade se desvanecera para um rumor distante e depois se extinguiu por completo.

Horas mais tarde, no entanto, Renata encontrou-se com Allart, tremendo de tensão e medo por muito tempo reprimidos.

- Fui mais forte do que ela... mas não o suficiente - sussurrou Renata. - Fiquei apavorada, parente!

Estavam sentados na sala da pequena, mas luxuosa suíte que Lorde Aldaran pusera à disposição de Renata.

- Conte-me tudo - pediu Allart. - O que vamos fazer com ela?

- Detestei assustá-la daquele jeito, Allart. Deve haver uma maneira melhor de ensiná-la além do medo.

- Creio que você não tinha opção. Ela precisa aprender a temer os próprios impulsos. Há mais de uma espécie de medo. - A conversa intensificava muitas de suas ansiedades antigas, reavivadas pelo contato com Cassandra, pelo longo vôo com Donal, pelo ambiente da Torre em Tramontana. - Minha própria batalha fora travada com o medo, o tipo de medo que me paralisava e me impedia de qualquer ação. Não vejo muita coisa boa nesse tipo de medo. Até conseguir dominá-lo, eu não era capaz de fazer nada. Mas tenho a impressão de que ela sabe muito pouco sobre cautela e o medo pode ser útil, até aprender a cautela racional.

Renata repetiu o que pensara durante a batalha de vontades:

- Se houver algum meio de controlar toda aquela força, que mulher ela pode se tornar!

- É justamente para isso que você está aqui. Não desanime, Renata. Ela ainda é muito jovem e há tempo.

- Mas não o suficiente. Receio que ela entrará na puberdade antes do final do inverno. Não sei se haverá bastante tempo para lhe ensinar o que precisa aprender antes que mais esse fardo terrível seja acrescentado.

- Não pode fazer mais do que o seu limite.

Allart especulou se as imagens em sua mente - um rosto de criança cercado por relâmpagos, Renata chorando na câmara abobadada, o corpo estofado pela gravidez - eram autênticas ou provocadas apenas pelo medo. Como podia distinguir entre o que aconteceria, o que devia acontecer e o que podia nunca acontecer?

O tempo é meu inimigo... Para todas as outras pessoas segue num único curso, mas para mim se dispersa e retorna, vagueia por uma terra em que nunca é tão real quanto agora...

Mas ele tornou a banir a autocompaixão e preocupação, contemplando os olhos transtornados de Renata. Parecia tão jovem, não mais do que uma criança e já sobrecarregada com aquela tremenda responsabilidade! Procurando por algum assunto que aliviasse a angústia de Renata, ele disse:

- Falei com Hali numa transmissão. Arielle mandou saudações e seu amor.

- Ah, a querida Arielle... Também sinto muita saudade. Quais são as notícias de Hali, primo?

- Meu irmão tem um filho, nascido de sua esposa e, portanto, legítimo. E nosso rei está gravemente doente, o Príncipe Felix foi chamado pelo Conselho. Sei apenas isso. E Hali foi atacada por projéteis incendiários.

Renata estremeceu.

- Alguém ficou ferido?

- Acho que não. Cassandra teria me falado se houvesse ferimentos graves. Mas todos estão exaustos, trabalhando dia e noite. - Uma pausa e Allart acrescentou o que estava em sua mente desde que falara com a esposa: - Sinto-me angustiado por estar aqui em segurança, enquanto ela enfrenta todos os perigos! Eu deveria cuidar de Cassandra e protegê-la, mas não posso.

- Você também enfrenta perigos, Allart. Não duvide da força de Cassandra para enfrentar os seus. Quer dizer que ela agora é monitora, hem? Eu sabia que possuía o talento, se fosse capaz de agüentar o treinamento.

- Seja como for, ela é uma mulher e estou mais capacitado a suportar perigos e dificuldades.

- O que o perturba, parente? Teme que ela deixe de amá-lo se não for mais dependente de você?

Será apenas isso? Sou mesmo tão egoísta a ponto de querer que ela seja fraca e infantil, a fim de se virar para mim em busca de força e proteção? Ele captara muitas coisas da mente de Cassandra, na sua longa e intensa comunicação, que ela não lhe dissera conscientemente e que só agora começavam a aflorar em sua percepção. A garota tímida e infantil, influenciada pelos impulsos, totalmente dependente dos cuidados e amor do marido, transformara-se numa monitora forte, treinada na Torre, uma mulher, uma competente leronis. Ainda o amava, profundamente, ardentemente - a comunhão entre os dois não deixara qualquer dúvida quanto a isso - mas ele não era mais a única coisa em seu mundo. O amor se tornara apenas uma das muitas forças que a motivavam agora e não seria a única em que Cassandra se basearia.

Era difícil para Allart chegar a essa conclusão; e mais difícil ainda compreender como o pensamento o deixava infeliz.

Será que eu desejava realmente mantê-la assim, tímida, virginal, assustada, pertencendo só a mim, vendo o mundo apenas através de meus olhos, sabendo apenas o que eu queria que ela soubesse, sendo apenas o que eu desejava numa esposa? O costume, as tradições de sua casta e o orgulho de família bradavam Sim, sim! Mas o mundo mais amplo que começara a descobrir levava-o a se sentir envergonhado por essa posição.

Allart sorriu tristemente, pensando que não era a primeira vez que Renata intercedia em defesa de sua esposa. Agora havia outros caminhos para Cassandra além do único em que ele a vira ao final de seu amor, o de sua morte inevitável ao gerar um filho. Como ele podia se ressentir de qualquer coisa que removesse esse terror contínuo de sua mente?

- Desculpe, Renata. Veio a mim em busca de conforto e, como sempre, foi você quem acabou me confortando e tranqüilizando. Seja como for, eu gostaria de saber mais sobre o laran de Dorilys para poder aconselhá-la, mas concordo com você que será uma catástrofe se não for possível ensiná-la a tempo. Vi Donal em ação hoje e é impressionante... mais até do que na ocasião em que ele leu a direção para a qual o fogo se deslocaria. Agora que a temporada do fogo está começando, talvez você pudesse levá-la para o posto no alto dos picos e deixar que Donal tente instruí-la na maneira de usar esse dom. Ele sabe mais a respeito do que você ou eu.

- Talvez seja mesmo uma boa idéia, Allart. Afinal, Donal sobreviveu à doença do limiar e pode proporcionar à irmã a confiança de conseguir a mesma coisa. Fico contente que ela não possa ler meus pensamentos. Não quero que fique apavorada com o que poderá lhe acontecer ao se tornar mulher, mas deve estar preparada para enfrentar isso também... Mais do que qualquer outra coisa, ela quer aprender a voar, como fazem os garotos do castelo muito antes de sua idade. Margali diz que é impróprio para uma menina, mas como o seu laran está relacionado com os elementos, acho que Dorilys deve aprender a assumi-los diretamente.

Renata soltou uma risada e confessou:

- Eu também gostaria de aprender. Vai bancar o rigoroso e austero comigo e dizer que é tão impróprio para uma mulher quanto para uma menina?

Allart riu, fazendo o gesto de um esgrimista que reconhece um contato.

- Meus anos em Nevarsin ainda são tão visíveis assim, prima?

- Dorilys vai ficar feliz quando eu lhe contar - comentou Renata, rindo. Allart percebeu subitamente, mais uma vez, como ela era jovem. Renata possuía a dignidade auto-imposta e as atitudes sóbrias da monitora, assumira um comportamento formal e autodisciplina para ensinar a Dorilys, mas no fundo era também uma garota, que deveria ser tão jovem e despreocupada quanto Dorilys.

- Muito bem, Donal ensinará vocês duas a voar. Falarei com ele, enquanto você ensina a Dorilys o controle de uma matriz e como usá-la para levitar.

- Acho que ela já tem idade suficiente para usar uma matriz. Vai aprender depressa agora, sem usar suas energias para me testar.

- Será muito mais fácil alcançar assim o posto de combate a incêndios. A viagem a cavalo é difícil e muitos dos homens que trabalham ali preferem voar. - Allart olhou contrafeito para a noite além das janelas. - Tenho de ir, prima; já é tarde.

Ele se levantou, as mãos tocando com o contato de pontas de dedos dos telepatas, mais íntimo que um aperto de mão. Ainda estavam em comunicação e ao contemplar o rosto erguido de Renata ele viu o brilho de paixão. Estava outra vez totalmente consciente dela, como se condicionara a não permitir; o contato íntimo com Cassandra, as barreiras arriadas, romperam a fachada da austeridade monacal de indiferença às mulheres, que ele se empenhava em manter com tanta firmeza. Renata se transformou em uma dúzia de mulheres naquele contato momentâneo, o laran de Allart lhe mostrando o provável e o possível, o conhecido e o impossível; e quase sem vontade própria, antes que percebesse o que estava fazendo, ele a puxara para seus braços e a apertava, ofegante.

- Renata, Renata...

Ela fitou-o nos olhos, com um sorriso perturbado. A comunicação era tão intensa que se tornara impossível esconder a súbita percepção e fome que sentia por ela e a reação imediata e desinibida de Renata.

- Primo, o que você quer? - murmurou ela, gentil. - Se o excitei sem querer, sinto muito. Não pensaria em fazê-lo apenas para demonstrar que tenho poder sobre você. Ou acontece apenas que se sente muito solitário e está ansioso por alguém que lhe proporcione conforto e simpatia?

Allart recuou atordoado, mas impressionado pela calma de Renata, por sua total ausência de vergonha ou confusão. Ele desejou se manter tão calmo assim.

- Sinto muito, Renata. Peço que me perdoe.

- Perdoar o quê? - indagou ela, com um sorriso faiscando no fundo de seus olhos. - É uma ofensa me achar desejável? Se é esse o caso, espero me sentir ofendida assim muitas vezes. - Sua mão pequena fechou-se sobre a de Allart. - Não é tão grave assim, primo. Eu só queria saber até que ponto iam suas intenções, mais nada.

Allart murmurou, angustiado:

- Não sei...

A confusão, a lealdade a Cassandra, a lembrança da vergonha e repulsa porque não fora capaz de resistir à tentação da riyachiya que o pai empurrara em seus braços, tudo o sufocava. Teria sido isso que o levara a abraçar Renata? O conhecimento de que ela partilhava aquele ímpeto de necessidade e emoção deixou-o outra vez confuso.

Uma mulher a quem podia amar sem medo, que não era totalmente dependente dele... E um pensamento vergonhoso lhe ocorreu: Ou estou fazendo isso porque Cassandra não é mais inteiramente minha?

Renata perguntou, sorrindo:

- Por que se recusa uma liberdade que concedeu a ela? Allart balbuciou:

- Não quero... usar você para minha própria necessidade, como se não passasse de uma riyachiya.

- Não é bem assim, Allart. Eu também me sinto sozinha e precisando de conforto, parente. Só que aprendi que não há nada de vergonhoso em dizê-lo e reconhecer a necessidade, enquanto você ainda não sabe disso...

Allart ficou chocado pela franqueza do que via no rosto de Renata. Tornou a abraçá-la, compreendendo de repente que, apesar de toda a sua força, apesar de sua competência e sabedoria, ela era uma criança assustada e, como ele, se encontrava diante de problemas muito além de sua capacidade para resolver.

O que os homens e as mulheres dos Domínios fizeram uns aos outros, de tal forma que tudo entre nós deve estar envolto por medo ou culpa pelo que foi ou pode ser? É raro que possa haver apenas generosidade e amizade entre nós, como acontece agora.

Apertando Renata em seus braços, inclinando-se para beijá-la, ele disse, quase num sussurro:

- Vamos então confortar um ao outro, prima... E levou-a para o quarto.

 

Dorilys estava extremamente excitada, falando sem parar, como uma criança com a metade de sua idade, mas sentiu-se um pouco embaraçada quando Margali a vestiu com o traje emprestado de um dos pajens. Margali estava cética.

- Isso é mesmo necessário, Lady Renata? Ela já é bastante impetuosa, sem precisar vestir as roupas de um menino!

Ela olhou com o rosto franzido em desaprovação para Renata, que tomara emprestado o calção do filho de quinze anos do camareiro. Renata explicou:

- Ela deve aprender a trabalhar com seu laran e para isso deve se confrontar com os elementos onde estão, não onde gostaríamos que estivessem. Ela se esforçou muito para controlar a matriz e prometi que poderia voar com Donal depois que conseguisse.

- Mas é realmente necessário que ela use esses trajes tão impróprios? Não me parecem recatados!

Renata soltou uma risada.

- Para voar? Acho que seria recatado se o seu vestido fosse enfunado pelo vento como uma enorme vela e subisse até as orelhas? Esse calção indecoroso me parece o traje mais recatado que ela poderia usar para voar!

- Eu não tinha pensado nisso - confessou a velha leronis, rindo também. - Ah, como ansiei por voar quando era pequena! Não podem imaginar como eu gostaria de acompanhá-las!

- Pois então venha com a gente - convidou Renata. - Tenho certeza de que possui habilidade suficiente para aprender a controlar os levitadores.

Margali sacudiu a cabeça.

- Não dá. Meus ossos já estão muito velhos. Há um tempo para aprender essas coisas e depois que passa já não é mais possível. É tarde demais para mim.

Mas vá você, Renata. Divirta-se... e você também, querida. - Ela deu um beijo no rosto de Dorilys. - A túnica está bem apertada? Tem um lenço para se agasalhar? Faz muito frio lá nas alturas.

Apesar de suas palavras animadoras, Renata sentia-se um pouco apreensiva. Desde os cinco anos de idade que não mostrava os contornos de suas pernas em qualquer lugar público. Quando se encontraram com Allart e Donal no pátio, eles também pareciam inibidos e não olharam para elas.

Renata pensou: Eu esperava que Allart tivesse mais bom senso! Partilhamos a mesma cama, mas ele parece olhar para tudo que é lugar, menos para mim, como se fosse uma grande surpresa que eu tivesse pernas como todas as outras pessoas! Como o costume é absurdo!

Mas Dorilys não demonstrava qualquer inibição, desfilando em seu calção, querendo ser notada e admirada.

- Olhe só, Donal! Agora poderei voar tão bem quanto qualquer menino!

- Renata ensinou-a a praticar com a matriz, a levantar e baixar objetos, antes de experimentar com você mesma?

- Claro que sim... e sou muito boa nisso. Você não disse que eu era boa, Renata?

Renata sorriu.

- Acho que ela possui um talento natural, que vai se transformar em grande competência com um pouco de prática.

Enquanto Donal mostrava à irmã o mecanismo dos planadores, Allart ajudou Renata a prender as correias. Ficaram parados lado a lado, observando Dorilys e o irmão. A noite que haviam passado juntos consolidara e reforçara a amizade entre os dois; no fundo, não mudara sua natureza. Renata sorriu para Allart, agradecendo a ajuda, compreendendo com satisfação que pensava nele da forma que sempre o fizera, como um amigo, não um amante.

Não sei o que é o amor. E não sei se quero realmente saber...

Ela sentia afeto por Allart. E gostara de lhe proporcionar prazer. Mas ambos se contentavam em ficar por aí, um único impulso partilhado de solidão, que não podia servir de base para se desenvolver alguma coisa que não existia. Suas necessidades eram basicamente diferentes demais para isso.

Donal estava agora mostrando a Dorilys como ler as correntes de ar, como usar o foco de sua matriz para amplificá-las e torná-las mais perceptíveis a seus sentidos. Renata escutava com toda atenção; se os meninos nas Hellers dominavam aquelas artes antes dos dez anos de idade, então uma operadora de matriz treinada poderia fazê-lo também!

Donal exigiu que praticassem por algum tempo na área plana varrida por ventos atrás do castelo, correndo com os ventos e subindo nas correntes, circulando e depois descendo. Finalmente se declarou satisfeito e apontou para o pico lá em cima, onde o posto de incêndio oferecia uma visão completa de todo ó vale além de Caer Donn.

- Acha que pode voar tão longe, irmãzinha?

- Claro!

Dorilys estava afogueada e ofegante, fios dos cabelos avermelhados escapando das tranças compridas em suas costas, as faces coradas pelo vento.

- Estou adorando! Gostarei de voar para sempre!

- Pois então vamos partir. Mas fique perto de mim. Não tenha medo; não pode cair, enquanto mantiver sua percepção nas correntes de ar. Agora, levante as asas, assim...

Ele observou-a saltar e se elevar numa longa corrente ascendente, subindo e subindo pelo céu. Renata seguiu-a, sentindo a corrente levá-la, empurrá-la para cima, vendo Allart alçar vôo logo atrás. Dorilys pegou uma corrente descendente e começou a circular, planando como um gavião, mas Donal gesticulou para que ela seguisse adiante.

Mais e mais alto eles voaram, passando por uma nuvem branca e úmida, emergindo por cima; agora, pairaram por um instante e viraram, depois desceram até o pico. O posto de vigia de incêndio era uma estrutura antiga de pedra e madeira; o vigilante, um homem de meia-idade, alto e magro, com olhos castanhos claros e a expressão curtida de quem passa muito tempo esquadrinhando distâncias enormes, adiantou-se para saudá-los, surpreso e satisfeito.

- Mestre Donal! Dom Mikhail enviou-o com uma mensagem para mim?

- Não, Kyril; apenas queríamos que minha irmã visse como funciona um posto de incêndio. Este é Lorde Allart Hastur e esta Lady Renata Leynier, leronis de Hali.

- Sejam bem-vindos - disse o homem, cortesmente, mas sem uma subserviência exagerada; como um profissional habilitado, ele não devia deferência a ninguém. - Já esteve alguma vez antes no pico, pequena dama?

- Não. Meu pai sempre achou que era longe demais para eu vir a cavalo; e disse também que você ficava muito ocupado aqui durante a temporada de incêndios, não tinha tempo para receber convidados.

- Pois ele estava certo - disse Kyril. - Mas terei o maior prazer em lhe mostrar o que puder, já que disponho de tempo agora. Vamos entrar, minha cara.

Dentro do posto havia mapas em relevo do vale inteiro, uma réplica em miniatura do panorama espetacular que se descortinava pelas janelas da estrutura. Ele mostrou a Dorilys as camadas de nuvens sobre algumas partes do vale, as áreas marcadas no vale que haviam queimado em temporadas recentes, os trechos sensíveis com árvores de resina que tinham de ser observados atentamente.

- O que é essa luz piscando, Mestre Kyril?

- Estou vendo que tem olhos aguçados, criança. É um sinal para mim, que devo responder.

Ele pegou um artefato espelhado, com uma pequena capa mecânica que podia ser aberta e fechada rapidamente. Foi até a janela aberta e pôs-se a transmitir uma mensagem para o vale. Depois de um momento, a luz no vale tornou a piscar. Dorilys começou a formular uma pergunta, mas ele fez um gesto para que ela esperasse, depois inclinou-se sobre o mapa e fez uma marca com giz branco.

- Agora posso explicar. Aquele homem me avisou que estava acendendo um fogo para cozinhar, enquanto os pastores fazem a contagem dos animais. É uma precaução para que eu não pense que começou um incêndio no vale e chame os homens para combatê-lo. Além disso, se a fumaça persistir por mais tempo que o razoável para se cozinhar, saberei que escapou ao controle e poderei enviar alguém para ajudar a apagar, antes que se espalhe. - Kyril gesticulou em círculo. - Devo saber em todos os momentos onde há cada fumaça, em toda esta região, e o que a causou.

