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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


REI RATO - P.2 / James Clavell
REI RATO - P.2 / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

ERA pouco depois da aurora.

Deitado na sua tarimba, Peter Marlowe dormitava.

"Foi um sonho?", perguntou ele a si próprio, subitamente acordado. Então os seus dedos cautelosos tocaram no pequeno pedaço de pano que continha o condensador e ele soube que não era um sonho.

Ewart torceu-se na tarimba de cima e bocejou, acordado.

- Mahlu na noite - disse ele, pendurando as pernas para fora da tarimba.

Peter Marlowe lembrou-se de que era a vez de o seu pelotão limpar os furos. Saiu da barraca e foi acordar Larkin.

- Eh! ó Peter - disse Larkin, tentando vencer o sono. - Que se passa?

Foi difícil a Peter Marlowe não divulgar a notícia do condensador, mas queria esperar até que Mac lá estivesse também; por isso disse apenas:

- Tarefa dos furos, meu velho. - Raios me partam! Que mais?

Larkin distendeu as costas, doridas, reapertou o sarong e enfiou os pés nos tamancos.

Encontraram a rede e a vasilha de vinte e dois litros e meio e atravessaram o campo, que começava a despertar. Quando chegaram à área das latrinas não deram atenção aos ocupantes e os ocupantes não lhes prestaram atenção a eles.

Larkin levantou a tampa de um furo e Peter Marlowe raspou rapidamente os lados com a rede. Quando tirou a rede do buraco, vinha cheia de baratas. Despejou a rede na vasilha e raspou de novo. Outra boa colheita.

 

 

 

 

Larkin voltou a pôr a tampa e avançaram para o furo seguinte.

- Segure bem isso - disse Peter Marlowe. - Olhe o que você fez! Perdi pelo menos cem.

- Há muitas mais - disse Larkin com repugnância, segurando Melhor a vasilha.

O cheiro era muito mau, mas a colheita era rica. Em breve a vasilha estava repleta. A mais pequena das baratas media quase quatro centímetros. Larkin enfiou a tampa na vasilha e seguiram para o hospital.

- Não é a minha ideia de uma boa dieta - disse Peter Marlowe.

- Você comia-as realmente, Peter, lá em Java?

- Claro. E você também, já agora. Em Changi. Larkin por pouco não deixou cair a vasilha.

- Quê?

- Você não vai pensar que eu passava por um petisco nativo e por uma fonte de proteínas, segundo os médicos, sem tirar proveito para mós. Ou vai?

- Quê? Mas nós tínhamos um pacto! - gritou Larkin. - Nós acordámos, nós três, que não cozinharíamos nada de estranho sem dizer aos outros primeiro.

- Eu disse ao Mac e ele concordou.

- Mas eu não, cum raio!

- Ora, ora, coronel. Tivemos de as apanhar e cozinhar em segredo e ouvimo-lo dizer que bem que cheirava o cozinhado. Somos tão esquisitos como o senhor.

- Bem, da próxima vez, quero saber. E isto é uma sacana de uma ordem!

- Sim, senhor - disse Peter Marlowe, com uma risadinha.

Entregaram a vasilha na cozinha do hospital, na pequena cozinha especial, donde se alimentavam os que estavam gravemente doentes.

Quando voltaram ao bungalow, Mac estava à espera. A pele dele tinha um tom cinzento-amarelado, os olhos estavam injectados de sangue e -as mãos tremiam-lhe, mas já vencera a febre. Já sabia sorrir.

-É bom ter-te de volta, pá - disse Larkin, sentando-se.

-Gradas.

Peter Marlow tirou, como se nada fosse, o pequeno pedaço de pano.

- Ah, a propósito - disse com estudada indiferença -, isto pode vir a ser útil.

Mac foi ver o que estava dentro, sem entusiasmo.

- Ai, que me dá uma coisa! - exclamou Larkin.

- Raios te partam, Peter! - disse Mac, com as mãos a tremer. Queres que eu tenha uma síncope cardíaca?

Peter Marlowe manteve a voz tão neutra como o rosto.

- Não vale a pena ficarem tão excitados por tão pouco.

Mas não pôde conter por mais tempo o sorriso. Estava radiante.

- Tu e o teu joguinho escondido! - Larkin tentava mostrar-se castigador, mas estava também radiante. - Onde o arranjaste?

Peter Marlowe encolheu os ombros.

- Pergunta estúpida. Desculpa, Peter - disse Larkin, contrito. Peter Marlowe sabia que nunca mais lhe perguntariam nada. Era muito melhor que não soubessem da aldeia.

Agora era o lusco-fusco.

Larkin estava de guarda. Peter Marlowe estava de guarda. A coberto do seu mosquiteiro, Mac ligou o condensador. Depois, incapaz de esperar mais tempo, Mac ligou, com uma prece, o fio de ligação à tomada eléctrica. Coberto de suor, escutou num só auscultador.

Uma agonia de espera. Abafava-se debaixo da rede e os muros de cimento e o chão de cimento conservavam o calor do sol-poente.

Os seus dedos, tensos e húmidos do suor que lhe escorria pelos braços, escorregavam na chave de fendas. Limpou-os. Delicadamente, encontrou o parafuso que fazia girar o botão e começou a apertá-lo devagar, muito devagarinho. Estática. Só estática. Depois, subitamente, ouviu a música. Era um disco de Glenn Miller.

A música parou e um locutor disse: "Aqui Calcutá. Vamos continuar o recital de Glenn Miller com o seu disco Moanlight Serenade."

Pela porta aberta, Mac podia ver Larkin agachado nas sombras e, para além dele, homens que passeavam no corredor entre as duas filas de bungalows de cimento. Tinha vontade de correr lá para fora e gritar-lhes: "Eh, rapaziada, quereis ouvir as notícias? Acabo de apanhar Calcutá!"

Mac ouviu mais um minuto e depois desligou o rádio e voltou a pôr cuidadosamente os cantis nas suas capas de feltro cinzento-esverdeado e deixou-os negligentemente em cima da cama. Haveria uma nova emissão de notícias de Calcutá às dez horas; por isso, para poupar tempo, Mac escondeu o fio e o auscultador debaixo do colchão, em vez de os pôr no terceiro cantil. Estivera tanto tempo agachado debaixo do mosquiteiro que, quando se pôs em pé, sentiu uma dor nas costas que o fez gemer. Larkin olhou para ele do seu posto lá fora.

- Que se passa, pá? Não consegues dormir?

- Não, pá - respondeu Mac, saindo a agachar-se ao lado dele.

- No teu primeiro dia fora do hospital não devias cansar-te. Larkin não precisava que lhe dissessem que a coisa resultara.

Os olhos de Mac brilhavam de excitação. Larkin deu-lhe um murro por brincadeira.

- Es um gajo porreiro, meu sacana.

- Onde está o Peter? - perguntou Mac, sabendo que ele estava de guarda aos chuveiros.

- Está ali. Aquele estúpido está ali sentado.

- Eh. mahlu sana!-chamou Mac.

Peter Marlowe já sabia que Mac acabara, mas levantou-se, veio até ele e disse "mahlu sendiris", que quer dizer "ma/z/u tu mesmo". Também ele não precisava que lhe dissessem.

- Que tal uma partida de brídege? - perguntou Mac. -Quem é o quarto?

- Eh, Gavin - chamou Larkin. - Queres ser o quarto?

O major Gavin Ross arrastou as pernas da cadeira do campo. Apoiando-se numa muleta, veio do bungalow ao lado. Estava satisfeito pelo convite para um jogo. As noites eram sempre más. Coisa tão desnecessária, a paralisia; outrora um homem e agora coisa nenhuma. Pernas inúteis. Cadeira de rodas para toda a vida.

Fora atingido na cabeça por um pequeno estilhaço de obus, pouco antes de Singapura se render. "Nada com que tenha de preocupar-se", tinham dito os médicos. "Podemos tirá-lo logo que você possa ir para um hospital decente, com o equipamento adequado. Temos muito tempo." Mas nunca houve um hospital decente com um equipamento adequado e o tempo passara.

- Cos demónios - disse ele, ao instalar-se no pavimento de cimento.

Mac encontrou uma almofada e aconchegou-o.

- Obrigado, amigo!

Levou-lhe um bom bocado a instalar-se, enquanto Peter Marlowe ia buscar as cartas e Larkin arranjava espaço entre eles. Gavin levantou a perna direita e afastou-a do caminho, desligando a mola que prendia a biqueira da bota à correia que lhe rodeava a perna, mesmo por baixo do joelho. Depois afastou a outra perna, também paralisada, e encostou-se à almofada colocada contra a parede.

- Está melhor assim-disse, afagando o seu bigode à Kaiser Guilherme com um rápido movimento nervoso.

- Como vão as dores de cabeça? - perguntou Larkin automaticamente.

- Não vão pior, meu velho - respondeu Gavin automaticamente. - É você o meu parceiro?

- Não. Você pode jogar com o Peter.

- Oh, céus! Esse tipo corta-me sempre os ases.

- Isso foi só uma vez - disse Peter Marlowe.

- Uma vez por noite - riu Mac, que começava a dar.

- Mahlu.

- Duque de espadas. - E Larkin abriu com um floreado. O jogo decorria com fúria e veemência.

Alta noite, Larkin bateu à porta de um dos bungalows.

- Sim? - Era Smedly-Taylor, espreitando na noite.

- Desculpe incomodá-lo, Sir.

- Oh! Olá, Larkin. Sarilho?

Havia sempre sarilho. Perguntava a si próprio que teriam aqueles australianos feito desta vez, enquanto se levantava da cama, cheio de dores.

- Não, Sir. - Larkin assegurou-se de que ninguém podia ouvi-lo. As suas palavras foram calmas e firmes: - Os Russos estão a uns sessenta e cinco quilómetros de Berlim. Manila foi libertada. Os Americanos desembarcaram em Corregidor e em Iwo Jima.

- Tem a certeza, homem?

- Tenho, Sir.

- Quem ... - Smedly-Taylor deteve-se. - Não, não quero saber nada. Sente-se, coronel - disse calmamente. - Tem a certeza absoluta?

- Absoluta, Sir.

- Só posso dizer, coronel - disse o mais velho, num tom solene e neutro-, que não posso fazer nada por quem for apanhado com... por quem for apanhado. - Nem quis pronunciar a palavra rádio. Não quero saber nada disso. - A sombra de um sorriso percorreu o rosto de granito e suavizou-o. - Só lhe peço que o guarde com a sua vida e me diga imediatamente quando ouvir alguma coisa.

- com certeza, Sir. Nós propomos...

- Não quero ouvir nada. Só as notícias. - com um ar triste, Smedly-Taylor pôs-lhe a mão no ombro. - Desculpe.

- É mais seguro, Sir.

Larkin ficou satisfeito por o coronel não querer conhecer o plano que era o deles. Tinham decidido que diriam só a duas pessoas cada um. Larkin diria a Smedly-Taylor e a Gavin Ross; Mac.diria ao major Tooley e ao tenente Bosley, ambos amigos pessoais; e Peter diria ao Rei e ao padre Donovan, o capelão católico. Cada um deles devia passar as notícias a duas pessoas que conhecesse bem e em quem confiassem, e assim por diante. Larkin pensou que era um bom plano. Correctamente, Peter não divulgara donde veio o condensador. bom rapaz, aquele Peter.

Tarde nessa noite, quando Peter Marlowe regressava à sua barraca depois de ter visitado o Rei, Ewart estava acordado. Deitou o Nariz de fora da rede e disse, excitado, embora em voz baixa:

- Peter, ouviste as notícias? -Que notícias?

- Os Russos estão a sessenta e cinco quilómetros de Berlim. Os Americanos desembarcaram em Iro Jima e em Corregidor.

Peter Marlowe sentiu o pavor interior. "Oh, meu Deus, tão cedo!" - Boatos, Ewart. Disparates parvos.

Não são, não, Peter. Há um movo rádio no campo. Coisa boa.

Não é boato. Não é maravilhoso? Oh, meu Deus, esquecia-me do melhor. Os Americanos libertaram Manila. Já não falta muito, hem?

- Eu, quando vir, acredito.

"Talvez devêssemos ter dito só a Smedly-Taylor e a mais ninguém", pensou Peter Marlowe ao deitar-se. "Se o Ewart sabe, não há falatório."

Nervosamente, escutou o campo. Quase se sentia a excitação crescente de Changi, O campo sabia que estava de novo em contacto.

Yoshima suava de medo quando se encontrava em sentido em frente do enfurecido general.

- Estúpido e incompetente - dizia o general.

Yoshima preparou-se para o bofetão que aí vinha e ele veio, com efeito, de mão aberta, em plena cara.

- Ou me encontras esse rádio ou voltas a magala. A tua transferência está anulada. Podes ir.

Yoshima fez uma continência perfeita e a sua vénia foi a perfeição da humildade. Saiu dos aposentos do general grato por se ter safo com tão pouco. Raios partissem os tinhosos dos prisioneiros!

Na caserna esbravejou contra o seu pessoal e esbofeteou-lhe os focinhos até a mão lhe doer. Por sua vez, os sargentos esbofetearam os cabos, estes os soldados e os soldados os coreanos. As ordens eram claras. Apanhem o rádio ou então...

Durante cinco dias nada aconteceu. Então, os carcereiros caíram sobre o campo e quase o desfizeram. Mas nada encontraram. O traidor dentro do campo não sabia ainda onde se encontrava o rádio. Nada aconteceu, a não ser que o prometido regresso às rações normais foi cancelado. O campo voltou a esperar longos dias, tornados mais longos pela falta de comida. Mas sabia-se que pelo menos havia notícias. Não boatos, mas sim notícias. E essas notícias eram muito boas. A guerra na Europa estava quase no fim.

Mesmo assim, havia um malefício que pairava sobre os homens. Poucos tinham reservas de comida. E as boas notícias traziam um veneno. Se a guerra acabasse na Europa, seriam mandadas mais tropas para o Pacífico. Eventualmente haveria um ataque às ilhas do Japão. E um tal ataque poria os carcereiros loucos. Represálias! Todos sabiam que havia um só fim para Changi.

Peter Marlowe caminhava para a área dos galinheiros, com o cantil dançando junto à anca. Mac, Larkin e ele tinham concordado que era talvez mais seguro usar os cantis o mais possível, para o caso de haver uma súbita busca.

Estava bem-disposto. Embora o dinheiro que ganhara tivesse há muito desaparecido, o Rei adiantara comida e tabaco contra futuros ganhos. "Santo Deus! Que homem!", pensou. "Se não fosse ele, o Mac, o Larkin e eu teríamos tanta fome como o resto de Changi."

O dia estava mais fresco. A chuva do dia anterior assentara a poeira. Eram quase horas de almoço. Ao aproximar-se dos galinheiros, acelerou o passo. Talvez hoje houvesse alguns ovos. Depois parou, perplexo.

Perto das capoeiras que pertenciam à unidade de Peter Marlowe estava uma pequena multidão, uma multidão irada e violenta. Viu, para surpresa sua, que Grey estava lá. Em frente de Grey, estava o coronel Foster, nu, se não fosse a sua suja tanga, aos saltos como um louco e a gritar incoerentemente contra Johnny Hawkins, que apertava, com fins protectores, o seu cão contra o peito.

- Olá, Max - disse Peter Marlowe ao chegar em frente das capoeiras do Rei. - Que se passa?

-Olá, Pete - disse Max com à-vontade, brincando com o ancinho. Não lhe escapou a instintiva reacção de Peter Marlowe ao "Pete". "Oficiais! Tenta-se tratar um oficial como um tipo normal, chamando-o pelo nome, e ele enfurece-se. Que vão para o Inferno!"

- Sim, Pete. - Repetiu-o, só para pôr as coisas no seu lugar. - Há bocado foi aqui um pandemónio. Parece que o cão do Hawkins entrou no galinheiro do Geek e matou uma galinha.

- Não me digas!

- Tenho a certeza de que lhe vão matar o bicho. Foster gritava:

- Quero outra galinha e quero uma indemnização. O animal matou uma das minhas filhas; quero acusá-lo de assassínio.

- Mas, coronel - disse Grey, já a perder a paciência-, foi uma galinha, não foi uma criança. Não se pode a...

- As minhas galinhas são as minhas filhas, idiota! Galinha, criança, qual é a diferença? O Hawkins é um assassino nojento. Um assassino, está a ouvir-me?

- Escute, coronel. O Hawkins não lhe pode dar outra galinha - disse Grey, já irritado. - Ele pediu desculpa. O cão soltou-se da trela...

- Quero um conselho de guerra. O Hawkins é um assassino e o cão dele é outro. - A boca do coronel Foster espumava. - O maldito bicho matou a minha galinha e comeu-a. Comeu-a e só há penas onde havia uma das minhas filhas.

A resmungar, correu de súbito para Hawkins, unhas como garras, disposto a desfazer o cão, que Hawkins tinha ao colo, gritando:

- vou matar-te e ao sacana do teu cão!

Hawkins evitou Foster e empurrou-o. O coronel caiu por terra e o Rover gemia de medo.

- Já pedi desculpa - soluçou Hawkins.-Se tivesse dinheiro, teria muito gosto em lhe dar duas, dez galinhas. Mas não tenho! Grey... - Hawkins voltou-se desesperadamente para ele -, por amor de Deus, faça alguma coisa.

-Que diabo posso eu fazer? - Grey estava cansado, irritado, e tinha disenteria. - Bem sabe que não posso fazer nada. vou ter de participar. Mas o melhor é desfazer-se desse cão.

- Que quer dizer com isso?

- Valha-me Nosso Senhor! - gritou Grey. - Quero dizer que se desfaça dele, que o mate. E, se não quer fazê-lo, arranje alguém que o faça. Contanto que já cá não esteja à noitinha.

- O cão é meu. Não pode mandar...

- Não posso, uma figa! - Grey tentava dominar os músculos do estômago. Gostava de Hawkins, sempre gostara, mas isso agora nada significava. - Você conhece as regras. Você foi avisado para o ter preso à trela e fora desta área. O Rover matou e comeu a galinha. Há testemunhas.

O coronel Foster levantou-se do chão, com os olhos negros e protuberantes.

- vou matá-lo. Tenho esse direito - ameaçou. - É olho por olho.

Grey pôs-se em frente de Foster, que se preparava para outro ataque.

- Coronel Foster, este caso será participado. O capitão Hawkins recebeu ordens para destruir o cão...

Foster parecia não ouvir Grey.

- Quero esse animal. vou matá-lo. Exactamente como ele matou a minha galinha. - E começou a avançar, salivando. - Exactamente como ele matou a minha filha.

Grey estendeu a mão.

- Não! O Hawkins vai matá-lo.

- Coronel Foster - disse Hawkins abjectamente -, suplico-lhe. Por favor, por favor, aceite as minhas desculpas. Deixe-me conservar o cão. Não voltará a acontecer.

- Não, não voltará. - O coronel Foster teve um riso de louco.

- Ele está morto e é meu. - Ia precipitar-se, mas Hawkins recuou e Grey agarrou o braço do coronel.

- Pare com isso! - gritou Grey. - Pare com isso ou dou-lhe voz de prisão! Não são maneiras de um oficial superior se conduzir. Afaste-se de Hawkins, afaste-se!

Foster soltou o braço de Grey. A sua voz era pouco mais que um sussurro enquanto falava com Hawkins directamente.

- Hei-de fazer as contas contigo, assassino. Hei-de fazer as contas contigo!

Entrou no galinheiro e rastejou lá para dentro, para a sua casa, para o lugar onde vivia, dormia e comia com as suas filhas, com as suas galinhas.

Grey voltou-se para Hawkins.

- Desculpe, Hawkins, mas desfaça-se dele.

- Grey-suplicou Hawkins-, por favor, retire a ordem. Por favor, suplico-lhe, farei o que quiser, o que quiser.

- Não posso. - Grey mão tinha alternativa. - Bem sabe que não posso, meu velho. Não posso. Desfaça-se dele. Mas depressa.

Rodou sobre os calcanhares e afastou-se.

As faces de Hawkins estavam molhadas de lágrimas; tinha o cão ao colo. Foi então que viu Peter Marlowe.

- Peter, por amor de Deus, ajuda-me.

-Não posso, Johnny. Tenho muita pena, mas não posso fazer nada. Nem eu nem ninguém.

Esmagado pela dor, Hawkins olhou em redor para os homens, silenciosos. Chorava agora sem rebuço. Os homens afastaram-se, pois nada havia a fazer. Se um homem tivesse matado uma galinha, bem, teria sido o mesmo, quase o mesmo. Um momento doloroso. Depois, Hawkins afastou-se, a soluçar, com o Rover ainda nos braços.

- Pobre homem - disse Peter Marlowe para Max.

- Pois, mas ainda bem que não foi uma das galinhas do Rei. Jesus! Era o fim do mundo.

Max fechou o galinheiro à chave e fez um aceno a Peter Marlowe de que se ia embora.

Max gostava de tratar das galinhas. Nada como um ovo extra de vez em quando. E não havia risco quando se sugava o ovo rapidamente e se desfazia a casca para voltar a pô-la na comida das galinhas. Não ficavam quaisquer vestígios. Além de que as cascas também são boas para as galinhas. E, cos diabos, que é um ovo, aqui e ali, dos do Rei? Desde que haja pelo menos um por dia para o Rei, não há problemas. Não, com mil raios! Max sentia-se verdadeiramente feliz. Durante toda uma semana ele iria tratar das galinhas.

Mais tarde, nesse dia, depois do almoço, Peter Marlowe estava deitado na sua tarimba, a descansar.

- Desculpe se incomodo, Sir.

Peter Marlowe ergueu os olhos e viu Dino em pé, junto à cama.

- Sim? - E olhou em volta da barraca e sentiu uma ponta de embaraço.

- Ah, posso falar-lhe, Sir?

Aquele "Sir" soava impertinente, como de costume. "Porque será que os Americanos não podem dizer Sir' de modo a dar-lhe um tom natural?" Peter Marlowe fez a pergunta a si próprio. Levantou-se e seguiu-o lá para fora.

Dino dirigiu-se ao centro do pequeno largo entre as barracas.

- Escute, Peter - disse Dino, apressado. - O Rei quer falar-lhe. E quer que leve o Larkin e o Mac.

- Que se passa?

- Ele só disse que os levasse. Devem ir ter com ele à prisão, cela nº 54, no 4º andar, dentro de meia hora.

Os oficiais não eram autorizados a entrar na cadeia. Ordens dos Japoneses, reforçadas pela polícia do campo. Santo Deus! A coisa é arriscada.

- Foi só isso que ele disse?

- Foi. Foi tudo. Cela nº 54, 4." andar, dentro de meia hora. Até à vista, Peter.

"Que se passará?", perguntava Peter Marlowe a si próprio. Foi logo ter com Larkin e com Mac e contou-lhes.

- Que é que pensas, Mac?

- Bem, rapaz, não julgo que o Rei nos chamasse aos três sem uma explicação se não fosse coisa importante.

- E se fôssemos à prisão?

- Se formos apanhados - disse Larkin -, é melhor termos uma história. O melhor é irmos separadamente. Eu posso sempre dizer que vou ver um dos australianos que foram acantonados na prisão. E tu, Mac?

- Alguns dos tipos do regimento malaio estão lá. Posso dizer que vou visitar um deles. E tu, Peter?

- Há vários tipos da R. A. F. que eu podia ir visitar. - Peter Marlowe hesitou. - Talvez fosse melhor eu ir ver do que se trata e voltar cá a dizer-vos.

- Não. Se não fores visto à entrada, podes ser apanhado à saída e detido. E, então, nunca mais te deixarão entrar. Não podíamos desobedecer a uma ordem directa e voltar uma segunda vez. Não. Penso que devemos ir. Mas devemos ir separadamente. - Larkin sorriu. - Mistério, hem? Que se passará?

- Espero que não seja nenhum sarilho!

- Ah, rapaz! - disse Mac. - Viver nestes tempos é sempre sarilho. Se não fosse, não me sentia seguro. O Rei tem amigos em altos postos. Pode saber qualquer coisa.

- Serão os cantis?

Pensaram um momento e depois Larkin rompeu o silêncio:

- Vamos buscá-los.

- Não é perigoso? Quero eu dizer, uma vez dentro da cadeia, se houvesse uma súbita revista, nunca poderíamos escondê-los.

- Se vamos ser apanhados, vamos ser apanhados. - Larkin estava sério e com uma expressão dura. - Ou está escrito ou não está.

- Eh, Peter- gritou Ewart, ao ver Peter Marlowe sair da barraca. - Esqueceste-te da braçadeira.

- Ah, obrigado. - Peter Marlowe praguejou para si próprio ao voltar à barraca. - Esqueci-me do raio dessa coisa.

- A mim está sempre a acontecer-me. Todo o cuidado é pouco.

- É verdade. Obrigado mais uma vez.

Peter Marlowe juntou-se aos homens que seguiam pelo carreiro ao lado do muro. Seguiu-o no sentido norte, voltou na esquina e diante dele estava o portão. Tirou a sua braçadeira e subitamente sentiu-se nu e sentiu que os homens que passavam ou se aproximavam olhavam para ele e se perguntavam por que motivo aquele oficial não levava braçadeira. À frente, a quase duzentos metros, era o fim da estrada de oeste. A barricada estava agora aberta, porque algumas das brigadas de trabalho estavam a regressar. A maior parte dos trabalhadores vinha exausta, rebocando as enormes vagonetas carregadas com os cepos de árvores que com tanto trabalho eram arrancados dos pântanos e se destinavam às cozinhas do campo. Peter Marlowe lembrou-se de que daí a dois dias iria numa dessas brigadas. Não o preocupavam as brigadas de trabalho quase diárias para o aeroporto. Isso era um trabalho fácil. Mas a tarefa da lenha era diferente. Arrastar os cepos era um trabalho perigoso. Muitos já tinham hérnias, por falta dos apetrechos que tornariam o trabalho menos pesado. Muitos partiam pernas e braços ou arranjavam entorses nos tornozelos. Tinham de ir todos, os aptos, uma vez por semana, oficiais e soldados, pois a cozinha consumia muita lenha - e era justo que os que eram aptos a apanhassem pelos que não o eram.

Ao lado do portão estava a P. M. e do lado oposto do portão estava o guarda coreano, encostado ao muro, a fumar, observando letargicamente os homens que passavam. O P. M. olhava para os homens da brigada de trabalho que se arrastavam portão adentro. Ia um homem deitado numa vagoneta. Um ou dois acabavam em geral deste modo, mas tinham de estar muito cansados ou muito doentes para serem transportados de volta a Changi.

Peter Marlowe passou pelos guardas, distraídos, entrou num dos blocos de celas e começou a subir as escadas metálicas. Havia homens por toda a parte. Nas escadas, nos corredores e nas celas, abertas quatro ou cinco numa cela prevista para um só homem. Sentia o horror crescente da tensão que vinha de cima, de baixo, de todo o lado. O fedor era nauseante. Fedor de corpos a apodrecer. Fedor de corpos humanos não lavados. Fedor de uma geração de corpos humanos encarcerados. Fedor de paredes, de paredes de prisão.

Peter Marlowe encontrou a cela nº 54. A porta estava fechada; por isso, abriu-a e entrou. Mac e Larkin já lá estavam.

- Jesus! O cheiro deste lugar mata-me.

- Também a mim, amigo - disse Larkin, que estava a suar. Mac estava a suar. O ar era pesado e as paredes de cimento

estavam húmidas com o seu próprio suor de paredes e manchadas pelo bolor de anos de suor de paredes.

A cela tinha cerca de dois metros de largura, cerca de dois e meio de comprimento e uns três de altura. Ao centro da cela, cimentada à parede, havia uma cama, um sólido bloco de cimento com noventa centímetros de altura por noventa de largura e um metro e oitenta de comprimento. Saindo da cama, um travesseiro de cimento. A um canto da cela havia a sanita: um buraco no chão, ligado ao esgoto. Os esgotos já não funcionavam. Havia uma minúscula janela gradeada a uns dois metros e setenta de altura, mas não se podia ver o céu, porque a parede tinha uns sessenta centímetros de largura.

- Mac. Damos-lhes alguns minutos e safamo-nos do sacana deste lugar - disse Larkin.

- Claro, pá.

- Pelo menos, vamos abrir a porta - disse Peter Marlowe, encharcado de suor.

- É melhor deixá-la fechada, Peter. É mais seguro - respondeu Larkin, pouco à vontade.

- Antes queria morrer que viver aqui.

- Pois é. Graças a Deus por estarmos lá fora.

- Olha, Larkin. - Mac indicou os cobertores que estavam na cama de cimento. - Não compreendo onde estão os homens que vivem nesta cela. Não podem estar num grupo de trabalho.

- Também não sei. - Larkin estava a ficar nervoso. - Vamos sair daqui...

A porta abriu-se e o Rei entrou, com um ar radiante.

- Olá, rapaziada!-Trazia os braços carregados de embrulhos e afastou-se para entrar Tex, igualmente carregado. - Põenos em cima da cama, Tex.

Tex pousou a placa eléctrica e a enorme caçarola e fechou a porta com o pé, perante o espanto dos outros.

- Vai arranjar água - disse o Rei a Tex.

- com certeza.

- Que se passa? Porque queriam vocês falar connosco? - perguntou Larkin.

O Rei riu-se.

- Vamos fazer um petisco.

- Valha-me Deus! Não me digas que nos fizeste vir aqui para isso? Por que diabo não havíamos de fazer isso na nossa caserna?

Larkin estava furioso. O Rei olhou para ele e sorriu. Voltou-se e abriu um embrulho. Tex voltou com água e pôs a caçarola em cima do fogão eléctrico.

- Rajah, olha o que...-Peter Marlow interrompeu-se. O Rei estava a deitar a maior parte de uns novecentos gramas de feijões katchang idju na água que Tex trouxera. Acrescentou-lhes sal e duas colheres bem cheias de açúcar. Depois voltou-se e abriu outro embrulho em folha da bananeira.

- Santa Mãe de Deus!

Caiu um súbito silêncio sobre a cela. O Rei estava encantado com o efeito da sua surpresa. -Eu não te disse, Tex? - E mostrou os dentes. - Deves-me um dólar.

Mac estendeu a mão e tocou na carne:

- mahlu. É autêntica. Larkin também tocou na carne.

- Já me esquecera de como era a carne - disse ele, numa voz que o espanto sufocava. - Raios me partam! Tu és um génio. Um génio!

- Faço hoje anos. Por isso, pensei que tínhamos de festejar. E arranjei isto - disse o Rei, mostrando uma garrafa.

- Que é?

- Saké!

- Não acredito - disse Mac. - Estão aqui os dois quartos traseiros de um porco. - Curvou-se para a frente e cheirou a carne. Meu Deus! É autêntica, verdadeira e fresca como um dia de Maio. Viva!

Todos se riram.

- É melhor fechar a porta, Tex. - O Rei voltou-se para Peter Marlowe. - Tudo bem, amigo?

Peter Marlowe ainda não tirara os olhos da carne.

- Onde a arranjaste?

- É uma longa história! - O Rei pegou numa faca, cortou a carne com perícia e pô-la na caçarola. Todos olhavam, fascinados, enquanto ele juntava uma porção de sal, ajustava a caçarola ao centro absoluto do fogão eléctrico e depois se sentou na cama de cimento e cruzou as pernas. - Nada mau, hem?

Durante um longo intervalo ninguém falou.

Uma súbita torção no puxador da porta quebrou o encanto. O Rei fez um sinal a Tex, que abriu a porta, primeiro uma nesga, para depois a escancarar. Brough entrou e olhou em redor, espantado. Depois, reparou no fogão. Deu uns passos em frente e foi espreitar a caçarola.

- Diabos me levem!

O Rei arreganhou a dentuça.

-É o dia dos meus anos. Pensei em convidá-lo para jantar.

- Pois aqui tem um convidado. - Brough estendeu a mão a Larkin. - Don Brough, coronel.

- O meu nome é Grani. Conhece o Mac e o Peter?

- com certeza. - Brough sorriu para eles e voltou-se para Tex: -Olá, Tex.

- Prazer em ver-te, Don.

- Sente-se, Don - disse o Rei, indicando a cama com a cabeça. Depois, vamos ter de trabalhar!

Peter Marlowe perguntava a si próprio porque seria que os americanos, quer soldados quer oficiais, se tratavam tão facilmente pelo nome próprio. E não se tornava ordinário nem untuoso, parecia quase correcto. E ele notara que Brough era sempre obedecido como chefe, embora fosse tratado por Don. Extraordinário.

- Que vem a ser isto? - perguntou Brough. O Rei exibia umas tiras de cobertores.

- Vamos ter de fechar bem a porta.

- Quê?!-disse Larkin, incrédulo.

- com certeza - disse o Rei. - Quando o cozinhado começar a cheirar, podemos ver-nos metidos num tumulto. Se os gajos sentem o cheiro disto, Nossa Senhora, imaginem lá! Podiam fazer-nos em bocados. Este era o único lugar onde eu pensei que podíamos cozinhar sossegados. O cheiro deve sair quase todo pela janela. Isto, se fecharmos bem a porta. Não podíamos cozinhar lá fora, isso é que é certo.

- O Larkin tinha razão - disse Mac solenemente. - És um génio. Nunca teria pensado. Acreditem-me-acrescentou, rindo-, os americanos, daqui para diante, fazem parte dos meus amigos!

- Obrigado, Mac. E agora mãos à obra.

O convidado do Rei pegou nas tiras de cobertor e meteu-as cuidadosamente nas frinchas em volta da porta e cobriu o pequeno postigo gradeado. Quando acabou o trabalho, o Rei veio inspeccionar.

- Está bom - disse. - E agora a janela?

Olharam para o pequeno pedaço de céu que fazia de fundo às grades e Brough disse:

-Deixemo-la aberta até o guisado começar a ferver. Depois fechamo-la até podermos aguentar. Então abrimo-la uns instantes.

Olhou em volta.

- Creio que seria bom deixar sair o perfume esporadicamente. Como um sinal de fumo dos índios.

- Há algum vento?

- Raios me partam se dei por isso. Alguém deu?

- Eh, Peter, dá-me uma boleia - disse Mac.

Mac era o mais baixo dos homens e Peter Marlowe deixou-o subir para os seus ombros. Mac espreitou pelas grades, depois molhou um dedo com cuspo e pô-lo de fora.

- Despacha-te, Mac. Não sei se sabes que não és nenhum franganito! - gritou Peter Marlowe.

- Tenho de estudar o vento, meu filho da mãe. E de novo lambeu o dedo e o deitou de fora; tinha um ar tão sério e tão ridículo que Peter Marlowe se começou a rir e Larkin também, e Mac acabou por cair da altura de um metro e oitenta, esfolou a perna na cama de cimento e começou a praguejar.

- Olhem para a sacana da minha perna. Raios vos partam! -disse Mac, sufocado. Era apenas um pequeno arranhão, mas havia uma risca de sangue. - Quase esfolei a perna toda.

- Olha, Peter - disse Larkin, agarrado ao estômago. - O Mac tem sangue nas veias. Eu pensava que ele tinha água chilre!

- Vão para o diabo, seus sacanas, mahlu!-disse Mac, zangado.

Mas um ataque de riso invadiu-o e ele agarrou-se a Peter Marlowe e a Larkin e começou a cantar: À volta das minhas rosas, onde pousam as mariposas [...]

E Peter Marlowe agarrou o braço de Brough e Brough pegou no de Tex, e a cadeia dos homens, histéricos com a canção, dançou em redor do guisado, com o Rei de perna cruzada atrás dele.

Mac interrompeu a cadeia.

( -Ave, César. Os que vão comer saúdam-te.

Como um só, fizeram-lhe a saudação e caíram-lhe em cima, num monte.

-Sai de cima do sacana do meu braço, Peter!

- Tens o pé em cima dos meus colhões, meu sacana! – praguejou Larkin para Brough.

- Desculpa, Grant. Oh, meu Deus, há muitos anos que não me ria tanto.

- Eh, Rajah - disse Peter Marlowe -, acho que todos devíamos mexê-lo uma vez, para dar sorte.

-Acho muito bem - disse o Rei.

Reconfortava-lhe o coração ver estes tipos tão felizes.

Solenemente, puseram-se em fila e Peter Marlowe mexeu o guisado, que começava agora a ficar quente. Mas pegou na colher e deu uma mexedela, proferindo uma bênção obscena sobre o guisado.

Larkin, para não ficar atrás, começou a mexer, dizendo:

-Ferve, ferve, ferve e borbulha...

- Você enlouqueceu? - disse Brough. - Citar Macbeth! Valhamos Deus!

- Que tem?

- Dá azar. Citar Macbeth! É como assobiar num camarim de teatro.

- Ah, é?

- Qualquer parvo sabe isso.

- Raios me partam! Nunca ouvi dizer tal coisa.-E Larkin franziu o sobrolho.

- De qualquer modo, a citação está errada - disse Brough. É: "Dobra, labuta a dobrar e tem cuidado; o fogo arde e o caldeirão borbulha."

- Não é, não, seu ianque. Eu conheço o meu Shakespeare!

- Aposto o arroz de amanhã.

- Cuidado, coronel - disse Mac, suspeitoso, conhecendo a propensão de Larkin para o jogo. - Ninguém devia apostar com essa Ligeireza.

- Eu tenho razão, Mac - disse Larkin, mas sem gostar da expressão de suficiência do rosto do americano. - Que te faz tão seguro de que tens razão?

- É uma aposta? - perguntou Brough.

Larkim reflectiu um momento. Gostava de jogar, mas o arroz do dia seguinte era uma parada demasiado alta.

- Não. Ponho o meu arroz na mesa das cartas, mas diabos me levem se o ponho em Shakespeare!

- É pena - disse Brough. - Uma ração extra vinha a matar. É o 4º acto, cena 1, linha 10.

- Como diabo pode você ser tão preciso?

- É natural. Eu estava a tirar um curso de letras, com incidência no jornalismo e na dramaturgia. Vou ser escritor quando me livrar disto.

Mac inclinou-se para a frente e espreitou para a panela.

- Invejo-te, rapaz. Escrever pode ser a profissão mais importante do Mundo. Se a escrita for boa.

- Isso é um disparate, Mac - disse Peter Marlowe. - Há milhões de coisas mais importantes.

- Isso só prova o pouco que tu sabes.

- O negócio é muito mais importante - interpôs o Rei. - Sem o negócio, o Mundo pararia. E, sem dinheiro e uma economia estável, não haveria ninguém para comprar livros.

- Ao diabo o negócio e a economia - disse Brough. - São apenas coisas materiais. Como disse o Mac.

- Mac - disse Peter Marlowe -, que é que faz a literatura ser tão importante?

- Bem, rapaz, em primeiro lugar é uma coisa que eu sempre quis fazer e não sei. Tentei muitas vezes, mas nunca consegui acabar nada. É a parte mais difícil: acabar. Mas a coisa mais importante é que os escritores são as únicas pessoas que podem fazer alguma coisa por este planeta. Um homem de negócios não pode fazer nada...

- Isso é uma parvoíce - disse o Rei. - E então Rockefeller? E Morgan, Ford e Du Pont? E todos os outros? É a filantropia deles que financia um ror de investigações, bibliotecas, hospitais e arte? Sem a massa deles...

- Mas eles ganharam o dinheiro que têm à custa de alguém - disse Brough secamente. - Bem podiam devolver alguns dos seus biliões aos homens que lhos deram a ganhar. Esses sugadores do sangue do povo...

- Suponho que você é democrata? - disse o Rei, com calor.

-Claro que sou. Veja o Roosevelt. Veja o que ele está a fazer pelo país. Deu-lhe um empurrão, no bom sentido, enquanto os republicanos...

- Isso é um disparate e você sabe-o bem. Nada a ver com os republicanos. Foi um ciclo económico...

- Estou-me marimbando para os ciclos económicos. Os republicanos...

- Eh, malta - disse Larkin, cordato -, deixemos a política para depois de comer... Que acham?

- Está bem - disse Brough, descontente.-Mas este tipo acredita em contos de fadas.

- Mac, porque é que a literatura é tão importante? Continuo a não perceber.

- Bem. Um escritor pode pôr num bocado de papel uma ideia, ou um ponto de vista. Se tiver valor, pode arrastar as pessoas, ainda que seja escrito em papel higiénico. E é ele o único, na nossa economia moderna, que pode fazê-lo... que pode mudar o Mundo.

Um homem de negócios não pode... a não ser com muito dinheiro. Um político não pode... a menos que tenha uma alta posição ou poder. O lavrador não pode, é evidente. Um contabilista não pode, não é verdade, Larkin? - com certeza.

- Mas você está a falar de propaganda - disse Brough. - Eu não quero escrever propaganda.

-Alguma vez escreveste para filmes, Don? - Nunca vendi nada a ninguém. Um gajo não é escritor enquanto não vendeu qualquer coisa. Mas os filmes são muito importantes. Sabes que o Lenine disse que os filmes são o meio de propaganda mais importante que alguma vez se inventou? - Viu que o Rei preparava um assalto. - E eu não sou comuna, meu filho da mãe, lá porque sou democrata.-Voltou-se para Mac:-Jesus! Se se leu Lenine, ou Estaline, ou Trotsky, é-se logo comuna.

- Bem, tens de admitir, Don - disse o Rei -, que muitos democratas são vermelhuscos.

- Desde quando é que ser-se pró-russo significa que um gajo é comunista? Eles são nossos aliados, bem sabes!

- Eu lamento isso... historicamente - disse Mac.

- Porquê?

- Depois, vamos ter montes de sarilhos. Especialmente no Oriente. Esses povos estão já a causar montes de problemas, mesmo antes da guerra.

- A televisão vai ser a primeira coisa - disse Peter Marlowe, observando um fio de vapor que dançava à superfície do guisado. Sabem, vi uma demonstração de Alexandra Palace, de Londres. O Baird está a emitir um programa uma vez por semana.

- Ouvi falar da televisão - disse Brough -, mas nunca vi. O Rei fez que sim com a cabeça:

- Eu também não, mas isso podia ser um negócio do catano.

- Não nos Estados Unidos, disso tenho a certeza - resmungou Brough. - Pensem nas distâncias! Não, isso poderia servir para um país pequeno como a Inglaterra, mas não num país a sério como os Estados Unidos.

- Que quer dizer com isso? - perguntou Peter Marlowe, empertigando-se.

- Quero dizer que, se não fôssemos nós, esta guerra duraria para sempre. Pois não é o nosso dinheiro, as nossas armas, a nossa força...?

- Escuta, meu velho. Nós estávamos muito bem sozinhos, dando-vos a vocês, seus panascas, o tempo de porem o cu a salvo. A guerra é tanto nossa como vossa.

Peter Marlowe olhou fixamente para Brough, que retribuiu o olhar.

- Bolas! Por que diabo não podem vocês, os Europeus, continuar a matar-se, como têm feito no passado, durante séculos, e deixar-nos sossegados? Tínhamos de vos evacuar, antes que...

E em menos de um fósforo, estavam todos a discutir e a praguejar e ninguém ouvia ninguém, e cada um tinha uma opinião muito firme e cada opinião estava certa.

O Rei ameaçava Brough com o punho fechado, Brough ameaçava com o seu em resposta e Peter Marlowe gritava para Mac, quando, de súbito, houve uma pancada na porta.

Silêncio imediato.

-Que bulha vem a ser essa? - disse uma voz.

- É você, Griffiths?

- Quem havia de ser? O Adolfo Hitler? Querem que vamos todos parar à cadeia?

- Não. Desculpe.

- Parem com esse sacana desse barulho!

- Quem é? - perguntou Mac.

- O Griffiths. A cela é dele.

- Quê?

-Claro. Alugámo-la por cinco horas. Três dólares à hora. Não se arranja nada por nada.

- Você alugou a cela? - perguntou Larkin, incrédulo.

- Exactamente. Este Griffiths é um homem de negócios - explicou o Rei. - Há milhares de homens aqui à volta, não é verdade?

Pois bem, este marujo aluga a cela a quem quer estar só. Não é a minha ideia de um santuário, mas o Griffiths faz um bom negócio.

- Aposto que não foi ideia dele - disse Brough.

- Não posso mentir-lhe, capitão. - O Rei sorriu. - Devo confessar que a ideia foi minha. Mas o Griffiths ganha o bastante para que ele e a sua unidade vivam muito bem.

- E quanto é que você ganha com isso?

- Só dez por cento.

- Se são só dez por cento, é justo - disse Brough.

- É - disse o Rei.

O Rei nunca mentiria a Brough, embora não fosse da sua conta que ele fazia ou deixava de fazer.

Brough curvou-se e mexeu o guisado. - Eh, malta, está a ferver.

Todos se apinharam à volta dele. Sim, estava realmente a ferver.

-Era melhor taparmos a janela. Dentro de um minuto, a coisa vai começar a cheirar.

Puseram um cobertor por cima do postigo gradeado e em breve a cela era só perfume.

Mac, Larkin e Tex acocoraram-se, encostados à parede, olhos postos na caçarola. Peter Marlowe sentou-se do outro lado da cama e, como era o que estava mais próximo, de vez em quando mexia o guisado.

A água fervia suavemente, trazendo à superfície os feijões em forma de crescentes, para depois voltarem a mergulhar vigorosamente nas profundezas do líquido. Uma baforada de vapor efervescente, que trazia consigo a verdadeira riqueza dos pedaços de carne. O Rei curvou-se e deitou uma mão-cheia de ervas nativas: twrmeric, kajang, huan, taka, cravo-da-índia e alho. Tudo isto aumentou o perfume. Quando o guisado fervera durante dez minutos, o Rei pôs a papaia verde na panela.

- Depois da guerra - disse -, um gajo podia fazer uma fortuna se descobrisse uma maneira de desidratar a papaia. É coisa para tornar um búfalo tenro!

- Os Malaios usavam-na sempre - respondeu Mac, mas ninguém o ouviu, nem ele, na verdade, se ouviu a si próprio, porque aquele perfume os envolvia.

O suor escorria-lhes pelo peito, pelos queixos, pelas pernas e pelos braços. Mas eles mal se davam conta do suor, como não se davam conta do ar abafado. Apenas sabiam que isto não era um sonho, que a carne estava ao lume, ali, diante dos seus olhos, e que em breve, muito em breve, comeriam.

- Onde a arranjaste? - perguntou Peter Marlowe, sem que, na realidade, isso lhe interessasse. Tinha apenas de dizer qualquer coisa, para quebrar o feitiço sufocante.

- É o cão do Hawkins - respondeu o Rei, sem pensar no que quer que fosse, a não ser: "Meu Deus! Será que isto cheira bem ou que sabe bem?!"

- O cão do Hawkins?

- Queres dizer o Rover? - O cão dele?

- Pensei que era um porquinho!

- O cão do Hawkins?

- Palavra de honra!

- Queres dizer que aquilo são os quartos traseiros do Rover? perguntou Peter Marlowe, consternado.

- com certeza - disse o Rei, e, agora que o segredo fora revelado, não se importava. - Ia dizer-vos depois, mas que importa? Agora já sabem.

Olharam uns para os outros, aterrados. Foi então que Peter Marlowe disse:

- Santa Mãe de Deus! O cão do Hawkins!

- Agora vejam - disse o Rei racionalmente. - Qual é a diferença? Era sem dúvida o cão mais limpo que alguma vez conheci. O que comia as coisas mais limpas. Muito mais limpo que um porco. E mais que as galinhas. Nem tem comparação. Carne é carne. Querem coisa mais simples?

Mac interveio:

- Está perfeitamente certo. Não há mal nenhum em comer carne de cão. Os Chineses comem-na normalmente. É um mimo. Sim. com certeza.

- Sim - disse Brough, meio enjoado. - Mas isso são os Chineses, e nós não somos chineses, e este é o cão do Hawkins!

- Sinto-me canibal - disse Peter Marlowe.

- Olhem - interveio o Rei. - É como o Mac disse. Não há mal nenhum em comer carne de cão. Cheirem-na. Santo Deus!

- Cheirem-na! - disse Larkin para todos eles. Era-lhe difícil

falar, porque a saliva quase o sufocava Eu só posso cheirar esse

guisado e é o melhor perfume que alguma vez cheirei. Não me interessa

saber se é o Rover ou não. Quero comer! -E esfregava o estômago quase doloridamente. - Não sei o que se passa com vocês, mas eu tenho tanta fome que até sinto cãibras. Este cheiro está a fazer qualquer coisa ao meu metabolismo que não é normal. - Também me sinto enjoado e isso não tem nada a ver com o facto de ser carne de cão - disse Peter Marlowe. Depois acrescentou, quase a choramingar: - Só não quero comer o Rover. - Olhou para Mac. - Como vais depois ter coragem de olhar para o Hawkins?

