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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RENASCENÇA / Oliver Bowden
RENASCENÇA / Oliver Bowden

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

Tochas cintilavam e tremulavam no alto das torres do Palazzo Vecchio e do Bargello, e umas poucas lanternas brilhavam na praça da catedral, pouco mais ao norte. Algumas também iluminavam o cais ao longo das margens do rio Arno, onde, mesmo sendo tarde para uma cidade em que a maior parte da população se recolhia ao cair da noite, uns poucos marinheiros e estivadores ainda podiam ser vistos na escuri­dão. Alguns dos marinheiros, ainda ocupados com suas embarcações, apressavam-se para cuidar dos últimos detalhes das tarefas de cordame, enrolando bem as cordas nos deques escuros e limpos, enquanto os es­tivadores corriam para transportar ou puxar cargas até a segurança dos armazéns próximos.

As luzes também estavam acesas nos bares e bordéis, mas pouquís­simas pessoas vagavam pelas ruas. Fazia sete anos desde que Lourenço de Médici, então com 20, fora eleito para a liderança da cidade, trazen­do com ele uma sensação de ordem e calma à intensa rivalidade entre as famílias de liderança internacional de mercadores e banqueiros que faziam de Florença uma das cidades mais ricas do mundo. Apesar disso, a cidade nunca havia deixado de borbulhar, às vezes até ferver, enquan­to cada facção lutava pelo poder, algumas trocando de alianças, outras permanecendo inimigas implacáveis.

Florença, no ano de Nosso Senhor de 1476, mesmo em uma noite perfumada com o jasmim na primavera, quando quase se podia esque­cer o fedor do Arno se o vento soprasse na direção certa, não era o lugar mais seguro para estar ao ar livre depois de o sol cair.

 

 

 

 

A lua havia se erguido soberana no céu agora cor de cobalto ante uma horda de estrelas submissas. Sua luz caía sobre a praça onde a pon­te Vecchio, com suas abarrotadas lojas, agora escuras e silenciosas, se juntava à margem norte do rio. Sua luz também banhava uma silhueta vestida de negro que estava de pé no telhado da igreja de Santo Stefan al Ponte — um jovem de apenas 17 anos, porém alto e orgulhoso. De­pois de inspecionar atentamente a região abaixo, levou uma das mãos aos lábios e soltou um assobio baixo e penetrante. Em resposta, sob o seu olhar, primeiro um, depois três, então uma dúzia e por fim vinte ho­mens, jovens como ele, a maioria vestida de negro, alguns com chapéus ou capuzes de cor vermelho-sangue, verde ou azul, todos com espadas e adagas presas ao cinto, emergiram das ruas escuras e das arcadas em direção à praça. A gangue de jovens de aparência perigosa se espalhou, seus movimentos marcados por uma confiança arrogante.

O jovem olhou para baixo, para os rostos ansiosos que o miravam, pálidos ao luar. Ergueu o punho acima da cabeça em uma saudação desafiadora.

—  Sempre unidos! — gritou, enquanto os outros também erguiam o punho, alguns sacando as armas e brandindo-as, respondendo em coro:

—  Unidos!

O jovem rapidamente desceu como um gato pela fachada inacabada até o pórtico da igreja, de onde saltou, fazendo a capa esvoaçar, e ater­rissou agachado e em segurança no meio do grupo. Com expectativa, reuniram-se ao seu redor.

—  Silêncio, meus amigos! — Ele ergueu uma das mãos para inter­romper um último e solitário grito. Sorriu com crueldade. — Sabem por que os chamei aqui esta noite, vocês, meus aliados mais próximos? Para pedir sua ajuda. Durante muito tempo fiquei em silêncio, enquanto nosso inimigo, vocês sabem de quem estou falando, Vieri de’Pazzi, saiu por esta cidade difamando minha família, jogando nosso nome na lama e tentando nos humilhar de seu jeito patético. Normalmente eu não he­sitaria em chutar um cão sarnento como esse, mas...

Ele foi interrompido por uma pedra grande e afiada, atirada da pon­te, que aterrissou aos seus pés.

—  Chega de besteira, grullo — gritou uma voz.

O jovem e seu grupo se viraram como um só na direção daquela voz. Ele já sabia a quem ela pertencia. Cruzando a ponte vindo do lado sul, outra gangue de rapazes se aproximava. Seu líder se gabava à frente, metido em um terno de veludo negro e uma capa vermelha, presa com um fecho de golfinhos e cruzes sobre um fundo azul, com a mão sobre o pomo da espada. Era razoavelmente bonito, embora sua aparência fosse prejudicada pela boca cruel e pelo queixo frágil, e, apesar de ser um pouco gordo, não restava dúvida quanto à força de seus braços e pernas.

—  Buona sera, Vieri — disse o jovem sem se alterar. — Estávamos justamente falando de você. — E fez uma reverência com exagerada cor­tesia, enquanto fingia um ar de surpresa. — Mas terá de me perdoar. Não estávamos esperando você pessoalmente. Achei que os Pazzi sem­pre contratavam terceiros para fazer o trabalho sujo.

Vieri, aproximando-se, endireitou o corpo com arrogância, enquan­to ele e seu bando paravam a poucos metros de distância.

—  Ezio Auditore! Seu pirralhinho mimado! Eu diria que, na verda­de, é a sua família de burocratas e contadores que sempre sai correndo atrás dos guardas ao menor sinal de problema. Codardo! — Ele agarrou o punho da espada. — Medo de tratar das coisas sozinho, eu diria.

—  Bem, o que posso dizer, Vieri, ciccione? Da última vez que vi sua irmã, Viola, ela me pareceu bastante satisfeita com o tratamento que lhe dei. — Ezio Auditore deu ao inimigo um largo sorriso, satisfeito por ouvir atrás de si seus companheiros abafando os risinhos e o apoiando.

Mas sabia que tinha ido longe demais. Vieri já estava roxo de raiva.

—  Já basta, Ezio, seu cretino! Vamos ver se você luta tão bem quanto fala! — Virou a cabeça para trás, na direção de seus homens, e ergueu a espada. — Matem os malditos! — berrou ele.

Imediatamente, outra pedra girou pelos ares, mas dessa vez não foi ati­rada em desafio. Pegou Ezio de raspão na testa, rasgando a pele e fazendo jorrar sangue. Ezio cambaleou para trás por um instante, enquanto uma saraivada de pedras voava das mãos dos seguidores de Vieri. Os homens de Ezio mal tiveram tempo de se refazer e a gangue de Pazzi já estava em cima deles, correndo pela ponte em sua direção. De repente, a luta ficou tão pessoal e tão rápida que não houve tempo de sacar as espadas ou sequer as adagas — as duas gangues simplesmente se atacaram com os punhos.

A batalha foi dura e cruel, repleta de chutes brutais e socos seguidos pelo som doentio de ossos se quebrando. Durante algum tempo, poderia pender tanto para um lado quanto para o outro; então Ezio, com a visão ligeiramente comprometida pelo sangue que escorria pela testa, viu dois de seus melhores homens cambalearem e caírem, sendo logo pisoteados pelos capangas de Pazzi. Vieri gargalhou e, perto de Ezlo, girou a mão

para lhe acertar outro golpe na cabeça com uma pedra pesada. Ezio se abaixou e o golpe não o acertou, mas tinha sido próximo demais para seu gosto, e agora seu grupo estava levando a pior. Ezio conseguiu sacar a adaga antes de se levantar e golpear a esmo, e com sucesso feriu a coxa de um dos grandalhões de Pazzi que se debruçava sobre ele com a espa­da e a adaga desembainhadas. A adaga de Ezio rasgou tecido, músculos e ligamentos, e o homem soltou um urro de agonia e caiu, largando as armas e agarrando a ferida com as mãos enquanto o sangue jorrava.

Lutando desesperadamente para se levantar, Ezio olhou em volta. Viu que os Pazzi já haviam rodeado todos os seus homens, encurra­lando-os contra um dos muros da igreja. Sentindo as pernas um pouco mais fortes, ele foi até os companheiros. Esquivando-se sob a lâmina da foice de outro escudeiro de Pazzi, conseguiu acertar um soco no maxilar barbado do homem e teve a satisfação de ver dentes voando e seu quase atacante cair de joelhos, desnorteado com o golpe. Gritou para seus pró­prios homens para incentivá-los, mas na verdade só pensava em bater em retirada com o máximo de dignidade possível quando, acima do barulho da briga e por trás do bando de Pazzi, ouviu uma voz alta, jovial e bastante familiar chamar por ele.

—  Ei, fratellino, que diabo você está aprontando?

O coração de Ezio pulou com alívio, e ele conseguiu falar, meio engasgado:

—  Ei, Federico! O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse na farra, como sempre!

—  Que nada! Sabia que você tinha planejado algo e pensei em vir ver se meu irmãozinho tinha finalmente aprendido a cuidar de si mes­mo. Mas talvez você ainda esteja precisando de uma ou duas aulas!

Federico Auditore, alguns anos mais velho que Ezio e o mais velho dos irmãos Auditore, era um grandalhão de apetite igualmente gran­de — por bebidas, mulheres e lutas. Antes mesmo de terminar de falar já estava no meio do combate, batendo a cabeça de dois dos homens de Pazzi uma contra a outra e chutando a mandíbula de um terceiro, enquanto abria caminho pela multidão para ficar ao lado do irmão, aparentemente sem se abalar com a violência ao seu redor. Em torno deles teus próprios homem, encorajados, redobraram os esforços. Já os de Pazzi estavam desnorteados. Alguns dos funcionários do estaleiro se reuniram a uma distância segura para assistir e, à meia-luz, os Pazzi acharam que eram reforços dos Auditore. Juntando isso aos rugidos e punhos velozes de Federico, que logo foi imitado por Ezio (ele aprendia rápido), não demorou para deixá-los em pânico.

A voz furiosa de Vieri de’ Pazzi ergueu-se acima do tumulto geral:

—  Para trás! — ordenou ele a seus homens, cheio de cansaço e raiva. Seu olhar se encontrou com o de Ezio e, rangendo os dentes, ele proferiu alguma ameaça inaudível antes de sumir na escuridão, voltando a cruzar a ponte Vecchio, seguido por aqueles dentre seus homens que ainda conseguiam an­dar, e perseguidos com furor pelos agora triunfantes aliados de Ezio.

Ezio também estava prestes a ir junto, mas a mão enorme de seu irmão o impediu.

—  Espere um minuto — disse.

—  Como assim? Eles estão fugindo!

—  Calma. — Federico franziu a testa e tocou de leve a ferida na so­brancelha de Ezio.

—  É só um arranhão.

—  É mais do que isso — decidiu seu irmão, com uma expressão preocupada. — Melhor irmos a um médico.

Ezio desdenhou:

—  Não tenho tempo a perder com médicos. Além do mais... — Ele fez uma pausa, com tristeza. — Não tenho dinheiro.

—  Ah! Desperdiçou tudo com mulheres e vinho, suponho. — Fede­rico sorriu e deu um tapa caloroso no ombro do irmão mais novo.

—  Não exatamente desperdicei, eu diria. E considere o exemplo que você me deu. — Ezio sorriu, mas depois hesitou. De repente se deu conta de que sua cabeça latejava. — Seja como for, não custa dar uma olhada. Será que você poderia me emprestar uns fiorini!

Federico deu um tapinha na bolsa, que não tilintou.

—  A verdade é que neste momento eu também estou meio descapi­talizado — respondeu.

Ezio sorriu com o acanhamento do irmão.

—  E no que você desperdiçou o seu? Missas e indulgências, suponho?

Federlco gargalhou.

—  Certo. Já entendi.

Ele olhou ao redor. No final, apenas três ou quatro de seus homens tinham sido feridos com seriedade suficiente para permanecerem no campo da batalha e agora estavam se sentando, gemendo um pouco, mas sorrindo também. Tinha sido um combate duro, mas ninguém ha­via sido ferido com seriedade. Por outro lado, no mínimo meia dúzia dos capangas de Pazzi estavam caídos e completamente fora do ar, e pelo menos um ou dois deles estavam vestidos com roupas caras.

—  Vejamos se nossos inimigos derrotados têm alguma riqueza para compartilhar — sugeriu Federico. — Afinal, nossa necessidade é maior do que a deles, e aposto que você não consegue aliviar sua carga sem acordá-los!

—  Isso é o que vamos ver — disse Ezio, e se lançou à tarefa com algum sucesso. Em questão de minutos já tinha colhido moedas de ouro suficien­tes para encher tanto a sua bolsa quanto a do irmão. Ezio olhou para Fe­derico em triunfo e sacudiu as riquezas recém-adquiridas para enfatizar.

—  Basta! — gritou Federico. — Melhor deixar um pouco para eles poderem voltar mancando para casa. Afinal de contas, não somos la­drões: isso é apenas o espólio da guerra. E continuo não gostando da aparência dessa ferida. Precisamos que isso seja visto o quanto antes.

Ezio concordou com a cabeça e se virou para inspecionar pela últi­ma vez o campo da vitória dos Auditore. Perdendo a paciência, Federico apoiou uma das mãos no ombro do irmão.

—  Vamos — disse, e rapidamente saiu andando num ritmo que Ezio, exausto pela luta, achou difícil acompanhar. Porém, sempre que ficava muito para trás ou virava no lugar errado, Federico parava ou se apres­sava em ajudá-lo.

—  Desculpe-me, Ezio. Só quero chegar ao médico o quanto antes.

E de fato não ficava longe, mas Ezio ficava mais cansado a cada mi­nuto. E finalmente eles chegaram à sala sombria, repleta de instrumentos misteriosos e frascos de latão e vidro que se estendiam ao longo de mesas de carvalho escuro e pendurados no teto junto com ramos de ervas secas, onde o médico da família tinha seu consultório. Ezio mal conseguia ficar em pé.

O dottore Ceresa não ficou muito satisfeito de ser acordado no meio da noite, mas seu mau humor se transformou em preocupação assim que aproximou uma vela para examinar minuciosamente a ferida de Ezio.

—  Humm — disse, com gravidade. — Dessa vez você aprontou uma daquelas, rapaz. Será que vocês não conseguem pensar em nada melhor para fazer do que sair por aí batendo uns nos outros?

—  Foi uma questão de honra, meu bom doutor — explicou Federico.

—  Entendo — respondeu o médico, calmamente.

—  Na verdade, não foi nada — disse Ezio, embora se sentisse tonto.

Federico, como sempre escondendo a preocupação atrás do humor, disse:

—  Costure o moço o melhor que puder, amigo. Esse rostinho bonito é o único bem que ele tem.

—  Ei,fottuto! — devolveu Ezio, mostrando o dedo ao irmão.

O doutor os ignorou, lavou as mãos, pressionou gentilmente a ferida e derramou um líquido claro de uma de suas diversas garrafas em um pano de linho. Limpou com aquilo o ferimento, e ardeu tanto que Ezio quase deu um pulo da cadeira, com o rosto retorcido de dor. Então, sa­tisfeito com a assepsia, o doutor pegou uma agulha e passou pelo buraco uma sutura fina feita de tripa.

—  Agora — disse ele —, isso vai doer um pouco.

Depois que os pontos foram dados e o ferimento foi enfaixado, de modo que Ezio parecia um turco de turbante, o doutor sorriu de forma encoraj adora.

—  São três fiorini, por agora. Irei a seu palazzo dentro de alguns dias para retirar os pontos. Aí serão mais três fiorini. Você vai sentir uma dor de cabeça terrível, mas vai passar. Tente descansar, se isso estiver na sua natureza! E não se preocupe: a ferida parece pior do que é. Além disso, há um bônus: não vai ficar uma cicatriz grande, então você não irá de­sapontar tanto as senhoritas no futuro!

De volta à rua, Federico envolveu o irmão mais novo com um braço. Puxou uma garrafa e ofereceu a Ezio.

—  Não se preocupe — disse, percebendo a expressão de Ezio. — E a melhor grappa de nosso pai. Melhor que leite de mãe para um homem em suas condições.

Os dois beberam, sentindo o líquido ardido aquecê-los.

—  Que noite — comentou Federico.

—  É mesmo. Que bom seria se todas fossem tão divertidas quanto...

—  Mas Ezio parou de falar ao ver que o irmão começava a sorrir de ore­lha a orelha. — Ah, espere! — corrigiu-se, rindo. — Elas são!

—  Mesmo assim, acho que um pouco de comida e bebida não seria nada mal para lhe dar um jeito antes de ir para casa — disse Federico. — Está tarde, eu sei, mas tem uma taverna aqui perto que só fecha na hora do café da manhã e...

—  ...você e o oste são amici intimi?

—  Como você adivinhou?

Mais ou menos uma hora depois, após uma refeição de ribollita e bistecca regada com uma garrafa de Brunello, Ezio sentia-se como se nem tivesse sido ferido. Era jovem e estava em forma, e toda a sua ener­gia perdida havia voltado. A adrenalina da vitória sobre a gangue de Pazzi com certeza contribuiu para a rapidez de sua recuperação.

—  Hora de ir para casa, irmãozinho — disse Federico. — Papai com certeza deve estar se perguntando onde estamos, e ele conta com você para ajudá-lo no banco. Sorte min ha que não tenho jeito para núme­ros, e acho que é por isso que ele mal pode esperar para me enfiar na política!

—  Na política ou no circo: no que você se der melhor.

—  Qual a diferença?

Ezio sabia que Federico não se ressentia pelo fato de que o pai con­fiava mais nele para tocar os negócios da família do que em seu irmão mais velho. Federico morreria de tédio se tivesse de passar a vida envol­vido com os assuntos do banco. O problema era que Ezio achava que tal­vez esse também fosse seu caso. Mas, por enquanto, o dia em que ele se vestiria com o terno de veludo preto e a corrente de ouro dos banqueiros florentinos ainda estava distante, e ele estava determinado a desfrutar ao máximo os dias de liberdade e irresponsabilidade. Mal sabia como aqueles dias seriam breves.

—  É melhor a gente se apressar também — dizia Federico —, se quisermos evitar um sermão.

—  Ele pode estar preocupado.

—  Não, ele sabe que podemos nos cuidar. — Federico olhou especu- lativamente para Ezio. — Mas com certeza é melhor ir logo. — Fez uma pausa. — Você não gostaria de fazer uma aposta, gostaria? Uma corrida, talvez?

—  Até onde?

—  Vejamos... — Federico olhou para a cidade enluarada em direção a uma torre não muito longe dali. — O telhado de Santa Trinità. Se não for demais para você... além disso, não fica muito longe de casa. Mas há apenas mais uma coisa.

—  O quê?

—  Não vamos correr pelas ruas, mas sobre os telhados.

Ezio respirou fundo.

—  Tudo bem. Está certo.

—  Certo, pequena tartaruga, vamos!

Sem dizer mais nada, Federico disparou e começou a escalar uma parede de reboco ali perto com a facilidade de uma lagartixa. Parou no topo, parecendo quase hesitar entre as telhas vermelhas arredondadas, gargalhou e disparou novamente. Quando Ezio chegou ao telhado, o ir­mão estava a 20 metros de distância. Partiu atrás dele, esquecendo a dor na animação cheia de adrenalina da perseguição. Então viu Federico dar um salto poderoso num vazio negro como breu e aterrissar suavemente no telhado plano de um palazzo cinzento, ligeiramente abaixo do nível daquele de onde havia saltado. Correu um pouco mais para a frente e es­perou. Ezio sentiu uma pontada de medo quando o abismo da rua, oito andares abaixo, se abriu à sua frente, mas ele sabia que preferiria morrer a hesitar diante do irmão. E então, reunindo coragem, deu um enorme salto, vendo, enquanto voava, as duras pedras de granito do calçamento brilhando ao luar sob seus pés suspensos. Por uma fração de segundo, enquanto a parede cinzenta do palazzo parecia se erguer na sua direção, ele se perguntou se havia calculado certo; mas então, de algum modo, ela sumiu e ele estava sobre o teto — meio desajeitado, é verdade, mas ainda de pé, e louco de alegria, embora respirando com dificuldade.

—  Meu irmãozinho ainda tem muito o que aprender — provocou Federico, acelerando de novo, uma sombra faiscante entre as chaminés sob as poucas nuvens. Ezio se atirou para a frente, perdido na loucura do momento. Outros abismos se escancaravam abaixo dele, alguns estrei­tos sobre meros becos, outros sobre ruas largas. Federico havia sumido. De repente a torre de Santa Trinità se ergueu diante dele, surgindo da curva vermelha do telhado suavemente inclinado da igreja. Mas, ao se aproximar, lembrou que a igreja ficava no meio de uma praça e que a distância entre seu telhado e os dos edifícios que a rodeavam era muito maior do que qualquer uma que ele já tinha saltado. Ele não ousou he­sitar ou diminuir a velocidade agora — sua única esperança era que o teto da igreja fosse mais baixo do que aquele de onde ele teria de saltar. Se conseguisse se lançar para a frente com bastante força, e realmente se colocasse no ar, a gravidade faria o resto. Por um ou dois segundos, ele voaria como um pássaro. Ezio afastou da mente qualquer pensamento sobre o que aconteceria caso falhasse.

A beirada do teto em que estava se aproximou rápido, e então... nada. Ele pairou, ouvindo o ar assobiar em seus ouvidos e sentindo os olhos la­crimejarem. O teto da igreja parecia estar a uma distância infinita — ele jamais o alcançaria, jamais voltaria a rir ou lutar ou segurar uma mulher em seus braços. Não conseguia respirar. Fechou os olhos, e então...

Seu corpo se curvou e ele se equilibrou balançando as mãos e os pés, mas eles estavam apoiados no chão de novo: ele havia conseguido — aterrissara a centímetros da borda, sim, mas tinha conseguido saltar no telhado da igreja!

Mas onde estava Federico? Ele escalou até a base da torre e se virou para observar o lugar de onde tinha vindo, bem a tempo de ver o irmão voando pelos ares. Federico aterrissou com firmeza, mas seu peso fez com que uma ou duas das telhas de argila vermelha saíssem do lugar e ele quase perdeu o equilíbrio quando elas deslizaram pela beirada do teto, espatifando-se nas pedras duras do calçamento lá embaixo. Porém, Federico já havia recuperado o equilíbrio, ofegando, com certeza, mas com um enorme sorriso orgulhoso no rosto.

—  Ah, não é tão tartaruga assim, afinal — disse, ao se aproximar para dar um tapinha no ombro de Ezio. — Você passou por mim como um raio.

—  Nem sabia que tinha feito isso — disse Ezio de modo breve, ten­tando recuperar o fôlego.

—  Bem. você não chega antes de mim ao topo da torre — devolveu Federlco, empurrando Ezio para o lado, e começou a escalar a torre que os patronos da cidade pensavam em substituir por alguma coisa de de­sign mais moderno. Dessa vez Federico chegou antes, e teve até de dar a mão ao irmão ferido, que estava começando a achar que dormir não seria uma ideia tão ruim assim. Os dois estavam ofegantes e ficaram pa­rados por um momento para se recuperar, olhando para a cidade serena e silenciosa à luz perolada da aurora.

—  Levamos uma vida boa, irmão — disse Federico, com uma sole­nidade incomum.

—  A melhor — Ezio concordou —, e pode nunca mudar.

Os dois ficaram quietos por um instante (ninguém queria quebrar a perfeição do momento), mas depois de um tempo Federico falou em voz baixa:

—  Que ela nunca nos mude, fratellino. Venha, precisamos voltar. Lá está o telhado do nosso palazzo. Queira Deus que papai não tenha fica­do acordado a noite toda, senão vai estar uma fera. Vamos.

Ele foi até a beira da torre para descer até o teto, mas parou quando viu que Ezio não havia saído do lugar.

—  Que foi?

—  Espere um minuto.

—  O que você está olhando? — perguntou Federico, indo se juntar ao irmão. Seguiu o olhar de Ezio e então abriu um sorriso. — Seu diabo manhoso! Você não está pensando em ir lá agora, está? Deixe a pobre garota dormir!

—  Não, acho que está na hora de Cristina acordar.

Ezio tinha conhecido Cristina Calfucci havia pouco tempo, mas já pare­ciam inseparáveis, apesar do fato de seus pais ainda os acharem jovens demais para um relacionamento sério. Ezio discordava, mas Cristina ti­nha apenas 17 anos, e seus pais esperavam que ele controlasse seus hábitos malucos antes mesmo de começarem a olhá-lo com mais simpatia. É claro que isso só servia para tornar Ezio ainda mais impetuoso.

Depois de comprar umas bugigangas para o dia do santo da irmã, Federico e ele haviam perambulado pelo mercado, olhando as garotas bonitas da cidade com suas accompagnatrici indo de barraca em barra­ca, examinando uma renda aqui, fitas e peças de seda ali. Porém, uma delas se destacara das outras, mais linda e graciosa do que qualquer uma que Ezio já tinha visto na vida. Ezio nunca esqueceria aquele dia, o dia em que ele pousara os olhos nela pela primeira vez.

—  Oh — exclamara ele, contendo um grito sem querer. — Olhe! Ela é tão linda.

—  Bem — retrucara seu irmão, sempre prático. — Por que você não vai lá cumprimentá-la?

—  O quê? — Ezio estava chocado. — E depois de cumprimentá-la... o que vou dizer?

—  Bem, você poderia tentar conversar com ela. Sobre o que você comprou, o que ela comprou; não importa. Veja bem, irmãozinho, a maioria dos homens tem tanto medo das garotas bonitas que qualquer um que consegue reunir coragem para conversar com elas já tem uma vantagem imediata. O quê? Você acha que elas não querem ser nota­das, que não querem bater papo com um homem? Claro que querem! E enfim, você não é feio, e é um Auditore. Então vá até lá: eu distraio a acompanhante. Que, falando nisso, também não é feia.

Ezio se lembrava de como, a sós com Cristina, ficou plantado no chão, sem palavras, bebendo da beleza de seus olhos escuros, de seus cabelos ruivos macios e compridos, de seu nariz arrebitado...

Ela o encarou.

—  O que foi? — ela perguntou.

—  Como assim? — perguntou ele, de repente.

—  Por que você está aí parado?

—  Ah... err... porque queria lhe perguntar uma coisa.

—  E o que seria?

—  Qual o seu nome?

Ela revirou os olhos. Droga, pensou ele, ela já ouviu isso tudo antes.

—  Nenhum nome que você alguma vez terá necessidade de usar — respondeu a moça. E se foi. Ezio ficou paralisado por um instante, de­pois saiu atrás dela.

—  Espere! — disse, alcançando-a, mais ofegante do que se tivesse corrido dois quilômetros. — Eu não estava preparado. Planejava ser realmente charmoso. E delicado! E espirituoso! Não vai me dar uma segunda chance?

Ela olhou para trás sem parar de andar, mas abriu um sorriso míni­mo. Ezio entrara em desespero, mas Federico assistira a tudo e o cha­mou baixinho:

—  Não desista agora! Eu vi a garota sorrir! Ela vai se lembrar de você.

Tomando coragem, Ezio a seguiu — discretamente, cuidando para que ela não o notasse. Três ou quatro vezes teve de se esconder atrás de uma barraca, ou, depois que ela saiu da praça, enfiar-se no vão de uma porta, mas conseguiu segui-la com sucesso até a porta da mansão de sua família, onde um homem que ele reconheceu bloqueou a passagem dela. Ezio recuou.

Cristina olhou com raiva para o homem.

—  Já lhe disse, Vieri, não estou interessada em você. Agora me deixe passar.

Ezio, escondido, respirou fundo. Vieri de’ Pazzi! Claro!

—  Mas signorina, eu estou interessado. Muito interessado, na verdade —    retrucou Vieri.

—  Então, junte-se à fila.

Ela tentou passar por ele, mas ele impediu sua passagem.

—  Creio que não, amore mio. Decidi que estou cansado de esperar que você abra as pernas por vontade própria.

Então ele a agarrou bruscamente pelo braço, trazendo-a para perto de si e envolvendo-a com o outro braço enquanto ela lutava para se li­bertar.

—  Acho que você não entendeu o recado — disse Ezio de repente, dando um passo adiante e olhando Vieri nos olhos.

—  Ah, o pirralho Auditore. Cane rognoso! Que diabo você tem a ver com isso? Vá para o inferno.

—  E buon giorno para você também, Vieri. Lamento interromper, mas tenho a nítida impressão de que você está estragando o dia dessa jovem.

—  Ah, tem, é? Com licença, minha querida, enquanto acabo com a raça desse novo-rico.

E assim, Vieri empurrou Cristina para um lado e se lançou sobre

Ezio com o punho direito preparado. Ezio se desviou facilmente e deu um passo para o lado, passando uma rasteira em Vieri quando seu ataque o levou para a frente, fazendo com que caísse esparramado na terra.

—  Já chega, amigo? — perguntou Ezio de modo debochado. Mas Vieri se pôs de pé em um instante e foi na direção dele com raiva e os punhos em riste. Conseguiu dar um soco forte no queixo de Ezio, mas este se desviou de outro de esquerda e conseguiu acertar-lhe um no ros­to e mais um na barriga e, enquanto Vieri se curvava, outro no queixo. Ezio se virou para Cristina para ver se ela estava bem. Ofegante, Vieri recuou, mas sua mão voou na direção da adaga. Cristina viu o movi­mento e deu um grito de alerta involuntário quando Vieri aproximava a lâmina para acertar Ezio pelas costas. Porém, advertido pelo grito, Ezio se virara bem na hora e agarrara o pulso de Vieri com firmeza, fazen­do-o largar a adaga no chão. Os dois homens se encararam, respirando com dificuldade.

—  Isso é o melhor que você consegue fazer? — perguntou Ezio com frieza.

—  Cale a boca, senão juro por Deus que o mato!

Ezio gargalhou.

—  Acho que eu não devia ficar surpreso de vê-lo forçando uma moça direita que claramente o considera uma bola de estrume, já que seu pai tenta da mesma maneira forçar Florença por interesse de seu banco!

—  Idiota! É seu pai quem precisa aprender uma lição ou outra sobre humildade!

—  Já é hora de os Pazzi pararem de nos caluniar. Mas, enfim, vocês só têm boca, não tenho punho.

O lábio de Vieri sangrava bastante. Ele o enxugou com a manga.

—  Vai pagar por isso, você e sua raça inteira. Não irei me esquecer, Auditore!

Cuspiu no pé de Ezio, parou para pegar a adaga, depois se virou e saiu correndo. Ezio o observou se afastar.

Ele se lembrou de tudo isso, ali de pé na torre da igreja olhando para a casa de Cristina. Lembrou-se da felicidade que sentira ao se virar para Cristina e ver um novo calor em seus olhos, quando ela lhe agradeceu.

—  Está tudo bem, signorina? — perguntara ele.

—  Agora está, graças a você. — Ela hesitara, com a voz ainda trê­mula de medo. — Você me perguntou meu nome... bem, é Cristina. Cristina Calfucci.

Ezio fez uma reverência.

—  É uma honra conhecê-la, Signorina Cristina. Ezio Auditore.

—  Você conhece aquele homem?

—  Vieri? Nossos caminhos se cruzam aqui e ali. Mas nossas famílias não têm motivo para gostar uma da outra.

—  Nunca mais quero vê-lo de novo.

—  Se eu puder ajudar, é o que vai acontecer.

Ela sorriu timidamente, depois disse:

—  Ezio, você tem minha gratidão, e por isso estou preparada para lhe dar uma segunda chance, depois de seu começo ruim! — Ela riu suavemente, depois beijou-o na bochecha antes de desaparecer dentro da mansão.

A pequena multidão que inevitavelmente se reuniu para assistir à briga aplaudiu Ezio. Ele se curvou, sorrindo, mas ao se virar sabia que, embora talvez tivesse feito uma nova amizade, também tinha feito um inimigo implacável.

—  Deixe Cristina dormir — repetiu Federico, arrancando Ezio de seu devaneio.

—  Há bastante tempo para isso, mais tarde — respondeu ele. — Pre­ciso vê-la.

—  Certo, se você precisa... vou tentar lhe ajudar em relação ao papai. Mas cuidado, os homens de Vieri podem ainda estar por aí.

Com isso, Federico desceu a torre até alcançar o teto e dele pulou em uma carroça de feno estacionada na rua que dava para sua casa.

Ezio observou-o se afastar, depois decidiu imitar o irmão. A carroça de feno parecia muito longe, mas ele se lembrou do que haviam lhe en­sinado, controlou a respiração, acalmou-se e se concentrou.

Depois atirou-se pelos ares, dando o maior salto de sua vida até en­tão. Por um momento achou que poderia ter calculado mal o alvo, mas acalmou seu próprio pânico momentâneo e aterrissou em segurança sobre o feno. Um verdadeiro voto de confiança! Meio sem fôlego, mas empolgado com o sucesso, Ezio lançou-se à rua.

O sol começava a aparecer sobre as colinas do leste, mas havia pouca gente na rua. Ezio estava prestes a se dirigir até a mansão de Cristina quando ouviu o eco de passos e, tentando desesperadamente se escon­der, encolheu-se nas sombras do pórtico da igreja, prendendo a respira­ção. Não era ninguém mais, ninguém menos que Vieri e dois dos guar­das dos Pazzi que viravam a esquina.

—  Melhor a gente desistir, chefe — disse o guarda mais velho. — A essa altura, eles já estão longe.

—  Eu sei que estão por aqui em algum lugar — retrucou Vieri.

—  Quase posso sentir o cheiro deles. — Ele e os homens deram uma volta na praça da igreja, mas não demonstraram nenhum sinal de que iriam embora. A luz do sol diminuía as sombras. Ezio arrastou-se com cuidado de volta ao abrigo do feno e ficou ali deitado pelo que pare­ceu uma eternidade, impaciente para seguir seu caminho. Houve um momento em que Vieri passou tão perto que Ezio praticamente podia cheirá-lo, mas, por fim, o homem fez um sinal raivoso para seus ca­pangas seguirem em frente. Ezio ainda ficou deitado por mais algum tempo, depois desceu da carroça e soltou um longo suspiro de alívio. Bateu a poeira das roupas e rapidamente cobriu a curta distância que o separava de Cristina, rezando para que ninguém da casa da amada já estivesse acordado.

A mansão continuava em silêncio, embora Ezio adivinhasse que os criados estivessem acendendo o fogo da cozinha nos fundos. Sabia onde ficava a janela de Cristina e atirou um punhado de cascalho nas venezia­nas. O barulho lhe pareceu ensurdecedor e ele aguardou, com o coração na boca. Então as venezianas se abriram e ela apareceu na sacada. A ca­misola revelava os contornos deliciosos de seu corpo, e, quando a olhou, mais uma vez ficou perdido de desejo.

—  Quem é? — perguntou Cristina em voz baixa.

Ezio deu um passo para que ela pudesse vê-lo.

-Eu!

Cristina suspirou, embora não de maneira antipática.

—  Ezio! Eu devia saber...

—  Posso subir, mia colomba?

Ela olhou por sobre o ombro antes de responder num sussurro:

—  Tudo bem, mas só por um minuto.

—  Não preciso de mais do que isso.

Ela sorriu.

—  É mesmo?

Ele ficou confuso.

—  Não... desculpe... não quis dizer isso! Deixe lhe mostrar... Olhando ao redor para ver se a rua continuava deserta, apoiou o

pé em um dos grandes anéis de ferro para amarrar cavalos encravados nas pedras cinzentas da casa e deu um impulso para cima, encontrando pontos de apoio para as mãos e para os pés com relativa facilidade na construção de pedra. Em um piscar de olhos ele havia pulado a balaus­trada e ela estava em seus braços.

—  Oh, Ezio! — suspirou ela quando se beijaram. — Olhe sua cabeça. O que você aprontou dessa vez?

—  Não é nada, só um arranhão. — Ezio fez uma pausa, sorrindo. — Será que, agora que já subi, posso entrar? — perguntou ele suavemente.

—  Onde?

Ele se fez de inocente.

—  No seu quarto, claro.

—  Bom, talvez... se você tem certeza de que não precisa de mais do que um minuto...

Abraçados, entraram pelas portas duplas para a luz cálida do quarto de Cristina.

Uma hora depois, foram acordados pela luz do sol entrando pelas jane­las, pelo burburinho de carruagens e pessoas nas ruas e — pior — pela voz do pai de Cristina abrindo a porta do quarto.

—  Cristina — disse ele. — Hora de levantar, filha! Seu tutor vai che­gar a qualquer... Mas que diabo...? Filho da puta!

Ezio beijou Cristina rápida mas intensamente.

—  Hora de ir, acho — disse ele, pegando suas roupas e disparando para a janela. Escalou a parede para descer e já estava vestindo o ter­no quando Antonio Calfucci apareceu na sacada lá em cima. Ele estava completamente ensandecido.

—  Perdonami, messere — arriscou Ezio.

—  Eu lhe mostro o perdonami, messerel — berrou Calfucci. — Guar­das! Guardas! Peguem esse cimicel Tragam-me sua cabeça! E quero os coglioni também!

—  Já disse que sinto muito... — começou Ezio, mas os portões da mansão já estavam se abrindo e os guardas dos Calfucci vinham corren­do, de espada em punho. Agora mais ou menos vestido, Ezio disparou correndo pela rua, desviando de carroças e empurrando cidadãos no caminho — ricos homens de negócios de preto solene, mercadores de marrom e vermelho, os mais humildes com túnicas fiadas em casa e ain­da uma procissão de igreja com a qual colidiu tão inesperadamente que quase derrubou a estátua da Virgem que os monges de capuzes pretos estavam carregando. Por fim, depois de se meter por becos e pular so­bre muros, parou para ouvir. Silêncio. Não ouvia nem mesmo os gritos e xingamentos da população que haviam acompanhado seu progresso. Quanto aos guardas, ele os despistara, disso tinha certeza.

Só esperava que o signore Calfucci não o tivesse reconhecido. Cris­tina não o trairia, podia ter certeza. Além do mais, ela era capaz de en­rolar o pai, que a adorava. E, mesmo que ele descobrisse, Ezio refletiu, não seria um mau partido. Seu pai era dono de um dos maiores bancos da cidade, que um dia poderia ser ainda maior do que o dos Pazzi ou mesmo, quem sabe, o dos Médici.

Caminhando pelas ruas secundárias, ele voltou para casa. O primei­ro a encontrá-lo foi Federico, que o olhou seriamente e sacudiu a cabeça de modo ameaçador.

—  Dessa vez você está com problemas — disse ele. — Não diga que não o avisei.

 

O escritório de Giovanni Auditore ficava no primeiro andar e tinha vista para os jardins atrás do palazzo por meio de dois conjuntos de janelas duplas que se abriam para uma ampla varanda. A sala era forrada de lâminas de carvalho escuro, cuja severidade era pouco suavizada pelos ornamentos de gesso do teto. Havia duas mesas, uma de frente para a outra, sendo que a maior pertencia a Giovanni, e as paredes eram reple­tas de estantes cheias de livros e rolos de pergaminho dos quais pendiam pesados selos vermelhos. A intenção da sala era dizer a qualquer visitan­te: aqui você encontrará opulência, respeitabilidade e confiança. Como chefe do Banco Internacional Auditore, especializado em empréstimos aos reinos da Germânia que valiam quase um Império Romano, Gio­vanni Auditore tinha bastante consciência do peso e da responsabilida­de de sua posição. Esperava que os dois filhos mais velhos logo criassem juízo e o ajudassem a suportar a carga que ele herdara de seu próprio pai, mas ainda não via nem sinal disso. Porém...

Sentado à mesa do outro lado da sala, olhou com raiva para o filho do meio. Ezio estava parado perto da outra mesa, que o secretário de Giovanni deixara a fim de permitir que pai e filho tivessem a priva­cidade necessária para o que Ezio temia que viria a ser uma conversa bastante dolorosa. Já era o começo da tarde. A manhã inteira ele temera ser chamado, embora também tivesse aproveitado para tirar um cochilo muito necessário por duas horas e se arrumar. Pensou que seu pai lhe dera aquela chance de propósito, antes de convocá-lo.

—  Acha que sou cego e surdo, meu filho? — trovejou Giovanni. — Acha que não ouvi falar da briga com Vieri de’ Pazzi e seu bando perto da ponte na noite passada? Às vezes, Ezio, acho que você não é muito melhor do que ele, e os Pazzi são inimigos perigosos. — Ezio estava prestes a falar, mas seu pai ergueu uma das mãos em advertência. — Faça a gentileza de me deixar terminar! — Respirou fundo. — E, como se isso já não fosse ruim o bastante, voce se dedica a perseguir Cristina

Calfucci, a filha de um dos mercadores mais bem-sucedidos da Toscana, e, não contente ainda com isso, a se enfiar na cama dela! Isso é intole­rável! Você não pensa nem por um momento na reputação de nossa família? — Ele fez uma pausa, e Ezio ficou surpreso ao ver o fantasma de um brilho de prazer em seus olhos. — Você entende o que isso significa, não entende? — prosseguiu Giovanni. — Você entende de quem isso me faz lembrar, não entende?

Ezio abaixou a cabeça, mas então se surpreendeu quando o pai se levantou, cruzou a sala e colocou um braço ao redor de seu ombro, sor­rindo de orelha a orelha.

—  Seu diabrete! Você me faz lembrar de mim mesmo quando tinha a sua idade! — Porém, logo Giovanni ficou sério novamente. — Não pense, no entanto, que eu não o puniria sem pena caso não tivesse gran­de necessidade de você aqui. Não fosse isso, lembre-se dessas palavras, eu o mandaria para seu tio Mario e o faria recrutá-lo em seu esqua­drão de conãottieri. Isso colocaria um pouco de juízo na sua cabeça! Mas preciso contar com você, e embora você não pareça ter inteligência para perceber, estamos atravessando um momento crucial nesta cidade. Como está sua cabeça? Vi que você tirou o curativo.

—  Bem melhor, pai.

—  Então suponho que nada vai interferir no trabalho que destinei a você pelo resto do dia?

—  Prometo que não, pai.

—  É melhor cumprir essa promessa. — Giovanni virou-se para sua mesa e, de um compartimento, tirou uma carta com seu próprio selo e passou-a para o filho, junto com dois documentos em pergaminho dentro de uma pasta de couro. — Quero que os entregue a Lorenzo de Médici em seu banco, sem demora.

—  Posso perguntar do que se trata, pai?

—  Sobre os documentos, não, não pode. Mas em relação à carta, não há problema em saber que atualiza Lorenzo quanto a nossas negocia­ções em Milão. Passei a manhã inteira preparando-a. Isso não deve cair em mãos erradas, mas se eu não confiar em você, jamais vai aprender a ser responsável. Existem rumores de um golpe contra o duque Galeazzo, algo sórdido, garanto, mas Florença não pode se dar ao luxo de ter Milão desestabilizada.

—  Quem está envolvido?

Giovanni olhou com atenção para o filho.

—  Dizem que os principais conspiradores são Giovanni Lampug- nani, Gerolamo Olgiati e Carlo Visconti; mas parece que nosso querido Francesco de’ Pazzi também está envolvido, e acima de tudo existe uma conspiração em curso que parece abarcar mais do que apenas a política das duas cidades-Estado. O gonfaloneiro daqui prendeu Francesco por enquanto, mas os Pazzi não vão gostar nada disso. — Giovanni se in­terrompeu. — Pronto. Já lhe contei demais. Leve isso com rapidez para Lorenzo, ouvi dizer que ele irá partir para Careggi muito em breve para respirar um pouco do ar do campo, e quando o gato sai...

—  Vou entregar o mais rápido possível.

—  Bom garoto. Vá!

Ezio saiu, usando as ruas secundárias na medida do possível, sem pensar que Vieri pudesse continuar por ali à sua procura. Mas de repen­te, em uma rua silenciosa a minutos do Banco de Médici, lá estava ele, bloqueando o caminho. Ao tentar recuar, Ezio viu mais alguns homens de Vieri impedindo a passagem pelo outro lado. Ele deu meia-volta.

—  Desculpe, meu leitãozinho — gritou para Vieri —, mas simples­mente não tenho tempo para lhe dar outra surra agora.

—  Não sou eu quem vai levar uma surra — gritou o outro de vol­ta. — Você está encurralado, mas não se preocupe: mandarei uma bela coroa de flores para seu funeral.

Os homens de Pazzi estavam se aproximando. Com certeza àquela altura Vieri sabia que o pai havia sido preso. Ezio olhou em volta, deses­perado. As casas altas da rua o confinavam. Prendeu o alforje contendo os documentos preciosos em segurança ao redor do corpo, selecionou a casa mais próxima e correu para sua parede, agarrando-se à pedra ás­pera com os pés e as mãos antes de escalar até o telhado. No topo, parou um instante para olhar para baixo, para o rosto irado de Vieri.

—  Não tenho tempo nem de mijar em você — exclamou, e saiu cor­rendo pelo telhado o mais rápido que pôde, caindo no chão com sua recém-descoberta agilidade assim que se viu livre de seus perseguidores.

Alguns momentos depois, estava às portai do banco. Entrou e re­conheceu Boetio, um dos criados mais fiéis de Lorenzo. Ali estava um golpe de sorte. Ezio correu até ele.

—  Ei, Ezio! O que o traz aqui com tanta pressa?

—  Boetio, não tenho tempo a perder. Trago cartas de meu pai para Lorenzo.

Boetio pareceu sério, depois abriu as mãos.

—  Ahimè, Ezio! Chegou tarde demais. Ele já partiu para Careggi.

—  Então você precisa fazer com que ele as receba o mais rápido possível.

—  Tenho certeza de que ele só deve ficar um dia por lá, mais ou menos. Nesses tempos...

—  Estou começando a descobrir sobre esses tempos! Faça com que ele as receba, Boetio, e em segredo! O mais rápido possível!

Depois de voltar a seu próprio palazzo, foi rapidamente ao escri­tório do pai, ignorando tanto a simpática conversa fiada de Federico, que descansava sob uma árvore no jardim, quanto as tentativas do se­cretário de Giovanni, Giulio, de impedi-lo de passar pela porta fechada de seu santuário. Ali, ele encontrou o pai em uma conversa intensa com o chefe de justiça de Florença, o gonfaloneiro Uberto Alberti. Não houve surpresa, pois os dois eram velhos amigos, e Ezio tratava Alberti como um tio. Porém, percebeu expressões de grande seriedade em seus rostos.

—  Ezio, meu garoto! — disse Uberto, com alegria. — Como está? Sem fôlego como sempre, pelo que estou vendo.

Ezio olhou apressado para o pai.

—  Estive tentando acalmar seu pai — prosseguiu Uberto. — Houve muita confusão, sabe, mas... — Ele se virou para Giovanni e seu tom se tornou mais sério. — A ameaça acabou.

—  Entregou os documentos? — perguntou Giovanni, com urgência.

—  Sim, pai. Mas o duque Lorenzo já havia partido.

Giovanni franziu a testa.

—  Não achei que partiria tão cedo.

—  Eu os deixei com Boetio — disse Ezio. — Ele irá entregá-los o mais rápido possível.

—  Pode não ser rápido o bastante — disse Giovanni com ar sombrio.

Uberto lhe deu um tapinha nas costas.

—  Veja — disse. — O atraso deve ser de apenas um dia ou dois. Francesco está trancado a sete chaves. O que poderia acontecer em tão pouco tempo?

Giovanni pareceu ficar um pouco mais calmo, mas estava na cara que os dois tinham mais assuntos a discutir e que a presença de Ezio não era desejada.

—  Vá ver sua mãe e sua irmã — ordenou Giovanni. — Você precisa passar mais tempo com o resto da família e não só com Federico, sabe! E descanse essa cabeça, vou precisar de você novamente logo mais.

E, com um aceno do pai, Ezio foi dispensado.

Vagou pela casa, cumprimentando com a cabeça um ou dois dos criados da família, além de Giulio, que voltava apressado para a agência bancária com um punhado de papéis na mão e como sempre parecen­do atormentado pelos negócios que rondavam sua cabeça. Ezio acenou para o irmão, ainda deitado no jardim, mas não sentiu vontade de jun­tar-se a ele. Além do mais, o pai tinha dito para ele fazer companhia à mãe e à irmã, e ele sabia que era melhor não desobedecê-lo, principal­mente depois da discussão que haviam tido antes.

Encontrou a irmã sentada sozinha na varanda, com um livro de Petrarca esquecido nas mãos. Fazia todo o sentido. Ele sabia que ela estava apaixonada.

—  Ciao, Claudia — cumprimentou.

—  Ciao, Ezio. Por onde andou?

Ezio estendeu as mãos.

—  Resolvendo um negócio para o papai.

—  Não foi só isso, pelo que ouvi dizer — retrucou ela, mas seu sor­riso era pequeno e distraído.

—  Onde está mamãe?

Claudia suspirou.

—  Saiu para ver aquele jovem pintor de que todos falam. Sabe, aque­le que acabou de terminar o aprendizado com Verrocchio.

—  Mesmo?

—  Você não presta atenção em nada que acontece nesta casa? Ela encomendou algumas pinturas para ele. Acredita que serão um bom investimento, com o tempo.

—  Essa e a mamãe!

Mas Claudia não respondeu, e, pela primeira vez, Ezio percebeu completamente a tristeza em seu rosto. Fazia com que parecesse bem mais velha que seus 16 anos.

—  O que foi, sorellinai — perguntou, sentando-se no banco de pe­dra ao lado dela

Ela suspirou, depois o olhou com um sorriso melancólico.

—  É Duccio — disse por fim.

—  O que tem ele?

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

—  Descobri que ele está me traindo.

Ezio franziu a testa. Duccio estava praticamente noivo de Claudia, e, embora ainda não houvesse nenhum anúncio formal...

—  Quem lhe contou isso? — perguntou ele, envolvendo-a com um dos braços.

—  As outras garotas. — Ela enxugou os olhos e olhou para o irmão.

—  Achei que eram minhas amigas, mas acho que gostaram de me contar.

Ezio se levantou, irritado.

—  Então são pouco melhores que harpias! Você vai ficar melhor sem elas.

—  Mas eu o amava!

Ezio levou um instante para responder:

—  Tem certeza? Talvez você apenas achasse que sim. Como se sente agora?

Os olhos de Claudia estavam secos.

—  Gostaria de vê-lo sofrer, mesmo que só um pouquinho. Ele me magoou de verdade, Ezio.

Ezio olhou para a irmã, viu a tristeza em seus olhos, uma tristeza em que não havia a menor faísca de raiva. O coração dele se endureceu.

—  Acho que vou fazer-lhe uma visita.

Duccio Dovizi não estava em casa, mas a criada contou a Ezio onde encontrá-lo. Ezio andou pela Ponte Vecchlo e foi para oeste, em dire­ção à margem sul do Amo, para a igreja de San Jacopo Soprano. Havia alguns jardins reservados por ali, onde os amantes de vez em quando se encontravam. Ezio, cujo sangue fervilhava por causa da irmã, ainda que precisasse de mais provas da infidelidade de Duccio do que apenas boatos, começou a achar que estava prestes a encontrá-las.

Dito e feito. Logo viu o rapaz loiro, arrumadíssimo, sentado em um banco com vista para o rio, com o braço ao redor de uma garota de cabelos escuros que ele não reconheceu. Aproximou-se com cuidado.

—  Querido, que lindo! — exclamou a garota, estendendo a mão. Ezio viu o brilho de um anel de diamante.

—  Para você só o melhor, amore — murmurou Duccio, puxando-a para lhe dar um beijo.

A garota, porém, se afastou.

—  Não tão rápido. Você não pode simplesmente me comprar. Não estamos saindo há tanto tempo assim, e ouvi dizer que você está prome­tido a Claudia Auditore.

Duccio desdenhou:

—  Acabou. E, de todo jeito, meu pai disse que mereço coisa melhor que uma Auditore. — Ele agarrou as nádegas dela com uma das mãos.

—  Você, por exemplo!

—  Barbante! Vamos dar uma volta.

—  Estou pensando em algo muito mais divertido — disse Duccio, enfiando a mão entre as pernas dela.

Foi o bastante para Ezio.

—  Ei, lurido porco — vociferou.

Duccio foi pego completamente de surpresa e virou-se, soltando a garota.

—  Ei, Ezio, meu amigo — gritou, mas havia nervosismo em sua voz. Quanto será que o quase cunhado havia visto? — Acho que você ainda não conhece a minha... prima.

Ezio, enraivecido pela traição, deu um passo à frente e acertou um soco direto no rosto de seu ex-amigo.

—  Duccio, você devia se envergonhar! Você insulta a minha Irmã andando com esta... esta puttana!

—  Quem você está chamando de puttana? — vociferou a garota, mas se levantou e recuou.

—  Eu acredito que mesmo uma garota como você poderia encontrar coisa melhor que esse idiota — disse-lhe Ezio. — Realmente acredita que ele vai transformar você em uma dama?

—  Não fale com ela desse jeito — sibilou Duccio. — Pelo menos ela é mais generosa em seus favores do que sua irmãzinha recatada. Mas acho que isso é porque ela tem um buraco tão seco quanto o de uma freira. Pena, eu poderia ter lhe ensinado uma coisinha ou outra. Mas enfim...

Ezio o interrompeu com frieza:

—  Você partiu o coração dela, Duccio...

—  Parti? Que pena.

—  ...e é por isso que vou quebrar o seu braço.

A garota gritou ao ouvir isso e fugiu. Ezio agarrou Duccio, que cho­ramingava, e forçou o braço direito do jovem galanteador sobre a beira­da do banco de pedra onde ele estivera sentado tão excitado momentos antes. Empurrou o antebraço contra a pedra até os lamentos de Duccio virarem lágrimas.

—  Pare, Ezio! Eu imploro! Sou o único filho de meu pai!

Ezio olhou-o com desprezo e o soltou. Duccio caiu no chão e rolou, acariciando o braço machucado e se queixando, as roupas finas agora rasgadas e imundas.

—  Você não vale o meu esforço — disse-lhe Ezio. — Mas, se não quer que eu mude de ideia quanto a esse seu braço, fique longe de Clau­dia. E de mim.

Depois do incidente, Ezio percorreu o longo caminho até sua casa, vagando pela margem do rio até quase chegar aos campos. Ao se virar, as sombras se alongavam, mas sua mente estava mais calma. Nunca se tornaria um homem, disse a si mesmo, caso deixasse a raiva dominá-lo.

Perto de casa, divisou seu irmão caçula, que ele não via desde a ma­nhã do dia anterior. Cumprimentou o rapaz de forma afável.

—  Ciao, Petruccio. O que está aprontando? Escapou do seu tutor? E de qualquer modo, já não passou da hora de você ir dormir?

—  Não seja bobo. Sou praticamente um adulto. Daqui a alguns anos, vou conseguir dar uma surra em você.

Os dois irmãos sorriram um para o outro. Petruccio segurava uma caixa de pereira contra o peito. Estava aberta, e Ezio viu um punhado de penas brancas e marrons ali dentro.

—  São penas de águia — explicou o garoto, e apontou para o topo da torre de um prédio ali perto. — Tem um ninho velho lá em cima. Os filhotes devem ter crescido e voado. Posso ver muito mais penas presas nas pedras. — Petruccio olhou para o irmão, com olhos suplicantes. — Ezio, você pegaria mais algumas para mim?

—  Bem, para que você as quer?

Petruccio olhou para baixo.

—  É segredo — disse ele.

—  Se eu as pegar, você entra em casa? Está tarde.

—  Sim.

—  Promete?

—  Prometo.

—  Então está bem.

Ezio pensou: “Bem, fiz um favor a Claudia hoje, não há por que não fazer um favor para Petruccio também.”

Escalar a torre foi complicado, pois a pedra era lisa e ele precisava se concentrar para achar reentrâncias onde apoiar os pés e as mãos entre as rochas. Mais para o alto, os ornamentos de gesso ajudaram. No final, ele levou meia hora, mas conseguiu reunir mais quinze penas — todas que pôde ver — e trazê-las para Petruccio.

—  Você esqueceu de uma — disse Petruccio, apontando para cima.

—  Já para a cama! — ordenou o irmão.

Petruccio fugiu.

Ezio esperava que a mãe ficasse feliz com o presente. Não era difícil adivinhar os segredos de Petruccio.

Ele sorriu ao entrar em casa.

 

Na manhã seguinte Ezio acordou tarde, mas para seu alívio descobriu que o pai não tinha reservado nenhuma tarefa imediata para ele. Andou pelo jardim, onde encontrou a mãe supervisionando o trabalho em suas cerejeiras, das quais as flores começavam a murchar. Ela sorriu ao vê-lo e chamou-o. Maria Auditore era uma mulher alta e de aparência digna, em seus quarenta e poucos anos. Seu longo cabelo negro estava tran­çado sob uma touca de musselina branca cujas bordas eram adornadas com as cores da família, preto e dourado.

—  Ezio! Buon giorno.

—  Madre.

—  Como você está? Melhor, espero. — Ela tocou gentilmente a feri­da na testa do filho.

—  Estou bem.

—  Seu pai disse que você deveria descansar o máximo possível.

—  Não preciso descansar, mamma!

—  Bem, de todo modo não há nada empolgante para você esta manhã. Seu pai pediu que eu tomasse conta de você. Sei o que andou aprontando.

—  Não sei o que a senhora quer dizer.

—  Não brinque comigo, Ezio. Sei de sua briga com Vieri.

—  Ele andou espalhando boatos nojentos sobre nossa família. Não podia deixar isso impune.

—  Vieri está sob pressão, ainda mais agora que o pai dele foi preso.

—  Ela fez uma pausa, pensativa. — Francesco de Pazzi pode ser muitas coisas, mas nunca imaginei que fosse capaz de se juntar a uma conspira­ção para assassinar um duque.

—  O que irá acontecer com ele?

—  Haverá um julgamento. Imagino que seu pai deva ser uma das testemunhas-chave, quando nosso duque Lorenzo voltar.

Ezio pareceu inquieto.

—  Não se preocupe, você não tem nada a temer. E não vou pedir que faça algo que não queira. Na verdade, quero que me acompanhe em um assunto que preciso resolver. Não vai demorar, e acho até que irá achar agradável.

—  Ficarei feliz em ajudar, mamma.

—  Vamos, então. Não é longe.

Eles saíram do palazzo a pé, de braços dados, e andaram em dire­ção à catedral, até o pequeno quarteirão ali perto onde vários artistas de Florença tinham ateliês e estúdios. Alguns, como os de Verrocchio e da estrela em ascensão Alessandro di Moriano Filipepi, que já havia adotado o apelido de Botticelli, eram grandes e movimentados, onde assistentes e aprendizes se ocupavam moendo e misturando pigmentos; outros eram mais humildes. Foi à porta de um destes que Maria parou e bateu. A porta foi aberta imediatamente por um jovem bonito e bem- vestido, quase um almofadinha, mas de aparência atlética, com cabelos castanho-escuros e uma barba luxuriante. Devia ser cerca de seis ou sete anos mais velho que Ezio.

—  Madonna Auditore! Bem-vinda! Estava à sua espera.

—  Leonardo, buon giorno. — Os dois trocaram beijos formais. “Esse artista deve ter caído nas graças de minha mãe”, pensou Ezio, porém, já havia simpatizado com ele. — Este é meu filho, Ezio — prosseguiu Maria.

O artista fez uma reverência.

—  Leonardo da Vinci — disse. — Sono molto onorato, signore.

—  Mestre.

—  Não tanto... ainda — sorriu Leonardo. — Mas onde estou com a cabeça? Entrem, entrem! Esperem aqui, verei se meu assistente encontra um pouco de vinho para lhes servir enquanto vou pegar seus quadros.

O estúdio já não era grande, mas a bagunça ali dentro o fazia parecer menor ainda. As mesas estavam atulhadas com esqueletos de pássaros e pequenos mamíferos, e havia jarras cheias de objetos orgânicos diversos imersos em líquido incolor, que Ezio sentiu dificuldade em reconhecer o que eram. Nos fundos, um balcão de trabalho amplo exibia algumas estruturas curiosas meticulosamente esculpidas em madeira, e dois cavaletes sustentavam quadros inacabados cujos tons eram mais escuros que o normal e os traços, menos definidos. Ezio e Maria se puseram à vontade, enquanto isso, um rapaz bonito surgiu de uma sala com uma bandeja com vinho e bolinhos. Ele os serviu, sorriu timidamente e se retirou.

—  Leonardo é muito talentoso.

—  Se a senhora diz, Madre. Conheço pouco de arte.

Ezio pensava que sua vida seria a continuação dos passos do pai, embora em sua natureza houvesse uma tendência rebelde e aventureira que ele sabia não combinar com um banqueiro florentino. Seja como for, tal como o irmão mais velho, ele se via como um homem de ação, não como um artista ou connoisseur.

—  Sabe, a autoexpressão é uma parte vital do entendimento da vida, e, para desfrutá-la ao máximo... — Ela olhou para o filho. — Você deve encontrar um jeito de liberar a tensão, querido.

Ezio sentiu-se provocado.

—  Tenho vários jeitos de liberar a tensão.

—  Eu quis dizer além de putas — respondeu a mãe com a maior naturalidade do mundo.

—  Mãe!

Mas a única resposta de Maria foi dar de ombros e apertar os lábios.

—  Seria bom se você pudesse cultivar a amizade de um homem como Leonardo. Acho que ele tem um futuro promissor.

—  Pela aparência deste lugar, sinto-me inclinado a discordar da senhora.

—  Não seja impertinente!

Eles foram interrompidos por Leonardo, que voltava da sala interna carregando duas caixas. Colocou uma no chão.

—  Importa-se de carregar aquela ali? — perguntou a Ezio. — Eu pe­diria a Agniolo, mas ele precisa ficar e cuidar da loja. Além disso, acho que ele não é forte o suficiente para esse tipo de trabalho, pobre coitado.

Ezio inclinou-se para pegar a caixa e ficou surpreso com o peso. Quase a deixou cair.

—  Cuidado! — advertiu Leonardo. — Os quadros aí dentro são deli­cados, e sua mãe acabou de me pagar um bom dinheiro por eles!

—  Podemos ir? perguntou Maria. — Mal posso esperar para pen­durá-los. Selecionei lugares que espero serem do seu gosto — acrescen­tou ela a Leonardo. Ezio se incomodou um pouco com aquilo: será que um artista novato realmente merecia tanta deferência?

Enquanto andavam, Leonardo conversava amigavelmente e, apesar de sua relutância, Ezio foi conquistado pelo charme do homem. Porém, ha­via algo nele que Ezio instintivamente achava perturbador, algo que não sabia dizer direito o que era. Uma frieza? Um distanciamento das outras pessoas? Talvez fosse apenas o fato de ele ter a cabeça nas nuvens como tantos outros artistas — pelo menos era o que lhe haviam dito sobre eles. Mas Ezio sentiu um respeito instantâneo e instintivo pelo homem.

—  Então, Ezio, qual sua profissão? — quis saber Leonardo.

—  Ele trabalha para o pai — respondeu Maria.

—  Ah, um financista! Bem, nasceu na cidade certa para isso!

—  É uma boa cidade para os artistas também — disse Ezio. — Com tantos patronos ricos...

—  Somos muitos, porém — lamentou-se Leonardo. — É difícil cha­mar alguma atenção. Por isso devo tanto a sua mãe. Saiba que ela tem um olho bastante perspicaz!

—  Você se concentra apenas em pintar? — perguntou Ezio, pensan­do na diversidade que vira no estúdio.

Leonardo pareceu pensativo.

—  É uma pergunta difícil. Para dizer a verdade, tenho achado difí­cil me concentrar em apenas uma coisa, agora que estou trabalhando sozinho. Adoro pintura e sei que tenho habilidade para isso, mas... de algum modo consigo enxergar o final antes de chegar lá, e às vezes isso dificulta terminar as coisas. Preciso de um empurrão! Mas não é tudo. Muitas vezes sinto que em meu trabalho falta... não sei... propósito. Isso faz algum sentido?

—  Devia ter mais confiança em si mesmo, Leonardo — disse Maria.

—  Obrigado, mas existem momentos em que acho que eu preferiria fazer trabalhos mais práticos, trabalhos que tenham relação direta com a vida. Desejo entender a vida, como ela funciona, como tudo funciona.

—  Para isso você deveria ser cem homens em um só — comentou Ezio.

—  Se eu pudesse! Sei o que quero explorar: arquitetura, anatomia, até mesmo engenharia. Não desejo captar o mundo com meu pincel, desejo mudá-lo!

Ele era tão apaixonado que Ezio ficou mais impressionado que irri­tado — o homem claramente não estava se vangloriando; parecia quase atormentado pelas ideias que fervilhavam dentro de si. “Daqui a pou­co”, pensou Ezio, “ele vai nos dizer que também trabalha com música e poesia!”

—  Quer colocar isso no chão e descansar um pouco, Ezio? — per­guntou Leonardo. — Talvez seja um pouco pesado para você.

Ezio rangeu os dentes.

—  Não, grazie. Seja como for, estamos quase chegando.

Quando chegaram ao Palazzo Auditore, ele carregou sua caixa até o hall de entrada, abaixou-a o mais devagar e o mais cuidadosamente que seus músculos doloridos lhe permitiram e ficou mais aliviado do que gostaria de admitir até para si mesmo.

—  Obrigada, Ezio — agradeceu sua mãe. — Acho que daqui por diante podemos nos arranjar sem você, mas é claro que se quiser nos ajudar a pendurar esses quadros...

—  Obrigado, mãe, mas acho que esse é um trabalho que a senhora e Leonardo poderão executar melhor.

Leonardo estendeu-lhe a mão.

—  Foi muito bom conhecê-lo, Ezio. Espero que nossos caminhos se cruzem novamente em breve.