- Está com os agentes químicos de Tramontana? - perguntou Donal.

- Recebi a primeira remessa bem a tempo de deter um sério princípio de incêndio neste córrego. - Ele indicou no mapa. - Uma remessa chegou aqui ontem e outras estão guardadas na base do pico. É um ano seco e há algum perigo, mas até agora só tivemos um incêndio, lá no Pico do Homem Morto.

- Por que é chamado de Pico do Homem Morto? - indagou Dorilys.

- Não sei, pequena dama; já era chamado assim no tempo de meu pai e no tempo de meu avô. Talvez, há muito tempo, alguém tenha encontrado um homem morto ali.

- Mas por que alguém iria até lá para morrer? - insistiu Dorilys, olhando para os penhascos distantes. - Para mim, parece um ninho de gavião.

- Já houve gaviões ali, pois subi para pegar alguns quando era jovem. Mas isso foi há muito tempo. - Kyril olhou para o mar distante de fumaça e fogo; para os outros, a cena estava embaçada pela distância. - Há anos que não existem mais gaviões ali...

Renata interrompeu a conversa, indagando:

- Dorilys, pode dizer para onde seguirá o fogo naquela encosta? Dorilys piscou, o rosto se tornando vazio, o olhar perdido na distância.

Gesticulou depois de um momento e Allart, atônito, compreendeu que ela falava tão depressa que era uma algaravia incompreensível.

- O que é, criança? - perguntou Renata. Dorilys recuperou o controle.

- É difícil dizer em palavras, quando posso ver o fogo onde estava, onde está e para onde vai, do começo ao fim.

Avarra misericordiosa!, pensou Allart. Ela vê em três dimensões do tempo - passado, presente e futuro. Não é de admirar que tenhamos dificuldades para a comunicação com ela! O segundo pensamento que o atingiu, com grande impacto, foi o de que isso podia ter alguma relação com o seu estranho dom... ou maldição!

Dorilys tentava focalizar, esquadrinhar, esforçando-se para encontrar palavras com que comunicar o que via.

- Posso ver onde começou, ali, mas o vento empurrou pelo córrego abaixo e virou... olhem ali... no... não sei explicar. Naquelas coisas que parecem redes à beira do córrego. Donal, você também pode ver, não é mesmo?

Ele foi se postar ao lado da irmã na janela.

- Não tão bem quanto você, irmã, Acho que talvez ninguém possa ver como você. Mas sabe para onde o fogo irá em seguida?

- Já se deslocou... isto é, vai seguir para ali, onde os homens vão se reunir para combatê-lo. Mas só irá para aquele lado porque eles irão também. Posso sentir... Não, isso não está certo! Não tenho palavras para explicar!

O rosto se contraiu e Dorilys deu a impressão de que estava quase chorando. Uma pausa e ela acrescentou, queixosa:

- Minha cabeça dói. Posso beber água?

- Há uma bomba atrás da porta - informou Kyril. - A água é boa; vem de uma fonte por trás do posto. Não se esqueça de pendurar a caneca depois de beber, pequena dama.

Enquanto Dorilys saía para beber água, Renata e Donal trocaram um olhar longo e espantado. Renata pensou: Aprendi mais sobre o laran de Dorilys agora, em poucos minutos, do que pude descobrir em meia estação. Deveria ter pensado em trazê-la para cá há muito tempo. Kyril disse, em voz baixa:

- Creio que sabem que não há homens combatendo o fogo agora; eles o controlaram e deixaram arder pelos penhascos inferiores. Mas assim mesmo ela os viu. Não testemunhei nada assim desde que a feiticeira Alarie veio até aqui uma vez com um talismã de fogo, a fim de controlar um grande incêndio, quando eu era jovem. Quer dizer que a criança é a feiticeira?

Renata, detestando a palavra antiga que recendia tanto a superstição, tratou de dizer:

- Claro que não. Mas ela possui o laran, que estamos tentando treinar de forma apropriada, para ver essas coisas. E voou no planador como um filhote de gavião se elevando pelo ar.

- É verdade - confirmou Donal. - Levei muito mais tempo para controlar tudo. Talvez ela veja as correntes mais nitidamente do que eu posso. Por tudo o que sabemos, são sólidas para ela, algo que pode quase tocar. Creio que Dorilys pode aprender a usar uma talismã de fogo; o pessoal das forjas usa esses talismãs, a fim de trazer os metais do fundo da terra.

Renata já ouvira falar a respeito. Os operadores das forjas possuíam matrizes especialmente adaptadas, que usavam para a mineração e apenas com esse propósito; era uma técnica ao mesmo tempo mais tosca e mais desenvolvida do que os métodos de mineração altamente técnicos das Torres. Ela desconfiava de uma técnica de Torre em relação a métodos de matriz desenvolvidos dessa maneira pragmática, sem teoria. Kyril olhou para o vale, dizendo:

- O fogo de cozinha se extinguiu. - Ele apagou a marca de giz. - Menos um problema. Aquele vale está seco demais. Posso lhe oferecer um refresco, senhor? E milady deseja alguma coisa?

- Trouxemos comida - disse Allart. - E ficaríamos honrados se partilhasse nossa refeição. - Ele começou a abrir os pacotes de frutas secas, pão e carne-seca.

- Muito obrigado - disse Kyril. - Tenho vinho aqui, se me permitirem oferecer uma taça, e frutas frescas para a pequena dama.

Foram-se sentar perto da janela, a fim de que Kyril pudesse continuar em sua vigia. Dorilys perguntou:

- Passa todo o tempo sozinho aqui?

- Não, pequena dama. Tenho um aprendiz que me ajuda, mas ele desceu ao vale para visitar a mãe. Por isso fiquei sozinho hoje. Não pensei que receberia visitantes.

Ele tirou uma faca da bota e começou a descascar uma maçã, cortando a casca em espiral. Dorilys observava-o fascinada, enquanto Renata e Allart olhavam as nuvens que se deslocavam lentamente pelo vale lá embaixo, projetando estranhas sombras. Donal aproximou-se e parou atrás deles. Renata perguntou-lhe, em voz baixa:

- Também pode sentir para onde as tempestades vão se deslocar?

- Um pouco, quando as vejo se espalharem desse jeito à minha frente. Tenho a impressão de que, ao observar uma tempestade, saio um pouco para fora do tempo, o que me permite ver toda a tempestade, do começo ao fim, como Dorilys viu todo o incêndio ainda agora.

Ele olhou para Dorilys, que comia a maçã, conversando com o vigilante.

- Mas, de certa forma, ao mesmo tempo vejo os relâmpagos em seqüência, um depois de outro. Assim, sei onde cada um vai acertar e qual será o primeiro, porque posso perceber o padrão em que se deslocam através do tempo. É por isso que às vezes posso controlá-los... mas apenas um pouco. - Uma pausa e ele baixou a voz, a fim de que a irmã não ouvisse: - Não posso fazer com que acertem em qualquer lugar, como faz Dorilys. Posso apenas, de vez em quando, desviá-lo, para que não acertem na direção para a qual já começaram a se mover.

Allart escutava de rosto franzido, pensando nas divisões de tempo que aquele dom exigia. Donal, captando seus pensamentos, comentou:

- Creio que deve ser um pouco como seu dom, Allart. Também se desloca para fora do tempo, não é mesmo?

Allart disse, transtornado:

- É, sim... mas nem sempre no tempo real. Às vezes, eu penso, é uma espécie de tempo de probabilidade, que jamais ocorrerá, dependendo das decisões de muitas outras pessoas, todas se entrecruzando. Assim, vejo apenas uma pequena parcela do padrão do que vai acontecer ou pode acontecer. Não creio que uma mente humana possa jamais aprender a definir tudo.

Donal queria fazer algumas perguntas, saber se Allart já experimentara aquele dom sob os efeitos de kirian, uma das drogas telepáticas usadas nas Torres, pois era um fato incontestável que kirian de alguma forma toldava os limites entre mente e mente, tornando a telepatia mais fácil, o tempo deixando de ser tão rígido. Mas Renata seguia outra linha de interrogatório, mais uma vez no comando de sua mente.

- Perceberam como o fogo a perturbou. Eu me pergunto se isso não tem alguma coisa a ver com a maneira como ela usa seu dom... ou ataca. Porque em raiva ou confusão ela não vê mais um padrão de tempo nítido; para ela, não há mais nada além de um momento, de raiva ou medo... Ela não é capaz de vê-lo apenas como um entre uma progressão de momentos. Você falou de uma febre que ela teve em criança, quando tempestades cercaram o castelo por dias consecutivos e se perguntou que sonhos ou delírios as provocavam. É possível que tenha havido alguma lesão no cérebro. As febres muitas vezes afetam o laran.

Renata refletiu por um longo momento, observando o avanço lento e inexorável das nuvens de tempestade lá embaixo, cobrindo agora uma parte considerável do fundo do vale.

Dorilys aproximou-se, passando os braços em torno de Renata, como um gatinho afetuoso tentando subir num colo.

- Estão falando de mim? Olhe lá para baixo, Renata. Está vendo o relâmpago dentro da nuvem?

Renata balançou a cabeça, sabendo que a tempestade começava a acumular bastante potencial elétrico para causar relâmpagos; mas ela própria ainda não vira nenhum relâmpago.

- Mas há relâmpagos no ar mesmo quando não existem nuvens nem chuva - acrescentou Dorilys. - Não pode vê-los, Renata? Quando eu os uso, não estou realmente criando-os, mas apenas atraindo os que já existem. - Ela assumiu uma expressão contrafeita, um tanto culpada. - Quando provoquei uma dor de cabeça em Margali e tentei fazer a mesma coisa com você, estava usando esses relâmpagos que eu não podia ver.

Deuses misericordiosos, pensou Renata, esta criança tenta me dizer, sem conhecer as palavras, que tudo o que faz é usar o campo elétrico potencial do próprio planeta! Donal e Allart, captando o pensamento, viraram-se para fitá-la, aturdidos, mas Renata não os viu, estremecendo subitamente.

- Está com frio, prima? - perguntou a criança, solícita. - Mas faz calor aqui...

Louvados sejam todos os deuses porque pelo menos ela não pode ler pensamentos também...

Kyril fora até a janela, observando com uma atenção intensa a massa cinzenta que era o centro da tempestade e os relâmpagos que começavam a se tornar visíveis lá dentro.

- Perguntou sobre o meu trabalho, pequena dama. Pois isso é uma parte, observar para onde se desloca o centro da tempestade e verificar se acerta em algum lugar. Muitos incêndios são provocados por relâmpagos, embora às vezes não se possa avistar qualquer fumaça por muito tempo depois. - Ele fez uma pausa, lançou um olhar de desculpas para os nobres e Renata e depois acrescentou: - Talvez algum antepassado desconhecido tenha me legado um pouco de presciência, porque às vezes, quando vejo um grande relâmpago, sei que haverá depois um incêndio. E por isso fico observando com mais atenção ainda, por algumas horas.

- Eu gostaria de investigar seus ancestrais e descobrir como esse vestígio diluído de laran entrou em seu sangue - disse Renata.

- Mas eu sei como foi - murmurou Kyril, quase como se pedisse desculpas. - Minha mãe era uma nedestro do irmão do velho Lorde de Rockraven... não o que governa ali agora, mas o seu antecessor.

Como pude dizer que existe algum dom de laran que é todo mal, sem qualquer proveito potencial para o bem? pensou Renata. Kyril convertera o seu pequeno dom herdado numa profissão útil, competente e inofensiva.

Mas Donal estava seguindo os seus próprios pensamentos.

- É mesmo, Kyril? Nesse caso, somos parentes.

- E verdade, Mestre Donal, embora eu nunca procurasse a atenção deles. Salvo por sua presença, são muito orgulhosos e minha mãe era humilde demais para eles. E não preciso de qualquer coisa que eles pudessem me dar.

Dorilys pôs a mão, confiante, na de Kyril.

- Então somos relacionados, parente. Ele sorriu e afagou-lhe o rosto.

- Você é como sua mãe, pequena dama; ela possuía os seus olhos. Se os deuses quiserem, herdará também sua voz doce, como já tem as boas maneiras.

Renata pensou: Como ela encanta todo mundo, quando não está bancando a orgulhosa ou mal-humorada! Aliciane devia ter essa meiguice.

- Venha até aqui, Dorilys - chamou ela. - Olhe para a tempestade; pode ver para onde vai se deslocar?

- Claro.

Dorilys estreitou os olhos e contraiu o rosto de uma maneira cômica. Allart olhou para Renata, pedindo permissão para interrogar sua pupila.

- Quer dizer que o curso é fixo e não pode ser mudado?

- E muito difícil explicar, parente - respondeu Dorilys. - Poderia ir para um lado ou outro, se o vento mudasse, mas só posso ver uma ou duas maneiras do vento mudar...

- Mas o curso é fixo?

- A menos que eu tentasse mudá-lo.

- E pode fazer isso?

- Não é tanto que eu possa mudar. - Dorilys franziu o rosto, numa concentração intensa, procurando por palavras que nunca aprendera e não sabia que existiam. - Mas posso ver todas as maneiras pelas quais poderia mudar. Vou mostrar a você.

Allart, entrando em contato com a mente da menina, começou a sentir e ver a massa de nuvens de tempestades cinzentas e espessas como Dorilys as via, por toda parte ao mesmo tempo. Mas ele podia determinar onde a tempestade estava agora, onde estivera e pelo menos quatro lugares em que poderia estar.

- Mas o que vai ser não pode ser alterado, não é mesmo, prima? A tempestade segue as suas próprias leis, não é mesmo? E você não pode fazer nada para mudar isso.

- Há lugares em que eu poderia deslocar e lugares em que não poderia, porque as condições não são certas. É como um regato. Se eu ponho as pedras, as águas contornam as pedras, mas podem ir por qualquer dos lados. Mas eu não poderia fazer com que saíssem do leito ou corressem encosta acima. Está entendendo, primo? Não dá para explicar direito. Faz minha cabeça doer. Mas vou mostrar como é. Está vendo ali?

Ela apontou para a enorme massa de nuvens em forma de uma bigorna. A sensitividade sintonizada na de Dorilys, Allart viu subitamente, com seu próprio dom, o curso provável da tempestade, com outros cursos menos prováveis, entrecruzando-se; desvaneceu-se para o nada da total improbabilidade e depois para a impossibilidade nas margens externas de suas percepções. E logo o estranho dom de Dorilys era o seu próprio dom, expandido, alterado, estranhamente diferente, mas basicamente o mesmo: ver todos os futuros possíveis, os lugares em que a tempestade poderia se abater, os lugares em que não poderia por causa de sua própria natureza...

E Dorilys podia escolher entre os cursos como ele próprio, em um grau bastante limitado, por causa das forças externas que movimentavam as tempestades...

Como vi meu irmão no trono ou morto em sete anos. Não havia uma terceira opção, a de que ele permanecesse satisfeito como Lorde Elhalyn, por causa de sua própria natureza...

Ele se sentiu quase sufocado por essa súbita percepção sobre a natureza do tempo, probabilidade e seu próprio laran. Mas Renata se mostrou mais prática.

- Pode realmente controlar a tempestade, Dorilys? Ou apenas dizer para onde vai?

Allart acompanhou o pensamento de Renata. Seria apenas precognição, conhecimento prévio, ou era como a levitação, o poder de mover um objeto inanimado?

- Posso deslocar para qualquer lugar para onde poderia ir. E pode ir para lá ou para lá... - Dorilys apontou. - ...mas não para lá, pois o vento não poderia mudar tão depressa ou com tanta força. Está entendendo? - Virando-se para Kyril, ela perguntou: - É possível provocar um incêndio agora?

- Espero que não - respondeu ele, sensato. - Mas se a tempestade seguisse para os Penhascos Altos, ali, onde há muitas árvores de resina, poderíamos ter um incêndio terrível.

- Pois então vamos deixar que chegue até lá - declarou Dorilys, rindo. - Não haverá mal algum se o relâmpago acertar ali, perto do Pico do Homem Morto, onde já está tudo queimado, não é mesmo?

Enquanto ela falava, um enorme relâmpago azul-branco se projetou entre a terra e a nuvem, atingindo o Pico do Homem Morto com um clarão intenso, ofuscando a todos. Depois de um ou dois segundos, eles ouviram o estrondo da trovoada. Dorilys riu, deliciada.

- É melhor do que os brinquedos de fogo que o pessoal das forjas mostrou para a gente no inverno! - exclamou ela.

Outro relâmpago riscou o céu e mais outro, enquanto Dorilys ria, excitada, feliz com a nova capacidade de fazer o que queria com o dom que possuíra por toda a sua vida, sem o saber. Outros relâmpagos riscaram o céu, azuis-brancos e verdes-brancos, atingindo o Pico do Homem Morto. Dorilys tremia com um riso histérico, Kyril observava-a com olhos arregalados, em temor e reverência.

- Feiticeira - sussurrou ele. - Rainha da tempestade...

E depois os relâmpagos acabaram, as trovoadas se desvaneceram até o silêncio. Dorilys se balançou e encostou-se em Renata, os olhos fundos, com os sinais de fadiga. Era de novo uma criança, exausta e pálida. Kyril pegou-a no colo, ternamente, desceu por um curto lanço de escadas. Renata seguiu-o. Ele a acomodou em sua própria cama, murmurando:

- Deixe a pequena dama dormir um pouco.

Enquanto Renata se inclinava para lhe tirar os sapatos, Dorilys sorriu-lhe cansada e adormeceu no instante seguinte.

Donal fitou-a, inquisitivo, quando ela tornou a subir.

- Dorilys já está dormindo - informou Renata. - Não poderia voar como estava; ficou exausta.

- Se quiser, vai domna, pode ocupar minha cama, junto com a pequena dama - sugeriu Kyril, timidamente. - Amanhã, assim que o sol sair, posso transmitir um sinal para que tragam animais de montaria até aqui, a fim de voltarem por terra.

- Vamos esperar para ver - disse Renata. - Depois de dormir um pouco, talvez ela se recupere o bastante para voar de volta a Aldaran.

Ela foi se postar ao lado de Kyril, que olhava pela janela, o rosto franzido numa expressão preocupada.

- Olhem ali. Um relâmpago acertou naquele desfiladeiro seco. - Ele apontou; Renata, mesmo com toda a sua percepção ampliada, não avistou o menor sinal de fumaça, mas não duvidou que Kyril a via. - Não há sol para transmitir um sinal. E amanhã de manhã o fogo já terá se espalhado. Se eu conseguisse entrar em contato com alguém agora...

Allart pensou: Deveríamos ter telepatas nestas torres de vigia, afim de que pudessem fazer contato com outros estacionados lá embaixo, em ocasiões como esta. Se houvesse alguém de sobreaviso na aldeia mais próxima, munido com uma matriz, Kyril ou qualquer outra pessoa poderia transmitir a mensagem para se apagar o fogo.

