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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RAPTAR UM REI / Jack Higgins
RAPTAR UM REI / Jack Higgins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Berlim, 1940. A ordem veio do próprio Führer: raptar o duque e a duquesa de Windsor!
O general Walter Schellenberg, das SS, no mínimo um nazista relutante, tem ordens para executar o inconcebível plano. Entretanto, em Berlim, uma jovem cantora americana chamada Hannah Winter sabe da conspiração e tenta desesperadamente avisar o duque do perigo.
Perseguida por agentes implacáveis da Gestapo através de fronteiras bem guardadas e com Schellenberg em suas pegadas, Hannah corre contra o tempo e o terror para chegar ao casal real, que está nos arredores de Lisboa.

 


 


UM

LOGO APÓS a meia-noite, começou a chover e o polícia português trouxe uma capa da guarita e colocou-a à volta dos ombros dela sem dizer uma palavra.

Agora estava bastante frio e ela caminhava ao longo da estrada para se manter quente, parando para olhar para trás, onde se adivinhava o mar lá em baixo à distância.

Muito longe; não tão longe como Berlim, Paris ou Madrid, mas estava aqui agora, finalmente, no exterior da casa cor-de-rosa no Estoril. No final do caminho, mais cansada do que nunca, e só queria que tudo acabasse.

Voltou-se para o polícia do portão.

— Por favor — disse em inglês. — Ainda demora muito? Já estou aqui quase há uma hora.

O que era ridículo, porque ele não a compreendia. De repente, ouviu-se o barulho de um carro a subir a colina, os faróis brilharam através dos arbustos de mimosas e um Mercedes preto parou a alguns metros de distância.

O homem que saiu da parte de trás do carro era alto e bem constituído. Não tinha chapéu e usava óculos, e vinha com as mãos enfiadas nos bolsos de uma gabardina escura.

Disse ao polícia qualquer coisa em português, depois voltou-se para a moça. O seu inglês era excelente.

— Miss Winter, não é? Miss Hannah Winter?

— Sim, sou eu.

— Posso ver o seu passaporte?

Tirou-o rapidamente; as mãos hesitavam no frio e a capa escorregou dos seus ombros. Ele tornou a colocá-la educadamente, depois pegou no passaporte.

— Então, uma cidadã americana.

— Por favor — disse ela, com a mão no braço dele. — Preciso de ver o duque. É um assunto da máxima urgência.

Ele olhou-a calmamente durante um momento, depois acenou com a cabeça para o polícia, que começou ? a abrir o portão. O Mercedes avançou.

Ele abriu a porta, ela entrou e ele seguiu-a.

Com uma aceleração repentina, o cano saltou para a frente, o condutor virou o volante, deu a volta e desceram a estrada em direção a Lisboa.

Ela tinha sido atirada contra o canto e agora o homem pô-la bruscamente direita e acendeu a luz. Ainda agarrava no passaporte.

— Hannah Winter, cidadã americana? Penso que não. — Rasgou o documento e atirou-o para o lado. — Mas esta, penso eu, seria uma descrição muito mais exata.

O passaporte que lhe entregou era alemão. Abriu-o, horrorizada.

A fotografia que estava na sua frente era dela própria.

— Fräulein Hannah Winter — disse ele. — Nascida em Berlim no dia 9 de Novembro de 1917. Nega isto?

Ela fechou o passaporte e devolveu-o bruscamente, tentando controlar o pânico.

— O meu nome é Hannah Winter, mas sou cidadã americana. A Embaixada Americana confirmará isto.

— O Reich não reconhece o direito dos seus cidadãos de mudarem de nacionalidade segundo as suas inclinações. Nasceu alemã.

Estou convencido de que morrerá alemã.

As ruas estavam desertas e iam a alta velocidade. Em breve se encontravam na estrada a caminho de Lisboa. Em meia hora chegaram à cidade e seguiram ao longo do rio.

— Uma cidade interessante, Lisboa — disse ele. — Para se entrar em qualquer embaixada estrangeira, é necessário passar através de um posto de controle da Polícia Portuguesa. Portanto, mesmo que tivesse tentado entrar na Embaixada Britânica ou Americana, ainda a teríamos apanhado.

Ela retorquiu:

— Não percebo. Quando pedi para entrar na casa, o homem do portão disse que tinha de confirmar com a esquadra.

— É simples. A Polícia Portuguesa aceitou um pedido de extradição em nome de Hannah Winter pela acusação de homicídio; três homicídios, mais precisamente.

— Mas vocês ... vocês não são da Polícia.

— Ah, mas somos. Não da Polícia Portuguesa, mas algo bastante mais interessante. — Mudou para alemão. — Sturmbannführer Willi Kleiber, do Gabinete da Gestapo, de Berlim. — Acenou para o condutor. — O meu colega, Sturmscharführer Gunter Sindermann.

Parecia um pesadelo; contudo, o cansaço que Hannah sentia era tão esmagador que nada parecia importar mais.

— Que é que acontece agora? — perguntou, atordoada.

Kleiber apagou a luz e assim ficaram de novo na escuridão.

— Oh, vamos levá-la a casa — disse ele. — De volta para Berlim. Não se preocupe. Tomaremos conta de si.

A mão dele estava no joelho dela, deslizando sobre a meia de seda. Foi um grande erro, pois a repugnância que isso lhe causou galvanizou Hannah. Procurou o manípulo da porta, sustendo a respiração à medida que a mão dele subia. O Mercedes abrandou para deixar uma carroça atravessar a rua. Ela empurrou Kleiber para o lado com toda a sua força, abriu a porta e saltou para a escuridão.

Perdeu o equilíbrio e rolou duas vezes.

O choque foi muito grande. Quando finalmente se levantou, viu que o Mercedes tinha parado mais à frente e estava a fazer marcha atrás. Tinha perdido um dos sapatos, por isso atirou com o outro, mergulhou na ruela mais próxima e começou a correr.

Uns momentos depois, estava na margem do rio. Chovia a cântaros e o nevoeiro deslizava vindo do Tejo. Havia muito poucos candeeiros de rua e estavam muito distanciados. Não havia lojas, nem casas, apenas armazéns sombrios surgiam na noite.

Quando o nevoeiro a envolveu, parecia ser a única pessoa do Mundo. Então, ouviu o som dos passos dos seus perseguidores a ecoarem nas paredes da ruela atrás dela.

Começou de novo a correr, sem fazer barulho, só em meias.

Tinha frio, muito frio. Uma luz apareceu vagamente no nevoeiro no outro lado da rua. Uma tabuleta de néon encarnado dizia JOE JACKSON'S e, por baixo, BAR AMERICANO.

Dirigiu-se rapidamente para o edifício, que tinha as traseiras voltadas para o rio. Tinha uma esperança louca, mas não havia luz no interior e as portas de vidro estavam trancadas. Abanou-as furiosamente. Ao lado do edifício havia um cais e outra porta com uma tabuleta luminosa por cima que dizia PALCO. Tentou também essa porta, batendo com os punhos. Nesse momento, Kleiber apareceu a correr na esquina, com uma Luger na mão direita. Ela gritou.

— Vou dar-te uma lição — disse suavemente. — Escumalha judia.

Quando Sindermann chegou, ela virou-se e correu ao longo do cais, embrenhando-se no nevoeiro.

 

JOE JACKSON tinha cabelo escuro ondulado, olhos cor de amêndoa e uma ligeira expressão irônica que parecia levantar-lhe permanentemente o canto da boca. O sorriso cansado e desinteressado de um homem que havia descoberto que a vida era mais corrupta do que aquilo que tinha esperado.

Fechava sempre às segundas-feiras. Dava a todos uma noite de folga, o que lhe proporcionava a oportunidade de organizar a contabilidade em paz e sossego, que era o que estava a fazer quando Hannah bateu a primeira vez nas portas da frente.

"Um bêbado", pensou, e voltou para as suas contas. A seguir, ouviu-a na porta do lado. Depois, um grito agudo seguido de um murmurar de vozes. Abriu a gaveta do lado direito da secretária, tirou uma Browning automática e saiu rapidamente do escritório.

Vestia uma camisola azul-escura e calças escuras. Um homem de estatura mediana, com cerca de 1,70 m, ombros largos. Abriu a porta do palco e saiu. Ficou à escuta. Ouviu um grito sufocado que vinha de mais adiante, do cais. Avançou silencioso nas suas alpargatas de corda.

Havia uma lâmpada num poste no fim do cais. À luz, viu Hannah Winter deitada de costas, com Sindermann agachado sobre o seu corpo. Kleiber, de pé ainda segurava a Luger.

— E agora, Miss Winter — dizia Kleiber em inglês. — Uma lição de boas maneiras.

— Penso que não — disse Jackson suavemente.

Deu um tiro no antebraço direito de Kleiber, atirando-o contra a balaustrada, e a Luger caiu na água escura.

Kleiber não emitiu qualquer som — apenas ficou ali, a segurar no braço à espera do que ia acontecer.

Hannah Winter, ainda imobilizada debaixo do peso de Sindermann, olhou surpreendida para Jackson. Este tocou na nuca do alemão com o cano da Browning.

Sindermann ergueu-se e levantou as mãos. Não havia sinais de medo na sua expressão, apenas raiva. Jackson ajudou a moça a levantar-se. Por um breve momento, a sua atenção foi desviada I quando ela se apoiou nele. Sindermann atacou de cabeça baixa.

Jackson rodou a moça para um lado e estendeu o pé. Sindermann tropeçou e precipitou-se sobre a balaustrada. Ouviram-no a debater-se na água.

Jackson inclinou-se sobre a moça.

— Está bem?

— Agora estou — respondeu ela.

Ele gesticulou com a Browning para Kleiber, que esperava, com o sangue a escorrer entre os dedos.

— E este?

— Deixe-o ir — disse ela, exausta. — Não é um assunto de polícia.

Jackson acenou para Kleiber.

— Ouviu a senhora.

O alemão partiu rapidamente. Jackson enfiou a Browning no cinto e pegou em Hannah Winter ao colo.

— Bem, meu anjo, vamos para dentro.

 

ELA FICOU debaixo do duche quente durante vinte minutos, de pois secou-se e vestiu um roupão que ele lhe tinha dado. O aparta mento era no segundo andar, na parte de trás do clube, e tinha vista para o rio. Era arrumado e tinha poucos móveis, com apenas alguns pertences pessoais. O atual lugar de descanso de um homem que tinha viajado durante a maior parte da sua vida.

As portas corrediças estavam abertas e Hannah encontrou Jack, só de pé na larga varanda de madeira, com uma bebida na mão, a olhar para o rio. Uma sereia de nevoeiro tocou, um barco a fazer-se , ao mar. Ela teve um arrepio.

— O som mais solitário do Mundo.

— Deixe-me arranjar-lhe um conhaque — disse ele, conduzindo-a para dentro. —

Parece que está a precisar.

Tinha um bom sotaque americano de Boston.

— De onde é você? — perguntou-lhe ela.

— De Cape Cod. De uma aldeia de pescadores chamada Wilton.

Há muito tempo. — Sorriu e entregou-lhe o conhaque. — E você?

— De Nova Iorque, embora haja quem não concorde — respondeu, dando um gole na bebida.

Ele acendeu um cigarro.

— E aqueles seus amigos? Disse que não era assunto de polícia.

— É verdade — disse ela. — Mas eles são da Polícia. Uma variedade peculiar do Terceiro Reich conhecida por Gestapo.

Ele deixou de sorrir, fechou as portas e olhou para ela.

— Você é Joe Jackson, não é? — perguntou ela.

— Sou, sim, mas nós não nos conhecemos.

— Não — disse ela —, mas sei tudo sobre si. O meu nome é Hannah Winter. Sou cantora. Nasci em Berlim, mas os meus pais levaram-me para a América quando tinha dois anos. Voltei a Berlim para cantar no clube do meu tio Max há dois meses. Conhece um pianista chamado Connie Jones?

Jackson sorriu.

— Certamente que sim. Está agora em Madrid, no Flamenco, com o seu trio. Vêm tocar aqui na semana que vem.

— Há duas semanas estava a acompanhar-me no bar do meu tio em Berlim. O Jardim. Falou-me de um grande piloto de guerra chamado Joe Jackson, que tem o melhor bar americano de Lisboa.

Jackson disse: — Está bem. Acredito.

Ela perguntou: — Já alguma vez ouviu falar de um homem chamado Santo e Silva?

— É um banqueiro português. Tem uma casa no Estoril.

— Sabe quem é que lá vive neste momento?

— É do conhecimento geral. O duque e a duquesa de Windsor.

— Mas não durante muito mais tempo, se os nazis tiverem alguma coisa com isso.

— Começou a tremer.

— Está bem. — Joe Jackson segurou nos braços dela durante um segundo, depois levou-a até ao sofá ao lado dele, defronte da lareira.

— Agora, acalme-se. Não tenha pressa e conte-me tudo o que houver para contar.


DOIS

Começou em Berlim, se começou em algum lado, com um homem chamado Erich von Mannstein, que no início de 1940 era chefe do estado-maior do general Gerd von Rundstedt.

Mannstein, que viria a tornar-se o mais brilhante comandante saído do Exército Alemão durante a II Guerra Mundial, era um estratega soberbo que desafiava constantemente as opiniões dos seus superiores, particularmente os seus planos para invadir a França e os Países Baixos.

À beira de ser demitido, com a carreira ameaçada, a sorte levou-o a um jantar dado por Adolf Hitler em Fevereiro de 1940. Aí aproveitou a oportunidade para delinear ao Führer o seu próprio plano alternativo, um audacioso avanço de Panzers através das Ardenas até ao canal da Mancha, com o objectivo de separar os exércitos britânicos e franceses.

Hitler ficou tão obcecado com a ideia que, a partir de certa altura, chegou a acreditar que era sua. A 10 de Maio, foi posta em ação com resultados incríveis. Numa questão de dias, os exércitos aliados retiravam-se desordenadamente.

A 2 de Junho, graças à decisão de Hitler de fazer parar os tanques no canal do Aa, a maior parte da Força Expedicionária Britânica conseguiu escapar das praias de Dunquerque. No dia 22, os Franceses assinaram um armistício na floresta de Compiègne no velho vagão-restaurante de madeira no qual o marechal Foch tinha decretado os termos de rendição aos Alemães em Novembro de 1918.

Logo na manhã seguinte, Hitler, acompanhado por alguns comandantes escolhidos a dedo, chegou a Paris. Tinha terminado a campanha mais devastadora da guerra moderna.

No caos em que se encontrava o resto da França, particularmente o Sul, as estradas estavam amontoadas de refugiados, que desesperadamente abriam caminho para os Pirenéus e para a fronteira espanhola, muitos deles cidadãos britânicos que tinham vivido na Riviera durante anos.

Entre eles, havia uma escolta de carros encabeçados por um Buick que rebocava um atrelado carregado. Numa pequena cidade a oeste de Arles, tinha sido levantada uma barricada pelos gendarmes para impedir mais quaisquer refugiados de passarem. Quando o Buick parou na barricada, o homem pequeno e de aspecto frágil que estava sentado ao lado da mulher de cabelo escuro no banco traseiro do carro debruçou-se da janela. Sorriu com um enorme encanto, mas o seu ar de autoridade era indiscutível.

— Sou o príncipe de Gales — disse num francês excelente. — Deixe-me passar, se faz favor.

A afirmação não era rigorosamente correta, mas para milhões de europeus era o título pelo qual ainda se lembravam dele. O oficial de dia olhou para ele, reconhecendo-o, admirado, depois cumprimentou-o e repetiu uma ordem rápida aos seus homens. As barricadas foram apressadamente retiradas e o duque e a duquesa de Windsor e a sua comitiva passaram.

 

EM BERLIM, na sexta-feira seguinte, chovia quando Hannah Winter saiu do seu apartamento na Königstrasse. Eram 8 e meia, uma hora antes do primeiro espetáculo da noite no Jardim, que era a cerca de quilômetro e meio de distância, perto da Unter den Linden. Estava difícil de arranjar-se um táxi, portanto teria de se despachar. Estava um Mercedes preto estacionado no outro lado da rua.

Olhou para ele, esperançada, depois percebeu que era um carro particular e começou a andar.

Dois jovens apareceram na esquina e dirigiram-se para ela. Usavam uniforme nazi, embora ela não tivesse ideia do que eram. Pararam, bloqueando-lhe o caminho; e as caras debaixo dos bonés de pala tinham uma expressão agressiva e cruel, prontas para lhe causarem problemas. Compreendeu que ia ter sarilhos.

— Os papéis — disse um deles.

Lembrou-se da primeira regra do tio Max: nunca mostrar medo.

— Sou uma cidadã americana — respondeu calmamente.

— Então? — Ele estalou os dedos.

Ela tirou o passaporte da carteira e entregou-o.

— Hannah Winter, vinte e dois anos. É uma boa idade. — O seu companheiro riu em silêncio, despindo-a com os olhos. O primeiro devolveu-lhe o passaporte. — E o seu passe?

Tirou-o relutantemente e entregou.

O homem riu, deliciado.

— Ora essa. Uma judia. — Chegou-se mais perto. — Onde é que está a sua estrela? Sabe que é uma ofensa muito séria andar na rua sem ela. Temos de fazer alguma coisa acerca disso.

Estava muito perto dela agora, obrigando-a a recuar para o beco que estava por trás dela. Ouviu-se a porta de um carro a bater e Hannah viu um homem a sair da parte de trás do Mercedes preto e atravessar a rua em direção a eles.

— Chega — disse ele suavemente através da chuva.

Era de estatura média, usava chapéu de aba larga e gabardina de couro preto. Tinha um cigarro pendurado ao canto da boca.

O interrogador de Hannah olhou, zangado, quando o outro se aproximou.

— Vá-se embora. Isto é assunto da Polícia.

— Ai sim? — perguntou o homem calmamente. — Fräulein Winter, não é? Meu nome é Schellenberg. Estava sentado ali no meu cano e ouvi a conversa. Estes homens estão a incomodá-la?

— Ela é judia e anda na rua sem a Estrela de David.

— Ela é uma cidadã americana, se ouvi corretamente. Não é assim, Fräulein? — O seu sorriso tinha um toque de encanto impiedoso que era acentuado por uma cicatriz numa das faces.

— Sim — disse ela.

Uma mão agarrou o braço de Schellenberg.

— Saia daqui. A não ser que queira levar uma sova.

Schellenberg não ficou de maneira alguma incomodado.

— Oh, meu Deus, você é um rapazinho desagradável, não é?

Acenou casualmente com a mão direita. Dois homens de uniforme preto saíram do Mercedes e atravessaram a rua a correr. Nas mangas tinham gravadas as letras RFSS a prateado. Reichsführer der SS, a denominação do estado-maior particular de Heinrich Himmler.

Schellenberg disse-lhes:

— É preciso dar aqui uma lição, acho. — Segurou na moça pelo braço. — Fräulein.

Quando a conduzia em direção ao cano, ouviu-se o som de uma pancada, um grito de dor, mas Hannah não olhou para trás.

 

UNS MINUTOS mais tarde, o Mercedes parou em frente do Jardim.

O porteiro abriu a porta do cano e Schellenberg saiu e voltou-se para ajudar Hannah.

— Então, é aqui que trabalha? — Examinou as fotografias do mostruário de vidro por baixo do poster. — "Hannah Winter e o Trio de Connie Jones, diretos de Nova Iorque." Tenho de cá vir uma noite.

Ela disse calmamente:

— Sou judia e, como pode ver pela fotografia, Connie é negro.

Penso que dificilmente teremos grande interesse para um membro da raça superior.

Ele sorriu gentilmente.

— Vamos entrar?

— Utilizo a porta do palco.

— E eu, pelo contrário, entro sempre pela porta principal. — Segurou-lhe de novo no braço e ela entrou sem protestar.

O seu tio estava a falar com a moça do bengaleiro. Era um homem astuto, mas de aspecto bondoso, com cabeleira cinzenta e óculos com aros de metal. Contudo, conseguia parecer desarranjado, apesar do seu smoking.

Ao ver a sobrinha e Schellenberg, apressou-se em direção a eles.

— Hannah, minha querida, que é que aconteceu? Estás com problemas?

— Estava, mas agora já não, graças a Herr Schellenberg. Este é o meu tio, Max Winter.

— Herr Winter — disse amigavelmente Schellenberg, e voltou-se para Hannah.

Ela era uma moça pequena, de ancas bem delineadas e belas pernas; o seu cabelo preto comprido emoldurava uma cara mais graciosa do que bonita, com ossos malares elevados e olhos escuros.

Schellenberg pegou na sua mão direita, segurando-a por um momento.

— E agora, Fräulein, depois de a ter visto com uma luz melhor, estou mais determinado do que nunca a assistir à sua atuação. Mas não esta noite, lamento.

Levou a mão até aos seus lábios e ela sentiu um profundo excitamento na boca do estômago. Ele saiu, e quando Hannah olhou para o tio, reparou que estava bastante pálido.

— Tio Max, que é que aconteceu?

— Aquele homem — murmurou. — Não sabes quem é? É Walter Schellenberg, Brigadeführer das SS, general da Polícia. O braço direito de Heydrich.

 

ERA 1920, quando Hannah Winter tinha dois anos, o seu pai trouxera a mulher e a filha de Berlim para Nova Iorque e abrira um pequeno restaurante na Rua 42. Durante a Proibição, transformara o estabelecimento num famoso clube noturno. Mas a sua saúde nunca tinha sido boa devido a ferimentos no peito sofridos como soldado de infantaria no Somme, e morrera em Julho de 1929.

O clube, depois do fim da Proibição, voltara de novo a ser um restaurante e prosperava sob a batuta inteligente de sua mulher.

Hannah fora criada para ser uma menina-bonita judia que um dia faria um bom casamento, teria filhos, faria tudo o que deveria ser feito.

Podia ter resultado, se não fosse um ponto importante. Hannah Winter tinha sido dotada de uma extraordinária voz de canto. Descobrira o seu talento por acaso, ao cantar com uma banda de jazz de alunos no liceu. A partir daí, nunca mais pensara seriamente noutro modo de vida.

Aos dezessete anos, havia atuado em Hollywood com Benny Goodman. Viajara com Artie Shaw e Tommy Dorsey como cantora de banda. Mas estava no seu melhor no mundo fechado dos clubes e cabarés, de preferência acompanhada por um bom trio. Ali, conseguia transmitir uma intensidade ao seu espetáculo de músicas populares que talvez fosse comparável ao que Bessie Smith tinha feito com os blues.

E agora estaria em Hollywood a fazer um filme com Bing Crosby se não fosse o tio Max, o irmão mais novo de seu pai. Embora estivesse naturalizado americano há vinte e cinco anos, em 1937 aterrorizara a família ao voltar para a sua cidade natal para abrir um clube noturno.

Essa era a razão por que Hannah estava ali. Para o convencer de que tinha chegado a altura de sair da Alemanha. Mas os acontecimentos tinham-na ultrapassado com uma rapidez assustadora. Os nazis estavam agora a postos nas margens do canal da Mancha, a Inglaterra seria a sua nova paragem e parecia não haver nada no seu caminho.

 

HANNAH estava a maquilar-se quando o tio entrou no camarim. Puxou uma cadeira e olhou atentamente para ela.

— Ora bem, que é que aconteceu? — perguntou.

Ela contou-lhe rapidamente, depois foi para trás do biombo para mudar de roupa.

— Não é nada bom — disse ele. — Talvez eu devesse explicar-te algumas coisas. Na Alemanha, hoje em dia, as SS são todo-poderosas, mas dentro da organização têm o seu próprio departamento de serviços secretos, o SD. Reinhard Heydrich é o diretor-geral, embora ainda sob a autoridade de Himmler.

— E Schellenberg?

— É o responsável pelo departamento de contra-espionagem, mas, mais importante, é o favorito de Heydrich. — Ela não disse nada, fazendo deslizar um vestido preto comprido sobre a cabeça.

— Compreendes alguma coisa disto? — perguntou Max.

— Nem por isso — respondeu, aparecendo por detrás do biombo e voltando-se de modo que ele pudesse apertar-lhe o vestido. — É tudo muito confuso. E os uniformes; pessoa sim, pessoa não, parece ter um. — Sentou-se a olhar para ele. — Tio Max, vamos para casa.

— Tu vais para casa — disse ele. — Está tudo tratado, bilhetes e tudo. Tu, Connie e os rapazes deixam Berlim na segunda-feira de manhã, de comboio para Paris. Nessa mesma noite, têm beliches no comboio noturno para Madrid, e tu também.

— E quando é que isto tudo foi decidido?

— Hoje. Os rapazes vão atuar durante uma semana no Clube Flamenco, em Madrid.

— Mas eu não.

— Não, tu vais diretamente de lá para Lisboa. Há muitos barcos para Nova Iorque. Talvez consigas mesmo um lugar no Clipper.

— E o tio?

— Tenho coisas para fazer aqui.

— Então, não vou.

— Ai, vais, sim, Hannah. — Nunca tinha ouvido antes aquele tom na sua voz. Ele fez-lhe uma festa na mão e levantou-se. — Hoje à noite temos a casa cheia. É melhor ir ver se está tudo a correr bem com a comida.

Quando chegou à porta, ela disse:

— Tio Max, está envolvido em alguma coisa, não está? Alguma coisa séria?

Ele sorriu gentilmente.

— Vemo-nos mais tarde.

A porta fechou-se devagar atrás dele; ela sentou-se, a olhar para o espelho, com a cabeça em desordem. Um pouco mais tarde, bateram à porta e Connie Jones entrou.

— Estás pronta?

Conseguiu sorrir.

— Tanto quanto jamais estarei.

Connie era um negro alto de aspecto rude, com cerca de quarenta e cinco anos, cabelo curto grisalho. Nascido e criado em Nova Orleans, tocava piano maravilhosamente desde os sete anos e não sabia ler uma nota de música.

— Problemas? — perguntou.

— O tio Max disse que eu partiria contigo na segunda-feira.

— Exatamente. Doze horas para a divertida cidade de Paris, depois o expresso para Madrid, que parte da Estação de Austerlitz, e não é cedo demais para sairmos daqui. — Fez uma pausa. — Estás preocupada com o velhote, não estás?

— Ele diz que não vem, Connie, mas se ele fica cá ...

— Se houver um homem que sabe o que está a fazer, é o teu tio Max, moça. Eu deixava isso ao seu critério. — Pegou na mão dela. — Preocupas-te demasiado e isso não é bom, porque temos um espetáculo para dar.

Ela respirou profundamente, levantou-se e seguiu-o, ouvindo imediatamente os barulhos do clube. Pessoas a falar, os risos, a agitação. Tudo isso produzia um ambiente electrizante que nunca deixava de a afectar.

Dois outros negros dirigiram-se para o pequeno palco com Connie: Billy Joe Hale, o baixo, e Harry Gray, o baterista. Hannah esperou. Então, os holofotes encheram o palco de luz branca e a voz do tio Max surgiu por detrás dele.

— E agora, o Jardim tem o prazer de apresentar, diretamente de Nova Iorque, a incomparável Hannah Winter!

Quando Connie e os rapazes começaram a tocar um arranjo de Saint Louis Blues, Hannah entrou para o palco acompanhada por um imenso aplauso e começou a cantar com todo o coração.

 

O GENERAL Reinhard Heydrich, ao contrário da maior parte dos membros do Partido Nazi, era oriundo das classes altas. Depois de se ter alistado nas SS, fora rapidamente escolhido por Himmler para seu adjunto. A sua ascensão à poderosa posição de chefe do Departamento Principal de Segurança do Reich era um tributo não só à sua total falta de humanidade, como às suas qualidades de chefia e inteligência superior.

Estava sentado à secretária, nas instalações das SS na Prinz Albrechtstrasse, quando Schellenberg entrou.

— Ah, aí está você, Walter — disse Heydrich amigavelmente.

— Teve uma noite atarefada, ouvi dizer, a brincar ao Galaaz com a Winter.

— Há alguma coisa que não saiba? — perguntou Schellenberg.

— Acabou de acontecer.

— Neste mundo velho e ruim, Walter, uma pessoa sobrevive sabendo tudo o que houver para saber sobre tudo e sobre todos. — Heydrich sorriu. — Fale-me dela. Há quanto tempo está sob vigilância?

— Desde que chegou. Há dois meses.

— E caiu nesta sua pequena representação desta noite?

— Penso que sim.

— Que é que espera conseguir exatamente? Acesso à sua cama ou informações?

— É o tio dela que queremos, lembre-se — disse Schellenberg.

— O fato de ele ser um cidadão americano dificulta as coisas.

— Mas é alemão de origem — disse impacientemente Heydrich.

— O Führer declarou que os cidadãos do Reich não tinham o direito de mudar de nacionalidade.

— Talvez os Americanos tenham um ponto de vista diferente sobre isso — disse Schellenberg. — E este não é o momento oportuno para hostilizar Washington.

— Bom, e avançamos alguma coisa neste caso Winter?

— Não. Como pode verificar na ficha Winter, ele frequentou a Universidade de Berlim como estudante e foi membro do Partido Comunista. Penso que ainda é.

— Possivelmente um agente soviético?

— Talvez. Certamente envolvido na resistência socialista e provavelmente também na fuga ilegal de judeus do Reich.

— Então, de que é que está à espera? Prenda-o.

— Ainda não — disse Schellenberg. — Se esperarmos um pouco mais, conseguiremos apanhar não só Winter como toda a organização. E ele está sob vigilância a toda a hora.

Heydrich ficou um pouco de cenho franzido, depois acenou com a cabeça.

— Muito bem. Pode ter mais uma semana. — Levantou-se. — Que é que vai fazer agora?

Schellenberg sabia o que ia acontecer.

— Vou para casa dormir.

— Disparate — Heydrich sorriu maliciosamente. — A noite ainda é jovem. Vamos dar uma volta pelos bares. Sirva-se de uma bebida enquanto troco de roupa.

Saiu e Schellenberg suspirou, dirigiu-se ao armário das bebidas e serviu-se de um whisky.

Tinha nascido em Saarbrücken, em 1910, filho de um fabricante de pianos. Culto e inteligente por natureza e com um dom para as línguas, entrara para a Universidade de Bona para estudar Medicina, mas mudara para Direito dois anos depois. Habilitado mas sem dinheiro, vira uma oportunidade na ascensão do Partido Nazi em 1933 e alistara-se nas SS. Caíra nas graças de Heydrich, que o recrutara imediatamente para o SD, onde a sua promoção havia sido rápida. Várias operações de espionagem bem-sucedidas tinham consolidado a sua posição e depressa fora promovido a Brigadeführer das SS e general da Polícia. Tinha apenas trinta anos.

Claro que Schellenberg tinha os seus inimigos, mas Heydrich gostava dele e portanto movimentava-se nos melhores círculos de Berlim. Mas havia um preço a pagar, incluindo a ocasional saída à noite com Heydrich, que tinha uma predileção especial pelos cabarés da cidade.

A maior ironia de todas era que Walter Schellenberg não se considerava um nazi. Heydrich, Himmler, mesmo o Führer, haviam acabado por confiar implicitamente no seu raciocínio em questões de espionagem e, contudo, na sua mente mantinha-se sempre de lado, um espetador de toda a triste charada, desprezando tanto a sua pessoa como os outros.

A chuva batia contra a janela do gabinete de Heydrich, e Schellenberg levantou o copo, saudando o seu reflexo no vidro.


TRÊS

 

NA MANHÃ seguinte, Schellenberg estava a trabalhar no seu gabinete na Prinz Albrechtstrasse quando o telefone tocou. Reconheceu a voz — Joachim von Ribbentrop.

— Schellenberg, preciso que venha cá imediatamente.

— Alguma coisa em especial? — perguntou Schellenberg ao ministro dos Negócios Estrangeiros.

— Um assunto da máxima importância para o Reich. Não posso discuti-lo ao telefone.

Schellenberg ligou para Heydrich e relatou a situação, sempre atento, consciente da raiva deste a qualquer sugestão de que a sua autoridade estava a ser usurpada. Desta vez, Heydrich ficou intrigado e disse-lhe que avançasse. Schellenberg prometeu que entregaria mais tarde um relatório detalhado.

Ribbentrop recebeu-o no seu gabinete particular na Chancelaria do Reich.

— Ainda bem que veio, meu caro. Sente-se que eu vou direito ao assunto. Estou a falar consigo sobre este assunto em nome do próprio Führer, por isso trata-se de algo altamente secreto.

— Claro. Continue, por favor.

— Conheceu por acaso o duque de Windsor durante a sua visita à Alemanha em 1937?

— Não, não tive esse prazer.

