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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RIVAL SOMBRIO / Brenda Joyce
RIVAL SOMBRIO / Brenda Joyce

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

   Os Guerreiros das Highlands juraram proteger os Inocentes através dos tempos...

Um homem dourado que atende pelo nome de Black Royce, um soldado dos Deuses curtido na batalha. Seus juramentos são sua vida... Até que é enviado a Nova Iorque para proteger uma curandeira daqueles que tentariam utilizar seus poderes em benefício próprio. Assim que Royce vê à bela e apaixonada Allie Monroe, sabe que será sua única fraqueza... e tem razão.

 

O destino é algo perigoso...

       Allie Monroe é mais que uma herdeira. É uma curandeira disposta a fazer o que for preciso para salvar às vítimas do mal que espreita pela cidade ao cair da noite. Mas sozinha não pode fazer muito... Até que o destino envia pra ela o mais sombrio de todos os Highlanders. Então, o mal ataca e Royce é destruído diante dos olhos de Allie. Agora, ela fará o que for preciso para salvá-lo... embora isso signifique voltar no tempo, até um mundo sombrio e perigoso. Enfrentar seus inimigos poderia custar não apenas sua vida, mas também seu amor por toda a eternidade.

 

 

 

 

Faz muito tempo, em algum lugar do reino dos Pictos

Ia morrer hoje. Não se importava, embora tivesse apenas vinte e três anos, por que não morreria sozinho. Em pé sobre o promontório, entre pinheiros e carvalhos, ofegava como um sabujo, o corpo suado. Levou duas semanas intermináveis perseguindo Kael, não dando ouvidos a nenhum dos conselhos, as advertências e os presságios. Kael estava na fortaleza do outro lado do vale, sobre outro penhasco. Não tinha que vê-lo para saber que estava ali. Sentia seu escuro poder.

Mas não sentia Brigdhe, sua esposa.

Apartando o cabelo loiro do rosto, começou a descer do promontório com passos largos e decididos. O casaco de linho se pegava a seu corpo jovem e duro, empapado pelo suor. A espada golpeava sua coxa a cada passo. Abandonou o refúgio das árvores e viu que os homens foram juntando-se nas torres vigias de madeira repartida, conhecidas por barreira de estacas. Soou um corno. Ele sorriu. Que gritassem suas advertências!

Chegou às portas da casa fortificada e não vacilou, embora ainda estivesse estreando seus poderes. Fazia seis meses que MacNeil, o amigo de seu pai, tinha-o chamado a Iona. Então não tinha entendido o que queria dele o abade de um mosteiro. Mas logo tinha descoberto que quem o chamava não era um verdadeiro abade, e que havia naquela ilha não era um simples mosteiro. Sempre soube que era mais forte, mais viril e mais sexual que outros homens. Seu intelecto era mais agudo, seu sentido do perigo muito mais apurado. E fisicamente lhes usava ao menos uma cabeça a todos seus amigos. Ao consagrar-se aos Deuses antigos que não tinha prestado atenção até o momento de sua eleição, e jurar proteger a inocência pelos séculos dos séculos, seus poderes foram liberados de repente. Seguia sem conhecer o alcance de sua força, mas agora nada podia detê-lo.

Chegou às portas fechadas, tão altas como dois homens e tão largas como um corcel de guerra. Arrancou-as de suas dobradiças de ferro.

Por cima dele, nas torres, os homens gritavam alarmados. As flechas choviam sobre ele. Uma atravessou sua pele e produziu uma leve ardência. Outra penetrou mais profundo, cravando-se em sua carne. A arrancou sem sentir nenhuma dor.

Concentrou-se, e levado pelo instinto, se rodeou de seu poder como um escudo, sem afrouxar o passo, direto para os edifícios maiores da fortaleza. As flechas caíam inutilmente a seu redor.

Uma dúzia de gigantes correram na direção dele levando lanças e escudos de couro. Eram humanos, mas estavam possuídos pelo mal. Seguiu andando e desembainhou sua espada. O metal vaiou. Os gigantes jogaram suas lanças em uníssono. Reuniu mais poder e o atirou na direção de seus assaltantes. Os gigantes caíram como que empurrados por um vento fortíssimo e suas lanças voaram para trás, além deles.

Subiu os degraus e entrou na sala às escuras.

Kael se achava na frente dele.

Mas ele só via a Brigdhe, estendida nua sobre o tapete, durante do fogo, as mãos atadas e o comprido cabelo avermelhado caindo ao redor do corpo esbelto. Hesitou.

Ela voltou a cabeça lentamente e o olhou. Seus olhos aumentaram… e ele viu uma recriminação em seu semblante.

O golpe o apanhou despreparado, lançando-o para trás. Aterrissou de costas junto à porta, mas não deixou cair a espada. Enquanto a espada de Kael descendia, a expressão de recriminação de Brigdhe seguia gravada em sua mente. Seu coração se encheu de espanto. Em lugar de parar o golpe, levantou inutilmente a arma e a espada de Kael cravou em seu ombro, atravessando músculo e osso.

Esqueceu-se de sua esposa. Afastou-se girando quando Kael arremeteu de novo contra ele com mais energia. O segundo golpe foi tão surpreendente quanto o primeiro. Não estava acostumado que os homens lutassem assim. Encostado contra a parede, sentiu a aproximação da espada de Kael e desta vez lançou às cegas uma estocada para cima, por puro instinto. O aço se chocou contra o aço. O metal chiou, retumbante. Levantou-se num pulo. Sangrava muito. Kael lhe lançou mais poder. Foi jogado de novo contra a parede, de costas. Ao se chocar contra a madeira como se o tivessem atirado de um escarpado, conseguiu concentrar-se. Agora tinha poder: ele também podia lutar assim.

— Por Brigdhe! — rugiu. E golpeou Kael com toda a sua força.

Kael foi jogado para o outro lado da sala e caiu de costas, não muito longe do Brigdhe. Correu atrás dele, ignorando a dor ardente do ombro. Kael se levantou, e teve o coração selvagemente atravessado. A ponta da espada saiu pelas costas.

Um humano teria morrido no ato. Kael conteve o fôlego… e logo sorriu.

— Seus sofrimentos acabam de começar.

Não entendeu, nem lhe importou o que dizia. Extraiu a espada, agarrou Kael pelo pescoço e lhe cortou a cabeça cruelmente. Os olhos vermelhos do demônio brilharam uma última vez. Logo se escureceram.

Correu imediatamente para sua esposa.

Estava sentada com as costas apoiada na parede, abraçando os joelhos contra o peito. Com o coração partido, ele se ajoelhou a seu lado e lhe estendeu os braços, disposto a estreitá-la. A dor do ombro se intensificou subitamente, e se sentiu enjoado.

— Não me toque!

Afastou-se, assombrado, e o chão voltou a nivelar-se. De algum modo conseguiu baixar as mãos. De algum modo conseguiu não tocá-la.

— Já acabou. Vou te levar pra longe daqui — disse em tom tranquilizador. Mas no fundo se sentia doente, frenético e envergonhado por não ter conseguido protegê-la.

— Não.

Esticou-se, aniquilado, e procurou seus olhos, mas ela já não o olhava.

— Sinto muito, Brigdhe.

— Sente? — perguntou com desdém e olhos cheios de ódio — Afaste-se de mim. Ele fez isto comigo por sua culpa. Afaste-se de mim!

Suas palavras deram o golpe que Kael não foi capaz de dar. Ele tentou respirar e fracassou. Brigdhe tinha razão. Kael usou sua esposa contra ele. Jurou proteger a inocência, e nem sequer foi capaz de proteger sua mulher.

Nesse instante compreendeu que seu casamento tinha acabado.

— Pode se levantar? — perguntou com a voz carregada de emoções às quais não devia se entregar.

— Não me toque — gritou ela, furiosa.

Ele levantou e se afastou no instante em que chegaram seu irmão e MacNeil. Cheio de uma horrível amargura, viu como Brogan a levantava nos braços e a tirava do salão. Ficou olhando-os, resistindo a sentir dor. Foi um estúpido ao pensar que podia conservar sua esposa e cumprir seus votos como Mestre. Não culpava a Brigdhe por odiá-lo. Também odiava a si mesmo.

MacNeil o chamou da soleira, seu formoso rosto contraído em uma careta amarga e severa.

— Desobedeceu-me, Ruari. Disse para que não saísse sozinho à caça de Kael.

Não estava com humor para discutir.

— Sim — de onde estava podia ver Elasaid, a grande Curandeira, atendendo à mulher que por tão pouco tempo foi sua esposa. Nunca mais, disse a si mesmo.

MacNeil estava espiando seus pensamentos, porque disse:

— Sim. Você é um Mestre, rapaz. Vai ser só, como todos os outros. Um Mestre vive sozinho, luta sozinho, morre sozinho.

— Não se preocupe — disse amargamente. Não tinha intenção de permitir que nenhuma outra mulher entrasse em sua vida, e menos ainda de tomar outra esposa. Não se deixaria dobrar pela dor que tomou seu coração. Nem agora, nem nunca. Os votos que fez seriam sua vida.

MacNeil se abrandou.

— Não acreditava que pudesse derrotar Kael. Estou orgulhoso de você, rapaz.

Ele assentiu. MacNeil o agarrou pelo ombro e lhe indicou que deviam partir. A fortaleza seria arrasada e o chão consagrado. Os prisioneiros humanos os acompanhariam. Os demônios seriam destruídos. Os humanos seriam exorcizados, se fosse possível.

Ouviu que uma mulher gemia pedindo ajuda.

Ficou tenso, porque fora do salão às escuras, a noite estava em perfeito silêncio.

— Ruari? — perguntou MacNeil.

O ar moveu a seu redor. Uma mulher sussurrou seu nome.

Olhou para MacNeil.

— Ouviu essa mulher?

MacNeil olhou para o lado.

— Aqui não há ninguém, exceto você e eu.

Estava equivocado. Uma mulher o chamou do salão, tinha certeza. Separou-se de MacNeil e voltou para o aposento úmido. Esquadrinhou cada canto, mas não viu ninguém. Então viu um alçapão no chão.

Por favor.

Royce.

Ouviu claramente que uma mulher o chamava. Correu e levantou o alçapão. E ouviu o silvo das serpentes.

— Tragam-me uma tocha! — gritou.

— Aí em baixo não há ninguém — disse MacNeil com firmeza— . Sentiria sua vida, se houvesse.

— Uma tocha! — pediu.

Um momento depois, MacNeil lhe entregou uma tocha acesa. Baixou-a e viu um monte de serpentes se retorcendo, mas no resto, o poço parecia vazio. Mesmo assim, não tinha certeza. Porque sentia a presença da mulher, e ela estava com medo.

Pulou no poço agitando a tocha para afastar as serpentes de seus pés descalços. Percorreu com o olhar o pequeno porão escavado e compreendeu que MacNeil tinha razão: não havia ninguém lá em baixo.

Jogou a tocha para MacNeil e levantou os braços. Um momento depois saiu da fortaleza, mas ainda se sentia inquieto. Olhou para trás.

Dentro do escuro salão, o ar parecia agitar-se chamando-o. De repente se sentiu envolto na fragrância de uma mulher. E a ouviu de novo.

Royce…

Agarrou MacNeil para detê-lo.

— Quem é? Onde está? O que quer e por que me chama por meu nome inglês?

MacNeil o olhava fixamente.

— Ela não está aqui, rapaz.

— Onde está, então? — não conseguia entender. E deu meia volta, aflito— . Tenho que encontrá-la.

MacNeil agarrou seu braço.

— Agora não a encontrará. Está no futuro. Em seu futuro.

 

South Hampton, Nova Iorque

4 de setembro de 2010

Nua junto à janela, sentia a respiração profunda e regular de seu amante atrás dela na cama. A noite em Long Island estava azulada e negra, salpicada de estrelas, a lua brilhava e se ouvia o rugido compassado do mar. O ar golpeava brandamente a janela, empurrado pela brisa marinha. Enquanto estava ali parada, amontoaram-se as nuvens.

Ela enrijeceu.

O céu escureceu. As sombras cruzavam o rosto radiante da lua, enchendo-a de cicatrizes. As venezianas começaram a golpear as paredes quase freneticamente.

Allie olhou fixamente a lua, que ficou negra. Concentrou-se. E sentiu que o mal espreitava. Seu pulso acelerou. Cruzou correndo o quarto e estava a ponto de entrar no closet quando Brian se moveu e murmurou, sonolento:

— Oi…

Ela virou rapidamente para ele e sorriu.

— Estou morta de fome. Quer que traga algo da cozinha? — odiava mentir, mas ele não entenderia.

Estava roncando.

Allie esperou um momento, corroída pela impaciência. Uma de suas melhores amigas era perita em feitiços, mas ela não tinha poderes. E era uma pena em momentos como aquele: seria genial conhecer um feitiço para dormir. Ao ver que Brian dormia profundamente, vestiu rapidamente uma camiseta, uma calça negra estilo militar e um Nike da mesma cor, e pegou sua mochila também negra. Não se deu ao trabalho de abrir. Estava carregada e pronta. Esqueceu do homem dormindo, saiu pela janela com a agilidade de um gato e desceu pela trepadeira como se tivesse feito isso mil vezes, e assim era. Cruzou o jardim até a entrada de carros, onde deixou sua Mercedes SL560.

Entrou nele, mas não arrancou. Ficou muito quieta e se concentrou em seu sexto sentido.

Uma sombra de escuridão e morte estava se formando no norte.

Sentiu maldade. Sentiu luxúria.

Inundada pela adrenalina girou a chave de ignição. Consciente de que não podia sair a toda velocidade da casa, porque despertaria todo mundo, se concentrou na tempestade violenta que estava se formando. Tinha que determinar sua localização exata. Avançou lentamente pelo caminho enquanto a luxúria da noite aumentava. Sentia o coração bater, intensamente e forte, e palpitar o sangue cheio de maldade carnal.

Saiu para a estrada de duas pistas e pisou no acelerador. Os pneus cantaram. Salvaria aquela vítima. Conduzia por instinto, sentindo aquela energia monstruosa. Avançou dois sinais. Aquele maldito monstro encontrou sua presa. Podia senti-lo espreitando, a ponto de saltar sobre sua presa e matá-la. Pressentia que o predador e sua vítima estavam em frente a um dos bares ou restaurantes da estrada 27. Era fim de semana e os bares estavam cheios de gente.

Uma onda de prazer começou a crescer.

Allie chorou, porque podia sentir seu prazer sexual. Estava aumentando rapidamente. Os crimes de prazer acabavam sempre em assassinato.

O carro da frente circulava respeitando o limite de velocidade. Allie pisou no acelerador e, ao ultrapassar bruscamente, quase colidiu com um caminhão que vinha no sentido contrário. O caminhão buzinou.

O prazer se converteu em êxtase, em frenesi. Fluía sobre Allie em ondas: a vítima e o assassino estavam alcançando o orgasmo. Allie não se excitou. Não podia. Sua ira não conhecia limites. ia chegar muito tarde…

Entrou em um estacionamento junto a um restaurante muito frequentado que dava para a baía. Embora o estacionamento estivesse cheio, Allie sabia exatamente para onde ir.

Ela os viu ao fundo, longe da entrada do restaurante. Um casal se abraçava no chão, no auge da paixão. E não era uma violação…

Enquanto os observava, o homem pareceu perceber seu poder branco e virou a cabeça para ela.

Allie pisou no freio e desceu do carro num pulo. Ao fazê-lo, sentiu que o poder escuro estalava na noite. Era muito tarde!

Distraída por um momento, notou seus sentidos diminuirem. Custava-lhe ver e não sentir à vítima. A única coisa que sentia o triunfo do mal e a morte. Cambaleando, alcançou sua mochila, e tirou uma pistola com silenciador. Virou e apontou.

O homem sentou-se, sorridente, loiro e muito bonito, seus traços perfeitos como os de uma estrela de cinema. Era, até onde ela sabia, uma estrela de cinema. Vestido como um modelo, com calças muito caras e uma bonita camisa, lançou para Allie seu negro poder.

Allie se envolveu em sua luz branca, mas era uma luz curandeira e não servia de grande ajuda. Caiu contra o carro com tanta força que pensou ter partido o pescoço. Conseguiu de alguma maneira levantar a arma e disparar.

Tinha boa pontaria, mas não depois de um golpe como aquele. Mesmo assim, o atingiu no ombro. O problema era que ele estava tão cheio de poder depois de tirar a vida de sua vítima que um tiro não podia lhe fazer quase nada, talvez apenas perdesse um pouco de seu sangue.

Riu dela e desapareceu no céu estrelado.

Allie torcia para que seu ombro doesse bastante.

Cambaleando, dolorida ainda pelo golpe, jogou a mochila no banco traseiro do conversível e se aproximou da vítima caída no chão.

Seus sentidos ficaram em alerta. A noite parecia calada e morta: carente de vida.

Allie se ajoelhou, consciente de que era muito tarde. Se a mulher ainda estivesse viva, teria sentido um brilho de vida nela.

A vítima jazia imóvel, de costas, vestida com uma bonita camiseta e uma saia. Seus olhos tinham uma expressão vazia e cega. Allie gritou, porque não tinha mais de quinze anos. Não era justo. Estava tão cansada de assassinos diabólicos… Para cada ser humano que salvava, havia centenas de vítimas como aquela, cujas vidas eram roubadas pelos monstros que de noite espreitavam aos Inocentes e usavam esse poder para semear mais caos e morte.

Aquilo parecia não ter fim. Os comentaristas sociais falavam sem cessar do colapso da sociedade moderna, das taxas de assassinatos estratosféricas… e noventa por cento dos assassinatos foram crimes relacionados ao prazer. As vítimas não se defendiam. Eram seduzidas de algum modo por perfeitos desconhecidos, e seus fluidos corporais evidenciavam múltiplos orgasmos. Todas as vítimas morriam. Como se fossem doentes ou idosas, seus corações paravam durante a relação sexual.

As vítimas, entretanto, eram sempre jovens e formosas, e gozavam de perfeita saúde. Não havia motivos médicos que explicassem a falha cardíaca.

Naturalmente.

Porque a ciência não podia explicar a maldade, nem a explicaria nunca.

A extrema direita pedia a pena de morte para aqueles pervertidos. Culpava às forças da lei, ao governo federal e à administração dos estados pelo fracasso na hora de deter os culpados e pelo aumento das taxas de criminalidade. A extrema esquerda queria mais estudos e pesquisas, necessárias para melhorar a educação, cuidados com a saúde, hospitais em zonas de conflitos... Como se os assassinos saíssem daqueles bairros.

Mas não saíam dali.

A esquerda, a direita e a opinião pública em geral acreditavam que os assassinos eram simples violadores, apesar de nunca ter existido violação. Pensavam que os culpados eram humanos. Mas estavam enganados. Era tudo uma imensa enganação do governo. Aqueles criminosos sexuais não tinham DNA humano e Allie sabia sem dúvida alguma. Não só sabia porque sua mãe tinha lhe ensinado a sentir, a intuir e a compreender o mal desde que era uma menina, mas sim, porque Brianna trabalhava no CAD: o Centro de Atividade Demoníaca.

O CAD era um organismo secreto, claro.

Os culpados pareciam humanos, mas eram da estirpe do diabo e se aproveitavam da humanidade, enviados há séculos pelo próprio Satanás. Sempre houve crimes de prazer. A novidade era o número crescente das hordas demoníacas. Sua população estava se multiplicando em um ritmo aterrador. Algo ia mal. E Brie, Tabby, Sam e ela não podiam fazer tudo sozinhas.

No CAD havia quem acreditasse que existia uma raça de homens que lutava contra os demônios com superpoderes. Alguns agentes juravam, inclusive, ter visto esses guerreiros. Os relatos sempre variavam: em uns, eram pagãos. Em outros, cavaleiros cristãos. E em outros, soldados modernos. A linha comum que unia os rumores, no entanto: eles podiam viajar no tempo e tinham jurado durante de Deus combater o mal.

Allie fez uma careta. Se existia essa raça de super-heróis, por que não aparecia um daqueles guerreiros pagãos, medievais ou modernos para ajudá-la?

Precisava de alguém que lhe cobrisse as costas enquanto curava vítimas como aquela.

Desejava lutar, mas era difícil fazê-lo quando um simples golpe de energia podia fazê-la atravessar pelo ar meio campo de futebol.

Allie sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas. Tomou as mãos da garota e a banhou com sua luz curandeira.

— Lamento — murmurou. Queria reconfortar seu espírito antes de que partisse para o outro                       mundo.

E enquanto olhava o formos rosto da garota, sua raiva não conheceu limites. Banhou-a com mais luz, desejando como uma estúpida devolver sua vida. Não podia fazer, claro. Não podia ressuscitar os mortos. Começou a curar insetos e peixes quando ainda era muito pequena, estimulada por sua mãe. Suas capacidades foram se fortalecendo com o passar dos anos. Quando Elizabeth Monroe morreu repentinamente, ela estava com dez anos, e já era capaz de curar sem esforço a gripe e o catarro comum. Aos quinze anos, podia curar ossos quebrados. Aos dezesseis, podia restabelecer a saúde de uma pessoa idosa acometida de pneumonia aguda. Aos dezoito devolveu o movimento das pernas a um menino que foi atropelado por um carro. Aos vinte curou um caso crítico de câncer de pele.

Devia tomar cuidado: tinha que manter-se no anonimato, ou acabariam estudando-a como um camundongo de laboratório. Sua mãe lhe advertia frequentemente de que mantivesse em segredo seus poderes.

Havia tantas coisas que não podia fazer… Não podia devolver a visão aos cegos, e ressuscitar os mortos. Mas queria tentar.

Tentou transmitir à garota todo seu poder branco. Sentada a seu lado, com o rosto manchada de lágrimas, se esforçou para lhe encher mais e mais da luz curandeira. A garota permanecia imóvel. Seus olhos continuavam cegos. Seu coração não estava batendo. Allie fechou os olhos com força. Não queria desistir. Se pudesse trazer a vida de volta aquela garota e salvar uma só das vítimas daqueles demônios… Mas era difícil reunir seu poder, concentrá-lo e passar para a garota. Mesmo assim, conseguiu lançar outra chuva de energia de cura. Sentiu dor e gemeu. Se deu conta de que estava no limite: sentia-se esgotada e débil, e compreendeu que não tinha mais poder para dar.

Não se deu conta de que estava caída de barriga para baixo até que arranhou a terra enquanto buscava seu poder de cura. Mas tinha desaparecido.

O chão começou a girar.

Allie fechou os olhos, atordoada e enfraquecida. Ouviu vozes vindas do restaurante, mas estava tão exausta que nem sequer enrijeceu. Foram até ela e não podia se mover. Estava completamente indefesa. Aguçou seus sentidos. Não havia maldade. Com um gemido, desmaiou.

O último pensamento que teve, foi de não ter conseguido ressuscitar à garota, por mais que tivesse tentado.

Quando acordou, sentiu-se pesada e tonta como se a tivessem drogado. Ao abrir os olhos parecia que eles estavam colados com cola, mas comprovou aliviada que suas mãos, seus pés e seus dedos, embora débeis, estavam funcionando. Ela dormiu, mas não em sua cama, e queria vomitar. Ficou surpresa ao perceber que estava em um quarto de hospital, ligada a vários monitores e a uma via intravenosa. Que demônios…?

Em seguida, lembrou que tinha tentado ressuscitar à garota e que acabou desmaiando. Alguém deve tê-la encontrado e chamou a emergência.

Sentou. Estava extremamente cansada pelo esforço que tinha feito, mas mesmo assim podia levantar e sair dali. Fez uma careta, pensando nas perguntas que fariam se chamasse uma enfermeira. Tinha que evita-las.

Arrancou o esparadrapo da via e estava tirando a agulha o mais devagar possível quando sentiu que o quarto encheu de calor. Ficou tensa ao reconhecer o poder branco e levantou os olhos. Sua mãe apareceu junto a cama. Allie sufocou um grito de assombro. Embora sua mãe tivesse morrido quinze anos atrás, Allie nunca a esqueceu. Seu legado e sua compaixão eram muito grandes. Não havia dúvida de que sua mãe surgiu de entre os mortos pela primeira vez para visitá-la. Ela era tão loira de pele branca como Allie era morena, e tinha um aspecto estiranamente atemporal. Sorriu para Allie, mas seus olhos brilhavam cheios de urgência.

«Chegou a hora, querida. Abrace seu destino».

Allie es tendeu os braços, atordoada… mas sua mãe já começava desaparecer.

— Não vá! — gritou Allie, se levantando da cama.

Mas sua mãe ia se convertendo em uma sombra difusa.

«Dourada».

Sua mãe estava falando outra vez! Allie podia ouvi-la, mas sua voz era cada vez mais débil, quase inaudível. Estava se dissipando, naturalmente: era quase impossível que voltasse para o reino dos vivos estando morta há tantos anos.

— Mamãe! Não vá! O que está acontecendo? — estava perplexa e eufórica ao mesmo tempo. Mas também assustada. Se sua mãe estava tentando comunicar-se com ela depois de tantos anos de ausência, tinha que estar acontecendo algo terrível.

«Confia».

O espectro de sua mãe desapareceu, e Allie ficou sozinha no pequeno cubículo fechado com uma cortina.

— Em quem quer que confie? Confio em você! — soluçou.

«No Mestre dourado».

Allie enrijeceu, confusa. Não sabia se tinha ouvido bem… até que uma imagem surpreendentemente clara se formou em sua cabeça.

Um dos homens mais viris e belos que tinha visto assaltou sua mente. Allie viu um homem enorme de pele bronzeada, com o cabelo loiro escuro clareado pelo sol e revolto. Estava completamente nu. Seu interesse redobrou. Aquele homem era uma assombrosa massa de músculos. Tinha o físico do mitológico Hércules… e era forte. Era bonito de morrer, com feições quase perfeitas, um semblante duro e extremamente viril. Sua expressão era tensa e implacável, e seus chamativos olhos cinza tinham um olhar penetrante.

Seu corpo parecia o de um Cavaleiro de outro tempo. Allie imaginou com uma espada na mão. Ao mesmo tempo, no entanto, parecia capaz de dançar um rock and roll.

Ela engoliu a saliva, quase sem fôlego.

O que havia de errado com ela? Estava ouvindo sua mãe do mundo do além, e fantasiando com um desses homens que nunca se cruza, a menos que esteja nas páginas de um romance.

Não poderia ter inventado aquela expressão, entretanto. Nem em um milhão de anos.

O que significava aquilo? E o que importava? Tinha que ir embora correndo do hospital, antes de que alguém tentasse interrogá-la.

— Allie?

Ficou tensa quando uma de suas melhores amigas abriu as cortinas. Brianna Rose era uma sósia de Jennifer Garner, embora fosse quase impossível se dar conta disso porque sempre usava roupas simples, óculos de sol escuros e o cabelo severamente recolhido para trás. Era a pessoa mais tímida que Allie conhecia. E também a mais preparada: um verdadeiro gênio da tecnologia.

Seus olhares se encontraram enquanto Brianna se aproximava dela.

— Porque fez o patrulhamento sozinha? — murmurou Brie, cujos formosos olhos verdes

eram vistos claramente, atrás dos austeros óculos que usava — Vi o que aconteceu!

           — Estou bem — sussurrou Allie. Brie era clarividente. E também altamente empática. Naturalmente, correu pra ficar com Allie ao senti-la adoecer — Não vai chegar tarde ao trabalho?

— São seis da manhã — respondeu Brie — Te trouxeram perto das três. Sinto muito! Passei toda a noite na UCH, envolvida em um caso. Se não, teria sabido antes. Sam e Tabby estão lá fora. Vamos lá. Vamos sair daqui antes descubram sobre o CAD.

Allie a agarrou pelas mãos.

— Brie, acabo de ver minha mãe.

Brianna vacilou.

— Depois conversaremos — disse, depois de uma pausa carregada de significado.

Allie se observou criticamente no espelho. Seu pai estava celebrando uma festa para arrecadar fundos e ela tinha que descer em pouco tempo. Disfarçou suas olheiras com maquiagem. Embora se sentisse melhor, ainda não estava recuperada e sabia disso. Foi longe demais ao tentar ressuscitar os mortos.

O vestido de gaze flutuava sensualmente sobre seu corpo e fazia resplandecer sua pele olivácea e seus olhos escuros. Passou uma boa quantidade de sombra verde azulada e irmel negro. Agora, acrescentou um pouco de brilho suave a seus lábios. Para quem tinha despertado no hospital essa mesma manhã, até que tinha boa aparência.

— Alison Monroe, chegou tarde! — Tabby, sua outra melhor amiga, entrou no quarto. Estava muito bonita com um vestido de noite na cor bronze. Estava divorciada fazia pouco tempo e Allie sabia que seu sorriso era forçado: seu marido a abandonou por uma mulher mais jovem, e Tabby estava com o coração partido.

— Está incrível — Allie sorriu.

— Obrigada. Quase me sinto bonita outra vez — disse Tabby enquanto fechava a porta.

Era de estatura mediana, magra e loira. Quando não estava fazendo encantamentos ou lutando contra o mal, praticava yoga. Era professora primária e seu ex pertencia ao mais alto escalão de Wall Street. Foi a história da Cinderela… ou assim eles pensavam.

— Te aviso que Brian quer saber por que o deixou plantado ontem à noite.

Allie fez uma careta.

— Suponho que voltaram pra me pegar.

— Não é a primeira vez — disse Tabby brandamente— . Odeio quando sai sozinha! Poderiam ter feito mal a você. Acabou no hospital! Graças aos Deuses que Brie se deu conta e pudemos te resgatar das garras da polícia.

Tabby já não sorria. Ela, Sam e Brianna conheciam seu segredo: eram amigas desde meninas e sabiam que podia curar. Mas Allie também conhecia seus segredos. Pertenciam à família Rose e todas elas tinham poderes que usavam para combater o mal. Tabby e Sam eram irmãs, e Brie era sua prima. Embora Brie trabalhasse no CAD, ninguém sabia que era capaz de ver o futuro, e todas elas se faziam notar o mínimo possível.

— Outro que vai comer terra, suponho — comentou Tabby.

Allie desviou o olhar. Brian começou a se comportar como se estivesse realmente interessado nela, e isso não era bom. Os homens sempre vinham até ela como abelhas atraídas pelo mel. Ela, porém, só tinha conseguido agir mecanicamente, como um autômato, os gestos próprios do amor. Tinha vinte e cinco anos e nunca se apaixonou. Nem sequer no colégio.

Sempre os surpreendia escapulindo em plena noite, e ainda tinha problemas tentando inventar alguma desculpa. Aquele comportamento acabava, cedo ou tarde, terminando com todos os seus relacionamentos. Allie sabia que não tinha tempo para o amor. Na verdade, o amor provavelmente se interporia em sua missão de curar aos outros.

— Estou tão cansada de mentir, de ocultar quem sou de verdade… — disse, sentando-se na cama — Mas vou dizer que você me ligou desconsolada e tive que ir te ver sem perder tempo.

— Você pelo menos não está apaixonada — disse Tabby, referindo-se a seu próprio coração quebrado.

Antes de que Allie pudesse dizer algo, Sam entrou sem bater.

Enquanto Tabby era tão elegante e sofisticada como uma mulher podia ser, Sam tinha o cabelo loiro muito curto e gostava de ficar de botas de motorista e jeans rasgados. Essa noite, para a festa, usava um vestido curto preto muito provocante que deixava ver seu corpo, forte e atlético como de um personal trainer. Usava, além disso, muita sombra preta nos olhos e os lábios muito pálidos. Era tão bonita que sua atitude de rockeira-motorista não conseguia ofuscar sua beleza.

— Te ouvi, Tabby. É que algumas de nós são mulheres liberais que só precisam dos caras para uma coisa — piscou um olho pra Allie.

Sam a entendia. Sempre tinha entendido. Era muito dura: possuía essa dureza que só se tem quando a tragédia te golpeia enquanto ainda é jovem, mas não o suficiente para esquecer e seguir adiante. Diferente de sua irmã, não era nada romântica. Allie a entendia muito bem. Sam estava concentrada em caçar seus próprios demônios, e o amor só seria um estorvo.

— Oxalá pudesse ser como você e Sam — disse Tabby, muito séria— . Oxalá pudesse sair com homens, me divertir e sair logo depois do fim.

— Ninguém pode mudar seu jeito de ser — disse Allie brandamente— . Você é perfeita da maneira que é — não ia lhes confessar que às vezes se perguntava como seria apaixonar-se, que estava cansada de ser tão malditamente solitária.

Tabby bufou

— Bem, como vou dispensar os homens para sempre, suponho que esse será nosso segredo.

— Só dispensa o homem perfeito, porque não existe — disse Sam, sentando-se em uma cadeira, cruzando as longas pernas bem delineadas.

— Com certeza conhecerá alguém que seja tão perfeito para você, quanto você será pra ele — disse Allie. Sorriu e se aproximou do espelho, fingindo que ia retocar a maquiagem. Não queria continuar falando de amor.

Tabby disse brandamente:

— Ouça, esquece que tenho poderes telepáticos?

Allie olhou o reflexo de sua amiga no espelho. Não trocaria seu dom por nada nem por ninguém, mas sua vida era dura e solitária. Não sabia o que faria sem aquelas amigas tão incríveis. Disse com firmeza:

— O meu é ajudar os outros, não me apaixonar. Nunca me apaixonei. E duvido que me apaixone algum dia.

Allie virou e advertiu em silencio a Tabby que não revelasse seus segredos. Tabby apertou sua mão.

— Falando sério, Brian está muito aborrecido por ontem à noite, Allie. Me perguntou se você estava saindo com outro.

Allie mordeu o lábio.

— Não pode apresenta-lo a alguma garota incrível? Amanhã de manhã não se lembrará mais de mim…

Tabby lhe lançou um olhar, mas Allie sabia que sua amiga faria o que pudesse. Ninguém era tão amável e generoso quanto ela, e não permitiria que Brian andasse por aí com o coração partido. Tabby por fim sorriu, só um pouco.

— É contra as regras lhe enviar sua alma gêmea, mas verei o que posso fazer.

Sam se levantou.

— O dever nos chama, senhoras.

Allie não se afastou da penteadeira.

— Por acaso, Brie veio? — perguntou.

Sam olhou pra ela com incredulidade.

— Brie não viria a uma festa nem que sua vida dependesse disso. Se não estiver trabalhando, te garanto que está em casa, sozinha, com uma taça de vinho, rodeada de arquivos da UCH.

A UCH era a Unidade do Crimes Históricos do CAD.

— Tenho que te pedir um favor — disse Allie.

Tabby olhou para ela, lendo seus pensamentos. Allie falou sobre a visita de sua mãe naquela manhã, enquanto estavam na estrada a caminho da casa de Sam, depois de saírem do hospital de South Hampton. Pensou nas estranhas palavras de sua mãe e naquele guerreiro musculoso e bronzeado. Ficou tensa: começou a formigar de desejo.

— Preciso saber o que queria dizer.

Sam riu baixo.

— Não, o que quer saber é se existe uma máquina de sexo com cabelo loiro em seu futuro. Mmm, quem será que vai pegar. Embora eu prefira os morenos.

Allie teve que sorrir.

— É meu, menina.

Sam encolheu os ombros.

Mas Tabby estava muito séria.