Mas Donal estava pensando nas necessidades do momento e se apressou em dizer:

- Você tem os agentes químicos de combate ao fogo que eu trouxe de Tramontana. Voarei até lá no meu planador e espalharei os agentes químicos na área atingida pelo relâmpago. Isso vai extinguir o fogo antes que comece realmente.

O velho guarda florestal fitou-o com uma expressão perturbada.

- Lorde Aldaran não gostaria que eu deixasse que seu filho de criação corresse tamanho perigo.

- Não é mais uma questão de me deixar, velho. Sou um homem adulto e representante de meu pai de criação, responsável pelo bem-estar de todas essas pessoas. Não serão ameaçadas pelo fogo, se eu puder evitar.

Donal virou-se, saindo correndo, desceu a escada e atravessou o cômodo em que Dorilys permanecia imóvel, em seu sono atordoado. Kyril e Renata foram atrás. Ele já estava ajeitando o planador.

- Traga-me os agentes químicos, Kyril.

Relutante, o vigia entregou-lhe o cilindro com água e o pacote de agentes químicos. Quando misturados, expandiam-se numa espuma que podia cobrir e abafar uma área extensa de chamas.

Quando ele já se encaminhava para o espaço aberto, um momento antes de desatar a correr para a decolagem, Renata deteve-o.

- Donal, deixe-me ir também!

Podiam permitir que ele voasse sozinho para um perigo tão grande?

- Não - respondeu ele, gentil. - Você não tem muita experiência de voar, Renata. E há algum perigo.

Ela retrucou bem alto, e sabia que sua voz estava tremula:

- Não sou uma dama da corte que precisa ser resguardada de todos os perigos. Sou uma operadora treinada de Torre e estou acostumada a partilhar todos os perigos que encontro.

Ele se inclinou e segurou-a pelos ombros.

- Sei disso, mas ainda assim não tem experiência de vôo. Eu me atrapalharia se tivesse de parar a todo instante para me certificar de que você agia da maneira correta... e há necessidade de pressa. Deixe-me ir sozinho, prima. Não insista.

Donal apertou os ombros de Renata e puxou-a para um abraço rápido e impulsivo.

- Não há tanto perigo quanto pensa, não para mim. Fique me esperando, carya.

Ele a beijou, gentilmente. Renata ficou imóvel, ainda sentindo o contato de seus lábios, observando-o correr para a beira do penhasco, as asas inclinadas para pegar o vento. Donal decolou e ela continuou ali, protegendo os olhos contra a claridade, observando o planador se reduzir ao tamanho de um gavião, ao tamanho de um pardal, um ponto escuro mínimo mergulhando por trás das nuvens. Depois que sumiu por completo, Renata piscou com força, virou-se e voltou para o interior do posto.

Allart estava de pé junto da janela, observando atentamente. Ele comentou, quando Renata se aproximou:

- Depois que Dorilys me mostrou o que vê, tornei-me um pouco mais capaz de controlar minha paciência. É uma questão de deslocar as percepções por todos os tempos e verificar o que é mais real...

- Fico contente por isso, primo.

Era o que Renata de fato sentia, sabendo com que angústia Allart lutara com aquela maldição do laran. Mas, apesar de sua preocupação sincera com Allart, que era seu parente, seu amante, seu amigo, ela descobriu que não tinha tempo para pensar nele agora. Toda a sua tensão emocional se projetava para fora, concentrava-se no ponto mínimo distante que era o planador de Donal, pairando alto sobre o vale, descendo devagar, bem devagar, contornando a beira da tempestade. E, de repente, toda a sua emoção, todo o laran de empatia de uma monitora treinada na Torre, transformaram-se em percepção e identidade, ela era Donal. E estava...

... voando alto sobre o vale, sentindo as correntes de energia no ar, como se fossem estandartes hasteados no topo do castelo, tremulando ao vento, irradiando forças. Ele abriu os dedos para descarregar a eletricidade, pairando, subindo, toda a sua atenção focalizada no ponto da floresta que Kyril indicara.

Um filete de fumaça enroscando-se meio escondido pelas folhas e as agulhas verdes-cinzas das árvores de folhagem permanente, derrubadas e ressequidas pela geada e o sol... Podia fumegar ali sem ser visto por vários dias, antes de se converter num tremendo incêndio que seria capaz de destruir a metade do vale... Ainda bem que ele viera. O local era bem próximo de Penhascos Altos, a propriedade que o pai de criação lhe dera.

Sou um homem pobre. Não tenho nada a oferecer a Renata, mesmo que uma dama assim pudesse se tornar minha esposa... nada além desta propriedade tão pobre, em plena região dos incêndios, volta e meia devastada pelo fogo. Eu pensava que poderia casar, criar uma família. Mas agora me parece muito pouco a oferecer à minha dama querida. E por que acho que ela me aceitaria?

(Parada diante da janela escancarada, Renata estremeceu; não estava realmente ali. Allart, virando-se para lhe falar, percebeu a situação e manteve-se calado.)

A percepção de Renata outra vez se fundindo com a sua, Donal baixou e baixou. Circulou o pequeno filete de fumaça, estudando-o, alheio à maneira como a tempestade por cima se deslocava, mudava de rumo, estrondeava. O planador descia mais depressa agora, as asas largas reduzindo a queda o suficiente para que pudesse cair de pé, inclinando-se para a frente, freando com as mãos estendidas. Ele não se deu ao trabalho de desatar as correias do planador, pegando logo o cilindro com água. Abriu-o com os dentes, ajeitou debaixo do braço, abriu também o pacote de agentes químicos; largou os agentes químicos na água, suspendeu o cilindro flexível sobre a fumaça e observou a espuma verde borbulhar e sair do recipiente, interminavelmente, espalhando-se pelo leito da floresta. A fumaça desapareceu. Como todos os combatentes de incêndio, Donal ficou mais uma vez impressionado como um fogo, depois de controlado na fonte, podia desaparecer como se nunca tivesse existido.

O mais instável dos elementos, o mais fácil de produzir, o mais difícil de controlar... As palavras surgiram do nada em sua mente e desapareceram igualmente depressa, no instante seguinte. Donal dobrou o saco que fora outrora o cilindro com água, o material impermeável ainda recendendo aos agentes químicos, guardando-o num dos bolsos das correias do planador.

Foi muito simples; por que Renata temia por mim? Mas, levantando os olhos para o céu, ele compreendeu. As nuvens haviam se reagrupado ao seu redor, não era um tempo para voar. Não havia chuva ali, o ar estava pesado, opressivo e denso; mas, por cima, nas encostas do Pico do Homem Morto, a tempestade se abatia furiosa, uma chuva intensa, nuvens pretas, iluminadas por clarões de relâmpagos intermitentes, pulando das nuvens para o solo. Ele não sentiu muito medo, pois voava desde que era um garotinho. Franzindo o rosto, ele ficou imóvel por um momento, estudando o céu e as correntes de ar, o padrão da tempestade, os ventos, tentando calcular as suas melhores chances de voltar ao posto, com o mínimo de perigo e dificuldade.

Pelo menos a tempestade no Pico do Homem Morto apagou os últimos resquícios do fogo... Esquadrinhando o céu, Donal tirou o planador, dobrou as asas e pôs debaixo do braço. Andar muito com as asas assim era árduo e havia ainda o perigo de que prendessem em alguma coisa e arrebentassem. Ele subiu por uma encosta pequena e íngreme, onde sabia que poderia pegar algum vento. Tornou a prender o planador e tentou decolar. Mas os ventos eram turbilhonantes, irregulares. Por duas vezes Donal efetuou uma corrida curta, tentando captar bastante vento nas asas para decolar, mas em ambas o vento mudou de repente e impediu-o, numa das ocasiões derrubando-o no chão dolorosamente.

Levantando-se, machucado, Donal praguejou. Dorilys estaria brincando outra vez com os ventos e correntes de ar, deslocando o campo magnético, sem saber que ele se encontrava ali embaixo? Não, não era possível, pois certamente Renata e Allart a impediriam de tentar coisas assim. Mas se ela ainda dormia, se ainda estava muito enervada com o excitamento do dia, seu primeiro vôo, o esforço de controlar seu dom, não seria possível? Sua mente em sonho não poderia estar movimentando os ventos e o ar à vontade?

Sem qualquer entusiasmo, Donal contemplou o pico distante em que estava o posto de vigilância de incêndio. Teria de subir a pé? Dificilmente conseguiria chegar lá antes do escurecer. A estrada era bastante boa, pois á cada dez dias transportava-se suprimentos até lá em cima; ele ouvira dizer que a estrada fora aberta com matriz no tempo do avô de Dom Mikhail. Mas mesmo assim não queria subir. O máximo que se poderia dizer a respeito era que seria uma escalada menos árdua que de uma encosta rochosa. Mas se não conseguisse pegar um vento bastante firme para levantá-lo, com a ajuda da matriz de cristal, teria de seguir pela estrada, carregando o planador.

Mas se demorasse muito a subir, ficaria escuro e perigoso. Era melhor se arriscar no vento soprando na direção do pico. Donal verificou se as correias estavam bem presas, inspecionou as asas e descartou o cilindro de água, que poderia ser recuperado em outra ocasião; mesmo um pequeno peso extra poderia representar toda a diferença na manobra de vôo tão perigosa que ia tentar. Ele correu para a beira da colina, concentrado na matriz, deixando que o vento e a força da levitação o levassem para cima; sentiu, aliviado, o vento sustentar o planador e empurrá-lo para cima e para fora, numa corrente ascendente.

Foi subindo, cada vez mais, num vento tão forte que o planador se sacudia todo. Podia ouvir um zunido estridente acima do rugido do vento. Sentiu um medo estranho, frio, inebriante, os sentidos aguçados aos limites, enlevado no prazer de se elevar no vento. Se eu cair, posso ficar estraçalhado... mas não vou cair! Como um gavião em seu elemento natural, Donal circulava, olhando para o vale lá embaixo, as aberturas irregulares nas nuvens por cima do posto, as nuvens de tempestade acumuladas, riscadas por relâmpagos, sobre o Pico do Homem Morto. Continuando a. circular, acabou pegando uma contracorrente que o levaria na direção geral do posto, inclinou as asas, um pássaro em seu elemento, todos os sentidos entregues ao êxtase do vôo. Não estava consciente da mente de Renata ligada com a sua, mas descobriu-se a pensar: Gostaria que Renata pudesse ver tudo isso como eu estou vendo. De alguma forma, em sua mente, ligava o êxtase do longo vôo, o vento passando a zunir, com o momento breve em que a abraçara e sentira a sua boca...

Os relâmpagos estrondeavam ameaçadores, as beiras de metal das asas brilharam subitamente com um clarão azulado. Donal, formigando com a eletricidade não descarregada, percebeu que a tempestade começara a se deslocar, tangida pelo vento, através do vale, na direção do posto. Nem sequer podia descer; com tamanha carga elétrica, não podia tocar no solo, pois morreria. Precisava circular até que a carga se esvaísse. Em meio à trovoada súbita, ele percebeu que sentia muito medo. A tempestade seguia na direção errada. Deveria ter se deslocado além do Pico do Homem Morto, mas agora estava voltando. Donal lembrou-se de repente do dia do nascimento de Dorilys, o dia da morte de sua mãe. A tempestade também fora errada na ocasião! Dorilys, dormindo, absorvida em sonhos de terror e poder, projetando-se para controlar as forças da tempestade. Mas por que ela focalizava nele, mesmo no sono?

Ela sabia que não é mais a única criatura feminina em meus pensamentos e coração? Donal fez um tremendo esforço para manter sua posição no ar, apesar da corrente descendente insistente que tentava levá-lo para baixo, para o espaço aberto além do posto. Sabia que precisava circular mais uma vez. O ressoar da trovoada no ar tornou a ensurdecê-lo, rajadas de chuva gelada deixaram-no enregelado. Mais uma vez sentiu os relâmpagos se movimentando ao seu redor e se projetou com cada átomo de seu laran, desviando alguma coisa, empurrando para outro lugar...

E acabou. O estrondo sacudiu seu corpo e ele caiu como uma pedra, com suas últimas forças pegando uma corrente que poderia levá-lo à beira do espaço aberto por trás do posto. Ou será que erraria, caindo pela encosta do pico e se despedaçando lá embaixo? Meio inconsciente, Donal divisou alguém correndo lá embaixo, na direção do lugar em que deveria pousar. Caiu pesado, cambaleando. Os pés tocaram no chão e Renata amparou-o em seus braços, encharcado e desfalecido, mantendo-o de pé por um momento, antes que o peso a subjugasse e os dois caíssem, juntos.

Desesperada, exausta, Renata apertou o inconsciente Donal contra o peito. Ele tinha o rosto gelado da chuva e por um instante terrível Renata ficou sem saber se estava vivo, mas depois sentiu o calor de sua respiração e seu próprio mundo tornou a adquirir movimento.

Agora eu sei o que é amor. Não ver nada pela frente além da pessoa a quem se ama... saber, agora, ajoelhada aqui, com ele desfalecido em meus braços, saber que se tivesse morrido eu também morreria, num sentido muito real... Os dedos de Renata mexeram nas correias, soltando-as, desprendendo o planador milagrosamente intacto. Mas os olhos de Donal se abriram; puxou-a e seus lábios se encontraram, numa paz súbita e profunda. Não voaram nem deram atenção a Allart e Kyril, que os observavam. De uma vez por todas, agora e para sempre, sabiam que pertenciam um ao outro. O que quer que acontecesse depois seria mera confirmação do que já sabiam.

 

Enquanto vivesse, Renata sabia, nada em sua mente ou memória jamais igualaria o esplendor daquela estação - o verão nas Hellers e Donal ao seu lado. Juntos, voaram por vales sem fim em seus planadores, elevando-se de pico para pico, escondendo-se sob penhascos das tempestades de verão, deitados lado a lado em desfiladeiros ocultos, hora após hora, contemplando nuvens se deslocarem pelo céu, passando do céu para a terra verde e um para o outro.

Dia a dia, Dorilys mais se aproximava do domínio de seu estranho dom e Renata começou a se sentir mais otimista. Talvez tudo acabasse bem. Provavelmente Dorilys nunca deveria se arriscar a gerar uma criança, ainda mais se fosse uma menina, mas podia sobreviver ilesa à puberdade. Na felicidade de seu próprio amor, Renata sentiu que não suportaria privar Dorilys dessa promessa, dessa esperança.

E eu escarneci de Cassandra! Misericordiosa Avarra, como eu era jovem então, como era ignorante!

Numa das longas e brilhantes tardes de verão, eles se deitaram ocultos num vale verdejante, olhando para o céu, onde Dorilys, com alguns rapazes do castelo, se elevava como uma ave nas correntes ascendentes.

- Sou bastante hábil com um planador, mas nunca fui capaz de controlar os ventos como ela faz - comentou Donal. - Não ousaria. E nenhum dos garotos nem de longe é tão hábil e destemido.

- Nenhum deles possui o dom de Dorilys - murmurou Renata, contemplando as estonteantes profundezas violetas do céu e piscando com as lágrimas repentinas.

Às vezes lhe parecia, naquele primeiro e último verão de seu amor, que Dorilys se tornara sua própria filha, a menina que ela sabia que nunca se atreveria a gerar para seu amante; mas Dorilys pertencia a eles, para ensinar e treinar, para amar.

Donal inclinou-se abruptamente e beijou-a, depois tocou em suas pálpebras com um dedo.

- Lágrimas, minha amada? Renata sacudiu a cabeça.

- Fiquei olhando para o céu por muito tempo, observando-a.

- É tão estranho... - murmurou Donal, pegando suas mãos e beijando os dedos esguios. - Nunca pensei...

Ele parou de falar, mas estavam numa comunicação tão profunda que Renata pôde acompanhar seus pensamentos.

Nunca pensei que o amor me chegaria assim. Sabia que algum dia, mais cedo ou mais tarde, meu pai de criação me arrumaria uma esposa, mas amar assim... não parece real. Preciso de alguma forma encontrar coragem para dizer a ele... Donal tentou se imaginar desafiando o costume e o comportamento civilizado, entrando no gabinete do pai de criação e lhe dizendo: "Senhor, não esperei que me arrumasse uma noiva. Há uma mulher com quem desejo casar..." Especulou se Dom Mikhail ficaria zangado com ele; ou, pior ainda, se culparia Renata.

Mas se ele souber que não haveria qualquer felicidade na vida para mim, a não ser com Renata... Ele especulou se Dom Mikhail alguma vez soubera o que era amar. Seus casamentos haviam sido acertados pela família; o que podia saber da emoção que os arrebatava por completo? Donal sentiu uma lufada de vento frio e estremeceu, ouvindo um ressoar de tempestade distante e premonitório.

- Não se preocupe - disse Renata. - Ela conhece muito bem as correntes de tempestade; não corre qualquer perigo. Olhe só! Todos os garotos estão seguindo-a agora...

Renata apontou para a fila de crianças, se inclinando e circulando nas asas do vento, disparando como uma revoada de aves selvagens na direção dos penhascos altos e distantes de Aldaran.

- Vamos embora, amor querido. O sol vai se pôr em breve e os ventos se tornam fortes ao crepúsculo; devemos voltar e nos juntar a eles.

As mãos de Donal tremiam ao ajudá-la a prender as correias. Ela murmurou:

- Entre todas as coisas que você partilhou comigo, Donal, talvez esta seja a mais maravilhosa. Não sei se qualquer outra mulher das Hellers já foi capaz de voar assim.

Donal viu, à claridade escarlate do pôr-do-sol, uma lágrima faiscar no olho de Renata; mas, sem qualquer protesto, ela esquivou-se a seus pensamentos, inclinando as asas do planador e correndo pelo vale comprido, pegando uma corrente rápida e subindo, afastando-se, depois pairando lá no alto e esperando que ele a alcançasse.

Naquela noite, no salão, depois que Dorilys desejou boa-noite e foi para seus aposentos, Aldaran gesticulou para que Allart e Renata ficassem. Os músicos tocavam e algumas pessoas dançavam ao som das harpas, mas Dom Mikhail franziu o rosto, enquanto desdobrava uma carta.

- Vejam isto. Enviei uma delegação a Storn, a fim de iniciar negociações para o casamento de Dorilys. No ano passado eles não queriam falar de outra coisa, mas agora recebo uma resposta estranha, de que Dorilys ainda é muito jovem e talvez seja melhor deixar para conversar quando ela estiver em idade de casar. Fico imaginando...

Donal disse, bruscamente:

- Dorilys já foi prometida em casamento duas vezes, e em ambas as ocasiões os futuros maridos sofreram morte violenta logo depois. Dorilys é inteligente e bonita, seu dote é o Castelo Aldaran; mas seria de surpreender se não houvesse comentários sobre a morte prematura dos que desejam casar com ela.

Allart interveio:

- Se eu estivesse no seu lugar, Lorde Aldaran, esperaria para pensar mais em casamento até que Dorilys passe pela puberdade e esteja livre do perigo da doença do limiar.

Aldaran perguntou, com a respiração presa em sua garganta:

- Allart, você previu... ela vai morrer da doença do limiar, como as crianças de meu primeiro casamento?

- Não vi nada a respeito - respondeu Allart.