—  Anch'io.

—  Chame um dos criados para ajudar Leonardo — disse Maria ao filho.

—  Não — respondeu Leonardo. — Prefiro cuidar disso sozinho. Imagine se alguém deixasse cair uma dessas caixas!

E, ajoelhando-se, ele acomodou na dobra do braço a caixa que Ezio trouxera.

—  Podemos ir? — disse ele a Maria.

—  Por aqui — respondeu ela. — Ezio, nos veremos no jantar esta noite. Venha, Leonardo.

Ezio os observou quando deixavam o hall. Este Leonardo obviamen­te era alguém a se respeitar.

Após o almoço, no fim da tarde, Giulio veio correndo (como sem­pre) dizer-lhe que seu pai solicitava sua presença no escritório. Ezio se apressou em seguir o secretário pelo longo corredor forrado por painéis de carvalho, que levava aos fundos da mansão.

—  Ah, Ezio! Entre, meu filho.

O tom de Giovanni era sério e profissional. Ele se levantou atrás da mesa, sobre a qual repousavam duas cartas volumosas envoltas em pa­pel de pergaminho e seladas.

—  Dizem que o duque Lorenzo irá voltar amanhã ou, no máximo, depois de amanhã — disse Ezio.

—  Eu sei. Mas não há tempo a perder. Quero que entregue isto a alguns parceiros meus, aqui na cidade. — Ele empurrou as cartas sobre a mesa.

—  Sim, pai.

—  Também preciso que recupere uma mensagem que um pom­bo-correio deve ter levado à gaiola da piazza do fim da rua. Procure não deixar ninguém ver você ao fazer isso.

—  Não se preocupe.

—  Ótimo. Volte imediatamente depois de terminar. Tenho alguns assuntos importantes a discutir com você.

—  Sim, senhor.

—  Então, comporte-se. Nada de brigas dessa vez.

Ezio decidiu liquidar a parte do pombo primeiro. A noite estava se aproximando, e ele sabia que haveria menos gente nesse horário — pou­co depois a praça estaria repleta de florentinos fazendo sua passeggiata. Quando chegou ao seu objetivo, notou um graffiti na parede atrás e acima da gaiola. Ficou intrigado: seria recente ou ele é que nunca havia reparado naquilo antes? Ali estava, cuidadosamente inscrita, uma frase que ele reconheceu como sendo do livro de Eclesiastes: AQUELE QUE INCREMENTA O CONHECIMENTO INCREMENTA A DOR. Um pouco abaixo, alguém havia adicionado uma inscrição mais grosseira: ONDE ESTÁ O PROFETA?

Mas sua mente logo se voltou à tarefa. Ele reconheceu o pombo que buscava instantaneamente — era o único com um bilhete amarrado à perna. Soltou o bilhete sem demora e recolocou com gentileza o pássaro de volta ao poleiro, depois hesitou. Deveria ler o bilhete? Não estava selado. Rapidamente desenrolou o pequeno pergaminho e viu que ele continha apenas um nome — o de Francesco de Pazzi. Ezio deu de om­bros. Supôs que aquilo deveria significar mais para o seu pai do que para ele. Por que o nome do pai de Vieri e um dos possíveis conspiradores em uma trama para derrubar o duque de Milão — fatos já conhecidos por Giovanni — deveria ter importância era algo que ele não conseguia entender. A menos que significasse algum tipo de confirmação.

Mas ele precisava se apressar com seu trabalho. Enfiou o bilhete na bolsa presa ao cinto e se dirigiu ao endereço do primeiro envelope. A localização o surpreendeu, pois ficava na zona de prostituição. Ele já tinha ido ali muitas vezes com Federico — quer dizer, antes de conhecer Cristina —, mas nunca se sentira à vontade por lá. Colocou a mão sobre a bainha da adaga para se garantir enquanto se aproximava da rua som­bria que seu pai indicara. O endereço acabou revelando-se uma taverna vagabunda e mal-iluminada, que servia chianti barato em canecas de barro.

Sem saber o que fazer em seguida, pois não parecia haver ninguém por perto, ele se surpreendeu com uma voz ao seu lado.

—  Você é o filho de Giovanni?

Virou-se para dar de cara com um homem mal-encarado cujo hálito fedia a cebolas. Ele estava acompanhado de uma mulher que um dia devia ter sido bonita, mas que dava a impressão de que a maior parte de sua graça tinha sido roubada nos últimos dez anos. Se ainda restava alguma coisa era em seus olhos sinceros e inteligentes.

—  Não, seu idiota — disse ela ao homem. — É só um acaso o fato de ele ser igual ao pai.

—Você trouxe algo para nós — disse o homem, ignorando-a. — Dê-me.

Ezio hesitou. Checou o endereço. Estava certo.

—  Passe para cá, amigo — disse o homem, inclinando-se mais para perto. Ezio recebeu uma baforada daquele hálito. Será que o homem vivia à base de cebolas e alho?

Ele colocou a carta na mão aberta do homem, que fechou-a sobre ela imediatamente e a transferiu para uma bolsa de couro ao seu lado.

—  Bom garoto — disse, depois sorriu. Ezio ficou surpreso ao ver que o sorriso dava ao seu rosto uma certa (e surpreendente) nobreza. Mas não a suas palavras. — E não se preocupe — acrescentou. — Não somos contagiosos. — Ele fez uma pausa para olhar a mulher. — Pelo menos eu não sou!

A mulher riu e deu um beliscão no braço dele. Depois partiram.

Ezio saiu da ruela aliviado. O endereço na segunda carta o levava a uma rua a oeste do Batistério. Era um bairro muito melhor, mas pouco movimentado àquela hora. Ele se apressou para cruzar a cidade.

Esperando por ele sob o arco que cruzava a rua havia um homem corpulento que parecia um soldado. Estava vestido no que dava a im­pressão de serem roupas de couro de camponês, mas cheirava a limpeza e estava barbeado.

—  Aqui — acenou ele.

—  Tenho algo para você — disse Ezio. — De...

—  ...Giovanni Auditore? — O homem falava em um tom um pouco mais alto que um sussurro.

—  Si.

O homem olhou ao redor, para cima e para baixo na rua. Apenas um acendedor de lampiões estava à vista, a distância.

—  Você foi seguido?

—  Não... por que deveria ter sido?

—  Não importa. Dê-me a carta. Rápido.

Ezio a entregou.

—  As coisas estão esquentando — disse o homem. — Diga a seu pai que eles vão agir esta noite. Ele deveria fazer planos para estar em segurança.

Ezio foi tomado de surpresa.

—  O quê? Do que está falando?

—  Já falei demais. Vá logo para casa.

E então o homem desapareceu nas sombras.

—  Espere! — chamou Ezio. — O que quer dizer? Volte!

Porém o homem já havia sumido.

Ezio andou rapidamente até o acendedor de lampiões.

—  Que horas são? — perguntou-lhe.

O homem apertou os olhos e olhou o céu.

—  Acho que se passou uma hora desde que comecei o serviço — res­pondeu. — Deve ser vinte horas.

Ezio fez um cálculo rápido. Devia ter deixado o palazzo duas horas antes, e levaria talvez vinte minutos para voltar. Saiu correndo. Uma premonição horrível tomou conta de sua alma.

Assim que viu a mansão Auditore, soube que algo estava errado. Não havia luzes acesas em parte alguma, e as grandes portas da frente estavam abertas. Apressou o passo, gritando enquanto corria:

—  Pai! Federico!

O grande saguão do palazzo estava vazio e escuro, mas havia luz o bastante para Ezio ver mesas viradas, cadeiras destroçadas e louças de barro e objetos de vidro quebrados. Alguém tinha arrancado os quadros de Leonardo das paredes e rasgado com uma faca. Da escuridão à frente, ouviu o som de soluços — uma mulher chorava: sua mãe!

Começou a abrir caminho em direção ao som quando uma som­bra se moveu atrás dele, e algo foi erguido acima de sua cabeça. Ezio virou-se e agarrou o pesado candelabro de prata com que alguém tenta­va acertar sua cabeça. Deu um puxão com força e seu agressor soltou o candelabro com um grito assustado. Ele jogou longe o candelabro, fora do alcance, agarrou o braço do assaltante e puxou-o para a luz. Havia assassínio em seu coração, e ele já tinha sacado sua adaga.

—  Ah! Ser Ezio! É o senhor! Graças a Deus!

Ezio reconheceu a voz e depois o rosto: era a governanta da casa, Annetta, uma camponesa exuberante que estava com a família havia anos.

—  O que aconteceu? — perguntou-lhe, tomando seus pulsos entre as mãos e quase sacudindo a mulher, cheio de angústia e pânico.

—  Eles vieram... os guardas da cidade. Prenderam seu pai e Federi­co, e levaram até o pequeno Petruccio; eles o arrancaram dos braços de sua mãe!

—  Onde está minha mãe? Onde está Claudia?

—  Estamos aqui — respondeu uma voz trêmula das sombras.

Claudia apareceu, apoiando a mãe. Ezio ajeitou uma cadeira para que a mãe se sentasse. À meia-luz, viu que Claudia estava sangrando e que suas roupas estavam sujas e rasgadas. Maria não o reconheceu. Sentou-se na cadeira, chorando e balançando o corpo. Em suas mãos, segurava a caixinha de pereira com penas que Petruccio lhe dera não fazia nem dois dias — uma vida inteira de distância.

—  Meu Deus, Claudia! Você está bem? — Ele olhou para ela e a raiva o inundou. — Eles...?

—  Não, eu estou bem. Eles me deixaram assim porque acharam que eu pudesse lhes dizer onde você estava. Mas mamãe... Ah, Ezio, eles le­varam papai, Federico e Petruccio ao Palazzo Vecchio!

—  Sua mãe está em estado de choque — disse Annetta. — Quando ela resistiu, eles... — Ela se interrompeu. — Bastardi!

Ezio pensou rápido:

—  Não é seguro ficar aqui. Existe algum lugar para onde possa le­vá-las, Annetta?

—  Sim, sim... para a casa de minha irmã. Elas ficarão a salvo lá. — Annetta mal conseguiu pronunciar aquelas palavras, com o medo e a angústia engasgando-lhe a voz.

—  Precisamos ir rápido. Os guardas quase com certeza irão voltar procurando por mim. Claudia, mãe, não há tempo a perder. Não le­vem nada, apenas sigam com Annetta. Agora! Claudia, deixe mamãe se apoiar em você.

Ele as acompanhou para fora da casa revirada, ainda chocado, e as ajudou antes de deixá-las nas hábeis mãos da fiel Annetta, que começa­ra a recuperar a compostura. A mente de Ezio disparou, pensando em todas as implicações, seu mundo chacoalhado pelo rumo terrível dos acontecimentos. Desesperadamente, tentou entender tudo o que havia acontecido e o que deveria fazer agora, o que deveria fazer para salvar o pai e os irmãos... De imediato, sabia que precisava encontrar um jeito de ver o pai, descobrir o que havia provocado aquele ataque, aquele ultraje à sua família. Mas o Palazzo Vecchio! Puseram seus parentes nas duas celinhas da torre, disso tinha certeza. Talvez houvesse uma chance... Mas o lugar era tão protegido quanto uma fortaleza; e haveria guarda redobrada a postos, hoje em especial.

Forçando-se a ficar calmo e a pensar com clareza, deslizou pelas ruas até a Piazza della Signoria, abraçou suas paredes e olhou para cima. Tochas ardiam das ameias e do topo da torre, iluminando a gigantesca flor-de-lis vermelha, que era o emblema da cidade, e o enorme relógio da base da torre. Mais para cima, apertando os olhos para ver melhor, Ezio achou que conseguia discernir a luz fraca de uma vela na janelinha gradeada perto do topo. Havia guardas a postos do lado de fora dos enormes portões do palazzo e também sobre as ameias. Mas Ezio não viu nenhum no alto da torre, cujas muralhas de todo modo ficavam acima da janela que ele precisava alcançar.

Ele deu a volta na praça, afastando-se da construção, e entrou por uma rua estreita que levava para fora da piazza, ao longo da face nor­te do edifício. Felizmente ainda havia um número razoável de pessoas pelas ruas, caminhando e desfrutando do ar noturno. Ezio teve a im­pressão de que subitamente existia em outro mundo, à parte do delas, de que havia sido banido da sociedade onde nadara como um peixe até apenas três ou quatro horas antes. Enfureceu-se com o pensamento de que a vida pudesse continuar seu caminho rotineiro para todas aquelas pessoas, enquanto a vida de sua família tinha sido destruída. Tornou a sentir o coração encher-se de raiva e medo quase insuportáveis. Mas então se concentrou com firmeza no trabalho à sua frente, e um olhar de decisão cruzou seu rosto.

A parede que se erguia acima dele era escarpada e vertiginosamente alta, mas estava na escuridão e isso seria uma vantagem. Além do mais, as pedras com que o palazzo fora construído não tinham sido bem ta­lhadas, por isso ele teria uma boa quantidade de apoios para as mãos e para os pés para ajudá-lo na escalada. Os guardas a postos nas ameias do lado norte seriam um problema, mas ele teria de lidar com isso quando chegasse a hora. Esperava que a maioria estivesse reunida ao longo da fachada principal do prédio, a oeste.

Depois de respirar fundo e olhar em volta — não havia mais nin­guém naquela rua escura —, ele deu um salto, agarrou a parede com firmeza, segurando-se com os dedos dos pés em suas macias botas de couro, e começou a escalar.

Depois de alcançar as ameias, agachou-se, com os tendões das pan­turrilhas doendo com a tensão. Havia dois guardas ali, mas eles estavam de costas para ele, olhando na direção da praça iluminada lá embaixo. Ezio ficou imóvel por um instante até ter certeza de que qualquer som que tivesse feito não havia alertado os guardas de sua presença. Ainda abaixado, ele se lançou na direção deles e depois os atacou, puxando-os para trás, com uma das mãos ao redor de cada pescoço, usando o pró­prio peso dos guardas e o elemento surpresa para derrubá-los de costas. Em um segundo, os capacetes dos dois já estavam no chão, e Ezio bateu suas cabeças uma contra a outra com violência — ficaram inconscientes antes mesmo de conseguirem registrar qualquer expressão de surpresa. Se aquilo não tivesse dado certo, Ezio sabia que teria lhes cortado as gargantas sem hesitar nem por um segundo.

Fez uma pausa novamente, respirando com dificuldade. Agora, a torre. Ela era feita de pedra mais bem talhada, e a subida era difícil. Além disso, precisava escalar da face norte para a oeste, onde ficava a ja­nela da cela. Rezou para que ninguém na praça nem nas ameias olhasse para cima. Não gostaria de ser atingido por uma flecha depois de haver chegado tão longe.

O canto onde as paredes do norte e do oeste se encontravam era duro e desanimador, e por um momento Ezio ficou ali parado, sem se me­xer, procurando um apoio para as mãos que parecia não existir. Olhou para baixo e viu um dos guardas nas ameias olhar para cima. Pôde ver seu rosto pálido com clareza. Pôde ver os olhos do homem. Apertou-se contra a parede. Com sua roupa preta, chamaria tanta atenção quanto uma barata sobre uma toalha de mesa branca. Mas, inexplicavelmente, o homem baixou os olhos e continuou sua ronda. Será que o tinha visto? Será que não tinha acreditado no que tinha visto? A garganta de Ezio latejava pela tensão. Só foi capaz de relaxar depois de um longo minuto, e então voltou a respirar.

Após um esforço monumental, chegou ao seu alvo, grato pelo pei­toril estreito sobre o qual poderia se apoiar enquanto olhava para a cela apertada do outro lado da janela. Deus é misericordioso, pensou ao re­conhecer a figura do pai, de costas para ele, aparentemente lendo à luz fraca de uma vela.

—  Pai! — chamou em voz baixa.

Giovanni se virou.

—  Ezio! Em nome de Deus, como você...

—  Não importa, pai. — Quando Giovanni se aproximou, Ezio per­cebeu que as mãos dele estavam sangrando e machucadas, o rosto páli­do e exausto. — Meu Deus, pai, o que fizeram com você?

—  Deram-me uma surra, mas estou bem. Mais importante: como estão sua mãe e sua irmã?

—  Agora estão seguras.

—  Com Annetta?

—  Sim.

—  Deus seja louvado.

—  O que aconteceu, pai? O senhor estava esperando por isso?

—  Não com tanta rapidez. Prenderam Federico e Petruccio também. Acho que estão na cela atrás desta. Se Lorenzo estivesse aqui, as coisas teriam sido diferentes. Eu devia ter me prevenido.

—  Do que está falando?

—  Não há tempo para isso agora! — Giovanni quase berrou. — Ago­ra me ouça: você precisa voltar para nossa casa. Há uma porta secreta no meu escritório. Atrás dela há um baú escondido em uma câmara. Pegue tudo o que encontrar ali dentro. Escutou? Tudo! Boa parte vai parecer estranho, mas tudo ali é importante.

—  Sim, pai.

Ezio transferiu o peso de leve de uma perna para a outra, ainda se­gurando as barras da janela para não cair. Não se atrevia a olhar para baixo agora e não sabia por quanto tempo mais conseguiria permanecer imóvel.

—  Entre os conteúdos você irá encontrar um envelope com uma carta e alguns documentos. Você precisa levá-los sem demora, esta noite mesmo!, para Messere Alberti...

—  O gonfaloneiro?

—  Exatamente. Agora vá!

—  Mas, pai... — Ezio lutou para pronunciar aquelas palavras e, dese­jando poder fazer mais do que apenas entregar documentos, gaguejou:

—  Os Pazzi estão por trás disso? Li o bilhete do pombo-correio. Dizia...

Mas então Giovanni o apressou. Ezio ouviu a chave girando na fe­chadura da cela.

—  Vão me levar para um interrogatório — explicou Giovanni, com ar sombrio. — Saia antes que o descubram. Deus meu, você é um garoto corajoso. Estará à altura de seu destino. Agora, pela última vez: vá!

Ezio se apoiou para sair do peitoril e agarrou a parede que ficava fora de vista enquanto ouvia o pai ser levado. Mal conseguiu suportar ouvir aquilo. Depois se preparou para descer. Ele sabia que as descidas quase sempre eram mais difíceis do que as subidas, mas nas últimas 48 horas havia ganhado bastante experiência subindo e descendo de pré­dios. Então começou a descer a torre, escorregando vez ou outra, mas recuperando o equilíbrio, até voltar a alcançar as ameias, onde os dois guardas continuavam deitados onde ele os havia deixado. Outro golpe de sorte! Ele havia batido suas cabeças uma contra a outra o mais forte que conseguira, mas se por acaso tivessem recobrado a consciência en­quanto ele estava lá em cima na torre e dado o alarme... bem, não dava sequer para pensar nas consequências.

Não havia mesmo tempo para pensar nessas coisas. Ele se balançou sobre as ameias e olhou para baixo. O tempo era crucial. Se visse algu­ma coisa lá embaixo que pudesse aparar sua queda, talvez se arriscasse a saltar. Quando seus olhos se acostumaram à escuridão, viu o toldo de uma barraca deserta presa à parede, muito abaixo. Deveria arriscar? Se conseguisse, ganharia alguns minutos preciosos. Se falhasse, uma perna quebrada seria o menor de seus problemas. Ele tinha de ter confiança em si mesmo.

Respirou fundo e mergulhou na escuridão.

Daquela altura o toldo caiu ante seu peso, mas fora bem preso e por isso ofereceu resistência o bastante para amortecer sua queda. Ele estava com falta de ar e de manhã teria uns hematomas nas costelas, mas tinha conseguido descer! E nenhum alarme havia sido dado.

Ele se sacudiu e disparou na direção do que apenas algumas horas antes tinha sido sua casa. Ao chegar lá, percebeu que, na pressa, o pai não havia lhe contado como localizar a porta secreta. Giulio devia saber, mas onde Giulio estaria agora?

Por sorte não havia nenhum guarda à espreita nas proximidades da casa e ele conseguiria entrar sem percalços. Parou por um minuto em frente ao palazzo, quase incapaz de se obrigar a atravessar a escuridão das portas: parecia que sua casa havia mudado, sua santidade corrom­pida. Mais uma vez, Ezio precisou dominar seus pensamentos, sabendo que suas ações eram críticas. Agora a família dependia dele. Entrou na casa de sua família, na escuridão. Pouco depois estava no meio do es­critório, iluminado de maneira misteriosa pela luz de uma única vela, e olhou ao redor.

O lugar tinha sido revirado pelos guardas, que claramente confis­caram um grande número de documentos bancários, e o caos geral de estantes caídas, cadeiras viradas, gavetas atiradas pelo chão e papéis e livros espalhados por toda parte não tornava as coisas mais fáceis para Ezio. Mas ele conhecia o escritório; tinha a visão aguçada e usou a inte­ligência. As paredes eram grossas, qualquer uma poderia esconder uma câmara, mas ele foi direto até aquela em que havia uma grande lareira e começou sua busca ali, onde as paredes seriam ainda mais grossas a fim de abrigar a cornija. Aproximando a vela e olhando com atenção, man­tendo ao mesmo tempo o ouvido atento para qualquer som de guar­das voltando, finalmente achou ter discernido o desenho tênue de uma porta embutida nas lâminas que revestiam a parede, do lado esquerdo da grande cornija de gesso. Tinha de haver um jeito de abri-la. Olhou cuidadosamente para os colossi esculpidos que seguravam a abóbada de mármore da lareira sobre os ombros. O nariz de um dos que estavam à esquerda dava a impressão de um dia ter sido quebrado e depois con­sertado, pois exibia uma rachadura fina ao redor da base. Ele tocou o nariz e descobriu que era ligeiramente solto. Com o coração na boca, ele o moveu lentamente, e a porta deslizou para dentro sobre dobradiças silenciosas montadas sobre molas, revelando um corredor de chão de pedra que dobrava à esquerda.

Quando ele entrou, seu pé direito pisou em uma lajota que se moveu e, com isso, lâmpadas a óleo presas ao longo das paredes do corredor de repente se acenderam. O corredor era curto, descia ligeiramente e terminava em uma câmara circular decorada mais ao estilo da Síria do que da Itália. A mente de Ezio lembrou-se de um quadro pendurado no gabinete particular do pai mostrando o castelo de Masyaf, que um dia tinha sido lar da antiga Ordem dos Assassinos. Mas ele não tinha tempo para pensar se aquela decoração curiosa podia ou não ter algum significado especial. O lugar não tinha móveis e em seu centro havia um baú grande com bordas de aço e bem fechado com dois cadeados pesa­dos. Ele olhou ao redor para ver se haveria uma chave em algum lugar, mas, fora toda aquela ornamentação, não havia nada ali. Ezio já estava se perguntando se teria de voltar ao escritório ou então ir ao gabinete do pai para procurar uma chave lá, e se teria tempo para isso, quando, por acaso, sua mão encostou em um dos cadeados, que se abriu. O outro se abriu com a mesma facilidade. Será que seu pai tinha lhe dado algum poder que ele não conhecia? Será que os cadeados eram de alguma ma­neira programados para responder ao toque de determinada pessoa? Os mistérios se acumulavam, mas naquele momento não havia tempo para pensar muito naquilo.

Ele abriu o baú e viu que continha um capuz branco, evidentemente velho e que parecia ser feito de um tecido de lã que ele não reconheceu. Algo o incitou a colocá-lo, e na mesma hora um poder estranho afluiu por ele. Abaixou o capuz, mas não o tirou da cabeça.

O baú continha ainda um braçal de couro, uma lâmina de adaga partida montada não em um punho, mas sobre um estranho mecanis­mo cujo funcionamento ele desconhecia, uma espada, uma página de pergaminho coberta de símbolos e letras e o que parecia parte de um plano, e a carta e os documentos que seu pai lhe dissera para levar a Uberto Alberti. Ele reuniu aquilo tudo, fechou o baú e voltou ao escri­tório do pai, fechando cuidadosamente a porta secreta atrás de si. No escritório, encontrou uma bolsa de documentos descartada de Giulio e escondeu os conteúdos do baú ali, prendendo a bolsa atravessada sobre o peito. Ele afivelou a espada. Sem saber o que pensar daquela coleção estranha de objetos e sem ter tempo para refletir sobre o motivo pelo qual o pai guardaria tais coisas em uma câmara secreta, voltou com cui­dado até as portas principais do palazzo.

Porém, assim que pisou no pátio da frente, viu dois guardas da cida­de entrando. Tarde demais para se esconder: eles o viram.

—  Pare! — berrou um deles, e os dois começaram a avançar com rapidez em sua direção. Não havia volta. Ezio viu que já tinham puxado as espadas.

—  Para que vieram? Para me prender?

—  Não — respondeu o guarda que havia falado antes. — Temos ordens para matar você.

Com isso, o segundo guarda o atacou.

Ezio sacou a própria espada quando se aproximavam dele. Era uma arma que lhe era estranha, mas a sensação era de leveza e domínio em sua mão, como se ele a tivesse usado a vida inteira. Ele aparou os pri­meiros golpes, direita e esquerda, os dois guardas atacando-o ao mesmo tempo. Faíscas saíam das três espadas, mas Ezio sentiu sua nova lâmina firme, a ponta afiada e penetrante. Quando o segundo guarda estava erguendo a espada para cortar fora o braço de Ezio a partir do ombro, ele fingiu ir para a direita, sob a lâmina que se aproximava. Transferiu o peso do pé de trás para o da frente e jogou o corpo na direção do homem. O guarda se desequilibrou e o braço que segurava a espada atingiu de forma inofensiva o ombro de Ezio. Ezio usou seu próprio impulso para atirar sua nova espada para cima, atravessando o coração do homem. Ficando de pé, Ezio girou nos calcanhares, ergueu o pé es­querdo e arrancou a lâmina do corpo do guarda morto bem a tempo de confrontar seu companheiro. O outro guarda veio para cima dele com um rugido, brandindo uma espada pesada.

—  Prepare-se para morrer, traditore!

—  Nem eu nem ninguém de minha família é traidor.

O guarda o atingiu, rasgando-lhe a manga esquerda e arrancando sangue. Ezio recuou, mas somente por um segundo. Vendo nisso uma vantagem, o guarda foi em sua direção, e Ezio deixou que ele se apro­ximasse mais uma vez, mas depois deu um passo para trás e lhe passou uma rasteira, golpeando sua própria espada com firmeza e muita força no pescoço do homem enquanto ainda estava caindo. A cabeça foi de­cepada antes de o corpo do guarda cair no chão.

Por um momento Ezio ficou ali tremendo no silêncio repentino que se seguiu à luta, ofegante. Eram os primeiros assassinatos de sua vida... eram mesmo? Pois ele sentia uma outra vida dentro dele agora, uma vida mais antiga, uma vida que parecia ter anos de experiência em lidar com a morte.

Aquela sensação o assustou. Esta noite o envelhecera muito mais do que a passagem do tempo, mas a nova sensação parecia ser o despertar de uma força mais sombria dentro dele. Era algo mais do que apenas os efeitos das experiências desgastantes das últimas horas. Foi de om­bros caídos que ele seguiu pelas ruas escuras até a mansão de Alberti, assustando-se com cada ruído e a todo momento olhando para trás. Por fim, à beira da exaustão e sabe-se lá como capaz de aguentar-se de pé, ele chegou ao lar do gonfaloneiro. Olhou para a fachada e viu uma luz fraca em uma das janelas da frente. Bateu com força na porta, usando o punho da espada.

Ao não receber resposta, nervoso e impaciente, tornou a bater, com mais força e mais alto. Nada ainda.

Mas, na terceira tentativa, uma janelinha à porta se abriu brevemen­te e depois se fechou. A porta se abriu quase imediatamente depois e um servo armado e desconfiado o recebeu. Ele disse a que veio e foi conduzido a uma sala no primeiro andar, onde Alberti estava sentado a uma mesa coberta de papéis. Atrás dele, meio de lado e sentado em uma poltrona em frente a uma lareira cujo fogo morria, Ezio achou ter visto outro homem, alto e poderoso, mas apenas parte de seu perfil era visível e mesmo assim de forma pouco clara.

—  Ezio? — Alberti se levantou, surpreso. — O que você está fazendo aqui a esta hora?

—  Eu... eu não...

Alberti se aproximou dele e colocou uma das mãos sobre seu ombro.

—  Calma, filho. Tome fôlego. Esfrie a cabeça.

Ezio concordou. Agora que se sentia mais seguro, também se sentia mais vulnerável. Os acontecimentos daquela noite, desde que ele saíra para entregar as cartas de Giovanni, pesavam sobre ele. Pelo relógio de pé feito de metal que estava em cima da mesa, ele viu que era quase meia-noite. Será que realmente haviam passado apenas doze horas des­de que Ezio, o garoto, havia saído com sua mãe para buscar quadros no ateliê de um artista? Ele se sentia a ponto de chorar, apesar de tentar se conter. Mas se conteve, e foi Ezio, o homem, que falou:

—  Meu pai e meus irmãos foram presos não sei sob que autoridade, minha mãe e minha irmã estão escondidas e nosso lar foi saqueado. Meu pai me incumbiu de lhe entregar esta carta e estes documentos... — Ezio retirou os documentos da bolsa.

—  Obrigado.

Alberti colocou os óculos e levou a carta de Giovanni para perto da luz de uma vela que ardia sobre a mesa. Não havia nenhum outro som na sala a não ser o tique-taque do relógio e o barulho suave que as brasas da lareira faziam ao estalar e crepitar. Se havia outra presença ali, Ezio tinha se esquecido.

Então Alberti voltou a atenção aos documentos. Demorou-se lendo e por fim colocou um deles discretamente dentro de seu gibão preto. Os outros ele pôs cuidadosamente de lado, separados dos demais papéis sobre a mesa.

—  Houve um terrível mal-entendido, meu caro Ezio — explicou ele, tirando os óculos. — É verdade que foram feitas alegações sérias, e que um julgamento foi marcado para amanhã de manhã, mas parece que alguém pode ter sido excessivamente zeloso, talvez por ter suas próprias razões. Mas não se preocupe, vou esclarecer tudo.

Ezio mal se atreveu a acreditar nele.

—  Como?

—  Os documentos que você me deu contêm provas de uma cons­piração contra seu pai e contra a cidade. Apresentarei esses papéis na audiência amanhã, e Giovanni e seus irmãos serão libertados. Garanto.

O alívio inundou o jovem, que segurou a mão do gonfaloneiro.

—  Como posso lhe agradecer?

—  Administrar a justiça é meu trabalho, Ezio. Eu o levo muito a sério, e... — por uma fração de segundo, ele hesitou. — Seu pai é um de meus melhores amigos. — Alberti sorriu. — Mas que modos são os meus? Nem lhe ofereci um copo de vinho. — Ele fez uma pausa. — E onde irá passar a noite? Ainda tenho alguns negócios urgentes para tra­tar, mas meus criados lhe providenciarão comida, bebida e uma cama quente.

Na hora, Ezio não soube por que recusou uma oferta tão gentil.

Passava e muito da meia-noite quando ele deixou a mansão do gon- faloneiro. Recolocou o capuz e vagou pelas ruas, tentando ordenar os pensamentos. No momento, sabia aonde seus pés o estavam levando.

Ao chegar lá, ele subiu até a sacada com mais facilidade do que um dia tinha imaginado ser possível — talvez a urgência tivesse dado força a seus músculos — e bateu suavemente nas venezianas, chamando em voz baixa:

—  Cristina! Amore! Acorde! Sou eu.

Esperou, silencioso como um gato, e ouviu. Pôde escutá-la se mexendo e se levantando. Depois veio sua voz, assustada, do outro lado das venezianas.

—  Quem é?

—  Ezio.

Ela abriu rapidamente as venezianas.

—  O que foi? O que aconteceu?

—  Deixe-me entrar. Por favor.

Sentado na cama, ele lhe contou toda a história.

—  Eu sabia que algo estava errado — disse ela. — Meu pai parecia perturbado hoje à noite. Mas parece que tudo vai ficar bem.

—  Preciso que me deixe passar a noite aqui, mas não se preocupe, vou embora antes de amanhecer, e tenho de deixar algo com você por segurança. — Ele desprendeu sua bolsa e colocou-a entre os dois. — Preciso confiar em você.

—  Oh, Ezio, claro que sim.

Ele caiu em um sono agitado nos braços dela.

Era uma manhã cinza e nublada, e a nuvem que pairava sobre a cidade a oprimia com um calor úmido. Ezio chegou na Piazza della Signoria e viu, para sua grande surpresa, que uma multidão já estava reunida ali. Uma plataforma tinha sido erguida e sobre ela havia uma mesa coberta de brocado pesado com os brasões da cidade. Atrás da mesa estavam Uberto Alberti e um homem alto e forte, com nariz adunco e olhos cui­dadosos e astutos, vestido em um traje de rico carmesim — um estra­nho, pelo menos para Ezio. Mas a visão dos outros ocupantes da plata­forma chamou sua atenção: seu pai e seus irmãos, todos acorrentados; e logo atrás deles uma construção alta com uma viga da qual pendiam três laços.

Ezio tinha chegado na praça carregado de um otimismo ansioso — não tinha o gonfaloneiro lhe dito que hoje estaria tudo resolvido? Agora seus sentimentos mudaram. Algo estava errado, muito errado. Tentou abrir caminho para a frente, mas não conseguiu passar pela multidão. Sentiu a ameaça da claustrofobia. Tentando desesperadamente se acal­mar, racionalizar suas ações, ele parou, cobriu a cabeça com o capuz e ajustou a espada ao cinto. Com certeza Alberti não o desapontaria? Mas durante todo o tempo ele percebeu que o homem alto, um espanhol a julgar por suas roupas, seu rosto e a cor de sua pele, vasculhava a mul­tidão com aqueles olhos penetrantes. Quem era ele? Por que ele fazia Ezio se lembrar de alguma coisa? Será que já o tinha visto em algum lugar antes?

O gonfaloneiro, resplandecente na roupa de seu ofício, ergueu os braços para acalmar o povo, que na mesma hora caiu em silêncio.

—  Giovanni Auditore — disse Alberti em um tom autoritário que, para o ouvido aguçado de Ezio, não conseguiu esconder um tom de medo. — O senhor e seus cúmplices são acusados do crime de traição. Possuem alguma prova para negar esta acusação?

Giovanni pareceu ao mesmo tempo surpreso e inquieto.

—  Sim, está tudo nos documentos que foram entregues ao senhor na noite passada.

Mas Alberti retrucou:

—  Não sei de nenhum documento, Auditore.

Ezio percebeu então que aquele era um julgamento de fachada, mas não podia entender o que parecia ser uma traição profunda da parte de Alberti. Ele gritou:

—  Mentira!

Mas sua voz foi abafada pelo estrondo da multidão. Ele lutou para chegar mais perto, empurrando para o lado alguns cidadãos irritados, mas havia tanta gente que ele ficou preso ali no meio.

Alberti tornou a falar:

—  As provas contra o senhor foram reunidas e examinadas. São ir­refutáveis. Na ausência de comprovação do contrário, sou obrigado por meu ofício a proclamar o senhor e seus cúmplices, Federico e Petruccio, e, in absentia, seu filho Ezio, culpados do crime pelo qual foram acu­sados. — Fez uma pausa enquanto a multidão mais uma vez caía em silêncio. — Portanto, eu os condeno todos à morte, sentença que deverá ser executada imediatamente!

A multidão voltou a se agitar. A um sinal de Alberti, o carrasco pre­parou os laços, enquanto dois de seus assistentes levavam primeiro o pequeno Petruccio, que lutava para não chorar, até a forca. A corda foi colocada ao redor de seu pescoço enquanto ele rezava rapidamente e o padre que assistia sacudia água benta sobre a sua cabeça. Então o car­rasco puxou uma alavanca no cadafalso e o garoto ficou pendurado, chutando o ar até por fim ficar imóvel.

—  Não! — balbuciou Ezio, mal conseguindo acreditar no que estava vendo. — Não, Deus, por favor não! — Mas suas palavras ficaram enta­ladas na garganta, superadas pela dor da perda.

Federico foi o próximo, berrando que ele e a família eram inocentes e lutando em vão para se soltar dos guardas que o arrastavam em dire­ção à forca. Ezio, agora extremamente agitado, tentou mais uma vez em desespero se aproximar e viu uma única lágrima correr pela face pálida do pai. Horrorizado, Ezio viu seu irmão mais velho e melhor amigo se sacudir na ponta da corda — demorou mais tempo para ele deixar esse

mundo do que havia demorado para Petruccio, mas por fim ele também

acabou imóvel, oscilando sobre o cadafalso; era possível ouvir a viga de madeira ranger no silêncio. Ezio lutou para acreditar: será que aquilo realmente podia estar acontecendo?

A multidão começou a murmurar, mas então uma voz firme a silen­ciou. Giovanni Auditore estava falando.

—  O traidor é você, Uberto. Você, um de meus parceiros e amigos mais próximos, a quem confiei a vida! E sou um estúpido. Não percebi que você era um deles! — Nesse ponto ele aumentou o tom da voz para um grande grito de angústia e raiva: — Você pode tirar nossas vidas hoje, mas não se esqueça: vamos arrancar a sua em troca!

Ele abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Um silêncio profundo, interrompido apenas pelas preces murmuradas do padre. Em seguida Giovanni Auditore andou com dignidade até a forca e encomendou sua alma à última grande aventura que ela iria viver.

Ezio de início estava chocado demais para sentir dor. Era como se um enorme punho de ferro o tivesse acertado. Mas, quando o cadafalso se abriu sob Giovanni, ele não conseguiu se conter.

—  Pai! — gritou, com a voz embargada.

Na mesma hora os olhos do espanhol o encontraram. Haveria algo de sobrenatural na visão daquele homem, por tê-lo identificado no meio de uma multidão daquelas? Como se em câmera lenta, Ezio viu o espanhol se inclinar na direção de Alberti, sussurrar algo e apontar.

—  Guardas! — berrou Alberti, também apontando. — Ali! Tem ou­tro deles ali! Atrás dele!

Antes que a multidão pudesse reagir e contê-lo, Ezio já tinha forçado passagem até o canto, socando qualquer um que barrasse sua passagem. Um guarda já o esperava. Ele agarrou Ezio, puxando-lhe o capuz. Agin­do como se por instinto, Ezio se soltou e sacou a espada com uma das mãos, agarrando o guarda pela garganta com a outra. A reação de Ezio tinha sido mais rápida do que o guarda esperara, e, antes que ele pudesse erguer o braço para se defender, Ezio apertou ainda mais sua garganta e o punho da espada e, com um único movimento rápido, abriu o corpo do guarda, de modo que os intestinos vazaram sob sua túnica para o chão com calçamento de pedra. Ele atirou o corpo para o lado e se virou para a plataforma, olhando fixamente para Alberti.

—  Eu vou matá-lo por isso! — berrou, com a voz cheia de ódio.

Porém, outros guardas já se aproximavam. Ezio, dominado pelo ins­tinto de sobrevivência, saiu correndo em direção à relativa segurança das ruelas fora da praça. Para seu espanto, viu mais dois guardas, vindo rápidos, tentando impedir sua passagem.

Confrontaram-se nos limites da praça. Os dois guardas o encara­ram, bloqueando sua fuga, e os outros se aproximaram por trás. Ezio lutou com ambos freneticamente. Então, uma manobra errada para se defender de um deles arrancou-lhe a espada. Com medo de que fosse o fim, Ezio se virou para fugir dos agressores — mas, antes de poder fazer isso, algo impressionante aconteceu. Da rua estreita para a qual se diri­gia, a poucos metros dali, surgiu um homem mal-vestido. Com a velo­cidade de um raio ele surpreendeu os dois guardas por trás e, com uma adaga comprida, cortou profundamente embaixo das axilas dos braços que seguravam as espadas, destroçando e inutilizando os tendões. Ele se movimentava tão rápido que Ezio mal conseguia acompanhar seus mo­vimentos enquanto ele recuperava a espada caída do jovem e a devolvia. De repente, Ezio o reconheceu e sentiu mais uma vez o fedor de cebola e alho. Naquele momento, nem as rosas damascenas teriam perfume mais doce.

—  Saia daqui — disse o homem; e então também sumiu.

Ezio saiu correndo pela rua e virou em alguns becos e vielas que conhecia intimamente de suas noitadas com Federico. O clamor da per­seguição atrás dele se dissolveu. Ele foi até o rio e encontrou abrigo na cabana abandonada de um vigia, atrás de um dos armazéns que perten­ciam ao pai de Cristina.

Caindo sobre uma pilha de sacos descartados, sentiu todo o seu cor­po começar a tremer. Seu mundo tinha acabado de ser destruído. Seu pai... Federico... e, Deus, não, o pequeno Petruccio... todos se foram, todos mortos, todos assassinados. Segurando a cabeça nas mãos, caiu no choro — incapaz de controlar a explosão de tristeza, medo e ódio. Somente depois de várias horas é que Ezio conseguiu tirar as mãos do rosto. Seus olhos estavam injetados, um sentimento inflexível de vingança os atravessava. Naquele momento,Ezio soube que sua vida ante­rior havia acabado — Ezio, o garoto, não existia mais. Dali por diante, sua vida estava baseada em um único objetivo: vingança.

Bem mais tarde naquele mesmo dia, sabendo muito bem que os guar­das ainda deviam estar incansavelmente à sua procura, ele voltou para a mansão da família de Cristina por becos obscuros. Não queria colocá-la em perigo, mas precisava recuperar a bolsa com seus conteúdos pre­ciosos. Esperou em um esconderijo escuro que fedia a urina e não se mexeu nem quando ratos correram pelos seus pés, até que uma luz na janela dela o avisou que ela havia se recolhido a seus aposentos.

—  Ezio! — gritou ela quando o viu em sua sacada. — Graças a Deus você está vivo. — O rosto dela se encheu de alívio, mas por pouco tem­po, pois logo foi substituído pela tristeza. — Seu pai, seus irmãos... — Ela não conseguiu terminar a frase e abaixou a cabeça.

Ezio a envolveu em seus braços, e por vários minutos apenas ficaram ali abraçados.

Por fim, ela quebrou o silêncio:

—  Você é louco! O que ainda está fazendo em Florença?

—  Tenho assuntos para resolver — respondeu ele, com raiva. — Mas não posso ficar aqui muito tempo, o risco é grande demais para sua fa­mília. Se pensarem que você está me protegendo...

Cristina ficou quieta.

—  Me dê minha bolsa e eu vou embora.

Ela foi buscá-la, mas antes de entregá-la, disse:

—  E sua família?

—  Este é meu primeiro dever: enterrar meus mortos. Não posso dei­xar que sejam atirados em uma vala de cal como criminosos comuns.

—  Eu sei para onde os levaram

—  Como?

—  A cidade falou sobre isso o dia inteiro. Mas ninguém estará lá agora. Estão perto da Porta San Niccolò junto com os corpos dos indi­gentes. Há uma vala preparada, e as carroças de cal virão de manhã. Oh, Ezio...!

Ezio falou com calma, mas seriamente:

—  Preciso providenciar que meu pai e meus irmãos tenham uma despedida deste mundo à altura. Não posso oferecer a eles uma missa de réquiem, mas posso poupar seus corpos da indignidade.

—  Vou com você!

—  Não! Você entende o que aconteceria se apanhassem você comigo?

Cristina baixou os olhos.

—  Preciso também providenciar para que minha mãe e minha irmã estejam em segurança, e devo a minha família mais uma morte. — He­sitou. — Então irei embora. Talvez para sempre. A questão é: você virá comigo?

Ela recuou, e ele viu uma multidão de emoções confusas em seus olhos. O amor estava ali, profundo e duradouro, mas Ezio havia se tor­nado muito mais velho do que ela desde que a abraçara pela primeira vez. Ela ainda era uma menina. Como poderia esperar que ela fizesse tamanho sacrifício?

—  Eu quero, Ezio, você sabe o quanto... mas minha família... isso mataria os meus pais...

Ezio olhou-a com gentileza. Embora tivessem a mesma idade, sua experiência recente o tornara subitamente muito mais maduro do que ela. Agora ele já não tinha mais família com que contar, apenas respon­sabilidade e dever, e era difícil.

—  Fiz mal em perguntar. E quem sabe um dia, talvez, quando tudo isso passar... — Ele levou as mãos ao pescoço e, das dobras da gola, pu­xou um pingente de prata pesado preso a uma fina corrente de ouro. Retirou-o. O pingente tinha um desenho simples: apenas um A, a letra inicial do nome de sua família. — Quero que fique com isto. Por favor, aceite.

Com mãos trêmulas ela o aceitou, chorando baixinho. Olhou para o pingente, depois para ele, para agradecer-lhe, para dar mais alguma desculpa.

Mas ele já tinha sumido.

Na margem sul do Arno, perto da Porta San Niccolò, Ezio descobriu o local exposto onde os corpos estavam empilhados perto de uma enor­me vala. Dois guardas com aparência de dar pena, pelo visto recrutas inexperientes, patrulhavam ali perto, mais arrastando que carregando

suas alabardas. A visão de seus uniformes despertou a raiva de Ezio e seu primeiro instinto foi matá-los, mas já tinha visto mortes demais na­quele dia e aqueles eram apenas garotos camponeses que só vestiram os uniformes em busca de algo melhor na vida. Seu coração se apertou quando viu os corpos do pai e dos irmãos perto da beirada da vala, ain­da com os laços ao redor dos pescoços machucados, mas percebeu que, assim que os guardas caíssem no sono, o que certamente logo fariam, seria possível arrastá-los para a margem do rio, onde havia preparado um barco aberto carregado com lenha.

Eram mais ou menos três horas da manhã e a primeira luz tênue da aurora já manchava o céu a leste quando ele completou sua tarefa. Ficou em pé sozinho na margem do rio, observando o barco que car­regava os corpos em chamas de seus parentes ser levado devagar pela corrente em direção ao mar. Observou o barco até que a luz do fogo tremulasse a distância...

Voltou para a cidade. Uma decisão dura havia superado sua dor. Ainda havia muito o que fazer, mas primeiro ele precisava descansar. Voltou à cabana do vigia e tentou ficar o mais confortável que pôde. Não podia se negar um pouco de sono, mas mesmo dormindo, Cristina não saía de seus pensamentos, nem de seus sonhos.

Ele sabia mais ou menos onde ficava a casa da irmã de Annetta, embora nunca tivesse ido até lá, nem conhecido Paola. Porém, Annetta tinha sido sua ama de leite e ele sabia que, ainda que não pudesse confiar em mais ninguém, poderia confiar nela. Perguntou-se se ela saberia — pro­vavelmente sim — do destino que sucedera a seu pai e seus irmãos, e se havia contado a sua mãe e sua irmã.

Aproximou-se da casa com muito cuidado, usando um caminho discreto e cobrindo a maior distância que pôde andando agachado so­bre os telhados — tudo para evitar as ruas agitadas onde, ele tinha cer­teza, Uberto Alberti colocara seus homens caçando-o. Ezio não conse­guia afastar da cabeça a traição de Alberti. A que facção seu pai tinha se referido na forca? O que poderia induzir Alberti a matar um de seus aliados mais próximos?

A casa de Paola ficava em uma rua ao norte da catedral, Ezio sabia. Mas, ao chegar lá, não sabia qual das casas era a certa. Havia poucas placas de identificação penduradas nas edificações, e ele não podia se dar ao luxo de desperdiçar tempo caso fosse reconhecido. Estava prestes a ir embora quando viu Annetta em pessoa vindo da direção da Piazza San Lorenzo.

Puxando o capuz para que o rosto ficasse sombreado, foi até ela, obrigando-se a andar em ritmo normal e esforçando-se ao máximo para se misturar com os outros cidadãos que iam cuidar de seus afazeres. Passou por Annetta e ficou grato ao ver que ela não deu nenhum sinal de tê-lo reconhecido. Alguns metros adiante, deu meia-volta e se pôs a andar logo atrás dela.

—  Annetta...

Ela teve a inteligência de não se virar.

—  Ezio. Você está a salvo.

—  Eu não diria isso. E minha mãe e minha irmã estão...?

—  Elas estão protegidas. Ah, Ezio, coitado de seu pai. E de Federico. E... — ela conteve um soluço — ...do pequeno Petruccio. Acabo de vir de San Lorenzo. Acendi uma vela a santo Antônio por eles. Dizem que o duque logo vai voltar. Talvez...

—  Minha mãe e Maria sabem o que aconteceu?

—  Achamos melhor esconder esse fato delas.

Ezio pensou por um instante.

—  É melhor. Eu lhes conto quando chegar a hora. — Fez uma pausa.

—  Você me levaria até elas? Não consegui identificar a casa de sua irmã

—  Estou indo para lá agora. Fique por perto e me siga.

Ele ficou um pouco para trás, mas sem perdê-la de vista.

O local onde ela entrou tinha a fachada sombria e semelhante à de um forte, tal como vários dos edifícios solenes de Florença, mas, quando entrou, Ezio ficou surpreso. Não era bem o que havia esperado.

Ele se viu em um ambiente amplo, ricamente decorado e com pé-di- reito alto. Era escuro e o ar estava pesado. Tapeçarias de veludo vermelho-escuras e marrons cobriam as paredes, intercaladas com tapeçarias orientais que mostravam cenas de prazer sexual e luxo inequívoco. A sala estava iluminada por velas, e o cheiro de incenso pairava no ar.

A mobília consistia principalmente em divãs cobertos de almofadas de brocado caro e mesas baixas nas quais havia bandejas com jarros de prata cheios de vinho, copos venezianos e tigelas de ouro com doces. Porém, o mais surpreendente eram as pessoas na sala. Havia uma dúzia de lindas garotas vestidas com roupas de seda e cetim verde e amarelo cortadas ao estilo florentino, mas cujas saias ficavam bem acima do joe­lho e cujos decotes não deixavam nada para a imaginação, a não ser a promessa de onde não deveria se aventurar. Ao redor de três das paredes do ambiente, sob as tapeçarias, era possível ver diversas portas.

Ezio olhou em volta, de certa maneira sem saber para onde olhar.

—  Tem certeza de que é aqui mesmo? — perguntou a Annetta.

—  Ma certo! E aqui está minha irmã para nos receber.

Uma mulher elegante que devia ter uns quarenta anos, mas parecia dez anos mais jovem, tão linda quanto qualquer principessa e mais bem- vestida que a maioria, se dirigia do meio da sala até eles. Havia uma tris­teza velada em seus olhos, o que de alguma maneira aumentava a carga sexual que ela transmitia, e Ezio, apesar de tudo o mais que ocupava sua mente, viu-se excitado.

Ela lhe estendeu a mão de dedos compridos e cheios de joias.

—  É um prazer conhecê-lo, Messere Auditore. — Ela o olhou com aprovação. — Annetta fala muito bem do senhor. E agora posso ver por quê.

Ezio, corando contra sua vontade, respondeu:

—  Aprecio suas palavras gentis, Madonna...

—  Por favor, me chame de Paola.

Ezio fez uma reverência.

—  Mal posso expressar o tamanho de minha gratidão por você es­tender sua proteção a minha mãe e minha irmã, Mado... quero dizer, Paola.

—  Era o mínimo que eu poderia fazer.

—  Elas estão aqui? Posso vê-las?

—  Não estão aqui. Não seria lugar para elas, e além disso alguns de meus clientes possuem altos cargos no governo da cidade.

—  Então este lugar é, perdoe-me, o que estou pensando que é?

Paola riu.

—  Claro! Mas, espero, bastante diferente daqueles prostíbulos perto do cais! Na verdade está cedo demais para os negócios, mas gostamos de estar preparadas, sempre existe a chance de um cliente ocasional dar uma passada a caminho do escritório. O senhor veio na hora certa.

—  Onde está minha mãe? E Claudia?

—  Estão a salvo, Ezio; mas é arriscado demais levá-lo para vê-las agora, e não podemos comprometer a segurança delas. — Ela o condu­ziu até um sofá e se sentou ao seu lado. Annetta, enquanto isso, desapa­receu no interior da casa, para cuidar de algum assunto particular.

—  Acho que é melhor — prosseguiu Paola — que o senhor saia de Florença com elas na primeira oportunidade. Mas o senhor precisa des­cansar primeiro. Precisa recuperar as forças, pois tem um caminho lon­go e árduo à sua frente. Talvez quisesse...

—  É muito gentil de sua parte, Paola — interrompeu-a com gentile­za —, e sua sugestão é acertada. Mas agora não posso ficar.

—  Por quê? Para onde está indo?

Durante a conversa, Ezio foi se acalmando, enquanto todos os pen­samentos desenfreados colidiam uns com os outros. Por fim ele conse­guiu afastar seu choque e seu medo, pois tinha chegado a uma decisão e encontrado um propósito, ambos irrevogáveis.

—  Vou matar Uberto Alberti — disse-lhe.

Paola pareceu preocupada.

—  Entendo seu desejo de vingança, mas o gonfaloneiro é um ho­mem poderoso e você não é um assassino por natureza, Ezio...

“O destino está me transformando em um”, pensou ele, mas disse, o mais educadamente possível, pois estava convencido de sua missão:

—  Poupe-me do sermão.

Paola o ignorou e completou sua frase:

—  ...mas posso transformá-lo em um.

Ezio lutou contra a desconfiança.

—  E por que me ensinaria a matar?

Ela balançou a cabeça.

—  Para ensiná-lo a sobreviver.

—  Não tenho certeza se preciso de algum treinamento de sua parte.

Ela sorriu.

—  Sei como se sente, mas por favor permita-me aperfeiçoar as ha­bilidades que, tenho certeza, você possui naturalmente. Pense em meu ensino como uma arma extra em seu arsenal.

Ela começou o treinamento naquele mesmo dia: recrutou as garotas que não estavam trabalhando e os servos de sua confiança para ajudá-la. No jardim de muros altos atrás da casa, organizou as vinte pessoas em cinco grupos de quatro. Elas então começaram a andar pelo jardim, passando umas pelas outras, rindo e conversando. Algumas das garotas lançavam olhares atrevidos para Ezio e sorriam. Mas Ezio, que ainda carregava sua bolsa preciosa ao longo do corpo, estava imune aos seus encantos.

—  Veja bem — disse-lhe Paola —, a discrição é algo supremo em minha profissão. Precisamos ser capazes de andar livremente pelas ruas, sendo vistas, mas ao mesmo tempo não sendo. Você também deve aprender como se misturar adequadamente como nós e sumir no meio da multidão da cidade. — Ezio estava prestes a protestar, mas ela ergueu uma das mãos. — Eu sei! Annetta me disse que você não se compor­ta mal, mas precisa aprender mais coisas do que acredita. Quero que escolha um grupo e tente se misturar com ele. Não quero ser capaz de discernir você entre eles. Lembre-se do que quase aconteceu com você no dia da execução.

Aquelas palavras duras feriram Ezio, mas a tarefa não lhe pareceu tão difícil, desde que usasse a discrição. Porém, ante o olhar impiedoso dela, ele descobriu que a coisa era mais difícil do que tinha imaginado. Acabava esbarrando desajeitado em alguém, ou tropeçando, e com isso às vezes fazia as garotas ou os servos de seu grupo se afastarem dele, deixando-o exposto. O jardim era um lugar agradável, luxuriante e ba­nhado pelo sol, em que os pássaros cantavam nas árvores ornamentais, mas na mente de Ezio ele tinha se tornado um labirinto de ruas hostis onde cada passante era um inimigo em potencial. E ele sempre era pro­vocado pelas críticas persistentes de Paola: “Cuidado! Você não pode ir se apressando assim para o meio deles!” “Tenha mais respeito com minhas garotas! Pise com cuidado quando estiver perto delas!” “Como você espera se misturar às pessoas quando está tão ocupado trombando com elas?” “Ah, Ezio! Eu esperava mais de você!”

Mas, por fim, no terceiro dia, os comentários cortantes se tornaram menos frequentes, e na manhã do quarto dia ele conseguiu passar bem debaixo do nariz de Paola sem que ela piscasse. E de fato, depois de quinze minutos sem dizer nada, Paola gritou:

—  Certo, Ezio, desisto! Onde está você?

Satisfeito consigo mesmo, ele saiu do meio de um grupo de garotas —    era o próprio modelo de um dos jovens criados do sexo masculino. Paola sorriu e bateu palmas, e os outros se juntaram a ela.

Mas o trabalho não terminou aí.

—  Agora que aprendeu a se misturar à multidão, vou lhe mostrar como usar sua recém-descoberta habilidade... para roubar — disse Pao­la na manhã do dia seguinte.

Ezio empacou ao ouvir isso, mas ela explicou:

—  É uma habilidade essencial para a sobrevivência, da qual você pode precisar em sua jornada. Um homem não é nada sem dinheiro, e nem sempre você estará em posição de ganhá-lo honestamente. Sei que você nunca tiraria nada de alguém que estivesse precisando, ou de um amigo. Pense nisso como a lâmina no canivete, que ocê quase nunca usa, embora seja bom saber que ela está lá.

Aprender a ser mão-leve foi muito mais difícil. Ele conseguia se aproximar sem problemas de uma garota, mas assim que sua mão se fe­chava na bolsa em sua cintura, ela gritava “Al ladro!” e fugia dele. Quan­do conseguiu roubar pela primeira vez algumas moedas, ficou onde es­tava por um momento, triunfante, e então sentiu uma mão pesada em seu ombro.

—  Ti arresto! — disse o criado que fazia o papel de guarda da cidade, sorrindo.

Mas Paola não sorriu.

—  Depois que roubar alguém, Ezio — ela disse —, você não pode ficar por perto.

Agora, porém, estava aprendendo rápido, e começando a gostar da necessidade de adquirir as habilidades que vinha aprendendo para com­pletar com sucesso a sua missão. Depois de conseguir roubar dez garo­tas, sendo que as cinco últimas nem Paola tinha notado, ela declarou que a aula tinha terminado.

—  De volta ao trabalho, meninas! — disse Paola. — A brincadeira acabou.

—Ah, precisamos mesmo voltar? — murmuraram elas relutantemen­te, enquanto se afastavam de Ezio. — Ele é tão bonitinho, tão inocente...

Mas Paola foi irredutível.

Ela deu um passeio sozinha com ele no jardim. Como sempre, ele mantinha uma das mãos sobre sua bolsa.

—  Agora que você aprendeu a se aproximar do inimigo — disse ela —, precisamos encontrar uma arma adequada para você, algo bem mais sutil do que uma espada.

—  Certo, mas o que quer que eu use?

—  Ora» você já tem a resposta! — E ela lhe mostrou a lâmina que­brada e o braçal que Ezio havia pegado no baú do pai e que até aquele momento acreditava estarem bem escondidos dentro de sua bolsa. Cho­cado, ele a abriu e revirou. De fato não estavam mais lá.

—  Paola! Como foi que...

Ela riu.

—  ...que eu peguei isso? Usando as mesmas habilidades que acabei de lhe ensinar. Existe mais uma liçãozinha para você. Agora que apren­deu a ser um mão-leve, também precisa aprender a se prevenir de gente que sabe fazer a mesma coisa!

Ezio olhou com tristeza para a lâmina partida, que ela tinha lhe de­volvido junto com o braçal.

—  Há algum tipo de mecanismo neles, mas não está funcionando.

—  Ah — comentou ela. — Verdade. Mas acho que já conheceu Mes- sere Leonardo, não?

—  Da Vinci? Sim, eu o conheci logo antes de... — Ele se interrom­peu, obrigando-se a não pensar naquela lembrança dolorosa. — Mas como um pintor poderia me ajudar nisso?

—  Ele é bem mais do que um pintor. Pode levar esses artefatos para ele. Você vai ver.

Ezio, percebendo o sentido do que ela estava lhe dizendo, fez um sinal concordando e depois disse:

—  Antes de ir, posso lhe fazer uma última pergunta?

—  Claro.

—  Por que me ofereceu sua ajuda assim tão rápido... sendo que sou um estranho?

Paola lhe deu um sorriso triste. Como resposta, ela subiu uma das mangas de seu vestido, revelando um antebraço de pele clara e delicada, cuja beleza estava desfigurada por cicatrizes feias e compridas em zigue- zague. Ezio olhou aquilo e entendeu. Em algum momento da sua vida, aquela dama tinha sido torturada.

—  Eu também já conheci a traição — disse Paola.

Então Ezio se deu conta sem hesitação de que havia conhecido al­guém igual a ele.

 

A luxuosa Casa dos Prazeres de Paola não era longe das ruas vicinais agi­tadas onde ficava o ateliê de Leonardo, mas Ezio precisou atravessar a am­pla e movimentada Piazza dei Duomo, e ali suas recém adquiridas habi­lidades de se misturar à multidão se provaram especialmente úteis. Fazia bem uns dez dias desde as execuções e era provável que Alberti pensasse que Ezio já havia deixado Florença, mas ele não queria arriscar — nem tampouco Alberti, a julgar pela quantidade de guardas a postos na praça e ao redor dela. Devia haver agentes à paisana por ali também. Ezio man­teve a cabeça bem baixa, especialmente ao passar entre a catedral e o Batistério, onde a praça era mais movimentada. Passou pelo campanário de Giotto, que havia dominado a cidade por quase 150 anos, e pelo enorme domo vermelho da catedral, feito por Brunelleschi, que só o completara havia quinze anos, sem vê-los. Porém, estava ciente dos grupos de turistas franceses e espanhóis olhando para cima cheios de surpresa e admiração genuínas, e uma pequena explosão de orgulho de sua cidade tomou seu coração. Mas será que a cidade continuava sendo sua, afinal?

Afastando os pensamentos tristes, ele se dirigiu rapidamente até o lado sul da praça, para o ateliê de Leonardo. O mestre estava em casa, disseram-lhe, no jardim dos fundos. O estúdio estava ainda mais caóti­co do que antes, embora parecesse haver certa ordem naquela loucura. Os artefatos que Ezio havia notado na visita anterior pareciam ter se multiplicado, e no teto estava pendurado um estranho aparelho de ma­deira que mais parecia um esqueleto de morcego em escala maior. Em um dos cavaletes um enorme pergaminho preso a uma tábua mostrava um desenho de nó celta enorme e impossivelmente intrincado — em um dos cantos havia algum indecifrável rabisco de Leonardo. Além de Agniolo agora havia outro assistente, Innocento, e os dois estavam ten­tando colocar alguma ordem no ateliê, catalogando os objetos a fim de esclarecer o que havia ali.

—  Ele está no quintal dos fundos — disse Agniolo a Ezio. — Pode ir. Ele não vai se importar.

Ezlo encontrou Leonardo entretido em uma atividade curiosa. Era possível comprar pássaros canoros em gaiolas em qualquer lugar de Flo­rença. As pessoas os penduravam nas janelas por prazer e, quando as aves morriam, simplesmente as substituíam por outras. Leonardo es­tava rodeado de uma dúzia dessas gaiolas e, enquanto Ezio observava, selecionou uma, abriu a pequenina porta, ergueu a gaiola e observou o pássaro, um milheiro no caso, encontrar a entrada, passar por ela e voar. Leonardo observou sua partida com entusiasmo e estava se viran­do para pegar outra gaiola quando notou Ezio parado ali.

Ele sorriu de forma triunfante e calorosa ao vê-lo e o abraçou. Então seu rosto ficou grave.

—  Ezio! Meu amigo. Não esperava vê-lo aqui, depois do que você passou. Mas seja bem-vindo, seja bem-vindo. Espere só um instante, não vai demorar.

Ezio o assistiu libertando um por um dos vários melros, dom-fafes, cotovias e rouxinóis, estes bem mais caros, observando cada um deles com grande cuidado.

—  O que está fazendo? — quis saber Ezio, curioso.

—  Toda vida é preciosa — respondeu Leonardo, com simplicidade.

—  Não consigo suportar ver criaturas como eu presas assim só porque têm vozes bonitas.

—  É só por isso que as está libertando? — Ezio suspeitava de algum motivo oculto.

Leonardo sorriu, mas não deu nenhuma resposta direta.

—  Não como mais carne também. Por que algum pobre animal de­veria morrer apenas porque achamos seu gosto bom?

—  Desta forma não haveria mais trabalho para os fazendeiros.

—  Eles poderiam plantar milho.

—  Imagine que chato seria. E haveria um excesso de oferta, seja como for.

—  Ah, tinha esquecido que você é um finanziatore. E também es­queci meus bons modos: o que o traz aqui?

—  Preciso de um favor, Leonardo.

—  Como lhe posso ser útil?

—  Existe algo que eu... herdei de meu pai e que gostaria que você consertasse, se pudesse.

Os olhos de Leonardo se iluminaram.

—  Claro. Venha por aqui. Vamos usar minha sala interna, os garotos estão remexendo tudo no estúdio, como sempre. Eu às vezes me per­gunto por que os contratei!

Ezio sorriu. Estava começando a entender por quê, mas ao mesmo tempo teve a sensação de que o primeiro amor de Leonardo era, e sem­pre seria, o trabalho.

—  Por aqui.

A sala menor e interna de Leonardo era ainda mais desarrumada que o ateliê, mas entre os montes de livros e espécimes, e papéis cober­tos de rabiscos indecifráveis, o artista, como sempre, e de modo incon­gruente, impecavelmente vestido e perfumado, empilhou algumas das coisas com cuidado para liberar espaço na grande mesa de trabalho.

—  Desculpe a confusão — disse ele. — Mas finalmente temos um oásis! Vejamos o que trouxe para mim. A menos que queira antes um copo de vinho?

—  Não, não.

—  Ótimo — disse Leonardo, ansioso. — Vejamos então!