— Quantas vezes quis que um guerreiro te ajudasse enquanto curava alguém? Lembra que sempre dizia isso: um guerreiro. Tenho a sensação de que sua mãe vai te mandar um — seus olhos brilhavam de emoção.

O coração de Allie acelerou.

— Será que vai me mandar um agente do CAD?

— Esses caras são ex-membros do corpo de Operações Especiais. Seria bom — . Disse Sam.

Tabby sussurrou:

— Não sou Brie, nem de longe, mas quer trazer minhas cartas?

Allie enrijeceu. Tabby tinha um dom para o Tarot. Faltava a incrível clarividência de Brie, mas as cartas estavam acostumadas a falar com ela.

— Use as minhas.

Um momento depois, Tabby tinha colocado sete cartas sobre a mesa. Embora não soubesse interpretá-las como Tabby, Allie conhecia as cartas e em seguida viu o Cavaleiro de Espadas.

— É ele? — perguntou em voz baixa, e o pelo da nuca se arrepiou ao olhar o cavaleiro em seu corcel branco com a espada na mão.

Tabby levantou os olhos.

— Não. Este é ele — assinalou o Imperador. Estava de cabeça para baixo.

Os olhos do Allie arregalaram.

— Você tem certeza?

— Esta tiragem é sobre ele, Allie. E é o destino — assinalou com a mão— . Cinco destas cartas são Arcanos Maiores.

Allie tremeu.

— Eu vejo.

— Alguém vai chegar do passado, mas não de seu passado. Aqui há outra mulher, e está ferida. O homem é velho, com muita autoridade. Tem poder e fé, e busca a Justiça. E é abençoado, Allie — acrescentou.

Allie voltou a respirar. Custava acreditar que seu guerreiro dourado fosse um velho.

— A outra mulher é minha mãe? Há algo de errado? — sua mãe estava presa entre dois mundos? Allie ouviu dizer que era possível, e isso podia explicar sua estranha visita.

— Não sei quem é a outra mulher, mas como o Cavaleiro de Espadas é uma ponte entre esse homem e você. É muito importante para os dois. Aparece como a Rainha de Copas. Allie, sua vida está prestes a mudar — Tabby assinalou a carta que mostrava a Torre golpeada por um raio. Estava junto à carta da Morte.

Segundo todas as interpretações, a carta da Morte na verdade, não simbolizava a morte. A maioria dos que liam tarot se negavam a ler a morte nas cartas. Mas Tabby não. Na sua opinião, a carta da Morte era isso, se aparecia conjugada de determinada forma com as outras cartas.

— Alguém vai morrer? — Allie não desanimou. Todos os dias morriam Inocentes. A morte era a lei da vida.

— Sim — murmurou Tabby, muito séria. Assinalou o Sol, colocado sob a Morte— . Mas das cinzas nascerá um novo dia.

Seus olhares se encontraram.

Brianna entrou no quarto vestindo um terninho preto.

Allie se assustou.

Brianna não sorria. Aproximou-se delas e ficou olhando o Imperador invertido.

— Está aqui.

Era meia-noite quando Allie saiu para o terraço ladrilhado que ficava junto à piscina. Estava farta da festa. Não se importava com a política, salvo quando os políticos faziam asneiras e o povo saía perdendo.

Escapuliu deixando Brian no bar, com Tabby e alguns outros convidados da festa. Na realidade, não tinha conseguido falar com ele. Tinha uma estranha dor de cabeça e sabia que ainda não se recuperara do ocorrido na noite anterior.

Queria passar sem parar ao longo dos convidados que perambulavam junto à piscina iluminada. Cruzou o gramado e deixou pra trás a piscina e os convidados de seu pai. Enquanto caminhava, pensava em sua mãe, no guerreiro loiro e na surpreendente afirmação de Brie. Parou junto aos puro sangue que pastavam à luz da lua.

Realmente o guerreiro dourado estava lá? Sua mãe mandou alguém, um homem que a ajudasse em sua ânsia de curar pessoas em dificuldades?

Allie sorriu quase com tristeza. No dia de sua morte, como se soubesse que ia morrer, Elizabeth Monroe pediu a Allie que fizesse uma promessa. Allie jurou guardar segredo sobre seus poderes e professar a religião ancestral em que sua mãe a educou. E jurou também não dar nunca as costas a nenhuma criatura que sofresse, grande ou pequena, humana ou animal, se fosse inocente.

Seu pai nunca superou a morte de sua esposa. Era um grande empresário, um dos quinhentos homens mais ricos do país, tão diferente de Elizabeth quanto podia imaginar.

Talvez por isso a amou tanto. Ao contrário de seu amigo Tromp, pagava para que seu nome, o de Allie, e o de seu meio-irmão, não fosse noticia. William Monroe não voltou a se casar, embora tenha namorado muitas modelos.

Allie amava seu pai, mas não o entendia muito bem. Aprendeu há muito tempo que não devia permitir ver seu lado espiritual, da mesma maneira que Elizabeth ocultava quando estava viva. Seu pai não tinha nem ideia de que era uma Curandeira. Esperava que Allie participasse de diversas reuniões e que se casasse com Brian, ou alguém parecido.

Allie não se importava em fazer parte do conselho da Fundação Elizabeth, que doava enormes somas de dinheiro a obras filantrópicas e beneficentes. Tinha acabado com muita dificuldade o bacharelado, e embora curar pudesse ser um trabalho de tempo integral, não se atrevia a fazê-lo abertamente. Era a herdeira da fortuna Monroe, e os meios de comunicação a observavam muito de perto. Tinha que andar sempre com cuidado.

Devia fingir que se encaixava com as pessoas que faziam parte de seu mundo, quando na realidade, não se encaixava com ninguém, exceto Sam, Tabby e Brie… e com os monstros malignos que queriam assassiná-las.

Suspirou, olhando os cavalos. Mesmo quando estava na cama com um cara estupendo como Brian tinha que fingir que era o que não era. Tinha certeza de que seu pai suspeitava que sua mulher fosse muito mais que uma esposa comum dos círculos da alta sociedade; e estava decidido a impedir que descobrissem a verdade sobre sua filha. Mas fingir constantemente era muito difícil.

Sentiu a presença de Brian, inclusive antes que a chamasse. Deixou de lado suas reflexões. Brian se aproximou e sorriu, confiando que Tabby lançasse sobre ele um feitiço amoroso o mais rápido possível. Ia magoá-lo e isso ia contra sua natureza. Infelizmente, seu desejo sexual era muito intenso para se permitir evitar aos homens e viver na abstinência.

— Olá. Está bem? Ontem à noite me deixou plantado e hoje está muito calada. E isso é muito estranho em você.

Allie vacilou.

— Estou com dor de cabeça. Continua zangado por causa de ontem à noite?

— Foi embora sem se despedir, Allie — disse ele brandamente, mas sem recriminação.

— Não conseguia dormir, por isso saí pra dar uma volta de carro — era verdade em parte, disse a si mesma.

Ele olhou pra ela.

— É uma mulher incrível, Allie — hesitou— . Mas não temos futuro, certo?

«Eu sei», pensou, entristecida, mas aliviada. Tocou o braço dele.

— Me faz falta as relações de casal, Brian. Nunca duram. Não é você. É comigo. Não sou como as outras mulheres. Nunca me apaixonei.

Ele sacudiu a cabeça.

— Isso te faz ainda mais desejável.

Allie pensou que era hora de dizer que estava acabado. Mas então enrijeceu. Um imenso poder, ardente e masculino, se estabeleceu ao redor deles.

Estava atônita. Nunca sentiu um poder assim. Não era escuro, nem demoníaco. Era puro e branco, mas não se tratava de um poder curador, porque estava carregado de testosterona. Era agressivo.

Assombrada, tentou ver mais à frente do prado e dos cavalos, entre as sombras da noite. Tratava-se de um poder sagrado. Procedia dos Deuses. Mas Tabby não disse que aquele homem tinha fé, que estava abençoado? Uma terrível excitação a consumia.

E então viu sua aura.

Ardia alaranjada e púrpura, radiante e poderosa. Então, finalmente o viu. O mundo pareceu dissipar-se a seu redor. Brian desapareceu, os cavalos desapareceram, deixando apenas ela, ele e a noite. Tinha encontrado a seu guerreiro dourado.

E isso era exatamente: o guerreiro dourado que tinha visto pouco antes com a imaginação, só que não estava nu. Ele usava botas e um casaco claro, as coxas nuas, duas espadas e um manto xadrez ligado ao ombro. Era um highlander. Poderia ter saído do filme Coração Valente.

Começou a se aproximar com o olhar fixo nela.

Allie tremeu. Seu coração batia tão depressa que se sentiu desfalecer. Aquele homem irradiava um poder imenso, e por fim tinha saído à luz da lua. Allie respirava com dificuldade. Ele era melhor inclusive do que tinha sonhado. Grande, bronzeado, bonito. Seus olhares se encontraram.

— Aquele cara é maluco. Vamos — Brian a agarrou pelo braço.

Mas o homem sustentava o olhar e Allie nem sequer sentiu que Brian a agarrava. Notou, no entanto, que o desejo ardia em suas vísceras. Os olhos prateados do homem se arregalaram como se também estivesse surpreso em vê-la.

Em seguida seu rosto endureceu.

— Lady Ailios — disse, chamando-a por seu nome em gaélico antigo. Falava com um forte acento escocês— . Não tema. MacNeil me enviou. Chegou a hora.

Suas palavras envolveram Allie em um calor tão intenso que compreendeu que ele tentava enfeitiçá-la. Mas não se importou. Sorriu pra ele.

— Está bem.

Ele estreitou os olhos, desconfiado.

— Não me assustou — sussurrou Allie.

Então, sentiu chegar a escuridão. Ficou paralisada. Ele se virou pela metade, esticando-se. Allie compreendeu que ele também sentiu.

Uma nuvem tingiu de vermelho a lua.

O guerreiro disse com firmeza, em tom de comando:

— Lady Ailios, entre na casa com seu homem — e enquanto falava, ela viu que sua aura explodia em uma rajada de luz vermelha e mais dourada ainda. Foi uma determinação feroz, ardente e explosiva. Foi o guerreiro preparando-se para a batalha.

Mas Allie não ia a lugar algum.

— Você está brincando? — disse. Estava preocupada com Brian. Sairia ferido, se ficasse. Allie virou para ele.

— Hey — sorriu — O conheço do instituto. É estranho, sim, mas inofensivo — Mal podia acreditar que estivesse mentindo daquela maneira— . Sei que temos que terminar nossa conversa. Vou pedir a ele seu número e já nos vemos em meu quarto. Leve uma garrafa de Dom Perignon — acrescentou com outro sorriso.

Os olhos do Brian se arregalaram.

— Não gosto de te deixar com ele, Allie. Mas é verdade que temos que conversar.

Allie queria que partisse o quanto antes, e quase deu um pulo, impaciente.

— Está a caminho de uma festa a fantasia na casa dos Grussman, no Bridge Hampton.

Ele a olhou com desconfiança.

— Vai para seu quarto e a leve contigo. Depressa — o Supermaciço disse a Brian.

E então veio um frio terrível.

— Vamos, Allie — Brian a agarrou pelo braço. Era óbvio que estava enfeitiçada. Allie tentou se soltar, mas não conseguiu: era muito pequena.

— Eu não vou — disse ao guerreiro dourado quando seus olhares se encontraram — Quero lutar. Quero ajudar!

Ele a olhou com incredulidade.

— Quer lutar?

Nuvens negras encheram o espaço entre eles.

O frio tornou-se polar.

O guerreiro a agarrou e a pôs detrás de seu enorme corpo como se fosse um escudo humano. Os demônios se materializaram, todos loiros e perfeitos. Eram do nível mais alto de poder diabólico. Allie tirou um punhal de sua liga rapidamente enquanto um demônio foi jogado para trás pela rajada de energia do escocês. Allie estava exultante: aquele homem tinha o mesmo poder que os demônios! Tentou passar a seu lado ao mesmo tempo que um demônio jogava Brian para trás. Mas eles estavam lançando mais energia e ela também foi atirada violentamente e caiu na grama. Sentiu uma explosão de dor nas costas e ficou paralisada por um momento. Logo se recuperou e olhando pra cima viu que o guerreiro dourado, com a espada na mão, decapitava a dois demônios quase ao mesmo tempo. Só ficava um: enquanto ela voou longe, ele conseguiu de alguma maneira derrotar o terceiro.

Allie levantou. Aquele homem era como um super-herói: justo o que o mundo precisava. Teve vontade de gritar e rir de alegria, mas viu Brian estendido de barriga para baixo na grama. O único demônio que ficou era quase tão alto e musculoso quanto o guerreiro, mas usava uma túnica larga e escura, como se fosse um frade ou um monge. Allie tinha certeza de que ele também veio de uma época passada. O demônio murmurou:

— Ruari Dubh, ciamar a tha thu — e sorriu.

«Royce o Negro, como está?».

Allie se aproximou, agarrando com força a faca. Tinha entendido tudo o que o demônio disse em gaélico, apesar de que em sua vida só traduziu as orações que Elizabeth tinha deixado. Brian não estava morto, mas sim ferido. Tinha uma hemorragia interna e sua vida corria perigo. A raiva se apoderou dela. Não ia permitir que ele morresse também.

O demônio a olhou.

— Achou, Ailios. Latha math dhulbh.

— Foda-se — gritou Allie e, passando junto ao guerreiro, equilibrou-se em direção ao demônio com intenção de lhe cravar a adaga no olho, se pudesse. Não seria a primeira vez que deixava um demônio cego, ao menos em parte. Mas o guerreiro dourado a agarrou pelo braço e a atraiu para si. Allie começou a contorcer-se furiosamente em seus braços. Não queria perder a oportunidade de matar o demônio.

— Fica quieta — rugiu ele— . Ou você quer morrer?

O demônio riu dela.

— Latha math andrasda.

E desapareceu.

Allie deixou de lutar e começou a tremer violentamente. «Adeus, por agora». O que significava aquilo? Embora estivesse morta de medo por Brian, estava estranhamente consciente de que se encontrava entre os grossos e fortes braços do guerreiro. Seu corpo era enorme, duro e poderosamente viril. E Allie notava um pacote muito grande que se movia em baixo dela.

Fechou os olhos. Tinha que curar Brian. Era difícil, porque seu corpo começou a gritar e uma sensação deliciosa percorreu sua pele, inflamando cada fibra de seu ser.

— Me solte para ajudar Brian — disse com voz rouca.

Ele a soltou.

Allie olhou para seus olhos ardentes e o desejo a dominou novamente, derretendo-a como nunca antes. Ele se deu conta. Um sorriso presunçoso inclinou a linha reta de sua boca.

«Dentro de uma hora os ventos serão outros», pensou ela.

Porque ia se divertir como nunca em toda sua vida.

Allie deu meia volta, aproximou-se correndo de Brian e se ajoelhou a seu lado. Estendeu os braços para ele e o inundou com sua luz branca e curadora. Apesar de estar intensamente concentrada, notou que o guerreiro parou atrás dela. Em seguida compreendeu que estava montando guarda para que ela pudesse se dedicar a curar.

Seu coração batia estrondosamente. Quando acabasse aquela noite, ia dar as graças a todos os Deuses por ter respondido a suas preces.

— Pode curá-lo?

Allie engasgou.

— Sim, ou morrerei tentando — mas as têmporas latejavam. Era quase doloroso curar Brian. Ao liberar sua luz branca, sentia como se lhe arrancassem os dentes um a um.

O guerreiro manteve silêncio respeitoso, mas não por muito tempo.

— Está ferida?

Ela ofegava e deu uma pequena pausa.

— Sim, a noite passada, me feriram… — olhou para ele.

Ele não parecia se divertir com a notícia.

Allie respirou fundo e virou-se para Brian para inundá-lo com sua luz. A vida de Brian piscou e acendeu como uma chama. Allie se sentiu arrastada por uma intensa onda de tontura... Estava fraca e tudo estava girando. O enorme guerreiro se ajoelhou, abraçou-a por trás e a segurou contra seu peito.

Ela sufocou um gemido. Ele tinha um aroma arrebatador. Cheirava a homem, a sexo, a poder, à bruma limpa das Terras Altas, e a sexo outra vez. Seu corpo parecia esculpido em aço, e as coxas que Allie notava sob seu traseiro eram ainda melhores que as de um jogador de futebol. Aquele homem montava a cavalo e corria pelas colinas.

Allie abriu os olhos e se virou para olhá-lo nos olhos. A noite tinha mudado. Estava carregada de eletricidade. Se sentia fraca, mas precisava daquele homem… e não como um parceiro no combate ao crime. OH, não. De repente, estranhamente, não podia pensar mais nele, e tinha a sensação de que aquele guerreiro estava usando novamente com ela seu poder de encantamento.

Ele se afastou com os olhos ardentes e ficou em pé.

— Quem é você? — ela murmurou, obrigando-se a olhar em seus olhos.

Mas Brian se incorporou.

— Allie? — parecia alarmado— . O que aconteceu?

Allie se assustou. Estava tão cativada pelo guerreiro que se esqueceu de Brian.

O highlander o olhou fixamente.

— Vá pra casa. Eu a levarei em seguida.

Brian se levantou e partiu sem dizer uma palavra.

Allie olhou os olhos cinza do guerreiro, consciente de que os seus estavam abertos como pratos.

— É tudo verdade, certo? Você é um deles. Um guerreiro que pode viajar no tempo. Com superpoderes para defender à humanidade.

O olhar dele posou em sua boca e seguiu deslizando logo mais abaixo, até seus peitos, que o vestido de noite cobria com muita dificuldade.

— Não entendo — disse brandamente. Mas seus olhos prateados brilhavam e um sorriso arrogante brincava em suo rosto cinzelada e deslumbrante.

Uma sombra caiu sobre a noite.

Allie olhou para cima, alarmada. A lua havia tornado a desaparecer, coberta por nuvens. Esticou-se e olhou para a piscina, que seguia iluminada. Mas dava igual. Uma escuridão vasta e densa avançava velozmente para eles.

Incrédula, olhou ao guerreiro. Estava muito fraco para voltar a lutar com os demônios! Ele se levantou com dificuldade, cambaleando mais do que desejava, enquanto aquele frio polar se instalava. Em seu coração lutavam o medo e a ira. Olhou para o guerreiro. Devolveu o olhar e ela compreendeu que estava prestes a acontecer algo terrível.

— Estou bem — mentiu— . Onde está minha faca?

Ele sacudiu a cabeça e apertou os dentes.

— Não pode lutar outra vez — disse, cortante. Apertou-a com mais força— . Se segure forte em mim.

Allie estava a ponto de dizer «muito bem» quando saíram disparados e voaram pelos prados, por cima dos cavalos, para o espaço. Se pudesse, Allie teria gritado. Mas só conseguiu gemer enquanto seu corpo se rasgava em farrapos de cabelo, pele e tecido.

 

Castelo de Carrick, Morvern, Escócia

5 de setembro de 2010

Nunca se acostumaria àquela dor.

Saltar através do tempo era como ser torturado, e embora tivesse saltado mil vezes, ainda lhe custava refrear o impulso de chorar como uma mulher. Era como se lhe arrancassem a pele dos músculos e os ossos, como se uma mão humana lhe arrancasse as vísceras. Queimava por dentro. Ao aterrar havia uma última explosão de dor e, logo, uma escuridão pasmosa. Seu sentido para detectar o mal era tão apurado, que sabia que não estavam em perigo. Concentrou-se em recuperar seus poderes, outorgados pelos Antigos há séculos, quando os velhos Deuses perderam a esperança no destino da humanidade e decidiram criar uma raça de guerreiros para defendê-la. Sabia por experiência que um momento depois estaria recuperado.

Ao contrário da Curandeira que sustentava entre seus braços. Era pequena, cálida, suave e feminina. Nunca antes tinha saltado com uma mulher, e muito menos com uma como aquela.

Embora ela estivesse inconsciente, Royce não podia esquecer sua assombrosa luz branca: o poder mais puro que tinha visto ou percebido. E ainda por cima, era tão assombrosamente bonita quanto poderosa, com aquele corpo miúdo, mas exuberante, aquele cabelo escuro e sedoso e aqueles olhos escuros que pareciam ver seus pensamentos mais íntimos. Suas bunda, apoiadas nele, eram suaves e carnudas. Royce se excitou em seguida. Era normal desejar uma mulher depois de um salto. Os Mestres tinham muitos poderes semelhantes aos dos Deuses, mas o maior de todos era sua capacidade de arrebatar a vida a qualquer momento, de qualquer pessoa ou animal, como um Deus. Se tirasse dela parte de sua força vital, recuperaria seus poderes imediatamente. E tomar poder de outro era, além de tudo, prazeroso. De fato, não havia êxtase como o que gerava o poder.

Olhou à mulher e compreendeu que, se seu poder branco enchia suas veias, seu corpo, não haveria experiência comparável aquela. Mas ele era um mestre no autocontrole. Salvo na guerra ou ao enfrentar  uma morte certa, «tomar» estava proibido. Os jovens Mestres estavam sempre tentados a pôr a prova os Antigos, de saborear e experimentar o êxtase sublime do poder. Ele estava a mais de oito séculos respeitando seus votos sagrados, e não tocaria a essência curativa daquela mulher.

Fechou os olhos com força, mais excitado que nunca, mas decidido a ignorá-la. E então seu conflito interior cessou. Sentiu que sua extraordinária fortaleza pairava sobre ele, nele, através dele, em uma imensa onda.

Voltou a respirar com naturalidade e pôde olhar o rosto dela.

Ao ver sua beleza, seu coração acelerou novamente. Era tão bela, tão pura, que sentiu os Antigos perto dela. E era, além disso, tão terrivelmente valorosa… Tentou enfrentar os Deamhanain como se fosse um guerreiro. Mas ela jamais seria um guerreiro: era fisicamente impossível, porque era muito miúda. E mesmo assim tentou atacar Moffat com uma faca! Royce recordava muito bem o pavor que sentiu nesse instante.

Mas a questão era, Moffat veio ao futuro para lhe caçar, ou estava em busca da filha de Elasaid, uma poderosa Curandeira e um grande troféu por si só? Moffat estava há séculos aporrinhando-o. Cada vez que os interesses de Royce estavam em jogo, em questões políticas ou econômicas, Moffat vinha no sentido contrário. Seus soldados atacavam periodicamente as terras de Royce e a seus homens, e uma vez inclusive, atacou uma aldeia inofensiva. Royce respondia sempre com contundência, sem perder tempo: sitiou com aríetes e bombardeou a catedral onde Moffat ostentava o cargo de bispo e destruiu três de seus quatro muros. Isso fazia décadas. Albany, o regente, tinha-lhe ordenado pôr fim ao ataque antes que pudesse arrasar a catedral.

Três meses antes, em janeiro, durante os dias mais escuros do inverno, as coisas pioraram. Royce surpreendeu um Deamhan arrebatando a vida de uma Inocente: a nova amante de Moffat e sua favorita. Destruiu Kaz com pouco esforço, mas não conseguiu salvar a vida da garota. Depois disso, Moffat ficou cheio de raiva. Acossava seu povo a cada passo, levando consigo a morte e a destruição até onde se atrevia sem despertar de todo a ira do rei. Ou seja, sem declarar guerra abertamente.

Ainda era muito cedo para saber quais eram suas intenções. Mas o tempo as esclareceria.

Ela se removeu em seus braços. Royce seguia excitado, mas não era difícil ignorar seu desejo. Olhou lentamente a seu redor. Tinha saltado um só dia no futuro, para seu lar na Escócia. Embora ela fosse uma Curandeira poderosa, Royce sentiu sua debilidade e sua dor assim que ela começou a curar seu amante. Consciente de que estava debilitada e em perigo, só quis saltar um pouco adurante com a esperança de que sofresse menos.

Nunca esteve no futuro, porque não precisou, e aos Mestres não era permitido saltar por prazer ou por interesse próprio. Estava no grande salão do castelo de Carrick, e logo reconheceu seu lar. Tudo tinha mudado. Havia muitíssimos móveis, e grande parte deles eram completamente desconhecidos. Como aqueles postes tampados com trapos que havia sobre as mesinhas. Até os tapetes e os quadros eram diferentes. O quarto era muito bonito. Tanto, que seu amigo Aidan teria ficado encantado. Mas quem era agora o senhor de Carrick? Ele não teria se incomodado em mobiliar com tanto luxo aquele salão. Ou sim? Porque havia uma coleção de espadas na parede, e reconhecia todas. Eram dele. Se havia um novo amo e senhor, por que tinha suas armas? Considerou a possibilidade de que fosse ainda o Senhor de Carrick e conde de Morvern. Isso significava que viveu outros quinhentos e oitenta anos. Não sabia o que sentia durante aquela perspectiva. Mas o Código era muito claro: proibia terminantemente, que os Mestres saltassem a um lugar, tanto do passado quanto do presente, no qual pudessem encontrar-se consigo mesmo. Estava seguro de que não seria nada bom se ao sair no corredor, se encontrasse com ele mesmo. Se continuava sendo senhor de Carrick, devia agir com extrema precaução.

Voltou a olhar para Ailios, a mulher. O cabelo cheio e quase negro cobria sua bochecha. Sem pensar, Royce deslizou a mão para ela e jogou seu cabelo para trás. A luxúria voltou a se apoderar dele. Era impossível que deixasse de pensar em sexo e em prazer tendo uma mulher assim em seus braços. Aquele desejo tão intenso era quase inexplicável… e Royce tinha a sensação de que podia inclusive pôr em perigo seus votos.

Nenhum homem se deitaria com aquela mulher e logo lhe diria adeus. E, entretanto, assim era como ele vivia. Um Mestre devia rejeitar todo compromisso, e ele aprendeu a lição da maneira mais dura possível, quando os Deamhanain capturaram e torturaram sua esposa.

Devia deixar Ailios em paz.

Levantou-a nos braços, ficou em pé e ao entrar no corredor viu que estava vazio. Andou por ele com intenção de subir à Torre Norte, onde no século XV ficava suas habitações. Uma criada apareceu descendo as escadas. Royce enrijeceu, esperando que fosse gritar alarmada, mas a mulher sorriu e se deteve para lhe fazer uma reverência.

Milord.

Devolveu o sorriso. Continuava sendo senhor de Carrick. Tinha intuído de algum modo que ainda estaria vivo naquele dia no futuro? Pensou em levar Ailios a seu futuro? Começou a sentir uma intensa satisfação, viril e primitiva.

Entrou no dormitório e depositou Ailios no centro de uma enorme cama com dossel e sem colgaduras, o que lhe agradou. Seu aposento foi modificado. A cama era nova, maior, e mais prática, já que às vezes gostava de desfrutar de várias mulheres de uma vez, mas havia dois baús que tinham sobrevivido ao passar dos séculos, assim como o escudo da parede. As cadeiras parecidas com tronos que havia durante do lar eram novas, mas de estilo antiquado, e gostou do tecido de raias bege e marrom que as cobria. Agradou-lhe também o tapete marrom e negro do chão. Parecia a pele de um animal, mas era de lã.

Olhou para Ailios, como enfeitiçado.

Aquela mulher podia tentar o Papa e seduzir o diabo. Porque não só seu rosto e sua figuram eram perfeitos, ela sabia que era atraente. Sabia que o vestido que usava realçava cada curva de seu corpo, de seus peitos e se ajustava ao fofo promontório de seu sexo, sem deixar nada à imaginação. Escolheu este para realçar sua beleza. E Royce estava seguro de que não usava nada por baixo, nenhuma roupa íntima, para tornar os homens loucos de desejo. Seu coração pulsava com violência, da mesma forma que seu sexo. Recordou-se que ela estava inconsciente e doente. Pelo menos, no momento. Mas cedo ou tarde despertaria. Tinha que se controlar e partir antes que ela voltasse a si.

Desviou o olhar de sua boca carnuda e viu pela primeira vez o retrato que havia em cima da mesinha de cabeceira. Era uma cena perfeita.

Pegou o pequeno retrato emoldurado. Estava ele com seu sobrinho Malcolm, com Claire, a mulher de Malcolm, e com Aidan. Olhou a si mesmo com certa curiosidade. Parecia o mesmo de sempre, duro, distante, bronzeado pelo sol. Mas usava o cabelo cortado como um monge penitente e vestia roupas modernas: um casaco negro e sem vida e calças negras. Não sorria.

Olhou mais atentamente. Em seus olhos não havia luz. Era impossível saber o que estava pensando ou sentindo. Embora parecesse um humano de uns quarenta anos, sua pose era de um homem preparado para a batalha. Mesmo com aquela roupa moderna e sombria parecia perigoso. Ao que parecia, sua vida não tinha mudado. Seguia sendo um soldado dos Deuses.

Olhou para seu sobrinho Malcolm, para Claire e Aidan, o meio irmão de Malcolm. Todos eles sorriam. Eram felizes, quinhentos e oitenta anos depois. Royce se alegrou por eles.

Deixou o retrato, desejando não aparecer nele. O futuro parecia triste e infinito. Tudo estava igual. Nada mudaria nunca. O bem e o mal, a batalha e a morte. Para cada Deamhan derrotado surgiria outro que ocuparia seu lugar.

Virou lentamente e olhou à mulher. Tudo mudou ou não? Estava acostumado a ter a espada erguida e  pronta, mas não aquele pulsar frenético do coração. Era quase como se o chão estivesse inclinando e não pudesse voltar a endireitar-se. Voltou a olhar o retrato emoldurado. O homem daquela imagem, o homem que tinha mais de mil e quatrocentos anos, parecia não ter nenhuma fraqueza, nenhum só defeito de carácter, nenhuma só fraqueza humana. O homem do retrato estava em guerra há tanto tempo, que só restou dele o guerreiro, por isso ao olhar em seus olhos Royce não via nada absolutamente. No futuro, poderia deitar-se com aquela mulher e lhe dizer adeus; e também estaria disposto a dar sua vida para protegê-la.

Sentiu-se estranho e ferozmente satisfeito.

Ela estaria a salvo ali.

E dentro de quinhentos e oitenta anos, teria o prazer de levá-la pra cama, de fazê-la gozar uma e outra vez, de vê-la alcançar o clímax, de sentir seus orgasmos, e de afundar-se nela uma e mil vezes.

Aprendeu a ter paciência há muito tempo. Esperaria. Deu uma última olhada nela e logo saltou para o século XV, ao qual pertencia.

Allie despertou envolta em um edredom de plumas e consciente de estar na cama mais confortável que já tinha dormido. Dormiu tão profundamente que se sentia enjoada. Fora da janela gorjeavam tantos pássaros que começou a ficar confusa. Piscou para defender-se da cálida e intensa luz do sol e procurou o som familiar do oceano retumbando na praia, mas não o ouviu.

Estava completamente acordada, olhando a seda bege de um dossel que não conhecia e que cobria uma cama que conhecia menos ainda e em que, entretanto, estava estendida. O coração deu um salto e se incorporou bruscamente. Se fixou na cama, com sua colcha marrom estampada e seus lençóis listrados, nas capas dos travesseiros decorados com flores de lis, nos grandes almofadões de veludo marrom que havia atrás dela. Levantou o olhar, perplexa, e viu o quarto todo, escassamente mobiliado. E então, de repente, entendeu. Não estava em sua casa no South Hampton.

Ainda vestia seu vestido de noite, e suas sandálias douradas estavam no chão.

A lembrança do que aconteceu essa noite a assaltou de repente: estava na festa de seu pai, um capitalista, quando um guerreiro apareceu de repente e repeliu o ataque dos demônios.

Respirava desordenadamente. O dessa noite foi real. Um guerreiro de outro tempo, abençoado pelos Deuses, foi ajuda-la a lutar contra os demônios. Sua mãe havia dito pra que abraçasse seu destino e confiasse no Mestre dourado. Tabby o viu chegar do passado, poderoso e abençoado. Os rumores que corriam pelo CAD estavam certos. Tremeu de emoção. Desejava contar para Tabby, Sam e Brie.

«agarre-se forte em mim».

Sufocou um gemido, porque a última coisa de que se lembrava era que pairou pelos pastos a tal velocidade que sentiu que o corpo se rasgava.

Onde estava? Saltava à vista que se encontrava em uma casa requintada (viajou o suficiente pela Europa e Reino Unido para reconhecer uma velha mansão ou um castelo quando via um). Desviou a roupa da cama e se aproximou cambaleando da janela. Os cristais estavam chumbados e tinham uma cor dourada. Empurrou com força e assim que abriu a janela respirou um ar perfumado e fresco que era inconfundível. Estava nas Terras Altas.

Olhou pela janela, cheia de assombro. Encontrava-se em um andar alto, e viu que a sua esquerda os muros do castelo acabavam em uma torre arredondada. Deu-se conta de que estava em outra torre parecida, em uma esquina da muralha. O castelo ficava no alto de uma colina, e lá em baixo, ao longe, viam-se as águas azuis e cintilantes de um lago ou um rio.

Mais à frente da água estavam as colinas ásperas e ermas e os Montes mais altos das Terras Altas, cujos picos tapavam as nuvens.

Sua mente funcionava a velocidade de vertigem. Esteve na Escócia muitas vezes, mas só depois da morte de sua mãe. Sua mãe nasceu no Kintyre e seus avós paternos no Glasgow e Aberdeen, e foi assim que a curiosidade a levou a terra de seus antepassados. Estava nas Terras Altas, não havia dúvida. Mas não sabia onde exatamente.

«fique calma», disse a si mesma, mas não era medo o que nublava sua mente. Era a emoção.

Seu guerreiro dourado a levou até ali. O manto xadrez que usava indicava que ele também era um highlander.

Ficou olhando pela janela e seus sentidos tomaram o controle. Deu-se conta de que estava olhando para o sul, mas apareceu lentamente à janela e olhou para o oeste. Sua respiração de repente acelerou.

Aquela força magnética, tão familiar, era atemporal. Os Antigos estavam perto: no oeste.

Allie tremeu. Sempre que visitou a Escócia, se sentiu atraída pela pequena e bonita ilha de Iona como um prego por um ímã. Ali, passeou pelas ruínas da abadia medieval e do mosteiro beneditino, consciente de que o chão que pisava foi pisado por São Columba, o fundador do primeiro mosteiro na costa da ilha. Esqueceu por completo dos outros turistas. Sob seus pés, o solo palpitava. E sobre sua cabeça ouvia sussurros de outro tempo, de outra era, que pareciam chamá-la. Sentiu que, se esticasse os braços para o céu, poderia puxar alguém lá de cima. E que, se os esticasse para o chão, poderia ressuscitar alguma pessoa do passado.

Depois, enquanto jazia acordada em sua cama do hotel Highland Cottage, no Mull, ria de si mesma por quase ter acreditado que ouvia pessoas de outra época. Mas acreditava firmemente no poder e na pureza daquela terra. Iona era um lugar sagrado, embora ela fosse uma das poucas pessoas que percebiam disso.

Agora, Allie sentia aquela mesma atração magnética. Sabia sem sombra de dúvidas que a pequena ilha ficava para o oeste e que não estava muito longe.