— Qual é a sua opinião sobre a maneira como os Ingleses lidaram com a crise que envolveu a sua abdicação?

— Parece-me que trataram do problema com muita sensatez. A tradição e a responsabilidade tinham de se sobrepor às emoções. Schellenberg encolheu os ombros. — Não sei como é que o Governo Britânico poderia ter atuado de outra maneira.

Ribbentrop pareceu ficar extremamente desconcertado.

— Estou a ver que este é um assunto sobre o qual foi completa mente mal informado. As verdadeiras razões da pressão para o duque abdicar foram políticas. Estava demasiadamente determinado a modificar a decadente sociedade inglesa em algo poderoso e moderno. Algo mais de acordo com as necessidades dos nossos dias.

— Ele disse-lhe isso? — perguntou Schellenberg secamente.

Ribbentrop pareceu não ouvi-lo.

— O duque ficou muito impressionado com tudo o que viu na Alemanha. O Führer recebeu-o em Berchtesgaden. Falaram durante uma hora. — Fez uma pausa. — Neste momento, o Führer está profundamente embrenhado no planeamento da Operação Leão-Marinho, a invasão de Inglaterra, razão por que me pediu para tratar ' deste assunto tão importante.

— Compreendo.

— O duque, como sabe, era general das Forças Aliadas em França. Depois da nossa magnífica vitória, ele e a duquesa conseguiram fugir para Espanha. Estiveram em Madrid até há pouco tempo. De fato, a atitude dos Espanhóis sobre este assunto talvez possa ser mais bem resumida por um telegrama que recebi do nosso embaixador em Madrid, Eberhard von Stohrer. Tenho aqui uma cópia.

Entregou-a a Schellenberg, que a examinou rapidamente.

 

MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS ESPANHOL SOLICITA PARECER SOBRE COMO TRATAR DUQUE E DUQUESA DE WINDSOR QUE CHEGAM HOJE A MADRI, APARENTEMENTE COM DESTINO À INGLATERRA COM ESCALA EM LISBOA. O MINISTRO CALCULA QUE TALVEZ POSSAMOS ESTAR INTERESSADOS EM RETER O DUQUE AQUI E ESTABELECER CONTACTO COM ELE.

 

Schellenberg devolveu a folha.

— Não compreendo.

— É, de fato, muito simples. Os Ingleses, no que respeita a raça, fazem parte da nossa irmandade germânica. O Führer não tem vontade de os: destruir. Podem ter um papel importante a desempenhar no grande ideal europeu. Está convencido de que, qualquer dia, o Governo Britânico verá isto e pedirá a paz. No final de contas, não têm muitas alternativas. Estão acabados.

— Ainda é preciso atravessar o canal — disse Schellenberg.

— Mas não será necessário, não vê? E uma vez concluído um tratado de paz, a questão do trono terá que ser considerada. Será muito melhor vê-lo ocupado por um homem amado pelo seu povo e que seja também um bom amigo da Alemanha.

Foi com dificuldade que Schellenberg conteve o riso.

— Está a falar a sério, Sr. Ministro?

Ribbentrop pareceu ligeiramente surpreendido.

— Mas, é claro. Tenho aqui um relatório de Madrid que declara que, numa conversa com um membro do pessoal da Embaixada Americana, o duque afirmou que agora a coisa mais importante era acabar com a guerra antes que morressem mais uns milhares de pessoas para alguns políticos salvarem as aparências.

— O que dificilmente o torna um membro do nosso Partido Nacional Socialista — retorquiu Schellenberg.

Ribbentrop continuou sem pausa:

— O duque e a duquesa chegaram recentemente a Lisboa e estão no Estoril, em casa de um banqueiro português, Santo e Silva.

Quando chegaram, encontraram dois hidroaviões britânicos à espera para os levarem para Inglaterra. O duque mandou-os embora.

Recusou-se a ir. Não acha isto interessante?

— Deu alguma justificação?

— De acordo com a nossa informação, insistiu na oferta de um cargo conveniente e garantias de que, no futuro, a duquesa fosse tratada totalmente de acordo com a sua posição como sua mulher.

— Parece razoável. Até agora, os Ingleses não utilizaram devidamente os seus talentos nesta guerra. Teve alguma resposta?

— Churchill ofereceu-lhe o cargo de governador das Bahamas.

— Inteligente — disse Schellenberg — e prático. A cinco mil quilômetros da guerra. Acha que ele irá aceitar?

— Não. Pensamos que ele provavelmente preferia ficar na Europa, talvez em Espanha ou mesmo na Suíça. Naturalmente, o bandido do Churchill não gostaria disso, e podemos calcular que os Serviços Secretos Britânicos seriam utilizados para evitá-lo.

— De que maneira?

— Oh, imagino que o truque óbvio seria fazer embarcar o duque num barco para as Bahamas, quer ele quisesse ou não, e é aí que você entra, Schellenberg. O Führer pensa que você é a pessoa ideal para falar com o duque em nosso nome. Oferecer-lhe toda a assistência de que possa precisar. Financeira, por exemplo, se necessário. Aconteça o que acontecer, o duque precisa de ajuda para atingir o país que escolher.

— Mesmo se forem as Bahamas?

Ribbentrop olhou para ele.

— Meu caro Schellenberg, o seu humor pode ser a sua morte um destes dias.

— As minhas desculpas, Sr. Ministro.

— Continuando. Se o duque se mostrar de algum modo hesitante, o Führer não teria objecções a que você o ajudasse a tomar a decisão certa.

— À força?

— Se necessário. Naturalmente, também será da sua responsabilidade certificar-se de que o duque e a mulher não são expostos a quaisquer perigos pessoais. Uma caçada em Espanha, por exemplo, seria o suficiente. Uma vez do lado de cá da fronteira, o resto é simples.

— E isto é uma ordem direta do próprio Führer?

— Mas é claro. — Ribbentrop passou-lhe um envelope. — Encontrará aí tudo o que precisa. Autoridade total. Posso apenas desejar-lhe boa sorte e invejar-lhe o seu inevitável sucesso neste assunto.

 

HEYDRICH estava sentado junto da janela do seu gabinete segurando o documento que Schellenberg lhe tinha entregue.

 

DO DIRIGENTE E CHANCELER DO ESTADO

MUITO SECRETO

 


O general Schellenberg atua sob as minhas ordens diretas e pessoais num assunto da máxima importância para o Reich. É apenas responsável perante mim. Todo o pessoal, militar e civil, sem qualquer distinção de posto, deve assisti-lo em tudo o que ele julgue necessário.

Adolf Hitler

 

— Que disparate! — disse Heydrich. — Este plano é totalmente absurdo e todo baseado em suposições totalmente falsas.

Bateram à :?porta e entrou uma jovem secretária com uma pasta que colocou em cima da mesa. Saiu sem dizer uma palavra, e Heydrich bateu na pasta ao de leve com um dedo.

— Aqui, Walter, está tudo o que precisa de saber sobre o duque de Windsor, tudo o que existe registado sobre ele. Mas que é que eu lhe ensinei sobre o princípio fundamental de um trabalho de espionagem?

— Como dizem os Jesuítas, as pessoas conhecem-se pelas pequenas coisas.

— Exatamente. Não é o que um homem diz ou o que as pessoas dizem sobre ele que é a verdade. É como se comporta, pois o caráter define a ação. — Heydrich bateu de novo levemente na pasta.

— E ninguém mais do que este homem. Como é que o descreveria aos olhos do mundo?

— Uma contradição. Preocupado com o próximo, como o demonstrou a sua atitude perante as classes trabalhadoras inglesas, e, não obstante, apreciando o luxo e o prazer. Um homem difícil, reservado.

— Talvez. Certamente teimoso.

— Por causa da sua posição em relação ao casamento com a duquesa? Algumas pessoas talvez achem isso admirável.

Heydrich abriu a pasta sobre o duque.

— Quando servia na missão militar britânica em França, conseguiu visitar várias vezes a Linha Maginot. O seu relatório, que chama a atenção para as imperfeições da linha, mostra todos os indícios de uma mente militar de primeira classe. Estude toda a pasta, depois, pelo menos, saberá do que está a falar. Entretanto, faça o habitual relatório departamental. Tudo o que Ribbentrop disse. Quero tudo por escrito.

Quando Schellenberg voltou para o seu gabinete, telefonou a Frau Huber, secretária particular de Heydrich. Tinha trinta e oito anos e era já viúva da guerra; o seu marido fora morto durante a campanha francesa. Uma mulher sensual, sem maquilhagem, que usava o cabelo apanhado atrás num carrapito.

Schellenberg ditou rapidamente um relatório da reunião com Ribbentrop.

— O mais depressa possível, se faz favor.

Ela saiu, e ele abriu a pasta Windsor e começou a lê-la. Meia hora mais tarde, Frau Huber voltou com o relatório pronto. Ele conferiu-o e assinou.

— As cópias habituais? — perguntou ela.

— Sim, uma para Himmler, uma para mim e uma para o arquivo.

Ela saiu. Ele ficou ali sentado, franzindo as sobrancelhas por um momento, depois pegou no telefone e ligou para o almirante Canaris, no quartel-general da Abwehr. Mas parecia que o almirante estava a montar a cavalo no Tiergarten. Schellenberg mandou chamar um carro e partiu rapidamente.

 

QUANDO Frau Huber entrou na sala das fotocópias, estava uma mulher de meia-idade de serviço que não lhe era familiar.

— Quem é você? — perguntou.

— Irene Neumann. Normalmente, trabalho no Departamento Central.

— Está bem. Faça-me isto. Três cópias. Eu espero.

A outra mulher ligou a máquina.

APENAS PARA OS SEUS OLHOS MUITO SECRETO, viu na parte de cima da página. Depois, o nome do duque de Windsor saltou-lhe à vista.

Frau Huber acendeu um cigarro e andou pela sala impacientemente.

— Não pode despachar-se?

Quando a máquina começou a trabalhar, o telefone tocou no seu gabinete e ela correu a atendê-lo. Era um assunto de rotina que demorou apenas três ou quatro minutos a resolver. Quando acabou, voltou-se e viu Irene Neumann ali.

— Disse três cópias, Frau Huber?

— Sim. Ponha-as na secretária.

A outra mulher fez o que lhe foi dito e saiu. De novo na sala de fotocópias, fechou a porta atrás de si, abriu uma gaveta e tirou uma cópia extra que tinha feito do relatório Windsor. Dobrou-a cuidadosamente, levantou a saia e enfiou-a dentro da meia.

 

O ALMIRANTE Wilhelm Canaris tinha cinquenta e três anos. Um distinto comandante de submarino durante a I Guerra Mundial, era agora comandante da Abwehr, Departamento de Espionagem do Estado-Maior-General das Forças Armadas Alemãs. Embora fosse um alemão leal, detestava, como muitos outros oficiais, a maior parte dos aspectos do regime nazi, atitude que levaria à sua queda e execução perto do final da guerra.

Schellenberg era íntimo dele e frequentemente montavam a cavalo juntos no' Tiergarten. Enquanto esperava ao lado no carro, viu o almirante cavalgando a trote largo ao longo do caminho seguido pelos seus dois hassets favoritos, que tinham dificuldade em acompanhá-lo. Canaris viu Schellenberg, avançou para ele e puxou as rédeas.

— Negócios, Walter, ou conversa? — perguntou o almirante, desmontando.

— São intermutáveis, acho eu, normalmente. — Schellenberg chamou o seu motorista. — Segure no cavalo do Sr. Almirante.

Os dois homens passearam entre as árvores, com os hassets bamboleando-se atrás deles.

— Como é que vai a guerra, Walter? Pensa que os Ingleses vão pedir a paz um destes dias?

— Não, meu almirante.

— Nem eu. Não com o canal por atravessar. E eles são sempre tão bons quando estão encostados à parede. Ouviu o tom do discurso de Churchill? Luta nas praias, nas ruas. Sangue, suor, lágrimas.

— Ainda está para vir a Luftwaffe.

— Eu sei — disse Canaris com desprezo. — O gordo Hermann Gõring de novo a vangloriar-se. Reduzir Londres a cinzas, bombardeá-los até à submissão. Não era o que era suposto ele fazer ao exército inglês em Dunquerque? Em vez disso, a Luftwaffe foi rechaçada por uma mão-cheia de Spitfires.

A cara do almirante estava rígida de raiva, e Schellenberg olhou para ele de perto. Gostava de Canaris, admirava-o imensamente como homem. Por outro lado, o almirante era incontestavelmente indiscreto.

— Bem, que é que se passa, Walter? Que é que quer discutir?

— Estava a pensar — disse Schellenberg — se o senhor teria alguma opinião sobre o duque de Windsor.

Canaris riu às gargalhadas. — Foi Ribbentrop quem lhe atirou essa?

— Então sabe tudo sobre o assunto?

— É claro que sei. Ele contatou-me ontem. Sabe que a Abwehr tem uma organização em Lisboa. Parecia pensar que nós seríamos capazes de resolver toda a questão.

— E não são?

— Descobriu-se que o nosso homem em Lisboa é um agente duplo. Em breve será eliminado.

— É essa a única razão?

— Não. Penso que todo o caso Windsor é um disparate. Vários incidentes respeitantes ao duque foram incrivelmente mal interpretados. Para lhe dar um exemplo: um discurso que fez há alguns anos, sugerindo que tinha chegado a altura de os veteranos britânicos da Grande Guerra darem as mãos em camaradagem aos veteranos alemães, é considerado por alguns dos nossos mais insensatos dirigentes como um indício da sua aprovação pelo nacional-socialismo. Um pensamento cheio de fé. Penso também que o Führer se ; engana ao considerar a visita ao nosso país feita pelo duque em 1937 como uma evidência de semelhante aprovação. Devo lembrar-lhe que uma distinta lista de chefes mundiais visitou o Reich. Será que isso os torna todos em potenciais nazis?

— Portanto, acha que o duque não teria o menor interesse nas nossas propostas?

— Ele tem uma considerável quantidade de sangue alemão, fala fluentemente a nossa língua e acredito que goste de nós. Mas a minha opinião é que esta amizade não se estende ao Partido Nazi. Pronto, choquei-o?

— De maneira nenhuma, meu almirante. Pedi-lhe a sua opinião e foi suficientemente honesto para ma dar. Respeitarei a sua confidência.

Dirigiram-se para o carro e Canaris disse: — Um conselho final. Examine a ficha do duque durante a Grande Guerra. Extremamente corajoso. Apesar das ordens de seu pai para se manter fora de ação quando estava na frente ocidental, o que ele gostava era de estar com os Tommies, e foi por isso que eles ficaram a conhecê-lo e a gostar dele. Estava sempre nas trincheiras.

Sabia que os seus ajudantes fizeram uma vez uma queixa oficial? Disseram que para ele estava tudo bem, mas o problema era , que também tinham de o seguir para a zona de fogo.

— Gostei dessa — disse Schellenberg. — Isso diz-me mais sobre o homem do que qualquer outra coisa.

— Walter, o Führer está a perder desesperadamente o seu tempo . neste assunto. Aqui está um homem que preferiu renunciar ao trono a trair a mulher que amava. Pensa realmente que um homem como ' esse podia trair o seu país?

 

NO ESTORIL, na casa cor-de-rosa sobre o mar, a duquesa de Windsor estava sentada ao lado da piscina. Lia O Monte dos Vendavais, um dos seus livros favoritos, e estava tão absorvida na história que não se apercebeu imediatamente de que o duque tinha saído de casa para o terraço e estava a seu lado.

Ela olhou para cima e tirou os óculos.

— Assustaste-me, David. — O duque sentou-se numa cadeira perto dela. — Uma limonada? — perguntou ela, oferecendo-lhe um copo de um tabuleiro que estava na mesa.

— Preferia uma coisa mais forte.

— Disparate, David, sabes que nunca bebes antes das sete da tarde. Que é que está a acontecer? — Aproximou-se e pegou-lhe na mão.

— Percebes sempre, não é, Wallis? — Forçou um sorriso. — Recebi um telegrama de Winston. Arranjou-me finalmente um trabalho. Governador das Bahamas. Convenientemente afastado, a cinco mil quilômetros da ação.

— Vais aceitá-lo?

— Tenho de aceitar. Não quero que nos empurrem para uma gaveta esquecida.

Temos de ficar os dois juntos. Marido e mulher na mesma situação. Não parecem querer oferecer-nos um lugar nestas condições em Inglaterra. Então, será nas Bahamas.

— Meu querido David — disse ela. — Estamos no meio de uma guerra e tenho a certeza de que a minha situação não pesa muito na agenda.

— Mas na minha sim, Wallis. Nunca poderei alterar esse ponto.

— Encolheu os ombros. — O que me custa é não terem encontrado nada mais importante para eu fazer.

Levantou-se e andou até à beira do terraço, onde ficou a olhar para o mar. Quando a duquesa olhou para ele, a sensação de desperdício era tão esmagadora que teve de se controlar para conter as lágrimas.


QUATRO

SCHELLENBERG estava de volta ao seu gabinete meia hora depois de ter saído para o Tiergarten. Quando estava a despir o casaco, Frau Huber entrou. Parecia consideravelmente agitada.

— Estivemos à sua procura por todo o lado. O general Heydrich está muito zangado.

Schellenberg disse calmamente:

— Pensava que ele conhecia todos os meus movimentos antes de eu os fazer. Onde é que ele está agora?

— Com o Reichsführer Himmler. Estão à sua espera.

Ela tremia um pouco, porque gostava de Schellenberg um pouco mais do que se atrevia a admitir, admirando por alguma razão o fato de que nada parecia importar para ele.

— Esteja calma, Ilse. Está tudo sob controle. Não só porque sou mais esperto do que eles, o que é evidente, mas porque não levo isto a sério.

Quando entrou no adomado gabinete do primeiro andar na Prinz Albrechtstrasse, Schellenberg encontrou Himmler sentado atrás de uma grande secretária. O Reichsführer era uma figura surpreendentemente insignificante no seu fato de tweed cinzento. A sua cara, por detrás do pince-nez prateado, era fria e impessoal e era difícil imaginar o que se passava para lá daqueles olhos sem expressão.

Sob muitos aspectos, era um homem estranhamente tímido que podia ser simpático para os seus subordinados, gostava de animais e era dedicado aos seus filhos, e contudo era um monstro, responsável por quase todo o terror que o Reich causava às suas vítimas.

Himmler tirou o pince-nez e passou com o dedo entre os olhos, num gesto habitual.

— Então, general, a sua conversa com o almirante Canaris foi interessante?

Heydrich estava de pé à janela e voltou-se, furioso.

— De novo a jogar de gato e rato com aquele velho louco? Não tinha autoridade para isso — explodiu.

Himmler acalmou-o, acenando a mão.

— Qual foi a principal razão para ir vê-lo?

Schellenberg demorou o seu tempo a responder, sendo muito cuidadoso.

— Uma pergunta difícil, Reichsführer. Um assunto de alguma delicadeza.

— Meu caro Schellenberg, respeito o seu tato, mas Heydrich e eu somos uma única pessoa neste caso. Não há nada que não possa dizer aqui.

— Muito bem. Obviamente, leu o meu relatório sobre o caso Windsor. Suspeitava que Ribbentrop não tinha sido inteiramente honesto comigo. Parecia lógico que tivesse falado primeiro com Canaris, já que ele é o chefe dos Serviços Secretos, e contudo Ribbentrop não mencionou o fato.

— Percebo. — A voz de Himmler era agora muito suave e ele sorria de uma maneira estranhamente satisfeita. — E tinha?

— Receio que sim. — Depois, Schellenberg contou-lhes tudo, não escondendo nada, pois não havia necessidade disso.

— Então, o Sr. Almirante não vê este assunto com bons olhos?

— Parece que não.

— E o senhor? — perguntou Himmler.

Schellenberg sabia que agora estava em terreno perigoso. Escolhendo as palavras com cuidado, disse calmamente: — Ribbentrop tornou claro que todo o assunto era para ser levado a cabo por ordem expressa do Führer. O Reichsführer compreenderá que não posso pôr em questão uma ordem do próprio Führer. A minha opinião pessoal não é para aqui chamada.

Heydrich voltou-se bruscamente para ocultar o seu sorriso, mas Himmler ficou positivamente brilhante de aprovação.

— Eu não podia ter respondido melhor — disse ele. — O Führer carrega o fardo por todos nós. O destino da Alemanha anda nos seus ombros.

Schellenberg perguntou: — Portanto, o senhor também quer que prossiga com este assunto, Reichsführer?

— Claro que sim. Viajará para Lisboa logo que estejam tomadas todas as providências, com passagem por Madrid. Uma conversa aí com o nosso embaixador, Von Stohrer, seria útil.

— Há uma questão, Reichsführer — disse Heydrich. — Lisboa está a pulular de agentes secretos de várias nacionalidades, e penso que seria essencial que o general Schellenberg tivesse proteção.

Com a sua licença, nomearei dois ou três dos meus melhores homens.

— Não é necessário — disse Himmler. — Tomarei conta disso pessoalmente. A Gestapo providenciará exatamente as pessoas de que precisaremos.

— Como queira, Reichsführer.

— Ótimo. Agora pode deixar-nos, general Schellenberg.

Schellenberg saiu rapidamente e voltou para o seu gabinete.

Suava um pouco e acendeu um cigarro. Um pouco mais tarde, Frau Huber entrou com uma chávena de café.

— Está a ver, Ilse? — comentou a sorrir. — Disse-lhe que não havia razão para preocupações.

Mas quando levou a chávena aos lábios, a sua mão tremia.

 

COMO SEMPRE, depois de um episódio destes, precisava de ação. Desceu à cave, até à carreira de tiro, onde os alvos eram figuras de soldados a correr.

— Que nova arma é que tem agora, Reitlinger? — perguntou Schellenberg ao oficial das SS que estava de serviço.

— A nova metralhadora Erma da Polícia, meu general. Acabou de chegar esta manhã.

Schellenberg pegou numa e esvaziou-a em pequenas rajadas, atirando ao nível da cintura, cortando ao meio alguns alvos. O

barulho era ensurdecedor. Pousou a arma.

— Uma arma de carniceiro — disse. — Do que eu preciso é de ' algo mais subtil, uma assassina silenciosa, se quiser.

O oficial sorriu e dirigiu-se para um armário. Voltou com uma Mauser 7.63 mm, modelo 1932, com a última adaptação, um silenciador.

Schellenberg avaliou o peso da arma.

— Ah, isto sim. — Tinha um carregador com dez balas que ele esvaziou rapidamente, colocando dois tiros mesmo no meio de cinco dos alvos. O único som que se ouvia era uma série de pancadas surdas.

— Muito eficiente — disse Heydrich, aparecendo por detrás dele. Reitlinger afastou-se e Heydrich continuou: — Aquilo foi uma representação de primeira classe no gabinete de Himmler. Exatamente calculada para agradar.

— E que queria que eu dissesse, a verdade?

— E a verdade é ...?

— Que tudo isto é uma perda de tempo — disse Schellenberg. Estive a ler o processo Windsor. Falei com Canaris. O relatório de ' Madrid sobre as atitudes compreensivas do duque não passa de bisbilhotices de cocktail dos aristocratas espanhóis com simpatias fascistas, que querem acreditar que o duque pensa como eles. Todos querem acreditar que ele está do nosso lado, e então fabricam provas à base de pensamentos esperançosos. Se o duque de Windsor dissesse que Beethoven era o seu compositor favorito, algum idiota , tomaria isso como um apoio ao Partido Nazi.

— Portanto, pensa que ele não está interessado? — perguntou Heydrich.

— Nem um bocadinho.

. — Então terá de o convencer, não é?

— E que é que se pensa conseguir com isso?

Heydrich respondeu:

— Quando ocuparmos a Inglaterra, ele terá de proceder como for mandado, pela simples razão de que essa será a melhor maneira de ele servir os interesses do seu povo.

Schellenberg pousou a arma.

— Importa-se que me vá embora agora? Tenho trabalho para fazer.

— De modo nenhum. Pode ir buscar-me às oito e meia.

— Para quê?

— A moça Winter. Gostaria de a ver em pessoa. No Jardim, não é?

— Está bem. — Schellenberg dirigiu-se para a porta, que Reitlinger abriu. —

Quero uma das Mausers com silenciador. E cem balas em dez carregadores. Faça um pacote e entregue no meu gabinete.

— Sim, meu general.

 

ÀS OITO E MEIA, Schellenberg foi buscar Heydrich a casa, no Zehlendorf, o bairro chique de Berlim. Iam num dos Mercedes do departamento especial, com dois homens uniformizados das SS sentados à frente, do outro lado da divisória de vidro.

À medida que seguiam para o centro da cidade, Heydrich parecia aborrecido.

— O tio Heini — disse, referindo-se a Himmler pela alcunha irreverente pela qual era conhecido dentro das SS — não estava propriamente a ser atencioso quando interrompeu a minha sugestão de lhe arranjar guarda-costas. A não ser que me engane, terá um par de rufias da Gestapo, escolhidos a dedo, a respirarem-lhe no pescoço.

— E a informarem o Reichsführer três vezes por dia, por telefone, sobre todos os movimentos que faço — comentou Schellenberg.

— Não sei porquê, mas numa altura em que as coisas nunca estiveram tão boas, tenho a sensação de que começam a correr mal para nós, para todos nós.

— E por que razão isso aconteceria?

Heydrich hesitou.

— Isto é uma confidência, Walter, mas a verdade é que tenho dúvidas pessoais em relação à Operação Leão-Marinho.

— Quer dizer que pensa que a invasão de Inglaterra não se vai realizar?— Tenho a desagradável sensação de que o momento já passou.

A decisão do Führer de fazer parar os Panzers no canal do Aa, na Bélgica, permitindo assim ao que restava da Força Expedicionária Britânica fugir para Dunquerque, foi um erro militar de primeira grandeza.

— E agora?

— A Rússia. Penso que as suas ideias se estão a virar para lá.

Acredito que já tenha em mente um plano eventual.

— E não acha que seja grande ideia?

— Você acha?

Schellenberg encolheu os ombros.


— Se quer a minha opinião, diria que o problema de uma campanha russa são as distâncias ilimitadas, linhas de abastecimento com milhares de quilômetros de comprimento, o Inverno cruel.

Veja o que aconteceu com Napoleão.

— Eu sei — disse Heydrich. — Tenho pesadelos sobre isso. Passavam agora ao longo da Kurfürstendamm e ele olhou pela janela. — Já não é o que era nos velhos tempos, já nada é. Estive no Teatro Gloria-Palast, na estreia do Anjo Azul. em 1930. Que sensação quando Dietrich apareceu no palco. A multidão ficou louca.

Pode acreditar, Walter, as pernas dela eram a oitava maravilha do Mundo.

— Posso imaginar — disse Schellenberg.

— Só podemos esperar que este Jardim e a sua Hannah Winter nos possam oferecer uma noite de entretenimento decente — disse Heydrich. — Seria bom para variar.

 

HANNAH estava completamente pronta para o primeiro espetáculo e foi procurar o tio Max, que não via desde a noite anterior.

Encontrou-o a trabalhar no seu escritório.

Beijou-o no topo da cabeça.

— Teve um bom dia?

— Não foi mau de todo. — Voltou-se e segurou-lhe nas mãos. E sobre aquilo de que falamos ontem à noite, Hannah? Vais fazer ' como eu te pedi? Vais-te embora com Connie e os rapazes na segunda-feira.

— E o tio?

— Seguirei logo que puder.

— Tio Max, o tio é um judeu numa cidade onde os Judeus são mais maltratados do que jamais o foram nos últimos dois mil anos.

— Sou americano, minha querida, e tu também. Eles não querem sarilhos com o tio Sam, portanto tratam-nos de uma maneira um pouco diferente.

Ela abanou a cabeça.

— Passam-se aqui mais coisas do que eu estou a entender. Muitas mais.

— Faltam vinte minutos para o espetáculo — disse ele. — Faz-nos café, como uma menina-bonita.

Ela dirigiu-se para a pequena cozinha que confinava com o escritório, deixando a porta entreaberta. Acendeu o gás do fogão e estava a encher a cafeteira quando bateram à porta do escritório.

Esta abriu-se e ouviu o tio a exclamar em alemão:

— Irene! Não lhe disse já para não vir aqui?

— Não tinha outra hipótese, Max. Aconteceu hoje uma coisa muito especial.

Hannah colocou-se de modo a poder ver através da porta entreaberta. Irene Neumann desabotoou o casaco, levantou a saia e tirou da meia a cópia dobrada do relatório Windsor.

— Hoje fui colocada temporariamente na sala de fotocópias.

Tive de fazer cópias disto para Heydrich. É o relatório de um encontro entre Schellenberg e Ribbentrop respeitante a uma conspiração para raptar o duque de Windsor.

A porta da cozinha abriu-se e Hannah entrou na sala. Irene Neumann ficou pálida.

— Oh, meu Deus! — disse.

— Não faz mal. A minha sobrinha Hannah, Fräulein Neumann. Inteiramente digna de confiança. Agora, deixe-me ver isso.

Leu rapidamente o relatório, depois passou-o a Hannah.

— Agora já sabes. Isto é o tipo de coisa que me prende aqui.

O cérebro de Hannah parecia entorpecido com o choque. Começou a ler enquanto Irene Neumann e seu tio falavam num tom baixo. Ouviu a mulher dizer: — Estará Moscou interessada?

— Talvez. Por outro lado, talvez consiga passá-lo através da Embaixada Americana. Mas é difícil. A Gestapo vigia constantemente o local. Agora é melhor ir-se embora. — Beijou-a na face. — Tome cuidado consigo, Irene. Eu depois digo qualquer coisa.

Quando Irene Neumann saiu pela porta do palco, tinha começado a chover. Parou para abotoar o casaco, procurou uma velha boina num bolso e pô-la.

Havia um candeeiro de rua no fim da ruela que dava ao homem dos SD, de vigilância dentro de um camião de entregas estacionado, uma clara visão dela ao andar na sua direção. Conseguiu tirar várias fotografias antes de ela voltar para a rua principal e desaparecer nas multidões da noite.

— Tio Max, o tio é comunista? — perguntou Hannah.

— Os rótulos — respondeu ele — não têm qualquer sentido hoje em dia. A única coisa que importa é de que lado é que se está. Ouve, tenta entender. Em Nova Iorque, depois de vinte e cinco anos, eu era dono de um hotel e dois clubes noturnos. Tudo pago, e tinha meio milhão de dólares no banco, aos quais não sabia o que fazer. Então, envolvi-me com uma organização sionista que tentava fazer algo ' acerca daquilo que estava a acontecer ao nosso povo na Alemanha. Regressei aqui em 1937 para ajudar a organizar uma linha de fuga para judeus. Gradualmente, deixei-me arrastar para o outro lado das coisas. A resistência socialista, pela sua própria natureza, tem ligações com Moscovo.

— E Fräulein Neumann?

— Irene é uma comunista dedicada. Não é filiada, é aquilo que eles chamam uma "adormecida". Acredita verdadeiramente que Karl Marx andava sobre a água e detesta os nazis. É empregada de escritório no quartel-general da Gestapo na Prinz Albrechtstrasse. Existem pessoas como ela em lugares de confiança por todo o país. Ficarias espantada.

— E isto? — Mostrou o relatório.

— Não te disse que Schellenberg era importante?

— Mas esta coisa de tentar convencer o duque de Windsor a , aliar-se com a causa nazi. É um absurdo. Ele nunca faria uma coisa dessas.

— Concordo contigo, mas as instruções de Schellenberg pare cem bastante reais. Se for considerado necessário, ele deve raptar o duque e a duquesa. — Sorriu. — Vês, minha querida, agora é mais importante do que nunca que partas daqui na segunda-feira e sigas caminho para Lisboa.

— Levando isto comigo?

— Seria melhor se o memorizasses.

De repente, Hannah ficou presa de uma excitação feroz.

— Sabe, tio Max, ser judia nunca teve grande significado para mim até vir para cá e ver como os Judeus são tratados. A mim tem-me corrido tudo bem. Boas roupas, um emprego, passaporte americano. Mas tenho sido obrigada a passar de lado, enquanto senhoras idosas com estrelas amarelas no casaco são atiradas para a sarjeta por animais de uniforme. Seria muito agradável contra-atacar, para variar.

— Então farás isto?

— Por que não? — Dobrou o relatório, levantou a saia e colocou-o na meia, como Irene Neumann tinha feito.

Bateram à porta e Vogel, o chefe de mesa, espreitou, segurando um ramo de rosas encamadas.

— Pensei que gostasse de saber que temos gente distinta hoje à noite.

— E quem é essa gente? — perguntou Max Winter.