Ele bem que tentara, com todo afinco, não olhar para a frente. Parecia agora que nada via além de desastres, muitos dos quais não podiam ser ligados a tempo ou lugar. Volta e meia vira o Castelo Aldaran sitiado, flechas voando, homens armados atacando, relâmpagos riscando o céu. Allart tentara fazer a mesma coisa que em Nevarsin - afastar tudo de sua mente, não ver nada; pois a maior parte do que via não passava de mentiras e medo injustificado.

- A presciência é inútil neste caso, milorde. Posso ver uma centena de possibilidades diferentes, mas apenas uma vai se concretizar. Portanto, não há sentido em olhar para a frente e temer as outras noventa e nove. Mas se fosse inevitável que Dorilys morresse da doença do limiar na puberdade, creio que eu não seria capaz de evitar ver isso; e não aconteceu.

Dom Mikhail apoiou a cabeça nas mãos e murmurou:

- Ah, como eu gostaria de ter um resquício apenas do seu dom, Allart! Pois me parece que esta carta é o sinal evidente de que o pessoal de Storn está em contato com meu irmão de Scathfell; e não querem contrariá-lo, porque ele ainda tem a esperança de conquistar Aldaran de alguma forma, se eu morrer sem filho ou genro para defendê-lo. E isso... - Ele fez uma pausa, mexendo a cabeça com o movimento rápido de um gavião. - ...jamais acontecerá, enquanto as quatro luas desfilarem pelo céu e as neves caírem no meio do inverno!

Seus olhos fixaram-se em Donal e abrandaram. Todos perceberam o que ele estava pensando, que chegara o momento de Donal pelo menos casar. Donal ficou tenso, sabendo que não era a ocasião oportuna para falar e irritá-lo, mas Dom Mikhail limitou-se a acrescentar:

- Podem ir, crianças, juntem-se aos dançarinos, se quiserem. Preciso pensar no que direi a meu parente de Storn.

Donal respirou, aliviado. Mais tarde, naquela mesma noite, ele disse a Renata:

- Não podemos protelar por muito mais tempo, minha amada. Ou chegará o dia em que ele me chamará e dirá: "Donal, aqui está a sua esposa." E terei de explicar por que não posso casar com alguma filha sem espírito de um dos seus vassalos. Devo viajar para as Colinas Kilghard e pedir a sua mão em casamento, Renata? Acha que Dom Erlend daria sua filha a um homem pobre, que só pode oferecer a pequena propriedade de Penhascos Altos? Você é filha de um Domínio poderoso; seus parentes dirão que eu estava interessado em cortejar apenas um dote generoso.

Renata riu.

- Meu dote é bem pequeno, já que tenho três irmãs mais velhas. E meu pai está tão insatisfeito por eu ter vindo para cá sem o seu consentimento que pode me recusar até isso. O dote que tenho é de Dom Mikhail, pelos cuidados com Dorilys... e ele não vai lamentar se permanecer em sua família!

- Seja como for, ele tem sido mais bondoso comigo do que qualquer pai do meu próprio sangue poderia ter sido. Merece da minha parte mais do que essa traição. E também não quero que seus parentes pensem que a seduzi enquanto você se encontrava sob o teto de meu pai de criação, talvez para me apoderar desse dote!

- Ah, esse dote amaldiçoado! Sei que não se importa com isso, Donal.

- Se fosse necessário, meu amor, eu renunciaria a qualquer reivindicação e a tomaria sem nada.

Renata tornou a rir e puxou a cabeça de Donal para si.

- Você me tomaria melhor sem isso. - zombou ela, adorando a maneira como ele ainda corava como um garoto com a metade de sua idade.

Renata jamais pensara que pudesse ficar totalmente perdida para qualquer outra coisa que não fosse o seu amor. Ela pensou: Apesar de todos os meus anos na Torre, apesar de todos os amantes que tive, ainda sou como uma criança da idade de Dorilys! Houve uma ocasião em que eu sabia o que o amor podia ser, todo o resto nada significando, absolutamente nada, menos do que nada...

- De qualquer maneira, Renata - disse Donal, retomando por fim a conversa -, meu pai de criação deve saber.

- Ele é um telepata. Tenho certeza de que já sabe. Mas acho que ainda não decidiu o que tenciona fazer a respeito... e seria inadmissível de nossa parte se tentássemos pressioná-lo a uma decisão.

Donal teve de se contentar com isso, mas não pôde deixar de especular. Como Dom Mikhail podia imaginar que Donal se viraria contra os costumes daquele jeito e concentraria seus pensamentos, sem permissão, numa moça casadoura, sem o consentimento dos parentes dela? Donal sentia-se estranho, alienado do padrão que sabia que sua vida deveria ter assumido.

Contemplando o rosto transtornado de seu amante, Renata suspirou. Em suas lutas solitárias com a consciência na Torre, ela concluíra que inevitavelmente deveria romper com os padrões tradicionais determinados para uma mulher do seu clã. Donal, até agora, nunca enfrentara a necessidade de mudança.

- Muito bem, mandarei avisar a meu pai, quando já for tarde demais para que ele possa responder, antes de meados do inverno, que vamos casar na noite do solstício do inverno... se você ainda me quiser.

- Se eu ainda a quiser? Oh, minha amada, como pode pensar assim? E o resto da conversa não foi em palavras.

O verão foi se arrastando. As folhas começaram a mudar de cor, Dorilys comemorou seu aniversário e a primeira das colheitas foi concluída. Num dia em que todo o pessoal de Aldaran saiu para ver as grandes carroças carregadas com sacos de castanhas e jarros de óleo, Allart descobriu-se parado ao lado de Renata, num canto distante do pátio.

- Vai permanecer aqui durante o inverno, parente? Não deixarei Dorilys enquanto ela não passar sã e salva pela puberdade. Mas o que você vai fazer?

- Donal me pediu para ficar e Dom Mikhail também. Continuarei aqui até ser chamado por meu irmão.

Além das palavras, Renata sentiu cansaço e resignação. Allart experimentava uma saudade angustiante de Cassandra; em um de seus despachos secretos, pedira permissão para voltar, mas Damon-Rafael recusara.

Renata sorriu, um sorriso irônico.

- Agora que seu irmão tem um filho legítimo, não está com pressa de que você volte para sua esposa e talvez gere filhos que possam reivindicar o Domínio.

Allart suspirou, um suspiro de muito cansaço, pensou Renata, para um homem tão jovem.

- Cassandra não me dará nenhum filho, Renata, pois não quero lhe exigir esse risco. E jurei pelos fogos de Hali apoiar as pretensões dos filhos de meu irmão, legítimos ou nedestro, ao Domínio.

Renata sentiu as lágrimas, que há dias estavam tão próximas da superfície, aflorarem agora e inundarem seus olhos. Para reprimi-las, imprimiu à voz um tom duro e irônico:

- Ao Domínio... muito bem, você fez esse juramento. Mas o que me diz da coroa, Allart?

- Não quero a coroa.

- Acredito em você... mas será que seu irmão também acredita?

- Não sei...

Allart suspirou de novo. Será que Damon-Rafael realmente pensava que Allart não poderia resistir à tentação de arrancar o Domínio - ou a coroa - de suas mãos? Ou apenas desejava fazer com que o poderoso Lorde Aldaran tivesse uma grande obrigação para com Elhalyn? Damon-Rafael precisaria de aliados se resolvesse lutar com o Príncipe Felix pelo trono de Thendara.

Só que essa luta não ocorreria por algum tempo. O idoso Rei Regis ainda se apegava à vida, e o Conselho não o perturbaria em seu leito de morte. Mas depois que o rei estivesse numa sepultura sem qualquer identificação em Hali, ao lado de seus antepassados, como era o costume, então... então o Conselho não demoraria a exigir que o Príncipe Felix demonstrasse sua capacidade de herdar o trono do pai.

- Um emmasca pode dar um bom rei - comentou Renata, acompanhando os pensamentos de Allart sem qualquer esforço. - Mas não poderia fundar uma dinastia. Felix não herdará. E li o último despacho. Cassilde não se recuperou depois do nascimento do filho e morreu alguns dias depois. Agora, seu irmão tem um filho legítimo, mas está procurando outra vez por uma esposa. E sem dúvida se arrepende por ter precipitado seu casamento com Cassandra.

A boca de Allart se contraiu em repulsa, lembrando o que Damon-Rafael lhe dissera a respeito: "Se Cassilde tivesse morrido, como poderia acontecer em muitos momentos dos últimos anos, eu estaria livre para tomar Cassandra." Como até mesmo seu irmão podia falar assim da mulher que lhe gerara uma dúzia de crianças só para vê-las morrer?

- Talvez seja melhor assim - disse Allart, parecendo tão triste que Renata não pôde mais conter as lágrimas. Ele levantou seu rosto amavelmente. - O que é, prima? Está sempre pronta para me confortar por meus problemas, mas nunca fala dos seus. O que a aflige, parenta?

Ele estendeu os braços para envolvê-la, mas era o contato afetuoso de um irmão, um amigo, não um amante, como Renata compreendeu. Ela soluçou e Allart afagou-a.

- Conte-me tudo, chiya - murmurou ele, tão ternamente como se ela fosse da idade de Dorilys.

Renata fez um esforço para conter as lágrimas.

- Não falei nada a Donal. Eu queria ter um filho dele. Se isso acontecesse, meu pai não poderia me obrigar a voltar para Edelweiss e casar com o homem que escolheu para mim... E por isso eu concebi. Mas depois de um ou dois dias, monitorando, descobri que era uma menina. E por isso, eu... - Ela engoliu em seco e Allart pôde sentir sua dor como uma enorme agonia em si mesmo. - Eu não podia deixar que vivesse. E não lamento... como poderia, com essa maldição na linhagem de Rockraven? E, no entanto... olho para Dorilys e não posso deixar de pensar que destruí o que poderia ser como ela, tão bela e... e... - Ela parou de falar e soluçou desesperada, encostada em Allart.

E eu pensei que podia forçar uma decisão como essa a Cassandra... Não havia nada que Allart pudesse dizer. Limitou-se a abraçar Renata, deixando-a chorar em seu peito. Ela acabou se controlando e murmurou:

- Sei que fiz o que era certo. Não havia outro jeito. Mas... também não pude contar a Donal.

Em nome de todos os deuses, o que estamos fazendo com nossas mulheres? O que temos em nossos genes e sangue para lhes acarretar tanto sofrimento? Santo Portador dos Fardos, é uma bênção sua, não uma maldição, que eu tenha me separado de Cassandra...

Mesmo enquanto falava, ele teve a impressão de ver o rosto de Cassandra, abalado pelo medo, um medo como o de Renata. Tentando reprimir a visão, ele apertou Renata e disse, gentil:

- Seja como for, você sabe que fez o que era certo e espero que isso lhe dê forças.

Depois, devagar, procurando pelas palavras apropriadas, Allart falou do momento de presciência, quando a vira em adiantado estado de gravidez, aterrorizada, desesperada.

- Mas não tenho visto isso ultimamente em minhas visões. Talvez essa possibilidade tenha existido apenas por um curto período, quando você estava grávida. Depois, esse futuro deixou de existir, já que adotou a ação de impedi-lo. Não deve se lamentar.

Ainda assim, ele não tinha certeza: não vira coisa alguma nos últimos tempos. Tentara reprimir qualquer uso de sua presciência e a visão terrível dos vários futuros divergentes. Seria então verdade que agora, com a filha de Renata destruída, não havia mais causa para medo? Mas ele a tranqüilizara. Renata parecia mais calma e não tinha a menor intenção de perturbá-la de novo.

- Sei que fiz o que era certo, Allart. Mas acontece que Dorilys tem se mostrado doce, dócil e gentil. Agora que tem o controle de seu laran, as tempestade se mantêm ao largo.

E verdade, pensou Allart. Há muito tempo que meu sono ou vigília não é perturbado pelas visões terríveis de uma câmara abobadada, o rosto de uma criança emoldurada por relâmpagos assustadores... Todas essas tragédias teriam saído também do reino das possibilidades, com Dorilys controlando seu terrível dom?

- Mas, de certa forma - acrescentou Renata -, isso torna ainda pior saber que poderia haver outra criança assim, que agora nunca mais viverá... Acho que devo simplesmente pensar em Dorilys como a filha que jamais ousarei ter... Allart, ela convidou o pai e Donal para ouvi-la tocar e cantar esta tarde; você não quer ir também? Ela começa a desenvolver uma voz extraordinária; não gostaria de ouvi-la?

- Com o maior prazer - respondeu Allart, sinceramente.

Donal estava presente, assim como Lorde Aldaran e diversas mulheres da casa, inclusive a mestra de música de Dorilys, uma jovem nobre da casa de Darriel. Com uma beleza morena, cabelos escuros, ela fez Allart se lembrar por um instante de Cassandra, embora não fossem muito parecidas. Ainda assim, quando Lady Elisa sentou-se com a cabeça inclinada sobre a rryl, dedilhando as cordas, ele notou que ela também tinha seis dedos nas mãos. Recordou o que dissera a Cassandra no casamento: "Que possamos viver até o dia em que se façam canções e não a guerra!" Como essa esperança fora breve! Viviam numa terra devasta pela guerra, tanto nas montanhas quanto nos Domínios, Cassandra numa torre acossada por carros aéreos e mísseis incendiários, Allart numa terra em chamas com incêndios na floresta e relâmpagos terríveis, disparando como flechas. Sobressaltado, ele correu os olhos pela sala tranqüila, contemplou o céu e as colinas além. Não havia ali qualquer som de guerra. Sua amaldiçoada presciência outra vez, não mais do que isso, no sossego da sala em que Lady Elisa tocava a harpa e murmurou:

- Cante, Dorilys.

A voz da criança, doce e triste, iniciou uma canção antiga das colinas distantes:

- Onde você está agora?

Por onde meu amor vagueia?

Allart pensou que uma canção de amor perdido e saudade soava imprópria nos lábios de uma jovem donzela, mas isso não impediu que ficasse fascinado pela voz adorável. Dorilys crescera bastante naquele outono; estava mais alta e os seios, embora pequenos, já eram bem-formados sob a túnica infantil, o jovem corpo de contornos arredondados. Ainda tinha as pernas compridas e era desajeitada - seria uma mulher bem alta. Já estava inclusive mais alta do que Renata. Dom Mikhail comentou, quando ela terminou a canção:

- Parece, minha querida, que você herdou a voz excepcional de sua mãe. Não quer me cantar alguma coisa menos triste?

- Com o maior prazer.

Dorilys pegou a rryl de Lady Elisa. Ajustou as cordas ligeiramente e depois começou a tocar e cantar uma balada cômica das montanhas. Allart ouvira-a muitas vezes em Nevarsin, embora não no mosteiro; era uma canção turbulenta sobre um monge que levava nos bolsos, como um bom monge deveria fazer, todos os bens que lhe eram permitidos.

- Ah, os bolsos, os bolsos,

Os bolsos de Frei Domenick,

Os lindos bolsos na cintura,

Os bolsos que estofa em pressa todas as manhãs;

Tudo o que possuía, ao começar o dia,

Ele metia nos bolsos e partia.

A audiência já estava rindo antes mesmo da relação absurda dos bens que havia nos bolsos do lendário monge.

- Tudo o que possuía, ao começar o dia,

Ele metia nos bolsos e partia.

Havia tigela e colher, o livro das orações,

Uma manta em proteção para o frio do ar,

Pena para escrever orações e cartas,

Uma almofada para se ajoelhar melhor,

Um quebra-nozes feito de cobre e ouro...

A própria Dorilys faziam um esforço para manter a expressão séria, enquanto a audiência começava a rir discretamente ou, no caso de seu pai, jogar a cabeça para trás e desatar na gargalhada mais sonora, pelo absurdo de alguns itens:

- Ah, os bolsos, os bolsos,

Os bolsos de Frei Domenick...

Ela alcançara os versos que detalhavam:

- Uma sela e arreios, até esporas,

Pois alguém podia um chervine lhe dar,

Uma bacia de alça de ouro e...

Dorilys parou, indecisa, quando a porta se abriu. Lorde Aldaran virou-se, furioso com seu pajem, que entrara na sala com tanta falta de cerimônia.

- Varlet, como se atreve a entrar assim na sala de sua jovem ama?

- Peço o perdão da jovem dama, mas o assunto é de extrema urgência. Lorde Scathfell...

- Essa não! - exclamou Aldaran, irritado. - Mesmo que ele estivesse em nossos portões, com cem guerreiros armados, não desculparia tamanha falta de cortesia!

- Ele enviou uma mensagem. E seu mensageiro fala de uma exigência, milorde.

Após um momento de hesitação, Mikhail de Aldaran levantou-se. Fez uma mesura para Lady Elisa e a filha, com tanta solenidade como se a sala de aula de Dorilys fosse uma câmara de audiências.

- Peço que me perdoem. Não é de bom grado que interrompo sua música. Mas, infelizmente, devo pedir permissão para me retirar, filha.

Por um momento, Dorilys ficou boquiaberta; o pai pedia sua permissão para ir e vir? Era obviamente a primeira vez em que lhe oferecia polidez formal adulta; mas depois as boas maneiras que Margali e Renata lhe incutiram vieram em seu socorro. Ela fez uma mesura tão profunda que quase caiu de joelhos.

- Pode ir e vir como lhe aprouver, senhor, mas eu lhe suplico que volte assim que estiver livre.

Ele se inclinou sobre a mão de Dorilys.

- É o que farei, minha filha. Senhoras, minhas desculpas - acrescentou ele, inclinando-se para Margali e Renata. E, depois, arrematou, bruscamente: - Donal, acompanhe-me.

Donal se levantou e saiu atrás dele. Depois que eles se retiraram, Dorilys tentou continuar a cantar, mas perdera o ânimo e acabou parando. Allart desceu para o pátio em que ficavam os animais de montaria. Ali estavam os animais da escola da missão diplomática de Scathfell. Allart reconheceu emblemas de diferentes clãs das montanhas, viu homens armados entrando e saindo, mas se deslocavam como água e não mais estavam ali quando tornava a olhar. Compreendeu que seu laran projetava alucinações de coisas que poderiam nunca acontecer. Tentou encontrar o caminho certo, ver no tempo, mas não estava bastante calmo e o que sentia - não estava conscientemente lendo os pensamentos dos que haviam trazido a exigência de Scathfell, mas eles também irradiavam suas emoções por toda a paisagem - não era propício à tranqüilidade.

Guerra? Ali? Allart experimentou uma pontada de pesar pelo verão longo e belo, tão irremediavelmente destruído. Como pude me sentar em paz quando meu povo se encontra em guerra e meu irmão se prepara para lutar por uma coroa? O que fiz para merecer esta paz, quando até minha amada esposa enfrenta o perigo e terror? Ele foi para o seu quarto e tentou se acalmar com as disciplinas de respiração de Nevarsin, mas não conseguiu se concentrar, com as visões de guerra, tempestades e tumultos se sucedendo em seus olhos e cérebro. Sentiu-se grato quando, após um tempo considerável, foi chamado à câmara de audiências de Aldaran.

Esperava se confrontar com a delegação de Scathfell, como vira tantas vezes em suas visões, mas não havia mais ninguém ali além de Aldaran, sentado a olhar sombriamente para o chão, e Donal, andando nervoso de um lado para outro.

