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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Relembraça / Danielle Stel
Relembraça / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Relembraça

 

Serena, a requintada e sensível Principessa di San Tibaldo, não tem mais nada. Sua querida Itália ficou totalmente arrasada pela Segunda Guerra Mundial, e a ela restou somente seu nome e linhagem. Seu coração, ela dedicou ao major Brad Fullerton, que tragicamente morreu numa batalha, deixando-lhe uma filha. Apesar dos acontecimentos dramáticos, Serena tenta manter-se forte, com coragem o suficiente para lutar por um novo amor, enquanto ensina à filha mais velha a importância de lutar pelos seus amores.

 

          

 

O trem rolava implacavelmente dentro da escuridão italiana, as rodas batendo ritmadamente contra os trilhos. Havia camponeses gordos amontoados por to­da parte, e crianças magricelas e homens de negócios de ar deprimido e hordas de soldados americanos. O trem tinha um cheiro triste, mofado, como o de uma casa que não é limpa há anos e anos, e acrescido a ele o cheiro forte de corpos cansados, há muito tempo sem se lavar, sem se cuidar, sem amar. No entanto, ninguém pensara em abrir uma janela. Ninguém teria coragem. As mulheres idosas dariam gritos como se tivessem sido atacadas, se sentissem o bafo do ar quente da noite. Aquilo as teria ofendido. Tudo as perturbava. Ca­lor, frio, fadiga, fome. Tinham motivos para estar abaladas. Estavam cansadas. Estavam doentes. Tinham sentido fome e frio e medo por muito tempo. Ti­nha sido uma guerra danada de comprida. E agora estava acabada. Já fazia três meses. Corria o mês de agosto de 1945. E o trem continuava rolando im­placavelmente, como já o fazia há dois dias intermináveis.

Serena tomara o trem em Paris, e viajara, sem falar com ninguém, pela França e Suíça, até entrar finalmente na Itália. Esta era a parte final de sua viagem, agora... a parte final... a parte final... As rodas do trem pareciam repetir os seus pensamentos enquanto ela se encolhia num canto, os olhos fe­chados, o rosto apertado contra o vidro. Estava cansada. Deus, como estava cansada. Cada centímetro do corpo lhe doía, até mesmo os braços, que ela apertava contra si, como se estivesse com frio, o que não estava. O calor no trem era sufocante, o cabelo louro e comprido parecia grudado na sua nuca, enquanto o trem começava a diminuir de velocidade, e dali a alguns momen­tos parou, e ela continuou sentada, sem se mexer, perguntando-se se deveria sair e caminhar, nem que fosse por um momento. Ao todo já estava viajando há quase nove dias. Tinha sido uma viagem interminável, e ainda não chegara em casa.

Ficava pensando em casa, lembrando-se dela repetidas vezes. Forçara-se a não soltar um grito de alegria quando cruzaram os Alpes e ela soube que es­tava finalmente de volta à Itália. Mas este era apenas o começo. Na verdade, lembrou a si mesma novamente enquanto abria os olhos lentamente para as luzes fortes da estação, para ela a viagem nem tinha começado. Só começaria na manhã seguinte, quando chegasse ao seu destino, e então visse, descobris­se... finalmente...

Serena esticou-se sonolenta, espichando as pernas longas e graciosas sob o assento à sua frente. Diante dela estavam duas velhas, dormindo, uma muito magra e uma muito gorda, com uma criança magricela espremida entre ambas, como uma oferenda patética de carne rosada entre duas bisnagas de pão ve­lho. Serena as observava, inexpressivamente. Não se podia ler nada nos olhos dela, eram como lagos gelados e verdes de esmeraldas de primeira incrivelmen­te belos, mas com muito pouco calor. Porém havia algo nas profundezas dos olhos da moça. A gente se sentia atraída por eles, como se fosse preciso exa­miná-la para descobrir o que estava pensando, como se fosse preciso olhar para dentro dela... mas não se conseguisse. As portas para a alma de Serena estavam firmemente fechadas, e não havia nada para se ver, exceto a precisão perfeita do seu rosto aristocraticamente desenhado. Tinha a translucidez do mármore branco. No entanto, era um rosto que não se teria coragem de tocar. A despeito da sua juventude e beleza evidentes, não havia nada de convidativo nela, nada simpático, nada caloroso. Ela se cercara de uma aura de distância que mascarava cuidadosamente ternura e vulnerabilidade.

— Scusi.

Murmurou a palavra baixinho enquanto passava pé ante pé pelas mulhe­res adormecidas, e por cima de um velho. Sentia-se mal, às vezes, pelo que pensava, mas estava tão cansada de gente velha. Não vira nada exceto gente ve­lha, desde que chegara. Não sobrara mais ninguém, então? Apenas velhas e ve­lhos, e um punhado de crianças saracoteando feito doidas por toda parte, exibindo-se para os soldados americanos. Estes eram os únicos jovens vistos atualmente. Os americanos, nas suas fardas pardacentas, com os seus sorrisos alegres e dentes perfeitos e olhos brilhantes. Serena vira-os em número sufi­ciente para o resto da vida. Pouco lhe importava de que lado eles estavam. Eram parte da coisa. Usavam fardas, assim como os outros. Que diferença fa­zia a cor das fardas? Pretas ou pardas ou verdes ou... roxas, ou escarlates, ou cor de turquesa, até... Deixou os pensamentos à solta no ar quente da noite... viu as fardas cascatearem do trem às suas costas enquanto estava pa­rada na plataforma, e se virou para olhar para o outro lado. Mesmo de costas, podia ouvi-los parados perto dela, conversando entre si, rindo de alguma pia­da, ou falando baixinho no silêncio da noite, rompido apenas pelos sons me­tálicos do trem.

— Fuma?

Uma mão se estendeu subitamente para Serena, cruzando o seu campo de visão, apesar de estar de costas, e, espantada, sacudiu a cabeça e encolheu os olhos, como que para se proteger ainda mais do que acontecera, do que existira. Pressentia-se algo ferido em Serena; apesar de toda a sua beleza jovem e pujante, pressentia-se que havia algo destroçado, algo danificado, talvez estragado para sempre, como se ela estivesse carregando um fardo terrível, ou existindo a despeito de uma dor quase intolerável.

No entanto não havia nada na superfície que o demonstrasse. Os olhos eram límpidos, o rosto sem vincos. Apesar das roupas feias e amassadas que usava, era de chamar a atenção. E no entanto, se a gente olhasse para além da primeira mirada, não podia deixar de ver a dor. Um dos soldados reparara nis­so, enquanto a observava, e agora, enquanto dava uma última tragada no ci­garro e o largava na plataforma, sentiu os olhos atraídos para ela de novo. Pu­xa, mas era bonita. O cabelo louro quase branco aparecendo sob o lenço de algodão verde-escuro que usava amarrado na cabeça, como se fosse uma cam­ponesa. Mas não convencia. Serena não poderia passar por camponesa, não im­porta o que usasse. A sua postura a denunciava quase que imediatamente, o jeito com que se mexia, o jeito com que virava a cabeça, como uma jovem ga­zela, cheia de graça. Havia algo quase belo demais em Serena. Quase doía olhar para ela por muito tempo. O simples fato de vê-la naquelas roupas sem graça que usava era perturbador. Dava vontade de bater no ombro dela e per­guntar por que — por que está vestida desse jeito, e o que está fazendo metida no meio dessa gentalha neste trem superlotado? E mais perguntas: De onde vi­nha? Para onde ia? E qual o motivo desse seu olhar distante?

Parada na plataforma na escuridão quente do verão, não dava respostas. Apenas ficava ali. Muito ereta, muito alta, muito esbelta, e tão jovem, no ves­tido de algodão amassado. Baixou os olhos para os vincos fundos da fazenda barata e alisou a saia com uma mão longa e delicada, enquanto o seu pensa­mento pareceu se enganchar numa lembrança, num gesto... a mãe fazendo a mesma coisa... a mão perfeitamente tratada alisando a saia de um vestido... um vestido de seda branca... numa festa no jardim do palazzo... Serena apertou bem os olhos por um momento, forçando a lembrança a recuar. Ti­nha que fazer isso com freqüência. Mas as lembranças ainda apareciam.

Um dos soldados a observava enquanto ela abria de novo os olhos e caminhava rapidamente pela plataforma para voltar a embarcar no trem. Parecia estar fugindo de alguma coisa, e ele ficou imaginando do que seria, enquanto ela colocou o pé no degrau do trem e subiu graciosamente de novo, como se acabasse de montar um puro-sangue e fosse cavalgar pela noite adentro. Ob­servou-a atentamente por um longo momento, o corpo alto e magro, os om­bros elegantemente retos. Tinha uma graça extraordinária. Como se fosse al­guém importante. E era.

— Scusi — murmurou baixinho de novo, passando pelo corredor e voltando para o seu lugar, onde soltou um leve suspiro e recostou de novo a ca­beça no banco, mas desta feita não fechou os olhos. Não havia razão. Estava exausta, mas não estava com sono. Como podia dormir agora? Faltando ape­nas algumas horas para chegar. Apenas algumas horas... algumas horas... al­gumas... O trem começou a se mover e a repetir o refrão dos seus pensamentos de novo, enquanto ela fitava a escuridão, sentindo no coração, na alma, nos ossos, que, não importa o que tivesse acontecido, ao menos tinha voltado para casa. Até mesmo o som do italiano sendo falado ao seu redor era um ali­vio, agora.

A paisagem do outro lado da janela do trem era tão familiar, tão confortável, tão parte dela própria, mesmo agora, depois de quatro anos de convívio com as freiras do convento, no norte do Estado de Nova York. Chegar até lá, quatro anos antes, fora outra viagem interminável. Primeiro, cruzar a fronteira para o Ticino com a avó e Flavio, um dos poucos criados que lhes restavam. Depois de terem entrado na parte italiana da Suíça, foram recebidos secreta­mente por duas mulheres armadas, e duas freiras. Fora ali que se separara da avó, com rios de lágrimas escorrendo pelas faces da mocinha, abraçada forte­mente à velha senhora pela última vez, querendo agarrá-la, suplicar-lhe que não a mandasse embora. Já tinha perdido tanto em Roma, há dois anos, quan­do... Não suportava pensar naquilo, ali no ar frio dos Alpes italianos, presa nos braços firmes da avó pela última vez.

— Vá com eles, Serena, e estará segura ali. — Os planos tinham sido cui­dadosamente feitos há quase um mês. Os Estados Unidos. Tão terrivelmente distantes. — E quando tiver terminado, você voltará para casa.

Quando tiver terminado... mas quando terminaria? Enquanto ficavam paradas ali, Serena sentia como se já tivesse durado uma vida, dez vidas. Aos 14 anos já suportara dois anos de guerra e perda e medo. Não tanto o seu me­do, mas o dos outros. Os adultos viviam com o terror constante de Mussolini. A princípio, as crianças tinham fingido que não se importavam. Mas era pre­ciso se importar. Mais cedo ou mais tarde, os acontecimentos faziam com que você se importasse. Mais cedo ou mais tarde, tudo aquilo agarrava você pela garganta e sufocava você até que pensasse que ia morrer.

Ainda se lembrava da sensação... de ver o pai sendo arrastado pelos homens de Mussolini... vê-lo tentando não gritar, parecer corajoso enquanto tentava, impotente, proteger a mulher com os olhos. E depois os sons horríveis do que fizeram com ele no pátio do palazzo, e os barulhos terríveis que ele finalmente fizera. Porém eles não o mataram ali na hora. Esperaram até o dia seguinte, e fuzilaram-no junto com meia dúzia de outros no pátio do Pa­lazzo Venezia, onde Mussolini tinha o seu quartel-general. A mãe de Serena ti­nha estado presente quando o mataram, suplicando, implorando, gritando, chorando, enquanto os soldados riam. A Principessa di San Tibaldo rastejando enquanto suplicava, enquanto os homens debochavam dela e a atormentavam. Um deles agarrara-a pelos cabelos, beijara-a rudemente, depois cuspira e a jo­gara ao chão. E tudo acabou dali a momentos. O pai de Serena pendia frouxa­mente do poste ao qual o haviam amarrado. A mãe correu para ele, soluçan­do, e o abraçou por um último momento, antes que, quase que por diversão, eles a matassem a tiros, também. E tudo por quê? Porque eram aristocratas.

Porque o seu pai odiava Mussolini. Naquela época a Itália estava doente, com um tipo especial de veneno. Um veneno baseado no ódio e na paranóia e na cobiça e no medo. Um horror que virava irmão contra irmão, e às vezes mari­do contra mulher. Virara o tio de Serena contra o pai dela, com uma paixão que Serena não podia compreender. O pai dela achava que Mussolini era um selvagem, um palhaço, um idiota, e não escondia a sua opinião, mas o irmão dele fora incapaz de aceitar as suas diferenças. Sérgio di San Tibaldo tornara-se o capacho de Mussolini no começo da guerra. Foi Sérgio quem denunciou Umberto, quem insistiu que Umberto era perigoso e meio louco, que estava envolvido com os Aliados, quando, na verdade, não estava. A verdade era que Sérgio ganharia um bocado se pudesse se livrar de Umberto, e ele assim o fez. Como filho mais moço, não herdara praticamente nada do pai, apenas a fazen­da em Umbria, que ele detestara desde criança. E nem podia vendê-la. Era sua em usufruto, e depois era obrigado a deixá-la para os seus filhos, ou para os de Umberto, se ele próprio não os tivesse. No que dizia respeito a Sérgio, o ir­mão mais velho tinha tudo, o título, o dinheiro, a beleza, o palazzo que estava na família há sete gerações, as obras de arte, a importância, o encanto, e Graziella, a fagulha final que incendiara o seu ódio pelo irmão mais velho.

Ele odiava o pai dela mais do que tudo por possuir Graziella, a fada dourada com os incríveis olhos verdes e o cabelo de fios de ouro. Era encanta­dora, e ele a amava desde menino. Amara-a sempre... sempre... quando to­dos passavam os verões juntos em Umbria ou San Remo ou Rapallo, quando ela era uma garotinha. Porém ela sempre amara Umberto. Todos amavam Um­berto... todos... especialmente Graziella.

Sérgio se ajoelhara, soluçando, no enterro dela em Santa Maria Maggiore, perguntando-se por que tudo aquilo acontecera. Por que ela se casara com Umberto? Por que correra para junto dele depois que estava morto? Ninguém no enterro compreendera integralmente o papel que Sérgio desempenhara na morte do irmão e da cunhada. Para os amigos sempre parecera ser ineficaz, um fraco. E agora ninguém sabia a verdade, exceto a avó de Serena. Fora ela que cutucara e bisbilhotara e indagara e fizera pressão em todos os lugares cer­tos, ela que pressionara a todos que conhecia, até saber a verdade. Somente ela fora corajosa o bastante para confrontá-lo numa fúria de horror e sofrimen­to tão avassaladora que, quando tudo acabou, Sérgio compreendeu como ja­mais compreendera o pesadelo do que fizera ao sangue do seu sangue. E para quê? Um palazzo de mármore branco? Uma mulher que morrera aos pés do marido, e que, de qualquer modo, jamais amara outro que não ele? Para que o fizera, berra a mãe dele. Pelo amor de Mussolini?

— Aquele porco, Sérgio? Aquele porco? Você matou o meu primogêni­to por causa dele?

Ele tremera ante a fúria da mãe, e soubera que ia passar o resto da vida tentando viver com a verdade. Negara tudo para a mãe, negara que tivesse traído Umberto, negara que tivesse feito qualquer coisa. Mais ela sabia, como Se­rena sabia. Os seus olhos verdes e brilhantes fitavam-no de modo penetrante no enterro, e ele ficara grato por poder finalmente escapar. Incapaz de lutar con­tra as forças de Mussolini, e sem querer expor o horror do fratricídio do filho aos olhos do mundo, a idosa Principessa di San Tibaldo pegara Serena e os criados mais antigos e os afastara de Roma. O palazzo agora era dele, disse-lhe, parada por um último momento no corredor de mármore branco e negro fortemente iluminado. Nunca mais desejava vê-lo, ou aquela casa. Ele não era mais o seu filho, era um estranho, e por um último momento fitou-o com lá­grimas marejando os olhos velhos e sábios. A seguir, sacudiu a cabeça lenta­mente e caminhou porta afora, em silêncio.

Ela e Serena nunca mais tinham visto o tio, ou a casa, ou Roma. Sere­na tinha 12 anos quando cruzou pela última vez as portas de bronze ricamen­te decoradas da Via Giulia, e no entanto, parada ali no ar frio dos Alpes, dois anos mais tarde, sentia-se como se tivessem saído de Roma naquela tarde. Ti­nham sido dois anos difíceis, anos de luta contra as lembranças dos sons do pai sendo espancado pelos soldados no pátio, da expressão desesperada da mãe ao sair correndo da casa no dia seguinte, mal tendo passado um pente nos cabelos, os olhos arregalados de medo, um casaco de lã vermelho a cobri-la da visão dos dois corpos onde os soldados os haviam deixado, junto ao portão, largados sobre os degraus de mármore branco, o sangue escorrendo lentamente na grama... e dos gritos intermináveis de Serena, quando os viu ... largados ali... via-os até mesmo enquanto se despedia da avó. As lembran­ças ainda não estavam esmaecidas, e agora ela também a estava perdendo. Perdendo-a por estar sendo mandada para longe, para a segurança, insistira a avó. Mas, o que era seguro agora? Nada era seguro, sabia Serena aos 14 anos. Nada jamais seria seguro de novo. Nada. Exceto pela avó, tinha perdido tudo.

— Escreverei para você, Serena, prometo. Todos os dias. E quando a Itália for um bom lugar de novo, você voltará e morará comigo. Eu prometo, minha querida. Prometo...

A despeito da sua força, a principessa engasgara nas últimas palavras en­quanto abraçava Serena, este último pedaço da sua carne, este último elo com o seu primogênito. Não teria mais ninguém, quando Serena se fosse. Mas não havia escolha. Ficar era perigoso demais para a criança. Três vezes nos dois úl­timos meses os soldados na Piazza San Marco tinham abordado Serena. Mes­mo usando roupas feias e simples a menina era linda demais, alta demais, femi­nina demais, mesmo aos 14 anos. O último a tinha seguido da escola até em casa, e a agarrara rudemente pelos braços e a beijara, apertando-a contra uma parede, esmagando-a com o corpo. Um dos criados vira-os ali, Serena arquejante e assustada, os olhos arregalados de terror, porém calada, com medo de que, desta vez, eles a levassem embora, ou levassem a avó. Ficara apavorada com os rostos dos soldados e as suas risadas e os seus olhos. E a mulher mais velha sabia a cada dia que havia perigo para Serena, que deixá-la sair de casa era perigoso para a mocinha. Não havia como controlar os soldados, como pro­teger Serena da loucura que parecia a tudo dominar. Qualquer dia desses um pesadelo podia desabar sobre elas, e antes que isso acontecesse, Alicia di San Tibaldo sabia que tinha que salvar a neta. Levara várias semanas para achar uma solução, mas quando o bispo a sugeriu discretamente, ela soube que não tinha escolha. Mansamente, naquela noite, contou o plano a Serena. A prin­cípio a menina chorara, suplicara, implorara para não ser mandada embora, e ainda mais para tão longe assim! Podia ir para a fazenda em Umbria, podia esconder-se ali, podia cortar o cabelo, usar roupas feias, trabalhar nos campos... podia fazer qualquer coisa, mas por favor, nonna... por favor... Os seus soluços desesperados não surtiram efeito. Deixar que ficasse na Itália era destruí-la, era arriscá-la diariamente, caminhar constantemente na corda bamba, sabendo que podia ser morta, ou ferida, ou estuprada. A única coi­sa que restava para a avó fazer era mandá-la para longe, até o fim da guerra. E ambas sabiam, paradas ali, do outro lado da fronteira suíça, que isso ainda podia demorar muito.

— Você vai voltar logo, Serena. E eu estarei aqui, minha querida. Haja o que houver.

Rezava para que não estivesse mentindo, enquanto rios de lágrimas escorriam dos olhos da mocinha, e os ombros esguios tremiam nas suas mãos.

— Me Io prometti? — Você promete? Mal podia enunciar as palavras. A mulher idosa assentiu mudamente e beijou Serena pela última vez, e depois, com um aceno de cabeça para as duas mulheres e as freiras, recuou graciosamente e as freiras envolveram os ombros de Serena e começaram a levá-la embora. Ela teria que caminhar vários quilômetros naquela noite, até o convento delas. No dia seguinte, seria levada com um grupo de outras crian­ças até outro convento da mesma ordem, a algumas centenas de quilômetros de distância. Iriam de ônibus. De lá, passariam para outro grupo, até serem leva­das para fora da Suíça. O seu destino era Londres, e de Londres seguiriam para os Estados Unidos. Seria uma viagem longa e difícil, e havia sempre o perigo dos bombardeios em Londres, ou na viagem por mar. O caminho que Alicia esco­lhera para a neta era de possível perigo, e de uma chance ainda maior de se­gurança e sobrevivência. Ficar na Itália significaria desastre certo, de uma forma ou de outra, e ela morreria antes de deixar que tocassem em Serena. Devia isso a Graziella e Umberto, depois do que Sérgio fizera. Não tinha mais ninguém agora, exceto Serena... um pontinho marrom-escuro, o cabelo dou­rado dentro de um gorro de tricô... enquanto atingiam o último outeiro e se viravam, um último aceno por parte de Serena, e depois desapareciam.

Para Serena tinha sido uma viagem longa e aterradora, incluindo cinco dias e noites em abrigos antiaéreos em Londres, até que finalmente fugiram para o campo, e depois saíram de Dover, num cargueiro. A travessia para os Estados Unidos fora sombria, e Serena passara dias sem dizer uma palavra. Não falava in­glês. Várias das freiras que os acompanhavam falavam francês, assim como Se­rena, mas ela não tinha vontade de falar com ninguém. Perdera todos, agora. Todos e tudo. Os pais, o tio, a avó, a casa, e finalmente o país. Não restava na­da. Ficava parada no convés, uma figura solitária de marrom e cinza, com o vento fustigando os longos cabelos louro-claros à volta da sua cabeça. As frei­ras a observavam, sem dizer nada. A princípio tiveram medo de que fizesse al­go desesperado, mas com o passar do tempo vieram a compreende-la. Podia-se aprender muito sobre a menina, simplesmente observando-a. Tinha um ar ex­traordinário de dignidade. Dava para se sentir a sua força e o seu orgulho, e ao mesmo tempo a sua dor e a sua perda. Havia outros no grupo de crianças que ia para os Estados Unidos que tinham sofrido perdas semelhantes à de Serena, duas das crianças tinham perdido os pais e todos os irmãos e irmãs em ataques aéreos, vários tinham perdido pelo menos um dos pais, todos tinham perdido amigos queridos. Porém Serena perdera algo mais. Quando soube da traição do tio, perdera igualmente a fé e a confiança nas pessoas. A única pessoa em quem confiara nos dois últimos anos fora a avó. Não confiava em mais nin­guém. Nem nos criados, nem nos soldados, nem no governo. Em ninguém. E agora a única pessoa com quem podia contar não estava perto dela. Quando se olhava nos olhos verdes profundos, via-se uma tristeza sem fim que despeda­çava o coração, um sofrimento incomensurável, um desespero visível nos olhos infantis apenas em época de guerra.

Com o tempo, a expressão de tristeza ficou menos aparente. Depois de ter chegado no convento, no norte do Estado de Nova York, ela até ria, embora raramente. Era geralmente séria, intensa, quieta, e cada momento livre era passado escrevendo para a avó, fazendo mil perguntas, contando-lhe cada detalhe de cada dia.

Foi na primavera de 1943 que as cartas da principessa pararam de chegar. A princípio Serena ficara ligeiramente preocupada, e depois tornou-se óbvio que estava profundamente angustiada. Finalmente, passou a ficar acor­dada todas as noites, apavorada, questionando-se, imaginando, temendo, e depois odiando... era Sérgio de novo... ele fora a Veneza matar a avó, tam­bém. Ele o fizera, imaginava ela, porque a avó sabia da verdade sobre o que ti­nha feito ao irmão, e ele não suportava que alguém soubesse, assim matara-a, e um dia tentaria matar Serena também. Ele que tentasse, pensou, os olhos verdes extraordinários apertando-se com uma maldade que nem ela sabia ser capaz de possuir. Ele que tente, eu o matarei primeiro, eu o verei morrer len­tamente, eu...

— Serena? — Havia uma luz fraquinha no corredor, e a madre superiora aparecera à porta, naquela noite. — Algum problema? Teve más notícias de casa?

— Não.

As paredes tinham se levantado rapidamente, enquanto Serena se sentava na cama e sacudia a cabeça, os olhos verdes instantaneamente velados.

— Tem certeza?

— Tenho, obrigada, madre, foi bondade sua perguntar.

Não se abria com ninguém. Exceto com a avó, nas cartas diárias, que não tinham tido resposta há quase dois meses. Ela saltou rapidamente para o piso frio e ficou parada ali na camisola simples de algodão, uma cortina de ca­belos louros caindo sobre os ombros, o rosto uma maravilha delicadamente cinzelada, digna de uma estátua, e verdadeiramente notável numa mocinha de apenas 16 anos.

— Posso me sentar? — perguntou a madre superiora, olhando meigamen­te para Serena.

— Pode, madre.

Madre Constance sentou-se na única cadeira de madeira do quarto, enquanto Serena ficou parada por um momento, depois voltou a sentar-se na ca­ma, sentindo-se pouco à vontade, as suas preocupações ainda evidentes no olhar.

— Não há nada que eu possa fazer por você, filha? — Os outros tinham feito daqui um lar. Os ingleses, os italianos, os holandeses, os franceses. Há quatro anos que o convento estava cheio de crianças trazidas da Europa, a maioria das quais acabaria por voltar, se as suas famílias sobrevivessem à guer­ra. Serena era mais velha do que a maioria. Além de Serena, a criança mais ve­lha tinha 12 anos ao chegar, as outras eram bem mais moças, de cinco, seis, sete, nove anos. Mas os outros tinham adquirido um à vontade, como se não viessem de um lugar mais exótico do que Poughkeepsie, como se não enten­dessem de guerras e não tivessem temores reais. Os temores existiam, e às ve­zes; à noite, havia pesadelos, mas, no todo, eram um grupo estranhamente despreocupado. Ninguém acreditaria nas histórias que precediam a sua chega­da, e na maioria dos casos não havia sinais visíveis da tensão da guerra. Porém Serena fora diferente desde o começo. Apenas a madre superiora e duas ou­tras freiras conheciam totalmente a sua história, escrita pela avó numa carta que chegou pouco depois da sua entrada no convento. A principessa achara que elas deviam conhecer tudo sobre a menina, porém elas não tinham sabido de nada pela boca da própria Serena. Ao longo dos anos, nunca se abrira com elas. Ainda não.

— O que a está preocupando, minha filha? Não se sente bem?

— Estou bem... — Houve apenas uma fração de segundo de hesitação, como se, por um instante, ela tivesse chegado a pensar em abrir uma porta sa­grada. Era a primeira vez, e desta feita a Madre Constance achou que devia ser persistente. Mesmo que fosse doloroso para Serena revelar os seus sentimen­tos, era óbvio que a garota estava sofrendo mais do que antes. — Eu... é só que... — Madre Constante não disse nada, mas os olhos fitavam Serena com tanta ternura que ela não pôde resistir mais. Ficou parada com os olhos cheios de lágrimas, que começaram a escorrer pelas suas faces. — Há quase dois meses que não recebo cartas da minha avó.

— Sei. — Madre Constance assentiu lentamente. Não acha que poderia estar viajando?

Serena sacudiu a cabeça e enxugou as lágrimas com a unha longa e gra­ciosa.

— Aonde iria?

— A Roma, quem sabe? Para tratar de negócios de família?

Os olhos de Serena ficaram instantaneamente duros.

— Não tem mais negócios lá!

— Sei. — Não queria forçar mais a garota. — Pode ser que esteja ficando cada vez mais difícil fazer passar a correspondência. Até mesmo de Londres a correspondência está lenta.

Durante toda a sua estada em Nova York, as cartas da avó lhe chegavam através de uma rede intricada de canais subterrâneos e marítimos. Não fora uma tarefa fácil fazer as cartas chegarem da Itália até os Estados Unidos. Mas elas sempre tinham vindo. Sempre.

Serena fitou-a com olhar perscrutador.

— Não acho que seja isso.

— Existe mais alguma pessoa a quem possa escrever?

— Só uma. — Havia apenas uma velha criada ali, agora. Todos os demais tinham tido que ir embora. Mussolini não permitia a ninguém da velha guarda conservar tantos criados quanto a principessa estava conservando. Era-lhe permitido ter uma criada, e apenas uma. Alguns dos outros tinham querido continuar com ela, sem receber pagamento, mas não fora aprovado. E o bispo morrera no inverno anterior, portanto não havia mais ninguém a quem pudes­se escrever.

— Vou escrever para Marcella amanhã. — Sorriu pela primeira vez desde que a freira entrara no quarto. — Devia ter pensado nisso antes.

— Estou certa de que a sua avó está bem, Serena.

Serena meneou a cabeça, lentamente. Ela própria não estava tão certa, já que a avó acabara de fazer 80 anos. Mas ela não mencionara estar doente, ou não se sentir bem. Não havia motivo para achar que havia algo errado. Ex­ceto pelo silêncio... que continuou, sem explicações. A carta para Marcella foi devolvida para Serena quatro semanas após tê-la escrito, fechada, com uma anotação rabiscada pelo carteiro de que Marcella Fabiani não morava mais naquele endereço. Será que tinham ido para a fazenda? As coisas deviam estar piores em Veneza. Com um sentimento crescente de pânico, Serena fi­cou cada vez mais calada e tensa. Escreveu para a avó na fazenda em Umbria, então, mas a carta também voltou. Escreveu para o capataz, e a carta foi de­volvida com a anotação "Falecido". Durante as primeiras semanas, e depois meses, sentira pânico e desespero, mas com o tempo o terror diminuíra para uma dor surda. Alguma coisa acontecera, não havia dúvidas, mas não parecia haver jeito de conseguir uma explicação. Não restava ninguém. Nenhuma pessoa da família, exceto Sérgio, é claro. E agora, no seu desespero, não havia para onde Serena pudesse se voltar. Só o que podia fazer era esperar até que pudesse retornar à Itália e descobrir por si mesma.

Ainda havia dinheiro suficiente para fazer isso. Quando Serena partira, a avó lhe colocara nas mãos um maço gordo de notas americanas. Não tinha idéia de como a velha senhora conseguira o dinheiro americano, mas chegava a mil dólares, quando Serena o contara discretamente, sozinha no banheiro, no dia seguinte. E as freiras tinham recebido mais 10 mil através de complica­dos canais internacionais, para a sua manutenção e o que ela pudesse precisar durante a sua estada no convento. Serena sabia que sobrava muito daquela quantia. E a cada noite, deitada na cama, pensando, planejava usar o dinheiro para voltar para a Itália no momento em que a guerra tivesse terminado. Iria diretamente para Veneza, para descobrir, e se alguma coisa tivesse acontecido à velha senhora por causa de Sérgio, iria diretamente para Roma a seguir, para matá-lo.

Era um pensamento que nutria há quase dois anos. A guerra terminara na Europa em maio de 1945, e desde o momento em que terminou ela come­çou a fazer planos para voltar. Alguns dos outros ainda esperavam para ter no­tícias dos pais, dizendo que tudo estava pronto para a sua volta, porém Sere­na não tinha nada por que esperar, exceto a sua passagem, os seus documen­to. Nem mesmo precisava da permissão das freiras. Tinha mais de 18 anos, e completou 19 no dia da vitória dos Aliados sobre o Japão, no trem. Pareceu levar uma eternidade para conseguir a passagem para a Europa, mas finalmen­te a conseguiu.

Madre Constance levara-a até o navio, em Nova York. Abraçou Serena durante longo tempo.

— Lembre-se, minha filha, não importa o que tenha acontecido, você não pode mudar nada. Não agora. Nem poderia ter mudado, na época. Você estava onde ela queria que estivesse. E foi certo para você estar aqui, conosco.

Serena afastou-se dela, então, e a freira idosa viu que as lágrimas escor­riam pelas faces delicadas e inundavam os imensos olhos verdes que pareciam mais brilhantes do que qualquer esmeralda, enquanto a moça ficava ali, divi­dida entre a afeição e o terror, o sofrimento e o pesar.

— A senhora foi tão boa para mim durante todos esses anos, madre.

Abraçou Madre Constance mais uma vez, o apito do navio soou de novo, desta vez com mais insistência, a freira imponente saiu do camarote. As suas últimas palavras para Serena foram:

— Vá com Deus.

Serena ficou a vê-la acenar para ela do cais, enquanto acenava freneticamente do navio, desta feita com um sorriso no rosto.

Isso fora há apenas nove dias. Lembranças de Madre Constance pareciam encher-lhe a mente enquanto Serena olhava pela janela e via que a alvo­rada chegara, enquanto o trem corria. Fitou o céu rosa e cinza com espanto, enquanto percorriam campos que não tinham sido trabalhados há anos, e que deixavam ver os sinais das bombas, e o seu coração se confrangeu pelo seu país, pelo seu povo, pela gente que sofrera enquanto ela estava nos Estados Unidos. Sentia que devia algo a todos eles, um pedaço de si mesma, do seu co­ração, da sua vida. Enquanto ela comia peru assado e tomava sorvete no Hudson, eles sofriam e lutavam e morriam. E agora, cá estavam, juntos, os sobrevi­ventes, na alvorada de uma nova era, uma nova vida. Sentiu o coração subir dentro do peito enquanto o trem continuava a sua viagem, e ela observava o sol se levantar no céu matinal. O dia tinha finalmente chegado. Ela estava em casa.

Dali a meia hora alcançavam a Estação Santa Lúcia, e lentamente, quase sem fôlego, ela saltou do trem, atrás das velhas, das crianças, dos velhos desdentados, dos soldados, e ficou ali, na porta dos fundos de Veneza, olhando para a mesma cena que vira duas vezes por ano em criança, quando ela e os pais vinham de Roma para fazer uma visita. Porém eles não existiam mais, e estas não eram as férias da Páscoa. Este era um novo mundo, e uma nova vida, e enquanto se afastavam lentamente da estação, fitava o sol forte que brilhava nos prédios antigos e nas águas do canal. Algumas gôndolas oscilavam junto à plataforma, e uma frota de barcos rondava o cais, os pilotos gritando para os prováveis passageiros, e repentinamente tudo se movia freneticamente ao seu redor, e enquanto olhava, Serena sorriu pela primeira vez em dias. Era um sor­riso que não sentia intimamente há anos.

Nada mudara, e tudo mudara. A guerra viera e se fora, acontecera um holocausto, Serena perdera todos, assim como inúmeras outras pessoas, e no entanto cá estava ela, como estava há séculos, em todo o seu esplendor dou­rado: Veneza. Serena sorriu consigo mesma e depois, andando depressa, jun­tamente com os outros, riu baixinho. Atingira a maioridade naquele momen­to final, e agora estava em casa.

— Signorina! — gritava um gondoleiro, fitando com admiração as suas pernas longas e graciosas. — Signorina!

— Si... gondola, per piacere.

Eram palavras que dissera mil vezes, antes. Os pais sempre deixavam que ela escolhesse aquela que queria.

— Ècco.

Ele fez uma mesura, ajudou-a a se sentar, guardou a única mala castiga­da, e ela lhe deu o endereço e se recostou no banco, enquanto o gondoleiro entrava habilmente no tráfego tumultuado de barcos do Grande Canal.

 

Enquanto o gondoleiro descia lentamente o Grande Canal, Serena ficou recostada, observando admirada enquanto as lembranças se desfraldavam, lembran­ças que mal se permitira ter em quatro anos, e repentinamente cá estava tudo. Com o sol rebrilhando no seu corpo dourado, o Espírito Guardião da Alfânde­ga parecia observá-la enquanto passavam majestosamente por baixo, a gôndola se movendo no ritmo familiar que ela praticamente esquecera e que a encan­tara tão extravagantemente, quando criança. E assim como permaneceram inalterados ao longo de séculos de história italiana, os marcos de Veneza con­tinuavam a aparecer com uma beleza que ainda lhe tirava o fôlego, o Ca' d'Oro em todo o seu esplendor, e o Ca' Pesaro, e as minúsculas piazzas e pequenas pontes, e subitamente a Ponte di Rialto, enquanto deslizavam lentamente por sob ela, e entravam ainda mais no Grande Canal, passando por incontáveis palazzi: Grimani, Papadopoli, Pisani, Mocenigo, Contarini, Grassi, Rezzonico, todos os mais esplêndidos e visíveis palácios de Veneza, até que subitamente foram impelidos suavemente sob a Ponte de U'Accademia, passando pelos Jar­dins Palaciais de Franchetti e o Palazzo Dario, e a Igreja de Santa Maria delia Salute, que ficava graciosamente à direita, enquanto a gôndola passou subita­mente diante do Palácio dos Doges e o Campanário, e se encontrou quase ins­tantaneamente diante da Piazza San Marco. Ele diminuiu a velocidade, ali, e Serena fitou-a, maravilhada, a sua beleza devastadora deixando-a sem fala, en­quanto paravam. Sentiu-se como os venezianos antigos deviam ter-se sentido, depois de viagens intermináveis aos portos estrangeiros, apenas para voltar e redescobrir com assombro e encantamento o que tinham deixado para trás.

— Lindo, hem, signorina!

O gondoleiro olhou para San Marco com orgulho, depois voltou a olhar para ela. Mas ela apenas balançou a cabeça. Era extraordinário estar de volta depois de tantos anos, no entanto nada mudara ali. O resto do mundo virara de cabeça para baixo, mas até mesmo a guerra não tocara em Veneza. As bombas tinham caído perto, porém, milagrosamente, Veneza em si permanecera into­cada. Ele deslizou lentamente sob a Ponte di Paglia, e depois, rapidamente, sob a ilustre Ponte dei Sospiri, a Ponte dos Suspiros, e depois entrou no labi­rinto de canais menores, passando por outros palazzi menos importantes e por estátuas antigas entalhadas nas fachadas magníficas. Havia sacadas e minúscu­las piazzas e por toda parte o esplendor pomposo que atraía as pessoas a Ve­neza há mil anos.

Porém agora Serena não estava mais fascinada pela arquitetura. Desde que haviam entrado no labirinto de canais menores, o rosto dela ficara tenso, e a testa se lhe enrugara ao ver os marcos familiares irem passando. Estavam chegando mais perto, agora, e as respostas às perguntas que a atormentavam há dois anos estavam ficando ao seu alcance.

O gondoleiro virou-se para confirmar o endereço com ela, e então, ten­do visto o seu rosto, não disse mais nada. Já sabia. Outros tinham voltado para casa, antes. Soldados, na sua maioria. Alguns tinham sido prisioneiros de guerra e haviam retornado para encontrar as mães, as namoradas, as esposas. Ficou imaginando quem esta jovem beldade estaria procurando, e onde tinha estado. Fosse lá o que estivesse procurando, esperava que o encontrasse. Esta­vam agora a curta distância da casa e Serena já a avistara. Viu as persianas caindo das dobradiças, tábuas cobrindo algumas das janelas, e o canal estreito lambendo os degraus de pedra logo abaixo do gradil de ferro na plataforma. Quando o gondoleiro se aproximou do prédio, Serena se pôs de pé

 — Quer que toque o sino para a senhorita?

Havia um velho sino à moda antiga, e uma aldrava, mas Serena sacudiu rapidamente a cabeça. Ele segurou-lhe o braço para dar-lhe firmeza enquanto ela pisava cuidadosamente na plataforma, e por um instante ele ergueu os olhos para as janelas escurecidas, compreendendo bem a história que conta­vam.

Hesitou por um momento interminável, e depois puxou rapidamente a corrente do sino, e fechou os olhos enquanto esperava, voltando o pensamen­to para todas as outras vezes em que sua mão tocara o sino... esperando... contando os momentos até que um dos velhos rostos familiares aparecesse, a avó logo atrás, sorridente, querendo abraçar Serena e subir correndo com ela, alegremente, os degraus que levavam ao salão principal... as tapeçarias, os ri­cos brocados... as estátuas... as miniaturas dos exóticos cavalos de cobre de San Marco no topo da escada... e, desta feita, apenas o silêncio e os sons do Canal às suas costas. Parada ali, Serena soube que ninguém atenderia ao sino.

— Non c'è nessuno, signorina? — perguntou o gondoleiro. Mas era uma pergunta inútil. Não, claro que não havia ninguém em casa, e isso há anos. Por um momento os olhos de Serena pousaram na aldrava, querendo experimen­tá-la, também, para trazer alguém das profundezas conhecidas lá de dentro, para fazer com que abrissem a porta, para fazer com que forçassem o relógio a andar para trás, para ela.

— Ei!... Ei! — Era um som insistente às suas costas, quase um som agressivo, e ela se virou para ver um quitandeixo passando no seu barco, olhando-a com desconfiança. — Não está vendo que não há ninguém aí?

— Sabe onde estão? — gritou Serena para o outro barco, saboreando o som do seu idioma de novo. Era como se nunca tivesse ido embora. Os quatro anos nos Estados Unidos não existiam.

O quitandeiro deu de ombros.

— E quem sabe? — Depois, filosoficamente: — A guerra... muita gente se mudou.

— Sabe o que aconteceu com a mulher que morava aqui? — Uma ponta de desespero estava voltando à voz de Serena, e o gondoleiro observava o ros­to dela, quando apareceu um carteiro numa barcaça, olhando para Serena com interesse.

— A casa foi vendida, signorina. — O carteiro respondeu à pergunta.

— Para quem? Quando? — Serena pareceu repentinamente chocada. Vendida? A casa fora vendida? Nunca pensara nessa possibilidade. Porém, por que a avó venderia a casa? Será que estava com pouco dinheiro? Isto jamais ocorrera a Serena antes.

— Foi vendida no ano passado, quando ainda estávamos em guerra. Um pessoal de Milão foi quem a comprou. Disseram que quando a guerra acabas­se iam se aposentar e mudar para Veneza... ajeitar a casa... — Deu de om­bros, e Serena sentiu-se ficar irritada. "Ajeitar a casa." Que diabo queria dizer com isso? O que eles queriam dizer? Ajeitar o quê? Os bronzes, as antigüida­des valiosíssimas, os pisos de mármore? Os jardins impecáveis na parte de trás da casa? O que havia para ajeitar? Enquanto a observava, o carteiro entendeu a sua dor. Puxou o barco para junto da plataforma e olhou para o rosto dela. — Ela era amiga sua... a velha senhora? — Serena fez que sim, lentamente, sem coragem para dizer mais nada. — Ècco. Capisco allora. — Pensava que en­tendia, mas não entendia. — Ela morreu, sabe. Faz dois anos. Na primavera.

— De quê?

Serena sentiu o corpo todo amolecer, como se alguém lhe tivesse retirado subitamente todos os ossos. Pensou por um momento que ia desmaiar. Eram as palavras que esperava, as palavras que temia, mas agora as estava ou­vindo, e a cortaram como uma faca. Queria que ele estivesse errado, mas en­quanto olhava para o rosto idoso e gentil, soube que não estava. A sua avó es­tava morta.

— Ela era muito velha, sabe, signorina. Tinha quase noventa anos.

Serena sacudiu a cabeça, quase distraidamente, e falou baixinho:

— Não, fez oitenta naquela primavera.

— Ah. — Falou gentilmente, tentando oferecer consolo, mas sem saber como. — O filho dela veio de Roma, mas apenas por dois dias. Eu soube depois que ele mandou tudo para Roma. Tudo, todas as coisas dela. Logo a se­guir botou a casa à venda. Mesmo assim, levaram um ano para vendê-la.

Então era Sérgio de novo, pensou Serena consigo mesma. Sérgio. Ele mandara tudo para Roma.

— E as cartas dela? — Parecia zangada, agora, como se dentro de si hou­vesse algo começando lentamente a arder. — Para onde foi a sua correspon­dência? Foi enviada para ele?

O carteiro assentiu.

— Exceto as cartas para os criados. Mandou que estas, eu devolvesse. — En­tão, Sérgio recebera todas as cartas dela. Por que não lhe avisara? Por que alguém não lhe escrevera contando? Por mais de dois anos quase ficara maluca, esperando, imaginando, fazendo perguntas que ninguém podia responder. Mas ele podia ter respondido, o filho da mãe.

— Signorina? — O carteiro e o gondoleiro esperavam. — Va bene?

Ela fez que sim, lentamente.

— Si... si... grazie... Eu estava apenas...

Já ia dar uma explicação, mas em vez disso os seus olhos ficaram cheios de lágrimas. Desviou o rosto, e os dois homens trocaram um olhar.

— Sinto muito, signorina.

Ela balançou a cabeça, ainda de costas, e o carteiro seguiu o seu caminho. Apenas o gondoleiro esperava.

Dali a um momento, depois de uma última olhada para as dobradiças enferrujadas do portão, tocou na corrente do sino mais uma vez, como que fa­zendo contato com algum pedaço dela, alguma parte tangível do passado, como se ao tocar em algo que a avó tocara pudesse tornar-se parte dela de no­vo, e depois voltou devagarinho para a gôndola, sentindo como se alguma par­te vital sua tivesse morrido. Então Sérgio finalmente conseguira o que queria... o título. Odiava-o. Queria que engasgasse com o seu título, apodreces­se no seu sangue, tivesse uma morte bem mais horrível do que a do pai de­la, que...

— Signorina? — O gondoleiro ficava vendo o rosto dela se contorcer de raiva e angústia, e se perguntou que agonia tomara conta da sua alma para fa­zer alguém tão jovem parecer tão atormentada. — Aonde gostaria de ir, agora?

Ela hesitou por um momento, sem ter certeza. Devia voltar para a estação de trem? Não estava pronta. Ainda não. Havia algo que precisava fazer primeiro. Virou-se para o gondoleiro, lembrando-se perfeitamente da igrejinha. Era encantadora, e talvez alguém de lá soubesse mais alguma coisa.

— Por favor, leve-me ao Campo Santa Maria Nuova.

— Maria dei Miracoli? — perguntou, mencionando a igreja aonde ela queria ir. Fez que sim, e ele a ajudou a voltar para a gôndola e se afastou deva­gar da plataforma, enquanto os olhos dela fixavam-se interminavelmente na fachada que sempre recordaria, e que jamais voltaria para ver de novo. Esta se­ria a sua última viagem a Veneza. Sabia disso, agora. Não tinha motivo para voltar. Não tinha mais.

Encontrou Santa Maria dei Miracoli tão bem como se lembrava dela, quase oculta pelos muros altos, e tão simples externamente quanto se recordava. Era do lado de dentro que Maria dos Milagres mostrava as suas maravilhas, do lado de dentro que as incrustações de mármore e entalhes delicados espan­tavam o recém-chegado com a sua beleza, e ainda fascinavam aqueles que a conheciam bem, depois de vê-la durante dúzias de anos. Serena ficou ali para­da, por um momento, sentindo a avó ao seu lado, como sentira todos os domin­gos, quando vinham à missa. Ficou ali em silêncio, por alguns momentos, de­pois caminhou lentamente até o altar, ajoelhando-se, tentando desesperadamente não pensar... no que fazer agora... aonde ir...

Ficar remoendo a sua perda não a ajudaria em nada. Porém, mesmo assim, a realidade dela era quase intolerável, e duas lágrimas solitárias rolaram lentamente pelas suas faces, até o queixo delicadamente desenhado. Levan­tou-se logo depois e foi até o escritório que ficava nos fundos da igreja, ten­tando encontrar o padre. Havia um velho de batina sentado ali, quando ela en­trou. Estava a uma mesa simples, lendo um livro de orações muito gasto.

— Padre? — Ele ergueu os olhos lentamente do que estava lendo, fitando diretamente os olhos verdes de Serena. Era novo na paróquia, achava ela. Não se lembrava dele do seu tempo. — Será que o senhor pode me ajudar? Estou procurando informações sobre a minha avó.

O velho de batina soltou um suspiro e se levantou devagar. Tinha havido tantas indagações semelhantes, desde o término da guerra. Gente morrera, se mudara, se perdera. Era improvável que pudesse ajudá-la.

— Não sei. Vou verificar os registros. O nome dela?

— La Principessa Alicia di San Tibaldo.

Falou baixinho, sem querer impressionar ninguém, mas mesmo assim o jeito dele se modificou. Ficou mais alerta, mais interessado, mais prestativo, e mesmo a contragosto, Serena ficou irritada. Será que o título significava tan­to, então? Seria ele a fazer a diferença? Por quê? Tudo parecia tão sem valor, agora. Títulos, nomes, posição, dinheiro. Só o que importava para Serena era que a avó estava morta.

Ele murmurava baixinho consigo mesmo enquanto mexia em gavetas cheias de papéis, e depois ficou examinando um grande livro de registro pelo que pareceu um tempo interminável, até que finalmente balançou a cabeça e olhou de novo para Serena.

— Sim. — Virou o livro na direção dela. — Aqui está. Nove de abril de 1943. A causa da morte foi natural. Um padre desta igreja administrou-lhe a extrema-unção. Está enterrada lá fora, no jardim. Quer ir ver?

Serena fez que sim e seguiu-o solenemente para fora do escritório. Atravessaram a igreja e saíram por uma porta estreita que ia dar num jardinzinho fortemente iluminado pelo sol, cheio de flores e pequenas lápides antigas, e cercado de árvores pequenas. Ele caminhou cuidadosamente na direção de um canto dos fundos onde havia apenas umas poucas lápides, e todas pareciam ser novas. Fez um gesto suave para a pequena pedra de mármore branco, observou Serena por um momento, e depois virou-se e retirou-se, enquanto ela fi­cava ali, atordoada. A busca terminara, as respostas tinham chegado. Ela estava ali, então, sob as árvores, oculta pelos muros de Santa Maria dei Miracoli, tinha estado ali o tempo todo enquanto Serena escrevia carta após carta, rezando para que a avó ainda vivesse. Serena queria ficar com raiva, queria odiar alguém, lutar contra alguém. Mas não havia ninguém para odiar, nem re­servas para lutar. Tudo tinha acabado, neste jardim tranqüilo, e só o que Sere­na conseguia sentir era tristeza.

— Ciao, nonna — murmurou, virando-se para ir embora, finalmente, os olhos nublados pelas lágrimas. Não voltou para se despedir do padre, mas enquanto ia saindo de novo da linda igrejinha, viu que ele estava parado à por­ta, e se dirigia para ela, com ar solícito e interessado, e apertou-lhe a mão duas vezes, quando ela se retirou.

— Adeus, principessa... adeus...

Principessa? Por um instante ela parou de chofre, espantada, e virou-se para olhar para ele de novo. Princesa, ele a chamara... princesa?... E então, lentamente, ela meneou a cabeça. A avó não existia mais. Serena era a princi­pessa, e enquanto descia correndo os degraus que levavam à plataforma onde deixara o seu gondoleiro, soube que aquilo não tinha nenhuma importância.

Enquanto o gondoleiro se afastava da igreja, os pensamentos dela rodopiavam sem cessar. Sérgio. O que fizera com o dinheiro que conseguira pela casa? O que fizera com os tesouros dos pais dela, e as coisas lindas que a avó possuía? Subitamente, desejou uma explicação, um relato, queria que o ho­mem desprezível que destruíra a sua família a compensasse pelo que tinha ti­rado dela. No entanto, no mesmo momento em que teve esse pensamento, já sabia que ele não poderia. Nada que Sérgio fizesse jamais compensaria Serena pelo que perdera. Mesmo assim, por algum motivo, teve ímpetos de vê-lo, ago­ra, de exigir alguma coisa dele, de fazer com que prestasse contas do que era dela também, num certo sentido. E agora, sentada na gôndola, voltando len­tamente para o Grande Canal e a Piazza San Marco, sabia para onde iria. Veneza pertencera à avó. Era parte dela. Era ela. Mas não era o lar para Serena. Nunca fora. Sempre fora estranha e diferente e interessante, excitante, uma espécie de aventura até mesmo durante os dois anos em que morara ali, depois da morte dos pais. Porém agora, tendo vindo até ali, Serena sabia que tinha que ir mais adiante. Tinha que ir até as suas origens. Tinha que ir para casa.

— Quer ir para a piazza, signorina?

— Não. — Sacudiu a cabeça, devagar. Não para a piazza. Tinha termina­do o que viera fazer em Veneza. Três horas depois de ter chegado lá, estava na hora de seguir em frente. — Não, grazie. A piazza, não. Leve-me de volta para Santa Lúcia.

Deslizaram lentamente sob a Ponte dei Sospiri, a Ponte dos Suspiros, e ela fechou os olhos. Quase que instintivamente, o gondoleiro começou a cantar: era uma canção triste e lamentosa, e ele a cantava bem. Dali a um momento estavam de volta à luz forte do sol, e a canção continuou enquanto dobravam a curva e entravam no Grande Canal, e passavam em frente ao esplendor da Piazza San Marco, do Campanário, do Palácio dos Doges, e desciam o canal de novo, passando por todos os milagres de Veneza. Mas desta feita Serena não chorou. Observava tudo, como que absorvendo-o pela última vez, para poder se lembrar, como se soubesse que jamais voltaria.

Quando chegaram à estação, ela lhe pagou, incluindo uma gorjeta generosa, que ele agradeceu efusivamente, e seus olhos buscaram os dela.

— Para onde vai agora, signorina?

— Para Roma.

Ele assentiu, lentamente.

— Não voltou para lá desde a guerra? — Ela sacudiu a cabeça. — Vai achar tudo muito diferente. — Mas não podia ser mais diferente do que achara aqui. Para ela tudo estava mudado, em toda parte. — Tem parentes em Roma?

— Não... eu... só o que tinha era a minha avó. Aqui.

— Era a casa dela, hoje de manhã?

Serena fez que sim, e ele sacudiu a cabeça.

— Sinto muito.

— Eu também.

Sorriu meigamente para ele, e depois estendeu a mão para apertar a de­le, que tomou a mãozinha delicada e branca na sua áspera e morena, e depois deu-lhe uma palmadinha no ombro, enquanto a ajudava a saltar e lhe entre­gava a mala.

— Volte para Veneza, signorina.

Sorriu para ela, que prometeu voltar, e depois pegou com ar circunspecto a sua pequena mala e começou a andar na direção do trem.

 

Quando o trem entrou na Estação Termini, logo depois do pôr-do-sol, às oito da noite, não havia nenhum sorriso no rosto de Serena. Ao invés disso, ela es­tava sentada no banco como se esperasse que a qualquer momento alguma coisa horrível fosse acontecer, o corpo todo tenso, o rosto sem cor. Ficou vendo marcos que não via há quase sete anos passarem por ela, e era como se pela primeira vez em anos uma porta bem no fundo de si mesma estivesse sendo arrancada das dobradiças, como se a sua própria alma estivesse exposta. Se alguém tivesse falado com Serena naquele momento, ela não teria escutado. Estava perdida num outro mundo, enquanto o trem rolava pelo limiar da cidade, e de repente sentiu subir dentro dela uma saudade que não se per­mitira sentir durante anos. Era uma saudade dos lugares conhecidos, uma dor pelos pais, uma fome de chegar em casa. Mal pôde esperar parar o trem na estação. Quando ele percorreu os últimos metros, aos solavancos, ela se pôs de pé e tirou a mala do porta-malas do teto, e depois, com rápidas passadas, foi abrindo caminho até o final do carro, e ficou esperando, como um cavalo ansioso para voltar ao estábulo. No momento em que o trem parou e as por­tas se abriram, ela saltou e começou a correr. Era um gesto louco e instintivo, este pisar alucinado do chão, enquanto passava correndo por mulheres e crian­ças e soldados, indiferente a tudo, exceto esta sensação louca e misturada. Ti­nha vontade de gritar "Cá estou eu, pessoal! Estou em casa!" Mas, por sob o entusiasmo ainda havia o tremor... do que encontraria aqui em Roma... e das lembranças terríveis dos últimos dias de vida dos pais. As suas emoções eram confusas — será que voltar para cá era uma traição? Havia motivos para ter medo? — Ah, Deus, como estava contente por estar em casa. Tinha que vê-la. Só mais uma vez. Ou será que viera atrás do tio? De uma explicação? De desculpas ou consolo...?

Fez sinal para um pequeno táxi preto e jogou a mala no banco de trás. O motorista virou a cabeça com interesse para observá-lo, mas não fez nenhum gesto para ajudá-la. Ao invés disso, olhou-a longa e fixamente nos olhos. Foi um olhar que a espantou com a sua avaliação franca, e ela baixou os olhos subitamente, encabulada ante o desejo que via nos olhos do homem.

— Dove?

Foi uma pergunta que a espantou com a sua objetividade, mas não era incomum para ele fazer tal pergunta. O único problema é que ela não sabia como responder. Ele simplesmente perguntara "Onde?" e ela não sa­bia. Onde? Para a casa que fora dos pais dela, e agora era do tio? Estava pronta? Tinha condições para enfrentá-lo? Queria ver a casa de novo? Subita­mente, toda a sua confiança se dissolveu com a mesma rapidez que surgira e ela sentiu as mãos tremerem enquanto alisava o vestido e desviava de novo o olhar.

— Os Jardins Borghese.

O tremor na sua voz era audível apenas para Serena, e o motorista deu de ombros e meteu o carro no meio do tráfego. E enquanto ficava sentada no banco de trás, fitando a cidade que a atraíra como um ímã, Serena sentiu-se repentinamente como uma criança, novamente, o cabelo solto e flutuando mansamente na brisa que entrava pelas janelas, os olhos arregalados. Soube pelos marcos familiares que estavam se aproximando da Porta Pinciana. Podia ver a Via Vittorio Veneto, logo adiante, e então surgiu à frente deles, de re­pente, a extensão escura dos jardins, iluminados aqui e ali nas trilhas, os can­teiros de flores visíveis até mesmo na escuridão crescente. Percebeu subita­mente como o motorista devia tê-la achado estranha. Os Jardins Borghese às nove da noite? Porém, para que outro lugar poderia ir agora? Já sabia a resposta, mas tentou não pensar nela enquanto contava o dinheiro da corrida, entregava-o ao motorista, sacudia o cabelo de cima dos ombros, pegava a mala e saltava. Ficou parada ali por um longo momento, como se esperasse alguém, e então, como se estivesse vendo tudo à sua volta pela primeira vez, inspirou fundo e começou a andar. Não apressadamente, desta feita, como se tivesse para onde ir e alguém para encontrar, mas lentamente, sem rumo, como se tudo que lhe interessasse fosse absorver a essência de Roma.

Pegou-se caminhando por uma das trilhas gramadas para o passeio no li­miar do parque, vendo ciclistas que passavam rapidamente, ou mulheres levan­do o cachorro para passear, e aqui e ali crianças brincando. Era tarde para estarem na rua, mas era verão, e uma noite gostosa, a guerra tinha termina­do e não havia aula no dia seguinte. Serena notou pela primeira vez que havia uma espécie de atmosfera festiva por toda parte, gente sorrindo, moças rindo, e por todos os lugares, como pela Europa inteira, os jovens soldados america­nos passeavam em grupos, ou com as namoradas, batendo papo, rindo, e ten­tando fazer amizade com as moças que passavam, acenando com barras de chocolate e meias de seda e cigarros, meio rindo de si mesmos e meio sérios, e quase sempre recebendo uma resposta risonha ou um convite. Até mesmo as recusas eram gentis, exceto as de Serena. Quando dois soldados se aproxi­maram dela, o seu rosto virou pedra e os olhos eram zangados enquanto res­pondia em italiano e mandava que a deixassem em paz.

— Deixe-a em paz, Mike. Ouviu o que a moça disse.

— É, mas reparou nela?

O mais baixo dos dois assobiou enquanto Serena se dirigia rapidamen­te para a Via Veneto e se perdia na multidão. Mas todas as tentativas de abordagem eram inofensivas. Ela era uma moça bonita, e os soldados solitários, e estavam em Roma.

— Cigarros, signorina?

Mais um grupo de fardas acenou com um maço quase no rosto dela. Estavam por toda parte, e desta feita ela apenas abanou a cabeça. Não queria vê-los espalhados pela cidade. Não queria ver nenhuma farda. Queria que fos­se como antes da guerra. Mas não era. Este tanto dava para ela ver, agora. Havia cicatrizes. Havia diferenças. Ainda havia restos de cartazes em alemão, e agora cartazes americanos colados por cima deles. Estavam ocupados nova­mente.

Ficou triste, ao se lembrar de quando era criança... quando vinha brin­car nos Jardins Borghese. Era um prazer raro, fazer isso com a mãe. Geralmente iam a toda parte de carro. Mas, de quando em vez, havia aventuras ma­ravilhosas, só ela e a mãe... a beldade com a risada cristalina, os chapéus grandes, os imensos olhos risonhos. Serena subitamente enterrou o rosto nas mãos, na escuridão. Não queria se lembrar mais. Não queria se lembrar do que acontecera, como acontecera, do que não existia mais. Mas era como se agora não houvesse como fugir das lembranças, já que tinha voltado para cá. Os fantasmas que a tinham atormentado durante sete anos não precisavam andar muito para procurá-la, agora. Ela voltara para casa para encontrá-los.

Sem pensar, dirigiu-se para a Fontana di Trevi, e ficou ali, hipnotizada por ela, como quando era garotinha. Ficou sentada durante alguns minutos, encolhida contra uma parede, olhando, refrescando-se com a brisa que vinha da água. Depois, lentamente, aproximando-se da fonte, jogou uma moeda suavemente na água, e depois sorriu consigo mesma enquanto se dirigia para o Palazzo dei Quirinale, e depois para a Via dei Tritone. Chegou rapidamente na Fonte do Tritão, e depois na Razza Barberini, onde ficou parada por um longo momento, perguntando-se aonde se dirigiria, a seguir. Eram quase 11 horas, e sentiu-se subitamente exausta, ao se dar conta de que não tinha onde passar a noite. Tinha que achar um quarto de hotel, uma pensão, um conven­to, qualquer lugar, mas enquanto enumerava mentalmente as possibilidades, os seus pés pareciam seguir o seu próprio rumo, e então repentinamente se deu conta para onde estava indo e prendeu a respiração, sabendo o que tinha acontecido, o que estava fazendo, e não querendo continuar ou dar meia-volta. Fora para isso que deixara o convento tranqüilo no Hudson, cruzara o Atlântico e tomara o trem desde a França.

Uma partezinha dela dizia-lhe que esperasse até de manhã, até que esti­vesse descansada, e com a mente desanuviada. Fora um dia longo e cansati­vo, primeiro em Veneza e agora aqui, com horas no trem, mas aquilo deixou subitamente de ter importância, e Serena parou de deixar os pés vagarem a es­mo e parou de fingir para si mesma que não tinha para onde ir. Tinha um lu­gar para onde ir, um lugar para onde desejava ir desesperadamente, não impor­ta o quão cansada estivesse... e os seus pés se moveram implacavelmente na direção do endereço familiar na Via Giulia. Tinha que vê-la, ficar diante dela por um momento, antes de dar as costas para sempre ao passado e começar o resto da sua vida. Ao virar a última esquina, podia sentir o coração batendo mais depressa, e de repente estugou o passo enquanto podia sentir o prédio, mesmo antes dele aparecer aos seus olhos. E então — de repente... de repen­te... sob as luzes da rua, depois das árvores, lá estava a extensão brilhante de mármore branco, com as longas janelas envidraçadas, os andares inferiores ocultos pelas sebes altas, e os longos degraus de mármore do outro lado do portão da frente, tudo cercado por canteiros de flores e relvados.

— Meu Deus...

Foi o mais débil sussurro. Na escuridão, era fácil enganar-se de que não houvera mudanças, de que tudo estava como fora no passado. De que, a qual­quer momento, um rosto familiar iria aparecer na janela, ou o pai viria tomar ar cá fora. A mãe de Serena detestava quando ele fumava charuto no quarto, à noite, e de vez em quando ele saía para dar uma volta no jardim. Quando Serena acordava de noite, quando era garotinha, às vezes ela o via ali. Incons­cientemente, pegou-se procurando por ele, agora. Mas não viu ninguém, e como a casa em Veneza, esta estava fechada. Só que agora ela imaginava o tio dormindo ali, e embora pudesse estar lá dentro, ela perdera todo o dese­jo de vê-lo... de lutar contra ele. Que diferença faria, agora?

Ficou parada diante da sua casa pelo que lhe pareceu um tempo interminável, sem conseguir desviar os olhos dela, sem conseguir chegar mais per­to, e sem vontade de tentar. O sonho a trouxera no máximo até ali. Não se aproximaria mais. Não havia necessidade. O sonho estava acabado, agora.

E então, enquanto se virava lentamente, os olhos enchendo-se de lágrimas, a cabeça ereta, a mala ainda na mão, viu a forma difusa de uma velha, de pé a observá-la, um xale ao redor dos ombros corpulentos, o cabelo repuxado num coque, enquanto continuava a fitar Serena, como que a se per­guntar o que esta moça estaria fazendo aqui, de mala na mão, olhando fixa­mente para o Palazzo Tibaldo, no meio da noite. Enquanto Serena continua­va a descer a rua com passo resoluto, a velha subitamente correu para ela, sol­tando um grito penetrante e um gemido, os dois braços estendidos, enquanto o xale caía dos seus ombros ao chão, e ficou parada de repente diante de Se­rena, todo o corpo tremendo, os olhos lacrimosos, enquanto abria os braços para a moça. Serena tentou recuar, aturdida com a velha, e então, de repente, fitou o rosto muito vincado e soltou uma exclamação de espanto, e logo a se­guir também estava soluçando mansamente, enquanto estendia os braços e apertava a velha junto a si. Era Marcella, a última criada que restara à sua avó em Veneza... e cá estava ela... na sua antiga casa de Roma. A velha e a moça ficaram ali paradas, fortemente abraçadas pelo que pareceu uma eternidade, sem conseguir se largar, ou às lembranças que partilhavam. Ficaram ali juntas por muito tempo.

— Bambina... ah, Dio... bambina mia... ma chefai? O que está fazen­do aqui?

— Como foi que ela morreu?

Era só no que Serena conseguia pensar, enquanto se agarrava à mulher idosa.

— Durante o sono. — Marcella fungou e se afastou para olhar bem para Serena. — Estava ficando tão velha.

Fitou os olhos de Serena, e sacudiu a cabeça. Era incrível como a moça se parecia com a mãe. Por um momento, parada ali na rua a observá-la, Mar­cella pensara estar vendo um fantasma.

— Por que ninguém me contou?

Marcella deu de ombros, sem jeito, e depois desviou o olhar.

— Pensei que ele... que seu tio... mas ele não teve tempo antes... — Foi então que se deu conta de uma coisa. Serena não sabia de nada do que acontecera desde a morte da avó. — Ninguém lhe escreveu, cara?

— Nessuno. — Ninguém. E então, suavemente: — Por que você não escreveu?

Desta feita a mulher a encarou frontalmente. A moça tinha o direito de saber por que não lhe tinha escrito.

— Não podia.

— Por quê? — perguntou Serena, intrigada, à luz que vinha do poste de rua.

Marcella deu um sorriso tímido.

— Não sei escrever, Serena... a sua avó sempre me disse que devia aprender, ma...

Deu de ombros, num gesto de impotência, enquanto Serena sorria em resposta.

— Va bene. — Está tudo bem. Mas, como era fácil falar, depois de dois anos cheios de terror. Quanta ansiedade lhe teria sido poupada se ao menos a velha pudesse ter-lhe escrito contando da morte da avó. — E... — Detestava dizer o nome dele, mesmo agora. — Sérgio?

Fez-se um momento de pausa, e Marcella inspirou cuidadosamente.

— Ele se foi, Serena.

— Para onde? — Seus olhos perscrutavam os da velha. Viajara 6 mil quilô­metros e esperara dois anos e meio para receber tal notícia. — Onde está ele?

— Morto.

— Sérgio? — Desta vez Serena pareceu chocada. — Por quê?

Sentiu por um instante um lampejo de satisfação. Talvez, no final, também o tivessem matado.

— Não conheço a história toda. Ele contraiu dívidas terríveis. Teve que vender a casa em Veneza. — E então, quase como quem pedia desculpas, ace­nou para o palácio de mármore branco às costas delas. — Vendeu isto... só dois meses depois que a sua avó morreu e ele me trouxe de novo para Roma. — Os olhos dela buscaram os de Serena, procurando condenação. Viera com Sérgio, ele que atraiçoara os pais dela, a quem até a principessa chegara a odiar. Mas viera para Roma com ele. Não tinha mais para onde ir, Serena compreendia. Excetuando a idosa princesa, Marcella era sozinha no mundo. — Não entendo o que aconteceu. Mas eles ficaram zangados com ele. Ele bebia. Vivia bêbado. — Olhou significativamente para Serena. Tinha bons motivos para viver bêbado. Guardava muita coisa na consciência, o assas­sinato do próprio irmão, da mulher do irmão... — Tomou dinheiro empres­tado de gente má, acho eu. Eles vieram aqui, no palácio, tarde da noite. Gritaram com ele, que também gritou. E depois... os homens de D. Duce também vieram. Também estavam zangados com ele... talvez por causa dos outros homens. Não sei. Certa noite, eu os ouvi ameaçando matá-lo...

— E mataram? — Os olhos de Serena se iluminaram com um fogo feio. Quem sabe recebera o que merecia, afinal de contas.

— Não. — Marcella sacudiu a cabeça. A voz dela era sem piedade na noi­te estival. — Ele se matou, Serena. Se matou com um tiro, no jardim, dois meses depois da morte da principessa. Não lhe sobrava mais dinheiro, não ti­nha nada. Apenas dívidas. Os advogados me disseram que foi preciso tudo, o dinheiro das duas casas e todo o resto, para pagar as dívidas dele.

Então não sobrara nada. Não tinha importância. Não viera para casa por causa disso.

— E a casa? — Serena olhava para ela de modo estranho. — A quem per­tence, agora?

— Não sei. Gente que nunca vi. Desde o fim da guerra que a estão alugando aos americanos. Antes, estava vazia. Eu ficava aqui sozinha. Todos os meses o advogado me trazia o meu dinheiro. Queriam que eu ficasse para cui­dar de tudo. Certa vez, os alemães quase tomaram conta dela, mas depois de­sistiram.

Deu de ombros, parecendo sem jeito de novo. Serena perdera tudo, e no entanto Marcella ainda morava aqui. Como a vida era estranha.

— E os americanos moram na casa, agora?

— Ainda não. Até o momento, só trabalhavam aqui. Agora... semana que vem... vão se mudar. Antes, só a usavam como escritório, mas vieram me dizer ontem que vão se mudar para cá na terça-feira. — Deu de ombros, pare­cendo a Marcella que Serena conhecera em criança. — Para mim, não faz dife­rença, eles têm o seu próprio pessoal. E me disseram ontem que vão contratar duas moças para me ajudarem. Portanto, para mim não muda nada. Serena? — A velha observou-a atentamente. — E tu? Vai bene? O que aconteceu em todos esses anos? Ficou com as freiras?

— Fiquei. — Meneou a cabeça, lentamente. — E esperei para voltar.

— E agora? Onde está hospedada?

Fitou a mala que Serena largara junto aos pés. Serena deu de ombros.

— Não tem importância. — Sentia-se esquisita, estranhamente livre, sem estar amarrada a nenhum lugar, nenhuma pessoa, nenhuma época. Nas duas últimas horas cada laço ao qual se prendia fora cortado. Estava por sua conta, agora, e sabia que sobreviveria. — Ia procurar um hotel, mas tive vontade de vir aqui, primeiro. Só para ver.

Marcella examinou atentamente o rosto dela, e depois deixou pender a cabeça, enquanto ficava com os olhos cheios de lágrimas de novo.

— Principessa... — Falou a palavra tão baixinho que Serena mal a ouviu, e quando percebeu o que era, sentiu um leve arrepio na espinha. A palavra trazia a sua mente a imagem perdida da avó... Principessa... Sentiu uma onda de solidão inundá-la de novo, enquanto Marcella erguia o rosto e seca­va os olhos no avental que usava eternamente, até mesmo agora. Agarrou-se à mão de Serena, e esta tocou-lhe a mão gentilmente. — Todos esses anos passei aqui... com a sua avó, e depois aqui, nesta casa. — Fez um gesto vago para o prédio imponente atrás de Serena. — Fiquei aqui. No palazzo. E você — fez um gesto de desdém para a maleta surrada — como uma pequena mendiga, em trapos, procurando um hotel. Não! — Falou enfaticamente, quase com raiva, enquanto o corpo graúdo tremia. — Não! Não vai para um hotel!

— O que sugere, Marcella? — Serena sorriu docemente. Era uma voz e uma expressão da mulher idosa que ela reconhecia de uma dúzia de anos an­tes. — Está sugerindo que eu me mude para junto dos americanos?

— Pazza, va! — Abriu um sorriso. Maluca! — Não dos americanos. De mim. Ècco.

Enquanto pronunciava a última palavra, levantou a mala do chão, segurou a mão de Serena com mais firmeza e começou a andar na direção do pa­lazzo, mas Serena continuou parada e sacudiu a cabeça.

— Não posso.

