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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


REMÉDIO AMARGO - P.2 / Arthur Hailey
REMÉDIO AMARGO - P.2 / Arthur Hailey

                                                                                                                                                  

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

REMÉDIO AMARGO

Segunda Parte

 

Nessa noite, ao jantar, estava também Juliet Hawthorne, agora com dezanove anos e que viera a casa numa folga da faculdade. Tornara-se uma mulherzinha bonita e equilibrada que parecia nada ter sofrido da atenção esbanjada num filho único. A acompanhá-la estava um jovem simpático e interessante que ela apresentara como ”Dwight Goodsmith, o meu namorado. Estuda advocacia!”

 

Célia e Andrew ficaram impressionados com ambos pois para Célia ainda há bem pouco tempo Juliet e Lisa eram duas criancinhas em pijama que corriam uma atrás da outra nesta mesma sala onde estavam a jantar.

 

Depois do brinde de Lilian a Célia, Sam acrescentou com um sorriso:

 

- O que Célia desconhece, porque só esta tarde assinei o memorando, é a promoção real. Tem desde agora um local de estacionamento privativo no nível principal.

 

- Meu Deus, pai! - exclamou Juliet, acrescentando para o amigo: - É como ser seleccionada para o Palácio da Fama.

 

O chamado ”nível principal” era o andar superior de uma garagem de estacionamento construída ao longo do edifício-sede da Felding-Roth. O andar estava reservado aos funcionários superiores da companhia que, depois de estacionarem aí os carros, usavam uma rampa envidraçada para alcançar um elevador privativo que os levava ao décimo andar, a ”região executiva”.

 

Sam era um dos que usavam ”o piso principal” e todos os dias aí estacionava o seu Rolls-Bentley cinzento-prateado, preferindo-o a uma limusina com motorista a que tinha direito como presidente.

 

O restante pessoal da companhia numa posição subalterna usava os pisos inferiores de estacionamento, descia de elevador até ao piso térreo e atravessava para o outro edifício ao ar livre para subir noutro elevador.

 

Houve mais um desafio agradável na ”dupla promoção” de Célia ainda nessa mesma noite.

 

No carro, já a caminho de casa, Andrew, que ia a conduzir, comentou:

 

- A decisão que tomaste há anos, de prender a tua carreira à de Sam, mostrou-se sensata.

 

- É verdade - disse Célia. - Ultimamente tenho andado preocupada com ele.

 

- Porquê?

 

- Anda mais volúvel do que costumava ser e agoniza quando as coisas não correm bem, embora eu pense que tudo isso provém das grandes responsabilidades. Mas há ocasiões em que fica fechado, como se tivesse coisas a preocupá-lo que não quer compartilhar com ninguém.

 

- Já tens responsabilidades que te cheguem para ti - disse Andrew -, para quê carregares aos ombros a psique do Sam?

 

- És capaz de ter razão. Cada vez está mais esperto, doutor Jordan. - Célia apertou com gratidão o braço do marido.

 

- Deixa de fazer ataques sexuais ao condutor. Estás a distrair-me. Uns minutos depois Andrew perguntou:

 

- Falando de carreiras e de estrelas que aconteceu àquele jovem que se pendurou em ti?

 

- Bill Ingram? - Célia sorriu; lembrava-se sempre da primeira vez que Ingram lhe surgira favoravelmente, naquele encontro com os delegados da Quadrille-Brown em Nova Iorque. - Bill tem estado a trabalhar na Internacional como director latino-americano... o meu antigo emprego. Agora estamos a pensar trazê-lo para as vendas farmacêuticas como promoção.

 

- Bom - retorquiu Sam -, parece que ele escolheu bem a sua estrela.

 

No meio da felicidade de Célia devido à promoção interpôs-se uma nota de dor. Teddy Upshaw morreu, enquanto trabalhava à sua secretária, de um ataque de coração.

 

Teddy permanecera como director das vendas ao balcão, onde encontrara o local adequado que preencheu com sucesso e alegria. Quando morreu estava a menos de um ano da reforma. Afligia Célia saber que nunca mais ouviria a voz viva de Teddy, não tornaria a ver o seu passo enérgico, nem a sua cabeça balançando de um lado para o outro enquanto falava com entusiasmo.

 

Célia, com Andrew e outros da companhia, acompanharam o funeral de Teddy até à campa. Foi num dia de Março, tempestuoso e miserável, com aguaceiros gelados, e os acompanhantes, metidos nos seus casacos, procuravam abrigar-se sob os chapéus-de-chuva da água e do vento.

 

Alguns, entre os quais Célia e Andrew, foram a casa dos Upshaw e foi aí que a viúva de Teddy, Zoe, chamou Célia à parte.

 

- Teddy admirava-a imenso, senhora Jordan - disse Zoe. - Orgulhava-se de trabalhar para si e dizia que, enquanto a senhora continuasse na companhia, a Felding-Roth teria sempre uma consciência.

 

Célia, comovida pelas palavras, lembrou o primeiro dia em que conhecera Teddy - há quinze anos - imediatamente a seguir ao seu discurso para a convenção de vendas no Waldorf, quando fora mandada embora da sala de reunião em aparente desgraça. A cara de Teddy fora uma das poucas compreensivas que vira à saída.

 

- Também gostava muito de Teddy - disse à outra mulher. Pouco depois Andrew perguntou-lhe:

 

- Que te disse a senhora Upshaw? Célia contou-lhe tudo e acrescentou:

 

- Nem sempre vivi segundo o ideal de Teddy. Recordo-me daquela luta, a discussão que tivemos no Equador, quando assinalaste alguns pontos em que me esquecera da minha consciência e tinhas razão.

 

- Ambos tínhamos - corrigiu-a Andrew -, porque também tu, Célia, me apontaste algumas coisas que eu fizera ou não. Mas nenhum de nós é perfeito e concordo com Teddy. És a consciência da Felding-Roth, orgulho-me de ti e espero que continues assim.

 

O mês seguinte trouxe melhores notícias para o Mundo em geral e, num âmbito mais restrito, para a Felding-Roth.

 

A guerra do Vietname acabou. Foi uma derrota avassaladora para os Estados Unidos, uma nação pouco habituada a derrotas. Mas a trágica carnificina acabara e a tarefa seguinte - formidável, mas menos sangrenta - era curar as feridas nacionais, mais divisionárias e amargas que quaisquer outras depois da guerra civil.

 

- Enquanto vivermos não terminará a crueldade - previu Andrew uma noite depois dele e Célia terem visto na televisão o êxodo humilhante e final dos americanos de Saigão. - E daqui a muitos séculos os historiadores continuarão a discutir se tínhamos ou não direito a estar no Vietname.

 

- Sei que é egoísmo - disse Célia -, mas só penso em agradecer a Deus que tudo tenha acabado antes de Bruce ter idade para ir.

 

Passadas uma ou duas semanas a hierarquia superior da Felding-Roth foi animada por notícias vindas de França: o Montayne fora aprovado para produção e venda nesse país. O que significava que, ao abrigo dos acordos entre a Felding-Roth Pharmaceuticals e os Laboratoires Gironde Chimie, iriam começar os ensaios americanos.

 

Quanto à finalidade do fármaco Célia sentira-se pouco à vontade quando soubera que se destinava às grávidas, para ser tomado no início da gravidez quando as náuseas e vómitos matinais eram maiores - situações a que o Montayne poria termo. Célia, como outros, guardava fortes lembranças da Thalidomide e das suas terríveis consequências. Também se recordava de como se sentira satisfeita por Andrew ter insistido, nas duas gravidezes, para que ela não tomasse quaisquer medicamentos.

 

Confiara a Sam a sua ansiedade e ele mostrara-se sensível e compreensivo:

 

- Quando ouvi falar pela primeira vez do Montayne tive a mesma reacção que tu. Mas desde então aprendi mais sobre ele e convenci-me de que é um medicamento seguro e eficaz. - E Sam mencionou que já se tinham passado quinze anos desde a Thalidomide, anos em que houve um enorme progresso na investigação, incluindo nos ensaios científicos de novos medicamentos. Além disso os regulamentos governamentais de 1975 eram de longe mais estritos que os existentes nos anos cinquenta.

 

- Muitas coisas mudam - insistiu Sam. - Por exemplo, houve uma altura em que a utilização de anestésicos durante o parto era uma ideia a que alguns se opunham ferozmente dizendo que isso seria perigoso e prejudicial. Do mesmo modo podem e devem existir medicamentos seguros para tomar durante a gravidez. O Montayne é simplesmente um deles.

 

Pediu a Célia que se mantivesse de espírito aberto até examinar todos os dados. Ela prometeu que o faria.

 

A importância do Montayne para a Felding-Roth foi pouco depois sublinhada quando o vice-presidente e controlador, Seth Feingold, revelou a Célia:

 

- Sam prometeu à secção que o Montayne dará à companhia um grande impulso monetário de que precisamos de uma forma incrível. A nossa folha de balanços deste ano faz-nos parecer candidatos a um ”subsídio de pobreza”.

 

Feingold, um vivaz veterano da companhia de cabelos brancos, já atingira há muito a idade da reforma mas continuava ao serviço da Felding-Roth porque tinha um conhecimento enciclopédico das finanças da companhia e uma enorme capacidade para obter dinheiro em situações inusitadas. Nos dois últimos anos ele e Célia tinham-se tomado amigos, uma amizade em parte auxiliada pelo facto de Andrew ter tratado com sucesso a artrite da mulher de Feingold. O tratamento libertou a senhora Feingold das dores que a atormentavam há vários anos.

 

- A minha mulher está convencida de que o seu marido pode transformar água em vinho - dissera um dia o controlador a Célia. - Agora que a conheço melhor acho o mesmo em relação à mulher.

 

Continuando a falar do Montayne, Feingold continuou:

 

- Falei com o pessoal do sector financeiro da Gironde Chimie e os franceses estão crentes de que o medicamento vai ser para eles um fabuloso angariador de lucros.

 

- Embora seja ainda cedo, também nós, nas vendas, estamos a planear o mesmo para cá - assegurou-lhe Célia. - Mas, em especial por si, Seth, esforçar-nos-emos ainda um pouco mais.

 

- Mulher de armas! A propósito de esforços, alguns de nós perguntam como é que aqueles ingleses estão a trabalhar no centro de pesquisas de lá. Ou andarão a vadiar gastando o tempo a tomar chá?

 

- Não tenho ouvido muito ultimamente... - começou Célia.

 

- Eu não tenho ouvido nada - disse Feingold. - A não ser que nos está a custar milhões como se o dinheiro caísse numa banheira sem tampa. É uma das razões por que o nosso balanço financeiro está um desastre. Repito-lhe, Célia, que há muita gente por cá, incluindo alguns membros da secção, que estão preocupados com essa brincadeira inglesa. Pergunte ao Sam.

 

No fim de contas não precisou de perguntar a Sam porque este a mandou chamar alguns dias depois.

 

- Já deves ter ouvido dizer - disse ele - que estou a ser assediado sobre Harlow e Peat-Smith.

 

- Já - respondeu Célia. - Disse-mo Seth Feingold.

 

- Seth é um dos descrentes - confirmou Sam. - Ele gostaria de encerrar Harlow por motivos financeiros. Assim pensa um número crescente de pessoas nos serviços e estou à espera de perguntas duras na reunião anual dos accionistas. - E acrescentou com tristeza: - Às vezes sinto que me apetecia que isso acontecesse.

 

Mas Célia avivou-lhe a memória:

 

- Há pouco mais de dois anos que começou a investigação em Harlow. Tinhas fé no Martin.

 

- Martin previa pelo menos alguns resultados positivos em menos de dois anos’ - respondeu Sam. - Também há limites para a fé quando se desperdiçam dólares e se tem a secção e os accionistas atrás de nós. Mais ainda: Martin mostrou-se obstinado sobre os relatórios de progressos. Não fará nenhum. Por isso preciso de ter a certeza de que há progressos e que vale a pena continuar.

 

- Por que não vais lá verificar com os teus olhos?

 

- Iria, só que agora não posso dispensar tempo para isso. Quero que vás lá, Célia, assim que possas e que me digas se há resultados.

 

- Não pensas que Vince Lord está mais qualificado que eu?

 

- Cientificamente, sim. Mas Vince é muito mais preconceituoso. Opôs-se às pesquisas em Inglaterra, e, se Harlow fechasse, estaríamos a dar-lhe razão. Ele não hesitaria em recomendar o encerramento.

 

- Como nos conheces bem a todos! - disse Célia rindo.

 

- Conheço-te a ti, Célia - respondeu ele com ar sério -, e aprendi a confiar na tua capacidade de julgamento. Peço-te que, pondo de lado o facto de gostares do Martin Peat-Smith, se precisares de ser brutal e cruel na tua recomendação, o sejas. Quando podes partir?

 

- Tentarei que seja amanhã - respondeu Célia.

 

Quando Célia chegou ao aeroporto de Heathrow, em Londres, para uma visita de dois dias não se perdeu tempo. Um limusina estava à sua espera e levou-a directamente ao Instituto de Pesquisas Felding-Roth onde ela reveria, com Martin Peat-Smith e outros, o que ela agora chamava mentalmente a ”equação Harlow”.

 

Depois, quando chegasse a uma conclusão sobre a recomendação a fazer a Sam, viajaria de regresso a casa.

 

Durante o seu primeiro dia em Harlow sentiu que a moral de todos era excelente. Desde Martin até aos funcionários subalternos todos asseguraram a Célia como a investigação sobre o envelhecimento cerebral estava a progredir bem, o muito que já se aprendera e como todos - como grupo coordenado trabalhavam com ardor. Só de vez em quando havia momentos - coisas transitórias, rápidos olhares acidentais - que lhe pareciam de dúvida e hesitação. Mas desapareciam, ou eram instantaneamente negados, deixando-a a pensar se não os teria imaginado.

 

Para começar, nesse primeiro dia, Martin levou-a a visitar os laboratórios explicando-lhe os trabalhos em curso. Desde o seu útimo encontro, explicou Martin, ele e outros que com ele trabalhavam tinham conseguido o objectivo de ”descobrir e isolar um ARN que é diferente nos cérebros dos animais jovens em relação aos animais velhos”. E acrescentou: ”É provável que, em seu devido tempo, se descubra a mesma coisa nos seres humanos.”

 

A conversa científica fluía.

 

- ...extrai-se o ARN dos cérebros de ratos de diversas idades... depois da extracção incuba-se com ”células partidas” por enzimas a que se juntam aminoácidos radiactivos... o sistema enzímico produz os pépticos cerebrais do animal que se tornam também ligeiramente radiactivos... depois separam-se com uma carga eléctrica, em geles especiais... e a seguir usam-se filmes de raios X e, onde aparecer uma banda, temos um péptido!

 

Como um ilusionista a tirar coelhos do chapéu - voilà! - Martin atirou vários negativos oito por dez para a bancada de laboratório onde ele e Célia tinham parado.

 

- São as películas das cromatografias.

 

Quando Célia pegou nelas mais pareciam transparentes, sem nada nelas, mas Martin disse:

 

- Se olhares de perto vês duas colunas de linhas escuras. Uma é de um rato jovem, a outra de um velho. Repara... - Apontou com um dedo. - Aqui e aqui: na coluna do rato jovem existem pelo menos nove péptidos que já não são produzidos pelo cérebro do animal velho. - A voz elevou-se, excitada, quando afirmou: - Temos agora provas positivas de que o ARN do cérebro, e provavelmente o ADN, sofre mudanças durante o processo de envelhecimento. Isto é tremendamente importante.

 

- É - disse Célia, mas perguntando a si própria: ”Será isto realmente um triunfo que justifique mais de dois anos de esforço de equipa com custos tão elevados?”

 

Os sinais das despesas encontravam-se em toda a parte - os espaçosos laboratórios e os modernos gabinetes, todos com divisórias modulares que permitiam uma fácil rearrumação sempre que fosse necessário; os corredores desobstruídos; a sala de conferências confortável e, nos laboratórios requintadamente equipados, uma riqueza de aço inoxidável e bancadas modernas, estas em matérias sintéticas - a madeira estava proibida pois, em termos científicos, madeira significava sujidade. O ar condicionado removia as impurezas do ar. A iluminação era clara sem ser ofuscante. Um par de salas de incubação abrigava maciças incubadoras com portas de vidro, especialmente concebidas para as prateleiras de discos de Petri com bactérias e enzimas. Outras salas tinham portas duplas com um aviso à entrada: ”Perigo: Risco de Radiação.”

 

O contraste com os laboratórios de Cambridge que Célia visitara era surpreendente, embora permanecessem algumas coisas familiares. Uma era o papel - uma quantidade prodigiosa de pilhas de papel desarrumadas sobre as secretárias, em especial na de Martin. Podia alterar-se o ambiente de labor de um cientista mas não os seus hábitos de trabalho.

 

Quando se afastaram da bancada e das cromatografias Martin foi continuando as explicações.

 

- Agora que temos o ARN podemos fazer o correspondente ADN... depois temos de o inserir no ADN de bactérias vivas... tentando ”enganar” a bactéria levando-a a produzir o péptido cerebral que nos interessa...

 

Célia tentava absorver o máximo que conseguia em alta velocidade.

 

Já quase no fim da inspecção Martin abriu a porta de um pequeno laboratório onde um técnico já idoso observava meia dúzia de ratos em gaiolas. O técnico era mirrado e um pouco curvo, apenas com uma franja de cabelo em torno da cabeça e usava um pince-nez fora de moda que estava seguro ao pescoço por um cordão negro.

 

- É o senhor Yates, que vai proceder a algumas dissecações animais.

 

- Mickey Yates - disse o técnico estendendo a mão. Sei quem a senhora é. Todos o sabem.

 

Martin riu-se.

 

- É verdade, todos sabem. Posso deixá-la aqui por uns instantes? Preciso de fazer um telefonema.

 

- À vontade. - Depois de Martin sair disse a Yates: - Se não se importa, gostaria de ver.

 

- Não me importo nada. Sendo assim, em primeiro lugar, tenho de matar um destes fulanos. - Referia-se aos ratos.

 

Com movimentos rápidos e hábeis o técnico abriu o frigorífico e retirou do congelador uma caixa de plástico, pequena e transparente, com a tampa virada. Dentro dela havia uma pequena plataforma sobre a qual estava um tabuleiro com um material cristalino de onde se evolavam nuvens de vapor.

 

- Gelo seco - explicou Yates. - Coloquei-o aqui mesmo há bocadinho. Abrindo uma gaiola, apanhou com destreza um rato grande, cinzento-claro, que

 

se contorcia, e transferiu-o para a caixa de plástico fechando depois a tampa. Célia podia agora observar o rato na pequena plataforma interior.

 

- Por causa do gelo seco ali dentro há uma atmosfera de dióxido de carbono disse Yates. - Sabe o que é?

 

Célia sorriu com a elementaridade da pergunta.

 

- Sei. O dióxido de carbono é o que expiramos depois de termos usado o oxigénio do ar. Não poderíamos viver nele.

 

- Nem aquele amigo ali pode. Está a morrer.

 

Enquanto observavam o rato estremeceu duas vezes, mas depois acalmou. Passara-se um minuto.

 

- Parou de respirar - disse Yates com satisfação. Deixou passar mais trinta segundos antes de abrir a caixa de plástico e retirar lá de dentro o rato. - Morto que nem um prego. Mas é um processo lento para o fazer.

 

- Lento? Deu-me a ideia de ser rápido. - Célia estava a tentar recordar-se de como matavam os ratos nos seus tempos de liceu mas não conseguia.

 

- É lento quando se tem muito trabalho para fazer. O doutor Peat-Smith gosta que usemos a caixa de dióxido de carbono mas existe um processo mais rápido. Yates baixou-se e, abrindo um armário debaixo da bancada do laboratório, mostrou uma segunda caixa desta vez de metal. O modelo diferia do primeiro pois apresentava uma pequena abertura redonda sobre a qual estava uma faca afiada e dobrada. - Isto aqui é uma guilhotina - disse Yates ainda contente. - Os Franceses sabem como fazer as coisas.

 

- Mas de forma mais suja - retorquiu Célia. Agora já se recordava; vira matar ratos com uma caixa parecida com aquela.

 

- Não é assim tão mau. E é rápido.

 

Yates olhou por cima do ombro para a porta fechada e, antes que Célia pudesse objectar, tirou um rato de uma gaiola e empurrou-o para dentro da caixa; a cabeça do bicho saiu pelo buraco redondo. Como se quisesse cortar pão às fatias empurrou a faca para baixo.

 

Houve um leve som de esmagamento e outro que podia ter sido um grito e a cabeça do rato caiu enquanto o sangue jorrava das artérias do pescoço cortado. Célia, apesar da sua familiaridade com laboratórios e pesquisas, sentiu-se nauseada.

 

Yates atirou casualmente o corpo do rato, ainda a sangrar e a estremecer, para um recipiente de lixo e pegou na cabeça.

 

- Agora só preciso de retirar o cérebro. Rápido e sem dor. - O técnico riu. Eu não senti nada.

 

Ao mesmo tempo zangada e repugnada Célia disse:

 

- Não precisava de fazer isso para mim!

 

- Fazer o quê? - Era a voz de Martin atrás dela. Entrara em cena sem fazer ruído. E logo de seguida, sem perder a calma, pediu: - Célia, por favor, espera lá fora.

 

Enquanto esperava ouviu do outro lado da porta a voz irada de Martin:

 

- Nunca mais... se quiser continuar a trabalhar aqui. As minhas ordens são para usar sempre a caixa do dióxido de carbono, que é indolor e nenhum outro meio.’... tire daqui essa monstruosidade ou eu parto-a... não quero crueldade, percebe?

 

Ouviu então a voz fraca de Yates:

 

- Sim, senhor.

 

Quando Martin reapareceu deu o braço a Célia e conduziu-a à sala de conferências onde ficaram sós, com um termo entre eles, do qual Martin serviu café.

 

- Lamento o que aconteceu; não devia ter sucedido - desculpou-se Martin. - Yates excedeu-se, se calhar porque não está habituado a ter uma mulher atraente a vê-lo trabalhar, mas por acaso é muito bom no trabalho e por isso o trouxe de Cambridge. Disseca o cérebro de um rato com a perícia de um cirurgião. Célia disse, já sem o leve aborrecimento que sentira:

 

- Não tem importância. Mas tu tens pena dos animais, não é? - perguntou Célia com curiosidade.

 

- É isso. - Martin sorveu um gole de café antes de continuar: - Não se podem fazer investigações sem causar alguma dor nos animais. As necessidades humanas estão em primeiro lugar; até os amigos dos animais têm de aceitar isso. Mas deve tentar-se minimizar a dor, o que se pode conseguir desde que nos interessemos por isso; de outro modo é facílimo ficarmos empedernidos. Lembrei isso ao Yates. Acho que não vai voltar a esquecer-se.

 

O incidente levou Célia a gostar e a respeitar ainda mais Martin. Mas, recordou a si própria, os gostos pessoais não deviam afectar o seu objectivo ali.

 

- Voltemos aos teus progressos - começou ela. - Falaste nas diferenças entre os cérebros dos animais jovens e os dos idosos assim como nos teus planos para sintetizar um ADN. Mas ainda não isolaste a proteína... o péptido que procuras, aquele que interessa. Correcto?

 

- Correcto. - Martin sorriu de modo acolhedor e disse em tom confidencial: - O que descreveste é o degrau seguinte, e é o mais difícil. Estamos a trabalhar nele. Vamos conseguir, é claro, embora leve o seu tempo.

 

- Quando o instituto abriu disseste: ”Dêem-me dois anos.” Esperavas ter algo positivo ao fim desse tempo. Já se passaram dois anos e quatro meses lembrou-lhe ela.

 

- Disse mesmo isso? - pareceu surpreendido.

 

- Claro que disseste. Sam lembra-se. E eu também.

 

- Nesse caso foi precipitação. Trabalhando como nós fazemos, nas fronteiras da ciência, não se podem aplicar prazos.

 

Martin parecia mais uma vez imperturbado, se bem que Célia detectasse um certo nervosismo por baixo da superfície. Fisicamente Martin parecia também esgotado. O seu rosto estava pálido; os olhos sugeriam fadiga, provavelmente por excesso de horas de trabalho; e aquele rosto tinha rugas que não estavam lá há dois anos atrás.

 

- Martin - adiantou Célia -, por que é que não mandas relatórios? Sam tem directores e accionistas a quem tem de dar satisfações...

 

O cientista abanou a cabeça, mostrando pela primeira vez impaciência.

 

- Estou mais interessado em concentrar-me nas pesquisas. Relatórios, gastos de escrita e papel, tomam tempo que é preciso. - E perguntou bruscamente. - Já leste John Locke’?

 

- Alguma coisa, na faculdade.

 

- Escreveu que o homem faz descobertas para ”alinhar o pensamento numa determinada direcção”. Um investigador científico nunca se deve esquecer disso.

 

Célia abandonou o assunto nessa altura mas levantou-o mais tarde, ainda nesse mesmo dia, ao falar com o administrador, o ex-comandante de esquadrilha Bentley, que sugeriu uma outra razão para a ausência de relatórios.

 

- Deve entender, senhora Jordan - disse Nigel Bentley -, que o doutor

 

1 John Loke (1632-1704), filósofo empirista inglês, liberal e tolerante, que defende que os nossos conhecimentos são baseados na experiência, auxiliada pela sensação e pela reflexão. (N. do E.)

 

Peat-Smith acha extremamente difícil passar algo para o papel. A razão é que o seu pensamento avança tão depressa que o que ontem era importante pode estar desactualizado hoje e mais ainda amanhã. Na verdade está atrapalhado com as coisas que escreveu anteriormente... por exemplo, há dois anos. Considera-as primitivas embora, na altura, pudessem ter sido inacreditavelmente perceptivas. Se pudesse apagaria tudo o que escreveu no passado. É uma característica comum nos cientistas. Já a enfrentei antes.

 

- Fale-me mais sobre o pensamento científico - pediu Célia. Encontravam-se na privacidade do gabinete modesto, mas impecavelmente organizado de Bentley onde Célia sentia crescer o respeito por este homem competente, vivo como um pardal, que escolhera para dirigir a parte administrativa do instituto de pesquisas.

 

Nigel Bentley reflectiu um pouco antes de começar:

 

- O facto talvez mais importante é o de que os cientistas permanecem tanto tempo no processo educacional, e prendem-se tanto às especialidades, por vezes muito estreitas, que chegam às realidades da vida diária muito mais tarde que nós. Na verdade alguns grandes estudiosos nem chegam a entender-se com essas realidades.

 

- Ouvi dizer que ficam, por assim dizer, sempre crianças.

 

- Precisamente, senhora Jordan, e em certas áreas até em demasia. É esse o motivo que nos leva a ver tantas vezes um comportamento infantil nos meios académicos: brigas insignificantes e outras coisas triviais.

 

- Não tinha pensado que isso se aplicava a Martin Peat-Smith - disse Célia, pensativa.

 

- Talvez não, dentro desses limites específicos - fez notar Bentley. - Mas revela-se doutros modos.

 

- Diga lá.

 

- Bem, uma coisa em que o doutor Peat-Smith tem grande dificuldade é em tomar pequenas decisões. Podemos dizer que há dias em que nem sequer é capaz de decidir por que lado da rua andar. A título de exemplo levou semanas para se decidir qual dos dois técnicos teria prioridade para ir ao curso de três dias em Londres. Era um assunto mínimo, algo que a senhora ou eu decidiríamos em poucos minutos, mas, no fim, como o meu superior não tomava qualquer decisão, tive de ser eu a tomá-la por ele. Tudo isto, evidentemente, em contraste com o objectivo primordial do doutor Peat-Smith: a sua clareza e dedicação científicas.

 

- Está a esclarecer muitas coisas - disse Célia. - Inclusive o motivo pelo qual ele não envia relatórios.

 

- Há outra coisa que devo assinalar - prosseguiu Bentley. - Pode dar um sentido à sua visita.

 

- Explique.

 

- O doutor Peat-Smith é um líder e, como qualquer líder, seria para ele um erro mostrar fraqueza ou ter dúvidas sobre os progressos do que aqui se está a fazer. Se o fizesse desceria a moral dos que com ele trabalham. E outra coisa: o doutor Peat-Smith foi habituado a trabalhar sozinho, no seu próprio passo. Agora, de repente, tem grandes responsabilidades, com muita gente a depender dele, e outras pressões, subtis ou não, incluindo a sua presença aqui e agora, senhora Jordan. Todas essas coisas representam uma tensão enorme para qualquer pessoa.

 

- Afinal há dúvidas sobre o trabalho que está a ser feito - comentou Célia. Dúvidas sérias? Tenho-me interrogado a esse respeito.

 

- O facto de aqui trabalhar leva a que tenha obrigações para com o doutor Peat-Smith, mas que são maiores ainda em relação a si e ao senhor Hawthorne. Por isso devo responder à sua pergunta com um sim.

 

- Gostaria de saber quais são essas dúvidas. Em pormenor.

 

- Não tenho as devidas qualificações científicas - começou Bentley, mas hesitou antes de prosseguir. - Talvez não seja muito regular mas acho que devia falar com o doutor Sastri e ordenar-lhe, pois tem autoridade para o fazer, que se abra total e francamente consigo.

 

O Dr. Rao Sastri, como Célia sabia, era o químico do ácido nucleico - um paquistanês, antigo colega de Cambridge - que Martin recrutara como o segundo membro científico.

 

- O assunto é importante de mais para que me preocupe com o que é ou não regular, senhor Bentley - disse ela. - Muito obrigada. Seguirei a sua sugestão.

 

- Há algo mais em que possa ser útil? Célia pensou.

 

- Martin citou-me hoje John Locke. Será ele um discípulo de Locke?

 

- É. E eu também - expressou Bentley com um ligeiro sorriso. - Ambos partilhamos a convicção de que Locke foi um dos melhores filósofos e guias jamais existente.

 

- Gostaria de ler algo de Locke esta noite. Pode arranjar-me qualquer coisa? pediu ela.

 

Bentley tomou nota num papel.

 

- Estará à sua espera no hotel.

 

Soja no fim da tarde do seu segundo dia em Harlow é que Célia conseguiu falar com o Dr. Sastri. Entretanto, desde a sua conversa com Nigel Bentley, falara com outras pessoas do instituto que se mostraram convencidas e optimistas nas suas opiniões sobre as pesquisas em Harlow. Contudo Célia conservava a impressão de algo escondido, um instinto que lhe dizia que as pessoas não estavam a ser completamente sinceras com ela.

 

Rao Sastri revelou-se um jovem ainda não chegado aos trinta, bem-parecido, de pele escura, e que falava depressa articulando as palavras. Célia sabia que ele tinha um doutoramento e um currículo escolar brilhante, e tanto Martin como Bentley lhe tinham falado da sorte que era para o instituto tê-lo. Sastri e Célia encontraram-se num anexo ao bar do instituto, uma pequena sala que era usada pelo pessoal superior para almoços de trabalho. Depois de apertarem as mãos, e antes de se sentarem, Célia fechou a porta para dar maior privacidade ao encontro.

 

- Creio que sabe quem eu sou - começou ela.

 

- Claro, senhora Jordan. O meu colega, o doutor Peat-Smith, tem-me falado muitas vezes de si e bem. Agora tenho a honra de a encontrar. - O discurso de Sastri era culto e preciso com um ritmo paquistanês. Sorria com frequência embora apagando o sorriso com um traço de nervosismo.

 

- Também me congratulo por o encontrar - disse Célia - e gostaria de discutir consigo os progressos das pesquisas aqui realizadas.

 

- É maravilhoso! Verdadeiramente formidável! Uma coisa espantosa!

 

- Muito bem - comentou Célia -, já outros me disseram o mesmo. Mas antes que continuemos quero frisar bem que estou aqui representando o senhor Hawthorne, presidente da Felding-Roth, e exercendo a sua autoridade.

 

- Meu Deus! Que vai acontecer agora?

 

- Acontece, doutor Sastri, que lhe estou a pedir, será melhor dizer ordenar, que seja inteiramente sincero comigo, que não omita nada incluindo algumas dúvidas que possa ter e que até aqui tenha mantido apenas para si.

 

- Tudo isto é embaraçoso - disse Sastri. - E não totalmente justo, como disse a Bentley quando me informou desta nossa conversa. No fim de contas tenho obrigações para com Peat-Smith, que é um rapaz decente.

 

- Tem obrigações ainda maiores para com a Felding-Roth - lembrou-lhe, com frieza, Célia -, a companhia que lhe paga o salário, e um bom salário, e que como contrapartida tem direito às suas opiniões profissionais honestas.

 

- Está bem, senhora Jordan! Não vai remexer em tudo, pois não? - No tom do jovem paquistanês misturava-se choque e medo.

 

- Remexer em tudo, como tão eloquentemente se expressou, doutor Sastri, leva tempo e não disponho de muito pois regresso amanhã à América. Por isso agradeço que me diga exactamente onde, na sua opinião, está o nosso instituto e onde vai chegar.

 

Sastri ergueu as duas mãos num gesto de submissão e suspirou:

 

- Tudo bem. As investigações não estão muito adiantadas. E, na minha humilde opinião que é compartilhada por outros membros do projecto, não vai chegar a lado nenhum.

 

- Explique as suas opiniões.

 

- Em mais de dois anos tudo o que se conseguiu foi provar a teoria de que existem alterações no ADN cerebral durante o envelhecimento. É uma realidade interessante mas para lá dela enfrentamos uma parede em branco e não dispomos de técnicas que permitam penetrar nela, podemos não as ter durante muitos anos e, mesmo então, o tal péptido que o doutor Peat-Smith procura pode não estar atrás dessa parede.

 

- Não aceita esse postulado? - inquiriu Célia.

 

- É a teoria do meu colega, senhora Jordan. Admito que a partilhei - Sastri abanou a cabeça pesarosamente -, mas, agora, com toda a sinceridade, já não a partilho.

 

- Martin informou-me - disse Célia - que tinha descoberto um ARN único e que seria capaz de produzir o correspondente ADN.

 

- O que é, por amor de Deus, verdade! Mas talvez não lhe tenham dito que o material isolado poderá ser grande de mais. A cadeia do ARN é comprida, com um código de muitas proteínas, talvez umas quarenta ao todo. É por isso inútil... apenas péptidos ”à toa”.

 

Célia rebuscou a sua memória científica.

 

- O material não pode ser clivado? Isolar-se cada um dos péptidos? Sastri sorriu; a sua voz assumiu um tom superior.

 

- É essa a parede branca. Não existem técnicas para ir mais além. Talvez daqui a dez anos... - Encolheu os ombros.

 

Falaram de ciência nos vinte minutos seguintes e Célia soube que, do grupo de cientistas que trabalhavam com Harlow no projecto do envelhecimento mental, só Martin continuava crente de que surgiriam resultados valiosos.

 

- Muito obrigado, doutor Sastri - disse ela no fim. - Acabou de me dizer aquilo que me levou a atravessar o Atlântico para o descobrir.

 

O jovem acenou tristemente:

 

- Cumpri o meu dever, como a senhora exigiu. Mas esta noite não dormirei em paz.

 

- Eu também não - disse Célia. - Mas é um preço que pessoas como você ou eu temos por vezes de pagar... por sermos aquilo que somos.

 

A convite de Martin, na sua segunda e última noite em Harlow, Célia foi a casa dele, para beber uns aperitivos. Depois iriam jantar ao Hotel Churchgate onde ela estava hospedada.

 

Martin vivia numa vivenda geminada a cerca de duas milhas do Instituto Felding-Roth. A casa, se bem que moderna e funcional, era igual a dúzias de outras nas redondezas como se, pensou Célia, tivessem sido construídas em série.

 

Quando lá chegou, de táxi, Martin levou-a a uma sala minúscula e, como noutras ocasiões, ela sentiu o seu olhar admirador. Para uma viagem tão curta a Inglaterra trouxera pouca roupa, usando durante o dia um saia e casaco mas, nesta noite, envergando um vestido Diane von Furstenberg num atraente padrão castanho e branco realçado por um colar simples de pérolas. O macio cabelo castanho estava, como ditava a moda, curto e informe.

 

Desde a entrada até à sala Célia chocou com cinco animais - um simpático setter irlandês, um buldogue inglês a rosnar e três gatos. Na sala havia um papagaio num poleiro sem gaiola.

 

- És mesmo um apaixonado por animais - disse rindo.

 

- Acho que sou - concordou Martin a sorrir. - Gosto de ter animais à minha volta e sou um protector de gatos sem lar.

 

Os gatos pareciam saber isto e seguiam-no servilmente.

 

Célia sabia que Martin vivia só mas que todos os dias tinha uma mulher para cuidar da casa. A mobília da sala estava reduzida ao mínimo consistindo essencialmente num sofá de cabedal ao lado do qual estava um candeeiro de leitura e de três armários a abarrotar de livros científicos. Sobre uma pequena mesa havia gelo, algumas garrafas e copos misturadores. Martin indicou-lhe o sofá e começou a preparar as bebidas.

 

- Tenho as coisas necessárias para fazer um daiquiri, se for isso o que queres.

 

- Acho que sim - disse Célia -, e sinto-me lisonjeada por ainda te lembrares.

 

Interrogava-se se estariam assim tão tranquilos e amigáveis no fim da noite. Como em ocasiões anteriores estava ciente da atracção física de Martin como homem, mas, no entanto, antes de vir, recordara a si mesma as palavras de Sam Hawthorne: ”Não interessa o quanto gostas do Martin... se precisares de ser dura e rude... sê-o.”

 

- Depois de amanhã vou estar com o Sam - disse Célia. - Tenho de fazer uma recomendação sobre o futuro do instituto de Harlow e gostaria que tu soubesses desde já qual será.

 

- Não é difícil - comentou ele entregando-lhe um daiquiri. - Vais pedir a continuação das nossas actuais pesquisas por mais um ano, prolongável se necessário.

 

- Há oposição a continuá-la. Sabes disso.

 

- Sei. - A confiança que Martin sempre mostrara desde a chegada de Célia continuava em evidência. - Mas, que diabo, há sempre gente de vista curta incapaz de ver a cena no seu todo.

 

- O doutor Sastri tem vista curta?

 

- Lamento ter de o dizer... mas tem. Como está a. bebida?

 

- Óptima.

 

- Rao esteve aqui há coisa de uma hora - disse Martin. - Queria ver-me porque achava que eu devia saber tudo o que te disse esta tarde. Rao tem um elevado sentido da honra.

 

- E?

 

- Não tem razão. Está totalmente errado. Tal como estão os outros que têm dúvidas.

 

- Podes refutar tudo o que Sastri afirmou?

 

- Claro que não! Qualquer investigação científica se baseia em teoria. Se tivéssemos já os factos não precisávamos de investigar. O que está em questão é a capacidade profissional bem informada e algum instinto; há quem chame à combinação ”arrogância científica”. Visto por outro prisma é a convicção de estar no caminho certo, sabendo que só o tempo - neste caso um tempo curto está entre nós e aquilo que procuramos.

 

- Tempo e uma boa soma de dinheiro - recordou-lhe Célia. - E também a questão de se não será Sastri e os outros os que têm razão.

 

Martin sorveu um gole de uísque com água e fez uma pausa, meditando.

 

- Não gosto de pensar em dinheiro mais que o indispensável, sobretudo dinheiro ganho com a venda de medicamentos. Mas já que começaste por mencionar isso vou dizer-te uma coisa que talvez seja a única forma de atingir-te assim como ao Sam e a outros como vocês.

 

Célia observou Martin com toda a atenção, escutando-o, perguntando a si mesma o que viria a seguir.

 

- Mesmo estando no que chamo o meu distanciamento científico - continuou Martin -, sei que a Felding-Roth está numa profunda crise. Se as coisas não melhorarem nos próximos anos a companhia poderá falir. - E perguntou, com frieza: - Certo ou errado?

 

Célia hesitou antes de responder:

 

- Certo.

 

- O que eu posso fazer, se me derem tempo, é salvar a companhia. Não apenas salvá-la como torná-la rentável, conhecida e imensamente rica. E isso porque quando a minha investigação chegar ao fim haverá um medicamento importante, um fármaco. - Martin fez uma careta antes de continuar. - Não que me importem os lucros comerciais. Não. Mas, quando isso acontecer, aquilo que eu quero acontecerá também.

 

A declaração, pensou Célia, tinha o mesmo efeito impressionante que a outra que Martin fizera no laboratório de Cambridge quando do primeiro encontro. Nessa altura Sam sentira também esse efeito. Mas a declaração anterior, feita há mais de dois anos, não fora realizada. Por que seria diferente a de hoje?

 

Célia abanou pensativamente a cabeça.

 

- Não sei. Não sei.

 

- Raios! Eu sei que estou com razão - a voz de Martin subiu de tom -, que estamos perto... tão perto!... de encontrar um meio de melhorar a qualidade do envelhecimento e retardar a deterioração do cérebro e até, quem sabe, evitar a doença de Alzheimer. - Bebeu de um só trago o resto da bebida e pousou o copo com força. - Como é que conseguirei convencer-te?

 

- Podes tentar de novo ao jantar - disse Célia olhando para o relógio. Creio que está na hora de irmos andando.

 

A comida no Hotel Churchgate, se bem que boa, era em grande quantidade demasiada quantidade para Célia. Pouco depois estava a divertir-se com o que ficara no prato, mexendo-a sem a comer, enquanto reflectia no que dizer a seguir. O que quer que fosse seria importante. Sabendo disso, reflectia, hesitava, preparava as palavras.

 

O ambiente era agradável.

 

Mais de seis séculos antes de Churchgate existir como hotel o Jocal fora ocupado por um presbitério - a residência do padre - que, na época dos Jacobinos, se tornara numa casa particular. Algumas das partes da estrutura jacobina ainda permaneciam integradas no encantador edifício do hotel, ampliado e renovado quando Harlow passara de vila a cidade depois da Segunda Guerra Mundial. A sala de jantar era um desses restos históricos.

 

Célia gostava da atmosfera da sala - os tectos baixos, os bancos encastrados nas janelas, as toalhas brancas e vermelhas e o serviço agradável, incluindo a colocação da comida nas mesas antes dos comensais serem chamados de um pequeno bar anexo onde antes tinham recebido as ementas e feito os seus pedidos.

 

Esta noite Célia sentara-se num dos bancos de janela. Martin estava na sua frente.

 

Durante a refeição continuaram a conversa iniciada em casa de Martin, com Célia a escutar, interpondo uma pergunta ocasional, enquanto Martin falava à vontade sobre ciência. Mas as palavras de Nigel Bentley, pronunciadas no dia anterior, permaneciam ainda frescas na sua memória: ”O doutor Peat-Smith é um líder e, como qualquer líder, seria um erro mostrar fraqueza ou dúvida...”

 

Teria Martin, apesar daquela confiança visível e persistente, uma incerteza interior, privada? Célia tentou imaginar uma táctica que a ajudasse nesse ponto. Baseava-se numa ideia desenvolvida a partir do livro que lera na noite anterior e que lhe fora entregue no hotel - uma promessa cumprida por Nigel Bentley.

 

Tendo calculado e pesado cada uma das palavras Célia olhou para ele e disse:

 

- Há cerca de uma hora, quando estávamos a falar em tua casa, disseste que tinhas arrogância científica.

 

- Não me interpretes mal -- ripostou Martin. - É uma coisa positiva, não negativa, uma combinação entre conhecimento, capacidade para criticar o seu próprio trabalho e também uma convicção que é algo que um cientista com êxito deve ter para sobreviver.

 

Quando ele disse isto Célia interrogou-se sobre se não haveria, pela primeira vez, a mais ligeira das roturas, um véu de fraqueza, na fachada de confiança. Não estava bem certa, mas manteve a pressão.

 

- É possível - disse ela - que a arrogância científica, ou o que quer que lhe chames, vá longe de mais; que alguém se possa tornar tão convicto naquilo em que quer acreditar que permita que a ansiedade desse pensamento o faça inabalável?

 

- Tudo é possível - respondeu Martin. - Embora não neste caso.

 

Mas a sua voz era monótona, tinha menos convicção do que antes. Agora ela tinha a certeza. Sondara a sua fraqueza e ele estava perto da concessão, talvez quase no ponto de rotura.

 

- A noite passada li uma coisa - disse Célia. - Escrevi-a, embora pense que tu a conheces.

 

A sua bolsa estava ao lado dela. Tirou de lá uma folha de papel com o timbre do hotel e leu em voz alta:

 

- O erro não é uma falta do nosso conhecimento, mas um engano do nosso juízo... Aqueles que são incapazes de suportar uma cadeia de consequências nas suas cabeças; e que nem sabem pesar com rectidão as provas e testemunhos contrários... podem facilmente ser levados afixarem-se em posições que não são prováveis.

 

Seguiu-se um silêncio que, uns momentos depois, Célia preencheu, ciente de que estava a ser implacável, cruel até.

 

- É uma citação do livro Ensaio sobre o Entendimento Humano de John Locke. O homem em que acreditas e que veneras.

 

- Sim - disse ele -, eu sei.

 

- Sendo assim não haverá a possibilidade - insistiu ela, - que tu não estejas a pesar as ”provas contrárias” e que tu estejas a tomar ”posições que não são prováveis” exactamente como diz Locke?

 

Martin virou-se para ela com um apelo mudo nos olhos.

 

- Achas que estou?

 

- Sim, acho - afirmou Célia com toda a calma.

 

- Desculpa se... - Engasgou-se com as palavras e ela mal lhe reconheceu a voz. Ele disse em voz quase inaudível: - Nesse caso... desisto.

 

Martin estava vencido. A citação de Locke, o seu ídolo - que Célia virara contra ele - penetrara-o até ao coração. Mais do que isso: como uma máquina a falhar de repente que se dobra para dentro, devorando-se a si mesma, ele perdera o controlo. O seu rosto estava pálido, a boca aberta, o maxilar pendente. Emergiram dele palavras desconexas:

 

- ... diz à tua gente para terminar com isto... eles que fechem... eu acredito mas talvez sozinho não seja o bastante... Aquilo que procurávamos será encontrado... acontecerá, tem de acontecer... mas alguém...

 

Célia sentia-se varada. Que fizera ela? Tentara chocar Martin para que ele visse o que para ela era a realidade, mas nunca pretendera, nem quisera, ir tão longe. Era nítido que as pressões acumuladas em mais de dois anos, a terrível e solitária responsabilidade que ele carregara nos seus ombros, cobrara agora o seu tributo.

 

De novo a voz de Martin:

 

- ... cansado, tão cansado...

 

Escutando as frases de derrota Célia sentiu um desejo irresistível de o tomar nos seus braços e confortá-lo. Então, com a certeza de uma revelação, ela soube.o que aconteceria a seguir.

 

- Martin - disse ela com ar resoluto -, temos de sair daqui.

 

Uma empregada que passava olhou-os com curiosidade. Célia, levantando-se, disse-lhe:

 

- Ponha o jantar na minha conta. O meu amigo não se está a sentir bem.

 

- Com certeza, senhora Jordan. - A rapariga afastou a mesa para facilitar a saída. - Precisa de ajuda?

 

- Não, obrigado. Eu consigo sozinha. - Pegou no braço de Martin e empurrou-o até ao bar. Daí subia uma escadaria para uma série de quartos de hóspedes. O quarto de Célia ficava perto do cimo das escadas. Usou a sua chave para o abrir. Entraram.

 

Esta parte do edifício fora também preservada da época dos Jacobinos. O quarto rectangular tinha um tecto baixo decorado com fitas, paredes com painéis de carvalho e uma lareira emoldurada em pedra. As janelas de vidros eram pequenas, uma pequenez que recordava ser o vidro um luxo dispendioso no século XVII.

 

A enorme cama tinha quatro colunas que sustentavam um dossel. Durante a hora da refeição a empregada estivera ali endireitando os lençóis e colocando a camisa de Célia dobrada em cima de uma almofada.

 

Célia imaginou quantas histórias de antigas famílias - os seus nascimentos e mortes, as doenças, as paixões avassaladoras, as alegrias e tristezas, as discussões, as pazes - vira aquele quarto. Bem, pensou, esta noite teria mais alguma coisa para juntar ao resto.

 

Martin estava de pé, ainda confuso e dorido, olhando-a com incerteza. Pegando na camisa de dormir e dirigindo-se à casa de banho ela disse-lhe:

 

- Despe-te. Deita-te na cama. Já venho ter contigo.

 

Como ele continuasse a olhá-la, sem se mexer, ela aproximou-se e murmurou-lhe:

 

- Tu também queres, não queres?

 

O corpo dele estremeceu percorrido por um suspiro.

 

- Sim, santo Deus, se quero!

 

Agarraram-se um ao outro e ela confortou-o como se ele fosse uma criança. Mas não por muito tempo.

 

Ela sentiu a paixão de Martin crescer e a sua acompanhou-a. Tal como Martin desejara aquele momento também Célia soube como o quisera. De certo modo era inevitável desde o primeiro encontro, em Cambridge, em que algo mais forte que um gostar mútuo e instantâneo relampejara entre os dois. Desde essa altura, percebeu então Célia, a questão nunca fora ”se” mas meramente ”quando”?

 

A escolha da consumação, aqui e agora, fora, num certo sentido, acidental. Acontecera devido ao súbito colapso e desespero de Martin, a sua necessidade óbvia e urgente de receber de fora força e conforto. No entanto, se o que se estava a dar agora não ocorresse nesta noite, outra altura veria a mesma conclusão, pois cada um dos seus encontros aproximava mais o fatídico embate.

 

Enquanto Martin a beijava com ardor, e ela correspondia, sentindo contra si a sua rígida masculinidade, ela sabia numa fresta da sua mente que mais tarde ou mais cedo teria de enfrentar questões morais. ”Mas não agora!” Não restava a Célia senão força para satisfazer o seu desejo. O seu próprio desejo, enorme, ardente, bem-aventurado, irresistível, fundiu-se com o de Martin.

 

E momentos depois gritaram um ao outro, apaixonadamente, com uma felicidade sublime.

 

Depois dormiram. Martin - assim o pareceu a Célia - profunda e tranquilamente.

 

Acordaram de madrugada e, desta vez mais ternamente, mas com igual prazer, tornaram a fazer amor.

 

Quando Célia voltou a acordar a luz do dia jorrava pelas janelas antigas.

 

Martin fora-se embora. Pouco depois encontrou um bilhete.

 

Querida das queridas:

 

Tens sido, e és, uma inspiração.

 

Hoje de manhã, quando dormias - oh, como és linda - uma ideia, uma ”talvez” solução, surgiu-me. Vou para o laboratório, mesmo sabendo que me resta pouco tempo, para saber até que ponto é prometedora.

 

De qualquer modo manterei a fé continuando até que chegue a ordem de despejo.

 

O que entre nós aconteceu será um segredo bem guardado e uma recordação adorável. Não te preocupes. Sei que só se descobre uma vez o Paraíso.

 

Sugiro que não conserves este bilhete.

 

Sempre teu

 

Martin.

 

Célia tomou um duche, pediu o pequeno-almoço e começou a arrumar as malas para regressar a casa.

 

No Concorde da British Airways, depois de servido o lanche, Célia fechou os olhos e pôs em ordem os pensamentos.

 

Primeiro os assuntos pessoais.

 

Durante os dezoito anos do seu casamento com Andrew nunca - até à noite passada- tivera relações sexuais com outro homem. Não que tivessem faltado as oportunidades; tinha havido muitas. De vez em quando fora tentada a aceitar o sexo oferecido, mas, quer por lealdade a Andrew, quer por parecer insensato fazê-lo, em termos de negócios, sempre afastara de si a ideia. Às vezes o seu raciocínio era uma combinação desses dois factores.

 

Sam Hawthorne mostrara, mais de uma vez, que gostaria de ter um caso com Célia. Mas ela há muito concluíra que tal seria mau para ambos e desencorajou as raras ofertas de Sam com amabilidade, mas também com firmeza.

 

Martin fora um caso diferente. Desde o início que Célia o admirava e admitia-o agora consigo mesma - o desejava fisicamente. Bem, o desejo fora satisfeito e o resultado era tão bom quanto o podia almejar um amante. Célia sabia também que, se as circunstâncias fossem diferentes, poderia haver muito mais coisas entre ela e Martin.

 

Mas Martin reconhecera, com o seu bom senso, que não havia futuro no seu amor e Célia também reconhecia esse facto. Isto é, a menos que ela estivesse preparada para abandonar Andrew e alienar os filhos, coisa para a qual não estava agora preparada, nem nunca o estaria. Além disso amava na verdade Andrew.

 

Tinham atravessado muita coisa juntos e Andrew possuía grandes qualidades de sabedoria, ternura e força que ninguém conhecido de Célia - nem mesmo Martin - tinha sequer algo comparável.

 

E Martin, parecendo mais um poeta que um cientista, dissera de manhã: ”O que entre nós aconteceu será um segredo bem guardado e uma recordação adorável... sei que só se encontra uma vez o Paraíso.”

 

Certas pessoas decerto julgariam que ela se sentiria com culpas pelo que acontecera na noite anterior. Bem, não as sentia - antes pelo contrário! - e era tudo.

 

Os seus pensamentos derivaram para Andrew.

 

Teria Andrew, pensou ela, praticado sexo extramatrimonial? Era provável que sim. Ele tivera também as suas oportunidades e era um homem que as mulheres achavam atraente.

 

Nesse caso, perguntou Célia a si própria, como é que ela se sentia a esse respeito?

 

Nada satisfeita, claro, supondo que isso acontecera, pois era difícil, ou mesmo impossível, ser lógica em tais questões. Por outro lado nunca se preocupara com coisas de que não sabia.

 

Uma vez ouvira alguém comentar cinicamente numa festa em Morristown: ”Qualquer homem normal casado há vinte anos e que afirma que nunca deu uma facadinha no casamento ou é mentiroso ou parvo.” Claro que não era verdade. Para muitos homens uma tal oportunidade não surgia e outros permaneciam monógamos por escolha pessoal.

 

No entanto afirmações como aquela encerravam um núcleo de verdade. Célia sabia pelos mexericos, e às vezes por indiscrições públicas, que havia um grande número de casos desses nos círculos médicos que ela e Andrew frequentavam assim como na indústria farmacêutica.

 

O que levava à questão seguinte: as excursões sexuais por fora, ocasionais, importavam num casamento sólido? Achava que não, desde que não fossem nem intensamente sérias nem se tornassem prolongadas. Na realidade, acreditava Célia, muitos casamentos desfaziam-se porque as esposas eram melindrosas ou ciumentas - ou ambas as coisas - acerca do que muitas vezes não passava de uma inofensiva ”fuga” sexual.

 

Finalmente, voltando a Andrew, fizesse ou não ele qualquer coisa extramatrimonial seria sempre um homem sensato e discreto. Célia pretendia ter a mesma discrição e por isso aceitava o fait acompli’ de não voltar a haver encontros clandestinos entre ela e Martin.

 

Fim das lucubrações pessoais.

 

Agora tratemos de Harlow. Qual, perguntou Célia a si mesma, iria ser a sua recomendação, a tal recomendação que amanhã faria a Sam.

 

Obviamente só havia uma atitude a tomar: encerrar o instituto. Admitir que a sua abertura fora um erro. Cortar rapidamente os prejuízos. Aceitar que o projecto sobre envelhecimento cerebral de Martin fora um desapontador falhanço.

 

Ou seria a única atitude? Ou até a melhor? Mesmo agora, depois de tudo o que ouvira em Harlow, se sentia insegura.

 

Havia em particular uma coisa que não a largava: uma coisa que Martin dissera

 

1 Em francês no original: facto consumado. (N. do E.)

 

no seu desespero da noite anterior, momentos antes de saírem da sala de jantar do Hotel Churchgate. Desde manhã, ainda na limusina que a levava para o aeroporto de Londres, Célia repetia as palavras de Martin como se estivessem gravadas em fita: ”Aquilo que procurávamos será encontrado... acontecerá, tem de acontecer... mas alguém...”

 

Quando as palavras tinham sido pronunciadas pouca atenção lhes dera. Mas agora, sem saber bem porquê, o seu significado crescera. Poderia estar toda a gente errada e Martin certo? E quem seria o ”alguém”? Outro país? Outra firma farmacêutica? Seria possível que, se a Felding-Roth abandonasse a pesquisa de Martin sobre o envelhecimento cerebral, outra companhia pegasse no projecto uma competidora - e o levasse a uma conclusão com sucesso, significando ”sucesso” a produção de um novo fármaco, importante e lucrativo?

 

E havia também o problema das pesquisas que, sobre o mesmo assunto, estavam em curso noutros países. Dois anos antes Martin mencionara cientistas na Alemanha, na França e na Nova Zelândia. Célia sabia, pelas informações que colhera, que os projectos nesses outros países continuavam, embora aparentemente sem mais sucesso que o de Harlow.

 

Mas suponhamos que, depois de encerrar Harlow, um dos outros cientistas tem um avanço súbito, uma descoberta excitante que podia ter sido feita em Harlow se tivessem continuado. Se isso acontecesse que sentiria a Felding-Roth? E que sentiria Célia? E qual seria a sua imagem perante as pessoas da companhia se recomendasse o encerramento imediato de Harlow?

 

Daí que, por um batalhão de razões, estivesse tentada a não fazer nada significando ”nada”, neste caso, a recomendação de continuar com Harlow na esperança de que algo surgisse.

 

No entanto, raciocinava Célia, não seria esse tipo de decisão - ou, melhor, indecisão - apenas a maneira mais segura de agir? Claro! Era a filosofia do não-faças-nada-agora e do espera-para-ver que Sam Hawthorne e Vincent Lord descreviam causticamente como a prevalente na FDA em Washington. E tudo isto a fez voltar à instrução que Sam lhe dera antes da partida: ”Se precisares de ser dura e rude... Sê-o!”

 

Célia suspirou. De nada lhe servia desejar não ter que tomar aquela decisão. O facto é que a tinha de tomar. Um ponto de ordem: as decisões duras faziam parte das responsabilidades administrativas do topo, que outrora cobiçara e agora tinha.