No momento em que Allart entrou, Donal lançou-lhe um olhar rápido, em que se misturavam gratidão e súplica.

- Entre, primo - disse Dom Mikhail. - Precisamos agora do conselho de parentes. Não quer sentar?

Allart preferia ficar de pé, parado ou andando de um lado para outro como Donal, mas foi ocupar a cadeira que Dom Mikhail indicou. O velho apoiou o queixo nas mãos, pensativo, demorando algum tempo para voltar a falar:

- Sente-se também, Donal! Está me deixando louco com essa maneira de andar de um lado para outro, como se possuído por um lobo danado! - Ele esperou que o filho de criação se sentasse ao lado de Allart. - Rakhal de Scathfell... a quem não concederei o nome de irmão... mandou-me um enviado com exigências tão afrontosas que não posso mais suportá-las com calma. Ele achou por bem exigir que eu escolha sem demora, de preferência antes do solstício do inverno, um de seus filhos mais moços... imagino que ele pensa que me sinto honrado pela oportunidade de optar por um daqueles pirralhos... para ser formalmente adotado como meu herdeiro, já que não tenho filho legítimo e provavelmente, acrescenta ele, não mais terei algum na minha idade.

Ele pegou um pedaço de papel que estava no assento em que o jogara e tornou a amassá-lo no punho cerrado.

- Ele diz que devo convidar todos os homens para testemunhar que declarei um filho de Scathfell como meu herdeiro. E diz também... a insolência daquele homem!... depois poderá viver seus poucos anos restantes na paz que seus outros atos lhe permitirem. - Lorde Aldaran apertou a carta insultuosa no punho como se fosse o pescoço do irmão. - Diga-me, primo: o que devo fazer com esse homem?

Allart estava aturdido e consternado. Em nome de todos os deuses, pensou ele, o que Lorde Aldaran está querendo ao me perguntar isso? Pensa mesmo que sou capaz de aconselhá-lo numa questão assim? Aldaran acrescentou, mais gentilmente e também mais premente:

- Foi instruído em Nevarsin, Allart; conhece toda a nossa história e conhece a lei. Não há alguma maneira de impedir que meu irmão de Scathfell se apodere de minha herança, antes mesmo que meus ossos estejam frios na sepultura?

- Milorde, não vejo como poderiam obrigá-lo a adotar um dos filhos de seu irmão. Mas também não sei como pode impedir que os filhos de Lorde Sca­thfell herdem o que é seu; a lei não é muito clara em relação às filhas. - E se fosse, pensou ele, quase em desespero, Dorilys tem realmente condições de governar? - Quando uma mulher recebe permissão para herdar, geralmente é porque todos os envolvidos acham que seu marido será um suserano conveniente. Ninguém lhe negará o direito de deixar Aldaran para o marido de Dorilys.

Alisando a carta amassada com os dedos, meticulosamente, Aldaran disse:

- E, no entanto... olhe só, os sinetes de Storn e Sain Scarp, até mesmo de Lorde Daniel, como se quisessem acrescentar sua força à carta... este ultimato foi apresentado. Não é de admirar que Lorde Storn se esquivasse a uma resposta quando pedi seu filho para Dorilys. Cada um tem de se aliar a mim, para não hostilizar os outros. Neste momento, primo, eu bem que gostaria que Ridenow não estivesse empenhada em guerra contra sua família, pois ofereceria Dorilys a eles. - Aldaran ficou em silêncio por um momento, pensativo. - Jurei que destruiria Aldaran antes que caísse nas mãos de meu irmão. Ajude-me a encontrar uma saída, primo.

O primeiro pensamento que aflorou na mente de Allart - e, mais tarde, ele se sentiu grato por ter bastante bom senso para reprimi-lo antes que Aldaran pudesse lê-lo - foi o seguinte: Meu irmão Damon-Rafael acaba de perder a esposa. Mas o mero pensamento povoou sua mente com visões incontroláveis de horror e desastre. O esforço para controlá-las manteve-o num silêncio angustiado, enquanto recordava a predição de Damon-Rafael ao enviá-lo naquela missão: "Temo um dia em que todo o nosso mundo, de Dalereuth às Hellers, se curvará diante do poderio de Aldaran." Notando seu silêncio, Dom Mikhail disse:

- É uma pena que já seja casado, primo. Eu poderia lhe oferecer minha filha... Mas conhece minha vontade. Diga-me, Allart: não há nenhuma maneira para que eu possa proclamar Donal como meu herdeiro? Ele é que sempre foi o verdadeiro filho do meu coração.

- Pai - suplicou Donal -, não brigue com seus parentes por minha causa. Por que atear fogo à terra numa guerra inútil? Quando for ao encontro de seus antepassados... e que esse dia esteja bem longe, meu querido pai de criação... que importância vai ter quem ficará com Aldaran?

- Tem importância e muita - declarou o velho, o rosto parecendo uma máscara esculpida em pedra. - Allart, com todo o seu conhecimento da lei, não encontra nenhuma possibilidade para que esta herança vá para Donal? Allart refletiu a respeito por algum tempo e depois disse:

- Creio que não há nenhuma. Mas gostaria de lembrar que as leis sobre a herança de sangue não são tão fortes assim. Há sete ou oito gerações você e seus irmãos habitariam juntos, com suas esposas. O mais velho ou o líder eleito escolheria para herdeiro o filho que parecesse mais capaz; não o filho mais velho do irmão mais velho, mas sim o melhor. Foi o costume e não a lei que introduziu a regra da primogenitura e da paternidade reconhecida nas montanhas. Mas se proclamar que escolheu Donal pela lei antiga e não pela nova, milorde, haverá guerra. Cada filho mais velho nas montanhas saberá que sua posição está ameaçada e que seu irmão mais moço ou o parente mais distante pode se tornar ainda mais seu inimigo do que agora.

- Seria bem mais simples se Donal fosse um abandonado ou um órfão e não o filho da minha amada Aliciane - comentou Aldaran, amargurado. - Eu poderia então casá-lo com Dorilys, deixando minha filha protegida e minha propriedade nas mãos de quem a conhece melhor e tem maiores condições para cuidá-la.

- Isso ainda é possível, milorde - anunciou Allart. - Seria uma ficção legal... como aconteceu quando Lady Bruna Leynier, irmã do herdeiro morto em combate, tomou a viúva do irmão e a criança por nascer sob sua proteção, num casamento livre, a fim de que nenhum outro casamento pudesse ser imposto à viúva e os direitos da criança fossem resguardados. E dizem que ela também comandou os guardas, no lugar do irmão.

Aldaran soltou uma risada.

- Sempre pensei que isso não passasse de uma história cômica.

- Pode estar certo de que não foi. Aconteceu realmente. As mulheres habitaram juntas por vinte anos, até que o menino se tornou homem e pôde reivindicar seus direitos. Talvez seja um absurdo, mas as leis não podiam proibir. Um casamento assim tem pelo menos uma situação legal... um meio-irmão e uma meia-irmã podem casar, se quiserem. Renata me disse que é melhor Dorilys não ter filhos, e Donal poderia gerar um herdeiro nedestro para sucedê-lo.

Ele estava pensando em Renata, mas Mikhail de Aldaran levantou a cabeça, num movimento rápido e decidido.

- A ficção legal que se dane! Esta é a nossa solução, Donal. Allart está enganado no que Renata disse. Lembro perfeitamente. Ela falou que Dorilys não deve gerar uma filha, mas seria seguro ter um filho. E ela tem sangue Aldaran, o que significaria que o filho de Donal seria um herdeiro Aldaran, podendo assim herdar tudo depois deles. Todo criador de animais sabe que essa é a melhor maneira de fixar uma característica desejada na linhagem, a reprodução com os mesmos materiais genéticos. Dorilys vai gerar para seu meio-irmão o filho que Aliciane deveria dar a mim... Renata saberá como providenciar isso... com uma ampliação dos dons de controle do fogo e controle do relâmpago. Durante algumas gerações devemos ter a precaução de não permitir o nascimento de mulheres. Mas não terá muita importância, pois a linhagem vai florescer. Donal olhava estarrecido para o pai de criação.

- Não pode estar falando sério, senhor!

- Por que não?

- Dorilys é minha irmã... e apenas uma criança!

- Meia-irmã, Donal... e não mais tão criança assim. Margali me diz que ela se tornará mulher em algum momento deste inverno. Portanto, não teremos de esperar muito para anunciar que já existe um autêntico herdeiro Aldaran.

Donal tremia de angústia e Allart compreendeu que ele pensava em Renata. Mas Mikhail de Aldaran estava absorvido demais em seu plano e não lhe restava qualquer fragmento de laran para ler os pensamentos do filho de criação. Mas quando Donal abriu a boca para falar, Allart viu também, nitidamente, o rosto do velho se contrair, sombrio, ameaçador, ouviu o rugido do cérebro. Allart agarrou o pulso do rapaz e apertou, forçando a imagem do ataque de Aldaran na mente de Donal, seus pensamentos tão fortes quanto a voz de comando: Em nome de todos os deuses, Donal, não discuta com ele agora! Seria a morte de Lorde Aldaran! Donal arriou na cadeira, sem chegar a dizer qualquer coisa. A imagem de Lorde Aldaran abatido pelas palavras de Donal resvalou para o limbo das coisas que jamais se concretizariam. Allart viu-a se desvanecer, aliviado mas também perturbado.

Não sou um monitor, mas devemos avisar a Renata se ele está tão próximo da morte. É preciso monitorá-lo...

- Pare com isso - murmurou Aldaran, gentilmente. - Seus escrúpulos são absurdos, meu filho. Há muitos anos que sabe que Dorilys deve casar assim que estiver crescida... e se ela precisa casar tão cedo, não seria mais fácil se casasse com alguém que conhece e ama? Você não a usaria mais gentilmente do que um estranho? E a única saída que me ocorre, que você case com Dorilys e tenha um filho... do jeito como estão as coisas agora.

Allart, aturdido e chocado, refletiu que provavelmente era uma sorte para Dorilys que Lorde Aldaran já estivesse muito velho e se considerasse além da idade para gerar um herdeiro.

- Quanto a isto - acrescentou Aldaran, tornando a amassar a carta de Scathfell e jogando-a no chão -, acho que usarei para me limpar e depois mandarei de volta a meu irmão, a fim de lhe mostrar o que penso de seu ultimato! Ao mesmo tempo, eu o convidarei para testemunhar seu casamento.

- Não - balbuciou Donal. - Pai, eu lhe suplico...

- Não diga mais nada, meu filho. Já tomei a decisão. - Aldaran levantou-se e abraçou Donal. - Desde que Aliciane o trouxe para esta casa, você tem sido meu filho amado; e o casamento fará com que seja legítimo. Vai me negar isso, meu caro rapaz?

Donal ficou imóvel, desamparado, incapaz de formular seu protesto. Como podia repelir naquele momento o amor e preocupação do pai de criação?

- Chame meu escriba - ordenou Lorde Aldaran. - Terei o maior prazer em ditar uma carta para Lorde Scathfell, convidando para o casamento de minha filha e herdeira com meu filho eleito.

Donal ainda fez uma súplica final:

- Sabia, meu pai, que isso será uma declaração de guerra? Eles se lançarão contra nós com toda força.

Aldaran gesticulou para a janela. O céu cinzento era toldado pela neve caindo, a primeira do ano.

- Eles não virão agora, pois o inverno já começou. Não virão antes do degelo da primavera. E então... - Ele inclinou a cabeça para trás e riu. Allart sentiu um calafrio pela espinha, lembrando o grito estridente de uma ave de rapina. E Mikhail de Aldaran arrematou: - Que eles venham! E venham quando quiserem! Estaremos prontos!

 

- Juro que não existe nenhuma outra mulher no mundo com quem eu deseje casar além de você, minha amada - declarou Donal.

Até Renata ter entrado em sua vida, ele jamais pensara que pudesse ter qualquer opção no assunto - e também não estava particularmente interessado, bastava que a futura esposa não fosse doente nem uma megera, e estava convencido de que o pai de criação cuidaria disso. Não desperdiçara muito pensamento na questão.

Renata viu todos esses pensamentos - e o ressentimento quase inconsciente em Donal, por ter de enfrentar aquela enorme mudança em seu padrão de vida - e inclinou-se para pegar sua mão.

- Na verdade, meu amor, sou a culpada. Deveria ter feito o que você queria e casado imediatamente.

- Ninguém falou em culpa, carya mea. Mas o que vamos fazer agora? Meu pai de criação está velho e hoje poderia ter sofrido um ataque quando eu ia falar, se Allart não tivesse me impedido. Que todos os deuses me perdoem, Renata, mas não pude deixar de pensar... se ele morresse, eu estaria livre do que está me pedindo para fazer.

Donal cobriu o rosto com as mãos e Renata, observando-o, compreendeu que aquele transtorno era por sua causa. Fora ela quem o inspirara a se rebelar contra os desejos do pai de criação. Ela acabou dizendo, mantendo a voz calma com um esforço considerável:

- Donal, meu amado, você deve fazer o que julga que é certo. Que os deuses proíbam que eu tente persuadi-lo a agir contra a sua consciência. Se acha que é errado se rebelar contra a vontade de seu pai de criação, então deve obedecer.

Ele levantou o rosto, fazendo um esforço para não se descontrolar.

- Em nome dos deuses misericordiosos, Renata, como eu haveria de querer lhe obedecer? Pensa que eu quero casar com minha irmã?

- Nem mesmo tendo Aldaran como dote? Não vá me dizer que não deseja herdar o Domínio...

- Se pudesse consegui-lo de uma maneira justa! Mas não assim, Renata, não assim! Eu o desafiaria, mas não posso falar nada se isso provocar sua morte, como Allart teme! E o pior de tudo é que... se você me abandonasse agora, se eu a perdesse...

Ela se apressou em pegar-lhe as mãos.

- Não, não, meu amor! Prometo que não o abandonarei! Não foi isso o que eu quis dizer! Só quis lembrar que, se você for obrigado a esse casamento, pode ser a ficção legal que ele deseja ou desejava a princípio.

Donal engoliu em seco.

- Como posso pedir isso? Uma nobre da sua posição não pode se tornar uma barragana. Significaria que eu nunca poderia lhe oferecer o que você deve ter, as catenas e o reconhecimento honrado como minha esposa. Minha própria mãe foi uma barragana. Sei o que a vida seria para nossas crianças. Zombavam de mim todos os dias, chamavam-me de bastardo e outras coisas piores. Como eu poderia proporcionar tudo isso a qualquer filho meu? Misericordiosa Evanda, houve ocasiões em que odiei minha mãe por ter me exposto a tais coisas!

- Prefiro ser sua barragana a usar as catenas para outro, Donal.

Ele sabia que Renata falava a verdade, mas o ressentimento confuso levou-o a retrucar:

- É mesmo? Está querendo dizer que prefere ser a barragana de Aldaran do que a esposa de um pobre fazendeiro dos Penhascos Altos?

Renata estava angustiada. A situação já está nos fazendo discutir!

- Não está entendendo, Donal. Prefiro ser sua, como esposa, companheira livre ou barragana, a casar com qualquer homem que meu pai possa escolher para mim, sem meu conhecimento ou consentimento, mesmo que esse homem fosse o Príncipe Felix em seu trono em Thendara. Meu pai ficará furioso ao saber que habito abertamente em sua casa como barragana, mas significará que ele não poderá me oferecer a outro homem, pois não haverá quem me aceite nessas condições. Estou além do alcance de sua ira... ou de sua ambição!

Donal sentiu-se culpado, sabendo que ele não poderia desafiar seu pai de criação; e agora, tendo desafiado sua família, Renata não tinha para onde ir. Ele sabia que deveria ser igualmente bravo, recusar a ordem de Lorde Aldaran e insistir em casar com Renata imediatamente, mesmo que o pai de criação o deserdasse e expulsasse.

Mas não posso discutir com ele, pensou Donal, angustiado. Não pelo meu próprio bem, mas porque não o deixaria à mercê do pessoal de Scathfell e dos outros lordes das montanhas que espreitam para atacá-lo no momento em que ficar desamparado! O pai de criação não tinha mais ninguém. Como poderia deixá-lo sozinho? Contudo, parecia que a honra lhe exigia que fizesse justamente isso.

Donal cobriu o rosto com as mãos.

- Eu me sinto dilacerado, Renata! Lealdade a você... e lealdade a meu pai. Será que é por isso que os casamentos são arrumados pelos parentes, a fim de que não ocorram esses terríveis conflitos de lealdade?

Como se as dúvidas atormentadas de Donal reverberassem pelo Castelo Aldaran,- Allart também estava perturbado, andando irrequieto de um lado para outro, em seu quarto.

Ele pensou: Eu deveria ter deixado Donal falar. Se o choque de saber que nem sempre pode impor sua vontade tivesse matado Dom Mikhail, significaria que podemos também resistir a outros tiranos, que sempre querem que os outros façam tudo o que ordenam, mesmo que seja contra suas consciências... Allart estava pronto para despejar sobre Lorde Aldaran toda a raiva e ressentimento que sentira contra o próprio pai.

Por causa desse amaldiçoado programa de reprodução ele vai destruir a vida de Donal e a de Dorilys - antes mesmo que ela saia da infância - e também a de Renata! Será que ele se importa com qualquer outra coisa além de um herdeiro do sangue Aldaran?

Mas depois, um pouco tardiamente, Allart começou a ser justo. E pensou: Não, nem tudo é culpa de Dom Mikhail. Donal também é culpado, porque não procurou imediatamente Dom Mikhail quando se apaixonou por Renata e pediu-a em casamento. E eu também sou culpado, pois dei atenção a seu pedido por uma saída legal. Fui eu que pus em sua cabeça que Donal e Dorilys podiam casar, como uma ficção legal. E foi a minha amaldiçoada presciência que me levou a impedir Donal de falar. Outra vez fui influenciado por um acontecimento que poderia nunca ocorrer!

Meu laran é que acarretou tais coisas a todos nós. Agora, de alguma forma preciso dar um jeito de controlar a situação, descobrir o caminho certo, ver através do tempo, definir o que vai acontecer entre os muitos futuros divergentes.

Há muito tempo que ele estava bloqueado. Já fazia muitas luas que consumia grande parte de sua energia emocional tentando não ver nada, viver no momento, como os outros faziam, não se deixar influenciar pelas possibilidades sedutoras e em constante transformação nos muitos futuros. O pensamento de abrir a mente a tudo era o terror, um medo quase físico. Mas era o que devia fazer.

Trancando a porta para evitar qualquer intromissão, Allart iniciou os preparativos com toda a calma de que era capaz. Finalmente estendeu-se sobre o chão de pedra, fechando os olhos e respirando da maneira como aprendera em Nevarsin, a fim de se aquietar. Depois, lutando contra o pânico - não podia fazer aquilo, passara sete anos em Nevarsin aprendendo como não fazer aquilo - ele baixou as barreiras auto-impostas e projetou seu laran...