Ficaram as duas imóveis por um momento, e Marcella perscrutou os olhos da moça. Sabia tudo o que estava pensando. Tivera os seus próprios pesadelos para superar, quando voltara para Roma depois da morte da velha senhora. A princípio, só conseguia se lembrar dos outros... Umberto e Graziella... Serena em criança... os outros criados com quem trabalhara, o mor­domo por quem fora tão desesperadamente apaixonada... Sérgio quando era mais moço e ainda não tinha apodrecido intimamente... a principessa no seu auge...

— Pode ficar comigo, Serena. Deve ficar. Não pode ficar sozinha em Ro­ma. — E então, mais meigamente: — Aqui é o seu lugar. Na casa do seu pai.

Ela sacudiu a cabeça lentamente, os olhos se enchendo de lágrimas.

— Não é mais a casa do meu pai.

Mais meigamente ainda:

— Agora é a minha casa. Não quer vir para casa comigo? — Viu naqueles olhos verdes profundos a agonia que estivera presente na manhã da morte do pai dela e soube que não estava falando com a mulher, mas com a criança. — Está tudo bem, Serena. Venha, meu amor... Marcella vai tomar conta de você... tudo vai dar certo. — Abraçou Serena de novo, e ficaram ali como no começo, fortemente enlaçadas, superando os anos vazios. — Andiamo, cara.

E sem compreender o motivo, Serena se permitiu seguir a mulher idosa. Tinha vindo apenas para ver, não para ficar. Para ficar parada, olhando e recordando, não para tentar penetrar nas lembranças de novo. Era demais para ela, não podia suportar. Mas enquanto a velha a conduzia docemente para a entrada dos fundos, Serena sentiu a exaustão tomar conta dela... era como se o dia inteiro estivesse se fundindo sem um instante, e ela não pudes­se mais agüentar. Só o que queria era deitar-se nalgum canto e parar de pensar, parar de tentar equacionar as coisas.

Logo chegou à porta dos fundos do que fora no passado o palazzo dos seus pais. Marcella enfiou rapidamente a chave pesada na fechadura, e a girou, a porta rangeu, do jeito que Serena se lembrava, e quando a porta se abriu, ela se viu parada no andar de baixo, no corredor dos criados. A pintura esta­va amarelando, ela viu quando Marcella acendeu a luz; as cortinas eram as mesmas, só que não mais de um azul forte, mas sim de um cinza desbotado; o piso de madeira era o mesmo, mas brilhava menos, pois havia menos mãos para encerá-lo, e Marcella envelhecera. Nada havia mudado realmente. Até mesmo o relógio da copa era o mesmo. Os olhos de Serena se dilataram de es­panto, e pela primeira vez em anos não havia raiva nem dor. Finalmente vol­tara para casa.

Fechara o círculo, e não havia ninguém para compartilhar o fato, exce­to Marcella, que parecia uma galinha com os pintos enquanto a conduzia por um corredor conhecido até um quarto que pertencera a uma mulher chamada Teresa, que fora uma arrumadeira jovem e bonita. Como as outras, há muito tempo que se fora, e foi para o quarto dela que Marcella levou Serena, tirando velhos lençóis puídos e um cobertor de um armário, na passagem. Tudo era velho e estava ficando gasto, mas ainda era limpo, e cada pedacinho lhe era familiar, percebeu Serena enquanto se sentava numa cadeira e via Marcella fazer a cama. Não dizia nada. Apenas ficava sentada, olhando.

— Vai bene, Serena? — A velha olhava com freqüência na sua direção, temendo que o choque de tudo o que ouvira, vira e soubera fosse demais. Não sabia ler nem escrever, mas conhecia as pessoas, e sabia pela expressão dos olhos de Serena que a moça passara por coisas demais. — Tire as roupas, bambina mia, pode deixar que eu lavo para você amanhã de manhã. E antes de dormir, um pouquinho de leite quente.

Ainda era difícil conseguir leite, mas ela tinha um pouco, e teria gas­to tudo o que possuía com essa sua menina preciosa.

Serena parecia estar satisfeita de estar ali. Era como se, de repente, todas as suas defesas tivessem cedido ao mesmo tempo e não suportasse ficar de pé nem mais um momento. Voltar para casa, para Marcella, era como ter nove anos de novo, ou cinco ou dois.

— Volto daqui a dois minutos com o leite quente, prometo!

Sorriu meigamente para Serena, deitada gostosamente na cama estreita do quarto simples. As paredes eram brancas, debruadas de cinza, havia uma cortina estreita e desbotada no quarto, um tapete muito antigo, dos tempos de Teresa e dos outros, e as paredes eram nuas. Mas Serena nem enxergava nada. Recostou no travesseiro, fechou os olhos, e quando Marcella voltou dali a um momento com o precioso leite quente com açúcar, encontrou Serena dormindo a sono solto. A velha parou junto à porta, apagou a única lâmpada que iluminava o quarto, e ficou parada na escuridão, olhando para a jovem à luz do luar, lembrando-se de como era em criança. Assim mesmo, pensou, só que muito menor... e mais tranqüila... Como Serena parecera perturba­da naquela noite... e zangada... e magoada... e com medo. Doía-lhe relem­brar tudo que acontecera àquela criança, e então se deu conta, subitamente, enquanto a observava, que estava fitando a última princesa restante dos Tibaldo. Serena di San Tibaldo. Principessa Serena... finalmente adormecida no alojamento dos criados da casa do seu pai.

 

Quando o sol entrou pela janela estreita na manhã seguinte, Serena jazia es­parramada na cama como uma jovem deusa, o cabelo espalhado atrás de si, como um leque de ouro. Marcella estava parada de novo junto à porta, observando-a, assombrada com o brilho da sua beleza, e ainda mais espantada do que estivera na véspera que Serena tivesse voltado, afinal. Era um milagre, dis­se consigo mesma.

— Ciao, Cella. — Serena abriu um dos olhos, sonolenta, e sorriu. — É tarde?

— Para quê? Tem compromisso? Um dia em Roma e já está ocupada? — Marcella dirigiu-se agitada para junto dela e Serena sentou na cama e abriu um sorriso. O peso de anos parecia ter se dissolvido nas horas em que estivera dor­mindo. Mesmo depois de tudo o que acontecera no dia anterior, estava menos preocupada do que estivera desde a sua partida dos Estados Unidos. Agora, pelo menos, sabia. Sabia de tudo que estivera com medo de ouvir. O pior acontecera. Agora havia o resto da sua vida para levar em consideração.

— Gostaria de comer o que no café, signorina? — E então corrigiu rapidamente: — Scusi, principessa.

O quê? Não vai me chamar desse jeito! Essa era a nonna!

Serena parecia meio divertida, meio escandalizada. Aquela era outra época, outra era. Mas Marcella parecia um dragão, toda esticada no seu metro e meio, junto à cama de Serena.

— Agora é você. E deve a ela, e as outras antes dela, respeitar quem e o que você é.

— Eu sou eu. Serena di San Tibaldo. Punto. Finito. Basta.

Bobagem! — exclamou Marcella, enquanto alisava as cobertas de Sere­na, e depois olhava com ar solene para ela. — Jamais se esqueça de quem é, Se­rena. Ela nunca esqueceu.

— Não precisava. E nem vivia no mundo em que vivemos agora. Tudo aquilo acabou. Tudo. Morreu com... — Estivera prestes a dizer "meus pais", mas ainda não conseguia fazê-lo. — Morreu com toda uma geração de pessoas que o nosso encantador Duce tentou destruir. Com êxito, em muitos casos. E o que sobrou? Gente como eu, que não tem nem dez liras no bolso, e que tem que arranjar emprego cavando fossas. É isso que é ser principessa, Cella?

— É aqui — apontou acaloradamente para o amplo seio, indicando o lugar do coração grande e generoso, e depois para a cabeça — e aqui. Não no que você faz ou deixa de fazer e no quanto dinheiro tem. Ser príncipe ou princesa não é dinheiro. Ela também não tinha muito dinheiro, no fim. Mas foi sempre a principessa. E um dia você também será assim.

Serena sacudiu a cabeça com firmeza.

— O mundo mudou, Marcella. Confie em mim. Sei disso.

— E o que você viu desde que voltou para cá? A estação do trem e o que mais?

— Gente. No trem, nas ruas, soldados, jovens, velhos. Estão diferentes. Não dão a mínima para principesse e provavelmente nunca deram. Só nós ligávamos para esse tipo de coisa, e se formos espertos, vamos esquecer tudo, agora. — E depois, novamente com cinismo, olhou para a velha. — Acha mes­mo que os americanos vão ligar para isso? Se contasse para eles que estava es­condendo uma principessa no porão, acha que ligariam a mínima?

— Não estou escondendo você, Serena. — Marcella parecia triste. Não queria saber desse novo mundo. O mundo antigo fora importante para ela. Todo ele. Acreditava na velha ordem, e no seu funcionamento. — Vai ficar aqui comigo.

— Por quê? — Serena fitou-a com crueldade, por um momento. — Porque sou uma principessa?

Porque eu a amo. Sempre amei e sempre amarei.

A mulher idosa olhou para ela com orgulho, e os olhos de Serena ficaram rapidamente cheios de lágrimas enquanto estendia os braços para ela, do seu lugar na cama.

— Desculpe. Não quis dizer isso. — Marcella foi sentar-se ao seu lado. — É que me dói pensar nos velhos tempos. Tudo o que eu amava neles está perdido. Para mim só o que importava eram as pessoas que eu amava. Não quero o maldito título. Preferia ter a nonna aqui, e ser simplesmente eu.

— Mas ela não está aqui, e isso é o que lhe deixou. É tudo o que lhe dei­xou, e sei que gostaria que tivesse orgulho dela. Não quer ser uma principessa, Serena?

Olhou para a moça, surpresa.

— Não. — Serena sacudiu a cabeça, com ar circunspecto. — Quero o meu café.

Comera apenas pão e queijo na estação, na véspera. E se esquecera com­pletamente do jantar. Mas agora ria da ansiedade de Marcella, e a velha enxu­gou os olhos e resmungou.

— Não cresceu nem um pouquinho! Continua tão impossível quanto sempre foi! Folgada... rude...

A velha continuou a resmungar e Serena se espreguiçou e saiu da cama lentamente, com um largo sorriso.

— Já lhe disse. As princesas são uma gente ruim, Cella. Têm sangue ruim.

— Pare de brincar com isso! — Desta feita, estava mesmo zangada.

— Só se você parar de levar tão a sério. — Serena a olhava meigamente, mas havia algo muito resoluto nos seus olhos. — Tenho outras coisas em que pensar, agora. — A velha não falou mais nada, voltou para a copa para fazer um bule fumegante de café, outro gênero precioso que ainda era difícil con­seguir, depois da guerra. Mas não estava poupando nada, esbanjava tudo com a jovem princesa com as idéias modernas. Uma loucura, toda essa bobagem de não querer o título, não usá-lo, não... era ridículo, resmungou Marcella consigo mesma, enquanto preparava o café da manhã. Ela nascera para ser principessa. Imagine só, não usar o título! Ridículo! Era óbvio que passara tempo demais nos Estados Unidos. Estava mais do que na hora de voltar para casa e se lembrar dos velhos costumes. Dez minutos depois chamou Sere­na para tomar café, e a jovem beldade apareceu num roupão de banho de algodão azul que ganhara no convento, e o seu cabelo fora tão escovado que brilhava como ouro ao sol da manhã. — O que temos para o café, Cella?

— Torrada, presunto, geléia, pêssegos, café.

Um monte de tesouros, alguns dos quais, como a geléia e o açúcar, ela vinha poupando há meses. Serena compreendeu instantaneamente, e beijou a velha face enrugada antes de se sentar. Prometeu a si mesma que ia comer pouco, não importava o quão esfomeada estivesse.

— Tudo isso só para mim, Marcella? — Sentia-se culpada por comer todos os tesouros da mulher idosa, mas sabia também que, se não comesse, deixá-la-ia melindrada. Então comeu, cuidadosamente, mas com prazer evidente, e elas partilharam o café, até a última gota. — Você cozinha feito um anjo.

Fechou os olhos e sorriu contente ao sol da manhã, e a velha tocou a jovem face lisa com um sorriso.

— Bem-vinda ao lar, Serena.

Fez-se um momento de silêncio feliz, e então Serena esticou as longas pernas à sua frente e sorriu.

— Você me dá vontade de ficar para sempre.

Mas sabia que não podia, e queria ir embora antes que a tentação de se aventurar pelo resto da casa ficasse grande demais. Não queria fazer isso. Mes­mo que parte dela quisesse. O resto não queria.

Marcella a fitava pensativa, enquanto ela se levantava.

— Por que não pode ficar, Serena? Não tem que voltar para os Estados Unidos.

— Não. Mas não tenho motivo para ficar aqui. — Exceto que amava isso aqui, e era o seu lar.

— Não quer ficar? — Marcella parecia magoada, e Serena sorriu.

— Claro que sim. Mas não posso simplesmente me mudar para cá. Tenho que ter um lugar para morar, um emprego, tudo isso. Não sei se poderia arru­mar emprego em Roma.

— Por que tem que trabalhar? — A velha parecia aborrecida. Queria se apegar ao passado, Serena deu-se conta com um sorriso.

— Porque tenho que comer. Se não trabalhar, não como.

— Podia morar aqui.

— E comer a sua comida? E quanto a você?

— Vamos ter de sobra. Os americanos jogam fora mais do que todos os romanos juntos comem. Vai haver tudo o que precisarmos aqui, depois que se mudarem para o andar de cima.

— E como vamos me explicar, Marcella? — Serena continuava com ar di­vertido. — Principessa residente? Mascote? Sua boa amiga? Simplesmente dizemos a eles que têm sorte em contar comigo, e eu fico?

— Não é da conta deles quem você é — retrucou Marcella, instantaneamente na defensiva.

— Podem não concordar com você, Cella.

— Então você pode trabalhar para eles. Como secretária. Fala inglês. Não fala?

— Falo, sim, mas não iriam me contratar como secretária. Têm a gente deles, para isso. Por que me contratariam? — E então, subitamente, seus olhos começaram a brilhar. Teve uma idéia.

— Pensou nalguma coisa?

Marcella conhecia aquele olhar bem demais. Sempre a deixava ligeiramente nervosa, mas em geral as idéias mais estapafúrdias de Serena davam certo.

— Talvez. Com quem a gente fala aqui para arranjar emprego?

— Não sei... — Ficou pensativa por um momento. — Me deram um endereço, para o caso de conhecer alguma moça para me ajudar com a casa. — Ficou de súbito desconfiada. — Por quê?

— Porque quero pedir um emprego.

— Para fazer o quê?

— Vou ver o que eles têm.

Uma coisa era chegar, tonta de exaustão, e passar a noite no alojamento de criados de Marcella. Outra bem diferente era viver eternamente no porão de uma casa que já fora sua. E ela sabia que ainda não estava pronta para passar para o andar de cima. Porém, se lhe dessem um emprego, teria que pas­sar. Simplesmente teria que dizer a si mesma que era a casa deles, que não tinha nada a ver com ela, ou com qualquer pessoa que conhecia, e que jamais a vira antes, mas mesmo assim ainda estava tremendo um pouco por dentro quando dobrou o fim da Via Nazionale e passou pelos Banhos de Diocleciano ao entrar na Piazza delia Republica e encontrou o endereço. E se não lhe des­sem o emprego? Então o que faria? Rasparia o resto do dinheiro que lhe resta­va e voltaria para os Estados Unidos? Ou ficaria aqui, em Roma? Mas, para quê? Para o seu coração, falou consigo mesma enquanto empurrava a pesada porta que ia dar nos escritórios americanos instalados ali. Era em Roma que tinha que ficar. Sorriu ao pensar nisso, e ainda sorria consigo mesma quan­do entrou no prédio e colidiu quase instantaneamente com um homem alto de sorriso juvenil e uma cabeleira de cachos louros sob o quepe. Nele o quepe parecia elegante, e ele o colocara num ângulo atrevido, e os seus olhos cinzen­tos pareciam dançar, divertidos, ao fitar os olhos verdes de Serena. Por um instante sentiu-se tentada a sorrir para ele, mas o seu rosto ficou rapidamente sério, e como sempre acontecia quando via uma farda, desviou o olhar. Não importa o quanto o homem fosse bonitão, ou simpático, as fardas sempre lhe lembravam os antigos pesadelos, e não pôde olhar o homem nos olhos.

— Perdão. — Ele lhe tocou gentilmente no cotovelo, como a transmitir as suas desculpas, para o caso dela não falar o seu idioma. — Fala inglês? — Os olhos dele examinaram-lhe o rosto, e ficou instantaneamente impressionado pela beleza cremosa de cetim, o cabelo como um trigo dourado, os imensos olhos verdes, mas notou também a maneira formal como se afastou dele após a breve colisão, e depois o jeito gélido com que olhou para ele, depois de se recompor e recuar. Parecia não entender o que ele estava dizendo, e o ho­mem sorriu e disse-lhe algumas palavras em italiano. — Scusi, signorina. Mi dispiace molto...

E depois hesitou, com um sorriso cativante. Mas Serena não parecia cativada, apenas inclinou a cabeça, indicando que compreendera, e murmurou:

— Grazie.

A atitude dela o teria deixado aborrecido, caso não tivesse visto, nos breves momentos em que a fitara a dor que existia no fundo dos brilhantes olhos verdes. Tinha visto outras como ela. Todos haviam sofrido na guerra. A Donzela de Gelo, batizou-a intimamente, enquanto prosseguia o seu caminho.

Notara instantaneamente a sua beleza espetacular, mas correr atrás das moças locais nunca fora o forte do Major B.J. Fullerton. Conseguira não fazer isso, desde a sua chegada. E tinha amplos motivos para não fazê-lo. O major estava noivo de uma das mais belas jovens colunáveis de Nova York. Pattie Atherton fora a mais fascinante debutante de 1940, e agora, aos 23 anos, era sua noiva. B.J. sorriu consigo mesmo de novo, com um pequeno assobio en­quanto descia depressa os degraus até a limusine que o esperava. Tinha muito o que fazer, naquela manhã, e logo esqueceu o encontro com Serena.

Lá dentro, Serena dera uma olhada nas mesas disponíveis por um momento, e depois se dirigira para uma em que estava escrito EMPREGO, com a palavra LA VORO em italiano por baixo, e explicara num inglês hesitante o que queria arranjar, em termos de emprego. Não queria deixar que soubessem que falava tão bem o idioma. Não era da conta deles, tinha decidido. E acima de tudo, não queria trabalhar como tradutora, ou secretária, como Marcella sugerira. Só o que queria era esfregar o chão da sua antiga casa, ao lado de Marcella, e para isso não era preciso falar inglês.

— Conhece a governanta da casa, então, senhorita? — Ela fez que sim. — Foi ela que a mandou aqui? — Os americanos falavam em voz alta e precisa com os italianos, imaginando que fossem a um só tempo burros e surdos. Se­rena fez que sim de novo. — Fala bem o inglês? Um pouco? Mais do que isso? Dá para me entender?

— Si. Un po... um pouquinho. O bastante.

O bastante para limpar pisos e lustrar as pratas, pensou consigo mesma, e aparentemente a mulher fardada à mesa pensou a mesma coisa.

— Pois bem. O major vai se mudar na terça-feira. O ajudante-de-ordens dele também ficará morando lá, e o sargento encarregado de cuidar da casa. Além disso, haverá três ordenanças. Acho que vão ficar nos velhos quartos dos criados do andar de cima. — Serena soube imediatamente quais eram. Os quartos sob o telhado eram quentes, mas arejados, e tinham sido ocupados ao longo dos anos por vários dos criados dos pais dela. Os alojamentos melhores ficavam no porão, e ficou satisfeita porque ela e Marcella iam continuar neles. — Ainda não achamos outra moça, mas estamos procurando. Acha que nesse meio tempo você e essa tal de Marcella podem dar conta de tudo sozinhas?

— Sim — respondeu Serena rapidamente. Não estava ansiosa para ter ne­nhuma estranha junto delas.

— A outra mulher me pareceu bem idosa, quando a vi. E quanto ao serviço pesado?

— Eu faço. — Serena esticou-se toda e fez um esforço para parecer ainda mais alta e ereta do que de costume. — Tenho dezenove anos.

— Ótimo. Então talvez não precisemos de outra moça — refletiu a americana, enquanto Serena se dava conta, subitamente, de que, se fizesse o tra­balho pesado e os desencorajasse de contratar mais uma moça para ajudá-la, ela teria que passar a maior parte do tempo lá em cima com "eles", nos apo­sentos que esperara evitar. Mas não se podia ter tudo. Teria que tomar coragem e fazê-lo. Valia a pena, para não ter uma estranha na casa, lá embaixo com ela e Marcella. Ter-se-ia ressentido disso mais do que se ressentia de ter oficiais americanos morando lá em cima no que fora a sua casa, no passado. Era mesmo uma loucura, essa história de morar com Marcella numa casa que já pertencera à sua família e agora pertencia a outra pessoa, e estava sendo alu­gada para o exército americano. Que diabo estava fazendo aqui? Não tinha muita certeza, mas, no momento, parecia-lhe direito ficar, então ficaria. — Va­mos mandar alguém para inspecionar a casa na segunda-feira e lhe dar as infor­mações necessárias. Por favor, certifique-se de que todos os aposentos estejam limpos, especialmente o quarto principal. O major — sorriu com coqueteria, e Serena achou-a ridícula — está acostumado a morar muito bem.

O comentário não impressionou Serena, que não estava dando a menor importância para isso. A seguir a americana se levantou, entregou alguns papéis para Serena assinar, e explicou que ela receberia em liras nos dias 19 e 15 de cada mês. Cinqüenta dólares por mês, mais casa e comida, era o que dava. E parecia bom para Serena. Muito bom. Deixou o edifício da Piazza delia Re­publica com um sorriso feliz no rosto, e quando chegou em casa e entrou no pequeno apartamento que dividia com Marcella, estava cantando velhas can­ções conhecidas.

— Ora, ora, que felicidade. Devem ter contratado você para trabalhar para o general.

— Não. — Sorriu para Marcella. — Ou será que devo dizer sim? Contrataram-me para trabalhar para o meu próprio general: você.

Durante um momento confuso, Marcella não entendeu.

— O quê?

— Você me escutou. Vou trabalhar para você. Começando na segunda-feira. Ou antes, se quiser.

— Aqui? — Marcella estava aturdida. — No palazzo?

— Isso mesmo.

— Não! — Marcella ficou instantaneamente escandalizada. — Você me tapeou! Dei-lhe o endereço para arranjar um emprego bom! Não um emprego como este!

— É um bom emprego. — E depois, meigamente: — É bom o bastante para você, Cella. E quero ficar aqui com você. Não quero trabalhar num escri­tório. Quero só ficar aqui. Em casa.

— Mas não desse jeito. Santa Maria... que insanidade. Mas, você está maluca. Não pode fazer isso!

— Por que não?

E lá começou ela.

— Porque você está se esquecendo de quem é, de novo, principessa.

Os olhos de Serena começaram a soltar faíscas verdes enquanto olhava para a mulherzinha que trabalhava há 47 anos para a sua família.

— E é bom você se esquecer também, Marcella. Aqueles dias se acabaram. E não importa qual seja o meu título, não tenho um tostão de meu. Na­da. Se não fosse você ter-me hospedado, eu estaria dormindo num hotel pulguento, e se eles não me tivessem dado o emprego de esfregar o chão, eu ia morrer de fome bem depressinha. Não sou diferente de você, agora, Marcella. É isso. Muito simples. E se estou satisfeita com isso, é bom que você também esteja.

A velha calou-se com o discurso de Serena, ao menos temporariamen­te. E tarde da noite, finalmente, Serena aventurou-se a ir para o andar de ci­ma, andando na ponta dos pés. A visita foi menos dolorosa do que previra. Quase todos os móveis de que gostava tinham desaparecido. Só o que restava eram alguns sofás, um enorme piano de cauda e, no quarto da mãe dela, a ex­traordinária cama antiga de dossel. Fora deixada ali porque não cabia em mais nenhum lugar. Foi apenas isso que entristeceu Serena. Aquela cama em que ainda podia ver a mãe, radiosa e linda pela manhã, quando Serena vinha vê-la por alguns momentos antes de ir para a escola. Foi somente naquele quarto que ela sofreu de verdade. Nos outros ficou parada por um momento, vendo coisas que não mais existiam, lembrando-se de noites e tardes e jantares, fes­tas de Natal com todos os amigos dos pais, chás quando a avó vinha de visita de Veneza... visitas de Sérgio... e outros. Foi uma peregrinação tranqüila de aposento em aposento, e quando voltou para junto de Marcella parecia es­tranhamente serena, como se tivesse se libertado de todos os fantasmas, final­mente. Não havia mais nada que temesse. Era apenas uma casa, agora, e ela conseguiria trabalhar nela para os americanos, fazendo o que tinha que fazer, para continuar a morar aqui, no palazzo, e ficar em Roma.

 

Serena se levantou ao raiar do dia, na manhã seguinte. Lavou o cabelo louro e prendeu-o num coque sobre a nuca, e depois escondeu-o sob um lenço de cabelo, de algodão escuro. Enrolou o pedaço de pano azul-marinho na cabeça, amarrando-o na parte de trás, e depois enfiou um velho vestido azul de algo­dão, que tinha usado no convento em Nova York para ir colher amoras com as meninas mais novas. Já fora remendado em diversos lugares, e estava muito desbotado, indicando longos anos de uso. Serena calçou meias escuras, sapatos resistentes, e amarrou na frente do vestido azul um avental branco e lim­po. Depois, olhou-se no espelho com uma cara séria. Sem dúvida não era um traje para uma princesa. Mas, mesmo com o lenço de cabeça azul-escuro, não havia como esconder o belo rosto. Na verdade, ele parecia oferecer contraste para o tom de pêssego das suas faces e o verde brilhante dos seus olhos.

— Você está ridícula nessa roupa. — Marcella olhou para ela com reprovação instantânea enquanto lhes servia o café, e os primeiros raios do dia des­pontavam nas montanhas. — Por que não usa uma coisa decente, pelo amor de Deus? — Mas Serena ficou calada. Apenas sorria enquanto sorvia o café quente e fechava os olhos ante o vapor que saía da xícara que estava seguran­do. — O que acha que os americanos vão pensar de você nesse vestido velho, Serena?

— Vão pensar que dou duro no trabalho, Marcella.

Os olhos verdes encontraram-se suavemente com os dela por sobre a xícara de café, e parecia mais velha e mais sábia do que a sua idade sugeria.

— Ah... bobagem!

Parecia mais aborrecida do que na véspera. Estava achando a coisa toda ridícula. Pior ainda, sentia-se culpada por ter sugerido a Serena que arrumasse um emprego qualquer. Ainda esperava que Serena se descuidasse e fa­lasse com os novos patrões em inglês decente, e que na manhã seguinte esti­vesse trabalhando para o oficial-comandante como sua secretária, num dos be­los aposentos do andar de cima.

Porém, dali a meia hora, até mesmo Marcella tinha se esquecido dessa esperança. Estavam ambas subindo e descendo escadas, ajudando os ordenanças a carregar caixas, e resolvendo o que botar em qual quarto. Foi Serena quem mais os ajudou. Marcella era velha demais para subir e descer rapida­mente as escadas. Mas Serena corria bem ao lado deles, e dava a impressão de estar em mil lugares, falando pouco, supervisionando tudo, e parecendo aju­dar com uma dúzia de pares de mãos.

— Obrigado. — O ordenança-chefe sorriu para ela no final da tarde, quando ela trouxe seis xícaras de café fumegante para ele e seus homens. — Não teríamos dado conta, sem você. — Não tinha certeza se ela estava enten­dendo o que ele dizia, mas sabia que ela falava um pouco de inglês e teria en­tendido facilmente o tom da sua voz e o amplo sorriso. Era um homem corpu­lento de quarenta e muitos anos, tinha um peito largo, a cabeça calva, e olhos castanhos simpáticos. — Como se chama, senhorita?

Serena hesitou apenas por um momento, e depois, sabendo que mais ce­do ou mais tarde teria que falar, disse mansamente:

— Serena.

— Serina — repetiu ele imediatamente, com a pronúncia americana, mas ela não achou ruim. E depois de um dia de vê-lo trabalhar tanto quanto os seus homens, simpatizava com ele. Era um bom homem e dava duro no trabalho, e ajudara-a com freqüência, tirando caixas pesadas das suas mãos, a des­peito dos protestos dela. Mas ele simplesmente as tomava nas mãos enormes e continuava subindo as escadas.

Era o primeiro homem fardado de qualquer país que merecera um dos raros sorrisos da moça.

— Meu nome é Charlie, Serena. Charlie Crockman. — Estendeu uma das mãos pesadas, e ela também estendeu a sua. Os seus olhos se encontraram por um momento, e ele sorriu de novo. — Trabalhou duro, hoje.

— E você também — retrucou, sorrindo timidamente, sem olhar para os outros homens.

Mas Charlie achou graça.

— E não é nem sombra do que vamos trabalhar amanhã.

— Mais? — exclamou Serena, chocada. Já tinham enchido todos os apo­sentos com caixas e arquivos e armários e bagagem, mesas e abajures e cadei­ras e centenas de outras coisas. Perguntou-se onde cargas-d'água poriam mais coisas, mas Charlie Crockman sacudiu a cabeça.

— Não, nada disso. Amanhã é que vamos começar o trabalho de verdade, aqui. O major vai chegar amanhã de manhã. — Revirou os olhos com novo sorriso. — E é melhor que estejamos com tudo desempacotado e funcionando até o meio-dia.

Os homens gemeram e começaram a conversar.

— Pensei que ele tinha ido passar o fim de semana em Spoleto — um dos homens se queixou em voz alta, mas Charlie Crockman sacudiu a cabeça de novo.

— Não ele. Se conheço o major, estará aqui hoje até a meia-noite, ajeitando os seus arquivos e arrumando a sua escrivaninha.

Agora que ele e seus homens tinham se mudado, o exército também dera ao major uma pilha de novas tarefas. B.J. Fullerton tivera comportamento heróico durante a guerra, e agora estava recebendo a primeira comissão importante atrás de uma escrivaninha. Por este motivo, recebera o palazzo.

Merda — disse um dos homens, e ela fingiu que não ouvira. Dali a alguns momentos, enquanto eles continuavam a conversar, ela se retirou. Na co­zinha aconchegante encontrou Marcella, com os pés de molho, recostada nu­ma cadeira, de olhos fechados. Serena botou as mãos nos ombros da velha e começou a massageá-los suavemente, enquanto Marcella sorria.

— Sei tu?

— Quem acha que é?

— Meu anjinho.

Ambas sorriram. Fora um dia comprido.

— Por que não deixa que eu faça o jantar hoje, Cella? — Mas a velha não permitiu. Já estava com uma pequena galinha no forno, e o macarrão fervia no fogão. Haveria alface fresca da horta, algumas cenouras e manjericão, e os tomatinhos que Marcella começara a plantar. Foi uma refeição deliciosa, e quando acabou, Serena mal podia manter os olhos abertos, enquanto ajudava a tirar a mesa e insistia para que Marcella fosse para a cama. Era velha demais para trabalhar como trabalhara. — E hoje sou eu quem vai lhe trazer leite quente com açúcar. É uma ordem!

Sorriu para a mulher que a acolhera há dias, e a velha inclinou a cabeça.

— Ah, principessa... é boa demais...

Serena reagiu prontamente. Os seus olhos faiscavam enquanto dava um passo atrás e endireitava a cabeça.

— Pare com isso, Marcella.

— Desculpe.

Esta noite a velha não discutiu. Estava cansada demais, e todo o corpo lhe doía. Há anos não dava um duro daqueles. Mesmo que Serena tivesse feito a maior parte do trabalho com os americanos, o simples fato de estar lá ten­tando ajudar deixara Marcella exausta. Sentia-se culpada por ter deixado Sere­na fazer tanta coisa. No princípio tentara impedi-la com murmúrios de "prin­cipessa!", porém Serena a silenciara rapidamente, fechando a cara, e continua­ra a trabalhar.

— Ande, vá para a cama, Cella, daqui a pouco eu levo o seu leite.

Com um bocejo sonolento a velha obedeceu e foi se afastando, mas depois, com um olhar por cima do ombro, lembrou-se de alguma coisa e parou à porta, com a testa franzida.

— Tenho que voltar lá para cima.

— Para quê?

— Para trancar a casa. Não sei se eles sabem fazer. Quero verificar a por­ta da frente antes de ir para a cama. Disse a eles que verificaria. E eles man­daram que eu não deixasse de apagar todas as luzes internas.

— Pode deixar que eu faço para você.

Ela hesitou por um momento, depois concordou. Estava cansada demais para discutir, e Serena podia fazer isso.

— Está certo. Mas só esta noite.

— Sim, senhora.

Serena sorriu consigo mesma enquanto servia o leite numa xícara e ia pegar o açúcar. Dali a alguns minutos estava parada à porta do quartinho de Marcella, mas os roncos baixos vindos da cama lhe disseram que já era tarde demais. Sorriu e depois tomou um gole do líquido quente, e a seguir dirigiu-se lentamente para a cozinha, sentou-se e bebeu ela mesma o leite. Quando aca­bou, lavou a xícara e o pires, secou-os, guardou o resto da louça e, com um suspiro, abriu a porta do alojamento do porão e subiu lentamente a escada dos fundos.

Achou tudo em ordem no saguão principal. O piano de cauda continua­va no mesmo lugar que há décadas, e o lustre na entrada ardia tão vivamente como quando os pais dela moravam ali. Sem pensar, virou o rosto para ele, sorrindo consigo mesma ao se lembrar do quanto a encantara, quando era criança. Era sempre a melhor parte das festas dos pais, ficar parada na escada circular de mármore, vendo os homens de smoking ou casaca e as mulheres de vestidos de noite de cores vivas passarem sob o lustre de cristal multifacetado, enquanto caminhavam pelo saguão e saíam para o jardim, para parar junto da fonte e tomar champanha. Costumava ouvi-los rindo e tentava escutar o que diziam. Costumava ficar sentada ali, de camisola, bem na curva da escada, espiando-os, e agora, ao pensar naquilo de novo, riu consigo mesma enquanto subia a mesma escada. Dava-lhe uma estranha sensação estar aqui na escuridão da noite, sem a presença de todos os outros. As lembranças encantavam-na e deixavam-na gelada, a um só tempo. Enchiam-na de saudade e pesar, ao mes­mo tempo, e enquanto começava a caminhar pelo patamar do segundo andar, sentiu de repente uma onda de saudade inundá-la, uma saudade como não ex­perimentava há anos. De repente teve vontade de estar no seu velho quarto, sentada na sua cama, olhando pela janela para o jardim, somente para vê-lo, para senti-lo, para se tornar parte dele de novo. Sem pensar, levou a mão ao pano de cabeça azul-marinho, agora empoeirado, arrancou-o lentamente da cabeça e depois soltou o cabelo louro longo e brilhante. Era um gesto pareci­do com o que fazia quando tirava o chapéu do uniforme de escola, quando voltava para casa e corria para o seu quarto. Só que agora parou no vão da porta, e o quarto estava quase vazio. Havia ali uma escrivaninha, uma pratelei­ra de livros, vários arquivos, algumas cadeiras... nenhum móvel familiar, ne­nhuma das coisas que costumavam estar ali. Há muito que tudo se fora.

Com andar resoluto, caminhou até a janela, e lá os viu... a fonte... o jardim... o enorme salgueiro. Tudo exatamente como deixara, e podia se lembrar de estar parada precisamente no mesmo lugar, à mesma janela, embaçando a vidraça com o seu bafo, no inverno, enquanto olhava para fora, desejando não ter que fazer o dever de casa e poder ir brincar lá fora. E se fe­chasse os olhos com muita força, poderia ouvi-los, a mãe e os amigos, rindo lá fora, conversando, caminhando, jogando croquet na primavera, ou mexericando sobre os amigos em Roma... Podia vê-la ali num costume de linho azul... ou num vestido de seda... um chapelão... talvez segurando umas rosas recém-cortadas, erguendo os olhos para as janelas de Serena e acenando, e...

— Quem é você?

A voz que ouviu às suas costas parecia ameaçadora, e com um gritinho Serena abriu os braços e deu um salto aterrorizado, girando sobre si mesma rapidamente e agarrando a parede atrás de si com as duas mãos. Só o que po­dia ver era a silhueta de um corpo de homem, na escuridão. O quarto ainda estava às escuras, e a luz do corredor era fraca demais e distante demais para ser de alguma ajuda. Não sabia quem ele era, ou o que estava fazendo aqui, ou se a machucaria, porém quando ele deu um passo em sua direção ela viu o briIho das insígnias na lapela. Estava fardado, e de repente ela se lembrou do que o ordenança dissera antes, que o major ficaria ali até a meia-noite, arrumando a sua escrivaninha.

— O senhor é — a voz parecia um grasnido, enquanto o seu corpo inteiro tremia — o major?

— A pergunta que fiz foi quem é você?

A voz dele parecia assustadoramente firme, mas nenhum dos dois se me­xeu e ele não acendeu a luz às suas costas. Ficou ali parado, olhando para ela, perguntando-se por que parecia tão familiar. Pressentia alguma coisa nela, mesmo à luz do luar que vinha do jardim. Tinha a impressão de já tê-la visto em algum lugar, antes. Observara-a desde que entrara no quarto que seria o seu escritório. Acabara de apagar a luz quando escutou os passos na escada. A princípio, a sua mão se dirigiu automaticamente para a pistola sobre a mesa, mas concluíra rapidamente que não precisava dela, e agora apenas se pergun­tava quem ela era e de onde viera, e por que estava aqui, no Palazzo Tibaldo, no seu escritório, às dez horas da noite.

— Des-Desculpe... subi para apagar as luzes. — Por um instante, tivera vontade de dizer "Senhor", e depois ficou aborrecida com a própria reação. Era algo a ver com a farda que podia ver mais claramente, agora, as insígnias agrupadas na lapela, e a inclinação imperiosa da cabeça. — Desculpe.

— Pedir desculpas não responde à minha pergunta. — A voz dele era fria e calma. — Perguntei quem era.

— Serena. Trabalho aqui. — O inglês dela estava melhor do que gostaria que estivesse, mas, dadas as circunstâncias, resolvera não brincar com ele. Era melhor que ele a entendesse, caso contrário, Deus nos livre, poderia mandar prendê-la, ou despedi-la, e isso ela não queria. — Sou empregada da casa.

— O que procurava aqui em cima, Serena? — perguntou, com voz mais gentil do que a princípio.

— Pensei que tinha ouvido... ruídos... — Os olhos dela se desviaram dos dele, na escuridão. Talvez tivesse que fazer o jogo dele, afinal de contas. — Vim ver o que estava errado.

— Sei. — Olhou para ela mais atentamente, e notou que estava mentindo. Há horas que não fazia nenhum ruído, nem mesmo quando apagara a luz. — É muito corajosa, Serena. — Os olhos dele debochavam dela, e Serena esta­va sabendo. — E o que teria feito se eu fosse um intruso?

Olhou para os ombros esbeltos, os braços longos e graciosos, as mãos delicadas, e ela compreendeu o olhar que ele lhe lançou.

— Não sei. Teria chamado... alguém... para me ajudar... suponho.

Continuou a observá-la e caminhou lentamente para a luz que havia apa­gado há poucos momentos. Acendeu-a de novo e virou-se para olhá-la mais atentamente. Era uma moça impressionantemente bonita, alta e graciosa e encantadora, com olhos de um fogo verde e cabelos como o ouro de Bernini.

— Suponho que saiba que ninguém teria vindo em sua ajuda. Não há ninguém aqui.

Porém, desta feita, foi Serena quem se empertigou, enquanto olhava para ele. Seria uma ameaça, o que lhe havia feito? Ousaria atacá-la neste quar­to? Será que pensava que estavam sozinhos? Olhou para o americano alto, esguio e jovem e pôde sentir que, mesmo fardado, ele era algo mais. Este não era apenas mais um major americano, era um homem acostumado ao coman­do, a ter os seus desejos respeitados, e se o que quisesse agora fosse ela, Serena sabia que tomaria providências para consegui-la.

— Está enganado. — Desta vez não sentiu ímpetos de acrescentar "Se­nhor". — Não estamos sozinhos aqui.

Falou com precisão, uma expressão de fúria crescendo nos olhos.

— Não? — exclamou, parecendo surpreso. Será que trouxera alguém com ela? Era uma atrevida, se o tivesse feito, mas nada o surpreenderia, quem sabe ela e o namorado tinham vindo ao palazzo para fazer amor. Alçou uma sobrancelha, e Serena recuou um passo.

— Não, não estamos sozinhos.

— Trouxe um amigo?

— Moro aqui com a minha... zia... minha tia.

Hesitou de novo, de propósito.

— Aqui, no palazzo?

Ela está esperando por mim ao pé da escada.

Era uma mentira descarada, mas ele acreditou.

— Ela também trabalha aqui?

— Trabalha. O nome dela é Marcella Fabiani.

Esperava que o major não a conhecesse. Estava esperando projetar a imagem de um dragão que não permitiria que ele a maltratasse. Mas uma ima­gem mental de Marcella, velha, pesadona, roncando, passou pela sua cabeça e quase gemeu em voz alta. Se este homem realmente tivesse a intenção de ma­chucá-la, ou violentá-la, não haveria ninguém para ajudá-la a escapar.

— Então você é Serena Fabiani, suponho.

Olhou para ela atentamente, mais uma vez, e Serena fez uma pausa de um momento antes de balançar a cabeça.

— Sou, sim.

— Sou o Major Fullerton, o que imagino que você já adivinhou. Não um intruso. Este é o meu gabinete. E não quero vê-la aqui de novo. A não ser de dia, trabalhando, ou se eu a chamar. Fui claro? — Ela fez que sim, mas a des­peito das palavras severas teve a impressão de que ele estava rindo dela. Havia ruguinhas ao lado dos olhos cinzentos que faziam a gente desconfiar que ele não era tão sério. — Há alguma porta entre o seu alojamento e o palazzo?

Olhava para ela com interesse, mas desta feita ela também o estava exa­minando. Tinha uma bela cabeleira farta, que tendia a encachear, ombros largos, e o que parecia ser braços possantes. Tinha mãos bem-feitas e dedos lon­gos e graciosos... pernas longas... na verdade, era muito atraente, mas tam­bém terrivelmente convencido. Ela se pegou imaginando como seria a família dele. Ele a fez lembrar, subitamente, de alguns dos antigos playboys de Roma. E talvez fosse por esse motivo que estava lhe perguntando se havia uma porta entre o alojamento dela e o palazzo, e então ela se esticou ao máximo e não tentou disfarçar o fogo que ardia nos seus olhos verdes.

— Sim, major, há. Vai dar diretamente no quarto da minha tia.

Compreendendo o que acontecera, B.J. Fullerton teve que lutar para não cair na risada. Ela era mesmo uma garota atrevida, e de certa forma o di­vertia, mas não tinha intenção de deixar isso transparecer. Cá estava ela, no meio da noite, no gabinete dele, encarando-o altivamente e insinuando que ele pudesse tentar se meter com ela.

— Sei. Então tentaremos não perturbar á sua tia, no futuro. Eu ia suge­rir que mandássemos fechar permanentemente a porta entre o seu alojamento e o resto do palazzo, para que... hã... você não se sentisse tentada a sair por aí. E, naturalmente, depois que eu me mudar para cá, amanhã, haverá uma sentinela de guarda diante do palazzo, portanto, se você escutar alguma coisa de noite — olhou para ela significativamente, mas os olhos da moça não se mexeram, e ela não esboçou reação — não precisará vir em meu auxílio.

— Não vim em seu auxílio, major. Vim ver se tinha ladrão. É a minha responsabilidade — desta vez teve dificuldades reais para pronunciar a palavra, e ele se obrigou novamente a se controlar para não sorrir — proteger a casa.

— Sem dúvida estou profundamente agradecido pelo seu esforço, Serena. Mas no futuro isso não será uma parte necessária do seu trabalho.

— Bene. Capisco.

Pois bem, então. — Hesitou apenas por um momento. — Boa noite.

Ela não fez menção de se retirar.

— E a porta?

— A porta? — Pareceu confuso, por um momento.

— A porta que dá para o nosso alojamento. Vai mandar fechá-la amanhã?

Aquilo significaria que teriam que dar a volta pela frente cada vez que fossem chamadas ou tivessem que fazer alguma coisa no corpo principal do pa­lazzo. Para Marcella, seria um contratempo de verdade, e para Serena também seria um estorvo. Mas agora o major começou a sorrir lentamente. Não conse­guia mais resistir. Era realmente muito engraçada, e tão teimosa e tão corajosa e tão resoluta, que ele ficou se perguntando qual seria a sua história, e onde aprendera a falar inglês. No seu nervosismo ao ser descoberta no gabinete de­le, permitira que ele visse que falava o seu idioma muito bem.

— Acho que podemos deixar a porta em paz, no momento. Enquanto você puder resistir ao desejo de passear por aqui, à noite. Afinal de contas —

falou olhando para ela maliciosamente por um instante — você poderia acabar acidentalmente no meu quarto, e isso seria constrangedor, não é? Não me lembro de tê-la ouvido bater, antes de entrar aqui. — Desta vez ele a viu enrubescer até ficar quase roxa, e pela primeira vez desde que falara com ela na es­curidão, ela baixou os olhos. Ficou quase com pena de ter implicado com a moça. Deu-se conta, subitamente, de que era provavelmente ainda mais jovem do que parecia. Podia até ser uma moça alta de 14 anos, com a aparência de alguns anos mais velha. Mas a gente nunca sabia, ao certo, com as mulheres italianas. Deu-se conta agora de que estava sendo injusto com Serena. Ela ain­da fitava os sapatos resistentes do convento e as meias escuras, e ele pigarreou e caminhou para a porta, abriu-a e disse, desta feita com firmeza: — Boa noite.

Ela saiu sem olhar de novo para ele, e de cabeça erguida respondeu:

— Buona notte.

Ele a ouviu descer ruidosamente as escadas alguns segundos mais tarde, e depois caminhar pelo corredor de mármore interminável. Viu todas as luzes se apagarem no andar de baixo e depois ouviu uma porta se fechar suavemen­te a distância. A porta do quarto da tia? Sorriu consigo mesmo, lembrando-se da história absurda.

Ela era uma moça estranha... e também uma beleza e tanto. Mas também era uma dor de cabeça de que não precisava. Tinha Pattie Atherton à sua espera em Nova York, e só de pensar nela veio-lhe uma visão da moça num vestido de noite de organdi branco com uma faixa azul de veludo, sobre o qual usara uma capa de veludo azul debruada de arminho branco, contrastando vi­vamente com o cabelo negro e brilhante, a pele cremosa e os grandes olhos azuis de boneca. Sorriu consigo mesmo enquanto caminhava até a janela e olhava para o jardim, mas não foi em Pattie que pensou, enquanto olhava para fora. Era Serena que voltava aos seus pensamentos, com os seus olhos verdes imensos e resolutos. No que estivera pensando parada ali, olhando para o jar­dim? O que estivera procurando? Ou quem? Não que tivesse importância. Ela era apenas uma das empregadas contratadas para limpar o palazzo, embora fosse muito bonita e muito jovem.

Mas, mesmo assim, a imagem dela continuou na sua mente enquanto corria os olhos pelo escritório pela última vez, antes de ir para o seu quarto.

 

— Serena! Pare com isso!

Era Marcella sussurrando ferozmente por sobre o ombro enquanto Serena se debruçava para esfregar o chão do banheiro do quarto ocupado por Charlie Crockman. Vê-la daquele jeito era algo que Marcella ainda não con­seguia suportar.

— Marcella, va bene... — Fez um gesto para afastar a velha, como se fosse um cachorro grande simpático, mas a mulher se abaixou de novo e ten­tou tirar os panos da mão de Serena. — Quer parar com isso?

— Não, não quero. — E desta feita os olhos de Marcella ficaram travessos, enquanto se sentava na beira da banheira e murmurava para Serena. — E se você não me escutar, Serena, eu direi a eles.

— Dirá o quê? — Serena afastou uma longa mecha de cabelo louro dos olhos, com um sorriso. — Que não sei o que estou fazendo? Eles provavelmen­te já estão sabendo.

Sentou-se sobre os calcanhares, continuando a sorrir. Há quase um mês que trabalhava para os americanos, e aquilo a satisfazia perfeitamente. A bar­riga estava cheia, tinha uma cama para dormir à noite, e estava morando com Marcella, que era a única família que lhe restava, e morando no que fora a sua casa, no passado. O que mais poderia querer?, perguntava-se, diariamente. Um bocado, respondia de vez em quando, mas isso era irrelevante. Isso era o que tinha. Escrevera para Madre Constance que tudo dera certo. Contara-lhe sobre a morte da avó. Contou também que estava morando de novo na casa dos pais, em Roma, porém não explicou sob que circunstâncias.

— E então, Serena?

— Com o que está me ameaçando agora, sua bruxa velha?

As duas brincavam falando em italiano, aos murmúrios. Mas era um intervalo agradável. Serena trabalhava sem cessar desde as seis da manhã, e era quase meio-dia.

— Se não se comportar, Serena, vou denunciar você.

Serena olhava para ela, divertida.

— Vai me denunciar para quem?!

— Não diga bobagem! Vou é contar ao major quem você é.

— Ah, isso de novo. Marcella, meu amor, para falar a verdade, acho que ele nem se importaria. Os banheiros têm que ser esfregados, por uma príncipessa ou quem quer que esteja à mão, e com o duro que ele dá trabalhando até de noite, não creio que ficasse chocado.

— Isso é o que você pensa!

Marcella olhou para ela significativamente e Serena inclinou a cabeça para o lado.

— O que quer dizer com isso? — O major simpatizara com Marcella, des­de que se mudara para o palazzo, e Serena os via conversando, com freqüên­cia. Há algumas noites até mesmo vira Marcella remendando as meias dele. Porém ela própria fizera o possível para evitá-lo desde aquele primeiro en­contro. Não tinha muita certeza das suas intenções, e ele lhe parecera vivo e perspicaz demais para que Serena o quisesse à sua volta. Sentira curiosidade por Serena durante a sua primeira semana no palazzo — ela o vira a observá-la com os olhos excessivamente cheios de perguntas. Graças a Deus os seus pa­péis estavam em ordem, para o caso dele querer examiná-los. — Andou ron­dando o major de novo?

— Ele é um homem muito simpático — falou Marcella, com um olhar de reprovação para a jovem princesa, ainda de joelhos no chão do banheiro de Charlie Crockman.

— E daí? Não é nosso amigo, Marcella. É um soldado. Trabalha aqui como nós. E não é da conta dele quem eu fui.

— Ele acha que você fala inglês muito bem — falou Marcella, desafiadora.

— E daí?

— Daí que pode lhe conseguir um emprego melhor.

— Não quero um emprego melhor. Gosto deste.

— Ah... davvero? — Os velhos olhos brilharam. — Verdade? Pensei que me lembrava de ter visto você chorando na semana passada por causa das rachaduras nas suas mãos. E não foi você que não conseguia dormir porque as suas costas doíam tanto? E que tal estão os seus joelhos de tanto esfregar o chão, e os seus pés e...

— Está bem... está bem! Chega! — Serena suspirou e jogou a escova de volta ao balde de água com sabão. — Mas agora estou acostumada, e quero fi­car aqui. — Baixou o tom de voz e ficou com os olhos súplices. — Não enten­de, Cella? Esta é minha casa... a nossa casa — corrigiu rapidamente, e os olhos da velha ficaram cheios de lágrimas, enquanto dava uma palmadinha na face de Serena.

— Você merece mais do que isso, minha filha.

Ficava com o coração partido ao ver como a vida fora injusta para com a moça. Porém, enquanto enxugava as lágrimas com as costas da mão, Charlie Crockman entrou e as encontrou assim, e fitou-as, subitamente encabulado.

— Desculpe — murmurou, antes de se afastar.

— Fa niente — disse Serena, para o homem que se retirava. Gostava de­le, mas raramente falava com ele em inglês. Não tinha nada para dizer. Não ti­nha nada para dizer para nenhum deles. Não precisava. Não importava. Nada importava. Exceto que podia continuar morando aqui. Tornara-se uma obses­são para ela, no último mês, estar em casa de novo e se agarrar às lembranças. Era só no que pensava enquanto passava de quarto em quarto, limpando, en­cerando, tirando o pó; pela manhã, quando fazia a cama enorme do major, fingia que ainda era da mãe dela. A única coisa que atrapalhava o sonho era que o quarto cheirava a lima e tabaco e especiaria, como o major, e não a rosas e lírios-do-vale, como há quase dez anos.

Quando acabou de esfregar o banheiro de Charlie Crockman, naquela manhã, Serena pegou um pedaço de pão e um naco de queijo e uma laranja e uma faca e se dirigiu lentamente para o jardim, onde se sentou, olhando para as colinas ao longe com as costas apoiadas na sua árvore predileta.

Foi ali que o major a encontrou, meia hora mais tarde, e ficou olhando para ela por um longo momento, vendo-a descascar a laranja cuidadosamente e depois deitar na grama e ficar olhando para a árvore. Não tinha certeza se devia ou não se aproximar dela, mas ainda havia algo em Serena que o intri­gava. Era uma aura especial de mistério que cercava a sobrinha trabalhadeira de Marcella. Ele ainda duvidava seriamente que elas fossem aparentadas, mas os documentos dela estavam em ordem, e fosse quem fosse, dava um duro da­nado para eles. Que diferença fazia quem ela era? Mas o estranho era que pa­recia fazer diferença para ele. Pensava na moça com freqüência, como a vira naquela primeira noite, apoiada à janela do seu gabinete, no escuro, olhando para o salgueiro.

Aproximou-se lentamente de onde ela estava deitada, e depois sentou-se suavemente ao seu lado, olhando para o rosto dela enquanto a moça olha­va para a árvore e para o céu, e depois para ele. Serena sobressaltou-se ao vê-lo e depois sentou-se rapidamente, alisando o avental sobre a saia e cobrindo as pernas calçadas de meias grossas, antes de deixar que os seus olhos encon­trassem os dele.

— O senhor sempre parece me surpreender, major.

Novamente ele notou que o inglês dela era melhor do que costumava deixar transparecer e subitamente sentiu vontade de dizer-lhe que ela sempre o surpreendia. Mas, em vez disso, apenas sorriu, o cabelo louro e espesso agi­tado de leve pela brisa de setembro.

— Esta árvore a atrai, não é, Serena?

Ela fez que sim, com um sorriso infantil, e ofereceu-lhe parte da sua laranja. Para ela, era um passo enorme. Afinal de contas, ele era um soldado. E ela odiava todos os soldados há muito tempo. Mas havia algo no major que lhe inspirava confiança. Talvez porque fosse amigo de Marcella. Os seus olhos eram bondosos, enquanto aceitava metade da laranja e começava a tirar os gomos, sentado ao lado dela. Por um momento, Serena pareceu muito dis­tante.

— Quando eu era garotinha, morava numa casa... onde via uma árvore... igual a esta... da minha janela. Costumava conversar com ela, de noite.

Enrubesceu, então, e sentiu-se uma tola, mas ele parecia apenas diverti­do, enquanto os seus olhos se apercebiam da maciez da pele da moça, e das linhas compridas das suas pernas estendidas à frente, na grama.

— Conversa com esta?

— Às vezes — confessou.

— Era isso o que ia fazer no meu escritório naquela noite em que a surpreendi?

Ela sacudiu a cabeça lentamente, com ar repentinamente triste.

— Não, só queria vê-la. Minha janela — pareceu se fechar. — A janela do meu quarto dava para a árvore, exatamente como essa.

— E esse quarto? — Olhava para ela meigamente. — Onde fica?

— Aqui em Roma.

— Ainda o visita? — Não sabia por que, mas queria saber mais sobre ela. Ela deu de ombros, em resposta.

— Outra gente mora na casa, agora.

— E seus pais, Serena, onde estão? — Era uma pergunta perigosa de se fazer depois de uma guerra, e ele estava sabendo disso. Ela se virou lentamen­te com uma expressão estranha no olhar.

— A minha família está toda morta, major. Todos eles. — E então se lembrou. — Exceto Marcella.

— Sinto muito. — Ele deixou pender a cabeça e remexeu na grama com a mão. Não perdera ninguém nesta guerra. E sabia que a sua família estava agradecida porque não o perdera. Amigos dele tinham morrido, mas nenhum primo, nenhum irmão, nem tios ou parentes afastados. Era uma guerra que mal tocara o mundo em que vivera. E um dia desses, ele sabia que iria para ca­sa. Porém ainda não. Ainda estava gostando do seu trabalho em Roma.

Nesse momento chegara um ordenança e os interrompera. Era um telefonema do General Farnham, e ele tinha que ir imediatamente. Olhou para Serena com pesar por cima do ombro, por um momento, depois retirou-se para a casa e ela não o viu de novo.

Quando se enfiou sob os lençóis frescos naquela noite, depois de dar boa noite para Marcella, pegou-se pensando no interlúdio da tarde no jardim, das mãos longas e esguias brincando com a grama, dos ombros largos, dos olhos cinzentos. Havia algo de tão espantosamente bonito nele, como se a gente esperasse vê-lo de traje a rigor ou jogando futebol. Parecia-se com outros americanos que Serena vira nos seus quatro anos e meio nos Estados Uni­dos, mas era muito mais belo do que qualquer outro que tivesse visto.

Estranhamente, os seus pensamentos eram semelhantes aos que Brad-ford Fullerton estava tendo sobre ela, naquele preciso momento. Estava sozi­nho no seu gabinete, com as luzes apagadas, a jaqueta jogada sobre uma cadei­ra e a gravata em cima da mesa, olhando para o salgueiro. Ainda podia ver o sol refletido nos olhos dela enquanto lhe entregava a metade da laranja, e de repente, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um anseio físico, uma fo­me avassaladora, o seu corpo desejando o dela como não desejava o de nin­guém há muito tempo. Passara uma semana em casa de licença no fim da guer­ra, e fizera amor apaixonadamente com Pattie, mas fora fiel a ela desde que voltara, e não tinha vontade de prevaricar. Até agora. Só no que conseguia pensar era em Serena, a forma do seu pescoço, a graciosidade dos seus braços, o jeito como a sua cintura se estreitava até um quase nada por baixo das tiras engomadas do avental. Era uma loucura. Cá estava ele, noivo da mais bela mulher de Nova York, e de repente se sentindo atraído por uma empregada italiana. Mas será que isso importava? Sabia que não, que a desejava, e não apenas fisicamente — queria algo mais de Serena. Queria os seus segredos. Queria saber o que existia nas sombras profundas e misteriosas daqueles imensos olhos verdes.

Ficou ali parado pelo que lhe pareceu horas, olhando pela janela, os olhos grudados na árvore, e então subitamente ele a viu, como uma visão, um fantasma magnífico passando pela árvore e se sentando suavemente na escuri­dão, o cabelo louro flutuando na brisa atrás dela, quase prateado à luz do luar, o perfil delicado erguido como que a farejar o ar da noite, os olhos fechados, o corpo envolto no que parecia um cobertor, enquanto esticava as pernas sobre a grama. Podia ver que tinha as pernas e os pés nus, e enquanto a observava sentiu subitamente que todo o seu corpo ficava tenso, enquanto tudo dentro dele o impelia para a moça misteriosa. Quase como se não tivesse controle sobre as suas ações, virou-se e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si, e depois desceu correndo a longa escadaria de mármore. Cruzou o cor­redor longo e imponente até uma porta lateral que sabia dava para o jardim, e antes que pudesse se deter tinha caminhado mansamente por cima da grama até ficar subitamente atrás dela, tiritando com a brisa, tremendo de desejo e sem ter certeza por que viera. Como se tivesse pressentido a presença de­le, Serena se virou e olhou para o major com olhos arregalados, mas não disse nada, e por um longo momento ele ficou parado ali e seus olhos se encontra­ram e ela esperou, e silenciosamente ele se sentou na grama ao lado dela.

— Estava conversando com a árvore? — A voz era suave, enquanto sen­tia o calor do corpo dela ao seu lado. Não tinha certeza do que devia lhe di­zer, e parecia uma tolice, mas quando olhou para o seu rosto viu que rebrilhava de lágrimas. — Serena? O que foi? — Ela não respondeu por longo tempo, e depois deu de ombros, espalmando as mãos para cima, com um sorriso re­torcido. Aquilo lhe deu vontade de tomá-la nos braços, mas ainda não tinha coragem. Não tinha certeza do que ela pensaria. E também não tinha certeza do que ele próprio pensava. — Qual o problema?

Ela soltou um suspiro, então, e quase sem pensar, recostou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos.

— Às vezes... — Falou baixinho na escuridão fria. — Às vezes é muito solitário... depois de uma guerra. — Os olhos dela fitavam os dele, ardendo. — Não há ninguém. Não há mais.

O major assentiu lentamente, tentando compreender a dor dela.

— Deve ser muito duro. — E então, sem conseguir resistir às perguntas que atormentavam a sua cabeça: — Quantos anos você tem, Serena?

— Dezenove. — A sua voz era como veludo na escuridão. E depois, com um pequeno sorriso: — E você?

Ele também sorriu.

— Trinta e quatro. — Não sabia ao certo por que, mas sentiu subitamente que ela o aceitaria como amigo, agora. Era como se algo diferente tivesse começado a acontecer entre eles, naquela tarde. Tirou a cabeça do ombro de­le, que sentiu falta da suave pressão, e mais do que nunca sentiu uma fome desesperada dela, enquanto seus olhos se demoravam nos lábios e nos olhos e no rosto da moça. — Serena...

Não sabia ao certo o que dizer, ou como dizer, mas sabia que tinha que lhe dizer alguma coisa com relação ao que sentia.

— Sim, major?

Ele achou graça.

— Pelo amor de Deus, não me chame assim.

Aquilo a fez lembrar de quando ralhava com Marcella por chamá-la de princesa, e ela também achou graça.

— Está bem, então como devo chamá-lo? Senhor? — Implicava com ele, agora, subitamente mais mulher do que moça.

Olhou para ela por um longo momento, o sorriso meigo, os olhos de um cinzento profundo, e depois murmurou:

— É... talvez deva me chamar de "Senhor". — Porém, antes que ela pudesse responder, ele a tomara nos braços e a beijara, com um desejo e uma fo­me e uma paixão que não sabia que tinha. Sentiu o corpo todo se jogar para ela, os braços a prendiam junto a si, e não queria mais tirar a boca de cima da dela, enquanto os lábios da moça se entregavam aos dele e as suas línguas son­davam e dançavam entre as duas bocas. Estava quase sem fôlego de desejo quando finalmente se afastou lentamente e ela pareceu se derreter nos seus braços com um débil suspiro. — Ah, Serena...

Sem dizer mais nada, beijou-a de novo e desta feita foi Serena quem pa­rou para respirar. Sacudiu a cabeça lentamente, como que para desanuviá-la, e olhou para ele com tristeza à luz da lua, os olhos cheios de lágrimas, nova­mente.

— Não devemos fazer isso, major... não podemos.

— Por que não podemos? — Não estava certo de que ela estivesse errada, mas sabia que não queria parar. — Serena...

Tinha vontade de dizer que a amava, mas isso era uma loucura. Como podia amá-la? Mal a conhecia. No entanto sabia que havia um elo extraordinário entre ele e esta garota.

— Não. — Ergueu a mão e ele beijou os dedos delicados. — Não está di­reito. Você tem a sua própria vida. É Roma — disse ela, sorrindo tristemente — tecendo a sua magia.

Vira as fotos de Pattie Atherton no quarto dele e sobre a sua escrivaninha.

Mas o major estava pensando apenas em Serena, enquanto fitava o rosto encantador ao luar e a beijava docemente nos lábios antes de se afastar para fitá-la de novo. Ela não tinha certeza do porquê de deixá-lo agir assim, mas era como se tivesse de fazê-lo, como se tivesse pressentido desde o começo onde aquilo iria acabar. Mas era uma loucura... um americano... um soldado? Ao que aquilo iria conduzir? Crispou-se toda ante a idéia.

— Por que estava chorando hoje, Serena?

— Já lhe disse. Estava solitária. Estava triste. — E depois: — Estava pen­sando em... — Não sabia como falar. O seu mundo não existia mais. — Em coisas que desapareceram.

— Tais como? Conte-me.

Queria saber tudo a respeito dela. Por que ria, por que chorava, a quem amava, a quem odiava, e por quê.

— Ah... — Soltou um suspiro. — Como posso lhe dizer como era? Um mundo perdido... outra época, cheia de belas mulheres e homens bonitos...

Pensou de repente nos pais e seus amigos, tantos deles agora mortos, ou tendo fugido. Parou de falar por um momento enquanto pensava nos rostos que a perseguiam mais e mais, ultimamente, e o major olhou para ela e viu-lhe os olhos ficarem brilhando de lágrimas.

— Não, Serena.

Tomou-a nos braços e ficou segurando-a enquanto as lágrimas rolavam lentamente pelo seu rosto.

— Sinto muito.

— Eu também. Sinto que tenha acontecido com você. — E então sorriu consigo mesmo, lembrando-se da história de que era sobrinha de Marcella. Aquilo não combinava com o seu "mundo perdido cheio de belas mulheres e homens bonitos". Olhou para o rostinho delicado durante um longo tempo, perguntando-se quem ela era na verdade, e sabendo que, para ele, aquilo não tinha importância, e provavelmente jamais teria. Ela era especial e linda e ele a desejava mais do que já tinha desejado qualquer pessoa, inclusive a mulher de quem estava noivo. Não entendia por que aquilo era assim, mas era, e parte dele queria dizer-lhe que a amava, mas sabia que aquilo também era uma lou­cura. Como podia amar uma moça que mal conhecia? No entanto, enquanto permaneciam abraçados ao luar, soube que amava, e ao sentir-lhe os braços à sua volta, Serena soube também. Ele a beijou de novo, um beijo forte e apai­xonado e esfaimado. A seguir, levantou-se e ajudou-a a se levantar, beijou-a de novo e depois acompanhou-a até a porta dos fundos. Deu-lhe um último bei­jo e não disse mais nada. Nada havia que ousasse dizer. E Serena ficou a olhá-lo por um longo momento antes de desaparecer no alojamento dos criados que dividia com Marcella, fechando mansamente a porta.

 

Durante os dias que se seguiram, o Major B.J. Fullerton foi um homem ator­mentado, cumprindo os seus deveres sem pensar ou ver, e Serena se movia co­mo se estivesse num sonho. Não compreendia o que acontecera entre ela e o major, e não tinha certeza se queria que acontecesse de novo. Há anos que de­testava guerras, soldados, uniformes, qualquer exército, e de repente se encon­trara nos braços de um major, sem querer outro homem que não ele. E o que ele queria com ela? Sabia a resposta para a pergunta, ou pensava que sabia, e ficava cheia de raiva cada vez que se lembrava da foto da debutante nova-ior­quina ao lado da cama dele. O que o major queria era dormir com a emprega­da italiana, uma história corriqueira de tempo de guerra, e mesmo enquanto fi­cava irritada, lembrava-se do toque e dos beijos recebidos sob o salgueiro, e sabia que queria mais contato com ele. Seria difícil dizer qual dos dois parecia o mais infeliz enquanto se esforçavam para cumprir as suas tarefas, observados por todos, porém compreendidos apenas por duas pessoas. O ordenança do major, Charlie Crockman, trocara um olhar significativo com Marcella dois dias mais tarde, porém os dois não disseram nada. O major dava ordens ríspi­das a todo mundo, não conseguia realizar nada, perdeu duas pastas cheias de papéis de alguma importância, e depois achou-as de novo, enquanto se enfure­cia. Serena encerou o mesmo pedaço de chão durante quase quatro horas, de­pois se afastou deixando todos os trapos e as escovas abandonados junto a uma porta central, fitou Marcella sem enxergá-la, e foi dormir sem jantar.

Não se tinham falado desde a noite sob o salgueiro. Na manhã seguinte, Serena já sabia que era um caso sem esperança, e o major se sentira consumido a um só tempo por culpa e medo. Tinha certeza de que Serena era total­mente inocente, e certamente virgem, e a moça já tinha sofrido bastante sem ter que acrescentar um caso de tempo de guerra com um soldado às suas misé­rias. Além disso, tinha que pensar na sua noiva. Porém o problema era que não era de Pattie que os seus pensamentos estavam repletos cada manhã e ca­da noite e nas 12 horas de intervalo. Cada momento parecia repleto de vi­sões de Serena, e foi só no domingo de manhã, quando a viu trabalhando na horta de Marcella, que concluiu que não podia mais suportar a situação e que tinha que falar com ela, ao menos para tentar explicar as coisas antes que en­louquecesse totalmente.

Desceu apressadamente, vestindo calças caqui e uma suéter azul-claro, as mãos nos bolsos, e ela se pôs de pé, surpreendida ao vê-lo, e afastou o cabe­lo que lhe caía nos olhos.

— Sim, major?

Por um instante, ele pensou que havia uma acusação no seu tom de voz, mas um momento depois ela estava sorrindo, e ele sorria de orelha a orelha, e sabia que estava tão contente de vê-la que não se importaria se ela jogasse todas as ferramentas de jardinagem em cima dele. Tinha que falar com ela. Fora uma agonia, tentar evitá-la nos quatro últimos dias.

— Queria falar com você, Serena. — E depois, quase com timidez: — Es­tá ocupada?

— Um pouco. — Pareceu muito adulta, subitamente, enquanto deixava de lado as ferramentas e se levantava, os olhos verdes encontrando-se com os olhos cinzentos dele. — Mas não muito. Quer se sentar ali?

Apontou para um pequeno banco de ferro batido, lascado mas ainda bonito, que sobrara de épocas melhores. Sentia-se aliviada por falar com ele, agora, e quase não havia ninguém por perto para observá-los. Todos os ordenanças tinham folga aos domingos, Marcella fora à igreja, e depois visitar uma amiga. Apenas Serena ficara em casa para cuidar da horta; fora à missa bem cedinho e Marcella nem tentara arrastá-la para fazer a visita à sua amiga idosa. Havia as duas sentinelas de costume postadas diante da casa, mas, exceto por elas, estavam sozinhos.

O major acompanhou-a até o banquinho, e se sentaram. Ele acendeu um cigarro e fitou as colinas a distância.

— Desculpe. Acho que me comportei muito mal esta semana, Serena. Acho que andei um pouco maluco.

Os olhos cinzentos fitavam os dela com franqueza, e ela assentiu lentamente.

— Eu também. Não compreendi o que aconteceu.

— Ficou com raiva?

Há quatro dias que se perguntava isto. Ou será que estava assustada? Ele sabia que sim, mas não estava inteiramente certo do porquê.

— Às vezes sentia raiva. — Sorriu lentamente, e depois soltou um suspiro. — E às vezes não. Às vezes assustada... e confusa... e... — Olhou para ele, sem dizer mais nada, e mais uma vez ele sentiu um desejo avassalador de abraçá-la e tocá-la, e um ímpeto ainda maior de possuí-la bem ali, sob as árvo­res, ao sol de outono, na grama. Fechou os olhos, como se estivesse sentindo dor, e Serena estendeu a mão para tocar a dele. — O que foi, major?

— Tudo. — Abriu lentamente os olhos. — Não entendo o que estou sentindo... o que aconteceu... — E então, repentinamente, com toda a sua ca­beça e alma e ser, soube que não dava mais para lutar contra aquilo. — Eu a amo. Ah, Deus... — Puxou-a para junto de si. — Eu a amo.

E enquanto os seus lábios encontravam os dela, ela sentiu o desejo den­tro de si, também, porém era mais do que isso. Era um anseio tranqüilo de ser dele para sempre, tornar-se parte dele, para tornar-se inteira. Era como se aqui, na casa dos seus pais, no jardim deles, tivesse encontrado o seu futuro, como se pertencesse desde o princípio a este major americano alto e louro, como se tivesse nascido para ele.

— Eu também o amo — sussurrou bem baixinho, mas sorria enquanto falava, e ao mesmo tempo estava com os olhos marejados de lágrimas.

— Quer ir lá para dentro comigo?

Sabia o que o major estava dizendo, mas ele não queria levá-la, tomá-la nos braços e carregá-la lá para dentro. Queria que ela soubesse o que estava fa­zendo. Queria que ela também o desejasse.

Lentamente fez que sim e ficou de pé ao seu lado, o rosto virado para ele, os olhos maiores que ele já vira, e solenemente Brad segurou-lhe a mão e cruzaram juntos o jardim, e Serena sentiu, de uma forma estranha, como se ti­vessem acabado de se casar... Aceita este homem...? Aceito... Sentiu a pró­pria voz ressoando dentro da alma, enquanto subiam as escadas juntos e ele fechava a porta às suas costas, enquanto entravam. Envolveu a cintura dela com o braço e subiram juntos lentamente a escadaria principal que levava ao quarto que fora da mãe dela. Quando ficou parada no limiar, Serena começou a tremer, os olhos presos à cama imensa, os olhos arregalados de lembrança e medo.

— Eu... não posso...

A sua voz mal passava de um sussurro, e ele assentiu. Se ela não podia, ele não a forçaria, mas queria apenas abraçá-la, acariciá-la, senti-la e tocá-la e deixar os lábios se demorarem sobre a sua carne encantadora.