- Não sei, pá. Olho para o outro lado. Sim, penso que não vou poder olhá-lo de frente. - As narinas de Mac tremeram e ele olhou para o guisado. - Cheira tão bem!

- Claro - disse o Rei com brandura. - Quem não quiser comer pode sair.

Ninguém se mexeu. Depois todos se recostaram, perdidos nos seus próprios pensamentos, escutando o som da fervura, bebendo a fragrância, a magnificência.

- Quando se pensa bem, não é chocante-disse Larkin, mais para se persuadir a si próprio do que aos outros. - Pensem como nos afeiçoamos às nossas galinhas. Nem por isso deixamos de as comer e aos ovos.

- Ê verdade, pá. E lembra-te que gato que apanhávamos era gato que comíamos. Não nos importávamos, pois não, Peter?

- Não. Mas isso era um gato vadio. Isto é o Rover!

- Era! Agora é carne.

- Foram vocês que apanharam o gato - perguntou Brough, zangado contra sua vontade -, aquele de aqui há seis meses?

- Não, esse foi em Java. Brough fez apenas:

- Depois, olhou por acaso para o Rei. - Eu devia ter adivinhado - explodiu. - Meu grande sacana! E perdemos aqui quatro horas.

- Não devias mostrar-te tão enjoado. Nós apanhámo-lo. Foi mais uma vitória americana.

- Os meus australianos estão a perder o tacto - disse Larkin. O Rei levantou a colher, e a mão tremia-lhe enquanto provava o guisado.

- Sabe bem. - Depois espetou o garfo na carne. Estava ainda pegada ao osso. - Temos de esperar mais uma hora.

Passados dez minutos, voltou a experimentar.

- Talvez um pouco mais de sal. Que achas, Peter? Peter Marlowe provou. Estava bom, mesmo bom.

- Uma pitada. Só uma pitada!

Todos provaram, cada um por sua vez. Um toque de sal, mais uma fracção de huan, uma pitada de açúcar, um cheirinho de turmeric. E instalaram-se de novo para esperar na requintada câmara de torturas, quase asfixiados.

De tempos a tempos, tiravam o cobertor da janela e deixavam sair parte do perfume e entrar um pouco de ar fresco.

E o perfume pairou sobre a brisa para fora de Changi. E dentro da prisão, ao longo do corredor, resquícios de perfume escapavam-se pela porta e penetravam na atmosfera.

- Jesus! Smith, não te cheira?

- Claro que me cheira. Julgas que não tenho nariz? Mas donde vem isso?

- Espera um momento. Vem lá da cadeia, lá de cima!

- Aposto que aqueles sacanas daqueles amarelos estão a cozinhar da parte de fora do arame.

- Deve ser isso. Sacanas!

- Não creio que sejam eles. Parece-me que vem da cadeia.

- Oh, Jesus! Ouve o Smith. Olha para ele a apontar como o sacana de um cão.

- Digo-te que o cheiro vem da cadeia.

- É do vento. O vento vem dessa direcção.

- Os ventos nunca cheiraram assim até agora. É o que eu te digo. Estão a cozinhar carne. Carne de vaca. Apostava a minha vida. Guisado de carne de vaca.

-Nova tortura japonesa. Filhos da mãe. Que coisa suja!

- Talvez estejamos a imaginar. Dizem que se pode imaginar um cheiro.

- Mas como raio podemos imaginá-lo todos? Olha para os homens. Pararam todos.

-Quê?

- Tu disseste: "Dizem que se pode imaginar um cheiro." Quem é que diz?

- Santo Deus, Smith! É uma maneira de dizer.

- Mas quem é que diz?

- Oh, não, sei lá!

- Então pára de dizer "dizem" isto ou "dizem" aquilo. É de pôr uma pessoa doida.

Os homens que estavam na cela, os eleitos do Rei, viram-no pôr uma concha cheia numa marmita e passá-la a Larkin. Os seus olhos deixaram o prato de Larkin e voltaram à concha, depois para Mac e voltaram à concha, depois para Tex e voltaram à concha, depois para Brough e voltaram à concha, depois para Peter Marlowe e voltaram à concha e depois para a ração do Rei. E, quando todos estavam servidos, começaram a comer, e havia ainda na panela o suficiente para, pelo menos, duas porções para cada um.

Era uma agonia comer tão bem.

Os grãos de katchang idju tinham-se desfeito e agora quase faziam parte da espessa sopa. A papaia amaciara a carne e separara-a dos ossos, pelo que ela vinha em pedaços castanhoescuros, por causa das ervas, do amaciador e dos grãos. O guisado tinha a espessura de um autêntico guisado, de um guisado irlandês.

O Rei levantou os olhos da sua tigela, seca e limpa. Fez um sinal a Larkin.

Larkin passou-lhe a sua marmita e, em silêncio, cada um deles aceitou outra dose. Também esta desapareceu. E depois a última porção.

Finalmente, o Rei afastou o seu prato:

- Filho de puta.

- Uma perfeição! - disse Larkin.

- Soberbo - disse Peter Marlowe. - Esquecera-me de como era : mastigar. Doem-me as maxilas.

Mac tirou cuidadosamente o último feijão e arrotou. Foi um arroto espantoso.

- Posso dizer-vos, rapazes, que comi algumas boas refeições na minha vida, desde o rosbife no Simpson's, em Piccadilly, ao rijsttafel

do Hotel dês Indes, em Java; e nada, nenhuma refeição alguma vez

se aproximou desta. Nunca.

-Concordo - disse Larkin, instalando-se mais confortavelmente. - Até na melhor casa de Sydney... bem, os bifes são óptimos, mas nunca comi nada melhor.

O Rei arrotou e passou em redor um maço de Kooas. Depois abriu uma garrafa de saké e bebeu uma golada profunda. O vinho

era áspero e forte, mas tirava o sabor ultraforte que tinha na boca.

- Toma - disse, passando-a a Peter Marlowe. Todos beberam e todos fumaram.

- Eh, Tex, que tal um pouco de Java? - bocejou o Rei.

- É melhor esperar uns minutos, antes de abrirmos a porta

- disse Brough, não querendo saber se a porta estava aberta ou fechada, contanto que o deixassem preguiçar. - Oh, meu Deus! Sinto-me tão bem!

- Estou tão cheio que penso que vou rebentar - disse Peter Marlowe. - Foi, sem dúvida, a melhor...

- Por amor de Deus, Peter! Já todos dissemos isso. Todos sabemos.

- Pois bem, eu tinha de dizer isto.

- Como foi possível? - perguntou Brough ao Rei, abafando um bocejo.

- O Max contou-me a história do cão que matou a galinha.

Mandei o Dino falar com o Hawkins. Ele deu-lho. Conseguimos que o Kurt o matasse. A minha parte foram os quartos traseiros.

- Porque é que o Hawkins o deu ao Dino? - perguntou Peter Marlowe.

- Ele é veterinário.

- Ah, compreendo.

- É veterinário, uma figa - disse Brough. - É da marinha mercante.

O Rei encolheu os ombros.

- Então hoje era veterinário. Não chateies!

- Isso digo eu.

- Obrigado, Don.

-Como... como é que o Kurt o matou? - perguntou Brough.

- Não lhe perguntei.

- E se mudássemos de assunto, está bem? - disse Mac.

- Boa ideia.

Peter Marlowe pôs-se em pé e espreguiçou-se.

- E os ossos? - perguntou.

- Levamo-los escondidos quando sairmos.

- Que tal uma partida de poker? - propôs Larkin.

- Boa ideia - respondeu o Rei, secamente. - Tex, prepara o café. Peter, dá uma limpadela a isto. Grant, trata da porta. Don, e se empilhasses os pratos?

Brough levantou-se pesadamente:

- E tu, que diabo fazes tu?

- Eu? - O Rei arqueou as sobrancelhas. - Eu vou ficar aqui sentado.

Brough olhou para ele. Todos olharam para ele. Então, Brough disse:

- Tenho cá uma ideia de fazer de ti oficial: para ter o prazer de rebentar contigo.

- Era capaz de não te servir de nada - disse o Rei.

Brough olhou para os outros e depois voltou a olhar para o Rei.

- É provável que tenhas razão. Ainda eu ia a conselho de guerra. - Riu-se. - Mas não há lei nenhuma que me impeça de apanhar o teu dinheiro.

Tirou uma nota de cinco dólares e acenou com a cabeça para o baralho de cartas que o Rei tinha nas mãos.

- Ganha a carta alta!

O Rei abriu as cartas em leque.

- Tira uma.

Brough, maldosamente, mostrou uma rainha. O Rei olhou para o baralho e depois tirou uma carta: era um valete. Brough arreganhou a tacha.

- O dobro ou nada.

- Don - disse o Rei brandamente-, pára, enquanto estás com sorte. - Tirou outra carta e voltou-a: um ás. - Eu podia facilmente tirar outro ás: são as minhas cartas!

- Então, por que diabo não me bates? - perguntou Brough.

- Ora, capitão, Sir. - O Rei estava imensamente divertido. Seria indelicado ficar com o seu dinheiro. No fim de contas, o senhor é o nosso intrépido chefe.

- Vai-te enforcar! - Brough começou a empilhar os pratos e as marmitas. - Se não podes batê-los, junta-te a eles.

Nessa noite, enquanto a maior parte do campo dormia, Peter Marlowe estava acordado debaixo do seu mosquiteiro, sem vontade de dormir. Saltou da cama, abriu caminho por entre o dédalo de mosquiteiros e saiu. Brough também estava acordado.

- Olá, Peter - chamou Brough em voz baixa. - Vem sentar-te aqui. Também mão podes dormir?

- Não queria, por ora; sinto-me tão bem! Sobre eles, a noite era de veludo.

- Noite maravilhosa.

- É verdade.

- És casado?

- Não - respondeu Peter Marlowe.

- Tens sorte. Creio que não seria tão mau para mim se não fosse casado. - Brough ficou calado um minuto. - Ainda endoideço a pensar se ela ainda lá estará. Ou, se está, que fará?

- Nada. - Peter Marlowe deu a resposta automática, com N'ai viva nos seus pensamentos. - Não te preocupes. - E era como dizer: "Pára de respirar."

- Não que eu a censurasse ou a qualquer mulher. Há tanto tempo que estamos longe, há tanto tempo! Não é culpa dela.

com mão trémula, Brough fez um cigarro, servindo-se de um pouco de chá seco e da beata de um dos Kooas. Depois de o acender, aspirou profundamente e passou-o a Peter Marlowe. -Obrigado, Don. - E fumou e passou-lho de novo.

Acabaram o cigarro em silêncio, atormentados pela saudade. Então, Brough levantou-se.

- Penso que vou voltar. Até breve, Peter.

- Boa noite, Don.

Peter Marlowe mergulhou os olhos na noite e deixou que o seu espírito vogasse de novo para N'ai. E sabia que esta noite, tal como Brough, havia só uma coisa que ele podia fazer, ou não adormeceria.

O dia V- E chegou e os homens de Changi não cabiam em si de alegria. Mas foi apenas mais um dia, que, na realidade, não os afectou. A comida foi a mesma, o calor o mesmo, a doença a mesma, as moscas as mesmas, o desgaste o mesmo. Grey continuava a observar e a esperar. O seu espião comunicara-lhe que em breve o diamante mudaria de mãos. Muito em breve. Peter Marlowe e o Rei esperavam esse dia com igual ansiedade. Faltavam apenas quatro dias.

O dia P chegou e a Eva deu à luz mais doze filhos. O código para o dia do parto divertiu imenso o Rei e os seus associados; Grey ouvira falar do dia P ao seu espião e dera em vão voltas ao miolo para encontrar a palavra que correspondia àquele "P". Estúpido polícia! O Rei não se perturbou com a lembrança de que havia um espião na barraca. A terceira ninhada vinha a caminho.

Havia agora setenta gaiolas debaixo da barraca. Catorze estavam já ocupadas. Em breve mais doze estariam cheias.

Os homens haviam resolvido o problema dos nomes da maneira mais simples. Os machos tinham números pares e as fêmeas números ímpares.

- Escutem - disse o Rei. - Temos de ter mais gaiolas preparadas.

Estavam na barraca, em reunião. A noite estava fresca e agradável. A Lua, em quarto minguante, estava encoberta pelas nuvens.

- Estamos tramados - disse Tex.-Já não há rede de arame em parte nenhuma. A única coisa que podemos fazer é conseguir que os australianos nos ajudem.

- Façamos isso - disse Max lentamente. - Também podemos deixar que os sacanas tomem conta de todo o negócio.

Todo o esforço de guerra da barraca americana se centrara no ouro vivo que explodia rapidamente por baixo deles. Já um grupo de quatro homens ampliara as trincheiras em fenda numa rede de passagens. Agora tinham muito espaço para as gaiolas, mas faltavaJlhes o arame para as fazer. O arame era uma necessidade desesperada; o dia P estava a despontar de novo, depois surgiria outro dia P, depois outro e depois outro.

- Se pudéssemos encontrar uma dúzia, ou coisa assim, de tipos em quem pudéssemos confiar, podíamos dar-lhes um par de progenitores e deixá-los ter os seus próprios viveiros - disse Peter Marlowe, pensativo. - Nós seríamos os criadores principais.

- Não pode ser, Peter, nunca conseguiríamos manter o segredo. O Rei enrolou um cigarro e lembrou-se de que o negócio correra mal ultimamente e de que não fumara um único cigarro feito em toda uma semana.

- A única coisa a fazer - disse ele, após um momento de reflexão- é meter o Timsen no negócio.

- Esse australiano sujo já nos faz competição que baste - disse Max.

- Não temos alternativa - insistiu o Rei com determinação. Temos de arranjar as gaiolas, e o único gajo que tem competência e que não daria à língua é ele. Se a empresa avançar de acordo com o plano, há bastante dinheiro para todos. - Olhou para Tex. - Vai buscar o Timsen.

Tex encolheu os ombros e saiu.

- Vem daí, Peter - disse o Rei. - É melhor darmos uma olhadela lá em baixo.

Foi o primeiro a passar o alçapão.

- com mil raios! - exclamou. - Se cavarmos mais, o raio da barraca cai toda e vai ser um pandemónio.

- Não se preocupe, chefe - disse Miller com orgulho. Era ele o responsável pela brigada de escavação. - Arranjei um plano de modo a rodearmos os pilares de cimento. Temos espaço bastante para mil e quinhentas gaiolas agora, se pudermos arranjar o arame. Não tenha dúvidas. E podemos duplicar o espaço se conseguirmos deitar a mão a madeira suficiente para escorar os túneis. É fácil.

O Rei caminhou ao longo da trincheira principal, para inspeccionar os animais. Adão viu-o aproximar-se e lançou-se com violência contra o arame, como disposto a fazer o Rei em pedaços.

- É meiguinho, hem?!

- O sacana deve conhecer-te de qualquer parte - disse Miller com um risinho trocista.

- Talvez devêssemos fazer uma pausa na criação - disse Peter Marlowe-, até as gaiolas estarem prontas.

- O Timsen é a resposta - disse o Rei. - Se alguém pode arranjar-nos os fornecimentos, é aquela malta de gatunos.

Voltaram à barraca e limparam-se da lama. Depois de um duche, sentiram-se melhor.

- Olá, pá. - Timsen atravessou a barraca a todo o comprimento e sentou-se. - Vocês, os ianques, têm medo que lhes arranquem os colhões ou quê? - Era alto e forte, com os olhos encovados.

-De que estás para aí a falar.

- Da maneira como vocês, meus sacanas, estão a abrir trincheiras, havia de dizer-se que toda a filha da mãe da Força Aérea ia cair sobre Changi.

- Todo o cuidado é pouco. - O Rei perguntava de novo a si próprio se deviam arriscar-se a meter o Timsen no grupo. - Não falta muito para que eles ataquem Singapura. E, quando o fizerem, nós estaremos debaixo do chão.

- Eles nunca vão atacar Changi. Sabem que estamos aqui, é a última coisa que fariam. É claro que quando vocês, os ianques, estão no ar, nunca se sabe onde caem as bombas.

Levaram-no a dar uma volta de inspecção. E imediatamente ele compreendeu a imensidade do empreendimento.

- Santo Deus, pá! - disse Timsen, sem fôlego, quando voltaram à barraca. - Tenho de vos tirar o chapéu. Meu Deus! E dizer que pensávamos que eram vocês que tinham medo! Meu Deus! Vocês devem ter espaço para quinhentos ou seiscentos...

- Para mil e quinhentos - interrompeu o Rei, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. - E no próximo dia P vai...

- Dia P?

- Dia do parto. Timsen riu-se:

- É, então, isso o dia P. Há semanas que tentávamos descobrir. Oh, palavra de honra!-O seu riso ribombava.-Vocês são uns génios do catano!

- Admito que foi ideia minha. - O Rei tentou não se mostrar orgulhoso, mas não conseguiu. No fim de contas, era ideia dele. - No próximo dia P esperamos ter pelo menos noventa pequeninas. E no outro teremos qualquer coisa como trezentos.

As sobrancelhas de Timsen quase lhe chegaram ao cabelo.

- vou dizer-te o que estamos preparados para fazer. - O Rei fez uma pausa, revendo a sua oferta. - Tu forneces-nos material para fazer mais mil gaiolas. Vamos limitar o nosso stock completo a mil. Só dos melhores. Vocês comercializam o produto e os lucros são a meias. Num negócio destas dimensões há o bastante para toda a gente.

- Quando começamos a vender? - perguntou logo Timsen. Mesmo assim, a despeito das enormes possibilidades, ele sentia-se preocupado.

- Nós damos-vos dez pernas traseiras dentro de uma semana. Vamos primeiro desfazer-nos dos machos e guardar as fêmeas. Estamos a pensar só nas pernas traseiras. Vamos aumentando o número a pouco e pouco.

- Porquê só dez para começar?

- Se pusermos mais no mercado logo ao princípio, os gajos desconfiam. Temos de ter calma.

Timsen pensou um momento.

- Vocês têm a certeza... ha... de que a carne é boa?

Agora que se comprometera a fornecer, sentia uns certos escrúpulos. Mas, cos diabos, carne era carne e negócio era negócio.

- Estamos a oferecer carne. Rusa tikus. Timsen abanou a cabeça, de lábios franzidos.

- Não me agrada a ideia de a vender aos meus australianos

- disse com um ar de escrúpulo. - Palavra de honra. Não me parece certo. Palavra que não. Oh, palavra que não, para os meus escavadores.

Peter Marlowe fez que sim com a cabeça, sentindo igual repugnância.

- Nem para os nossos camaradas.

Os três olharam uns para os outros. "É verdade", disse o Rei para si próprio, "não me parece nada justo. Mas temos de sobreviver." E... de súbito o espírito abriu-se-lhe.

Ficou branco e disse com firmeza:

- Chamem os outros... Acabo de ter... uma perturbação cerebral.

Os americanos reuniram-se rapidamente. Tensos, observavam o Rei. Este estava mais calmo, mas ainda não falara. Apenas fumava o seu cigarro, aparentemente esquecido deles. Peter Marlowe e Timsen olhavam um para o outro, perturbados.

O Rei pôs-se em pé e a electricidade aumentou. Esmagou a beata.

- Camaradas - começou ele, e a sua voz era a voz cansada de um homem exausto-, o dia P é daqui a quatro dias. Esperamos - conferiu pelo plano escrito na parede-, sim, é isso, aumentar o nosso stock para um pouco mais de um cento. Fiz o contrato com o nosso amigo e sócio Timsen. Ele vai fornecer material para mil gaiolas, de modo que na altura em que desmamarmos as ninhadas o problema do alojamento estará resolvido. Ele e o seu grupo vão comercializar o produto. Nós vamos concentrar apenas na criação os maiores esforços. - Fez uma pausa e olhou firmemente para cada homem. - Camaradas, de hoje a uma semana começamos a vender.

Agora, que a data terrível estava marcada, mostravam-se preocupados.

- Achas, realmente, que devemos? - perguntou Max com apreensão.

- Queres esperar um momento, Max?

- Não percebo nada da comercialização - disse Byron Jones in, mexendo nervosamente na pala do olho. - A ideia faz-me...

- Queres esperar um momento, côa breca? - disse o Rei com impaciência. - Camaradas. - Toda a gente se curvou para a frente, quando o Rei, quase sucumbido, falou no mais débil sussurro. Vamos vender apenas aos oficiais! De major para cima!

- Oh, meu Deus - suspirou Timsen.

- Jesus Cristo! - disse Max, inspirado.

- Quê? - disse Peter Marlowe, fulminado.

O Rei sentia-se como um deus.

- Sim, oficiais. São os únicos sacanas que podem comprar. Em vez de um negócio de massas, faremos um comércio de luxo.

- E aos panascas que podem comprar é que tu querias alimentar a chicha! - disse Peter Marlowe.

- Saíste-me um parvalhão - disse Timsen. - Um génio. Pois, conheço três sacanas... que dava o meu braço direito para os ver comer carne de rato e depois dizer-lhes...

- Eu conheço dois - disse Peter Marlowe - a quem daria a carne, quanto mais vendê-la!

Max pôs-se em pé e gritou por cima das risadas:

- Escutem, rapazes. Escutem. Escutem um minuto. - Voltou-se para o Rei. - Eu, bem, eu...-estava tão comovido que lhe era difícil falar - eu não estive sempre do teu lado. Não há mal nenhum nisso. Estamos num país livre. Mas isto é uma coisa... uma coisa tão grande... que, bem...-estendeu a mão solenemente - gostaria de apertar a mão do homem que teve esta ideia. Creio que todos devíamos apertar a mão do verdadeiro génio. Em nome de todos os soldados do Mundo... orgulho-me de ti. O Rei!

Max e o Rei apertaram-se as mãos.

Tex mexia-se exuberantemente de um lado para o outro.

- O Sellars, o Prouty e o Grey: ele está na lista...

- Esse não tem dinheiro - disse o Rei. -Raios, damos-lhe algum!-disse Max.

- Não podemos fazer isso. O Grey não é parvo. Ia desconfiar disse Peter Marlowe.

- E o Thorsen, esse sacana?

-Nenhum dos oficiais americanos. Bem - disse o Rei delicadamente-, talvez um ou dois.

A animação foi prontamente dominada.

- E quanto a australianos?

- Deixa isso comigo, pá - disse Timsen. - Já tenho na cabeça três dúzias de fregueses.

- E quanto a marujos ingleses? - perguntou Max.

- Podemos todos pensar em alguns deles. - O Rei sentia-se enorme, poderoso e enlevado. - Ainda bem que os sacanas que têm a pasta ou os meios de a arranjar são os que queremos alimentar, para depois lhes dizermos o que comeram - disse.

Um pouco antes do apagar das luzes, Max entrou rapidamente pela entrada sem porta e segredou ao Rei:

- Vem aí um guarda.

- Quem é?

- O Shagata.

-Okay-disse o Rei. - Verifica se todos os guardas estão nos seus postos.

- Okay. - E Max saiu rapidamente.

O Rei curvou-se para Peter Marlowe:

- Talvez tenha havido uma fuga - disse nervosamente. - Vem

daí. É melhor estarmos preparados.

Deixou-se escorregar pela janela e assegurou-se de que o toldo

[estava na boa posição. Então, ele e Peter Marlowe sentaram-se por

baixo dele e esperaram.

Shagata meteu a cabeça por baixo do toldo e, quando viu que

era o Rei, entrou e sentou-se. Encostou a carabina à parede e ofereceu um maço de Kooas.

- Tabe - disse.

- Tabe - respondeu Peter Marlowe.

- Olha cá - disse o Rei, e a mão tremia-lhe enquanto pegava no cigarro.

- Tens alguma coisa para me vender esta noite? – perguntou Shagata numa voz sibilante.

- Ele pergunta se tens alguma coisa para lhe vender esta noite.

- Diz-lhe que não.

- O meu amigo está desolado por não ter nada que tente um homem de gosto esta noite.

- O teu amigo terá um artigo desses, digamos, dentro de três dias?

O Rei suspirou de alívio quando Peter Marlowe lhe traduziu isto.

- Diz-lhe que sim. E diz-lhe que ele fará bem em verificar.

- O meu amigo diz que é provável que nesse dia tenha alguma coisa para tentar um homem de gosto. E o meu amigo acrescenta que sente que fazer negócio com um homem tão cuidadoso é um bom augúrio para a feliz conclusão da transacção.

-É sempre prudente quando os assuntos podem ser tratados no sossego da noite. - Shagata-san tomou fôlego. - Se eu não chegar dentro de três noites, espera todas as noites por mim. Um amigo mútuo disse que talvez não possa desempenhar o seu papel com inteira eficiência. Mas tenho a certeza de que será dentro de três noites a contar desta noite.

Shagata levantou-se e deu o maço de Kooas ao Rei. Uma ligeira vénia e as trevas voltaram a tragá-lo.

Peter Marlowe disse ao Rei o que Shagata dissera e o Rei sorriu.

- Óptimo. Excelente. Queres vir amanhã de manhã? Podemos discutir os planos.

- Estou no grupo de trabalho do aeroporto.

- Queres que te arranje um substituto?

Peter Marlowe riu-se e abanou a cabeça.

- Era melhor ires a outro sítio, para o caso de Cheng San querer estabelecer contacto.

- Achas que há alguma coisa que não bate certo?

- Não. Shagata fez bem em verificar. Eu também o teria feito. Tudo está a correr de acordo com o plano. Mais uma semana e todo o negócio estará resolvido.

- Assim o espero.

Peter Marlowe pensou na aldeia e rezou para que o negócio se realizasse. Desejava desesperadamente voltar lá e, se o fizesse, sabia que teria de possuir Sulina, ou daria em doido.

- Que se passa? - E o Rei tinha sentido, mais que visto, o encolher de ombros de Peter Marlowe.

- Estava só a pensar que gostaria de estar nos braços de Sulina neste preciso momento - respondeu Peter Marlowe, pouco à vontade.

- Sim. - E o Rei perguntava a si próprio se ele faria algum disparate com a miúda.

Peter Marlowe apanhou-lhe o olhar e sorriu.

- Não tens de te preocupar, meu velho. Eu não faria nenhum disparate, se é nisso que estás a pensar.

- Claro. - O Rei sorriu. - Temos muitas coisas em que pensar, e amanhã é aquela fita. Ouviste dizer do que se trata?

- Só que se chama Triângulo. E que a estrela é o Sean. - E a voz de Peter Marlow tornou-se subitamente neutra.

- Como é que foi que ias matando o Sean?

O Rei nunca fizera a pergunta antes, sabendo que com um homem como Peter Marlowe era perigoso fazer perguntas indiscretas sobre assuntos particulares. Mas agora sentira instintivamente que era a boa altura.

- Não tem muito que contar - respondeu Peter Marlowe imediatamente, satisfeito por o Rei lhe ter perguntado. - O Sean e eu estávamos no mesmo esquadrão, em Java. Na véspera de a guerra lá acabar, o Sean não regressou de uma missão. Pensei que ficara lá.

"Há cerca de um ano, no dia seguinte a termos chegado de Java, fui a um dos espectáculos do campo. Quando finalmente reconheci o Sean no palco, podes imaginar o choque que sofri. Fazia um papel de rapariga mas eu achei natural: alguém tem de fazer os papéis femininos. E recostei-me e gozei o espectáculo. Não conseguia convencer-me de que o encontrara vivo e não conseguia deixar de pensar na rapariga sensacional em que ele conseguia transformar-se: a maneira como andava, falava e se sentava, os vestidos e a cabeleira perfeitos. Fiquei impressionado com a forma como representava... e, contudo, sabia que ele nunca pisara um palco.

"Depois do espectáculo fui aos camarins para o ver. Havia outras pessoas também à espera e, um momento depois, tive o estranho sentimento de que aqueles tipos eram a mesma fauna que se encontra em todas as entradas de palcos: sabes como é, tipos com a língua de fora à espera das suas garotas.

"Finalmente, a porta abriu-se e toda a gente entrou. Eu fui o último e fiquei à entrada. Foi só então que dei por que todos aqueles homens eram esquisitos! Sean estava sentado numa cadeira e pareciam todos a cair sobre ele, acariciando, chamando-lhe queridinho, abraçando-o e dizendo-lhe como fora "maravilhoso", tratando-o como a estrela da companhia. E o Sean... o Sean estava a gostar daquilo! Santo Deus! Estava a gostar daqueles apalpões, como uma cadela com o cio.

"Então, viu-me de repente e, é claro, também ele ficou chocado.

"Ele disse: "Olá, Peter!" Mas eu não pude dizer nada. Fiquei ali, a olhar para um dos esquisitos, que tinha a mão no joelho do Sean. O Sean tinha vestido uma espécie de négligé e meias e cuecas de seda e tive a impressão de que até arranjara as pregas do négligé de modo a pôr à vista a perna acima da meia... e parecia ter seios por baixo do négligé. Então compreendi, de repente, que não tinha cabeleira postiça, que todo aquele cabelo era dele e comprido como o de uma mulher.

"Então, Sean pediu a todos que saíssem. "O Peter é um velho amigo meu que eu julgava morto", disse. "Tenho de falar com ele. Saiam, se fazem favor."

"Depois de eles saírem, eu perguntei ao Sean: "Mas, Santo nome de Deus, que é que te aconteceu? Estavas mesmo a gostar de que aqueles panascas te apalpassem."

"Santo nome de Deus, que é que aconteceu a todos nós?", respondeu Sean. Depois disse, com aquele seu sorriso maravilhoso: "Estou tão contente por te ver, Peter. Pensava que morreras mesmo. Senta-te um momento, enquanto eu limpo a cara. Temos muito que conversar. Vieste no grupo de trabalho de Java?"

"Fiz que sim com um aceno de cabeça, ainda em estado de choque, e Sean voltou-se para o espelho e começou a tirar a caracterização com um creme. "Que te aconteceu, Peter?", perguntou. "Foste abatido?"

"Quando começou a tirar a pintura, acalmei-me: tudo* parecia mais normal. Disse a mim próprio que fora estúpido... que tudo aquilo fazia parte do espectáculo... conservar a lenda, sabes? E estava seguro de que ele só fingia gostar daquilo. Foi então que lhe pedi desculpa, dizendo: "Desculpa, Sean. Deves pensar que sou maluco! Meu Deus! É bom ver que estás bem. Pensei que também te tocara." Disse-lhe o que me acontecera e pedi que me falasse de si.

Sean disse-me que o seu avião fora atacado à bomba por quatro Zeros e que ele tivera de saltar de páraquedas. Quando, finalmente, voltou ao aeródromo e encontrou o meu aparelho, este era um destroço. Contei-lhe que lhe deitara o fogo antes de partir, pois não quisera que os sacanas dos japoneses reparassem a asa.

) "Oh", disse ele, "eu presumi que te estamparas ao aterrar e que ficaras lá. Eu fiquei em Bandung, no quartel, com o resto da malta, e depois fomos postos num campo. Pouco tempo depois fomos mandados para Batávia e de lá para aqui."

"O Sean esteve todo o tempo a ver-se ao espelho e tinha a cara macia como a de qualquer rapariga. De súbito tive o estranho sentimento de que ele se esquecera completamente de mim. Não sabia que fazer. Então ele afastou-se do espelho e olhou bem para mim, franzindo o sobrolho de uma maneira estranha. De repente compreendi até que ponto ele se sentia infeliz e perguntei-lhe se queria que me fosse embora.

"Não, Peter, não; quero que fiques." E então pegou numa bolsa de rapariga que estava no toucador, tirou um bâton e começou a pintar os lábios.

"Eu fiquei parvo. "Que -estás tu a fazer?", perguntei.

"A pôr bâton, Peter."

"Deixa-te disso, Sean", disse eu. "Uma brincadeira é uma brincadeira. O espectáculo já acabou há mais de meia hora."

"Mas ele continuou e, quando os lábios estavam perfeitos, pôs pó no nariz, passou a escova pelo cabelo e, meu Deus, era de novo uma bonita rapariga. Eu não acreditava no que via. Pensava ainda, por mais estranho que fosse, que ele estava a brincar comigo.

"Ajeitou um caracol aqui e ali e depois sentou-se para trás e exammou-se ao espelho, parecendo perfeitamente satisfeito com o que via. Foi então que me viu no espelho a olhar para ele e se pôs a rir.

"Que há, Peter? Nunca tinhas estado num camarim?" " "Com certeza que sim", disse eu. "No camarim de uma rapariga."

"Ele olhou para mim durante muito tempo. Depois compôs o négligé e cruzou as pernas. "Este é o camarim de uma rapariga", disse.

"Deixa-te de partes gagas, Sean", disse eu, que começava a ficar irritado. "Sou eu, o Peter Marlowe. Estamos em Changi, lembras-te? O espectáculo acabou, e agora tudo volta a ser normal."

"Pois", disse ele, com perfeita calma, "tudo é normal."

"Durante um longo momento não consegui dizer nada.

"Bem", consegui pronunciar por fim, "não vais despir essa roupa e tirar essa porcaria da cara?"

"Eu gosto desta roupa, Peter", disse ele, "e uso sempre pintura, agora."

"Levantou-se e abriu um armário cheio de sarongs, vestidos, calças, soutiens, etc. Voltou-se então e estava perfeitamente calmo. "Esta é a roupa que eu agora uso", disse. "Sou uma mulher."

"Não deves estar bom da cabeça", disse eu.

"Sean aproximou-se e fitou-me nos olhos, e eu não podia tirar da cabeça que de certo modo ele era uma rapariga... que parecia uma rapariga, se comportava como uma rapariga, falava como uma rapariga e cheirava a rapariga.

"Olha, Peter", disse ele, "eu sei que é difícil para ti compreender, mas eu mudei. Já não sou um homem, sou uma mulher."

"Não és mais uma sacana de uma mulher do que eu!", gritei. Mas os meus gritos não pareciam impressioná-lo. Para ali esteve, sorrindo como uma madona, e depois disse: "Sou uma mulher, Peter." Tocou-me no braço como o teria feito uma mulher e disse: "Por favor, trata-me como uma mulher."

"Qualquer coisa pareceu rebentar-me dentro da cabeça. Agarrei-lhe o braço, arranquei-lhe o négligé e o soutien almofadado e atirei-o para a frente do espelho.

"Dizes que és uma mulher?", gritei. "Olha para ti! Onde estão os sacanas dos teus peitos?"

"Mas Sean não levantou os olhos. Apenas ficou em frente do espelho, de cabeça baixa e o cabelo a cair-lhe por cima da cara. O négligé caía-lhe aos pés e ele estava nu até à cintura. "Olha para ti, meu sacana de pervertido", gritei. "És um homem, convence-te disso, e hás-de ser sempre um homem."

"Ele ficou ali sem dizer uma palavra, e de repente compreendi que estava a chorar. Foi então que o Rodrick e o Frank Parrish entraram e me enxotaram cá para fora, e Parrish cobriu o Sean com o négligé e tomou-o nos braços, e durante todo esse tempo o Sean continuava a chorar.

"E o Frank continuava a abraçá-lo e a dizer: "Está tudo bem, Sean, está tudo bem." Depois olhou para mim e percebi que me queria matar. "Sai daqui, meu grande sacana", disse ele.

"Nem sei como de lá saí. Quando, finalmente, voltei a mipi, andava a vaguear à volta do campo e começava a compreender que não tinha o menor direito de fazer o que fizera. Era de loucura.

A cara de Peter Marlowe era a máscara da angústia.

- Voltei para o teatro. Tinha de tentar fazer as pazes com o Sean. A porta dele estava fechada, mas parecia-me ouvi-lo lá dentro. Bati e tornei a bater, mas ele não respondia nem abria a porta, e, por isso, eu voltei a irritar-me e escancarei a porta com uma patada. Ele estava deitado na cama. Tinha um grande golpe no pulso esquerdo e havia sangue por toda a parte. Pus-lhe um garrote e consegui chamar o velho Dr. Kennedy e o Rodrick e o Frank. O Sean parecia um cadáver e não emitiu um som em todo o tempo em que o Dr. Kennedy lhe cosia a tesourada. Quando o Dr. Kennedy acabou, o Frank disse para mim: "E agora, estás satisfeito, meu grande sacana?"

"Eu não consegui dizer nada e apenas fiquei ali, detestando-me.

"Sai e não voltes a entrar", disse Rodrick.

"Eu ia a sair, mas ouvi o Sean chamar-me, numa espécie de débil sussurro. Voltei-me e vi que ele estava a olhar para mim, não com um ar zangado, mas sim como se tivesse piedade de mim.

"Desculpa, Peter", disse ele. "A culpa não foi tua."

"Por Deus, Sean", consegui dizer. "Não queria fazer-te mal nenhum."

"Eu sei", disse ele. "Por quem és, sé meu amigo, Peter."

Depois olhou para o Parrish e para o Rodrick e disse: "Eu queria ir-me embora, mas agora." E esboçou o seu belo sorriso. "Estou tão feliz por estar de novo em casa!"

Peter Marlowe estava encharcado de suor. O Rei acendeu um Kooa.

Peter Marlowe semiencolheu os ombros, impotentemente, e depois afastou-se, afundado em remorso.

- Vamos, despachem-se - disse Peter Marlowe para os homens, que bocejavam, tristemente alinhados fora da barraca. Era pouco depois da alvorada; o pequeno-almoço era já uma pálida recordação e a sua exiguidade só servia para aumentar a irritabilidade dos homens. E, além disso, o dia quente passado no aeroporto estava na frente deles. A menos que tivessem sorte.

Corria que hoje um destacamento iria para o extremo ocidental do campo de aterragem, onde cresciam os coqueiros. Constava que iam cortar-se três árvores. E o coração do coqueiro não só era comestível mas também era muito nutritivo e um grande petisco. Chamavam-lhe "couve de milionário", porque toda uma árvore tinha de morrer para a fornecer. Juntamente com a "couve de milionário" haveria também cocos. Mais que suficientes para um destacamento de trinta homens. Por isso, tanto os oficiais como os soldados rasos estavam igualmente tensos.

O sargento de serviço à barraca chegou junto de Peter Marlowe e fez a continência.

- este o grupo, Sir. Vinte homens, contando comigo.

- Mas devíamos ter trinta.

- Bem, vinte é tudo o que temos. Os outros estão doentes ou na apanha da lenha. Não posso fazer nada.

- Muito bem. Vamos para o portão.

O sargento pôs os homens a caminho e eles começaram a avançar, de uma forma assaz desordenada, ao longo do muro da prisão, para se juntarem ao resto do destacamento que ia para o campo de aviação, junto ao portão ocidental. Peter Marlowe fez sinal ao sargento e conseguiu que os homens se pusessem na melhor posição: perto do fim da linha, onde tinham mais probabilidade de ser escolhidos para a tarefa das árvores. Quando os homens notaram que o seu oficial os conduzira bem, começaram a prestar atenção e a separar-se rapidamente.

Todos tinham as suas camisas velhas enfiadas nos sacos da paparoca. Os sacos da paparoca eram uma instituição e assumiam muitas formas. Por vezes eram as mochilas da ordem, outras vezes malas, outras vezes cestos de vime, às vezes sacos, por vezes um pano e um pau, outras vezes um pedaço de tecido. Mas todos os homens levavam um recipiente para a próxima rapina. Numa partida de trabalho havia sempre rapina e, se não era "couve de milionário" ou cocos, era lenha, cascas de cocos, nozes de palma, raízes comestíveis, folhas de muitos tipos, ou até, por vezes, papaias.

A maior parte dos homens levava socos de madeira ou de borracha de pneu. Alguns levavam sapatos com a biqueira cortada. E alguns tinham botas. Peter Marlowe trazia as botas de Mac. Estavam-lhe apertadas, mas, para uma marcha de cerca de cinco quilómetros e para um grupo de trabalho, eram melhores que tamancos.

A fila de homens começou a marchar pelo portão ocidental, com um oficial à frente de cada companhia. À cabeça seguia um grupo de coreanos e na cauda um simples guarda coreano.

O grupo de Peter Marlowe esperou junto à retaguarda espaço para entrar na marcha. Ele acomodou melhor a camisa na mochila e ajustou o cantil.

Finalmente, era a hora de avançar, e ele e os seus homens começaram a dirigir-se para o portão. Quando passaram pela casa da guarda fizeram a continência, e o pequeno e atarracado sargento japonês que estava na varanda retribuiu com rigidez. Peter Marlowe deu o número dos seus homens ao outro guarda, que o conferiu com o total já contado.

Estavam agora fora do campo e caminhavam pela estrada alcatroada. Esta serpenteava suavemente por entre colinas e vales, para depois atravessar uma plantação de borracha. As árvores da borracha estavam mal tratadas e por sangrar. "Ora, isto é estranho", pensou Peter Marlowe, "porque a borracha tem muito valor e é um produto vital para a guerra."

- Olá, Duncan - disse ele quando o capitão Duncan e o seu grupo começaram a passar.

Acertou o passo ao lado de Duncan, sem tirar os olhos do seu próprio grupo, que era o próximo a seguir.

- Não é uma coisa óptima voltarmos a ter notícias? - perguntou Duncan.

- com certeza - respondeu ele automaticamente-, se for verdade.

- Confesso que parece bom de mais para ser verdade.

Peter Marlowe gostava de Duncan. Era um pequeno escocês, de meia-idade e cabelo ruivo. Nada parecia perturbá-lo. Tinha sempre um sorriso e uma boa palavra. Peter Marlowe tinha o sentimento de que ele tinha hoje qualquer coisa de diferente. Mas que seria?

Duncan notou a sua curiosidade e fez uma careta para mostrar os seus novos dentes postiços.

- Ah, é isso - disse Peter Marlowe. - Perguntava a mim próprio qual seria a diferença.

- Que tal te parecem?

- Melhores que nenhuns.

- É uma boa observação. Eu pensava que tinham muito bom aspecto.

- Não consigo habituar-me aos dentes de alumínio. Parecem-me todos mal.

- Passei tormentos para tirar os meus. Tormentos!

- Graças a Deus, os meus dentes estão bons. Mandei-os chumbar o ano passado. Que problema! Deves ter feito bem em mandar arrancar os teus todos. Quantos?

- Dezoito - respondeu Duncan, maldisposto. - Estavam todos podres. O dentista disse qualquer coisa a respeito da água, da falta de material para mascar, da dieta de arroz e da falta de cálcio. Mas, meu Deus, estes dentes postiços são óptimos. - Bateu os dentes uma ou duas vezes pensativamente e depois continuou: - Os mecânicos dentários são muito hábeis a fazê-los. Muita habilidade! Claro que é um pouco chocante não ter dentes brancos. Mas, quanto ao conforto, caramba, rapazes, nunca me senti tão bem durante muitos anos. Brancos ou de alumínio, não faz diferença. Tive sempre problemas com os dentes. Que os leve o diabo!

Lá mais para diante, a coluna afastou-se para um lado da estrada a fim de deixar passar um autocarro. Era antigo, soprava e roncava e tinha lugares para vinte e cinco passageiros. Mas lá dentro iam quase sessenta homens, mulheres e crianças e cá fora iam mais dez crianças penduradas pelos dedos das mãos e dos pés. O tejadilho do autocarro ia empilhado de gaiolas com galinhas, bagagem e colchões enrolados. Enquanto o asmático autocarro passava, os nativos olhavam com curiosidade para os homens, e os homens olhavam para as gaiolas de galinhas meio mortas e desejavam que o raio do autocarro se fosse abaixo das canetas ou caísse numa vala, para eles poderem ajudar a tirá-lo da encrenca e libertarem uma dúzia de galinhas ou coisa que o valesse. Mas hoje o autocarro passou e houve muitas pragas.

Peter Marlowe caminhava a par de Duncan, que não parava de tagarelar sobre os seus dentes e de os mostrar na amplidão do seu sorriso. Mas o sorriso estava errado. Tinha um ar grotesco.

Atrás deles, um guarda coreano, que marchava sem o menor aprumo, gritou para um homem que saiu da forma para a berma da estrada, mas o homem limitou-se a deixar cair as calças e aliviou-se rapidamente, gritando sakit marah (disenteria), e o guarda encolheu os ombros, puxou de um cigarro e acendeu-o, enquanto esperava; em breve o homem estava de novo na forma.

- Peter - disse Duncan calmamente -, vê se me cobres.

Peter Marlowe olhou em frente. A cerca de vinte metros da estrada, no pequeno carreiro ao lado da vala deixada pela enxurrada, estavam a mulher e a filha de Duncan. Ming Duncan era chinesa de Singapura. Dado que era oriental, não era posta num campo com as mulheres e os filhos dos outros prisioneiros, mas vivia livremente nos arrabaldes da cidade. A filha era bonita, como a mãe, e alta para a idade e tinha um rosto que nunca suportaria um suspiro. Uma vez por semana "acontecia" que elas passavam por ali, de modo que Duncan as via. Ele dizia sempre que, enquanto pudesse vê-las, Changi não era assim tão má.

Peter Marlowe metia-se entre Duncan e o guarda, protegendo-o, o que permitia a Duncan descair para o lado da coluna.

Enquanto esta passava, nem a mãe nem a filha faziam o menor sinal. Quando passava Duncan, os seus olhos encontravam-se por um instante e elas viam-no deixar cair um pedacito de papel à beira da estrada, mas continuavam a caminhar. Entretanto Duncan passara e perdera-se na massa dos seus homens. Mas ele sabia que elas tinham visto o papel e sabia que elas continuariam a caminhar até que todos os homens e todos os guardas se tivessem afastado. Então, voltariam atrás, apanhariam e leriam o papel, e este pensamento fazia Duncan feliz. "Gosto muito de vocês, tenho muitas saudades, vocês são a minha vida", escrevera ele. A mensagem era sempre a mesma, mas era sempre nova, tanto para ele como para elas, porque as palavras eram escritas de novo e eram palavras que valia a pena serem ditas uma vez e outra, e outra e outra. Para sempre.

- Não achaste que ela tinha bom aspecto? - perguntava Duncan ao voltar a juntar-se a Peter Marlowe.

- Óptimo, tens muita sorte. E a Mordeen vai fazer-se uma linda rapariga.

- Sim, aquela vai ser uma linda rapariga; vai fazer seis anos em Setembro.

A alegria morria e Duncan calava-se.

- Quanto eu desejava que esta guerra acabasse!

- Agora já não falta muito.

- Quando casares, Peter, casa com uma rapariga chinesa. As chinesas são as melhores esposas do mundo. - Duncan dissera a mesma coisa muitas vezes. - Sei que é duro ser-se lançado ao ostracismo e duro para as crianças, mas eu morrerei contente se morrer nos braços dela. - Soltou um profundo suspiro. - Mas tu não me dás ouvidos. Vais casar com uma qualquer inglesa e julgas que estás a viver. Que perda de tempo! Eu sei, experimentei as duas.

- Tenho de esperar para ver, não tenho, Duncan? - Peter Marlowe riu-se. Depois estugou o passo para ocupar o seu lugar, à frente dos seus homens. - Até mais logo.

- Obrigado, Peter - gritou Duncan, atrás dele.

Estavam agora quase no campo de aviação. À frente estava um grupo de guardas que esperavam para levar os seus grupos para as áreas de trabalho. Ao lado dos guardas havia pás, enxadas e picaretas. Já muitos homens atravessavam o campo, sob vigilância.

Peter Marlowe olhou para ocidente. Havia um grupo que já se dirigia para as árvores. Raios os partissem!

Deteve os seus homens e saudou os guardas, notando que um deles era Torusuini.

Torusumi reconheceu Peter Marlowe e sorriu.

- Tabe!

- Tabe - retribuiu Peter Marlowe, embaraçado pela óbvia cordialidade de Torusumi.

- vou levar-te e aos teus homens - disse Torusumi, indicando as ferramentas com um aceno de cabeça.

- Agradeço-te - disse Peter Marlowe, indicando o sargento. Nós vamos com ele.

- Aquele sacana trabalha no extremo ocidental - disse o sargento irritadamente. - É a sacana da nossa sorte.

- Bem sei - disse Peter Marlowe com a mesma irritação, e, quando os homens avançavam para pegar nas ferramentas, acrescentou para Torusumi: - Espero que hoje nos leves para a ponta ocidental. Está lá mais fresco.

- Vamos para leste. Sei que está mais fresco do outro lado, mas vou sempre para leste.

Peter Marlowe decidiu jogar.

- Talvez devesses pedir melhor tratamento.

Era perigoso fazer sugestões a um coreano ou a um japonês. Torusumi observou-o friamente, depois voltou-se com brusquidão e dirigiu-se para Azumi, um cabo japonês, que se mantinha mal-encarado, um pouco ao lado. Azumi era conhecido pelo seu mau feitio.

com apreensão, Peter Marlowe viu Torusumi fazer uma vénia e começar a falar rapidamente e com maus modos em japonês. E sentia que Azumi tinha os olhos postos nele.

