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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RAPTO DE AMOR / Carole Mortimer
RAPTO DE AMOR / Carole Mortimer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Rogan interceptou o carro de Katlin e a forçou a parar no acostamento. Não permitiria que a mulher que desejava se casasse com outro homem. Evitaria esse erro a todo custo.

"O que você está fazendo?", ela reagiu irritada. Rogan tomou-lhe o volante e rumou para o aeroporto. Acabara de raptá-la. Precisava fugir de Londres antes de cair nas mãos da polícia.

 

 

 

 

Katlin O’Rourke já terminava de jantar quando reparou no homem alto e forte que acabara de entrar no restaurante do hotel onde ela marcara um encontro com uma amiga.

Com calma, o estranho percorreu os olhos pelo ambiente como se estudasse os movimentos e as conversas das pessoas presentes. Para Katlin, atenta aos movimentos dele, tal atitu­de pareceu arrogante. Aquele homem, sem dúvida, escolhia alguém com quem pudesse sentar-se, já que todos os lugares das mesas estavam praticamente ocupados.

Katlin sorveu um gole de vinho e se deteve na beleza exube­rante do rapaz. Ele não parecia ter mais que trinta e cinco anos. Seus cabelos escuros e lisos, associados aos olhos verdes; o nariz longo e a boca bem talhada conferiam-lhe uma expres­são forte e voluntariosa.

No entanto, o que mais lhe chamou a atenção foi à displi­cência da roupa que ele trajava que o distinguia das outras pessoas, solenemente vestidas para o jantar. Era evidente o contraste entre a elegância formal reinante no restaurante da­quele hotel cinco estrelas e a camisa preta de viscose e o jeans desbotado que ele usava.

De repente, o desconhecido atravessou o pequeno salão e parou em frente à mesa onde ela se encontrava.

— Será que se importa se me sentar com você?

Katlin não esperava que ele fosse escolher justamente um lugar ao seu lado, e, embora surpresa, inclinou a cabeça em si­nal afirmativo.

— Fique à vontade — disse pegando a bolsa. — Eu já esta­va de saída.

Com os dedos longos, ele lhe segurou o pulso, com firmeza:

— Não por minha causa. Katlin retirou a mão com rapidez.

— Como disse, eu já estava mesmo de saída.

Ele puxou uma cadeira, sentou-se e esticou as pernas por baixo da mesa. Em seguida a encarou, os olhos vivos e enig­máticos.

— Vai embora? Seria mesmo capaz de deixar um visitante americano sozinho?

Katlin engoliu em seco. Aquele homem possuía uma sen­sualidade na voz que a perturbava.

— Tenho certeza de que não ficará solitário por muito tem­po. Basta achar uma companhia.

— Foi exatamente isso que pensei quando vi você jantan­do sozinha.

Irritada, ela tomou fôlego e replicou:

— Acontece que estou sozinha por escolha, Senhor...

— McCord, Rogan McCord — ele completou sorridente.

— Pois então Sr. McCord — Katlin continuou —, estou me sentindo muito bem, sem companhia. Pelo menos estava até o momento.

— Então por que jantava tão solitária?

Katlin suspirou arrependida por não ter seguido o impulso de se retirar daquele restaurante. Com que finalidade se dei­xava envolver pela conversa daquele homem?

— Porque geralmente costumo comer quando sinto fome — respondeu sarcástica. — Dizem que cuidar da alimentação faz parte de uma postura saudável de vida.

Rogan McCord sacudiu a cabeça.

— É um bom argumento. Mas não acho que justifique a sua solidão. Não para uma mulher como você.

— Uma mulher como eu?

— Rica... A julgar pela roupa que está usando. Você pare­ce ter acabado de sair de um Maison de alta costura. — Ro­gan apreciou o vestido de seda azul que ela trajava, com atenção. — Além disso, percebi que você não estava se sen­tindo bem aqui. A maneira como olhava a seu redor... Não parecia estar se divertindo muito.

Katlin corou, envergonhada.

— Hum, mas que observador! Ele deu de ombros.

— Estou certo?

— E quem sou eu para discordar de você? Tenho certeza de que vai rebater todos os meus argumentos!

Rogan sorriu. Sem saber por que, Katlin associou aquele sorriso à imagem dos heróis dos livros que costumava ler às escondidas na escola. Ela o visualizava, na imaginação, diri­gindo um navio pirata, senhor de todos os mares.

No fundo, porém, Katlin não se sentia como uma adoles­cente de quinze anos, a ponto de não saber que aquele homem fingia um romantismo quando, na realidade, só estava ten­tando encontrar uma mulher fácil e agradável para passar a noite. Mas, com certeza, não seria ela a escolhida. Se ele pen­sava que sim, teria uma grande decepção.

— Para sua informação Sr. McCord — pronunciou com fir­meza — eu esperava uma pessoa que, por certo, se atrasou.

Rogan não se intimidou.

— Nesse caso a perda dele conta um ponto para mim.

— Eu não penso assim, Sr. McCord. A pessoa em questão é uma mulher.

Glória já devia ter chegado, Katlin pensou irritada. Bem que tentara dissuadir a amiga daquele encontro, mas ela insistira tanto! Sequer lhe dera a chance de inventar uma boa desculpa e adiar o jantar para outra ocasião.

De súbito Rogan McCord inclinou-se para frente.

— Será que posso lhe pagar um drinque? Ela indicou o copo sobre a mesa.

— Eu já estou tomando vinho.

— Mais uma razão para ficar um pouco mais e terminar a bebida — interveio ele triunfante.

Katlin umedeceu os lábios cobertos de batom. O restante da maquiagem era mínimo: uma sombra azul leve e discreta nas pálpebras, o rímel alongando os cílios, o blush acentuan­do as faces. Aprendera, desde cedo, a tirar proveito do rosto harmonioso que possuía. Os grandes olhos azuis eram moti­vo de orgulho. O corpo, esbelto, casava bem com qualquer tipo de roupa escolhida. Suas medidas, perfeitas, sempre ha­viam sido um problema para as amigas invejosas.

Mas, além de saber se maquiar e se vestir bem, Katlin tam­bém sabia como colocar um ponto final em um flerte in­cômodo.

— Escute Sr. McCord, aprecio sua companhia, mas desejo muito mais a solidão do meu quarto e um bom livro. Agora, se me dá licença...

Com educação, Rogan se levantou assim que Katlin pegou a bolsa.

— Foi um prazer conhecê-la, senhorita...

— O’Rourke. Katlin O’Rourke.

— Irlandesa? — provocou ele.

— O que você acha?

— Eu acho que com a sua descendência irlandesa e a mi­nha escocesa, nós temos muita coisa em comum. Senti isto des­de que entrei neste restaurante. Você é muito bonita, Katlin O’Rourke.

— Obrigada — ela não se impressionou com o elogio. — É muita gentileza da sua parte.

Rogan suspirou contrariado.

— Você já escutou tudo isto antes, não é?

— Ou coisas bem parecidas. É sempre a mesma conversa! Elogios falsos para levar uma mulher para a cama são mais do que conhecidos.

— Mas não falei nada de falso — Rogan defendeu-se. — Você realmente é encantadora, Katy O’Rourke.

— Meu nome é Katlin — ela corrigiu furiosa. Só a família costumava chamá-la por aquele apelido. Ou então pessoas bem próximas.

— Está bem, desculpe! Não precisa ficar brava. Mas tenho certeza de quando um homem faz amor com você, ele a cha­ma de Katy.

— Como se atreve, seu, seu... Seu pirata!

Irritada por ter perdido a paciência Katlin deixou escapar a fantasia que aquele homem lhe inspirava.

Rogan, por sua vez, arqueou as sobrancelhas, divertido com a situação.

— Então é um pirata que pareço a você, não é? Katlin O’Rourke, você me surpreende!

Ela surpreendia a si própria. Tinha vinte e um anos e havia parado de ler aqueles romances fantasiosos há muito tempo. Mas, bastou olhar para Rogan McCord que todas aquelas fi­guras encantadas dos romances de pirataria lhe vieram à mente outra vez. Visualizava em Rogan o fantasma do pirata more­no e arrogante que invadira seus sonhos quando da adoles­cência.

— Tenho certeza de que não sou a primeira mulher a per­ceber sua... Persistência desta maneira.

— Você é a primeira que diz isso na minha cara. E não ne­go que aprecio a sua sinceridade. A não ser — ele hesitou — que você esteja pensando em Barba Azul. Posso lhe assegurar que não sou casado. Veja! — Ele ergueu a mão esquerda e mexeu com os dedos. — Nenhuma aliança! E você? É casa­da? Pois se for daquelas esposas entediadas e ricas à procura de aventuras devo avisá-la, está agindo de forma errada. Vo­cê deveria me encorajar não me afastar!

Katlin respirou fundo. Tinha vontade de gritar de raiva.

— Ao que parece você não precisa ser encorajado a nada.

— É verdade. Essa conclusão vai nos fazer ganhar muito tempo.

— Sr. McCord — ela disse séria —, não sou casada nem estou procurando excitação ou aventuras na minha vida.

— É mesmo? Pois eu acho que excitação nunca é demais.

— No seu caso isto deve ser bem provável. Não sei nada de você, mas não é difícil concluir que gosta de brincar e se divertir com qualquer coisa que esteja à sua disposição! Acho que escolheu a presa errada para dar o seu bote, Sr. McCord. Não estou interessada em manter nenhum tipo de envolvimento com você. Por mais rápido e sem sentido que possa ser.

— Você não está nos dando nenhuma chance — ele conti­nuou sem se abalar. — O nosso caso não precisaria ser rápido e sem sentido.

— Seria sem sentido, porque nós nem nos conhecemos, e seria rápido, porque tenho certeza de que você não tenciona ficar muito tempo neste país.

Rogan deu de ombros.

— E se eu mudasse de planos?

— Perderia tempo. Nós não vamos ter nenhum caso. A menos que eu acreditasse em amor à primeira vista, o que não é verdade.

— Por que não? Eu não saberia pensar em nada melhor do que levá-la para a cama agora mesmo.

Ela lançou-lhe um olhar fulminante.

— Sr. McCord, o senhor é tão... Direto?

— Nem sempre!

— Então, por favor, não me transforme em uma exceção. Ele estendeu o braço e acariciou-lhe o rosto com os dedos:

— Mas eu gostaria muito.

Katlin afastou a cabeça, decidida a sair dali o mais rápido que conseguisse.

— Eu preciso ir. Foi... Uma experiência interessante conhecê-lo.

— A recíproca é verdadeira. Até outra hora, Katlin. Com certeza nos veremos algum dia.

Ela virou as costas e atravessou o restaurante. No entanto, um forte impulso a fez parar na porta de saída e virar-se para ver Rogan McCord pela última vez. Ele já se fazia acompanhar por uma loira, de curvas generosas, que estivera sentada sozi­nha no bar! Os dois conversavam animados. Rogan desviou a atenção por um momento e reparou em Katlin que, parada na porta, os observava. Irônico, acenou-lhe um adeus.

Furiosa, ela segurou a bolsa com firmeza e saiu. Ainda sentia a raiva lhe percorrer o corpo quando entrou no Mercedes, de sua propriedade, estacionado em frente ao hotel. Quem aquele homem achava que era tentando abordá-la daquela maneira?

No entanto, rendeu-se, contrariada, às evidências. Alguma coisa em Rogan McCord era extremamente atraente: o seu char­me e ousadia incomuns, até a autoconfiança exagerada. Pena que ele fosse tão galanteador e inconseqüente a ponto de pas­sar algumas horas agradáveis com a primeira mulher por quem se sentisse atraído!

Aborrecida, Katlin se viu diante de um novo problema: o carro não pegava. Sem qualquer conhecimento de mecânica, ela sabia que não adiantava nem abrir o capô. Não havia ou­tra coisa a fazer senão chamar alguém da oficina que atendia aos problemas de automóveis da família, esperar até que o so­corro chegasse e, então, rezar para que não fosse nada de gra­ve. E tudo porque Glória tivera a brilhante idéia de tomarem um drinque juntas naquela noite! Sim, ela era a culpada por todos os transtornos que sofrera.

Katlin amaldiçoava a ausência da amiga quando uma voz grave e familiar chamou-lhe a atenção.

— Problemas Srta. O’Rourke? — Rogan McCord aproximou-se. — Será que posso ajudá-la?

— Não, eu sempre falo com meu carro. Tenho essa mania. — Katlin pegou a bolsa, saiu do Mercedes e atravessou a rua em direção ao hotel.

— É mesmo? — Rogan a seguiu. — Não me diga que é a mesma coisa que falar com plantas?

Ela lançou-lhe um olhar severo, ignorando-o. Em seguida comprou fichas para os telefones públicos instalados na re­cepção e discou o número da oficina. O mecânico de plantão atendeu ao chamado e, impaciente, ela respondeu às suas per­guntas, deixando claro que não entendia nada sobre carros, além de dirigi-los. O mecânico prometeu socorrê-la de imediato.

Katlin desligou o telefone e, ao virar-se, quase se chocou com Rogan que permanecia encostado na parede logo atrás dela.

— Com licença. — Katlin caminhou até a sala de espera, ao lado da recepção, onde marcara para encontrar-se com o mecânico.

— Agora entendo por que estava falando com o carro an­tes de tentar dirigi-lo. — E Rogan McCord acomodou-se na poltrona de couro bege ao lado dela. — Decididamente, você tem uma grande falta de respeito pela delicada engenharia do seu lindo e caro Mercedes!

Ela o encarou furiosa:

— Não me lembro de ter convidado você para sentar-se aí.

— Nem eu, mas decidi ignorar sua falta de educação desta vez.

— Educação? — Katlin precisou contar até três para se acal­mar. — E por acaso é norma de boa educação ficar escutan­do telefonemas dos outros às escondidas?

Ele encolheu os ombros.

— Só estava esperando a minha vez de usar o telefone.

— Então por que não o faz, agora? Estão todos livres. Rogan olhou divertido para o rosto irado dela.

— Mudei de idéia.

Katlin suspirou e deteve a atenção nas portas automáticas que serviam de entrada no hotel. Precisava esperar pelo me­cânico meia hora ainda, mas qualquer coisa era melhor do que olhar para Rogan McCord! Por que ele não ficara com a loi­ra? Bem... Talvez ela lhe tivesse dado o fora também, pensou satisfeita.

— Tenho pena da pessoa a quem se destina esse seu sorriso irônico — Rogan murmurou de súbito.

— Auto-compaixão é um tanto enfadonho, você não acha? Ele soltou uma sonora gargalhada.

— Prevendo minha derrota, é isso?

— Para dizer a verdade, Sr. McCord, não me importo se não precisar mais pensar em você de novo. Estava só me di­vertindo com a sua falta de sorte. Afinal escolheu a mulher errada duas vezes esta noite.

— Na verdade não te escolhi, Katy. Você estava lá, sim­plesmente.

— Em primeiro lugar meu nome é Katlin e não Katy. Em segundo, eu estava lá porque ia me encontrar com uma pessoa.

— Que não apareceu — Rogan acrescentou zombeteiro.

— Acontece com todo mundo, não? — insistiu ela na de­fensiva.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não, se diz respeito a mulheres como você.

— Droga! Pare de dizer isso. Não tenho o hábito de fre­qüentar bares sozinha!

— É claro que não. Ela o encarou furiosa.

— Bem ao contrário da sua segunda escolha.

— Mas como eu poderia olhar para outra mulher depois de você? Foi Miranda que se aproximou de mim.

A resposta desdenhosa de Katlin não lhe passou pelos lá­bios, pois, neste exato momento, a mulher em discussão atra­vessou a recepção acompanhada de um homem loiro e lançou um olhar ansioso para Rogan.

Katlin passou a ver o homem sentado a seu lado com novos olhos. A idéia de que uma mulher o abordasse não parecia ser uma experiência nova para ele. No entanto, embora o jo­go de sedução fosse visível, Rogan parecia não se sentir im­portunado. Ao contrário, lidava com aquela situação com distanciamento e frieza.

— Não me olhe tão surpresa — ele disse. — Miranda é uma profissional.

— Ela... O quê?

Mesmo sabendo que pareceria ainda mais jovem e ingênua Katlin não conteve a exclamação. Uma prostituta? Ali? Rogan riu divertido.

— Elas precisam trabalhar em algum lugar. E você encon­tra clientes mais abastados num hotel como este.

Katlin ficou em silêncio, sabendo que tinha se exposto ao ridículo.

— Eu não fazia idéia... Rogan a interrompeu.

— Viajo bastante por aí; é fácil reconhecer logo. Subitamente, Katlin o encarou indignada.

— Você não está pensando que eu...

— É claro que não. Só disse que reconheço essas profissio­nais com facilidade, mas não disse que me interessam. — Só ofereci uma bebida para Miranda e depois a deixei educada­mente. Afinal ela só estava trabalhando. Quanto a você, agi diferente. Expus com clareza o que pensava a seu respeito.

— Alguma esposa entediada e rica procurando alguém pa­ra tornar a vida mais excitante — relembrou-a injuriada.

Ele inclinou a cabeça.

— Está bem, errei no casada.

— E no entediada também. Se bem que seria um tédio que você ficaria mais do que feliz de atenuar, não é?

— Mais do que feliz — Rogan admitiu.

— Quanta gentileza da sua parte... — Katlin ergueu-se, o vestido azul cintilando contra o corpo —... Mas terei de recu­sar sua magnífica oferta.

Ela olhou para a porta, onde um homem sentia-se intimi­dado em interferir na conversa do casal. Trajava um maca­cão azul coberto de manchas de óleo e graxa. Obviamente se tratava do tão esperado mecânico.

— Não me importo de esperar — Rogan sugeriu.

— Pois eu não acredito que ainda estará aqui daqui a cem anos!

— Nem você gostaria.

— Exatamente! Adeus, Sr. McCord.

Katlin cumprimentou o mecânico e o levou até o estaciona­mento para ver o carro. Durante algum tempo o observou vis­toriar o motor e discursar sobre os problemas mecânicos.

— O que isto tudo significa? — ela perguntou quando o rapaz abaixou o capo e limpou as mãos num pano. — Qual é o problema, afinal?

— Moça, terei de rebocar seu carro até a oficina para consertá-lo.

— Mas não dá prá consertar aqui? Mesmo que seja só pa­ra eu chegar a casa e...

— Sinto muito, dona. Não posso fazer nada no momento. Só providenciar um guincho.

— Bem, obrigada — suspirou ela. — Acho que é melhor eu chamar um táxi...

— Não há necessidade — interrompeu uma voz que real­mente começava a zangá-la.

Katlin virou-se para Rogan McCord.

— O quê?

Ele se aproximou, falou alguns minutos com o mecânico e se dirigiu a ela.

— Eu te levo para casa — declarou arrogante. — Meu car­ro está logo ali.

— Ao inferno...

— Oh, as mulheres inglesas não são tão impassíveis e refi­nadas como querem parecer — Rogan confidenciou ao mecâ­nico. — Elas tampouco perdoam.

— O quê?...

— Eu me ofereço para levá-la em casa depois da briga, e você ainda se faz de difícil? Não é um problema?

Katlin respirou fundo. Rogan dava ao mecânico, que se apre­sentara como Paul Raymond, a impressão de que os dois eram amantes e que tinham acabado de ter uma briga! De fato, desde que haviam se conhecido, não tinham feito outra coisa senão brigar, mas nunca seriam amantes!

— Eu acho que deveria aceitar a oferta, Srta. O’Rourke — aconselhou Paul Raymond.

— É isto mesmo Paul — disse Rogan. — Nós homens te­mos que nos unir.

O outro lhe lançou um olhar divertido.

— Tenho certeza de que ficaria bem mais confortável no Jaguar do que no táxi, Srta. O’Rourke.

Rogan suspirou desanimado.

— Não a encoraje, por favor. Sabe que ela já chegou até a me dizer palavrões?

— Talvez esteja certo, Paul — Katlin disse por fim. — Vou aceitar seu conselho.

Rogan McCord estava enganado se pensava que só teria de percorrer algumas quadras no centro de Londres e que Katlin tramava convidá-lo a subir até seu apartamento para um drin­que de agradecimento.

— Isto quer dizer que aceita minha oferta?

— Por que não? Cavalo dado não se olha os dentes, não é Paul?

— Certo, Srta. O’Rourke. Rogan os olhou com desconfiança.

— Por que então tenho a sensação de estar sobrando?

— Provavelmente porque está — retrucou Katlin. — Me ligue amanhã sobre o carro, Paul. Pronto, Rogan podemos ir?

— Certamente — assentiu ele, abrindo a porta para que ela entrasse. — Para onde vamos?

— Será bem mais simples se eu indicar as ruas certas quan­do nos aproximarmos — disfarçou-a, perguntando-se o que a tinha induzido a aceitar uma carona de um estranho.

Desafio ou vingança a decidiu por fim. Desafio porque Rogan considerava-se superior. Vingança porque, depois de tê-la levado até em casa, Katlin duvidava que ele continuaria abordando mulheres do jeito que fizera com ela. Seria, sem dúvida, a chance de dar uma lição àquele homem.

Após vinte minutos de estrada, Rogan começou a arquear as sobrancelhas, impaciente.

— Não está longe agora — ela murmurou com delicadeza.

— Tem certeza?

— Lógico!

Katlin riu por dentro, da travessura que armara. Indicara o caminho mais longo para sua casa, e inventara até mesmo alguns desvios para torná-lo mais comprido.

— Você trabalha em Londres? — Rogan questionou após mais quinze minutos de ruas movimentadas, semáforos e desvios.

— Sim. Sou professora num jardim de infância.

— É uma longa viagem para se fazer todo dia.

— É mesmo? Sabe que eu não tinha notado.

Ele lhe lançou um olhar desconfiado, mas Katlin sorriu de volta com doçura.

— Aqui estamos nós — disse momentos depois, apontan­do para o caminho que levava até sua casa. — É logo ali.

Rogan franziu de novo a testa.

— Tenho certeza de que já passamos por aqui antes. Katlin agradeceu a escuridão que ocultava seu rosto verme­lho de culpa.

— Não seja tolo. Estacione na frente de casa.

Ele parou o carro defronte às portas de carvalho pesadas, e observou a casa em elegante estilo georgiano.

— Tem certeza de que não é casada? Não acredito que possa viver aqui sozinha.

— E não vivo. Moro com meus pais. Adoraria convidá-lo para entrar, mas é tarde. Você entende, não é? Não gostaria de perturbar papai e mamãe.

Rogan olhou a casa pela segunda vez.

— Aposto como se poderia prender uma pessoa por um mês aí dentro que não se escutariam seus gritos de socorro!

— Papai e mamãe têm um sono muito leve.

— Os dois?

— Sim — admitiu-a triunfante. — Muito obrigada por ter me trazido em casa, foi muita gentileza de sua parte.

Rogan se virou no banco e pousou o braço atrás dos om­bros dela.

— O que fiz nada tem a ver com gentileza. Katlin tocou a maçaneta da porta.

— Por favor — ele lhe segurou o braço e a puxou para junto de si. — Não saia assim...

— O quê...?

Rogan aproximou-se e pousou os lábios sobre os dela. Ka­tlin recostou a cabeça, entregue à magia daquele beijo. De re­pente todas as defesas caíram por terra. Havia um clima de magia, mistério. Um jogo de sedução irresistível.

Percebendo que Katlin cedia, ele começou a tocá-la com de­licadeza, passando-lhe os lábios úmidos pela face, enquanto lhe dizia o quanto a achava linda e desejável. Katlin sabia que estava se deixando seduzir por aquelas palavras delirantes, por aqueles olhos verdes... Porém, não tinha mais como esquivar-se. Deixou que ele a beijasse de novo ainda com mais ímpeto.

Eles experimentaram, exploraram, provocaram até se en­tregarem mutuamente a uma paixão desvairada. As mãos de Rogan deslizando pelo corpo dela tocaram-lhe os mami­los, prendendo a respiração de Katlin. Ele lhe fez carícias suaves, deixando-a completamente excitada, ávida por mais carinho.

— Quero vê-la nua, Katy — ele buscou o zíper do vestido. — Nua e sedenta!

— Não! — Katlin protestou, caindo na realidade. — Deixe-me ir.

Perplexo, Rogan ergueu as mãos na defensiva.

— Tudo bem. Nunca tentei forçar uma mulher. Katlin sabia que ele nunca precisaria usar tal artifício. Ne­nhuma mulher ficaria indiferente ao seu lado.

— Eu sei disto. Eu... Foi um erro, só isso. Rogan sacudiu a cabeça, os olhos frios.

— Erro? Ora Katy. Eu te quero. E há um minuto você também me queria...

— Não. Tudo não passou de um equívoco. Preciso ir agora.

— Será que a gente pode se ver de novo? Vou ficar por aqui mais algum tempo e...

— Não! — Katlin tentou se manter firme. — Nunca mais vou querer te ver.

Rogan sorriu.

— Acho que isso vai ser impossível! Veja, eu...