Ezio cuidadosamente retirou da bolsa a lâmina, o braçal e o me­canismo, que ele havia enrolado na misteriosa página de pergaminho que estivera no mesmo baú. Leonardo tentou em vão juntar os pedaços daquele mecanismo, mas não conseguiu, e por um momento pareceu entrar em desespero.

—  Não sei, Ezio — explicou. — Este mecanismo é muito, muito an­tigo, mas também é bastante sofisticado: sua construção está à frente até mesmo do nosso tempo. Fascinante. — Ele olhou para cima. — Com certeza nunca vi algo do tipo. Mas receio não poder fazer muita coisa sem ver os planos originais.

Então ele voltou a atenção para a página de pergaminho, que havia apanhado para voltar a embrulhar os pedaços.

—  Espere um pouco! — gritou, quebrando aquela reflexão. Então colocou de lado a lâmina partida e o braçal, desenrolou sobre a mesa a página e, olhando para ela. começou a vasculhar entre uma fileira de li­vros velhos e manuscritos de uma prateleira ali perto. Depois de encon­trar os dois que queria, colocou-os sobre a mesa e começou a folheá-los cuidadosamente.

—  O que está fazendo? — perguntou Ezio, ligeiramente impaciente.

—  É muito interessante — disse Leonardo. — Parece muito com a página de um códex.

—  Um o quê?

—  É uma página de um livro antigo. Não foi impresso, é um manus­crito. Muito velho, realmente. Tem mais delas?

—  Não.

—  Pena. As pessoas não deveriam arrancar páginas dos livros assim.

—  Leonardo fez uma pausa. — A menos, talvez, que a coisa toda junta...

—  O quê?

—  Nada. Escute, o conteúdo desta página está em código; mas se minha teoria estiver correta... baseado nesses esboços pode muito bem ser que...

Ezio esperou, mas Leonardo estava perdido em um mundo próprio. Sentou-se e esperou com paciência enquanto Leonardo vasculhava e se debruçava sobre diversos livros e rolos de pergaminho, fazendo referên­cias cruzadas e anotações, tudo naquela caligrafia canhota estranha e espelhada que ele costumava usar. Ezio não era o único, supunha, a dor­mir com um olho aberto e o outro fechado. Pelo pouco que tinha visto naquele ateliê, se a Igreja soubesse de algumas das coisas que Leonardo estava fazendo, não tinha dúvidas de que seu amigo estaria em maus lençóis.

Por fim Leonardo olhou para cima. Mas àquela altura Ezio já estava começando a cochilar.

—  Impressionante — balbuciou Leonardo para si mesmo, e depois em voz mais alta: — Impressionante! Se transpusermos as letras e depois selecionarmos cada três...

Começou a trabalhar, depois de trazer para perto a lâmina, o braçal e o mecanismo. Puxou uma caixa de ferramentas sob a mesa, montou um tornilho e silenciosamente ficou absorto no trabalho. Uma hora se passou, duas... Ezio agora já estava dormindo tranquilamente, embala­do pelo ar abafado do quarto e pelos sons suaves que Leonardo produzia

enquanto trabalhava. E finalmente...

—  Ezio! Acorde!

—  Hã?

—  Olhe!

Leonardo apontou para a mesa. A lâmina da adaga, completamente restaurada, tinha sido encaixada no estranho mecanismo, que por sua vez estava preso ao braçal. Tudo estava polido e parecia ter sido feito recentemente, mas nada brilhava.

—  Acabamento fosco, foi o que escolhi — disse Leonardo. — Como uma armadura romana. Qualquer coisa que brilhe cintila no sol, e isso iria entregá-lo.

Ezio apanhou a arma e sentiu seu peso nas mãos. Era leve, mas a lâmina resistente tinha um equilíbrio perfeito. Ezio nunca tinha visto nada igual. Uma adaga montada sobre um mecanismo de mola que se escondia acima do pulso. Tudo o que precisava fazer era flexionar a mão e a lâmina saltava, pronta para retalhar ou perfurar, o que o usuário desejasse.

—  Achei que você fosse um pacifista — disse Ezio, pensando nos pássaros.

—  As ideias têm prioridade — disse Leonardo com decisão. — Quaisquer que elas sejam. Agora — acrescentou, tirando da caixa de ferramentas um martelo e um cinzel. — Você é destro, não é? Ótimo. Então por gentileza coloque seu anular direito nesse bloco.

—  O que está fazendo?

—  Desculpe, mas é assim que tem de ser. A lâmina foi projetada para garantir o total comprometimento de quem a usar.

—  O que quer dizer?

—  Só vai funcionar se você não tiver mais esse dedo.

Ezio o olhou, estarrecido. Sua mente relembrou diversas imagens: ele se lembrou da suposta amizade de Alberti com seu pai, de como Alberti mais tarde o confortara após a prisão de seu pai, das execuções, de sua própria missão. Travou a mandíbula.

—  Vá em frente.

—  Talvez eu devesse usar um cutelo. O corte é mais limpo assim.

—  Leonardo tirou um de uma gaveta na mesa. — Agora... coloque seu dedo... cosi.

Ezio enrijeceu o corpo enquanto Leonardo erguia o cutelo. Fechou os olhos quando o ouviu descer sobre o bloco de madeira — clunk! Mas não sentiu dor. Abriu os olhos. O cutelo estava preso no bloco a centí­metros de sua mão, que estava intacta.

—  Seu estúpido! — Ezio estava chocado e furioso com aquela brin­cadeira de mau gosto.

Leonardo ergueu as mãos:

—  Calma! Foi só uma brincadeirinha! Cruel, é verdade, mas sim­plesmente não pude resistir. Queria ver o quanto você estava decidido. Veja bem, antigamente o uso desse mecanismo realmente exigia que se fizesse tal sacrifício. Tinha algo a ver com um antigo rito de iniciação, acho. Mas fiz alguns ajustes, de modo que você pode continuar com o seu dedo. Olhe! A lâmina salta bem longe deles, e além disso acrescentei uma guarda que sai quando a lâmina se estende. Você só precisa se lem­brar de manter os dedos bem abertos enquanto ela estiver saindo! Por isso, pode ficar com o dedo. Mas talvez seja uma boa ideia usar luvas... a lâmina é afiada.

Ezio estava fascinado demais, e grato, para ficar bravo por muito tempo.

—  Isso é extraordinário — disse, abrindo e fechando a adaga várias vezes até conseguir cronometrar seu uso perfeitamente. — Incrível.

—  É, não é mesmo? — concordou Leonardo. — Tem certeza de que não tem mais nenhuma página igual a essa?

—  Desculpe.

—  Bom, escute, se encontrar mais alguma, por favor, me traga.

—  Tem minha palavra. E quanto lhe devo por...?

—  Foi um prazer. Muito instrutivo. Não há...

Foram interrompidos por alguém esmurrando a porta de entrada do estúdio. Leonardo correu até a frente do prédio enquanto Agniolo e Innocento observavam, com medo. A pessoa do lado de fora começou a berrar:

—  Abra, são ordens da Guarda Florentina!

—  Só um momento! — gritou de volta Leonardo, mas em tom mais baixo disse a Ezio: — Fique aqui.

Então abriu a porta e ficou na frente dela, bloqueando a passagem do guarda.

—  O senhor é Leonardo da Vinci? — perguntou o guarda em um tom autoritário, alto e intimidador.

—  O que posso fazer pelo senhor? — disse Leonardo, indo até a rua e obrigando o guarda a recuar.

—  Tenho ordens de lhe fazer algumas perguntas.

Leonardo a essa altura havia se movimentado de modo a deixar o guarda de costas para a porta do ateliê.

—  Qual o problema?

—  Tivemos uma denúncia de que o senhor acaba de ser visto encontrando-se com um conhecido inimigo da cidade.

—  Quem, eu? Encontrando-me? Ridículo!

—  Quando foi a última vez que o senhor viu ou falou com Ezio Auditore?

—  Quem?

—  Não banque o engraçadinho comigo. Sabemos que era próximo da família. Vendeu alguns de seus borrões para a matriarca. Será que preciso refrescar um pouco a sua memória?

Então o guarda deu um golpe na barriga de Leonardo com sua alabarda. Com um grito agudo de dor, Leonardo curvou-se e caiu no chão, onde o guarda o chutou.

—  E agora, podemos conversar? Não gosto de artistas. Bando de afeminados.

Mas isso dera a Ezio tempo o bastante para sair silenciosamente pela porta e se posicionar atrás do guarda. A rua estava deserta. A nuca suada do guarda estava exposta. Era uma oportunidade tão boa quan­to qualquer outra de experimentar o seu novo brinquedo. Ele ergueu a mão, soltou a trava do mecanismo e a lâmina silenciosa disparou. Com um único movimento preciso de sua mão direita, agora aberta, Ezio es­faqueou a lateral do pescoço do guarda. A lâmina recém-amolada estava extremamente afiada e atravessou a jugular do homem sem a menor resistência. O guarda caiu, morto antes mesmo de atingir o chão.

Ezio ajudou Leonardo a se levantar.

—  Obrigado — disse o artista, trêmulo.

—  Desculpe... não queria matá-lo... mas não havia tempo...

—  Às vezes não temos escolha. Mas eu já devia estar acostumado com isso a essa altura.

—  O que quer dizer?

—  Eu estava envolvido no caso Saltarelli.

Então Ezio se lembrou. Havia algumas semanas um jovem modelo, Jacopo Saltarelli, tinha sido vítima de uma denúncia anônima de prosti­tuição, e Leonardo, com mais três artistas, foi acusado de contratar seus serviços. O caso tinha sido deixado de lado por falta de provas, mas parte da lama tinha permanecido.

—  Mas não condenamos homossexuais por aqui — disse Ezio. — Ora, lembro que os germânicos até têm um apelido para eles: florenzer.

—  Mesmo assim é oficialmente contra a lei — retrucou Leonardo, secamente. — Você ainda pode ser multado. E com homens como Al- berti no comando...

—  E o corpo?

—  Oh — disse Leonardo. — Que golpe de sorte. Ajude-me a arrastá-lo para dentro antes que alguém nos veja. Vou colocá-lo com os outros.

—  Golpe de sorte? Outros?

—  A adega é bem fria. Eles se mantêm por uma semana. De vez em quando pego um ou dois cadáveres que ninguém mais quer no hospital. Nada oficial, claro. Mas posso abri-los e estudar um pouco, e isso ajuda na minha pesquisa.

Ezio olhou para o amigo, mais do que curioso.

—  O quê?

—  Acho que já lhe disse... gosto de descobrir como as coisas fun­cionam.

Eles arrastaram o corpo para longe de vista, e os dois assistentes de Leonardo levaram-no de modo grosseiro por uma porta, descendo alguns degraus de pedra.

—  Mas e se mandarem alguém atrás desse guarda... para descobrir o que aconteceu com ele?

Leonardo deu de ombros.

—  Negarei saber de alguma coisa. — Piscou. — Tenho alguns ami­gos poderosos, Ezio.

Ezio estava confuso. Ele disse:

—  Bom, você parece bastante confiante...

—  Apenas não comente isso com ninguém.

—  Fique tranquilo. E obrigado, Leonardo, por tudo.

—  Foi um prazer. E não se esqueça... — Um olhar faminto atraves­sou seus olhos. — Se encontrar mais páginas desse códex, traga para mim. Quem sabe que outros projetos elas poderão conter?

—  Prometo!

Ezio voltou para a casa de Paola com ânimo vitorioso, mas não se es­queceu de se misturar ao anonimato da multidão enquanto atravessava a cidade para o lado norte mais uma vez.

Paola o cumprimentou com certo alívio.

—  Você demorou mais tempo do que eu havia esperado.

—  Leonardo gosta de conversar.

—  Mas ele não fez só isso, espero?

—  Ah, não. Olhe! — E com um sorriso infantil lhe mostrou a adaga de pulso, estendendo-a a partir da manga da camisa com um floreio extravagante.

—  Impressionante.

—  Sim. — Ezio olhou para a adaga com admiração. — Vou precisar de um pouco de prática. Quero conservar todos os meus dedos.

Paola ficou séria.

—  Bem, Ezio, parece que você já está preparado. Já lhe ensinei todas as habilidades de que você precisa, Leonardo consertou sua arma. — Ela respirou fundo. — Agora só precisa cumprir aquilo a que se propôs.

—  Sim — respondeu Ezio em voz baixa, e sua expressão novamente se obscureceu. — A questão é como me aproximar de Messere Alberti.

Paola pareceu pensativa.

—  O duque Lorenzo voltou e não está nada contente com as exe­cuções que Alberti ordenou em sua ausência, mas não tem poder para desafiar o gonfalonelro. Porém, vai haver uma vernissage para o último trabalho de mestre Verrocchio no claustro de Santa Croce amanhã à noite. Toda a sociedade florentina estará lá, incluindo Alberti. — Ela o olhou. — Acho que você também deveria ir.

Ezio descobriu que a escultura a ser inaugurada era uma estátua de bronze de Davi, o herói bíblico com quem Florença se identificava, uma vez que a cidade estava situada entre dois Golias — Roma ao sul e os reis da França, famintos por terra, ao norte. Havia sido encomendada pelos Médici e deveria ser instalada no Palazzo Vecchio. O mestre começara a trabalhar nela três ou quatro anos antes, e havia um boato de que o rosto tinha sido modelado com base em um dos mais belos jovens aprendizes de Verrocchio na época — um certo Leonardo da Vinci. Seja como for, a animação era grande, e as pessoas já estavam conversando sobre o que vestiriam para a ocasião.

Ezio tinha outros assuntos a ponderar.

—  Cuide de minha mãe e de minha irmã na minha ausência — pe­diu a Paola.

—  Como se fossem minha própria família.

—  E, se alguma coisa me acontecer...

—  Tenha fé e nada acontecerá.

Ezio se dirigiu a Santa Croce com bastante antecedência na noite seguinte. Havia passado as horas anteriores se preparando e aperfei­çoando suas habilidades com a nova arma, até estar satisfeito e se consi­derar proficiente em seu uso. Só pensava na morte do pai e dos irmãos, e o tom cruel da voz de Alberti ao proferir a sentença soava com muita clareza em sua mente.

Ao se aproximar, viu dois homens que reconheceu andando à sua frente, um pouco afastados do pequeno grupo de guarda-costas cujo uniforme exibia um brasão de cinco círculos vermelhos sobre fundo amarelo. Pareciam estar discutindo, e ele se apressou a fim de poder ou­vir o que diziam. Pararam em frente ao pórtico da igreja e ele ficou por ali, fora de vista, escutando. Os homens conversavam em tom sigiloso. Um era Uberto Alberti; o outro, um jovem magro com vinte e pou­cos anos, de nariz proeminente e rosto determinado, estava ricamen­te vestido com um gorro e manto vermelhos, e, sobre eles, uma túnica cinza-prateada. Era o duque Il Magnifico, como seus súditos o chamavam, para desgosto dos Pazzi e de sua facção.

—  Não pode me multar por isso — dizia Alberti. — Agi com base nas informações recebidas e em provas irrefutáveis; agi conforme a lei e conforme os limites de meu dever!

—  Não! Você passou dos limites, gonfaloneiro, e aproveitou minha ausência de Florença para isso. Estou mais do que insatisfeito.

—  Quem é você para falar em limites? Apoderou-se desta cidade, tornou-se seu duque sem o consentimento formal da Signoria ou de qualquer um!

—  Não fiz isso!

Alberti se permitiu soltar uma gargalhada sarcástica.

—  Claro que vai dizer isso! Sempre o inocente! Muito conveniente para você. Você se rodeia em Careggi de homens que a maioria do resto de nós consideraria livres-pensadores perigosos, Ficino, Miran- dola e aquele detestável Poliziano! Mas, pelo menos, agora tivemos a chance de ver até onde vai realmente o seu poder... A lugar nenhum, em termos práticos. Isso foi uma lição valiosa para meus aliados e para mim.

—  Sim. Seus aliados, os Pazzi. É disso que se trata na verdade, não é?

Alberti observou as próprias unhas detalhadamente antes de res­ponder:

—  Tenha cuidado com o que diz, duque. Você pode acabar atraindo o tipo de atenção errada. — Mas ele não parecia tão certo disso.

—  Você é quem devia tomar cuidado com o que diz, gonfaloneiro. E sugiro que passe o mesmo conselho a seus associados. Encare isso como um aviso amigável.

Com isso, Lorenzo se afastou com seu guarda-costas na direção do claustro. Após um momento, depois de murmurar alguma maldição entre dentes, Alberti o seguiu. Ezio teve a impressão de que era quase como se os dois homens estivessem xingando um ao outro.

Para a ocasião, os claustros haviam sido envolvidos com pano dou­rado, que refletia de modo estonteante a luz de centenas de velas. Um grupo de músicos tocava em uma plataforma perto da fonte no meio do local, e em outra estava a estátua de bronze, uma figura de rara beleza com metade do tamanho de um homem real. Quando Ezio entrou, aproveitando as colunas e as sombras para se esconder, viu Lorenzo cumprimentando o artista. Ezio também reconheceu o misterioso ho­mem encapuzado que estivera na plataforma de execução ao lado de Alberti.

A certa distância estava o próprio Alberti, rodeado de membros ad­miradores da nobreza local. Pelo que pôde ouvir, Ezio entendeu que estavam cumprimentando o gonfaloneiro por livrar a cidade do câncer que era a família Auditore. Nunca imaginara que seu pai tivesse tantos inimigos — tanto quanto amigos — na cidade, mas notou que eles só tinham se atrevido a agir quando o principal aliado do pai, Lorenzo, estava ausente. Ezio sorriu quando uma das mulheres da nobreza disse a Alberti que esperava que o duque desse valor à sua integridade. Estava claro que Alberti não tinha gostado nem um pouco daquela sugestão. Então Ezio ouviu mais coisas.

—  E o outro filho? — perguntou um dos nobres. — Ezio, não é? Fugiu mesmo?

Alberti forçou um sorriso.

—  Esse garoto não representa nenhum perigo. Mãos vazias e cabeça mais vazia ainda. Antes do fim da semana será preso e executado.

Os companheiros ao redor riram.

—  Então, o que vai ser agora, Uberto? — perguntou outro homem.

—  O comando da Signoria, talvez?

Alberti abriu as mãos.

—  Será como Deus quiser. Meu único interesse é continuar servindo Florença com lealdade e diligência.

—  Bem, seja lá o que escolher, saiba que tem nosso apoio.

—  Isso é muito gratificante. Veremos o que o futuro traz. — Alberti estava radiante, mas se continha. — E agora, meus amigos, sugiro colo­carmos a política de lado e nos dar o prazer de desfrutar dessa obra de arte sublime, tão generosamente doada pelos nobres Médici.

Ezio esperou até os companheiros de Alberti se afastarem na direção do Davi. De sua parte, Alberti aceitou uma taça de vinho e observou a cena com uma mistura de satisfação e cautela nos olhos. Ezio sabia que esta era sua chance. Todos os olhos estavam na estátua, perto da qual Verrocchio se esforçava para fazer um pequeno discurso. Ezio deslizou para o lado de Alberti.

—  Aquele último elogio deve ter ficado engasgado nesse seu papo —  sibilou Ezio. — Mas é muito apropriado que você seja falso até o fim.

Reconhecendo-o, os olhos de Alberti se arregalaram de terror.

—  Você!

—  Sim, gonfaloneiro. Ezio. Para vingar a morte do pai, seu amigo, e de meus irmãos inocentes.

Alberti ouviu o clique seco de uma mola, um som metálico, e viu a lâmina contra a sua garganta.

—  Adeus, gonfaloneiro — disse Ezio friamente.

—  Espere — disse Alberti, sufocado. — Em minha posição, você teria feito o mesmo, para proteger quem você ama. Perdoe-me, Ezio, não tive escolha.

Ezio se inclinou mais para perto, ignorando o pedido. Sabia que o ho­mem tivera uma chance — uma chance honrada — e lhe dera as costas.

—  Acha que não estou protegendo aqueles que eu amo? Que mi­sericórdia você mostraria a minha mãe ou a minha irmã, se pudesse colocar as mãos nelas? E onde estão os documentos do meu pai, que lhe entreguei? Você deve tê-los escondido em um lugar seguro.

—  Você jamais vai pegá-los. Eu sempre os carrego comigo!

Alberti tentou empurrar Ezio para longe e tomou fôlego para cha­mar os guardas, mas Ezio enfiou a adaga em sua garganta e perfurou sua jugular. Agora incapaz até mesmo de gorgolejar, Alberti caiu de joe­lhos, as mãos instintivamente agarrando o pescoço em uma tentativa inútil de estancar o sangue que cascateava. Enquanto caía de lado, Ezio se inclinou rapidamente e cortou a bolsa do homem de seu cinto. Olhou ali dentro. Alberti, em sua última demonstração de orgulho arrogante, tinha dito a verdade. Os documentos estavam mesmo ali.

Mas agora tudo estava em silêncio. O discurso de Verrocchio ti­nha sido interrompido quando os convidados começaram a se virar e a olhar, sem compreender ainda o que havia acontecido. Ezio se levantou e os enfrentou.

—  Sim! O que estão vendo é real! O que estão vendo é vingança! A família Auditore ainda está viva. Eu continuo aqui! Ezio Auditore!

Ele prendeu a respiração ao mesmo tempo que uma voz de mulher ecoou: assassino!

Então o caos tomou conta do lugar. Os guarda-costas de Lorenzo rapidamente o rodearam, com as espadas desembainhadas. Os convi­dados corriam de lá para cá, alguns tentando fugir, os mais corajosos ao menos ensaiando uma tentativa de capturar Ezio, embora nenhum realmente ousasse. Ezio notou a figura encapuzada deslizando para as sombras, enquanto Verrocchio ficava ao lado de sua estátua com ar protetor. Mulheres choravam, homens gritavam, e os guardas da cidade Invadiram os claustros, incertos de quem deveriam perseguir. Ezio se aproveitou disso e subiu até o telhado do claustro pela colunata, saltan­do dele para um jardim abaixo, cujo portão aberto levava até a praça em frente à igreja. Ali uma multidão curiosa já se reunia, atraída pelo som da comoção lá dentro.

—  O que está acontecendo? — perguntou alguém a Ezio.

—  A justiça foi feita — respondeu Ezio, antes de correr de norte a oeste pela cidade até a segurança da mansão de Paola.

Parou no meio do caminho para checar o conteúdo da bolsa de Alberti. Pelo menos as últimas palavras do homem haviam sido sinceras. Tudo estava ali. E havia algo mais. Uma carta não entregue, escrita por Alberti. Talvez tivesse algo que Ezio ainda não soubesse: ele quebrou o selo e abriu o pergaminho.

Era, porém, uma nota pessoal de Alberti para a esposa. Enquanto lia, Ezio começou pelo menos a entender que tipo de forças podem levar um homem a quebrar sua integridade.

Meu amor,

Coloquei estes pensamentos no papel na esperança de que um dia eu possa ter coragem de dividi-los com você. Com o tempo, você sem dúvida saberá que traí Giovanni Auditore, acusei-o de traição e o condenei à morte. A História provavelmente julgará que esse ato foi motivado pela política e pela ambição, mas você precisa entender que não foi o destino que forçou minha mão, e sim o medo.

Quando os Médici roubaram todas as posses de nossa família, senti medo. Por você. Pelo nosso filho. Pelo futuro. Que esperança existe neste mundo para um homem sem meios? Quanto aos outros, me ofereceram dinheiro, terras e um título em troca de minha colaboração.

E foi assim que traí meu amigo mais próximo. Por mais repulsivo que tenha sido este ato, pareceu necessário no momento.

E mesmo agora, olhando para trás, não consigo ver outro caminho...

Ezio dobrou a carta com cuidado e a recolocou na bolsa. Ele voltaria a selá-la e providenciaria que fosse entregue. Estava decidido a não se inclinar à maldade, jamais.

 

—  Está feito — disse ele a Paola simplesmente.

Ela o abraçou por um instante e depois recuou.

—  Eu sei. Estou feliz por você estar a salvo.

—  Acho que é hora de deixar Florença.

—  Para onde você irá?    

—  O irmão de meu pai, Mario, tem uma propriedade perto de Monteriggioni. Irei para lá.

—  Já armaram uma enorme caçada atrás de você, Ezio. Estão co­locando cartazes de “procurado” com sua imagem em toda parte. E os oradores públicos já começam a falar contra você. — Ela fez uma pausa, pensativa. — Vou pedir que algumas pessoas de minha confiança ar­ranquem o máximo de cartazes que puderem, e os oradores podem ser subornados para mudar de assunto. — Ela pensou em outra coisa. — E é melhor eu providenciar documentos de viagem para vocês três.

Ezio balançou a cabeça, pensando em Alberti.

—  Que mundo é este em que vivemos, em que a crença pode ser manipulada com tanta facilidade?

—  Alberti ficou em uma posição que considerava impossível, mas deveria ter resistido. — Ela suspirou. — A verdade é negociada todos os dias. Isso é algo com que você vai precisar se acostumar, Ezio.

Ele segurou as mãos dela entre as suas.

—  Obrigado.

—  Florença será um lugar melhor agora, especialmente se o duque Lorenzo conseguir que um de seus homens seja eleito gonfaloneiro. Mas agora não há tempo a perder. Sua mãe e sua irmã estão aqui. — Ela se virou e bateu palmas. — Annetta!

Annetta surgiu dos fundos da casa, trazendo Maria e Claudia. Foi um encontro muito emotivo. Ezio percebeu que a mãe não estava bem recuperada e que ainda apertava a caixinha de penas dada por Petruccio.

Ela retribuiu o abraço do filho, ainda que Indiferente, enquanto Paola observava com um sorriso triste.

Claudia, por outro lado, agarrou-se a ele.

—  Ezio! Onde você esteve? Paola e Annetta têm sido ótimas, mas não nos deixam voltar para casa. E mamãe não falou uma palavra desde que... — Ela caiu no choro, lutando contra as próprias lágrimas. — Bem —   continuou, recuperando-se —, quem sabe agora papai não possa nos esclarecer tudo. Deve ter sido um terrível mal-entendido, não?

Paola olhou para ele.

—  Talvez seja a hora — disse ela suavemente. — Precisam saber logo da verdade.

O olhar de Claudia foi de Ezio para Paola e de volta para Ezio. Maria tinha se sentado perto de Annetta, que a envolvia com os bra­ços. Maria olhava para o nada, sorrindo de leve, acariciando a caixa de pereira.

—  O que foi, Ezio? — perguntou Claudia, com um tom de medo.

—  Algo aconteceu.

—  O que quer dizer?

Ezio ficou em silêncio, sem palavras, mas sua expressão disse tudo.

—  Oh, Deus, não!

—  Claudia...

—  Diga que não é verdade!

Ezio baixou a cabeça.

—  Não, não, não, não, não! — gritou Claudia.

—  Shhhh. — Ele tentou acalmá-la. — Fiz tudo o que eu podia, piccina.

Claudia enterrou o rosto no peito dele e chorou, com longos e so­fridos soluços, enquanto Ezio fazia o melhor que podia para consolá-la. Olhou para a mãe por sobre a cabeça da irmã, mas ela parecia não ter ouvido nada. Talvez, à sua própria maneira, ela já soubesse. Depois de todo o tumulto que tomara conta da vida de Ezio, ter de testemunhar a mãe e a irmã atiradas nas profundezas do desespero era quase o bastante para que ele desmoronasse. Mas ele ficou firme, abraçando a irmã pelo que pareceu uma eternidade, sentindo o peso do mundo em seus om­bros. Agora cabia a ele proteger a família — a honra do nome Auditore estava em suas mãos. Ezio não era mais um garoto... Conseguiu esfriar a cabeça.

—  Escute — disse ele a Claudia, depois que ela havia se acalmado um pouco. — Agora o que importa é sairmos daqui. Iremos para algum lugar protegido, onde você e mamma possam ficar em segurança. Mas para isso preciso que você tenha coragem. Você precisa ser forte por mim e cuidar de nossa mãe. Entendeu?

Ela ouviu, limpou a garganta, afastou-se dele um pouco e o olhou.

—  Sim.

—  Então precisamos fazer os preparativos agora mesmo. Vá arru­mar tudo de que precisa, mas leve pouca coisa: devemos partir a pé, uma carruagem seria arriscado demais. Use suas roupas mais simples, não podemos atrair atenção. E se apresse!

Claudia saiu com a mãe e com Annetta.

—  É melhor você tomar banho e se trocar — disse Paola a Ezio. — Vai se sentir melhor.

Duas horas depois, os documentos de viagem dos três estavam pron­tos e puderam partir. Ezio checou com cuidado o conteúdo de sua bolsa uma última vez. Talvez seu tio pudesse lhe explicar o que havia nos do­cumentos que ele pegara de Alberti e que obviamente tinham sido de importância vital para o gonfaloneiro. A nova adaga estava presa ao seu braço direito, escondida. Ele apertou o cinto. Claudia levou Maria para o jardim e ficou perto da parede onde estava a porta pela qual sairiam, ao lado de Annetta, que tentava não chorar.

Ezio se virou para Paola:

—  Adeus. E obrigado mais uma vez, por tudo.

Ela o abraçou e o beijou próximo à boca.

—  Fique bem, Ezio, e permaneça atento. Desconfio que o caminho à sua frente ainda é muito longo.

Ele fez uma reverência solene, depois colocou o capuz e se juntou à mãe e à irmã, pegando a bolsa que elas haviam arrumado. Eles deram um beijo de despedida em Annetta e logo depois já estavam na rua, caminhando na direção norte, Claudia segurando o braço da mãe. Por algum tempo permaneceram em silêncio, e Ezio refletiu sobre a grande responsabilidade que agora era obrigado a suportar. Rezou para que pudesse fazer o que fosse necessário, mas era difícil. Teria de permanecer forte, mas conseguiria pelo bem de Claudia e de sua pobre mãe, que parecia ter se retraído completamente para a própria mente.

Eles haviam chegado ao centro da cidade quando Claudia começou a falar — estava cheia de perguntas. Mas ele percebeu com satisfação que a voz da irmã estava firme.

—  Como isso pôde acontecer conosco? — perguntou ela.

—  Não sei.

—  Acha que um dia poderemos voltar?

—  Não sei, Claudia.

—  O que vai acontecer com nossa casa?

Ele balançou a cabeça. Não houvera tempo para fazer nenhum ar­ranjo, e mesmo que tivesse havido, com quem poderia tê-lo feito? Talvez o duque Lorenzo pudesse fechar a casa e montar guarda, mas era uma vã esperança.

—  Eles... eles receberam um funeral adequado?

—  Sim. Eu... eu mesmo providenciei. — Eles estavam cruzando o Arno e Ezio se permitiu olhar para o rio.

Por fim se aproximaram dos portões ao sul da cidade, e apesar de Ezio estar grato por terem conseguido ir tão longe sem serem detecta­dos, aquele era um momento perigoso, pois os portões eram muito bem guardados. Por sorte, os documentos com nomes falsos que Paola lhes forneceu passaram despercebidos, e os guardas estavam em busca de um jovem desesperado e sozinho, não de uma pequena família modes­tamente vestida.

Seguiram para o sul sem parar naquele dia, fazendo uma pausa apenas quando estavam bem longe da cidade para comprar pão, queijo e vinho em uma casa de fazenda e para descansar por uma hora à sombra de um carvalho na beira de um milharal. Ezio precisou conter a impaciência, pois eram quase 50 quilômetros até Monteriggioni e precisavam viajar no ritmo de sua mãe. Apesar de ser uma mulher forte no início dos 40 anos, o choque a envelhecera. Ele rezou para que quando eles chegassem à casa do tio Mario ela pudesse se restabelecer, apesar de ver que qualquer recu­peração seria lenta. Esperava que, se não tivessem nenhum contratempo, pudessem chegar à propriedade de Mario na tarde do dia seguinte.

Panaram aquela noite em um celeiro deserto, onde pelo menos havia feno limpo e quente. Jantaram os restos do almoço e fizeram com que Maria ficasse o mais confortável possível. Ela não reclamou — na verda­de, parecia ignorar completamente onde estava — mas quando Claudia tentou tomar a caixa de Petruccio de suas mãos para prepará-la para dor­mir, ela protestou violentamente e empurrou longe a filha, xingando-a como uma desbocada. Os irmãos ficaram chocados com aquilo.

No entanto, ela dormiu tranquilamente e pareceu refeita na manhã seguinte. Eles se lavaram em um regato, beberam um pouco das águas cristalinas como café da manhã e continuaram o caminho. Era um dia claro, agradavelmente quente mas com uma brisa refrescante, e eles fi­zeram bom progresso, passando apenas por um punhado de carroças na estrada e não encontrando ninguém além de um curioso grupo de tra­balhadores nos campos e pomares pelos quais andaram. Ezio comprou algumas frutas, o bastante pelo menos para Claudia e sua mãe, mas de todo modo ele não sentia fome — estava nervoso demais para comer.

Finalmente, no meio da tarde, sentiu-se encorajado ao ver a distân­cia a pequena cidade murada de Monteriggioni, banhada à luz do sol sobre uma colina. Na verdade, Mario governava o local. Mais dois ou três quilômetros e estariam em seu território. Animado, o pequeno gru­po apressou o passo.

—  Quase chegando — disse ele a Claudia com um sorriso.

—  Grazie a Dio — respondeu ela, sorrindo de volta.

Haviam começado a relaxar quando, em uma curva da estrada, uma figura familiar, acompanhada de uma dúzia de homens com uniformes azuis e dourados, bloqueou o caminho. Um dos guardas carregava o estandarte com o conhecido e odiado emblema de golfinhos dourados e cruzes sobre fundo azul.

—  Ezio! — cumprimentou o homem. — Buon giorno! E para sua família também... ou pelo menos para o que restou dela! Que surpresa agradável! — Ele fez um sinal para seus homens, que se espalharam pela estrada com as alabardas a postos.

—  Vieri!

—  O próprio. Assim que soltaram meu pai da prisão, ele ficou mais que feliz em financiar essa pequena caçada para mim. Eu estava magoado. Afinal, como você pode ter pensado em deixar Florença sem se despedir de mim?

Ezio deu um passo à frente, colocando Claudia e a mãe às suas costas.

—  O que você quer, Vieri? Achei que você estaria satisfeito com o que os Pazzi conseguiram.

Vieri abriu as mãos.

—  O que eu quero? Bem, difícil saber por onde começar. Tantas coi­sas! Vejamos... um palazzo maior, uma esposa mais bonita, muito mais dinheiro e... o que mais? Ah, sim! Sua cabeça! — Ele sacou a espada, fez um gesto para que os guardas ficassem a postos e avançou para Ezio.

—  Estou surpreso, Vieri. Você vai realmente lutar comigo sozinho? Mas é claro, seus valentões estão aí bem atrás de você!

—  Acho que você não é digno de minha espada — retrucou Vieri, embainhando-a de novo. — Acho que vou acabar com você simples­mente com os punhos. Desculpe se isso lhe for um incômodo, tesoro

—  acrescentou ele a Claudia —, mas não se preocupe, não vai demorar muito. Depois vejo o que posso fazer para consolá-la e, quem sabe, tal­vez sua mamãezinha também!

Ezio deu um passo à frente e socou a mandíbula de Vieri, de modo que seu inimigo cambaleou, pego de surpresa. Mas, depois de recuperar o equilíbrio, Vieri fez um sinal para seus homens recuarem e se atirou sobre Ezio com um rugido furioso, desferindo um golpe atrás do outro. Tal era a ferocidade do ataque de Vieri que, embora Ezio desviasse dos golpes com habilidade, ele mesmo não conseguiu acertar um que fos­se significativo. Os dois homens se embolaram lutando pelo controle, às vezes cambaleando para trás apenas para se atirar um sobre o outro novamente com vigor renovado. No fim, Ezio conseguiu usar a raiva de Vieri contra ele mesmo — ninguém jamais lutou com eficiência tomado pela raiva. Vieri ergueu o corpo para dar um golpe arrasador de direita; Ezio deu um passo à frente e o golpe atingiu inofensivamente seu om­bro. O impulso de Vieri o levou para a frente de modo descontrolado, e Ezio lhe deu uma rasteira que o fez cair rolando na terra. Sangrando e derrotado, Vieri se arrastou para a segurança atrás de seus homens e se levantou, tirando a poeira da roupa com as mãos raladas.

—  Cansei disso — disse, e berrou para os guardas: — Acabem com ele, e com as mulheres também. Posso fazer melhor do que esse girininho magricela e sua carcassa de mãe!

—  Coniglio! — berrou Ézio, ofegante, sacando a espada, mas os guardas já haviam formado um círculo ao redor deles e lhes apontavam as alabardas. Ele sabia que teria dificuldade em lutar com todos.

O círculo se fechou. Ezio continuou brandindo a espada e tentando manter as mulheres atrás de si, mas as coisas não estavam boas, e a risa­da desagradável de Vieri era triunfal.

De repente ouviu-se um assobio agudo e quase etéreo, e dois dos guardas à esquerda de Ezio caíram de joelhos e tombaram para a frente, deixando cair as armas. Das costas de cada um se projetava uma faca de atirar, enterrada até o cabo e obviamente mirada com pontaria mortal. O sangue fluía de suas camisas como flores carmesins.

Os outros recuaram assustados, mas não antes de mais alguns terem caído no chão, também com facas nas costas.

—  Que feitiçaria é essa? — urrou Vieri, aterrorizado, sacando a es­pada e olhando loucamente ao redor.

Uma gargalhada profunda e retumbante foi a resposta.

—  Não tem nada a ver com feitiçaria, garoto. Tem a ver com habili­dade! — A voz vinha de um arvoredo ali perto.

—  Apareça!

Um homem alto e barbudo com botas de cano alto e uma armadura leve surgiu do pequeno bosque. Atrás dele vieram vários outros, com trajes semelhantes.

—  Como quiser — disse ele, irônico.

—  Mercenários! — resmungou Vieri, depois se virou para seus pró­prios guardas. — O que estão esperando? Matem todos! Matem todos eles!

Mas o grandalhão deu um passo à frente, arrancou a espada de Vieri com uma graça inacreditável e quebrou a lâmina no joelho facilmente, como se ela fosse um graveto.

—  Acho que não vai ser uma boa ideia, pequeno Pazzi, embora eu deva dizer que você faz jus ao nome da sua família.

Vieri não respondeu, mas incitou mui homens à batalha. Meio re­lutantes, eles lutaram contra os estranhos, enquanto Vieri, pegando a alabarda de um dos guardas mortos, se aproximou de Ezio e retirou a espada de sua mão justamente quando ele a estava sacando.

—  Aqui, Ezio, use isso! — disse o grandalhão, atirando-lhe outra espada, que voou pelos ares e aterrissou onde ele desejava, no chão aos pés do rapaz. Sem perda de tempo, ele a pegou. Era uma arma pesada e ele precisou usar as duas mãos para empunhá-la, mas conseguiu cortar fora a lança da alabarda de Vieri.

O próprio Vieri, vendo que seus homens estavam sendo vencidos com facilidade pelos condottieri e que outros dois já estavam tombados, gritou, cancelando o ataque, e fugiu, lançando maldições. O grandalhão se aproximou de Ezio e das mulheres com um sorriso largo.

—  Estou feliz por ter encontrado você — disse ele. — Pelo jeito, cheguei bem na hora.

—  O senhor tem meus agradecimentos, seja lá quem for.

O homem tornou a gargalhar, e havia algo familiar na sua voz.

—  Eu o conheço? — perguntou Ezio.

—  Faz muito tempo, mas mesmo assim estou surpreso por não ter reconhecido o seu próprio tio!

—  Tio Mario?

—  O próprio!

Ele deu um grande abraço em Ezio e depois se aproximou de Maria e Claudia. O sofrimento nublou seu rosto quando ele viu em que condi­ções Maria estava.

—  Escute, criança — disse ele a Claudia. — Vou levar Ezio de volta ao castello agora, mas deixarei meus homens aqui para proteger vocês, e eles lhes darão de comer e beber. Vou enviar um batedor à frente que mandará uma carruagem para transportar as duas pelo resto do cami­nho. Vocês já andaram muito por um dia e posso ver que minha pobre cunhada está... — ele fez uma pausa antes de acrescentar com delicade­za: — ...cansada.

—  Obrigada, tio Mario.

—  Combinado, então. Nos veremos muito em breve.

Ele se virou deu ordens a seus homens, e então pôs um dos braços ao redor de Ezio e o guiou na direção de seu castelo, que dominava a pequena cidade.

—  Como sabia que eu estava a caminho? — perguntou o rapaz.

Mario pareceu meio evasivo.

—  Ah... um amigo em Florença enviou um mensageiro a cavalo à frente de vocês. Mas eu já sabia o que tinha acontecido. Não tenho po­derio para invadir Florença, mas, agora que Lorenzo voltou, rezemos para que consiga manter os Pazzi sob controle. É melhor você me atua­lizar sobre o destino de meu irmão e dos meus sobrinhos.

Ezio fez uma pausa. A lembrança da morte de seus parentes ainda assombrava a parte mais sombria de suas memórias.

—  Eles... foram executados por traição. — Ele suspirou. — Eu esca­pei por puro acaso.

—  Meu Deus — balbuciou Mario, o rosto contorcido de dor. — Sabe por que isso aconteceu?

—  Não... mas espero que você possa me ajudar a encontrar as res­postas. — Então Ezio contou ao tio a respeito do baú escondido no palazzo da família e seu conteúdo, de sua vingança sobre Alberti e dos documentos que tomara dele. — O que parece mais importante é uma relação de nomes — acrescentou, depois explodiu em tristeza: — Não posso acreditar que isso nos abateu!

Mario deu um tapinha em seu braço.

—  Sei um pouco sobre os negócios de seu pai — disse. Ezio perce­beu que Mario não havia mostrado grande surpresa quando lhe contou sobre o baú escondido na câmara secreta. — Vamos entender isso tudo. Mas também precisamos providenciar para que sua mãe e sua irmã es­tejam bem. Meu castelo não é um bom lugar para mulheres de nenhuma espécie, e soldados como eu nunca se assentam de verdade, porém, há um convento a cerca de um quilômetro daqui, onde elas ficarão comple­tamente seguras e serão bem-cuidadas. Se você concordar, nós as man­daremos para lá, pois eu e você temos muito o que fazer.

Ezio concordou. Providenciaria para que fossem para lá e convence­ria Claudia de que era a melhor solução por enquanto, pois sabia que ela não desejaria ficar em tamanha reclusão por muito tempo.

Aproximaram-se da cidadezinha.

—  Achei que Monteriggioni era inimiga de Florença — disse Ezio.

—  Não tanto de Florença quanto dos Pazzi — respondeu o tio. — Mas você tem idade suficiente para saber como são as alianças entre as cidades-Estado, sejam grandes ou pequenas. Num ano há amizade, no outro, inimizade, e no ano seguinte, amizade de novo. E isso parece con­tinuar para sempre, como um jogo maluco de xadrez. Mas você vai gos­tar daqui. O povo é honesto e trabalhador, e os bens que produzimos são sólidos e duradouros. O padre é um homem bom, que não bebe muito e cuida da própria vida. E eu cuido da minha, quando estou perto dele, embora nunca tenha sido um filho muito devotado da Igreja. O melhor de tudo é o vinho: o melhor chianti que você jamais experimentou na vida vem dos meus vinhedos. Venha, só mais um pouco e já estaremos lá.

O castelo de Mario era a antiga sede dos Auditore e fora construído nos anos 1250, embora no local originalmente houvesse uma constru­ção muito mais antiga. Mario havia refinado o castelo e feito acréscimos, e hoje ele tinha mais a aparência de uma opulenta quinta, embora os muros fossem altos, com vários centímetros de espessura, e bem forti­ficados. Na frente, no lugar de um jardim, havia um grande campo de treinamento, onde Ezio viu duas dúzias de jovens armados entretidos em diversos exercícios para melhorar suas técnicas de combate.

—  Casa, dolce casa — disse Mario. — Você não vem aqui desde que era pequeno. Aconteceram algumas mudanças desde então. O que acha?

—  Muito impressionante, tio.

O resto do dia foi muito ocupado. Mario mostrou o castelo a Ezio, organizou suas acomodações e providenciou para que Claudia e Maria ficassem abrigadas em segurança no convento ali perto, cuja abadessa era sua velha amiga (e, segundo se dizia, uma amante de tempos atrás). Mas na manhã seguinte ele foi convocado bem cedo ao escritório do tio, um quarto grande e de pé-direito alto, mobiliado com uma pesada mesa de carvalho e cadeiras, com paredes repletas de mapas, armaduras e armas.

—  É melhor você ir logo à cidade — disse Mario, com um tom pro­fissional. — Para se equipar como deve. Vou mandar um de meus ho­mens com você. Volte depois que terminar e começaremos.

—  Começaremos o que, tio?

Mario pareceu surpreso.

—  Achei que você tinha vindo para cá treinar.

—  Não, tio... não era essa a minha intenção. Foi o primeiro local se­guro em que pude pensar quando precisamos fugir de Florença. Mas mi­nha intenção era levar minha irmã e minha mãe para ainda mais longe.

Mario pareceu sério.

—  E seu pai? Você não acha que ele gostaria que você terminasse o trabalho dele?

—  Como assim? Como banqueiro? Os negócios da família acaba­ram: a Casa dos Auditore não existe mais, a menos que o duque Lorenzo tenha conseguido mantê-la a salvo das mãos dos Pazzi.

—  Não era nisso que eu estava pensando — começou Mario, e de­pois se interrompeu. — Quer dizer que Giovanni nunca lhe disse nada?

—  Desculpe, tio, mas não tenho ideia do que o senhor está falando.

Mario balançou a cabeça.

—  Não sei em que seu pai estava pensando. Talvez tenha achado que ainda não era hora, mas no momento os acontecimentos superaram quaisquer considerações. — Ele olhou para Ezio com seriedade. — Pre­cisamos ter uma conversa longa e definitiva. Deixe comigo os documen­tos que você tem na sua bolsa. Preciso analisá-los enquanto você vai até a cidade se equipar. Aqui está uma lista do que irá precisar e dinheiro para comprar tudo.

Confuso, Ezio foi à cidade na companhia de um dos sargentos de Mario, um veterano grisalho chamado Orazio, e sob sua orientação comprou do armeiro uma adaga de combate e uma armadura leve e, do médico local, ataduras e um kit básico de primeiros-socorros. Voltou ao castelo e encontrou Mario impaciente à sua espera.

—  Salute — cumprimentou Ezio. — Fiz como mandou.

—  E rápido também. Ben fatto! Agora precisamos ensinar você a lutar direito.

—  Tio, me perdoe, mas como lhe disse, não tenho intenção de ficar.

Mario mordeu o lábio.

—  Escute, Ezio, você mal conseguiu se defender contra Vieri. Se eu não tivesse chegado na hora certa... — Ele se interrompeu. — Bem, vá se quiser, mas antes aprenda pelo menos as habilidades e conhecimentos de que precisará para se defender, ou não vai durar nem uma semana na estrada.

Ezio ficou em silêncio.

—  Se não por mim, faça pelo bem de sua mãe e de sua irmã — in­sistiu Mario.

Ezio analisou suas opções, mas teve de admitir que seu tio tinha razão.

—  Está bem, então — concordou. — Já que o senhor foi generoso o bastante para me equipar.

Mario sorriu e lhe deu um tapinha no ombro.

—  Bom rapaz! Ainda vai me agradecer um dia.

Nas semanas posteriores, seguiu-se o mais intensivo treinamento no uso de armas, mas, enquanto aprendia novas técnicas de combate, Ezio também descobria mais sobre a história da família e os segredos que seu pai não tivera tempo de lhe contar. E, quando Mario lhe deixou usar a biblioteca, ele aos poucos foi ficando inquieto com o fato de que poderia estar à beira de um destino muito mais importante do que havia acredi­tado ser possível.

—  O senhor disse que meu pai era mais do que apenas um banquei­ro? — perguntou ao tio.

—  Muito mais — respondeu Mario gravemente. — Seu pai era um assassino de alta qualificação.

—  Não pode ser... meu pai sempre foi financista, um homem de ne­gócios! Como pode ter sido um assassino?

—  Não, Ezio, ele era muito mais do que isso. Nasceu e foi criado para matar. Era um membro antigo da Ordem dos Assassinos. — Ma­rio hesitou. — Sei que você deve ter descoberto mais a respeito disso tudo na biblioteca. Precisamos conversar sobre os documentos que lhe foram confiados, e que você, graças a Deus, teve a presença de espírito de recuperar das mãos de Alberti. Aquela relação de nomes... não é um catálogo de devedores, sabe. São os nomes de todos os responsáveis pelo assassinato de seu pai, e são homens que fazem parte de uma conspira­ção ainda maior.

Ezio lutou para absorver aquilo tudo. Tudo o que acreditava saber sobre o pai, sobre sua família, tudo parecia meia-verdade. Como o pai pôde esconder aquilo? Era tudo tão inconcebível, tão estranho. Ezio es­colheu as palavras com cuidado, pois seu pai deve ter tido seus motivos para manter aquilo em segredo.

—  Aceito que existem mais coisas a respeito de meu pai do que eu sabia, e perdoe-me por duvidar de sua palavra, mas por que a necessi­dade de um segredo tão grande?

Mario fez uma pausa antes de responder.

—  Você conhece a Ordem dos Cavaleiros Templários?

—  Já ouvi falar.

—  Foi fundada muitos séculos atrás, logo depois da primeira cruza­da, e se tornou uma força de combate de elite dos guerreiros de Deus. Eram realmente monges de armadura. Faziam voto de abstinência e de pobreza. Mas os anos passaram e seu status mudou. Com o tempo, eles se envolveram nas finanças internacionais e se saíram muito bem nisso. Outras ordens de cavaleiros — os Hospitalários e os Teutônicos — co­meçaram a olhá-los com desconfiança, e seu poder passou a ser motivo de preocupação, até mesmo para reis. Eles fundaram uma base no sul da França e planejavam fundar seu próprio Estado. Não pagavam im­postos, financiavam seu próprio exército particular e se achavam su­periores a todos. Finalmente, há quase duzentos anos, o rei Filipe, o Belo, da França, resolveu enfrentá-los. Houve um terrível expurgo: os Templários foram presos e levados para longe, massacrados e finalmen­te excomungados pelo papa. Mas não puderam ser eliminados; tinham quinze mil postos na Europa. Porém, depois que suas propriedades e seus bens foram confiscados, os Templários pareceram desaparecer, seu poder parecia ter sido destruído.

—  O que aconteceu com eles?

Mario balançou a cabeça.

—  Aquilo foi um estratagema para garantir a própria sobrevivência, claro. Eles passaram à clandestinidade: reuniram os bens que tinham salvado, mantiveram sua organização e se dedicaram mais do que nunca a seu verdadeiro objetivo.

—  E que objetivo era esse?

—  Que objetivo é esse, você quer dizer! — Os olhos de Mario brilha­ram. — Sua intenção é nada menos que dominar o mundo. E somente

uma organização se dedica a detê-los: a Ordem dos Assassinos, à qual seu pai e eu temos a honra de pertencer.

Ezio precisou de um instante para absorver aquela informação.

—  E Alberti era um dos Templários?

Mario assentiu solenemente.

—  Sim. Bem como todos os outros na lista de seu pai.

—  E... Vieri?

—  Ele também é um deles, e seu pai, Francesco, e todo o clã dos Pazzi.

Ezio refletiu a respeito.

—  Isso explica muita coisa... — comentou. — Tem algo que eu ainda não lhe mostrei...

Ele desenrolou a manga da camisa para revelar sua adaga secreta.

—  Ah! — exclamou Mario. — Você foi sábio em não revelar isso até ter certeza de que poderia confiar completamente até mesmo em mim. Eu estava mesmo me perguntando o que tinha sido feito dela. Vejo que você a consertou. Era de seu pai, dada a ele por nosso pai, e a ele pelo pai dele. Quebrou-se em um confronto no qual seu pai se envolveu há muitos anos, mas nunca conseguiu encontrar um artesão habilidoso ou confiável o bastante para restaurá-la. Você se saiu muito bem, rapaz.

—  Mesmo assim — disse Ezio. — Toda essa conversa de Assassinos e Templários parece algo vindo de uma fábula antiga. Cheira a fantasia.

Mario sorriu.

—  Como algo vindo de um velho pergaminho coberto por uma es­crita misteriosa, talvez?

—  O senhor conhece a página do códex?

Mario deu de ombros.

—  Já se esqueceu? Estava com os papéis que você me entregou.

—  Pode me dizer o que é? — Ezio de certa forma relutava em en­volver seu amigo Leonardo naquilo, a menos que fosse estritamente necessário.

—  Bem, a pessoa que consertou sua lâmina deve ter conseguido ler pelo menos parte do que está aí — respondeu Mario, mas ergueu a mão quando Ezio estava prestes a falar. — Não vou lhe fazer perguntas. Estou Vendo que deseja proteger alguém e respeitarei isso. Mas nessa página há mais coisas do que apenas as instruções sobre como funciona sua arma. As páginas do códex estão hoje espalhadas pela Europa. Trata-se de um guia do funcionamento interno da Ordem dos Assassinos, sua origem, seu propósito e suas técnicas. É, se quiser chamar assim, nosso Credo. Seu pai acreditava que o códex continha um segredo poderoso, algo capaz de mudar o mundo. — Ele parou para pensar. — Talvez tenha sido por isso que foram atrás dele.

Ezio estava surpreso com aquelas informações: era muita coisa para absorver de uma vez.

—  Assassinos, Templários, esse códex estranho...

—  Serei seu guia, Ezio. Mas primeiro você precisa aprender a abrir sua mente, e sempre se lembre disto: nada é verdade. Tudo é permitido.

Mario então não lhe disse mais nada, embora Ezio o tenha pressio­nado. Em vez disso, o tio continuou a submetê-lo ao mais rigoroso pro­cesso de treinamento militar, e do nascer ao pôr do sol ele se exercitava com o jovem condottieri no campo, caindo na cama a cada noite exausto demais para pensar em qualquer coisa além de dormir. Mas então, um dia...

—  Muito bem, sobrinho! — disse-lhe o tio. — Acho que você está pronto.

Ezio ficou satisfeito.

—  Obrigado, tio, por tudo o que me deu.

A resposta do tio foi dar um grande abraço no garoto.

—  Você é da família! Foi meu dever e um prazer!

—  Estou feliz por ter me convencido a ficar.

Mario o olhou de modo penetrante.

—  Então, reconsiderou sua decisão de partir?

Ezio devolveu o olhar.

—  Desculpe, tio, mas minha decisão está tomada. Pela segurança de mamma e de Claudia, ainda tenho intenção de chegar ao litoral e em­barcar num navio até a Espanha.

Mario não escondeu sua insatisfação.

—  Perdão, sobrinho, mas não ensinei as técnicas que você conhece

agora para minha própria diversão ou para seu beneficio exclusivo. En­sinei-lhe isso para que esteja melhor preparado para lutar contra nossos inimigos.

—  E, se eles me encontrarem, é o que farei.

—  Então — falou Mario amargamente — quer ir embora? Jogar fora tudo pelo que seu pai lutou e pelo qual morreu? Negar sua própria herança? Bem! Não posso fingir que não estou desapontado, extrema­mente desapontado. Mas que assim seja. Orazio irá levá-lo ao convento quando você julgar que seja a hora certa de sua mãe viajar, e o ajudará em seu caminho. Eu lhe desejo buona fortuna.

Com isso, Mario virou as costas para o sobrinho e foi embora.

Mais tempo se passou, e Ezio descobriu que precisava dar à sua mãe bastante paz e silêncio para que ela pudesse se recuperar. Com o coração pesado, organizou pessoalmente os preparativos para partir. Enfim fez o que imaginava ser sua última visita ao convento para ver a mãe e a irmã antes de levá-las consigo, e encontrou-as melhor do que jamais imagi­nara. Claudia tinha feito amizade com algumas das freiras mais jovens, e ficou claro para Ezio, para sua surpresa e quase nenhuma satisfação, que ela estava começando a se sentir atraída por aquela vida. Enquanto isso, sua mãe se recuperava lenta mas constantemente, e a abadessa se opôs ao saber de seus planos, dizendo que sua mãe precisava de descanso e que ainda não deveria ser levada embora dali.

Então, quando retornou ao castelo de Mario, estava cheio de dúvi­das, ciente de que haviam aumentado com o tempo.

Ao chegar, Monteriggioni estava agitada por algum tipo de prepa­rativos militares que agora pareciam estar chegando ao fim. A visão da­quilo distraiu Ezio. Seu tio não estava à vista, mas ele conseguiu seguir Orazio até a sala dos mapas.

—  O que está acontecendo? — perguntou. — Onde está meu tio?

—  Está se preparando para a batalha.

—  O quê? Contra quem?

—  Ah, ele teria lhe contado se achasse que você ficaria, mas todos nós sabemos que não é essa a sua intenção.

—  Bem...

—  Escute. Seu velho amigo Vieri de' Pazzi se instalou em San Gimignano. Está triplicando a guarnição militar de lá e já avisou que, assim que estiver pronto, virá destruir Monteriggioni. Então nós vamos para lá primeiro, esmagar a cobrinha e ensinar aos Pazzi uma lição que eles não vão esquecer tão depressa.

Ezio respirou fundo. Com certeza aquilo mudava tudo. E talvez fos­se o destino — o estímulo que ele inconscientemente andara buscando.

—  Onde está meu tio?

—  Nos estábulos.

Ezio já estava na metade do caminho para a saída da sala.

—  Ei! Para onde você vai?

—  Para os estábulos! Deve haver um cavalo para mim também!

Orazio sorriu enquanto o observava sair.

 

Mario, com Ezio cavalgando a seu lado, liderou suas forças até perto de San Gimignano no meio de uma noite da primavera de 1477. Era o início do que viria a ser um confronto difícil.

—  Diga de novo o que fez você mudar de ideia — pediu Mario, ain­da muito satisfeito pelo sobrinho ter mudado de ideia.

—  Só porque o senhor gosta de ouvir.

—  E se eu gostar mesmo? Mas, enfim, eu sabia que Maria levaria muito tempo para se recuperar e que ela e sua irmã estão seguras, como você bem sabe.

Ezio sorriu.

—  Eu quis assumir a responsabilidade. Como já lhe disse, Vieri está incomodando o senhor por minha causa.

—  E como eu já lhe disse, meu jovem, você certamente tem uma grande ideia de sua própria importância. A verdade é que Vieri está nos incomodando porque ele é um Templário e nós somos Assassinos.

Enquanto falava, Mario observava as altas torres de San Gimignano, que haviam sido construídas bem próximas umas das outras. As estru­turas quadrangulares pareciam quase arranhar o céu, e Ezio teve a es­tranha sensação de já ter visto aquilo antes — mas devia ter sido num sonho ou em outra vida, pois não tinha nenhuma lembrança exata da ocasião.

O alto de cada uma das torres estava iluminado com tochas, e havia muitas outras visíveis nas ameias das muralhas da cidade e perto de seus portões.

—  Vieri está bem fortificado — disse Mario. — E, a julgar pelas tochas, parece que pode estar nos esperando. É uma pena, mas não estou surpreso. Afinal, assim como eu, ele tem espiões. — Ele parou.

—  Estou vendo arqueiros nas baterias, e os portões estão fortemente guardados. — Continuou a examinar a cidade. — Mesmo assim, parece que não tem homens suficientes para proteger todos os portões. O do lado sul parece estar menos defendido. Deve ser o local onde ele acha menos provável que ocorra um ataque, então é por ali que vamos atacar.

Ele ergueu um dos braços e cutucou os flancos do cavalo. Os solda­dos avançaram atrás dele. Ezio seguiu ao seu lado.

—  O que nós vamos fazer é o seguinte — explicou Mario, com a voz apressada. — Meus homens e eu vamos entreter os guardas no portão enquanto você encontra um jeito de passar sobre a muralha e abrir os portões por dentro. Precisamos agir em silêncio e rapidamente.

Ele desprendeu uma bandoleira de facas de atirar e a entregou a Ezio.

—  Leve isso. Use-as para despachar os arqueiros.

Quando se aproximaram o bastante, desmontaram. Mario liderou um grupo de seus melhores soldados na direção do bando de guardas postados na entrada sul da cidade. Ezio os deixou e atravessou rapida­mente os últimos cem metros a pé, usando os arbustos para se esconder, até chegar à base da muralha. Estava com seu capuz e, à luz das tochas no portão, viu que a sombra formada pelo capuz na parede se parecia estranhamente com a cabeça de uma águia. Olhou para cima e viu que a muralha se erguia escarpada acima dele, por quinze metros ou mais. Não dava para ver se havia alguém nas ameias lá em cima. Prenden­do bem a bandoleira, começou a escalar. Era difícil, pois a muralha era de pedra trabalhada e tinha poucos pontos de apoio para os pés, mas as canhoneiras perto do topo lhe ofereceram um suporte firme para se apoiar enquanto olhava cuidadosamente por sobre as ameias. Ao longo das baterias à sua esquerda, dois arqueiros, de costas para ele, estavam inclinados sobre a muralha, com os arcos a postos. Viram o início do ataque de Mario e se preparavam para atirar no condottieri Assassino. Ezio não hesitou. Era a vida deles ou a de seus amigos, e então deu valor às novas técnicas que seu tio tinha insistido em lhe ensinar. Rapidamen­te, concentrando a mente e os olhos na quase escuridão, puxou duas facas e as atirou, uma depois da outra, com precisão mortal. A primeira atingiu um dos arqueiros na nuca — o golpe o matou instantaneamen­te. O homem caiu por sobre as ameias sem um sussurro sequer. A faca seguinte voou um pouco mais baixo, atingindo o segundo homem em cheio nas costas com tanta força que um grito rouco, ele caiu para a frente dentro da escuridão abaixo.

Lá embaixo, ao pé de uma escadaria estreita de pedra, estava o por­tão. Agora ele ficou satisfeito pelas forças de Vieri não terem sido sufi­cientes para guardar a cidade com eficiência absoluta, pois não havia nenhum soldado a postos guardando os portões pelo lado de dentro. Ele desceu os degraus de três em três, parecendo quase voar, e logo lo­calizou a alavanca que operava as trancas das portas de carvalho sólido de três metros de altura. Ele puxou-a, e para isso precisou de toda a sua força, pois não tinha sido projetada para ceder à força de um único ho­mem. Por fim, terminou o trabalho e ergueu um dos enormes anéis que estavam presos nas portas à altura dos ombros. Ele cedeu e os portões começaram a se abrir, revelando ao fazê-lo que Mario e seus homens estavam acabando de completar sua tarefa sangrenta. Dois dos Assassi­nos estavam mortos, mas vinte dos homens de Vieri foram enviados à presença do Criador.

—  Muito bem, Ezio! — disse Mario em um grito contido. Até então nenhum alarme parecia ter sido dado, mas era apenas uma questão de tempo. — Vamos! — continuou Mario. — Silêncio agora! — Virou-se para um de seus sargentos e disse: — Volte e traga a força principal.

Então ele liderou o caminho com cuidado pelas ruas silenciosas

—  Vieri devia ter determinado algum tipo de toque de recolher, pois não havia ninguém à vista. Em uma ocasião, quase toparam com uma patrulha dos Pazzi. Esconderam-se nas sombras e a esperaram passar, depois se apressaram por trás para atacar os homens e eliminá-los com eficiência clínica.

E agora? — perguntou Ezio ao tio.

—  Precisamos localizar o capitão da guarda daqui. O nome dele é Roberto. Ele saberá onde está Vieri. — Mario estava demonstrando mais preocupação do que o habitual. — Isso está demorando demais. É me­lhor nos dividirmos. Olhe, eu conheço Roberto. A essa hora da noite, ou está bebendo em sua taverna preferida ou já está bêbado, dormindo na cidadela. Vá para a cidadela. Leve Orazio e uma dúzia de bons homens com você. — Ele olhou para o céu, que estava começando a clarear, e sentiu o gosto do vento, que já carregava o frio de um novo dia dentro de si. — Me encontre na catedral antes de o galo cantar. E não esqueça: estou deixando você no comando desse bando de rufiões! — Sorriu afe­tuosamente para seus homens, levou seu próprio grupo e desapareceu por uma rua que levava morro acima.

—  A cidadela fica a noroeste da cidade... senhor — disse Orazio. Ele sorriu, tal como os outros. Ezio sentiu tanto a obediência deles a Mario quanto suas dúvidas por terem ficado sob o comando de um oficial tão inexperiente.

—  Então vamos — respondeu Ezio com firmeza. — Me sigam. Ao meu sinal.

A cidadela formava um dos lados da praça principal da cidade, não muito longe da catedral e perto do topo da pequena colina onde a ci­dade havia sido construída. Eles chegaram até lá sem dificuldade, mas, antes de entrarem, Ezio notou alguns soldados de Pazzi guardando a entrada. Fazendo sinal para seus homens recuarem, ele se aproximou, mantendo-se nas sombras e movendo-se tão silenciosamente quanto uma raposa, até estar perto o bastante para ouvir a conversa entre eles. Era claro que estavam insatisfeitos com a liderança de Vieri, e o mais veemente dos dois estava a toda carga.

—  Eu lhe digo uma coisa, Tebaldo — dizia o primeiro. — Não estou nada feliz com esse filhote Vieri. Acho que ele não é capaz nem de mirar direito ao mijar em um balde, muito menos de defender uma cidade contra um exército decidido. Quanto ao capitano Roberto, bebe tanto que é como uma garrafa de chianti vestida de uniforme!