Ao lado de Peter Marlowe, o sargento observava também a conversa com ansiedade.

- Que foi que disse, Sir?

- Disse que seria uma boa ideia irmos para a ponta ocidental, para variar.

O sargento retraiu-se. Se o oficial apanhasse um sopapo, o sargento automaticamente apanhava outro.

- É correr um risco... - Deteve-se bruscamente quando Azumi começou a dirigir-se para eles, seguido por Torusumi, deferentemente três passos atrás.

Azumi, um homem baixo, de pernas arqueadas, parou a cinco passos de Peter Marlowe e depois levantou os olhos para ele, talvez durante dez segundos. Peter Marlowe preparou-se para o sopapo que estava para vir. Mas não veio. Em vez disso, Azumi sorriu subitamente, mostrou os dentes de ouro, fez uma inspiração e tirou um maço de cigarros. Ofereceu um a Peter Marlowe e disse qualquer coisa em japonês que Peter Marlowe não compreendeu, mas apanhou "Shoko-san" e ficou ainda mais espantado, porque nunca antes lhe tinham chamado Shoko-san. "Shoko" é "oficial" e "san" quer dizer "senhor"; e ser chamado "Sr. Oficial" por um pulha de um inimigo como Azumi era um verdadeiro elogio.

- "ArigatO'" - disse Peter Marlowe, aceitando o lume. (Muito obrigado" era o pouco japonês que ele sabia para além

de "à vontade", "sentido", "acelerado, marche", "continência" e "vem cá, meu filho da mãe branco". Ordenou ao sargento, que estava obviamente desorientado, que alinhasse os homens.

- Yes, Sir - disse o sargento, contente com um pretexto para sair da forma.

Então, Azumi ladrou em japonês para Torusumi, e Torusumi aproximou-se e disse "hotchatore", que significa "marcha acelerada". Quando estavam a meio do campo de aterragem, fora do alcance do ouvido de Azumi, Torusumi sorriu para Peter Marlowe.

- Vamos hoje para o extremo ocidental e vamos cortar árvores.

- Vamos? Não compreendo.

- É simples. Eu disse ao Azumi-san que tu és o intérprete do Rei e que eu sentia que ele devia saber isso, uma vez que recebe dez por cento dos nossos lucros. Por isso - Torusumi encolheu os ombros -, é claro que devemos olhar um pelo outro. E talvez possamos discutir algum negócio durante o dia.

Peter Marlowe ordenou frouxamente que os homens parassem.

- Que se passa, Sir? - perguntou o sargento.

- Nada, sargento. Escutem todos! Agora, nada de barulho. Temos as árvores.

- É porreiro, caramba!

Houve o princípio de um aplauso, logo abafado.

Quando chegaram às três árvores, Spence e o seu grupo já lá estavam com o seu guarda. Torusumi dirigiu-se a este e tiveram uma violenta altercação em coreano. Mas Spence e os seus homens, irados, foram postos em formatura e afastaram-se juntamente com o guarda, furioso.

- Por que raio são vossas as árvores, meu sacana? Nós chegámos cá primeiro! - gritou Spence.

- Pois é - disse Peter Marlowe, compreensivo, e sabia o que Spence sentia.

Torusumi acenou a Peter Marlowe e sentou-se à sombra, encostando a arma a uma árvore.

- Põe uma sentinela - bocejou. - Considero-te responsável se eu for apanhado a dormir por algum japonês ou coreano malcheiroso.

- Podes dormir sossegado, à confiança - respondeu Peter Marlowe.

- Acorda-me à hora da comida.

- Assim se fará.

Peter Marlowe colocou guardas em pontos estratégicos e depois conduziu um assalto furioso contra as árvores. Queria-as abatidas e cortadas, antes que alguém alterasse as ordens que tinham.

Pelo meio-dia, as árvores estavam abatidas e a "couve de milionário" aproveitada. Os homens estavam todos exaustos e mordidos das formigas, mas isso não importava, porque a pilhagem de hoje era enorme. Havia dois cocos por homem para levar para casa e ainda sobejavam quinze. Peter Marlowe disse que guardariam cinco para Torusumi e repartiriam os restantes dez ao almoço. Repartiu duas "couves de milionário" e disse que a outra se guardaria para Torusumi e Azumi, para o caso de eles a quererem. Se não a quisessem, também essa seria repartida.

Peter Marlowe estava encostado a uma árvore, ofegante do exercicio, quando um súbito assobio de perigo o fez pôr-se em pé e correr para junto de Torusumi, abanando-o para o acordar.

- Um guarda, Torusumi-san, depressa.

Torusumi pôs-se em pé de um salto e sacudiu o uniforme.

- bom. Volta para junto das árvores e mostra-te ocupado - disse baixinho.

Então, Torusumi foi com um ar despreocupado até à clareira. Quando reconheceu o guarda, descontraiu-se, fez sinal ao homem de que fosse para a sombra e ambos pousaram as armas, se deitaram no chão e começaram a fumar.

- Shoko-san - disse alto Torusumi. - Fica à vontade, é apenas o meu amigo.

Peter Marlowe sorriu e depois chamou alto:

- Eh, sargento, abra um par de cocos dos melhores e leve-os aos guardas.

Não podia levá-los ele próprio, ou perderia a sua reputação.

O sargento escolheu os dois cocos cuidadosamente e cortou-lhes os topos. As cascas exteriores eram de um verde-acastanhado e tinham cinco centímetros de suculenta espessura sobre a noz, lá bem no fundo. A polpa branca que forrava o interior da noz era bastante mole e fácil de comer com uma colher, se nos apetecesse, e o suco era fresco e doce.

- Smith! - chamou.

- Sim, meu sargento.

- Leva estes aos sacanas dos japoneses.

- Porquê sempre eu?

- Levanta-te e tira daqui o cu.

Smith pôs-se em pé a resmungar e fez o que lhe mandavam. Torusumi e o outro guarda beberam profundamente. Depois Torusumi gritou para Peter Marlowe:

- Obrigado!

- Que a paz seja contigo - respondeu Peter Marlowe. Torusumi puxou de um maço bastante amarrotado de Kooas e passou-os a Peter Marlowe.

- Agradeço-te - disse Peter Marlowe.

- Que a paz seja contigo - respondeu Torusumi delicadamente. Havia sete cigarros. Os homens insistiram em que Peter Marlowe tirasse dois. Os outros cinco foram partidos aos bocados, um para quatro homens, e, por consenso comum, os cigarros deviam ser fumados depois do almoço.

O almoço era arroz, água de peixe e chá. Peter Marlowe tirou apenas arroz e juntou-lhe uma pitada de blachang. Como sobremesa saboreou a sua parte do coco. Depois instalou-se fatigadamente contra o cepo de uma das árvores e contemplou o campo de aterragem, enquanto esperava que terminasse a hora do almoço.

Para sul ficava uma colina e em volta dessa colina havia milhares de trabalhadores chineses. Todos levavam dois cestos de bambu numa vara de bambu atravessada nos ombros e subiam a colina e apanhavam dois sacos de terra e voltavam a descer a colina para os despejarem. O seu movimento era -perpétuo e podia quase ver-se a montanha desaparecer. Sob o sol ardente.

Peter Marlowe viera ao aeródromo nº 4 cinco vezes por semana, durante quase dois anos. Quando tinham visto o local pela primeira vez, Larkin e ele, com as suas colinas, pântanos e areias, tinham-se rido e pensado que nunca aquilo seria transformado num aeródromo. No fim de contas, os chineses não tinham tractores nem bulldozers. Mas agora, dois anos mais tarde, havia já uma faixa operativa, e a grande, a faixa dos bombardeiros, estava quase terminada.

Peter Marlowe maravilhava-se com a paciência de todos estes trabalhadores-formigas e imaginava o que as suas mãos poderiam fazer se fossem postas em acção com equipamento moderno.

Os olhos fecharam-se-lhe e ele adormeceu.

- Ewart! Onde está o Marlowe? - perguntou Grey secamente.

- Num grupo de trabalho no aeroporto. Porquê?

- Diz-lhe que vá ter comigo logo que volte.

- E onde estará você?

- Como raio hei-de saber? Ele que trate de me encontrar. Quando Grey ia a sair da barraca, sentiu um ameaço de espasmo e começou a apressar-se em direcção às latrinas. Antes que chegasse a meio caminho, o espasmo aumentou e um pouco de muco sanguíneo saiu dele, encharcando ainda mais a almofada de erva que ele usava nas cuecas. Atormentado e muito fraco, encostou-se à barraca para ganhar forças.

Grey sabia que era altura de mudar mais uma vez a almofada, a quarta de hoje, mas não se importou. Pelo menos, a almofada era higiénica e poupava-lhe as cuecas, o único par que tinha. E sem a almofada não poderia andar por ali. "Nojento", disse para si próprio. Como um pano higiénico. Que grande chatice! Mas ao menos era eficiente.

Devia ter dado hoje parte de doente, mas não podia, agora que tinha o Marlowe apanhado. Não, era bom de mais para perder, e queria ver a cara do Marlowe quando lhe dissesse. Valia a pena saber que o tinha nas mãos. Sacana ordinário. E através do Marlowe, o Rei havia de suar um pouco. Dentro de um par de dias teria os dois nas mãos. É que sabia do diamante e sabia que o contacto seria feito dentro dos próximos dias. Não sabia exactamente quando, mas haviam de dizer-lho. "És esperto", disse para si próprio. "Esperto em teres um sistema tão eficiente."

Foi até à barraca da sua cadeia e disse ao P. M. que esperasse cá fora. Mudou a almofada e esfregou as mãos, na esperança de apagar a mancha, a mancha invisível.

Sentindo-se melhor, Grey forçou-se a abandonar os degraus da varanda e dirigiu-se à barraca dos fornecimentos. Hoje devia fazer a sua inspecção semanal dos fornecimentos de arroz e de comida. Os fornecimentos conferiam sempre, porque o tenente-coronel Jones era eficiente e dedicado e pesava pessoalmente o arroz do dia e em público. Assim, nunca havia oportunidade para trapaças. Grey admirava o tenente-coronel Jones e gostava da maneira como ele próprio fazia tudo, pois assim não havia fugas. Invejava-o tambem, porque era muito novo para ser tenente-coronel. Apenas 33 anos. "É de uma pessoa se arrepelar", disse para si próprio. "Ele é tenente -coronel e tu és apenas tenente... e a única diferença é estares no ofício certo, na altura certa. Contudo, estás a proceder muito bem e a conquistar amigos que te ajudarão quando acabar a guerra." É claro que Jones era um paisano, não continuaria no serviço militar. Mas Jones era amigo de Samson e também de Smedly-Taylor, superior de Grey, e jogava brídege com o comandante do campo. "Gajo com sorte. Eu sei jogar brídege tão bem como tu e nunca sou convi dado e trabalho mais que ninguém."

Quando Grey chegou à barraca dos fornecimentos, a distribuição diária de arroz estava ainda a processar-se.

- bom dia, Grey - disse Jones. - Já o atendo.

Era um homem alto, simpático, bem-educado, calmo. Tinha uma cara jovem e a alcunha de coronel Rapaz.

- Muito obrigado, Sir.

Grey estava em pé e observava os representantes da cozinha - um sargento e um recruta-, que chegaram com a balança. Cada cozinha fornecia dois homens para receberem as rações: um para vigiar o outro. Pesado o arroz, a folha-recibo recebia o visto. Depois de servida a última cozinha, o que restava do saco era recebido pelo quartel-mestre, sargento Blakely, e levado para a barraca. Grey seguia o tenente-coronel Jones e deste recebia distraidamente os números: "Nove mil quatrocentos e oitenta e três homens e oficiais, a cem gramas por homem. Doze sacos, aproximadamente." Fazia um aceno de cabeça em direcção aos sacos de juta. Grey observava a contagem, sabendo que deviam ser doze. Tudo o resto - carne, peixe seco, ovos, sal - era verificado. Grey assinou a relação e contraiu-se, quando o afligiu um novo espasmo.

- Disenteria? -perguntou Jones, preocupado.

- Um pouco, Sir. - Grey olhou em redor na semiobscuridade e fez a continência. - Obrigado, Sir. Até para a semana.

- Obrigado, tenente.

À saída, Grey foi atacado por novo espasmo e tropeçou contra a balança, derrubando-a e espalhando os pesos pelo chão.

- Perdão - disse Grey. - Isto é que eu sou um trapalhão. Levantou a máquina e tacteou o chão em busca dos pesos, mas já Jones e Blakely estavam de joelhos a apanhá-los.

- Não se incomode, Grey - disse Jones, que depois ladrou para Blakely: - Já lhe disse que pusesse a balança a um canto.

Mas Grey já apanhara um peso de um quilo. Não podia acreditar no que via e levou o peso para a porta, examinando-o à luz, para se certificar de que os olhos não o enganavam. Assim era. No fundo do peso, de ferro, havia um buraco atulhado de gesso. Tirou o gesso com a unha, muito pálido.

- Que é, Grey? - perguntou Jones.

- Este peso foi falsificado. - E tais palavras eram uma acusação.

- Quê? É impossível! -Jones aproximou-se de Grey. - Deixe-me ver isso. - Estudou-o durante uma eternidade e depois sorriu. - Não foi falsificado. É um simples furo de correcção. Provavelmente, o peso inicial era ligeiramente superior ao que devia ser. - Teve um risinho frouxo. - Meu Deus! Você assustou-me, por um momento.

Grey caminhou rapidamente para o resto dos pesos e pegou num deles. Também esse tinha um furo.

- Santo Deus! Foram todos falsificados!

- Isso é absurdo - disse Jones. - São apenas correcções...

- Sei o suficiente sobre pesos e medidas - disse Grey - para saber que os furos não são permitidos. Não há furos de correcção. Se um peso sai errado, é logo retirado.

Voltou-se rapidamente para Blakely, que se encolhia contra a porta.

- Que sabe você sobre isto?

- Nada, Sir - respondeu aquele, aterrado.

- Faria melhor em dizer-mo!

- Não sei nada, Sir, sinceramente...

- Muito bem, Blakely. Sabe o que vou fazer? vou sair da barraca e vou contar a toda a gente que encontrar o que você fez... e vou mostrar-lhes este peso, e, antes que eu possa comunicar ao coronel Smedly-Taylor, você será afastado.

Grey dirigiu-se para a porta.

- Espere, Sir - disse Blakely, com a voz sufocada. - Eu digo-lhe. Não fui eu, Sir. Foi o coronel. Obrigou-me a fazê-lo. Apanhou-me a tirar um pouco de arroz e jurou que me metia dentro se não o ajudasse...

- Cale-se, seu parvo - disse Jones. E depois, numa voz mais calma, para Grey: - Este maluco está a tentar comprometer-me. Eu nunca soube de nada...

- Não o ouça, Sir - interrompeu Blakely. - É sempre ele que pesa o arroz. Sempre. E tem a chave do cofre onde guarda os pesos. O senhor bem sabe que é ele que faz tudo. E quem quer que lide com os pesos tem de olhar para o fundo de vez em quando. Por mais bem camuflados que estejam os furos, tem de se dar por eles. E isto dura há um ano ou mais.

- Cale-se, Blakely! -gritou Jones. - Cale-se. Silêncio.

Então, Grey disse:

- Coronel, há quanto tempo servem estes pesos?

- Não sei.

- Um ano? Dois anos?

- Como raio é que eu sei? Se os pesos estão falsificados, isso não tem nada a ver comigo.

- Mas o senhor tem a chave e tem-nos fechados?

- Sim, mas isso não quer dizer...

- Já alguma vez olhou para o fundo dos pesos?

- Não, mas...

- É um tanto estranho, não lhe parece? - perguntou Grey impiedosamente.

-Não, não é, e eu mão quero ser interrogado por... - Seria melhor que me dissesse a verdade, para seu próprio bem. - Está a ameaçar-me, tenente? Mando-o a conselho de guerra... - Nada sei a esse respeito, meu coronel. Estou aqui legalmente, e os pesos foram falsificados, não foram? - Ora, ouça, Grey...

-Não foram? - E Grey pôs o peso à altura da cara de Jones, que perdera o seu ar arrapazado.

- Eu... creio que sim - disse Jones-, mas isso não significa...

- Significa que ou o senhor ou o Blakely são responsáveis. Talvez ambos. Os dois são os únicos que aqui entram. Os pesos pecam por defeito e um ou os dois têm ficado com a ração extra.

-Não fui eu, Sir - choramingou Blakely. - Apenas apanhei meio quilo em cada dez.

- Aldrabão! - gritou Jones.

- Isso é que não sou. Disse-lhe mais de mil vezes que íamos pagar por isto. - Voltou-se para Grey, torcendo as mãos. - Por favor, Sir, por favor não diga nada. Os homens fazem-nos em bocados.

- Espero que o façam, seu malandro, espero que o façam. Grey estava contente por ter encontrado os pesos falsificados.

Ah, sim, estava contente!

Jones puxou da sua caixa de tabaco e começou a enrolar um cigarro.

- Quer um? - perguntou, com a sua cara de rapaz, esforçando-se num sorriso vão.

- Não, muito obrigado.

Grey não fumava um cigarro havia quatro dias e bem precisava de um.

- Nós podemos resolver isto - disse Jones, recuperando a sua boa disposição. - Talvez alguém tenha falsificado os pesos. Mas a importância é insignificante. Eu posso arranjar outros pesos, pesos exactos...

- Portanto, admite que estes foram falsificados?

- Estou apenas a dizer, Grey...- Jones deteve-se.- Saia, Blakely. Espere lá fora.

Imediatamente Blakely se voltou para a porta.

- Fique onde está, Blakely - disse Grey, que depois voltou de novo os olhos para Jones, com deferência. - Não há necessidade de Blakely sair, pois não, Sir?

Jones estudou-o através do fumo. Depois disse:

- Não. As paredes não têm ouvidos. Muito bem. O senhor fica com meio quilo de arroz por semana.

- Só isso?

- Digamos um quilo de arroz por semana e duzentos e cinquenta gramas de peixe seco. Uma vez por semana.

- E açúcar? Ou ovos?

-Bem sabe que tanto um como os outros vão para o hospital.

Jones esperou. Grey esperou. E Blakely soluçava em segundo

plano. Então, Grey começou a afastar-se, metendo o peso no bolso.

- Só um minuto, Grey. - Jones pegou em dois ovos e ofereceu-Lhos. - Pronto. Vai receber um por semana, juntamente com os outros fornecimentos. E um pouco de açúcar.

- vou dizer-lhe o que tenciono fazer, meu coronel. vou já ter com o coronel Smedly-Taylor, vou contar-lhe o que o senhor disse e vou mostrar-lhe os pesos... E, se houver uma comissão dos furos, e espero que haja, eu vou participar e vou desfazê-los, mas devagar, porque quero vê-los morrer. E quero ouvi-los gritar e vê-los morrer durante muito tempo. Aos dois.

Saiu então da barraca para o sol, e o calor do dia feriu-o. E a dor revolveu-lhe as entranhas. Mas dominou-se e começou a descer a colina.

Jones e Blakely, à porta da barraca dos fornecimentos, viram-nno partir. E ambos estavam aterrados.

- Meu Deus! Sir, que vai acontecer? - choramingou Blakely. Vão enforcar-nos...

Jones empurrou-o para dentro da barraca, fechou a porta e lançou-o ao chão com perversidade.

- Cale-se!

Blakely balbuciava no chão e as lágrimas corriam-lhe pela face; por isso, Jones pô-lo em pé e agrediu-o de novo.

- Não me bata. O senhor não tem o direito...

- Cale-se e escute-me. - Jones deu-lhe outra sacudidela. Escute-me, raios o partam! Eu disse-lhe mil vezes que usasse os pesos verdadeiros no dia da inspecção do Grey, seu filho da mãe, parvo e incompetente. Pare com a choradeira e escute-me. Em primeiro lugar, você vai negar tudo quanto foi dito. Compreende? Eu não dou presentes ao Grey, compreende?

- Mas, Sir...

- Tem de negar, compreende?

- Compreendo, Sir.

- bom. Vamos ambos negar e, se você se agarrar à história, eu vou safar a gente.

- É capaz? É capaz, Sir?

- Sou, se você negar. Outra coisa. Você não sabe nada dos pesos, nem eu. Compreende?

- Mas nós somos os únicos...

- Compreende?

- Compreendo, Sir.

- A seguir. Não se passou nada, a não ser que o Grey descobriu os pesos falsificados, e você e eu ficámos igualmente surpreendidos. Compreende?

- Mas...

- Agora diga-me o que aconteceu. Raios o partam, diga-me! - gritou Jones, enorme, acima dele.

- Nós estávamos a acabar a inspecção e então... então o Grey cai por cima da balança, os pesos caem e... e então descobrimos que os pesos eram falsos. Está bem, Sir?

- Que aconteceu a seguir?

- Bem, Sir... - Blakely pensou um momento e depois o rosto iluminou-se-lhe. - Grey perguntou-nos o que era aquilo nos pesos, e eu nunca vira que eles eram falsos. E o senhor também ficou muito admirado. Depois, o Grey foi-se embora.

Jones ofereceu-lhe um pouco de tabaco.

- Você esquece-se do que Grey disse. Não se lembra? Ele disse: "Se você me der um pouco de arroz por fora, meio quilo por semana, e um ou dois ovos, eu não comunico nada." E então eu disse-lhe que fosse para o diabo, que quem ia comunicar era eu, que faria também queixa dele e que tinha a cabeça perdida de indignação por causa dos pesos falsificados. Como é que eles para lá foram? Quem foi o sujo?

Os olhinhos de Blakely estavam cheios de admiração.

- Sim, senhor. Lembro-me muito bem. Ele pediu meio quilo de arroz e um ovo ou dois. Exactamente como o senhor disse.

- Então, lembre-se disso, seu palerma! Se se servisse dos pesos bons, não estaríamos metidos neste sarilho. Não me volte a falhar... ou será a sua palavra contra a minha.

- Prometo, Sir.

- De qualquer modo, é a nossa palavra contra a do Grey. Por isso, não se preocupe. Se você mantiver a calma e se lembrar.

- Não me esqueço, pode ter a certeza.

- Óptimo.

Jones fechou o cofre e a porta da frente da barraca e abandonou a área.

"Jones é um tipo esperto." Blakely persuadia-se a si próprio. "Vai safar-nos desta." Agora, que o choque de ser descoberto se atenuara, sentia-se mais seguro. "Pois é, e o Jones, para salvar a cabeça dele, tem de salvar a tua. Sim, Blakely, meu velho, tu próprio és esperto, esperto para teres a certeza de que o tens na mão, em caso de traição."

O coronel Smedly-Taylor examinou o peso meticulosamente.

-É espantoso!-disse. - Não posso acreditar. - Olhou atentamente e tornou: - O senhor diz-me a sério que o tenente-coronel Jones quis suborná-lo? com provisões do campo?

- Sim, senhor. Foi exactamente como lhe disse. Smedly-Taylor sentou-se na cama, no seu pequeno pavilhão, e limpou o suor, porque o tempo estava quente e abafado.

- Não acredito - repetiu, abanando a cabeça.

- Eram os únicos que tinham acesso aos pesos...

- Bem sei. Não é que eu duvide da sua palavra, Grey, mas é tão... inacreditável!

Smedly-Taylor ficou calado um longo momento e Grey esperou pacientemente.

- Grey... - O coronel continuou a examinar o peso e o pequeno buraquito, enquanto prosseguia:-Vou pensar o que hei-de fazer sobre isto. O... assunto... é muito perigoso. Você não deve falar do caso a ninguém. A ninguém, compreende?

- Compreendo perfeitamente.

- Meu Deus! Se é como você diz, esses homens seriam massacrados. - De novo Smedly-Taylor abanou a cabeça. - Que dois homens... que o tenente-coronel Jones pudesse... as rações do campo! E todos os pesos estão falsificados?

- Todos.

- Quanto pensa você que lhes falta ao todo?

- Não sei, mas talvez meio quilo em cada duzentos. Suponho que eles ficavam com quilo e meio ou dois quilos de arroz por dia. Sem contar com o peixe seco nem os ovos. Talvez haja outros metidos nisso... Teria de haver. Não podiam cozer arroz sem que se desse por isso. Provavelmente há uma cozinha implicada também.

- Meu Deus! - Smedly-Taylor começou a passear para trás e para diante. - Obrigado, Grey, você fez um bom trabalho. Tratarei de que seja posto na sua folha de serviço. - Estendeu-lhe a mão.

- bom trabalho, Grey.

Grey apertou-lhe firmemente a mão.

- Muito obrigado, Sir. Só lamento não ter descoberto antes.

- Agora, nem uma palavra a ninguém. É uma ordem!

- Compreendo.

Fez a continência e afastou-se. Os pés mal lhe tocavam no chão.

Uma vez que Smedly-Taylor dissera "tratarei de que seja posto na sua folha de serviço", talvez o promovessem. Grey pensou nisto com uma súbita esperança. Houvera algumas promoções no campo e ele não diria que não ao posto superior. "Capitão Grey" soava bem. "Capitão Grey!"

A tarde arrastava-se. Sem trabalho, Peter Marlowe tinha dificuldade em manter os homens em pé e, por isso, organizou grupos para irem à forragem e ia mudando os guardas, pois Torusumi estava de novo a dormir. O calor era perverso, o ar assava, e todos amaldiçoavam o sol e suspiravam pela noite.

Finalmente, Torusumi acordou, aliviou-se no mato, pegou na espingarda e começou a passear para cima e para baixo, para enxotar o sono. Deu um berro a alguns dos homens que dormitavam e gritou para Peter Marlowe:

- Peço-te que ponhas estes filhos da mãe em pé e a mexer e que os ponhas a trabalhar ou, pelo menos, os faças parecer que trabalham.

Peter Marlowe aproximou-se.

- Lamento que estejas arreliado. - E, voltando-se para o sargento: - Por amor de Deus. Você sabe bem que tem de o ter debaixo de olho. Ponha-me esses idiotas a trabalhar ou, pelo menos, a fingir que trabalham, seu palerma. Mande-os abrir uma cova, deitar aquela árvore abaixo ou cortar folhas de palmeira.

O sargento apresentou as desculpas convenientes e, em menos de um fósforo, os homens afadigavam-se a fingir que estavam ocupados. Eram peritos na matéria.

Umas quantas cascas de coco foram arrumadas, umas poucas de copas empilhadas e uns tantos golpes de serra feitos nas árvores.

Se trabalhassem àquele ritmo dia após dia, em breve toda a área estaria limpa e plana.

O sargento informou Peter Marlowe desenfastiadamente:

- Estão todos tão ocupados quanto possível, Sir.

- Óptimo. Agora já não falta muito.

- Oh, meu tenente... o meu tenente era capaz de me fazer um favor?

- Quê?

- Bem, é o seguinte. Dado que o meu tenente... bem...-Limpou a boca ao trapo que lhe servia de lenço, embaraçado. Mas a oportunidade era boa de mais para que a perdesse. - Veja isto.

- Tirou da algibeira uma caneta de tinta permanente. - Era capaz de ver se o japonês a quer comprar?

- Você quer que eu lha venda? - E Peter Marlowe escancarou a boca de espanto.

- Era isso, Sir. É que... bem, pensei que sendo o meu tenente amigo do Rei, talvez soubesse como tratar do caso.

- É contra as ordens vender aos guardas. Tanto contra as nossas ordens como contra as deles.

- Ora, ora, Sir. Isso não é para nós. Bem sabe que pode confiar em mim. O meu tenente e o Rei...

- Eu e o Rei o quê?

- Nada, Sir - respondeu o sargento prudentemente. "Que se passa com este gajo? Quem é que ele quer enganar?" - Pensei que o senhor pudesse ajudar-me. E à minha unidade, claro.

Peter Marlowe olhou para o sargento e para a caneta e perguntou a si próprio porque é que ficara tão zangado. No fim de contas, ele vendera para o Rei... pelo menos tentara vender para o Rei... e, na verdade, era amigo do Rei. E não havia nenhum mal nisso. Se não fosse o Rei, nunca teriam conseguido a área das árvores. Mais provavelmente, estaria a tratar de uma maxila partida ou, pelo menos, de uma face esbofeteada. Portanto, devia realmente apoiar a reputação do Rei. Ele dera-lhes os cocos.

- Quanto queres por ela?

O sargento arreganhou a tacha.

- Bem, não é uma Parker, mas tem o aparo de ouro. - Desenroscou a tampa e mostrou-o. - Por isso, deve valer alguma coisa. Talvez o senhor pudesse ver quanto o Rei oferece.

- Ele vai querer saber quanto você quer por ela. Eu pergunto-lhe, mas marque um preço.

- Se me arranjasse... sessenta e cinco dólares, eu ficava contente.

- Ela vale tanto?

- Creio que sim.

A caneta tinha realmente um aparo de ouro e a marca de catorze quilates e, tanto quanto Peter Marlowe podia julgar, era autêntica. Não era como a outra caneta.

- Onde é que você a arranjou?

-É minha, Sir. Tenho estado a guardá-la para um dia de chuva. Tem chovido muito ultimamente.

Peter Marlowe fez que sim com a cabeça. Acreditava no homem.

- Está bem. vou ver o que posso fazer. Fique a vigiar os homens e assegure-se de que não vem um guarda.

- Não se preocupe, Sir. Os gajos não mexerão uma pálpebra. Peter Marlowe foi encontrar Torusumi encostado uma árvore baixa que uma vinha abraçava.

- Tabe - disse.

- Tabe. - Torusumi olhou para o relógio e bocejou. - Dentro de uma hora podemos ir embora. Ainda não são horas. - Tirou o bivaque e limpou o suor da cara e do pescoço. - Raio de calor e maldita ilha!

- Pois é. - Peter Marlowe tentou fazer que as palavras soassem importantes, como se fosse o Rei a falar, e não ele. - Um dos homens tem uma caneta para vender. E ocorreu-me que tu, como amigo, pudesses querer comprá-la.

- Astaghfaru'lloh! É uma Parker?

- Não. - Peter Marlowe puxou da caneta e desenroscou a tampa, pondo o aparo de modo que lhe batesse o sol. - Mas tem um aparo de ouro.

Torusumi examinou-o. Ficou desapontado por não se tratar de uma Parker, mas isso teria sido esperar muito. Pelo menos aqui, num campo de aterragem. Uma Parker teria sido proposta pelo próprio Rei.

- Não vale muito - disse.

- Claro. Se não te interessa... -E Peter Marlowe voltou a meter a caneta na algibeira.

- Pode interessar -me. Talvez possamos passar uma hora a discutir este assunto insignificante. - Encolheu os ombros. - Não vale mais que setenta e cinco dólares.

Peter Marlowe ficou espantado de ter sido tão alta a primeira oferta. "O sargento não pode ter uma ideia do seu valor. Santo Deus! Quem me dera saber qual é o seu valor real."

Foi assim que se sentaram e marralharam. Torusumi zangou-se e Peter Marlowe mostrou-se firme. E acabaram por assentar em cento e vinte dólares e um maço de Kooas.

Torusumi pôs-se em pé e voltou a bocejar.

- São horas de me ir. - E sorriu. - O Rei é um bom professor. Da próxima vez que o veja, vou dizer-lhe que te aproveitaste da minha amizade para me impingires um mau negócio. - Abanou a cabeça com simulada autopiedade. - Um preço desses por essa miserável caneta! O Rei vai, com certeza, rir-se de mim. Diz-lhe, peço-te, que estarei de guarda dentro de sete dias a contar de hoje. Talvez ele consiga arranjar-me um relógio. Mas um bom desta vez!

Peter Marlowe estava contente por ter feito sem perigo a sua primeira transacção por aquilo que parecia um bom preço. Mas encontrava-se numa situação embaraçosa. Se desse o dinheiro todo ao sargento, o Rei ficaria perturbado. É que arruinaria a estrutura que o Rei tão cuidadosamemte construíra. E Torusumi mão deixaria de mencionar ao Rei a caneta e a quantia. Contudo, se ele desse ao sargento apenas o que ele pedira e guardasse o resto, bem, isso era uma burla. Pois não era? Ou seria um bom "negócio"? Na verdade, o sargento pedira sessenta e cinco dólares e era isso que ia receber. E Peter Marlowe devia ao Rei um ror de dinheiro.

Oxalá nunca se tivesse metido naquele estúpido negócio. Agora fora apanhado na ratoeira que ele próprio construíra. "O teu mal. Peter, é que fazes a teu respeito uma ideia demasiado importante. Se tivesses dito não ao sargento, não estarias agora metido nesse sarilho. Que vais fazer? O que quer que faças, estará mal!"

Voltou para trás devagar, meditando. O sargento já mandara formar os homens e puxou Peter Marlowe à parte, com expectação.

- Estão todos prontos, Sir. E já verifiquei as ferramentas. Depois baixou a voz. - Ele comprou-a?

- Comprou. - E então Peter Marlowe tomou a sua decisão. Meteu a mão ao bolso e deu ao sargento o maço de notas. - Aqui tem. Sessenta e cinco dólares.

- O meu tenente é uma jóia! - Tirou uma nota de cinco dólares e ofereceu-lha. - Devo-lhe um dólar e cinquenta.

- Não me deve nada.

- Dez por cento são seus. É legal e eu tenho muito prazer em pagá-los. Dou-lhe o dólar e meio logo que tenha troco.

Peter Marlowe recusou a nota.

- Não - disse ele, sentindo-se subitamente culpado. - Guarde-a.

- Eu insisto - tomou o sargento, empurrando-lhe a nota para a mão.

- Escute, sargento...

- Bem, pelo menos fique com os cinco. Sinto-me muito mal, Sir, se não aceitar. Muito mal. Não tenho palavras para lhe agradecer.

Durante todo o caminho de regresso ao campo de aterragem Peter Marlowe manteve-se silencioso. Sentia-se pouco limpo com o molho monstruoso de notas na algibeira, mas, ao mesmo tempo, sabia que devia o dinheiro ao Rei e estava satisfeito por tê-lo, pois com ele compraria extras para a unidade. A única razão por que o sargento lhe pedira era porque ele conhecia o Rei, e era o Rei, e não o sargento, que era seu amigo. Todo o miserável negócio lhe andava ainda às voltas na cabeça quando voltou à sua barraca.

- O Grey quer falar contigo, Peter - disse Ewart.

- Para quê?

- Não sei, meu velho. Mas parecia chateado com qualquer coisa.

O espírito fatigado de Peter Marlowe adaptou-se ao novo perigo. Tinha de ser qualquer coisa relacionada com o Rei. Grey significava sarilho. "Que será, Peter? Pensa lá! A aldeia? O relógio? O diamante? Oh, meu Deus... a caneta? Não, isso é disparate. Ele não pode ainda saber disso. Devo ir falar com o Rei? Talvez ele saiba do que se trata. Perigoso. Talvez fosse por isso que Grey disse a Ewart que me obrigasse a cometer um erro. Deve ter sabido que eu estava num grupo de trabalho.

"Não faz sentido ir como um cordeirinho para o matadouro quando se está sujo e com calor. Um duche e depois vou até à barraca da prisão. Não tenho pressa."

Foi assim que se dirigiu para o chuveiro. Johnny Hawkins estava debaixo de outro.

- Olá, Peter - disse Hawkins.

Um sentimento de culpa fez corar Peter Marlowe.

- Olá, Johnny. - Hawkins tinha um ar doentio. - Olha, Johnny, eu... eu lamento tanto...

- Não quero falar disso - disse Hawkins. - Apreciaria que o esquecesses.

"Saberá ele", perguntou Peter Marlowe a si próprio, aterrado, "que eu sou um dos que comeram? Ainda agora - foi só ontem? -, só o facto de pensar nisso era revoltante: canibalismo. Não sabe, com certeza, pois, nesse caso, teria tentado matar-me. Sei que, se estivesse no lugar dele, era o que faria. Ou não seria?

"Meu Deus, a que ponto nós chegámos! Tudo o que parece errado está certo e vice-versa. É demasiado difícil para que se compreenda. Demasiadíssimo. Que mundo estúpido! E os sessenta dólares e o maço de Kooas que eu ganhei e ao mesmo tempo roubei -qual das duas coisas? -, devo devolvê-los? Seria errado."

- Marlowe!

Voltou-se e viu Grey em pé, ao lado do chuveiro.

- Disseram-lhe que se apresentasse a mim quando regressasse!

- Disseram-me que o senhor queria falar-me. Logo que tomasse o duche, eu ia...

- Deixei ordens para que se apresentasse imediatamente. - Havia um ténue sorriso no rosto de Grey. - Mas não tem importância. O senhor fica detido na barraca.

- Porquê?

Grey regozijou-se com a preocupação que pressentiu.

- Por desobedecer às ordens. - Que ordens?

- O senhor sabe tão bem como eu. - "É bom que sues. A tua consciência pesada vai preocupar-te um pouco, se é que tens consciência, do que eu duvido." - O senhor deve apresentar-se ao coronel Smedly-Taylor depois da ceia. E vestido como um oficial, não como uma pega!

Peter Marlowe saiu do chuveiro e enfiou o sarong, dando o nó com um movimento rápido, consciente dos olhares curiosos dos outros oficiais. O seu espírito estava confuso, perguntando a si próprio qual seria o problema, mas procurava esconder a sua ansiedade. Porquê dar a Grey esse prazer?

- Você é realmente tão mal-educado, Grey, tão chato - disse.

- Hoje aprendi muita coisa sobre educação, seu maldito sodomita - disse Grey. - Ainda bem que não pertenço à porcaria da sua classe, seu panasca. Todos aldrabões, vigaristas, gatunos...

- Pela última vez, Grey, feche a boca ou sou eu quem lha fecha. Assim Deus me ajude!

Grey tentou dominar-se. Desejava opor-se a este homem, aqui e agora. Podia bater-lhe. Sabia que podia. Em qualquer altura, com ou sem disenteria.

- Se alguma vez sairmos vivos deste buraco, eu trato-te da saúde. É a primeira coisa. A primeiríssima.

- Seria um prazer. Mas, até lá, se alguma vez você voltar a insultar-me, respondo-lhe a chicote. - Peter Marlowe voltou-se para os outros oficiais. - Todos me ouviram. Estou a avisá-lo. Não vou deixar-me injuriar por este macaco de baixa extracção. E agora não se aproxime de mim.

- Como posso, se o senhor é um infractor?

- De que lei?

- Compareça no gabinete do coronel Smedly-Taylor depois da ceia. E mais uma coisa... O senhor fica detido na barraca até à hora de se apresentar.

Grey afastou-se. A maior parte da sua exaltação esgotara-se. Era estúpido chamar nomes a Marlowe. Estúpido quando não havia necessidade.

Quando Peter Marlowe chegou junto do bwngalow de SmedlyTaylor, Grey já lá estava.

- vou dizer ao nosso coronel que você chegou - disse Grey.

- É muito amável.

Peter Marlowe não se sentia tranquilo. O boné de pala da Força Aérea que pedira emprestado irritava-o. A camisa, esfarrapada mas limpa, que trazia irritava-o. "Os sarongs", disse para si próprio, "são muito mais cómodos, muito mais "racionais." E, por -pensar em sarongs, pensou no dia seguinte. Era o dia de trocar dinheiro. Para o diamante. No dia seguinte Shagata devia trazer o dinheiro e depois, dentro de três dias, de novo a aldeia. Talvez Sulina...

"És um louco em pensar nela. Concentra as tuas faculdades. Vais precisar delas."

- Muito bem, Marlowe. Sentido! - ordenou Grey.

Peter Marlowe pôs-se em sentido e começou a marchar, militarmente correcto, para o aposento do coronel. Lá dentro fez uma continência correcta e fixou os olhos no oficial.

Sentado por trás de uma rude secretária, boné na cabeça, pingalim em cima da mesa, Smedly-Taylor olhou friamente para Peter Marlowe e correspondeu à continência com igual rigor. Orgulhava-se da maneira como mantinha a disciplina no campo. Tudo o que fazia era militar. Pelo regulamento.

Mediu o jovem que se aprumava na sua frente e ficou satisfeito, "Isto, ao menos, é a seu favor", disse para si próprio. Ficou um momento calado, como era seu costume. Isto inquietava sempre o acusado. Por fim falou.

- Bem, tenente aviador Marlowe, que tem a dizer em sua defesa?

- Nada, Sir. Não sei de que sou acusado.

O coronel Smedly-Taylor olhou para Grey, surpreendido, e depois voltou a encarar Marlowe, de testa franzida.

- Talvez tenha infringido tantas regras que não sabe de quais temos conhecimento. O senhor entrou ontem na prisão. Isso é contra o regulamento. O senhor não trazia braçadeira. Isso é contra o regulamento.

Peter Marlowe sentiu-se aliviado. Era apenas a prisão. "Mas então... e a comida?"

- Bem - disse o coronel laconicamente -, é ou não verdade?

- É verdade, Sir.

- Sabia que estava a infringir o regulamento?

- Sim, meu coronel.

- Porque entrou na prisão?

- Fui apenas visitar alguns homens.

- Ah?!-O coronel esperou, depois disse causticamente:-Apenas visitar alguns homens?

Peter Marlowe não disse nada, apenas esperou. Depois veio o resto.

- O americano também esteve na prisão. O senhor esteve com ele?

- Durante uma parte do tempo. Não há lei contra isso, Sir. Mas, realmente, infringi duas ordens.

- Que velhacaria estiveram vocês a preparar?

- Nenhuma, Sir.

- Admite então que vocês dois estão ligados a certas irregularidades, de tempos a tempos?

Peter Marlowe estava furioso consigo próprio por não pensar antes de responder, sabendo que, com este homem, um excelente homem, ele estava sempre em desvantagem.

- Não, Sir.

Os seus olhos focaram-se no coronel, mas ele não disse nada. Regra nº 1: quando estiveres perante a autoridade, diz apenas "sim, senhor", "não, senhor" e a verdade. Era uma lei inviolada que os oficiais diziam sempre a verdade, e aqui estava ele, contra toda a sua herança, contra tudo o que ele sabia ser correcto, a dizer mentiras e verdades parciais. O que estava perfeitamente errado. Estaria?

O coronel Smedly-Taylor começou agora a jogar o jogo que jogara tantas vezes antes. Era-lhe fácil brincar com um homem e depois liquidá-lo, se assim lhe aprouvesse.

- Escute, Marlowe - disse com ar paternal. - Tem sido comunicado que você se mistura com elementos indesejáveis. Seria sensato da sua parte que você considerasse a sua posição como oficial e como cavalheiro. Agora essa associação... com esse americano... Ele faz mercado negro. Ainda não foi apanhado, mas nós sabemos e você também deve saber. Eu aconselhá-lo-ia a pôr termo a essa associação. Não posso mandar, é claro, mas aconselho.

Peter Marlowe não respondeu, sangrando por dentro. O que o coronel dizia era verdade; contudo, o Rei era seu amigo e estava a ajudá-lo e a alimentá-lo, assim como à sua unidade. E era um excelente homem, excelente.

Peter Marlowe sentiu vontade de dizer: "Está enganado. Ele é um bom rapaz, eu gosto dele e divertimo-nos muito e rimos muito." E ao mesmo tempo queria admitir as vendas e a aldeia, admitir o diamante e admitir a venda de hoje. Mas Peter Marlowe já via o Rei por trás das grades... diminuído na sua estatura. Por isso, impôs-se-lhe não confessar.

Smedly-Taylor apercebia-se perfeitamente do que se passava no espírito do jovem que tinha na sua frente Ter-lhe-ia sido fácil dizer: "Espere lá fora, Grey." E depois: "Escuta, meu rapaz, eu compreendo o teu problema. Santo Deus! Tive um regimento sob as minhas ordens quase desde que me conheço. Conheço o problema: não queres trair o teu companheiro. É -muito louvável. Mas tu és um jovem oficial de carreira, um oficial hereditário. Pensa na tua família e nas gerações de oficiais que serviram a pátria. Pensa neles. É a tua honra que está em jogo. Tens de dizer a verdade, essa é a lei." E depois do seu pequeno suspiro, praticado durante uma geração: "Esqueçamos este disparate de infracção às regras por se ir à prisão. Eu próprio o fiz várias vezes. Mas, se quiseres confiar em mim..." E deixava que as palavras pairassem exactamente com a gravidade necessária, e lá vinham os segredos do Rei. E o Rei iria para a prisão do campo. Mas que propósito serviria isso?

Para já, o coronel tinha uma preocupação mais grave: os pesos. Isso, sim, poderia ser uma catástrofe de infinitas proporções.

O coronel Smedly-Taylor sabia que podia sempre obter, a seu capricho, as informações de que necessitasse, tão bem conhecia ele os seus homens. Sabia que era um comandante hábil - santo Deus, era natural, depois de todo este tempo! -, e a primeira regra era manter o respeito dos seus oficiais, tratá-los com brandura, até que eles realmente pisassem o risco, e depois destruir um deles impiedosamente, como lição para os outros. Mas tinha de escolher a altura certa, o crime certo e o oficial certo.

- Muito bem, Marlowe - disse com firmeza. - vou multá-lo num mês de pré. Não registo o castigo e não se fala mais nisso. Mas não infrinja mais regras.

- Muito obrigado, Sir.

Peter Marlowe fez a continência e saiu, contente por terminar a entrevista. Estivera à beira de contar tudo. O coronel era um homem honesto e amável e era grande a reputação da sua lealdade.

- Pesa-te alguma coisa na consciência? - perguntou Grey, fora do bungalow, reparando-lhe no suor.

Peter Marlowe não respondeu. Estava ainda transtornado, mas imensamente aliviado por se ver livre daquela. O coronel deu um grito:

- Grey, pode chegar aqui por um momento?

- Com certeza, Sir.

Grey olhou uma última vez para Peter Marlowe. Um mês de pré! Não era muito, considerando que o coronel o tinha nas mãos. Grev estava surpreendido e um pouco aborrecido por Marlowe se ter safado com tão pouco. Porém, ao mesmo tempo, vira antes Smedly-Taylor em acção. E sabia que o coronel era pertinaz como um buldogue e que brincava com os homens como se fossem peixes. Devia ter um plano, ou não deixaria Marlowe safar-se tão facilmente.

iGrey passou ao lado de Peter Marlowe e entrou de novo.

- Eh, feche a porta, Grey.

- Sim, senhor.

Quando ficaram sós, o coronel Smedly-Taylor disse:

- Estive com o tenente-coronel Jones e com Blakely, sargento de intendência Blakely.

- Sim, senhor? - "Agora estamos a chegar a algum lado!"

- Dispensei-os das suas funções a partir de hoje - disse o coronel, brincando com o peso.

Grey teve um sorriso largo.

- Sim, senhor.

Agora, quando reuniria o tribunal de guerra e como seria organizado e seria público ou privado? Em breve, toda a gente no campo saberia que ele, Grey, os apanhara na sua fraude; ele, Grey, era um anjVda-guarda, e, meu Deus, como seria maravilhoso!

-E esqueceremos o assunto - disse o coronel.

O sorriso de Grey desvaneceu-se.

- Como?

- Sim, decidi esquecer este assunto. E o senhor também. com efeito, repito a minha ordem. O senhor não falará disto a ninguém e esquecerá o facto.

Grey ficou tão assombrado que se deixou cair na cama, de olhos fixos no coronel.

- Mas não podemos fazer isso, Sir - explodiu. - Apanhámo-los com a boca ma botija. A roubar a comida do campo. Quer dizer, a sua comida e a minha comida. E tentaram subornar-me. Subornar-me! -E a sua voz ganhou tons de histeria. - Santo Deus! Eu apanhei-os, são ladrões, merecem ser enforcados e esquartejados!

- É verdade. - O coronel Smedly-Taylor fez que sim, gravemente, com a cabeça. - Mas eu penso, dadas as circunstâncias, que esta é a decisão mais sensata.

Grey pôs-se em pé de um salto.

- O senhor não pode fazer isso! - gritou. - Não pode deixá-los assim, sem mais nada! Não pode...

- Não é o senhor que me diz o que eu posso ou não posso fazer!

- Desculpe - disse Grey, procurando dominar-se. - Mas esses homens são ladrões. Eu apanhei-os. Nós apanhámos o peso.

- Eu decidi que o assunto está encerrado. - A sua voz era calma. - O assunto está encerrado.

O génio de Grey estoirou: - com mil diabos! Não está encerrado! Não permito que esteja encerrado! Esses filhos da mãe estiveram a comer, enquanto nós passávamos fome. Merecem ser cortados aos bocadinhos. E eu insisto...

A voz de Smedly-Taylor pôs termo à histeria. -Cale-se, Grey! Você não pode insistir em coisa nenhuma. O assunto está encerrado.