— Heydrich em pessoa e o general Schellenberg. — Vogel entregou as rosas a Hannah. — São para si, com os cumprimentos do general Schellenberg, que pergunta se pode encontrar-se com eles a seguir ao espetáculo.

 

O JARDIM não estava particularmente cheio. Vogel tinha posto Heydrich e Schellenberg numa mesa que estava normalmente reservada para convidados da gerência.

— Champanhe — disse Heydrich. — Krug. Duas garrafas e ponha mais no gelo.

— Com certeza, general — disse Vogel, apressando-se.

Heydrich olhou em redor. Como era costume nestes clubes, havia várias jovens sozinhas sentadas no bar. Estudou-as com olhos de conhecedor.

Vogel voltou com o champanhe e Heydrich disse:

— A loura, a terceira a contar da ponta do bar. Diga-lhe para vir aqui.

A moça veio imediatamente. Heydrich não lhe perguntou o nome. Disse-lhe apenas para se sentar e encheu-lhe um copo com champanhe. Depois, puxou-lhe a saia para trás e pôs-lhe a mão nos joelhos sobre as meias de seda enquanto falava com Schellenberg.

Connie e os seus rapazes tocavam Some of these Days, e Heydrich marcava o ritmo na borda da mesa com os dedos da outra mão.

Então, ouviu-se a voz do tio Max e pouco depois Hannah apareceu no palco e começou a cantar.

Muitos dos seus números eram cantados em inglês. O seu repertório consistia em músicas populares do tempo, incluindo That Old Feeling e Time on My Hands, e acabou com uma belíssima interpretação de These Foolish Things, com todos os clientes a aplaudirem de pé.

Schellenberg estava totalmente absorvido e encontrava-se de pé a aplaudir quando olhou para baixo e viu Heydrich, ainda sentado, com um braço em volta da moça, a olhar para ele de sobrancelhas franzidas.

Quando os aplausos acabaram, Heydrich disse:

— Tenha cuidado, Walter, está a deixar-se levar pelo entusiasmo. Parece-me que gosta dela ... talvez demasiado.

Schellenberg acenou com a cabeça para Vogel, que foi falar a ' Hannah. Ela veio até à mesa. Schellenberg disse:

— Foi maravilhosa ... a sério.

Apertou as suas mãos com força por um momento e ela respondeu: — Obrigada. Gosto de cantar e isso é normalmente agradável para a audiência.

— General Heydrich, posso apresentar-lhe Fräulein Hannah Winter?

Heydrich não se incomodou a levantar-se.

— Excelente, Fräulein. — Falou de um modo frio, quase ofensivo. Disse para Schellenberg: — Walter, decidi encurtar a minha noite. Levo o carro e mando-o para buscá-lo ... se quiser ficar, claro.

— Sim, penso que ficarei.

— Como queira. — Heydrich levantou-se, agarrando firme mente a moça loura por um braço. — Fräulein Winter, foi um prazer.

Hannah e Schellenberg viram-nos partir. Depois, sentaram-se e ele encheu-lhe um copo de champanhe.

— Tem outro espetáculo?

— Sim, dentro de pouco tempo.

— Posso acompanhá-la a casa depois?

Ela pousou a mão na perna, consciente do relatório dobrado que tinha na meia. Dava-lhe uma estranha sensação de poder sobre ele, portanto sorriu e disse que sim, e teve de novo aquela profunda sensação de excitação.

Ele pegou-lhe na mão e disse gentilmente.

— Conhece uma música chamada Moonlight on the Highway?

— Sim, conheço.

— É a minha favorita. Canta-a para mim?

— Se quiser. — Levantou-se e foi embora.

Max esperava-a impacientemente no camarim.

— O que aconteceu, pelo amor de Deus?

— Nada de especial. Neydrich foi antipático. Schellenberg foi bastante simpático. Ofereceu-me champanhe e pediu para me levar a casa.

— E que disseste?

— Que sim.

— És doida.

— Nem por isso. Estou intrigada, é tudo.

Bateram à porta e Connie espreitou.

— Cá vamos nós outra vez.

Quando ela ia a sair, o tio disse-lhe:

— A propósito, dás-me o teu passaporte? Vou arranjar o visto e o dinheiro amanhã de manhã.

— Está na gaveta de cima do meu toucador — respondeu ela, e saiu.

O segundo espetáculo teve ainda mais êxito do que o primeiro e acabou, como Schellenberg tinha pedido, com a maravilhosa Moonlight on the Highway.

Ela voltou ao camarim para se mudar e, quando finalmente saiu do clube, Schellenberg estava à sua espera, ao lado do Me>-cedes preto.

— Importa-se se formos a pé até minha casa? — pediu ela. — Ajuda-me a descontrair.

— De maneira nenhuma. — Acenou com a cabeça ao motorista e, quando começaram a descer a rua, o Mercedes deslizou atrás deles.

— Nova Iorque, Paris, Berlim — disse ela. — Todas diferentes durante o dia, mas à noite têm o mesmo cheiro fresco. A mesma chuva levada pelo vento.

— E sempre a sensação de que ao virar de uma esquina algo de estranho e excitante espera por nós.

— É exatamente isso — disse ela, e segurou-lhe no braço.

— Os vinte anos eram uma boa idade — disse ele. — Podia cheirar-se o estimulante frio mordente que pairava no ar nas noites de Outono e acreditar verdadeiramente que a vida estava cheia de possibilidades infinitas.

Continuaram em silêncio durante algum tempo, e depois ela disse: — Você não é como Heydrich ... como os outros. Não compreendo.

— É muito simples — respondeu. — Primeiro fui estudante de Medicina, depois tornei-me advogado. Falava várias línguas e, contudo, não havia trabalho para mim ... nem para os milhares de jovens alemães como eu. Se tivesse podido fazer o que queria, teria ido para o teatro, porque tenho a sensação de ser um ator nato.

Portanto, alistei-me na companhia de teatro máxima ... as SS.

— Essa explicação não chega.

— Era um emprego ... era uma bela farda. Era ter o respeito das pessoas, o que nunca tinha acontecido antes.

— Respeito para atirar velhotas judias para a sarjeta? Para dirigir campos de concentração? Pensei que essa fosse a principal . função das suas SS.

Tinham chegado ao apartamento e ele disse: — Hannah, é fácil subir no carrossel. Já não é tão fácil sair quando ele está em movimento. Creio que isto seja verdade para a maior parte dos Alemães atualmente.

— Então, tenho pena por ti.

Voltou-se e subiu as escadas em frente a sua casa a correr. Schellenberg ficou ali por um momento, depois dirigiu-se ao Mereedes e inclinou-se para a janela.

— Podem ir para casa, rapazes. Vou a pé.

Começou de novo a chover, e ele virou para cima a gola do casaco, meteu as mãos nos bolsos e começou a andar com uma ex pressão sombria.


CINCO

ÀS 10 HORAS da manhã seguinte, Heydrich estava à secretária, ditando cartas a Frau Huber, quando Schellenberg entrou com uns dossiers.

— Tenho de estar na reunião semanal do Führer, na Chancelaria, às onze horas — disse Heydrich. — Isso não pode esperar?

— Não — disse Schellenberg. — Prioridade absoluta, o que significa que já vai um memorando a caminho de Himmler.

Heydrich franziu as sobrancelhas. Parecia não ter dormido, e a palidez da sua cara era acentuada pelo uniforme de gala completamente preto.

— Continue.

— O caso Winter — disse Schellenberg. — Como sabe, temos tido uma equipa de fotógrafos de vigilância a trabalhar no clube há algum tempo. Ontem à noite, apanharam uma cara nova.

Pousou um conjunto de fotografias na secretária. Mostravam Irene Neumann a sair da porta do palco do Jardim.

— Conhecemo-la? — perguntou Heydrich.

— Sim. É empregada de escritório no departamento central.

Heydrich olhou para ele, espantado.

— Quer dizer aqui?

— Receio que sim. Aqui está a ficha dela.

Heydrich abriu o dossier. Tinha, como habitualmente, duas fotografias agrafadas na parte de dentro da capa. Frau Huber. que estava calmamente sentada ao lado da secretária, viu-as claramente e disse: — Peço desculpa, general Heydrich. Eu conheço essa mulher. Vi-a ontem na sala de fotocópias em serviço temporário.

— Tem a certeza?

— Oh, sim. Tinha acabado o relatório confidencial sobre a reunião entre o general Schellenberg e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Von Ribbentrop. Fui mandar fazer as três cópias, como é habitual. Como não a reconheci, perguntei-lhe quem era.

Houve um silêncio pesado. Schellenberg disse baixinho:

— Ficou ao pé dela enquanto fazia as cópias?

— É claro que sim, general. É o procedimento normal com documentos confidenciais — mas depois lembrou-se e a sua expressão mudou.

— Continue! — disse Heydrich. — A verdade.

Ela murmurou: — O telefone tocou e fui atender. De fato. Fräulein Neumann levou depois as cópias ao meu gabinete.

Heydrich bateu com força com o punho fechado na mesa.

— Desapareça da minha vista. Está acabada ... acabada, ouviu?

Ela saiu da sala rapidamente a chorar. Quando a porta se fechou, Heydrich disse: — Então, a Neumann pode ter feito uma cópia extra do relatório Windsor.

— Quase de certeza — disse Schellenberg.

-— Então é o fim daquele judeu, Max Winter — -— disse Heydrich raivosamente. — E da sobrinha.

— Oh, não sei. — Schellenberg respondeu mais por reflexo do que por outra razão qualquer. — Não existe uma relação necessária entre ela e as atividades do tio. Tenho-a debaixo de vigilância, por princípio, naturalmente, mas ...

— Realmente? Bem, receio não partilhar da sua opinião. — Heydrich deu uma leitura rápida na ficha de Irene Neumann e abanou a cabeça com descrença. Completamente limpa. O pai dela foi morto no Somme, Cruz de Ferro, Primeira Classe. E o tio dela, um piloto de avião de combate com Richthofen. Foi distinguido com a Max Azul. Vive sozinha com a mãe. De total confiança. — Heydrich estava confuso. O telefone interno tocou e ele atendeu. — De imediato, Reichsführer.

Pousou o fone, suspirando. — Himmler quer-nos a ambos ... já. E quer o processo Neumann.

 

HIMMLER examinou a ficha de Irene Neumann em silêncio, enquanto Schellenberg e Heydrich estavam de pé, em frente à secretária, como miúdos de escola.

Heydrich disse: — Não consigo compreender, Reichsführer. De confiança total. Uma folha de serviços impecável.

— O que é pouco relevante — disse Himmler. — O fato de a terem considerado de absoluta confiança mostra uma falta de discernimento que considero espantosa. Saiba-me quem foi o oficial que deu a autorização e transfira-o imediatamente para uma unidade penal.

— Claro, Reichsführer — disse Heydrich, subserviente.

— Sim, a falha no passado da mulher é evidente para qualquer pessoa com percepção. De acordo com a ficha, foi para Paris em 1921 para fazer um trabalho de pós-graduação em francês. Lembra-se de que a Sorbonne, nessa altura, era um viveiro de comunistas?

— Agora compreendo — disse Heydrich. — É claro. Ela pode ser uma espia dos nossos amigos de Moscovo.

— Eu diria que é óbvio. — Himmler virou-se para Schellenberg.

— Ela negará, naturalmente, mas acha que Fräulein Neumann tirou uma cópia do relatório Windsor?

— Acredito que sim, Reichsführer. Temos tido uma unidade de vigilância a trabalhar no Jardim há alguns meses e ela nunca tinha aparecido antes. Uma agente como ela, colocada num lugar tão importante, tem de ser utilizada com cuidado. A razão do seu aparecimento ontem à noite só pode dever-se a um caso da máxima urgência.

— Concordo inteiramente — disse Himmler. — Então, Winter pode ser agora preso. E esta sobrinha dele também.

Schellenberg falou de novo impulsivamente.

— Devo chamar a sua atenção, Reichsführer, de que, na base da minha experiência pessoal, penso que a jovem esteja inteiramente inocente neste caso.

Fez-se silêncio na sala durante uns momentos. Finalmente, Himmler falou:

— Espere lá fora. Quero falar a sós com Heydrich.

Schellenberg saiu. Quando a porta se fechou, Himmler disse:

— Ele deixou-se envolver com esta moça. Estou certo?

— Reichsführer, Walter Schellenberg é o oficial mais qualificado ...

— Não lhe pedi referências. Perguntei-lhe se, na sua opinião, ele se deixou ou não afeiçoar a esta moça, Winter.

— Muito bem. Lamento dizer que penso que sim — respondeu Heydrich.

— Já calculava. Nestas condições, não deve tomar mais parte neste assunto. Eu sugeria que você tratasse pessoalmente deste caso, assim como do interrogatório de Irene Neumann.

— Com o maior dos prazeres, Reichsführer. — Depois, Heydrich hesitou. Frio e calculista por natureza, raras vezes se preocupava com alguém. Contudo, Schellenberg era diferente. — Reichsführer, espero que isto não signifique qualquer alteração da sua atitude em relação a Schellenberg. A sua lealdade está acima de qualquer suspeita, acredite-me, e ele tem prestado grandes serviços ao Reich.

— Sem dúvida alguma. — Himmler inclinou-se para trás. — Tem todas as qualidades. Uma inteligência brilhante, um soldado corajoso, culto, engenhoso. Humano por natureza. No campo da contra-espionagem, um dos cérebros mais brilhantes da Europa. É

também um louco romântico.

— Mas a sua folha de serviços é impecável. Um bom membro do partido.

— O que não significa nada. Qualquer pessoa pode ter esse tipo de lealdade. — Levantou a mão. — Não se preocupe. É um homem demasiado bom para nos desfazermos dele ... por enquanto. Agora, vamos chamá-lo.

No momento seguinte, Schellenberg estava de novo diante da secretária.

— Decidi que irá para Espanha, amanhã, no avião-correio especial — disse Himmler. — Nestas circunstâncias, entregará a Heydrich todas as informações importantes que digam respeito ao caso Winter. '

— Como queira, Reichsführer. — Schellenberg controlou a sua raiva, mas a verdade era que agora não podia fazer nada por Hannah Winter.

 

IRENE NEUMANN estava sentada diante da secretária de Heydrich, com as mãos juntas firmemente no colo, a cara sem expressão. Dois homens das SS guardavam a porta.

Heydrich entrou. Sentou-se atrás da sua secretária e abriu o dossier.

— Então, Fräulein Irene Neumann, sabe por que está aqui?

— Não faço ideia nenhuma.

Ele empurrou para o meio da secretária as fotografias.

— Você, a sair ontem à noite do Jardim.

Por um momento apenas, a frieza de ferro dela foi-se abaixo, e isso foi visível na sua cara.

— Sim, bem pode ficar desanimada. Este é o dia que tem receado todos estes anos. — Levantou-se e ficou à janela, de costas voltadas para ela. — A cópia do relatório Windsor que roubou. Mostrou-o a Winter, claro. Esse foi o objectivo da sua visita bastante imprudente. A sobrinha dele estava lá nessa altura?

— Não tenho nada a dizer.

— Não faz mal. Dentro de pouco tempo, eles vão ambos juntar-se a si.

Ela não respondeu e ele deu a volta à secretária, agarrou-lhe gentilmente no queixo com uma mão, levantando-lhe a cabeça.

— No fim, irá contar-me, Fräulein. Prometo-lhe.

 

HANNAH saiu durante algum tempo de manhã. Quando voltou para o apartamento, teve um telefonema do tio Max pedindo-lhe para se encontrar com ele no clube. Isto surpreendeu-a, pois durante o dia o clube costumava estar fechado.

Quando chegou, encontrou a porta do palco aberta. Ao entrar, ouviu uma voz a chamar.

— És tu, Hannah? — O tio Max apareceu à porta do escritório. — Fecha a porta e tranca-a.

Fez o que ele lhe pedia, depois entrou no escritório.

— Por que queria me ver?

— É sobre a viagem. O que fizeste com o relatório Windsor?

Ela bateu de leve na perna.

— Ainda está na meia, embora tenha passado umas horas a decorá-lo. Quer que o destrua?

— Não sei — disse ele. — Uma história como esta pode não ser levada a sério sem provas. Deixa-me pensar sobre isso.

— Tem o meu passaporte?

— Claro. — Tirou um envelope grande do bolso de dentro do casaco e mostrou o passaporte. — Toma. É melhor verificares.

— Mas isto é francês — disse ela. — Deve haver um engano.

— Dá uma olhadela.

Ela abriu-o. A fotografia habitual estava lá, mas tinha o nome de Rose Lenoir, nascida em Paris.

— Não compreendo.

— Mandei fazer por um amigo que é especialista nestas coisas. Se tiveres alguma dificuldade ao tentar atravessar para Espanha ou Portugal como Hannah Winter, trocas de identidade. O teu francês é bom. O teu verdadeiro passaporte também está aqui, mais os bilhetes de comboio e dinheiro suficiente, francês e espanhol, para te aguentares e uma carta de crédito de dois mil dólares do American Express em Lisboa.

— Parece que pensou em tudo — disse ela.

Bateram à porta do palco. O tio Max meteu o envelope no bolso, abriu a gaveta da secretária e tirou para fora uma pistola automática Walther. Dirigiu-se para a janela e espreitou. Um jovem de macacão azul assobiava. Trazia uma grande pasta de operário de couro.

Max, seguido por Hannah, foi até à passagem. Abriu a porta, deixando a corrente de segurança posta.

— Que deseja?

— Encanador ... qualquer coisa errada na água quente da cozinha. Herr Vogel telefonou esta manhã.

Max meteu a Walther no bolso, soltou a corrente e deixou-o entrar.

— A cozinha é a primeira porta à sua esquerda.

— Está bem, deixe isso comigo. — O jovem tinha olhos azuis. Piscou descaradamente o olho para Hannah e desapareceu.

Max e Hannah voltaram para o escritório. De repente, ouviu-se o barulho de um motor lá fora na ruela, o guinchar de travões, o som de passos.

— Oh, meu Deus — disse ele, e agarrou Hannah pelos ombros.

— Se acontecer alguma coisa, se ficarmos separados, estarei numa empresa de pedreiros chamada Irmãos Hoffer, na Rehdenstrasse. É perto do Jardim Zoológico. Agora, vem comigo e faz tudo o que eu disser.

Quando seguiam pelo corredor, apareceu o jovem de olhos azuis vindo da cozinha. Segurava uma metralhadora Erma da Polícia.

— Muito bem, contra a parede. Nada de disparates.

Começaram a bater à porta, o jovem olhou rapidamente para lá e o tio Max atirou-se sobre ele. O homem virou a Erma ao contrário e atingiu Max abaixo das costelas. Ele caiu com um grito de dor. O jovem ficou por cima dele, as costas voltadas para Hannah.

— Sabes, tinha-te dado na cabeça se não fosses tão valioso.

Havia um pesado candeeiro de porcelana em cima do ficheiro, ao lado da porta. Hannah pegou-lhe com ambas as mãos e partiu-o com toda a sua força na cabeça do homem, que caiu de joelhos.

Batiam cada vez mais à porta. O tio olhou para ela com uma máscara de dor na face. Hannah disse desesperadamente: — Tio Max, o que faremos?

Ele respirava com uma certa dificuldade.

— Ajuda-me a ir até à adega e trás isso contigo. — Acenou em direção à Erma.

Hannah pegou a arma com cuidado e ajudou-o a levantar-se.

Chegaram ao fim do corredor e ele começou a abrir a porta de metal que dava para as escadas da adega.

Atrás deles, a porta do palco tinha sido posta abaixo, e de repente a entrada estava cheia de homens das SS. Hannah virou-se e instintivamente levantou a Erma, carregando com o dedo no gatilho. Nunca tinha disparado uma arma na sua vida, e a Erma parecia um ser vivo nas suas mãos, desfazendo o gesso das paredes e obrigando os homens das SS a esconderem-se na ruela.

Continuou a disparar convulsivamente; a Erma saltava tão violentamente que ela caiu sobre o tio Max no momento em que ele conseguiu abrir a porta. Ele perdeu o equilíbrio e escorregou pelas escadas de madeira. Hannah tinha largado a Erma. Estava agora de joelhos e gritava.

— Tio Max, está bem? — Viu-o pôr-se de pé.

— Depressa! — chamou ele.

Uma mão agarrou o tornozelo dela quando tentou levantar-se.

Virou-se e viu que o jovem com aqueles olhos azuis tinha rastejado até ela.

— Oh, não, não vais — disse ele. Outros homens das SS estavam agora no corredor e correram a ajudá-lo.

Lá em baixo, Max ouviu os homens das SS e compreendeu que nada podia fazer por Hannah. Voltou-se e cambaleou até à divisão seguinte da adega, fechou a sólida porta de carvalho e trancou-a com dois ferrolhos de aço. Depois, seguiu pelo meio das filas de garrafas de vinho. Atrás dele, batiam furiosamente na porta, mas era demasiado tarde, pois tinha previsto exatamente esta situação e preparara tudo. Na terceira divisão da adega havia um armário de madeira. Lá dentro, tinha um chapéu, uma gabardina, uma grande lanterna e uma pasta contendo vários documentos falsos e dinheiro em divisas de vários países. Vestiu a gabardina, pôs o chapéu e empurrou o armário para um lado, fazendo aparecer um buraco na parede de tijolos. Pegou a lanterna e na pasta e atravessou com dificuldade, depois voltou-se para puxar o armário para o lugar. Um minuto depois, abria uma porta que dava para umas escadas que subiam para um pequeno pátio. Galgou os degraus e abriu o portão do pátio. A ruela estava completamente deserta. Fechou o portão e foi embora rapidamente.

 

NESSE MESMO momento, no Estoril, o duque e a duquesa de Windsor recebiam Primo de Rivera, marquês de Estella, que tinha vindo especialmente de Madrid para vê-los.

Quando os criados acabavam de levantar a mesa do almoço ao lado da piscina, Rivera olhou para o relógio.

— O tempo passa tão depressa em boa companhia, mas tenho de regressar a Madrid. — Voltou-se para o duque. — Será que Vossa Alteza Real poderia dispensar-me alguns minutos de conversa antes de eu partir? Em particular.

O duque mostrou-se vagamente surpreso, mas sorriu cortesmente, como sempre.

— Sim, por que não? Não vamos demorar, Wallis.

Passada meia hora voltaram. Rivera beijou a mão da duquesa, prometendo voltar novamente em breve, e partiu. O duque dirigiu-se para o terraço e inclinou-se sobre a balaustrada de mármore de cenho franzido.

— E então, que era? — perguntou a duquesa, colocando-se ao lado dele.

— Não tenho certeza. É realmente extraordinário. Ele soube da minha nomeação para as Bahamas através de fontes oficiais em Madrid. Tinha mesmo falado disso com Franco.

— Mas por que, David?

— Sabes, Wallis, ele insistiu para que eu não fosse. Disse que eu podia ainda ter um papel decisivo a desempenhar nos assuntos ingleses. Que seria melhor irmos para a Espanha, onde seríamos oficialmente bem-vindos.

— Preferias fazer isso?

— É demasiado complicado. Tudo indica que os Espanhóis não tencionam entrar na guerra ao lado dos nazis, mas podem perfeitamente utilizar os problemas de Inglaterra como uma desculpa para pedir a restituição de Gibraltar, e eu não quero de certeza vir a ser um peão num jogo desse tipo.

— Então, não confias em Rivera?

— Ele é um falangista de Madri e eu não confio neles mais do que em qualquer outro fascista. Não, pode haver mais implicações nisto, Wallis. Muito mais.

Os seus olhos enrugaram-se num sorriso e pôs um braço à volta da cintura dela.

— Contudo, existe nisto tudo uma certa excitação. Tenho que o admitir.


SEIS

 

A CASA era bem pequena, com as paredes de betão caiadas.

Havia uma lâmpada pendurada no tecto e uma cama de campanha de ferro pequena e estreita sem colchão. Uma tumba fria de betão branco.

Hannah estava sentada na beira da cama. com a mente tão entorpecida pelos acontecimentos que não era capaz de pensar. Havia em tudo uma sensação de sonho. como um pesadelo meio recordado pela manhã. Aquela luta desesperada no corredor do clube, a metralhadora a saltar nas suas mão?, um cheiro de queimado. E o tio Max? Onde estaria agora?

Heydrich espreitou através do orifício de observação e acenou para o perito de interrogatório da Gestapo.

— Muito bem, pode abrir.

O som dos ferrolhos a correrem não teve muito significado para Hannah. Ficou ali sentada, a olhar para a parede, de maneira que Berg teve de a puxar para se pôr de pé.

Heydrich acendeu um cigarro e ficou a olhar para ela, de pernas abertas. Vestia ainda o uniforme de gala, um diabo de preto, mas quando falou, a sua voz estava calma.

— É uma moça valente, não é? Três dos meus melhores homens mortos. Mais dois no hospital. Treinaram-na bem. — Voltou-se para Berg. — Dispa-a. Exame total. Voltarei dentro de minutos.

Quando voltou à cela, Hannah estava de pé no meio do quarto, nua, com as mãos cruzadas à frente. A sua roupa estava dobrada e arrumada sobre a cama. Não mostrava qualquer emoção.

— Encontramos ouro — disse Berg a Heydrich. — Tinha isto numa das suas meias.

Heydrich desdobrou a cópia do relatório Windsor.

— Excelente. Agora, sim, estamos a chegar a algum lugar. — Depois, agarrou selvagemente o cabelo de Hannah e sacudiu-lhe a cabeça de um lado para o outro. — O teu tio, onde é que ele foi?

Ela não sentia qualquer dor. A sua voz parecia vir de uma grande distância, como um eco indistinto.

— Não sei.

Heydrich empurrou-a para o lado.

— Veste-te.

Berg disse em voz baixa: — Ela ainda está em estado de choque.

— Então, temos que a abanar para sair do estado de choque, não temos? Vá ver o que se está a passar com a Neumann. Já lá vou ter.

Berg saiu e Heydrich ficou ali por um momento a ver Hannah vestir-se, ainda sem expressão no olhar. Ela tinha, de fato, um corpo excelente, disse para consigo próprio ao sair.

 

HIMMLER olhou para cima quando Schellenberg entrou no gabinete.

— Então, que coisa deplorável, este caso Winter — disse o Reichsführer. — Heydrich acabou agora de vir aqui. Três mortos. Dois feridos. Uma jovem surpreendente. Obviamente que estava enganado acerca dela.

Schellenberg deu-lhe a resposta que ele estava à espera.

— Receio que sim, Reichsführer.

Himmler disse: — Um pouco de humilhação é bom para a alma, mas não o trouxe aqui para discutir isso. Selecionei dois homens da Gestapo para o acompanharem, até Lisboa como guarda-costas.

Falou rapidamente no telefone interno. Um pouco mais tarde, a porta abriu-se e entraram dois homens. Eram altos e fortemente constituídos e vestiam ternos cinzentos convencionais. Um era careca, e o outro usava óculos. Schellenberg conhecia o tipo.

Ex-oficiais da Polícia, mais habituados a movimentarem-se entre criminosos do que qualquer outra coisa.

— Sturmbannführer Willi Kleiber — disse Himmler, e o de óculos bateu com os calcanhares — e Sturmscharführer Gunter Sindermann. Conhecem o general Schellenberg.

— Muito prazer, general — disse Kleiber.

— Expliquei ao major Kleiber e ao sargento-mor Sindermann a razão da sua visita a Lisboa — disse Himmler. — Sugiro que lhes mostre a ordem do Führer sob a qual vão agir.

Schellenberg tirou-a da carteira. Kleiber leu-a sem expressão na cara, mostrou-a a Sindermann e depois devolveu-a.

— Já podem ver, meus senhores, que qualquer ordem do general Schellenberg é uma ordem do próprio Führer.

— Compreendido, Reichsführer.

— Excelente. — Himmler sorriu para Schellenberg. — Não é preciso ficar mais tempo; com certeza que tem coisas para tratar.

Depois de Schellenberg ter saído, Himmler voltou-se para Kleiber.

— O senhor é um homem religioso?

— Nem tanto, Reichsführer.

— O general Schellenberg é. Teve uma educação católica tradicional. Pessoas como ele tendem a ter uma atitude moralista, o que pode perturbar o seu raciocínio. Veem as pessoas como mais importantes que as causas.

— Sim, Reichsführer.

— Neste caso Winter, o general parece mais preocupado com a jovem envolvida do que com os prejuízos que as atividades do seu tio causaram ao Reich. Para ser franco, Kleiber, o general Schellenberg é um excelente oficial. Contudo, de vez em quando, falta-lhe uma certa convicção, e eu não estou totalmente satisfeito com a sua atitude em relação ao caso Windsor.

— Compreendo, Reichsführer.

— Há alturas, Kleiber, em que uma pessoa deve estar preparada para ser impiedosa, se necessário. Conto consigo para ver que Schellenberg o seja. Como vosso Reichsführer, tenho o direito de exigir a vossa inquestionável lealdade neste assunto.

— E tem-na, Reichsführer, prometo-lhe — disse Kleiber.

 

HEYDRICH abriu a porta da cela de Hannah e entrou. Ela estava novamente sentada na beira da cama, completamente vestida.

— Muito bem — disse ele. — De pé. Siga-me.

Ela hesitou e ele agarrou-a por um braço e puxou-a porta fora.

Empurrou-a ao longo do corredor pintado de branco até à porta de outra cela, onde fez deslizar para trás uma pequena portinhola de metal. Colocou a cara de Hannah contra a abertura, de modo a ela ter de olhar para dentro.

Irene Neumann, com o vestido rasgado até à cintura, estava deitada sobre um banco, enquanto dois homens das SS fortemente musculados lhe batiam nas costas com cassetetes de borracha. A mulher arqueava-se em agonia. O major Berg estava na cela, a observar.

Hannah voltou então de novo à vida, sentindo o horror como um soco na cara.

— Estás a ver? — disse Heydrich. — Ela tinha apenas que responder a algumas perguntas sobre o teu tio, mas parece que prefere morrer.

Empurrou de novo a cara de Hannah para a abertura e ela lutou para se libertar.

— Não, deixem-na! Diga para pararem.

— Está bem, responde às minhas perguntas por ela.

— Não, eu não sei nada.

— Vamos ver, está bem? — Abriu a porta e disse para Berg:Alto. — Voltou-se para Hannah. — Agora, cada vez que não responderes, começaremos de novo. Serás o instrumento da dor.

Hannah estava agora aterrorizada e isso era evidente na sua expressão.

Heydrich disse: — Tu e o teu tio. Têm trabalhado juntos desde que chegaram da América?

— Não — respondeu ela.

— Então como explicas a cópia do relatório Windsor?

— Foi um acidente. Escutei Fräulein Neumann a falar com ele.

— A sua cabeça vagueava desesperadamente, procurando a melhor maneira de imaginar as respostas. O que dar e o que esconder.

— Não tinhas conhecimento até então de que o teu tio trabalhava contra o Reich"

— Juro que não.

— E o relatório Windsor? Por que razão estavas na posse dele?

— O meu tio tinha já tratado do meu regresso para a América, via Lisboa, e portanto pensou que eu podia levar o relatório ao duque de Windsor.

— Leste-o? Conheces o conteúdo?

A sua mente disse-lhe que, se respondesse honestamente a esta pergunta, talvez ele acreditasse também nas suas mentiras.

— Sim, memorizei-o.

— Onde está o teu tio agora?

— Não sei.

Estalou um dedo e os cassetetes começaram novamente a bater.

Ela agarrou-lhe no braço.

— É a verdade, juro. Ele fugiu, me deixou. Não tivemos tempo de falar.

E ele acreditou nela, olhando para a sua face contorcida, consciente, com uma impetuosa alegria, do poder que tinha sobre ela.

Acenou para Berg. Eles pararam de bater.

— E os músicos negros? Estavam de algum modo envolvidos?

— Não.

— Ótimo. — Virou-se para Berg. — Leve novamente Fräulein Winter para a sua cela. Depois, dê à outra o tratamento médico de que precisar. Um banho quente, comida. Sabe o que fazer.

 

A SALA de espera nas instalações da Prinz Albrechtstrasse estava completamente cheia com o pessoal do Jardim, que estava a ser interrogado separadamente. Connie Jones, Billy Joe Hale e Harry Gray falavam num canto. Já tinham passado pelo processo de interrogatório e não tinham ficado muito satisfeitos.

— Pedi para falar com alguém da Embaixada Americana. — dizia Connie baixinho —, mas não serviu de nada. Tudo isto me cheira mal. Todas aquelas perguntas sobre Hannah e Max.