— Será que não me ouviu? Será que não pode aceitar um não como resposta? — gritou impaciente, sabendo que aque­le homem poderia lhe causar muitos problemas se quisesse.

— Mas você não parecia tão segura disso há minutos atrás.

— Bem, mas estou dizendo agora. Não quero mais te en­contrar, Sr. McCord. Fui clara?

— Bastante.

— Ótimo. E, mais uma vez, obrigada por me trazer em casa.

— Acredite-me, o prazer foi meu. Todo meu.

Katlin bateu a porta com força e ficou na varanda esperan­do o carro se afastar. Depois, respirou fundo, e entrou em casa.

Como pensara os pais ainda estavam acordados, disputando uma partida de xadrez na sala. Os dois a cumprimentaram com tanto carinho que toda a insegurança que sentira ao lado de Rogan McCord desapareceu por completo.

— Você teve uma noite agradável, querida? — perguntou a mãe de Katlin, uma senhora de cinqüenta anos que ainda trazia os mesmos traços característicos de beleza da filha.

— Não muito.

— Por quê?

Katlin contou então a eles como fora deixada na mão, omi­tindo a parte sobre Rogan.

— Mas que vergonha!

— Falta de respeito, isso sim — acrescentou o pai. — Gló­ria podia ter te avisado.

— Bem, o que passou, passou. Acho que vou para a cama agora. Tenho um dia agitado amanhã.

— É verdade, querida. Boa noite.

A conversa com os pais ajudou Katlin a se acalmar um pouco e, enquanto trocava de roupa, Rogan se manteve longe de seus pensamentos. Mas, o mesmo não aconteceu quando ela se dei­tou. Aqueles olhos verdes penetrantes a perseguiam, a lem­brança daquela boca sensual conseguia deixá-la fora de si.

Katlin mudou de posição na cama e sua respiração quase parou quando viu um vestido branco pendurado na porta do armário. Era o seu vestido de noiva.

 

O último dia de trabalho de Katlin foi longo e cansativo. Co­mo ela e Grahan Smith, seu futuro marido, haviam planejado viajar por duas semanas em lua-de-mel, Katlin precisou se en­tregar de corpo e alma às tarefas na escola, preparando o pla­no de aulas para a nova turma de crianças que entraria no jardim de infância.

Cuidar de cada detalhe do casamento e assumir as responsa­bilidades profissionais acabou por deixá-la imersa num sem-fim de atividades que a consumiram até quase às vésperas do casamento.

Tanto a cerimônia civil quanto a religiosa estavam marca­das para o sábado e a confusão interna tornava aqueles dias que antecediam ao enlace ainda mais agitados para Katlin. Afi­nal, aproximava-se a concretização de todos os seus planos, mas, de repente, ela se sentia como se caminhasse para o cadafalso e não para uma vida de felicidade.

Durante aquela semana, ela se esforçara para não pensar em Rogan McCord, mas, por mais que tentasse, não escondia de si mesma a atração que sentia por ele. Não conseguia deixar de rememorar a noite do hotel. Sim, desejara que ele tivesse continuado a beijá-la e acariciá-la. Mas a que ponto teriam che­gado se não houvesse recuado?

A três dias do casamento a Sra. O’Rourke preparou um jan­tar para os noivos e suas respectivas famílias. No íntimo a idéia não agradou a Katlin. Embora evitasse, precisava ficar a sós com Grahan a fim de rever os seus sentimentos por ele. Sabia que era tarde para colocar dúvidas ao noivo. Só que estava fi­cando cada vez mais impossível esquecer Rogan.

— Você está encantadora, querida — a mãe elogiou, ao en­trar no quarto. — Esta roupa ficou ótima!

Katlin usava um vestido preto, bem colado ao corpo, os ca­belos loiros, presos num coque frouxo, realçavam-lhe o pesco­ço adornado por um singelo colar de pérolas.

— Brian e Beth já chegaram — a mãe continuou —, mas Grahan ligou há pouco para avisar que se atrasará. Ele ficou detido no escritório, mas garantiu que não vai se demorar.

Por que Grahan tinha de se atrasar logo hoje que ela preci­sava tanto dele?

— Seu pai estava certo de que você não se importaria. Ka­tlin!... — a mãe beliscou-lhe o braço —... Estou falando com você.

— Sinto muito, mamãe. Estava distraída.

A Sra. O’Rourke saiu do quarto acompanhada pela filha e desceram as escadas.

— Pensando em sábado?

— Sim — ela confirmou sem muita convicção.

— Você vai ser a noiva do ano. Tenho certeza! Será a mais linda de todas que eu já vi.

E que noiva não ficaria linda num vestido que custara uma fortuna? Katlin pensou. Se pelo menos não tivesse conhecido Rogan McCord!

Ao entrarem na sala a mãe prosseguiu:

— Eu só estava tentando te explicar que... Bem, você mes­ma pode ver agora.

— Ver o quê? Mamãe, o que...

— Pode deixar Sra. O’Rourke — interrompeu uma voz ar­rogante e irônica que Katlin não esperava ouvir de novo. — Eu explico. O que sua mãe queria dizer é que eu fui convidado por eles para jantar. Não é ótimo?

Katlin sentiu o rubor lhe tingir as faces. Rogan vestia um terno azul-escuro, camisa branca e uma gravata de seda também azul. Porém, nem mesmo a formalidade da roupa lhe tirava o ar sel­vagem e debochado que possuía.

Mas o que ele estava fazendo ali? Como se atrevia a par­ticipar daquele jantar em família? No entanto, antes que ela fizesse qualquer comentário, Rogan estendeu a mão e a cum­primentou.

— Sou Rogan McCord. Eu e seu pai somos sócios em alguns negócios.

Ela o encarou desconfiada. Sócio do pai? Desde quando?

— Rogan ficou num hotel nestes últimos dias — interferiu o pai, amigável. — Mas eu insisti para que ele se hospedasse aqui até que nossos negócios sejam concluídos.

— Na verdade — Rogan completou — eu tinha planejado ver seu pai na semana que vem, mas meus negócios na Alemanha terminaram mais rápido do que esperava e vim direto para cá. Não fazia idéia de que chegaria numa ocasião tão íntima e familiar.

— Você não está atrapalhando — interferiu o pai. — Esta­mos felizes em tê-lo aqui.

— E quanto a Srta. O’Rourke? — provocou Rogan, o olhar fixo no rosto de Katlin.

— Os amigos de papai são sempre bem-vindos — ela retru­cou com indiferença.

— E fui convidado para o casamento também. Será sábado, não é?

Katlin engoliu em seco. O que Rogan pensaria a seu respeito por ter correspondido àquele beijo de casamento marcado com outro?

— Sim — murmurou. — E você será nosso convidado de hon­ra, não é, papai? Tenho certeza de que será uma festa ines­quecível.

— Eu também tenho — Rogan concordou.

— Com licença — Katlin disse de súbito. — Preciso cumpri­mentar meu irmão e sua esposa.

No instante seguinte Katlin se juntou a Brian e Beth. Enquanto isso, Rogan sentou-se no sofá acompanhado pela mãe dela. Os dois se entretiveram numa conversa séria.

— O que você acha dele, hem, irmãzinha? — provocou Brian. Katlin bebericou o sherry que o pai lhe servira.

— Na verdade, não sei muito sobre o Sr. Rogan. Brian arqueou as sobrancelhas.

— Você nunca ouviu falar de Rogan McCord?

— E deveria? — Ela forçou uma indiferença que não sentia.

— Lógico. Rogan é muito conhecido no mundo dos negó­cios. Mas desconfio que seja a primeira vez que vem à Europa.

— E o que o trouxe aqui?

— Papai, é claro, e uma sociedade de uma rede de hotéis na qual os dois estão interessados em investir. Eles se conhe­ceram quando papai esteve nos Estados Unidos meses atrás. Acho que você estava muito ocupada com os preparativos do casamento senão teria ouvido falar sobre ele.

Katlin não queria demonstrar ao irmão o quanto estava in­teressada em saber sobre a vida daquele homem que conse­guira convencer o pai a fazer uma sociedade. Mas não conteve a curiosidade.

— Quero ouvir agora, então — pediu com delicadeza, ob­servando Rogan fazer sua mãe dar risadas como uma cole­gial. O que era aquilo? Sua mãe nunca ria daquela maneira!

— Até onde sei — Brian começou — Rogan venceu na vi­da por si próprio... Por isso o jeito atirado que tem. Ele fez fortuna com especulação imobiliária.

— Isto não diz muita coisa. Só que é esperto e perspicaz — ela argumentou. — O que mais você sabe?

— Irmãzinha, acho que essas perguntas estão indo longe demais. Por que tanto interesse em cima de Rogan? Você vai se casar no sábado!

— Brian! — a esposa o repreendeu. — Katy só está curio­sa. E eu devo confessar que estou um pouco também.

— Elizabeth O’Rourke, comporte-se! Beth sacudiu a cabeça.

— Nunca pensei que ganharia um marido tão ciumento quando me casei com um playboy reformado!

Katlin se divertiu com o comentário da cunhada. Brian não fora o que se poderia chamar de menino comportado na ju­ventude. Vivia destruindo carros em corridas desvairadas pe­las marginais da cidade. Isso sem falar nas intermináveis festas que costumava freqüentar e na quantidade de namoradas que conseguira arranjar.

Mas tudo mudou quando Brian conheceu a amiga de escola de Katlin, Beth. Ele se modificara, então, da noite para o dia, consciente de que a bela e delicada Beth não aceitaria um desor­deiro na sua vida. Seis meses após o primeiro encontro se casa­ram; ela com dezoito anos e ele com vinte e sete. Três anos depois estavam mais felizes do que nunca, com a vinda do primeiro filho, o pequeno Matthew, orgulho de toda a família.

Em todo esse processo, Brian transformara-se num outro homem. Era o braço direito do pai nos negócios; o sucessor que o velho O’Rourke sempre desejara.

— Você sabia muito bem o que estava ganhando quando casou comigo. — Brian olhou para a esposa. — Principalmente no dia que aceitou dançar com aquele seu velho amigo, Jack, que a segurou perto demais para o meu gosto.

— Coitado do Jack! Ele, com certeza, viu estrelas depois que você lhe deu o soco.

— Pois eu acho que ele teve sorte de sair só com o olho roxo daquela briga. Na verdade Jack não devia ter nem se apro­ximado de você.

Beth olhou para Katlin.

— Sabe o que é isso? Brian está mudando de assunto por­que não quer nos contar sobre Rogan McCord.

— E o que há para contar? Ele tem trinta e cinco anos e é um homem bem atraente, não acham?

— Pare de agir como uma criança? — ordenou Beth. — Ele é casado?

— Rogan? Posso saber por que tanto interesse? Você...

— Brian!

— Não, não é casado — ele reagiu irritado. — Olhe Beth, não sei por quê...

— Boa noite.

Katlin virou-se rapidamente ao ouvir aquela voz rouca e sen­sual. Não percebera que Rogan deixara a mãe, enquanto ela e Beth se entregavam ao seu passatempo favorito: provocar Brian.

— Sr. McCord — assentiu, lançando um olhar acusador para Brian e Beth que se afastavam.

— Eu disse que nos veríamos de novo — ele provocou irônico.

— Você sabia quem eu era o tempo todo!

— O tempo todo não. Mas logo que ouvi seu nome, entendi algumas coisas. Seu pai tinha me contado sobre sua linda filha Katy quando esteve nos Estados Unidos este ano. Devo confes­sar que ele tinha razão. Você é muito bonita mesmo.

— Obrigada.

— Entretanto, ele se esqueceu de mencionar que você também era teimosa, mimada... E uma mentirosa.

— Mentirosa? Como se atreve?

— Como eu me atrevo? — ele arqueou as sobrancelhas, fu­rioso. — A viagem que levou uma hora a semana passada, fiz em vinte minutos esta noite. É claro que eu já sabia disto quan­do a trouxe em casa, mas achei melhor deixar que você se diver­tisse um pouco.

— Seu...

— Não acrescente linguagem obscena à sua lista de defeitos — ele interrompeu. — Você estava se divertindo, e então eu pen­sei: "E daí? Isto explica sua teimosia e mimo". E hoje à noite, quando cheguei, seu pai me disse que haveria um pequeno jan­tar em família em honra ao casamento da sua filha no sábado. Eu pensei que ele devia ter duas filhas, mas não, ele disse que só tinha uma Katy!

— Então?

— Então — repetiu ele, tão próximo que ela podia sentir-lhe o hálito. — Onde estava seu anel de noivado na noite que jan­tava no hotel?

— Eu não uso anel ou aliança de noivado. Não acredito em símbolos para selar qualquer tipo de compromisso. E minha fa­mília pensa como eu.

— Você não age como uma mulher que vai se casar em cin­co dias!

— Eu? — perguntou ela incrédula. — Foi você quem me beijou.

— E você correspondeu!

Um leve rubor subiu-lhe às faces.

— Você me pegou de surpresa...

— Durante quinze minutos!

— Rogan, por favor. — Ela olhou ao redor apreensiva. — Não acho que seja a hora de a gente esclarecer esse assunto.

— Leve-me para fora para conhecer o jardim. Ou qualquer coisa parecida.

— Não, eu...

Ele a encarou sério.

— Prefere continuar essa conversa aqui?

— Está bem — concordou ela temerosa de que alguém per­cebesse o que se passava entre eles. — Mas Graham e a família vão chegar daqui a pouco.

— Graham é o seu noivo?

— Sim.

— Pois eu tenho pena dele — murmurou Rogan, enquanto a acompanhava até o terraço com vistas para o jardim. — Só Deus sabe como você vai se comportar quando estiverem casados!

— Quer fazer o favor de falar baixo? — Ela fechou a porta de vidro. — Será que tenho que te lembrar que foi você quem me perseguiu aquela noite?

— Tudo que você tinha a fazer era me contar que ia se casar em poucos dias. Por que não o fez?

Ela fizera a mesma pergunta a si mesma durante toda a se­mana, mas não encontrara resposta.

— Não sei — admitiu melancólica.

— Katy...

— Por favor. Eu não me orgulho do que aconteceu naquela noite, mas vou aprender a conviver com isto.

— Por quê?

— Porque eu correspondi a você. E eu não deveria ter feito isso.

— Katy...

— Vamos voltar para dentro — ela o intimou. — Eu escutei o barulho de um carro; deve ser Graham e seus pais.

Os Simond-Smith acabavam de entrar na sala, quando ela e Rogan retornaram do jardim. Os olhos de Katlin brilharam ao ver o futuro marido com suas feições bonitas e jovens. Aproximou-se dele, o beijou e, em seguida, cumprimentou os sogros, Joanna e Peter, e a cunhada de Graham, Glória.

Glória a beijou no rosto e disse:

— Sinto muito por ter faltado ao nosso encontro à semana passada. É que fiquei ajudando Graham a organizar o material para o livro e quando percebi já era muito tarde.

Com efeito, Glória lhe telefonara para se desculpar e Katlin não tivera como ficar brava quando soubera do motivo. O livro que Graham escrevia sobre os vikings era fascinante. Ele traba­lhava como advogado em sociedade com o pai e tinha uma verdadeira paixão pela história dos vikings.

— Não se preocupe mais com isso. — Katlin, pousou a mão no braço da outra. — Eu sei como Graham consegue hipnoti­zar as pessoas com esse trabalho.

— Você não vai nos apresentar, Katy?

Ela encarou Rogan quando ele pronunciou o seu apelido de­liberadamente.

— Graham Simond-Smith, e sua cunhada, Glória. — Os pais de Graham estavam conversando com os dela, acompanhados de Brian e Beth. — Um conhecido de negócios de papai, Rogan McCord.

O aperto de mão entre Rogan e Graham foi curto. Katlin os observou apreensiva. Graham arqueou as sobrancelhas, descon­fiado da frieza do outro. Ficou também perplexo quando Ro­gan saudou a cunhada com um sorriso charmoso.

Só Katlin não ficou surpresa. Sabia que Rogan desprezava Gra­ham tanto quanto tinha pena dele por achar que ela o fazia de bobo. Além disso, Rogan não perderia a chance de jogar seu char­me em cima de Glória, que estava viúva havia dois anos, e era ainda muito jovem e bonita.

Glória fora casada com o irmão mais velho de Graham, e con­tinuara a morar com a família mesmo depois de sua morte. Ka­tlin não chegara a conhecer Thomas Simond-Smith, mas sabia que Graham o admirava muito, e que Glória não tinha se inte­ressado por nenhum homem depois que perdera o marido.

Isso pelo menos até aquele momento! Glória não tirava os olhos de Rogan que a cortejava para inquietação de Katlin.

— Quem é ele? — perguntou Graham, acompanhando o mo­vimento dos dois num canto da sala, afastados das outras pessoas.

— Já disse, ele é sócio de papai. Mas agora, que tal um beijo de boas-vindas mais carinhoso? Não te vejo faz dias!

Graham sorriu, parecendo mais novo do que os vinte e seis anos reais. Ele e Katlin namoravam havia um ano. A certeza de que estavam mesmo apaixonados os impelira a marcar o casamento. Só que o destino reservara uma surpresa para Ka­tlin. Ela, que se julgara apaixonada por Graham, não se des­cuidava, naquele momento, de Rogan e Glória, que passeavam pelo jardim. Sobre o que falariam?

— Hum — murmurou Graham, acariciando-lhe as costas depois de beijá-la. — Senti falta de você.

— Eu também. — E tornou a beijá-lo, desta vez com mui­to mais intensidade.

— Ei! — Graham exclamou surpreso. — Alguém pode sair a qualquer hora para nos chamar para o jantar.

— Alguém já saiu. — Rogan lançou um olhar frio para Ka­tlin. — Sua mãe disse que o jantar vai ser servido. Será que devo comunicar que você não deseja ser incomodada?

Katlin sentiu o sangue ferver diante da ironia.

— Por favor, diga à mamãe que já estamos indo. Rogan virou-se e entrou na sala.

— Quem esse sujeito pensa que é — Graham comentou ir­ritado. — Até parece o dono do mundo!

— Só alguém que papai se sente obrigado a convidar para ficar.

— Ele me faz sentir como um adolescente.

— Não seja tolo!

— Ele me faz sentir culpa por estar beijando a mulher que é quase minha esposa — acrescentou ele, quando entraram na sala.

— Esqueça-o. Você não vai querer estragar a nossa noite, não é?

Rogan concentrou a atenção sobre Glória durante todo o jantar. Katlin permaneceu quieta, assim como Graham. Mas Glória sorria com as atenções daquele homem fascinante, os olhos azuis brilhando de alegria. Ninguém mais além de Gra­ham e Katlin parecia estar ciente da tensão que havia ao redor daquela mesa. Brian e Beth se divertiam como de costume.

Os pais do noivo e da noiva falavam sobre os últimos deta­lhes da cerimônia de casamento.

— Eu me pergunto o que Graham diria se soubesse que eu te beijei e que fui plenamente correspondido.

Sentada no sofá na sala de estar, Katlin ergueu os olhos da revista que folheava. Graham fora buscar um licor para eles, a família ainda conversava animada na mesa mesmo com o fim do jantar.

Rogan deixara Glória por instantes e se aproximara. Seus olhos denunciavam irritação e desconforto.

— Quer fazer o favor de falar baixo? — Ela olhou ao re­dor, preocupada. — O que vai ganhar se fizer um escândalo?

Rogan deu de ombros.

— Devo acreditar que todos estes belos planos de casamento iriam água abaixo se eu mencionasse com quem esteve a se­mana passada.

— Você não faria isso!

— Lógico que faria! Ela engoliu em seco.

— Você por acaso sabe há quanto tempo minha mãe está planejando este casamento?

— Provavelmente desde que você usava fraldas — comentou-o, indiferente.

— Bem antes. Quando Brian nasceu eles esperavam que fos­se uma menina. E passaram-se mais nove anos até que eu apa­recesse.

— E você foi mimada desde então. Será que nunca alguém te explicou que não se pode ter tudo na vida?

Ela o encarou indignada.

— Você deve ter escutado Glória dizer que ela era a pessoa com quem eu deveria ter me encontrado naquela noite no hotel.

— Eu também escutei você dizer a Graham o quanto sen­tiu falta dele esses dias — zombou ele. — E não percebi nada disto quando estivemos juntos!

Ela olhou para a sala onde os pais estavam desesperada.

— Nós não estivemos juntos! Só conversamos e... Bem... O que aconteceu foi...

— Não tente se enganar, Katy. Mais alguns minutos e nós dois faríamos amor no banco do carro, na frente da casa de seus pais!

— Não!

Rogan a encarou severo.

— Eu sei muito bem o quanto você me queria.

— Não. Eu...

— Aqui estamos nós, Katlin. — Graham aproximou-se de repente com o licor e olhou para Rogan irritado. — Sinto mui­to, velho, eu só trouxe dois cálices.

— Tudo bem... Filho. — Rogan tomou os dois cálices da mão do outro, deu um para Katlin e ficou com o segundo. — Tenho certeza de que Katy e eu poderemos continuar nos­sa conversa enquanto você busca outro licor para você.

Graham cerrou os dentes, mas se conteve.

— Com licença. Volto já.

Rogan ergueu as sobrancelhas e olhou para Katlin.

— Nenhum comentário?

— Só um. Graham não gosta de você.

— O sentimento é mútuo. Eu me pergunto por quê. Katlin virou o rosto.

— Não faço idéia.

— Não mesmo?

— Olhe aqui, Rogan. À hora de me trazer problemas foi na hora da apresentação, não agora!

— Oh, eu não pretendo te criar problemas, Katy.

— Não?

— Não. Tenho certeza de que no fim você vai tomar a úni­ca decisão possível nestas circunstâncias.

— Não há decisão nenhuma para tomar. Vou casar com Graham no sábado.

— Por que continuar com essa farsa se você vai trair seu marido em menos de dois meses?

Os olhos de Katy faiscaram de raiva.

— Você não sabe o que está falando...

— Não mesmo? — E ergueu a mão para acariciar-lhe o ros­to. — Posso assegurar que eu serei o homem com quem você vai trair Graham.

— Seu arrogante...

— Querida, Glória não está se sentindo bem — interrom­peu Graham de repente. — Está com muita dor de cabeça e me ofereci para levá-la em casa.

— Eu sinto tanto — Glória disse ao lado de Graham. — Não queria estragar a festa.

— Você não estragou nada — assegurou-lhe Katlin com sim­patia. — Acho que só precisa de uma aspirina e um bom sono.

— Mas eu não queria afastá-la de Graham, ainda mais hoje.

— No seu lugar eu não me preocuparia com isto, Glória — Rogan comentou. — Depois de sábado Katlin vai ter todas as noites junto de Graham pelo resto de suas vidas. Mas tal­vez não seja justo separar o casal feliz. Eu posso te levar em casa se quiser Glória.

— Oh, mas...

— Algum problema, velho? — Rogan acrescentou ao pro­testo de Graham.

— Sim! Não! Bem... — E olhou para a cunhada. — Você não tem nada contra?

Glória sorriu para Rogan.

— Você realmente não se importa?

— E que homem se importaria de levar uma mulher tão bo­nita para casa?

Katlin desviou os olhos da cena e em alguns minutos a fa­mília s e reuniu à porta para vê-los partir. Subitamente, o pai de Katlin sacudiu a cabeça, pensativo.

— Agora sei por que Rogan tem fama de conquistador. Ele não perde tempo.

— É mesmo? — Katlin deixou escapar.

— Oh, sim. Nos Estados Unidos, eles o tratam como um playboy; ele faz o diabo com as mulheres. Eu ficaria de olho em Glória se fosse você, Peter e...

Katlin não prestou mais atenção, perdida em seus pensa­mentos. Um diabo com as mulheres era isto que ele era! E um homem daqueles queria persuadi-la a desistir do casamento com Graham. Era o cúmulo da ousadia!

 

Passava da meia-noite quando os convidados da família O’Rourke se despediram e foram embora.

Katlin, exausta, deu boa-noite aos pais e subiu para o quar­to. Já se preparava para dormir, quando Rogan a surpreendeu, entretanto, nos seus aposentos sem a mínima cerimônia.

— Olá! Sabia que você estaria assim.

Ela o encarou indignada. Como se não bastasse ter um estra­nho em seu quarto ele ainda a surpreendia vestida daquela forma!

Atônita, procurou pelo robe, mas não o achou sobre a cama. Sem opção, passou a mão pela camisola azul-clara de renda que usava tentando encobrir o que os olhos sequiosos de Ro­gan não cansavam de admirar.

— Posso saber quem te deu o direito de entrar aqui? Rogan fez sinal para que ela falasse baixo e fechou a porta.

Em seguida, aproximou-se e, com a astúcia de um felino, des­lizou as mãos pelas curvas harmoniosas do corpo de Katlin.

O gesto a fez perder todo o controle. Uma excitação cres­cente foi tomando conta dela à medida que as carícias lhe enri­jeciam os mamilos por debaixo do lingerie. Os lençóis, já abertos sobre a cama, pareciam propositalmente convidativos.