— Não precisa, minha querida... nunca... não vou forçá-la... eu a amo... — As palavras saíram aos borbotões em meio ao cetim extravagante dos cabelos dela, enquanto os lábios dele se moviam para o seu pescoço e seios, e ele abriu suavemente o vestido de algodão escuro com os lábios, lou­co por cada centímetro dela, saboreando-a como néctar enquanto a sua lín­gua passeava por toda a parte, e ela começou a gemer baixinho.

— Eu a amo, Serena... eu a amo... — Não era mentira, ele a amava e desejava como nun­ca amara outra mulher antes, e então, esquecendo o que ela dissera no vão da porta, tomou-a docemente no colo e deitou-a na cama. Despiu-a, lentamente, mas ela não lutou contra ele, e as suas mãos buscaram e seguraram e aninha­ram meigamente até que ele sentiu a arremetida pujante do seu próprio dese­jo, e mal pôde se conter. — Serena... — murmurou o nome com voz rouca — eu quero você, minha querida... eu quero você...

Mas havia uma pergunta nas palavras dele, também, e observava o rosto dela enquanto os olhos da moça buscavam os dele, e ela meneou a cabeça, e então ele tirou o resto das roupas do corpo dela, que ficou nua aos seus olhos. Brad também se despiu e quase instantaneamente estava deitado ao la­do dela, abraçando-a, enquanto a sua carne se apertava contra ela. E então, muito meigamente a princípio, e depois com uma fome maior, introduziu-se nela, forçando-se cada vez mais, até que ela gritou de dor, e então ele se arremeteu para diante, sabendo que tinha que ser feito prontamente, e então a dor acabou e ela se agarrou a ele, que começou a se contorcer misteriosamen­te enquanto lhe ensinava cuidadosamente as maravilhas do amor, e fizeram amor com muita ternura, até que, desta feita, ela arqueou as costas de repen­te e deu um grito, mas não de dor. Foi então que Brad se soltou, até sentir o ouro quente percorrê-lo, até que pareceu flutuar nele num céu cheio de jóias. Ficaram ali agarrados, voando pelo que pareceu uma eternidade, até que ele a percebeu deitada ao seu lado, linda como uma borboleta que tivesse pou­sado nos seus braços.

— Eu a amo, Serena. — A cada momento que passava, as palavras tinham um sentido ainda mais profundo, e desta vez Serena se virou para ele com um sorriso de mulher, e beijou-o, acariciando-o meigamente. Pareceu le­var horas até que conseguisse se afastar dela, e ficou deitado na bela cama imensa, apoiado num dos cotovelos e sorrindo para esta mistura incrível e dourada de mulher e criança. — Alô — falou, como se acabasse de conhecê-la,e Serena ergueu os olhos para ele e riu. Riu da expressão dele, do que havia di­to, e dos fantasmas que haviam afastado, não rudemente, mas sem dúvida com determinação, enquanto ela jazia na cama da mãe e erguia os olhos para os painéis de cetim azul que a faziam lembrar de um céu estivai. — É bonito, não é? — Ele olhou para o cetim azul-celeste e depois sorriu para ela, mas a moça sorria de modo estranho, e a sua risada era a de uma criança travessa.

— É. — Beijou a ponta do nariz dele. — Sempre foi bonito.

— O quê? — Parecia confuso.

— Esta cama. Este quarto.

Sorriu para ela docemente.

— Vinha aqui com freqüência com Marcella?

Fez a pergunta inocentemente, e Serena não pôde reprimir uma gargalhada. Tinha que lhe contar agora, só tinha. Haviam sido casados secretamente no jardim por espíritos amistosos, e consumado a sua união na cama da mãe dela. Era hora de contar-lhe a verdade.

— Não vinha aqui com Marcella. — Deixou pender a cabeça por um momento, tocando-lhe a mão e se perguntando como diria as palavras. E então fi­tou-o novamente nos olhos. — Eu vivia aqui, major.

— Acha que pode me chamar de Brad, agora? Ou é pedir demais?

Debruçou-se para beijá-la e ela deu um sorriso enquanto se afastava.

— Está certo. Brad.

— Como assim, você vivia aqui? Com Marcella e o seu pessoal? A família inteira trabalhava aqui?

Ela sacudiu a cabeça gravemente, com uma expressão séria nos olhos. Sentou-se na cama e envolveu-se nos lençóis, enquanto segurava com força a mão do amante.

— Este era o quarto da minha mãe, Brad. E o seu gabinete era o meu quarto. Foi por isso que... — A voz dela era tão baixa que ele mal a escutava. — Foi por isso que fui lá, naquela noite. A primeira vez que o vi... aquela noite no escuro...

Os olhos dela fitavam os dele, penetrantemente, e ele a olhou, atônito.

— Ah, meu Deus. Então, quem é você? — Ela ficou calada por um longo tempo. — Não é sobrinha de Marcella — disse, abrindo um sorriso. Disto ele já desconfiava há muito tempo.

— Não. — Fez-se nova pausa, e então Serena inspirou fundo e saltou da cama para lhe fazer uma mesura profunda. — Tenho a honra de ser a Principessa Serena Alessandra Graziella di San Tibaldo...

Ergueu o corpo e ficou parada diante dele, em toda a sua extraordinária elegância e beleza, nua no quarto da mãe, enquanto Brad Fullerton a fitava, aturdido.

— Você é o quê? — Mas ele já tinha ouvido tudo. Quando ela começou a repetir, ele ergueu rapidamente a mão e repentinamente começou a rir. Com que então esta era a "empregada" italiana que estava com medo de seduzir. A "sobrinha" de Marcella. Era maravilhoso e perfeitamente insano e deliciosa­mente maluco, e ele não podia parar de rir enquanto olhava para Serena, e ela também estava rindo, e finalmente ficou deitada nos braços dele, na cama da mãe, e ele ficou pensativo. — Que vida estranha para você, minha querida, vi­vendo aqui, trabalhando para o exército. — Recordou-se subitamente do tra­balho que ela tivera que fazer neste último mês, e de repente aquilo não lhe pareceu mais engraçado. Na verdade, parecia desesperadamente cruel. — Que diabo, como isso foi acontecer?

E então ela lhe contou, desde o começo, como acontecera, desde os dias de discórdia entre o pai e Sérgio, a morte dos pais, a temporada em Veneza, a sua fuga para os Estados Unidos, e a volta. E lhe contou a verdade, que não tinha nada, que não era ninguém, exceto uma empregada no palazzo. Não tinha dinheiro, nem bens, nada, exceto a sua história, a sua linhagem e o seu nome.

— Você tem muito mais do que isso, meu amor. — Disse ele, olhando para ela com meiguice enquanto jaziam na cama, lado a lado. — Tem um dom mágico, uma graça especial que pouca gente tem. Esteja você onde estiver, Serena, ela lhe será útil, fará com que sempre se destaque. Você é especial, Marcella tem razão. É uma principessa... uma princesa... agora estou enten­dendo.

Para ele, aquilo explicava a sua magia. Era uma princesa... a sua princesa... a sua rainha. Olhou-a com tanta ternura que ela quase ficou com lá­grimas nos olhos.

— Por que você me ama, major? — Parecia estranhamente velha e sábia e triste, enquanto fazia a pergunta.

— Estou atrás do seu dinheiro. — Olhou para ela, sorridente, parecen­do muito bonito e mais moço do que realmente era.

— Foi o que pensei. Acha que tenho o bastante? — perguntou, sorrin­do.

— Quanto você tem?

— Uns vinte e dois dólares, depois do último pagamento.

— Perfeito, fico com você, é o que quero. — Mas já a estava beijando, e ambos queriam uma outra coisa, em primeiro lugar. E depois que fizeram amor de novo, abraçou-a e ficou calado, pensando no que a moça tinha passado, até onde tinha ido, para voltar para casa, para retornar ao palazzo, on­de, graças a Deus, ele a encontrara. E, agora, jamais a largaria. Porém, enquan­to pensava desse modo sobre Serena, os seus olhos se dirigiram para a foto­grafia da moça sorridente de cabelos escuros na moldura de prata, sobre a mesa de tampo de mármore ao lado da cama. Era como se Serena pressen­tisse para onde ele estava olhando, e se virou para dar com o retrato de Pattie, sorrindo para os dois. Não falou nada, mas seus olhos se voltaram para os do major, com uma interrogação, e ele soltou um suspiro e sacudiu a cabeça. — Não sei. Serena, ainda não tenho a resposta para isso.

Ela assentiu, compreendendo, mas subitamente preocupada. E se o per­desse? E sabia que tinha que perder. A outra mulher era parte do mundo dele de um modo que Serena não era, e talvez nunca pudesse ser.

— Você a ama? — perguntou Serena, com voz suave e triste.

— Pensei que amava. Muitíssimo. — Serena assentiu e ficou calada, e ele segurou-lhe o queixo meigamente e fez com que erguesse os olhos de novo para ele. — Sempre lhe direi a verdade, Serena. Não vou esconder nada de vo­cê. Aquela mulher e eu estamos noivos, e não tenho idéia do que diabos vou fazer. Mas eu amo você. Sincera e verdadeiramente, amo você. Soube disso no minuto em que pus os olhos em você, andando na ponta dos pés no meu gabi­nete, no escuro. — Ambos sorriram da lembrança. — Tenho que pensar nesse assunto. Não a amo como amo você. Eu a amava como parte de um mundo familiar e confortável.

— Mas eu não sou parte desse mundo, Brad.

— Isso não tem importância para mim. Você é você.

— E a sua família? Será que eles também ficarão satisfeitos com isso? — Os olhos dela diziam que tinha as suas dúvidas.

— Eles gostam muito de Pattie. Mas isso não quer dizer coisa alguma.

— Não? — Serena tentou parecer irreverente enquanto saltava da cama, mas ele a puxou de volta.

— Não. Estou com trinta e quatro anos. Tenho que viver a minha vida, Serena, não a deles. Se quisesse viver a vida deles, já teria dado o fora do exér­cito e estaria trabalhando para um dos amigos do meu pai, em Nova York.

— Fazendo o quê? — Sentiu uma curiosidade insaciável, de repente, com relação a ele.

— Trabalhando num banco, provavelmente. Ou me candidatando a algum cargo político. Minha família está metida com política, nos Estados Unidos.

Ela soltou um suspiro cansado e havia um sorriso cínico nos seus olhos.

— A minha família estava metida com política, aqui.

Olhou para ele com tristeza e sabedoria e um toque de riso, e ele ficou contente ao ver que ela podia enxergar a ironia da situação.

— Lá é um pouco diferente.

— Espero que sim. É isso o que você quer fazer? Se meter na política?

— Talvez. Para dizer a verdade, prefiro continuar no exército. Ando pensando em fazer carreira.

— E o que eles acham disso? — Era como se ela tivesse pressentido instan­taneamente como eles o dominavam, ou tentavam dominar. E às vezes era uma batalha para valer. — Gostam da idéia?

— Não. Mas, é a vida. E esta é a minha vida. E eu amo você. Nunca se es­queça disso. Eu tomo as minhas próprias decisões. — Olhou de novo para o re­trato. — Sobre isto também. Capisci?

Ela riu do italiano com sotaque americano.

— Capito.

Ótimo. — Beijou-a e dali a um momento fizeram amor deliciosamente, de novo.

 

— Você o quê? — Marcella olhou para ela, num espanto total. Por um momen­to, Serena teve medo de que fosse desmaiar.

— Calma, pelo amor de Deus. Contei a ele. Foi só.

— Você contou ao major? — Marcella parecia que ia entrar em estado de choque. — O quê contou?

— Tudo. Sobre os meus pais. Sobre esta casa. — Serena tentava parecer indiferente, mas não estava conseguindo, e acabou por soltar um sorriso ner­voso.

— Por que fez isso? — indagou a velha, observando-a astutamente. Estivera certa, então. Serena estava se apaixonando pelo americano bonitão. Agora, só o que tinha a fazer era torcer para que se casasse com ela, e todas as suas orações teriam sido atendidas. Era a única esperança que podia enxergar para a querida Serena, e podia notar pelos detalhes que estava acostumada a obser­var que ele era bem-nascido, provavelmente cheio de dinheiro, e há muito que já concluíra que era um rapaz muito simpático.

— Fiz, foi só isso. Estávamos conversando, e me senti desonesta por não lhe dizer a verdade.

Marcella era velha e sabida demais para acreditar numa só palavra que Se­rena estava dizendo, mas balançou a cabeça e fingiu aceitar a história.

— O que foi que ele disse?

— Nada. — Sorriu consigo mesma... Que me ama... — Acho que ele não se importa com o título. Ora — falou, sorridente, para Marcella — ainda sou apenas a arrumadeira, para ele.

— É? — Cella observou as reações dela. — É só isso que é para ele, Serena?

— Claro. Bem... suponho que sejamos amigos, agora...

As palavras dela foram sumindo e Marcella pensou por um momento, de­pois resolveu forçar a resposta à pergunta que a preocupava.

— Você o ama, Serena?

— Se eu... ora, mas isso é... — Já ia esbravejar, mas resolveu desistir do fingimento, e balançou a cabeça. — Sim, amo.

A velha foi até Serena e a tomou nos braços.

— E ele também a ama?

— Acho que sim. Mas — soltou um profundo suspiro e se livrou dos braços da velha para caminhar pelo quarto — isso não quer dizer nada, Cella. Tenho que enfrentar a verdade. Ele está aqui, é o romance de Roma... a guerra. Um dia vai voltar para o mundo que conhece.

— E vai levar você — falou a velha, com orgulho. Esta moça especial era, afinal de contas, como uma parte de si mesma.

— Acho que não. E se levasse, seria por piedade. Seria porque teria pena de me deixar aqui.

— Ótimo. Então, vá com ele.

No que dizia respeito a Marcella, estava tudo resolvido. Mas Serena enxergava as coisas de modo diferente.

— Não é tão simples.

— É, se você quiser que seja. Quer? Ama-o o bastante para ir com ele?

— Claro que sim. Mas não é disso que se trata. Ele tem uma vida lá, Cella. Não é o tipo de homem de levar uma noiva de guerra para casa...

— Noiva de guerra! — Marcella se pôs de pé num salto. — Noiva de guer­ra? Está maluca? Sei pazza? Você é uma princesa, ou não está lembrada disso? Não deixou de contar para ele, não é? — Parecia subitamente ansiosa, e Serena achou graça.

— Contei, sim. Mas isso não é tudo. Não tenho nada, Cella. Não agora. Absolutamente nada. Nem dinheiro, nada. O que a família dele vai pensar se ele me levar para casa?

Da noite para o dia ela passara a entender como eram as coisas da vida, mas Marcella não queria saber de nada.

— Vai pensar que ele tem muita sorte, é isso o que ela vai pensar.

— Talvez. — Mas Serena não acreditava nisso. Estava se lembrando do ros­to que vira com tanta freqüência nos retratos... "Minha família gosta muito de Pattie", podia ouvi-lo dizer. Mas, será que gostariam dela? Não parecia pro­vável. Sentia-se envergonhada, agora. Como se tivesse sido desonrada junto com o seu tio Sérgio e II Duce, o seu país se desmontara à sua volta, e a sua vida também. Saiu para o jardim, e Marcella ficou a observá-la se afastar.

O mês de outubro foi um mês de sonho para Serena. Ela e Brad tinham acer­tado os ponteiros do seu caso com precisão milagrosa, e todas as noites de­pois do jantar ele ia para o seu quarto, e Serena ficava esperando no dela. Quando Marcella ia para a cama, os ordenanças tinham geralmente se recolhi­do, e ela ia pé ante pé para a casa principal e subia discretamente a escada de mármore que levava ao quarto dele, onde Brad a esperava com coisas para lhe contar, histórias engraçadas, às vezes uma carta do irmão mais moço, vinho branco ou champanha, ou um prato de biscoitos, ou fotos que tirara dela na semana anterior, e que ficavam examinando. Sempre havia algo para partilhar, para fazê-los rir, para apreciar, para discutir, e depois, inevitavelmente, dali a um pouco, havia o milagre de fazerem amor, as descobertas e prazeres sem fim que encontrava nos braços dele. As fotos de Pattie acabaram sendo relegadas para o escritório dele, e agora ela nunca as via. Passavam as noites enfiados na cama dele, muito aconchegados, e depois se levantavam juntos, antes do res­to do pessoal da casa, pouco antes das seis da manhã. Ficavam sentados por um momento, vendo o sol nascer, olhando para o jardim familiar, e depois com um último beijo, um último toque, um abraço, ela voltava para o seu alo­jamento, e ambos começavam o seu dia. De um modo estranho era como estar recém-casados, porque cada um vivia para voltar para o outro no final do dia. Foi num dia no finalzinho de outubro que Serena veio ao seu encontro e deparou com ele perturbado e confuso. Pareceu nervoso quando Serena o abraçou, e quando ela fez um comentário a respeito, pareceu não ter escutado.

— O quê? — Ergueu os olhos para ela, da cadeira onde estava sentado, fi­tando o fogo com uma expressão distante. — Desculpe, Serena. O que foi que disse?

— Disse que parecia preocupado com alguma coisa, meu querido. — A voz dela era um murmúrio no pescoço dele, que soltou um profundo suspiro e encostou a cabeça na dela.

— Não exatamente. Apenas um pouco perturbado.

Enquanto olhava para ele atentamente, pensou de novo que tinha uma bela cabeça, lindos olhos cinzentos, e agora sabia também que era a um só tempo inteligente e bondoso. Às vezes até demais. Era um homem cuja maior virtude era a compaixão, e sempre lutava para compreender e ajudar os seus homens. As vezes aquilo fazia com que lhe faltasse um pouco de firmeza como líder. Nunca era indiferente, sempre se importava.

— Está preocupado com o que, B.J.?

Sorriu com o apelido que os homens usavam. Serena raramente o usava. Quando implicava com ele, chamava-o de major. Caso contrário, era Brad.

Olhou para ela, pensativo, depois concluiu que tinha que lhe contar. Quisera esperar até a manhã seguinte, mas não havia por quê... nunca ia haver um momento certo.

— Serena... — O coração dela parou ao ouvir o jeito com que Brad falou. Sabia o que vinha a seguir. Ele ia deixar Roma. — Recebi um telegrama hoje de manhã. — Ela fechou os olhos enquanto escutava, lutando contra as lágrimas. Sabia que tinha que ser corajosa na hora de escutar, mas as suas en­tranhas tinham virado geléia. Abriu os olhos rapidamente e viu a dor dos seus olhos espelhada nos dele. — Ora, vamos, coração, não é tão ruim assim.

Tomou-a nos braços e deixou os lábios percorrerem lentamente os fios de ouro do cabelo dela.

— Você vai partir? — ela murmurou, e ele sacudiu rapidamente a cabeça.

— Claro que não. Foi o que pensou? — Afastou-se dela suavemente, os olhos carinhosos e tristes a um só tempo. — Não, querida, não vou partir. Não é nada oficial. — E então decidiu entrar de cabeça e falar logo. — É a Pattie. Vem para cá. Não tenho certeza do porquê. Disse que a viagem é um presen­te de noivado do pai dela. Para falar a verdade, acho que está é preocupada. Não tenho escrito muito, ultimamente, e ela ligou para cá, outro dia de manhã, logo depois de... não sei. Não consegui falar com ela. — Levantou-se e pôs-se a caminhar lentamente pelo quarto, os olhos perturbados e con­fusos. — Não podia dizer as coisas que ela queria. — Virou-se para olhar para Serena. — Não pude fazer o jogo com ela, Serena. Não sei. Não estou certo do que fazer. Provavelmente devia ter-lhe escrito há semanas, para romper o noivado, mas... — Parecia desesperadamente infeliz. — Não tinha certeza.

Serena meneou a cabeça, a faca da dor cortando-a até o âmago.

— Você ainda a ama, não é? — Era mais uma afirmação do que uma per­gunta, e B.J. olhou para ela com angústia renovada nos olhos.

— Não tenho certeza. Há meses que não a vejo, e foi tudo tão irreal. Era a primeira vez em três anos que eu ia para casa. Foi tudo tão inebriante e romântico, e as nossas famílias nos estavam incentivando. Era como algo saído de um filme, não estou certo de que faça parte da vida real.

— Mas você ia se casar com ela.

Ele fez que sim, lentamente.

— É o que todos queriam. — E então soube que tinha que ser honesto: — É o que eu queria, também. Parecia tão certo, na época. Mas agora...

Serena fechou os olhos por um momento, enquanto se esticava diante do fogo, tentando suportar a dor do que sabia viria a seguir. E depois olhou para ele de novo, não com raiva, mas com tristeza. Sabia que não podia lutar contra a moça bonita de cabelos negros. Ela já o ganhara. E Serena não era ninguém. Apenas a arrumadeira, como dissera para Marcella. A fealdade daquilo é que era tudo verdade.

— Sei no que está pensando. — Falou com ar infeliz, enquanto se largava numa cadeira perto da janela e corria a mão pelos cabelos encaracolados já desfeitos. Antes que ela viesse ao seu encontro, naquela noite, ficara sentado ali durante horas, pensando, sopesando, fazendo-se perguntas para as quais não tinha resposta. — Serena, eu a amo.

— E eu o amo, também. Mas também compreendo que isso é uma coi­sa muito romântica, que é maravilhosa, mas que é ela, Brad, que não é real. A moça, a família dela, eles o conhecem. Você os conhece. Essa é a sua vida. O que pode haver entre nós, na verdade? Uma lembrança extraordinária? Um momento de ternura? — Ela deu de ombros. — Isso é que é mais como "algo saído de um filme" — falou, citando-o. — Não é nada na vida real. Você não pode me levar para casa. Não podemos nos casar. É com ela que você deve se casar, e sabe disso.

Os olhos de Serena ficaram cheios de lágrimas e então virou-se para o outro lado. Brad se dirigiu rapidamente para ela e a tomou nos braços.

— Mas, e se eu não quiser?

— Tem que querer. Estão noivos.

— Posso romper o noivado. — Mas o problema era que não tinha certeza se era o que desejava. Amava esta moça. Mas também amava Pattie. E se sen­tira tão orgulhoso, tão eufórico, tão entusiasmado. Era isso o que sentia ago­ra? Era isso o que sentia por Serena? Não, não era entusiasmo, era algo dife­rente, algo tranqüilo. Sentia-se protetor e meigo, e às vezes quase paternal a seu respeito. Queria estar ao seu dispor. E sabia, também, que no final de cada dia queria que ela estivesse ao dispor dele. Aprendera a contar com a sua presença suave, as palavras cheias de consideração, os momentos serenos nos quais sopesava tudo o que ele havia dito. Era freqüente ela dizer coisas que o ajudavam, mais tarde. Enquanto se sentava à sua mesa de trabalho, en­frentando um problema, ficava ouvindo aquela voz doce ao seu lado, e seguia em frente com firmeza. Ela lhe dava uma força que Pattie desconhecia. Sobre­vivera à tristeza e à perda e aquilo a deixara mais forte, e era essa força que partilhava com ele. Ao lado dela, sentia como se pudesse escalar montanhas, nos seus braços encontrava uma paixão que jamais conhecera antes. Mas, será que duraria uma vida inteira? E será que realmente poderia levá-la para casa consigo? Estas eram as coisas das quais não tinha certeza. Pattie Atherton pertencia ao seu mundo, à sua cultura, era parte de uma tapeçaria já existen­te. Era certo que ficassem juntos. Será que era? Enquanto fitava os profun­dos olhos verdes de Serena, já não tinha mais certeza. O que queria era o que tivera quando a abraçara, a paixão, o carinho, o desejo, a força que partilha­vam. Não podia desistir disso. Mas talvez tivesse que fazê-lo. — Ah, Jesus, Serena... não tenho certeza. — Apertou-a contra si e sentiu-a tremer. — Sinto-me como um cretino. Sei que devia estar fazendo alguma coisa decisiva. E o problema é que você sabe, e Pattie não. Pelo menos, eu devia dizer-lhe a verdade.

Sentia-se culpado com relação a todos, e dividido intimamente.

— Não, Brad, não devia. Ela não precisa saber. Se você se casar com Pattie, ela nunca precisará saber a meu respeito. — Seria apenas mais um ro­mance de tempo de guerra, uma italiana e um soldado. Sem dúvida havia muitos deles por aí, pensou Serena com amargura por um momento, e depois afastou a raiva da cabeça. Não tinha o direito de ficar zangada. Tinha dado a ele o seu coração e a sua pessoa... fizera o que fizera, sabendo que havia uma outra mulher, e sabendo muito bem que o caso podia não dar em nada. Tinha jogado e provavelmente perdido. Mas não se arrependia do jogo. Amava-o, e sabia que, independente do que sentisse pela noiva, ele a amava também. — Quando é que ela chega?

— Amanhã.

— Ah, meu Deus. — Esta seria a sua última noite, então. — Por que não me contou?

— Não tinha certeza absoluta de quando chegaria, até esta noite. Acabei de receber outro telegrama. — Tomou-a nos braços.

— Quer que eu me vá, agora? — Era uma vozinha de bravata, e Brad sacudiu rapidamente a cabeça, puxando-a mais para perto de si.

— Não... ah, Deus, não faça isso... preciso de você. — E então se sen­tiu culpado de novo, ao se dar conta de como estava sendo injusto. Afastou-a de si, lentamente. — Quer ir?

Desta vez foi Serena quem sacudiu a cabeça, sem tirar os olhos dos dele.

— Não.

— Ah, meu bem... — Escondeu o rosto no pescoço dela. — Eu a amo... Sinto-me um fraco.

— Não é fraco, é apenas humano. Essas coisas acontecem. Suponho — soltou um suspiro cheio de sabedoria — que aconteçam todos os dias. — Mas nada disso jamais lhe acontecera antes. Nunca se sentira tão confuso. Havia duas mulheres que queria, e não tinha idéia de qual o lado certo para o qual se virar. — Venha — falou Serena, levantando-se e tomando a sua mão. E quando ele ergueu os olhos para ela, pareceu-lhe mais mulher do que nunca. Era um absurdo que só tivesse 19 anos. Era tão velha e sábia quanto o tempo, parada ali, sorrindo docemente, estendendo-lhe os braços, e lentamente ele se pôs de pé. — Parece cansado, meu amor.

Doía por dentro, mas não ia deixar que ele o visse. Em vez disso, só o que fez foi demonstrar o seu amor por ele, e a sua força tranqüila. Era a mes­ma força que lhe permitira sobreviver à morte dos pais, ao exílio nos Esta­dos Unidos, e à perda da avó durante a guerra. Era a mesma força que lhe per­mitira retornar, e morar no palazzo no alojamento dos criados, esfregando o chão dos banheiros e se esquecendo que fora uma princesa, alguma vez. Ago­ra, era essa força que dava para ele. Levou-o em silêncio para o quarto, ficou parada junto à cama da mãe e começou a se despir devagar. Era um ritual noturno entre eles, e às vezes ele a ajudava, às vezes apenas observava, admi­rando a beleza graciosa do seu corpo jovem e das pernas longas. Porém esta noite não conseguia manter as mãos longe dela, enquanto o luar dançava nos seus cabelos cor de platina, e as roupas dele logo jaziam num montículo ao seu lado antes que ela estivesse despida, e ele a colocou rapidamente sobre a cama e cobriu-lhe o corpo com os lábios quentes e esfaimados.

— Ah, Serena, querida... eu a amo tanto...

Ela sussurrou o nome dele ao luar, e durante as longas horas que prece­deram o alvorecer eles se esqueceram de que havia outra mulher, e Serena foi dele repetidas vezes.

 

O Major B.J. Fullerton parecia muito alto e empertigado e bonitão no aero­porto militar nos arredores de Roma. Apenas os seus olhos pareciam levemen­te perturbados, e tinha olheiras que indicavam que dormira pouco, e quando acendeu um cigarro percebeu que as suas mãos estavam tremendo. Parecia tolice estar nervoso por ver Pattie, mas estava. O pai dela, Deputado Atherton, de Rhode Island, tinha arranjado para ela um lugar no avião militar para Ro­ma, que devia chegar dali a dez minutos. Por um breve momento, B.J. dese­jou ter tomado um drinque antes de sair de casa. E então, de repente, viu o avião, circulando lá no alto e depois baixando, dirigindo-se para a pista, e finalmente pousando graciosamente, e depois taxiando até o pequeno prédio edificado às pressas, onde ele se encontrava. Ficou imóvel enquanto via dois coronéis e um major descerem as escadas do avião, depois um pequeno grupo de ajudantes-de-ordens, uma mulher vestindo o uniforme de enfermeira mili­tar, e então sentiu o coração disparar ao vê-la, parada no alto das escadas, olhando para a pista até enxergá-lo, acenando e sorrindo alegremente, os cabe­los negros presos num chapéu vermelho vivo. Estava usando um casaco de peles e meias escuras, e tocou o corrimao enquanto descia as escadas com uma mãozinha elegante enfiada numa luva de pelica preta. Mesmo a essa distância, ficou impressionado com a boniteza dela. A palavra certa para Pattie era boni­ta. Não era bela como Serena. Não era de chamar a atenção. Mas era bonita, com um sorriso brilhante, olhos azuis de boneca, e um narizinho arrebitado. No verão, o seu rosto ficava ligeiramente salpicado de sardas, quando ela ia para Newport com os pais e passava as férias no "chalé" de 14 quartos com todos os outros amigos com que se reunia ali todos os anos. A bonita Pattie Atherton. Sentiu o estômago tremer ao olhar para ela. Teve vontade de cor­rer em sua direção, como ela corria para ele, mas algo o deteve. Ao invés dis­so, caminhou ao seu encontro com passadas longas e lentas e um sorriso me­lancólico.

— Oi, mocinha bonita, posso mostrar-lhe a cidade, ou está esperando alguém?

Deu-lhe um beijo brincalhão na testa, e ela deu uma risadinha, erguendo o rosto para ele com o seu deslumbrante sorriso de Miss América.

— Claro, soldado, adoraria conhecer Roma com você.

Ela meteu a mão sob o braço dele e apertou com força, e B.J. teve que lutar para não fechar os olhos, de tanto medo que tinha que eles demonstras­sem os seus sentimentos. Não queria fazer isso, não queria brincar com ela, ou bancar o engraçado. Queria contar-lhe a verdade, enquanto estavam ali no aeroporto, olhando um para o outro... Pattie, eu me apaixonei por outra mulher... tenho que romper o nosso noivado... quero me casar com ela... não a amo mais... Porém, seria verdade? Será que não amava mais Pattie Atherton? Achava que não. Na verdade, ao pegar a sua mala e acompa­nhar o casaco de peles para fora do aeroporto, tinha quase certeza.

Providenciara um carro e motorista, e dali a um momento eles estavam sentados lado a lado no banco de trás do veículo... quando, subitamente, ela jogou os braços à volta do pescoço dele e beijou-o com força na boca, deixando uma marca vivida de batom vermelho que combinava perfeitamente com o chapéu.

— Vamos com calma, meu bem. — Ele pegou rapidamente o lenço, enquanto o motorista punha a bagagem dela na mala do carro.

— Por quê? Viajei seis mil quilômetros para vê-lo. — Os olhos dela brilhavam um pouco demais, como se já soubesse, como se sentisse algo diferen­te. — Não mereço um beijo?

— Claro que sim. Mas não aqui. — Deu uma palmadinha na mão dela en­quanto ela tirava as luvas e ele via o refulgir do anel de noivado que lhe dera naquele verão. Ainda não estavam em novembro, e ele já estava pensando melhor.

— Está bem. — Olhou para ele com displicência, e Brad podia notar a semelhança com a mãe dominadora, no jeito como retesava o queixo. — Então, vamos para o palácio. Além do que — disse, sorrindo docemente — quero vê-lo. Papai falou que é divino.

— E é. — Sentiu um tremor percorrê-lo. — Mas não prefere ir primeiro para onde vai ficar hospedada? Por falar nisso, onde vai ficar?

— Na casa do General e Sra. Bryce.

Falou com ar convencido, como a filha do Deputado Atherton, e por um momento ele a detestou por seus modos arrogantes. Como era diferente da meiga Serena, como parecia áspera, por comparação. Será que esta era mes­mo a moça bonita com que passara tanto tempo em Newport, e com quem saíra com tanto ardor, no verão passado, quando estava de licença? Não pare­cia assim tão atraente agora, sentada ao seu lado, e ele a espiava com o canto do olho enquanto pedia ao motorista que os levasse para casa.

Ele olhou para as ondas lustrosas do cabelo cortado curto e para o custoso chapéu de lã.

— Pattie, o que a fez vir para cá agora? — B.J. levantara o vidro que os separava do motorista e agora fitava Pattie nos olhos enquanto se recostava no assento do carro. Estava alerta, e não saoia ao certo por quê. — Eu lhe disse que ia tentar ir para casa no Natal.

— Eu sei. — Tentou parecer a um só tempo petulante e tentadora, e qua­se teve êxito. Quase. — Mas senti demais a sua falta. — Beijou-o no pescoço, brincalhona, deixando de novo a sua marca. — E você é um correspondente tão ruim. — Porém, enquanto olhava para ele, era como se estivesse perscrutando. Estava lhe fazendo uma pergunta, se não com palavras, com os olhos.

— Por quê? Não gostou de eu ter vindo, Brad?

— Absolutamente. Mas estou tremendamente ocupado, no momento. — Olhou pela janela, pensando em Serena, antes de voltar a fitar Pattie com reprovação na voz e no olhar — você devia ter me consultado.

— Devia? — Arqueou de novo a sobrancelha, e mais uma vez ele achou notável a semelhança com a mãe dela. — Está zangado?

— Não, claro que não. — Deu-lhe uma palmadinha na mão. — Mas, Pat­tie, há seis meses isso aqui era zona de guerra. Tenho que trabalhar. Não vai ser fácil tê-la por perto.

Em parte era verdade, mas o motivo real escondia-se por baixo deste. E Pattie parecia que estava pressentindo, enquanto o examinava, avaliadoramente.

— Bem, papai queria saber o que eu queria de aniversário, e o que quis foi isto. Naturalmente — olhou para ele com uma leve acusação — se está ocu­pado demais para me ver, estou certa de que o General e a Sra. Bryce terão prazer em me fazer companhia, e sempre posso ir para Paris. Papai também tem amigos lá. — Aquilo tudo soava tão petulante e mesquinho, que o deixou irritado. Não podia deixar de reparar no contraste entre as suas ameaças vela­das de "papai" e as explicações graves e sussurradas de Serena sobre "meu pai", enquanto contava a B.J. sobre os conflitos dele com o irmão, as suas im­plicações, e as pressões políticas que acabaram por levar à sua morte. O que Pattie entendia de coisas como essas? Nada. Entendia apenas de compras e tênis e verões em Newport, e festas de debutantes e diamantes e El Morocco e o Stork Club e um sem-fim de festas em Boston e Nova York. — Brad. — O olhar que lhe lançou era parte triste, parte zangado. — Não está contente que eu tenha vindo ver você?

Fazia "beicinho", mas os grandes olhos azuis brilhavam, e enquanto a observava perguntava-se se alguma coisa realmente tinha importância para ela. Exceto conseguir o que queria, desconfiava ele, com papai ou outra pessoa qualquer.

No verão anterior, achara-a tão encantadora, tão engraçadinha, e tão sensual, e tão mais divertida do que as outras debutantes que conhecera antes da guerra. Porém, tinha que admitir agora que a única coisa diferente a seu respeito era que era um pouquinho mais astuta e um bocado mais esperta. Perguntou-se, de repente, se ela teria manipulado o noivado. Sem dúvida deixara-o louco pelo seu corpo, no verão de Nova York. Um anel de diaman­tes parecera na época um preço pequeno para pagar pelo que havia entre aquelas pernas bem-torneadas.

— Como é, B.J.? — Ainda queria uma resposta à sua pergunta, e ele teve que se forçar a se concentrar na mulher sentada ao seu lado no carro que cor­ria pelas ruas de Roma.

— Sim, Pattie, estou contente em vê-la. — Mas aquilo soava como a fala obediente de um marido infeliz, casado há muitos anos. Não se sentia como um amante, sentado ao lado dela no carro, olhando para o rosto bonito, o chapéu vermelho e as peles. — Acho só que estou um pouco surpreso.

— Mas as surpresas são uma coisa agradável, B.J. — Franziu o nariz para ele. — Eu adoro.

— Sei que sim. — Sorriu mais gentilmente para ela, então, lembrando-se de como ficara satisfeita com todas as oferendas dele, flores e presentinhos e certa vez um passeio de coche ao luar, que providenciara especialmente para ela. Lembrou à moça o passeio, e ela abriu um sorriso.

— Quando vai voltar para casa, B.J.? — A petulância estava de volta à sua voz, e ele soltou um suspiro. — Quero dizer, definitivamente.

— Não sei.

— Papai falou que pode arranjar isso para você logo logo, se você deixar. — Então, piscou o olho. — Ou talvez mesmo se não deixar. Quem sabe este poderia ser o meu presente de Natal para você?

O simples fato de ouvi-la falar deixou-o em pânico. A idéia de ser separado de Serena antes de estar pronto deixava-o apavorado.

Apertou a mão de Pattie com força demais, e nos seus olhos ela pensou ter visto terror.

— Pattie, jamais faça isso. Eu mesmo cuidarei da minha vida no exército. Está entendendo? — A sua voz subiu com aspereza, e os olhos dela o con­trolaram. — Está?

— Estou — respondeu rapidamente. — Talvez melhor do que você imagi­na. — Queria perguntar o que ela estava querendo dizer com aquilo, mas não teve coragem. O que quer que soubesse, ou do que desconfiasse, ele ainda não queria saber. Mais cedo ou mais tarde teria que falar com ela. Teria que tomar algum tipo de decisão, e talvez até mesmo contar-lhe o que acontecera nos últimos meses. Porém, ainda não. De certa forma, ele sabia que ela fora esperta em ter vindo. Se havia um meio de poder prendê-lo, era este. Se fos­sem realmente se casar, era bom que ele a visse pessoalmente, agora, antes que fosse tarde demais. Porém, quando seus pensamentos começaram a se ocupar de Serena, o motorista atravessou o portão principal do palazzo. — Santo Deus, B.J.! — Ela fitava o prédio, atônita. — É esse aí? — Ele fez que sim, meio orgulhoso e meio divertido com a expressão do rosto dela. — Mas você é apenas um major!

Ela deixou escapar as palavras sem sentir, e então tapou a boca com a mão enluvada, enquanto ele ria.

— Ainda bem que você está impressionada. — Estava perturbado, enquanto a ajudava a sair do carro, e sentiu uma onda de nervosismo percorrê-lo. Queria era levá-la para a casa do general e não trazê-la para cá durante o dia. Sem dúvida iam esbarrar com Serena, e não tinha certeza se saberia como proceder. — Vou lhe mostrar tudo rapidamente, Pattie, e depois vamos insta­lá-la na casa dos Bryce.

— Não estou com pressa. Dormi até a Irlanda, no avião. — Sorriu contente para ele e subiu majestosamente os degraus que levavam ao saguão prin­cipal. Ali, um dos ordenanças escancarou a enorme porta de bronze e Pattie se viu parada sob o lustre magnífico. Notou o piano de cauda e se voltou para ver B.J. atrás dela, parecendo divertido, mesmo a contragosto, com as reações dela. — A guerra é um inferno, hem, major?

— Sem dúvida. Quer ver a parte de cima?

— Claro que sim.

Ela o seguiu escada acima, e todos os olhos os acompanharam. Ao seu jeito, era uma jovem fascinante, e nenhum deles tinha visto uma mulher como Pattie há muito tempo. Tudo nela recendia a dinheiro e classe. Parecia saída das páginas da revista Vogue, e depositada na soleira da porta deles, a 6 mil quilômetros de casa. Os ordenanças trocaram olhares. Era uma uva, sem dú­vida, e todos tinham ouvido dizer que era filha de um deputado. Se o velho do major já não tivesse sido senador, e se não soubessem que ele também era cheio do dinheiro, teriam se perguntado se ele estava atrás de alguma coisa. Mas, do jeito que era, parecia que tinham sido feitos um para o outro. Um dos ordenanças murmurou para o outro:

— Puxa vida... olhe só para aquelas pernas!

B.J. levou-a de sala em sala, apresentando os homens nos diversos gabi­netes, e as secretárias, que ergueram os olhos do serviço que estavam fazendo. Ficaram sentados numa sala de estar que dava para o jardim, onde ele às vezes recebia convidados, e então, de repente, ela ergueu os olhos para Brad, a cabe­ça inclinada para o lado, e fez a pergunta que ele estava evitando.

— Não vai me mostrar o seu quarto?

Brad lhe mostrara rapidamente o gabinete de trabalho, mas evitara de propósito o quarto enorme com a cama de dossel antiga.

— Suponho que sim, se você quer vê-lo.

— Mas, claro que sim. Imagino que seja luxuoso como o resto da casa. Pobre B.J. — brincou. — Que vida dura está levando aqui! E pensar que as pes­soas sentem pena de você, ainda na Europa depois da guerra! — Porém havia mais que divertimento e gozação no que ela dizia, havia acusação, agora, e desconfiança, e ressentimento e raiva. Ele começou a pressentir tudo isso enquanto a conduzia por um corredor de mármore e abria um par de portas duplas lindamente entalhadas. — Santo Deus, B.J.! Tudo isto para você? — Virou-se para ele rápido demais, e de repente viu que Brad enrubescia até a raiz dos cabelos. Ele não disse mais nada e caminhou depressa até a longa fileira de janelas, abriu uma delas e saiu para a sacada, fazendo um comentário sobre a vista. Mas não estava atrás da vista. O que queria era enxergar Serena. Afinal de contas, esta também era a casa dela. — Não tinha idéia de que você morasse tão confortavelmente, B.J.

A voz de Pattie era roufenha enquanto saía para se postar ao lado dele no pequeno balcão que dava para as colinas ondulantes lá embaixo.

— Isso a incomoda? — Olhou fundo nos olhos dela, tentando compreender quem era, e o que sentia. Será que realmente o amava, ou apenas queria tê-lo? Era uma pergunta que vinha se fazendo já há algum tempo.

— Não me incomoda... claro que não... mas me faz pensar se você vai ter vontade de voltar para casa, algum dia.

— Claro que sim. Quando chegar a hora.

— Mas não por algum tempo? — Os olhos dela buscaram outras respos­tas nos dele, mas os olhos cinzentos estavam perturbados, e Brad desviou o olhar. Ao fazê-lo, deparou com Serena, sentada sob a sua árvore. Estava de lado, e ele lhe podia ver o perfil, e por um momento ficou hipnotizado, cala­do, enquanto Pattie também a via e olhava rapidamente nos olhos de Brad.

— B.J.?

Ele não respondeu por um longo momento. Não tinha escutado. Esta­va vendo algo diferente em Serena, algo que jamais vira exatamente daquele jeito, uma dignidade tranqüila, uma seriedade, uma beleza quase insuportável, enquanto se dava conta de que olhar para ela era como olhar para o céu refletido em águas mansas, e estar com Pattie era como estar sendo constan­temente jogado de um lado para outro num mar turbulento.

— Desculpe. — Virou-se para Pattie dali a um momento. — Não ouvi o que acabou de falar.

Mas havia algo estranho nos olhos dela, depois que se virou para a moça, e havia algo muito diferente nos dele.

— Quem é ela? — Os olhos de Pattie começaram a pegar fogo, e a sua boca cheia pareceu formar instantaneamente uma linha fina.

— Como?

— Não se faça de desentendido, B.J. Você me ouviu. Quem é ela? A sua puta italiana? — Uma torrente de ciúme a invadiu, e sem saber de nada ao cer­to, quase tremia de raiva. Mas B.J. ficou subitamente com raiva, também. Agarrou o braço envolto em peles de Pattie com uma mão forte, e apertou-o até ela sentir.

— Nunca mais me diga uma coisa dessas. Ela é uma das empregadas da casa. E, como a maioria das pessoas neste país, comeu o pão que o diabo amassou. Coisa que você jamais entenderia, com as suas idéias de "esforço de guerra”, dançando com soldados nos bailes promovidos pelas Forças Arma­das e indo ao El Morocco com os seus amigos todas as noites.

— Verdade, major? — Os olhos dela lançavam chamas. — E por que ela é tão importante para você, se não é a sua putinha? — cuspiu a palavra.

Sem pensar, ele agarrou-a pelo outro braço e começou a sacudi-la, e quando falou de novo a sua voz era alta e áspera.

— Pare de chamá-la, assim, porra!

— Por quê? Está apaixonado por ela, B.J.? — Depois, com maldade: — Os seus pais estão sabendo disso? Estão sabendo do que anda fazendo aqui? Dormindo com uma maldita empregada italiana.

Jogou o braço para trás para esbofeteá-la, depois se conteve bem a tempo, trêmulo e pálido, enquanto instintivamente olhou para Serena e deparou com ela parada logo abaixo deles, uma expressão de horror no rosto e os olhos brilhantes de lágrimas.

— Serena! — chamou, mas ela desapareceu instantaneamente, e ele sen­tiu uma rápida pontada de dor. O que será que escutara? As acusações sórdi­das de Pattie, o seu discurso enfurecido sobre os pais dele e "uma maldita em­pregada italiana"? Ficou horrorizado com o que tinha acontecido, mas apenas porque podia ter magoado Serena. Deu-se conta subitamente de que não liga­va mais a mínima para Pattie Atherton. Soltou-lhe os braços e recuou, caute­losamente, com uma expressão sombria no rosto. — Pattie, eu não sabia disto quando você me mandou o telegrama avisando que vinha, ou teria pedido que não viesse, mas vou me casar com aquela mulher que você acabou de ver. Ela não é o que você está pensando, mas isso realmente não tem importância. Eu a amo. Lamento não lhe ter dito antes.

Pattie Atherton olhou para ele com uma mistura de choque e horror e começou a sacudir lentamente a cabeça, enquanto os seus olhos ficavam cheios de lágrimas.

— Não! Não pode fazer isso comigo, porra! Não vou deixar! Está maluco, casando-se com uma empregada? O que vai fazer? Morar aqui? Não vai po­der levá-la para Nova York com você, os seus pais o deserdariam e você cria­ria embaraços para todos... — Gaguejava, e as lágrimas estavam começando a lhe escorrer dos olhos.

— Não é disso que se trata, Pattie. A vida é minha, não dos meus pais. E você não sabe do que está falando. — A sua voz estava serena e firme.

— Sei que ela é uma das empregadas da casa.

Ele assentiu, lentamente, depois olhou longa e fixamente para Pattie.

— Não quero discutir isto com você, Pattie. O assunto é a gente, e me desculpe, cometi um engano no verão passado. Mas não creio que nenhum dos dois seria feliz se nos tivéssemos casado.

— Então vai me dar o fora, é? — Soltou uma risada estridente, em meio às lágrimas. — Tão simples. E depois? Vai levar para casa a sua putinha? Santo Cristo, você deve estar maluco, B.J.! — E então, estreitando os olhos: — Ou quem sabe a maluca fui eu, acreditando em toda aquela merda com que me encheu os ouvidos. Toda aquela conversa do quanto me amava!

— Amava... na época...

— E agora não ama? — Parecia estar com vontade de bater nele, mas não tinha coragem.

Mas B.J. se manteve firme. Tinha certeza.

— Não o bastante para casar com você, Pattie. — A voz dele era gentil, agora, a despeito de tudo o que ela dissera. — Seria um erro terrível.

— Não diga. — Tirou o anel do dedo e enfiou-o na mão dele. — Acho que você acaba de cometer um erro terrível, companheiro. Mas vou deixar que descubra isso por si mesmo.

Brad não disse nada, mas entrou atrás dela no quarto, onde Pattie viu a sua foto, que ele recolocara ali num momento de covardia. Ela atravessou o quarto, pegou a moldura de prata e arremessou-a contra a parede. O som de vidro se estilhaçando rompeu o silêncio entre eles, e enquanto B.J. a observava, ela começou a chorar. Dirigiu-se para ela e colocou-lhe as mãos nos ombros.

— Sinto muito, Pattie.

— Vá à merda! — Girou sobre os calcanhares e ficou de frente para ele. E então, num tom de voz tão malvado que o atingiu como um soco: — Espero que você apodreça. Na verdade, B.J. Fullerton, se eu alguma vez puder fazer alguma coisa para ajudar a estuporar a sua vida, como você acaba de estuporar a minha, vou fazê-lo com prazer. Pode apostar.

— Não fale desse jeito, Pattie. — Sentia compaixão por ela, e queria acreditar que não falava sério.

— Por que não? Não acha que estou falando sério?

— Espero que não.

Parecia mais bonitão do que nunca, parado ali, e ela o odiou, enquanto olhava para ele pela última vez.

— Não se iluda, B.J. Não sou nenhuma vagabunda carcamana barata. Não espere que eu caia aos seus pés e implore... e nem espere que eu vá perdoá-lo. Porque não vou. — Virou-se e saiu do quarto. Ele a acompanhou escada abaixo, e no corredor principal ofereceu-se para levá-la até a casa dos Bryce, mas a moça olhou para ele com uma fúria gelada e sacudiu a cabeça. — Mande o seu motorista me levar até lá, B.J. Não quero mais vê-lo.

— Ainda vai ficar alguns dias em Roma? Quem sabe a gente podia conversar mais tranqüilamente, amanhã? Não há motivo para não continuarmos amigos, daqui a algum tempo. Sei que é doloroso, Pattie, mas é melhor assim.

Ela apenas sacudiu a cabeça.

— Não tenho mais nada para lhe dizer, B.J. Você é um canalha, um nojento. — As lágrimas escorriam. — E eu o odeio. E se espera que eu vá ficar calada, está maluco. — Estreitou os olhos ferozmente, de novo. — Todo mun­do em Nova York vai ficar sabendo o que você anda fazendo por aqui, B.J., porque eu vou contar. E se você levar essa garota para lá com você, que Deus o ajude, vai ser escorraçado da cidade, debaixo de galhofa.

Era evidente pelo modo como olhava para ela que B.J. não tinha medo de Pattie, mas que ficara zangado com o que ela acabara de dizer.

— Não faça nada de que vá se arrepender.

— Alguém devia ter-lhe dito isso, antes de você me dar o fora.

Passou por ele e saiu, batendo a porta, e B.J. ficou ali parado por um longo momento, imaginando se devia ir atrás dela, sabendo que não podia. Os ordenanças tinham desaparecido discretamente, ao ouvi-los chegar, e dali a um momento B.J. subiu de novo a escada. Precisava de um momento sozinho, para refletir sobre o que tinha acontecido, mas já sabia, mesmo agora, que não estava arrependido. Não a amava. Estava certo disto, agora. Porém amava Serena, e agora teria que acertar as coisas com ela. Sabe lá Deus o que tinha ouvido quando Pattie gritou com ele na sacada. Ao recordar as palavras dela, deu-se conta de repente que não havia um momento a perder para encontrar Serena, mas quando já ia saindo do seu gabinete, o secretário o deteve. Era um telefonema urgente do quartel-general em Milão. E foi somente dali a duas horas que ficou livre.

Foi diretamente para o alojamento delas, bateu à porta, e foi atendido instantaneamente por Marcella.

— Serena? — Marcella abriu a porta rapidamente, com lágrimas no rosto e um lenço na mão, e pareceu ainda mais abalada quando viu B.J. — Ela não está aqui? — perguntou, espantado, enquanto Marcella sacudia a cabeça e começava a chorar de novo.

— Não.

Desatou a falar rapidamente em italiano, e ele a interrompeu gentilmente, segurando com as duas mãos os velhos ombros que tremiam.

— Marcella, onde ela está?

— Non so... não sei. — E então ele compreendeu, de chofre, enquanto a velha chorava com mais força e apontava para o quarto vazio às suas costas. — Ela levou a mala, major. Foi embora.

 

O major conversou com Marcella por quase uma hora, tentando os dois juntos equacionar o que acontecera e descobrir para onde ela fora. Não havia muitos lugares em que ele podia pensar. Sem dúvida não iria para a casa da avó em Veneza, onde agora moravam estranhos, e Marcella dizia que não havia mais nenhum outro lugar. Ela não tinha amigos ou parentes a quem procurar, e a única coisa que ocorria a B.J. era que tivesse voltado para os Estados Unidos. Porém não podia ter feito aquilo de uma hora para outra. Teria que conseguir novo visto e tomar providências. Quem sabe estava em Roma, nalgum lugar, e tentaria conseguir um visto para voltar para os Estados Unidos pela manhã. Ele só poderia ligar para a Embaixada Americana no outro dia de manhã. Não havia nada que pudesse fazer. Sentia-se impotente, vazio e amedrontado. Brad interrogou Marcella até a exaustão. A velha camponesa contou que Serena entrara correndo no alojamento pela porta que dava para o jardim, se metera no quarto e trancara a porta. Marcella sabia disso porque tentara entrar ao ouvi-la chorar, mas Serena não permitira.

Dali a meia hora Serena aparecera, de olhos vermelhos, pálida, e com a mala na mão. Dissera a Marcella, simplesmente, que ia embora, e em resposta às lágrimas e apelos da velha, falara apenas que não tinha escolha. A princípio Marcella pensou que tivesse sido despedida; enquanto falava, a velha lançou um olhar de esguelha de desculpas para o major, explicando que pen­sara que era por causa dele. Mas Serena insistira que não, que era um proble­ma que não tinha nada a ver com ele, e que tinha que deixar Roma imedia­tamente. Marcella ficou imaginando se a moça estaria em perigo, pois parecia tão abalada que era difícil perceber se estava apenas perturbada ou também assustada, e com lágrimas, beijos e um último abraço. Serena se foi. Marcel­la estava soluçando no quarto há quase duas horas quando escutou a batida do major à porta, e pensou que fosse Serena, que mudara de idéia.

— E é só isso que sei, major... — Marcella dissolveu-se em lágrimas de novo e se agarrou ao jovem americano. — Por que ela foi embora? Perchè? Non capisco... non capisco...

Só o que ele podia fazer era consolá-la. Como podia explicar qualquer coisa para Marcella? Não podia. Teria que viver sozinho com aquele inferno.

— Marcela, escute... — A velha apenas soluçava mais alto. — ... escu­te... prometo que vou encontrá-la. Domani vado a trovaria.

— Ma dove? — Mas, onde? Era um gemido sem esperanças. Todos aque­les anos sem ver Serena, e agora ela estava de volta e Marcella a perdera de novo.

— Non so dove, Marcella. Não sei onde. Mas vou encontrá-la.

E então apertou os velhos ombros e voltou discretamente para os seus aposentos. Ficou sentado na escuridão pelo que lhe pareceu um período de horas, pensando, recapitulando, lembrando trechos de conversas que tivera com ela. Mas não importa o quanto se esforçasse, não se recordou de nada sig­nificativo. Ela não tinha ninguém, exceto Marcella, e ele se deu conta mais uma vez de como devia estar arrasada, para deixar a velha e a única casa que tinha. Uma pontada de culpa percorreu-o de novo, ao se lembrar da discussão com Pattie. Pensou no que devia ter parecido, a distância, no que Serena de­via ter pensado, vendo os dois juntos e depois escutando as palavras iradas da americana.

Depois de horas de remoer perguntas dolorosas e intermináveis, desistiu. Não havia nada a fazer, exceto esperar... e esperar. Foi para o quarto e ficou olhando para a cama por um longo momento. Esta noite não tinha a menor vontade de dormir sob o cetim azul do dossel. A cama pareceria dolorosamen­te vazia sem a mulher que ele amava. E se você não a encontrar, perguntou a si mesmo? Continuarei a procurar. Ele a encontraria nem que tivesse que vas­culhar toda a Itália, e a Suíça e a França. Voltaria para os Estados Unidos. Fa­ria qualquer coisa, e acabaria por encontrá-la, e lhe diria que a amava e que queria que fosse sua esposa. Tinha certeza absoluta dos seus sentimentos e nem um só pensamento de Pattie cruzou pela sua cabeça enquanto esperava as horas passarem, deitado ali, pensando em Serena, e perguntando-se vezes sem conta aonde poderia ter ido.

Foi só quando um galo cantou à distância, às cinco e meia, que ele se sentou subitamente na cama com uma expressão de espanto, e olhou pela janela.

— Ah, meu Deus!

Como podia ter esquecido? Devia ter sido o primeiro lugar em que tinha que pensar. Velozmente, afastou as cobertas, correu para o banheiro, tomou banho, fez a barba, e às 5:50 já estava vestido. Deixou um bilhete para o secretário e os assistentes, explicando que tinha que cuidar de um assunto ur­gente, e para o secretário deixou um bilhete adicional, pedindo-lhe para fazer o favor de lhe dar cobertura. Deixou todos os memorandos onde pudessem ser facilmente vistos, depois vestiu uma jaqueta pesada e desceu apressada­mente. Tinha que falar com Marcella, e ficou aliviado ao ver luz por baixo da sua porta, quando chegou lá embaixo. Bateu duas vezes, e dali a um momento a velha abriu a porta para ele, a princípio com uma expressão de espanto ao vê-lo ali, depois com cara confusa ao notar que estava à paisana, e não com a farda com que estava acostumada a vê-lo diariamente.

— Sim?

Ainda parecia espantada enquanto se afastava para que ele entrasse, mas Brad sacudiu a cabeça e sorriu com uma expressão cálida nos profundos olhos cinzentos.

— Marcella, acho que talvez saiba onde encontrá-la. Mas preciso da sua ajuda. A fazenda em Umbria... pode me dizer como chegar até lá?

Marcella ainda pareceu mais espantada por um longo momento, depois assentiu, de testa franzida, pensativa. Fitou os olhos dele, desta vez com um brilho de esperança nos seus.

Fechou os olhos por um momento, recordando, depois trouxe-lhe um lápis e um pedaço de papel, e fez sinal para que se sentasse.

— Vá escrevendo o que eu digo.

Ele obedeceu, satisfeito, e depois de alguns minutos saía porta afora com o papel na mão. Acenou para ela pela última vez enquanto corria para o pequeno telheiro onde guardava o jipe que usava quando não tinha motorista, e ela ficou observando enquanto ele se afastava, com os velhos olhos cheios de lágrimas de esperança.

A viagem de Roma para Umbria foi longa e árdua, as estradas eram ruins, pro­fundamente esburacadas, e cheias de veículos militares, pedestres e carroças abarrotadas de galinhas, feno ou frutas. Era aqui que a gente se lembrava de que houvera uma guerra, não fazia muito tempo. Ainda se viam sinais dos danos por toda parte, e houve vezes em que B.J. pensou que nem ele nem o jipe iam sobreviver. Trouxera consigo todos os seus documentos militares, e caso o jipe desabasse debaixo dele, teria requisitado qualquer coisa de que precisasse para chegar à fazenda.

Já estava escuro quando chegou lá, viajando pela estrada deserta e esbu­racada na direção que Marcella tinha descrito, mas após alguns momentos co­meçou a se perguntar se tomara o caminho errado. Nada parecia familiar, se­gundo as descrições, e ele parou o carro na escuridão. Ainda era prejudicado pelo fato de não haver lua visível, e havia nuvens escuras passando pelos céus, quando ele ergueu os olhos, e depois fitou a linha do horizonte. Porém, ao fazê-lo, percebeu subitamente um grupo de prédios na distância, amontoa­dos, como que procurando se aquecer, e deu-se conta com um suspiro longo e cansado de que tinha encontrado a fazenda.

Deu meia-volta com o jipe até que encontrou uma estradinha estreita e esburacada, e seguiu por ela em meio à vegetação densa na direção dos prédios que vira no horizonte. Mais adiante, passando por profundos buracos, chegou ao que devia ter sido no passado um grande pátio, ou uma espécie de praça principal. Havia uma casa grande diante dele, celeiros à sua direita, e um pomar tanto à sua esquerda quanto às suas costas. Mesmo na escuridão podia ver que era um lugar grande, e que estava deserto. A casa parecia desgastada pelo tem­po e vazia, as portas dos celeiros tinham se soltado das dobradiças, a grama crescia até a altura da cintura por entre as pedras do pátio, e os equipamentos da fazenda jaziam quebrados e enferrujados no pomar, que obviamente não era cuidado há anos. Ficou parado ali por um longo momento, perguntando-se para onde iria agora. De volta a Roma? Para uma aldeia? Para uma fazenda vizinha? Mas não havia nenhuma. Não havia nada aqui, e ninguém, e certa­mente não Serena. Mesmo que tivesse vindo buscar refúgio aqui, não poderia ficar. Fitou com tristeza os celeiros na escuridão, depois a casa, mas, ao fa­zê-lo, pensou ter visto algo correr para a escuridão de um canto. Um animal? Um gato? Um sonho? Ou talvez alguém muito assustado com a intrusão dele. Percebendo como fora louco de ter vindo nesta aventura solitária, manteve os olhos fitos na direção do que tinha visto, e caminhou lentamente de volta ao jipe. Quando chegou lá, tirou de dentro do veículo a sua pistola, armou-a, e depois começou a caminhar para diante, segurando uma lanterna elétrica apagada na outra mão. Tinha quase certeza agora de onde vira o movimento, e podia ver uma forma encolhida num canto, agachada atrás de um arbusto. Por um instante deu-se conta da insanidade de estar-se metendo nisso, de que tal­vez morresse, sem motivo algum, numa fazenda deserta no interior da Itália, à procura de uma mulher, seis meses depois do término da guerra. Depois de tudo o que sobrevivera nos anos anteriores, parecia irônico que fosse morrer agora, pensou enquanto se esgueirava lentamente ao longo do prédio, o cora­ção disparado.

Quando estava a cerca de três metros de onde vira o movimento, enfiou-se numa pequena reentrância, refugiando-se na maneira do possível, e instan­taneamente estendeu um braço para a frente, erguendo a lanterna elétrica. Acendeu-a, enquanto mantinha a arma erguida também, e como os da sua vítima, os seus olhos piscaram por um momento na escuridão, enquanto se dava conta com terror de que não era absolutamente um gato. Era alguém encolhido e escondido, um boné escuro puxado sobre os olhos, as mãos levantadas.

— Saia daí! Faço parte do exército americano! — Sentia-se um pouco tolo dizendo as palavras, mas não sabia o que dizer, e a figura, alta e angulosa, de roupa de lã azul-escuro, adiantou-se e fitou-o. Ele soltou um grito de prazer, depois abriu um sorriso. Era Serena. Estava de olhos arregalados, o rosto branco de terror e depois de espanto, enquanto ele se aproximava. — Saia daí, droga! Já lhe disse para sair! — Mas B.J. não esperou que ela se mexesse, correu para ela, e antes que pudesse dizer uma só palavra, já a tomara nos braços. — Que diabo, sua maluca, eu podia ter atirado em você!

Os olhos verdes estavam dilatados e brilhantes à luz do luar, enquanto ela erguia os olhos para ele, ainda estupefata com o que acontecera.

— Como foi que me encontrou?

Ele baixou os olhos para ela e beijou-a suavemente em ambos os olhos, depois nos lábios.

— Não sei. Tive a idéia hoje de manhã e Marcella me ensinou a chegar aqui. — Franziu a testa para ela. — Não devia ter feito isso, Serena. Deixou-nos doentes de preocupação.

Ela sacudiu a cabeça lentamente, e se afastou dele.

— Precisava fazer. Não podia mais ficar lá.

— Podia ter esperado para conversarmos.

Segurava a mão dela, embora a moça estivesse agora a curta distância dele, com o pé empurrando uma pedrinha no chão.

— Não há nada para se conversar. Há? — Fitou-o nos olhos, com toda a dor que a afastara de Roma. — Ouvi o que ela disse a meu respeito, a respeito da sua família. Tem razão. Sou apenas a sua puta italiana... uma em­pregada... — Nem piscou enquanto falava, e ele lhe apertou a mão.

— Ela é uma vaca, Serena. Sei disso agora. Antes, não enxergava as coisas com tanta clareza. E o que ela falou não é verdade. Estava com ciúmes, só isso.

— Contou a ela sobre a gente?

— Não foi preciso. — Sorriu docemente para ela, e ficaram ali parados por um longo tempo, no silêncio e na escuridão. Havia algo de fantasmagórico em estarem sozinhos na fazenda deserta. — Isto aqui devia ter sido um lugar e tanto, antes.

— E era. — Sorriu para ele. — Eu o adorava. Era um local perfeito onde ser criança. Havia vacas e porcos e cavalos, muitos trabalhadores simpáticos nos campos, frutas no pomar, um lugar próximo para se nadar. As minhas melhores lembranças da infância são daqui.

— Eu sei. Eu me lembro.

Trocaram um olhar significativo, e Serena soltou um suspiro. Ainda não podia acreditar que ele a tivesse achado. Coisas assim não ocorrem na vida real. Apenas aconteciam nos livros e filmes, mas lá estavam eles, a um milhão de quilômetros da civilização, juntos e sozinhos.

— Ela não vai ficar muito zangada porque você saiu de Roma? — Serena olhou para ele com curiosidade e ele sacudiu a cabeça lentamente.

— Não mais do que ficou quando rompi o nosso noivado.

Serena parecia chocada.

— Por que fez isso, Brad? — Na verdade, parecia quase zangada. — Por minha causa?

— Por minha causa. Quando a vi, soube o que sentia por ela. — Sacudiu a cabeça de novo. — Nada. Ou quase nada. Senti medo. Ela é uma moça muito assustadora, manipuladora e ardilosa. Ela me queria para alguma coisa. Não sei ao certo para que, mas quando a escutei falar, soube disso. Queria que eu fosse um fantoche, acho, que entrasse para a política como o pai dela e o meu, para fazê-la importante e fazer o seu jogo. Há algo de incrivelmente vazio nela, Serena. E quando a vi, tive todas as respostas que venho lutando para obter, há meses. Elas estavam ali o tempo todo, só que eu não sabia. E então ela me viu olhando para você, e também entendeu. Foi quando você a escutou.

Serena observava-o enquanto ele falava, e meneou a cabeça.

— Ela ficou muito zangada, Brad. Tive medo por você. — Parecia mui­to jovem, parada diante dele no pátio. — Tive medo... — Fechou os olhos por um breve momento. — Tive que fugir... achei que se desaparecesse tornaria as coisas mais fáceis para você...

A sua voz foi sumindo, e ele estendeu os braços para ela de novo.

— Já lhe disse recentemente que a amo?

Ela sorriu na escuridão, e fez que sim.

— Acho que foi isso que quis dizer, quando veio para cá. — Olhou para ele, pensativa, e depois inclinou a cabeça para o lado. — Está tudo acabado com ela, então?

Ele fez que sim, depois sorriu.

— E agora pode começar para valer, conosco.

— Já começou — disse, estendendo os braços para ele, que lhe acariciou o cabelo com suavidade.

— Quero me casar com você, Serena. Sabe disso, não é?

Porém ela balançou suavemente a cabeça.

— Não.

Foi apenas uma palavra, e ele olhou para ela com um sorriso.

— Isso significa que você não sabe?

— Não. — Ergueu os olhos para Brad, de novo. — Significa que o amo de todo o coração, e que não me casarei com você. Nunca.

Parecia resoluta, e ele olhou para ela, pesaroso.

— Que diabo, por que não?

— Porque seria errado. Não tenho nada para lhe dar, exceto o meu cora­ção. E você precisa de uma mulher como Pattie, do seu mundo, da sua classe, do seu país, alguém que saiba como tudo funciona, que possa ajudá-lo se você se resolver a entrar para a política, algum dia. Eu apenas o prejudicarei, se isso for o que você quiser, no futuro. A noiva de guerra italiana... a empregada... — As palavras de Pattie ainda ressoavam nos seus ouvidos. — A puta italia­na... outros também me chamarão assim.

— Chamarão uma ova, Serena. Não está se esquecendo de quem é?

— De forma alguma. Você está se lembrando de quem fui. Não sou mais. Você ouviu o que Pattie disse.

— Pare com isso! — Segurou-a pelos ombros e sacudiu-a de leve. — Vo­cê é a minha principessa.

— Não. — Os seus olhos não se desviaram dos dele. — Sou a sua arrumadeira.

Tomou-a nos braços, então, perguntando-se como poderia convencê-la, o que poderia dizer.

— Eu a amo, Serena. Respeito tudo o que você é. Tenho orgulho de você, que diabo. Não quer me deixar tomar as minhas próprias decisões sobre o que é certo para mim?

— Não — retrucou, sorrindo para ele com uma expressão de tristeza mis­turada com amor. — Não sabe o que está fazendo. Portanto, não deixarei que o faça.

— Não acha que podemos discutir isso mais tarde? — Olhou para ela com um sorriso, certo de que acabaria por convencê-la, mas subitamente se dera conta de que guiava há horas e que estava exausto. — Há algum lugar para ficarmos? Ou também decidiu não dormir mais comigo?

— A resposta para as duas perguntas é não. — Sorriu para ele, encabulada. — Não há nada num raio de quilômetros. Eu ia dormir no celeiro.

— Comeu alguma coisa hoje? — Olhou para ela com ar preocupado, e ela sacudiu a cabeça.

— Não exatamente. Comprei um pouco de queijo e de salame, mas acabei com tudo hoje de manhã. Ia andar até a cidade amanhã e ir ao mercado. Mas estava com muita fome, esta noite.

— Venha.

Envolveu-lhe os ombros com o braço e conduziu-a lentamente até o carro. Abriu a porta, ajudou-a a entrar no jipe, e tirou de lá a mochila onde colo­cara meia dúzia de sanduíches antes de sair, numa lembrança de última hora. Havia também maçãs e um pedaço de bolo, e um tablete de chocolate.

— O quê? Nada de meias de seda? — brincou ela, sorrindo para ele por sobre o sanduíche que devorava.

— As meias só se casar comigo.

— Ah. — Deu de ombros, recostando-se no banco. — Então acho que não vou ganhar meias de seda. Apenas chocolate.

— Puxa, mas você é teimosa.

— Sou — concordou com orgulho, e ele sorriu.

Dormiram no jipe, aquela noite, os braços jogados um sobre o outro, as pernas encolhidas, mas os corações leves. Encontrara-a, tudo estava bem, e antes de pegar no sono ela concordara em voltar para casa com ele, em Roma. E quando o sol nasceu, cada um comeu uma maçã, lavada no poço, e ela lhe mostrou a fazenda que adorara em criança, quando a vida era tão diferente. Enquanto a beijava na frente do velho celeiro, prometeu a si mesmo que a convenceria, de qualquer maneira, e que um dia ela seria dele para sempre.

 

Quando Serena voltou para Roma, no dia seguinte, Marcella já estava dor­mindo. Deixou a mala no pequeno corredor para que visse que estava de vol­ta, e depois subiu pé ante pé com B.J. para a cama familiar. Fizeram amor como não tinham tido coragem de fazer na estrada, e Serena se rejubilou por estar de volta aos seus braços. Os retratos de Pattie tinham sumido para sem­pre, e ela se sentia livre e feliz por estar viva. Na manhã seguinte, Marcella passou-lhe o maior "sabão" por ter fugido, esbravejou com ela a plenos pul­mões por quase duas horas, ameaçando dar-lhe tapas nos ouvidos, gritando, insultando, e finalmente desatando a chorar enquanto se agarrava a Serena e lhe implorava que nunca mais fugisse.

— Nunca mais vou fugir, prometo, Cella, vou ficar aqui para sempre.

— Não para sempre. — Olhou para Serena, enigmaticamente. — Mas por quanto tempo tiver que ficar.

— Tenho que ficar aqui para sempre — disse Serena, calmamente. — Pe­lo menos em Roma, aqui é a minha casa. — Há muito que abandonara qual­quer idéia de voltar para os Estados Unidos.

— Talvez não para sempre — disse Marcella, olhando para ela de novo.

— Não sei do que está falando e acho que não quero saber.

Serena se afastou para fazer um bule de café. Sabia exatamente ao que Marcella se referia.

— Ele a ama, Serena.

A voz dela era velha e sábia, e Serena se virou para olhá-la.

— Eu também o amo. O bastante para não destruir a sua vida. Ele rompeu o noivado com aquela moça americana. Parece pensar que tinha bons mo­tivos para isso, e talvez tenha razão. Porém nunca me casarei com ele, Cella, nunca. Seria errado. E destruiria a vida dele. A família de Brad é muito im­portante para ele, e me detestaria. Não compreenderia nada a meu respeito. Portanto, não importa o que ele lhe diga, ou o que você ache, a resposta é nunca, Marcella. Já disse para ele e estou dizendo para você. Quero que enten­da isso. Tem que aceitar, como eu aceito, e já que aceitei, você também tem que aceitar.

— Você é maluca, Serena. Os pais do moço teriam sorte em ter você.

— Tenho certeza de que eles não pensariam assim.

Ainda podia ouvir as palavras de Pattie. Entregou o café a Marcella e voltou para o seu cubículo a fim de desfazer a mala.

Depois disso, a vida correu tranqüila durante todo o mês de novembro. Ela e Brad eram mais felizes do que nunca, Marcella se acomodou, era como se nada pudesse dar errado com o mundo. Ela e Brad partilharam um jantar de Ação de Graças particular. Ele lhe ensinou como preparar um peru rechea­do. Havia requisitado algumas castanhas e um pouco de geléia de oxicoco, muito difícil de encontrar, e Marcella preparou batatas-doces e ervilhas e ce­bolas ao creme para eles, e juntos tiveram um raro banquete. Foi o primeiro jantar de Ação de Graças de Serena.