Smedly-Taylor suspirou profundamente, pegou num papel e disse:

- Este é o seu relatório oficial. Acrescentei hoje mais qualquer coisa. vou ler-lho: "Recomendo fortemente o tenente Grey pelo seu trabalho como chefe da Polícia Militar. O seu cumprimento do dever é, a todos os títulos, excelente. Gostaria de recomendar que lhe fosse dado o posto efectivo de capitão." - Levantou os olhos do papel. - Tenciono mandar isto hoje ao comandante do campo e recomendar que a sua promoção seja efectiva a partir de hoje. Esboçou um sorriso. - Sabe, com certeza, que ele tem autoridade para o promover. As minhas felicitações, capitão Grey. Bem o merece. - E estendeu a mão a Grey.

Mas Grey não a aceitou. Apenas olhou para ela e para o papel e compreendeu.

-Seu grande filho da mãe! Está a querer comprar-me. O senhor é tão ordinário que naturalmente também comeu do arroz. Seu pedaço de merda!

- Cale-me essa boca, seu subalterno de uma figa. Em sentido! Eu disse em sentido!

- Você está feito com eles, mas eu não vou deixar que nenhum escape. - Enquanto gritava, Grey arrebatou o peso de cima da mesa e afastou-se. - Não posso ainda provar nada contra si, mas tenho as provas contra eles. Este peso...

-Que é que tem esse peso, Grey?

Levou a Grey uma eternidade baixar os olhos sobre o peso.

O fundo estava perfeito.

- Eu perguntei o que tem o peso.

"Pedaço de asno!", pensou Smedly-Taylor com desprezo, enquanto via Grey procurar o furo. "Palerma! Eu podia comê-lo ao pequeno-almoço e nem dar por isso."

- Não é o que eu lhe dei - disse Grey, sufocado. - Não é o que eu lhe dei. Não é o que eu lhe dei.

- Está completamente enganado. É o mesmo. - O coronel estava perfeitamente calmo e continuou, com a sua voz benévola e solícita:-Você é muito novo, Grey, é um jovem. Compreendo que queira ficar no exército depois de acabar a guerra. Isso é bom.

Precisamos de oficiais inteligentes e activos. O Exército Regular é uma vida maravilhosa. E o coronel Samson dizia-me há pouco a boa opinião que tem a seu respeito. Como sabe, é um bom amigo meu. Estou certo de poder convencê-lo a apoiar a minha recomendação de que lhe seja assegurada uma comissão permanente. Você está apenas extenuado, o que bem se compreende. Estamos a passar um mau bocado. Creio que seria sensato deixar cair este assunto. Seria desaconselhável envolver o campo num escândalo. Perfeitamente desaconselhável. Tenho a certeza de que você o compreende. Ficou à espera, desprezando Grey. Então, no momento exacto, porque era um perito, disse:

- Quer que eu mande a sua recomendação para capitão ao comandante do campo?

Grey voltou-se lentamente para o papel, estudando-o com horror. Sabia que o coronel podia dar ou recusar e onde podia dar ou recusar podia também chacinar. Grey sabia que fora batido. Batido. Tentou falar, mas era tão profundo o seu infortúnio que não podia falar. Fez que sim com a cabeça e ouviu Smedly-Taylor dizer:

- Óptimo, pode ter o seu posto de capitão como certo. Tenho a certeza de que a minha recomendação e a do coronel Samson terão um peso enorme para que lhe seja concedida uma comissão permanente depois da guerra.

E sentiu-se sair da sala, subir à cadeia, mandar embora o P. M. e não se importar que o homem olhasse para ele como se fosse louco. Ficou então só na barraca da cadeia. Fechou a porta, sentou-se na beira da cama dentro da cela e a sua angústia veio à superfície, e ele chorou.

Partido.

Desfeito.

As lágrimas molhavam-lhe as mãos e o rosto. O seu espírito rodopiava em terror, vacilante à beira do desconhecido, e depois caiu na eternidade...

Quando Grey voltou a si, estava deitado numa maca transportada por dois P. M. O Dr. Kennedy arrastava-se pesadamente à frente. Grey sabia que estava a morrer, mas não se importava. Então viu o Rei em pé, ao lado do caminho, olhando para ele.

Grey reparou nos sapatos bem engraxados, no vinco das calças, no cigarro feito, no ar de pessoa bem alimentada. E lembrou-se de que tinha um trabalho a fazer. Não podia ainda morrer. Não, por enquanto. Não, enquanto o Rei estivesse bem vincado e polido e bem alimentado. Não com o diamante ao pé. Não, por Deus!

- É melhor que este jogo seja o último - dizia o coronel SmedlyTaylor. - Não posso perder o espectáculo.

- Não posso esperar para dar uma olhadela ao Seam - disse Jones, arrumando as cartas. - Duque de ouros. - E abriu, satisfeito.

- Tens uma sorte dos diabos - disse Sellars. - Duque de espadas.

- Passo.

- Nem sempre a sorte de diabo, parceiro - disse Smedly-Taylor, com um fino sorriso, e os seus olhos de granito fitaram Jones. Você foi muito estúpido hoje.

- Foi azar.

- Não há desculpa para o azar - disse Smedly-Taylor, estudando as suas cartas. - Você é que foi incompetente.

- Já pedi desculpa. Pensa que eu não compreendo que fui estúpido? Não volta a acontecer. Nunca. Eu não sabia o que era entrar em pânico.

Smedly-Taylor voltou-se de novo para Jones.

- Recomendei que Samson o substitua. Você precisa de descansar. Isso vai afastar o Grey... Olá se vai! E o sargento Donovan vai ser quartel-mestre de Samson. - Teve uma risadinha. - Ê uma pena que tenhamos de mudar o sistema, mas não tem importância. Só temos de ter a certeza de que o Grey está ocupado nos dias em que nos servimos dos pesos. - Olhou para Sellars. - Esse" será o seu trabalho.

- Muito bem.

- Ah, a propósito! Multei o Marlowe num mês de pré. Ele está numa das suas barracas, não está?

- Está- disse Sellars.

- Fui brando com ele, mas ele é bom homem, vem de uma boa família... não é como esse panasca do Grey, que vem das classes baixas. Meu Deus! Que chatice lembrar-me de que o recomendei para uma comissão permanente! É precisamente o tipo de garoto de que não precisamos no Exército Regular. Não, meu Deus! Para que ele consiga uma comissão permanente, terá de passar por cima do meu cadáver.

- Concordo inteiramente - disse Sellars, com repugnância.

- Mas, quanto ao Marlowe, deviam ter sido três meses de pré. Ele pode bem. O safado do americano tem o campo na mão.

- Tem por enquanto - resmungou Smedly-Taylor, examinando mais uma vez as suas cartas, tentando emendar o seu erro.

- Você tem alguma coisa contra ele? - perguntou Jones, deitando o barro à parede. Depois acrescentou: - Três de ouros.

- Diabos o levem! - disse Sellars. - Quatro de espadas.

- Passo.

- Seis de espadas - disse Smedly-Taylor.

- Você tem realmente alguma coisa contra o americano? - perguntou de novo Jones.

O coronel Smedly-Taylor manteve um rosto impenetrável. Sabia do anel de diamante e ouvira dizer que houvera uma transacção, que o anel mudaria em breve de mãos. E quando o dinheiro estivesse no campo... bem, fora imaginado um plano, um bom plano, um plano seguro, um plano particular, para apanhar esse dinheiro. Por isso, -apenas resmungou, esboçou o seu fino sorriso e disse, descontraído:

- Se tiver, não vou com certeza revelá-lo. Vocês não merecem confiança.

Quando Smedly-Taylor sorriu, todos sorriram, aliviados.

Peter Marlowe e Larkin juntaram-se ao fluxo de homens que iam para o teatro ao ar livre.

As luzes do palco estavam já acesas, ajudadas pelo luar. O teatro podia levar duas mil pessoas. Os assentos, que se abriam em leque a partir do palco, eram tábuas colocadas sobre troncos de coqueiros. Cada espectáculo era repetido cinco noites, de modo que todo o campo o podia ver ao menos uma vez.

A maior parte das filas já estavam apinhadas, com excepção das filas da frente, destinadas aos oficiais. Os oficiais sentavam-se sempre à frente dos soldados e chegavam mais tarde. Apenas os americanos faziam excepção.

- Eh, vocês dois- chamou o Rei -, querem sentar-se ao pé de nós?

O Rei tinha o melhor lugar, junto à coxia. -Gostaria muito, mas...-disse Peter Marlowe, pouco à vontade.

- Está bem. Até logo.

Peter Marlowe olhou para Larkin e compreendeu que também ele estava a pensar que era errado não se sentar qualquer um ao lado dos seus amigos, se lhe aprouvesse, e ao mesmo tempo que era errado sentar-se lá.

- Quer sentar-se aqui, meu coronel? - perguntou fiteiro e detestando-se por fazer a fita.

- Por que não? - disse Larkin.

Sentaram-se, extremamente embaraçados, conscientes da sua defecção e conscientes dos olhares espantados.

- Eh, coronel!-E Brough curvou-se para a frente, com um sorriso no rosto. - Isso é um mau exemplo. É mau para a disciplina e para toda essa treta.

- Se quero sentar-me aqui, sento-me aqui.

Mas Larkin lamentava ter concordado tão prontamente.

- Como vão as coisas, Peter? - perguntou o Rei.

- Tudo óptimo, obrigado. - Peter Marlowe tentou vencer o seu mal-estar. Sentia que toda a gente olhava para ele. Ainda não falara ao Rei na venda da caneta, quanto mais da cena em frente de Smedly-Taylor e da rixa que quase tivera com Grey...

- Boa noite, Marlowe.

Levantou os olhos e estremeceu ao ver Smedly-Taylor, que ia a passar. Olhos de corisco.

- Boa noite, Sir - respondeu frouxamente.

Houve um certo aumento de excitação quando o comandante do campo desceu pela coxia e foi sentar-se na fila da frente. As luzes baixaram. As cortinas abriram-se. No palco estava o quinteto do campo e de pé, ao centro, estava Phil, o chefe da orquestra.

Aplausos.

- Boa noite - começou Phil. - Esta noite vamos apresentar a nova peça de Frank Parrish que tem por título O Triângulo e cuja acção se passa em Londres, antes da guerra. Destacam-se Frank Parrish, Brod Rodrick e o único e inimitável Sean Jennison...

Aplausos tumultuosos. Assobios. Gritos de onde está o Sean?", "que guerra?", "vamos lá com isso!" e "queremos o Sean!".

Phil fez um floreio com a batuta e a ouverture começou.

Agora, que o espectáculo começara, Peter Marlowe descontraiu-se um pouco.

E foi então que aconteceu...

Dino apareceu abruptamente ao lado do Rei, segredando-lhe aflitivamente ao ouvido.

- Onde?.- ouviu Peter Marlowe o Rei dizer. Depois: Okay, Dino. Raspa-te para a barraca.

O Rei inclinou-se um pouco.

- Temos de ir, Peter. - Tinha o rosto tenso e a sua voz era um mero sussurro. - Um certo tipo quer falar connosco.

Oh, meu Deus! Shagata! E agora?!

- Não podemos levantar-nos e sair já - disse Peter Marlowe, pouco à vontade.

- Não podemos, uma ova! Tivemos os dois um ataque de disenteria. Vamos. - E o Rei ia já a subir a coxia.

Consciente da expressão estranha dos seus olhos, Peter Marlowe apressou-se atrás dele.

Encontraram Shagata por trás do palco. Também ele estava nervoso.

- Peço-te que me perdoes a minha falta de correcção mandando-te chamar tão subitamente, mas há problema. Um dos agentes do nosso amigo mútuo foi interceptado e está agora a ser interrogado por contrabando pela pestilenta polícia.

Shagata sentia-se perdido sem a sua carabina e sabia que, se fosse apanhado no campo sem estar de serviço, seria posto na caixa sem janelas durante três semanas.

- Ocorreu-me que, se o nosso amigo for interrogado brutalmente, pode implicar-nos.

- Jesus! - disse o Rei.

com mão pouco firme aceitou um Kooa, e os três mergulharam mais nas sombras.

- Eu pensei que, sendo tu um homem experimentado - prosseguiu Shagata apressadamente-, devias ter um plano para nos safarmos.

- Ele tem uma esperança - disse o Rei.

O seu espírito corria para diante e para trás e dava-lhe sempre a mesma resposta: "Espera e sua."

- Peter, pergunta-lhe se Cheng San estava no junco quando ele foi interceptado.

- Ele diz que não. O Rei suspirou.

- Então, talvez Cheng San se possa safar. - Pensou mais um pouco e disse: - A única coisa que podemos fazer é esperar. Diz-lhe que não se alarme. Tem de ter o Cheng San debaixo de olho e descobrir se ele fala. Ele tem de mandar recado se a coisa rebentar.

Peter Marlowe traduziu.

Shagata sugou o ar através dos dentes.

- Espanta-me que vocês dois estejam tão calmos, enquanto eu estou a tremer de medo, porque, se for apanhado, eles começam por me abater, e ainda tenho muita sorte se for assim. Farei como tu dizes. Se fores apanhado, peço-te que não me comprometas. Eu tentarei fazer o mesmo. - Revirou a cabeça quando se ouviu um pequeno assobio de aviso. - Tenho de te deixar. Se tudo correr bem, manteremos o plano. Meteu apressadamente o maço de Kooas ma mão de Peter Marlowe. - Nada sei de ti e dos teus deuses, mas é certo que conversarei com os meus, longa e penosamente, para bem de nós dois.

Com isto se foi.

- E se o Cheng San der à língua? - perguntou Peter Marlowe, com um nó no estômago. - Que podemos fazer?

- Fazemos uma pausa. - O Rei acendeu outro cigarro com mão trémula e encostou-se contra a parede do teatro, metido nas sombras. - É melhor que Utram Road.

Atrás deles terminou a ouverture, com palmas, aplausos e risos. Mas eles não ouviram as palmas, nem os aplausos nem os risos.

Rodrick estava nos bastidores, ralhando com os carpinteiros de cena, que preparavam o palco para o espectáculo, incitando-os, expulsando-os.

- Major! - Mike precipitou-se para ele. - O Sean está com um ataque. Até os olhos lhe saem das órbitas!

- Oh, por amor de Deus! Que aconteceu? Ainda há um minuto estava muito bem - explodiu Rodrick.

- Não sei ao certo - disse Mike, mal-humorado.

Rodrik soltou outra praga e afastou-se. Ansiosamente, bateu à porta do camarim.

- Sou eu, Sean. Posso entrar?

Soluços abafados chegavam através da porta.

- Não, vai-te embora. Não vou continuar. Não posso de modo nenhum!

Rodrick experimentou a porta, mas estava fechada à chave.

- Está tudo bem, Sean. O que estás é muito cansado. Olha...

- Vai-te embora e não me chateies - gritou Sean histericamente, através da porta. - Eu não continuo.

Rodrick voltou ao palco.

- Frank!

- Que queres? - Frank, coberto de suor, estava todo irritado, no cimo de uma escada, a tentar arranjar uma luz que se recusava a trabalhar.

- Vem cá abaixo! Tenho de te falar...

- Por amor de Deus! Não vês que estou ocupado? O que quer que seja, fá-lo tu - gritou. - Sou eu que tenho de fazer tudo? Ainda tenho de me vestir e de fazer a caracterização! - Olhou de novo para a passagem. - Experimenta os outros interruptores, Duncan. Despacha-te, homem!

Por trás do pano, Rodrick ouvia o crescente coro dos impacientes assobios. "E agora, que faço?", perguntou a si próprio desesperadamente. E começou a dirigir-se de novo para o camarim.

Foi então que viu Peter Marlowe e o Rei junto à porta lateral. Desceu os degraus a correr.

- Marlowe, tens de me ajudar!

- Que se passa?

- É o Sean que está com a neura - começou Rodrick, ofegante. - Recusa-se a continuar. És capaz de falar com ele? Por favor! Eu não consigo nada. Por favor! Fala com ele. És capaz?

- Mas...

- Não te leva um segundo - interrompeu Rodrick. - És a minha última oportunidade. Por favor! Há semanas que ando preocupado com o Sean. O papel dele seria difícil para uma mulher, quanto mais... - Deteve-se, depois continuou com menos vigor. - Por favor Marlowe, receio por ele. Far-nos-ias a todos um grande serviço. Peter Marlowe hesitou.

- Está bem.

- Não tenho palavras para te agradecer, meu velho. - Rodrick limpou a testa e abriu caminho através daquele pandemónio para as traseiras do teatro, com Peter Marlowe relutantemente a reboque. O Rei seguia com um ar ausente, com o espírito concentrado em como, onde e quando deviam fazer uma pausa.

Estavam de pé no pequeno corredor. Pouco à vontade, Peter Marlowe bateu à porta.

- Sou eu, o Peter. Posso entrar, Sean?

Sean ouviu-o através do nevoeiro de terror que lhe tolhia os braços em frente do toucador.

- Sou eu, o Peter, posso entrar?

Sean levantou-se, com as lágrimas a estragarem-lhe a caracterização e correu o ferrolho. Peter Marlowe entrou hesitantemente no camarim. Sean fechou a porta.

- Oh, Peter, não posso continuar. Estou pronto. Estou no fim - disse Sean desanimadamente. - Não posso fingir mais, não posso. Estou perdido, perdido. Deus me valha! - Escondeu a face nas mãos. - Que vou fazer? Não aguento mais. Não sou nada, nada!

- Está tudo bem, Sean, meu velho - disse Peter Marlowe, com um sentimento de piedade. - Não precisas de te afligir. Tu és muito importante. És a pessoa mais importante do campo, para dizer a verdade.

- Quem me dera estar morto.

- Isso é muito fácil.

Sean voltou-se e olhou-o de frente.

- Olha para mim, por amor de Deus. Que sou eu?

Contra a sua vontade, Peter via apenas uma rapariga, uma rapariga atormentada. E a rapariga trazia uma saia branca, saltos altos, meias de seda nas suas compridas pernas e a blusa revelava o volume dos seios.

-És uma mulher, Sean - disse desanimadamente. - Sabe Deus como ou porquê, mas és.

E então o terror e o ódio a si próprio abandonaram Sean.

- Obrigado, Peter - disse ele. - De todo o coração, obrigado. Ouviu-se uma pancada leve na porta.

- Faltam dois minutos - disse Frank ansiosamente, através da porta. - Posso entrar?

- Só um segundo. - Sean dirigiu-se ao toucador, limpou as manchas das lágrimas, corrigiu a caracterização e olhou para a sua imagem.

- Entra, Frank.

A vista de Sean tirou o fôlego a Frank, como sempre acontecia.

- Estás maravilhoso - disse. - Sentes-te bem?

- Sinto. Desculpa a fita que fiz.

- É excesso de trabalho - disse Frank, disfarçando a sua preocupação, e olhou para Peter Marlowe. - Olá, prazer em ver-te.

- Obrigado.

- É melhor preparares-te, Frank - disse Sean. - Agora estou bem.

Frank sentiu aquele sorriso de rapariga bem fundo dentro de si, e caiu automaticamente na atitude que ele e Sean tinham iniciado três anos antes e que amargamente lamentavam desde então.

- Vais ser maravilhosa, Betty - disse, abraçando Sean. - Orgulho-me de ti.

Mas agora, ao contrário de inúmeras outras vezes, eram subitamente homem e mulher, e Sean descontraiu-se de encontro a ele, precisando dele com todas as moléculas do seu ser. E Frank sabia-o.

- Bem, entramos dentro de um minuto - disse enervado, abalado pela urgência da sua própria necessidade. - Tenho de me preparar. - E saiu.

- É melhor eu ir-me chegando ao meu lugar - disse Peter Marlowe, profundamente perturbado. Sentira, mais que vira, a faísca entre eles.

- Pois é. - E Sean mal deu por Peter Marlowe.

Uma olhadela final à caracterização e Sean estava nos bastidores, à espera da sua deixa. O êxtase aterrado, habitual. Então, Sean entrou. Os aplausos, a concupiscência e a admiração caíram sobre ela, com olhos a seguirem-na quando ela se sentou e cruzou as pernas, quando caminhou e falou, olhos que lhe tocavam, que se alimentavam dela. Ela e os olhos tornaram-se um só.

- Major -disse Peter Marlowe, quando ele, o Rei e Rodrick estavam nos bastidores a observar-, que vem a ser isso de Betty?

- Faz parte de toda esta trapalhada - respondeu Rodrick, um tanto confuso. - É o nome da personagem que Sean representa esta semana. Nós, o Frank e eu, chamamos sempre o Sean pelo nome da personagem que ele está a representar.

- Porquê? - perguntou o Rei.

- Para o ajudar. Para o ajudar a entrar na pele da sua personagem. - Rodrick olhou para o palco, à espera da sua deixa. Começou como uma brincadeira - disse amargamente. - Agora é um gracejo cruel. Criámos essa... essa mulher... Deus nos perdoe. Somos os responsáveis.

- Porquê? - perguntou Peter devagar.

- Bem, lembras-te de como aquilo foi duro em Java. Rodrick olhou para o Rei. - Uma vez que era actor antes da guerra, fui encarregado de organizar o teatro do campo. - Deixou que os olhos se lhe voltassem para o palco, para Sean e Frank. "Aqueles dois têm qualquer coisa esta noite", pensou. Observou criticamente a sua representação e verificou que estavam inspirados. - Frank era o outro único profissional do campo; por isso, começámos a organizar espectáculos juntos. Quando chegámos à distribuição dos papéis, é claro que alguém tinha de representar os papéis femininos. Ninguém se oferecia como voluntário; por isso, as autoridades designaram dois ou três. Um deles foi o Sean. Ele opunha-se amargamente a fazê-lo, mas é sabido como são teimosos os oficiais superiores. "Alguém tem de fazer o papel de rapariga", disseram-lhe. "E você é bastante novo para parecer uma rapariga! Você não faz a barba mais que uma vez por semana. E é só vestir uns vestidos durante uma hora ou coisa assim." E de nada serviu a Sean protestar, praguejar e suplicar.

"O Sean pediu-me que eu não o aceitasse. Bem, de nada vale trabalhar com um talento não cooperante e, por isso, tentei que ele saísse da companhia. "Escutem", disse eu aos oficiais. "Representar é um grande esforço psicológico..."

"Disparate!", disseram eles. "Que mal pode vir daí?"

"O facto de representar um papel de mulher pode pervertê-lo, no caso de ele estar minimamente inclinado..."

"Tolice", disseram. "Vocês, os homens de teatro, têm a perversão na cabeça. O sargento Jennison? Impossível. Tipo fixe. Excelente piloto em combate! Agora escute, major. Acabemos com isto. O senhor recebe a ordem de o escolher e ele recebe a ordem de o fazer!"

"Foi por isso que o Frank e eu tentámos acalmar o Sean, mas ele jurou que ia ser a pior actriz do Mundo, que tinha a certeza de que ia ser despedido depois da primeira representação desastrosa. Dissemos-lhe que nos estávamos nas tintas. A sua primeira representação foi um pavor. Mas depois já não parecia estar tão contrariado. Para sua surpresa, parecia até gostar. Por isso, começámos a trabalhar. Era bom ter alguma coisa que fazer: afastava-nos o espírito do campo malcheiroso, da comida malcheirosa. Ensinámos-lhe como uma mulher fala e anda, como se senta e fuma, como bebe e se veste e até como pensa. Depois, para o ambientar, começámos nós a representar. Sempre que estávamos no teatro, levantávamo-nos quando ele entrava, ajudávamo-lo a sentar-se, tratávamo-lo, enfim, como -uma autêntica mulher. Era excitante, ao princípio, tentar manter a ilusão, assegurando-nos de que nunca ninguém via Sean a vestir-se ou a despir-se. Até conseguimos autorização para que ele tivesse um quarto só para si. com o seu duche particular.

"Então, subitamente, Sean não precisou mais de ensaiar. No palco era uma mulher tão perfeita quanto possível.

"Porém, pouco a pouco, a mulher começou a dominar nele também fora do palco. Só que nós não dávamos por isso. Por essa altura, Sean deixara crescer o cabelo, muito comprido. As cabeleiras que nós tínhamos não prestavam. Depois, Sean começou a usar roupas de mulher constantemente. Uma noite, alguém tentou raptá-lo.

"Depois disso quase enlouqueceu. Tentou esmagar a mulher dentro de si, mas não conseguiu. Tentou então suicidar-se. É claro que foi impedido. Mas isso não ajudou o Sean, antes tornou as coisas piores, e ele amaldiçoou-nos por o termos salvado.

"Alguns meses mais tarde, houve outra tentativa de rapto. A partii daí, Sean enterrou completamente o seu eu masculino.

"Não luto mais", disse ele. "Vocês queriam que eu fosse uma mulher; agora eles acreditam que sou mesmo. Muito bem. Serei uma mulher. Cá por dentro sinto que o sou, de modo que não há necessidade de fingir mais. Sou uma mulher e vou ser tratado como tal."

"O Frank e eu tentámos dissuadi-lo, mas estava para além das nossas possibilidades. Então dissemos a nós próprios que talvez fosse apenas temporário, que o Sean estaria normal daí a algum tempo. Sean tinha uma grande força moral e sabíamos que nunca arranjaríamos ninguém que se lhe parecesse para fazer um papel de mulher. Por isso, encolhemos os ombros e continuámos o jogo.

"Pobre Sean. É uma pessoa admirável. Se não fosse ele, o Frank e eu teríamos desistido há muito tempo.

Houve um estrondo de aplausos quando Sean entrou pelo outro lado do palco.

Não fazes a menor ideia do que os aplausos te farão – disse Rodrick, meio para si próprio. - Os aplausos e a adoração. Só quem por lá passa. Ali, no palco. Nenhuma ideia. É fantasticamente emocionante, uma droga assustadora, terrível, bela. E cai sempre sobre o Sean. Sempre. Isso e o desejo. O teu, o meu, de todos nós.

Rodrick limpou o suor da cara e das mãos.

- Não há dúvida de que somos responsáveis. Deus nos perdoe.

- Queres que voltemos aos nossos lugares? - perguntou Peter Marlowe ao Rei.

- Não. Vamos ver daqui. Nunca tinha estado por trás do palco. E é uma coisa que sempre desejei fazer.

"Estará o Cheng San a vomitar as tripas neste momento?", perguntou o Rei a si próprio. Mas o Rei sabia que não valia a pena arreliar-se. Estavam empenhados e ele estava pronto para qualquer carta que viesse. Olhou de novo para o palco. Os seus olhos observaram Rodrick, Frank e Sean. Inexoravelmente, os seus olhos seguiram Sean. Cada movimento. Cada gesto.

Toda a gente estava a olhar para Sean. Intoxicada.

E Sean, Frank e os olhos tomaram-se uma só coisa, e a paixão que germinava no palco pairava sobre os actores e sobre os espectadores, pondo-os a nu.

Quando caiu o pano sobre o último acto, houve um profundo silêncio. Os espectadores estavam enfeitiçados.

- Meu Deus!-disse Rodrick, pasmado. - É o maior elogio que alguma vez poderiam fazer-nos. E vocês mereceram-no, vocês dois; estavam inspirados. Verdadeiramente inspirados.

O pano começou a subir e, quando estava todo em cima, o silêncio horrível estalou e houve aplausos e chamadas e mais aplausos. E depois Sean ficou só, no meio do palco, bebendo toda aquela adoração.

Durante a ovação, que não cessava, Rodrick e Frank saíram mais uma vez a partilhar o triunfo, dois criadores e uma criação, a linda rapariga, que era o seu orgulho e a sua Némesis1.

A assistência saiu calmamente do auditório. Cada homem pensava no seu lar, pensava nela, na que estava fechada no seu melancólico coração. Que estará ela a fazer neste exacto momento?

Larkin era o mais atingido. "Por que diabo chamar Betty à rapariga? E a minha Betty, estará ela... seria ela capaz de estar... nos braços de outro?"

E Mac. Estava cheio de receio por Mem. "Ter-se-ia o navio afundado? Ela está viva? E o meu filho? E Mem?... será ela... estará agora... estará...? Há tanto tempo, meu Deus, há quanto tempo?!"

E Peter Marlowe. "Que será feito de N'ai, a ímpar? Meu amor, meu amor."

E todos eles.

Até o Rei. Perguntava a si próprio com quem estaria ela, a visão de encantamento que lhe surgira quando não tinha ainda 20 anos, a rapariga que dissera, com um lenço perfumado no nariz, que a malta branca cheirava pior que negros.

 

1 Deusa da vingança, segundo a mitologia grega. (N. do T.)

 

O Rei sorriu sardonicamente. "Agora é uma paródia", disse para si próprio, enquanto desviava o espírito para coisas mais importantes.

As luzes do teatro estavam agora apagadas. Estava vazio, com excepção de um ou dois camarins isolados.

 

O Rei e Peter Marlowe esperavam com crescente ansiedade. Shagata devia ter chegado havia muito.

- Que raio de noite - disse o Rei com irritação. - Estou a suar como um porco.

Estavam sentados no canto do Rei e Peter Marlowe estava a ver o Rei fazer paciências com as cartas. Havia uma tensão no ar que pesava sobre o campo, de um céu sem luar. Até as constantes arranhadelas debaixo da barraca tinham parado.

- Oxalá ele chegue aqui, se é que vem - disse Peter Marlowe.

- Oxalá soubéssemos que diabo aconteceu a Cheng San. O menos que o filho da mãe podia ter feito era mandar recado.

O Rei olhou pela janela pela milésima vez. Procurava um sinal das guerrilhas, que devia lá estar... tinha de lá estar! Mas não havia qualquer movimento ou sinal.

Peter Marlowe teve uma crispação quando flectiu os dedos da mão esquerda e mudou o seu braço dorido para uma posição mais confortável.

O Rei olhou para trás.

- Como vai isso?

- Dói como diabo, meu velho. -É preciso mandar ver isso.

- vou amanhã à consulta.

- Maldito azar.

- As coisas acontecem. Não se pode fazer nada. Acontecera dois dias antes. Na apanha da lenha. Num momento,

Peter Marlowe estava a esforçar-se contra o peso de um toro de árvore, içando-o com vinte outros pares de mãos suadas para o reboque; no momento seguinte, o seu braço foi apanhado entre o toro e o reboque, rasgando-lhe os músculos e quase lhe esmagando os ossos. Gritava com dores horríveis.

Passaram-se minutos para que os outros levantassem o toro e lhe retirassem o braço ferido, com o sangue a escorrer para o lodo do pântano, enquanto moscas e outros insectos afluíam abundantemente, atraídos pelo cheiro do sangue. A ferida tinha quinze centímetros de comprimento por cinco de largura e era profunda em certas partes. Haviam tirado a maior parte das farpas da raiz e lavado e limpo a ferida o melhor possível. Tinham-lhe posto um torniquete e depois içado o tronco para o reboque, conduzindo-o para Changi. Ele caminhara ao lado do reboque, agoniado de dores. O Dr. Kennedy examinara a ferida e pusera-lhe iodine, enquanto Steve lhe segurava a mão boa, e ele estava atormentado com dores. No dia seguinte, o médico pôs-lhe um pouco de pomada de óxido de zinco numa parte da ferida e engordurou o resto, para impedir o sangue coagulado de se misturar com o penso. Depois, o médico ligou o braço.

- Você teve muita sorte, Marlowe - disse ele. - Não há osso partido nem músculo rasgado. Mais ou menos, só tecidos moles. Volte cá daqui por uns dias, para darmos uma olhadela.

O Rei levantou vivamente os olhos das cartas quando Max entrou apressadamente na barraca.

- Sarilho - disse Max em voz baixa e tensa. - O Grey acaba de sair do hospital e vem para aqui.

- Manda segui-lo, Max. É melhor mandares o Dino.

- Okay. - E Max saiu apressadamente.

- Que pensas, Peter?

- Se o Grey está fora do hospital, é porque sabe que se passa alguma coisa.

- Sabe, claro. -O quê?

- com certeza. Ele tem um espião na barraca.

- Meu Deus! Tens a certeza?

- Tenho. E sei quem é.

O Rei pôs um ás preto sobre uma quina encarnada e a quina vermelha sobre uma sena preta e libertou outro ás.

- Quem é?

- Não te digo, Peter. É melhor que não saibas. Mas o Grey tem aqui um homem.

- E que contas fazer?

- Nada. Por enquanto. Talvez mais tarde o dê a comer aos ratos.

Então, o Rei sorriu e mudou de assunto:

- Mas a quinta era uma ideia dos diabos, não era?

Peter Marlowe perguntou a si próprio o que faria se soubesse quem era. Sabia que Yoshima também tinha um xui, algures no campo, aquele que entregara o Daven, aquele que ainda não fora apanhado e que era ainda desconhecido, aquele que andava, precisamente neste momento, à procura do rádio escondido nos cantis.

Pensava que o Rei era sensato em não revelar o que sabia, pois assim não haveria fugas; e não estava sentido por o Rei não lhe ter dito quem era. Mesmo assim, examinou as possibilidades.

- Pensas realmente - perguntou - que a... carne será boa?

- Sei lá, cos diabos! - respondeu o Rei. - A ideia em si é de vomitar quando se pensa bem. Mas, e é um grande mas, negócio é negócio. com o apetite que nós temos, é uma ideia de génio!

Peter Marlowe sorriu e esqueceu a dor do braço.

- Não te esqueças. Eu fico com a primeira perna.

- Alguém que eu conheço?

- Não.

- Não tens confiança?

- Digo-te depois da entrega feita.

- Quando se pensa bem, carne é carne e comida é comida. Olha o cão, por exemplo.

- Vi o Hawkins há dois ou três dias.

- Que aconteceu?

- Nada. Naturalmente que eu não queria dizer nada e ele não queria falar do caso.

- É fixe, esse tipo. O que lá vai, lá vai.

Depois, o Rei disse, pouco à vontade, arremessando as cartas para cima da mesa:

- Quem me dera que Shagata cá viesse. Tex espreitou pela janela.

- Eh!

- Que há?

- O Timsen diz que o dono está a entrar em pânico. Quanto tempo vais esperar?

- Eu vou falar com ele. - O Rei saltou pela janela e disse baixinho:- Olha-me pela loja, Peter. Eu não estou longe.

- Está bem - disse Peter Marlowe, e pegou nas cartas, começando a baralhá-las e estremecendo quando a dor vinha, passava e voltava de novo.

O Rei manteve-se nas sombras, sentindo muitos olhos em cima de si. Alguns eram os olhos dos seus guardas e outros eram estranhos e hostis. Quando encontrou Timsen, o australiano começava a impacientar-se.

- Eh, pá! Não posso ficar aqui para sempre.

- Onde está ele?

- Quando o meu contacto chegar, eu apresento-o. É essa a combinação. Ele não está longe.

-É melhor que tenhas um olho nele. Não o queres ver liquidado, pois não?

- Faz o teu trabalho, que eu faço o meu. Está bem guardado.

Tinsen tirou uma fumaça do seu Kooa e depois passou-o ao Rei, que tirou outra.

- Obrigado. - O Rei fez um aceno em direcção à parede leste da prisão. - Sabes a respeito deles?

- Claro. - O australiano riu-se. - E digo-te outra coisa. O Grey vem a caminho daqui neste momento. Toda a área está cheia de guardas e de sapadores. Sei de um bando de australianos e ouvi dizer que há outro que sabe do negócio. Mas a minha malta tem a área vigiada. Logo que tivermos a massa, recebes o diamante.

- Vamos dar ao guarda mais dez minutos. Se ele não chegar, fazemos outro plano. Melhor: o mesmo plano, pormenores diferentes.

- Está certo, amigo. Procuro-te depois da papa, amanhã.

- Esperemos que seja esta noite.

Mas não foi naquela noite. Esperaram, mas Shagata não chegou e, por isso, o Rei cancelou a operação.

No dia seguinte, Peter Marlowe juntou-se ao enxame de homens que esperavam fora do hospital. Era depois do almoço e o sol atormentava o ar e a terra e as criaturas da terra. Até as moscas estavam sonâmbulas. Encontrou uma mancha de sombra, agachou-se pesadamente e começou a esperar. O latejar do seu braço piorara.

Já era crepúsculo quando chegou a sua vez.

O Dr. Kennedy fez um breve aceno de cabeça a Peter Marlowe e indicou-lhe que se sentasse.

- Como se sente hoje? - perguntou distraidamente.

- Não muito mal, muito obrigado.

O Dr. Kennedy inclinou-se para a frente e tocou na ligadura. Peter Marlowe deu um grito.

- Que diabo tem você? Mal lhe toquei! - disse o Dr. Kennedy, com ar de poucos amigos.

- Não sei. O mais leve toque faz doer que se farta.

O Dr. Kennedy enfiou um termómetro na boca de Peter Marlowe e depois pôs o metrónomo a trabalhar e tomou-lhe o pulso. Anormal, noventa pulsações. Mau. Temperatura normal e isso também era mau. Levantou-lhe o braço e cheirou a ligadura. Tinha um nítido cheiro a rato. Mau.

- Muito bem - disse ele. - vou tirar-lhe a ligadura. Tome.

- Deu a Peter Marlowe um bocado de borracha de pneu, que tirou de um líquido esterilizante com um par de tesouras. - Morda isto. Não posso deixar de o magoar.

Esperou até que Peter Marlowe tivesse metido a borracha entre os dentes e depois, o mais suavemente que pôde, começou a desenrolar a ligadura. Estava, porém, pegada à ferida e era agora parte da ferida e a única coisa a fazer era arrancar, e ele não era tão hábil como devia ser e como fora outrora.

Peter Marlowe conhecera muitas dores. E quando se conhece uma coisa intimamente, conhecem-se as suas limitações, cor e maneiras. com prática e coragem pode-se mergulhar na dor e depois a dor não é tão má, mas apenas um fluir controlável. Por vezes até é bom.

Mas esta dor ia para além da agonia.

- Oh, meu Deus! - gemia Peter Marlowe através do pedaço de borracha, com as lágrimas a jorrar, a respiração esporádica.

- Já passou agora - disse o Dr. Kennedy, sabendo que não passara coisa nenhuma. Mas ele mais nada podia fazer. Nada. Pelo menos aqui. "É claro que qualquer louco sabe que o paciente precisa de morfina, mas eu não a tenho." - Vamos lá dar mais uma olhada.

Estudou cuidadosamente a ferida aberta. Estava inchada e túmida e havia manchas amareladas, com pontos cor de púrpura. com mucosidades.

- Hum! - fez ele especulativamente e reclinou-se para trás, brincando com os dedos e fazendo com eles um campanário e desviando os olhos da ferida para o campanário. - Bem - disse por fim-, temos três alternativas.

Pôs-se em pé e começou a passear para trás e para diante, de ombros curvados, e depois disse monotonamente como quem despeja uma conferência:

- A ferida tem agora outros atributos. Miosite clostridial. Ou, para pôr a coisa mais simplesmente, a ferida está gangrenada. Gás gangrenoso. Posso abrir a ferida e extrair o tecido infectado, mas não penso que isso dê resultado, porque a infecção é profunda. Por isso, teria de tirar parte dos músculos do antebraço, e então a mão não serviria para nada. A melhor solução seria amputar...

- Quê?!

- com certeza. - O Dr. Kennedy não estava a falar para um doente, estava apenas a dar uma aula na estéril sala de aula do seu espírito. - Proponho uma amputação de alta guilhotina. Imediatamente. Talvez assim possamos salvar a articulação do cotovelo...

Peter Marlowe gritou desesperadamente:

- É apenas uma ferida carnal! Não é nada de grave! Apenas uma ferida carnal!

O medo que havia na sua voz fez voltar atrás o Dr. Kennedy e ele olhou um momento para aquele rosto branco.

-É uma ferida nos tecidos, mas muito funda. E você tem toxemia. Olhe, meu rapaz, é muito simples. Se eu tivesse soro, dava-Lho. Mas não tenho nenhum. Se tivesse sulfamidas, podia pôr-lhas na ferida, mas não tenho nenhumas. A única coisa que posso fazer é amputar...

- O senhor não deve estar bom da cabeça! - gritou-lhe Peter Marlowe. - Fala em amputar-me o braço quando tenho apenas uma ferida na carne.

O médico pôs-lhe a mão e Peter Marlowe gritou quando os dedos do médico lhe seguraram o braço acima da ferida.

- Aí tem, vê? Não é apenas a carne. Você tem toxemia e vai espalhar-se pelo seu braço e no seu sistema. Se quiser viver, temos de o cortar. Pelo menos, salvar-lhe-á a vida.

- O senhor não me vai cortar o braço!

- Como quiser. É isso ou... - O médico deteve-se e sentou-se, fatigado. - Suponho que é o seu direito, se quer morrer. Não serei eu quem o censura. Mas, meu Deus, não compreende o que estou a tentar dizer-lhe? O senhor morre se não amputarmos.

- O senhor não vai tocar-me! - Os lábios de Peter Marlowe estavam afastados dos dentes e ele sabia que ia matar o médico se ele voltasse a tocar-lhe. - O senhor não está bom da cabeça - gritou. - É uma ferida na carne.

- Muito bem. Não acredita em mim. Vamos chamar outro médico.

Kennedy chamou outro médico e este confirmou o diagnóstico. Peter Marlowe soube, assim, que o pesadelo não era um sonho. Tinha realmente gangrena. "Oh, meu Deus!" O medo tirou-lhe as forças. Escutou, aterrado. Eles explicaram que a gangrena era causada pelos bacilos que se multiplicavam no interior do seu braço e que preparavam a morte desde agora. O braço dele era um objecto canceroso. Tinha de ser tirado. Tirado pelo cotovelo. Tinha de ser tirado depressa, ou teria de sair o braço todo. Mas ele não devia preocupar-se. Não faria doer. Tinham agora muito éter, não era como nos velhos tempos.

E então Peter Marlowe estava fora do hospital, com o braço ainda em si, com os bacilos a procriar, com uma nova ligadura, e ia tacteando o caminho pela encosta abaixo, porque dissera aos médicos que tinha de pensar no caso... Pensar no caso? Mas que havia a pensar? Encontrou-se ao pé da barraca americana e viu que o Rei estava lá sozinho e que tudo estava preparado para a chegada de Shagata, se é que ele vinha esta noite.

- Jesus, que te aconteceu, Peter?

O Rei ouviu, e a sua consternação aumentava à medida que a história se desenrolava.

- Jesus! - Olhou para o braço, que estava apoiado em cima da mesa.

- Juro por Deus que antes quero morrer a viver estropiado! Juro por Deus!

Peter Marlowe olhou para o Rei, patético, e dos seus olhos saía um grito: "Socorro, socorro, por amor de Deus, socorro!"

E o Rei pensou: "com mil raios! Que faria eu, se fosse o Peter, e aquele fosse o meu braço? E quanto ao diamante... tenho de ter o Peter para ajudar, tenho de..."

- Eh!-disse Max, baixinho, da porta. - Shagata vem a caminho.

- Está bem, Max. E o Grey?

-Está perto da muralha, protegido. O Timsen sabe dele.

- Bem, cava e prepara-te. Passa a palavra.

- Okay. - E Max partiu apressado.

- Vamos, Peter, temos de nos preparar - disse o Rei. Mas Peter Marlowe estava em estado de choque. Inútil.

- Peter! - O Rei abanou-o violentamente. - Põe-te em pé e vamos a isto. Vamos, tens de ajudar. Levanta-te!

Obrigou Peter a pôr-se em pé.

- Santo Deus, que...

- Shagata vem aí. Temos de acabar o negócio.

- Vai para o diabo mais o teu negócio! - gritou Peter Marlowe, à beira da demência. - Ao diabo o diamante! Vão-me cortar o braço!

- Não, não vão!

- Tens razão, não vão. vou morrer primeiro...

O Rei esbofeteouo violentamente com as costas e com a palma da mão.

O desvario cessou abruptamente e Peter Marlowe abanou a cabeça.

- Que diabo...

- Vem aí o Shagata. Temos de nos preparar.

- Ele vem? - perguntou Peter Marlowe, sem interesse, com a face a arder das bofetadas.

- Vem. - O Rei viu que os olhos de Peter Marlowe estavam de novo expectantes e compreendeu que o inglês voltara a este mundo. - Jesus!-disse ele, aliviado. - Eu tinha de fazer qualquer coisa, Peter. Tu gritavas que nem um danado.

-Ah, gritava?! Desculpa, que parvo!

- Estás bem, agora? Tens de conservar a presença de espírito.

- Agora estou bem.

Peter Marlowe passou pela janela, atrás do Rei. E estava contente com aquela espada de dor que lhe subia pelo braço quando punha os pés no chão. "Perdeste a cabeça, meu maluco", disse para si próprio. "Tu, Marlowe, entraste em pânico como uma criança. Louco. Por isso, tens de perder o teu braço. E tens sorte em não ser uma perna, porque então ficarias um verdadeiro aleijado. Que é um braço? Nada. Podes arranjar um artificial. com um gancho. Não há mal nenhum num braço postiço. Nenhum. Pode ser uma boa ideia. com certeza."

- T abe - saudou-os Shagata, ao passar por baixo da cortina de lona que pendia do toldo.

- T abe - disseram o Rei e Peter Marlowe.

Shagata estava muito nervoso. Quanto mais pensava neste negócio, menos gostava dele. Demasiado dinheiro, demasiado risco. E farejou o ar como um cão que procura a pista.

- Cheira-me a perigo - disse.

- Ele diz que lhe cheira a perigo.

- Diz-lhe que não se preocupe, Peter. Eu sei do perigo e estão tomadas as precauções. Mas quanto a Cheng San?

- Digo-te - murmurou Shagata apressadamente - que os deuses sorriem sobre a tua cabeça e sobre a do teu amigo. É uma raposa aquele, porque até a fedorenta polícia o soltou da sua armadilha.

- O suor corria-lhe pelo rosto e encharcava-o. - Tenho o dinheiro.

O Rei sentiu uma volta no estômago.

- Diz-lhe que eu volto já com a mercadoria.

O Rei encontrou Timsen nas sombras.

- Pronto?

- Pronto. - Timsen imitou um pio de pássaros e quase logo a seguir veio a resposta. - Despacha-te, amigo. Não te posso garantir a segurança por muito mais tempo.

- Okay.

O Rei esperou e foi então que saiu das sombras um esguio cabo australiano.

- Olá, amigo. O meu nome é Townsend. Bill Townsend.

- Vamos.

O Rei voltou rapidamente ao toldo, enquanto Timsen fazia a guarda e os australianos se espalhavam, prontos para a fuga.

Lá em baixo, à esquina da prisão, Grey esperava impacientemente. Dino acabava de lhe segredar ao ouvido que Shagata chegara, mas Grey sabia que os preliminares levariam o seu tempo. Passado esse tempo, poderia mexer-se.

A falange de Smedly-Taylor também estava pronta, à espera de que a transferência se fizesse. Uma vez que o Grey estivesse em movimento, eles deslocar-se-iam também.

O Rei estava debaixo do toldo, com Townsend ao lado, muito nervoso.

- Mostra-lhe o diamante - ordenou o Rei.

Townsend abriu a camisa esfarrapada, puxou de lá uma guita e na ponta da guita estava o anel com o diamante. Townsend tremia ao mostrá-lo a Shagata, que assestou a sua lanterna sobre a pedra. Examinou-a cuidadosamente, gota de luz de gelo na ponta de um pedaço de guita. Depois pegou-lhe e riscou o vidro da lanterna. Chiou e deixou uma marca. Shagata acenou com a cabeça, a transpirar. " - Muito bem. - Voltou-se para Peter Marlowe. - Na verdade é um diamante - disse ele. E tirou o calibrador, medindo cuidadosamente o comprimento da pedra. De novo fez que sim com a cabeça. - Na verdade, tem quatro quilates. O Rei sacudiu a cabeça.

- Muito bem, Peter, espera com o Townsend.

Peter Marlowe levantou-se, fez um sinal a Townsend e, juntos, saíram do toldo e esperaram nas trevas. A toda a sua volta sentiam olhos, centenas de olhos.

- Raios me partam! - Townsend teve uma crispação nervosa. - Quem me dera nunca ter tido a pedra. Esta tensão mata-me. - Os seus dedos, ancilosados, brincaram com a guita e com a jóia, certificando-se, pela milésima vez, de que a tinha à volta do pescoço. Graças a Deus, é a última noite.

O Rei observou, com crescente excitação, enquanto Shagata abria a sua bolsa de munições e tirava de lá um maço de notas de sete centímetros e meio de espessura e abria a camisa e tirava um maço de cinco centímetros e dos bolsos mais maços, até ter duas pilhas de notas, cada uma com quinze centímetros de altura. Rapidamente, o Rei começou a contar as notas, e Shagata fez uma vénia rápida e nervosa e partiu. Quando se viu fora do toldo e de novo no carreiro, sentiu-se mais seguro. Ajustou a carabina e começou a caminhar pelo campo, quase deitando ao chão Grey, que vinha em sentido contrário em passo lesto.