— Sabia que sem maquiagem e aquele vestido sofisticado, você fica mais bonita do que nunca? — ele lhe murmurou aos ouvidos.

Katlin respirou fundo. Mal se dava conta do absurdo da si­tuação. Às vésperas do casamento com Graham ela recebia um estranho em seu quarto, e ainda lhe permitia toda a intimidade com seu corpo!

— Acho que entrou no quarto errado, Sr. McCord. Não sei bem que quarto meus pais lhe destinaram, mas posso chamar por eles e...

— Não chame ninguém, Katy. Estou no quarto certo. Katlin corou.

— Não penso assim, Sr. McCord. Agora, se não se importa...

— Não tenho nenhuma intenção de sair daqui até que você me assegure que não vai se casar com Graham Simond-Smith!

Embora tivesse vontade de gritar, Katlin se conteve. A últi­ma coisa que desejava era acordar os pais ou Brian e Beth que ocupavam o quarto no fim do corredor.

— Meu casamento com Graham não te diz respeito.

— Diz sim, muito mais do que você pensa. Eu sou o ho­mem que você deseja. Isso já não é um motivo para eu me in­trometer?

— O homem que eu...! — ela soltou uma gargalhada. — Deixe de ser ridículo! Você está é querendo se divertir a minha custa!

— Divertir? Mas nós quase fizemos amor!

— Para um playboy como você isso não faria a mínima di­ferença.

Rogan andou pelo quarto, e afrouxou a gravata, impaciente.

— Pelo visto seu pai andou falando mais do que devia. — Ele tirou o paletó e o colocou na poltrona ao lado da cama. — Posso saber o que seu pai comentou ao meu respeito?

— Nada de mais. Ele só preveniu meu futuro sogro quanto ao seu comportamento com as mulheres. Por falar nisso, co­mo está Glória?

— Com uma forte enxaqueca — ele retrucou irritado. — Fi­quei com ela até que a família do seu noivinho voltasse para casa.

— Quanta consideração de sua parte. Ele deu de ombros.

— Achei aconselhável, mas é óbvio que você... Meu Deus, este é seu vestido de casamento? — A atenção de Rogan voltou-se para os metros e metros de cetim branco e tule que caíam como uma cascata na porta do armário.

— Não. É meu roupão.

Rogan lançou-lhe um olhar severo pelo sarcasmo e aproximou-se do vestido para tocá-lo.

— Você ficaria encantadora nele.

— Obrigada... Mas o que quer dizer com ficaria?

— Segundo os mais velhos e conservadores, muitas noivas hoje em dia não têm o direito de vestir branco... Sabe como é, reverências à virgindade e aos velhos costumes. E quanto a você? Será que poderia usá-lo?

— Isto não é da sua conta! — Katlin alterou o volume da voz. — Quero que me diga por que eu ficaria bonita. Por que usou o passado?

— Porque você não terá mais chances de vesti-lo agora.

— Quem diz que não?

— Eu — Rogan respondeu irônico. As faces dela coraram de ódio.

— Pois fique sabendo que não me importo com a sua opi­nião. Você só diz bobagem!

Rogan sacudiu os ombros indiferente.

— Tenho certeza de que você gosta muito de Graham...

— Lógico que gosto. Por isso vamos nos casar no sábado.

— Só que gostar de alguém não é suficiente para fundamentar um casamento.

— Eu acho que você está subestimando o que sinto por Graham.

— Mulheres apaixonadas não correspondem a outros homens.

— Nem mesmo quando esse outro homem é um playboy ta­lentoso como você?

Os olhos de Rogan se estreitaram.

— Escute aqui, não me venha com esta história de novo. Tudo não passa de intrigas em cima de mim que sou um ho­mem de negócios bem-sucedido.

— Então está dizendo que não é verdade? Você deve ser um pobre incompreendido que só busca um pouco de amor na vida!

— Não é bem assim.

— Foi o que pensei. Agora quer fazer o favor de se retirar do meu quarto?

Ela sacudiu a cabeça em sinal negativo.

— Não antes de colocar um pouco de bom senso nesta sua cabecinha.

— Se você não sair em um minuto eu grito — desafiou-a. — Em poucos segundos oito pessoas estarão aqui para ver o que está acontecendo.

— Você realmente se exporia dessa maneira? — Rogan sen­tou na beira da cama. — Não acho que seria conveniente.

— E quanto a você? Droga! Pensei que você e meu pai esti­vessem no meio de uma negociação importante.

— Nada ficou decidido ainda — disse Rogan sério.

— Bem, posso lhe assegurar que se papai te pegar no meu quarto vai ficar furioso.

Rogan ergueu as mãos na defensiva.

— Eu só vim para conversar, você é que está andando por aqui quase sem roupa.

Katlin pegou o paletó e a gravata e atirou-os na direção de Rogan.

— Saia já daqui!

Ele, porém, levantou-se da cama e a segurou pelo pulso puxando-a para perto de si.

— Ei, o que está fazendo? Rogan, me solta!

— Não posso! — ele murmurou rolando com Katlin sobre a cama. — Deus é testemunha como tentei conversar, mas vo­cê não escutou! Agora não conseguiria falar nem que você me desse um milhão de dólares!

Ele a tinha prevenido, mas mesmo assim Katlin não estava preparada para a sensualidade contagiante daquela boca movendo-se sobre a sua numa compulsão febril. Com volúpia Rogan puxou as alças finas da camisola de Katlin e desnudou-lhe os seios.

Por longos momentos ela permaneceu deitada, de olhos fe­chados, enlouquecida de desejo. Quando a língua de Rogan to­cou os mamilos endurecidos, agarrou-se ao corpo dele, ofegante.

O prazer e a excitação tomaram então conta dela, que, exta­siada pelas sensações que experimentava, passou a acariciá-lo como jamais fizera antes com qualquer outro homem.

— Chega — suspirou Rogan afastando-a para tirar as pró­prias roupas. — Eu quero você, inteira!

Ao sentir-lhe o corpo rígido contra a pele macia, Katlin se deu conta do que tinha permitido e, antes que ele pudesse possuí-la, entrou em pânico.

— Pare! — gritou. — Deixe-me em paz, vá embora!

Os olhos de Rogan ardiam de desejo quando ele a encarou.

— Deixá-la em paz? Mas por quê?

Ela engoliu em seco. No fundo sabia o quanto estivera perto de cometer um erro.

— Por favor! Não podemos continuar com isso. Seria loucura!

— Você me deseja!

— Sim, mas sábado é o dia do meu casamento! E...

— E você ainda pensa em continuar com essa história? Vo­cê não entende que o que acontece entre nós é especial?

Pálida e trêmula, Katlin levantou-se e tornou a vestir a ca­misola que estava no chão.

— Especial ou não é o cúmulo do absurdo permitir que vo­cê permaneça nesse quarto. Eu nunca fiz amor com ninguém na casa de meus pais. Pode parecer bobagem, mas gostaria de continuar respeitando o espaço deles. Será que dá para você entender isso?

— Droga! — Rogan esmurrou o travesseiro. — Não queria que isto acontecesse. Vim aqui para falar com você, mas pelo jeito o único meio possível de me comunicar com você é fazen­do amor!

— Rogan, você...

Os olhos dele faiscavam de raiva e angústia.

— Talvez este seja o único meio de um homem se comuni­car com você!

Katlin o encarou furiosa.

— Minhas experiências sexuais não são da sua conta...

— Pois eu sei muito bem qual é o seu jogo, mocinha. Você conhece todos os truques para fazer um homem perder a cabe­ça!

— E devo supor que a sua moral é altamente recomenda­da? — a devolveu irada. — Um homem te oferece hospitali­dade e você em sinal de gratidão decide lhe tomar a filha também!

Um leve rubor cobriu as faces de Rogan.

— Eu já disse, não tinha intenção que isto acontecesse!

— Nesse caso é minha obrigação te lembrar que você en­trou no meu quarto sem ser convidado, e que insistiu em ficar mesmo quando pedi para que fosse embora. Agora estou or­denando. Saia já daqui!

Ele se levantou e vestiu a roupa.

— Não se preocupe, já estou indo. Se você quer se meter num casamento que não tem possibilidade alguma de dar cer­to, o problema é seu!

— Exatamente! Eu... Onde você pensa que vai? — Katlin perguntou, quando ele abriu a porta e saiu pelo corredor.

— O que você acha? Você queria que eu saísse, portanto es­tou saindo.

— Você podia ter olhado antes. E se alguém da minha fa­mília te visse saindo daqui?

Rogan sorriu irônico.

— E qual seria o problema? Eu não sou um playboy invete­rado? Pois então.

Atônita, Katlin o observou entrar no quarto de hóspedes. Já voltava às costas quando a mãe a surpreendeu.

— Você não consegue dormir, querida? Algum problema? Katlin sentiu as pernas fraquejarem.

— Está tudo bem, mamãe. Acho que estou um pouco an­siosa com o casamento, só isso.

— Nós teremos um dia pesado amanhã. Também não con­segui pegar no sono. Pensei em preparar uma xícara de chá. Não quer uma também?

— Seria uma boa idéia.

Katlin deu o braço para a mãe e a acompanhou até a cozinha.

— Você tem tido um bocado de trabalho com esse casamento, não é?

— Não me importo. De alguma maneira, este sonho é tan­to meu quanto seu. Você sabe, seu pai e eu fugimos de casa para podermos ficar juntos.

Katlin sabia. Na certa fora a primeira e última atitude im­pulsiva de seu pai. Ele desposara sua mãe contra a vontade da família e, mesmo achando que seria confortável estar casada com Graham, Katlin começava a entender que conforto era um atributo que se podia esperar de uma roupa, mas não de um marido.

Já era muito tarde quando as duas subiram de volta para os quartos, mas a conversa que haviam tido em nada ajudara Katlin a afastar os pensamentos angustiantes que sentia em re­lação à Rogan e Graham.

Estivera muito perto de ser possuída por Rogan, e, por mais que procurasse não dar maior significado ao que acontecera, seu corpo delatava o aroma de uma fragrância suave que a dei­xava transtornada.

 

Katlin soltou as rédeas de Storm, enquanto galopava pelos prados que faziam parte da propriedade dos pais. Os cabelos loiros estavam soltos e livres ao vento. O cavalo era um ani­mal magnífico, presente que Brian e Beth lhe haviam dado no seu vigésimo primeiro aniversário.

Ela e Storm não se separaram mais desde aquele dia. Tanto que Graham, mesmo não compartilhando o gosto por cava­los, concordara em procurar uma casa com estábulos para que Storm continuasse a ter Katlin como dona e amiga.

Só faltavam três dias para o casamento!

O dia mal acabara de clarear, e ela pulara da cama. Da ja­nela do quarto vira Storm batendo as patas impaciente ao la­do da casa. Agora, galopando com ele livremente, era como se não houvesse problema algum no mundo.

De repente, porém, a pessoa que estava causando todo mal-estar em sua vida apareceu no horizonte!

Rogan se aproximou montado na égua do pai dela. Não ves­tia as roupas tradicionais de montaria, mas parecia um típico rancheiro. Jeans desbotados e justos, jaqueta de couro sobre a camisa xadrez e botas. Os cabelos estavam úmidos e caíam-lhe sobre a testa. Ele galopou a pequena colina de onde se via toda a casa, e se juntou a ela.

— Eu vi você saindo, pela janela do meu quarto — disse. — Como demorou em voltar, resolvi vir atrás de você.

— Por quê? Rogan suspirou.

— Eu disse algumas coisas bem rudes para você ontem à noite...

— É mesmo? Tudo o que você me disse até hoje foram in­sultos!

— Droga, Katy! Passei a noite em claro, imaginando você entrando na igreja no sábado e se casando com aquele Gra­ham Simond-Smith.

— Você passou uma noite em claro? Que ironia! Minha vida estava toda planejada até que você apareceu e começou a me criar problemas.

Os olhos dele se estreitaram.

— E o que é que você quer uma vida ordenada?

— E o que há de errado nisto? É melhor ter uma vida pací­fica e organizada do que ser mais uma na sua lista de con­quistas intermináveis!

Ele passou a mão pelo cabelo escuro, tentando se controlar.

— Eu já disse que toda essa história da minha reputação é falsa. No entanto, tenho trinta e cinco anos e não acho que preciso provar nada para ninguém.

— Rogan, quantos homens você acha que conseguem re­conhecer uma prostituta à primeira vista?

— É isto que tem contra mim?

— É claro que não — negou ela impaciente. — Mas não vê que seu caminho está errado?

— Muito pelo contrário, eu acho que meu caminho está mais do que acertado. Se eu tivesse chegado aqui na semana que vem, como havia planejado de início, na certa chegaria tarde demais para te impedir de cometer o maior erro da sua vida!

— Meu casamento com Graham.

— É claro que é o seu casamento com Graham. Ele pode ser um homem muito bom, e até se tornar um marido perfei­to. Mas ele não serve para você. Estou avisando pela última vez: desmanche este casamento enquanto ainda há tempo.

— Você está me avisando! Logo você?

— Não se iluda Katy. Você não ama Graham, e nós dois sabemos disso.

Katlin suspirou. No íntimo amava Graham, mesmo que não o desejasse com o mesmo ardor que Rogan lhe provocava.

— Pois eu acho que você está equivocado. Eu amo Gra­ham, sim. Agora, se me dá licença, vou para casa. Graham deve chegar a poucos minutos.

— Não conseguem ficar longe um do outro, hein?

— Acontece que nós gostamos um do outro! Rogan elevou as sobrancelhas furioso.

— Você vai dizer a ele que esse casamento está desfeito, ou não?

— Não.

— Você está cometendo um grave erro, Katy.

— Isso é uma praga?

Ele jogou a cabeça para trás e sorriu.

— Se eu fosse você, cuspiria na minha cara.

— Parei de fazer isto quando entrei na escola. Os profes­sores me convenceram que não era digno de uma dama.

— Foi lá que eles também te ensinaram que casamentos so­cialmente aceitáveis é tudo que existe na vida?

— Não, foi lá que eles me preveniram que no mundo exis­tem pessoas devassas como você.

Ele suspirou desesperado.

— Eu não sou um devasso!

— Não? Qual foi a última vez que foi para a cama com uma mulher?

As faces dele coraram.

— Katy, você...

— Quando, Rogan?

— Na Alemanha — murmurou ele finalmente.

— Eu perguntei quando, não onde.

— Foi... Bem... Quatro dias atrás.

— E a última vez antes dessa?

— Isso nada tem a ver com...

— Só responda à pergunta, Rogan.

— Mais ou menos uma semana atrás, nos Estados Unidos — admitiu irritado. — Mas...

— Não há necessidade de se desculpar, Rogan.

— Não estou me desculpando!

— E por que deveria, não é? Qualquer homem se sentiria orgulhoso pelo fato de ter levado duas mulheres diferentes para a cama em menos de uma semana. Agora me deixe ver — ela tamborilou os dedos no ar —, são cinqüenta e duas semanas num ano, e você tem sido sexualmente ativo desde... Bem... Provavelmente vinte e dois anos da sua vida...

— Vinte e um. Ela assentiu.

— Bem, cinqüenta e duas vezes vinte e um são...

— Errado! Completamente errado. A mulher em Los An­geles é só uma amiga. Nós só...

— Ocasionalmente dormem juntos — acrescentou ela irô­nica. — Quantas vezes costuma vê-la?

Rogan deu de ombros.

— Cada quinze dias mais ou menos. Mas...

— Está bem, então vamos fazer um desconto e contar vin­te e seis vezes vinte e um — continuou Katlin. — Dá um total de quinhentos e quarenta e seis. Não é mal para um homem solteiro. Alguns homens casados não chegam nem perto deste número com toda certeza.

— Como pode afirmar com tanta segurança? Você os co­nhece tão bem assim, hein?

— Realmente, Rogan. Mas não ouso comparar ninguém a você.

Ele a encarou furioso.

— Eu às vezes passo meses sem fazer amor. Com certeza não tive na cama com quinhentos e quarenta e seis mulheres diferentes!

— Não faria muita diferença se tivesse sido só com um quar­to desse número — continuou ela. — E eu não vou jogar meu casamento com Graham fora só porque você quer me acres­centar à sua lista.

— Katy, eu não te pediria para desmanchar esse casamen­to se não existisse alguma coisa muito especial entre nós!

— Você está querendo dizer que se apaixonou de verdade e que pretende se casar comigo?

Rogan não escondeu a surpresa.

— Céus, não. Eu já me casei uma vez. E não sei se teria coragem de me entregar de novo à outra relação.

Katlin o observou com novos olhos.

— Você tentou?

— Sim. E não gostei.

— Talvez sua esposa fizesse algumas objeções à sua repu­tação de playboy.

— Isto não tem nada a ver comigo, ela... Katy, eu não quero falar sobre o meu casamento, ou melhor, sobre o fracasso que foi o meu casamento.

— Por que não? Você não faz nada além de falar do meu!

— É diferente.

— Por quê? Só por que você diz? Rogan estou lisonjeada pelo interesse que tem mostrado pela minha felicidade, só que dispenso a sua preocupação. Posso decidir muito bem sozi­nha o que vai me fazer feliz.

— E os seus planos não me incluem certo? Ela segurou as rédeas de Storm com firmeza.

— Com toda certeza!

Em seguida, Katlin saiu a galope, agarrada ao pescoço do cavalo, para saltar algumas cercas no caminho de volta aos estábulos.

Quando ela deslizou da garupa do animal, já no pátio de casa, virou-se e observou Rogan ainda parado no topo da pe­quena colina. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, como uma premonição.

Já no quarto, tomou banho, trocou de roupa e secou os ca­belos. Suspirou ao ver o vestido de noiva pendurado na porta do armário. Maldito Rogan McCord que a perturbava daquele jeito. Por que ele aparecera para desorganizar e confundir tu­do o que planejara com Graham?

Enquanto estivera fora, a empregada arrumara o aposento e deixara várias roupas que seriam levadas para a lua-de-mel passadas sobre a cômoda. Katlin saiu de frente do espelho e tocou a bela camisola de seda que comprara para vestir na noite de núpcias.

Desde criança sonhara com a noite de núpcias. Por ser uma ocasião especial, guardara durante anos a fantasia dessa noi­te. Tinha muitos namorados antes de Grahan, mas não de­ morara a perceber nele o homem que gostaria de ter como ma­rido. Agora, não podia deixar que um playboy como Rogan McCord lhe arruinasse aquele sonho.

Decidida a esquecer tudo o que acontecera, pegou a bolsa e desceu para o jardim. Ficara de se encontrar com Graham as oito, antes que ele fosse trabalhar e precisava correr se não quisesse chegar atrasada.

Ao entrar no carro, notou o Jaguar cinzento escuro atrás dela pelo espelho retrovisor. Então Rogan pretendia segui-lá! Irritada, colocou o pé no acelerador, obrigando-o a fazer o mesmo. Não sabia o que ele pretendia, mas se estava queren­do uma perseguição, a teria!

Àquela hora da manhã o movimento de trânsito era escas­so, de modo que os dois avançavam cada vez mais com velo­cidade. Subitamente, porém, Rogan desviou o Jaguar e a forçou a entrar numa estrada secundária. Katlin fez a curva de modo precário, e o Jaguar a seguiu, entrando na pista opos­ta. Por sorte não havia nenhum carro naquela direção.

A brincadeira perdera a graça e Katlin estacionou debaixo de algumas árvores. Furiosa, bateu a porta e caminhou até o Jaguar onde Rogan a esperava.

— Você podia ter morrido! — gritou. — Será que não per­cebe a hora de parar de brincar?

— Não é verdade. Do ponto onde eu estava podia ver tudo com precisão.

— O seu ponto era o lado oposto da pista!

— Você teria se importado? — Ele saiu do carro e encos­tou-se na porta. — Vamos diga a verdade!

— Posso não gostar muito de você, Sr. McCord, mas mes­mo assim não gostaria... O que está fazendo? — Rogan abriu o porta-malas e tirou duas malas. — Você não pode... Estas são minhas malas! Como foram parar no seu carro?

Rogan assentiu.

— Tudo cuidadosamente arrumado para partir. Até uma escova de dente nova.

Ele pegou as malas e as levou para a Mercedes de Katlin. Em seguida voltou e tirou do Jaguar duas outras malas, desta vez diferentes e em tamanho menor. Katlin o observou pasma.

— Mas por quê?

— Por que eu trouxe minhas malas junto? Porque estou partindo, é óbvio. Ninguém da sua família estava acordado quando saí, portanto deixei um bilhete com o mordomo di­zendo que fui chamado para um negócio importante.

— Não me importo nem um pouco com isto. O quanto an­tes você partir, melhor para mim! Só quero saber o que você está fazendo com as minhas malas?

— Pensei que não gostaria de ficar sem uma muda de rou­pas. — Ele segurou a porta do Mercedes. — Agora entre.

Katlin obedeceu como se fosse um robô. Nada naquela si­tuação fazia sentido.

— Estas malas devem conter metade do meu enxoval! — disse severa.

— Provavelmente... — Rogan também entrou no carro. — Tudo parecia muito bonito. Agora, quem vai dirigir você ou eu?

— Dirigir? Dirigir para onde?

Ele recostou-se no banco e ergueu um joelho, encostando-o no painel de controle.

— Será mais fácil se eu te indicar as ruas certas quando nos aproximarmos.

A raiva fez o rosto de Katlin corar, e imediatamente ela se lembrou da noite que o fizera de bobo.

— Eu não vou a lugar nenhum até que você me diga onde estamos indo.

Rogan suspirou.

— Onde está o seu senso de aventura? E o seu romantismo?

— Esperando pela resposta... Assim como eu.

— Está bem. Se você quer estragar a surpresa... Estou te levando embora de tudo isto.

— Tudo isto o quê?

— É muito simples, Katy. Eu te raptei. Se depois de dois dias junto comigo você ainda quiser voltar para Graham e se casar, então tudo bem. Mas pelos próximos dias você é mi­nha. — E sorriu satisfeito. — Você queria um pirata... Pois bem, agora você conseguiu um!

 

Como Katlin se recusasse a dirigir, Rogan tomou a direção do carro, e seguiu para Londres. Só uma dúvida o preocupa­va. Não sabia se a manteria consigo na cidade. Katlin mostrava-se relutante.

— Não me olhe tão assustada, Katy! Esta é a maneira dos piratas fazerem as coisas!

— Meus pais vão ficar preocupadíssimos comigo. Rogan sacudiu a cabeça.

— Na hora que eles começarem a se preocupar nós já tere­mos chegado ao aeroporto, e então você poderá ligar para eles e dizer que está tudo bem. Para Graham também, se achar necessário.

— É claro que eu acho necessário. Sábado é o dia do nosso casamento e... O aeroporto? — ela arregalou os olhos. — Pa­ra onde está me levando?

— Você tem medo de avião? Eu presumo que você e Gra­ham iriam de avião até as ilhas gregas onde passariam a lua-de-mel, não é? Bem, vocês poderiam ir de navio, mas...

Katlin contou até dez para não perder a calma.

— Para onde?

— Nós vamos ficar na casa de um amigo meu.

— Onde?

— Você fica ainda mais bonita quando está zangada.

— Rogan! — ela gritou cerrando os pulsos. — Quero sa­ber para onde estou indo.

— Espere e verá — ele riu. — Desde que você coopere e aceite voar até lá. Sabe, odeio navios!

— Você não tem minha cooperação para nada disto! De repente, porém, Katlin achou melhor inverter todas as expectativas. Rogan não parecia disposto a recuar. Assumia o fato de tê-la raptado. Lógico que o intuito era impedir seu casamento. Mas o que ela podia fazer na situação em que se encontrava? Bem, se ele brincava de pirata, por que não par­ticipar da brincadeira? Talvez assim o fizesse perceber o quanto aquele seqüestro era ridículo.

— Talvez uma longa viagem de navio fosse divertida — dis­se. — Afinal, seria muito mais romântico.

Rogan empalideceu.

— Será bem mais rápido se pegarmos o avião.

— Sim, mas...

— Katy, nós vamos de avião! Está decidido! Katlin soltou uma sonora gargalhada.

— Não acredito! Um pirata que fica com enjôo! Ele a encarou envergonhado.

— Ainda bem que achou graça. Não é mesmo uma piada? Ele recostou-se no banco, as mãos apoiando a nuca.

— Mais uma ilusão perdida!

— Ilusão! Que ilusão?

— Eu te imaginava agarrado ao leme enquanto ondas fu­riosas quebravam sobre o navio, fazendo-o balançar como se fosse de papel; enquanto você... O capitão... Lutava desespe­radamente para mantê-lo em curso. Para cima e para baixo, para cima e... Sinto muito, Rogan, você disse alguma coisa?

Ele ficara branco como cera com a descrição.

— Você não poderia me imaginar um capitão aposentado?

— Dificilmente — ela retrucou. — Não seria a mesma coisa.

— Me sinto doente só de imaginar meus pés sobre alguma coisa que flutua — Rogan admitiu pesaroso.