Por um instante - intemporal, eterno, provavelmente não muito mais que meio segundo, mas parecendo um milhão de anos em seus sentidos protestando - todo o tempo invadiu-o, passado e presente, todos os feitos de seus antepassados que haviam levado àquele momento. Viu uma mulher andando pelo lago de Hali, uma mulher de beleza incomparável, com os olhos cinzentos e os cabelos enluarados de uma chieri; vislumbrou memórias de florestas e picos; viu outras estrelas, outros sóis, um mundo com um sol amarelo e uma única lua pálida no céu; contemplou uma noite escura do espaço; morreu na neve, no espaço, no fogo, mil mortes espremidas num único instante; lutou e morreu gritando num campo de batalha; viu-se morrer enroscado na posição fetal e retirando-se para dentro de si mesmo, além do pensamento, como quase fizera quando tinha quatorze anos; viveu cem mil vidas naquele momento angustiante e compreendeu que seu corpo se convulsionava em espasmos de terror e morte... Ouviu-se gritar em agonia e soube que estava insano, que nunca mais voltaria... Lutou por um momento para fechar as comportas que abrira, sabendo que era tarde demais...

E depois ele era Allart outra vez e sabia que só tinha aquela vida, agora; as outras eram irrevogavelmente do passado ou ainda aconteceriam. Mas nessa única vida (e como parecia restrita, depois daqueles séculos e séculos da percepção numa fração de segundo do que era, fora e seria) ainda se espalhavam à sua frente, multiplicando-se infinitamente, a cada movimento que fazia, centenas de novas possibilidades que se criavam e outras que eram eliminadas para sempre. Podia perceber agora como cada movimento que fizera desde a infância abrira oportunidades ou fechara outros cursos. Poderia ter seguido o caminho do orgulho na força e armas, empenhando-se em ser melhor do que Damon-Rafael na esgrima e combate, ter-se tornado o filho mais necessário do pai... Poderia de alguma forma dar um jeito para que Damon-Rafael morresse na infância, virado o herdeiro do pai... Poderia ter permanecido para sempre a salvo dentro dos muros de Nevarsin, deserdado... Poderia ter mergulhado no mundo dos sentidos que descobrira, uma tentação infinita, nos braços de uma riyachiya... Poderia ter extinguido a vida do pai, em seu orgulho humilhado... Lentamente, através dos incontáveis passados, podia ver a inevitabilidade das opções que o levaram àquele momento, àquela encruzilhada...

Agora estava ali, naquele momento crucial no tempo, para onde fora levado por suas opções passadas, voluntárias ou involuntárias. Agora precisava definir as opções futuras, com pleno conhecimento do que poderiam acarretar. Naquele momento sobrecarregado de percepção total, ele aceitou a responsabilidade pelo que fora e pelo que seria, começando a esquadrinhar atentamente à frente.

As palavras de Dorilys afloraram a sua mente: "É como um regato. Se ponho pedras, as águas contornam as pedras, mas podem ir por qualquer dos dois lados. Mas eu não poderia fazer com que saíssem do leito ou corressem encosta acima."

Pouco a pouco Allart começou a perceber, com aquela estranha percepção ampliada, o que havia pela frente; a coisa mais provável bem diante dele, desdobrando-se nas possibilidades mais incríveis. Viu imediatamente as possibilidades que Donal aceitaria; assumiria uma posição de desafio; pegaria Renata e deixaria Aldaran; casaria com Dorilys e teria filhos nedestro com Renata. Viu que Dom Erlend Leynier poderia se aliar a Scathfell contra Aldaran, em retaliação pelo insulto à filha. (Deveria advertir Renata a respeito - mas ela se importaria?) Várias vezes teve a visão insistente de homens armados de Scathfell atacando Aldaran na primavera, o castelo mais uma vez tendo que ser defendido pela força das armas... Viu possibilidades mais remotas: Lorde Aldaran, atingido por um derrame fulminante, morreria ou ficaria de cama, impotente, por meses e anos, enquanto Donal se debatia com a regência relutante pela irmã... Lorde Aldaran se recuperando e expulsando Scathfell com seu poder bélico superior... Lorde Aldaran de alguma forma se reconciliando com o irmão... Viu Dorilys morrendo da doença do limiar ao se tornar mulher... morrendo sem dar à luz a criança que Donal jurara que nunca geraria nela... sobrevivendo para dar um filho a Donal, que herdaria apenas o laran de Aldaran e morreria da doença do limiar na adolescência...

Meticulosamente, com muito esforço, Allart forçou-se a explorar todas as possibilidades. Não sou um deus! Como poderia dizer qual dessas coisas seria melhor para todos? Posso apenas dizer o que seria menos angustiante para Donal ou Renata, a quem amo...

Agora, contra a vontade, ele começou a ver seu próprio futuro. Voltaria para Cassandra... não voltaria, em vez disso viveria para sempre em Nevarsin ou, como São-Valentino-das-Neves, sozinho numa caverna solitária nas Hellers até a morte... teria um reencontro extasiado com Cassandra... morreria nas mãos de Damon-Rafael, que temia uma traição... Cassandra viveria para sempre na Torre... ela morreria ao gerar seu filho... ela cairia nas mãos de Damon-Rafael, que jamais deixara de se lamentar por entregá-la a Allart, em vez de tomá-la como sua barragana... Isso arrancou Allart do devaneio sobre futuros e probabilidades, levando-o a examinar mais atentamente aquele.

Damon-Rafael, sua própria esposa morta e o único filho legítimo morto antes de desmamar... Allart não soubera disso; era pura presciência, laran. Mas seria verdade ou apenas um medo derivado de sua percepção de Cassandra e da ambição inescrupulosa de Damon-Rafael? Abruptamente, algo que o pai dissera, ao falar do casamento com Cassandra, aflorou em sua mente.

"Você casará com uma mulher do clã Aillard, com genes especialmente modificados para controlar esses laran..." Allart ouvira o pai, mas não prestara atenção. Escutara apenas a voz do próprio medo. Mas Damon-Rafael sabia. Não seria a primeira vez que um chefe de Domínio, poderoso e ambicioso, tomaria a esposa de seu irmão mais moço... ou a viúva de seu irmão. Se eu voltar para reclamar Cassandra como minha esposa, Damon-Rafael me matará. Com uma pontada de covardia, Allart especulou como poderia evitar esse destino, o destino que parecia agora ver em toda parte.

Voltarei ao mosteiro, farei os juramentos ali, nunca mais pisarei em Elhalyn. Damon-Rafael tomará Cassandra como esposa e vai se apoderar do trono de Thendara, arrancando-o das mãos fracas do jovem emmasca que nele senta agora. Cassandra lamentará por mim, mas acabará esquecendo quando for rainha em Thendara...

E Damon-Rafael, sua ambição satisfeita, ficará contente. Depois, o horror envolveu Allart, vendo o tipo de rei que o irmão seria. Tirania - os Ridenow seriam exterminados totalmente, para que as mulheres de Serrais pudessem reproduzir na linhagem de Elhalyn, os Hasturs de Hali e Valeron seriam assimilados na linhagem única de Elhalyn, muitas alianças nos Domínios se tornariam apenas vassalos dos Hasturs de Elhalyn, reinado de Thendara. As mãos gananciosas de Damon-Rafael se estenderiam para trazer todo o mundo conhecido, de Dalereuth às Hellers, sob o controle de Elhalyn. Tudo isso aconteceria em nome da promoção da paz... a paz sob o despotismo de Damon-Rafael e os filhos de Hastur!

Endogamia, esterilidade, fraqueza, decadência, o fluxo de bárbaros das Cidades Secas e da região montanhosa... saque, devastação, morte...

Não quero uma coroa. Mas nenhum homem vivo poderia governar esta terra pior do que meu irmão...

Pela força, Allart suspendeu o fluxo de imagens. De alguma forma, precisava impedir que aquilo ocorresse. Agora, pela primeira vez, ele se permitiu pensar seriamente em Cassandra. Como quase se pusera de lado, indiferente, deixando-a para se tornar presa de Damon-Rafael - pois nenhuma mulher, rainha ou não, poderia ser mais do que isso para seu irmão, um brinquedo de concupiscência e um peão da ambição. Damon-Rafael acarretara uma morte quase certa para Cassilde, não se importando, desde que lhe gerasse um filho legítimo. Não hesitaria em usar Cassandra da mesma maneira.

E foi então que algo em Allart, reprimido, subjugado, pisoteado, elevou-se bruscamente e bradou: Não! Ele não a terá!

Se ela quisesse Damon-Rafael, se acalentasse alguma ambição pela coroa, então, com uma agonia que jamais seria medida ou pesada, Allart poderia se pôr de lado. Mas a conhecia muito bem para saber que não era esse o caso. Era sua responsabilidade - e seu direito, seu direito incontestável - protegê-la e reivindicá-la.

Mesmo agora, meu irmão pode estar estendendo a mão para tomá-la...

Allart podia divisar todos os futuros possíveis, mas era incapaz de ver o que acontecia naquele momento à distância - não sem a ajuda de sua matriz. Lentamente, esticando os músculos doloridos, ele se levantou e correu os olhos pelo aposento. A noite passara e a neve parara de cair; a manhã escarlate rompia sobre as Hellers, além da janela, mostrando os picos nevados faiscando ao sol vermelho. Com a sabedoria do tempo das montanhas, aprendida em Nevarsin, ele sabia que a tempestade passara, pelo menos por algum tempo.

Com a pedra da estrela na mão, Allart resolutamente focalizou o pensamento, muito amplificado pela matriz, pelas enormes distâncias. O que ocorre em Elhalyn? O que está acontecendo em Thendara?

Pouco a pouco, como se visse com os olhos físicos através de uma lente que diminuía, pequena, bem definida, brilhante, uma imagem se formou à sua frente.

Pelas praias de Hali, onde as ondas intermináveis que não eram água arrebentavam e recuavam eternamente, uma procissão avançava, com os estandartes e bandeiras do luto. O velho Rei Regis estava sendo levado para o cemitério nas praias de Hali, para ficar, como o costume exigia, numa sepultura sem qualquer identificação, entre os antigos reis e soberanos dos Domínios. Naquela procissão, um rosto após outro desfilou diante dos olhos de Allart, mas apenas dois lhe causaram uma impressão. Um, o rosto estreito, pálido e assexuado do Príncipe Felix, triste e amedrontado. Não se passaria muito tempo, Allart sabia, contemplando os rostos gananciosos dos nobres em sua comitiva, para que o Príncipe Felix fosse despojado e obrigado a entregar sua coroa a quem pudesse transmitir o sangue e os genes, o precioso laran. O outro foi o rosto de Damon-Rafael de Elhalyn, ao lado do herdeiro da coroa de Thendara. Como se já saboreasse a vitória, Damon-Rafael cavalgava com um sorriso implacável. Diante dos olhos de Allart, a imagem mudou, não no que era agora, mas no que seria; ele viu Damon-Rafael coroado em Thendara, Cassandra em túnica e jóias como uma rainha ao seu lado, os poderosos lordes de Valeron, a aliança consolidada através do parentesco, atrás do novo rei, Damon-Rafael...

Guerra, decadência, ruínas, caos... Allart compreendeu subitamente que se encontrava no momento crucial de uma sucessão de eventos que poderiam alterar para sempre todo o futuro de Darkover.

Não quero mal a meu irmão. Mas não posso permitir que ele leve todo o nosso mundo à ruína. Não há jornada que não comece com um só passo. Não posso impedir que Damon-Rafael e torne rei, mas ele não vai consolidar a aliança Aillard fazendo com que minha esposa seja sua rainha.

Allart largou a matriz, chamou os servos e pediu a primeira refeição; comeu e bebeu sem sentir o gosto, a fim de se fortalecer para o que sabia ser inevitável. Isso feito, saiu à procura de Lorde Aldaran. Encontrou Dom Mikhail de bom humor.

- Enviei a mensagem a meu irmão de Scathfell, convidando-o para o casamento de minha filha e meu amado filho de criação. É um golpe de gênio. Não há nenhum outro homem a quem eu poderia entregar com tanta confiança minha filha para sua segurança e proteção pelo resto da vida. Contarei a ela hoje o que tencionamos fazer. Creio que ela também ficará grata por não ser entregue nas mãos de um estranho... E você é o responsável por essa esplêndida solução, meu amigo. Eu gostaria de lhe retribuir de alguma forma, com uma generosidade igual! Ah, como gostaria de ser uma mosca na parede quando meu irmão de Scathfell ler a carta que lhe enviei!

- Para ser franco, Dom Mikhail, vim lhe pedir um grande favor - anunciou Allart.

- Será um prazer conceder qualquer coisa que pedir, primo.

- Eu gostaria de trazer para cá minha esposa, que está na Torre de Hali. Poderia recebê-la como hóspede?

- Com a maior satisfação! Mandarei minha própria guarda como escolta, se você desejar, mas a viagem é precária nesta época do ano, uma viagem de dez dias desde as Terras Baixas, com as tempestades de inverno se aproximando. Talvez pudesse eliminar o tempo para meus homens viajarem até o lago de Hali e buscá-la, se enviasse uma mensagem através da Torre Tramontana, comunicando que ela deve partir imediatamente. Eu enviaria homens para encontrá-la no caminho e escoltá-la. Creio que ela poderia requisitar uma escolta em Elhalyn.

Allart parecia perturbado.

- Não quero confiá-la a meu irmão e não gostaria que sua partida fosse conhecida.

Dom Mikhail observou-o atentamente.

- É mesmo? Nesse caso, sugiro que vá com Donal a Tramontana e tente persuadi-los a trazê-la para cá agora, através das redes de transmissão. Não se faz isso com muita freqüência hoje em dia... o dispêndio de energia é enorme... a menos que a necessidade seja desesperada. Mas se é tão importante assim...

- Eu não sabia que ainda era possível! - exclamou Allart.

- O equipamento ainda está na Torre, com energia de matriz. Talvez, com sua ajuda, eles possam ser convencidos. Mas sugiro que vá por terra a Tramontana, em vez de voar. O tempo não é bom nesta época para voar... De qualquer maneira, converse com Donal. Ele conhece tudo o que há para saber sobre o vôo nas Hellers, em qualquer época.

Dom Mikhail levantou-se, descartando cortesmente o homem mais jovem.

- Será um prazer receber sua esposa como hóspede, primo. Ela será uma convidada de honra no casamento de minha filha.

- Claro que podemos voar até lá - garantiu Donal, olhando para o céu. - Teremos pelo menos um dia sem neve. Mas não poderemos voltar no mesmo dia. Se houver trabalho nas redes de transmissão, você ficaria exausto e sua esposa também. Sugiro a partida para Tramontana o mais depressa possível. Darei ordens para que nos enviem montarias para lá, inclusive um animal dócil e apropriado para sua esposa.

Partiram ao final da manhã. Allart não falou sobre o casamento iminente de Donal, temendo que pudesse ser uma questão dolorosa. Mas o próprio Donal abordou o assunto:

- Não pode ser antes da noite do solstício do inverno. Renata está monitorando Dorilys e diz que ela não se tornará madura antes disso. E ela teve tanto infortúnio com os contratos de casamento que até o pai hesita em submetê-la a outra cerimônia assim.

- Ela já foi informada?

- Já, sim. O pai lhe contou. Conversei um pouco com ela depois... Dorilys ainda é uma criança. Tem apenas uma idéia muito vaga do que o casamento significa.

Allart não estava tão certo assim, mas afinal o problema, era de Donal e Renata, não seu. Donal virou-se para pegar o vento, inclinou as asas do planador com o controle e subiu numa longa corrente.

Uma vez no ar, como sempre acontecia, os problemas do mundo desapareceram dos pensamentos de Allart; ele se entregou sem pensar, voando pelo ar frio numa espécie de êxtase, levado pela matriz, livre como um gavião. Sentiu-se quase pesaroso quando avistou a Torre Tramontana mas não inteiramente. Ali estava o caminho para chegar a Cassandra.

Enquanto entregava o planador a Arzi, ele refletiu a respeito. Em vez de trazê-la para cá, para uma segurança covarde, talvez ele devesse retornar a Hali e enfrentar o irmão. Não, não era possível e sabia disso com seu conhecimento interior novo e frio; caso se arriscasse em qualquer lugar ao alcance de Damon-Rafael, sua vida não valeria mais do que a menor moeda.

Entrando na Torre, ele se lamentou: Como pudemos chegar a isso, meu irmão e eu? Mas ele pôs a angústia de lado, firmando-se para apresentar seu pedido ao tenerézu da Torre. Ian-Mikhail franziu o rosto e Allart pensou que ele recusaria prontamente.

- A força existe ou pode ser acionada - disse ele. - Mas reluto em envolver Tramontana nos problemas das Terras Baixas. Tem certeza absoluta de que há perigo para sua esposa, Allart?

Allart descobriu em sua mente apenas a certeza de que Damon-Rafael não hesitaria em capturá-la, como fizera com Donal. Ao lado, lendo seus pensamentos, Donal ficou vermelho de raiva.

- Eu não sabia disso até agora! E é melhor para Lorde Elhalyn que meu pai de criação não saiba nunca!

Ian-Mikhail suspirou.

- Estamos em paz aqui. Não produzimos armas e não participamos de guerras. Mas você é um dos nossos, Allart. Devemos salvaguardar sua esposa de qualquer mal. Não posso conceber. Também fui instruído em Nevarsin e preferia deitar com um cadáver ou uma cralmac a fazê-lo com uma mulher de má vontade. Mas já ouvi dizer que seu irmão é um homem implacável e de ambição desmedida. Muito bem, Allart. Comunique-se com Cassandra através das redes. Convocarei o círculo para esta noite.

Allart foi para a câmara da matriz, acalmando-se para o trabalho. Projetou-se na escuridão vertiginosa das redes, deslocando-se na teia de energias elétricas como antes o fizera pelas correntes de ar do céu de inverno. E de repente, sem qualquer aviso, ele sentiu o contato íntimo na mente. Não esperava tanta sorte; Cassandra estava operando na rede de transmissões.

Allart? É você, amor?

Surpresa e espanto, quase à beira das lágrimas... Você está em Tramontana? Sabia que estamos todos aqui de luto pelo velho rei?

Allart vira, embora ninguém ali se lembrasse de lhe dizer formalmente.

Allart, quero lhe falar antes que comece o que quer que o tenha levado a Tramontana. Estou... não quero perturbá-lo, mas estou com medo de seu irmão. Ele me fez uma visita de cortesia, dizendo que parentes pelo casamento devem se conhecer melhor; e quando manifestei meu pesar pela morte de Cassilde e de seu filho, ele pôs-se a falar de um tempo passado em que irmãos e irmãs tinham todas as esposas em comum; e fitou-me de uma maneira estranha. Perguntei o que estava querendo dizer com isso e ele respondeu que chegaria o momento em que eu compreenderia, mas não pude ler seus pensamentos...

Até aquele momento Allart acalentara a esperança de que tudo não passasse de uma fantasia gerada por seu medo. Sabia agora que sua presciência era genuína.

Foi por isso que vim até aqui, amada. Deve deixar Hali e vir se encontrar comigo nas montanhas.

Viajar para as Hellers nesta época do ano?

Ele pôde sentir o medo de Cassandra. Treinado em Nevarsin, Allart não temia o tempo terrível das Hellers, mas sabia que o pavor de Cassandra era genuíno. Não. Neste momento o círculo está se preparando, afim de trazê-la para cá através das redes. Não tem medo disso, não é mesmo, amor?