Virou para o quarto e voltou a observá-lo atentamente. Seu guerreiro era um highlander medieval, mas ela estava no presente: exceto pela presença de dois baús antigos, o quarto era moderno. Havia um tapete de lã com estampado de leopardo, duas grandes poltronas durante da chaminé, e teria apostado uma pequena fortuna que a roupa de cama era de Ralph Lauren. Cruzou o quarto e abriu a porta do banheiro. Era de mármore bege de cima abaixo, com o teto de espelhos. O banheiro do guerreiro. Tudo nele, da banheira de mármore rodeada de vitrais até as macias toalhas marrons, era tudo masculino. Olhou o lavabo, no qual havia uma maquina de barbear elétrica conectada à parede e uma escova de dentes Oral B.

Allie notava agora seu aroma e se sentia quase enjoada, afligida por seu poder e sua virilidade. Abriu o armário de espelho, cheia de curiosidade. Observou seu conteúdo e viu que havia as coisas habituais e viu que ele usava colônia Boss. Quase sorriu. Fechou a porta e logo voltou a abri-la rapidamente. Não pôde evitar. Olhou tudo o que havia dentro, mas não encontrou camisinhas.

«O que está fazendo?», perguntou-se com a boca seca e o coração acelerado. Fechou a porta, saiu do banheiro e tentou orientar-se. Era impossível, porque estava muito obcecada por seu guerreiro.

Obrigou sua mente a funcionar. Seu guerreiro dourado não estava disfarçado. Mas ela estava no banheiro de um homem tão contemporâneo quanto ela.

O que significava aquilo?

Com uma rápida olhada no guarda-roupas constatou que estava no quarto de um homem, que tinha um gosto impecável. Rebuscou entre os trajes Armani, as muito caras camisas de botões e as elegantes gravatas de seda. Viu mocassins Gucci e camisetas Pólo. Os jeans eram Levi's, muito sóbrios, e a roupa íntima justa…

Saltou o coração ao ver um par de imagens mentais muito interessantes, gráficas e tentadoras, dignas de um anúncio de lingerie masculina. Voltou a se distrair. Não pôde resistir à tentação de aproximar-se da mesinha de cabeceira e dar uma olhada na gaveta. Não havia camisinhas. Será que vivia como um monge?

«Basta», disse a si mesma, e seu coração acelerou vertiginosamente. A verdadeira pergunta era por que estava em um castelo modernizado? Seu guerreiro era autêntico. Tinha poderes sobrenaturais. Podia usar energia como a usavam os demônios. Podia perceber a maldade igual a ela. E tinha usado a espada como um Cavaleiro medieval, até o ponto que os heróis dos filmes de ação pareciam uns inaptos.

Aquela sensação de voar pelos pastos foi uma alucinação?

Aproximou-se da outra mesinha de cabeceira e a revistou sem resultados. Então se fixou em uma foto.

Recolheu-a e ao ver seu guerreiro se sentiu tão aliviada que se deixou cair na cama. Era ele. Sentiu como se acabasse de encontrar seu melhor amigo depois de ficar sem vê-lo por muito tempo. Ou, melhor dizendo, seu noivo. Na fotografia estava com o cabelo curto, mas continuava sendo o mais belo homem que já viu. E parecia tão forte e capaz como um comandante que, se tivesse que cruzar as linhas inimigas para capturar um líder terrorista, não pensaria duas vezes. Seus amigos também estavam muito bem. Havia uma mulher muito bonita, mas saltava à vista que estava com um dos amigos, embora na realidade Allie não estivesse muito preocupada em ter uma concorrente.

Olhou mais atentamente e voltou a sentir-se confusa. Ele parecia diferente. Tinha pouco mais de trinta anos, mas naquela foto parecia dez anos a mais. Parecia mais duro e experiente, como se tivesse passado por muitas coisas e não tivesse alma…

Maldição, teria se disfarçado, depois de tudo?

O guerreiro que apareceu na noite anterior era um autêntico super-heróii, mas vinha do presente, apesar da espada, o casaco e as botas?

Chamaram brandamente à porta. Pelo ruído ligeiro e indeciso, Allie deduziu que se tratava de uma mulher.

— Pode entrar — olhou a foto pela terceira vez. Aquele era seu guerreiro. Mas era medieval ou não?

Uma mulher roliça, vestida com uniforme de criada, sorriu-lhe. Usava uma bandeja. Allie sentiu um aroma de café e pão quente e se deu conta de que estava faminta.

— Sua Excelência não deixou instruções. A verdade é que me surpreendeu que tivéssemos uma convidada — mas seu sorriso era muito amável— . Sou a senhora Farlane.

«Sua Excelência», pensou Allie, compreendendo que aquele homem tinha um título nobre. Uma pequena surpresa.

— Eu sou Allie — sorriu— . Minha visita não estava prevista, na realidade. Quero dizer, estávamos em uma festa no South Hampton e um segundo depois estávamos aqui! Sorte que existem os aviões privados — acrescentou rapidamente.

Aquela mulher não podia saber que seu chefe viajava no tempo e lutava contra os demônios da noite.

A senhora Farlane deixou a bandeja sobre o divã, junto à cama.

— Lorde Royce não tem avião privado. E não sabia que estava no South Hampton. Me disse que ia passar um par de dias em Edimburgo — parecia chateada por não estar a par do que ocorria.

Chamava-se Royce! Claro! O demônio o tinha chamado Ruari, a versão gaélica desse nome.

— Meu pai tem um Astra — como podia Royce estar em Edimburgo se a noite anterior estava em sua casa de verão em Long Island? Ou por acaso ela dormiu por dias? — Sinto muito, que dia é hoje?

A senhora Farlane a olhou estranhando.

— Seis, querida. Não vi nenhuma mala.

Só tinha dormido meia noite.

— Foi tudo muito improvisado. Temo que só trouxe o que visto — «minha roupa», pensou, desanimada— . Onde estou, exatamente?

A senhora Farlane piscou.

Allie se apressou em acrescentar:

— Royce é tão brincalhão…! Disse que ia me levar às Terras Altas e que seria uma surpresa.

— Estamos no castelo de Carrick, querida, no Morvern. Um pouco ao noroeste do Glasgow.

Allie respirou fundo: não tinha se equivocado, Iona fica ao oeste.

— Sim, e é uma ilha preciosa, só a um par de horas de carro e balsa.

O coração de Allie acelerou. Passearia pela ilha antes de voltar para casa… fosse quando fosse.

— Quando Royce voltará?

— Hoje, no fim da tarde.

Allie ficou muito quieta, salvo por seu coração, que pulsava com emoção insuportável. Ele ia voltar, e ela desejava vê-lo.

— Há alguma loja por aqui perto? Vou precisar de roupa para me trocar — se dava conta de que queria encontrar um traje que o deixasse surpreso. Nunca se vestiu para impressionar um homem antes.

— Em Glasgow estão as melhores lojas da Escócia. Tom pode levá-la. O senhor paga pra ele um bom salário para que seja seu chofer, e pra que sempre esteja a disposição para leva-lo onde quiser — sacudiu a cabeça— . Todos esses carros… Como pode um homem ter tantos carros? Tem três garagens colina abaixo!

— Com minha melhor amiga acontece o mesmo com os sapatos — disse Allie. Teria que falar com Tabby. Voltou-se para a cafeteira de prata, serviu uma xícara e bebeu um gole do café preto. Aquilo era o paraíso… e essa noite seria também.

Lhe acelerou todo o corpo. Estava tão excitada e nervosa quanto uma adolescente. Era absurdo. Era maravilhoso! Mas tinha que trocar de roupa e não trouxe sua bolsa. Por outro lado, era muito conhecida. Os desenhistas estavam acostumados a suplicar que levasse seus modelos e sempre estavam lhe mandando coisas, como o vestido que usava nesse momento. Negava-se a gastar somas escandalosas em roupa e acessórios quando esse dinheiro podia destinar-se a obras beneficentes. Talvez pudesse encontrar um desenhista novo e comprar o que precisava parcelado. Encontraria uma solução, de uma maneira ou de outra.

Mas havia outro problema.

A senhora Farlane, entretanto, resolveu.

— Minha filha é mais ou menos de seu tamanho, querida. Tem quinze anos, mas pode lhe emprestar um jeans e uma camiseta. Tom a levará às melhores lojas. E como convidada de lorde Royce, os vendedores ficarão encantados de atendê-la.

Allie teve vontade de abraçá-la.

— Muitíssimo obrigado — então cedeu a seu impulso e a abraçou. A senhora Farlane se sobressaltou, mas sorriu em seguida.

 

Eram quase sete e Allie estava com um nó no estômago. Estava bebendo uma taça de vinho branco no grande salão, vestida com um belo vestido verde que aderia a seu corpo e que estava certa que impressionaria Royce.

Não teve problema ao fazer suas compras. O chofer era muito conhecido, e alguns dos vendedores não tiveram problema em por tudo na conta de Royce. Ooutros, pelo contrário, ofereceram tudo o que queria. Todos a reconheceram. Quando chegasse em casa, enviaria uma nota de agradecimento acompanhada de um cheque. Também tinha ligado pra Tabby, mas não estava em casa e Allie deixou uma mensagem que esperava que soasse coerente.

Sentia-se como se tivesse quinze anos e fosse ter seu primeiro encontro.

Mas tendo em conta que nunca tinha se sentido assim com ninguém, talvez fosse normal.

Quase incapaz de refrear seu nervosismo, olhou para as janelas do outro lado da sala e para o pátio de fora. Nesse momento apareceu pela grade um carro esportivo que acabava de cruzar as muralhas do castelo. Allie levantou. O coração deu um pulo. Ele dirigia uma Ferrari, claro. Certamente tinha também um Lamborghini.

Allie não podia respirar.

O carro parou, a porta abriu e Allie viu sair seu guerreiro.

O desejo se apoderou dela. Sentiu-se desfalecer.

Sua aura inconfundível brilhava, vermelha e dourada, com um pouco de azul e verde: o halo de um guerreiro capitalista abençoado pelos Antigos. Dessa vez, exalava ardor sexual. Estava todo vestido de negro, com blusa e calça esportivas. Quando fechou a porta olhou para a janela… e Allie compreendeu que estava olhando pra ela.

Não se mexeu. Sentia sua excitação… ou era a sua própria que sentia? «Tenha calma», pensou.

Ele deu a volta no carro e desapareceu de sua vista. Um momento depois apareceu na entrada do salão e seu desejo a fez se sentir fraca e tonta. Era explosivo. E não havia dúvida. Era ele.

Seus olhos prateados e ardentes se encontraram com os dela.

Allie umedeceu os lábios para falar «olá», mas não disse nada.

— Milord, a que horas você e a senhorita Monroe vão jantar?

Allie não podia desviar o olhar dele. Era tão grande e forte como lembrava. Media quase dois metros e a fina camiseta colava em suas costas largas, no seu peito esculpido e em seu torso duro e tenso. Seus bíceps se avultavam por debaixo das mangas curtas. Seus quadris eram estreitos, mas o que tinha mais abaixo não. O tecido se avultava e se enrugava ali. Allie engoliu a saliva.

Ele olhava diretamente pra ela.

— Tem fome?

Allie negou com a cabeça.

Sem afastar o olhar, ele disse à governanta:

— Pode se retirar esta noite.

Seu olhar ardente se moveu sobre o vestido e as pernas de Allie, parando nas unhas de seus pés, pintadas de rosa, e nas plataformas retrô que tinha comprado. Com aqueles sapatos ficava um palmo mais alta. Logo levantou a vista.

— Achei Ailios — murmurou.

Não podia existir uma voz mais excitante que aquela. Allie sentiu que o coração tentava escapar do peito. Sentiu que um líquido ardente escorregava por suas coxas nuas.

— Olá… Royce.

Ele entrou na sala bem iluminada.

Ela se deu conta de que usava o mesmo corte de cabelo que na foto. Começou a ficar confusa.

— Comprei um monte de coisas na sua conta. Espero que não se importe.

Ele sorriu sedutoramente.

— Espero que tenha comprado esse vestido.

Ela assentiu com a cabeça.

— Cortou o cabelo.

Os olhos dele brilharam.

Ela desviou os olhos de seu cabelo cortado ao estilo dos fuzileiros e olhou para seus olhos… e as rugas ao redor deles. levantou. Era o mesmo homem que a ajudou a repelir o ataque da noite anterior, mas parecia maior… ou imaginou que era mais jovem na escuridão da noite? E era contemporâneo, no fim das contas.

— Não entendo — murmurou— . Ontem à noite pensei que fosse um homem medieval.

Ele parou diante dela.

— Isso não importa. Sou o senhor de Carrick, Ailios. E esta noite você é minha.

Era difícil pensar depois de uma afirmação tão determinada, e ele estava a poucos centímetros dela, de tal modo que, se movendo ligeiramente, Allie estaria em seus braços. Mas Royce não estava respondendo a sua pergunta, precisamente.

Allie esquadrinhou seus olhos e sustentou seu olhar. Seus olhos pareciam prometer que, muito em breve conheceria o paraíso.

— Foi você quem me ajudou ontem à noite, no South Hampton, não foi?

Tirou a taça da mão dela e a deixou sobre a mesa, atrás dela.

— Você fala muito.

Ela lambeu os lábios.

— Pensei que fosse despertar em uma época antiga.

Ele não riu. Olhando-a nos olhos, disse brandamente:

— Sim. Fui eu quem te ajudou, mas não ontem à noite — e a agarrou pelos ombros com suas mãos grandes, fortes e implacáveis, como o homem que ela sabia que era. Todas as fibras de seu ser se esticaram. Mal podia suportar. — Te ajudei… faz quase seis séculos.

Allie tentou entender. Como podia estar falando sério? Mas ele a apertou com mais força e a atraiu para si, o peito de Allie ficou esmagado contra seu torso duro como uma rocha. Estava excitado. A mente de Allie começou a ficar vazia ao sentir o roçar de sua enorme ereção no abdômen.

— Ah.

— Esperei muito tempo por este momento — falou profundamente. Ela levantou os olhos— . Estou te esperando há quinhentos e oitenta anos, garota.

 

Não podia acreditar que estava enfim ali, com ele, em sua casa, em seus braços. Sua lembrança o açoitou durante cinco séculos, o que confirmava que fez bem em deixá-la no futuro e retornar sozinho ao século XV. Era a mulher mais sexy que já tinha visto, mas havia muito mais. Seu poder branco e puro emanava num intenso desespero. Royce sentia como sua luz cálida o aquecia por dentro, depois de tanto tempo se sentindo gelado.

Aproximou as mãos de seu rosto, sujeitou sua cabeça e por fim, depois de tantos anos, a beijou. Seu sexo estava duro e quente. Desejava penetrá-la e gozar. Mas então ficou assombrado. Só podia pensar no sabor de seus lábios, na carícia de sua língua e no calor que emanava dela. Seu coração batia quase frenético enquanto bebia de sua boca. Ailios… E aquele beijo úmido e profundo não era suficiente.

Seu corpo gritava, mas gritava também uma parte dele que nunca se importou. Não sabia se era seu coração ou sua alma. Um instante depois a conduziria ao extremo êxtase e se uniria a ela em um tremendo orgasmo que se repetiria várias vezes. Mas queria mais. O poder de Ailios parecia tocá-lo, e era um alívio…

Era proibido, claro. Não ia tocar seu poder, embora sentisse que seus ossos estavam velhos e precisasse que ela o curasse. Não tinha nada quebrado. Era velho, mas também forte e poderoso. Nunca quebrou o Código. Não começaria agora.

Com as delicadas mãos sobre sua cintura, ela tremia em seus braços e o beijava com desespero, tão profundamente, quanto ele. Royce sentia o sexo inchado e úmido dela. O desejo de Ailios era semelhante ao dele, e se surpreendeu que fosse tão intenso. Sabia que seria sempre assim. Podia controlar o desejo de Ailios, se quisesse (possuía essa destreza há muito tempo), mas não estava alimentando sua paixão. Aquele ardor pertencia a ela e somente a ela. Royce sentiu uma selvagem satisfação.

Ficou ainda mais excitado, consciente de que ambos estavam a ponto de explodir, deslizou as mãos pelas costas fina e estreita de Ailios e agarrou sua bunda, levantando-a. Sentiu que seu prazer crescia e não pôde esperar. Deu a volta, a empurrou contra a parede mais próxima e com a coxa levantou a perna direita dela. Ela enganchou a perna em seu quadril.

Royce rasgou sua calça.

Ele baixou o zíper e tirou a cueca com um puxão. Olhou-a nos olhos.

— Ailios, desejo te ensinar o que é o verdadeiro prazer.

— Anda logo — murmurou ela, aturdida, com a palma apoiada sobre sua bochecha.

Rapidamente deslizou a mão sob a camiseta de Royce e acariciou um de seus grandes peitorais.

Enquanto ofegava de prazer, Royce pensou que ela merecia gozar na cama. Mas não tinha paciência e levantou o vestido de imediato. Sorriu ao ver o encaixe de cor pêssego que se esticava sobre seu sexo úmido e depilado, e deslizou os dedos além da tira da calcinha.

Ela deixou escapar um grito quando tocou seus lábios ensopados e palpitantes. Royce trocou de posição e colocou contra ela a enorme cabeça de seu pênis, movendo-o sensualmente pra frente e pra trás. Ela cravou as unhas nas costas dele, ofegante.

— Sim. Por favor…

Royce latejava perigosamente, na beira do orgasmo. Podia fazer com que ela gozasse assim. Sabia. Sentia no corpo, na mente. Mas estava indo muito rápido… e controlou mentalmente a onda crescente de seu prazer, se negando a permitir que rompesse. Ela começou a chorar. Seus olhos enormes pediam mais.

«Por que?».

Ele queria dizer que tinham a noite toda e que ia gozar mais que nunca, tanto que não voltaria a pensar em outro homem. Mas, em vez de falar empurrou com força. O prazer de Ailios redobrou, intensificou, envolveu a ambos. O prazer de Royce cresceu como uma onda. «Um pouco mais», pensou, e grosseiramente satisfeito, movendo-se com toda vontade, controlou a onda que crescia dentro de Ailios e deixou que crescesse mais e mais, pouco a pouco. Ela disse seu nome, ofegando, e arranhou seu peito.

O suor corria pelo rosto e peito de Royce. E então se deixou levar.

— Ailios…

Ela olhou nos olhos dele, se retorcendo, ofegante, e tentou cavalgá-lo, apesar de que era ele quem a cavalgava e a fazia gozar. Quando teve toda sua atenção, Royce verteu seu poder nela. Allie gritou cheia de assombro e ele deixou que o dique se rompesse.

Allie soluçou, extasiada. Royce fechou os olhos e seguiu movendo uma e outra vez, gozando com ela e a estimulando para gozar de novo. Ela gozou. E ele também. Ela gritou enquanto ele rugia. Tinha esperado tanto tempo… Faria com que gozasse assim por toda a noite.

 

Allie estava deitada fraca e exausta na cama de Royce, consciente do violento batimento de seu coração e do homem deitado de costas a seu lado. Sua mente começava por fim a funcionar. Será que já estava amanhecendo? Porque uma luz cinza entrava no quarto.

Seu coração se negava a ficar quieto. Fizeram amor durante horas (desde primeira hora da noite) e pela primeira vez em sua vida estava saciada. OH, sim. Royce não se cansou, não relaxou, nem sequer fraquejou, nenhuma única vez.

Ela era uma Curandeira mas era muito humana; estava claro que ele não. Porque tinha alcançado o clímax tantas vezes quanto ela, e Allie não estava certa se teve dúzias de orgasmos ou apenas um, infinito. Tinha certeza, que ele ao contrário, tinha controlado até certo ponto seus orgasmos.

Virou a cabeça.

— Tirano — murmurou, sorrindo.

Ele também jazia de costas, mas sua respiração estava lenta e pausada, e a olhava fixamente. Seus olhares se encontraram. E sorriu pra ela. Era um olhar surpreendentemente suave, vindo de um homem tão duro, e mudou completamente seu rosto. Estava indiscutivelmente bonito.

— Está satisfeita? Allie sorriu de orelha a orelha e virou de lado, consciente de que Royce estava olhando seus seios, seu ventre e suas pernas. Pôs a mão em seu magnífico peito. Seguiu com o dedo uma cicatriz espantosa.

— Muito satisfeita, sim. Como pode me perguntar isto?

Sentia-se aliviado? Royce sabia, sem dúvida, que possuía uma sexualidade exacerbada. Mas deu de ombros como se fosse indiferente. Seu olhar, entretanto, era intenso e escrutinador.

— O bastante para romper com seu homem?

Allie ficou confusa.

— Brian — disse ele brandamente.

Os olhos de Allie aumentaram. Tinha a impressão de que passou toda uma vida da festa da noite anterior.

— Não é meu homem.

Ele ficou pensando. Logo disse:

— Desde quando? Desde esta noite?

Ela sorriu e esfregou seus peitorais duros como rochas. Depois, arranhou um de seus mamilos.

— Ia romper com ele na noite da festa.

Ele assentiu com a cabeça.

Allie se deu conta, perplexa, de que seu membro grande, mas flácido, começava a endurecer de novo. Como era possível?

— Esta me tocando — disse ele com voz suave, como se estivesse lendo seu pensamento.

— Quero te tocar — disse ela enquanto olhava e acariciava a pele tensa de suas costelas — Quem é você? O que acaba de acontecer não é humanamente possível.

Royce sentou apoiando-se em uns travesseiros e esboçou outro belo sorriso.

— Sim. Nenhum homem pode deitar assim com uma mulher. Deverá se lembrar sempre disso.

— Como se pudesse esquecê-lo! — ficou séria e também se sentou. Queria aninhar-se a seu lado, mas não fez. Aquilo era muito importante— . A outra noite venceu três demônios como se estivesse comendo pão. Mas, além de energia usou uma espada, não uma pistola — sua mente começava a entrar no jogo — Disse que estava há mais de quinhentos anos me esperando — mas Tabby não havia dito que era velho?

Ele deu de ombros tranquilamente.

— Bom, sou um homem paciente.

— Quantos anos tem?

— Isso não importa, Ailios.

Mas ela continuava voltando ao assunto.

— Ontem à noite, no South Hampton, era você, só que mais jovem. Muitíssimo mais jovem. Quinhentos e oitenta anos mais jovem — recordou o número que ele havia dito.

— Sim.

— Wow — Allie reclinou nos travesseiros, perplexa, tentando assimilar que o tinha conhecido no dia anterior, quando ele era quase seiscentos anos mais jovem (quando procedia do século XV) e que embora para ela só tinha se passado apenas um dia, para ele tinham transcorrido cinco séculos. Tinham estado separados um só dia, e entretanto, ele tinha vivido quase seiscentos anos durante esse tempo. Allie tinha um milhão de perguntas.

— Quantos são? Por que tratam de passar desapercebidos?

O sorriso de Royce voltou a brilhar.

— É tão jovem, tão bonita, e tão apaixonada… — esticou o braço e tocou sua bochecha. Depois deixou que sua mão escorregasse por seu seio — Sou mortal. Algum dia morrerei.

Allie ficou pensando.

— Eu acredito nos Antigos. E quando vejo sua aura sinto sua presença. Estão contigo. É abençoado. Eles te querem bem.

— Sim. Faz muito tempo, os Deuses quiseram salvar a humanidade do mal. Temiam por suas criaturas. Mandaram uma grande Deusa guerreira aos reis e nasceram homens como eu — falava como se aquilo acontecesse todos os dias e não fosse nada de especial.

Allie riu.

— Não está dizendo que sua mãe era uma Deusa, verdade?

Deu um olhar a ela.

— Minha avó é Faola, uma grande Deusa guerreira — disse brandamente.

Claro, pensou Allie. Parecia neto dos Deuses. E como não seria, se passou a noite toda fodendo dessa maneira? Como poderia, se não fosse, ter uma energia parecida com a dos demônios?

— Os demônios descendem de Satã, verdade?

— Alguns são Mestres cansados.

Sua mãe lhe disse pra confiar num Mestre dourado.

— É assim que se chamam? Mestres?

— Somos os Mestres do Tempo, Ailios. Fiz meus votos durante de Deus e durante da Irmandade na lona, faz muito tempo. Existimos para manter a salvo à humanidade e para servir aos Antigos.

Allie estava extremamente interessada.

— Sempre me senti atraída pela Iona. Essa terra continua sendo sagrada. Caramba. Agora entendo por que sentia você e os Mestres, cada vez que estive ali.

— Tem grandes poderes. E se tornarão maiores com o tempo.

Allie apenas o ouvia. Estremeceu de emoção.

— Quando diz que jurou durante de Deus, quer dizer que jurou durante dos Deuses, no plural?

— Sim. São um e o mesmo — sorriu um pouco novamente, e desta vez deslizou a mão sob seu braço — Defender a Deus, manter a Fé, proteger a Inocência: nossos votos são simples, mas potentes. Um Mestre serve a Deus e à Inocência, sempre e acima de tudo.

Allie se aninhou contra seu peito duro.

— Parece uma advertência — disse, pensando em onde queria pôr a língua.

O olhar de Royce brilhou como se adivinhasse suas intenções. Aproximou a mão de seu cabelo e a agarrou com força. O coração de Allie acelerou. Mas ficou quieta e seus olhares se encontraram.

— Não acabei — disse ela com suavidade.

Ele a provocou, inclusive a atormentou, toda a noite. Era hora de dar uma revanche.

Ele quase sorriu.

— Você fala muito.

— Reconheça que você adora.

— Não sou muito de falar.

Ela deslizou sobre a metade do corpo dele.

— Porque mantém sua existência em segredo?

Ele suspirou.

— Temos um Código. É muito extenso, e nossos estudiosos seguem debatendo ainda hoje suas muitas normas e significados. Mas algumas regras estão claras. A existência dos Mestres é secreta, Ailios. A Irmandade é secreta. Essa é nossa lei.

Deslizou a mão por suas costas, agarrou sua nádega e a colocou em uma posição apropriada. Ela ofegou de prazer. Ele sorriu.

— Continua querendo falar?

Ficou muito difícil pensar, mas Allie murmurou:

— Ontem à noite controlou meus orgasmos?

Os olhos de Royce aumentaram, cheios de carinho.

— Como ia fazer isso? — a agarrou pela cintura e a olhou lenta e sensualmente.

— Hmm… vou ter que te dar um castigo.

Ele riu.

— Não pode, garota, e você sabe.

Ela sentou sobre seus quadris e os olhos de Royce ficaram ainda mais claros e brilhantes.

— Porque os Antigos proibiram vocês de revelar quem são e o que fazem?

Ele estava incomodado. Em vez de responder, esfregou o rosto contra seus seios e tomou um de seus mamilos entre os dentes. Puxou.

— Sei, bom, não te provocarei — ofegou ela.

Ele suspirou.

— A redação do Código é anterior a São Columba, garota, e desconheço o que o motivou. Mas em épocas passadas era uma grave heresia reverenciar aos Deuses antigos… e ter poderes divinos. Nessa época, os homens eram proscritos, excomungados, pendurados e queimados na fogueira por tais pecados. Por isso, nenhum Mestre podia viver abertamente. E hoje continua sendo assim.

Allie se separou dele, ignorando sua surpresa. Aquilo era muito importante.

— Necessitamos de vocês desesperadamente — exclamou, deixando ele sobressaltado de novo— . Maldito seja, Royce, têm que vir mais ao século XXI e nos ajudar. Ajudar curandeiros como eu, inclusive ajudar o CAD! Esqueça dessas regras antiquadas. É tão difícil curar quando tenho que me preocupar que os demônios voltem e me ataquem pelas costas… É tão duro ver morrer tanta gente inocente… Eu sozinha não posso salvar todos — acrescentou amargamente.

Ele também estava sentado. Era uma imagem magnífica.

— O mal se alimenta nos Inocentes em todas as épocas, Ailios. Os bardos de antigamente já falavam dos crimes de prazer. Os Mestres também fazem falta no passado. Há Mestres em todas as épocas. Sinto que tenha estado sozinha tanto tempo — acrescentou com suavidade, olhando-a nos olhos.

Allie o olhou e, ao ver seus olhos intensos e inquisitivos, não pôde decidir o que significava tudo aquilo. Mas era tão esperançoso… Também no bando dos bons havia super-heróis. Tinha perdido batalhas, mas a guerra não tinha acabado, nem de longe.

E ela já não estava sozinha.

Seu coração parecia entoar uma canção cheia de felicidade. Ele começou a esboçar um sorriso sedutor. Disse a meia voz:

— Pode ser que seja Santa e que tenha o dom do poder branco, mas também é Inocente — esticou os braços pra ela.

Allie se deixou abraçar, escarranchada sobre seus quadris. Enquanto ele pressionava com força suas bunda, se sentiu debilitada pelo prazer.

— O que significa isso exatamente? — murmurou.

Move-se e começou a se esfregar contra seu enorme pênis.

— Jurei proteger a Inocência. Jurei te proteger — a agarrou pelos quadris e a manteve quieta.

Ela agarrou seus punhos.

— Eu gosto de seu conceito de amparo.

— É Isso que parece — respondeu ele, segurando-a para que não se movesse. Começou a penetrá-la muito devagar.

O prazer embargou Allie.

— Agora quero — ofegou— , ser a tirana.

Royce riu e a tombou de barriga para baixo, penetrando-a ainda mais.

— Acredito que não — disse.

Allie não pôde protestar. Havia muito prazer tentando se libertar.

— Me deixe gozar.

— Sim — ofegou ele.

Quando Allie despertou pela segunda vez esse dia, o lado da cama de Royce estava vazio e ela estava sozinha. Além da janela o sol estava muito alto. Sorriu e moveu os dedos dos pés. Era uma mulher muito feminina e sensual, mas nunca havia se sentido tão sexy e desejável.

E muito menos se sentido tão feliz alguma vez. Mas como poderia ser de outra maneira? Seu amante era, literalmente, o melhor homem de todos os tempos… e era também um super-herói. De fato, essa noite podiam sair para patrulhar juntos. Ele manteria longe os demônios enquanto ela curava às vítimas. Seria perfeito.

E seu tolo coração também sorria, cheio de felicidade. Aquilo se parecia suspeitosamente com amor.

Desceu da cama, consciente de que aquela euforia delirante era justamente isso: estava se apaixonando por seu herói dourado e não tão medieval. Acreditava que fosse imune ao amor, e até se perguntou se seu coração a estava enganando. Disse o amor não fazia parte de seu destino, mas ao que parece, se enganou.

Riu e, enquanto tomava banho e se vestia, cantarolou suas canções preferidas, desafinando e sem se importar quão mau soavam. Teve a melhor experiência sexual de toda sua vida. Royce estava de matar, e ela desejava voltar a vê-lo, trocar sorrisos com ele e pedir que saísse para patrulhar com ela essa noite. Morria de vontade de estar de novo em seus braços e dizer a ele o que sentia… e que tudo aquilo era novo para ela.

Fora, junto à porta do quarto, havia uma bandeja com café, madalenas e vários jornais. Como eram quatro e meia da tarde, o café estava gelado. Allie pegou os jornais e desceu em busca de café quente e um café da manhã pantagruélico. Tinha uma fome de lobo.

Não conhecia a casa e, depois do grande salão passou por várias saletas antes de entrar na sala de jantar. Royce estava sentado em uma grande mesa de madeira, lendo um jornal. Paprecia que estava esperando por ela. Seu coração tentou sair do peito. Se sentia tão feliz que tinha a sensação de que ia sair flutuando para o teto. Ele levantou o olhar e sorriu, se levantando.

Allie se aproximou pensando em seu corpo, em seus beijos e em quão bonito estava com seu polo escuro e suas calças italianas. Royce puxou suas mãos e as levou ao peito.

— Olá — murmurou ela.

— Olá — respondeu ele em voz baixa, com um olhar terrivelmente cálido.

Aquilo a fez pensar de novo no sexo… embora na realidade, nunca tenha deixado de pensar nisso.

— Quer sair esta noite para patrulharmos juntos?

Ele não pareceu entender.

— Tenho que curar. Você pode lutar com os demônios — disse ela brandamente.

— Me ocorrem melhores coisas pra fazer esta noite — murmurou ele.

Ela corou.

— Aposto que sim.

Royce a conduziu para uma cadeira.

— Vamos comer. Logo pensaremos no que vamos fazer. Se quiser, posso te levar para dar um passeio pelo campo.

Allie se sentou, embora soubesse que não poderia comer. A única coisa que queria fazer era olhá-lo, desfrutar de sua beleza e se beliscar para ver se estava sonhando. Royce sorriu, adivinhando seus pensamentos.

— Senhora Farlane? A senhorita Monroe desceu para tomar o café da manhã — gritou.

Em seguida o café foi servido.

Era tarde quando retornaram para Carrick. Tinham passado o dia todo percorrendo as Terras Altas em seu Lamborghini prateado. Royce conduzia bem, mas muito depressa, e não falou muito: não fez falta. Allie se sentia feliz só por estar a seu lado.

Pararam para comer no magnífico hotel Dunedin Park, no Inverness, cujos proprietários reconheceram Allie e os trataram como realeza. E passearam pelas ruínas de Urquhart, onde fizeram amor atrás de um dos muros desmoronados. Agora, enquanto Royce estacionava o carro em uma de suas garagens, Allie retornou dando um passeio pelo castelo. Jantariam tarde, mas não se importava.

Estava a ponto de subir para se refrescar e poder descer quando viu um brilho de cor pela extremidade do olho. Seu coração deu um pulo e virou para ver a aura que tinha chamado sua atenção. Havia um desconhecido no salão. Emanava o mesmo poder que Royce: uma força sagrada surgia dele em ondas vermelhas e amarelas. Sua aura também estava carregada de testosterona. Mas irradiava, além disso, uma luz branca e curativa, embora suavemente. E o que era mais importante: o azul e o arroxeado de sua aura revelavam que seu carma era imenso, mas que estava muito longe de dominá-lo. De fato, aquele homem pagaria um alto preço por isso.

Allie compreendeu que se achava durante de outro Mestre, e começou a se emocionar. Ele a olhava com um sorriso. Ela se aproximou, curiosa. Era mais alto que Royce, de pele clara, cabelo escuro e tão bonito como o protagonista de um filme de Hollywood. Usava uma jaqueta de couro negro, uns jeans velhos e era jovem. Tinha mais ou menos sua idade.

Sorriu ainda mais, deixando ver duas covinhas, e deslizou o olhar pela camiseta de cor marfim que ela usava junto com uma saia larga e estampada.

— Olá.

A curiosidade de Allie aumentou. Parecia um homem moderno, mas de repente teve a sensação de que não era do presente, apesar de sua roupa.

— Olá. Você também é um Mestre.

Os olhos dele aumentaram.

— Royce falou com muita liberdade em sua cama.

— Vejo sua aura e tem rasgos muito concretos. Sou Allie — se aproximou e estendeu a mão pra ele.

Ele tomou, mas em lugar de estreitá-la a levou aos lábios.

— Eu sou o senhor de Awe e conde de Lismore. Mas pode me chamar de Aidan — um sorriso seguiu seu tom arrogante.

Aquele beijo antiquado não surpreendeu Allie. Tabby tinha razão, não havia dúvida.

— Quantos anos tem?

Ele baixou a mão, divertido.

— Sou bastante velho para você, garota.

— Estou com Royce.

— Isso é evidente. Me alegro por ele. Mas não me importaria se decidisse que Royce é muito velho para você — seu sorriso brilhou de novo — .Só tenho trinta e dois anos.