— A maneira como vejo as coisas — disse Harry Gray — é que teremos muito sorte em sair daqui inteiros.

Heydrich entrou e atravessou a sala para o gabinete. O oficial das SS que estava atrás da secretária pôs-se de pé.

— Alguma coisa? — interpelou Heydrich.

— Todos limpos, general. Kleiber interrogou os negros e ficou convencido de que não sabiam de nada. Devem partir para Madri, via Paris, amanhã de manhã. Tenho os bilhetes de trem e os passaportes.

— Muito bem — disse Heydrich —, mantenha-os presos durante a noite, depois ponha-os no trem daqui para fora. Deportação oficial por associação com inimigos do Estado. — Heydrich voltou-se e saiu.

Dirigiu-se imediatamente ao gabinete de Schellenberg, onde o encontrou a assinar cartas.

— Então, Walter, enganou-se acerca da moça. Ia levar o relatório Windsor para Lisboa para o entregar ao duque.

— Não foi planejado — disse Schellenberg. — Eu sabia que ela ia para Lisboa. Os agentes de viagem informaram-me da reserva, como sempre o fazem quando se trata de estrangeiros. Isso foi antes de o relatório ter sido roubado. Antes da minha entrevista com Ribbentrop.

— Quer dizer que acredita que ela pode ser apenas um instrumento inocente? Éuma possibilidade, mas terá que ser novamente interrogada. Eu próprio tratarei disso.

Schellenberg sabia o que isso significava. Compreendia que Heydrich tinha um prazer perverso em contar-lhe, já que os seus hábitos sexuais eram bem conhecidos.

— Efetivamente — continuou Heydrich —, vou fazer-lhe um favor. Traga-a até mim. Fale com ela. Veja se ela compreende. Pode ser que o ouça. Pode livrá-la de muitas aflições.

— Como queira — disse Schellenberg. — A sala verde?

— É claro — respondeu Heydrich, sorrindo.

 

QUANDO a porta da cela se abriu e Schellenberg entrou, Hannah olhou para ele sem falar.

— Tem alguma coisa a dizer? — perguntou ele.

— A você não, nunca mais. Pensei que era diferente, mas fui idiota. De qualquer maneira, o que quer?

— Heydrich pediu-me para levá-la até ele.

Ela levantou-se, desanimada.

— Isso significa o que estou pensando?

— Em geral.

Ela seguiu-o pelo corredor e por umas escadas. Ele olhou para o relógio. Dez para as 7.

— Está ficando escuro.

— Que interessante.

— Oh, mas é. A organização das SS é meticulosa. Tudo tem hora.

Entraram no pátio, onde havia um guarda na porta da rua. — Precisamente às sete horas, todas as noites, um mensageiro da Chancelaria atravessa aquela porta com despachos para o Führer. — Subiam agora a escadaria que os levaria ao primeiro andar. — Sim — continuou Schellenberg —, a situação faz-me lembrar uma história fantástica que ouvi recentemente de Paris. Parece que uma jovem foi presa e levada para o quartel-general da Gestapo, na Rue des Saussaies. Alguém a deixou sozinha por um momento num gabinete. Aparentemente, pegou um dossiê e saiu. Esperou perto da sala até que um general qualquer saiu pela porta da frente e seguiu-o um momento depois, dizendo ao guarda que tinha um dossiê de que o general havia esquecido. Uma vez no exterior, fugiu rapidamente pela ruela mais próxima.

Hannah olhava espantada para ele, com os olhos muito abertos.

— Que espécie de homem é você? Não compreendo.

Ele abriu uma porta no alto das escadas e introduziu-a numa sala anexa ao gabinete de Heydrich. Estava pintada de verde e tinha uma mesa, alguns arquivos e um divã. Havia um relógio por cima de uma porta do outro lado.

— Olhe o relógio — segredou Schellenberg. — Um minuto para as sete. Dois minutos depois, seria a hora certa — sorriu. — Espero que saiba ver as horas.

Foi até à outra porta, bateu e abriu-a. Heydrich estava sentado à secretária. Levantou-se e atravessou imediatamente o gabinete.

— Ah, Walter, vejo que trouxe Fräulein Winter. Muito obrigado. Pode ir agora.

— Meu general.

A porta exterior fechou-se lentamente atrás de Schellenberg.

Heydrich ficou a olhar para Hannah com um ligeiro sorriso.

Tirou um cigarro da cigarreira e acendeu-o. Tinha todo o tempo do Mundo. Bem podia saboreá-lo. Atrás e por cima dele, o ponteiro dos minutos do relógio chegou às 7 e continuou. Heydrich disse: — Venha aqui. — Hannah hesitou; o pânico movia-se dentro dela. — Eu disse para vir aqui!

Ela avançou, mas quando chegou perto dele, o telefone tocou fortemente no seu gabinete. Ele praguejou em surdina, voltou-se, apressou-se para a mesa e pegou no fone.

— Sim? Que é?

Houve um longo momento de silêncio, e depois uma voz abafada perguntou: — Arquivo?

— Não, certamente que não. — Jogou o fone e regressou à sala verde. Estava vazia. Isto não era possível. Não podia ter acontecido — a ele não.

Abriu violentamente a porta e desceu correndo as escadas até à entrada.

— Viu uma moça? — perguntou ao guarda. — Bonita, de cabelo escuro. Saia de lã e blusa branca.

— Sim, meu general. Saiu há um minuto.

— Sem passe? Como conseguiu?

O guarda agora parecia assustado.

— Tinha uma pasta na mão. Perguntou se o mensageiro da Chancelaria já tinha saído. Respondi-lhe que tinha acabado de sair e ela disse que precisava alcançá-lo, pois tinha um despacho importante para o Führer.

Heydrich desceu as escadas correndo para a Prinz Albrechtstrasse. Era já quase noite. Não havia sinal de Hannah. Não tinha alternativa, claro. Teve que dar um alerta geral. Depois, foi procurar Schellenberg, que encontrou no seu gabinete ditando umas últimas cartas à sua secretária.

— Rua! — gritou Heydrich para a mulher. — Lá para fora, já! — Ela foi, pálida e assustada.

— Que aconteceu? — perguntou Schellenberg.

— Ela fugiu. Aquela cadela judia. Fui ao meu escritório atender o telefone; quando voltei, tinha desaparecido.

— Mas como é que passou pela porta principal?

— Aparentemente, saiu a seguir ao mensageiro da Chancelaria. Disse à sentinela que tinha outro despacho para ele.

— É de uma audácia descarada, tem de admitir isso.

Heydrich olhou-o, zangado.

— Walter, se pensasse por um momento que você tinha alguma coisa a ver com isto ...

— Deixei-a ao seu cuidado — disse Schellenberg. — Desde então, tenho estado a ditar cartas à minha secretária, como ela testemunhará.

O que não era totalmente verdade, pois quando ele lhe pedira um café, ela havia demorado pelo menos dois minutos para ir buscar a garrafa em sua sala, tempo mais que suficiente para ele ligar para Heydrich através da linha interna.

— Está bem. Está bem — disse Heydrich. — Mas que vou dizer a Himmler?

Bateram timidamente à porta e a secretária de Schellenberg espreitou.

— Então? — perguntou Heydrich. — O que quer?

— Peço desculpa, mas o Reichsführer está ao telefone. Quer vê-los a ambos, já.

 

UMA VEZ NA RUA, Hannah andou depressa, mas não demasiado, esperando a qualquer momento que uma voz a chamasse. Virou na primeira rua à sua direita e apressou-se.

Não tinha dinheiro para um táxi, claro, e teve de ir a pé até ao Jardim Zoológico, o que demorou quarenta e cinco minutos. Uma vez lá, perguntou o caminho para a Rehdenstrasse.

Era uma rua bastante pobre, ladeada de armazéns velhos e decadentes, ao longo do rio Spree. A meio caminho, havia um sinal numa vedação que dizia IRMÃOS HOPPFER — MONUMENTOS. O portão que dava acesso ao pátio estava aberto e Hannah entrou. Recuou horrorizada diante dos vultos fantasmagóricos que surgiram das sombras. Depois, compreendeu o que eram. Imagens religiosas, anjos e querubins de pedra entre um monte de cruzes.

Dirigiu-se para um armazém no outro lado do pátio. Via-se uma luz pálida por detrás de uma cortina na janela de cima. Havia uma porta estreita que abriu com um toque, e ela encontrou-se diante de um lanço de escadas de madeira.

 

NO PRINCÍPIO da guerra, a contra-espionagem alemã tinha desenvolvido uma sofisticada rede de unidades de radiogoniômetros móveis, capazes de procurar nas cidades principais da Europa Ocidental os transmissores secretos operados por organizações de resistência.

Já só restava operacional um desses transmissores em Berlim, e existia apenas porque, sob as ordens de Max Winter, as transmissões para Moscou eram feitas a intervalos irregulares e a partir de diferentes locais. O local atual era nos Irmãos Hoffer, onde existia apenas um irmão vivo — Otto, membro do Partido Comunista desde 1920.

Max tinha ido imediatamente para lá quando saíra do clube e mandara pedir o rádio que estava guardado noutro local. O operador, um novo recruta chamado Haupt, tinha-o entregado.

E então houve um erro terrível. Haupt ligara em corrente contínua por engano o aparelho, que trabalhava em corrente alternada, tomando-o inútil. Andava agora à procura de peças de substituição.

De fato, quando Max ouviu a porta a abrir-se, pensou que era Haupt a chegar. Chegou ao cimo das escadas e viu Hannah.

— Meu Deus! — exclamou. — Pensei que tivesses morrido.

 

HANNAH sentou-se a beber o café oferecido por Otto Hoffer, ouvindo a voz do tio, que estava ao telefone no quarto ao lado.

— Milagre — disse Otto Hoffer para ela. — Sair do quartel-general da Gestapo dessa maneira. Não há dúvida de que deixou aqueles porcos com cara de parvos.

O tio Max entrou no quarto.

— Está tudo tratado. Partirás para Paris de carro dentro de uma hora. De lá, para Espanha em correio especial. Em Madrid, podes apanhar um comboio para Lisboa sem problema.

— Mas como? — disse ela. — Parece tão simples.

— Há uma via clandestina que já utilizei muitas vezes para levar judeus importantes para fora de Berlim. As pessoas que contrato são escroques que fazem tudo apenas por dinheiro. Gosto disso. Significa que sabes exatamente com quem estás a lidar.

— Compreendo.

Ele tirou um casaco comprido de trás da porta.

— Veste isto. — Deu-lhe o envelope que tinha visto pela última vez no escritório. — Os bilhetes de comboio; já não servem de nada, claro. Ambos os passaportes, o dinheiro e a carta de crédito para Lisboa. Agora, toca a andar.

Passaram por uma série de ruas secundárias, atravessaram o rio Spree por uma ponte de ferro e finalmente entraram numa rua muito parecida com a Rehdenstrasse. Praticamente só armazéns.

Uma tabuleta desbotada dizia COMPANHIA DE VINHOS ÁGUIA. IMPORTAÇÃO-EXPORTAÇÃO. Max bateu à porta. Esta foi imediatamente aberta e um homem baixo e careca espreitou para fora.

— Olá, Scherber — disse Max, e entrou com Hannah.

— Cinco minutos — disse Scherber. — Depois, têm de sair.

— Compreendido. — Max entregou-lhe um maço de notas de cem marcos presas com um elástico. — Os rapazes estão prontos?

— Estão ali.

Estavam num grande armazém vagamente iluminado. Hannah viu um camião-cisterna de vinho estacionado ao fundo, junto a duas grandes portas duplas. Ao lado do camião dois homens fumavam.

— Os irmãos Dubois — disse Max baixinho. — Paul é o mais velho, com os dentes estragados. Henri é o que faz aquilo que lhe mandam.

Henri não tinha mais de vinte e um anos e usava uma boina de lã e um blusão de cabedal.

— Então, esta é que é a nossa carga? — disse num alemão macarrônico quando eles se aproximaram. — Que agradável.

O irmão disse desagradavelmente:

— E o nosso dinheiro, Max? Dois mil francos, foi o combinado.

Max contou o dinheiro.

— Os rapazes transportam vinho a granel.

— Todos os boches em Paris gostam de vinho alemão — disse Henri — e o nosso objectivo é agradar.

— Mostra-lhe aonde ela vai — disse-lhe Paul Dubois — e vamos embora daqui.

Henri abriu a porta da cabina e levantou o banco duplo, revelando um alçapão.

Esticou-se e acendeu uma luz.

— Todos os confortos de casa, com colchão, café, sanduíches. Desculpe aquelas caixas. São uns artigos para o mercado negro de Paris.

— Ficarei bem — disse Hannah.

Max beijou-a na testa.

— Quando chegares a Lisboa, vai direto ao nosso homem.

— Não vou desapontá-lo.

— Sei que não, Hannah. Vai com Deus. Que tudo corra bem.

Agora ela chorava, como se instintivamente soubesse que nunca mais voltaria a vê-lo. Trepou através da abertura para o pequeno espaço. Olhou rapidamente pela última vez para ele antes de Henri fechar o alçapão. Depois, o motor começou a trabalhar e o camião arrancou.


SETE

ERAM DEZ HORAS quando Irene Neumann acabou a excelente refeição que lhe fora servida depois do banho. A mulher de cabelo cinzento que a ajudara havia sido bastante solícita.

— Penso que eles se enganaram, querida — dissera.

Apesar das dores provocadas pelo seu espancamento, Irene, confortavelmente embrulhada num roupão quente, estava a voltar à vida. Então, a porta abriu-se com um pontapé e Berg e dois homens das SS entraram e agarraram-na. Atiraram-na para o corredor, e Berg, agarrando-a pelos cabelos, puxou-lhe a cabeça para trás de maneira a obrigá-la a olhar para cima, para Heydrich.

— Oh, não, Irene — disse. — Você não. Já teve a sua parte.

Agora é a vez da pessoa da cela ao lado.

Arrastaram-na ao longo do corredor para a porta ao lado. Heydrich abriu a pequena grade de metal de modo a ela poder olhar lá para dentro. Uma velhota de cabelos cinzentos e de aparência frágil estava sentada na cama.

— Frau Gerda Neumann, sua mãe, segundo creio. Idade: setenta e um anos — disse Heydrich. — É verdade que sofre do coração?

Dez minutos depois, Irene estava sentada defronte da secretária no gabinete de Heydrich a contar tudo o que sabia.

 

PASSAVA pouco da meia-noite quando Haupt, o jovem operador de rádio, voltou ao armazém dos Irmãos Hoffer com as peças sobresselentes necessárias. Max Winter tinha regressado da Companhia de Vinhos Águia há três horas.

— Meu Deus, tanto tempo — disse quando Haupt entrou no escritório.

— E tive muita sorte em ter encontrado tudo aquilo que queria. — disse-lhe Haupt.

Max foi até à janela e espreitou através da cortina. De repente, parou, consciente de um movimento lá em baixo entre as pedras.

— Otto — disse para Hoffer —, acho que temos companhia.

— Vou verificar a porta da frente — disse Hoffer. Abriu um armário, tirou uma metralhadora Schmeisser e desceu as escadas traseiras até ao armazém principal. Dirigiu-se na escuridão a uma grande porta dupla. Depois, ouviu-se na noite o barulho de um motor e as portas despedaçaram-se quando um veículo blindado entrou repentinamente.

A roda da frente do lado direito atingiu Hoffer, atirando-o contra a parede.

Ele apertou furiosamente o gatilho da Schmeisser e pelo menos meia dúzia de armas dispararam em resposta, despedaçando-o.

Max, ao cimo das escadas, sabia que tudo tinha terminado. Ficou ali à espera deles, com a Walther na mão. Começou a rezar alto a última oração que um judeu profere no seu leito de morte: — Ouve, ó Israel; o Senhor Nosso Deus, o Senhor é apenas um.

Disparou contra o primeiro soldado que apareceu. Depois, alguém surgiu no canto com uma Schmeisser e disparou uma longa rajada, atingindo-o várias vezes e fazendo-o cair pelas escadas abaixo.

O resto do pelotão de ataque passou por cima do seu corpo e subiu para o escritório, seguido pelo major Berg. Passado um momento, regressaram, arrastando Haupt.

Heydrich estava ao fundo das escadas a olhar para Max Winter.

— Está morto, o que é uma pena — disse a Berg. — Que trazem aí?

— Um operador de rádio. Estava a tentar reparar um aparelho.

— Então, transmitiu alguma mensagem hoje? — perguntou Heydrich.

Haupt estava aterrorizado e mostrava-o.

— Não, nenhuma.

— Apareceu aqui hoje à noite alguma mulher jovem?

Haupt pareceu admirado.

— Uma mulher? Não, ninguém parecido.

— Está bem, Berg. Leva-o para a Prinz Albrechtstrasse e vê o que consegues arrancar dele. Vou ver o que conseguimos descobrir na outra morada que a Neumann nos deu.

Mas a Companhia de Vinhos Águia estava às escuras e não havia sinais de Herr Scherber, o proprietário, no seu apartamento ali próximo.

Os interrogadores da Prinz Albrechtstrasse estiveram com o infeliz Haupt durante quase toda a noite. Nada lhes disse, pois nada sabia.

Eram 7 horas da manhã quando Scherber foi finalmente localizado nuns banhos turcos perto da Kurfürstendamm. Uma vez apanhado, delatou tudo.

 

HAVIA quase uma multidão no escritório de Himmler às 9 horas da manhã: Heydrich, Schellenberg, Kleiber e Sindermann.

Himmler falava.

— Portanto, sabemos que Winter não teve tempo de transmitir qualquer informação sobre o caso Windsor através do rádio e a cópia do relatório que faltava está nas nossas mãos.

— O que significa que a outra única fonte de informação sobre o assunto é a maldita moça Winter — acrescentou Heydrich.

— Que, segundo Scherber, vai agora a caminho de Paris na companhia de dois franceses que negociam no mercado negro. — disse Himmler.

— Temos a morada onde eles a vão deixar — disse Heydrich. — Um café chamado Moeda de Ouro, em Montmartre. O departamento da Gestapo em Paris podia preparar-lhe uma recepção.

— Tenho uma ideia melhor. — Himmler voltou-se para Schellenberg. — Você parte esta manhã para Espanha, com escala em Paris.

— Tinha a impressão de que não queria que eu tivesse mais nada a ver com Hannah Winter.

— É verdade, mas o major Kleiber pode tratar do caso na Moeda de Ouro muito satisfatoriamente, embora eu tenha a certeza de que apreciaria a sua presença como observador. — Olhou para Heydrich. — Kleiber irá precisar de mais homens. Trate disso com a delegação de Paris. Schellenberg, quando parte o seu avião?

— As onze horas, de Tempelhof.

— Então, desejo-lhe boa sorte. Como é natural, espero relatórios diários.

— Claro, Reichsführer.

— Kleiber, fique, se faz favor.

Quando Schellenberg e Heydrich saíram, Himmler disse para Kleiber:

— No que respeita à fuga de ontem à noite da moça Winter, o fato de estar informada sobre o mensageiro da Chancelaria mostra que teve ajuda interna.

— O general Schellenberg, Reichsführer?

— Vigie-o de perto, Kleiber, e dê-me notícias diárias. Aqui está a necessária autorização. — Passou a Kleiber um envelope.

— Compreendo, Reichsführer.

— Esperemos que sim — disse Himmler. — Pode ir agora.

 

HENRI Dubois entrou com o camião-cisterna para um parque ao lado de um pequeno café em Clichy, a norte de Montmartre, e parou.

— Vais telefonar ou vou eu? — perguntou ao irmão.

— Deixa isso comigo — disse Paul, e saltou para a rua.

Dentro do café, dirigiu-se à cabina telefônica e discou o número do Moeda de Ouro. Atenderam imediatamente.

— Sim, Moeda de Ouro. Em que posso ser-lhe útil?

Era Mme Bonnet, a proprietária, sem dúvida, mas havia algo na sua voz. Tinha a certeza.

— Será possível reservar uma mesa para sete pessoas para hoje à noite? — perguntou. — Galinha com paprika e um bom vinho Muscadet, se pudesse ser.

— Não, peço desculpa, monsieur. Hoje à noite estamos fechados.

Paul disse calmamente:

— Muito obrigado, minha senhora. Fica para outra altura.

 

NO MOEDA DE OURO, meia dúzia de clientes estavam sentados à mesa, tentando parecer apreciar as bebidas. Três agentes da Gestapo esperavam por trás da cortina que dava para a cozinha. Walter Schellenberg, no bar, pensava em Hannah Winter e na armadilha que a esperava. Infelizmente, nada podia fazer desta vez — já estava demasiado comprometido.

Angélique Bonnet, sentada atrás da sua secretária ao lado do bar, era uma mulher baixa e idosa, com um vestido preto simples, que dirigia o estabelecimento com mão de ferro. Pousou o auscultador, e Kleiber, que tinha estado a escutar a conversa, acenou com a cabeça e disse: — Ótimo.

— Mas é claro. Daqui a pouco não terei mais clientes e ainda não sei o que está a passar-se.

— Um camião-cisterna cheio de bom vinho alemão está para ser entregue aqui por dois irmãos chamados Dubois, juntamente com uma remessa ainda mais interessante, eh?

O olhar de espanto de Angélique Bonnet foi extremamente convincente.

— Mas não conheço ninguém com esse nome, monsieur, e no que respeita ao vinho alemão, bem, com o maior respeito, não costumamos vendê-lo aqui.

Kleiber parecia duvidoso e olhou em direção a Schellenberg, que disse:

— Considerou a hipótese de os irmãos Dubois não terem qualquer ligação com o estabelecimento, mas sim com um dos clientes?

— Sim, ocorreu-me, naturalmente.

— E a polícia local. Têm detalhes sobre o camião?

— Uma descrição completa — disse firmemente Kleiber.

— Então, não há razão para preocupações. — Schellenberg voltou-se para Angélique Bonnet. — Minha cara senhora — disse num francês fluente —, receio ter de a maçar de novo e pedir outro copo deste excelente conhaque.

Paul Dubois encostou-se ao camião.

— Tira-a cá para fora depressa — disse para Henri. — Passa-se alguma coisa no café.

O irmão abriu o alçapão e puxou Hannah para fora. Parecia cansada e confusa após a longa viagem de vinte e quatro horas, com apenas uma paragem.

— Onde estamos? Em Paris?

— Sim — disse Paul. — Em Clichy. Penso que estamos em apuros. Sempre que temos um passageiro como você, telefonamos para o Moeda de Ouro antes de chegarmos. Um código pré-combinado. Encomendo uma refeição especial para um determinado número de pessoas. Se as coisas estiverem a correr bem, a mulher que dirige o café aceita a reserva.

— E agora não o fez?

— Disse que estavam fechados hoje à noite e nunca ouvi dizer que o Moeda de Ouro fechasse.

— Então, que fazemos? — perguntou Henri.

Paul Dubois franziu as sobrancelhas e depois decidiu.

— Se as coisas correram mal em Berlim, então este camião pode ter-se tornado um sarilho. Vamos deixá-lo aqui e fazemos o resto do caminho a pé. Vamos ver pelos nossos próprios olhos o que está a acontecer.

Puseram-se a caminho de uma pequena igreja situada numa colina acima da praça onde ficava o Moeda de Ouro. Do cemitério junto da igreja conseguiam ver claramente o café, com o toldo de riscas por cima das mesas do passeio.

— Está um carro preto estacionado no beco — disse Henri.

O irmão acenou com a cabeça.

— Oh, diabo! — exclamou ao ver um homem de casacão preto e chapéu de feltro a sair do café.

— Conhece-o? — perguntou Henri.

— Certamente que sim. Chama-se Ehrlich. Um major da Gestapo da Rue des Saussaies. — Paul virou-se para Hannah. — Desculpa, moça. Não sei o que correu mal, mas estão à nossa espera. Agora ficas por tua conta. — Acenou para Henri e partiram os dois, apressados.

Hannah ficou sozinha, ali no cemitério, surpreendida por um momento pela rapidez de tudo aquilo. Mas isso não podia acontecer e também ela partiu.

Conhecia bem Paris, graças a um contrato de seis meses num cabaré antes da guerra. Apressou-se através das ruas de Montmartre e não parou até chegar à Praça da Concórdia.

Encontrou um quiosque com mesas à volta. Pediu um café e sentou-se para fazer o balanço da situação. Falava francês razoavelmente bem, tinha alguns francos graças à previdência do tio Max e ? ainda os dois passaportes. E havia mais uma coisa — algo de que se tinha esquecido até agora.

Com os dedos a tremerem ligeiramente, Hannah tirou os bilhetes de comboio do envelope. Um era de Berlim para Paris, mas o outro é que era importante. O beliche no expresso para Madrid, que saía da Estação de Austerlitz às 6 horas da tarde.

Olhou para o relógio. Eram 5h15 e Austerlitz ficava a uns bons cinco quilômetros de distância. Pôs-se de pé e, quando se voltou, viu uma pequena carrinha de entregas. O condutor, um homem de meia-idade com um bigode branco pendente e fato-macaco azul, atirou um pacote de jornais para o passeio. Hannah correu para a carrinha e subiu para o lugar do passageiro.

— Eh, que é isto? — perguntou o condutor.

— Por favor, monsieur, ajude-me. — Tirou o passaporte e mostrou-o. — Veja, sou uma cidadã americana de regresso a casa. Tenho um lugar no expresso de Madrid que parte de Austerlitz às seis horas. Estive a fazer um pouco de turismo e perdi-me, e agora não vou conseguir chegar a horas, a não ser que me leve lá. — Tirou um maço de francos.

— Guarde o seu dinheiro. — O homem sorriu. — Americana, é? Tenho um filho que vive em Los Angeles. Ponho-a lá num quarto de hora.

 

QUANDO o telefone tocou de novo, Angélique Bonnet atendeu como anteriormente.

— Para si — disse a Kleiber quando ele se aproximou do receptor. — É da esquadra da Polícia.

A expressão da cara de Kleiber foi como uma vacina milagrosa para Schellenberg. O major desligou o telefone.

— Encontraram o camião — murmurou. — Abandonado a cerca de um quilômetro daqui.

— Então? — perguntou Schellenberg calmamente. — Uma tarde perdida? As minhas condolências. Agora tenho de visitar o quartel-general dos SD. Encontro-me consigo no aeroporto às oito horas.

Partiu e, um pouco mais tarde, Kleiber dirigiu-se com um ar arrogante para a praça onde Sindermann e Ehrlich esperavam junto de um Citroën.

— A Polícia Francesa encontrou o camião — disse-lhes. — Não há sinais dos irmãos Dubois nem da moça.

— Nesta altura, podem estar em qualquer lado — disse Sindermann.

Foi Ehrlich quem sugeriu o que era óbvio.

— Sabemos que o objectivo dela era chegar a Espanha. Sei que há um comboio para Madrid que parte da Estação de Austerlitz às seis horas.

— Ridículo — disse Sindermann. — Ela não se atreveria.

Mas a cara de Kleiber brilhava de entusiasmo.

— Ela tinha uma reserva para esse comboio que o tio fez em Berlim. Um beliche. E os negros também.

Ehrlich olhou para o relógio.

— Já só temos cerca de trinta e cinco minutos. É melhor despacharmo-nos.

Pouco depois das cinco e meia, o homem dos jornais deixou Hannah na Estação de Austerlitz. Estava muito movimentada — uma mistura de civis com soldados alemães — e parecia que havia polícia por toda a parte.

Procurou o cais certo para o expresso de Madrid e aproximou-se da entrada. Havia uma lista de passageiros afixada na parede ao lado do revisor. O seu nome estava na seção da 1ª classe, num compartimento privado com Connie e os rapazes. Mas se mostrasse o bilhete, o revisor daria baixa dela na lista.

Afastou-se um pouco para pensar. Nesse momento, passaram por ela dois carregadores que puxavam uma série de carros atulhados de correio.

Abriram uma grande cancela que dava acesso ao cais e Hannah passou com eles, mantendo-se do lado esquerdo para o revisor não a ver.

Havia muita gente no cais a entrar para o comboio. Dirigiu-se para as carruagens-camas, passou por um funcionário que estava ocupado com outro passageiro e depois esquivou-se por uma porta situada no fim da carruagem de 1.? classe. Ali estava, apenas a um passo: o compartimento A.

Tentou abrir, mas a porta estava fechada. Desmoralizada, bateu à porta. Ouviu-se lá dentro uma voz abafada, depois abriram.

— O que é ... — começou Connie Jones em francês, e depois a sua cara rasgou-se num sorriso radiante. — Hannah querida.

Depois entrou, fecharam a porta e ele abraçou-a fortemente.

Billy Joe e Harry riam de alegria e, por qualquer razão, ela começou a chorar.

 

OS TRÊS homens da Gestapo chegaram a Austerlitz precisamente às cinco para as seis. Harry Gray estava no pequeno quiosque do cais, perto da entrada, a comprar cigarros. Reconheceu imediatamente Kleiber, voltou-se e apressou-se a regressar ao compartimento.

— Temos sarilho — disse ao fechar a porta atrás de si. — Aquele tipo que nos interrogou na Prinz Albrechtstrasse está na entrada a ver a lista de passageiros com o revisor.

— Mas eu não entrei oficialmente — disse Hannah.

— Isso não quer dizer nada. Daqui a um segundo, estão a bater àquela porta. O problema é onde te vamos esconder.

Havia quatro beliches, dois em cada lado, e uma pequena casa de banho. Connie abanou a cabeça.

— Homem, aqui não consegues esconder nem um gato.

Billy Joe voltou-se para Harry com um sorriso.

— Lembras-te da viagem que fizemos de Chicago para Hollywood? Aquele branco, gordo, pomposo, do Alabama, que não se importava de ficar com gente de cor desde que fosse limpa?

— E nós corremos com ele enojados. — Harry era todo sorrisos ao começar a desabotoar a camisa.

Billy Joe começou a fazer o mesmo.

— Ouviste a história, Connie. Agora mete-a na cama.

Hannah olhou, espantada. Connie disse: — Faz o que te dizem, miúda, e, aconteça o que acontecer, mantém-te sempre calma.

Billy Joe e Harry tiraram as camisas, enquanto Connie empurrava Hannah para um dos beliches inferiores, encostando-a contra a parede e tapando-a com um cobertor. Harry deitou-se no beliche ao lado de Hannah e Billy Joe estendeu-se em cima dele. Um segundo depois, bateram violentamente à porta.

— Vá, abram! Polícia!

Connie abriu a porta, deixando a corrente posta, e espreitou para o criado da carruagem-cama.

— Eh lá, qual é o problema? Você já tem os nossos bilhetes. Gostaríamos de ter um pouco de privacidade.

— Foi feita uma quarta reserva, para Hannah Winter.

— Não foi utilizada, homem, a última vez que ouvi falar dela estava em Berlim.

— Mas não fazem objecção se quisermos certificar-nos? — Kleiber apareceu por trás do criado.

— Oh, não — suspirou Connie. — Você outra vez, não.

— Abram a porta ou teremos que a arrombar — disse Kleiber.

Connie soltou a corrente. Kleiber empurrou-o para trás e abriu caminho, seguido de Sindermann e Ehrlich. A primeira coisa que viu foi dois homens negros abraçados no beliche de baixo do lado direito.

Harry disse: — OIá, temos companhia.

Billy Joe voltou-se. — Pensei que a razão por que pagamos primeira classe fosse a garantia de privacidade.

Kleiber ficou a olhar para eles, pálido. Deu um pontapé na porta da casa de banho, espreitou rapidamente lá para dentro, depois saiu para o corredor. Os outros seguiram-no e Connie bateu a porta atrás dele.

— O comboio pode partir agora, major? — perguntou o empregado.

— Não até termos verificado todos os passageiros — disse Kleiber, repugnado com o que tinha visto.

Inspecionaram todos os compartimentos, mas finalmente tiveram de admitir a derrota. Quando o apito assobiou, Kleiber, que estava ao pé da cancela, viu Connie debruçar-se da janela.

— Sempre às ordens, major. — Acenou alegremente, depois entrou. Harry e Billy Joe, agora completamente vestidos, estavam sentados num beliche, com Hannah em frente deles. Todos os três riam perdidamente.

— A cara do homem — disse Harry. — Gostaria de ter tirado uma fotografia.

— Pronto, pessoal. A brincadeira acabou. — Connie sentou-se ao lado de Hannah e segurou-lhe na mão. — Tive más notícias. Sobre o teu tio Max.


OITO

O comboio teve de parar para uma inspeção aduaneira no lado espanhol da fronteira em Irún. Hannah ficou na casa de banho enquanto um fiscal aduaneiro veio para verificar os passaportes. Depois de uma pequena paragem, partiram de novo.