— Ao primeiro de muitos — brindou ele, todo feliz, com uma taça de vinho branco, ao jantar, enquanto Serena sabia secretamente que seria o seu úl­timo. Dentro de no máximo um ano Brad certamente seria transferido para casa, e momentos como este jamais se repetiriam. De quando em vez pensava nisso e desejava ficar grávida, mas Brad tomava todo o cuidado para que isso não acontecesse; portanto Serena sabia que, quando B.J. deixasse Roma, seria o fim de tudo. Não haveria Brad, nem bebê como recordação dele, apenas lembranças como esta, para aquecê-la.

— No que estava pensando ainda agora? — perguntou o major, enquan­to jaziam em frente ao fogo, e ele observava os brilhantes olhos cor de esme­ralda.

— Em você.

— O quê?

— Que o amo. — E que sentirei saudades insuportáveis quando você se for... Não dizia as palavras, mas os pensamentos estavam sempre presentes.

— Se me amasse de verdade — começou ele a implicar e ela abriu um sorriso — casaria comigo.

Era uma brincadeira que faziam sempre, mas ele sabia que tinha meses pela frente para convencê-la, ou pelo menos era o que pensava, até o dia seguinte.

Ficou sentado à mesa de trabalho, o envelope no chão, fitando as suas ordens e lutando contra um forte desejo de chorar. O idílio em Roma estava termina­do. Ia ser transferido. Dentro de sete dias.

— Não pode ser. — O rosto de Serena empalidecera, como o de Brad quando lera o aviso. — Tão depressa? Pensei que sempre davam um aviso pré­vio de um mês.

— Nem sempre. Não desta vez. Parto para Paris de hoje a uma semana. — Pelo menos era apenas Paris. Poderia voltar para vê-la. Ela poderia ir visitá-lo. Mas não era assim tão fácil, e não teria mais a rotina normal das suas vidas, as noites na grande cama de dossel, as manhãzinhas juntos, os olhares constantes durante o dia, os momentos roubados quando ele vinha até o alojamento dela depois do almoço, só para um beijo, uma palavra, um alô, uma piada, só para vê-la e senti-la e escutá-la... não teriam mais nada disto, e só de pensar ele ficou se perguntando como viveria. Olhou para ela com sinceridade e per­guntou pela décima milésima vez: — Quer se casar e vir comigo?

Ela sacudiu a cabeça, lentamente.

— Não posso me casar com você e sabe por quê.

— Mesmo agora?

— Mesmo agora. — Tentou sorrir corajosamente para ele. — Não pode me levar junto como sua criada pessoal?

Pareceu zangado ao ouvi-la e sacudiu a cabeça como que para se livrar das suas palavras.

— Não acho nenhuma graça. Estou falando sério, Serena. Pelo amor de Deus, entenda o que está acontecendo. Está tudo acabado para nós. Vou-me embora. Vou para Paris de hoje a uma semana, e sabe lá Deus para onde de­pois disso, provavelmente para os Estados Unidos. E não posso levá-la comigo a não ser que estejamos casados. Por favor, crie juízo e case comigo, para não perdermos a única coisa que importa para nós dois.

— Não posso.

Tinha um bolo na garganta do tamanho de um punho cerrado, enquan­to falava, e naquela noite, depois que ele adormeceu nos seus braços, ela chorou durante horas, no seu lado da cama. Tinha que deixá-lo ir, pelo seu bem. Sabia que tinha, se realmente o amava, e amava, mas sabia que seria a tarefa mais dura da sua vida, separar o coração do dele. Preparou-se para isso diaria­mente, mas quando chegou a última noite, sentiu um terror tão grande no co­ração, à idéia de perdê-lo, que não sabia se ia agüentar. Há dias que Marcella a perseguia, atormentava, lhe implorava, suplicava, e ao seu modo, B.J. vi­nha fazendo o mesmo, mas Serena estava tão certa de que casar com Brad se­ria a ruína da vida dele, que não estava disposta a escutar. Sabia o que tinha que fazer, e não importa o quão insuportável fosse, ela o faria, mesmo que morresse depois que ele tivesse partido, aí não teria importância. Não lhe res­tava mesmo mais nada por que viver. Jamais haveria um homem que amasse como amava B.J. E o fato de saber disso, na última noite, tornou tudo ainda mais agridoce, enquanto o abraçava e acariciava, alisando-lhe o cabelo com suavidade, querendo gravar aquele momento para sempre na lembrança, como um meio de se apegar a ele.

— Serena?

Pensara que ele estava dormindo, mas a sua voz era um sussurro na ca­ma de dossel, e ela debruçou-se para a frente a fim de ver-lhe o rosto.

— Sim, meu amor?

— Eu a amo tanto... sempre a amarei... nunca poderia amar alguém como amo você.

— Nem eu, Brad.

— Vai me escrever?

Os olhos dele estavam cheios de lágrimas, enquanto fazia a pergunta. Fi­nalmente aceitara a realidade de que ia embora de Roma sozinho.

— Claro que sim. Sempre. — Sempre. Eternamente. As promessas de to­da uma vida, que ela sabia muito bem se esmaeceriam com o tempo. Um dia ele se casaria e esqueceria, teria vontade de esquecer, e finalmente tudo acaba­ria entre os dois. Mas sabia que, para ela, isso não aconteceria. Jamais o esque­ceria. — Vai me escrever?

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Sempre havia a ameaça de lá­grimas nesta última semana, para ambos.

— Claro que sim. Mas prefiro levá-la comigo.

— No bolso, quem sabe, ou nalgum compartimento secreto, ou numa mala... — Sorriu para ele e beijou-lhe a ponta do nariz. — Paris é tão bonita, você vai adorar.

— Vem me visitar daqui a duas semanas, não é? Devo poder conseguir os papéis para você tão logo chegue lá.

Ela ia passar um fim de semana com ele, no seu alojamento, se fosse possível arranjar as coisas, e Brad fizera com que prometesse que iria sempre, com o máximo de freqüência possível. E ele lhe dissera para levar Marcella. Não a queria viajando sozinha no trem. Mas seria impossível para as duas dei­xarem o palazzo ao mesmo tempo, lembrou-lhe ela. Uma das duas tinha que ficar trabalhando. Ele concordara, então. Para Brad, a semana anterior voara, envolta numa névoa, e na manhã da sua partida sentia-se esgotado. Sentou-se na cama antes do alvorecer, e olhou para Serena, deitada na cama de dossel, sob o vasto leque do cabelo louro e sedoso. Tocou-lhe o cabelo e o rosto e os braços e os seios e depois acordou-a meigamente, e fizeram amor de novo, e enquanto ele a abraçava, na cama deles, dava-se conta de que tinha feito amor com ela pela última vez em Roma. Dali a duas horas estaria indo embora, e só o que teriam seriam os fins de semana ocasionais que partilhariam em Paris, antes de chegar a hora de ser mandado de volta para os Estados Unidos. En­quanto ele a abraçava, ela o sentiu intumescer de desejo de novo, e tocou-o gentilmente, primeiro com os dedos, depois com a língua hábil. Aprendera muita coisa com Brad, no seu leito de amor, mas a maior parte viera do seu coração, ou do instinto, enquanto buscava dar-lhe prazer e se entregar a ele de todas as maneiras possíveis. E então, pela última vez ele gemeu baixinho e sentiu o prazer do toque dela, do seu beijo, da ânsia mútua, e se afastou da sua boca e penetrou-a de novo. Foi ela que se deu conta do que tinha acon­tecido, e torceu para que o seu presente de despedida para ela fosse um filho. Mas nenhum dos dois pensava em outra coisa que não neles mesmos, ao se encontrarem pela última vez no gabinete dele dali a uma hora, e ele a abraçou e beijou mais uma vez, enquanto olhavam para o jardim árido e se lembravam de como ele era no verão e no outono. E então, com meiguice, vi­rou o rosto dela para si e a beijou pela última vez.

— Você irá daqui a duas semanas?

— Irei.

Mas ambos sabiam que não era verdade.

— Se não, eu volto para Roma. — E depois? Um abismo de solidão para ambos, ao longo dos anos. Ela os condenara a uma perda difícil com os seus princípios rígidos quanto a não merecer que se casasse com ela. E ele não pôde deixar de tentar de novo. — Serena... por favor... pense bem... por favor... vamos nos casar. — Mas ela apenas sacudia a cabeça, sem conseguir falar, de tão grande que era a dor de vê-lo partir, o rosto lavado de lágrimas. — Ah, Deus, como a amo.

— Eu também o amo.

Foi só o que pôde dizer antes que os ordenanças viessem buscá-lo, e de­pois que ele saiu do aposento, ela soltou um gemido quase animal, enquanto se apoiava na parede e fitava o jardim. Dali a alguns minutos ele teria parti­do... ela o teria perdido para sempre... a idéia era quase insuportável, e cor­reu, sem fôlego, para o jardim, para as proximidades de onde morava com Marcella. Sabia que ele a veria enquanto se afastava de carro, e desse modo ela não teria que ficar junto com os outros, e somente Brad e o motorista veriam o seu rosto contorcido de tristeza. O que aconteceu foi que, quando ele pas­sou, ela viu que também estava chorando, o rosto pálido e sombrio à janela do carro, e o rosto estava molhado de lágrimas mudas, enquanto o motorista se­guia implacável o seu caminho. E depois, só o que viu foi um rosto à janela de trás, até que finalmente o carro que o transportava desapareceu.

Ela entrou em casa lentamente, então, com uma expressão vidrada de dor, e foi direto para o seu quarto e fechou a porta. Marcella não lhe disse pa­lavra. Era tarde demais para recriminações. Tomara a sua decisão e tinha que acatá-la, nem que aquilo a matasse. E depois de vê-la deitada durante dois dias, Marcella temeu que isso acontecesse. No terceiro dia, Marcella estava ver­dadeiramente assustada. Serena se recusava a se levantar, não comia, nunca parecia dormir. Ficava apenas deitada ali, chorando silenciosamente e fitando o teto. Nem saiu da cama quando ele telefonou e o ordenança veio avisar Mar­cella. Esta estava começando a entrar em pânico, e no dia seguinte foi ela mes­ma até o ordenança.

— Tenho que ligar para o major — declarou firmemente, tentando fazer parecer que era assunto oficial, parada ali na sala do secretário vestindo um avental limpo e com um lenço recém-passado na cabeça.

— O Major Appleby? — O secretário pareceu surpreso. O novo major só devia chegar na manhã seguinte. Quem sabe a velha queria pedir as contas. Estavam todos começando a se perguntar se a sobrinha o faria. Ninguém tinha visto Serena desde a partida do Major Fullerton.

— Não. Quero ligar para o Major Fullerton em Paris. Eu mesma pago a ligação. Mas o senhor precisa fazer a ligação, e quero falar com ele em particular.

— Vou ver o que posso fazer. — O secretário olhou para a velhota indômita e prometeu que faria o possível. — Vou buscá-la, se conseguir colocá-lo na linha. — Por um acaso, teve sorte e conseguiu contato com B.J. em menos de uma hora. O major estava sentado na sua nova sala, desanimado, imaginan­do por que Serena não quisera atender ao seu telefonema. De qualquer modo, não tinha boas notícias para ela. Os seus papéis de viagem para um fim de se­mana em Paris tinham sido negados. Houve uma leve insinuação de que não se era a favor da confraternização, e foi sugerido que se "deixasse as indiscrições para trás". Ficara uma fera ao saber disso, e agora sabia que tinha que contar para ela. Só o que podia oferecer era voltar para Roma dali a algumas sema­nas, quando pudesse se afastar por algum tempo, mas não tinha ainda idéia de quando seria. Estava sentado, fitando a chuva de Paris sobre a Place du Palais-Bourbon, no sétimo arrondissement, quando recebeu o telefonema do seu antigo secretário em Roma, e teve um pequeno sobressalto e sorriu ao ou­vir a voz familiar. — Estou ligando em nome de Marcella, senhor. Ela falou que era importante e particular. Já mandei alguém ir buscá-la. O senhor terá que esperar um minutinho, se não se incomoda.

— Claro que não. — Porém, subitamente, ficou muito assustado. E se al­guma coisa tivesse acontecido? Serena podia ter sofrido um acidente, ou po­dia ter fugido para aquela fazenda no fim do mundo de novo, e desta feita ele não estava lá para ir buscá-la, ela podia cair no poço, quebrar a perna, podia ... — Tudo bem por aí, Palmers? — falou com voz preocupada com o secre­tário, e o jovem sorriu.

— Tudo bem, senhor.

— Todos ainda a bordo?

Estava perguntando por Serena, mas não tinha coragem de dizer o seu nome.

— Praticamente. Não temos visto a sobrinha de Marcella, na verdade não a vemos desde que o senhor foi embora, mas Marcella falou que está doente, e que daqui a alguns dias estará boa. — Ah, Jesus. Aquilo podia significar qual­quer coisa, mas antes de Brad poder se deter nos seus piores temores, o secre­tário falou de novo. — Cá está Marcella, senhor. Acha que vai entender o in­glês dela, ou quer alguém na extensão para ajudar?

— Pode deixar, nós nos arranjaremos sozinhos, obrigado. — B.J. se pegou imaginando quantos deles sabiam. Não importa o quanto ele e Serena tives­sem sido discretos, essas coisas sempre se espalhavam. Tinham chegado até Paris, sem dúvida. — Obrigado, Palmers, foi um prazer falar com você.

— E com o senhor. Cá está ela.

— Maggiore?

A voz da mulher chegou a ele como um sopro de ar fresco.

— Sim, Marcella. Está tudo bem? Serena? — Em resposta à sua pergunta foi bombardeado com uma torrente de italiano rápido, do qual não entendeu quase nada, exceto as palavras comendo e dormindo, mas não tinha certeza de quem estava comendo e dormindo, e por que Marcella estava tão preocupa­da. — Espere aí! Calma! Piano, piano! Devagar. Non capisco. É Serena?

— Si.

— Está doente?

Novamente a rajada de italiano, e novamente suplicou à velha que falasse devagar. Desta vez, ela atendeu.

— Ela não comeu nada, não bebeu nada, nem dormiu nem se levantou. Só chorou e chorou e chorou e... — Agora era Marcella quem estava começando a chorar. — Ela vai morrer, maggiore. Eu sei. Vi a minha própria mãe morrer desse jeito.

— Ela tem dezenove anos, Marcella. Não vai morrer. — Não vou deixar, pensou consigo mesmo. — Tentou fazer com que ela se levantasse?

— Si. Ogni ora. A cada hora. Mas ela não levanta. Não escuta. Não faz nada. Está doente.

— Já chamou o médico?

— Não está doente desse jeito. Está doente por sua causa, maggiore. — E ele estava doente por causa dela, e a maluca tinha se recusado a casar com ele devido às suas idéias tolas de protegê-lo, e agora estavam sofrendo as con­seqüências. — O que podemos fazer?

Ele estreitou os olhos e fitou a chuva de dezembro pela janela.

— Traga-a até o telefone. Quero falar com ela.

— Ela não vem. — Marcella parecia mais preocupada de novo. — Ontem, quando o senhor chamou, ela não veio.

— Hoje à noite, quando eu telefonar, traga-a ao telefone, Marcella, nem que tenha que arrastá-la. — Amaldiçoou silenciosamente o fato de que não ha­via telefone no quarto dos criados. — Quero falar com ela.

— Ècco. Va bene.

— Pode fazer isso?

— Eu faço. O senhor foi a Umbria encontrá-la, agora eu a trago até o telefone. Facciamo miracoli insieme.

Ela abriu um sorriso semidesdentado. Acabara de dizer-lhe que faziam milagres juntos. E ia ser preciso um milagre para tirar Serena da cama.

— Veja se consegue que ela se levante por alguns minutos, antes. Caso contrário, estará fraca demais. Espere um pouco. — Pensou por um momento. — Tenho uma idéia. Não há ninguém no quarto de hóspedes agora, há?

Marcella pensou por um minuto, depois sacudiu a cabeça.

— Nessuno, maggiore. — Ninguém.

— Ótimo. Eu cuido de tudo.

— Vai botá-la ali? — exclamou Marcella, aturdida. A despeito da sua linhagem e do seu título, Serena não passava de uma empregada no palácio, agora, e de nível bem inferior. Não importa que tivesse ocupado a cama do major por todos esses meses, isso era bem diferente de colocá-la no quarto de hóspedes, como uma convidada VIP. Marcella temia que houvesse encrenca.

— Vou botá-la ali, Marcella, quer ela goste, quer não. Deixe-me falar com o Palmers. Vou mandar que a carregue para lá logo que você a apronte. E daqui a uma hora — olhou para o relógio — farei nova ligação.

— O que vou dizer ao Sargento Palmers?

— Eu direi, podemos dizer que ela está muito doente e que estamos com medo de que seja pneumonia, que é úmido demais para ela onde vocês estão, e que estou ordenando a todos que a tragam para cima.

— O que vamos fazer quando o novo maggiore chegar?

— Marcella... — Não tinha coragem de dizer o que estava pensando. — Deixe isso para lá. Vá chamar o Palmers. Quanto a você, vá aprontar Serena.

— Sim, maggiore. — Marcella jogou-lhe um beijo. — Eu o adoro, maggio­re. Se ela não quiser casar com o senhor, eu caso.

Ele deu uma risadinha abafada.

— Negócio fechado, Marcella.

Assim como soubera exatamente o que queria fazer, ao ver Pattie, agora também sabia que Serena estivera errada o tempo todo. Estivera errada não apenas por ele, mas por si mesma, também, e ele não ia deixar que ela fizesse isso a nenhum dos dois. Enquanto dava as suas ordens a Palmers, ficou cons­ciente de que estava finnemente decidido. E se não conseguisse fazê-la criar juízo pelo telefone, iria a Roma. Partiria sem licença, se fosse preciso, e de­pois daria um jeito de se safar, na volta. Porém, antes de fazer algo tão drás­tico, falou com a telefonista militar, dali a uma hora, e mandou que comple­tasse a ligação para Roma. Já tinha providenciado com Palmers para que o telefone fosse colocado no quarto de hóspedes, e quando ele tocou, primeiro Palmers atendeu, depois Marcella, depois ele pôde ouvir sons de movimentos, de coisa arrastada, vozes abafadas, uma porta se fechando, e depois, ouviu a sua vozinha débil, pouco mais do que um sussurro.

— Brad? O que foi? O que aconteceu? Eles me tiraram do meu quarto.

— Ótimo. Foi o que mandei que fizessem. Agora, quero que me escute, Serena. E eu não vou mais escutar você. Eu a amo. Quero que se case comigo. O que você fez está nos matando a ambos. Está se deixando morrer, e eu sinto como se tivesse morrido quando saí de Roma. Isso é uma loucura... uma lou­cura, está me ouvindo? Eu a amo. Agora, pelo amor de Deus, mulher, quer tomar juízo e vir para Paris para se casar, ou será que tenho que voltar para aí e trazê-la arrastada?

Ela riu baixinho, em resposta, e depois fez-se silêncio, enquanto ele quase podia vê-la sopesando os seus pensamentos. O que não podia ver, no silêncio, era Serena recostada nos travesseiros, as lágrimas escorrendo dos olhos, as mãos trêmulas, enquanto segurava o telefone, lutando contra si mesma para não dizer o que queria, e então, finalmente, numa grande explosão de esfor­ço, ela falou:

— Quero!

Era ainda apenas um sussurro e ele não teve certeza se tinha ouvido direito.

— O que foi que disse? — perguntou, prendendo a respiração.

— Disse que quero me casar com você, major.

— É isso mesmo! — Tentou parecer arrogante, mas as suas mãos tremiam mais do que as dela, e o bolo na sua garganta era tão grande que mal conseguia falar. — Vou começar a tratar dos papéis imediatamente, querida, e você virá para cá tão logo seja possível. — Meu Deus! Meu Deus, pensou con­sigo mesmo, ela disse sim. Disse sim! Queria perguntar se estava falando sério, mas não teve coragem. Não ia lhe dar chance de mudar de opinião. Não agora. — Eu a amo, minha querida, de todo o coração.

 

Na manhã em que partiu para Roma, Serena ficou no jardim por um longo tempo, sob o seu salgueiro, com a jaqueta bem apertada contra o corpo. O sol acabara de nascer, e ainda estava frio, enquanto ela olhava para as colinas a distância, e depois de novo para a fachada de mármore branco que estava dei­xando pela segunda vez. Lembrou-se da última vez em que se afastara dali, com a avó, com destino a Veneza. Daquela vez os planos tinham sido feitos às pressas, e a atmosfera fora assustadora e sombria. Ela acabara de perder os pais, e enquanto descia apressadamente os degraus de mármore, na saída, ficara imaginando se alguma vez voltaria a ver a sua casa de novo. Agora, pe­gou-se imaginando novamente a mesma coisa, mas desta feita a atmosfera que cercava a sua partida era diferente. Ia se casar, e desta vez se sentia pron­ta para partir. Afinal de contas, o palazzo não era mais dela, e jamais seria de novo, não fazia sentido fingir que ainda era a sua casa, de verdade. Apenas o pequeno alojamento que dividia com Marcella era realmente seu, e mesmo assim, apenas como um empréstimo, enquanto continuasse a tirar o pó e var­rer e encerar. Soltou um débil suspiro enquanto erguia os olhos para o que fora o gabinete de B.J., as suas antigas janelas, e depois os olhos se desviaram para a sacada que pertencia ao quarto da mãe, que partilhara com ele.

— Addio... — sussurrou ao vento. Não arrivederci ou arrivederla, até outra vez, mas addio... adeus.

Os momentos finais de sua saída de casa foram agitados e dolorosos, um úl­timo abraço de uma Marcella chorosa, enquanto ambas riam por entre as lá­grimas. Marcella recusara a proposta de acompanhá-la a Paris. Roma era o lar da bondosa velhota, e ela sabia que a sua princesa agora estava em boas mãos. Serena prometeu lhe escrever com freqüência, e sabia que alguém leria as car­tas para ela, e se B.J. desse um jeito, lhe telefonaria. E dali a momentos, saía de carro da casa, depois passava por marcos familiares no caminho para a Es­tação Termini, de onde partiria de Roma. Vislumbrou rapidamente a Fonta­na di Trevi, a Escadaria da Praça de Espanha, a Piazza Navona, e logo se viu no meio daquela confusão de gente que corria para pegar os trens, carregando pacotes e malas, parecendo esperançosa, ou cansada, ou excitada, como Se­rena, que subitamente pareceu terrivelmente jovem enquanto tirava a mala das mãos do ordenança que a trouxera até a estação, e depois estendia a mão para se despedir dele, antes de tomar o trem.

— Obrigada. Grazie mille. — Sorria radiosa para ele. As lágrimas que derramara com Marcella eram coisa do passado, e só no que podia pensar ago­ra era em B.J. Sentia-se não como quem parte, mas como quem vai para casa. — Adeus... — murmurou baixinho para si mesma enquanto o trem ganhava velocidade, e via o contorno familiar da sua cidade começar a sumir, a distân­cia. Não havia lágrimas nos seus olhos, desta vez, só no que podia pensar era em Paris e no que a esperava ali. Chegaram em Paris pouco depois do meio-dia. Quando se aproximaram da cidade, ela viu a Torre Eiffel a distância, e vários monumentos que desconhecia, e então, lentamente, o trem entrou na Gare de Lyon, e enquanto rodava os últimos metros estação adentro, Serena se pôs de pé e apertou o rosto contra a janela, espiando para ver se conseguia enxergar B.J. esperando o trem, ao longe. Havia pequenos grupos de pessoas à espera, porém ela não o enxergava em parte alguma, e começou a se preo­cupar, achando que não ia encontrá-lo. Era uma estação grande, e ela se sen­tiu repentinamente muito sozinha. Pegou a mala, quando o trem parou de vez, e mais a pequena cesta que Marcella preparara com provisões, e depois saiu lentamente do compartimento junto com os outros, e saltou do trem, hesitan­te. Mais uma vez correu os olhos ao seu redor, vasculhando a comprida plata­forma e os rostos desconhecidos, com o coração batendo feito louco dentro do peito. Sabia que ele não a esquecera, e sabia também onde achá-lo, se por acaso se desencontrassem na estação, mas apesar disso estava tomada por toda a emoção da situação. Estava em Paris, e viera encontrar-se com B.J., para se casar. Sabia que toda uma vida nova tinha começado para ela.

— Acha que ele se esqueceu de você?

Um jovem soldado americano com quem conversara no trem, na véspera, olhou para ela com um sorriso simpático, e mal Serena acabou de sa­cudir a cabeça, viu o rapaz ficar em posição de sentido e bater continência para alguém logo atrás dela. E como se o pressentisse perto de si, ela rodopiou para ficar de frente para B.J., os olhos dilatados, o rosto cheio de emoção, a garganta sufocada por uma risada, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, o Major Bradford Jarvis Fullerton tomava-a nos braços e a erguia no ar. O jovem americano desapareceu atrás deles, com um dar de ombros e um sorriso.

 

Paris se enfeitara com as suas mais belas cores para Serena, naquela manhã, um céu azul-vivo lá em cima, verdes brilhantes de um lado e outro, enquan­to passavam pelos pinheiros, os monumentos eram do mesmo cinza rajado familiar de séculos de duração, mas aqui e ali havia fachadas de mármore branco e dourado, e belas patinas, e por toda parte as pessoas pareciam feli­zes e entusiasmadas, usando toucas de tricô e cachecóis vermelhos, os rostos rosados de frio, os olhos brilhantes. Era quase Natal, e embora ainda houvesse muita confusão em Paris, era o primeiro Natal em época de paz, e pela primei­ra vez em seis anos os parisienses podiam comemorar verdadeiramente com alegria.

De mãos dadas, enquanto rodavam no carro oficial de B.J., atravessaram os largos bulevares e as ruas estreitas, passaram pelos Invalides e Notre-Dame, e o extraordinário espetáculo da Place Vendôme, subiram o Champs-Elysées, contornaram o Arco do Triunfo, entraram no turbilhão de tráfego de L'Étoile, a interseção circular onde 12 ruas principais se encontravam todas no Arco do Triunfo e todo mundo corria feito louco para o bulevar, onde, com a graça de Deus, desembocaria sem bater em algum outro carro. Tendo deixado o Arco em segurança, enquanto Serena olhava à sua volta de olhos arregalados, entraram tranqüilamente na Avenue Hoche, onde B.J. estava alo­jado, num elegante hotel particulier, uma casa que mais parecia uma mansão, e que pertencera ao dono de um dos vinhedos mais famosos da França, antes da guerra. Na angústia dos dias que antecederam a ocupação de Paris, o dono do vinhedo resolvera se reunir à irmã em Genebra, e a casa fora entregue aos cuidados de criados pelo restante do tempo de guerra. Os alemães acabaram se apropriando dela, durante a sua estada ali, porém o oficial que morara na casa fora um homem civilizado e a casa não sofrera danos enquanto ele a ocupara. E agora o dono do vinhedo adoecera, e ainda não se encontrava em condições de retornar. Nesse meio tempo, os americanos a estavam alugando dele por uma taxa simbólica, até o fim do ano. E B.J. estava muito bem acomodado ali, morando confortavelmente, embora não com a grandiosidade do Palazzo Tibaldo, com dois bondosos criados franceses a servi-lo.

Ao se acercarem da casa, Serena viu que tinha um belo jardim, e uma cerca viva bem cuidada a rodeá-la, com um portão alto e enfeitado de ferro-batido que a isolava do mundo exterior. O motorista de B.J. parou o carro diante do portão e saltou para destrancá-lo antes de entrarem. O carro parou bem em frente a casa, e B.J. se virou para ela.

— Bem, meu amor, cá estamos.

— É linda — sorriu, radiosa, sem ligar a mínima para a casa, ligando ape­nas para o que via nos olhos dele. E os seus próprios olhos pareciam refulgir enquanto ele a beijava docemente, depois saltava do carro para conduzi-la para dentro da casa.

Subiram rapidamente os degraus que levavam até outra pesada porta de ferro, que foi aberta quase instantaneamente por um homenzinho rotundo e calvo de olhos azuis vivos e sorriso alegre; ao seu lado estava uma mulher igualmente pequena e de aparência jovial.

— Monsieur e Madame Lavisse, minha noiva, a Principessa di San Tibaldo.

Serena ficou imediatamente encabulada com o uso do seu título, e estendeu a mão, enquanto eles faziam mesuras formais.

— Prazer em conhecê-la — disseram, sorrindo com simpatia.

— O prazer é todo meu. — Olhou para além deles, para o que podia enxergar da casa. — Ela é linda.

Eles ficaram satisfeitos com o elogio, quase como se a casa fosse deles, e se ofereceram imediatamente para mostrá-la a Serena.

— Infelizmente, ela não é como foi antigamente — desculpou-se Pierre, ao lhe mostrar o jardim dos fundos — mas fizemos o possível para mantê-la intacta para Monsieur le Baron.

O patrão deles não via a sua casa de Paris há cinco anos, e era possível que, agora doente, aos 75 anos, não vivesse mais para vê-la. Porém, fiéis até o fim, eles a tinham conversado para ele, que lhes pagava generosamente por tudo o que faziam. Originariamente, deixara-lhes um fundo grande para todas as despesas, e agora, a cada mês, recebiam um cheque novamente. Em troca, tinham cuidado da linda casa com amor e atenção constantes, escondido os objetos de maior valor e os melhores quadros num quarto secreto sob o po­rão, que nem mesmo os alemães tinham descoberto, e agora, durante o reinado dos americanos em Paris, ainda estavam cuidando da casa como se lhes pertencesse.

Como o palazzo de Roma, os corredores eram de mármore, mas aqui o mármore era de um rosa cor de pêssego. Os bancos Luís XV, colocados a intervalos regulares no corredor, eram enfeitados com dourado e estofados de veludo cor de pêssego-claro. Havia duas lindas telas de Turner, de crepúsculos venezianos, uma grande cômoda marchetada Luís XV com tampo de mármo­re rosado e várias outras peças encantadoras espalhadas aqui e ali. Do corredor, enxergava-se o jardim, visível através das altas portas envidraçadas, que davam para as pequenas trilhas calçadas ladeadas por belas flores, na primavera. Ago­ra, o jardim tinha pouco a oferecer, e foi para o salão principal que se dirigi­ram, enquanto Serena fitava tudo com ar de assombro. O aposento era deco­rado em damasco vermelho e veludo branco, havia pesadas peças napoleônicas, espreguiçadeiras estofadas em tecido listrado cor de framboesa e creme, e duas imensas urnas chinesas ao lado de uma escrivaninha de valor inestimá­vel. Havia imensos retratos dos membros da família do barão, e uma lareira tão grande que abrigaria o major, de pé, na qual ardia um fogo gostoso. Era uma sala projetada para fazer a pessoa prender a respiração de admiração e as­sombro, e no entanto, ao mesmo tempo, era uma sala que convidava a pessoa a entrar e se sentar. Serena correu os olhos, encantada, pelos pequenos obje­tos de arte chineses, tapetes persas, e uma série de retratos menores pintados por Zorn, do barão e das irmãs quando eram crianças, e B.J. foi mostrando o caminho para uma sala menor em lambris de madeira, logo além. Aí também havia um fogo ardendo, mas a lareira era menor e três das paredes da sala esta­vam cheias de livros lindamente encadernados. Aqui e ali havia lacunas nas prateleiras, e Pierre apontou para elas, desolado. Esta fora a única perda infli­gida pelos alemães. O oficial que morara ali levara consigo alguns dos livros, quando se fora. Mas Pierre ainda se dava por satisfeito que nada mais fora le­vado. O alemão fora um homem honrado, e não retirara mais nada.

No mesmo andar também havia uma linda saleta de refeições oval que dava para o jardim, e uma sala de jantar formal para além dela, com as paredes cobertas de exóticos murais de uma aldeia chinesa. O papel fora preservado desde o século XVIII, e fora criado na Inglaterra originadamente para o Du­que de Yorkshire, porém um dos ancestrais do barão comprara-o diretamente do artista e levara-o para a França. Os móveis tinham os pés em garra e as cos­tas em voluta típicos de Chippendale, e havia um esplêndido aparador inglês que brilhava de tão bem encerado. Enquanto Serena passava de um aposento a outro, cheia de admiração, lembrou-se da casa da avó em Veneza, mas esta era menos suntuosa, e, no entanto, era suntuosíssima. Os palazzi italianos em que morara tinham sido todos maiores e mais espalhafatosos do que esta casa, no entanto ela estava cheia de peças tão encantadoras que, embora menor, pare­cia mais impressionante. Era quase como um museu, e enquanto caminhava pela casa, admirava-se intimamente, e em voz baixa para B.J., que eles tives­sem conseguido preservar tudo aquilo durante a guerra. Era também especialmente comovente que o velho mordomo tivesse confiado o bastante em B.J. para tirar do esconderijo algumas das peças realmente boas.

— O velhote é formidável. — B.J. indicou Pierre num sussurro enquan­to acompanhavam o velho mordomo escada acima. Marie-Rose, a mulher dele, fora para a cozinha arranjar alguma coisa para Serena comer. — Pelo que me contou, estava com a maior parte disso escondida no porão. E tenho a impres­são de que algumas das melhores peças ainda estão lá.

Mas ele não podia ter escondido os móveis, Serena sabia, ou pelo menos não todos; era de admirar que nenhuma das belas peças que via à sua volta ti­vesse sido danificada ou roubada, no decorrer dos anos.

No andar de cima havia quatro lindos dormitórios. Um grande e belo quarto principal decorado em cetim azul, com madeira lisas e brilhantes por toda a parte, uma bela espreguiçadeira, uma "namoradeira" aconchegante, uma pequena escrivaninha e outra lareira. Havia uma bela vista do jardim lá embaixo, e uma espiadinha no resto de Paris, e havia também um pequeno gabinete que B.J. usava ocasionalmente como escritório, além de um quarto de vestir que B.J. lhe disse que seria dela. Para além dele ficava um belo quar­to decorado em tons de rosa, que pertencera à falecida baronesa, disse-lhes Pierre, e dois outros quartos agora usados para hóspedes, um deles em verde-vivo com uma linda tela de caçada encimando a lareira, e uma grande quantida­de de gravuras inglesas retratando o mesmo esporte espalhada pelas paredes. O outro quarto era decorado em cinza, com as paredes forradas de tecido, so­bre o qual foram pintadas cenas pastorais. Havia belos candelabros de bronze, outra bela escrivaninha, e diversas outras antigüidades.

— E lá em cima fica o sótão — dizia Pierre, sorrindo para ambos com prazer. Adorava mostrar a casa.

— É uma casa maravilhosa, Pierre — disse Serena. — Não sei o que dizer. É muito mais linda do que qualquer coisa que eu tenha visto na Itália, ou nos Estados Unidos. Não acha, Brad?

Ergueu para Brad docemente os olhos cheios de prazer. Pierre achou que o coração ficava leve, só de vê-los.

— Eu lhe disse que ela ia adorar a casa, não foi? — falou B.J. para Pierre.

— Sim, senhor. E agora, se o senhor e mademoiselle quiserem descer até a biblioteca, estou certo de que Marie-Rose preparou algo para mademoiselle.

Ele presumira corretamente, como descobriram dali a um momento, ao entrar na biblioteca e deparar com um prato cheio de sanduíches, outro coberto de bolinhos e biscoitos e uma jarra de prata de chocolate quente.

B.J. mal podia esperar para que Pierre os deixasse, o que fez dali a um momento. Brad abraçou a sua amada e beijou-a ardentemente, mal ela se sentou no sofá.

— Deus, pensei que nunca ia ficar sozinho com você. Ah, meu bem, quanta saudade eu senti!

— Eu também. — Por um instante a dor daqueles primeiros dias longe dele perpassou-lhe pelos olhos, e ela se agarrou a ele por um momento. — Tive tanto medo, B.J... de nunca mais vê-lo, de... — Fechou os olhos com força por um momento, depois beijou-o no pescoço. — Nem posso acreditar que es­tou aqui, com você, nesta linda casa... é como um sonho, e tenho medo de acordar.

Olhou ao seu redor com um sorriso feliz, e ele a beijou de novo.

— Se acordar, estarei ao seu lado. E não apenas isso, mas quando acor­dar de novo, já será minha mulher.

— O quê? — Pareceu momentaneamente espantada. — Tão cedo?

— Por quê? Queria tempo para pensar de novo no assunto?

Porém o jovem tenente-coronel não parecia preocupado, enquanto pegava um dos sanduíches feitos por Marie-Rose e se recostava no sofá. Fora promovido ao deixar Roma.

— Não seja bobo. Só pensei que levaria mais tempo para organizar. — Olhou para ele, percebendo subitamente o que ele dissera, e uma luz travessa começou a brincar nos seus olhos. — Quer dizer que vamos nos casar hoje?

— Mais ou menos. Vamos semicasar, para ser mais exato.

— Semicasar? — Ela parecia estar achando muita graça, enquanto sorvia o seu chocolate quente. — Quer dizer que eu vou me casar, e você não?

— Não, nós dois vamos. Aparentemente, aqui a gente se casa duas vezes. Uma no /'hotel de ville, como a prefeitura, para valer, digamos assim. E no dia seguinte há a cerimômia religiosa na igreja de sua escolha. A segunda não é realmente necessária, mas achei que você gostaria. — Parecia repentinamente tímido, ao olhar para Serena. — Podíamos ter sido casados pelo capelão, mas há uma igrejinha bonita aqui por perto, e eu achei que talvez... se você qui­ser...

Estava ruborizado como um adolescente, e Serena tomou-lhe o rosto nas mãos e o beijou.

— Sabe quanto o amo, senhor?

— Não, me conte.

— Com todo o meu coração e minha alma.

— Só? — Tentou parecer desapontado, mas sem êxito. — E quanto ao resto?

— Que cabeça suja que você tem. O resto só será seu depois do casamento.

— O quê? — Desta vez ele pareceu genuinamente chocado. — O que quer dizer com isso?

— Exatamente o que você está pensando. Subirei ao altar como virgem... relativamente!

Ela abriu um sorriso, e ele soltou um brado.

— Ora, vejam, só... Qual dos casamentos, afinal? O de hoje ou o de amanhã de manhã?

— O de amanhã, é claro. Temos na Itália o mesmo sistema que aqui.

Parecia recatada e virginal enquanto cruzava as longas pernas bem-feitas e olhava para ele por sobre a xícara de chocolate.

— Ora, se você não é uma provocadora de marca maior.

E então, resolutamente, ele pousou a xícara e começou a beijá-la, uma das mãos subindo lentamente pela sua perna, e outra apertando-a contra si.

Foi neste momento que Pierre entrou, tossindo discretamente e fechando um tanto ruidosamente as portas de vidro às suas costas, e Serena alisou a saia e lançou olhares furiosos para B.J., que apenas abriu um sorriso.

— Sim, Pierre?

— O carro está aqui, senhor.

B.J. olhou meigamente para Serena, então. Mal tivera tempo de expli­car, e já estava prestes a acontecer.

— Querida, chegou a hora. O primeiro round. Quer subir por alguns minutos e lavar o rosto ou qualquer coisa, antes de irmos?

— Agora? Já? — Parecia apavorada, subitamente. — Mas acabo de saltar do trem. Estou horrorosa.

— Não aos meus olhos.

Sorriu para ela, que soube que ele falava a sério, mas Serena se levantou apressadamente e olhou para ele apenas por um instante antes de correr para a porta, onde parou e fitou-o, perturbada.

— Volto já. Não vá sem mim.

Ouviu a risada dele enquanto desaparecia pelo corredor de mármore cor-de-rosa, e depois Brad ouviu-a subir correndo as escadas. Para ele, parecia que ela ficou fora uma eternidade, mas a verdade é que se ausentou apenas durante dez minutos, e quando voltou estava linda, e quase como uma noiva. Na semana anterior, em Roma, Marcella fizera para ela um vestido simples de lã branca de ombros largos, gola redonda, mangas curtas e cintura justa, enci­mando uma saia suavemente rodada. O tecido era lindo, e Marcella compra­ra-o com as suas economias dos meses anteriores, como presente para Serena. Pedira-lhe que o usasse no seu casamento. Agora descendo lentamente as es­cadas, o cabelo dourado preso num elegante coque retorcido, os olhos bri­lhantes e o vestido feito com capricho rodopiando à sua volta, parecia uma principessa. Mantinha uma postura muito ereta, enquanto se aproximava de B.J., e ele viu que estava usando um colar de pérolas de uma volta e brincos de pérola combinando. Serena ergueu o rosto para ele, que a beijou nos lábios.

— Está linda, Serena.

Ela sorriu para ele, desejando por apenas um momento que pudesse ter tido um casamento como aqueles a que comparecera com os pais, anos atrás.

Princesas de contos de fadas descendo imponentes as escadarias de mármore, com vestidos que pareciam nuvens brancas, enfeitados de rendas e com caudas imensas de cetim branco. Porém, a época era outra, e hoje era o dia do seu ca­samento, e estava certa de que não se sentia diferente do que se sentiam aque­las outras noivas do passado. Era extraordinário dar-se conta de que quando acordara, naquela manhã, no trem, não tinha idéia de que aquele fosse ser o dia do seu casamento. Sabia que seria logo, mas não quatro horas após a sua chegada. Olhou feliz para B.J. e ele estendeu a mão para pegar o casaco mar­rom que ela estava carregando no braço, porém, de repente, Pierre adiantou-se discretamente e sacudiu a cabeça.

— Não, coronel... não...

— Não o quê? Algum problema?

— Sim — afirmou o velho mordomo, resolutamente; esticou o dedo como o regente de uma orquestra sinfônica e disse a ambos: — Por favor, espe­rem. Só um momento, volto já.

Desapareceu na copa e um ruído distante de passos indicou que descia as escadas. B.J. deu de ombros, sem saber ao certo o que estava se passando, e o coração de Serena começou a bater forte, de emoção. Dali a meia hora, seria a Sra. Bradford Jarvis Fullerton III.

— Nem posso acreditar — exclamou, soltando uma risadinha e parecendo uma garotinha.

— No que, amor?

Ele estava olhando para o relógio, torcendo para que Pierre não os atrasasse demais.

Porém Serena não parecia preocupada com isso.

— Nem posso acreditar que vamos nos casar. Parece um conto de fadas. Quero dizer, quem iria acreditar que... — Continuou tagarelando enquanto esperavam e depois ergueu os olhos para ele de novo. — Os seus pais estão sa­bendo?

Tinha pensado naquilo de novo, mas imaginara que ele já os tivesse avisado.

— Claro.

Mas a resposta dele foi um pouco ligeira demais, e Serena olhou para ele, repentinamente desconfiada.

— Brad?

— Hem?

— Contou a eles?

— Já disse que sim.

A voz dela ficou mais suave enquanto se sentava numa das banquetas de veludo cor de pêssego.

— O que foi que disseram?

— Parabéns. — Deu um sorriso torto para ela, e Serena fez uma careta.

— Você é impossível. Estou falando sério. Ficaram zangados?

— Claro que não. Ficaram satisfeitos. E o que é mais importante, Serena, eu estou satisfeito. Isso não basta?

Olhou ansioso para ela, que se levantou para beijá-lo novamente.

— Claro que basta.

Pierre retornou precisamente naquele momento, todo entusiasmado, com Marie-Rose nos calcanhares, carregando um saco de cetim preto envolvendo uma coisa pendurada num cabide. Enquanto Marie-Rose parava de fa­lar, Pierre tirava-lhe das mãos o objeto incômodo, segurava o cabide bem no alto e abria o zíper do saco de cetim preto, deixando ver lá dentro um suntuo­so casaco de peles marrom-escuro. Quando o retirou do seu invólucro, eles vi­ram que era zibelina. Serena fitou-o em silêncio, confusa quanto ao motivo de estar ali.

— Mademoiselle.... principessa... — Pierre sorria amplamente para ela, com ar oficial. — Este casaco de zibelina pertencia à falecida baronesa, e nós o guardamos junto com os outros objetos de valor do barão lá embaixo, no quarto trancado, durante todos esses anos. Achamos que é apropriado... gostaríamos que o usasse hoje, quando casar com o coronel, e amanhã na igreja.

Sorriu gentilmente para ela e estendeu-lhe o casaco, enquanto Serena tremia quase visivelmente.

Marie-Rose acrescentou suavemente:

— Ficaria lindo com o seu vestido branco.

— Mas é tão valioso... zibelina... Santo Deus... não posso... — E de­pois, virando-se desamparada para o noivo: — Brad... eu...

Porém ele acabara de trocar um longo olhar com Pierre, e o casaco marrom surrado da moça jazia num montinho feio sobre a banqueta. Ela era uma princesa, afinal de contas, e estava prestes a se tornar sua mulher, que mal ha­via em usá-lo duas vezes?

— Vamos, coração, por que não o usa? Pierre tem razão, e é um belo ca­saco — concluiu, sorrindo ternamente para a noiva.

— Mas, Brad...

Estava rubra, parte encabulada e parte entusiasmada. Para ganhar tempo, B.J. simplesmente tirou o casaco gentilmente das mãos do velho mordomo e vestiu-o na moça. Ele se ajustava perfeitamente aos seus ombros, as mangas eram fartas e do tamanho certo, o casaco tinha o mesmo corte amplo do ves­tido, e ao invés de gola tinha um imenso capuz, que ele puxou para a cabeça dela. Serena parecia uma princesa num conto de fadas russo e ele teve que se inclinar para beijá-la enquanto Pierre e Marie-Rose assistiam, encantados.

— Boa sorte, mademoiselle.

Pierre se adiantou para apertar-lhe a mão, e sem pensar, ela se debruçou e beijou-lhe a face.

— Obrigada.

Mal podia falar, de tão comovida. O quanto confiavam nela, e com quanta rapidez; depois de tudo o que tinham enfrentado, na guerra, era extra­ordinário que fossem capazes de ter esses gestos de fé e amor e generosidade. De certo modo, era o presente de núpcias que lhe davam, e ela se sentia mais emocionada do que conseguia exprimir. Marie-Rose também veio na sua dire­ção, e as duas mulheres se abraçaram, enquanto Marie-Rose beijava Serena nas duas faces.

Quando chegaram ao l'hôtel de ville, no final da Rue de Rivoli, subiram os de­graus de mãos dadas, e Brad abriu a porta para ela, que passou sob o seu braço numa nuvem de zibelina. Ela notou que algumas cabeças se voltavam enquan­to ela e Brad caminhavam com ar circunspecto por um corredor dourado e es­pelhado. Pararam numa sala e ele tirou um maço de papéis do bolso do casaco e entregou-o a uma moça que parecia estar perfeitamente atualizada com os acontecimentos. Desculpou-se com ela por estarem atrasados, e dali a um mo­mento a moça fez-lhes sinal de uma porta, e Serena e Brad entraram atrás de­la. Ali, foram recebidos por um funcionário corpulento que lhes pediu para assinarem num imenso livro de registro. Ele examinou de novo os papéis de­les, verificou os seus passaportes, depois carimbou vários documentos com um timbre de aparência oficial. Rodeou a escrivaninha, então, pigarreando e ajeitando os óculos, endireitou a gravata, e depois ergueu a mão direita como se fosse pedir-lhes que prestassem juramento. Murmurou diversas frases ba­nais em francês, depois estendeu para Serena uma Bíblia muito gasta, pedin­do-lhe que repetisse depois dele as frases seguintes, o que ela fez com os olhos verdes arregalados, o rosto pálido e o coração batendo com muita força. E en­tão chegou a vez de Brad, e dali a segundos tudo pareceu ter terminado e o homem corpulento se virou e voltou para trás da escrivaninha e se sentou.

— Podem ir embora. E parabéns.

Não parecia nada impressionado, e Brad e Serena se entreolharam, começando a se dar conta do que acontecera...

— Já acabamos? — perguntou Brad.

— Já. — Olhava para eles como se fossem muito burros. — Estão casados.

Eles andaram como que num sonho, de mãos dadas, até chegar em casa, onde encontraram o champanha que Marie-Rose e Pierre haviam deixado para eles, e Brad brindou a mulher com um meigo sorriso.

— Como é, Sra. Fullerton, o que acha? Hora de ir para a cama?

Os olhos de Brad brilharam com malícia, e Serena sacudiu a cabeça com ar de divertimento e pesar.

— Já? Na nossa noite de núpcias? Não devíamos ficar acordados até al­tas horas, ir dançar, ou coisa parecida?

— É isso mesmo o que você quer fazer?

Sorriram um para o outro, fitando-se nos olhos, e ela sacudiu lentamen­te a cabeça.

— Só quero ficar com você... para o resto da vida.

— E vai ficar, minha querida, vai ficar.

Era uma promessa de segurança e proteção, que ela sabia que ele man­teria para sempre. A seguir, ele tomou nos braços a beldade de pernas longas e saiu da sala, subindo a larga escadaria com ela no colo, carregando-a para o quarto, onde a pousou suavemente na cama.

— Brad... — sussurrou ela, e as mãos dela eram tão insistentes quanto as dele, enquanto tateava o corpo do marido e corria as mãos rapidamente por baixo da camisa dele, e depois, mais lentamente, desabotoava-lhe as calças, sentindo o volume imenso e ardente em contato com os dedos.

— Eu a amo, querida.

— Ah, Brad.

— Posso? — Afastou-se dela apenas por um instante antes de tirar-lhe o vestido branco, e ela assentiu lentamente enquanto ele abria o zíper e puxava o vestido pela cabeça da moça. — Ah, querida, eu a quero tanto.

As mãos e os lábios dele encontraram-na imediatamente, e dali a um mo­mento ela estava nua na cama grande, e ele também, as luzes estavam baixas, o fogo ardia vivamente e lá fora a noite caiu subitamente na sua noite de núpcias, enquanto o corpo dela se ergueu esfaimado para o dele, e ele a possuiu meiga e totalmente, saboreando o fato de que agora era legalmente sua mu­lher.

 

A cerimônia religiosa do dia seguinte na pequena igreja inglesa na mesma Avenue Hoche foi breve e linda. Serena usou o mesmo vestido branco que usara na véspera, mas Marie-Rose conseguira milagrosamente um pequeno buquê de rosas brancas para ela, e a moça o carregou enquanto subia a nave da igre­ja no casaco escuro de zibelina, com o capuz a lhe esconder o cabelo louro. Estava incrivelmente linda, enquanto se virava para Brad e repetia os seus vo­tos, desta feita ante um altarzinho pitoresco, o sol do inverno entrando pelas janelas, e o velho padre dando-lhes a sua bênção e declarando-os marido e mulher. Marie-Rose e Pierre foram os padrinhos; B.J. não estivera em Paris o tempo suficiente para fazer amigos íntimos e queria que a cerimônia fosse bem particular. Dali a alguns dias, durante as festividades oficiais de Natal que seriam realizadas em Paris, ele a apresentaria a todos como a sua mulher.

— Como é, Sra. Fullerton, sente-se casada agora?

Sorriu para ela enquanto lhe segurava a mão na curta viagem de carro até em casa, enquanto Pierre e Marie-Rose sentavam-se no banco da frente com o chofer.

— Claro que sim. Duas vezes mais do que ontem.

Era extraordinário dar-se conta que menos de 24 horas antes ela tinha chegado em Paris, e agora era a mulher de B.J. Subitamente pensou em Marcella e teve vontade de contar-lhe, e prometeu a si mesma que lhe escreveria ainda esta noite.

— Feliz, querida?

— Felicíssima. E o senhor, coronel?

Sorriu docemente enquanto se inclinava para a frente para beijá-lo suavemente na boca, o rosto quase escondido pelo suntuoso capuz de zibelina, os olhos brilhantes como esmeraldas à luz invernal.

— Nunca estive mais feliz. E um dia desses vamos ter uma lua-de-mel, prometo. — Porém ele não estava em Paris há tempo bastante para pedir uma licença significativa. Não que Serena estivesse se importando. Todo o tempo que passavam juntos era como uma lua-de-mel. Nunca fora mais feliz do que era com ele. — Quem sabe podemos passar o dia de Natal no campo. — Olhou para ela, sonhadoramente. Na verdade, não estava com vontade de passar dia nenhum fora. Queria era ficar com ela na cama durante toda a semana seguin­te, fazendo amor. Ela deu uma risadinha, olhando para ele, quase como se soubesse o que estava pensando. — O que há de tão engraçado?

— Você. — Debruçou-se para murmurar ao seu ouvido: — Não acredito numa só palavra que está dizendo. Não creio que vá me levar para nenhum passeio. É uma trama para me manter trancada no nosso quarto.

— Como foi que soube? — murmurou ele, também. — Quem lhe contou?

— Você. — Deu nova risadinha, mas depois alisou o casaco de zibelina por sobre as pernas e tentou olhar para ele com seriedade. — Mas preciso sair para fazer algumas compras de Natal, Brad.

— No dia do nosso casamento? — exclamou, parecendo chocado.

— Hoje ou amanhã. É só o que me resta.

— Mas, o que eu vou fazer?

— Pode vir comigo, pelos menos durante parte das compras. — Sorriu satisfeita e baixou a voz de novo. — Quero comprar alguma coisa para eles.

Indicou com os olhos o banco da frente, onde Marie-Rose e Pierre conversavam animadamente com o motorista, e B.J. concordou.

— É uma boa idéia. — Olhou para o relógio e franziu a testa. — Depois do almoço quero ligar para os meus pais. — Serena meneou a cabeça, suave­mente. Estava nervosa com a idéia, mas sabia que teria que conhecê-los mais cedo ou mais tarde, e ficaria mais fácil se tivesse falado com eles por telefo­ne uma ou duas vezes. Porém cada vez que pensava neles, lembrava-se de Pattie Atherton, e de tudo que esta dissera naquele dia, cheia de raiva, na sacada que dava para o jardim... você e uma maldita empregadinha italiana... a sua puta italiana... Serena quase se crispou ao escutar aquilo de novo, mental­mente, e Brad tomou-lhe a mão. — Não precisa se preocupar com eles, Serena, vão adorá-la. E o que é muito mais importante, eu a adoro. E depois — sorriu consigo mesmo, enquanto pensava na sua família — há os meus dois irmãos. Você também vai adorá-los. Especialmente Teddy.

— O mais novo?

Olhou feliz para o rosto do marido, tentando esquecer de novo as palavras de Pattie. Quem sabe os irmãos gostariam dela, afinal de contas?

— É, Teddy é o mais novo, e Greg é o do meio. — O seu rosto se anuviou por um momento. — Greg é... bem, ele é diferente. É mais quieto do que o resto. É... não sei, talvez seja mais como o meu pai. Segue mais ou menos o seu próprio caminho, e é estranho, pode ser influenciado com mais facilidade do que Teddy ou eu. Ambos somos mais teimosos do que ele; no entanto, quando mete uma coisa na cabeça, quando é uma coisa que realmente deseja, empaca feito uma mula.— Olhou para ela, com ar divertido. — Mas Teddy... ele é o gênio da família, o travesso, o brincalhão. É mais decen­te que todos nós juntos, e mais criativo. Teddy tem — pensou por um longo momento — alma... e humor... e sabedoria... e beleza.

— Espere aí, parece que fiquei com o irmão errado.

B.J. olhou para ela, completamente sério.

— Até pode ser. Pelo menos, a idade dele é mais próxima da sua. — Mas logo mudou rapidamente de humor. — Mas escolheu a mim, guria, e agora não tem mais jeito. — Porém era evidente, como sempre acontecia quando falava do irmão caçula, que havia um elo de ternura entre eles que alcança­va até a sua alma. — Sabe, depois que se formar em Princeton, em junho que vem, falou que vai fazer medicina, e puxa vida, aposto que vai mesmo, e vai ser um médico fantástico.

Olhou-a de novo com um sorriso e a moça se inclinou para ele e o beijou.

De volta à casa da Avenue Hoche, abriram mais uma garrafa de champa­nha e beberam-na juntamente com Pierre e Marie-Rose, e depois o casal idoso desceu para preparar o almoço, e B.J. e Serena subiram para comemorar de novo a sua lua-de-mel, e quando Marie-Rose tocou a campainha chamando-os, dali a uma hora, detestaram ter que se vestir e descer.

Serena vestiu uma saia cinza e uma suéter cinza, e recolocou o colar de pérolas. Enquanto saía do banheiro, Brad notou que era um traje muito severo.

— O que aconteceu ao vestido branco?

Gostara dele, fazia a cintura dela parecer tão fininha, e ficava linda de branco. O cinza parecia estranhamente triste para um dia tão feliz. Mas era a sua melhor saia, e a suéter era de cashmere, o que também era uma raridade para ela. Quase não tinha roupas, exceto as que trouxera do convento, e aque­las com que trabalhara no palazzo. Sabia que precisava comprar mais, agora que era mulher dele, e estava pretendendo gastar em roupas um tanto do di­nheiro que ainda lhe restava. Não queria envergonhá-lo com as roupas feias de segunda mão que eram praticamente tudo o que possuía.

— Não se preocupe. Vou comprar umas coisas novas. — Pareceu encabulada. — Está... muito feio?

Lançou um olhar ao espelho e se deu conta de como parecia sem graça. Uma enorme diferença do vestido branco e da zibelina emprestada, mas era só o que tinha. Enrubesceu, e ele se dirigiu a ela e tomou-a nos braços.

— Eu gostaria de você enrolada num cobertor, sua bobona. Nada que você use jamais fica feio. É só que estava tão bonita de branco... e com a zibelina. Por que não vamos fazer compras hojes à tarde, para que eu possa lhe dar umas coisas novas e bonitas? Meu presente de Natal para você.

Antes que ela pudesse protestar, como ele sabia que protestaria, rodeou-lhe os ombros com o braço e desceu a escada com ela. Fizeram uma lauta re­feição. Marie-Rose se superara em homenagem a eles. Havia uma sopa de cre­me de legumes feita em casa, delicadamente temperada, um gostoso patê com pão fresco, pombos assados, e um purê de alcachofras que era especialmente do agrado de B.J. Havia salada, e Brie e peras, que Marie-Roe estava poupan­do há dias para esse almoço especial, e de sobremesa fizera um suflê de cho­colate com molho de baunilha e creme chantilly.

Santo Deus, acho que nunca mais vou poder me mexer. — Serena fitava-o, quase espantada. — Nunca comi tanto na minha vida.

— Deus, que maravilha.

B.J. parecia aparvalhado, enquanto erguia os olhos para Pierre, que lhe oferecia um conhaque e um charuto. B.J. recusou ambos com pesar.

E depois que Pierre os deixou, B.J. se pôs de pé e se espreguiçou ao sol quente de verão que entrava pelas janelas envidraçadas, depois foi até Sere­na e esfregou-lhe suavemente os ombros com as mãos fortes, enquanto ela dei­xava pender a cabeça para trás e olhava para ele.

— Alô, meu amor. Está feliz como eu?

— Mais ainda. E mais gordo. Deus, depois desse almoço talvez eu nem entre mais nas minhas fardas.

— Foi bom eu não estar usando o vestido branco de Marcella, ou teria explodido e feito o vestido em pedaços. — Ele riu da imagem e puxou a cadei­ra para ela, que se levantou, lentamente, e também se espreguiçou. — Nem sinto vontade de ir fazer compras, mas preciso.

— Primeiro — ele olhou para o relógio — temos que ligar para os meus pais. Pode levar algum tempo para completar a ligação, mas é importante. Quero apresentá-los à minha mulher.

Beijou-a e levou-a para a biblioteca, onde pegou o telefone da escrivaninha, discou para a telefonista e começou, num francês hesitante, a dar-lhe o número que queria em Nova York.

— Quer que eu faça isso para você? — murmurou para ele, e Brad murmurou a resposta:

— Faz com que eu me sinta competente conseguir que me entendam em francês.

Porém ele sabia que o seu francês era pouco mais do que tolerável e o de Serena era fluente, mas, mesmo assim, ele conseguiu; dali a um momento, depois de ter dado todas as informações à telefonista, desligou.

Pierre tinha acendido a lareira pouco antes do almoço, e agora o fogo ardia gostosamente. B.J. foi sentar-se diante dele, e chamou Serena, que veio sentar-se ao seu lado e segurar-lhe a mão. Parecia preocupada, contudo, ao se aproximar dele, e Brad alisou-lhe meigamente os cabelos, como que esperan­do com isso suavizar-lhe as preocupações.

— Acha que ficarão muito zangados, Brad?

— Não. Surpresos, talvez. — Fitava o fogo, enquanto falava. Naquele exato momento estava pensando na mãe.

— Mas você falou que tinha dito a eles que íamos nos casar.

— Sei que falei. — Virou-se para ela, então, com uma expressão tranqüila nos olhos, como se não estivesse com medo e estivesse muito certo do que estava fazendo. Em momentos como este, ela tomava consciência de no­vo da força dele, da sua autoconfiança. Brad sempre parecia perfeitamente certo do que estava fazendo. Era uma qualidade que o promovera muito, no trabalho, e que lhe fora útil a vida toda. Quando estudara em Princeton, fora o capitão do time de futebol, exigindo a mesma confiança serena. Aquilo fa­zia com que todos respeitassem a sua palavra, instantaneamente, dentro e fora do campo, e a despeito de suas preocupações, Serena ficou mais calma. Basta­va o tom da sua voz para tranqüilizá-la, mesmo que não estivesse entendendo bem o que acabara de dizer. — Sei que falei que tinha dito a eles, Serena. Mas não disse. Não havia motivo. Era a minha decisão, a nossa decisão. Quis espe­rar até estarmos casados.

— Mas, por quê? — Sentia-se chocada por ele ter achado necessário men­tir para ela na véspera.

Ele soltou um profundo suspiro, fitou o fogo, depois voltou os olhos para ela.

— Por que a minha mãe é uma mulher muito forte, Serena. Gosta das coisas ao jeito dela, e às vezes acha que sabe o que é melhor para nós. Mas não é sempre que sabe. Se pudesse, gostaria de fazer as nossas escolhas por nós. Eu jamais permitiria isso. Meu pai sempre permitiu. E ela fez umas excelentes escolhas para ele. Mas não para mim, Serena, não para mim. — Parecia que estava rememorando a sua vida inteira, enquanto falava com ela. — Achei que, se ligasse para ela primeiro, ela ia tentar dar o seu palpite, querer vir até cá para conhecê-la primeiro sabe lá Deus o quê. Provavelmente ia me dizer que eu estava desmamando criança. Acima de tudo, eu não queria deixar você per­turbada. Já sofreu bastante, e quero tornar as coisas fáceis para você, Serena, não mais difíceis. Não havia motivo para ela vir aqui dar uma olhada em você, dizer-me que você era fantástica, mas deixá-la morta de medo nesse meio tem­po. Sendo assim, achei que devíamos acertar as nossas vidas sozinhos, e depois contar para ela quando já fosse um fait accompli. — Esperou um momento, depois indagou: — Me perdoa?

— Suponho que sim. — O que dissera fazia sentido, mas a preocupação, não abandonara totalmente os olhos da moça. — Mas, e se isso a deixar tão zangada, que passe a não gostar de mim?

— Não poderia, querida. Como poderia não gostar de você? Teria que ser maluca. E a minha mãe é um bocado de coisas, menos maluca.

E então, como que aproveitando a deixa, o telefone tocou, e era a telefonista francesa, anunciando que a ligação transatlântica estava pronta. Na outra extremidade da linha estava uma telefonista de voz anasalada, em Nova York, prestes a completar a chamada. Ele ouviu o telefone tocar três vezes, depois foi atendido pelo irmão mais moço de B.J., que aceitou a ligação e trovejou no aparelho, sobrepujando a estática.

— Puxa, meu velho, como está passando? E como vai Paris? Como gos­taria de estar aí!

— Deixe isso para lá. Que tal a escola?

— A mesma coisa de sempre. Uma chatice. Mas estou quase terminando, graças a Deus, e fui aceito na Faculdade de Medicina de Stanford, para come­çar em setembro.

Parecia um escolar excitado, e B.J. abriu um sorriso.

— Que formidável, garoto. Escute, mamãe está por aí?

Raramente perguntava pelo pai. Este era o homem invisível há 30 anos. De certa forma, o pai tinha muito em comum com o irmão do meio. O Sr. Fullerton era um pouco mais empreendedor do que Greg, afinal cumprira um mandato como senador, porém se elegera mais devido a prestígio familiar, bons contatos e muito dinheiro para a campanha do que ao carisma pessoal. Na verdade, era Margaret Fullerton que devia estar na política. B.J. costumava brincar com ela que devia ter sido a primeira presidenta. E teria sido, mesmo, se isso fosse possível. Contentara-se, contudo, em empurrar o marido a freqüentar os mesmos círculos que pessoas como Eleanor Roosevelt fre­qüentavam.

— Está, sim. Tudo bem com você, Brad?

— Tudo ótimo. E vocês todos? Greg? Papai?

— Greg deu baixa do exército faz algumas semanas.

Mas isso não era nada de extraordinário, como todos sabiam. Ele passara a guerra toda sentado atrás de uma escrivaninha em Fort Dix, Nova Jersey, passando os fins de semana em casa, ou em Southampton no verão. Sentia-se terrivelmente culpado por causa disso, como finalmente revelara ao irmão mais novo. Porém, como B.J. dera logo um jeito de ser mandado para o ex­terior e tivera várias missões em zonas perigosas, os pais mexeram os pauzi­nhos para que apenas um dos filhos corresse perigo. Greg ficara a salvo em Nova Jersey, o tempo todo. E Teddy, naturalmente, estava na faculdade desde 1941, com toda a intenção de entrar para o exército ao se formar.

— O que ele vai fazer agora?

— Por que não pergunta a ele? — disse Teddy, com leve hesitação, e de­pois: — Ele vai entrar para a firma de advocacia de papai. E quanto a você, Brad? Não volta mais para casa?

— Vou acabar voltando, mas ninguém ainda me disse nada, por estas bandas.

— Já está pronto para voltar?

Havia um estranho tom de interrogação na voz de Teddy, e Brad ficou subitamente se perguntando o que ele saberia.

— Talvez não. Aqui é bom pra burro, Ted. Escute, se eu ainda estiver por aqui na primavera que vem, quando você se formar, por que não vem nos... me fazer uma visita.

Corrigira-se depressa com um rápido olhar para Serena.

— Acha que ainda vai estar aí? — Teddy parecia desapontado. — Que diabo, nunca vai dar baixa, B.J.?

Fez-se uma pausa de um momento.

— Acho que não, Ted. Gosto do exército. Não pensei que gostaria. Mas acho que isto é o certo para mim. E... — Olhou para Serena com ternura. Queria contar a Teddy sobre ela, mas achava que devia contar primeiro para a mãe. — Escute, falo com você depois. Vá buscar mamãe, Ted. E escu­te — falou B.J., pensando melhor — não diga nada a eles, Ted. Mamãe vai ter um troço quando eu disser a ela que vou ficar no exército.

— Brad... — Lá estava aquele tom estranho na voz dele, de novo. — Acho que ela sabe.

Era como se estivesse advertindo o irmão mais velho de alguma coisa.

— Algum problema? — perguntou Brad, subitamente tenso.

— Não. — Ele não demoraria a saber. — Vou buscar mamãe.

Ela estava na sala de jantar tomando o café da manhã com Greg e Pattie Atherton, que viera tomar um desjejum especial pré-natalino com todos eles. Quando Ted apareceu à porta e fez um sinal insistente para a mãe, ela veio rapidamente, com uma ruga de preocupação na testa.

— Algum problema, Ted?

— Não, mamãe, é o Brad ao telefone, ligou para nos desejar um Feliz Natal.

Enquanto falava, torcia para que a mãe permitisse que continuasse a ser feliz. Ela tirou o aparelho da mão do filho mais jovem, alisou o cabelo branco como a neve e sentou-se rapidamente na cadeira da escrivaninha. Estava ele­gantemente vestida num costume preto de Dior que realçava extremamente o seu corpo ainda jovem e esbelto. Era uma mulher de 58 anos, porém podia facilmente esconder dez ou 12 desses anos, se quisesse, coisa que nunca quis. Tinha os mesmos olhos cinzentos-azulados de B.J., e as feições eram também muito parecidas, mas onde em B.J. tudo parecia descontraído e suave, na mãe tudo parecia eternamente tenso. Tinha-se sempre a impressão de que ela esta­va atenta a alguma coisa, algum som sobre-humano e extraterrestre que era audível apenas para ela. Havia sempre nela uma espécie de tensão elétrica, e parecia sempre pronta a dar o bote, o que fazia freqüentemente, de prefe­rência no marido, mas também nos filhos. Era uma mulher com quem se fa­lava cuidadosamente e se lidava com a máxima cautela, para não mexer com ela, ou para "que ela não começasse", como dizia a sua família.

— Não façam a sua mãe começar, meninos — o marido sempre implora­ra aos filhos. E para evitar que ele próprio o fizesse, raramente falava, apenas meneava a cabeça, concordando constantemente. Quando eram mais moços, os meninos costumavam imitá-lo um bocado, e B.J. aprendera à perfeição o "Ummmm..." constante, evasivo e quase mecânico.

— Oi, mamãe. Como vai tudo em Nova York?

— Interessante. Muito interessante. Eleanor veio almoçar aqui ontem. — Sabia que ela estava se referindo à Sra. Roosevelt. — As novidades políti­cas hoje em dia estão em constante alteração. É uma época difícil para ela, para todos nós, na verdade. Muitas readaptações estão tendo que ser feitas, depois da guerra. Mas, deixe isso para lá, Brad querido. Vamos falar de você. — Falou com uma ênfase que há dez anos o teria deixado extremamente ner­voso. Porém deixara de ser intimidado pela mãe quando largara o emprego em Washington e se mudara para Pittsburgh, segundo a sua própria vontade. Fora uma mudança que ela reprovara violentamente, e pela primeira vez na vida ele resolvera que aquilo não ia mudar nada para ele. — Está bem, queri­do? Com saúde? Feliz? Voltando para casa?

— Sim às três primeiras perguntas, não à quarta, infelizmente. Pelo menos, não parecem dispostos a me mandar para os Estados Unidos, no momen­to. Mas estou bem, tudo está bem. — Viu os olhos cheios de expectativa de Serena fitos nele, e pela primeira vez em muito tempo deu-se conta de que estava com medo da mãe. Porém, desta vez, tinha que enfrentá-la, não apenas por si mesmo, mas por Serena. Aquilo lhe deu coragem adicional, enquanto entrava de cabeça. — Tenho boas notícias para você.

— Outra promoção, Brad?

Parecia satisfeita. Por mais que detestasse tê-lo no exército, já que ele insistia em continuar, as promoções freqüentes acalmavam-na e deixavam-na satisfeita com o seu prestígio.

— Não exatamente, mamãe. Melhor ainda. — Engoliu em seco, dando-se conta subitamente do que havia feito. Serena tinha razão. Devia ter telefona­do primeiro. Santo Deus, imagine contar a ela desse jeito, depois da coisa fei­ta. Podia sentir uma leve camada de suor porejar-lhe a testa, e rezou para que Serena não percebesse. — Acabo de me casar.

Tinha vontade de fechar os olhos e engolir um pouco de ar, mas não podia, não com aqueles olhos verdes cheios de expectativa e confiança fitos nele. Ao invés disso, sorriu para Serena e fez sinal de que tudo estava indo bem.

— Você o quê? Está brincando, é claro. — Fez-se silêncio, mas antes dis­so a voz fora áspera. Podia imaginar a tensão no rosto dela simplesmente escu­tando o tom de sua voz. Podia visualizar a mão elegante, quase ossuda, com os pesados anéis de diamantes, agarrando o telefone. — Que história é essa?

— É a história de uma moça maravilhosa que conheci em Roma. Casamos hoje de manhã, mamãe, na igreja inglesa daqui.

Fez-se uma pausa interminável, enquanto ele esperava. Na outra extremidade o rosto dela ficou subitamente sombrio, os olhos da cor do Atlântico antes de um furacão.

— Existe algum motivo adequado para ter conservado isso em segredo, Brad?

— Não. Só queria fazer uma surpresa.

A voz da mãe era glacial.

— Imagino que ela esteja grávida.

Brad estava começando lentamente a ficar irritado. Nada jamais mudava. Não importa o quanto eles ficassem mais velhos, ela ainda os tratava do mesmo jeito. Como fantoches mal-comportados e dementes. Fora isso que o afastara de casa anos antes. Sempre dava um jeito de esquecer essa parte, e percebia que as coisas não estavam nada diferentes.

— Não, está enganada. — Pelo bem de Serena, continuou como se tudo estivesse bem. — O nome dela é Serena e é loura e muito linda. — Sentia-se li­geiramente maluco, enquanto falava, e só o que queria era desligar aquele tele­fone. — E estamos muito felizes.

— Que encantador. — As palavras da mãe penetravam no aparelho como tiros. — Espera que eu vá aplaudir? Será possível que essa seja a moça de que Pattie me falou em novembro? — O tom de voz da mãe teria rachado o már­more. — Creio que ela mencionou que a moça era empregada da casa em que você morava. Ou é outra pessoa?

Com que direito você pergunta, porra, teve vontade de gritar, porém se controlou o mais que pôde e tentou não se enfurecer.

— Não creio que queira discutir esse assunto com você agora. Acho que quando Pattie esteve em Roma viu as coisas de modo deformado...

— Por quê? — interrompeu a mãe. — Porque rompeu o noivado com você?

— Foi o que ela lhe contou?

— Não foi o que aconteceu?

— Não exatamente. Disse a ela que as coisas tinham mudado e que queria desmanchar o noivado.