Katlin sentia dores no estômago de tanto rir.

— Isso inclui colchão de água?

— Ora, pare com isto!

— Mais uma ilusão que se vai!

— Eu te raptei antes do seu casamento com outro homem, e agora estou te levando para uma ilha secreta onde pretendo amá-la até que peça clemência. O que mais você quer?

— Não sei. Tudo isto faz parte da sua fantasia, e não da minha!

— Todo pirata que se preza rapta mulheres, tranca-as na cabine e as seduz tantas vezes quanto for humanamente pos­sível — murmurou ele.

— E como sabe disto?

— Sou um grande fã do cinema preto-e-branco. Errol Flynn sempre foi meu herói predileto.

Ela já lera a biografia do ator do filme, cuja vida era mais escandalosa que os papéis por ele interpretados.

— Por causa dos filmes que fez ou das façanhas que apron­tou na vida real? — zombou Katlin.

Rogan sorriu satisfeito.

— Ora, ele era um patife.

— E você não?

Katlin respirou aliviada ao ver que realmente se aproxima­vam do aeroporto. O quanto antes falasse com os pais e os acalmasse, melhor. Rogan era louco, e a coisa mais sábia a fazer naquele momento era deixá-lo bem-humorado.

— Não vou pedir desculpas por tentar te salvar de um ca­samento que seria o pior erro da sua vida — ele concluiu ar­rogante.

— E quem te deu o direito de tomar essa decisão por mim?

— Você mesma. Na primeira vez em que me beijou.

— Ora, Rogan, deixe de ser ridículo. Tudo não passou de um acidente. Além disso, você não faz meu tipo.

Ele sorriu irônico.

— Atração pode surgir entre o homem mais feio e a mu­lher mais bela do mundo, e vice-versa. Não existe nenhuma regra que estipule esse tipo de coisa. Você pode ter certeza de que nunca ando atrás de garotas ricas e mimadas.

— E eu nunca me senti atraída por um homem tão arro­gante que pensa que manda no mundo!

Seguiu-se um silêncio após o desabafo. Katlin recusava-se a encará-lo. O que Rogan fizera, levando-a embora daquele jeito, era pior que arrogância. Como perdoá-lo pelo caos em que se transformara sua vida? Não fosse a fascinação que aquele homem lhe causara, certamente não estaria ali, seguindo-o sem saber para onde. Para ela, Rogan não passava de um egoísta daqueles que pouco se importavam com os sentimentos dos outros.

Ele parou o carro no grande estacionamento do aeroporto e, juntos, pegaram um ônibus até o terminal. Por mais que quisesse Katlin não parava de tentar adivinhar qual seria o seu destino.

— Eu fretei um avião para nos levar para onde quisermos — Rogan disse quando a percebeu pensativa.

Ela o encarou séria.

— Você esteve ocupado esta manhã.

— Não é mesmo?

— Eu poderia ficar aqui parada e gritar — disse ela agita­da, olhando a multidão que se espalhava pelo terminal.

Rogan cruzou os braços sobre o peito. Os olhos dela brilharam divertidos.

— E por que não grita?

— Talvez porque esteja esperando o próximo passo que você vai tomar!

— Bem, para começar vou devolver as chaves do Jaguar e informar à companhia que me alugou o carro onde eles po­dem pegá-lo. Em seguida, você pode dar seus telefonemas.

— Você é tão gentil!

— Não é bem isto. Detestaria ver seus pais realmente preo­cupados e prontos a envolver a polícia nesse caso.

Katlin ergueu o queixo com sarcasmo.

— Lógico.

— Você está indo muito bem, sabia? Não que eu esperasse um ataque de histeria ou qualquer coisa parecida, mas você está se comportando bem melhor do que eu imaginava.

— Ou que planejara? — acrescentou ela. Rogan sorriu.

— Tenho de admitir que não tive muito tempo para plane­jar esse seqüestro. Mas você até que cooperou bastante.

Se Rogan parasse para perguntar por que tudo dera tão certo, descobriria que, na verdade, Katlin queria ser levada embo­ra. Ela já percebera o erro que estava prestes a cometer casando-se com Graham. Gostar dele simplesmente não era suficiente. Ainda mais quando um homem como Rogan apa­recia de uma hora para outra a deixando enlouquecida de de­sejo. Talvez até admitisse este fato com mais naturalidade caso ele não tivesse invadido o seu quarto e, mais do que isso, a raptado.

Parada ao lado das malas Katlin observou impaciente Ro­gan acertar as contas do carro alugado. Não via à hora de dar os telefonemas, imaginando a aflição dos pais e de Graham.

Finalmente, meia hora depois, discou para os pais e pediu que não se inquietassem. Desculpou-se pelos aborrecimentos que causara e explicou que precisava de alguns dias longe de casa para refletir melhor sobre sua vida. Não mencionou, po­rém, nada a respeito de Rogan.

— Eu pensei que você fosse contar a verdade a qualquer momento — Rogan confidenciou aflito.

Ela sabia disso. Toda vez que respondia ao que os pais per­guntavam, Rogan estalava os dedos das mãos de tanta tensão.

— E que outra coisa eu poderia ter feito? — Katlin ironi­zou. — Eles na certa pensariam que eu estava bêbada se con­fessasse que fui raptada por um pirata enjoado!

Ele a beijou no rosto com ternura.

— Você tem um ótimo senso de humor!

— Não é por causa desse jeito que nós, britânicos, somos conhecidos? Ficar inflexível ante as adversidades e coisas assim?

— Você não tem nada de inflexível.

Rogan aproximou-se com mais intimidade, mas Katlin o deteve.

— Não posso dizer o mesmo de você!

Ele sacudiu a cabeça em sinal de reprovação, mas os olhos verdes brilhavam.

— Você está ficando malcriada agora. Katlin deu de ombros.

— E o que posso fazer se você não consegue se controlar?

— Uma dama não teria chamado a atenção para o meu... Bem... Minha condição.

— Um cavalheiro não teria permitido que uma dama o per­cebesse — ela retrucou sarcástica.

— O que devo fazer? Fingir que não te desejo aqui e ago­ra? — Rogan se afastou um pouco e suspirou. — Ligue para Graham agora.

Ela franziu a testa.

— Será que posso ter um pouco de privacidade para falar com ele?

Rogan estava tão próximo do telefone que poderia muito bem escutar tanto as respostas de Graham quanto as dela.

— O que você pretende contar?

— Que talvez chegue um pouco atrasada para o casamen­to? O que acha que vou dizer, hem, Rogan? Lógico que vou pedir desculpas por deixá-lo numa situação tão constrange­dora como esta.

— Só isto?

Ela bateu o pé no chão impaciente.

— E não é o suficiente? Você não acha que devo a Gra­ham no mínimo uma explicação?

— Está bem. Mas ande logo. Nosso avião está esperando.

Rogan afastou-se alguns passos. Para Katlin aquela distân­cia não era ideal para a conversa que pretendia ter com Gra­ham, mas sabia que não conseguiria tirar Rogan dali. Pelo menos, havia um consolo. Ele não ouviria os gritos e lamen­tos do outro lado da linha. E apreensiva pela situação, discou para o escritório. Graham atendeu ao telefone e desabafou:

— Deus do céu! O que pretende, fugindo desta maneira?

— Não estou fugindo.

— Lógico que sim!

Ela lançou um olhar embaraçado para Rogan. Ele a enca­rava com atenção.

— Sinto muito não ter ido ao seu encontro esta manhã.

— Não importa. É óbvio que não temos mais nada para dizer um ao outro.

— Não é bem assim, Graham. Eu tinha intenção de te en­contrar esta manhã, só que...

— Mudou de idéia antes de chegar lá — Graham ironizou.

— Você pelo menos imagina em que estado nos encontráva­mos esta manhã até que ligou a seus pais dizendo que tudo estava bem? Nós todos pensávamos que você tinha sofrido um acidente. Onde você está afinal de contas? Seus pais disseram que parecia um aeroporto.

Ela não tinha pensado na hipótese do barulho dos constan­tes chamados das companhias aéreas pelo microfone chegar aos ouvidos dos pais. Na certa nem Rogan. Para um homem tão autoconfiante, aquilo fora um descuido imperdoável. A vantagem estava no fato de ter a certeza de que ele nunca pra­ticara nenhum rapto parecido antes.

— Eles estavam certos — confirmou. — Senti que precisa­va ficar totalmente isolada por algum tempo. Sinto muito por te abandonar dessa forma. Sei o quanto vai ser difícil encarar a todos sozinho, mas, acredite, não havia outro jeito.

— Acho que você está agindo com imprudência e egoísmo. Você tem realmente certeza de que é isto que quer? — Gra­ham questionou já mais calmo.

— Sim, tenho.

— Já esperava por isto. E quanto tempo você acha que fi­cará nesse isolamento?

Ela olhou para Rogan que mostrava sinais de impaciência.

— Não sei dizer. Falo com você quando voltar para casa. Até logo.

Ela desligou antes que Graham pudesse continuar. Rogan a conduziu apreensivo até o avião fretado, e pronto para decolar.

— Graham ficou zangado?

— O que você acha? Ele deu de ombros.

— Acho que se você tivesse feito isto comigo eu quebraria o seu lindo pescoço!

Katlin suspirou. Não chegou a comentar com Rogan que, na noite anterior, dissera a Graham que não poderia casar-se com ele e que tinha a exata sensação de que seria esbofeteada.

 

Após o jantar da noite passada, Katlin vira Rogan saindo com Glória e entendera que, mesmo que ele não quisesse ter mais do que um caso com ela, não poderia se casar sentindo atração por outro homem.

Assim que a família do noivo fora embora, chamara Gra­ham para uma conversa e comunicara a ele a decisão que to­mara de adiar suas pretensões matrimoniais, pelo menos por algum tempo.

Graham ficara furioso e decepcionado, mas isso não a sur­preendera. Seus pais também ficaram profundamente choca­dos. Mas a apoiaram. A todos, porém, omitira o verdadeiro motivo que a impelira a tomar tal decisão: Rogan McCord.

Embora constrangida com a situação, Katlin convencera Graham a dizer que os dois haviam cancelado o casamento em comum acordo, mas aceitara a idéia de se encontrar com ele na manhã seguinte para conversarem melhor.

Não imaginara, porém, que Rogan fosse cometer a loucura de raptá-la. Sem querer ele a livrara de um confronto desa­gradável e, por razões óbvias, totalmente dispensável.

Katlin não sabia até que ponto iam seus sentimentos por Ro­gan. O certo é que não conseguia resistir à atração que aquele homem lhe exercia. Para uma pessoa que se dizia decepciona­da com o casamento, parecia estranho a Katlin que ele a le­vasse embora daquela maneira. Mas, e se juntos, num lugar isolado, descobrissem o que realmente sentiam um pelo ou­tro? Talvez fosse sonho ou até pretensão, mas o que ela que­ria mesmo era não se enganar de novo achando ter encontrado o verdadeiro amor. Por isso estava ali, à mercê do destino e das loucuras de Rogan.

— Você não disse uma palavra desde que decolamos — ele a observou receoso. — Perdeu a língua?

— Sinto muito. Não sabia que estava aqui para entretê-lo durante o vôo.

Rogan suspirou.

— Você teria se tornado uma esposa entediada em menos de seis meses. Sua vida teria se resumido a recepções e chás beneficentes!

Katlin o encarou séria.

— Eu pretendia continuar com minha carreira. E Graham detesta recepções!

— Certas obrigações sociais são necessárias na profissão dele.

— O pai de Graham cuida pessoalmente desta parte na Com­panhia.

— O pai dele vai ter de se aposentar um dia — insistiu Rogan.

— Eu adoro festas. Graham é quem as detesta. Rogan resolveu mudar de assunto. Falar de Graham o dei­xava irritado.

— Você não me perguntou para onde estamos indo...

— Não, até agora não. — Ela virou o rosto e reparou na paisagem que se descortinava através da janela do avião: o céu azul, nuvens, e bem lá embaixo o oceano. Depois de al­gum tempo, olhou para Rogan. — Estamos indo para a ilha de Man, não é?

— Mas como você... O que a fez pensar isto?

Katlin já viajara muitas vezes por aquela rota e chegara à conclusão sem maiores problemas.

— Estou enganada?

— Não, não está. É para Man que estamos indo.

— Oh, ótimo. — E sorriu satisfeita. — Eu adoro aquela ilha. Rogan a olhou desconfiado.

— Você já esteve lá antes?

— Inúmeras vezes. Papai tinha alguns amigos que mora­vam lá anos atrás. Para que parte da ilha nós vamos?

— Perto de um lugar chamado Ramsey.

— Conheço. Mas o norte da ilha é bem mais bonito. O cli­ma não é tão bom, mas a paisagem compensa.

— Meu amigo me disse que Man só tem trinta milhas de comprimento por dez de largura — murmurou ele pensativo.

— É verdade. Mas como está no Gulf Stream entre a Ir­landa e a Inglaterra, o clima diverge bastante de uma ponta à outra. O sul da ilha é plano, enquanto o norte é montanho­so; portanto pode haver sol no sul enquanto neva no norte.

— Mas não em setembro?

— Não — ela riu. — As árvores devem estar floridas.

— Isto é demais. — Rogan ergueu os olhos para o céu. — Eu te levo para uma ilha que você sabe mais a respeito do que eu!

Ela soltou uma gargalhada. — Vai ter de encarar o fato, Rogan, como pirata você é um fracasso.

— A melhor parte do nosso programa sequer começou — insinuou ele.

O comentário a deixou séria e pensativa. Temia não resistir à força de sedução de Rogan. Sabia que não podia ceder a seus impulsos e depois arrepender-se. Exigiria dele mais que desejo físico. Caso contrário não daria livre vazão às suas emoções.

— Eu disse alguma coisa errada? — perguntou Rogan, observando-lhe o rosto.

— Oh, não. Sempre estive preparada para ser raptada por um homem completamente estranho!

Rogan acariciou-lhe o rosto.

— Nós nunca fomos estranhos, Katy.

— Você quer dizer que sabemos como estimular um ao outro?

— Não só isto.

— O que mais então? Não sei nada a seu respeito a não ser as coisas que me contou. E isto não é muito!

— Você quer saber se eu tinha cabelos loiros ou escuros quando era bebê, se tinha sardas na adolescência, se...

— Não! Eu só quero saber um pouco mais sobre você!

— Sobre mim? No momento atual?

— Sim! E tudo o que te fez se transformar no homem que é hoje!

— Em outras palavras, você quer ouvir a história da mi­nha vida...

— Só as passagens mais importantes.

Ele virou o rosto e ficou olhando pela janela.

— Quando eu tinha dois anos, minha mãe e meu pai me deixaram com uma tia solteira para que eles pudessem procu­rar a fama e a fortuna no mundo artístico sem uma criança para arrastar junto. Eles achavam que eram o Fred Astaire e a Ginger Rogers da época — ele suspirou. — Meus pais vol­tavam para me ver no aniversário todos os anos. Mas, de al­guma maneira, eles nunca conseguiam acertar a data; ou chegavam algumas semanas antes ou depois. No Natal eles es­tavam sempre atarefados demais, mas sabiam que eu enten­deria a ausência. Sim, eu entendia, muitas pessoas davam festas oferecendo shows de segunda qualidade nesta época do ano e...

— Rogan, por favor, não continue.

— Por que não? A história não lhe agrada? Não, é claro que não — acrescentou ele ríspido. — Bem, depois ela melho­ra! Quando tinha seis anos meu pai voltou para Nova York. Minha mãe preferiu ficar em Las Vegas com o novo empresá­rio que arranjara, acreditando que ele a transformaria na gran­de estrela que sempre sonhara. Eu nunca mais a vi. E sem ela meu pai não tinha mais ânimo para fazer nada. Parou de tra­balhar e passou a viver a custa da minha tia até que eu tivesse idade suficiente para nos manter. Então ela morreu.

— Rogan, eu sinto muito... Ele deu de ombros.

— Com a morte dela, vendi a casa que era bem velha e com­prei um apartamento nas piores condições. E quando juntei o suficiente comprei outro, e depois outro, até que finalmen­te, passado algum tempo, possuía seis imóveis. E nunca usei de meios ilícitos para ganhar a vida. Jogava limpo com as pes­soas, e elas faziam o mesmo comigo. — Ele estava sério quando se virou para Katlin. — Agora tenho propriedades por todo o país e moro num apartamento em Manhattan. E meu pai bebeu até morrer. Sabe-se lá onde minha mãe estava quando morreu! Se você quiser saber mais alguma coisa a meu respei­to, terá que ler nos jornais, pois ao que parece eles adoram fazer fofocas sobre minha vida.

Katlin suspirou. O que acabara de ouvir justificava o modo de ser de Rogan. Ele não só fora abandonado pelos pais co­mo também pela esposa. Não era à toa que se tornara aquele homem cínico e amargurado.

— Você esqueceu-se de dizer sobre a sociedade com meu pai — provocou ela.

— Talvez porque esteja só na fase inicial. O negócio é grande demais para qualquer um levá-lo sozinho, mas nenhum de nós dois está habituado a ter um sócio. No entanto, acho que ain­da chegaremos a um acordo.

— Você acredita mesmo, depois de ter raptado a filha dele?

— Você parece mais preocupada com os problemas que vai causar entre mim e seu pai, do que com o que Graham vai pensar quando souber que passou este tempo comigo.

— É porque sei que Graham vai me perdoar quando ficar a par de todas as circunstâncias.

Ao dizer isto, Katlin levava em conta que apesar de ele ter ficado muito zangado com o rompimento do casamento, em pouco tempo entenderia que aquela fora a melhor solução.

— Eu não perdoaria — disse Rogan sério.

— Isso porque você não está interessado em se casar, só em ir para a cama comigo!

O co-piloto pigarreou levemente, mexendo-se no banco.

— Nós já vamos aterrissar Sr. McCord.

Katlin abaixou a cabeça consciente de que Rogan estava con­trariado pelo fato de os outros dois homens terem ouvido a conversa.

— Acho melhor usarmos os serviços de outra companhia de aviação para a viagem de volta — Rogan concluiu, quan­do eles já estavam no hall do aeroporto rodeados pelas malas.

Ela fez uma careta.

— Eu esqueci completamente...

— Eu também...

Katlin não ia à ilha havia muitos anos, mas nada parecia ter mudado. O charme do lugar continuava a agradar aos tu­ristas. Seu pai costumava dizer que quem pisava na ilha de Man retrocedia trinta anos na história da Inglaterra. Os nati­vos levavam a vida sem a agitação constante das cidades do continente. As pessoas eram amigáveis e solícitas e jamais de­monstravam pressa.

Rogan alugou um carro na locadora do próprio aeroporto e, depois de acomodar a bagagem no porta-malas, tomou a direção.

Ele parecia desconfortável no pequeno carro esporte, o único disponível na locadora, e também não estava gostando nada de ter que mudar as marchas manualmente.

Katlin virou o rosto para esconder o riso, e apreciou o passeio. A ilha tinha a mesma vegetação luxuriante da Ir­landa. Os tojos amarelos, que cresciam em fileiras durante a primavera e o verão, tinham dado agora lugar aos urzais púrpuros.

Rogan ainda estava carrancudo, mas seu rosto se iluminou um pouco quando passaram pela grande cidade de Douglas, a capital da ilha. Uma tabuleta indicava que só faltavam qua­torze milhas até Ramsey.

— Vire à esquerda aqui — Katlin disse a Rogan, que freou o carro bruscamente. — Sei que isto faz parte da pista TT, mas você não precisa dirigir como um maníaco!

— Pista TT? — Ele diminuiu a velocidade quando deixa­ram a cidade, seguindo em direção às montanhas. — O que é isso?

Katlin observou o verde dos campos.

— Pista de corridas. Corridas de motos, de carros, de bici­cletas...

— Aqui? Mas é tudo tão calmo e silencioso!

— Mas não durante as semanas de competição. É bastante divertido, acredite. A não ser que você more dentro do circui­to da corrida, é claro.

Rogan a olhou desconfiado.

— Mas como eles conseguem correr entre estas vilas e cidades?

— Eles conseguem. É uma tradição. A corrida já existe há mais de setenta anos!

De repente um bonde elétrico cruzou a rua na frente deles.

— Eles também têm bondes puxados a cavalos em Douglas, para passeios no verão — Katlin continuou. — E existe um trem a vapor mais ao sul que faz parte do transporte da ilha.

Rogan observou o bonde que, lento, trafegava pela rua.

— É inacreditável. Estes bondes são bem parecidos com os que temos em São Francisco. Sabe, nunca estive num lugar como este antes.

Quinze minutos depois, ela e Rogan chegaram ao seu desti­no. Ao olhar para a casa de madeira rústica e pedra junto à baía, Katlin teve a certeza de que Rogan não só nunca estive­ra num lugar como a ilha de Man como jamais se hospedara num chalé tão simples como aquele.

Roseiras floridas ornamentavam o jardim frontal, e uma pe­quena trilha, ao lado da casa, levava até o mar onde as ondas invadiam as rochas escuras cobertas de musgos.

Uma pequena varanda repleta de primaveras dava um char­me especial à construção que, pintada de branco e vermelho, mais parecia uma casinha de boneca.

— É lindo, Rogan — exclamou ela entusiasmada, quando ele parou o carro na entrada.

Rogan desligou o motor e observou o lugar.

— Eu esperava alguma coisa mais... Bem... Katlin sorriu.

— Você esperava uma dessas mansões que vimos pelo ca­minho não é? Pois eu adorei aqui. Você me surpreende Ro­gan. Onde está sua sensibilidade? Olhe para esta paisagem. Não é divina?

Rogan saiu do carro e abriu o porta-malas.

— Por que aqui é tão mais frio do que em Londres?

— Acho que por causa das brisas marinhas. Vamos! — Ka­tlin o pegou pela mão. — Vamos dar uma olhada lá dentro.

— Harry disse que a chave estaria debaixo do capacho.

Rogan aproximou-se e levantou o tapete. A chave estava mesmo ali, dentro de um saquinho de plástico.

Ao abrirem a porta, entraram numa sala comprida e estrei­ta. Uma escada, ao lado da porta, levava para o segundo an­dar. A cozinha ficava junto à sala, só que mais ao fundo.

— Meu Deus, é mais frio aqui dentro do que lá fora. — Rogan esfregou os braços. — Onde será que está à chave para regular o aquecimento?

— Ei... Rogan?

Katlin estava de pé, atrás dele, os braços cruzados, observando-o.

— O que é?

— Você sempre viveu em casas com aquecimento central?

— Sim — assentiu ele impaciente, perguntando-se o que aquilo tinha a ver com o problema.

— Então vai viver uma nova experiência por aqui. Se você quer aquecimento, vai ter que pegar carvão nos fundos da ca­sa. A lenha para acender a lareira está naquela tina de latão.

Rogan lançou um olhar perplexo para a tina com madeiras e pinhas ao lado da lareira.

— Pensei que essa lareira fosse só decorativa. Meu Deus, nós só estamos em setembro, como pode fazer tanto frio?

— Desconfio que seu amigo não venha para cá há muito tem­po. — E passou os dedos sobre a mesa de madeira no centro da sala. — Além disso, essas paredes de pedra mantêm a casa fria.

Rogan a encarou desconfiado.

— Essa casa não é fria, é uma geladeira! Vamos! — Ele a segurou pelo braço. — O melhor é procurarmos um hotel. Ga­ranto que vamos ficar bem mais confortáveis.

Katlin, porém, não queria ficar num hotel. Aquela casa ofe­recia um clima muito mais favorável para que eles se conheces­sem melhor.

— Você é mesmo estranho. Um pirata que fica enjoado e que não suporta um pouquinho de frio?

Ele virou, subitamente, a mão na maçaneta da porta.

— Você está querendo ficar aqui?

— Tudo que precisamos é tirar o frio do último inverno.

Ela olhou ao redor animada. A casa estava decorada com an­tiguidades por todos os lados. Os móveis, rústicos, se adequa­vam bem ao ambiente.

— Bem... — Rogan voltou atrás na decisão de procurar um hotel. — Talvez eu ache tudo acolhedor quando parar de tremer.

Katlin segurou a risada.

— Você pega nossas malas no carro — ordenou — e eu acendo a lareira.

Ele hesitou por alguns instantes.

— Tem certeza de que sabe lidar com essa lareira?

— Bem melhor do que você garanto. Agora vá logo pegar nossa bagagem. Se vestir um suéter, dentro de pouco tempo es­tará aquecido.

— Nem tenho certeza se trouxe um.

— Então vista uma jaqueta! — Ela abaixou-se para acender o fogo. — E não se esqueça de trancar o carro.

Quando Rogan voltou com a bagagem, o fogo já estava cre­pitando na lareira. Ela o encarou com um sorriso triunfante, o rosto já corado pelo calor. Rogan passou por ela e, sem dizer uma única palavra, subiu as escadas.

— Ai! Que droga! — ele gritou, quando bateu a cabeça nu­ma viga, soltando as malas para passar a mão na cabeça com uma expressão de dor.