Ela saiu e deitou-se num dos beliches inferiores; tinha os olhos inchados de chorar. Billy Joe e Harry ficaram simplesmente ali sentados com um ar preocupado. Passado um pouco, Connie apareceu com sanduíches e café, vindo da carruagem-restaurante, e sentou-se ao lado dela.

— Come qualquer coisa. Faz-te bem.

— Não sou capaz.

— Tens que te recompor — insistiu ele.

— Não podes compreender.

— Ai não? Bem, deixa-me dizer-te uma coisa. Combati na Brigada do Harlem na frente ocidental em 1918. Perdi o meu único irmão, dois primos e praticamente todos os amigos que tinha no Mundo, e sabes o que aprendi com isso? Que a vida continua. Agora o teu tio Max; aqueles porcos mataram-no. Não é assim?

Ela acenou com a cabeça, as mãos apertadas.

— Vais deixá-los ficar na mó de cima? Ele deu-te um trabalho para fazeres, moça. Vais fazê-lo ou vais apenas ficar a chorar todo o dia?

Ela abraçou-o.

— Oh, Connie, tens razão. Que faria eu sem ti?

— Aqui está a minha menina. Ora bem, chegamos a Madrid às nove horas da manhã e há um comboio que parte para Portugal às nove e trinta e cinco do mesmo cais. Podes comprar o bilhete no comboio. Estás lá às seis e meia da tarde.

— Está ótimo — disse ela. — Não podia ser melhor.

— Ainda há a fronteira portuguesa — salientou Harry Gray. Pode haver problemas lá.

— Não vejo por quê — disse Hannah. — Utilizarei o passaporte falso que o tio Max me deu, caso necessário.

— Quando chegares a Lisboa — disse Connie —, se precisares de ajuda, vai ao Bar Americano de Joe Jackson. É perto do rio.

Qualquer motorista de táxi sabe onde é. Vamos tocar lá na próxima semana. É um velho amigo e um grande homem. Lutou contra Franco em Espanha e pilotou aviões de combate contra a Legião Condor. Não acontece nada em Lisboa que Joe não saiba. Agora, vê se dormes, moça. Vais precisar.

Ela virou-se para a parede, tentando afastar qualquer pensamento sobre o tio Max. Quando finalmente acordou com a mão de Connie no seu ombro, estavam em Madrid.

 

O AVIÃO alemão Ju-52 no qual Schellenberg e os dois guarda-costas viajavam parou em San Sebastián, Espanha, para reabastecimento. Mas havia um problema no motor esquerdo e ficaram lá retidos durante cinco horas. Eram quase 10 da manhã quando sobrevoaram a velha cidade de Madrid e aterraram.

Estava um carro à espera deles para os levar à Embaixada Alemã. Quando se dirigiam para a cidade, Kleiber perguntou: — Quando seguimos para Lisboa, meu general?

— Esta tarde, penso eu — respondeu Schellenberg. — Depende da minha conversa com o embaixador Von Stohrer.

— Com a sua licença, meu general, gostaria de inspecionar a estação de comboios.

— O comboio deve ter chegado há uma hora. — Schellenberg abanou a cabeça. — Está obcecado com a ideia daquela moça a vaguear pela Europa, quando ela está provavelmente escondida em algum sótão em Berlim.

— Ou pode estar aqui em Madrid, no Clube Flamenco, onde os negros me disseram que iam tocar.

O carro virou para o pátio da Embaixada Alemã e parou.

— Muito bem — disse Schellenberg. — Pode levar o carro.

Esteja aqui para me buscar às duas horas, o mais tardar.

Um pouco mais tarde, na Estação de Chamartín, Kleiber descobriu que o expresso de Madrid tinha chegado a horas e que havia partido um comboio do mesmo cais para Lisboa às 9.35. Também descobriu na paragem de táxis que três passageiros negros tinham sido deixados no Clube Flamenco.

Meia hora mais tarde, Kleiber estava fechado num gabinete com o chefe da Polícia de Madrid. Este estava contente por ajudar a Gestapo.

— Creio — disse Kleiber — que uma mulher chamada Hannah Winter pode ter embarcado no expresso de Lisboa, viajando com um passaporte americano falso. É uma cidadã alemã procurada por assassínio. Uma vez presa, pediremos a sua extradição, naturalmente.

O chefe da Polícia olhou para o relógio da parede.

— O comboio pára em Talavera daqui a uma hora. Vou mandar a polícia local entrar no comboio e procurar essa mulher. Entretanto, podemos beber um copo de vinho juntos e pode contar-me o que se passa em Berlim hoje em dia.

 

QUANDO o comboio parou na cidade espanhola de Talavera, Hannah olhou pela janela e viu a Polícia. Não entrou em pânico — simplesmente, sentou-se para trás e continuou a ler a revista. Usava óculos escuros e um lenço em volta da cabeça, coisas que Connie tinha comprado para ela no quiosque da estação em Madrid.

Os únicos outros passageiros no compartimento eram um padre e uma moça com um bebé. Estavam todos à espera. Finalmente, abriram a porta.

Hannah continuou a ler a revista, reparando através do canto do olho nas calças do uniforme.

— Señorita. O passaporte.

Olhou para cima, para o jovem oficial da Polícia, como que surpreendida, depois tirou o passaporte francês e entregou-o.

— Rose Lenoir. Viaja para Lisboa, mademoiselle? — perguntou num francês hesitante.

— Sim — respondeu ela.

— Posso perguntar a razão da sua visita?

— Negócios. Sou cantora. Vou cantar num clube em Lisboa na próxima semana. — Cruzou as pernas, deixando a orla da saia deslizar bem acima do joelho.

O jovem polícia engoliu em seco e entregou-lhe o passaporte.

— Bonne chance, mademoiselle — disse, e saiu.

O padre parecia chocado, a jovem, divertida. Hannah sorriu-lhe e continuou a ler a revista.

 

NA EMBAIXADA ALEMÃ em Madrid, Schellenberg viu-se em impressionante companhia. Estava lá o embaixador Von Stohrer, diplomata de carreira e um nazi inquestionavelmente fiel ao Führer; os seus estreitos contatos pessoais a todos os níveis com o Governo Espanhol eram de tremenda importância, especialmente numa altura em que as negociações entre a Espanha e a Alemanha estavam em situação delicada. Estava também presente o ministro espanhol do Interior, Ramón Serrano Suñer, cunhado do general Franco.

— Vamos tomar o café no terraço, meus senhores — disse Von Stohrer. — É muito mais agradável lá fora.

Sentaram-se à volta de uma pequena mesa de ferro pintada de branco e um dos criados trouxe o café. Depois, Von Stohrer fez-lhe sinal para sair.

— Bem, agora podemos ir direitos ao assunto. Sr. Ministro, talvez queira dizer alguma coisa sobre o problema atual?

Suñer acenou com a cabeça.

— Muito bem. Até agora temos utilizado Primo de Rivera como emissário junto do duque. São velhos amigos. De Rivera não faz ideia do nosso interesse mútuo. Acredita que está meramente a atuar para o Governo Espanhol e recebe instruções minhas em nome do nosso governo.

— Está a dizer que ele apenas tem em vista os interesses do duque? — perguntou Schellenberg.

— Exatamente. É já do conhecimento geral que o duque não gostou da sua nomeação para governador das Bahamas. Seria compreensível se se sentisse insultado por não ser um lugar muito importante.

— Então, que foi que De Rivera lhe sugeriu?

— Que se mudasse para Espanha, onde o Governo Espanhol de bom grado lhe concederia asilo político, e esperasse aqui pelos acontecimentos.

— E será que De Rivera pensa que os Ingleses ficariam quietos enquanto o duque e a duquesa faziam as malas e partiam?

— Não. De Rivera vai novamente a caminho de Lisboa para visitar o duque. O seu objectivo é combinar um dia de caça no campo em qualquer lugar conveniente perto da fronteira. Uma batida. Uma oportunidade óbvia para o duque e a duquesa passarem antes de os Ingleses, ou quaisquer outros, perceberem o que se estaria a passar.

— E se eles não quiserem?

— Mas aí, meu caro Schellenberg, é onde você entra — disse Von Stohrer.

Schellenberg acenou com a cabeça.

— Compreendo. Rapto. E De Rivera está consciente disso segundo aquilo que acredita serem os melhores interesses de um velho amigo. Devo também chamar a atenção de que existe um boato nos círculos da alta sociedade espanhola de que o plano dos Serviços Secretos Britânicos, uma vez que o duque estivesse nas Bahamas, seria liquidá-lo. Naturalmente que De Rivera comunicará ao duque esta informação.

Schellenberg riu alto. — E espera seriamente que o duque acredite nesse boato?

Von Stohrer mostrou-se severo. — Eu soube-o pelo próprio Ribbentrop. O seu informador suíço tem contatos estreitos com os Serviços Secretos Britânicos.

— De Rivera voltará em breve com detalhes sobre a batida, a data e outras informações — disse Suñer. — Estas serão imediata mente comunicadas ao embaixador Huene, da Legação Alemã em Lisboa, que as transmitirá a si.

Apareceu um criado que fez uma vênia.

— Excelência, Berlim ao telefone.

— Peço desculpa, meus senhores — disse Von Stohrer.

Saiu, e Suñer ofereceu um cigarro a Schellenberg.

— Parece céptico, general, sobre este relatório do agente suíço acerca dos planos dos Serviços Secretos Britânicos para o duque.

— Um dos problemas do trabalho dos Serviços Secretos é distinguir as verdades das mentiras ou, pelo menos, reconhecer as distorções — disse Schellenberg. Existem informadores em todas as capitais da Europa a pensarem qual a história que irão contar esta semana para satisfazerem os seus chefes.

O ministro espanhol do Interior disse: — General Schellenberg, vou ser franco consigo. Estamos ansiosos, aqui em Madrid, por ver este assunto Windsor resolvido com êxito por uma única razão, que é a de fazer um favor ao Governo Alemão.

— E porque é que isso seria importante nesta altura? — perguntou Schellenberg.

Podia imaginar, mas preferia ver as cartas na mesa.

— Aquilo que o Führer gostaria mais de ver era a Espanha a entrar na guerra ao lado da Alemanha. Neste momento, a Inglaterra ainda tem a supremacia num aspecto, a sua marinha. A nossa entrada na guerra entregaria Gibraltar à Alemanha e infligiria um esmagador golpe contra a Marinha Britânica, recusando-lhe a entrada no Mediterrâneo.

— Que exigiria o general Franco em contrapartida?

— Armas, combustível, produtos manufaturados que escasseiam aqui devido à devastação da guerra. E também as colônias francesas no Norte de África. Compreende agora a situação?

— Perfeitamente — respondeu Schellenberg. — O general Franco está disposto a entrar na guerra ao lado da Alemanha, mas apenas depois de a Operação Leão-Marinho estar concluída com a ocupação de Inglaterra. Entretanto, o rapto do duque de Windsor, de acordo com a vontade do Führer, serviria para mostrar que Franco está do lado certo, mantendo assim toda a gente contente.

Suñer sorriu abertamente.

— Vejo que nos entendemos perfeitamente, e, para ser franco, penso que o rapto será necessário. Não acredito que Sua Alteza venha por sua própria vontade.

— Tem alguma razão especial para pensar assim?

— Sim, penso que sim. Quando o duque esteve recentemente em Madrid, jantou com o infante Afonso, seu primo por afinidade, que combateu na Guerra Civil de Espanha e foi testemunha da grande ajuda dada pelo Reich à Espanha. O infante elogiou abertamente o poderio militar da Alemanha, tornando claro que pensava que a Inglaterra estava acabada.

— E qual foi a reação do duque?

— Ficou indignado. Perguntou ao infante se nunca tinha ouvido falar do canal da Mancha. — Suñer encolheu os ombros. — Pode pensar que não é importante, mas para mim indica que o duque é tudo menos favorável à vossa causa.

Von Stohrer voltou.

— Meus senhores, era Ribbentrop ao telefone, de Berlim. Informei-o da sua chegada sem problemas, Schellenberg. Ele espera que siga para Lisboa o mais depressa possível.

Schellenberg olhou para o relógio.

— Sim, com certeza. Tenho de ir andando. O carro vem-me buscar às duas horas. Entrarei em contato convosco logo que possível.

Não tinha corrido muito mal, pensou para consigo ao sair. Certamente que sabia mais agora do que quando entrara. O grande jogo, tinha-lhe chamado uma vez um chefe dos Serviços Secretos Britânicos, e que jogo.

Andar no limiar do perigo. Quantos anos tinha vivido daquela maneira?

E ter chegado tão perto de deitar tudo a perder por causa de uma moça que mal conhecia. E que certamente desprezava quase tudo o que ele representava. Teve um sorriso cínico. "Ah, Walter", pensou. "O teu impulso de tentares sempre agir de modo decente será a tua morte um destes dias."

Quando saiu para o pátio, não havia sinais de Kleiber e Sindermann ou do carro da embaixada.

O porteiro saiu da casa do guarda.

— Posso ajudá-lo, meu general?

— Viu o major Kleiber? — perguntou Schellenberg.

— Ainda não voltou. O motorista telefonou há algum tempo a dizer que estavam no Clube Flamenco. Aparentemente, o major está à espera de alguém.

Schellenberg praguejou baixinho.

— Arranje-me um carro, depressa.

 

CONNIE e os rapazes haviam deixado os instrumentos musicais no Clube Flamenco e ido à procura de hotel. Quando regressaram, o contrabaixo de Billy Joe estava arrumado no pequeno palco ao lado da bateria de Harry Gray.

— Eh, alguém desempacotou isto — disse Billy Joe. — Mas que simpático.

A cortina atrás do palco abriu-se e Kleiber apareceu.

— Fui eu. Admiro a ordem em todas as coisas. — Sindermann surgiu então por detrás da porta do palco e bloqueou-a.

Connie olhou para ele por cima do ombro, depois para Kleiber.

— Que é isto?— perguntou.

— Vou dizer-lhe — disse Kleiber. — Tenho um pressentimento de que têm estado a brincar comigo. Penso que sabem onde está Hannah Winter.

— Agora não estamos em terra nazi — disse Connie. — Por que não desaparece?

Sindermann aproximou-se rapidamente e bateu-lhe nas costas, fazendo Connie cair de joelhos.

— Isto é caro, não? — Kleiber apontou para o contrabaixo. Bateu-lhe com força, partindo-o, depois pisou-o. Billy Joe e Harry gritaram de raiva e avançaram. Kleiber tirou uma Luker do bolso do casaco. — Vá. Experimentem. A coisa que mais gostaria era de ter a oportunidade para livrar o mundo de vermes como vocês. — Eles ficaram parados, a olhar, e Kleiber disse para Sindermann: — Obriga o outro a falar Gunter.

Connie estava ainda de joelhos e Sindermann deu-lhe um pontapé nas costas.

Estava a começar a divertir-se; dobrou os grandes braços e agarrou em Connie, atirando-o para cima do bar.

— A sua vida é tocar piano — disse Kleiber. — Como é que conseguiria sem alguns dedos?

Sindermann sorriu maliciosamente. Colocou a mão direita de Connie no bar, inclinou-se, tirou uma garrafa de brandy da prateleira, agarrando-a pelo gargalo. Levantou-a como um martelo suspenso para bater, quando uma voz suave disse: — Chega, Sindermann. Solte-o.

Sindermann virou a cabeça devagar. A sua cara estava banhada em suor e os seus olhos não tinham expressão.

Kleiber disse: — General Schellenberg, estes homens têm informações de grande importância.

— Estes homens, como os designa, são cidadãos americanos num país neutro e você, Kleiber, está a desencadear um incidente que, na imprensa internacional, só poderia prejudicar o Reich.

— General, tenho que protestar.

— Bata os calcanhares e ponha-se em sentido quando falar comigo, major, e guarde essa arma.

Kleiber fez o que lhe mandaram; devagar, mas fê-lo.

— Concorda que sou seu oficial superior, nomeado pelo Führer? — perguntou Schellenberg.

— Sim, meu general.

— Então, para o futuro, lembre-se e faça o que lhe disserem. — A sua voz agora estava muito fria. — Compreende?

Kleiber olhava rigidamente para a frente enquanto ele falava.

— Sim, meu general.

— Ótimo. — Schellenberg voltou-se para Sindermann. — Largue esse homem e ponha-se em sentido.

Mas Sindermann tinha ultrapassado o bom-senso.

— Não! — disse.

— Podia dar-lhe um tiro — disse-lhe Schellenberg. — Em vez disso, vou dar-lhe uma lição. Quando olho para si, fico cheio de náuseas. Que é você, afinal de contas? Noventa quilos de ossos e músculos. Uma força bruta, mas para que serve com um cérebro do tamanho de uma ervilha?

Sindermann largou Connie e atacou, com os braços levantados para destruir. Schellenberg rodou para um lado e desferiu uma esquerda aos rins de Sindermann. Este caiu sobre um joelho e Schellenberg pegou numa cadeira e partiu-a nas suas costas. Quando Sindermann se levantou, Schellenberg aplicou-lhe outra esquerda abaixo das costelas, seguida de um gancho da direita que lhe atingiu a cara. Sindermann caiu e aí ficou. Schellenberg disse: — Na próxima, mato-o. Compreende?

A voz de Sindermann ouvia-se mal, mas a sua resposta foi bastante clara.

— Sim, meu general.

— Ótimo. — Schellenberg voltou-se para Kleiber. — Leve-o para o carro e vamos embora. O piloto deve estar a pensar no que terá acontecido.

Kleiber fez o que lhe disseram. Billy Joe sentou Connie numa cadeira a uma das mesas e Harry trouxe brandy do bar.

— Talvez precise de um médico — disse Schellenberg. — Pode ter algumas costelas partidas.

Billy Joe abanou a cabeça. — Homem, não consigo entendê-lo, mas obrigado de qualquer maneira.

Schellenberg avançou em direção à porta. Parou e olhou para Connie.

— Só por curiosidade, uma questão de interesse pessoal: ela conseguiu e vai a caminho de Lisboa, não é assim?

Connie abriu a boca e disse com a voz rouca: — General, por que é que não ...

Schellenberg sorriu. — Obrigado, Mr. Jones, por ter respondido à minha pergunta. — A porta fechou-se devagar atrás dele.


NOVE

O DUQUE DE WINDSOR tinha estado fechado numa sala com Primo de Rivera durante quase uma hora, e a duquesa estava no jardim a apanhar rosas quando o marido a encontrou.

— Que aconteceu? — perguntou ela.

— Sabes, Wallis, todo este assunto começa a tomar aspectos bastante ridículos. Tive conhecimento através de Rivera que, de acordo com os mexericos da alta sociedade de Madrid, os malvados Serviços Secretos Britânicos gostariam de me deitar a mão.

— Oh, David, que disparate. Porquê?

-— Bem, a lógica por detrás disto é realmente bastante simples.

Toda a gente sabe que não fiquei muito contente com a nomeação para as Bahamas, e muitas pessoas parecem pensar que talvez me recuse a ir. A alternativa seria ficar aqui em Portugal ou ir para Espanha.

— E então enviariam os Serviços Secretos para te arrastar até às Bahamas pelos colarinhos? Que absurdo.

— De Rivera parecia mais preocupado que eu nem sequer lá chegasse. Que fosse atirado sobre a amurada numa noite escura ou algo assim.

— Que horror. Como pode ele pensar numa coisa dessas?

— Bem, Wallis, tens de admitir que tenho sido um considerável estorvo aos olhos de certas pessoas há bastante tempo. — Estava a espicaçá-la.

— Não gosto disto, David, deste tipo de conversa. Não tem graça. — Tremeu. — Não tenho mesmo a certeza se continuo a gostar deste sítio. Há demasiados polícias aqui à volta.

— Bem, vamos mudar isso tudo. — Colocou o braço à volta do seu ombro. — Vamos dar um passeio. Um dia no campo. De Rivera tem um amigo que tem uma herdade chamada Nina, uma ganadaria.

Sabes, touros para as touradas. Diz que vão fazer uma garraiada para nós e podemos fazer um piquenique. Que é que achas?

— Maravilhoso.

— Ótimo. — Sorriu. — Agora vamos para dentro. Está a ficar fresco.

 

O ADIDO da polícia da Legação Alemã em Lisboa chamava-se Egger e estava mais do que contente por ajudar Kleiber de todas as formas quando este chegou do aeroporto.

— Como são as suas relações aqui com a Polícia Portuguesa? — perguntou o major.

— Excelentes — disse-lhe Egger. — Neste momento, existe em Portugal uma certa simpatia política pelos ideais do nacional-socialismo.

— Existe a possibilidade de esta mulher aparecer em Lisboa a qualquer momento. Aqui está a sua descrição. — Kleiber entregou-lhe uma folha de papel com uma fotografia de Hannah agrafada.

— Hannah Winter — disse Egger. — Que é que ela fez?

— Matou a tiro três homens da segurança em Berlim, por isso estamos com muita vontade de a apanhar.

— É cidadã do Reich?

— Claro, mas tem vindo a utilizar um passaporte americano.

— Não lhe vai servir de nada, uma vez que comunique estes fatos à Polícia de Segurança Portuguesa. Eles têm uma guarda em todas as embaixadas estrangeiras. Dar-lhes-ei os pormenores. Se ela tentar aproximar-se da Embaixada Americana, conseguirão apanhá-la.

Quando ele pegou no telefone, Kleiber disse:

— A propósito, o duque de Windsor está no Estoril. Suponho que ninguém consegue entrar para o ver sem passar também pela Polícia de Segurança.

— Penso que não — disse Egger.

— Ótimo. Muito obrigado. — Kleiber voltou-se para sair. Voltaremos a vernos, com certeza, enquanto eu cá estiver.

Sindermann aguardava-o na sala de espera. Tinha um olho negro e o lado direito da cara estava bastante inchado.

— A Polícia Portuguesa está alertada para o caso — disse-lhe Kleiber. — No momento em que se mostrar, ela é. nossa.

 

O BARÃO Oswald von Hoyningen-Huene, embaixador alemão em Lisboa, era um homem muito diferente de Stohrer, o seu homólogo de Madrid.

Era um aristocrata genuíno, um homem de cultura e requinte. Não era também, como Schellenberg bem sabia, um nazista. Huene examinou a ordem do Führer que Schellenberg lhe passou por cima da sua mesa.

— Naturalmente, dar-lhe-ei toda a ajuda que puder, general. A ; carta do Führer não me dá qualquer hipótese.

— O que significa que não concorda com todo este assunto disse Schellenberg.

Huene sentou-se e olhou para ele calmamente durante um mo mento.

— General Schellenberg, que quer dizer-me exatamente?

— Que eu próprio não concordo com esta ideia. É um disparate. Pronto, já o disse, barão. Vai agora telefonar para Ribbentrop?— Não — disse Huene. — O que eu vou fazer é ir buscar uma garrafa de conhaque que tenho ali no armário, dois copos, e vamos ter uma conversa, completamente confidencial, claro.

Schellenberg provou o conhaque.

— Excelente; mas vamos ao caso Windsor. Pensa honestamente que o duque está do nosso lado?

— Francamente, não — disse Huene. — Oh, ele não está contente com a nomeação para as Bahamas e é certamente pró-germânico, mas com os seus antecedentes familiares outra coisa não seria de esperar.

— O que é uma coisa bastante diferente de ser a favor do nacional-socialismo.

— Exatamente. Portanto, que opções é que isso lhe deixa, general? Uma única hipótese, segundo me parece.

— O rapto? — Schellenberg abanou a cabeça. — Penso que não.

Na minha opinião, nada se ganharia com uma ação dessas. Mas se o duque mostrar interesse em ir para Espanha, então dar-lhe-ei toda a ajuda. De outro modo ...

— Ótimo. Estou contente por estarmos de acordo sobre este assunto — disse Huene. — O rapto do duque resultaria num descrédito para nós, por muito que o Governo Português simpatize connosco. — Levantou-se. — Janta comigo hoje à noite?

— Fica para outra altura, se possível — disse Schellenberg. Gostaria de ir visitar um velho amigo. E quanto a alojamento?

— Foram reservados quartos para si e os seus dois companheiros da Gestapo nas instalações do pessoal. Providenciei também um carro e um motorista para seu uso pessoal.

— Então vou pedir ao motorista para me levar agora.

 

EM 1938, UMA das primeiras ações de espionagem de Schellenberg tinha envolvido recolha de informações em Dacar, a principal base naval francesa em África. A maior parte dos seus preparativos para a missão havia tido lugar em Lisboa, onde fora apresentado a um comerciante japonês, Kajiro Taniguchi. Desenvolvera-se uma genuína amizade entre os dois homens, e Taniguchi tivera a oportunidade de ajudar Schellenberg na sua aventura africana. Taniguchi parecia estar envolvido em todo o gênero de esquemas e mantinha contatos estreitos com os meios da criminalidade local. Schellenberg decidira há muito tempo que ele era provavelmente um agente do Governo Japonês.

Taniguchi tinha uma empresa de importação-exportação perto das docas de Alcântara. Schellenberg foi até lá no carro da embaixada. Quando chegou, os escritórios estavam às escuras, mas, ao entrar no pátio do armazém adjacente, viu uma luz numa janela do andar de cima. Parou o carro e dirigiu-se à porta do armazém.

Quando a abriu, ouviu-se uma voz em português: — Quem está aí?

O armazém estava cheio de caixas. Em cima, havia um escritório envidraçado ao qual se acedia por uma escada de ferro. Taniguchi encontrava-se no cimo desta, um homem que parecia uma montanha, com a configuração de um lutador de sumo.

Debruçou-se na sombra e depois sorriu.

— Walter Schellenberg, por tudo quanto é sagrado!

Mais tarde, quando bebiam saquê no escritório, Taniguchi perguntou: — Negócios, Walter? Consigo são sempre negócios!

Schellenberg disse: — O duque de Windsor está em casa do banqueiro Santo e Silva, no Estoril.

— Isso é do conhecimento geral — respondeu Taniguchi.

— Quero saber tudo o que há para saber sobre aquela casa. As plantas dos andares, os empregados. Quero saber qual o sistema de segurança, tudo. Gostaria de ter alguém na casa que me informasse das entradas e saídas do duque. Devo salientar que dinheiro não é objecção. Pode tratar disso?

— É claro — disse tranquilamente Taniguchi. — Conheço nesta cidade toda a gente que interessa, e o dinheiro, em Lisboa, ainda pesa muito.

— Quando é que me diz alguma coisa?

— Amanhã à tarde. Digamos, às duas horas. Mas agora, meu amigo — perguntou bruscamente —, pensa que vão ganhar a guerra?

— Vejamos os fatos — disse Schellenberg. — Controlamos uma área maior da Europa do que Napoleão controlava. A maioria dos países neutros tende a simpatizar connosco, e a América, reconheçamos, não quer envolver-se.

— Então, pensa que dentro de pouco tempo haverá Panzers a descer Pall Mall em direção ao Palácio de Buckingham?

— É com os Ingleses. O Führer tomou bem claro que desejava estabelecer um armistício. Claro que eles podem querer escolher a alternativa mais difícil. É o que fazem geralmente.

— E agora uma pérola da sabedoria oriental — disse Taniguchi.

— Se os homens não têm medo de morrer, é inútil ameaçá-los.

Schellenberg levantou-se.

— Tenho que me ir embora. Falaremos amanhã.

 

LOGO DEPOIS DE O expresso de Lisboa ter entrado em Portugal, houve uma inspeção na fronteira. Hannah utilizou o passaporte francês e não teve qualquer dificuldade. Dormiu o resto do dia, chegando a Lisboa mais tarde do que era suposto, devido a atrasos no caminho.

Numa paragem de táxis no exterior da estação, encontrou um motorista que falava inglês e conhecia a casa de Santo e Silva, no Estoril. Entrou no táxi, encostou-se para trás no banco e fechou os olhos.

Acordou repentinamente quando o carro parou. Tinham estacionado em frente a um portão de ferro de uma parede muito alta. Um polícia de espingarda ao ombro avançou e falou para o motorista em português. O motorista voltou-se para Hannah.

— Ele quer saber o que a senhora deseja?

— Desejo ver o duque de Windsor.

— E agora os seus papéis.

Tirou o passaporte americano e entregou-o. O polícia levou-o até ao portão e entregou-o a um subchefe que apareceu da pequena casa da guarda. Entrou e, passados alguns minutos, tornou a sair, devolvendo o passaporte ao primeiro polícia, que o entregou a Hannah.

— Posso entrar agora? — perguntou ela ansiosamente.

Eles falaram em português, e o motorista disse: — Lamento, mas não. Não deixam entrar visitas sem autorização do Comando-Geral da Polícia. Ele fez um telefonema. Agora tem que esperar pela resposta. Quer que eu fique à espera?

— Não, penso que não. Faz-me bem apanhar um pouco de ar fresco. — Pagou-lhe e ele foi-se embora.

Podia ver as luzes da cidade através das árvores e ouvia-se música. Começou a chover, e o polícia trouxe uma capa da guarita e colocou-a à volta dos seus ombros.

Agora estava bastante frio e ela andou ao longo da estrada para se manter quente, parando para olhar para trás, para a foz do rio Tejo, onde as luzes de Lisboa se vislumbravam à distância.

Finalmente, dirigiu-se ao polícia.

— Faz favor — disse. — Ainda demora muito? Estou aqui quase há uma hora.

Nesse momento, ouviu-se o barulho de um carro a subir a colina.

Os faróis brilharam através dos arbustos de mimosas, e um Mercedes preto parou a alguns metros de distância.

 

A CHUVA VEIO sobre o Tejo e bateu nas janelas do apartamento de Joe Jackson, enquanto ele atirava mais um toro para a lareira.

— Que história, Hannah. Dá-me um minuto? Volto já. Sirva-se de outra bebida.

Ela deitou um pouco mais de brandy no copo e sentou-se defronte da lareira, a olhar para o lume.

Quando ele voltou, ela olhou para ele. — Acredita em mim?

— Diremos que gosto de si e que não gosto daqueles tipos do cais, Kleiber e Sindermann. E o duque de Windsor está em casa de Santo e Silva, no Estoril. Isso é um fato.

— Mas temos que chegar a ele de qualquer maneira, não compreende? — disse ela rapidamente. — Não podemos ficar quietos e deixar os nazis levarem-no.

— Parece-me tudo demasiado fantástico — disse Jackson. — Podia ser uma invenção de uma jovem assustada que prefere contar qualquer coisa a ser enviada de volta à Alemanha, onde é procurada por assassínio.

Ela olhou fixamente para ele.

— Que posso fazer para acreditar em mim?

O telefone tocou na sala ao lado.

— Você não pode, mas Connie Jones talvez possa. Deve ser ele agora. Pedi uma chamada para o Flamenco, em Madrid.

Saiu e fechou a porta. Ela ouviu o murmurar da sua voz durante algum tempo. Finalmente, ele regressou à sala, sorrindo maliciosamente.

— Então, é tudo verdade. E ainda por cima, de acordo com Connie, você canta tão bem como Billie Holiday. Ele quer falar consigo.

Correu para o telefone, e Jackson ficou a olhar para a lareira franzindo as sobrancelhas. Quando Hannah voltou, parecia que tinha estado a chorar.

— Ele disse-lhe o que aconteceu no clube? — perguntou ela.

— Disse. Três costelas partidas, mas disse que isso não prejudicaria a sua atuação. Conseguiram pedir alguns instrumentos emprestados.

— E Schellenberg? — murmurou ela. — Por que terá agido assim? Não consigo compreendê-lo.

— Sim, eu achei que essa era uma das partes mais improváveis da sua história, a maneira como a ajudou a fugir de Berlim. Ele pôs realmente a cabeça em jogo quando fez isso.

— Então, por que o fez?

— Não sei. Talvez ele próprio não saiba porquê, talvez goste de si, meu anjo. — Sorriu. — Não é difícil de compreender. Mas isso agora não interessa. Temos que a tirar daqui no caso de aqueles valentões voltarem.

— Ou a Polícia Portuguesa — disse ela.

— Ah, desses trato eu. — Sorriu de novo. — Alguns dos meus melhores amigos são polícias, especialmente aqueles que frequentam a minha sala de jogos. Parece que ganham muito regularmente, portanto está tudo bem. Agora, vista o casaco e vamos embora.


DEZ

NO INÍCIO, o caminho de saída de Lisboa no Mercedes desportivo prateado de Joe Jackson parecia um labirinto, e por isso Hannah perguntou: — Onde vamos?