— Não foi assim que me contaram. — Margaret Fullerton não parecia es­tar acreditando no filho. — Pattie falou que você estava tendo um caso com sua faxineira, e que quando ela descobriu, devolveu o seu anel e voltou para casa.

— É uma historiazinha plausível, mamãe. O único problema é que não é verdade. A única coisa de verdade aí é que — percebeu que seria sensato admitir ao menos isso para a mãe, para o caso dela vir a saber por outras fon­tes — Serena estava trabalhando no palazzo, que era de propriedade dos pais dela, antes da guerra. Mas seus pais faziam parte da aristocracia contrária a Mussolini, e foram mortos logo no começo da guerra. É uma longa história, e não vou lhe dar todos os detalhes agora. Ela é uma principessa de nascença, e passou a guerra num convento nos Estados Unidos, e quando voltou para a Itália no verão passado, encontrou o resto da família morta, não tinha mais ninguém e mais nada, portanto voltou para o palazzo para vê-lo, e uma das empregadas a acolheu. Foi um período duro para ela, mamãe. — Sorriu para Serena. — Mas agora tudo isso acabou.

— Que encantador. A menina dos fósforos. Uma noiva de guerra. — O tom dela era venenoso. — Meu caro rapaz, tem alguma idéia de quantos pés-rapados estão vagando pela Europa, agora, fingindo que eram príncipes e du­ques e condes, no passado? Meu Deus, estão fazendo isso até aqui. No clube do seu pai há um garçom que alega ser um príncipe russo. Quem sabe — suge­riu a mãe, com voz adocicada — você gostaria de apresentar a sua esposinha para ele. Estou certa de que seria um companheiro muito mais adequado para ela do que você.

— Que coisa nojenta você está dizendo. — Os olhos dele faiscavam. — Li­guei para lhe dar a notícia. É só. Acho que já falamos o suficiente. — Com o canto dos olhos podia ver os olhos de Serena ficando cheios de lágrimas. Ela sabia o que estava acontecendo, e aquilo despedaçava o coração de Brad. Que­ria que tudo desse certo para a sua mulher, e não estava dando a mínima para o que a mãe dizia. — Adeus, mamãe. Falo com você de novo em breve.

A mãe não lhe deu os parabéns.

— Antes de desligar, talvez queira saber que o seu irmão Gregory acaba de ficar noivo.

— Verdade? De quem?

Não que realmente estivesse se importando. Estava furioso demais com o comportamento da mãe e a sua reação à notícia do seu casamento com Serena. Só uma coisa lhe pareceu estranha antes que ela lhe contasse, o fato de Ted não ter dito uma só palavra sobre Greg.

— Ficou noivo de Pattie. — Falou com prazer, quase com júbilo.

— Atherton? — exclamou B.J., aturdido.

— É, Pattie Atherton. Não escrevi para você porque não tinha certeza e não queria lhe causar sofrimento desnecessário. — Pois sim! Queria maximizar o choque. B.J. conhecia bem a mãe. — Ela começou a sair com ele pratica­mente quando voltou de Roma.

— Que ótimo. — Admirou-se de ver que vaca manipuladora e ardilosa Pattie era. Pelo menos escolhera o irmão certo, desta vez. Greg faria tudo o que ela quisesse. Tinha feito a escolha certa, para si mesma. Mas B.J. pegou-se imaginando se ela não destruiria o seu irmão. Esperava que não, mas esta­va quase certo que sim. Estava morrendo de vontade de perguntar a Ted o que pensava daquilo, porém sabia que agora não ia conseguir falar com ele de novo. — Quando eles vão se casar, mamãe?

— Em junho. Pouco antes dele completar trinta anos. — Que comovente. E Pattie estaria com 24 anos, a noiva perfeita num vestido de renda bran­ca. De repente, aquela imagem mental quase o deixou doente. O irmão devo­rado por aquela sacana. — Tenho certeza de que será doloroso para você, Brad, mas acho que devia estar presente.

— Claro. Não poderia faltar.

Estava mais à vontade agora, mas ainda assombrado com a perícia da mãe.

— E você pode deixar a noivinha de guerra em casa.

— Não há a mais remota possibilidade disso, mamãe. Teremos prazer em vê-los a todos, então, e por enquanto, um Feliz Natal. Não vou falar com Greg agora, mas diga que lhe desejo felicidades.

Não ligava a mínima de falar ou não com Greg. Nunca tinham sido chegados, e agora ainda o eram menos, e já estava cheio da mãe e da sua atitude mesquinha para com Serena. Queria desligar a todo o custo. Lamentava ape­nas que Serena estivesse no aposento enquanto falava com a mãe. Gostaria realmente de poder dizer tudo o que estava pensando. Mas teria que fazê-lo por carta, e sem demora.

— Acho que ele ainda está na sala de jantar, com Pattie. Acabávamos de tomar café quando você ligou. Pattie apareceu aqui hoje cedo, eles estão quase de saída para a Tiffany's para escolher o anel.

— Que maravilha.

— Podia ter sido você, Brad.

— Ainda bem que não é.

Fez-se um silêncio significativo.

— Gostaria que fosse. Ao invés do que você acaba de fazer.

— Não vai se sentir assim quando conhecer Serena.

Fez-se um silêncio estranho.

— Normalmente não faço vida social com empregadas. — Brad teve von­tade de explodir ante a reação dela, mas sabia que não podia, pelo bem de Serena. — Você é um tolo, Brad — prosseguiu ela, aproveitando o silêncio do filho. — Devia ter vergonha. Um homem com os seus contatos e chances, e veja só o que fez da sua vida. Me dá vontade de chorar pelo que você está jo­gando fora. Acha que vai poder ter êxito na política, com esse tipo de mulher como esposa? Ela pode até ser uma simples prostituta se intitulando prince­sa. Pattie falou que parecia uma vagabunda.

— Deixarei que você julgue por si mesma. Ela é dez vezes mais fina do que Pattie. A sem-vergonha vem dando à vontade há anos! — Finalmente co­meçava a perder o controle.

— Como tem a coragem de falar da noiva do seu irmão nesses termos re­voltantes.

— Então nunca mais — a voz dele parecia um torpedo ao aparelho, e na outra extremidade Margaret Fullerton tomou um susto — nunca mais fale da minha mulher desse jeito. Está claro? Ela é minha mulher, agora. Pense você o que pensar, trate de guardar para si mesma de agora em diante. Ela é minha. É só. É só o que vocês precisam saber. E espero que todos nesta família, inclusive aquela cachorrona da Pattie, a tratem com respeito. Vocês bem que deviam amá-la, todos vocês, porque deixa a todos no chinelo, mas quer a amem, quer não, tratem de ser educados com ela, e comigo, ao se referirem a ela, ou jamais me verão de novo.

— Não vou tolerar as suas ameaças, Bradford — falou ela, com voz de granito.

— Não vou tolerar as suas. Feliz Natal, mamãe. — E com essas palavras desligou suavemente o telefone. Quando se virou para olhar, pesaroso, para Serena, viu que a moça estava sentada ao pé do fogo, o rosto enterrado nas mãos, os ombros tremendo, e quando se dirigiu para ela e a forçou a erguer o rosto, viu que ele estava ensopado de lágrimas. — Ah, querida, lamento que você tenha escutado tudo isso.

— Ela me odeia... me odeia... partimos o coração dela.

— Serena. — Tomou-a nos braços e apertou-a contra si. — Ela não tem coração, minha querida. Há anos que não tem. É uma coisa que todos na família sabem, e eu devia ter-lhe avisado. Minha mãe tem uma mente como um chicote e um coração de pedra. É mais durona do que a maioria dos homens que conheço, e só o que deseja é fazer com que todas as pessoas façam o que ela quer. Satisfez-se em mandar no meu pai durante trinta e seis anos, e há tempos que vem tentando mandar em mim, também. Teve melhor sorte com o meu irmão Greg, e ainda não estou certo de como o Teddy vai sobreviver a tudo isso. Porém o que ela não gosta a seu respeito é que você não foi idéia dela... não foi ela que a descobriu, não foi ela que tentou me forçar a casar com você. Só o que odeia a seu respeito é que não tem nenhum contro­le. Fui eu mesmo que escolhi, como quando entrei para o exército. É isso que ela não pode aceitar. Não tem nada a ver com você. Tem a ver com uma bata­lha entre ela e eu que vem durando há anos.

— Mas Pattie... contou que eu era empregada no palazzo... o que a sua mãe estará pensando? — Serena ainda soluçava nos braços dele.

— Serena, meu amor, em primeiro lugar não se esqueça nunca de quem é na verdade. E de qualquer forma, acha que tem importância para mim se você foi empregada, ou outra coisa qualquer? A única coisa que tem importância é que lamento que você tenha tido que passar por toda aquela confu­são e trauma e sofrimento e trabalheira. Mas uma coisa eu lhe digo, de agora em diante vou tornar a sua vida feliz, e tentar compensá-la por todo o resto.

Beijou-lhe os olhos úmidos e alisou-lhe os cabelos, docemente.

— Acha que ela algum dia vai nos perdoar?

— Claro que sim. Não é uma coisa assim tão importante. Ela ficou surpresa, só isso. E magoada porque não lhe contamos antes.

Era uma minimização da realidade da situação, mas esperava que ela estivesse acreditando.

Serena sacudiu a cabeça, tristemente.

— Ela sempre vai me odiar. E sempre vai pensar em mim como a empre­gada italiana.

B.J. achou graça.

— Não vai, não, bobinha, prometo.

— Como pode ter certeza?

— Conheço a minha mãe. E ela me conhece. Sabe que não pode me con­trolar. É uma realidade simples da vida. Portanto, acabará por aceitar o que aconteceu, e quando finalmente a vir, vai ficar encantada, como eu fiquei, e vai ver o que você é — linda e meiga e adorável, inteligente, e a mulher que eu amo. Todos vão amar você, Serena, até a danada da minha mãe. Juro... vo­cê vai ver...

— Mas tudo o que Pattie disse...

— Inveja, meu amor. Até mesmo a minha mãe vai ter que admitir isso, quando as vir juntas.

— Juntas? — exclamou Serena, chocada, e B.J. pareceu pesaroso.

— Ela vai se casar com o meu irmão Greg, em junho. Que coisa interessante, não acha?

Serena observou-o atentamente, e enxugou os olhos.

— Ela vai se casar com o seu irmão? — Ele fez que sim. — Você se importa?

— Não da maneira que você está pensando. O que me importa é que acho que ela é a pior coisa que podia acontecer ao meu irmão. Ou talvez não, talvez ele precise de alguém para controlar a vida dele. A minha mãe não po­de fazer isso eternamente.

— Ele é mesmo assim tão fraco?

B.J. concordou, lentamente.

— Detesto ter que admiti-lo, mas é, sim, o pobre-diabo. É igualzinho ao meu pai.

— O seu pai também é fraco?

Parecia chocada ao vê-lo malhar a família toda com tanta franqueza. Nunca fizera isso antes.

— É, o meu pai também é fraco. E a minha mãe tem mais colhão do que um time de futebol inteiro. Não creio que isso a tenha feito feliz, e diversas vezes nos deixou a todos malucos, mas é a verdade. E só o que importa, minha querida, é que eu a amo. Agora, já cumpri o meu dever, contei à minha família sobre o nosso casamento, sinto muito que não tenham dado pulos de alegria, mas logo que a conheçam darão, portanto não nos preocupemos com isso, e agora vamos fazer as compras de Natal. Negócio fechado?

Ela ergueu para ele os olhos úmidos, e tentou dar um sorriso.

— Eu o amo. — Porém, quase na mesma hora começou a chorar de novo. — Desculpe.

— Por quê? Devia mesmo pedir desculpas por chorar o dia todo no dia do nosso casamento, isso sim. Devia pedir muitas desculpas, especialmente de­pois daquele almoço fantástico.

Entregou-lhe o seu lenço de novo, e ela assoou o nariz.

— Não, quero que me desculpe por ter feito a sua família tão infeliz.

— Não fez, juro. Deu à minha mãe um motivo para pensar, coisa que não lhe fará mal algum, e o resto da família provavelmente vai achar uma ótima notícia. — Naquele exato momento, o telefone tocou, antes que pudesse continuar, e era o seu irmão Teddy ligando dos Estados Unidos. — O que foi? — B.J. parecia cegamente preocupado, e dali a um momento Serena viu que ele abria um largo sorriso. — Ela é sensacional, vai adorá-la... Está bem... está bem... vou deixar que fale com ela pessoalmente. — E então, sem mais delongas, entregou o aparelho para Serena, apenas com a mais ligeira das apre­sentações: — Meu irmão, Teddy.

— Alô, Serena, aqui é Teddy. Sou o irmão mais moço de Brad, e só queria dar-lhe os parabéns pessoalmente. Queria que soubesse que estou feliz por você e Brad. E estou certo que se o meu irmão a ama, você deve ser uma pes­soa fantástica, e mal posso esperar para conhecê-la.

Os olhos dela ficaram cheios de lágrimas enquanto murmurava:

— Muitíssimo obrigada. — Ruborizou-se e gaguejou enquanto buscava a mão do marido. — Espero... tanto... que eu não vá fazer a família infeliz...

Brad podia ouvir o terror na sua voz. A sua pobre princesinha, com medo do irmão dele de 22 anos. Pobrezinha, tinha comido o pão que o diabo amassou. Porém nunca mais. Ele ia manter a mãe sob controle quando fossem para Nova York para o casamento de Greg, isto é, se fossem mesmo. Ted tranqüilizou-a rapidamente.

— O único jeito de nos fazer infelizes seria se fizesse Brad infeliz, e não consigo imaginá-la fazendo uma coisa dessas.

— Ah, não! — exclamou, chocada.

— Ótimo. Então quero que saiba como estou feliz por vocês.

Ficou com os olhos cheios de lágrimas novamente, enquanto se despedia do novo irmão e devolvia o telefone para Brad.

— Ela não é formidável?

Brad sorria para ela de orelha a orelha, enquanto falava com o irmão. Teddy pareceu mais sério de novo.

— Só espero que você não esteja maluco como mamãe falou. Ela é mes­mo uma boa moça, Brad?

— A melhor.

— Vocês se amam?

— Nos amamos.

— Então, desejo-lhes todas as felicidades, Brad. Gostaria de estar aí para falar de viva voz. Gostaria de ter estado aí para compartilhar o momento com vocês.

E Brad sabia que Teddy falava a sério.

— Eu também. Mas vamos compensar quando estivermos juntos. A propósito, que loucura é essa sobre o Greg?

— Você escutou. Acho que Pattie resolveu que, se não podia ter você, teria o Greg. Tive sorte que não tenha decidido me agarrar, acho eu.

— Mais sorte do que imagina, garoto.

— É o que eu desconfiava. Espero que o velho Greg se agüente.

— Eu também.

Ambos pareciam preocupados enquanto pensavam no próximo casamento de Greg.

— Bem, o que eu queria era dar os parabéns a ambos e desejar-lhes boa sorte e dizer que o amo.

— Você é um garoto e tanto, Teddy. E um irmão danado de bom. Eu o amo — falou, com voz rouca.

— Meu carinho para os dois — disse Ted suavemente, e depois se despediu. Brad se virou para Serena com uma expressão de muita ternura, depois de desligar.

— É um irmão caçula e tanto, o que eu tenho.

— Parece maravilhoso.

— E é. Mal posso esperar para que você o conheça. — Abraçaram-se por um longo momento, no escritório, enquanto Brad pensava na sua família tão distante, e a despeito da alegria do dia especial que estava partilhando com Serena, sentiu saudades subitamente dos Estados Unidos e da família, espe­cialmente do irmão Ted. — Quer sair agora? — perguntou, olhando para ela.

— O que você quer fazer, Brad?

Sabia que tinha sido uma hora pesada para ambos, e estava esgotada, mas mesmo assim queria comprar um presente para ele.

Porém ele olhou para ela com carinho, e tomou-lhe a mão.

— Gostaria de sair com você e comprar-lhe tudo o que a gente vir, Serena Fullerton, é o que gostaria de fazer. — Ela sorriu ante o uso do seu novo nome. — Venha, vamos fazer compras.

— Tem certeza?

Ela sorriu ante a expressão ansiosa dos olhos dele.

— Absoluta. Vá pegar aquele seu casaco feio. — Já devolvera a zibelina para Marie-Rose e Pierre. — Vou lhe comprar um novo.

— Não um de zibelina, espero.

— Claro que não.

Mas acabou comprando um belíssimo casaco de lince claro, e caixas e mais caixas de roupas novas. Quando chegaram em casa, às seis horas, camba­leando sob o peso das caixas, ele lhe havia comprado pelo menos uma dúzia de vestidos novos, dois costumes, meia dúzia de chapéus, o casaco de lince, brincos de ouro, um casaco de lã preto, sapatos, bolsas, lenços de cabeça, rou­pas de baixo, camisolas. Ela estava totalmente embasbacada com a avalanche de artigos caros que ganhara, e o seu presente para ele parecia tão pequeno, em comparação, mas custara quase todas as suas economias. Comprara para ele uma cigarreira e um isqueiro de ouro, e mais tarde, depois de dá-los para ele, mandaria gravar o seu nome e a data. Pretendia dar-lhos na noite seguinte, véspera de Natal.

O motorista ajudou-os a depositar todas as compras no corredor de entrada, e lentamente Serena e Brad subiram as escadas, de braços dados, en­quanto ele olhava para ela com prazer, novamente, e ela o fitava com um ar de assombro. Quem era este homem com quem se tinha casado? Era possí­vel que tivesse tanto dinheiro? Não via tanta riqueza desde antes da guerra. Aquilo fazia com que ficasse imaginando que a família dele ia pensar que ti­nha se casado com ele por dinheiro.

— Algum problema, Sra. Fullerton?

Estava ansioso para que a aspereza da crueldade da mãe tivesse sido amortecida.

— Não, estava só pensando em como tenho sorte de ter você.

— Gozado, eu estava pensando a mesma coisa de você.

Deteve-a no alto da escada e tomou-a no colo gentilmente, envolta no casaco de lince novo que insistira em usar imediatamente, o cabelo louro com­binando com ele, quase da mesma cor, e cruzou com ela a soleira da porta do quarto deles.

— O que está fazendo? — perguntou sonolenta, contra o ombro dele. Fora um longo dia, cheio de emoções e excitação. O casamento, a mãe dele, o enorme almoço de núpcias, as compras... não era de admirar que estivesse exausta.

— Estou cruzando a soleira da porta com você no colo. É um costume americano, para comemorar o fato de que somos recém-casados. Também conheço outros meios de comemorar o mesmo fato.

Ela deu uma risadinha e ele a pousou na cama e a beijou, e dali a momentos o casaco foi retirado, juntamente com o resto das roupas, e eles fize­ram amor até ficarem ambos esgotados, e adormeceram serenamente nos bra­ços um do outro. Marie-Rose mandou o jantar deles lá para cima, naquela noite, numa bandeja, no pequeno elevador manual entre os andares da casa, como Brad sugerira, porém eles não acordaram, nem foram pegar os sanduí­ches e o chocolate que ela preparara. Dormiram abraçados como duas crianças.

 

Dali a dois dias Serena acordou antes do marido e saltou depressa da cama para ir buscar as duas caixas que escondera no quarto de vestir, na véspera. E enquanto olhava para ela, sonolento e feliz, espreguiçando-se enquanto ela vinha na sua direção, Brad estendeu os dois braços.

— Venha para junto de mim, minha mulherzinha adorável.

Ela obedeceu, prazerosa, e abraçou-o por um momento, os presentes ainda na mão.

— Feliz Natal, meu querido.

— Já é Natal? — Fingiu surpresa, e um lapso de memória, enquanto a puxava para a cama ao seu lado, a sua carne quente e macia contra a dele. — Não é amanhã?

— Ora, cale a boca, você sabe que não! — Ria para ele, lembrando-se de todos aqueles presentes maravilhosos que ele lhe comprara. — Tome, são para você.

Desta vez, a surpresa dele foi genuína.

— Quando os comprou, Serena? — Estivera tão atento às próprias compras que nem notara quando ela os adquirira na Cartier, enquanto ele lhe comprava os brincos. — Você é uma danadinha, sabia?

— Com bom motivo. Vamos, abra.

Ele a beijou primeiro, depois abriu o primeiro presente com uma lenti­dão enervante. Estava implicando tanto com ela quanto consigo mesmo, e ela ria dele, até que finalmente o último papel foi retirado e a beleza macia e sedosa da cigarreira de ouro ficou na palma da mão dele.

— Serena! Meu bem, como pôde? — Ficou chocado ante a fortuna que ela devia ter gasto. Nem sabia que tinha tanto dinheiro economizado. E agora sabia muito bem que estava segurando o restante das economias dela na mão. Porém uma cigarreira de ouro sempre fora, na Europa, um presente de núpcias padrão para um homem, e muito importante. Era o mesmo presente que lhe teria comprado, se os seus pais fossem vivos. A diferença teria sido, quem sabe, iniciais de safira, ou uma mensagem rebuscada gravada na parte de den­tro. E ainda poderia ter havido um presente adicional de abotoaduras de safi­ra, ou botões para o seu smoking de ônix preto com belos diamantes. Porém o presente de Serena, a simples cigarreira de ouro, era a um só tempo bonito e impressionante, e B.J. ficou emocionadíssimo, enquanto se debruçava para beijar a noiva. — Querida, você é maluca!

— Por você. — Deu uma risadinha feliz e entregou-lhe o outro presente, que ele abriu com prazer igual.

— Santo Deus, Serena, você está me mimando!

Por uma fração de instante os olhos imensos e verdes pareceram tristes.

— Gostaria de ter podido mimar mais. Se... — Porém ele a tomou nos braços antes que pudesse continuar.

— Não seria mais feliz do que sou agora. Não poderia ser. Você é o melhor presente que já tive.

Enquanto falava, soltou-se lentamente dos braços dela, e saiu da cama para ir até a sua própria cômoda, no canto. Serena observava-o com interesse.

— O que está fazendo?

— Ah, não sei. Pensei que talvez Papai Noel tivesse deixado alguma coi­sa para você — falou, olhando por cima do ombro com um largo sorriso.

— Está maluco? Depois de todos os presentes que me comprou ontem?

Mas ele estava caminhando resolutamente na direção dela, com um pequeno pacote embrulhado em papel prateado na mão. Tinha uma fita pratea­da estreita, e a caixa era intrigantemente pequena. Estendeu-a para ela.

— Para você, querida.

Ela sacudiu a cabeça, reprovadoramente.

— Não mereço mais presentes.

— Merece o melhor... você é a melhor. Entendeu?

— Sim, senhor. — Bateu-lhe uma continência de brincadeira e os seus olhos ficaram enormes enquanto começava a desembrulhar o presente. Até mesmo o papel de embrulho parecia caro, e o pequeno estojo de camurça o parecia mais ainda, e quando ela abriu o estojo para deixar à mostra o lustroso forro preto e o que havia aninhado dentro dele, pôde apenas soltar uma exclamação abafada. A mão lhe tremeu, e ela parecia quase assustada ao ver o seu conteúdo. — Ah, Brad!

— Gostou?

Ele o tirou do estojo e colocou-o na mão trêmula da moça. Era um diamante rosado sem jaca, de formato oval, cercado por diamantes brancos menores, numa tira estreita de ouro. Todo o anel era de proporções primorosas, e sua cor e brilho eram realmente notáveis, na mão estreita e elegante.

— Ah, meu Deus! — Quase perdeu a fala, fitando o anel. Até mesmo o tamanho estava certo. — Ah, Brad!

Os olhos dela ficaram rapidamente cheios de lágrimas e ele sorriu, satisfeito ao vê-la tão obviamente encantada.

— Você merece dúzias deles, Serena. Os alemães não deixaram muitas dessas coisas em Paris. Quando voltarmos para os Estados Unidos, vamos com­prar o que pudermos. Lindas coisas para você, roupas bonitas, peles, muitas jóias, chapéus, todas as coisas que você vai apreciar. Vai ser uma princesa — a minha princesa — sempre.

Pareceu a Serena nos meses que se seguiram que ela meramente passava todo o seu tempo passeando no Bois de Boulogne, visitando museus ainda semidesertos, vendo vitrines distraidamente, esperando ansiosa a volta de B.J. para casa, à noite. Só o que queria era vê-lo, só o que significava alguma coisa para ela era o marido, e B.J. descobriu nela uma paixão da qual nem começara a desconfiar antes. Passavam horas juntos, deitados lado a lado na biblioteca, fitando o fogo, falando e se beijando e abraçando e apertando, depois apostando corrida até o andar superior, como duas crianças. Porém, quando chegavam lá em cima, estavam bem longe de ser crianças. Faziam amor hábil e interminavelmente, enquanto o inverno ia passando devagar, rumo à primavera.

Brad estava ocupado no serviço, porém havia bem menos para fazer, agora, os problemas pós-guerra mais prementes já tinham começado a ser resolvidos, e os problemas a longo prazo levariam anos para ser solucionados completamente. Assim, o que restava era uma calmaria agradável, uma espé­cie de limbo tranqüilo, no qual ele ficava sonhando acordado à mesa de tra­balho, ia se encontrar com a mulher para almoçarem, davam longos passeios nos parques, e depois ia depressa para casa com ela para uma nova aventura apaixonada, antes de voltar para o trabalho.

— Não posso continuar encontrando você desse jeito.

Sorriu para ela, sonolento, certa tarde de maio, deitado nos seus bra­ços, feliz e exausto.

— Por que não? Será que a sua mulher vai achar ruim? — sorriu Serena. E parecia mais madura agora do que há cinco meses, quando chegou a Paris no trem vindo de Roma.

— Minha mulher? — B.J. olhou para ela, a cabeleira despenteada. — Ora, que nada, ela é uma maníaca sexual. — Serena riu em voz alta. — Será que não percebe que eu vou ter cara de sessenta anos aos quarenta, se continuarmos desse jeito?

Mas não parecia que estava se importando, e Serena olhou para ele, brejeiramente.

— Está se queixando? — Mas havia um brilho estranho nos seus olhos, hoje, como se soubesse de alguma coisa que não estava contando. Ele pensa­ra tê-lo notado quando fora se encontrar com ela para almoçarem, mas de­pois se esquecera, enquanto conversavam. Mais tarde, faria perguntas a res­peito. Porém, primeiro, tinha uma coisa para lhe contar. — Está se queixando, coronel?

— Não exatamente. Mas acho que você deve saber que não vou poder fazer isso com tanta freqüência, quando voltarmos para os Estados Unidos.

Os olhos dele brilhavam estranhamente e Serena inclinou a cabeça para o lado.

— É verdade?

Ele fez que sim, mas parecia indeciso.

— Bem, é que os americanos não se comportam desse jeito, afinal de contas.

— Não fazem amor?

Serena simulou estar horrorizada, ainda com aquele brilho travesso no olhar.

— Nunca.

— Está mentindo.

— Não estou. — Sorria para ela. — Que diabo, não vamos poder continuar a fazer amor desse jeito quando voltarmos. As minhas horas de almoço não serão tão compridas.

— Brad. — Olhou para ele de modo estranho, de repente. — Está tentan­do me dizer alguma coisa?

— Estou — concordou, com um largo sorriso.

— O quê? — perguntou, mas achava que já sabia.

— Vamos para casa, princesa.

— Para os Estados Unidos? — Estava aturdida. Sabia que chegaria a ho­ra, mas não imaginava que fosse tão cedo. — Para Nova York?

— Apenas para uma licença de três semanas. Depois, meu amor, vamos para Presidio, área militar em San Francisco, e eu sou promovido a coronel. Que tal lhe parece, Sra. Fullerton?

Aos 34 anos, Brad sabia que era uma honra e tanto, e ela o sabia também.

— Brad! — Estava eufórica por ele. — Que maravilha! E San Francisco?

— Você vai adorar. Não apenas isso, mas Teddy vai estar perto da gente, já que vai para a Faculdade de Medicina de Stanford no outono. E até mesmo vamos poder ir para casa para o casamento de Greg. As coisas se encaminha­ram bem direitinho, não acha, meu amor?

— Mais ou menos.

Recostou-se de novo nos travesseiros, com aquele mesmo sorriso misterioso.

— Mais ou menos? Eu sou promovido, vamos para casa, recebemos uma das melhores comissões no país, e você diz "mais ou menos"? Serena, eu devia lhe dar umas palmadas.

Puxou-a de brincadeira para si, para colocá-la de bruços sobre os joelhos, mas ela ergueu uma mão.

— Eu não faria isso.

A sua voz era estranhamente doce e os olhos muito brilhantes, e algo no seu rosto fez com que ele parasse de puxá-la para si, como se soubesse, como se tivesse pressentido, mesmo antes de Serena falar.

— Por que não?

— Porque vou ter um bebê, Brad.

Falou com tanta meiguice que ele ficou com os olhos marejados de lágrimas, enquanto se acercava dela e a abraçava.

— Ah, querida.

— Espero que seja um menino.

Agarrou-se a ele, toda feliz, e Brad sacudiu a cabeça com firmeza.

— Uma menina. E parecida com você.

— Não quer um filho?

Parecia espantada, mas ele olhava para ela como se acabasse de realizar um milagre, sem se concentrar direito nas suas palavras, apenas aturdido pela total satisfação que sentia.

 

O carro chegou para levá-los para Le Havre às oito da manhã. As malas esta­vam prontas e esperando no hall de entrada, e Marie-Rose e Pierre estavam parados ao lado delas, parecendo muito engomados e rígidos e pálidos. Ma­rie-Rose enxugava os olhos desde que servira o café da manhã a Serena, e Pierre tinha o ar pesaroso de um pai que perdia o único filho, ao apertar a mão de B.J. pela última vez. Era a primeira vez desde antes da guerra que tinham se afeiçoado tão totalmente às pessoas com que trabalhavam, e o jovem casal que inspirara o seu amor estava parado diante deles, agora, também cheio de pesar. Para B.J. era o fim de uma era, o começo de uma outra vida, como sabia muito bem. Durante a guerra tinha se perdido, se tornado uma nova pessoa, descoberto quem era, no anonimato de uma farda, com um no­me comum. Fullerton. Não significava nada para ninguém no exército. Fullerton? E daí? Mas agora ia voltar para os Estados Unidos. Bradford Jarvis Ful­lerton III e tudo que aquilo acarretava. Iria ver a mãe, o pai, os irmãos, os amigos, compareceria ao casamento de Greg e tentaria explicar a todos por que ia continuar no exército, por que isso lhe servia, por que não queria mais dar baixa. Teria que justificar por que não queria se meter em política, como o pai, ou trabalhar na firma de advocacia da família, por que tinha certeza da sua decisão. E sabia muito bem que a pergunta muda que ninguém teria coragem de fazer, mas que também teria que justificar, era o porquê de se ter casado com Serena. Sentia-se tão protetor em relação a ela, agora, enquan­to deixavam a segurança do território familiar da Europa. Especialmente ago­ra, que estava grávida do filho dele. Porém, mesmo que não estivesse, ele gostaria de tornar a transição fácil para ela, e sabia que os primeiros dias de apresentação à mãe dele provavelmente seriam muito tensos. Depois disso, tinha certeza que até a mãe indômita se renderia aos encantos de Serena. Po­rém, mesmo que não se rendesse, ele não estava dando a mínima. Todo o seu coração pertencia a Serena, agora. E depois de todos os seus anos no exército, a família parecia menos importante, menos real.

Porém tudo aquilo preocupava Brad naquela manhã em que apertou a mão de Pierre e se inclinou para beijar Marie-Rose em ambas as faces, como Serena tinha feito há apenas um momento.

— Promete que vai mandar um retrato do bebê?

Era quase exatamente a mesma coisa que Marcella dissera na véspera, ao se falarem ao telefone.

— Vamos mandar dúzias de retratos, prometo.

Serena apertou a mão dela e depois alisou suavemente a ligeira saliência no costume de seda lilás. Brad já começara a apalpar a sua barriga quase dia­riamente, para ver se tinha crescido, e ela implicava com ele por causa da fas­cinação com o filho. "Minha filha", sempre corrigia, enfaticamente, e Serena ria dele. Queria um menino para levar o nome dele, porém ele sempre insistia que não dava a mínima para o nome, só o que queria era uma garotinha que fosse a cara dela.

Os Fullerton apertaram a mão do casal pela última vez, e acenaram enquanto o carro se afastava, e por um instante Serena apoiou a cabeça no om­bro de Brad enquanto desciam a Avenue Hoche na direção do L’Étoile, e como acontecera em Roma, Serena se pegou imaginando se voltaria a ver to­dos aqueles marcos familiares.

— Está bem? — perguntou Brad, olhando preocupado para ela, ao notar a expressão séria dos seus olhos, e ficou imaginando se estava passando mal, mas ela fez que sim e sorriu para ele.

— Estou ótima. — E depois de mais uma espiada pela janela: — Estava apenas me despedindo... de novo.

Ele lhe tocou a mão e depois a tomou na sua.

— Tem feito muito disso, amor. — Fitou-a nos olhos. — Se Deus quiser, agora vamos nos instalar e ter um lar. Pelo menos durante algum tempo. — Sa­bia que era possível que pudesse ficar no Presidio em San Francisco durante um período de cinco anos, quem sabe até mais. — Vamos fazer a casa bem bonita para o bebê, e criar algumas raízes, prometo. — E então olhou para ela de novo enquanto falava baixinho: — Vai sentir muita saudade disto tudo, meu amor?

— De Paris?

Pensou por um momento, mas ele fez que não com a cabeça.

— Quero dizer de tudo, não apenas de Paris... da Europa.

— Vou. Brad, eu tinha tanto medo o tempo todo, quanto à guerra, à minha avó, quanto a não voltar para Veneza ou Roma. Sentia-me como uma prisioneira, nos Estados Unidos. Agora tudo será diferente. — E a verdade era que não tinha mais ninguém na Europa. Além de Marcella, a única outra pessoa que Serena tinha era o marido, e sabia que o seu lugar era com ele. Ligara para Marcella na véspera e lhe contara que iam partir. Contara do bebê, também, e Marcella ficou tão feliz que riu e chorou. Porém recusara o convite de Serena para ir para os Estados Unidos com eles. Serena agora tinha Brad, e Marcella achava que o seu lugar era em Roma. — Desta vez ir embora é diferente. — Deu de ombros e ele sorriu, parecia de repente tão italiana. — Estou triste de ir embora, mas apenas porque conheço isso aqui, porque me é familiar, porque falo o idioma.

— Não seja boba, você fala inglês quase tão bem quanto eu. Na verdade — abriu um sorriso para a mulher — ainda melhor.

— Não foi isso que quis dizer. Quero dizer que eles entendem a minha vida, o meu espírito, a minha alma. É diferente nos Estados Unidos. As pessoas não pensam como a gente.

— Não. — Estava refletindo enquanto ela falava. — Não pensam.

E sabia também que a maioria das pessoas não ia compreender os ante­cedentes dela. Nem sequer podiam imaginar as belas coisas de que estivera cercada ao crescer, as esculturas e tapeçarias e telas extraordinárias, os palá­cios em Veneza e Roma que tinham sido uma coisa natural para ela em crian­ça, as pessoas que conhecera, o modo como vivera. Tudo aquilo agora estava perdido, no entanto uma parte enorme de tudo aquilo ficara com ela, entre­laçada nas fibras do seu ser. Aquilo a tornava gentil e culta e quieta e sensa­ta a um só tempo, como se a beleza de tudo que tivesse conhecido em mocinha se tivesse realmente tornado parte dela. Porém B.J. se questionava há muito tempo como aquilo tudo poderia ser traduzido para a sua própria cultura. Era um dos motivos por que não tinha pressa de voltar para os Estados Uni­dos. Porém agora o momento chegara, e para tornar a transição mais suave, ele providenciara para tirar parte da sua licença em viagem. Reservara passa­gens no Liberte, que fora doado à França pela Alemanha, depois da guerra, e providenciara para que tivessem um camarote de primeira classe num dos conveses superiores.

B.J. resolvera não tomar o trem até Le Havre, porque achou que a viagem poderia ser muito cansativa para Serena. Preferiu que um dos seus ordenanças os levasse de carro. Desse modo, poderiam parar quando quisessem, e ela se sentiria melhor quando chegassem ao navio. Na verdade, Serena não teve nenhum problema na viagem até o porto, fora uma gravidez fácil desde o começo, e depois dos três primeiros meses ainda se sentia melhor do que antes. Bateram papo o tempo todo, desde Paris, ele lhe falando da sua vida antiga em Nova York, da família, dos velhos amigos, enquanto ela lhe con­tava passagens da sua vida com as freiras. A viagem pareceu transcorrer muito depressa e de repente já tinham chegado ao cais, as suas malas estavam sendo retiradas do carro pelo motorista, e dali a um momento um camareiro de bor­do os acompanhava até o seu camarote, enquanto Serena fitava o navio, cheia de assombro. Este não tinha nada a ver com o cargueiro que tomara em Dover na companhia de dúzias de crianças refugiadas e um punhado de freiras. Este era um navio de luxo de primeira, e enquanto cruzava os corredores linda­mente apainelados, espiava para dentro dos camarotes com cortinas de veludo vermelho e olhava para os outros passageiros que embarcavam, ela se deu conta que esta ia ser uma viagem muito especial.

Os olhos de Serena começaram a dançar, enquanto se voltava para o marido.

Brad olhou para ela cheio de espectativa, o seu próprio entusiasmo revelado nos olhos. Tivera muito trabalho para arranjar as passagens no Liberte com tão pouca antecedência, e significava muito para ele que a viagem fosse algo especial para ela. Queria que a entrada dela no seu mundo fosse suave, e que começasse prazerosamente, e ia fazer tudo o que estivesse ao seu alcan­ce para que isso acontecesse. Já sabia que o casamento do irmão ia ser possi­velmente um momento muito difícil, o confronto com Pattie Atherton não era uma coisa que Brad estivesse antecipando com prazer, portanto, pelo menos antes disso tudo eles iriam se divertir à grande.

— Gostou?

— Brad!... — Murmurava enquanto seguiam serenamente o camareiro até o camarote, onde sabiam que os esperavam os malões que tinham despa­chado previamente alguns dias antes. — É maravilhoso! É... é como um palazzo!

Deu uma risadinha e ele achou graça e enfiou a mão dela sob o braço com prazer evidente.

— Esta noite vou levá-la para dançar. — E então o seu rosto se anuviou rapidamente. — Ou será que não devemos fazer isso?

Ela riu enquanto entravam nu camarote.

— Não seja bobo. O seu filho vai adorar.

— A minha filha — falou, em voz abafada, e então ambos pararam de falar, porque o camarote deles era tão espetacular que os deixou surpreendidos. Tudo era estofado em veludo azul ou cetim azul, as paredes eram apaineladas num mogno belíssimo, os móveis eram da mesma madeira muito bem lustrada, e por toda a parte havia pequenos ornamentos e ferragens de latão, lindas lanterninhas, belos espelhos ingleses antigos, e vigias grandes e arejadas orladas de latão muito bem polido. Era o local perfeito para a lua-de-mel que nunca tinham tido, e todo aposento tinha uma aura de confor­to e luxo que fazia a gente ter vontade de ficar ali por um ano, não uma semana. Os malões deles já estavam colocados nos porta-malas, em locais convenientes, e as malas foram se juntar a eles, agora, enquanto o camarei­ro fazia uma perfeita mesura.

— A camareira chegará daqui a pouco para ajudar madame a desfazer as malas. — A seguir, indicou uma imensa vasilha de frutas frescas, um prato de biscoitinhos e uma garrafa de xerez sobre um aparador estreito. — O almoço será servido pouco depois de zarparmos, à uma hora, mas nesse meio tempo quem sabe o coronel e madame gostariam de comer alguma coisa?

Tudo era feito à perfeição, e ambos pareciam encantados quando o camareiro fez mais uma mesura e saiu do camarote.

— Ah, querido, que maravilha!

Ela se lançou nos braços dele e deu-lhe um abraço. Brad parecia imensamente satisfeito.

— É até melhor do que eu pensava. Puxa, mas isso sim é que é jeito de se viajar! — Serviu a ambos um pequeno cálice de xerez, entregou-lhe o dela, e ergueu o seu num brinde. — À mulher mais linda que conheço, a mulher que amo — os seus olhos se iluminaram com um sorriso carinhoso — e a mãe da minha filha.

— Filho — corrigiu ela, como sempre o fazia, agora com um largo sorriso.

— Que a sua vida nos Estados Unidos lhe traga felicidade, minha querida. Para sempre e sempre.

— Obrigada. — Olhou para dentro do cálice por um momento, e depois para ele. — Sei que trará. — Tomou um gole, depois ergueu o seu cálice para brindá-lo. — Ao homem que me deu tudo, e a quem amo de todo o coração... que você nunca se arrependa de ter trazido para casa a sua noiva de guerra.

Havia uma ponta de tristeza nos seus olhos, enquanto falava, e ele a tomou rapidamente nos braços.

— Não fale assim.

— Por que não?

— Porque eu a amo. E quando você fala desse jeito, esquece-se de quem é. Não pode nunca se esquecer de quem é, Serena. Principessa Serena.

Sorriu meigamente para ela, que sacudiu a cabeça.

— Sou a Sra. Fullerton, agora, não principessa coisa nenhuma, e gosto disso. — E após uma pausa de um momento: — Você não tenta se esquecer de quem realmente é, Brad? — Era uma impressão que vinha tendo há vários me­ses. Começara a perceber o seu jogo de anonimato, ficando tanto no exército quanto no exterior. — Não faz também a mesma coisa que eu?

— Talvez. — Ficou olhando pela vigia por um longo momento. — A verdade é que de onde e de quem eu venho tem sempre sido um fardo para mim, Serena. — Jamais admitira isso para ninguém, antes, e era uma coisa estranha admiti-lo para ela, agora, pouco antes de irem para casa. — Nunca me entro­sei direito. Sempre me senti deslocado na família. Não sei por que, mas sem­pre foi assim. Não creio que nenhum dos meus dois irmãos se sinta desse jei­to. Teddy se entrosaria em qualquer lugar, e Greg se forçaria a isto, quer se entrosasse, quer não, mas não sou assim. E simplesmente não acredito mais em toda aquela baboseira. Nunca acreditei. Nos valores de gente como Pattie Atherton, minha mãe, meu pai. Tudo é presunção, ostentação. Nunca se faz nada porque é gostoso, porque é o que se tem vontade de fazer, porque sig­nifica alguma cojsa. O que conta é como parece aos olhos dos outros. Não posso mais viver assim.

— É por isto que vai continuar no exército?

— É exatamente por isto. Porque faço razoavelmente bem o que te­nho que fazer no exército, posso viver em lugares bem agradáveis, provavelmente a uma distância boa e saudável de Nova York, a não ser que seja desig­nado para Washington, algum dia — revirou os olhos, simulando horror — e não preciso tentar fazer mais o jogo da família, Serena. Não quero ser B.J. Fullerton, Terceiro. Quero ser eu, Primeiro. Eu, Brad, B.J., eu mesmo, alguém a quem ambos possamos respeitar. Não preciso freqüentar os clubes dos meus pais ou casar com a filha dos amigos da minha mãe para me sentir bem comigo mesmo, Serena. Nunca me senti bem com nada daquilo, e ago­ra sei por quê. Porque simplesmente nunca fui talhado para isso. Porém você — olhou para ela com ternura — nasceu paia ser princesa. Não pode fugir disto, esconder-se, mudar, desistir, fingir que não existe. É você. Igualzinho a esses esplêndidos olhos verdes.

— Como sabe se não desgosto disso tanto quanto você desgosta de seu meio familiar?

— Porque a conheço. A única coisa que lhe desagrada é ser conspícua, exibida. Não quer parecer uma esnobe. Porém não tem preconceitos básicos contra as suas raízes, Serena. Você pertence àquele mundo, e se ele ainda existisse, eu jamais a teria tirado dele, porque no momento os Estados Unidos são um lugar onde as pessoas não entendem o tipo de mundo de onde você provém. Mas é o melhor que temos, guria, e só o que podemos fazer é expli­car para eles. E se tiverem um pingo de inteligência — sorriu ternamente — não teremos que explicar coisa alguma. Porque o que você é, a beleza e a gra­ça e a bondade e a pura elegância de tudo, está estampado em você, principessa ou não. Não faria diferença se você se chamasse de Sra. Jones, meu amor, você é uma princesa até a alma.

— Que bobagem. — Sorria e estava ligeiramente ruborizada, de embara­ço. — Se eu não lhe tivesse dito, você jamais teria sabido.

— Teria, sim, sem dúvida.

— Não teria, não.

Agora estava implicando com ele, e Brad largou o cálice e tomou-a nos braços no belo camarote de mogno e veludo azul, e beijou-a com força na bo­ca, depois pegou-a no colo com um gesto possante e depositou-a na cama grande e bonita do quarto.

— Não se mexa. Tenho que dar um jeito numa coisa. — Ela sorriu para as costas dele, enquanto Brad se dirigia para a porta do camarote, pegava o cartaz de "Não Perturbe", abria a porta e dependurava-o na maçaneta, do ou­tro lado. — Pronto, isto se encarregará da camareira.

Virou-se para ela com um largo sorriso, fechou as cortinas e começou a afrouxar a gravata.

— Exatamente o que quer dizer com isso, coronel?

Olhava da cama para ele, maliciosamente, uma princesa da cabeça aos pés, exceto pelo riso que lhe brincava nos olhos.

— Exatamente o que acha que quero dizer, Sra. Fullerton?

— Em plena luz do dia? Aqui? Agora?

— Por que não?

Sentou-se na beirada da cama e beijou-a de novo.

— Santo Deus! Vou ficar grávida.

— Ótimo. Vamos ter gêmeas.

— Ah, não diga...

Porém ele não a deixou terminar a frase. Beijou-a com força, e dali a um momento tinham retirado a linda colcha de cetim azul, deixando à mostra lençóis de linho branco com o monograma da companhia francesa primorosamente bordado em azul. Os lençóis eram macios e frescos de encontro à pe­le de Serena, e as mãos dele eram cálidas nos seus seios e coxas, enquanto se apertava contra ela, que ficou logo ansiosa por tê-lo dentro de si. Gemeu bai­xinho o nome dele, e Brad correu os lábios pela sua boca, olhos e cabelo, en­quanto as suas mãos faziam mágica, e então, de repente, arremetendo-se con­tra ela, tomou-a quase de surpresa.

— Oh!

Foi um som único e prolongado de espanto e depois prazer, perdido numa sinfonia de murmúrios e gemidos baixos, enquanto o navio deixava o cais lentamente, e eles começavam a sua viagem para casa.

 

Os dias no Liberte voaram depressa demais. O tempo estava excepcionalmente bom no Atlântico, e até mesmo as brisas costumeiras de junho não aparece­ram para atormentá-los, enquanto jaziam lado a lado nas espreguiçadeiras. Se­rena sentia apenas um ligeiro enjôo antes do café, mas depois que comiam, da­vam uma volta no convés, jogavam uma partida de marelas, ou batiam papo com algumas das pessoas que tinham conhecido, ela já nem se lembrava do mal-estar e passava o resto do dia muitíssimo bem. Geralmente almoçavam sozinhos, depois iam para o seu camarote tirar um cochilo, e depois voltavam para o convés, antes de se vestirem para o chá, onde invariavelmente conhe­ciam pessoas novas, falavam com algumas que tinham conhecido nos dias an­teriores, e escutavam a música de câmara. Tudo aquilo fazia Serena lembrar muito da avó e dos seus amigos, da música que apreciavam, da sua comida pre­ferida, das refeições imponentes, dos trajes formais, dos vestidos de renda cinzenta com combinação de cetim rosa, usados com colares de pérolas de muitas voltas e sapatos de entrada baixa de cetim cinzento. Nada daquilo era estranho para ela, e parecia a Serena ser parte da vida que já vivera. Porém também não era desconhecido para B.J., e freqüentemente pareciam encon­trar pessoas que seus pais conheciam, ou seus tios, ou com quem tinham ami­gos comuns.

No seu todo foi uma viagem tranqüila, descansada, deliciosa, e ambos lamentaram na última noite que fosse chegar ao fim em Nova York.

— Quem sabe devemos continuar como clandestinos e voltar para Paris?

— Não — falou ela, resolutamente, apoiada no cotovelo na cama deles, depois de terem feito amor. — Quero ir para Nova York e conhecer a sua família, e depois quero ver San Francisco e todos os cowboys e índios. Acho que vou gostar do Oeste Selvagem.

B.J. riu abertamente das visões que ela estava evocando.

— Mas que imaginação desenfreada!

— Nada de cowboys nem de índios? Nem mesmo um ou dois?

— Não em San Francisco. Teremos que ir às Montanhas Rochosas para ver os cowboys.

— Ótimo. — Parecia encantada, enquanto lhe beijava o pescoço. — Então iremos fazer uma viagem até lá. Certo?

— E quando está pretendendo fazer tudo isso, madame? Até a hora de ter o bebê?

— Claro. O que espera que eu faça? — Agora parecia divertida. — Que fique em casa fazendo sapatinhos de tricô o tempo todo?

— Para mim parece ótimo.

— Pois é, mas para mim, não. Quero fazer alguma coisa, Brad.

— Ah, Deus, tenha pena de mim. — Caiu sobre os travesseiros com um gemido. — Uma Mulher Moderna. O que quer fazer? Trabalhar fora?

— Por que não? Os Estados Unidos são um país democrático. Eu podia me meter em política.

Os olhos dela brilharam maliciosos, e ele ergueu a mão.

— Essa não! Chega uma mulher desse tipo na minha família, se me faz o favor. Invente outra coisa. Além disso, droga — parecia apenas ligeiramente aborrecido, enquanto franzia a testa. — Vai ter um bebê daqui a seis meses. Não pode só relaxar e fazer isso?

— Talvez. Mas talvez também possa fazer outra coisa. Pelo menos enquanto espero.

— Vamos arranjar um serviço de voluntária para você. — Ela concordou, lentamente, mas ultimamente andava pensando muito sobre San Francisco. Nenhum dos dois conhecia ninguém por lá, e Brad iria conhecer gente na base, mas ela também queria estar fazendo alguma coisa. Não queria ficar apenas sentada com o seu barrigão, esperando. Disse isto para ele, dali a um minuto. — Mas, por que não? — Parecia perplexo. — Não é isso o que as mulheres fa­zem?

— Não todas as mulheres. Deve haver mulheres que façam mais do que isso, enquanto estão grávidas. Sabe — pareceu pensativa, por um momento — as mulheres pobres da Itália trabalham, saem para trabalhar nos campos, nas lojas, nas padarias, fazem o que costumam fazer e então um dia, bumba, o bebê sai e pronto, lá se vão elas com o bebê debaixo do braço.

Sorriu da idéia e ele riu novamente da imagem.

— Você tem um jeitinho especial de se expressar, amor. É isso o que quer fazer? Bumba, o bebê sai enquanto você estiver trabalhando no campo?

Olhou para ele de modo estranho, e falou:

— Eu era feliz quando estava trabalhando com Marcella.

— Santo Deus, Serena. Aquilo era horrível, que diabo, trabalhando como criada na casa dos seus próprios pais.

— A idéia era horrível, mas o trabalho não era. Era bom. Eu sentia que tinha realizado alguma coisa, todos os dias. Não porque o que eu estava fazendo era importante, mas porque estava fazendo muita coisa, e fazendo bem. — Parecia uma garotinha orgulhosa, enquanto olhava para ele. — Eu tinha muita responsabilidade, sabe.

Ele beijou meigamente a ponta do seu nariz.

— Sei que sim, menininha. E você dava um duro danado. Até demais. Não quero que você tenha que fazer nunca mais uma coisa daquelas. — Pare­cia satisfeito, sabendo que isso jamais aconteceria. — E nunca mais fará. Ago­ra está casada comigo, querida. E pelo menos uma coisa de bom o nome Fullerton tem: vem equipado com conforto suficiente para nos manter, assim co­mo a nossos filhos, livres desse tipo de provação, para sempre.

— É bom saber disso. — Mas não parecia exageradamente impressionada. — Mas eu o teria amado nem que fosse pobre.

— Sei que sim, querida. Mas é bom não ter que se preocupar com isso, não é?

Ela fez que sim, lentamente, e se aninhou nos seus braços antes de ambos pegarem no sono. Pouco antes de dormir, ela pensou mais uma vez na sua vida em San Francisco e teve certeza de que queria fazer outra coisa além de simplesmente ter um bebê. O bebê era maravilhoso e excitante, mas também queria fazer outra coisa. Ainda não resolvera o que, mas sabia que com o tem­po resolveria.

Às seis horas do dia seguinte o camareiro bateu à sua porta para avisá-los de que estavam entrando em Nova York. Só iam atracar lá pelas 10 horas, mas era costume entrar no porto muito cedo. Depois disso, havia as formali­dades de praxe a serem enfrentadas, e todos os esforços eram envidados para não causar inconvenientes aos passageiros atracando-se cedo demais. Mas ha­via algo de especial em se passar pela Estátua da Liberdade ao alvorecer, com a luz dourada do sol pintando o céu e se refletindo no braço e na tocha e na coroa da estátua. Era uma visão que raramente deixava de inspirar sentimen­tos intensos, e aqueles que se levantavam cedo para vê-la sempre sentiam um elo especial com o país, enquanto o navio entrava no porto. Serena ficou comovidíssima ao passarem pela estátua que iluminava o seu caminho para uma nova vida.

Até mesmo B.J. estava estranhamente calado. Da última vez que viera para casa fora para uma breve visita, num vôo militar. Desta feita sentia que estava finalmente voltando da guerra para casa, com a mulher ao lado, para o país que amava. Era uma sensação de bem-estar e gratidão que brotava den­tro dele como uma refulgência do sol por entre as nuvens, e não sabia de que outro modo expressá-la senão tomando Serena nos braços e apertando-a com força.

— Bem-vinda ao lar, Serena.

— Grazie — murmurou baixinho para ele, enquanto se beijavam à luz suave e alaranjada da manhã de junho.

— Vamos ter uma bela vida aqui, minha querida.

Era uma promessa que pretendia manter pela existência toda, a dela assim como a dele.

— Sei que sim. E o nosso bebê também.

Segurou a mão dela com força, e ficaram ali por quase uma hora, vendo Nova York a distância, enquanto o navio ficava ao largo esperando pelos funcionários da imigração e rebocadores e toda a burocracia que envolve uma chegada. Porém Serena e Brad estavam indiferentes a tudo, parados de mãos dadas no convés, pensando no que os esperava.

Precisamente neste momento, a mãe de Brad estava sentada na sua cama na Quinta Avenida, tomando uma xícara de café, a testa franzida, os olhos sombrios, pensando no filho mais velho e na mulher que estava trazendo para casa. Se pudesse, gostaria de forçar Brad a livrar-se de Serena o mais rápido possível, mas ainda não conseguira descobrir uma sugestão razoável para o modo de fazê-lo. Não tinha mais controle sobre o dinheiro de Brad, ele não dependia mais da família para arranjar um emprego. Dera um jeito de abando­nar o ninho pelos seus próprios meios e agora estava pairando acima deles, fa­zendo exatamente o que tinha vontade, com essa maldita vabagunda italiana que estava trazendo para casa... A mãe largou ruidosamente a xícara de café, afastou as cobertas e saltou da cama com ar resoluto.

 

Enquanto Serena descia a passarela do navio, à frente de Brad, podia sentir o coração batendo forte dentro do peito. Como seriam eles? O que diriam? No fundo do coração, Serena guardava uma pontinha de esperança de que a Sra. Fullerton — a outra Sra. Fullerton, sorriu consigo mesma — viesse a acei­tá-la. A pressão daquilo tudo pesava nas suas costas como uma tonelada, en­quanto desembarcava num costume de linho creme, com uma blusa de seda cor de marfim, e o cabelo preso no coque retorcido familiar. Parecia terrivel­mente jovem e impressionantemente linda, e havia algo de tão fresco e vulne­rável nela, como uma rosa branca sozinha num vaso de cristal. Dava vontade da gente estender a mão e tocá-la, no entanto ninguém teria coragem. As luvas de pelica branca que calçava eram impecáveis, enquanto mal tocava no corrimão, e ela olhou uma vez para trás, para Brad, e este pôde ler tudo nos seus olhos. Debruçou-se para ela com uma palavra de encorajamento, enquanto se aproximavam mais da terra.

— Não fique com essa cara preocupada. Não vão atacá-la, juro.

Acrescentou mudamente para si mesmo "Não teriam coragem", mas, na verdade, sabia que alguns deles o fariam — a mãe... Pattie... Greg, se estives­se sob a influência de qualquer uma das duas... o pai? Não tinha certeza. Apenas podia ter certeza com relação a Teddy.

O camareiro de bordo lhe tinha dado duas lindas gardênias quando deixara o navio, de manhãzinha, e ela estava usando as duas na lapela. Ele podia sentir a forte fragrância, enquanto caminhava atrás dela. Falou:

— Anime-se, garota!

Ela se virou para olhar de novo para ele, e desta feita Brad pôde ver que estava pálida de medo. Não era justo fazê-la passar por uma coisa dessas, e por um momento sentiu ódio da mãe. Por que não podia ser uma velhota gorda e bondosa, ao invés da felina rainha da selva esguia que era... uma perfeita pantera, esperando para sair à caça da sua presa. B.J. podia imaginá-la espe­rando, felina e predatória, rondando o cais com impaciência. Teve que sacudir a cabeça para se livrar da imagem. Porém, quando chegaram ao setor F do cais, onde tinham que esperar pelas malas e pelos inspetores da alfândega, Brad se deu conta de que não havia ninguém ali para recebê-los. Não viu os pais ou nenhum rosto conhecido. Era bem diferente da recepção ruidosa que tivera no aeroporto um ano antes, e sentiu uma estranha mistura de desapon­tamento e alívio inundá-lo, enquanto segurava a mão de Serena.

— Pode se acalmar. Eles não estão aqui.

Ela franziu a testa, cheia de preocupação.

— Acha que não virão?

Será que o desprezariam inteiramente por causa dela? Era disto que sempre tivera medo, era por este motivo que insistira a princípio em não se casar com ele, e ficara em Roma, chorando a sua falta.

— Pelo amor de Deus, Serena, você está com cara de enterro. Pare com isso. Provavelmente estão ocupados feito o diabo com o maldito casório. Va­mos tomar um táxi e ir para casa.

Porém, mesmo para ele, parecia uma volta ao lar indiferente demais, depois de tanto tempo.

E então ele o viu, parado a uns 50 metros de distância, observando-os, um largo sorriso a iluminar-lhe o rosto, fazendo os olhos azuis dançarem, sabia Brad, mesmo sem vê-lo de perto. Já podia imaginar as ruguinhas junto aos olhos dele, quando sorria. Tinha um jeito de sorrir que iluminava todo o seu rosto e formava duas covinhas que eram a sua cruz, em criança. Usava cal­ças de flanela brancas, um blazer azul e um chapéu de palha e parecia maravi­lhoso aos olhos de Brad, enquanto se movia apressado na direção deles. Subi­tamente, teve uma grande vontade de abraçá-lo com força, mas era para Serena que Teddy se dirigia, um imenso buquê de rosas vermelhas no braço, o sor­riso de que Brad gostava iluminando-lhe o rosto, e tendo olhos apenas para ela, como um irmão ou um amigo. Parou de chofre diante dela, apalermado ante a sua beleza e elegância estonteantes, e jogou os braços à sua volta, num abraço que lhe tirou o fôlego.

— Alô, Serena! Bem-vinda! — Falou com uma ênfase e um entusiasmo que trouxe sorrisos ao rosto deles, e lágrimas aos seus olhos, e Serena retribuiu o abraço com igual força. Era como ser abraçada por alguém a quem sempre amáramos e quiséramos que nos amasse. — Estou tão contente por estarem ambos aqui.

Olhou por cima do ombro para Brad, e este não pôde esperar nem mais um minuto. Envolveu a ambos com os braços e ficaram ali, rindo e choran­do, os três fortemente abraçados, parados ao lado do imenso navio que os trouxera para casa.

Pareceu levar séculos até que Teddy a soltasse, e ela recuou um passo para olhar para o irmão mais moço de quem tanto ouvira falar. Era ainda mais alto do que Brad, e mais bonito, de certa forma, e no entanto não o era, ela se deu conta ao olhar para os rostos deles enquanto conversavam animados so­bre tudo, o casório, os pais, a viagem. As feições de Brad eram mais perfeitas, os ombros mais largos, e ele parecia muito mais sofisticado, percebeu enquan­to olhava para o marido com orgulho. No entanto Teddy tinha algo de espe­cial, e era impossível não enxergá-lo. Era quase uma espécie de brilho, um tipo de entusiasmo que iluminava a sua alma e todos que ocupavam o espaço que o circundava. Havia nele uma alegria e um calor e um amor que extravasavam dos seus limites e explodiam como fogos no Dia da Independência. Era impos­sível não gostar dele, não querer fazer parte da sua vida. E Serena também sentiu essa atração enquanto o observava, mas sentiu também uma outra coisa, uma onda de admiração vinda dele, que era tão avassaladora que ela não sabia como reagir. Apesar da conversa animadíssima entre os dois irmãos, Teddy não tirara os olhos de Serena desde que chegara. E, finalmente, falou com ela de novo.

— Serena, você é tão linda!

Parecia embasbacado e Serena pôde apenas rir.

— Não apenas isso — acrescentou o marido — ela é uma princesa. Que lhe parece?

— Tem mesmo cara disso — falou o irmão mais moço, com total seriedade, e Brad o observou com ternura e divertimento.

— Trate de não ir se apaixonando por ela, garoto, eu a vi primeiro.

Mas havia uma espécie de assombro total e avassalador no rosto de Ted­dy, que quase dava vontade da gente desviar os olhos, enquanto ele fitava Se­rena.

— Meu Deus, você é linda.

Não conseguia tirar os olhos do rosto dela, e foi Serena quem finalmen­te quebrou o encanto.

Sussurrou para ele, por sobre a braçada de rosas que lhe entregara depois que se tinham abraçado.

— Na verdade, eu não sou Serena. Sou uma garota que Brad conheceu no navio, e ele me pediu que tomasse o lugar dela.

— Uma gracinha, ela, não é? — Brad envolveu a esposa com um braço li­geiramente possessivo. Afinal, o irmão era 12 anos mais moço do que ele, e apenas três anos mais velho do que a mulher, e ele não queria que o garoto se empolgasse. — A propósito, como vai a nossa encantadora futura cunhada?

O rosto alegre de Teddy ficou anuviado, por um longo momento.

— Bem, acho. — A voz dele era a um só tempo incerta e desanimada, en­quanto Brad e Serena o observavam. — Greg passou bêbado todas as noites das duas últimas semanas. Não sei bem o que isto quer dizer. Que está se di­vertindo, ou que está apavorado?

— Talvez um pouco das duas coisas — replicou Brad, fitando os olhos do irmão.

Porém Teddy sempre foi honesto com ele.

— Acho que Greg não sabe o que está fazendo, Brad. Ou talvez não queira saber, o que ainda é pior.

— Está sugerindo que alguém pare com essa coisa? Agora? — perguntou Brad, parecendo perturbado.

— Não sei. Pode apostar que não vai ser a mamãe. Greg está rapidamen­te se tornando a sua grande esperança. Desde que você resolveu virar soldado profissional — olhou depreciativamente para o irmão, mas este apenas abriu um sorriso — e é evidente que eu não vou fazer o joguinho da família, parece que Greg é o tal.

— Pobrezinho.

Por um momento, Brad não disse mais nada, e depois os funcionários da alfândega chegaram para examinar as suas malas e dar uma olhada nos seus passaportes. Pediram o de Teddy, também, mas este tirou do bolso rapida­mente um passe especial. Um dos políticos amigos do pai arranjara-o para ele com o prefeito de Nova York, e dava-lhe o direito de receber amigos nos na­vios, e não ter que esperar para que eles passassem pela alfândega. Era conve­niente, nessas horas, mas o funcionário da alfândega não gostou da "chave de galão" inadvertida de Teddy.

— Privilégios especiais, hem?

Teddy ficou levemente encabulado.

— Só por esta vez. Meu irmão não vinha para casa desde a guerra.

Indicou Brad, e o rosto do fiscal se suavizou imediatamente.

— Voltando para casa no Liberte, filho? Não é um modo ruim de se viajar.

— Isso mesmo. Demos um jeito de transformar a viagem numa lua-de-mel.

— A sua mulher foi ao seu encontro?

Ele apenas examinara as malas. O colega verificara os passaportes e vira que Serena era italiana, mas este funcionário não tinha meios de saber. Ela não dissera uma palavra.

— Não. — Brad olhou para ela com orgulho. — Conheci a minha mu­lher lá, em Roma.

— Italiana?

Os olhos do fiscal alfandegário se estreitaram enquanto olhava para ela, na sua beleza perfeita dourada e cor de marfim, as gardênias na lapela e o sol brilhando no cabelo, enquanto ele ficava ali parado no seu uniforme cinza com manchas na gravata e as unhas sujas.

— É, a minha mulher é italiana. De Roma — repetiu Brad com um sorriso, e o outro homem fechou a cara.

— Muitas garotas neste país para você escolher para casar, filho. Ou não se lembrou? Puxa vida, alguns de vocês foram para lá e se esqueceram do que ficou aqui em casa.

Fechou a cara para os três, e depois se afastou às pressas para examinar as malas de outra pessoa. Havia uma luz irada nos olhos de Brad, e fúria nos de Teddy, mas Serena botou a mão no braço de cada um, e sacudiu a cabeça.

— Não tem importância. É só um velhote zangado. Quem sabe alguém deu o fora na filha dele?

— Quem sabe alguém devia dar-lhe um soco na cara — ofereceu-se Ted­dy rapidamente, mas Brad estava com cara de quem queria ajudá-lo.

— Deixem para lá. Vamos para casa.

Os dois homens trocaram um olhar, depois Brad soltou um suspiro e concordou.

— Está certo, princesa, você ganhou. — Porém estava olhando para ela quase com tristeza. — Desta vez. — E então se inclinou para beijá-la. — Não quero nunca mais alguém falando essas coisas perto de você.

— Mas vão falar. — Era apenas um sussurro. — Talvez leve tempo.

— Besteira — falou Teddy e então ela riu dele, e eles chamaram um carregador e começaram a etapa final da sua viagem para casa.

 

Teddy deixara o chofer dos pais esperando pacientemente do lado de fora da área do molhe de cais na limusine Cadillac azul-meia-noite que o pai comprara para a mulher usar, no Natal anterior. Porém a maior parte do tempo Margaret Fullerton ainda preferia guiar o seu próprio carro, um belo conversível Lin­coln Zephyr verde-garrafa, que guiava quase todos os dias. Para a alegria dos filhos, contudo, aquilo deixava o Cadillac e o chofer idoso livres para o uso deles, e Greg aproveitava ao máximo o carro, exceto quando Teddy conseguia lhe passar a perna, como hoje. A mãe tivera uma reunião com a Junta Direto­ra da Cruz Vermelha Americana, os detalhes finais do jantar do ensaio no dia seguinte para supervisionar, e mais um almoço com outra junta diretora à qual pertencia, e tudo isso a impedira de ir receber Brad e Serena no navio. E Greg tinha uma reunião importante com o pai, na cidade, o que fez com que ape­nas Teddy sobrasse para ir receber B.J. e a esposa, no elegante carro azul-meia-noite.

— Puxa vida, é novo?

— É. Um presente de Natal do papai.

— Para você? — exclamou Brad, aturdido.

— Pois sim! — Teddy abriu um sorriso. — Para a mamãe.

— Ah, bem. Logo vi. Você o usa muito ou apenas para cerimônias de es­tado?

— Só quando o Greg não está por perto.

— Logo vi, também.

Porém antes de poderem dizer mais alguma coisa, o velho chofer saíra do carro e vinha andando depressa na direção deles. Tirou o boné e abriu um sorriso de orelha a orelha. Trabalhava para os Fullerton desde que Brad era um garotinho.

— Oi, Jimmie!

B.J. bateu-lhe afetuosamente no ombro e o velho casquinou, encantado, e depois abraçou-o.

— Está com ótima cara, rapaz. Que bom vê-lo de volta!

— É bom estar de volta. — Havia um prazer genuíno entre os dois homens. — Jimmie, gostaria que conhecesse a minha mulher.

Virou-se para Serena com orgulho evidente, e o velho quase ficou de queixo caído ao ver a beldade loura.

— Prazer em conhecê-la, Sra. Fullerton.

Falou quase timidamente, e ela lhe apertou a mão com entusiasmo, com o sorriso meigo que se estendia até os olhos cor de esmeralda.

— Brad me falou muito a seu respeito.

— Verdade? — Jimmie parecia imensamente satisfeito. — Bem-vinda aos Estados Unidos. — Estreitou os olhos. — Fala inglês muito bem. Já esteve aqui antes?

Ela fez que sim.

— Estive aqui durante a guerra. No norte do Estado de Nova York.

— Que coisa boa — sorriu Jimmie calorosamente.

Serena retribuiu-lhe o sorriso e ele fez sinal para que todos entrassem no carro.

— Eu cuido dessa bagunça. Vocês relaxem, garotada.

Porém apenas Teddy e Serena entraram no carro; Brad ficou do lado de fora ajudando o velho amigo a separar as suas diversas malas e pertences.

Dentro do carro, Teddy ainda parecia incapaz de desviar os olhos de Se­rena.

— Que tal foi a viagem?

Não tinha certeza de como devia começar, e era tão estranho estar sozinho com ela. Tinha vontade de estender a mão e tocá-la, mas era diferente, agora que Brad não estava mais com eles. Tinha vontade de tocar a pele cremosa, o extraordinário cabelo louro, e de repente sentiu um desejo louco de beijá-la, mas não como irmão, nem como amigo. Enquanto a idéia lhe passava pela cabeça, ficou muito vermelho e uma camada fina de suor porejou-lhe a testa.

— Está bem? — Serena olhava para ele de modo estranho. — Está doen­te?

— Não... eu... desculpe... não sei... é só que... acho que é a emo­ção. Ver Brad de volta, conhecer você, o Greg se casando, eu me formando na semana que vem. — Enxugou a testa com um lenço de linho branco e sentou-se ao lado dela. — Bem, onde estávamos?

Mas só conseguia pensar naquele rosto, naqueles olhos. Era quase como se o penetrassem. Nunca tinha visto uma mulher tão linda assim.

Porém Serena estava olhando suavemente para ele, o rosto tenso de preocupação e compreensão muda.

— Por favor... — Hesitou por apenas um momento. — Está nervoso por minha causa, não é? Foi um choque tão grande? Será que sou assim tão dife­rente?

Parecia quase consumida de pesar e sentimento de culpa. Porém Teddy balançou a cabeça, lentamente.

— É, sim. Mas não do jeito que está pensando, Serena. — Soltou um sus­piro e pegou a mão dela. Que diabo. Brad não iria matá-lo. — Você é a mulher mais linda que já vi, e se não fosse a mulher do meu irmão, eu lhe pediria para casar comigo neste exato minuto!

Por um momento Serena pensou que ele estivesse brincando, e então notou algo quase doloroso nos olhos dele. Os seus próprios olhos se arregala­ram, surpresos, ao fitá-lo.

— Passando uma cantada na minha mulher, irmãozinho?

B.J. abriu a porta da elegante limusine e entrou com um ar natural de despreocupação, que não tinha nada a ver com o ligeiro tremor que sentira en­quanto cuidava das malas lá fora. Teddy sempre fora o mais bonitão dos ir­mãos, e era mais da idade dela, mas isso era uma idéia maluca, e ele estava sa­bendo. Serena era sua mullier, amava-o, e ia ter o seu filho.

Porém Teddy apenas riu e sacudiu a cabeça enquanto corria a mão pelos cabelos.

— Acho que você acaba de me salvar de bancar o idiota completo, Brad.

— Quer que eu saia para você tentar de novo?

— Não! — exclamaram Teddy e Serena em uníssono, e se entreolharam e ambos começaram a rir, como crianças histéricas, e o momento constrange­dor foi rompido. Riram até em casa, começaram a implicar um com o outro e com Brad, e a sua amizade começou para valer naquela manhã.

Teddy explicou-lhes rapidamente como seria o casamento, o que era esperado deles e quem viria ao jantar do ensaio. Brad já sabia que ia ser o pa­drinho, e Teddy seria um dos pajens. Além dele, ia haver mais onze pajens adul­tos, onze damas e uma madrinha, duas crianças, uma levando as alianças e ou­tra flores, e a cerimônia ia ser na igreja St. James, na Madison Avenue, com uma imensa recepção logo a seguir no Hotel Plaza. Esperava-se que fosse uma festa grandiosa, e os Atherton estavam gastando uma fortuna.

O jantar do ensaio ia ser dado no clube do pai deles, o Knickerbocker, e ia ter apenas 45 convidados, de traje a rigor, para um jantar formal.

— Ah, Jesus — gemeu Brad em voz alta. — Quando vai ser isso?

— Amanhã.

— E hoje à noite? Não podemos passar algum tempo sozinhos, ou vamos ter que realizar alguma outra dança tribal com a troupe toda?

— Mamãe está planejando dar um jantarzinho em família. Só ela e papai, Greg e eu, e, é claro, Pattie.

Um lampejo de preocupação perpassou pelos olhos de Teddy.