—  Você fala demais, Zohane — advertiu Tebaldo. — Lembre-se do que aconteceu com Bernardo quando ele se atreveu a abrir a boca.

O outro se controlou e assentiu, com bom-senso.

—  Tem razão... ouvi dizer que Vieri mandou cegar o homem.

—  Bom, eu gostaria de conservar a minha vista, muito obrigado, en­tão é melhor parar com essa conversa. Não sabemos quantos de nossos camaradas pensam o mesmo, e Vieri tem espiões por toda parte.

Satisfeito, Ezio voltou para sua própria tropa. Uma guarnição in­satisfeita raramente é uma guarnição eficiente, mas não havia garantia nenhuma de que Vieri não comandasse um grupo estratégico de leais servidores dos Pazzi. Quanto ao resto dos homens de Vieri, Ezio já tinha aprendido por si mesmo o quanto pode ser decisivo o medo de um comandante. Porém a tarefa agora era conseguir acesso à cidadela. Ezio estudou a praça: fora o pequeno grupo de guardas dos Pazzi, estava es­cura e vazia.

—  Orazio?

—  Sim, senhor?

—  Poderia lutar contra esses homens e acabar com eles? Rápida e silenciosamente. Vou tentar subir no telhado e ver se colocaram mais guardas no pátio.

—  Foi para isso que viemos, senhor.

Deixando Orazio e seus soldados darem conta dos guardas, Ezio checou se ainda havia facas de atirar suficientes na bandoleira e correu um pouco até uma rua lateral adjacente, onde escalou até um telhado próximo e dele pulou para o teto da cidadela, construído ao redor de seu pátio interno. Ele agradeceu a Deus por Vieri ter evidentemente negligenciado colocar homens nas torres altas das casas das famílias dominantes que pontuavam a cidade, pois daquele ponto vantajoso os guardas poderiam ter observado tudo o que estava acontecendo. Mas ele também sabia que ganhar o controle daquelas torres era o primeiro objetivo da força principal de Mario. Do telhado da cidadela, viu que o pátio estava deserto, então pulou para o topo de sua colunata e de lá para o chão. Abrir os portões e posicionar seus homens, que haviam arrastado os corpos da patrulha derrotada de Pazzi e os esconderam nas sombras da colunata, foi uma manobra fácil. Para evitar suspeitas, tornaram a fechar os portões da cidadela depois de entrar.

A cidadela pareceu, para todos os intentos e propósitos, deserta. Mas logo em seguida ouviu-se o som de vozes vindas da praça em frente e outro grupo de soldados dos Pazzi apareceu. Abriram os portões e entraram no pátio, apoiando entre eles um homem parrudo, beirando o gordo, que obviamente estava bêbado.

—  Onde os guardas do portão se meteram? — queria saber o ho­mem. — Não venham me dizer que Vieri passou por cima de minhas ordens e mandou todos para mais uma de suas patrulhas malditas!

—  Ser Roberto — implorou um dos homens que o apoiavam. — Não está na hora de o senhor dormir um pouco?

—  Quequecê quer dizer? Voltei para cá sem problema, não foi? A noite ainda é uma criança!

Os recém-chegados conseguiram sentar o chefe na beira de uma fonte no meio do pátio e se reuniram ao redor, incertos do que fazer em seguida.

—  Qualquer um diria que não sou um bom capitão! — disse Rober­to, com pena de si mesmo.

—  Que besteira, senhor! — retrucou o homem mais perto dele.

—  Vieri acha que eu não sou — disse Roberto. — Devia ouvir como ele fala comigo! — Fez uma pausa, olhando ao redor e tentando focar antes de prosseguir, choroso: — É só uma questão de tempo até eu ser substituído, ou coisa pior! — Parou de novo, fungando. — Cadê essa maldita garrafa? Me dá isso aqui! — Ele bebeu um gole grande, olhou para a garrafa para ter certeza de que estava vazia e atirou-a longe. — É tudo culpa de Mario! Não acreditei quando nossos espiões disseram que ele tinha abrigado o sobrinho, resgatado o cretino das mãos do pró­prio Vieri! Agora Vieri mal consegue pensar direito de tanta raiva, e sou obrigado a enfrentar meu velho compagno! — Olhou ao redor com os olhos turvos. — O bom e velho Mario! Fomos irmãos de armas um dia, sabiam disso? Mas ele se recusou a servir os Pazzi comigo, embora o dinheiro fosse melhor, o quartel também, os equipamentos... tudo! Que bom seria se ele estivesse aqui agora. Por duas patacas, eu...

—  Com licença — interrompeu Ezio, dando um passo à frente.

—  O qu...? — disse Roberto. — Quem é você?

—  Deixe que eu me apresente. Sou o sobrinho de Mario.

—  O quê? — rugiu Roberto, lutando para ficar de pé e tentando agar­rar sem sucesso a espada. — Prendam esse pirralho! — Ele se inclinou para perto de Ezio, que pôde sentir o cheiro de vinho azedo e de cebola no seu hálito. — Sabe do que mais, Ezio? — sorriu ele. — Eu devia lhe agrade­cer. Agora que peguei você, Vieri vai me dar tudo o que eu quiser. Quem sabe eu me aposente. Uma pequena villa agradável no litoral, talvez...

—  Não conte com os ovos ainda, capitano — disse Ezio.

Roberto girou o corpo e viu o que seus homens já haviam descober­to: estavam rodeados por mercenários Assassinos, todos armados até os dentes.

—  Ah — suspirou Roberto, afundando de novo. Todo o espirito de luta parecia tê-lo abandonado.

Depois que os guardas de Pazzi foram algemados e levados para a masmorra da cidadela, Roberto ganhou uma nova garrafa e se sentou com Ezio à mesa numa sala perto do pátio para conversar. Finalmente, Roberto se convenceu.

—  Você quer Vieri? Eu lhe digo onde ele está. Já estou perdido mes­mo! Vá até o Palazzo do Golfinho na praça perto do portão norte. Ali está tendo uma reunião...

—  Com quem? Você sabe?

Roberto deu de ombros.

—  Mais gente da confiança dele de Florença, acho. Supostamente trazendo reforços.

Foram interrompidos por Orazio, que parecia preocupado.

—  Ezio! Rápido! Está acontecendo uma batalha perto da catedral. É melhor a gente ir!

—  Certo! Vamos!

—  E ele?

Ezio olhou para Roberto.

—  Deixe-o. Acho que talvez ele finalmente tenha escolhido o lado certo.

Assim que entrou na praça, Ezio ouviu o barulho da luta vindo do espaço aberto em frente à catedral. Aproximando-se, viu que os homens de seu tio, de costas para ele, estavam sendo forçados a recuar por uma grande brigada de tropas dos Pazzi. Usando as facas de atirar para abrir caminho, ele foi para o lado do tio e lhe contou o que havia descoberto.

—  Bom para Roberto! — disse Mario, quase perdendo o ritmo, en­quanto cortava e retalhava os oponentes. — Sempre lamentei o fato de ele ter ido se juntar aos Pazzi, mas enfim ele fez a coisa certa. Vá! Descu­bra o que Vieri está aprontando.

—  Mas e o senhor? Vai conseguir derrotar todos eles?

Mario pareceu sério.

—  Por um tempo, pelo menos, mas nossa força principal a essa altu­ra já deve ter tomado a maioria das torres e então vai poder vir para cá se juntar a nós. Por isso se apresse, Ezio! Não deixe Vieri escapar!

O palazzo ficava no extremo norte da cidade, longe da luta, mas os guardas dos Pazzi ali eram numerosos — provavelmente os tais reforços de que Roberto havia falado. Ezio precisou escolher muito bem seu ca­minho para evitá-los.

Chegou bem a tempo: a reunião parecia ter terminado, e ele viu quatro homens paramentados indo em direção a um grupo de cavalos amarrados. Ezio reconheceu Jacopo de’ Pazzi, seu sobrinho, Francesco, o próprio Vieri e — conteve um grito de surpresa — o espanhol alto que estivera presente na execução de seu pai. Ainda mais surpreendente para Ezio foi notar os símbolos de um cardeal bordados no ombro de seu manto. Os homens pararam perto dos cavalos e Ezio conseguiu se esconder em uma árvore próxima para tentar escutar parte da conversa. Teve de se esforçar e ouviu apenas trechos, mas foi o bastante para ficar intrigado.

—  Então está tudo acertado — dizia o espanhol. — Vieri, você fica aqui e restabelece nossa posição assim que possível. Francesco vai or­ganizar nossas forças em Florença para que esteja tudo pronto quando chegar o momento certo de atacar, e você, Jacopo, precisa estar prepa­rado para acalmar o povo depois que tomarmos o poder. Não apressem as coisas: quanto mais planejadas forem nossas ações, maior a probabi­lidade de sucesso.

—  Mas, Ser Rodrigo — disse Vieri —, o que devo fazer com aquele ubriacone, Mario?

—  Livre-se dele! Ele não pode saber de nossas intenções de modo algum.

O homem que chamaram de Rodrigo sentou-se sobre a sela de seu cavalo. Ezio viu seu rosto com clareza por um momento, os olhos frios, o nariz aquilino, e calculou que devia ter em torno de 40 anos.

—  Ele sempre foi um problema — desdenhou Francesco. — Igual àquele bastardo irmão dele.

—  Não se preocupe, padre — disse Vieri. — Logo eu vou reunir os dois... na morte!

—  Venham — disse o homem a quem chamaram de Rodrigo. — Já ficamos tempo demais. — Jacopo e Francesco montaram em seus cor­céis ao lado dele e se viraram na direção do portão norte, que os guardas de Pazzi já estavam abrindo. — Que o Pai da Compreensão possa guiar

a todos nós!

Saíram e os portões tornaram a se fechar. Ezio se perguntou se agora seria uma boa oportunidade para tentar matar Vieri, mas ele estava muito bem protegido e, além do mais, talvez fosse melhor pren­dê-lo e interrogá-lo. Porém, gravou com cuidado os nomes dos ho­mens que ouvira na intenção de acrescentá-los à lista de inimigos do pai, pois obviamente havia uma conspiração em curso e todos estavam envolvidos.

Nesse meio-tempo, foi interrompido pela chegada de outro esqua­drão de guardas de Pazzi, cujo líder foi correndo até Vieri.

—  O que foi? — vociferou Vieri.

—  Commandante, trago más notícias. Os homens de Mario Auditore ultrapassaram nossas últimas defesas.

Vieri fez uma expressão de desprezo.

—  Isso é o que ele acha. Veja — apontando para a força poderosa de homens ao redor de si — mais homens chegaram de Florença. Vamos varrer esse verme de San Gimignano antes de o dia nascer! — Ergueu a voz para os soldados reunidos. — Corram para enfrentar o inimigo! — gritou. — Acabem com aquela escória!

Com um grito rouco de início de batalha, o exército dos Pazzi fez formação atrás dos oficiais e, das proximidades do portão norte, seguiu na direção sul da cidade para encontrar os condottieri de Mario. Ezio rezou para que o tio não fosse pego de surpresa, pois agora estaria em grande desvantagem numérica. Vieri, porém, ficou para trás, e, sozinho agora a não ser por seu guarda-costas pessoal, voltava para a segurança do palazzo. Sem dúvida ainda tinha alguns assuntos pertinentes à reu­nião para concluir ali, ou talvez estivesse voltando para vestir a armadu­ra e entrar no combate. De qualquer modo, logo o sol nasceria: era agora ou nunca. Ezio saiu da escuridão e tirou o capuz da cabeça.

—  Bom dia, Messere de’ Pazzi — cumprimentou. — A noite foi agitada?

Vieri se virou para olhá-lo e um misto de choque e terror tremu­lou em seu rosto por um momento. Quando recuperou a compostura, explodiu:

—  Eu devia imaginar que você iria aparecer de novo! Faça as pazes com Deus, Ezio, tenho coisas mais importantes que você para tratar agora. Você não passa de um peão a ser eliminado desse tabuleiro.

Os guardas de Vieri foram até Ezio, que já estava preparado para isso. Derrubou o primeiro com sua última faca de atirar — a pequena lâmina atravessou o ar com um som agudo diabólico. Então sacou a espada e a adaga de combate e enfrentou o restante. Cortou e golpeou como um louco em meio a um redemoinho de sangue, com movimen­tos econômicos e letais, até que o último homem, muito ferido, se afas­tou mancando para um lugar seguro. Então Vieri veio para cima dele portando um machado de combate com aparência ameaçadora que ele retirou da sela de seu cavalo, que continuava amarrado onde os outros corcéis haviam estado há pouco. Ezio desviou para evitar que o ma­chado o atingisse em algum ponto mortal, mas o golpe, embora apenas tenha batido em sua armadura, fez com que ele cambaleasse e caísse, soltando a espada. Logo Vieri ficou sobre ele, chutando a espada para longe e erguendo o machado por sobre a cabeça. Reunindo o que resta­va de suas forças, Ezio tentou chutar a virilha do adversário, mas Vieri se antecipou e saltou para trás. Enquanto Ezio aproveitava a chance para se levantar, Vieri atirou o machado em seu pulso esquerdo, fazendo-o soltar a adaga de combate e abrindo um corte profundo no dorso de sua mão. Vieri sacou a própria espada e a adaga.

—  Se quer um serviço bem-feito, faça você mesmo — disse Vieri. — Às vezes me pergunto para que pago esses assim chamados guarda-cos­tas. Adeus, Ezio! — E se aproximou de seu inimigo.

A dor tinha atravessado o corpo de Ezio quando o machado atin­giu sua mão, fazendo-o ficar tonto e com a visão turva. Mas então ele se lembrou do que havia aprendido e o instinto assumiu o comando. Sacudiu-se e, quando Vieri se preparava para dar o golpe derradeiro em seu oponente supostamente desarmado, Ezio flexionou a mão direita, abrindo os dedos. Na mesma hora, o mecanismo da adaga secreta do pai fez um clique e a lâmina saltou por entre seus dedos, estendendo-se completamente de modo letal, o metal fosco camuflando a lâmina pe­rigosa. O braço de Vieri estava erguido. Seu flanco, desprotegido. Ezio enfiou a adaga na lateral do corpo dele: a lâmina deslizou sem encontrar a menor resistência.

Vieri por um momento ficou desfigurado, depois, soltando as ar­mas, caiu de joelhos. O sangue fluía como uma cascata por entre suas costelas. Ezio o agarrou enquanto ele caía no chão.

—  Você não tem muito tempo, Vieri — disse com pressa. — Agora é a sua chance de fazer as pazes com Deus. Diga, o que vocês estavam discutindo? Quais são seus planos?

Vieri respondeu com um sorriso demorado.

—  Você nunca vai nos derrotar — disse ele. — Nunca vai derrotar os Pazzi e com certeza nunca vai derrotar Rodrigo Bórgia.

Ezio sabia que dali a alguns instantes estaria falando com um cadá­ver. Insistiu com ainda mais urgência.

—  Diga, Vieri! Meu pai descobriu seus planos? É por isso que sua gente o matou?

Mas o rosto de Vieri já estava cinzento. Ele agarrou com força o braço de Ezio. Um filete de sangue escorreu do canto de sua boca e seus olhos começavam a ficar vidrados. Mesmo assim, ele conseguiu dar um sorriso irônico.

—  Ezio, o que você está esperando, uma confissão? Desculpe, mas simplesmente não tenho... tempo... — Ele fez força para inspirar, e mais sangue fluiu de sua boca. — Uma pena mesmo. Em outro mundo, quem sabe até não tivéssemos sido... amigos.

Ezio sentiu a pressão em seu braço afrouxar. Então a dor de seu feri­mento cresceu de novo, junto com a lembrança inescapável da morte de seus parentes, e ele foi tomado por uma fúria gelada.

—  Amigos? — exclamou ao cadáver. — Amigos! Seu merda! Seu corpo devia ser deixado num canto da estrada para apodrecer como um corvo morto! Ninguém vai sentir sua falta! Só queria que você tivesse sofrido mais! Eu...

—  Ezio — chamou uma voz forte e gentil atrás dele. — Basta! Mostre um pouco de respeito a esse homem.

Ezio se levantou e se virou para confrontar o tio:

—  Respeito? Depois de tudo o que aconteceu? O senhor acha que, se ele tivesse vencido, não teria enforcado todos nós na árvore mais próxima?

Mario estava acabado. coberto de terra e sangue, no entanto foi firme.

—  Mas ele não venceu, Ezio. E você não é igual a ele. Não se torne um homem como ele. — Ele se ajoelhou perto do corpo e, com a mão enluvada, fechou os olhos do cadáver. — Que a morte dê a paz que sua pobre e raivosa alma buscava. — Requiescat in pace.

Ezio observou em silêncio. Quando o tio se levantou, perguntou:

—  Acabou?

—  Não — respondeu Mario. — Ainda estão combatendo ferozmen­te. Mas a maré está virando em nosso favor: Roberto trouxe alguns de seus homens para nosso lado e agora é só uma questão de tempo. — Ele fez uma pausa. — Você com certeza vai ficar triste de saber que Orazio morreu.

—  Orazio...!

—  Ele me contou sobre sua coragem antes de morrer. Honre esse elogio, Ezio.

—  Vou tentar. — Ezio mordeu o lábio. Embora não soubesse daquilo conscientemente, era outra lição que tinha aprendido.

—  Preciso me juntar aos meus homens. Mas tenho algo para você, algo que vai lhe ensinar um pouco mais sobre nosso inimigo. É uma car­ta que tomamos de um dos padres daqui. Estava dirigida ao pai de Vieri, mas Francesco evidentemente já não está mais aqui para recebê-la. — Entregou a Ezio um papel com o selo quebrado. — Esse mesmo padre vai realizar os ritos fúnebres. Vou pedir que um de meus sargentos pro­videncie tudo.

—  Tenho algumas coisas para lhe contar...

Mario ergueu a mão.

—  Mais tarde, quando terminarmos o que viemos resolver aqui. Depois desse contratempo, nossos inimigos não vão mais conseguir se movimentar com a velocidade que esperavam, e Lorenzo vai ficar mui­tíssimo atento em Florença. Por enquanto, temos vantagem sobre eles.

—  Parou. — Mas preciso voltar. Leia a carta, Ezio, e reflita sobre o que ela diz. E vá cuidar de sua mão.

Ele saiu. Ezio se afastou do corpo de Vieri e sentou-se embaixo da árvore onde havia se escondido momentos antes. As moscas já pairavam sobre o rosto do morto. Ezio abriu a carta e leu:

Messere Francesco:

Fiz como o senhor solicitou e falei com seu filho. Concordo com a sua avaliação, embora apenas em parte. Sim, Vieri é precipitado e inclinado a agir sem pensar; e tem o costume de tratar seus homens como brinque­dos, como peças de xadrez por cujas vidas ele mostra tanta consideração quanto se fossem de mármore ou madeira. E suas punições são realmente cruéis: recebi relatos de pelo menos três homens que foram desfigurados.

Mas não acredito que ele, como o senhor diz, não tenha conserto. Ao contrário, acredito que a solução seja simples. Ele busca a sua aprova­ção. Sua atenção. Essas explosões são resultado de insegurança nascida de um sentimento de inadequação. Ele fala do senhor com carinho e frequência, e expressa o desejo de ser mais próximo do senhor. Por isso, se é vulgar, grosseiro e raivoso, acredito que é simplesmente porque deseja ser notado. Ele deseja ser amado.

Aja como julgar mais apropriado com base na informação que lhe passei aqui, mas agora preciso pedir que terminemos essa correspondên­cia. Se ele descobrir a natureza de nossa conversa, temo candidamente pelo que possa me acontecer.

Seu, em confiança, Padre Giocondo.

Ezio ficou sentado por um longo tempo depois de ler a carta, pen­sando. Olhou para o corpo de Vieri. Havia uma bolsa presa ao seu cinto, que Ezio não havia notado antes. Andou até lá e a pegou, voltando à árvore para examinar o que continha. Havia uma pequena imagem de uma mulher, alguns florins em um bolso, um caderninho em branco, e, cuidadosamente enrolado, um pergaminho. Com mãos trêmulas, Ezio o abriu e imediatamente o reconheceu. Era uma página do códex...

O sol já estava mais alto e um grupo de monges apareceu com uma maca de madeira. Nela colocaram o corpo de Vieri e o levaram embora.

Enquanto a primavera voltava a virar verão, e as mimosas e azaleias abriam caminho para os lírios e as rosas, uma paz inquieta voltou à Tos- cana. Ezio ficou satisfeito de ver que a mãe continuava a se recuperar, embora seus nervos tivessem sido tão desgastados pela tragédia que agora o filho considerava que talvez ela jamais deixasse a paz e a tran­quilidade do convento. Claudia estava pensando em fazer os primeiros votos que a levariam ao noviciado — uma perspectiva que não o agra­dou, mas ele sabia que a irmã era tão teimosa quanto ele, e que tentar impedi-la a faria apenas fortalecer sua decisão.

Mario passara o tempo dedicando-se a garantir que San Gimignano e seu território, agora sob o controle sóbrio e reformado de seu velho camarada Roberto, não mais oferecessem ameaça, e que os últimos bol- sões de resistência dos Pazzi fossem destruídos. Monteriggioni estava a salvo, depois das comemorações da vitória, os condottieri de Mario re­ceberam uma licença bem merecida, e a usaram à sua escolha, para pas­sar tempo com suas famílias, beber ou sair com prostitutas, mas jamais negligenciaram seu treinamento — os escudeiros mantiveram as armas afiadas e as armaduras sem ferrugem, enquanto os pedreiros e carpin­teiros conservaram em ordem as fortificações tanto da cidade quanto do castelo. Ao norte, a ameaça externa que a França poderia oferecer estava em suspenso desde que o rei Luís começara a se ocupar de eliminar os últimos invasores ingleses e enfrentar os problemas causados pelo du­que de Borgonha; enquanto ao sul o papa Sisto IV, um potencial aiiado dos Pazzi, estava ocupado demais promovendo os parentes e supervi­sionando a construção de uma magnífica capela no Vaticano para dar importância a qualquer interferência na Toscana.

No entanto, Mario e Ezio tinham tido muitas e longas conversas so­bre a ameaça que sabiam não estar eliminada.

—  Preciso lhe contar mais a respeito de Rodrigo Bórgia — disse Ma­rio ao sobrinho. — Ele nasceu em Valência, mas estudou Direito em Bo­lonha e nunca mais voltou à Espanha, pois aqui está em posição melhor de perseguir suas ambições. No momento, é um membro de destaque na cúria de Roma, mas está sempre de olho em algo melhor. É um dos homens mais poderosos da Europa, porém, é mais do que um político esperto dentro da Igreja. — Ele abaixou a voz. — Rodrigo é o líder da Ordem dos Templários.

Ezio sentiu seu coração pular.

—  Isso explica sua presença no assassinato de meu pobre pai e de meus irmãos. Ele estava por trás disso.

—  Sim, e não deve ter se esquecido de você, principalmente porque foi em grande parte por sua causa que ele perdeu a base de poder na Toscana. E ele sabe de sua coragem e do perigo que você representa. Esteja bem ciente, Ezio, de que ele irá mandar matá-lo assim que tiver oportunidade.

—  Então preciso enfrentá-lo, se eu quiser um dia ser livre.

—  Precisamos ficar de olho nele, mas antes temos outros assuntos mais próximos de casa para tratar e já os evitamos por tempo suficiente. Venha ao meu gabinete.

Foram do jardim onde estavam passeando para uma das salas do castelo, situada no fim de um corredor que levava à sala dos mapas. Era um lugar silencioso, escuro, mas não sombrio, cheio de livros e mais pa­recido com o gabinete de um accademico do que com o de um coman­dante militar. As prateleiras também continham artefatos que pareciam ter vindo da Turquia ou da Síria, além de volumes que, Ezio percebeu pelas lombadas, estavam escritos em árabe. Perguntou ao tio sobre eles, mas recebeu apenas uma resposta extremamente vaga.

Lá dentro, Mario destrancou um baú e de lá puxou uma pasta de documentos de couro que protegia um maço de papéis. Entre eles havia alguns que Ezio reconheceu na mesma hora.

—  Aqui está a lista de seu pai, meu rapaz... Bem, agora eu não devo mais chamá-lo assim, pois você já é um homem, um verdadeiro guer­reiro. A ela acrescentei os nomes que você me disse em San Gimignano.

—  Ele olhou para o sobrinho e lhe entregou o documento. — É hora de você começar seu trabalho.

—  Cada um dos Templários aí listados deverá cair sob minha espada — disse Ezio, sem se alterar. Seu olhar brilhou ao ver o nome de Fran- cesco de’ Pazzi. — É com ele que começo. É o pior do seu clã e fanático em seu ódio pelos nossos aliados, os Médici.

—  Tem razão em dizer isso — concordou Mario. — Então, fará os preparativos para ir a Florença?

—  É o que decidi.

—  Ótimo. Mas você precisa aprender mais coisas se quiser estar to­talmente preparado. Venha.

Mario se virou para uma estante e apertou um botão escondido em sua lateral. Ela deslizou sobre dobradiças silenciosas e abriu-se, revelan­do uma parede de pedra em que diversas aberturas quadradas tinham sido marcadas. Cinco estavam preenchidas. O resto estava vazio.

Os olhos de Ezio brilharam quando ele viu que os cinco espaços preenchidos estavam ocupados com páginas do códex!

—  Vi que o reconheceu — disse Mario. — E não me surpreendo. Afinal, seu pai lhe deixou uma página, que seu talentoso amigo de Flo­rença conseguiu decodificar, e há estas que Giovanni conseguiu encon­trar e traduzir antes de morrer.

—  E a que peguei junto com o cadáver de Vieri — acrescentou Ezio.

—  Porém seu conteúdo ainda é um mistério.

—  É verdade, você tem razão. Não sou o acadêmico que seu pai era, embora com cada página acrescentada e com a ajuda dos livros em meu gabinete eu esteja chegando mais perto de descobrir o mistério. Olhe! Está vendo como as palavras se cruzam de uma página para a seguinte e como os símbolos se juntam?

Ezio olhou com atenção enquanto um sentimento esquisito de lem­brança inundava-lhe o cérebro, como se um instinto hereditário estives­se despertando. Com isso os rabiscos nas páginas do códex pareceram ganhar vida, suas intenções se desenrolaram ante seus olhos.

—  Sim! E parece haver parte de uma imagem embaixo... olhe, é como um mapa!

—  Giovanni, e agora eu também, descobriu o que parece ser um tipo de profecia escrita ao longo dessas páginas, mas ao que se refere ainda preciso descobrir. É algo a respeito de “um pedaço do Éden” e foi escrito há muito tempo, por um Assassino como nós, cujo nome parece ter sido Altair. E tem mais. Ele escreveu que é “algo escondido embaixo da terra, algo tão poderoso quanto antigo” — mas ainda precisamos descobrir o que é.

—  Aqui está a página de Vieri — disse Ezio. — Coloque-a na parede.

—  Ainda não! Vou copiá-la antes de você partir, mas leve a original ao seu amigo de mente brilhante em Florença. Ele não precisa conhecer tudo, ou pelo menos aquilo que já temos até agora, e na verdade pode ser perigoso para ele ter tal conhecimento. Mais tarde o pergaminho de Vieri se juntará aos outros desta parada c estaremos um pouco mais perto de decifrar o mistério.

—  E as outras páginas?

—  Ainda precisam ser redescobertas — disse Mario. — Não se preo­cupe. Você precisa se concentrar em realizar o que está imediatamente à sua frente.

 

Ezio tinha preparativos a fazer antes de partir de Monteriggioni. Havia muito mais a aprender ao lado do tio sobre o Credo dos Assassinos, a fim de se preparar melhor para a tarefa que enfrentaria. Também preci­sava se assegurar de que em Florença estaria pelo menos relativamente seguro, sem falar na questão de onde iria ficar. Os espiões de Mario na cidade haviam relatado que o palazzo de sua família tinha sido fechado e coberto de tábuas, embora permanecesse sob a proteção e a guarda da família Médici e por isso não houvesse sido molestado. Vários atrasos e contratempos deixaram Ezio impaciente, até que, numa manhã de mar­ço, seu tio lhe disse para arrumar as malas.

—  Foi um inverno longo... — disse Mario.

—  Longo demais — interrompeu Ezio.

—  ...mas agora está tudo acertado — continuou o tio. — E preciso lembrá-lo de que a preparação meticulosa é responsável pela maioria das vitórias. Agora preste atenção! Tenho uma amiga em Florença que providenciou um abrigo seguro para você, não muito longe da casa dela.

—  Quem é, tio?

Mario pareceu misterioso.

—  O nome não importa a você, mas tem minha palavra de que pode confiar nela como confia em mim. Seja como for, no momento ela está fora da cidade. Se precisar de ajuda, entre em contato com sua antiga governanta, Annetta, cujo endereço não mudou e que agora trabalha para os Médici. Mas seria melhor que o mínimo possível de pessoas em Florença soubesse de sua presença por lá. Porém, há alguém que você precisa contatar, embora não seja fácil. Escrevi o nome dele aqui. Você precisa perguntar sobre ele com discrição. Tente perguntar ao seu amigo cientista enquanto estiver lhe mostrando a página do códex, mas não o deixe saber demais, para seu próprio bem! E, falando nisso, aqui está o endereço de onde você vai ficar. — Entregou a Ezio dois papéis e uma bolsa de couro carregada. — E cem florins para começar, além de seus

documentos de viagem, que você vai encontrar em ordem. A melhor

notícia de todas é que você já pode partir amanhã!    

Ezio usou o pouco tempo que lhe restava para ir ao convento e 80 despedir da mãe e da irmã, empacotar todas as suas roupas e equipa­mentos essenciais e se despedir do tio e dos homens e mulheres da cida­de que haviam sido seus companheiros e aliados por tanto tempo. Mas foi com espírito alegre e determinado que selou o cavalo e atravessou os portões do castelo na aurora da manhã seguinte. Foi uma cavalgada longa, de um dia inteiro, mas sem contratempos. Na hora do jantar ele já estava alojado em seu novo abrigo e pronto para se familiarizar no­vamente com a cidade que tinha sido seu lar a vida inteira, mas que não via há tanto tempo. No entanto, aquele não era um retorno sentimental, e, tão logo ele redescobriu onde estava pisando e se permitiu dar um passeio triste pela fachada da antiga casa de sua família, foi direto até o ateliê de Leonardo da Vinci, sem esquecer de levar consigo a página do códex de Vieri de Pazzi.

Depois da partida de Ezio, Leonardo havia ampliado o ateliê e en­globara a propriedade que ficava à esquerda da sua, um armazém com muito espaço para os resultados físicos das criações do artista se mate­rializarem. Duas longas mesas sobre cavaletes corriam de ponta a ponta, iluminadas por lamparinas a óleo e janelas altas nas paredes — Leonar­do queria evitar olhares curiosos. Nas mesas, pendurados nas paredes e espalhados parcialmente montados pelo meio da sala havia uma con­fusão de aparelhos, máquinas e peças de equipamentos de engenharia, e pregados às paredes havia centenas de desenhos e esboços. Em meio a esse pandemônio de criatividade, meia dúzia de assistentes passavam apressados e trabalhavam sob os olhos atentos dos ligeiramente mais ve­lhos, mas não menos atraentes, Agniolo e Innocento. Aqui, um modelo de carroça, porém redonda, repleta de armas e coberta com uma abó­bada encouraçada com o formato de uma tampa de panela levantada, em cima da qual havia um buraco por onde um homem poderia enfiar a cabeça e ver em que direção a máquina estava indo; ali, o desenho de um barco com forma de tubarão, mas com uma estranha torre nas costas. O mais esquisito é que, pelo desenho, parecia que o barco estava navegando embaixo d'água. Mapas e esboços anatômicos mostrando tudo, desde o funcionamento dos olhos até o coito, passando pelo em­brião no ventre, e muitas outras coisas que estavam além da imaginação de Ezio, lotavam todo o espaço de parede disponível, e as amostras e objetos empilhados pelas mesas lembraram a Ezio do caos organizado que ele vira na sua última visita ali, porém multiplicado por cem. Havia imagens precisas de animais, dos familiares aos sobrenaturais, e projetos para tudo, de bombas d’água até muralhas de defesa.

Mas o que chamou a atenção de Ezio estava pendurado no teto, não muito alto. Lembrou-se de que já tinha visto uma versão daquilo an­tes, na forma de um modelo menor, mas este parecia uma versão com metade do tamanho para o que poderia um dia vir a ser a máquina de verdade. Ainda parecia o esqueleto de um morcego, e algum tipo de pele de animal resistente tinha sido bem esticada sobre as molduras de duas projeções de madeira. Perto estava um cinzel com alguns papéis presos a ele. Entre as anotações e os cálculos, Ezio leu:

...mola de chifre ou de aço presa sobre madeira de salgueiro coberta de junco.

O impulso mantém as aves em seu voo. Durante o voo as asas não pressio­nam o àr e inclusive se erguem para cima.

Se um homem pesa 90 quilos e está nesse ponto n, e ergue a asa com o bloco dele, que tem 70 quilos, com poder de 136 quilos ele se ergueria com duas asas...

Tudo aquilo era grego para Ezio, mas pelo menos ele conseguiu ler o que estava escrito — Agniolo devia ter transcrito a partir dos rabis­cos impenetráveis de Leonardo. Naquele momento percebeu Agniolo olhando-o e rapidamente voltou a atenção para outra coisa. Sabia o quanto Leonardo gostava de guardar seus mistérios.

Então o próprio Leonardo chegou, vindo da direção de seu antigo ateliê, e foi até Ezio, abraçando-o calorosamente.

—  Meu caro Ezio! Você voltou! Estou tão feliz de ver você. Depois de tudo o que aconteceu, pensamos que... — Ele deixou a frase pairar e pareceu perturbado.

Ezio tentou alegrá-lo de novo.

—  Olhe só para esse lugar! Claro que não consigo entender nada do que está aqui, mas suponho que você saiba o que está fazendo! Desistiu da pintura?

—  Não — respondeu Leonardo. — Só estou finalizando... outras coi­sas... que prenderam minha atenção.

—  Estou vendo. E você expandiu o ateliê. Deve estar prosperando. Os últimos dois anos foram bons para você.

Porém, naquele momento Leonardo viu tanto tristeza quanto seve­ridade sob o rosto de Ezio.

—Talvez — respondeu ele. — Eles me deixam em paz. Imagino que achem que serei útil para quem quer que ganhe o controle absoluto um dia... Não que eu imagine que alguém um dia consiga isso. — Mudou de assunto. — Mas e quanto a você, meu amigo?

Ezio o olhou.

—  Teremos tempo, espero, para um dia sentar e conversar sobre tudo o que aconteceu desde que nos vimos pela última vez. Mas agora preciso novamente de sua ajuda.

Leonardo abriu as mãos.

—  Por você, qualquer coisa!

—  Tenho uma coisa a lhe mostrar que acho que vai lhe interessar.

—  Então é melhor ir para o meu estúdio. É menos agitado lá.

De volta ao velho estúdio de Leonardo, Ezio tirou a página do códex da bolsa e abriu-a na mesa diante deles.

Os olhos de Leonardo se arregalaram de empolgação.

—  Lembra-se da primeira? — perguntou Ezio.

—Como poderia esquecer? — O artista olhou para a página. — Isso é muito interessante! Posso?

—  Claro.

Leonardo analisou a página com cuidado, correndo os dedos pelo pergaminho. Então, pegando papel e penas, começou a copiar as pala­vras e os símbolos. Quase que imediatamente se pôs a ir de lá para cá, consultando livros e manuscritos, absorto. Ezio o observou trabalhar com gratidão e paciência.

—Que interessante — comentou Leonardo. — São línguas desco­nhecidas, pelo menos para mim, mas possuem uma espécie de padrão.

Humm. Sim, há uma nota aqui em aramaico que torna as coisas um pouco mais claras. — Ele olhou para cima. — Sabe, unindo esta com aquela outra página, dá quase para pensar que formam uma espécie de guia, em certo nível, pelo menos, um guia para diversas formas de as­sassinato. Mas claro que é muito mais do que isso, embora eu não faça a menor ideia do quê. Só sei que estamos apenas riscando a superfície do que isso pode revelar. Precisaríamos de todas as páginas, mas você não tem ideia de onde elas estão, certo?

—  Nenhuma.

—  Nem de quantas existem no volume completo?

—  É possível que... que isso seja conhecido.

—Ahá — disse Leonardo. — Segredos! Bem, devo respeitá-los. — Então outra coisa chamou a sua atenção. — Olhe!

Ezio olhou por cima do ombro, mas não viu nada além de uma su­cessão de símbolos em forma de cunha agrupados próximos uns dos outros.

—  O que é isso?

—Não consigo identificar direito, mas tenho certeza de que esta parte contém uma fórmula para um metal ou liga sobre o qual nada sabemos... o que, logicamente, não poderia existir'

—  Tem mais alguma coisa?

—Sim, a parte mais fácil de decifrar. É basicamente o projeto de ou­tra arma, que parece complementar a que você já tem. Mas esta teríamos de produzir a partir do zero.

—  Que tipo de arma?

—É bem simples, na verdade. Trata-se de uma placa de metal que vai dentro de um braçal de couro. Você a coloca no antebraço esquer­do, ou no direito, se for canhoto como eu, e a usa para aparar golpes de espada ou até mesmo de machados. O mais extraordinário é que, embora seja obviamente muito resistente, o metal que teremos de forjar é também incrivelmente leve. E incorpora uma adaga de dois gumes, montada sobre uma mola retrátil como a primeira.

—  Acha que consegue fazê-la?

—  Sim, mas vai demorar um pouco.

—  Não tenho muito tempo.

Leonardo refletiu.

—  Acho que tenho tudo de que preciso aqui, e meus homens são habilidosos o bastante para forjar isso. — Pensou por um momento, os lábios se movendo enquanto fazia suas contas. — Vai levar dois dias — decidiu. — Volte então e veja se funciona!

Ezio fez uma reverência.

—  Leonardo, eu lhe sou imensamente grato. E posso lhe pagar.

—Eu é que sou grato a você. Esse seu códex expande meus conhe­cimentos. Eu me considerava inovador, mas descubro muita coisa in­trigante nessas páginas. — Ele sorriu e murmurou quase que para si mesmo: — E você, Ezio, não pode imaginar o quanto lhe devo por ter me mostrado isso. Venha me mostrar outras que descobrir; de onde elas vêm é assunto seu. Só estou interessado no que elas contêm, e ninguém mais fora do seu círculo, além de mim, saberá a respeito delas. Essa é toda a recompensa que peço.

—  É sem dúvida uma promessa.

—  Grazie! Até sexta então. Ao pôr do sol?

—  Até sexta.

Leonardo e seus assistentes realizaram bem a tarefa. A nova arma, embo­ra tivesse aplicação defensiva, era extraordinariamente útil. Os assisten­tes mais jovens de Leonardo simularam atacar Ézio, mas usando armas de verdade, incluindo espadas nas duas mãos e machados de combate, e a placa de pulso, leve e simples de manejar como era, facilmente aparou os golpes mais pesados.

—  É uma arma impressionante, Leonardo.

—  De fato.

—  E pode muito bem salvar minha vida.

—Esperemos que você não arrume mais cicatrizes como essa na sua mão esquerda — disse Leonardo.

—  É a última lembrança de um velho... amigo — disse Ezio. — Mas agora preciso de mais um conselho seu.

Leonardo deu de ombros.

—  Se eu puder ajudar, ajudarei.

Ezio olhou para os assistentes de Leonardo.

—  Em particular, talvez?

-- Siga-me.

De volta ao estúdio, Ezio desembrulhou o papel que Mario havia lhe dado e entregou-o a Leonardo.

—Esta é a pessoa que meu tio me disse para encontrar. Ele me disse que não adiantaria tentar encontrá-lo diretamente...

Porém, Leonardo olhava o nome no papel. Quando ergueu os olhos, seu rosto estava ansioso.

—  Sabe quem é essa pessoa?

—  Eu li o nome... La Volpe. Imagino que seja um apelido.

—A Raposa! Sim! Mas não fale este nome em voz alta, nem em público. É um homem cujos olhos estão em toda parte, mas ele mesmo nunca é visto.

—  Onde eu poderia encontrá-lo?

—Impossível dizer, mas para começar, e seja cuidadoso, você deve­ria tentar o bairro do Mercato Vecchio...

—  Mas todo ladrão que não está na cadeia nem na forca anda por lá.

—Eu disse que era preciso ter cuidado. — Leonardo olhou em torno para ver se o estavam escutando. — Quem sabe eu... consiga mandar um recado para ele... Vá procurá-lo amanhã, depois das Vésperas... Talvez você tenha sorte... talvez não.

Apesar do aviso do tio, havia uma pessoa em Florença que Ezio es­tava decidido a ver novamente. Durante todo o tempo de sua ausência, ela nunca havia se afastado de seu coração, e agora as dores do amor aumentaram por saber que ela não estava longe. Ele não poderia se ar­riscar muito na cidade. Seu rosto havia mudado, se tornado mais angu­loso, pois tinha ganhado tanto experiência quanto idade, mas ainda era possível que o reconhecessem. O capuz ajudava, permitindo-o “desapa­recer” na multidão, e ele o usava cobrindo o rosto; mas sabia que, embo­ra os Médici agora detivessem o poder, os Pazzi ainda tinham cartas na manga. Estavam ganhando tempo e permaneceriam vigilantes, dessas duas coisas ele poderia ter certeza, assim como poderia ter certeza de que se o apanhassem desprevenido o matariam, com ou sem os Médici. Porém, na noite seguinte, foi tão impossível evitar que seus pés o levas­sem até a mansão dos Calfucci quanto voar até a Lua.

As portas da entrada principal estava abertas, revelando o pá banhado pelo sol ali dentro, e lá estava ela, mais magra, talvez mais alta, com o cabelo penteado para cima, não mais uma garota e sim uma mu­lher. Ele chamou seu nome.

Quando ela o viu, ficou tão pálida que ele achou que ela fosse des­maiar, mas ela se refez, disse algo à sua ama para dispensá-la e foi até ele, com as mãos estendidas. Ele rapidamente a arrastou da rua para o abrigo escondido de um arco ali perto, cujas pedras amarelas eram en­feitadas de mármore. Afagou seu pescoço e notou que ela ainda usava a corrente fina à qual estava preso o pingente dele, embora o pingente em si estivesse escondido em seu seio.

—  Ezio! — gritou ela.

—  Cristina!

—  O que está fazendo aqui?

—  Vim tratar de negócios do meu pai.

—  Onde você esteve? Não tive notícias suas em dois anos.

—  Eu estive... afastado. Também devido a negócios do meu pai.

—  Disseram que você devia estar morto, e que sua mãe e sua irmã também deviam estar.

—  O destino nos tratou de modo diferente. — Ele fez uma pausa. — Não pude escrever, mas você nunca saiu de meus pensamentos.

Os olhos dela, que haviam estado dançando, subitamente se nubla­ram e pareceram atormentados.

—  O que houve, caríssima? — perguntou ele.

—  Nada. — Ela tentou se libertar, mas ele não deixou.

—  Está claro que alguma coisa aconteceu. Me diga!

Ela o encarou, com olhos cheios de lágrimas.

—  Oh, Ezio! Estou noiva e vou me casar!

Ezio ficou surpreso demais para responder. Soltou os braços dela, percebendo que estava segurando-a com muita força e que a machu­cava. Viu o longo e solitário campo que tinha para lavrar estender-se à sua frente.

—  Foi meu pai — continuou ela. — Ficou insistindo para eu es­colher. Você não estava aqui. Achei que estivesse morto. Então meus pais começaram a receber visitas de Manfredo dArzenta, sabe, o filho dos endinheirados. Eles se mudaram de Lucca para cá depois que você foi embora de Florença. Oh, Deus, Ezio, meus pais ficaram me pedindo para não desapontar a família, para fazer um bom casa­mento enquanto eu ainda podia. Achei que nunca mais veria você de novo. E agora...

Ela foi interrompida pela voz de uma garota gritando em pânico no fim da rua, onde havia uma pracinha. Cristina ficou instantaneamente tensa.

—  É Gianetta; lembra-se dela?

Ouviram mais gritos e berros, e Gianetta gritou um nome:

—  Manfredo!

—  É melhor ver o que está acontecendo — disse Ezio, seguindo na direção do tumulto.

Na praça, viram Gianetta, amiga de Cristina, outra garota que Ezio não reconheceu e um homem mais velho que, ele lembrou, havia traba­lhado como gerente do pai de Cristina.

—  O que está acontecendo? — perguntou Ezio.

—  É Manfredo! — gritou Gianetta. — Dívidas de jogo de novo! Des­ta vez eles o matam com certeza!

—  O quê? — exclamou Cristina.

—  Sinto muito, signorina — disse o funcionário. — Dois homens a quem ele deve dinheiro o arrastaram até o pé da Nova Ponte. Disseram que vão bater nele por causa das dívidas. Sinto muitíssimo, signorina. Não pude fazer nada.

—  Está tudo bem, Sandeo. Chame os guardas da casa. É melhor eu ir e...

—  Espere um pouco — interrompeu Ezio. — Quem diabos é Man­fredo?

Cristina olhou para ele como se através das barras de uma prisão.

—  Meu fidanzato — respondeu.

—  Vejamos o que eu posso fazer — disse Ezio, e se apressou pela rua que levava até a ponte. Um minuto depois estava sobre um banco de areia perto das águas amarelas, pesadas e lentas do Arno, olhando para a faixa estreita de terreno lá embaixo, perto do primeiro arco da ponte. Ali, um jovem vestido com elegantes roupas pretas e prateadas estava de joelhos. Dois outros jovem suavam e resmungavam enquanto o chuta­vam com força ou se inclinavam para socá-lo.

—  Vou pagar vocês, eu juro! — berrou o jovem rapaz.

—  Já estamos cheios de suas desculpas! — disse um de seus algozes.

—  Você nos fez de idiotas. Então agora você vai ser um exemplo. — Ele ergueu a bota até o pescoço do jovem e empurrou-lhe o rosto na lama, enquanto seu companheiro chutava o garoto nas costelas.

O primeiro agressor estava prestes a chutar os rins do rapaz quando foi agarrado pela nuca e pelas costas do casaco. Alguém o levantou... e, no instante seguinte, ele se viu sendo atirado pelos ares, aterrissando se­gundos depois na água entre o esgoto e os destroços que ficavam aos pés do primeiro píer da ponte. Estava tão ocupado tentando se desengasgar da água nojenta que tinha engolido que não percebeu que a essa altura seu parceiro havia sofrido o mesmo destino.

Ezio estendeu a mão para o rapaz enlameado e o ajudou a se le­vantar.

—  Grazie, signore. Acho que dessa vez teriam me matado, mas se­riam uns idiotas de fazer isso. Eu podia pagá-los, de verdade!

—  Não tem medo de virem atrás de você de novo?

—  Agora que eles pensam que tenho um guarda-costas como você, não.

—  Não me apresentei: Ezio... de Castronovo.

—  Manfredo dArzenta, a seu dispor.

—  Não sou seu guarda-costas, Manfredo.

—  Não importa. Você tirou esses palhaços do meu pé e lhe sou gra­to. Nem sabe o quanto. Na verdade, deixe-me recompensá-lo. Mas pri­meiro vou me limpar e levar você para tomar uma bebida. Tem uma casa de jogo perto de Via Fiordaliso...

—  Ei, um minuto — disse Ezio, ciente de que Cristina e suas acom­panhantes estavam se aproximando.

—  Que foi?

—  Você joga muito?

—  Por que não? É o melhor jeito que conheço de passar o tempo.

—  Você a ama? — interrompeu Ezio.

—  Como assim?

—  Sua fidanzata, Cristina... você a ama?

Manfredo pareceu assustado com a súbita veemência de seu salvador.

—  Claro que sim, se é que isso é da sua conta. Pode me matar aqui mesmo que vou morrer amando-a.

Ezio hesitou. Parecia que o rapaz estava falando a verdade.

—  Então ouça-me: você nunca mais vai voltar a jogar, está me en­tendendo?

—  Sim! — respondeu Manfredo, amedrontado.

—  Jure!

—  Juro!

—  Não sabe o homem de sorte que é. Quero que me prometa que será um bom marido para ela. Se eu ouvir uma palavra ao contrário, vou atrás de você e o mato com minhas próprias mãos.

Manfredo percebeu que seu salvador estava falando sério. Olhou em seus olhos cinzentos e frios e algo se agitou em sua memória.

—  Eu o conheço? — perguntou. — Tem alguma coisa que... Você me parece familiar.

—  Nunca nos vimos antes — respondeu Ezio. — E não precisamos voltar a nos ver, a não ser que... — Ele se interrompeu. Cristina estava esperando no fim da ponte, olhando para baixo. — Vá até ela e mante­nha sua palavra.

—  Sim. — Manfredo hesitou. — Eu a amo de verdade, sabe. Talvez eu realmente tenha aprendido algo hoje. Farei tudo ao meu alcance para que ela seja feliz. Não preciso de nenhuma ameaça à minha vida para prometer isso.

—  Espero que sim. Agora vá!

Ezio observou por um momento Manfredo subir na margem e sen­tiu seus olhos serem irresistivelmente atraídos pelos de Cristina. Os dois se olharam por um instante e ele ergueu a mão para dar-lhe um adeus discreto. Depois se virou e foi embora. Nunca, desde a morte de seus parentes, seu coração tinha ficado tão pesado.

No sábado à tarde, ele ainda estava profundamente melancólico. Nos momentos mais sombrios sempre tinha a sensação de que havia perdido tudo — pai, irmãos, lar, status, carreira... e agora, esposa! Mas se lembrou da bondade e da proteção que Mario lhe havia oferecido, e de sua mãe e de sua irmã, que ele conseguira salvar e proteger. Quanto a futuro e carreira, ele ainda tinha as duas coisas, mas estavam indo para uma direção bastante diferente da qual ele antes havia imaginado. Tam­bém tinha um trabalho a fazer, e chorar por Cristina não o ajudaria a completá-lo. Nunca seria possível tirá-la de seu coração, mas ele teria de aceitar o destino solitário que a sorte lhe concedera. Será que era esse o caminho do Assassino? Será que aderir ao Credo envolvia isso?

Foi até o Mercato Vecchio com humor sombrio. O bairro era evitado pela maioria das pessoas que ele conhecia, e ele mesmo só o tinha visita­do uma vez. A velha praça do mercado estava suja e abandonada, assim como os prédios e as ruas que a rodeavam. Várias pessoas iam e vinham, mas não era nenhuma passeggiata. Seguiam com um objetivo, sem per­der tempo, mantendo a cabeça baixa. Ezio tomara o cuidado de se vestir com simplicidade e não trazia uma espada, embora levasse a placa de pulso e sua adaga de lâmina retrátil por precaução. Mesmo assim, sabia que devia chamar atenção entre as pessoas ao seu redor e ficou alerta.

Estava justamente se perguntando o que fazer a seguir e pensando em entrar em uma cervejaria vagabunda na esquina da praça para ver se conseguiria descobrir indiretamente por quais meios conseguiria entrar em contato com a Raposa, quando um jovem magro de repente apare­ceu do nada e passou por ele, empurrando-o.

—  Scusi, signore — disse o rapaz educadamente, com um sorriso, e passou por ele apressado.

A mão de Ezio foi instintivamente para o cinto. Havia deixado seus pertences mais preciosos guardados em segurança no local onde esta­va abrigado, mas trouxera alguns florins consigo na bolsa presa ao seu cinto — que agora não estava mais lá. Virou-se e viu o rapaz indo em direção a uma das ruelas estreitas que saíam da praça e foi atrás dele. Ao vê-lo, o ladrão apertou o passo, mas Ezio conseguiu mantê-lo em vista e correu atrás dele, conseguindo alcançá-lo e agarrá-lo pelo colarinho quando ele estava prestes a entrar em um cortiço alto e genérico na Via SantAngelo.

—  Devolva! — vociferou ele.

—  Não sei do que você está falando — retrucou o ladrão, mas havia medo em seus olhos.

Ezio, que estava a ponto de destravar a adaga, conteve a raiva. O homem, pensou de repente, talvez pudesse lhe dar a informação que buscava.

—  Não tenho interesse em ferir você, meu amigo — disse. — Devol­va minha bolsa e não se fala mais nisso.

—Você venceu — disse o jovem tristemente depois de hesitar, me­tendo a mão na bolsa ao seu lado.

—  Tem uma coisa, porém — acrescentou Ezio.

O jovem na mesma hora ficou desconfiado.

—  O quê?

—Sabe onde posso encontrar um homem que chama a si mesmo de La Volpe?

Agora o rapaz ficou seriamente amedrontado.

—  Nunca ouvi falar. Aqui, tome seu dinheiro, signore, e me deixe ir!

—  Só depois que me disser.

—Um minuto — falou uma voz profunda e rouca atrás dele. — Tal­vez eu possa ajudar.

Ezio se virou e viu um homem de ombros largos quase da sua altura, mas uns dez ou quinze anos mais velho. Usava um capuz que escondia parcialmente seu rosto, não muito diferente do de Ezio, mas embaixo dele havia um par de olhos cor de violeta penetrantes que brilhavam com um estranho poder e o atravessavam.

—Por favor, deixe meu colega ir embora — pediu o homem. — Eu respondo por ele. — Ao jovem ladrão, ele disse: — Devolva o dinheiro ao cavalheiro, Corradin, e suma. Conversaremos a respeito depois.

Ele falava com tanta autoridade que Ezio soltou o rapaz. Em um segundo Corradin já tinha devolvido a bolsa de Ezio e sumido dentro do prédio.

—  Quem é você? — perguntou Ezio.

O homem sorriu devagar.

—Meu nome é Gilberto, mas me chamam de muitas coisas: assassi­no, por exemplo, e tagliagole; mas entre os amigos sou conhecido apenas como Raposa. — Ele fez uma reverência ligeira, ainda olhando Ezio nos olhos com aquele olhar penetrante. — E estou a seu dispor, Messere Auditore. Na verdade, estava esperando por você.

—  Como... como sabe meu nome?

—  Faz parte do meu ramo saber tudo nesta cidade. E acho que sei por que você acredita que posso ajudá-lo.

—  Meu tio me deu seu nome...

Raposa tornou a sorrir, mas não disse nada.

—Preciso encontrar alguém, para estar um passo à frente dele, se eu puder — continuou Ezio.

—  Quem procura?

—  Francesco de’ Pazzi.

—Peixe grande, pelo jeito. — Raposa ficou sério. — Talvez eu possa ajudá-lo. — Parou, refletindo. — Fui avisado de que algumas pessoas de Roma desembarcaram recentemente nas docas. Vieram para uma reunião da qual ninguém mais deveria tomar conhecimento, mas não sabem nada de mim, muito menos que sou os olhos e os ouvidos desta cidade. O anfitrião do encontro é o homem que você procura.

—  Quando vai ser a reunião?

—Hoje à noite! — Raposa sorriu de novo. — Não se preocupe, Ezio, não é o destino. Eu teria enviado alguém para trazê-lo até mim se você não tivesse me encontrado, mas resolvi testá-lo para me divertir. Muito poucos dos que me procuram conseguem me encontrar.

—  Quer dizer que você armou isso tudo, usando Corradin?

—Perdoe minha teatralidade, mas eu também precisava ter certeza de que você não estava sendo seguido. Ele é um rapaz e isso também foi um tipo de teste para ele. Veja, posso ter armado a coisa, mas ele não tinha ideia do serviço que estava me prestando. Achou apenas que eu havia encontrado uma vítima para ele! — Seu tom se endureceu e ficou mais pragmático. — Bem, você precisa encontrar uma maneira de espionar esse encontro, mas não vai ser fácil. — Ele olhou para o céu.

—  O sol já está se pondo. Precisamos correr, e a maneira mais rápida de chegar é indo pelos telhados. Me siga!

Sem dizer mais nada, ele se virou e escalou a parede atrás dele com tanta rapidez que Ezio teve dificuldade em acompanhá-lo. Correram por sobre as telhas vermelhas, pulando os abismos das ruas ante a últi­ma luz do sol, silenciosos como gatos, até chegarem na frente da fachada da grande igreja de Santa Maria Novella. Ali Raposa parou. Ezio conseguiu chegar segundos depois, mas notou que estava mais ofegante do que o homem mais velho.

—  Você teve um bom professor — comentou Raposa, mas Ezio teve a distinta impressão de que, caso quisesse, seu novo amigo o teria deixa­do para trás com a maior facilidade. Isso só fez aumentar sua determi­nação em aperfeiçoar suas habilidades. Agora, entretanto, não era hora de jogos ou competições.

—  É ali que Messere Francesco está fazendo sua reunião — disse Raposa, apontando para baixo.

—  Na igreja?

—  Sob ela. Venha!

Àquela hora, a praça na frente da igreja estava deserta. Raposa pulou do telhado onde estavam e aterrissou agachada, seguido por Ezio. De­ram a volta pela praça e pela lateral da igreja até chegarem a uma porta nos fundos da construção. Raposa fez sinal para Ezio atravessá-la e eles se viram dentro da Capela Rucellai. Perto do túmulo de bronze em seu centro, Raposa se deteve.

—  Existe uma rede de catacumbas que atravessa a cidade de um lado a outro. São muito úteis para o meu trabalho, mas infelizmente não sou o único que conhece sua existência. Embora não sejam muitas as pes­soas que a conhecem, Francesco de Pazzi é uma delas. É lá que ele está fazendo sua reunião com as pessoas de Roma. Esta é a entrada mais pró­xima de onde eles estão, mas você terá de achar o caminho sozinho. Há uma capela, parte de uma cripta abandonada, que fica cinquenta metros à direita depois que você descer, mas tome muito cuidado, pois o som viaja com muita precisão lá embaixo. Vai estar escuro também, portanto deixe os olhos se acostumarem com a escuridão: logo você será guiado pelas luzes da capela.

Ele pôs a mão sobre um ornamento de pedra no pedestal que sus­tentava o túmulo e o apertou. A seus pés, uma lajota aparentemente só­lida deslizou para dentro sobre dobradiças invisíveis e revelou um lance de degraus de pedra. Raposa se afastou de lado.

—  Buona fortuna, Ezio.

—  Você não vem?

—  Não é necessário. E, mesmo com toda a minha habilidade, duas pessoas fazem mais barulho do que uma. Espero por você aqui. Va, va!

No subterrâneo, Ezio tateou ao longo do corredor úmido de pedra que seguia para a direita. Era capaz de sentir para onde estava indo, pois as paredes eram próximas o bastante para ele tocar os lados com cada mão. Ficou aliviado por seus pés não fazerem barulho no chão de terra molhado. De vez em quando, outros túneis se ramificavam a partir daquele, mas ele mais os sentia do que via, pois suas mãos não tocavam nada além do vazio escuro. Perder-se ali embaixo seria um pesadelo, pois nunca encontraria o caminho de volta novamente. De início, pequenos sons o assustaram, até ele perceber que era apenas o barulho de ratos correndo. Certa vez, porém, quando um deles passou sobre seu pé, mal conseguiu conter um grito. Nos nichos escavados na parede, vislumbrou cadáveres de enterros muito antigos, com crânios envoltos por teias de aranha — havia algo de primordial e aterrorizante nas catacumbas e Ezio precisou conter um sentimento crescente de pânico.

Por fim, avistou uma luz fraca adiante e, movendo-se mais devagar então, avançou naquela direção. Ficou nas sombras quando se colocou a uma distância em que poderia ouvir a conversa dos cinco homens à sua frente, cujas silhuetas se destacavam pela luz das lamparinas de uma capela pequena e muito antiga.

Reconheceu Francesco imediatamente: uma criatura pequena, ma­gra, rija e intensa que, quando Ezio chegou, estava fazendo uma reve­rência inclinado diante de dois padres tonsurados que ele não reconhe­ceu. O mais velho dava-lhe a bênção em uma voz clara e nasalada: “Et heneáictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritu Sancti descendat su­per vos et maneat semper...” Quando seu rosto foi banhado pela luz, Ezio o reconheceu; era Stefano da Bagnone, secretário do tio de Francesco, Jacopo. O próprio Jacopo estava ao seu lado.

—  Obrigado, padre — disse Francesco ao final da bênção. Endirei­tou o corpo e se dirigiu ao quarto homem, que estava de pé ao lado dos padres. — Bernardo, por favor nos dê seu relatório.

—  Tudo está pronto. Temos um arsenal completo de espadas, adue­las, machados, arcos e flechas.

—  Uma simples adaga serie melhor para o serviço — interveio o mais jovem dos dois padres.

—  Depende das circunstâncias, Antonio — disse Francesco.

—  Ou veneno — prosseguiu o jovem padre. — Mas não importa, contanto que ele morra. Não vou perdoá-lo tão facilmente por ter aca­bado com Volterra, minha cidade natal e meu único lar verdadeiro.

—  Acalme-se — disse o homem chamado Bernardo. — Todos temos nossos motivos. Agora, graças ao papa Sisto, também temos os meios.

—  De fato, Messere Baroncelli — respondeu Antonio. — Mas temos as bênçãos de Vossa Santidade?

Uma voz veio das sombras profundas por trás da luz do lampião, nos fundos da capela:

—  O papa abençoa nossas operações, “contanto que ninguém morra”

O dono da voz apareceu à luz do lampião e Ezio conteve a respiração ao reconhecer o homem encapuzado de vermelho, mesmo que todo o seu rosto, exceto o sorriso desdenhoso em seus lábios, estivesse coberto pela sombra do capuz. Então era este o principal visitante de Roma: Ro­drigo Bórgia, II Spagnolol

Os conspiradores compartilharam o mesmo sorriso astucioso. To­dos sabiam onde residia a lealdade do papa e que era o cardeal à sua frente que lhe fazia a cabeça. Porém, naturalmente, o Sumo Pontífice não poderia tolerar de forma aberta o derramamento de sangue.

—  Que bom que o serviço pode finalmente ser executado — disse Francesco. — Já tivemos contratempos demais. E matá-los na catedral já irá atrair pesadas críticas sobre nós.

—  É nossa última e única opção — disse Rodrigo, com autorida­de. — E, como estamos agindo em nome de Deus para livrar Florença dessa escória, o local é apropriado. Além disso, depois de assumirmos o controle da cidade, que as pessoas digam o que quiserem... se ousarem!

—  Mas eles ficam mudando de ideia a todo momento — disse Ber­nardo Baroncelli. — Terei inclusive de pedir que alguém recorra a seu irmão mais novo, Giuliano, para garantir que ele esteja na hora da Missa Solene.

Todos os homens gargalharam ao ouvir aquilo, exceto Jacopo e o espanhol, que notara sua expressão contida.

—  O que foi, Jacopo? — perguntou Rodrigo ao Pazzi mais velho. — Acha que estão suspeitando de alguma coisa?

Antes de Jacopo responder, seu sobrinho interrompeu com impa­ciência.

—  Isso é impossível! Os Médici são arrogantes ou estúpidos demais para notar qualquer coisa!

—  Não subestime nossos inimigos — repreendeu Jacopo. — Não vê que foi o dinheiro dos Médici que financiou a campanha contra nós em San Gimignano?

—  Não haverá problemas desse tipo desta vez — vociferou seu so­brinho, ofendido por ter sido corrigido na frente dos outros e com a lembrança da morte do filho, Vieri, ainda fresca em sua mente.

Durante o silêncio que se seguiu, Bernardo se virou para Stefano de Bagnone.

—  Precisarei pegar emprestado uma de suas batinas para amanhã de manhã, padre. Quanto mais acharem que estão rodeados de clérigos, mais seguros se sentirão.

—  Quem vai atacar? — perguntou Rodrigo.

—  Eu! — respondeu Francesco.

—  E eu! — ofereceram-se Stefano, Antonio e Bernardo.

—  Ótimo. — Rodrigo fez uma pausa. — Acho que, no geral, as ada­gas seriam mesmo melhores. São muito mais fáceis de esconder e muito mais práticas quando se precisa atacar de perto. Ainda assim, seria bom contar com o armamento do papa também; não duvido de que haverá algumas pontas soltas para limpar depois que os irmãos Médici estive­rem liquidados. — Ergueu a mão e fez o sinal da cruz sobre seus colegas conspiradores. — Dominus vobiscum, cavalheiros — disse. — E que o Pai da Compreensão nos guie a todos. — Olhou em torno. — Bem, acho que isso encerra nossos assuntos. Perdoem-me se os deixo agora. Há algumas coisas que preciso resolver antes de voltar para Roma e preciso estar a caminho de lá antes do amanhecer. Não seria nada bom para mim ser visto em Florença no dia em que a Casa dos Médici for redu­zida a pó.

Ezio aguardou, encostado em uma parede nas sombras, até os seis homens partirem, deixando-o na escuridão. Somente quando teve certeza de estar completamante sozinho foi que puxou sua própria lanterna e acendeu o pavio.

Voltou pelo mesmo caminho pelo qual fora. Raposa o aguardava na sombria capela Rucellai. Ezio, muito agitado, contou o que havia ouvido.

—  ...para assassinar Lorenzo e Giuliano de Médici na catedral du­rante a Missa Solene amanhã de manhã? — repetiu Raposa depois que Ezio terminou, e Ezio percebeu que pela primeira vez o homem estava quase sem palavras. — Que sacrilégio! Pior ainda: se Florença tiver de sucumbir aos Pazzi, então que Deus ajude a todos nós.

Ezio estava perdido em pensamentos.

—  Pode conseguir um lugar para mim na catedral amanhã? — per­guntou. — Perto do altar... perto dos Médici?