— Para uma vila de pescadores chamada Nazaré — disse-lhe Jackson. — Uma amiga minha tem uma casa perto da praia. Ela está fora agora, mas eu tenho a chave. É um pouco longe, mas é sossegado e isolado.

Ela não se importa.

Agora estava uma noite bonita, a chuva tinha parado há muito e havia uma lua cheia no céu limpo, e a viagem foi agradável. Passadas cerca de duas horas, começaram a ver o mar, onde dúzias de luzes se agitavam em direção à pequena vila lá em baixo.

— Lanternas nas proas dos barcos de pesca — disse ele. — Atraem peixe em grandes cardumes como traças à roda de uma luz.

Desceram para perto de uma grande praia e um pouco adiante ele virou o carro para um caminho estreito, parando num portão de uma parede caiada. Abriu-o e entraram para um pátio fechado.

A casa era de um só piso, tinha um telhado de telhas curvas encarnadas e uma varanda e era rodeada por um jardim. Hannah sentiu o perfume das mimosas no ar da noite. Jackson conduziu-a através da porta principal para uma grande sala de estar mobilada com uma simplicidade surpreendente: paredes caiadas de branco, uma lareira enorme de pedra, o chão de madeira polida com alguns tapetes orientais.

— Casa de banho, cozinha. Quarto. Muitas latas de conservas na cozinha. Voltarei amanhã com outras coisas.

Saíram para a varanda. À distância, Hannah ouviu música, triste e estranhamente excitante.

— Que é? — perguntou.

— Um café local. Alguém pôs um disco de fado.

— Fado, que é isso?

— Não se pode explicar, só ouvindo. Faz parte da maneira de viver dos Portugueses.

Sentia-se o cheiro do pinhal ali perto. Parecia incrível que há duas noites estivesse em Berlim e agora ali, no ponto mais ocidental da Europa, virada para a América, do outro lado do Atlântico.

Pousou a mão no braço de Joe Jackson.

— Vai fazer alguma coisa, não vai? Promete-me?

— Com certeza que sim. Ouça, não podemos levá-la pessoalmente a ver o duque com essa ameaça de extradição que recai sobre si. Eu próprio vou tentar que a sua história chegue às pessoas certas.

— Quando?

— Ainda hoje à noite, em Lisboa. Sei com quem devo falar.

Ela ficou ali a olhar para ele e de repente beijou-o na face. Depois entrou para casa sem dizer uma palavra. Jackson ficou na varanda ainda algum tempo antes de voltar para o carro.

 

SEM QUALQUER dúvida, uma das áreas mais bonitas de Lisboa é o velho Bairro de Alfama. Sobre ele elevam-se as muralhas de pedra altas do Castelo de S. Jorge, em cujas fossas nadavam patos, cisnes e flamingos.

Joe Jackson parou o seu Mercedes e mergulhou no labirinto das ruelas estreitas. Normalmente, Alfama parecia uma coelheira fervilhante de vida.

A esta hora da madrugada estava silenciosa, um local de sombras, com apenas alguns feixes de luz que vinham dos grandes candeeiros de ferro apoiados em cima das velhas paredes.

Finalmente, virou para uma praça na parte de trás da Sé e parou no exterior do que tinha sido em tempos a casa de um nobre. Havia um escudo de armas assente na pedra por cima da arcada, e a velha porta de carvalho tinha dobradiças de ferro.

Puxou a corrente de uma sineta. Passado algum tempo, tiraram a tranca e abriram a porta. Um homem baixo de cabelo preto, com um smoking branco, deixou-o passar.

— Sr. Joe, que prazer — disse.

— Olá, Tomás. — Jackson entrou para um pátio fechado com chão de tijoleira. Havia uma fonte no centro. Seguiu atrás de Tomás através de um arco até um pequeno e confortável bar cheio de pequenas mesas.

— Ouvi dizer que havia um grande jogo de póquer esta noite. — disse Jackson.

— O major Frear deve cá estar.

Tomás acenou com a cabeça.

— Sim, chegou há duas horas.

— Diga-lhe que preciso de falar com ele. Estarei no terraço.

Tomás saiu, e Jackson disse à moça loura que estava atrás do bar:

— Traga-me o de costume.

Abriu as portas de vidro e foi lá para fora. O terraço com uma pérgola tinha uma vista espetacular sobre o rio Tejo, e as luzes brilhavam na escuridão por baixo dos telhados de Alfama. A empregada trouxe-lhe brandy com soda, e então ele debruçou-se sobre a balaustrada, pensando de repente no que estava ali a fazer.

Joe Jackson tinha trinta anos e era filho de um ministro metodista. A maior influência da sua vida havia sido um tio que voara com a esquadrilha de Lafayette em França durante a I guerra Mundial. O rapaz tinha sido educado no meio de conversas sobre Spads e Fokkers, e os seus heróis eram ases voadores como Richthofen e Rickenbacker. Aos dezenove anos, Jackson abandonara Harvard, juntando-se ao Air Corps, onde fora treinado como piloto de combate. Mas a disciplina do serviço militar aborrecia-o e, por fim, demitira-se. Tinha ido combater para a Brigada Internacional em Espanha, lutando contra a Legião Condor Nazi. Abatera cinco aviões, o que oficialmente o tornava um ás, antes de, por sua vez, ter sido abatido ao sobrevoar Barcelona numa bela manhã de Abril. Depois, graças a uma bala no tórax, viera para Portugal fazer a sua convalescença.

Havia ficado, prosperando como dono do melhor clube noturno de Lisboa. Às vezes, de manhã, quando observava o Clipper a partir do rio Tejo para a América, desejava de todo o coração ir a bordo, mas à noite ..

Ouviu passos atrás e virou-se quando Frear saiu para o terraço. O major vestia um fato de linho branco amarrotado. O cabelo e o bigode eram brancos como a neve, embora só tivesse cinquenta anos.

Tinha um ar petulante e aborrecido.

— Que é que se passa, Joseph? Estou no meio do melhor jogo de há seis meses para cá.

Frear era um jogador compulsivo, o que constituía o seu único vício. Era também um agente do MI-6, o departamento dos Serviços Secretos Britânicos encarregado da espionagem em países estrangeiros. Jackson disse: — O duque de Windsor. Tem conhecimento de que os Alemães têm mais do que um interesse passageiro por ele?

— Meu Deus, Joseph, é só isso? Os boatos fervilham em Lisboa desde que Sua Alteza chegou.

— Hoje à noite, estive com uma jovem que acabou de chegar de Berlim e que tem dados concretos para oferecer — disse Jackson.

Frear suspirou.

— Chamada Winter? Hannah Winter?

— Como é que sabe?

— Meu caro Joseph, pago a um certo tenente português da Polícia uma simpática gorjeta para me comunicar todas as noites qualquer informação que valha a pena.

Esta noite disse que o mais importante em todos os registos de polícia em Lisboa é uma jovem alemã chamada Hannah Winter, que é procurada por assassínio em Berlim.

— Americana — disse Jackson —, e não alemã. Se chama assassínio eliminar três homens da Gestapo, então ela é culpada, mas essa não é a razão por que vêm a persegui-la através da Europa até Lisboa. É porque um homem chamado Walter Schellenberg está na cidade, e ela sabe por quê.

— Walter Schellenberg? Aqui? Tem certeza, meu velho?

— Por que, conhece-o?

— Sim, penso que se pode dizer que o conheço. Está bem, Joseph, diga-me o que a jovem tem para contar.

 

WINSTON Churchill tornara-se primeiro-ministro a 10 de Maio de 1940, mas continuou durante algumas semanas a viver e a trabalhar na Admiralty House, nas salas que anteriormente tinha ocupado. Nessa noite, uma reunião com a Comissão de Pessoal tinha-se arrastado até depois da meia-noite. Ele havia-se retirado pouco tempo depois, adormecendo imediatamente, um truque que tinha aprendido durante as campanhas da sua juventude.

Foi acordado às 2 horas da manhã por Alexander Cadogan, do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

— Que se passa agora? — perguntou o primeiro-ministro.

— Foram recebidas informações da nossa delegação MI-6 em Lisboa — respondeu Cadogan.

O primeiro-ministro encostou-se às almofadas, acendeu um charuto e pegou no relatório. Leu-o e depois ficou sentado em silêncio durante algum tempo.

— Que é que acha, Sr. Primeiro-Ministro? — perguntou por fim Cadogan.

— A insinuação de que Sua Alteza poderia na verdade negociar com os nossos inimigos desprezo-a totalmente, como ela merece.

Conheço-o de toda a vida e é um homem de honra.

— Mas o outro aspecto, Sr. Primeiro-Ministro? A possibilidade do seu rapto? A presença do general Schellenberg em Lisboa pode apenas significar a mais grave das ameaças.

— Salazar pode ter algumas simpatias pelos nazis, mas nunca toleraria tal ato de agressão no seu próprio território. As repercussões internacionais seriam tremendas.

— Então, que fazemos?

— Temos de informar Salazar dos nossos receios, e o embaixador britânico deve informar Sua Alteza da situação.

— E depois?

— Vamos enviá-lo para as Bahamas logo que possível. Veja qual o primeiro barco disponível e ponha-me em contato com Walter Monckton.

 

WALTER Monckton levantou-se da cama e chegou à Admiralty House logo após as 3 horas da manhã. De estatura média, tinha pouco cabelo e óculos de lentes grossas. Brilhante advogado e amigo do duque de Windsor desde os seus tempos em conjunto em Oxford, tinha sido o seu assessor mais valioso durante a crise da abdicação. Atualmente, era diretor-geral do Ministério da Informação.

— Walter — disse o primeiro-ministro quando Monckton chegou. — Quero que vá a Lisboa logo que consiga um avião. Acabei de saber que um navio americano vai partir para as Bermudas a 1 de Agosto. De lá podemos escoltar os Windsors até às Bahamas. Espero que se sirva de toda a sua influência para que Sua Alteza Real e a duquesa embarquem nesse navio.

— E se ele não quiser ir, Sr. Primeiro-Ministro?

— Tem de ir, Walter. Olhe para estas informações e faça o seu próprio juízo. — Monckton leu-as, calmo como sempre. — Fará isto por mim, Walter?

— Claro, Sr. Primeiro-Ministro.

— Bom. Deixo tudo a seu cargo, então. — Churchill encostou a cabeça à almofada e adormeceu imediatamente de novo.

 

ANTONIO de Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Portugal, tinha cinquenta e um anos. Era o virtual ditador do país desde 1932, e o seu maior feito fora manter-se fora da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial.

Hoje, tinha convocado o coronel Fernandes da Cunha, comandante da Polícia de Segurança Portuguesa, para o seu gabinete no Palácio de S. Bento. Fernandes da Cunha, que tinha estado num seminário de jesuítas, ocupava agora um dos cargos mais poderosos da Polícia no país.

— Já não é a primeira vez que o chamo aqui devido a problemas de grande delicadeza — começou Salazar.

— Em que posso ajudá-lo, Sr. Presidente? — perguntou Fernandes da Cunha, um homem baixo mas bem constituído, com cara de camponês e um grande bigode preto.

— É sobre o duque de Windsor. Um assunto desagradável. Talvez tenha ouvido dizer que os Ingleses querem que ele aceite o cargo de governador das Bahamas. Os Alemães, por outro lado, preferem que fique na Europa. Se forem bem sucedidos na invasão de Inglaterra, talvez se sirvam dele.

— E qual é o problema?

— Os Ingleses pensam que os Alemães podem tentar raptar o duque antes de partir para as Bahamas. De fato, o chefe da Contra-Espionagem Alemã, Schellenberg, está cá. Recebi uma mensagem de Churchill na qual diz que tem confiança na nossa competência para zelar pela segurança do duque. Por outro lado, existem algumas pressões políticas por parte da Alemanha e, por enquanto, parece que eles vão ganhar a guerra.

— Mas se o duque fosse raptado no nosso território, as repercussões mundiais dificilmente nos seriam favoráveis — disse Fernandes da Cunha.

— Exatamente. Portanto, decidi que, se o duque tomar a decisão sozinho e for para Espanha, muito bem, mas não posso permitir qualquer ato de força neste assunto. Coronel Cunha, o senhor fica pessoalmente responsável pela sua segurança. Entrará em contato esta manhã com o embaixador britânico, o acompanhará a casa de Santo e Silva e aí tomará as providências necessárias quanto à segurança.

— Às suas ordens, Sr. Presidente. — Fernandes da Cunha cumprimentou e saiu.

 

— SABE, tudo isto está a tornar-se ridículo — disse o duque de Windsor ao embaixador britânico, Sir Walford Selby, ao sentarem-se na biblioteca. — Primo de Rivera vem-me com esta história absurda de os Serviços Secretos Britânicos tencionarem levar-me para as Bahamas quer queira, quer não. Agora, o senhor conta-me a mesma história, com os nazis no papel de maus.

O embaixador tentou conter a sua exasperação.

— Com o devido respeito, sir, a presença do general Schellenberg em Lisboa dá-nos que pensar. Há aqueles que sugerem que no contexto de uma Inglaterra ocupada os Alemães sugeririam a Vossa Alteza uma posição que se veria forçado a aceitar, acreditando que seria no melhor interesse do povo.

O duque levantou-se, carrancudo.

— Isso, Sir Walford, é uma porta de Judas através da qual nunca entraria. — Voltou-se, furioso, tirou um cigarro de uma cigarreira de prata e acendeu-o. Passado algum tempo, estava de novo controlado. — Em qualquer dos casos, qual é o plano?

— Há um barco americano que parte a 1 de Agosto, sir. Para as Bermudas. O Excalibur. Depois, podemos providenciar uma escolta até às Bahamas.

— O que nos dá o quê ... três ou quatro dias? Terá apenas de se certificar de que o pessoal dos nossos Serviços Secretos está sempre de olho em mim.

— Sir, o único representante em Lisboa dos Serviços Secretos é o major Frear, que atua apenas como intermediário para informadores pagos.

— Quer que durma com uma pistola debaixo da almofada?

Houve um pigarrear delicado e eles voltaram-se, deparando-se-lhes o coronel Fernandes da Cunha à porta.

— Não, sir — disse Sir Walford. — O Governo Português encarregou o coronel Cunha de dirigir todo o sistema de segurança até à partida do Excalibur.

— Inspecionei a propriedade — disse Cunha. — Vou requisitar mais homens. Não prevejo qualquer problema. Claro que ajudaria se Sua Alteza não saísse de casa.

— Quanto a isso, não posso ajudá-lo — disse o duque. — Depois de amanhã, vou passar o dia no campo. Num sítio chamado Nina.

Uma herdade onde criam touros.

O coronel Cunha olhou de relance para o embaixador.

— Sir, permita-me chamar a atenção para o fato de que Vossa Alteza estará a menos de quinze quilômetros da fronteira espanhola.

— Tudo isto foi combinado pelo meu bom amigo Primo de Rivera — respondeu o duque. — Não está certamente a sugerir que ele vai tentar fugir comigo!

— Não, Alteza — disse diplomaticamente o coronel.

— Ótimo. É claro que não me importo se quiser mandar alguns dos seus rapazes para nos fazer companhia, se isso o fizer feliz. Mas agora têm que me desculpar. A duquesa está à espera.

Saiu, e Sir Walford voltou-se para o coronel.

— Como lhe tinha dito, não vai ser fácil.

 

LOGO QUE Fernandes da Cunha voltou ao seu gabinete, telefonou para a Legação Alemã, e às 10 e meia encontrou-se com Schellenberg num pequeno café em Belém.

— General, vou direto ao assunto — disse Cunha. — Neste momento, as nossas relações com o Reich são amigáveis e o senhor é um visitante bem-vindo ao nosso país.

— Mas? — disse Schellenberg.

— O duque de Windsor é um caso especial. O que mais desejamos neste momento é que embarque a 1 de Agosto e siga caminho.

Até lá, o presidente do Conselho tornou-me pessoalmente responsável pela sua segurança. Aumentei o número de guardas na casa do Estoril e eles têm ordens para atirar a qualquer intruso. Fui claro?

— Perfeitamente — disse Schellenberg. — E agora, meu caro coronel, um conhaque para lhe adoçar o café.

— Com todo o prazer — disse Fernandes da Cunha.

 

JOE JACKSON telefonou ao major Frear para o seu apartamento logo às 10 horas da manhã. Frear parecia que tinha acabado de acordar de um profundo sono.

— É o Jackson. Que aconteceu desde a nossa conversa ontem à noite?

— Nada de novo, meu velho. Comuniquei as suas informações à minha gente e ?tenho a certeza de que tomarão as medidas apropriadas. Não há necessidade de você ou a tal moça se envolverem. Se quer o meu conselho, diga-lhe para se manter sossegada para evitar surpresas desagradáveis.

Jackson desligou e sentou-se a pensar durante um pouco. Depois, vestiu-se, desceu rapidamente as escadas e entrou no Mercedes. Virou para norte, a caminho da Nazaré.

Logo a seguir, um carro afastou-se do passeio. Schellenberg disse para o motorista que a legação tinha providenciado.

— Não tenha pressa, mantenha-se bem para trás. Mas não o perca de vista.

 

NÃO HAVIA sinais de Hannah na casa da Nazaré. Jackson deixou ali o carro e desceu até à praia. O carro que o tinha seguido parou perto de umas árvores a uns cem metros de distância, Schellenberg saiu e observou através de binóculos.

Estava um belo dia quente e a praia encontrava-se cheia de barcos de pesca pintados com cores garridas. Os pescadores estavam sentados a remendar as redes, as crianças brincavam em volta deles e, ao longe, rolavam as grandes vagas do Atlântico.

Jackson viu Hannah a andar na sua direção de pés descalços, trazendo um balde na mão. Quando o viu, começou a correr.

— Que dia maravilhoso — disse ela. — E este sítio. As pessoas são tão simpáticas e atenciosas, e os barcos ... — Voltou-se para olhar para eles. — Porque é que alguns têm olhos pintados na proa?

— Isso é foco de discussão — disse Jackson. — Alguns dizem que é para repelir o demônio. Outros, para o barco encontrar o caminho através de qualquer tempestade. Já vi que esteve a comprar peixe.

— Sim. Deixe-me fazer o almoço. — Deu-lhe o braço e, ao dirigirem-se para casa, observou: — Disse que falaria com as pessoas indicadas. Falou?

— Sim. O meu contato com os Ingleses analisou a sua história e pensa que não há razão para você continuar a envolver-se.

Ela não disse nada, e andaram o resto do caminho em silêncio.

Em casa, provou ser uma boa cozinheira. O peixe estava delicioso, mas Hannah apenas provou um pouco.

— Está bem, que é que passa? — perguntou ele.

— Sinto que ninguém está a levar este assunto suficientemente a sério. — Inclinou-se sobre a mesa. — Não gosto disto. Quero ver o duque. Dizer-lhe pessoalmente o perigo que corre. O que ele decidir depois já é problema seu, mas, se não o fizer, ficarei sempre com a sensação de que deixei ficar mal o tio Max.

— Está bem — suspirou ele. — .Posso tentar através de uma pessoa. Um homem que conheço chamado Taniguchi, que consegue quase tudo. Vou entrar em contato com ele, mas pode custar dinheiro.

— Tenho uma carta de crédito de dois mil dólares.

— Por esse dinheiro, provavelmente ele próprio raptaria o duque. Vou voltar a Lisboa para ver o que posso arranjar. Depois, será melhor mudar-se para a casa de outro amigo meu em Cascais. É menos escondido, mas fica só a dois ou três quilômetros do Estoril. Entretanto, fique sossegada. Voltarei logo que puder.

Viu-o partir e, num impulso, desceu até à praia, tirou os sapatos e começou a passear no areal. Agora o sol estava muito quente.

Deitou-se ao pé de um barco de pescadores e fechou os olhos. Ouviu passos e uma voz familiar disse: — Olá, Hannah.

Quando olhou para cima, Schellenberg estava a seu lado.

— Devo dizer que está muito bem, tendo em conta tudo o que tem passado — disse ele.

— Que quer de mim? — perguntou.

— Quer um cigarro? — Inclinou-se para lhe oferecer um e ela tirou sem pensar. Quando ele lhe deu fogo, havia uma certa intimidade no seu gesto.

— Perguntei o que queria.

— Nada — respondeu ele. — Ou antes, a partir de agora, não quero que faça nada. Já não pode modificar o desenrolar dos acontecimentos, Hannah. O jogo está a prosseguir e os jogadores conhecem as regras do jogo.

— É como vê isto? Apenas um jogo?

— Claro. Um jogo terrível que, uma vez começado, é impossível parar. É como um carrossel. Uma vez em movimento, já não há nada a fazer.

— Pode sempre tentar saltar.

— Agora é demasiado tarde para isso. Estou encurralado, juntamente com milhares de outras pessoas como eu. Acha realmente que acredito naquele louco em Berlim, numa só palavra das suas mentiras? Os negros são inferiores, o que significa que não posso apreciar a música do seu amigo Connie Jones. Einstein não sabe contar até dez e o fato de Hannah Winter ter uma voz para ...

— Não quero ouvir mais — Hannah levantou-se. — Safou-me da Prinz Albrechtstrasse; não sei porquê, mas fê-lo, e ajudou Connie e os rapazes em Madrid, mas matou o tio Max. Não interessa quem segurava na arma. Você matou-o.

Ficaram ali, a enfrentarem-se um ao outro. Ouvia-se apenas o barulho do mar a bater na areia, o grito de uma gaivota. Depois, foi como se alguma coisa se tivesse partido dentro dela.

— Por quê? — murmurou, e havia dor na sua voz. — Não compreendo.

Ele pôs uma mão por baixo do queixo dela e sorriu gentilmente.

— A vida, minha Hannah, tem o hábito de agarrar uma pessoa pela garganta e não a largar. É realmente muito triste. — Beijou-a delicadamente na boca, voltou-se e partiu. Muito tempo depois de ele se ter ido embora, ela continuava ali apenas a olhar para o mar.

Depois, regressou lentamente à casa.


ONZE

AO CONTRÁRIO da noite anterior, o armazém estava numa grande agitação quando Schellenberg entrou e subiu as escadas de ferro até ao escritório de Taniguchi.

— Já tem alguma coisa para mim? — perguntou, sentando-se diante do homem enorme.

— Mas é claro. — Taniguchi abriu um cofre de parede e tirou uma pasta feita de cartolina. — Tudo o que precisa, Walter. Uma planta da casa e do terreno. Uma lista dos criados. Também consegui que um criado, uma criada e um jardineiro fossem substituídos por pessoas ao meu serviço. Falam todos razoavelmente bem inglês.

— Excelente, e a Polícia?

— Ligeiramente mais difícil — respondeu Taniguchi. — O coronel Fernandes da Cunha, chefe da Polícia de Segurança, foi tornado responsável pela segurança da casa. É um polícia de primeira classe, fora do alcance de qualquer suborno, e na minha opinião cumprirá as suas ordens à letra. Felizmente, o oficial que está colocado na casa é um homem de uma espécie totalmente diferente. É o capitão José Mota.

— Está do nosso lado?

— Se se refere a ideologias, não, mas tem gostos muito caros, particularmente no que respeita a mulheres. Portanto, quais são as suas ordens?

— Neste momento, aquilo que quero são informações gerais sobre o que se passa na casa. Qualquer conversa que consigam escutar será útil.

— Sobre os planos futuros do duque? E se ele, afinal, decidir ir para as Bahamas, Walter? Que é que acontece?

— Não o censuraria por isso — Schellenberg levantou-se. — Ouvi dizer que o clima é ótimo.

Taniguchi riu às gargalhadas.

— De fato, a vida é muito divertida. Pensemos numa coisa tão abstrata como uma informação. Um artigo tão sujeito às forças do mercado como qualquer outro. Uma coisa que, por exemplo, pode ser vendida não só uma vez, mas duas.

— Uma hipótese interessante — disse Schellenberg. — Vamos discuti-la. — Sentou-se novamente.

 

NA LEGAÇÃO ALEMÃ, no dia seguinte, depois do almoço, o embaixador Von Huene tomava café quando Schellenberg entrou no gabinete.

— Ah, seja bem aparecido, general. — Huene encheu outra chávena de café e pegou num documento que estava em cima da mesa.

— Está aqui uma coisa para si do Ministério dos Negócios Estrangeiros de que pode não gostar. Já a descodifiquei.

Era de Ribbentrop e não se perdia em rodeios.

Na ocasião apropriada, o duque tem de ser informado de que a Alemanha quer a paz com o povo inglês, que Churchill se opõe a essa ideia e que seria uma boa política se o duque se mantivesse preparado para futuros acontecimentos. A Alemanha está determinada a forçar a Inglaterra à paz por quaisquer meios, e a partir deste acontecimento estaria preparada para atender a qualquer desejo expresso pelo duque, especialmente no que se refere a uma subida ao trono inglês pelo duque e a duquesa.

Havia mais informações do mesmo teor, incluindo a convicção de Ribbentrop de que Santo e Silva era simpatizante dos objetivos da Alemanha. Reiterava-se também o boato de que os Serviços Secretos Britânicos tinham desígnios obscuros em relação ao duque.

— Bem, é sem dúvida bastante explícito — disse Schellenberg.

— Tive notícias de Primo de Rivera — disse-lhe Huene. — Amanhã vai levar os Windsors a visitar uma herdade chamada Nina.

A quinze quilômetros apenas da fronteira espanhola. Que pretende fazer?

— Esperar pelos acontecimentos — respondeu Schellenberg. — Se De Rivera conseguir convencer o duque de que a sua ida para Espanha seria no seu melhor interesse, então a fronteira estará muito perto de Nina. Ribbentrop e o Führer ficariam satisfeitos e podíamos ir todos para casa.

— E se o duque tomar outra decisão?

Schellenberg sorriu.

— Barão, o seu café estava realmente excelente. Vê-lo-ei mais tarde.

 

O BAR AMERICANO de Joe Jackson era um lugar popular de encontro à hora do almoço, e estava cheio quando Kajiro Taniguchi entrou logo às 2 horas. Jackson foi imediatamente ao seu encontro.

— Conseguiu a informação que pedi?

— Penso que sim — respondeu Taniguchi.

Jackson conduziu-o ao seu escritório e fechou a porta.

— Muito bem, qual é o acordo?

— É um homem muito ocupado, este seu amigo duque. Amanhã vai visitar Nina, a herdade de José de Oliveira.

Jackson franziu as sobrancelhas.

— Nina é muito perto da fronteira espanhola.

— É, não é? Bem, mas voltando ao Estoril. Embora Fernandes da Cunha seja totalmente responsável pelo duque, o oficial de serviço na casa é um tal capitão José Mota.

— E ele é subornável?

— Corrupto como um cadáver de uma semana, mas vai sair-lhe caro, Joe. Mil dólares em dinheiro americano, adiantados.

— E que recebemos em troca?

— Todas as noites, às dez horas, o duque dá um passeio sozinho no jardim enquanto fuma o último charuto do dia. Tenho uma planta. — Tirou da pasta um papel dobrado em quatro e desdobrou-o: Aqui, por baixo da piscina, existe um alpendre. O duque acaba sempre o seu passeio sentando-se lá durante cinco minutos, a acabar o seu charuto.

— E então?

— A uns metros de distância, existe uma porta no muro do jardim escondida por arbustos. Normalmente, está lá um polícia que discretamente a guarda, mas hoje à noite, se estiver interessado, não estará lá. E mais, a porta não estará trancada.

— Graças ao capitão Mota?

— Exatamente.

— Que espera o seu dinheiro adiantado.

— Receio que sim.

Jackson dirigiu-se ao grande e antiquado cofre no canto da parede, abriu-o, trouxe uma caixa para a secretária e contou dez notas de cem dólares.

— Mais uma coisa — disse Taniguchi. — A jovem entra sozinha.

— Ouça lá ... — começou Jackson.

— Faz parte do acordo, Joe. Ou concorda, ou acabou-se. Ela deixa o carro a meio da colina e faz o resto do caminho a pé. Isto é para a sentinela do portão não a ouvir.

Jackson encolheu os ombros.

— Está bem — disse relutantemente. — Mas se não me fizerem o serviço, velho amigo ...

— A confiança, Joe, é uma das coisas mais negociáveis deste mundo. Tem que aprender a dar-lhe o devido valor. — Taniguchi saiu a sorrir.

 

TINHA sido colocado à disposição de Schellenberg um gabinete na Legação Alemã, e ele estava a trabalhar à secretária quando bateram à porta.

Kleiber entrou, muito pálido e trazendo o braço direito ao peito.

— Que é que quer? — perguntou Schellenberg.

— Parto do princípio de que há trabalho para se fazer.

— Se bem compreendi, a sua tarefa era ser meu guarda-costas. — disse-lhe Schellenberg. — Quando perdeu Hannah Winter naquele cais e deixou o americano dar-lhe um tiro no braço, ficou totalmente incapacitado para essa função. Portanto, as minhas ordens são para que fique na cama até estar completamente recuperado.

— E Sindermann?

— Não tem qualquer utilidade para mim.

— Mas, e o duque de Windsor, meu general?

— Isso não lhe diz respeito, por isso faça o que lhe mando. Compreende?

— Sim, meu general — respondeu Kleiber, mas quando se voltou para a porta a sua cara refletia raiva e ódio.

Cinco minutos depois, com Sindermann nos seus calcanhares, entrava no gabinete do seu amigo Egger, o adido de polícia da Legação Alemã.

Kleiber puxou, com alguma dificuldade, a sua carteira com a mão esquerda, tirou para fora a carta de Himmler e entregou-a.

— Como pode ver — disse Kleiber —, ajo em nome do próprio Reichsführer Himmler.

— Claro, major — disse Egger, alarmado.

Kleiber sentou-se.

— Tenho sérias dúvidas de que o general Schellenberg esteja a cumprir as suas ordens no que diz respeito ao caso Windsor com a eficácia que devia. Você ouviu alguma coisa da qual eu deva ser informado?

Egger parecia nervoso, mas respondeu em voz baixa.

— Sim, penso que sim. Um contato meu na Polícia Portuguesa disse que, há cerca de uma hora, o general recebeu uma breve visita do capitão José Mota, da Polícia de Segurança, o oficial de serviço no destacamento em casa do duque.

— Compreendo. Tem alguma ideia sobre o assunto da conversa com o general Schellenberg?

— Não.

— Mas podia saber através do seu amigo Mota?

— Podia tentar, major.

— Então tente, por favor — disse-lhe Kleiber.

 

UM POUCO antes das 10 horas da noite, Hannah virou para a estrada que subia a colina até à casa. Seguindo as instruções que Taniguchi tinha dado a Jackson, parou o carro debaixo de umas árvores a meio da encosta e fez o resto do caminho a pé.

Alguns minutos mais tarde, com o mínimo de barulho possível, a porta do carro abriu-se e Joe Jackson, que tinha estado agachado no chão, saiu. Vestia calças e uma camisola pretas e um capuz enfiado na cabeça que deixava apenas os olhos à mostra. Tinha a Browning automática enfiada no cinto.

Seguiu-a, sempre encostado às árvores. A porta no muro era claramente visível, já que tinha uma pequena luz por cima. Ele viu-a parar, depois abrir a porta e entrar.

Um pouco mais longe, havia uma árvore cujos ramos passavam por cima do muro. Jackson subiu-a rapidamente e parou sobre o muro. Viu a forma indistinta do alpendre a uns quatro ou cinco metros de distância e Hannah a aproximar-se dele por um caminho através dos arbustos.

Hannah via o brilho na escuridão e sentia o aroma de um bom havano.

— Alteza — murmurou. — Por favor, preciso falar consigo. Chamo-me...

— Hannah Winter — disse Walter Schellenberg. Saiu das sombras e ficou à entrada do alpendre.

— Oh, meu Deus — disse ela, e voltou-se para fugir, mas encontrou o caminho bloqueado por um jovem oficial da Polícia.

Schellenberg disse: — Está tudo bem, Mota. Agora vou acompanhar a senhora de volta ao carro.

Uma mão segurou no cotovelo dela, levando-a pelo caminho até à porta. Saíram e Mota fechou a porta atrás deles.

Estendido agora no cimo do muro, Jackson ouviu Schellenberg a dizer a Hannah, ao passarem: — Receio que Taniguchi não tenha sido totalmente honesto com o seu amigo Mr. Jackson. O duque não vai aparecer senão daqui a meia hora. Que é que vou fazer consigo, Hannah? Não lhe tinha dito para não se meter nisto?

Jackson teria descido do muro para os seguir se Mota não tivesse parado a uns metros de distância para acender um cigarro. O fósforo chamejou, iluminando uma cara simpática, mas fraca.