Katlin correu até ele.

— Deixe-me ver se você se machucou! Não! Está tudo bem!

— Tudo bem? Nós não podemos ficar nesta casa, Katy. Nem mesmo consigo ficar de pé em alguns lugares!

Desta vez ela teve que morder a língua realmente para não rir. Rogan parecia um garoto mal-humorado!

— O que você estava dizendo antes de bater a cabeça? — ela mudou de assunto.

— Existem dois quartos lá em cima. Você quer subir e esco­lher no qual quer ficar?

— Quer dizer que vamos dormir em quartos separados?

— Bem, se você preferir...

— Não, eu quero — ela corrigiu rapidamente, ao ver o sorriso irônico dele. — Mas o que aconteceu com suas maneiras perversas?

— Não precisa ficar tão desapontada, Katy. Ainda podemos dar um jeito nisto.

— Não há necessidade. Só fiquei surpresa por você ter mos­trado um pouquinho de decência.

— Cuidado, Katy. Eu ainda posso mudar de idéia quanto aos quartos separados.

— Você também poderia, com um pouco de prática, apren­der a manter o fogo aceso durante toda a noite e descobrir um jeito de termos água quente!

Rogam soltou as malas de novo, incrédulo.

— Não há água quente? E eu que pensei que um banho quente fosse me revigorar!

— Você nunca foi escoteiro, não é? — E, desviando de Rogan, subiu as escadas. — O que você fazia quando era criança?

Rogan murmurou qualquer coisa e subiu as escadas atrás de­la com as malas.

Havia dois quartos, os dois pequenos. Rogan teve de se abai­xar para não bater a cabeça nas partes mais inclinadas do for­ro. Um dos quartos era todo decorado em tom rosa, o outro, amarelo. Katlin escolheu o primeiro. Havia também um banheiro entre os dois, o qual, obviamente, eles teriam de dividir.

Rogan largou as malas de Katlin sobre a cama e olhou ao re­dor. Um sorriso surgiu em seus lábios.

— Tem certeza de que vai ter lugar para todas as suas coi­sas? O outro quarto é bem mais amplo...

— Não posso fazer você passar por uma humilhação de dor­mir num quarto cor-de-rosa — ela interrompeu, virando-se pa­ra admirar a vista do mar pela janela, onde centenas de barcos de pesca estavam atracados na baía.

— E quem disse que eu dormiria aqui?

— Vamos deixar algumas coisas bem claras desde o começo, Rogan. Posso não ter tido chance de escolher se queria vir ou não, mas agora que estou aqui, eu é que vou decidir quando irei para a cama com você. Isto ainda está em aberto, entendeu?

Rogan ergueu as sobrancelhas, irônico.

— Quem de nós foi raptado?

Repentinamente, ela se deu conta de todo risco do jogo que estava vivendo. Ela dissera a Graham que não podia desposá-lo, o magoara e desapontara seus pais, especialmente a mãe, e tudo por causa de um homem que não a amava. A ironia de Rogan desapareceu quando notou a angústia dela.

— Katy, o que foi?

— Posso ficar alguns minutos sozinha? Preciso de tempo pa­ra... Para pensar.

— Você gostaria de conversar?

— Não. Só quero ficar sozinha!

— Está bem — disse ele, preocupado. — Katy, queria que soubesse que nunca desejei te magoar.

Também ela nunca desejava magoar ninguém, nem Graham, nem seus pais. Agora estava à mercê daquele homem que, de uma hora para outra, invadira sua vida. Katlin sentia-se ainda sob o impacto de tudo o que acontecera e precisava de tempo para se reerguer.

— Eu desço logo — disse. — Não se preocupe.

— Tem certeza de que não há nada que eu possa fazer?

— Nada! Agora, me dê licença!

Rogan hesitou por alguns momentos, mas acabou por sair do quarto e desceu as escadas. Uma vez sozinha Katlin deixou-se cair na cama. Tentou controlar-se, mas não teve jeito: as lágri­mas lhe invadiram a face.

Sábado teria sido o dia de seu casamento. Ela poderia ter se tor­nado a esposa de Graham. Ao invés disto, estava a quilômetros de distância de sua casa, num chalé rústico, numa praia deserta, acompanhada por um homem por quem acabara de se apaixonar.

Até aquele momento se deixara iludir acreditando que o rap­to fora uma forma de se livrar da confusão na família criada pelo cancelamento do enlace. Só que, durante a viagem, as coi­sas que Rogan lhe contara sobre sua vida a tinham feito se en­volver de modo mais sério com ele, e, ao mesmo tempo, povoar sua cabeça de dúvidas. E se aquele homem, tão magoado pela vida e decepcionado com o primeiro casamento, a estivesse usan­do apenas para vingar-se, para descarregar seus ressentimentos? Insegura, nada lhe garantia que poderia confiar nos sentimen­tos de Rogan.

 

Katlin desceu as escadas e juntou-se a Rogan que estava em frente à lareira folheando um jornal.

Com o início da tarde o clima mudara. O leve e tímido sol do começo da manhã cedera lugar para os ventos frios da costa marinha.

Prevenido, Rogan vestira um suéter verde-escuro.

— Você não está com fome? — Katlin aproximou-se. No rosto não havia mais nenhum sinal das lágrimas que derra­mara poucas horas atrás. — Será que estava esperando que vivêssemos somente de amor? Olhei a despensa na cozinha. Não há sequer uma lata de ervilhas.

Rogan desviou os olhos do jornal.

— Sabe que viver de amor não seria má idéia? Ela sacudiu a cabeça.

— Acontece que estou faminta, mas por comida. O que va­mos fazer?

— Que tal irmos até a cidade e comprarmos alguma coisa? Katlin sorriu de leve.

— Então esta é uma prisão aberta?

— Você não é uma prisioneira, Katy — ele disse sério.

— Então o que estou fazendo nesta casa com um homem que não conheço?

— Justamente por você não me conhecer direito foi que sugeri que ficássemos em quartos separados. Pelo menos por enquan­to. Agora, se a única maneira de mostrar que você quer ficar comigo é te levar para a cama agora mesmo, então eu farei isso.

Katlin engoliu em seco. No fundo sabia que ele realmente falava sério. Não precisava conhecê-lo bem para ter certeza disso. Com coragem, ergueu o queixo e o enfrentou:

— Eu já disse que decido quando e onde faremos amor. Os olhos verdes de Rogan faiscaram, mas ele logo se con­trolou.

— Hoje foi um dia difícil para você, portanto vou deixar que...

— Não me faça favor algum!

— Katy...

— E pare de me chamar assim! — ela gritou, mortificada quando as lágrimas começaram a descer de novo.

— Ora, Katy, não chore! — suplicou Rogan, aproximando-se. — Tudo menos isto!

Ele a abraçou, mas Katlin relutou, batendo-lhe com os pul­sos contra o peito. Em seguida, não resistiu ao sentir-lhe a boca cobrir a sua. Perdeu as forças e abandonou-se, correspondendo ao beijo com toda paixão.

Sem qualquer resistência, Katlin só ansiava por mais cari­nho. Extasiada, soltou um gemido profundo quando ele a se­gurou de novo pela cintura, beijando-a com ternura.

— Katy, sinto muito — ele sussurrou. — Não queria te fa­zer chorar.

Katlin afastou-se dos braços dele.

— Agora você viu o que acontece quando não como. — E arrumou o suéter por cima da saia. — Não comi nada des­de o jantar de ontem à noite.

Rogan suspirou aliviado com aquela explicação, embora não acreditasse que fosse verdadeira.

— Já que você conhece a ilha toda, que tal me indicar on­de fica o supermercado mais próximo?

Katlin se animou um pouco durante a curta viagem até Ramsey. Ela se sentia como se estivesse visitando um velho amigo, estacionando na Praça St. Paul, enquanto os dois discutiam sobre que tipo de comida iriam comprar. Ainda nem tinham entrado no supermercado. Katlin queria saladas e frios e Ro­gan insistia em pratos quentes. Enfim, por que não levar os dois? Entraram num acordo escolhendo salada como acom­panhamento para outros pratos.

— Para onde vamos agora? — perguntou Rogan, depois de colocar as compras dentro do porta-malas.

— Quero escolher um livro na loja ali na frente.

— Você acha que suas noites serão tediosas e vazias, não é? Ela o encarou provocante.

— E você acha que não? Não há televisão e eu não tive tem­po para pegar qualquer coisa em casa.

Ele sorriu irônico.

— Posso pensar em alguma coisa que nos deixará ocupa­dos por horas — ele murmurou com voz rouca.

O rubor surgiu inesperado em seu rosto e Katlin olhou ao redor desconfortável.

— Comporte-se!

— Eu estava falando sobre Trivial Pursuit, Katy! Ela arqueou as sobrancelhas.

— Você está falando daquele jogo que anunciam na te­levisão?

— Sim! Alguns amigos e eu formamos um clube próprio.

— Se é parecido com Monopólio...

— Não é — ele disse rapidamente. — Você nunca é eliminado deste jogo. E todas as perguntas são de conhecimentos gerais.

Rogan parecia tão animado que ela não teve coragem de dizer que não gostava muito daquele tipo de jogo. Sempre perdia para o irmão quando era mais nova.

Por fim eles compraram o jogo e o livro, mesmo que Ro­gan afirmasse que o segundo era desnecessário agora que ti­nham O Trivial Pursuit. Enquanto ela preparava um lanche com a baguete fresquinha e a sopa que tinham comprado, Ro­gan se encarregou de montar o jogo na sala.

— Oh, não! — um grito súbito surgiu da sala, enquanto Katlin mexia a sopa.

Ela largou a colher na panela e correu até onde estava Ro­gan. Ele estava sentado no sofá, inclinado sobre a mesa de jogo, a expressão de pânico.

— O que foi? Você se machucou?

— As perguntas foram alteradas para se adaptar ao mer­cado inglês!

Ela ficou pasma quando entendeu qual era o problema.

— Então você não está machucado?

— Machucado? — repetiu ele irritado.

— Sim, algum ferimento sério.

— É claro que não. — E olhou para o cartão que continha as perguntas que o tinham deixado tão abalado.

— Você gritou daquele jeito só por que as perguntas são inglesas e não americanas como você esperava?

— Já não expliquei? Eu não... Katy, o que você está fa­zendo? — ele gritou, quando a viu erguer o tabuleiro, e der­rubar os dados e as outras peças no chão. — Katy! — repetiu assustado, quando ela o acertou com o tabuleiro. — O que foi que eu fiz?

Ela o encarou irritada.

— Droga! Pensei que você tivesse se machucado e saí cor­rendo da cozinha. Quase tive um ataque do coração com você gritando daquele jeito! E o pior de tudo, a sopa está lá quei­mando no fogo!

A sopa realmente tinha fervido e se derramado pelo fogão. Katlin ergueu a panela e derramou o restante na pia. Imedia­tamente, o cheiro de queimado se espalhou pelo ambiente.

— Por que não me disse logo que não sabia cozinhar? — Rogan gritou da porta da cozinha, recuando um pouco quan­do Katlin veio para cima dele, ameaçando-o. — Ei, espere Katy... — ele ergueu as mãos. —... Só estava brincando.

— Eles nunca me prenderiam por matar meu próprio raptor!

— Você já me acertou na cabeça no mesmo ponto em que eu já me feri antes — ele se queixou. — Ainda dói.

— Azar seu. — Katlin passou direto por ele e subiu as es­cadas, inclinando-se sobre o peitoril para acrescentar: — Se você quiser tomar sopa há uma lata no armário. O abridor de latas está na gaveta.

Katlin foi para o quarto, pegou o livro e começou a ler. Meia hora mais tarde Rogan a chamou para almoçar.

— Katy — ele gritou da cozinha. — Quer fazer o favor de vir comer? Já te chamei pelo menos dez vezes. Droga! Não está com fome?

Ela abandonou o livro sobre o criado-mudo e desceu as escadas.

A sopa que Rogan havia preparado não grudara na panela nem queimara. Estava exatamente no ponto. Katlin se conso­lou por rechear a deliciosa baguete com queijo. Talvez não fosse uma façanha assim tão grande, pensou, mas o café que fizera estava excelente, até Rogan elogiou.

— Vamos deixar isto para mais tarde — ele sugeriu, ao em­pilharem os pratos na pia. — Acho que poderíamos dar um passeio agora.

— Mas eu pensei que você quisesse jogar.

— Sim, nós vamos, mas não há pressa. Temos tempo de sobra.

Katlin ignorou o comentário de duplo sentido e retrucou:

— Você só está com medo de perder porque as perguntas não são todas americanas — provocou ela, vestindo a jaqueta.

— Veremos quem vai perder! Mais tarde.

A baía que se estendia na frente da casa consistia principal­mente numa praia de calhaus, mas havia uma pequena trilha ao longo da costa íngreme. Katlin e Rogan se decidiram pela direção norte caminhando um atrás do outro quando o cami­nho se estreitava.

Foi à melhor hora para Katlin. A brisa suave soprava para longe todas as preocupações e a estimulou. A vista para a In­glaterra e Escócia era magnífica; as montanhas se perdiam atrás de milhas e milhas de mar.

— Sentindo-se enjoado? — Katlin provocou quando deci­diram voltar para casa.

Ele lançou-lhe um olhar de censura.

— Isso só acontece quando entro num barco, não quando olho para o mar simplesmente. E tem mais uma coisa. Se vo­cê não se comportar o cozinheiro aqui não vai se oferecer pa­ra fazer o jantar.

— Esquentar uma panela de sopa não faz de você um cozi­nheiro!

Rogan sorriu cínico.

— Mas pelo menos provou que sou bem melhor que você.

Katlin suspirou fundo. Não tinha como rebater tal comen­tário. Rogan tinha razão. Durante todo o caminho de volta pensou nas coisas que gostaria de fazer para feri-lo. Como aquele homem podia ser tão irritante e tão irresistível ao mes­mo tempo?

De repente lembrou-se do chalé, do mistério e fascínio que havia naquele lugar. Sem se dar conta, perguntou em voz alta:

— Para que ele utiliza a casa?

Surpreso, Rogan a encarou sem entender nada.

— Hem?

— A cabana — ela explicou. — É óbvio que não é a resi­dência fixa do seu amigo. Para que serve então?

— Imagino que seja para o mesmo que estamos fazendo agora.

— Você quer dizer que seu amigo também rapta noivas?

— Só a dele. Está muito bem casado há vinte anos!

— Entendo. Então a casa deve ser usada nas férias... Ei olhe! — ela gritou excitada.

O grito tomou Rogan de surpresa de tal jeito que ele escor­regou, caindo na grama úmida.

— Mas o que foi? — Ele se levantou, esfregando as mãos sujas no jeans. — O que aconteceu?

— Eu... Eu só estava olhando as gaivotas. Não são lindas? Rogan inspecionou a parte de trás das calças.

— Gaivotas?

— Sim... Gaivotas. Bem, você sabe aqueles pássaros que mergulham no mar e comem peixes.

— Eu sei o que são gaivotas, Katy. Só não esperava quase quebrar o pescoço por causa delas!

— Não exagere Rogan. A parte do pescoço nem se encostou ao chão!

Ele se aproximou, protegendo os olhos contra a claridade.

— Onde estão?

— Lá. — Katlin apontou em direção à baía. — Ali! Um monte delas! São lindas!

— Lindas.

O tom rouco da voz de Rogan a deixou tensa. Havia qual­quer coisa forte e sensual naquele comentário. Katlin o obser­vou por alguns minutos, depois desviou o olhar.

— Nós deveríamos ir até Blue Point um dia — disse ela. — Lá se pode observá-las de perto.

— Katy.

A respiração dela ficou mais rápida antes de continuar.

— As gaivotas quase chegam até a praia.

— Katy!

Ela respirou fundo, mas continuou:

— Eu acho fascinante quando...

— Katy! — Rogan passou-lhe os braços ao redor dos om­bros. — Me dá um beijo?

— Eu...

— Mostre-me que você não é a criança que me parece agora. Criança? Criança! Ela era uma mulher, não uma criança! Katlin o abraçou e procurou seus lábios com sofreguidão, provocando-o, incitando-o a fazer o mesmo com ela.

Enquanto o vento soprava forte, Rogan deslizou a mão pe­las costas de Katlin e, em seguida, acariciou-lhe os seios até que os mamilos ficassem rijos de prazer.

Foi o grito de uma gaivota que os separou. Rogan encarou-a com olhos ardentes, a mão ainda pousada possessivamente num dos seios, a respiração ofegante.

— Você me convenceu — ele confessou por fim. — Você é uma mulher em todos os sentidos!

— E nunca mais se esqueça disto!

Katlin virou as costas e retomou a caminhada, respirando fundo para conseguir acalmar suas emoções. Sabia que tinha sido estimulada a beijá-lo daquela maneira, mas teria sido di­fícil resistir. Resolveu que tomaria mais cuidado quando esti­vesse junto de Rogan McCord!

Eles pararam na praia para observar duas gaivotas que mer­gulhavam no mar, reaparecendo segundos depois com um peixe.

— Tenho certeza de que elas sabem que estão sendo ob­servadas.

Rogan assentiu.

— Será que agora você está pronta para ser derrotada no Trivial Pursuit?

Outro desafio. Mas ela não iria permiti-lo de maneira nenhuma!

Os dois entraram em casa. Rogan arrumou o tabuleiro e as peças.

O jogo era exatamente o que ele tinha dito, resumindo-se a conhecimentos gerais. Ou você sabia a resposta ou não. Não havia subterfúgios. Katlin adorou quando Rogan recebeu uma pergunta sobre esportes. Ele não sabia nada sobre esportes in­gleses! Não que ela conhecesse bem o assunto, mas algumas das respostas de Rogan eram engraçadas demais.

Duas horas depois, apesar dos embaraços em alguns temas Rogan sagrou-se campeão. Ele se espreguiçou e levantou-se da mesa.

— Vou preparar alguma coisa para o jantar.

— Eu posso ajudar...

— Relaxe, Katy. Sei fazer uns bifes muito bons.

— Poderia preparar as saladas enquanto isto.

— Não acho que a cozinha seja suficientemente grande para que nós dois possamos trabalhar sem que sua proximidade me perturbe. Por que não fica sentada aqui simplesmente, obser­vando o fogo?

Ela sacudiu a cabeça em sinal negativo.

— Acho que vou desfazer minhas malas. Cuidado... Katlin fez uma careta quando seu aviso chegou tarde de­mais. Rogan já batera a cabeça no batente da porta.

— Se continuar desse jeito vou andar por aí com um galo permanente na cabeça. Sem piadas de sua parte, garota!

— Meus lábios estão selados — prometeu ela, contendo o riso.

— Espero que não para sempre.

Katlin lançou-lhe um olhar de censura antes de subir as escadas.

Enquanto desfazia as malas, notou que a maioria das rou­pas que Rogan colocara não servia para o clima da ilha, mas pelo menos sobrava um macacão de algodão e bermudas.

A bela camisola branca que estava na segunda mala pare­cia zombar dela. Aquela peça delicada fora presente de sua mãe para a noite de núpcias. Katlin se perguntou se Rogan a colocara no meio das outras peças de propósito. Provavel­mente não. Ele não iria querer nenhuma lembrança do seu ca­samento com Graham quando a tivesse nos braços, disso tinha certeza.

Quando acabou de arrumar as roupas no armário notou que Rogan ainda não a chamara para jantar. Decidiu ver o que estava acontecendo e saiu para o corredor. Ao passar pelo quar­to dele hesitou ao ver as malas sobre a cama. Teve dúvidas se devia entrar ou não para guardar o que ele trouxera. Após refletir, resolveu guardá-las.

As roupas de Rogan eram de ótima qualidade, ternos e cal­ças sob medida, camisas de seda, sapatos feitos a mão. Todos os sinais de seu sucesso.

Ele trazia poucas peças para um homem que viajava de um país a outro a negócios, até mesmo os artigos de toalete eram mínimos. Sentindo-se um pouco ridícula pela fraqueza, Ka­tlin permitiu-se o luxo de sentir a fragrância da loção após bar­ba que ele usava. Riu quando observou os seus artigos e os dela, lado a lado, no armário do banheiro.

Finalmente, não resistiu ao impulso, e enfileirou as coisas de Rogan longe das dela. Era intimidade demais. Se Rogan as tivesse visto daquele jeito, provavelmente teria arrumado as coisas e a levado de volta a Londres.

 

Katlin desceu as escadas a tempo de ajudar Rogan a colo­car a mesma para o jantar. A louça existente na casa era es­cassa, mas mesmo assim ela pegou o que de melhor havia nos armários. Até um castiçal foi encontrado e duas velas passa­ram a iluminar, juntamente com a lareira, a sala.

Rogan não exagerara nos dotes culinários que possuía. Con­seguira fazer o bife mais delicioso que Katlin experimentara nos últimos tempos.

— Você costuma cozinhar quando está em casa? — ela se interessou em saber enquanto tomava vinho.

— Você pensa que eu como em restaurantes o tempo to­do? — Rogan recostou-se na cadeira e sorriu. — Às vezes eu preparo um jantar para dois no meu apartamento.

Katlin engoliu em seco. Um simples comentário e Rogan não perdia a chance de ser malicioso. A sensação que tinha era que qualquer questionamento a levava a pisar, cada vez mais, em terreno perigoso.

— Não quero saber com quem você janta — disse irritada. — Aliás, isso não me interessa nem um pouco.

Rogan sorriu.

— Não?

Katlin levantou-se de súbito decidida a não escutar nada que se referisse às outras mulheres que faziam parte da vida dele. O cinismo de Rogan era insuportável!

— Vou tirar a mesma e limpar tudo. E talvez tome uma ducha depois — acrescentou impulsiva.

— Boa idéia. — Rogan levantou-se também e juntou os pra­tos. — Água fria vai te ajudar a relaxar um pouco.

Katlin lançou-lhe um olhar furioso. Depois de descobrir que amava aquele homem, não achava mais graça nenhuma na­quele rapto. Irritada, atirou os pratos dentro da pia e abriu a torneira.

— Não acho que esteja precisando relaxar. Sinto-me ótima.

— Você está muito tensa. Veja. — E pousou-lhe a mão de leve no ombro, fazendo-a estremecer. — Eu tenho uma coisa perfeita para te relaxar.

Katlin afastou-se.

— Você está muito longe de ser perfeito! Ele fingiu surpresa.

— Estava pensando numa outra partida de Trivial Pursuit, é claro.

Katlin sentiu o rubor subir-lhe às faces, perguntando-se co­mo poderia manter a dignidade se toda hora estava se expon­do ao ridículo.

— Você gosta mesmo deste jogo, não é? Rogan deu de ombros.

— Gosto mesmo é de outra coisa, mas não acho que você esteja inspirada para isto agora.

Desta vez Katlin não corou.

— Não estou inspirada para ser derrotada neste jogo estú­pido tampouco!

Ele a olhou desapontado.

— Você não pensaria mais assim depois de disputar mais algumas partidas.

Como ela poderia resistir àqueles olhos verdes que a obser­vavam com insistência?

— Está bem. —- Deixe-me só acabar de lavar a louça. O chefe da cozinha fez uma grande desordem por aqui.

Ele ergueu as mãos num gesto de defesa.

— Nunca disse que era um cozinheiro meticuloso.

— Eu devia ter adivinhado — retrucou-a, colocando a lou­ça para escorrer. Pronto! Podemos jogar.

Se um estranho chegasse ali de improviso e visse os dois sen­tados na sala jogando frente à lareira acesa, teria a impressão que por ali reinava um clima ameno devido à tranqüilidade do lugar.

Katlin, porém, não conseguia relaxar. Seu coração era um misto de excitação e medo. A proximidade de Rogan lhe difi­cultava a concentração no jogo.

Embora procurasse dissimular, com Rogan acontecia à mes­ma coisa. Ele jogava tão bem como naquela tarde, mas seus ombros estavam rígidos e tensos.

— Por que não sobe e toma sua ducha? — ele sugeriu, quan­do Katlin deu a quarta resposta errada na partida.

— E reconhecer sua vitória?

— Mas é claro!

— Está bem — ela se levantou. — Você pode dar um jeito aqui?

— Lógico.

— Não se esqueça de colocar mais lenha no fogo antes de ir para a cama e...

— Vá, Katy! — ordenou ele. — Posso ser um novato em tarefas domésticas, mas tenho certeza de que dou um jeito.

Katlin também sabia disso. Se ele juntara uma fortuna com­prando um apartamento velho, e trocando por outros, com certeza conseguiria lidar com a casa. Esperteza era o que não lhe faltava.

No banheiro, Katlin adicionou à água um pouco de sal de banho que encontrou no armário e antes de mergulhar abriu o livro que comprara. Só com a cabeça e as mãos livres, pas­sou a ler logo se esquecendo do mundo.

A água tinha esfriado e fora reaquecida várias vezes quan­do Rogan bateu na porta, duas horas depois. Katlin ficou sur­presa com a interrupção.

— O que é?