Aquele homem usava roupa moderna, mas não era um homem moderno.

— De que ano você é?

Ele olhou fixamente pra ela e seu sorriso desvaneceu.

— Pergunta estranha — depois disse — . Sigo Royce desde 1430.

Antes que ela pudesse decifrar aquela informação, Royce entrou no grande salão. E era seu Royce, o moderno, insaciável e supersexual com quem passou as últimas vinte e quatro horas. Embora tivessem passado uma noite e um dia juntos, seu coração acelerou loucamente ao vê-lo se aproximar. Royce, pelo contrário, não sorria.

— O que faz aqui, Aidan? — perguntou.

O highlander moreno se aproximou, alheio àquela fria recepção.

— Por acaso perdeu a cabeça? Não lembra que te segui para te ajudar quando precisasse de mim?

Royce o olhou de cima abaixo com desaprovação.

— Isso faz cinco séculos. Vejo que tornou a quebrar as regras.

— Já sabe que odeio as regras. Enclausuram meu pobre espírito.

— Me segue por cinco séculos, desde quando era mais jovem… mas não me ajudou a lutar contra Moffat no South Hampton se não me falha a memória — Royce falava com frieza.

— Não precisava da minha ajuda. Você cuidou muito bem de Moffat sozinho. Decidi ir pra Roma — deu de ombros — .Me ocorreu vir pra Carrick e ver o que decidiu fazer com a Curandeira — sorriu — .Por fim tinha razão, não é Royce?

Royce parecia incomodado.

Allie disse:

— O que quer dizer com isso?

Aidan a olhou.

— Demorou séculos para encontrar algum prazer fora da cama com uma mulher.

A expressão severa de Royce não suavizou. Deu meia volta e se aproximou do aparador enquanto Allie tentava decifrar a conversação. Royce estava em South Hampton desde 1430 para ajudá-la a lutar contra os demônios. Aidan o seguiu desde essa época, mas não o ajudou na batalha. Foi pra Roma. E logo passou por Carrick para dar uma olhada nela, o que não fazia sentido. Mas saltava à vista que Royce não estava gostando nem um pouco.

— Tem que voltar para seu tempo, como exige o Código. Sem a jaqueta, nem os jeans.

— Passei horas comprando em Roma! — exclamou Aidan — .Mas vejo que que mudou muito pouco. Segue tão amargurado como sempre — .Já vou — virou para ela — .Ao menos você o faz sorrir. E isso é uma melhora imensa.

Allie ficou pensando e disse:

— Para sua informação, há melhores lojas em Milão.

— Não dê conversa a ele — disse Royce — .O Código é muito claro. Ele viaja por prazer. E isso está estritamente proibido.

— Mas está tão bonito vestido de couro negro… — disse Allie, sorrindo para Aidan.

Piscou um olho para ele. Logo virou para Royce.

— Fez bem, Royce — o sorriso de Aidan era sagaz e viril — .Acreditava que jamais veria o dia em que teria uma amante.

— Tome cuidado onde põe os olhos — Royce o advertiu brandamente.

— A gente tem que olhar, se vive e respira.

— Nunca vai mudar — replicou Royce, agarrando agarrou o ombro de Aidan com grande afeto. Virou para .Allie, que estava muito interessada naquela estranha conversação — .É o maior trapaceiro de todos, Ailios… Não se apaixone por seu lindo sorriso e suas bonitas palavras.

— Não se preocupe — disse Allie — .Já me apaixonei… pela primeira vez em minha vida.

Royce pareceu surpreso, mas não sorriu.

Allie ficou assombrada por ter dito aquilo tão abertamente, mas era a verdade. Nunca deu prioridade aos homens, mas aquilo era distinto. Estava se apaixonando, embora isso não fizesse parte do plano. E estava segura de que era correspondida, e não porque todos os homens com quem saiu acabavam se apaixonando por ela cedo ou tarde. Acreditava sentir as emoções de Royce.

Então ele tocou seu cabelo.

— Eu também gosto de você.

Allie se sentiu desalentada um momento, mas Royce tinha um olhar tão cálido que suas dúvidas se evaporaram. Havia montes de homens incapazes de dizer essa palavra que começava pela letra...

Aidan clareou a garganta.

— Possivelmente seria uma boa tomar uma taça de vinho antes de partir. Para celebrar os assuntos da cama… e do coração — parecia estar se divertindo.

Allie não entendeu, mas Royce parecia outra vez um pouco incomodado. Mesmo assim, virou para o enorme aparador no qual guardava o vinho em uma vitrine de cristal. De repente parou.

Aidan esticou os ombros.

A escuridão caiu à velocidade de um raio… e também veio um frio polar.

Aidan correu até a coleção de espadas que tinha pendurada na parede e tirou uma de sua capa. Deu uma olhada à folha embotada e a atirou para o lado. Enquanto tirava outra, Royce abriu um baú e tirou uma semiautomática.

— Aidan — atirou para ele a espada desembainhada.

Aidan a agarrou com toda facilidade pelo punho. Allie correu para Royce enquanto a seu redor começavam a materializar-se demônios.

— Fique atrás — disse Royce.

Allie estava a ponto de protestar quando sentiu o golpe. Apanhou-a de surpresa, antes que pudesse tentar se defender. Gritou ao ser atirada para o outro lado do salão e se chocar contra a chaminé de pedra.

Royce rugiu, furioso, e começou a disparar.

Allie ficou de joelhos e viu Aidan decapitar meia dúzia de demônios com tanta destreza e velocidade que aquilo parecia a cena final de um filme de Hollywood. Royce disparava no mesmo demônio que os atacou no South Hampton, mas o demônio se rodeou de um escudo de energia e as balas ricocheteavam nele e se pulverizavam por toda parte.

Ela agarrou um atiçador, mas ficou onde estava.

Aidan estava se encarregando de outros demônios, e Royce e o loiro de South Hampton pareciam absortos em sua luta. Desta vez, entretanto, se aquele demônio se aproximasse, Allie não se limitaria a lhe arrancar um olho: apontaria diretamente para seu coração de forma impassível.

Royce atirou pro lado a semiautomática, que ficou sem balas. Lançou uma descarga de energia, mas o demônio a deteve e sorriu, deixando descoberto seus dentes brancos e reluzentes.

Allie enrijeceu, alarmada, e pensou: «Não, Royce!».

Uma adaga apareceu na mão de Royce, mas como se tivesse ouvido seu grito silencioso, como se soubesse que queimava de vontade de correr para seu lado e ajudar, Royce virou para para olhar pra ela.

— Fique atrás.

O demônio atirou uma faca. Allie viu. Ele, não. Ela gritou para avisá-lo.

Royce girou, mas a faca cravou em seu peito. Allie ficou paralisada de horror.

Royce permaneceu erguido um momento, sem se mover. Em seguida atirou a adaga. Lançou-a com extrema precisão, e Allie se deu conta de que cravaria naquele porco. Mas o demônio loiro evaporou no instante em que a lâmina parecia atravessar seu peito, e a adaga caiu no chão. Os dois demônios que restaram desapareceram também, deixando pra trás uma dúzia de mortos sobre o chão do grande salão… e a Royce.

Royce cambaleou e caiu de costas.

O punho da faca saía de seu coração. Allie correu para seu lado e, ficando de joelhos, verteu sobre ele sua luz branca. Royce não ia morrer, por mais grave que parecesse sua ferida. Não podia morrer. Era um herói, um Mestre, O Salvador da humanidade e o amor de sua vida! Ela não pôde devolver a vida à garota morta, mas sem dúvida poderia salvar Royce.

Começou a sentir pânico. Royce puxou sua mão. Estava mortalmente pálido. Mas sorriu.

— Não, garota. Deixe-me ir.

Estava morrendo. Allie sentiu que sua vida escapava. Mas podia curá-lo. O curaria. Aterrorizada, verteu sobre ele toda a luz branca que pôde reunir e procurou manter o medo afastado.

— Ailios — Royce a apertou com mais força, com o olhar fixo nela, — me deixe morrer.

Allie o olhou horrorizada.

— Não fale isso. Não fala sério. Não permitirei que morra! Te amo!

— Por favor — disse ele brandamente. E sua mão afrouxou.

Allie sentiu que a vida escapava de Royce. Viu que uma luz branca e dourada escapava por cima de seu corpo.

— Não! — frenética, verteu mais luz branca sobre ele, através dele, mas tudo estava acontecendo muito depressa.

Royce olhou para Aidan. «Deixem-me ir. Chegou minha hora». Mãos fortes agarraram Allie por trás.

Mas ela ouviu Royce e gritou, furiosa com Aidan e aterrorizada. Começou a lutar, mas Aidan não a soltou. Cheia de angústia, lançou luz branca para Royce, mas Aidan estava interferindo com seus poderes… e Royce apagava rapidamente.

«leve-a Aidan, e a proteja».

— Não!

Royce sorriu pra ela, e aquela luz branca e dourada ascendeu girando para o teto, e seus olhos cinzas ficaram cegos. Allie gritou.

— Nãooooooo!

Lutou para ir junto dele, mas Aidan a afastou. A luz branca e dourada pendia sobre eles.

 

Allie chorava e chorava.

Os paramédicos tinham estendido o corpo de Royce na maca, coberto com uma manta, e estavam tirando do quarto. Os carros da polícia local estavam estacionados no pátio, e os agentes se encontravam no vestíbulo, com Aidan e a senhora Farlane. A governanta, que chorava, parecia estar ciente dos segredos de seu senhor. Os demônios mortos tinham desaparecido, claro. Seus corpos tinham começado a se desintegrar imediatamente, e a não ser que fosse feita uma investigação forense, não encontrariam seu rastro. Mas pelo murmúrio de vozes e os trechos de conversas que ouvia, Allie sabia que a polícia conhecia a verdade. Um dos agentes estava falando de que as bandas das Terras Altas foi turbulenta nos últimos anos: o lugar típico para batalhas daquele tipo. O outro já tinha chamado a Scotland Yard. Provavelmente, o governo britânico também tinha seu CAD.

Como era possível que Royce tivesse morrido?

Allie se dobrou pela dor. Compreendeu muito tarde a premonição de Tabby. Então ouviu passos.

Levantou o olhar. Aidan estava ali. Tinha o rosto cansado e uma única lágrima corria por sua bochecha. Allie não hesitou. Levantou num salto e correu para ele com os punhos fechados. Ele a agarrou pelo braço. Allie levantou o joelho. Pretendia machucá-lo, mas ele virou e se esquivou do golpe. Segurou ela com força. Allie resistiu. Queria destroçar seu rosto. Queria sangue. Ele impediu que curasse Royce: ela poderia salva-lo.

— Te Odeio! — gritou — . Me Solte! Nunca te perdoarei por isso, bode.

Aidan a soltou e ela golpeou seu peito, mas era um muro de músculos e machucou os punhos. Aidan a agarrou pelos pulsos.

— Basta, garota. Eu também gostava dele — interrompeu.

Allie desabou contra o sólido muro de seu corpo e voltou a chorar. Aquilo não podia estar acontecendo. Royce era um grande homem, um grande herói, um Mestre. Merecia viver! Aidan a abraçava com delicadeza, e ela necessitava que a reconfortasse, embora na realidade não houvesse consolo para sua dor.

«Deixe-me ir».

Por que Royce quis morrer?

«Quantos anos tem?».

«Isso não importa, Ailios».

Tanta pena e tanta dor em um homem tão belo…

«Estou há muito tempo esperando esta noite».

Allie tremeu, mas deixou de chorar. Royce a esperou por quinhentos e oitenta anos. Aidan a soltou e se afastou. Allie enxugou os olhos e virou para olhá-lo. Seu coração batia com violência. Ele estava servindo dois copos de uísque. Bebeu o seu quase de um gole e virou para ela com o outro.

— Você também é um Mestre.

Aidan hesitou antes de lhe oferecer o copo. Allie negou com a cabeça.

— Pode viajar no tempo, não tente negar. Disse que tinha seguido Royce até aqui desde 1430.

Ele olhava pra ela com receio.

— E isso o que importa?

— Importa, e muito.

Aidan a olhou fixamente. Em seguida murmurou:

— MacNeil me pediu que seguisse Royce. Quando te deixou aqui, deveria ter ido pra casa, no Awe, à época ao qual pertencemos, enquanto fui a Roma. Tenho que voltar para meu tempo.

Ela o olhava fixamente enquanto pensava com rapidez forçada.

A compaixão encheu os olhos azuis de Aidan.

— Te levarei pra casa, garota. Só tenho que pensar um pouco, porque você precisa de um Mestre que te ajude aqui, em seu tempo.

Ela não sabia do que estava falando.

— Me leve ao passado! — gemeu, tremendo incontrolavelmente — .Não quero ir pra casa! Preciso retroceder no tempo, para esta manhã ou para ontem à noite. Contarei a ele o que aconteceu e desta vez impediremos que ocorra. Retrocederei no tempo para impedir seu assassinato — claro, essa era a solução. Retroceder no tempo e impedir sua morte.

Aidan empalideceu.

— Não se pode retroceder no tempo para trocar o futuro. Está proibido.

— Quem se importa? — gritou ela — .Tenho que impedir que assassinem Royce! Tem que me ajudar!

— Não posso romper essa norma.

— O que? — estava atônita. Logo ficou furiosa — .Você odeia as normas. São uma prisão para sua alma!

Ia se negar a ajudá-la agora? O que estava acontecendo?

— Garota, eu só quebro as normas sem importância. MacNeil me arrancará a cabeça se fizer você retroceder no tempo para que possa mudar o que aconteceu hoje — falava com expressão sombria e amarga — .Além disso, Royce desejava deixar esta vida. Eu o ouvi dizer muitas vezes que estava cansado de lutar. Não fará com que mude de ideia em um único dia.

Allie o olhava com incredulidade. Sua mente voava vertiginosamente. Aidan não a ajudaria a retroceder para essa manhã ou para o dia anterior. Allie via em seus olhos. Royce queria morrer. Ela tinha que aceitar, embora não entendesse. E ele não ia mudar em um só dia.

Allie respirava agitadamente. Seus sentidos lhe diziam que Aidan conhecia bem o Royce e que estava dizendo a verdade. Trocou imediatamente de planos. Para desfazer sua morte, precisava passar tempo com ele. Precisava de tempo para o convencer que tinha um futuro pelo qual valia a pena lutar.

E queria passar tempo com ele — uma vida inteira—, embora fosse em um passado primitivo.

Aidan pareceu adivinhar suas intenções, porque seus olhos aumentaram.

— Não — disse Aidan.

— Ainda não te pedi isso!

Ele sacudiu a cabeça e bebeu a metade do copo de uísque que tinha servido para ela.

— Me leve com você para o passado — sua determinação se fortaleceu.

Ele a olhou fixamente.

— Para 1430? Royce vai querer me matar.

— Não, você não entende. Na outra noite, quando nos conhecemos, ele veio do século XV. Me deixou aqui, mas me esperou quase seiscentos anos. Você não entende? Há um motivo para nos encontrarmos assim. Royce me ama. E eu o amo. Você vai voltar ao passado. Me leve contigo. Leve-me para ele, no seu tempo! — suplicou veementemente.

Aidan respirou fundo.

— Garota, o desejo e o amor não são a mesma coisa.

Ela o agarrou pela mão.

— Vou contigo.

Aidan vacilou.

Allie aproveitou a oportunidade.

— Por favor. Farei qualquer coisa, o que for preciso, para voltar contigo ao passado e ver Royce.

— Está me oferecendo sua cama? — parecia incrédulo.

— Tudo… menos isso.

Ele sacudiu a cabeça, ainda decidido a negar.

— Você não vai gostar do meu tempo. E também não vai gostar muito Royce nele.

— Não pode negar. Por favor… — o agarrou com mais força. O pânico começava a se apoderar dela. Aidan tinha que fazer aquilo por ela.

Ele a olhou nos olhos.

— Tem certeza, senhorita Allie? De verdade? E se você estiver errada? E se Royce não te ama como você a ele?

— Tenho certeza! — ela gritou, e agarrou sua mão.

Aidan bebeu de seu copo e murmurou:

— Não sei porque Royce te deixou aqui, mas tem que haver alguma razão — e a rodeou com seus braços.

Allie se agarrou com força. E cruzaram voando o salão, atravessaram as paredes e saíram para o universo… de volta a 1430.

 

Castelo de Carrick, Morvern, Escócia

15 de maio 1430

Allie abriu os olhos. A dor finalmente passou. Podia respirar. Desta vez se sentiu muito pior que a primeira, e se assustou por ainda estar viva. Enquanto esteve envolvida por uma dor insuportável, acreditou que morreria. Agora notou que sua cabeça doía como se seu crânio estivesse a ponto de explodir. Olhou o artesanado do teto alto. As paredes eram de pedra e o sol brilhava lá fora, além das formosas janelas de cristal chumbado.

— Descanse mais um pouco.

Ela piscou e viu que Aidan se abaixava sobre ela com os braços cruzados. De repente se lembrou de tudo. Royce foi assassinado e ela retrocedeu no tempo. A dor se apoderou dela, afogando-a, mas conseguiu domina-la. Pensou que viajar no tempo era um inferno. Queria não ter que voltar a fazê-lo, a menos que não tivesse outra opção, para retornar pra casa. E só os Deuses sabiam quando seria isso.

Sentou-se, ainda um pouco fraca e tremente. Tinha a sensação de que esticaram seu corpo como uma borracha e golpeado com martelos. Mas na noite anterior à festa, quando tentou ressuscitar àquela garota, seu corpo passou por um calvário. Fazer amor com Royce também cobrava seu preço.

— Conseguimos? Em que ano estamos? — conseguiu perguntar. Sua voz soava rouca.

Ele lançou um olhar pra ela.

— Hoje é quinze de maio de 1430.

Ela se sobressaltou.

— Como sabe?

— Não preciso olhar um calendário, garota. Faz quase duas semanas que segui Royce até o futuro — acrescentou — . Decidi dar a ele algum tempo para te esquecer.

Allie levantou.

— Não vai me esquecer em uma semana ou duas. Esperou-me seis séculos, lembra? — olhou ao seu redor. Estavam em uma bela igreja ou uma capela. Havia várias filas de bancos de madeira polida de ambos os lados da nave e um altar ao fundo. Olhou, confusa, o formoso crucifixo dourado entalhado com pedras preciosas onde pendurava Jesus.

— O que fazemos em uma igreja católica?

— Estamos na capela de Carrick. Aqui todos somos católicos, garota. Até os Mestres.

Allie se limitou a olhá-lo. Os Mestres tinham a bênção dos Antigos, não de Cristo; Aidan tinha que estar equivocado. Mas na realidade não se importava. Seu coração começou a acelerar e começou a andar para a enorme porta de madeira. Ouviu que Aidan a seguia. Mas antes que pudesse abrir a porta, Aidan pôs a mão sobre ela e a manteve fechada.

— Tome cuidado, garota — disse.

Ela se voltou.

— Não te perdoei, mas obrigado por me trazer aqui. Agora, me deixe ir. Tenho que encontrar Royce.

Aidan disse brandamente:

— Estou seguro de que não se alegrará de te ver.

Allie ignorou seu comentário absurdo e abriu a porta. Saiu para o pátio interior de Carrick… e vacilou.

Tinha pedido para retroceder no tempo. Mas não teve tempo de pensar no que a aguardava. Reconheceu vagamente o pátio, embora não estivesse pavimentado. Viu a entrada do edifício maior, em frente a ela, e compreendeu que dentro estava o grande salão. As torres das esquinas eram as mesmas. Mas isso era tudo.

O pátio estava cheio de gente: de gente medieval. As mulheres usavam simples vestidos de linho e os pés descalços. Duas delas tinham mantos xadrez colocados nos ombros. Os homens que viu cruzando a esplanada usavam os mesmos casacos que as mulheres, mas só até o joelho, e também seguiam descalços… e armados com espadas e adagas. Um par de porcos passeavam por ali, e um menino pequeno usava presa uma corda em uma vaca leiteira. Abundavam os excrementos de animais. Do outro lado do pátio latiam grandes cães encadeados perto de uma parede. Latiam para o Aidan e para ela. Os homens e as mulheres que passavam viraram para olhá-los.

Allie enrijeceu. Chamavam muito a atenção. Ele estava com jeans, camiseta e jaqueta de couro, e ela usava uma saia pelo joelho, uma camiseta de linho e sapatos de plataforma. A surpresa começava a converter-se em suspeita.

— Estamos metidos em confusão? — sussurrou para Aidan. Não estava assustada exatamente, porque aquelas pessoas não eram demônios malignos. Mas tudos os filmes sobre a Idade Média que tinha visto pareciam desfilar por sua cabeça. E a ignorância movia às pessoas a cometer atrocidades.

— Viram coisas mais estranhas, garota — disse Aidan. E enquanto falava Allie viu que os homens e as mulheres se apartavam com determinação. Nesse instante compreendeu que a vida na Idade Média não era muito diferente a de sua época. As pessoas preferiam viver na ignorância e não pensar muito em fenômenos e acontecimentos que não podiam explicar. Ver Aidan e ela vestidos assim não podia ser nem a metade da perturbação que ver um amigo ou um familiar assassinado em um crime de prazer, ou presenciar uma batalha entre Mestres e demônios quando as armas eram invisíveis.

— Desconfiam porque não nos conhecem — disse Aidan — .Nesta época, a gente é amigo ou inimigo, não há meio termo — em seguida levantou a voz e se dirigiu a dois homens que lançaram mão aos punhos de suas espadas — .Sou o Lobo de Awe e grande amigo de Royce o Negro. Soltem suas espadas — os olhava fixamente.

Allie viu imediatamente que os olhos dos dois homens se empanavam. Olhou para Aidan e ao ver um brilho em seu olhar compreendeu que tinha grandes poderes de encantamento. Os homens soltaram as espadas, mas olharam para ela. Aidan se moveu tão rapidamente que Allie não soube o que estava ocorrendo até que já tinha ocorrido. De repente agarrou uma espada e a aproximou do pescoço de um dos homens.

— Mostre respeito à dama — disse brandamente — .É convidada de Royce.

Allie umedeceu os lábios. No que estava pensando? Aidan podia flertar e ser encantador, gostava de vestir à última moda e era um pouco arrogante para seu gosto, mas era também tão feroz e poderoso como Royce, mais inclusive, porque o vermelho de sua aura quase cegava. Sua aura tinha também algo que Allie não conseguia entender: uma pincelada de negro, como gotas de chuva escura. Mas ela esqueceu tudo isso. Atreveu-se a amaldiçoá-lo e golpeá-lo.

Soou um corno.

Allie deu um pulo e esteve a ponto de torcer o tornozelo. Virou-se para olhar para o alto da torre que havia atrás dela. Não teve que perguntar o que acontecia: já sabia.

Royce havia voltado. Allie sentia, sentia sua energia enorme, dura e poderosa, incrivelmente viril e indômita. Estava além dos muros do castelo. A emoção se apoderou dela e a deixou sem respiração, fez com que seu corpo se contraísse dolorosamente. Aquele não era o momento… ou talvez sim. Porque depois de saltar em seus braços, não lhe ocorria nada melhor que estar em sua cama, fazer amor e celebrar que estivesse vivo e, depois, se aninhar a seu lado, conversar e beijar.

A alegria e o alívio lutavam dentro dela.

Ali adurante estava a porta com suas quatro torres, a mesma pela qual Royce entrou com sua Ferrari no outro dia. Allie correu para ela.

— Espere aqui! — gritou Aidan — .Deixe assimilar o que fizemos.

Allie não lhe deu ouvidos e seguiu avançando a tropeções sobre seus sapatos de salto alto. Desejava ter tido a precaução de colocar seu Nike. Penetrou no escuro corredor de pedra pelo qual se cruzava a porta… e encontrou grades de ferro.

Seu coração batia com violência. O restelo estava em baixo, porque estavam no século XV, não em tempos modernos. Do outro lado do corredor havia outro restelo em baixo e, mais à frente, uma praça ao ar livre, uma pequena barbacã e uma ponte levadiça que descia lentamente. Viu em seguida que um grande grupo de homens a cavalo se aproximava da ponte. O sol brilhava com força em suas armaduras.

Seu coração parou enquanto agarrava as frias barras de ferro. A aura de Royce ardia, vermelha e incandescente, dominando o laranja e o dourado e fazendo quase invisíveis o azul e o verde. Ia à frente do grupo de cavaleiros e voltava da batalha. A energia do planeta Marte e dos Deuses da guerra ainda irradiavam de dentro dele.

Ela engoliu saliva, presa em uma emoção e excitação incontroláveis.

Não tinha pensado em como seria voltar a vê-lo naquele século. Embora tivesses se conhecido quando ele procedia de seu tempo, não tinham feito mais nada além de trocar uma poucas palavras e lutar uma só batalha antes que ele retornasse à Idade Média. A lembrança que tinha dele não tinha nada a ver com aquele highlander embelezado com cota de malha, túnica xadrez e calçado com botas. Nunca esqueceria Royce saindo de sua Ferrari com camiseta e calça negra. Royce na cama, rodeado por travesseiros e lençóis Ralph Lauren. Royce lhe oferecendo vinho, com um relógio Bulgari de ouro de dezoito quilates dançando no pulso. Royce lhe observando do outro lado da mesa coberta com toalha de linho e taças de cristal.

O homem que cruzou a ponte levadiça estava montado em um enorme corcel e usava um casaco de malha sobre o gibão. Tanto o cavalo quanto seu cavaleiro estavam salpicados de sangue.

Então a grade começou a subir.

Allie engoliu a saliva com dificuldade e disse a si mesma que era um absurdo ficar nervosa. Não deveria se surpreender ao vê-lo vestido como um Cavaleiro medieval, porque o viu vestido assim na festa de seu pai. Isto, entretanto, era distinto: vê-lo em sua época resultava estranho e até certo ponto perturbador. Sua mente custava identificar aquele homem com o Royce com quem passou vinte e quatro horas. O homem que se aproximava parecia quase um desconhecido. Mas era o mesmo, no fim das contas, e ela tinha que recordá-lo. Era seu guerreiro dourado, seu amante, o homem que lutava contra os demônios em todas as épocas, o Mestre dourado no qual sua mãe lhe havia dito que confiasse.

O restelo tinha subido até a altura de sua cintura. Allie se agachou, passou por baixo e correu pelo corredor de pedra. Ao fazer isso, algo fez com que levantasse a vista e viu uns buracos acima, no teto. Apareceu um rosto, e se assustou.

Apertou o passo. Sentiu a hostilidade. Justo antes de que chegasse ao segundo restelo, elevado quase na altura de sua cabeça, uma flecha passou assobiando a seu lado. E depois uma dúzia de flechas cravaram em seu caminho.

Estavam atirando nela.

Frenética, meteu-se sob o restelo e ouviu que Royce gritava:

— Parem de atirar!

Ela saiu à luz cinzenta das Terras Altas.

Os olhos cinza de Royce aumentaram quando cruzou a galope a praça de terra e se interpôs entre ela e a barbacã. Allie parou, trêmula pelo ataque, mas cheia de felicidade por vê-lo de novo. O cavalo se empinou e Royce puxou sem piedade as rédeas para acalmá-lo. Seu olhar se chocou com o de Allie. Era duro e incrédulo.

Allie sorriu, tremendo. Assim que ele a tomasse entre seus braços, toda sua angústia se desvaneceria. Não?

Mas os olhos duros de Royce deslizaram desde seu peito quase nu para sua saia e suas pernas. Olhava pra ela com desejo descarado e implacável. Então saltou de seu cavalo, que voltou a empinar. Royce virou e lhe deu um forte pontapé no flanco. O animal se acalmou e baixou a cabeça docilmente.

Allie tentava respirar. Ele não a olhava. Tinha uma expressão tensa, e ela não sabia se gostava de como a olhou antes de desmontar. Royce entregou seu elmo e suas luvas a um rapaz. Seus gestos eram bruscos, quase furiosos. Tinham que conversar. Ela tentava assimilar o que estava acontecendo. Royce era o mesmo (teria jurado), mas era também tão diferente… Tão medieval…

— Royce? — disse, indecisa.

Ele virou para olhá-la. Seus olhos brilhavam.

Allie compreendeu com assombro que estava zangado. Mas não podia ser com ela. Talvez não soubesse que eram amantes, mas estava apaixonado por ela. Allie não tinha nenhuma dúvida de que ele mesmo disse que a esperou durante séculos.

Então ele se aproximou e ficou sobre ela.

— Deixei-te em seu tempo — grunhiu.

O que estava acontecendo? Enquanto o olhava pasmada, a alegria de Allie se desvaneceu por completo.

— Royce… — umedeceu os lábios, terrivelmente insegura.

Aquela era sua recepção calorosa? Pôs as mãos sobre seu peito. Seu robusto coração palpitava ali.

— Estou tão feliz em te ver… Tenho tantas coisas pra te contar…

Ele a olhou com surpresa. Ela esperou que sorrisse e que apagasse todas suas dúvidas e sua confusão. Mas ele disse lentamente:

— Toca-me como se nos conhecêssemos bem — seus olhos entreabriram, cheios de fria suspeita.

Allie começou a se sentir doente. Aquele era Royce quinhentos e oitenta anos antes que fizessem amor. Não sabia que eram amantes, mas a queria, não?

— Nos conhecemos muito bem — murmurou, — em meu tempo.

A expressão de Royce mudou. Um olhar satisfeito e presunçoso posou sobre seu belo rosto. Mas então disse:

— Tem que voltar para seu tempo.

Allie baixou a mão.

— Não… não se alegra em me ver?

Estava chocada. Custava assimilar o fato de que ela o conhecia intimamente, mas ele não. Então acrescentou para si: «ainda».

— Pareço alegre? — perguntou ele.

Não, não parecia absolutamente. O que estava acontecendo? Onde estava seu amante, o homem pelo qual voltou no tempo?

— Seu amante — disse ele com um brilho no olhar— , te espera em seu tempo, não neste.

Allie não pôde reagir. Royce era terrivelmente frio e cruel. Não lhe deu boas-vindas, e a colocou em uma posição incômoda e defensiva. Estava aturdida e começava a se sentir rejeitada. Mas os homens não a rejeitavam. Cortejavam, perseguiam, apaixonavam-se por ela. Por que ele era tão duro, tão cruel? Podia ser tão diferente do homem com quem dormiu a noite anterior?

— Royce… — Aidan se aproximou da porta.

Royce ficou tenso e virou.

— Claro, tinha que ser você, Aidan. Você a trouxe. Está se divertindo?

Aidan não sorria. Parecia fora de lugar ali em pé, com seu jeans e sua jaqueta de couro, de frente para Royce, com suo casaco de malha e sua túnica xadrez.

— O dia de hoje não teve nada de divertido. Deveria ser mais amável com a senhora.

Royce ficou olhando pra ele e entreabriu os olhos. Allie viu estalar o vermelho de sua aura.

— Então, agora é você quem a defende — disse brandamente.

Aidan sacudiu a cabeça e fez uma careta.

— Não comece, tolo. Trouxe-a para Carrick, não para Awe.

Royce cruzou os braços, seus bíceps esticaram. Tinha uma expressão terrivelmente perigosa no rosto e um bracelete de ouro brilhava em seu braço. Seu sorriso era implacável.

— Então o tolo é você. Leva isso contigo quando partir.

Allie mordeu o lábio, atônita. Royce não a queria ali. Aidan se sobressaltou.

— Não fala sério.

— Se quisesse trazê-la comigo, teria feito — disse Royce— . A deixei em sua época porque tinha motivos para fazer assim. E eu não gosto que me contradigam — olhou para Allie com irritação.

Ela tinha vontade de chorar. Royce se comportava como se a odiasse. Nem sequer era o mesmo homem, o highlander que foi em seu auxílio durante a festa na casa de seu pai.

— Não pretendo te contradizer — estalou Aidan, tão zangado quanto— . Você a deixou lá porque tem medo.

— Deixei-a em Carrick para protegê-la — respondeu Royce, enfurecido.

— Chega! — soluçou Allie— . Parem de brigar como duas crianças!

Eles a ignoraram. Aidan disse:

— Em sua época, não há ninguém no Carrick que possa protegê-la.

Royce ficou tenso.

Allie olhou pra ambos, certa de que Royce entendeu imediatamente o que Aidan quis dizer. Ele virou lentamente para olhá-la.

Inquieta, ela tentou decifrar seus sentimentos. A maioria dos homens sofreria um choque ao saber de sua morte. Seria perturbador conhecer a data exata em que aconteceria. Os olhos cinza de Royce cravaram nela.

E Allie viu em seus olhos que tinha compreendido. Quis aliviar sua angústia, apagar sua angústia, seu medo. Quis lhe dizer que aquilo não era o fim, que podiam dar um jeito,mudar de algum modo. Mas uma máscara caiu sobre seu rosto.

— Morrerei em sua época — seguia olhando pra Allie enquanto falava com Aidan. E não parecia se importar.

— Sim — disse Aidan— . Morreu lutando por ela, como teria feito qualquer Mestre.

Royce assentiu com a cabeça.

Allie seguia querendo reconfortá-lo, embora ele não parecesse necessitar de consolo. Nem sequer parecia aborrecido. Ela voltou a pôr a mão sobre seu duro peito.

Odiava o tato do casaco de malha. Mas apesar dela, sentiu que Royce ficava tenso.

— Foi um engano. Um terrível engano. Não tem que acontecer assim — tentou sorrir. Mas sentiu horrorizada que seus olhos enchiam de lágrimas. Passaria muito tempo antes que superasse sua morte.

As densas e escuras pestanas de Royce descenderam.

— Você me ama querida. Chorou por mim.

Allie assentiu lentamente.

— Você também me ama, Royce.

Ele deixou escapar um som bronco e desdenhoso. Só então levantou os olhos. Allie esqueceu de respirar. Tudo era igual: sentiu seu desejo, imenso e descarado, uma presença esmagadora que pulsava entre eles. Era como se houvesse um vínculo entre os dois que conectava seus desejos, seus corpos. Ela baixou a mão sobre o casaco de malha, para sua cintura. Um aumento impressionante tinha aparecido perto do escudo de aço.

— Necessito vinho — disse Aidan. Deu meia volta e voltou a cruzar a barbacã.

Allie ficou a sós com Royce, embora ficassem ainda vários Cavaleiros ao longe. Tremeu e esperou que ele a tomasse em seus braços, a estreitasse e lhe dissesse que tudo daria certo. Então poderiam entrar no castelo e subir para seu quarto. E quando amanhecesse tudo voltaria a estar em ordem. Sabia. Não era muito tarde. Superariam aqueles terríveis momentos iniciais.

Ele agarrou sua mão e a separou de seu corpo.

— Não me provoque.

Os olhos do Allie aumentaram.

— Não estou te provocando, Royce.

Ele torceu o sorriso.

— Seu amante está morto.

Ela respirou fundo.

— Não, está vivo — soluçou— . E dou as graças aos Deuses por isso.

— Confunde dois homens muito distintos — disse ele asperamente.

Allie retrocedeu sacudindo a cabeça.

— Por que está fazendo isto comigo?

— Por que me seguiu até minha época? — replicou ele.

Allie tentou controlar a dor que sentia.

— Não quer que fique aqui?

— Não, não quero.