Mota olhou furtivamente em redor, depois murmurou em português: — Está bem, podem sair agora.

Kleiber e Sindermann saíram do meio dos arbustos.

— Viram o que queriam? — perguntou Mota.

— Oh, sim — respondeu Kleiber. — O general vai ter de dar explicações quando regressarmos a Berlim. Entretanto, vamos examinar os acontecimentos de amanhã. Quando partem para essa herdade?

— Às nove e meia. Dois polícias de mota seguirão um quilômetro à nossa frente. Eu sigo com meia dúzia de homens num camião. O duque a duquesa, Primo de Rivera e o motorista virão em último, no Buick.

— E depois?

— A cinco quilômetros de Nina, fica uma aldeia chamada Rosário. Uma estalagem e algumas casas, nada mais. Farei com que o meu camião se avarie antes de lá chegarmos. Quando o Buick nos apanhar, direi que continuem e que nos esperem em Rosário.

— Onde os motociclistas já terão passado?

— Exatamente. Prevejo que o Buick chegue a Rosário perto das onze horas. Você e os seus homens deverão lá estar à espera.

Mota encolheu os ombros.

— Basta apontar-lhes uma pistola e levá-los até à fronteira. Vinte minutos e estarão em Espanha.

— Excelente — disse Kleiber. — Fez tudo como deve ser.

— E o general Schellenberg?

— Não deve ser informado.

— E o meu dinheiro?

— Vai receber, tem a minha palavra. Vinte mil dólares americanos, como acordamos.

Jackson não esperou para ouvir mais, deslizou suavemente pelo muro e saltou para a relva. Começou a descer a colina para onde Hannah tinha deixado o Mercedes, mas já não estava lá.

A combinação tinha sido simples: se perdessem o contato, encontrar-se-iam no apartamento em Cascais. Começou a correr ao longo da estrada.

 

QUANDO Hannah e Schellenberg chegaram ao Mercedes de Joe Jackson, ele abriu-lhe a porta, depois deu a volta e sentou-se no lugar do passageiro.

— Vim de táxi. Não se importa de me dar boleia?

Hannah pôs o carro a trabalhar.

— Só até à primeira paragem de táxis.

Schellenberg acendeu um cigarro.

— Agora, pode ver que é um disparate continuar a interferir neste assunto. O fato de me ter encontrado à sua espera no alpendre hoje à noite, em vez do duque, prova que tenho mais influência em Lisboa do que Mr. Jackson.

Perto da estação do comboio, havia uma paragem de táxis e ela parou. Não disse uma palavra; Schellenberg saiu, fechou a porta, depois debruçou-se sobre a janela e sorriu.

— Realmente, não podemos continuar a encontrar-nos desta maneira, não acha?

Ela deu meia volta, acelerou e afastou-se rapidamente.

 

HAVIA LUZES na casa de Cascais quando Hannah parou o carro na rua. Quando subia os degraus para a porta de entrada, esta abriu-se e Jackson, que entretanto tinha apanhado um táxi, apareceu.

— Que aconteceu? — perguntou, e ela depressa lhe contou. — Perdeu a melhor parte do espetáculo — continuou ele, ao segui-la para dentro de casa. — Depois de se ter ido embora, os seus dois amigos do cais apareceram, Kleiber e Sindermann. Parece que não estão exatamente de acordo com Schellenberg. Planearam uma conspiração com o capitão Mota para raptarem o duque e a duquesa a caminho da herdade, amanhã. Parece que esse tal Mota anda a estender a mão a toda a gente.

— Não podemos impedi-los?

— Oh, sim, penso que sim. Já consegui descobrir quem vai organizar o espetáculo para eles, é um amigo meu, José Borges. Era um dos melhores toureiros do país até ter perdido um olho com uma cornada. Telefonei-lhe e ele concordou em levar-nos amanhã, às oito horas. Agora, arranje-me um café enquanto mudo de roupa.

Foi ao carro buscar uma mala, depois vestiu um smoking branco com um laço preto.

— Farpela de trabalho — disse-lhe. — Afinal, sou proprietário de um bar.

Hannah serviu-lhe o café.

— Tenho estado a pensar. Aquele seu amigo japonês que organizou isto não fez propriamente o serviço para que foi pago.

— Oh, não sei — disse Jackson. — Ultimamente, os nazis não têm apenas imprimido o seu próprio dinheiro, mas também o de outros. As notas de cinco libras inglesas que eles fazem são excelentes, e as notas de cem dólares americanos não são más. Alguém tentou passar algumas nas minhas mesas de jogo no mês passado.

Confisquei-as, naturalmente, e expulsei-o. Não valia a pena chamar a Polícia, e podia ser que as notas fossem úteis noutra altura.

— Seu patife — disse ela com admiração.

— Gosto de pensar que sim.

Saíram de casa e foram até Lisboa, ao Bar Americano, onde havia muitos carros estacionados cá fora. Jackson levou Hannah para o seu escritório.

Abriu um painel na parede onde havia uma grade preta através da qual se podia olhar para a sala de jogos. Dados, vinte-e-um, póquer, estava tudo a correr bem, mas havia muita gente, especialmente à volta da mesa da roleta. Jackson disse: — Ótimo, lá está ele, Espere aqui.

Desceu as escadas e aproximou-se do coronel Fernandes da Cunha, que não estava a ser particularmente feliz à roleta.

— Olá, coronel — disse Jackson baixinho. — Sempre pensei que o doze fosse o seu número da sorte.

— Sim, Joe?— Cunha sorriu. — Então será o número doze.

Quando a roda parou, a bola caiu precisamente no número doze.

Jackson disse:

— Se fosse a si, continuava com esse número.

— Quem sou eu para discutir com o proprietário?

Desta vez, quando saiu novamente o número doze, o coronel apanhou as fichas que o croupier tinha posto à sua frente.

— Está a ser excessivamente generoso hoje à noite, Joe. Gostaria de saber porquê.

— Oh, ainda nem comecei — disse-lhe Jackson. — Venha lá acima tomar uma bebida. Vai achar interessante.

Hannah estava ao pé da grade, a olhar para a sala de jogos, quando eles entraram. Voltou-se e Jackson disse: — Coronel, quero apresentar-lhe Hannah Winter. Agora, podia prendê-la. Por outro lado, se for tão esperto quanto eu penso que é, vai ouvir primeiro o que temos para dizer.


DOZE

ESTAVA UMA bela manhã soalheira enquanto o velho camião rolava ao longo da poeirenta estrada alentejana entre as oliveiras. Mulheres vestidas de preto e com chapéus de palha já trabalhavam nos campos.

Hannah e Jackson iam no banco da frente, ao lado do toureiro José Borges, que conduzia. Os outros membros da equipa seguiam atrás.

Hannah trazia um vestido preto de camponesa e um lenço à cabeça que Jackson lhe tinha arranjado. Ele tinha uma boina de lã, uma camisa sem colarinho e um velho casaco já muito remendado.

— Você e Joe já se conhecem há muito tempo? — perguntou Hannah ao toureiro.

— Desde Espanha, miss. Lutamos juntos contra Franco. Foram maus tempos, posso garantir-lhe. Às vezes, não víamos uma côdea de pão durante meses.

Jackson dormitava no canto. Hannah olhou para ele e disse:

— Calculo que o dinheiro não valia o sacrifício.

— Dinheiro? — Borges riu às gargalhadas. — No último ano da guerra, não recebemos nem um tostão ... nenhum de nós.

— Então, porque lutaram?

— Uma vez, fiz essa pergunta a Joe. Para mim, é simples. Sou comunista, mas Joe disse apenas que não gostava de Franco. — Nesse momento, passavam ruidosamente por uma pequena estalagem com mesas cá fora. — Ah, estamos em Rosário. Daqui a pouco, chegaremos à herdade.

— Sabes uma coisa? — disse Joe Jackson sem abrir os olhos. — Falas demais.

 

PRIMO DE RIVERA ia sentado no banco de trás do carro com o duque e a duquesa. O duque dizia: — Isto é realmente demais. Wallis recebeu um ramo de flores esta manhã. Anônimo. O cartão dizia: "Esteja atenta às maquinações dos Serviços Secretos Britânicos. Um amigo português com os seus interesses em mente." Ouviu alguma vez tal disparate?

— Esse tipo de conversa é comum em Madrid — disse De Rivera.

— Meu Deus, Primo, é um disparate absoluto. Quero dizer, não existe praticamente nenhum membro dos Serviços Secretos Britânicos em Lisboa neste momento.

O Buick abrandou ao chegarem ao lado de um camião da Polícia que estava parado ao lado da estrada. O capitão Mota aproximou-se e cumprimentou.

— Peço desculpa pelo incômodo, Alteza. Uma avaria menor, depressa rectificada. Podem continuar até Rosário e esperar lá por nós.

— Muito bem, então — disse o duque, e acenou para o motorista.

— Continue.

 

KLEIBER e Sindermann chegaram a Rosário às 10 e meia num cano que tinham alugado em Lisboa. A estalagem era bastante pobre — paredes toscas, chão de pedra e mesas de madeira — e não tinha outros clientes.

Uma velhota apareceu de um quarto nas traseiras para os servir.

Pediram vinho tinto e um prato de azeitonas e sentaram-se numa mesa perto da janela à espera.

— Verifica a tua arma — disse Kleiber. Ambos tinham trazido Walthers do arsenal da legação.

Dois polícias de motorizada passaram ruidosamente, levantando poeira. Kleiber olhou para o relógio.

— Já não falta muito. Gostava de ver a cara de Schellenberg quando souber disto.

— Por que esperar? — disse Schellenberg, saindo da cozinha, seguido do coronel Cunha e de dois polícias com pistolas automáticas.

— Parece que chegaram primeiro do que nós, meus senhores. — disse Cunha. Nós também estamos aqui para ver o duque passar.

— O coronel Cunha é o chefe da Polícia de Segurança — explicou Schellenberg. — Teve agora mesmo a desagradável tarefa de prender um dos seus próprios oficiais, o capitão Mota.

— Um jovem muito corrupto — disse o coronel.

Nesse momento, o Buick apareceu e parou. Fernandes da Cunha alisou a farda e saiu. Viram-no cumprimentar e inclinar-se sobre a janela. Quando se afastou, o Buick continuou e o coronel regressou.

— Vou segui-los pessoalmente até Nina para me certificar de que o resto do dia se passa sem dissabores. Presumo que vai regressar agora a Lisboa, general?

— Sim, penso que sim — disse Schellenberg. — Os meus agradecimentos, coronel.

Saiu pela cozinha, Kleiber e Sindermann seguiram-no. A cara do major contorcia-se de raiva.

 

AS TOURADAS de gala à portuguesa constituem um espetáculo maravilhoso. A herdade de José de Oliveira tinha a sua própria praça de touros e fora aí organizado um espetáculo deslumbrante para a comitiva real.

Os touros foram primeiramente lidados a cavalo à maneira portuguesa, e o próprio Oliveira tomou pane com a sua casaca dourada, calções de cetim e um chapéu tricórnio com plumas de avestruz.

Quando chegou a altura das pegas, o interesse foi ainda maior.

As barreiras abriram-se e um touro saiu disparado como um raio negro para a luz da praça. Ficou ali, raspando as patas no chão. Uma fila de homens entrou na praça, encabeçada por José Borges. E o duque perguntou: — Que pretendem fazer?

Primo de Rivera disse: — É fascinante. Vossa Alteza já visitou a Grécia, com certeza. Nos vasos cretenses terá visto representadas as danças do touro sagrado, em que os jovens saltavam por cima das costas do touro.

— Estes rapazes vão fazer algo parecido? Espantoso!

Os homens avançaram em direção ao touro. Borges, arrogante, de cabeça levantada para trás, mãos nas ancas, oferecia-se como alvo. Quando o touro carregou sobre eles, a duquesa gritou, alarmada, mas no último momento Borges agarrou-se à cabeça do animal e os seus companheiros deram a ajuda até o pararem. Depois de o rabejador fazer a sua exibição final, a porta do curro abriu-se e o touro foi levado para fora da arena. Então, os forcados entraram e saudaram os espetadores, que aplaudiam.

— Que fazem ao touro agora? — perguntou a duquesa ao seu anfitrião, que entretanto se tinha juntado a eles.

— Umas vezes abatem-no, outras, se for bravo, volta para as pastagens e é mantido para reprodução. Um touro nunca deve entrar numa praça duas vezes. Depois de conhecer os truques, por assim dizer, pode tomar-se demasiado perigoso.

— Calculo — disse o duque. — Uma atuação magnífica.

O almoço foi servido no terraço da casa principal. Um eucalipto perfumava o ar. José de Oliveira apresentou deliberadamente uma refeição tradicional. Gaspacho frio, enchidos, saladas, queijos frescos e secos.

A única concessão sofisticada para a ocasião foi a enorme quantidade de champanhe servida.

O duque sorriu para a duquesa.

— Gostaste, Wallis?

— Oh, sim, David, foi o dia mais maravilhoso desde há muito tempo.

Primo de Rivera parecia querer dizer alguma coisa, mas nesse momento o coronel Fernandes da Cunha aproximou-se através do relvado.

— Estamos prontos para regressar, coronel — disse o duque.

Fernandes da Cunha cumprimentou-o.

— Se Vossa Alteza pudesse dispor de cinco minutos em particular. Uma questão de segurança.

— Com certeza. — O duque sorriu para as outras pessoas. — Desculpem-me.

Acompanhou o coronel através do pátio e disse: — Olhe, coronel, não sei que espécie de boatos irrefletidos ouviu, mas quando sair daqui, o meu carro vai em direção a Lisboa. Não faço tenções de dar uma escapada até à fronteira espanhola.

— Hoje de manhã, Vossa Alteza escapou por um fio a uma situação que não, lhe daria qualquer hipótese de escolha.

Atravessaram o pátio e chegaram à pequena capela de pedra que servia a propriedade. O duque parou e inquiriu: — Coronel, que é que está a dizer?

Cunha abriu a porta da capela. — Se Vossa Alteza não se importar de entrar, está ali alguém que pode explicar a situação melhor do que eu.

Era uma capela simples, com o chão de pedra, paredes caiadas de branco e um altar despretensioso com um crucifixo esculpido em madeira. De um lado, velas chamejavam diante de uma imagem da Virgem.

Dois camponeses, um homem e uma mulher, estavam sentados à frente num dos bancos rústicos de madeira. Voltaram-se e puseram-se de pé, e o duque viu que a mulher era jovem e bastante atraente.

Quando ela começou a falar, tornando-se evidente que era americana, ficou bastante surpreendido. Mais tarde, sentaram-se os três num banco, ficando o coronel por perto.

— É realmente a coisa mais extraordinária que ouvi na minha vida — disse o duque.

— Mas é verdade, sir, tudo o que contei — disse-lhe Hannah.

— Oh, eu acredito em si, minha querida, fique descansada. As informações do coronel sobre o falhanço por um triz em Rosário esta manhã confirmam-no. — Voltou-se para Fernandes da Cunha.

— Diz que o general Schellenberg lhe confiou não ter intenção de me raptar?

— Sim, sir, assegurou-me que, no que lhe dizia respeito, a escolha da atitude a tomar neste assunto era inteiramente de Vossa Alteza.

— E acredita nele?

— Sim, acredito. Não há qualquer dúvida de que Kleiber e o seu acólito atuavam por iniciativa própria neste assunto. Como a história de Miss Winter demonstrou, o general Schellenberg é um homem invulgar sob muitos aspectos.

— É, de fato. — O duque olhou atentamente para Fernandes da Cunha. — Coronel, posso confiar nos seus bons serviços?

— Sir, o Sr. Presidente do Conselho tornou-me pessoalmente responsável pela segurança de Vossas Altezas enquanto estiverem em terras de Portugal, com o sacrifício da minha própria vida, se necessário.

O duque sorriu timidamente, depois voltou-se para Joe Jackson. — E o senhor, Mr. Jackson? Também posso confiar em si?

— Claro, sir.

— Ótimo. — O duque virou-se para Hannah e segurou-lhe nas mãos. — Quanto a si, minha querida, como posso pedir mais alguma coisa se já fez tanto?

Ela tentou controlar as lágrimas quando ele lhe apertou as mãos por um momento.

— Posso perguntar quais são os seus planos, sir? — perguntou Cunha.

— Posso responder facilmente, coronel. Tenciono partir no Excalibur depois de amanhã. Aceitarei a minha nomeação nas Bahamas como pedido por Mr. Churchill.

— E entretanto?

— Regresso ao Estoril. Coronel, estará lá logo à noite?

— A casa da guarda será o meu quartel-general. Estarei disponível para Vossa Alteza a qualquer hora do dia ou da noite.

— Excelente. — O duque franziu ligeiramente o sobrolho. — Talvez precise de si. Há algo a remoer na minha cabeça. E agora penso que é melhor ir ter com as outras pessoas.

 

EM BERLIM, ao fim desse dia, numa reunião especial realizada na Chancelaria do Reich, Hitler anunciou que ia emitir a ordem para preparar o ataque aéreo preliminar à invasão de Inglaterra. Depois, delineou a Operação Leão-Marinho, o plano que iria culminar na sua própria entrada triunfal em Londres.

Depois da reunião, Hitler ordenou a Ribbentrop que ficasse. O ministro dos Negócios Estrangeiros esteve fechado no gabinete com ele durante uns desconfortáveis cinco minutos. Quando saiu, encontrou Himmler à sua espera no corredor.

— Não parece muito contente, Ribbentrop.

— É o caso Windsor, Reichsführer. Agora que a Operação Leão-Marinho foi iniciada, o duque é, mais do que nunca, fundamental para os nossos planos. O Führer deu-me instruções para o raptar imediatamente.

— Então é melhor entrar em contato com Schellenberg o mais depressa possível, não é? — disse Himmler.

Ribbentrop estava furioso e um pouco assustado.

— Raios partam o homem. Não tenho notícias dele desde que chegou a Portugal.

 

SCHELLENBERG bebia café no seu gabinete, na Legação Alemã, quando Kleiber entrou violentamente, acenando furiosamente um papel.

— Recebeu isto há uma hora.

Schellenberg tirou-lhe a mensagem e olhou rapidamente para ela. Era uma cópia de um comunicado de Ribbentrop.

— Meu Deus, Kleiber, você tem sem dúvida muita influência. Isto era suposto ser confidencial e apenas para eu ver.

— É uma ordem direta do Führer para raptar o duque de Windsor. Que vai fazer acerca disto?

— Dar-lhe-ei a conhecer se e quando eu achar necessário. Quando sair, por favor, feche a porta sem bater.

Kleiber regressou à sala de espera, onde Sindermann o esperava.

— Nada! — disse, furioso. — Nada, Gunter!

Kleiber tomou a sua decisão. Apressou-se para a sala de comunicações, pediu ao oficial de serviço um bloco-notas e escreveu com dificuldade, porque trazia ainda o braço direito ao peito:

 

O general Schellenberg não mostra qualquer intenção séria de completar a missão da qual foi incumbido. Por favor, confirme os meus poderes junto do embaixador Von Huene para eu poder tratar deste assunto.

Kleiber

 

Entregou-o ao oficial.

— Agora, ponha isto em código. Prioridade absoluta. Imediatamente e apenas para ser lido pelo Reichsführer Himmler.

 

NESSA MESMA NOITE, depois do escurecer, a duquesa foi para o jardim à procura do duque. Encontrou-o sentado ao pé da fonte, a olhar pensativamente para a água.

— Ah, estás aqui — disse ela. — Uma carta de Londres para ti.

— Obrigado, minha querida. — Abriu-a e leu-a rapidamente. — Walter Monckton deve chegar amanhã de avião.

— Que bom ver Walter de novo — disse ela —, mas por quê?

— Oh, Winston quer certificar-se de que tudo corre bem até ao último momento. Afinal, Walter tem sido sempre o homem-dos-sete-ofícios do Governo para assuntos que me dizem respeito. No entanto, tens razão, Wallis. Será simpático despedirmo-nos de uma cara amiga ao partirmos para o esquecimento.

— Santa Helena, 1940 — disse ela. — Agora sei o que Napoleão deve ter sentido.

— Queria fazer algo de útil nesta guerra, mas eles não me deixam. — Riu um pouco. — É bastante irônico, mas as únicas pessoas que parece que me querem são os nazis.

De repente, deixou de sorrir e a sua cara ficou tensa e excitada.

— Wallis, gostaria de saber até onde estariam dispostos a ir. Isto é, se me querem assim tanto.

— David — disse a duquesa, chocada. — Não podes fazer isso.

— Não, não compreendes, minha querida. Estou a falar de uma hipótese, possivelmente muito vaga, de talvez conseguir tirar algo de valor desta situação. Não para mim, compreendes, mas para a Inglaterra. — Pegou nas mãos dela. — Não seria maravilhoso se pudesse jogar com estes nazis o seu próprio jogo e vencê-los?

Há muito tempo que ela não o via com tanta vida.

— Oh, David — disse —, pode ser perigoso. Tenho medo.

— Eu não. Para ser franco, estou a começar a gostar disto. A pessoa de quem preciso agora é do coronel Cunha.

Cinco minutos depois, em resposta a uma chamada telefônica urgente para a guarita, Fernandes da Cunha apressou-se a caminho da casa, onde encontrou o duque e a duquesa à sua espera na biblioteca.

— Vossa Alteza mandou-me chamar?

— Sim, mandei, coronel. Hoje de manhã, teve a gentileza de me dizer que podia confiar nos seus bons serviços.

— Se puder servi-lo de algum modo, pode ter a certeza de que o farei, sir.

— Gostaria que fosse ter com o embaixador alemão, o barão Von Huene, agora. Diga-lhe que desejo encontrar-me com o general Schellenberg.

O coronel não conseguiu esconder a sua surpresa.

— Quando deseja encontrar-se com ele?

— Ainda hoje. Pensei que podia ser divertido repetir a cena do jardim de ontem à noite. Fumarei o meu charuto habitual no alpendre. O senhor podia trazer-mo. Gostaria também que Mr. Jackson repetisse o seu papel. A duquesa sentir-se-ia melhor se ele lá estivesse. Pede-lhe para fazer isso por mim?

— Sim, sir. Quer que eu esteja presente?

— Quero, mas penso que pode achar a nossa conversa embaraçosa. Por isso, sugiro que se mantenha um pouco afastado.

O coronel hesitou.

— Sir, desculpe a minha impertinência, mas isto significa que, afinal, considera a hipótese de ir para Espanha?

— Que é que acha, coronel?

— Bem, sir, penso que vai partir no Excalibur depois de amanhã.

Parece-me também que Vossa Alteza está a colocar-se numa situação extremamente perigosa.

O duque acendeu um cigarro, soprou um leve rasto de fumo e disse, com aquele seu sorriso inimitável: — As decisões difíceis, meu caro coronel, são o privilégio dos comandantes.

Quando Schellenberg entrou no gabinete de Huene nessa noite, aquele estava bastante cheio. Fernandes da Cunha encontrava-se perto da janela e também o próprio embaixador, mas a verdadeira surpresa era Kleiber, que estava ao lado da secretária. O olhar de um pálido triunfo na sua cara devia ter avisado Schellenberg para esperar o pior.

— O coronel Cunha está aqui em nome do duque de Windsor. — disse Huene.

— A sério? — perguntou Schellenberg, espantado, virando-se para o coronel.

— Sua Alteza gostaria de vê-lo hoje à noite. Secreta e informalmente. Estará no alpendre do jardim, a fumar um charuto, às dez e meia. Deixo-o entrar pela porta do jardim.

— Não posso acreditar. Porquê?

— Daqui a trinta e seis horas o Excalibur parte. — O coronel encolheu os ombros. — Talvez seja o momento da verdade para ele.

— Está bem — disse Schellenberg —, lá estarei.

— E eu estarei consigo — disse Kleiber, com a voz a tremer de emoção.

Schellenberg não tinha pretendido uma confrontação pública, mas não fazia tenções de evitar uma.

— Penso que não, especialmente depois do descalabro de hoje de manhã em Rosário.

Huene disse: — Lamento, general, mas tenho uma mensagem que acabei de receber do próprio Reichsführer Himmler. — Leu-a alto: "O general Schellenberg prosseguirá a sua tarefa com o máximo dos rigores. É inaceitável qualquer falha. O major Kleiber o assistirá sempre que necessário. Qualquer alteração a esta ordem deverá ser comunicada imediatamente."

Fez-se silêncio durante um momento, depois Schellenberg voltou-se para Fernandes da Cunha com um sorriso.

— Então, coronel, parece que quando abrir a porta do jardim hoje à noite, abre-a também para o major Kleiber.

Quando o coronel Cunha entrou no escritório de Jackson, o americano estava sentado à secretária, novamente vestido de smoking branco e laço preto. O coronel cheirou o ar.

— Chanel Número Cinco. Pode sair, menina. Deixei as minhas algemas em casa.

Dirigiu-se ao aparador e serviu-se de um whisky, ao mesmo tempo que Hannah aparecia da casa de banho. Jackson perguntou: — Que é que quer?

— Tenho um trabalho para si, ou antes, o duque tem. Combinou encontrar-se com Schellenberg e Kleiber hoje à noite no alpendre. Ele gostaria que você repetisse o seu número, Joe, em cima do muro.

— Está a querer dizer que ele tenciona fazer um acordo com eles? — perguntou Hannah.

— Não é possível.

— Não seja pateta, meu anjo — disse-lhe Jackson. — Se esse fosse o seu jogo, então por que me quereria à mão?

— Fará o que ele pede? — perguntou Cunha.

— Com certeza. Estarei lá.

— Ótimo. — O coronel engoliu o resto da bebida. — Aproxima-se uma noite interessante.

Saiu, e Hannah disse: — Tenho medo, Joe. Em que é que estará a pensar o duque?

Jackson levantou-se e serviu-lhe uma bebida.

— Talvez tenha começado a lutar.


TREZE

JACKSON ESTAVA de novo em cima do muro pouco depois das 10 horas, vestido de preto, como na outra noite. A Browning estava à mão. Passado um pouco, apareceu o coronel ao longo do caminho através dos arbustos. Verificou a porta, depois esperou. Um pouco mais tarde, chegou o duque, que vestia roupa leve, com um casaco de tweed sobre os ombros. Tirou um havano de uma caixa de couro e acendeu-o.

Nesse momento, Jackson ouviu passos a aproximarem-se na estrada. Bateram à porta, Fernandes da Cunha abriu-a e Schellenberg entrou, seguido de Kleiber.

— O general Schellenberg e o major Kleiber. — O coronel fez as apresentações e afastou-se até uma distância discreta.

— Ah, o senhor que estava à minha espera em Rosário esta manhã — disse o duque, acenando para Kleiber.

— Um erro infeliz, Alteza — respondeu Schellenberg.

— Um erro desnecessário. Especialmente se me tivesse feito, em primeiro lugar, uma aproximação direta. Sugestões, insinuações dissimuladas, é tudo o que temos tido. Que é que o vosso governo oferece exatamente, general?

— Sabemos bem, sir, que o lugar de governador das Bahamas tem poucos atrativos para si. Nas circunstâncias, talvez preferisse ficar na Europa. Em Espanha, por exemplo, ou na Suíça. Estou autorizado a informá-lo que, se ficar em dificuldades financeiras por escolher essa alternativa, um montante de cinquenta milhões de francos suíços ficará disponível num depósito em Genebra.

— Que disparate, general — respondeu o duque. — O Führer não me quer em Espanha ou na Suíça. Ele quer-me na Alemanha, para estar disponível no dia em que o Exército Alemão entrar em Londres. Uma cara familiar para dar confiança ao povo inglês. Não é assim?

— Que é que eu posso dizer, sir?

— O meu barco parte depois de amanhã e admito que não quero ir. O Governo Britânico tratou-me mal ... e se os meus serviços são tão pouco importantes para eles ... — Encolheu os ombros. — Trinta e seis horas é tudo o que tenho, mas se entrar no jogo do vosso lado, tenho de saber exatamente em que é que me estou a meter.

Kleiber começou a falar, mas Schellenberg interrompeu-o.

— Posso fazer a Vossa Alteza uma pergunta direta? Se necessário, estaria preparado para ascender de novo ao trono?

— Certamente — disse o duque. — Esperaria naturalmente que a duquesa fosse aceite como meu cônjuge.

— Não prevejo qualquer dificuldade nesse ponto, sir.

— É claro que, se vou dar um passo tão drástico, uma ação que irá agitar o Mundo, exijo alguma prova de cooperação pela parte do Führer.

— E que é que satisfaria Sua Alteza Real? — perguntou Kleiber.

— Se a duquesa e eu vamos fazer planos para regressar a Inglaterra, precisamos de saber em que dia é que o Führer pensa que devemos estar preparados para partir.

Schellenberg percebeu então tudo, ou pensou que sim, mas contentou-se em dizer:

— Compreendo o seu interesse pelo prazo de tempo, sir. Informarei o ministro dos Negócios Estrangeiros, Von Ribbentrop, do teor desta conversa e ele, sem dúvida alguma, o comunicará ao Führer sem demora.

— Só tem amanhã, general — disse o duque. — Ficaria desolado de partir no Excalibur, mas irei se for necessário. Se tiver qualquer comunicação para mim, ligue para o coronel Cunha.

— Entrarei em contato o mais depressa possível — disse Schellenberg. — Boa noite, sir.

Dirigiu-se para a porta, seguido de Kleiber. Fernandes da Cunha abriu-a e trancou-a depois de passarem. O duque esperou alguns momentos, depois chamou: — Mr. Jackson!

— Sim, sir. — O americano saltou para os arbustos e aproximou-se do alpendre.

— Bem, o senhor ouviu. Que é que acha?— perguntou o duque.

— Irão entrar no jogo?

— Depende da necessidade que têm de si, sir.

— Se conseguirem ocupar a Inglaterra, precisam muito, de fato. De qualquer maneira, obrigado por ter vindo. — O duque estendeu a mão. — Posso contar consigo quando os Alemães estiverem prontos para me falarem de novo? Por razões óbvias, neste momento não seria aconselhável dirigir-me aos nossos próprios Serviços Secretos.

— Sim, sir.

— Excelente. Então, boa noite. — E o duque foi-se embora.

 

— ELE ESTÁ A MENTIR — disse Schellenberg. — Não acredito numa palavra. — Voltara ao gabinete de Huene. O embaixador estava sentado à secretária e Kleiber à sua frente.

— Também estive lá — disse Kleiber — e acredito nele. Por que não? Eles trataram-no mal, não foi? Agora, estamos a dar-lhe a hipótese de recuperar o trono e com a duquesa a seu lado. É tudo o que ele realmente quer.

— Ele quer a Operação Leão-Marinho entregue numa bandeja — interrompeu rispidamente Schellenberg. — É tão simples como isto.

Huene abanou a cabeça.

— Não concordo. Desembarcaremos em Inglaterra numa questão de semanas, todo o Mundo sabe isso. A minha opinião é de que o duque está apenas a ser prático. Ele faz um pedido razoável. E se ele der a sua palavra ...

— Eu sei — disse Schellenberg —, é um homem honrado. Mas ocorre-me que pode chegar uma altura em que qualquer homem honrado aja desonradamente em nome de uma causa em que acredite.

— Estamos a fugir ao assunto — disse Kleiber. — Vai entrar em contato com o ministro Von Ribbentrop ou faço-o eu?

— Não — respondeu Schellenberg. — Não será necessário. Comunicarei já com ele. Deixo-o comunicar as boas notícias a Himmler. Você gostará de fazer isso.

 

ÀS DEZ E MEIA da manhã seguinte, Himmler recebeu a longa mensagem de Kleiber, enviada através da Embaixada de Madrid. Leu-a, interessado, e depois sentou-se à espera que Ribbentrop desse o primeiro passo.

Já passava das 11 horas quando Ribbentrop entrou no gabinete e disse:

— Recebi uma mensagem de Schellenberg, Reichsführer. Bastante notável. Não sei bem o que fazer. Pensei se o Führer ...

— Não — disse firmemente Himmler. — O Führer está particularmente ocupado neste momento, como sabe. Há alguns fardos que temos de carregar por ele. Também recebi uma mensagem de Lisboa. Sei que o Führer colocou o caso Windsor à sua responsabilidade particular, mas se acha que pode ajudar, estou disposto a discuti-lo consigo. — Ribbentrop sentou-se, e Himmler continuou: — Se dissermos ao duque o dia da Operação Leão-Marinho, que estamos a ceder exatamente?

— Está a sugerir que lhe mostremos todo o plano? — perguntou Ribbentrop, horrorizado.

Himmler sorriu.