— Quase meia-noite, Katy! Você está aí dentro há mais de duas horas!

— E daí?

— Daí que você não acha que é hora de sair?

— Sinto muito, você devia ter dito antes que queria usar o banheiro...

— Eu não quero — retrucou-o impaciente. — Só pensei que...

— Pensou o quê? Ele suspirou.

— Nada. Não pensei nada, não.

— Tem certeza? — Ela ironizou, sabendo no que exatamente Rogan havia pensado.

— Céus, você ficou tanto tempo aí dentro que deve estar toda enrugada!

Katlin percorreu o corpo com os olhos.

— Não estou não. Eu pareço mais... Rogan? Rogan, você está aí?

O silêncio do lado de fora do banheiro continuou. Rogan fora embora. Ela saiu rapidamente da banheira e enxugou-se. Depois, vestiu a camisola branca e o robe e soltou os cabelos.

O quarto dela estava vazio, se bem que os lençóis desarruma­dos evidenciavam que Rogan estivera deitado ali havia pouco.

Katlin desceu as escadas. A sala estava vazia também. On­de ele poderia ter ido? Não havia muitos lugares para se es­conder naquela casa minúscula. Katlin dirigiu-se até a porta. Rogan estava de pé, em frente ao mar, olhando a água ilumi­nada pela lua.

— Rogan? — ela gritou ao vê-lo quieto, o barulho das on­das impedindo-o de ouvi-la. Rogan? — repetiu aproximando-se dele com cuidado.

Ele se virou e a observou. Os olhos de Katlin brilhavam na escuridão. Os cabelos loiros e soltos contrastavam com a ca­misola sob a luz da lua.

— Eu... Eu sinto muito sobre há pouco — balbuciou ela, perturbada com o olhar penetrante que recebia. — Não que­ria monopolizar o banheiro. Todo mundo lá em casa sabe que quando eu digo que vou tomar banho, isto significa que vou ler um livro na banheira. Senão só tomo uma ducha.

— Eu não sabia — murmurou ele, sem desviar os olhos. O vento frio e úmido penetrava com facilidade através do robe.

— O que você está fazendo aqui fora?

— Tentando resistir à vontade de entrar no banheiro, tirá-la daquela água e levá-la para a minha cama!

Ela sentiu o rubor se apossar de seu rosto. Como dizer a Rogan o quanto desejava que isso acontecesse, mas que o me­do a impedia?

— Você não diz nada? — E retirou os pulsos cerrados dos bolsos da calça. — Katy, eu te quero tanto! Não consigo pen­sar em mais nada. Só que esses minutos em que fiquei sozi­nho pensei melhor e consegui entender toda a loucura que estamos vivendo. Esse seqüestro é o cúmulo do absurdo! Nós dois estivemos brincando desde que nos conhecemos, mas acho que fui longe demais. — Ele sacudiu a cabeça em desconsolo. — Chame de distúrbio mental, do que quiser, mas amanhã eu vou levá-la de volta e então você poderá se casar com Gra­ham como havia planejado.

Katlin ergueu as sobrancelhas, incrédula!

— Você não pode fazer isto!

— Você disse que Graham entendia sua necessidade de se afastar por uns tempos.

— Sim, disse, mas...

— Eu fui egoísta, querida — ele murmurou. — Não acredi­to que Graham seja a pessoa certa para você, mas por que de­veria esperar que abdicasse de tudo só para ter um caso comigo?

Katlin suspirou. Voltar não adiantaria nada e muito menos resolveria o problema deles. Graham não estaria esperando por ela e sequer desejaria vê-la, tinha certeza.

— Rogan...

O tropeço de Katlin foi totalmente inesperado, assim como a dor que sentiu no joelho ao batê-lo contra uma pedra.

— Katy? — Rogan murmurou, quando ela o encarou com os olhos cheios de lágrimas. — Céus, sou um estúpido por ter te trazido aqui! — E ajudou-a a se levantar. — Você está ge­lada. Vamos para dentro.

— Rogan — ela hesitou por instantes. — Não posso voltar agora. O que eu vou dizer a todos? Como explicar tudo o que aconteceu?

— Eu faria isso por você se pudesse Katy... — ele a ampa­rou para que caminhasse — mas a minha presença poderia dei­xar as coisas ainda piores.

A situação não podia ser pior para Katlin. Não queria vol­tar e encarar os pais. O que diria a eles? Que cancelara o ca­samento com Graham porque sentia atração por outro homem que sequer tinha intenção de se envolver a sério com ela? Não. Precisava conquistar Rogan, provar a ele que havia uma chance de se entenderem.

Rogan a amparou até a casa. Com cuidado, colocou-a sen­tada no sofá e examinou-lhe a perna.

— Dói?

— Muito. Principalmente o joelho.

Ele se inclinou e tocou com os dedos a parte machucada.

O calor do fogo da lareira dava um brilho azulado aos ca­belos de Rogan. Katlin o estudou com atenção. Quando esta­va livre dos fantasmas do passado ele sabia ser generoso e gentil.

— Acho que foi só uma luxação. Talvez uma compressa ajude a aliviar a dor.

— Você se importaria de me ajudar a subir a escada? Ele olhou para a escada estreita, sabendo que os dois não conseguiriam subir juntos. Mesmo assim concordou.

— Cuidado com a cabeça — advertiu ela em tempo. — Mais alguns dias e você não baterá mais a cabeça nessas vigas.

— Nós vamos embora amanhã — Rogan disse sério. — Eu te levarei para casa e a deixarei que viva feliz ao lado de Graham.

Ao entrarem no quarto, ele a sentou na beira da cama e tirou-lhe os chinelos.

— Por que seu casamento não deu certo? — Katlin arris­cou a pergunta, embora aquele não fosse um assunto de que Rogan gostasse de falar. A irritação dele provou o quanto odia­va tocar naquela ferida.

— Não me lembro de ter dito que não deu certo. Disse ape­nas que tentei e que não gostei.

— Sim, mas...

— Katy... — a fúria nos seus olhos a silenciaram — não gostou de falar sobre esse assunto.

— Mas deve haver uma razão...

— E há. Mas isto não é da sua conta. Ela mordeu os lábios angustiada.

— Desculpe. Você tem razão.

— Agora durma um pouco, nós vamos partir amanhã.

— Rogan...?

Ele se virou na porta.

— O que é?

Toda a arrogância que ele mostrara até aquele momento ti­nha desaparecido. No seu lugar, só frieza e distância. Era di­fícil para Katlin entender o que estava acontecendo. Ele mudara de humor o que, certamente, estava ligado ao fato de eles irem embora ao dia seguinte.

— Você não vai ficar comigo esta noite?

Katlin corou por ter de fazer a pergunta ela mesma. Os olhos dele se nublaram.

— Você é a noiva de Graham, não minha.

— Sim, mas...

— Katlin, chego a duvidar que o seu tombo lá fora tenha sido mesmo um acidente. Realmente não me interessa o que você fez antes de conhecer Graham. A responsabilidade de te manter sob controle antes do casamento é dele. Mas não te­nho intenção de fazer amor com você esta noite ou em qual­quer outra.

Os olhos dela faiscaram.

— Seu hipócrita...

— Cuidado! Não suporto escutar uma mulher praguejando.

— Seu bastardo! — ela gritou o rosto vermelho de raiva. — Você me trouxe aqui com o único propósito de fazer amor comigo.

— Sim — Rogan admitiu. — Foi um erro. Eu devia ter en­tendido isto no momento em que você perguntou se eu pre­tendia me casar com você!

— Eu estava brincando naquela hora.

— Pode até ser. Mas você teria aceitado na hora se eu pedisse.

— Saia daqui, seu... Seu... — ela jogou um travesseiro na direção de Rogan.

— Pirata? — ele zombou.

— Sim!

Rogan sorriu irônico.

— Era exatamente o que eu pretendia ser desde que você me chamou assim na primeira noite que nos vimos. Mas, ho­je, enquanto esperava que saísse do banho, me lembrei que Pat, minha ex-esposa, costumava ler esse tipo de romance. E também me dei conta de outra coisa.

— O quê?

— Não importa o quanto tais homens sejam terríveis ou brutos. A heroína sempre se apaixona por eles. E eu não es­tou procurando um final feliz!

Katlin respirou fundo para controlar a raiva.

— Aquilo é ficção, Rogan. Por acaso você acha que quero um final feliz para nós?

— Não sei. Mas também não quero me arriscar. Katlin perdeu a paciência.

— Você não está me levando de volta porque foi egoísta em me trazer para cá — acusou. — Você está me levando de volta porque está assustado, com medo de que possa se en­volver a sério comigo. Você... — ela parou de falar quando Rogan fechou a porta lentamente e saiu do quarto. — Cretino!

Pela terceira vez naquele dia Katlin desatou a chorar.

Por mais que tentasse dormir, Katlin virava de um lado pa­ra o outro da cama sem conseguir se acalmar.

Ela era uma O’Rourke, e os O’Rourke lutavam pelo que queriam. Contra todas as evidências.

No entanto, pela primeira vez na vida, não sabia como agir. Só restava tentar, persuadir Rogan mais uma vez a ficar na ilha por mais alguns dias!

Cansada, olhou para a janela. O relógio marcava três ho­ras da madrugada e chovia a cântaros.

Katlin saiu da cama e observou a tempestade que atiçava a fúria das ondas do mar. Desde criança gostava do barulho da chuva. Os pingos de encontro ao chão tinham o poder de quase hipnotizá-la.

Como não conseguisse dormir, resolveu fazer um chá na cozinha.

Rogan se preocupara em deixar a luz do corredor acesa, mas a porta do quarto dele estava bem trancada. Talvez temesse que ela o procurasse em sua cama? Considerando os pensa­mentos loucos que tinham passado na sua cabeça depois da discussão que haviam travado, até que ele não estava errado!

No último degrau da escada Katlin parou de súbito. Um cho­ro baixinho ecoou da porta dos fundos, e ela sorriu ao adivi­nhar quem seria o visitante. Num impulso, abriu a porta e deixou um belo gato de pêlo cinzento e patas brancas entrar na sala.

O felino a estudou curioso e, depois de hesitar um pouco, aconchegou-se próximo à lareira.

— Você é lindo! Vou te chamar de Manxie — disse terna­mente, colocando um pires de leite junto às patas. — Está um pouco úmido lá fora, não é?

O animal miou em resposta. Katlin sentou-se no chão e afagou-lhe o pêlo molhado.

— Será que quer comer alguma coisa? — Ela foi até a co­zinha e voltou com alguns pedaços de frango assado que ela e Rogan tinham comprado naquela manhã embrulhados num guardanapo de papel. — E durma quando terminar está bem?

— Katy? — Rogan chamou preocupado. — Katy? — ele repetiu entrando na sala, a testa franzida. — Achei que tinha escutado vozes.

Katlin o encarou por instantes. O paletó do pijama de Ro­gan estava desabotoado, e mostrava o peito nu e bronzeado. O cabelo desarrumado lhe conferia um ar rebelde. No entan­to a expressão cansada no rosto negava que ele tivesse conse­guido dormir.

— Katy? Com quem você estava falando quando eu entrei?

— Bem... Nós temos uma visita — ela informou séria. — Não do tipo que está pensando. Manxie, diga olá a Rogan.

Ela deu de ombros quando o gato continuou a comer, sem se importar com o pedido. Rogan lançou-lhe um olhar impaciente.

— De onde veio esse gato?

— De fora.

— Katy...

— Bem, como vou saber de onde ele veio? Eu o escutei miando do lado de fora e abri a porta. Manxie simplesmente entrou como se fosse o dono da casa.

— Manxie?

— Foi o nome que dei. Afinal é um gato da ilha de Man. Rogan a observou melhor.

— Ele não tem rabo! Você acha que sofreu algum acidente?

— Não.

— Não está querendo dizer que alguém fez isto de propó­sito com o pobre animal?

— Rogan, eu disse que era um gato Manx— ela inter­rompeu.

— Mesmo assim, não é... Gato Manx?

— Eles não têm rabo. Bem, pelo menos alguns deles têm um rabo curto, mas... Veja! Acho que você ofendeu o bichi­nho falando desse jeito. Ele quer ir embora.

O gato estava em frente à porta, encarando-a ansioso.

— Pode sair garoto — ela abriu a porta — e cuide-se!

— Nunca vi nada parecido — Rogan disse pasmo ao ver o felino sumir na escuridão. — Um gato não parece completo sem rabo.

Katlin trancou a porta relutante em encarar Rogan agora que estavam sozinhos novamente.

— Você devia ver estes gatinhos quando pequenos — ela começou a falar para afastar o nervosismo. — São adoráveis. Eu queria um quando era criança, mas papai achou que o lu­gar deles era aqui. E a ilha é um lugar tão bonito para eles viverem livres, bem mais agradável que Londres. Não acredito...

— Katy.

Ela jogou o cabelo para trás e ergueu o queixo.

— Sim?

— Sobre o que eu disse ainda há pouco...

— Acho que você já deixou suficientemente claro o que pre­tende fazer.

— Claro, sim, talvez... Mas não foi honesto. Katlin estremeceu.

— Não?

— Não. Eu ainda te quero.

A primeira reação de Katlin foi mandá-lo para o inferno, mas então se deu conta do quanto lhe custaria àquela atitude. No entanto, o convite de Rogan não alterava as coisas. Ele ainda pretendia entregá-la nos braços de Graham mesmo que a desejasse.

— Manxie deve viver solto por aí — ela fingiu nada ter ou­vido. — Acho que seu amigo Harry lhe dá comida quando vem aqui.

— Eu estava zangado antes — Rogan interrompeu brus­camente. — Sempre fico assim quando falo do meu casa­mento.

— Só fiz uma pergunta — defendeu-se ela, perdendo to­das as esperanças de conseguir evitar aquele assunto. — Não havia necessidade de me insultar.

— Não tinha intenção de magoá-la. Só me dei conta de que estava querendo bancar Deus com a vida dos outros, quando transformei a minha própria vida numa desordem.

— Um casamento fracassado não significa a ruína de to­das as coisas que nos dão prazer.

— Talvez não, mas tem influência sobre os outros fatos que ocorrem na sua vida.

— Outras mulheres?

— Sim.

— E eu... Eu sou como sua esposa? — ela perguntou, encarando-o firme.

Rogan soltou uma risada áspera.

— Não acredito que alguém possa ser como minha esposa!

Aquela afirmação tendia a ser dúbia, mas mesmo assim Ka­tlin sabia que ele não estava apaixonado pela esposa. Ela de­via tê-lo magoado muito um dia.

— Rogan...

— Acho que nós devíamos voltar para a cama. Vai ama­nhecer em poucas horas.

Katlin suspirou. No fundo sabia que lutava em vão. Rogan pretendia desaparecer da sua vida. Se ela nunca o tivesse co­nhecido, teria se casado com Graham como o planejado, e quem sabe até fosse feliz.

Mas a realidade era que Rogan surgira e Katlin acreditava no destino. Não haveria jeito de ter escapado daquele encon­tro no hotel. Estava escrito. Os caminhos dos dois tinham de se cruzar. Se pelo menos ele conseguisse ver isso também.

— Pelo amor de Deus, vá para a cama, Katy — gritou Ro­gan subitamente.

Ela o encarou, surpresa com aquelas palavras. No íntimo sabia o quanto era desejada.

— Rogan — suplicou baixinho.

— Tudo bem. Se você me quer na sua cama esta noite, te­rá. Deus sabe como tentei evitar isto, mas não consigo mais me controlar.

Rogan aproximou-se e a tomou nos braços.

Katlin sentiu o calor de seu corpo e os movimentos eróticos que a língua de Rogan fazia em contato com a sua.

Excitada, deslizou as mãos pelo peito dele, descendo até a cintura fazendo-o prender a respiração. Ela própria estava ofe­gante ao descobrir com quanta facilidade os dois poderiam ficar nus. E como desejava isto! Nunca quisera ser possuída com tanto fervor, nunca sentira necessidade de se entregar da­quela maneira.

Rogan a queria também. Sua boca procurava ávida, os ma­milos intumescidos por cima do tecido fino da camisola.

Completamente envolvidos na magia do momento, se dei­taram no chão. O único som existente era o barulho da chuva e o crepitar do fogo na lareira.

— Me ame — ela sussurrou. — Quero que você me ame. Rogan se afastou de imediato.

— Faça amor comigo, você quer dizer. Ela o encarou confusa.

— É a mesma coisa.

O desejo sumiu daqueles olhos azuis.

— Não misture as coisas, Katy. É só desejo físico.

— Não — ela sacudiu a cabeça em sinal de protesto. Rogan levantou-se e ajeitou o pijama.

— Katy, nunca minto sobre meus sentimentos, nem mes­mo quando levo uma mulher para a cama!

— Você não me ama.

— Não tente se iludir achando que me ama também.

— Mas...

— Você me quer só isto. Eu sempre soube disto desde o momento em que nos conhecemos. Achei que teríamos tem­po suficiente para experimentar esta atração. Fiquei furioso quando descobri que você ia se casar com Graham, achando que não faria mal se tivéssemos um caso antes. Agora penso diferente. — E a encarou com firmeza. — Volte para seu noi­vo, Katy. Diga-lhe que tudo não passou de uma atitude im­pulsiva. E então eu até comparecerei no seu casamento no sábado!

— Você ainda iria? — ela balbuciou. — Mesmo depois... Mesmo depois...

— É claro que iria — Rogan sorriu irônico. — Tenho cer­teza de que você será uma noiva encantadora... Para Graham.

A imagem que ela idealizara dos dois juntos desapareceu para sempre. Então tudo não passara de uma fantasia!

Como a tradição de sua família, ela se apaixonara. Só que, ao contrário deles, não era correspondida! Nem todos os O’Rourke podiam ser felizes.

 

A ilha parecia um maravilhoso paraíso verde quando o avião com destino a Londres decolava.

Katlin tinha profundas olheiras a lhe marcar o rosto. Não conseguia pegar no sono depois do que acontecera com ela e Rogan na noite anterior. Passara a madrugada pensando na melhor forma de justificar aos pais a atitude que tomara en­quanto arrumava as malas.

Mal o dia raiou, alimentou Manxie, que esperava do lado de fora por um pequeno afago, e espalhou algumas migalhas de pão ao redor da casa, para os pássaros. Em seguida pagou a um nativo para que a levasse até o aeroporto e, em silêncio, saiu do chalé deixando para trás toda a perspectiva de felici­dade que esperava encontrar ao lado de Rogan.

Não fora fácil conseguir um lugar no primeiro vôo para Lon­dres, mas ela conseguira depois de um cancelamento de últi­ma hora. Sequer se despedira de Rogan. Na verdade, depois da noite anterior, achava que eles não tinham mais nada para dizer um ao outro. Não estava disposta a permitir que ele a levasse de volta como um embrulho que tinha decidido não abrir.

A noite anterior, mais do que qualquer outra coisa, mos­trara a ela o quanto amava Rogan. Desde adolescente saía com muitos homens, namorara, trocara experiências, mas nunca sentira vontade de fazer amor com nenhum deles. Tinha cer­teza de que aquele era um ponto de que Rogan não descobri­ra durante as frias análises que fizera dos sentimentos dela. A sofisticada Katlin O’Rourke ainda era virgem.

Na adolescência, o medo do desconhecido a mantivera afas­tada de relações sexuais. A mãe sempre fora compreensiva, mas quando o assunto se relacionava à natureza íntima, sem­pre ficava ainda mais embaraçada que Katlin. As risadinhas e conversas das amigas de escola pouco tinham esclarecido suas dúvidas sobre o amor físico. Todos os comentários soavam degradantes, nunca como o belo ato de amor que ela sempre imaginara.

O medo se tornou cinismo. Com o tempo Katlin passara a entender que nem todos os homens estavam somente interes­sados em seu corpo. Muitos deles estavam de olho no dinhei­ro do pai dela também. E cada vez se tornara mais fácil e menos doloroso evitar aproximações.

Com Graham fora diferente. Ele não tentara seduzi-la no primeiro encontro, nem viera com propostas de levá-la para a cama no fim da noite. Ele a beijara simplesmente, agradeci­do pelos momentos que passaram juntos. Todas as noites que se seguiram acabavam da mesma maneira. Assim fora fácil respeitá-lo e depois amá-lo, esperando ansiosa e curiosa pelo dia do casamento.

Nada parecido acontecera com os sentimentos em relação à Rogan, Jamais acreditara em amor à primeira vista e muito menos esperava que o amor viesse fulminante na forma de um pirata com olhos flamejantes!

O que Rogan iria sentir quando descobrisse que ela parti­ra? Provavelmente alívio, pensou melancólica.

Pelo menos o tinha poupado do incômodo de levá-la de volta para Londres. Ele deveria lhe agradecer por isto, mesmo que quisesse esquecer todo aquele incidente ridículo.

Katlin não queria contar à família sobre a idiotice que co­metera. Durante toda a viagem pensou e remoeu, assim como o fizera na madrugada, na justificativa que daria a seus pais.

No entanto, quando o avião tocou o solo londrino, sentiu um suor frio a lhe percorrer o corpo. Vergonha, medo e des­conforto estavam estampados em suas faces.

Decidida a assumir o erro de cabeça erguida, pegou um tá­xi e seguiu para casa. Em meia hora tocava a campainha. A mãe a recebeu com um forte abraço.

— Querida, onde você esteve? Ficamos tão preocupados!

Katlin colocou as malas junto à porta.

— Eu disse para não ficar. Sinto muito ter partido desta maneira. Eu...

— Não importa Katy — o pai lhe assegurou com aspere­za. — Sua mãe e Beth resolveram todos os detalhes com faci­lidade. E foi melhor você reconhecer seu erro agora do que depois do casamento — acrescentou pesaroso.

— Oh, papai! — Ela o abraçou com força. — Sabia que vocês dois iriam entender.

— E nós? — ironizou Brian, entrando na sala com Beth. Beth, que segurava Matthew nos braços, olhou para o ma­rido, apreensiva.

— Nós tivemos de ser compreensivos também. Pensava que ia me livrar da minha irmãzinha e, pronto, ela muda de idéia!

— Brian! — censurou Beth. — Não vê que Katlin está des­concertada depois de tudo que aconteceu?

— Não estou não. — Katlin sorriu. — Quanto a você — virou-se para o irmão — nunca vai se livrar de mim, casada ou não. Eu te perseguiria até depois de morta!

— Velhas solteironas não morrem nunca — provocou Brian.

— Isto é porque não temos um marido que nos perturba!

— Katy está longe de ser uma velha solteirona — a mãe de­fendeu-a indignada.

— Ele só diz isso para me enfurecer.

— Bem, depois desse seu desaparecimento misterioso não pensei que você voltasse com a língua tão afiada!

Ela sorriu.

— Posso estar por baixo, querido irmão, mas ainda estou longe de ser derrotada!

— Estou vendo — Brian retrucou admirado. — Por que não nos sentamos todos e tomamos um café?

Com o clima ameno entre a família, Katlin aceitou a idéia de bom grado, já que deixara a ilha naquela manhã sem ter comido nada.

Ao sentar à mesa, consultou o relógio. Àquela hora Rogan, na certa, estaria também tomando seu café aliviado por ter se livrado de um problema incômodo. Talvez ele até ficasse mais alguns dias na casa, comemorando sua vitória.

—... Não escutei nada dele desde então — Katlin ouviu Brian dizer, quando voltou à atenção para a conversa.

— O quê? — perguntou, quando notou que o irmão se di­rigia a ela. — Estava longe daqui.

— Eu gostaria de saber onde!

— Brian! — Beth segurou-lhe o braço. — Deixe de ser in­discreto.

— Está bem. — Brian encarou a irmã desconfiado. — Só estava dizendo que Rogan McCord desapareceu na quarta-feira de manhã também.

— É mesmo? — Katlin fingiu surpresa. Brian assentiu.

— Ele só deixou um bilhete no qual dizia que um negócio inesperado o afastava daqui por um tempo.

Katlin olhou para o irmão irritada por tanta insistência naquele assunto.

— Ora, Brian, o que você tem a ver com a vida do Sr. McCord?

Ele deu de ombros.

— Nada. Só me pergunto se você por acaso não o viu no aeroporto esta manhã. Você ainda não disse por onde andou.

Katlin segurou a xícara de café entre as mãos.

— É tão importante para você saber onde eu estive? Brian, desde pequeno, sempre tivera intuição para detectar problemas. Naquele momento Katlin sabia que ele estava se divertindo à custa dela. Não desconfiava de nada, mas insistia em provocá-la.

— Depende de onde você foi — ele respondeu.

"E com quem", a pergunta ficou no ar, sem ser dita. Para os pais de Katlin a pergunta era normal naquelas circunstân­cias, mas ela estava bem ciente da curiosidade nos olhos de Brian e da cunhada, Beth.

— Deixe pra lá — disse com cuidado. — Estou de volta e preciso ver Graham agora.

— Tome seu café primeiro — a mãe insistiu. — Nós não precisamos saber realmente para onde você foi desde que se sinta segura agora. Katlin sorriu, e a tranqüilizou.