— Deve ser muito aconchegante. — Da última vez que Pattie vira Serena, chamara-a de puta, e ele rompe­ra o noivado deles, e ainda nem se tinha passado um ano.

Dali a um momento pararam diante do toldo do prédio deles, e o porteiro correu para abrir a porta, enquanto Jimmie saía para cumprir o seu papel.

— Mamãe está lá em cima?

Brad estava louco para que o encontro deles se realizasse logo. Fitou os olhos de Teddy, penetrantemente, como que tentando obter apoio e energia do irmão mais moço, para ajudar a proteger e amparar a mulher.

— Ainda não. Só vai chegar às três. Teremos a casa só para nós, enquan­to Serena fica conhecendo tudo.

Era uma espécie de bênção. Serena acompanhou mansamente o marido e o cunhado e entrou num saguão luxuoso, cheio de painéis e tapeçarias, com tetos altos e pisos de mármore, plantas imensas e um lustre digno de Versa­lhes piscando as suas luzes para eles.

Brad e Teddy fizeram-na entrar no elevador e subiram até o último andar, onde o corredor dava para um único apartamento, a cobertura com vista para o Central Park onde os três rapazes haviam crescido, e que fez um arrepio de emoção correr pela espinha de Brad quando Teddy abriu a porta e se afastou para os dois entrarem. Duas empregadas de uniforme preto com avental e touquinha de renda tiravam, freneticamente, o pó do corredor principal. Este era apainelado com lindas telas japonesas, os pisos eram de mármore branco e pre­to, e havia também um belo lustre, só que este mais enfeitado ainda que o do saguão. Era de cristal Waterford, com mais de 200 anos de idade, e uma obra de arte, combinando com as arandelas primorosas que ornavam as paredes. A entrada inteira lembrava a Serena um salão de baile fortemente iluminado. As empregadas receberam Brad de braços abertos, e foram logo avisar à cozi­nheira que ele havia chegado, tendo Brad prometido que dali a um minuto iria até a cozinha vê-la. Mas, primeiro, queria mostrar a Serena o apartamento on­de fora criado.

Ao seu jeito, ele lembrava à moça o palazzo. Era menor, naturalmente, e um apartamento, afinal de contas, no entanto tinha um ar de grandiosidade mais típico de uma casa, e o modo como era decorado assemelhava-se às di­versas casas em que ela crescera. Havia tapetes Aubusson de tons delicados, cortinas de damasco e ricos brocados, um piano de cauda na biblioteca, além de três paredes cheias de livros raros, e na saia de estar havia uma coleção im­pressionante de retratos de família. A sala de visitas era sutil e linda e muito francesa. Havia dois Renoirs e um Monet, um bocado de Luís XV, rios de se­da branca e damasco cinza, acentuados com um pouco de rosa-seco, e vastas quantidades de dourado e mármore. Sem dúvida que não era um "apartamentinho", e a sua maior virtude, aos olhos de Serena, era que lhe dava a impres­são de já tê-lo visto antes. Era como todos os palazzi que conhecera em crian­ça. Estava em melhores condições, e havia algumas coisas muito boas, algu­mas ainda mais lindas do que as que vira em Veneza, e no entanto tinha aque­le toque familiar que se encontra em Paris e Londres e Nova York e Roma, Munique ou Barcelona ou Lisboa ou Madri, o ar de uma casa muitíssimo cara cheia de coisas de valor inestimável, os dourados de Luís XV, as cenas em petit point de Aubusson, as formas e cores e cheiros que pareciam todos tão familiares. Era quase como se ela tivesse vontade de soltar um suspiro de alí­vio e dizer: "Está tudo bem, já estive aqui." Teddy notara a expressão de alí­vio no seu rosto, e começara imediatamente a implicar com ela.

— O que estava esperando? Leões e tigres e uma mulher com um chico­te e uma cadeira?

Porém Serena achou graça dele.

— Não exatamente, mas... — Havia um ar de implicância no rosto dela, também.

— Quase, hem? Bem, está com sorte. Nós só alimentamos os leões com os cristãos na terça-feira. Você está dois dias atrasada.

— É um lindo lugar.

Brad olhava ao seu redor como se estivesse vendo tudo pela primeira vez, e sorriu para ambos.

— Sabem, eu tinha me esquecido de como é gostoso.

Fazia dez meses que estivera em casa, de licença, e tudo fora tão alucinante que nem tivera tempo de reparar na casa, o tempo todo que passara ali.

— Bem-vindo ao lar, mano.

— Obrigado, garoto.— Apertou o ombro do irmão mais moço, e depois abraçou meigamente a mulher. — Está tudo bem, querida? Não está cansada?

O modo como falou alertou Teddy para alguma coisa.

— Algum problema? — Olhou preocupado para ambos, e Brad sacudiu a cabeça com um sorriso, mas havia uma expressão nos olhos dele que Teddy nunca vira antes, um ar de ternura e orgulho e excitação. — O que é? Ou estou sendo intrometido?

— Acho que não. Eu ia contar a todos hoje à noite. Mas quero contar primeiro para você. — Ele agora tinha o direito de saber em primeiro lugar. B.J. tomou a mão de Serena e sorriu para Teddy. — Vamos ter um bebê.

— Já? — Teddy parecia aturdido. — Quando?

— Só daqui a seis meses, ou seis e meio, para ser preciso. — Brad estava com ar implicante. — É decente. Já estamos casados há seis meses.

— Não quis dizer isso. — Teddy parecia encabulado, e depois lançou um olhar para Serena. — Parece tão depressa.

— É depressa, e ainda bem. Não sou tão jovem quanto você. Não quero perder tempo, e Serena também está feliz.

Abriu um sorriso para ela de novo, e Teddy sorriu enquanto os observava.

— Acho que estou doente de inveja, mas o esquisito é que não estou me incomodando.

B.J. riu da franqueza do irmão mais moço e os três acharam graça juntos. Algo muito estranho acontecera entre aqueles três, naquele dia. Um novo elo se formara entre duas pessoas que já se amavam a vida toda, e elas deram um jei­to de incluir nele uma outra pessoa. Era como se os três estivessem dentro de um círculo mágico, e estivessem sabendo disso.

— Puxa vida, vou ser tio!

Começou a soltar gritos; Serena ria, e B.J. tentava em vão aquietá-lo.

— Não espalhe pela casa toda ainda, que diabo. Quero contar para mamãe primeiro. Acha que já está pronta para ser avó, Teddy?

Fez-se um longo silêncio enquanto os irmãos trocavam um olhar significativo.

— Não tenho certeza.

Somente Serena não dissera coisa alguma nos últimos minutos, desde que tinham começado a falar no bebê.

— Está se sentindo bem, Serena?

Agora, de repente, Teddy partilhava da preocupação de B.J., e ela riu dos dois.

— Sim, estou bem. Perfeita. Formidável.

— Que bom. — E então, com novo sorriso travesso, com covinhas: — Que pena que não pode esperar dois anos para tê-lo, eu até que podia fazer o parto.

— Podemos dispensar esta emoção — aparteou Brad rapidamente. — Mas pelo menos você estará lá para partilhar conosco o grande momento.

Brad ficava satisfeito de saber que o irmãozinho ia morar em San Francisco, também, ou bem perto de lá. Durante quatro anos iria cursar a Faculda­de de Medicina da Universidade de Stanford, e ele torcia para que fossem se ver com freqüência. Disse-lhe isto, e Teddy concordou enfaticamente.

— Especialmente agora. Quero ir ver o meu sobrinho.

— Não — retrucou Brad, estranhamente firme.

— Não? — Foi a vez de Teddy parecer surpreso. — Não posso vê-lo?

— Poderá vê-la. É uma sobrinha.

— Uma sobrinha? Você quer uma menina? — Parecia chocado. — Mas isso não é natural! Os homens da nossa família não devem ficar todos assanha­dos para continuar o nome?

— É, e eu vou ter uma filha e ela vai se casar com um sujeito chamado Obadiah Farthingblitz e eu vou ficar feliz como tudo no dia do casamento dela,

— Você é biruta. Na verdade — olhava de um para o outro — desconfio que os dois são. O que pode ser a sua salvação. Sabe, acho que vamos nos di­vertir à grande na Califórnia, turma.

— Você virá nos visitar sempre, Teddy? — falou Serena, olhando para ele carinhosamente.

— Sempre que vocês permitirem. Estarei lá em setembro, para começar a faculdade. Nesse meio tempo, vou para Newport neste verão para pintar o sete por lá. Vou dar uma parada em Chicago, pelo caminho, e devo chegar na Califórnia na última semana de agosto. Vou ficar com vocês — afirmou, com toda a tranqüilidade de uma pessoa da família, e Brad achou graça.

Depois disso, os três foram para a cozinha, cumprimentaram a cozinheira, roubaram uns biscoitinhos, provaram aspargos, cheiraram um caldo que Brad jurou parecia ser de peru, e logo depois se retiraram e se refugiaram no velho escritório de Brad. Pertencia agora a Teddy, e eles ficaram entregues a reminiscências enquanto comiam canapés de agrião com pão branco e bebiam limonada. Era um modo agradável de passar a tarde, enquanto esperavam pela volta do resto da família, e logo depois do almoço Serena pegou no sono no sofá. Os dois homens ficaram felizes ao vê-la dormir, pois sabiam que as pró­ximas horas seriam tensas para todos. Algo dizia a Brad, agora que estava de volta ao lar, que nada ia ser fácil. Antes de voltar para esta casa, fora capaz de duvidar do que pensava que ia acontecer, do comportamento da mãe. Ten­tara fazer um jogo consigo mesmo, mas não era possível jogar aqui dentro. A força da mãe era tão nítida nesta casa que era impossível iludir-se a seu respeito, nem por um momento. A coisa não ia ser fácil de maneira alguma. Margaret Fullerton desejara que Brad trouxesse para casa uma esposa como as milhares de debutantes que conhecera ao longo dos anos, uma moça mais ou menos como Pattie Atherton, ela não queria uma principessa de Roma para nora. Não ligava a mínima para isso. Queria uma das filhas das suas ami­gas de Colony Club, alguém que freqüentasse os mesmos lugares que eles, conhecesse as mesmas pessoas, fizesse as mesmas coisas. E havia uma coisa ine­gável em Serena que Brad sabia jamais agradaria à mãe dele: Serena era totalmente diferente. Era isto que amava nela, e o que cativara Teddy em apenas poucas horas. Não era uma moça comum, de maneira nenhuma. Era extraordinária, de todas as maneiras possíveis. Era espetacular, bonita, inte­ligente como tudo, mas não se encaixaria na fôrma de Nova York, do Stork Club, do 21, do Colony Club. E, enquanto fitava a esposinha italiana aristo­crática adormecida, Brad teve a sensação profunda de que ia haver encrenca.

 

Margaret Fullerton chegou em casa naquela tarde exatamente às 15:15, tendo precisamente a mesma aparência com que saíra de casa, pela manhã. Impecável e elegante, num costume de seda Chanel cinza-pérola e uma blusa de seda rosa-seco com o forro do casaco combinando. Usava delicados sapatos de pelica cinzenta, meias cinzentas, uma pequena bolsa de lagarto cinzenta, e o seu cabelo branco estava tão perfeitamente penteado quanto o estivera às oito da manhã. Segundo a sua rotina habitual, chegou, cumprimentou os criados, deixou a bolsa e as luvas sobre uma grande salva de prata no corredor de entra­da, olhou para a correspondência arrumada cuidadosamente por uma das em­pregadas e entrou na biblioteca.

Ali, costumeiramente, ela tocaria a campainha pedindo o chá, ou daria alguns telefonemas em resposta à lista de recados que o mordomo sempre dei­xava anotada na sua escrivaninha. Porém, esta tarde, sabia que Brad estava voltando para casa. Não tinha certeza se já chegara ou não, e lamentava não ter podido ir recebê-lo, mas se sentou na biblioteca, olhou para o relógio com um sentimento de expectativa e tocou chamando o mordomo. Este apareceu à porta logo a seguir, com uma expressão atenta.

— Sim, madame?

— O meu filho está em casa, Mike?

— Sim, madame. Dois deles. O Sr. Theodore está em casa, assim como o Sr. Bradford.

Mike estava com eles há quase 30 anos.

— Onde estão?

— Lá em cima, no gabinete do Sr. Theodore. Quer que os chame?

— Não. — Levantou-se, suavemente. — Vou até lá. Estão sozinhos?

Parecia esperançosa. Como se já tivessem se livrado de Serena. Porém o mordomo sacudiu cuidadosamente a cabeça.

— Não, madame. A Sra. Fullerton, a Sra. Bradford Fullerton — expli­cou — está com eles.

Os olhos de Margaret Fullerton ficaram furiosos, mas ela apenas assentiu.

— Sei. Obrigada, Mike. Vou subir daqui a um pouquinho.

Agora precisava pensar, por um minuto, no que ia dizer e em como ia dizê-lo. Tinha que agir com jeito caso contrário perderia Brad para sempre.

Sabia também que não poderia deixar Teddy saber de nada. Já tinha cometido o erro de contar-lhe o que estava pretendendo fazer. Fora uma bobagem, e sabia disso, o filho mais moço tinha um coração cheio de calor e olhos sonhadores, e as suas filosofias de vida ficariam melhor numa novela romântica, não num mundo real cheio de oportunistas e idiotas e uma vagabundinha italiana de olho na fortuna do filho.

Margaret Hastings Fullerton ficara órfã aos 22 anos, quando os pais morreram num desastre de trem, no exterior. Deixaram para ela uma fortuna enorme. Fora bem orientada pelos sócios da firma de advocacia do pai, e dali a um ano se casara com Charles Fullerton e unira a sua fortuna com a dele. A dela provinha das usinas siderúrgicas do país, e fora adoçada ao longo dos anos por importantes aquisições imobiliárias e a compra de numerosos ban­cos. Charles Fullerton, por outro lado, pertencia a uma família cujo dinheiro vinha de fontes mais requintadas. Tinham ganho uma fortuna com o chá, no século anterior, acrescentaram a ela lucros enormes com o café, tinham bens vultosos no Brasil e Argentina, Inglaterra e França, Ceilão e Extremo Orien­te. Era uma fortuna que a deixara até tonta, e Margaret Hastings Fullerton não ficava tonta com facilidade. Sempre tivera uma compreensão notável do mundo financeiro, uma fascinação pela política e assuntos internacionais, e se os pais tivessem vivido, o pai provavelmente teria providenciado para que ela se casasse com um diplomata ou um estadista, possivelmente até o Presidente dos Estados Unidos. No entanto, em lugar disso, ela conheceu Charles Fuller­ton, o único filho de Bradford Jarvis Fullerton II. Charles tinha três irmãs, e os maridos de todas elas tinham ido trabalhar para o pai de Charles. Eles viajavam extensa e constantemente pelo mundo todo, administravam as com­panhias muito bem e satisfaziam o velho de todas as maneiras possíveis, exce­to uma. Não eram seus filhos, e Charles era, porém Charles não tinha o menor interesse em herdar o trono do pai como chefe do império. Queria uma vida tranqüila, exercer a advocacia, viajar o menos possível e colher os frutos de tudo o que o pai e o avô tinham criado. Foi Margaret que achou os investimen­tos dos Fullerton fascinantes, que queria que ele se unisse aos outros, e acabas­se por tomar conta da firma. Porém logo soube, poucos meses após o casamento, que não havia esperança disso acontecer. Estava casada com um dos homens mais ricos do país, e ele não ligava a mínina para a emoção de como aquela fortuna fora criada. Os seus planos para ele, igual aos do pai, não de­ram em nada, e ele acabou fazendo as coisas do jeito que queria. Juntou-se a vários amigos do tempo da faculdade, formou a sua própria firma, e exercia a advocacia, ao seu jeitão tranqüilo. Não tinha nenhuma da resplandecência nem da ambição dos seus antepassados. Nem tinha a tempera de aço da mulher, que, na verdade, era muito parecida com o pai dele. Ela e o velho se deram maravilhosamente bem até a morte dele, e foi ela quem realmente chorou o esfacelamento do império, vendido aos pouquinhos. Lá se foram os vastos bens em países exóticos, lá se foram os sonhos de que um dia Charles mudaria de idéia e tomaria o seu lugar à testa de tudo aquilo, lá se foram as suas espe­ranças de ser a força por trás do trono.

A partir de então dirigira a sua ambição do mundo de negócios internacional para a política. E aí, por um breve tempo, teve êxito. Conseguira con­vencer Charles de que o que ele mais desejava no mundo era um lugar no Se­nado. Realçaria a carreira dele, ajudaria a sua firma de advocacia, deixaria radiante a mulher e os amigos, e ela lhe assegurou que era tudo o que ele dese­java na vida. Na realidade, ele achou aquilo entediante não gostava de passar o seu tempo em Washington e se recusara a tentar a reeleição, quando o mandato terminou. Voltou com alívio para a sua firma de advocacia em Nova York, deixando Margaret sem nenhuma ilusão e com poucos sonhos. Ele con­seguira para si mesmo a colocação que queria, um local tranqüilo atrás de uma mesa em Nova York, e não desejava mais do que isso. Só o que restava para Margaret Fullerton era voltar as esperanças para os filhos.

Brad era, sem dúvida, o mais empreendedor dos seus filhos, mas, como o pai, era intratável e fazia exatamente o que queria. Nenhum dos empregos que tivera até então tinha sido o que Margaret consideraria importante, recusava-se a fazer usos dos contatos e das amizades, e embora tivesse algum interesse pela política, ela estava começando a duvidar que a sua ambição naquele sentido fosse suficiente para alterar o rumo da sua vida. O que ele queria, assim como o pai, pensava Margaret, desalentada, era uma vida que fosse "agradável" e significasse alguma coisa para ele. Não tinha interesse pelo poder, segundo a ótica da mãe, pela indústria ou comércio em grande escala, ou por um império como o dos seus ancestrais. Greg, por sua vez, era bem mais maleável. Embora não fosse tão inteligente quanto Brad, ela via mais esperanças nele, e casando-se com a filha de um deputado, ele estaria no círculo adequado para se dedicar à política, se fosse empurrado nessa direção. E Margaret sabia que podia contar com Pattie para dar os empurrões em Greg. Teddy era outra história, inteiramente, e Margaret descobrira isso no filho mais moço quase desde o dia em que nascera. Theodore Harper Fuller­ton movia-se no seu próprio ritmo, quando lhe dava vontade, exatamente na direção em que desejava. Tinha o mesmo vigor da mãe, mas não as mesmas ambições. E agora ia seguir a sua carreira de médico com o mesmo tipo de energia e determinação que ela teria tido, se tivesse seguido uma carreira, tam­bém. Não se podia deixar de respeitar Teddy, mas ela procurava manter dis­tância entre eles. Não era alguém a quem pudesse influenciar, ou mesmo "dar um empurrãozinho", e era com ele que discutia constantemente. Discordavam de tudo, desde a política até o clima. Especialmente dessa história recente da meretriz de Brad, de Roma. Ela dissera a toda a família exatamente o que pensava de toda aquela baboseira, e mais especificamente dissera ao marido precisamente o que achava que precisava ser feito. Era uma pena que nada pu­desse ser feito antes que ele a trouxesse para Nova York, mas com o casamen­to de Greg sendo realizado tão brevemente, ela não teve tempo de ir a Paris para vê-los. Teria que cuidar do assunto quando viessem para Nova York. E tinha certeza de que não haveria problemas. Era evidente que a moça es­tava atrás do dinheiro dele, pelo que Pattie dissera, mas ainda não era tar­de demais para comprá-la. Pagariam a sua passagem de volta à Europa, dar-lhe-iam uma bela soma para se livrar dela, e o processo de anulação começaria imediatamente. Se ela fosse esperta e estivesse disposta a cooperar, Brad nem precisaria saber dos arranjos feitos. Só o que a moça tinha a fazer era dizer a ele que mudara de idéia inteiramente e que ia voltar para casa.

Enquanto Margaret subia as escadas que levavam ao gabinete de Teddy, ficou pensando nos papéis que estavam na sua escrivaninha, lá embaixo. Seria tudo tão simples. Repassara tudo naquela manhã, e era um alívio saber que o assunto estava quase encerrado. O seu intenso desejo de se livrar de Serena eclipsara quase todo o resto, ultimamente. Mal pensara no casamento, e per­dera um pouco da alegria da emoção de ver Brad em casa. Aquilo era parte do motivo pelo qual não tinha ido recebê-lo no navio. Queria apenas livrar-se de Serena, e depois poderia saborear o prazer de ter o filho mais velho em casa. Já estava planejando uma viagem para San Francisco no outono, para visitá-lo. Queria visitar Teddy em Stanford, e poderia ver Brad ao mesmo tempo, na sua nova comissão em Presidio. Além disso, tinha velhos amigos por lá, e sabia que iria se divertir bastante. A idéia da futura viagem deixou-a satisfeita, en­quanto ficou parada por um momento, como se fortalecendo, e depois com um pequeno sorriso resoluto, bateu à porta.

— Quem é?

A voz era de Teddy e havia risos lá dentro. Podia ouvir a voz de uma mulher, e a voz profunda de Brad e sua risada suave, enquanto respondia:

— Sou eu, querido. Posso entrar?

— Claro. — Teddy falou as palavras enquanto escancarava a porta, olhando para a mãe, um sorriso ainda a iluminar-lhe os olhos. Porém o sorriso desapareceu prontamente, tão logo a viu. Sentiu uma tensão imediata passar entre eles, e um desejo instantâneo de proteger Serena. — Entre, mamãe. Brad e Serena estão aqui. — Fez questão de incluí-la, também. — Estivemos espe­rando que você chegasse.

Ela meneou a cabeça, entrou rapidamente na sala, e dali a um instante estava fitando o filho mais velho. Parou e não se adiantou para ele, mas havia uma emoção evidente nos seus olhos.

— Alô, Brad.

Sem sinal de tensão, ele se adiantou para ela e deu-lhe um abraço carinhoso.

— Alô, mamãe.

Ela se agarrou a ele possessivamente, por um momento, depois recuou, com uma névoa de lágrimas a toldar-lhe a vista.

— Meu Deus, como é bom tê-lo em casa, são e salvo.

— É, cá estou eu, inteirinho. Finalmente de volta da guerra. — Sorriu alegremente para ela, depois deu um passo para o lado e com um único gesto carinhoso indicou a moça alta, loura e graciosa que estava parada às suas cos­tas, no costume de seda cor de marfim, com os enormes olhos cor de esme­ralda. — Quero que conheça a minha mulher, mamãe. Serena, esta é a minha mãe.

Ele fez uma pequena mesura formal, e por um instante não houve movimento algum na saleta aconchegante; só um silêncio total e absoluto, como se todos estivessem prendendo a respiração enquanto as duas mulheres fica­vam se conhecendo, mas foi Serena quem quebrou o gelo. Adiantou-se muito depressa, com a mão graciosa estendida e um sorriso nervoso mas simpático.

— Como vai, Sra. Fullerton? — Estava encantadora, parada ali, e os olhos da mulher mais velha pareceram estreitar-se enquanto examinava Serena da cabeça aos pés. — Que prazer em conhecê-la.

Margaret Fullerton estendeu a mão, com um olhar gélido.

— Como vai? Espero que tenha feito uma boa viagem. — Não havia indi­cação de que aquela fosse a nora que estava conhecendo pela primeira vez. Era uma estranha completa, e Margaret pretendia tomar providências para que nada modificasse esta situação. — Desculpe não ter ido recebê-lo no navio, Brad. — Virou-se para o filho com um sorriso. — Fiquei atolada de coisas por fazer, e resolvi deixar a honra para Teddy. Porém jantaremos juntos hoje. E amannhã. — Ignorava Serena completamente, na descrição dos seus planos. — E, naturalmente, o casamento é no sábado. Você tem um ensaio para a cerimô­nia amanhã, e mais uma meia dúzia de coisas. Tem que dar uma passadinha no alfaiate do seu pai, amanhã de manhã. Ele usou as suas medidas antigas para fazer um fraque e calças listradas, mas é melhor dar uma prova rápida amanhã, para ele poder consertar alguma coisa, antes que seja tarde demais.

— Ótimo. — Havia finas linhas de tensão cercando os olhos de Brad. Não estava dando a mínima bola para o fraque e as calças listradas. Queria que a mãe desse algum sinal de que aceitava a sua mulher. — Que tal almoçarmos os três juntos amanhã, nalgum lugarzinho sossegado?

— Querido, não posso. Não imagina que loucura tudo fica antes do casamento.

Os seus olhos nada revelavam, mas Brad sentiu o corpo ficar tenso.

— Isso tudo não é para ser problema dos Atherton? Pensei que a mãe da noiva é que tinha todas as dores de cabeça.

— Tenho que providenciar o jantar do ensaio, amanhã.

— Bem, então depois vamos passar algum tempo juntos.

Não estava implorando, mas pedindo, e enquanto escutava o irmão mais velho, Teddy começou a doer por dentro. Podia ver exatamente o que a mãe estava fazendo. Assim como dera um jeito de não ir à chegada do navio, evita­va-os de novo. Que diabo estava fazendo?, ele se perguntou. Tentando fingir que Serena não existia, ou será que havia um motivo para se comportar desse jeito? Teddy teve a sensação desagradável de que algo que todos iriam lamen­tar estava prestes a acontecer.

— Farei o possível, querido. — A voz da mãe era evasiva. — Já viu o seu pai?

— Ainda não.

Também já ocorrera a Brad que ninguém, exceto Teddy, se esforçara para ir recebê-lo e conhecer Serena, e começava a se arrepender de ter resolvido passar por casa, no caminho para San Francisco. Podiam ter passado uns tempos em Roma, ou dado um giro pela Europa por duas semanas antes de voar para casa, e simplesmente trocado de avião em Nova York.

Mas, quem sabe devia dar-lhe mais uma chance, concluiu. Era uma época agitadíssima para todos eles, e não podia esperar que largassem o que es­tavam fazendo por causa dele. Porém não era por si mesmo que se importava, era por Serena. Já podia notar uma expressão desconfiada nos olhos dela, en­quanto olhava na sua direção.

— Você vai jantar conosco hoje, não vai, Brad?

A mãe o fitava, como se fosse o único incluído no convite.

— Vou. — Olhou para ela, significativamente. — Ambos vamos. E a propósito, em qual dos quartos quer que fiquemos?

Por apenas um instante, a mãe pareceu aborrecida. Ele a estava forçando a enfrentar a questão "Serena" e era a última coisa que ela desejava fazer, àquela altura. Porém se deu conta de que, pelo menos naquele momento, não havia como evitá-la.

— Acho que o quarto azul estará ótimo. Quanto tempo vai ficar queri­do? — indagou, olhando apenas para o filho, e nem uma só vez para a moça.

— Duas semanas, até irmos para San Francisco.

— Que maravilha. — Virou-se, então, lançou um olhar perscrutador para Serena, depois voltou a olhar para Brad. — Tenho que cuidar de alguns deta­lhes, querido. Daqui a pouco eu o verei. — E então, inesperadamente, voltou a olhar para Serena e falou muito cautelosamente com ela: — Acho que talvez seja uma boa idéia você e eu passarmos algum tempo juntas. Se puder vir até o meu boudoir por uma meia hora, antes do jantar, acho que poderemos con­versar a sós.

Serena concordou imediatamente, e Brad pareceu surpreso. Quem sabe a velha estava fazendo um esforço, afinal de contas, e ele estivesse fazendo mau juízo dela.

— Eu mostro a ela onde fica, mamãe.

Por um instante Brad pareceu satisfeito, porém, sem que os outros notassem, havia terror nos olhos de Teddy.

A mãe os deixou dali a alguns minutos, e Teddy parecia estranhamente preocupado. Brad implicou com ele, e Serena sentou-se com um suspiro longo e nervoso, fitando a ambos.

— Por que será que ela quer mer ver a sós? — indagou, preocupada.

— Só quer conhecê-la direito. Não deixe que ela a intimide, amor. Não temos nada a esconder.

— Será que devo lhe contar do bebê?

— Por que não?

Brad olhou para ela cheio de orgulho, e trocaram um sorriso, mas Ted­dy logo interveio.

— Não, não conte.

Os dois olharam para ele, espantados, e ele ficou vermelho.

— Ora essa, por que não? — B.J. parecia quase aborrecido. Chegara em casa somente há algumas horas, e já estava se sentindo irritado com a família. Que gente estranha eles eram, lembrava-se agora, e todas aquelas intrigas e tra­mas e tensões e insultos. A mãe sempre os mantinha a todos em estado de per­manente agitação, e se sentia profundamente aborrecido de estar se tornando parte daquilo de novo. — Por que Serena não deve lhe contar?

— Por que não contam a ela juntos?

— Que diferença faz?

— Não tenho certeza. Mas ela pode dizer alguma coisa para aborrecer Serena.

Brad pensou no assunto por um momento, depois concordou.

— Está bem. De qualquer forma — olhou significativamente para a mulher — não deixe aquela velha chata se meter a besta com você, querida. Sim­plesmente seja você mesma, e ela não conseguirá resistir-lhe. — Inclinou-se pa­ra dar-lhe um abraço e achou que estava sentindo a moça tremer. — Não está com medo dela, está?

Serena pensou por um momento, depois fez que sim.

— Acho que estou. Ela é uma mulher muito impressionante e forte.

Era também muito mais bonita do que Serena esperava, e muito mais dura. Serena jamais conhecera alguém exatamente como ela. A avó fora uma mulher forte, mas num sentido muito mais puro. A avó tinha tido uma força e determinação tranqüilas. Margaret Fullerton tinha algo direrente. A gente pressentia imediatamente que ela usava a sua força para obter o que queria, e talvez de formas que fossem ocasionalmente feias. Havia algo que corria lo­go abaixo da superfície de Margaret Fullerton que era frio como o gelo e duro como a pedra.

— Não há o que temer, Serena — disse o marido meigamente, levantando-a do sofá e preparando-se para levá-la até o quarto azul, onde a mãe dissera que ficariam. Enquanto os acompanhava até o andar de cima, Teddy rezava para que o irmão estivesse certo.

 

Brad ainda estava tomando banho na hora do encontro marcado entre Serena e a sua mãe. E o mordomo a levou até lá embaixo, cruzando um corredor cujas paredes eram cobertas por pequenas telas valiosas, três minúsculos Corot, um pequeno Cézanne, um Pissarro, dois esboços de Renoir, um Cassatt. Os qua­dros eram lindamente emoldurados, e pendurados como que numa galeria de arte, com excelente iluminação, de encontro a paredes cobertas de veludo cinzento-amarelado. O tapete sob os seus pés era espesso e da mesma cor páli­da, e era um contraste vivido com os pisos de mármore a que estava tão acos­tumada em Roma, Veneza e Paris. A maciez do carpete do apartamento dos Fullerton fazia com que sentisse que estava caminhando nas nuvens. Os mó­veis eram todos belos e discretos, havia um bocado de Rainha Anne, alguns Chippendale, alguns Hepplewhite, e algumas discretas peças Luís XV, mas por toda parte havia madeiras lustrosas e cores suaves. Não se via nada do dourado e mármore das peças Luís XV mais espalhafatosas ou das Luís XVI inspiradas na Grécia. O apartamento dos Fullerton era decorado com um gos­to excelente, com o melhor de tudo em evidência com rica abundância, mas nada era de chamar a atenção. Até mesmo as cores que Margaret esco­lhera para a sua casa eram beges suaves, castanhos, tons marfim, e aqui e ali um verde profundo ou um azul reparador. Não havia pêssegos ou rubis ou verdes brilhantes. Era um ar totalmente diverso dos esplendores renascen­tistas dos palazzi que conhecera, mas que tinha que admitir que ainda pre­feria. A casa era elegante e contida como a própria Margaret.

Quando o mordomo parou à porta do boudoir dela, deu um passo para o lado para deixar que Serena batesse, depois curvou-se rapidamente e desapareceu quando Serena entrou. Ela foi encontrar a sogra no pequeno aposento, sentada a uma linda mesinha oval, uma bandeja de mordomo da era de George III, com uma bebida na mão, e uma pesada garrafa de cristal e outro copo numa bandeja de prata, à espera da chegada de Serena. Havia um grande retrato pintado sobre o pequeno sofá cor de marfim onde estava sentada, e o homem que aparecia nele usava um imenso bigo­de e um pincenez, e roupas escuras da virada do século, e os seus olhos pa­reciam saltar do quadro e fazer mil perguntas.

— O avô do meu marido — explicou para Serena, que sentiu a força daqueles olhos e lançou um olhar para a tela. — Ele é responsável por quase tu­do que o seu marido tem. — Falou significativamente, como se Serena pudesse compreendé-la, e pareceu à moça italiana parada à sua frente uma coisa muito estranha de se dizer. — Por favor, sente-se. — Serena obedeceu e sentou-se muito comportadamente na beirada de uma pequena cadeira Queen Anne, no vestido de veludo preto que resolvera vestir para o jantar. Tinha um decote baixo e quadrado, alças largas, uma saia justa e um casaquinho curto de cetim branco. Brad comprara aquele conjunto para ela pouco antes de saírem de Paris, e Serena sabia que não ia poder usá-lo mais por muito tempo. A sua cin­tura sempre crescente logo se recusaria a ficar restringida pela cinturinha fina do vestido. Mas, para aquela noite, estava perfeito, e ela o usava com brincos de pérola e o seu colar de pérolas, e parecia muito adulta e muito bonita, en­quanto Margaret Fullerton a examinava de novo. Até mesmo ela tinha que admitir que a moça era bonita, mas não era essa a questão. O fato era que, se não voltasse para a Europa, iria destruir a vida de Brad. — Quer um drin­que?

Serena sacudiu rapidamente a cabeça. O bebê tornara impossível, nas últimas semanas, até mesmo sentir o cheiro do vinho.

Enquanto Margaret se servia de um drinque, Serena a examinava. Era uma mulher de aparência impressionantemente distinta, e hoje usava um rico vestido de seda cor de safira, realçado por um belo colar de safiras e diaman­tes, que o marido comprara para ela na Cartier, em Paris, depois da Primeira Grande Guerra. Serena fitou o colar por um longo momento, depois desviou os olhos para os enormes brincos de safira e a pulseira combinando. Pensando ter entendido, Margaret Fullerton meneou a cabeça e resolveu que estava na hora de fazer a sua jogada.

— Serena, vou ser muito franca com você. Não creio que haja motivo para falarmos com rodeios. Soube por... pessoas amigas — Margaret Fuller­ton hesitou apenas por um momento — que você conheceu Brad quando trabalhava para ele em Roma. Estou certa?

— Está... arranjei o emprego quando voltei para Roma.

— Que circunstância feliz para você.

— Foi, na época. Não tinha mais ninguém em Roma, exceto — tentou achar um meio de explicar Marcella — uma velha amiga.

— Sei. Então o emprego no palácio deve ter sido uma bênção dos céus — disse, sorrindo, mas seus olhos eram assustadoramente frios.

— Foi. E o seu filho também.

Margaret Fullerton quase se crispou visivelmente, enquanto a moça se sentava muito ereta na cadeira, o belo rosto de marfim emoldurado pela gola do casaquinho de cetim branco, os olhos vivos, o cabelo escovado até brimar. Era difícil encontrar defeitos em Serena, mas Margaret não ia se deixar enganar pelas aparências. Já sabia exatamente o que pensava dessa moça. Conti­nuou, com ar resoluto:

— Foi exatamente esta a impressão que tive, Serena. Que você precisava da ajuda de Brad, e que ele veio salvá-la, talvez tirando-a da Itália. O que é muito admirável da parte dele, e quem sabe até muito romântico. Mas acho que ter se casado talvez tenha sido levar as coisas longe demais, não acha? — Por um instante, Serena ficou sem saber o que dizer, e depois Margaret não deixou que completasse o que lhe veio à cabeça. — Todos sabemos que os homens às vezes se metem em situações estranhas em tempo de guerra, mas — os olhos dela faiscaram por um momento, enquanto pousava o copo — foi uma loucura da parte dele trazê-la para casa.

— Entendo. — Serena parecia encolher-se visivelmente, na sua cadeira. — Pensei que talvez... quando nos conhecêssemos...

— O que foi que pensou? Que eu seria enganada? De modo algum. Você é uma moça muito bonita, Serena. Ambas sabemos disso. Mas toda essa bobagem de ser princesa é exatamente uma bobagem. Você era uma faxinei­ra que trabalhava para o exército americano, e se agarrou a uma coisa boa que apareceu. Foi uma pena que não tivesse sido esperta o bastante para saber a hora de largar. — Por um instante, Serena pareceu ter sido esbofeteada. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas quando se recostou na cadeira, e Mar­garet Fullerton se levantou e foi até a sua escrivaninha. Voltou dali a um momento com uma pequena pasta, sentou-se de novo no sofá e olhou de frente para Serena. — Vou ser franca com você. Se o que queria era sair da Itália, já conseguiu. Se quiser continuar nos Estados Unidos, tomarei provi­dências para que continue. Pode se fixar em qualquer lugar do país, exceto, é claro, onde Brad morar, o que significa que não pode ser em San Francisco nem aqui. Se quiser voltar para a Europa, arranjarei uma passagem de volta, imediatamente. Em qualquer dos casos, depois que assinar esses papéis, terá início prontamente o processo de anulação, a cargo da firma de advocacia do pai dele, e você será regiamente recompensada por tudo.

Margaret Fullerton parecia descontraída e nem um pouco encabulada pelo que acabara de dizer a Serena.

Porém Serena parecia estar sentada ainda mais ereta na cadeira, e as es­meraldas nos seus olhos tinham de repente pegado fogo.

— Serei recompensada?

— Será. — Margaret parecia satisfeita. Estava obviamente no caminho certo. — Muito regiamente. O pai de Brad e eu discutimos o assunto novamen­te ontem à noite. Claro que tem que entender que, depois de ter assinado esses papéis, não terá mais direito algum de tentar pedir mais dinheiro. Terá que ficar com o que obteve, e ponto final.

— Claro. — Os olhos de Serena ardiam, mas também ela parecia descon­traída. — E exatamente por que preço está comprando o seu filho de volta?

Por um instante Margaret Fullerton pareceu aborrecida.

— Não creio que me agrade a sua escolha de expressão.

— Mas não é exatamente isto que está fazendo, Sra. Fullerton? Comprando-o de volta de uma puta italiana? Não é assim que encara a coisa?

— O modo como a encaro é inteiramente irrelevante. O que você fez, laçando o meu filho enquanto estava no exterior, é passível de afetar todo o seu futuro, e a sua carreira. O que ele precisa é de uma esposa americana, al­guém da sua própria classe, seu próprio mundo, que possa ajudá-lo.

— E eu nunca poderia fazer isso?

Margaret Fullerton riu e espalmou as mãos na saleta elegante.

— Olhe ao seu redor. Este é o seu mundo? O mundo de que veio? Ou apenas o que deseja? O que exatamente pretendia dar-lhe, além do seu rostinho bonito e o seu corpo? Tem alguma coisa para lhe dar? Posição, contatos, recursos, amigos? Não compreende que ele poderia seguir carreira política? Mas não casado com uma faxineira italiana, minha querida. Como pode viver com o que fez à carreira dele, à sua vida?

Os olhos de Serena estavam novamente cheios de lágrimas, e a sua voz era rouca quando respondeu:

— Não, não tenho nada para lhe dar, Sra. Fullerton. Exceto o meu coração.

Porém não respondeu a nenhuma das outras perguntas. Não era da con­ta da mulher de onde ela vinha. Na verdade, vinha de algo mais imponente do que tudo aquilo, mas quem poderia explicar isso, agora? Estava tudo acabado. Perdido.

— Exatamente. — Margaret continuou: — Você não tem nada. E para fa­lar com franqueza, não é nada. Mas desconfio de que quer alguma coisa. E eu tenho o que você quer.

Tem, sua vaca? Serena estava furiosa, por dentro... Tem amor... e paciência e compreensão e bondade e uma vida inteira para me dar? Porque é isso que quero dar para ele. Porém ficou calada.

Sem mais uma palavra, Margaret abriu a pasta que trouxera da escrivaninha e entregou a Serena um cheque preenchido com a quantia de 25 mil dólares.

— Por que não dá uma olhada? — perguntou.

Por curiosidade, Serena tomou o cheque das mãos dela e olhou para os algarismos, incrédula.

— Você me daria isto para deixá-lo?

— Daria e dou. Na verdade, podemos encerrar este assunto em minutos, se você simplesmente assinar aqui. — Empurrou um documento batido à má­quina na direção de Serena, que o fitava, assombrada. Ele dizia que ela con­cordava em se divorciar de Bradford Jarvis Fullerton III, ou obter anulação, o mais rápido possível, que sairia do país ou iria residir em outra cidade e que jamais, em época alguma, discutiria isso com a imprensa. Sumiria da vida de Brad imediatamente, em troca do que receberia a quantia de 25 mil dólares. Além do mais, continuava o documento, ela jurava que nesse momento não estava grávida e não tentaria impor a Brad a paternidade de qualquer filho que pudesse ter subseqüentemente. Quando Serena leu isto, abriu um sorriso e imediatamente começou a rir. Tinham pensado em tudo, os filhos da mãe, mas de repente estava até engraçado.

— Aparentemente você está achando algo engraçado aqui?

— Estou, Sra. Fullerton. — O fogo verde ainda ardia nos olhos de Serena, mas agora sentia-se finalmente dona da situação.

— Posso perguntar o quê? O documento foi preparado com muito cuidado. — Estava furiosa com a reação de Serena, mas não ousava deixar trans­parecer.

— Sra. Fullerton. — Serena lançou-lhe um sorriso adocicado, e se levan­tou. — Brad e eu vamos ter um filho.

— Vocês o quê?

— Estou grávida.

— E quando foi que isso aconteceu?

— Há dois meses. — Serena olhava para ela com orgulho. — O bebê deve nascer em dezembro.

— Isso sem dúvida acrescenta uma nova dimensão às suas maquinações, não é?

A mulher mais velha estava quase dominada pela fúria.

— Sabe — Serena olhou para ela, uma mão na porta — a senhora pode achar difícil de acreditar, mas não tenho maquinações com relação a Brad e nunca tive, desde o princípio. Sei que acha que sou uma vagabunda de Roma, sem tostão, mas está apenas parcialmente certa. Não tenho dinheiro. É só. Mas a minha família foi tão ilustre quanto a sua. — Os seus olhos se dirigi­ram para o quadro na parede. — Meu avô até que se parecia com aquele ho­mem. A nossa casa — sorriu para a mulher mais velha — era bem mais impo­nente que esta. Na verdade, as nossas três casas o eram. Mas o importante, Sra. Fullerton, é que não quero nada do seu filho. Exceto o amor dele e o nosso bebê. O resto eu não quero, nem o dinheiro dele nem o seu ou do pai dele, nem esse cheque de 25 mil dólares. Jamais aceitarei qualquer coisa de qualquer um de vocês, exceto — falou com muita suavidade — o amor do meu marido.

E, com estas palavras, saiu discretamente da sala e fechou a porta, enquanto Margaret Fullerton ficava olhando para ela com fúria total, e logo depois qualquer pessoa que passasse pelo boudoir teria escutado o barulho de vidro se estilhaçando. Ela jogara o copo de xerez na lareira. Porém, no que lhe dizia respeito, a batalha não tinha terminado. Antes de Brad partir de Nova York com destino a San Francisco, ela tomaria providências para que Serena sumisse, com o seu bebê. E tinha duas semanas para conseguir isto. E sabia que conseguiria.

 

O jantar em família daquela noite foi um acontecimento de auras e correntes muito interessantes. Margaret sentava-se à cabeceira da mesa no seu vestido de seda cor de safira, parecendo bela e encantadora. Não havia sinais do que acontecera antes da refeição, e se ela evitou qualquer conversa com Serena durante o jantar, não deu para se notar. Na outra extremidade da mesa senta­va-se Charles Fullerton, satisfeito por ter os três filhos em casa juntos, a pri­meira vez que isso acontecia desde a guerra, e brindou aos três generosamen­te, assim como às duas moças que eram "novos acréscimos" à família, nas suas palavras. Greg parecia extraordinariamente expansivo, durante o jantar. Brad se deu conta, depois do primeiro prato, que o irmão estava bêbado, e olhou interrogadoramente para Teddy, para saber o porquê. Seria a emo­ção do casamento próximo? Sistema nervoso? Ou se sentia constrangido per­to de Brad, por estar se casando com Pattie? Esta tagarelava incessantemen­te, e estava desempenhando o seu papel de "adorável", flertando com os grandes olhos azuis e conseguindo incluir todos os homens da família na con­versa, cada vez que contava uma história. Era nauseantemente diferente para com a mãe do noivo, e fez questão de ignorar Serena completamente. Apenas Teddy realmente deu alguma atenção a Serena. Brad — estava sentado longe demais para poder prestar alguma ajuda. Ela estava sentada entre Teddy e Charles, e o pai pouco conversou durante a refeição, portanto coube a Ted­dy fazê-la sentir-se bem-vinda, coisa que fez com prazer. Debruçava-se para ela e falava suavemente, fez com que risse uma ou duas vezes, mas pôde reparar que ela estava bem mais retraída do que aquela tarde, no escritório. Queria perguntar como correra a entrevista particular com a mãe dele, mas teve medo que alguém o escutasse.

— Está bem? — murmurou finalmente, em meio à refeição. Ela estivera fitando o cálice de vinho, sem dizer nada.

— Desculpe.

Lamentou estar tão desanimada, explicou que era de exaustão devido às emoções da chegada, e conseguiu apenas não convencê-lo.

— Acho que há alguma coisa errada, Brad — disse Teddy, olhando para ele, preocupado, depois do jantar, enquanto entravam na biblioteca depois do resto da família.

— Sem dúvida que há. Greg está de porre, Pattie está bancando a Scarllett O'Hara, você parece que chegou de um enterro, e mamãe está tão ocupa­da mandando em tudo que papai não consegue nem dar uma palavrinha.

Brad parecia desapontado com a sua primeira noite em casa.

— Quer dizer que se lembrava que fosse diferente? — Teddy tentou parecer divertido. — Ou estava esperando que tivesse mudado, na sua ausência?

— Talvez um pouco das duas coisas.

— Não prenda a respiração. Só tende a piorar, com o passar dos anos. — Enquanto falava, olhava para Greg e Pattie. — Ela falou alguma coisa para você?

— Apenas obrigada, quando dei os parabéns aos dois. — E depois, fran­zindo a testa: — Ela não disse uma só palavra para Serena, durante o jantar, e nem mamãe.

— Não esperava que Pattie dissesse, mas mamãe... — Teddy parecia per­turbado, e tocou no braço do irmão. — Brad, havia algum problema com Se­rena durante o jantar. Não sei se não estava se sentindo bem por causa do bebê, ou o que, mas estava quieta demais.

— Acha que foi mamãe?

Os dois irmãos trocaram um olhar.

— É melhor perguntar a ela. Conversou com ela depois que se encontrou com mamãe, antes do jantar?

— Não, só fui vê-la quando já estávamos à mesa.

Teddy balançou a cabeça, pensativo, com uma expressão preocupada nos olhos.

— Acho que não estou gostando disso.

Porém Brad sorriu da expressão do rosto do irmão mais moço.

— Que é isso, meu velho, você se preocupa mais do que todos nós juntos. Por que não toma um drinque e relaxa, para variar?

— Como Greg? — Teddy olhou para ele significativamente, aborrecido.

— Há quanto tempo vem bebendo desse jeito?

— Uns dois ou três anos — falou Teddy, em voz baixa, e o irmão mais velho ficou chocado.

— Está brincando?

— Não. Nem um pouco. Começou a beber quando entrou para o exército. Papai diz que é de tédio. Mamãe diz que precisa de um emprego mais esti­mulante, como alguma coisa que tenha a ver com política, por exemplo. E Pattie o está pressionando para ir trabalhar com o pai dela.

Brad parecia contrariado, depois seus olhos se encontraram com os da mulher, e esqueceu o que o irmão caçula estava dizendo.

— Volto daqui a um minuto, Ted, quero ver se Serena está bem. — Dali a um momento estava parado ao lado dela, debruçando-se para murmurar no seu ouvido: — Está se sentindo bem, coração?

— Me sinto ótima. — Sorriu para ele, mas não era o sorriso deslumbrante de costume, que o deixava doido para beijá-la e quase sem fôlego. Ela se en­contrava muito acomodada, esta noite, e ele sabia que o irmão estava com a razão. Serena enfrentava algum problema. — Estou só cansada.

Sabia que ele não acreditava nela. Mas, o que podia lhe dizer? A verdade? Prometera a si mesma que não o faria, tão logo saíra do boudoir da mãe dele. Queria esquecer o que a mulher lhe dissera e lhe mostrara: o cheque, o documento, as palavras grosseiras, as acusações, aquilo tudo. Por um mo­mento, ao sair da saleta, sentira-se feito uma vagabunda, apenas pelas pres­suposições feitas. Agora queria esquecer aquilo, deixá-lo para trás.

— Quer ir lá para cima? — sussurrou, ainda com a mesma ruga de preocupação na testa.

— Quando você estiver com vontade — murmurou para ele. Na realidade, fora uma noite muito deprimente. O Sr. Fullerton era exatamente como Brad o descrevera, um homem fraco, dominado. Ela fora literalmente incapaz de olhar para a mãe dele, Pattie enchera-a de terror enquanto passava a noite tagarelando e flertando, e Serena ficara com medo de que fosse fazer uma ce­na e chamá-la de alguns dos nomes que chamara naquele terraço em Roma. Greg era patético, já estava bêbado antes do primeiro prato, Brad estava sen­tado longe demais para poder ajudá-la, e somente Teddy a auxiliara a chegar ao fim daquela noite. De repente teve que admitir que estava esgotada, e por um momento, sentada ali na cadeira da biblioteca, olhando para o parque, sentiu como se fosse desmaiar, ou cair no choro. Tinha passado por tanta coi­sa nas três últimas horas, e começava a sentir os efeitos.

— Vou levar você lá para cima.

Brad também notara o seu estado, e parado ao lado deles, perto o bastante para tê-lo escutado, Teddy meneou a cabeça, em sinal de aprovação.

— Ela parece exausta.

Brad assentiu e ofereceu-lhe o braço, que ela aceitou com um ar de gratidão enquanto ele se desculpava com o resto do grupo. Dali a um momento estavam na escada, e finalmente no quarto, e quando Brad fechou a porta atrás deles, Serena se deitou na cama e desatou a chorar.

— Meu bem... Serena... querida... o que aconteceu? — Parecia estupefato, fítando-a. Levou um momento para se conscientizar do que estava acontecendo e logo a seguir estava ao seu lado, deitado na cama, aninhando-a contra si e alisando o seu cabelo. — Serena... querida... me conte. O que foi? Alguém disse alguma coisa para você? — Porém ela estava resolvida a não lhe contar. Ficou apenas deitada ali, soluçando, sacudindo a cabeça e insis­tindo que era apenas uma combinação de gravidez e exaustão. — Bem, nesse caso — fitou-a com preocupação crescente, quando ela finalmente parou e en­xugou os olhos — você vai ficar na cama amanhã.

— Não seja bobo. Estarei ótima depois de uma noite de sono.

— Bobagem. E se for preciso, vou chamar o médico.

— Para quê? Estou ótima. — A perspectiva de ficar presa na cama na casa da mãe dele a deprimia ainda mais. E se Margaret subisse para atormentá-la mais, ou tentar impingir-lhe outro documento? Porém isto era improvável, Serena sabia, o que podia fazer agora que sabia que iam ter um bebê? — Não quero ficar na cama, Brad.

— Vamos discutir isto amanhã de manhã. — Porém, durante a noite, ele a segurou com força nos braços e ela gritou enquanto dormia várias vezes, e de manhã ele estava genuinamente preocupado. — Ponto final, nada de discussão. Quero que fique na cama, hoje. Ainda temos o ensaio à noitinha, e logo depois o jantar do ensaio. Precisa descansar e ficar forte. — Emocional, se não fisicamente, ele tinha razão, mas a perspectiva de ficar na cama ainda a deprimia. — Virei para casa hoje à tarde, depois de ir ao alfaiate, e lhe farei companhia.

— Promete?

Parecia uma bela criança, sentada na cama deles no quarto ensolarado.

— Juro.

Beijou-a antes de sair, e ela ficou na cama de olhos fechados por meia hora, deixando o pensamento vagar, recordando os passeios deles em Roma, momentos em Paris, o dia em que se casaram, e estava tão dedicada aos seus devaneios que quase nem ouviu a batida à porta, pouco antes do almoço.

— Sim?

Desconfiava que fosse Teddy, e quando a porta se abriu já estava â sua espera com um sorriso caloroso. Porém o sorriso logo desapareceu quando viu que era Margaret. Usava um vestido de seda preto absolutamente simples e parecia agourenta, parada ali.

— Posso entrar?

— Claro. — Saltou rapidamente da cama e vestiu o robe de seda cor-de-rosa que Brad lhe comprara em Paris. Margaret ficou calada enquanto a moça se vestia, e esperou até que estivesse parada à sua frente, cheia de expecta­tiva e nervosismo. Sabia que a sogra não tinha vindo apenas para ver como ela estava passando. Podia sentir o coração batendo dentro do peito e indicou as duas cadeiras confortáveis na extremidade oposta do quarto. — Não quer se sentar?

Margaret aquiesceu, e logo a seguir ambas se sentavam. Olhou para Se­rena indagadoramente, então.

— Contou a Brad sobre a nossa conversinha? — Serena fez que não, em silêncio. — Ótimo. — Margaret achou aquilo um bom sinal. Sem dúvida signi­ficava que Serena queria fazer algum arranjo com ela. Se fosse uma moça decente, imaginou Margaret, teria ficado chocada e contado a Brad. — Acabo de passar duas horas com o meu advogado.

— Ah.

Quase sem aviso, os olhos de Serena ficaram cheios de lágrimas, mas aquilo vinha lhe acontecendo com freqüência, ultimamente. O médico lhe dissera que chorar à toa não era incomum nos primeiros meses de gravidez, e que nem ela nem o marido deviam levar aquilo a sério. Até a véspera não le­vara, e nem Brad, mas de repente se sentia muito diferente. Sentia que esta mulher estava resolvida a destruí-la. E tinha razão.

— Gostaria que lesse uns papéis, Serena. Talvez possamos chegar a um acordo, afinal de contas, apesar da criança.

Falava como se aquilo fosse uma desvantagem, e Serena começou a odiá-la para valer. Sacudiu lentamente a cabeça e estendeu a mão como que para deter Margaret fisicamente, já que não podia impedir as suas palavras.

— Não os quero ver.

— Acho que vai ver.

— Não quero.

As lágrimas começaram a escorrer pelas suas faces, e sem dizer uma só palavra, Margaret tirou os papéis da bolsa e entregou-os para Serena.

— Sei que isto deve ser muito difícil para você, Serena. — Era a primeira coisa humana que dizia. — Estou certa que até mesmo existem algumas emo­ções entre você e meu filho. Mas tem que pensar no que é melhor para ele, se o ama. Confie em mim. Sei o que é melhor para ele.

A sua voz era profunda e possante, enquanto tentava enfeitiçar Serena, e com espanto a moça leu o que Margaret lhe entregara. Era extraordinário, e corno algo saído de um pesadelo, que esta mulher estivesse tão desesperada para separá-la do filho. Era pior do que o pior que tinha esperado. Esperara lágrimas, histeria, nomes, acusações, mas não esta série de papéis e contratos e cifrões, a sangue-frio, para terminar com o amor deles. Desta feita, Margaret apresentava diversas alternativas. Por 100 mil dólares, ela e a criança por nascer desistiriam de qualquer direito sobre Brad, e jamais o veriam de novo. Além dessa quantia, haveria uma pensão para a criança de 200 dólares por mês, até ela fazer 21 anos, o que eqüivalia a um total de 50.400 dólares, o papel lhe informava. Ou ela poderia fazer um aborto, que seria pago por eles. E neste caso, receberia 150 mil dólares em espécie, imediatamente. Natural­mente, teria que desistir de Brad. Margaret achava que este era o melhor plano, disse para Serena, enquanto esta a fitava, incrédula.

— Está mesmo falando sério? — perguntou, aturdida.

— Claro que sim. Você, não?

Serena entregou-lhe os papéis, mansamente.

— Fiquei tão chocada ontem à noite que não disse muita coisa, mas pen­sei que tinha compreendido que eu jamais faria uma coisa dessas. Jamais desistiria de Brad deste jeito, por dinheiro. Se desistisse dele, seria pelo bem dele, não por nenhuma "recompensa", como a senhora diz. — E — quase engasgou com as palavras — jamais... jamais... me livraria do nosso filho. — As lágri­mas caíam nas suas faces, enquanto falava. Ergueu os olhos para Margaret Fullerton, então, olhos sinceros e verdes e francos, cheios de mágoa e de alguma coisa muito semelhante ao desespero, e por um instante Margaret Fullerton se sentiu envergonhada. — Me diga, por que me odeia tanto? Acha mesmo que quero prejudicá-lo?

— Já o prejudicou. Graças a você, vai continuar no exército. Sabe que não há mais nenhum outro lugar para ele, agora. Exceto o exército, com homens rudes e as suas noivas de guerra, e os seus mestiços. É esta a vida que quer para ele, se o ama? — Serena se engasgou com os seus soluços, enquanto Margaret continuava: — Se não fosse por você, ele teria uma vida magnífica, uma grande carreira, e estaria casado com Pattie.

— Mas ele não a queria. — Serena soluçava de novo, quase incapaz de se controlar. — E eu o farei feliz.

— Fisicamente, talvez. — A mãe dele se retraiu. — Mas existem outras coisas mais importantes.

— É, como o amor, e filhos e um bom lar, e...

Margaret Fullerton fez um gesto de impaciência. Queria acertar logo tudo antes que Brad voltasse do centro da cidade.

— Você é uma criança, Serena. Não compreende. Bem, temos umas coi­sas para acertar, não é?

Tentou parecer resoluta, mas Serena se pôs de pé, o corpo todo tremen­do, e a voz sufocada de lágrimas.

— Não, não temos. Não pode tirá-lo de mim. Eu o amo. E ele também me ama.

— Ama? Não acha que é apenas entusiasmo da parte dele, Serena? E o que você vai fazer daqui a um ano ou dois, se ele se cansar de você? Vai se di­vorciar dele, ou deixar que se divorcie de você? E o que vai fazer, então? Vai tentar arrancar dele o dinheiro que não quer aceitar de mim agora.

— Nunca vou querer dinheiro dele.

Tremia tanto que mal conseguia falar, mas a outra mulher tinha pensa­do nessa eventualidade, também.

— Prove. Se nunca vai querer dinheiro dele, Serena, prove-o.

— Como? Fugindo? Matando o meu bebê?

Serena soluçava quase histericamente.

— Não. Assinando isto. — Tirou outro papel da bolsa e entregou-o a Serena, que o agarrou com a mão trêmula e não o leu. Apenas fitava aquela mulher que aprendera a odiar tanto, em apenas dois dias. — Diz aí que se Brad a deixar, ou morrer sem fazer testamento, você desiste de todos os direi­tos sobre qualquer dinheiro dele ou do seu espólio, para você ou quaisquer filhos que tenha. O que diz basicamente é que, se não o tiver, tampouco quer o dinheiro dele. Quer assinar isto?

Serena olhou para ela com ódio sem disfarce. A mulher pensara em tudo. Porém, desta feita, ela concordou.

— Sim, eu vou assinar, porque, se ele me deixar, não vou querer o dinheiro dele. Só quero a ele.

— Então, assine. — Não era o que queria, queria mesmo era se livrar da moça definitivamente, porém, se isto não era possível, pelo menos assim sabia que Brad estava protegido, e com o passar do tempo podia tentar influen­ciá-lo. Ele não podia ficar casado com esta moça para sempre, não importa o quanto fosse bonita. No momento era jovem, mas daqui a alguns anos ele se cansaria dela. E quem sabe, a essa altura, também já estivesse cansado do exér­cito. Não era tarde demais, afinal de contas, ele estava apenas com 34 anos. E nesse meio tempo, tinha Greg para cuidar. Podia esperar para que Brad se livrasse desta garota. Enquanto a observava, Serena assinou o documento com dedos trêmulos, e devolveu-o para a sogra. Logo depois Margaret Fullerton saía do quarto, mas antes de sair, virou-se para Serena com um ar de determi­nação. — Este documento é legal, Serena, você não vai conseguir derrubá-lo. Se não estiver mais casada com ele, quer seja divorciada ou viúva, não vai receber um tostão dele, ou de nós. Mesmo que ele queira lhe dar alguma coisa, eu terei isto, e o impedirei. Não pode arrancar nada dele, agora.

— Nunca quis fazer isso.

— Não acredito.

Com essas palavras, virou-se e fechou a porta.

Serena quase tropeçou até a cama, deitou-se nela, e mais uma vez, como na véspera, foi tomada pelos soluços que a sacudiram por inteiro, até que finalmente parou de chorar, de pura exaustão.

Quando Brad voltou da cidade, ficou horrorizado ao ver como Serena estava pálida e abatida, os olhos inchados de tanto chorar, e era evidente que se sentia muito mal.

— Coração, o que aconteceu?

Como já o fizera na véspera, ela resolveu não lhe contar nada. Parecia-lhe a traição final contar-lhe o que a mãe fizera. Era uma coisa entre ela e Margaret Fullerton. Jamais contaria a Brad.

— Não sei. Talvez seja a mudança da água ou do clima. Tenho me senti­do muito mal.

— Andou chorando? — perguntou, abalado.

— Só porque não me sentia bem. — Deu um sorriso desbotado para ele. Brad sacudiu a cabeça lentamente, consternado ao ver como se encon­trava abatida.

— Acho que devo chamar o médico.

— Não, Brad.

Cedeu à vontade dela, finalmente, mas ainda estava perturbado dali a meia hora, quando foi até a cozinha preparar-lhe uma xícara de chá, e encon­trou Teddy fazendo um sanduíche.

— Quer que faça um para você, também? — Brad fez que não, enquanto punha a chaleira no fogo. — O que foi?

— Estou preocupado com Serena. Não está com boa cara desde ontem à noite.

Teddy logo ficou com ar preocupado, também.

— Aconteceu alguma coisa, hoje?

— Não que eu saiba. Mas acabo de chegar do almoço e ela está com uma cara horrível. Parece que ficou chorando desde que saí, e está pálida e trêmu­la. — Sorriu encabulado para o irmão. — Ainda não entende o bastante disso para dar uma olhada nela e dizer alguma coisa, não é? Queria chamar o médi­co de mamãe, mas ela não quer nem ouvir falar nisso. Estou com medo que perca o bebê, ou coisa parecida.

— Ela sente eólicas?

— Não falou. Será que é por isso que está chorando? Talvez saiba que há alguma coisa errada e não quer me dizer. — Pareceu em pânico, de repente, en­quanto a água para o chá começava a ferver. — Vou chamar o médico.

— Vamos, fique calmo. — Teddy tirou a chaleira da mão dele e pousou-a de volta no fogão. — Por que não pergunta a ela primeiro? Descubra se está com cólicas, ou se perdeu algum sangue.

— Ah, Jesus. — Brad empalideceu, só de pensar nisso. — Se alguma coisa acontecesse com ela ou com o bebê...

Nem ousou terminar a frase, mas Teddy colocou a mão no seu braço.

— Nada vai acontecer a Serena, ou ao bebê, também, provavelmente. Portanto, pare de ficar todo nervoso. Por que não sobe para ver como ela está passando, e eu levo o chá daqui a um pouquinho. Certo?

Brad olhou para ele com uma afeição incomensurável.

— Sabe duma coisa, você ainda é melhor agora do que quando era crian­ça. Vai ser um médico e tanto, Teddy.

— Cale a boca. Está me deixando sem graça. Agora, vá lá cuidar da sua mulher. Eu já vou subir.

Porém, dali a alguns minutos, enquanto subia, Teddy se encontrou com a mãe no corredor.

— Para onde está indo? E tomando chá? Santo Deus, mas que novidade! — sorriu para ele, divertida.

— É para Serena; Brad falou que não está se sentindo bem. — Já ia fazer uma brincadeira, mas enquanto falava reparou no rosto da mãe. — Bom... — Resolveu não se demorar mais. — Eu lhe aviso se ela precisar de um médico.

— Faça isso.

Porém não fez uma só pergunta sobre como Serena estava passando.

Teddy bateu na porta do quarto deles, e Brad escancarou-a rapidamen­te e deu um passo para o lado.

— Algum problema?

Reparara na expressão dos olhos de Teddy, mas o irmão mais moço ape­nas sacudiu a cabeça e disfarçou a própria preocupação com um sorriso.

— Não. Nada. Como está ela?

— Melhor, acho. Talvez Serena tenha razão, é possível que esteja apenas exausta. — Baixou a voz, ela estava penteando o cabelo no banheiro. — Falou que não sente cólicas nem perdeu sangue, portanto talvez esteja bem. Mas, pu­xa, Teddy, eu podia jurar que passou a manhã toda chorando.

A conversa foi interrompida quando Serena saiu do banheiro, parecen­do radicalmente diferente do que há meia hora. O cabelo estava penteado, o rosto lavado, os olhos brilhantes, e sorria para Teddy, enrolada no robe de cetim rosa, com as pontas das chinelinhas cor-de-rosa aparecendo sob a bainha.

— Meu Deus, Serena, você está linda. — Beijou-a nas duas faces, segurou-lhe as mãos e sentou-se ao seu lado no pé da cama. — Brad falou que você não estava se sentindo lá essas coisas, mas me parece formidável. — E então, com um ar quase profissional que fez o irmão sorrir, lembrando-se de quando era um diabrete de nove anos quebrando as vidraças: — Está se sentindo bem, Se­rena? Nos deixou preocupados.

— Estou bem — falou, sacudindo a cabeça enfaticamente, mas mesmo enquanto falava os seus olhos iam se enchendo de lágrimas, e dali a um momento, como se não pudesse se conter, dirigiu-se para Brad e foi soluçar nos seus braços. Estava mortifícada por causa da cena que estava fazendo, mas não conseguia se controlar, e Brad olhou para o irmão, desesperado, por cima do ombro dela, até que finalmente os soluços cessaram e ela assoou o nariz no lenço que Teddy lhe entregou. Este deu uma palmadinha afetuosa na mão dela, com um sorriso, e fitou-a nos olhos quando se virou para ele.

— Isso acontece com todo o mundo, às vezes, sabe, Serena. Você teve muitas experiências novas nos últimos dias, conheceu muita gente nova, é muita coisa para enfrentar. Mesmo que não estivesse grávida, acho que a dei­xaria esgotada.

— Desculpe. — Sacudiu a cabeça e enxugou as lágrimas de novo. — Sin­to-me tão cretina.

— Não devia. — Teddy entregou-lhe a xícara de chá, depois ergueu os olhos para o irmão mais velho, inclinou a cabeça para o lado, e lançou-lhe um sorriso maroto. — Se eu prometer que não vou brincar de médico com ela, acha que podia nos deixar a sós por um minuto, mano? — Porém tinha um jeito tão cândido de pedir que não havia como Brad resistir-lhe. Concordou após um minuto, e saiu porta afora, prometendo estar de volta dali a alguns minutos com mais duas xícaras de chá. Teddy esperou até saber que o irmão estaria na escada, depois se voltou de novo para Serena. Segurou-lhe a mão e fitou-a nos olhos. — Quero lhe perguntar uma coisa, Serena, e quero saber a verdade. Juro que não vou contar ao Brad. — Já imaginava que, se o que esta­va suspeitando era verdade, ela não ia querer lhe contar. — Vai me contar a verdade?

Ela assentiu, lentamente. Não sentia necessidade de estar em guarda com Teddy. Mais ainda do que com Brad, a quem queria proteger.

— A minha mãe tem alguma coisa a ver com você estar desse jeito? — Ela hesitou e gaguejou e enrubesceu furiosamente enquanto soltava a mão da dele e começava a andar pelo quarto. Todos os seus gestos a entregaram ime­diatamente, enquanto ele a observava. — Ela veio vê-la hoje, Serena?

— Veio. — Virou-se para ele, rapidamente. — Mas só para ver como eu estava me sentindo, antes de sair para almoçar fora.

Ela estava fazendo o mesmo jogo da mãe dele, e Teddy sabia, mas resol­veu pagar para ver.

— Ela não foi almoçar fora hoje, Serena. E me disse que não a tinha visto. Portanto, as duas estão mentindo. — Olhou para ela, significativamente, mas sem acusação. — Por quê?

Era uma pergunta simples e franca, e quando viu a expressão dos olhos dele, ela começou a chorar de novo.

— Não posso lhe dizer.

— Já falei que não vou contar a Brad.

— Mas não posso... seria...

Ela se sentou na cama e começou a soluçar de novo, e desta feita foi Teddy quem a tomou nos braços. Era tão macia e quente e delicada, de encontro a ele, que quase ficou sem fôlego ao abraçá-la. Por um momento louco teve vontade de dizer-lhe que a amava, mas lembrou-se prontamente que não era por este motivo que a tinha nos braços.

— Serena... conte-me...juro que vou ajudá-la. Mas preciso saber.

— Não há nada que você possa fazer. É só que... — Fez uma pausa, e depois botou tudo para fora: — Ela me odeia.

— Que ridículo. — Sorriu, com o rosto encostado no cabelo dela. — Por que pensa assim?

E então, sem motivo algum exceto que confiava nele, ela resolveu lhe contar sobre o confronto das duas na véspera, o terrível contrato e, finalmen­te, o documento que assinara.

— Você assinou? Ela fez que sim.

— Assinei. E que diferença faz? Se ele me deixar, não quero mesmo o dinheiro dele. Eu mesma cuidarei do bebê.

— Ah, Serena. — Ele a abraçou. — Mas isso é uma loucura. Você teria o direito de receber uma pensão para si e a criança. E se ele morrer... — Sere­na o interrompeu com os olhos. Não queria nem ouvir falar nisso. Teddy queria apenas aliviar a sua dor. — Jamais deixaria você e o bebê desamparados. Mas que coisa nojenta de se fazer. — Fitou Serena com ar infeliz. — Bem-vin­da à família, meu bem. Uma delícia, não é? Santo Cristo. — Olhou para ela de novo e depois a abraçou. — Pobrezinha. — E então, com uma expressão séria nos olhos, fitou-a meigamente com um estranho sorriso. — Se alguma coisa acontecer a ele, Serena, e não tiver feito testamento, eu cuidarei de você e dos seus filhos, prometo.

— Não seja bobo... — E então, com um pequeno estremecimento: — Não fale nisso. — Olhou para ele ternamente. — Mas, obrigada.

— Mas acho que devia contar a Brad.

— Não posso.

— Por que não?

— Ficaria furioso com a mãe.

— E deveria ficar, mesmo.

Ela balançou a cabeça de novo.

— Não posso fazer isso com nenhum dos dois.

— Você está maluca, Serena. Ela merece. Foi uma coisa nojenta e doen­tia de se fazer.

Mas não teve chance de ir adiante. Brad acabara de abrir a porta e vi­nha entrando com uma bandeja com três xícaras de chá.

— Como vai a minha mulher? Está melhor?

— Muito — respondeu ela, antes que Teddy pudesse fazê-lo. — E o seu irmão vai ser um excelente médico. Tomou o meu pulso e simplesmente com base nisso me disse que eu estava grávida.

— Qual é o prognóstico?

— Pelo menos gêmeos. Possivelmente trigêmeos.

Porém Brad podia notar que o irmão ainda estava preocupado, e a despeito de toda a sua bravata e alegria forçadas, era evidente que Serena ainda estava perturbada. Dali a um momento, quando ela foi ao banheiro, ele olhou para Teddy.

— Como é? Acha que devo chamar o médico?

— Sabe o que acho? Acho que no minuto que Greg se casar com aquela vaca, amanhã, vocês dois devem dar logo o fora de Nova York e ir para um lu­gar saudável e bonito, e descansar. Ela passou por um bocado, para chegar aqui, pelo que você falou e pelo que deduzi do que ela disse. Tire-a de Nova York, afaste-a da família, e vá relaxar com ela nalgum lugar antes de se insta­lar em San Francisco.

Brad parecia perisativo.

— Pode ser uma boa idéia, Teddy. Vou pensar no assunto.

— Não pense. Aja. E meu outro conselho é não deixá-la aqui sozinha nem um segundo.

— Quer dizer aqui em Nova York? — exclamou Brad, surpreso.

— Quero dizer até mesmo neste apartamento. Ela precisa de você a cada minuto. Está num país estranho, com gente estranha, e está mais assus­tada do que deixa transparecer. Além disso, está grávida, o que é emocionalmente difícil para algumas mulheres, no começo. Fique ao lado dela, Brad. O tempo todo. Acho que foi o que aconteceu, hoje. Ela ficou nervosa, e vo­cê não estava por perto para socorrê-la.

Não parecia uma coisa normal, para Serena, mas Brad estava disposto a aceitar. Ela sem dúvida desabara radicalmente esta manhã, na ausência dele, e não havia outra explicação.

— O que vocês dois estão tramando?

Serena apareceu de novo com um olhar de desconfiança dirigido a Teddy, mas pela expressão dos seus olhos e pela calma evidente no rosto de Brad, soube que ele não a havia atraiçoado.

— Estava dizendo ao seu marido para levá-la numa lua-de-mel imediatamente, como por exemplo, amanhã.