Grey soltou uma praga e prosseguiu, ignorando a torrente de insultos proferidos -por Shagata.

- Xuis - segredou Max, com ansiedade, à entrada da barraca. O Rei arrebatou as notas e raspou-se, dizendo baixinho para Townsend:

- Desaparece. Diz ao Timsen que eu tenho o dinheiro e que pago esta noite, quando passar o calor.

Townsend desapareceu.

- Vem daí, Peter.

O Rei indicou o caminho por baixo da barraca, na altura em que Grey dava a volta à esquina.

- Parem onde estão, vocês dois! - gritou Grey.

- Pronto, Sir! - gritou Max com imponência, emergindo das trevas para o caminho, com Tex ao lado, e cobrindo o Rei e Peter Marlowe.

- Não são vocês dois. - E Grey tentou ultrapassá-los.

- Mas dissemos que parássemos - começou Max, aproximando-se de Grey.

Grey precipitou-se furiosamente para debaixo da barraca, em perseguição.

O Rei e Peter Marlowe tinham já saltado para a estreita trincheira e estavam do outro lado. Outro grupo interferiu quando Grey correu atrás deles. Grey localizou-os a correr junto à parede da prisão e soprou o seu apito, alertando os P. M. Os P. M. precipitaram-se e guardaram a área de parede a parede da prisão e da parede da prisão ao arame farpado.

- Por aqui - disse o Rei, saltando pela janela da barraca de Timsen.

Ninguém na barraca lhes prestou atenção, mas muitos viram o volume da camisa do Rei.

Atravessaram a barraca a correr e saíram pela porta. Apareceu outro grupo de australianos que lhes cobriu a retirada, exactamente quando Grey chegou, ofegante, à janela e ainda os viu a correr. Precipitou-se a dar a volta à barraca. Os australianos tinham-lhes coberto a retirada.

Grey perguntou abruptamente:

- Por onde foram eles? Depressa! Por onde? Um coro lhe respondeu:

- Quem? Quem, Sir?

Grey abriu caminho por entre eles e precipitou-se para o exterior.

- Está tudo a postos, Sir - disse um P. M., correndo para ele.

- Belo. Não podem ir longe. E não se atrevem a deitar fora o dinheiro. Vamos persegui-los. Digam aos outros.

O Rei e Peter Marlowe correram até ao extremo norte da cadeia e detiveram-se.

- Raios me partam!-exclamou o Rei.

Onde deveria haver uma falange de australianos para os interceptar, havia só M, P. Cinco deles.

- E agora? - perguntou Marlowe.

- Temos de recuar. Vamos.

Movendo-se com rapidez, o Rei perguntou a si próprio que raio teria corrido mal. Depois, subitamente, percebeu. Quatro homens bloqueavam-lhes o caminho. Tapavam a cara com lenços e levavam nas mãos pesados bastões.

- É melhor entregares o dinheiro, pá, se não queres aleijar-te. O Rei fintava, depois carregava, com Peter Marlowe ao lado.

O Rei enterrou a lâmina num homem e mandou um chuto aos rins de outro-. Peter Marlowe evitou um golpe, engolindo um berro quando lhe atingiram o braço, depois arrancou o bastão das mãos de outro homem. O outro malandro deu às de vila-diogo e desapareceu nas trevas.

- Santo Deus!-disse o Rei, ofegante. - Vamos raspar-nos daqui.

De novo partiram. Sentiam que olhos os seguiam e a todo o momento esperavam novo ataque. O Rei escorregou e parou.

- Cuidado, Grey!

Voltaram-se e, colando-se à parede de uma barraca, -meteram-se debaixo dela. Ali ficaram um momento, com os peitos a arfar. Ouviram pés que corriam e frases soltas de irados murmúrios: "Foram por ali! Temos de os apanhar antes dos xuis!"

- Parece que o campo inteiro anda atrás de nós - disse o Rei.

- Vamos esconder aqui o dinheiro - disse Peter Marlowe, desanimado. - Podemos enterrá-lo.

- É muito arriscado. Encontravam-no em menos de um minuto. Raios partam! Tudo estava a correr tão bem! Foi só aquele sacana do Timsen que nos tramou. - E o Rei limpou o suor e a porcaria da cara. - Pronto?

- Para que lado?

O Rei não respondeu. Limitou-se a rastejar em silêncio por baixo da barraca e correu com as sombras, com Peter Marlowe quase colado a si. Atravessou o carreiro com passo firme e saltou para a profunda vala ao lado do arame farpado. Seguiu por ela abaixo até estarem quase em frente da barraca americana e só então parou e se encostou à parede da vala, com a respiração ofegante. À volta deles havia um zunzum murmurado, um zunzum murmurado por cima deles.

- Que se passa?

- O Rei vai a fugir com o Marlowe. Têm milhares de dólares com eles.

- Não me digas! Depressa, talvez possamos apanhá-los.

- Vamos!

- Vamos apanhar o dinheiro.

E Grey estava a receber informações, assim como Smedly-Taylor e Timsen, e as informações eram confusas; e Timsen berrava e praguejava com os seus homens para que os encontrassem, antes que os encontrassem os homens de Smedly-Taylor ou de Grey.

- Apanhem esse dinheiro!

Os homens de Smedly-Taylor estavam à espera, vigiando os australianos de Timsen, e também eles estavam confusos. Para que lado tinham ido? Onde procurar?

E Grey esperava. Sabia que ambas as saídas estavam fechadas, a norte e a sul. Era apenas uma questão de tempo. E agora a busca apertava-se. Grey sabia que os tinha praticamente na mão, e quando os apanhasse eles teriam o dinheiro. Mas Grey nada sabia dos homens de Smedly-Taylor nern dos australianos de Timsen.

- Olha - disse Peter Marlowe, levantando cuidadosamente a cabeça e espreitando para as trevas.

Os olhos do Rei semicerraram-se, investigando. Viu então os P. M. a cinquenta metros de distância. Deu uma volta. Havia muitos outros espectros que se afadigavam, olhavam, procuravam.

- Vamos conseguir - disse freneticamente.

Então, o Rei espreitou por cima do arame. A selva estava escura. E havia um guarda que patrulhava do outro lado do arame farpado. "Okay", disse para si próprio. "O último plano. O plano ou-vai-ou-racha."

- Toma - disse enervado, e tirou todo o dinheiro, metendo-o nos bolsos de Peter Marlowe. - Eu cubro-te. Atravessa o arame. É a nossa única hipótese!

- Jesus! Nunca vou conseguir! O guarda vai dar por mim...

- Vai, é a nossa única hipótese!

- Nunca vou conseguir, nunca!

- Quando lá chegares, enterra-o e volta pelo mesmo caminho. Eu cubro-te daqui. Raios te partam! É a tua única saída!

- Por amor de Deus! vou ser morto. Ele está a menos de quinze metros - disse Peter Marlowe. - Temos de desistir!

Olhou em volta, procurando desesperadamente outra saída, e, num súbito movimento descuidado, bateu com o braço combalido contra a parede do dreno e gemeu, numa agonia.

- Salva o dinheiro, Peter - disse o Rei, desesperadamente -, e eu salvo-te o braço.

- Tu, quê?

- O que tu ouviste. Cava!

- Mas como podes tu...

- Cava - interrompeu o Rei rudemente. - Se salvares o caroço. Peter Marlowe fitou por um instante os olhos do Rei, depois

deslizou da trincheira, correu para o arame e passou por baixo dele, esperando a todo o momento uma bala na cabeça. Saltou então da trincheira e correu para o carreiro. Avançou com decisão e abateu-se sobre a poeira com um grito de raiva. O guarda olhou abruptamente através do arame e riu-se alto; quando voltou ao seu posto, viu apenas uma sombra que podia ter sido tudo menos um homemPeter Marlowe agarrava-se à terra e rastejava como uma coisa da selva, na vegetação húmida e fria, sustendo a respiração. O guarda aproximava-se cada vez mais e já o seu pé estava a uns dois centímetros da mão de Peter Marlowe, quando o outro pé o afastou um passo; quando o guarda estava a metro e meio de distância, Peter Marlowe embrenhou-se mais no mato, na escuridão, metro e meio, três metros, seis, nove, e quando estava a uns doze metros de distância estava salvo, o coração pareceu recomeçar a pulsar de novo e ele teve de parar, parar para respirar, parar por causa do seu coração, parar por causa da dor do seu braço, o braço que ia ser de novo seu. Se o Rei o disse... é porque era.

E assim ficou, deitado na terra, e rezou por ar, rezou pela vida, rezou por força e rezou pelo Rei.

O Rei respirava, agora que Peter Marlowe conseguira chegar à selva. Pôs-se em pé, começou a sacudir-se e ao seu lado estava Grey com um P. M.

- Não se mexa donde está.

-Quem, eu? - O Rei fingiu querer ver através da escuridão e reconhecer Grey. - Ah, é o senhor. Boa noite, capitão Grey. - Afastou o braço do P. M., que procurava detê-lo. - Tire as mãos de mim.

- Está preso - disse Grey, a suar e sujo da caçada.

- Porquê, capitão?

- Reviste-o, sargento.

O Rei submeteu-se calmamente. Agora, que não tinha o dinheiro consigo, não havia nada que Grey pudesse fazer. Nada.

- Não tem nada com ele, Sir - disse o P. M.

- Procura na vala.-E depois para o Rei: - Onde está o Marlowe?

-Quem? - perguntou com um ar inocente.

- Marlowe! - gritou Grey. - Nem dinheiro neste porco nem Marlowe!

- Provavelmente a dar um passeio, Sir.

O Rei mostrava-se bem-educado e o seu espírito estava apenas centrado em Grey e no perigo presente, pois sentia que o perigo não estava completamente ultrapassado e que, para além da prisão, estava um grupo de fantasmas malévolos que o observaram por um momento, antes de desaparecerem.

- Onde está o dinheiro?

- Que dinheiro?

- O dinheiro da venda do diamante.

- Que diamante, Sir?

Grey reconheceu que de momento estava batido. Estava batido, a não ser que conseguisse encontrar Marlowe com o dinheiro. "Está bem, meu sacana", pensou Grey fora de si, pela raiva que o dominava. "Está bem, largo-te da mão, mas tenho-te debaixo de olho, e hás-de levar-me ao Marlowe.

- É tudo por agora - disse Grey. - Você ganhou desta vez. Mas há-de haver outra.

O Rei voltou para a sua barraca, rindo por entre dentes para si próprio. "Pensas que vou levar-te até ao Peter, não pensas, Grey? Mas és tão esperto e tão ingénuo!"

Dentro da barraca encontrou Max e Tex. Também eles estavam

a suar.

-Que aconteceu? - perguntou Max.

- Nada. Max, vai procurar o Tinisen. Diz-lhe que espere debaixo da janela. vou lá falar com ele. Mas diz-lhe que não venha à barraca. O Grey está a vigiar-nos.

- Okay.

O Rei serviu-se de café. O seu espírito não parava de trabalhar. Como fazer a troca? Onde fazê-la? Que fazer com o Timsen? Como afastar o Grey de Peter?

- Quer falar comigo, mestre?

O Rei não se voltou para a janela. Olhou simplesmente para o fundo da barraca. Os americanos receberam a mensagem e deixaram-no em paz. Viu o Dino sair e retribuiu o seu retorcido sorriso.

- Timsen? - disse ele, mostrando-se ocupado com o café.

- Sim, mestre.

- Devia cortar-te o pescoço.

- Não foi -culpa minha, amigo. Qualquer coisa falhou...

- Foi. Querias o dinheiro e o diamante.

- Não há mal em tentar. Não volta a acontecer.

- Ai não volta, não! - O Rei gostava de Timsen. E não há mal em tentar, quando as paradas são tão altas. E ele precisava de Timsen. - Fazemos a transferência durante o dia. Assim não haverá fugas. Mando-te dizer quando.

- Está certo, pá. Onde está o Pommy? -Que Pommy?

Timsen riu-se.

- Até amanhã!

O Rei bebeu o seu café e chamou Max para guardar o forte. Então saltou cuidadosamente pela janela, mergulhou nas trevas e dirigiu-se para o muro da prisão. Tomou precauções para não ser visto, mas não demasiadas precauções, e riu-se para si próprio quando sentiu que Grey o seguia. Fingiu bem, andando à toa por entre as barracas, virando por aqui e por ali. Grey seguiu-lhe infatigavelmente os passos e o Rei levou-o até ao portão da cadeia e, para além do portão, até aos blocos das celas. Por fim, O Rei dirigiu-se à cela do quarto andar e fingiu aumentar a sua preocupação quando entrou na cela e deixou a porta entreaberta. De quarto em quarto de hora, mais ou menos, abria a porta e espreitava ansiosamente; e isto até que Tex chegou.

- Caminho livre - disse Tex.

- Óptimo.

Peter estava de volta, a salvo, e não havia necessidade de continuar a fingir; por isso, voltou à barraca e piscou o olho a Peter Marlowe:

- Onde estiveste?

- Pensei em vir ver como estavas.

- Queres um pouco de Java?

- Obrigado.

Grey ficou à porta, sem dizer nada. Só olhava. Peter Marlowe só trazia o sarong. Um sarong não tem bolsos. Trazia a braçadeira no ombro.

Peter Marlowe levou a chávena aos lábios e bebeu um gole de café, sem tirar os olhos de Grey. Então, Grey desapareceu na noite.

Peter Marlowe levantou-se com um ar exausto.

- Parece-me que me vou deitar.

- Orgulho-me de ti, Peter.

- O que disseste é verdade, não é?

- com certeza.

- Obrigado.

Nessa noite, o Rei estava preocupado com um novo problema. Como diabo faria ele o que prometera fazer?

Larkin ia profundamente perturbado quando subia o carreiro para a barraca australiana. Estava preocupado com Peter Marlowe: o braço parecia estar a dar-lhe mais incómodos do que se esperava e doía-lhe demasiado para que fosse apenas uma ferida nos tecidos. Também estava preocupado com o velho Mac. Na noite anterior, Mac sonhara alto e gritara durante o sonho. E estava preocupado com Betty. Ele próprio tivera maus sonhos nas últimas noites, tudo misturado, Betty e ele, com outros homens na cama com ela, e ele a ver e ela a rir-se dele.

Larkin entrou na barraca e foi direito a Townsend, que estava deitado no catre.

Townsend tinha os olhos inchados e fechados, o rosto arranhado e os braços e o peito esmurrados. Quando abriu a boca para responder, Larkin viu o espaço ensanguentado onde devia haver dentes.

- Quem fez isso, Townsend?

- Não sei - lamuriou-se Townsend. - Fui vítima de uma emboscada.

- Porquê?

As lágrimas brotaram, esborratando os esmurrões.

- Eu tinha... tinha... nada... nada... não sei.

- Estamos sós, Townsend. Quem foi?

- Não sei. - Um gemido soluçado brotou dos lábios de Townsend. - Oh, meu Deus! Magoaram-me, magoaram-me!

- Por que foi que te fizeram uma emboscada?

- Eu... eu...-Townsend queria gritar: "O diamante, eu tinha o diamante." E queria a ajuda do coronel para apanhar os filhos da mãe que lho tinham roubado.

Mas não podia falar do diamante, porque então o coronel havia de querer saber onde ele o arranjara e ele teria de dizer que fora de Gurble. E então haveria perguntas sobre Gurble, onde o recebera ele... de Gurble? O suicida? E então talvez dissessem que não fora suicídio, que fora assassínio, mas não fora, pelo menos ele, Townsend, assim pensava; mas, quem sabe, talvez alguém tivesse liquidado Gurble por causa do diamante. "Mas nessa dita noite o Gurble estava ausente do seu catre e eu sentira o contorno do anel ino colchão dele, tirei-o e mergulhei com ele na noite; e quem é que podia provar o que quer que fosse? E aconteceu que Gurble se suicidou nessa noite; por isso, -não houve mal nenhum. Excepto que talvez eu tenha assassinado o Gurble, o tenha assassinado roubando a pedra, talvez tivesse sido o golpe final ser posto fora da unidade por roubar rações e depois ficar sem o diamante. Talvez fosse isso que o fez perder a cabeça, pobre palerma, e o fez saltar para o buraco! Mas roubar rações não fazia sentido, quando se tinha um diamante para vender. Nenhum sentido. Nenhum. Excepto que talvez eu fosse a causa da morte do Gurble, e mil vezes me amaldiçoei por ter roubado o diamante. Desde que me fiz ladrão que não tenho paz, paz nenhuma. E agora estou contente por ter ficado sem ele, por mo terem roubado."

- Não sei - soluçou Townsend.

Larkim compreendeu que era inútil e deixou Townsend entregue à sua dor.

- Ah, desculpe, padre Donovan - disse Larkin, depois de quase ter atirado o padre pelas escadas abaixo.

- Olá, velho amigo. - O padre Donovan tinha um ar espectral, incrivelmente emaciado, de olhos encovados e estranhamente sereno.

- Como está? E o Mac? E o jovem Peter?

- Óptimo, obrigado. - Larkin acenou na direcção de Townsend. - Sabe alguma coisa sobre isto?

Donovan olhou para Townsend e disse gentilmente:

- Vejo um homem que sofre.

- Desculpe. Não devia ter perguntado. - Larkin pensou um momento e sorriu. - Que me diz a um jogo de brídege esta noite? Depois da ceia?

- com certeza. com muito prazer. Obrigado.

- Óptimo. Depois da ceia.

O padre Donovan viu Larkin afastar-se e depois dirigiu-se à cama de Townsend. Townsend não era católico. Mas o padre Donovan dava-se a todos, porque sabia que todos os homens são filhos de Deus. "Mas serão todos?", perguntou a si próprio, com espanto. "Como podem os filhos de Deus fazer tais coisas?"

Ao meio-dia, o vento e a chuva vieram juntos. Em breve tudo e todos ficaram encharcados. Então, a chuva parou, mas o vento continuou. Pedaços de colmo esvoaçavam por sobre o campo, misturados com ramos de árvores, farrapos e chapéus de coo li es. Seguidamente parou o vento, e o campo ficou normal, com sol, calor e moscas. Durante meia hora a água correu nos canais abertos pela tempestade. Depois começou a penetrar na terra e estagnou; juntaram-se mais moscas. Peter Marlowe vagueou pela encosta acima, de ouvido desatento. Tinha os pés sujos de lama, como as pernas, pois deixara que a tempestade o envolvesse, na esperança de que o vento e a chuva lhe afastassem a dor, que chocava. Mas não lhe tinham tocado.

Estava em frente da janela do Rei e espreitou para dentro.

Como vais, amigo? - perguntou o Rei, levantando-se da cama e indo buscar um maço de Kooas.

Pessimamente. - Peter Marlowe estava sentado no banco, por baixo do telheiro, agoniado pelas dores. - Este braço mata-me. E o seu sorriso era amargo. - Que brincadeira!

O Rei saltou cá para baixo e forçou um sorriso:

- Esquece!

- Como diabo posso eu esquecer? - Imediatamente Peter Marlowe lamentou a explosão. - Desculpa. Estou nervoso. A maior parte das vezes não sei o que digo.

- Toma um cigarro. - O Rei acendeu-lho. "Sim", disse com os seus botões, "estás metido numa alhada. Os bifes' aprendem depressa, pelo menos assim o julgo. Vamos ver." - Completamos o negócio amanhã. Podes receber a massa esta noite. Eu cubro-te.

Mas Peter Marlowe não o ouvia. O braço gravava-lhe a fogo uma palavra no cérebro: "amputar!" E via a serra a guinchar e sentia-a cortar, cortar o seu osso. Sentiu um arrepio.

- Podes realmente fazer alguma coisa?

O Rei fez que sim com a cabeça e disse para si próprio: "Vês, tinhas razão. Só o Peter sabe onde está o caroço, mas o Peter não lhe põe a mão até o teres curado. Sem cura, não há massa. Sem massa, não há venda. Sem venda, não há saque." Por isso, suspirou e disse ainda para si próprio: "Sim, és um tipo muito esperto para conheceres tão bem os homens. Assim, não foi um mau negócio. Se o Peter não se tivesse arriscado, estaríamos ambos na cadeia, sem dinheiro nem nada. E o Peter "trouxe-lhes sorte. O negócio foi melhor que nunca. E, à parte disso, o Peter é um tipo fixe. Raios! Quem é que quer perder um braço? Ainda bem que ele é instruído."

- Deixa isso ao Tio Sam!

- A quem?

- O Tio Sam. - O Rei olhou para ele, espantado. - O símbolo da América. Não sabes? - disse um pouco irritado. - É como o John Buli.

- Ah, desculpa. Hoje não estou nos meus dias. Peter Marlowe sentiu uma náusea.

- Vai para a cama e descansa. Eu trato de tudo.

Peter Marlowe pôs-se em pé, mas pernas pouco firmes. Queria sorrir e agradecer ao Rei, apertar-lhe a mão e abençoá-lo, mas lembrou-se da palavra e apenas sentia a serra; por isso, fez um meio aceno de cabeça e saiu da barraca.

"Santo Deus!", disse o Rei para si próprio, amargamente. "Ele julga que eu era capaz de o abandonar, a menos que me tenha bem seguro. Por amor de Deus, Peter! Eu ajudava em qualquer caso. Que diabo, sou teu amigo!"

- Eh, Max.

- Sim.

- Traz aqui o Timsen imediatamente.

- Com certeza - disse Max, e saiu.

O Rei abriu a mala preta e tirou três ovos.

- Tex, gostavas de cozinhar um ovo para ti? Juntamente com estes dois?

- Claro que sim - disse Tex, rindo, e pegou nos três ovos. Estive a olhar para a Eva. Ia jurar que está hoje mais gorda.

- Não é possível. Só casou ontem. Tex fez uns passos de dança.

- Mais vinte dias e somos todos de novo papás. - E aceitou o óleo e dirigiu-se para a zona da cozinha.

O Rei deitou-se na sua tarimba, coçando pensativamente uma picadela de mosquito e vendo os lagartos nos barrotes, que caçavam e fornicavam. Fechou os olhos e começou a dormitar, satisfeito. Era apenas meio-dia e já ele realizara um bom dia de trabalho. "Cum raio! Tudo foi feito por volta das seis da manhã."

Riu por entre dentes ao lembrar-se. Sim, senhor, vale a pena ter uma boa reputação e vale a pena fazer publicidade...

Acontecera antes da alvorada. Ele dormia um sono leve. De repente, uma voz cautelosa e em surdina interrompeu os seus sonhos.

Acordou imediatamente e olhou para a janela, onde viu um homem com cara de fuinha recortar-se na luz da aurora. Esse homem olhava para ele. Nunca o vira antes.

- Eh!

- Tenho uma coisa que o senhor quer comprar. - E a voz do homem era rouca e pouco expressiva.

-Quem é você?

Em resposta, o homem abrira o punho surrado, com as unhas sujas. O anel, com o diamante, estava na palma da mão.

- O preço são dez mil. Para uma venda rápida - acrescentou sardonicamente. Então, os dedos cerraram-se com força quando o Rei se preparava para -pegar no anel, e o punho foi retirado. - Esta noite. - O homem sorriu, mostrando uma boca sem dentes. - É o autêntico. Nada receie.

- Você é o dono?

- Sou e não sou.

- Negócio feito. A que horas?

- Espere por mim. Eu apareço quando não houver ninguém. E o homem desapareceu tão rapidamente como aparecera.

O Rei instalou-se mais confortavelmente, com maldosa satisfação. "Pobre Timsen", disse para si próprio. "Aquele filho da mãe apanhou com um ovo na cara! Eu apanho o anel por metade do preço."

- bom dia, amigo - disse Timsen. - Querias falar comigo? O Rei abriu os olhos e cobriu um bocejo com a mão, enquanto Timsen avançava pela barraca.

- Olá. - O Rei arrancou as pernas da cama e espreguiçou-se voluptuosamente. - Cansado, hoje. Demasiada excitação. Vai um ovo? Tenho dois ao lume.

- Decerto que vai um ovo.

- Fica à vontade. - O Rei podia permitir-se ser hospitaleiro. Agora vamos ao negócio. Fechamos a transacção esta tarde.

- Na. - Timsen abanou a cabeça. - Hoje, não. Amanhã. O Rei fez esforços para não mostrar a sua satisfação.

- O calor já terá passado - dizia Timsen. - Ouvi dizer que o Grey saiu do hospital. Há-de vigiar este sítio. - Timsen parecia muito preocupado. - Temos de estar atentos, tu e eu. Não quero que nada falhe. Tenho de vigiar por ti também. Não esqueças que somos parceiros.

- Amanhã, uma ova! - disse o Rei, fingindo desapontamento. Vamos fazer a coisa esta tarde.

E escutou, rindo por dentro à gargalhada, escutou enquanto Timsen dizia quão importante era ser prudente. "O dono está acagaçado, ainda ontem à noite apanhou uma surra e foram os meus homens e eu que salvámos o pobre diabo." Por isso, o Rei sabia, com certeza, que Timsen estava a ser cravado, que o diamante se lhe escapara das mãos, que ele estava a procurar ganhar tempo. "Aposto", dizia o Rei para si próprio, "que os australianos dão voltas ao miolo a tentar descobrir quem foi o ladrão. Não lhe queria estar na pele, se o encontram." E, assim, deixou-se persuadir. No caso de Timsen encontrar o tipo, o negócio original mantinha-se.

- Pois seja - disse o Rei, de má vontade. - Lá tens a tua ideia. Seja amanhã. - Acendeu outro cigarro, tirou uma fumaça, passou-o ao amigo e disse ainda, fazendo o seu jogo: - Nestas noites quentes, poucos dos meus rapazes dormem. Pelo menos quatro deles estão a pé. Toda a noite.

Timsen entendeu a ameaça. Mas tinha outras coisas em mente. Quem, pelo santo nome de Deus, fizera a espera a Townsend? Rezava para que os seus homens encontrassem depressa os sacripantas. Sabia que tinha de encontrar os assaltantes antes que eles chegassem ao Rei com o diamante, porque então já ele não teria sorte nenhuma.

- Eu sei como é. É o mesmo com os meus rapazes. Ainda bem que eles estão tão ligados ao meu velho amigo Townsend. - Gajo estúpido. Como diabo pode um gajo ser tão fraco, que se deixe roubar e não se safe antes que seja tarde de mais? - Nestes dias, todo o cuidado é pouco.

Tex trouxe os ovos, e os três homens comeram-nos com o arroz do almoço, empurrando tudo com café forte. Na altura em que Tex levou os pratos, o Rei levara a conversa ao ponto que desejava.

- Conheço um gajo que estaria interessado numas drogas. Timsen abanou a cabeça.

- Tem esperança, pobre palerma. Não é possível! - "Ah!", pensou. "Drogas! Para quem serão? Não para o Rei, com certeza. Ele tem um ar demasiado saudável; e também não devem ser para revenda. O Rei não negoceia em drogas, o que está certo, por isso deixa o negócio mas minhas mãos. Mas deve ser para alguém próximo dele. De outro modo, ele nunca se envolveria. Negócio de drogas não é para ele. O velho McCoy! Claro. Ouvi dizer que ele não tem estado bem estes dias. Talvez o coronel. Também ele não tem andado com muito bom aspecto." - Ouvi falar de um "bife" que tem quinino. Mas quer uma fortuna por ele.

- Eu preciso de uma antitoxina. Um frasco. E de sulfamida. Timsen emitiu um prolongado assobio.

- Nem a sombra de uma esperança! - disse.

"Antitoxina e sulfamida! Gangrena! O Pommy! Santo Deus!

Gangrena!" E todo o quadro se desenhava. Tinha de ser o Pommy! Não era só com astúcia que Timsen açambarcara o mercado da droga. Ele percebia bastante de droga na vida civil, onde trabalhara como assistente de droguista, o que ninguém sabia, quando não tinha no posto do Corpo Médico, o que teria significado afastamento da luta e da mortandade, e nenhum australiano que se respeitasse abandonaria a defesa do seu país e da velha Inglaterra para ser apenas um nojento não combatente, ligado aos serviços médicos.

- Nenhuma esperança - repetiu, abanando a cabeça.

- Escuta - disse o Rei. - vou ser franco contigo. - Timsen era a única pessoa no mundo que podia resolver o problema; portanto, precisava da sua ajuda. - É para o Peter.

- Bolas! - disse Timsen, mas lá por dentro simpatizou. "Pobre tipo. Gangrena. bom tipo, cheio de genica." Ainda sentia

a bordoada que o Pommy lhe dera na véspera à noite, quando os quatro tinham caído sobre o Rei e o Pommy 1.

Timsen soubera do caso de Peter Marlowe pelo Rei. Um homem não pode ser demasiado cuidadoso e as informações são sempre importantes. E Timsen sabia dos quatro aviões alemães e dos três japoneses e sabia da aldeia e de como o Pommy tentara fugir de Java, enquanto muitos se acomodavam cobardemente. E, contudo, quando se pensa bem, era bastante estúpido tentar. Era difícil, sim, muito difícil. Não havia dúvida, este Pommy era um portento.

Timsen perguntava a si próprio se podia arriscar-se a mandar um homem aos aposentos do médico japonês para arranjar as drogas. Era arriscado. Mas o caminho e os aposentos tinham sido marcados. "Pobre Marlowe, deve estar louco de preocupação. É claro que vou arranjar as drogas. E vou fazê-lo de borla ou só pelo custo."

Timsen detestava vender drogas, mas alguém tinha de o fazer, e era melhor que fosse ele, pois o custo era sempre razoável, tão razoável quanto possível, e ele sabia que podia fazer uma fortuna a vendê-las a japoneses, mas nunca o fazia, só aos do campo, e na realidade com um pequeno lucro, quando se pensava nos riscos corridos.

- Revolta uma pessoa quando se pensa em todos os fornecimentos médicos que a Cruz Vermelha tem no depósito da Kedah Street.

- São boatos.

- Não são, não, eu vi-os, amigos. Estava num grupo de trabalho. A abarrotar de produtos da Cruz Vermelha: plasma, quinino,

 

1 Australiano ou recém-chegado do Velho Mundo. (N. do T.)

 

sulfamidas, do chão ao tecto. O depósito deve ter uns bons cem metros de comprido por trinta de largo. E vai tudo para os sacanas dos Japoneses. Não há problemas para a entrada. Vem através de Chungking, segundo me dizem. A Cruz Vermelha dá-os aos Siameses e eles passam-nos aos Japoneses, tudo destinado aos prisioneiros de guerra, Changi. Santo Deus! Eu próprio vi os rótulos, mas os japoneses guardam-nos para os seus próprios macacos.

- Mais alguém sabe disso?

- Eu disse ao coronel e ele disse ao comandante do campo, que disse a esse sacana japonês... Como é que ele se chama? Ah, sim, Yoshima! E o comandante do campo, bem, pediu os fornecimentos. Mas os japoneses só se riram dele e disseram que era boato e que era só o que lhes faltava ouvir. Nunca mais houve grupos de trabalho. Cambada de sacanas! Não é honesto, quando nós precisamos tanto das drogas. Podiam, ao menos, dar-nos algumas. O meu parceiro morreu há seis meses -por falta de um pouco de insulina, e eu vi grades delas. Grades.

Timsen enrolou um cigarro e estava tão irritado que deu pontapés na parede.

Sabia que não valia de nada irritar-se. E não havia maneira de penetrar nesse depósito. Mas ele podia conseguir antitoxina e sulfamidas para o Pommy. E, palavra de honra, ia dar-lhas de borla.

Mas Timsen era demasiado esperto para deixar que o Rei percebesse que ele tinha um ponto fraco, pois, tão certo como dois e dois serem quatro, havia de servir-se disso mais tarde como alavanca. Sim, e ele precisava do Rei para o negócio do diamante. "Oh, raios! Tinha-me esquecido desse malandro desse salteador."

Por isso, Timsen atirou com uma quantia exorbitante e deixou-se convencer a baixar. Ainda assim, deixou o preço alto, porque sabia que o Rei podia pagar; e, se ele dissesse que conseguia as coisas a baixo preço, o Rei ficaria muito desconfiado.

- Está bem - disse o Rei, mal-humorado. - Faz-se o negócio. Por dentro não estava mal-humorado. Não demasiado mal-humorado. Esperava que Timsen o explorasse, mas, embora o preço fosse mais alto do que ele desejava pagar, era honesto.

- Vai levar três dias- disse Timsen, sabendo que três dias era tempo demasiado.

- Preciso disso esta noite.

- Então são mais quinhentos dele.

- Eu sou teu amigo! - disse o Rei, sinceramente magoado. Somos camaradas e levas-me mais quinhentos.

- Está bem, pá. - Timsen estava chateado como burro. Mas sabes como é. Três dias é o máximo que posso fazer.

- Raios te partam! Está bem.

- E o enfermeiro são mais quinhentos.

- com mil diabos! Para que raio é o enfermeiro? Timsen estava contente por ver o Rei torcer-se.

- Bem - disse ele com modo amável -, que vais fazer com a droga, quando a tiveres? Como vais tratar o doente?

- Como diabo hei-de saber?

- São para isso os quinhentos. Suponho que vais dar a droga ao Pommy e ele vai levá-la ao hospital e dizer aos serra-ossos: "Tenho antitoxina e sulfa. Arranjem-me o braço." E o doutor vai responder: "Nós não temos antitoxina. Onde é que você a arranjou?" E, quando o Pommy não disser, os sacanas vão roubar-lha e dá-la a um filho da mãe de algum coronel "bife" que tenha uma crise ligeira de hemorróidas. - Tirou habilmente um maço de cigarros do bolso do Rei e serviu-se. - E - acrescentou, mas agora completamente a sério - tens de arranjar um sítio onde possas tratá-lo com discrição. Onde ele possa deitar-se. Estas antitoxinas abalam muito certos homens. E uma parte do negócio é que eu não aceito qualquer responsabilidade se a coisa der para o torto.

- Se tens antitoxina e sulfa, que é que pode dar para o torto?

- Há gajos que não podem com isso. Enjoam. E pode não dar resultado. Depende da quantidade de toxinas que ele já emborcou.

Timsen pôs-se em pé.

- Esta noite, não sei a que horas. Ah, e o equipamento custa mais quinhentos.

O Rei explodiu:

- Que equipamento, com mil raios?!

- Injecções hipodérmicas, ligaduras e sabão. Jesus! - Timsen começava a estar enfadado. - Pensas que a antitoxina é uma pílula que se lhe mete no cu?

O Rei olhou para Timsen com azedume, amaldiçoando-se. "Julgavas que eras muito esperto, não era? Descobrias o que curava a grangrena pelo preço de um cigarro e depois, cabeça de burro, esqueces-te de perguntar o que fazes com o remédio depois de o teres na mão.

)Bem, que vá tudo para o Inferno! O dinheiro está garantido. E o Peter vai ter o seu braço."

Então, o Rei pensou no pequeno bandido manhoso e rejubilou. Sim, sentia-se muito satisfeito com o trabalho do dia.

Nessa noite, Peter Marlowe rejeitou a comida. Em vez de a dar a Mac ou a Larkim, como devia, deu-a a Ewart. Sabia que, se a tivesse dado à sua unidade, o teriam forçado a revelar o que se passava. E não havia qualquer possibilidade de o dizer.

Nessa tarde, atormentado pelas dores e pela preocupação, fora procurar o Dr. Kennedy. De novo quase enlouquecera de agonia quando lhe tiravam a ligadura. Depois, o médico dissera simplesmente: "O veneno está acima do cotovelo. Posso amputar abaixo, mas é uma perda de tempo. Será melhor fazer a operação de uma só vez. Você vai ficar com um belo coto: pelo menos com uns doze centímetros a partir do ombro. O bastante para prender um braço artificial. Perfeitamente suficiente." Kennedy cruzara calmamente os dedos. "Não perca mais tempo, Marlowe." Tivera um risinho seco e ironizara: "Domani è troppo tardi." E, quando Peter Marlowe olhara para ele de olhos vazios, sem compreender, ele dissera naturalmente: "Amanhã pode ser tarde de mais."

Peter Marlowe cambaleara até à sua cama e deitara-se num charco de medo. Depois chegara o jantar e ele recusara-o.

- Tens febre? - -perguntou Ewart, radiante, reconfortado pela comida extra.

- Não.

- Queres que te arranje alguma coisa?

- Por amor de Deus, deixa-me só.

Peter Marlowe voltou as costas a Ewart. Passado um tempo, levantou-se e saiu da barraca, lamentando ter aceite jogar brídege com Mac, Larkin e o padre Donovan durante uma hora ou duas. "És parvo", disse para si próprio, amargamente. "Devias ter ficado na tua cama até serem horas de atravessares o arame para ires buscar o dinheiro."

Mas sabia que não poderia ter ficado na cama, hora após hora, até serem horas de sair. Era melhor ter qualquer coisa que fazer.

- Eh, pá! - E a face de Larkin enrugou com o seu sorriso. Peter Marlowe não retribuiu o sorriso. Apenas fez um esgar.

Mac olhou para Larkin, que encolheu imperceptivelmente os ombros.

- Peter - disse Mac, forçando o bom humor -, as notícias são cada vez melhores, não é verdade? Não tardará muito que estejamos fora daqui.

- Sem dúvida! - disse Larkin.

- Vocês estão a viver num paraíso de loucos. Nunca sairemos de Changi.

Peter Marlowe não queria ser duro, mas não podia dominar-se.

Sabia que ferira Mac e Larkin, mas nada faria para atenuar a ofensa. Estava obcecado pelo roto de doze centímetros. um calafrio gelado lhe amolentava a espinha e lhe percorria os testículos. Como diabo poderia o Rei realmente ajudar? Como? "Sejamos realistas. Se se tratasse do braço do Rei, que poderia eu fazer, por mais amigo dele que seja? Nada. Não creio que ele possa fazer o que quer que seja... a tempo. Nada. É melhor encarares a realidade, Peter. É amputar ou morrer. Simples. E, postas assim as coisas, não podes morrer. Uma vez que nasceste, és obrigado a sobreviver. A qualquer preço.

"Sim", dizia ainda Peter para si próprio, "é melhor que sejas realista. Não há nada que o Rei possa fazer. Nada. E não devias tê-lo posto entre a espada e a parede. O problema é teu. Não dele. Arranja o dinheiro, dá-lho, vai para o hospital, deita-te na marquesa e deixa-os cortar-te o braço."

Assim, estavam os três sentados - ele, Mac e Larkin - na noite fétida e silenciosa. Quando o padre Donovan veio ter com eles, obrigaram-no a comer um pouco de arroz com blachang. Obrigaram-no a comer então, porque, se não o fizessem, ele tê-lo-ia dado, como fazia à maior parte das suas rações.

- Vocês são muito amáveis comigo - disse Donovan, e os seus olhos brilhavam quando acrescentou:-Agora, se vocês quisessem ver o vosso erro e passar para o lado bom da barreira, teriam completado a minha noite.

Mac e Larkin riram com ele. Peter Marlowe não se riu. -Que se passa, Peter? - perguntou Larkin. - Tens estado toda a noite como um maluquinho com uma dor no cu.

- Não há mal nenhum em estar um pouco maldisposto - disse prontamente Donovan, para quebrar o silêncio. - Mas as notícias são muito boas, não são?

Só Peter Marlowe estava fora da amizade que reinava na sala. Ele sabia que a sua presença era sufocante, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Nada.

O jogo começou e o padre Donovan abriu com um duque de espadas.

- Passo - disse Mac, mal-humorado.

- Terno de ouros - disse Peter Marlowe, e logo o lamentou, porque sobrestimara o seu lance e dissera ouros, quando devia ter dito copas.

- Passo - disse Larkin, de mau humor.

Lamentava agora ter sugerido o jogo. Não tinha piada nenhuma. Nenhuma.

- Terno de espadas - disse o padre Donovan.

- Passo.

- Passo - disse Peter Marlowe, e todos olharam para ele, surpreendidos.

O padre Donovan sorriu:

- Você devia ter mais fé...

- Estou cansado da fé - disse Peter com irritação.

- Desculpe, Peter. Eu estava apenas...

- Olha cá, Peter - interrompeu Larkim com vivacidade. - Lá porque estás de mau humor...

- Tenho direito a ter uma opinião e acho que foi uma piada de mau gosto - flamejou Peter Marlowe. Depois voltou-se bruscamente para Donovan. - Precisamente porque o senhor se martiriza a si próprio, dando a sua comida e dormindo nas casernas dos soldados, suponho que isso lhe dá o direito de ser a autoridade. A fé é um ror de coisa nenhuma! Que é que ela lhe dá? Nada! A fé é para as crianças. Assim como Deus. Que é que Ele pode fazer a respeito seja do que for? Fazer realmente? Hem? Hem?

Mac e Larkin olharam para Peter Marlowe sem aprovação.

- Pode curar - disse o padre Donovan, que sabia da gangrena, sabendo muitas coisas que não queria saber.

Peter Marlowe atirou com as cartas para a mesa.

- Merda! - gritou furioso. - Isso é merda e o senhor sabe-o. E ainda outra coisa, enquanto estamos com a mão na massa. Deus! Sabe, eu penso que Deus é um maníaco, um maníaco mau e sádico, um vampiro...

- Perdeste o juízo, Peter? - explodiu Larkin.

-Não, não perdi. Olha para Deus. - E Peter Marlowe delirava, com as feições deformadas. - Deus não é senão o mal... se é realmente Deus. Olhem para todas as carnificinas que têm sido praticadas em nome de Deus. - Aproximou a cara da de Donovan. A Inquisição. Lembra-se? E os milhões de homens que foram queimados e torturados até à morte em Seu nome? Pelos sadistas católicos? E nem pensaremos nos Astecas, nos Incas e nos milhões de pobres indianos. E os protestantes que queimam e matam os católicos; e os católicos, judeus e maometanos; e judeus, mais judeus mórmones, quacres e toda a tropa fedorenta. Matar, torturar, queimar! Enquanto for no santo nome de Deus, estão no bom caminho. Quanta hipocrisia! Não me dêem fé! Não vale nada!

- E, contudo, você tem fé no Rei - disse calmamente o padre Donovan.

- Suponho que vai dizer-me que ele é um instrumento de Deus?

- Talvez seja. Não sei.

- Tenho de lhe dizer isso. - E Peter Marlowe riu histericamente Ele vai morrer de riso.

- Escute, Marlowe! - Larkin pôs-se em pé, tremendo de raiva.

É melhor que você peça desculpa ou saia!

- Não se preocupe, coronel - ripostou Peter Marlow - vou-me embora. - Pôs-se em pé e fitou-os de frente, detestando-os e detestando-se a si próprio. - Escute, padre. O senhor é uma anedota. As suas saias são uma anedota. São todos uma anedota ímpia, o senhor e o seu Deus. O senhor não serve Deus, porque 293Dus e Diabo. O senhor é o servo do Diabo.

Então tirou algumas cartas de cima da mesa e atirou-as à cara do padre Donovan, saindo, num repelão, para as trevas.

- Santo nome de Deus! Que aconteceu ao Peter?! - 293dis fyfac quebrando o pesado silêncio.

- Santo nome de Deus! - disse o padre Donovan, compassivamente. - O Peter tem gangrena. Tem de amputar o braço ou morre. Viam-se perfeitamente as listras escarlates acima do cotovelo...

- Quê? - E Larkin olhou para Mac, petrificado.

Então, ambos se levantaram simultaneamente e saíram apodados. Mas o padre Donovan chamou-os.

- Esperem, vocês não podem fazer nada.

- Com mil raios, deve haver alguma coisa! - Larkin escancarou a porta.-Pobre rapaz... eu pensava... pobre rapaz...

- Não há inada a fazer, a não ser esperar. A não ser ver e rezar. Talvez o Rei ajude, possa ajudar. - Depois, o padre Donovan acrescentou, fatigadamente: - O Rei é o único homem que pode.

Peter Marlowe entrou aos tropeções na barraca americana.

- vou agora buscar o dinheiro - murmurou para o Rei.

- Estás maluco? Anda por aí muita gente.

-Quero lá saber - disse Peter Marlowe com mau modo. - Queres o dinheiro ou não?

- Senta-te. Senta-te!

O Rei forçou Peter Marlowe a sentar-se, deu-lhe um cigarro, obrigou-o a beber um café e pensou: "Jesus, o que eu tenho de fazer por um pouco de caroço!" Pacientemente, disse a Peter Marlowe que mantivesse a calma, que tudo ia correr bem, porque a cura estava preparada; e uma hora depois Peter Marlowe já estava mais calmo e pelo menos coerente.

-Já são horas, agora? - perguntou Peter Marlowe, quase cego pela dor, sabendo que, se não fosse agora, nunca mais 293iri

O Rei sabia que era demasiado cedo para que houvesse esperança, mas sabia também que não podia conservá-lo mais tempo na barraca. Por isso, mandou guardas em todas as direcções. Toda a área estava coberta. Max estava a vigiar Grey, que estava no seu catre. Byron Jones in vigiava Timsen. E Timsen estava a norte, perto do portão, à espera do envio da droga, e os rapazes do Timsen, outra fonte de perigo, rebuscavam ainda a área desesperadamente, à procura do salteador.

O Rei e Tex observavam Peter Marlowe, que passeava estupidamente fora da barraca e em direcção ao fosso. Hesitou à beira dele e acabou por transpô-lo e caminhar com passo vacilante em direcção à vedação.

- Jesus! - disse Tex. - Nem quero olhar!

- Nem eu - disse o Rei.

Peter Marlowe tentava fixar os olhos na vedação, através das dores e do delírio que o atormentavam. Ansiava por uma bala. Não podia suportar mais aquela agonia. Mas não veio nenhuma bala e, por isso, continuou a caminhar, sinistramente erecto, e depois cambaleou de encontro à vedação. Agarrou-se a um arame para se ter em pé durante um momento. Depois curvou-se para passar através dos arames, soltou um pequeno gemido e caiu mas profundas dos infernos.

O Rei e Tex correram para a vedação, pegaram-lhe e arrastaram-no para fora dela.

- Que é que ele tem? - perguntou alguém da escuridão.

- Parece que está meio maluco - disse o Rei. - Vem daí, Tex, vamos levá-lo para a barraca.

Levaram-no para a barraca e deitaram-o na cama do Rei. Depois, Tex foi a correr chamar os guardas e a barraca voltou à normalidade. Apenas um guarda lá fora.

Peter Marlowe ficou deitado na cama, a gemer e a resmungar, em delírio. Um momento depois acordou do desmaio.

- Oh, meu Deus! - soluçou, e tentou levantar-se da cama, mas o corpo não lho permitiu.

- Toma - disse o Rei ansiosamente, dando-lhe quatro aspirinas. - Não te apoquentes, vais ficar bom. - A mão tremia-lhe, enquanto o ajudava a beber um pouco de água. "Filho da mãe", pensou com amargura. "Se o Timsen não traz a droga esta noite, o Peter não se safa; e, se não se safa, como diabo vou eu arranjar a massa? Filho da mãe!"

Quando Timsen chegou finalmente, O Rei era um destroço- Olá, amigo.

Timsen também estava nervoso. Fora obrigado a cobrir o seu melhor amigo no percurso até ao portão principal, e enquanto o homem passava o arame farpado para os aposentos do médico japonês, que ficavam a uns cinquenta metros e não muito longe da casa de Yoshima e demasiado perto da casa da guarda, era de arrasar os nervos de qualquer homem. Mas o australiano fora e voltara e embora Timsen soubesse que não havia nenhum ladrão no mundo como um australiano que precisava de qualquer coisa, mesmo assim suara enquanto esperava que o homem voltasse a salvo.

- Onde vamos tratá-lo?

- Aqui.

- Está bem. É melhor pôr alguns guardas.

- Onde está o enfermeiro?

- Eu sou o primeiro - disse Timsen, maldisposto. - O Steven não pode descer agora. Vem a seguir a mim.

- Espero que saibas o que estás a fazer!

- Claro que sei - disse Timsen. - Tens água a ferver?

- Não.

- Então arranja-a! Será que vocês, os Americanos, não sabem nada?

- Não percas a calma!

O Rei fez um aceno a Tex e este pôs a água a ferver. Timsen abriu o estojo cirúrgico e pô-lo sobre uma pequena toalha.

- Raios me partam se já vi coisa mais limpa - disse Tex. - De tão branco quase parece azul.

Timsen cuspiu e lavou as mãos cuidadosamente com um sabonete novo e começou a ferver a seringa e a pinça. Depois curvou-se sobre Peter Marlowe e deu-lhe pancadinhas na cara.

- Então, amigo?

- Bem - disse Peter Marlowe debilmente.

- vou limpar a ferida, está bem? Peter Marlowe teve de se concentrar.

- Quê?