Suas palavras foram como um golpe. Allie não conseguia entender o que queria dizer, nem por que, nem o que significava aquilo para ela, para os dois. Nunca tinha sofrido tanta crueldade.

— Não te entendo — disse com voz pastosa— . Disse que esteve me esperando por seiscentos anos. Mas não se comporta como um homem apaixonado.

Os olhos de Royce aumentaram.

— Sou um soldado de Deus — disse bruscamente.

Assinalou com a cabeça para a barbacã, ordenando que o seguisse, e pôs-se a andar para ali.

Allie não se moveu. O homem que se afastava dela não era o homem por quem estava apaixonada. Estava dolorosamente claro. O que fez, indo a seu tempo? E o que devia fazer agora?

Enxugou a humidade do rosto. Tudo dava voltas. E a pena retornou, ardente e renovada. Com ela voltou a confusão.

— Eu posso te fazer gozar, pequena.

Allie ficou tensa. Não tinha prestado atenção nos homens de Royce. Vários deles tinham formado um semicírculo a seu redor.

O gigante que acabava de falar sorriu, deixando ver as rachaduras de seus dentes. Era enorme, não se barbeava e tinha o casaco manchado de sangue. Não usava casaco de malha, mas sim uma larga espada, uma adaga e uma bola com pontas agudas. Estava sujo e fedia a suor.

Havia outros cinco homens com ele, todos grosseiros, sujos e primitivos, e todos eles olhando-a com lascívia.

Allie começou a se alarmar.

Estava acostumada que a admirassem. Os homens olhavam constantemente seus seios exuberantes. De repente lamentou estar usando uma camiseta super sexy, num tamanho muito pequeno para ela, uma saia tão feminina e sapatos altos. Pela primeira vez em sua vida, não era o centro das atenções; Era o objeto de uma luxúria selvagem e primitiva. Sentia como se aqueles homens fossem lobos famintos dispostos a disputar por seu cadáver antes de rasgá-lo e devorá-lo. E sentia um brilho de medo, apesar de nunca se assustar.

De repente, Royce passou a seu lado, lívido. Allie se sentiu imensamente aliviada, mas saiu instintivamente de seu caminho. Furioso, ele se aproximou do primeiro dos gigantes, que retrocedeu rapidamente.

De repente, Royce tinha uma adaga na mão e a apertava entre as coxas do gigante, sob seu casaco. Allie tampou a boca com a mão. Não se atrevia a gritar.

— Olhe pra ela mais uma vez — disse Royce brandamente— . Vamos, se atreva.

O gigante estava branco.

— Sinto muito, meu senhor. Não voltarei a olhar.

— Se a olhar uma só vez mais, se voltar a lhe dirigir a palavra, pendurarei seus ovos em minhas muralhas e deixarei que sequem ao sol — se ergueu e embainhou a adaga.

O gigante ficou de joelhos. Abaixou a cabeça.

— Sim, meu senhor.

— Lady Ailios é minha convidada, está sob meu amparo — disse Royce com aspereza— . Avise a todos os homens do castelo — deu meia volta e cravou um olhar ardente nos olhos de Allie.

Ela estava paralisada. Royce falou sério. Ela não era alheia à maldade, mas sim aquele tipo de violência. Royce era um guerreiro sagrado, mas ela não duvidava de que seria capaz de capar, sem pensar duas vezes, ao homem que ousasse olhá-la com desejo. E por mais grosseiro que fosse aquele homem, não era malvado: só um caipira.

Aquele era um mundo selvagem e primitivo.

E aquele homem não era seu amante do século XXI.

Não havia nada de civilizado nele. Era absolutamente cruel, terrivelmente machista, um bárbaro. Um filho daquela época, feroz e primitivo.

O que fez?

A mandíbula de Royce enrijeceu. Uma estranha luz brilhou em seus olhos.

— É tarde para se arrepender.

Ela engoliu saliva com esforço.

— Cometi um engano.

O rosto de Royce endureceu. Ainda mais incomodado que antes, indicou que fosse na frente dele para cruzar a porta. Allie obedeceu.

Houve uma grande batalha com um clã inimigo, e ainda tinha o corpo quente e endurecido pela briga. Como a maioria dos homens, estava acostumado a desfrutar de sexo depois de lutar, e tinha voltado para Carrick pensando em fazê-lo. Mas descobriu Ailios em sua casa, esperando-o com os olhos cheios de amor.

Estava furioso! A deixou no futuro com um claro propósito. Não necessitava daquela tentação agora… nem nunca.

Seria um alívio imenso enterrar-se em sua carne cálida e tremente…

Ela brilhava com aquela luz pura, sagrada, curativa. Podia banhar-se nela…

Estava tão cansado de lutar…

Endureceu para se defender contra aquela fraqueza, para se defender dela. Olhou-a de soslaio. A luz que a rodeava era deslumbrante, como se o ar que a envolvesse estivesse impregnado de umidade depois de uma tempestade. Seu pulso acelerou e desviou o olhar. Apesar de estarem separados por todo o salão, quase podia saborear sua pureza e seu poder. Sentia o calor que desprendia de sua carne trêmula.

Mas ele não estava ferido e não necessitava que Ailios o curasse. Nunca contemplou tanto poder: devia ser esse o motivo de sua fascinação. Porque nunca passou um dia inteiro, e muito menos duas semanas, pensando em uma mulher. Nem sequer com Brigdhe, quando acabava de casar com ela e seguiam explorando sua paixão. Era um Mestre. Meditava a respeito das grandes questões do bem e o mal, a vida e a morte. O lugar da luxúria estava no quarto, nos estábulos, ou no bosque em uma tarde serena.

Mas desde que deixou Ailios no Carrick, em tempos modernos, estava inquieto, zangado e irascível. Em geral, todo mundo lhe desagradava. Tinha pensado nela frequentemente, apesar de suas boas intenções. Seu interesse não diminuiu: aumentou. Pensava nela inclusive quando estava na cama com outras mulheres. Mas foi pior ainda encontrá-la ali, em sua casa, em sua época: uma tentação que podia apartá-lo da vida que forjou tão cuidadosamente.

Mas Aidan tomou a decisão de levá-la ali porque ele morreu no futuro, na noite anterior.

Seu coração batia com força. Viveria quase seis séculos mais, e não sabia se sentia alegria ou desespero.

Cruzou o salão em direção a larga mesa de cavalete enquanto tentava assimilar sua morte futura. Desconhecia os detalhes, mas logo saberia. Todos os homens morriam algum dia, inclusive os Mestres. Mas isso deixava aberta a pergunta de como proteger Ailios.

Cheio de tensão e desejo, ignorou seu amigo Blackwood, que estava junto na sala, falando em voz baixa com Aidan. Serviu-se vinho em uma jarra com mão tremente. Sua mente girava vertiginosamente, mas apesar de tudo sentia a presença da mulher do outro lado da casa como se o ar fosse uma ponte de desejo e emoção que os unia.

Era tão pequena e formosa… Royce sentia as quebras de onda de tristeza que emanavam dela, banhando-o.

Maldição! Não se importava em ter ferido seus sentimentos por não haver dado as boas-vindas a sua casa… e a sua cama. Quando ela compreenderia que não eram amantes? Seu amante estava morto. E se ela dizia a verdade, se ele chegou a amá-la, essa era a prova evidente de que devia evitar seus encantos a toda custo. As muitas vezes que acordou nessas duas últimas semanas demonstravam que devia evitá-la ou se meteria em uma confusão que poria em perigo a ambos. Não podia ter uma amante, e muito menos se apaixonar por ela. Não devia haver outra Brigdhe. Embora as feições de sua esposa se esfumaram até ficar irreconhecíveis, jamais esqueceria o quanto sofreu por sua culpa. Nem queria esquecer.

Pelo menos, tomou Ailios antes de morrer.

Aquela certeza produziu nele uma euforia selvagem. Mas não conhecia os detalhes de como se desenvolveu sua paixão. Ignorava o que aconteceu, como foi. Não sabia que sons ela fazia quando alcançava o clímax, nem que sensações transmitia ao gozar ao redor de seu sexo. Poderia esperar quinhentos e oitenta anos para averiguar?

Resmungou uma maldição e bebeu seu vinho. Sua frustração não conhecia limites. Teria desfrutado fazendo migalhas ao McKale e pendurando seus ovos ao sol. Ainda gostaria de fazer. Ela era o motivo pelo qual se sentia tão inquieto como um jovem de vinte anos. Era inexplicável.

Voltou a encher a taça e ao virar a olhou contra sua vontade. Em lugar de desejar o que não podia ter, devia meditar sobre os fatos concretos. Moffat a perseguia e ela estava fora de seu tempo. Ela não conhecia os costumes das Terras Altas. Não podia passear pelo Carrick com aquela roupa, sem casaco, inflamando todos os homens. Seus homens a teriam violado se ele não tivesse saído para impor sua lei. Ailios vinha de uma época branda, de um lugar pacífico. Aqueles tempos eram duros e selvagens, e ela necessitava de amparo mais do que nunca, e não só contra Moffat e os Deamhanain.

Ele jamais a deixaria nas mãos de outro Mestre, porque seus congêneres eram implacáveis no que se referia à sedução, e ela acabaria na cama de outro assim que se deixasse enfeitiçar. Não falou sério quando disse que Aidan podia levá-la para Awe. Não permitiria.

MacNeil o elegeu para protegê-la, e não podia fazer isso no tempo de Ailios, se verdadeiramente morreu no futuro. Iona seria um lugar seguro para ela… mas primeiro teria que convencer MacNeil disso. Faria de algum modo. Até então, Ailios teria que ficar no Carrick, sob seu amparo.

Voltou-se para a garrafa em cima da mesa. Não era seu desejo feri-la. Não era um homem cruel. Mas tampouco ia sentir-se culpado. Só estava em dívida com uma mulher: sua esposa. Aquilo era culpa de Aidan, e de boa vontade teria reprovado que o desobedecesse e tivesse metido a todos naquela confusão. Mas agora Ailios estava em sua casa e devia tratá-la como qualquer convidado importante.

Saber o que devia fazer lhe acalmou um pouco. Quase apaziguado, decidiu oferecer vinho. Serviu outra caneca e se aproximou dela. Os olhos de Ailios aumentaram.

— Quer um pouco de vinho? — perguntou Royce com brutalidade. Não podia se arriscar a se mostrar amável com ela, além da pura cortesia. Mas curiosamente desejava sorrir. O sorriso de Ailios era como o sol das Terras Altas elevando-se por detrás do Ben Morre— . Vai se sentir melhor. Uma criada mostrará seu aposento.

Ela pegou a taça e a embalou com ambas as mãos contra seu seio grande e suave. Royce a olhou fixamente, sem se incomodar em esconder seu interesse. Qualquer homem olharia o que estava descoberto e desejaria apoiar a cabeça ali.

— Agora vais ficar amável comigo? — perguntou ela secamente.

Ele levantou o olhar.

— Precisa descansar — sem dúvida ela entendia que aquela sugestão era na realidade uma ordem— . Mas coma primeiro — acrescentou, se dando conta de que ela devia estar com fome.

— Não tenho fome, nem estou cansada — respondeu, olhando fixamente pra ele com os olhos terrivelmente húmidos— . E não tenho intenção de ficar aqui, com um ogro como você.

Suas palavras lhe queimaram. Recordou de que não se importava… e que jamais se importaria, apesar do que ela dissesse.

— Ficará aqui. Precisa de amparo. Verei se MacNeil permite que fique no santuário. Só desse maneira irá a Iona.

O olhar de Ailios se intensificou.

— Não penso ir a nenhum lugar, que não seja a minha casa. Peça para que Aidan me leve. Não quero seu amparo, nem preciso dele — parecia a ponto de chorar. Era hora de resolver a conversa.

— Tem meu amparo, queira ou não — começou a se afastar.

— E eu que acreditava que em meu tempo era um tirano… — murmurou ela.

Royce não parou, apesar de não ter entendido. Curioso, espiou sua mente. Conteve o fôlego ao ver seus pensamentos gráficos a respeito de suas proezas na cama: ao se ver penetrando-a lentamente e incitando-a, enquanto ela chorava e suplicava. Inclusive ouviu seus gritos de prazer. Seu pulso acelerou, quase cegando-o. Tentou pensar em outra coisa, mas era muito tarde. A fez gozar tanto… Se sentia satisfeito… e atormentado. Virou bruscamente.

Seus olhares se chocaram, e ela aumentou os olhos como se também soubesse o que Royce estava pensando.

Quando conseguiu afugentar aquelas imagens eróticas, ele disse:

— Aqui mando eu, lady Ailios, e exijo saber por que está tão magoada. Te salvei de meus homens. Vou te acolher sob meu teto, apesar de não te querer aqui. Não terá que procurar refúgio, nem alimento. Não dormirá à intempérie. Deveria estar contente — acrescentou com firmeza— . Outros a teriam atirado aos lobos… ou a teriam obrigado a se colocar em sua cama.

— Deveria estar contente? — riu, e sua risada soou como um grito— . Vim a este tempo de bárbaros para te buscar… e me encontro com um desconhecido cruel e sem coração! Estaria contente se me mostrasse alguma amabilidade, algum respeito… algum indício de que o homem com quem fiz amor durante toda a noite existe realmente.

Royce se perguntava se aquele era seu modo de seduzi-lo: recordando cada prazer que desfrutou, um prazer e uma satisfação que estariam proibidos durante seis séculos. Mas se negava a espiar seus pensamentos. Não se atrevia.

— Onde está, Royce? — soluçou ela.

Seu desejo de encontrar o homem que seria no futuro envolveu Royce. Ficou tenso. Porque o desejava tanto?

— Estou aqui, em minha época, e o homem que ama não existe. Não acredito que vá existir nunca.

Ela respirou fundo entrecortadamente.

— Sinto muito que doa tanto — acrescentou ele sinceramente— . Sinto que acredite que sou cruel, mas aqui não encontrará seu amante. Aidan não deveria te ter trazido com ele.

Ela umedeceu os lábios.

— Isso é uma desculpa?

Ele estava surpreso, inclusive confuso.

— Porque iria me desculpar? Não fiz nada de mal.

O desalento torceu a boca de Ailios. Tentou manter a compostura.

— Não acredito que seja indiferente — disse por fim em voz baixa, lentamente— . Os dois sabemos quão viril é, mas não se trata só disso, estou segura.

Ele ficou tenso. Ailios tinha razão… e não devia saber.

— Pense o que quiser — encolheu os ombros— . Mas esta noite não será você a mulher que ocupará minha cama.

Ela ficou branca e ele lamentou suas palavras.

— Tem toda razão, porque não vou estar aqui — ela saltou, derramando o vinho. Deu-lhe a taça, e o vinho vermelho manchou seu casaco— . Aidan, você se importa…? — olhou para Royce e seus olhos encheram de lágrimas.

Royce se zangou de repente.

— Não vai a nenhuma parte, lady Ailios, até que eu te dê permissão, e então serei eu quem dirá aonde ir. Deixe Aidan em paz.

Ela sufocou um grito de surpresa.

— O que? Eu decido aquilo que me convém. Sempre fiz e sempre farei.

Royce não estava acreditando. Ailios estava discutindo com ele, estava o desafiando, e não pela primeira vez.

— Aqui sou o amo e senhor — disse, mantendo a raia sua ira.

— Eu não tenho amo — gritou ela.

Royce sentiu que tudo parou, como acontecia sempre que estava se preparando para uma batalha. Não entendia Ailios que devia obedecer? Desejava enfrentar, a ele? Era uma donzela! Por acaso em seu tempo não obedecia a seu pai ou ao Brian, seu homem?

— Está me desrespeitando.

Ela deu de ombros.

— Lamento. Mas vou seguir na mesma linha, e vou te dizer que no futuro é uma pessoa amável e encantadora. Agora você é um idiota frio, cruel, egoísta e sem consideração.

Ele sorriu sem vontade enquanto se esforçava por controlar seu aborrecimento.

— Outro te daria uma surra por dizer isso.

Ela abriu muito os olhos, alarmada.

— Eu não surro às mulheres, nem as crianças, nem aos cães — gritou ele. Logo se inclinou para ela— . Devo ser muito distinto em sua época, não? Se não, não me quereria tanto.

— É um herói, meu herói — disse ela— , e é incrível que seja a mesma pessoa. Agora mesmo, estaria louca se te quisesse.

Royce deu a volta. Desejava golpear algo, o que fosse. Porque ela se apaixonou tão profundamente por ele no futuro? Aquilo o deixava com raiva, e o agradava, ao mesmo tempo que o aterrorizava. Preferia que ela o odiasse agora, certo? Era melhor para ambos.

— Nesta época, as mulheres se apaixonam por mim depois de passar um tempo em minha cama.

Ela corou.

Royce sorriu lentamente, entrou em sua mente e viu que suas suspeitas estavam certas.

— Pode ser, Ailios — disse em seu tom mais sedutor— , que você não tenha sido diferente em sua época. Como todas as mulheres, confundiu o desejo com o amor.

Ela respirou fundo, mas Royce viu de novo dor em seu olhar, e não gostou. Desagradava-lhe ter magoado ela de novo.

— Você também se apaixonou por mim — disse ela asperamente.

— Por isso morri? — perguntou ele. Tinha que saber— . Morri por ti de propósito, ou morri porque te queria tanto que baixei a guarda?

Allie ficou paralisada.

Ela tinha causado sua morte. Royce tinha dado sua vida por ela, e estava segura de que o fez de boa vontade. Royce viu lágrimas em suas bochechas. Ailios sofria por ele e chorava sua morte.

Aquilo era triste, desconcertante, desalentador. Demorou um momento para voltar a falar. Não pretendia tocá-la, mas pôs uma mão sobre seu braço. Seu calor deslizou sobre ele. Quando falou de novo, suavizou o tom.

— Chega de discutir, Ailios. Não quero brigar contigo. Aqui não pode vencer. Ficará no Carrick, e aqui sou eu quem decide. Partirá quando for seguro… e só quando eu disser.

Soltou-a, apesar de que não queria romper o contato físico. Aquele calorzinho parecia envolver suas vísceras. Parecia penetrar em seus ossos. Era seu poder branco, que entrou de alguma maneira em seu interior?

— Vai me obrigar a ficar aqui contra minha vontade? — perguntou ela a suas costas.

Ele virou.

— No Carrick sua vontade se rende à minha.

— O inferno! — gritou ela, desanimada e furiosa.

— Aqui só há uma vontade — como era possível que não entendesse aquele fato fundamental? Era o senhor de Carrick.

Ela o olhou com incredulidade. Então disse:

— Não vou ficar aqui. Não vou ficar aqui enquanto se diverte com outras. Terá que me fazer prisioneira.

Ele estava atônito outra vez.

— É minha convidada.

— Sou sua prisioneira! — gritou ela, tremendo.

— Só se você insistir que seja assim.

— Não, é você quem insiste.

Era assombroso que continuasse a confrontá-lo. Nesse momento, não lhe ocorreu uma resposta espirituosa.

— Então, se considere presa — respondeu, e virou — . Blackwood — disse — , Aidan — se aproximou da mesa e deu um murro nela.

Blackwood se aproximou, divertido. Royce estava certo de que ouviu toda a conversa. Era um highlander alto e moreno, com fama de partir corações. Mas era de se esperar, afinal, era um Mestre. Seu pai foi um grande nobre inglês e sua mãe uma highlander. Se vestia à maneira da corte da Inglaterra. Seus domínios estavam perto da fronteira, a apenas meio-dia na direção da grande catedral de Moffat. Seus olhos azuis escuros posaram em Allie.

— Que garota inteligente, embora um pouco desbocada, não é? Você quer realmente conversar agora? — sorriu. Parecia se divertir imensamente— . Talvez precise de uma lição a respeito de como os senhores lidam com suas amantes.

Royce não estava com humor para brincadeiras. Mas Blackwood tinha razão. Se levasse Ailios pra sua cama, dobraria-a em questão de segundos. Poria fim a seu desafio de uma vez por todas… e o substituiria por luxúria e amor.

— Nosso querido amigo Moffat está atrás dela.

O sorriso do Blackwood se desvaneceu, e demorou um momento para afastar os olhos de Ailios.

— É uma Curandeira. Vejo sua luz branca. Tem muito poder?

— Sim, muito — Royce virou para olhá-la— . É filha de Elasaid.

Ela sentou em uma das poltronas parecidas com tronos, com os braços e o respaldo lavrados em ébano e o assento de veludo vermelho. A poltrona a diminuía. Sua beleza era comovedora, e por engano, Royce até poderia ter acreditado que era muito frágil. Mas Ailios não era frágil. Era feroz e tinha a coragem de dez homens.

Olhava pra ele com irritação.

Royce se deu conta que Blackwood a estava olhando fixamente, e Aidan também. Ambos tinham um olhar especulativo e cheio de admiração. Royce entrou em suas mentes, embora soubesse que era o cúmulo da grosseria espiar os pensamentos de outro Mestre, e os viu imaginando-a nua na cama. Ficou furioso. Começou a ver tudo vermelho.

— Essa mulher é minha — disse brandamente. E não pôde lamentar suas palavras, por mais que soubesse que devia fazê-lo.

— Isso é evidente — Blackwood deu de ombros como se não se importasse— . É muito descarada para meu gosto. Claro que se você mudar de ideia, eu também o farei.

— A garota está apaixonada pelo Royce — disse Aidan com firmeza.

— Está apaixonada por Royce no futuro — particularizou Blackwood— . Me parece que esse de agora, não gosta muito — sorriu com imenso regozijo— . Não quer retirar suas palavras, tão frias e cruéis? — riu de novo— . Muitos homens desejariam o amor de uma mulher assim.

Royce sabia que estava falando com um dos Mestres com menos escrúpulos no que se referia a mulheres.

— Se quer adoecer por seu amor, vá em frente — disse ameaçadoramente— . Mas se você se aproximar dela terá que se ver comigo… e com minha espada.

Blackwood riu.

— Não roubarei sua mulher, Royce, te dou minha palavra. Mas a acompanharei encantado a Iona.

— Vai ficar aqui até que eu diga o contrário — replicou Royce, consciente de que Blackwood estava brincando com ele— . Moffat a persegue, mas não sei se tem intenção de fazer mal a ela ou a mim.

— O bispo — disse Aidan brandamente, referindo-se a Moffat— , foi quem nos atacou em Carrick na sua época. Te matou, Royce. Atravessou seu coração com uma adaga quando tentava proteger a lady Ailios — acrescentou— . Ele também parecia vir do futuro, porque estava vestido com roupas daquele tempo.

Royce ficou olhando pra ele. Resistia a sentir algo a respeito de sua própria morte. Mas era possível que seu inimigo fosse vencê-lo dentro de seis séculos? Era possível que fossem lutar daquela maneira durante quase uma eternidade?

O regozijo de Blackwood se desvaneceu.

— Mandarei meus espiões procurarem e colocarei outros novos na catedral e na cidade. Descobrirei o que Moffat está tramando.

— Se pensa em se servir dela — disse Royce em voz baixa, aquela ideia lhe aterrava e enfurecia— , Ailios não deve cair em suas mãos.

Ficaram ambos calados, e Royce compreendeu que estavam lembrando dos rumores de que algum tempo atrás teve uma esposa morta pelos Deamhanain. Não queria falar de Brigdhe com eles, nem com ninguém, e não confirmaria que os rumores estavam corretos até certo ponto. Seu estômago apertou de medo. Ailios não devia se ver naquela situação. Jamais. Confiava que Moffat seguisse procurando vingança pela morte de Kaz, e que fosse só isso.

Blackwood, que conhecia bem Moffat por causa de suas lindas terras, disse:

— Esse Deamhan é muito preparado. Há rumores de que encontrou umas páginas do Cladich. Se for assim, vai tentar capturar a grande Curandeira para que utilize seus poderes se servindo do livro sagrado.

Royce ouvido falar que Moffat conseguiu partes do Cladich, o Livro da Cura, roubado há muito tempo de seu santuário. Isso explicaria por que seus exércitos não paravam de crescer. Era aterrador pensar que um Deamhan pudesse ter habilidades curativas.

— Precisamos saber se tem partes do livro. Se for assim, deve morrer imediatamente.

Aidan disse com gosto:

— E como vai morrer agora, se vive e caça no século XXI? — estava se referindo à parte do Código que especificava que nenhum Mestre podia mudar o que estava escrito no passado ou no futuro.

— Verei o que posso descobrir — disse Blackwood, ficando de pé. E sorriu — . Então, vai proteger à Curandeira inocente até que acabe esta guerra?

Royce franziu a testa quando Aidan se levantou.

— MacNeil me pediu que a protegesse por motivos importantes que desconheço. Mas MacNeil vê o futuro quando os Antigos permitem. Tudo isto está escrito — tinha um semblante estranhamente inexpressivo e deu de ombros.

Blackwood sacudiu a cabeça.

— Aidan, essa mulher perde seu tempo com Royce. Ele não encontrará consolo para sua alma atormentada nem com ela, nem com nenhuma outra. Só encontra consolo na cama — olhou para Royce de soslaio e saiu tranquilamente do salão, parando só para saudar Ailios com um sorriso encantador.

Ela inclinou a cabeça e esboçou um sorriso, em seguida olhou indecisa para Royce.

Ele pensou que logo ficaria de noite e que estava ali sentado, excitado até não poder mais, por sua culpa. Mas isso tinha remédio. Levantou.

Aidan o segurou pelo ombro.

— Não faça tolices.

Royce se soltou.

— Ceit, um aposento para lady Ailios — disse para uma criada que passava por ali enquanto começava a cruzar o salão. Ao passar junto de Ailios, ela se levantou rápido com os olhos muito abertos.

— Aonde vai? — perguntou, desconcertada.

Royce não respondeu. Ela não se alegraria, se soubesse.

 

— O que deseja, milady? — perguntou a bonita criada loira.

Allie olhou severamente o quarto de pedra. Uma cama simples, encostada à parede, com quatro grossos postes, coberta com mantas de lã e uma grossa pele. Duas poltronas rústicas de madeira e vime de frente a lareira, na qual ardia o fogo. Uma pequena pele de lobo no chão, junto à cama. O resto do chão de pedra estava nu. O único móvel atrativo que havia no quarto era um baú belamente lavrado que havia junto à cama, com grandes tachas de bronze formando um desenho interessante, com uma jarra e vários copos dispostos sobre ele. As janelas eram pequenas e estreitas e fora a luz era débil: o sol parecia estar acabando por fim. Allie estremeceu. Já sentia frio no coração, além dos ossos.

— Milady?

Allie virou. Sobre o respaldo de uma das cadeiras tinha dobrado um manto xadrez com as cores de Royce (cinza escuro, negro e prata). Tomou e envolveu nele seu corpo tremente. Pensou em como estava suja.

— Seria possível tomar um banho quente?

A loira sorriu, como se estivesse aliviada.

— Sim, tomará um banho e também terá um jantar saboroso — fez uma tímida reverência— . Me chamo Ceit, se por acaso precisar de algo.

Allie correu atrás dela quando a garota se aproximou da porta.

— Espera.

Ceit parou, surpresa.

Allie teve que tomar ar. Sua compostura parecia em farrapos e, o que era pior ainda, se sentia desesperada.

— Qual de vocês é sua amante? — todas as criadas com as quais cruzou ao subir eram jovens e bonitas. Não podia ser uma coincidência. Ceit a olhou com surpresa e corou.

— O senhor não tem amante fixa, milady.

Allie não acreditava.

— Vai me dizer que vive como um monge?

Ceit ficou ainda mais corada.

— É um homem, senhora, e nosso amo. Pode ter a quem desejar.

Allie se abraçou. Não deveria se importar. O Royce medieval não se parecia nem remotamente com o Royce do século XXI. Um abismo de seis séculos os separava, e nesse tempo um homem podia mudar muito, até tornar-se completamente distinto. O Royce que tinha deixado há pouco era um bárbaro da cabeça aos pés. Ao sair do salão, ela compreendeu que ia se deitar com alguma mulher. E que não dava a mínima pra ela. Royce não a desejava. Emanava uma luxúria ardente cada vez que se aproximava. Seu corpo exalava virilidade. Mas não a desejava. Se não, um bárbaro como ele, teria recorrido à força. Era a gota d’água que faltava.

Ceit vacilou e partiu.

E agora o quê?

Se deixou cair na cadeira e se aconchegou ali. O fogo não podia esquentá-la. Nunca o coração doeu tanto. Mas nunca antes esteve apaixonada. Era assim que se sentiam seus noivos e amantes quando dava um fim à relação? Esperava que não. Sempre tentou ser amável ao lhes dizer adeus. Sempre se preocupou com eles. E Tabby colocou em vários de seus ex-noivos um novo feitiço amoroso.

Ninguém deveria sentir-se assim.

Allie começou a chorar.

Tentou recordar-se que o homem que estava em baixo, em alguma parte, indubitávelmente com outra mulher, não era o homem que amava. O homem que amava estava morto. Ela o viu morrer durante de seus próprios olhos, lutando com o mal que Satã enviou para persegui-los por toda parte e em todo tempo. O único problema era que, no fundo, ela sabia que eram a mesma pessoa. O que ia fazer?

Passou menos de vinte e quatro horas com o moderem Royce, mas se apaixonou por ele. Era o amor de sua vida. O queria inclusive agora, e nunca poderia esquecê-lo… nem queria fazê-lo.

Não haveria outro. Ninguém podia se comparar com seu guerreiro dourado. Seguiria sendo fiel a ele e a sua lembrança até que morresse.

Mas não tinha morrido ainda e aquilo não tinha acabado. As viagens no tempo abriam todo tipo de possibilidades. Deixou de chorar e se sentou mais direita. Valia a pena lutar por aquele amor. Porque se afundava na dor? O que Tabby disse exatamente?

Respirou fundo, tentando pensar, e recuperou sua determinação. Tabby disse que sua vida viraria do avesso… e tinha razão. Disse que alguém morreria… e Royce foi assassinado pouco depois. Mas o Sol aparecia sob a Morte na mesa. Das cinzas surgiria um novo dia.

Allie gemeu e se levantou. Que momento para Tabby ficar misteriosa! Que demônios quis dizer com isso, exatamente? Estava quase cem por cento certa de que nesse momento, estava até o joelho de cinzas.

Olhou o fogo que ardia na chaminé de pedra. Estava em um aposento frio e pequeno, em um castelo do século XV. A viagem no tempo era uma realidade.

Não esperava uma recepção tão fria e hostil, nem que Royce fosse um porco insensível e machista. Nesse momento era um casulo de cuidado, mas algum dia seria seu amante… e o amor de sua vida. Corrigiu-se: já era o amor de sua vida, só que ele ainda não sabia.

Ainda havia esperança.

Ela era uma Curandeira acima de tudo, mas também era uma lutadora. Estava lutando contra os demônios desde os treze anos, e conseguiu sobreviver ao mal, apesar de seu pequeno tamanho e de sua falta de poderes para a guerra. Possuía o instinto de lutar. E pensava em lutar para ter um futuro com Royce. Ia descobrir como podia impedir que fosse assassinado em setembro de 2010. E de algum modo sobreviveria a seu ingrato eu medieval.

Respirou com força. Recuperou a compostura, e com ela o otimismo. Claro que era otimista por natureza. Quando não conseguia salvar uma vítima, doía e chorava. Mas na noite seguinte voltava a sair para patrulhar e tentava salvar outro inocente. Não era próprio dela se dar por vencida, nem agora, nem nunca.

Sem poder evitar, desejava ver o brilho de seu Royce em alguma parte, atrás do casaco e do manto xadrez. Amava o Royce moderno, mas daquele Royce antiquado não gostava absolutamente. Mister Medieval sabia sorrir?

E por que não estava ela em sua cama? Embora não pensasse permitir que a tocasse, depois de ter se comportado como um perfeito tolo.

Grunhiu. Royce estava com outra, e ela continuava apaixonada pelo Royce do futuro e obcecada pelo Royce medieval. Aquilo era muito ruim, mas levando em conta o que estava em jogo, teria que aguentar.

Abriu a porta. Dois meninos gorduchos colocaram uma tina de madeira no quarto, com cuidado de não levantar os olhos do chão de pedra, e Allie sorriu pensando em seu banho iminente. Estava sentindo muita falta. Achou graça do acanhamento dos meninos. Depois entraram dois homens conduzindo baldes de água quente. Eles também esquivaram seu olhar, e Allie começou a suspeitar. Aqueles homens não podiam ter ouvido Royce ameaçar capar o gigante na porta do castelo…

— Obrigado — sorriu pra eles — . Muitíssimo obrigado.

Assentiram com a cabeça, mas não a olharam, nem disseram nada ao sair.

Allie pensou que não deveria surpreender-se: certamente Royce tinha atemorizado a todos os habitantes de Carrick. Olhou para a banheira fumegante e se deu conta de que teria que ficar com a roupa suja quando saísse do banho. Ou isso, ou se vestir como uma highlander, com aqueles compridos e amorfos casacos de linho.

Duvidou um momento. Royce olharia pra ela com aquela roupa?

Disse pra si mesma que era bonita ficasse como ficasse… e uma pessoa boa e decente, com um grande coração. Mas ao Mister Macho importava um nada o coração de uma mulher: só lhe interessava seu corpo.Tinha certeza disso. E ficou assombrada porque de repente se sentia insegura e indecisa. Nunca se preocupou em mostrar-se atrativa, nem em atrair ninguém.

De qualquer maneira, a roupa do futuro seria de grande ajuda. Pensou em seguida em Aidan, que gostava de ir às compras. Não parecia incomodado porque se zangou com ele. Talvez pudesse convencê-lo para que a ajudasse. Estava certa de que era o Cavaleiro de Espadas das cartas de Tabby. De fato, era um tipo decente. Era uma lástima que o Royce medieval não tivesse seu encanto, nem sua consideração.

Bateram na porta. Allie sentiu poder masculino, mas não de Royce. Não se surpreendeu ao ver Aidan do outro lado da porta, sorrindo. Havia um brilho ligeiramente malévolo em seus olhos azuis. Seguia levando jeans e sua querida jaqueta de couro.

Allie sorriu.

— Telepatia? Sabia que queria falar contigo?

Te ouvi pensando em mim… várias vezes — deu de ombros e olhou a banheira— . Espero que precise de alguém que te esfregue as costas.

Allie riu.

— Quando esfregou as costas de uma mulher sem pedir mais?

Lhe devolveu o sorriso.

— Eu disse que só ia te dar banho? — seu olhar era direto.

Aquele homem podia seduzir uma freira, pensou Allie.

— Estou comprometida. Se não, compartilharia a banheira contigo.

Ele sorriu.

— Sim, já sei. Royce é um autêntico parvo nesta época, né?

Allie enrijeceu, imaginando-o com outra mulher. Aidan lhe tocou ligeiramente o braço.

— Te avisei sobre isso.

— Sim, é verdade — já não podia sorrir— . O que é que acontece com ele?

— Não tem coração, sabe? Ainda não.

— Não acredito que isso seja possível. Você tem.

As covinhas de Aidan ficaram mais profundas.

— Eu gosto das mulheres, garota. Não tenho outra opção a não ser tratar vocês com amabilidade. Se não, minha cama ficaria muito fria.