— Acho que não tenho mais direito.

Olhou para a barriga e fingiu fazer biquinho e o marido puxou-a para si e a sentou no colo.

— Vai ter direito a uma lua-de-mel comigo pelos próximos noventa anos, moça. Gostaria disso? Achei que Teddy teve uma boa idéia.

Ela anuiu, lentamente.

— Não quer ficar aqui? — perguntou, com ar pensativo, e ele meneou a cabeça.

— Acho que os dois já estaremos fartos, depois do casamento.

— Por que não pensa um pouco antes de decidir?

Mas Teddy se intrometeu na conversa, olhando diretamente para Serena.

— Acho que não é bom para você ficar aqui, Serena. Precisa de ar puro e descanso, e não vai consegui-los em Nova York. Como é? Vão?

Olhou para ambos, e Brad riu.

— Puxa, parece até que você está tentando nos tirar daqui.

— E estou. Uns amigos meus vão chegar de fora na semana que vem e eu preciso do quarto de hóspedes — sorriu, maliciosamente.

— Para onde iremos, Serena? Canadá? Grand Canyon? Denver, a cami­nho do Oeste?

Nada daquilo era familiar para Serena, mas Teddy olhou pensativo para Brad.

— Que tal Aspen? Passei algumas semanas ali, visitando um amigo no verão passado, e é fabuloso. Vocês podiam seguir de carro, desde Denver.

— Vou verificar. — Brad olhou para a mulher. — Agora, vamos acertar mais uma coisa. Quero que fique na cama hoje à noite, e falte ao jantar do ensaio.

— Não. — Sacudiu a cabeça mansamente. — Vou com você.

— Ela não devia ficar na cama?

Mais uma vez o irmão mais velho se virou para o mais novo, e ambos acharam divertido.

— Ainda não sou médico, B.J., mas não creio que tenha que ficar. — Olhou suavemente para Serena. — Mas pode ser muito mais sensato.

Sabia que ela saberia ao que estava se referindo. Porém, de repente, Serena soube que não entregaria outra batalha àquela mulher. Tinha conseguido que ela assinasse ao menos um dos seus documentos, e estava confian­te de que Serena não ia deixar Brad e tentar fugir com a fortuna da família, mas, quanto ao resto, não seria derrotada de novo. Se a odiavam, teria que aprender a viver com isso. Mas não seria desprezada nem forçada a ficar no quarto como um ratinho infeliz rejeitado por todos. Pensavam que ela era uma vagabunda e uma meretriz e uma empregada e sabe lá Deus o que mais, e se ela não aparecesse, todos iriam pensar que Brad sentia vergonha dela. Ao invés disso, ela iria e ficaria ao lado dele e faria com que todos o fitassem com inveja. Os seus olhos dançavam, ao pensar nisto, e olhou para o marido e o cunhado com uma expressão que combinava a malícia com a altivez.

— Cavalheiros, eu vou.

 

Quando Serena desceu as escadas do apartamento antes do jantar do ensaio, era fácil acreditar que era uma princesa. Por uma fração de segundo, até a sogra ficou ligeiramente admirada. Ela usava um vestido de seda branca tremeluzente, tecido com fios dourados, de um ombro só, que caía numa cas­cata suave de dobras cintilantes. O vestido caía direto dos ombros até os pés, e não deixava ver a cintura dilatada. Parecia uma deusa, parada ao lado do marido, com uma flor branca no cabelo, sandálias douradas nos pés, e o belo rosto maquiado à perfeição.

Teddy soltou um assobio, e até mesmo Greg pareceu aturdido.

O grupo se retirou poucos minutos após ter se reunido no saguão de entrada, os três irmãos, os pais e Serena. Pattie e os pais iam encontrá-los no clube, onde fora reservada uma sala particular para o jantar do ensaio.

A mãe do noivo estava usando um vestido longo de cetim vermelho com uma capinha do mesmo tecido, que encomendara em Dior, e o seu cabelo branco fazia com ele um contraste espantoso, enquanto entrava no car­ro, ladeada por Greg e Teddy. O marido preferiu se sentar numa das cadeirinhas da limusine, e Brad e Serena se sentaram na frente, o que ao menos man­tinha Serena longe de Margaret; isto deixava Teddy satisfeito, pois a sua idéia, desde o princípio era que isso acontecesse. Prometera a si mesmo fazer todo o possível para tornar a noite suportável para Serena. Já que o marido desco­nhecia a agonia que a mãe dele lhe causara, o mínimo que Teddy podia fazer era estar ao seu lado. Serena sentiu-se profundamente grata a ele, mais uma vez, enquanto seus olhos se encontravam, e ela se dava conta de que ele com­preendia e que não iria atraiçoá-la. Era extraordinário saber que o conhecera somente na véspera, e que já eram tão amigos. Era como se fosse seu irmão, também, e sempre tivesse sido. Ela lançou um olhar para o banco de trás, e chamou a atenção de Teddy, que abriu um sorriso para ela.

— Flertando com o meu irmão? — murmurou Brad ao seu ouvido, no banco da frente, e ela sacudiu a cabeça com um sorrisinho.

— Não. Mas é como se eu tivesse um irmão de verdade.

— Ele é um bom garoto.

— E você também é — retrucou, abrindo um sorriso para ele, que a beijou ternamente na ponta do nariz, enquanto ela se perguntava se a mãe dele os estaria observando. Era estranho, e desagradável, imaginar-se sendo sempre observada, sempre odiada, sempre antipatizada, mesmo depois de ter assina­do um daqueles documentos. Era incrível pensar que aquela mulher tentara realmente conseguir que ela assinasse um papel no qual desistia não apenas do marido, mas do filho. Fechou-se novamente, ao pensar nisso. Brad logo per­guntou:

— Está se sentindo bem?

— Estou bem. Não precisa se preocupar. Estarei bem esta noite.

— Como sabe? — indagou, implicando apenas parcialmente.

— Porque você está aqui.

— Então tomarei providências para estar do seu lado a cada minuto.

Porém, no decorrer da noite, não foi possível fazer isso. A mãe coloca­ra-o à mesa com o resto do grupo que participaria do cortejo nupcial, e, já que era o padrinho, estava sentado à esquerda de Pattie; Teddy também esta­va à mesma mesa. Serena fora colocada a uma mesa em que se sentavam diver­sos casais mais velhos e várias moças feiosas, que se conheciam há anos e pra­ticamente não dirigiram a palavra a Serena. E ela nem mesmo podia enxergar Brad e Teddy, de onde se sentava. Sentia como se estivesse perdida no meio de estranhos e, no seu lugar, Brad sentia exatamente a mesma coisa. Estava particularmente irritado com a disposição dos lugares à mesa, que fora feita pela mãe. Sentá-lo ao lado de Pattie parecia uma coisa muito sem tato, porém, tradicionalmente, já que era o padrinho, ninguém podia criticar a sua colocação ao lado da noiva. A madrinha estava sentada ao lado de Greg, e todas as outras moças e rapazes que participariam do cortejo ocupavam o resto da mesa. No seu todo, foi uma noite muito festiva, e Brad conversou bastante com a moça à sua esquerda, uma ruiva alta que estudara com Pattie em Vassar, e que acaba­va de voltar de uma longa temporada com amigos em Paris, portanto ao me­nos tinham algo em comum para tópico de conversa. Ela também passara vá­rios anos em San Francisco, quando criança; sendo assim, conhecia a cidade, e pôde lhe dizer algumas coisas que achava que ele precisaria saber antes de se mudar para lá, como, por exemplo, as partes da cidade onde havia mais ou menos neblina, para o caso de não querer ficar morando na base, lugares ideais para se passar um dia na praia, locais onde fazer pescaria, parques favo­ritos, lugares maravilhosos para se levar as crianças. A conversa não era muito séria, mas serviu para terem assunto e para evitar que tivesse que falar com Pattie, até que ele se viu de repente sozinho com ela, logo depois que as dan­ças tiveram início, já que a ruiva fora tirada para dançar pelo rapaz à sua esquerda, e Greg levara a madrinha para o salão. Aquilo deixou Brad sozinho ao lado de Pattie, com quase todo o resto da mesa no salão de danças, e de repente a situação ficou muito constrangedora.

Olhou para a sua direita, e notou que ela o fitava. Lançou-lhe um sor­riso meio sem graça, tentando não pensar no que acontecera em Roma.

— Parece que fomos abandonados.

Era uma coisa tola de se dizer, porém ele não conseguia imaginar que outro assunto abordar. Ela virou para ele o rostinho em forma de coração, a boca fazendo o "biquinho" familiar.

— Isso o incomoda, Brad?

— Não.

O que era uma mentira descarada. Estava achando terrivelmente constrangedor.

Pattie ficou ali sentada como se estivesse esperando alguma coisa da par­te dele, como um beijo ou um braço ao redor dos ombros. Todos sabiam que no ano passado tinham sido noivos, e agora ela estava para se casar com o irmão dele, e estavam sentados à mesa principal, sozinhos, lado a lado. Todos deviam estar se perguntando o que estariam conversando.

— Não quer dançar, Brad? — Olhou para ele com petulância, e Brad enrubesceu e concordou rapidamente.

— Claro, Pattie. Por que não?

Pelo menos não estava fazendo uma cena ou lembrando-lhe do que se passara entre eles. Ele se pôs de pé, tomou-lhe a mão, e foram para o salão dançar um merengue. Ela era uma dançarina exímia, e Brad se lembrou repen­tinamente das noites no Stork Qub, quando ele estava de licença, e um pouco tonto com a excitação que Pattie lhe provocava. — Era uma garota danada de bonita, mas num estilo completamente diverso de Serena. Esta possuía elegân­cia e graça, um rosto que fazia as pessoas se virarem, e um tipo de beleza perfeita de tirar o fôlego. Pattie tinha um jeito fogoso e sensual, até que se a co­nhecia direito, e então se ficava sabendo que sob os maneirismos provocantes existia um coração de gelo. Mas, de qualquer modo, era uma boa dançarina e estava para se tornar sua cunhada, portanto ele aproveitava ao máximo os momentos na pista. Do merengue passou-se para um samba, daí para um fox-trote, deste para uma valsa, e ninguém trocou de par, portanto Brad fez o mesmo. Permaneceu na pista com ela, para alegria da moça, e quando a val­sa se transformou em tango, continuaram dançando, até que Pattie olhou para ele com o seu sorriso de boneca, abanando o rosto com a mão.

— Não está morrendo de calor?

— Estou quase chegando lá.

— Quer tomar um pouco de ar?

Ele hesitou apenas uma fração de segundo, e depois achou que estava sendo desnecessariamente descortês. O que havia de errado em ir tomar um pouco de ar, afinal de contas?

— Claro.

Deu uma olhada pelo salão de danças, procurando Serena, mas não a encontrou. Então, saiu com Pattie da sala de jantar particular, e desceram a escada até a rua, onde o ar de junho era quase tão quente e pesado quanto no salão.

— Tinha me esquecido de como você dança bem.

Olhou para ela enquanto tirava um cigarro da cigarreira de ouro; Pattie olhou para ela, depois rapidamente para o rosto dele.

— Há muita coisa a meu respeito que você esqueceu, Brad. — Ele não deu resposta, e ela pegou o cigarro que ele acendera, deu uma longa baforada, depois recolocou-o entre os lábios dele, manchado pelo batom cor de ce­reja que usava. — Ainda não entendo o que fez. Quero dizer, por quê? — Olhou-o frontalmente e ele se arrependeu de terem saído para tomar ar. — Fez só para me sacanear? Foi isso? Quero dizer, por que ela? Pode ser boni­ta, mas não é nada. E por quanto tempo vai querê-la, Brad? Um ano? Dois? E depois, quando vir que estragou a vida por causa daquela meretriz?

Ele já estava entrando, mas parou de chofre ante as palavras dela, e sua voz era um gelo quando falou com ela.

— Nunca mais me diga uma coisa dessas, sua vaca. De amanhã em dian­te, por bem ou por mal, seremos parentes. Você vai ser a mulher do meu ir­mão, e ainda não sei o que isso significa para você, mas da minha parte signi­fica que vou fazer o máximo possível para respeitá-la. — Soltou a fumaça do cigarro lentamente, e olhou para ela com desprazer. — Isto, contudo, vai ser um desafio e tanto.

— Você não respondeu à minha pergunta. — Parecia zangada, de repen­te, e o biquinho se transformara numa careta. — Por que se casou com ela, Brad?

— Porque a amo. Porque é uma mulher notável. Porque é especial. E, que diabo, o que você tem a ver com isso? — Não tinha que explicar nada para Pattie. — Por falar nisso, posso lhe fazer a mesma pergunta. Ou, mais precisa­mente, você ama o Greg, Pattie?

— Eu me casaria com ele se não o amasse?

— É uma pergunta interessante. Pode tentar responder a ela, também. Ou será que é apenas o nome da família que lhe interessa, e um Fullerton ser­ve tanto quanto o outro. Teddy era o próximo da fila?

De repente, ele se deu conta de que a odiava. Ela era mimada, estridente e malvada, e ficou se perguntando como chegara a pensar em casar com ela.

— Você é um filho da puta, sabia?

Estreitou os olhos e ficou olhando para ele como se estivesse com vontade de esbofeteá-lo.

— É só o que você merece, Pattie. Pode apostar que não merece o meu irmão.

— É aí que se engana. Vou fazer alguma coisa dele. Agora, é um nada. — Por um instante horrível, ela parecia a mãe dele falando.

— Que diabo, por que não o deixa em paz? — Os olhos de Brad soltavam chamas. — Ele é um sujeito decente. E está feliz sendo como é.

Será que estava mesmo? Viveria bêbado se fosse feliz?

— Greg precisa de orientação.

— Em que direção? Na de uma carreira política que não deseja? Por que não fica em casa e tem filhos, ao invés de ficar pressionando o rapaz?

Porém, ante as suas palavras, algo de terrível aconteceu ao rosto de Pat­tie e ela ficou pálida.

— Isso não está nas cartas.

— Por que não? — perguntou Brad, observando-lhe os olhos, e havia ne­les algo de estranho que não estava entendendo.

— O seu irmão não pode ter filhos, Brad. Teve sífilis quando estava na universidade, e agora é estéril.

Brad ficou calado por um longo momento, de choque.

— Está falando sério?

— Estou. — Havia algo de profundamente infeliz nos olhos dela. — Mas ele só se deu ao trabalho de me contar no mês passado, quando todo mundo já sabia que estávamos noivos. E ele sabia que eu não ia passar por outro noivado rompido. Imagine. — Deu uma risadinha amarga. — Todo mundo na cidade ia estourar de rir, pobrezinha da Pattie Atherton, levou o fora de mais um Fullerton.

— Não é a mesma coisa... — Brad estendeu a mão e tocou-lhe o braço. — Sinto muito, Pattie. Ele lhe devia ter contado antes. Foi uma coisa nojenta.

— Eu também achei. — E, numa voz macia e distante: — Ele vai acabar pagando por isso.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Brad, chocado.

— Não sei — falou, dando de ombros. E depois ergueu os olhos para Brad com um sorriso sombrio. — Queria casar com ele para me vingar de você. Acho que se podia dizer que eu o usei. Mas o gozado é que ele me usou. Riu por último. Conseguiu que eu aceitasse casar com ele, e depois me disse que era estéril, um mês antes do casamento.

— Você se teria casado com ele, se tivesse sabido?

Sacudiu a cabeça:

— Não. Acho que ele sabia. Foi por isso que não me contou.

Brad estava com ar pensativo, olhando para esta mulher que pensara conhecer, mas que agora via que absolutamente não conhecia. Era manipuladora e vingativa, e no entanto também tinha as suas vulnerabilidades... ne­cessidades que a instigavam a ferir os outros. Sentiu uma pena profunda do irmão. Ao seu modo, ela ainda era muito pior do que a mãe deles.

— Foi errado da parte de Greg esconder isso de você. — Ficou espantado ao ver este lado da personalidade do irmão mais moço. — Quem sabe no final isso seja até uma boa coisa. Vocês poderão devotar-se um ao outro.

Ela não respondeu a princípio.

— Não teria importância para você que a sua mulher não pudesse ter filhos, Brad?

— Não se eu a amasse realmente.

— Mas ela pode, não é?

Hesitou por um longo momento, depois achou melhor contar-lhe logo. Ela ia mesmo descobrir, e ele queria ser sincero.

— Serena está grávida, Pattie.

Porém, mal terminou de pronunciar as palavras, soube que tinha cometido um erro, nos olhos dela havia uma expressão de maldade quase assusta­dora.

— Emprenhou-a bem rapidinho, não foi? Foi por isso que se casou com ela?

Se fosse, talvez ela se sentisse melhor. Quem sabe ele tivera que se casar com ela... Mas a sua esperança morreu no nascedouro.

— Não, não foi.

Fitou-a frontalmente, e depois de um longo silêncio ela girou nos calcanhares e se afastou. Dali a um momento Brad voltou para dentro e quase que imediatamente se encontrou com Greg.

— Onde está Pattie?

Havia um ar de desconfiança nervosa nos olhos dele, e era óbvio que estava bêbado de novo, enquanto caía ligeiramente na direção do irmão.

— Está por aí. Saímos para tomar um pouco de ar, e ela acabou de entrar. Quem sabe está no toalete?

Greg fitou Brad.

— Ela odeia você.

Brad anuiu, lentamente, observando os olhos de Greg, e pela primeira vez deu-se conta de quão pouco o conhecia.

— Ela não servia para mim, Greg, eu teria terminado de qualquer maneira, quando voltasse, mesmo que não tivesse conhecido Serena. — Agora esta­va certo disto. — Teríamos feito um ao outro infelizes. — Mas não estava cer­to de que ela e Greg se sairiam melhor. — Está feliz, Greg?

Queria dizer-lhe que não era tarde demais para mudar de idéia, que seria melhor para ele, mas não tinha certeza se devia fazê-lo.

— Porra, estou, por que não? — Mas não parecia um homem feliz. — Ela vai me manter sempre alerta. — Por um momento, lançou um olhar malévolo ao irmão. Havia inveja nos olhos dele, também, até mais do que vira nos de Pattie. — Ela é um estouro na cama, mas você sabe disso, não é? Ou será que se esqueceu?

— Nunca soube.

Pareceu a única coisa que podia dizer, enquanto se crispava ante o comentário do irmão.

— Besteira. Ela me contou.

— Foi? Quem sabe falou só para deixá-lo com ciúmes?

Greg deu de ombros, como se não se importasse, mas era evidente que se importava. A vida inteira ocupara posição secundária, em relação aos irmãos. Sabia o que era, e o que não era.

— Não estou nem ligando. As virgens são uma merda. Não gostava delas nem quando estava na faculdade.

— Aparentemente.

Brad teve vontade de morder fora a língua, pelo que acabara de dizer, e seus olhos instantaneamente se encontraram com os de Greg.

— Ela lhe contou, não foi? A vaca. Porra, por que teve que lhe contar?

— Você devia ter contado a ela antes.

Foi quase uma reprimenda paternal.

— E quem sabe você devia ir cuidar da sua vida. Não me parece que este­ja fazendo isso assim tão bem, Brad, casando-se com aquela boazuda italiana. Porra, esperava que fosse esperto o bastante para comer e largar.

— Pare com isso, Greg! — A voz de Brad era baixa e áspera.

— Paro uma ova. Se você tivesse feito o que mamãe esperava de você, ela não estaria no meu pêlo. Você estaria na política, que é o seu lugar, e eu poderia fazer o que quisesse. Mas não, o irmãozão teve que bancar o indepen­dente e deixar o abacaxi na minha mão. E eu, como fico? De saco cheio e com um revólver encostado na cabeça. Agora, sou a esperança do coração deles, e tenho que corresponder a todas as expectativas. Me parece que você se safou com muita facilidade, como sempre. — Parecia mais bêbado do que antes, e infinitamente mais amargo.

— Não precisa fazer o que eles querem. Pode fazer o que lhe agradar, puta que o pariu. — Brad sentiu pena dele. E ao mesmo tempo sabia que Greg não tinha coragem de enfrentar a mãe deles, ou Pattie.

— Posso, porra nenhuma. E agora também há a Pattie. Ela espera que eu vá trabalhar para o pai dela.

— Se não quer, não vá.

Greg olhou para ele com um ar de divertimento amargo, e o seu rosto se abriu num sorriso gélido.

— Palavras corajosas, Brad. Só há um problema.

— Qual é?

— Não sou um homem corajoso. — A seguir, se afastou, deixando Brad com uma pena desesperada dele.

 

Na manhã seguinte Serena desceu pé ante pé para fazer uma xícara de chá para si mesma e pegar uma de café para Brad, e encontrou a sogra na cozi­nha, vestindo um roupão de cetim azul.

— Bom dia, Serena.

Falou tão gelidamente que foi pior do que se a tivesse ignorado completamente, e Serena sentiu-se instantaneamente rejeitada e sem graça.

— Bom dia, Sra. Fullerton. Dormiu bem?

— Relativamente. — Fitou Serena e não lhe fez a mesma pergunta. Os seus olhos eram calculistas, e muito, muito frios. — Estive pensando que seria melhor se você dissesse que está doente, hoje, e não fosse ao casamento. Tem a desculpa perfeita à sua disposição.

Estava se referindo ao bebê, naturalmente. Mas Serena ficou chocada. Não tinha o menor desejo de ir ao casamento, mas sabia que causaria falatório, se não fosse.

— Não sei se Brad...

— Claro que a decisão é sua. Mas, no seu lugar, acho que devia ficar satisfeita de poupar a si mesma o embaraço. Hoje é o dia de Pattie, afinal de contas, você podia pensar nisso, e não lhe causar mais sofrimentos do que já causou.

Serena teve vontade de chorar, mas meneou a cabeça, em silêncio.

— Vou pensar no assunto.

— Pois pense.

Com estas palavras, saiu da cozinha. Os criados estavam ocupados noutra parte, e Serena sentou-se numa cadeira e assoou baixinho o nariz. Depois que se controlou, serviu o café de Brad, preparou o seu chá, botou as duas xícaras na bandeja e subiu lentamente a escada, tentando decidir o que fazer, e quando chegou ao quarto deles, já sabia que não tinha escolha. Se a sogra queria que ficasse ausente do casamento, não compareceria. Talvez fosse mesmo o melhor.

Enquanto entrava no quarto com a bandeja, soltou um pequeno suspi­ro, e Brad ergueu os olhos, ao escutá-la.

— Algum problema, amor?

— Não... Eu... estou com uma dor de cabeça terrível.

— Está? — Ficou instantaneamente preocupado. — Por que não se deita? Deve ter sido toda aquela dança de ontem à noite.

Serena sorriu paia ele.

— Não é isso. Estou somente cansada. — E depois, deitando-se na cama, olhou para ele. — Sabe, sinto-me péssima de dizer isto, Brad, mas... acho que não devo ir.

— Sente-se assim tão mal? — Ficou surpreso, de manhã ela nem estava pálida, e tinha bebido o chá muito depressa, coisa que não fazia, ele reparara, quando não estava se sentindo bem. — Quer que chame o médico?

— Não. — Sentou-se na cama e o beijou. — Acha que o seu irmão me perdoará?

— Sim; se você quer ficar em casa, não vou insistir.

— Obrigada.

Dali a um pouco ficou olhando enquanto ele se vestia, e o coração lhe pesava no peito, não pelo que ia perder, mas por causa do motivo. Margaret Fullerton sentia vergonha dela e queria fazer todo o possível para mantê-la afastada. Aquilo fazia Serena sentir-se deslocada e indesejada. Não importa o quanto Brad a amasse, doía-lhe que a sua família não a aceitasse.

— Você está bem, amor?

Olhou para ela, deitada na cama, enquanto punha a cartola e calçava as luvas. Estava muito atraente de fraque e calças listradas, cartola e luvas cinzentas. Ia ser um casamento muito elegante, e Serena sentiu pena, de repente, de não poder ir. Teddy bateu à porta pouco depois, usando o mesmo traje e segurando um raminho de lírio-do-vale para Brad botar na lapela.

— Vão pensar que sou o noivo, não posso usar isto — falou, fazendo uma careta.

— Não vão, não, o dele é maior. — E então fez uma cara de espanto, olhando de Serena para Brad, e depois deste para a cama. — O que foi, você não vai?

— Não me sinto ben.

— Também não se sentia bem ontem à noite, e foi. O que aconteceu hoje?

Ficou instantaneamente desconfiado. Era como se tivesse antenas ligadas para a mais sutil das mentiras, especialmente aquelas que se relacionavam com a mãe.

— Sinto-me pior.

Porém falou com naturalidade demais, enquanto se sentava na cama e cruzava os braços.

— Não acredito. — Olhou para Brad. — Vocês dois tiveram uma briga?

— Que diabo, não. Serena só falou que não se sentia com disposição de ir, e eu não quis forçá-la.

— Por que não? — sorriu Teddy, enquanto se sentava na cama ao lado dela. — Está mesmo doente, Serena?

Ela fez que sim.

— De verdade.

— Que pena. Vamos sentir a sua falta. — Mas, enquanto ele falava, duas grossas lágrimas escorreram dos olhos dela. Sentia-se rejeitada de novo, e que­ria tanto ir com eles. Se a Sra. Fullerton não tivesse sido tão áspera com ela! Achava mesmo que não podia ir. Era como se não devesse ir, se tivesse algum decoro, ou respeito pela sogra. — O que foi?

Teddy a fitava com olhos perscrutadores e ela sacudiu a cabeça, tentando não chorar, sem êxito.

— Ah, detesto estar grávida, não faço outra coisa senão chorar!

Riu de si mesma, e Brad se aproximou para acariciar o cabelo louro e macio espalhado no travesseiro.

— Descanse bastante, hoje, e eu volto logo que puder.

Saiu do quarto, a seguir, para ver o irmão. Greg estava se vestindo, todo nervoso, no seu quarto, descendo o corredor. Há anos que tinha o seu próprio apartamento, mas na sua última noite de solteiro resolvera voltar para a casa e dormir no antigo quarto. Sabia que, dessa maneira, não importa o porre que tomasse na véspera, não lhe seria permitido perder a hora no dia do seu casa­mento.

Porém, tão logo Brad saiu do quarto, Teddy estreitou os olhos e a fitou.

— O que foi que realmente aconteceu?

— Nada — retrucou, mas sem olhar para ele, e Teddy soube que havia algo errado.

— Não minta para mim, Serena. Por que não quer ir?

Era incrível o modo como este homem conseguia fazê-la falar, e o quanto confiava nele. Contava-lhe coisas que nem mesmo contava a Brad. Mas sa­bia que ele guardara segredo na véspera, e assim se soltou, enquanto os seus olhos ficavam cheios de lágrimas de novo.

— A sua mãe acha que não devo ir. Mas não diga a Brad. Não quero que ele saiba.

— Ela lhe disse isso?

— Disse que seria uma maldade com Pattie, e que se eu tivesse um pingo de decência não iria, já tinha feito o bastante para Pattie.

Serena estava com ar pesaroso, e Teddy quase saltou da cama.

— Quanta merda. Porra, Serena, se você não se impuser, a minha mãe vai mandar em você pelo resto da vida. Não pode deixar que isso aconteça!

— Não faz mal. Ela não me quer presente. Acho que tem medo que eu vá envergonhar todos vocês.

— Serena. — Teddy olhou para ela significativamente. — Todo mundo ontem à noite queria saber quem você era, quero dizer, quem você realmente era. O papo no restaurante era que você era uma principessa, o que deve ter deixado mamãe aborrecidíssima. Toda aquela baboseira de você ser uma maria-ninguém, e empregada de alguém, ninguém mais vai acreditar nessa bosta, depois de ontem à noite. Você se parece integralmente com que é: uma dama bela e aristocrática. Não sei que diabo está dando na minha mãe, exceto que Brad fez algo que queria e tomou a sua própria decisão. Mas, se o que ela que­ria era Pattie Atherton como nora, também já conseguiu. Um dia desses ela vai superar essa antipatia que sente por você, Serena, mas você não pode ficar cedendo o tempo todo, até que isto aconteça. O que ela fez com você ontem é não apenas escandaloso, mas imoral, e a verdade é que Brad devia saber, mas se você insiste, então eu não vou contar. Mas o que ela está fazendo hoje é a última gota, que diabo, é indecente. — Apenas por um momento passou pela cabeça dele que a mãe estava com ciúme. Quem sabe não conseguia suportar tudo o que Serena era, e que Brad a encontrara por si mesmo, casara com ela e pretendia ficar com ela. Quem sabe só queria perdê-lo para alguém que pudesse manipular, uma garota que poderia dominar, coisa que pensava faria com Pattie. — Mas não pode deixar que ela continue fazendo essas coisas com você, droga. Não é direito.

— O que não é direito? — Brad apareceu à porta, olhando para os dois, e havia uma repentina tensão no rosto dele, enquanto examinava os olhos de ambos. — Há alguma coisa que não estão me contando, e não gosto de segre­dos na minha família. — Olhou para a mulher. — O que foi, Serena? — Serena desviou o olhar. Ele ergueu a mão. — Nada de lágrimas, desta feita. Quero que me conte.

Mas ela não podia, e não ia contar. Foi Teddy quem falou primeiro.

— Ela não quer lhe contar, Brad, mas acho que deve saber.

Serena quase pulou da cama em cima dele, os braços estendidos como se pudesse detê-lo, porém ele acabara de lhe dizer alguma coisa com os olhos. Instintivamente, ela quase gritou:

— Não!

— Vou contar a ele, Serena — disse Teddy, mansamente, e Serena desa­tou a chorar.

— Pelo amor de Deus, o que é? — O melodrama deles o estava deixando extremamente nervoso, e já estava perturbado. Acabava de chegar do quarto de Greg, que ficara tão bêbado na véspera que o mordomo ainda estava ten­tando reanimá-lo. — Que diabo está acontecendo?

Teddy se levantou e olhou-o de frente.

— Mamãe não quer que Serena vá ao casamento.

Serena parecia que tinha tomado um choque elétrico, e o marido pare­cia ter estado na outra extremidade da corrente elétrica.

— Mamãe o quê? Está maluco?

— Não. Teve o desplante de dizer a Serena que ela deve a Pattie não es­tar presente. Serena se encontrou com ela na cozinha, e ela sugeriu a Serena que ficasse diplomaticamente doente e não fosse ao casamento.

— Isto é verdade? — Olhou para a mulher, escandalizado e ofendido, enquanto ela fazia que sim. Dirigiu-se para a cama e ela pôde ver que ele esta­va tremendo. — Por que não me contou?

— Não queria que ficasse zangado com a sua mãe.

A voz dela tremia, e era evidente que lutava contra as lágrimas.

— Jamais faça isso de novo! Se alguém lhe disser uma coisa dessas de novo, quero saber! Fui claro? — Brad parecia a um só tempo aflito e pensativo. Ficou parado por um longo momento, depois apontou para o irmão. — Saia daqui, Teddy. — E apontou para a mulher. — E você saia da cama. Não quero saber o que vai usar, mas quero-a vestida daqui a dez minutos.

— Mas, Brad... não posso... a sua...

— Nem uma só palavra! — Desta vez, ele gritou. — Sou o padrinho de casamento do meu irmão, e você é a minha mulher. Está claro? Está me entendendo? É a minha mulher, e isto quer dizer que vai a todo o lugar que eu vou, e que é aceita pelas mesmas pessoas que me amam e me aceitam, o que quer dizer meus amigos, ou a minha família, ou as pessoas com quem traba­lho. E se alguém não a aceitar, e nem for cortês como você merece, eu que­ro saber. Imediatamente, da próxima vez. Não graças à gentileza do meu ir­mão. Está claro, Serena?

— Está — murmurou baixinho.

— Ótimo. Porque quero que isto fique claro para você, e para a minha mãe, e para Pattie e Greg, e para qualquer um que pareça não entender. Agora vou explicar para a minha mãe, e enquanto eu o estiver fazendo, trate de se arrancar desta cama e enfiar a roupa que pretendia vestir para essa maldita far­sa de casamento. E nunca mais faça isso de novo. Nunca finja estar doente, ou me esconda qualquer coisa. Conte para mim. Está claro? — Ela fez que sim, e ele se dirigiu para ela, tomou-a rudemente nos braços e a beijou. — Eu a amo tanto, droga. Não quero que ninguém a magoe. Prometi amá-la, honrá-la e protegê-la enquanto vivêssemos, pelo menos me dê uma chance de fazer isto, meu bem. É para isto que estou aqui. E nunca, nunca mais, se sujeite a aceitar qualquer merda por parte da minha mãe. — Ela ficou a um só tempo chocada e emocionada com o rancor dele contra Margaret. Ele a olhou atentamente. — Alguma coisa semelhante a esta aconteceu ontem e a deixou perturbada, Se­rena? — Ficou observando os olhos dele enquanto respondia, mas a moça ape­nas sacudiu a cabeça. — Tem certeza?

— Sim, Brad, tenho.

Não podia lhe contar que a mãe fizera com que assinasse um papel. Jamais voltaria a falar com a mãe de novo, e ela não queria ser responsável por isso. Isto já era bastante ruim.

Ele se dirigiu rapidamente para a porta, e ficou parado ali por um momento, sorrindo para ela.

— Eu a amo, Sra. Fullerton.

— Eu o amo, coronel.

Jogou um beijo para ele, que desapareceu tentando se preparar para o confronto prestes a acontecer.

Foi achar Margaret no seu boudoir, usando um lindo vestido de seda bege que encomendara em Dior para o casamento. Eles tinham todas as suas medidas em Paris, e só o que ela tinha a fazer era escolher um modelo e apro­var o caimento do tecido. Também estava usando um chapéu criado para ela, feito de plumas delicadas do mesmo tom de bege. Caía sobre um dos olhos e se erguia na parte de trás para dar lugar a um coque elegante do espesso cabe­lo branco.

— Posso entrar, mamãe?

— Claro, querido. — Sorriu para ele, amavelmente. — Este é um dia importante. Já viu o seu irmão?

— Sim, para ambos os casos.

— Estou falando em Greg. Como está?

— Quase em estado de coma, mamãe. Os criados estão tentando reanimá-lo. Ficou muito bêbado, ontem à noite. — Teve vontade de acrescentar "como sempre", mas ficou calado.

— Pattie dará um jeito nele.

Margaret demonstrava uma confiança que Brad estava longe de sentir.

— Pode ser. Mas primeiro, por falar em Pattie, quero deixar bem claro uma coisa para você.

— Como? — falou a mãe, chocada com o tom de voz dele, e Brad não fez nada para suavizá-lo, enquanto continuava:

— A senhora devia me pedir desculpas, mamãe. Ou melhor, a Serena. E quero definir as coisas de uma vez: Serena é minha mulher, quer lhe agrade, quer não. Aparentemente, você lhe pediu para não comparecer ao casamento de Greg. Que você tenha tido a coragem de fazer tal coisa me espanta e magoa. Se quiser que os dois faltemos, muito bem, mas se quiser que eu esteja presente, então é melhor que saiba que vou levar Serena. — Os olhos dele es­tavam marejados de lágrimas, enquanto prosseguia. Eram lágrimas de raiva e fúria e desapontamento. — Eu a amo de todo o coração, mamãe. É uma moça maravilhosa, e daqui a alguns meses vamos ter um bebê. Não posso fazer com que a aceite. Mas não vou deixar que a magoe. Nunca mais faça uma coisa des­sas de novo.

Com passo hesitante, a mãe se dirigiu para ele.

— Desculpe, Brad. Eu... me enganei... Infelizmente isso tudo também foi muito difícil para mim. Nunca esperei que você fosse se casar com uma pessoa... diferente. Pensava que fosse se casar com alguém daqui, alguém que conhecêssemos.

— Mas não casei. E não é justo castigar Serena por isso.

— Diga-me. — A mãe olhou para ele com interesse. — Foi ela quem lhe contou tudo isso?

— Não; sabe, Serena me ama demais para se interpor entre mim e você. Desabafou com Teddy, e ele me contou.

— Sei. Ela falou mais alguma coisa?

Olhou para a mãe de modo estranho.

— Existe mais alguma coisa para contar? — Será que a mãe tinha feito ainda mais? Será que ele estava certo em se preocupar com a perturbação evi­dente de Serena na véspera? — Existe algo que eu deva saber?

— Não, absolutamente.

Com alívio, ela se deu conta de que Serena não lhe tinha contado, não que fosse mudar coisa alguma. Não entregaria aquele papel para ninguém, ago­ra. O papel que Serena assinara estava trancado no seu cofre. Ainda estava convencida de que Serena estava atrás do dinheiro dele, e dali a alguns anos, quando ela o deixasse e tentasse extorquir-lhe dinheiro, a mãe salvaria a situa­ção com o documento que fora previdente o bastante para fazer Serena as­sinar. Algum dia ele lhe agradeceria.

Ele tinha mais uma coisa para lhe dizer.

— Acho que, dadas as circunstancias, será melhor irmos embora hoje, depois do casamento. Vou tentar arranjar um compartimento no trem notur­no para Chicago e, se não conseguir, vamos ficar num hotel e partir pela manhã.

— Não pode fazer isso — exclamou ela, os olhos soltando chamas.

— Por que não?

— Porque quero que fique aqui. Há anos que não passa um tempo razoável em casa.

— Devia ter pensado nisso antes de declarar guerra a Serena.

Os olhos dela eram irados, cruéis e amargos.

— Você é meu filho, e vai fazer o que eu mandar.

A voz de Brad era estranhamente tranqüila.

— Infelizmente, está errada. Sou um homem adulto, com mulher e família. Não sou seu fantoche. Papai pode ser, e o pobre do fraco do meu irmão, mas eu não sou, e nunca se esqueça disso.

— Como tem a coragem de falar comigo desse jeito? Brad deu um passo cauteloso em sua direção.

— Mamãe, não se meta na minha vida, ou vai se arrepender.

— Brad!

Mas ele não abriu a boca enquanto se virava e saía da sala, batendo a porta às suas costas.

 

Serena foi acompanhada até o seu lugar pelo cunhado Teddy, na Igreja St. Ja­mes na Madison Avenue, em Nova York, exatamente às 10:50. A igreja estava cheia de galhos imensos de flores brancas, e por toda parte havia guirlandas de perfumadas flores brancas, lírios-do-vale, frésias, rosas brancas, minúsculos cravos brancos, com nuvens de gipsofilas brancas entremeadas com as flores maiores. Fitas de cetim branco entremeavam-se nos galhos, e havia uma passadeira de cetim branco na nave. Mas a atmosfera na igreja era mais solene do que festiva, e de cada lado da nave central havia mulheres elegantemente vesti­das e homens de terno escuro ou calças listradas, havia grandes chapéus cheios de flores e cores alegres, e gente velha e rostos jovens, enquanto o órgão co­meçava a tocar baixinho. Serena ocupava um banco sozinha, e dali a alguns momentos duas matronas imponentes foram lhe fazer companhia. Uma delas usava um vestido enfeitado de crepe num tom de roxo profundo, com bro­ches de ametistas e um fio imenso de pérolas, e uma lorgnette com a qual fita­va Serena com freqüência. A outra senhora estava vestida mais discretamente, porém o seu costume de seda cinza era realçado por vários brilhantes muito grandes. Aqui e ali Serena enxergava rostos familiares do jantar do ensaio, e a intervalos freqüentes se pegava buscando Teddy com os olhos, como que atrás de consolo. Conhecia-o há apenas alguns dias, no entanto já o considerava al­guém a quem podia amar e em quem podia confiar. Ele parou perto de onde estava sentada uma vez, apertou levemente o seu ombro e voltou a cumprir as suas obrigações de indicar os lugares aos convidados.

Exatamente a um minuto para as onze, as imensas portas da frente se fecharam, o órgão começou a tocar mais alto e fez-se um silêncio repentino na igreja, que nem os murmúrios ousavam romper, e como que num passe de mágica os jovens pajens e damas de honra começaram a aparecer, numa pro­cissão solene de fraques e calças listradas e vestidos de organdi cor de pês­sego bem clarinho. As moças usavam chapelões para combinar com os vesti­dos, que eram tão lindos que Serena os fitava, fascinada. Tinham enormes mangas em estilo vitoriano e golas altas, cinturinhas justas e saias rodadas com caudas elegantes. Cada dama carregava um buquê de rosinhas da mesma cor, e quando a última dama passou, surgiu a daminha. A menina usava uma ver­são em miniatura do mesmo vestido, exceto que as mangas eram pequenas e bufantes e não havia cauda para ela tropeçar. Carregava uma cesta de prata cheia de pétalas de rosa e tinha um rosto angelical, e dava risadinhas para o ir­mão que usava um terninho curto de veludo preto e carregava com ar solene uma almofada de veludo sobre a qual jaziam as duas alianças. Serena sorriu para as crianças com olhos úmidos, depois virou-se para ver quem vinha atrás deles, e ao fazê-lo perdeu o fôlego ante a visão que se lhe deparava. Era uma princesa de contos de fadas, num vestido de renda tão magnífico que Se­rena pensou jamais ter visto coisa igual. Era obviamente uma herança de fa­mília. Uma exclamação abafada e um murmúrio percorreram a igreja enquan­to Pattie ficava ali parada no vestido de gola alta e mangas fartas que perten­cera à sua bisavó. O vestido tinha bem mais de cem anos. Ela usava também um colar pequeno de belos brilhantes, rente ao pescoço, um diadema que combinava com ele, pérolas e diamantes faiscavam nas suas orelhas, e estava cercada por uma nuvem de véu que parecia ter quilômetros de extensão, co­brindo a cauda e a maior parte da nave central, enquanto ela caminhava regia­mente de braço com o pai. Era impossível não se sentir apequenada junto dela, a beleza morena contrastando vivamente com o branco, e Serena teve a certe­za absoluta de que era a noiva mais bela que jamais vira. Era impossível associar, mesmo por um momento, esta cena totalmente perfeita com tudo o que Brad lhe contara sobre Pattie. Esta não podia ser a mesma mulher, Serena se pegou pensando. Esta era uma deusa, uma princesa de conto de fadas. Era ela quem se parecia com uma principessa, refletiu Serena. E então, com o coração pesado, deu-se conta de que ela é que podia ter sido a mulher de Brad. Ele é que podia ter sido o noivo neste casamento, casando-se com a fascinante bel­dade morena do seu próprio mundo. Se tivesse feito isso, não teria havido discórdia, nem raiva, nem problemas com a mãe dele. E ao pensar nisso, sen­tiu-se tomada de forte sentimento de culpa por tudo o que havia feito para atrapalhar a vida de B.J. Os seus olhos se voltaram para o altar, onde viu Greg parado formalmente ao lado da noiva. Logo atrás dele estavam Brad e a ma­drinha, e enquanto Serena olhava para ela, uma moça de ar distinto e cabelos ruivos, que ficaram bem com o vestido cor de pêssego e o chapelão perguntava-se se Brad estava se arrependendo do que tinha perdido ao se casar com ela. Podia ter ficado com a ruiva, ou com qualquer das bonitas louras com os seus rostos americanos sardentos e vivos. Podia ter tido nomes que todos re­conheciam, cujas tias e avós e pais tivessem conhecido. Podia ter vivido a vida que a mãe queria para ele, mantendo a sua família intacta. Ao invés disso, ca­sara-se com uma estranha a este mundo, e agora se tornaria um pária. Ao pen­sar nisso, as lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos. Sentia uma dor incomensurável ante o que tinha feito a ele. Ah, Deus, o que aconteceria se aca­basse odiando-a por isto?

Assistiu com ar solene ao resto da cerimônia, e viu o cortejo passar tranqüilamente por ela, quando tudo terminou. Entrou na fila de cumprimentos, como qualquer estranho, apertando as mãos de umas 20 pessoas, até que che­gou em Teddy, que a agarrou pelo braço.

— O que está fazendo aqui, bobona?

— Não sei.

Sentiu-se subitamente embaraçada. Será que fizera a coisa errada? Sen­tiu-se como uma tola, e ele a abraçou com um largo sorriso.

— Não precisa ser tão formal. Quer ficar aqui junto com a gente?

Mas Serena sabia que a mãe dele sem dúvida teria um ataque.

— Espero lá fora.

Ficou parada ao lado dele por mais um momento, e de repente Pattie a viu e a fitou com raiva.

— Este é o meu casamento, Serena, não o seu. Não está lembrada?

Serena enrubesceu até a raiz dos cabelos, gaguejou alguma coisa e come­çou a se afastar. Porém Teddy agarrou-a rapidamente. Sabia por quanta coisa ela já passara, e tinha vontade de esbofetear Pattie pelo que dissera.

— Não pode calar essa maldita boca, ao menos uma vez, Pattie? Se não tomar cuidado, vai acabar parecendo uma megera, mesmo nesse vestido.

Dizendo isso, saiu da fila dos cumprimentos, com o braço ao redor de Serena, e fez sinal a Brad para ir encontrá-los lá fora. Margaret lançava-lhes olhares furiosos, e Pattie ficara sem cor, mas apenas uma ou duas pessoas ti­nham escutado a conversa, e dali a um momento estavam lá fora, em segurança.

— Bem, pelo menos tenho você para igualar o placar.

— Hem? — Ainda estava nervosa e perturbada, à luz forte do sol.

— Tenho uma cunhada maravilhosa e uma cachorrona.

Serena conseguiu rir, mesmo a contragosto, e logo viu Brad que vinha na direção deles.

— Aconteceu alguma coisa lá dentro? — perguntou rapidamente, e Sere­na meneou a cabeça, mas Teddy sacudiu o dedo e franziu a testa.

— Não minta para ele, que droga. — Sorriu para o irmão. — A nossa cunhadinha novinha-em-folha estava apenas sendo autêntica.

— Foi grosseira com Serena? — indagou Brad, começando a ferver.

— Claro. Nunca é outra coisa senão grosseira, exceto com as pessoas a quem está tentando impressionar. Jesus, não sei como Greg vai agüentar.

Falou bem baixinho, e apenas o irmão o escutou, mas ambos sabiam a resposta, e nenhum dos dois estava gostando. O provável era que Greg fosse viver bêbado o resto da vida. Pela manhã, ainda tonto e de ressaca, contara ao irmão mais velho que ia se casar com ela porque fora noiva de Brad, e todos sabiam que Brad era formidável, portanto ela tinha que ser uma moça formi­dável. Num momento de loucura Brad tentara dissuadi-lo de se casar, mas Greg estava assustado demais para mudar de rumo a poucas horas do casa­mento, e durante toda a manhã na igreja Brad se lembrara da pergunta de Se­rena: "Vai se levantar e dizer que tem algo a objetar, quando o padre pergun­tar?" Tivera vontade de fazer isso, mas faltou-lhe coragem.

Dali a alguns minutos todo o cortejo nupcial tomou assento em seis limusines e foi para o Plaza, onde fora reservado o Salão de Baile Nobre. Aqui também havia flores em profusão, e a orquestra começou a tocar no momen­to em que eles chegaram.

Serena sentou-se novamente com estranhos, a uma mesa bem distante das outras, e pareceu levar uma eternidade até que Brad veio buscá-la. A mo­ça parecia cansada do esforço de manter uma conversa polida, e estava um pouco tonta com a multidão que a cercava.

— Está bem, meu amor? — Ela sorriu e assentiu. — Como vai a minha filha?

— Ela vai bem.

Trocaram uma risadinha e ele a levou até a pista de danças, dali a um momento, para uma valsa lenta. Teddy ficou sentado à mesa nupcial, vendo os dois dançando juntos. Faziam realmente um casal perfeito. O seu irmão louro, alto e bonito, e a mulher graciosa de cabelos dourados nos seus braços. Os seus rostos se encontravam precisamente no ângulo certo, seus sor­risos podiam iluminar a sala, pareciam tão felizes que deviam ter sido os noi­vos, não a morena nervosa e agitada que bebia demais e falava alto demais, sentada ao lado do homem com quem acabara de se casar, e que olhava reto para a frente, enquanto Teddy os observava. Os olhos de Greg não tinha brilho, ao contrário, estavam vidrados, enquanto ele terminava o seu uísque com gelo e pedia outro ao garçom.

Dali a alguns momentos Brad e Serena vieram ao encontro de Teddy. Brad debruçou-se para falar ao ouvido do irmão que já estavam de saída.

— Já?

— Queremos pegar o trem esta noite, e quero que Serena descanse um pouco. Temos que fazer as malas... — Hesitou por um instante, e o irmão mais moço riu deles. Talvez quisesse que ela descansasse um pouco, e realmente tinham que fazer as malas, mas era aparente que B.J. também tinha outras idéias na cabeça. Se estivessem sozinhos, Teddy teria gozado com a ca­ra dele. — A gente se vê em San Francisco, garoto. Quando é mesmo que vai para lá?

— Vou sair de Nova York no dia 29 de agosto; portanto, devo chegar em San Francisco no dia 19 de setembro.

— Escreva dando todos os detalhes, e nós iremos recebê-lo. — Brad segurou-lhe o ombro por um longo momento, e fitou os olhos do irmão. — Obrigado por tudo. Por fazer Serena se sentir tão bem-vinda.

— Ela é bem-vinda. — Seus olhos se dirigiram para a nova irmã. — Vejo você lá no Oeste, Serena. — E então, abriu um sorriso. — A essa altura você vai estar uma baleia.

Os três acharam graça.

— Não vou estar, nada! — Tentou parecer ofendida, mas não pareceu. Ao invés disso, abraçou o rapaz e beijou-o em ambas as faces. — Vou sentir saudade sua, irmãozinho.

— Cuidem-se.

Os dois homens se apertaram as mãos, Teddy beijou Serena de novo e dali a um momento, depois que Serena se despediu polidamente da noiva, apertou a mão dos sogros e deu os parabéns ao noivo quase incoerente, eles saíram da festa. Foi um alívio imenso já ter passado pelo casamento. Enquan­to deixavam o Plaza, de mãos dadas, Brad tirou a gravata, jogou as luvas den­tro da cartola e fez sinal a um cabriolé para que os levasse até em casa, no apartamento da Quinta Avenida.

Serena ficou encantada enquanto entravam pelo parque, sentados na carruagem puxada a cavalo, e ele a abraçou. Era um dia quente e ensolarado, o verão já começara, e à noite eles estariam se pondo a caminho da sua nova vida na Califórnia.

— Feliz, querida?

Olhou para a mulher, o prazer de estar finalmente a sós com ela a lhe brilhar nos olhos.

— Como poderia estar outra coisa que não feliz, com você?

Esticou o rosto para beijá-lo, e ficaram abraçados por um longo momento, enquanto rodavam lentamente pela Quinta Avenida na direção do apartamento.

 

Saíram do apartamento antes que os outros voltassem e por um momento Brad ficou parado no hall de entrada e olhou ao seu redor com pesar, quase com tristeza.

— Você vai voltar — falou ela, mansamente, lembrando-se de como se sentira quando partira de Roma, mas ele sacudiu a cabeça, olhando para ela.

— Não era nisso que estava pensando. Estava pensando que queria que isso fosse tão gostoso para você. Queria que se divertisse muito em Nova York... queria que eles fossem maravilhosos para você...

Os olhos dele brilhavam de lágrimas e ela segurou-lhe a mão e a beijou.

— Non importa. Não faz mal.

— Faz, sim. Para mim.

— Temos as nossas próprias vidas, Brad. Logo teremos o bebê. Temos um ao outro. O resto tem importância, mas não muita.

— Para mim, tem. Você merece que todos sejam bons para você.

— Você é bom para mim. Não preciso de mais. — E então sorriu, lembrando-se de Teddy. — E o seu irmão.

— Acho que ele está completamente apaixonado por você. — Sorriu para a mulher. — Mas não posso culpá-lo. Também estou.

— Acho que vocês dois são uns bobos. — Soltou um suspiro, pensando no cunhado. — Espero que ele encontre uma boa moça lá em Stanford. Teddy tem muito de si para dar.

Brad ficou quieto por um momento, pensando no quanto devia a Ted­dy. Depois, falou:

— Pronta?

Ela assentiu, e ele fechou a porta às costas deles. Lá embaixo, um táxi já os esperava. A bagagem estava empilhada na mala do carro e no banco da frente, as maletas de mão no banco ao lado deles.

A viagem até a Grand Central Station foi rápida. Alguns minutos mais tarde eles saltaram, arranjaram um carregador e foram abrindo camiaho por entre a estação lotada. Serena olhava à sua volta, fascinada. Havia exércitos de pessoas se movimentando sob os tetos imensamente altos, por toda parte viam-se anúncios e cartazes espalhados. Ela parecia uma garotinha, acompanhando o marido, e ele quase teve que expulsa-lo do salão principal para irem para a plataforma onde pegariam o trem.

— Mas é uma maravilha, Brad!

Ele sorriu da alegria da moça, e deu uma gorjeta para o carregador que colocara as malas no trem.

— Que bom que você gostou.

Mas ela gostou ainda mais do trem. Era bem mais luxuoso do que quaisquer dos trens da Europa pós-guerra. Na Itália e na França nada ainda fora completamente restaurado do estado em que fora deixado pelos exércitos da ocupação. Aqui, condutores de pele de mogno, de paletó branco e boné en­gomado ajudaram-nos a encontrar o seu alojamento pequenino, mas impecá­vel, com uma banqueta de veludo, roupa de cama imaculada, tapetes espessos no chão e um minúsculo banheiro. Na opinião de Serena, era a suíte perfeita para uma lua-de-mel, e estava encantada com a idéia de passar três dias ali com Brad.

O plano deles era passar dois dias no trem até chegar a Denver, sair do trem ali, alugar um carro, ir até Aspen, depois voltar para Denver e tomar o trem até San Francisco. Brad aceitara a sugestão do irmão, e o jovem casal mal podia esperar. Mas, primeiro, tinham que tomar o trem para Chicago, onde passariam o dia e mudariam de composição, depois continuariam a viagem.

Meia hora depois que tinham embarcado, o trem saiu lentamente da estação e depois correu célere através de Nova York. Enquanto Serena ficava vendo a cidade desaparecer, Brad permanecia calado.

— Por que tão calado? Algum problema? — perguntou ela, enquanto o trem rodava.

— Estava só pensando.

— No quê?

— Na minha mãe.

Serena não disse nada, depois ergueu os olhos para o marido.

— Quem sabe ela venha a me aceitar, com o tempo.

Porém a lembrança do que Margaret tentara fazer dizia a Serena que a sogra jamais chegaria a amá-la. Não havia confiança, nem compreensão, nem compaixão e nem interesse. Havia apenas amargura e ressentimento e ódio. Tentara comprar Serena da maneira mais venal. E pensar que quisera que ela abortasse o próprio neto. Que tipo de mulher era Margaret Fullerton?

— Me mata ver como foi injusta — disse ele, que nem sabia da missa a metade.

— É o jeito dela.

Serena recordou a cerimônia da manhã. Que coisa estranha pensar que podia ter sido o casamento de Brad e que Pattie podia estar sentada naquele justo momento no trem. Sentiu um anepio percorrê-la, e segurou a mão dele com força.

— Não faz mal, querida. Temos a nossa vida, agora. E você vai adorar San Francisco.

Porém antes de adorar San Francisco, ela adorou Denver, e Aspen ainda mais. Ficaram hospedados no único hotel da cidade, em estilo vitoriano, com tetos altos e cortinas de renda. Os prados estavam cobertos de flores sil­vestres, e ainda havia neve no topo das montanhas. Parecia igualzinho aos Al­pes aos olhos de Serena, quando espiava pela janela todas as manhãs, e eles davam longos passeios à margem de riachos, e ficavam deitados na grama, ao sol, conversando sobre as respectivas infâncias e as suas esperanças para os próprios filhos.

Passaram quase duas semanas em Aspen, e detestaram ter que ir embora quando chegou o dia marcado para a volta para Denver, e para a continuação da viagem de trem. Porém tomaram novamente o trem para o Oeste, partin­do de Chicago, e desta vez só tiveram que viajar um único dia, e logo as Mon­tanhas Rochosas ficaram para trás. No dia seguinte ao embarque, acordaram e depararam com as colinas à distância e a planície ao seu redor, e dali a um pouquinho Serena ficou encantada ao enxergar de relance a baía. A estação ferroviária ficava localizada numa parte especialmente feia da cidade, mas logo que tomaram um táxi e se dirigiram para o norte, para o coração da ci­dade, viram como ela era realmente linda. À direita ficava a baía, lisa e bri­lhante, pontilhada de barcos e orlada de morros. À sua volta ficavam as ladei­ras íngremes, com as suas casas de estilo vitoriano, casinhas em tom pastel e belas mansões de tijolos, vilas de estuque em estilo mediterrâneo e jardins in­gleses encantadores. Era uma cidade que parecia combinar o encanto de uma dúzia de países e culturas, com um céu muito azul lá em cima e nuvens que pareciam pintadas. E, enquanto se aproximavam de Presidio, podiam ver a Ponte Golden Gate, que conduzia majestosamente ao Condado de Marin.

— Ali, Brad, que lindo!

— É mesmo, não é? — Parecia satisfeito, e sentia alguma coisa se mexer no seu coração. Sabia que tinham dado meia-volta ao mundo juntos, e que aqui seria o seu primeiro lar de verdade. San Francisco. O primeiro filho deles nasceria aqui, e quem sabe outros. Olhou para ela, que fitava a baía e a ponte, debruçou-se meigamente e a beijou. — Seja bem-vinda, minha querida.

Ela meneou a cabeça, com um sorriso de ternura, e olhou ao seu redor, sentindo as mesmas coisas que ele sentira.

O táxi cruzou o portão da Presidio Avenue em Pacific Heights, e desceu a estrada íngreme e sinuosa sob as imensas árvores que cresciam em Presidio, e dali a um momento estavam parados diante do quartel-general, onde Brad saltou, vestiu o boné e bateu continência para a mulher. Estava fardado, já que oficialmente estaria se apresentando; entrou no prédio principal com o boné debaixo do braço e desapareceu, enquanto Serena esperava e olhava ao seu redor. A influência da arquitetura parecia ser principalmente espanhola, a vista da baía e da ponte era soberba, e algumas das casas na base pareciam muito bonitas.

Ficou surpresa com a rapidez com que Brad saiu do prédio, com um largo sorriso e um molho de chaves na mão, balançando-o na direção dela. Ele orientou o chofer, e eles subiram por mais uma estrada sinuosa, por entre os bosques, e pararam quando chegaram a um ponto que parecia flutuar acima de todo o cenário. Aqui havia um grupo de quatro casas, todas bastante gran­des e sólidas, no mesmo estilo espanhol, e Brad apontou para a última do grupo.

— Para nós? — exclamou Serena, aturdida. A casa era esplêndida.

— Sim, senhora. — Serena estava impressionada ao ver como tratavam bem um coronel, mas ele sorria para ela estranhamente enquanto abria a por­ta e a carregava lá para dentro. — Gostou?

— É tão linda!

Saíram percorrendo a casa. Alguém fora previdente o bastante para lhes deixar umas toalhas e lençóis. Serena se deu conta de que iam ter que comprar móveis, mas a casa em si era linda. Tinha uma grande cozinha em estilo espanhol, que alguém redecorara com azulejos mexicanos brancos e azuis. Havia ganchos no teto para plantas, janelões que davam para a baía, e uma porta que se abria para o jardim. Havia também uma bela sala de jantar for­mal, com teto em domo, um pequeno lustre, e uma lareira; uma sala de visi­tas, de onde também se tinha uma vista esplêndida da baía e uma lareira ainda maior. No andar de cima havia um gabinete gostoso, de paredes de lambfis, e três quartos muito simpáticos, todos com vista para a água.

Era perfeito para eles, para o bebê, e até mesmo lhes permitia ter um quarto para Teddy. Serena logo mencionou este aspecto, e Brad olhou para ela como se nunca tivesse sido tão feliz.

— Não é o seu palazzo, minha querida, mas é bonito.

— É melhor — falou, sorrindo para ele — porque é nosso.

Pelo menos enquanto o ocupassem. Mas ela sabia que poderiam ficar ali anos, e que Presidio era considerado um posto de escol no exército ameri­cano.

Dormiram em catres postos à sua disposição, naquela noite, e no dia seguinte foram à cidade comprar algumas coisas básicas, uma cama grande de casal, duas pequenas mesinhas-de-cabeceira francesas, uma penteadeira vito­riana para Serena, uma bela cômoda, cadeiras, mesas, tecidos para cortinas, um tapete, uma infinidade de equipamento para a cozinha. E começaram a viver uma vida de casados... esperando pelo bebê.

E no final de agosto a casa tinha jeito de que moravam lá há anos. Era simpática, acolhedora, e Brad se sentia encantado cada vez que entrava pela porta da frente. As cores que Serena escolhera eram repousantes e sempre fa­ziam com que se sentisse feliz por estar de volta. Decorara a sala de visitas com muita madeira, um vermelho opaco e um cor de framboesa suave. As pa­redes eram adornadas com lindas gravuras inglesas, havia sempre uma profu­são de flores sobre todas as mesas, e ela mesma fizera as cortinas, de um belo tecido francês. A sala de jantar era formal e em tons de marfim, cheia de or­quídeas e com uma vista da profusão de flores que plantara no jardim. O quarto deles era todo em tons suaves de azul, "como a baía", brincava ela. O quarto de Teddy, como ela o chamava, era todo decorado em tons castanhos, e o do bebê em amarelo-vivo. Ela se esforçara muito durante todo o verão para aprontar a casa, e no dia em que Teddy chegou, olhou ao seu redor na hora em que saíam para ir buscá-lo, e chegou à conclusão de que se orgulhava do que tinha feito.

— Esqueceu alguma coisa? — indagou Brad, da porta, vendo-a caminhar gingando na sua direção. Estava grávida de cinco meses e ele adorava ver o corpo dela quando estava deitada ao seu lado, ou saía do chuveiro de ma­nhã. Aos olhos dele, parecia cheia e madura e maravilhosa, o corpo todo gra­cioso como sempre fora, apesar do peso da criança a lhe intumescer a bar­riga. Adorava tocá-la e sentir o bebê dar um chute, e agora sorria e dava uma palmadinha gentil na barriga da moça parada à sua frente. — Como vai a nos­sa amiguinha?

— Ocupado. — Alisou a bata xadrez por sobre a saia azul-marinho e sor­riu para o marido. — Passou a manhã toda dando chutes.

Brad fez um ar preocupado.

— Quem sabe você se esforçou demais preparando as coisas para Teddy.

Porém Serena sacudiu a cabeça.

— Não me esforcei, não. — Olhou por cima do ombro enquanto fechava a porta. — A casa está um amor, não está?

— Não. Está uma maravilha. Fez um belo trabalho, querida.

Ela enrubesceu, mas pareceu satisfeita. Para uma moça de 20 anos, percorrera um longo caminho e fizera um bocado de coisas. As vezes ele tinha que ficar se lembrando de como ela era jovem. Ele próprio fizera 35 anos no verão.

— Que bom que Teddy vai chegar.

— Também acho.

Ele deu partida no Ford azul-escuro e olhou para o relógio. Parece que fazia apenas alguns dias que eles próprios tinham chegado, e quando se encon­traram com Teddy, saltando do trem na estação, Brad sentiu como se tives­sem acabado de deixar Nova York. Os dois irmãos apertaram-se as mãos e de­ram palmadas no ombro um do outro, e Serena jogou-se nos braços de Teddy. Eles se abraçaram com força, depois, rindo, ele deu um passo atrás e bateu de leve na barriga saliente da moça.

— Aonde arranjou a bola de praia, Serena?

— Brad me deu de presente. — Ela olhou para ele, modestamente.

Os três acharam graça, e Teddy os acompanhou até o carro. Só trazia uma mala consigo. O resto das suas coisas tinha sido enviado diretamente para Stanford, várias semanas antes.

— Que tal estão achando isso aqui, vocês dois?

— Estamos adorando. Mas espere só até ver o que ela fez na casa. — Brad olhou cheio de orgulho para a mulher. — Vai ver por que estamos adorando.

E logo que pisou na casa, Teddy entendeu o que o irmão queria dizer. Se­rena criara uma atmosfera de bem-estar que tocava a todos que entravam. Da­va vontade de se largar no sofá, ficar fitando a baía num silêncio tranqüilo, e nunca mais ir embora.

— Fez um belo trabalho, Serena. — Ela pareceu satisfeita, e logo se levantou para ir buscar chá e sanduíches e biscoitinhos. — Quer fazer o favor de se sentar?

Teddy saiu atrás dela, mas Serena o mandou de volta à sala para junto do irmão, que os fitava a ambos, duas crianças felizes por serem novamente companheiras de folguedo.

— Como está Greg?

Brad não demorou muito para fazer a pergunta, e seus olhos estavam cheios de preocupação enquanto falava.

— Mais ou menos na mesma.

— O que significa? — Teddy hesitou, depois deu de ombros com um pequeno suspiro.

— Vou ser franco com você, não acho que esteja feliz com Pattie. Está bebendo ainda mais do que antes.

— Não é possível — exclamou Brad, abalado.

— Bem, pelo menos está tentando. Não sei. — Correu a mão pelos cabe­los, enquanto olhava para o irmão. — Acho que ela o pressiona o tempo todo. Sempre quer que ele faça algo diferente do que está fazendo. Quer uma casa maior, uma vida melhor, quer que tenha um emprego melhor...

— Tudo isso em três meses?

— Antes, se possível. Azucrinou-o durante dois meses por causa da lua-de-mel. Achava que ele a devia ter levado para a Europa. Mas Greg queria ir para Newport, o que ela não considerou lua-de-mel. A casa que ele alugou para ela durante o verão não era tão chique quanto a que o cunhado alugou para a irmã, e daí por diante.

— Não é de admirar que esteja bebendo. — Brad parecia desolado com o que estava ouvindo. — Acha que ele vai agüentar?

— Provavelmente. Não creio que nem pense em outra alternativa.

Ninguém na família deles jamais se divorciara, mas face ao que estava ouvindo da boca de Teddy, Brad sem dúvida pensaria no caso. E de uma coisa tinha certeza, estava muito feliz por não ter caído na armadilha de Pattie. A tragédia é que Greg caíra.

Porém o mais estranho de tudo era saber de todas as novidades tão remotamente, por parte do irmão. Quando estava na Europa, todos faziam questão de ficar em contato com ele. Tinham escrito com a maior freqüência possível, especialmente a mãe. E agora, desde que ele e Serena tinham vindo para a Califórnia, havia uma diferença visível. Greg nem escrevia mais, sentin­do-se constrangido perante Brad, talvez, por causa do casamento repentino com Pattie. Ou quem sabe, pelo que Teddy acabara de contar, estivesse ape­nas desesperadamente infeliz. Brad tivera notícias do pai uma única vez, e da mãe, nenhuma. A princípio telefonara para ela algumas vezes, mas a sua voz fora tão gélida, os seus comentários sobre Serena tão ferinos, que ele não te­lefonou mais, nem ela tampouco. E embora detestasse admiti-lo, sentia falta de notícias deles. Era como se, de uma maneira estranha, ele e Serena tives­sem se tornado proscritos de uma antiga vida de família.

 

Teddy esperara ficar completamente devorado pelos estudos ao chegar em Stanford. Mas, afinal de contas, o primeiro semestre não foi tão feroz quanto temia. E embora tivesse uma montanha de coisas para ler, na maior parte do tempo, ainda conseguia vir à cidade para vê-los, especialmente mais para o fim da gravidez de Serena. Queria estar presente se algo momentoso acontecesse. Já tinha dito a Brad que, quando chegasse a hora, queria estar por perto. Brad prometera ligar para ele em Stanford quando ela entrasse em trabalho de parto, e ambos imaginavam que Teddy teria tempo de vir de trem até a cidade e acompanhar o irmão nas suas andanças pelos corredores de hospital enquan­to o bebê não chegava.

No terceiro fim de semana de dezembro, Teddy estava de férias na faculdade, e hospedado com eles, e a data provável do parto de Serena estava mar­cada para dali a quatro dias. Brad tinha ido passar o dia fora em manobras si­muladas em San Leandro, e Teddy estava no quarto estudando para as provas. Serena estava no quarto do bebê, dobrando as camisinhas brancas e verifican­do as coisas pelo que Teddy dizia ser a 400º vez. Estava colocando as camisi­nhas de volta na gaveta quando ouviu um som esquisito, quase como um estaIo, e depois sentiu um jato de água quente escorrer-lhe pelas pernas, e ir mo­lhar o chão de madeira lustrosa. Ficou ali parada por um momento, espan­tada, depois entrou devagar no banheiro do bebê para apanhar umas toalhas para que o líquido não manchasse o piso. Sentia uma estranha sensação de dor nas costas e na parte baixa da barriga, e sabia que tinha que ligar para o médico, mas primeiro queria cuidar do chão. Ele já tinha explicado que, ao primeiro sinal de dores, ou se a bolsa d'água rompesse, ela devia ligar para ele, mas Serena sabia que daquele momento até o parto ainda levaria muitas horas. Não estava nem preocupada com o fato de Brad estar em San Leandro. Ele ia chegar a tempo para o jantar, e de qualquer modo não havia nada que pudesse fazer depois de levá-la para o hospital. Não deixariam que a vissem enquanto estava em trabalho de parto, e desse modo lhe seria poupada grande parte das andanças pelos corredores com Teddy. Não havia motivo para Teddy não poder levá-la até o hospital e depois voltar mais tarde com Brad.

Sentiu uma onda repentina de emoção ao se dar conta de que chegara o momento e que dali a algumas horas estaria segurando o bebê, e riu consigo mesma ao se ajoelhar no chão com as toalhas. Mas o riso ficou preso na sua garganta e ela teve que se agarrar à cômoda para não gritar, pois sentira uma dor tão violenta que mal podia respirar. Pareceu levar horas até que ela pas­sou, e quando isto aconteceu a sua testa estava coberta por uma camada de suor. Estava mais do que na hora de ligar para o médico, percebeu, e ficou um pouco espantada ao descobrir que a primeira contração podia ser tão dolorosa. Ninguém a avisara que começaria com tal veemência. Na verdade, o médico lhe dissera que a princípio talvez nem soubesse o que eram as dores. Mas não havia engano quanto a esta, ou a seguinte, que a deixou de joelhos a meio ca­minho do banheiro com as toalhas molhadas, e ela sentiu de repente uma pressão tão violenta e forte que caiu de quatro no chão. Segurou a barriga e gemeu de dor e terror e, no quarto dele, Teddy pensou ter escutado um som estranho como o de um animal gemendo, mas após um momento concluiu que era o vento e voltou a se concentrar nos estudos. Dali a cerca de um mi­nuto, escutou-o de novo. Ergueu a cabeça e franziu o cenho, e então se deu conta subitamente que era alguém gemendo, e escutou o próprio nome. As­sustado, ele se levantou, sem ter certeza de onde o som tinha vindo, e então, dando-se conta de que era Serena, saiu correndo porta afora.

— Serena? Onde você está? — Mas, enquanto ele se encontrava a curta distância dali, dobrando a curva do corredor, ela era acometida de nova dor tão violenta que não conseguia respirar ou chamar o nome dele de novo — Se­rena? Serena? Onde você está? — Um gemido terrível chegou aos seus ouvidos e ele correu na sua direção, cruzando a porta do quarto do bebê e encontrando-a no vão da porta do banheiro, agachada no chão. — Ah, meu Deus, o que aconteceu? — Estava tão pálida, e sentia uma dor tão evidente que ele sentiu os joelhos tremerem. — Serena, você caiu?

Instintivamente, tomou a pulsação dela e viu que estava normal, mas enquanto segurava o pulso delicado, viu o rosto da moça contorcer-se com uma dor tão terrível que ele fez uma careta e tentou tomá-la nos braços enquanto ela gritava. Mas ela lutou para mantê-lo longe de si, como se precisasse de cada pouquinho de ar e como se todo o toque fosse doloroso. Foi só dali a dois mi­nutos inteiros que o rosto dela relaxou e pôde falar com ele racionalmente de novo.

— Ah, Teddy... está chegando... não entendo... começou assim... de repente...

— Quando? — Estava tentando desesperadamente se controlar. Só tinha visto um parto, embora tivesse estudado com cuidado todos os capítulos do seu livro sobre o assunto, mas não se sentia absolutamente à altura da tarefa de fazer o parto do seu sobrinho ou sobrinha, e sabia que precisava levá-la imediatamente para o hospital. — Quando começou, Serena? Vou ligar para o médico.

— Não sei... há alguns minutos... dez... quinze...

Ainda estava tentando recobrar o fôlego, sentando-se encostada à parede, como se não tivesse mais forças para se mexer.

— Por que não ligou para mim?

— Não pude. A bolsa d'água rompeu, e a dor veio tão forte que não pude nem... — respirava mais rapidamente — falar... ah, Deus... ah, Teddy... — Agarrou o braço dele. — Outra... dor... agora... aiiii...

Era um gemido brutal de dor e ele tomou-lhe as mãos e ficou olhando, impotente. Instintivamente, dera uma espiada no relógio quando a dor começou e viu, espantadíssimo, que a contração demorou mais de três minutos e meio. Lembrou-se do que dissera o seu livro didático, quando o lera há pou­cos dias, que, de um modo geral, as contrações duravam de 10 a 90 segundos, e que somente em casos raros excediam este limite. Quando isso acontecia, era freqüentemente em partos fora do comum, com contrações freqüentes, prolongadas e violentas que, em geral, abreviavam o processo do nascimento em diversas horas. Quanto mais brutais as dores, mais depressa o bebê nasce­ria.