 

Mas quando o Concorde aterrou em Nova Iorque continuava a ter dúvidas sobre qual seria o seu conselho.

 

Mas o seu encontro com Sam Hawthorne foi adiado um dia devido ao apertado calendário de reuniões de Sam. Nessa altura já a sua conclusão sobre Harlow era forte e inequívoca.

 

- Bem - disse Sam sem quaisquer preliminares mal ela se sentara à frente dele no gabinete presidencial -, tens uma recomendação a fazer-me?

 

A pergunta directa, e os instintos de Célia, disseram-lhe que Sam não estava disposto a escutar detalhes ou mesmo um resumo do que se passara.

 

- Sim - disse ela com firmeza. - Pesando os prós e os contras seria um grave erro, uma curteza de vistas, encerrar o instituto de Harlow. Devemo’s manter a pesquisa de Martin sobre o envelhecimento cerebral por mais um ano e talvez até durante mais tempo.

 

Sam acenou com a cabeça e disse como facto assente:

 

- Está bem.

 

A falta de uma reacção forte, e a ausência de perguntas, tornou claro que a recomendação de Célia estava aceite in totó. Sentiu também que Sam estava aliviado porque a resposta dela era a que ele esperara ter.

 

- Tenho aqui um relatório escrito - disse ela colocando um memorando de quatro páginas sobre a secretária.

 

Sam atirou-o para um tabuleiro.

 

- Hei-de lê-lo um dia destes. Quanto mais não seja para me ajudar a enfrentar o conselho de administração.

 

- O conselho vai dar-te muitos problemas?

 

- Talvez. - Sam lançou a Célia um meio sorriso e ela sentiu as pressões que o estavam a submergir. - Mas não te preocupes: farei com que continue. Informaste Martin de que continuávamos?

 

Célia respondeu que não com um abanar de cabeça:

 

- Ele acha que vamos fechar.

 

- Nesse caso - disse Sam - uma das coisas agradáveis que tenho de fazer hoje é mandar-lhe uma carta comunicando-lhe que não fecharemos. Obrigado, Célia.

 

Um aceno curto de Sam indicou a Célia que a entrevista terminara.

 

Uma semana depois um enorme ramo de rosas apareceu no gabinete de Célia. Quando perguntou quem as mandara a secretária disse apenas:

 

- Não traziam cartão, senhora Jordan, e quando perguntei à florista disse-me que tinham apenas recebido instruções telegrafadas para lhe entregar as rosas. Quer que eu tente descobrir quem foi?

 

- Não vale a pena incomodares-te - disse Célia. - Acho que sei quem foi.

 

Para alívio de Célia as suas viagens diminuíram no resto do ano de 1975. Embora trabalhasse muito era sobretudo em Morristown o que significava que podia passar mais tempo com Andrew e visitar Lisa e Bruce às escolas.

 

Lisa, no seu último ano no Emma Willard, fora eleita presidente da classe sénior e, mantendo uma alta classificação, conseguia participar também em grande número de outras actividades da escola. Uma dessas actividades, que ela própria sugerira, era um programa interno pelo qual os membros da classe sénior passavam meio dia por semana a trabalhar em repartições do Estado, em Albany.

 

O programa .começou depois de Lisa, crente de que se se quer uma coisa o melhor é pedi-la directamente ao topo da hierarquia, escrever ao governador de Nova Iorque. Um ajudante mostrou-o ao governador que achou graça e, para espanto de toda a gente da escola menos de Lisa, respondeu pessoal e positivamente. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Andrew este comentou para Célia:

 

- Não resta a mínima dúvida; é tua filha.

 

Organização era para Lisa, ou assim parecia ser, tão natural como a respiração. Candidatara-se à admissão em várias universidades embora as suas ambições se centrassem em Stanford.

 

Bruce, agora no segundo ano do Hill, transformara-se mais ainda num fanático pela História, um interesse que o absorvia ao ponto de mal conseguir nota para passar nas outras cadeiras. O tutor de Bruce na escola explicara as coisas a Andrew e Célia, numa das visitas, da seguinte maneira:

 

- Bruce não é um mau aluno; podia ser até excelente em tudo. Simplesmente às vezes temos de lhe pedir para largar os livros de História e insistir para que estude as outras disciplinas. Acho que temos nas nossas mãos um futuro historiador. Espero ver o nome do vosso filho em trabalhos publicados dentro de poucos anos.

 

Embora cautelosa para não se tornar presumida, Célia reflectiu com alívio que era possível ser uma mãe trabalhadora e ter, mesmo assim, filhos equilibrados e bem sucedidos.

 

Claro que uma parte importante desse sucesso se devia a Winnie e Hank March que tinham governado a casa, e continuavam a fazê-lo, com uma eficiência espantosa. Durante a comemoração do décimo quinto ano de emprego de Winnie, que coincidiu com o seu trigésimo aniversário, foi Andrew quem recordou o plano, há muito abandonado por Winnie, de partir para a Austrália.

 

- O que os Australianos perderam, os Jordans ganharam - comentou. Uma única nota adversa ensombrava o feito radiante de Winnie: não conseguir

 

ter o filho que ela tanto desejava. Confidenciara a Célia: ”Eu e o Hank continuamos a tentar. Senhor! Como tentamos! Há dias em que me sinto oprimida. Mas nunca resulta.”

 

Por insistência de Célia, Andrew pedira testes de fertilidade para Winnie e o marido. Os testes foram positivos para ambos.

 

- Quer tu quer o Hank são férteis - explicou Andrew uma noite enquanto ele, Winnie e Célia estavam na cozinha. - É apenas uma questão de calendário, e nisso o ginecologista não pode ajudar. - Têm de continuar a tentar.

 

- Continuaremos - disse Winnie e depois, com um suspiro, pediu: - Mas não digam nada ao Hank até amanhã. Estou a precisar de uma boa noite de sono.

 

Célia fez uma curta viagem à Califórnia, pela companhia, em Setembro e estava em Sacramento, por acaso até não muito longe do presidente Ford, quando foi perpetrado um atentado à vida do presidente. Só a inépcia da mulher que fez a tentativa, que não percebia nada da arma de fogo que possuía, impediu outra tragédia histórica. Célia ficou abalada pela experiência e igualmente horrorizada quando soube de uma segunda tentativa de assassínio, em São Francisco, menos de três semanas depois.

 

Ao falar disso em casa, com a família reunida no Dia de Acção de Graças, declarou:

 

- Há dias em que penso que nos estamos a tornar num povo mais violento e não menos. - E depois, de forma retórica: - Como começaram essas ideias de assassínios?

 

Não esperara uma resposta, mas Bruce forneceu uma.

 

- Considerando o seu negócio, mamã, surpreende-me que não saiba que historicamente começou com drogas, que é o significado primitivo da palavra ”assassino”. Deriva do árabe hashíshi ou ”comedor de haxixe” e dos séculos onze ao treze existiu uma seita islâmica, os Nizãri Ismãllls, que tomavam haxixe quando cometiam actos de terrorismo religioso. Célia disse com irritação:

 

- Não sei porque o haxixe não é uma droga com aplicações farmacêuticas.

 

- Mas já o foi - retorquiu calmamente Bruce. - E não há muito tempo, aliás. Os psiquiatras usaram-no para a amnésia, mas, como os resultados não eram grande coisa, abandonaram-no.

 

- Raios me partam! - disse Andrew enquanto Lisa olhava para o irmão com uma mistura de espanto e prazer.

 

O ano de 1976 trouxe consigo um agradável interlúdio em Fevereiro com o casamento de Juliet Hawthorne com Dwight Goodsmith, o jovem que Andrew e Célia tinham conhecido, e de quem tinham gostado, num jantar em casa dos Hawthorne um ano antes. Dwight, recém-graduado da Escola de Direito de Harvard, ia começar a trabalhar na cidade de Nova Iorque onde ele e Juliet iam viver.

 

O casamento foi um acontecimento grandioso e luxuoso com trezentos e cinquenta convidados entre os quais Andrew e Célia.

 

- No fim de contas - dissera Lilian Hawthorne a Célia - vai ser o único casamento a que irei como mãe da noiva... pelo menos assim espero.

 

Uns tempos antes Lilian confidenciara a Célia as suas preocupações acerca de Juliet, apenas com vinte anos, que se ia casar tão cedo e abandonava a faculdade no segundo ano. Mas, no dia do casamento, Sam e Lilian estavam tão radiantemente felizes que era evidente terem posto de lado tais pensamentos com boas razões para o fazerem, pensou Célia. Observando Juliet e Dwight, um casal inteligente e talentoso, mas mesmo assim modesto e simples, sentiu-se impressionada com eles e ficou com a convicção de que aquele seria um casamento feliz.

 

Em Maio desse ano foi publicado um livro, The Drugging oftheAmericas, com especial interesse para Célia.

 

Foi um livro que chamou sobre si muita atenção e que referia a vergonhosa omissão, pelas firmas farmacêuticas americanas e não só, dos efeitos adversos dos seus medicamentos quando os vendiam na América Latina - algo que a lei exigia em países mais sofisticados. Eram nele descritas e documentadas as práticas que Célia, nos anos em que estivera nas Vendas Internacionais, observara pessoalmente e criticara na Felding-Roth.

 

O que tornava o livro diferente dos acerbados e rotineiros ataques à indústria farmacêutica era a perfeição académica do autor, o Dr. Milton Silverman, um farmacologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco. O Dr. Silverman testemunhara pouco antes perante uma comissão do Congresso onde fora escutado com respeito. Na opinião de Célia era mais um aviso para que a indústria farmacêutica aceitasse obrigações morais para além das legais.

 

Comprou meia dúzia de exemplares enviando-os a executivos da companhia que responderam conforme era de prever. Uma resposta típica foi o memorando rabiscado por Sam Hawthorne:

 

Basicamente compartilho dos pontos de vista de Silverman. No entanto, para que haja mudanças, tem de haver um acordo geral. Nenhuma companhia se pode colocar em desvantagem em relação à competição - sobretudo nós neste momento dada a nossa delicada situação financeira.

 

Para Célia o argumento de Sam era falacioso, embora não o tivesse contestado pois sabia que não conseguiria ganhar.

 

Uma grande surpresa foi a resposta de Vincent Lord, que lhe mandou uma nota amigável.

 

Obrigado pelo livro. Concordo com a necessidade de mudanças, mas prevejo que os nossos patrões irão resmungar e protestar contra elas até que lhes apontem com uma pistola os novos rumos. Mas continua a tentar.

 

Ajudarei no que puder.

 

Embora tardiamente o director de pesquisa acabara, segundo parecia, por amadurecer. Recordava-se de lhe ter enviado, treze anos antes, um exemplar de The Feminine Mystique que ele devolvera com um curto comentário de ”absurdo”. Ou seria que Vincent Lord, agora que ela subira suficientemente alto na companhia para lhe ser útil, a queria neste momento como aliada?

 

Em Abril Lisa telefonou toda excitada para casa para comunicar que iria no Outono para a Califórnia. Fora aceite na Universidade de Stanford. E, em Junho, Lisa graduou-se na Emma Willard durante uma cerimónia graciosa ao ar livre a que Andrew, Célia e Bruce assistiram. Nessa noite, num jantar de família em Albany, Andrew observou:

 

- Hoje é um dia grande mas prevejo, para o Mundo, um ano monótono. Quase de seguida a sua previsão foi furada pela espectacular operação dos

 

destemidos pára-quedistas israelitas no Aeroporto de Antebe onde estavam cativos mais de uma centena de reféns, capturados por terroristas árabes auxiliados pelo traiçoeiro presidente do Uganda, Idi Amin. Enquanto o mundo livre aplaudia, contente com a notícia, os israelitas libertaram os reféns e voaram de regresso à segurança.

 

Mas a monotonia voltou - como Andrew se apressou a apontar - quando na Convenção Nacional Democrática de Nova Iorque um obscuro indivíduo da Jórgia, que se gabava de ser um ”renascido” baptista do Sul, afiançava a sua nomeação para presidente.

 

Apesar do desencanto público americano, primeiro com Nixon e agora com Ford, parecia improvável que o recém-chegado pudesse ganhar. No bar da Felding-Roth, Célia ouviu alguém perguntar:

 

- É concebível que o cargo mais importante deste mundo possa ser ocupado por alguém que se chama a si próprio de Jimmy?

 

Mas na sede de Morristown havia pouco tempo para pensar em política. Quase toda a atenção se focava no novo fármaco que ia ser lançado, o Montayne.

 

Tinham-se passado quase dois anos desde que Célia exprimira a Sam as suas dúvidas e apreensões sobre o Montayne, mas, a pedido de Sam, acedera a manter um espírito aberto ao estudar os dados da pesquisa e os ensaios.

 

Entretanto lera a maior parte do volumoso material que surgira sobre o fármaco. E, ao fazê-lo, cresceu nela a convicção de que Sam tinha razão: a ciência farmacêutica fizera progressos espantosos em quinze anos e não se devia negar às grávidas um fármaco benéfico apenas porque outro fármaco, muito tempo antes, mostrara ser prejudicial.

 

Igualmente significativo: os ensaios do Montayne - primeiro em França, posteriormente na Dinamarca, Inglaterra, Espanha, Austrália e agora nos Estados Unidos - tinham sem dúvida sido os mais humanamente cautelosos e completos possíveis. Desta forma, devido aos resultados autenticados e às suas próprias leituras, Célia não só estava convencida da segurança do Montayne como entusiasmada com a sua utilidade e possibilidades comerciais.

 

Por diversas ocasiões, em casa, tentara partilhar os seus conhecimentos com Andrew procurando convertê-lo às suas novas opiniões. Mas, estranhamente, Andrew parecia ter um espírito fechado. Conseguia sempre desviar a conversa para outros assuntos tornando claro que, embora desejando evitar qualquer discussão, o Montayne era para ele um assunto que preferia ver à distância.

 

Por fim Célia desistiu e, na presença de Andrew, mantinha para si mesma o entusiasmo. Haveria no futuro outras ocasiões para o fazer quando a campanha de vendas da Felding-Roth começasse a sério.

 

- A coisa mais importante para nós, nas vendas, não nos podemos esquecer de salientar - disse Célia ao microfone da tribuna -, é que se trata de um medicamento absolutamente seguro para as grávidas. Mais do que isso, é um medicamento maravilhoso! O Montayne é uma coisa que as mulheres, perseguidas pelas náuseas e vómitos durante a gravidez, necessitaram, desejaram e mereceram desde há séculos. Mas agora, por fim, a Felding-Roth tornou-se emancipadora libertando as mulheres americanas da sua ancestral submissão, tornando cada dia da gravidez melhor, mais brilhante, mais feliz! O medicamento que põe fim para sempre às ”náuseas matinais” está aqui’. Nós temo-lo!

 

Houve uma vibrante eclosão de palmas da assistência.

 

Estava-se em Outubro de 1976. Célia encontrava-se em São Francisco, no encontro regional de vendas da Felding-Roth, onde estavam reunidos os delegados de propaganda, supervisores de vendas e directores regionais de nove estados ocidentais, incluindo o Alasca e o Havai. A sessão de três dias realizava-se no Hotel Fairmont de Nob Hill. Célia, e outros funcionários superiores da companhia, hospedavam-se no elegante Stanford Court do outro lado da rua. Entre eles contava-se Bill Ingram, outrora novato nas vendas ao balcão e agora, como director-delegado das vendas farmacêuticas, seu principal assistente.

 

Os planos para a comercialização do Montayne estavam em pleno andamento e a Felding-Roth esperava ter o produto no mercado em Fevereiro, daí a apenas quatro meses. Entretanto era necessário que aqueles que iriam vender o Montayne soubessem o máximo possível sobre o medicamento.

 

Na força de vendas era grande o entusiasmo sobre as perspectivas do Montayne e alguém da sede compusera uma canção para ser entoada com a música de America the Beautiful.

 

Ó belo para dias despreocupados,

 

Para sonhos de maternidade. Pois agora de seguros e simples modos, Todas as manhãs são de liberdade!

 

”Montayne”, ”Montayne”! ”Montayne”, ” Montayne ”! Receitado para a gravidez;

 

Vamos vender em força, proclamar suas alegrias, Sua segurança e limpidez!

 

As palavras tinham sido entoadas nessa manhã pelo pessoal de vendas e seriam repetidas nos dois dias seguintes. Célia, pessoalmente, tinha reservas em relação à canção, mas outros tinham argumentado a seu favor pelo que ela concordara com o seu uso para não ferir espíritos cheios de esperanças.

 

Quanto aos ensaios nos Estados Unidos tinham sido executados no ano e meio precedente - em animais e quinhentos seres humanos - apenas com ligeiros e ocasionais efeitos colaterais, nada medicamente significativo. Os bons resultados eram semelhantes aos que se observavam nos outros países onde o Montayne já estava à venda, um medicamento muito popular e elogiado pelos médicos e pelas doentes.

 

Depois dos ensaios nos Estados Unidos foi entregue o habitual e volumoso pedido de aprovação à FDA, em Washington, com a esperança de uma aprovação rápida.

 

Infelizmente tal esperança revelou-se vã; até agora não fora dada a aprovação pela FDA e esta era uma das duas pequenas nuvens que ensombravam o elaborado esquema de comercialização da Felding-Roth.

 

Na sede da companhia considerava-se ser impossível deter todas as preparações até a aprovação estar garantida; de outro modo seriam perdidos seis meses ou mais de vendas assim como os respectivos lucros. Fora assim tomada a decisão de produzir o medicamento, preparar a publicidade e realizar sessões ”de aquecimento” como esta, na presunção de que a FDA daria luz verde antes do prazo crítico.

 

Sam Hawthorne, Vincent Lord e outros estavam confiantes de que a necessária aprovação da FDA estava para breve. Notaram também a existência de um factor adicional a favor da Felding-Roth: os órgãos de Comunicação Social.

 

Devido ao progresso e popularidade do Montayne no estrangeiro tinham surgido a público várias questões como: Por que demorava tanto tempo a decisão da FDA? Por que era negada às mulheres americanas este medicamento benéfico quando as outras mulheres o estavam a usar com sucesso e segurança? A frase ”atraso medicamentoso americano” era mais uma vez brandida criticamente, sendo as culpas atiradas para a FDA.

 

Um dos críticos mais contundentes era o senador Dennis Donahue, habitualmente um crítico da indústria farmacêutica, mas sempre reconhecedor de que lado da questão estava a opinião pública. Respondendo a uma entrevista de um jornalista descrevera a indecisão da FDA sobre o Montayne como ”claramente ridícula nas presentes circunstâncias”. O comentário de Donahue foi bem recebido na Felding-Roth. A outra pequena nuvem fora criada por Maud Stavely, médica, presidente de um grupo de consumidores sediado em Nova Iorque, Citizens for Safer Medicine (”Cidadãos para uma Medicina mais Segura”).

 

A Dra. Stavely e a sua CSM opunham-se agressivamente à aprovação americana do Montayne, argumentando que o medicamento podia ser inseguro e devia ser submetido a mais ensaios. Todos aqueles que os escutassem eram bombardeados com este ponto de vista, que recebia uma considerável cobertura dos meios de comunicação.

 

A base da argumentação de Stavely era um processo cível que fora posto vários meses atrás nos tribunais da Austrália.

 

Uma australiana de vinte e três anos, que vivia perto de Alice Springs, dera à luz uma menina. A mãe, durante a gravidez, fora uma das primeiras utilizadoras do Montayne. Mais tarde os testes mostraram que a bebé era deficiente mental; os médicos descreviam o seu cérebro como estando ”em branco”. Além disso a criança não era capaz de fazer senão fracos movimentos físicos, mesmo quando já tinha um ano de idade. Os médicos que a examinaram concordaram que a criança seria sempre um vegetal, incapaz de alguma vez andar ou sentar-se sem ajuda.

 

Um advogado, ouvindo falar do caso, persuadiu a mãe a processar a companhia australiana que distribuía o Montayne. O processo foi julgado e a companhia ilibada. Apelaram da decisão para um tribunal superior que ilibou a companhia, confirmando a decisão do primeiro julgamento.

 

Durante ambos os processos as provas pareciam esmagadoras a favor de não ser o Montayne o responsável pela situação da criança. A mãe, uma mulher de baixa reputação que admitia não saber quem era o pai da criança, tomara outros medicamentos durante a gravidez - metaqualona (Quaalude), diazepam (Valium) e várias outras. Era também quase uma alcoólica, uma fumadora inveterada e uma viciada em marijuana. Uma testemunha, perito médico, descreveu ao júri o corpo dela como ”um horrível caldeirão de produtos químicos antagonistas onde tudo podia acontecer.” Ele e outra testemunha médica ilibaram o Montayne de qualquer ligação com os defeitos da criança.

 

Apenas um médico, que tratara a mulher durante a gravidez e fizera o parto da criança, testemunhou a favor da mãe e culpou o Montayne, que ele próprio receitara. Contudo, num interrogatório cruzado, o médico admitiu não ter provas para apoiar a sua afirmação, apenas que lhe ”cheirava a isso”. À luz dos testemunhos dos outros peritos as suas opiniões não foram tomadas a sério.

 

Posteriormente um inquérito aberto pelo Governo da Austrália, onde voltaram a testemunhar peritos médicos e científicos, chegou à mesma conclusão que os tribunais, confirmando que o Montayne era um medicamento seguro.

 

Desta forma a campanha Maud Stavely-CSM era encarada na Felding-Roth como um incómodo, mas sem constituir grande problema.

 

Agora, no encontro de vendas de São Francisco, depois de esperar que a ovação abrandasse, Célia prosseguiu o seu discurso.

 

- Uma coisa que poderão encontrar - avisou ela os seus ouvintes - é ansiedade sobre este novo medicamento, o Montayne, de pessoas que ainda recordam um velho medicamento, a Thalidomide, que teve efeitos terríveis nos fetos de mulheres grávidas levando-as a dar à luz bebés deformados. Menciono isto, trazendo o assunto à luz do dia, porque é um assunto para o qual devem estar preparados.

 

Havia silêncio na sala, os homens e mulheres na frente de Célia escutavam-na com atenção.

 

- As diferenças entre o Montayne e a Thalidomide são muitas e esmagadoras. ”Em primeiro lugar a Thalidomide foi desenvolvida há cerca de vinte anos, numa época em que a pesquisa farmacêutica não estava tão avançada, nem os regulamentos de segurança eram tão perfeitos e rigorosos como hoje são. Outra coisa, e contrária à crença popular, é que a Thalidomide nunca foi destinada, ou especificamente usada, como medicamento para as mulheres. Era um sedativo geral, um comprimido para dormir.

 

”E, voltando à questão da investigação, a Thalidomide não foi ensaiada numa grande gama de animais antes de ser usada em seres humanos. Depois de banir a Thalidomide, por exemplo, as experiências em animais mostraram que algumas raças de coelhos produziam os mesmos fetos deformados que foram observados nos seres humanos, demonstrando assim que, se tivessem sido realizados estudos animais completos, as tragédias humanas nunca teriam acontecido.

 

Célia fez uma pausa para consultar as notas que preparara com todo o cuidado para esta e outras ocasiões.

 

Ainda com a mesma atenção focada nela, continuou:

 

- O Montayne, por outro lado, tem o máximo de ensaios possível, incluindo em várias espécies de animais assim como em voluntários humanos, em cinco países, todos eles com leis estritas de controlo de medicamentos. Mais ainda: na maior parte desses países o Montayne tem estado a ser usado por milhares de mulheres há mais de um ano. Permitam que dê apenas um exemplo do cuidado com que se realizaram as investigações e os ensaios.

 

Célia descreveu a decisão dos Laboratoires Gironde-Chimie, os descobridores franceses do Montayne, em fazer um ano adicional de ensaios clínicos, acima e além do que exigia a lei francesa, para ter a certeza da qualidade do seu produto.

 

- Provavelmente nenhum outro medicamento até hoje introduzido no mercado - concluiu ela - foi ensaiado tão exaustivamente no que respeita à segurança.

 

Depois do discurso de Célia outros oradores científicos da companhia endossaram as suas palavras e responderam a perguntas da assistência.

 

- Como é que corre a tua exposição de vendas? - perguntou Andrew cerca de uma hora depois no luxuoso conforto da suite do Stanford Court. Tirara uns dias de folga para acompanhar Célia e, ao mesmo tempo, visitar Lisa, uma caloira em Stanford que morava na cidade universitária.

 

- Acho que bem. - Célia atirou fora os sapatos, espreguiçou-se de cansaço e colocou os pés num sofá. - Em certos aspectos os encontros regionais de vendas são como um espectáculo ambulante, melhoramos com cada actuação. - Olhou o marido com curiosidade. - Reparaste que é a primeira vez que me fazes uma pergunta relacionada com o Montayne?

 

- A sério? - Ele tentou mostrar-se surpreendido.

 

- Sabes que sim. Gostava de saber porquê.

 

- Talvez porque me disseste tudo de modo que nada tenho a perguntar.

 

- Não é verdade - disse Célia. - A verdade é que ainda tens reservas, não é?

 

- Repara - objectou Andrew, colocando de lado o jornal que estava a ler quando ela chegara. - Não estou qualificado para formular juízos de valor sobre um medicamento que ainda não usei. Dispões de um batalhão de cientistas, aqui e no estrangeiro, que sabem muito mais do que eu. Eles afirmam que o Montayne está certo. Sendo assim... - Encolheu os ombros.

 

- Mas tu receitarias o Montayne a uma doente?

 

- Não preciso. Afortunadamente não sou nem obstetra, nem ginecologista.

 

- Afortunadamente ?

 

- Um descuido de língua - disse Andrew com impaciência. - Falemos doutra coisa.

 

- Não - persistiu Célia; havia dureza na sua voz. - Quero falar disto porque é importante para ambos. Costumavas dizer sempre que nenhuma mulher devia tomar qualquer medicamento durante a gravidez. Ainda crês nisso?

 

- Já que perguntas... sim, creio.

 

- Não é possível - disse Célia - que, embora estivesses certo nessa altura, tal ponto de vista esteja agora desactualizado? No fim de contas já começaste a praticar medicina há muitos anos, há vinte, e muitas coisas mudaram. Recordou-se de algo que Sam lhe dissera. - Não havia médicos que se opunham à anestesia nas grávidas porque diziam...?

 

Andrew estava a ficar zangado.

 

- Já te disse que não quero falar disso.

 

- Mas eu quero! - gritou ela em resposta.

 

- Raios, Célia! Não estou envolvido no teu Montayne nem quero estar. Já admiti que não tenho os conhecimentos...

 

- Mas tens influência em St. Bede.

 

- Que não usarei, nem para um lado, nem para o outro, na questão do Montayne.

 

Estavam a olhar um para o outro quando o telefone tocou. Célia baixou as pernas e pegou no auscultador.

 

- Senhora Jordan? - inquiriu uma voz feminina.

 

- Sou.

 

- Fala de Felding-Roth, Morristown. Um momento, por favor, vou passar ao senhor Hawthome.

 

Sam surgiu em linha.

 

- Olá, Célia. Como vão indo as coisas até agora?

 

- Muito bem. - A boa disposição com que deixara a sessão no Fairmont regressou-lhe. - As apresentações têm decorrido bem. Toda a gente está em pulgas, ansiosa por vender o Montayne.

 

- Óptimo!

 

- Claro que a questão que todos pomos é esta: quando conseguiremos a aprovação do FDA?

 

Seguiu-se um silêncio durante o qual Célia sentiu a hesitação de Sam, até que este disse:

 

- De momento isto é confidencial entre tu e eu. Mas posso afirmar que teremos a autorização da FDA e muito em breve.

 

- Posso perguntar por que estás assim tão seguro?

 

- Não.

 

- Está bem. - Se Sam queria ser misterioso, pensou Célia, isso era seu privilégio embora ela não visse razão para haver segredos entre eles. Perguntou: - Juliet está bem?

 

- E com o meu futuro neto? - Sam riu-se. - Fico deliciado por dizer que sim.

 

Três meses antes Juliet e Dwight Goodsmith tinham anunciado, com ar feliz, a gravidez de Juliet. O bebé era esperado em Fevereiro.

 

- Dá saudades minhas a Lilian e Juliet - disse Célia - e diz a Juliet que na próxima gravidez já poderá tomar o Montayne.

 

- Direi. Obrigado Célia. - Sam desligou.

 

Enquanto Célia estava ao telefone Andrew tomara um duche e vestira-se para a viagem de trinta e cinco milhas até Paio Alto onde iam jantar com Lisa e alguns dos seus novos amigos de Stanford.

 

Durante a viagem e o jantar, que foi tranquilo e cordial, nem Célia nem Andrew falaram da discussão que tinham tido no hotel. Ao princípio havia uma frieza entre eles, mas que foi desaparecendo à medida que a noite progredia. Nessa altura Célia decidira esquecer tudo e não voltar a tocar no assunto do Montayne com o marido. No fim de contas qualquer pessoa tinha durante a vida pontos cegos e embora isso a desapontasse - aquele era obviamente o de Andrew.

 

Sam Hawthorne, ao pousar o auscultador no descanso depois da sua conversa Morristown-São Francisco com Célia, estava já arrependido de ter feito aquela afirmação impulsiva e positiva sobre a aprovação do Montayne pela FDA. Fora idiota e indiscreta. Por que a fizera? Talvez a única razão fosse o desejo humano de impressionar outra pessoa, neste caso Célia.

 

Tinha de se vigiar a si mesmo, concluiu ele. Sobretudo depois da sua discussão, uma hora atrás, com Vincent Lord e a decisão que tinham tomado em conjunto. Era uma decisão que teria repercussões desastrosas se fosse descoberta, mas que não o devia ser... nunca. Mais uma razão para deixar que a aprovação do Montayne pela FDA, quando viesse, tivesse um ar ordenado e natural. E assim deveria ser não fora aquele arrogante, intolerável e criminoso burocrata da FDA!

 

Fora mesmo azar que o pedido de aprovação estivesse a cargo do Dr. Gideon Mace como revisor.

 

Sam Hawthorne nunca encontrara Mace nem queria encontrá-lo. Já ouvira mais que o suficiente de Vince Lord e de outros e sabia que todos os problemas que já causara à Felding-Roth, primeiro com o Staidpace e agora com o Montayne. Por que é que gente como Mace possuía os poderes que tinha, remoía Sam, e têm de ser suportados por honestos homens de negócios que nada mais pedem dos Maces desde mundo que uma igual honestidade e justeza?

 

Felizmente que as pessoas como Mace eram uma minoria, na FDA era até uma pequena minoria; Sam estava certo disso. Mas a realidade é que Mace existia. Estava agora sentado no Montayne usando regulamentos e tácticas processuais para retardar a aprovação. Daí que tivessem procurado uma maneira de dar a volta a Mace.

 

Bem, tinham uma maneira. Pelo menos a Felding-Roth tinha-a, na pessoa de Vince Lord.

 

Originalmente, quando Vince recolhera - não, comprara - as provas da culpabilidade do Dr. Mace, adquirira-as com dois mil dólares em dinheiro da Felding-Roth, o vale desse dinheiro estava agora profundamente enterrado nas despesas de viagens onde nem auditores, nem o Serviço de Rendimentos o poderiam jamais encontrar... nessa altura Sam ficara zangado, criticara Vince, chocara-o a ideia de que o material fosse alguma vez usado da forma que Vince imaginara.

 

Mas agora não. A situação existente que afectava o Montayne era demasiado crítica, demasiado importante, para haver esse tipo de escrúpulos. E essa era outra causa de raiva. Raiva porque criminosos como Mace despertavam a criminalidade em outros - neste caso em Sam e em Vince Lord - que tinham de recorrer às mesmas tácticas baixas para se defenderem. ”Raios partam Mace!”

 

Continuando no solilóquio silencioso, na tranquilidade do seu gabinete, Sam disse a si mesmo: um castigo por ter o posto máximo numa grande companhia era o de ter de tomar decisões amargas autorizando acções que, se acontecessem noutro lugar ou no vácuo, nós consideraríamos nada éticas e as reprovaríamos. Mas quando se tinham sobre os ombros as responsabilidades respeitantes a tanta gente, todos dependentes de nós - accionistas, retalhistas, executivos, empregados, distribuidores, retalhistas, clientes - era às vezes necessário engolir em seco e fazer o que era indispensável, embora pudesse ser o mais duro, desagradável ou repugnante possível.

 

Sam fizera isto mesmo, uma hora atrás, ao concordar com a proposta de Vincent Lord de ameaçar o Dr. Gideon Mace com a revelação dos factos e consequente processo criminal caso não fosse expedito a aprovar o Montayne.

 

Chantagem. Não valia a pena escamotear as palavras ou esconder-se atrás de eufemismos. Era chantagem e chantagem era também um crime.

 

Vince expusera cruamente o seu plano a Sam. Da mesma forma Vince declarara:

 

- Se não fizermos uso daquilo de que dispomos, pressionando Mace, podes esquecer a ideia de comercializar o Montayne em Fevereiro ou mesmo durante mais um ano.

 

- Pode ser assim tanto tempo... um ano? - perguntou Sam.

 

- Com facilidade. Mais até. Mace tem apenas de pedir a repetição de... Lord parou quando Sam lhe fez um gesto de silêncio, cancelando uma pergunta

 

desnecessária, lembrando-se de como Mace atrasara o Staidpace por mais de um ano.

 

- Houve uma altura - recordou Sam ao director de pesquisas - em que falavas de fazer o que me estás a propor sem me envolveres.

 

- Eu sei - disse Lord -, mas insististe em saber para onde iam os dois mil dólares e eu mudei de opinião. Vou correr um risco e nada me obriga a tomá-lo sozinho. Mesmo assim serei eu a estar na linha da frente, confrontando Mace. Mas quero que tu saibas disso e aproves.

 

- Não estás a sugerir documentos escritos? Lord abanou a cabeça numa negativa.

 

- Esse é outro risco meu. Se a coisa rebentar podes sempre negar esta nossa conversa.

 

Fora então que Sam percebera que o que Vince realmente queria era não estar isolado, não ser o único a saber o que ia fazer. Sam compreendia-o. A solidão era outra coisa que se sentia quando se estava no topo, ou perto do topo, e Vince estava simplesmente a compartilhar a sua.

 

-Tudo bem - disse Sam. - Embora a ideia não me agrade mesmo nada, aprovo-a. Vai em frente. Faz o que tens a fazer. - E acrescentou com ar sério: Espero que não haja nesta sala dispositivos de escuta.

 

- Se houver - respondeu Lord - serei tão incriminado como tu. Quando o director de pesquisas já ia a sair Sam chamou-o:

 

- Vince!

 

- O que é? - Lord virou-se.

 

- Obrigado - disse Sam. - Apenas obrigado, mais nada.

 

E agora só restava esperar. Esperar um pouco confiante de que a aprovação do Montayne pela FDA viria rápida e inevitavelmente.

 

Vincent Lord reparou que desde o seu anterior encontro, tinham ocorrido algumas mudanças no Dr. Gideon Mace. O funcionário da FDA parecia mais velho, e era-o, mas também com melhor aspecto que antes, o que era surpreendente. O seu rosto estava menos vermelho, as veias do nariz pareciam menos proeminentes. Deitara fora o fato velho e comprara um novo, tinha óculos novos, já não semicerrava os olhos. Os seus modos pareciam mais fáceis e, embora ainda não amigáveis, eram decerto menos bruscos e nada agressivos. Uma das possíveis razões para as mudanças - uma razão que Vincent Lord soubera através dos seus contactos na agência - era que Mace parara de beber e pertencia aos Alcoólicos Anónimos.

 

Tirando a personalidade de Mace as outras coisas estavam na mesma ou piores. A sede de FDA em Washington continuava a mesma colmeia impessoal e cheia até abarrotar. No minúsculo gabinete de Mace, sentado à sua secretária, havia mais papel que nunca; formava pilhas altas por toda a parte, como uma gigantesca onda prestes a abater-se. Mesmo para andar tinha-se de rodear papéis e arquivos ali postos por absoluta falta de espaço em qualquer outro sítio.

 

Fazendo um gesto na direcção de tudo aquilo Lord perguntou:

 

- O pedido do nosso Montayne está aqui?

 

- Parte dele - disse Mace. - Não tenho espaço para ele todo. Suponho que foi o Montayne que o trouxe cá.

 

- Foi - reconheceu Lord. Estava sentado em frente ao doutor esperando ainda não ter de usar as cópias fotostáticas que estavam na pasta aos seus pés.

 

- Estou genuinamente preocupado com o caso australiano. - Mais uma vez, em contraste com o passado, o tom de Mace era razoável. - Sabe a que me estou a referir?

 

Lord assentiu.

 

- A mulher de Outback. Sim, o caso foi a tribunal mas foi rejeitado e houve até um inquérito do Governo. qualquer das vezes as acusações foram cuidadosamente verificadas e o Montayne absolvido.

 

- Li isso tudo - disse Mace -, mas quero mais pormenores. Escrevi para a Austrália a pedi-los e, quando chegarem, poderei até ter mais questões.

 

- Mas isso pode levar meses! - protestou Lord.

 

- Mesmo que demore estou a fazer aquilo que é meu dever aqui.

 

Lord fez uma última tentativa:

 

- Quando tratou do nosso pedido do Staidpace eu assegurei-lhe que era um bom medicamento, livre de efeitos colaterais e, apesar do atraso desnecessário, assim mostrou ser. Agora prometo-lhe, baseado na minha reputação como cientista, que o mesmo é exactamente verdade para o Montayne.

 

Mace disse com indiferença:

 

- Isso do atraso desnecessário do Staidpace é opinião sua, não minha. Em qualquer dos casos nada tem a ver com o Montayne.

 

- De certo modo tem - disse Lord sabendo que não lhe restava qualquer alternativa e olhando para trás para se certificar de que a porta estava fechada. Tem porque penso que o que está a fazer connosco, com a Felding-Roth, não se relaciona com o nosso último PNM mas com o seu estado de espírito. Tem um monte de problemas pessoais que lhe estão a levar o melhor criando falsos preconceitos e nublando o seu raciocínio. Alguns desses problemas pessoais chegaram ao conhecimento da minha companhia.

 

Mace endireitou-se e a voz endureceu:

 

- De que raios está a falar?

 

- Disto - disse Lord. Abrira já a pasta e retirou de lá uns papéis. - Talões de transacções, cheques cancelados, extractos bancários e outros documentos que demonstram que você teve mais de dezasseis mil dólares de lucro ilegal com a utilização de informações confidenciais da FDA sobre duas companhias de medicamentos genéricos, Binvus Products e Minto Labs.

 

Lord acrescentou uma dúzia de folhas ao monte de papéis já existente sobre a secretária de Mace.

 

- Penso que os deve ver com atenção. Já sei que os viu antes mas se calhar é novidade para si que alguém tivesse cópias. E, a propósito, estas são cópias de cópias. De nada lhe servirá guardá-las ou destruí-las.

 

Era óbvio que Mace reconhecera instantaneamente o primeiro papel - um dos talões de transacção. As suas mãos tremiam quando lhe pegou e depois viu papel a papel com iguais sinais de reconhecimento. À medida que prosseguia o rosto ficava cada vez mais cinzento e a boca tinha movimentos espasmódicos. Lord receou que Mace tivesse um ataque ou um enfarte ali mesmo. Mas, em vez disso, pousando os papéis, Mace perguntou num murmúrio:

 

- Onde os arranjou?

 

- Isso não tem importância - respondeu Lord com dureza. - O que interessa é que os temos e estamos a considerar a possibilidade de os enviar para o procurador-geral e talvez para a imprensa. No caso de o fazermos, é claro, haverá um inquérito e se esteve envolvido em mais incidentes do género virão todos ao de cimo.

 

Pela expressão cada vez mais assustada de Mace compreendeu que o último tiro atingira o alvo. Havia mais incidentes. Agora ambos o sabiam.

 

Lord lembrou-se do que dissera uma vez a Sam Hawthorne numa previsão do que estava agora a acontecer. ”Quando chegar a altura deixa-me fazer o trabalho sujo.” E depois acrescentara em silêncio: ”Talvez eu goste.” Bem, agora que estava a acontecer ele estava a gostar. Dava-lhe prazer dominar Mace, ver um adversário tão perito em humilhar estar agora a experimentar o mesmo, sofrendo e gemendo.

 

- Claro que irá parar à cadeia - salientou Lord - e imagino que haja uma boa multa para lhe limpar todo o dinheiro.

 

- Isso é chantagem - disse Mace, desesperado. - Você podia ser... - A sua voz estava nervosa, num tom fino e agudo. Lord cortou-lhe a palavra com brusquidão:

 

- Esqueça isso! Há mil maneiras de tratar disto sem que seja conhecido o envolvimento da nossa companhia e aqui não temos testemunhas, estamos apenas os dois.

 

Lord recolheu os papéis que mostrara a Mace e guardou-os na pasta. Lembrara-se, mesmo a tempo, de que as suas impressões digitais estavam neles; era estúpido deixar ficar uma prova.

 

Mace era um homem quebrado. Lord viu, com nojo, que havia saliva nos lábios do outro quando balbuciou:

 

- Que quer de mim?

 

- Acho que já sabe - disse Lord. - Penso que pode resumir o que nós queremos como uma ”atitude razoável”.

 

Um suspiro desesperado.

 

- Querem o medicamento aprovado. O Montayne. Lord permaneceu em silêncio.

 

- Oiça - implorou Mace meio a soluçar-, estava a falar a sério quando disse que há um problema... o tal caso australiano, as dúvidas sobre o Montayne ... acredito mesmo que possa haver qualquer problema... devia...

 

- Já falámos sobre isso - disse Lord com desprezo. - Pessoas melhores do que o senhor garantiram-nos que o caso australiano não tem importância.

 

De novo um silêncio.

 

- E se acontecer... a aprovação?

 

- Em determinadas circunstâncias - disse cautelosamente Lord - os papéis cujas cópias lhe mostrei não serão entregues ao procurador-geral nem à imprensa. Em vez disso serão entregues a si com a garantia de que, tanto quanto saibamos, não existem outras cópias.

 

- Como posso ter a certeza?

 

- Quanto a isso tem de aceitar a minha palavra.

 

Mace estava a tentar recuperar-se; havia um ódio selvagem nos seus olhos.

 

- Que valor tem a sua palavra, bastardo?

 

- Desculpe-me recordá-lo - disse Vincent Lord sem perder a calma não está em posição de chamar nomes a quem quer que seja.

 

Demorou duas semanas. Mesmo com Mace a empurrá-las, as rodas da burocracia precisaram de tempo para rodar. Mas, no fim desse período, a aprovação do Montayne era umfait accompli. O medicamento podia ser prescrito e vendido, com aprovação da FDA, nos Estados Unidos.

 

Na Felding-Roth houve alegria pois o objectivo de comercializar o Montayne em Fevereiro poderia ser cumprido.

 

Não confiando no correio nem em qualquer mensageiro Vincent Lord viajou até Washington para entregar pessoalmente ao Dr. Mace os papéis incriminatórios. Lord cumpriu a sua palavra. Todas as cópias adicionais foram destruídas.

 

Na privacidade do gabinete de Mace, os dois homens em pé, poucas palavras trocaram.

 

- Isto é o prometido. - Lord mostrou um envelope pardo.

 

Mace aceitou o envelope, inspeccionou o conteúdo e mirou Lord. Numa voz encharcada em ódio disse:

 

- Você e a sua companhia têm agora um inimigo na FDA. Estou a avisá-lo: um dia vai arrepender-se disto.

 

Lord encolheu os ombros e saiu sem sequer responder.

 

Em Novembro, numa sexta-feira à tarde, Célia visitou a Dra. Maud Stavely na sede de Nova Iorque dos Cidadãos para uma Medicina mais Segura.

 

A visita foi uma decisão impulsiva. Célia estava em Manhattan, com duas horas livres de compromissos, quando decidiu satisfazer a curiosidade que sentia por um adversário que nunca encontrara. Nem sequer telefonou a preveni-la, certa de que, se o fizesse, Stavely se recusaria a vê-la. Esse tipo de repreensão fora já experimentado por gente da indústria farmacêutica.

 

Célia recordava-se do que lhe dissera há bem pouco tempo Lorne Eagledon, o presidente da Associação de Fabricantes Farmacêuticos, em Washington. Eagledon, genial e descuidado, fora legista governamental antes das suas funções actuais.

 

- Como presidente da AFF - dissera ele -, que representa as maiores companhias farmacêuticas, gosto de manter contactos com os grupos de consumidores. Claro que estamos em campos opostos, mas às vezes eles têm coisas de valor para dizer e a nossa indústria devia ouvi-los. É por isso que convido Ralph Nader para almoçar comigo duas vezes por ano. Ralph e eu temos poucas coisas em comum, mas falamos e escutamos os pontos de vista um do outro o que é uma coisa civilizada. Mas quando convidei Maud Stavely para almoçar comigo, que bronca!

 

Célia incitara o presidente da AFF a continuar:

 

- Bem, a doutora Stavely informou-me de que tinha muito que fazer na sua luta em tempo completo contra uma indústria má e imoral, a nossa, para poder perder tempo com um lacaio da alta roda com opiniões inaceitáveis, eu. Além disso ela nunca almoçaria comigo, engasgar-se-ia nem que fosse com uma barra de chocolate paga com o ”dinheiro corrupto” das firmas farmacêuticas. - Eagledon rira-se. - De modo que nunca nos encontramos, o que lamento.

 

Uma chuva embirrenta tombava quando o táxi de Célia parou junto ao debotado edifício de seis pisos situado na Trigésima Sétima Rua perto da Sétima Avenida. O piso térreo estava ocupado por um armazém de canalizador com o vidro da montra partido e remendado com fita adesiva. De uma entrada desleixada e com a tinta a cair subia um minúsculo e artrítico elevador que gemeu até ao último andar e à CSM.

 

Quando Célia saiu do elevador ficou em frente de uma porta aberta e, numa pequena sala, estava uma mulher idosa de cabelos brancos resmungando com uma máquina de escrever Underwood dos anos cinquenta. Um letreiro virado para o lado de fora dizia: ”Voluntária: Sr.a O. Thom.” Olhando para Célia, que entrara, anunciou:

 

- Farto-me de dizer que me recuso a trabalhar até que consertem esta porcaria de máquina. O /’ maiúsculo nunca funciona. Como é que podemos escrever às pessoas sem um /?

 

Célia disse, procurando ajudar:

 

- Podia escrever ”nós”2 em vez de ”eu”.

 

- E esta carta, nem? - vociferou a Sr.a O. Thom. - Destina-se a Idaho. Devo rebaptizar o estado de Wedaho?

 

- Estou a ver o seu problema - disse Célia. - Gostaria de saber como ajudá-la. A doutora Stavely está?

 

- Sim, está. Quem é você?

 

- Oh, apenas alguém interessado na vossa organização. Gostaria de falar com ela.

 

A Sr.a Thom olhou-a como se fosse perguntar mais alguma coisa mas depois mudou de ideias. Levantou-se e, atravessando outra porta, desapareceu. Enquanto ela não voltava Célia observou outras pessoas a trabalhar nas salas próximas. Havia uma sensação de grande actividade incluindo os sons de outra máquina de escrever e de rápidas conversas ao telefone. À mão de semear estava uma pilha de brochuras e folhetos, alguns deles já prontos para seguirem pelo correio. Um monte de correspondência recebida esperava ser aberto. A julgar pelas aparências os CSM não estavam sobrecarregados com excesso de dinheiro. Os móveis do escritório, pensou Célia, ou tinham sido deitados fora por outras pessoas ou comprados num ferro-velho. Em tempos idos o chão fora alcatifado, mas agora a alcatifa estava tão gasta e fina que quase desaparecera e nalguns sítios até se viam as tábuas através dos buracos. Tal como na entrada do prédio aquilo que restava de tinta nas paredes estava a desaparecer.

 

A Sr.a Thom regressou.

 

- Muito bem. Entre. - Apontou uma porta. Murmurando um agradecimento Célia entrou.

 

- Sim, que deseja? - A Dra. Maud Stavely, sentada noutra secretária decrépita, levantou o olhar do papel que estava a ler quando a visitante entrou.

 

Depois da impressão que lhe dera o ambiente, e daquilo que ouvira sobre a pessoa que estava na sua frente, Célia ficou surpreendida por ver uma mulher atraente, ruiva, magra e elegante, com mãos cuidadosamente tratadas e talvez no começo dos quarenta. A voz, se bem que incisiva e impaciente, era cultivada com um leve sotaque de Nova Inglaterra. A roupa que vestia - uma saia de lã castanha e uma blusa cor-de-rosa - era vulgar mas envergada com estilo. Os olhos - o mais forte de Stavely - eram azuis, directos, penetrantes e disseram a Célia que exigiam uma resposta.

 

- Sou uma executiva farmacêutica - disse Célia. - Peço desculpa por ter entrado assim, mas queria encontrar-me consigo.

 

* Significa ”eu”, daí os problemas da Sr.a O. Thom. (N. dos T.) ’ ”Nós” em inglês we. (N. dos T.)

 

Houve um silêncio de vários segundos. Os olhos que a perfuravam endureceram e, pensou Célia, faziam uma avaliação.

 

- Suponho que seja a Jordan.

 

- Sou. - Célia estava surpreendida. - Como sabe?

 

- Já ouvi falar de si. Não existem mulheres executivas nessa indústria putrefacta e decerto ninguém que tenha vendido tanto a sua decência feminina como você.

 

Célia disse em tom moderado:

 

- O que a torna tão certa de que eu, como você disse, me vendi?

 

- Porque não estaria a trabalhar nas vendas do negócio em que está metida se não o tivesse feito.

 

- Ao princípio trabalhei como química - salientou Célia. - Depois, como muitos outros, fui subindo na companhia.

 

- Nada disso me interessa. O que a fez cá vir? Célia tentou combater o antagonismo com um sorriso.

 

- Queria mesmo encontrar-me consigo. Veio-me à ideia de que podíamos falar, ouvir as opiniões uma da outra. Mesmo discordando poderemos ambas ganhar qualquer coisa.

 

O ar amigável de nada serviu. A outra mulher perguntou com frieza:

 

- Ganhar o quê?

 

Célia encolheu os ombros.

 

- Acho que uma certa compreensão. Mas não importa. Obviamente que não foi uma boa ideia. - Virou-se para sair, incapaz de aceitar mais rudezas da parte da outra.

 

- Que quer saber?

 

As palavras tinham uma tonalidade menos hostil. Célia hesitou, incerta sobre se deveria sair ou ficar.

 

Stavely indicou uma cadeira.

 

- Já que cá está, sente-se. Dou-lhe dez minutos, depois tenho outras coisas para fazer.

 

Em circunstâncias diferentes Célia ter-se-ia expressado violentamente mas a curiosidade obrigou-a a manter um tom baixo.

 

- Uma coisa que gostaria de saber é por que odeia assim tanto a indústria farmacêutica.

 

Pela primeira vez Maud Stavely esboçou um sorriso mas que depressa se apagou.

 

- Eu disse dez minutos, não dez horas.

 

- Por que não começar no tempo que temos?

 

- Está bem. O segmento mais imoral do seu negócio é precisamente aquele onde você está: vendas. A sua companhia e as outras abusam das vendas: grosseira, cínica e maldosamente. Pegam no que são medicamentos basicamente razoáveis, embora com aplicações médicas limitadas e, mediante campanhas maciças e desumanas, conseguem que esses medicamentos sejam receitados a inumeráveis indivíduos que não precisam, não têm dinheiro ou não os. deviam tomar, às vezes as três coisas ao mesmo tempo.

 

- As palavras ”imoral” e outras são um tanto fortes - disse Célia. Ninguém nega que não haja algum excesso de prescrições...

 

- Algum excesso! O excesso de prescrições é a norma. Mas é uma norma para a qual vocês trabalham, que planeiam deliberadamente e se calhar até rezam por isso! Se quer um exemplo tome o Valium e outros como ele, por certo o mais excessivamente usado e desnecessariamente prescrito medicamento na história. E por causa de fabulosas campanhas de vendas, lançadas pela insaciável ganância de companhias como a sua, esses medicamentos deixaram atrás de si um rasto de viciados, desesperados, suicidas...

 

- E também muitos - disse Célia - que precisavam mesmo desses medicamentos e beneficiaram com eles.

 

- Uma minoria - insistiu a outra mulher - que poderia tê-los tido na mesma sem a publicidade e a promoção de vendas que fizeram autênticas lavagens ao cérebro aos médicos para que estes acreditassem que os medicamentos do tipo do Valium eram uma panaceia para tudo. Eu sei. Eu fui um desses médicos submetidos a lavagens ao cérebro, até que vi como era pavorosa a cena dos medicamentos e abandonei a clínica privada para formar esta organização.

 

- Já sabia que era médica - disse Célia a apalpar terreno.

 

- Sim, uma interna. Ensinaram-me a manter as pessoas saudáveis e a salvar vidas, o que continuo a fazer aqui, embora numa escala muito maior que outrora. - Stavely levantou uma mão para se afastar a si própria como assunto. Voftemos ao Valium. Representa outro meio da falta de princípios do seu negócio.

 

- Estou a ouvir - disse Célia. - Não concordo, mas estou a ouvir.

 

- Ninguém precisa das diferentes variantes do Valium criadas pelas firmas em competição. Não há qualquer benefício, qualquer possível vantagem em dispor de cinco Valiuns diferentes. No entanto, depois do Valium se revelar um fabuloso sucesso financeiro, as outras companhias devotaram meses, anos até, de pesquisas, tempo científico precioso, somas enormes de dinheiro, não com o objectivo de descobrir algo novo e benéfico mas simplesmente para terem um Valium deles com um nome diferente. Produziram assim outros Valiuns, alterando umas moléculas, tomando os seus produtos diferentes apenas o bastante para que pudessem ser patenteados e vendidos com lucro...

 

- Toda a gente sabe que existem os medicamentos ”eu também”, talvez em maior número do que seria razoável - disse Célia com impaciência. - Mas às vezes conduzem a novas descobertas; e, além disso, mantêm as firmas farmacêuticas, de que a sociedade precisa, solventes enquanto outras vão à falência.

 

- Oh, Santo Deus! - A Dra. Stavely levou a mão à cabeça num gesto de incredulidade. - Acredita a sério nesse argumento imaturo? E não é apenas o Valium. Sempre que um medicamento importante é lançado por uma firma logo as outras surgem com cópias. É por isto que a investigação farmacêutica devia ser dirigida e controlada pelo Governo, embora paga pelas firmas farmacêuticas.

 

- Agora sou eu que não acredito que esteja a falar a sério. Pretende que a investigação farmacêutica seja controlada pelos mesmos políticos que desfizeram a Segurança Social, gastam dinheiro em campanhas políticas, não são capazes de fazer um orçamento equilibrado e seriam capazes de vender as próprias mães em troca de votos. Num regime desses a penicilina ainda não estaria no mercado! Sim senhora, admito que a livre iniciativa capitalista é imperfeita mas é uma boa légua melhor e mais ético que isso.

 

Stavely continuou como se não tivesse ouvido.

 

- A sua preciosa indústria tem de levar na cabeça com regulamentos mais duros para que publique avisos correctos sobre os perigos dos seus medicamentos. Mesmo agora luta por um mínimo de avisos e em geral ganha. E não é só isso: quando um novo medicamento começa a ser vendido os efeitos adversos são escondidos, conveniente e insensivelmente, e ficam bem enterrados nos arquivos da companhia.

 

- Isso é falso! - protestou Célia. - Por lei somos obrigados a comunicar os efeitos adversos à FDA. Claro que têm surgido casos em que a negligência de alguém...

 

- Esta organização tem conhecimento de montes de casos e aposto que há muitos de que nada sabemos. Entraves ilegais à informação. Mas não será sempre possível formular uma queixa ao Departamento de Justiça? Não, quando vocês têm um exército de tipos pagos na Colina do Capitólio...

 

Bem, pensou Célia, viera ali em busca de opiniões e estava a recebê-las. Enquanto ela continuava a escutar, fazendo de vez em quando um comentário, os prometidos dez minutos alongaram-se a uma hora.

 

A certa altura Stavely mencionou uma controvérsia recente de que Célia tinha conhecimento. Uma companhia farmacêutica (não era a Felding-Roth) tivera problemas com um dos seus produtos, um líquido intravenoso utilizado em hospitais. Alguns frascos contendo o supostamente estéril líquido I.V. tinham tampas defeituosas que permitiam a entrada de bactérias que, por sua vez, provocavam septicemias - uma infecção do sangue - que já tinham causado várias mortes.

 

O dilema era o seguinte: sabia-se que o número de frascos com tampas defeituosas era pequeno e era possível que já tivessem sido descobertos todos os frascos afectados; e não seriam produzidos mais frascos defeituosos pois o problema de fabricação fora detectado e corrigido. Entretanto uma interdição de todos os frascos desse líquido I.V. existentes nos hospitais criaria faltas graves e talvez mais mortes que o problema original. O assunto fora debatido durante várias semanas pelo fabricante, pela FDA e pelos hospitais. A Dra. Stavely criticava o que ela via como ”um exemplo indecente de uma companhia fincando o pé e recusando-se a recolher um produto perigoso”.

 

- Acontece que sei algumas coisas sobre essa questão - disse Célia -, que toda a gente envolvida tem tentado resolver. Hoje de manhã ouvi dizer que a FDA decidiu interditar todos os frascos existentes ainda. Vão preparar as notificações este fim-de-semana e a decisão será anunciada segunda-feira de manhã numa conferência de imprensa.

 

Stavely olhou fixamente a visitante:

 

- Está segura disso?

 

- Absolutamente. - A informação viera de um funcionário da companhia interessada que Célia sabia ser de confiança.

 

Stavely tomou alguns apontamentos num bloco de papel e continuaram a discussão. Finalmente chegaram ao Montayne.

 

- Mesmo assim - disse Stavely - os Cidadãos para uma Medicina mais Segura farão tudo o que puderem para impedir um medicamento inadequadamente testado de ir para o mercado.