Não... Mas a negativa distante não era convincente.

Não vai demorar muito. Mas agora trate de chamar os outros.

Ian-Mikhail entrou na câmara da matriz, usando agora a túnica escarlate de um Guardião. Por trás dele Allart viu Rosaura, a moça a quem conhecera antes, e meia dúzia dos outros. A monitora de túnica branca trabalhava com os controles, ajustando-os para compensar a presença de um forasteiro, ligando o campo de força que tornava impossível qualquer interferência, em corpo ou mente, no espaço ou tempo em que operavam. Allart sentiu em seguida o contato familiar no corpo e mente e compreendeu que estava sendo monitorado para sua presença no círculo. Sentiu-se grato, sem saber como expressar, por eles se mostrarem dispostos a admitir a presença de alguém estranho em seu círculo fechado e íntimo. Na verdade não era um estranho total ali; entrara em contato com eles mais de uma vez, quando trabalhava nas redes de transmissão. Já era conhecido deles e por isso sentia-se vagamente confortado.

Perdi meu irmão. Damon-Rafael é meu inimigo. Mas nunca mais ficarei totalmente sem irmão, apôs trabalhar nas redes de transmissão, mantendo um contato mental por todo este mundo. Tenho irmãs e irmãos em Hali e Tramontana, em Arilinn e Dalereuth, em todas as Torres...

Damon-Rafael e eu nunca fomos irmãos nesse sentido.

Ian-Mikhail de Storn estava reunindo o círculo agora, gesticulando para que todos ocupassem seus lugares. Allart contou nove no círculo e foi se sentar no anel de corpos unidos, mas sem se tocarem, embora bastante perto para sentirem os campos elétricos uns dos outros. Viu os turbilhões interiores dentro dos campos de força que eram os outros no círculo; viu o campo começar a se desenvolver em torno de Ian-Mikhail, enquanto o Guardião captava as tremendas energias das matrizes ligadas e começava a orientá-las para um cone de força na tela em frente. Tendo trabalhado apenas com Coryn como Guardião, acostumado ao seu contato mental leve e quase imperceptível, Allart sentiu o contraste quando Ian-Mikhail o pegou, quase brutalmente, colocando-o dentro do círculo; mas não havia nenhuma maldade nessa força. Era apenas a maneira característica como ele trabalhava; cada pessoa usava seus poderes psíquicos de um modo específico.

Uma vez no círculo, no anel de mentes, o pensamento individual se desvaneceu, dando lugar a uma percepção intensa de propósito coletivo e concentrado. Allart pôde sentir a força se acumulando dentro da tela, um silêncio enorme e sibilante. Vagamente, à distância, ele fez contato com outras mentes familiares: Coryn, como um breve aperto de mão; Arielle, uma ondulação no ar, tremula, perceptível; Cassandra... Estavam ali, estavam aqui - e depois ele ficou cego e surdo com a sobrecarga lancinante, o cheiro de ozônio em suas narinas, o clarão intenso, energias como relâmpagos explodindo nas alturas.

Abruptamente, o padrão se rompeu e eram outra vez indivíduos separados; Cassandra, atordoada e pálida, estava ajoelhada nas pedras, diante do círculo.

Ela cambaleou, quase caindo, mas Rosaura projetou-se para ampará-la; e depois Allart estava ali, pegando-a em seus braços. Ela fitou-o com exaustão e terror. Ian-Mikhail comentou, com uma pequena risada:

- Está tão cansada quanto ficaria da viagem de dez dias, parenta. Houve uma grande quantidade de energia consumida, mas o trabalho foi realizado. Venha conosco agora. Precisamos comer e recuperar nossas forças. E pode aproveitar para nos contar todas as novidades de Hali, se quiser.

Allart estava fraco, com a fome tremenda do dispêndio de energia. Por uma vez, descobriu-se a comer os alimentos adocicados guardados na câmara de matriz sem náusea ou repulsa. Não era um técnico experiente para compreender o processo que teleportara Cassandra através do espaço entre as Torres, mas ela estava ali, a mão apertando a sua, e isso era o suficiente.

A monitora de túnica branca aproximou-se e insistiu em monitorar os dois. Eles não protestaram.

Enquanto comiam, Cassandra relatou as notícias de Hali. A morte e sepultamento do velho rei; a convocação do Conselho ao Príncipe Felix - ainda não coroado e provavelmente nunca seria; a sublevação em Thendara das pessoas que apoiavam o jovem e gentil príncipe. Houvera uma renovação da trégua com Ridenow e a Torre de Hali fora obrigada a aproveitá-la para fazer um estoque de fogo viscoso. Cassandra mostrou a Allart uma das queimaduras características em sua mão.

Allart escutou tudo com espanto e admiração. Era sua esposa, mas nunca antes vira aquela mulher. Ao se separarem, ela era infantil, submissa, ainda não se recuperara inteiramente de seu desespero suicida. Agora, depois de apenas meio ano, ela parecia anos mais velha; a própria voz e os gestos eram mais vigorosos, mais decididos. Não era mais uma garota tímida, mas uma mulher equilibrada, confiante, segura, conversando calmamente e com total competência com as outras monitoras sobre as necessidades profissionais do trabalho rigoroso.

O que tenho para oferecer a uma mulher como esta?, perguntou-se Allart. Ela se agarrou a mim antes porque eu era mais forte e estava precisando dessa força. Mas agora que não precisa mais de mim, ainda me amará?

- Venha comigo, prima - disse Rosaura. - Vou lhe arrumar algumas roupas; não pode viajar do jeito como está vestida agora.

Cassandra riu, olhando para a túnica branca que era seu único traje.

- Obrigada, parenta. Parti às pressas e não tive tempo para pegar minhas coisas!

- Arrumarei trajes para a viagem e uma muda de roupa de baixo - prometeu Rosaura. - Somos mais ou menos do mesmo tamanho. E quando chegar ao Castelo Aldaran, tenho certeza de que poderão lhe oferecer trajes apropriados.

- Vou com você para Aldaran, Allart? Ian-Mikhail interveio:

- A menos que vocês prefiram ficar aqui com a gente... estamos sempre precisando de monitoras e técnicos competentes.

Havia alguma coisa da antiga Cassandra infantil na maneira como ela apertou a mão de Ian-Mikhail.

- Eu lhe agradeço, parente, mas irei com meu marido.

A noite já ia bastante avançada, a neve arremetendo furiosa contra o topo da Torre. Rosaura conduziu-os a um aposento devidamente preparado no andar inferior.

Allart especulou outra vez, quando ficaram a sós: O que tenho para oferecer a uma mulher como esta? Uma mulher e não mais precisando da minha força! Mas, ao se virar para Cassandra, ele sentiu as barreiras caindo, uma depois de outra, as mentes se fundindo antes mesmo de sequer tocá-la. E Allart compreendeu que nada desaparecera entre os dois que pudesse fazer qualquer diferença.

Ao amanhecer cinzento, eles foram despertados por súbita batida na porta. Não foi realmente muito alta, mas de certa forma tinha um som frenético, uma comoção que levou Allart a se sentar e olhar atordoado ao redor em busca de alguma causa, algum motivo por trás do violento distúrbio. Cassandra também se sentou e fitou-o na semi-escuridão, assustada.

- O que será? O que aconteceu?

- Damon-Rafael - respondeu Allart, antes de compreender que isso era um absurdo.

Damon-Rafael estava a dez dias de viagem, nas Terras Baixas, não havia a menor possibilidade de se intrometer ali. Contudo, quando abriu a porta, teve um choque à visão do rosto pálido e assustado de Rosaura. Esperava realmente ver o irmão, armado para o combate e a morte, pronto para arrombar o quarto em que ele dormia, reunido com a esposa?

- Lamento incomodá-lo - murmurou Rosaura -, mas Coryn de Hali está na transmissão e diz que precisa falar imediatamente com você, Allart.

- A esta hora?

Allart se perguntou quem teria enlouquecido subitamente, pois o amanhecer mal começava a se tornar rosado na beira do céu. Mesmo assim, ele vestiu-se apressado e subiu quase correndo pela longa escada até a câmara da matriz, porque sentia-se confuso demais para confiar no tubo-elevador.

Um jovem técnico que Allart não conhecia estava operando a rede de transmissão.

- Você é Allart Hastur de Elhalyn? Coryn de Hali insistiu que o acordássemos.

Allart ocupou um lugar no círculo de transmissão e se projetou, sentindo o contato leve de Coryn em sua mente.

Parente? A esta hora? O que pode estar acontecendo aí em Hali?

Não gosto da situação tanto quanto você. Há poucas horas Damon-Rafael, Lorde Elhalyn, entrou furioso pelas portas de Hali, exigindo que lhe entregássemos sua esposa, como refém contra a sua traição. Eu não sabia que havia tamanha loucura em nossa linhagem, Allart!

Não é loucura, mas um toque de laran e um pouco da minha presciência, Coryn. Disse a ele que a mandaram para cá?

Não tive opção. Ele exigiu que atacássemos a Torre Tramontana com nossos poderes, a menos que concordem aí em mandá-la de volta e, se possível, a você também.

Allart soltou um assovio, consternado. Hali estava obrigada, pela lei e costume, a usar seus poderes por Lorde Elhalyn. Podiam bombardear Tramontana com relâmpagos psíquicos, até que os operadores da Torre estivessem mortos ou inconscientes. Atraíra a ruína para seus amigos ali, que haviam lhe trazido Cassandra? Como pudera envolvê-los em seus problemas de família? Mas agora era tarde demais para se arrepender.

Coryn disse: Recusamos, é claro, e ele nos deu um dia e uma noite para reconsiderar essa decisão. Quando ele voltar, devemos estar em condições de lhe dizer, de uma maneira que satisfaça sua leronis, que nenhum de vocês dois continua em Tramontana e que tal bombardeio seria inútil.

Pode estar certo de que nos encontraremos longe de Tramontana antes do dia clarear de todo, assegurou-lhe Allart, deixando o contato se romper em seguida.

 

Eles partiram ao romper do dia, a pé. Tramontana não dispunha de montarias e, de qualquer forma, a escolta que trazia equipamentos para a viagem deixara o castelo no dia anterior, na mesma ocasião em que Donal e Allart decolavam em seus planadores. Havia apenas uma estrada e em algum momento daquele dia encontrariam o grupo que vinha de Aldaran.

O importante era deixar Tramontana, a fim de que Hali pudesse se recusar justamente a bombardear a outra Torre. Não podemos acarretar o desastre para nossos irmãos e irmãs de Tramontana, não depois que eles se tornaram vulneráveis por nossa causa.

Cassandra fitou-o ao descerem pela trilha íngreme, lado a lado. Pareceu a Allart que aquele olhar era de extrema vulnerabilidade. Mais uma vez, na vida e na morte, ele era responsável por aquela mulher. Allart não disse nada, mas chegou mais perto.

- Que todos os deuses sejam louvados pelo bom tempo - comentou Donal. - Não estamos equipados para viajar por mais que um dia nestas montanhas. Mas o grupo de Aldaran traz barracas e abrigos, mantas e alimentos; depois que o encontrarmos, será possível, em caso de necessidade, acampar por alguns dias, caso haja uma tempestade. - Ele fez uma pausa, os olhos treinados esquadrinhando o céu. - Mas me parece improvável que haja uma tempestade maior. Se os encontrarmos na estrada pouco depois do meio-dia, como é provável, poderemos alcançar Aldaran amanhã à tarde.

Enquanto Donal falava, um calafrio de medo invadiu Allart. Por um momento, parecia que andava pela neve turbilhonante, um vento furioso, Cassandra desaparecera do seu lado... Não! Já passara. Sem dúvida, as palavras de Donal haviam despertado o medo de um daqueles futuros remotamente possíveis, que nunca se consumariam. Enquanto o sol se elevava acima do seu manto de nuvem escarlate nos picos distantes, ele pôs o capuz do manto de viagem - emprestado por Ian-Mikhail, pois não pudera trazer trajes mais grossos no planador. Todos os apetrechos contra o frio estavam com a escolta de Aldaran; claro que imaginavam esperar no conforto de Tramontana pela chegada da escolta. Donal também usava um manto emprestado - o tempo parecia ótimo para a estação, mas ninguém se atrevia a sair no inverno das Hellers sem proteção contra uma tempestade súbita, por mais improvável que isso parecesse. Cassandra vestia roupas um pouco curtas para ela, emprestadas por Rosaura. As cores, projetadas para a ruiva Rosaura, faziam com que sua delicada beleza morena parecesse reprimida e sem graça. A saia curta deixava à mostra os tornozelos mais do que era rigorosamente decoroso, mas ela zombou disso.

- É melhor assim para andar nestas trilhas tão íngremes! - Ela dobrou o manto de viagem de Rosaura, de um verde brilhante, ajeitou-o descontraída debaixo do braço e acrescentou, rindo: - Está muito quente para usar isto.

- Fala assim porque não conhece nossas montanhas - respondeu Donal, muito sério. - Basta soprar um pequeno vento e ficará grata por estar com o manto.

Mas a confiança de Allart foi aumentando à medida que o sol escalava o céu. Após andarem por mais de uma hora, Tramontana ficou ocultada por uma curva no caminho, Allart sentiu-se aliviado. Agora estavam mesmo fora de Tramontana; quando Damon-Rafael voltasse a Hali e exigisse que lhe entregassem os dois, Tramontana poderia responder honestamente que se encontravam fora de alcance.

Mesmo assim Damon-Rafael descarregaria sua ira no círculo de Hali? Provavelmente não. Precisava da boa vontade deles para a guerra que travava contra Ridenow, precisava que lhes produzissem as armas que proporcionavam a vantagem tática e militar - e Coryn era um inspirado projetista de armas. Inspirado demais, pensou Allart. Se o Domínio estivesse em minhas mãos, eu promoveria imediatamente a paz com Ridenow e a trégua seria bastante duradoura para que pudéssemos acertar nossas diferenças de uma vez por todas. Aldaran está certo; não temos motivos para a guerra com os Ridenow de Serrais. Deveríamos acolhê-los entre nós e agradecer porque o laran de Serrais permanece nas mulheres com quem eles casaram.

Após várias horas, o sol ficou a pino e Donal e Allart também tiraram os pesados mantos e até as túnicas exteriores. O pessoal de Tramontana lhes dera bastante comida para uma ou duas refeições pelo caminho - "Para o caso de a escolta se atrasar; animais de montaria podem mancar e pedras podem cair e obstruir passagens por algum tempo" - e eles sentaram-se em pedras à beira da estrada, comendo o pão duro de viagem, frutas secas e queijo.

- Avarra misericordiosa - disse Cassandra, recolhendo o resto da refeição -, parece que eles nos deram o suficiente para dez dias! Não há o menor sentido em carregar tudo isto!

Allart deu de ombros, guardando os pacotes num dos bolsos de sua túnica externa. Alguma coisa no gesto recordou-lhe as manhãs em Nevarsin, pondo as poucas coisas que tinha permissão para possuir nos bolsos do hábito.

Donal, pegando os pacotes restantes de alimentos, pareceu partilhar a piada e comentou, assoviando um trecho da canção que Dorilys cantara:

- Eu me sinto como Frei Domenick com os bolsos estofados.

Há pouco mais de um ano, pensou Allart, eu estava resignado a passar o resto da minha vida dentro dos muros de um mosteiro. Ele olhou para Cassandra, que levantara a saia quase até os joelhos e subira num muro de pedra baixo para alcançar um regato que descia frio e claro do alto da montanha. Ela inclinou-se para pegar um pouco de água nas mãos em concha. Pensei que poderia passar toda a minha vida como um monge, que nenhuma mulher jamais significaria coisa alguma para mim, mas agora ficarei perdido se me separar dela. Ele subiu no muro e inclinou-se ao lado de Cassandra para beber a água também. Quando as mãos se tocaram, desejou que Donal não estivesse ali; depois, quase riu de si mesmo. Devia ter havido no verão passado várias ocasiões em que Renata e Donal sofreram pela presença dele, tão involuntária quanto agora suportava a companhia de Donal.

Sentaram-se por algum tempo à beira da estrada, descansando, sentindo o calor do sol em suas cabeças. Cassandra falou de seu trabalho como mecânica e do treinamento para monitora. Allart tocou na cicatriz do fogo viscoso em sua mão com uma pontada de horror, subitamente contente por ela estar longe da guerra. Em troca, ele falou um pouco sobre o estranho dom de Dorilys, referindo-se de passagem ao horror das mortes subseqüentes a seus contratos de casamento e contando como haviam voado entre as tempestades.

- Deve experimentar também, parenta - sugeriu Donal. - Assim que a primavera chegar.

- Eu bem que gostaria, mas não sei se terei coragem de usar um calção, mesmo para isso.

- Renata usa - informou Donal.

Cassandra riu alegremente.

- Ela sempre foi mais ousada do que eu! Donal replicou, muito triste de repente:

- Allart é meu querido primo e amigo e não tenho segredos para sua esposa. Renata e eu deveríamos casar no solstício do inverno, mas agora meu pai tem outras idéias.

Ele relatou o plano do lorde, de seu casamento com Dorilys, a fim de que pudesse herdar Aldaran legalmente. Cassandra contemplou-o com compaixão.

- Fui afortunada. Minha família me deu a Allart antes que eu o conhecesse, mas descobri alguém a quem podia amar. Mas sei que isso nem sempre acontece, e muito menos com freqüência. Sei também o que é separar-se da pessoa amada.

- Não vou me separar de Renata - declarou Donal, a voz baixa e incisiva. - Esse falso casamento com Dorilys não será mais do que uma ficção e não vai perdurar mais do que a vida de meu pai. Depois, se Dorilys assim concordar, arrumaremos um marido para ela e Renata e eu casaremos. Se ela não quiser casar, permanecerei como seu guardião. Se for seu desejo adotar um dos meus filhos nedestro para seu herdeiro, muito bem; se não for, também muito bem. Não desafiarei meu pai, mas também não obedecerei. Não neste caso; não se ele deseja que eu leve minha meia-irmã para a cama e gere um filho nela!

- Eu diria que se deve levar em consideração os desejos de Dorilys, parente. A dama de Aldaran, se for legitimamente casada, não pode provocar escândalo ao levar guardas ou mercenários para sua cama... e ela pode não querer levar uma vida sem amor e sem filhos.

Donal desviou o rosto.

- Ela pode fazer o que bem quiser, mas se tiver filhos não serão meus. Allart já me falou o suficiente sobre o programa de reprodução e os males que a endogamia tem causado entre nossa gente. Minha mãe colheu o fruto amargo e eu não pretendo semear coisa alguma.

Diante de sua veemência, Cassandra se recolheu. Allart, percebendo sua apreensão, pegou o manto dela e disse:

- Acho que devemos continuar. A escolta pode viajar mais depressa do que a gente, mas ainda assim uma hora de caminhada para encontrá-la diminuirá o tempo que teremos de passar em viagem amanhã.

A trilha era menos íngreme agora, mas os raios do sol estavam cortados por sombras, com pequenas nuvens cinzentas deslocando-se pelo céu. Donal estremeceu e olhou nervosamente para as alturas, escurecidas pelas massas cinzentas, mas não disse nada, limitando-se a ajeitar o manto em seu pescoço.