Allie confiava que Royce não se tornava encantador quando tinha intenção de seduzir uma mulher. Odiava a ideia de que o Royce medieval estivesse enrolando outra.

Aidan pareceu ler seu pensamento. Disse rapidamente:

— Tem a alma gelada, garota. É assim antipático com todo mundo.

— Porque?

Aidan deu de ombros.

— Então, vai ficar uma temporada?

Ela ficou séria.

— Não vou permitir que Moffat o mate no futuro.

Aidan endureceu.

— Para isso acontecer ainda faltam seiscentos anos. É muito tempo.

— Então, não vai me ajudar?

— Não acredito que possa mudar o futuro. Quando os Antigos escrevem o destino de um homem, fica gravado na pedra — seu sorriso voltou a aparecer— . Então, o quer mesmo sendo um cretino?

Ela corou.

— Não quero o tolo que acaba de sair do salão. Mas algum dia vou querer — vacilou e acrescentou— . Com sorte, mais cedo que tarde.

Aidan cruzou os braços.

— E se não quer que te esfregue as costas, o que quer de mim?

— Não quer que primeiro me desculpe por ter te atacado? — perguntou ela brandamente.

O sorriso de Aidan se desvaneceu.

— Garota, viu seu homem morrer. Não preciso de nenhuma desculpa.

— Que razoável é! — ela exclamou. Desejava que Royce tivesse um pingo da compaixão de Aidan. Voltou a sorrir— . Sabe que é meu Cavaleiro de Espadas?

Aidan a olhou divertido.

— Não acredito que Royce acharia graça te ouvindo dizer isso.

Ela pegou sua mão.

— Tenho que te pedir um enorme favor.

Ele olhou suas mãos unidas. Allie sentiu que seu interesse viril crescia e soltou sua palma.

— Poderia me trazer um pouco de roupa da minha época? Não penso em me dar por vencida pelo Royce e preciso de alguma arma secreta — pensou em Brian. Gostava dela de verdade. Todos os seus noivos a adoraram… e desejado. Por que seria diferente com um guerreiro medieval? Talvez com um par de objetos sexys pudesse domar à besta.

Aidan torceu a boca.

— É um Mestre, garota. Não vai se importar com a roupa que veste.

Ela sorriu com certo gosto.

— Está enganado. Todos os homens reagem se abanar durante deles o pano vermelho correto. Igual aos touros.

Aidan riu.

— Farei o que deseja. Não me importaria em ver o Royce se comportando como um touro.

Allie ficou séria.

— Porque está tão zangado? Por que se mostra tão hostil comigo? Porque está com outra mulher, quando sei que ainda me deseja?

— Eu não compreendo o Royce absolutamente. Se estivesse em seu lugar, estaria agora mesmo nessa banheira, contigo. Mas deixou muito claro que não vai permitir que outro homem se aproxime, garota. Perderia algo mais que a cabeça se tomasse banho contigo.

Allie não vacilou. Tocou sua bochecha.

— Obrigado — disse brandamente— . Obrigado por ser tão generoso e tão amável e por me ajudar a passar estes momentos tão difíceis. Não sabe quanto lhe agradeço por isso.

Os olhos de Aidan brilharam. Mas se separou dela. Murmurou brandamente:

— Se decidir dar ao Royce por perdido…

— Nunca o darei por perdido.

Seus olhares se encontraram.

— Enfim, tinha que tentar — fez uma saudação militar— . Irei procurar sua roupa. Allie o viu se afastar.

Royce estava na cama, de costas, nu, com as mãos sob a cabeça. Estava mais colérico e frustrado que antes, e a garota que estava saindo de seu quarto não ajudou a melhorar as coisas.

Royce suspirou.

— Sinto muito, Peigi. Outro dia serei mais amável.

Ela corou, o olhou e fez uma reverência.

— Você é sempre amável — era mentira, e fugiu.

Não foi amável. Foi cruel e egoísta.

Passou apenas dez minutos com ela, e não pôde deixar de pensar em Ailios. E tinha a terrível suspeita de que, se não estivesse pensando na Curandeira, talvez não conseguisse ficar excitado o suficiente para alcançar o clímax.

Era incrível. Inconcebível. Seus encontros amorosos deviam durar horas… ou a noite toda. E sempre estava excitado. Que demônios significava aquele fracasso?

Era imune à bruxaria. Se não, teria pensado que Ailios tinha jogado um feitiço nele.

Nem sequer estava satisfeito. Como estaria? Sentia-se ainda mais excitado que antes.

Mas agora teria que compensar à garota, que era uma boa criada. Trabalhava duro e nunca se queixava. E era muito fogosa na cama. Arranjaria para ela um marido com uma pequena quinta. Ela devia ter dezoito ou vinte anos. Estava pronta para ser mãe.

Quando se incorporava, a porta abriu. Só um homem entraria sem chamar. Considerava Aidan o filho que nunca teve, igual a Malcolm, por isso se limitou a franzir a testa.

Aidan o olhou e sorriu.

— Queria te agradecer por sua hospitalidade — disse, preparado para abandonar Carrick.

Royce se levantou, aproximou-se de uma enorme poltrona e colocando seu casaco. Depois fechou o enorme cinturão de couro. Nunca estava desarmado, assim acrescentou sua espada curta e sua adaga a seu corpo.

— Desde quando se incomoda em dizer adeus… ou em me agradecer por nada, e menos ainda por minha hospitalidade?

Estava incomodado quando se sentou para colocar as botas. E não gostava da expressão divertida de seu amigo. Era como se Aidan soubesse que, pela primeira vez em sua vida, tinha falhado na cama com uma mulher.

— Sua convidada me pediu algumas coisas, assim voltarei dentro de poucas horas — disse Aidan com carinho.

Royce ficou tenso e o olhou nos olhos. Logo se introduziu em sua mente.

Ailios jazia nua em uma banheira de água quente, falando com Aidan. Sorria, enquanto ele admirava seu rosto e sua figura.

Olhou enquanto ela tomava banho? — perguntou, atônito.

— Não, estive com ela pouco antes que se banhasse, mas, naturalmente, a imaginei na banheira — sorriu e virou fumaça.

Royce ficou ali, excitado, cheio de ira. Aidan queria que fosse à torre e seduzisse à Curandeira? Desejava essa união? E se fosse assim, qual era a razão?

Ou acaso a pequena Curandeira o tinha enrolado para que fizesse sua vontade? Estava na banheira nesse momento? Por acaso acreditava que ele iria cair vítima daquele estratagema? Pensava seduzi-lo contra sua vontade? Pensava que não tinha força de vontade para manter-se afastado de sua cama?

Grunhiu e deu um murro na parede. Seu corpo tenso desejava satisfazer-se, mas não ia em busca de Ailios. Sabia reconhecer uma conspiração quando via uma.

Na manhã seguinte, Allie vacilou na soleira do grande salão. Depois de uma enorme refeição com um monte de carne (que rara vez comia em casa), duas taças de vinho e o banho quente, deitou-se na cama e dormiu no ato, quando ainda era de dia. Não só dormiu profundamente, mas também não sonhou, o que era uma sorte.

Royce estava sentado com Aidan à mesa, tomando o café da manhã. Já estava olhando a soleira quando ela se deteve ali. Dava pra perceber que sentiu quando ela descia as escadas.

A determinação de Allie se fortaleceu na tarde do dia anterior. Podia sobreviver à besta, e talvez inclusive domá-la. Mudaria o futuro, custasse o que custasse. Estava descansada e se sentia bem, embora teve que se pentear com os dedos e desejasse ter roupa limpa, uma boa escova e um espelho. Deu-se conta desde o começo de que ele estava ainda no castelo. Havia sentido seu poder em baixo. O que não esperava era que seus olhos ficassem cor de prata brilhante ao vê-la.

Acelerou incontrolavelmente seu coração, como se Royce fosse seu amante, não o de uma mulher anônima e sem rosto. Mas estava tão bonito, e sua paixão e seu poder lhe atraíam tanto… Entretanto, não era seu Royce e ela sabia muito bem. Enquanto olhava pra ele seu coração compreendeu e começou a aquietar-se.

Como se tivesse percebido sua excitação inicial, ele fez cara de satisfação. Allie sorriu resolutamente. A noite anterior Royce se comportou com absoluta grosseria, mas não guardava rancor contra ele. De momento, teriam que suportar o um ao outro de alguma forma.

Ele a olhou com desconfiança.

— Bom dia — disse ela com excessiva alegria. Aproximou-se da mesa e Aidan e Royce se levantaram. Allie ficou surpresa por terem se levantado.

Aidan sorriu.

— Parece descansada.

— Dormi como um tronco — lhe disse ela, mas continuava observando Royce pela extremidade do olho, que se limitou a inclinar a cabeça. Ao que parecia, ele media cada gesto e cada palavra— . Sabia que minha mãe era de Kintyre e meus avós paternos de Aberdeen e Glasgow? Aqui me sinto como em casa. O ar é maravilhoso. E a vista também — virou para Royce com seu sorriso de alta voltagem. Se negava a permitir que seu sorriso vacilasse, mas viu que ele parecia cansado.

Mas como não ia estar, se tinha passado toda a noite com uma criada? Ela aumentou a voltagem.

— Como está? dormiu bem? — perguntou em tom lisonjeador.

Ele a olhou preocupado.

— Passei a noite pensando no Deamhan — respondeu, e se sentou bruscamente.

Ela ficou séria. O que quis dizer? Olhou para Aidan, que lhe lançou um olhar enigmático. Royce estava dizendo não se divertiu com outra amante? Estava querendo animá-la? Allie rodeou a mesa e se sentou no banco, junto a Aidan. Royce ficou tenso, sentado de frente para eles.

Ela o ignorou e sorriu para Aidan.

— Dormiu bem?

Ele sorriu.

— Tive sonhos — respondeu— . Muito agradáveis.

Allie riu.

Royce empurrou seu prato na direção deles.

— Pretende seduzi-la no café da manhã, em minha casa?

— Se quisesse seduzi-la, teria feito ontem à noite.

— É sempre tão desconfiado? — Allie estava se divertindo. Se não soubesse que era impossível, teria pensado que Royce estava com ciúmes— . Só estamos tendo uma conversa amistosa — seguia olhando seus braços fortes e nus. Royce usava um enorme bracelete de ouro no bíceps direito. Era endiabradamente sexy. Allie conhecia o tato daquele braço. Aquele homem podia ser muitíssimo mais jovem que seu Royce, mas estava segura de que seu corpo não tinha mudado absolutamente— . Eu sou uma pessoa cordial.

Ele entreabriu os olhos.

— Ontem não estava tão contente.

— Ontem estava lidando com um caipira. Hoje estou contente.

Royce sacudiu a cabeça com olhar de irritação.

— Ontem me chamou de ogro e hoje me chama de caipira?

«Exatamente como ouviu», pensou ela. Uma expressão de perplexidade cruzou o rosto de Royce.

— É meu amável anfitrião. Sabe o que significa isso?

Aidan começou a rir.

Royce se ofuscou.

— Por acaso pareço o parvo do povo? Entendo perfeitamente o que diz, embora tenha sotaque estrangeiro.

Allie vacilou.

— Não quero discutir. Sinto muito — sorriu por fim sinceramente — . Não viajei no tempo para brigar contigo — pensou em suas expectativas do dia anterior: encontrá-lo com vida em 1430, jogar-se em seus braços e pular na sua cama — . Confiava que pudéssemos começar de novo. Já sabe, acordar uma trégua.

Ele se sobressaltou.

— Uma trégua? Não há nenhuma guerra.

— Bem — Allie voltou a sorrir. E desta vez sustentaram o olhar.

O coração de Allie parou. Ele seguiu olhando para ela com descaramento. Não sorria. Allie sentia pulsar o sangue em seu membro. Nunca entenderia por que na noite anterior decidiu trocá-la por outra. Mas foi o melhor, naturalmente.

— Aconteceu algo ontem à noite? — perguntou. Ele desviou o olhar— . Sempre percebo o mal. Não acredito que pudesse continuar dormindo se houvesse uma crise.

— Os Deamhanain não atacaram. Jamais atacariam Carrick — Royce levantou um jarro, encheu um copo e o estendeu.

A Allie surpreendeu o gesto. Sentiu um aroma de cerveja.

— Não, obrigado — ele levantou o olhar e seus olhos voltaram a se encontrar— . Então, por que estava tão pensativo ontem à noite? — quase acrescentou: Se é que esteve pensativo.

— Tem inimigos — Royce agarrou uma bandeja cheia de pão, pescado defumado e queijo— . Vai tomar café da manhã?

Allie comeu o equivalente a três refeições na noite anterior e não tinha fome.

— Perdoe, mas eu não tenho inimigos. Humanos, ao menos. Sou uma Curandeira. Tenho amigos. Montões deles, de fato — e acrescentou— . Porque sou muito simpática, caso não notou.

O olhar cinza de Royce se moveu até o bordo de sua camiseta. Allie baixou o máximo possível ao vestir-se. Um centímetro mais e seria indecente até para ela. Ele desviou os olhos e disse:

— Moffat, um grande Deamhan, te persegue ou pensa em te usar contra mim.

Allie o olhou, disposta a rir. Logo trocou de expressão, porque Royce estava mortalmente sério. Allie começou a se alarmar. Moffat matou Royce no futuro. Era ardiloso e perigoso. Viu uma oportunidade — uma oportunidade que ela provocou sem se dar conta— e a aproveitou.

Pode estar interessado em mim.

Royce levantou as sobrancelhas.

— É uma grande Curandeira. Pode ser que tenha páginas poderosas do Cladich, que pertence à Irmandade.

— Foi roubado há séculos — explicou Aidan — , do santuário da Iona.

Allie tentou entender o que diziam.

— Sou uma Curandeira, mas não sei nada do Cladich. Estou certa de que Moffat não virá atrás de mim.

Nenhum deles parecia convencido. Trocaram um olhar que ela não entendeu.

— Moffat tem que morrer… — disse Royce.

— Não acredito que deva perseguir Moffat, Royce — Allie estava tão alarmada que o agarrou pela mão. Tocar sua pele foi eletrizante. Soltou-a imediatamente — . Por favor — tentou sorrir, mas estava tão preocupada que fracassou.

Ele a olhava fixamente.

— Não crê que sou bastante forte para derrotá-lo?

Ela compreendeu que devia aplacá-lo.

— Claro que sim.

Ele proferiu um som bronco.

— Não me assusta morrer, nem sequer agora. Farei o que tenho que fazer — se levantou.

Allie olhou para Aidan com impotência.

Como se lesse o seu pensamento, disse:

— Não deixarei que persiga sozinho os Deamhanain.

— Obrigado — murmurou Allie. Moffat não podia matar Royce em 1430, verdade? Seu medo, de todos os modos, não conhecia limites.

Mas Royce deu a volta e os olhou com frieza. Allie se deu conta de que estava agarrando a mão de Aidan. Soltou-a e disse:

— O assassinato de Royce não foi coisa do destino. Foi um engano.

Aidan perguntou:

— Então, por que tem tanto medo? Por que acredita que Royce não possa matar Moffat? E que Moffat viverá só para matá-lo?

Allie retorceu as mãos.

— Como não vou ter medo se vi Royce morrer? Está lendo meu pensamento?

— Sim.

Royce deu uma palmada sobre a mesa e o jarro, os copos e as bandejas saltaram.

— Desde quando são tão amigos? Desde ontem à noite, quando ela se banhou? Que mais aconteceu ontem à noite?

Allie o olhou boquiaberta. Estava com ciúmes. Aidan não pareceu se alterar.

— Gosto da garota. E está preocupada contigo, néscio, não comigo.

Allie levantou.

— Royce, Aidan é meu amigo — disse com precaução, ainda assombrada, enquanto se perguntava se estava interpretando mal sua reação— . Um bom amigo.

Aidan sorriu e disse brandamente:

— Sou seu Cavaleiro de Espadas.

O rosto de Royce endureceu. Ela se apressou a acrescentar:

— Em minha época, os homens e as mulheres costumam ser amigos.

— E suponho que agora vai me dizer que os homens e as mulheres são amigos e não dormem na mesma cama…

— Claro que sim. Há muitos homens e mulheres que não compartilham a cama. Só a conversa, o vinho, o jantar…

Ele girou os olhos.

— Aidan parte hoje mesmo. Seu bom amigo tem terras e assuntos com que se ocupar. E, Ailios… Também tem uma amante da qual está muito afeiçoado.

Allie disse teimosamente, tentando meter-lhe na cabeça:

— Aidan é meu amigo. Um amigo para conversar, nada mais.

— Por desgraça — murmurou Aidan.

Allie já sabia que ele adorava provocar Royce. Olhou-o com irritação.

— Mas você quer compartilhar o vinho com ele! — gritou Royce— . Que mais quer compartilhar?

Allie sacudiu a cabeça, perplexa. De repente, a dor se apoderou dela. Afogou um gemido. Aquela quebra de onda de dor a tomou de surpresa, obrigando-a a se dobrar. Não podia respirar. A pressão a esmagava. Estava presa. Não podia se mover.

— Ailios! — Royce abaixou a seu lado e a agarrou pelos ombros.

Ela respirava com dificuldade, e sabia que alguém estava sofrendo terrivelmente, e que essa pessoa, fosse quem fosse, estava se asfixiando sob um peso espantoso. Olhou nos olhos de Royce. Sentiu a hemorragia dentro do peito daquela pessoa, e uma dor aguda nas costelas.

— Alguém está ferido — se levantou— . Gravemente ferido. Não sei se é um homem ou uma mulher, mas vai morrer — se separou da mesa e Royce se moveu em uníssono— . Não! — afastou-o e se aproximou do centro do quarto, só e suada. Concentrou-se intensamente.

Tanta dor… Falta de ar… Aquele peso que o esmaga… E medo, um medo atroz.

Ela abriu os olhos.

— Há uma aldeia perto, lá em baixo. Me levem pra lá!

Royce deu dois passos e parou durante ela.

— Eu irei. Você ficará aqui. No Carrick estará a salvo. Eu trarei quem estiver ferido.

Allie sacudiu a cabeça, tentando não encolerizar-se.

— Não há tempo, Royce. Uma rocha esmagou alguém. E essa pessoa morrerá logo. Tenho que ir!

— Fique aqui — disse Royce com aspereza— . Aidan, vamos.

Virou-se. Aidan já estava a meio caminho da porta.

Allie não deu ouvidos.

— Maldito seja! Eu também vou! — correu atrás deles.

Royce a agarrou pelo braço.

— Não pode curar em público! Ou quer que a acusem de bruxaria?

Allie tentou se soltar. Lançou um olhar ameaçador pra ela e seguiu Aidan, lhe fechando a porta no rosto.

Ela sufocou um gemido e cambaleou. Por acasoaso Royce não entendia? O que importava que os malditos aldeãos pensassem que era uma bruxa? Abriu a porta e viu que Aidan e Royce cruzavam a entrada a galope. Correu atrás deles, mas tropeçou com as plataformas e caiu no chão. Cuspiu terra e ao ficar de joelhos viu fechar o restelo.

Começou a tremer incontrolavelmente. O medo era cada vez mais intenso… e havia tão pouco ar!

— Senhora, me deixe ajuda-la — murmurou Ceit.

Allie a olhou. Em seguida tirou os sapatos e se levantou descalça.

— Me ajude a sair daqui.

Ceit empalideceu.

— O senhor…

— O senhor não é mais que um homem… e se equivoca — gritou Allie.

Ceit ficou ainda mais branca.

Allie respirou fundo. Não fazia falta ser um gênio para saber que Ceit estava programada para acreditar que Royce era tão perfeito como um Deus.

— Ceit, me olhe — disse.

A garota a olhou nos olhos.

— Há um menino ferido no povoado. Eu posso ajudá-lo. Trato bem os ossos quebrados. Por favor, me ajude.

Ceit assentiu com a cabeça.

— Posso lhe ajudar, senhora. Venha.

O coração parou. Ceit a levou além da grande barbacã de quatro torreões, cujos restelos estavam fechados. Adiante, na esquina, havia uma enorme torre circular. Allie se deu conta de que era outra entrada; através de seu corredor, viu um restelo baixado e uma ponte levadiça elevada.

— Sim — disse Ceit— . Mas por aí não poderá sair.

Ceit a conduziu ao interior da torre, mas não pelo corredor que atravessava as grades de ferro e usava a ponte. Dirigiram-se ao canto mais afastado, saíram no pátio seguinte e Allie viu uma porta de madeira no muro de pedra do castelo. Era tão pequena que um homem do tamanho de Royce teria que se encolher muito para passar por ela.

Aproximaram-se apressadamente da porta e se inclinaram para a parede, à sombra que projetava o sol nascente. Allie tremeu.

— O que faço quando sair? Não há um desfiladeiro que rodeia o castelo?

Ceit assentiu.

— Vá para a esquerda. Siga os muros do castelo. Há uma ponte pequena de cordas. Pode cruzar o desfiladeiro por aí.

Allie assentiu, bombeando adrenalina.

— Há um caminho para chegar à aldeia?

Ceit disse que sim com a cabeça.

— Siga colina abaixo. O caminho fica à direita. Chegará em seguida à aldeia, se for depressa.

Allie lhe deu um abraço e abriu a porta. Saiu, fechou a porta e correu para a esquerda seguindo os muros do castelo. Sabia que havia homens nas torres vigias, mas não se atreveu a olhar. Pediu aos Antigos sua bênção, com a esperança de que algum a ouvisse e lançasse sobre ela um conjuro de invisibilidade.

Viu a ponte e parou em seco. «Merda».

Era feita de pranchas de madeira penduradas e parecia tão segura como uma corda frouxa. As tábuas pareciam velhas, desgastadas e podres. Mas não tinha tempo para se deter pensando nisso. Uma vida estava em jogo. Começou a avançar e então viu o desfiladeiro. Hesitou.

Tinha trinta metros de altura. Ao dar uma olhada às rochas no fundo, Allie compreendeu que, se caísse, estava perdida. Aquelas pedras não eram obra da natureza, nem de Deus. Ao homens as colocaram ali para matar quem caísse da ponte ou dos muros do castelo.

Respirou fundo, agarrou-se às cordas de cima e começou a cruzar. A madeira rangia. A ponte bamboleava. Algo se rompeu.

Allie apertou o passo, confiando que não tivesse quebrado uma das colunas que segurava a ponte, que oscilava violentamente. Viu o outro lado. Ordenou-se não olhar para baixo. Nunca antes se incomodou com altura, mas de repente a odiava.

Uma prancha de madeira cedeu sob seu pé direito.

Allie gritou e se agarrou à corda de cima. Seu coração pulsava astronomicamente. Viu que a madeira se espatifava contra as rochas e ficava em pedaços. Mas a ponte seguia suspensa. Respirando com ânsia, cruzou o trecho que faltava e ao pisar em terra firme pôs-se a correr.

Era um deslizamento de terra. Allie irrompeu na aldeia, um grupo de choças de tijolo cru e urze, e viu o montão de rochas. Royce e Aidan estavam afastando penhascos com seu poder sobre-humano. Outros doze homens os ajudavam, e a nenhum parecia estranhar a força excepcional dos Mestres. Uma mulher grandalhona chorava com duas meninas pequenas agarradas as suas saias. Toda a aldeia estava presente: vários homens, mulheres e meninos reunidos ao redor das rochas.

Allie correu, fazendo caso omisso da aguda dor que lhe provocava cada passo. Só caminhou descalça pela praia, ou em um picnic em algum jardim, ou quando fazia a pedicure em um salão coreano. Royce levantou e a olhou. Seus olhos aumentaram, cheios de assombro.

Allie se aproximou do monte de rochas e se ajoelhou. Sentiu que o menino, que teria uns quinze anos, estava inconsciente. Derramou sua luz branca sobre ele.

Royce seguiu apartando pedras e rochas. Allie sentia vagamente sua presença e a de outros homens. Quase não ficava ar e havia muito sangue. Introduziu mais luz branca através das pedras, para o menino, para curar seus ossos quebrados e seu peito esmagado.

— Tenho uma mão — disse Aidan bruscamente.

Royce e Aidan redobraram seus esforços. Allie redobrou os seus. Royce se inclinou de repente sobre ela.

— Pode se afastar um momento? — perguntou.

Ela assentiu com a cabeça e retrocedeu, mas seguiu fazendo fluir sua luz para o menino, que estavam a ponto de ser desenterrado. Eles apartaram mais rochas e apareceu o rosto poeirenta e ensanguentada do rapaz. Em seguida Allie viu seus ombros, seus braços e seu peito. A mulher gritou.

— Está vivo? Está vivo meu Garret?

Allie se aproximou dele. Tomou suo rosto juvenil entre as mãos e o banhou com mais luz branca. Ele levantou as pálpebras. Moveu os dedos. Olhou-a nos olhos.

Ela indagou um pouco mais. As costelas estavam curadas, mas os pulmões seguiam danificados. Cobriu o peito do menino. E sentiu que seus pulmões começavam a bombear, a princípio fracamente, logo com mais força. O peito do rapaz começou a subir e a baixar num ritmo normal. Ia sobreviver. Sua dor se desvaneceu por fim. Allie fechou os olhos, cheia de alívio. Royce lhe pôs uma mão sobre o ombro.

— Garret! — gritou a mulher, ajoelhando-se a seu lado para tomar as mãos de seu filho.

Allie abriu os olhos. Garret resmungou algo e começou a incorporar-se.

— Está vivo! — soluçou a mulher.

Garret se sentou. Parecia tonto, mas ileso. Allie sentiu as mãos de Royce sobre seus ombros. Seu contato era quente, firme, reconfortante. Voltou-se para olhá-lo e sorriu.

Ele a olhou fixamente, inquisitivamente, e logo sua boca se suavizou. Deslizou as mãos até sua cintura e a levantou. Allie virou-se para se deixar abraçar. Agarrou-se a seus grandes ombros e apoiou o rosto em seu peito. Ele tinha o casaco empapado.

Allie sorriu outra vez. Era o homem mais sexy do mundo, disse. E começou a sentir desejo.

Acabava de salvar uma vida inocente e seu sangue começou a bombear. Sim. Era delicioso.

— Está tonta? — perguntou ele com voz rouca.

— Me dê um momento — murmurou ela, sem querer se mover. Não se importava que ele estivesse coberto de suor. Seu suor era sexy e excitante. Ele era sexy e excitante. De fato, sentia seu membro ereto e palpitante entre eles, e isso também era delicioso.

— Não podia respirar, mamãe!

Allie levantou o rosto para sorrir para Royce, mas esta vez com um sorriso carregado de promessas. Necessitava-o agora, assim que chegassem ao Carrick. Nunca teve um homem consigo enquanto curava, e muito menos um como ele. Havia devolvido a vida ao rapaz e agora queria um pouco de Royce: queria prazer.

Ele enrijeceu. Seus olhos se voltaram prateados.

Depois de uma cura, Allie sentia sempre uma espécie de euforia. Graças ao Royce, aquilo seria um milhão de vezes melhor.

Lhe apertou a cintura.

— Estava esmagado. Não havia ar. Doía-me, via tudo negro… estava morrendo!

Allie se virou lentamente para não apartar-se dos braços de Royce. Ia dizer ao rapaz que tudo tinha acabado e que agora estava bem. Mas o rapaz a olhava fascinado… ou possivelmente horrorizado. Assinalou-a com o dedo.

— Foi você. Você me salvou!

Royce a agarrou com mais força dos ombros.

— Deus te salvou — disse com firmeza— . Não tinha chegado sua hora.

Mas o menino sacudiu a cabeça.

— Não, meu senhor, acredito que é uma bruxa.

As pessoas sufocaram um gemido de surpresa. Começaram a ouvir murmúrios cheios de medo e incredulidade.

Allie ficou tensa.

— Lady Ailios é minha convidada — disse Royce, falando como um rei, não como um Cavaleiro. Como um imperador— . Se a acusarem, me acusam .

O menino empalideceu.

Allie desviou.

— Não foi nada, Royce.

Ele a olhou com dureza, ordenando que se calasse. A mulher gorda agarrou a mão de seu filho.

— O amo e o Lobo o desenterraram, Garret. São bons cristãos. Muito obrigado, senhores, muito obrigado — inclinou a cabeça, ruborizando-se. Mas quando a levantou olhou fixamente para Allie. Tinha os olhos muito abertos, brilhantes e assustados.

 

As suspeitas do menino fizeram sua euforia diminuir. E também o olhar desagradável e assustado da mulher. Acreditavam que era bruxa… e não das boas. Muita gratidão.

Allie desejou novamente saber algo sobre a Idade Média. O que sabia procedia de Hollywood, e estava segura de que não era muito preciso. Mas ignorância era ignorância em qualquer época. A ignorância levava ao prejuízo, e então começavam os problemas.

Os últimos vestígios de seu entusiasmo se desvaneceram.

Estava sentada na cela de Royce — ele a fez montar porque estava com os pés descalços e feridos — , mas não se importava. Sabia montar a cavalo desde os quatro anos. Ele, entretanto, não sabia que podia cavalgar como o vento, e usava o cavalo para subir colina acima. Para Allie não fazia diferença. A sua maneira medieval, era um sinal de cavalheirismo. Royce não estava se comportando como um tolo: não lhe disse para subir sozinha a colina.

Mas estava com o rosto tenso e contraído. Parecia muito alterado e, para falar a verdade, não achou a mínima graça na forma como aquela mulher havia olhado para ela. Foi surpreendida usando seus poderes muitas vezes e normalmente, passada a primeira impressão, sempre tinham medo. A aldeia inteira os viu partir, sem que ninguém fizesse um ruído.

Devia se preocupar?

Ali adurante ficavam a ponte levadiça e a primeira barbacã. Allie disse:

— No instituto era a pior da turma. No último ano, não abri nem um só livro. Mas sei que em Salem, Massachusetts, no século XV, queimavam bruxas na fogueira. E estou certa de que nem sequer eram bruxas, a não ser jovens acusadas de bruxaria.

Ele virou para olhá-la.

— Não acredito que alguma bruxa foi queimada durante esta época em Alvorada.

Ela deixou escapar o ar.

— Pois é um alívio — sorriu pra ele.

Ele não se abrandou.

— Não volte a mostrar em público seus poderes.

O sorriso de Allie desvaneceu.

— Sou uma Curandeira. Dedico-me exclusivamente a isso. Se alguém precisar de mim, vou curá-lo. Não posso escolher às vítimas.

— Às bruxas são encarceradas, apedrejadas, consideradas bandidas. Escolha o que preferir — exclamou, agitado. Levou a cavalo pela ponte levadiça. Aidan seguia na frente deles, calado e pensativo.

Royce estava muito preocupado por ela. E Allie seria uma néscia se não o escutasse, tendo em conta que não sabia quão perigosas podiam ser tais acusações no mundo medieval.

— Está bem. Até que ponto deveria me preocupar?

— Já me preocupo por você. Não tem nada que temer. Disse que te protegeria e o farei — entraram no pátio central.

Allie olhava seus largos ombros por trás. Ninguém nunca disse para não se preocupar, exceto sua mãe, e isso foi em sonhos… Sua mãe estava morta. Ela se preocupava constantemente. Preocupava-se com o mal que perseguia os Inocentes e em chegar às vítimas a tempo para salvar sua vida. Tentou imaginar-se despreocupada, deixando que Royce se encarregasse de tudo, e sentiu como se tirassem um grande peso de cima. Mas podia confiar nele o suficiente para carregar esse fardo?

Seu coração batia rapidamente. Por mais medieval que Royce fosse, havia um vínculo entre eles. Se estava certa de alguma coisa, era da força de Royce. Podia apoiar-se nele, contar com ele. Não estava sozinha… e era um alívio.

— Pode ser que deixe você se preocupar por mim — disse brandamente.

Royce deteve o cavalo e a olhou de frente.

— Como vou te proteger se me desafia tão absurdamente? — perguntou como se não a tivesse escutado.

Ela o olhou desanimada.

— Não faça isto comigo, agora que começávamos a ser amigos — disse.

— Te disse para ficar em Carrick. E me desobedeceu.

Ela enrijeceu, cheia de temor. Iam brigar, justo quando começava a pensar que podia se acostumar que fosse um machão. Desanimada, desceu do cavalo e fez uma careta. Não tinha sentido dor enquanto corria pelo caminho de pedras para salvar o menino, mas agora os pés estavam doendo.

Royce resmungou uma maldição e a tomou nos braços. Gritou a alguém que levasse seu cavalo e se dirigiu á seguinte barbacã. Allie se segurou nele, surpreendida. Seus sentidos começaram a arder, cheios de prazer. Sentia-se tão bem em seus braços…

— Mantenhamos a trégua — murmurou— . Estou me esforçando muito para te entender.

— Desobedeceu-me — exclamou ele, mas menos zangado.

— Eu não aceito ordens de ninguém — tentou explicar ela— . Em minha época, as mulheres mandam em si mesmas.

— Mas estamos na minha época.

Ela suspirou.

— Alguma vez te disseram que é machista até á medula… e que não há quem te suporte?

Ele a olhou. Sua boca estava tão perto que Allie poderia tê-la beijado.

— Não sei o que é um machista.

Ela não sorriu, nem respondeu. Royce já não estava tão zangado, e ela acreditava saber por que. Deslizou as mãos pelo cabelo dourado de sua nuca. Sentiu que ele se esticava. Sorriu.

— Sempre está dando ordens… e me tratando como se fosse fraca — disse em voz baixa — . Mas não sou absolutamente. Estou tentando te compreender. Porque você não tenta me compreender?

— É uma mulher e fala muito — disse ele, como se isso explicasse tudo, certamente acreditando nisso. Mas olhava fixamente sua boca.

Ela voltou a sorrir. Podia se arrumar com um machão. Estava se acostumando a isso. Ladrava mais que mordia. E não queria discutir com ele. Além disso, Royce não era um homem razoável, assim era absurdo discutir com ele. No fim, a única maneira de se dar bem era utilizar suas artimanhas de mulher.

— Gostei de te ter a meu lado enquanto salvava ao menino — disse brandamente.

Lançou um olhar sombrio pra ela, mas seus olhos estavam cor de prata.

— Agora vai tentar me seduzir?

— Foi você quem me colocou nesta situação — disse, e sustentaram o olhar— . E , às vezes, não falo tanto.

Ele se deteve e ela sentiu que sua tensão explodia.

— Por que pensa em sexo constantemente?

— Tenho vinte e cinco anos — ela se apressou em falar — . No que quer que pense, sobre tudo quando estiver em seus braços?

Ele fez um ruído e seguiu cruzando o pátio interior. Seu olhar tinha uma expressão de férrea determinação. A cabeça doía. Allie sentiu que seu pulso acelerava, forte e denso, e teria apostado que havia outra coisa que também palpitava.

— Vai negar que você também pensa nisso a metade do tempo? — perguntou, provocadora.

— Sim, a metade do tempo. A outra metade, tenho assuntos mais sérios no que pensar.

Ela riu e o abraçou com mais força. Abraçá-lo era genial.

— Bom, essa é a diferença entre uma garota de vinte e cinco e um homem de… Quantos anos tem?

— Oitocentos e cinquenta e cinco — abriu com um chute a porta do grande salão— . Ceit! Peigi! Bette! — gritou, zangado, mas a pôs em uma das duas poltronas como se fosse uma boneca de porcelana a ponto de quebrar.