Raposa assumiu um ar grave.

—  É difícil, mas talvez não impossível. — Olhou para o jovem. — Sei o que você está pensando, Ezio, mas isso é algo que, sozinho, você não conseguirá evitar que aconteça.

—  Posso tentar, tenho a meu favor o elemento surpresa. E mais do que um rosto estranho entre a aristocrazia sentada na frente poderia atrair a desconfiança dos Pazzi. Mas você precisa conseguir me colocar lá, Gilberto.

—  Chame-me de Raposa — respondeu Gilberto, e depois, sorrindo, continuou: — Apenas as raposas se equiparam a mim em astúcia. — Fez uma pausa. — Encontre-me na frente do Duomo meia hora antes da Missa Solene. — Ele encarou Ezio nos olhos com novo respeito. — Aju­darei se puder, Messere Ezio. Seu pai teria orgulho de você.

 

Ezio acordou antes do amanhecer do dia seguinte, domingo, 26 de abril, e foi até a catedral. Pouquíssimas pessoas estavam nas ruas, embora um punhado de monges e freiras estivessem a caminho para executar o ri­tual das Laudas. Ciente de que era melhor evitar ser notado, escalou arduamente até o topo do campanário e observou o sol nascer sobre a cidade. Aos poucos, lá embaixo, a praça começou a se encher de cida­dãos de todos os tipos, famílias e casais, mercadores e nobres, ansiosos por comparecer ao principal serviço litúrgico do dia, agraciados como seriam pela presença do duque e de seu irmão mais novo e cogovernante. Ezio observou os passantes atentamente. Quando viu Raposa chegar aos degraus da catedral, foi até a lateral da torre, menos à vista, e desceu, ágil como um macaco, para se juntar a ele, lembrando-se de manter a cabeça baixa e de se misturar o máximo possível com a multidão usando os cidadãos como cobertura. Tivera de vestir suas melhores roupas para a ocasião e não envergava nenhuma arma abertamente, embora diver­sos homens das classes dos ricos banqueiros e mercadores trouxessem espadas cerimoniais à cintura. Não resistiu em procurar Cristina com os olhos, mas não a encontrou.

—  Aí está você — disse Raposa, e Ezio juntou-se a ele. — Está tudo arranjado: há um lugar reservado para você no corredor da terceira fi­leira. — Enquanto ele falava, a multidão sobre os degraus se afastou e uma fileira de arautos levou as cornetas aos lábios e tocou. — Eles estão vindo — acrescentou Raposa.

Entrando na praça vindo do lado do Batistério, Lorenzo de Médici foi o primeiro a aparecer, com a esposa Clarice ao seu lado. Ela levava a pequena Lucrécia, a filha mais velha, pela mão, e Piero, de 5 anos, marchava orgulhosamente à direita do pai. Atrás deles, acompanhada pela babá, vinha Madalena, de 3 anos, enquanto o bebê, Leo, envolto em cetim branco, vinha nos braços de sua ama. Eram seguidos por Giuliano e sua esposa em estágio avançado de gravidez, Fioretta. A aglomeração de pessoas na praça fazia reverências à sua passagem e eles foram rece­bidos na entrada do Duomo por dois dos padres assistentes, que Ezio reconheceu com um arrepio de horror: Stefano de Bagnone e o homem de Volterra, cujo nome completo, segundo Raposa, era Antonio Maffei.

A família Médici entrou na catedral seguida pelos padres, que por sua vez foram seguidos pelos cidadãos de Florença em ordem hierár­quica. Raposa cutucou Ezio e apontou: entre a multidão vira Francesco de’ Pazzi e seu comparsa conspirador, Bernardo Baroncelli, disfarçado de diácono.

—  Vá agora — sibilou ele para Ezio com pressa. — Fique perto deles.

Cada vez mais gente entrava na catedral, que ficou lotada — tanto que aqueles que esperavam para conseguir um lugar tiveram de se con­tentar em ficar do lado de fora. Ao todo, dez mil pessoas estavam pre­sentes, e Raposa nunca tinha visto na vida uma aglomeração tão grande em Florença. Rezou em silêncio pelo sucesso de Ezio.

Lá dentro, a multidão se acomodava em meio ao calor sufocante. Ezio não havia conseguido se aproximar tanto de Francesco e dos ou­tros quanto desejara, mas os manteve sob olhar atento, calculando o que precisaria fazer para alcançá-los assim que iniciassem o ataque. Nesse meio-tempo, o bispo de Florença já assumira seu lugar no altar, e a mis­sa tinha começado.

Quando o bispo estava abençoando o pão e o vinho, Ezio notou Francesco e Bernardo trocarem um olhar. A família Médici estava sentada bem à frente deles. No mesmo instante, os padres Bagnone e Maffei, localizados nos degraus mais baixos do altar, e mais próximos de Lorenzo e Giuliano, olharam disfarçadamente ao redor. O bispo se virou para encarar a congregação, ergueu o cálice de ouro e começou a falar:

—  O sangue de Cristo...

Então tudo aconteceu ao mesmo tempo. Baroncelli se levantou gri­tando “Creapa, traditore!” e enfiou uma adaga no pescoço de Giulia­no por trás. Sangue jorrou da ferida, encharcando Fioretta, que caiu de joelhos aos berros.

—  Deixem que eu acabe com o bastardo! — berrou Francesco, aco­tovelando Baroncelli e derrubando Giuliano, que estava tentando estancar o ferimento com as mãos. Francesco ae ajoelhou ao lado dele enfiou tantas vezes a adaga no corpo da vitima e em tal frenesi que uma das vezes, sem perceber, acabou enfiando a arma na sua própr coxa. Giuliano já estava morto muito antes de Francesco haver dado O décimo nono e último golpe.

Enquanto isso, Lorenzo, com um grito de alarme, se virou para en­carar os agressores do irmão, ao passo que Clarice e as amas levavam as crianças e Fioretta para um lugar seguro. Havia confusão por toda parte. Lorenzo havia descartado a ideia de manter os guarda-costas perto de si, pois nunca se ouvira falar de um ataque mortal em uma igreja antes, mas agora os homens se esforçavam para abrir caminho até ele pelo meio da massa de fiéis confusos e em pânico que se empurravam e se pisoteavam para se afastar da cena do massacre. Porém, a situação se agravava ainda mais por causa do calor e do fato de que mal havia espa­ço para se movimentar...

Exceto na área imediatamente em frente ao altar. O bispo e os padres assistentes ficaram ali plantados no chão, horrorizados, mas Bagnone e Maffei, vendo as costas de Lorenzo voltadas para eles, aproveitaram a oportunidade e, retirando adagas das batinas, caíram em cima dele por trás.

No entanto, raramente padres são matadores experientes e, por mais nobre que acreditassem ser sua causa, os dois conseguiram dar apenas golpes superficiais em Lorenzo antes de ele conseguir afastá-los. Porém, na luta, eles mais uma vez levaram a melhor, e, nesse meio-tempo, Fran­cesco, mancando por causa da facada que tinha dado em si mesmo, mas encorajado por todo o ódio que borbulhava dentro de si, já se apro­ximava, trovejando maldições e erguendo a adaga. Bagnone e Maffei, acovardados pelo que haviam feito, se viraram e fugiram na direção da abside. Lorenzo, entretanto, cambaleava sangrando, e graças a um corte na parte superior do ombro direito, seu braço mais forte estava inutili­zado para combater.

—  Seus dias chegaram ao fim, Lorenzo! — berrou Francesco. — Toda a sua família bastarda irá morrer pela minha espada!

—  Infame! — retrucou Lorenzo. — Vou matar você agora!

—  Com esse braço? — desdenhou Francesco e ergueu a adaga.

Uma mão forte agarrou-lhe o punho enquanto o abaixava para dar o golpe e interrompeu seu movimento. Depois forçou o homem a se virar de frente. Francesco se viu encarando o rosto de outro inimigo jurado.

—  Ezio! — rosnou. — Você! Aqui!

—  Seus dias é que chegaram ao fim, Francesco!

A multidão começou a se afastar quando os guarda-costas de Lorenzo se aproximaram. Baroncelli chegou ao lado de Francesco.

—  Venha, precisamos correr. Acabou! — berrou ele.

—  Antes vou acabar com esses patifes — disse Francesco, mas seu rosto estava contorcido: seu ferimento sangrava muito.

—  Não! Precisamos bater em retirada!

O homem pareceu furioso, mas sua expressão foi de concordância.

—  Isso ainda não acabou — disse ele a Ezio.

—  Não, não acabou. Onde quer que você vá eu vou lhe seguir, Fran­cesco... e vou acabar com você.

Irritado, Francesco se virou e seguiu Baroncelli, que já estava sumin­do atrás do altar. Devia haver uma porta para o exterior na abside da catedral. Ezio se preparou para segui-los.

—  Espere! — disse uma voz entrecortada atrás dele. — Deixe eles irem. Não vão muito longe. Preciso de você aqui. Preciso de sua ajuda.

Ezio se virou e viu o duque esparramado no chão entre duas cadei­ras reviradas. Não muito longe, sua família soluçava agachada; Clarice, com uma expressão de horror, abraçava os dois filhos mais velhos com força. Fioretta olhava sem reação na direção do cadáver retorcido e mu­tilado de Giuliano.

Os guardas de Lorenzo chegaram.

—  Protejam minha família — instruiu ele. — A cidade vai ficar em polvorosa depois disso. Levem todos para o palazzo e bloqueiem as por­tas. — Depois se virou para Ezio: — Você salvou minha vida.

—  Cumpri meu dever. Agora os Pazzi devem pagar o preço!

Ezio ajudou Lorenzo a se por de pé e o sentou com cuidado em uma cadeira. Olhando para cima, viu que o bispo e os outros padres não estavam mais por ali. Atrás dele, as pessoas continuavam se em­purrando e se acotovelando para sair da catedral pelas portas princi­pais a oeste.

—  Preciso ir atrás de Francescol — exclamou Ezio.

—  Não! — protestou Lorenzo. — Não posso ir a nenhum lugar segu­ro sozinho. Você precisa me ajudar. Leve-me para San Lorenzo. Tenho amigos por lá.

Ezio ficou arrasado, mas sabia o quanto Lorenzo havia feito por sua própria família. Não podia culpá-lo por não ter conseguido evitar a morte de seus parentes, pois como alguém poderia ter previsto a rapidez daquele ataque? E, agora, a vítima era o próprio Lorenzo. Ele continua­va vivo, mas não continuaria por muito tempo se Ezio não o levasse ao lugar mais próximo onde pudesse ser tratado. A igreja de San Lorenzo ficava a noroeste, a pouca distância do Batistério.

Ezio estancou as feridas de Lorenzo o melhor que pôde usando fai­xas de tecido rasgadas de sua própria camisa, depois o levantou com cuidado.

—  Apoie o braço esquerdo ao redor de meu ombro. Ótimo. Agora, deve haver um caminho para fora daqui atrás do altar...

Cambalearam na direção em que seus agressores haviam ido e logo deram com uma portinha aberta com manchas de sangue no batente. Sem dúvida tinha sido por ali que Francesco saíra. Será que estaria es­condido à espera? Seria difícil para Ezio destravar o mecanismo de sua adaga retrátil e mais ainda lutar apoiando Lorenzo no lado direito de seu corpo. Porém, trazia no antebraço esquerdo a placa de metal.

Saíram para a praça pela face norte da catedral e foram saudados por um cenário de confusão e de caos. Seguiram para oeste ao longo da lateral da grande igreja, depois de Ezio parar para colocar sua capa ao redor dos ombros de Lorenzo na tentativa de disfarçá-lo. Na praça entre a catedral e o Batistério, grupos de homens vestidos com os emblemas dos Pazzi e dos Médici se engalfinhavam em um combate corpo a cor­po, tão entretidos que Ezio conseguiu passar por eles despercebido, mas quando chegaram à rua que levava à Piazza San Lorenzo foram confron­tados por dois homens usando a insígnia do golfinho com as cruzes. Os dois portavam cimitarras ameaçadoras.

—  Parem! — disse um dos guardas. — Para onde acham que estão indo?

—  Preciso levar este homem a um lugar seguro — respondeu Ezio.

—  E quem é você? — perguntou o segundo guarda, com arrogância. Deu um passo à frente e olhou o rosto de Lorenzo que, semidesmaiado, ifastou o rosto, mas ao fazê-lo a capa escorregou e revelou o emblema dos Médici em seu gibão. — Oho! — exclamou o guarda, Virando-se para o amigo. — Parece que apanhamos um peixe dos grandes aqui, Terzago!

A mente de Ezio disparou. Não poderia soltar Lorenzo, que ainda estava perdendo sangue, mas se não o soltasse não poderia usar sua arma. Ergueu rapidamente o pé esquerdo e deu um chute no traseiro do guarda, que caiu estatelado no chão. Em questão de segundos o outro guarda veio para cima deles com a cimitarra erguida. Quando a lâmina desceu, Ezio a aparou, e, usando a placa em seu pulso, conteve o golpe. Ao fazê-lo, girou o braço esquerdo e afastou a espada do guarda, ferindo-o ao mesmo tempo com a adaga de lâmina dupla presa à placa de metal, mas não foi possível conseguir vantagem o suficiente para matar o homem. Nesse meio-tempo, entretanto, o segundo guarda já tinha se levantado e veio ajudar o parceiro, que acabou por recuar surpreso por não ter conseguido cortar fora o antebraço de Ezio.

Ezio conteve a segunda espada da mesma maneira, mas desta vez conseguiu fazer com que a placa corresse ao longo da lâmina até atingir o punho da arma do atacante e aproximar a mão do pulso dele. Então o agarrou e torceu com tanta força e rapidez que o homem soltou a arma com um grito agudo de dor. Sem perda de tempo, Ezio deu um passo à frente e agarrou sua cimitarra antes mesmo que caísse no chão. Foi difícil, pois estava lutando com a mão esquerda e sobrecarregado com o peso de Lorenzo, mas conseguiu girar a espada e cortar o pescoço do guarda ao meio antes de ele conseguir se recompor. Nesse momento, o segundo guarda estava vindo para cima dele de novo, berrando de raiva. Ezio o aparou com a cimitarra, e ele e o guarda trocaram alguns golpes. Mas o guarda, sem saber da placa de metal escondida no braço esquerdo de Ezio, desferia um golpe inútil atrás do outro. O braço de Ezio doía e ele mal conseguia se manter de pé, mas por fim viu uma oportunidade: o capacete do guarda estava solto. O homem, porém, não percebia isso e estava encarando o antebraço de Ezio, preparan­do-se para golpeá-lo mais uma vez. Rapidamente, Ezio ergueu a cimitarra e fingiu que tinha errado o alvo. mas na verdade conseguiu arrancar fora o capacete do homem. Então, antes que o outro pudesse...

Ezio desceu a espada pesada com toda força sobre o crânio, partindo- em dois. A cimitarra ficou presa ali, e Ezio não conseguiu soltá-la. O sujeito por um instante ficou imóvel, os olhos arregalados de surpresa, antes de desabar no chão. Ezio olhou rapidamente ao redor e depois arrastou Lorenzo pela rua.

—  Não falta muito, Altezza.

Chegaram à igreja sem enfrentar mais perturbações, mas encontra­ram as portas firmemente fechadas. Ezio olhou para trás e viu que os corpos dos guardas que ele havia matado no fim da rua tinham sido encontrados por um grupo de soldados aliados dos Pazzi, que agora olhavam em sua direção. Esmurrou as portas da igreja e uma abertura revelou um olho e parte de um rosto desconfiado.

—  Lorenzo foi ferido — avisou Ezio com voz entrecortada. — Estão vindo atrás de nós! Abra a porta!

—  Preciso da senha — respondeu o outro homem.

Ezio ficou perdido, mas Lorenzo tinha ouvido o som da voz do ho­mem e reanimou-se ao reconhecê-lo.

—  Angelo! — gritou ele. — É Lorenzo! Abra essa maldita porta!

—  Pelo Trimegisto! — exclamou o homem. — Achamos que estives­se morto! — Ele se virou e berrou para alguém lá dentro. — Tirem os ferrolhos! E rápido!

A portinhola se fechou e ouviram o som de ferrolhos sendo aber­tos. Enquanto isso, os guardas dos Pazzi, que vinham subindo a rua, começaram a correr. Bem a tempo, uma das portas pesadas da igreja se abriu para permitir a passagem de Ezio e Lorenzo, e com a mesma rapidez se fechou de novo. Os ferrolhos foram logo recolocados pelos responsáveis. Então ouviram um barulho terrível de luta lá fora. Ezio se viu encarando os olhos verdes tranquilos de um homem refinado de uns 25 anos de idade.

—  Angelo Poliziano — apresentou-se o homem. — Enviei alguns de nossos homens para interceptar esses ratos dos Pazzi. Eles não devem mais nos dar problemas.

—  Ezio Auditore.

—  Ah... Lorenzo me falou de você. — Ele se interrompeu. — Mas podemos conversar mais tarde. Deixe-me ajudá-lo a levá-lo até um ban­co. Podemos dar uma olhada nos ferimentos ali.

—  Ele está a salvo agora — disse Ezio, entregando Lorenzo aos cui­dados de dois assistentes que o conduziram com cuidado até um banco encostado na parede norte da igreja.

—  Vamos fechar as feridas, estancar o sangue e, assim que estiver bem recuperado, nós o levaremos de volta ao palazzo. Não se preocupe, Ezio, ele realmente está seguro agora, e não esqueceremos do que você fez.

Mas Ezio já estava pensando em Francesco de’ Pazzi. O homem ti­nha tido tempo mais do que suficiente para fugir de vez.

—  Preciso ir embora — disse ele.

—  Espere! — chamou Lorenzo.

Fazendo um sinal a Poliziano, Ezio foi até ele e ajoelhou-se ao seu lado.

—  Estou em dívida, signore — disse Lorenzo. — Não sei por que me ajudou, nem como poderia saber que eu iria até lá a pé, se nem meus pró­prios espiões não sabiam de nada. — Fez uma pausa e seus olhos retorceram-se de dor quando um dos assistentes limpou a ferida de seu ombro.

—  Quem é você? — perguntou, depois que se recuperou um pouco.

—  Ele é Ezio Auditore — respondeu Poliziano, aproximando-se e pondo a mão no ombro de Ezio.

—  Ezio! — Lorenzo o olhou, profundamente emocionado. — Seu pai era um homem fantástico e um bom amigo. Foi um de meus aliados mais poderosos. Entendia o significado da honra, da lealdade, e nunca colocou seus próprios interesses na frente dos de Florença. Mas... — Ele tornou a fazer uma pausa e sorriu fracamente: — Eu estava lá quando Alberti morreu. Foi você?

—  Sim.

—  Você executou uma vingança rápida e adequada. Como vê, eu não tive tanto êxito assim. Mas agora, graças à ambição arrogante, os Pazzi finalmente cortaram a própria garganta. Rezo para que...

Um dos homens da patrulha dos Médici que tinha sido enviado para lidar com os perseguidores de Ezio se aproximou correndo, com o rosto banhado de suor e sangue.

—  O que foi? — perguntou Poliziano.

—  Más notícias, senhor. Os Pazzi se recuperaram e estão atacando o Palazzo Vecchio. Não conseguiremos contê-los pôr muito mais tempo.

Poliziano empalideceu.

—  São realmente más notícias. Se dominarem o Palazzo Vecchio, vão matar todos os nossos aliados em quem conseguirem pôr as mãos, e, se conquistarem o poder...

—  Se conquistarem o poder — interrompeu Lorenzo —, minha so­brevivência não vai significar nada. — Tentou se levantar, mas caiu, ge­mendo de dor. — Angelo! Você precisa levar as tropas que temos aqui e...

—  Não! Meu lugar é ao seu lado. Precisamos levá-lo ao Palazzo Médici o mais rápido possível. Dali talvez possamos nos reorganizar e contra-atacar.

—  Eu irei — ofereceu-se Ezio. — Afinal, tenho mesmo assuntos a tratar com Messere Francesco.

Lorenzo o olhou.

—  Você já fez o bastante.

—  Não até terminar o serviço, Altezza. E Angelo tem razão, ele tem uma tarefa mais importante a fazer: levar o senhor até a segurança de seu palazzo.

—  Signori — interrompeu o mensageiro dos Médici. — Tenho mais notícias. Vi Francesco de’ Pazzi liderando uma tropa até as proximi­dades do Palazzo Vecchio. Ele está tentando entrar pelo lado cego da Signoria.

Poliziano olhou para Ezio:

—  Vá. Arme-se, leve o destacamento daqui, e corra. Este homem irá acompanhá-lo e ser seu guia. Vai lhe mostrar por onde é mais seguro sair da igreja. Daqui, são dez minutos até o Palazzo Vecchio.

Ezio fez uma reverência e se virou para sair.

—  Florença nunca irá se esquecer do que você está fazendo por ela

—  disse Lorenzo. — Vá com Deus.

Lá fora, os sinos da maioria das igrejas soavam, aumentando ainda mais a cacofonia de aço batendo contra aço e dos gritos e gemidos dos homens. A cidade estava em turbilhão: carroças eram incendiadas nas ruas, bolsões de soldados dos dois lados corriam de lá para cá ou se enfrentavam em combates. Havia mortos espalhados por toda parte, nas praças e ao longo das estradas, mas o tumulto era grande demais para que os corvos se atrevessem a voar até o banquete que miravam com seus olhos negros e cruéis de cima dos telhados.

As portas a oeste do Palazzo Vecchio estavam abertas e era possível ouvir o barulho do combate que se desenrolava no pátio interno. Ezio fez sua pequena tropa parar e interpelou um oficial dos Médici que cor­ria na direção do palazzo comandando outro esquadrão.

—  Sabe o que está acontecendo?

—  Os Pazzi invadiram o palazzo pelos fundos e abriram as portas por dentro. Mas nossos homens que já estavam de guarda aqui estão conseguindo detê-los; eles não conseguiram passar do pátio. Com sorte vamos conseguir prendê-los aqui dentro!

—  Alguma notícia de Francesco de’ Pazzi?

—  Ele e seus homens estão guardando a entrada dos fundos do pa­lazzo. Se conseguirmos tomar o controle de lá, então com certeza con­seguiremos aprisionar todos aqui.

Ezio se virou para seus homens.

—  Vamos! — gritou.

Atravessaram correndo a praça e seguiram pela ruela ao longo da muralha norte do palazzo, a qual havia muito tempo um Ezio bastante diferente escalara até a janela da cela de seu pai. Pegando a primeira à direita a partir dali, logo encontraram a tropa dos Pazzi sob o comando de Francesco, que guardava a entrada dos fundos.

Ficaram imediatamente alertas e, ao reconhecer Ezio, Francesco gritou:

—  Você de novo! Por que ainda não morreu? Você assassinou meu filho!

—  Ele tentou me matar!

—  Matem esse homem! Agora!

Os dois lados se engalfinharam ferozmente, golpeando e esfaquean­do um ao outro em uma fúria que beirava o desespero, pois os Pazzi sa­biam muito bem como era importante proteger sua linha de retaguarda. Ezio, com o coração cheio de uma raiva gélida, abriu caminho até Fran­cesco, que guardava com firmeza a porta do palazzo, de costas para ela.

Ezio usava uma espada do exército doa Médici — era bem equilibrada sua lâmina era de aço de Toledo, mas por ser uma arma com a qual não tinha familiaridade, seus golpes eram um pouco menos eficientes do que normalmente seriam. Ele havia apenas ferido os homens que fica­ram em seu caminho, em vez de matá-los — e isso Francesco percebeu.

—  Então, agora você se acha um mestre da espada, é isso, garoto? Você não consegue nem matar direito! Deixe-me fazer uma demonstração.

Então os dois se enfrentaram, fazendo voar faíscas das lâminas quando se encontravam, mas Francesco tinha menos espaço de mano­bra do que Ezio e, sendo vinte anos mais velho, já estava começando a se cansar, embora tivesse enfrentado muito menos ação naquele dia que o seu oponente.

—  Guardas! — berrou ele por fim. — Venham aqui!

Porém, seus homens haviam caído ante o assalto dos Médici. Ele e Ezio agora se enfrentavam sozinhos. Francesco olhou desesperadamente ao redor em busca de um local onde se refugiar, mas não havia nenhum, a não ser o próprio palazzo. Ele abriu a porta atrás de si e subiu uma esca­daria de pedra que corria pela muralha interna. Ezio percebeu que, pelo fato de a maioria dos defensores dos Médici estarem concentrados na frente do edifício, onde grande parte do combate estava se desenrolando, provavelmente não teriam homens suficientes para defender os fundos também. Ezio correu atrás de Francesco até o segundo andar.

Estava tudo deserto agora, pois todos os ocupantes do palazzo es­tavam lá embaixo tentando conter os Pazzi no pátio, exceto meia dúzia de funcionários amedrontados que fugiram à primeira visão do inimi­go. Francesco e Ezio lutaram pelas salas oficiais cobertas de ouro e de pé-direito alto até chegarem a uma sacada alta, que dava para a Piazza della Signoria. Ao escutar o barulho do combate lá embaixo, Francesco gritou inutilmente por ajuda, mas não havia ninguém para ouvi-lo e sua última chance de debandada se esgotou.

—  Fique e lute! — disse Ezio. — Somos só nós dois agora.

—  Maledetto!

Ezio o golpeou e arrancou sangue de seu braço esquerdo.

—  Venha, Francesco, onde está toda a coragem que mostrou quando mandou matar meu pai? Quando esfaqueou Giuliano hoje de manhã?

—  Afaste-se de mim, sua cria do diabo! — Francesco fez uma inves­tida, mas estava cansando e sua tentativa passou longe do alvo. Camba­leou para a frente, sem equilíbrio, Ezio desviou agilmente para um lado, ergueu o pé e chutou firmemente a lâmina de Francesco, empurrando-o para baixo junto com ela.

Antes que pudesse se recuperar, Ezio pisou em sua mão, fazendo-o soltar o punho da espada. Agarrou-o pelos ombros e o atirou de cos­tas no chão. O homem se esforçou para se erguer, mas Ezio o chutou brutalmente no rosto. Os olhos de Francesco se reviraram enquanto lutava para manter a consciência. Ezio se ajoelhou e começou a revistar o velho enquanto este estava semiconsciente, arrancando-lhe a arma­dura e o gibão e revelando o corpo pálido e rijo. Mas não havia nenhum documento, nada de importante em sua bolsa, apenas um punhado de florins.

Ezio deixou de lado a espada e liberou a lâmina da adaga escondida. Ajoelhou-se, colocou um dos braços sob o pescoço de Francesco e o forçou a ficar de pé, de modo que seus rostos quase se tocaram.

Os olhos de Francesco se abriram, trêmulos, e expressaram medo e horror.

—  Poupe-me! — resmungou.

Naquele instante um enorme grito de vitória se ergueu do pátio lá embaixo. Ezio ouviu as vozes e conseguiu entender o suficiente para descobrir que os Pazzi tinham sido derrotados.

—  Poupar você? — exclamou. — Antes poupar um lobo raivoso.

—  Não! — guinchou Francesco. — Eu lhe imploro!

—  Isso é por meu pai — disse Ezio, esfaqueando-o no estômago. — E isso por Federico — disse, esfaqueando-o mais uma vez. — E isso é por Petruccio; e isso, por Giuliano!

O sangue esguichava e escorria das feridas de Francesco, cobrindo Ezio, que o teria esfaqueado indefinidamente se não tivesse voltado a ouvir as palavras de Mario: Não se torne um homem como ele. Recuou e sentou-se nos calcanhares. Os olhos de Francesco ainda brilhavam, em­bora sua luz estivesse diminuindo. Ele murmurava algo. Ezio se inclinou para baixo para escutar.

—  Um padre... um padre... por misericórdia, chame um padre para mim.

Ezio ficou profundamente chocado, agora que sua fúria havia se abrandado, com a selvageria com a qual tinha matado aquele homem. Aquilo não estava de acordo com o Credo.

—  Não há tempo — respondeu. — Vou mandar rezar uma missa pela sua alma.

A garganta de Francesco agora chacoalhava. Então seus membros se endureceram e sacudiram quando ele atingiu os estertores da morte: a cabeça arqueou para trás, a boca se escancarou quando ele travava a última luta impossível contra o inimigo invencível que todos nós te­remos de enfrentar um dia; e então afundou, um saco vazio, encolhido, pálido.

—  Requiescat in pace — murmurou Ezio.

Nesse momento, um novo grito ergueu-se da praça. Em frente à es­quina no lado sudoeste, cinquenta ou sessenta homens vinham corren­do, liderados por um homem que Ezio reconheceu: era o tio de Frances­co, Jacopo! Eles envergavam o estandarte dos Pazzi ao vento.

—  Libertà! Libertà! Popolo e libertà! — gritavam ao se aproximar dali. Enquanto isso, as forças dos Médici saíam do palazzo para enfren­tá-los, mas estavam cansadas e, como Ezio pôde perceber, em desvan­tagem numérica.

Ele se virou para o cadáver.

—  Bem, Francesco — disse —, acho que encontrei um jeito de você me pagar sua dívida, mesmo agora.

Rapidamente, ele ergueu o corpo pelos ombros — era surpreenden­temente leve — e o carregou até a sacada. Ali, encontrando um cor­dão de disparo de canhão do qual pendia um estandarte, usou-o para amarrar o pescoço do homem sem vida. Rapidamente prendeu a outra ponta a uma coluna resistente de pedra, e, reunindo todas as suas forças, ergueu-o e depois o atirou pelo parapeito. A corda se desenrolou com­pletamente e depois estacou com um puxão. O corpo inerte de Frances­co ficou pendurado, os dedos dos pés apontando frouxamente para o chão lá embaixo.

Ezio escondeu-se atrás da coluna.

—  Jacopo! — gritou com voz trovejante. — Jacopo de’ Pazzi! Olhe! Seu líder está morto! Sua causa chegou ao fim!

Lá embaixo, ele viu Jacopo olhar para cima e vacilar. Atrás dele, seus homens fizeram o mesmo. As tropas dos Médici acompanharam seu olhar e então, comemorando, se aproximaram deles. Porém os Pazzi já haviam se dispersado — e fugido.

Em questão de dias estava tudo terminado. O poder dos Pazzi em Flo­rença tinha sido destruído. Todos os seus bens e propriedades foram confiscados, e seus brasões de armas, arrancados e pisoteados. Apesar dos apelos de Lorenzo por misericórdia, a máfia florentina caçou e ma­tou todos os simpatizantes dos Pazzi que puderam encontrar, embora alguns dos principais já tivessem fugido. Somente um dos que foram capturados obteve clemência: Raffaelle Riario, sobrinho do papa, que Lorenzo considerava crédulo e ingênuo demais para ter se envolvido naquilo. Porém, diversos conselheiros do duque acharam que ele esta­va demonstrando mais humanidade do que astúcia política com aquela decisão.

Entretanto, Sisto IV ficou furioso e baixou um interdito contra Flo­rença. Era o máximo que podia fazer, e os florentinos o ignoraram.

Quanto a Ezio, foi um dos primeiros a serem convocados à presença do duque. Ele encontrou Lorenzo em uma sacada que dava para o Arno, observando as águas do rio. Seus ferimentos ainda estavam cobertos por bandagens, mas cicatrizavam, e ele já recuperara a cor nas faces. Estava orgulhoso e altivo, completamente merecedor do apelido carinhoso que ganhara de Florença — II Magnifico.

Depois dos cumprimentos, Lorenzo fez um gesto na direção do rio.

—  Sabe, Ezio, quando eu tinha 6 anos de idade, caí no Arno. Logo me vi ser arrastado para baixo, para a escuridão, certo de que minha vida tinha chegado ao fim. Mas, em vez disso, acordei com minha mãe chorando. Ao lado dela havia um estranho encharcado e sorridente. Ela explicou que aquele homem tinha me salvado. O nome do estranho era Auditore. E assim começou um longo e próspero relacionamento entre nossas duas famílias. — Ele se virou para olhar solenemente para Ezio.

—  Sinto muito por não ter conseguido salvar seus parentes.

Ezio sentiu dificuldades em encontrar palavras. Ele entendia o mun­do frio da política, onde certo e errado são com frequência muito indis­tintos, mas o rejeitava.

—  Sei que os teria salvado se estivesse em seu poder — respondeu.

—  A casa de sua família, pelo menos, está a salvo e sob a proteção da cidade. Encarreguei sua antiga governanta, Annetta, dos cuidados com ela e estou pagando pelos serviços de vigilância e de funcionários. O que quer que aconteça, a casa estará à sua espera quando desejar voltar a ocupá-la.

—  O senhor é muito gentil, Altezza. — Ezio fez uma pausa. Esta­va pensando em Cristina. Será que ainda não seria tarde demais para convencê-la a romper o noivado, casar-se com ele e ajudá-lo a trazer a família Auditore de volta à vida? No entanto, dois breves anos o haviam mudado de modo irreconhecível e agora ele tinha outro dever; um de­ver para com o Credo. — Tivemos uma grande vitória — disse ele por fim. — Mas a batalha ainda não está ganha. Vários de nossos inimigos escaparam.

—  Mas a segurança de Florença está garantida. O papa Sisto quis convencer Nápoles a nos atacar, mas convenci Ferdinando a não fazer isso; e Bolonha e Milão também não farão tal coisa.

Ezio não podia contar ao duque da batalha maior em que ele esta­va envolvido, pois não tinha certeza se Lorenzo sabia dos segredos dos Assassinos.

—  Pela nossa segurança maior — disse —, preciso de sua permissão para ir atrás de Jacopo de’ Pazzi.

Uma nuvem atravessou o rosto de Lorenzo.

—  Aquele covarde! — disse, com raiva. — Fugiu antes que eu pudes­se pôr as mãos nele.

—  Temos alguma ideia de para onde ele pode ter ido?

Lorenzo balançou a cabeça.

—  Não. Eles se esconderam bem. Meus espiões relataram que Baroncelli pode estar tentando ir até Constantinopla, mas quanto aos outros...

Ezio pediu:

—  Diga os nomes.

Havia algo na firmeza de sua voz que mostrou a Lorenzo que ali estava um homem com quem poderia ser fatal cruzar.

—  Como eu esqueceria os nomes dos assassinos de meu irmão? Se você for atrás deles, ficarei em eterna dívida. São os padres Antonio Maffei e Stefano da Bagnone. Bernardo Baroncelli já mencionei. E exis­te outro, não envolvido diretamente nos assassinatos, mas um aliado perigoso de nossos inimigos. Trata-se do arcebispo de Pisa, Francesco Salviati, outro membro da família Riario, os cães de caça do papa. Mos­trei clemência a seu primo. Tento não ser um homem como eles, mas me pergunto às vezes se sou sábio em fazer isso.

—  Tenho uma lista — disse Ezio, se preparando para ir embora. — Esses nomes serão acrescentados a ela.

—  Para onde você vai agora? — quis saber Lorenzo.

—  Voltar para a casa de meu tio Mario em Monteriggioni. Lá será minha base.

—  Então vá com Deus, amigo Ezio. Mas, antes de ir, tenho algo que talvez venha a ser de seu interesse... — Lorenzo abriu uma carteira de couro presa ao seu cinto e dali tirou uma folha de pergaminho. Antes mesmo de a desenrolar, Ezio já sabia o que era.

—  Eu me lembro de, anos atrás, ter conversado com seu pai sobre documentos antigos — disse Lorenzo em voz baixa. — Era um interesse em comum nosso. Sei que ele traduziu alguns. Tome, leve, encontrei entre os papéis de Francesco de’ Pazzi, e, como ele já não precisa mais disso, achei que você poderia gostar, pois me lembrou o seu pai. Talvez queira acrescentar à... coleção dele?

—  Sou muito grato por isso, Altezza.

—  Achei que poderia ser — retrucou Lorenzo, de tal maneira que Ezio ficou se perguntando o quanto o duque realmente saberia. — Es­pero que lhe seja útil.

Antes de fazer as malas e se preparar para a viagem, Ezio correu para vi­sitar o amigo Leonardo da Vinci levando a página do códex que Lorenzo havia lhe dado. Apesar dos eventos da última semana, o ateliê estava funcionando como se nada tivesse acontecido.

—  Estou feliz por você estar sã e salvo. Ezio — cumprimentou

Leonardo.

—  Vejo que você também passou pelo tumulto sem abalos — respondeu Ezio.

—  Já lhe disse: eles me deixam em paz. Devem achar que sou louco, ou ruim demais, ou perigoso demais para ser tocado! Mas tome um pouco de vinho; e deve haver uns bolinhos por aí, se é que não mofaram. Minha governanta é inútil... Me conte o que tem em mente.

—  Estou indo embora de Florença.

—  Tão rápido? Mas me disseram que você é o herói da vez! Por que não sentar e aproveitar?

—  Não tenho tempo.

—  Ainda tem inimigos a perseguir?

—  Como sabe?

Leonardo sorriu:

—  Obrigado por ter vindo se despedir — disse ele.

—  Antes de ir — falou Ezio —, trouxe outra página do códex para você.

—  Ótima notícia! Posso vê-la?

—  É claro.

Leonardo examinou cuidadosamente o novo documento.

—  Estou começando a pegar o jeito da coisa — disse. — Ainda não consigo enxergar direito o que é o diagrama geral do fundo, mas a escri­ta está se tornando familiar. Parece a descrição de outra arma. — Ele se levantou e trouxe uma braçada de livros antigos, de aparência frágil, até a mesa. — Vejamos... Devo dizer que o inventor que escreveu isso tudo, seja lá quem for, devia estar muito à frente de seu tempo. Só a mecânica disso aqui... — Deixou a frase no ar, perdido em pensamentos. — Ahá! Entendi! Ezio, é o projeto de outra lâmina; ela se encaixa no mecanismo que você prende ao braço, para o caso de precisar usar esta em vez da primeira.

—  Qual a diferença entre as duas?

—  Se eu estiver certo, esta aqui é bem maldosa: é oca no meio, vê? E através do duto escondido na lâmina, o usuário pode injetar veneno na vítima. É morte certa, independente de onde for o golpe! Essa coisa o tornará praticamente invencível!

—  Você consegue fazê-la?

—  Nos mesmos termos de antes?

—  Claro.

—  Ótimo! Quanto tempo eu tenho?

—  Até o fim da semana, pode ser? Tenho de fazer alguns prepara­tivos, e... existe uma pessoa que gostaria de visitar... para me despedir. Mas preciso partir o quanto antes.

—  Não é muito tempo, mas ainda tenho as ferramentas que usei para fazer a primeira lâmina, e meus assistentes podem ajudar. Então não vejo por que não.

Ezio usou aquele intervalo para resolver seus assuntos em Florença, fazer as malas e providenciar que um mensageiro levasse uma carta a Monte- riggioni. Adiou sua última e autoimposta tarefa várias vezes, mas sabia que tinha de encará-la. Finalmente, em sua penúltima noite na cidade, caminhou até a mansão dos Calfucci. Seus pés pesavam como chumbo.

Porém, ao se aproximar, viu que o lugar estava fechado e escuro. Sabendo que estava se comportando como um maluco, escalou até a sacada de Cristina, mas encontrou as janelas muito bem fechadas. Os nastúrcios dispostos em vasos na sacada estavam murchos e mortos. Ao descer, exausto, sentiu como se seu coração tivesse sido coberto por uma mortalha. Ficou à porta da casa, como se estivesse em um sonho, durante um tempo que não soube precisar — mas alguém devia estar observando-o, pois finalmente uma janela no primeiro andar se abriu e uma mulher colocou a cabeça para fora.

—  Eles foram embora, sabe. O signor Calfucci viu que poderiam ter problemas e levou a família toda para Lucca, a cidade do noivo da filha.

—  Lucca?

—  Sim. As duas famílias estão muito próximas, pelo que ouvi falar.

—  Quando eles vão voltar?

—  Não tenho a menor ideia. — A mulher olhou para ele. — Eu não o conheço de algum lugar?

—  Acho que não — respondeu Ezio.

Passou a noite ora sonhando com Cristina, ora com o terrível fim de Francesco.

De manhã, o céu estava nublado muito adequado ao humor de E

Ele foi até o ateliê de Leonardo, satisfeito por aquele ser o dia de sua partida de Florença. A nova lâmina estava pronta, finalizada em aço cin­zento fosco duríssimo, com bordas tão afiadas que cortariam um lenço de seda. O furo na ponta era minúsculo.

—  O veneno fica no punho da adaga e é liberado quando você fle­xiona o músculo do braço contra esse botão interno. Cuidado, pois o mecanismo é muito sensível.

—  Que veneno devo usar?

—  Usei uma destilação forte de cicuta para começar. Quando aca­bar, basta pedir mais a qualquer médico.

—  Veneno? A um médico?

—  Em concentrações muito altas, aquilo que cura pode também matar.

Ezio assentiu com tristeza:

—  Estou em dívida com você mais uma vez.

—  Aqui está sua página do códex. Precisa mesmo ir embora tão rá­pido?

—  Florença é um lugar seguro, por enquanto. Mas ainda tenho tra­balho a fazer.

 

—  Ezio! — sorriu Mario, a barba mais abundante do que nunca, o rosto queimado pelo sol da Toscana. — Seja bem-vindo de volta!

-Tio.

O rosto de Mario tornou-se mais sério.

—  Posso ver pelo seu rosto que você passou por muita coisa nesses meses em que ficamos sem nos ver. Depois que você tiver se banhado e descansado, precisa me contar tudo. — Fez uma pausa. — Ouvimos as no­tícias de Florença e eu, até mesmo eu, me vi rezando para que, por algum milagre, você fosse poupado. Mas você não só foi poupado como também virou a maré contra os Pazzi! Os Templários vão odiá-lo por isso, Ezio.

—  O ódio é recíproco.

—  Descanse primeiro, depois me conte tudo.

Naquela noite, os dois homens se sentaram no gabinete de Mario. Ele ouviu atentamente enquanto Ezio lhe contava tudo o que sabia dos acontecimentos pelos quais passara em Florença. Devolveu a página do códex ao tio e depois lhe entregou a que havia ganhado de Lorenzo, descrevendo o projeto da lâmina que continha veneno. Em seguida, mostrou-lhe a própria lâmina em si. Mario ficou muito impressionado, mas fixou a atenção na nova página.

—  Meu amigo não conseguiu decifrar mais do que a descrição da arma — disse Ezio.

—  Não tem problema. Nem todas as páginas contêm tais instruções, e apenas aquelas que contêm devem ser de interesse para ele — respon­deu Mario, com certa cautela subjacente. — Seja como for, apenas quan­do reunirmos todas elas seremos capazes de entender completamente o significado do códex. Porém, quando juntarmos esta página e a de Vieri às demais, teremos dado um passo à frente.

Ele se levantou, andou até a estante que escondia a parede onde estavam penduradas as páginas do códex, afastou-a e analisou onde poderia colocar as novas páginas. Uma delas tinha relação com as que já estavam

ali; a outra tocava um dos cantos do grupo.

—  É interessante que Vieri e seu pai tivessem páginas que ob' mente estão próximas — comentou Mario. — Agora, vejamos o que...

—  Interrompeu o pensamento, concentrando-se. — Hum — disse por fim, mas seu tom era preocupado.

—  Isso nos esclarece alguma coisa a mais, tio?

—  Não tenho certeza. Talvez estejamos mais no escuro do que nun­ca, mas há definitivamente uma referência a um profeta... não da Bíblia; um profeta que está vivo ou que está por vir...

—  Quem pode ser?

—  É melhor não nos apressarmos. — Mario ficou refletindo olhan­do para as páginas, com os lábios se mexendo, falando uma língua que Ezio não entendia. — Até onde consigo entender, o texto aqui pode ser traduzido de forma literal como “Apenas o Profeta pode abrir...” E aqui existe uma referência a dois “Pedaços do Éden”, mas o que isso significa eu não sei. Precisamos ser pacientes até termos mais páginas do códex.

—  Sei que o códex é importante, tio, mas tenho um motivo mais urgente para estar aqui do que desvendar esse mistério. Estou atrás do renegado Jacopo de’ Pazzi.

—  Ele com certeza foi para o sul depois de fugir de Florença. — Ma­rio hesitou antes de continuar. — Não tinha intenção de conversar com você a esse respeito hoje à noite, Ezio, mas a questão é tão urgente para mim quanto pelo visto é para você, e temos de começar os preparativos logo. Meu velho amigo Roberto foi expulso de San Gimignano e o lugar se tornou novamente uma fortaleza dos Templários. Fica perto demais de Florença, e de nós, para continuar assim. Acredito que Jacopo tenha buscado refúgio ali.

—  Tenho uma lista de nomes de outros conspiradores — disse Ezio, retirando-a da bolsa e entregando-a ao tio.

—  Ótimo. Alguns destes homens darão muito menos trabalho do que Jacopo e podem ser fáceis de eliminar. Vou enviar espiões para o in­terior ao amanhecer para ver se podem descobrir algo a respeito, e nesse meio tempo precisamos nos preparar para retomar San Gimignano.

—  Deixe todos os seus homens a postos, mas não tenho tempo a perder, se desejo eliminar todos esses assassinos.

Mario ponderou.

—  Talvez você tenha razão — concordou ele. — Um homem sozi­nho pode muitas vezes romper muralhas que um exército não consegue. E devemos atacá-los enquanto ainda acreditam estarem seguros. — Re­fletiu por um instante. — Então lhe dou minha permissão. Vá em frente e veja o que consegue descobrir. Sei que você hoje em dia é mais do que capaz de cuidar de si mesmo.

—  Tio, meus agradecimentos!

—  Calma, Ezio! Eu lhe concedo essa permissão sob uma condição.

—  Que é...?

—  Que você adie sua partida por uma semana.

—  Uma semana?

—  Se você vai a campo sozinho sem retaguarda, vai precisar de mais do que apenas essas armas do códex para lhe ajudar. Você é um homem agora, e um combatente corajoso pela causa dos Assassinos. Mas sua reputação fará com que os Templários fiquem ainda mais sedentos por seu sangue, e sei que faltam ainda certas habilidades a você.

Ezio balançou a cabeça impacientemente:

—  Não, tio, me desculpe, mas uma semana...!

Mario franziu a testa, mas ergueu a voz de leve. Foi o bastante.

—  Ouvi boas coisas a seu respeito, Ezio, mas também ouvi coisas ruins. Você perdeu o controle ao matar Francesco e permitiu que seus sentimentos por Cristina o afastassem de seu caminho. Todo o seu de­ver agora está com o Credo: se você o negligenciar, talvez não haja mais nenhum mundo para ser desfrutado. — Ele endireitou o corpo com dig­nidade. — É com a voz do sangue de seu pai que falo ao lhe ordenar obediência.

Ezio observou o tio ficar altivo, e até mesmo crescer, enquanto fala­va. Por mais doloroso que fosse aceitar, sabia que era verdade o que ele havia lhe dito. Deixou a cabeça pender amargamente.

—  Ótimo — disse Mario, agora com mais gentileza. — Você vai me agradecer por isso. Seu novo treinamento de combate começa de ma­nhã. E lembre-se: estar preparado é tudo!

Uma semana depois, armado e pronto, Ezio cavalgou para San Gimignano. Mario lhe dissera para entrar em contato com uma das patrulhas de condottieri que ele havia colocado à vista da cidade para observar suas idas e vindas, e ele se juntou a um de seus acampamentos em sua primeira noite fora de Monteriggioni.

O sargento em comando, Gambalto, um homem durão de 25 anos de idade com cicatrizes de batalha, deu-lhe um pedaco de pão com queijo pecorino e uma caneca de Vernaccia forte, e, enquanto eie comia e bebia, contou as novidades.

—  Acho uma vergonha Antonio Maffei ter saído de Volterra. Ele está obcecado com Lorenzo porque acha que ele arruinou sua cidade natal, mas o duque só fez trazê-la para debaixo das asas de Florença. Agora Maffei enlouqueceu. Ele se instalou no topo da torre da catedral, rodeado de arqueiros dos Pazzi, e passa todos os dias disparando Sal­mos e flechas em igual medida. Deus sabe qual é seu plano: converter os cidadãos para sua causa com sermões ou matá-los com flechas. O povo de San Gimignano o odeia, mas enquanto ele continuar seu reinado de terror, a cidade não tem como enfrentá-lo.

—  Então ele precisa ser neutralizado.

—  Bem, isso com certeza enfraqueceria o poder dos Pazzi na cidade.

—  Eles estão bem protegidos?

—  Há muitos homens nas torres de vigilância e nos portões, mas eles trocam a guarda ao amanhecer. É quando alguém como você poderia invadir as muralhas e entrar na cidade sem ser visto.

Ezio refletiu se aquilo não seria uma distração de sua missão, que era ir atrás de Jacopo, mas considerou que precisava enxergar o quadro inteiro: o tal Maffei era aliado dos Pazzi, e era dever maior de Ezio como Assassino destronar aquele maluco.

Ao amanhecer do dia seguinte, um cidadão mais atento de San Gi­mignano poderia ter notado uma silhueta encapuzada magra e de olhos cinzentos deslizando como um fantasma pelas ruas que levavam à pra­ça da catedral. Os comerciantes do mercado já estavam montando suas tendas, mas o dia ainda não havia começado de todo e os guardas, en­tediados e desestimulados, cochilavam apoiados sobre as alabardas. A face oeste do campanário ainda estava envolta em sombras pesadas e ninguém viu a figura de negro escalá-la com a graça e facilidade de uma aranha.

O padre, magro, de olhos fundos e despenteado, já estava a postos. Quatro arqueiros cansados dos Pazzi também haviam assumido suas posições, um em cada canto da torre. Mas, além da Bíblia na mão es­querda, como se não confiasse apenas nos arqueiros para protegê-lo, Antonio Maffei segurava uma adaga rondei na direita. Já estava orando, e quando Ezio se aproximou do topo da torre, conseguiu ouvir as pala­vras de Maffei.

—  Cidadãos de San Gimignano, ouçam bem minhas palavras! Vo­cês devem se arrepender. ARREPENDER! E buscar perdão... Juntem-se a mim em oração, meus filhos, para que juntos possamos combater as trevas que caíram sobre nossa amada Toscana! Deem ouvidos, ó Céus, e eu falarei; e escutai, ó Terra, as palavras de minha boca. Deixem meus ensinamentos caírem como a chuva, meu discurso se destilar como o orvalho, como gotas de chuva sobre as ervas mais tenras, como chuva sobre a grama; pois eu proclamo o Nome do Senhor! Ele é a Rocha! Sua Obra é perfeita, pois todas as Suas ações são justas! Correto e justo é Ele; mas aqueles que se corromperam não são seus filhos — são uma geração manchada, perversa e torta! Cidadãos de San Gimignano, é assim que vocês lidam com o Senhor? Ó povo tolo e pouco sábio! En­tão não é Ele o vosso Pai, que os criou? Pela luz de Sua misericórdia, limpem-se!

Ezio pulou levemente sobre o parapeito da torre e assumiu sua posi­ção perto da portinhola que dava para a escadaria que levava para baixo. Os arqueiros se esforçaram para atingi-lo, mas a distância era curta e ele tinha a seu favor o elemento surpresa. Ele se agachou e agarrou os calcanhares de um deles, derrubando-o pelo parapeito. O homem caiu urrando e foi morrer no calçamento de pedra sessenta metros abaixo. Antes que os outros pudessem reagir, ele já tinha dominado outro, es­faqueando seu braço. O homem olhou surpreso para a pequena ferida, mas depois ficou cinza e caiu morto na hora. Ezio havia prendido sua nova arma venenosa ao braço, pois não havia tempo para nenhum combate mortal agora. Girou para atacar o terceiro, que deixara cair o arco e flecha e tentava passar por ele em direção às escadas. Quando as alcançou, Ezio o chutou no traseiro e ele caiu de cabeça rolando pelos degraus de madeira: ossos se quebraram quando ele aterrissou depois do primei­ro lance. O último guarda ergueu as mãos e balbuciou algo. Ezio olhou para baixo e viu que o homem tinha se urinado. Deu um passo para o lado e, com uma reverência irônica, deixou o arqueiro aterrorizado se esgueirar pelas escadas, passando pelo camarada arrebentado.

Então foi atingido com força na nuca pelo punho pesado de aço da uma adaga. Maffei havia se recuperado do choque do ataque e se apro­ximado de Ezio por trás. Ezio cambaleou para a frente.

—  Vou colocar você de joelhos, pecador! — berrou o padre, espu­mando pelos cantos da boca. — Implore por perdão!

“Por que as pessoas sempre perdem tempo com conversa?”, pensou Ezio, que teve tempo de se recuperar e se virar enquanto o padre falava.

Os dois homens se encararam no espaço estreito. Maffei atacou com sua adaga pesada. Estava claro que não era bom de luta, mas o desespero e o fanatismo o tornavam realmente muito perigoso, e mais de uma vez Ezio precisou desviar da lâmina que saltava erraticamente, incapaz de desferir um golpe certeiro. Por fim conseguiu segurar o pulso do padre e puxá-lo para a frente, de forma que seus peitos se tocaram.

—  Vou mandar você choramingando para o inferno! — vociferou Maffei.

—  Mostre algum respeito pela morte, meu amigo — retrucou Ezio.

—  Eu lhe mostro o respeito!

—  Desista! Eu lhe darei tempo para rezar.

Maffei cuspiu nos olhos de Ezio, fazendo com que ele o soltasse. En­tão, berrando, enfiou a adaga em seu antebraço esquerdo, mas a lâmina deslizou para o lado sem feri-lo, desviada pela placa de metal.

—  Que demônio protege você? — vociferou o padre.

—  Você fala demais — disse Ezio, enfiando a própria adaga no pes­coço de Maffei e tensionando os músculos do antebraço. Quando o veneno fluiu da lâmina para a jugular do padre, ele se enrijeceu e abriu a boca, mas apenas um ar fétido saiu dela. Então ele empurrou Ezio para longe, cambaleou de volta na direção do parapeito, endireitou o corpo por um instante e depois caiu para a frente nos braços da morte.

Ezio foi até o cadáver de Maffei. De sua batina ele retirou uma carta, que abriu e rapidamente leu.

Padrone:

Ê com medo no coração que lhe escrevo isso. O Profeta chegou. Eu sin­to. Os próprios pássaros não agem como deveriam, rodopiam sem rumo pelo céu. Eu os vejo da minha torre. Não comparecerei ao nosso encontro como solicitado, pois não posso mais continuar assim exposto ao públi­co, por medo de que o Demônio me encontre. Perdoe-me, mas preciso escutar minha voz interior. Que o Pai da Compreensão possa guiá-lo. E guiar-me.

Irmão A.

Gambalto tinha razão, pensou Ezio, o homem estava maluco. Som­briamente, lembrando-se da repreensão do tio, fechou os olhos do padre e disse ao fazê-lo:

—  Requiescat in pace.

Ciente de que o arqueiro a quem demonstrara misericórdia poderia ter dado o alarme, olhou para baixo pelo parapeito da torre, mas não viu nenhuma atividade preocupante. Os guardas dos Pazzi ainda estavam em seus postos, e o mercado já começara a funcionar com lentidão. Sem dúvida aquele arqueiro agora já estaria a meio caminho do campo, de volta à sua casa, preferindo a deserção à corte marcial e possivelmente à tortura. Ele empurrou a lâmina de volta para dentro do mecanismo es­condido em seu antebraço, tomando o cuidado de tocá-la apenas com a mão enluvada, e desceu as escadas da torre. O sol estava alto e isso o tor­naria facilmente visível se descesse pela parede externa do campanário.

Quando se reuniu à tropa de mercenários de Mario, Gambalto o cumprimentou animado.

—  Sua presença nos traz boa sorte — disse ele. — Nossos batedores localizaram o arcebispo Salviati!

—  Onde?

—  Não muito longe daqui. Esvendo aquela mansão na colina, ali.

—  Sim.

—  Ele está lá. — Então Gambalto se lembrou: — Mas primeiro pre­ciso lhe perguntar, capitano, como se saiu na cidade?

—  Não vai haver mais sermões de ódio do alto daquela torre.

—  O povo irá abençoá-lo, capitano.

—  Não sou capitão.

—  Para nós, é — disse Gambalto, simplesmente. — Leve um desta­camento a partir daqui. Salviati está muito bem protegido e a mansão é uma construção antiga e fortificada.

—  Muito bem — respondeu Ezio. — Que bom que os ovos estão todos juntos, praticamente em um único ninho.

—  Os outros não podem estar longe, Ezio. Vamos nos empenhar para encontrá-los durante sua ausência.

Ezio escolheu uma dúzia dos melhores combatentes na luta corpo a corpo de Gambalto e os liderou a pé pelos campos que os separavam da mansão onde Salviati havia se refugiado. Espalhou seus homens, mas os deixou à distância de um grito um do outro. Os postos avançados dos Pa- zzi que Salviati deixara de prontidão foram facilmente evitados ou neu­tralizados, porém Ezio perdeu dois de seus homens naquela operação.

Ezio esperava atacar a mansão de surpresa, antes que seus ocupantes soubessem de sua investida, mas quando se aproximou dos sólidos por­tões principais uma figura vestida com os trajes do arcebispado apare­ceu no alto das muralhas, segurando as ameias com mãos em garra. Um rosto de predador olhou para baixo e logo se retirou.

—  É Salviati — disse Ezio para si mesmo.

Não havia nenhum outro guarda do lado de fora dos portões. Ezio fez sinal para que seus homens se aproximassem das muralhas, para que os arqueiros não tivessem ângulo para atingi-los. Sem dúvida Salviati devia ter concentrado o que restava de seus guarda-costas dentro das muralhas, que eram espessas e altas o bastante para parecerem intrans­poníveis. Ezio se perguntou se deveria mais uma vez tentar escalá-las e abrir os portões por dentro para deixar suas tropas entrarem, mas sabia que os guardas de Pazzi na mansão estariam atentos à sua presença.

Fazendo sinal para que seus homens ficassem fora de vista, encos­tados nas muralhas, ele se agachou e percorreu pela grama alta a curta distância até onde o corpo de um de seus inimigos estava caído. Rapida­mente tirou o uniforme do cadáver e o vestiu, depois enfiou embaixo do braço suas próprias roupas emboladas.

Tornou a se juntar a seus homens, que de início se agitaram ante a visão de um suposto Pazzi se aproximando, e entregou suas roupas para um deles. Então bateu nos portões com o punho da espada.

—  Abram! — gritou. — Em nome do Pai da Compreensão!

Um minuto tenso se passou. Ezio recuou para que pudesse ser visto das muralhas. Então ouviu o som de ferrolhos pesados sendo retirados.

Assim que os portões começaram a se abrir, Ezio e seus homens invadiram, fechando-os novamente e dispersando os guardas ali dentro. Viram-se em um pátio ao redor do qual a mansão se erguia em três alas. Salviati estava no topo de um lance de escadas, no meio da ala principal. Uma dúzia de grandalhões armados estava entre ele e Ezio, e mais guar­das ocupavam o pátio.

—  Traição suja! — gritou o arcebispo. — Mas você não vai sair com a mesma facilidade com que entrou. — Então ergueu a voz em um rugido autoritário: — Matem todos! Matem todos eles!

As tropas dos Pazzi se aproximaram, rodeando os homens de Ezio. Mas os Pazzi não haviam sido treinados por um homem como Mario Auditore, e, apesar das desvantagens, os condottieri lutaram com suces­so contra os oponentes no pátio, enquanto Ezio corria em direção às escadas. Ele liberou a lâmina com veneno e esfaqueou os homens que rodeavam Salviati. Não importava onde os atingisse: sempre que acerta­va e fazia sair sangue, mesmo que fosse no rosto, o homem morria em um piscar de olhos.

—  Você é realmente um demônio, do Quarto Anel do Nono Círcu­lo! — falou Salviati com voz trêmula quando finalmente Ezio e ele se confrontaram cara a cara.

Ezio voltou a esconder a lâmina de veneno, mas sacou a adaga de combate. Agarrou Salviati pelo colarinho e levou a lâmina ao pescoço do arcebispo.

—  Os Templários perderam seu cristianismo quando descobriram o ramo bancário — disse, sem se alterar. — Não conhece sua própria es­critura? “Não se pode servir a Deus e a Mamon”! Mas esta é sua chance de se redimir. Diga: onde está Jacopo?

Salviati olhou-o desafiadoramente:

—  Você nunca irá encontrá-lo!

Ezio arrastou a lâmina suave mas decididamente na garganta do ho­mem, tirando um pouco de sangue.

—  Vai ter de fazer melhor do que isso, Arcivescovo.

—  A noite nos guarda quando nos encontramos; agora, termine o que começou!

—  Então, vocês se escondem como os assassinos que são, protegen­do-se na escuridão. Obrigado por isso. Vou perguntar mais uma vez: onde?

—  O Pai da Compreensão sabe que o que eu faço agora é para o bem maior — respondeu Salviati com frieza, e, agarrando de repente o pulso de Ezio com as duas mãos, forçou a adaga profundamente para dentro da própria garganta.

—  Diga-me! — gritou Ezio. Mas o arcebispo, borbulhando sangue pela boca, já havia caído a seus pés, as esplêndidas vestes amarelas e brancas manchadas de vermelho.

Somente vários meses depois Ezio teve mais notícias dos conspiradores que buscava. Nesse meio-tempo, ele e Mario planejaram como pode­riam recuperar San Gimignano e libertar seus cidadãos do jugo cruel dos Templários, que, tendo aprendido a lição da última vez, controla­vam a cidade com mãos de ferro. Sabendo que os Templários também estariam procurando as páginas restantes do códex, Ezio foi pessoal­mente em busca delas a toda parte, mas nada conseguiu. As páginas que já estavam nas mãos dos Assassinos permaneceram escondidas sob a guarda severa de Mario, pois desta forma o segredo do Credo jamais seria conhecido pelos Templários.

Então, um dia, um mensageiro de Florença cavalgou até Monterig- gioni com uma carta de Leonardo para Ezio. Rapidamente ele buscou um espelho, pois sabia do costume do amigo de escrever de trás para a frente por ser canhoto — aqueles rabiscos, entretanto, teriam sido difí­ceis de decifrar até mesmo pelo leitor mais habilidoso que não estivesse acostumado com eles. Ezio quebrou o selo e leu ansiosamente. Seu co­ração se alegrou a cada linha:

Gentile Ezio,

O duque Lorenzo me pediu para lhe enviar notícias — de Bernardo Ba- roncelli! Parece que ele conseguiu embarcar em um navio até Veneza e dali secretamente seguiu incógnito até a corte do sultão otomano de Constantinopla, planejando obter refúgio. Porém, como ele não chegou a ficar em Veneza, não soube que os venezianos haviam assinado recen­temente a paz com os turcos — os venezianos inclusive mandaram até lá seu segundo melhor pintor, Gentile Bellini, para fazer um retrato do sultão Mehmet. Assim, quando ele chegou e sua verdadeira identidade se tornou conhecida, ele foi preso.

É claro que você pode então imaginar a correspondência que foi tro­cada entre a Sublime Porta e Veneza, mas os venezianos são também nossos aliados — pelo menos por enquanto — e o duque Lorenzo é um mestre da diplomacia. Baroncelli foi enviado acorrentado de volta a Flo­rença e, ao chegar, interrogado. Porém, foi teimoso, ou tolo, ou corajoso, não sei ao certo: suportou a tortura, as pinças em brasa, as chicotadas e os ratos roendo-lhe os pés, e só nos disse que os conspiradores costuma­vam se encontrar à noite em uma velha cripta embaixo de Santa Maria Novella. É claro que foi feita uma busca ali, mas nada se encontrou. Então, ele foi enforcado. Fiz um ótimo rascunho do enforcamento, que vou lhe mostrar quando nos encontrarmos da próxima vez. Acho que, anatomicamente falando, está bastante preciso.

Distinti saluti

Seu amigo Leonardo da Vinci

—  Que bom que o homem está morto — comentou Mario quando Ezio lhe mostrou a carta. — Ele era o tipo capaz de roubar palha da choupana da mãe. Mas seja como for, isso não nos ajuda a descobrir quais são os próximos planos dos Templários, nem o paradeiro Jacopo.

Ezio encontrara tempo para visitar a mãe e a irmã, que continuavam a passar os dias na serenidade do convento, sendo cuidadas pela gen­til abadessa. Percebeu, para sua tristeza, que Maria atingira o máximo de recuperação que poderia alcançar. Seu cabelo havia se tornado pre­maturamente grisalho e havia finos pés-de-galinha nos cantos de seus olhos, mas ela conquistara uma calma interior e, quando falava do ma­rido e dos filhos mortos, era com saudades, afeto e orgulho. Porém, a visão da caixinha de pereira de Petruccio com as plumas de águia, que ela conservava na mesa de cabeceira, ainda podia trazer-lhe lágrimas aos olhos. Quanto a Claudia, ela agora era uma novizia, e embora Ezio lamentasse o que enxergava como um desperdício de sua beleza e de seu espírito, reconhecia que em seu rosto agora havia uma luz, e isso o fazia aceitar sua decisão e ficar feliz por ela. Ele as visitou novamente no Natal, e no ano-novo retomou seu treinamento, embora por dentro estivesse fervilhando de impaciência. Para contrabalançar isso, Mario o tornou segundo comandante do castelo, e Ezio enviou incansavelmente seus próprios espiões e batedores pelo país em busca da presa que queria de modo implacável.

Então, por fim, recebeu notícias. Numa manhã do final da prima­vera, Gambalto surgiu com olhos brilhantes à porta da sala dos mapas, onde Ezio e Mario estavam entretidos em uma reunião.