— Tudo isto é bastante acadêmico. Veja as coisas desta maneira.

Há algum tempo, o Exército Britânico deixou a maior parte do seu equipamento nas praias de Dunquerque. Têm menos de duzentos carros de combate e pouquíssimos aviões. — Himmler fez uma pausa. — O período com as condições mais favoráveis para o desembarque é entre os dias 19 e 26 de Setembro. Qualquer pessoa que tenha uma carta do canal da Mancha e uma tabela das marés sabe isso. Por essa altura, a Luftwaffe já terá eliminado toda a resistência aérea, e sem a ajuda aérea a Royal Navy está praticamente neutralizada. Não, mesmo que Winston Churchill tivesse todo o plano da Operação Leão-Marinho nas mãos neste momento, não tinha nem os recursos nem a capacidade para a impedir.

— Então, pensa que devemos ceder ao pedido do duque?

— Meu caro Ribbentrop, o Führer encarregou-o do caso Windsor. Posso apenas aconselhá-lo, mas devo dizer que, dadas as circunstâncias, não vejo como pode enganar-se.

 

JÁ PASSAVA do meio-dia quando Walter Monckton entrou na biblioteca, onde foi calorosamente cumprimentado pelo duque e a duquesa.

— Suponho que Winston o mandou cá para ter a certeza de que eu embarco amanhã no Excalibur? — disse o duque.

— Bem, sir, o primeiro-ministro e também Sua Majestade têm estado preocupados com os atrasos neste assunto. Têm corrido boatos acerca de um interesse dos Alemães na sua presença aqui.

— Walter, você está ultrapassado. É com os nossos próprios Serviços Secretos que tenho que me preocupar, de acordo com o que se ouve em Madrid.

— Mas isso é absurdo, sir.

— Walter, o meu amigo Primo de Rivera, que está muito bem relacionado no Governo Espanhol, assegurou-me de que existe um certo fundamento nestes boatos. A ideia parece ser que, se eu recusar partir para as Bahamas, os Serviços Secretos Britânicos me levarão à força.

— Não faz ideia do que tem sido, Walter — acrescentou a duquesa. — Cartas anônimas, mesmo chamadas telefônicas. Polícias por todo o lado.

— Então, Wallis. — O duque pegou-lhe nas mãos. — Preocupas-te demasiado. Vai preparar-te para o almoço.

Depois de ela ter saído, o duque dirigiu-se ao aparador e serviu-se de um whisky. Monckton disse:

— Meu Deus, sir, nunca o tinha visto beber antes das sete horas da tarde.

— Eu sei, Walter, mas hoje preciso. Diga-me, meu amigo, já alguma vez fui menos do que honesto consigo?

— Não, Sir.

— Então, peço agora para acreditar em mim. Walter, quando o Excalibur largar amanhã, estarei a bordo, prometo, mas neste momento é essencial que certas pessoas ainda tenham a sensação de que estou a vacilar. De Rivera vem hoje passar o dia aqui. Diga-lhe como estou chocado com as intrigas de que ele fala. Peça-lhe provas e diga-lhe que ameacei não partir.

Monckton perguntou gravemente:

— E não estou autorizado a saber o que realmente se passa, sir?

— Não, Walter. Ainda não.

Bateram à porta. Apareceu um criado, que anunciou a chegada de Primo de Rivera.

 

LOGO APÓS as 5 horas, foi recebida na Legação Alemã uma mensagem de Ribbentrop, e Huene mandou imediatamente chamar Schellenberg e Kleiber.

— De Ribbentrop — disse-lhes o embaixador. — Diz apenas: "Pedido aceitável. Seguem-se detalhes."

Kleiber voltou-se para Schellenberg com os olhos a brilhar de triunfo.

— Então, está a ver, general, eu conhecia o meu homem. Melhor do que o senhor. Vou para a sala de comunicações esperar pela próxima mensagem.

Quando a porta se fechou, Schellenberg começou a rir às gargalhadas.

— Isto não é só Ribbentrop. É também Himmler. Um comerciante de champanhe e um criador de galinhas. Uma combinação invencível, tem que admitir.

— General Schellenberg — disse Huene — Não estou disposto a ouvir mais. Tenho de pensar na minha família. Tenho parentes no nosso país.

— E claro — disse Schellenberg. — Não devia deixar-me levar pela emoção. É só que detesto a estupidez.

Um pouco depois, a porta abriu-se e Kleiber entrou com um envelope selado.

— Acabaram agora de a descodificar, general. É confidencial, para si.

Schellenberg sopesou o envelope nas suas mãos.

— E também para o duque de Windsor presumo.

— Quer que contate com o coronel Cunha? — perguntou Huene.

Schellenberg acenou com a cabeça.

— Peça-lhe para combinar outro encontro com o duque. À mesma hora e no mesmo local de ontem à noite.

Kleiber saiu e Schellenberg seguiu-o. Ao passar a porta, parou e voltou-se para Huene.

— Vou deixá-lo com um pensamento agradável. Penso que acabamos de perder a guerra.

 

DE PÉ nas escadas, ao lado do duque, Walter Monckton suspirou de alívio quando Primo de Rivera entrou no cano.

— Sir, penso que nunca ouvi tanto disparate na minha vida. Perguntei-lhe se podia dar-me alguma prova sobre essas intrigas inglesas e ele não me soube responder. Depois, ainda teve o descaramento de me dizer que dentro de dez dias teria todas as provas de que precisássemos.

— E pediu-lhe que adiasse a minha partida amanhã? Pobre Walter. Estou-lhe muito grato.

Foram para a sala de visitas, onde a duquesa estava com Santo e Silva.

— Agora, quem quer uma bebida? — perguntou o duque.

Nesse momento, bateram discretamente à porta e entrou um criado.

— Está aqui o coronel Fernandes da Cunha para falar com Sua Alteza.

— Peço desculpa a todos. Preparativos relacionados com a segurança para amanhã. Tome conta das bebidas, Walter.

 

O DUQUE estava sentado no alpendre a examinar os documentos com uma pequena lanterna. Schellenberg e Kleiber esperavam à porta.

— Muito interessante — disse o duque por fim. Meteu os papéis no envelope. — Brilhante. Não lhe encontro defeitos.

Schellenberg perguntou:

— Então, está satisfeito, sir?

— Sim — respondeu o duque, pondo o envelope no bolso.

— E a partida amanhã?

— Simplesmente, não pode ser. A duquesa não se. encontra nada bem. Teremos de chamar o médico de manhã. O Excalibur parte ao meio-dia. Depois de ele largar, faremos outros preparativos.

— Com certeza.

— Bom. Então, boa noite, meus senhores.

O coronel Cunha, que se encontrava à porta do jardim, deixou-os passar. Joe Jackson, no muro, esperou, depois saltou para o chão e dirigiu-se ao alpendre.

— Espere aqui por mim, Mr. Jackson — disse o duque. — Voltarei rapidamente com algo da máxima importância.

Apressou-se e foi direito à biblioteca da casa, onde a duquesa o esperava.

— Que estão os outros a fazer? — perguntou ele, ao mesmo tempo que espalhava papéis na secretária.

— Estão a jogar às cartas. Que tens aí?

— A coisa mais espantosa que já alguma vez leste, Wallis. A Operação Leão-Marinho, o plano alemão para invadir a Inglaterra, fornecido por Ribbentrop com a ingênua esperança de que poderia fazer-me ver qual a melhor decisão para mim.

Ela trancou a porta e voltou à secretária.

— Olha para isto — disse ele. — Dia Águia, 30 de Agosto. A Luftwaffe vai lançar um ataque devastador aos campos de aviação do Sul de Inglaterra com o objectivo de destruir a RAF.

— E a invasão? — perguntou ela.

— Tem de ter lugar entre os dias 19 e 26 de Setembro. Uma questão de luas e marés. Depois disso, já não é aconselhável devido ao início do Outono e do tempo muito mais imprevisível.

— Pode ser feita alguma coisa?

— Sim, penso que sim. Tudo isto se baseia na supremacia aérea. Desde que a RAF ainda funcione, a Royal Navy domina o Canal e nenhuma invasão poderá ser bem sucedida. Mas a Luftwaffe tem ordens para eliminar a RAF como prioridade absoluta. Gõring pensa conseguir isto em duas semanas.

— Continua, David — disse a duquesa lentamente.

— Isto leva-nos ao ponto fraco deste plano — disse-lhe o duque.

— As coisas imprevistas. Se a Luftwaffe não conseguir esmagar a RAF até ao dia 17 de Setembro, então a Operação Leão-Marinho será cancelada.

— E que acontece depois?

— Hitler volta-se para a Rússia, e isso, minha querida, será o fim dele. Tenho a certeza de ter visto no outro dia uma máquina de escrever naquele armário. Não sou nenhum especialista, mas dois dedos devem chegar.

— Para que, David?

— Para fazer uma cópia, Wallis. Para Mr. Jackson.

Quarenta minutos depois, o duque estava de volta ao alpendre.

Entregou o envelope a Jackson.

— O que isso contém é da máxima importância para o Governo Britânico nesta altura. Enderecei-o a Mr. Winston Churchill e é confidencial. Amanhã, depois de eu partir, ficar-lhe-ia grato se entregasse o envelope a Sir Walford Selby, o embaixador britânico, com os meus cumprimentos. Darei o original ao meu bom amigo Walter Monckton para o entregar pessoalmente a Mr. Churchill quando regressar a Londres.

— Está a jogar pelo seguro, sir?

— Os acidentes acontecem. Sabe, Mr. Jackson, uma vez, em França, durante a Grande guerra, saí do meu carro e fui observar uma trincheira. Alguns minutos mais tarde, o carro foi crivado de balas de metralhadora, matando o motorista. Penso muitas vezes por que motivo fui poupado nessa ocasião. Talvez a noite de hoje proporcione alguma resposta.

— Sir, foi um privilégio conhecê-lo.

— Digo o mesmo, Mr. Jackson. — O duque apertou-lhe a mão.

O coronel Fernandes da Cunha, ainda de guarda ao pé do muro, acompanhou Jackson à saída e fechou a porta. O duque aproximou-se dele.

— Já não falta muito para se ver livre de mim, coronel.

— Um mundo novo, sir, planos novos. Algo novo em que pensar.

— Sim, claro. As ondas na praia, as palmeiras a balançarem e a cinco mil quilômetros de distância da guerra. Pode pedir-se mais? Boa noite, coronel — e partiu rapidamente.


CATORZE

NA MANHÃ seguinte, Walter Monckton e Santo e Silva esperavam na biblioteca. Eram quase 10 horas e Monckton andava ansiosamente para trás e para a frente. A porta abriu-se e o duque entrou de olhar sério.

— Então, sir? — perguntou Monckton. — Como é que está a duquesa?

— Não muito bem. Uma espécie de vírus, pensa o médico. Não tem qualquer hipótese de viajar.

— Mas, sir, o Excalibur parte dentro de duas horas. Não nos é possível atrasar a largada. A sua bagagem já está a bordo.

— Haverá outros barcos, Walter. Um atraso de uma semana ou duas não tem importância. — Voltou-se para Santo e Silva. — Devo pedir desculpa por este contratempo de última hora. Abusamos da sua generosidade.

— Alteza, estou inteiramente ao vosso dispor. A minha casa é vossa enquanto necessitarem dela. Agora, peço que me desculpe; vou informar o pessoal da alteração dos planos.

Quando a porta se fechou, Monckton disse:

— Sir, a duquesa está realmente tão doente que uma viagem por mar lhe seja prejudicial?

— Para dizer a verdade, Walter, está em ótima forma. — O duque segurou-lhe no braço e levou-o até ao terraço.

— Mas não compreendo.

— Vai compreender, Walter, mas diga-me: o coronel Cunha está por perto?

— Não, sir, está na doca. Não quis alarmá-lo, mas o Comando-Geral da Polícia recebeu uma chamada anônima dizendo que havia uma bomba a bordo do Excalibur. O navio está a ser revistado da proa à popa. Que é que se está a passar, sir?

O duque apoiou-se na balaustrada com ambas as mãos.

— Walter, receio não ter sido totalmente honesto consigo. Ontem à noite, encontrei-me aqui no jardim com Schellenberg.

— Sir!

— Sim, agora os Alemães pensam que estou do lado deles. Que afinal não vou para as Bahamas. Em compensação, recebi isto. — Tirou o envelope do bolso interior. — Um presente para Winston.

— Sorriu. — Com os meus cumprimentos, claro.

Monckton pegou no envelope, espantado.

— Mas agora quais são as suas intenções, sir?

— Embarcar no Excalibur. Bem, isto é o que você vai fazer: diga ao nosso anfitrião que vai à doca informar o coronel Cunha de que já não vou embarcar e que vai buscar as malas. Depois, esteja aqui exatamente às onze e um quarto. Logo que chegar, Wallis e eu iremos ter consigo e partiremos rapidamente para o navio. Se tudo correr bem, chegaremos exatamente quando estiverem a levantar a prancha de embarque.

— E quer que informe o coronel Cunha sobre este plano?

— Sim, com certeza. — O duque sorriu novamente. — Estamos na recta final, Walter. Vamos vencê-los, verá.

Foi para dentro e subiu as escadas para o quarto da mulher. As cortinas estavam fechadas e o quarto na semiobscuridade.

— Wallis? — murmurou, e sentou-se na borda da cama.

— David, passa-se alguma coisa? — Ela sentou-se e encostou-se às almofadas.

— Nada, minha querida, está tudo a correr bem. A tua atuação com o médico foi perfeita. Tenho a certeza de que a esta hora as notícias de que não partimos já chegaram à Legação Alemã. Por outras palavras, que estou a fazer exatamente como prometido.

— E agora, que acontece?

Ele segurou-lhe numa das mãos e explicou-lhe rapidamente.

 

SCHELLENBERG desta vez tinha dormido até tarde. Quando o telefone na sua mesa-de-cabeceira tocou às 10 e meia, era o embaixador Von Huene.

— Bom dia — disse Schellenberg. — Como é que as coisas estão a correr?

— Informaram-nos de que um carro apareceu hoje cedo na doca com a bagagem. Foi imediatamente posta a bordo.

— Quê? — Schellenberg apoiou-se num cotovelo.

— Não é preciso entrar em pânico. Acabei de saber que a duquesa não se encontra bem. Os médicos obrigaram-na a estar de cama. Não vão partir. Definitivamente. — Fez-se silêncio. — Vem até aqui, general?

— Sim, penso que sim — disse Schellenberg. — É preciso estudar o próximo passo. Quando e como levá-los daqui.

Desligou o telefone, acendeu um cigarro e encostou-se na almofada. Era estranho, mas sentia-se desapontado.

 

UM POUCO ANTES das onze e um quarto, o duque esperava à janela do quarto, com a duquesa encostada a si, completamente pronta.

— Vá lá, Walter — murmurou o duque, olhando para o relógio.

— Não me deixe ficar mal agora.

Um pouco depois, o Buick apareceu e parou à porta principal.

Walter Monckton saiu e olhou para cima, para a janela do quarto.

— Aqui vamos nós, Wallis. — O duque segurou-lhe no braço. — Não pares para nada.

Apressaram-se a descer as escadas e um criado, surpreendido, correu para lhes abrir a porta. Nessa altura, Santo e Silva saiu da biblioteca. Parou com um olhar espantado.

— Mas, Alteza ...

— Foi muito simpático da sua parte ter-nos dado alojamento durante tanto tempo — disse o duque, continuando a andar.

— Mas, a Sra. Duquesa ...

— Está a sentir-se melhor agora. O ar do mar lhe fará bem.

Num instante estavam sentados atrás no Buick. Monckton seguiu-os, fechou a porta e falou para o motorista. As rodas chiaram e eles partiram rapidamente.

Santo e Silva voltou-se, correu para a biblioteca e pegou no telefone.

Quando Kleiber chegou ao gabinete de Huene, encontrou o embaixador a andar de um lado para o outro, obviamente muito agitado.

— Embaixador. Mandou-me chamar?

— Tentei apanhar o general Schellenberg, mas já tinha saído do hotel. Más notícias, receio. Acabaram de me informar da casa que o duque e a duquesa tinham saído muito apressados para o Excalibur há uns dez minutos. Ele fitou-nos. Afinal, parece que vai para as Bahamas.

— Mas não pode fazer isso. — Kleiber estava muito pálido. — Ele prometeu, fizemos um acordo. Cumprimos a nossa parte.

Huene disse: — Uma situação desastrosa, mas ninguém pode fazer nada.

Kleiber voltou-se, de lábios cerrados, e saiu. Sindermann estava à espera cá fora.

— O duque — disse-lhe Kleiber de modo severo. — Traiu-nos. Sempre vão partir no Excalibur.

— Então, perdemos? Ele deve estar rindo de nós.

— Tenho certeza que sim, Gunter, por isso vamos fazer com que morra rindo, não achas? Vai pôr o carro a trabalhar. Vou ter contigo dentro de uns minutos.

Kleiber correu até ao paiol da embaixada e o sargento encarregado, assustado, pôs-se em sentido.

— Quero uma espingarda — pediu Kleiber. — Qualquer uma decente serve.

O sargento foi buscar uma Walther semiautomática.

— Uma excelente arma de combate — disse. — Espantosamente certeira em fogo rápido até mil metros.

— Ótimo. Vou levá-la. — Kleiber dirigiu-se para a porta.

— Por favor, major — chamou o sargento. — Tem de assinar aqui.

Mas Kleiber já tinha partido. O sargento pegou no telefone interno e pediu que ligassem ao embaixador Von Huene.

Quando o carro de Schellenberg entrou nos portões da embaixada, o motorista teve de se desviar bruscamente para um lado, pois um Mercedes preto deslocava-se a alta velocidade. Schellenberg conseguiu ver Sindermann ao volante e Kleiber atrás.

O motorista parou na entrada. Quando o general saiu do carro, Huene apareceu no alpendre.

— Graças a Deus que está aqui.

— Que aconteceu? — perguntou Schellenberg.

— O duque — disse Huene — vai partir no Excalibur. Intrujou-nos. Intrujou-nos a todos.

— E onde ia Kleiber com tanta pressa?

— Fui informado de que ele levantou uma espingarda do paiol.

Walter Schellenberg regressou rapidamente ao carro.

— Para a doca de Alcântara — disse ao motorista. — Para o cais onde está o Excalibur, e guie o mais depressa possível.

 

A ENTRADA para as docas estava extremamente bem guardada, e todos os automóveis que se aproximavam eram minuciosamente inspecionados. A prancha do Excalibur já tinha sido retirada e o navio estava a largar as amarras. Kleiber viu Fernandes da Cunha perto do portão.

— Que vai fazer? — perguntou Sindermann. — Não vamos conseguir passar.

— Acabei de me lembrar de uma coisa, Gunter. O Bar Americano não é por aqui perto?

— Sim. meu major.

— Então, se ele estiver em casa, pode ser a solução para os nossos problemas.

 

JOE JACKSON e Hannah estavam na varanda do apartamento por cima do clube a olhar para o Excalibur, cujas chaminés se elevavam por cima de uma confusão de edifícios das docas.

— Iremos ver muito melhor quando os rebocadores o puxarem para o meio do rio — disse Jackson.

A porta da sala estava completamente aberta e, quando se voltaram, Kleiber é Sindermann estavam à porta, ambos armados.

Kleiber disse: — O que vou dizer vou dizê-lo apenas uma vez, Mr. Jackson. Quero entrar nas docas de Alcântara, mas o portão está muito bem guardado.

— E então?

— O coronel Cunha está lá de serviço. Lembrei-me de que ele o deixaria passar com a desculpa de querer ver o Excalibur partir. Muito natural, depois da sua participação neste caso. Ficarei agachado debaixo da coberta de lona do assento de trás do seu carro. Poderia dizer que o arrebento se me trair no portão, mas não há necessidade. Sindermann ficará aqui com Fräulein Winter. Compreende?

Sindermann agarrou então Hannah pelo cabelo e comprimiu a boca da arma contra o seu queixo.

— Está bem — disse Jackson. — Vamos fazer o que quer.

 

QUANDO o carro de Schellenberg se aproximou das docas, o motorista parou subitamente e apontou para o Mercedes preto parado ao pé do bar de Jackson numa rua ali ao pé.

— Meu general, são eles. ,Conheço o carro. Tem matrícula da legação.

— Pare atrás dele — disse-lhe Schellenberg.

Não havia ninguém no carro. Schellenberg tentou a porta lateral do clube e esta abriu-se logo. Parou por um momento, depois subiu as escadas cuidadosamente, com as mãos nos bolsos.

 

SINDERMANN estava sentado de um lado da mesa, Hannah do outro. Ela pegou na cafeteira.

— Cuidado — avisou-a ele.

— Só quero uma chávena de café — disse ela, depois atirou o café a ferver para a cara dele e correu para a porta. Quando ele gritou de dor, ela tropeçou num tapete e caiu. Um segundo depois, ele segurava-a pelos cabelos, forçando-a a pôr-se de pé.

— Agora, sua porca, vou fazer-te pagar.

— Penso que não — disse Schellenberg suavemente. Estava dentro da sala, a Mauser com silenciador na sua mão direita.

Sindermann apontou a arma para Hannah.

— Largue a arma — ordenou, com a cara escaldada contorcida de dor. — Já ou ela morre.

Mas Schellenberg foi mais rápido. O seu braço subiu e a bala atravessou a cabeça de Sindermann, atirando-o para trás, para a varanda, por cima da balaustrada.

Hannah tinha caído sobre um joelho, com sangue espalhado pelo cabelo e pela cara. Ao mesmo tempo que a ajudava a levantar-se, Schellenberg perguntou com a urgência na voz: — Kleiber? Onde está ele?

— Nas docas — respondeu ela. — Obrigou Joe a levá-lo lá. Está escondido na parte de trás do carro.

Ele pegou-lhe a mão e correram para o carro. Ao virarem para a entrada da doca, Fernandes da Cunha estava ao portão a falar com Walter Monckton. O coronel olhou imediatamente para o carro e franziu as sobrancelhas ao ver Hannah Winter sentada ao lado de Schellenberg.

— Que aconteceu? Explique-se, general.

— Joe passou aqui no carro dele? — perguntou Hannah.

— Sim, há uns minutos. Disse que queria ver o duque pela última vez.

— Kleiber estava com ele — disse Schellenberg. — Escondido na parte de trás, com uma espingarda.

Walter Monckton disse, horrorizado: — Meu Deus, que podemos fazer?

Houve uma grande exclamação. Quando se voltaram, o duque e a duquesa tinham aparecido no convés superior do Excalibur e acenavam aos trabalhadores da doca.

Monckton correu, gritando freneticamente.

— Vão para trás, David! Vão para dentro!

O duque e a duquesa, incapazes de ouvir o que ele dizia, acenavam sorrindo.

Foi Hannah que, ao procurar descontroladamente em redor, viu o Mercedes prateado perto de um armazém a uns cem metros de distância.

— Ali! — gritou, apontando. — O carro de Joe.

Ao mesmo tempo que o motorista de Schellenberg acelerava, o coronel Cunha saltou para o estribo do carro e ele arrancou.

O carro desportivo estava ao lado de uma porta verde que dizia SAÍDA DE EMERGÊNCIA. Schellenberg abriu-a e deu com uma escadas de pedra que subiam para a escuridão. Puxou da sua Mauser e, seguido pelo coronel, subiu.

 

KLEIBER estava atrás de Jackson no parapeito de uma janela do armazém. O Excalibur saía agora para o rio. Depois de a sirene ter tocado, o duque e a duquesa entraram para uma zona separada por uma vedação à popa, que tinha sido especialmente preparada para eles.

— Lindo — disse Kleiber. — Apanho dois pelo preço de um.

— Não seja louco, homem — disse-lhe Jackson. — Agora não há nada a ganhar.

— Ele intrujou-nos a todos — respondeu Kleiber. — Até ao próprio Führer. Agora vai pagar.

Deu uma coronhada nas costas de Jackson com a Walther. O americano caiu com um gemido e Kleiber ajoelhou-se, apoiando a espingarda no parapeito. Apontou cuidadosamente para o duque.

Quando puxou o gatilho, Jackson, embora meio inconsciente, agarrou-lhe nas pernas. Nesse momento, a sirene do navio tocou novamente, abafando o som do tiro, e a bala acertou no convés a alguns metros de distância do duque e da duquesa, que estavam totalmente inconscientes do que se estava a passar.

Kleiber deu um pontapé a Jackson, afastando-o, e apontou pela segunda vez. A porta que dava para as escadas abriu-se de repente e uma voz familiar gritou: — Kleiber!

Kleiber voltou-se, completamente possuído pelo ódio, levantando a arma.

Schellenberg atingiu-o no ombro direito e a pesada bala fê-lo girar. Os outros dois tiros partiram-lhe a coluna, projectando-o contra o parapeito e fazendo sua arma voar pelo ar.

O coronel Cunha dirigiu-se a ele e ajoelhou-se, mas não era preciso nenhum exame. Olhou para cima.

— O senhor é um homem difícil de compreender, general Schellenberg.

— Isso é algo com que vivo todos os dias da minha vida.

Hannah entrou a correr e ajoelhou-se ao pé de Jackson, que tentava sentar-se.

— O duque conseguiu? — perguntou ele.

— Sim — disse Hannah. — Graças ao general Schellenberg.

Schellenberg dirigiu-se para a porta. Quando começou a descer as escadas, Hannah foi ter com ele, agarrando-o por um braço.

— Vai voltar para Berlim, não vai?

— Sim. Hoje, se conseguir.

— Por quê?

— Porque não tenho outra alternativa, e penso que você, no fundo, sabe disso. É demasiado tarde para mim.

Começou a descer novamente as escadas. Ela chamou:

— Walter! — Havia desespero na sua voz, uma espécie de raiva contra a vida e a sua crueldade.

— Alguma vez lhe disse que quando cantava parecia a Billie Holiday nos seus melhores dias? — disse ele.

Os seus passos fizeram um eco surdo durante algum tempo, enquanto descia. Depois, a porta bateu e ele foi-se embora.

 

DEPOIS DE O Excalibur ter chegado ao mar, a duquesa foi procurar o duque e encontrou-o ainda à popa.

— Trouxe-te um cachecol — disse — Ora, obrigado, Wallis.

Ela deu-lhe o braço e ali ficaram juntos na balaustrada.

— Podia ser pior, David. As Bahamas, quero dizer. Vai correr tudo bem, por isso tenta não ficar desapontado. Afinal, temo-nos um ao outro.

— Claro que sim, e não estou nada desapontado. — Fez aquele sorriso maravilhoso que o iluminava não só a ele, mas a tudo o que se relacionava com ele. — De fato, para ser franco, Wallis, estou bastante contente comigo mesmo.

— Mas alguém saberá isso alguma vez, David? — perguntou ela.

— Saberei eu, meu amor. — Beijou-a gentilmente na testa. — E tu também. É tudo o que importa.

 

SCHELLENBERG chegou ao seu gabinete na Prinz Albrechtstrasse às três horas da tarde do dia seguinte. Tinha viajado durante um pouco mais de vinte e quatro horas. A sua farda estava amarrotada e ele precisava de se barbear. A porta do gabinete abriu-se e Heydrich entrou.

— Parece que não dorme há uma semana.

— E sinto-me como se não dormisse há uma semana.

— Ele sabe que está de volta, Walter. Quer vê-lo já. Que confusão que isto ficou. Desculpe, mas agora não posso ajudá-lo. Desta vez, está acabado.

— Oh, não sei — disse Schellenberg, e saiu.

Fez o seu, relatório, de pé em frente da secretária de Himmler, não escondendo nada de importante. Quando acabou, fez-se silêncio durante uns momentos, e depois Himmler disse: — Teve razão em executar Kleiber daquela maneira. Não se ganhava nada em assassinar o duque numa altura destas.

Schellenberg comentou: — Ainda há, é claro, a questão da informação passada ao duque ...

— Por ordem de Ribbentrop. — Himmler suspirou. — Sim, creio que ele foi um pouco imprudente.

— Vai informar o Führer?

— Noutra ocasião, talvez. Numa hora mais apropriada aos meus objetivos.

Schellenberg ficou silencioso durante uns momentos, depois perguntou: — E os detalhes da Operação Leão-Marinho, Reichsführer? Que é que podemos fazer sobre isso? O duque certamente que já os passou a Churchill, utilizando provavelmente Walter Monckton como seu mensageiro.

— Mas de que lhes serve? Existem apenas dois períodos antes dos temporais de Outono em que a maré é propícia para o desembarque. Os Ingleses sabem isso tão bem como nós. O importante é que não há nada que possam fazer sobre isso. Da mesma maneira, o fato de agora saberem a data do Dia da Águia, quando a RAF será destruída, não faz qualquer diferença. Os Ingleses não estão em posição de se defenderem contra o poderio da Luftwaffe.

— Mas também saberão agora que, se falharmos nesta tarefa, se a RAF conseguir aguentar-se até 17 de Setembro, a Operação Leão-Marinho será abortada e o Führer vai virar-se para a Rússia.

Himmler disse: — Está seriamente a sugerir que a Luftwaffe, a força aérea mais poderosa que o Mundo já alguma vez viu, uma força que controla totalmente os céus da Europa, pode ser rechaçada por uma mão-cheia de pilotos de Spitfires da RAF sem praticamente nenhuma experiência de combate?

— Sim, Reichsführer, postas as coisas dessa maneira, suponho que parece bastante absurdo.

— Está cansado, general. Passou por muitas preocupações. Sugiro que tire uma semana para descansar e, quando voltar, verá novamente as coisas na perspectiva correta.

— Obrigado, Reichsführer.

Schellenberg saiu, fechando a porta devagarinho atrás de si, e atravessou a sala de espera. Murmurou: — Serei eu realmente o único homem são num mundo de loucos?


EPÍLOGO

 

HANNAH Winter regressou à América um mês mais tarde no mesmo barco de Connie Jones e os rapazes. Joe Jackson ficou em Lisboa até Outubro, mas as notícias sobre a guerra aérea, a Batalha de Inglaterra, foram demasiado para ele. Vendeu o bar, comprou uma passagem para Inglaterra e alistou-se na RAF.

Em abril de 1942, era comandante de esquadrilha, tendo sido condecorado com duas Distinguished Flying Crosses. Nesse mesmo mês, foi dado como desaparecido, possivelmente morto tendo sido visto pela última vez a perseguir dois Messerschmitts sobre o canal da Mancha.

Hannah chegou a Inglaterra, nos princípios de 1944, para uma tournée pelas bases da Força Aérea Americana. Na Primavera desse ano, a Luftwaffe retomou os seus ataques noturnos a Londres, e Hannah Winter, com mais quarenta e duas pessoas, foi instantaneamente morta quando o clube onde estava a atuar, na Curzon Street, foi diretamente atingido.

Heydrich foi assassinado em Praga, em junho de 1944, por um comando de agentes checos recrutados para esse serviço. Como represália, os nazis destruíram a vila de Lidice, matando toda a população masculina.

Himmler, capturado pelas forças britânicas depois da guerra, envenenou-se quando a sua identidade foi descoberta.

Em 1944, Walter Schellenberg tornou-se chefe dos Serviços Secretos da Alemanha, fazendo o seu papel na farsa até o fim. Em 1945, foi feito prisioneiro em Landsberg e mais tarde julgado por ter pertencido às SS. Foi condenado a seis anos, mas talvez devido ao número surpreendente de testemunhas que falaram em seu favor no julgamento foi libertado em 1951, depois de completados apenas dois anos de sentença. Morreu de câncer aos quarenta e dois anos.

O duque de Windsor, que serviu como governador das Bahamas até 1945, tinha já dado a sua contribuição, provavelmente uma das mais importantes de toda a guerra.

 

NO AUGE DA Batalha de Inglaterra, no dia 15 de Setembro de 1940, Winston Churchill visitou o Air Vice Marshall Keith Park, no Quartel-General das Operações do Grupo de Combate Número 11, em Uxbridge.

Combatendo contra a mais poderosa concentração de aviões que a Luftwaffe já enviara, a RAF estava forçada até o ponto da ruptura.

O primeiro-ministro perguntou com que reservas podiam contar.

— Nenhuma, sir — disse-lhe Park. — Está tudo lá em cima.

— Aguente — disse o primeiro-ministro. — Só mais dois dias, e estará tudo acabado.

Park olhou para ele, espantado.

— Mas como pode ter certeza, Sr. Primeiro-Ministro? Essa informação é de fonte fidedigna?

Winston Churchill sorriu.

— Consegui através da autoridade mais impecável — disse.

 

 

                                                                  Jack Higgins

 

 

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