 

Célia cansara-se daquela conversa bombástica unilateral e vociferou:

 

- É ridículo chamar ao Montayne um medicamento inadequadamente testado! Além disso já temos a aprovação da FDA.

 

- No interesse público essa autorização deve ser retirada.

 

- Porquê?

 

- Houve um caso na Austrália...

 

- Conhecemos o caso australiano- disse Célia enfadada. E explicou como os peritos médicos tinham refutado as acusações feitas no tribunal e, quer neste quer no inquérito do Governo australiano, o Montayne fora ilibado.

 

- Não concordo com esses peritos - disse Stavely. - Já leu uma transcrição do julgamento?

 

- Li relatórios que tratam profundamente do problema.

 

- Não foi isso que perguntei. Perguntei se já leu a transcrição do julgamento.

 

- Não - admitiu Célia.

 

- Então leia-o! E não tenha a veleidade de discutir o Montayne enquanto não ler isso.

 

Célia suspirou.

 

- Não acredito que a continuação desta discussão nos leve a qualquer parte.

 

- Se bem se lembra foi o que lhe disse no princípio. - Pela segunda vez havia um leve e fraco sorriso nos olhos penetrantes da outra mulher.

 

- E tinha toda a razão - concordou Célia. - Não sobre muitas outras coisas, mas sobre isso sim.

 

A Dra. Stavely já voltara a dar atenção ao papel que estava a ler quando Célia entrara. Levantou os olhos:

 

- Boa tarde, Jordan.

 

- Boa tarde - disse Célia e atravessou os escritórios deprimentes até à igualmente deprimente rua.

 

Mais tarde, enquanto guiava o carro desde Manhattan até Morristown, Célia reflectiu sobre a personalidade da Dra. Stavely.

 

Decerto que Stavely era dedicada, mas era também, em certa medida, obcecada. Era igualmente claro que era desprovida de sentido de humor, incapaz de se ver a si mesma sem ser com uma seriedade total. Célia já encontrara gente assim; era sempre difícil fazê-los participar numa conversa pensada e objectiva. Estavam tão acostumados a pensar em branco e preto, em termos antagonistas, que achavam impossível desligar o antagonismo e pensar nos tons de cinzento que constituíam a maior parte das coisas da vida.

 

Por outro lado a presidente dos CSM era sem dúvida uma pessoa bem informada, articulada, bem organizada e com uma mente aguçada, talvez até brilhante. As suas qualificações médicas concediam-lhe estatura e o direito automático de ser ouvida na questão dos medicamentos de prescrição. E alguns dos seus pontos de vista não estavam assim tão longe dos de Célia que se lembrava de, catorze anos atrás, falar dos medicamentos ”eu também” e da ”roleta molecular” em termos similares aos de Stavely. Fora Sam Hawthorne quem, nessa altura, oferecera a Célia os argumentos de resposta que ela utilizara esta tarde. E, apesar de a eles ter recorrido, continuava sem estar certa de que eram válidos.

 

Mas Stavely mostrava-se desequilibrada quando dava ênfase aos aspectos negativos da indústria farmacêutica e ignorava as muitas contribuições positivas e humanitárias à ciência e à saúde prestadas pela indústria. Célia ouvira uma vez chamar à indústria farmacêutica dos Estados Unidos um ”tesouro nacional” e acreditava que a descrição era verdadeira no todo. Havia também a ideia simplista e absurda de Stavely sobre o controlo governamental da pesquisa farmacêutica e a sua desinformação e preconceito contra o Montayne.

 

Mas, no fim de contas, Stavely e os CSM eram oponentes formidáveis que não podiam ser ignorados nem encarados de ânimo leve.

 

Numa coisa Stavely a apanhara, pensou Célia com pesar: não lera a transcrição do julgamento australiano relativo ao Montayne. Na semana seguinte tencionava corrigir essa omissão.

 

Nesse mesmo dia, ainda mais tarde, descreveu a sua experiência com os CSM e os seus pontos de vista a André w que, como habitualmente, contribuiu com alguma sabedoria.

 

- Não é fácil viver com essa gente activista, Maud Stavely, Sidney Wolfe, Ralph Nader e outros, e há alturas em que os detestamos - disse Andrew. - Mas nós precisamos deles, a nossa indústria precisa deles, tal como a General Motors e as outras companhias automóveis precisavam de Nader antes dele entrar em cena. Nader ajudou a fazer automóveis, para todos nós, melhores e mais seguros graças à sua persistência e eu sou um dos muitos que lhe está grato. Agora Síavely e Wolfe estão a manter-te a ti e aos outros na ordem.

 

- Admito que sim. - Célia suspirou. - Mas se fossem um bocadinho mais moderados e razoáveis!

 

Andrew abanou a cabeça.

 

- Se o fossem não seriam activistas bem sucedidos. E há outra coisa, quando eles são implacáveis e desprezam as éticas, e às vezes fazem-no, poderás perguntar: onde aprenderam a fazer as coisas assim? E a resposta é: com companhias como a tua, minha querida, porque, quando ninguém as está a vigiar, são mesmo implacáveis e sem ética.

 

Célia teria apreciado mais o comentário final de Andrew se tivesse testemunhado uma cena nos Cidadãos para uma Medicina mais Segura minutos depois de ela ter de lá saído nessa tarde de sexta-feira.

 

Chamando um assistente a Dra. Stavely perguntou:

 

- A mulher que esteve aqui comigo já se foi embora? Como a resposta fosse sim Stavely deu instruções ao jovem:

 

- Quero uma conferência de imprensa convocada para amanhã de manhã, o mais cedo que conseguires. Dirás que o assunto é urgente, um caso de vida ou de morte que afecta hospitais e doentes. Não te esqueças das redes de televisão e dos serviços de imprensa. Nessa mesma altura será distribuído um comunicado que vou agora escrever. Alguém vai ter de trabalhar esta noite para...

 

As instruções, incisivas e eficientes, prosseguiram e às dez horas da manhã seguinte a conferência de imprensa começou.

 

Enfrentando os jornalistas e as câmaras a Dra. Stavely descreveu o problema do líquido I.V. que discutira com Célia no dia anterior - os frascos contaminados por bactérias e as septicemias resultantes, em princípio responsáveis por várias mortes. O que a líder dos CSM não mencionou foi Célia e a informação que Célia lhe dera, nomeadamente que a FDA já decidira proibir o uso de todos os frascos ainda existentes e que a comunicação de tal atitude se daria na segunda-feira seguinte.

 

Em vez disso Stavely declarou:

 

- Os Cidadãos para uma Medicina mais Segura deploram a inacção da FDA e do fabricante em relação a este material potencialmente perigoso. Mais ainda exigimos, isso mesmo, exigimos!, que todos os frascos existentes sejam interditos e devolvidos...

 

O efeito foi imediato. As grandes redes nacionais de televisão falaram da história nos seus noticiários da noite e os jornais do domingo seguinte deram-lhe lugar de destaque, em muitos casos utilizando uma foto da Associated Press que mostrava Stavely em acção. Assim, quando a FDA anunciou a sua decisão na segunda-feira, grande número de jornalistas - sem sequer se darem ao incómodo de verificarem os factos - começaram assim os seus artigos: ”Hoje, em resposta à enérgica exigência da Dra. Maud Stavely e dos Cidadãos para uma Medicina mais Segura, a FDA anunciou a interdição do uso nos hospitais de...”

 

Para os CSM foi um triunfal coup d’éclat que, pouco depois, era usado em lugar de destaque na brochura enviada pelo correio a pedir donativos.

 

Célia, que seguira a sequência dos acontecimentos com algum embaraço, manteve para si própria o conhecimento do seu envolvimento pessoal na questão. Aprendeu uma lição. Percebia agora que fora totalmente indiscreta e por isso usada por um mestre em táctica.

 

Para surpresa de Célia não existia, em parte alguma da sede da Felding-Roth, uma transcrição do julgamento do caso australiano que envolvera o Montayne. Nem sequer o Departamento Jurídico da companhia conseguiu localizar uma cópia nos Estados Unidos. Havia montes de relatórios que a citavam, mas Célia queria lê-la na íntegra. Embora fosse óbvio que Maud Stavely tinha uma cópia Célia não se sentia muito inclinada a pedi-la emprestada aos Cidadãos para uma Medicina mais Segura; deu por isso instruções ao Departamento Jurídico para entrar em contacto com uma firma correspondente na Austrália pedindo o envio de uma cópia por via aérea.

 

Entretanto havia montes de coisas para fazer. O programa de promoção para o lançamento do Montayne estava a ser cada vez mais frenético à medida que se aproximava Fevereiro. Célia, ajudada pelo seu delegado, Bill Ingram, era responsável pelos vários milhões de dólares já dispendidos; e havia mais dinheiro para gastar nos meses seguintes.

 

Uma elaborada publicidade - dispendiosas inserções de quatro páginas a cores - aparecia já numa profusão de revistas médicas enquanto uma avalanche de correio seguia para os médicos e farmacêuticos da nação. Um dos artigos promocionais era uma cassette - num dos lados uma gravação da bela Wiegenlied2, de Brahms, no outro uma descrição clínica do Montayne. Apoiando a publicidade e o correio os delegados de propaganda da companhia entregavam milhares de embalagens de Montayne aos médicos ao mesmo tempo que lhes

 

Em francês no original: acção brilhante, estrondosa. (N. do E.)

Canção de embalar. (N. do E.)

 

colocavam sobre as secretárias tees’ de golfe e marcadores onde estava impressa a palavra Montayne.

 

A todos os níveis da companhia, como sempre que havia o lançamento de um medicamento, sentia-se uma mistura de excitação, circo, nervosismo e esperança.

 

Também portadoras de esperanças eram algumas notícias chegadas do Instituto Felding-Roth da Grã-Bretanha. Aí, ao que parecia, a equipa científica de Martin Peat-Smith conseguira vencer a barreira técnica que durante tanto tempo os detivera. Não se sabiam pormenores - o relatório de Martin fora breve e apenas em termos genéricos -, mas tudo levava a crer que a barreira agora demolida era aquela a que se referia o Dr. Rao Sastri quando dissera a Célia, alguns meses antes: ”Não existem técnicas para nos levar mais além... talvez daqui a dez anos...”

 

Célia ficou deliciada por saber que, pelo menos neste ponto específico, Sastri estava errado e Martin certo.

 

O que se sabia, através de uma carta de Nigel Bentley, o administrador de Harlow, é que o sucesso técnico britânico envolvia a purificação de uma mistura de péptidos cerebrais obtidos de ratos e que os testes tinham mostrado a sua eficácia na melhoria das memórias de animais velhos. Estava em curso mais trabalho experimental.

 

Era claro que, embora um medicamento para melhorar a memória humana continuasse a ser coisa para o futuro, se estava mais perto do objectivo do que nunca.

 

As notícias chegaram mesmo a tempo de fazer gorar a última tentativa, por alguns membros do conselho, para encerrar o instituto de Harlow - mais uma vez argumentando os altos custos e a ausência de resultados. Agora, com alguns resultados positivos, Harlow e o projecto de envelhecimento mental pareciam estar seguros por uns tempos.

 

Em meados de Dezembro chegou à secretária de Célia a transcrição do julgamento australiano que ela pedira. Era um volumoso livro dactilografado corn várias centenas de páginas. Nessa altura, contudo, eram tantas as pressões sobre Célia que foi obrigada a pô-lo de lado para o ler mais tarde. A transcrição ainda não fora lida nos princípios de Janeiro quando se deu outro acontecimento totalmente inesperado e que provavelmente a faria antever um pouco do futuro.

 

Agora que a eleição de Cárter para presidente surpreendera o Mundo assegurando a sua permanência na Casa Branca nos próximos quatro anos, os organizadores da nova administração andavam numa roda-viva recrutando candidatos para os numerosos postos governamentais que os republicanos iriam deixar. Entre os recrutados estava o vice-presidente da Felding-Roth das vendas e comercialização, Xavier Rivkin.

 

Xav Rivkin, um democrata de longa data e, mais recentemente, um fervoroso apoiante de Cárter, dispendera tempo e dinheiro na campanha eleitoral; além disso conhecia o novo presidente pois servira com ele na Marinha. Por tudo isto chegava agora a recompensa - a oferta de um posto como secretário assistente do Departamento de Comércio.

 

’ Tee: pequeno utensílio de madeira ou plástico, de dois a três centímetros de altura, que se espeta no solo e sobre o qual se coloca a bola, destinada a mante-la acima do solo quando as regras do golfe o permitem. (N. do E.)

 

Dentro da Felding-Roth a notícia foi mantida secreta por algum tempo, assim como o facto de Xav tencionar aceitar. Sam Hawthorne e alguns membros do conselho, que tinham discutido o assunto em particular, pensavam que devia aceitar o posto. Havia o consenso de que a companhia não seria prejudicada por ter um amigo no Comércio em Washington. Sem alarde foi preparada uma pensão antecipada, especial e generosa, para quando Rivkin saísse pouco depois da tomada de posse presidencial em 20 de Janeiro.

 

Na segunda semana de Janeiro Sam mandou chamar Célia e informou-a do que se passava com Rivkin. Ela nada ainda tinha ouvido sobre o assunto, mas dentro de um dia ou dois seria do domínio público.

 

- Com toda a franqueza - disse ele -, ninguém, nem sequer eu, esperava que isto acontecesse tão cedo mas, mal Xav saia, temos de nomear um vice-presidente de vendas e comercialização. com os membros do conselho que intervieram no caso do Xav e compreendemos que isto acontece numa altura muito má, com o Montayne quase a... Sam parou. Sentes-te mal?

 

- Não - disse Célia. Estavam os dois de pé e ela pediu: - Importas-te que me sente?

 

- Claro que não, senta-te. - Apontou-lhe uma cadeira.

 

- E dás-me um minuto para pôr as minhas engrenagens a trabalhar? - A voz dela estava mais rouca que o habitual. - Talvez não te tivesses apercebido disto mas lançaste uma bomba!

 

Sam parecia arrependido:

 

- Oh, raios, desculpa! Devia ter feito as coisas com maior suavidade. Mas há dias em que trabalho com uma tal pressa...

 

- Esta maneira está boa - disse Célia. - Na realidade qualquer maneira é boa. Estavas a falar do Montayne...

 

Mas palavras saíam de uma parte dela mesma que estava afastada. A sua mente rodopiava, recordava quando, dezassete anos antes, o então vice-presidente de vendas, Irv Gregson, a expulsara com raiva da convenção de vendas da companhia em Nova Iorque enquanto uma audiência de centenas observava... e Sam a salvara - do vice-presidente e de todos os outros - e agora era Sam que... ”Raios! Não vou chorar”, disse a si mesma. Mas chorou um bocadinho e, quando levantou o olhar, viu Sam com um lenço na mão e um sorriso no rosto.

 

- Merece-lo, Célia - disse ele. - Merece-lo por ti própria, degrau a degrau, e o que devia ter dito em primeiro lugar é: parabéns! Contei tudo à Lilian ao pequeno-almoço e ela ficou tão contente como eu; mandou-me dizer-te que nos havemos de reunir em breve.

 

- Obrigada. - Ela pegou no lenço e enxugou os olhos. Depois acrescentou como se nada fosse: - Por favor agradece por mim à Lilian; e eu agradeço-te muito, Sam. Tratemos agora do Montayne.

 

- Bem - começou Sam -, como tu tens estado intimamente ligada aos planos de lançamento do Montayne eu e os outros membros do conselho com quem falei gostaríamos que continuasses até ao fim apesar de assumires uma responsabilidade maior. Significará para ti um pesado fardo...

 

- Isso não será problema - assegurou-lhe Célia. - E concordo sobre o Montayne.

 

- Ao mesmo tempo - salientou Sam - deves pensar em alguém para te suceder como director das vendas farmacêuticas.

 

- Bill Ingram - disse Célia sem hesitação. - É bom e já está pronto. E está também a trabalhar no Montayne.

 

O princípio do atrela-o-teu-carro-à-estrela-de-alguém, pensou Célia, tal como o descrevera a Andrew na sua lua-de-mel - também há muito tempo. Célia seguira Sam na sua ascensão e como fora bem sucedido o seu plano! Agora Bill seguia Célia; e quem, tentou imaginar, estaria já atrelado a Bill?

 

Com esforço - a mente dividida em duas - Célia concluiu a sua discussão com Sam.

 

Nessa noite, quando Célia contou a Andrew sobre a sua iminente promoção, ele abraçou-a e disse:

 

- Sinto-me orgulhoso de ti! Aliás sempre me senti.

 

- Quase sempre - corrigiu ela. - Houve momentos em que não te sentiste orgulhoso de mim, e com boas razões.

 

Ele fez uma careta.

 

- Isso já está para trás. - E depois, com um breve ”desculpa” foi à cozinha de onde regressou momentos depois com uma garrafa de champanhe Schramsberg. Winnie March vinha atrás dele com uma bandeja com taças.

 

- Winnie e eu vamos beber à tua saúde - anunciou Andrew. - Podes juntar-te a nós se quiseres.

 

Quando as taças foram enchidas Andrew ergueu a sua.

 

- À tua, meu querido amor! A tudo o que és, foste e serás.

 

- Eu faço o mesmo voto, senhora Jordan - disse Winnie. - Que Deus a abençoe!

 

Winnie provou o champanhe e depois olhou com hesitação para a taça:

 

- Não sei se devo beber o resto.

 

- Por que não? - perguntou Célia.

 

- Bem... pode não ser bom para o bebé. - Olhando de lado para Andrew, Winnie corou e gaguejou: - Descobri que estou grávida... ao fim de tanto tempo!

 

Célia correu a abraçá-la:

 

- Winnie, que notícia maravilhosa! Muito mais importante que a minha!

 

- Sentimo-nos felizes por ti, Winnie - disse Andrew. Tirou-lhe da mão a taça de champanhe. - Tens razão. Tens de te deixar destas coisas agora. Abriremos outra garrafa quando o teu bebé já cá estiver.

 

Mais tarde, quando se preparavam para se deitar, Célia disse a Andrew:

 

- Foi um dia cansativo.

 

- Um dia todo ele feliz - afirmou Andrew. - Espero que tudo continue assim. Não há razões para o contrário.

 

Estava errado.

 

O primeiro sinal de más novas surgiu precisamente uma semana depois.

 

Bill Ingram, ainda arrapazado apesar da passagem dos anos, entrou no gabinete de Célia que dentro em pouco seria o seu. Passando a mão pelo cabelo vermelho, tão despenteado como sempre, disse:

 

- Acho que devias ver isto apesar de pensar que não tem importância. Mandou-me um amigo de Paris.

 

”Isto” era um recorte de jornal.

 

- É um artigo do France-Soir - explicou Ingram. - Como anda o teu francês?

 

- O bastante para perceber o que leio.

 

Quando Célia pegou no papel e começou a lê-lo experimentou uma súbita sensação de arrepio e premonição, sentiu um arrepio físico como se o coração tivesse falhado uma batida.

 

A história era curta.

 

Uma mulher numa pequena cidade francesa, Nouzonville, perto da fronteira com a Bélgica, dera à luz um bebé do sexo feminino, agora com um ano de idade. Os médicos tinham recentemente diagnosticado na bebé uma doença do sistema nervoso central que eliminava de forma permanente qualquer movimento normal dos membros; e os testes tinham também mostrado ausência de desenvolvimento cerebral. Não se conhecia qualquer tratamento. A criança não passava - numa boa, mas terrível definição - de um vegetal. Os médicos achavam que sempre o seria.

 

A mãe tomara Montayne durante a gravidez. Agora ela e outros familiares culpavam o Montayne do sucedido. Na notícia nada havia que indicasse qual a opinião dos médicos a este respeito.

 

O relato do France-Soir terminava com uma frase crítica: ”Un autre cãs en Espagne, apparemment identique, a été signalé.”

 

Célia permaneceu em silêncio, meditando, pesando o significado do que acabara de ler.

 

- ... Outro caso, aparentemente idêntico, em Espanha.

 

- Tal como te disse - assegurou-lhe Bill Ingram - não penso que haja motivo para nos preocuparmos. No fim de contas o France-Soir é bem conhecido pelas suas reportagens sensacionalistas. Não é a mesma coisa que aparecer no Lê Monde.

 

Célia não respondeu. ”Primeiro na Austrália. Agora em França e na Espanha.” No entanto o bom-senso dizia-lhe que Bill tinha razão. Não havia razão para preocupações. Recordou a si mesma as suas convicções pessoais acerca do Montayne, a minuciosa investigação francesa, os vastos ensaios multinacionais, as confirmações obtidas, o notável registo de segurança do Montayne. Claro, nenhuma razão para preocupações. E mesmo assim... Célia disse com ar incisivo:

 

- Bill, quero que descubras, o mais depressa possível, tudo o que há para saber sobre estes dois casos e me digas o que se passa. - Colocou o recorte do jornal francês sobre a secretária. - Fico com isto.

 

- Muito bem, queres isso. - Ingram olhou para o relógio. - Vou telefonar à Gironde-Chimie. Ainda são horas para o fazer e tenho o nome de um dos tipos com quem falei antes. Mas continuo a pensar que não...

 

- Faz isso - disse Célia. - Faz isso já!

 

Bill regressou uma hora depois.

 

- Não há qualquer problema - anunciou ele. - Tive uma longa conversa com o meu amigo da Gironde-Chimie. Sabe tudo sobre os dois casos mencionados pelo France-Soir; disse-me que foram examinados com todo o cuidado e que não há motivo para alarme nem para dúvidas. A companhia mandou uma equipa médico-científica a Nouzonville e enviou a mesma gente a Espanha para investigar o incidente de lá.

 

- Deu-te mais pormenores? - perguntou Célia.

 

- Deu. - Bill consultou uma folha de apontamentos que trazia consigo. Por acaso os dois casos são similiares àquele caso australiano que se revelou falso. Lembras-te?

 

- Conheço o caso australiano.

 

- Bem, ambas as mães, as mães dos bebés nascidos com anomalias no SNC, tomaram uma salada de outros medicamentos e beberam grande quantidade de álcool durante a gravidez. Além disso, no caso francês, há uma história de mongolismo na família e em Espanha o pai do bebé, e o pai do pai, são epilépticos.

 

- Mas as duas mães tomaram Montayne?

 

- Tomaram. E o meu contacto francês, chama-se Jacques Saint-Jean e é doutorado em Química, disse-me que a Gironde-Chimie ficou muito preocupada ao princípio, tal como tu estás. Como ele disse a companhia dele está tanto ou mais metida nisto do que a Felding-Roth.

 

- Continua! - disse Célia com impaciência.

 

- Bem, o veredicto foi: o Montayne não tem absolutamente nada a ver com as deficiências congénitas dos dois bebés. Os cientistas e os médicos, incluindo consultores estranhos à companhia, são unânimes neste ponto. O que descobriram é que alguns dos medicamentos tomados pelas duas mulheres são perigosos em combinação e deviam...

 

- Quero ler os relatórios - disse Célia. - Quanto tempo demorarás a ter cópias?

 

- Ambos os relatórios estão aqui.

 

- Aqui?

 

Bill acenou afirmativamente.

 

- Neste prédio. Jacques Saint-Jean disse-me que Vincent Lord os tinha. Foram enviados há um par de semanas como parte da política da Gironde-Chimie em manter toda a gente informada. Queres que peça a Vince que...

 

- Não - disse ela. - Eu vou buscá-los. É tudo, Bill.

 

- Escuta. - A voz dele estava perturbada. - Se me permites que to diga acho que não te deves preocupar mais...

 

Ela disparou, incapaz de controlar a tensão crescente que sentia:

 

- Eu disse é tudo!

 

- Por que queres vê-los? - perguntou Vincent Lord a Célia.

 

Ela estava no gabinete do director de pesquisas onde fora pedir os recentes relatórios sobre o Montayne que tinha discutido com Bill Ingram.

 

- Porque penso que é importante que leia esse tipo de informação em vez de ouvir falar dela em segunda mão.

 

- Se por ”segunda mão” significa através de mim - observou Lord - não achas que possuo mais qualificações para ler esse tipo de relatórios e avaliá-los... o que aliás já fiz?

 

- Qual foi a tua avaliação?

 

- Em nenhum dos incidentes houve qualquer envolvimento do Montayne. Todos os dados indicam isso e foram dados investigados por gente qualificada e competente. A minha opinião adicional, que, a propósito, agora também compartilhada pela Gironde-Chimie, é a de que as famílias em questão estão apenas a tentar extorquir dinheiro. São coisas que estão sempre a acontecer.

 

- Sam foi informado destes relatórios, dos incidentes em França e em Espanha? - perguntou Célia.

 

- Não por mim. - Lord negou com a cabeça. - Não os considero suficientemente significativos para o incomodar.

 

- Tudo bem - disse Célia. - Não estou neste momento a pôr em dúvida a tua decisão. Mas continuo a querer ler eu mesma esses relatórios.

 

O ar amigável que Lord mostrara nos últimos tempos esfriara consideravelmente durante a conversa. Disse com acidez:

 

- Se tens quaisquer pretensões a ter conhecimentos científicos e seres capaz de tu própria avaliar as coisas, deixa que recorde que o teu miserável bacharelato em Química já foi feito há muito tempo e está desactualizado.

 

Embora surpreendida pela relutância do director de pesquisas em dar-lhe aquilo que ela pedira Célia não pretendia que isso se transformasse numa discussão. Disse com calma:

 

- Não tenho tais pretensões, Vince. Mas, por favor, posso ler esses relatórios? O que se seguiu surpreendeu-a. Sempre julgara que os relatórios estavam no

 

sistema de arquivo normal do escritório e que Vince os mandaria buscar. Em vez disso, com uma expressão magoada, usou uma chave para abrir uma gaveta da secretária de onde extraiu uma pasta. Separou de dentro dela uns papéis que entregou a Célia.

 

- Obrigada - agradeceu ela. - Depois devolvo-os.

 

Nessa noite, embora estivesse cansada quando chegou a casa, Célia esteve acordada até tarde lendo os relatórios da Gironde-Chimie e quase toda a transcrição do julgamento australiano. Este último foi para ela o mais preocupante.

 

Havia na transcrição vários pontos significativos que a versão condensada, resumida, que ela lera antes não continha.

 

A mulher do caso australiano fora dada - na versão condensada - como pobre de carácter, fortemente viciada em drogas (à parte o Montayne), quase uma alcoólica e uma fumadora inveterada. Tudo isso era verdade.

 

Mas era também verdade, e não aparecia no relatório condensado, que apesar dos seus antecedentes a mãe da criança deficiente era inteligente, um facto testemunhado por várias pessoas. Mais ainda: não havia qualquer história de deficiência mental ou de deformidade física na família da mulher.

 

Uma segunda peça de informação nova para Célia era de que a mulher já tivera antes duas gravidezes com crianças normais e saudáveis.

 

O relatório australiano condensado afirmara que a mulher não sabia quem era o pai da sua última criança.

 

Mas, revelava a transcrição completa, sabia que o pai tinha de ser um de quatro homens, todos eles interrogados por um médico investigador. Em nenhum dos casos, nos homens e nas suas famílias, foi descoberta qualquer história de problemas mentais ou físicos.

 

Os relatórios francês e espanhol, obtidos de Vincent Lord, eram mais ou menos como Bill Ingram os descrevera nesse dia de manhã. Os detalhes neles contidos confirmavam a opinião de Lord de que as investigações tinham estado a cargo de gente competente.

 

Apesar de tudo a totalidade dos três documentos aumentava, em vez de diminuir, a inquietação na mente de Célia. Porque havia o facto indiscutível, apesar de todas as outras considerações e opiniões, de que três mulheres em três lugares muito separados entre si tinham concebido bebés deformados e mentalmente deficientes, e todas, durante a gravidez, tinham tomado Montayne.

 

Quando terminou a leitura chegara a uma decisão: apesar da relutância de Lord, Sam Hawthorne devia ser informado não apenas de todos os factos conhecidos, mas da ansiedade pessoal crescente de Célia acerca do Montayne.

 

Capítulo décimo segundo

 

Estava-se a meio da tarde do dia seguinte.

 

Um memorando, marcado ”URGENTE”, de Célia para Sam Hawthorne, alcançara este a meio da manhã. Pouco depois Sam convocou uma reunião de directores para as 16.30.

 

Agora Célia, que se aproximava do gabinete do presidente, podia ouvir através de uma porta aberta para o corredor o som de risos masculinos. Naquele momento, pensou, aquilo era estranho.

 

Entrou no gabinete exterior e uma das secretárias de Sam sorriu:

 

- Boa tarde, senhora Jordan.

 

- Parece uma festa - disse Célia.

 

- De certo modo é isso mesmo. - A secretária sorriu de novo e fez um gesto na direcção de outra porta aberta. - Por que não entra? Há uma notícia que decerto o senhor Hawthorne gostará de lhe dar pessoalmente.

 

Célia entrou numa sala com o ar pesado do fumo dos charutos. Estava ali Sam; assim como Vincent Lord, Seth Feingold, Bill Ingram e vários vices-presidentes incluindo Glen Nicholson, um veterano da companhia que dirigia a fabricação, o Dr. Starbut da avaliação de segurança e Julian Hammond, um jovem que tinha a cargo as relações públicas. Todos chupavam charutos, Ingram com alguma inabilidade; Célia nunca o tinha visto fumar.

 

- Eh! Aqui está Célia! - gritou alguém. - Sam, dá-lhe um charuto!

 

- Não, não! - disse Sam. - Tenho outra coisa para as senhoras. - Correu até à secretária onde estava uma pequena pilha de caixas de chocolates Turtles. Entregou uma a Célia.

 

- Em honra do meu neto que - Sam consultou o relógio - tem agora vinte minutos.

 

Célia esqueceu-se por instantes da sua seriedade:

 

- Sam, que notícia maravilhosa! Parabéns!

 

- Obrigado, Célia. Bem sei que são em geral os pais que tratam da rotina dos charutos e chocolates, mas decidi começar uma nova tradição que inclua avós.

 

- Uma rica tradição! - disse Nicholson, o chefe da fabricação.

 

- As Turtles são deliciosas, são o meu chocolate favorito - acrescentou Célia. Reparou que Bill Ingram, pálido, deixara de fumar o seu charuto.

 

- Tudo bem com Juliet? - perguntou ela.

 

- Absolutamente - respondeu Sam com ar feliz. - Recebi um telefonema de Lilian do hospital poucos minutos antes de vocês chegarem e soube assim as boas notícias: ”Mãe é um rapaz com três quilos e meio, ambos bem.”

 

- Irei visitar Juliet - disse Célia. - Se calhar amanhã.

 

- Óptimo! Eu digo-lhe. Sigo para o hospital assim que termine esta reunião. - Era evidente que Sam estava eufórico.

 

- Por que não a adiamos? - sugeriu o Dr. Starbut.

 

- Não - disse Sam -, podemos acabar isto. - E acrescentou, olhando para os presentes: - Presumo que não será demorado.

 

- Não há razão para que o seja - disse Vincent Lord.

 

Célia teve a sensação de se afundar, de que tudo aquilo iria sair errado, que a coincidência do assunto Montayne com o neto de Sam era a pior coisa que podia ter acontecido naquela altura. O estado de felicidade de Sam, compartilhado pelos outros, eclipsaria qualquer pretensão de gravidade.

 

Precedidos por Sam dirigiram-se à sala de conferências e sentaram-se em volta da mesa. Sam estava na cabeceira. Sem preliminares, dando a entender que não queria perder tempo começou.

 

- Célia, enviei uma cópia do teu memorando, no fim da manhã, a toda a gente aqui presente. Seguiu também uma cópia para o Xav Rivkin, que partiu para uma viagem de dois dias a Washington e se ofereceu para a adiar, mas disse-lhe que não era necessário. - Sam olhou para os presentes. - Toda a gente leu aquilo que Célia escreveu?

 

Houve acenos e murmúrios afirmativos.

 

- Óptimo - disse Sam.

 

Célia, que o delineara com todo o cuidado, estava satisfeita por todos o terem lido. Referia nele o processo australiano do Montayne citando os factos que descobrira na sua leitura da transcrição do julgamento e que não apareciam na versão reduzida que circulara na companhia. Descrevera também os recentes incidentes francês e espanhol de que tinham resultado acusações contra o Montayne, acusações tornadas públicas no France-Soir e talvez noutros meios. Terminava explicando as conclusões da Gironde-Chimie e a convicção da companhia francesa de que todas as alegações acerca de Montayne eram injustificadas e não constituíam caso para alarme.

 

O que Célia não fizera no seu memorando fora incluir as suas próprias conclusões, deixando-as para esta reunião, depois de escutar o que os outros tinham para dizer.

 

- Começo por te testemunhar, Célia - disse Sam -, que agiste de forma absolutamente correcta em chamar a nossa atenção para estas questões. São importantes porque outros ouvirão falar delas e temos de estar preparados para dar a nossa versão da história, a versão verdadeira, quando o Montayne for colocado à venda dentro de três semanas. - Olhou interrogadoramente para Célia. - Estou convencido de que foi esse o teu objectivo. Foi?

 

A pergunta, inesperada, levou-a a responder atabalhoadamente:

 

- Bem, em parte foi isso...

 

Sam, ainda apressado, acenou com a cabeça e prosseguiu:

 

- Vamos esclarecer outro ponto. Vince, por que não fui informado destes relatórios da Gironde-Chimie referidos por Célia?

 

Os músculos do rosto do director de pesquisas tremeram.

 

- Porque, Sam, se te enviar todas as coisas que me chegam às mãos a respeito dos nossos produtos, em primeiro lugar não estarei a cumprir a minha tarefa de avaliar o que é cientificamente importante e o que não o é, e, segundo, ficarias com um monte tão alto de papel sobre a secretária que não conseguirias fazer mais nada. A explicação pareceu satisfazer Sam porque este pediu:

 

- Diz-nos qual a tua opinião sobre estes relatórios.

 

- Ambos se anulam entre si - declarou Lord. - Mostram, com um cuidado que me satisfaz inteiramente, que a conclusão da Gironde-Chimie de que nenhum dos incidentes envolve o Montayne está cientificamente correcta.

 

- E o caso australiano? Os pontos extras agora salientados por Célia influem na conclusão inicial?

 

Célia pensou: ”Estamos aqui sentados, todos nós, falando descuidadamente de ’incidentes’, ’casos’ e ’conclusões’ quando a realidade - mesmo que o Montayne não esteja envolvido - são os bebés que serão ’vegetais’ toda a vida, incapazes de falar ou sequer de mexer os membros ou usar os cérebros de forma normal. Somos assim mesmo indiferentes ou será o medo que nos impede de usar as palavras reais, amargas? Talvez nos sintamos aliviados por esses bebés serem de terras distantes e por nunca os vermos... ao contrário do neto de Sam, aqui à mão, cujo nascimento celebramos com charutos e chocolates.”

 

Lord respondia à pergunta de Sam, mal velando a sua insatisfação em relação a Célia.

 

- Esses ”pontos extras”, já que decidiste dignificá-los, nada mudam. Na realidade não vejo o mínimo interesse em chamá-los aqui.

 

Em volta da mesa foi audível um murmúrio de alívio.

 

- Já que aqui estamos, e para que fique registado - continuou Lord -, preparei um comentário, sob um ponto de vista científico, dos três incidentes: australiano, francês e espanhol. - Lord hesitou. - Sei que estás com pressa...

 

- Quanto tempo demoras? - perguntou Sam.

 

- Prometo que não demoro mais de dez minutos.

 

- Está bem, mas não passes disso - concordou Sam olhando o relógio. Está tudo errado!”, implorava, silenciosa e freneticamente, a mente de Célia.

 

”Este assunto é demasiado vital, demasiado importante para ser apressado deste modo.” Mas controlou os seus pensamentos para se concentrar nas palavras de Vincent Lord.

 

O director de pesquisas foi ao mesmo tempo autoritário, convincente e tranquilizador. Examinando os antecedentes dos três bebés deficientes e dos pais, um a um, apontou como qualquer de muitas causas poderia perturbar uma gravidez normal e lesar o feto. Em particular ”uma mistura anárquica de produtos químicos no corpo humano, em especial a associação de drogas e álcool” podiam ter efeitos desastrosos de que eram frequentes e trágicos os exemplos.

 

Em todos os casos, argumentou Lord, existiam tantas probabilidades adversas, algumas delas evidentes, que era irrazoável e não científico culpar o Montayne sobretudo quando o registo mundial deste medicamento era tão imaculado e as outras possibilidades tão fortes. Usou os termos ”histeria” e ”provável fraude” ao descrever as tentativas para culpar o medicamento e a publicidade que as acompanhava.

 

Os outros homens escutaram com ar grave e pareciam impressionados. ”E talvez tenham o direito de estar”, pensou Célia. Gostaria de ser tão inequívoca e confiante como Vince. De verdade que o queria ser e reconhecia que as qualificações de Lord para fazer aquela avaliação eram de longe superiores às suas. No entanto ela, que ainda na véspera era um dos mais fortes apoiantes do Montayne, não estava segura. Lord concluiu com eloquência:

 

- Todas as vezes que é introduzido um novo medicamento há sempre queixas de que é prejudicial, de que existem efeitos colaterais que excedem os benefícios. Tais afirmações podem ser responsáveis e baseadas, por profissionais qualificados, em preocupações genuínas, ou ser irresponsáveis, feitas por gente não qualificada, baseadas em nada.

 

”No entanto cada queixa dessas, quer no interesse público, quer para proteger companhias como a nossa que não se podem dar ao luxo de produzir um fármaco perigoso, deve ser examinada com todo o cuidado, fria e cientificamente. Pois, não cometamos este erro, nenhuma reclamação, nenhuma crítica em relação a qualquer produto farmacêutico pode ser totalmente ignorada.

 

”O que deve determinar-se, é claro, é se uma reacção adversa em alguém que tomou um dado fármaco é devida a esse fármaco ou tem outra origem, não esquecendo que existem muitas origens que podem ser responsáveis por acontecimentos adversos.

 

”Bem, sinto-me satisfeito por terem sido realizados os exames mais cuidadosos possíveis dos casos que estamos a discutir. As acusações foram examinadas e os efeitos nocivos descritos não são, descobriu-se, originados pelo Montayne.

 

”Finalmente há mais um facto que é preciso não esquecer: se um fármaco for falsamente acusado de um efeito adverso, e for retirado do mercado devido a essa falsa acusação, então inúmeros indivíduos serão privados dos seus benefícios terapêuticos. Na minha opinião não devem ser privados dos benefícios do Montayne.

 

A conclusão foi impressionante, como Célia admitiu a si mesma.

 

Sam sem dúvida que expressou os sentimentos dos outros quando disse:

 

- Obrigado, Vince. Penso que nos fizeste sentir melhor. - Afastou a cadeira da mesa. - Acho que não precisamos de uma resolução formal. Sinto-me satisfeito por ser absolutamente seguro continuar a avançar a todo o vapor com o Montayne e presumo que toda a gente concorda comigo.

 

Houve acenos de assentimento dos outros homens.

 

- Bem - disse Sam -, acho que é tudo. Agora, se me permitirem...

 

- Peço desculpa - disse Célia -, mas penso que ainda não está tudo. Viraram-se cabeças para a olhar.

 

- O que é? - perguntou Sam com impaciência.

 

- Gostaria de fazer uma pergunta ao Vince.

 

- Bem... se queres.

 

Célia consultou as notas que tomara.

 

- Vince, afirmaste que o Montayne não era a causa dos três bebés, na Austrália, em França e na Espanha, terem nascido ”vegetais”, bebés que, é bom não esquecermos, não conseguem mover os membros e não têm cérebros que funcionem normalmente.

 

Se os outros tinham medo de colocar verdades desagradáveis nas palavras, ela não teria.

 

- Fico contente por me teres escutado - disse Lord.

 

Célia ignorou o tom desagradável e perguntou:

 

- Uma vez que não foi o Montayne a causa das deformidades qual foi afinal a causa?

 

- Penso que frisei claramente que foi uma de várias ou até muitas causas.

 

- Mas qual delas? - insistiu ela.

 

- Como poderei saber qual? - disse Lord exasperado. - Pode ter sido uma causa diferente em cada caso. Tudo o que sei é que, com base no juízo científico de peritos no local, a causa não foi o Montayne.

 

- Nesse caso a verdade é que ninguém sabe com certeza o que lesou esses fetos e provocou as deformidades.

 

O director de pesquisas ergueu os braços:

 

- Por amor de Deus, já disse isso! Por outras palavras, talvez, mas...

 

- Célia - interrompeu Sam -, aonde pretendes chegar?

 

- Pretendo mostrar que - respondeu ela -, apesar de tudo o que Vince disse, me sinto desconfortável. Ninguém sabe. Ainda não me sinto satisfeita. Tenho dúvidas.

 

- Que espécie de dúvidas? - perguntou alguém.

 

- Sobre o Montayne. - Foi a vez de Célia observar os rostos à sua volta. Sinto, se quiserem podem chamar-lhe instinto, haver algo errado, algo que ainda não sabemos. E há questões para as quais gostaríamos de ter respostas mas não as temos.

 

- Instinto feminino - resmungou Lord.

 

- E que mal há nisso? - retorquiu ela com brusquidão.

 

- Calma aí! - ordenou Sam. Depois dirigiu-se a Célia: - Se tens alguma sugestão a fazer vamos lá ouvi-la.

 

- Sugiro - disse ela - que adiemos o lançamento do Montayne. Estava ciente que toda a gente da sala a olhava com incredulidade. Os lábios de Sam comprimiram-se:

 

- Adiar por quanto tempo e exactamente porquê? Célia disse, deliberada e cuidadosamente:

 

- Sugiro um adiamento de seis meses. Nessa altura talvez não existam mais casos de bebés deficientes. Ou talvez os haja. Espero que tal não aconteça, mas, se suceder, teremos informações de que não dispomos agora e que nos darão, talvez, maior confiança para avançar com o Montayne.

 

Houve um silêncio de choque que Sam quebrou:

 

- Não podes estar a falar a sério.

 

- Estou, muito a sério. - Encarou-o directamente nos olhos.

 

Quando ali chegara não tinha certezas sobre os seus próprios sentimentos. Estava perturbada porque tinha muitas dúvidas. Mas já as suas dúvidas se dissipavam porque a certeza enfática de Vincent Lord - certeza em excesso reforçara as suas suspeitas.

 

E claro que, admitiu para consigo mesma, ao tomar aquela posição, estava a apoiar-se no seu instinto e em pouco mais. Mas o seu instinto revelara-se certo noutras ocasiões.

 

Célia sabia ter na sua frente a difícil tarefa de convencer os outros, sobretudo Sam. Mas tinham de ser convencidos. Tinham de ser persuadidos de que era de todo o interesse para toda a gente adiar o lançamento americano do Montayne no interesse das grávidas que poderiam tomar o medicamento e dos seus bebés; da companhia, Felding-Roth; e de todos os ali presentes que eram os responsáveis pelo que a companhia fazia.

 

- Fazes uma ideia - perguntou Sam, ainda chocado - do que está envolvido num adiamento do lançamento do Montayne?

 

- Claro que sim! - Célia deixou a voz elevar-se. - Quem o sabe melhor do que eu? Mais alguém esteve tão envolvida no Montayne como eu?

 

- Não - disse Sam. - Por isso mesmo se torna tão difícil acreditar no que estás a dizer.

 

- E também te dá a certeza de que não faço tal sugestão de ânimo leve. Sam virou-se para Seth Feingold:

 

- Quanto calculas que custaria adiar o Montayne?

 

O idoso controlador sentia-se pouco à vontade. Era amigo de Célia. As questões científicas estavam fora do seu foro e desejaria não estar envolvido em tudo aquilo. Bill Ingram parecia também inquieto; Célia sentiu que Bill estava a ser vítima de conflitos interiores - lealdade para com ela e possivelmente as suas próprias ideias sobre o Montayne. ”Bem, todos nós temos os nossos problemas”, pensou ela, ”e eu, neste momento, decerto que tenho o meu.”

 

Outra coisa fora resolvida. Não havia já pressa. Sam e os outros tinham aceite que era necessário resolver o assunto levantado por Célia, demorasse o que demorasse.

 

Feingold, de cabeça baixa, fazia cálculos com um lápis. Levantou a cabeça para dizer:

 

- Em números redondos atribuímos trinta e dois milhões de dólares ao Montayne. Nem todo foi ainda gasto, talvez possamos recuperar um quarto. Mas não inclui, e são substanciais, certos custos gerais. Quanto ao custo real do adiamento é impossível adivinhá-lo. Dependerá da duração do adiamento e dos eventuais efeitos sobre as vendas previstas.

 

- Eu digo qual será o efeito - declarou Hammond, das relações públicas. Se adiarmos agora o Montayne a imprensa terá um dia em cheio. Desacreditarão o medicamento e talvez nunca mais recupere.

 

- Já tinha pensado nisso - confirmou Sam. - Um adiamento nesta altura será, nalguns aspectos, tão mau como um cancelamento.

 

Virou-se para Célia num tom acusador:

 

- Se seguirmos a tua sugestão, e por um motivo mais que vago, já por acaso pensaste nas perguntas e na reacção do conselho de directores e dos accionistas? E levaste em conta os nossos empregados que terão de ser dispensados, que podem até perder definitivamente os seus empregos?

 

- Já - disse ela, procurando permanecer calma, escondendo a agonia que isso lhe causava -, já pensei nisso tudo. Pensei nisso a noite passada e quase todo o dia de hoje.

 

Sam resmungou cepticamente e voltou a falar com Feingold:

 

- De uma forma ou de outra estamos em risco de perder trinta e oito milhões, mais ou menos, para não falar de uma perda ainda maior dos lucros previstos.

 

O controlador olhou para Célia, como a pedir desculpa, antes de anuir:

 

- Sim, é essa a perda potencial.

 

- E não nos podemos dar a esse luxo, pois não? - perguntou Sam amargamente.

 

- Não - respondeu Feingold abanando tristemente a cabeça.

 

- Contudo - salientou Célia - a perda poderá ser ainda maior se tivermos problemas com o Montayne.

 

- Temos também de pensar nisso - disse Glen Nicholson pouco à vontade. Era o primeiro apoio, mesmo se vacilante, recebido por Célia e deu ao chefe da fabricação um olhar de gratidão.

 

- Não esperamos que surjam problemas - intrometeu-se Vincent Lord. Isto é, a menos que vocês - olhou para todos os outros - estejam na disposição de aceitar esta senhora como a nossa perita científica.

 

Houve alguns risos abafados depressa terminados por um gesto impaciente de Sam.

 

- Célia - disse Sam -, por favor, escuta-me com atenção. - A sua voz estava séria mas mais controlada que alguns momentos atrás e de novo se enfrentaram olhos nos olhos. - Gostaria que reconsiderasses. Pode ter sucedido que tenhas falado intempestivamente e sem pesar todas as consequências. Todos nós fazemos isso de tempos a tempos. Eu já o fiz e tive de engolir o meu orgulho, voltar atrás, reconhecer o erro. Se fizeres isso agora nenhum de nós pensará sequer mal de ti e o que aconteceu terminou. Prometo-te isso assim como te peço que mudes de opinião. Que dizes?

 

Ela ficou em silêncio, não querendo apressar-se numa decisão em qualquer dos sentidos sem meditar primeiro. Sam acabara de lhe oferecer - fácil e graciosamente como era seu costume - uma via de escape dignificada. Tudo o que precisava de fazer era soltar uma palavra, uma frase, e o impasse terminaria, uma crise abortaria Com a mesma facilidade com que se instalara. A oferta era extraordinariamente tentadora.

 

Antes que ela respondesse Sam acrescentou:

 

- Tens pessoalmente muita coisa em jogo.

 

Ela sabia exactamente o que ele queria dizer. A sua nomeação como vice-presidente de vendas e comercialização não fora ainda confirmada. E, se o que estava a acontecer ali seguisse a lógica, nunca o seria.

 

Sam tinha razão. Havia muito em jogo.

 

Levou mais um momento a pensar e depois disse-lhe, calma e decididamente:

 

- Lamento, Sam. Pesei tudo. Sei o que está em jogo. Mas mesmo assim tenho de recomendar um adiamento na introdução do Montayne.

 

Estava feito. Quando o rosto de Sam se turvou e depois ficou vermelho com raiva Célia soube que não havia hipótese de voltar atrás.

 

-- Muito bem - pronunciou ele a custo. - Pelo menos sabemos onde estamos. - Pensou um pouco antes de continuar: - À bocado disse que não haveria votação formal. Cancelem isso. Quero um registo. Seth, toma notas se faz favor.

 

O controlador, de expressão ainda triste, tornou a pegar no lápis.

 

- Já tornei clara a minha posição - disse Sam. - Sou, como sabem, a favor de continuar a introdução do Montayne tal como tínhamos planeado. Quero saber quem concorda e quem discorda. Os que concordam levantem as mãos.

 

A mão de Vincent Lord saltou para o ar. Seguiram-se as do Dr. Starbut, Hammond e de dois outros vices-presidentes. Nicholson, aparentemente ultrapassadas as suas dúvidas, ergueu também a sua mão. Bill Ingram hesitava; olhou para Célia num apelo mudo. Mas ela desviou o olhar recusando-se a ajudá-lo; a decisão tinha de ser dele. Um segundo depois a mão de Bill levantou-se.

 

Sam e os outros olhavam para Seth Feingold. O controlador suspirou, pousou o lápis e ergueu devagar a mão.

 

- Nove contra um - disse Sam. - Não resta qualquer dúvida de que esta companhia continuará com o lançamento do Montayne.

 

Mais uma vez houve silêncio, desta vez um silêncio incómodo, como se ninguém soubesse o que dizer ou fazer a seguir. Sam levantou-se.

 

- Como sabem - disse - quando tudo isto começou ia sair para visitar a minha filha e o meu neto ao hospital. É para lá que vou agora. - Mas já não havia na sua voz a alegria que tivera. Sam acenou para os outros homens mas ignorou propositadamente Célia.

 

Ela permaneceu no seu lugar. Bill Ingram, já de pé, chegou-se ao pé dela:

 

- Lamento... - começou ele. Ela mandou-o calar com um gesto:

 

- Não interessa. Não quero ouvir.

 

De repente, de forma inesperada, compreendeu que tudo o que para ela construíra dentro da companhia - posição, autoridade, reputação, perspectivas futuras - ruíra. Poderia ao menos sobreviver ali? Não estava certa disso.

 

- Tenho de te perguntar uma coisa. Que vais fazer? - inquiriu Bill. Como ela não lhe respondesse continuou: - Certamente que, agora que fizeste o teu protesto, que todos sabem a tua posição sobre o Montayne... poderás continuar a dirigir as vendas?

 

Célia respondeu sombriamente, não querendo tomar decisões naquele momento:

 

- Não sei. Não sei. - Mas sabia que em casa, nessa noite, teria de pensar com cuidado na sua posição.

 

- Detestei ter de votar contra ti, Célia - disse-lhe Seth Feingold. - Mas sabes como é... não percebo nada de ciência.

 

- Nesse caso por que tiveste de votar? - disse ela olhando-o. - Podias ter dito isso e absteres-te.

 

Ele sacudiu a cabeça com pena e saiu.

 

Um a um os outros seguiram-no até que Célia ficou só.

 

Capítulo décimo terceiro

 

- Sei que algo está mal - disse Andrew ao jantar, quebrando um longo silêncio. - Acho até que muito mal.

 

Calou-se e, quando Célia não deu qualquer resposta imediata, continuou:

 

- Tens estado muito quieta desde que cheguei e já te conheço demasiado os hábitos para te forçar. Mas quando quiseres falar e precisares de mim... bem, meu amor, aqui estou.

 

Ela pousou a faca e o garfo de cada lado do prato em que mal tocara e olhou para ele com olhos marejados.

 

- Oh, querido! Como preciso de ti!

 

Ele colocou uma mão sobre a sua e disse calmamente:

 

- Não tenhas pressa. Acaba primeiro de jantar.

 

- Não consigo comer - disse-lhe ela.

 

Passado algum tempo, na sala de estar e bebericando um brande que Andrew servira, Célia descreveu os acontecimentos dos últimos dois dias culminando na sua incapacidade para convencer Sam e os outros, naquela tarde, de que o lançamento do Montayne devia ser adiado.

 

Andrew escutou com atenção, injectando uma pergunta ocasional. No fim disse-lhe:

 

- Não vejo que pudesses ter agido de outra maneira.

 

- Não havia outra - afirmou Célia. - Mas agora tenho de decidir... o que vou fazer?

 

- Tens mesmo de tomar uma decisão, pelo menos já? Por que não tiras uns dias de folga? Eu podia fazer o mesmo e faríamos uma viagem a qualquer lado. - Ele insistiu: - Longe de quaisquer pressões podes pensar em tudo isso e depois agir consoante o que decidires.

 

Ela sorriu, grata.

 

- Gostaria de adiar desse modo as coisas. Mas é algo que não posso adiar. Andrew aproximou-se de Célia e beijou-a, assegurando-lhe:

 

- Sabes que te ajudarei de todas as formas que me forem possíveis. Mas lembra-te de uma coisa. Sempre tive orgulho em ti e continuarei a ter, seja qual for a tua decisão.

 

Olhando vaidosamente para o marido ela pensou que um homem menos homem ter-lhe-ia lembrado a discussão no hotel de São Francisco, quando Andrew se recusara a ceder nas suas dúvidas sobre o Montayne ou sobre o uso de medicamentos pelas grávidas. Nessa altura Célia sugerira - maliciosamente, como agora via - que o seu raciocínio médico podia estar preconceituoso ou desactualizado, ou ambas as coisas.

 

Bem, agora era a vez de Célia ter dúvidas, mas Andrew era uma pessoa demasiado elevada para lhe dizer sequer ”eu tinha-te dito”.

 

Se ela aplicasse as normas de Andrew ao dilema actual, pensou, qual seria a decisão dele?

 

Não precisava sequer de perguntar. Sabia-a já.

 

Lembrou-se também de um conselho dado alguns anos atrás: ”Há uma coisa que tens: um dom, um instinto, para ajuizar do que está certo... Usa o teu dom, Célia... Quando tiveres o poder tem a força para fazeres aquilo em que acreditas... Não deixes que as pessoas inferiores te dissuadam.”

 

A emoção emergiu quando se recordou de Eli Camperdown. O antigo presidente da Felding-Roth pronunciara aquelas palavras, já perto da morte, na sua casa em Mount Kemble Lake.

 

- Mais brande? - perguntou Andrew.

 

- Não, obrigada.

 

Acabou o que estava no copo, procurou o olhar de Andrew e declarou então com ar decidido:

 

- Não posso tomar parte na comercialização do Montayne. Vou apresentar a demissão.

 

Em todos os seus vinte e quatro anos de Felding-Roth foi a coisa mais dolorosa que jamais fizera.

 

A carta de Célia, manuscrita e dirigida a Sam, era curta.

 

É com a maior pena pessoal que me demito de directora das vendas farmacêuticas e da Felding-Roth.

 

Esta carta porá termo à minha ligação com a companhia.

 

Conheces as minhas razões. Parece-me ser desnecessário repeti-las.

 

Não posso deixar de dizer que os meus anos na companhia foram agradáveis e privilegiados. Um desses privilégios, e nem de longe o menor, foi ter tido o teu apoio e amizade pelo que sempre te estive - e estou - imensamente grata.

 

Saio sem rancor. Desejo à Felding-Roth Pharmaceuticals e aos que nela trabalham as maiores felicidades.

 

Célia enviou a carta, por portador, para o gabinete do presidente e seguiu o mesmo caminho meia hora depois. Foi imediatamente conduzida ao gabinete pessoal de Sam. Atrás dela a porta fechou-se sem ruído.

 

Sam levantou o olhar do papel que estava a ler. As suas feições estavam sombrias e a sua voz fria.

 

- Pediste para me ver. Porquê? Ela respondeu, insegura:

 

- Estive muito tempo na companhia e a maior parte dele contigo. Senti que não me podia ir embora sem...

 

Ele interrompeu-se com uma raiva selvagem que ela nunca antes lhe vira:

 

- Mas é isso mesmo que estás a fazer! Estás a afastar-te de todos nós: dos teus amigos, colegas, de outros que dependem de ti. Saindo deslealmente no pior momento possível, um momento importante de comercialização, quando a companhia precisa de ti.

 

- A minha saída nada tem a ver com a lealdade ou amizade - protestou Célia.

 

- É claro que não!

 

Não a tinham mandado sentar e ela ficou de pé.

 

- Sam - implorou -, por favor, compreende! Não posso, simplesmente não posso, ajudar a vender o Montayne. Tornou-se uma questão de consciência.

 

- Tu chamas-lhe consciência - retorquiu ele. - Eu podia dar-lhe outros nomes.

 

- Que outros nomes? - perguntou ela, com curiosidade.

 

- Um: histeria feminina. Outro: impostura, honestidade desinformada. Despeitada por não conseguires o teu objectivo, sais.

 

Sam estava cada vez mais furioso à medida que prosseguia.

 

- Porque, afinal, estás a comportar-te como as mulheres que andam com cartazes pelas ruas ou se atam com correntes às vedações. A verdade é que foste apanhada, não passas de uma criada dessa ignorante da Stavely.

 

Fez um gesto na direcção do New York Times dessa manhã, que estava aberto sobre a secretária na página onde era citada uma declaração da Dra. Maud Stavely que também descobrira os casos dos bebés deformados em França e na Espanha e os estava a usar para adiar o Montayne. Célia já lera a história do Times.

 

- Isso que acabas de dizer é mentira - insistiu Célia - e não fui apanhada. Decidiu ignorar os comentários antifeministas.

 

Como se não tivesse ouvido o desmentido de Célia ele continuou:

 

- Agora vais juntar-te à Stavely e ao seu bando.

 

- Não - disse Célia. - Não me vou juntar a nada, não vou ver ninguém, não vou fazer qualquer declaração os motivos da minha demissão.