—  Signori! Encontramos Stefano da Bagnone! Ele se refugiou na Abadia de Asmodeo, que fica a apenas algumas léguas ao sul. Estava sob o nosso nariz o tempo inteiro!

—  Eles andam juntos como os cães que são — vociferou Mario, tra­çando rapidamente com seus dedos grossos uma rota no mapa diante dele. Olhou para Ezio. — Mas ele é um cão importante. O secretário de Jacopo! Se não conseguirmos tirar algo dele...!

Mas Ezio já estava dando ordens para selar e preparar seu cavalo. Rapidamente foi até seus aposentos e se armou, prendendo as armas do códex e escolhendo, agora, a lâmina retrátil original em lugar da que continha veneno. Substituíra a destilação de cicuta original de Leonardo com meimendro a conselho do médico de Monteriggioni, e o saco de veneno localizado no punho da adaga estava cheio. Tinha decidido que usaria a lâmina venenosa com discrição, pois sempre ha­via o risco de injetar uma dose fatal em si mesmo. Por este motivo, e porque seus dedos estavam cobertos com pequenas cicatrizes, ele agora usava luvas de couro flexíveis, mas grossas, ao utilizar qualquer uma das lâminas.

A abadia ficava perto de Monticiano, cujo antigo castelo dominava a paisagem da pequena cidade sobre a colina. Estava situada no vale ensolarado de uma encosta suave, cheio de ciprestes. Era uma constru­ção recente, talvez com apenas cem anos de idade, feita de um arenito amarelo, caro e importado, ao redor de um pátio vasto com uma igreja no centro. Os portões ficavam escancarados, e era possível ver os mon­ges da ordem da abadia, com seus hábitos cor de ocre, trabalhando nos campos e pomares ao redor dela e nos vinhedos acima — o vinho do monastério da abadia era famoso e exportado até mesmo para Paris. Parte dos preparativos de Ezio incluiu providenciar um hábito de mon­ge para si mesmo e, antes de chegar à abadia e depois de deixar a monta­ria com um cavalariço na hospedaria onde alugara um quarto fingindo ser um mensageiro do governo, ele vestiu seu disfarce.

Logo ao chegar viu Stefano, entretido em uma conversa com o hos- pitarius da abadia, um monge corpulento que parecia ter assumido a forma de um dos barris de vinho que ele evidentemente esvaziava com frequência. Ezio deu um jeito de se aproximar o bastante para ouvi-lo sem ser notado.

—  Oremos, irmão — disse o monge.

—  Orar? — disse Stefano, cuja roupa negra contrastava com todas as cores ensolaradas ao seu redor. Parecia uma aranha em uma panqueca.

—  Pelo quê? — acrescentou ele sarcasticamente.

O monge pareceu surpreso:

—  Pela proteção do Senhor!

—  Se acha que o Senhor tem algum interesse em nossos assuntos, irmão Girolamo, melhor pensar de novo! Mas, por favor, continue a se iludir, se isso o ajuda a passar o tempo.

O irmão Girolamo ficou chocado.

—  0 que está falando é uma blasfêmia!

—  Não. Falo a verdade.

—  Mas negar a Sua mais exaltada Presença...!

—  ...é a única resposta racional, ante a declaração de que existe um louco invisível nos céus. E acredite, se tivermos de levar a sério nossa preciosa Bíblia, então Ele perdeu completamente a cabeça.

—  Como pode dizer tais coisas? Você é um padre!

—  Sou um administrador. Uso essa batina para me aproximar dos malditos Médici, para que eu possa cortá-los pelos joelhos, a serviço de meu verdadeiro mestre. Mas primeiro tenho esse assunto do Assassino, Ezio. Há muito tempo vem sendo uma pedra em nosso sapato, que pre­cisamos arrancar.

—  Agora sim está falando a verdade. Aquele demônio ímpio!

—  Bem — disse Stefano com um sorriso atravessado. — Pelo menos em uma coisa concordamos.

Girolamo abaixou a voz:

—  Dizem que o Demônio lhe deu velocidade e força sobrenaturais.

Stefano o encarou.

—  O Demônio? Não, meu amigo. Estes são dons que ele conseguiu por si próprio, com anos de treinamento rigoroso. — Fez uma pausa, o corpo esquelético curvado em um ângulo reflexivo. — Sabe, Girolamo, acho perturbador que você tenha tanta relutância em creditar às pessoas seus próprios méritos. Acho que, se pudesse, para você todas as pessoas do mundo seriam vítimas.

—  Perdoo sua falta de fé e sua língua ferina — respondeu Girolamo, piedoso. — Você continua sendo um filho de Deus.

—  Eu lhe disse que... — começou Stefano com certa aspereza, mas depois abriu as mãos e desistiu. — Ah, que importa? Basta disso! Ê como falar com o vento!

—  Vou rezar por você.

—  Como quiser. Mas faça isso em silêncio. Preciso ficar atento. Até esse Assassino estar morto e enterrado, nenhum Templário pode baixar a guarda, nem por um instante.

O monge se despediu com uma reverência, e Stefano ficou sozinho no pátio. O sino para a Primeira e a Segunda leitura havia soado e toda a comunidade estava na Igreja da abadia. Ezio surgiu das sombras como um fantasma. O sol brilhou com o peso silencioso do meio-dia. Stefano, como um corvo, ia e vinha pela muralha norte, inquieto, impaciente, possuído.

Ao ver Ezio, não demonstrou nenhuma surpresa.

—  Estou desarmado — disse ele. — Luto com a mente.

—  Para usá-la, você precisa continuar vivo. É capaz de se defender?

—  Você me mataria a sangue frio?

—  Eu vou matá-lo porque é necessário que você morra.

—  Boa resposta! Mas não acha que eu posso ter segredos que lhe podem ser úteis?

—  Dá para perceber que você não se dobraria sob nenhuma tortura.

Stefano o olhou com apreensão.

—  Vou encarar isso como um elogio, embora eu mesmo não tenha tanta certeza assim. Mas, isso tem importância meramente acadêmica.

—  Fez uma pausa antes de continuar com sua voz fina. — Você perdeu sua chance, Ezio, a sorte foi lançada. Os Assassinos defendem uma cau­sa perdida. Sei que você vai me matar independentemente do que eu disser ou fizer, e que estarei morto antes do fim da missa do meio-dia, mas você não vai ganhar nada com minha morte. Os Templários já estão de olho em você, e logo virá o xeque-mate.

—  Disso você não pode ter certeza.

—  Estou prestes a me encontrar com meu Criador, se é que Ele existe. Será reconfortante descobrir. Nesse meio-tempo, por que eu iria mentir?

Ezio liberou a adaga.

—  Que engenhoso — comentou Stefano. — O que mais falta inventar?

—  Arrependa-se — disse Ezio. — Conte o que sabe.

—  O que você quer saber? O paradeiro de meu mestre, Jacopo? — Stefano sorriu. — Isso é fácil. Ele em breve vai se reunir com nossos con­federados, à noite, à sombra dos deuses romanos. — Fez uma pausa. — Espero que isso o deixe satisfeito, pois nada que você possa fazer me fará dizer mais. E de toda forma isso não tem importância, pois sei no fundo do coração que você chegou tarde demais. Meu único pesar é não poder assistir à sua queda... mas quem sabe? Talvez exista mesmo o Além, e eu consiga assistir à sua morte. Por enquanto, vamos logo acabar com isso.

O sino da abadia tocou mais uma vez. Ezio tinha pouco tempo.

—  Acho que você poderia me ensinar muito — disse ele.

Stefano olhou para ele com tristeza.

—  Não neste mundo — respondeu, e abriu a batina na altura do pescoço. — Mas faça-me o favor de me mandar rapidamente para a noite.

Ezio deu uma única punhalada, profunda, com precisão mortal.

—  Existem as ruínas de um Templo de Mitra a sudoeste de San Gimignano — disse Mario pensativo quando Ezio voltou. — São as únicas ruínas romanas de alguma importância num raio de quilômetros, mas você disse que ele falou à sombra dos deuses romanos?

—  Foram essas suas palavras.

—  E que os Templários iriam se reunir ali... em breve?

—  Sim.

—  Então não podemos mais esperar. Precisamos vigiar esse lugar a partir desta noite.

Ezio estava desanimado:

—  Da Bagnone me disse que já era tarde demais para impedi-los.

Mario sorriu.

—  Bom, então cabe a nós provar que ele estava errado.

Era a terceira noite da vigília. Mario havia voltado para sua base para continuar idealizando o planejamento do ataque contra os Templários em San Gimignano, mas deixara Ezio com cinco homens de sua con­fiança, entre eles Gambalto, para montar guarda escondidos na floresta densa que rodeava as ruínas isoladas e desoladas do Templo de Mitra. Tratava-se de um grande conjunto de prédios construídos ao longo de séculos cujo último ocupante de fato tinha sido Mitra, o deus adotado pelo exército romano, mas que continha outras capelas antigas consa­gradas a Minerva, Vênus e Mercúrio. No complexo havia também um teatro cujo palco continuava de pé, embora estivesse rodeado de um semicírculo destruído de bancos de pedra em declive que hoje era lar de escorpiões e ratos. Atrás havia uma parede em ruínas, e nas laterais, colunas quebradas onde as corujas tinham feito ninhos. Por toda parte a hera tomara conta, e arbustos resistentes abriam caminho pelas rachaduras no mármore e em decomposição. A lua lançava sobre

tudo isso uma luz horripilante, e, por mais acostumados que estivessem a enfrentar inimigos mortais sem medo, um ou dois dos homens esta­vam claramente nervosos.

Ezio tinha dito a si mesmo que vigiariam aquele lugar por uma se­mana, mas sabia que seria difícil para seus homens conservar a coragem por tanto tempo, pois os fantasmas do passado pagão eram uma forte presença no local. Porém, por volta da meia-noite, quando os Assassi­nos já sofriam dores nos membros pela falta de atividade e por terem de ficar parados, ouviram o tilintar suave de arreios. Ezio e seus ho­mens se colocaram em estado de alerta. Logo em seguida uma dúzia de soldados cavalgaram pelo complexo com tochas acesas, liderados por três homens. Estavam se dirigindo ao teatro. Ezio e seus condottieri os seguiram até lá.

Os homens desmontaram e formaram um círculo protetor ao re­dor dos três líderes. Ezio reconheceu com triunfo o rosto do homem que buscava há tanto tempo: Jacopo de’ Pazzi, um velho de 60 anos que parecia preocupado. Jacopo estava acompanhado por um homem que ele não conhecia e por outro que conhecia — Rodrigo Bórgia, o incon­fundível encapuzado de vermelho com nariz adunco! Com raiva, Ezio prendeu a lâmina de veneno ao mecanismo em seu pulso direito.

—  Sabem por que convoquei esta reunião — começou Rodrigo. — Já lhe dei tempo mais do que suficiente, Jacopo, mas você ainda precisa se arrepender.

—  Desculpe, commenãatore. Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Os Assassinos me superaram.

—  Você não recuperou Florença.

Jacopo abaixou a cabeça.

—  Não conseguiu cortar a cabeça de Ezio Auditore, um mero filhote! Que a cada vitória sobre nós ganha força, se torna ainda mais perigoso!

—  Isso foi culpa de meu sobrinho, Francesco — balbuciou Jacopo.

—  A impaciência fez com que ele se precipitasse! Tentei ser a voz da razão...

—  Foi mais a voz da covardia — interrompeu o terceiro homem com dureza.

Jacopo se virou para ele com muito menos respeito do que demonstrara a Rodrigo.

—  Ah, Messere Emilio. Quem sabe não tivéssemos nos saído melhor se você tivesse nos enviado armas de qualidade, em vez do lixo que vocês venezianos chamam de armamentos! Mas vocês, Barbarigo, são sempre uns pães-duros.

—  Basta! — trovejou Rodrigo, e se virou novamente para Jacopo. — Confiamos em você e em sua família, e como vocês nos pagaram? Com inércia e incompetência. Vocês retomaram San Gimignano — bravo! Mas ficaram ali sentados, deixando inclusive que os atacassem. O irmão Maffei era um servo valioso de nossa Causa. Você não conseguiu nem mesmo salvar seu próprio secretário, um homem cujo cérebro valia dez vezes mais do que o seu!

—  Altezzal Me dê a chance de consertar tudo e verá que... — Jacopo olhou os rostos endurecidos que o rodeavam. — Vou lhe mostrar que...

Rodrigo abrandou sua expressão e até ensaiou um sorriso.

—  Jacopo. Sabemos o que é melhor fazer agora. Deixe conosco. Ve­nha aqui, deixe-me abraçá-lo.

Hesitante, Jacopo obedeceu. Rodrigo passou o braço esquerdo ao redor de seus ombros e com a mão direita sacou um punhal da batina e deslizou-o firmemente entre as costelas de Jacopo. Jacopo tentou se afastar da faca, enquanto Rodrigo o olhava da mesma maneira como um pai olharia um filho desviado. Jacopo agarrou a ferida. Rodrigo não havia atingido nenhum órgão vital. Talvez...

Mas então Emilio Barbarigo deu um passo em sua direção. Instinti­vamente, Jacopo ergueu as mãos ensanguentadas para se proteger, pois Emilio havia sacado uma adaga ameaçadora com um canal de sangria profundo na lateral da lâmina e um dos lados de serrilhado áspero.

—  Não! — protestou Jacopo. — Fiz o melhor que pude. Sempre servi à Causa com lealdade. Toda a vida. Por favor... Por favor, não...

Emilio soltou uma gargalhada brutal.

—  Por favor não o quê, seu cretino manhoso?

Então ele rasgou o gibão de Jacopo e imediatamente abriu seu peito com a lâmina serrilhada da pesada adaga.

Jacopo gritou e caiu primeiro de joelhos e depois de lado, retorcen­do-se de dor. Olhou para cima e viu Rodrigo Bórgia à sua frente, com uma espada estreita na mão.

—  Mestre... tenha piedade! — Jacopo conseguiu dizer. — Não é tar­de demais! Me dê uma última chance de acertar as coisas... — Então engasgou com o próprio sangue.

—  Ah, Jacopo — disse gentilmente Rodrigo. — Como você me de­sapontou.

Ergueu a lâmina e a enfiou na nuca de Jacopo com tanta força que a ponta emergiu do outro lado, parecendo ter cortado a medula. Ele a gi­rou na ferida antes de retirá-la devagar. Jacopo se levantou, com a boca cheia de sangue, mas já estava morto e caiu de novo, retorcendo-se, até por fim ficar imóvel.

Rodrigo limpou a espada na roupa do morto e, puxando seu manto para um lado, embainhou-a.

—  Que sujeira — murmurou. Depois se virou, olhou diretamente na direção de Ezio, sorriu e gritou: — Pode sair agora, Assassino! Minhas desculpas por ter lhe roubado o seu prêmio!

Antes que pudesse reagir, Ezio foi agarrado por dois guardas cujas túnicas exibiam uma cruz vermelha dentro de um escudo amarelo — o brasão de seu arqui-inimigo. Chamou por Gambalto, mas não ouviu resposta de seus homens. Ele foi arrastado até o palco do antigo teatro.

—  Saudações, Ezio! — disse Rodrigo. — Lamento pelos seus ho­mens, mas você realmente achou que eu não esperaria encontrá-lo aqui? Que não planejei a sua vinda? Acha que Stefano da Bagnone lhe disse o lugar e hora desse encontro sem meu conhecimento e apro­vação? Claro que tivemos de fazer a coisa parecer difícil, senão você teria percebido a armadilha. — Riu. — Pobre Ezio! Veja bem, estamos nesse jogo há muito mais tempo do que você. Meus guardas estavam escondidos na floresta bem antes de você sequer chegar. E receio que seus homens tenham sido tão pegos de surpresa quanto você... mas eu queria vê-lo vivo antes de despachá-lo deste mundo. Pode chamar isso de capricho, se quiser. Agora estou satisfeito. — Rodrigo sorriu e se dirigiu aos guardas que seguravam os braços de Ezio. — Obrigado. Podem matá-lo agora.

Junto com Emílio Barbarigo, ele montou em seu cavalo e se afastou levando os guardas que o haviam acompanhado até ali. Ezio o observou ir embora. Pensou rápido. Havia aqueles dois grandalhões segurando-o —  e quantos mais, escondidos na floresta? Quantos homens Bórgia h avia colocado ali para emboscar sua tropa?

—  Diga suas preces, garoto — falou um dos seus captores.

—  Olhem — disse Ezio. — Sei que vocês só estão obedecendo or­dens. Por isso, se me soltarem, poupo suas vidas. Que tal?

O guarda que tinha falado pareceu se divertir.

—  Ora! Escute só você! Acho que nunca encontrei ninguém capaz de manter o senso de humor como você em um momento como...

Mas não chegou a terminar a frase. Ezio liberou a lâmina escondida e, tirando vantagem da surpresa dos guardas, cortou o homem que o segurava à direita. O veneno cumpriu sua função e o homem cambaleou para trás, caindo não longe dali. Antes que o outro guarda pudesse rea­gir, Ezio já havia enfiado a lâmina fundo em sua axila, o único local des­protegido pela armadura. Livre, pulou para as sombras à beira do palco e aguardou. Não precisou esperar muito: da floresta surgiram outros dez guardas que Rodrigo deixara escondidos. Alguns começaram a procu­rar pelas extremidades do teatro cuidadosamente, outros se inclinaram sobre seus camaradas caídos. Movendo-se com a velocidade mortal de um lince, Ezio se atirou entre eles, ferindo-os com cortes semelhantes aos de uma foice, concentrando-se em qualquer parte exposta de seus corpos. Já amedrontados e meio apanhados de surpresa, os guardas de Bórgia vacilaram diante dele, e Ezio feriu cinco deles antes que os ou­tros fugissem, gritando de pânico, para a floresta. Ezio os observou se afastarem. Não poderiam avisar a Rodrigo, a menos que quisessem ser enforcados por incompetência, e levaria algum tempo até que sua falta fosse sentida e Rodrigo soubesse que seu plano satânico tinha falhado.

Ezio ajoelhou-se diante do corpo de Jacopo de Pazzi. Retalhado e destituído de toda dignidade, só o que restara era a casca de um velho patético e desesperado.

—  Seu pobre desgraçado — disse. — Fiquei com raiva quando vi que Rodrigo havia me roubado a presa que me era de direito, mas agora, agora...

Caiu em silêncio e se inclinou para fechar os olhos de Pazzi. Então percebeu que aqueles olhos ainda o estavam fitando. Por algum milagre, Jacopo continuava... vivo. Ele abriu a boca para falar, mas não saiu ne­nhum som. Era evidente que ele estava nos extremos finais da agonia. O primeiro pensamento de Ezio foi deixá-lo à mercê de uma morte lenta, mas os olhos lhe imploravam. Mostre misericórdia, lembrou-se, mesmo quando não lhe demonstraram nenhuma. Isso também fazia parte do Credo.

—  Que Deus lhe dê paz — disse, beijando a testa de Jacopo enquan­to empurrava sua adaga com firmeza no coração do adversário.

 

Quando Ezio voltou a Florença e deu a notícia da morte do último dos Pazzi ao duque Lorenzo, este ficou felicíssimo, mas lamentou que a se­gurança de Florença e dos Médici precisasse ser comprada ao custo de tanto sangue. Lorenzo preferia encontrar soluções diplomáticas para as diferenças, mas este desejo o tornava uma exceção entre seus pares, os governantes das outras cidades-Estado da Itália.

Ele recompensou Ezio com uma capa cerimonial, que lhe conferia a Liberdade da Cidade de Florença.

—  Este é um presente muito gentil, Altezza — agradeceu Ezio. — Mas receio ter pouco tempo livre para desfrutar dos benefícios que ele me traz.

Lorenzo ficou surpreso.

—  O quê? Você pretende tornar a partir em breve? Eu esperava que você ficasse, reabrisse o palazzo de sua família e assumisse um posto no governo da cidade, trabalhando ao meu lado.

Ezio fez uma reverência, mas disse:

—  Lamento dizer que acredito que nossos problemas não chegaram ao fim com a queda dos Pazzi. Eles eram apenas um dos tentáculos de um monstro maior. Minha intenção agora é ir a Veneza.

—  Veneza?

—  Sim. O homem que estava com Rodrigo Bórgia no encontro com Francesco é membro da família Barbarigo.

—  Uma das famílias mais poderosas de La Sereníssima. Está me di­zendo que este homem é perigoso?

—  É aliado de Rodrigo.

Lorenzo refletiu por um instante, depois abriu as mãos.

—  Deixo-o ir com grande arrependimento, Ezio; mas sei que estarei em eterna dívida com você, o que significa que em troca não tenho ne­nhum poder de comandá-lo. Além do mais, tenho o pressentimento de que o trabalho em que você está envolvido em longo prazo será benéfico para nossa cidade, mesmo que eu não esteja vivo para ver isso.

—  Não diga isso, Altezza.

Lorenzo sorriu.

—  Espero que eu esteja errado, mas viver neste país nestes tempos é como viver à beira do Vesúvio: perigoso e incerto!

Antes de partir, Ezio levou novidades e presentes a Annetta, embora lhe fosse doloroso visitar a antiga casa de sua família, e ele não quis en­trar. Intencionalmente também evitou a mansão dos Calfucci, mas foi visitar Paola e achou-a amável, mas distraída, como se sua mente esti­vesse em outro lugar. A última visita foi ao ateliê de seu amigo Leonar­do, mas ao chegar lá só encontrou Agniolo e Innocento, e o lugar tinha cara de ter sido fechado. Não havia nem sinal de Leonardo.

Agniolo sorriu e o cumprimentou.

—  Ciao, Ezio! Há quanto tempo!

—  Muito!

Ezio olhou para ele, interrogativamente.

—  Você está se perguntando onde está Leonardo.

—  Ele foi embora? — quis saber Ezio.

—  Sim, mas não para sempre. Levou parte de suas obras consigo, mas não podia levar tudo, por isso Innocento e eu estamos tomando conta do resto na sua ausência.

—  E para onde ele foi?

—  É engraçado. O Mestre estava negociando com os Sforza em Mi­lão, mas então o Conte de Pexaro o convidou a passar algum tempo em Veneza; vai concluir uma série de cinco retratos de família... — Agniolo sorriu propositalmente. — Como se isso fosse mesmo acontecer. Mas parece que o Conselho de Veneza está interessado em seu trabalho de engenheiro e lhe estão oferecendo um ateliê, funcionários, a coisa toda. Então, querido Ezio, se precisar dele, é para lá que deve ir.

—  Mas é justamente para lá que estou indo! — gritou Ezio. — É uma notícia fantástica. Quando ele partiu?

—  Há dois dias. Porém você não terá dificuldade em encontrá-lo no caminho. Ele está com uma carroça enorme absolutamente carregada de coisas, conduzida por dois bois.

—  Tem alguém com ele?

—  Só os carroceiros e dois batedores, para o caso de enfrentarem problemas. Estão indo pela estrada de Ravenna.

Ezio levou somente o que podia colocar em seus alforjes, e, por estar viajando sozinho, levou apenas um dia e meio para encontrar, numa curva da estrada, uma carroça pesada carregada por bois e equipada com uma cobertura de lona sob a qual uma quantidade enorme de má­quinas e protótipos estava cuidadosamente guardada.

Os carroceiros estavam na beira da estrada coçando a cabeça e pare­cendo incomodados e acalorados, enquanto os batedores, dois garotos mais ou menos fortes armados com bestas e lanças, vigiavam em uma colina próxima. Leonardo também estava por perto, aparentemente montando alguma espécie de sistema de alavancagem. Então olhou para cima e viu Ezio.

—  Olá, Ezio! Que sorte!

—  Leonardo! O que está acontecendo?

—  Acho que tive um pequeno problema com uma das rodas da car­roça... — Ele apontou o local onde uma das rodas de trás havia saído do eixo. — O problema é que precisamos erguer a carroça para reencaixar a roda, mas não temos força o bastante para fazer isso, e essa alavan­ca que construí não vai conseguir levantá-la o suficiente. Então, você acha que poderia...?

—  Claro.

Ezio fez sinal para os dois carroceiros, dois homens de constituição forte que lhe seriam de mais utilidade do que os batedores elegantes, e os três conseguiram erguer a carroça alto o bastante e segurá-la por tempo suficiente para que Leonardo reencaixasse a roda e a prendesse bem. Enquanto Ezio se esforçava com os outros para manter a carroça erguida, aproveitou para olhar seu conteúdo. Ali estava, inconfundível, a estrutura semelhante a um morcego que ele havia visto antes. Parecia que havia sofrido diversas modificações.

Depois que a carroça foi consertada, Leonardo assumiu seu lugar na frente com um dos carroceiros, enquanto o outro seguiu andando perto da cabeça dos bois. Os batedores patrulhavam incansavelmente tanto à frente quanto atrás. Ezio manteve seu cavalo em ritmo de trote perto de Leonardo, e foram conversando. Fazia muito tempo desde seu último encontro e tinham multo o que falar. Ezio atualizou Leonardo, e Leonardo falou sobre as novas encomendas e da empolgação ante a perspectiva de ver Veneza.

—  Estou tão feliz por ter você como companheiro de viagem! Mas você chegaria lá muito mais rápido se não tivesse de viajar no meu ritmo.

—  É um prazer. E quero ter certeza de que você vai chegar lá em segurança.

—  Tenho os batedores.

—  Leonardo, não me entenda mal, mas até mesmo ladrões de es­trada sem experiência nenhuma seriam capazes de derrubar esses dois com a mesma facilidade que você daria um peteleco em uma mosca.

Leonardo pareceu surpreso, depois ofendido, mas por fim riu.

—  Então estou duplamente grato pela sua companhia. — Fez um ar dissimulado. — E tenho a sensação de que não é só por motivos senti­mentais que você quer que eu chegue lá inteiro.

Ezio sorriu, mas não respondeu. Falou em vez disso:

—  Percebi que ainda está trabalhando naquele aparelho-morcego.

—  Hã?

—  Sabe do que estou falando.

—  Ah, aquilo. Não é nada, só uma coisa que andei martelando. Mas não consegui deixá-lo para trás.

—  O que é?

Leonardo relutou:

—  Não gosto muito de conversar sobre as coisas antes de estarem prontas...

—  Leonardo! Você pode confiar em mim com toda a certeza. — Ezio abaixou o tom. — Afinal, também lhe confiei segredos.

Leonardo lutou consigo mesmo, depois relaxou.

—  Tudo bem, mas não conte a mais ninguém.

—  Promesso.

—  Se você contasse, achariam que tinha enlouquecido — continuou Leonardo, mas havia empolgação na sua voz. — Ouça, acho que encon­trei um jeito de fazer um homem voar!

Ezio olhou para ele e riu, totalmente descrente.

—  Chegará um tempo em que você não vai querer ficar com esse sorrisinho no rosto — disse Leonardo, em tom simpático.

Mudou de assunto então e começou a falar sobre Veneza, La S

renissima, alheia ao resto da Itália e com frequência mais voltada Oriente do que ao Ocidente, tanto por causa do comércio quanto por apreensão, pois naquela época os turcos otomanos dominavam até a metade da costa norte do Adriático. Falou da beleza e da traição em Veneza, da dedicação da cidade a fazer dinheiro, de sua richesse, de sua construção estranha — uma cidade de canais abertos a partir dos pân­tanos e erguida sobre uma fundação de milhares de colunas enormes de madeira —, de sua independência feroz e de seu poder político: não fazia nem trezentos anos que o doge de Veneza havia empreendido uma cruzada inteira a partir da Terra Sagrada para servir a seus próprios pro­pósitos, acabar com toda a competição comercial e militar e a oposição à sua cidade-Estado e deixar o império bizantino de joelhos. Falou dos locais afastados, secretos e sombrios, dos palazzi iluminados por velas, do curioso dialeto italiano que era ali falado, do silêncio que pairava, do esplendor berrante, dos magníficos pintores — de quem o príncipe era Giovanni Bellini, que Leonardo estava ansioso por conhecer —, da mú­sica, dos festivais de máscaras, da capacidade que os moradores tinham de aparecer e se mostrar, de sua maestria da arte de envenenar.

—  E tudo isso — concluiu ele — sei apenas pelos livros. Imagine como será ver a coisa de perto.

“Será sujo e humano”, pensou Ezio friamente. “Como em toda par­te.” Mas deu ao amigo um sorriso de concordância. Leonardo era um sonhador, e aos sonhadores deve ser permitido sonhar.

Haviam entrado em um desfiladeiro, e suas vozes ecoaram contra as paredes de pedra. Ezio, vasculhando com os olhos as escarpas quase invisíveis dos paredões que os cercavam de ambos os lados, subitamen­te ficou tenso. Os batedores haviam ido na frente, mas ele deveria ter sido capaz de ouvir, naquele espaço confinado, o barulho dos cascos de seus cavalos. Entretanto, não ouvia som nenhum. Uma névoa ligeira havia subido, junto com um frio repentino, e nenhuma das duas coisas o tranquilizou. Leonardo não percebia nada, mas Ezio podia ver que os carroceiros também estavam tensos e olhavam desconfiados ao redor.

De repente uma chuva de pedrinhas caiu da escarpa rochosa do des­filadeiro, fazendo o cavalo de Ezio vacilar. Ele olhou para cima, apertan­do os olhos ante o sol indiferente, e pôde ver uma águia pairando.

Agora até mesmo Leonardo havia percebido algo.

—  O que foi? — perguntou.

—  Não estamos sozinhos — respondeu Ezio. — Talvez haja arquei­ros inimigos em cima do desfiladeiro.

Então ouviu o som trovejante de cascos de cavalos, de vários cavalos, se aproximando deles por trás.

Ezio virou o cavalo e viu meia dúzia de cavaleiros a caminho. O es­tandarte que portavam tinha uma cruz vermelha dentro de um escudo amarelo.

—  Bórgia! — murmurou, desembainhando a espada ao mesmo tem­po em que uma flecha atingia a lateral da carroça. Os carroceiros já esta­vam fugindo pela estrada à frente, e até mesmo os bois se perturbaram, pois andaram pesadamente para a frente por vontade própria.

—  Assuma as rédeas e siga em frente! — gritou Ezio para Leonardo.

—  É de mim que eles estão atrás, não de você. Simplesmente continue, não importa o que aconteça!

Leonardo se apressou em obedecer enquanto Ezio cavalgava para trás a fim de encontrar-se com os cavaleiros. Sua espada, uma das de Mario, era bem equilibrada pelo pomo, e seu cavalo, mais leve e mais manobrável do que o de seus adversários. Porém, estes estavam bem ar­mados e não haveria como ele usar as lâminas do códex. Ezio apertou os calcanhares nos flancos do cavalo, atiçando-o contra a massa de inimi­gos. Agachando-se bastante contra a sela, Ezio foi com tudo para o meio do grupo, e a força de seu ataque fez com que dois dos cavalos deles arqueassem para trás violentamente. Então a luta de espadas começou e o braçal protetor que ele usava no braço esquerdo aparou diversos golpes. Ele conseguiu tirar vantagem da surpresa de um dos inimigos quando este viu que seu golpe não tinha surtido efeito e aproveitou para golpeá-lo.

Não demorou para que ele tivesse desmontado quatro dos homens e para que os dois sobreviventes dessem meia-volta e galopassem de volta para o lugar de onde tinham vindo. Desta vez, porém, ele sabia que não podia dar a chance de nenhum deles voltar até Rodrigo. Galopou atrás deles e esfaqueou o primeiro e depois o segundo, fazendo-os caírem do cavalo.

Observou rapidamente os corpos, mas nenhum carregava nada digno de nota; então os arrastou até um canto da estrada e os cobriu c rochas e pedras. Tornou a montar o cavalo e voltou para diante, parando apenas para limpar a estrada dos demais cadáveres e dar-lhes um enterro rudimentar com as pedras e os gravetos que encontrou, o bastante ao menos para escondê-los. Não houve nada que pudesse fazer pelos cavalos, que a essa altura tinham fugido.

Ezio mais uma vez escapara da vingança de Rodrigo, mas sabia que o cardeal Bórgia só desistiria depois de ter certeza de que ele estivesse morto. Apertou os calcanhares nos flancos do cavalo e foi se reencontrar com Leonardo. Depois, procuraram juntos pelos carroceiros e chama­ram seus nomes em vão.

—  Eu lhes paguei um adiantamento enorme pela carroça e pelos bois — resmungou Leonardo. — Acho que nunca mais vou ver esse dinheiro.

—  Venda tudo em Veneza.

—  Mas lá eles não usam gôndolas?

—  Tem muitas fazendas no interior.

Leonardo o fitou:

—  Por Deus, Ezio, como gosto dos homens práticos!

Continuaram com sua longa travessia do país, passando pela cidade antiga de Forli, agora uma pequena cidade-Estado, e depois por Ravenna e seu porto no litoral, algumas milhas à frente. Ali embarcaram num navio, uma galé costeira que partira de Ancona a caminho de Veneza, e depois que se asseguraram de que ninguém a bordo representava pe­rigo, Ezio conseguiu relaxar um pouco. Mas sabia que, mesmo em um navio relativamente pequeno como aquele, não seria muito difícil cortar a garganta de alguém no meio da noite e atirar o corpo nas águas es­curas, e observava alerta as idas e vindas em cada pequeno porto onde atracavam.

Porém, chegaram vários dias depois em Veneza sem nenhum inci­dente. Foi apenas ali que Ezio encontrou seu próximo contratempo — e de uma fonte inesperada.

Eles haviam desembarcado no porto e estavam esperando pela balsa local, que os levaria até a cidade-Ilha. A embarcação chegou pontual­mente, e os marinheiros ajudaram Leonardo a embarcar a carroça, que se projetava para a frente de modo alarmante devido ao seu peso. O capitão da balsa disse a Leonardo que alguns funcionários do Conte da Pexaro estariam aguardando por ele no cais para levá-lo até sua nova moradia, e com uma reverência e um sorriso o ajudou a embarcar.

—  O signore está com seu passe, claro, não?

—  Claro — respondeu Leonardo, estendendo um papel ao homem.

—  E o senhor? — inquiriu o capitão educadamente a Ezio, Viran­do-se para ele.

Ezio foi pego de surpresa. Havia vindo sem convite, sem saber da­quela lei local.

—  Mas... não tenho passe — disse.

—  Tudo bem — interrompeu Leonardo, falando com o capitão. — Ele está comigo. Posso ser o fiador dele; tenho certeza de que o Conte...

O capitão, porém, ergueu uma das mãos.

—  Lamento, signore. As regras do Conselho são explícitas. Ninguém pode entrar na cidade de Veneza sem um passe.

Leonardo estava prestes a protestar, mas Ezio o impediu:

—  Não se preocupe, Leonardo. Vou encontrar um jeito de solucio­nar isso.

—  Gostaria de poder ajudar, senhor — disse o capitão. — Mas cum­pro ordens. — Em tom mais alto, dirigiu-se à multidão de passageiros em geral e anunciou: — Atenção, por favor! A balsa irá partir às dez badaladas!

Ezio sabia que aquilo lhe dava muito pouco tempo.

Um casal extremamente bem-vestido chamou-lhe então a atenção. Ele os notara quando haviam embarcado na galé junto com ele — os dois tinham tomado a melhor cabine e mantido discrição. Agora, sozinhos ao pé de um dos píeres onde diversas gôndolas particulares estavam atraca­das, obviamente estavam entretidos em uma briga bastante ácida.

—  Minha amada, por favor... — dizia o homem. Era um tipo de apa­rência fraca, vinte anos mais velho que a companheira, uma ruiva impe­tuosa com olhos ferozes.

—  Girolamo, você não passa de um idiota! Deus sabe por que casei com você, mas também sabe o quanto sofri por causa disso! Você sempre encontrando defeitos e me mantém presa como uma galinha em sua cidadezinha provinciana horrorosa, e agora... agora você não consegue nem mesmo arrumar uma gôndola que nos leve até Veneza! quando penso que seu tio é ninguém menos que o maldito papa! Seria de imaginar que você poderia exercer algum tipo de influência, mal não: olhe só para você, tem tanto tutano quanto uma lesma!

—  Caterina...

—  Não me venha com "Caterina”, seu sapo! Faça esse homem pegar nossa bagagem e pelo amor de Deus me levar a Veneza. Preciso de um banho e de um vinho!

Girolamo ergueu a cabeça.

—  Estou pensando seriamente em lhe deixar aqui e ir para Porde- none sem você.

—  Devíamos ter ido por terra, de qualquer maneira.

—  É perigoso demais ir pela estrada.

—  Sim, para uma criatura molenga como você!

Girolamo ficou em silêncio enquanto Ezio continuava a assistir. En­tão ele disse com malícia:

—  Por que você não entra nesta gôndola aqui — e indicou uma gôn­dola —, enquanto eu encontro dois gondoleiros imediatamente?

—  Hum! Até que enfim está sendo sensato! — resmungou ela, e deixou que ele a conduzisse ao barco. Mas, assim que ela se instalou, Girolamo rapidamente soltou as amarras e empurrou a proa com força, mandando a gôndola lagoa adentro.

—  Buon viaggio! — gritou ele maldosamente.

—  Disgraziato! — devolveu ela. Então, percebendo que estava em apuros, começou a gritar: — Aiuto! Aiuto!

Mas Girolamo já caminhava de volta até onde um grupo de servos parecia incerto diante das bagagens e começou a dar-lhes ordens. Logo em seguida foi com eles e a bagagem até outra área das docas, onde se pôs a providenciar uma balsa particular para si mesmo.

Enquanto isso, Ezio havia assistido à situação da tal Caterina, cer­tamente se divertindo um pouco, mas também meio preocupado. Ela o encarou.

—  Ei, você! não fique a parado! Preciso de ajuda!

Ezio soltou o cinturão com a espada, tirou os sapatos e o gibão e entrou na água.

De volta ao cais, uma sorridente Caterina deu a mão a um Ezio pingando.

—  Meu herói — disse ela.

—  Não foi nada.

—  Eu podia ter me afogado! Como se aquele porco se importasse! — Olhou para Ezio, com interesse. — Mas você! Minha nossa, você deve ser forte. Não acredito como conseguiu nadar puxando a gôndola pela corda comigo dentro.

—  Leve como uma pena — disse Ezio.

—  Bajulador!

—  Quero dizer, esses barcos são tão bem equilibrados...

Caterina franziu a testa.

—  Foi uma honra servi-la, signora — concluiu Ezio, de modo pouco convincente.

—  Preciso retribuir o favor um dia — disse ela, com o olhar cheio de segundas intenções. — Qual é o seu nome?

—  Auditore, Ezio.

—  Sou Caterina. — Fez uma pausa. — Para onde você está indo?

—  Estava indo para Veneza, mas não tenho passe, por isso a balsa...

—  Basta! — interrompeu ela. — Então esse oficialzinho não quis deixar você embarcar, foi isso?

—  Sim.

—  Vamos dar um jeito! — Ela disparou pelo cais sem esperar que Ezio colocasse os sapatos e o gibão. Quando ele finalmente a reencon­trou, ela já chegara à balsa e estava, pelo que ele pôde perceber, dando um sermão no homem trêmulo. Tudo o que Ezio pôde ouvir ao chegar foi o capitão murmurando do jeito mais servil: “Sim, Altezza; claro, Altezza; como quiser, Altezza”

—  É melhor mesmo que seja como eu quiser! A menos que você queira ver a sua cabeça em uma estaca! Aqui está o rapaz! Vá apanhar pessoalmente o cavalo e as coisas dele! Ande! E trate-o bem! Eu saberei se não o tratar!

O capitão se afastou rapidamente. Catarina voltou-se para Ezio.

—  Pronto, viu? Tudo acertado!

—  Obrigado, Madonna.

—  Uma mão lava a... — Ela olhou para ele. — Espero que nossos caminhos voltem a se cruzar. — Estendeu-lhe a mão. — Sou de Forlí Venha me visitar um dia. Será um prazer recebê-lo. — Ela lhe deu a mão e estava prestes a partir.

—  Não quer ir a Veneza também?

Ela tornou a olhá-lo, depois olhou a balsa.

—  Nesse monte de sucata? Não brinque comigo!

E então ela se foi, andando pelo cais na direção do marido, que esta­va acabando de embarcar a última peça da bagagem.

O capitão se apressou de volta, trazendo o cavalo de Ezio pelas rédeas.

—  Aqui, senhor. Minhas mais humildes desculpas, senhor. Se eu soubesse, senhor...

—  Preciso de um estábulo para meu cavalo ao chegarmos.

—  Será um prazer, senhor.

Enquanto a balsa se afastava pelas águas cor de chumbo da lagoa, Leonardo, que assistira ao episódio todo, disse ironicamente:

—  Sabe quem era ela, não?

—  Não me importaria se ela fosse minha próxima conquista — sor­riu Ezio.

—  Então cuidado! É Caterina Sforza, a filha do duque de Milão. E o marido é o duque de Forli, sobrinho do papa.

—  Como ele se chama?

—  Girolamo Riario.

Ezio ficou em silêncio: o sobrenome ecoou algo nele. Então disse:

—  Bem, ele se casou com um meteoro.

—  Como eu disse — respondeu Leonardo. — Cuidado.

 

Veneza em 1481, sob o governo estável do doge Giovanni Mocenigo, era no geral um bom lugar para se estar. A cidade estava em paz com os turcos e prosperava, as rotas de comércio marítimas e terrestres eram seguras e, apesar de as taxas de juros serem confessadamente altas, os investidores eram confiantes e os poupadores estavam satisfeitos. A Igreja também era abastada, e os artistas prosperavam sob o duplo patrocínio de patronos espirituais e laicos. A cidade, rica graças ao saque volumoso a Constan­tinopla depois da Quarta Cruzada, que fora desviada de seu verdadei­ro objetivo pelo doge Dandolo, deixara Bizâncio de joelhos e exibia sem vergonha a pilhagem: os quatro cavalos de bronze dispostos ao longo da fachada da Basílica de São Marcos eram apenas os itens mais óbvios.

Mas Leonardo e Ezio, chegando cedo no Molo naquela manhã de verão, não tinham ideia do passado degradante, traiçoeiro e ladino da cidade. Viram apenas a glória do mármore rosado e dos tijolos do Palazzo Ducale, a praça ampla que se estendia para a frente e para a esquerda e o campanário de altura estonteante — além dos próprios venezianos, de constituição física mediana, metidos em roupas escu­ras e passando rapidamente como sombras ao longo da terra firma ou navegando pelo labirinto de canais malcheirosos em uma variedade de barcos, de elegantes gôndolas a barcas toscas, essas últimas repletas de todo tipo de mercadoria, de frutas a tijolos.

Os servos do Conte da Pexaro cuidaram da carga de Leonardo e, ante sua sugestão, também do cavalo de Ezio, e prometeram arrumar uma hospedagem adequada para o jovem filho do banqueiro de Floren­ça. Então se foram. Apenas um deles ficou para trás, um rapaz gordo e pálido de olhos esbugalhados cuja camisa estava úmida de suor e cujo sorriso era mais meloso que açúcar.

—Altezze — sorriu ele com afetação, aproximando-se deles. — Dei­xem que me apresente. Sou Nero, o funzionario da accoglienza pessoal do conde. Será minha obrigação e meu prazer oferecer-lhes uma introdução guiada a nossa cidade antes que o próprio Conte os receba...

—  Então Nero olhou nervosamente entre Leonardo e Ezio, tentando descobrir qual dos dois seria o artista patrocinado, e para sorte dele decidiu por Leonardo, aquele que menos se parecia com um homem de ação. — ...Messere Leonardo, para uma taça de Veneto antes do jantar que o Messere terá a satisfação de fazer no saguão dos servos superiores.

—  Fez uma reverência e se prolongou um pouco mais, por educação: Nossa gôndola aguarda...

Durante a meia hora seguinte, Ezio e Leonardo puderam — na ver­dade, foram obrigados a — desfrutar das belezas de La Serenissima do melhor ponto de onde é possível desfrutá-las: de uma gôndola condu­zida com maestria por gondoleiros hábeis. Mas o prazer foi diminuído pela lenga-lenga sem fim de Nero. Ezio, apesar do interesse na beleza e na arquitetura singulares da cidade, ainda molhado devido ao resgate de Madonna Caterina, e cansado, tentou dormir para se refugiar do terrível monólogo de Nero, porém, foi acordado de repente. Algo lhe chamou a atenção.

Da margem do canal, não longe do palácio do marquês de Ferrara, Ezio ouviu vozes alteradas. Dois guardas armados estavam importunan­do um comerciante.

—  O senhor foi avisado de que deveria permanecer em casa — disse um deles.

—  Mas o aluguel está pago. Tenho todo o direito de vender minhas mercadorias aqui.

—  Lamento, senhor, mas é uma contravenção das novas regras de Messere Emilio. Receio que esteja em uma situação bastante difícil, senhor.

—  Vou apelar para o Conselho dos Dez!

—  Não há tempo para isso, senhor — disse o segundo guarda, der­rubando com um chute o toldo da banca do homem, que estava venden­do artigos de couro. Os guardas, ao mesmo tempo em que embolsavam os melhores itens, atiravam a maioria no canal.

—  Agora, não queremos mais ver essa besteira, senhor — disse um dos guardas enquanto os dois iam embora com arrogância e sem a me­nor pressa.

—  O que está acontecendo! — perguntou Ezio a Nero.

—  Nada, Altezza. Uma pequena dificuldade local. Imploro que ig­nore. Agora estamos prestes a passar sob a famosa ponte de madeira do Rialto, a única ponte sobre o Grande Canal, reconhecida historica­mente por...

Ezio ficou satisfeito em deixar o pobre sujeito tagarelando, mas o que vira o perturbara e ele tinha ouvido o nome Emilio. Um nome cris­tão comum, mas seria Emilio Barbarigo?

Não muito tempo depois, Leonardo insistiu que parassem para que ele pudesse olhar um mercado com bancas vendendo brinquedos. Diri­giu-se àquela que lhe chamara a atenção imediatamente.

—  Olhe, Ezio! — gritou.

—  O que você descobriu?

—  É um manequim articulado que nós, artistas, usamos como mo­delo. Não me faria mal nenhum comprar uns dois. Você teria a gentile­za de...? Parece que mandei minha bolsa junto com o material enviado para meu novo ateliê.

Porém, quando Ezio estava estendendo o braço para pegar a própria bolsa, um bando de jovens os empurrou e um deles tentou cortar-lhe a bolsa do cinto.

—  Ei! — berrou Ezio. — Coglioni! Parem!

E saiu correndo atrás deles. O que ele identificara como seu assal­tante virou-se para trás um instante, afastando um cacho de cabelo cas­tanho do rosto. Era um rosto de mulher! Mas logo ela sumiu, desapare­cendo na multidão com os companheiros.

Continuaram o passeio em silêncio. Leonardo, contudo, agora leva­va satisfeito seus dois manequins. Ezio estava impaciente para se livrar do bufão que os guiava e até mesmo de Leonardo. Precisava de um tem­po sozinho, tempo para pensar.

—  Agora estamos nos aproximando do famoso Palazzo Seta — con­tinuava Nero, tediosamente. — Lar de Su Altezza Emilio Barbarigo. Messere Barbarigo é hoje famoso pelas tentativas de unir os mercadores da cidade sob seu comando. Uma iniciativa louvável que, contudo, en­controu certa resistência dos elementos mais radicais da cidade...

Era um edifício fortificado e sombrio, um pouco afastado do canal

o que permitia espaço para um v&o de calçamento de lajota à sua frente, em cujo cais três gôndolas estavam atracadas. Quando a gôndola deles passou por ali, Ezio viu o mesmo homem que vira ser incomodado antes tentando entrar no local. Estava sendo retido por dois outros guardas, e Ezio notou nos ombros deles um brasão amarelo cruzado com uma divisa vermelha, abaixo da qual havia um cavalo e acima da qual um golfinho, uma estrela e uma granada. Homens de Barbarigo, óbvio!

—  Destruíram minha banca e arruinaram minhas mercadorias. Exi­jo compensação! — dizia o comerciante, nervoso.

—  Lamento, senhor, estamos fechados — disse um dos guardas, cutucando o pobre homem com a alabarda.

—  Isso não vai ficar assim. Vou denunciá-los ao Conselho!

—  Vai adiantar muito — vociferou o segundo guarda, mais velho. Mas então um oficial e três outros homens surgiram.

—  Ah, provocando um tumulto, hein? — disse o oficial.

—  Não, eu...

—  Prendam esse homem! — vociferou o oficial.

—  O que vocês estão fazendo? — disse o comerciante, com medo. Ezio assistiu impotente e com uma raiva crescente, mas marcou o lugar. O comerciante foi arrastado na direção do edifício, onde uma portinha revestida de ferro se abriu para recebê-lo e logo em seguida se fechou atrás dele.

—  Você não escolheu o melhor dos lugares, embora possa ser o mais bonito — disse Ezio a Leonardo.

—  Estou começando a desejar ter ido para Milão, no fim das contas —    respondeu Leonardo. — Mas trabalho é trabalho.

 

Depois de Ezio deixar Leonardo e se instalar em suas próprias acomo­dações, não perdeu tempo em voltar ao Palazzo Seta, o que não foi uma tarefa fácil naquela cidade de ruelas, canais serpenteantes, arcos bai­xos, pracinhas e becos sem saída. Porém, todos conheciam o palazzo, e, quando se perdia, os habitantes locais lhe davam orientações de boa vontade — embora ninguém parecesse entender por que alguma pessoa desejaria ir até lá por vontade própria. Um ou dois sugeriram que seria mais simples apanhar uma gôndola, mas Ezio desejava se familiarizar com a cidade e também queria chegar sem ser notado.

Já era fim de tarde quando se aproximou do palazzo, que era menos um palácio e mais um forte ou uma prisão, pois o complexo principal de edifícios tinha sido construído dentro de muralhas. Em ambos os lados era cercado de outros edifícios que se separavam dele por ruas estreitas. Nos fundos havia o que parecia um jardim considerável circundado por outra muralha alta, e em frente, diante do canal, ficava a área aberta e ampla que Ezio tinha visto antes. Agora, porém, parecia que ali se de­senrolava uma batalha campal entre um grupo de guardas de Barbarigo e um bando variado de jovens que os provocavam e depois se desvia­vam ligeiramente do alcance de suas alabardas e lanças, atirando pedras, tijolos e ovos e frutas podres nos homens furiosos. Talvez estivessem fazendo aquilo apenas para desviar a atenção, pois Ezio, ao olhar além da cena da briga, viu uma figura escalando a muralha do palazzo. Ficou impressionado: a muralha era tão escarpada que até mesmo ele pensaria duas vezes antes de enfrentá-la. Mas a pessoa em questão tinha atingido as ameias sem ser detectada e sem dificuldades, e então, surpreendente­mente, pulou das ameias e aterrissou no telhado de uma das torres de vi­gia. Ezio viu que ela estava planejando pular novamente, desta vez para o telhado do próprio palácio a fim de tentar ganhar acesso a seu interior, e anotou a tática mentalmente para usá-la caso um dia dela precisasse —   ou fosse capaz de realizá-la. Mais os guardas na torre de vigia tinham ouvido a pessoa aterrissar e deram o alarme a seus comparsas em guarda no palazzo. Um arqueiro surgiu numa janela na beira do telhado do palácio e atirou. A figura saltou graciosamente e a flecha passou longe e foi bater nas lajotas, mas o segundo disparo acertou a figura que, com um grito fraco, cambaleou, segurando a coxa ferida.

O arqueiro disparou mais uma vez, mas errou, pois o desconhecido já havia refeito o caminho de ida: pulara do telhado da torre de volta às ameias, ao longo das quais outros guardas já corriam, e de lá pulou de volta para a muralha, meio que deslizando por ela e meio que caindo dela até o chão.

No outro lado do espaço amplo em frente ao palazzo, os guardas de Barbarigo estavam fazendo os atacantes recuarem para as ruelas de trás e os perseguiam por elas. Ezio aproveitou a oportunidade para alcançar a figura, que começava a se afastar mancando para um local seguro na direção oposta.

Ao alcançá-la, ficou impressionado com seu porte leve, meio infan­til, mas atlético. Quando estava prestes a lhe oferecer ajuda, a pessoa se virou para ele, que reconheceu o rosto da garota que tentara lhe arrancar a bolsa no mercado.

Viu-se confuso, surpreso e, curiosamente, empolgado.

—  Dê-me o braço — pediu a garota, com pressa.

—  Não se lembra de mim?

—  Deveria?

—  Sou o homem que você tentou roubar no mercado hoje.

—  Desculpe, mas agora não é hora para lembranças agradáveis. Se não sairmos logo daqui, estaremos fritos.

Como se para ilustrar o argumento, uma flecha passou zunindo en­tre eles. Ezio passou o braço dela pelos ombros dele e o dele pela cintura dela, apoiando-a como apoiara antes Lorenzo.

—  Para onde?

—  O canal.

—  Claro — disse ele, sarcástico. — Só existe um em Veneza, não é?

—  Você é muito saidinho para um recém-chegado. Por aqui; eu lhe mostro; mas rápido! Olhe: já estão atrás de nós.

Era verdade; um pequeno destacamento começara a correr pelo cal­çamento de pedra na direção deles.

Com uma mão agarrando a coxa ferida, tensa de dor, ela guiou Ezio por um beco que levava a outro, e mais outro e mais outro, até Ezio ter perdido completamente a noção de norte e sul. Atrás deles, as vozes dos perseguidores aos poucos foram sumindo e por fim não se ouviam mais.

—  Mercenários trazidos do continente — explicou a garota com grande desdém. — Não têm a menor chance nessa cidade contra nós, os locais. Se perdem com a maior facilidade. Vamos!

Haviam chegado a um cais no Canale della Misericórdia. Um barco comum estava atracado ali, com dois homens a bordo. Ao ver Ezio e a garota, um deles imediatamente começou a desamarrar a corda, en­quanto o outro o ajudava.

—  Quem é esse? — perguntou o segundo à garota.

—  Não faço a menor ideia, mas estava no lugar certo na hora certa e pelo jeito não é amigo de Emilio.

Mas ela estava quase desmaiando àquela altura.

—  Ferida na coxa — disse Ezio.

—  Não vou conseguir arrancar isso fora agora — disse o homem, olhando para o local onde a flecha havia se alojado. — Não tenho nem bálsamo nem curativos aqui. Precisamos voltar logo, antes que esses ra­tos de esgoto do Emilio nos alcancem. — Olhou para Ezio. — E quem é você, aliás?

—  Meu nome é Auditore, Ezio. De Florença.

—  Hum. O meu é Ugo. Ela é Rosa, e o cara ali com o remo é Paganino. Não gostamos muito de estranhos.

—  Quem são vocês? — perguntou Ezio, ignorando esse último co­mentário.

—  Libertadores profissionais da propriedade alheia — respondeu Ugo.

—  Ladrões — explicou Paganino com uma risada.

—  Você sempre tira a poesia das coisas — reclamou Ugo, triste. En­tão subitamente ficou alerta. — Cuidado! — gritou quando uma flecha e depois outra bateram no casco do barco, atiradas de algum local acima.

Ao olharem naquela direção, viram dois arqueiros de Barbarigo em um telhado próximo, preparando-se para novos disparos. Ugo remexeu no barco e apanhou um arco robusto e profissional, que logo carregou

com uma flecha, mirou e disparou. Ao mesmo tempo, Ezio lançou duas

facas de atirar em rápida sucessão no outro arqueiro. Os dois guardas caíram gritando dentro do canal.

—  Esses miseráveis têm capangas em toda parte — comentou Ugo Paganino em tom coloquial.

Os dois eram homens pequenos, na faixa dos 20 anos, de ombros largos e com aparência de durões. Manobravam o barco com habilidade e evidentemente conheciam o sistema de canais como a palma da mão, pois mais de uma vez Ezio teve certeza de que haviam virado no equiva­lente aquático de um beco sem saída para logo a seguir descobrir que ele terminava não em um muro de tijolos, mas em um arco baixo sob o qual o barco conseguia passar apertado, se todos se abaixassem o bastante.

—  Por que vocês estavam atacando o Palazzo Seta? — quis saber Ezio.

—  Por que isso lhe interessa? — respondeu Ugo.

—  Emilio Barbarigo não é nenhum amigo meu. Talvez possamos nos ajudar.

—  O que o faz acreditar que precisamos da sua ajuda? — retrucou Ugo.

—  Vamos, Ugo — interveio Rosa. — Olhe o que ele acabou de fazer. E você está se esquecendo de que ele salvou minha vida. Sou a melhor escaladora do grupo; sem mim, nunca iremos entrar naquele ninho de vespa. — Ela se virou para encarar Ezio. — Emilio está tentando mono­polizar o comércio da cidade. É um homem poderoso, que tem diversos membros do conselho no bolso. A coisa está chegando ao ponto em que qualquer comerciante que ouse desafiá-lo e manter sua independência é simplesmente silenciado.

—  Mas vocês não são mercadores: são ladrões.

—  Ladrões profissionais — corrigiu ela. — Os negócios individuais, as lojas individuais, as pessoas individuais, tudo isso facilita mais o rou­bo do que o monopólio corporativo. Seja como for, todos têm seguro, e as seguradoras pagam depois de depenar prêmios gigantescos dos clien­tes. Então todo mundo fica feliz. Emilio transformaria Veneza em um deserto para gente como nós.

—  Sem contar que é um cretino que quer dominar não só os negó­cios locais como a cidade em si — interrompeu Ugo. — Mas Antonio vai lhe explicar melhor.

—  Antonio? Quem é ele?

—  Logo logo você vai saber, Sr. Florentino.

Por fim chegaram a outro cais, atracaram e saíram andando rápido, pois a ferida de Rosa necessitava de limpeza e cuidados para que ela não morresse. Deixando Paganino com o barco, Ugo e Ezio carregaram Rosa (que agora desmaiara graças à perda de sangue) quase arrastan­do-a por uma distância curta, descendo outra ruela serpenteante de ti­jolos vermelho-escuros e madeira até chegar a uma pracinha com um poço e uma árvore no meio, rodeada de edifícios com aparência dos quais o reboco havia tempos tinha descascado.

Foram até a porta vermelha e suja de um dos edifícios, na qual Ugo desferiu uma série complexa de batidas. Uma portinhola se abriu e se fechou, e em seguida a porta foi rapidamente aberta e com a mesma rapidez fechada. Apesar de tudo o mais ser negligenciado, notou Ezio, as dobradiças, cadeados e correntes estavam bem lubrificados e sem ferrugem.

Ele se viu em um pátio decadente rodeado de muros cinzentos altos e manchados, pontuados de janelas. Duas escadarias de madeira leva­vam, uma de cada lado, a galerias de madeira que se juntavam no meio e corriam ao redor das paredes no primeiro e no segundo andar. Nelas havia diversas portas.

Um grupo de pessoas, algumas das quais Ezio reconheceu da confu­são em frente ao Palazzo Seta, se reuniu ao redor. Ugo dava ordens:

—  Onde está Antonio? Vão buscá-lo! E abram espaço para Rosa, ar­rumem um cobertor, bálsamo, água quente, uma faca afiada, bandagens...

Um homem subiu correndo uma das escadarias e sumiu por uma das portas do primeiro andar. Duas mulheres desenrolaram uma esteira quase limpa e deitaram Rosa com ternura sobre ela. Uma terceira saiu e voltou com os itens que Ugo tinha solicitado. Rosa recobrou a cons­ciência, viu Ezio e estendeu a mão para ele. Ele a segurou e se ajoelhou ao lado dela.

—  Onde estamos?

—  Acho que deve ser a base da sua gente. Seja como for, você está em segurança.

Ela apertou a mão dele:

—  Desculpe por eu ter tentado roubar você.

—  Não se preocupe com isso.

—  Obrigada por salvar minha vida.

Ezio pareceu ansioso. Ela estava muito pálida. Teriam de agir rápido se quisessem de fato salvá-la.

—  Não se preocupe, Antonio saberá o que fazer — disse Ugo quan­do ele se levantou de novo.

Caminhando apressado por uma das escadarias desceu um homem bem-vestido beirando os 40 anos. Usava um brinco de ouro grande na orelha esquerda e um lenço em volta da cabeça. Foi direto até Rosa e se ajoelhou ao lado dela, depois estalou os dedos, pedindo os itens médicos.

—  Antonio! — exclamou ela.

—  O que aconteceu com você, minha queridinha? — perguntou ele com o sotaque severo de um veneziano legítimo.

—  Tire essa coisa de mim e pronto! — resmungou ela.

—  Deixe eu dar uma olhada antes — retrucou Antonio, com um tom subitamente mais sério. Ele examinou o ferimento com cuidado. — A flecha entrou e saiu pela sua coxa sem pegar o osso. Sorte que não foi um tiro de besta.

Rosa rangeu os dentes:

—  Tire... isso... de... mim.

—  Deem alguma coisa para ela morder — disse Antonio. Ele que­brou os estabilizadores de pena da flecha, envolveu um tecido ao redor de sua ponta, embebeu os pontos de entrada e saída com bálsamo e puxou.

Rosa cuspiu longe a estopa que haviam colocado entre seus dentes e berrou.

—  Desculpe, piccola — disse Antonio, apertando as mãos nos dois pontos da ferida.

—  Vá se danar com suas desculpas, Antonio! — gritou Rosa enquan­to uma mulher a segurava.

Antonio olhou para um dos presentes.

—  Michiel! Vá chamar Bianca! — Olhou direto para Ezio. — E você, me ajude com isso! Pegue essas compressas e segure-as na ferida assim que eu tirar minhas mãos. Então poderemos fazer um curativo direito.

Ezio se apressou para obedecer. Sentiu o calor da parte superior da coxa de Rosa sob as mãos, sentiu a reação do corpo dela ante o gesto e tentou não olhá-la nos olhos. Enquanto isso Antonio trabalhou rápido e finalmente o cutucou, dispensando-o. Depois articulou com suavidade a perna de Rosa, onde agora havia um curativo imaculado.

—  Ótimo — disse ele. — Vai demorar um pouco até você voltar a escalar umas ameias, mas acho que vai se recuperar completamente. Tenha paciência. Eu a conheço!

—  Tinha de me machucar tanto, seu idiota desajeitado? — Ela o fuzilou com o olhar. — Espero que você pegue a praga, seu desgraçado! Você e a puta da sua mãe!

—  Levem Rosa para dentro — pediu Antonio, sorrindo. — Ugo, vá com ela e faça com que descanse um pouco.

Quatro mulheres seguraram as pontas da esteira e carregaram Rosa, que ainda protestava, por uma das portas do térreo. Antonio obser­vou-as se afastarem, depois tornou a se virar para Ezio.

—  Obrigado — disse. — Aquela vadiazinha é muito querida para mim. Se eu a tivesse perdido...

Ezio deu de ombros:

—  Sempre tive uma queda por donzelas em apuros.

—  Que bom que Rosa não o ouviu dizer isso, Ezio Auditore. Sua reputação vai longe.

—  Não ouvi Ugo lhe dizer meu nome — retrucou Ezio, em guarda.

—  E não disse. Mas todos nós sabemos o que você fez em Florença e em San Gimignano. Ótimo trabalho, ainda que lhe falte certo refinamento.

—  Quem são vocês?

Antonio abriu as mãos:

—  Bem-vindo à sede da Guilda dos Ladrões e Putanheiros Profissio­nais de Veneza — disse. — Sou de Magianis, Antonio, o amministratore.

—  Fez uma reverência irônica. — Mas é claro que só roubamos dos ricos para dar aos pobres, e é claro que nossas putas preferem ser chamadas de cortesãs.

—  E você sabe por que estou aqui?

Antonio sorriu.

—  Faço uma ideia, mas não a compartilhei com nenhum de meus funcionários. Venha! Precisamos conversar em meu escritório.

O escritório lembrou Ezio tão vividamente do escritório de seu tio Mario que de início foi pego de surpresa. Não sabia o que exatamente havia esperado, mas se viu diante de uma sala cheia de livros, livros caros e com boas encadernações, tapetes otomanos de qualidade, móveis de nogueira e candelabros e arandelas banhados em prata.

A sala era dominada por uma mesa em seu centro, na qual repou­sava uma maquete em larga escala do Palazzo Seta e de seus arredores imediatos. Inúmeros manequins de madeira minúsculos estavam distri­buídos ao redor e no interior. Antonio fez sinal para que Ezio se sentasse e se ocupou diante de um fogão de aparência reconfortante a um canto, do qual flutuava um odor curiosamente atraente, mas desconhecido.

—  Posso lhe oferecer alguma coisa? — perguntou Antonio. Ele o fazia lembrar-se tanto de seu tio Mario que era estranho. — Biscotti? Un caffè?

—  Desculpe... um o quê?

—  Um café. — Antonio se aprumou. — É uma bebida interessante que um mercador turco me trouxe. Aqui, experimente. — Ele passou a Ezio uma pequena xícara de porcelana cheia de um líquido preto quente do qual vinha o aroma pungente.

Ezio provou. Queimou-lhe os lábios, mas não era ruim. Ele disse isso, mas acrescentou, sem perspicácia nenhuma:

—  Talvez fique melhor com um pouco de leite e açúcar.

—  Seria a maneira mais certa de arruiná-lo — rebateu Antonio, ofendido.

Os dois terminaram seus cafés, e Ezio logo sentiu certa energia ner­vosa que lhe era nova. Teria de contar a Leonardo sobre aquela bebida quando o encontrasse de novo. Enquanto isso, Antonio apontou a ma­quete do Palazzo Seta.