Allie ignorava que fosse tão velho. Tocou seu belo rosto, desejando acariciar muito mais que sua bochecha.

— Não vou quebrar… Sinto ter tido que te desobedecer — e era verdade — . Mas esse menino precisava de mim. Você sabe que teria morrido, se tivesse esperado que o trouxessem aqui.

O rosto de Royce endureceu. Proferiu um som áspero, como se concordasse a contra gosto. Em seguida, disse:

— Seus pés estão sangrando.

— São apenas arranhões. Agora sim vou fazer birra — sorriu pra ele. Acabava de ganhar uma batalha? Ele a olhou com cautela.

— Não sei o que é uma birra.

— Uma cerveja? — provou ela.

— É hidromel — disse ele. Virou para as três donzelas que entraram correndo no salão — . Água quente, sabão, ataduras.

 

Allie cruzou as pernas para olhar os pés. Viu aluns alguns cortes e bolhas. Nada grave.

— Não é nada. Acredito que manhã pela manhã estarei como nova — estaria melhor que nova, se aquele momento conduzisse ao que ambos desejavam.

Royce lhe lançou um olhar que parecia dizer que ainda estava zangado com ela, e se afastou. Allie tinha razão: seu casaco tinha um vulto fantástico. E o que era mais importante ainda: não estava se comportando como uma besta medieval.

Allie o viu servir o hidromel em uma taça. Royce podia comportar-se como um cretino, mas   realmente se preocupava que a acusassem de bruxaria. Inclusive, se preocupava com seus pés machucados. Fingia que não, mas se importava. No pôquer, isso se chamava blefar.

Os atos eram tudo.

Allie estava há menos de vinte e quatro horas no século XV e já estavam a ponto de ficar amigos, o que era assombroso. Talvez fosse uma amizade estranha, mas a ira de Royce se dissipou. O que acabavam de viver na aldeia tinha mudado tudo de algum modo. Ao menos, para ela.

Aidan entrou na sala.

— Tem uma luz branca muito poderosa — disse.

Allie sorriu.

— Me alegro que me dê sua aprovação.

Lhe devolveu o sorriso.

— Como não lhe daria isso garota?

Royce virou e lhe estendeu a taça de hidromel. Lançou um olhar frio e intenso para Aidan.

Allie teve a sensação de que se sentia excluída. E continuava ciumento. Bebeu um gole e lhe estendeu a mão.

— Aidan é ótimo, mas dos dois sabemos que é você quem amo.

Ele se limitou a sacudir a cabeça.

— Mas então, admite que também o deseja…

— Não, não foi isso que disse. Disse que desejo você.

Royce a olhou nos olhos e Allie sentiu que sua tensão sexual se disparava. E também seu mau humor.

— Isto é um jogo para você!

Aidan riu e saiu do quarto. O sorriso de Allie desvaneceu.

— Não, Royce, não é um jogo. Não teria voltado cinco séculos no tempo se fosse.

Royce a olhou sem sorrir. Allie sustentou o olhar. Ele não afastou a mão. Ela disse brandamente:

— Você não gosta que nos demos a mão, que nos toquemos?

Ele se afastou.

— Tenho que te salvar de si mesma.

Allie se assustou.

— O que quer dizer com isso?

— Você é a mulher mais corajosa que eu já vi. Mais corajosa que Aidan — assinalou as portas abertas que conduziam ao corredor e a escada.

Allie viu que Aidan voltava… com duas grandes bolsas da Saks. Gritou, encantada.

Você fez!

— Sim — ofereceu as bolsas a ela.

Allie esqueceu de seus pés. Olhou dentro da bolsa e proferiu uma exclamação, entusiasmada. Um vestido verde estampado. Sapatos combinando. Uma longa saia de flores em tons branco e multicoloridos. Uma camiseta branca para acompanhá-la. Uma minissaia estilo vaqueira. Belas camisetas. Jeans justos. Sandálias de salto baixo e jóias, de Giuseppe Zanotti. Um vestido de alça branco, curto, sexy, inocente, perfeito. Ah, sim, e um precioso conjunto vermelho da Escada, comprido até o chão, com sandálias de noite de cetim vermelho.

Olhou para Aidan.

— Te amo.

Ele sorriu de orelha a orelha.

Royce ficou vermelho.

— Eu não disse literalmente — falou, se levantando apesar de seus pés doloridos. Continuou vasculhando as bolsas e achou um sutiã de renda rosa. Olhou para Aidan surpresa— . Não vou te perguntar como sabia meu número.

— Tenho muita experiência — seus olhos brilharam.

Royce agarrou o sutiã.

— Não vais usar nada disto… — o atirou pro lado, furioso.

Allie sorriu.

— Tenho que vestir alguma coisa — recolheu o sutiã e o colocou na bolsa. Em seguida, pegou várias calcinhas de diversas cores— . Perfeito.

Aidan ficou calado.

E Royce também.

Allie levantou os olhos. Aidan tinha um olhar muito sexual: sabia para que servia um calcinha. Certamente viu em algum manequim… ou seduziu alguma empregada bonita e fez com que vestisse. Mas Royce estava atordoado. Olhava alternadamente pra calcinha rosa que ela sustentava na sua frente. Tinha uma expressão muito engraçada. Não sabia o que era aquilo, nem onde ia. Ela abafou uma gargalhada.

Ele disse por fim:

— Isso é uma peça de vestuário?

Aidan se engasgou e saiu do salão. Allie disse:

— OH, sim — e notou uma nota muito sexy em sua própria voz.

Royce voltou a olhá-la no rosto, cheio de frustração.

— E posso saber onde se usa?

— Terá que esperar para ver — murmurou ela.

Ele arregalou os olhos. Olhou fixamente para a tira de renda, como se esperasse que de repente começasse a falar e se identificasse.

— É para o cabelo? — perguntou.

Allie sufocou a risada.

— Não exatamente — se virou. Devia uma a Aidan.

Ele a agarrou pelos ombros… e se apoderou da calcinha.

— Você não lhe deve nada. E eu não gosto que ria de mim.

Allie tentou parar de sorrir.

— Não me estou rindo de você… verdade. Mas em minha época muitas mulheres usam isto… e todo mundo sabe onde.

Ele estava vermelho.

— Eu sou desta época.

— Quer que te ensine onde se usa?

Ele começou a desconfiar imediatamente.

— Sim.

— Agora?

— É uma armadilha, não? — perguntou, desconfiado— . Essa tira de renda é uma peça íntima. Tem dois buracos. É para os seios.

Ela manteve o rosto muito sério.

— Perdoe, mas se subir comigo, te mostro. Até mostraria aqui, mas acredito que se zangaria comigo se fizesse. Ainda mais se Aidan entrar.

Ele estava outra vez com cara de espanto, mas assinalou com a cabeça a escada que ficava mais à frente do salão.

Allie lhe entregou as bolsas da Saks e saiu rapidamente, com a calcinha. Atrás dela, podia sentir a perturbação de Royce. Não gostava que o deixassem à margem. O prazer de Allie desapareceu rapidamente.

Talvez aquilo não fosse justo. Ele queria saber o que era a tal calcinha… e ela tinha certeza de que, ao vê-la vestida com ela, seria dele.

Os homens eram muito visuais. E Royce tinha mais testosterona que doze homens juntos. Cairia rendido a seus pés: não tinha nenhuma dúvida. A calcinha era uma armadilha.

Allie ficou séria. Entraram em seu aposento e vacilou por uma razão que não conseguia compreender. O homem mais viril que conheceu estava decidido a não se aproximar de sua cama. Mas ela estava a ponto de sacudir uma tira de renda vermelha ou, melhor dizendo, um fio dental rosa durante de seu nariz.

Tratava-se do que ela desejava, e não dele e seus desejos.

Uma hora antes, Royce a protegeu enquanto ela curava um Inocente, e foi maravilhoso.

Royce deixou as bolsas no chão e a olhava com firmeza.

— Me mostre.

Suas dúvidas se intensificaram. Não queria armar uma cilada para levá-lo para cama. Queria que ele a levasse porque tinha vontade e era capaz de reconhecer isso.

Virou-se lentamente.

— Sinto muito. Pode ser que em outra ocasião. Tem razão. É uma armadilha.

O rosto de Royce parecia esculpido em pedra.

— Me mostre.

Ela ficou tensa, engoliu saliva e sentiu que o desejo lutava com sua razão e sua moral. Significavam aquelas dúvidas repentinas que também amava o Royce medieval?

Temia a resposta para essa pergunta. Mas não queria enganar Royce. Não parecia certo.

— Royce, vai se zangar se eu fizer. E… me levará para cama.

Ele esboçou um sorriso presunçoso.

— Não pode me seduzir com um pedaço de renda — seus olhos ardiam— . Aidan viu o objeto.

— Mas não me viu com ela — se apressou em dizer.

— Me mostre.

Sua mente trabalhou rápido. Royce não ia aceitar um «não» como resposta. Mas se não resistisse a ela com aquela calcinha, ela o teria provocado, e ele ficaria furioso quando acabassem.

— Estou perdendo a paciência — Royce disse rudemente.

Allie compreendeu que seu orgulho estava em jogo, ao menos em parte. Tudo aquilo era culpa dela. Cheia de incerteza, colocou as mãos sob a saia e baixou as calcinhas de renda. Com a mesma rapidez vestiu o fio dental. Desabotoou a saia e a baixou.

Ele arregalou os olhos, surpreso. Não tinha nem ideia. O quarto repentinamente encheu de tensão, e Allie sentiu um golpe de desejo, e cambaleou. Ele proferiu um som rude. Seu casaco inchou e levantou por cima de suas coxas.

— Vire — seus olhos cinza não ficaram cor de prata. Ficaram brancos como um relâmpago.

Apesar de seus receios, Allie estava tensa e ofegante. Era quase impossível pensar. Virou-se devagar.

Royce estava ofegante quando voltou a olhá-la.

— Você ganhou.

Ela respirou fundo.

— Queria me seduzir. Pois venceu. E esse pedaço de renda é sua arma — se aproximou dela e a agarrou pela cintura.

Allie deixou escapar um grito suave. Não por medo — não estava assustada —, mas sim porque ele parecia furioso e terrivelmente excitado. Royce afastou o casaco. Allie olhou seu pênis enorme e brilhante e sentiu que ia desfalecer. Conhecia seu contato. Sabia como era estar com ele na cama, cavalgando-o durante horas e horas. Mas não era aquilo o que pretendia. Tudo estava escapando de suas mãos.

— Royce — disse— , não era isto o que pretendia.

Seus olhos brilharam.

— Sim era. Queria me seduzir. E sua sedução destruirá a ambos.

De repente ela se encontrava de costas para a parede.

Royce tomou seu rosto entre as mãos, e foi como se tudo aquilo já tivesse acontecido. Allie tentou decifrar o que ele queria dizer, mas ao se encontrar com seu olhar ardente se deu por vencida. Ele a beijou.

Foi um beijo ardente, duro, ansioso, profundo… e cheio de raiva. Levantou com a coxa a perna de Allie. Ela agarrou seus braços.

— Não, espera!

Ele apertou contra ela seu membro quente, escorregadio, enorme, e o corpo de Allie começou a convulsionar incontrolavelmente.

Mas cravou as unhas em seus braços.

— Não posso fazer isso!

Ele enrijeceu, ofegando contra sua boca.

Allie deslizou as mãos até seu peito. De repente, sentindo-se mal.

— Assim, não. Com raiva, não.

Ele levantou o rosto e a olhou com expressão tensa e furiosa.

— Agora quer que espere? Quando estou pronto para te penetrar? — parecia incrédulo— . Eu não gosto de seus jogos.

Ela estava a ponto de desmaiar e de ter um orgasmo. Seria tão fácil ceder… Ambos encontrariam prazer, êxtase, delírio… e ele ficaria furioso com ela por tê-lo seduzido.

Essa manhã tinha começado algo, apesar da morte de Royce no dia anterior, apesar de seu machismo medieval. Algo maravilhoso surgiu entre eles na aldeia. Royce a acompanhou, a defendeu para que pudesse curar. Foi tão delicioso…

— Sinto muito, Royce.

Ele a olhou fixamente e a apertou com mais força. Allie pensou que não ia lhe dar ouvido. Mas ele desviou e a soltou.

— Não volte a brincar comigo.

— Royce!

— Acho que Aidan e você se divertiram muito com a maldita peça de renda, não é? — estava furioso. Deu meia volta e se dirigiu à porta.

— Pensei que isto nos uniria! — exclamou ela, consternada.

Ele se deteve, lívido.

— Pois pensou mal!

Allie deixou escapar um grito. Ele saiu do quarto cheio de fúria e ela ameaçou correr atrás dele, mas parou. Ela fez o correto.

Não era certo fazer uma armadilha para ele.

Era um engano se deitar com ele no calor da luxúria e da raiva.

Porque também estava se apaixonando pelo Royce medieval.

Allie estava sentada só na mesa do grande salão, depois do almoço. Royce partiu. Saiu de Carrick com um grupo de homens armados, mas nenhum deles usava armadura, o que era um alívio até certo ponto. Ceit dizia que tinha que tratar de certos assuntos do clã.

Allie devia a ele um enorme pedido de desculpas. E não precisava conhecê-lo muito bem para saber que não ia aceitar facilmente. Mas ela não pensava em voltar atrás. Criaram um vínculo, uma espécie de camaradagem. Iriam passo a passo, dia a dia, e não voltaria a tentar seduzi-lo de forma abrupta. Havia muitas coisas em jogo.

Ela odiava a si mesma por ter ferido seu orgulho com a calcinha minúscula.

Bebeu um gole de vinho. Logo enrijeceu, incômoda. Em alguma parte de Carrick havia um menino pequeno que se sentia mal e tinha um pouco de febre. Estava muito perto, de fato. Allie se levantou. Certamente havia muito poucas pessoas dentro do castelo. De repente ficou muito séria e se encheu de determinação. Faria uma ronda, como um médico.

— Senhora? — Ceit vacilou na soleira do salão.

Allie sorriu.

— Sim?

Ceit parecia nervosa.

— Uma mulher da aldeia deseja te ver.

Allie se alarmou.

— É a mãe do Garret? A mãe do menino que foi esmagado pelas rochas?

O menino doente estava agora mais perto.

Ceit sacudiu a cabeça.

— Não, é Magaidh, com seu menino.

Allie arregalou os olhos. Em seguida se deu conta de que se tratava do menino doente cuja presença percebeu.

— Deixe que entrem — se apressou em dizer.

Um momento depois, Ceit fez entrar uma mulher magra da idade de Allie. Tinha nos braços um bebê doente. Recordando a ordem de Royce de não curar em público, Allie ordenou a Ceit que as deixasse sozinhas e fechou as portas. Logo se voltou para Magaidh, que estava nervosa e cansada.

Allie sorriu para tranquilizá-la.

Magaidh mordeu o lábio.

— Obrigado por me receber, senhora — tremeu, e Allie sentiu seu nervosismo.

— Tudo bem — disse, segurando sua mão — . Seu filho está doente. Mas não vai morrer.

Magaidh a olhou nos olhos.

— Pode curá-lo? Faz dias que está assim — sussurrou.

— Poderá guardar segredo? — perguntou Allie, pensando de novo em Royce. E devia. Se ele acreditava que devia ser discreta, seria.

Magaidh assentiu com a cabeça.

Allie tomou o pequeno em seus braços. O menino começou a chorar. Tinha febre, mas não muito alta. Doía-lhe a garganta e Allie compreendeu que tinha uma faringite… que podia ser fatal, se não fosse tratada adequadamente. Acariciou-lhe a face e sorriu enquanto fazia fluir sua luz branca através dele. Não estava muito doente e foi fácil curá-lo. O pequeno começou a sorrir e a brincar com seu cabelo.

Magaidh arregalou os olhos. Tocou a face de seu filho. Abriu os olhos ainda mais.

Allie a olhou.

— Não sou uma bruxa. Sou uma Curandeira.

— Muito obrigado — soluçou ela. Beijou a mão de Allie, tomou seu filho nos braços e saiu apressadamente do quarto.

Allie a seguiu até a porta. Magaidh se deteve durante de Ceit.

— Curou-o — saiu correndo pelo corredor e desapareceu.

Ceit se voltou para olhar para Allie, com os olhos cheios de temor. Allie sentiu sua suspeita e seu receio. Aproximou-se resolutamente dela.

— Não te agradeci por me ajudar a sair do Carrick esta manhã.

Ceit sacudiu a cabeça, retrocedeu, deu meia volta e saiu correndo.

— Genial — murmurou Allie. Cruzou os braços e ficou ali. Fazer uma ronda não era boa ideia. Ao menos no momento. Além disso, não havia ninguém gravemente doente. Se alguém corresse perigo de perder a vida, sentiria.

Confiava que nem Ceit nem Magaidh alimentassem rumores perigosos.

Estava ansioso para voltar para casa, muito ansioso. Passou todo o dia esperando esse momento. Agora, seu coração tolo acelerou porque estava cruzando a ponte levadiça.

A lembrança da pequena Curandeira permanecia suspensa em sua mente e ficava revoando como uma fada diminuta, fizesse o que fizesse, inclusive enquanto estava resolvendo uma disputa com um chefe rival.

Começava a acreditar que estava enfeitiçado.

Não podia deixar de lembrar de seu sutiã de decote baixo e aquela tira minuscula de renda rosa.

E também se lembrava dela ajoelhada junto às rochas, na aldeia, tentando curar ao desconhecido enterrado de baixo delas.

Passou quase todo o dia tenso por culpa do desejo. Agora, estava incomodado e irritado como nunca antes, saltou de seu corcel branco e o deixou nas mãos de um rapaz.

— Refresca-o bem — disse. Sorriu para Donald, o menino, que raramente via.

— Sim, milord — se apressou a dizer Donald.

Seu aborrecimento era duplo. Aidan tinha se unido a ela naquela brincadeira pesada dirigida contra ele. Corou. Nenhum homem de sua época teria imaginado que uma mulher pudesse usar aquele objeto.

E ela jogou implacavelmente com ele. Royce esqueceu sua resolução e não pode pensar em outra coisa se não em levá-la pra cama e cobrir seu corpo. Estava prestes a sentir o calor de seu ventre. E então ela o rejeitou. As mulheres não o rejeitavam. Brigavam por seus cuidados. E logo lhe suplicavam mais.

Mas ela mudou de ideia e lhe deu às costas.

O calor em suas bochechas aumentou. Por acaso não sabia desde o começo que Ailios poderia seduzir ao próprio Papa? A vencedora era ela. Ela era a rainha e senhora, não ele.

Não gostava que tirassem sarro, nem que brincassem com ele. Poderia ter feito o que quisesse com ela, porque Ailios estava tão quente quanto ele. Se fosse diferente, teria apreciado acariciá-la até que alcançasse o clímax antes de levá-la pra cama. Ailios, pelo contrário, o deixou, e ele continuava sendo a parte derrotada. Partiu, mas não porque queria partir. Essa manhã, em seu aposento, quis possui-la cem vezes… e vê-la gozar outras tantas.

«Assim, não. Com ira, não».

Ele a soltou por causa da tortura, das dúvidas e do arrependimento que viu em seus olhos. Foi duplamente tolo? Realmente viu essas emoções? E o que importava a ele, por todos os Deuses?

Cruzou a barbacã e entrou no pátio interior. Se importava, porque Ailios era uma Curandeira e porque fazia parte do plano dos Antigos. Se importava, porque era uma inocente e se achava sob seu amparo, e porque sentia seu poder branco cada vez que ela estava perto. Todos os Inocentes eram bons. Ela era muito mais que boa: era angelical em suas motivações. Royce nunca conheceu ninguém que tivesse tamanha vontade de ajudar e curar os outros. Nem sequer Elasaid.

Ailios merecia algo mais que seu amparo: merecia seu respeito. Sobre tudo porque, ao acusá-la de ser cruel e desconsiderada, mentiu de maneira egoísta.

Ailios estava apaixonada por ele. Ele entrou desavergonhadamente em sua mente; queria conhecer cada um de seus pensamentos e suas preocupações, e nem sequer tentou respeitar sua intimidade. Tampouco queria fazê-lo. Ela o amou no futuro, e também começava a amá-lo agora. Os Deuses saberiam porque.

Não deveria sentir-se ferozmente satisfeito, mas gostava que Ailios sentisse por ele aquelas emoções românticas e absurdas. Resmungou uma maldição. Tinha que mantê-la o mais afastada dele o possível.

Escancarou a porta da sala. E parou.

Ailios estava no meio do grande salão com um de seus camponeses, um homem maior velho, que durante a juventude, foi um grande soldado. Envolvia o rosto do Coinneach com sua luz branca, que palpitava ali. E havia mais três aldeões fazendo fila, como se esperassem a sua vez para que os curasse.

O rugido de seu coração o deixou surdo. O aura branca de Ailios durante dele, o enfeitiçava do mesmo modo que seu sexo ardente e sua assombrosa beleza.

Ela usava uma saia larga de flores negras, vermelhas e azuis sobre fundo branco, e outra daqueles minúsculas camisetas, embora esta cobrisse um pouco dos ombros. E sabia que usava por baixo da camiseta que Aidan levou, aquele objeto de encaixe rosa que só cobria os peitos e que Royce ia queimar, porque suas alças de renda e contas sobressaíam por baixo da camisa.

O sangue se concentrou entre suas pernas e inflamou sua mente. Sabia que ela sentia sua presença, apesar de não virar para olhá-lo. Estava completamente concentrada em curar Coinneach.

Royce sufocou o impulso cego de se aproximar dela, leva-la pra cima e pôr fim a esse absurdo ritual no qual ambos se perseguiam e fugiam um do outro, se seduziam e se rejeitavam. «por que não?».

Não podia continuar muito mais tempo assim. Tinha necessidades… e só ela podia aliviar, tinha certeza. A única coisa que tinha que fazer era levantar um muro de pedra ao redor de seu coração. Podiam compartilhar o êxtase… e nada mais.

Sentia-se extranhamente aturdido. Concentrou-se e procurou dominar aquela luxúria vermelha e cegadora e ver mais à frente.

Ailios estava tratando de uma dor de dente?

Respirou fundo uma última vez e se aproximou, um pouco mais calmo.

— Ailios…

Ela estava com o rosto de Coinneach entre as mãos e sorria para o velho guerreiro.

— Não voltará a te incomodar — disse brandamente.

Coinneach ficou pasmo.

— Minha senhora! Fazia mais de um ano, e agora não dói!

Ailios sorriu docemente ao velho. Como se tivesse sorrido para ele, Royce sentiu um tombo no coração.

— Era uma infecção grande. Mas não voltará. Vai para casa e desfruta da tarde — disse.

Os highlanders eram duros e orgulhosos, todos eles, mas Coinneach ficou de joelhos e beijou a barra de sua saia.

— Obrigado. Bendita seja. É uma Santa.

Ailios riu e sua risada soou como um riacho na primavera correndo por pedras cobertas de musgo.

— Não sou uma Santa — seu sorriso se dissipou. Tocou o ombro de Coinneach, o ajudando a levantar-se, e por fim posou seus grandes olhos escuros em Royce.

Lhe sustentou o olhar. Tinha pedido pra que ela não exibisse em público seus poderes. Três aldeões acabavam de vê-la curar o velho Coinneach. E estava seguro de que esperavam sua vez para que ela aliviasse suas dores.

Ailios mordeu o lábio. Mas em seus olhos havia um brilho ávido, uma formosa luz parecida com a alegria, e ao introduzir-se em sua mente Royce viu como se sentia feliz em vê-lo, embora só tivesse passado algumas horas.

— Acho que, para Ruari.

Ele ficou tenso. Sempre tinham falado em inglês. Sabia, entretanto, que ela entendia gaélico. Sentiu um aperto no coração ouvir aquela língua antiga fluir como mel de seus lábios. Olhou-a mais atentamente. Usava os lábios pintados com algo rosa e brilhante. Se perguntou o que seria.

Ia perguntar a ela, pois, não queria esperar outros quinhentos e oitenta anos para descobrir.

— Está curando uma dor de dente.

— Era uma infecção grave — sussurrou ela, e uma expressão de preocupação cruzou sua face. Olhou por um momento o vulto em seu casaco. Umedeceu os lábios.

Ele espiou seus pensamentos.

Ailios estava lembrando do sabor de seu sexo. Estava lembrando como ficaram perto de «fazer amor» essa manhã.

Respirou fundo de novo para acalmar-se.

— E os outros?

Ela parecia reticente.

— Não sei como aconteceu. Passaram o dia todo vindo me ver. Dores de dente, resfriados comuns, cortes, hematomas, dores nas costas… — a alegria que iluminava seus olhos desapareceu. Estava assustada. Royce contou até três. Apontou para os três aldeões que esperavam.

— Algum está gravemente doente?

— Não.

Ele se voltou.

— Lady Ailios não pode lhes atender hoje. Bom dia.

Os dois homens inclinaram a cabeça e a garota fez uma reverência. Pareciam decepcionados, mas partiram imediatamente. Royce cruzou os braços e virou devagar para olhá-la.

Tentou não pensar em quão bonita estava com aquela saia colorida e aquela pequena camiseta branca. Tentou não pensar que certamente usava também aquela pequena «tanga» rosa.

— Esta manhã ouviu como esse rapaz te chamou de bruxa.

Ela respirou fundo.

— Sabe que sim. Se está zangado, e sei que está, porque sua aura ficou vermelha como o fogo. Está refreando muito bem sua ira.

Estava mais zangado pelo qua houve esta manhã. Não deixou claro suas prioridades. Permitiu que Ailios brincasse com ele. E teve que sufocar rapidamente qualquer falatório sobre bruxas e feitiços. Não queria que se estendesse o rumor de seus poderes curativos.

Moffat se daria conta de que estava ali, em sua época. E talvez os reis também se interessassem por ela. O rei era muito devoto, e podia considerá-la tanto um presente divino como um perigoso sinal do demônio; a rainha era ambiciosa e quereria utilizar seu poder em proveito próprio. Royce não queria que Juana Beaufort se interessasse pelo Ailios.

— Não quero discutir — lhe disse— . Está claro que não obedece a ninguém — lançou um olhar— . Se desobedecer a seu próprio pai, seria estúpido acreditar que foste obedecer me a mim, embora seja o senhor do castelo. Já não me ofende seu desafio — falava sinceramente.

Aproximou-se da chaminé e ficou olhando o fogo. Como ia superar essa noite, e todas as seguintes, quando a paixão ardia dentro dele como um incêndio?

Sentia o aroma do Ailios. Um aroma floral, puro e fresco como a água das Terras Altas, mas, sobre tudo, um aroma a sexo e a mulher.

Estava húmida e torcida baixo aquela saia surpreendente e aquele objeto diminuto e escandaloso.

Royce se esfregou as têmporas.

— Está bem — disse ela com cautela a suas costas— . Esta manhã estava muito zangado. Agora também deveria está-lo. O que é o que acontece?

Ele não queria olhá-la.

— Sei que não pode te refrear. Se alguém estiver doente, tem que curá-lo.

— Sim.

Royce se voltou.

— Nisso é como sua mãe. Nunca lhe dava as costas a ninguém, enquanto fora um Mestre ou um Inocente.

Ela o olhou com assombro.

— Conhece… conheceu minha mãe? — perguntou.

Ele adotou uma atitude cautelosa.

— Sim, conheci-a.

A mente do Ailios girava vertiginosamente, de forma incoerente.

— Como…? Espera! Ainda não te converteste em Royce do XXI. Não pode ter conhecido a minha mãe.

Royce sentiu o impulso de reconfortá-la. Sua angústia era profunda, e começava a assustar-se. Não sabia nada.

Introduziu-se em sua mente, mas seus pensamentos seguiam sendo incoerentes. Hesitou e tocou seu braço.

— Vamos sentar nos, Ailios.

— Não quero me sentar! — gritou ela. Estava pálida, salvo por duas manchas rosadas em suas bochechas.

Abriu a boca, mas não disse nada.

Ele a puxou pela mão com firmeza.

— Lamento que não saiba a verdade sobre o Elasaid.

Ela se desviou.

— Chamava-se Elizabeth! Elizabeth Monroe!

— Sim, Elizabeth é a tradução inglesa — lhe sorriu— . Vêem te sentar comigo, garota — acentuou o tom sedutor de sua voz.

— OH, por todos os Deuses — murmurou ela, alheia a seu atrativo viril— . Quando? Quando conheceu minha mãe? Em que época?

Royce lhe puxou a mão e a aproximou dele. Seu corpo gritava de prazer; ele procurou ignorá-lo. Quando descobrisse quem é e o que era, Ailios se levaria uma forte impressão. Ele recordava muito bem sua perplexidade ao descobrir que estava destinado à Irmandade e que sua avó era uma Deusa.

— Vi o Elasaid pela primeira vez no século VI — Ailios deixou escapar um soluço— . Sua mãe era uma grande Curandeira, e você se parece muito a ela — acrescentou brandamente.

Ela o olhou com lágrimas nos olhos.

— por que não me tinha isso dito? O que significa isto? Ela também era neta de um Deus?

— Não, seu pai era o maior dos Deuses.

Ailios o olhou com olhos enormes. De repente se deixou cair em um banco.

— Meu avô… — disse devagar— era um Deus.

— Sim — se perguntou se devia lhe dizer o resto da verdade nesse momento ou mais adurante.

Ela se girou.

— Há algo mais? Sei que está te perguntando o que me contar e que não. Todo este tempo pensei que minha mãe era uma Curandeira e uma pagã. Inclusive pensei que podia ser uma bruxa boa e poderosa. Acreditava que isso explicava nossa religião: as preces, as curas, nossa percepção do mal…

— Elasaid não era uma bruxa. E você tampouco o é, Ailios — ela o olhou contendo o fôlego— . Era nossa Sacerdotisa nos tempos quando ainda tínhamos uma.

 

Allie ficou ali sentada, paralisada pelo medo.

Toda sua vida tinha acreditado que sua mãe era uma mulher abençoada com extraordinários poderes curativos. Nunca, entretanto, lhe ocorreu pensar que Elizabeth Monroe pudesse não ser de todo humana. Embora acreditasse nos Antigos, não imaginava que um deles pudesse ter tido um filho com um ser humano. Seu coração pulsava dolorosamente. Seu avô era um Deus. Sua mãe foi uma grande sacerdotisa séculos atrás.

— Toma um pouco de vinho — disse Royce brandamente.

Ela se sobressaltou; esqueceu-se por completo dele. Estava sentado a seu lado, com uma jarra de vinho na mão. Estava muito sério, como se sua perplexidade lhe preocupasse.

— Não tinha nem ideia — murmurou ela com voz tremente. Olhou seus olhos cinzas e inquisitivos. Royce tinha um olhar amável.

E ela sentia sua preocupação: uma quebra de onda suave e reconfortante que ondeava a seu redor. Mas estava muito assombrada para parar-se a pensar na repentina compaixão de Royce. Sua mãe era filha de um Deus. No que a convertia isso a ela?

Pensou no cuidado e a deliberação com que sua mãe ocultava seus poderes e sua religião de seu pai. Recordou o quarto secreto em que rezavam.

— Me fez prometer que guardaria o segredo — sussurrou — Meu Deus, meu pai alguma vez suspeitou da verdade sobre ela? Sobre mim?

Royce a agarrou pelo ombro.

— Não sei, Ailios.

Começava a se sentir doente. Seu pai foi um homem brilhante, ambicioso, sério e austero. E embora fosse episcopaliano, Allie estava certa de que na realidade não acreditava em nenhum Deus. Vivia entregue a seu trabalho e era tão diferente de sua mãe como podia ser. Suspeitou de algo alguma vez? Como não ia suspeitar, sendo tão esperto? Allie tentou lembrar de sua vida com sua mãe, mas só recordava a dor de seu pai quando ela morreu.

— Ele a queria — sussurrou. Royce não respondeu e ela olhou seus olhos cinza e escrutinadores— . No que me converte isso ?

— Em uma grande Curandeira — respondeu ele com voz suave.

Ela sentia o estranho impulso de chorar. Mas chorava por si mesma ou por William Monroe, ao que ambas, de certo modo, tinham traído?

— Quanto tempo vou viver?

— Não sei — lhe deu a jarra — Beba um pouco de vinho, garota.

Aquela expressão querida fluiu de sua língua como suave e antigo uísque escocês. Allie ficou olhando-o; em seguida baixou a jarra.

— Tratou-a muito tempo?

— Sim, durante séculos.

Sua presença era tão consoladora que Allie sentiu o desejo de jogar-se em seus braços. Mas não o fez. Pensou no muito que significavam os Deuses para ela.

— Não sou uma Sacerdotisa, verdade? — era por isso que Royce resistia a deixar-se seduzir por

ela?

Ele a olhava muito sério.

— É uma Curandeira. Não há Sacerdotisas há séculos. Nosso culto se converteu em uma grave heresia, assim em público professamos a fé católica. Sua mãe foi nossa última Sacerdotisa.

— Pode me falar dela? E como demônios acabou com meu pai? Eram tão diferentes…! — começava a preocupar-se com esse matrimônio. Sua mãe viveu séculos e, entre todos os homens, elegeu um que carecia por completo de fé.

Royce começou a falar.

— Era muito bela, como você, mas loira. E sempre estava derramando sua luz pura sobre quem necessitava. Se estivesse em seu lugar, ela também teria curado o velho Coinneach hoje.

Allie sorriu.

— Disso me lembro. Não podíamos nem entrar em uma sorveteria sem que derramasse sobre alguém sua luz curativa. Morreu quando eu tinha dez anos… e ninguém soube por que — enxugou a bochecha com a mão — Tinha chegado sua hora, Royce? Morreu dormindo! Pode morrer assim a filha de um Deus?

— Se morreu dormindo, foi vontade dos Antigos. Pode ser por que já era muito velha. Os Mestres não são imortais, Ailios, embora às vezes pareçam. Sua mãe tampouco era.

Allie sorriu com tristeza. Nesse momento sentia muito a falta de Elizabeth.

— Não chorei quando morreu. Essa noite, me apareceu em sonhos para me reconfortar. Foi a primeira de muitas visitas, durante minha infância.

Royce estava em silêncio.

— A noite que nos conhecemos, voltou a aparecer pra mim de repente. E me disse que confiasse em você.

Royce se surpreendeu.

— A Viu? Falou com você?

Allie assentiu com a cabeça.

— Me assustei muito. Fazia pelo menos dez anos que não me procurava. Me disse que confiasse em um Mestre dourado. E nessa noite você apareceu.

Royce ficou olhando-a.

— Pode ser que não tenha surgido dentre os mortos. Talvez proceda do passado.

— Podia viajar no tempo? — perguntou Allie.

Royce assentiu com a cabeça.

Essas visitas de sua mãe procediam de outra época e não de mais à frente? Começou a tremer.

— Em meus sonhos usava sempre uma túnic branca e vaporosa. Mas como podia me visitar do passado? Como? Não podia saber de minha existência. Ou também possuía a Visão?

— Não, e eu não tenho as respostas que precisa, garota.

Estava sendo tão amável…

— Podia viver séculos, igual a você — Allie tomou suas mãos — Se retrocedesse no tempo poderia vê-la, verdade? Estaria viva, no passado. Você saberia onde encontrá-la!