 

E acrescentou, numa voz que tentou fazer soar razoável: - No fim de contas admiti que aquilo que sinto é quase apenas instinto.

 

Célia nunca antes vira Sam tão irritado. Apesar disso tentou um último apelo, uma última tentativa.

 

- Gostaria de te recordar - disse Célia - de uma coisa que uma vez me disseste. Foi quando eu estava em Londres logo depois de ter recrutado Martin Peat-Smith.

 

Hoje bem cedo, ao pensar naquele encontro, recordara-se das palavras de Sam quando ela conseguira atrair Martin para a órbita da Felding-Roth depois de Sam ter falhado. Antes disso acontecer Sam aconselhara-a a não mencionar questões de dinheiro a Martin mas Célia ignorara o aviso e fora o dinheiro que, no fim, fizera pender a balança no caso de Martin. Ao ouvir a notícia, e ao telefone em Morristown, Sam declarara: ”Se alguma vez, no nosso caminho, tu e eu diferirmos numa questão importante tens a minha permissão para me recordares este incidente e que tu estavas certa e eu errado.”

 

Ela recordou-lho agora mas foi como se se tivesse dirigido a um icebergue.

 

- Mesmo que isso fosse verdade - vociferou ele -, como tu afirmas, eu de nada me lembro e isto é meramente a prova de como a tua capacidade de avaliação se deteriorou entretanto.

 

De repente ela sentiu-se apanhada por uma enorme tristeza e emoção, e embora lhe fosse difícil falar, conseguiu dizer:

 

- Adeus, Sam. Ele não respondeu.

 

Já em casa pareceu a Célia uma coisa extraordinária a forma como fora tão simples o acto de deixar a Felding-Roth. Limitara-se a retirar da secretária as suas coisas pessoais, a dizer adeus à secretária e a algumas outras pessoas do escritório, algumas das quais tinham lágrimas nos olhos, e a sair.

 

Em certa medida, supunha, a sua partida abrupta fora inconsiderada, mas, por outro lado, fora essencial. Nas últimas semanas quase todo o trabalho de Célia se centrara no Montayne e, uma vez que não era trabalho que agora pudesse efectuar em paz com a sua consciência, ficar seria inútil. Além disso havia o facto de estar tudo em ordem no seu departamento; e Bill Ingram, que de qualquer modo iria tomar as rédeas dentro de poucas semanas, podia fazê-lo de imediato sem qualquer interrupção.

 

O pensamento recordou-lhe que agora nunca chegaria a ser vice-presidente um desapontamento apunhalante pois a taça estivera tão próxima! Mas, disse a si mesma, seria capaz de viver com tal desapontamento.

 

Andrew telefonou a Célia duas vezes durante o dia, primeiro para o gabinete dela e depois já para casa. Ao saber que a sua demissão entrara já em vigor ele anunciou que voltaria para casa cedo e de facto chegou a tempo do chá da tarde que Célia preparara. A experiência era nova para ela. Pensou que talvez daí em diante o viesse a fazer com maior frequência.

 

Saudaram-se um ao outro com carinho.

 

Depois, enquanto Andrew sorvia o chá, disse:

 

- Como precisas de descansar da tomada de decisões, hoje tomei algumas por nós os dois. Uma delas é que vamos viver um pouco.

 

Mostrou um grande envelope pardo.

 

- Parei na agência de viagens quando vinha para casa para concretizar outra das minhas decisões. Vamos numa excursão.

 

- Para onde?

 

- Para todo o lado. Uma excursão mundial. Ela levantou os braços:

 

- Oh, Andrew, és maravilhoso! Só estar ao pé de ti é um conforto.

 

- Esperemos que continues a pensar dessa maneira depois de seis meses juntos em barcos e hotéis. - Começou a retirar brochuras do envelope. - Para começar penso que vamos de avião até à Europa para fazer ainda um pouco de turismo: França, Espanha, Itália, todos os sítios em que estejamos interessados. Depois embarcamos para cruzar o Mediterrâneo...

 

Apesar da depressão dos últimos dias Célia sentiu-se de ânimo mais leve. Já muitas vezes tinham falado de uma viagem à volta do Mundo mas sempre de uma forma vaga, como uma coisa para o futuro. Ela pensou: por que não agora? Haveria porventura outra oportunidade melhor?

 

Andrew - com o entusiasmo de um rapazinho, notou ela afectuosamente estava já a tornar viva a ideia.

 

- Devemos ir ao Egipto e a Israel, depois uma paragem nos Emiratos Árabes Unidos... à índia, é claro... o Japão é sensacional, assim como Singapura... iremos também à Austrália e à Nova Zelândia...

 

- É uma ideia magnífica! - exclamou Célia.

 

- Uma das coisas que preciso de fazer - explicou Andrew - é arranjar outro médico para a clínica para dar uma ajuda enquanto ando fora. Devo precisar aí de um mês para o conseguir pelo que poderemos partir aí em Março.

 

Os filhos não seriam problema, ambos o sabiam, porque Lisa e Bruce tinham-se decidido por empregos de Verão longe de casa.

 

Continuaram a conversar, com Célia consciente de que a dor de hoje voltaria inevitavelmente e talvez nunca desaparecesse por completo, mas naquele momento, estimulada por Andrew, conseguia afastá-la.

 

Mais tarde Andrew perguntara:

 

- Sei que ainda é cedo, mas já pensaste no que vais fazer agora que largaste a Felding-Roth? Não consigo imaginar-te em casa para sempre.

 

- Não - disse ela. - Estou certa de que não farei isso. Mas ainda não sei nada. Preciso de tempo para pensar... o que tu me estás a oferecer, querido.

 

Nessa noite fizeram amor não com a grande paixão mas com um doce carinho em que Célia encontrou paz.

 

Durante as várias semanas que se seguiram Célia manteve a sua palavra e não fez qualquer declaração pública sobre a sua partida da Felding-Roth. Não foi surpreendente que a notícia da sua demissão se filtrasse rapidamente na indústria e se tomasse conhecida da imprensa especializada. Houve uma enorme curiosidade que não foi satisfeita. O Wall Street Journal, o Business Week, o New York Times telefonaram a Célia pedindo entrevistas. Recusou. Também desviou com delicadeza perguntas dos seus amigos e dos de Andrew.

 

Só a Lisa e a Bruce confidenciou tudo o que se passara, e mesmo assim por insistência de Andrew.

 

- Deves-lhes isso - dissera-lhe ele. - Os miúdos admiram-te, tal como eu.

 

Têm direito a saber por que devem continuar a fazê-lo. Não os deves deixar a pensar nos porquês.

 

Tal significou viagens especiais a Stanford, no caso de Lisa, e a Pottstown, onde Bruce estava no seu primeiro ano da Hill School, e, de certo modo, a diversão fez bem a Célia. Os seus dias já não eram activos e ocupados. Não era fácil o ajuste à situação de ter nas mãos mais tempo do que ela conseguia usar.

 

Lisa concordou mas foi prática:

 

- Descobrirás outra coisa para fazeres, mamã, e, seja o que for, será importante. Mas o melhor que podia acontecer neste momento é a tua viagem com o papá.

 

Mas foi Bruce quem, com uma sensibilidade para além da sua idade, melhor resumiu a situação:

 

- Se te sentes bem contigo mesma, mamã... se, agora que já passou algum tempo, estás segura de que o que fizeste está correcto, isso é o que interessa.

 

Depois de falar com os dois filhos Célia decidiu que se sentia bem e foi com essa disposição que, no princípio de Março, voou de Nova Iorque para Paris com Andrew para começar a sua odisseia do foge-de-tudo.

 

Em Harlow, na sua casa, Martin Peat-Smith fora já para a cama mas não conseguia adormecer. Era sábado, poucos minutos faltavam para a meia-noite e para a culminação de uma semana excitante e cheia.

 

Decidindo que o sono viria quando lhe aprouvesse deixou-se ficar tranquilo e acordado, permitindo que a mente vagueasse.

 

A ciência, foi o pensamento estranho que lhe ocorreu daí a um bocado, é como uma mulher que nega os seus favores a um seguidor até ele estar perto de desistir, perto de abandonar a esperança. Então, numa súbita reviravolta, sem aviso, a mulher capitula, abre os braços, deixa tombar as vestes, revela-se e oferece tudo.

 

Levando mais longe a metáfora Martin cismou que algumas vezes havia uma série de orgasmos (não era ”arrepios” o nome que as mulheres davam a isso?) à medida que cada vez era revelado o até aí desconhecido e apenas sonhado.

 

”Por que raio”, perguntou a si próprio, ”estou com toda esta fantasia sexual?”

 

Respondeu à sua própria pergunta: ”Sabes muito bem porquê! É por causa da Yvonne. Cada vez que ela se aproxima de ti no laboratório o teu espírito fixa-se numa coisa que pode ser biologia mas decerto não é ciência.”

 

”Então por que não fizeste nada quanto a isso?”

 

Na verdade, porquê? ”Volta mais tarde a esta questão.”

 

De momento Martin voltou os seus pensamentos para o seu objectivo científico e o progresso verdadeiramente notável que fizera desde... quando é que fora?

 

Bem, a parte estimulante, os resultados, tinham começado há menos de um ano.

 

O seu espírito voltou atrás. A esse ponto e mais atrás ainda.

 

A visita de Célia a Harlow dera-se dois anos antes, em 1975. Martin recordava-se de lhe ter mostrado películas de cromatografias e de explicar: ”Onde aparecem bandas temos um péptido... vês duas colunas de linhas escuras... pelo menos nove péptidos.”

 

Mas o problema, que parecera insuperável, era que a mistura de péptidos descoberta nos cérebros de ratos jovens existia em quantidades demasiado pequenas para poder ser purificada e ensaiada. Além disso a mistura continha material estranho, que Rao Sastri descrevera como péptidos ”inúteis”.

 

As tentativas para purificar a mistura tinham continuado mas os resultados eram, na melhor das hipóteses, desanimadores, parecendo confirmar a opinião de Sastri de que as técnicas necessárias só apareceriam daí a mais de uma década.

 

A moral declinara entre os outros membros da equipa de Harlow assim como a fé na teoria básica de Martin.

 

Fora então, quando a moral estava mais em baixo, que aconteceu.

 

Depois de um trabalho paciente, usando grandes quantidades de cérebros de ratos jovens, tinham conseguido uma purificação parcial. Depois a nova e enriquecida mistura, contendo menos péptidos, fora injectada em ratos velhos.

 

Quase de imediato verificou-se uma espantosa melhoria na capacidade dos ratos velhos para aprenderem a recordarem. Os testes de labirinto mostraram-no claramente.

 

Sorrindo ao lembrar-se, Martin pensou no labirinto do laboratório.

 

Era uma miniatura dos labirintos em que os seres humanos, ao longo dos séculos, se tinham divertido a entrar e tentar sair, onde se tinham perdido e encontrado becos antes de descobrir a saída. O que era talvez o mais famoso labirinto do mundo, criado no século XVII supunha-se que para o rei Guilherme III de Inglaterra, situava-se no Hampton Court Palace, a oeste de Londres.

 

O labirinto de madeira nos laboratórios de Harlow era uma versão em pequena escala do de Hampton Court, feito com uma notável precisão de pormenor por um cientista do instituto durante os seus tempos livres. No entanto, ao contrário do labirinto de Hampton Court, este era apenas usado por ratos.

 

Os ratos, um de cada vez, eram colocados à entrada do labirinto, estimulados se necessário mas deixando-lhes sempre a escolha do caminho para a saída. No fim esperava-os uma recompensa em comida e a sua habilidade para alcançar o alimento era observada e cronometrada.

 

Até às mais recentes séries de testes os resultados tinham sido previsíveis. Os ratos jovens e velhos colocados no labirinto pela primeira vez tinham dificuldade em encontrar a saída, mas acabavam por a descobrir. No entanto na segunda vez os ratos jovens encontravam-na mais depressa, assim como a recompensa, e da terceira vez eram mais rápidos e assim por diante.

 

Os ratos jovens aprendiam com cada experiência, recordando quais as curvas a dar ou a não dar.

 

Em contraste os ratos velhos não conseguiam aprender ou eram mais lentos que os animais mais jovens.

 

Até à injecção da nova solução de péptidos.

 

Depois disso os progressos tinham sido extraordinários. Quando colocados pela terceira ou quarta vez no labirinto os ratos velhos literalmente corriam através dele a maior parte das vezes sem hesitações nem erros. Havia agora pouca diferença entre o comportamento dos ratos novos e o dos velhos.

 

Quando os testes prosseguiram com os mesmos resultados cresceu a excitação entre os cientistas. Um ou dois deles, depois de uma espectacular proeza executada por um rato velho e gordo, gritaram de alegria. A certa altura Rao Sastri apertou a mão de Martin:

 

- Santos deuses! Tinhas razão. Tens todo o direito de nos dizeres: ”Oh, homens de pouca fé...”

 

- Já estava também a perder a fé - confessou Martin abanando a cabeça.

 

- Não acredito nisso - disse Sastri. - Como cavalheiro que és estás apenas a fazer com que os teus humildes colegas se não sintam tão mal.

 

- Seja como for - afirmou Martin, satisfeito - temos qualquer coisa que vale a pena comunicar para a América.

 

Este relatório chegou à Felding-Roth em Nova Jérsia na altura em que as preparações para o lançamento do Montayne estavam em pleno e pouco antes das dúvidas de Célia acerca deste medicamento.

 

No entanto, ainda em Nova Jérsia estavam a analisar o relatório, já em Harlow enfrentavam mais um problema.

 

Apesar dos sinais favoráveis a última mistura de péptidos apresentava certas dificuldades. Tal como a sua predecessora só existia em quantidades limitadas. Para trabalhar numa refinação mais miúda, e para identificar e isolar o péptido da memória, eram essenciais maiores quantidades.

 

A rota escolhida por Martin para obter maiores quantidades foi por intermédio da produção de anticorpos. Estes ligar-se-iam ao péptido pretendido e isolá-lo-iam. Com este fim seriam usados coelhos pois produziam anticorpos em grandes quantidades, muito acima das produzidas por ratos.

 

Entrou em cena Gertrude Tilwick.

 

A supervisora dos animais do instituto, uma técnica, era uma mulher severa, de lábios cerrados, na casa dos quarenta. Fora contratada, há relativamente pouco tempo, por Nigel Bentley e até ao incidente que os reuniu ela e Martin pouco contacto directo tinham tido.

 

A pedido de Martin, Miss Tilwick trouxe ao seu laboratório vários coelhos em gaiolas. Explicara-lhe antes que a mistura em bruto do péptido numa solução oleosa - um ”adjuvante” - seria injectado nas patas dos coelhos. Um método doloroso. Por isso cada animal tinha de estar bem preso durante a injecção.

 

Juntamente com os coelhos Tilwick trouxe uma pequena tábua lisa com quatro molas presas nos cantos. Abrindo uma gaiola agarrou um dos coelhos e colocou-o sobre a tábua de barriga para cima. Depois, com a criatura de patas esticadas, segurou com rapidez cada uma delas às molas dos cantos.

 

Os seus movimentos eram brutos e descuidados, a sua atitude de indiferença. Enquanto Martin observava aquilo, aterrado, o animal aterrorizado gritou nunca antes ele soubera que um coelho podia gritar; o som era horrível. Seguiu-se um silêncio e, quando a quarta pata ficou presa, o animal estava morto. Não havia dúvida que morrera de medo e de choque.

 

Mais uma vez, por causa de um animal, a ira de Martin veio à superfície e expulsou Tilwick do laboratório.

 

Saiu de cena Miss Tilwick.

 

Martin mandou chamar Nigel Bentley e informou o administrador que ninguém tão insensível ao sofrimento como era a supervisora dos animais podia continuar a trabalhar no instituto.

 

- É claro - concordou Bentley. - Tilwick terá de sair e lamento o que aconteceu. As suas qualificações técnicas eram boas, mas não verifiquei a sua CPA.

 

- Sim, capacidade para amar é mesmo o que é necessário - disse Martin. Podes mandar-me mais alguém?

 

- Vou mandar a assistente da Tilwick. Se ela aprovar podemos promovê-la. Entrou em cena Yvonne Evans.

 

Yvonne tinha vinte e cinco anos, um leve excesso de peso, mas vistosa e atraente, com longos cabelos compridos, inocentes olhos azuis e uma pele de leite e rosas. Provinha de uma pequena cidade campestre das montanhas Negras do País de Gales chamada Brecon e o sotaque reflectia-se na sua voz ritmada. Yvonne tinha além disso um busto espantoso e era óbvio que não usava soutien.

 

Martin desde o início que ficou fascinado pelo amplo busto de Yvonne, sobretudo quando começou a série de injecções.

 

- Dê-me primeiro um ou dois minutos - pediu-lhe Yvonne. Ignorou a tábua que Gertrude Tilwick utilizara e, enquanto Martin esperava com a seringa hipodérmica já pronta, ela tirou com cuidado um coelho da gaiola, segurou-o junto ao rosto e começou a fazer-lhe festas, confortá-lo, murmurando-lhe palavras meigas. Por fim apoiou a cabeça do coelho no seu colo e, segurando as patas de trás, disse a Martin: - Pode começar.

 

Em pouco tempo seis coelhos tinham sido injectados com a solução oleosa: uma injecção em cada pata traseira. Embora distraído pela proximidade daqueles peitos, e apesar de haver momentos em que Martin desejava ter ali a sua cabeça em vez de ser a cabeça de um coelho, trabalhou cuidadosamente e em sincronia com Yvonne.

 

Era nítido que os animais eram acalmados pelo amor de Yvonne, mas mesmo assim havia um certo sofrimento e ela acabou por perguntar:

 

- Tem de ser nas patas de trás?

 

- Também não me agrada - disse Martin com uma careta -, mas é um bom sítio para a produção de anticorpos. Se bem que a injecção seja dolorosa, continua a irritar e é esta irritação que atrai as células produtoras-de anticorpos.

 

A explicação pareceu satisfazer Yvonne. Quando acabaram ele comentou:

 

- Gosta de animais.

 

- Claro - disse ela olhando-o surpreendida.

 

- Nem toda a gente gosta.

 

- Está a falar de Tilly? - Uma sombra cruzou o rosto de Yvonne. - Ela nem sequer gosta de si mesma.

 

- Miss Tilwick já não trabalha connosco.

 

- Eu sei. O senhor Bentley disse-mo. Disse-me também para lhe comunicar que as minhas qualificações estão certas e que, se gostar de mim, posso desempenhar o cargo de supervisora dos animais.

 

- Gosto de si - disse Martin e, surpreendendo-se a si próprio, acrescentou: Gosto muito de si.

 

-- Aplica-se aos dois lados, doutor - retorquiu ela com um sorriso.

 

Apesar de, depois deste primeiro encontro, outros terem tomado a seu cargo as injecções aos animais, Martin continuou a ver Yvonne nos laboratórios. Uma vez, com o espírito mais nela que na questão, perguntou-lhe:

 

- Se gosta assim tanto de animais por que não foi para uma escola de veterinária?

 

Ela hesitou antes de responder com uma brevidade pouco habitual:

 

- Eu queria ir.

 

- Que aconteceu?

 

- Chumbei num exame.

 

- Só num?

 

- Sim.

 

- Não podia ter repetido o exame?

 

- Não podia esperar tanto tempo. - Ela olhou-o directamente nos olhos e ele não teve outra escolha senão encontrar os dela.

 

Yvonne continuou:

 

- Os meus pais não tinham dinheiro para me sustentar e tive de começar a ganhar a vida. Tornei-me então numa técnica em animais, a coisa mais próxima daquilo que desejava. - Ela sorriu e ele soube que Yvonne estava consciente de onde os seus olhos estavam fixados.

 

Isto passara-se algumas semanas antes e entretanto Martin estivera preocupado com outros assuntos.

 

Um desses assuntos era a análise por computador dos testes no labirinto; mostravam que os resultados iniciais não eram fruto do acaso e continuavam consistentes ao longo dos meses. Isto só por si era uma excelente novidade mas, para coroar este êxito, conseguira-se o refinamento da mistura péptida permitindo o isolamento de um único péptido activo. Este - o tal péptido há muito procurado - mostrou estar na sétima banda das cromatografias originais e foi imediatamente baptizado como péptido 7.

 

Os dois sucessos foram comunicados por telex a Nova Jérsia e uma mensagem de parabéns de Sam Hawthorne confirmou a sua recepção. Martin desejaria comunicar os sucessos a Célia mas a notícia da sua demissão chegara pouco antes a Harlow. Embora não fizesse a mínima ideia da causa da sua partida o facto entristecia-o. Célia fora uma parte importante do projecto de pesquisa e do instituto de Harlow, pelo que parecia injusto que não partilhasse dos primeiros frutos daquilo que ela ajudara a começar. Sabia também que perdera uma amiga e uma aliada e pensava se os dois se voltariam a encontrar mais alguma vez. Era improvável.

 

Cientificamente apenas um factor perturbava Martin enquanto, estendido na cama, revia os acontecimentos. Relacionava-se com os ratos velhos que estavam a receber injecções regulares do péptido desde há vários meses.

 

Se bem que a memória dos ratos tivesse melhorado o seu estado de saúde tinha-se, aparentemente, deteriorado. Os animais tinham perdido peso e estavam magros, quase macilentos. Depois de tantos sucessos recentes tal facto era alarmante.

 

Seria que o péptido 7, benévolo para o cérebro, prejudicava o corpo? Os ratos tratados com o péptido continuariam a perder peso, ficariam enfraquecidos e morreriam? Se assim fosse o péptido 7 era inutilizável por animais ou seres humanos e todo o trabalho científico até então realizado - quatro anos em Harlow mais os trabalhos iniciais de Martin em Cambridge - teria sido tragicamente em vão.

 

Tal espectro atormentava Martin mas ele tentou afastá-lo de si, pelo menos nas poucas horas do fim-de-semana.

 

Naquela noite de sábado... ”Não! Tomara-se domingo de madrugada”... voltou a pensar em Yvonne, mais uma vez meditando na pergunta que fizera um pouco antes: ”Então por que não fizeste nada quanto a isso?”

 

Podia telefonar-lhe, pensou, embora o devesse ter feito mais cedo. Agora era tarde de mais. Seria? ”Raios! E por que não?”

 

Para sua surpresa a chamada foi atendida ao primeiro toque.

 

- Está?

 

- Yvonne?

 

- Sim.

 

- Daqui fala...

 

- Eu sei quem fala.

 

- Bem, estava aqui sem conseguir dormir e pensei...

 

- Eu também não conseguia dormir.

 

- Talvez nos pudéssemos encontrar amanhã.

 

- Amanhã é segunda-feira - fez notar ela.

 

- É mesmo. Que tal hoje mesmo?

 

- Está bem.

 

- A que horas?

 

- Por que não agora?

 

- Ele mal queria acreditar na sua sorte quando perguntou:

 

- Queres que te vá buscar de carro?

 

- Sei onde moras. Vou eu aí ter.

 

- Tens a certeza?

 

- Claro.

 

Ele sentiu que tinha de dizer mais qualquer coisa.

 

- Yvonne.

 

- Sim?

 

- Estou feliz por vires.

 

- Eu também estou. - Ele ouviu-a rir-se. - Julguei que nunca mais me convidavas.

 

Capítulo décimo quinto

 

A chegada de Yvonne foi ao mesmo tempo maravilhosa e sem complicações. Depois de trocar um beijo caloroso com Martin e de acariciar os vários animais que o rodeavam ela perguntou:

 

- Onde fica o teu quarto?

 

- Eu mostro-te - disse ele e ela seguiu-o escadas acima com a sua pequena mala na mão.

 

No quarto pouco iluminado Yvonne retirou rapidamente todas as roupas que vestia revelando a nudez, observada por Martin, de pulso acelerado, admirando tudo o que estava à vista - em especial aqueles maravilhosos peitos.

 

Quando ela se lhe reuniu na cama aproximaram-se um do outro sem inibições, com prazer e amor. Martin sentiu dentro de Yvonne um amor físico generoso e sem malícia que parecia brotar da sua própria natureza. Talvez fosse o seu próprio amor pela vida mas naquele momento expressava-se na sua língua quente que parecia estar ao mesmo tempo em toda a parte, nos seus lábios suaves e móveis que o exploravam incessantemente, nas pressões e ritmos do seu corpo, levando-o a responder de formas e maneiras que lhe tinham sido desconhecidas até àquela noite mas se revelavam subitamente instintivas.

 

- Não tenhas pressa! Faz isto durar - murmurou ela.

 

- Vou tentar - sussurrou ele em resposta.

 

Apesar deste voto pouco tempo se passou até que a sua fome mútua os levasse ao clímax. Então o sentido de urgência cedeu e Martin foi invadido por uma sensação de paz e de conforto que até aí raras vezes conhecera.

 

Mesmo numa altura destas o seu espírito inquiridor e científico procurou causas para uma tal excepcional serenidade. Talvez, pensou, estivesse apenas a sentir o aliviar das tensões acumuladas. No entanto instintos que nada tinham de científicos diziam-lhe que era algo mais: que Yvonne era uma daquelas raras mulheres abençoadas com uma paz interior transmissível aos outros... e, com este pensamento, adormeceu.

 

Dormiu profundamente e acordou com a luz do Sol e os barulhos que vinham da cozinha no rés-do-chão. Momentos depois Yvonne apareceu vestida com um robe de Martin e trazendo um tabuleiro com um bule, chávenas e pires e bolos torrados com mel. Em volta dela estava a colecção da casa de dois cães e três gatos que pareciam reconhecer nela uma amiga.

 

Yvonne colocou o tabuleiro sobre a cama onde Martin acabara de se sentar.

 

Sorrindo apontou para o robe:

 

- Espero que não te importes.

 

- Fica-te melhor que a mim.

 

Ela sentou-se na cama e começou a encher as chávenas:

 

- Gostas de leite no chá mas queres açúcar.

 

- É isso, mas como é que tu...

 

- Perguntei no laboratório. Para o caso de precisar de saber. A propósito: a tua cozinha está uma confusão. - Passou-lhe o chá.

 

- Obrigado. Desculpa o estado da cozinha. Vivo sozinho.

 

- Hei-de limpar aquilo antes de me ir embora. O robe abrira-se e Martin disse:

 

- Quanto a ires-te embora, espero que não tenhas pressa. Deixando a peça de vestuário continuar como estava ela sorriu:

 

- Cuidado com os dedos; está quente. Ele confessou:

 

- Acho que ainda não acredito bem nisto tudo. Pequeno-almoço na cama é um luxo que já não tinha há longos anos.

 

- Devias tê-lo mais vezes. Merece-lo.

 

- Mas a convidada és tu. Eu é que te devia estar a fazer isto.

 

- Prefiro assim - garantiu-lhe ela. - Queres mais chá?

 

- Talvez mais tarde. - Pousou a chávena e agarrou-a.

 

Yvonne desfez-se do robe, deixando-o cair no chão, e foi ao seu encontro. Segurando-a, e desta vez sem pressas, ele moveu as mãos em exploração pelos peitos e coxas.

 

Beijando-a disse:

 

- Tens um corpo lindo.

 

- Corpo em demasia - disse ela a rir. - Preciso de perder algum peso. Com o polegar e o indicador beliscou uma prega de carne. - O que preciso é de um pouco do teu péptido sete. Podia então ser magra como aqueles ratos.

 

- Não é necessário - disse Martin com o rosto mergulhado nos seus cabelos. - Gosto de tudo o que tens tal e qual está.

 

Com a passagem dos minutos a paixão da noite anterior renasceu e cresceu. Martin estava erecto, Yvonne agarrava-o contra si preparando-se para o receber. Pressionou-o:

 

- Vá! Entra!

 

Mas em vez disso ele parou de repente, deixando tombar os braços. Depois empurrou Yvonne peíos ombros, afastando-a.

 

- O que disseste?

 

- Disse: entra!

 

- Não. Antes disso.

 

- Martin, não me tortures! Quero-te agora! - implorou ela.

 

- O que disseste?

 

- Oh, merda! - Frustrada, quebrado o momento, ela deixou-se cair para trás. - Por que fizeste isto?

 

- Quero saber o que disseste. Sobre o péptido sete.

 

- O péptido sete? - Respondeu ela com petulância. - Oh, disse que se o tomasse talvez ficasse magra como os ratos. Mas que...

 

- Foi o que pensei. - Saltou da cama. - Despacha-te! Veste-te.

 

- Porquê?

 

- Vamos para o laboratório.

 

- Agora? - Perguntou ela com incredulidade. Martin vestira já uma camisa e estava a enfiar as calças.

 

- Sim. Agora mesmo.

 

Poderia ser verdade? Seria possível que fosse verdade?

 

Martin, de pé, contemplava a dúzia de ratos que tinham percorrido à vez o labirinto. A seu pedido Yvonne fora buscá-los à sala dos animais. Eram um grupo que, desde há vários meses, estava a ser injectado com a mistura parcialmente purificada do péptido e, mais recentemente, com o péptido 7. Todos os ratos estavam magros - mais magros que quando tinham começado as injecções. Yvonne estava naquele momento a recolocar o último rato na sua gaiola.

 

Estava-se ainda na manhã de domingo. À parte eles os dois e um vigilante, a quem tinham falado à entrada, o instituto estava silencioso e deserto.

 

Tal como os outros animais que o tinham precedido também o décimo segundo rato começou a comer do recipiente existente na sua gaiola.

 

- Continuam a alimentar-se bem - observou Martin.

 

- Todos o fazem - concordou Yvonne. - Podes dizer-me agora o que se passa?

 

- Acho que sim. Como os ratos a quem dávamos os péptidos perdiam peso e emagreciam, alguns deles estão até descarnados, todos nós pensávamos que o seu estado geral de saúde piorara. - Acrescentou, pesaroso: - Não foi uma atitude muito científica.

 

-- Que diferença faz?

 

- Talvez faça muita. Suponhamos que a saúde deles não piorou. Supõe que estão de perfeita saúde. Talvez até melhor que antes. Supõe que o péptido sete, além de melhorar a memória, provoca uma perda de peso saudável.

 

- Queres dizer...

 

- Quero dizer - disse Martin - que talvez tenhamos tropeçado numa coisa que as pessoas procuram desde há séculos: uma forma de metabolizar os alimentos no corpo sem produzir gordura e, consequentemente, sem aumentar de peso.

 

Yvonne olhava-o de boca aberta.

 

- Mas isso seria de uma importância fabulosa.

 

- Claro, se for verdade.

 

- Mas não estavas à procura disso.

 

- Montes de descobertas ocorreram quando os cientistas andavam à procura de outra coisa. Necessito da opinião de especialistas. Amanhã tratarei das coisas para os trazer cá.

 

- Nesse caso - disse Yvonne com esperança - podemos voltar já para tua casa?

 

Martin envolveu-a nos seus braços:

 

- Nunca ouvi ideia melhor.

 

- Claro que lhe mandarei um relatório pormenorizado - declarou a Martin o veterinário visitante - que incluirá a medição da gordura corporal, análises do sangue, da urina e das fezes feitas no meu laboratório pessoal. Mas posso desde já dizer-lhe que são dos ratos mais saudáveis que jamais vi, sobretudo se nos recordarmos da idade avançada que têm.

 

- Muito obrigado, doutor - disse Martin. - Tinha esperanças de que assim fosse.

 

Era terça-feira e o veterinário, Dr. Ingersoll, um idoso especialista em pequenos mamíferos, viera de Londres no comboio da manhã. Regressaria nessa mesma tarde.

 

Outro perito, um nutricionista de Cambridge, era esperado no instituto dentro de dois dias.

 

- Suponho - disse o Dr. Ingersoll - que não se importará de me dizer precisamente o que tem injectado nos vossos ratos?

 

- Se não se importa - replicou Martin - prefiro não lho dizer. Pelo menos por enquanto.

 

O veterinário acenou com a cabeça.

 

- Já esperava essa resposta. Bem, seja o que for, caro colega, está obviamente metido em algo interessante.

 

Martin sorriu e deixou ficar as coisas naquele pé.

 

Na quinta-feira o nutricionista, lan Cavaliero, forneceu informações ainda mais intrigantes.

 

- Possivelmente o que fez ao tratar estes ratos - anunciou ele - foi alterar o funcionamento ou das suas glândulas endócrinas ou dos seus sistemas nervosos centrais, ou ainda de ambas as coisas. O resultado é que as calorias que ingerem com os alimentos são convertidas em calor e não em gordura. Se não for levada a extremos é coisa que não lhes será prejudicial. Os corpos deles livram-se do calor em excesso por transpiração ou por outra via qualquer.

 

O Dr. Cavaliero, um jovem cientista que Martin conhecera em Cambridge, era amplamente reconhecido como uma autoridade em nutrição.

 

- Estão a emergir novos dados - disse ele - que mostram que diferentes indivíduos, ou animais, possuem diferentes eficiências na utilização das calorias. Algumas calorias são convertidas em gordura mas a maior parte é utilizada para aquele tipo de trabalho corporal que nunca vemos nem sentimos. São, por exemplo, utilizadas nas bombas de iões das células, como a bomba de sódio, para os expelirem para fora delas e para o sangue num processo cíclico constante.

 

O nutricionista prosseguiu:

 

- Outras calorias têm de ser transformadas em calor para manter a temperatura corporal. No entanto descobriu-se que a proporção usada para calor, para trabalho metabólico ou para gordura varia amplamente. Sendo assim se pudermos alterar e controlar estas proporções, como parece que está a fazer com estes animais, conseguiremos um progresso fantástico.

 

Um pequeno grupo que Martin convidara para assistir ao debate com Cavaliero escutava-o atentamente. Era constituído por Rao Sastri, dois outros cientistas e Yvonne.

 

Sastri interpôs:

 

- Sem dúvida que é graças a essa variação gordura-trabalho-calor que algumas pessoas afortunadas podem comer lautas refeições sem nunca ganhar um grama de peso.

 

- Exactamente. - O nutricionista sorriu. - Todos nós já encontrámos, e se calhar até invejámos, esse tipo de pessoas. Mas talvez haja outra coisa a influenciar os vossos ratos: um factor de saciedade.

 

- Por intermédio do SNC? - perguntou Martin.

 

- Sim. O sistema nervoso central é, claro, altamente regulado pelos péptidos cerebrais. E como me informaram que o material injectado afecta o cérebro pode dar-se o caso de reduzir os sinais cerebrais de fome... De uma forma ou de outra o vosso composto decerto que tem um efeito antiobesidade desejável.

 

O debate continuou e, no dia seguinte, Martin usou as palavras de Cavaliero, ”efeito antiobesidade desejável”, num relatório confidencial enviado directamente a Sam Hawthorne.

 

”Embora o melhoramento da memória com o péptido 7 continue a ser o nosso objectivo primário”, escreveu Martin, ”experimentaremos adicionalmente o que, à primeira vista, parece ser um efeito colateral positivo e prometedor que poderá ter possibilidades clínicas”.

 

Se bem que o relatório fosse moderado a verdade é que a excitação de Martin e dos seus colegas de Harlow era febril.

                             1977 - 1985

 

Majestosamente, com a sólida dignidade que nenhum outro meio de transporte até agora inventado conseguia igualar, o navio SantaIsabella passou pelo canal de Fort Armstrong e entrou no porto de Honolulu.

 

Andrew e Célia estavam na coberta, assim como os outros passageiros, situada abaixo e à frente da ponte.

 

Andrew, de binóculos, estava já a observar os cais e os armazéns do porto. Aquela sua atenção tinha um objectivo.

 

Quando a Aloha Tower brilhou bem na frente deles, dourada pelo sol havaiano num céu azul, o navio rodou com os rebocadores à sua volta. Soaram sirenes de barcos. A tripulação do Santa Isabella intensificou os preparativos para a acostagem.

 

Baixando os binóculos Andrew olhou de esguelha para Célia. Tal como ele também Célia apresentava um ar saudável e bronzeado, o resultado de quase seis meses de boa vida passados totalmente ao ar livre. Via-se que ela estava agora calma depois das tensões acumuladas antes da partida. Não restava qualquer dúvida: a viagem, o relativo isolamento e a ausência total de pressões fizeram bem a ambos.

 

Tornou a recorrer aos binóculos.

 

- Dá a impressão de que procuras qualquer coisa - comentou Célia.

 

- Se a vir digo-te - respondeu ele sem mexer a cabeça.

 

- Está bem - suspirou ela. - Mal acredito que esteja quase a acabar.

 

E estava. A longa viagem, que os levara a quinze países, acabaria essencialmente ali. Depois de uma curta paragem voariam em directo de Honolulu para casa, prontos a retomar as suas vidas com as mudanças que se tivessem dado, embora tais mudanças afectassem sobretudo Célia.

 

Ela tentou imaginar quais seriam.

 

Desde que tinham saído de casa, nos princípios de Março, que ela afastara de si com deliberação quaisquer pensamentos sobre o futuro. Estava agora em meados de Agosto e o futuro tinha de ser enfrentado.

 

- Hei-de recordar tudo isto o resto da minha vida - disse ela tocando no braço de Andrew -, os lugares onde estivemos, tudo o que fizemos e vimos...

 

Há tanto para recordar, pensou Célia. Surgiram-lhe cenas ao espírito: o luar verdadeiramente mágico do Nilo, a areia e o calor sufocante do vale dos Reis... passear pelas ruas empedradas do labirinto de Alfama, em Lisboa, com nove séculos de idade e flores por todos os lados... Jerusalém - ”A colina mais perto do céu onde um homem pode pôr a mão em concha face ao vento e ouvir a voz de Deus.”... o paradoxo de Roma com a sua mistura de terreno e de etéreo... as ilhas gregas, diamantes no Egeu, uma montagem de luz ofuscante, de aldeias de brancos terraços, montanhas, olivais... Abu Dhabi, rica em petróleo, o encontro com a irmã mais nova, Janet, o marido e a família mais jovem... a índia, um subcontinente de contrastes selvagens, os seus prazeres contrapondo-se à miséria e à degradação. Uma cena digna de um postal: Jipur, a cidade cor-de-rosa... Depois a Grande Barreira dos Recifes, o reino australiano do coral, a fantasia... e, perto de Quioto, no Japão, a beleza frágil e sonhadora do Palácio Imperial de Shugakuin, refúgio de um imperador e lugar de poesia, ainda resguardado do grosso dos turistas... o passo frenético de Hong Kong, como se o tempo lhe estivesse a fugir, e estava!... em Singapura - no meio de grande riqueza - as humildes bancadas de comida, o paraíso de um gourmet, o nasi beryani servido no Canto dos Glutões, um nome apropriado...

 

Fora em Singapura que Andrew e Célia tinham embarcado no Santa Isabella para uma viagem sem pressas pelo Sul do mar da China e pelo Pacífico, uma viagem que acabava ali e agora no Havai.

 

A bordo viajava uma vintena de passageiros apreciadores da calma velocidade do navio e das confortáveis acomodações sem a algazarra organizada de um tradicional barco de cruzeiro.

 

Enquanto o cargueiro continuava a mover-se com lentidão Célia prosseguiu nas suas divagações.

 

Apesar dos seus esforços para auxiliar, até agora, os pensamentos sobre o futuro tinham surgido inevitavelmente alguns sobre o passado. Sobretudo nos últimos dias interrogara-se a si própria: teria sido um erro deixar a Felding-Roth tão abruptamente? A sua demissão fora impetuosa e instintiva. Fora também estúpida? Célia não estava segura e essa lembrança fazia-a pensar se não viria a experimentar um arrependimento e uma angústia ainda maiores que as suas actuais dúvidas.

 

Era nítido que a sua partida não afectara de forma séria nem a Felding-Roth nem o Montayne. Em Fevereiro, como planeado, dera-se o lançamento do Montayne, aparentemente com grande sucesso. De acordo com as notícias da imprensa que Célia lera antes de partir com Andrew para aquela viagem o Montayne foi de imediato um medicamento bastante prescrito e popular, em especial entre as mulheres que continuavam a trabalhar durante a gravidez e para quem tinha uma importância crítica o alívio das náuseas matinais. Tudo levava a crer que o medicamento era uma bonança para a Felding-Roth.

 

De igual modo soubera em França que o mesmo se estava a revelar verdade para os descobridores franceses do Montayne, os Laboratoires Gironde-Chimie.

 

As notícias do France-Soir sobre os casos de Nouzonville e de Espanha não tinham, ao que parecia, afectado a reputação do Montayne. Nem, nos Estados Unidos, os argumentos contra o Montayne da Dra. Maud Stavely tinham merecido grande crédito ou impedido as vendas

 

Os pensamentos de Célia regressaram ao navio que agora estava quase encostado à doca aproximando-se do Cais 10 onde desembarcariam e passariam pela Alfândega.

 

De repente ao lado dela, Andrew exclamou:

 

- Acolá!

 

- Acolá, o quê?

 

Andrew entregou-lhe os binóculos e apontou.

 

- Foca para aquela segunda janela grande, por cima da doca e à esquerda da torre do relógio.

 

Confusa Célia seguiu as instruções:

 

- Que devo procurar?

 

- Já vais ver.

 

O grupo à volta deles diminuíra. Além de Célia e de Andrew restavam apenas mais dois ou três passageiros, os restantes tinham regressado às cabinas para se prepararem para o desembarque.

 

Célia ajustou os binóculos e moveu-os, em exploração. Quase de imediato gritou:

 

- Vejo! E não posso acreditar...

 

- Podes acreditar - disse Andrew. - São reais.

 

- Lisa e Bruce! - Cheia de alegria Célia gritou o nome dos filhos. E, segurando os binóculos com uma mão, começou a acenar freneticamente com a outra. Por detrás do vidro, onde Andrew os localizara, Lisa e Bruce, rindo excitadamente, acenaram também.

 

Célia estava incrédula.

 

- Não percebo. Não estávamos à espera deles. Como vieram cá ter?

 

- Eu estava à espera deles - disse-lhe Andrew com toda a calma. - Na verdade fui eu que combinei tudo. Tive de fazer uns telefonemas de Singapura quando tu não estavas por perto mas...

 

Célia, ainda espantada, mal ouvia as palavras dele.

 

- É claro que me sinto feliz por os ver. Mas Lisa e Bruce tinham empregos de Verão. Como é que escaparam?

 

- Isso também foi fácil... quando lhes expliquei por que desejava que viessem. - Recuperou os binóculos e arrumou-os no estojo.

 

- Continuo a não entender - disse Célia. - Querias os filhos?

 

- Isso mesmo - assegurou-lhe Andrew. - Para poder cumprir uma promessa. Uma feita há longos anos.

 

- A promessa a quem?

 

- A ti.

 

Ela olhou-o, perplexa.

 

Andrew explicou voluntariamente:

 

- Foi durante a nossa lua-de-mel. Estávamos a falar e explicaste-me por que preferias uma lua-de-mel nas Baamas em vez de no Havai. Disseste que o Havai te poria triste. Depois contaste que o teu pai morrera em Pearl Harbour, que se afundara com o Arizona.

 

- Espera! - a voz dela não passava de um murmúrio. Sim, já se recordava... recordava-se ao fim de tantos anos.

 

Naquele dia da lua-de-mel nas Baamas, na praia, falara do pai a Andrew, descrevera o pouco que sabia do oficial Willis de Grey... ”Quando ele estava a casa andava sempre cheia de ruído e alegria. Era enorme, com uma voz atroadora, fazia as pessoas rir, adorava crianças, era forte...”

 

E Andrew, que desde sempre compreendera as coisas, perguntara: ”Já estiveste em Pearl Harbour?”

 

Ela respondera: ”Embora não saiba porquê não estou ainda preparada. Vais pensar que isto é estranho mas um dia gostaria de visitar o local onde morreu o meu pai, mas não sozinha. Gostaria de levar os meus filhos.”

 

Fora então que Andrew prometera: ”Um dia, quando tivermos filhos e eles puderem compreender, tratarei disso.”

 

Uma promessa... há vinte anos.

 

Enquanto o Santa Isabella atracava ao Cais 10 e os cabos eram passados, Andrew informou Célia:

 

- Vamos lá amanhã; está tudo combinado. Vamos ao Monumento ao Arizona, ver o barco do teu pai e o local onde morreu. E, tal como desejavas, os teus filhos estarão contigo.

 

Os lábios de Célia tremeram. Estava incapaz de falar e apenas conseguiu segurar as mãos de Andrew. Os olhos dela contemplavam-no com um ar de tal adoração que poucos homens vêem durante a vida.

 

Quando conseguiu dizer qualquer coisa, a voz embargada pela emoção, declarou:

 

- És maravilhoso, um homem maravilhoso!

 

Às dez horas da manhã já um motorista com uma limusina alugada, pedida por Andrew, esperava a família à entrada do Kahala Hilton Hotel. O dia de Agosto estava quente, se bem que não abafado, com uma ligeira brisa do sul - os Havaianos chamavam-lhe tempo Kona. Uns escassos tufos de cúmulos ponteavam o céu limpo.

 

Um pouco mais cedo Lisa e Bruce tinham-se reunido aos pais para tomarem um pequeno-almoço na aprazível suite com vista para o campo de golfe Waialae e para o oceano Pacífico. O dia de hoje e o de ontem tinham sido uma constante e feliz corrente de conversa enquanto os três enchiam, com descrições, experiências e animadas perguntas, o espaço de seis meses em que tinham estado separados. Lisa completara, com um entusiasmo feliz, o seu ano de caloira em Stanford. Bruce, que em breve iria entrar no seu último ano no Hill, candidatara-se à admissão no Williams College de Massachusetts, em si mesmo histórico, para continuar a sua paixão académica.

 

Como parte desse interesse, e em antecipação do dia de hoje, Bruce anunciou que completara há pouco um estudo sobre o ataque japonês de 1941 a Pearl Harbour. Informou os outros com toda a tranquilidade.

 

- Se tiverem quaisquer questões penso estar apto a responder.

 

- És insuportável! - dissera-lhe Lisa. - Mas, como o teu serviço é gratuito, talvez condescenda em utilizá-lo.

 

Célia, embora conseguindo acompanhar à mesa a conversa da família, sentia dentro de si uma pouco habitual sensação de afastamento. Era um sentimento difícil de definir mas era como se, naquele dia, tivesse regressado parte do seu passado - ou regressasse em breve - para se juntar ao presente. Ao acordar nessa manhã tivera um pressentimento de ocasião solene que persistira e vestira-se de acordo, escolhendo com cuidado uma saia branca pregueada e uma blusa azul-marinho. Calçava sandálias brancas e levaria uma mala de mão branca. O efeito, assim o calculara, não era nem casual nem formal, mas inteligente e... as palavras surgiram: cuidado e respeito. Ao inspeccionar-se antes de ir ter com os outros ocorreu-lhe um pensamento, um pensamento a que ao princípio resistiu mas que depois deixou tomar forma: ”Se o meu pai tivesse vivido até este dia para me ver agora: a sua filha com a sua própria família!”

 

Como se tivessem adivinhado os sentimentos de Célia os outros tinham-se vestido menos casualmente do que lhes era habitual. Lisa, que no dia anterior vestia ganga, pusera hoje um vestido florido simples mas atraente; realçava a sua juventude e beleza e por um momento Célia reviu-se na idade de Lisa - dezanove primaveras - já lá iam vinte e sete anos.

 

Andrew escolhera um fato leve e, pela primeira vez em muito tempo, tinha gravata. O marido, pensou Célia, que dentro em pouco atingiria os cinquenta e cujo cabelo estava todo cinzento, tinha um aspecto cada vez mais distinto à medida que os anos iam passando. Bruce, ainda garoto apesar do seu ar sério, estava bem num casaco da Hill School com camisa aberta.

 

Quando a família se aproximou da limusina o motorista levou delicadamente a mão ao boné e abriu a porta de trás. Dirigiu-se a Andrew:

 

- Senhor Jordan? Vai para o Arizona, não é verdade?

 

- Isso mesmo. - Andrew consultou um papel. - Mas em vez de irmos para o Centro dos Visitantes, entraremos pela doca privativa do CINCPACFLT.

 

O motorista olhou-o:

 

- Deve ser um VIP!

 

- Eu não - disse Andrew sorrindo e olhando para Célia. - A minha esposa é que é.

 

Dentro da limusina, já a caminho, Lisa perguntou:

 

- O que é o CINC qualquer coisa? Foi Bruce quem respondeu:

 

- Comandante-em-chefe da frota do Pacífico. Eh, pai, andou a puxar cordelinhos!

 

Célia olhou para Andrew com curiosidade:

 

- Como é que arranjaste isto tudo?

 

- Usei o teu nome - disse-lhe ele. - Caso não o saibas, minha querida, ainda é capaz de cortar gelo e tens muita gente que te admira.

 

Quando os outros o pressionaram ele admitiu:

 

- Se querem mesmo saber telefonei para o gerente regional da Felding-Roth no Havai.

 

- Tano Akamura? - perguntou Célia.

 

- Exactamente. E ele pediu-me para te dizer que todos sentem a tua falta. Bem, por acaso a mulher de Akamura tem uma irmã casada com um almirante. O resto foi fácil. E lá vamos nós ver o Arizona numa barca de almirante.

 

- Papá - comentou Bruce -, isso é o que se chama um trabalho perfeito.

 

- Obrigado. - O pai sorriu.

 

- Obrigado a ti. - disse Célia. E depois perguntou: - Quando falaste com Tano por acaso perguntaste-lhe como iam as coisas?

 

Andrew hesitou.

 

- Referes-te à Felding-Roth... e ao Montayne?

 

- Sim.

 

Ele tivera esperanças que ela não formulasse tal pergunta mas respondeu:

 

- Aparentemente muito bem.

 

- Não foi só isso que descobriste - insistiu Célia. - Conta-me o resto. Andrew acrescentou com relutância:

 

- Ele disse que o Montayne era um grande sucesso e, foram as suas palavras exactas: ”vende-se que é uma loucura”.

 

Célia abanou a cabeça. Na verdade toda a gente estava à espera disso e tal só confirmava as notícias surgidas logo após o lançamento do Montayne. Mas reforçava uma pergunta que recentemente lhe ocorrera ao espírito: a sua demissão fora apressada e louca? Depois, com determinação, afastou tais pensamentos neste dia, em especial neste dia.

 

A limusina avançava com suavidade usando as vias Lunalilo e Moanalua, passando pela parte baixa de Honolulu com os seus prédios altos. Cerca de vinte minutos depois deixavam a via rápida perto do Estádio Aloha e entravam, pouco depois, na Reserva Naval dos Estados Unidos em Aiea Bay. A minúscula doca privativa do CINCPACFLT era uma área agradável usada pelas famílias dos militares.

 

Uma lancha naval de quinze metros - a que davam o nome de barca de almirante - já os esperava na doca com os motores diesel a trabalhar. O barco era tripulado por dois marinheiros em fardas brancas. Meia dúzia de outros passageiros já estavam sentados debaixo do toldo no convés principal.

 

Um dos marinheiros, com uma braçadeira de serviço, soltou as amarras assim que os Jordan entraram a bordo. O timoneiro, numa ponte a meio do barco, afastou este da doca e entrou no tráfico intenso de Pearl Harbour.

 

A brisa já sentida em terra era mais forte na água e a ondulação batia no casco da embarcação mandando de vez em quando alguns salpicos para dentro. A água do porto era de um verde-acinzentado carregado e pouco ou nada se via abaixo da superfície.

 

A guia fez um comentário quando circularam a ilha Ford no sentido contrário. Andrew, Lisa e Bruce escutaram com atenção mas Célia, preocupada com as suas memórias, sentia os seus pensamentos divagarem e só apanhou uns bocados.

 

- Domingo de manhã, sete de Dezembro de mil novecentos e quarenta e um... bombardeiros de mergulho japoneses, com torpedos, caças, mini-submarinos, atacaram sem aviso... a primeira vaga às sete e cinquenta e cinco... às oito e cinco as explosões abalaram a carreira de navios... oito e dez, o Arizona, atingido pela salva seguinte, explodiu e afundou-se... pelas oito e doze o Utah estava virado... o Califórnia e o West Virgínia estavam no fundo... oOklahoma adornou... dois mil quatrocentos e três mortos e mil cento e setenta e oito feridos...

 

Foi haja tanto tempo, pensou Célia, há trinta e seis anos; mais de metade da sua vida. No entanto nunca, como naquele momento, lhe parecera tão próximo.

 

A lancha, agitada pela ondulação do canal de entrada em Pearl Harbour, alterou o rumo ao abordar a ponta sul da ilha Ford. De repente, mesmo na frente, estava o Monumento ao Arizona, branco à luz do Sol.

 

”Foi aqui que aconteceu e aqui estou finalmente.” Ao espírito de Célia ocorreram os versos de um poema. ”Dai-me um abrigo de calma... E então farei a minha peregrinação.” Ao olhá-lo para além do casco do barco intrometeu-se um pensamento absurdo: O monumento era diferente do que ela esperava. Parecia mais um longo vagão branco mais baixo no centro.

 

De novo o comentário:

 

- As palavras do arquitecto: ”A forma, em que a estrutura se abate no centro mas permanece vigorosa e forte nos extremos, expressa a derrota inicial e a vitória final...”

 

O arquitecto pensara naquelas palavras antes ou depois? De qualquer forma não interessava. O que interessava era o navio e agora a sua silhueta estava a ficar visível - era incrível mas estava apenas a alguns pés abaixo da superfície da água verde-acinzentada.

 

- ... e o monumento cobre a nave de guerra afundada.

 

”O navio do meu pai. O seu lar quando não estava em casa e onde morreu... a cinco mil milhas de Filadélfia, tinha eu dez anos.”

 

Andrew segurou na mão de Célia. Entre os passageiros do barco parecia ter-se estabelecido um constrangimento, uma calma, como se compartilhassem sensibilidades comuns.

 

O timoneiro colocou-os com maestria no pontão de entrada do monumento. A guia prendeu as amarras e a família Jordan, juntamente com os outros, desembarcou. Sob os seus pés já não sentiam movimento pois o monumento apoiava-se por pilares ao fundo do porto. Em nenhum ponto tocava no navio.

 

Perto do centro do monumento Célia, Andrew e Lisa pararam junto a uma abertura na estrutura, olhando lá para baixo onde se via o convés principal do Arizona, assustador pela sua proximidade.

 

”Algures por debaixo de nós estão os ossos do meu pai, ou o que deles resta. Como terá morrido? Foi uma morte rápida e misericordiosa ou terá sido terrível? Oh, espero que tenha sido a primeira.”

 

Bruce, que se afastara, regressou para junto deles:

 

- Encontrei o nome do avô.

 

Os pais e a irmã seguiram-no até que, ao lado de muitos outros já presentes, todos cabisbaixos, ficaram frente a uma parede de mármore, um mar de nomes e postos.

 

Nos ferozes minutos do ataque japonês só no Arizona morreram 1177. Mais tarde revelou-se impossível erguer o navio que se tornou - para mais de mil mortos - o túmulo final.

 

Lia-se numa inscrição:

 

EM MEMÓRIA DOS HOMENS BRAVOS QUE AQUI REPOUSAM

 

Bruce apontou:

 

- Ali, mamã.

 

W F DE GREY

 

Caíram num silêncio respeitoso, cada um com os seus próprios pensamentos; foi então Célia que os conduziu ao sítio onde tinham estado para contemplar o casco afundado de onde há muito fora removida a supra-estrutura. A sua proximidade fascinava-a. Enquanto olhavam uma bolha de óleo rebentou vinda lá do fundo. O óleo espalhou-se como uma pétala na superfície da água. Uns minutos depois o processo repetiu-se.

 

- Estas bolhas de óleo são do que resta dos tanques de combustível - explicou Bruce. - Têm aparecido desta maneira desde que o barco afundou. Ninguém sabe quanto tempo durará o óleo mas poderá perdurar mais uns vinte anos.

 

Célia tocou no braço do filho.

 

”Este é o meu filho, o teu neto. Está a explicar o que se passou com o teu navio.”

 

- Gostaria de ter conhecido o avô - disse Lisa.

 

Célia ia falar quando de repente, sem aviso, as suas defesas emocionais vacilaram e rebentaram. Foi como se a simples mas comovente frase de Lisa fosse a última gota que fez a escala em equilíbrio precário tombar. A dor e a tristeza imergiram Célia. Dor pelo pai que conhecera durante tão pouco tempo mas que amara e cuja memória aqueles momentos pungentes em Pearl Harbour tinham feito regressar; recordações da mãe que morrera dez anos atrás, naquele mesmo mês; e, combinando-se com estas dores antigas revividas, a dor mais próxima do seu insucesso, que agora lhe parecia resultado de um grande erro, o fim ignóbil da sua carreira. Esta última fora, nos seis últimos meses, afastada. Agora, como juros adiados mas que tinham de ser pagos, juntaram-se à emoção e ela cedeu. Ignorando tudo o que a rodeava, soluçou.

 

Ao ver o que estava a acontecer Andrew quis ampará-la mas Lisa e Bruce foram mais rápidos. Os dois filhos abraçaram a mãe, confortando-a, chorando também sem qualquer vergonha.

 

Andrew, carinhosamente, rodeou os três com os seus braços.

 

Nessa noite a família reuniu-se para jantar no Salão Maile do Kahala Hilton. Ao sentar-se, as primeiras palavras de Célia foram:

 

- Querido Andrew, gostaria que bebêssemos champanhe.

 

- Claro. - Chamando um empregado Andrew pediu Taittinger, que sabia ser o favorito da esposa, e depois disse-lhe: - Estás com um ar radiante.

 

- E sinto-me radiante - respondeu ela com um sorriso para todos.

 

Desde a manhã pouco se tinha falado da excursão a Pearl Harbour. No monumento, durante os poucos minutos da quebra de Célia, as outras pessoas por perto tinham respeitosamente olhado para outro lado e Andrew sentiu que o Arizona, evocando memórias tristes e às vezes trágicas, vira já muitas vezes cenas semelhantes de dor.

 

Célia dormira quase toda a tarde mas depois fora às compras numa das lojas do hotel onde adquirira um alegre vestido vermelho e branco em estilo havaiano. Trazia-o agora vestido.