- vou dar-te a antitoxina...

- Tenho de ir para o hospital - respondeu ele, como embriagado. - São horas... cortar isto... é o que te digo. - E o espírito voltou a abandoná-lo.

- Ainda bem - disse Timsen.

Depois de esterilizada a seringa, Timsen deu-lhe uma injecção de morfina.

- Ajuda - disse ele bruscamente para o Rei. - Limpa-me o suor dos olhos.

Obedientemente, o Rei pegou numa toalha. Timsen esperou que a injecção actuasse, depois tirou a ligadura e pôs o ferimento a nu.

- Jesus!-exclamou. Toda a área da ferida estava inchada, verde e vermelha. - Parece-me que é tarde de mais.

- Meu Deus! - disse o Rei. - Não admira que o pobre filho da mãe estivesse maluco.

Rangendo os dentes, Timsen cortou cuidadosamente o pior do que estava podre e limpou a ferida o melhor que pôde. Depois pôs-lhe pó de sulfamida e voltou a pôr a ligadura.

- Ai, as sacanas das minhas costas! - suspirou, quando tudo estava pronto. Olhou para a ligadura imaculada e voltou-se para o Rei: - Tens um bocado duma camisa?

O Rei tirou uma camisa da parede e deu-lha. Timsen arrancou-lhe a manga e fez uma ligadura tosca por cima da outra.

- Para que diabo é isso? - lamuriou o Rei.

-Camuflagem - disse Timsen. - Parece que pensas que ele pode passear pelo campo com uma ligadura novinha em folha e não ser chateado pelos médicos, curiosos, e pelos P. M. e perguntarem-lhe onde a arranjou.

- Ah, compreendo.

- Já é alguma coisa!

O Rei deixou passar a bronca. Estava demasiado preocupado com a lembrança do braço de Peter Marlowe e com o cheiro dele e com a ligadura manchada de sangue e de pus que estava no chão.

- Eh, Tex, despacha-me essa porcaria.

- Porquê eu?

- Despacha-me isso.

Tex pegou relutantemente na ligadura e saiu. com o pé, levantou a terra mole e enterrou-a. Sentiu-se indisposto. De volta desabafou:

- Graças a Deus, não tenho de fazer isto todos os dias. Timsen encheu a seringa com mão trémula e curvou-se sobre o braço de Peter Marlowe.

- Tens de ver. Olha, por amor de Deus - trovejou, ao ver o Rei afastar-se. - Se o Steven não vier, talvez tenhas de o fazer. A injecção tem de ser intravenosa, está bem? Procura a veia. Depois espetas a agulha e puxas um bocadinho, para poderes tirar um pouco de sangue para a seringa. Percebes? Tens então a certeza de que a agulha está na veia. Depois de teres a certeza, introduzes a antitoxina. Mas não muito depressa. Leva cerca de três minutos por centímetro cúbico.

O Rei olhou revoltado, até que a agulha foi tirada e Timsen comprimiu um pouco de algodão sobre a picada.

- Filho da mãe - disse o Rei. - Nunca serei capaz de fazer isso.

- Se queres deixá-lo morrer... - Timsen estava banhado de suor e estava também agoniado. - E queria o meu velho que eu fosse médico! - Empurrou o Rei, deitou a cabeça fora da janela e vomitou. - Arranjem-me um pouco de café, por amor de Deus.

Peter Marlowe mexeu-se e ficou meio acordado.

- Vais ficar bom, amigo. Compreendes-me? - E Timsen curvou-se sobre ele, carinhoso.

Peter Marlowe fez que sim com a cabeça e levantou o braço. Durante um minuto olhou para ele, incrédulo, e depois murmurou: -Que aconteceu? Ainda cá está! Ainda cá está!

- Claro que está - disse o Rei orgulhosamente. - Apenas te tratámos. Antitoxina. Eu e o Timsen.

Mas Peter Marlowe apenas olhou para ele e mexeu os lábios, mas as palavras não saíram. Por fim disse num murmúrio:

- Ainda cá está!

Serviu-se da mão direita para apalpar o braço que não devia estar lá, mas estava. E, quando teve a certeza de que não estava a sonhar, deitou-se num lago de suor, fechou os olhos e começou a chorar. Uns minutos mais tarde estava a dormir.

- Coitado - disse Timsen. - Deve ter pensado que estava na mesa de operações.

- Quanto tempo vai ele estar a dormir?

- Mais umas duas horas. Ouve - disse Timsen. - Ele tem de levar uma injecção de seis em seis horas, até se libertar da toxina. Durante, digamos, quarenta e oito horas. E um penso novo todos os dias. E mais sulfamida. Mas lembra-te disto. Ele tem de conservar as injecções. E não te admires se ele vomitar tudo. Tem de haver uma reacção. E forte. Eu carreguei na primeira dose.

- Achas que vai ficar bom?

- Respondo a isso daqui a dez dias. - Timsen arrumou o estojo e fez um bonito embrulho com a toalha, o sabão, a seringa, a antitoxina e o pó de sulfamida. - Agora vamos descansar, está bem?

O Rei puxou do maço que Shagata lhe dera.

- Fumas?

- Pois sim.

Acesos os cigarros, o Rei disse, com toda a naturalidade:

- Podemos descansar quando o negócio do diamante estiver resolvido.

- Ah, não, amigo. Eu entrego, recebo o dinheiro. Não tem nada a ver com isto - disse Timsen vivamente.

- Não há mal em esperar um dia, ou coisa assim.

- Recebeste bastante dinheiro e, portanto, algum do lucro... Deteve-se subitamente quando encontrou a resposta. - Oh! -exclamou com um largo sorriso, apontando um polegar para Peter Marlowe. -Não há dinheiro até o teu amigo ir buscá-lo, está bem?

O Rei tirou o seu relógio de pulso.

- Queres ficar com isto como garantia?

- Não, amigo, confio em ti. - E olhou para Peter Marlowe.

- Bem, parece que muito depende de ti, meu rapaz. - Quando se voltou para o Rei, este tinha os olhos enrugados de riso. - Também me dá tempo, não é verdade?

- Ha? - fez o Rei inocentemente.

- Deixa-te disso, pá. Sabes que o anel se foi no assalto. Só tu aqui no campo podes resolver isso. Se eu pudesse, julgas que deixava o negócio contigo? - O sorriso de Timsen era seráfico. - Isso dá-me tempo para encontrar o assaltante, está certo? Se ele vier ter contigo primeiro, tu não tens dinheiro para pagar, não é assim? Sem o dinheiro, ele não o larga, está certo? Sem dinheiro, não há negócio. - Timsen esperou e depois disse, com ar benévolo: - Claro que podias dizer-me quando o sacana o oferecer, não podias? No fim de contas, é propriedade minha, não é?

- É - disse o Rei amavelmente.

- Mas não dizes - suspirou Timsen. - Que corja de ladrões! Curvou-se sobre Peter Marlowe e tomou-lhe o pulso.

- Hum! - fez ele, pensativo, - O pulso subiu.

- Obrigado pela ajuda, Tim.

- Não tens nada que agradecer. Eu também estou interessado, não é? vou vigiájlo como um cão. Certo?

Riu-se de novo e saiu.

O Rei estava exausto. Depois de ter tomado um café, sentiu-se melhor, encostou-se na cadeira e dormitou.

Acordou com um sobressalto e olhou para a cama. Peter Marlowe estava a olhar para ele.

- Olá - disse Peter Marlowe debilmente.

- Como te sentes? - E o Rei espreguiçou-se e pôs-se em pé.

- O pior possível. vou vomitar daqui a nada. Sabes, não há nada... nada... posso dizê-lo...

O Rei acendeu o último cigarro e meteu-o entre os lábios de Peter Marlowe.

- Bem o mereces, amigo.

Enquanto Peter Marlowe estava deitado a ganhar forças, o Rei explicou-lhe o tratamento e o que tinha de ser feito.

- O único sítio que vejo é o quarto do coronel - disse Peter Marlowe. - O Mac pode acordar-me e ajudar-me a sair da barraca. Posso ficar na minha própria cama a maior parte do tempo.

O Rei estendeu cautelosamente uma marmita do rancho quando viu que Peter Marlowe ia vomitar.

- É melhor tê-la aqui à mão. Desculpa. Meu Deus!-disse Peter Marlowe, horrorizado, ao lembrar-se. - O dinheiro! Recebeste-o?

- Não. Tu passaste para o lado de cá do arame.

- Meu Deus! Não creio que possa fazêjlo esta noite.

- Não te preocupes, Peter. Logo que estejas melhor. Não podemos correr riscos.

- E não prejudica o negócio?

- Não. Não te preocupes com isso.

Peter Marlowe sentiu-se de novo agoniado e, quando melhorou, tinha um aspecto horrível.

- É engraçado - disse. - Tive um sonho estranho. Sonhei que tive uma bulha terrível com o Mac, o coronel e o padre Donovan. Meu Deus, ainda bem que foi um sonho. Apoiou-se no braço são, hesitou e voltou a deitar-se. - És capaz de me ajudar?

- Tens tempo. Ainda agora tocou a recolher.

- Amigo!

O Rei saltou para a janela e espreitou para as trevas. Viu o frouxo contorno de um homenzinho agachado contra a parede.

- Despacha-te - segredou o homem. - Tenho aqui a pedra.

- Tens de esperar. Só te posso dar o dinheiro daqui por dois dias.

- Meu grande filho da mãe...

- Escuta, meu filho de puta - disse o Rei. - Se queres esperar dois dias, óptimo! Se não queres, vai para o raio que te parta!

- Está bem, dois dias. - E o homem soltou uma obscenidade e desapareceu.

O Rei ouviu-lhe os passos a afastarem-se e, logo a seguir, os passos que o perseguiam. Depois, o silêncio, cortado apenas pelo canto dos grilos.

- Que se passou? - perguntou Peter Marlowe.

- Nada - respondeu o Rei, perguntando a si mesmo se o homem se teria safado. Mas sabia que, fosse o que fosse que tivesse acontecido, ele teria o diamante. Contanto que arranjasse o dinheiro.

Durante dois dias, Peter Marlowe lutou com a morte. Mas ele queria viver. E viveu.

- Peter! - E Mac sacudiu-o suavemente.

- Sim, Mac? -São horas.

Mac ajudou Peter Marlowe a sair da cama e, juntos, conseguiram descer as escadas, a juventude apoiada na idade, e caminharam nas trevas até ao bungalow.

Steven já lá estava à espera. Peter Marlowe deitou-se na cama de Larkin e de novo se submeteu à picada da agulha. Teve de apertar os dentes para não gritar; Steven era cuidadoso, mas a agulha estava romba.

- Pronto - disse Steven. - Agora vamos tirar a temperatura. Meteu o termómetro na boca de Peter Marlowe e depois tirou

a ligadura e olhou para a ferida. O inchaço desaparecera e crostas duras e limpas cobriam a ferida.

- Muito bem. - Steven estava satisfeito com o êxito do tratamento, mas nada satisfeito com o dia de hoje. "Aquele porco daquele sargento Flaherty", pensou, "é um homem detestável. Sabe que detesto fazê-lo, mas escolhe-me sempre." - Raios partam! -disse alto.

- Quê? - E Mac, Larkin e Peter Marlowe ficaram preocupados.

- Não está bem? - perguntou Peter Marlowe.

- Pelo contrário. Eu estava a falar de outra coisa. Agora vamos ver a temperatura. - Steven tirou o termómetro e sorriu para Peter Marlowe, ao ler a temperatura. - Normal. Pelo menos, só um grau acima do normal, mas não tem importância. Tens sorte, muita sorte. - Levantou o frasco vazio de antitoxina. - Dei-te o resto.

Steven tomou-lhe o pulso.

- Muito bom. - Olhou para Mac. - Tens uma toalha? Mac deu-lha e Steven molhou-a em água fria e pôs uma compressa

na cabeça de Peter Marlowe.

- Encontrei isto - disse, dando-lhe duas aspirinas. - Vão ajudar-te, meu caro. Agora descansa um pouco. - Voltou-se para Mac e pôs-se em pé, ajeitando o sarong à volta dos quadris. - Não tenho mais nada a fazer. Ele está muito fraco. Tens de lhe dar um caldo. E todos os ovos que possas arranjar. E de olhar por ele. - Voltou-se e olhou para a magreza de Peter Marlowe. - Deve ter perdido uns sete quilos nos últimos dois dias e isso é perigoso. Não deve chegar a pesar cinquenta quilos, o que não é muito para o tamanho dele.

- Hem... gostávamos de te agradecer, Steven - disse Larkin, canhestro. - Bem sabes que... hera... apreciamos o teu trabalho. Todos. Bem sabes.

- Tenho sempre prazer em ajudar - disse Steven, satisfeito, ajeitando um caracol na testa. Mac olhou para Larkin.

- Se houver alguma coisa que possamos fazer, Steven, é só dizeres.

- É muito amável. Vocês são muito amáveis... ambos - disse delicadamente, admirando o coronel, aumentando-lhes o embaraço, brincando com a medalha de S. Cristóvão que usava ao pescoço. Se vocês pudessem fazer-me o furo para amanhã, eu faria tudo... mas tudo. Não posso mais suportar o cheiro das baratas. Um nojo. Seria possível? - suplicou.

- Está bem, Steven - disse Larkin, azedo.

- Vamos lá de madrugada - rosnou Mac, recuando um pouco para evitar a carícia tentada por Steven.

Larkin não foi bastante rápido e Steven pôs a mão na cintura do coronel e afagou-a afectuosamente.

- Boa noite, queridos. Vocês são ambos tão bons para o Steven! Depois de ele partir, Larkin olhou fixamente para Mac.

- Se dizes alguma coisa, arranco-te as orelhas. Mac riu por entre dentes:

- Eh, pá, não te zangues. Mas mão há dúvida de que deste a impressão de ter gostado. - Curvou-se para Peter Marlowe, que estivera aobservar. - Eh, Peter?

- Eu -penso que vocês estão ambos prontos para uma experiência. .. - disse Peter Marlowe, sorrindo. - Ele ganha bem, mas vocês bem o tentam a oferecer os vossos serviços. Agora o que ele encontra nesses dois estupores é que eu não percebo. Raios me partam se entendo!

- A primeira injecção foi há dois ou três dias? - perguntou Peter Marlowe.

- Dois dias.

"Dois dias? Mais parecem dois anos", pensou Peter Marlowe. "Mas amanhã terei força bastante para ir buscar o dinheiro."

Nessa noite, depois da última chamada, o padre Donovan veio jogar brídege com eles. Quando Peter Marlowe lhes contou do sonho-pesadelo que tivera com eles, todos riram.

- Eh, rapaz - disse Mac -, a tua cabeça pode pregar -te partidas estranhas quando tens febre.

- É verdade - disse o padre Donovan, e depois sorriu para Peter Marlowe. - Estou muito contente por o seu braço estar curado, Peter.

Peter Marlowe sorriu em resposta.

- Não se passam muitas coisas que o senhor não saiba, pois não?

- Não se passam muitas coisas que Ele não saiba. - Donovan estava muito seguro e em paz perfeita. - Estamos em boas mãos.

- Teve um risinho e acrescentou:-Até vocês três!

- Bem, é bom ouvir isso. Embora eu pense que o coronel está noutra zona!

Depois do jogo e depois de Donovan ter saído, Mac fez um sinal a Larkin.

- Tu ficas de vigia. Vamos ouvir as notícias e depois podemos dormir.

Larkin vigiou a estrada e Peter Marlowe ficou sentado na varanda, tentando manter os olhos bem abertos. Dois dias. Agulhas no braço e agora estava curado e recuperara o seu braço. Estranhos dias, dias de pesadelo, e agora tudo estava -bem.

As notícias eram excelentes e todos foram para a cama. O seu sono foi calmo e sem sonhos.

De madrugada, Mac foi ao galinheiro e trouxe três ovos. Fez uma omeleta, meteu-lhe um pouco de arroz que guardara da véspera e temperoua com um pouco de alho.

Depois levou-a para a barraca de Peter Marlowe, acordou-o e ficou a vê-lo comê-la.

De súbito, Spence entrou a correr na barraca.

- Eh, malta! - gritou. - Chegou correio!

O estômago de Mac deu-lhe uma volta. "Oh, meu Deus! Oxalá haja alguma coisa para mim!"

Mas não havia nenhuma carta para Mac.

Ao todo havia quarenta e três cartas para dez mil. Os Japoneses tinham distribuído correio ao campo duas vezes em três anos. Algumas cartas. E, em três ocasiões, os homens tinham sido autorizados a escrever um bilhete-postal de vinte e cinco palavras. Mas ninguém sabia se esses postais alguma vez chegaram ao seu destino.

Larkin foi um dos que receberam uma carta. A primeira que alguma vez recebera.

A sua carta era datada de 2 de Abril de 1945. Era de há seis meses. A idade das cartas variava de três semanas a mais de dois anos.

Larkin leu a releu a carta. Depois leua a Mac, a Peter Marlowe e ao Rei, sentados na varanda do bungalaw:

Querido. Esta carta é a número 205 [começava assim]. Estou bem, a Jeannie está bem e a mãe está connosco e estamos onde sempre temos vivido. Não temos notícias tuas desde a tua carta de 1 de Fevereiro de 1942, posta no correio em Singapura. Mesmo assim, sabemos que estás bem e feliz e rezamos para que regresses bem.

Comecei todas as cartas da mesma maneira; portanto, se recebeste as outras antes, perdoa-me. Mas é difícil, não sabendo se esta te chegará às mãos, se alguma delas te chegou. Amo-te. Preciso de ti. E, por vezes, tenho mais saudades tuas do que posso suportar.

Hoje sinto-me triste, não sei porquê, mas estou. Não quero sentir-me deprimida e quero dizer-te toda a espécie de coisas bonitas.

Talvez "esteja triste por causa de Mrs. Gurble. Ela recebeu ontem um postal, e eu não. Creio que sou egoísta. Mas sou assim. De qualquer modo, não te esqueças de dizer ao Vic Gurble que a mulher dele, a Sarah, recebeu um postal datado de 6 de Janeiro de 1943. Ela está bem e o filho dele é muito bonito. A Sarah está tão feliz que retomou o contacto connosco. É verdade, e as raparigas do Regimento são tudo boa gente. E a mãe do Timsen é estupenda. E não te esqueças de dar saudades minhas ao tom Masters. Vi a mulher dele ontem à noite. Também está boa e está a ganhar um ror de dinheiro para ele. Tem um novo negócio. Ah, e vi a Elizabeth Ford, a Mary Vickers...

Larkin levantou os olhos da carta.

- Ela cita para aí umas doze mulheres. Mas os homens morreram. Todos. O único vivo é o Timsen.

- Continua a ler, rapaz - disse Mac, dolorosamente consciente da agonia que estava escrita nos olhos de Larkin.

Hoje está calor [prosseguiu Larkin], e eu estou sentada na varanda e a Jeannie anda a brincar no jardim, e penso que este fim-de-semana vou para a casa das montanhas Azuis.

Gostava de escrever sobre as notícias que correm, mas isso não é permitido.

Oh, meu Deus, como se pode escrever no vácuo? Como é que eu sei? Onde estás tu, meu amor? Por amor de Deus, onde estás? Não escreverei mais. vou só acabar esta carta aqui e não vou mandá-la... Oh, meu amor! Rezo por ti... Reza por mim. Por favor, reza por mim...

Depois de uma pausa, Larkin disse:

- Não tem assinatura e é... O endereço vem na letra da minha mãe. Que pensam vocês disto?

- Sabes como são as raparigas - disse Mac. - Provavelmente meteu-a numa gaveta e a tua mãe encontrou-a e pô-la no correio, sem a ler, sem lhe perguntar. Sabes como são as mães. É mais que provável que a Betty se tenha esquecido e no dia seguinte escreveu outra carta, quando se sentia melhor.

- Que quererá ela dizer com "reza por mim"? - perguntou Larkin. - Ela sabe que o faço todos os dias. Que se passará? Santo Deus! Estará doente ou coisa assim?

- Não há necessidade de se preocupar, coronel - disse Peter Marlowe.

-Que sabe você destas coisas? - Larkin inflamou-se bruscamente. - Como raio posso não me preocupar?!

- Bem, pelo menos, sabe que ela está bem e que a sua filha também está bem - respondeu Mac, fora de si com saudades. - Dê graças à sua sorte! Nós não recebemos nenhuma carta, nenhum de nós! Você tem sorte. - E abalou furioso.

- Desculpe, Mac. - Larkin correu atrás dele e segurou-o. - Desculpe, não foi nada que você dissesse. É que, depois de tanto tempo...

- Eh, rapaz, eu é que devo pedir desculpa. Eu estava perdido de ciúmes. Creio que detesto essas cartas.

- Bem pode dizer isso. Os que recebem cartas ficam malucos. Os que não recebem, também. Só problemas.

Era ao lusco-fusco. Logo a seguir à paparoca. Toda a barraca americana estava reunida.

Kuit cuspiu no chão e pousou a bandeja.

- Aqui estão nove. Eu fiquei com uma. Os meus dez por cento. Cuspiu de inovo e saiu.

Todos olharam para a bandeja.

- Acho que vou ficar de novo enjoado - disse Peter Marlowe. -Não serei eu que te censuro - concordou o Rei.

- Eu não sei nada disso. - Max pigarreou. - Parecem pernas de coelho. Pequenas, sim, mas pernas de coelho.

- Queres provar uma? - perguntou o Rei.

- Raios, não! Só disse que pareciam. Posso ter uma opinião, não posso?

- Palavra de honra - disse Timsen.- Nunca pensei que vendêssemos alguma.

- Se eu não soubesse... - Tex deteve-se. - Tenho tanta fome! E não via tanta carne desde que apanhámos aquele cão...

- Que cão? - perguntou Max, desconfiado.

- Oh, foi há muitos anos - disse Tex. - Lá para 1943.

- Ah!

- Raios! - tornou o Rei, ainda fascinado pela travessa. - Tem bom aspecto. - Curvou-se para a frente e cheirou a carne, mas sem aproximar muito o nariz. - Cheira bem...

- Mas é carne de rato- interrompeu Byron Jones in com mau modo.

O Rei atirou a cabeça para trás.

- Para que dizes isso, meu filho da mãe! - disse o Rei através de risos.

- Bem, é rato. Santo Deus! Pelos modos como vocês falavam, era o bastante para fazer fome a um homem!

Peter Marlowe pegou cuidadosamente numa perna e colocou-a numa folha de bananeira.

- Esta tenho de a comer - disse e voltou à barraca. Dirigiu-se à sua cama e disse para Ewart: - Talvez comamos muito bem esta noite.

- Quê?

- Não importa. Qualquer coisa especial. - Peter Marlowe sabia que Drinkwater estava a ouvi-los; furtivamente, pôs a folha de bananeira na prateleira e disse para Ewart: - Eu venho já.

Meia hora mais tarde voltou e a folha de bananeira desaparecera, assim como Drinkwater.

- Saíste daqui?-perguntou Peter Marlowe a Ewart.

- Só por "um instante. Drinkwater pediu-me que lhe fosse buscar água. Disse que se sentia mal.

E então Peter Marlowe teve um ataque de histeria e toda a gente pensou que ele enlouquecera. Só quando Mike lhe deu um abanão é que ele parou de rir.

- Desculpem, foi uma brincadeira.

Quando Drinkwater voltou, Peter Marlowe fingiu estar muito preocupado com o desaparecimento de certa comida e Drinkwater também ficou preocupado e disse, lambendo os beiços:

- Mas que partida de mau gosto!

E Peter Marlowe teve novo ataque de histeria. Por fim, trepou para o seu catre e deitou-se de costas, exausto de riso. Em breve esse cansaço se juntou à fadiga dos últimos dias. Adormeceu e nos seus sonhos Drinkwater comia montanhas de pequenas coxas, e ele, Peter Marlowe, estava ali a assistir e comentava: "Qual é o problema? São deliciosas, deliciosas..."

Ewart .acordou-o com um safanão.

- Está lá fora um americano, Peter. Quer falar contigo. Peter Marlowe sentia-se ainda fraco e agoniado, mas levantou-se. -Onde está Drinkwater?

- Não sei. Saiu depois de tu teres tido o ataque.

- Ah! - Peter Marlowe riu-se de novo. - Tive medo que tivesse sido um sonho.

-Quê? - E Ewart observou-o.

- Nada.

- Não sei o que se passa contigo, Peter. Tems-te comportado de um modo muito estranho ultimamente.

Tex esperava Peter Marlowe junto à barraca.

- Peter - segredou ele-, foi o Rei que me mandou. Estás atrasado.

- Oh, bolas! Desculpa. Adormeci.

- Sim, foi o que ele pensou. "É melhor ir para a frente" foi o que ele me disse que te dissesse. - Tex franziu o sobrolho. - Estás bem?

- Estou. Ainda um pouco fraco. Mas vou ficar bom.

Tex concordou com um aceno de cabeça e afastou-se rapidamente. Peter Marlowe desceu os degraus para a estrada de asfalto, encheu a sua garrafa e dirigiu-se pesadamente para as latrinas. Escolheu um buraco ao fundo da descida, tão perto quanto possível do arame farpado.

Havia apenas um fio de luar. Esperou até que a área das latrinas estivesse momentaneamente vazia e depois deslizou pelo terreno nu e por baixo do arame, para a selva. Manteve-se baixo enquanto contornava o arame, evitando a sentinela que sabia vaguear pelo carreiro entre a selva e a vedação. Levou-lhe uma hora a encontrar o local onde escondera o dinheiro. Sentou-se, tirou os maços de notas e amarrou" à volta das coxas e dobrou o sarong à volta da cintura. Agora, em vez de chegar ao chão, o sarong atingia-lhe os joelhos e o seu volume ajudava a disfarçar a estranha grossura das pernas.

Teve de esperar mais uma hora antes de poder passar por baixo do arame. Agachou-se num buraco, na escuridão, para recuperar o fôlego e esperar que o seu coração estivesse mais calmo. Por fim, pegou numa garrafa e abandonou a área das latrinas.

- Olá, pá - disse Timsen com um sorriso, saindo das trevas. Noite estupenda, não está?

- Está - respondeu Peter Marlowe.

- Boa para um passeio, não é?

- Ha?

- Importas-te que eu vá contigo?

- Não. Vem daí, Tim. Tenho prazer em ir contigo. Assim, não haverá salteadores. Certo?

- Certo, amigo. Tu és uma personagem.

- Tu não me ficas atrás, meu malandro. - Peter Marlowe deu-lhe uma palmada nas costas. - Nunca te agradeci.

-Não penses nisso, pá. Palavra de honra. - Timsen deu uma risadinha. -Quase me levaste à certa.

O Rei ficou carrancudo quando viu Timsen, mas, ao mesmo tempo, não muito carrancudo, porque o dinheiro estava de novo na sua posse. Contouo e meteu-o na caixa preta.

- Agora, tudo o que precisamos é do diamante.

- Sim, pá. - Timsen pigarreou. - Se apanharmos o salteador antes de ele vir aqui ou depois de ele vir aqui, eu recebo o preço combinado, certo? Se lhe comprares o anel e não o apanharmos, então ganhas tu, certo? justo?

- com certeza - disse o Rei. - Está combinado.

- Óptimo. Que Deus lhe valha, se o apanharmos. - E Timsen fez um aceno a Peter Marlowe e afastou-se.

- Vai deitar-te, Peter - disse o Rei, sentando-se na caixa preta. - Pareces em baixo das canetas.

- Pensei em voltar.

- Deixa-te estar por aqui. Posso precisar de alguém em quem possa confiar.

O Rei estava a suar e o calor do dinheiro que estava na caixa parecia queimar através da madeira.

Assim, Peter Marlowe ficou deitado na cama, com o coração a doer-lhe do esforço. Dormiu, mas o seu espírito estava alerta.

- Amigo!

O Rei saltou para a janela.

- Agora?

-Depressa! -O homenzinho estava imensamente assustado e o branco dos seus olhos reflectia a luz à medida que ele os mexia. Depressa!

O Rei enfiou a chave na fechadura, levantou a tampa, tirou a pilha de dez mil que contara e precipitou-se de novo para a janela.

- Aqui está. Dez mil dele. Fui eu que o contei. Onde está o diamante?

- Quando eu tiver o caroço.

- Quando eu tiver o diamante - disse o Rei, ainda com as notas bem seguras.

O homenzinho olhou-o com ar bélico e depois abriu o punho. O Rei olhou para o anel de diamante, examinando-o, sem fazer um gesto para lhe pegar. "Tenho de ter a certeza", disse para si próprio. "Tenho de ter a certeza. Sim, é este. Creio que é este."

- Vá, amigo, pega nele - rosnou o homenzinho. - Pega nele! O Rei só largou as notas quando já tinha o anel bem seguro,

e o homenzinho partiu como uma seta. O Rei susteve o fôlego e curvou-se em frente da luz, examinando o anel cuidadosamente.

- Conseguimos, amigo Peter - segredou radiante. - Conseguimos. Temos o diamante e temos o dinheiro.

Sentindo baixar a tensão dos últimos dias, o Rei abriu um pequeno saco de café em grão e fingiu esconder lá o diamante. Em vez disso, escamoteouo com perícia. Até Peter Marlowe, que estava mais próximo dele, se deixou enganar. Logo que fechou a caixa, sobreveioLhe um ataque de tosse. Ninguém o viu transferir o anel para a boca. Procurou com a mão a chávena de café frio e bebeu-o, engolindo a pedra. Agora, o diamante estava seguro. Muito seguro.

Sentou-se numa cadeira, à espera que passasse a tensão. "Não há dúvida", disse para si próprio, radiante. "Conseguiste."

Um assobio de perigo cortou o silêncio da noite.

Max espreitou pela porta,

- Polícia - disse ele e juntou-se à mesa de poker.

- Com mil raios!

O Rei obrigou as pernas a mexerem-se e agarrou nos maços de dinheiro. Atirou um de dois centímetros e meio a Peter Marlowe, meteu outro nos seus próprios bolsos e correu para a mesa de poker, dando a cada homem um montinho, que eles enfiaram nos bolsos. Depois distribuiu o resto pela mesa, .puxou de um banco e juntou-se ao jogo.

- Despacha-te, cos diabos! Dá cartas.

- Está bem, está bem - disse Max. - Cinco cartas. - Puxou de cem dólares. -Jogo cem.

- São duzentos - disse Tex, exultante.

- vou nisso!

Estavam todos radiantes e Max deu as primeiras duas cartas e tirou para si próprio um ás, a descoberto.

- Aposto quatrocentos!

- Os teus quatro e mais quatro - disse Tex, que tinha um duque a descoberto e mais nada.

- vou nisso - disse o Rei.

Então levantou os olhos e Grey estava à porta. Entre Brough e Yoshima. E atrás de Yoshima estavam Shagata e outro guarda.

- Todos de pé junto às suas camas - ordenou Brough, de rosto severo e tenso.

O Rei atirou um olhar assassino a Max, que era o vigia da noite. Max falhara na sua missão. Dissera "polícia", mas não vira japoneses. Se tivesse dito "japoneses", ter-se-ia empregado um outro plano.

Peter Marlowe tentou pôr-se em pé. Estar em pé, porém, aumentava a sua náusea; por isso, cambaleou até à mesa do Rei e encostou-se a ela.

Yoshima olhava para o dinheiro que estava em cima da mesa. Brough já dera por isso e estremeceu. Grey também o notara e o ritmo do seu pulso acelerou.

- Donde veio este dinheiro? - perguntou Yoshima. Houve um longo silêncio.

Então, Yoshima gritou:

- Donde veio este dinheiro?

O Rei sentia-se morrer por dentro. Vira Shagata e sabia que Shagata era nervoso. E o Rei sabia que estava a um triz de Utram Road.

- É dinheiro do jogo, Sír.

Yoshima percorreu toda a barraca até estar em frente do Rei.

- Nenhum do mercado negro? - perguntou.

- Não, Sir - disse ele, forçando um sorriso.

Peter Marlowe sentiu de novo vontade de vomitar. Cambaleou pesadamente e quase caiu. E não conseguia fixar o olhar.

- Posso sentar-me... por favor? - disse ele. Yoshima olhou na direcção dele e notou a braçadeira.

-Que faz aqui um oficial inglês? - E estava surpreendido, pois tinham-lhe dito que havia muito pouca confraternização com os americanos.

- Eu... estava apenas de visita.

Mas Peter Marlowe não pôde continuar. Cambaleou para a janela e vomitou.

-Que é que ele tem? - perguntou Yoshima.

- Creio... que é febre, Sir.

- Você, aí - Yoshima dirigiu-se a Tex. - Sente-o numa cadeira.

- Sim senhor - respondeu Tex. Yoshima voltou a fitar o Rei.

- Como é que há tanto dinheiro, sem mercado negro? - perguntou com brandura.

O Rei estava consciente dos olhos pousados nele, consciente do silêncio aterrador, consciente do diamante dentro de si e consciente de Shagata à porta. Pigarreou.

- É que nós... poupamos o dinheiro para jogar!

A mão de Yoshima estalou na cara do Rei, fazendo-o cambalear.

- Mentiroso!

A pancada não magoou realmente, mas ao mesmo tempo pareceu ser um golpe de morte. "Meu Deus!", pensou o Rei. "Estou morto. A minha sorte acabou."

- Capitão Yoshima. - E Brough começou a avançar pela barraca, sabendo que não valia de nada interferir, que só podia piorar as coisas, mas tinha de tentar.

- Cale-se! - gritou Yoshima. - O homem mente. Toda a gente sabe. Ianque nojento!

Yoshima voltou as costas a Brough e olhou para o Rei.

- Dê-me a sua garrafa de água!

Como num sonho, o Rei tirou a sua garrafa da prateleira e entregoua a Yoshima. O japonês deitou fora ,a água, espreitou para dentro e agitou-a. Atirou-a então para o chão e avançou para Tex.

- Dê-me a sua garrafa de água.

O estômago de Peter Marlowe deu-lhe nova volta. "Que se passa com as garrafas de água?", gritava o seu cérebro. "Serão o Mac e o Larkin revistados? E que acontece se Yoshima pede a minha?" Cambaleou até à janela.

Yoshima deu a volta à barraca, examinando todas as garrafas. Por fim parou em frente de Peter Marlowe.

- A sua garrafa de água.

- Eu... - começou Peter Marlowe e de novo se sentiu agoniado, os joelhos a tremer-lhe e sem conseguir falar.

Yoshima voltou-se para Shagata e disse-lhe furiosamente qualquer coisa em japonês. Shagata disse:

- Hai.

- Você! - Yoshima (apontou para Grey. - Vá com este homem e com o guarda buscar a garrafa de água.

- Muito bem.

- Desculpe, Sir - disse o Rei rapidamente. - A garrafa dele está aqui.

O Rei meteu a mão por baixo da sua cama e tirou uma garrafa, a sua garrafa sobressalente, guardada em segredo para um caso de necessidade.

Yoshima pegou-lhe. Era muito pesada. Bastante pesada para poder conter um rádio ou parte de um rádio. Tirou-lhe a rolha e pô-la de bocal para baixo. Caíram uma porção de grãos de arroz. E continuaram a cair, até que ficou vazia e leve. Não havia nenhum rádio lá dentro.

Yoshima atirou com a garrafa.

- Onde está o rádio? - gritou.

- Não há nenhum rádio...-começou Brough, esperando que Yoshima inão lhe perguntasse por que razão um inglês que estava de visita havia de ter metido a garrafa debaixo de uma cama.

- Cale-se.

Yoshima e os guardas revistaram a barraca, assegurando-se de que não havia mais garrafas. Depois, Yoshima voltou às garrafas de água.

- Onde está o rádio-garrafa de água? - gritou. - Sei que está aqui, que um de vocês o tem. Onde está?

- Não há aqui nenhum rádio - repetiu Brough. - Podemos desmanchar a barraca toda.

Yoshima sabia que de algum modo a sua informação estava errada. Desta vez não lhe tinham revelado o esconderijo, mas apenas que estava metido numa garrafa de água, ou em garrafas de água, e, esta noite, um dos homens que a possuía estava nesse momento na barraca americana. Os seus olhos fitaram cada um dos homens. Quem? Ah, ele podia fazê-los marchar todos até à casa da guarda, mas de nada serviria, pelo menos sem o rádio. O general não gostava de fracassos. E sem o rádio...

Assim, desta vez falhara. Voltou-se para Grey.

- Queira informar o comandante do campo de que todas as garrafas de água estão confiscadas. Devem ser levadas para a casa da guarda esta noite!

- Yes, Sir - disse Grey, e a sua cara parecia toda olhos. Yoshima compreendia que, na altura em que as garrafas de água fossem levadas para a casa da guarda, a ou as que continham o rádio estariam enterradas ou escondidas. Mas isso não importava, só tornaria a busca mais fácil, porque o esconderijo teria de ser mudado e na mudança haveria olhos à espreita. Quem teria podido pensar que um rádio poderia ser posto dentro de uma garrafa de água?

- Porcos, estes ianques - rosnou. - Pensam que são tão fortes, tão espertos, tão grandes! Pois bem, lembrem-se disto. Ainda que esta guerra dure cem anos, nós vamos ganhá-la. Ainda que vocês batam os Alemães. Podemos lutar sozinhos. Vocês nunca nos baterão, nunca. Podem matar muitos de nós, mas nós mataremos muitos mais de vocês. Vocês nunca nos conquistarão, porque somos pacientes e não temos medo de morrer. Ainda que leve duzentos anos, havemos de destruir-vos.

Saiu como um furacão. Brough voltou-se para o Rei.

- Você devia ter os olhos abertos; e deixa entrar na barraca o sacana do japonês e os guardas com tudo por aí espalhado. A sua cabeça precisa de ser examinada.

- Não há dúvida, Sir.

- E outra coisa: onde está o diamante?

- Que diamante, Sir? Brough sentou-se.

- O coronel Smedly-Taylor chamou-me e disse-me que o capitão Grey tinha a informação de que você tinha um anel com um diamante que não devia ter. Você... e o tenente aviador Marlowe. Claro que em qualquer busca a fazer eu terei de estar presente e não tenho qualquer objecção a que o capitão Grey assista, contanto que eu esteja aqui. Estávamos justamente a discutir isso, quando Yoshima entrou por aí com os guardas e começou a ladrar que ia revistar a barraca, porque um de vocês tinha um rádio numa garrafa de água... Até onde pode ir a vossa loucura? O Grey e eu recebemos ordem para o acompanhar.

Agora, que a busca acabara, ele congratulava-se por não haver aqui nenhuma garrafa-rádio e sabia também que Peter Marlowe e o Rei faziam parte do grupo do rádio. Por que outra razão havia o Rei de fingir que uma garrafa americana pertencia ao inglês?

- Muito bem - disse Brough ao Rei. - Toca a despir. Você vai ser revistado. E a sua cama e a sua mala preta. - Voltou-se. O resto de vocês ficam sossegados e continuam a jogar. - Voltou a olhar para o Rei. - A não ser que você entregue o diamante.

- Que diamante, Sir?

Quando o Rei começou a despir-se, Brough foi até junto de Peter Marlowe.

- Queres alguma coisa, Peter?

- Só um pouco de água.

- Tex - ordenou Brough -, traz um pouco de água. - E depois para Peter Marlowe: - Tens muito mau aspecto. Que se passa?

- Apenas febre... sinto-me mal. - Peter Marlowe encostou-se para trás na cama de Tex e forçou um sorriso frouxo. - O sacana daquele japonês meteu-me um susto de morte.

- A mim também.

Grey examinou a roupa do Rei, a mala preta, -as prateleiras e o saco de café. E os homens ficaram espantados quando a busca não revelou o diamante.

- Marlowe! - E Grey estava à frente dele.

Os olhos de Peter Marlowe estavam raiados de sangue e custava-lhe ver.

- Sim?

- Quero revistá-lo.

- Escute, Grey - disse Brough. - Você está no seu direito de revistar aqui se eu aqui estiver. Mas não tem autoridade...

- Está bem - disse Peter Marlowe. - Eu não me importo. Se eu não quiser, ele vai pensar... Dê-me uma mão, se não se importa.

Peter Marlowe tirou o sarong e atirouo com o maço de notas para cima de uma cama.

Grey examinou as bainhas cuidadosamente. Irritado, atirou com o sarong.

- Como arranjou este dinheiro?

- A jogar - respondeu Peter Marlowe, recuperando o seu sarong.

- E você? - ladrou Brough para o Rei. - Donde veio isto? E mostrava outro maço de notas.

- Do jogo, Sir - respondeu o Rei com um ar inocente, continuando a vestir-se.

Brough disfarçou um sorriso.

- Onde está o diamante?

- Que diamante, Sir?

Brough levantou-se e dirigiu-se à mesa de poker.

- Parece que não há diamante.

- Então, donde vem este dinheiro?

- O homem diz que é dinheiro de jogo. Não há nenhuma lei contra o jogo. É claro que eu também não aprovo o jogo-acrescentou com um débil sorriso e com os olhos no Rei.

- Você sabe que isso não é possível! - disse Grey.

- Não é provável, se é isso que você quer dizer - interrompeu Brough.

Tinha pena de Grey, com os seus olhos, em que luzia a morte, a boca torcida, as mãos paralisadas... Tinha pena dele.

- Você queria revistar aqui e revistou, e não há diamante. Deteve-se quando Peter Marlowe começou a cambalear para a

porta. O Rei segurou-o no momento em que ele ia cair.

- Espere, eu ajudo-o - disse o Rei. - É melhor levá-lo para a barraca dele.

- Você fica aqui - disse Brough. - Talvez você pudesse ajudá-lo, Grey.

- Pelo que me diz respeito, pode morrer já. - Os olhos de Grey dirigiram-se para o Rei. - Você também. Mas não antes de eu o apanhar. E hei-de apanhá-lo.

-Quando o fizer, eu cá estou para o castigar. - Brough olhou para o Rei. - Certo?

- Yes, Sir.

Brough voltou a olhar para Grey.

- Mas até que o faça, ou que ele desobedeça às minhas ordens, não há nada a fazer.

- Então dê-lhe ordem para deixar de fazer mercado negro disse Grey.

Brough dominou a irritação.

- Uma vida calma vale tudo - disse e sentiu o desprezo dos seus homens e sorriu por dentro. "Filhos de puta." - Você - disse para o Rei - está proibido de fazer mercado negro. Como eu entendo mercado negro, significa vender géneros e outros artigos, com fins de lucro, aos seus soldados. Você não pode vender nada com fins lucrativos.

- Vender contrabando é que é mercado negro.

-Capitão Grey, vender com fins de lucro ou até roubar ao inimigo não é mercado negro. Não há mal nenhum num pouco de negócio.

- Mas é contra as ordens!

- Ordens dos Japoneses! E eu não reconheço as ordens do inimigo. E eles são o inimigo. - Brough queria acabar com este disparate. - Nada de mercado negro. São as minhas ordens.

- Vocês, americanos, são muito unidos. Honra lhes seja feita.

- Não recomece. O Yoshima já me chega para uma noite. Ninguém vai fazer mercado negro aqui ou infringir quaisquer leis que sejam leis, até onde eu sei. E acabou-se. Se eu apanhar alguém a roubar alguma coisa ou a vender comida com fins lucrativos ou drogas com fins de lucro-, eu próprio lhe parto o braço e lho meto pela garganta abaixo. E eu sou oficial superior americano e estes são os meus homens, e é isto o que eu digo. Compreendido?

Grey olhou para Brough e prometeu a si próprio que também o vigiaria. "Porcaria de gente, porcaria de oficiais." Voltou-se e saiu da barraca.

- Ajude o Peter a voltar para a cama, Tex- disse Brough.

- com certeza, Excelência.

Tex levantou-o nos braços e sorriu para Brough:

- Como um bebé, Sir. - E saiu.

Brough olhou para o dinheiro que estava em cima da mesa de jogo.

- Eh-disse ele como se falasse para si próprio-, o jogo é uma coisa péssima. - Olhou para o Rei e acrescentou inocentemente: - Eu não concordo com o jogo. E você?

"Cuidado com a língua", disse o Rei para si próprio. "O Brough tem aquele ar de sacaninha que não engana ninguém. Por que é que só oficiais filhos de puta têm aquele ar e por que é que tu o sabes sempre... e cheiras o perigo à distância?"

- Bem - disse o Rei, oferecendo um cigarro a Brough e dandoLhe lume-, suponho que depende do modo como se encara.

- Obrigado. Nada como um cigarro feito. - Uma vez mais, os olhos de Brough fixaram-se nos do Rei. - E você, que é que pensa, cabo?

- Se estou a ganhar, parece-me bem. Se estou a perder, parece-me menos bem. - E acrescentou mentalmente: "Meu filho de puta, que raio terás tu na cabeça?"

Brough resmungou e olhou para o monte de notas que estava em frente do lugar onde o Rei estivera sentado. Abanando a cabeça pensativamente, percorreu as notas com o polegar e segurou-as na mão. Todas. Os seus olhos viram as grandes pilhas em frente de cada lugar.

- Parece que toda a gente está a ganhar nesta escola - disse pensativamente, para ninguém em especial.

O Rei não respondeu.

- Parece que você podia dar uma contribuição.

- Ha?

- Sim, hã com mil raios!-E Brough levantou as notas. - Mais ou menos isto. Para o sacana do fundo. Oficiais e soldados igualmente.

O Rei resmungou. A maior parte de quatrocentos dólares.

- Jesus! Excelência...

- Jogar é um mau hábito. Como praguejar. Raios me partam! Você joga as cartas. Podia perder todo o dinheiro. E depois? Uma contribuição salvava-lhe a alma para coisas melhores.

"Regateia, meu parvo", disse o Rei para si mesmo. Oferece metade.

- Ena, eu teria muito gosto em...

- Óptimo. - Brough voltou-se para Max. - Você também, Max.

- Mas, Sir... - interveio o Rei, excitado.

- Você já disse o que tinha a dizer.

Max tentou não olhar para o Rei e Brough disse:

- Está certo, Max. Olha para ele. bom tipo. Deu uma contribuição. Por que raio não podes tu dar?

Brough tirou três quartos das notas de cada maço e contou o dinheiro rapidamente. Em frente deles. O Rei teve de ficar sentado a olhar.

- Isso faz dez dólares por homem e por semana, durante seis semanas - disse Brough. -Quinta-feira é o dia do pré. Pois é. Max! Junta as garrafas de água e leva-as para a casa da guarda. Já! - Meteu o dinheiro no bolso e dirigiu-se para a porta. À porta teve um súbito pensamento. Tirou de novo as notas e retirou uma de cinco dólares. Olhando para o Rei, atiroua para o centro da mesa.

- Para o teu funeral. - O seu sorriso era angélico. - Boa noite, malta.

Por todo o campo, a recolha das garrafas de água estava em marcha.

Mac, Larkin e Peter Marlowe estavam no bungalow. Em cima da cama, ao lado de Peter Marlowe, estavam as garrafas de água.

- Podíamos tirar-lhes os rádios e meter as garrafas na pia

- sugeriu Mac. - Essas sacanas dessas garrafas vão ser agora difíceis de esconder.

- Podíamos deitá-las nas pias como estão - sugeriu Larkin.

- O senhor não está a dizer isso a sério, pois não, coronel?

- Não, amigo. Mas disse-o e temos de decidir todos o que se vai fazer.

Mac pegou numa das garrafas:

- Talvez devolvam as outras dentro de um dia ou dois. Nós não podemos esconder as tripas das garrafas melhor de que estão agora. - Levantou o olhar e disse maldosamente: - Mas quem é o sacana que sabe?

Olharam para as garrafas.

- Não são horas de ouvir as notícias? - perguntou Peter Marlowe.

- São, rapaz - respondeu Mac e olhou para Larkin.

- Concordo - disse este.

O Rei estava ainda acordado quando Timsen espreitou pela janela.

- Parceiro?

- Sim?

Timsen mostrou um maço de notas.

- Temos os dez que tu pagaste.

O Rei suspirou, abriu a mala preta e pagou a Timsen o que era devido.

- Obrigado, pá. - Timsen teve um risinho. - Ouvi dizer que tiveste uma pega com o Grey e com Yoshima.

- E depois?

- Nada... é uma pena que o Grey não encontrasse a pedra. Não queria estar na tua pele... nem ria do Peter. Ah, não, Santo Deus! Muito perigoso, certo?

- Vai-te lixar, Timsen. Timsen riu-se.

- É só um aviso de amigo, está bem? Ah, é verdade. A primeira remessa de rede está debaixo da barraca, o suficiente para cerca de cem gaiolas. - Puxou de cento e vinte dólares. - Vendi a primeira remessa a trinta a perna. Aqui está a tua parte. A meias.

- Quem ficou com elas? Timsen pestanejou.