— Sei que agi certo, mamãe.

— Tenho certeza que sim. — O pai bateu-lhe de leve na mão. — Graham é uma ótima pessoa, mas não havia razão para se casar com ele se não o amava de verdade.

Katlin acabou de comer e foi para o quarto. Depois de ar­rumar as roupas da viagem no armário, separou um conjunto de saia e blusa de viscose branco e entrou no banho.

Acabava de se arrumar quando Brian bateu na porta e sentou-se na beira da cama.

— Agora que estamos sozinhos será que pode me dizer pa­ra onde você foi com Rogan McCord?

— O Sr. McCord? — fingiu ela surpresa, embora soubesse que Brian estava longe de acreditar nas explicações que dera durante o café. — Eu mal conheço aquele homem.

Ele sorriu.

— Eu sei. Isto é o que me deixa ainda mais curioso. Ela lançou-lhe um olhar gelado, e sentou-se na frente do espelho para retocar a maquiagem.

— Não sei do que você está falando.

— Estou falando da minha irmãzinha que fugiu da noite para o dia com um estranho!

Sem querer, o rubor cobriu as faces de Katlin.

— Você começou a beber antes do almoço de novo? — ela ironizou.

— Oh? Agora você me ofendeu. Sei que gosta de me pro­vocar, mas não importa o quanto fui malcriado na minha ado­lescência, você nunca me disse uma coisa dessas antes, Katy!

Ela suspirou.

— Sinto muito. Mas eu não sei por que você insiste em pen­sar que fui a algum lugar com o Sr. McCord.

— Porque eu sei Katy. Você olhou Rogan McCord uma vez e decidiu que o queria.

— Até parece que sou uma garotinha mimada e inconse­qüente.

— Você não é mimada. Só é como o resto da família: sabe o que quer e tenta consegui-lo. Não me iludo com as suas des­culpas.

— Tudo que falei é verdade. Brian deu de ombros.

— Se você insiste... Acontece que sei que você e McCord se encontraram depois do jantar que mamãe ofereceu.

Katlin gelou. Será que o irmão vira Rogan saindo do quar­to dela aquela noite?

— Eu levantei cedo para levar Mathew para Beth amamentá-lo — ele continuou. — Vocês dois estavam bem visíveis lá no topo da colina.

Brian falava do dia seguinte ao jantar, Katlin notou aliviada.

— Para sua informação, querido irmão, eu estava vindo me encontrar com Graham aqui em casa quando topei com Rogan por acidente.

— Ah, e também por coincidência vocês acordaram cedo e saíram a cavalo às seis da manhã?

— Por que não?

— Porque é coincidência demais, só por isso.

— Papai insistiu para que ele usasse o cavalo enquanto es­tivesse aqui — disse ela impaciente.

— E simplesmente Rogan escolheu há mesma hora que você para cavalgar... Antes de desaparecer do mapa!

— Exatamente.

Brian a encarou, a desconfiança latente em seus olhos.

— Onde você foi ontem?

Katlin se levantou, e pegou a bolsa.

— Quer mesmo saber? Para a ilha de Man.

— Para a ilha de Man? — repetiu ele, perplexo. — Mas o que significa...

— Não posso continuar essa conversa agora, Brian — interrompeu-a. — Telefonei para Graham e combinei de encontrá-lo em uma hora. Não quero me atrasar.

O irmão suspirou insatisfeito com a interrupção.

— Não se preocupe, eu ainda vou descobrir tudo — avisou-o, saindo do quarto.

Brian era persistente e Katlin bem sabia que iria ter proble­mas. Mas não iria contar-lhe a verdade. Com Rogan fora de cena, não havia meio de o irmão descobrir o que realmente tinha acontecido na ilha.

Graham não estava sozinho quando Katlin foi levada até a sala da casa de seus pais. Glória estava com ele, mas logo inventou uma desculpa e se levantou.

— Você não precisa sair Glória. — Graham, a segurou pelo braço. — Katlin e eu não temos nada a dizer um ao outro que você não possa escutar.

— Eu... Eu prefiro ir. Eu... Eu te vejo mais tarde. Até depois. Katlin a seguiu com os olhos um tanto surpresa. A situação era delicada depois que o rompimento do casamento fora con­sumado. Glória realmente parecia aborrecida com ela, assim como todos os outros da família de Graham. Mas havia um mistério no ar que logo tratou de esclarecer.

— Não sei por que veio até aqui, Katy. Não temos mais nada para conversar. Você desmarcou o casamento... E fui pro­curar alguém que me entendesse, que me respeitasse...

— Quer dizer que você e Glória...?

— Por que não?

— Não estou criticando, Graham.

Ele colocou um pouco de uísque num copo.

— Você cancelou nosso casamento quatro dias antes da data marcada, desapareceu e sequer tivemos tempo de esclarecer o mal-estar que ficou no ar.

— Graham, eu não estou criticando — repetiu Katlin com firmeza.

Mas ela estava um tanto surpresa. Os dois nunca tinham dado qualquer indicação antes que se sentiam atraídos um pelo outro. De qualquer forma, quem era ela para questionar aquela mudança repentina? Partira com Rogan depois de tê-lo conhecido dois dias antes!

— Vocês estão apaixonados? Ele a encarou rancoroso.

— Por que você deveria se preocupar pelo que sentimos um pelo outro?

Ela mordeu os lábios, nervosa.

— Só não quero que você cometa um erro por causa do que eu fiz — disse gentil. — Dois dias atrás você estava feliz em se casar comigo...

— Até que você decidiu que não me amava o suficiente!

— Não foi assim...

— Não? Então o que foi que eu fiz para que você desmar­casse o casamento?

— Você não fez nada. — E sacudiu a cabeça desolada. — Eu gosto muito de você, só... Só...

— Não me ama — ele lançou. — Bem, Glória, sim, e...

— Graham, por favor, não arruíne sua vida só porque es­tava zangado comigo. Se você ama Glória, ótimo, mas não faça nada só para se vingar de mim.

Ele a encarou furioso, e sentou na poltrona. Em seguida to­mou um gole do uísque e, mais calmo, disse:

— Não estou sendo justo com você. Estou te culpando de tudo, quando na realidade nós... Nós nunca deveríamos ter pensado em nos casar. Eu amei Glória quase no mesmo ins­tante que Thomas a trouxe para casa como esposa. Mas ela amava meu irmão e eu estava determinado a seguir minha vi­da sem ela. Mesmo quando Thomas morreu, continuei achando que nunca teria uma chance com Glória.

Embora pasma com aquela história, Katlin o encorajou a prosseguir.

— Continue.

— Gostei muito de você e tinha certeza que podíamos ser felizes juntos, mas daí, na noite daquele jantar, Glória foi cor­tejada por Rogan McCord! Toda vez que ele a fazia sorrir, eu tinha vontade de acertá-lo, e quando ele realmente a to­cou...! — Graham fechou os olhos para afastar a imagem. — Então você desmanchou nosso casamento e Glória tinha voltado para casa com ele, o que me deixou possesso. Quan­do cheguei aqui fui direto para o quarto dela, e perguntei o que pensava fazer com Rogan McCord. Confessei que a ama­va e Glória admitiu que também estava apaixonada por mim. Sinto muito, Katlin, mas eu... Eu pretendo me casar com Gló­ria tão logo ela concorde.

— Quer dizer que você não a pediu em casamento ainda? Ele sorriu embaraçado.

— Não queria fazer isso até que tivesse falado com você.

— E eu desapareci — murmurou ela pensativa. — Bem, você poderá fazê-lo agora. E não se esqueça de me convidar para o casamento.

— Isto realmente vai dar o que falar! — E quem se importa?

— Eu não.

Graham se ergueu lentamente, e a beijou no rosto: — Obrigada, Katlin.

— Por ter dado o fora em você?

— Sim — disse ele sorridente.

Céus, que confusão teria sido se ela e Graham tivessem se casado! Talvez Graham e Glória nunca chegassem a confes­sar o seu amor, mas eventualmente teriam descoberto aquele sentimento.

Realmente feliz pelo outro casal, Katlin entrou no carro e rumou para casa. Ao chegar, abriu a porta, um sorriso estam­pado nos lábios.

— Escutem, tenho uma notícia maravilhosa para contar! — exclamou entrando na sala, quase ficando sem ar quando deu com dois olhos verdes penetrantes a fitá-la.

— Como vai, Katy?

 

— Nós temos visita, querida — a mãe de Katlin anunciou.

— Sim — confirmou Brian com a satisfação de quem sa­bia que ia provar uma suspeita em poucos minutos. — O Sr. McCord conseguiu concluir seus negócios mais rápido do que esperava e voltou para nós.

Katlin encarou Rogan.

— Estava acabando de dizer a seu pai o quanto me esfor­cei para voltar a tempo de participar do seu casamento, mas ele me comunicou que você e seu noivo cancelaram a cerimô­nia na terça à noite.

Ela fechou os olhos. Como suportar tanto cinismo? A von­tade que tinha era de pular no pescoço de Rogan e enforcá-lo. Mas não podia perder o controle. Brian estava muito descon­fiado e tinha os olhos bem atentos a qualquer movimento em falso que ela desse.

Droga! Por que Rogan se dera ao trabalho de ir atrás dela? Não esperara por aquilo. Imaginara que da próxima vez que eles se encontrassem, o casamento cancelado já fosse uma ve­lha e esquecida história. Por que ele estava ali?

— É verdade — Katlin disse. — Eu e Graham rompemos definitivamente.

— E a notícia que ia contar? É de que seu casamento está valendo de novo?

— Não.

— Sinto muito — Rogan fingiu.

— Não precisa. Foi decisão mútua.

— Suponho que você tenha acabado de ir ver seu ex-noivo.

— Sim. — Katlin mudou de posição, já que os dois con­versavam frente a frente, o que despertou a curiosidade da família presente na sala. — Nós nos separamos como amigos.

O que era bem mais do que ela e Rogan tinham feito, Katlin pensou. Eles não tinham se separado como amigos. Ro­gan deixara bem claro o que sentia em relação a ela. Isso lhe tirava o direito de vir até a casa dos O’Rourke e a provocar daquela maneira. Por que ele insistia em perturbá-la?

Rogan parecia muito à vontade. Sentado ao lado do pai de Katlin, a encarou por longos instantes sob o olhar atento de Brian que buscava, a todo custo, uma explicação para o su­miço da irmã.

— O que você ia nos contar? — Brian quis saber. — Que notícia era essa?

Ela deu de ombros.

— Realmente não era nada importante — Katlin disfarçou. — Mas tenho certeza de que estamos todos ansiosos para ou­vir a respeito do importante negócio que afastou o Sr. McCord de nós tão subitamente.

No momento que tocou neste assunto, Katlin sentiu que co­metera um grande erro. O escárnio de Rogan a atingiu rapi­damente.

— Todos vocês?

— Eu sim — Brian pronunciou impulsivo. — Afinal você e papai têm negócios em comum.

Rogan o encarou com atenção, questionando aquela curio­sidade.

— Temo que não tenha sido nada muito excitante. Para fa­lar a verdade era uma bobagem que não correspondeu às mi­nhas expectativas.

Katlin empalideceu com o insulto, e teria dado uma respos­ta à altura não fosse o olhar de advertência que Brian lhe lan­çou. O irmão tinha razão. Na frente dos pais não era adequado acertar as contas com Rogan.

— O almoço ainda não está pronto? — ela perguntou su­bitamente. — Não tive tempo de tomar café esta manhã. Es­tou faminta!

— Você sempre devia deixar um tempo para o café, Katy

— Rogan interferiu. — O estômago vazio nos torna propen­sos a tomar decisões erradas.

— As decisões que tomo são sempre lúcidas.

— Sempre?

O rosto de Katlin enrubesceu quando entendeu que ele es­tava falando da noite passada quando pedira a ele que fizesse amor.

— Isto só acontece quando tomo decisões sobre... Coisas que não conheço bem.

— Nós todos cometemos erros. Eu mesmo cometi um, bem sério, até, dois dias atrás.

— Oh, não posso acreditar nisto Rogan! — A exclamação do pai de Katlin desviou a atenção de todos. — Você é o ho­mem mais astuto que eu conheço.

— Astúcia não é tudo, Michael.

Rogan estava interpretando o silêncio de Katlin sobre o can­celamento do casamento de forma completamente errada. Acreditava que fora feito de bobo e não conseguia esconder o quanto ficara zangado com isso.

— Eu...

— Por que não vamos todos almoçar? — sugeriu Brian ani­mado, estendendo o braço para Katlin. — Antes que nosso filho acorde e impeça que Beth e eu almocemos em paz.

Katlin lançou-lhe um olhar agradecido enquanto entravam na sala de jantar, seguidos pelo pai, Beth e Rogan.

— Não sei o que aconteceu entre vocês dois nos últimos dois dias — murmurou Brian enquanto afastava a cadeira para ela sentar. — Mas fique atenta Katy. Rogan está furioso.

Ela não precisava do aviso. Podia sentir-lhe o ressentimen­to enquanto comiam e, por prudência, ficou fora da conver­sa, apesar de Rogan ter tentado envolvê-la por duas vezes. Ele estava procurando briga, mas certamente que isto não acon­teceria na frente de seus pais. A provocação era sutil e, por isso mesmo, mais perigosa.

— Gostaria de ir cavalgar, Sr. McCord? Como pôde ver no outro dia, meu pai tem excelentes animais no estábulo.

— Eu gostaria muito.

— Então nos encontraremos nos estábulo em dez minutos.

Katlin saiu da sala e foi para o quarto. Lá, trocou o con­junto branco de viscose que usava por calças jeans e uma blu­sa de linha amarela, sem mangas. Em seguida prendeu os cabelos, arrumando-os com um lenço.

Frente ao espelho, pensou na conversa que teria em poucos minutos com Rogan. Não ia ser fácil, mas nada pior do que continuar com aquele clima de hostilidade. Mais um pouco e até seus pais, geralmente tão desatentos, perceberiam que havia qualquer coisa mal resolvida entre eles.

Já se preparava para sair do quarto quando Brian veio ter com ela. O irmão parecia nervoso e preocupado.

— Você tomou o caminho errado, maninha. Com o humor que Rogan McCord está ele vai te fazer em pedacinhos logo que ficarem sozinhos.

— Não seja ridículo — Katlin rebateu irritada, embora te­messe que o irmão estivesse certo. — E quer parar de vir ao meu quarto com acusações infundadas sobre ele e eu?

— Katy, papai e mamãe podem não ter sentido a tensão entre você e Rogan, mas Beth e eu não somos cegos.

Ela o encarou desolada.

— Beth? Ela também percebeu o quanto eu fui estúpida?

— Bem, não sei te dizer. Beth insistiu que eu a ajudasse com Matthew, mas depois que subimos pediu que eu viesse falar com você. Mas por que você foi estúpida?

Ela fez uma careta.

— Essa é uma longa história, Brian. Mas garanto que fiz o suficiente para que Rogan queira agora quebrar meu pescoço. Se ele voltar sozinho, comece a cavar uma cova para mim!

— Katy — o irmão segurou-a na porta. — Lembre-se, Ro­gan só está zangado porque, seja lá o que você tenha feito ele, ele ainda te deseja.

Katlin não estava tão certa disso quando pegou Storm na cocheira e desceu até o riacho que corria a uma milha de dis­tância da casa. Depois de desmontar e afrouxar as rédeas do cavalo sentou-se à sombra de uma árvore. Rogan surgiu na frente dela de repente e parou como se fosse uma estátua. Os olhos dele brilhavam de raiva.

— Então, Srta. O’Rourke — disse ele finalmente. — O tem­po todo eu achei que estava te dissuadindo de casar com Gra­ham, quando na verdade ele já havia decidido continuar solteiro. Ou melhor, continuar a vida sem você.

— Não foi bem assim.

— Tenho certeza de que você não teve outra escolha a não ser aceitar a decisão dele. Estou errado?

Rogan ajoelhou-se na grama e segurou o queixo de Katlin com firmeza. A pressão de seus dedos delatava toda a raiva que sentia naquele momento.

— Duvido que você pudesse forçar Graham a se casar. Dro­ga! — gritou. — Por que não me contou tudo? Por que conti­nuou com a farsa?

Katlin suspirou. Tudo o que podia dizer era que o amava como nunca amara nenhum outro homem em sua vida. Mas como confessar o que sentia quando Rogan a encarava com ódio e desprezo?

Mais de uma vez tentou explicar o que acontecera, mas ele, fora de si, não lhe deu chances. Nervoso, Rogan parecia a ponto de brigar com o mundo se fosse necessário.

— E então? — ele insistiu. — Será que a mimada Katlin O’Rourke só estava me usando para trazer seu querido Gra­ham de volta?

— Não! — ela protestou indignada.

— Então você queria ter um caso para salvar seu orgulho ferido!

Katlin afastou-se dele, magoada.

— Nós não chegamos a ter um caso.

— O que certamente não foi por falta de sedução da sua parte!

— Só foi porque eu...

— Por causa de quê? Meu Deus, tudo ficou tão claro de­pois que seu pai me contou que o casamento tinha sido cance­lado! — Rogan levantou-se e esmurrou a árvore. — Achei estranha a sua falta de resistência ontem de manhã quando te raptei, mas agora entendo que te dei a oportunidade de es­capar do que teria sido uma humilhação.

— Eu e Graham cancelamos o casamento em comum acordo.

— E até que ponto isso foi influenciado pelo fato de Gra­ham e Glória estarem interessados um no outro?

Katlin engoliu em seco. Como ele sabia de Graham e Glória se ela própria o soubera naquela manhã? Será que só ela não percebera o que os dois sentiam um pelo outro? Como pude­ra ser tão idiota? Disposta a tirar a história a limpo, perguntou:

— Como você soube sobre o envolvimento deles? Rogan deu de ombros.

— Você se esqueceu que levei Glória para casa na noite do jantar? Graham quase me bateu! Aí ele desmanchou com vo­cê e, lógico, para salvar seu orgulho ferido você resolveu ir embora comigo.

— Não...

— Ou será que foi como eu desconfiei no começo: você es­perava trazê-lo de volta me usando para provocar ciúmes.

— Não! — ela gritou em pânico. — Não contei a ninguém que estive com você na ilha de Man.

— Mas seu irmão sabe. Percebi como me olhou desde que cheguei.

Katlin perdeu a paciência. Brian a pressionava de um lado, Rogan do outro. Por mais que não quisesse, sentia-se envol­vida numa confusão sem fim. Todos a julgavam, todos que­riam explicações. E ela? Quem se atrevia a escutá-la, a entendê-la?

Com exceção dos pais, todos a responsabilizavam pelos transtornos que aquele fim de casamento havia causado. Beth no seu silêncio, os pais de Graham com seus olhares acusado­res. Até Glória se aproveitara da situação. No fundo, a víti­ma maior naquela história era ela, mas ninguém enxergava tal fato.

— Sabe o que eu acho? — disse com voz alterada. — Que você faz com que Brian se lembre do playboy egoísta e ego­cêntrico que foi um dia. Você viu uma coisa que queria e esta­va determinado a consegui-la, não importava a que custo! Você me acusa por ter tentado te forçar, se é que posso dizer assim, a fazer amor comigo. E é isso que te irrita; você se negou a fazer amor quando na verdade não consegue resistir à atra­ção que sente por mim.

— Maldição, Katy...

— Você me quer agora? — zombou ela, quando Rogan se aproximou ameaçador. — Isto te faria sentir-se melhor?

Ele parou subitamente.

— Talvez eu não te queira mais agora.

De fato, tudo indicava que ele não a queria, mas havia muita raiva ainda no ar. Katlin não levava em conta aquela rejeição.

— Talvez eu não te queria mais também. Rogan a segurou pelo braço.

— Você ainda não me disse a verdade. Você foi comigo para a ilha para salvar seu orgulho ou para tentar trazer Granam de volta?

— Nenhum dos dois.

— Por que foi então?

Katlin respirou fundo. Não queria expor seus sentimentos a Rogan. Seria um risco revelar-se. Só que não fizera outra coisa desde que o conhecera. O que mais tinha a perder? Ele já pos­suía as próprias razões para desprezá-la.

— Eu entendi naquela noite do jantar que não poderia me casar com Graham sentindo atração por outro homem. Não po­dia jurar fidelidade a ele se eu desejava você. No dia seguinte, quando me raptou na ilha, eu sabia que não me deixava levar só para fugir da situação desagradável, que havia criado des­manchando o casamento. Eu fui porque te amo, Rogan. Foi por isto que fiquei na ilha com você.

Rogan a encarou perplexo e então seus olhos brilharam de raiva.

— O que você ama Katy, é a idéia de estar casada. E desde que o noivo não tenha má reputação, você não se importa quem ele seja desde que possa te oferecer a mesma comodidade à qual está acostumada!

— Então felizmente isto elimina você, não é?

Ela não tivera intenção de perder a calma de novo, mas a to­tal recusa do seu amor a magoava profundamente.

— Eu sou rico, Katy, e tenho certeza de que isso a faria es­quecer a falta de outras virtudes que, por ventura, esperasse de mim.

— Nada disso é verdade — ela sacudiu a cabeça, melancólica.

— É claro que é. Você não é tão cheia de escrúpulos quanto pensa quando pretende conseguir alguma coisa. Só que escolheu a pessoa errada, mocinha. Eu não suporto mentiras nem truques!

— Eu não menti — insistiu ela. — Eu te amo, e só não te contei que já tinha terminado o casamento porque se eu tivesse contado a você... Você...

— Sim? Eu o quê?

Katlin suspirou amargurada.

— Você teria tido seu caso comigo e ido embora. — Exatamente. E você ficaria esperando casamento!

— Não!

— Você nega que teria aceitado se eu tivesse proposto casa­mento? — provocou ele.

Katlin engoliu em seco, sabendo o que passava por trás da­quela expressão cínica.

— Casamento é uma coisa óbvia quando você ama alguém.

— E também é muito conveniente quando um noivo abasta­do escapa no último minuto!

— Eu já disse que não foi assim que aconteceu — ela gritou. — Graham tinha toda intenção de ir em frente com o casamento, fui eu quem não quis, porque o que eu sentia por você era forte demais para poder casar com outro homem. Será que não entende?

— Eu já fui casado com uma mulher falsa uma vez, e não tenho nenhuma intenção de cometer o mesmo erro duas vezes. — Rogan segurou as rédeas e montou no cavalo. — Ficou bem claro para você?

Katlin estremeceu. Por que ele não acreditava na sua palavra?

— Sim.

— Ótimo. Adeus, Srta. O’Rourke. — Rogan saiu com cinis­mo. — Acho que consigo inventar uma nova viagem de negó­cios e partir, antes que você retorne a casa. Tenho certeza que darei um jeito!

 

Katlin cavalgou algum tempo sozinha antes de voltar para casa. Sabia que Rogan falara sério sobre sua partida e não tivera co­ragem de vê-lo ir embora sabendo que nunca mais o veria.

Quando retornou, Rogan já desaparecera e seu irmão a es­perava no quarto. Katlin contou então a Brian o que acon­tecera.

— Você estragou tudo maninha. Não devia ter perdido a calma.

— Mas o que eu deveria ter feito? — suspirou ela. — Ficar inerte enquanto ele me insultava?

Brian sorriu.

— Não, mesmo que quisesse seu gênio não permitiria isso. Mas gritar com ele não te levou a lugar nenhum, não é?

— Não — ela concordou cabisbaixa. — Aliás, nada adian­tou. Nem eu ter dito que o amava.

Brian arqueou as sobrancelhas.

— Você disse isso?

Katlin caminhou até a janela e suspirou desolada.

— Disse.

— E ele não acreditou em você?

— Não. E Rogan acha que eu estou apaixonada pela idéia de me casar, não por ele!

— Então tenha um relacionamento com ele que não envol­va casamento.

Ela o encarou séria.

— Um caso, você quer dizer?

— Por que não?

— Você é muito pretensioso em me dizer com quem eu de­vo ter um caso! — ela deu as costas zangada.

— É para isto que servem os irmãos mais velhos.

— Mesmo? Eu pensei que eles servissem para proteger as irmãzinhas.

— E você precisa da minha proteção, mais do que pensa! Mas está sendo muito radical maninha. Por que todo envol­vimento deve acabar em casamento?

Katlin caminhou até o irmão e sentou-se ao lado dele na ca­ma. Brian só queria ajudar, ela sabia. Mas como explicar a ele que Rogan não acreditava em nada, nem mesmo em um namoro sem compromisso?

— Não me entenda mal, Brian, eu não estou esperando por um casamento. Se achasse que adiantaria alguma coisa, eu iria atrás de Rogan agora. Além disso, tem a questão da minha vir­gindade.

— Virgindade? — Brian a encarou perplexo. — Quer dizer que você e Graham nunca...

— Não. Nunca. E tenho certeza que Rogan veria este deta­lhe como mais uma cilada. Ele foi muito magoado no primei­ro casamento e não parece disposto a se arriscar uma segunda vez.