—  Estas eram as posições que havíamos planejado assumir se Rosa tivesse conseguido entrar e abrir um dos portões dos fundos. Mas, como você sabe, ela foi vista e alvejada, e tivemos de recuar. Agora precisaremos nos reorganizar, e enquanto isso Emilio terá tempo de fortalecer suas defesas. O pior é que essa operação custou caro. Estou quase redu­zido a meu último soldo.

—  Emilio deve ser riquíssimo — disse Ezio. — Por que não atacá-lo agora e aliviá-lo do dinheiro?

—  Você não escutou? Nossos fundos estão limitados e ele está alerta. Nunca conseguiríamos dominá-lo sem o elemento surpresa. Além do mais, ele tem dois primos poderosos para lhe dar retaguarda, os irmãos Marco e Agostino, embora eu acredite que Agostino, pelo menos, seja um homem bom. Quanto a Mocenigo, bem, o doge é um bom homem, mas é espiritual e deixa as questões dos negócios a cargo de outros — outros que já estão no bolso de Emilio. — Ele olhou com dureza para Ezio. — Precisamos de ajuda para encher nossos cofres de novo. Acho que talvez você possa fornecer essa ajuda. Se puder, irá demonstrar para mim que é um aliado a quem vale a pena ajudar. Seria capaz de empre­ender essa missão, Sr. Leite e Açúcar?

Ezio sorriu:

—  Pode apostar.

Levou um bom tempo, e a entrevista de Ezio com o Tesoureiro-Chefe da Guilda dos Ladrões foi desagradável, mas Ezio conseguiu utilizar as habilidades que aprendera com Paola para cortar bolsas com os melho­res dentre os ladrões e roubar o máximo possível dos burgueses ricos de Veneza que eram aliados de Emílio. Alguns meses mais tarde, junto com os outros ladrões (pois agora era um Membro Honorário da Guilda), ele reuniu os dois mil ducati de que Antonio precisava para tornar a atacar Emilio. Mas houve um preço. Nem todos os membros da Guilda esca­param da prisão pelos guardas de Barbarigo. Portanto, embora agora tivessem os fundos necessários, sua força humana estava reduzida.

Porém, Emilio Barbarigo cometeu um erro arrogante. Para fazer de­les um exemplo, colocou os ladrões capturados à mostra do público em celas de ferro apertadas espalhadas por todo o bairro que ele controlava. Se os tivesse mantido em masmorras em seu palácio, nem o próprio Deus teria conseguido tirá-los de lá, mas Emilio preferiu exibi-los, pri­vados de comida e de água e cutucados por pedaços de pau pelos guar­das sempre que tentavam dormir: tencionava fazê-los morrer de fome na frente de todos.

—  Eles não vão durar nem seis dias sem água, muito menos sem comida — disse Ugo para Ezio.

—  O que Antonio disse?

—  Que você precisa planejar um resgate.

“De que mais provas da minha lealdade esse homem precisa?” pen­sou Ezio, antes de perceber que já tinha a confiança de Antonio, uma vez que o Príncipe dos Ladrões estava encarregando-o de sua missão mais crucial. Ele não tinha muito tempo.

Cuidadosamente, Ugo e ele observaram em segredo as idas e vindas dos vigias. Parecia que um grupo de guardas estava sempre passando de uma cela para a outra. Embora cada cela estivesse constantemente rodeada por um bando de curiosos, dentre os quais podia muito bem haver espiões de Barbarigo, Ezio e Ugo decidiram assumir o risco. No turno da noite, quando havia muito menos observadores, foram até a primeira cela, da qual a guarda estava prestes a sair para ir até a segun­da. Depois que a guarda saiu e estava longe de vista sem poder ouvi-los, conseguiram abrir os cadeados. Ficaram ainda mais empolgados com o grito de alegria do punhado de espectadores que não se importavam com quem vencesse, desde que eles mesmos tivessem diversão. Alguns deles os seguiram até a segunda cela e até mesmo até a terceira. Os ho­mens e mulheres libertados, ao todo 27, já estavam em péssimo estado depois de apenas dois dias e meio, mas pelo menos não tinham sido al­gemados individualmente. Ezio os levou até os poços que havia no meio de quase toda praça da cidade, para que sua primeira e mais urgente necessidade — sede — fosse satisfeita.

No final da missão, que levou do pôr ao nascer do sol, Ugo e seus associados libertos olharam para Ezio com profundo respeito.

—  Resgatar meus irmãos e irmãs foi mais do que apenas um ato de caridade, Ezio — disse Ugo. — Esses... colegas vão exercer um papel vital nas semanas que virão. — Seu tom ficou solene: — Agora nossa Guilda tem para com você uma dívida eterna de gratidão.

Quando o grupo voltou para a sede da Guilda, Antonio abraçou Ezio, mas seu rosto tinha uma expressão grave.

—  Como está Rosa? — perguntou Ezio.

—  Melhor, mas seu ferimento foi pior do que acreditamos, e ela ten­ta correr antes mesmo de poder andar!

—  É bem o jeito dela.

—  Típico. — Antonio fez uma pausa. — Ela quer ver você.

—  Estou lisonjeado.

—  Por quê? Você é o herói do momento!

Alguns dias mais tarde, Ezio foi convocado ao escritório de Antonio e o encontrou observando a maquete do Palazzo Seta. Os pequenos ma­nequins tinham sido reorganizados à sua volta, e havia uma pilha de papéis cheios de cálculos e anotações na mesa a seu lado.

—  Ah! Ezio!

—  Signore.

—  Acabo de voltar de um ataquezinho ao território inimigo. Conseguimos pôr as mãos na carga de três navios com arsenais destinados ao querido palaciozinho de Emilio. Então achamos que seria uma boa idéia organizar uma festinha à fantasia, em que nós vestiremos os uniformes dos arqueiros de Barbarigo.

—  Brilhante. Com isso devemos conseguir entrar na fortaleza se problemas. Quando começamos?

Antonio ergueu uma das mãos.

—  Calma, meu caro. Há um problema, e gostaria de pedir seu conselho,

—  Você me honra.

—  Não, simplesmente valorizo sua opinião. O fato é que soube pela melhor fonte que alguns dos meus foram subornados por Emilio e são agora agentes dele. — Fez uma pausa. — Não podemos atacar o palácio antes de cuidar dos traidores. Ouça, sei que posso confiar em você e seu rosto não é muito conhecido na Guilda. Se conseguirmos lhe dar certos indicadores da localização desses traidores, acha que poderia cuidar de­les? Pode levar Ugo para lhe dar retaguarda e qualquer força-tarefa de que necessite.

—  Messere Antonio, a queda de Emilio é tão importante para mim quanto é para você. Vamos nos unir nisso.

Antonio sorriu.

—  Exatamente a resposta que eu esperava! — Fez um gesto para que Ezio se juntasse a ele à mesa do mapa, que fora montada perto da janela. — Aqui está um plano da cidade. Segundo meus leais espiões, os homens de minha confiança que me traíram costumam se encontrar em uma taverna daqui, chamada II Vecchio Specchio. É onde fazem contato com os agentes de Emilio, trocam informações e recebem ordens.

—  Quantos são?

—  Cinco.

—  O que quer que eu faça com eles?

Antonio o olhou.

—  Ora, mate-os, meu amigo.

 

Ezio convocou o grupo que escolhera a dedo para a missão no dia se­guinte ao pôr do sol. Havia elaborado um plano. Vestiu todos com os uniformes dos Barbarigo surrupiados dos navios saqueados por Antonio. Emilio, ele soube por Antonio, acreditava que o equipamento roubado tinha se perdido no mar, então sua gente não suspeitaria de nada. Junto com Ugo e mais quatro homens, Ezio entrou no II Vecchio Specchio logo depois de anoitecer. Aquele era um local de diversão dos guardas de Barbarigo, mas àquela hora da noite só havia um punhado de clientes, além dos vira-casacas e dos agentes a serviço de Emilio. Mal olharam quando o grupo de guardas de Barbarigo entrou na taverna, e foi apenas quando se viram cercados que sua atenção se voltou aos recém-chegados. Ugo puxou o capuz para trás, revelando-se à meia-luz da taverna. Os conspiradores fizeram menção de se levantar, espanto e medo escritos em seus rostos. Ezio colocou uma das mãos firmemente no ombro do traidor mais próximo e então, com indiferente economia de esforço, enfiou entre os olhos do homem a lâmina do códex que aca­bara de liberar. Ugo e os outros o imitaram e despacharam seus irmãos traiçoeiros.

Enquanto isso, Rosa continuou se recuperando gradual e impaciente­mente. Estava sempre se movimentando, mas para isso dependia de uma bengala, e a perna ferida continuava envolta em bandagens. Ezio, apesar de lutar contra isso e de pedir desculpas mentais constantemente a Cristina Calfucci, passava o máximo de tempo possível na companhia dela.

—  Salute, Rosa — disse ele em uma manhã típica. — Como estão as coisas? Vejo que sua perna está melhorando.

Rosa deu de ombros.

—  Está levando uma eternidade, mas chego lá. E você? O que acha de nossa cidadezinha?

—  É uma cidade fantástica, mas como vocês conseguem suportar o cheiro dos canais?

—  Estamos acostumados. Não gostaríamos da poeira e da sujeira de Florença. — Ela fez uma pausa. — Então, o que o traz até mim desta vez?

Ezio sorriu.

—  O que você está pensando e também o que você não está pensando. — Hesitou. — Esperava que você pudesse me ensinar a escalar como você.

Ela deu um tapa na própria perna.

—  Foi-se o tempo. Mas, se estiver com pressa, meu amigo Franco é capaz de escalar quase tão bem quanto eu. — Ergueu a voz: — Franco!

Um rapaz belo e elegante de cabelos escuros apareceu quase ime­diatamente à porta, e Ezio, para sua mortificação íntima, sentiu uma pontada de ciúme que ficou aparente o bastante para Rosa. Ela sorriu.

—  Não se preocupe, tesoro, ele é tão alegre quanto Santo Sebastiano. Mas também é tão resistente quanto botas velhas. Franco! Quero que mostre a Ezio alguns de seus truques. — Ela olhou pela janela. Um edifício desocupado em frente estava coberto de andaimes de bambu, amarrados com correias de couro. Ela apontou. — Leve-o lá em cima, para começar.

Ezio passou o resto da manhã — três horas — correndo atrás de Franco sob a direção estridente de Rosa. No fim, conseguia escalar a uma altura vertiginosa com quase a mesma velocidade e desenvoltura de seu mentor e havia aprendido a pular para cima, de um apoio a outro, em­bora duvidasse de que um dia fosse capaz de chegar ao patamar de Rosa.

—  Almoce algo leve — ordenou Rosa, poupando os elogios. — Ain­da não terminamos por hoje.

De tarde, nas horas da sesta, ela o levou à praça da enorme igreja de tijolos vermelhos de Frari. Juntos olharam para seu porte.

—  Suba aí — disse Rosa. — Até o topo. Quero você de volta antes de eu terminar de contar até trezentos.

Ezio suou e deu duro, a cabeça tonta pelo esforço.

—  Quatrocentos e trinta e nove — declarou Rosa quando ele tornou a se juntar a ela. — De novo!

No final da quinta tentativa, um Ezio suado e exausto sentia vontade apenas de dar um soco na cara de Rosa, mas aquele desejo desapareceu quando ela sorriu para ele e disse:

—  Duzentos e noventa e três. Você vai fazer praticamente qualquer coisa.

A pequena plateia que havia se reunido para assistir aplaudiu.

 

Nos meses seguintes, a Guilda dos Ladrões se lançou às tarefas de re­organização e reequipagem. Então, certa manhã, Ugo foi ao local onde Ezio estava hospedado e o convidou para uma reunião. Ezio colocou as armas do códex em uma bolsa e seguiu Ugo até a sede de operações, onde encontraram Antonio com um humor efervescente, mais uma vez movimentando os pequenos manequins de madeira ao redor da maque- te do Palazzo Seta. Ezio ficou se perguntando se o homem não estaria meio obcecado. Rosa, Franco e dois ou três dos membros mais antigos da Guilda também estavam presentes.

—  Ah, Ezio! — sorriu Antonio. — Graças a seus sucessos recentes, agora estamos em posição de contra-atacar. Nosso alvo é o armazém de Emilio, que não fica longe do palazzo. Este é o plano, olhe! — Ele deu um tapinha na maquete e indicou linhas de soldadinhos azuis de ma­deira espalhados ao redor dos perímetros do armazém. — Estes são os arqueiros de Emilio. Representam nosso maior perigo. Com a escuridão da noite, pretendo enviar você e mais dois outros aos telhados dos edifí­cios adjacentes ao armazém, e sei que você está preparado para a tarefa, graças ao treinamento recente de Rosa, a fim de derrubar os arqueiros e eliminá-los. Silenciosamente. Enquanto isso, nossos homens, vestidos com os uniformes dos guardas de Barbarigo que capturamos, vão se aproximar vindo das ruelas em torno e assumir suas posições.

Ezio apontou para os manequins vermelhos no interior dos muros do armazém:

—  E os guardas de dentro?

—  Depois que vocês derem um jeito nos arqueiros, vamos nos reu­nir aqui... — Antonio apontou uma piazza próxima que Ezio reconhe­ceu como aquela onde ficava o novo ateliê de Leonardo. Ele se pergun­tou por um breve momento como seu amigo estava se saindo com suas encomendas. — ...para discutir os passos seguintes.

—  Quando iremos atacar? — perguntou Ezio.

—  Esta noite!

—  Excelente! Vou levar uns dois homens bons. Ugo, Franco, você! vêm comigo? — Os dois concordaram, sorrindo. — Nós cuidaremos dos arqueiros e depois iremos encontrar vocês como sugerido — disse ele agora a Antonio.

—  Com nossos homens no lugar dos arqueiros, eles não irão suspei­tar de nada — respondeu Antonio.

—  E qual é o passo seguinte?

—  Depois de tomarmos o armazém, vamos atacar o palazzo em si. Mas lembre-se: seja cuidadoso! Eles não podem desconfiar de nada! — Antonio sorriu e cuspiu: — Boa sorte, meus amigos: in bocca al lupo!

—  Deu um tapinha no ombro de Ezio.

—  Crepi il lupo — respondeu Ezio, cuspindo também.

A operação se desenrolou naquela noite sem nenhum imprevisto. Os arqueiros de Barbarigo não souberam o que os havia atingido, e foram substituídos tão sutilmente por homens de Antonio que os guardas den­tro do armazém tombaram em silêncio sem grande resistência ao ata­que dos ladrões, não sabendo que seus camaradas de fora haviam sido neutralizados.

O ataque ao palazzo era o item seguinte da agenda de Antonio, mas Ezio insistiu em ir na frente para avaliar o estado geral das coisas. Rosa, cujos últimos estágios da recuperação haviam sido notáveis graças às habilidades combinadas de Antonio e Bianca e que agora era capaz de escalar e pular quase tão bem quanto se estivesse de volta à forma total, quis acompanhá-lo, mas Antonio vetou, para raiva dela. Ezio chegou a pensar que no fim das contas Antonio o considerava mais sacrificável do que ela, mas afastou aquele pensamento e se preparou para a missão de reconhecimento, amarrando no braço esquerdo o braçal do códex com a adaga de dois gumes e, no direito, a lâmina retrátil original. Tinha muita escalada difícil pela frente e não desejava arriscar usar a lâmina com veneno, uma vez que em qualquer circunstância aquela seria uma arma verdadeiramente letal e ele queria evitar qualquer acidente que pudesse vir a ser fatal para ele mesmo.

Puxando o capuz por sobre a cabeça e usando as novas técnicas de saltos para a frente ensinadas por Rosa e Franco, subiu as muralhas externas do palazzo, silencioso e ainda mais discreto que uma sombra, até chegar ao telhado e de lá olhar o jardim. Notou dois homens conversan­do entretidos ali. Eles se dirigiam a um portão lateral que levava a um canal estreito e particular que rodeava os fundos do palazzo. Seguindo 0 progresso deles do telhado, Ezio viu que havia uma gôndola atraca­da em um pequeno cais ali, seus dois gondoleiros vestidos de negro e suas lanternas apagadas. Com tanta maestria sobre telhados e paredes quanto uma lagartixa, desceu apressado e se escondeu nos galhos de uma árvore, de onde poderia ouvir a conversa. Os dois homens eram Emilio Barbarigo e, Ezio reconheceu com um choque, ninguém menos que Cario Grimaldi, membro do séquito do doge Mocenigo. Estavam acompanhados pelo secretário de Emilio, um homem comprido e ma­gro vestido de cinza cujos grossos óculos de leitura ficavam a todo mo­mento deslizando pelo nariz.

—  ...seu castelinho de cartas está desmoronando, Emilio — dizia Grimaldi.

—  É só um contratempo menor, nada mais. Os mercadores que me desafiam e aquele cretino do Antonio de Magianis logo, logo estarão mortos ou presos, ou então remando em uma galé turca.

—  Estou falando do Assassino. Ele está aqui, você sabe. Foi isso que deixou Antonio tão ousado. Olhe, todos nós fomos roubados ou furta­dos, e nossos guardas foram enganados; quase não consigo evitar que o doge fique enfiando o nariz nesse assunto.

—  O Assassino? Aqui?

—  Você é um imbecil, Emilio! Se o Mestre soubesse como você é idiota, você estaria morto. Você sabe o prejuízo que ele já trouxe à nossa causa em Florença e em San Gimignano.

Emilio fechou a mão direita em um punho.

—  Vou esmagar aquele percevejo! — vociferou.

—  Bom, com certeza ele está chupando o seu sangue. Quem sabe se não estará aqui agora, escutando a nossa conversa?

—  Ora, Cario, daqui a pouco você vai me dizer que acredita em fan­tasmas.

Grimaldi o encarou:

—  A arrogância o tornou estúpido, Emilio. Você não está vendo o quadro inteiro. Você não passa de um peixe grande em um lago pequeno Emilio o agarrou pela túnica e o puxou para perto, com raiva:

—  Veneza será minha, Grimaldi! Eu forneci todos os armamentos em Florença! Não é minha culpa se aquele idiota do Jacopo não os usou como se deve. E nem tente estragar as coisas entre mim e o Mestre Se eu quisesse, poderia contar a ele algumas coisas a seu respeito que fariam...

—  Poupe o verbo! Preciso ir agora. Lembre-se: a reunião é daqui a dez dias em San Stefano, nos arredores de Fiorella.

—  Não vou esquecer — disse Emilio amargamente. — O Mestre vai saber então como...

—  O Mestre irá falar e você vai escutar — retrucou Grimaldi. — Adeus!

Ele entrou na gôndola escura enquanto Ezio observava e se afastou deslizando para dentro da noite.

—  Cazzo! — murmurou Emilio a seu secretário enquanto olhava a gôndola desaparecer na direção do Grande Canal. — E se ele estiver certo? E se aquele maldito Ezio Auditore estiver mesmo aqui? — Refletiu por um instante. — Olhe, prepare os barqueiros agora. Acorde os des­graçados se for preciso. Quero que embarquem aqueles caixotes agora mesmo e quero o barco pronto daqui a meia hora pelo relógio dagua. Se Grimaldi estiver falando a verdade, preciso encontrar um lugar onde me esconder, pelo menos até o dia da reunião. O Mestre vai achar um jeito de acabar com o Assassino...

—  Ele deve estar agindo junto com Antonio de Magianis — inter­rompeu o secretário.

—  Eu sei disso, idiota! — sibilou Emilio. — Agora venha e me ajude a empacotar os documentos de que falamos antes que nosso querido amigo Grimaldi venha atrás de mim.

Voltaram para o interior do palazzo e Ezio os seguiu, dando tanto sinal de sua presença quanto um espírito. Misturou-se às sombras e seus passos não eram mais perceptíveis do que os de um gato. Sabia que An­tonio seguraria o ataque ao palazzo até ele dar o sinal e desejava primeiro descobrir exatamante o que Emilio estava planejando: o que seriam aqueles documentos de que falara?

—  Por que as pessoas não escutam a voz do bom-senso? — dizia Emilio a seu secretário enquanto Ezio continuava a segui-los. — Toda essa liberdade de oportunidade só leva a mais crimes! Precisamos ga­rantir que o Estado controle todos os aspectos da vida das pessoas, mas que ao mesmo tempo deixe em paz os banqueiros e os investidores par­ticulares. Dessa forma a sociedade poderá florescer. E, se aqueles que forem contra tiverem de ser silenciados, então é o preço do progresso. Os Assassinos pertencem a uma época que já passou. Não percebem que é o Estado que importa, não o indivíduo. — Ele balançou a cabeça.

—  Como Giovanni Auditore, e olhe que ele era um banqueiro! Seria de imaginar que tivesse demonstrado mais integridade!

Ezio inspirou fundo ao ouvir a menção ao nome de seu pai, mas continuou perseguindo sua presa enquanto Emilio e o secretário en­travam em seu escritório, selecionavam documentos, guardavam-nos e voltavam ao pequeno cais perto do portão do jardim onde outra gôndo­la, maior, agora aguardava seu mestre.

Emilio pegou o alforje de papéis das mãos do secretário e vociferou uma última ordem.

—  Mande algumas roupas para mim. Você sabe o endereço.

O secretário fez uma reverência e sumiu. Não havia mais ninguém por perto. Os gondoleiros na frente e atrás do barco se preparavam para a partida.

Ezio correu de seu ponto privilegiado até a gôndola, que balançava de modo alarmante. Com duas cotoveladas rápidas, derrubou os bar­queiros na água e então segurou Emilio pela garganta.

—  Guardas! Guardas! — tentou gritar Emilio, procurando a adaga no cinto. Ezio agarrou-lhe o pulso justamente quando ele estava prestes a enfiar a arma na sua barriga.

—  Calma — disse Ezio.

—  Assassino! Você! — rosnou Emilio.

—  Sim.

—  Matei seu inimigo!

—  Isso não faz de você meu amigo.

     —Me matar não vai resolver nada para você, Ezio.

—  Acho que vai livrar Veneza de um... percevejo incômodo — disse Ezio, liberando a lâmina retrátil. — Requiescat en pace.

Com apenas uma pausa, Ezio enfiou a lâmina mortal entre as omoplatas de Emilio: a morte chegou rápida e silenciosamente. A proficiência de Ezio na arte de matar só era equiparada à determinação fria e metálica com que ele realizava o dever de seu chamado.

Com o corpo de Emilio caído ao lado da gôndola, Ezio se pôs a vasculhar os documentos de seu alforje. Havia muita coisa do interesse de Antonio, pensou enquanto os folheava rapidamente, pois não tinha tempo agora para examiná-los em detalhes, mas um pergaminho cha­mou sua atenção: uma página de velino enrolada e selada. Com certeza era mais uma página do códex!

Quando estava prestes a romper o selo — zuml — Uma flecha zuniu e bateu na base da gôndola entre suas pernas. Instantaneamente alerta, Ezio se agachou, olhando para cima na direção em que havia vindo o míssil. Bem acima dele, nas muralhas do palazzo, havia um grande nú­mero de arqueiros de Barbarigo espalhados.

Então um deles acenou e desceu acrobaticamente das muralhas al­tas. Mais um segundo e ela estava em seus braços.

—  Desculpe, Ezio, foi uma brincadeira boba! Mas não pudemos resistir.

—  Rosa!

Ela aninhou-se contra ele.

—  De volta à luta e pronta para a ação! — Olhou-o com olhos bri­lhantes. — E o Palazzo Seta foi tomado! Libertamos os mercadores que se opunham a Emilio e agora controlamos o bairro. Venha! Antonio está planejando uma comemoração, e as adegas de Emilio são lendárias!

O tempo passou e Veneza parecia em paz. Ninguém lamentou o desa­parecimento de Emilio; na verdade, muita gente ainda acreditava que estivesse vivo e alguns supunham que ele apenas viajara ao estrangei­ro para cuidar dos negócios no reino de Nápoles. Antonio fez questão de manter o Palazzo Seta funcionando como um relógio, e, desde que os interesses mercantis de Veneza como um todo não fossem afetados ninguem se importava muito com o destino do mercador, por mais ambicioso ou bem-sucedido que ele tivesse sido.

Ezio e Rosa haviam se aproximado, mas ainda existia uma rivalidade feroz entre eles. Agora que estava curada, queria provar o seu valor, e certa manhã foi ao quarto dele e disse:

—  Escute, Ezio, acho que você precisa de uma reciclada. Quero ver se ainda é tão bom quanto ficou quando eu e Franco o treinamos. Então que me diz de uma corrida?

—  Uma corrida?

—  Sim!

—  Até onde?

—  Daqui até Punta delia Dogana. Começando agora!

E ela pulou pela janela antes que Ezio pudesse reagir. Ele a obser­vou subir nos telhados vermelhos e parecer quase dançar ao longo dos canais que separavam um edifício do outro. Tirou a túnica e a seguiu.

Por fim eles chegaram, praticamente juntos, ao telhado do edifício de madeira que ficava no pedaço de terra no final do Dorsoduro, em frente ao canal de São Marcos e à lagoa. Do outro lado da água estavam os prédios baixos do monastério de San Giorgio Maggiore, e em frente, o edifício brilhante de pedra rosada do Palazzo Ducale.

—  Parece que venci — declarou Ezio.

Ela franziu a testa.

—  Que besteira. De qualquer maneira, só de dizer isso você já de­monstra que não é um cavalheiro e certamente que não é veneziano. Mas o que se poderia esperar de um florentino? — Ela parou. — De um jeito ou de outro, você é um mentiroso. Eu é que venci.

Ezio deu de ombros e sorriu.

—  Como quiser, caríssima.

—  Então, ao vencedor, o prêmio — disse ela, puxando a cabeça dele e beijando-o apaixonadamente na boca. O corpo de Rosa agora estava macio e quente, e infinitamente submisso.

 

Emilio Barbarigo pode não ter sido capaz de comparecer ele próprio ao encontro no Campo San Stefano, mas Ezio certamente não deixaria de ir. Ele se posicionou na praça, já tumultuada ao amanhecer, naque­la manhã clara do fim de 1485. A batalha pela superioridade sobre os Templários foi dura e longa. Ezio começou a acreditar que, tal como fora para seu pai e era para seu tio, ela se tornaria a obra de sua própria vida também.

Com o capuz sobre a cabeça, ele se misturou à multidão, mas ficou por perto quando viu Carlo Grimaldi se aproximar com outro homem, de ar ascético, os cabelos e a barba castanho-avermelhados e incom­patíveis com a pele azulada e pálida, que usava os trajes vermelhos de um inquisidor do Estado. Aquele homem, como sabia Ezio, era Silvio Barbarigo, primo de Emilio, cuja alcunha era “II Rosso". Ele não parecia estar particularmente de bom humor.

—  Onde está Emilio? — perguntou ele, impaciente.

Grimaldi deu de ombros:

—  Eu disse a ele para estar aqui.

—  Você mesmo disse a ele? Pessoalmente?

—  Sim — rebateu Grimaldi. — Eu mesmo! Pessoalmente! Receio que você não confie em mim.

—  Eu também receio — resmungou Silvio.

Grimaldi cerrou os dentes ante o comentário, mas Silvio apenas olhou ao redor, distraído.

—  Bem, talvez ele chegue com os outros. Vamos caminhar um pouco.

Começaram a caminhar pelo campo grande e retangular, passan­do pela igreja de San Vidal e pelos palácios na extremidade do Grande Canal, até chegar a San Stefano na outra ponta. Pararam de tempos em tempos para olhar as mercadorias que os ambulantes estavam dispon­do nas barracas no início do dia de trabalho. Ezio os seguia, mas com dificuldade. Grimaldi estava impaciente e não parava de olhar para trás desconfiado. Em algum momentos, tudo o que Ezio podia fazer era continuar a perseguição a uma distância em que pudesse ouvi-los.

—  Enquanto esperamos, você poderia me atualizar sobre como es­tão as coisas no palácio do doge — disse Silvio.

Grimaldi estendeu as mãos e falou:

—  Bem, para ser honesto com você, as coisas não estão fáceis. Mocenigo mantém seu círculo fechado. Tentei criar uma base, como você pediu, dando sugestões que favorecessem os interesses de nossa Causa, mas é claro que não sou o único competindo pela atenção dele e, por mais velho que seja, ele é um canalha esperto.

Silvio pegou um bibelô de vidro bem trabalhado de um ambulante, inspecionou e devolveu-o.

—  Então você deve se esforçar mais, Grimaldi. Deve se tornar parte do círculo interno dele.

—  Já sou um de seus aliados mais próximos e mais confiáveis. Levei anos para me estabelecer. Anos planejando pacientemente, esperando, aceitando humilhações.

—  Sim, sim — disse Silvio, impaciente. — Mas o que você tirou disso tudo?

—  A coisa é mais difícil do que eu esperava.

—  E por quê?

Grimaldi fez um gesto de frustração.

—  Não sei. Faço o máximo que posso pelo Estado, trabalho muito... Mas o fato é que Mocenigo não gosta de mim.

—  Eu me pergunto o porquê — disse Silvio friamente.

Grimaldi estava muito absorto em seus pensamentos para notar a ofensa.

—  Não é culpa minha! Sempre tento satisfazer o canalha! Descubro o que mais deseja e dou a ele, sejam as geleias mais refinadas da Sarde­nha, ou a última moda em Milão...

—  Talvez o doge simplesmente não goste de bajuladores.

—  É isso que você pensa que sou?

—  Sim. Um capacho, adulador, um puxa-saco... preciso continuar?

Grimaldi olhou para ele.

215

situação. Não entende a pressão na...

—  Oh, eu não entendo a pressão?

—  Não! Você não tem ideia. Pode ser um oficial do estado, mas fico a dois passos do doge o dia inteiro. Você gostaria de estar em meu lugar, porque acha que poderia fazer melhor, mas...

—  Já terminou?

—  Não! Apenas ouça. Sou alguém próximo a ele. Dediquei a vida para me estabelecer nessa posição e lhe digo que estou convencido de que posso recrutar Mocenigo para nossa causa. — Grimaldi fez uma pausa. — Só preciso de mais tempo.

—  Parece-me que você já teve tempo mais do que suficiente. — Sil­vio parou abruptamente e Ezio observou-o enquanto ele levantava uma das mãos para atrair a atenção de um senhor de idade vestido com re­quinte e com uma barba branca esvoaçante, acompanhado por um se­gurança que era a maior pessoa que Ezio já vira.

—  Bom dia, primo. — O recém-chegado cumprimentou Silvio. — Grimaldi.

—  Saudações, primo Marco — respondeu Silvio, e olhou ao redor.

—  Onde está Emilio? Ele não veio com você?

Marco Barbarigo pareceu surpreso e, então, sério.

—  Ah. Então você ainda não ouviu a notícia?

—  Que notícia?

—  Emilio está morto.

—  O quê? — Silvio, como sempre, ficou irritado com o fato de que o primo mais velho e mais poderoso estivesse mais bem informado. — Como?

—  Posso adivinhar — disse Grimaldi com amargura. — Foi o As­sassino.

Marco olhou para ele intensamente:

—  Isso mesmo. Retiraram o corpo de um dos canais na noite passa­da. Devia estar lá há... bem, há tempo suficiente. Disseram que ficou tão inchado que dobrou de tamanho. Por isso flutuou até a superfície.

—  Onde o Assassino pode estar escondido? — perguntou Grimaldi.

—  Precisamos encontrá-lo e matá-lo antes que cause mais estragos.

—  Ele pode estar em qualquer lugar — respondeu Marco. — É por que levo o Dante aqui para qualquer lugar aonde eu vá. Não me sentiria seguro sem ele. — Marco parou de repente. — Ora, ele poderia estar aqui, até mesmo agora, considerando o pouco que sabemos.

—  Devemos agir rapidamente — disse Silvio.

—  Você está certo — concordou Marco.

—  Mas, Marco, eu estou tão perto! Eu sinto. Apenas me dê mais alguns dias — implorou Grimaldi.

—  Não, Carlo, você já teve tempo o bastante. Não temos mais tem­po para sutilezas. Se Mocenigo não vai se juntar a nós, devemos elimi­ná-lo e substituí-lo por um dos nossos, e precisamos fazer isso ainda esta semana!

Dante, o segurança gigante cujos olhos não parava de inspecionar a multidão desde o momento em que Marco Barbarigo chegara, falou agora:

—  É melhor continuar andando, signori.

—  Sim — concordou Marco. — Além disso, o Mestre está esperan­do. Venham!

Ezio se moveu como uma sombra entre a multidão e os ambulantes, esforçando-se para se manter a uma distância em que pudesse ouvir os homens enquanto atravessavam a praça e desciam a rua que levava em direção à Piazza San Marco.

—  Será que o Mestre concordará com nossa nova estratégia? — per­guntou Silvio.

—  Ele seria um tolo se não o fizesse.

—  Tem razão, não temos escolha — concordou Silvio e, então, olhou para Grimaldi: — O que de certa forma torna você inútil — completou desagradavelmente.

—  Essa é uma questão para o Mestre decidir — retorquiu Grimaldi.

—  Assim como ele decidirá quem tomará o lugar de Mocenigo, você ou seu primo Marco aqui. E a melhor pessoa para aconselhá-lo nessa questão sou eu!

—  Eu não sabia que havia uma decisão a ser tomada — disse Marco.

—  Evidentemente a escolha é óbvia para todos.

—  Concordo — disse Silvio, tenso, — A escolha deveria cair sobre a pessoa que organizou toda a operação, aquela que teve a ideia de como salvar esta cidade!

Marco retrucou rapidamente:

—  Eu seria o último a subestimar a inteligência tática, meu bom Silvio; mas no fim é de sabedoria que uma pessoa necessita para comandar. Não pense o contrário.

—  Senhores, por favor — pediu Grimaldi. — O Mestre poderá aconselhar o Comitê dos Quarenta e Um quando eles se reunirem para eles o novo doge, mas não pode manejá-los. E, pelo pouco que sabemos, talvez esteja pensando em indicar alguém que não seja nenhum de voces dois...

—  Ou seja, você? — disse Silvio, incrédulo, enquanto Marco apenas soltava um risinho de desprezo.

—  E por que não? Sou o único que realmente colocou a mão na massa no que diz respeito às extorsões!

—  Signori, por favor, continuem andando — interrompeu Dante.

—  Vai ser mais seguro para todo mundo quando estivermos lá dentro novamente.

—  É claro — concordou Marco, acelerando o passo. Os outros fize­ram o mesmo.

—  Ele é um bom homem, esse seu Dante — disse Silvio. — Quanto você lhe paga?

—  Menos do que ele vale — respondeu Marco. — Ele é leal e confiá­vel; já salvou minha vida em duas ocasiões. Mas eu não diria que é lá muito falante.

—  Quem precisa de um segurança que goste de conversar?

—  Chegamos — declarou Grimaldi ao chegarem a uma porta dis­creta na lateral de um prédio fora do Campo Santa Maria Zobenigo. Ezio, mantendo uma distância segura dos outros, ciente da extrema vi­gilância de Dante, virou a esquina da praça bem a tempo de vê-los en­trar. Olhando ao redor para certificar-se de que estava seguro, escalou a lateral do prédio e posicionou-se na sacada acima da porta. As janelas para a sala estavam abertas e, no interior, sentado em uma pesada cadei­ra de carvalho atrás de uma mesa de jantar coberta de papéis e vestindo veludo roxo, estava o Espanhol. Ezio se escondeu nas sombras e espe­rou, pronto para ouvir tudo o que acontecesse.

Rodrigo Bórgia estava de péssimo humor. O Assassino já o frustrara em várias grandes empreitadas e escapara de todas as tentativas de matá-lo. Agora estava em Veneza e havia eliminado um dos principais aliados do cardeal na cidade. E, como se não bastasse, Rodrigo foi obrigado a pas­sar os quinze primeiros minutos da reunião ouvindo o bando de tolos a seu serviço batendo boca sobre qual deles deveria ser o próximo doge. O fato de que ele já havia feito sua escolha e molhado a mão de todos os membros-chave do Conselho dos Quarenta e Um parecia ter sido ignorado por aqueles idiotas. Seu escolhido foi o mais velho, vaidoso e flexível dos três.

—  Calem a boca, todos vocês! — disparou ele finalmente. — O que preciso é de disciplina e dedicação inabalável à nossa causa, não dessa busca covarde por autopromoção! Esta é a minha decisão e ela será cum­prida. Marco Barbarigo vai ser o próximo doge e será eleito na semana que vem, logo após a morte de Giovanni Mocenigo, que, por ter 76 anos, dificilmente causará muito espanto, mas que mesmo assim deve parecer natural. Acha que é capaz de providenciar isso, Grimaldi?

Grimaldi lançou um olhar aos primos Barbarigo. Marco estava com um ar presunçoso e Silvio tentava parecer honrado em sua decepção. “Que tolos”, pensou ele. Doge ou não, continuavam sendo fantoches do Mestre, que agora conferia a verdadeira responsabilidade para ele. Gri­maldi permitiu-se sonhar com coisas melhores e respondeu:

—  É claro, Mestre.

—  Quando você fica mais próximo dele?

Grimaldi refletiu:

—  Eu estou no comando do Palazzo Ducale. Mocenigo pode não gostar muito de mim, mas tenho sua total confiança e estou sempre pronto para atendê-lo na maior parte do tempo.

—  Ótimo. Envenene-o. Na primeira oportunidade.

—  Ele tem provadores de comida.

—  Pelo amor de Deus, homem, acha que eu não sei disso? Vocês, venezianos, têm fama de serem bons em envenenamento. Coloque algo na carne depois de terem provado. Ou então enfie alguma coisa naquela

geleia da Sardenha que soube que ele tanto gosta. Mas pense em algo, senão será pior para você!

—  Deixe comigo, Su Altezza.

Rodrigo voltou o olhar irritado para Marco:

—  Suponho que você possa conseguir um produto adequado nosso propósito, não?

Marco sorriu com desprezo:

—  Esta é a especialidade de meu primo.

—  Acredito que posso conseguir cantarella suficiente para nosso objetivos — respondeu Silvio.

—  E o que é isso?

—  É a forma mais eficaz de arsênico e é muito difícil de identificar no corpo.

—  Ótimo! Providencie!

—  Devo dizer, Mestre — disse Marco —, que estamos muitíssimo admirados de o senhor haver se envolvido pessoalmente nesta emprei­tada. Não é perigoso para o senhor?

—  O Assassino não se atreverá a vir atrás de mim. Ele é esperto, mas jamais me superará. Seja como for, sinto-me inclinado a me envolver mais diretamente, depois que os Pazzi nos decepcionaram em Floren­ça. Espero sinceramente que os Barbarigo não façam o mesmo... — Ele fitou-os.

Silvio falou, abafando o riso:

—  Os Pazzi eram um bando de amadores...

—  Os Pazzi — interrompeu Rodrigo — eram uma família poderosa e venerável, e foram derrotados por um jovem Assassino. Não subesti­me esse importuno rival, senão ele derrotará os Barbarigo também. — Fez uma pausa para que absorvessem aquilo. — Agora vão e executem o plano. Não podemos nos dar ao luxo de falhar novamente!

—  Quais são os seus próprios planos, Mestre?

—  Voltarei a Roma. O tempo urge!

Rodrigo se levantou abruptamente e deixou a sala. Daquele ponto privilegiado, escondido na sacada, Ezio o assistiu sair sozinho e atraves­sar a praça, dispersando um aglomerado de pombos quando passou rente em direção ao Molo. Os outros homens logo fizeram o mesmo —    separaram-se e seguiram cada qual seu próprio caminho a partir praça. Quando tudo estava em silêncio, Ezio pulou para a calçada baixo e seguiu apressado em direção à sede de operações de Antonio.

Ao chegar lá, Rosa veio a seu encontro e o saudou com um longo beijo.

—  Ponha sua adaga de volta na bainha — sorriu ela enquanto seus corpos se pressionavam um contra o outro.

—  Foi você que me fez sacá-la. E você é a única — completou ele com duplo sentido — que possui a bainha.

Ela pegou a mão dele.

—  Então venha.

—  Não, Rosa, mi dispiace veramente, mas não posso.

—  Então já está cansado de mim!

—  Você sabe que não! Mas tenho de encontrar Antonio. É urgente Rosa o olhou e viu a expressão intensa em seu rosto, em seus frios olhos azuis cinzentos.

—  Tudo bem. Desta vez eu o perdoo. Ele está no escritório. Acho que sente falta da maquete do Palazzo Seta, agora que tem o original! Venha!

—  Ezio! — exclamou Antonio assim que o viu. — Não gosto desse olhar. Está tudo bem?

—  Gostaria que estivesse. Acabo de descobrir que Cario Grimaldi e os dois primos Barbarigo, Silvio e Marco, se aliaram a... a um homem que conheço muito bem, a quem as pessoas chamam de o Espanhol. Eles planejam matar o doge Mocenigo e substituí-lo por alguém do gru­po deles.

—  Que notícia terrível. Com um deles como doge, terão toda a frota e o império comercial veneziano nas mãos. — Fez uma pausa. — E cha­mam a mim de criminoso!

—  Então... você me ajudará a detê-los?

Antonio estendeu a mão:

—  Tem minha palavra, irmãozinho. E o apoio de todos os meus homens.

—  E mulheres — disse Rosa.

Ezio sorriu.

—  Grazie, amici.

Antonio pareceu pensativo:

—  Mas Ezio, precisaremos de um plano. O Palazzo Ducale é tão fortemente protegido que faz o Palazzo Seta parecer um campo aberto. E não temos tempo de providenciar uma maquete em escala para plane­jarmos um...

Ezio ergueu uma das mãos e disse com firmeza:

—  Nada é impenetrável.

Os dois o olharam. Então Antonio riu e Rosa sorriu com travessura:

—  Nada é impenetrável! Não é à toa que gostamos de você, Ezio!

Mais tarde naquele mesmo dia, quando havia menos pessoas nas ruas, Antonio e Ezio foram até o palácio do doge.

—  Traições como essa não me surpreendem mais — disse Anto­nio enquanto caminhavam. — O doge Mocenigo é um bom homem e é uma surpresa ter durado tanto. Quanto a mim, quando era criança, ensinaram-me que os nobres eram justos e gentis. Eu acreditei nisso também. Apesar de meu pai ter sido sapateiro e minha mãe copeira, eu aspirava a ser muito mais. Estudei muito, me esforcei, mas nunca con­segui ser membro da classe governante. Quando não se nasce dentro dela, a aceitação é impossível. Então, eu lhe pergunto, Ezio: quem são os verdadeiros nobres de Veneza? Homens como Grimaldi ou Marco e Silvio Barbarigo? Não! Somos nós! Os ladrões, os mercenários e as putas. Nós mantemos esse lugar de pé e cada um de nós tem mais honra no dedo mindinho do que todo esse bando de assim chamados gover­nantes! Amamos Veneza. Os outros apenas a veem como um meio para enriquecer.

Ezio continuou calado, pois jamais poderia imaginar Antonio, bom como ele era, usando o corno ducale. Depois de algum tempo, chegaram à Piazza de San Marco e contornaram-na até chegar ao palácio rosa. O lugar estava obviamente muito bem protegido e, embora tenham con­seguido subir sem serem detectados no andaime que havia sido erguido na lateral do muro da catedral anexa ao palácio, quando observavam daquele ângulo privilegiado viram que, por mais que fosse possível sal... —   e eles saltaram — até o telhado do palácio, mesmo de lá o acesso pátio estava barrado por uma grade alta cujo topo cheio de pontas era curvado para fora e para baixo. Abaixo deles, no pátio, viram o doge, Olovanni Mocenigo, um homem velho e digno que, no entanto, parecia uma casca enrugada habitando os belos trajes e o corno do líder da cida­de e do Estado, conversando com seu assassino eleito, Cario Grimaldi.

Ezio ouviu com atenção.

—  Não compreende o que estou lhe oferecendo, Altezza? — disse Carlo. — Ouça-me, por favor. Está é sua última chance!

—  Como se atreve a falar comigo desta forma? Como se atreve a me ameaçar? — retorquiu o doge.

Carlo se desculpou imediatamente:

—  Perdoe-me, senhor. Essa não foi minha intenção. Mas, por favor, acredite que sua segurança é minha maior preocupação...

Com isso, os dois entraram no prédio e saíram de vista.

—  Temos pouco tempo — disse Antonio, lendo os pensamentos de Ezio. — Mas não há como passar por essa grade. Mesmo que houvesse, olhe a quantidade de guardas. Diavolo! — Ele golpeou o ar com frustra­ção, fazendo um bando de pombos voar. — Olhe para eles! Os pássaros! Como seria fácil para nós se pudéssemos simplesmente voar!

De repente, Ezio sorriu para si mesmo. Já fazia tempo demais que não visitava o amigo Leonardo da Vinci.

 

—  Ezio! Há quanto tempo! — saudou Leonardo, como se ele fosse um irmão perdido há muito.

Seu ateliê em Veneza se parecia muito com o de Florença, mas ali se destacava uma versão em tamanho original de uma máquina parecida com um morcego, cuja finalidade agora Ezio sabia que precisava levar a sério. Porém, para Leonardo, primeiro deveriam vir as coisas mais importantes.

—  Ouça, Ezio, você me enviou outra página do códex por um ho­mem muito gentil chamado Ugo, mas não veio mais ver o andamento das coisas. Estava ocupado?

—  Estou ocupadíssimo — respondeu Ezio, lembrando-se da página que havia pegado entre as posses de Emilio Barbarigo.

—  Bem, aqui está. — Leonardo procurou no aparente caos de sua sala, mas logo encontrou a página do códex cuidadosamente enrolada com o selo restaurado. — Não há nenhum projeto de arma novo nesta aqui, mas pela aparência dos símbolos e da caligrafia manuscrita, que eu acredito ser aramaico ou até mesmo babilônio, ela será uma página significativa nesse quebra-cabeça que você está montando. Acho que reconheço traços de um mapa. — Ele levantou uma das mãos. — Mas não me diga nada! Estou interessado apenas nas invenções que essas páginas que você me traz revelam. Mais do que isso, não me interes­sa saber. Um homem como eu só está imune ao perigo por causa de sua utilidade; mas se descobrirem que ele sabe demais... — Leonardo passou o dedo pela garganta expressivamente. — Bem, é isso — conti­nuou. — Eu conheço você, Ezio. Suas visitas nunca são apenas sociais. Tome um copo deste Veneto horroroso — dê-me um Chianti qualquer dia —, e há bolinho de peixe em algum lugar por aqui, se estiver com fome.

Já terminou sua encomenda?

—  O Conte é um homem paciente. Salute! — Leonardo levantou o copo.

—  Leo, essa sua máquina funciona mesmo? — perguntou Ezio.

—  Quer dizer, se ela voa?

—  Sim.

Leonardo coçou o queixo.

—  Bem, ainda está nos primeiros estágios. Quero dizer, ainda não está nem perto de ficar pronta, mas acredito, com toda a modéstia, que sim! É claro que funcionará. Só Deus sabe o tempo que passei traba­lhando nela! É uma ideia que simplesmente não sai da minha cabeça!

—  Leo... posso experimentá-la?

Leonardo ficou chocado:

—É claro que não! Está louco? É muito perigoso. Para começo de conversa, teríamos que levá-la ao alto de uma torre para lançar você...

No dia seguinte, antes do amanhecer, mas ao surgirem os primeiros raios de rosa-acinzentado no horizonte ao leste, Leonardo e seus as­sistentes, após desmontarem a máquina voadora para transportá-la, reconstruíram-na no telhado alto e plano do Ca Pexaro, a mansão da família do patrão de Leonardo, que de nada desconfiava. Ezio estava junto. Abaixo deles, a cidade dormia. Não havia guardas nos telhados do Palazzo Ducale porque era a Hora do Lobo, a hora em que os vampiros e os espectros ficavam mais fortes. Ninguém além de lunáticos e cientistas se aventuraria a sair naquele momento.

—  Tudo pronto — disse Leonardo. — E graças a Deus não há nin­guém por perto. Se vissem essa coisa, jamais acreditariam, e se soubes­sem que é minha invenção eu estaria acabado nesta cidade.

—  Serei rápido — disse Ezio.

—  Tente não quebrá-la — falou Leonardo.

—  É um voo de teste — disse Ezio. — Irei com calma. Apenas me diga novamente como esta bambina funciona.

—  Já observou um pássaro voando? — perguntou Leonardo. — A questão não é ser mais leve que o ar, a questão envolve graça e equi­líbrio! Você deve simplesmente usar o peso do corpo para controlar a elevação e a direção, e as asas o levarão. — O rosto de Leonardo estava bastante sério. Ele apertou o braço de Ezio. — Buona fortuna, meu amigo. Você está, acredito eu, prestes a entrar para a história.

Os assistentes de Leonardo amarraram Ezio cuidadosamente embaixo da máquina. As asas de morcego se esticaram sobre ele, que estava preso com o rosto para a frente em um suporte apertado de couro,mas os braços e as pernas estavam livres. Diante dele, havia uma barra horizontal de madeira presa à armação principal que segurava as asas.

—  Lembre-se do que eu lhe disse! De um lado para o outro controla a direção. Para a frente e para trás controla o ângulo das asas — explicou Leonardo seriamente.

—  Obrigado — disse Ezio, respirando com dificuldade. Ele sabia que, se aquilo não funcionasse, dali a um instante estaria dando o últi­mo salto de sua vida.

—  Vá com Deus — disse Leonardo.

—  Até mais tarde — falou Ezio com uma confiança que ele não sen­tia de verdade. Ajustou o aparelho acima de si, equilibrou-o e correu para fora do telhado.

Seu estômago saiu de seu corpo primeiro e, então, veio um senti­mento maravilhoso de euforia. Veneza girava lá embaixo enquanto ele cambaleava e rolava, mas então a máquina começou a tremer e cair. Somente quando manteve a cabeça no lugar e se lembrou das instruções de Leonardo sobre o uso do manche é que Ezio foi capaz de endireitar o aparato e guiá-lo — bem a tempo — até o telhado do palácio Pexaro. Ele pousou a estranha nave correndo e usou toda a sua força e agilidade para estabilizá-la.

—  Deus Todo-Poderoso, funcionou! — gritou Leonardo, por um mo­mento não dando a mínima para a segurança, tirando Ezio da máquina e abraçando-o freneticamente. — Homem maravilhoso! Você voou!

—  Sim, por Deus, eu voei — disse Ezio, sem ar. — Mas não tão longe quanto eu precisava. — Seus olhos buscaram o palácio do doge e o pá­tio que era seu alvo. Ele também pensou no pouco tempo que tinha, se quisesse evitar o assassinato de Mocenigo.

Mais tarde, de volta ao ateliê de Leonardo, Ezio e o artista-inventor deram à máquina uma revisão cuidadosa. Leonardo colocou os dese­nhos e projetos em uma grande mesa sobre cavaletes.

—  Deixe-me dar uma olhada em meu projeto aqui. Talvez encontre algo, alguma forma de estender a duração do voo.

Eles foram interrompidos pela chegada abrupta de Antonio.

—  Ezio! Lamento perturbá-lo, mas é importante! Meus espiões me contaram que Silvio conseguiu o veneno de que precisam e que já o entregou a Grimaldi.

Bem nesse momento Leonardo gritou com desesperança:

—  Não adianta! Já examinei isso várias vezes e simplesmente não funciona! Não sei como estender o voo. Ah, que inferno! — Ele atirou os papéis para fora da mesa com raiva. Alguns deles voaram para dentro da grande lareira que ficava por perto e, ao queimarem, ergueram-se. Leonardo observou, sua expressão se iluminou e, por fim, um sorriso limpou a raiva de seu rosto.

—  Meu Deus! — gritou ele. — Eureca! É claro! Genial!

Tirou do fogo os papéis que não haviam queimado e apagou as chamas.

—  Nunca se entregue ao nervosismo — aconselhou ele. — Pode ser terrivelmente contraproducente.

—  Então o que o acalmou? — perguntou Antonio.

—  Veja! — disse Leonardo. — Você não viu as cinzas voarem? O ca­lor levanta as coisas! Quantas vezes não vi águias bem alto no céu, sem bater as asas, e ainda assim pairando no ar? O princípio é simples! Tudo o que temos que fazer é aplicá-lo!

Ele apanhou um mapa de Veneza e o abriu na mesa. Inclinando-se sobre ele com um lápis, marcou a distância entre o Palazzo Pexaro e o Palazzo Ducale, colocando cruzes nos pontos-chave entre os dois edifícios.

—  Antonio! — exclamou ele. — Consegue fazer com que o seu pes­soal construa fogueiras nos lugares que marquei e acendam-nas em se­quência?

Antonio estudou o mapa.

—  Acho que sim, mas por quê?

—  Você não vê? Esse é o caminho do voo de Ezio! As chamas car­regarão minha máquina voadora e ele até o alvo! O calor suspende as coisas!

—  E os guardas? — disse Ezio.

Antonio olhou para ele.

—  Você estará pilotando essa coisa. Ao menos uma vez, deixe os guardas conosco. Em todo caso — completou —, pelo menos alguns deles estarão ocupados em outro lugar. Meus espiões me disseram que há uma carga curiosa de um pó colorido em pequenos tubos que acabou de chegar de um país oriental distante chamado China. Só Deus sabe o que é isso, mas deve ser valioso, pois estão cuidando muito bem dessa carga.

—  Fogos de artifício — disse Leonardo para si mesmo.

—  O quê?

—  Nada!

Os homens de Antonio construíram as fogueiras que Leonardo pediu e deixaram-nas prontas ao anoitecer. Também retiraram das redondezas qualquer observador ou espectador ocioso que pudesse alertar as au­toridades sobre o que se passava. Enquanto isso, os assistentes de Leo­nardo transportaram a máquina-voadora até o telhado do palácio de Pexaro mais uma vez, onde Ezio, armado com a faca retrátil e o braçal, já havia tomado sua posição. Antonio estava por perto.

—  Antes você do que eu — disse ele.

—  É a única maneira de entrar no palácio. Você mesmo disse.

—  Mas nunca imaginei que pudesse acontecer. Ainda acho quase impossível de acreditar. Se Deus quisesse que os homens voassem...

—  Está pronto para dar o sinal a sua gente, Antonio? — perguntou Leonardo.

—  Certamente.

—  Então o faça agora e lançaremos Ezio.

Antonio caminhou até a borda do telhado e olhou para baixo. Então, pegou um grande lenço vermelho e o sacudiu. Lá embaixo eles viram uma, depois duas, três, quatro e cinco enormes fogueiras se acenderem.

—  Excelente, Antonio. Meus parabéns. — Então Leonardo virou-se para Ezio. — Agora, lembre-se do que eu lhe disse: você deve voar de fo­gueira em fogueira. O calor de cada uma delas o manterá no ar durante todo o caminho até o Palazzo Ducale.

—  E tenha cuidado — disse Antonio. — Há arqueiros nos telhados e com certeza atirarão assim que o virem. Pensarão que você é algum demônio do inferno.

—  Queria que houvesse uma maneira de usar minha espada en­quanto piloto essa coisa.

—  Seus pés estão livres — disse Leonardo, pensativo. — Se conse­guir se aproximar o suficiente dos arqueiros e evitar as flechas, pode ser que consiga chutá-los para fora do telhado.

—  Não vou me esquecer disso.

—  Agora você tem que ir. Boa sorte!

Ezio saltou do telhado e mergulhou no céu noturno rumo à pri­meira fogueira. Ele começou a perder altitude ao se aproximar, mas então, ao alcançá-la, sentiu a máquina se erguer novamente. A teoria de Leonardo funcionou! Ele continuou voando e viu os ladrões que cuidavam das fogueiras olharem para cima e soltarem vivas. Mas não eram os únicos a observá-lo. Ezio avistou os arqueiros de Barbarigo posicionados no telhado da catedral e nos outros edifícios próximos ao palácio do doge. Conseguiu manobrar a máquina-voadora e se es­quivar da maioria das flechas, mas uma ou duas fincaram-se na arma­ção de madeira. Também conseguiu descer o suficiente para derrubar vários arqueiros de seus postos. Porém, ao se aproximar do palácio, os guardas do próprio doge abriram fogo — e usavam flechas de fogo. Uma acertou a asa de estibordo da máquina, que pegou fogo ime­diatamente. Tudo o que Ezio podia fazer era continuar no caminho, mas começou a perder altitude rapidamente. Viu uma bela mulher da nobreza olhar para cima e gritar algo sobre o diabo ter vindo pegá-la, mas passou direto. Largou os controles e tateou as fivelas de seguran­ça que o seguravam. No último momento se soltou, balançou-se para frente e para trás e aterrissou perfeitamente agachado no telhado de um pátio interno, além da grade que protegia o interior do palácio contra tudo, fora os pássaros. Olhando para cima, viu a máquina voa­dora cair no campanário da igreja de São Marcos e os destroços des­pencarem na praça lá embaixo, causando pânico e pandemônio entre as pessoas que ali estavam. Até mesmo a atenção dos arqueiros ducais foi desviada, e Ezio se aproveitou para descer sorrateiramente e sair de vista. Ao fazer isso, viu o doge Mocenigo aparecer em uma janela do segundo andar.

—  Ma che cazzo? — disse o doge. — O que foi aquilo?

Carlo Grimaldi apareceu ao lado dele.

—  Provavelmente alguns jovens com traques. Venha, termine Si vinho.

Ouvindo aquilo, Ezio continuou o caminho por telhados e muros e cuidando para manter-se fora da vista dos arqueiros, foi até um ponto bem ao lado da janela aberta. Olhando para dentro, viu o doge virar o cálice. Atirou-se sobre o peitoril e para dentro da sala, exclamando:

—  Pare, Altezzal Não beba...!

O doge olhou para ele espantado e Ezio percebeu que havia chegado tarde demais. Grimaldi deu um sorriso cansado.

—  Não conseguiu executar seu maldito plano desta vez, ao contrá­rio do que acontece normalmente, jovem Assassino! Messere Mocenigo nos deixará em breve. Ele bebeu veneno o suficiente para derrubar um touro.

Mocenigo o cercou.

—  O quê? O que você fez?

Grimaldi fez um gesto de arrependimento.

—  Você deveria ter me escutado.

O doge cambaleou e teria caído se Ezio não corresse para apoiá-lo e levá-lo até a cadeira, onde ele se sentou pesadamente.

—  Sinto-me cansado... — disse o doge. — Tudo está escurecendo...

—  Sinto muito, Altezza — disse Ezio, impotente.

—  Até que enfim você experimentou o fracasso — resmungou Gri­maldi para Ezio antes de escancarar a porta da sala e berrar:

—  Guardas! Guardas! O doge foi envenenado! O assassino está aqui!

Ezio correu pela sala e agarrou Grimaldi pelo colarinho, arrastan­do-o de volta para o cômodo, depois bateu a porta e trancou-a. Segun­dos depois ouviu os guardas subirem correndo e baterem na porta. Ele virou-se para Grimaldi:

—  Fracasso, é? Então é melhor eu fazer algo para compensar. — Ele liberou a lâmina retrátil.

Grimaldi sorriu.

—Pode me mttir—disse ele —, mas nunca derrotará os Templários. Ezio fincou a adaga no coração de Grimaldi.

—  Que a paz esteja contigo — falou ele com frieza.

—  Bom — disse uma voz fraca atrás dele. Olhado ao redor, Ezio viu que o doge, apesar de pálido como um defunto, ainda estava vivo.

—  Vou buscar ajuda... um médico — disse ele.

—  Não... é tarde demais para isso. Mas morrerei mais feliz por ter visto meu assassino ir para as trevas antes de mim. Obrigado — Mocenigo lutava para respirar. — Há muito eu suspeitava que ele fosse um Templário, mas fui muito fraco, muito confiante... Olhe a bolsa dele. Pegue os documentos. Não duvido que encontre algo que o ajude em sua causa e a vingar minha morte.

Mocenigo sorria enquanto falava. Ezio observou enquanto o sorriso se congelava nos lábios do doge, os olhos se reviravam e a cabeça pendia para o lado. Ezio colocou a mão na lateral do pescoço do doge para cer­tificar-se de que estava morto, de que não havia pulso. Depois passou os dedos pelo rosto do morto para fechar seus olhos, murmurou algumas palavras de bênção, pegou e abriu apressadamente a bolsa de Grimaldi. Havia, entre um pequeno feixe de documentos, uma página do códex.

Os guardas continuaram a bater na porta, que agora começava a ce­der. Ezio correu para a janela e olhou para baixo. O pátio estava cheio de guardas. Teria de se arriscar no telhado. Subindo pela janela, começou a escalar a parede acima dele enquanto flechas passavam assobiando ao redor de sua cabeça, batendo ruidosamente nas pedras em ambos os lados. Quando alcançou o telhado, precisou lutar com mais arqueiros, mas haviam sido pegos desprevenidos e Ezio conseguiu usar o elemento surpresa para despachá-los. Porém, foi confrontado por outra dificulda­de. A grade que antes o havia mantido do lado de fora agora o prendia no lado de dentro! Ele examinou-a e percebeu que era projetada apenas para manter as pessoas do lado de fora — o topo cheio de pontas se curvava para fora e para baixo. Se conseguisse escalar até lá em cima, poderia saltar e sair. Já podia ouvir os passos de muitos guardas tro­vejando pelos degraus até o telhado. Reunindo todas as forças que o desespero podia lhe dar, saltou correndo e escalou até o topo da grade. Logo em seguida estava a salvo no outro lado, enquanto os guardas ficaram presos no lado de dentro. Estivam com armaduras muito pesadas para conseguirem subir e Ezio sabia que, em todo caso, não eram ágeis como ele. Correndo até a borda do telhado, olhou para baixo, saltou até o andaime erguido ao longo do muro da catedral e desceu por ele. Então, apressou-se até a Piazza de San Marco e desapareceu na multidão.

 

A morte do doge na mesma noite do aparecimento do pássaro-demônio bizarro no céu causou uma grande agitação em Veneza, que durou vá­rias semanas. A máquina voadora de Leonardo caiu na Piazza de San Marco, que já era tumultuada, e queimou até virar cinzas, pois ninguém se atreveu a se aproximar do estranho aparato. Enquanto isso, o novo doge, Marco Barbarigo, foi eleito como planejado e assumiu o posto. Fez um juramento solene em público, prometendo encontrar o jovem assassino que escapou por um triz e matou o nobre servidor do Estado, Carlo Grimaldi, e provavelmente o antigo doge também. Era possível encontrar guardas ducais e de Barbarigo em cada esquina, e eles tam­bém patrulhavam os canais noite e dia.

Ezio, seguindo o conselho de Antonio, ficou quieto na sede dos la­drões, mas por dentro fervia de frustração, o que só piorava pelo fato de que Leonardo deixara a cidade temporariamente na comitiva de seu patrono, o Conde de Pexaro. Nem mesmo Rosa conseguia distraí-lo.

Mas logo, no começo do ano, Antonio o chamou em seu gabinete, saudando-o com um grande sorriso.

—  Ezio! Tenho duas boas notícias para você. Primeiro, seu amigo Leonardo voltou. Segundo, é Carnevale! Quase todo mundo está usan­do máscaras, então você... — Mas Ezio já estava saindo da sala. — Ei! Aonde vai?

—  Falar com Leonardo!

—  Bem, volte logo; há alguém que eu quero que conheça.

—  Quem?

—  Ela se chama irmã Teodora.

—  Uma freira?

—  Você verá!

Ezio saiu pelas ruas com o capuz sobre a cabeça, caminhando dis­cretamente entre os grupos de homens e mulheres com roupas e máscaras extravagantes que se amontoavam nas ruas e canais. Ele também estava ciente e atento à quantidade de guardas ao redor. Marco Barbarigo estava tão pouco preocupado com a morte de Grimaldi quanto com a de seu predecessor, a qual ele ajudara a planejar; e agora que fizera o devotado juramento em público de caçar o culpado, podia deixar o assunto esfriar na consciência do povo e reduzir aquela operação custosa. Mas Ezio sabia que, se o doge conseguisse pegá-lo secretamente em uma emboscada e matá-lo, ele o faria. Enquanto Ezio estivesse vivo e fosse um espinho para os Templários, eles o considerariam um de seus piores inimigos. Ele teria de permanecer em vigília constante.

Mas conseguiu chegar à oficina de Leonardo em segurança e entrou sem ser visto.

—  Que bom ver você de novo! — saudou Leonardo. — Tinha cer­teza de que estaria morto a esta altura. Não ouvi mais notícias suas e depois aconteceu tudo aquilo com Grimaldi e Mocenigo. Então meu patrono decidiu viajar e insistiu em me levar junto; para Milão, a pro­pósito. Ainda não tive tempo de reconstruir minha máquina-voadora, porque a Marinha de Veneza finalmente quer que eu comece a projetar coisas para eles; isso tudo é um tormento! — Então ele sorriu. — Mas o importante é que você está vivo e bem!

—  E sou o homem mais procurado de Veneza!

—  Sim. Um duplo assassinato e de dois dos cidadãos mais proemi­nentes do Estado.

—  Você sabe muito bem o que aconteceu de verdade para acreditar nisso.

—  Você não estaria aqui se eu acreditasse. Sabe que pode confiar em mim, Ezio, assim como em todos aqui. Afinal, somos aqueles que o lançaram no voo até o Palazzo Ducale. — Leonardo bateu palmas e um assistente apareceu com vinho. — Luca, pode arranjar uma máscara de carnaval para o nosso amigo aqui? Algo me diz que isso viria em boa hora.