- Amigos meus. Boa noite, pá.

O Rei descontraiu-se na sua cama e voltou a verificar se a rede por baixo do colchão estava de novo apertada. Estava atento ao perigo. Sabia que não poderia ir à aldeia durante dois dias e, entre agora e o fim desse prazo, muitos olhos estariam vigilantes e expectantes. Nessa noite, o seu sono foi inquieto e no dia seguinte ficou na barraca, cercado por guardas.

Depois do almoço houve uma rusga na área do bungalow. Três vezes os guardas passaram pelos pequenos cubículos antes de terminar a rusga.

Ao lusco-fusco, Mac dirigiu-se à área das latrinas e puxou as três garrafas de água que estavam penduradas por um cordel num dos buracos. Limpouas, trouxe-as para o quarto e ligou-as. Ele, Larkin e Peter Marlowe ouviram as motícias e decoraram-nas. Depois, não levou de novo as garrafas para o seu esconderijo, porquanto, embora tivesse sido cuidadoso, sabia que fora observado.

Os três decidiram não esconder mais as garrafas. Sabiam, sem desespero, que em breve seriam apanhadas.

O Rei caminhava célere pela selva. Ao aproximar-se do campo tornou-se mais cuidadoso, até estar em posição mesmo em frente da barraca americana. Deitou-se no chão e bocejou, satisfeito, esperando o momento de atravessar o carreiro e passar por baixo do arame, regressando à segurança da barraca. O resto do dinheiro sobressaía nos seus bolsos.

Fora sozinho à aldeia. Peter Marlowe não estava em condições de ir com ele. Estivera com Cheng San e dera-lhe o diamante. Depois tinham feito um festim e fora a casa de Kasseh, que o acolhera bem.

A alvorada coloria o novo dia quando o Rei se esgueirou por baixo do arame, em direcção à barraca. Foi só depois de já estar deitado que deu pela falta da sua mala preta.

- Estúpidos filhos de puta! -gritou. - Não se vos pode confiar coisa nenhuma!

- Raios me partam - disse Max. - Estava lá há poucas horas. Eu levantei-me para ir à latrina.

- E onde raio está agora?

Mas nenhum dos homens vira ou ouvira o que quer que fosse.

- Chama o Samson e o Brami - disse o Rei a Max.

- Jesus!-disse Max.-Não achas que é um pouco cedo...?

- Disse-te que os chamasses!

Dentro de meia hora, o coronel Samson chegou, húmido de medo.

- Que se passa? Você sabe que não devo ser visto aqui.

- Algum filho de puta roubou a minha mala. O meu coronel pode ajudar a descobrir quem foi.

-Como posso eu...

- Não quero saber como -interrompeu o Rei. - Tem de abrir os ouvidos junto dos oficiais. Não há mais pasta para si enquanto eu não souber quem foi.

- Mas, cabo, eu não tive nada a ver com isso.

- Tanto quanto sei, o pagamento do pré semanal vai recomeçar em breve. Agora desapareça.

Alguns minutos mais tarde, o major Brant chegou e teve idêntico tratamento. Logo que ele saiu, o Rei preparou o seu pequeno-almoço, enquanto os restantes da barraca percorriam o campo. Acabara de comer, quando Peter Marlowe entrou. O Rei disse-lhe do roubo da mala preta.

- Já é azar -disse Peter Marlowe.

O Rei concordou com um aceno de cabeça e depois piscou o olho.

- Não tem importância. Tenho o resto do dinheiro do Cheng San; por isso, temos bastante. Só pensei que é a altura de fazer um pouco de pressão. Os tipos descuidam-se e é uma questão de princípio.

- Entregou-lhe um pequeno monte de notas. - Aqui tens a tua parte do diamante.

Peter Marlowe precisava muito do dinheiro. Mas abanou a cabeça.

- Guarda-o. Devo-te muito mais do que vou poder pagar-te; e há o dinheiro que puseste para o remédio.

- Está bem, Peter. Mas ainda somos sócios. Peter Marlowe sorriu.

- Está bem.

O alçapão abriu-se e Kurt entrou no compartimento.

- Setenta até agora - disse.

- Ha? - fez o Rei.

- É o dia P.

- Raios me partam! -tornou o Rei. - Tinha-me esquecido.

- Ainda bem que eu não me esqueci. vou matar mais dez dentro de dias. Não há necessidade de dar de comer aos machos. Há cinco ou seis que são bastante grandes!

O Rei sentiu-se enjoado, mas disse:

- Está bem, eu digo ao Timsen.

Depois de Kurt ter saído, Peter Marlowe disse:

- Durante um dia ou dois não devo aparecer.

- Ha?

- Creio que é melhor. Não podemos esconder mais o rádio. Por isso, decidimos, nós três, ficar pelo quarto.

- Querem suicidar-se? Desfaçam-se do raio dessa coisa, se pensam que foram descobertos. E, se forem interrogados, neguem.

- Pensámos nisso. Mas o único rádio que resta é o nosso. Por isso, queremos mantê-lo a funcionar, .tanto tempo quanto possível. com um pouco de sorte, não seremos apanhados.

- Não te esqueças da regra nº 1, pá. Peter Marlowe sorriu.

- Sim, eu sei. É por isso que vou deixar de vir aqui durante uns tempos. Não quero arrastar-vos para coisa nenhuma.

- Que vais fazer se o Yoshima vier na tua direcção?

- Fujo.

- Foges para onde, Santo Deus?

- É melhor fugir que ficar sentado.

Dino, o guarda do momento, meteu a cabeça pela porta.

- Desculpem, mas o Timsen vem para aqui.

- Okay-disse o Rei. - vou recebê-lo. - Voltou-se para Peter Marlowe. - É a tua cabeça, Peter. O meu conselho é que te desfaças dele.

-Oxalá pudéssemos, mas não podemos. O Rei sabia que nada podia fazer.

- Eh, pá! - disse Timsen ao entrar, com o rosto tenso de cólera.

- Ouvi dizer que tiveste um azar, é verdade?

- Preciso de novos cães de guarda, isso é verdade.

- Precisamos ambos - disse Timsen furiosamente. - Os malandros atiraram a toa mala preta para debaixo da minha barraca. Da minha barraca!

-Quê?

- É verdade. Está lá debaixo. Grandes sacanas, esta é a verdade. Nenhum australiano a ia roubar e atirar para debaixo da minha barraca. Não, senhor. Tem de ser um "bifie" ou um ianque.

- Quem, por exemplo?

- Não sei. Tudo o que sei é que não foram nenhuns dos meus. Raios me partam se foram!

- Acredito. Mas podes espalhar a notícia de que há mil dele de recompensa a quem provar quem fanou a minha mala. - O Rei meteu a mão debaixo do travesseiro e tirou uma pilha de notas que Cheng San lhe dera para complemento da venda. Tirou trezentos dólares e ofereceu-os ao Timsen, que admirava, de olhos esgazeados, a vastidão da pilha. - Preciso de açúcar, café e azeite... talvez de um ou dois cocos. Arranjas-me isso?

Timsen pegou no dinheiro, incapaz de desviar os olhos da pilha de notas que restava.

- Completaste a venda, foi? Nunca pensei que conseguisses.

- com certeza - disse o Rei, com um ar indiferente. - Tenho o suficiente para um mês ou dois.

- Um ano lixado, amigo - disse Timsen, sucumbido. Voltou-se e caminhou lentamemte para a porta e depois voltou-se para trás, com um riso súbito. - Mil dele, hem?! A coisa parece que dá resultado, não?

- Dá - disse o Rei. - É uma questão de tempo.

Dentro de uma hora, a notícia da recompensa espalhara-se pelo campo. Os olhos começaram a olhar com maior interesse. Os ouvidos estavam orientados para captar os sussurros do vento. As recordações eram mexidas e remexidas. Era só uma questão de tempo para que o milhar de dólares fosse reclamado.

Nessa noite, quando o Rei passeava pelo campo, sentiu como nunca o ódio e a inveja e a força dos olhos. Isso fazia-o sentir-se bem, e melhor que bem, pois era a prova de que todos sabiam que ele tinha uma vasta pilha de notas, quando eles não tinham nenhuma, que, de todos eles, só ele vencera.

Samson procurava-o, assim como Brant e muitos outros, e, embora o agoniasse tanta bajulação, agradava-lhe imensamente que, pela primeira vez, o fizessem em público. Passou pela barraca da P. M., e até Grey, que estava cá fora, respondeu à sua continência e não o chamou para ser revistado. O Rei sorriu para si próprio, sabendo que até Grey estava a pensar no maço de notas e na recompensa.

Nada podia agora tocar-lhe. O maço de notas era segurança, vida e poder. E eram só dele.

Quando Yoshima veio desta vez, veio furtivamente, mas com grande velocidade. Não veio, como de costume, através do campo ao longo da estrada, mas sim com muitos guardas, através da vedação de arame farpado. E, quando Peter Marlowe viu o primeiro guarda, já o bungalow estava cercado e não havia sítio algum para onde fugir. Mac estava ainda debaixo do seu mosquiteiro de auscultador no ouvido quando Yoshima irrompeu pelo bungalow.

Peter Marlowe, Larkin e Mac estavam juntos a um canto. Então, Yoshima pegou no auscultador e escutou. O rádio ainda estava ligado e ele ouviu o resto das notícias radiodifundidas.

- Muito engenhoso - disse ele, pousando o auscultador. Os vossos nomes, por favor?

- Eu sou o coronel Larkin, este é o major McCoy e este é o tenente aviador Marlowe.

Yoshima sorriu.

- Querem um cigarro? - perguntou.

Cada um deles tirou um cigarro e aceitou lume de Yoshima, que também acendeu um para si próprio. Todos fumaram em silêncio. Depois, Yoshima falou:

- Desliguem o rádio e venham comigo.

Os dedos de Mac tremiam-lhe quando se baixou. Olhou nervosamente em volta quando outro oficial japonês surgiu abruptamente da noite e disse qualquer coisa nervosamente ao ouvido de Yoshima. Durante um momento, Yoshima olhou-o fixamente sem dizer uma palavra, depois empurrou um guarda que estava .postado à porta e saiu rapidamente com o oficial e todos os outros guardas.

- Que se passa? - perguntou Larkin, com os olhos no guarda, que os vigiava de baioneta armada.

Mac estava de pé junto à cama, por cima do seu rádio, com os joelhos trémulos e quase sem respirar. Quando, por fim, conseguiu falar, disse com voz rouca:

- Creio que sei. São as notícias. Não tive tempo de vos dizer. Temos... temos um novo tipo de bomba. Uma bomba atómica.

Ontem, às oito e quinze da manhã, caiu uma sobre Hiroxima. Toda a cidade desapareceu. Dizem que os mortos e feridos são às centenas de milhares: homens, mulheres e crianças!

- Oh, meu Deus!

Larkin sentou-se subitamente e o guarda, nervoso, apontou a arma e começou a premir o gatilho, e Mac gritou-lhe em malaio:

- Espera, ele está só a sentar-se!

- Todos sentar! - respondeu, por sua vez, o guarda, também em malaio, amaldiçoando-os. Depois de todos lhe terem obedecido, disse ainda: - Tu ser maluco. Mais cuidado com mexer, porque eu ser responsável tu não fugir. Senta onde estás e fica onde estás. Eu atirar logo.

Eles sentaram-se e ficaram silenciosos. com o tempo adormeceram, cabeceando, inquietos, sob a crua luz das lâmpadas eléctricas, enxotando os mosquitos até de madrugada.

De madrugada, o guarda mudou. Os três amigos continuaram sentados. Fora do bungalow, homens nervosos caminhavam pelo carreiro, mas olhavam para o outro lado até estarem bem longe do quarto condenado.

O dia estava triste, sob o céu tórrido. Foi-se arrastando, arrastando, mais do que qualquer dia alguma vez se arrastou.

Ao meio da tarde, os três levantaram os olhos quando Grey se aproximou do guarda e fez a continência. Trazia nas mãos duas marmitas de rancho.

- Posso dar-lhes isto, Makan? - Abriu as marmitas e mostrou a comida ao guarda.

O guarda encolheu os ombros e fez que sim com a cabeça. Grey atravessou a varanda e pôs a comida no chão, junto à porta; tinha os olhos inflamados e penetrantes.

- É pena estar fria, desculpem.

- Vens saborear, meu velho? - perguntou Peter Marlowe, com um sorriso triste.

- Não é satisfação nenhuma para mim ver que eles te vão afastar. Eu queria apanhar-te a infringir as leis, e não ver-te apanhado por arriscares a vida pelo bem de todos nós. mas vais com uma auréola de glória.

- Peter - segredou Mac -, distrai o guarda!

Peter Marlowe levantou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta. Fez a continência ao guarda e pediu licença para ir à latrina. O guarda apontou para o chão, mesmo ao pé do bungalaw. Peter Marlowe agachou-se na lama e aliviou-se, furioso por ter de o fazer à frente de todos, mas grato por não ser obrigado a fazê-lo no pequeno cubículo. Enquanto o guarda vigiava Peter Marlowe, Mac segredou a notícia a Grey, que empalideceu. Grey pôs-se em pé e fez um aceno a Peter Marlowe, que respondeu com outro aceno e fez mais uma vez a continência ao guarda. O guarda apontou para a porcaria coberta de moscas e disse a Grey que fosse buscar um balde de água para a limpar.

Grey passou a notícia a Smedly-Taylor, que a segredou aos outros, e em breve todo o campo sabia, antes que Grey tivesse encontrado um balde e lavado a porcaria e colocado outro balde para os outros se servirem.

O primeiro dos grandes temores percorrera o campo. O medo da represália.

Ao pôr do Sol, o guarda foi de novo mudado e o novo guarda era Shagata. Peter Marlowe tentou falar-lhe, mas Shagata apenas lhe acenou para o quartinho com a baioneta.

- Não posso falar contigo. Foste apanhado com um rádio, o que é proibido. Terei de disparar até sobre ti se algum de vocês tentar fugir. Não desejo atirar sobre ti.

E voltou para a porta.

- Raios me partam! - disse Larkin. - Quem me dera que acabassem connosco!

Mac olhou para Shagata.

- Sir- disse, apontando para a sua cama -, peço-te um favor. Posso descansar ali? Dormi pouco a noite passada.

- com certeza. Descansa enquanto podes, meu velho.

- Agradeço-te. Que a paz seja contigo.

- E contigo.

Mac dirigiu-se à sua cama e deitou-se. Deixou descansar a cabeça no travesseiro.

- Ainda está ligado - disse, mantendo a custo o tom de voz. Há um recital de música. Ouço nitidamente.

Larkin viu o auscultador perto da cabeça de Mac e, de repente, começou a rir. Depois riram-se todos. Shagata apontou a carabina para os homens.

- Parem com isso - gritou, assustado pelo riso.

- Pedimos-te desculpa - disse Peter Marlowe. - É que estamos tão perto da eternidade que achamos as pequenas coisas divertidas.

- Na verdade, estás perto da morte e és também um louco por seres apanhado a infringir a lei. Mas espero ter a coragem de rir quando chegar a minha hora. - Atirou um maço de cigarros para o quarto. - Toma - disse. - Lamento que tenhas sido apanhado.

- Não lamentas mais que eu - disse Peter Marlowe. Repartiu os cigarros e olhou para Mac.

- Que é o recital?

- Bach, pá - disse Mac, esforçando-se para não começar de novo a rir histericamente. Aproximou mais a cabeça do auscultador.- E agora calem-se, -está bem? Gostava de apreciar a música.

- Talvez pudéssemos fazer turnos - disse Larkin-, embora quem goste de Bach seja um chato.

Peter Marlowe fumava o seu cigarro e disse gentilmente para Shagata:

- Obrigado pelos teus cigarros.

Nuvens de moscas cobriam o balde e a sua tosca tampa. As chuvas da tarde vieram cedo e lavaram o fedor; depois veio o sol e começou a enxugar a humidade de Changi.

O Rei desceu a fileira de bungalows, consciente dos olhos que o seguiam. Parou cautelosamente no exterior do bungalaw condenado.

- Tabe, Shagata-san-disse ele. - Ichi-bon dia, não? Posso falar ao meu ichíbon amigo?

Shagata-san olhou para ele sem compreender.

- Ele pede autorização para me falar - explicou Peter Marlowe. Shagata reflectiu um momento e depois fez que sim com a cabeça.

- Por causa do dinheiro que fiz com a venda, vou deixar-te falar. - Voltou-se para Peter Marlowe. - Se tenho a tua palavra de que não tentarás fugir.

- Tens a nossa palavra.

- Sejam breves. Eu fico à espreita. - E Shagata deslocou-se de modo a poder observar a estrada.

- Corre o boato de que os guardas estão a precipitar-se para a casa da guarda - começou o Rei nervosamente. - Raios me partam se eu vou dormir esta noite! São o género de sacanas que as fazem de noite. - Tinha os lábios secos e estivera a vigiar o arame todo o dia, à espera de um sinal das guerrilhas que determinaria a decisão de fazer uma pausa. Mas não houvera nenhum. - Escutem. -Baixou a voz e explicou-lhes o plano. - Quando começar a matança, expulsem a guarda e ataquem junto à nossa barraca. vou tentar cobrir-vos aos três, mas não tenham muitas esperanças.

Depois levantou-se, fez um aceno a Shagata e afastou-se. Uma vez na barraca americana, reuniu um conselho de guerra. Explicou o seu plano, mas não disse que só dez poderiam ir. Todos discutiram o plano e decidiram esperar.

- Não podemos fazer mais - disse Brough, fazendo-se eco dos seus receios. - Se tentássemos agora, seríamos desfeitos.

Só os que estavam muito doentes dormiram nessa noite. Ou aqueles - a ínfima minoria - que podiam entregar-se calmamente nas mãos de Deus... ou do destino. Daven dormia.

- Trouxeram o Daven esta tarde, de volta de Utram Road segredou Grey quando lhes trouxe a refeição da noite.

- Como está ele? - perguntou Peter Marlowe.

- Pesa apenas trinta e dois quilos.

Daven dormiu nessa noite e no horrível dia seguinte e morreu em coma, na altura em que Mac estava a ouvir o noticiário: "A segunda bomba atómica destruiu Nagasáqui. O presiddente Truman fez um último ultimato ao Japão: rendição incondicional ou encarar a destruição total."

No dia seguinte, os grupos de trabalho saíram e, incrivelmente, regressaram. As rações continuaram a chegar ao campo e Samson pesava as rações em público e levava algumas extras para os homens que o tinham posto no cargo de as distribuir. Havia ainda rações para dois dias no armazém, na barraca e nas cozinhas e havia comida cozinhada, e as moscas abundavam e nada mudara.

Os percevejos mordiam, os mosquitos mordiam e os ratos amamentavam as suas crias. Alguns homens morreram. A enfermaria 6 tinha três novos doentes.

Mais um dia, mais uma noite e mais um dia. Então, Mac ouviu as palavras santas: "Daqui fala Calcutá. Rádio Tóquio acaba de anunciar que o Governo japonês se rendeu sem condições. Três anos e duzentos e cinquenta dias depois que os Japoneses atacaram Pearl Harbor, a guerra acabou. Deus salve o rei!

Em breve Changi inteira sabia. E essas palavras faziam parte da terra e do céu e dos muros e das celas de Chamgi.

Contudo, durante mais dois dias e duas noites nada mudou. No terceiro dia, o comandante do campo passou ao longo da linha de bungalaws com Awata, o sargento japonês.

Peter Marlowe, Mac e Larkin viram os dois homens aproximar-se e morreram mil vezes por cada passo que eles davam. Compreenderam imediatamente que a sua vez chegara.

- É pena - disse Mac.

- É - respondeu Larkin.

Peter Marlowe limitou-se a fixar Awata, gelado.

O rosto do comandante do campo estava profundamente marcado pela fadiga; porém, mesmo assim, tinha os ombros quadrados e caminhava com firmeza. Estava fardado com o apuro de sempre, com a manga da camisa presa no cinto. Trazia nos pés uns tamancos e na cabeça o seu boné em bico, verde-acinzentado pelos suores tropicais. Subiu os degraus da varanda e hesitou à porta.

- bom dia - disse com voz rouca quando eles se levantaram. Awata deu uma ordem gutural e os dois homens puseram a arma ao ombro e afastaram-se, marchando.

- Acabou-se - disse o comandante do campo, com voz gutural, - Tragam o rádio e sigam-me.

Tropegamente, fizeram o que lhes foi ordenado e marcharam para o ar livre. E o sol e o ar sabiam bem. Seguiram o comandante do campo pela rua acima, seguidos pelos olhos espantados de Changi.

Os seis coronéis esperavam nas instalações do comandante do campo. Brough também lá estava. Todos fizeram a continência.

- À vontade, por favor - disse o comandante do campo, retribuindo a continência. Então voltou-se para os três. - Sentem-se. Tenho para convosco uma dívida de gratidão.

Eventualmente, Larkin perguntou:

- Acabou realmente?

- Acabou. Falei agora mesmo com o general. - E o comandante do campo olhou em redor os rostos mudos, enquanto punha em ordem os seus pensamentos. - Pelo menos penso que acabou - disse.

- Yoshima esteve com o general. Eu disse... eu disse: "A guerra acabou." O general limitou-se a olhar para mim quando Yoshima traduziu. Esperei, mas ele não disse nada. Por isso, repeti: "A guerra acabou. Eu... eu... eu peço a vossa rendição." - O comandante do campo coçou a cabeça calva. - Eu não sabia que mais havia de dizer. Durante muito tempo, o general ficou a olhar para mim. Yoshima não disse nada, absolutamente nada.

Depois, o general disse e Yoshima traduziu: "Sim, a guerra acabou. O senhor vai voltar ao seu posto no campo. Dei ordens aos meus guardas para voltarem as costas ao campo e para vos protegerem contra quem quer que pretenda entrar no campo para vos prejudicar. Agora, eles são os vossos guardas... para vossa protecção... até que eu receba novas ordens. O senhor é ainda responsável pela disciplina do campo."

"Eu não sabia que dizer" e, por isso, pedi-lhe que dobrasse as rações e nos desse remédios e ele disse: "Amanhã as rações serão dobradas. Vão receber remédios também. Infelizmente, não temos muitos. Mas o senhor é responsável pela disciplina. Os meus guardas protegê-lo-ão contra aqueles que o querem matar." "Quem são?", perguntei. O general encolheu os ombros e disse: "Os seus inimigos. Esta entrevista acabou."

- Raios os partam!-disse Brough. - Talvez queiram que saiamos, para Lhes dar um pretexto para nos matarem.

- Não podemos deixar sair os homens - disse Smedly-Taylor, assustado. - Iam pegar-se. Mas precisamos de fazer qualquer coisa. Talvez devêssemos mandá-los entregar as armas... O comandante do campo levantou a mão.

- Penso que tudo o que podemos fazer é esperar. Estou... penso que vai chegar alguém. E, até que isso aconteça, creio que o melhor é continuar como de costume. Ah, sim! Estamos autorizados a mandar grupos de banhistas para o mar. Cinco homens de cada barraca. Em rotação. Oh, meu Deus! - disse ele e era uma prece. Espero que não vá ninguém sem preparação. Ainda não há qualquer garantia de que os japoneses daqui obedecerão à rendição. Podem até continuar a combater. Tudo o que podemos fazer é esperar o melhor... e preparar-nos para o pior.

Fez uma pausa e olhou para Larkin.

- Penso que o rádio devíamos deixá-lo aqui. - Acenou para Smedly-Taylor. - O senhor pode arramjar-lhe guardas permanentes.

- Yes, Sir.

- É claro - disse o comandante do campo para Larkin, incluindo Peter Marlowe e Mac - que vocês vão continuar a ocupar-se dele.

- Se não se importa, Sir - disse Mac -, é melhor que outros o façam. Não me importo de o reparar, se alguma coisa se avariar, mas... bem, penso que querem tê-lo a funcionar vinte e quatro horas por dia. Nós não podíamos fazer isso... e, de certo modo... bem, eu falo por mim, agora que está à vista, deixem as pessoas aproveitar.

- Trate disso, coronel!

- Yes, Sir - respondeu Smedly-Taylor.

- Agora era melhor discutirmos as operações.

Fora das instalações do comandante do campo, um grupo de curiosos, que incluía Max, reunira-se, impaciente por saber o que estava a dizer-se e o que acontecera e a razão por que tinham tirado o rádio ao guarda japonês.

Quando Max já não podia suportar mais aquela tensão, voltou a correr à barraca americana.

- Eh, malta! - conseguiu gritar.

- Vêm aí os japoneses? - E o Rei estava pronto a saltar pela janela e a correr para a vedação.

- Não! Jesus!- disse Max, sem fôlego, incapaz de prosseguir.

- Bem, que diabo se passa? - perguntou o Rei.

- Tiraram os guardiãs japoneses e o rádio ao Pete! - disse Max, ofegante. - Depois, o comandante do campo levou o Pete, o Larkin e o escocês... e o rádio... com ele para os seus aposentos. Vai lá uma grande reunião neste momento. E os coronéis também lá estão... até o Brough lá está!

- Tens a certeza? - perguntou o Rei.

- Já te disse que vi com os meus próprios olhos, mas também eu não acredito.

No silêncio violento que se seguiu, o Rei puxou de um cigarro e então Tex disse o que já compreendera:

- Então acabou. Acabou realmente. Se tiraram o rádio ao guarda, é o que isso significa! - Tex olhou em roda. - Não é verdade?

Max deixou-se cair pesadamente em cima da cama e limpou o suor da cara.

- Isso é o que eu imagino. Se levaram a guarda, isso quer dizer que vão abandonar este local... que não vão continuar a combater. - Olhou para Tex desanimadamente. -Não é verdade?

Mas Tex estava perdido no seu próprio desnorteamento. Por fim disse, impassivelmente:

- Terminou.

O Rei tirou uma pequena fumaça.

- Só acredito quando vir.

E então, subitamente, no pesado silêncio, teve medo.

Dino entretinha-se automaticamente a estropiar moscas. Byron Jones in deslocou distraídamente um bispo. Miller apanhou-o e deixou a sua rainha desprotegida. Max olhava para os pés. Tex coçava-se.

- Pois eu não sinto de outro modo - disse Dino, pondo-se em pé. - vou fazer uma mija. - E saiu.

- Não sei se vou rir ou chorar - disse Max. - Acho que vou desistir.

- Não faz sentido - disse Tex em voz alta, mas falava para si próprio e não sabia que falara. - Simplesmente não faz sentido.

- Eh, Max! - gritou o Rei. - Queres fazer um pouco de café? Automaticamente, Max saiu e foi encher a caçarola de água.

Quando voltou, foi ligar a placa eléctrica e pôs-lhe a caçarola em cima. Começou a dirigir-se para a sua cama, mas parou, voltou-se e fitou o Rei.

-Que foi, Max? - perguntou o Rei, pouco à vontade.

Max limitou-se a olhar para ele, com os lábios a mexer espasmodicamente, mas em silêncio.

- Para onde diabo estás tu a olhar?

Subitamente, Max agarrou na caçarola e atirou-a pela janela fora.

- Perdeste a puta da cabeça? - explodiu o Rei. - Molhaste-me todo! Estás maluco?

- A guerra acabou. Arranja tu o sacana do café - esganiçou-se Max, com um pouco de espuma ao canto dos lábios.

O Rei estava de pé e curvado sobre Max, com a cara vermelha de raiva.

- Põe-te fora daqui antes que te mande um pontapé às trombas!

- Faz isso, vá, faz lá! Mas mão te esqueças de que sou primeiro-sargento e que vais a conselho de guerra!

Max começou a rir-se histericamente e depois, bruscamente, o riso transformou-se em lágrimas, e Max fugiu da barraca, deixando atrás de si um silêncio apavorado.

- Sacana de maluco - disse o Rei.-Arranja um pouco de água, está bem, Tex? - E sentou-se no seu canto.

Tex estava junto à porta, a olhar para Max. Olhou lentamente em roda.

- Estou ocupado - disse ele, depois de uma agonia de indecisão. O estômago do Rei deu-lhe uma volta. Reprimiu a náusea e

neutralizou a expressão do seu rosto.

- Pois é - disse o Rei. - Estou a ver. - Sentia a profundidade do silêncio. Puxou da carteira e escolheu uma nota. - Aqui está uma de dez. Desocupa-te e vai buscar um pouco de água, se fazes favor. - E ignorou a dor que lhe roía as tripas e olhou para Tex.

Mas Tex nada disse. Teve um arrepio nervoso e olhou para outro lado.

- Vocês ainda têm de comer até que tenha realmente acabado

- disse o Rei, desdenhosamente, e depois olhou em torno da barraca. - Quem quer café?

- Eu bebia um - disse Dino naturalmente e foi buscar uma caçarola e pô-la ao lume.

O Rei deixou cair a nota de dez dólares em cima da mesa. Dino olhou para ela.

- Não, obrigado - disse guturalmente, abanando a cabeça. Só o café. - E foi até ao fim da barraca com passo incerto.

Conscientemente, os homens voltaram as costas ao desprezo que germinava no Rei.

- Espero, para vosso bem, meus filhos de puta, que a guerra tenha mesmo acabado de vez -disse o Rei.

Peter Marlowe saiu das instalações do comandante do campo e dirigiu-se apressadamente à barraca americana. Respondeu automaticamente à saudação dos homens que conhecia e apercebia-se dos olhos constantes -olhos incrédulos- que o observavam. "Sim", pensou, "também não acredito. Estar em breve em casa, voltar a voar, voltar a ver o meu velho em breve, beber com ele, rir com ele. E com toda a família. Meu Deus! Vai ser estranho. Estou vivo. Estou vivo. Consegui!"

- Olá, malta! - E estava radiante quando entrou na barraca.

- Viva, Peter - disse Tex, pondo-se em pé de um salto e apertando-lhe calorosamente a mão. - Eh, pá, ficámos contentes por ouvir a história do guarda, meu velho!

- Isso foi uma obra-prima de deformação - disse Peter Marlowe, rindo-se.

Quando o rodearam, deixou-se aquecer pelo calor daquelas saudações.

- E como vão as coisas? - perguntou Dino.

Peter Marlowe disse-lhes e eles ficaram ainda mais apreensivos. Todos, excepto Tex.

- Cos diabos! Não há necessidade de nos prepararmos para o pior. Acabou!-disse confiadamente.

- com certeza que acabou - disse Max bruscamente, quando entrou na barraca.

- Olá, Max, eu...-E Peter Marlowe não continuou, ficando chocado com o ar assustado dos olhos de Max.

- Estás bem? - perguntou perturbado.

- É claro que estou bem!-flamejou Max. Seguiu como um raio e deixou-se cair na sua cama. - Que raio estão vocês a olhar? Não pode um gajo irritar-se uma vez sem que fiquem todos os palermas a olhar?

- Acalmaste - disse Tex.

- Graças a Deus, estarei em breve longe desta merda. - Max tinha a pele macilenta e a boca torcida. - E isto é para vocês todos, seus sacanas!

- Cala-te, Max!

- Vai para o diabo! - E Max limpou um pouco de saliva do queixo, meteu a mão no bolso e tirou um maço de notas de dez dólares e rasgou-as selvaticamente, espalhando-as como confetti.

- Que diabo de bicho te mordeu, Max? - perguntou Tex.

- Nada, meu filho da mãe. As notas não valem nada.

- Ha?

- Estive agora mesmo no armazém. Sim. Pensei que ia comprar um coco. Mas o sacana do chinês não quis aceitar o meu caroço. Não quis aceitá-lo. Disse que vendera todo o fornecimento ao comandante do campo. Por um papel: "O Governo inglês comprometem a pagar x dólares." Podes limpar o cu aos dólares japoneses. É só para o que eles servem!

- Vitória - disse Tex. - Isso é a chave de ouro. Se os Chineses não querem aceitar o pilim, então conseguimos, não é, Peter?

- Claro. - Peter Marlowe sentia-se reconfortado por aquela amizade. Nem o malévolo olhar de Max podia destruir aquela alegria. - Não tenho palavras para vos dizer quanto vocês me ajudaram, inclusive com as vossas brincadeiras.

- Não me lixes - disse Dino. - Tu és um dos nossos. - Deu-lhe um murro [amigável. - Para um estupor de um "bife", não estás nada mal!

- Fazias melhor em pôr o cu nos Estados Unidos quando te livrares disto. Talvez te deixemos fazer-te americano - disse Byron Jones in.

- Tens de ir ao Texas, Peter. Se fores aos Estados Unidos, tens de ir ao Estado.

- Não há grande possibilidade disso - disse Peter Marlowe por entre apupos. - Mas, se houver, podem contar comigo. - Deitou o rabo do olho para o canto onde estava o Rei. - Onde está o nosso intrépido chefe?

- Morreu!-E Max torceu-se de riso obsceno.

- Quê? - perguntou Peter Marlowe, assustado a despeito de si próprio.

- Ainda está vivo - disse Tex. - Mas está morto à mesma. Peter Marlowe olhou para Tex, com um olhar inquiridor. Depois viu as expressões de todas as outras caras. Subitamente sentiu-se muito triste.

- Vocês não acham que isto é um pouco abrupto?

- Abrupto, uma ova! - E Max cuspiu. - Está morto. Esfolámos o coirão por este filho da mãe, e agora está morto.

Peter Marlowe saltou sobre Max, detestando-o.

- Mas quando as coisas estavam mal, ele deu-vos comida e dinheiro e...

- Trabalhámos para isso - gritou Max, com os tendões do pescoço retesados.

- Tirei bastante porcaria desse sacana. - Os olhos caíram-lhe sobre os galões que Peter Marlowe tinha mo braço. - E de ti, meu "bife" de merda! Queres beijar-me o cu como beijaste o dele?

- Cala-te, Max - disse Tex, em tom de aviso.

- Vai-te matar, meu alcoviteiro do Texas!

Max cuspiu para Tex e o cuspo riscou o grosseiro solho de madeira.

Tex ficou vermelho como um tomate. Voltou-se para Max e atirou-o contra a parede com uma lambada com .as costas da mão. Max cambaleou e caiu, mas logo se pôs em pé e tirou a sua navalha da prateleira, saltando sobre Peter Marlowe. Tex conseguiu agarrar o braço de Max e a lâmina apenas riscou o estômago de Peter Marlowe. Dino agarrou Max pelo pescoço e atirouo para cima da tarimba.

- Perdeste o juízo? - perguntou Dino, ofegante.

Max levantou os olhos, com a cara a arder e os olhos fixos em Peter Marlowe. De súbito começou a gritar, saltou da tarimba, debatendo-se como um louco, os braços como malhos, os dentes afastados dos lábios, as unhas em garra. Peter Marlowe agarrou um braço e todos caíram sobre Max e arrastaram-no para o catre. Foram precisos três homens para o dominar, ao que ele esperneava, gritava, lutava e mordia.

- Está louco! - gritou Tex. - Que alguém o segure!

- Tragam uma corda - gritou Peter Marlowe freneticamente, enquanto segurava Max, entalando-lhe o antebraço por baixo do queixo, longe dos rangentes dentes.

Dino conseguiu libertar um braço e atingiu Max com um murro no maxilar, pondo-o inconsciente.

- Jesus! - disse ele para Peter Marlowe quando se puseram em pé. - Ele por pouco não te matava!

- Depressa - disse Peter Marlowe, com urgência. - Ponham-lhe qualquer coisa entre os dentes ou vai cortar a língua!

Dino encontrou um pedaço de madeira e amarraram-no entre os dentes de Max. Depois amarraram-lhe as mãos.

Depois de Max neutralizado, Peter Marlowe descontraiu-se.

- Obrigado, Tex. Se não tivesses agarrado aquela navalha, eu estava frito.

- Não tens de agradecer. Foi um acto reflexo. Que vamos fazer a este tipo?

- Chamar o médico. Teve um ataque, mais nada. Não houve navalha nenhuma. - Peter Marlowe esfregou o arranhão no estômago enquanto observava os gestos espasmódicos de Max. - Pobre tipo!

- Graças a Deus que o seguraste, Tex - disse Dino. - Ainda sinto suores frios, só de pensar.

Peter Marlowe olhou para o canto do Rei. Parecia muito abandonado. Inconscientemente, flectiu o braço e a mão e regozijou-se com a sua força.

- Como vai isso, Peter? -perguntou Tex.

Peter Marlowe levou muito tempo a encontrar as palavras exactas.

- Vivo, Tex, vivo... não morto. - Depois voltou-se e saiu para o sol.

Quando casualmente encontrou o Rei, era já ao lusco-fusco. O Rei estava sentado num tronco partido de coqueiro, na horta a norte, meio escondido pelas vinhas. Parecia absorvido em melancólicos pensamentos e não deu sinais de ter sentido que Peter Marlowe se aproximava.

- Olá, meu velho - disse Peter Marlowe alegremente, mas o bom acolhimento morreu nele quando viu os olhos do Rei.

- Que deseja, Sir? - perguntou o Rei insultuosamente.

- Queria ver-te. Queria só ver-te. - E pensou com piedade, quando leu na alma do seu amigo: "Oh, meu Deus!"

- Bem, já me viu. E então? - O Rei voltou as costas. - Desapareça!

- Sou teu amigo, lembras-te?

- Eu não tenho amigos. Desapareça!

Peter Marlowe agachou-se ao lado do tronco de coqueiro e encontrou no bolso os dois cigarros feitos.

- Toma um cigarro. Apanhei-os ao Shagata!

- Pois fume-os, Sir!

Por um momento, Peter Marlowe desejou não ter encontrado o Rei. Mas não se foi embora. Acendeu cuidadosamente os dois cigarros e ofereceu um ao Rei. O Rei não fez qualquer gesto para lhe pegar.

- Toma, por favor.

O Rei arrebatou-lhe o cigarro das mãos, esmagando-o.

- Quer ficar aqui? Muito bem. - E levantou-se e começou a afastar-se.

Peter Marlowe agarrou-lhe o braço.

- Espera! Este é o melhor dia das nossas vidas. Não o estragues por os teus companheiros de cela serem um pouco irreflectidos.

- Tire a mão - disse o Rei, sem descerrar os dentes. - Tire a mão ou eu corto-lha!

- Não te preocupes com eles - disse Peter Marlowe, a quem as palavras começavam a escorrer. - A guerra acabou e isso é que é importante. Acabou e nós estamos vivos. Lembras-te do que me recomendavas? Sobre olhar pela regra nº 1? Pois aí estás vivo! Safaste-te! Que importa o que eles dizem?

- Para mim não valem um tostão furado. Não têm nada com isso. E o senhor também não vale um tostão furado! - E o Rei desprendeu o braço.

Peter Marlowe fixou o Rei com desânimo.

- Sou teu amigo. Deixa-me ajudar-te. -Não preciso da sua ajuda!

- Bem sei. Mas gostava que ficássemos amigos. Olha - prosseguiu ele com dificuldade-, em breve estarás em casa.

- Estou em casa, uma gaita! - disse o Rei, com o sangue a trovejar-lhe nos ouvidos. - Não tenho casa!

O vento sussurrava mas árvores. Ouviam-se os grilos com o seu monótono cri-cri. Os mosquitos enxameavam à volta deles. As luzes das barracas começavam a projectar sombras e a Lua vogava num céu de veludo.

- Não te preocupes, meu velho - disse Peter Marlowe compassivamente. - Tudo vai correr bem. - E não recuou perante o medo que viu nos olhos do Rei.

- Vai? - perguntou o Rei, num tormento.

- Vai. - Peter Marlowe hesitou. - Tens pena que tenha acabado, não tens?

- Não me chateie. Raios o partam! Não me chateie - gritou o Rei e voltou-se para ir sentar-se no tronco do coqueiro.

- Vais ficar bom - disse Peter Marlowe. - E eu sou teu amigo. Nunca te esqueças disso. - E estendeu a mão esquerda, tocando no ombro do Rei, e sentiu o ombro estremecer sob o seu toque.

- noite, meu velho - disse calmamente. - Até amanhã. Afastou-se desiludido. "Amanhã", prometeu a si próprio, "amanh poderei ajudá-lo."

O Rei foi sentar-se no tronco do coqueiro, contente por estar sozinho, aterrado pela sua solidão.

Os coronéis Smedly-Taylor, Jones e Sellars estavam a limpar os seus pratos.

- Magnífico!-disse Sellars, lambendo o molho dos dedos. Smedly-Taylor chupava o osso, embora ele já estivesse perfeitamente limpo.

- Jones, meu rapaz, tenho de to passar. - Arrotou. - Que maneira soberba de acabar o dia. Delicioso! Exactamente como coelho. Um pouco fibroso e um tanto duro, mas delicioso!

- Há muitos anos que não saboreava uma refeição assim - cacarejou Sellars.-A carne é um pouco gordurosa, mas, por Júpiter, uma delícia! -Olhou para Jones. - Podes arranjar mais? Uma perna para cada um não é muito!

- Talvez. - Jones apanhou delicadamente o último grão de arroz. O seu prato estava seco e vazio e ele sentia-se muito cheio. Foi uma sorte, não foi?

- Onde os arranjaste?

- O Blakely falounme deles. Era um australiano que estava a vendê-los.- Jones arrotou. - Comprei tudo o que ele tinha.- Olhou para Smedly-Taylor. - Ainda bem que tinhas o dinheiro.

Smedly-Taylor rosnou:

- Pois é. - Abriu a carteira e atirou trezentos e sessenta dólares para cima da mesa. - Está aí o bastante para outros seis. Não há necessidade de nos privarmos, hem, meus senhores?

Sellars olhou para as notas.

centenas de milhares de outras. Dos nossos. E dos deles. Por Deus, Nosso Senhor, esta é a verdade."

Encontrou-se junto ao portão principal. Os guardas estavam lá como de costume. Tinham as costas voltadas para o campo, mas tinham ainda carabinas mas mãos. Peter Marlowe olhou-os com curiosidade. Tinha a certeza de que estes homens morreriam cegamente em defesa de homens que um dia antes eram os seus desprezados inimigos.

"Meu Deus!", pensou Peter Marlowe. "Como são inacreditáveis certas pessoas!"

Então, subitamente, surgindo da luz crescente da madrugada, viu uma aparição. Um homem estranho, um homem autêntico, que tinha largura e espessura, um homem que parecia um homem. Um homem branco. Vestia um estranho uniforme verde e as suas botas de pára-quedista escavam bem engraxadas, a insígnia do seu boné brilhava como fogo, tinha um revólver no seu cinto largo e uma mochila às costas.

O homem caminhava pelo centro da estrada, batendo com os calcanhares, até chegar em frente da casa da guarda.

O homem -agora Peter Marlowe via que ele tinha o posto de capitão- parou, fitou os guardas e disse:

- A continência, seus filhos da mãe!

Os guardas olharam para ele estupidamente. O capitão dirigiu-se ao guarda mais próximo, arrancou-lhe a baioneta das mãos, espetou-a rancorosamente no chão e disse de inovo:

- Façam-me a continência, seus filhos da mãe.

Os guardas olharam para ele nervosamente. Então, o capitão puxou do revólver e disparou para o chão, aos pés dos guardas, dizendo de novo:

- A continência, seus filhos da mãe.

Awata, o sargento japonês, Awata, o terrível, nervoso e a transpirar, deu um passo em frente e fez uma vénia. Então, todos fizeram uma vénia.

- Já está melhor, seus filhos da mãe - disse o capitão. Depois, arrancou a espingarda das mãos de cada homem e atirou-as para o chão. - Voltem para a sacana da casa da guarda.

Awata compreendeu o movimento da sua mão. Mandou os guardas porem-se em linha. Então, por sua ordem, fizeram nova vénia.

O capitão estava de pé e olhou para eles. Depois retribuiu o cumprimento.

- Continência, seus sacanas - disse de novo o capitão. Novamente os guardas fizeram a vénia.

- Bem - disse o capitão. - E da próxima vez que eu disser continência, façam continência'

Awata e todos os homens fizeram uma vénia e o capitão voltou-se e caminhou para a barricada.

Peter Marlowe sentiu os olhos do capitão sobre si e sobre os homens que estavam perto de si, sentiu receio e afastou-se.

Viu primeiro mudança nos olhos do capitão e depois compaixão.

O capitão gritou para os guardas:

- Abram este sacana deste portão, seus sacanas!

Awata correu rapidamente com três guardas e tirou a barricada do caminho.

O capitão passou e, quando eles começaram a fechar de novo a passagem, gritou:

- Deixem essa merda onde está!

Eles deixaram e fizeram uma vénia, em continência.

Peter Marlowe tentou concentrar-se. Isto estava errado. Completamente errado. Isto não podia estar a acontecer. Então, de súbito, o capitão estava à frente dele.

- Olá - disse o capitão. - Sou o capitão Forsyth. - Quem é aqui o responsável?

As palavras eram suaves e simpáticas. Mas Peter Marlowe apenas conseguia ver o capitão a medi-lo dos pés à cabeça.

"Que se passa? Que é que está errado em mim?", perguntou desesperadamente a si próprio. "Que se passa comigo?" Assustado, recuou mais um passo.

- Não há razão para ter medo de mim. A voz do capitão era funda e simpática. - A guerra acabou. Fui aqui mandado para ver se tudo está bem.

O capitão deu um passo em frente. Peter Marlowe recuou e o capitão parou. Lentamente, o capitão tirou um maço de Players. De bons Players ingleses.

- Quer um cigarro?

O capitão deu um passo em frente e Peter Marlowe fugiu, aterrado.

- Espere um minuto! - gritou-lhe o capitão.

Depois aproximou-se de outro homem, mas o homem voltou-lhe as costas e fugiu também. E todos os homens fugiram do capitão.

O segundo grande medo submergia Changi.

(Medo de mim próprio. Estarei no meu estado normal? Estarei, depois de todo este tempo? Quero dizer, a minha cabeça estará boa? São três anos e meio. E, meu Deus, lembras-te do que Van der Zelt disse sobre a impotência? Serei capaz de fazer amor? Estarei normal? Vi o horror nos olhos do capitão quando ele olhou para mim. Porquê? Que é que estava errado? Achas que devo perguntar-lhe se... estou bom da cabeça?"

Quando o Rei ouviu, pela primeira vez, falar no oficial, estava deitado na tarimba, a cismar. É verdade que ainda conservava uma posição especial, debaixo da janela, mas agora dispunha do mesmo espaço que qualquer outro homem: um metro e oitenta por um e vinte. Quando voltou da horta de norte, encontrara a sua cama e as suas cadeiras mudadas de lugar e outras camas estavam agora espalhadas pelo espaço que era seu de direito. Ele nada dissera e eles nada tinham dito, mas ele olhara para eles e eles evitaram os seus olhos.

Igualmente, ninguém guardara ou pusera de lado a sua refeição da noite. Fora simplesmente consumida por outros.

- Ena! - dissera Tex com um ar distante. - Parece que nos esquecemos de ti. É melhor que estejas cá da próxima vez. Cada homem é responsável pela sua paparoca.

Por isso, ele teve de cozinhar uma das suas galinhas. Limpara-a, fritara-a e comera-a. Pelo menos comera metade e guardara a outra metade para o pequeno-almoço. Agora, só lhe restavam duas galinhas. As outras tinham sido consumidas durante os últimos dias e ele compartilhara-as com os homens que tinham feito o trabalho.

Na véspera tentara comprar o armazém do campo, mas a pilha de dinheiro que resultara da venda do diamante não tinha qualquer valor. Na carteira tinha ainda onze dólares americanos e estes eram moeda válida. Mas ele sabia, arrepiado, que não podia viver para sempre com onze dólares e duas galinhas.

Dormira pouco na noite anterior. Mas nas vigias da madrugada olhara para si próprio e dissera a si próprio que isto era loucura e fraqueza, e não um padrão de Rei. Não importava que quando passara antes pelo campo as pessoas o tivessem ignorado - Brant, Prouty, Samson e todos os outros tinham passado e não haviam correspondido à sua continência. Fora o mesmo com todos, com Tinker Bell, Timsen, os P. M. e os seus informadores e empregados - homens que ele conhecera, ou ajudara, ou a quem dera comida, cigarros ou dinheiro. Todos tinham olhado para ele como se ele não existisse. Onde sempre houvera olhos para o observar e ódio o rodeara quando percorria o campo, agora não havia nada. Nem olhos nem ódio nem reconhecimento. Fora glacial percorrer o campo como um espectro. Voltar para casa como um espectro. Estar deitado na cama como um espectro.

Nada.

Agora escutava, enquanto Tex desbobinava para a barraca as incríveis notícias da chegada do capitão, e sentia que um novo temor os roía.

- Que há? - perguntou. - Por que raio estão vocês todos tão calados? Chegou um tipo de fora. E depois?

Ninguém disse nada.