 

- Quando estiveres cansada desse vestido, mamã - disse Lisa, admirando-o -, não me importo de ficar com ele.

 

Nessa altura chegou o champanhe. Quando os copos estavam já servidos Célia ergueu o seu:

 

- A todos nós! Adoro-vos e agradeço-vos! Quero que saibam que nunca me esquecerei do que aconteceu hoje nem do vosso conforto e compreensão. Mas devem também saber que já ultrapassei a crise. De certa forma acho que foi um processo de limpeza, uma... como é mesmo a palavra?

 

-- Catarse - disse Bruce. - Na verdade é uma palavra grega, significa purificação. Aristóteles usou-a para...

 

- Alto aí! - Lisa, debruçando-se sobre a mesa, deu uma palmadinha no irmão. - Às vezes exageras!

 

Andrew riu-se e todos eles, incluindo Bruce, o acompanharam.

 

- Continua lá, mamã - disse Lisa.

 

- Bem - disse Célia -, decidi que já era tempo de deixar de ter pena de mim própria, tenho de arrumar a minha vida. Foram umas férias maravilhosas, as melhores que já tive, mas daqui a dois dias estão terminadas. - Olhou com orgulho para Andrew. - Penso que estás pronto a regressar ao teu trabalho.

 

- Pronto e ansioso - concordou ele.

 

- Compreendo-te - comentou Célia - porque sinto o mesmo. Não vou continuar desempregada. Pretendo encontrar trabalho.

 

- Que vai fazer? - perguntou Bruce.

 

Célia bebeu um pouco de champanhe antes de responder.

 

- Já pensei muito no assunto, interroguei-me, e sempre cheguei à mesma resposta: aquilo que melhor conheço é a indústria farmacêutica e nela devo continuar.

 

- Sim, é verdade - garantiu Andrew.

 

- Podes voltar à Felding-Roth? - perguntou Lisa.

 

- Queimei todas as pontes. - Célia abanou a cabeça. - Tenho a certeza de que a Felding-Roth nunca se admitiria agora mesmo que me oferecesse. Não, vou tentar outras casas.

 

- Se nenhuma delas te agarrar à primeira é porque precisa de afinar o senso comercial - disse Andrew. - Já pensaste em quais?

 

- Já. - Célia expôs as suas ideias. - Há uma casa que admiro acima de todas as outras. A Merck. A Merck é, por assim dizer, o Rolls-Royce da indústria farmacêutica. Será a primeira que contactarei.

 

- E depois?

 

- Gosto da Smith Kline assim como da Upjohn. Sentiria orgulho em trabalhar para qualquer destas casas. Depois, se precisar, alongo a lista.

 

- A minha previsão é que não terás de o fazer. - Andrew ergueu o copo. - À felizarda casa que apanhar Célia Jordan!

 

Mais tarde, já depois do jantar, Bruce perguntou:

 

- Que fazemos amanhã?

 

- Uma vez que é o nosso último dia completo no Havai - sugeriu Célia que tal um repouso na praia?

 

Concordaram que era mesmo disso que estavam a precisar: um dia de repouso.

 

No quarto da suite dos Jordan, faltavam alguns minutos para as seis da manhã, o telefone tocou, estridente. Calou-se uns instantes antes de recomeçar.

 

Célia dormia profundamente. A seu lado, Andrew, na fronteira entre o sono e a consciência, espreguiçou-se com a insistência do telefone.

 

Na noite passada, ao deitarem-se, tinham deixado abertas as portas de vidro da varanda para que entrasse a brisa suave e o murmúrio do mar. Agora, no lusco-fusco da alvorada, os objectos lá fora estavam a ficar visíveis - como se um director de cena estivesse lentamente a abrir as luzes para a cena seguinte. Daí a um quarto de hora o Sol subiria no horizonte.

 

Andrew sentou-se, acordado, o som do telefone penetrara no seu consciente. Estendeu a mão para atender a chamada.

 

Célia mexeu-se e perguntou, sonolenta:

 

- Que horas são?

 

- Cedo como um raio! - Andrew perguntou então ao telefone: - Sim... quem fala?

 

- Tenho uma chamada pessoal para a senhora Jordan - respondeu uma voz de telefonista.

 

- De quem?

 

Uma outra voz feminina entrou na linha:

 

- Do Seth Feingold da Felding-Roth, Nova Jérsia.

 

- O senhor Feingold saberá por acaso que horas são aqui?

 

- Sim, senhor. Ele sabe.

 

Célia estava sentada, já bem acordada.

 

- É o Seth? - Quando Andrew fez sinal que sim ela disse: - Eu atendo. Andrew passou-lhe o telefone. Depois de outra mudança de telefonista Célia ouviu a voz do velho controlador:

 

- És tu, Célia?

 

- Sim, sou.

 

- Acabaram de me dizer que te acordei: peço muitas desculpas. Mas aqui é meio-dia. Simplesmente nós não conseguíamos esperar mais tempo.

 

Célia sentiu-se confundida.

 

- Quem é o ”nós”? E não conseguiam esperar mais tempo para quê?

 

- Célia, o que tenho para te dizer é extremamente importante. Por favor, ouve-me com toda a atenção.

 

Havia tensão na voz de Feingold. Célia disse:

 

- Podes continuar.

 

- Estou a falar em nome do conselho de directores e a pedido desse mesmo conselho. Deram-me instruções para te informar de que, em primeiro lugar, quando te demitiste, por razões que todos conhecemos, eras tu quem tinha razão e todos nós estávamos... - A voz falhou mas depois prosseguiu: - ... todos nós estávamos errados.

 

Ela imaginou se estaria a ouvir bem ou se estaria de facto acordada.

 

- Seth, não te estou a perceber. Não podes estar a falar do Montayne.

 

- Infelizmente, estou.

 

- Mas, pelo que li e ouvi, o Montayne é um sucesso espectacular. - Estava a lembrar-se do relatório positivo que Andrew ainda ontem lhe transmitira da parte de Tano, o gerente da Felding-Roth no Havai.

 

- Isso pensávamos todos nós até há bem pouco tempo atrás. Mas tudo isso mudou... uma brusca mudança. E agora temos entre mãos uma situação terrível.

 

- Espera um bocadinho, se faz favor. Tapando o bocal do telefone Célia disse a Andrew.

 

- Aconteceu qualquer coisa importante. Ainda não sei bem o que foi. Vai ouvir na extensão.

 

Havia uma extensão na casa de banho. Célia esperou que Andrew pegasse nela antes de dizer:

 

- Seth, podes continuar.

 

- Aquilo que te disse era a primeira coisa, Célia. A segunda é que o conselho te quer de volta.

 

Ela continuava a não acreditar no que ouvia. Após uma pausa Célia disse:

 

- Acho que é melhor começar tudo do princípio.

 

- Está bem. Vou recomeçar.

 

Célia sentiu Seth a organizar os pensamentos e, enquanto aguardava, tentava imaginar por que era ele que tinha telefonado em vez de ser Sam Hawthorne.

 

- Recordas-te dos relatórios sobre os bebés deficientes? Bebés vegetais, uma palavra horrível. Os relatórios da Austrália, de França, de Espanha?

 

- É claro.

 

- Tem havido muitos mais, desses países e de outros. Tantos que não restam dúvidas de que o Montayne é a causa.

 

- Oh, meu Deus! - Célia levou a mão livre ao rosto.

 

O seu primeiro pensamento, de choque, foi: ”Não pode ser verdade! Isto é apenas um sonho mau, não está a acontecer. Não quero que provem que tinha razão, pelo menos desta maneira.” Viu então Andrew atrás da porta da casa de banho aberta, o rosto crispado, e reparou na luz mais clara da alvorada; soube que o que estava a acontecer não era um sonho, era real.

 

Seth continuou, fornecendo pormenores:

 

- ... começou há dois meses e meio com alguns casos dispersos... casos similares àqueles primeiros... depois os números subiram... agora é uma torrente... em todos as mães tomaram Montayne durante a gravidez... até agora quase trezentos bebés afectados a nível mundial... claro que surgirão mais, sobretudo nos Estados Unidos onde o Montayne só desde há sete meses está à venda...

 

Célia fechou os olhos enquanto a história de horror aumentava. Centenas de bebés que podiam ter nascido normais eram agora criaturas que nunca pensariam, nunca andariam, nunca se sentariam sozinhas, durante uma vida inteira nada teriam de normal... E surgiriam mais ainda.

 

Queria soltar lágrimas amargas, gritar bem alto de raiva e frustração. Mas gritar a quem? A ninguém. E o choro e a raiva eram inúteis e tardios.

 

Poderia ela ter feito algo mais para evitar tão triste tragédia?

 

”Sim!”

 

Podia ter levantado a voz quando se demitiu, tornar públicas as suas dúvidas sobre o Montayne em vez de se manter silenciosa. Mas se o tivesse feito teria mesmo mudado as coisas? Tê-la-iam escutado? Provavelmente não, embora talvez alguém o tivesse feito e, se por isso um só bebé fosse salvo, teria valido a pena o seu esforço.

 

Como se estivesse a ler-lhe o espírito a cinco mil milhas de distância Seth disse:

 

- Todos nós nos temos interrogado, Célia. Temos passado noites de insónia, a consciência pesada e não há um só entre nós que não leve alguma culpa para o túmulo. Mas a tua consciência pode estar tranquila. Fizeste o que podias. Não foi por falta tua que ignorámos o teu aviso.

 

Célia pensou: seria tão simples e confortável aceitar aquele ponto de vista. Mas sabia que as dúvidas continuariam dentro de si até ao fim dos seus dias. De repente ocorreu-lhe um novo e perturbante pensamento.

 

- Tudo o que acabas de me dizer, Seth, é já do conhecimento público? Já avisaram as mulheres para que deixem de tomar Montayne?

 

- Bem... as coisas não estão exactamente assim. Houve alguma publicidade, vaga, embora surpreendentemente, não muita.

 

Por isso nem ela nem Andrew tinham ouvido a mínima coisa contra o Montayne durante a viagem.

 

Seth continuou:

 

- Aparentemente ninguém nos noticiários ainda juntou os bocados da história. Mas receio de que tal não demore muito mais.

 

- Receias...

 

Era óbvio, apercebeu-se Célia, de que não fora feita qualquer tentativa para criar uma publicidade maciça o que significava que o ”Montayne” continuava a ser vendido e usado. Célia recordou de novo o que Tano dissera a Andrew a respeito do Montayne: ”Vende-se que é uma loucura”. Sentiu um calafrio percorrê-la ao perguntar:

 

- Que foi já feito no sentido de retirar o medicamento e recolher as embalagens existentes?

 

Seth disse com cuidado:

 

- Gironde-Chimie disse-nos que iria retirar o Montayne de França esta semana. Segundo me parece os Britânicos preparam-se para o mesmo. E o Governo australiano já suspendeu lá as vendas.

 

A voz de Célia elevou-se num grito:

 

- Estou a falar nos Estados Unidos.

 

- Asseguro-te Célia, de que fizemos tudo aquilo que a lei exige. Cada bocadinho de informação que chega à Felding-Roth é transmitida à FDA, em Washington. O Vince Lord cuida disso pessoalmente. Neste momento estamos a esperar uma decisão da FDA.

 

- À espera de uma decisão! Santo nome de Deus! Para quê esperar? Que outra decisão pode haver que não seja retirar o Montayne?

 

Seth começou a defender-se:

 

- Os nossos advogados recomendaram-nos que nesta fase era melhor esperar primeiro pela ordem da FDA.

 

Célia estava quase a gritar. Contendo-se conseguiu retorquir:

 

- A FDA é lenta. A sua máquina pode demorar semanas!

 

- Talvez aconteça isso. Mas os advogados insistem que se nós próprios tomarmos a decisão de o retirar do mercado tal pode interpretar-se como uma admissão de erro e, consequentemente, de culpa. Mesmo agora as consequências financeiras...

 

- Que interessam as finanças quando há mulheres grávidas a tomar Montayne? Quando bebés que ainda não nasceram...

 

Célia parou, compreendendo que a discussão era inútil, a conversa não conduzia a ponto nenhum e mais uma vez pensando por que estava a falar com o controlador em vez de com Sam Hawthorne.

 

- Quero falar com o Sam - disse ela com ênfase.

 

- Infelizmente não é possível. Pelo menos agora. - Houve uma pausa constrangida. - Sam está... bem, mas precisa de ti. Está com alguns problemas pessoais. Essa é outra razão pela qual te queremos de volta.

 

- Conversa fiada - cortou Célia. - Que queres dizer? Ouviu um longo e profundo suspiro.

 

- Só te ia dizer isto mais tarde porque sei que te vai perturbar. - A voz de Seth era baixa e triste. - Recordas-te que... um pouco antes de saíres, Sam teve um neto?

 

- O bebé da Juliet. Sei. - Célia relembrou a comemoração no gabinete de Sam, que ela compartilhara embora mais tarde a tivesse ensombrado com as suas dúvidas acerca do Montayne.

 

- Ao que parece quando Juliet ficou grávida sofria muito de náuseas matinais. Sam deu-lhe Montayne.

 

Ao ouvir estas últimas palavras de Seth ela sentiu-se fria como gelo. Teve uma horrível premonição daquilo que ele diria a seguir.

 

- Na semana passada os médicos concluíram que o bebé de Juliet foi severamente afectado pelo medicamento. - A voz de Seth estava quase em rotura. - O neto de Sam é deficiente mental e tem membros que não funcionam. Um vegetal como todos os outros.

 

Célia emitiu um grito estrangulado de dor e angústia logo substituído pela incredulidade.

 

- Como é que o Sam fez uma coisa dessas? Nessa altura o Montayne ainda não fora aprovado.

 

- Existiam amostras médicas, como sabes. Sam usou-as sem dizer a mais ninguém senão a Juliet. Suponho que tinha tanta fé no Montayne que julgou não haver qualquer risco. Houve também um certo envolvimento pessoal e até, talvez, orgulho. Não sei se te lembras que foi pessoalmente Sam quem adquiriu o Montayne à Gironde-Chimie.

 

- Sim, lembro-me.

 

Os pensamentos de Célia rodopiavam. Uma mistura de frustração, raiva, amargura e piedade. Seth interrompeu-os.

 

- Disse-te que precisamos de ti e é bem verdade. Como podes imaginar o Sam está desfeito pela dor e pela culpa e, de momento, incapaz de funcionar. Mas isso é apenas uma parte da questão. As coisas por aqui estão uma barafunda. Somos como um navio danificado e sem leme e precisamos de ti para avaliar os estragos e assumir o comando. És a única com experiência e conhecimentos suficientes. Por outro lado todos nós, incluindo o conselho, respeitamos as tuas decisões, em especial agora. E, é claro, virás como vice-presidente executiva. Não vou entrar em questões financeiras mas sempre te digo que são generosas.

 

Vice-presidente executiva da Felding-Roth. Um degrau apenas abaixo da presidência e mais alto do que vice-presidente de vendas, a promoção que teria tido não fora a sua demissão. Outrora, pensou Célia, uma tal oferta seria motivo de satisfação, um marco luminoso na sua vida. Era estranho como de repente significava tão pouco.

 

- Já deves ter adivinhado - disse Seth - que há outros, alguns membros do conselho, aqui comigo a ouvir a nossa conversa. Estamos aqui à espera, esperançados de que a tua resposta seja um sim.

 

Célia reparou que Andrew lhe fazia sinal da casa de banho. Pela segunda vez desde o início do telefonema pediu:

 

- Se não te importares, espera um pouco.

 

Andrew pendurou a extensão e veio ter com ela. Como já antes fizera Célia tapou o telefone e perguntou-lhe:

 

- Que pensas tu?

 

- A decisão tem de ser tua - disse-lhe Andrew. - Mas lembra-te de uma coisa: se regressares não vai interessar o facto de te teres demitido e afastado. Recairão sobre ti algumas das responsabilidades pela porcaria causada pelo Montayne.

 

- Eu sei. - Ela pensou. - Mas estive muito tempo na companhia. Foram bons anos e agora eles precisam de mim. No entanto só voltarei se...

 

Voltou a falar ao telefone:

 

- Seth, escutei com atenção tudo o que me contaste. Aceito, mas com uma condição.

 

- Diz.

 

- O Montayne deve ser retirado do mercado ainda hoje pela Felding-Roth assim como deverá ser apresentado um comunicado público sobre os seus riscos. Não amanhã, nem na semana que se segue, não há que esperar pela decisão da FDA. Hoje.

 

- Isso é impossível, Célia. Já te expliquei a recomendação dos nossos advogados, a questão da culpabilidade. Estaríamos a convidar a milhões de dólares de indemnizações, o bastante para levar a companhia à falência.

 

- Seja como for haverá casos desses.

 

- Sabemos disso. Mas não queremos piorar a situação. A suspensão deve dar-se dentro em pouco tempo. Entretanto, contigo aqui, poderíamos discutir...

 

- Não quero isso discutido. Quero-o feito. Quero o assunto na rádio e na televisão nacionais hoje e em todos os jornais do país dentro de vinte e quatro horas. Ficarei a ver e a ouvir. De contrário não chegamos a acordo.

 

Foi a vez de Seth dizer:

 

- Só um momento.

 

Célia podia ouvir a discussão abafada no outro lado da linha. Era óbvio que havia divergências, a certa altura ouviu Seth dizer ”Ela é dura” e, pouco depois, ”Claro que está a falar a sério. E não se esqueçam que precisamos mais dela que ela precisa de nós”.

 

O debate em Nova Jérsia prosseguiu durante mais alguns minutos, a maior parte inaudível para Célia. Por fim Seth voltou ao telefone.

 

- Célia, aceitamos as tuas condições. Aquilo em que insistes será feito imediatamente. Já. Garanto-o pessoalmente. Agora... quanto tempo demoras a cá chegar?

 

- Tomarei o primeiro avião que sair daqui. Espera-me no escritório amanhã.

 

Conseguiram arranjar quatro lugares num 747 da United Airlines que partia de Honolulu às 16.50. O voo era sem escalas até Chicago onde mudariam para outro avião que devia chegar a Nova Iorque às 9.00, hora local. Célia tencionava dormir o máximo que pudesse durante a viagem para ir para a sede da Felding-Roth nessa mesma manhã.

 

Lisa e Bruce, que tinham planeado passar mais dois dias no Havai, decidiram regressar com os pais. Como Lisa explicou:

 

- Já não os vemos há tanto tempo que queremos estar com vocês todo o tempo que pudermos. Além disso, se ficar sozinha, sei que ficarei triste e se calhar até chorarei ao pensar naqueles infelizes bebés deformados.

 

Durante um apressado pequeno-almoço na suite de Andrew e Célia, interrompido por vários telefonemas relacionados com a partida, Andrew explicara a trágica situação aos filhos...

 

- Falarei sobre isso - dissera Célia -, mas, se não se importarem, mais tarde. Penso que podem dizer que me sinto chocada neste momento.

 

Continuava a pensar se teria feito bem em aceitar regressar, mas depois relembrou a si própria que a decisão de retirar o Montayne imediatamente pelo menos salvaria alguns bebés e mães de um destino terrível.

 

Que a promessa da Felding-Roth a Célia fora mantida tornou-se evidente pouco depois de terem saído do Kahala Hilton a caminho do aeroporto de Honolulu. Um programa musical de rádio foi interrompido para transmitir um boletim especial de notícias. Comunicaram que o Montayne acabava de ser retirado do mercado por causa de ”possíveis efeitos perigosos que estavam a ser investigados” e recomendava aos médicos que deixassem de prescrever o medicamento e às mulheres grávidas que deixassem de tomá-lo.

 

Num noticiário normal, pouco depois, a suspensão do Montayne era o assunto em primeiro lugar e, no aeroporto, a edição vespertina do Honolulu Star-Bulletin incluía na sua primeira página um artigo da Associated Press sobre o Montayne. Tudo leva a crer que começara a barragem de publicidade e que esta iria continuar.

 

Para a família Jordan o dia revelou-se muito diferente daquele que tinham programado na noite anterior.

 

O avião estava cheio mas os quatro lugares seguidos que tinham conseguido na parte da frente permitia pelo menos uma conversa privada e Célia começou-a:

 

- Obrigado por terem tido paciência. Já podem fazer as perguntas que quiserem.

 

Bruce foi o primeiro.

 

- Como foi possível acontecer uma coisa destas, mamã: um medicamento aprovado mostrar ter efeitos tão horrorosos?

 

Ela ordenou os pensamentos antes de responder.

 

- Primeiro tens de te lembrar - começou Célia - que um fármaco, qualquer fármaco, é uma substância química estranha ao organismo. É lá colocada, normalmente quando um médico a prescreve, com o objectivo de corrigir algo que está errado no corpo. Mas assim como pode fazer bem também pode fazer mal. A parte maléfica é chamada efeito colateral, embora possam também existir efeitos colaterais inofensivos.

 

Andrew acrescentou:

 

- Existe ainda uma coisa conhecida como avaliação do ”risco versus benefício”. Um médico tem de avaliar se o risco de recorrer a um determinado fármaco vale a pena ser corrido para obter os resultados que ele e o doente pretendem. Alguns fármacos envolvem mais riscos que outros. Até com a vulgar aspirina há riscos, às vezes um risco grave uma vez que a aspirina pode provocar hemorragias internas.

 

- Mas decerto - disse Lisa - que as companhias farmacêuticas ensaiam os fármacos antes de serem postos à venda e a FDA destina-se a procurar possíveis riscos. Quais são e até que ponto o são.

 

- Sim, tudo isso é verdade - concordou Célia. - Mas muitas vezes as pessoas não compreendem que há limitações a esses ensaios, mesmo nos dias de hoje. Quando um novo fármaco é ensaiado começa-se com animais. Se os dados obtidos nos animais parecem estar bem passa-se a voluntários humanos. Tudo isto demora vários anos. Mas quando os ensaios humanos são dados por concluídos, e tudo parece estar bem em relação ao fármaco, este foi utilizado apenas numa centena, talvez num milhar de indivíduos.

 

- E nenhum desses indivíduos - disse Andrew - pode ter tido qualquer efeito adverso, ou talvez só tenha tido efeitos mínimos, sem importância.

 

Célia abanou a cabeça em concordância e continuou:

 

- Mas quando o fármaco chega ao mercado, e é tomado por dezenas de milhares, até milhões, podem surgir reacções adversas nalguns indivíduos, às vezes numa pequena percentagem da população, reacções que não foram observadas durante os ensaios. É claro que se a percentagem for suficientemente elevada ou as novas reacções forem graves ou fatais, o fármaco tem de ser retirado. O ponto importante é que não existe qualquer meio para verificar até que ponto um fármaco é seguro antes de ser usado amplamente.

 

- Essas reacções - disse Bruce - em princípio devem ser comunicadas, não devem?

 

- Sim. E se uma companhia farmacêutica ouve falar delas as leis deste país obrigam-na a comunicá-las à FDA. Em geral isso é o que acontece.

 

A fronte de Lisa enrugou-se:

 

- Só ”em geral”?

 

- É que às vezes - explicou Célia - é difícil decidir se se trata de uma verdadeira reacção adversa a um fármaco ou é provocada por outra coisa qualquer. Muitas vezes é uma questão científica que dá azo a discordâncias genuínas e honestas. É preciso não esquecer que uma decisão apressada pode levar à perda de um medicamento bom, talvez até salvador de vidas.

 

- No caso do Montayne - recordou-lhes Andrew - tudo foi feito ao contrário. - Disse, dirigindo-se a Lisa e Bruce: - A vossa mãe tinha razão quanto a essas reacções, os outros estavam errados.

 

Célia abanou a cabeça.

 

- A verdade não é bem essa. A minha opinião era mais instintiva, não era uma avaliação científica, um instinto de que podia estar errado.

 

- Mas não estava - disse Andrew. - Isso é que é importante. Mais ainda: tu defendeste aquilo em que acreditavas e tiveste a coragem moral de te demitires em nome dos teus princípios, o que raras são as pessoas que o fazem. E por tudo isto, minha querida, esta família sente-se orgulhosa de ti.

 

- Também o digo! - ecoou Bruce. Lisa inclinou-se para dar um beijo à mãe:

 

- E eu também, mamã.

 

Serviram uma refeição. Enquanto comia sem entusiasmo o conteúdo do seu tabuleiro, Andrew observou:

 

- A única coisa que se pode dizer sobre a comida dos aviões é que ajuda a passar o tempo.

 

Mas em breve regressavam àquilo que lhes ocupava os espíritos. Foi Bruce quem começou por dizer:

 

- Uma coisa em que é difícil de acreditar, mamã, é a ignorância dos jornais e da televisão sobre o que se estava a passar com o Montayne, pelo menos, e até hoje, não tinham um quadro geral-da situação.

 

Foi Andrew quem respondeu:

 

- Pode acontecer, aliás já aconteceu antes quase da mesma maneira. Da outra vez foi com a Thalidomide, um assunto sobre o qual li muita coisa.

 

Pela primeira vez em muitas horas Célia sorriu:

 

- Esta família tem dois barras.

 

- Em mil novecentos e sessenta e um e sessenta e dois - disse Andrew - a imprensa americana continuava a ignorar o que já era o desastre da Thalidomide na Europa. quando um médico americano, a doutora Helen Taussig, testemunhou perante o Congresso, e mostrou diapositivos de bebés deformados que fizeram estremeceres congressistas, nem uma só palavra apareceu nos jornais americanos.

 

- É incrível - disse Lisa. O pai encolheu os ombros:

 

- Depende de como encares a imprensa. Há jornalistas preguiçosos. Os que estavam incumbidos de assistir ao debate não se encontravam nos seus lugares e nem sequer leram mais tarde as transcrições. Mas um deles, um jornalista do Washington Post, Morton Mintz, não era preguiçoso. Juntou as peças todas e saiu com a história da Thalidomide batendo todos os outros. Claro que se tornou imediatamente em grande notícia, tal como agora está a acontecer com o Montayne.

 

- Tenho de vos dizer - disse Célia aos filhos - que o vosso pai se opôs ao Montayne desde o princípio.

 

- Papá - perguntou Lisa -, já estavas convencido nessa altura de que o Montayne podia causar estas coisas horríveis?

 

- De modo nenhum - respondeu Andrew. - Foi simplesmente porque, como médico, não acredito que se deva tomar um medicamento para uma coisa que é apenas desconfortável e autolimitada.

 

- Que significa ”autolimitada”? - perguntou Lisa.

 

- As náuseas da gravidez são um exemplo. Em geral estão limitadas aos primeiros meses de gravidez e depois desaparecem sem deixar qualquer sinal nocivo. Tomar qualquer medicamento nessa altura, a menos que se trate de uma emergência médica, é loucura e é sempre arriscado. A vossa mãe nada tomou quando foi de vocês. - Andrew encarou de frente a filha: - Quando chegar a tua vez quero que tu não tomes nada, minha menina. E se desejares um bebé normal e saudável, nada de álcoois, vinhos ou tabaco.

 

- Prometo - disse Lisa.

 

Enquanto os escutava Célia foi surpreendida por uma ideia que talvez pudesse, com o tempo, transformar a experiência da Felding-Roth com o Montayne em algo positivo.

 

Andrew estava ainda a falar.

 

- Nós, os médicos, estamos em falta numa data de coisas em relação aos medicamentos. Por um lado prescrevemos de mais, a maior parte das vezes desnecessariamente e em parte porque sabemos que existem doentes que se sentem gorados se saem do consultório sem uma receita. Outra coisa é que escrever uma receita é uma forma simples para acabar a consulta de um doente levando-o a sair e a deixar entrar o seguinte.

 

- Sem dúvida que hoje é dia de confissões - comentou Bruce. - Que outros erros cometem os médicos?

 

- Muitos de nós não estão devidamente informados sobre os medicamentos, pelo menos tanto quanto deviam estar, em especial no que respeita a efeitos colaterais e a interacções de um medicamento com outros. Claro que é impossível meter todas essas informações na nossa cabeça, mas os médicos em geral não se preocupam, ou são demasiado orgulhosos para o fazer, em abrir um livro de referência na frente do doente.

 

- Mostrem-me um médico que não tem medo de consultar um livro na presença de um doente - disse Célia - e eu mostrar-vos-ei um médico seguro e consciencioso. O vosso pai é um. Já o vi fazer isso.

 

- Claro - disse Andrew com um sorriso - que tenho algumas vantagens nesta questão dos medicamentos. Derivadas do facto de viver com a vossa mãe.

 

- Os médicos cometem erros graves com os medicamentos? - perguntou Célia.

 

- Montes de vezes - disse Andrew. - E há ocasiões em que um farmacêutico atento salva o médico do erro confirmando a prescrição. De modo geral os farmacêuticos percebem mais de medicamentos que os médicos.

 

Bruce perguntou, incisivamente:

 

- Mas existem muitos médicos que reconheçam esse facto?

 

- Infelizmente, não - respondeu Andrew. - A maior parte das vezes os farmacêuticos são tratados como inferiores e não como colegas na medicina que são na realidade. - Sorriu e continuou: - Claro que os farmacêuticos também cometem os seus erros. E às vezes são os doentes que estragam tudo duplicando ou triplicando a dose prescrita para, como dizem já na ambulância a caminho do hospital, obter um efeito mais rápido.

 

- E tudo isso - disse Célia com firmeza - são minhocas a mais para uma pessoa da indústria farmacêutica, cansada como eu estou, aguentar num só dia. Acho que vou tentar dormir.

 

Conseguiu e dormiu a maior parte do resto da viagem até Chicago.

 

O voo de ligação para Nova Iorque não teve história, embora mais confortável porque as reservas eram em primeira classe, o que não fora possível obter desde Honolulu.

 

Ao chegarem ao Aeroporto Kennedy, para surpresa de Célia, havia uma limusina com motorista da Felding-Roth para os levar para Morristown. O motorista, que ela conhecia de vista, saudou-a e entregou-lhe um envelope fechado que continha uma carta de Seth Feingold.

 

Querida Célia:

 

Bem-vinda a casa! - em todos os sentidos.

 

O carro e o motorista são, com os cumprimentos do conselho de directores, para teu uso regular como vice-presidente executiva.

 

Os teus colegas e subordinados - incluindo este que te escreve -, anseiam por se encontrar contigo mal tenhas repousado do cansaço da viagem.

 

Sempre ao dispor,

 

Seth

 

Na casa dos Jordan em Morristown deu-se o alegre reencontro com Winnie e Hank March - Winnie com uma enorme barriga, já nas semanas finais da gravidez. Quando Lisa e Bruce, e depois Célia e Andrew, a abraçaram ela avisou:

 

- Não me apertem muito, queridos, ou o miudinho salta já fora.

 

Andrew riu.

 

- Já não faço um parto desde que fui interno, há muitos anos, mas sinto-me tentado a recomeçar.

 

Hank, menos falador que a mulher, acenou-lhes e começou a descarregar a bagagem.

 

Foi um pouco mais tarde, quando o trio de Winnie, Célia e Andrew punha em dia as novidades na cozinha enquanto os outros faziam outras coisas, que Célia teve um pensamento chocante.

 

Quase com medo de perguntar, acabou por o fazer:

 

- Winnie, tomaste alguma coisa durante a gravidez?

 

- Por causa de andar agoniada de manhã? Cada vez mais assustada Célia confirmou:

 

- Sim.

 

- Como o tal Montayne? - Winnie apontou para um exemplar do Newark Star-Ledger sobre um móvel, com a notícia em evidência na primeira página.

 

Célia disse que sim com a cabeça, preocupada.

 

- O meu médico deu-me umas amostras para eu tomar - disse Winnie. Queria tomá-las. Estive sempre agoniada de manhã. Mas... - Olhou para Andrew. - Posso contar tudo, doutor Jordan?

 

- Com certeza.

 

- Mas, antes de partirem, o doutor Jordan disse-me, e disse também que era um segredo entre nós, que, se me dessem o tal Montayne, não o devia tomar mas sim deitá-lo sanita abaixo. Foi o que fiz.

 

Os olhos de Winnie, marejados de lágrimas, foram do jornal para Andrew.

 

- Vi-me aflita para conseguir este bebé. Foi... oh, que Deus o abençoe, doutor Jordan!

 

Célia, aliviada e grata, tomou Winnie nos braços e apertou-a contra si.

 

Sam Hawthome parecia um fantasma ambulante.

 

Quando o viu, no seu primeiro dia após o regresso à Felding-Roth, Célia sentiu-se tão chocada que foi impossível falar. Por isso foi Sam quem falou primeiro.

 

- Ora bem, como é que se sente uma pessoa por voltar em glória, cheia de razão e virtude quando todos nós somos maus e errados? Bem bom, eh?

 

As palavras hostis, ditas numa voz áspera que ela mal reconhecia, acentuaram o choque. Célia vira Sam pela última vez há sete meses. Parecia ter envelhecido dez anos. O rosto estava chupado e pálido com a pele flácida. Os olhos tristes pareciam afundados; debaixo deles dois papos negros. Ombros caídos. Perdera tanto peso que o fato não se lhe ajustava.

 

- Não, Sam - disse Célia -, não me sinto contente. Estou triste por todos nós e lamento imenso o que se está a passar com o teu neto. Quanto ao ter regressado, estou aqui simplesmente para ajudar.

 

- Oh, claro, julguei que andasses por cá para...

 

- Sam - interrompeu ela -, podemos ir para um sítio mais privado? Tinham-se encontrado num corredor onde as pessoas passavam enquanto eles

 

conversavam. Célia vinha de uma reunião com Seth Feingold e vários directores.

 

O gabinete do presidente era perto dali. Sem abrir a boca Sam caminhou para lá. Célia seguiu-o.

 

Lá dentro, com a porta fechada, virou-se para ela. A voz rouca e magoada persistia:

 

- O que estava a dizer é que... já sabia que tinhas pena. É fácil dizê-lo. Agora por que não dizes o que na verdade pensas?

 

Ela disse, numa voz calma:

 

- Talvez seja melhor que me digas o que achas que estou a pensar.

 

- Sabes muito bem! Que fui um criminoso irresponsável ao dar Montayne à Juliet quando o medicamento nem sequer estava aprovado. Que eu sou o único, eu só, responsável pelo bebé de Juliet e Dwight, o meu neto, ser aquilo que é, uma imitação de um ser humano, nada mais que... - Sam engasgou-se nas últimas palavras e virou-lhe as costas.

 

Célia ficou em silêncio, esmagada pela pena e pela compaixão, pesando as palavras a dizer. Só depois falou.

 

- Se queres saber a verdade, Sam, e o momento parece-me apropriado, é isso mesmo que pensava. E acho que ainda penso.

 

Sam olhava-a directamente, suspenso das suas palavras, e ela continuou:

 

- Mas há outras coisas de que te deves também lembrar. Não é fácil ter uma visão interior vinte-vinte. Todos nós cometemos erros...

 

- Tu não os cometeste. Nem sequer este. Nem uma série de erros tão grandes como os meus. - Ainda a mesma amargura.

 

- Mas fiz outros - disse Célia. - Toda a gente com responsabilidades os faz. E muitas vezes é apenas uma questão de pouca sorte que alguns erros sejam maiores que outros.

 

- Este é um dos piores. - Sam caminhou até à secretária e deixou-se tombar na cadeira. - E todos aqueles bebés, incluindo os que ainda não nasceram. Sou o responsável...

 

- Não - interrompeu ela com firmeza. - Isso não é verdade. Tal como em tantas outras coisas foste guiado pela Girond-Chimie e por conselhos científicos. Não o fizeste sozinho. Há outras pessoas responsáveis que sentem o mesmo que tu.

 

- Excepto tu. Que tens tu de tão especial para não teres sido também apanhada?

 

- Fui, no início - recordou-lho ela. Sam levou as mãos à cabeça.

 

- Oh, Cristo! Que tragédia fui eu causar! - Levantou o rosto. - Célia, estou a ser injusto e sujo contigo, não estou?

 

- Isso não importa agora.

 

A voz dele baixou, perdeu controlo.

 

- Estou arrependido, a sério que estou. Acho que, para dizer a verdade, tenho inveja de ti. Oh, como gostaria de ter seguido o teu conselho! - Depois as palavras tornaram-se desconexas. - Não tenho dormido nada. Fico acordado, hora após hora, pensando, recordando, sentindo culpa. O meu genro nem sequer me fala. A minha filha não me quer ver. Lilian procura ajudar-nos a todos, mas não sabe como o fazer. Sam hesitou antes de continuar:

 

- E há mais uma coisa. Uma coisa que tu não sabes.

 

- O que é que não sei?

 

- Nunca to direi. - Ele desviou o olhar.

 

- Sam - disse Célia com firmeza -, tens de te aguentar. O estares a torturar-te desta maneira não trará benefícios nem para ti, nem para ninguém.

 

Como se não a tivesse ouvido, Sam disse:

 

- Estou acabado aqui. Sabes bem que estou.

 

- Não. Não sei nada disso.

 

- Quis demitir-me. Mas os advogados disseram que não o devia fazer, pelo menos por enquanto. - Acrescentou, dolorido: - Há que manter a fachada. Para proteger a companhia. Para não dar mais palha aos chacais desses advogados com os seus pedidos de indemnização. Só por isso continuo ainda como presidente mais algum tempo, sentado nesta cadeira em nome dos accionistas.

 

- Fico satisfeita por continuares - disse Célia. - És necessário para dirigir a companhia.

 

- Tu é que vais fazer isso. Ainda não to disseram? O conselho decidiu-o.

 

- Seth disse-me qualquer coisa a esse respeito. Mas eu preciso de ti. Sam olhou-a com uma angústia muda nos olhos.

 

Numa decisão súbita Célia foi até à porta exterior. Podia ser fechada com um botão. Trancou-a. Havia um botão semelhante na porta que dava para o gabinete das secretárias. Célia trancou-a também. Pegando no telefone disse:

 

- Fala a senhora Jordan. Estou com o senhor Hawthorne. Não queremos ser interrompidos.

 

Sam continuava imóvel sentado à secretária.

 

- Desde que isto começou por acaso já choraste? - perguntou-lhe Célia. Ele ficou surpreendido e negou com um gesto da cabeça.

 

- De que me serviria?

 

- Às vezes ajuda.

 

Ela aproximou-se, rodeou-o com os braços.

 

- Sam - murmurou ela -, desabafa.

 

Por um instante ele relaxou-se olhando-lhe, incerto, o rosto. De repente, como um dique que se rompesse, deixou tombar a cabeça no ombro dela e chorou como uma criança.

 

Após a sessão do primeiro dia com Sam depressa se lhe tomou evidente que ele era um homem tragicamente alquebrado, com o espírito de outrora destruído e que pouco poderia contribuir para a direcção a alto nível da companhia. Embora muito preocupada, Célia viu-se obrigada a aceitar a situação tal como estava.

 

Sam continuava a chegar todos os dias no seu Rolls-Bentley cinzento-prateado. Às vezes ele e Célia chegavam ao mesmo tempo. Célia usava o carro da companhia com motorista, pelo qual estava grata pois lhe permitia trabalhar, ler papéis, nos trajectos de e para casa. Nessas alturas ela e Sam caminhavam juntos para o edifício principal usando a rampa envidraçada para tomar o elevador especial dos executivos para o décimo primeiro piso. Entre eles podia haver uma breve conversa mas, quando a havia, era sempre Célia quem começava.

 

Uma vez no seu gabinete Sam raramente de lá saía. Ninguém sabia exactamente o que ele fazia mas, tirando alguns memorandos inócuos, nada de consequente emergia. Nas conferências da administração - embora delas informado a tempo e horas - Sam era notado pela ausência.

 

Deste modo, e desde o segundo dia após o seu regresso, não havia a mínima dúvida de que era Célia quem tudo dirigia.

 

Os assuntos que exigiam decisões de alto nível eram-lhe entregues. Outros problemas, até aí suspensos, eram-lhe apresentados para que os solucionasse. Tratava deles todos recorrendo à prontidão, senso comum e força de vontade que sempre tinham sido sua marca registada.

 

As conferências com advogados ocupavam-lhe grande parte do tempo.

 

Em consequência da publicidade em torno do Montayne e da retirada do medicamento do mercado tinham já surgido as primeiras queixas judiciais. Algumas delas pareciam genuínas. Um pequeno número de bebés, entre os quais prematuros, já nascera nos Estados Unidos com deformidades semelhantes às dos bebés de outros países onde as mães das crianças deficientes tinham tomado o Montayne durante a gravidez.

 

Inevitavelmente a lista de casos genuínos iria crescer. Uma estimativa interna, confidencial, apontava para um pouco mais de quatrocentos bebés americanos que nasceriam deformados por causa do Montayne. Este valor fora obtido recorrendo às estatísticas provenientes da Austrália, França, Espanha, Grã-Bretanha e outros países. Levava em linha de conta a duração do tempo em que o Montayne estivera à venda nesses países, a quantidade de medicamento vendido e os números comparativos nos Estados Unidos.

 

Das outras queixas umas eram postas por mães que tinham tomado Montayne mas cujos filhos ainda não tinham nascido; baseavam-se no medo do que podia acontecer e, na maior parte dos casos, acusavam a Felding-Roth de negligência. Um pequeno número restante eram consideradas frívolas ou fraudulentas embora todas tivessem de ser formalmente tratadas, o que envolvia enormes dispêndios em tempo e custos.

 

Em relação ao custo, Célia, que tivera de aprender depressa coisas que até aí lhe eram totalmente desconhecidas, descobriu que a Felding-Roth possuía um seguro sobre a segurança dos seus produtos no valor de cento e trinta e cinco milhões de dólares. A somar a isso a companhia tinha, como reserva interna, para o mesmo fim, mais vinte milhões de dólares.

 

- Esses cento e trinta e cinco milhões parecem muito, e podem até vir a cobrir todas as indemnizações - disse a Célia um advogado, Childers Quentin. - Por outro lado não confiaria muito nisso. O mais provável é que venha a precisar de mais algum.

 

Quentin, uma figura avuncular na casa dos setenta, de modos corteses, era o presidente de uma firma de advocacia de Washington especializada em assuntos farmacêuticos, em especial no campo das indemnizações por danos. A firma fora escolhida a conselho dos advogados da Felding-Roth.

 

Quentin, descobriu Célia, era conhecido entre os colegas como o ”Sr. F. T. Arranja-Coisas” (as iniciais significavam ”Fora do Tribunal”). Isto por causa da sua habilidade para negociar. ”Tem os nervos de um jogador de póquer de alto gabarito”, comentara um advogado da companhia, sabendo até onde podia ir para resolver as reclamações sem que estas subissem ao tribunal.

 

Célia decidira desde o princípio que confiaria em Childers Quentin. Para esta decisão contribuiu o facto de gostar dele.

 

- O que tu e eu temos de fazer, minha querida - informou-a ele como se estivesse a falar à sobrinha favorita -, é conseguir acordos rápidos que sejam razoáveis e generosos. Estes dois últimos pontos são essenciais para dominar uma situação como esta. Quanto ao ser generoso é preciso lembrar que a pior coisa que poderá acontecer é um caso do Montayne ir a tribunal e um júri estabelecer uma indemnização de milhões de dólares. Abriria um precedente para outras indemnizações que levariam a companhia à falência.

 

- Há mesmo hipótese de arrumar o caso sem ir a tribunal? - perguntou Célia.

 

- Melhor do que possa pensar. - E explicou: - Quando uma lesão terrível e irreversível é provocada numa criança, tal como está agora a acontecer com o Montayne, a primeira reacção dos pais é o desespero, a segunda, a raiva. Na sua raiva os pais querem punir quem lhes causou o mal; e procuram o auxílio de um advogado. Mais que tudo os pais querem, para usar um cliché já batido, ter o seu dia de glória no tribunal.

 

”Mas nós, advogados, somos pragmáticos. Sabemos que os casos que vão a tribunal são por vezes perdidos e nem sempre por razões justas. Sabemos também que o processo preparatório, as audiências cheias de gente, os atrasos engendrados pela defesa, podem fazer com que o caso leve anos a ser julgado. E, mesmo que se ganhe, os apelos podem arrastar-se por muitos mais anos.

 

”Os advogados sabem também que, depois da primeira explosão de raiva, os clientes ficarão cansados e desiludidos. As preparações para o julgamento dominam as suas vidas. Consomem as pessoas, recordam-lhes sempre a sua dor. Invariavelmente as pessoas pensam que deviam ter chegado a acordo desde o início para retomarem, o melhor que puderem, a sua vida normal.

 

- Sim - disse Célia -, percebo tudo isso.

 

- Há mais. Os advogados de lesões corporais, pois será com este tipo de advogados que teremos de lidar, olham pelos seus interesses pessoais assim como pelos dos clientes. Muitos aceitam estes casos com base numa remuneração de contingência recebendo um terço, às vezes mais, do que for ganho. Mas os advogados têm as suas contas para pagar: as rendas do escritório, as mensalidades dos colégios dos filhos, as amortizações, a conta do mês passado do American Express... - Quentin encolheu os ombros. - São como você ou eu. Gostariam de ver depressa o dinheiro e não num futuro incerto; e este é mais um factor que ajuda a conseguir um acordo.

 

- Suponho que sim. - O espírito de Célia divagara na última parte da conversa e ele disse: - Há dias, desde o meu regresso, que me sinto fria e calculista, pensando apenas em termos de dinheiro sobre o Montayne e o que aconteceu.

 

- Já te conheço suficientemente bem - comentou Quentin - para acreditar que isso nunca te irá acontecer. Além do que, minha querida, no caso de pensares o contrário, te asseguro que também não estou indiferente em relação a esta terrível tragédia. Tenho um trabalho a cumprir e fá-lo-ei. Mas sou pai e avô e o meu coração sangra por essas crianças destruídas.

 

A partir desta sessão e de outras semelhantes foi fixado como objectivo reunir mais cinquenta milhões de dólares para fazer face a possíveis acordos. Outro número assustador era o total de oito milhões de dólares que se calculava que custaria a retirada do mercado, com consequente recolha e destruição do medicamento.

 

Quando Célia falou destes totais a Seth Feingold ele abanou gravemente a cabeça, mas ficou menos alarmado do que ela esperara.

 

- Tivemos dois afortunados acontecimentos desde o princípio do ano explicou Seth. - Um foram os resultados excepcionalmente bons dos produtos de venda ao balcão onde as vendas foram muito superiores às previsões. Houve também um grande, inesperado, ”único” lucro nas relações estrangeiras. Normalmente, é claro, os nossos accionistas seriam beneficiados. Dada a situação ambas as maquias irão para essa nova reserva de cinquenta milhões.

 

- Temos de estar gratos a essas duas fontes - disse Célia. Já não era a primeira vez que os produtos de venda ao balcão, que ela outrora desdenhara, permitiam manter a Felding-Roth solvente em época de crise.

 

- Outra coisa que parece estar a nosso favor - continuou Seth - são as notícias prometedoras que nos chegam de Inglaterra. Presumo que já as conheças.

 

- Já. Li os relatórios.

 

- Se for necessário podemos usá-las para pedir empréstimos bancários. Célia ficara contente ao saber dos progressos do instituto de Harlow onde um novo fármaco, péptido 7, parecia estar para breve. ”Breve”, quando se falava do desenvolvimento de novos fármacos, significava uns dois anos antes do pedido de aprovação às autoridades competentes.

 

Uma tentativa para fazer regressar Sam aos assuntos da companhia Célia foi discutir com ele as últimas novas vindas de Inglaterra.

 

Uma vez que o Instituto Britânico de Pesquisa fora ideia de Sam, que ele lutara para o fundar, Célia presumiu que lhe agradasse ver confirmada a sua fé e esperava que isto o ajudasse a sair um pouco da profunda depressão. Nenhuma destas ideias resultou. A resposta de Sam foi a indiferença. Rejeitou também uma sugestão para voar até Inglaterra para falar com Martin Peat-Smith e avaliar o significado do que estava a acontecer.

 

- Muito obrigado, mas não - disse ele a Célia. - Tenho a certeza de que tens outros meios para saberes o que pretendes.

 

Mas nem a atitude de Sam podia alterar o facto de que Harlow brilhava agora em grande no futuro da Felding-Roth.

 

E outra coisa.

 

Os longos anos de pesquisas de Vincent Lord sobre o que era cientificamente conhecido como ”a anulação dos radicais livres”, a eliminação dos efeitos colaterais perigosos de medicamentos de outra forma bons, dera enfim resultados positivos. Eram tão auspiciosos, com todas as indicações de um grande avanço científico, algo que Lord sempre cobiçara, que os laboratórios da Felding-Roth nos Estados Unidos estavam agora a dedicar um enorme esforço no seu aperfeiçoamento.

 

Embora o péptido 7 inglês ficasse pronto primeiro, a criação de Vincent Lord, provisoriamente designada Hexin W, deveria estar apenas um ou dois anos atrás.

 

Este segundo sucesso teve outro efeito. Tornou mais seguro o futuro de Lord na Felding-Roth. Célia chegara a pensar, tendo em vista a grande defesa que Lord fizera do Montayne e outras razões mais gerais, em substituí-lo quando surgisse uma oportunidade. Agora parecia ser valioso de mais para ser perdido.

 

Assim, surpreendentemente, e apesar da sombra omnipresente do Montayne, o clima da companhia estava de repente mais brilhante.

 

Em Harlow, Yvonne Evans e Martin Peat-Smith passavam cada vez mais tempo juntos.

 

Embora Yvonne mantivesse ainda o pequeno apartamento que alugara quando viera trabalhar para o Instituto Felding-Roth era raro estar lá. Todos os fins-de-semana, e a maior parte das noites da semana, estava em casa de Martin onde andava feliz a cuidar da vida doméstica de Martin e das necessidades sexuais dele, e de si própria.

 

Yvonne reorganizara a cozinha que estava agora arrumada e brilhante. Fazia lá refeições apetitosas exercendo um talento como cozinheira versátil que nela parecia natural e de que gostava. Todas as manhãs quando saíam, separadamente, para o trabalho, ela fazia a cama que compartilhava com Martin e tinha o cuidado de mudar os lençóis com maior frequência que no passado. Deixava notas com instruções para o leiteiro e para a mulher da limpeza. O resultado é que a casa tinha um aspecto imaculado que deriva de um olho para os pormenores, que Yvonne possuía, e de uma vigilância atenta.

 

Yvonne introduziu também algumas alterações na ménage dos animais de estimação.

 

Acrescentou um siamês seu. Um sábado em que Martin estava a trabalhar mas Yvonne não, pegou numa serra e noutras ferramentas e fez um ”alçapão de gato” na porta das traseiras. Desde modo os gatos podiam entrar e sair quando lhes aprouvesse de onde resultaram efeitos benéficos para os animais e para as coisas de casa.

 

E quando Yvonne passava lá a noite dava exercício aos cães de manhã suplementando o exercício que Martin dava à tarde.

 

Martin adorava tudo aquilo.

 

Outra coisa que ele adorava era a tagarelice de Yvonne. Ela falava sobre múltiplos assuntos, quase sempre sem grande importância; os filmes em cartaz, as vidas privadas das estrelas, os músicos modernos e as suas manias, quais os armazéns de Londres que estavam em saldos, as últimas compras no Marks and Spencer; as coisas da televisão; as historietas do instituto, quem ficou noivo, quem está grávida, quem se vai divorciar; os excessos sexuais do clero, relatados na vigilante imprensa britânica; até um ou outro escândalo político... Yvonne absorvia estes assuntos, ouvidos ou lidos, como uma esponja.

 

Estranhamente não só Martin não objectava a escutar tudo isto como às vezes achava aquilo refrescante, uma mudança, e outras vezes era como uma música de fundo.

 

A questão é que, concluíra ele, passava tanto tempo rodeado de intelectuais com a sua conversa séria e científica, de onde o trivial estava excluído, que já andava farto. Ao escutar Yvonne podia recostar-se e colocar o cérebro em ponto morto.

 

Um dos interesses de Yvonne - quase uma paixão - era o príncipe de Gales. Os seus romances amplamente publicitados fascinavam-na, embora às vezes a preocupassem. Discutia-os vezes sem fim. Na altura um nome ligado ao de Carlos era a princesa Marie-Astrid do Luxemburgo. Yvonne recusava-se a encarar a sério os boatos.

 

- Seria um casamento fadado a falhar - assegurara ela a Martin. - Além de ser católica a Marie-Astrid não é a pessoa certa.

 

- Como é que sabes? - perguntara ele.

 

- Sei.

 

Outra candidata, Lady Amanda Knatchbull, era melhor acolhida.

 

- Ela podia servir - acedia Yvonne. - Mas se Carlos tiver paciência tenho a certeza de que encontrará alguém melhor, perfeito até.

 

- Se calhar ele está muito preocupado com isso. Por que não lhe escreves e lhe dás a tua opinião? - sugerira Martin.

 

Como se não o tivesse ouvido Yvonne declarou pensativa e com um toque de poesia:

 

- Do que ele precisa é de uma rosa inglesa.

 

Uma noite, depois de Yvonne e Martin terem feito amor, ele brincou com ela:

 

- Estavas a fazer de conta que eu era o príncipe de Gales? Ela respondera, espantadíssima:

 

- Como é que soubeste?

 

Apesar desta tendência para tagarelar Yvonne estava longe de ter uns miolos de passarinho, descobriu Martin. Mostrava interesse por outras coisas, incluindo a teoria em que se apoiava o projecto de envelhecimento cerebral, que Martin pacientemente explicara e ela parecera perceber. A curiosidade dela foi despertada pela devoção de Martin pelos escritos de John Locke e várias vezes ele a foi encontrar com um exemplar do Ensaio de Locke, a testa franzida pela concentração.

 

- Não é fácil de perceber - admitiu Yvonne.

 

- Não, para ninguém - dissera ele. - Dá trabalho.

 

Quanto à sua ligação e aos possíveis boatos, Martin estava certo de que circulavam alguns. Harlow era um sítio demasiado pequeno para que isso não sucedesse. Mas no instituto ele e Yvonne eram discretos nunca comunicando um com o outro a menos que o seu trabalho o exigisse. De resto Martin considerava que a sua vida privada só a ele dizia respeito.

 

Nem sequer pensara quanto tempo duraria a relação entre ele e Yvonne mas, por um ou outro comentário, era claro que nenhum deles a encarava como algo exigido ou mais que temporário.

 

Um entusiasmo que compartilhavam era o progresso da pesquisa em Harlow.

 

Como Martin escrevera num dos seus raros relatórios para Nova Jérsia: ”A estrutura do péptido 7 é agora conhecida. O gene foi produzido, inserido numa bactéria e foram preparadas grandes quantidades.” O processo, fizera ele notar, ”era muito semelhante ao da preparação da insulina humana”.

 

Ao mesmo tempo continuavam os ensaios sobre a segurança e a eficácia do péptido 7 através de injecções em animais. Tinham já acumulado uma vasta quantidade de dados sobre os resultados em animais ao ponto de pensarem que o pedido de autorização para ensaios humanos poderia ser feito dentro de poucos meses.

 

Alguns rumores sobre as pesquisas no instituto chegaram à imprensa. Embora Martin declinasse todos os pedidos para conceder entrevistas, os jornalistas iam descobrindo outras fontes e os artigos de jornal surgiam na mesma. Globalmente eram até correctos. A proeminência ia para um ”medicamento milagroso destinado a evitar o envelhecimento, já a ser ensaiado em animais” assim como para ”o notável efeito redutor de peso do medicamento”. Tudo isto enraivecia Martin pois era sinal que alguém do pessoal científico fora indiscreto.

 

A pedido de Martin, Nigel Bentley tentou descobrir quem dera com a língua nos dentes mas sem sucesso.

 

- Na realidade - apontara o administrador - a publicidade não causou grande prejuízo, se é que causou algum. O mundo científico já tem uma boa ideia do que estamos a fazer. Não nos esqueçamos dos dois consultores que cá estiveram. E despertar a atenção do público agora poderá mais tarde ajudar as vendas do péptido sete.

 

Martin não ficou convencido mas deixou o assunto ficar por ali.

 

Um efeito aborrecido da publicidade foi uma inundação de cartas, panfletos e petições dos protectores dos ”direitos dos animais”: extremistas que protestavam contra as experiências em todas as espécies de animais. Alguns descreviam Martin e o seu pessoal de Harlow como ”sadistas”, ”torturadores”, ”bárbaros” e ”criminosos empedernidos”.

 

Martin dissera a Yvonne depois de ter lido, em casa, a correspondência mais vituperativa:

 

- Todos os países têm destes doidos antiexperimentações mas a Grã-Bretanha é o pior. - Pegou noutra carta e colocou-a de lado, enjoado. - Esta gente não quer apenas o sofrimento animal reduzido ao mínimo, em que eu acredito e acho até que deviam existir leis a esse respeito. Em vez disso querem que o nosso tipo de ciência, que tem de usar animais, pare de todo.

 

- Achas - perguntou Yvonne - que um dia a ciência poderá dispensar completamente os animais?

 

- Sim, talvez um dia. Mesmo agora, em situações em que costumávamos utilizar animais, já recorremos a culturas de tecidos, farmacologia quântica e computadores. Mas dispensar totalmente os animais... - Martin negou com a cabeça. - Poderá vir a acontecer, mas só daqui a muito tempo.

 

- Bem, não deixes que te deitem abaixo. - Yvonne recolheu as cartas de protesto e enfiou-as numa pasta. - E não te esqueças que os nossos animais, por causa do péptido sete, estão mais saudáveis e espertos.

 

No entanto as palavras dela não conseguiram mudar o humor de Martin.

 

Mas no instituto o contraste com os primeiros dias de apalpadelas - quando os progressos eram poucos e só havia resultados negativos - era tal que Martin confidenciou a Rao Sastri:

 

- Estou preocupado. Quando as coisas correm assim tão bem é porque um azar nos espera na próxima esquina.

 

As suas palavras revelaram-se proféticas, e mais depressa do que se esperava.