-    Grazie, amico mio. E eu tenho algo para você. — Ezio entregou a nova página do códex.

Excelente — disse Leonardo, reconhecendo-a imediatamente. Abriu espaço na mesa ao seu lado, desenrolou o pergaminho e começou a examiná-la. — Hummm — murmurou, franzindo o cenho, concentrado. — Esta aqui tem o desenho de uma nova arma, que é bastante complexa. Parece que também se prende ao pulso, mas não é uma adaga. — Analisou o manuscrito mais um pouco. — Já sei o que é! É uma arma de fogo, mas em miniatura. Do tamanho de um colibri, na verdade.

—  Isso não me parece possível — disse Ezio.

—  Só há uma maneira de descobrir: fabricando-a — retrucou Leo­nardo. — Por sorte esses meus assistentes venezianos são engenheiros experientes. Vamos começar agora mesmo.

—  E quanto ao seu outro trabalho?

—  Ah, isso pode esperar — disse Leonardo, aéreo. — Todos pensam que eu sou um gênio e não faz mal nenhum que pensem isso; na verda­de, assim tendem a me deixar em paz!

Em alguns dias a arma estava pronta e à espera de que Ezio a tes­tasse. O alcance e o poder da arma eram extraordinários para seu ta­manho. Assim como as adagas, ela tinha sido projetada para ser presa ao mecanismo retrátil que se prendia ao braço de Ezio, e poderia ser empurrada para trás para ser escondida e disparada instantaneamente quando necessário.

—  Como eu nunca pensei em algo assim antes? — perguntou Leo­nardo.

—  A pergunta maior — respondeu Ezio, pensativo — é como essa ideia pode ter vindo de um homem que viveu há milhares de anos.

—  Bem, seja lá como a ideia tenha surgido, é um dispositivo magní­fico e espero que lhe seja útil.

—  Acho que esse novo brinquedo chegou no melhor momento — disse Ezio, sério.

—  Entendo — concordou Leonardo. — Bom, quanto menos eu sou­ber, melhor, mas posso arriscar o palpite de que tem algo a ver com o novo doge. Não entendo muito de política, mas às vezes até mesmo eu posso sentir o cheiro de trapaça.

Ezio concordou de forma significativa.

—  Bem, esse é um assunto para você conversar com Antonio. E é melhor usar a máscara; por ser Carnevale, você ficará seguro nas ruas, mas lembre-se: nada de armas lá fora! Mantenha-a escondida dentro da manga — continuou Leonardo.

—  Vou falar com Antonio agora — disse Ezio. — Ele quer que eu conheça uma pessoa, uma freira chamada irmã Teodora, em Dorsoduro.

—  Ah! A irmã Teodora! — sorriu Leonardo.

—  Você a conhece?

—  Ela é uma amiga que eu e Antonio temos em comum. Vai gostar dela.

—  Quem é ela exatamente?

—  Você descobrirá — respondeu Leonardo com um risinho.

Ezio se dirigiu até o endereço que Antonio lhe dera. O prédio não se parecia em nada com um convento. Quando ele bateu na porta e permi­tiram sua entrada, ficou convencido de que estava no lugar errado, pois a sala em que entrou o fazia lembrar o salão de Paola em Florença. E a jovem elegante que passou por ele certamente não era uma freira. Ele estava prestes a colocar a máscara de volta e ir embora quando ouviu a voz de Antonio e, alguns instantes depois, o homem apareceu trazendo uma mulher elegante e bonita com lábios carnudos e olhos ardentes e que estava, de fato, vestida como freira.

—  Ezio! Aí está você — disse Antonio, ligeiramente bêbado. — Per­mita-me apresentá-lo à... irmã Teodora. Teodora, este é... como devo dizer... o homem mais talentoso de toda Veneza!

—  Irmã — cumprimentou Ezio com uma reverência. Depois, ele se voltou para Antonio. — Estou entendendo mal as coisas? Nunca pensei que você fosse do tipo religioso.

Antonio riu, mas a irmã Teodora, ao falar, estava surpreendente­mente séria.

—  Depende de como você vê a religião, Ezio. Não é apenas a alma dos homens que precisa de consolo.

—  Beba alguma coisa, Ezio! — exclamou Antonio. — Temos que conversar, mas antes, relaxe! Você está completamente seguro aqui. Já conheceu as garotas? Alguma lhe chamou a atenção? Não se preocupe, não vou contar a Rosa. E você precisa me dizer...

Antonio foi interrompido por um grito vindo de um dos cômodos que cercavam o salão. A porta se abriu de repente e revelou um homem com olhar feroz portando uma faca. Atrás dele, na cama ensopada de sangue, uma garota se contorcia de dor.

—  Peguem esse homem! — gritou ela. — Ele me esfaqueou e roubou meu dinheiro!

Com um rugido furioso, o maníaco agarrou outra garota antes que ela pudesse reagir e a segurou, com a faca em sua garganta.

—  Me deixem sair daqui, senão eu entalho essa aqui também — vo­ciferou ele, pressionando a ponta da faca até que vima gota de sangue aparecesse no pescoço da moça. — Estou falando sério!

Antonio, instantaneamente sóbrio, olhou para Teodora e Ezio. Teodora também estava olhando para Ezio.

—  Bem, Ezio — disse ela com uma calma que o surpreendeu —, agora é a sua chance de me impressionar.

O maluco se dirigia em direção à porta, onde havia um pequeno grupo de garotas. Ao chegar lá, ele urrou para elas:

—  Abram a porta! — Mas elas pareciam ter criado raízes de tanto medo. — Abram a maldita porta, senão ela já era! — Ele afundou a faca um pouco mais na garganta da moça. O sangue começou a escorrer pelo pescoço.

—  Solte a garota! — ordenou Ezio.

O homem se virou para olhar para ele com uma expressão feia no rosto.

—  E quem é você? Algum benefattore del cazzo? Não me faça acabar com ela!

O olhar de Ezio foi do homem para a porta. A garota havia des­maiado e pesava nos braços do bandido. Ezio viu que ele hesitava, mas a qualquer momento teria de soltá-la. Preparou-se. Seria difícil, a moça estava muito perto. Teria de escolher o momento exato e agir rápido, e sabia que tinha pouquíssima experiência com a nova arma.

—  Abra a porta — ordenou Ezio com firmeza para uma das prosti­tutas apavoradas do grupo.

Assim que ela se virou para obedecer, o maluco deixou a garota san­grando cair ao chão. Ao se preparar para correr para as ruas, ele tirou os olhos de Ezio por um segundo, e Ezio aproveitou esse segundo para liberar a pequena pistola e atirar.

Houve um estalo e uma explosão de chamas seguida por um sopro de fumaça que parecia ter saído de dentro dos dedos da mão direito de Ezio. O maníaco, com uma expressão de surpresa no rosto, caiu de joelhos com um pequeno buraco no meio da testa. Parte de seu cérebro havia se espalhado no batente da porta atrás dele. As garotas gritaram e se afastaram violentamente do homem, enquanto ele tombava para a frente. Teodora gritou dando ordens, e os atendentes correram para socorrer as duas garotas feridas, mas era tarde demais para a que estava no quarto; ela havia sangrado até a morte.

—  Tem nossa gratidão, Ezio — agradeceu Teodora depois que a ordem havia sido restabelecida.

—  Não consegui salvar a garota.

—  Salvou as outras. Ele poderia ter matado mais gente se você não estivesse aqui para detê-lo.

—  Que feitiçaria você usou para matá-lo? — perguntou António, impressionado.

—  Não usei feitiçaria. Apenas um segredo. Uma prima crescida da lâmina retrátil.

—  Bem, acho que vai ser muito útil. Nosso novo doge está morren­do de medo. Ele se cerca de guardas e nunca sai do palazzo. — Antonio fez uma pausa. — Imagino que Marco Barbarigo seja o próximo de sua lista, não?

—  Ele é tão meu inimigo quanto Emilio foi.

—  Ajudaremos você — disse Teodora, unindo-se a eles. — E nossa chance se apresentará em breve. O doge vai dar uma imensa festa de Carnevale e terá de sair do palazzo para tal. Não fizeram economia, pois ele deseja comprar a confiança do povo mesmo sem merecê-la. De acor­do com meus espiões, ele até já encomendou fogos de artifício da China!

—  É por isso que pedi que você viesse até aqui hoje — explicou An­tonio para Ezio. — A irmã Teodora é uma de nós e ela sabe tudo o que se passa em Veneza.

—  Como eu consigo um convite para essa festa? — perguntou Ezio a ela.

—  Não é fácil — respondeu Teodora. — Você precisará de uma más­cara de ouro para entrar.

—  Bem, não pode ser assim tão difícil arranjar uma.

—  Calma, as máscaras são os convites: cada uma tem um núme­ro. — Mas então Teodora sorriu. — Não se preocupe, eu tenho uma idéia. Acho que podemos fazer você ganhar uma máscara. Venha, ande comigo.

Ela o levou para longe dos outros até um pequeno pátio nos fundos do prédio, onde havia uma fonte em um espelho d agua.

—  Amanhã começarão alguns jogos especiais de carnaval. Have­rá quatro deles; o ganhador será premiado com uma máscara de ouro e será um convidado honorário da festa. Você terá que ganhar, pois o acesso à festa lhe dará acesso a Marco Barbarigo. — Ela o olhou. — Quando estiver lá, aconselho que leve sua arma, pois não conseguirá chegar perto o suficiente para esfaqueá-lo.

—  Posso fazer uma pergunta?

—  Pode. Mas não garanto que responderei.

—  Estou curioso. Você usa o hábito de freira, mas obviamente não é uma.

—  Como sabe? Garanto-lhe, meu filho, que me casei com Deus.

—  Mas eu não compreendo. Você também é uma cortesã. Na verda­de, você administra um bordel.

Teodora sorriu.

—  Não vejo nenhuma contradição. A forma como decido praticar minha fé, o que decido fazer com o corpo, são minhas escolhas e sou livre para fazê-las. — Ela parou para pensar um minuto. — Veja — con­tinuou ela —, assim como muitas outras jovens, eu fui atraída para a Igreja, mas aos poucos me desiludi com os assim chamados crentes des­ta cidade. Os homens encaram Deus apenas como uma ideia mental, não o têm nas profundezas do coração e do corpo. Entende aonde quero chegar, Ezio? Os homens devem saber amar para alcançar a salvação. Minhas meninas e eu fornecemos esse conhecimento à nossa congrega­ção. É claro que nenhuma facção imaginável da Igreja concordaria co­migo, então fui obrigada a criar a minha. Pode não parecer tradicional, mas funciona e os corações dos homens ficam mais firmes sob meus cuidados.

—  Os corações e outras coisas mais, imagino.

—  Você é cínico, Ezio. — Ela lhe estendeu a mão. — Volte amanhã e vamos cuidar desses jogos. Enquanto isso, cuide-se e não esqueça a máscara. Sei que pode tomar conta de si, mas seus inimigos ainda querem pegá-lo.

Ezio ainda queria fazer alguns pequenos ajustes na nova arma, então retornou ao ateliê de Leonardo no caminho de volta para a sede da Guilda dos Ladrões.

—  Fico feliz em ver você de novo, Ezio.

—  Você estava certo sobre a irmã Teodora, Leonardo. Ela é mesmo uma livre-pensadora.

—  Ela teria problemas com a Igreja se não estivesse tão bem prote­gida, mas possui alguns admiradores poderosos.

—  Posso imaginar. — Ezio percebeu que Leonardo estava ligeira­mente distraído e o olhava de forma estranha. — O que foi, Leo?

—  Talvez fosse melhor não lhe contar, mas, se você descobrisse por acaso, seria pior. Veja, Ezio, Cristina Calfucci está em Veneza com o marido para o Carnevale. É claro, agora ela é Cristina D’Arzenta.

—  Onde ela está hospedada?

—  Ela e Manfredo são convidados de meu patrono. Por isso fiquei sabendo.

—  Tenho que vê-la!

—  Ezio, tem certeza de que é uma boa ideia?

—  Pegarei a arma amanhã de manhã. Receio que precisarei dela; tenho compromissos urgentes.

—  Ezio, eu não iria desarmado.

—  Ainda tenho as adagas do códex.

Com o coração acelerado, Ezio foi até o Palazzo Pexaro. No cami­nho, passou pelo escritório de um escriba público, a quem pagou para escrever um pequeno bilhete que dizia:

Cristina, minha querida

Preciso encontrá-la sozinha e longe de nossos anfitriões esta noite às de­zenove horas. Esperarei por você no relógio de sol no Rio Terra degli Ognisanti...

...e assinou "Manfredo", Então, deixou-o no palazzo do Conte e esperou.

Foi uma tentativa arriscada, mas funcionou. Logo ela surgiu com apenas uma serviçal como acompanhante e correu em direção ao Dorsoduro. Ele a seguiu. Quando Cristina chegou ao local marcado e a acompanhante se retirou a uma distância discreta, ele deu um passo à frente. Ambos usavam máscaras de carnaval, mas ele percebeu que ela continuava bonita como sempre e não conseguiu se conter. Tomou-a nos braços e lhe deu um beijo longo e carinhoso.

Ela finalmente se soltou e, tirando a máscara, olhou para ele sem compreender. Então, antes que ele pudesse detê-la, alcançou a máscara de Ezio e retirou-a.

—  Ezio!

—  Perdoe-me, Cristina, eu... — Ele reparou que ela não usava mais o pingente. É claro que não.

—  O que diabos está fazendo aqui? Como se atreve a me beijar desse jeito?

—  Cristina, fique calma...

—  Calma? Eu não recebo notícias suas há oito anos!

—  Só tive medo de que você não viesse, caso eu não usasse um pe­queno subterfúgio.

—  Você está certo, é claro que eu não teria vindo! Lembro-me da última vez que nos encontramos. Você me beijou na rua e, então, fria­mente, salvou a vida de meu noivo e me deixou casar com ele,

—  Era a coisa certa a fazer. Ele a amava e eu...

—  Quem se importa com o que ele queria? Eu amava você!

Ezio não sabia o que dizer. Sentia como se o mundo tivesse desapa­recido.

—  Não me procure novamente, Ezio — continuou Cristina, com lágrimas nos olhos. — Não posso suportar isso, e você claramente tem outra vida agora.

—  Cristina...

—  Houve um tempo em que era só você estalar os dedos que eu... — Ela interrompeu a si mesma. — Adeus, Ezio.

Sem poder fazer nada, ele a observou ir embora, encontrar de novo a acompanhante e desaparecer ao dobrar uma esquina. Ela não olhou para trás.

Amaldiçoando a si mesmo e seu destino, Ezio voltou para a sede dos Ladrões.

No dia seguinte, estava com um ânimo de severa determinação. Pegou a arma no ateliê de Leonardo, agradeceu-o e recuperou a página do codex. Esperava que logo pudesse levar essa e a outra, a que havia pegado de Emilio, de volta para seu tio Mario. Depois, voltou à casa de Teodora. Ela o conduziu ao Campo di San Polo, onde os jogos aconteceriam. No meio da praça, um palco havia sido montado e nele dois ou três oficiais! estavam sentados a uma mesa, registrando os nomes dos competidores. Entre as pessoas ao redor, Ezio viu o doentio e esquelético Silvio Barbasa rigo e, ao lado deste, ficou surpreso ao ver o enorme segurança, Dante.

—  Ele será um obstáculo — disse Teodora. — Acha que pode com­petir contra ele?

—  Se for necessário.

Por fim, quando os nomes de todos os competidores foram regis­trados — Ezio deu um nome falso —, um homem alto com uma capa vermelha brilhosa ocupou seu lugar no palanque. Ele era o mestre de cerimônias.

Seriam quatro jogos no total. Os participantes competiriam entre si em cada um deles e, no final, um corpo de jurados decidiria o vencedor geral. Para a sorte de Ezio, muitos dos rivais, no espírito de carnaval, preferiram ficar com as máscaras.

O primeiro jogo era uma corrida, que Ezio venceu com facilidade, para grande decepção de Silvio e Dante. O segundo, mais complicado, envolvia uma batalha tática de vontades na qual os competidores deve­riam se enfrentar tentando capturar uns dos outros as bandeiras emble­máticas que lhes haviam sido fornecidas.

Neste jogo Ezio também foi anunciado o vencedor, mas ele se sentiu incomodado ao ver a expressão nos rostos de Dante e Silvio.

—  A terceira competição — anunciou o mestre de cerimônias — combina elementos das duas primeiras, mas alguns outros também.

Desta vez, vocês terão que usar velocidade e habilidade, mas também carisma e charme! — Ele estendeu os braços para mostrar várias mu­lheres com roupas da moda espalhadas pela praça, que deram belos risi­nhos. — Várias moças da cidade se voluntariaram para nos ajudar neste jogo — continuou o mestre de cerimônias. — Algumas estão aqui nesta praça, outras andando pelas ruas das redondezas. Podem ser encontra­das até mesmo em gôndolas. Vocês reconhecerão as moças pelos laços que estão usando no cabelo. Seu trabalho, honrados competidores, é re­colher a maior quantidade de laços no tempo marcado pela minha am­pulheta. Bateremos o sino da igreja quando o tempo acabar, mas acho que posso garantir que, seja qual for a sorte de vocês, esse será o evento mais divertido do dia! O homem que voltar com o maior número de laços será o vencedor e estará um passo mais perto de ganhar a Máscara de Ouro. Mas lembrem-se, se não houver um vencedor absoluto nos jogos, os juizes decidirão quem será o felizardo que vai comparecer na festa do doge! Agora... valendo!

O tempo passou rápido e de forma divertida, como prometera o mestre de cerimônias. O sino de San Polo bateu anunciando que o últi­mo grão de areia havia caído do compartimento superior para o inferior da ampulheta. Os competidores tomaram suas posições novamente na praça e entregaram os laços aos jurados, alguns sorrindo e outros cons­trangidos. Apenas Dante manteve a expressão de pedra, mas seu rosto ficou vermelho de raiva quando a contagem terminou e — mais uma vez — foi o braço de Ezio que o mestre de cerimônias levantou.

—  Bom, meu jovem misterioso, você está com sorte hoje — disse o mestre de cerimônias. — Vamos torcer para que sua sorte não o abando­ne na última prova. — Ele se virou para falar com a multidão, enquanto o palanque era limpado e cercado de cordas, a fim de virar um ringue de boxe. — O último confronto, senhoras e senhores, é muito diferente dos outros. O que está em jogo é a força bruta. Os competidores lutarão uns contra os outros até que todos menos um sejam eliminados. Os dois últimos lutarão até que um seja derrubado. E aí vem o momento que todos esperavam: o momento em que o vencedor geral da Máscara de Ouro será anunciado! Mas muito cuidado com as apostas; pois ainda pode haver viradas e surpresas!

Foi no último jogo que Dante se destacou, mas Ezio, usando habilidades diferentes e leveza nos pés, conseguiu participar da última dupla, confrontando o segurança gigante. O homem sacudiu Ezio com os punhos, virando-o de cabeça para baixo e jogando-o ao chão, mas Ezio foi ágil o bastante para garantir que nenhum soco muito forte o derrubasse e conseguiu acertar bons golpes de esquerda e ganchos de direita.

Não havia intervalos entre os rounds na última luta e, após um tempo, Ezio percebeu que Dante estava ficando cansado. Porém, com o canto dos olhos, também viu que Silvio Barbarigo falava insistentemente com o mestre de cerimônias e o corpo de jurados que se reunira redor de uma mesa sob um toldo, próxima ao ringue. Ele pensou ter visto uma bolsa gorda de couro trocar de mãos, a qual o mestre de ce­rimônias colocou no bolso rapidamente. No entanto, não tinha certeza, pois voltara a atenção para o oponente, que, com raiva, vinha em sua direção dando golpes descontrolados. Ezio se abaixou e acertou dois so­cos rápidos no queixo e no corpo de Dante e, finalmente, o gigante foi derrotado. Ezio estava sobre ele e Dante olhou para cima furiosamente.

—  Ainda não acabou — rosnou ele, mas estava achando difícil en­contrar forças para se levantar.

Ezio olhou para o mestre de cerimônias e levantou o braço em apelo, mas o rosto do homem era inabalável.

—  Tem certeza que todos os competidores foram eliminados? — gritou o mestre de cerimônias. — Todos eles? Não podemos anunciar um vencedor até termos certeza!

Houve um murmúrio na multidão quando dois homens com ar fu­rioso saíram da plateia e subiram ao ringue. Ezio olhou para os juizes, mas eles desviaram o olhar. Os homens o estavam cercando e ele viu naquele momento que cada um tinha uma faca curta e grossa, quase invisível, escondida nas mãos.

—  Então é assim que vai ser, não é? — disse Ezio a eles. — Valendo tudo?

Ele se esquivou quando o derrotado Dante tentou desequilibrá-lo agarrando seus tornozelos e então deu um salto no ar para chutar o rosto de um dos novos oponentes, que cuspiu alguns dentes e saiu cam­baleando. Ezio pousou no chão e pisou com força no pé esquerdo do do rival, esmagando-lhe o peito do pé. Então, socou-o violentamente no estômago e, quando ele se curvou, fez com que o joelho e o queixo do inimigo batessem forte um contra o outro. Urrando de dor, o homem se rendeu. Ele mordeu a língua e o sangue jorrou de sua boca.

Sem olhar para trás, Ezio pulou para fora do ringue e confrontou o mestre de cerimônias e os juizes constrangidos. A multidão atrás dele Vibrou.

—  Acho que temos um vencedor — disse Ezio ao mestre de ceri­mônias, que trocou olhares com os juizes e com Silvio Barbarigo, que estava por perto. O mestre de cerimônias subiu ao ringue, desviando-se do sangue como podia, e dirigiu-se à plateia:

—  Senhoras e senhores! — anunciou após limpar a garganta um pouco nervoso. — Acho que todos concordam que assistimos a uma batalha vencida com dificuldade e justiça hoje.

A plateia aplaudiu.

—  E nessa ocasião é difícil escolher o verdadeiro vencedor...

A multidão pareceu confusa. Ezio trocou olhares com Teodora, que estava na frente de todos.

—  Foi uma tarefa difícil para mim e para os juizes — continuou o mestre, suando levemente e esfregando a testa —, mas deve haver um vencedor e juntos fizemos nossa escolha. — Ele fez uma pausa e levantou Dante com dificuldade, colocando-o sentado. — Senhoras e senhores, apresento-lhes o vencedor da Máscara de Ouro, Signore Dante Moro!

A plateia assobiou e vaiou, gritando em desaprovação. O mestre de cerimônias, junto com os juizes, teve de fugir depressa quando os espec­tadores começaram a atirar neles qualquer lixo que encontrassem. Ezio correu até Teodora e os dois assistiram quando Silvio, com um sorriso contorcido no rosto pálido, ajudou Dante a sair do palanque e o condu­ziu com dificuldade por uma ruela lateral.

 

De volta ao “convento” de Teodora, Ezio lutava para se conter enquanto Teodora e Antonio o observavam preocupados.

—  Vi Silvio subornar o mestre de cerimônias — declarou Teodora.

—  E não há dúvidas de que ele encheu os bolsos dos juizes também,não pude fazer nada.

Antonio riu com ar de zombaria e Ezio lançou-lhe um olhar irritado.

—  É fácil perceber por que Silvio estava tão determinado a fazer com que seu empregado ganhasse a Máscara de Ouro — continuou Teodora —  Eles ainda estão em alerta e não querem arriscar o doge Marco. — Ela olhou para Ezio. — Não vão descansar enquanto você não estiver morto.

—  Então eles passarão muitas noites em claro.

—  Temos de pensar. A festa é amanhã.

—  Encontrarei uma forma de seguir Dante até a festa — decidiu Ezio. — Darei um jeito de roubar a máscara dele e...

—  Como? — Antonio quis saber. — Matando o pobre stronzo?

Ezio virou-se para ele com raiva:

—  Você tem uma ideia melhor? Sabe o que está em jogo!

Antonio levantou as mãos com desprezo.

—  Veja, Ezio... Se você matá-lo, a festa será cancelada e Marco se re­fugiará no palazzo. Teremos desperdiçado nosso tempo, mais uma vez! Não; o certo a fazer é roubar a máscara discretamente.

—  As minhas meninas podem ajudar — disse Teodora. — Muitas de­las vão à festa como... animadoras! Podem distrair Dante enquanto você pega a máscara. E, quando você estiver lá, não tema. Estarei lá também.

Ezio fez que sim, relutante. Não gostava de receber ordens, mas na­quele caso sabia que Antonio e Teodora estavam certos.

—  Va bene — disse ele.

No dia seguinte, ao pôr do sol, Ezio certificou-se de que estava pró­ximo ao local por onde Dante passaria a caminho da festa. Várias das garotas de Teodora vagueavam pelo lugar. Enfim, o grandalhão apare­ceu. Havia se esforçado para ficar elegante e usava roupas caras, mas extravagantes. A Máscara de Ouro estava pendurada no cinto. Assim que o viram, as garotas o chamaram e acenaram, dirigindo-se para seu lado. Duas lhe deram os braços, certificando-se que a máscara balan­çasse por trás dele, e o acompanharam até a grande área cercada por cordas próxima ao Molo onde a festa aconteceria e que na verdade, já havia começado. Agindo com precisão, Ezio escolheu o último minuto para cortar a máscara do cinto de Dante. Arrancou-a e passou a frente do homem, aparecendo com ela perante os guardas que controlavam a entrada à festa. Vendo o objeto, permitiram a entrada de Ezio. Instantes depois, quando Dante apareceu e tateou atrás de si procurando a más­cara para colocá-la, descobriu que não estava mais lá. As garotas que o acompanharam haviam sumido na multidão e colocado suas máscaras para que ele não as reconhecesse.

Dante ainda estava discutindo com os guardas no portão, que ti­nham ordens claras, quando Ezio passou por entre os convidados para encontrar Teodora. Ela o cumprimentou calorosamente.

—  Você conseguiu! Parabéns! Agora, ouça: Marco continua toman­do muito cuidado. Ele vai ficar no barco, o Bucintoro ducal, no canal logo ao lado do Moio. Você não vai conseguir chegar muito perto dele, mas deverá encontrar o ponto mais privilegiado para o ataque. — Ela se virou para chamar três ou quatro de suas cortesãs. — Essas garotas vão ajudar a disfarçar seus movimentos pela festa.

Ezio se foi, mas enquanto as garotas, radiantes em sedas e cetins prateados e vermelhos, atravessavam o mar de convidados, sua atenção foi atraída por um homem alto, sério, com pouco mais de sessenta anos, olhos claros e inteligentes e uma barba branca pontuda. Ele conversava com um nobre veneziano de idade semelhante. Ambos usavam peque­nas máscaras que cobriam apenas parte do rosto. Ezio reconheceu o primeiro deles como Agostino Barbarigo, o irmão mais novo de Marco. Agostino poderia influir bastante no destino de Veneza caso algo de­sagradável acontecesse com seu irmão, e Ezio pensou que seria conve­niente ir até uma posição de onde pudesse ouvir escondido a conversa dos dois.

Quando Ezio chegou, Agostino catava rindo baixinho.

—  Honestamente, meu irmão só faz se envergonhar com esse evento —     Você não tem direito de falar assim dele — replicou o nobre.

Ele é o doge!

—  Sim, sim. Ele é o doge — respondeu Agostino, acariciando a barba.

—  Esta é a festa dele. O Carnevale dele, e o doge pode gastar seu dinheiro da maneira como achar melhor.

—  Ele é doge apenas no nome — declarou Agostino com mais ris­pidez. — E é o dinheiro de Veneza que ele está gastando, não seu pró­prio. — Ele abaixou a voz. — Há coisas maiores em jogo, e você sabe disso.

—  Marco foi escolhido líder. É verdade que seu pai pensou que ele nunca conseguiria ir muito longe e por isso transferiu as ambições políticas para você, mas isso pouco importa agora, na atual situação, não é?

—  Eu nunca quis ser doge...

—  Então eu lhe parabenizo pelo sucesso — disse o nobre friamente.

—  Veja — disse Agostino mantendo o controle. — O poder significa mais que a riqueza. Será que meu irmão realmente acredita que foi es­colhido por algum outro motivo além de ter dinheiro?

—  Ele foi escolhido pela sabedoria e pela capacidade de liderança que tem!

Os dois foram interrompidos pelo início do show pirotécnico. Agos­tino assistiu por um momento e depois disse:

—  E é isso que ele faz com tanta sabedoria? Oferece um espetáculo de luzes? Enquanto a cidade está se desmantelando, ele se esconde no Palazzo Ducale e pensa que algumas explosões caras farão as pessoas esquecerem todos os problemas.

O  nobre fez um gesto indiferente.

—  O povo ama espetáculos. É da natureza humana. Você verá...

Mas naquele momento Ezio avistou a silhueta robusta de Dante em companhia de um grupo de guardas, abrindo caminho na festa e sem dúvida procurando por ele. Ezio continuou seu caminho até um local escondido de onde pudesse ter acesso ao doge, caso ele saísse do Bucintoro atracado a alguns metros do cais.

Trombetas soaram e o show pirotécnico cessou por algum tempo. O povo ficou em silêncio e então se pôs a aplaudir quando Marco foi até a porta do barco estatal para falar ao público. Um pajem o apresentou:

—  Signore e signori! Eu vos apresento o amado doge de Venezia!

Marco começou seu discurso:

—  Benvenutti! Bem-vindos, meus amigos, ao maior evento social da estação! Na paz ou na guerra, em tempos de prosperidade ou de pobre­za, Venezia sempre terá seu Carnevale!...

Enquanto o doge continuava a falar, Teodora foi ao encontro de Ezio.

—  Ele está muito longe — explicou ele. — E não vai sair do barco. Portanto, terei de nadar até lá. Merda!

—  Eu não faria isso — retrucou Teodora em um tom abafado. — Você seria visto imediatamente.

—  Então terei de lutar para chegar até...

—  Espere!

O doge continuava:

—  Esta noite, celebramos o que nos faz grandes. Como nossas luzes resplandecem sobre o mundo! — Ele abriu os braços e mais fogos de artifício estouraram. A multidão aplaudiu e vibrou em aprovação.

—  É isso! — disse Teodora. — Use a pistola}. Aquela que você usou para deter o assassino em meu bordel. Quando os fogos recomeçarem, aproveite o barulho para encobrir o ruído da arma. Se fizer na hora cer­ta, sairá daqui sem ser notado.

Ezio olhou para ela.

—  Gosto da maneira como pensa, irmã.

—  Só precisará ter muito cuidado com a mira, pois terá apenas uma chance. — Ela apertou o braço dele. —- Buona fortuna, meu filho. Espe­rarei por você no bordello.

Ela desapareceu entre os convidados, dentre os quais Ezio viu Dante e os outros valentões ainda procurando por ele. Silencioso como um fantasma, saiu de um ponto no cais e chegou o mais perto que sua co­ragem permitiu de onde Marco estava no barco. Felizmente, as roupas brilhantes do doge, banhadas pelas luzes da festa, faziam dele um exce­lente alvo.

O discurso continuou e Ezio usou-o para se preparar, ouvindo

cuidadosamente, à espera do reinicio dos fogos. Teria de calcular muito

bem o tempo, se quisesse que o tiro passasse despercebido.

—  Todos sabem que passamos por tempos tumultuados — declarou Marco —, mas nós os superamos juntos e, assim, Venezia se tornou cidade uma mais forte... As transições de poder são difíceis para todos, mas enfrentamos a mudança com graça e tranquilidade. Não é fácil perder um doge no auge da vida e é frustrante ver o assassino de nosso ir­mão Mocenigo ainda livre e impune. No entanto, devemos nos consolar com o pensamento de que muitos estavam ficando incomodados com a política de meu predecessor, sentindo-se inseguros e desconfiando do caminho para o qual nos conduzia. — Muitas vozes se destacaram na multidão concordando, e Marco, sorrindo, ergueu as mãos para pedir silêncio. — Bom, meus amigos, posso dizer que encontrei o caminho certo para nós outra vez! Consigo enxergá-lo e sei para onde estamos indo! Para um lugar maravilhoso... e vamos todos juntos! O futuro que vejo para Venezia é um futuro de força, um futuro de riqueza. Cons­truiremos uma frota tão forte que nossos inimigos nos temerão como nunca! E expandirei nossas rotas de comércio além dos mares, trarei especiarias e tesouros inimagináveis desde o tempo de Marco Polo! — Os olhos de Marco cintilavam à medida que sua voz adquiria um tom ameaçador. — E digo para aqueles que estão contra nós: tenham cuida­do com o lado que escolhem, porque ou vocês estão conosco ou do lado do mal. Não toleraremos nenhum inimigo aqui! Vamos caçá-los, vamos arranca-los pela raiz, vamos destruí-los! — Ele ergueu as mãos nova­mente e declamou: — E Venezia sempre resistirá, a joia mais brilhante de toda a civilização!

Ao erguer os braços, triunfante, um imenso espetáculo de fogos de artifício começou: o grand finale, que transformou a noite em dia. O barulho das explosões foi ensurdecedor, e o som da pequena arma letal de Ezio se perdeu em meio ao ruído. Antes mesmo que o povo tivesse tempo para reagir à visão de Marco Barbarigo, um dos doges com o menor período de reinado da história de Veneza, cambaleando, apertando o coração e caindo morto no convés do barco ducal, Ezio já estava longe.

—  Requiescat in pace — murmurou ele para si mesmo enquanto caminhava.

Porém, assim que a notícia se confirmou, espalhou-se rapidamente e chegou ao bordel antes mesmo de Ezio. Ele foi saudado com gritos de admiração de Teodora e de suas cortesãs.

—  Você deve estar exausto — comentou Teodora, pegando o braço de Ezio e levando-o para longe dos outros em direção a um cômodo interno. — Venha, relaxe!

Mas antes Antonio lhe deu os parabéns:

—  O salvador de Veneza! — exclamou ele. — O que posso dizer? Talvez eu estivesse errado em duvidar tão precipitadamente. Pelo menos agora temos a chance de ver onde as peças se encaixam...

—  Agora chega — disse Teodora. — Venha, Ezio. Você trabalhou mui­to, meu filho. Sinto que seu corpo cansado precisa de conforto e socorro.

Ezio rapidamente entendeu o que ela queria dizer e entrou no jogo.

—  É verdade, irmã. Estou com tantas dores que acho que precisarei de muito conforto e socorro. Espero que possa me ajudar.

—  Oh — sorriu Teodora —, não pretendo aliviar sua dor sozinha. Meninas!

Um grupo de cortesãs passou sorrindo por Ezio e entrou quarto adentro, no centro do qual ele viu uma cama enorme, ao lado da qual havia um móvel peculiar parecido com um sofá, mas com roldanas, cor­reias e correntes. Aquilo o fez lembrar de um objeto no ateliê de Leonar­do, mas não conseguiu imaginar para que serviria.

Ele trocou um longo olhar com Teodora e seguiu-a para dentro do quarto, fechando a porta firmemente atrás dele.

Alguns dias depois, Ezio estava na Ponte Rialto, relaxado e renovado, as­sistindo às pessoas passarem. Pensou em beber alguns copos de Veneto antes da ora dipranzo quando reconheceu um homem correndo em sua direção: um dos mensageiros de Antonio.

—  Ezio, Ezio — disse o homem ao se aproximar —, Ser Antonio quer falar com você. É um assunto importante.

—  Então vamos agora mesmo — respondeu Ezio, saindo da ponte e indo atrás do mensageiro.

Encontraram Antonio em seu gabinete na companhia de - para

surpresa de Ézio — Agostino Barbarigo. Antonlo fez as apresentações

—  É uma honra conhecê-lo, senhor. Sinto muito pela morte de seu irmão.

Agostino fez um gesto indiferente.

—  Agradeço sua solidariedade, mas para ser sincero meu irmão era um tolo e estava completamente sob o controle da facção de Bórgia em Roma, algo que eu não gostaria que acontecesse em Veneza. Por sorte alguém que zela pelo bem-estar do povo preveniu esse perigo e o assassinou. De uma forma curiosa e original... Haverá investigações, é claro mas pessoalmente não sei aonde elas vão chegar...

—  Messere Agostino logo será eleito doge — disse Antonio. — Essa é uma boa notícia para Veneza.

—  O Conselho dos Quarenta e Um trabalhou rápido desta vez — disse Ezio secamente.

—  Acho que aprenderam com os erros anteriores — respondeu Agostino com um sorriso amargo. — Mas não desejo ser doge apenas no nome, como fez meu irmão. E é isso o que nos traz aqui. Nosso terrí­vel primo Silvio acaba de ocupar o Arsenal, o quartel militar da cidade, e o guarneceu com duzentos mercenários!

—  Mas quando o senhor for doge, não poderá ordenar sua suspen­são? — perguntou Ezio.

—  Seria bom acreditar nisso — disse Agostino —, mas as extrava­gâncias de meu irmão esgotaram os recursos da cidade e seria difícil para nós nos opormos a uma força que tem o controle do Arsenal. E, sem o Arsenal, não tenho controle sobre Veneza, sendo doge ou não!

—  Então — disse Ezio —, devemos organizar um exército próprio.

—  Muito bem dito! — exclamou Antonio, radiante. — E acho que temos o homem perfeito para esse trabalho. Já ouviu falar de Bartolomeo d'AIviano?

—  É claro. O condottiero que servia aos Estados Papais! Ele se voltou contra eles, fiquei sabendo.

—  E agora estabeleceu sua base aqui. Não gosta muito de Silvio, que, como se sabe, é outro que o cardeal Bórgia tem no bolso — exclamou Agostino. — A base de Bartolomeo fica em San Pietro, a leste do Arsenal.

—  Vou até lá visitá-lo.

—  Antes disso, Ezio — disse Antonio —, Messere Agostino tem algo para você.

Agostino tirou de dentro dos trajes um rolo de velino antigo, com um selo preto pesado e partido pendurado em uma fita vermelha esfarrapada.

—  Meu irmão guardava isso entre seus documentos. Antonio pen­sou que pudesse lhe interessar. Considere como um pagamento pelos... serviços prestados.

Ezio pegou-o e soube imediatamente do que se tratava.

—  Obrigado, Signore. Não tenho dúvidas de que isto será muito útil na batalha que certamente virá.

Parando apenas para se armar, Ezio não perdeu tempo no caminho até o ateliê de Leonardo, onde se surpreendeu ao encontrar o amigo fazendo as malas.

—  Aonde vai agora? — perguntou Ezio.

—  Voltar para Milão. Eu ia lhe enviar uma mensagem antes de sair, é claro, e um pacote de balas para a sua pequena arma.

—  Bem, fico feliz de tê-lo encontrado a tempo. Veja, trouxe outra página do códex!

—  Excelente. Estou muito interessado nela. Entre. Meu serviçal Luca e os outros podem continuar fazendo isto aqui. Eles já estão bem treina­dos. É uma pena que não posso levar todos comigo.

—  O que vai fazer em Milão?

—  Lodovico Sforza me fez uma oferta que não pude recusar.

—  Mas e quanto aos outros projetos aqui?

—  A Marinha precisou cancelá-los. Não tem dinheiro para novos projetos. Aparentemente o último doge acabou com a maior parte dos fundos. Eu poderia ter feito fogos de artifício para eles, não era neces­sário gastar tanto trazendo-os da China. Enfim, não importa, Veneza continua em paz com os turcos e já me disseram que serei bem-vindo de volta. Na verdade, acho até que gostariam que eu voltasse. Enquan­to isso, deixo Luca aqui, encarregado de alguns projetos básicos para começar — ele ficaria como um peixe fora d’água se saísse de Veneza. Quanto ao conde, ele está satisfeito com os retratos da família, apesar de eu pessoalmente achar que ficariam melhores com um pouco mais de trabalho. — Leonardo começou a desenrolar a folha de velino. — agora vamos olhar isso aqui.

—  Prometa que me avisará quando voltar.

Prometo, meu amigo. E você mantenha-me informado sobre seus movimentos, se puder.

—  Pode deixar.

—  Agora... — Leonardo abriu a página do códex e a examinou.

Há algo aqui que se assemelha ao modelo da adaga de dois gumes que vai junto com o braçal de metal, mas está incompleto e pode ser apenas um esboço antigo desse mesmo projeto. O resto só pode ser significativo se estiver relacionado a outras páginas. Veja, há mais marcações parecidas com mapas e um tipo de figura que me faz lembrar daqueles modelos de nós que eu desenhava quando tinha tempo de pensar nos meus próprios assuntos! — Leonardo enrolou a página novamente olhou para Ezio. — Eu guardaria isto em um lugar seguro com as outras duas páginas que me mostrou aqui em Veneza. Elas são sem dúvida de grande importância.

—  Na verdade, Leo, já que está indo para Milão, gostaria de lhe pedir um favor.

—  Diga.

—  Quando chegar a Pádua, você poderia encontrar um mensageiro confiável para levar as três páginas ao meu tio Mario em Monteriggioni? Ele é... um colecionador... e sei que as acharia interessantes. Mas preciso de alguém em quem possa confiar para fazer isso.

Leonardo esboçou um sorriso: se Ezio não estivesse tão preocupado, poderia até ter pensado que o sorriso significava que Leonardo sabia de algo.

—  Estou mandando minhas coisas direto para Milão, mas passarei voando por Florença primeiro, com o perdão da metáfora, para ver como estão Agniolo e Innocento. Portanto, serei seu mensageiro até aí e depois mandarei Agniolo a Monteriggioni com as páginas, fique tranquilo.

—  Isso é melhor do que eu esperava. — Ezio segurou a mão de Leo­nardo. — Você é um amigo maravilhoso, Leo.

—  Espero que sim, Ezio. Às vezes penso que você deveria encontrar alguém que realmente cuidasse de você. — Fez uma pausa. — E desejo-lhe sorte na sua missão. Espero que um dia você possa concluí-la e descansar.

Um olhar distante atravessou os olhos cinzentos de aço de Ezio, mas ele apenas respondeu:

—  Você acaba de me lembrar que eu... tenho outro dever a cumprir. Mandarei um dos homens de meu anfitrião trazer as outras duas pági­nas do códex. Agora, por enquanto, addio!

 

O caminho mais rápido do ateliê de Leonardo para San Pietro era ou por balsa ou alugando um barco de Fondamenta Nuova e navegando da costa leste para o norte da cidade. Para sua surpresa, Ezio teve dificuldade em encontrar alguém que o levasse até lá. As balsas comuns haviam sido suspensas e foi apenas desembolsando uma bela quantia de dinheiro que conseguiu persuadir dois jovens gondoleiros a levá-lo.

—  Qual é o problema? — perguntou ele.

—  Dizem que houve uma luta feia lá — respondeu o remador na popa do barco, lutando contra a água agitada. — Parece que já acabou, foi só um conflito local, mas as balsas ainda não estão se arriscando a voltar a funcionar. Vamos deixá-lo na costa norte. Tome cuidado.

Eles cumpriram com o prometido. Ezio logo se viu sozinho e arras­tou-se da margem lamacenta para o muro de contenção de tijolos, de onde pôde ver o pináculo da igreja de San Pietro di Castello não muito longe dali. Também conseguiu ver várias nuvens de fumaça saindo de alguns prédios baixos a sudeste da igreja. Era o quartel de Bartolomeo. Com o coração acelerado, Ezio se apressou naquela direção.

A primeira coisa que o impressionou foi o silêncio. Então, ao chegar mais perto, viu corpos espalhados pelo chão. Alguns usavam o brasão de Silvio Barbarigo, outros, um instrumento que ele não conhecia. Fi­nalmente, encontrou um sargento gravemente ferido, mas ainda vivo, que conseguiu se escorar em um muro baixo.

—  Por favor... ajude-me — pediu o sargento quando Ezio se apro­ximou.

Ezio olhou rapidamente ao redor e localizou onde ficava o poço. Dele retirou água, rezando para que os atacantes não a tivessem envenenado, apesar de ela parecer bastante limpa e clara. Derramou um pouco em um vasilhame que encontrou e levou-o calmamente aos lábios do homem. En­tão umedeceu um pedaço de pano e limpou o sangue do rosto do sargento.

—  Obrigado amigo — disse ele.

Ezio percebeu que ele usava um distintivo desconhecido e imaginou que deveria ser o de Bartolomeo. Evidentemente as tropas de Bartolomeo haviam sido derrotadas pelas de Silvio.

—  Foi um ataque surpresa — confirmou o sargento. — Alguma puta de Bartolomeo nos traiu.

—  Para onde eles foram?

—  Os homens do Inquisidor? Voltaram para o Arsenal. Montaram uma base lá pouco antes que o novo doge assumisse o comando. Silvio odeia o primo Agostino porque ele não faz parte do plano em que o Inquisidor está envolvido, seja ele qual for. — O homem tossiu sangue, mas se esforçou pra continuar. — Aprisionaram nosso capitão e o le­varam com eles. É realmente engraçado, porque nós é que estávamos planejando atacá-los. Bartolomeo só estava esperando por um... men­sageiro da cidade.

—  Onde está o resto de seus homens?

O sargento tentou olhar ao redor.

—  Os que não foram mortos ou aprisionados se dispersaram, tenta­ram se salvar. Devem estar escondidos em Veneza e nas ilhas da lagoa, mas precisam de alguém que os reúna. Esperarão por uma mensagem do capitão.

—  E Silvio o aprisionou?

—  Sim. Ele... — Porém, neste momento, o sargento infeliz começou a se esforçar para respirar. A luta terminou quando ele abriu a boca e uma enxurrada de sangue saiu, encharcando três metros da grama à frente. Quando o sangramento parou, seus olhos fitaram a lagoa sem vê-la.

Ezio fechou-os e cruzou seus braços sobre o peito.

—  Requiescat in pace — disse, solenemente.

Então, ele apertou melhor o boldrié — também prendeu o braçal ao antebraço esquerdo, mas deixou de fora a adaga de dois gumes. Ao an­tebraço direito, prendeu a lâmina com veneno que sempre fora tão útil em grandes adversidades. A pistola, a arma mais eficiente quando havia um único alvo certeiro, ele guardou no bolso da cinta com pólvora e chumbo, já que precisava recarregá-la a cada disparo. Guardou também a lâmina retrátil por precaução. Ele puxou o capuz por sobre a cabeça e seguiu em direção à ponte de madeira que ligava San Pietro a Castello.

De lá foi discreta mas rapidamente até a rua principal que levava ao Arsenal. Percebeu que as pessoas ao redor estavam desanimadas, mas continuavam trabalhando como sempre. Seria necessário mais que uma guerra local para fazer parar completamente o comércio de Veneza, embora poucos cidadãos de Castello soubessem o quanto o resultado do conflito era importante para a cidade.

Ezio não sabia até então que aquele seria um combate que se estenderia por muitos e muitos meses, e certamente iria até o ano seguinte, Pensou em Cristina, na mãe, Maria, e na irmã, Claudia. Sentiu-se como um sem-teto que estava envelhecendo. Mas havia o Credo a servir e apoiar, e isso era mais importante que tudo. Talvez ninguém jamais sou­besse que o mundo tinha sido salvo do domínio dos Templários pela seleta Ordem dos Assassinos, que jurara lutar contra sua hegemonia maligna.

Evidentemente, a primeira tarefa de Ezio era localizar e, se possível, libertar Bartolomeo d’Alviano, mas seria difícil chegar ao Arsenal. Cer­cado por altos e fortes muros de tijolo e contendo um aglomerado de prédios e estaleiros, o Arsenal ficava no limite ocidental do centro da cidade e era muito bem protegido pelo exército particular de Silvio, que parecia ter mais do que apenas os duzentos mercenários de que Agostino Barbarigo havia falado. Ezio, ao passar pelo portão principal recém - construído pelo arquiteto Gamballo, rodeou o perímetro externo dos edifícios ao qual se tinha acesso por terra até chegar a uma porta pesada com uma portinhola embutida. Observando à distância, viu que aquela discreta entrada era usada pelos guardas do lado de fora ao trocarem de turno. Teve de esperar sem chamar atenção durante quatro horas, mas na troca de turno seguinte estava pronto. O calor era extremo naque­le fim de tarde, o clima, úmido, e todos com exceção de Ezio estavam apáticos. Ele observou os aliviados soldados marcharem pelo portão, que tinha apenas um guarda, e então seguiu os mercenários que saíam do expediente e tomou a retaguarda, misturando-se da melhor forma possível. Assim que o último soldado passou, ele cortou a garganta do guarda posicionado ao portão e entrou sorrateiramente antes que guém percebem o que estava acontecendo. Como havia acontecido há alguns anos em San Gimignano, o exército de Silvio não era suficiente para cobrir toda a área que guardava, apesar de aquele ser o principal ponto militar da cidade. Não era de se espantar que Agostino não pu­desse exercer qualquer poder significativo sem que tivesse o comando do exército ali.

Depois de entrar foi relativamente fácil se mover nos espaços aber­tos entre os enormes edifícios — o Cordelie, o Artiglierie, as torres de produção de chumbo para mosquetes e, acima de tudo, os estaleiros. Caso se escondesse nas sombras da tarde e tivesse cuidado para não ser visto pelas patrulhas do vasto complexo, Ezio sabia que ficaria bem, mas naturalmente seria obrigado a manter uma vigilância constante.

Guiado finalmente pelos sons de felicidade e risos de zombaria, en­controu o caminho para a lateral de um dos principais diques secos, no qual havia uma enorme galé. Ao lado de uma das imensas muralhas do dique, uma jaula de ferro fora pendurada. Nela estava Bartolomeo, um homem forte e vigoroso de trinta e poucos anos e, portanto, quatro ou cinco anos mais velho que Ezio. Ao redor dele havia vários mercenários de Silvio. Ezio pensou que teriam muito mais serventia se estivessem vigiando a área e não zombando de um inimigo que já estava preso sem chance de escapar, mas pensou que Silvio Barbarigo, mesmo sendo o Grande Inquisidor que era, não tinha experiência nenhuma no coman­do de tropas.

Ezio não sabia há quanto tempo Bartolomeo estava acorrentado na jaula; sem dúvida, havia muitas horas. Mas sua raiva e energia não pa­reciam ter sido afetadas por aquele martírio, o que era impressionante, considerando o fato de que muito provavelmente não lhe haviam dado nada para comer e beber.

—  Luridi codardi! Covardes imundos! — gritou ele aos torturadores. Um deles, como Ezio reparou, tinha embebido uma esponja em vina­gre e a empurrava contra os lábios de Bartolomeo com a ponta de uma lança, na esperança de que ele pensasse que fosse água. Bartolomeo a cuspiu.

—  Vou acabar com você! Todos de uma vez só! Com apenas um braço... não, com os dois braços amarrados nas costas! Vou comê-los vivos! — Ele riu. — Vocês devem estar imaginando como isso pode ser possível, mas esperem só até eu sair daqui e, com alegria, farei uma demonstração! Miserabili pezzi di merda!

Os guardas do Inquisidor riram em escárnio e cutucaram Bartolomeo com varas, fazendo a jaula balançar. Ela não tinha um fundo firme e Bartolomeo teve de agarrar as barras abaixo de si com os pés para manter o equilíbrio.

—  Vocês não têm respeito! Nem valor! Nem virtude! — Ele juntou bastante saliva na boca para cuspir neles. — E as pessoas ainda se perguntam por que a estrela de Veneza começou a se apagar. — Então sua voz adquiriu certo tom de súplica. — Terei misericórdia com quem tiver coragem de me libertar. Todos os outros morrerão! Pelas minhas mãos! Eu juro!

—  Poupe sua saliva! — gritou um dos guardas. — Ninguém além você vai morrer hoje, seu saco de merda.

Durante todo esse tempo, Ezio, escondido nas sombras de uma colunata de tijolo que beirava a bacia onde algumas das galés de guerra menores estavam atracadas, pensava em uma maneira de salvar o condottiero. Dez guardas estavam ao redor da jaula, todos de costas para ele, e não havia mais ninguém à vista. Além disso, não estavam em serviço, portanto, não usavam armadura. Ezio verificou a adaga com veneno. Despachar os guardas não seria difícil. Ele havia marcado o tempo de passagem das patrulhas em serviço, que apareciam a cada intervalo de tempo em que a sombra do dique aumentava mais ou menos 8 centí­metros. Porém, havia também o problema de soltar Bartolomeo e de mantê-lo quieto durante essa manobra, que teria de ser bem rápida. Ele pensou bastante: sabia que não tinha muito tempo.

—  Que tipo de homem vende sua honra e sua dignidade em troca de umas moedas de prata? — berrou Bartolomeo, mas sua garganta estava ficando seca, e ele, sem forças, apesar de sua vontade inabalável.

—  E não é isso o que você faz, seu idiota? Não é um mercenário como nós?

—  Nunca servi a um traidor covarde, como vocês! — Os olhos de Bartolomeo cintilaram. Os homens abaixo dele ficaram momentanea­mente intimidados. — Vocês acham que não sei por que me acorrentaram? Acham que não sei quem é o mestre-fantoche do Silvio, o chefe de vocês? Fujo da doninha que o controla desde quando a maioria de vocês ainda eram filhotes mamando nas tetas de suas mães!

Ezio agora ouvia interessado. Um dos soldados pegou metade de um tijolo e atirou com raiva. Ele atingiu inofensivamente as barras da jaula.

—  Tudo bem, seus malditos! — gritou Bartolomeo, rouco. — Podem continuar brincando comigo! Juro que quando estiver fora desta jaula minha missão vai ser arrancar a cabeça de cada um de vocês e enfiá-las nos seus traseiros de mulherzinha! E vou trocar as cabeças também, já que vocês, seus vira-latas, não sabem diferenciar suas cabeças dos tra­seiros mesmo!

Os homens abaixo dele agora estavam ficando muito bravos. Ficou claro que só não o esfaqueavam até a morte com as lanças ou atiravam- lhe flechas porque deviam ter recebido ordens contrárias, considerando que ele estava pendurado na jaula sem poder se defender. Mas àquela altura, Ezio já havia percebido que o cadeado que segurava a porta da jaula era relativamente pequeno. Os captores se apoiavam no fato de que ela ficava suspensa. Sem dúvida acreditavam que o sol forte do dia e o frio da noite, aliados à desidratação e à fome, matariam Bartolomeo, a menos que ele cedesse e aceitasse falar. Mas, pelo visto, era algo que ele jamais faria.

Ezio sabia que precisava agir rápido. Em breve passaria uma patru­lha em serviço. Liberou o mecanismo da adaga com veneno, andou com a velocidade e a leveza de um lobo e percorreu a distância em segundos. Passou pelo grupo de guardas e cortou cinco deles antes que os outros percebessem o que estava acontecendo. Sacou a espada e matou vio­lentamente o resto, cujos inúteis golpes foram refletidos pela proteção de metal em seu braço esquerdo, enquanto Bartolomeo assistia a tudo boquiaberto. Por fim, Ezio se virou e olhou para cima.

—  Consegue pular daí? — perguntou ele.

—  Se conseguir abrir, posso pular como uma maldita pulga.

Ezio agarrou a lança de um dos soldados mortos. A ponta era de ferro, não de aço, e era soldada, não forjada. Mas serviria. Equilibrando-a na mão esquerda, ele se preparou, agachado, e lançou-se no ar, segurando-se nas barras externas da jaula.

Bartolomeo olhou-o com os olhos esbugalhados.

—  Como diabo você fez isso? — perguntou ele.

—  Treinando — respondeu Ezio com um sorriso estreito. Ele pressionou a ponta da lança contra o ferrolho do cadeado e torceu-a. A tranca resistiu no começo e, então, quebrou-se. Depois de abrir a porta, Ezio deixou-se cair ao chão e pousou com a graça de um gato.

—  Agora pule — ordenou ele. — Seja rápido.

—  Quem é você?

Nervoso, Bartolomeo se apoiou contra a porta e pulou. Aterrissou

pesadamente e ficou sem ar, mas quando Ezio o ajudou a se levantar, afastou seu salvador com orgulho.

—  Estou bem — bufou ele. — Só não estou acostumado a fazer essas malditas acrobacias circenses.

—  Não quebrou nenhum osso, então?

—  Vá se danar, seja lá você quem for — respondeu Bartolomeo, sor­rindo. — Mas tem minha gratidão! — E, para a surpresa de Ezio, ele lhe deu um abraço apertado. — Afinal, quem é você, o maldito arcanjo Gabriel?

—  Meu nome é Auditore, Ezio.

—  Bartolomeo dAlviani. Muito prazer.

—  Não temos tempo para isso — disparou Ezio. — Como você bem sabe.

—  Não tente me ensinar a fazer o meu trabalho, acrobata — disse Bartolomeo, ainda bastante amigável. — De qualquer forma, fico lhe devendo uma!

Mas já haviam perdido muito tempo. Alguém deve ter visto o que acontecia do alto das muralhas, pois os sinos de alarme começaram a soar e patrulhas saíram dos prédios próximos para cercá-los.

—  Venham, seus filhos da mãe! — berrou Bartolomeo, desferindo socos que faziam os de Dante Moro parecerem golpes de almofadas. Foi a vez de Ezio olhar para Bartolomeo com admiração enquanto ele abria caminho entre os soldados que avançavam. Juntos, lutaram até chegar à portinhola, e conseguiram sair.

—  Vamos sair daqui! — exclamou Ezio.

—  Não deveríamos acabar com mais alguns deles?

—  Talvez seja melhor evitar conflitos por enquanto.

—  Está com medo?

—  Estou sendo prático. Sei que está com o sangue fervendo, mas cada um de nós teria de enfrentar mil deles.

Bartolomeo refletiu sobre aquilo.

—  Tem razão. Além disso, sou um comandante. Deveria pensar como um e não deixar que um qualquer como você me diga o que devo fazer. — Então, abaixou a voz e falou com um tom preocupado. — Só espero que minha pequena Bianca esteja bem.

Ezio não tinha tempo para questionar nem pensar sobre o comentá­rio de Bartolomeo. Eles precisavam sair dali e foi o que fizeram, corren­do pela cidade de volta para a base de Bartolomeo em San Pietro. Mas antes Bartolomeo fez dois desvios importantes, um até Riva San Basio e outro até Corte Nuova, para alertar os representantes desses lugares de que estava livre e a salvo e para reunir as tropas dispersas, os soldados que não haviam sido aprisionados.

Em San Pietro ao anoitecer, descobriram que vários condottieri de Bartolomeo haviam sobrevivido ao ataque. Agora saíam dos esconde­rijos e caminhavam entre os corpos já tomados por moscas, buscando enterrá-los e recolocar as coisas em ordem. Os homens se exaltaram ao ver o capitão novamente, mas ele estava distraído, correndo de um lado para o outro no acampamento e gritando com pesar:

—  Bianca! Bianca! Onde está você?

—  Quem ele está procurando? — perguntou Ezio a um sargento de armas. — Ela deve ser muito importante para ele.

—  É sim, Signore — respondeu o sargento com um meio sorriso. — E muito mais confiável do que a maioria das representantes de seu sexo.

Ezio correu para alcançar seu novo aliado.

—  Está tudo bem?

—  O que você acha? Olhe o estado deste lugar! E a pobre Bianca! Se aconteceu algo com ela...

Com os ombros, o grandalhão derrubou uma porta, que já estava quase solta, e entrou em uma câmara que antes do ataque parecia ter sido usada para guardar mapas. Os mapas valiosos haviam sido mutilados ou roubados, mas Bartolomeo vasculhou os destroços e gritou triunfante:

—  Biancal Oh, minha querida! Graças a Deus você está bem!

Tinha puxado uma enorme espada de dentro dos escombros e a sacudiu, gritando:

—  Ahá! Você sobreviveu! Nunca duvidei disso! Bianca! Quero apresentar... Qual é o seu nome mesmo?

—  Ezio Auditore.

Bartolomeo falou, pensativo:

—  É claro. Sua reputação vai longe, Ezio.

—  Fico feliz.

—  O que o traz aqui?

—  Tenho dois assuntos a acertar com Silvio Barbarígo. Acho que ele já abusou da hospitalidade de Veneza.

—  Silvio! Aquele bosta! Alguém precisa enfiá-lo latrina abaixo!

—  Acho que poderei fazer isso, se puder contar com sua ajuda.

—  Depois daquele resgate? Devo-lhe minha vida, que dirá minha ajuda!

—  Quantos homens você comanda?

—  Quantos sobreviveram, sargento de armas?

O sargento com quem Ezio havia falado anteriormente correu até eles e os cumprimentou:

—  Doze, Capitano, contando comigo, com o senhor e o cavalheiro aqui.

—  Treze! — gritou Bartolomeo, balançando Bianca.

—  Contra uns duzentos — disse Ezio. Ele se voltou para o sargento de armas. — E quantos homens foram aprisionados?

—  A maioria — respondeu ele. — O ataque nos pegou de surpresa. Alguns fugiram, mas os soldados de Silvio levaram a maioria acorrentada.

—  Veja, Ezio — disse Bartolomeo. — Vou supervisionar o restante de meus homens que estão em liberdade. Limparei este lugar, enterrarei os mortos e reunirei todos aqui. Acha que enquanto isso pode libertar aqueles que Silvio aprisionou? Já que você é bom nisso...

—  Intensi.

—  Volte aqui com eles assim que puder. Boa sorte!

Ezio, com as armas do códex a postos, seguiu a oeste em direção ao Arsenal, mas se perguntava se Silvio teria mantido todos os homens

Bartolomeo presos ali. Não viu nenhum deles quando foi resgatar O capitão. No Arsenal, ficou escondido nas sombras do cair da noite e tentou ouvir a conversa dos guardas parados ao longo das muralhas do perímetro.

—  Já viu alguma jaula maior que essas? — perguntou um deles.

—  Não. E os infelizes estão espremidos nelas como sardinhas. Acho que o capitão Barto não teria nos tratado assim, se ele é que tivesse ven­cido — respondeu o companheiro.

—  É claro que trataria. E guarde seus nobres pensamentos para você, se quiser continuar com a cabeça sobre os ombros. Acho que devíamos acabar com eles. Por que não afundamos as jaulas nas bacias e afogamos todos eles?

Ouvindo isso, Ezio ficou nervoso. Havia três enormes bacias retan­gulares dentro do Arsenal, cada uma projetada para conter trinta galés. Elas ficavam ao norte do complexo, cercadas por grossas muralhas de tijolo e cobertas por pesados tetos de madeira. Sem dúvida, as jaulas

—  versões maiores daquela em que Bartolomeo ficou preso — estavam suspensas por correntes sobre a água de uma ou mais bacini.

—  Cento e cinquenta homens treinados? Seria um desperdício. Sil­vio pretende fazê-los aderir à nossa causa por dinheiro — disse o segun­do soldado.

—  Bom, eles são mercenários como nós. Então, por que não?

—  Exato! Só precisam ser um pouco amaciados primeiro. Precisam ver quem é que manda.

—  Spero di si.

—  Graças a Deus eles não sabem que o comandante deles escapou.

O primeiro guarda deu uma cusparada:

—  Ele não vai durar muito.

Ezio os deixou e foi até a portinhola que havia descoberto antes. Não havia tempo para esperar a troca da guarda, mas calculou-o pela distância entre a lua e o horizonte e concluiu que tinha algumas horas. Acionou a adaga retrátil — sua primeira arma do códex e sua favori­ta — e cortou a garganta do guarda velho e gordo que Silvio julgara adequado para servir naquele local sozinho, empurrando-o antes que o sangue do homem atingisse suas roupas. Rapidamente limpou a lâmina na grama, trocou-a pela adaga com veneno e fez o sinal da cruz sobre o corpo.

O complexo dentro das muralhas do Arsenal parecia diferente sob a luz da lua falciforme e de algumas estrelas, mas Ezio sabia onde ficavam as bacias e seguiu em direção à primeira, margeando as muralhas e mantendo-se sempre atento aos soldados de Silvio. Ele espiou a penumbra das águas através dos arcos abertos, mas não viu nada além de galés balançando calmamente sob a meia-luz das estrelas. A segunda não diferente, mas, ao se aproximar da terceira, ouviu algumas vozes.

—  Não é tarde demais para vocês se converterem à nossa ca Apenas digam que sim e serão poupados — gritou um dos sargentos Inquisidor em tom de zombaria.

Ezio, pressionando-se contra o muro, viu alguns guardas com as mas no chão, garrafas nas mãos e olhando para a escuridão do teto, de onde pendiam três enormes jaulas. Percebeu que um mecanismo invisível estava abaixando lentamente as jaulas em direção à água abaixo. Não havia nenhuma galé naquela bacia; apenas uma água negra e oleosa, de onde brotava algo invisível, mas assustador.

Entre os guardas do Inquisidor, havia um homem que não estava bebendo e que parecia em alerta constante, um homem enorme e hor­ripilante. Ezio logo reconheceu Dante Moro! Então, com a morte de seu mestre Marco, o grandalhão havia transferido sua lealdade ao primo, Silvio, o Inquisidor, que já havia confessado antes sua admiração pelo segurança.

Ezio caminhou cuidadosamente pelas muralhas até chegar a uma grande caixa contendo um sistema aberto de engrenagens, polias e cor­das que bem poderia ter sido projetado por Leonardo. Aquele era o mecanismo, controlado por um relógio de água, que abaixava as jaulas. Ezio sacou sua adaga comum da bainha do lado direito do cinto e a en­fiou entre duas das engrenagens. O mecanismo parou bem a tempo: as imensas jaulas já estavam a poucos centímetros da água. Mas os guardas instantaneamente perceberam que a descida das jaulas havia cessado e alguns deles foram correndo até o dispositivo que a controlava. Ezio liberou a adaga com veneno e cortou-os qu