Lançando um olhar para Serena, passou o lenço pela testa dela, quando a dor cessou.

— Serena, quero que fique deitada aí. Vou chamar o médico imediatamente.

— Não me deixe.

— É preciso. — Ia pedir uma ambulância, tinha certeza de que ela estava prestes a ter o bebê, e mesmo antes de sair do quarto pôde ver que estava ten­do nova contração. Mas sabia que tinha que chamar o médico, e o fez com o máximo de rapidez possível. Prometeram-lhe uma ambulância, e o doutor man­dou que ficasse junto dela. Teddy disse-lhe que era primeiranista de medicina e o doutor explicou como, se a ambulância chegasse antes dele, Teddy devia segurar e prender o cordão umbilical. Falou que, dadas as circunstâncias, que­ria ir para o hospital junto com ela. Tinha a sensação, do mesmo modo que Teddy, de que o bebê ia nascer em tempo recorde. Quando Teddy voltou pa­ra o quarto, encontrou Serena de quatro, toda encolhida, e chorando. Ergueu os olhos sofridos para ele, quando entrou, e Teddy teve vontade de chorar junto com ela. Por que tinha que ser tão difícil, esta primeira vez, e onde es­tava Brad, e por que diabos estava acontecendo tão depressa?

— Serena, o doutor já vem vindo, calma. — E então, teve uma idéia. — Vou botar você na cama.

— Não... — Parecia apavorada. — Não mexa em mim.

— É preciso. Vai se sentir melhor se deitando.

— Não vou, não.

Parecia subitamente zangada e assustada.

— Confie em mim. — Mas a conversa foi interrompida por outra dor lancinante. E quando ela passou, sem dizer mais nada, ele a tomou nos braços e a depositou gentilmente na cama de dossel do quarto do bebê. Afastou o edredom amarelo e o cobertor, e deixou-a deitada nos lençóis frescos, o barrigão espetado no ar, o rosto pálido e úmido, os olhos imensos e assustados. Nunca vira ninguém parecer tão vulnerável e, por um instante, ficou apavo­rado que ela fosse morrer. Como que saídas da sua própria alma, as palavras lhe jorraram da boca. — Vai dar tudo certo, minha querida. Eu a amo.

Era como se tivesse que lhe dizer, ao menos esta única vez, para fazê-la superar aquilo. Nunca vira ninguém sofrendo tanta dor. Ela sorriu para ele, então, e agarrou-lhe com força a mão, e ele se pegou rezando para que a am­bulância chegasse. Mas as suas orações não foram atendidas. Quase que no mesmo instante viu a angústia lancinante aparecer no rosto dela e num úni­co gesto ela se levantou e agarrou os ombros dele, como que aterrorizada, enquanto tentava não gritar.

— Ah, Deus... ah, Teddy... está vindo...

— Não, não está. — Por favor, não... Juntos, sem se darem conta, começaram a chorar. Eram duas crianças, perdidas numa ilha deserta, e só o que tinham era um ao outro, e ela estava segurando com tanta força os ombros dele que chegava a doer. — Deite-se. Vamos. ísso.

Ele a fez deitar novamente, quando a dor terminou, e ela parecia estar respirando ainda mais depressa, e antes mesmo que a sua cabeça tocasse o tra­vesseiro, estava se contorcendo de novo e desta vez, quando o agarrou, não pôde deter o grito.

— Teddy... o bebê... — Estava fazendo pressão na cama, e depois segurando a barriga, e como que num único instante, Teddy se pegou olhando-a não como um escolar assustado, mas como um homem. Sabia, pelo que lera nos livros, o que estava acontecendo, e não adiantaria nada ele se deixar ficar tão assustado quanto ela. Sabia que tinha que ajudá-la. Sem dizer palavra, pu xou gentilmente a saia dela e começou a despi-la. Foi até o banheiro, onde achou pilhas de toalhas limpas. — Teddy! — gritou ela, começando a entrar em pânico.

— Estou aqui. — Enfiou a cabeça pelo vão da porta e sorriu para ela. -Vai dar tudo certo.

— O que está fazendo?

— Lavando as mãos.

— Por quê?

— Porque vamos ter um bebê. — Ela começou a dizer alguma coisa, mas outra contração a impediu. Ele se lavou rapidamente, agarrou as toalhas e vol­tou para a cama, onde a envolveu cuidadosamente com elas. Depois, apanhou mais dois travesseiros e ergueu as pernas dela. Serena ficou calada o tempo to­do. Estava tomada demais pelas dores, e grata demais por Teddy estar com ela. E então, subitamente, com a dor seguinte, ela pareceu se erguer de novo dos travesseiros, e instintivamente ele se dirigiu para os ombros dela e deu-lhe apoio enquanto ela começava a fazer força. — Está tudo bem, Serena, tudo bem...

— Ah, Teddy, o bebê...

— Eu sei. — Recostou-a nos travesseiros quando a contração passou, e olhou por entre as toalhas que cobriam as pernas dela, e então, de repente, en­quanto ela fazia força em meio à nova dor, soltou um grito excitado. — Sere­na, estou vendo... vamos... continue a fazer força... isso...

Ela gemeu e voltou a cair sobre os travesseiros, mas apenas por um mo­mento. Estava ofegante e sem fôlego e ele segurou-lhe a mão enquanto olhava, mas nada havia para ele fazer agora exceto olhar enquanto a cabecinha do bebê aparecia, e então ele se inclinou meigamente e virou a cabeça, limpando o rostinho suavemente com uma toalha macia. De repente, como se estivesse fa­zendo objeção a que lhe limpassem o rosto, o bebê gorgolejou e começou a chorar, e Teddy olhou para o rosto de Serena e eles também começaram a chorar. O rosto dela estava molhado de lágrimas, enquanto escutava o bebê.

— Ele está bem?

— Uma beleza. — Teddy ria e chorava, e quando veio outra contração, ele livrou os ombros, e dali a um minuto Serena soltou um grito primeiro de dor, depois de júbilo, e o bebê estava nas mãos do tio, e ele o ergueu para mostrar para a mãe. — É menina, Serena! Uma menina!

— Ah, Teddy.

Serena deitou-se nos travesseiros com as lágrimas escorrendo dos olhos, e estendeu a mão para tocar a mãozinha minúscula, e exatamente neste mo­mento ouviram a campainha da porta.

Teddy começou a rir enquanto pousava a criança na cama ao lado de Serena.

— Deve ser o doutor.

— Diga a ele que já temos um. — Sorriu para ele e segurou-lhe a mão, antes que pudesse se afastar. — Teddy... como posso lhe agradecer? Eu teria morrido, sem você.

— Não, não teria.

— Você é formidável. — E então, lembrando-se do que ele dissera anteriormente: — Eu também o amo. Nunca se esqueça.

— Como poderia?

Beijou-a suavemente na testa e foi atender à campainha. Era mesmo o médico, e a ambulância chegou na hora em que Teddy escancarava a porta. O Dr. Anderson subiu rapidamente a escada e se encantou com o bebê e Serena, deu parabéns a Teddy pelo belo trabalho realizado no seu primeiro parto, deu um nó no cordão umbilical e orientou os enfermeiros da ambulância para colocarem mãe e filha cuidadosamente na maça. O cordão seria cortado no hospital, e ambas seriam cuidadosamente examinadas. Mas parecia ao médico que tudo saíra muitíssimo bem. Olhou para a sua paciente com um largo sor­riso e deu uma espiada no relógio.

— Quanto tempo passou em trabalho de parto, mocinha?

— Que horas são? — Sorria para ele. Estava cansada, mas nunca se senti­ra tão feliz.

— Exatamente duas e quinze. — Lançou um olhar para Teddy. — A que horas o bebê chegou?

— Às duas e três.

Serena deu uma risadinha abafada.

— Começou à uma e meia.

— Trinta e três minutos para um primeiro parto? Mocinha, da próxima vez vamos deixá-la plantada no saguão do hospital durante as duas últimas se­manas.

Os três acharam graça, e os homens levaram mãe e filha na maça, e Ted­dy correu os olhos pelo quarto, por um instante, antes de sair. Jamais se es­queceria de ter partilhado esse momento com ela, e sentiu-se repentinamente feliz por terem estado sozinhos.

Quando Brad voltou das manobras, à noitinha, encontrou o irmão sentado displicentemente à mesa da cozinha, comendo um sanduíche.

— Oi, garoto. Cadê Serena?

— Saiu.

— Para onde?

— Foi jantar fora com a sua filha.

Aquilo levou um momento para registrar, enquanto o irmão mais moço sorria amplamente.

— Que quer dizer com isso? — Brad sentiu o coração começar a disparar. E, subitamente, compreendeu. — Ela... ela... hoje? — Parecia aturdido.

— Hã-hã — respondeu o irmão, tranqüilamente. — Hoje. E você tem uma linda filhinha.

— Já viu Serena? Como está ela? — Ficou instantaneamente perturbado, e até parecia um pouco assustado.

— Está ótima. E o bebê também.

— Demorou muito?

Teddy abriu um sorriso.

— Trinta e três minutos.

— Está brincando? — exclamou Brad, chocado. — Como conseguiu levá-la até o hospital a tempo?

— Não consegui.

— Como?

Teddy riu e deu um abraço carinhoso no irmão, mas havia algo de mais adulto nele, de repente, e até mesmo Brad tinha reparado nisso, ao chegar. Era como se, numa única tarde, houvesse algo de diferente em Teddy, como se, de alguma maneira sutil, ele se tivesse modificado.

— Brad, fui eu que fiz o parto do bebê.

— O quê? Está maluco? — E então abriu um sorriso. — Garoto maluco. Por um minuto, cheguei a acreditar. Que grande piada, muito engraçada. Ago­ra me conte o que aconteceu.

Teddy ficou com ar sério enquanto fitava o irmão nos olhos.

— Estou falando sério, Brad. Não tive escolha. Encontrei-a no chão no quarto do bebê, já em pleno trabalho de parto. A bolsa d'água tinha se rompido, e ela entrou em trabalho de parto com uma velocidade incrível. — Pare­cia estranhamente formal e os olhos de Brad quase saltaram das órbitas. — Es­tava tendo contrações de três, três e meio minutos a intervalos de trinta se­gundos, e quando voltei de telefonar para o médico e a ambulância, a expul­são já estava começando. Tudo acabou muito depressa. E o médico e a ambu­lância chegaram uns dez minutos depois do bebê.

— Ah, meu Deus. — Brad largou-se lentamente numa cadeira, e por um instante Teddy ficou imaginando se estaria zangado. Quem sabe tinha ficado chateado porque o irmão fizera o parto da mulher, mas não foi isso que Teddy viu nos olhos de Brad, quando o fitou. — Pode imaginar o que teria acon­tecido se eu tivesse estado sozinho com ela? Eu teria entrado em pânico.

Teddy sorriu e tocou-lhe o braço.

— Eu quase entrei, durante certo tempo. Por um minuto ou dois foi bem assustador, mas eu sabia que tinha que ajudá-la, Brad... não havia mais ninguém.

Os irmãos se fitaram nos olhos por um longo momento, e Brad estendeu a mão com lágrimas nos olhos.

— Obrigado, Teddy. — Teve vontade de dizer-lhe que o amava, mas não sabia como, e a sua garganta estava sufocada de lágrimas.

Dali a 20 minutos estava parado ao lado de Serena, e ela estava quase exatamente com a mesma cara que pela manhã, quando ele partira para San Leandro. Estava bonita e fresca, alegre e animada. A única diferença é que a barriga sumira. E ninguém desconfiaria, pela sua expressão de júbilo, que há apenas algumas horas tivesse sofrido tanta dor.

— Como foi, meu bem? Foi mesmo terrível?

— Não sei. — Estava ligeiramente encabulada de admitir o quanto sofrerá. — Houve uma hora em que pensei que não ia agüentar... mas Teddy... esteve ao meu lado o tempo todo... e foi tão bom... Brad — seus olhos ficaram marejados de lágrimas de alegria e emoção — eu teria morrido sem ele.

— Graças a Deus ele estava lá.

A enfermeira colocou-a na cadeira de rodas para poderem ir ver o bebê e Brad achou graça no embrulhinho cor-de-rosa de rostinho enrugado e olhos inchados.

— Está vendo, não lhe disse? Uma menina!

Deram-lhe o nome de Vanessa Theodora. Vanessa era o nome que já tinham escolhido, e Theodora em homenagem ao seu tio médico.

Naquela noite Brad ligou para a mãe, para contar. A sua voz ainda vibrava de emoção, enquanto pedia a ligação, e pareceu-lhe uma eternidade até a mãe vir atender. Falou primeiro com o pai, que deu ao filho mais velho os pa­rabéns de praxe. Mas não havia calor na voz de Margaret, quando falou com ele.

— Deve ter sido uma experiência pavorosa para Teddy.

A sua voz atingiu Brad como uma ducha de água fria.

— De modo algum, mamãe. E creio que, se ele vai ser médico, não teria como achar esse tipo de experiência pavorosa. — Mas não era esta a questão, e ambos estavam sabendo. — Ele falou que foi a coisa mais linda que já viu.

Fez-se um silêncio constrangedor enquanto Brad lutava contra a sensação de desapontamento causada pela reação da mãe. Estava feliz demais para que ela conseguisse estragar tudo para ele, mas, mesmo assim, diminuiu o seu prazer.

— E a sua mulher está bem?

— Está ótima. — Um sorriso brotou no seu rosto de novo. Quem sabe ainda havia esperanças. Pelo menos, perguntara por Serena. — E o bebê é uma beleza. Vamos mandar retratos logo que tirarmos.

— Não creio que seja necessário, Brad. — Necessário? Como assim, "ne­cessário"? Santo Deus. — Acho que você não compreende realmente como seu pai e eu nos sentimos.

— Realmente, não compreendo. E não meta papai nisso. A guerra com Serena é sua, não dele. — Mas ambos sabiam que Margaret é que mandava, e que o marido obedecia como um cachorrinho. — E acho que é uma sujeira. Este é o dia mais feliz da minha vida, e você está tentando estragá-lo para nós.

— De forma alguma. E acho muito emocionante vê-lo tão paternal. Mas isso não modifica o fato de que o seu casamento com Serena é uma tragédia na sua vida, Bradford, quer você já o admita, quer não. E o acréscimo de uma criança para reforçar ainda mais uma união que já é desastrosa não é uma coisa que eu possa comemorar com você. A história toda é um erro trágico, assim como esse bebê.

— A criança não é nenhum erro, mamãe. — Ele fervia de raiva. — E é minha filha e sua primeira neta. É parte da nossa família, não apenas da minha família, mas da sua, quer você aceite, quer não.

Fez-se um longo silêncio.

— Não aceito. E jamais aceitarei.

Ele se despediu da mãe, então, os seus olhos estavam cheios de lágrimas quando desligou o telefone, mas aquilo só fez com que amasse ainda mais Serena e o bebê. A mãe teria ficado furiosa, se tivesse sabido disso.

 

Os anos passados em San Francisco foram anos felizes para Brad e Serena. Vi­viam no seu mundinho particular e feliz, na linda casa com vista para a baía. Brad adorava o seu trabalho em Presidio, e Serena nunca se entediava com Vanessa. Esta era uma criança encantadora de cabelos dourados que parecia combinar o que de melhor havia nos pais. Na verdade, parecia-se muito com Brad, mas tinha o riso fácil e a graça da mãe.

Teddy aparecia sempre que podia. Chamava Vanessa de sua princesinha de conto de fadas, e lia para ela histórias intermináveis. Não podia mais vê-los com a freqüência que gostaria, porque os seus estudos em Stanford exi­giam demais dele. Era apenas durante as férias que podia realmente relaxar e passar um bom tempo com eles. Sempre que Teddy aparecia, levava Vanes­sa ao zoológico, e para passeios especiais, e quando ela chegou aos três anos, ficava parada junto à porta quando sabia que ele vinha, de olho em todo o carro que passava, até que o via, e então dava gritos de alegria e exclamava:

— Lá vem ele! Lá vem ele! É o tio Teddy!

Tirando os pais, ele era a única família que conhecia. Tinha visto o ou­tro tio apenas uma vez, quando Pattie e Greg passaram por San Francisco a caminho do Oriente. Pattie fitara a menina com olhar esfaimado, e fora grosseira várias vezes com Serena. Greg parecia nem mesmo enxergá-la, sentado no seu estupor habitual entre um drinque e outro. E Pattie fizera questão de dizer a Serena o quanto a sogra odiava a criança, mesmo sem tê-la visto.

Foi idéia de Pattie passar as férias no Japão. Viajar se tornara a sua mais recente paixão. Mas, além desse contato, Serena e Brad não tiveram outros com a família do Leste. Desde que a mãe rejeitara Vanessa, Brad tivera um contato mínimo com ela, e quando a mãe veio certa vez a San Francisco para visitar Teddy, recusara-se a ver Brad com Serena. Ele, por sua vez, recusara-se a ver a mãe sem ela, e assim, teimosamente, Margaret acabara saindo da cidade sem ver Brad, ou Serena, ou Vanessa. Teddy ficara desolado com a rixa em família e implorara à mãe para mudar de idéia, mas ela não o fez. Ao contrá­rio, ficou ainda mais decidida.

Os sentimentos dos avós a seu respeito não importavam a mínima para Vanessa. Era uma criança constantemente alegre e feliz, de gênio calmo e aco­modado. E era amada com tanta paixão pelos pais e pelo tio que a falta de outras pessoas para adorá-la não tinha a menor importância.

Foi logo depois do seu terceiro aniversário que Serena e Brad lhe contaram que ia ter um irmãozinho ou irmãzinha, e ela bateu palmas de alegria e correu lá para cima para fazer um desenho para o novo bebê. Desenhou um elefante que mais parecia um cachorro, e Serena emoldurou-o e pendurou-o no quarto das crianças. Desta vez o bebê devia nascer em agosto. E Teddy já estava implicando com ela a respeito. Iria se formar em medicina em junho, e a essa altura ela estaria com sete meses de gravidez.

— E se você pensa que vou sair correndo do palco na hora da cerimônia para fazer o seu parto, moça, está maluca. Além disso, os meus honorários au­mentaram, desde a última vez.

Era uma piada de família o fato de Teddy ter feito o primeiro parto de­la, e Serena estava um pouco nervosa que dessa vez o bebê nascesse com igual rapidez. O médico avisara que podia acontecer, e ela prometera ficar perto de casa, e do telefone, nas duas últimas semanas de julho e começo de agosto. Teddy ia voltar para Nova York em julho, depois de uma curta viagem pelo Oeste, e em agosto ia começar a trabalhar como interno no Columbia Presbyterian, em Nova York.

Mas a formatura em si estava causando grande movimentação na família. Todos vinham para San Francisco, a mãe e Greg e Pattie. O pai sofrera um derrame e estava doente demais para se locomover, mas todo o resto viria vê-lo ganhar o seu diploma.

— Como é, doutor, emocionado?

Brad olhava para Teddy de beca e capelo na manhã da formatura, en­quanto o irmão ria de orelha a orelha. Estava agora com 26 anos, e Brad com 38, mas ambos pareciam ter mais ou menos a mesma idade. Brad ainda tinha um jeito juvenil, e Teddy amadurecera imensamente em Stanford.

— Sabe, nem posso acreditar. Finalmente vou ser um médico de verdade!

— Eu já sabia disso há quase quatro anos.

Sorriram um para o outro naqueles poucos momentos em particular durante a tensa reunião familiar, na cerimônia. Margaret Fullerton ignorou Sere­na completamente, e Pattie ficou radiante. A única que não tomou conheci­mento da hostilidade evidente foi Vanessa, e Teddy olhava agora para ela com aquela sensação familiar de prazer.

— Adoro essa garota.

— Quem sabe desta vez ela vai ter um irmãozinho — sorriu Brad.

— Você gosta mesmo de dar as cartas, hem? — brincou o irmão, e então Brad se lembrou de uma coisa.

— É. A propósito, quero que me faça um favor.

— Claro, qual é? — indagou Teddy. Era raro que Brad lhe pedisse alguma coisa.

— Vou passar alguns dias no exterior, para uma missão consultiva na Co­réia. Gostaria que desse uma olhada nas meninas para mim. Sabe, depois da última vez, fico sempre com medo que, se eu for para o trabalho e me esque­cer de ligar para casa, ela tenha tido o bebê em vinte minutos enquanto está trazendo as compras do mercado para dentro.

— Qual, dê-lhe meia hora. — Teddy sorriu por um minuto, depois olhou para o irmão com ar mais sério. — Essa missão vai ser perigosa?

Teve de repente uma sensação estranha. Brad estava sendo muito displi­cente, mas podia ver que os seus olhos estavam preocupados.

— Duvido. Já estamos com consultores ali há algum tempo. Só quero ver como estão se saindo. Não estamos nos envolvendo, na verdade. Estamos apenas observando.

Mas observando o quê?

— Durante quanto tempo, Brad? — perguntou, com ar preocupado.

— Vou ficar fora só alguns dias.

— Não foi isso que eu quis dizer. Quis dizer durante quanto tempo vamos apenas ficar observando, por lá?

— Durante algum tempo. — Brad foi evasivo, e depois olhou para o irmão. — Tenho que ser franco com você, Teddy. Acho que vamos nos encon­trar metidos numa guerra por lá. E uma guerra estranha pra burro, deixe que lhe diga, mas é o que acho. Vou relatar ao Pentágono o que descobrir.

— Cuide-se, Brad.

Os dois irmãos trocaram um longo olhar, e Brad deu uma palmadinha no braço dele antes de ir falar com Serena.

— Não se preocupe, garoto, não se preocupe.

Porém, quando contou à mulher, ficou espantado com a sua reação. Ao contrário da sua aceitação habitual de tudo o que ele fazia, ela lhe supli­cou que não fosse para a Coréia.

— Mas, por quê? São só uns poucos dias, e o bebê só vai chegar daqui a dois meses.

— Não faz mal! — Gritara, a princípio, depois chorara. — Não quero que você vá.

— Não seja boba. — Achou que aquilo era nervosismo de mulher grávida, mas aquela noite ele a ouviu chorando no banheiro, e ela lhe suplicou inúmeras vezes para não ir, e se agarrou a ele, quase histérica. — Nunca a vi desse jeito, Serena.

Estava preocupado. Quem sabe havia algum outro problema que ela não lhe havia contado. Mas ela insistiu que não era isso.

— Nunca me senti desse jeito, não consigo explicar.

— Então esqueça. Teddy ficará aqui, e logo estarei de volta.

Mas Serena estava em pânico. Tinha um pressentimento que a enchia de terror.

 

Na manhã em que Brad partiu para Seul, Serena sentiu-se extremamente ner­vosa. Estava com umas eólicas esquisitas do lado esquerdo, os pés do bebê a tinham cutucado a noite toda. Vanessa chorara repetidas vezes na hora do café, e pouco antes de Brad partir, Serena teve que lutar contra um desejo quase avassalador de cair em prantos de novo, como vinha fazendo desde que ele lhe dissera que ia viajar. Teve vontade, mais uma vez, de suplicar-lhe que não fosse, mas, cercada por ordenanças e assistentes e sargentos e oficiais, além de Vanessa e Teddy, sentiu-se incapaz de fazê-lo. Ele sabia como ela estava se sentindo, e insistia em ir.

— Bem, doutor. — Apertou a mão do irmão. — Cuide das minhas meninas para mim. Volto daqui a uns dias.

Estava minimizando as coisas, depois de todas as cenas histéricas com Serena.

— Sim, coronel.

Os olhos de Teddy eram brincalhões, mas apesar disso parecia preocupa­do. Havia algo na ida de Brad à Coréia que também o deixava desesperadamente nervoso. Mas, como Serena, também ele achava que este não era o lo­cal nem a hora para tocar no assunto.

Serena deu um longo beijo na boca de Brad, e ele implicou com ela por causa do seu barrigão. Ela estava usando um vestido largo de tecido riscadinho azul e sandálias, e o cabelo louro e macio lhe caía pelas costas. Parecia mais uma Ahce no País das Maravilhas do que uma futura mamãe. Vanessa deu adeus para o pai enquanto ele subia a escada, e pouco depois o avião estava lá no alto, e Teddy as acompanhou até o portão e as levou para casa. Serena levou Vanessa lá para cima, para tirar uma soneca, e desceu dali a minutos, os olhos preocupados, o rosto tenso, como se mostrava há dias.

— Você está bem?

Ela fez que sim, mas estava estranhamente quieta, e afinal decidiu-se a se abrir com Teddy.

— Estou tão nervosa, Teddy.

Ele olhou para ela por um minuto, perguntando-se se devia lhe contar que também estava, mas resolveu ficar quieto.

— Acho que ele vai ficar bem.

— Mas, e se acontecer alguma coisa?

As lágrimas afloraram aos seus olhos de novo, e Teddy lhe segurou a mão com ar de confiança tranqüila.

— Ele vai ficar bem, tenho certeza.

Mas, quando o telefone tocou na manhã seguinte, Teddy teve um pressentimento fúnebre enquanto corria a atendê-lo. Moveu-se quase que por reflexo, como fazia quando era chamado para ir às enfermarias quando estu­dante, mas agora, ao segurar o aparelho, teve ímpetos de bater o fone antes que alguém pudesse falar.

— Pronto?

— A Sra. Fullerton está?

— Ainda está dormindo. O que deseja?

— Quem está falando?

Fez-se uma pausa.

— O Sr... O doutor... — sorriu ele — Fullerton. Sou o irmão do Coro­nel Fullerton.

Mas o sorriso já desaparecera. Tinha uma sensação horrível na boca do estômago.

— Doutor. — A voz era grave. — Infelizmente temos más notícias. — Teddy prendeu a respiração. Ah, Deus, não... Mas a voz continuou, implacável, e Teddy sentiu-se tomado pela náusea. — O seu irmão foi morto. Foi abatido ao norte de Seul, hoje de manhã cedo. Estava na Coréia como consul­tor, mas houve um engano...

— Um engano? — Teddy gritou repentinamente. — Um engano! Foi morto por engano? — E então, apavorado, baixou o volume da voz.

— Sinto muitíssimo. Alguém irá até aí mais tarde para falar pessoalmente com a Sra. Fullerton.

— Ah, Jesus.

As lágrimas escorriam pelo rosto dele, e não conseguia mais falar.

— Eu sei. Lamento muito. Vão trazer o corpo para o enterro daqui a alguns dias. Vamos enterrá-lo aqui, com todas as honras militares, em Presidio. Imagino que a família queira vir do Leste para a cerimônia.

Tinham acabado de vir para a formatura de Teddy, e agora voltariam para o enterro de Brad. Ao se dar conta disso, Teddy desligou lentamen­te, e as lágrimas começaram a lhe rolar pelas faces. Escondeu o rosto nas mãos e soluçou silenciosamente, pensando no irmão mais velho a quem sempre admirara, e em Vanessa e Serena. E então, como se tivesse pressen­tido alguma coisa, ergueu os olhos e deparou com ela, parada no vão da porta.

— Teddy?

Estava terrivelmente pálida e ficou imóvel, como se todo o seu corpo estivesse tenso e retesado.

Por um momento, ele não soube o que dizer ou fazer. Havia alguma semelhança com os momentos que antecederam o parto do bebê. E agora, como então, ele se controlou e caminhou rapidamente para onde ela se encontrava, abraçou-a e lhe contou.

— Serena... é o Brad... — Começou a soluçar. O seu irmão mais velho se fora. O irmão a quem tanto amava. E agora tinha que contar a Serena. — Foi morto.

Todo o corpo dela ficou tenso, e depois ele a sentiu desabar de encon­tro a si.

— Ah, não... — fitou Teddy, completamente incrédula. — Ah, não... Teddy... não. — Ele a conduziu lentamente até uma cadeira e fê-la sentar-se, enquanto ela não tirava os olhos dele. — Não! — E, de repente, Serena levou as mãos ao rosto e começou a choramingar, enquanto Teddy se ajoelhava diante dela, lágrimas rolando pelo rosto enquanto a abraçava. Quando ela ergueu o rosto para ele de novo, Teddy jamais tinha visto um olhar tão deso­lado. — Eu sabia... antes dele viajar... eu sentia... e ele não quis me escutar.

O seu corpo era todo sacudido por soluços, enquanto os dois choravam, e então, de repente, Teddy sentiu que ela se enrijecia, fitando a porta. Virou-se para ver o que ela via, e lá, de camisola, fitando-os, estava parada Vanessa.

— Cadê o papai?

— Ainda não chegou, coração.

Serena enxugou as lágrimas com as mãos e estendeu os braços para a fi­lha. Porém, enquanto a criança trepava no seu colo, com ar preocupado, Sere­na ficou arrasada, e Teddy não suportava vê-las.

— Por que você e tio Teddy estão chorando?

Serena pensou por um longo momento, as lágrimas escorrendo livremente, com a criança no colo; a seguir, beijou Vanessa docemente nos cachinhos dourados e olhou para ela com sabedoria e tristeza.

— Estamos chorando, minha querida, porque tivemos uma notícia mui­to triste. — A menina fitava a mãe com olhos arregalados e confiantes. — E como você já é uma mocinha, eu vou contar para você. — Inspirou fundo e Teddy a observava. — Papai não vai voltar da sua viagem, minha querida.

— Por que não?

Parecia chocada, como se lhe tivesse dito que Papai Noel tinha sumi­do para sempre. E para Serena e Vanessa, tinha mesmo. Serena forçou-se a falar com calma.

— Porque Deus resolveu que queria papai com Ele. Precisava do papai como um dos seus anjos.

— O papai agora é um anjo? — perguntou Vanessa, espantada.

— É.

— Ele tem asas?

Serena sorriu, os olhos cheios de novas lágrimas.

— Acho que não. Mas está no céu com Deus, e está o tempo todo com a gente, agora.

— Posso ver ele?

Os olhos da menina estavam enormes enquanto fazia a pergunta, e Serena sacudiu a cabeça.

— Não, minha querida. Mas nós sempre vamos nos lembrar dele e amá-lo.

— Mas eu quero ver ele!

Começou a chorar, e Serena a abraçou com força, pensando a mesma coisa... e agora elas jamais o veriam de novo... jamais... ele tinha partido para sempre.

Mais para o fim da manhã, vários funcionários do governo vieram vê-la. De­ram-lhe todos os detalhes que não lhe interessavam, fizeram um discurso for­mal sobre como ele morrera a serviço do seu país. Deram explicações sobre o enterro e disseram-lhe que ela podia permanecer na base por mais 30 dias, após o enterro, enquanto Serena tentava compreender o que eles diziam e sentia que não estava entendendo nada.

— Trinta dias?

Olhou para Teddy, com ar inexpressivo. E, então, compreendeu. A casa deles pertencia à base de Presidio, e ela agora não mais fazia parte do exército. Iria receber uma pequena pensão, mas era só, tinha que enfrentar o mundo lá fora e aprender a viver como civil. O seu mundo de sonhos protegido das flo­restas de Presidio, dando para a baía, não existia mais, assim como a proteção do seu marido. Para ela tudo acabara. E o mundo real estava esperando lá fo­ra para devorá-la. Lembrou-se também, do mesmo modo que Teddy, do do­cumento que a sogra a fizera assinar logo no começo, e na manhã seguinte Teddy descobria que o irmão tinha morrido sem deixar testamento. Portanto, tudo o que tinha revertia para a família. Não haveria nada para Serena, nem para Vanessa, nem para o novo bebê. As implicações do que a esperava eram tão assustadoras que Serena passou duas noites acordada, fitando o teto. Ele se fora... nunca mais voltaria... Brad estava morto. Ela ficava repetindo es­sas palavras vezes sem conta. Abriu a porta do armário e viu as roupas dele ali, e ainda havia camisas para passar no armário do primeiro andar. Porém ele nunca mais ia voltar para usá-las, e enquanto se dava conta disso de novo, ajoelhou-se no chão da lavanderia, agarrada às camisas dele e soluçando. Teddy a encontrou alie a levou lentamente para o andar de cima, onde des­cobriram Vanessa, pequenina e muito abalada, escondida no armário de Brad. Subira no colo de Teddy e, com olhos grandes e tristes, fizera-lhe a pergunta:

— Agora você vai ser o meu papai?

Todos do iam de tanta tensão e sofrimento, e no terceiro dia Teddy notou uma mudança total em Serena. Movia-se como que entorpecida, sem com­preender, mal pensando, e de repente, lá pelo meio da manhã, ele a ouviu dar um grito de dor. Quase como se tivesse pressentido o que acontecera, Teddy saiu correndo e foi encontrá-la no seu quarto. A bolsa d'água tinha arrebenta­do, ela já estava caída no chão, dobrando-se ao meio de tanta dor. Porém, des­sa vez, foi diferente de quando teve Vanessa. Dessa vez não havia nenhum in­tervalo entre as dores, e quando chegou ao hospital, Serena estava histérica. O bebê não nasceu em meia hora. Teddy levara Vanessa correndo para a casa de uma vizinha, e ficara ao lado de Serena o tempo todo, observando-a atenta­mente antes da chegada da ambulância, e durante a viagem até o hospital. Des­sa vez o pulso dela estava débil, a respiração torturada, os olhos vidrados. En­trou em estado de choque no hospital, e dali a uma hora teve um menino natimorto. Teddy ficou na sala de espera durante várias horas, até poder vê-la, e quando a viu, ficou assombrado por aqueles olhos verdes, antes belas esme­raldas, agora um mar profundo cheio de dor. Ela estava tão atolada no pró­prio sofrimento que nem ouviu quando ele chamou o seu nome.

— Serena. — Tomou-lhe a mão. — Estou aqui.

— Brad? — Virou para ele os olhos vidrados.

— Não, é Teddy.

Ela ficou com os olhos cheios de lágrimas e desviou o rosto.

Ainda estava daquele jeito na manhã seguinte, e dali a dois dias, quando lhe deram alta. E naquela manhã tiveram que enterrar o seu filho num minús­culo caixão branco, que baixaram lentamente para o fundo da terra, enquanto ela desmaiava. No dia seguinte, trouxeram o corpo de Brad para casa, e ela te­ve que ir até o quartel-general assinar uns papéis. Teddy pensou que ela não agüentaria. Mas agüentou, e assinou os formulários com uma expressão de horror que quase o deixou tonto.

E durante tudo isso ainda teve que se ver com Margaret Fullerton. Serena insistira em ligar para ela pessoalmente, e não houve nenhum grito de angústia por parte da mãe de Brad. Houve apenas uma fúria desenfreada e um sentimento de vingança, enquanto ela culpava Serena pelo que acontecera. Se ele não se tivesse casado com ela, não teria continuado no exército e não teria ido para a Coréia. Com a voz trêmula de raiva, ela desabafou a sua dor tentando destruir Serena, e finalmente lembrou-lhe venenosamente do con­trato.

— E não pense que vai tirar um tostão de mim, para você ou para a sua filha. Espero que as duas apodreçam no inferno, pelo que fizeram a Bradford.

Ela bateu o telefone com força, e Serena chorou, inconsolável, durante duas horas. E foi então que Teddy sentiu pela mãe o mesmo ódio que sabia que Brad sentia. Só o que queria era proteger Serena, mas não havia nada que pudesse fazer para modificar o que tinha acontecido. Brad se fora, sem deixar testamento, e mesmo que tivesse deixado, aquilo teria sido de pouco consolo para Serena. Queria o marido de volta. Não queria o dinheiro.

Quando Margaret Fullerton chegou de Nova York, trouxe Pattie e Greg con­sigo. O pai de Brad ainda estava doente demais para viajar, e de qualquer for­ma, seguindo as ordens médicas, eles não lhe haviam dado a triste notícia.

Teddy foi buscar o trio no aeroporto. A mãe estava rígida e sombria, Greg parecia estar num estupor, e Pattie tagarelou nervosamente durante toda a viagem do aeroporto até a cidade. A única coisa que a mãe falou, duran­te o trajeto, foi:

— Não quero ver aquela mulher.

Teddy sentiu o sangue ferver.

— Vai ter que ver. Ela já sofreu bastante sem você precisar torturá-la mais.

— Ela matou o meu filho. — Os olhos dela estavam cheios de ódio.

— O seu filho foi morto na Coréia numa missão militar, pelo amor de Deus, e Serena acaba de perder um bebê.

— Ainda bem. Não ia ter condições de sustentá-lo, agora.

— Você me deixa enojado.

— É melhor que você fique longe dela, Teddy, a não ser que queira ter aborrecimentos comigo.

— Não vou fazer isso.

Nada mais foi dito, e ele os deixou no hotel e voltou para junto de Serena.

Na cerimônia do enterro, no dia seguinte, Margaret ficou com Pattie e Greg, e Teddy se colocou entre Vanessa e Serena. Vanessa não parecia entender o que estava se passando, e a mãe ficou agarrada ferozmente a Teddy durante as honras militares. No final, entregaram-lhe a bandeira dobrada e Serena se virou lentamente, foi para onde Margaret se encontrava e a estendeu, com mãos trêmulas, para a mãe de Brad. Houve um momento de hesitação enquan­to os olhos de ambas se encontravam fixamente, e depois a mulher mais velha a segurou, sem uma palavra de agradecimento. Entregou a bandeira a Greg, depois se virou e se afastou, o rosto escondido por um véu negro, enquanto Serena a acompanhava com o olhar.

Teddy levou Serena e Vanessa para casa, depois, e lançou um olhar para a cunhada, que assoava o nariz.

— Por que fez aquilo? — Ela sabia que se referia à bandeira. — Não pre­cisava.

— Ela é a mãe dele. — Os seus olhos ficaram cheios de lágrimas, enquan­to se encontravam com os dela, e de repente Serena encostou a cabeça no om­bro de Teddy e soluçou: — Ah, Deus, o que vou fazer sem ele?

Teddy parou o carro e tomou-a nos braços, e ficou abraçado com ela enquanto Vanessa os fitava.

 

— Serena?

Ele se aproximou lentamente por trás dela, que estava sentada no jardim, em meio à neblina, escutando as sirenes de neblina. Na última semana ela se tornara uma espécie de fantasma... uma pessoa assombrada. Era doloroso de se ver, como se ela estivesse se desvanecendo.

— Sim?

— Você precisa ficar boa, Serena. Precisa.

— Por quê? — perguntou, fitando-o com ar inexpressivo.

— Por mim, por si mesma, por Vanessa... — Os olhos dele ficaram cheios de lágrimas. — Por Brad.

— Por quê?

— Porque precisa, porra. — Tinha vontade de sacudi-la. — Se você desa­bar, o que vai acontecer a essa criança?

— Você cuidará dela, não é?

Parecia subitamente desesperada, e ele fez que sim, com um suspiro.

— Cuidarei, mas não é essa a questão. Ela precisa de você.

— Mas você cuidará? — Os olhos dela perscrutaram-lhe o rosto, e ambos se lembraram do documento. — Se eu morrer, tomará conta dela?

— Você não vai morrer.

— Quero morrer.

Foi então que ele a sacudiu.

— Não pode.

Nesse instante ambos escutaram uma vozinha que vinha da porta.

— Mamãe, preciso de você.

Ela tivera um pesadelo, e ao som da sua voz, Serena começou a acordar do seu próprio. Na semana seguinte Teddy ajudou Serena a encontrar um apartamento, e ela arrumou todas as suas lindas coisas e se mudou para Pacific Heights. Era um apartamento de dois quartos com vista para a baía, cujo aluguel dava para pagar mal e mal com a pensão. Se quisesse comer, teria que arranjar um emprego.

— Quem sabe eu devia ir para a cidade e começar a vender o meu corpo? — Olhou cinicamente para Teddy, que não pareceu achar graça. Mas a idéia, embora sarcástica, fez Serena pensar num tipo de emprego. No dia se­guinte ela foi até a cidade e começou a se informar em todas as grandes lojas de departamentos. Antes do meio-dia já tinha sido contratada, e voltou para contar a Teddy que estava empregada. — Arranjei um emprego hoje.

— De quê?

Ele se preocupava com ela o tempo todo. Tinha passado por tanta coisa, a perda do marido, do bebê, da sua casa. Até onde poderia agüentar, ele ficava se perguntando.

— De modelo, a setenta e cinco dólares por semana.

— E quem vai cuidar da sua filha?

— Eu arranjo alguém — falou, com ar de determinação. Recusava-se a ser derrotada pela vida, não importa o quanto ela tentasse abatê-la. Tinha so­brevivido à perda dos pais, e à guerra. Agora Brad. Mas estava resolvida a ven­cer. Por Vanessa.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não quero que faça isso. Quero que me deixe ajudá-la.

Mas ela não quis deixar. Tinha arranjado um emprego e ia sustentar a família. Nem que morresse, ia vencer. Devia isso a Brad. Fazia apenas três semanas desde que fora morto na Coréia, e agora os Estados Unidos estavam em guerra... era como se a guerra particular dela se tivesse tornado pública.

Olhou para Teddy, subitamente amedrontada.

— Quando vai voltar para Nova York?

Sabia que ele ia começar a trabalhar como interno em agosto, e estavam quase em julho. Mas ele sacudia a cabeça, lentamente.

— Não vou.

— Vai ficar? — Por um momento, Serena pareceu ficar emocionada.

— Não. — inspirou fundo. Andava com medo de contar para ela. — Me alistei na Marinha. Quero ir para a Coréia.

— O quê? — ela gritou e agarrou a camisa dele, inconscientemente. — Não pode fazer isso! Não você, também...

Começou a soluçar baixinho, agarrada à camisa, e ele a tomou nos bra­ços com lágrimas nos olhos.

— Eu preciso. Por ele.

E por ela, pensou consigo mesmo. Para fugir dos sentimentos dele, que ameaçavam se revelar a cada momento.

— Quando parte?

— Daqui a alguns dias. Algumas semanas. Quando me chamarem.

— E quanto a nós? — Parecia repentinamente apavorada.

— Vão ficar bem. — Sorriu para ela, por entre as lágrimas. — Que diabo, você está empregada.

— Ah, Teddy, não vá.

Ela se abraçava com força a ele, e nada mais foi dito. Os dois ficaram ali, agarrados aos últimos frangalhos do que não existia mais, e nem voltaria a existir. Assim como a infância dela terminara quando as balas de Mussolini rasgaram as carnes dos seus pais, há muito tempo, agora outra era tinha termi­nado. Jamais voltaria a ser a mulher de Brad, jamais se sentiria envolvida de novo nos seus braços. E agora não haveria nem mais Teddy. Todos tinham crescido. Num período de três curtas semanas. Os dias do princípio tinham se acabado.

 

Às seis horas da manhã de um dia nevoento no final de julho, Serena estava no píer em Oakland, abraçando Teddy pela última vez. As semanas tinham voado, não podia acreditar que ele já estivesse partindo. Suplicara que mudas­se de idéia, a princípio, e finalmente aceitara a decisão dele. E era óbvio pelo jeito que as coisas estavam acontecendo na Coréia que, mais cedo ou mais tar­de, ele teria mesmo que ir. Conseguira uma comissão na Marinha, e receberia o seu treinamento como interno em algum lugar da Coréia. Sem dúvida não era o que tinham planejado. Mas, desde a morte de Brad, o que era?

Para Serena, o mundo todo virará de ponta cabeça em menos de dois meses. Agora estava viúva, sozinha com Vanessa, trabalhando. E ao olhar para Teddy, fardado, deu-se conta de que o único ser humano que lhe restava como apoio ia partir. Agarrou-se a ele por um longo momento, lutando contra as lágrimas enquanto fechava os olhos.

— Ah, Deus, Teddy... gostaria que você não fosse.

— Eu também.

E então, tentando ser uma irmã corajosa, deu um sorriso meigo e animador.

— Mas seja um bom menino e use as suas galochas, escreva para mim aos domingos... — E, num murmúrio rouco: — Não se esqueça da gente...

— Ah, Serena... não fale assim! — Apertou-a com força contra si, e quem os estivesse observando teria imaginado que ela estava se despedindo do marido, não do irmão do marido, enquanto ele enxugava as lágrimas do rosto dela, abraçava-a de novo, depois dava um passo atrás para olhá-la pela última vez. — Vou voltar. E logo. Portanto cuide-se, e cuide de Vanessa, por mim.

Ela assentiu, as lágrimas escorrendo dos olhos, enquanto outras pessoas passavam apressadas por eles para embarcar no navio que devia zarpar dali a uma hora. Deus, como queria ficar com ela, pensou ele consigo mesmo, olhan­do para Serena. No entanto, sabia que tinha que ir. Era uma coisa que tinha que fazer por si mesmo e pelo irmão, não importa o que os outros dissessem. A mãe viera de avião de Nova York, furiosa, ameaçando mexer os pauzinhos, usar os seus contatos e fazer com que o pusessem para fora das Forças Arma­das. Mas ele foi tão veemente sobre a sua decisão que, no fim, até mesmo ela capitulou. Os seus motivos e modo de pensar tinham que ser respeitados. O que era aterrador era a possibilidade dele ser morto.

Serena tentou não pensar nisso enquanto estendia a mão para tocá-lo pela última vez. Havia um elo extraordinário entre eles, fora assim desde o começo, e se fortalecera quando ele fizera o parto de Vanessa. Mas nos dois últimos meses tinha havido algo mais, estar com Teddy era como se apegar a uma parte de Brad. Permitia-lhe apegar-se a ele de um modo distante e melan­cólico. E agora, também estava perdendo Teddy. Porém não para sempre, esperava ela.

— Serena... — Ele começou a falar, depois parou, quando o apito do navio soou, abafando qualquer coisa que qualquer um dissesse. Soou mais três vezes, depois ouviu-se um gongo. Estava na hora de partir, e Serena sentiu uma onda de pânico, enquanto ele a agarrava, puxava para junto de si e apertava com força. — Vou voltar. Pode saber disso.

— Eu o amo.

Ela ficou com os olhos cheios de lágrimas e gritou-lhe as palavras ao ouvido, agarrada a ele. Teddy menou a cabeça, pegou a sua maleta e foi subindo no navio, junto com os outros. Foi só dali a vários minutos que Serena o viu de novo, bem acima dela, de pé no tombadilho, acenando lentamente, e ela não pôde conter as lágrimas. Elas escorreram livremente pelo seu rosto até que, finalmente, os apitos soaram de novo, fazendo concerto com as sirenes de nevoeiro à distância, e o navio começou a zarpar lentamente. Ela sentia como se o seu coração estivesse indo com ele, e quando o navio foi inteira­mente engolido pela neblina, Serena se virou devagar e voltou para o carro de cabeça baixa, as lágrimas ainda lhe escorrendo dos olhos.

Quando voltou para San Francisco, Vanessa estava esperando com uma babá contratada por hora, e quis logo saber quando tio Teddy ia voltar para casa. Serena precisou reunir todas as suas forças para explicar de novo que Teddy ia ficar fora por um longo tempo, mas que voltaria para elas tão logo pudesse. Elas iam fazer muitas coisas boas juntas, encorajou-a Serena, tais como ir ao zoológico, visitar os roseirais no parque, o jardim de chá japonês, ir ao circo quando viesse à cidade... porém antes que pudesse terminar, esta­va com os olhos marejados de lágrimas de novo, abraçando a filha com força.

— Ele vai ser como papai e nunca mais voltar?

Os olhos de Vanessa estavam enormes no rosto cheio de dor, e Serena estremeceu à idéia.

— Não! Tio Teddy vai voltar! Já lhe disse.

Tinha vontade de gritar com a menina por dar voz aos terrores contra os quais ela própria estava lutando. Porém a voz de Serena tremia enquanto respondia, e como acontecera mil vezes nas últimas semanas, pegou-se dese­jando poder fazer o tempo retroagir. Se pudesse fechar os olhos e voltar para os dias que tinha partilhado com Brad, para a certeza de que ele a protegeria, que estaria ao seu lado... para os dias dourados que tinham vivido em Presi­dio... ou em Paris... ou nos primeiros dias, em Roma. Há semanas escrevera para Marcella, para contar-lhe a notícia. E a resposta, ditada para uma das no­vas empregadas que trabalhava sob as suas ordens, fora desolada. Oferecia a Serena os seus sentimentos, assim como as suas orações. Mas ela estava preci­sando mais do que isso, agora. Precisava de alguém para lhe segurar a mão, para tranqüilizâ-la, afirmando que venceria.

Nos meses que se seguiram, houve vezes em que realmente se perguntou se sobreviveria. Meses em que mal conseguia pagar o aluguel, quando as con­tas estavam atrasadas, quando comiam sanduíches de manteiga de amendoim ou geléia, ou apenas ovos. Jamais tinha conhecido esse tipo de pobreza antes. Durante a guerra, estivera a salvo com as freiras, e depois, no palazzo em Ro­ma, ela e Marcella tinham quem provesse a sua subsistência, mas agora não havia ninguém a quem apelar, ninguém para ajudá-la, ninguém para lhe em­prestar dinheiro quando tinha apenas dois dólares no bolso e o pagamento só sairia dali a três dias. Vezes sem conta pensou no acordo que assinara para Margaret Fullerton. Se nunca tivesse sido forçada a assinar aquele maldito documento, pelo menos ela e Vanessa poderiam comer direito. Vanessa teria roupas bonitas, e mais do que apenas um par de sapatos muito gastos. Certa vez, desesperada, quase se dirigiu a eles, pedindo ajuda, mas não pôde. Além disso, no íntimo, sabia que de nada adiantaria. Margaret Fullerton odiava Se­rena de modo tão veemente e irracional, que não havia nada que Serena pudesse fazer ou dizer para que mudasse de idéia. Era um ódio tão amplo e profundo que incluía até mesmo Vanessa, a sua única neta. Margaret Fuller­ton não estava ligando a mínima se elas morressem de fome ou não. Na verda­de, Serena até mesmo suspeitava que torcia para que morressem.

Apenas a alegria de encontrar Vanessa no fim de cada dia fazia com que continuasse firme. Apenas as cartas de Teddy aqueciam o seu coração. Apenas o dinheiro do seu trabalho de modelo na loja as mantinha vivas. Havia dias em que achava que ia cair morta de exaustão e em que tinha vontade de cho­rar de desespero. Porém, dia após dia, seis dias por semana, ia à cidade para bancar a modelo, para desfilar pelos andares da loja nas últimas criações, para distribuir amostras de perfumes, para ficar parada junto da porta de entrada num impressionante casaco de peles, para desfilar quando a loja tinha desfi­les de modas. Foi só no segundo ano que foi promovida para o salão dos gran­des costureiros. E então desfilava para os fregueses especiais, ou nos grandes desfiles. Usava apenas os melhores vestidos dos grandes nomes de Nova York ou Paris, e estava aprendendo rapidamente os macetes da profissão, como fa­zer meia dúzia de penteados que lhe ficavam muito bem, como se maquiar à perfeição, como se mover, como sorrir, como vender as roupas simplesmente fascinando os compradores. E embora já fosse bonita antes, com tudo de novo que estava aprendendo, agora ainda chamava mais a atenção. As pessoas falavam a seu respeito, na loja, e com freqüência a fitavam. As freguesas olha­vam para ela com inveja, mas principalmente com uma espécie de fascinação, como se fosse uma obra de arte. Os maridos das freguesas fitavam Serena, totalmente assombrados pela sua beleza, e não demorou muito para que a agên­cia de publicidade da loja a notasse, e fizesse dela a modelo principal. Todas as semanas a sua foto saía nos jornais, e no fim do seu segundo ano na loja as pessoas começaram a reconhecê-la na cidade. Os homens a convidavam para sair. Recebia convites para festas de gente que praticamente não conhecia, mas a sua resposta era sempre a mesma. Recusava, sem exceção. O seu único interesse era voltar para casa para Vanessa, para brincar com a menina de ca­belos dourados que se parecia tanto com B.J., para cantar com ela canções tolas ao piano que comprara num leilão, para ler histórias para ela, para parti­lharem os seus sonhos. Serena dissera-lhe que um dia ela seria uma senhora bela, famosa...

— Como você, mamãe?

Serena sorriu.

— Não, muito mais bonita do que eu, bobinha. Todos vão parar para olhar para você nas ruas, e você será bem-sucedida e feliz.

Serena fitava o vazio por um momento, pensando nos seus próprios sonhos. Será que era isso o que queria? Ser olhada? Ser bem-sucedida? Para ela, a profissão de modelo fora a única resposta, mas era estranho, ganhar a vida pela aparência, e com freqüência se sentia tola e sem importância, como o manequim que era, literalmente. Porém nada daquilo tinha importância... não se podia dar ao luxo de ter dúvidas a respeito. Tinha que sobreviver.

Era uma vida dolorosamente vazia. Tinha a filha, e o trabalho, e o apartamento. Porém, além disso, não tinha mais nada. Nem homem, nem amigos, ninguém com quem conversar ou para quem apelar. Não parecia haver lugar na vida dela para mais ninguém, além da filha. E à noite, ficava sentada, lendo ou escrevendo cartas para Teddy, que levavam semanas para chegar até ele, nos postos avançados da Coréia. Ele agora era residente, e lhe escrevia cartas longas e tristonhas sobre o que pensava da guerra. Para ele, tudo parecia uma carnificina sem sentido, uma guerra que não podiam vencer e que não lhe di­zia respeito, e ele ansiava por voltar para casa ou ser transferido para o Japão. Havia vezes em que lia as cartas dele vezes sem conta, segurando-as na mão e depois fitando a baía, lembrando-se do rosto dele no dia em que o conhe­cera... da sua aparência de fraque, no casamento de Greg... do dia em que fizera o parto de Vanessa... da sua formatura em Stanford. Era estranho o modo pelo qual confundia o rosto dele com o do marido, na sua mente. Era como se, ao longo dos dois últimos anos, eles se tivessem confundido, na sua cabeça.

No seu terceiro Natal a sós, Serena e Vanessa foram à igreja rezar pela segurança dele, como faziam todos os domingos, e naquela noite Serena ficou deitada na cama, chorando. Doía de vazio e exaustão, dos anos a sós, das horas intermináveis de trabalho duro na loja, e tudo isso extravasava sobre Vanessa. Era como se tivesse que dar tudo de si, e não havia ninguém para rea­bastecer as suas forças. Semana após semana ela esperava ansiosa pelas cartas de Teddy. Eram elas que a faziam continuar. Era nas cartas que escrevia para ele que extravasava a sua própria alma. Era nas cartas que encontrava o ânimo para viver. De certa forma, eram o seu único contato com um adulto, e o seu único contato com um homem.

No trabalho, não falava com quase ninguém. Tinha-se descoberto, a certa altura, que ela fora uma princesa italiana antes do seu casamento com um soldado americano, e todos haviam concluído que era arrogante e meti­da a besta, e tinham medo da sua beleza. Depois de algum tempo, ninguém sequer tentava fazer amizade com ela. Não podiam saber o quanto se sentia solitária por trás da fachada reservada de princesa. Apenas Teddy o sabia, quando lia as suas cartas, pois a sua dor e solidão e sofrimento ainda presen­tes pela morte do marido eram evidentes nas entrelinhas.

"É espantoso ver" — escreveu para ele, depois do Natal — "como todos me entendem mal. Acham que sou fria e esnobe, imagino eu, e deixo que pen­sem assim. É mais fácil, e mais seguro, talvez, do que permitir que saibam o quanto estou doendo por dentro." Ainda sentia falta de Brad, porém agora era mais do que isso. Sentia falta de alguém. Alguém com quem conversar, com quem dividir, com quem dar risada, com quem dar passeios na praia. Não suportava fazer as coisas que tinha feito com Brad, ou mesmo com Ted­dy, apenas a faziam sentir-se mais solitária, e lembravam-na de como estava sozinha. "Sinto, às vezes, que isso vai durar para sempre. Sempre estarei aqui, sozinha com Vanessa, noite após noite e ano após ano, neste apartamento, trabalhando na loja, e ninguém jamais me conhecerá. Isso me assusta, às ve­zes, Teddy. É como se você fosse o único que resta que me conheceu de verdade..."

Havia Marcella, é claro, mas há anos que não a via, e Marcella agora fazia parte de uma outra vida. As cartas que ditava para outra pessoa escrever para mandar para Serena eram sempre afetadas e desajeitadas, e também dei­xavam um abismo vazio. Na verdade, havia apenas Teddy, a milhares de quilô­metros de distância, na Coréia, e foi apenas nos últimos meses da guerra que ambos começaram a se dar conta do que tinha acontecido. Depois de dois anos e meio de escrever cartas, desnudando-se mutuamente as almas, amparando-se através da distância, ela finalmente entendeu por que não houvera ninguém em quase três anos. Estava esperando por ele.

Na manhã em que escutou a notícia de que a guerra acabara, estava trabalhando na loja, e usando um costume de noite de veludo preto com gola de organdi engomado, e ficou parada no meio do salão dos grandes costureiros com as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Uma vendedora sorriu para ela, e as demais tagarelavam excitadas, entre si. A guerra na Coréia tinha terminado! E Serena teve vontade de gritar de alegria.

— Ele vai voltar para casa — sussurrou, mas alguém a escutou. — Ele vai voltar para casa!

— O seu marido? — perguntaram.

— Não. — Sacudiu a cabeça, assustada. — O irmão dele.

A mulher olhou para ela de modo estranho, e Serena soube, subitamente, que uma pergunta importante estava prestes a ser respondida. Quando os anos de correspondência se acabassem de repente, o que Teddy seria para ela?

 

Teddy voltou do Extremo Oriente no dia 3 de agosto, e ao pisar o solo de San Francisco foi oficialmente dispensado da Marinha. O seu período de residên­cia fora completado no calor da guerra, agora era um cirurgião, com um trei­namento que poucos tinham tido nos Estados Unidos, e estava a caminho de Nova York para treinar durante mais um ano com um grande cirurgião. Porém nada disso o preocupava, enquanto descia do avião, no aeroporto. O seu cabe­lo louro brilhava ao sol, o rosto estava bronzeado, e ele apertou os olhos para espiar a horda de gente que estava à espera. Como era diferente do dia em que deixara o navio em Oakland. E como se sentia diferente. Estivera fora durante três anos, e acabara de completar 30 anos.

E sentia como se naqueles três anos de guerra tudo a seu respeito tives­se se modificado. Os seus interesses, necessidades, prioridades, valores. Duran­te o longo vôo do Japão até ali, ele se perguntara vezes sem conta como iria se adaptar. Há quase três anos que não via a família. As cartas da mãe tinham sido noticiosas, porém ele sempre se sentira a anos-luz de distância de casa. Greg apenas lhe escrevera uma ou duas cartas por ano. O pai falecera no ano anterior. E a maioria dos seus amigos acabara deixando de escrever, exceto Se­rena. O seu principal contato com a civilização fora com ela, e agora estava subitamente de volta, no meio de um mundo que não lhe era mais familiar, procurando uma mulher que não via há três anos.

Seus olhos perscrutavam a multidão, e ele se dirigiu lentamente para onde os visitantes estavam reunidos. Cartazes eram agitados, ramos de flores erguidos, lágrimas escorriam pelos rostos, mãos desesperadas se estendiam para maridos e filhos e amantes que estavam longe há anos. E então, de repente, ele a viu, tão espantosamente bela que o coração dele deu um salto. Estava muito ereta, os olhos dilatados, quieta. Usava um vestido de seda ver­melha que caía reto e justo no corpo, com o cabelo louro e sedoso solto nos ombros, os olhos cor de esmeralda olhando direto para ele. Como ela, Teddy também estava estranhamente quieto, sem gestos alucinados, sem correrias. Apenas caminhou com firmeza para ela e então, como se ambos soubes­sem, tomou-a nos braços e abraçou-a com toda a força, as lágrimas correndo pelo rosto dos dois, e esquecendo-se dos anos que se tinham passado, beijou-a na boca, como que para apagar todos os anos de solidão e dor. Ficaram abra­çados assim por longos momentos e, finalmente, se afastaram e se entreolharam, mas os olhos dela estavam cheios e tristes, ao fitarem os dele. Teddy vol­tara para ela, sabia agora, mas Brad jamais voltaria. Era como se, nos três últi­mos anos, esperando pela volta dele, ela se tivesse enganado que era Brad na Coréia, e não Teddy. Porém estava compreendendo agora, como se recebesse um golpe físico, que o seu marido estava perdido para sempre. Em todos aqueles anos em que se corresponderam, era como se ela estivesse escrevendo para Brad, assim como para Teddy. Os dois homens haviam se fundido, na sua mente. E agora tinha que enfrentar a verdade de novo, enquanto o coração lhe caía aos pés e ela tentava não deixar a dor transparecer-lhe no rosto.

— Alô, Serena.

Ela sorria, tendo passado o choque inicial, e depois, simultaneamente, ambos olharam para a garotinha parada ao lado dela. Foi então que viram os três anos perdidos com a maior clareza. Vanessa estava com quase sete anos, e estava com três e meio na época em que Teddy se fora.

— Santo Deus, princesa! — Ajoelhou-se em meio ao vozerio para falar com Vanessa. Os olhos azuis e brilhantes dele dançavam, o seu rosto se iluminava num sorriso meigo. — Aposto que nem se lembra do seu tio Teddy.

— Lembro, sim. — Inclinou a cabeça para o lado, e quando sorriu, ele viu que os dois dentes da frente estavam faltando. — Mamãe me mostrava o seu retrato todas as noites. O seu e o do meu papai, mas ele não vai voltar. Mamãe me contou. Só você.

— Isso mesmo. — Uma pequena pontada de dor percorreu tanto Serena quanto Teddy, na mesma hora, mas ele ainda sorria para a garotinha. — Quan­ta saudade senti de você.

Ela balançou a cabeça com ar sério, enquanto o examinava.

— Você é mesmo médico? — Parecia preocupada, enquanto ele assentia. — Vai me dar uma injeção?

Teddy soltou uma risadinha e sacudiu a cabeça, enquanto a erguia até os ombros.

— Claro que não. Que tal um sorvete de casquinha, ao invés disso?

— Oba!

Começaram a caminhar, em meio à multidão, dirigindo-se para o terminal principal. Ele tinha que pegar a sua mala, depois podiam se pôr a caminho, indo para o apartamento que a ajudara a achar, antes de partir, o lugar que ele recordava todas as noites e dias nas selvas da Coréia, lembrando-se do rosto de Serena. E agora, olhando para ela, viu que ela tinha se modificado. Não falou nada até que estivessem no apartamento da Rua Washington, tomando café e fitando a baía.

Fitou-a por um momento longo e perscrutador, vendo a tristeza ainda presente, e a seriedade, e ao mesmo tempo alguma coisa terna. Pegou suave­mente a mão dela, enquanto largava a xícara.

— Você amadureceu, Serena.

— Espero que sim — sorriu ela. — Estou com vinte e sete anos.

— Isso não quer dizer nada. Tem gente que nunca amadurece.

— Tive muitos motivos para amadurecer, Teddy. — Olhou na direção do outro quarto, onde Vanessa brincava, depois de novo para ele. — E você também.

Ele concordou, lembrando-se de coisas que nem queria lembrar.

— Às vezes cheguei a pensar que nenhum de nós sobreviveria. — Forçou um sorriso. — Mas sobrevivemos. E imagino que a experiência tenha valido para alguma coisa. — E então, vendo tudo o que havia no rosto dela, e sem conseguir se impedir de perguntar: — Ainda sente falta dele, não é?

Ela fez que sim com a cabeça.

— É, senti falta de vocês dois.

— E só um de nós voltou. — Olhou para ela de modo estranho, enquan­to falava. Compreendera tudo que vira no rosto dela, logo que a enxergara no portão. — Talvez a gente nunca se conscientize de que alguém não vai voltar para casa. Não sei. — Sacudiu a cabeça. — Às vezes, quando recebia carta sua, ficava imaginando por um minuto por que não havia notícias de Brad, e en­tão eu me lembrava.

Ela balançou a cabeça, denotando compreensão.

— Só estava morto há dois meses, quando você se foi. Acho que nenhum de nós teve tempo para se conscientizar da verdade.

E sabia agora, mais do que nunca, o quanto aquilo era verdadeiro.

— Eu sei. — Olhou para ela, indagadoramente. — E agora? — Estava fa­zendo uma pergunta séria, e ela estava sabendo.

— Acho que hoje, finalmente, compreendi. — Soltou um suspiro baixo. — De certo modo, me escondi muito da verdade. Só o que fiz foi trabalhar e cuidar de Vanessa.

Isso ele já estava sabendo, pelas cartas.

— Aos vinte e sete anos, isso não é lá grande coisa, como vida. — E com um sorriso meigo: — Sabe, você está diferente.

Ela pareceu surpresa.

— Ficou desapontado?

Porém Teddy riu das palavras dela, e sacudiu a cabeça.

— Ah, Serena... não andou olhando no espelho, nos três últimos anos?

Desta feita, foi ela quem riu:

— Demais! É só o que tenho feito.

— Bem, seja lá o que tenha feito, está ainda mais linda do que era quando eu fui embora.

Ela apertou os olhos, fitando-o divertida.

— A guerra afetou a sua visão, tenente?

Ambos riram juntos.

— Não, princesa, não afetou. Você é a mulher mais linda que já vi. E já achava isso quando a conheci, em Nova York.

— Ah. — Ela fez um gesto depreciativo com a mão. — Agora é tudo fingimento e maquiagem.

— Não. — Era algo mais. Algo difícil de descrever. Algo no rosto dela, nos seus olhos, sua alma. Era maturidade e meiguice, sabedoria e sofrimento, e todo o amor que esbanjara com Vanessa. Era algo mais em que se transfor­mara, além da sua beleza física. Era algo que dava vontade da gente ficar olhando, algo que se pressentia, além de se enxergar. Olhou para ela e fez-lhe uma pergunta: — Serena, está levando a sério a sua profissão de modelo?

Nunca pensara no assunto, em todos os anos que passara na Coréia. Sim­plesmente imaginava que era algo que ela fazia para pagar o aluguel. Mas agora que a via,'que enxergava o modo como os seus ossos ficavam realçados, a sua aparência, o jeito com que se penteava e maquiava, com que se movimentava, sabia que ela poderia ter uma carreira fabulosa, se quisesse. Foi a primeira vez que teve este pensamento, enquanto se sentavam no sofá. Mas Serena apenas deu de ombros.

— Não sei, Teddy. Acho que não. — Sorriu e pareceu uma mocinha de novo. — Por que iria fazer isso? Exceto talvez para pagar o aluguel.

Ainda enfrentava uma luta de mês a mês. Mesmo agora.

— Porque você é tão bonita, e podia ganhar muito dinheiro. — Olhou significativamente para ela. — E já que não quer aceitar nada de mim, podia ser uma boa idéia. Já pensou em ir ser modelo em Nova York?

Ela não mencionara nada nas cartas, mas agora ele ficava se perguntan­do, e começava a gostar da idéia, não inteiramente por motivos altruístas.

— Não sei. Só de pensar em Nova York me dá medo. — Parecia preocupada. — Talvez não consiga trabalho em Nova York.

No entanto, era uma perspectiva interessante, e quem sabe um jeito de ganhar mais dinheiro do que vinha ganhando nos três últimos anos.

— Está brincando, Serena? — Tomou-a pela mão e caminhou com ela até o espelho. — Olhe só para isso, amor. — Ela ficou encabulada e vermelha enquanto fitava a sua imagem, e a do belo homem louro parado atrás de si. — Esse rosto arranjaria trabalho como modelo em qualquer lugar do mundo, Principessa Serena... A Princesa...

Enquanto olhavam para ela, os dois juntos, ele se deu conta de repente que alguma coisa mágica estava acontecendo, como se estivessem se vendo pe­la primeira vez.

— Teddy, não... pare com isso...

Ela se afastou do espelho, encabulada, e ele a virou lentamente para si, e a beijou, mas quando o fez foi subitamente tomado de desejo por esta mulher que vinha amando secretamente há sete anos. Mas, quando ia tocar no belo corpo, sentiu que ela enrijecia nos seus braços, e forçou-se a parar.

— Serena... desculpe... — Ficou de repente mortalmente pálido, e po­dia sentir todo o corpo tremer. — Faz tanto tempo... e...

Ela tomou-lhe o rosto nas mãos, os olhos marejados de lágrimas.

— Pare com isso, Teddy. Não tem do que se desculpar. Eu sabia que isso ia acontecer. Os dois sabíamos. Há três anos que estamos abrindo as nossas al­mas um para o outro. — E então ela tirou as mãos do rosto dele, abraçou-o com força e aninhou o rosto no seu ombro. — Eu o amo como a um irmão, Teddy. Sempre amei. Estava errada ao pensar que podia haver algo mais. Du­rante este último ano eu estava começando a imaginar coisas, sem querer ad­mitir para mim mesma, mas estava torcendo para que você viesse para casa para — engasgou com as lágrimas — substituí-lo. — Sentia-se culpada até mesmo em pronunciar as palavras, e finalmente se afastou de Teddy. — Não é justo espe­rar isso de você. Não é a mesma coisa. É engraçado. — Sorriu por entre as lá­grimas. — Você é tão parecido com ele, mas é você. E eu amo você, mas como uma irmã, não como mulher, ou amante, ou esposa.

Eram palavras cruéis, e o atingiram como pedras. Mas eram palavras que precisava ouvir. Há anos em demasia que vinha se iludindo.

Ela o observava atentamente e ele inspirou fundo e olhou para ela com um olhar meigo.

— Está tudo bem, Serena. Eu compreendo.

— Compreende? — Estava calma e firme e mais bela do que ele jamais a vira, no seu vestido justo de seda. — Não me odeia por não poder dar-lhe mais?

— Nunca poderia odiá-la. Eu a amo demais. E a respeito demais.

— Por quê? — Os olhos dela estavam vazios e tristes. — O que foi que fiz para merecer tanto?

— Você sobreviveu, nas circunstâncias mais difíceis, graças à minha mãe, é uma mãe fantástica para Vanessa, matou-se de trabalhar para susten­tá-la. É uma mulher espantosa, Serena.

— Não me sinto espantosa. — Fitou-o com os olhos enormes. — Sinto-me triste. Triste pelo que não posso ser para você.

— Eu também. Mas talvez seja melhor assim. — Abraçou-a de novo, rezando para que o desejo que sentia por ela não o traísse. Afastou-se dela de novo, dali a um minuto. — Só quero que me prometa uma coisa: quando se apaixonar de novo algum dia, e sei que vai, escolha um sujeito formidável.

— Teddy! — Ela riu e a agonia da última meia hora começou a abrandar um pouco. — Que coisa para se dizer!

— Estou falando sério. — E parecia estar, mesmo. — Você merece o me­lhor que existe. E precisa de um homem na sua vida.

Sabia pelas cartas dela que a sua vida esse tempo todo fora de celibatária.

— Não preciso de um homem — falou, e sorria.

— Por que não?

— Porque tenho o melhor irmão do mundo. — Envolveu a cintura dele com o braço e beijou-lhe a face. — Você.

E ao sentir o corpo dela junto ao seu, Teddy sentiu-se formigar por inteiro, mas eles tinham percorrido um longo caminho desde o passado, nas úl­timas horas, e agora ele sabia qual era a sua posição.

 

No dia seguinte, Serena teve que ir trabalhar, e ao invés de deixar Vanessa com a babá, deixou-a com Teddy. Depois do almoço eles vieram visitá-la no trabalho. Encontraram-na no segundo andar, num magnífico vestido de baile de tafetá lilás, e ao saltarem do elevador Teddy a viu, e parou por um momen­to apenas para observá-la, e prendeu a respiração. Que mulher magnífica ela se tornara, na sua ausência. Transformara-se em tudo aquilo que prometia, e ain­da mais. Até mesmo Vanessa parecia sentir algo de notável na mãe, e olhava para ela com admiração e assombro. Serena parecia alguém num quadro de grande valor, enquanto se sentava elegantemente e abria os braços calçados de luvas três-quartos de pelica branca.

— Oi, coração. Puxa, mas como está bonita! — Teddy a vestira num ves­tido de organdi azul e sapatos de verniz pretos, com meias três-quartos bran­cas e uma fita de cetim azul nos cabelos louros e sedosos. E então os olhos de Serena se encontraram com os de Teddy.

— Alô. — Sorriu ela. — Como está se saindo?

— Estou adorando.

E enquanto Vanessa se afastava por um momento, os olhos dele a abra­çaram por uma fração de segundo, e depois a expressão fraterna voltou ao seu olhar.

— O que você e Vanessa vão fazer hoje de tarde?

— Vamos tomar sorvete. Disse a ela que a levaria ao jardim zoológico amanhã.

— Não quer tirar um tempinho para você? — Parecia perturbada. O que fariam quando ele se fosse? Mas, quem sabe, viria visitá-las. Tinham conversado a respeito no café da manhã, porém tudo, exceto o presente, parecia muito re­moto. — Estarei em casa às cinco e meia, e tomarei conta de tudo.

Ele deu uma risadinha abafada.

— Vendo-a nessa roupa, não consigo imaginá-la fazendo outra coisa exceto indo à ópera.

— Não exatamente, amor. — Abriu um sorriso para ele. — Tenho que la­var roupa, hoje à noite. Isto aqui é tudo faz-de-conta.

— Você podia me enganar direitinho.

Riu baixinho, ainda um pouco assombrado com a beleza dela. Enquan­to a fitava, Vanessa voltou para junto deles, para mostrar o pirulito que uma das vendedoras lhe dera.

— E agora vamos tomar sorvete! — Olhou para Teddy, toda feliz.<