— Bem, não posso acreditar que minha irmã querida vai desistir da luta assim, tão facilmente.

— Não estou desistindo, Rogan é que não me deixaria che­gar nem perto dele!

— Você encontrará uma maneira, Katy. Tenho certeza disto. Ela suspirou.

— Gostaria de ter a sua confiança.

— Às vezes nós temos de mudar para conseguirmos o que queremos.

— Como você fez quando se apaixonou por Beth.

— Exatamente. — Brian segurou-lhe os ombros com fir­meza. — E sei que você vai encontrar uma solução.

Mas como? Como se podia forçar um homem a amá-la? Brian jurara que Rogan ainda a queria. Em circunstâncias nor­mais, um caso solucionaria tudo. Isso se ela não fosse virgem. Estranho, nunca antes havia encarado sua virgindade como uma carga, mas agora percebia, o que não era um problema para ela seria para Rogan. Bem, talvez não precisasse mudar muito para ficar com Rogan. E se praticasse um pouco da­quela presunção que ele tanto menosprezava, mas que era tão necessária àquela hora?

Teria de agir imediatamente, caso contrário perderia Ro­gan para sempre. Decidida, deixou Brian no quarto e foi ao encontro do pai no escritório da casa.

— Papai, eu... Bem... — ela parou embaraçada, na porta.

— Há uma coisa que eu queria discutir com... Com o Sr. McCord. Você sabe para onde ele foi?

— Querida, quando Rogan partiu esta manhã não deu a impressão de que queria ser seguido. Especialmente por você — ele completou gentil. — Entre e feche a porta, Katy. Va­mos conversar.

— Realmente não estou com muita vontade de conversar agora, papai.

— Nem mesmo sobre o que aconteceu entre você e Rogan nos últimos dias?

Katlin fechou a porta e sentou próxima ao pai.

— Brian nunca consegue guardar segredo — murmurou zangada.

— Mas este ele guardou!

— Então como... Foi Rogan que te contou?

— Ninguém me contou Katy. Só precisei olhar para vocês dois para sentir a atração que havia no ar. Você desmanchou seu casamento com Graham e depois vocês dois desaparece­ram no mesmo dia. Não é muita coincidência?

— É, acho que foi bem óbvio — ela disse melancólica. — Então toda família sabe onde estive desde ontem.

— Sua mãe não. — O pai sorriu tomando-lhe a mão com carinho. — Ela ainda é um tanto ingênua em relação aos filhos.

— Mas você gosta de Graham...

— É claro que sim. Eu seria um idiota se não gostasse de­le. Só que percebi desde o começo que os sentimentos de Gló­ria por ele estavam longe de ser platônicos. Mas, como Graham parecia estar mesmo interessado em você, resolvi não interfe­rir. Mas Glória não era a única a não ser correspondida.

— Eu sei — suspirou Katlin.

— Você tem certeza que seu amor por Rogan não é corres­pondido?

— Sim.

— Então por que está indo atrás dele? Ela o encarou pasma.

— Um homem que nunca aceitou a palavra "não" em sua vida me pergunta isso?

O pai sorriu.

— Tentar é válido, Katy. Só que nem sempre saímos ga­nhando. Às vezes aceitar um "não" é a única saída.

— E é assim que devo agir com Rogan?

— Não conheço todas as circunstâncias, mas quando ele saiu há pouco, não parecia em condições de raciocinar. Tal­vez se você lhe desse um pouco de tempo...

— Eu não tenho tempo, papai, talvez ele esteja pensando em partir da Inglaterra agora mesmo.

— Ele voltará. Nós ainda não concluímos nosso negócio — assegurou o pai.

Katlin se ergueu decidida.

— O que eu tenho de dizer a ele não pode esperar.

— Tem certeza?

— Absoluta. Deseja-me sorte?

— Rogan avisou que estaria no hotel se eu precisasse dele.

Katlin trocou de roupa, pegou a bolsa e as chaves do carro e se dirigiu para o hotel onde encontrara Rogan pela primeira vez.

Durante o trajeto seu coração palpitava de medo e ansieda­de. Como seria recebida?

Ela ainda estava extremamente nervosa quando estacionou a Mercedes e alcançou a recepção. Rogan, porém, não aten­dia ao chamado da recepcionista. No entanto, sem desanimar, Katlin seguiu para o bar do hotel. Com efeito, Rogan estava ali, sentado sozinho numa mesa. No rosto uma expressão zan­gada enquanto bebia um uísque.

Sem outra escolha, senão enfrentar aquela cara fechada, Ka­tlin aproximou-se.

— Se importa se me sentar aqui? Ele a olhou com frieza e desprezo.

— Por favor, só quero conversar — ela disse rapidamente, ao vê-lo dar sinais de que ia se levantar. — Será que não po­deria me pagar uma bebida?

— Katy... Nós não podemos começar de novo. Ela puxou a cadeira e se sentou.

— Rogan, o que aconteceu entre nós afinal? Meu casamento com Graham está desfeito... Não importa de quem tenha si­do a decisão. Portanto, agora, você e eu estamos livres pa­ra... Para levar adiante nosso relacionamento.

— Nós não temos um relacionamento.

— É por isso que estou aqui. — E o encarou firme. — Vo­cê queria ter um caso. Eu estou pronta.

— Você queria se casar...

— Mas não quero mais. Eu aceito o tipo de relação que você me ofereceu, porque é você que eu quero.

— Agora?

As mãos de Katlin chegaram a umedecer diante da forma fria com que Rogan discutia a possibilidade de os dois irem para a cama. Sentiu uma frustração deprimente, mas, não de­sanimou.

— Sim.

Rogan inclinou a cabeça e afastou a cadeira, levantando-se. — Está bem, vamos lá. Katlin ergueu-se também.

— Vamos... Para onde?

— Para minha suíte, é claro. É lá que está a cama.

Ele a estava insultando deliberadamente, prova de que ainda estava zangado. A intenção dela era apenas preparar-lhe uma armadilha, mas com amor, nunca com artifícios. Se pelo menos aquele homem não fosse ainda tão estranho aos olhos dela!...

Em silêncio os dois saíram do bar e pegaram o elevador. A suíte tinha toda a elegância e conforto que o hotel anuncia­va. Katlin observou o luxo reinante nas dependências e seguiu Rogan até o quarto anexo sem se dar conta de que já estava bem próxima à cama dele.

— O banheiro é logo ali — ele apontou para uma porta fe­chada num dos cantos do aposento.

— Eu... Bem... Eu pensei que podíamos tomar um drinque antes.

— Por quê?

— Rogan, nós precisamos... Ir direto para a cama? Ele deu de ombros.

— Pensei que era isto que você queria.

Lágrimas encheram os olhos de Katlin. Ele não podia estar falando sério. Será que pretendia fazer amor com ela de ma­neira tão mecânica.

— Rogan, você precisa ser tão sórdido? Vir até aqui não foi tão fácil para mim...

— Então por que veio?

Ela o amava mais do que pensara ser possível um dia! Era como uma dor no peito que não cessava nunca. Mas, ao invés de ficar na defensiva, como Rogan esperava, atacou.

— Eu não vim até aqui para me oferecer a você como se fosse uma prostituta. E nem quero ser tratada como uma de­las! Portanto se você...

— Sinto muito — suspirou ele de súbito. — Eu ainda es­tou zangado por causa da nossa conversa desta tarde. Mas sei muito bem que você não é uma prostituta. Vamos até a sala tomar um drinque.

A mão de Katlin tremeu um pouco quando pegou o copo de sherry que ele lhe estendeu. Em silêncio bebeu agradecida. Rogan deixara a zanga de lado, mas ainda estava distante. Ela, desconcertada, não sabia o que fazer. Por fim resolveu aca­bar com o clima pesado existente entre eles.

— Acho que vou aproveitar a sua oferta e usar o banheiro agora.

Rogan a estudou com cuidado.

— Você parece muito nervosa. "Como uma noiva!", ela pensou.

— Eu não... Nós dois ainda nem somos amigos, não de ver­dade. Parece um pouco... Frio irmos para cama juntos nestas circunstâncias.

— Katy, não estou disposto a ficar aqui sentado tendo uma conversa cortês.

Katlin suspirou. Rogan tinha razão. O quanto antes aquilo tudo passasse, melhor. Eles poderiam começar um relaciona­mento mais prazeroso.

— Não vou demorar — prometeu ela.

— Se você demorar muito irei atrás de você.

Katlin sorriu e foi para o banheiro. Lá tirou a roupa. A água do chuveiro caía como se fosse agulha na sua pele. Depois de se acalmar, se enxugou e vestiu um robe de toalha que Rogan deixara pendurado do lado de fora da porta.

Ao voltar para o quarto o viu estendido na cama, comple­tamente nu.

Ele se ergueu, e passou por ela rapidamente.

— Volto em poucos minutos — prometeu, entrando no ba­nheiro.

Katlin cobriu o rosto com as mãos. Não podia continuar com aquela história. Tudo soava frio e insensível. Ela amava Rogan sim, mas não a ponto de fazer sexo mecanicamente, sem ser correspondida em seus sentimentos.

Ainda com as roupas presas no braço, sentou na cama e as vestiu de novo, antes que o chuveiro fosse desligado e Rogan voltasse para o quarto.

Em seguida achou um bloco de notas ao lado do telefone

"Sinto muito. Eu te amo", escreveu no papel antes de fe­char a porta da suíte com cuidado e partir.

 

Katlin apalpou o belo vestido amarelo com cuidado, imagi­nando como seria quando entrasse na igreja naquele dia.

Glória e Graham iam se casar e ela, um mês depois de des­manchado o casamento, era uma das madrinhas.

A última coisa que desejava era comparecer a uma cerimô­nia daquele tipo, mas diante dos pedidos insistentes dos noi­vos não tivera como recusar. Além disso, sua ausência poderia ser mal interpretada e ela não estava disposta a alimentar uma rivalidade com Glória que na essência não existia.

A prova é que ajudara Glória com os preparativos. O que lhe servira para preencher as horas vagas, caso contrário teria ficado o tempo todo pensando em Rogan.    

O pai lhe informara que Rogan voltara para os Estados Unidos e que não fazia idéia quando o sócio retornaria à Inglaterra.

Fora um longo mês para Katlin. Mesmo considerando que tomara a decisão certa, várias vezes se arrependera de não ter ficado com Rogan pelo menos por uma noite.

— Querida, era Glória no telefone há pouco — disse a mãe entrando no quarto. — Ela perguntou se você poderia ir lá agora, e não mais tarde. Parece que o cabeleireiro não acer­tou o penteado e ela quer que você a ajude a refazê-lo. Prova­velmente o cabelo deve estar bom do jeito que está. Mas a noiva nunca acha que está bonita o suficiente.

Katlin consultou o relógio. Ainda faltavam três horas para o casamento.

— Talvez seja melhor eu levar meu vestido junto agora — decidiu. — Acho que não terei tempo de voltar para me trocar.

Ela arrumou uma pequena valise de mão com objetos pes­soais e, com o vestido pendurado no cabide, se dirigiu para a garagem.

Katlin não estava muito atenta ao tráfego naquela manhã calma de sábado. Havia algum tempo que um BMW verme­lho parecia segui-la. Ela só se deu conta disso quando o carro quase colou ao seu pára-choque!

Irritada, mudou o itinerário e virou a esquina. O outro veí­culo a acompanhou, forçando-a para o acostamento.

Katlin parou a Mercedes e saiu do carro furiosa, decidida a falar com o motorista que estacionara atrás dela. Não con­seguiu, porém, pronunciar uma só palavra ao deparar com um par de olhos verdes e irônicos.

— Você podia ter provocado um acidente há pouco! — disse a Rogan, ofegante.

Ele apoiou o braço na janela.

— Uma pequena variação. Mas não é verdade — provo­cou ele, exatamente da mesma maneira que o tinha feito um mês atrás. — Do ponto onde eu estava, podia ver tudo com precisão.

— O seu ponto era o lado oposto da rua! Rogan, você está horrível!

A perda de peso não lhe ficara bem. Havia sinais de fadiga ao longo do nariz e ao redor da boca.

— Perda de apetite e insônia a deixariam assim também. Katlin custava a acreditar que ele estivesse ali, e menos ain­da que os dois conversassem amigavelmente.

— Por que não entra? — Rogan convidou, indicando o as­sento ao seu lado.

— Estava indo para a casa de Graham.

— Eu sei. Vocês dois são bastante complicados mesmo! Ser a madrinha do enlace do homem com quem deveria ter se casado um mês atrás era um tanto incomum. Mas, se ela não se importava, por que os outros deveriam?

— Eu acho que é um pouco... Inesperado — concordou pen­sativa. — Mas, como nenhum de nós se importa, não vejo por­que a opinião dos outros deveria contar.

— Entre no carro, Katy — ordenou Rogan. — Preciso fa­lar com você.

— Rogan...

— Por favor.

— O que acha que nós ainda temos para dizer um ao outro?

— Entre no carro e ficará sabendo.

Katlin o encarou perturbada. Não entendia por que ele apa­recera de repente depois de um mês de total silêncio.

— Outro carro alugado, Rogan? — Ela entrou no BMW. — Você tem um gosto bastante caro. Você... Ei, o que pensa que está fazendo?

Katlin mal teve tempo de fechar a porta e ele colocou o pé no acelerador, fazendo-a cair para trás no banco.

— Coloque o cinto de segurança.

— Rogan, eu não...

— Quer que eu faça por você?

— Não é necessário. Rogan, seja lá para onde você está me levando, não tenho tempo para brincadeiras agora. Preciso chegar à casa de Graham. Talvez possamos conversar depois do casamento se...

— Depois do casamento será tarde demais. Katlin ficou desapontada.

— Então esta é uma visita rápida?

— Não.

— Mas...

— Katy, preciso falar com você, mas não pretendo fazer isto num carro em alta velocidade numa rodovia.

— Rogan, realmente não tenho tempo agora. O ca­samento...

— Você ainda poderá fazê-lo... Se quiser — acrescentou ele cheio de mistérios.

— O que você...

— Katy, não me lembro de você ser uma tagarela.

Ela recostou-se no banco angustiada, esperando que Gló­ria conseguisse dar um jeito no cabelo sozinha, pois com cer­teza não poderia ajudá-la!

Passado alguns minutos, Rogan estacionou o carro em frente ao hotel que costumava se hospedar. Sem estranhar, Katlin deixou que ele a conduzisse direto para a suíte. Se o que ele tinha para discutir não podia ser feito num carro, muito me­nos numa recepção de hotel!

Uma vez na suíte, Katlin sentou no sofá à espera do que Rogan diria. Sem esconder o nervosismo ele enfiou as mãos no bolso da calça jeans e começou:

— Aquele bilhete que você deixou aqui naquela noite... Es­tava falando sério?

Katlin suspirou. Não podia acreditar naquele ataque repen­tino de lucidez depois de um mês de silêncio!

— Que eu sentia muito? É claro, eu...

— Que você me ama? Ela desviou os olhos.

— Já te disse isto antes.

— E agora?

Katlin respirou fundo, indignada.

— Não sou tão volúvel como pensa. Sei que minha decisão de não casar com Graham foi súbita, mas me apaixonar por você foi mais inesperado ainda!

— Mas então por que você resolveu voltar atrás neste mal­dito casamento?

— Mas...

— Eu passei o último mês analisando meus sentimentos por você, dizendo que eu estava errado ao seu respeito, só para che­gar aqui e descobrir que você decidiu ir em frente com este maldito casamento de novo! Como você pode ser tão in­constante?

— Não sou... Que sentimentos tem por mim? Rogan fechou a cara.

— Tinha jurado que isto nunca mais aconteceria comigo, tinha certeza que não, mas... Eu acho que te amo!

— Acha?

— Está bem, estou apaixonado por você! Por uma moci­nha mimada que não consegue se decidir com quem vai se casar!

Ela engoliu em seco e arregalou os olhos.

— Casar?

— Sim. — Rogan estava tão próximo que Katlin podia lhe sentir o hálito. — E como não consegue se decidir, eu o farei. Você vai se casar comigo?

— Mas...

— Sem, mas, Katy. Vou fazer amor com você até que este­ja tão fraca a ponto de só conseguir dizer sim.

— Agora? — perguntou ela, enquanto ele lhe tomava as mãos.

— É claro que agora. — E a levou em direção ao quarto.

— Rogan, sobre Graham...

— Agora não, Katy — ele desabotoou-lhe a blusa. — Agora definitivamente não é hora de discutir sobre Graham Simond-Smith!

Talvez não fosse mesmo. Gemendo baixinho, Katlin deixou que ele deslizasse a boca pelos seus seios. Ele era tão bonito nu. Ela já havia reparado na última vez em que se viram. Fi­cou inteiramente à vontade com Rogan. Todas as intimidades que trocaram antes serviram para facilitar o contato dos dois. Com muita naturalidade, Katlin despiu-se e permitiu que ele a visse inteira.

— Você é tão perfeita, Katy — murmurou ele, os olhos ar­dentes. — Tão bonita!

— Então é só o meu corpo que você quer — provocou ela trêmula.

— Eu quero você inteira, Katlin O’Rourke. Até esta lín­gua afiada — murmurou ele, apossando-se da sua boca com fervor. — Eu te amo, Katy. Eu te amo demais!

Ela nunca pensara escutar aquelas palavras. Era como se Rogan provasse o seu desejo e amor possuindo-a. Como res­posta, o acariciou sem reservas, ávida pela consumação do ato de amor.

Ele se moviam em uníssono, lábios colados, as mãos tocan­do, explorando, até alcançarem o prazer máximo da relação.

Katlin jamais conhecera tanta satisfação. Ao final, aninhou-se junto ao peito de Rogan, os corpos ainda ofegantes e úmidos.

— Eu pensava... Eu esperava... Meu Deus, Katy, como você pôde pensar em dar este presente a outro homem que não eu! — E a abraçou com força.

— Eu não...

— Aquela noite que você esteve aqui e então fugiu enquanto eu estava no chuveiro, cheguei a pensar que você nunca tinha estado com um homem. Você estava tão nervosa, sem saber direito o que fazer. Por que, Katy?

— Porque antes de te conhecer, nunca desejei ninguém desta maneira.

— Nem mesmo Graham?

— Não — disse ela, sem hesitar. — Não que eu o achasse repulsivo, é claro, mas ele nunca me instigou como você.

— Então por quê...

— Rogan, o que o faz pensar que eu ia me casar com Gra­ham hoje?

Ele suspirou.

— Você nega que o casamento é hoje?

— Não... Mas eu não sou a noiva. — Ela apoiou-se no co­tovelo para observá-lo melhor. — Você estava certo sobre Gra­ham e Glória, eles se amam. E vão se casar hoje. Só estava indo até lá para ajudar Glória quando você me parou.

Rogan a encarou atento.

— Malditos, então!

— Quem?

— Seu pai e seu irmão. Malditos!

Ele se sentou na beira da cama, escondendo o rosto entre as mãos.

— Rogan! — Ela lhe acariciou os ombros. — Oh, céus, por favor, não chore. Não importa o que eles tenham feito você não precisa casar comigo. Você...

Ele retirou as mãos do rosto, e virou-se para ela, os olhos cheios de riso.

— Katy, é claro que eu tenho de casar com você; eu te amo. É com os meus sogros que eu tenho de ficar alerta!

Ela estava tão aliviada com a proposta de casamento que não se importou com a interferência de Brian e dos pais, convencendo Rogan a confessar seu amor. Mais tarde ela te­ria uma conversa com eles!

— Eu pensei que estava sendo tão discreto no assunto. — Rogan, sacudiu a cabeça. — Uma pergunta aqui, outra lá... E todo tempo eles sabiam exatamente o que eu estava fazendo!

— E o que você estava fazendo?

— Tentando descobrir como você estava sem ser muito ób­vio. E acho que fui o mais ingênuo de todos.

Katlin sorriu.

— Papai e Brian sabiam que eu estava apaixonada por você.

— Katy, comporte-se! — E afastou-se dela. — Como eles poderiam saber disto?

Ela deu de ombros.

— Porque eu contei. Agora me diga. O que foi que eles fi­zeram para que você me seqüestrasse de novo?

— Eu estava tão determinado a não sentir nada por você, que voltei para os Estados Unidos. Tinha certeza de que con­seguiria te esquecer. Mas sua imagem sempre me voltava à men­te. Eu pensava que se você realmente fosse à mulher mimada e volúvel que eu imaginava, não teria mudado de idéia naque­la noite. Também me ocorreu que você devia ter partido por­que me amava demais para se lançar numa experiência tão incerta.

Ela assentiu.

— Foi exatamente isso que senti.

— Depois de duas semanas, eu voltei para a Inglaterra, ain­da lutando contra o que eu sentia, mas desesperado para saber como você estava, o que estava fazendo. No começo seu pai men­cionou, casualmente, que você estava vendo Graham de novo. Então ele me disse que achava que vocês dois estavam armando outro casamento. E por fim, nesta manhã, seu irmão teve a ou­sadia de me telefonar e me convidar para a cerimônia!

— Isto é bem coisa de Brian.

— Não só de Brian — disse Rogan sério. — Sabendo que você ia se casar de novo com Graham, fui até sua casa esta ma­nhã determinado a te impedir de qualquer maneira. E foi sua mãe quem me disse que você tinha acabado de sair para a casa dele!

Katlin encarou-o surpresa, mas depois riu.

— Papai e mamãe nunca conseguiram guardar segredos um para o outro.

— E parece que eu não consigo ocultar um segredo da sua família! Talvez quando estivermos casados e felizes eles me dei­xem em paz.

— Você tem certeza de que quer casar, Rogan? — ela per­guntou insegura. — Seu último casamento...

— Não foi nada parecido com o que está acontecendo ago­ra. E você não é nada parecida com minha ex-esposa. Eu des­confiei que você fosse virgem quando fugiu aquela noite. Pat teria usado isto contra mim.

— Eu esperava que você não percebesse — admitiu Katlin.

— Céus, mas eu nunca iria te deixar envergonhada por cau­sa da sua virgindade — murmurou ele. — Pat me escolheu co­mo o marido ideal depois de uma série de amantes. Eu era rico, viajava muito a negócios. Eu era perfeito. Fui enganado por ela já nos dois primeiros meses de casamento, quando descobri que o motorista, que ela exigira para impressionar os amigos, tam­bém dividia a cama com ela durante a minha ausência. Pat, na época, argumentou que só tinha acontecido uma vez, que ela se sentia sozinha durante minhas viagens, portanto, nós tenta­mos de novo. Seis meses depois, um amigo meu me contou o que ninguém mais teve coragem de dizer: Pat tinha ido para a cama com mais de uma dúzia de nossos empregados. Quando cortejou Greg, ele decidiu que era hora de me contar. É claro que Pat inventou uma versão da história bem diferente, mas como Greg e eu éramos amigos desde a universidade... Ela me tirou cada centavo que queria para me dar o divórcio, e eu deixei. Eu só a queria fora da minha vida.

Katlin ficou quieta depois daquelas revelações. Agora enten­dia toda a desconfiança de Rogan. Por isto, ele havia pensado que ela queria trocar Graham, um homem razoavelmente rico, Por ele, um milionário. A vida o ensinara a desconfiar de qual­quer pessoa.

— Já disse, nós não precisamos nos casar.

— E se meu filho já estiver dentro de você? — provocou ele. — Porque tenho certeza que uma garota inocente como você não pensou em anticoncepcionais.

— Ora, isto não seria motivo para se casar! — ela reagiu fu­riosa. — Nós...

— Nós — repetiu ele satisfeito. — Você e eu. Nós. É assim que vai ser Katy. Como marido e mulher. Só o casamento vai satisfazer o amor que eu sinto por você.

— Não me lembro de ter feito amor até ficar fraca o sufi­ciente para só conseguir dizer sim — provocou ela.

— Isto vai ter de esperar, querida. — Rogan a ajudou a le­vantar. — Nós temos de comparecer a um casamento, lembra? Não quero ser acusado de fazê-la perder este também! Podere­mos nos amar o quanto quisermos depois de termos visto Gra­ham e Glória seguramente casados. Então poderemos discutir nosso casamento com seus pais.

— Sei de um lugar maravilhoso para a lua-de-mel — disse irônica.

— Harry já aceitou minha oferta de comprar a casa.

— Mesmo?

— Mesmo. E agora sobre o casamento... Você vai vestir bran­co, é claro. Mas não aquele vestido que você escolheu para Graham.

— Você é ciumento mesmo, hem? — zombou Katlin, enquan­to se vestia.

— Incurável.

Katlin nunca se sentira tão feliz!

— Então está bem, faremos tudo juntos. Será sempre assim, não é?

Rogan pousou-lhe a mão nas costas.

— A vida à qual você vai se acostumar agora é me amar, dia e noite.

Katlin abraçou-o com carinho.

— Você é um pirata!

— É melhor acreditar nisso! Ela sabia mais do que ninguém.

 

 

                                                                  Carole Mortimer

 

 

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