 

Foi no fim-de-semana seguinte - na madrugada de domingo, era uma hora que um telefonema acordou Martin. Yvonne estava ainda a dormir a seu lado. Quando Martin respondeu do outro lado era Nigel Bentley.

 

- Estou no instituto - disse o administrador. - A polícia chamou-me. Penso que deve vir depressa para cá.

 

- Que aconteceu?

 

- Receio que as notícias sejam más - a voz de Bentley soava soturnamente. Mas é melhor que veja por si mesmo. Pode vir depressa?

 

- Já vou a caminho.

 

Entretanto Yvonne acordara. Quando Martin começou a vestir a roupa Yvonne fez apressadamente o mesmo.

 

Foram juntos no carro de Martin. No instituto havia vários carros estacionados e dois deles eram viaturas da polícia com as luzes azuis piscando. Uma terceira luz a piscar pertencia a um carro dos bombeiros que se afastava. As portas principais do instituto estavam abertas.

 

Bentley esperava-os lá dentro. Com ele estava um inspector da polícia uniformizado. Se Bentley ficou surpreendido por ver Yvonne escondeu muito bem a surpresa.

 

- Fomos assaltados - anunciou. - Por amantes dos animais.

 

- Amantes dos animais? - Martin franziu as sobrancelhas.

 

- É verdade, senhor - disse o polícia -, são gente que se denomina o Exército de Salvação Animal. Já nos têm dado mais problemas. - O inspector, perto já da meia-idade, tinha um ar resignado e sardónico de quem já vira muitas loucuras humanas e esperava ver mais.

 

- O que fizeram? Que aconteceu? - perguntou Martin impaciente.

 

- Entraram - respondeu Bentley. - E depois soltaram todos os animais. Alguns ainda andam à solta dentro do instituto, mas a maioria foi trazida para a rua, as gaiolas abertas e claro que desapareceram. Depois reuniram todos os arquivos e registos que encontraram, levaram-nos lá para fora e regaram-nos com petróleo.

 

- Depois pegaram-lhes fogo, doutor- disse o inspector. - Alguém de outro edifício viu o fogo e telefonou a dar o alarme. Chegámos cá ao mesmo tempo que os bombeiros. Ainda viemos a tempo de apanhar dois suspeitos, um homem e uma mulher. O homem já admitiu que esteve preso por uma ofensa semelhante.

 

- Os dois apanhados pela polícia estão no meu gabinete - continuou Bentley. - Ao que parece eram seis. Dominaram o vigilante e fecharam-no num armário. E sabiam como desactivar o alarme contra ladrões.

 

- A operação foi cuidadosamente planeada - disse o inspector da polícia. É característico desta gente.

 

Martin mal ouvia o que lhe estavam adizer. Os seus olhos não se desviavam de quatro ratos que se tinham abrigado a um canto da área de recepção. Naquele momento, assustados pelas vozes, os ratos fugiram por uma porta aberta. Martin seguiu-os na direcção dos laboratórios e das salas dos animais.

 

Confrontavam-no o caos e a confusão. As gaiolas dos animais estavam abertas ou tinham desaparecido. Os livros de notas de páginas soltas não estavam ali. As gavetas dos arquivos estavam abertas e parte do seu conteúdo espalhado pelo chão. Faltavam inúmeras pastas. Possivelmente estavam lá fora, queimadas.

 

Bentley, o inspector e Yvonne tinham seguido Martin.

 

- Oh, meu Deus! - murmurou Yvonne.

 

Martin, emocionado, desesperado, só conseguia perguntar:

 

- Porquê? Oh! Porquê?

 

- Talvez fosse uma pergunta a fazer ao par que prendemos, doutor - sugeriu o inspector.

 

Martin assentiu sem falar e o polícia conduziu-os ao gabinete do administrador. Lá dentro um polícia jovem guardava um homem e uma mulher.

 

A mulher, a meio da casa dos trinta, era alta e magra. Tinha feições aquilinas e vincadas, o cabelo cortado curto. Um cigarro aceso descaía-lhe dos lábios. Vestia uma calças de ganga justas, uma camisa de lenhador e botas de plástico até às coxas. Quando o inspector e os outros entraram olhou-os desdenhosamente. O facto de ter sido capturada parecia não a preocupar.

 

O homem, mais ou menos da mesma idade, era franzino e, noutras circunstâncias, pareceria humilde e moderado. Tinha um ar de escriturário, era careca, um pouco curvado e usava óculos com aros de aço. Sorriu aos recém-chegados, em desafio.

 

- Aqui temos o parzinho - disse o inspector. - Já foram avisados legalmente mas parecem dispostos a falar. Estão orgulhosos de si próprios, lá isso estão.

 

- E temos motivos - disse o homem. A voz era fina e trémula; tossiu nervosamente para a clarificar. - Cometemos um nobre acto.

 

Martin explodiu, quase gritando:

 

- Fazem a mínima ideia do que fizeram? De como era importante o trabalho que destruíram e estragaram?

 

- Sabemos apenas - disse a mulher - que salvámos algumas criaturas nossas semelhantes dos vivisseccionistas: tiranos como você que exploram os animais para servirem os vossos interesses egoístas.

 

- Se pensam desse modo são uns doidos, uns ignorantes! - Apetecia a Martin chicotear fisicamente aqueles dois na sua frente, mas conteve-se. - Todos os animais que vocês soltaram nasceram em cativeiro. Não conseguirão sobreviver lá fora. Vão ter uma morte horrível. E os que ainda cá estão terão de ser destruídos.

 

- Mais vale isso - disse a mulher - que sofrerem crueldades desumanas.

 

- Ele não é desumano! Ele não é cruel! - Foi Yvonne, de rosto vermelho, quem gritou estas palavras. - O doutor Peat-Smith é dos homens mais bondosos que jamais existiu. Adora animais.

 

- Como bichinhos de estimação - resmungou o homem.

 

- Não concordamos com os animais de estimação - disse a mulher. - É uma relação senhor-escravo. Cremos que os direitos dos animais são iguais aos dos humanos. Além disso os animais não devem ser restringidos, confinados ou obrigados a sofrer meramente para tornarem os seres humanos mais felizes ou mais saudáveis. - A sua voz, comedida e segura, tinha o tom de alguém abençoado por uma certeza moral total.

 

- Outra coisa em que acreditamos é que a espécie humana não é superior às outras espécies - acrescentou o homem.

 

- No vosso caso - disse o inspector - diria que é mesmo verdade. Martin dirigiu-se à mulher:

 

- Você e os seus amigos lunáticos acabaram de destruir uma investigação científica que levará anos a repetir. E privaram durante esse tempo milhares, talvez centenas de milhares, de pessoas decentes e merecedoras de um remédio que lhes tornaria a vida melhor e mais suportável...

 

- Bem, boas notícias para o Exército de Salvação Animal! - interrompeu a mulher cuspindo as palavras para Martin. - Sinto-me deliciada por saber que o nosso esforço foi coroado de sucesso. E se aquilo a que chama investigação científica, e a que eu chamo atrocidades bárbaras, se repetir espero que morra em agonia ao fazê-lo.

 

- Maníaca de uma figa! - As palavras foram um grito soltado por Yvonne que mergulhou de mãos estendidas. Houve um segundo de imobilidade em que ninguém percebeu o que estava a suceder e depois Yvonne atacava com ferocidade a mulher, rasgando-lhe a cara com as unhas.

 

Martin e o inspector, juntos, conseguiram afastar Yvonne. Agora era a vez da mulher do Exército de Salvação Animal gritar:

 

- Foi uma agressão! Uma agressão criminosa! - Com dois longos sulcos, um deles a sangrar, no rosto, ela exigiu aos dois polícias: - Prendam essa cadela! Deve ser criminalmente acusada.

 

- Prender esta senhora? - O inspector parecia espantado. Olhou para Yvonne que tremia parecendo em choque. - Prendê-la porquê? Não vi nenhuma agressão. - Olhou para o polícia raso: - Viu?

 

- Não, senhor - respondeu o outro polícia. - Que eu saiba aquelas marcas no rosto da presa foram feitas pelos animais quando os estava a soltar das gaiolas.

 

Martin colocou o braço em torno de Yvonne:

 

- Vamos sair daqui. Não serve de nada falar com gente desta laia. Quando já iam a sair ainda ouviram o inspector perguntar:

 

- E que tal serem razoáveis e darem-me os nomes dos outros que vos acompanhavam?

 

- Vai-te lixar, chui - disse a mulher. Bentley seguira Martin e Yvonne. Disse-lhes:

 

- Aqueles dois irão para a prisão.

 

- Espero que sim - disse Yvonne.

 

- Irão - assegurou-lhe o administrador. - Vão juntar-se a outros tipos do Exército de Salvação Animal que já lá estão por causa de assaltos deste género. Encaram-se a si mesmos como mártires. Já li muita coisa acerca deles. Dizem ter centenas de apoiantes em todo o país. - E acrescentou: - Peço desculpa. Devia ter previsto uma coisa assim.

 

- Nenhum de nós o podia prever - disse Martin. Suspirou. - Amanhã vamos começar a limpar tudo e ver o que sobrou.

 

A desalentadora tarefa de avaliar os prejuízos no instituto de Harlow tomou vários dias. No fim Martin calculou que o assalto causara um recuo de dois anos.

 

Das cinzas de um monte de papéis e outros registos queimados fora do edifício salvou-se algum material, mas não muito. Mais tarde Nigel Bentley comunicou a Martin:

 

- Aparentemente aqueles chanfrados sabiam o que procurar e onde estavam as coisas. Segundo a polícia isso significa que tinham auxílios do interior, o que corresponde ao esquema utilizado em assaltos anteriores. Disseram-me que costumam persuadir gente como empregados de limpeza ou de manutenção a serem seus informadores. Vou tentar descobrir quem são os nossos judas embora não tenha grande esperança.

 

Bentley estava além disso a instalar fortes e dispendiosas precauções de segurança para o futuro. Como ele exprimia:

 

- De certa forma é como pôr trancas na porta depois da casa arrombada, mas aquela gente não desiste com facilidade e pode reincidir.

 

Martin, por seu lado, comunicou com Nova Jérsia pelo telefone no dia seguinte ao assalto. Falou com Célia Jordan. Uns dias antes Martin sentira-se felicíssimo ao saber que Célia regressara à companhia; agora lamentava que a primeira conversa entre ambos incluísse más notícias.

 

Célia ficou chocada ao tomar conhecimento da devastação em Harlow, em contraste absoluto com os recentes progressos no péptido 7. Questionou directamente Martin sobre o atraso provável da pesquisa.

 

- Vamos ter que - revelou-lhe Martin - repetir todas as experiências com animais para recuperar os dados que serão necessários, é claro, para acompanhar qualquer pedido que a companhia apresente sobre o medicamento. É uma terrível perda de tempo e dinheiro mas não temos outra hipótese.

 

- Tens a certeza sobre os dois anos?

 

- Isso é a pior das hipóteses. Se pudermos cortar parte desse tempo com certeza que o faremos. Sabemos muito mais do que sabíamos há dois anos e podem-nos aparecer uns atalhos. Todos nós faremos o máximo esforço para recuperar.

 

- Quero que fiques bem ciente - disse Célia - que o péptido sete se tornou tremendamente importante para nós. Recordas-te da conversa que nós os dois tivemos em tua casa? Quando afirmaste que se te dessem mais tempo produzirias um medicamento que tornaria a Felding-Roth fabulosamente rica? Estas duas últimas palavras são tuas.

 

No extremo da linha Martin fez uma careta.

 

- Receio recordar-me. Não me estava a comportar como um cientista e espero que essa conversa fique só entre nós dois.

 

- Está descansado. Só ta recordei porque a primeira parte da tua previsão se verificou. Agora precisamos desesperadamente do resto.

 

- Dois anos para voltarmos ao ponto onde já estávamos - repetiu Martin. Com ou sem atalhos nunca será muito menos.

 

Mas a conversa fê-lo acelerar a reorganização. Foram encomendados novos animais às casas especializadas e, mal eles chegaram, o pessoal do instituto começou a monótona tarefa de repetir o que já fora feito uma vez. Em resultado disso três semanas depois o processo de recuperação dos dados avançava a toda a velocidade.

 

Durante toda a provação, desde a noite do assalto, foi Yvonne quem sustentou Martin em corpo e em espírito. Tomou inteiramente a seu cargo a sua vida doméstica, nada lhe perguntando, tudo fazendo, para que nem a sua atenção nem a sua energia se desviassem do instituto. Noutras alturas confortava-o parecendo saber por instinto quando ficar apenas silenciosamente atenta ou quando o divertir com a sua tagarelice. Uma vez, depois de um dia especialmente arrasante, mandou-o deitar de barriga para baixo na cama e fez-lhe uma suave massagem sueca que o lançou num sono profundo que perdurou até de manhã.

 

Quando Martin lhe perguntara no dia seguinte onde é que ela aprendera a fazer aquelas coisas, respondeu:

 

- Tive uma colega de quarto que era massagista. Ela ensinou-me.

 

- Reparei numa coisa em ti - disse ele. - Nunca perdes uma oportunidade de aprender. Tal como fazes com o John Locke. Tens lido alguma coisa dele nestes últimos tempos?

 

-- Tenho. - Yvonne hesitou antes de continuar: - Encontrei algo que ele escreveu e que julgo adaptar-se aos tipos dos Direitos de Animais. Sobre o entusiasmo.

 

- Não sei se me lembro - disse Martin com curiosidade. Podes mostrar-me essa passagem?

 

O Ensaio de Locke estava do outro lado da sala mas, sem se incomodar em ir buscá-lo, Yvonne começou:

 

- ”A revelação imediata constitui para os homens uma forma muito mais fácil de estabelecer as suas opiniões e de regular a sua conduta que o tedioso e nem sempre bem sucedido trabalho do raciocínio estrito, pelo que não admira que alguns estejam muito aptos a fingir uma revelação e se convençam a si próprios de que estão sob uma acção peculiar dos céus nas suas acções e opiniões...”

 

Enquanto ela recitava, obviamente de memória, Martin olhava-a espantadíssimo. Ao reparar na atenção dele ela corou, fez uma pausa mas depois prosseguiu:

 

- ”Os seus espíritos estão assim preparados para, seja qual for a opinião sem bases, aceitarem tais fantasias como uma iluminação do Espírito de Deus e, portanto, com autoridade divina; e por mais estranha que seja a acção para a qual se sintam inclinados tal impulso será concretizado pois é um apelo ou uma ordem dos céus...”

 

Yvonne parou, sorriu, e disse envergonhada:

 

- Já chega.

 

- Não, não! - insistiu Martin. - Continua, se faz favor! Se puderes.

 

- Estás a gozar comigo - disse ela duvidosa.

 

- Nem sequer um bocadinho.

 

- Está bem. - E voltou a recitar: - ”... entusiasmo que, embora não baseado nem na razão nem na revelação divina, nasce dos conceitos de um cérebro em brasa ou excitado... homens são quase sempre obedientes aos impulsos que recebem de si mesmos... Porque um conceito forte, tal como um novo princípio, facilmente os arrasta a todos, quando se situa acima do senso comum e está livre de toda a restrição da razão...”

 

t’vonne concluiu a passagem e parou, aqueles olhos azuis inocentes ainda fixos em Martin tornando claro que continuava a pensar na reacção dele, em dúvida.

 

- Acho que já me lembro dessa citação - disse ele, incrédulo. - E acredito que não tivesses falhado uma só palavra. Como o conseguiste?

 

- Bem... lembro-me das coisas.

 

- De tudo? E sempre com todo esse pormenor?

 

- Acho que sim.

 

Ocorreu então a Martin que, mesmo quando referia tagarelices vulgares, Yvonne parecia sempre dar os mínimos detalhes: nomes, datas, lugares, fontes, antecedentes. Subconscientemente notara o facto mas não o valorizara até agora.

 

- Quantas vezes precisas de ler uma coisa para a memorizar? - perguntou ele.

 

- Em geral basta uma. Mas com Locke só consegui à segunda. – Yvonne continuava pouco à vontade como se Martin tivesse descoberto um segredo culpado.

 

- Gostava de fazer uma experiência - disse ele.

 

Foi a outra sala e escolheu um livro que estava certo que Yvonne nunca lera. Era A Conduta da Compreensão de Locke. Abrindo-o numa página que outrora marcara pediu a Yvonne:

 

- Lê isto. Daqui até ali.

 

- Posso ler duas vezes?

 

- Com certeza.

 

Ficou de cabeça baixa, o cabelo louro tombado para a frente escondendo as rugas de concentração na testa, até que fechou o livro. Martin pegou nele e disse:

 

- Repete lá o que leste.

 

Seguiu as palavras no livro enquanto ela as repetia.

 

- ”Existem verdades fundamentais as que estão no fundo, na base sobre as quais as outras se apoiam e onde vão buscar a sua consistência. São as verdades prolíficas, ricas em conteúdo, com que mobilam o espírito e, como a luz do céu, não são apenas belas e apreciáveis em si mesmas, como dão luz e substância a outras coisas que sem elas não seriam vistas ou conhecidas. Assim é essa admirável descoberta do senhor N ewton de que todos os corpos gravitam...”

 

Ela continuou vários parágrafos mais e Martin verificou que dizia as palavras tal e qual elas estavam impressas no livro. No fim Yvonne comentou:

 

- Esta citação é linda.

 

- E tu também - disse-lhe ele. - Assim como aquilo que possuis. Sabes o que é?

 

Mais uma vez a incerteza, a hesitação:

 

- Diz-me o que é.

 

- Tens uma memória fotográfica. É algo de especial e único. Decerto que já o sabias.

 

- De certo modo. Mas nunca quis ser diferente. Uma anormal de circo. -- Houve uma quebra na voz de Yvonne. Pela primeira vez desde que a conhecia Martin sentia-a à beira das lágrimas.

 

- Quem, em nome de Deus, te disse que eras anormal?

 

- Um professor da escola.

 

O interrogatório terno de Martin fez sair a história.

 

Fizera um exame escrito e, por causa da sua memória fotográfica, muitas das suas perguntas eram idênticas aos textos do livro. A professora que avaliara a prova acusou Yvonne de ter copiado. Depois ninguém acreditou no desmentido de Yvonne. Desesperada ela deu um exemplo de memorização igual ao que agora fizera a Martin.

 

A professora, furibunda por não ter razão, menosprezara a capacidade de Yvonne descrevendo-a como uma ”anormal de circo” e que a sua aprendizagem ”não tinha valor”.

 

- Tem valor se tu compreenderes aquilo que aprendes - interrompeu Martin.

 

- Oh, mas eu compreendo.

 

- Acredito - assegurou Martin. - Tens um rico cérebro. Já o vi a funcionar. Mas depois do seu conflito com a professora Yvonne não só procurou esconder

 

o dom como tentou descartar-se dele. Ao estudar tentava conscientemente não memorizar frases e, em parte, conseguia-o. Mas ao fazê-lo diminuía também a compreensão do que precisava de aprender e como resultado tinha más notas nos exames e acabou por reprovar naquele que lhe daria entrada na faculdade de veterinária.

 

- Os professores podem fazer muita coisa boa - disse Martin. - Mas os estúpidos podem causar maior mal.

 

Yvonne, triste com a recordação, nada disse e houve um silêncio durante o qual Martin se concentrou a pensar. Ao fim de algum tempo disse:

 

- Tens feito muito por mim. Talvez, para variar, possa fazer algo por ti. Ainda gostarias de ser veterinária?

 

A questão apanhou-a de surpresa:

 

- É possível?

 

- Muita coisa é possível. O ponto fundamental é: queres?

 

- Claro, foi o que sempre desejei.

 

- Vou fazer uns inqueritozitos - disse Martin. - Vamos ver o que consigo descobrir.

 

Não demorou muito tempo.

 

Dois dias depois, a seguir a um jantar em casa preparado por Yvonne, Martin disse:

 

- Vamos sentar-nos a conversar. Tenho coisas para te dizer.

 

Na pequena sala de estar Martin instalou-se no sofá de couro e Yvonne sentou-se no tapete em frente. Apesar das suas boas intenções ainda não se vira livre do excesso de peso embora Martin tornasse bem claro que isso não o incomodava; gostava da figura cheia de Yvonne e das curvas do seu corpo que agora contemplava.

 

- Podes candidatar-te - disse ele - à Faculdade de Veterinária e tens boas probabilidades de entrar. E uma ajuda financeira, de que precisas para viver razoavelmente, é possível, provável até, com um empurrão do instituto. Mas se não conseguires apoio financeiro de certeza que havemos de descobrir outra solução.

 

- Mas para isso tenho de trabalhar e passar alguns exames.

 

- Sim, já descobri até do que precisas. Tens de passar três níveis A. Um em Química, outro em Física e um terceiro em Zoologia, Biologia ou Botânica. Com a experiência que tens parece-me que a Zoologia é a melhor escolha.

 

- Acho que sim. - Uma dúvida surgiu-lhe: - Terei de largar o emprego?

 

- Não necessariamente, pelo menos enquanto estiveres a preparar os níveis A. Podes estudar à noite e nos fins-de-semana. Eu ajudo-te. Trabalharemos os dois.

 

- Não posso crer - disse Yvonne, maravilhada.

 

- Acreditarás, descansa, quando vires o trabalho que te espera.

 

- Oh, trabalharei muito. Prometo. A sério.

 

- Eu sei. - Martin sorriu. - E com essa tua capacidade de memorização vais navegar de vento em popa e passar nesses exames sem problema. - Fez uma pausa, pensando. - Uma coisa que vais ter de aprender é como alterar as palavras dos livros para que não pareçam cópias nos exames. Nada de levantar suspeitas nos examinadores como as que ocorreram na tua professora. E existem técnicas para passar nos exames. Ensinar-te-ei algumas.

 

Yvonne saltou e abraçou-o:

 

- Oh, meu amor, és maravilhoso, a ideia é tão excitante. Foi a melhor coisa que jamais me aconteceu.

 

- Bem - disse ele -, já que mencionas isso, afirmo que sinto o mesmo em relação a ti.

 

Na Felding-Roth, Nova Jérsia, o clima de euforia moderada que se desenvolvera a seguir ao regresso de Célia não durou muito.

 

As notícias do assalto ao instituto em Inglaterra, dadas por Martin Peat-Smith, foram as primeiras coisas a afectá-lo. Depois, mesmo ali ao pé, uma súbita e dramática tragédia, ensombrou todos.

 

Foi um acidente - pelo menos foi classificado como ”acidente” pela polícia de Boonton - que se deu num dia normal de trabalho exactamente três semanas depois do regresso de Célia.

 

Uns poucos minutos antes das nove horas da manhã a viatura com o motorista conduziu-a ao piso superior do estacionamento na Felding-Roth, perto da rampa envidraçada de acesso ao edifício principal. O motorista encostara perto da rampa, à esquerda, porque - como mais tarde contara - vira no retrovisor, ainda no piso da rua, que era seguido pelo Rolls-Bentley do Sr. Hawthorne. Sabendo que o presidente da companhia iria estacionar no seu lugar habitual, que era em frente da parede exterior e à direita do sítio onde parara o carro de Célia, o motorista deixara o acesso livre.

 

Célia só viu o carro de Sam quando saiu do seu, com o motorista segurando-lhe a porta aberta. Nessa altura a primeira coisa que viu foi aparecer no cimo da rampa o emblema a que se seguiu o resto da viatura.

 

Esperando ir junta com Sam até ao elevador dos executivos, como noutros dias, Célia ficou parada enquanto o belo automóvel - por muitos anos o orgulho e a alegria de Sam - avançava a uma velocidade lenta e segura.

 

Foi então que tudo aconteceu.

 

Com um repentino rugir do potente motor Rolls-Royce, acompanhado por um chiar de pneus, o pesado carro disparou para a frente atingindo instantaneamente uma alta velocidade como nenhum outro carro conseguiria fazer. Passou por Célia e pelo motorista como uma mancha cinzento-prateada, atravessou o lugar de estacionamento reservado a Sam e, sem parar, bateu na parede em frente. A parede de meia altura, aberta em cima, era a única separação entre o estacionamento e o exterior; o chão estava uns bons quinze metros mais abaixo.

 

Com um estrondo resplandecente a parede rebentou e o carro continuou, desaparecendo.

 

Logo depois, e durante o que a Célia pareceu uma eternidade, houve silêncio. Só então, lá de baixo e fora da vista, veio um ruído surdo, um gemido de metal torturado e um estilhaçar de vidros.

 

O motorista correu para o rasgo aberto na parede e o primeiro impulso de Célia foi segui-lo. Conteve-se. Em vez disso, pensando depressa, entrou dentro do seu carro onde havia um telefone e usou-o para chamar o número de emergência da polícia. Indicou a morada e pediu a comparência de um carro dos bombeiros e de uma ambulância com urgência. Depois fez uma segunda chamada, desta vez para as telefonistas da Felding-Roth, dando ordens para que os médicos disponíveis a companhia empregava vários - corressem para o piso inferior da garagem. Só então Célia se aproximou do buraco hediondo deixado pelo carro de Sam e olhou para baixo.

 

O que via horrorizou-a.

 

O outrora belo automóvel estava virado e destruído. Era óbvio que caíra primeiro com a frente que, com a força do impacte dada pela queda de quinze metros, se enfiara no corpo do carro. Os destroços em concertina tinham rodado e tombado sobre o tejadilho que também cedera. Havia fumo a sair dos destroços mas sem fogo. Uma roda retorcida girava loucamente.

 

Felizmente o carro tombara numa área vazia. Não estava ninguém lá em baixo. Apenas uns arbustos e ervas.

 

Várias pessoas corriam já para o carro desfeito e Célia podia ouvir as sirenas a aproximarem-se. No entanto parecia impossível que alguém dentro do que restava do Rolls-Bentley pudesse sobreviver.

 

E foi assim que tudo aconteceu.

 

Foi preciso mais de uma hora para libertar o corpo de Sam, uma tarefa terrível que os bombeiros fizeram sem pressas pois um médico, enfiando-se nos destroços, confirmara o óbvio. Sam estava morto.

 

Célia, tomando o comando da situação, telefonara a Lilian procurando dar a notícia com a maior suavidade possível embora insistindo para que Lilian não viesse ver a cena.

 

- Se quiseres - disse Célia - vou já ter contigo. Houve um silêncio até que Lilian disse:

 

- Não. Quero ficar aqui um bocado. Preciso de ficar só. - A voz dela soava longínqua e desencorpada, como se proviesse de outro planeta. Já sofrera muito e ia sofrer mais. O que as mulheres têm de aguentar, pensou Célia.

 

- Depois vou ver Sam - acrescentou Lilian. - Dizes-me quando ele estiver pronto, Célia?

 

- Sim. E vou aí ter contigo e encontramo-nos aqui.

 

- Obrigada.

 

Célia tentou telefonar para Juliet, e depois para Dwight, o marido de Juliet, mas não conseguiu falar com nenhum deles.

 

Em seguida mandou chamar ao seu gabinete Julian Hammond, o vice-presidente das relações públicas, e deu-lhe instruções:

 

- Envia imediatamente uma comunicação à imprensa sobre a morte de Sam. Descreve-a com um acidente trágico. Quero a palavra ”acidente” bem vincada para evitar especulações. Podes dizer qualquer coisa do género de que o acelerador se prendeu e o carro ficou descontrolado.

 

- Ninguém vai acreditar nisso - protestou Hammond. Apetecendo-lhe chorar, controlando as suas emoções por uma unha negra, Célia

 

gritou:

 

- Não discutas! Faz o que te estou a dizer. E já!

 

O último serviço que podia prestar a Sam, pensou ela quando Hammond saiu, era - se ela pudesse fazê-lo - salvá-lo da indignidade de ser rotulado de suicida.

 

Mas para os que lhe estavam mais chegados fora sem dúvida suicídio.

 

O que parecia mais provável é que Sam, esmagado pelo desespero e pela culpa sobre o Montayne, vira a parede da garagem na sua frente, pensara de repente numa forma de pôr termo à vida e esmagara até ao chão o acelerador batendo na parede frágil. Em privado os seus amigos diziam que seria típico de Sam ter-se lembrado de que o terreno estava vazio e, assim, não poria em perigo mais ninguém.

 

Célia tinha algumas perguntas e sentimentos de culpa pessoais. Teria Sam pensado já antes naquela solução mas deixara o bom senso prevalecer? E naquele dia, vendo o carro de Célia parado no cimo da rampa - uma Célia confiante e dominante, exercendo uma autoridade que seria dele não tivessem as circunstâncias invertido tão drasticamente os seus papéis - não teria Sam...? Não conseguia completar a pergunta cuja resposta nunca poderia conhecer.

 

Outro pensamento surgia-lhe no espírito incessantemente. Aquela ocasião no gabinete de Sam, no primeiro dia do regresso de Célia, em que ele lhe dissera: ”... há outra coisa. Algo que nunca saberás”. E, momentos depois: ”Nunca te direi.”

 

Qual era o outro segredo de Sam? Célia tentou adivinhar mas falhou. Fosse qual fosse devia ter morrido com ele.

 

A pedido da família o funeral de Sam foi privado. Célia foi o único representante da companhia. Andrew acompanhou-a.

 

Sentada na desconfortável cadeira desdobrável da capela do agente funerário, escutando um untuoso clérigo, que nunca conhecera Sam, entoar as suas preces religiosas, Célia tentou afastar o presente e lembrar o passado mais rico.

 

Vinte e dois anos antes... Sam contratando-a como delegada de propaganda... Sam no casamento dela... Ela seleccionando-o como aquele a seguir na ascensão dentro da companhia... ele na reunião de Nova Iorque arriscando o emprego para a defender: ”Estou aqui de pé para ser contado. Se deixarmos a senhora Jordan sair daqui estaremos a ser loucos de vistas curtas...” Sam, lutando contra a oposição, colocando-a na via rápida... promovendo-a para as vendas ao balcão, depois para directora latino-americana: ”o futuro está no Internacional”... Sam, a respeito da sua promoção e das suas duas secretárias: ”Acho que ditam cartas uma à outra.”... Sam, o anglófilo, antevendo o Instituto Britânico de Pesquisa: ”Célia, quero que sejas o meu braço direito.”... Sam, que pagara um erro de julgamento com a sua reputação e agora com a sua vida.

 

Sentiu Andrew mexer-se a seu lado. Ele passou-lhe um lenço de assoar dobrado. Só então Célia se apercebeu de que as lágrimas lhe corriam pelo rosto.

 

Mais uma vez a seu pedido só Lilian e Juliet acompanharam o caixão até à cova. Célia falou um pouco com ambas antes de se ir embora. Lilian estava pálida; parecia que pouca vida restava dentro dela. O rosto e os olhos de Juliet estavam duros; não parecia ter chorado sequer durante o serviço fúnebre. Dwight estava ausente.

 

Nos dias que se seguiram Célia persistiu nos seus esforços para que a morte de Sam fosse oficialmente declarada um acidente. Foi bem sucedida sobretudo porque, como explicou a Andrew: ”Ninguém parecia ter coração para tomar outra atitude. Sam não tinha seguro de vida pelo que, financeiramente, não interessava qual a causa da morte.”

 

Depois de um decente intervalo de duas semanas o conselho de directores da Felding-Roth reuniu-se para eleger um novo presidente. Dentro da companhia considerava-se que tal seria uma mera formalidade e que Célia seria escolhida.

 

Seth Feingold entrou no gabinete de Célia poucos minutos depois da reunião ter terminado. A sua expressão era magoada.

 

- Fui mandatado para te dizer isto - anunciou ele - e odeio ter de o fazer. Mas tu não serás o novo presidente.

 

Quando Célia não reagiu ao facto ele prosseguiu:

 

- Podes não acreditar nisto, e, santo Deus!, não é justo, mas existem ainda homens no conselho que não gostam da ideia de uma mulher a dirigir a companhia.

 

- Acredito - disse Célia. - Há mulheres que passaram vidas inteiras a descobrir isso.

 

- Houve uma grande discussão, com momentos bastante acalorados continuou Seth. - O conselho estava dividido e vários membros apoiaram-te com vigor. Mas os objectores não se demoveram. Acabámos de ter de nos decidir por um compromisso.

 

Seth indicou que fora indicado um presidente pró tempere’. Era Preston O’Halloran, um presidente bancário já reformado e que desde há muitos anos era membro do conselho da Felding-Roth. Tinha setenta e oito anos e caminhava agora com auxílio de uma bengala. Embora respeitado e sendo um perito financeiro, o novo presidente tinha apenas um conhecimento limitado da indústria farmacêutica e bastante confinado ao que aprendera nas reuniões do conselho.

 

Célia já encontrara várias vezes O’Halloran embora não o conhecesse bem.

 

- E quanto ao pró tempore? - perguntou Célia.

 

- O’Halloran concordou em estar, no máximo, seis meses no cargo. Entretanto o conselho fará uma nomeação permanente. - Seth fez uma careta. Posso até dizer-te que me parece que querem procurar alguém fora da companhia.

 

- Estou a ver.

 

-- Suponho que não to deveria dizer mas, francamente, Célia, se eu estivesse na tua posição diria ”Vão todos pró diabo!” e sairia daqui agora mesmo. Ela abanou a cabeça numa negativa.

 

- Se o fizesse alguém diria: ”Tal e qual as outras mulheres!” Além disso regressei para limpar esta casa e fá-lo-ei. Quando isso estiver terminado... bem, depois se verá.

 

A conversa recordou-lhe outra que tivera com Sam anos atrás quando Célia fora nomeada assistente do director de vendas em vez de directora porque, como expressara Sam nessa altura: ”Há na companhia quem não seja capaz de engolir uma dessas. Por enquanto.”

 

”Plus ca change, plus c’est Ia même chose”, citou consigo mesma. ”Quanto mais mudam as coisas mais ficam na mesma.”

 

- Sentes-te terrivelmente magoada? - perguntou-lhe Andrew ao jantar. Célia pensou antes de responder:

 

1 Expressão latina que significa: Segundo o tempo; conforme a ocasião, a oportunidade ou as circunstâncias. (N. do E.)

 

- Sinto, acho que sim. A injustiça atinge-me. No entanto, pensando melhor, é estranho, mas sinto que não me afecta como me teria afectado há alguns anos atrás.

 

- Estava a pensar nisso. Queres que te diga porquê?

 

- Por favor, doutor - disse ela rindo-se.

 

- Porque és uma mulher realizada, amor. Realizada em todos os sentidos. És a melhor esposa que um homem pode ter, uma mãe soberba, és esperta, responsável e competente no teu trabalho e podes passar a perna à maior parte dos homens. Já provaste milhares de vezes como eras boa. E deixaste de precisar das roupagens e dos títulos porque toda a gente conhece o teu valor; incluindo aqueles chauvinistas parvos do conselho da Felding-Roth, nenhum dos quais vale sequer o teu dedo mindinho. Por isso é que aquilo que hoje sucedeu não te causa uma segunda angústia, pois os que tomaram tal decisão são os perdedores e mais cedo ou mais tarde irão descobrir isso.

 

Andrew parou.

 

- Desculpa. tencionava fazer um discurso. Queria apenas apontar algumas verdades e animar-te.

 

Célia levantou-se da cadeira para o abraçar. E disse-lhe, enquanto o beijava:

 

- E conseguiste.

 

O bebé de Winnie, um rapazola saudável, nasceu no dia seguinte. O acontecimento alegrou não apenas Winnie e Hank mas toda a família Jordan; Lisa telefonou entusiasticamente da Califórnia, Bruce da Pensilvânia.

 

Winnie, como era o seu hábito, fez logo planos.

 

- Acho que ganhei umjackpot - dizia ele, feliz, na cama do hospital. Agora, se calhar, Hank e eu vamos tentar gémeos.

 

Capítulo nono

 

Vincent Lord era um homem mudado. Irradiava energia e felicidade.

 

Após quase vinte anos de dedicação científica a uma ideia única, perseguindo um sonho em que poucos outros para além de si próprio acreditavam concebendo o fármaco para fixar os radicais livres - o sonho tornara-se verdade. As décadas de dedicação seriam recompensadas.

 

O que agora era possível, necessitando apenas que se completassem os ensaios em animais e seres humanos para satisfazer as disposições legais, era um medicamento que transformaria outros medicamentos, até aí perigosos, em benéficos e seguros.

 

Hexin W, o nome provisório de Lord para a sua criação tinha até então persistido, estava a ser discutido com avidez na indústria, embora os pormenores continuassem a ser segredo da Felding-Roth. Outras firmas farmacêuticas, que se mantinham atentas aos registos de patentes e compreendiam as implicações da descoberta, já tinham mostrado o seu interesse.

 

Como o chefe de uma concorrente expressara por telefone a Célia:

 

- Naturalmente que gostaríamos que tivesse sido um dos nossos investigadores a descobrir o que o doutor Lord descobriu mas, como não foram eles, queremos ser os primeiros na fila quando a vossa gente estiver pronta para os acordos.

 

De igual interesse era o facto do novo fármaco poder usar-se de duas maneiras. Podia ser incluído como ingrediente activo na formulação de outros fármacos, isto é, misturado durante a fabricação. Ou podia ser apresentado como um comprimido separado para ser tomado com os outros medicamentos.

 

Desta forma o Hexin W era um medicamento ”entre fronteiras”. Exprimindo de outra maneira, era o medicamento do medicamento do cientista, a ser utilizado pelos criadores de outros produtos farmacêuticos e comercializado não por uma companhia mas por muitas. As outras companhias operariam sob licença com direitos - presumivelmente enormes - a serem pagos à Felding-Roth.

 

Os artríticos e os cancerosos seriam dos principais beneficiários do Hexin W. Embora já existam medicamentos poderosos para estes males pouco eram utilizados, ou mesmo nada, devido aos perigosos efeitos colaterais que apresentavam. Com o Hexin W estes efeitos e perigos seriam anulados ou pelo menos drasticamente reduzidos.

 

Vince Lord explicou a Célia e a vários outros, durante uma sessão de planeamento de vendas, o que aconteceria com a artrite. Utilizou linguagem não científica.

 

- Os que dela sofrem têm inflamação das articulações que provoca imobilidade e dor. Tudo isto resulta de quando a doença cria radicais livres que, por sua vez, atraem leucócitos - as células brancas do sangue. Os leucócitos acumulam-se criando e piorando a inflamação. Mas o Hexin W - continuou Lord - faz parar a produção de radicais livres e assim os leucócitos não são atraídos. Resultado: não há inflamação e a dor desaparece.

 

O efeito da exposição de Lord foi tal que alguns presentes bateram espontaneamente palmas. Ele corou de prazer.

 

- Males menores - acrescentou - teriam também novas hipóteses de tratamento graças ao Hexin W.

 

A grande reviravolta nas suas investigações tinha-se dado três meses antes. Marcou uma vitória gloriosa e gratificante num laborioso e paciente processo de tentativa e erro - um processo muitas vezes desanimador e semeado de falhanços repetidos.

 

O processo era em si mesmo outra medida do valor do sucesso de Lord porque actualmente, para alguns, era encarado como algo já fora de moda.

 

De forma simples: o sistema desenvolvia novos fármacos a partir de fármacos antigos utilizando para isso a química orgânica. Começando com um composto conhecido a fórmula química era modificada, depois de novo modificada... e de novo, de novo, de novo... se necessário, até ao infinito. O objectivo era sempre o de encontrar um novo fármaco eficaz, derivado do antigo, mas sem toxicidade ou com muito menos que a precedente. Olhando para o passado Lord recordava-se de como, dois anos antes, depois de ter ensaiado um milhar de compostos diferentes

- todos sem sucesso - jurara jamais desistir.

 

Uma abordagem nova e diferente, empregue por Sir James Black, o distinto criador do Tagamet da Smith Kline, era decidir qual a alteração biológica a ser corrigida farmacologicamente e depois criar um fármaco totalmente novo. Martin Peat-Smith, em Harlow, recorria a métodos genéticos que eram ainda mais recentes. No entanto até estes dois métodos exigiam anos de experimentação e podiam resultar em insucessos embora, quando bem sucedidos, conduzissem a fármacos revolucionários.

 

Mas Lord decidira que o método antigo se adaptava melhor ao seu objectivo e temperamento e, santo Deus!, tivera razão.

 

O que lhe dava maior felicidade imediata era o pequeno exército de especialistas - químicos, biólogos, médicos, farmacólogos, patologistas e estatísticos que, na Felding-Roth, trabalhavam em conjunto concentrando os seus talentos para dar ao Hexin W a sua forma final.

 

Mesmo assim, por causa do complexo programa de ensaios em animais e seres humanos, só daí a dois anos seria feito à FDA o pedido de aprovação para uso geral.

 

Se bem que nada dizendo em voz alta Lord sentira-se satisfeito com o atraso do programa do péptido 7 de Peat-Smith. Um atraso de dois anos em Harlow significava que o Hexin W poderia ser lançado primeiro no mercado.

 

A boa disposição de Lord até o levou a decidir tomar a iniciativa de fazer as pazes com Célia. Pouco depois do regresso dela à companhia foi visitá-la ao gabinete. Dando-lhe os parabéns pelo seu novo posto disse-lhe:

 

- Estou contente com o teu regresso.

 

- A propósito - disse Célia -, parabéns também a ti. Acabo de ler o relatório sobre o Hexin W.

 

- Espero que seja reconhecido como uma das maiores descobertas do século afirmou Lord com à-vontade. Nem um certo amadurecimento pela passagem dos anos diminuíra a sua apreciação do seu próprio valor.

 

Nesta conversa com Célia decidiu não admitir que ela tivera razão e que ele, Lord, estava errado. Raciocinou que ela tivera apenas um palpite não científico, simples sorte; sendo assim não merecia maior crédito intelectual que o possuidor do bilhete de lotaria premiado.

 

Apesar da tentativa para se reconciliar com Célia sentiu-se aliviado quando, após a morte de Sam Hawthorne, ela não foi nomeada presidente. Isso teria sido de mais. Pelo menos uma vez, pensou, o conselho de directores mostrara bom senso.

 

Quando o mundo entrou no ano de 1978 o Hexin W continuava a ser o grande centro de esperança da Felding-Roth.

 

A nomeação de Preston O’Halloran para presidente pró tempore da Felding-Roth pouca diferença, se é que alguma, teve nas responsabilidades e rotinas do dia-a-dia de Célia. No dia seguinte à reunião especial do conselho O’Halloran fora aberto e franco com ela.

 

Encontraram-se, só os dois, no gabinete do presidente. A visão de um novo morador nas instalações que até há bem pouco tempo tinham estado ocupadas por Sam foi para Célia um avivar da sua dor pela morte de Sam que continuava a ter dificuldade em aceitar.

 

Falando cuidadosamente no seu sotaque bem modulado de Nova Inglaterra o velho O’Halloran disse:

 

- Gostava que soubesse, senhora Jordan, que não fui um dos que se opôs tenazmente à sua nomeação para a presidência. igualmente honesto dizendo-lhe que não apoiei a sua candidatura mas que teria votado com uma maioria a seu favor se tal tivesse sido possível. Fui até ao ponto de informar os outros membros do conselho disto tudo.

 

- Acho interessante que encare isso como ir ”até ao ponto” - comentou Célia sem resistir a colocar nas suas palavras um toque de acidez.

 

- Touché! - O velhote sorriu e ela pensou: ”Pelo menos tem sentido de humor.”

 

- Tudo bem, senhor CVHalloran - continuou ela rispidamente -, sendo assim ambos conhecemos as nossas posições e aprecio o facto. O que de si preciso, além disso, são as instruções sobre como quer que eu trabalhe e qual será a nossa divisão de funções.

 

- Os meus amigos íntimos chamam-me Snow1. - De novo um sorriso singelo. - O nome deriva de uma juventude endiabrada em que me fartei de esquiar. Gostaria que o usasse e talvez a pudesse tratar por Célia.

 

- Está bem... tu Snow, eu Célia - disse Célia. - Vejamos como iremos trabalhar. - Sabia que estava a ser cruel mas não se importava.

 

- Fácil. Gostaria que agisses exactamente como tens estado a fazer até agora. E sei que tem sido com grande competência e capacidade.

 

- E tu, Snow? Que farás enquanto eu estiver a ser competente e capaz? Ele censurou-a com carinho:

 

- O presidente não tem que prestar contas à vice-presidente executiva, Célia. É o contrário. No entanto, para que não haja entre nós qualquer mal-entendido, concedo que os meus conhecimentos deste negócio farmacêutico não são de forma alguma comparáveis aos teus, na realidade são muito menores. Aquilo de que percebo muito, quase mais do que tu, é de finanças da empresa. Daí que pretenda dispender o meu tempo nesta cadeira, seis meses ou menos, a rever questões de dinheiro.

 

Célia admitiu a si mesma que fora tratada com cortesia e paciência. Disse, num tom mais agradável que o precedente:

 

- Obrigada, Snow, farei o melhor que puder para manter a minha parte da combinação.

 

- Estou certo de que o farás.

 

O novo presidente nem todos os dias ia ao gabinete mas, nos dias em que lá ia, criou um plano financeiro global para a Felding-Roth, cobrindo os cinco anos seguintes, que Seth Feingold descreveu a Célia como ”uma gema, uma contribuição real”.

 

E Seth acrescentara:

 

- O velho excêntrico pode precisar de uma bengala para andar mas não necessita dela para o espírito que continua afiado como uma lâmina de barbear.

 

Ao mesmo tempo Célia acabou por apreciar O’Halloran: o seu apoio a tudo o que ela fazia e a sua permanente cortesia. Era verdadeiramente, como numa descrição fora de moda de que ela se recordava, ”um cavalheiro da velha guarda”.

 

Consequentemente ficou triste quando, na última semana de Janeiro de 1978, soube que ele estava na cama com uma gripe e muito mais quando, uma semana depois, Snow O’Halloran morreu de uma oclusão coronária maciça.

 

Snow significa ”neve” em português. (N. do E.)

 

Desta vez não houve um intervalo de duas semanas para nomeação de um sucessor. A questão ficou resolvida no dia a seguir ao funeral de O’Halloran.

 

Não surgira qualquer candidato exterior viável apesar do presidente pró tempore ter servido mais de quatro dos seus seis meses de mandato.

 

Restava apenas uma solução e o conselho de directores tomou-a, levando menos de quinze minutos para decidir o que já devia ter sido feito em Setembro; Célia Jordan tornou-se presidente e chefe executiva da Felding-Roth.

 

A ideia em bruto surgira a Célia no seu voo de regresso do Havai, em Agosto passado. Um comentário de Andrew fizera-a surgir.

 

Dissera ele a Célia, Lisa e Bruce: ”Não creio que se deva tomar um medicamento para algo que é apenas desconfortável e autolimitado.” O assunto era a gravidez. O desastre Montayne, fresco nas suas memórias, suscitara o comentário.

 

Andrew acrescentara, aconselhando a filha: ”Quando chegar a tua altura, não tomes nada... e se quiseres um bebé forte e saudável, nada de licores, vinhos e tabaco.”

 

Estas palavras eram a base daquilo que Célia estava agora pronta a propor como uma política fixa da companhia. Tinha até um nome para o que planeara: a Doutrina Felding-Roth.

 

Pensara em apresentar a ideia mais cedo, no tempo em que era ainda vice-presidente executiva, mas decidira esperar com receio de ser rejeitada.

 

Mesmo depois da sua nomeação como presidente esperara, deixando correr o tempo, sabendo que aquilo que pretendia tinha de ter a aprovação do conselho de directores.

 

Agora, sete meses mais tarde, em Setembro, estava preparada para dar o passo decisivo.

 

Bill Ingram, recentemente promovido a vice-presidente de vendas e comercialização, auxiliara a formular as palavras da Doutrina Felding-Roth, onde se lia na introdução:

 

A Felding-Roth Pharmaceuticals Incorporated jura solenemente:

 

Artigo 1: Que esta companhia se compromete a nunca investigar, fabricar, distribuir ou comercializar directa ou indirectamente nenhum produto farmacêutico destinado a ser usado por mulheres durante a gravidez para tratar qualquer condição natural e autolimitada, tais como as náuseas e os vómitos, relacionadas com uma gravidez normal.

 

Artigo 2: Que a Felding-Roth advogará, por todos os meios ao seu alcance, para que a nenhuma mulher grávida seja prescrito, ou possa obter e usar directamente, durante uma gravidez, normal, qualquer produto definido no Artigo seja qual for a sua origem.

 

Artigo 3: Que a Felding-Roth aconselhará todas as mulheres grávidas a evitarem o uso de todos os medicamentos de prescrição ou não - seus ou de outras companhias - durante as suas gravidezes, excepto os medicamentos prescritos por um clínico por razões médicas excepcionais.

 

A rtigo 4: Que a Felding-Roth advogará activamente as mulheres que se abstenham, durante as suas gravidezes, do consumo de bebidas alcoólicas, incluindo vinho, e dos cigarros e outros tabacos, incluindo a inalação do fumo de outras pessoas...

 

Havia mais. Incluía outra referência aos médicos, em parte para reforçar a relação de confiança entre médico e doente; e como um ”rebuçado” aos médicos que, como prescritores, eram os melhores clientes da Felding-Roth. Havia referências a situações especiais, como as emergências médicas, em que o uso de medicamentos era essencial e urgente.

 

Tal como se exprimiu Bill Ingram:

 

- A coisa faz mais sentido, Célia, do que tudo aquilo que li nos últimos tempos. Alguém deste negócio devia ter feito uma coisa destas há muitos anos já.

 

Ingram, que votara a favor do Montayne e contra Célia naquela reunião crítica que antecedera a demissão dela, mostrara-se penitente e pouco à vontade na altura em que Célia regressara à Felding-Roth. Várias semanas depois admitira:

 

- Estive a pensar se, depois de tudo o que aconteceu, ainda me queres a trabalhar aqui.

 

- A resposta é sim - dissera-lhe Célia. - Sei como trabalhas e que posso confiarem ti. Quanto ao passado fizeste um juízo errado, o que todos nós fazemos de tempos a tempos. Foi azar que se tivesse revelado um erro de terríveis consequências, mas não foste o único e penso que aprendeste com a experiência.

 

- Oh, se aprendi! E sofri, também, desejando ter tido a inteligência e a garra para ficar do teu lado.

 

- Não necessariamente do meu lado - aconselhou ela. - Nem mesmo agora. Haverá alturas em que estarei errada e, se pensares que o estou, quero que mo digas.

 

Depois da elevação de Célia à presidência houve uma reestruturação de cargos assim como várias promoções. Bill Ingram foi um dos promovidos. Já estava a fazer bom trabalho no seu novo posto.

 

Célia, agora um membro de pleno direito do conselho de directores, preparou-se com cuidado para a reunião em que seria debatida a sua proposta da Doutrina Felding-Roth.

 

Não esquecendo o que Sam uma vez lhe dissera sobre os seus problemas com o conselho, e recordando a resistência que houvera, anos atrás, ao controverso plano de Sam para a criação de um instituto de investigação britânico, Célia esperava oposição.

 

Para sua surpresa houve pouca, quase nenhuma.

 

Um membro do conselho - Adrian Caston, que era presidente de um grupo financeiro e um pensador cauteloso - perguntou:

 

- É acertado ou necessário bloquearmo-nos a nós próprios de um campo da medicina que, no futuro, poderá ver progressos novos e seguros de uma natureza bastante lucrativa?

 

Estavam juntos na sala de reuniões da sede da companhia e Célia respondeu, de olhos postos na mesa de nogueira:

 

- Senhor Caston, acredito que é exactamente o que devemos fazer. Devemos fazê-lo porque estaremos a bloquear-nos a nós mesmos, e a outros que aqui nos sucederem, da tentação, da hipótese e do risco de envolver esta companhia noutro Montayne.

 

Houve um silêncio atento enquanto ela continuava:

 

- As memórias apagam-se depressa. A maioria das mulheres jovens em idade de terem filhos não se lembram da Thalidomide, na verdade nunca ouviram falar nela. Daqui a poucos anos o mesmo se aplicará ao Montayne e nessa altura as mulheres voltarão a tomar tudo o que lhes for prescrito pelos seus médicos. Mas se tal acontecer que nós não tomemos parte nisso recordando que toda a história das tentativas de influenciar, com medicamentos, a evolução de uma gravidez normal, tem sido carregada com desastre.

 

”O tempo e a experiência mostraram que a gravidez é a única situação de saúde que é melhor deixar a natureza em paz. Na Felding-Roth vivemos hoje com um desastre de um medicamento para a gravidez e estamos a pagá-lo caro. No futuro faremos melhor, moral e financeiramente, em procurar os lucros noutros campos e insistir para que os outros façam o mesmo.

 

Clinton Etheridge, um veterano director e advogado, de quem Célia esperara antagonismo, falou a seu favor:

 

- Falando de lucros, gosto da ideia da senhora Jordan para transformar o nosso lapso com o Montayne numa vantagem comercial. No caso de ainda o não terem notado esta chamada doutrina - o director levantou os papéis no ar - é diabolicamente esperta. É um instrumento excelente para promover a comercialização dos nossos outros medicamentos. Terá um forte valor em dólares e penso que a seu tempo o descobriremos.

 

Célia estremeceu por dentro mas depois recordou a si mesma que era bom ser-se apoiada, mesmo que por razões erradas. Pensou um pouco sobre Etheridge, que bia ser um amigo e aliado de Vincent Lord e que, como Sam há muito discobrira, bastantes vezes trazia para as reuniões dos directores os pontos de vista do director de pesquisas. Lord sabia da Doutrina Felding-Roth, estava ciente de que seria discutida ali, hoje, e decerto que ele e Etheridge a tinham debatido, sendo assim... seria o apoio que estava a receber agora de Lord uma forma remota de este lhe mostrar arrependimento pelo assunto Montayne? O mais provável era nunca o vir a saber.

 

Houve mais discussões entre os membros do conselho, sobretudo questões de como se poria em efeito a doutrina. Mas foi o czar da rádio e televisão, Owen jrton, quem teve a palavra final.

 

Olhando para Célia da outra ponta da mesa, Norton, que uns dias antes celebrara o seu octogésimo segundo aniversário, observou secamente:

 

- Já notou, senhora Jordan, que, finalmente, estamos a respeitar o seu juízo feninino. Quero apenas dizer, por mim próprio e por outros como eu, que lamento que tenha demorado tanto tempo.

 

- Senhor - disse Célia sentindo o que dizia -, acaba de me dar o dia.

 

O voto que se seguiu, estabelecendo a doutrina como política oficial da companhia, foi unânime.

 

O impacto da Doutrina Felding-Roth foi substancial, embora, com o grande público, não tão grande quanto desejara Célia.

 

Os médicos, com raras excepções, gostaram dela. Um obstetra escreveu:

 

Por favor enviem-me mais cópias, uma das quais mandarei emoldurar para colocar na parede do meu gabinete. Pretendo apontá-la quando uma doente minha sugerir que a sirvo mal e inadequadamente ao me recusar a escrever uma receita para um paliativo que, na minha opinião, é dispensável.

 

Conseguiram, com a vossa elevada norma ética, dar mais força às mãos daqueles entre nós que não acreditam que haja um medicamento para cada ocasião. Mais forças para vós!

 

Foram enviadas mais cópias - para este médico e para muitos outros que também as pediram.

 

Os médicos que protestaram fizeram-no invocando que deviam ser eles, e não um laboratório farmacêutico, a aconselhar os doentes sobre os medicamentos a tomar, ou não, e quando. Mas, avaliando pelo volume do correio, eram uma pequena minoria.

 

A Doutrina Felding-Roth foi amplamente divulgada na publicidade da companhia embora esta se confinasse a revistas médicas e científicas. Ao princípio Célia foi a favor da publicidade nos jornais e revistas mas foi persuadida de que isto criaria antagonismo da medicina organizada e da FDA que não viam com bons olhos as abordagens directas dos consumidores a respeito de medicamentos de receita médica.

 

Talvez devido a esta ausência os jornais dedicaram pouca atenção à Doutrina Felding-Roth. O New York Times meteu uma curta história de dois parágrafos no seu noticiário financeiro, o Washington Post enterrou um comunicado semelhante numa das últimas páginas do jornal. Nos outros jornais surgiram pequenas notícias quando havia espaço que sobrava. A televisão, apesar das tentativas do pessoal das relações públicas para a convencer, não lhe ligou nada.

 

- Se comercializarmos um medicamento que tenha efeitos nefastos que não prevíramos - queixou-se Bill Ingram a Célia -, os tipos dos noticiários da televisão arrancam-nos a pele. Mas quando temos algo de positivo como isto o mais que conseguimos são uns bocejos.

 

- O jornalismo da televisão é simplista - respondeu ela. - É gente que está treinada para procurar um impacte forte e rápido e evitar coisas que façam pensar, cerebrais, que roubam muito tempo de antena. Não te preocupes. Quando chegar a altura essa política vai-nos ajudar.

 

- Não te esqueças de me dizer quando tal acontecer - disse Ingram em tom de dúvida.

 

A reacção à Doutrina Felding-Roth por parte das outras companhias era diversa.

 

Os que comercializavam produtos destinados às mulheres durante a gravidez eram abertamente hostis. ”Um tiro barato, publicidade suja, nada mais”, foi como um porta-voz de uma dessas companhias descreveu publicamente a doutrina.

 

De outras veio a sugestão de que a Felding-Roth se tentara mostrar ”mais santa que vocês” e podia ter prejudicado a indústria, embora não soubessem bem porquê. No entanto um ou dois concorrentes eram declarados admiradores.

 

- Falando francamente - dissera a Célia um líder respeitado da indústria gostaria de ter sido eu a ter a ideia primeiro.

 

- Isto nada prova - confidenciou ela a Andrew -, a não ser que não se pode agradar a todos ao mesmo tempo.

 

- Tem paciência - pediu ele. - Fizeste uma coisa boa e provocaste ondas que se estão a espalhar. Com o tempo ficarás surpreendida por veres até aonde irão.

 

Outras ondas estavam a resultar do Montayne. Uma teve origem na Colina do Capitólio, em Washington.