Allart, captando sua apreensão, pensou: Seria melhor se nos encontrássemos com a escolta o mais depressa possível.

Continuaram andando, e não demorou muito para que o céu ficasse completamente encoberto. Allart sentiu um floco de neve bater em seu rosto. Flutuavam lentamente, em espiral. Cassandra pegou alguns flocos de neve na mão, impressionada como uma criança por seu tamanho. Mas Allart vivera em Nevarsin e sabia alguma coisa das tempestades nas Hellers.

Então, no final das contas, Damon-Rafael pode conseguir o que queria.

Expulsando-nos para o inverno da segurança da Torre Tramontana, quando as tempestades são mais prováveis do que nunca, ele pode se livrar sem qualquer esforço de um rival perigoso... E se eu morrer nesta tempestade não haverá ninguém para se opor à sede de poder de meu irmão. O laran de Allart recomeçou a se sobrepor, produzindo imagens obsessivas de ruína e terror, guerras devastadoras, terras arrasadas e queimadas, uma verdadeira era do caos por toda Darkover, de Dalereuth às Hellers.

Scathfell também pode se lançar contra Aldaran, e com Donal desaparecido não haverá ninguém para se opor a ele. Os dois, Scathfell e meu irmão, devastarão toda esta terra!

- Allart - disse Cassandra, captando algumas imagens de ruína e caos de sua mente -, qual é o problema?

E eu tenho Cassandra para proteger, não apenas contra meu irmão, mas também contra toda a ira dos elementos!

- Vai haver uma nevasca? - ela indagou, subitamente assustada, enquanto ele olhava para a neve cada vez mais densa.

- Não sei - respondeu Allart, olhando para Donal, que levantou um dedo umedecido para o vento e virou lentamente, tentando determinar a direção de que soprava. - Mas há algum perigo, embora não imediato. Podemos encontrar a escolta antes que a situação se agrave. Eles trazem alimentos e agasalhos, abrigos contra a tempestade. Não haverá então mais o que temer.

Mas mesmo enquanto falava, seus olhos encontraram-se com os de Donal e compreendeu que a situação era pior do que imaginava. A tempestade vinha da direção de Aldaran; assim, provavelmente já obrigara a escolta a parar e armar acampamento. Não poderiam ver o caminho à frente e os animais não conseguiriam se firmar na trilha com a neve densa. E não haveria como culpar a escolta; pensariam que Allart, Donal e a esposa de Allart estavam sãos e salvos entre amigos, na Torre Tramontana.

Como se poderia esperar que eles adivinhassem as tramas infernais de Damon-Rafael?

Cassandra parecia aterrorizada. Se ela está lendo meus pensamentos, não é de admirar, refletiu Allart, empenhando-se na tarefa de acalmar os temores de Cassandra. Tinha muito respeito por ela para lhe oferecer uma mentira tranqüilizadoras, mas também a situação não era tão ruim quanto ela temia.

- Uma das primeiras coisas que aprendi em Nevarsin foi a arte de encontrar abrigo em lugares improváveis e como enfrentar tempestades súbitas sem desastre. Donal, existe algum homem na escolta com um mínimo de laran, a fim de que você e eu possamos entrar em comunicação e avisar de nossa situação?

Donal pensou por um momento e depois disse, pesaroso:

- Receio que não, primo. Mas é claro que não há mal nenhum em tentar.

Alguns homens podem receber pensamentos, embora não sejam capazes de transmiti-los e não pensem nisso como laran.

- Pois então tente fazer contato, Donal. Eles devem estar convencidos de que nos encontramos sãos e salvos em Tramontana. Saberiam que não é o caso. Enquanto isso...

Allart projetou os olhos ao redor, procurando por um abrigo, tentando pensar à frente pelo caminho, a fim de verificar se havia alguma construção antiga, um galpão, um estábulo deserto, até mesmo uma habitação abandonada, em que pudessem se instalar.

Mas até onde sua clarividência podia determinar, não havia absolutamente nada. A região por que viajavam podia ser virgem de pés humanos por toda a eternidade, pois não havia qualquer vestígio da passagem da humanidade por ali. Ele não vira qualquer indício de obra humana desde o pequeno muro de pedra perto do qual haviam almoçado.

Há anos que ele não precisava usar seu treinamento de sobrevivência nas montanhas, desde o terceiro ano em Nevarsin, quando fora enviado apenas com o hábito de monge sob o tempo mais inclemente, a fim de voltar com uma prova de sua condição para o nível seguinte do treinamento. Ainda podia se lembrar das palavras do velho irmão que o ensinara:

- Depois de alguma habitação humana abandonada a melhor coisa em seguida é um pequeno bosque cerrado; depois disso, uma platibanda rochosa, no lado contrário ao do vento e com alguma vegetação.

Allart franziu a testa, tentando recordar, esquadrinhando à frente, deixando que seu laran se manifestasse, enquanto espionava pelo tempo o que encontrariam nas duas direções por que poderiam seguir daquele ponto.

Há tempo para voltar a Tramontana? Reconstituindo mentalmente seus passos, ele viu por essa linha de probabilidade apenas os três cadáveres, encolhidos e congelados, à beira do caminho.

Por uma vez na vida, Allart sentiu-se grato por seu laran, que lhe permitia ver claramente à frente, em cada opção que pudessem fazer; porque das opções que fizessem agora suas vidas certamente haveriam de depender. Viu pelo caminho diretamente à frente que a trilha se estreitava; a neve ficaria cada vez mais densa, poderiam perder o equilíbrio e mergulhar num precipício de dezenas de metros, os corpos nunca mais sendo encontrados. Não deviam mais continuar por aquele caminho. Absorvendo sua advertência inequívoca, Cassandra e Donal pararam e aguardaram sua orientação. Eram agora manchas indistintas na neve cada vez mais densa, um vento forte começava a soprar das alturas.

Um pouco à frente, uma trilha subia para uma formação de rochas inclinadas, que poderiam oferecer quase tanto abrigo quanto um prédio. Allart começou a orientá-los nessa direção, mas depois hesitou, vasculhando com seu laran por essa linha de probabilidade. E se encolheu todo, em pânico; o agrupamento de rochas era um ninho dos pássaros-da-morte, os terríveis carnívoros que não voam, viviam acima da linha das árvores e eram atraídos por um tropismo infalível para qualquer coisa que tivesse o calor da vida. Não deviam ir para lá!

Também não podiam permanecer onde estavam; o vento era bastante forte para lançá-los pelo precipício e a neve ao redor ficava cada vez mais densa. Cassandra já estava tremendo, o manto de viagem emprestado não servindo para uma tempestade mais intensa. Allart e Donal, mais acostumados ao tempo nas montanhas, não sentiam frio, mas Allart estava cada vez mais assustado. Não podiam voltar a Tramontana. Não podiam subir para o ninho dos pássaros-da-morte. Não podiam seguir em frente pela trilha que se estreitava sobre o abismo. E não podiam continuar ali. Então não havia alternativa para a morte? Estava determinado pelo destino que deveriam morrer naquela nevasca?

Santo Portador dos Fardos, dê-me forças! Ajude-me a encontrar uma saída, rezou Allart. Ele quase esquecera como rezar desde que saíra do mosteiro, e o medo, por si mesmo, não o levaria a isso; mas Cassandra, tremendo em seus braços, impeliu-o a explorar todas as possibilidades.

Não podiam voltar a Tramontana, mas um pouco atrás, à beira do caminho, havia o muro de pedra. Estava abandonado há muito tempo e desmoronando, mas proporcionaria um abrigo melhor do que a trilha aberta; e por trás - ele via agora com a memória e com o laran - havia um bosquete denso de árvores de folhagem permanente.

- Devemos voltar para o lugar em que fizemos a refeição do meio-dia -disse ele, alteando a voz acima do zunido do vento.

Lentamente, apoiando-se uns nos outros, pois a neve era escorregadia, eles retornaram pelo caminho. Foi um avanço vagaroso e árduo. Donal, que passara toda a sua vida naquelas montanhas, tinha um andar seguro como um gato montanhês, mas Allart estava a anos de distância dos penhascos em torno de Nevarsin, e Cassandra jamais caminhara por lugares assim. Houve um momento em que ela escorregou e se estatelou na neve, o vestido emprestado se encharcando até os joelhos, cortando as mãos nas rochas sob a camada de neve. Ficou caída, enregelada e chorando com a dor. Allart levantou-a, com uma expressão determinada. Mas ela torcera o joelho e o tornozelo na queda e Donal e Allart tiveram quase de carregá-la pelas últimas centenas de passos até o muro de pedra e depois até o agrupamento de árvores. No instante em que entraram ali, o laran de Allart gritou-lhe que aquele seria o lugar de sua morte. Ele viu três corpos, enlaçados em busca de calor, mas congelados. Teve de fazer um tremendo esforço para entrar no abrigo das árvores.

Retorcidas e velhas, abaladas pela violência das tempestades nas montanhas há meio século ou mais, as árvores se entrelaçavam e dentro de seu círculo o vento não era tão intenso, embora ainda pudessem ouvi-lo zunir lá fora. Havia um pedaço de terra que não fora coberto pela neve densa. Allart deitou Cassandra ali, dobrando seu manto, a fim de protegê-la melhor do frio. Começou a examinar sua perna machucada.

- Não há nada quebrado - murmurou Cassandra, tremula, depois de um momento; ele se lembrou de que ela era uma monitora treinada na Torre, sabendo penetrar no próprio corpo e nos corpos dos outros para descobrir qualquer coisa errada. - O tornozelo está doendo, mas não há qualquer problema, apenas um tendão distendido... mas a rótula saiu do lugar.

Allart desviou a atenção para a rótula e constatou que se deslocara para o lado da perna, a área inchava e escurecia rapidamente. Cassandra disse, com uma respiração convulsiva de pavor:

- Donal, você deve segurar meus ombros, enquanto você, Allart, deve segurar meu joelho e tornozelo assim... - Ela mostrou. - Não! Abaixe mais a mão... e puxe com força. Não se preocupe com a possibilidade de me machucar. Se não voltar ao lugar imediatamente, posso ficar manca pelo resto da vida.

Allart respirou fundo, preparando-se para seguir as instruções. Cassandra estava equilibrada e contraída, mas apesar de sua coragem não pôde impedir que um grito estridente lhe escapasse entre os dentes no instante em que ele torceu o joelho de volta ao lugar, sentindo o rangido quando a rótula retornou ao encaixe. Ela caiu para trás, nos braços de Donal, e por um momento pareceu que desmaiara; mas apenas fechara os olhos e estava monitorando outra vez para verificar o que acontecera.

- Não está direito ainda. Deve virar meu pé para um lado... não posso movê-lo... a fim de que fique no lugar certo. Isso... - ela balbuciou, entre os dentes semicerrados, quando Allart obedeceu. - Está ótimo por enquanto. E agora rasgue minha anágua e faça uma atadura bem apertada.

As lágrimas tornaram a aflorar aos olhos de Cassandra, não apenas da dor, mas também pelo embaraço, enquanto Allart a levantava para tirar o traje de baixo, embora Donal pudicamente olhasse para o outro lado.

Depois que o joelho estava bem enfaixado com tiras de pano e Cassandra, pálida e tremula, repousava no chão, envolta pelo manto, Allart fez uma avaliação objetiva das possibilidades que tinham ali. A tempestade ainda não alcançara o auge, e a noite, ao que ele calculava, não estava muito distante, embora já houvesse escuridão, um crepúsculo denso que não tinha nada a ver com a hora. Dispunham apenas das sobras do almoço, o suficiente para duas refeições frugais. Aquelas tempestades duravam às vezes dois ou três dias, até mais. Em circunstância normais, poderiam passar sem algumas refeições, mas não se o frio se tornasse mais intenso.

Provavelmente poderiam sobreviver por dois ou três dias. Mas se a tempestade durasse mais do que isso, ou se as estradas se tornassem intransponíveis, suas chances não eram boas. Sozinho, Allart teria se enrolado com o manto, encontrando o lugar mais resguardado possível e resvalando para o sono de transe que aprendera em Nevarsin, diminuindo os batimentos cardíacos, baixando a temperatura do corpo, mantendo em suspenso todas as necessidades físicas - de alimento, sono e calor. Mas era responsável por sua esposa e pelo jovem Donal, que não tinham o seu treinamento. Era o mais velho e o mais competente.

- Seu manto é o mais fino e o que nos proporciona menos calor, Cassandra - disse ele. - Estenda-o no chão aqui, a fim de impedir que o frio suba da terra. Agora, vamos estender os nossos dois mantos por cima dos três. Cassandra é a menos acostumada ao frio das montanhas e por isso ficará no meio.

Depois que os três estavam aconchegados, juntos, Allart sentiu que a tremedeira de Cassandra diminuía um pouco.

- E agora - acrescentou ele, gentilmente -, a melhor coisa a fazer é dormir, se for possível; acima de tudo, não desperdicem energia falando.

Além do abrigo em que estavam, o vento uivava e a neve caía, interminável, filetes brancos contra a noite escura. Lá dentro havia apenas lufadas intermitentes, que conseguiam se infiltrar pelos galhos entrelaçados. Allart resvalou para um transe superficial, apertando Cassandra em seus braços, a fim de saber se ela se mexia ou tinha necessidade dele. Finalmente, percebeu que Donal dormia; mas Cassandra, embora imóvel em seus braços, estava acordada. Allart tinha consciência da dor intensa em sua perna ferida, prejudicando a concentração. Cassandra acabou se virando em seus braços, para fitá-lo, e ele a apertou com mais força ainda. Ela sussurrou:

- Vamos morrer aqui, Allart?

Seria muito fácil tranqüilizá-la - e falso. Não importava o que acontecesse, devia haver verdade entre os dois, como ocorrera desde o primeiro momento em que se encontraram. Ele procurou no escuro pelos dedos finos de Cassandra e murmurou:

- Não sei, preciosa. Espero que não.

Seu laran lhe mostrava apenas escuridão pela frente. Através do contato das mãos de Cassandra, podia sentir a dor que a dominava. Ela tentou com todo cuidado mudar de posição sem incomodar Donal, que estava enroscado contra seu corpo. Allart soergueu-se, quase se ajoelhando, ajeitou-a.

- Está melhor assim?

- Um pouco.

Mas não havia muito mais que ele pudesse fazer naquele abrigo tão apertado. Fora o pior de todos os infortúnios; mesmo que houvesse uma pausa na tempestade não poderiam agora procurar um abrigo melhor, pois Cassandra provavelmente não seria capaz de andar por vários dias. Bem cuidada, posta imediatamente num banho quente, recebendo uma massagem e tratamento de unia leronis treinada no uso da matriz para interromper a inchação e a hemorragia dentro da articulação, poderia não haver qualquer gravidade; mas a longa exposição ao frio e a imobilização não auguravam uma cura rápida. Mesmo que as condições fossem apropriadas, Allart não tinha muito treinamento naquelas coisas. Ainda podia prestar primeiros socorros, bem toscos, mas não era capaz de qualquer coisa mais complicada.

- Eu deveria ter deixado você na segurança de Hali - murmurou Allart, tocando no rosto de Cassandra, no escuro.

- Não havia segurança para mim ali, meu marido. Não com seu irmão à porta.

- Mesmo assim, se eu a atraí para a morte...

- Ficar lá poderia também resultar na minha morte. - Espantosamente, mesmo naquela situação terrível, ele percebeu uma insinuação de riso em sua voz, quando ela acrescentou: - Se Damon-Rafael tentasse me tomar à força, não encontraria uma mulher submissa em sua cama. Tenho uma faca e sei como... e onde... usá-la. E duvido que ele me deixasse viver para espalhar a história de sua humilhação.

- Não creio que ele teria usado a força - comentou Allart, angustiado. -Provavelmente a teria drogado para a submissão, eliminando sua vontade de resistir.

- Jamais! - A voz de Cassandra estava impregnada de uma emoção que ele não conseguiu definir. - Nesse caso, meu marido, eu saberia onde cravar a faca, antes que isso acontecesse.

Allart sentiu tamanho aperto na garganta que não foi capaz de forçar uma resposta. O que fizera para merecer aquela mulher? Alguma vez a julgara tímida, infantil, amedrontada? Ele tornou a apertá-la, murmurando:

- Tente dormir, meu amor. Apóie o peso do corpo no meu, se for mais fácil. Está com muito frio agora?

- Não muito, não tão perto de você.

Cassandra ficou imóvel, com respirações longas e calmas. Mas será que eu lhe concedi a liberdade ou apenas uma opção entre mortes?

A noite foi se arrastando, uma eternidade. Quando o dia raiou, a escuridão diminuiu apenas um pouco; para os três no espaço tão apertado, era um tormento. Allart advertiu Donal, quando ele se arrastou para fora a fim de verificar a situação, que não se afastasse mais que um ou dois passos das árvores. Ao cambalear de volta, atordoado e já coberto pela neve, Donal informou que o vento lá fora era tão forte que mal conseguira se manter de pé. Allart teve de levantar Cassandra para outra posição, pois ela não conseguia encostar o pé no chão. Mais tarde, ele serviu a maior parte da comida que sobrara do dia anterior. A nevasca não dava qualquer sinal de amainar; até onde Allart podia determinar, o mundo além do abrigo das árvores terminava a um braço de distância na mancha branca do nada nevado.

Ele deixou que seu laran esquadrinhasse à frente, cauteloso. Quase em todos os casos viu suas vidas terminarem ali, mas tinha de haver outras possibilidades. Se era o seu destino inevitável morrer ali, e se trazer Cassandra de Hali acarretaria irremediavelmente suas mortes na neve, então por que seu laran não lhe dera nenhuma indicação, em qualquer linha de probabilidade?

- Donal...

O homem mais moço se mexeu.

- Primo...

- Tem mais dom para o tempo do que eu. Pode ler esta tempestade e descobrir suas dimensões, quanto tempo vai levar para passar por nós?

- Tentarei.

Donal se concentrou em suas percepções e Allart, em comunicação, viu outra vez a estranha projeção do senso de pressões e forças, como redes de energia sobre o solo, no tênue envoltório de ar por cima. Finalmente, retornando à consciência, Donal disse, com uma expressão sombria:

- Infelizmente, é muito grande. E está se deslocando devagar. Ah, se eu tivesse o dom de minha irmã para controlar as tempestades e deslocá-las para um lado e outro, à minha vontade!

Nesse instante, Allart compreendeu que ali estava a solução, ao mesmo tempo em que começava a ver à frente outra vez. Seu laran era mesmo uma presciência real; podia se deslocar no tempo e se colocar à margem, mas era limitado por sua própria interpretação do que via. Por esse motivo, seria sempre falível como guia exclusivo para suas ações. Nunca deveria se contentar com um futuro óbvio; havia sempre a probabilidade, por menor que fosse, que a interação com alguém, cujas ações ele não podia prever, alterasse esse futuro mais que o reconhecimento. Ele podia controlar seu laran, mas, como acontecia com sua pedra matriz, nunca devia permitir que o controlasse. No dia anterior usara-o para encontrar a segurança ali e evitar as mortes mais óbvias que estavam à espreita; dera certo para evitar a morte iminente, até que pudesse explorar alguma outra probabilidade.