O Rei levantou-se, exasperado pelo silêncio, detestando-o. Vestiu a sua melhor camisa e as suas calças lavadas e limpou o pó aos sapatos, bem engraxados. Pôs o boné bem ao lado e parou um momento à porta.

- Parece-me que vou preparar um petisco para hoje - disse ele, para ninguém em especial.

Quando olhou em redor, viu-lhes a fome na cara e a mal disfarçada esperança nos olhos. Sentiu-se de novo confortado e de novo normal e olhou para eles selectivamente.

- Vais estar ocupado hoje, Dino? - perguntou por fim.

- Ah, não. Não - disse Dino.

- A minha cama precisa de ser feita e há uma roupa para lavar.

- Queres que eu faça isso? - perguntou Dino, pouco à vontade.

- Queres?

Dino rogou uma praga para dentro, mas a lembrança do perfume do frango, na véspera à noite, abalou-lhe a vontade.

- com certeza - disse.

- Obrigado, amigo - disse o Rei, um tanto trocista, divertido pela luta evidente de Dino com a sua consciência.

Voltou-se e começou a descer os degraus.

- Ah, qual é a galinha que quer? - gritou-lhe Dino. O Rei não parou.

- vou pensar nisso - disse. - Trata da cama e da roupa. Dino encostou-se à ombreira da porta, vendo o Rei caminhar ao

sol, ao longo da prisão, e depois dobrar a esquina.

- Filho de puta!

- Vai buscar a roupa - disse Tex.

- Não me chateies. Tenho fome.

- Ele obriga-te a fazer o trabalho dele, mas galinha é que não a cheiras.

- Ele vai comer uma hoje - disse Dino teimosamente. - E eu vou ajudá-lo a comê-la. Até agora, nunca comeu nenhuma sem repartir com o ajudante.

- Que é que houve ontem à noite?

- Raios! Ele estava pior que estragado, porque ocupámos o espaço dele.

Dino estava a pensar no capitão inglês e na sua casa e na namorada, perguntando a si próprio se ela o esperava ou se se tinha casado. "com certeza", disse a si próprio melancolicamente, "ela já casou e não está lá ninguém. Como vou arranjar um emprego?"

- Isso era dantes - dizia Byron Jones in. - Aposto que o filho de puta vai cozinhá-la e comê-la em frente de nós.

Mas estava a pensar na sua casa. "Raios me partam se vou lá continuar! Tenho de arranjar o meu próprio apartamento. Tem de ser. Mas onde raio vou arranjar o pilim?"

- E se o fizer? - perguntou Tex. - Só nos faltam para aí dois ou três dias para partirmos.

"Depois, o meu querido Texas", pensou. "Poderei recuperar o meu trabalho? Onde diabo irei morar?"

- E quanto ao oficial inglês, Tex? Achas que devemos ir falar com ele?

- Acho que sim. Mas, cos diabos, só mais logo ou amanhã. Temos de nos habituar à ideia. - Tex evitou um encolher de ombros. - Quando ele olhou para mim... era como se estivesse a olhar para... um monstro. com mil diabos! Que raio de aspecto tenho eu?! Sou normal, não sou?

Todos estudaram Tex, para tentarem descobrir o que o oficial vira. Mas só viram o mesmo Tex, o Tex que conheciam havia três anos e meio.

- A mim pareces-me bem - disse Dino por fim. - Se alguém é um aborto, é ele. Raios me partam se eu descia em Singapura de pára-quedas sozinho! Pelo menos com aqueles nojentos japoneses por lá. Não era o filho do meu pai. Ele é mesmo um aborto.

O Rei caminhava ao longo do muro da prisão. "És um estúpido filho de puta", disse para si próprio. "Com que raio estás preocupado? Tudo vai bem, no melhor dos mundos. com certeza. E ainda és o Rei. És ainda o único tipo que sabe como se safar."

Deu ao boné uma inclinação malandra e riu para si próprio ao pensar em Dino. Sim, aquele pulha devia estar a rogar pragas, perguntando a si próprio se apanharia a galinha, sabendo que seria obrigado a trabalhar. "Que o Diabo o leve, que se morda", pensou o Rei jovialmente.

Atravessou o carreiro entre duas barracas. À volta delas havia grupos de homens. Estavam todos a olhar para norte, para o portão, silenciosos e imóveis. Rodeou outra barraca e viu o oficial isolado em solidão, olhando em redor desorientado, de costas para si. Viu o oficial dirigir-se a alguns homens e riu sardonicamente quando os viu afastarem-se.

"Loucura", pensou cinicamente. "Pura loucura. De que há que ter medo? O tipo é apenas um capitão. Claro, vai, por certo, precisar de ajuda. Mas de que é que ele pode ter tanto medo é que me ultrapassa!"

Acelerou o passo, mas os seus passos não faziam barulho.

- bom dia, meu capitão - disse com vivacidade, fazendo a continência.

O capitão Forsyth voltou-se sobressaltado.

- Ah, olá. - Retribuiu a continência com um suspiro de alívio. - Graças a Deus que alguém aqui é normal. - Só então viu o que dissera. - Ah, desculpe. Eu não queria...

-Não tem importância - disse o Rei simpaticamente, - Esta lixeira é para dar a volta ao miolo a um qualquer. Mas temos muito gosto em vê-lo. Seja bem-vindo a Changi!

Forsyth sorriu. Era muito mais baixo que o Rei, mas tinha um arcaboiço de touro.

- Muito obrigado. Sou o capitão Forsyth. Fui enviado para olhar pelo campo até chegar a esquadra.

- E quando é isso?

- Seis dias.

- Não podem vir um -pouco mais cedo?

- Estas coisas levam tempo, creio eu. - Forsyth acenou com a cabeça em direcção às barracas. - Que se passa com toda a gente? É como se eu tivesse lepra.

O Rei encolheu os ombros.

- Creio que estão em estado de choque. Ainda não querem acreditar no que vêem. Sabe como são certos tipos. E foi realmente muito tempo.

- Não há dúvida - disse Forsyth lentamente.

- É maluquice terem medo de si. - O Rei voltou a encolher os ombros. - Mas é assim a vida. Isso é lá com eles.

- Você é americano?

-Claro. Somos vinte e cinco. Oficiais e soldados. O capitão Brough é o nosso oficial superior. Foi abatido em 1943. Talvez gostasse de falar com ele?

- Claro.

Forsyth estava extenuado. Fora encarregado daquela missão quatro dias antes. A espera, o voo, o salto, a caminhada para a casa da guarda e a preocupação pelo que iria encontrar e pelo que os Japoneses iriam fazer e como raio iria cumprir as ordens que recebera, tudo isto lhe estragara o sono e iaterrorizara os seus sonhos. "Bem, meu velho, pediste o trabalho, deram-to e aqui estás. Pelo menos passaste o primeiro teste, lá no portão principal. Meu palerma", disse para si próprio, "estavas tão petrificado que tudo o que pudeste dizer foi: "Continência, seus sacanas!""

Do lugar onde estava, Forsyth via grupos de homens que olhavam para ele das barracas e das janelas, das portas e das sombras. Todos estavam silenciosos.

Via a rua que era a bissectriz do campo e para lá da área das latrinas. Notou as feridas das barracas e tinha as narinas cheias do fedor a suor, a bolor e a urina. Havia palermas por toda a parte, palermas cobertos de farrapos, palermas de tanga, palermas com sarongs, com ossos e sem carne.

- Sente-se bem? - perguntou o Rei, solícito. - Não parece lá muito bem-disposto.

- Estou bem. Quem são aqueles pobres tipos?

- São oficiais - disse o Rei.

- Quê?!

- Claro. Que é que eles têm de mal?

- Está a dizer-me que aqueles são oficiais?

- Exactamente. E estas barracas são barracas de oficiais. Aquelas filas de bungalaws são para majores e coronéis. Há cerca de um milhar de australianos e "bi"... ingleses - disse rapidamente, corrigindo-se- nas barracas da parte sul da prisão. Na prisão há cerca de sete ou oito mil ingleses e australianos. E soldados.

- São todos assim?

- Sir?

- Têm todos este aspecto? Estão todos assim vestidos?

- Exactamente. - O Rei riu-se. - Acho que parecem um bando de miseráveis. Confesso que, até agora, nunca isso me incomodou. E então compreendeu que Forsyth o estudava criticamente.

- Que há? - perguntou com um sorriso murcho.

Atrás e a toda a volta havia homens que os observavam e entre eles Peter Marlowe. Mas estavam todos fora de forma. Todos perguntavam a si próprios se estavam a ver um homem que parecia mesmo um homem, com um revólver à cintura, a conversar com o Rei.

- Porque é que você é tão diferente deles? - perguntou Forsyth.

- Sir?

- Porque é que você está decentemente vestido... e eles estão todos esfarrapados?

O sorriso do Rei voltou.

- Eu tenho tratado da minha roupa. Julgo que eles não.

- Você parece em boa forma.

- Não tão boa como eu gostaria, mas acho que tenho bom aspecto. Quer que dê uma volta consigo? Julguei que devia precisar de auxílio. Posso sacudir alguns dos rapazes, arranjar um trabalho em conjunto. Não há abastecimentos no campo de que valha a pena falar. Mas há um camião na garagem. Podíamos ir até Singapura e libertar...

- Como é que você parece ser único aqui? - interrompeu Forsyth, e as suas "palavras eram como balas.

- Ha?

Forsyth apontou para o campo um dedo grosso.

- Eu vejo talvez duzentos ou trezentos homens, mas você é o único vestido. Não vejo um homem que não esteja magro como um bambu, a não ser você. - Voltou-se e olhou para o Rei, com olhos duros. - Você está em boa forma.

- Sou o mesmo que eles. Também estive na festa. E tive sorte.

- Não há sorte que valha num inferno como este!

- Claro que há - disse o Rei. - E não há mal nenhum em olhar pelas nossas roupas, não há mal nenhum em nos mantermos quanto possível em forma. Um homem tem de olhar pela regra nº 1. Nenhum mal nisso!

- Mal nenhum - disse Forsyth -, contanto que não seja à custa dos outros!-Depois ladrou: - Onde são as instalações do comandante do campo?

- Acolá. - O Rei apontou. - A primeira fila de bungalows. Não sei o que o senhor tem. Eu pensei que podia ajudar. Pensei que o senhor ia precisar de alguém que o metesse no ambiente...

- Eu não preciso da sua ajuda, cabo. Qual é o seu nome?

O Rei lamentava ter gasto o seu tempo em tentar ajudar. "Filho de puta", pensou, furioso. "É o que dá uma pessoa querer ajudar."

- Rei, Sir.

- Pode ir-se embora, cabo. Não me esquecerei de si. E terei o cuidado de falar ao capitão Brough na primeira oportunidade.

- Mas que diabo significa isso?

- Significa que o acho inteiramente suspeito - respondeu Forsyth secamente. - Quero saber -porque é que você está em tão boas condições e os outros não estão. Para estar em boas condições num lugar como este, é preciso ter dinheiro, e deve ter havido muito poucas maneiras de arranjar dinheiro. Muito poucas maneiras. Dar informações seria uma. Vender drogas ou comida seria outra...

- Raios me partam, se vou...!

- Pode retirar-se, cabo! Mas não se esqueça de que vou fazer investigações a seu respeito!

Foi necessário ao Rei fazer um grande esforço para não mandar o seu punho à cara do capitão.

- Pode retirar-se - repetiu Forsyth, e depois acrescentou raivosamente: - Desapareça da minha viste.

O Rei fez a continência e afastou-se, com os olhos raiados de sangue.

- Olá - disse Peter Marlowe, interceptando o Rei. - Meu Deus! Quem me dera ter a tua genica!

Os olhos do Rei clarearam e ele resmungou:

- Boa tarde, Sir.

Fez a continência e ia seguir o seu caminho.

- Meu Deus, Rajá, que diabo se passa?

-Nada. Só que... não me apetece falar.

- Porquê? Fiz alguma coisa que te chateasse? Diz-me, por favor.

- Não tem nada a ver consigo.

O Rei forçou um sorriso, mas por dentro gritava. "Jesus! Que fiz eu de errado? Dei de comer àqueles sacanas, ajudei-os, e agora olham para mim como se eu já cá não estivesse." Olhou para trás, para Forsyth, e viuo caminhar entre duas barracas e depois desaparecer. "E ele", pensou com desespero, "pensa que eu sou um filho da mãe de um delator."

-Que é que ele disse? - perguntou Peter Marlowe.

- Nada. Ele... tenho de... fazer uma coisa para ele.

- Sou teu amigo. Deixame ajudar-te. Não basta que eu esteja aqui?

Mas o Rei queria apenas esconder-se. Forsyth e outros tinham-lhe roubado a face. Sabia que estava perdido. E, sem rosto, estava aterrado.

- Até breve - murmurou.

E, fazendo a continência, afastou-se com passo rápido. "Jesus, meu Deus", chorou ele no seu íntimo, "dai-me de novo o meu rosto. Por favor, dai-me de novo o meu rosto."

No dia seguinte, um avião sobrevoou o campo. Do seu ventre caíram fornecimentos. Alguns desses fornecimentos caíram no campo. Os que caíram fora do campo não foram procurados. Ninguém abandonou a segurança de Changi. Podia ainda ser um embuste. As moscas eram aos milhões. Alguns homens morreram.

Outro dia. Os aviões começaram a desenhar círculos no céu. Um coronel percorreu o campo. com ele estavam médicos e enfermeiros. Traziam medicamentos. Outros aviões surgiram no céu e aterraram.

De súbito apareceram jipes a chiar pelo campo e homens enormes, com charutos, e quatro médicos. Eram todos americanos. Precipitaram-se pelo campo dentro e espetaram os americanos com agulhas e deram-lhes almudes de sumo de laranja fresco, comida e cigarros e abraçaram-nos: os seus rapazes, os seus heróis. Ajudaram-mos a entrar para os jipes e levaram-nos para a porta de Changi, onde um camião esperava.

Peter Marlowe observava, espantado. "Eles não são heróis", pensava, confuso. "Nem nós somos. Perdemos. Perdemos a guerra, a nossa guerra. Não perdemos? Não somos heróis. Não somos!"

Viu o Rei através do nevoeiro do seu espírito. O seu amigo. Esperara dias inteiros para falar com ele, mas, de cada vez que o via, o Rei afastava-o. "Mais tarde", diria sempre o Rei. "Agora estou ocupado." Quando os novos americanos chegaram, não viera ainda a altura.

Por isso, Peter Marlowe estava ao portão, com muitos homens, vendo partir os americanos, à espera de dizer um último adeus ao seu amigo, esperando para lhe agradecer o que fizera pelo seu braço e pelo que tinham rido juntos.

Entre os mirones estava Grey.

Forsyth estava, com um ar fatigado, ao lado do camião. Entregou a lista.

- O original é para si, Sir - disse ele ao oficial americano de mais alta patente. - Os seus homens estão inscritos por posto, serviço e número de série.

- Obrigado - disse o major, um pára-quedista atarracado e bochechudo. Assinou o papel e devolveu as outras cinco cópias. Quando chega o resto da sua gente?

- Dentro de poucos dias.

O major olhou em volta e encolheu os ombros:

- Parece que um pouco de ajuda não lhe faria mal nenhum...

- Por acaso, tem medicamentos a mais?

- com certeza. Temos um pássaro cheio deles. Vamos fazer assim: logo que tenha posto os nossos rapazes a caminho, trago-lhos nos nossos jipes. E arranjo-lhe um médico e dois enfermeiros até os vossos chegarem.

- Obrigado. - Forsyth tentou disfarçar a fadiga do rosto. Fazem-nos muito jeito. Eu passo-lhe um recibo.

- Não quero papelada nenhuma. Vocês precisam dos remédios, ficam com eles. É para isso que eles servem. - Voltou-se e disse: Sargento, ponha-os no reboque. - Foi até ao jipe e verificou se o reboque estava bem seguro. - Que pensa, doutor?

- Fica por conta do Estado. -O médico desviou os olhos da figura humana entalada no colete de forças. - Mas é tudo. Aquela cabeça nunca mais funciona.

- Filho da mãe - disse o major, num tom fatigado, e fez um sinal em frente do nome de Max na lista. - É injusto. - Baixou a voz. - E os outros?

- Nada bem. Sintomas de retirada generalizados. Ansiedade sobre o futuro. Há apenas um que está fisicamente semiaceitável.

- Raios me partam se entendo como qualquer deles sobreviveu! Esteve na prisão?

- Claro. Só uma vista de olhos. E bastou.

Peter Marlowe observava melancolicamente. Sentia que a sua tristeza não era apenas devida à partida do seu amigo. Era mais que isso. Era porque os americanos partiam. De certo modo, sentia que o seu lugar era ali com eles, o que estava errado, pois eles eram estrangeiros. Contudo, sabia, que não se sentia como estrangeiro quando estava com eles. "Será inveja?", perguntou a si próprio. "Ou ciúme? Não, não creio. Não sei porquê, mas sinto que eles regressam à pátria e que eu fico para aqui abandonado."

Aproximou-se um pouco mais do camião quando começaram a ouvir-se ordens e os homens começaram a subir. Brough, Tex, Dino, Byron Jones in e os outros, resplandecentes nos seus uniformes novos, pareciam irreais. Conversavam, gritavam e riam. Mas não o Rei. Estava ligeiramente afastado. E sozinho.

Peter Marlowe estava contente por o seu amigo estar de novo com a sua gente. Esperava que todos se dessem bem com ele.

- Toca a entrar para o camião, malta.

- Próxima paragem, Estados Unidos!

Grey não dera por estar ao lado de Peter Marlowe.

- Dizem - disse ele, olhando para o camião - que têm um avião para os levar para a América. Um avião especial. Será possível? Só para uma mãchheia de soldados e uns poucos de oficiais?

Peter Marlowe também não dera por Grey. Observou-o com um ar de desprezo.

- Você sempre me saiu um snobe, Grey! A cabeça de Grey deu uma meia volta.

- Ah, é você!

- Sou. - Peter Marlowe acenou para o camião. - Eles pensam que todos os homens são iguais. Por isso, arranjam um avião só para eles. É uma grande ideia, quando se pensa bem.

- Não me diga que as classes superiores compreenderam finalmente...

- Oh, cale a boca! - E Peter Marlowe afastou-se, com a bílis a subir-lhe.

Ao lado do camião estava um sargento, um homem enorme com muitos galões na manga e um charuto apagado na boca.

- Vamos, entrem para o camião - repetia ele pacientemente. O Rei era o último que ainda estava em terra.

- Santo nome de Cristo! Entrem para o carro! - resmungava o sargento.

O Rei não se mexia. Então, impacientemente, o sargento deitou fora o charuto e, rasgando o ar com o dedo, gritou:

- Você aí, cabo! Meta o sacana do cu no camião! O Rei despertou do seu transe.

- Sim, meu sargento. Desculpe, meu sargento! Docilmente, subiu para o camião e ficou em pé, enquanto todos

os outros estavam sentados, e à sua volta havia homens excitados que falavam uns com os outros, mas não com ele. Ninguém parecia dar por ele. Agarrou-se ao taipal do camião quando ele ganhou vida e atirou para o ar a poeira de Ghangi.

Peter Marlowe correu freneticamente para a frente e levantou a mão para dizer adeus ao seu amigo. Mas o Rei não olhou para trás. Nunca olhava para trás.

Subitamente, Peter Marlowe sentiu-se muito só, ali às portas de Changi.

- Valeu a pena ver aquilo - disse Grey, com um olhar torvo. Peter Marlowe voltou-se para ele.

- Desapareça, antes que lhe dê uma ensinadela.

- Foi bom vê-lo manejado assim: "Você aí, cabo! Meta o sacana do cu no camião!" - Havia um brilho vicioso nos olhos de Grey. Tal como a porcaria que ele era.

Mas Peter Marlowe só se lembrava do Rei como realmente ele fora. Aquele que dizia, submisso, "sim, meu sargento", não era o Rei, Não era o Rei que ele conhecia. Este fora outro homem, arrancado do útero de Changi, o homem que Changi educara durante tanto tempo.

- Como o ladrão que ele era - disse Grey deliberadamente. Peter Marlowe cerrou o seu potente punho esquerdo.

- Já lho disse uma vez, a última.

Então atirou o punho contra a cara de Grey, que recuou mas se aguentou em pé e se atirou a Peter Marlowe. Os dois homens lutaram e de súbito Forsyth estava junto deles.

- Parem com isso - ordenou. - Por que raio estão vocês a lutar? - Nada - disse Peter Marlowe.

- Tire as mãos de mim - disse Grey, soltando o braço que Forsyth segurava. - Desapareça!

- Que isto volte a acontecer e meto-os na cadeia. - Aterrado, Forsyth notou que um dos homens era capitão e outro era tenente aviador. - Deviam ter vergonha! A lutar como dois recrutas! Vamos, fora daqui. A guerra acabou, graças a Deus!

- Deveras? - E Grey olhou uma vez para Peter Marlowe e depois afastou-se.

- Que há entre vocês os dois? -perguntou Forsyth.

Peter Marlowe estendeu o olhar para a distância. O camião já não se via.

- O senhor não compreenderia - disse e afastou-se. Forsyth seguiu-o com os olhos até ele desaparecer. "Podes dizer

isso um milhão de vezes", pensou, exausto. "Não compreendo nada de vocês."

Voltou para a porta de Changi. Havia, como sempre, grupos de homens silenciosos, de olhar vazio. A porta estava, como sempre, guardada. Mas os guardas eram oficiais, e já não japoneses ou coreanos. No dia em que chegaria mandáramos embora e colocara um oficial de guarda ao campo, para efeitos de segurança e para que os homens não saíssem. Mas os guardas eram desnecessários, porque ninguém tentara fugir. "Não compreendo", dizia Forsyth para si próprio, fatigado. "Não faz sentido. Nada aqui faz sentido." Foi só então que se lembrou de que não dera parte do americano suspeito: o cabo. Tinha tanto com que se preocupar que o homem lhe fugira completamente do espírito. Grandíssimo parvo, agora era tarde de mais! Lembrou-se então de que o major americano ia voltar. "bom", pensou. "vou dizer-lho. Ele pode tratar-lhe da saúde."

'Dois dias mais tarde chegaram mais americanos. E um autêntico general americano. Foi rodeado, como uma rainha, por fotógrafos, repórteres e ajudantes. O general foi levado para o bungalow do comandante do campo. Peter Marlowe, Mac e Larkin foram postos às suas ordens. O general pegou no auscultador do rádio e fingiu escutar.

- Essa aí, meu general!

- Mais uma, meu general!

Peter Marlowe foi empurrado para a frente e disseram-lhe que se curvasse sobre o rádio, como se estivesse a explicar ao general.

- Não, assim não... deixe-nos ver a sua cara. Sim, deixe-nos ver os seus olhos à luz, Sam. Assim está melhor.

Nessa noite, o terceiro e último e maior receio crucificou Changi.

O receio de amanhã.

Changi inteira sabia agora que a guerra acabara. O futuro tinha de ser encarado. O futuro fora de Changi. O futuro era agora. Agora.

E os homens de Changi retiraram para dentro de si próprios. Não havia mais nenhum lugar para onde ir. Nenhum lugar onde se escondessem. Sítio nenhum, a não ser dentro de si próprios. E aí dentro estava o terror.

A esquadra aliada chegou a Singapura. Mais estrangeiros convergiram para Changi.

Foi então que começaram as perguntas. - Nome, posto, número de série, unidade?

- Onde combateu?

- Quem morreu?

- Quem foi morto?

-A respeito de atrocidades? Quantas vezes lhe bateram? Quem viu ser trespassado à baioneta?

- Ninguém? Impossível. Pense, homem. Sirva-se da cabeça! Lembre-se. Quantos morreram? No barco? Três, quatro, cinco? Quem? Quem estava lá?

- Quem foi deixado na sua unidade? Dez? De todo o regimento? Bem, já está melhor. Agora, como morreram os outros? Sim, os pormenores!

- Ah, viuos ser trespassados à baioneta?

- Ah, o caminho-de-ferro? Sim, sabemos isso. Que pode acrescentar? Quanta comida tinha? Anestésicos? Desculpe, já me esquecia. Cólera?

-Sim, sei tudo do campo nº 3. Que há sobre o nº 14? O da margem do Burma-Siam? Morreram lá milhares, não é verdade?

com as perguntas, estes estranhos traziam, opiniões. Os homens de Changi ouviam-nas, furtivamente segredadas de uns para os outros.

- Viste aquele homem? Meu Deus, é impossível! Anda por aí nu! Em público!

- E olha para ali! Está um homem a aliviar-se em público! E, meu Deus, não tem papel! Serve-se de água e das mãos! Meu Deus! Fazem todos o mesmo!

- Olha para aquela cama imunda! Meu Deus! Está repleta de percevejos!

- A que degradação estes desgraçados chegaram! Pior que animais!

- Deviam estar num manicómio! É certo que foram os Japoneses que os -puseram assim, mas seria mais seguro prendê-los. Parecem não distinguir o bem do mal!

- Olha para eles, a comerem aquela porcaria! Vocês dão-lhes pão e batatas e eles só querem arroz!

- Tenho de voltar ao navio. Não posso esperar para trazer os tipos cá para fora. Em toda a minha vida não espero ver outra vez uma coisa destas.

- Meu Deus! Estas enfermeiras ao que se arriscam, andando por aqui!

- Disparate! Não correm risco nenhum. Vi uma porção de raparigas que vieram dar uma olhadela. Céus, aquela é uma brasa!

- Nojenta a maneira como os P. M. olham para elas!

com as perguntas e as opiniões, os que chegavam traziam respostas.

- Ah, tenente aviador Marlowe? Sim, tivemos uma resposta em cabograma do almirantado. O capitão Marlowe... ah... lamento muito, o seu pai morreu. Morto em combate em Murmansk. Em 10 de Setembro de 1943. Os meus sentimentos. O seguinte!

- Capitão Spenoe? Temos muito correio para si. Pode retirá-lo na casa da guarda. Sim, senhor. A sua... a sua esposa e filho morreram em Londres... num ataque aéreo. Em Janeiro deste ano. Sentimentos. Uma V2. Horrível. O seguinte!

- Tenente-coronel Jones? Sim, senhor. O senhor está no primeiro grupo, que parte amanhã. Vão todos os oficiais superiores. Bon voyage! O seguinte!

- Major McCoy? Ah, sim, o senhor queria informações sobre a sua esposa e o seu filho. Deixe-me ver. Eles estavam a bordo do Empress of Shropshire, não estavam? O barco que navegava de Singapura em 9 de Fevereiro de 1942? Lamento muito, mas as únicas notícias que temos são de que o navio foi afundado algures ao largo de Bornéu. Consta que houve sobreviventes, mas, se os houve ou onde estão, ninguém sabe. Tem de ter paciência! Parece que há campos de prisioneiros de guerra um pouco por toda a parte: as Celebes... Bornéu... Tem de ter paciência! O seguinte!

- Ah, coronel Smedly-Taylor? Más notícias, Sir. Lamento muito. A sua esposa foi morta durante um ataque aéreo. Há dois anos. O seu filho mais novo, o chefe de esquadrão P. R. Smedly-Taylor, perdeu-se na Alemanha em 1944. O seu filho John está actualmente em Berlim com as forças de ocupação. Aqui tem a morada dele. Posto? Tenente-coronel. O seguinte!

- Coronel Larkin? Ah, os australianos são atendidos noutro sítio. O seguinte!

- Capitão Grey? Bem, é um tanto difícil. É que o senhor foi dado como morto em combate em 1942. Parece que a sua mulher voltou a casar-se. Ela... hum... bem, tem aqui a morada actual... Não sei, Sir. Terá de se informar no gabinete do procurador-geral. Assuntos legais estão fora da minha competência. O seguinte!

- Capitão Ewart? Ah, sim, do regimento malaio? Tenho o prazer de lhe dizer que a sua esposa e os seus três filhos estão sãos e salvos. Estão no campo de Chá Song, em Singapura. Sim, temos transporte para si esta tarde. Como? Bem, não sei. O memorando diz três, e não dois filhos. Talvez seja engano. O seguinte!

Agora iam mais homens nadar. Mas o exterior era ainda perigoso e os homens que saíam ficavam satisfeitos por voltar a entrar. Sean foi nadar. Desceu para a costa e na mão levava um embrulho. Quando o grupo chegou à praia, Sean afastou-se e os homens riram-se e troçaram, a maior parte deles, do invertido, que não queria despir-se como toda a gente.

- Maricas!

- Lula!

- Liças!

Sean subiu a praia, afastando-se das chufas, até encontrar um lugar isolado. Tirou os calções e a camisa e pôs o sarong nocturno, o soutien almofadado, o cinto e as meias e pintou a cara. com cuidado, com muito cuidado. Então, a "rapariga" pôs-se em pé, confiante e muito feliz. Calçou os sapatos de salto alto e avançou para o mar.

O mar recebeua bem e tornou-lhe o sono fácil e depois, com o correr do tempo, devorou-lhe a roupa, o corpo e o tempo.

Um major estava à porta da barraca de Peter Marlowe. O seu dólman estava coberto de medalhas e ele parecia muito novo. Olhou em redor da barraca para as obscenidades que estavam deitadas nas camas, ou a mudar de roupa, ou a fumar, ou a preparar-se para tomar um duche. Os seus olhos vieram parar em Peter Marlowe.

- Para que puta de maravilha está o senhor a olhar? - gritou Peter Marlowe.

- Não fale comigo assim! Sou major e...

- Nem que seja Cristo! Fora daqui! Fora daqui!

- Em sentido! vou levá-lo a conselho de guerra! - berrou o major, com os olhos a saltarem das órbitas e banhado em suor. Devia ter vergonha de estar aí com essa saia...

- É um sarong...

-É uma saia! Estar aí com uma saia, meio nu! Vocês, os prisioneiros de guerra, pensam que podem andar por aí de qualquer maneira. Pois bem, graças a Deus, não podem. E agora vai aprender a respeitar...

Peter Marlowe pegou na sua baioneta, precipitou-se para a porta e aproximou a lâmina da cara do major.

- Saia daqui ou, por Cristo, corto-lhe a puta da garganta... O major evaporou-se.

- Calma, Peter - murmurou Phil. - Vais meter-nos a todos em sarilhos.

- Por que é que eles olham para nós? Porquê? - gritou Peter Marlowe, e não houve resposta.

Foi então que entrou um médico na barraca, um médico com a cruz venmelha no braço, e vinha apressado, mas fingia não vir, e sorriu para Peter Marlowe.

- Não lhe ligue - disse, indicando o major que atravessava o campo.

- Por que raio é que toda a gente olha para nós?

- Tome um cigarro e acalme-se.

O médico parecia bastante simpático e bastante calmo, mas era um estranho... e não merecia confiança.

- "Tome um cigarro e acalmem." É tudo o que vocês sabem dizer - gritou Peter Marlowe, furioso. - Eu perguntei: por que é que vocês olham para nós?

O médico acendeu ele próprio um cigarro e sentou-se numa das camas. Mas logo se arrependeu, porque sabia que todas estavam infectadas. Mas queria ajudar.

- vou tentar explicar - disse calmamente. - Vocês, vocês todos, sofreram o insofrível e suportaram o insuportável. São esqueletos ambulantes. As vossas caras são só olhos, e nos olhos há um olhar... - Parou um momento, tentando encontrar as palavras, pois sabia que eles precisavam de auxílio, de cuidados e de gentileza. - Não sei como descrevê-lo. É furtivo... não, não é a palavra exacta, e também não é medo. Mas há o mesmo olhar nos olhos de todos. E estão todos vivos, quando, por todas as regras, deviam estar mortos. Não sabemos porque é que vocês não morreram, nem porque é que sobreviveram, isto é, cada um dos que estão aqui. Porquê vocês? Nós, os de fora, olhamos para vocês, porque vocês são fascinantes...

- Como fenómenos de uma barraca de feira, creio eu.

- Sim - disse o médico calmamente. - Seria uma maneira de pôr a questão, mas...

- Juro por Cristo que mato o primeiro gajo que olhe para mim como se eu fosse um macaco.

- Tome - disse o médico, tentando acalmá-lo. - Tem aqui estas pílulas. Vão fazer-lhe bem...

Peter Marlowe tirou com uma sapatada as pílulas das mãos do médico e gritou:

- Não quero as sacanas das suas pílulas. Quero que não me chateiem! - E saiu da barraca.

A barraca americana ficou deserta.

Peter Marlowe deitou-se na cama do Rei e chorou.

- Adeus, Peter - disse Larkin.

- Adeus, coronel. -Adeus, Mac.

- Boa sorte, rapaz.

- Dá notícias.

Larkin apertou-lhes as mãos e depois dirigiu-se para as portas de Changi, onde os camiões esperavam para levar os últimos australianos para os navios. Para a sua pátria.

- Quando partes, Peter? - perguntou Mac, depois de Larkin ter desaparecido.

- Amanhã. E tu?

- Parto agora, mas vou ficar em Singapura. Não faz sentido tomar um barco sem saber para onde.

- Não tens ainda notícias?

- Nenhumas. Poderiam estar algures na índia. Mas, se ela e o Angus tivessem morrido, penso que eu saberia. Cá por dentro.

- Mac pegou na mochila e, inconscientemente, verificou se a lata secreta de sardinhas estava ainda segura. - Ouvi dizer que há algumas mulheres num dos campos de Singapura que iam no Shropshire. Talvez alguma delas saiba alguma coisa ou me dê uma pista. Se eu conseguir encontrá-las. - Tinha um ar velho e vincado, mas muito forte. Estendeu a mão. - Salamat.

- Salamat.

- Puki mahlu!

- Senderis - disse Peter Marlowe, consciente das suas lágrimas, mas não envergonhado delas, como Mac o não estava das suas.

- Podes sempre escrever-me, ao cuidado do Banco de Singapura, pá.

- com certeza. Boa sorte, Mac.

- Salamat!

Peter Marlowe ficou na rua que dividia o campo em dois e viu Mac subir a colina. No cimo da colina, Mac parou, voltou-se e disse mais uma vez adeus com a mão. Peter Marlowe correspondeu e Mac perdeu-se na multidão.

E agora Peter Marlowe estava completamente sozinho.

Última madrugada em Changi. Um último homem morreu. Alguns dos oficiais da barraca nº 16 já tinham partido. Os mais doentes.

Peter Marlowe estava deitado na sua tarimba, debaixo do mosquiteiro, meio a dormir. À sua volta estavam homens que não dormiam, que se levantavam, que iam fazer as suas necessidades. Barstairs fazia o pino sobre a cabeça, praticando ioga, Phil Mint estava já a esfurancar o nariz com uma mão e a mutilar moscas com a outra, a partida de brídege já começara, Myner fazia já escalas no seu timbale de madeira e Thomas estava já a praguejar sobre o atraso do pequeno-almoço.

- Que tal achas, Peter? - perguntou Mike. Peter abriu os olhos e estudou-o.

- Bem, pareces diferente, é tudo o que posso dizer.

Mike esfregou o lábio superior, rapado, com as costas da mão.

- Sinto-me nu. - Viu-se ao espelho e encolheu os ombros. Bem, foi-se ao ar e pronto.

- Eh, chegou a papa! - gritou Spence.

- Que é?

- Papa de aveia, torradas, compota, ovos mexidos, bacon e chá. Alguns homens queixaram-se da exiguidade das suas rações e outros da sua abundância.

Peter Marlowe ficou-se pelos ovos mexidos e pelo chá. Misturou os ovos a um pouco de arroz que guardara da véspera e comeu com grande prazer.

Levantou os olhos quando Drinkwater entrou como um furacão.

- Oh, Drinkwater! Tem um minuto?

- Com certeza.

Drinkwater ficou surpreendido com a súbita afabilidade de Peter Marlowe. Mas manteve baixos os seus olhos azuis, pálidos, porque receava que o seu ódio violento a Peter Marlowe transbordasse. "Aguenta, Theo", disse a si próprio. "Já aguentaste durante meses. Não cedas agora. Só mais algumas horas e depois podes esquecê-lo e a todos esses homens horríveis. O Lyles e o Blodger não tinham o direito de te tentar. Absolutamente nenhum direito. Bem, tiveram o que mereciam."

- Lembra-se daquela perna de coelho que você roubou? Os olhos de Drinkwater flamejaram.

- Que... que está você para aí a dizer?

Do outro lado da coxia, Phil parou de se coçar e levantou os olhos.

- Ora, ora, Drinkwater, já não me importo com isso. Porque havia de importar-me? A guerra acabou e nós estamos livres dela. Mas você lembra-se da perna de coelho, não se lembra?

Os olhos de Drinkwater deitaram fogo.

- De que está você para aí a falar? Não - disse com aspereza -, não me lembro. - E teve dificuldade em não dizer: "Deliciosa! Deliciosa!"

- Não era coelho, sabe?

- Ah?! Desculpe, Marlowe, não fui eu. E nunca soube, até hoje, quem foi.

- vou dizer-lhe o que era - prosseguiu Peter Marlowe, tirando grande satisfação daquele momento. - Era carne de rato. Carne de rato.

Drinkwater riu-se.

- Você é muito engraçado - disse sarcástico.

- Ah, mas era rato. Era mesmo. Eu apanhei um rato. Era grande, peludo e cheio de crostas. Devia ter peste.

O queixo de Drinkwater tremeu.

Phil piscou o olho a Peter Marlowe e acenou animadamente com a cabeça.

-É verdade, reverendo. Estava cheio de crostas. Eu vi o Peter esfolar a perna...

Foi então que Drinkwater vomitou por cima do seu rico uniforme limpo e correu lá para fora e vomitou uma vez mais. Peter Marlowe começou a rir-se e em breve toda a barraca lhe fazia eco.

- Oh, meu Deus! - disse Phil, já sem forças. - Tenho de reconhecer, Peter: que ideia brilhante! Inventar que era um rato! Meu Deus! Boa resposta para aquele gajo!

- Mas era realmente um rato - disse Peter Marlowe. - Coloquei-o de modo que ele o roubasse.

- Ah, claro - disse Phil sarcasticamente. - Não tente exceder essa história maravilhosa. Maravilhosa!

Peter Marlowe sabia que eles não iam acreditá-lo. Por isso, não disse mais. Ninguém acreditaria nele, a menos que ele lhes mostrasse a quinta... "Meu Deus! A quinta!" E o estômago deu-lhe uma volta.

Vestiu o seu uniforme novo. Nas dragonas estava o posto: tenente aviador. No lado esquerdo do peito, as asas. Deu uma vista de olhos aos seus bens: cama, mosquiteiro, colchão, cobertor, sarong, camisa esfarrapada, um par de calções esfarrapados, dois pares de tamancos, faca, colher e três pratos de alumínio. Tirou tudo de cima da cama, levou tudo lá para fora e deitou-lhe fogo.

- Eh, você aí... Ah, desculpe, Sir- disse o sargento. - O fogo é perigoso.

O sargento era um estranho, mas Peter Marlowe não tinha medo de estranhos. Pelo menos agora.

- Desapareça! - atirou Peter Marlowe.

- Mas, Sir...

- Eu disse desapa-re-ça. com mil diabos!

- Yes, Sir.

O sargento fez a continência e Peter Marlowe ficou muito satisfeito por já não ter medo de estranhos. Retribuiu a continência e logo lamentou tê-lo feito, porque não tinha o boné. Por isso, tentou corrigir o seu erro com um "oh, diabo, onde raio está o meu boné?" e voltou à barraca, sentindo voltar o medo dos estranhos. Porém, sacudiuo e jurou a si próprio: "Pelo Senhor, meu Deus, nunca mais terei medo. Nunca."

Encontrou o boné e a lata de sardinhas escondida. Meteu a lata no bolso e desceu as escadas da barraca, subindo a estrada ao longo do arame farpado. O campo estava agora quase deserto. O resto das tropas inglesas partia hoje no mesmo comboio que as suas. Partir. Muito depois de os australianos o terem feito e uma eternidade depois dos americanos. "Mas isto era de esperar. Somos lentos, mas muito seguros."

Parou perto da barraca americana. A lona do toldo dançava miseravelmente ao vento do passado. Então, Peter Marlowe entrou na barraca pela última vez.

Mas a barraca não estava vazia. Grey estava lá, polido e fardado.

- Veio olhar uma última vez para o cenário dos seus triunfos? perguntou maldosamente.

- É uma maneira de pôr o problema. - Peter Marlowe enrolou um cigarro e voltou a meter os restos de tabaco na caixa. - E agora a guerra acabou. Agora somos iguais, você e eu.

- É verdade. - O rosto de Grey estava tenso e os seus olhos como os de uma serpente. - Detesto a sua petulância.

- Lembra-se do Dino? -Que tem ele?

- Era o seu informador, -não era?

- Suponho que não há inconveniente em admiti-lo agora.

- O Rei sabia tudo a respeito do Dino.

- Não acredito.

- O Dino dava-lhe informações sob ordens. Sob ordens do Rei! E Peter Marlowe riu-se.

- Você não passa de um mentiroso!

- Porque havia eu de mentir? - O riso de Peter Marlowe morreu bruscamente. - O tempo das mentiras acabou. Morreu. Mas o Dino recebia ordens. Lembra-se de como o senhor chegava sempre tarde? Sempre.

"Oh, meu Deus", pensou Grey. "Sim, sim, compreendo agora." Peter Marlowe tirou uma fumaça.

- O Rei imaginava que, se o senhor não recebesse informações exactas, procuraria arranjar um informador. Por isso, deu-lhe um.

Subitamente, Grey sentiu-se muito cansado. Uma porção de coisas era difícil de compreender. Muitas coisas, coisas estranhas. Viu então Peter Marlowe e o sorriso sarcástico, e toda a sua reprimida angústia explodiu. Atravessou a barraca num rompante e começou a dar pontapés na cama do Rei, espalhando todas as suas coisas, e depois enfrentou Peter Marlowe.

- Muito engenhoso! Mas eu vi o Rei reduzido às suas verdadeiras proporções e vou ver o mesmo acontecer-lhe a si. E a toda a sua fedorenta classe!

- Oh!

- Pode apostar a sacana da sua vida! Hei-de tratar-lhe da saúde de qualquer modo, ainda que tenha de passar a minha vida a fazê-lo. Hei-de acabar por batê-lo. A sua sorte vai desaparecer.

- A sorte não tem nada a ver com isso. Grey apontou um dedo à cara de Peter Marlowe.

- Você nasceu com sorte. Terminou Chamgi com sorte. Digo até que escapou com a almazinha preciosa que sempre teve!

- Que está você para aí a dizer? - E Peter Marlowe afastou o dedo.

- Corrupção. Corrupção moral. Foi salvo mesmo a tempo. Mais uns meses à volta da maldade do Rei e você teria mudado para sempre. Você estava a começar a ser um grande mentiroso e um vigarista, como ele.

- Ele não era mau e não vigarizou ninguém. Tudo o que ele fez foi adaptar-se às circunstâncias.

- O Mundo seria um lugar bem triste se todos se escondessem atrás dessa desculpa. Há uma coisa que se chama moralidade.

Peter Marlowe atirou o cigarro ao chão e desfê-lo com o pé.

- Não me diga que você antes queria morrer com as sacanas das suas virtudes do que viver e saber que tinha de ceder um pouco.

- Um -pouco? - Grey teve um riso irritante. - Você vendeu tudo. Honra, integridade, orgulho, tudo por uma esmola do pior sacana desta pocilga!

- Quando se pensa nisso, o sentido que o Rei tinha da honra era bastante alto. Mas tem razão numa coisa. É verdade que ele me modificou. Mostrou-me que um homem é um homem, independentemente dos seus antecedentes. Contra tudo o que me ensinaram. Por isso, eu estava errado em zombar de si por qualquer coisa que não estava na sua mão e estou disso arrependido. Mas não peço desculpa por desprezá-lo pelo homem que o senhor é.

- Pelo menos, não vendi a minha alma! - O uniforme de Grey estava manchado de suor e ele olhava com um olhar malévolo para Peter Marlowe. Mas no seu íntimo sufocava de ódio a si próprio. "E quanto a Smedly-Taylor?", perguntou a si próprio. "É verdade, também liquidei tudo. Mas, pelo menos, sei que o que fiz está errado. Sei-o. E sei porque é que o fiz. Tinha vergonha do meu nascimento e queria pertencer à fidalguia. À sua maldita classe, Marlowe. Na tropa. Mas agora não podia importar-me menos." Vocês açambarcaram o Mundo - disse alto-, mas não por muito tempo. Acabou-se. Vão ser iguais às pessoas como eu. Não fizemos a guerra para que nos cuspam em cima. Vamos ser iguais.

- Boa sorte!

Grey tentou dominar a respiração. Descerrou os punhos com esforço e limpou o suor dos olhos.

- Mas você, você não é digno de lutar. Você está morto.

- O problema é que estamos ambos muito vivos.

Grey voltou-se e caminhou para a porta. No degrau de cima parou e voltou-se.

- Na realidade, eu devia agradecer-lhes, a si e ao Rei, por uma coisa - disse com rancor. - O meu ódio a vocês dois manteve-me vivo. - E depois saiu e não olhou mais para trás.

Peter Marlowe olhou para o campo e depois de novo para a barraca e para os bens do Rei, espalhados. Pegou no prato que servira para os ovos e reparou que estava já coberto de pó. Distraidamente, pôs a mesa em pé e pôs-lhe o prato em cima, perdido nos seus pensamentos. Pensamentos em Grey, no Rei, em Samson, em Sean, em Max, em Tex, acerca de onde estava a mulher de Mac, se seria N'ai apenas um sonho, o general e os estranhos, a pátria e Changi.

"Pergunto a mim próprio, pergunto a mim próprio", pensava desesperadamente. "É errado adaptar-se? Errado sobreviver? Que teria eu feito se fosse o Grey? Que teria feito o Grey se fosse eu? Que é o bem e que é o mal?"

E Peter Marlowe sabia, atormentado, que o único homem que podia talvez responder-lhe morrera em mares gelados, no ataque de Murmansk.

Os seus olhos olhavam para as coisas do passado: a mesa onde o seu braço se apoiara, a cama onde se restabelecera, o banco que ele e o Rei tinham compartilhado, as cadeiras em que se tinham rido, já velhas e bolorentas.

Ao canto estava um maço de dólares japoneses. Pegou neles e examinou-os. Depois deixou-os cair, um a um. À medida que as notas pousavam, as moscas apinhavam-se sobre elas, esvoaçavam e voltavam a pousar. Peter Marlowe parou à porta.

- Adeus - disse para todos os objectos que tinham pertencido ao seu amigo. - Adeus e obrigado.

Saiu da barraca e caminhou ao longo do muro da prisão, até chegar à fila de camiões que esperavam pacientemente às portas de Changi.

Forsyth estava ao lado do último camião, contente para além do contentamento, por o seu trabalho ter acabado. Estava exausto e tinha nos olhos a marca de Changi. Deu ordens para que o comboio partisse.

O primeiro camião arrancou e o segundo e o terceiro, e todos os camiões abandonaram Changi, e só uma vez Peter Marlowe olhou para trás.

Quando já estava muito longe.

Quando Changi parecia uma pérola numa concha de ostra cor de esmeralda, um azullaro sob uma taça de céus tropicais, quando Changi se apresentava numa ligeira elevação e rodeada por um cinto de verdura, e mais ao longe o verde cedia a vez aos mares azul-esverdeados e os mares à infinidade do horizonte.

E então, por sua vez, não olhou mais para trás.

Nessa noite, Changi estava deserta. De homens. Mas os insectos permaneciam.

E os ratos.

Esses ainda lá estavam. Por baixo da barraca. E muitos tinham morrido, porque haviam sido esquecidos pelos seus captores. Mas os mais fortes ainda estavam vivos.

"Adão" tentava rasgar a rede para chegar à comida que estava fora da sua gaiola, como tentara durante todo o tempo que nela estivera. E a sua paciência foi recompensada. Um lado da gaiola cedera e ele caiu sobre a comida e devorou-a. E então descansou e com renovada energia atacou outra gaiola e, com o tempo, devorou a carne que lá estava.

Eva" juntou-se a ele e ele saciou-se nela e ela nele. E forragearam em conjunto. Mais tarde, todo o lado da trincheira caiu e muitas gaiolas ficaram abertas, e os vivos alimentaram-se dos mortos. E os vivos fracos tornaram-se alimento dos vivos fortes, até os sobreviventes serem igualmente fortes. E então lutaram entre si e alimentaram-se.

E uAdão" governou, porque era o rei. Até ao dia em que o desejo de ser rei o abandonou. Então morreu, alimento para outro mais forte. E o mais forte era sempre o rei, não só pela força, mas rei pela astúcia, pela sorte e pela força, juntas. Entre os ratos. 

 

                                                                  James Clavell

 

 

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