 

Os assessores de um veterano do congresso, o senador Dennis Donahue, tinham passado um ano a rever a questão do Montayne e agora declaravam-na ao seu líder como o assunto ideal para ser focado numa investigação do Senado. ”Ideal”, neste caso, significava grande interesse público, generosa publicidade e, quase certamente, cobertura televisiva. Como o senador estava apto a recordar aos que lhe estavam politicamente mais próximos: ”Nunca esqueçamos que é na televisão que estão as massas e os votos.”

 

Desta forma foi anunciado que a Subcomissão do Senado para a Ética Comercial, de que Donahue era presidente, começaria as inquirições em Washington, D. C., no princípio de Dezembro. As testemunhas, afirmou o senador na sua conferência de imprensa de Outubro, estavam já a ser convocadas. Outras pessoas que tivessem conhecimentos em primeira mão sobre o assunto eram convidadas a contactar o pessoal da comissão.

 

Quando Célia ouviu as primeiras notícias telefonou a Childers Quentin, o advogado de Washington.

 

- São mesmo más notícias - afirmou ele. - Receio bem que a sua companhia e você, como principal porta-voz, passem por tempos bem duros. Se me permite o conselho sugiro que se comecem a preparar desde já para as audiências, sob conselho legal. Sei como funcionam estas coisas e asseguro-lhe que o pessoal do senador vai escavar e expor todos os factos desagradáveis e rumores que consiga encontrar.

 

Se a palavra demagogo, ou demagogos, não tivesse sido cunhada pelos antigos Gregos na época de Cléon, teria de ser inventada, por necessidade, para definir Dennis Donahue, senador dos Estados Unidos. Não existia um exemplo mais perfeito da espécie.

 

Nascera rico e privilegiado mas posava, e descrevia-se a si mesmo, como ”um filho do povo, verdadeiramente um deles, uma pessoa terra-a-terra”. Nenhuma outra descrição poderia ser menos precisa mas, como qualquer coisa que se repete muitas vezes, tornou-se aceite e acreditada por muitos.

 

O senador gostava também de ser retratado como ”um orador pelos pobres e pelos infelizes; um defensor dos seus opressores”. Se, no fundo da sua alma, Donahue se interessava ou não pelos pobres e infelizes, só ele próprio o sabia. De qualquer forma sabia aproveitar-se deles.

 

Em qualquer parte da nação onde surgisse uma luta de David contra Golias que merecesse cobertura dos noticiários, Donahue entrava em cena alinhando com os davids mesmo em situações onde - para gente que sabia pensar - o golias tinha sem dúvida razão. ”Há sempre mais davids e são úteis em tempo de eleições”, explicou uma vez um seu assessor num momento de franqueza invulgar.

 

Talvez pela mesma razão, em qualquer disputa laboral, Donahue infalivelmente apoiava os empregados nunca sendo a favor dos patrões, mesmo quando os primeiros cometiam excessos.

 

O trabalho e o desemprego eram campos férteis para um político ambicioso, descobrira ele bem cedo. Por isso é que, nas épocas de maior desemprego, o senador muitas vezes visitava as filas de desempregados à porta das agências de empregos e falava com eles. Era interessante como os meios de Comunicação Social sabiam sempre das intenções do senador pelo que a televisão e os fotógrafos de imprensa já o aguardavam quando chegava a tais locais. Dessa forma o seu rosto familiar, mostrando uma expressão condoída enquanto falava com os desempregados, surgia nos noticiários da televisão nessa mesma noite e nos jornais da manhã seguinte.

 

No meio de outras questões do ”homem comum” o senador descobrira mais uma, recente e frutuosa, nas suas objecções a que as viagens aéreas em primeira classe dos homens de negócios fossem deduzíveis nos impostos. Se as pessoas queriam esse tipo de privilégio especial, argumentava, deviam pagá-lo do seu bolso e não serem subsidiados pelos outros contribuintes. Fez entrar no Senado uma proposta para que as viagens aéreas de primeira classe não pudessem ser deduzíveis nos impostos, embora sabendo muito bem que tal proposta morreria algures no processo legislativo.

 

Entretanto a cobertura jornalística era notável. Mantendo viva a ideia, o senador tomou a peito viajar em classe turística, nos aviões, informando a imprensa antes de cada viagem. No entanto nunca nenhum passageiro da primeira classe recebeu tantas atenções e cuidados como Donahue lá atrás, no seu assento turístico. Uma coisa que se esqueceu de mencionar publicamente foi que a maioria das suas viagens aéreas era feita a bordo de luxuosos aviões particulares, ou alugados por familiares, ou emprestados por amigos.

 

No aspecto Donahue era forte e tinha um rosto angelical que o fazia mais novo que os quarenta e nove anos já feitos. Tinha peso a mais sem ser gordo e referia-se a si mesmo como ”confortavelmente almofadado”. A maior parte do tempo, sobretudo quando em público, exsudava simpatia expressa num sorriso fácil. As suas roupas e o estilo de cabelo tinham um ar desalinhado estudados para se conformarem com a sua imagem de ”homem comum”.

 

Se bem que os observadores objectivos vissem em Donahue o oportunista que era, havia muita gente que gostava genuinamente dele, não apenas membros do seu partido mas até opositores políticos. Uma razão para isso era o seu senso de humor que o levava a ser capaz de aceitar uma piada a seu respeito. Outra é que era boa companhia, sempre interessante.

 

Esta última razão tornava-o atraente para algumas mulheres, uma situação de que Donahue tinha fama de se aproveitar, apesar de ter um casamento sólido e ser visto com frequência na companhia da esposa e dos filhos adolescentes.

 

Era este o senador Donahue que, pouco depois das dez horas da manhã da primeira quarta-feira de Dezembro, bateu com o martelo na mesa para dar ordem à Subcomissão do Senado sobre Ética Comercial e anunciou que a sessão abriria com um curto comunicado dele próprio.

 

A comissão estava reunida na Sala SR-253, do velho edifício do Senado, um cenário aparatoso. O presidente e os seus colegas senadores sentavam-se numa mesa em U elevada de frente para as testemunhas e o público. Três grandes janelas davam para o parque e a fonte do Senado. Havia uma lareira de mármore. As cortinas cremes tinham impressas nelas o Grande Selo dos Estados Unidos.

 

- Todos nós aqui presentes - começou Dennis Donahue lendo um papel já preparado - estamos cientes desta horrorosa tragédia mundial que atingiu crianças cuja capacidade cerebral e outras funções normais se presume terem sido destruídas por um medicamento que, até há bem pouco tempo, era prescrito e vendido neste país. Esse medicamento chama-se Montayne.

 

O senador era um orador forte que se sabia impor. Cerca de uma centena de pessoas presentes na sala manteve um silêncio atento. As câmaras de televisão estavam focadas nele. Além de Donahue estavam presentes mais oito senadores cinco do partido maioritário a que pertencia Donahue e três da minoria. À esquerda do presidente estava Stanley Urbach, consultor da comissão, um antigo procurador distrital de Boston. Atrás dos senadores estavam quinze membros do pessoal da comissão, uns sentados e outros de pé.

 

- O que este inquérito investigará - continuou Donahue - é a responsabilidade por esta série de factos e quem...

 

Célia, que estava indicada como primeira testemunha, escutava enquanto o comunicado de abertura continuava segundo linhas já previsíveis. Estava sentada a uma mesa coberta de felpa verde e a seu lado estava o seu conselheiro, Childers Quentin. Convencera Quentin a aceitar esta responsabilidade extra porque, como ela lhe dissera: ”Nenhum outro advogado sabe mais do que tu, neste momento, sobre o Montayne e confio nos teus conselhos.”

 

Tais conselhos, para o dia de hoje, eram específicos e rectos: ”Descreve os factos todos o mais honesta, clara e brevemente que puderes”, insistira Quentin, ”e não tentes ser esperta ou passar a perna ao Dennis Donahue.”

 

A última advertência respondera ao desejo de Célia em referir o facto de que, uns dois anos antes, quando o Montayne fora retardado pela FDA - indecentemente segundo alguns -, Donahue fora um dos que protestara contra o atraso descrevendo-o como ”claramente ridículo nas presentes circunstâncias”.

 

- Jamais! - ordenara Quentin. - Por um lado Donahue pode lembrar-se ainda desse comentário; se não se lembrou, alguém do seu pessoal o lembrará e ele estará preparado para lhe responder. Provavelmente dirá que foi mais uma vítima da propaganda da companhia ou coisa do género. E, por outro lado, despertarás o seu antagonismo o que é desaconselhável.

 

O advogado delineara para Célia alguns dos factos da vida em Washington.

 

- Um senador dos Estados Unidos tem um enorme poder e influência, em certos aspectos maior ainda que um presidente porque o exercício do poder é menos visível. Não existe nenhum departamento do Governo em que um senador não possa entrar e conseguir que lhe façam qualquer coisa, desde que não seja ultrajante, nem ilegal. Gente importante dentro e fora do Governo é capaz de se rojar pelo chão para fazer um favor a um senador, mesmo que esse favor prejudique outra pessoa. É um sistema de trocas e, dentro desse sistema, o poder de um senador, que pode ser utilizado benevolente ou destruidoramente, tem o maior interesse. Por isso só um louco escolhe tornar seu inimigo um senador dos Estados Unidos.

 

Célia tomou a peito o conselho e prometeu a si mesma não o esquecer quando falasse com Dennis Donahue, uma pessoa que já detestava.

 

Acompanhando Célia estava igualmente Vincent Lord, naquele momento sentado do outro lado de Quentin. Enquanto Célia faria uma comunicação a favor da Felding-Roth e depois seria interrogada, o papel do director de pesquisas era apenas o de responder a perguntas que lhe fossem postas.

 

O senador Donahue terminou os seus comentários, fez uma breve pausa, e anunciou:

 

- A nossa primeira testemunha é a senhora Célia Jordan, presidente da Felding-Roth Pharmaceuticals, de Nova Jérsia. Senhora Jordan, importa-se de apresentar os seus acompanhantes?

 

- Com certeza, senador. - Em poucas palavras Célia apresentou Quentin e Lord.

 

- Já conhecemos bem o senhor Quentin - afirmou Donahue. - Doutor Lord, estamos contentes por o ter aqui connosco. Senhora Jordan, acho que tem algo a dizer. Faça favor.

 

Célia permaneceu sentada na mesa das testemunhas enquanto falava para um microfone na sua frente.

 

- Senhor presidente e membros da subcomissão. Em primeiro lugar a minha companhia deseja exprimir a sua mágoa e simpatia por aquelas famílias que fazem parte do que o senador Donahue, há poucos momentos, descreveu correctamente como uma tragédia mundial. Embora não estejam ainda reunidas todas as provas científicas, e tal tarefa possa levar anos, parece ser evidente que o medicamento Montayne foi responsável pelas lesões intra-uterinas dos fetos de mulheres grávidas, numa secção muito pequena da população total e em circunstâncias impossíveis de prever nos vastos ensaios do medicamento, originalmente em França e depois noutros países, e antes da aprovação oficial da FDA do seu uso nos Estados Unidos.

 

A voz de Célia era clara mas baixa e deliberadamente não convincente. O seu testemunho fora cuidadosamente esboçado e trabalhado por várias pessoas, embora sobretudo por ela e Quentin. Permaneceu no texto adicionando apenas de vez em quando uma frase onde tal era apropriado.

 

- Outro facto que a minha companhia deseja salientar é que, em todos os assuntos respeitantes ao Montayne, em todas as fases dos ensaios, distribuição e relatórios, sempre cumpriu a lei. Na realidade, quando surgiram sérias dúvidas acerca do medicamento, a minha companhia até foi além das exigências legais e retirou voluntariamente o Montayne sem esperar a decisão da FDA. Vou voltar atrás - continuou Célia - e rever as origens do Montayne em França, onde foi desenvolvido pelos Laboratórios Gironde-Chimie, uma casa de excelente reputação e com uma longa e bem sucedida história de...

 

Além de ser preciso o relato era impessoal. Isto fora decidido após discussões na sede da Felding-Roth e nos escritórios de Childers Quentin em Washington. Quentin perguntara a Célia:

 

- Como pretendes tratar a questão da tua demissão por causa do Montayne?

 

- De forma alguma - replicara ela. - A minha demissão foi pessoal, uma questão de instinto e consciência. Agora que regressei represento a companhia e relato o que a companhia fez.

 

- E onde está a tua consciência no meio disso tudo?

 

- Ainda intacta, ainda no seu lugar - respondeu ela. - Se for interrogada sobre a minha demissão responderei com honestidade. Simplesmente não quero ser eu a primeira a falar disso apenas para me mostrar boazinha.

 

Célia lembrara também a Quentin que a sua demissão não se baseara em factos científicos - uma fraqueza de que se apercebera nessa altura e por isso não a tornara pública.

 

Estava agora a informar a subcomissão do Senado:

 

- Não surgiram quaisquer dúvidas sobre a segurança do Montayne até um relato chegado da Austrália em Junho de mil novecentos e setenta e seis. Mesmo então não parecia haver qualquer motivo para preocupação porque a investigação do Governo australiano...

 

Passo a passo traçou a história do Montayne. O recital durou quarenta minutos e Célia concluiu:

 

- A minha companhia cumpriu as normas da comissão entregando a esta documentos que confirmam tudo aquilo que eu disse. Estamos prontos a cooperar de qualquer forma e a responder a quaisquer questões.

 

As questões começaram imediatamente, a primeira do consultor da comissão, Stanley Urbach, de rosto comprido e lábios finos, que dava a impressão de só sorrir em raras ocasiões.

 

- Senhora Jordan, referiu que o primeiro relato australiano levantou possíveis dúvidas acerca do Montayne. Isso deu-se sete ou oito meses antes da sua companhia ter colocado o Montayne à venda nos Estados Unidos. Está correcto?

 

Ela calculou mentalmente:

 

- Sim.

 

- No seu depoimento mencionam-se dois outros relatórios adversos, um de França e outro de Espanha, ambos os casos ocorridos antes da comercialização do Montayne nos Estados Unidos. Mais uma vez correcto?

 

- Não inteiramente, senhor Urbach. Chama-lhe relatórios adversos. Mas não passavam, nessa altura, de alegações que foram investigadas pelos Laboratórios Gironde-Chimie e consideradas sem fundamento.

 

O advogado fez um gesto de impaciência:

 

- Se estamos a esgrimir com palavras, permita-me que lhe pergunte: os relatórios eram favoráveis?

 

- Não, e talvez eu possa evitar que todos percamos mais tempo. Na indústria farmacêutica ”relatórios adversos” têm um significado específico. Nesse sentido os relatórios de França e de Espanha não eram.

 

Urbach suspirou:

 

- A testemunha aceitaria ”relatórios críticos”?

 

- Penso que sim. - Célia já sentira que aquilo iria ser difícil e que a esperavam tempos mesmo maus.

 

O senador Donahue interrompeu:

 

- O ponto colocado pelo consultor é perfeitamente claro. Vocês, a vossa companhia, tiveram conhecimento desses três relatórios antes do Montayne ser posto à venda aqui?

 

- Sim, tivemos.

 

- Mesmo assim prosseguiram e comercializaram o medicamento?

 

- Senador, com qualquer medicamento novo existem sempre opiniões negativas. Todas elas têm de ser cuidadosamente examinadas e avaliadas...

 

- Por favor, senhora Jordan. Não estou a pedir uma lição sobre as práticas da indústria farmacêutica. A minha pergunta requer um simples ”sim” ou ”não”. Repito: tendo conhecimento desses relatórios a vossa companhia prosseguiu e vendeu esse medicamento às mulheres americanas grávidas.

 

Célia hesitou.

 

- Estamos à espera, senhora Jordan.

 

- Sim, senador, mas...

 

- A resposta ”sim” será suficiente. - Donahue fez um gesto para Urbach. Continue.

 

- Não teria sido melhor e mais prudente - perguntou o consultor da subcomissão - que a Felding-Roth tivesse investigado com maior profundidade esses relatórios e retardado o lançamento do Montayne?

 

Célia pensou com amargura: fora esse o argumento que, mais tarde, levara à sua demissão. Lembrando-se do seu papel ali, respondeu:

 

- A posteriori, sim. Claro. Mas na altura a companhia prosseguiu segundo o conselho científico.

 

- Que conselho?

 

Ela pensou antes de responder. Fora, é claro, a conselho de Lord, mas ela queria ser justa.

 

- Do nosso director de pesquisas, doutor Lord, mas que se baseou no que pareciam dados autênticos vindos da Gironde-Chimie.

 

- Mais tarde interrogaremos o doutor Lord a esse respeito. Entretanto... Urbach consultou umas notas. - Essa decisão de continuar e não retardar o Montayne apesar dos relatórios adversos... desculpe, críticos, teve alguma relação com antecipação de lucros?

 

- Bem, os lucros são sempre um factor...

 

- Senhora Jordan! Sim ou não?

 

Célia suspirou silenciosamente. ”De que servia aquilo?” Cada pergunta era uma armadilha, uma progressão constante para uma conclusão preconcebida.

 

- Sim - concedeu ela.

 

- Esses lucros eram críticos para a sua companhia?

 

- Sim, pensava-se isso.

 

- Qual o montante de lucros esperados?

 

As perguntas contundentes, carregadas de segundas intenções, continuaram. Mesmo assim ela conseguiu ter tempo para perguntar num canto do espírito: estariam assim tão injustamente carregadas quando roçavam tão de perto a verdade? Não fora há bem pouco tempo que ela colocara a si mesma tais perguntas? E não era irónico que aparecesse ela ali no lugar de Sam Hawthorne, a quem de facto aquelas perguntas deviam ser feitas mas que estava morto? Pela primeira vez desde o Havai recordou as palavras avisadoras de Andrew: ”Se regressares... a responsabilidade e o problema do Montayne cairão sobre ti:” Tal como tantas outras vezes Andrew tivera razão.

 

O seu calvário foi interrompido por um intervalo para almoço. O senador Donahue informou-a:

 

- Senhora Jordan, pode retirar-se mas, por favor, esteja disponível para novo interrogatório mais tarde. - E o senador anunciou: - A próxima testemunha depois do almoço será o doutor Vincent Lord.

 

Quentin e Célia comeram umas sanduíches e beberam café, conservado quente num termo, no banco de trás de uma limusina que os esperava à porta do velho edifício do Senado.

 

- É mais rápido e provado do que se formos a qualquer outra parte - dissera Quentin quando falara da questão.

 

Agora estavam estacionados no Jefferson Drive, não muito longe do Smithsonian, com o motorista uniformizado a andar para lá e para cá, lá fora.

 

Vincent Lord fora convidado para o almoço na limusina mas declinara o convite pois combinara outra coisa.

 

- Estão a procurar que pareças má, e quero dizer má como pessoa - disse Quentin ao fim de um bocado. - O que é que sentes a este respeito?

 

- Como deverá sentir-se uma pessoa? - Célia fez um trejeito ao rosto. - Não gosto.

 

- O que está a acontecer é uma táctica. - O advogado sorveu o café fumegante. - Qualquer investigação deste tipo, que é um mero exercício político, requer um vilão para mostrar. Como representante da companhia és a pessoa mais à mão. Mas posso fazer qualquer coisa para alterar isso.

 

”Vamos explicar primeiro alguns antecedentes. Donahue e respectivo pessoal sabem que te opuseste dentro da companhia ao Montayne e que te demitiste por causa disso. É impossível que não o saibam: são gente cuidadosa. Provavelmente também sabem as condições que impuseste para regressar, conhecem a Doutrina Felding-Roth e que és tu a autora.

 

- Então por que ...

 

- Escuta-me. Tenta ver as coisas do lado deles. - Quentin acenou a um grupo de turistas de passagem que olhava para dentro da limusina e depois voltou a focar a sua atenção em Célia. - Para que é que a gente de Donahue se preocuparia em favorecer a tua imagem? E, se o fizessem, que mais poderiam focar criticamente? Decerto que não poderia ser um homem morto; está-lhes fora do alcance.

 

- Acho que compreendo isso tudo e bem sei que disseste que isto era um exercício político - admitiu Célia. - Mesmo assim a verdade é coisa que não tem importância?

 

- Se fosse um advogado da outra parte - disse Quentin - responder-te-ia assim: Sim, a verdade é sempre importante. Mas no que respeita ao Montayne a verdade reside no que a companhia, a Felding-Roth, fez, porque foi ela que comercializou o Montayne e é a responsável. Quanto a ti, individualmente, é verdade, demitiste-te. Mas também regressaste e, ao fazê-lo, aceitaste a tua quota-parte de responsabilidade no Montayne, mesmo depois do facto. - Quentin sorriu amargamente. - Claro que podia argumentar o oposto e ser igualmente convincente.

 

- Advogados! - O riso de Célia soou a falso. - Será que acreditam nalguma coisa?

 

- Faz-se o que se pode. Embora a ambivalência perpétua seja um risco da profissão.

 

- Disseste que podias fazer alguma coisa. O quê?

 

- Na subcomissão - apontou Quentin - existe uma minoria de membros favoráveis à nossa indústria. Nenhum deles falou ainda, e provavelmente não chegarão a fazê-lo, porque isso poderia sugerir que estavam a favor do Montayne, uma posição impossível. Mas o que um deles poderá fazer, se lhe pedir tal favor, é colocar determinadas perguntas que tragam a lume o teu registo pessoal e te façam parecer boa em vez de má.

 

- Se tal acontecer a Felding-Roth será beneficiada?

 

- Não. Provavelmente será o inverso. Célia pediu, resignada:

 

- Nesse caso, deixa as coisas tal como estão.

 

- Se insistes - disse o advogado com tristeza. - A cabeça é tua e o sangue lá dentro também.

 

Vincent Lord, quando a sessão da tarde começou, pegou no microfone das testemunhas.

 

Mais uma vez foi Urbach quem conduziu o interrogatório levando Lord a descrever os seus antecedentes científicos. Depois o consultor da subcomissão progrediu através das primeiras fases do Montayne e Lord foi respondendo de uma forma confiante e calma.

 

Uns quinze minutos depois da sessão começar Urbach perguntou:

 

- Quando o Montayne estava quase a ser comercializado nos Estados Unidos, e os tais relatórios da Austrália, França e Espanha eram já conhecidos dentro da companhia, recomendou um adiamento?

 

- Não, não recomendei.

 

- Porquê?

 

- Um adiamento nessa altura era uma decisão da administração. Como director de pesquisas o meu envolvimento era apenas científico.

 

- Por favor, queira explicar isso.

 

- Decerto. A minha responsabilidade consistia em fazer uma avaliação científica da informação disponível e fornecida pelos Laboratoires Gironde-Chimie. Nessa base não tinha qualquer motivo para recomendar um adiamento.

 

Urbach insistiu.

 

- Usou a expressão ”avaliação científica”. À parte a ciência tinha qualquer sensação, qualquer instinto, acerca desses três relatórios?

 

Pela primeira vez Lord hesitou:

 

- Talvez tivesse.

 

- Talvez ou teve?

 

- Bem, sentia-me inquieto. Mas, volto a salientar, não era nada de científico. Célia, que estava a ouvir relaxadamente, ficou de súbito atenta.

 

Urbach continuava.

 

- Se bem o compreendo, doutor Lord, estava numa espécie de dilema.

 

- Bem, sim.

 

- Um dilema entre a ciência por um lado e, no outro, a sua ”inquietação”, uso as suas palavras, como ser humano? Correcto?

 

- Acho que sim, pode dizer isso.

 

- Não é uma questão de achar, doutor Lord, nem de poder dizer. Seria isto que você diria?

 

- Bem... está bem, diria isso.

 

- Obrigado. - O consultor da subcomissão passou o olhar pelas suas notas E, doutor, depois de ler os relatórios de que estamos a falar, advogou a comercialização do Montayne?

 

- Não, não advoguei.

 

A série de respostas sobressaltou Célia. Lord estava a mentir. Não só apoiara avançar com o Montayne como votara a favor na reunião convocada por Sam, ridicularizando as dúvidas de Célia e o seu pedido de adiamento.

 

O senador Donahue debruçou-se sobre um microfone:

 

- Gostava de fazer à testemunha a seguinte pergunta: Se tivesse responsabilidades administrativas, doutor Lord, e não apenas científicas, teria recomendado um adiamento:

 

Mais uma vez Lord hesitou. Depois respondeu com firmeza:

 

- Sim, senador, teria.

 

”O bastardo!” Célia começou a escrevinhar uma nota para Quentin: Isto não é verdade... Mas parou. Que diferença fazia? Se ela questionasse a honestidade de Lord e se seguisse um debate, com acusações e negações voando de um lado para o outro, em que medida isso alteraria as coisas? Nesta auditoria, nada. Enojada amachucou o papel em que começara a escrever.

 

Depois de mais algumas perguntas agradeceram a Lord as suas respostas e dispensaram-no. Ele saiu imediatamente da sala sem falar com Célia nem olhar na sua direcção.

 

A Dra. Maud Stavely foi a testemunha seguinte.

 

A administração dos Cidadãos para uma Medicina mais Segura avançou com ar confiante desde o fundo da sala e dirigiu-se a um microfone da mesa das testemunhas, a alguma distância de Célia e Quentin. Não olhou para eles.

 

O senador Donahue saudou cordialmente a testemunha e em seguida a Dra. Stavely leu um depoimento preparado. Descrevia as suas qualificações médicas, a estrutura da organização sediada em Nova Iorque, as opiniões negativas dos CMS e a oposição precoce do grupo contra o Montayne.

 

Embora Célia não gostasse da ênfase e de certas alusões do depoimento, nentalmente reconheceu que Stavely tinha um ar profissional e impressivo. Tal como no seu encontro dois anos antes a líder dos CMS continuava atraente e cuidada e vestia hoje um saia e casaco castanho.

 

A respeito do Montayne a Dra. Stavely declarou:

 

- Infelizmente os nossos protestos foram prejudicados pela falta de fundos. Os

MS não têm os enormes recursos, milhões de dólares, que as companhias como a Felding-Roth podem dispensar em propaganda iludindo os médicos e o público, fazendo-os crer que os medicamentos como o Montayne são seguros apesar de saberem, como sabiam no Montayne, que havia indicações do contrário.

 

Aproveitando uma pausa de Stavely, Dennis Donahue intrometeu-se:

 

- Imagino, doutora Stavely, que uma vez que as vossas opiniões sobre o Montayne se revelaram correctas, aumentaram as contribuições para a sua organização.

 

- Na verdade aumentaram, senador. E temos esperanças de que, depois destas sessões que felicitamos, se tornem maiores ainda.

 

Donahue sorriu sem responder e Stavely continuou.

 

Para aflição de Célia referiu também a sua visita aos CSM. Introduziu assim uma complicação que Célia esperara evitar.

 

O assunto surgiu durante o interrogatório feito por Stanley Urbach à Dra. Stavely.

 

O consultor da subcomissão perguntou:

 

- Qual foi a data da visita da senhora Jordan aos Cidadãos para uma Medicina mais Segura?

 

Stavely consultou notas:

 

- Doze de Novembro de mi] novecentos e setenta e oito.

 

- A senhora Jordan disse qual era o objectivo da sua visita nessa altura?

 

- Disse que queria falar. Um dos assuntos de que falámos foi o Montayne.

 

- Nessa altura, segundo penso, o Montayne fora aprovado pela FDA mas não estava ainda à venda. Correcto?

 

- Sim, correcto.

 

- É também correcto que nessa altura os Cidadãos para uma Medicina mais Segura estavam empenhados em cancelar a aprovação da FDA?

 

- Sim. Estávamos empenhados nisso com todas as nossas forças.

 

- Esses vossos esforços para fazer parar o Montayne pareciam preocupar a senhora Jordan?

 

- Bem, decerto que não estava satisfeita. Argumentou a favor do Montayne dizendo que era seguro. Claro que discordei.

 

- Ela disse por que acreditava na segurança do medicamento?

 

- Recordo-me perfeitamente, não disse. Claro que ela não possui as qualificações médicas para fazer tal tipo de avaliação. Não que isso impeça vendedores como Jordan de as fazer. - A voz de Stavely encerrava desdém; acrescentou: Mesmo assim fiquei chocada com o pouco que ela sabia.

 

- Pode especificar por que ficou chocada?

 

- Sim. Recorda-se de que, na altura, o caso australiano contra o Montayne já recebera muita atenção?

 

Urbach sorriu polidamente.

 

- Eu é que sou suposto de fazer perguntas, doutora. Stavely sorriu.

 

- Desculpe. A questão é que Jordan nem sequer ainda lera a transcrição do julgamento australiano. Admitiu-o. Insisti para que o lesse com urgência.

 

- Obrigado, doutora. Já agora, durante a vossa conversa, teve a impressão de que a senhora Jordan representava a sua companhia, a Felding-Roth?

 

- Sim, estou absolutamente certa.

 

- E quanto aos esforços dos Cidadãos para uma Medicina mais Segura para que a FDA retirasse a aprovação teve por acaso a impressão de que a Felding-Roth se mostrava ansiosa a esse respeito e que enviara a senhora Jordan para lhe pedir que parasse?

 

- Bem, a ideia ocorreu-me mas não posso prová-la. No entanto, se tal foi a intenção da mulher, deve ter-se apercebido imediatamente que não havia a menor possibilidade disso acontecer.

 

Escutando e observando, Célia pensou: ao contrário de Vince Lord a Stavely não mentiu. Mas que diferença a selecção das questões, o tom da voz e a ênfase emoldurada com opinião podiam fazer no relato posterior de qualquer conversa!

 

O senador Donahue, com um papel na mão, falou ao seu microfone:

 

- Doutora Stavely, tenho na minha mão um documento escrito, a Doutrina Felding-Roth. Se ainda não o viu mando entregar-lhe uma cópia.

 

- Já vi isso, senador, e uma vez basta. Donahue sorriu.

 

- Concluo que tenha uma opinião. Gostaríamos de a ouvir.

 

- Acho que a chamada doutrina é uma nauseante e desavergonhada forma de promover vendas que capitaliza uma tragédia horrorosa e é um insulto às crianças e às famílias vítimas do Montayne.

 

Célia, ardendo de raiva e pronta a saltar, sentiu a mão de Quentin no seu braço impedindo-a. Com esforço ficou sentada, de rosto vermelho, arquejante.

 

Um membro minoritário da subcomissão, senador Jaffee, observou moderadamente:

 

- Mas decerto, doutora Stavely, que se uma companhia admite um erro e promete para o futuro...

 

Stavely interrompeu:

 

- Pediram-me uma opinião e eu dei-a. Se uma porcaria dessas o consegue enganar, senhor, a mim não!

 

O senador Donahue, com um meio sorriso, colocou o papel sobre a mesa. Após mais algumas perguntas agradeceram à Dra. Stavely e dispensaram-na. A primeira testemunha do dia seguinte, anunciaram, seria o Dr. Gideon Mace da FDA.

 

Nessa noite, na sua suite no Madison Hotel, Célia recebeu um telefonema. Era de Juliet Goodsmith que comunicou estar lá em baixo, na entrada. Célia convidou-a a subir e, quando Juliet entrou, abraçou-a afectuosamente.

 

A filha de Sam e Lilian parecia mais velha que os seus vinte e três anos, pensou Célia, embora tal não fosse surpreendente. Parecia também ter perdido peso, demasiado até, levando Célia a sugerir que jantassem juntas mas a oferta foi declinada.

 

- Só vim - disse Juliet - porque estou em Washington com uns amigos e ouvi falar das sessões. Não estão a ser justos consigo. Foi a única na companhia que mostrou alguma decência em relação a esse maldito medicamento. Todos os outros foram nojentos e porcos e agora é você que está a ser punida.

 

Estavam sentadas em frente uma da outra e Célia disse com gentileza:

 

- Não foi, e não é, bem assim.

 

Explicou que, como representante máximo da companhia, era o alvo imediato do senador Donahue e seus auxiliares; além disso as suas acções pessoais não tinham tido qualquer efeito na comercialização do Montayne.

 

- A questão é que - disse Célia - Donahue está a tentar que a Felding-Roth pareça um inimigo público.

 

- Então talvez ele tenha razão - disse Juliet - e a companhia é um ininigo público.

 

- Não, não digas isso! - Célia acrescentou, enfaticamente: - A companhia cometeu um grave erro com o Montayne, mas já fez muito bem no passado e fará o mesmo no futuro. - Até agora pensava, com optimismo, no péptido 7 e no Hexin W.

 

- Além disso - continuou Célia - fossem quais fossem os erros cometidos pelo teu pai, e pagou-os bem caros!, ele não era ”nojento” nem ”porco”. Era um bom homem que fez o que lhe pareceu acertado na altura.

 

- Como posso acreditar nisso? - inquiriu Juliet. - Deu-me aqueles comprimidos sem sequer me dizer que não estavam aprovados.

 

- Tenta perdoar o teu pai - insistiu Célia. - Se não o fizeres, agora que está morto, nada ganharás e será mais duro para ti. - Como Juliet abanasse a cabeça Célia continuou: - Espero que o venhas um dia a fazer.

 

Sabia melhor que perguntar pelo filho de Juliet, já com dois anos de idade e numa instituição para os indefesos e incuráveis, onde passaria o resto da sua vida. Em vez disso perguntou:

 

- Como vai o Dwight?

 

- Estamos a divorciar-nos.

 

- Oh, não! - O choque e a pena eram genuínos. Célia lembrava-se da sua convicção, no casamento de Juliet e Dwight, de que seria um casamento forte e para durar.

 

- Tudo correu bem até o bebé ter uns meses de idade. - A voz de Juliet era átona, derrotada. - Depois, quando descobrimos o que se passava, e porquê, nunca mais as coisas deram certo. Dwight ficou com raiva ao meu pai, uma raiva ainda maior que a minha. Queria processar a Felding-Roth e o papá pessoalmente, arrasando-os em tribunal, advogando ele mesmo o caso. Eu nunca poderia concordar com essa atitude.

 

- Não - disse Célia. - Teria destruído toda a gente.

 

- Depois disso tentámos permanecer juntos. - Juliet pronunciou as palavras com tristeza. - Não resultou. Já não éramos os mesmos. Foi quando nos decidimos pelo divórcio.

 

Pouco havia para dizer mas Célia pensou: tanta tristeza e tragédia, para lá da óbvia, causara o Montayne.

 

De todas as testemunhas que compareceram perante a Subcomissão do Senado da Ética Comercial durante a investigação sobre o Montayne foi o Dr. Gideon Mace quem mais sofreu.

 

Num ponto dramático do interrogatório cruzado de Mace o senador Donahue apontou um dedo acusador e, numa voz ribombante como a de Jeová, proclamou:

 

- Você foi aquele que, representando o Governo e todas as salvaguardas instituídas por ele, soltou esta praga sobre as mulheres americanas e indefesas crianças ainda por nascer. Não espere deixar este lugar incólume, incensurado ou inculpado de uma consciência pesada que permanecerá consigo o resto dos seus dias.

 

O que Mace fizera uns minutos antes, espantando todos os que o ouviram, fora admitir que antes de recomendar a aprovação do Montayne pela FDA tivera sérias dúvidas sobre o medicamento, baseado no primeiro caso australiano - dúvidas que nunca o tinham abandonado.

 

Urbach, que conduzia o interrogatório cruzado, quase gritou:

 

- Então por que o aprovou?

 

Ao que Mace respondeu, emocional, mas atabalhoadamente:

 

- Eu... eu não sei.

 

A resposta - a pior das que podia ter dado - produziu nos espectadores da sala uma audível onda de incredulidade e de horror e da parte de Donahue a tirada que fez um momento depois.

 

Até aí Mace aparecera, se bem que evidentemente nervoso, como uma pessoa controlada e capaz de prestar contas das suas acções como o revisor da FDA que tivera a seu cargo o processo de aprovação do Montayne. Começara com um curto depoimento pessoal descrevendo a enorme quantidade de informações apresentadas - cento e vinte e cinco mil páginas em trezentos e sete volumes - e de detalhes sobre as várias questões que tais informações continham que atrasaram o processo. Essas questões, afirmou, tinham sido resolvidas a seu contento. Não referiu o relatório australiano; este só surgiu mais tarde, em resposta a algumas dúvidas.

 

Foi durante o interrogatório, quando foi abordado o caso australiano, que Mace ficou emocionalmente perturbado e de repente cedeu. Seguira-se a terrível confissão: ”Eu não sei.”

 

Apesar de ciente da posição frágil de Mace, Célia sentia por ele alguma simpatia achando que a carga de culpa atirada sobre Mace era desproporcionada. Mais tarde falou disso a Childers Quentin.

 

- É nestas alturas - comentou o advogado - que fica demonstrado que o sistema de aprovação de medicamentos inglês é claramente superior ao nosso.

 

Quando Célia perguntou porquê Quentin explicou:

 

- Em Inglaterra uma Comissão de Segurança dos Medicamentos aconselha o ministro da Saúde e é o próprio ministro quem concede a licença para a comercialização do medicamento. Claro que, entre os que aconselham o ministro, existem funcionários públicos, mas é a este que cabe a responsabilidade e, se algo corre mal, é ele, e só ele, quem tem de enfrentar o Parlamento e arcar com as culpas.

 

”Um ministro inglês nunca faria uma coisa tão cobarde corno esta a que estamos a assistir: permitir que seja um funcionário público como Mace que vá à Colina do Capitólio e fique com as culpas. Se possuíssemos um sistema moral forte seria o secretário da Saúde, Educação e Bem-Estar quem ali estaria a enfrentar Donahue. Mas onde está neste momento o secretário? Provavelmente esquivando-se no seu gabinete ou convenientemente fora da cidade.

 

Quentin pensava ainda noutra fraqueza no sistema dos Estados Unidos.

 

- Um efeito do que está a acontecer será tornar ultracauteloso o pessoal da FDA, nada desejoso de ser arrastado até uma comissão do Congresso e talvez crucificado. Desta forma, em vez de aprovar medicamentos que deviam estar disponíveis, vão sentar-se em cima deles e esperar, por vezes tempo de mais.

 

É óbvio que há que ter uma certa cautela, bastante cautela, em relação a novos medicamentos mas em demasia pode ser prejudicial, atrasando os avanços na medicina, privando médicos, hospitais e doentes de curas e outros auxílios a que deveriam ter acesso.

 

Quando o calvário de Mace terminou, e foi declarado um intervalo, Célia ficou aliviada. Ao mesmo tempo, por causa da simpatia que sentira, levantou-se e dirigiu-se a ele.

 

- Doutor Mace, sou Célia Jordan da Felding-Roth. Queria apenas dizer-lhe... Parou, confundida e desanimada. À menção da Felding-Roth as feições de

 

Mace contorceram-se num esgar de ódio selvagem e abrasador como ela nunca vira antes. De olhos faiscantes e dentes cerrados ele sibilou:

 

- Afaste-se de mim! Está a ouvir-me? Nunca, nunca, se torne a aproximar de mim!

 

Antes que Célia conseguisse ordenar os seus pensamentos e responder já Mace lhe virara as costas e se afastara.

 

Quentin, um pouco afastado, perguntou:

 

- O que foi?

 

- Não sei - respondeu ela, abalada. - Aconteceu quando usei o nome da companhia. Ficou furibundo.

 

- E então? - O advogado encolheu os ombros. - O doutor Mace não gosta do fabricante do Montayne. É compreensível.

 

- Não. É algo mais que isso. Tenho a certeza.

 

- Eu não me preocuparia com isso.

 

Mas a expressão de ódio permaneceu com Célia, perturbando-a e confundindo-a, o resto do dia.

 

Vincent Lord ficou mais um dia em Washington e Célia teve com ele uma discussão a respeito do testemunho que ele prestara na tarde anterior. Teve lugar na suite dela e, depois de o acusar frontalmente de mentir, perguntou:

 

- Porquê?

 

Para surpresa dela o director de pesquisas não contestou a sua acusação e disse com ar contrito:

 

- Sim, tens razão. Lamento. Estava nervoso.

 

- Não parecias nervoso.

 

- Não se é obrigado a mostrá-lo. Todas aquelas perguntas me perturbavam. Imaginava o que saberia aquele tipo, o Urbach.

 

- Que poderia ele saber?

 

Lord hesitou, procurando uma resposta.

 

- Nada mais do que todos sabemos, acho eu. De qualquer modo pensei que a forma como respondi era a maneira mais fácil de acabar com as perguntas e sair dali.

 

Célia não estava convencida.

 

- Por que tinhas de ser tu, mais que qualquer outro, a sair dali depressa? Muito bem, o que está a acontecer é desagradável para toda a gente, incluindo para mim, e todos temos consciências a que prestar contas. Mas nunca nada de ilegal foi feito com o Montayne. - Ela fez uma pausa, atingida por um súbito pensamento. Ou foi?

 

- Não! Claro que não! - Mas a resposta estava um segundo atrasada e a sombra era forte de mais.

 

Algumas palavras de Sam, tal como ele as tinha pronunciado, voltaram a Célia: ”Há... algo que não sabes.” Olhou inquisitorialmente para Lord.

 

- Vince, há alguma coisa, qualquer coisa, sobre o Montayne e a Felding-Roth que não me tenham dito?

 

- Juro-te... nada. Que podia haver?

 

Estava outra vez a mentir. Ela sabia-o. Sabia também que o segredo de Sam, fosse qual fosse, não morrera com ele. Lord compartilhava-o. Mas, no momento, não conseguiu ir mais além.

 

As sessões da subcomissão duraram quatro dias. Foram ouvidas mais testemunhas, entre as quais dois médicos neurologistas que tinham examinado as crianças lesadas pelo Montayne. Um desses médicos estivera na Europa a estudar casos locais e mostrou diapositivos das crianças que vira.

 

À vista nada sugeria que as crianças fotografadas não eram normais. Mas quase todas estavam deitadas e, como explicou o especialista:

 

- Nunca farão nem o mais pequeno movimento. Adicionalmente todos estes bebés sofreram graves lesões cerebrais durante a fase embrionária.

 

Algumas crianças tinham rostos lindos. Um, mais velho que os outros, era um rapaz de dois anos. Suportado por uma mão, não visível atrás dele, olhava para a máquina fotográfica com o que pareciam ser olhos vivos. A sua expressão era vazia.

 

- Esta criança - disse o neurologista informando a sua audiência silenciosa nunca pensará como vocês ou como eu e é quase uma certeza que nunca terá consciência do que se passa à sua volta.

 

O rosto jovem lembrou vivamente a Célia o seu filho Bruce da mesma idade, dezasseis anos atrás. Bruce, que uns dias antes escrevera do Williams College, onde agora estudava.

 

Queridos mamã e papá:

 

O colégio é uma maravilha! Adoro cá estar.

 

Do que mais gosto é que querem que a gente ”pense”, ”pense”...

 

Célia sentia-se contente por terem reduzido as luzes para projectar os diapositivos até que descobriu não ser a única que recorria ao lenço para limpar as lágrimas.

 

O senador Donahue, quando o médico terminou, parecia ter perdido o domínio da voz. Sim, pensou Célia, apesar de toda a sua pose e política, ele ainda sente.

 

Qualquer ternura que tivesse existido em Donahue decerto se desvanecera quando, na tarde do quarto e último dia das sessões, Célia foi outra vez chamada a testemunhar. Mesmo nas trocas de palavras com o seu próprio pessoal o senador parecia impaciente e irritável. Antes de Célia ser chamada Quentin murmurou-lhe:

 

- Tem cuidado. O grande homem deve ter comido qualquer coisa ao almoço que lhe não agradou.

 

Célia foi interrogada pelo consultor da subcomissão, Urbach, a respeito de outro testemunho prestado anteriormente sobre ela.

 

Quando inquirida sobre a afirmação de Vincent Lord de que este teria adiado o Montayne se a responsabilidade fosse sua, ela respondeu:

 

- Depois disso já discutimos o assunto. A minha memória dos factos difere da que o doutor Lord tem, mas não vejo vantagem em discutir o seu ponto de vista pelo que o deixo assim.

 

Quanto à sua visita à sede dos Cidadãos para uma Medicina mais Segura, Célia disse:

 

- Existem diferenças de interpretação. Fui visitar a doutora Stavely num impulso e com intenções amigáveis, pensando que podíamos aprender qualquer coisa uma com a outra. Não resultou.

 

- Pretendia falar do Montayne? - perguntou Urbach.

 

- Não especificamente.

 

- Mas falaram do Montayne?

 

- Sim.

 

- Teve esperanças de persuadir a doutora Stavely e os Cidadãos para uma Medicina mais Segura a cessar, ou moderar, a campanha para a FDA retirar a aprovação do Montayne?

 

- Não. Tal pensamento nunca me ocorreu.

 

- A sua visita foi oficial, em representação da sua companhia?

 

- Não. Na realidade ninguém na Felding-Roth sabia da minha intenção de falar com a doutora Stavely.

 

No seu lugar ao lado de Urbach o senador Donahue parecia não estar a gostar. Perguntou:

 

- Todas essas suas respostas são verdadeiras, senhora Jordan?

 

- Todas as minhas respostas têm sido verdadeiras. - A raiva invadiu-a quando acrescentou: - Gostaria de fazer uma prova com um polígrafo?

 

Donahue franziu o sobrolho.

 

- Não estamos num julgamento.

 

- Desculpe, senador, mas ainda não tinha reparado. Carrancudo, Donahue fez sinal a Urbach para que continuasse. O questionário debruçou-se sobre a Doutrina Felding-Roth.

 

- Ouviu a doutora Stavely descrever o documento como uma ”desavergonhada forma de promover vendas” - disse Donahue. - Concorda com essa afirmação?

 

- Claro que não! A doutrina não tem outro objectivo senão o nela enunciado, declarando a futura política da companhia.

 

- Oh, a sério? Nesse caso está convencida que não tem valor na promoção das vendas?

 

Célia sentiu uma armadilha estendida. Decidiu ter cuidado.

 

- Não afirmei isso. Mas se, em declaração honesta, tiver eventualmente esse tipo de valor não foi essa a intenção original.

 

Donahue estava desassossegado. Urbach virou-se para ele inquirindo:

 

- Senador?

 

O presidente parecia indeciso sobre se havia ou não de intervir. Mas acabou por dizer severamente:

 

- Tudo depende da interpretação, não é verdade? Ou se acredita numa pessoa valorosa e dedicada como a doutora Stavely ou se acredita na porta-voz de uma indústria que está tão obcecada com o lucro que mata regularmente pessoas ou as mutila, usando medicamentos que sabe de antemão serem inseguros?

 

Houve agitação nos espectadores. Até os assessores de Donahue estavam pouco à vontade sentindo que ele fora longe de mais.

 

Ignorando o resto Célia perguntou com acidez:

 

- É uma pergunta para eu responder, senador? Ou é o que parece ser: uma afirmação totalmente parcial e gratuita que revela que toda esta audição foi uma fantochada para chegar a um veredicto que já estava formulado antes de qualquer de nós aqui chegar?

 

Donahue apontou para Célia tal como apontara para Mace:

 

- Aviso a testemunha: existe uma ofensa neste lugar chamada desrespeito ao Congresso.

 

Já sem se importar com mais nada ela retorquiu:

 

- Não me tente!

 

- Ordeno-lhe que explique esse comentário! - trovejou o senador.

 

Célia avançara para lá de qualquer cautela. Mal ouvindo um pedido murmurado de Quentin, e sacudindo a sua mão, pôs-se de pé.

 

- Explico-a assinalando que o senhor, aqui sentado para julgar o Montayne, a Felding-Roth e a FDA, é a mesma pessoa que, dois anos atrás, se queixou de um atraso na aprovação do Montayne e o descreveu como ridículo.

 

- Isso é mentira! Agora está em desrespeito, minha senhora. Nunca fiz tal declaração.

 

Célia sentiu um halo de satisfação. ”Donahue esquecera-se.” Não era surpreendente. Fazia tantas declarações sobre tantos assuntos. E os seus assessores, se sabiam o que ele dissera antes, não o tinham informado. Em qualquer dos casos Quentin estava enganado.

 

Na frente dela havia uma pasta que ainda não abrira sequer. Trouxera-a no caso de ser necessário. Retirou dela um maço de recortes de jornais agrafados juntos. Escolheu o de cima.

 

- É um recorte do Washington Post de dezassete de Setembro de mil novecentos e setenta e seis.

 

Estava ainda de pé quando o leu.

 

- ”Referindo-se ao medicamento Montayne, actualmente a ser avaliado pela FDA e destinado a mulheres durante a gravidez, o senador Dennis Donahue descreveu hoje a falta de decisão da FDA como ’claramente ridícula nestas circunstâncias’.” A mesma declaração veio noutros jornais - acrescentou.

 

Seleccionou outro papel da pasta:

 

- E há mais, senador.

 

Donahue, que corara de um vermelho-tijolo, agarrou no martelo. Ao ver o gesto, o senador Jaffe, da minoria, gritou:

 

- Não, não! Deixe a senhora terminar. Quero ouvir.

 

- Acusou a nossa indústria de matar pessoas - disse Célia dirigindo-se a Donahue. - Tenho aqui o registo dos seus votos sobre os subsídios ao tabaco desde que entrou para o Congresso, há dezoito anos. Em todos esses anos votou sempre ”sim” aos subsídios. E com esses votos, senador, ajudou a matar mais pessoas de cancro do pulmão que aqueles que a indústria matou em quase toda a história.

 

As últimas palavras perderam-se num coro de gritos, alguns do próprio Donahue que batia com o martelo, declarando:

- A sessão fica suspensa.

 

Capítulo décimo quarto

 

O que começara, para Célia, como uma experiência desanimadora terminara, ou assim parecia, num triunfo pessoal.

 

Na própria noite do seu embate explosivo com o senador Donahue as redes de televisão - ABC, CBS e NBC - transmitiram na quase totalidade a cena dramática nos seus noticiários da noite. Como subsequentemente escreveu um crítico: ”Foi um grande espectáculo e a televisão esteve no seu melhor.”

 

Os jornais, no dia a seguir, davam à história uma proeminência semelhante. O New York Times encabeçava assim o seu artigo:

 

”Uma Dama Briosa Bate um Senador.”

 

O Chicago Tribune dizia:

 

”Senador Donahue Espicaça Jordan. Depois Arrepende-se de o Ter Feito.”

 

E havia mais coisas.

 

Neste caso os jornalistas, quer da televisão quer da imprensa, tinham feito algum trabalho em casa e algumas pesquisas. Como um explicou a Julian Hammond, que passou a informação a Célia: ”Quase todos nós sabíamos da demissão da Sr.a Jordan por causa do Montayne assim como da sua insistência, quando regressou, para que o medicamento fosse retirado sem esperar a decisão da FDA. O que ninguém sabia muito bem era como usar a informação e por isso reservámo-la. Tal como as coisas se passaram a informação revelou-se mais eficaz no fim.”

 

Desta forma, nos artigos posteriores às sessões, Célia aparecia em grande estatura de duas maneiras. Primeiro, quer a sua demissão da Felding-Roth quer o seu regresso, agora tornados públicos, revelaram-na como uma pessoa com fortes princípios morais. Segundo, a sua recusa em melhorar a sua imagem pessoal nas audiências do Senado à custa da entidade patronal demonstrava que era de uma lealdade que merecia ser realçada.

 

O Wall Street Journal começou assim um editorial:

 

”Há em geral mais honra nos negócios do que se pensa. Por isso é bastante agradável ver a honra não apenas demonstrada como publicamente reconhecida.”

 

Uns dias depois do regresso a Washington, Célia e Julian Hammond estavam reunidos no gabinete dela. O vice-presidente das relações públicas trouxera, com

ar feliz, um monte de recortes de jornais que espalhara sobre a secretária de Célia. Momentos depois foi anunciada a chegada de Childers Quentin.

 

Célia não voltara a ver o advogado de Washington desde o último dia na Colina do Capitólio. A sua visita prendia-se agora com o estudo, entre os dois, de algumas disposições acerca dos processos legais do Montayne.

 

Célia disse à secretária que o mandasse entrar.

 

Tinha um ar cansado e desanimado, pensou ela enquanto se cumprimentavam e ela o convidou a sentar.

 

- Estava mesmo a sair, senhor Quentin - disse Hammond. E acrescentou, apontando os recortes de jornais: - Estamos a saborear os despojos da vitória.

 

Quentin não se mostrou impressionado:

 

- É isso que lhe chama?

 

- Com certeza. - O chefe das relações públicas parecia surpreso: - Não pensa o mesmo?

 

A resposta foi resmungada:

 

- Se pensam assim então são os dois de vistas curtas. Houve um silêncio que Célia interrompeu:

 

- Muito bem, conselheiro. Tem algo em mente. Diga-nos o que é.

 

- Tudo isso - disse Quentin fazendo um gesto na direcção dos recortes -, assim como a cobertura televisiva, é material pesado. Mas, daqui a poucas semanas, tudo estará quase esquecido. A publicidade não contará para nada.

 

Foi Hammond quem perguntou:

 

- Então o que contará?

 

- O que irá contar é que esta companhia, e tu pessoalmente, Célia, ganharam um formidável inimigo. Conheço o Donahue. Fizeste dele um tolo. Pior: fizeste-o no seu próprio terreno, o Senado, e, foi o que aconteceu, com milhões a verem. Nunca perdoará. Nunca. Se, no futuro, puder atacar a Felding-Roth ou a ti, Célia, fá-lo-á e gostará de o fazer. Pode até procurar maneiras de o fazer e como senador dos Estados Unidos, como uma vez te disse, pode puxar umas tantas alavancas do poder.

 

Foi, pensou Célia, como se tivesse levado de repente com um balde de água fria. E sabia que Quentin tinha toda a razão.

 

- Que sugeres? - perguntou ela. O advogado encolheu os ombros.

 

- Para já, nada. De futuro tens de ser o mais cuidadosa possível. Não te coloques, nem à Felding-Roth, numa situação que te ponha à mercê do senador Donahue.

 

- Como é a senhora Jordan? - perguntou Yvonne a Martin. Ele pensou antes de responder.

 

- Atraente. Forte. Inteligente. Extremamente boa no seu trabalho. Directa e honesta pelo que, quando se lida com ela, se sabe sempre o terreno que se pisa.

 

- Já estou nervosa com o nosso encontro.

 

- Não precisas de estar. - Martin riu. - Prevejo que irão gostar uma da outra.

 

Estava-se numa sexta-feira de Julho e os dois estavam na casa de Harlow de Martin para a qual Yvonne se mudara definitivamente, há cerca de um ano. Abandonara o seu pequeno apartamento porque era uma despesa desnecessária.

 

Na sala de estar havia livros e papéis espalhados por toda a parte - resultado dos estudos de Yvonne para os exames de nível A, agora a seis meses de distância. Passara-se ano e meio desde que, pressionada por Martin, ela se lançara naquele trabalho árduo que, ambos esperavam, a conduziria à medicina veterinária.

 

Os estudos avançavam bem. Yvonne, gostando do que estava a fazer, nunca se sentira tão feliz. A sua alegria impregnava toda a casa e era compartilhada por Martin. Além de continuar a trabalhar durante o dia no Instituto de Pesquisas Felding-Roth ela recebia lições nalgumas noites e fins-de-semana. Martin, como prometera, ajudava Yvonne suplementando a aprendizagem com a sua experiência prática.

 

Outra razão para alegrias era o progresso dos trabalhos no instituto. Depois do devastador assalto dos Direitos dos Animais a recuperação dos dados fizera-se mais depressa do que se esperara. Naquele momento não estavam ainda totalmente recuperados, mas o desenvolvimento do péptido 7 avançava até ao ponto em que estava apto para ser examinado como produto pela direcção.

 

Célia, acompanhada de outros elementos de Nova Jérsia, chegaria na quarta-feira da semana seguinte com esse objectivo.

 

No entanto, naquele momento, os pensamentos sobre Célia eram uma digressão. Martin continuava a examinar um livro, tal como o fizera nos últimos minutos: os Princípios de Química Orgânica de Murray.

 

- Reescreveram isto desde que fiz os meus exames. Parte deste material novo é irrealista. Vais ter de aprendê-lo mas depois ignora-o.

 

- Estás a referir-te às designações químicas sistemáticas? - perguntou Yvonne.

 

- Claro!

 

O sistema de Genebra para as substâncias químicas fora concebido pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (sigla em inglês: IUPAC). A ideia era que o nome de qualquer composto químico indicasse também a sua estrutura. Deste modo o isoctano tornou-se no 2,2,4-trimetilpentano, o ácido acético - o vinagre vulgar - no ácido etanóico e a vulgar glicerina no propano-l,2,3-triol. Infelizmente os químicos, que deviam utilizar as designações da IUPAC, raramente o faziam, mas os examinadores exigiam-nas. Por isso Yvonne aprendia os novos nomes para os exames e os velhos para o trabalho de laboratório.

 

- Não usas os nomes da IUPAC no laboratório? - perguntou ela.

 

- É raro. A maior parte de nós não se lembra deles; além disso são pouco práticos. Seja como for vamos ver como estás em relação a eles.

 

- Avança.

 

Martin referiu sucessivamente vinte substâncias químicas, umas vezes usando o nome velho, outras o novo. De cada vez, sem hesitação, Yvonne recitou a alternativa.

 

Martin fechou o livro abanando a cabeça.

 

- Essa tua memória ainda me espanta. Como gostaria de a ter!

 

- Foi por causa da minha memória que não me deixaste tomar o péptido sete?

 

- Em parte. Mas foi sobretudo que não quero que corras riscos.

 

Um mês antes Martin afixara um comunicado no instituto. O título era: ”Precisam-se Voluntários.”

 

O comunicado pedia que qualquer membro do pessoal que estivesse disposto a injectar-se com o péptido 7, para a primeira série de ensaios em seres humanos, devia inscrever o seu nome nas linhas mais abaixo. Os objectivos e os riscos potenciais eram claramente expostos. Antes de afixar o papel Martin inscrevera o seu próprio nome.

 

Rao Sastri inscreveu-se logo a seguir. Em poucos dias havia catorze nomes, incluindo o de Yvonne.

 

Da lista final Martin escolheu dez voluntários. Yvonne não estava entre eles. Quando ela lhe perguntara porquê ele despachou-a com um: ”Agora não. Mais tarde.”

 

O objectivo dos primeiros ensaios humanos do péptido 7 não era estudar os seus resultados positivos, mas procurar possíveis efeitos adversos. Nessa altura Martin explicara a coisa pelo telefone a Célia:

 

- Em Inglaterra podemos tomar a iniciativa deste tipo de ensaios enquanto que na América vocês necessitam da aprovação da FDA.

 

Depois de vinte dias de vigilância dos voluntários, que continuavam a receber doses regulares do péptido 7, não se tinha ainda revelado qualquer efeito colateral. Martin estava contentíssimo embora soubesse que seriam necessários muitos mais testes humanos.

 

- Gostava de começar a tomar o péptido sete - suspirou Yvonne. Provavelmente é a única forma de perder o excesso de peso. A propósito: comprei salmão defumado para amanhã.

 

- És um anjo! - disse Martin. Salmão fumado era o seu pequeno-almoço favorito aos fins-de-semana quando dispunha de tempo para os apreciar.

 

A sua voz tornou-se mais séria:

 

- Amanhã vou ver a minha mãe. Falei hoje com o meu pai que me disse que os médicos não lhe dão muito tempo de vida.

 

Se bem que a deterioração da mãe de Martin tivesse sido lenta, a progressão da doença de Alzheimer fora incessante. Uns meses antes Martin colocara-a numa casa de enfermagem em Cambridge onde agora flutuava na fronteira da vida. O pai de Martin continuava a viver num pequeno mas agradável apartamento que Martin alugara para os pais pouco depois de começar a trabalhar para a Felding-Roth.

 

- Desculpa - Yvonne estendeu o braço tocando-lhe a mão num gesto de simpatia. - Sim, também irei. Se não te importares de que estude no carro.

 

Arranjaram as coisas para sair logo a seguir ao pequeno-almoço. Martin queria passar ainda pelo seu gabinete, já de caminho.

 

Na manhã seguinte, no instituto, enquanto Martin via o correio e lia um mapa do computador do dia precedente, Yvonne andou pela sala dos animais. Foi aí que ele a foi encontrar mais tarde. Estava parada em frente a uma gaiola que continha vários ratos e Martin ouviu-a exclamar:

 

- Velho diabo duma figa!

 

- O que se passa? - perguntou ele com ar divertido.

 

Yvonne virou-se e apontou para a gaiola:

 

- Estes animais são os maiores tarados sexuais que jamais vi. Ultimamente dá a impressão que nunca se fartam. Preferem o sexo à comida.

 

Enquanto Martin olhava, o rato que provocara a exclamação de Yvonne continuava a copular com uma fêmea submissa e, na gaiola ao lado, outro casal divertia-se da mesma forma.

 

Deu uma olhadela às descrições dactilografadas presas às gaiolas. Todos os ratos, reparou, estavam a receber o mais recente e purificado lote de péptido 7.

 

- Disseste que estavam impossíveis ”ultimamente”. Que queres dizer com esta palavra?

 

Yvonne hesitou mas depois olhou directamente para Martin.

 

- Acho que foi... depois de começar a receber as injecções.

 

- E não são ratos novos?

 

- Se fossem seres humanos já estariam a receber a pensão da terceira idade. Ele riu-se e disse:

 

- Se calhar é apenas coincidência. - Mas depois pensou: ”Seria?” Como se lhe lesse o espírito Yvonne perguntou:

 

- Que vais fazer?

 

- Na segunda-feira quero que verifiques a frequência de acasalamento dos ratos que recebem. Depois diz-me se está na média habitual ou é superior.

 

- Não preciso de esperar por segunda-feira. Posso afirmar-te já que estão acima da média. Mas até este momento, contudo, não ligara ainda...

 

- Não ligues! - disse Martin bruscamente. - As convicções podem levar a falsos caminhos. Manda-me os dados que obtiveres.

 

- Está bem - concordou ela submissamente.

 

- Depois arranja dois novos grupos de ratos velhos, machos e fêmeas. Mantém os grupos separados mas deixa-os coabitar. Um grupo receberá o péptido sete, o outro não. Quero um estudo computadorizado dos hábitos de acasalamento de ambos os grupos.

 

Yvonne riu-se:

 

- Um computador não é capaz de te dizer quantas vezes...

 

- Acho que não. Mas seguirá a evolução das ninhadas. Trataremos disso. Ela acenou que sim com a cabeça, mas Martin sentiu que o seu espírito pensava

 

noutra coisa. Perguntou:

 

- Que tens?

 

- Estava a pensar numa coisa engraçada que ontem quando comprava o salmão defumado. O Mickey Yates é um dos teus voluntários, não é?

 

- É. - Yates, um técnico do laboratório, era o voluntário mais velho do péptido 7. Começara a ser prestimoso com Martin depois do incidente, vários anos atrás, com Célia e o rato guilhotinado. A sua participação no programa de ensaios era a sua última contribuição.

 

- Bem, vi a mulher dele no mercado que me disse como era bom que o trabalho dele o fizesse sentir outra vez jovem.

 

- Que queria ela dizer?

 

- Perguntei-lhe. Ficou vermelha e disse que o Mickey se sentia ”vigoroso e cheio de energia”, foram as suas próprias palavras, e a mantinha ocupada na cama.

 

- Ela referia-se aos últimos tempos.

 

- Tenho a certeza que sim.

 

- E ele não era assim antes?

 

- Segundo ela, nunca o foi.

 

- É espantoso como ela falou acerca disso.

 

- Não conheces lá muito bem as mulheres - comentou Yvonne com um sorriso.

 

Martin ficou pensativo mas depois decidiu-se:

 

- Vamos para o carro. Falaremos no caminho para Cambridge.

 

No princípio da viagem limitaram-se a ouvir as notícias na rádio, quase todas sobre questões políticas. A Inglaterra atravessava um período excitante e optimista. Dois meses antes uma eleição geral conduzira ao poder a primeira mulher como primeira-ministra na História da Grã-Bretanha. E Margaret Thatcher e o seu Governo estavam a injectar novas iniciativas numa nação que poucas conhecera desde a Segunda Guerra Mundial.

 

No fim do noticiário Martin desligou o rádio e voltou às suas preocupações mais imediatas.

 

-- Estou preocupado - disse ele - e não quero que se fale muito do que discutimos esta manhã. Vais manter em segredo o que me disseste sobre o acasalamento dos ratos. E não digas a ninguém o que se passa com o novo estudo. Temos de o realizar, embora a ideia não me agrade, mas conserva os resultados fechados à chave até mos entregares. E acabaram-se as histórias sobre o Mickey Yates e a mulher.

 

- Farei tudo isso - concordou ela. - Mas não percebo por que estás tão preocupado.

 

- Então vou dizer-te. Estou preocupado porque produzimos um medicamento que tenho esperanças que venha a ser significativo, que seja tomado a sério e que se torne importante na luta contra a doença. Mas se se espalhar a notícia de que é uma espécie de afrodisíaco, para além de induzir a perda de peso, o que poderá ser ou não um bom efeito, tal poderá ter as piores consequências. Atirará com tudo aquilo que descobrimos para a valeta, como se tivéssemos reinventado a banha da cobra.

 

- Acho que estou a perceber - disse Yvonne. - E, agora que mo explicaste, não vou dar com a língua nos dentes. Mas vai ser difícil fazer parar os outros.

 

Martin disse, amargamente:

 

- É isso que mais receio.

 

A manhã estava a meio quando chegaram a Cambridge. Martin conduziu o carro directamente para a casa de enfermagem onde a sua mãe era tratada. Ela estava na cama, o sítio onde passava a maior parte do seu tempo, e de onde tinha de ser levantada quando tal era necessário. Não se lembrava de nada, nem das coisas mais simples, e, tal como há muitos anos acontecia, não deu o menor sinal de reconhecer Martin.

 

A mãe, pensou Martin com Yvonne a seu lado, estava visivelmente mais fraca em cada dia que passava. O seu corpo estava magro, as bochechas chupadas, o cabelo rarefeito. Nos primeiros anos de declínio, na altura em que Célia visitara a velha casa no Kite, permanecera um certo vestígio da sua anterior beleza. Mas, agora, até isso desaparecera.

 

Era como se a doença de Alzheimer, depois de ter devorado o cérebro da mãe, lhe comesse também o corpo.

 

- Foi meu sonho - disse Martin a Yvonne em voz baixa - ajudar a descobrir qualquer coisa que evitasse isto, ou pelo menos a maior parte. Passarão anos, é claro, antes que possamos saber se fomos bem sucedidos. Mas é exactamente por ter sido tão importante a nossa pesquisa que não a quero ridicularizada por aquilo que descobrimos.

 

- Compreendo - disse Yvonne. - Sobretudo agora.

 

Noutras ocasiões anteriores em que Martin trouxera Yvonne para visitar a sua mãe, Yvonne pegara nas mãos da mulher mais velha e segurara-as, sem nada dizer. Embora ninguém o pudesse afirmar ao certo Martin tivera a impressão de que o gesto dava conforto à sua mãe. Hoje Yvonne fez a mesma coisa, mas até aquela ténue comunicação parecia já não estar presente.

 

Da casa de enfermagem foram visitar o pai de Martin. O apartamento alugado por Martin situava-se a noroeste da cidade, não muito longe do Girton College. Encontraram Peat-Smith, sénior, numa pequena área de trabalho atrás do prédio. À sua volta estavam espalhadas as ferramentas do seu ofício e ele experimentava-as num pequeno bocado de mármore, usando um cinzel e um malho.

 

- Acho que já sabes - disse Martin a Yvonne - que o meu pai era um canteiro.

 

- Sabia. Mas desconhecia que ainda se dedicava a isso, senhor Peat-Smith.

 

- Já não o faço - disse o velho. - Os dedos estão duros. Mas pensei, pensei, vou fazer uma lápide para a tumba da tua mãe, filho. - Olhou interrogadoramente para Martin. - Não faz mal, pois não, embora ainda esteja viva?

 

Martin colocou os braços em torno dos ombros do pai:

 

- Está tudo bem, pai. Precisa de alguma coisa?

 

- Só um bloco de mármore. Mas acho que custa uma data de massa.

 

- Não se preocupe com isso. Encomende o que precisar e diga-lhes que me enviem a conta.

 

Quando Martin olhou para Yvonne viu que esta chorava.

 

- Concordo em absoluto contigo no que respeita ao efeito estimulante sexual disse Célia a Martin. - Se o péptido sete fosse considerado uma espécie de afrodisíaco cairia em desgraça como produto sério.

 

- Penso que temos boas hipóteses de manter o segredo connosco - disse Martin.

 

- Não tenho assim tanta certeza - confessou Célia -, embora tenha esperanças que tu é que estejas certo.

 

Era o segundo dia da sua visita ao instituto de Harlow e Célia estava reunida em privado com Martin no gabinete deste. Antes ele avisara-a formalmente:

 

- Posso comunicar que temos o que nos parece ser uma medicação benéfica para retardar o envelhecimento mental e auxiliar a acuidade, as duas coisas em conjunto. Todos os sinais são positivos.

 

Fora percorrido um longo caminho, pensava Célia, desde que, seguindo ordens de Sam, visitara Harlow pára decidir se o instituto seria ou não encerrado e mais tempo até - sete anos - desde o memorável primeiro encontro em Cambridge entre Sam, ela própria e Martin.

 

- Parece não restar dúvidas de que descobriste algo importante - comentou ela.

 

Estavam relaxados e confortáveis um com o outro. Se algum deles, de vez em quando, recordava as intimidades da sua noite como amantes, tal nunca foi mencionado. Sem dúvida que era um momento, um interlúdio, que pertencia somente ao passado.

 

Enquanto Célia conversava com Martin, meia dúzia de executivos que a tinham acompanhado desde a sede da Felding-Roth estavam a ter debates separados e especializados sobre o futuro do péptido 7. Estes debates cobriam uma gama de assuntos - fabricação, controlo de qualidade, materiais e fontes, custos, embalagens, gestão do produto - abrangendo todas as facetas do que seria um plano geral determinante de como o medicamento seria apresentado e comercializado a nível mundial. Rao Sastri, Nigel Bentley e outros membros do pessoal de Harlow estavam a responder a questões formuladas pela equipa americana.

 

Embora ainda houvesse pela frente mais de um ano de ensaios clínicos e, depois disso, fosse necessário obter a autorização dos governos para vender o péptido 7, chegara a altura de tomar muitas decisões a respeito do futuro. Uma das mais importantes era a extensão do investimento da Felding-Roth na fábrica que o produziria, o que seria uma jogada dispendiosa e sem lucros ou um astuto e bem sucedido acto de fé.

 

A via de ingestão do medicamento era também importante.

 

- Investigámos exaustivamente a via de administração e recomendamos a vaporização nasal - disse Martin a Célia. - Trata-se de uma via moderna, em expansão. No futuro cada vez maior número de medicamentos será administrado dessa forma.

 

- Bem sei. Já se falou nisso para a insulina. Seja como for estou grata por não terem produzido um injectável.

 

Como ambos sabiam era um facto real no campo farmacêutico que nenhum medicamento administrado por injecção se vendia tão bem como outro que o doente podia tomar facilmente em casa.

 

- Para ser utilizado como vaporização nasal - explicou Martin - o péptido sete será veiculado numa solução salina inerte adicionada de um detergente. O detergente assegura a melhor velocidade de absorção.

 

Revelou então que tinham sido ensaiados diversos detergentes. O melhor dos não tóxicos, que não irritava a membrana nasal, era um novo produto da Felding-Roth desde há pouco disponível nos Estados Unidos.

 

Célia estava deliciada.

 

- Queres dizer que podemos manter tudo em casa?

 

- Exactamente. - Martin sorriu. - Achei que irias ficar satisfeita.

 

Uma dose normal, prosseguiu ele, seria de duas aplicações por dia. Dois médicos, recentemente adicionados ao pessoal de Harlow, coordenariam os ensaios clínicos em Inglaterra que se iniciariam imediatamente.

 

- Vamos concentrar-nos no leque de idades entre os quarenta e os sessenta embora circunstâncias especiais possam levar a variações. Ensaiaremos também o medicamento em doentes na fase inicial da doença de Alzheimer. Não fará regredir a doença, não temos esperanças de que o faça, mas poderá retardá-la.

 

Célia, por seu lado, falou dos planos para os ensaios americanos:

 

- Queremos começar o mais cedo possível. Por causa dos preliminares e da necessidade de uma autorização da FDA estaremos um pouco atrás de ti. Mas não muito.

 

E continuaram com os seus esperançosos e excitantes planos.

 

Das conversações de Harlow saiu a conclusão de que um pequeno frasco de plástico com uma tampa de premir seria o melhor recipiente para o péptido 7. A dose adequada seria fornecida cada vez que se premisse a bomba.

 

Tal recipiente abria amplas possibilidades no sentido de uma embalagem atraente e interessante.

 

O mais certo é que a Felding-Roth não se encarregaria da fabricação dos recipientes, mas que os encomendaria a um fornecedor especializado. A decisão final seria tomada em Nova Jérsia.

 

Enquanto Célia estava em Harlow, Martin combinou um jantar com ela, ele próprio e Yvonne. Mostrando grande sensibilidade, pensou Célia, ele não as levou ao Churchgate mas sim à sala de jantar de um novo hotel, o Saxon Inn.

 

Ao princípio as duas mulheres inspeccionaram-se mutuamente com curiosidade mas, pouco depois, e apesar da diferença de idades - Célia tinha quarenta e oito e Yvonne vinte e sete - estabeleceram uma amizade simples, talvez devido à afinidade de ambas por Martin.

 

Célia admirava a decisão de Yvonne em candidatar-se à faculdade de veterinária. Quando Yvonne disse, que se fosse aceite, seria mais velha que a maioria dos estudantes, Célia aconselhou-a:

 

- E serás melhor por causa disso. - E, falando para Martin, acrescentou: Na Felding-Roth temos um fundo criado para ajudar os empregados a melhorar o seu nível educacional. Penso que podemos alargar as regras o suficiente para dar a Yvonne alguma ajuda financeira.

 

Martin ergueu o sobrolho:

 

- Yvonne, parece que o teu custo de vida acaba de ser pago. Quando ela exprimiu gratidão, Célia fê-la parar e disse, com um sorriso:

 

- Pelo que me disseram a tua contribuição foi grande para que o péptido sete chegasse ao que hoje é.

 

Um bocado depois, quando Yvonne deixou a mesa por uns momentos, Célia disse:

 

- É especial e deliciosa. Não tenho nada com isso, Martin, e só me respondes se o quiseres fazer... vais casar com ela?

 

A questão apanhou-o desprevenido.

 

- Muito pouco provável. Na verdade acho que nenhum de nós pensou nisso.

 

- Yvonne já pensou. Ele discordou:

 

- Por que o faria ela? Tem à sua frente toda uma carreira. Uma boa carreira.

 

Levá-la-á a outros lugares onde encontrará outros homens, com uma idade mais perto da sua. Sou doze anos mais velho que ela.

 

- Doze anos nada significam. Mas Martin mostrou-se obstinado:

 

- Actualmente significam muito. São o abismo entre duas gerações. Além do mais Yvonne precisa de ser livre e eu também. Neste momento temos um acordo que satisfaz a ambos, mas as coisas poderão alterar-se.

 

- Homens! - exclamou Célia. - Alguns de vocês arranjam-se bem com os vossos ”acordos”. Mas podem também ser cegos.

 

A discussão terminou com o regresso de Yvonne. E não foi retomada até que Célia e o seu grupo regressaram a Nova Jérsia alguns dias depois.

 

No dia em que Célia partiu a mãe de Martin morreu. Saiu calmamente da vida, sem aviso nem pressa. Como um médico da casa de enfermagem disse mais tarde a Martin:

 

- Partiu como um barquinho à deriva numa noite de mar calmo.

 

A calmaria, pensou Martin, com sentimentos misturados de tristeza e alívio, estivera presente na sua mãe por tempo demasiado. Era a turbulência mental, e não os mares calmos, que conferiam à vida o seu sabor. A doença de Alzheimer privara a sua mãe desse sabor e o pensamento renovou, mais uma vez, as suas esperanças no futuro do péptido 7.

 

Apenas Martin, seu pai e Yvonne compareceram no funeral, simples, e depois Peat-Smith, sénior, voltou ao trabalho no bloco de mármore que encomendara e que chegara apenas alguns dias antes. Martin e Yvonne regressaram a Harlow num silêncio compartilhado.

 

Nos meses seguintes várias decisões importantes foram tomadas na Felding-Roth, Nova Jérsia, sublinhadas por muitas viagens transatlânticas do pessoal da sede.

 

O ingrediente activo do péptido 7, que era um pó branco cristalino, seria fabricado na República da Irlanda em novas instalações cujo local já fora escolhido e cujos planos estavam a ser concluídos a toda a pressa pelos arquitectos. A unidade seria a primeira da Felding-Roth a especializar-se em biologia molecular. No local fora reservado espaço para a futura produção de Hexin W.

 

A produção final do péptido 7, na sua forma líquida e pronto a ser colocado nos recipientes, far-se-ia numa fábrica já existente em Porto Rico. Os recipientes, produzidos como se previra por outra companhia, seriam enviados para lá. Este sistema internacional de produção apresentava substanciais vantagens fiscais em relação à produção nos Estados Unidos.

 

O plano todo envolvia enormes investimentos que, depois de dúvidas e discussões, foram aprovados pelo conselho de directores. Um dia à noite, durante o jantar, Célia explicara a Andrew as dúvidas surgidas:

 

- Não temos o dinheiro. Vai ser todo emprestado e, se for para a fossa, a Felding-Roth irá também. Mas concordamos que temos de o fazer. Apostámos a companhia e estamos numa disposição de tudo ou nada.

 

Foram tomadas outras decisões, de menor dimensão, mas importantes. Uma foi a escolha de um nome comercial para o péptido 7.

 

A agência de publicidade da Felding-Roth - ainda a Quadrille-Brown de Nova Iorque - iniciou um dispendioso e exaustivo estudo em que foram examinados os nomes comerciais já existentes e propostos novos nomes, muitos dos quais foram rejeitados. Finalmente, após meses de trabalho, uma sessão de alto nível teve lugar na sede da Felding-Roth. Por parte da companhia participaram Célia, Bill Ingram e mais meia dúzia de pessoas.

 

O pequeno contingente da agência era encabeçado por Howard Bladen, agora presidente da Quadrille-Brown, que viera, como ele expressara, ”por um respeito já antigo”. Antes da sessão, Célia, Ingram e Bladen recordaram aquela reunião dezasseis anos antes, em que se tinham encontrado, e da qual resultara o ”plano mamã feliz” para oNovo Healthotherm, que continuava a ser um produto de venda ao balcão bem vendido e lucrativo.

 

Foram instalados quadros e cavaletes na sala de reuniões para mostrar os oito nomes sugeridos, cada um apresentado em sucessão, em vários tipos de letras.

 

- Entre o reduzido número de probabilidades que restou - comunicou um executivo da agência - contam-se nomes relacionados com o cérebro ou a compreensão humana.

 

Foram então apresentados estes que eram os seguintes: Appercep, Compre, Percip e Braino. Os primeiros três derivavam de ”apercepção”, ”compreensão” e ”percipiendário”.

 

O quarto nome foi rapidamente posto de lado quando Bill Ingram comentou a sua semelhança com outro produto da casa, o Drano.

 

- Estou embaraçado - disse Bladen - e não sei como nenhum de nós se apercebeu disso. Mas não há desculpa para tal. Lamento o sucedido.

 

Seguiram-se outros nomes que, como fez notar o executivo, ”sugerem algo brilhante, resplandecente de inteligência”. Eram eles: Argent eNitid.

 

Os dois restantes eram: Genus e Compen. O segundo, foi dito, implicava que o medicamento ”compensava” algo que fora perdido.

 

Seguiu-se uma hora de discussão. Bill Ingram gostava de Appercep, não gostava deNitid e engraçava com os outros nomes. Três pessoas da companhia favoreciam Argent. Bladen expressou-se como apoiante de Compen. Célia, recostada para trás, ouvia os outros, deixava os argumentos fluir, reflectindo a certa altura nos milhares de dólares que aquilo estava a custar.

 

Foi Bladen quem por fim perguntou:

 

- Qual é a sua opinião, senhora Jordan? Já teve algumas esplêndidas ideias no passado.

 

- Bem - disse Célia -, estava a pensar se não deveríamos dar ao novo medicamento o nome de Péptido sete.

 

Só Ingram tinha a ousadia, e conhecia Célia suficientemente bem, para rir alto. Bladen hesitou mas logo um sorriso leve lhe perpassou no rosto:

 

- Senhora Jordan, acho que o que acabou de sugerir é uma ideia brilhante. Célia disse com aspereza:

 

- Só por eu ser a cliente não toma a ideia brilhante. É apenas razoável. Depois de uma curtíssima discussão foi acordado que o nome comercial do péptido 7 seria Péptido 7.

 

Um ano passou.

 

Os ensaios clínicos do Péptido 7 avançavam muito mais depressa que o previsto e mostraram-se um sucesso espectacular em Inglaterra e nos Estados Unidos. Os doentes mais idosos respondiam positivamente ao medicamento. Não apareceram efeitos adversos. Todos os dados acumulados foram então enviados à Comissão de Segurança dos Medicamentos, em Londres, e à FDA, em Washington.

 

Depois de cuidadosas discussões quer em Harlow quer em Boonton, que envolveram Martin Peat-Smith, Vincent Lord, Célia e outros, foi decidido não pedir a ”indicação” oficial do efeito antiobesidade do Péptido 7. Tal significava que, se bem que o efeito redutor de peso fosse mencionado na informação prestada aos médicos, não seria recomendada a utilização do Péptido 7 para esse fim.

 

Alguns médicos poderiam prescrevê-lo com esse objectivo. Contudo tal seria da responsabilidade desses médicos e não da Felding-Roth.

 

Quanto ao efeito estimulante sexual, embora repetidos ensaios em animais tivessem mostrado que tal efeito existia, não fora procurado em ensaios humanos e estava referido apenas como possível nos dados entregues.

 

Em ambos os casos o pensamento continuava a ser este: o Péptido 7 é um medicamento sério destinado a retardar o envelhecimento mental. Qualquer aplicação mais ”frívola” desviá-lo-ia desse importante papel e diminuiria a reputação do medicamento.

 

Tendo em vista os excelentes resultados dos ensaios clínicos, e o facto de não serem dadas outras indicações, parecia pouco provável um grande atraso na aprovação oficial.

 

Entretanto a construção das instalações irlandesas e as modificações em Porto Rico estavam quase completas.

 

Em Harlow, Martin, se bem que extremamente interessado no resultado dos ensaios clínicos, deixara os pormenores por conta do pessoal médico. Trabalhava na modificação do Péptido 7, explorando as possibilidades de fazer outros péptidos cerebrais, um espectro que fora aberto pelo sucesso inicial.

 

Martin e Yvonne continuavam a viver juntos. Em Janeiro de 1980 Yvonne fizera os seus exames de nível A e, para sua grande alegria e de Martin, passara com A em todas as disciplinas. Também fizera, e passara, o exame de admissão às faculdades de Cambridge, pois candidatara-se ao Lucy Cavendish College dessa universidade e fora aceite, uma aceitação condicionada ao resultado dos exames. Os prospectos de admissão tinham agradado a Yvonne com a sua referência a uma ”sociedade para as mulheres, em particular para as que viram os seus estudos adiados ou interrompidos”.

 

Em Setembro, tendo-se demitido da Felding-Roth, começou a frequentar no Lucy Cavendish o curso de Medicina Veterinária.

 

Estava-se em Outubro e ela acostumara-se a conduzir diariamente de e para as aulas em Cambridge, uma viagem de uma hora.

 

Fora dos seus estudos uma fonte de prazer para Yvonne era o desabrochar do romance real entre o príncipe de Gales e ”Lady Di” como agora lhe chamava toda a Grã-Bretanha. Yvonne discutia incansavelmente o assunto com Martin.

 

- Sempre disse que, se esperasse, ele encontraria uma rosa inglesa declarava ela. - E encontrou.

 

Martin continuava a escutar a tagarelice de Yvonne, que agora incluía a cena universitária de Cambridge, com afectuoso interesse.

 

Durante o mês de Janeiro do ano seguinte, quando o presidente Reagan era investido quatro mil milhas a oeste, em Inglaterra o ministro da Saúde concedia ao Péptido 7 licença para ser comercializado. Dois meses mais tarde a FDA anunciava a aprovação do medicamento nos Estados Unidos. O Canadá, como frequentemente acontecia, seguiu a FDA.

 

Em Inglaterra o medicamento estava programado para ser lançado em Abril, nos Estados Unidos e Canadá sê-lo-ia em Junho.

 

Mas em Março - antes que tivesse sido comercializado em qualquer lado deu-se um acontecimento que confirmou os receios iniciais e pareceu pôr em risco todo o futuro do Péptido 7.

 

Tudo começou com um telefonema para o instituto de Harlow da Felding-Roth de um jornal londrino, o Daily Mail. O jornalista que telefonou pretendia falar com o Dr. Peat-Smith ou o Dr. Sastri. Quando foi informado que nenhum se encontrava presente deixou uma mensagem que uma secretária dactilografou e colocou na mesa de Martin. Lia-se nela:

 

O Mail soube que estão prestes a retirar o véu sobre um medicamento miraculoso que rejuvenesce as pessoas sexualmente, as faz perder peso e faz as pessoas de meia-idade e velhas sentirem-se de novo jovens. Apresentaremos um artigo no jornal de amanhã e gostaríamos de ter uma opinião da vossa companhia hoje e o mais cedo possível.

 

Quando Martin leu a mensagem faltava meia hora para o meio-dia e reagiu com choque e medo. Um raio de um jornal, preocupado apenas com a impressão de uma história sensacional que duraria um só dia, iria arruinar todo o seu trabalho e sonhos?

 

O seu impulso imediato foi telefonar para Célia, o que fez, para casa. Em Morristown eram 6,30 da manhã e ela estava no chuveiro. Martin esperou com impaciência enquanto ela se enxugava e vestia um robe.

 

Ao ouvir a voz de Célia contou tudo o que acontecera e a mensagem do jornalista. O tom da sua voz revelava angústia. Célia mostrou-se preocupada e compreensiva, mas também prática.

 

- Afinal a questão do sexo e do Péptido sete sempre se vai tornar pública. Sempre estive convencida de que isso aconteceria.

 

- Podemos fazer qualquer coisa para o impedir?

 

- Claro que não. Há um fundo de verdade na notícia pelo que não a podemos negar. Além disso nenhum jornal largaria da mão uma história dessas.

 

Martin, parecendo invulgarmente indefeso, perguntou:

 

- Que faço eu, nesse caso?

 

- Telefona ao jornalista - disse ela - e responde com honestidade às suas perguntas, embora de forma o mais curta possível. Não te esqueças de salientar que os resultados sexuais só foram observados em animais e que, por essa razão, não recomendamos o medicamento nos seres humanos com essa indicação. O mesmo se aplica ao efeito de perda de peso. - E Célia acrescentou: - Talvez assim o artigo saia pequeno e não chame muito as atenções.

 

- Duvido - disse Martin com uma voz sombria.

 

- Eu também. Mas tenta.

 

Três dias depois do telefonema de Martin, Julian Hammond informou Célia do que se passava nos meios de Comunicação Social em relação ao Péptido 7.

 

O vice-presidente das relações públicas começou assim:

 

- Foi como se a história no jornal britânico tivesse aberto as comportas. O Daily Mail emcabeçava assim o seu artigo:

 

”Avanço Científico:

 

Em Breve Um Novo Medicamento Milagroso Para o Tornar mais Sexy, mais Jovem e mais Elegante.”

 

O artigo estendia-se sobre o efeito sexual do’Péptido 7, mas nem referia o facto de que, por enquanto, oficialmente, só fora observado em animais. A palavra ”afrodisíaco” - tão temida por Martin e outros da Felding-Roth - era usada várias vezes. Pior ainda, do ponto de vista da companhia, o jornal tivera conhecimento de Mickey Yates e entrevistara-o. Uma fotografia com o título ”Obrigado, Péptido 7!” mostrava o idoso Yates contentíssimo pelo regresso da sua capacidade sexual. Ao lado dele a esposa, num sorriso exagerado, confirmava a história do marido.

 

No artigo do jornal havia algo que o pessoal da Felding-Roth ainda não sabia: vários dos voluntários do Péptido 7 em Harlow tinham experimentado estímulos sexuais pouco vulgares. E também eles eram nomeados e citados.

 

A ténue esperança de Célia de que a história ficasse confinada a um só jornal revelou-se mera esperança, nada mais. Não só a história do Daily Mail foi aproveitada pela restante imprensa britânica e pela televisão como as agências noticiosas a espalharam pelo Mundo. Nos Estados Unidos o interesse geral foi instantâneo, com os efeitos sexuais e antiobesidade do Péptido 7 mencionados na maioria dos jornais e debatidos na televisão

 

Desde o momento em que a história rebentou nos Estados Unidos o quadro telefónico da Felding-Roth ficou bloqueado de chamadas da imprensa, da rádio e da televisão, procurando pormenores sobre o lançamento do Péptido 7. Embora houvesse relutância em responder ao que era uma onda de sensacionalismo prejudicial, a informação foi dada. Não havia alternativa.

 

Poucos telefonemas perguntavam pela verdadeira aplicação do medicamento, o efeito antienvelhecimento mental.

 

A seguir à onda dos meios de Comunicação Social veio uma segunda: as perguntas do público. A maior parte dizia respeito às propriedades sexuais e antiobesidade e era-lhes lida uma comunicação preparada para o efeito e que salientava que o Péptido 7 não se destinava a isso. As telefonistas disseram que a resposta não parecia satisfazer os curiosos.

 

Alguns telefonemas eram obviamente de maníacos. Outros eram sexualmente explícitos ou obscenos. Comentou Bill Ingram:

 

- De repente tudo o que fora planeado com tanto cuidado transformou-se num espectáculo.

 

O que mais preocupava Célia era o efeito de circo. Será que os médicos, não querendo associar-se a algo que parecia desrespeitável, decidirão não prescrever o Péptido sete?

 

Consultou Andrew que lhe confirmou os seus receios:

 

- Lamento ter de o dizer mas muitos médicos vão pensar assim. Infelizmente toda esta publicidade sugere que o Péptido sete é do mesmo clube da cantárida.

 

- Fazes-me desejar não te ter perguntado nada - disse Célia com ar feliz.

 

E assim, menos de um mês depois do que se pensara ser uma forte mas digna apresentação áoPéptido 7, Célia estava nervosa, desanimada e apreensiva. Em Inglaterra o desespero de Martin era profundo.

 

No fim de contas - relembrou Célia muito mais tarde - tivemos mesmo grandes problemas, extremamente sérios, nos primeiros meses após a apresentação do Péptido sete. Todos os responsáveis da Felding-Roth tiveram horas tensas de ansiedade, roeram as unhas e passaram noites sem dormir. O estranho é que os problemas que tivemos não foram os que prevíramos. - Depois soltou uma gargalhada e continuou: - Só nos serviu para demonstrar mais uma vez que nunca seremos capazes de prever como as pessoas reagem a qualquer coisa.

 

Os problemas referidos por Célia diziam respeito ao abastecimento.

 

Desde o momento em que o Péptido sete se tornou disponível - podendo obter-se, com receita médica, do farmacêutico - passaram-se meses antes que fosse possível satisfazer a espantosa quantidade de pedidos, uma coisa sem precedentes. Formavam-se filas gigantescas em frente dos balcões das farmácias e, quando os clientes eram convidados a sair por se ter esgotado o medicamento, corriam para outros estabelecimentos aumentando as filas destes.

 

Uma razão só mais tarde descoberta - desta vez citamos Bill Ingram - era de que ”o raio dos médicos e dos farmacêuticos estavam a usar eles mesmos o produto e guardavam ainda mais algum para os amigos”.

 

A falta do medicamento, que chegou a ser desesperada, ocorreu em Inglaterra tal como sucedera nos Estados Unidos. Gente já velha na companhia não se lembrava de uma coisa assim. O resultado eram frenéticos telefonemas entre Nova Jérsia, Irlanda, Harlow, Porto Rico, Chicago e Manchester - estes dois últimos lugares onde se produziam os recipientes e se montavam as bombas. Segundo um agente de compras da Felding-Roth era Porto Rico, em particular, que estava ”sempre a gritar por embalagens, que enchiam e despachavam mal as recebiam”.

 

As fábricas de Porto Rico e da Irlanda estavam a trabalhar em contínuo, por turnos. Ao mesmo tempo eram constantes os voos contratados de aviões a jacto da Irlanda para Porto Rico, carregados com o precioso ingrediente activo.

 

Foi Ingram quem mais trabalhou nessa época difícil, controlando tudo, enquanto, segundo as suas próprias palavras, ”vivíamos da mão para a boca, espremendo ao máximo tudo o que tínhamos, tentando manter as multidões ávidas de Péptido sete o mais satisfeitas que podíamos”.

 

Mais tarde, ao olhar para trás, para esses dias frenéticos, também ele riria, a ansiedade já longe, e diria:

 

- Que sejam todos abençoados! Toda a nossa gentinha se esforçou, fez o máximo. Até os médicos e os farmacêuticos, ao mostrarem-se ávidos, ajudaram o Péptido sete a tornar-se o sucesso dourado em que se tornou.

 

A palavra ”dourado” era apropriada. Como a revista Fortune escreveu num título de artigo publicado um ano depois do novo medicamento ter entrado, como um tornado, na cena farmacêutica:

 

FELDING-ROTH

 

DESCOBRE QUE SER RICO

 

É MELHOR

 

Fortune calculava que o primeiro ano de vendas do Péptido sete traria à companhia lucros da ordem dos seiscentos milhões de dólares. Estas primeiras estimativas levaram a que as acções da Felding-Roth, transaccionadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque, subissem, como exprimira um corretor, ”através do telhado e chegando à estratosfera”. Logo após o lançamento do medicamento o preço por acção triplicou num mês, duplicou de novo em menos de um ano e tornou a duplicar nos oito meses seguintes. Mais tarde os directores votaram um desdobramento de cinco por um para manterem o preço unitário das acções a um nível mais razoável.

 

E, quando os contabilistas encerraram as suas contas, a estimativa da Fortune mostrou ser inferior em cem milhões de dólares à realidade.

 

Outra coisa que a Fortune disse foi: ”Desde que o notável medicamento da Smith Kline antiulceroso, Tagamet, foi introduzido em 1976, que não surgia qualquer produto industrial comparável ao fenómeno do Péptido sete.”

 

O sucesso não se limitava ao dinheiro.

 

Milhares e milhares de homens e mulheres de meia-idade e mais idosos que tomavam o medicamento, vaporizando duas vezes por dia as fossas nasais, proclamavam que se sentiam melhor, que as suas memórias estavam mais vivas, que o vigor aumentara. Quando interrogados sobre se no ”vigor” incluíam energia sexual alguns respondiam com franqueza, sim, enquanto outros sorriam e diziam que tal era assunto privado.

 

Os peritos médicos encaravam a melhoria da memória como o factor mais importante. As pessoas que tomavam o Péptido sete e que dantes eram esquecidas, agora lembravam-se das coisas. Muitos dos que antes tinham dificuldades em lembrar-se dos outros sentiam que agora o problema estava a desaparecer. Os números de telefone eram memorizados sem esforço. Maridos que até aí se esqueciam agora lembravam-se sempre dos aniversários das esposas e do casamento. Um cavalheiro idoso gabava-se de ter memorizado, sem sequer se esforçar, o horário inteiro dos autocarros da região. Quando os amigos o puseram à prova descobriram que era verdade. Os psicólogos que fizeram testes ”antes e depois” confirmavam os resultados do Péptido sete.

 

Embora considerado secundário à memória, o efeito antiobesidade do medicamento depressa se tornou indiscutível e vantajoso. Gente gorda, incluindo dos grupos etários mais novos, perdia peso em excesso e ganhava na saúde. O efeito era tão bem aceite pela comunidade médica que a Felding-Roth pediu a aprovação oficial, nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, da indicação ”perda de peso”. Poucas dúvidas havia de que tal pedido seria aprovado.

 

Mundo fora outros países apressavam-se a aprovar o Péptido sete e a obter o abastecimento.

 

Ainda era cedo para saber se o medicamento reduziria ou não a incidência da doença de Alzheimer. Tal só se saberia daí a anos, mas muitos viviam com essa esperança.

 

Fora formulada uma pergunta crítica: o Péptido sete estaria a ser prescrito em excesso, como já acontecera anteriormente a outros medicamentos? A resposta: Era quase certo que sim. Mas o que tornava o Péptido sete tão diferente dos outros era que, mesmo quando não era preciso, não prejudicava. Não viciava. Era incrível, mas praticamente não havia conhecimento de efeitos adversos.

 

Uma mulher escreveu do Texas queixando-se que, cada vez que tomava uma dose e depois tinha relações sexuais, ficava com uma terrível dor de cabeça. Por rotina a queixa foi enviada à FDA e investigada. A questão foi posta de parte quando se descobriu que a senhora tinha oitenta e dois anos.

 

Na Califórnia um homem apresentou queixa em tribunal exigindo que a Felding-Roth lhe pagasse um guarda-roupa novo pois as suas roupas estavam inutilizáveis desde que o Péptido 7 o fizera perder quinze quilos. A queixa foi contestada e considerada improcedente.

 

Nada mais grave surgiu.

 

Quanto aos médicos o entusiasmo parecia não conhecer limites. Recomendavam o Péptido 7 aos doentes como um medicamento benéfico e seguro, um dos maiores progressos na história da medicina. Os hospitais usavam-no. Os médicos que gozavam de uma vida social activa raramente saíam para jantar sem levar um bloco de receitas no bolso pois sabiam que lhes pediriam Péptido 7 e que, satisfazer o anfitrião ou anfitriã, ou os seus amigos, significava mais convites futuros.

 

A respeito dos médicos Célia disse a Andrew:

 

- Ao menos, por uma só vez, erraste. Os médicos não foram afastados pela publicidade. Julgo até que foram atraídos.

 

- Sim, errei - admitiu Andrew - e tu vais recordar-me o resto dos meus dias. Mas estou feliz por ter errado, sobretudo por ti, meu amor. Tu, e Martin, é claro, merecem tudo isto.

 

A publicidade parecia continuar de vento em popa talvez, pensou Célia, porque o Péptido 7 renovara a felicidade humana. Nos jornais eram frequentes as referências ao medicamento e este era muitas vezes assunto de debate na televisão.

 

Bill Ingram lembrou a Célia:

 

- Uma vez disseste-me que a natureza da televisão nos ajudaria um dia. E acertaste.

 

Ingram, que um ano antes fora promovido a vice-presidente executivo, tinha agora sobre os ombros muitas das responsabilidades que pertenceram a Célia. A principal preocupação actual de Célia era o que fazer do dinheiro que jorrava e que, tudo o levava a crer, se continuaria a acumular nos anos seguintes.

 

Seth Feingold, já reformado, fora mantido como consultor e aparecia de vez em quando. Durante uma reunião com Célia, ano e meio depois do lançamento do Péptido 7 nos Estados Unidos, Seth prevenira-a:

 

- Tens de pensar depressa em gastar uma boa parte desse dinheiro. Se não o fizeres uma grossa fatia irá para impostos.

 

Uma forma de usar o dinheiro era adquirir outras companhias. Por insistência de Célia o conselho de directores aprovou a aquisição da firma de Chicago que produzia os recipientes. A que se seguiu a compra de uma casa do Arizona especializada em novos sistemas de distribuição de medicamentos. Estavam em marcha negociações para adquirir uma companhia óptica. Muitos milhões iriam ser dispendidos num novo centro de investigação em engenharia genética. As filiais no estrangeiro iriam ser expandidas.

 

Foi planeada uma nova sede para a companhia porque o edifício de Boonton se tornara pequeno e havia já departamentos instalados em prédios alugados e distantes. A nova estrutura seria em Morristown e incluiria no complexo um hotel.

 

Uma aquisição foi um avião a jacto, um Gulfstream III. Célia e Ingram usavam-no nas deslocações pela América do Norte, agora mais frequentes dado o alargamento das actividades da companhia.

 

Durante a tal reunião com Célia o velho Seth avisara-a:

 

- Uma coisa boa que nos trouxe todo esse dinheiro é que podemos usá-lo para pagar as indemnizações das crianças deformadas pelo Montayne.

 

- Para mim isso foi um alívio - disse Célia. Desde há algum tempo que a reserva usada por Childers Quentin estava quase esgotada.

 

- Nunca me livrarei de um sentimento de culpa pelo Montayne. Nunca disse Seth com tristeza.

 

Compartilhando o momento de reflexão e tristeza, Célia pensou que no meio de todo esse sucesso terapêutico e financeiro era necessário que alguém lembrasse que erros terríveis faziam também parte da indústria farmacêutica.

 

Durante todo o espectacular triunfo do Péptido 7 Martin Peat-Smith sentia-se, como se costuma dizer, no sétimo céu. Nem nos seus momentos de maior optimismo imaginara que a sua pesquisa sobre o envelhecimento conduzisse a tais resultados. O nome de Martin era agora mundialmente conhecido, a sua pessoa admirada, respeitada e solicitada. Elogios e honras eram aos montes. Fora eleito membro da Sociedade Real, o corpo científico mais antigo de Inglaterra. Outras sociedades famosas solicitavam-no como orador. Falava-se num futuro Nobel. Havia rumores sobre uma nomeação a cavaleiro.

 

No meio de tudo isto Martin conseguia manter alguma privacidade. O número de telefone da sua casa fora mudado e retirado da lista. No instituto Nigel Bentley organizara as coisas de forma a livrar Martin de todas as chamadas e visitantes de menor importância. Apesar de tudo tornara-se nítido que a velha e simples vida de Martin nunca mais seria a mesma.

 

Outra coisa mudara também. Yvonne decidira deixar de viver com Martin e mudar para um apartamento em Cambridge.

 

Não houve discussões nem dificuldades entre eles. Pura e simplesmente ela resolvera seguir um caminho separado. Recentemente Martin passara bastante tempo fora de Harlow, deixando-a sozinha e nessas alturas parecia inútil fazer a viagem diária de ida e volta entre Harlow e Cambridge. Quando Yvonne explicou o seu raciocínio, Martin aceitou-o perfeitamente, compreendendo-o. Ela esperara que ele colocasse pelo menos um argumento contra mas, quando ele não o fez, Yvonne não mostrou o seu desapontamento. Concordaram em se ver ocasionalmente e continuarem bons amigos.

 

Só Ivonne, no momento de sair, sabia como estava triste e desfeita por dentro. Lembrou a si mesma como estava feliz com os estudos de veterinária; iniciara o terceiro ano.

 

Imediatamente depois da separação Martin esteve fora uma semana. Quando regressou fê-lo a uma casa escura e vazia. Há mais de cinco anos que não era assim e ele não gostou. E gostou ainda menos quando passou uma semana. Descobriu que estava sozinho, e saudoso da presença e da tagarelice de Yvonne. Era, pensou ele, uma noite ao deitar-se, como se uma luz na sua vida se tivesse de repente apagado.

 

No dia seguinte Célia telefonou de Nova Jérsia para tratar de questões de serviço e, já perto do fim da conversa, observou:

 

- Pareces deprimido, Martin. Há alguma coisa que esteja a correr mal.

 

E foi então que, num ímpeto de confidência, ele lhe falou das saudades de Yvonne.

 

- Não estou a perceber - disse Célia. - Como é que a deixaste partir?

 

- Não foi uma questão de a deixar. Ela é livre e decidiu.

 

- Procuraste falar com ela sobre isso?

 

- Não.

 

- Porquê?

 

- Não me pareceu justo fazê-lo - disse Martin. - Ela tem a sua própria vida para viver.

 

- Sim, tem - concordou Célia. - E não duvido que queira mais da vida do que aquilo que lhe ofereceste. Já pensaste em oferecer-lhe qualquer coisa mais, por exemplo, pedi-la em casamento?

 

- Na verdade pensei nisso. No dia em que ela partiu. Mas não o fiz porque...

 

- Oh, que Deus nos ajude! - A voz de Célia subiu de tom. - Martin Peat-Smith, se estivesse aí abanava-te. Como é que alguém suficientemente brilhante para descobrir o Péptido sete pode ser tão parvo? És um doido! Ela ama-te.

 

- Como é que sabes? - perguntou Martin em tom de dúvida.

 

- Porque sou uma mulher. Porque não precisei de mais de cinco minutos com ela para o descobrir tão claramente como claro é agora que estás a ser obtuso.

 

Houve um silêncio que Célia interrompeu com uma pergunta:

 

- Que vais fazer?

 

- Se não for tarde de mais... irei pedir-lhe que case comigo.

 

- Como farás isso?

 

- Bem - ele hesitou -, acho que lhe vou telefonar.

 

- Martin - disse Célia -, sou tua superiora nesta companhia e estou a ordenar-te que deixes o gabinete onde estás, já, te metas no carro e vás procurar Yvonne onde quer que ela esteja. O que fizeres depois é assunto teu mas aconselho-te a ajoelhar, se necessário for, e a dizer-lhe que a amas. Estou a mandar-te fazer isto pela simples razão de que duvido que, no resto da tua vida, encontres alguém que seja melhor para ti ou te ame mais. E, é claro, pensa em parar pelo caminho para comprares umas flores. Pelo menos de flores tu percebes; uma vez mandaste-me algumas.

 

Momentos depois vários empregados do instituto de Harlow ficaram espantados ao ver o director, o Dr. Peat-Smith, a correr pelo corredor fora, passar a porta, enfiar-se no carro e partir a toda a velocidade.

 

O presente de casamento de Célia e Andrew para Martin e Yvonne foi uma salva de prata gravada onde Célia incluíra alguns versos do poema A Uma Noiva do poeta do século XVII nascido no Essex, Francis Quarles:

 

Que todas as suas alegrias sejam como o mês de Maio E todos os seus dias como o dia do casamento: Que a tristeza, a doença e as preocupações do espírito Lhes sejam estranhas.

 

E havia o Hexin W.

 

Devia surgir no mercado dentro de um ano.

 

Os ensaios clínicos do Hexin W produziram alguns efeitos colaterais em doentes que tomaram o medicamento associado a outros. Tais combinações eram a via para uma medicação eficaz através da fixação dos radicais livres. Houve alguns casos de náuseas e vómitos, assim como casos isolados de diarreia, tonturas ou pressão arterial elevada. Nada disto era incomum nem causa para alarme. Os incidentes não eram severos e só apareciam numa pequena percentagem de doentes. Era raro que um medicamento não tivesse efeitos colaterais. O Péptido 7 fora uma excepção notável.

 

Os ensaios do Hexin W, que ocuparam dois anos e meio, foram vigiados pessoalmente pelo Dr. Vincent Lord. Ao fazê-lo delegou outras responsabilidades nos seus subordinados deixando-se a si mesmo livre para aquilo que se tornara uma tarefa de dedicação absoluta. Naquela fase importante, quase final, não queria que nada corresse mal com o lançamento do fruto do seu espírito. Nada, por negligência ou incapacidade de outros, podia diminuir a sua glória científica.

 

Lord observava com sentimentos controversos o enorme e constante sucesso do Péptido 7. Por outro lado sentira um certo ciúme de Martin Peat-Smith mas, por outro, graças ao Péptido 7 a Felding-Roth era agora uma companhia mais forte e por isso melhor equipada para lidar com outro produto que prometia ser tão bem sucedido, ou ainda mais.

 

Os resultados dos ensaios do Hexin W deliciavam Lord. Não surgiu qualquer grave efeito adverso. Os pequenos efeitos surgidos eram ou facilmente controláveis ou sem importância em relação aos efeitos positivos excelentes.

 

Na terceira fase dos ensaios, em que o medicamento era administrado a indivíduos doentes sob condições semelhantes às que encontraria mais tarde quando estivesse no mercado, os resultados tinham sido uniformemente bons. O medicamento fora tomado, durante longos períodos de tempo, por mais de seis mil pessoas, grande parte delas em hospitais sob condições controladas - um ambiente ideal para os ensaios.

 

Seis mil era um número impressionante para uma terceira fase, mas tal fora decidido dada a necessidade de ensaiar os efeitos do Hexin W quando administrado com outros fármacos até aí perigosos.

 

Os doentes artríticos, como fora previsto, respondiam particularmente bem. Não só podiam tomar o Hexin W isolado como associado a outros anti-inflamatórios poderosos que até aí lhes estavam interditos.

 

Coordenar os ensaios, realizados em locais bastante distantes entre si, tinha sido uma tarefa monumental para a qual fora contratado auxílio extra quer dentro quer fora da companhia. Mas estava feito. Na sede da Felding-Roth acumulavam-se quantidades gigantescas de dados e, antes de os submeter à FDA sob a forma de pedido de autorização para um novo medicamento, Lord revia tudo o que podia.

 

Dado o seu interesse pessoal no caso achou o processo quase um prazer. Mas, de repente, cessou de o ser quando encontrou um grupo de casos.

 

Aquilo que Lord leu, e voltou a ler com mais cuidado, começou por lhe causar apreensão, depois perplexidade e, por fim, uma raiva violenta.

 

Os relatórios em questão provinham do Dr. Yaminer, que praticava medicina em Fénix, Arizona. Lord não conhecia pessoalmente Yaminer embora estivesse familiarizado com o nome e conhecesse um pouco dos seus antecedentes.

 

Yaminer era um interno. Tinha uma clínica particular substancial e trabalhava em dois hospitais. Como muitos outros médicos envolvidos no programa de ensaios do Hexin W fora contratado para estudar o efeito do fármaco num grupo de doentes, no seu caso, cem doentes. Antes de iniciar um estudo destes tornava-se necessário obter a autorização dos doentes mas isto raramente era difícil.

 

O sistema era o que era normal, rotineiro mesmo, quando as firmas farmacêuticas pretendiam fazer ensaios de campo de novos fármacos. Yaminer já fizera no passado estudos semelhantes para a Felding-Roth e para outras companhias.

 

Os médicos que aceitavam fazer esse trabalho gostavam da combinação por um de dois motivos, às vezes por ambos. Uns estavam genuinamente interessados na investigação, outros apreciavam o dinheiro considerável que tal lhes dava.

 

Por um pouco mais de trabalho extra, espalhado por vários meses, o médico recebia entre quinhentos e mil dólares por doente, a quantia exacta variando consoante a firma farmacêutica em questão e a importância do medicamento. Pelos seus casos sobre o Hexin W o Dr. Yaminer recebera oitenta e cinco mil dólares. Os custos próprios do médico para tal tipo de trabalho eram poucos pelo que a maior parte do dinheiro era lucro.

 

Mas o sistema tinha um ponto fraco.

 

Como o trabalho era tão lucrativo alguns médicos eram tentados a aceitar mais do que aquele que conseguiam fazer como devia ser. Isto levava, com uma frequência surpreendente, a falsificar os dados.

 

Numa só palavra: fraude.

 

O Dr. Yaminer, disso Lord estava certo, cometera uma fraude ao enviar os relatórios sobre os efeitos do Hexin W.

 

Havia duas possibilidades quanto ao que acontecera. Ou Yaminer não fizera os estudos que devia efectuar nos doentes que citava ou alguns, talvez a maioria, dos cem doentes da lista nem sequer existiam, excepto na imaginação do médico. Criara-os, inventara-os, assim como os ”resultados” dos ensaios.

 

Baseado na experiência, Lord estava convencido de que fora a segunda possibilidade.

 

Já agora, como é que ele sabia?

 

Uma razão: Yaminer fizera o seu falso relatório apressada e descuidadamente. A coisa que primeiro atraíra a atenção de Lord fora a grande semelhança da escrita manuscrita nos impressos em diferentes datas. Normalmente esses registos variavam não apenas na letra, mas até no instrumento de escrita. Mesmo que um médico usasse sempre a mesma esferográfica todos os dias ela raramente funcionava com a mesma consistência.

 

Isto em si mesmo não era conclusivo. Yaminer podia ter tomado notas iniciais que mais tarde transformara pacientemente em relatórios finais passados a limpo. Mas, para um médico muito ocupado, isto era pouco provável. O que levou Lord a procurar mais elementos.

 

Encontrou-os.

 

Entre os testes feitos aos doentes que tomavam o Hexin W havia um que media o pH urinário: acidez ou alcalinidade. Numa pessoa média o resultado variaria entre 5 a 8. Mas cada medição, em diferentes dias, era um ”acontecimento independente” e variado, o que significava que uma leitura de 4 numa terça-feira não tornava provável outro 4 na mesma pessoa na quarta-feira. Expresso de outra forma: em cinco dias seguintes a probabilidade das medições do pH serem idênticas eram apenas de um em quatro. Poucas hipóteses.

 

No entanto, repetidamente, os relógios do Dr. Yaminer mostravam leituras idênticas do pH dia após dia. Muito pouco provável, mesmo num só indivíduo. Impossível no caso de quinze doentes - o número que Lord reviu do estudo de Yaminer.

 

Para ficar absolutamente seguro, Lord seleccionou outros quinze doentes e fez um estudo semelhante das análises do sangue. Mais uma vez se repetiam números idênticos com uma frequência pouco natural.

 

Não precisava de ir mais além. Qualquer investigador médico aceitaria os elementos já examinados como prova de falsificação, neste caso, fraude criminal.

 

Com uma raiva surda e silenciosa Lord amaldiçoou o Dr. Yaminer.

 

O relatório apresentado por Yaminer fazia o Hexin W parecer muito bom. Mas era desnecessário. O fármaco era mesmo bom, assim o demonstravam todos os outros ensaios lidos por Lord.

 

Lord sabia o que devia fazer.

 

Devia informar imediatamente a FDA expondo os dados na sua frente. Depois disso o Dr. Yaminer seria oficialmente investigado e quase de certeza condenado. Já acontecera a outros médicos e alguns tinham ido parar à prisão. Se Yaminer fosse considerado culpado era provável que até perdesse a licença para praticar medicina.

 

Mas Lord sabia também outra coisa.

 

Se a FDA ficasse envolvida no assunto, e o trabalho de Yaminer lançado fora, tudo teria de começar do princípio. Pelo menos demoraria um ano a refazer o trabalho e o Hexin W seria atrasado todo esse tempo.

 

Mais uma vez Lord amaldiçoou Yaminer pela sua estupidez e pelo dilema agora criado.

 

Que fazer?

 

Se tal tivesse acontecido com um medicamento sobre o qual existissem dúvidas, Lord não teria hesitado. Teria atirado Yaminer para os laboratórios da FDA e até se ofereceria para apresentar provas no seu julgamento.

 

Mas não havia dúvidas acerca do Hexin W. Com ou sem relatórios falsos iria ser um medicamento benéfico e bem sucedido.

 

Então por que não deixar o estudo falso seguir com os genuínos? Era quase certo que ninguém na FDA notaria; o volume colossal de um pedido de informação tornaria tal improvável. E se os papéis de Yaminer fossem vistos por um examinador da FDA nada levava a supor que ele veria a aldrabice. Nem toda a gente era rápida a reparar nas coisas como Vincent Lord.

 

Lord teria preferido omitir o estudo mas sabia que não podia fazê-lo. O nome de Yaminer já estava listado com outro material enviado à FDA

 

Odiava também a ideia de deixar escapar Yaminer depois do que lhe fizera, mas parecia não haver alternativa.

 

Sendo assim... tudo bem. ”Deixemos seguir.” Lord rubricou o estudo de Yaminer e colocou-o na pilha de material já revisto.

 

Mas tomaria as medidas necessárias para que o bastardo nunca mais trabalhasse para a Felding-Roth. Havia uma ficha do departamento para Yaminer. Lord encontrou-a e colocou as suas folhas de apontamentos lá dentro, as páginas que usara para se certificar da falsificação. Se precisasse delas saberia encontrá-las.