Royce levantou.

— Está proibido saltar em proveito próprio.

— E se estiver tentando entrar em contato comigo desde algum século passado porque está ocorrendo algo terrível? Quando apareceu no South Hampton para dizer que confiasse em você, seus olhos pareciam cheios de angústia. Senti que acontecia algo ruim!

Royce seguia olhando-a em silêncio. Allie se abraçou. Ele não ia levá-la ao passado, para sua mãe. Por enquanto. Talvez fosse absurdo… ou talvez fosse a única coisa que sentisse.

— Quando foi a última vez que a viu?

— No século XIII. Ninguém a viu depois — acrescentou ele.

Allie se sentou muito erguida. O que significava aquilo?

— Crê que saltou do século XIII até minha época?

Royce afastou o olhar.

— Acredito que é possível.

De repente parecia esquivo.

— O que aconteceu? — perguntou ela, alarmada.

Ele demorou para responder, e Allie se assustou ainda mais.

— Seu marido, William Macleod, e o filho mais velho dele, fruto de seu primeiro matrimônio, foram assassinados. Ninguém viu Elasaid desde os assassinatos, nem sequer seu próprio filho. Seu irmão.

Allie sufocou um grito de surpresa. Sua mãe esteve casada no século XIII. Ela tinha um meio irmão. E ninguém viu a Elizabeth do século XIII, fazia quase duzentos anos.

Saltou para o século XX depois dos assassinatos?

— O que aconteceu? Quem matou seu marido e seu enteado?

— Não se sabe nada — disse Royce brandamente— . Só encontraram os cadáveres de Macleod e de seu filho. Elasaid desapareceu nesse mesmo dia. Não foi um assassinato diabólico, a não ser político, parte das guerras fronteiriças. A princípio, pensamos que tinha fugido do assassino. Mas nunca retornou.

— Se presenciou os assassinatos, não estaria segura em nenhuma parte — disse Allie— . Pode ser que tenha partido para minha época, onde conheceu meu pai e me teve — mas por que se casou Elizabeth com William Monroe? De repente reparou em que seus dois maridos tinham o mesmo nome próprio— . Amava seu marido, esse tal Macleod?

— Muito, sim. William o Leão era mortal, um barão inglês muito poderoso. Mas Elasaid não foi feita para amar um homem, Ailios. Como você, estava destinada a servir aos Antigos e à humanidade.

Allie ficou tensa. De repente sentiu o poder do amor de sua mãe por Macleod. Foi imenso, absorvente, um desses amores que só se encontra uma vez na vida.

— Não tente me convencer de que os Deuses dispuseram o assassinato do Macleod como vingança porque ela se atreveu a amar um mortal. E, por certo, também amava meu pai — mas não recordava o amor de sua mãe por seu pai; só recordava a dor de seu pai depois de sua morte. E sabia que de certo modo, aquele amor foi uma mera sombra da paixão que Elizabeth sentiu por seu barão inglês.

Allie esfregou as têmporas doloridas. Sua mãe nunca se recuperou da morte do William Macleod. Tinha a certeza.

— Por favor, me fale de meu meio-irmão.

— Chama-se Guy Macleod — acrescentou : — Conhecido como Black Macleod. Há muitos homens que o temem.

Allie se deu conta de que Royce falava no presente. Royce a rodeou com o braço.

— Sei que está impressionada.

Ela se virou e o agarrou pelos ombros.

— Não sou boa em matemática, mas nasceu há quase duzentos anos. Se seguir por este caminho, isso significa que ele também é um semideus — era uma pergunta.

— É um Mestre, garota.

Tinha um irmão, um guerreiro sagrado como Royce. Allie se agarrou nele e sentiu que a abraçava.

— Precisa se deitar.

Allie não queria se deitar. Queria pensar! Outro irmão… Sua mãe, filha de um Deus e casada com um barão das Terras Altas no século XIII, com um homem que amou de verdade… Sua mãe fugindo dos assassinos de sua família e saltando para o século XX, onde conheceu seu pai e a teve…

E, fazia uns dias, sua mãe tentou contato com ela.

O que significava tudo aquilo? A cabeça estalava.

— O que devo fazer agora? — perguntou, desesperada, agarrando os fortes braços de Royce.

— Não pode fazer nada — respondeu ele com firmeza — . Precisa descansar. Amanhã estará mais calma. Pensa muito, Ailios. Deixa que te leve pra seu quarto.

Seus olhares se encontraram. O poder de Royce era o porto mais seguro no qual esteve em toda sua vida.

— Porque está sendo tão amável? — perguntou por fim, envergonhada por seu estalo. Mas seu mundo virou do avesso em um instante — Onde está o Royce de antes? Não seja amável, se não for sincero — não sabia o que faria se o Royce medieval voltasse a aparecer.

— Eu senti o mesmo, me fiz as mesmas perguntas que você — disse ele.

Ela estava ainda mais confusa. Do que estava falando?

— Não soube a verdade sobre meus ancestrais até que fui eleito — disse ele com calma— . Nunca esquecerei essa impressão.

Ele a entendia. Allie se deixou cair contra seu peito. Ele demorou um momento para abraçá-la. Allie fechou os olhos e tentou pensar, mas não podia.

— Pode ser que nunca saiba a verdade sobre o desaparecimento de sua mãe — disse ele em voz baixa— . Fugiu depois do massacre. Pode ser que tenha vivido durante anos em outros séculos. Mas o que importa, Ailios? Sua mãe morreu dormindo em sua cama. Você a enterrou ainda menina. Isso faz parte do passado. Deixa-a descansar em paz.

Allie demorou um momento para responder.

— Mas pode que não esteja descansando em paz — murmurou. Olhou-o.

Ele tinha uma expressão séria.

— Deve ter paciência. Esta noite não averiguaremos a verdade.

Allie abraçou ele, olhando-o nos olhos. Sua mãe não descansava em paz: soube nesse momento, como sabia que amava o Royce medieval tanto quanto o homem moderno. Estava acontecendo algo terrível… e por alguma razão, fosse qual fosse, sua mãe a onduziu até Royce.

Royce acabava de dizer que não averiguariam a verdade. Estava com ela nisto. E não lhe importava se era por seu sentido do dever, ou pelos votos que tinha tomado.

— Obrigado — conseguiu dizer.

Royce vacilou. Allie sentiu em seu corpo grande e quente. Logo a atraiu para si e a abraçou com força, só um segundo.

Allie se incorporou.

Era de madrugada, mas não estava adormrcida. Esteve pensando em sua mãe e em seus irmãos, o do século XXI e o medieval. Queria muito o primeiro, Alex, embora se parecesse com seu pai e julgasse absurda sua espiritualidade. Não conhecia o segundo, Guy Macleod, mas tinha intenção de conhecê-lo muito em breve.

Royce tinha razão. No que concernia à vida de sua mãe, talvez nunca conhecesse todas as respostas, mas queria se assegurar de que Elizabeth descansava em paz. Por desgraça, não tinha nem a menor ideia de como proceder.

A tensão se apoderou dela, forte e com sigilo. Fora, havia lua crescente e a noite estava cheia de estrelas brancas. Dentro, um fogo ardia no lar, como se fosse uma noite de inverno. Allie deixou de lado suas reflexões, suas emoções, e se concentrou.

O mal os espreitava não muito longe dos muros de Carrick.

Levantou num salto, ainda vestida com sua camiseta branca e sua saia colorida. Calçou as sandálias e cruzou correndo a torre. Não teve que adivinhar qual era o aposento de Royce, porque sentia seu poder. Puxava por ela como areia movediça.

Não queria, entretanto, vê-lo na cama com outra mulher. Sua amabilidade dessa tarde foi surpreendente, e temia ter imaginado.

Ao chegar a seu aposento, só sentiu Royce. Estava a ponto de agarrar o trinco quando a porta se abriu e Royce saiu tão rapidamente que chocaram. Ele a agarrou pelos cotovelos.

— O mal…

— É humano — ela se apressou em dizer.

Ele a olhou fixamente; logo levantou a cabeça. Allie viu que esquadrinhava a noite. Logo a olhou de novo.

— Seus sentidos são mais fortes que os meus. Não noto se é humano ou Deamhanain.

— É humano, mas possuídos. Sinto-os nas muralhas. Ainda não estão dentro.

Royce contraiu o rosto.

— Fica em seu quarto — passou ao seu lado. Agarrou a corda de um sino e puxou. O sino começou a soar. Bong… bonggg… bongggg…

— Preciso de uma arma — disse Allie.

— Não, se você se esconder — replicou ele sem olhá-la. Desceu correndo as escadas. Allie o seguiu. As pedras pareciam geladas sob seus pés descalços. O mal estava se introduzindo no castelo.

— Disse que ficasse lá em cima — gritou ele por cima do ombro.

Era absurdo discutir. Royce estava concentrado na batalha iminente. Allie o via no fulgor de sua aura e sentia seu poder e sua determinação.

No salão, Royce agarrou duas espadas e abriu uma arca cheia de armas. Dois homens irromperam no quarto. Allie colocou a mão na arca enquanto ele dizia:

— Penetraram as muralhas.

Allie agarrou uma faca e respondeu:

— Só seis estão possuidos. Capturem vivos, se puderem.

Lhe lançou um olhar furioso e incrédulo, e saiu a toda pressa.

Ceit entrou correndo, acompanhada de Peigi.

— O que está acontecendo? — gritou. O cabelo avermelhado e solto chegava até sua cintura. Estava no rosto que estava dormindo.

— Deveriam se esconder — Allie lhes deu as costas, fechou os olhos e se concentrou.

Sentiu-os no alto das muralhas. Sufocou um grito quando uma faca atravessou um homem, cuja dor fluiu a seu redor. Abriu os olhos e saiu para o pátio interno. Foi para as muralhas iluminadas pelas tochas e a luz das estrelas, viu três humanos possuídos apunhalando os guardas. Os gritos dos soldados se apagaram.

Royce saltou nas escadas hasteando a espada. O acompanhavam seis homens.

— Pelo Carrick! — rugiu.

Mas os humanos que acabavam de assassinar os guarda não desciam. As muralhas tinham dois pisos de altura, mas de todos os modos Allie percebia suas intenções.

— Royce!

Ele virou.

Os três agressores saltaram dos muros para o pátio e aterrissaram por debaixo de Royce, que estava no meio da escada, a alguns metros de Allie.

Ela se encontrou nos três pares de olhos enlouquecidos que brilhavam, vermelhos. Toda sua maldade estava concentrada nela. Seu aroma era repugnante. Nesse momento, Allie compreendeu que foram atrás dela.

— Ailios! — gritou Royce.

Allie agarrou com força sua faca, esticando-se.

Royce desceu correndo as escadas.

Um dos atacantes saltou para ela com seu poder demoníaco, cruzando a distância que os separava de um só salto. Em sua mão brilhava uma adaga. Allie se afastou e seu agressor caiu no chão, não muito longe dela. Levantou-se de um salto e Allie se escondeu, confiando em se esquivar do golpe seguinte.

Ele sorriu e, enquanto seus dentes jorravam saliva, embainhou a adaga. Allie compreendeu com surpresa que não queria matá-la. Queria capturá-la.

Ouviu atrás dela o bater furioso das espadas. Sentia um poder e uma fúria viril; sentia dor. Um homem gritou e morreu no ato.

Sobressaltada, Allie viu que era um dos homens de Royce. Seu agressor se lançou contra ela com velocidade demoníaca, como uma serpente atacando. Allie se separou com um pulo, mas ele a agarrou pelo braço e a atraiu para si com tanta força que, ao chocar com ele, ela viu estrelas. Era um gigante. A cabeça de Allie apenas chegava no seu peito. Sua força era sobre-humana e Allie ficou quieta. Não poderia escapar de suas garras pela força e não se incomodou em tentar.

Aturdida pelo impacto, viu que Royce decapitava um monstro humano. Três de seus homens jaziam mortos a seus pés. O último monstro estava atrás dele. Ao olhar para trás, o gigante possuído lançou um golpe.

Allie acreditou reviver uma cena já vivida.

A espada atravessava Royce desde atrás… Royce gritava seu nome, alheio ao golpe; e ela o via de perto, incapaz de intervir.

Como se os Antigos pretendessem que morresse assim, seria igual em qualquer época ou lugar.

Allie gritou e se retorceu entre as garras do demônio enquanto a espada afundava no ombro de Royce. Gritou de novo. Quase esperava ver seu braço esquerdo caído no chão, separado de seu corpo.

Royce virou e lançou uma estocada. As espadas chocaram, chiando. Allie viu que seu braço esquerdo pendurava de forma estranha, e procurou sua dor… mas não sentiu nada. Ou estava tão raivoso e carregado de adrenalina que não sentia o golpe, ou era imune a uma dor que faria deprimir outros. Ele empunhou então sua espada curta com a mão esquerda e a passou pelo pescoço do homem, abrindo a garganta. Saiu um jorro de sangue.

Royce agarrou a tocha do moribundo e se voltou para olhar o homem que sujeitava Allie. Seus olhos prateados brilhavam. Soltou a espada larga e passou a tocha para a mão direita. Allie ficou muito quieta.

Não sentia dor. Sentia uma raiva assassina. E notou que seu captor titubeava. O medo se apoderou dele.

Royce esboçou um sorriso aterrador. Respirava agitadamente e sangrava muito. A parte superior de seu casaco se tornou de cor escarlate. Mas foi seu olhar cruel (o ardor implacável de sua alma) o que fez com que Allie segurasse o fôlego.

De Royce não ficava nada, salvo um guerreiro bárbaro.

Ele avançou sem deixar de sorrir.

O coração de seu captor acelerou e apertou a adaga contra sua garganta.

Allie sentiu que se afogava.

— Lhe tire sangue e é um homem morto — disse Royce sem se deter. Avançou rapidamente, com tocha na mão.

O captor de Allie vacilou e ela sentiu que seu medo aumentava.

— Vai morrer de qualquer maneira — grunhiu Royce, e lançou a tocha.

Allie ficou paralisada enquanto a tocha girava no ar, para eles. A tocha passou por cima de sua cabeça (sentiu que roçou seu cabelo) e partiu o rosto do homem em dois.

O homem cambaleou para trás e gritou, soltando-a. Allie se separou com um pulo. Royce passou a seu lado e cravou sua espada no coração do monstro. Em seguida ficou ali parado, respirando agitadamente, apoiado na espada, com o braço esquerdo pendurando, inerte.

Allie se levantou lentamente.

Ele virou e extraiu a espada do cadáver. Embainhou-a e olhou para Allie com um brilho demente no olhar, como um guerreiro enlouquecido pela batalha.

— Deixe-me te ajudar — sussurrou ela, tremendo. Não sabia se o velho Royce estava presente no guerreiro medieval. Queria que voltasse com ela, mas ao olhá-lo não estava segura de que seu desejo pudesse se tornar realidade.

Mas Royce estava ferido gravemente. Outro homem já estaria inconsciente. Allie tinha que salvar seu braço… e sua vida.

Mas não sentia sua dor.

Royce a olhava fixamente, com dureza, os olhos muito abertos e brilhantes. Allie se sentiu pequena, feminina, indefesa. Logo, aquela raiva ardente e prateada começou a brilhar com menos força. Aquela faísca de loucura começou a se apagar. Allie sentiu que o batimento frenético de seu coração ficava um pouco mais lento. Royce não falava, mas começava a voltar para ela, e Allie compreendeu que tentava recuperar a prudência.

Ele respirou fundo e disse:

— Está ferida?

— Não. Mas você sim — tinha que curá-lo, mas desconfiava. Não sabia o que ocorreria se se aproximasse dele.

Royce assentiu com a cabeça, ofegante, e se voltou para seus homens. Agora que a breve batalha tinha acabado, todos os Cavaleiros da guarnição tinham saído à esplanada levando armas.

— Não voltarão a atacar Carrick. Tripliquem a guarda. Ocupem-se dos mortos.

Olhou para Allie com dureza. Logo passou bruscamente a seu lado.

Sua dor a cegou.

Respirou fundo, entrecortadamente. Assombrava-lhe que ele seguisse ainda de pé. Logo correu atrás dele. Royce seguia enfurecido pela batalha, mas começava a sentir os efeitos daquele golpe terrível e sangrava profusamente. Agora que podia sentir sua dor, Allie estava segura de que seu braço estava parcialmente separado do corpo. Mas ele estava tão enfurecido que ainda não sentia por completo.

Deteve-se junto à mesa e pegou o jarro de vinho. Ceit e Peigi pareciam a ponto de desmaiar.

— Não haverá mais festa esta noite — lhes disse ele com aspereza — . Tragam panos e água. Boa noite.

Ceit não vacilou. Peigi e ela saíram a toda pressa.

Allie se aproximou lentamente de Royce, que estava em meio a um atoleiro de sangue. Aquela dor cega voltou a atravessá-la.

Royce a olhou… e então arrancou o casaco empapado de sangue e o jogou no chão. Allie mordeu o lábio ao ver seu corpo: musculoso, cheio de cicatrizes e assombrosamente excitado. Ele voltou a olhá-la com ardor.

Allie pensou, inquieta, que seguia possuído pelo ansia de sangue.

— Vem aqui — disse ele, como se desse uma ordem a um de seus homens.

Allie tinha que curá-lo, mas vacilou. Inclusive ferido gravemente, seu corpo era magnífico. E ela sentiu seu desejo dentro de si. Suplicava satisfação.

Royce quase lhe dava medo. Mas seu corpo zumbia e vibrava com intensidade própria.

— Está sangrando.

Ele lançou outro olhar apaixonado.

— Pois me cure — logo acrescentou com um murmúrio — : Vem e me cure, Ailios.

Ela tremeu e derramou sua luz branca sobre ele, dentro dele.

Os olhos de Royce aumentaram, como se não esperasse.

Mas alguma vez uma Curandeira o curou? Ela sabia que seu poder era quente e que fazia os outros se sentirem bem. Sabia que, assim que recebesse seu poder branco, a dor de Royce começaria a diminuir.

Royce a olhava com surpresa, mas seu olhar seguia sendo intensamente viril e voraz. Allie sentiu a dor aguda que o atravessava e que atravessava a ela também. Mas já não era cega.

Derramou mais luz sobre ele, dentro dele, e se concentrou no ombro e na profunda ferida. Ele grunhiu. Era um som de prazer.

Logo lhe lançou outro profundo olhar. Parecia ter recuperado a razão.

Segura de que não ia saltar sobre ela como uma besta, Allie se aproximou e pôs as mãos sobre sua ferida, fazendo pouco caso do sangue. De suas mãos fluiu mais poder curativo. Royce a olhava nos olhos intensamente.

— É agradável — disse com voz rouca.

Ela sorriu, mas não disse nada. Não podia se concentrar se mantivesse uma conversa. Lançou mais poder curativo diretamente à ferida. fixou-se em seus grandes bíceps, justo por cima do nível de seus olhos, e em seu peito coberto de sangue.

Ele grunhiu de novo ao se dissipar mais ainda a dor. Sentou-se.

Allie era tão baixa que era mais fácil apoiar a mão sobre seus ombros se estivesse sentado. A hemorragia cessou. Sentiu que a carne de dentro da ferida se unia e se renovava. A dor regrediu até se converter em um simples incomodo. Ela sorriu, satisfeita. Em seguida o coração deu um pulo.

Esteve outra vez a ponto de causar a morte de Royce.

— Estou bem — disse ele com voz densa.

Allie viu que estava ainda mais excitado que antes. Mas era lógico. Aquele frenesi selvagem e assassino tinha desaparecido. O bárbaro tinha desaparecido. Mas ela deteve a hemorragia, e o sangue estava indo a outra parte. Ele a olhava fixamente, com estranha indecisão.

O coração de Allie deu um novo salto.

— Não se mova — disse brandamente— . Me Deixe acabar.

Ficou ali sentando, olhando-a de perto.

Allie se aproximou da porta e saiu no corredor, confiando em encontrar Ceit para que levasse as ataduras e a água. A garota tinha deixado uma bacia cheia de água e ataduras junto à porta. Allie recolheu as coisas e retornou ao salão.

Diminuiu o passo. Royce estava nu sobre o banco, completamente excitado, e parecia justamente o que era: um homem de virilidade sobrenatural, um superpoderoso guerreiro sagrado de ascendência divina. Virou para olhá-la. Seu olhar ardia.

Allie se aproximou. Tinha o corpo em chamas. Estava convidando ela pra cama, por fim? Ou continuava excitado por conta da batalha infernal? Limpou o sangue de seu ombro com um pano úmido, e se alegrou ao ver uma cicatriz vermelha. Pela manhã seria rosa, e dentro de um dia ou dois, branca. Retorceu o pano e o passou por seu braço.

Ele respirou fundo e jogou a cabeça para trás. Tinha os olhos fechados. Em seu pescoço palpitava uma veia. Seu abdômen enrijeceu, os músculos duros e escuros.

Allie abriu o pano e o deixou sobre seu ombro. Estava tão excitada que não podia suportar. Tudo mudou nas últimas horas e essa noite não havia ira entre eles. Consciente do que Royce estava pedindo, e que ela queria, deslizou lentamente o pano úmido por seu peito. Ele disse sem abrir os olhos:

— Não acredita que não estou zangado.

Ela teve que sorrir enquanto seguia lavando o sangue.

— Cala a boca.

Deslizou o pano mais abaixo, sobre suas costelas. Ele abriu os olhos; tinha um olhar ardente e pesado, cheio de lânguida intensidade. Seguia arqueado de costas contra a mesa.

— Pode me desobedecer quando quiser — disse com suavidade, sedutoramente — , mas não na batalha.

Allie vacilou. Não estava olhando nos olhos dele. Ele se esticava contra o pano úmido.

— Acredito — disse ela, e deslizou o pano mais abaixo, por seu ventre, embora ali não houvesse sangue — , que nunca serei castigada.

Royce ficou muito quieto; respirava entrecortadamente enquanto a observava. Allie pegou o pano e passou por cima de sua larga e grossa ereção.

Ele deixou escapar um áspero gemido de prazer.

Allie o olhou nos olhos e sorriu; seu coração batia violentamente, cheio de excitação. O olhar de Royce pareceu arder, e a agarrou pela mão. Tomou o pano e o jogou para o lado. Allie ficou de joelhos e esfregou o nariz contra seu pênis perfeito. O prazer começava a explodir. Royce sufocou um gemido e ela voltou a incitá-lo com sua bochecha. Acreditou ouvir que ele pedia pra ir mais rápido. Distribuiu beijos sobre sua pele quente.

Ele a agarrou de repente pelos quadris, a colocou de pé e a aprisionou entre suas pernas.

— Me solte — disse Allie, porque esteve a ponto de fazer algo em que estava pensando há dias.

— Aqui, eu sou o amo — disse ele, e atraiu os quadris de Allie para si. Ela se encontrou de repente em seu colo. Sua ereção dura apertava contra seu quadril, e segurava seu rosto entre as mãos — . Estou cansado deste jogo.

— Eu também — disse ela com o coração a ponto de estalar.

Royce a olhou nos olhos. Ela viu uma excitação selvagem e uma luxúria ardente nos seus, mas também outra coisa, um rápido e radiante olhar. Em seguida, ele baixou a cabeça para ela.

Allie afogou um gemido de prazer, de alegria, porque ele se apoderou de seus lábios com tal ânsia, com tal necessidade e desespero, que por um momento acreditou estar de novo em 2010. Agarrou seus ombros. Introduziu profundamente a língua enquanto segurava o rosto entre as mãos enormes. Allie voltou em si e começou a beijá-lo.

Ele agarrou por fim sua saia com um gesto brutal. Allie compreendeu que estava a ponto de arrancar sua roupa. Puxou o zíper e arrancou freneticamente dela. Ele não deixou de beijá-la, mas sua boca suavizou e ela notou um sorriso.

— Sua querida roupa — murmurou Royce.

— Muito querida, sim — ofegou ela. De algum modo conseguiu tirar a saia. Ele agarrou o objeto e o atirou no chão.

E parou de beijá-la.

Allie abriu os olhos; respirava com agitação e seu corpo estava em chamas.

Royce olhou sua calcinha… e a carne empapada debaixo. Depois, deu a ela um olhar sensual. Deslizou o polegar sob a calcinha e Allie estava a ponto de soluçar ao sentir sua deliciosa pressão. Royce esfregou seu sexo cada vez com mais firmeza, sem deixar de sorrir.

— Ah… — ofegou ela.

— Quero fazer você gozar agora.

Allie não acreditava que isso fosse problema. Estava a ponto de chegar ao orgasmo e se romper. Mas então algo a deteve: ele a deteve exercendo uma espécie de força sobre sua mente, sobre seu corpo, sobre seu sexo.

Como fez a primeira noite.

— Mas quero que a primeira vez goze comigo dentro — ele disse com fogo nos olhos. Levantou-a e a colocou sobre a borda da mesa, com os joelhos em ambos os lados de seus quadris. Se levantou. Allie começou a hiperventilar.

— Anda logo.

Ele sorriu, se introduzindo entre suas coxas e se esfregando contra ela. Allie não pôde suportar aquele prazer delicioso e começou a se retorcer. Ele a refreou.

— Quieta — murmurou— . Me deixe te foder. Fica quieta e goza.

Ela olhou pea ele.

Estava mortalmente sério.

— Obedeça uma única vez. Me deixe te fazer gozar, Ailios.

Ela assentiu com a cabeça… ou foi isso que pareceu. Era difícil responder, porque ele tinha começado a penetrá-la lentamente, com extrema deliberação, detendo-se a cada centímetro.

Ficou tão quieta como pôde e começou a chorar de prazer. Deixou que ele a acariciasse pouco a pouco, até que seu pênis estava dentro dela. Então começou o delírio. A necessidade de descarregar a cegou. Não sabia como podia suportar tanta pressão dentro dela… ou como ele suportava. Porque também sentia o prazer de Royce. Tinha mergulhado em uma imensa onda que estava a ponto de se romper na praia: nela. No fim, já não podia mais suportar; no final, começou a suplicar.

— Sim — disse ele, e ofegou afundando profundamente nela.

Allie sentiu que um bloqueio se levantava. Sentiu como se um imenso dique se rompesse. Gritou, estalou e voou mais alto do que recordava ter voado antes, soluçando seu nome enquanto se rompia cem vezes, sempre com maior intensidade que a anterior. Royce a acompanhou em seu clímax, uma e outra vez, violenta e infinitamente.

— Ailios…

 

Allie despertou em uma cama que tinha o dobro do tamanho da sua. Estava nua sob a pele de um animal e em seguida pensou em seu apaixonado e infinito encontro com Royce. Sorriu e estendeu os braços para ele. Mas tinha ido.

Não importava. Olhou o teto e sorriu tanto que doeu a boca. Uau. Aquelas duas primeiras vezes não foram um sonho. Aquele sexo sobrenatural não era produto de sua imaginação.

Mister Medieval era um vulcão.

Ficou ali deitada, pensando naquela noite de paixão. Para ela, amando como o amava, foi ainda mais intensa que em sua época. Aquela primeira noite houve só sexo e desejo; ela começou a se apaixonar por Royce depois de passar essa noite com ele. Quanto à paixão de Royce, era tão arrebatadora que era impossível que não estivesse apaixonado por ela. De fato, a não ser que estivesse sofrendo visões, Allie tinha a impressão de que era ainda mais insaciável que em 2010. Embora isso fosse quase impossível.

Ou não? Tudo tinha mudado vertiginosamente, à velocidade da luz. No futuro, ele a esperou por quase seiscentos anos. Ontem à noite, embora não tenha tido que esperá-la por séculos, compartilharam uma vida inteira em um par de dias: uma vida muito intensa e perigosa. Discutiram e brigaram, salvaram Garret da avalanche de rochas, lutaram contra os demônios, ela o salvou de uma ferida mortal… e ele a reconfortou enquanto ela tentava assimilar a verdade sobre sua mãe.

Allie se incorporou lentamente. O último significava tanto quanto todo o resto, ou tanvez mais. Royce era um homem muito complexo, com muitas caras: podia ser selvagem e bárbaro, mas também amável e querido. Allie pensou em como usou a tocha para destruir o gigante que a capturou, e sentiu o estômago apertar. Royce a fez sentir medo. Poderia ter usado um golpe de energia, mas preferiu uma tocha. Ela teve medo de correr para ele e curá-lo. Mas por acaso não precisava sempre de um homem assim, implacável, valente e decidido para ficar na linha de frente da batalha? Royce possuía a selvagem determinação e a fortaleza necessária para lutar com os demônios mais poderosos e ganhar.

Allie estremeceu e levantou a manta de pele. Quase desejava não ter lembrado de sua selvageria e de sua sede de sangue. Mas devia reconhecer que ela também tinha um lado primitivo. Fascinava-lhe aquele selvagem guerreiro. Admirava sua intensidade.

Mesmo assim, nunca sonhou que aquele mesmo homem pudesse abraçá-la enquanto se desfazia de prazer. Certamente ele estava tão surpreso quanto ela.

Allie via agora como sua versão medieval evoluiu até o homem moderno pelo qual se apaixonou a princípio. Era, entretanto, um pouco presunçoso pensar que Royce já tinha começado a sofrer essa transformação. Talvez, só talvez, pudesse começar a mudar depois de um século.

Allie se levantou, envolta na manta de pele, e sorriu. Ignorava quanto tempo ia viver; pelo que parecia, sua mãe viveu no mínimo seiscentos anos. Seria interessante ver como Royce lidava com seu lado mais brando e amável. Seu coração acelerou ao imaginar longas noites como a anterior, momentos passados junto ao fogo ou nas muralhas, contemplando as estrelas.

Estava se apaixonando por aquele Royce, e convinha refrear, porque Mister Medieval podia voltar a aparecer a qualquer momento. Seu sorriso diminuiu um pouco. A noite anterior sentiu falta de uma coisa. Royce não se aconchegou a seu lado, nem falou com ela.

Allie se concentrou. Precisava de paciência. Tinha que ser sua professora. Mas tudo bem. Todo esse sexo vinha de seu lado mais viril. Royce precisava de um pouco de tempo para aprender a se comportar na intimidade e a desfrutar desse prazer.

Talvez começasse a se acostumar essa noite.

Em todo caso, as coisas começavam a melhorar. Estavam se tornando amigos, e também eram amantes. A besta não era tão temível como parecia, e Royce começava a comer na sua mão. Agora tinha que descobrir por que queria morrer em 2010. Era hora de começar a conhecê-lo; tinha que se meter dentro de sua cabeça.

Estava desejando conhecê-lo melhor, mas não se enganava. Se Royce não gostava de falar (e já tinha deixado claro que não gostava), talvez não fosse fácil conseguir conhecê-lo. Isso levaria tempo, apesar de sua amabilidade na noite passada.

Seu coração desejava voar através do teto como um balão de ar quente. O que aconteceu na noite passada compensava sua hostilidade inicial, não havia dúvida. E ela tinha tempo, não? Não tinha pressa para voltar para casa, embora Royce pudesse mudar de ideia e deixa-la partir.

Se aproximou da lareira e desejou que o fogo estivesse aceso. Se convenceu de que sua estadia no passado seria breve. De fato, se convenceu de que seu futuro com Royce estava também no futuro.

Estavam destinados a estar juntos, isso estava claro. Royce era dela. Mas em que época?

Allie começou a duvidar. Ficaria no século XV uma temporada, mas em algum momento, quando pudessem impedir o assassinato de Royce, voltaria para futuro para estar com o Royce moderno. Não?

Começou a se sentir inquieta. Deixaria seu homem medieval ali, no Carrick, no século XV, e com um salto no tempo se reuniria com Royce imediatamente. Mas ele ficaria naquela época, e passaria séculos sem ela… até que, quando tivesse mil e quatrocentos anos, voltassem a ficar juntos.

Como ia abandoná-lo por quinhentos e oitenta anos? Estava embarcando em uma nova relação. Ele se converteu em seu guardião e seu amante. Precisava dela ali, e ela precisava dele.

Allie olhou a seu redor, pensando no quarto de seu apartamento em uma cobertura de Manhattan. Logo desviou a lembrança de seu luxuoso quarto. A Idade Média não era tão ruim como pensava. No Carrick não havia nada sujo, e embora as pessoas cheirassem muito a suor, Royce tinha um cheiro maravilhoso. Apostaria uma fortuna como ele nadava em algum lago todas as manhãs.

Não seria capaz de deixá-lo, disse a si mesma. E assim que se deu conta seu coração começou a cantar e dançar, cheio de alegria. Sorriu a contra-gosto. Estava se metendo em uma bela confusão.

Bateram na porta.

Allie se alegrou de que a interrompessem. Sabia que Royce não chamaria: nem sequer passaria por sua cabeça. Curiosa, ordenou para que entrasse quem tinha chamado.

Ceit entrou com uma donzela que Allie não tinha visto antes, uma loira muito bonita. Ceit sorriu.

— Sabia que já estaria acordada, por fim. Custa abrir os olhos depois de uma noite com o senhor — segurava uma bandeja na mão.

Allie ficou tensa. Sentiu certo temor enquanto Ceit deixava a bandeja e a loira, que era muito jovem, ria baixo e corava.

Dava a impressão de que Ceit conhecia Royce muito bem. Allie disse a si mesma que devia respirar fundo. Ceit era uma mulher muito amável. Allie estava segura de que não tinha má intenção e contou até dez.

— Royce te mandou subir?

Ceit pareceu surpreendida.

— Saiu faz horas, milady. Se levantou cedo. A verdade é que esta manhã não disse nada. Parecia estar pensando em assuntos importantes. E não parecia muito contente — Ceit lançou um olhar curioso pra ela.

Allie sentiu que seu sorriso se apagava enquanto a loira começava a acender o fogo. Cruzou os braços.

— Passamos uma noite fantástica.

Ceit se aproximou da cama e começou a retirar as mantas. Allie se deu por vencida.

— Então, você também compartilhou a cama com Royce?

Ceit a olhou com os olhos como pratos.

— Faz dois anos que não — e se apressou a acrescentar: — E foi só por um tempo, milady.

Allie pensou que os dias de don juán de Royce terminaram. Sabia que estava apaixonado por ela; sentia um vínculo ardente entre eles, inclusive fora da cama. Agora ela estava em sua vida, e isso mudava tudo. Não?

Odiava saber que era um senhor medieval e que tinha um castelo cheio de mulheres bonitas dispostas a fazer o que ordenasse. Mas no dia anterior Royce demonstrou o quanto ela era importante… e quanto a queria.

Sabia que não devia perguntar, mas não pôde se conter.

— Contigo fazia amor a noite toda… como se o mundo fosse acabar?

Os olhos do Ceit aumentaram.

— Não havia nem um pingo de amor, minha senhora. É um homem com fortes necessidades. Não há precisa olhar pra mim com esse medo.

Allie tentou sorrir.

— O que aconteceu? Se cansou de você? buscou outra mais jovem ou mais bonita?

Ceit estava atônita.

— Claro que se cansou de mim. Eu sabia, porque se cansa de todas as mulheres. Mas o que é isto, senhora? Não fique triste! Deve desfrutar de seus cuidados enquanto duram.

— Enquanto duram — repetiu Allie, inquieta— . Mas de mim não se cansará — Royce estava apaixonando por ela. Por que Ceit não percebia?

A garota a olhou e se apressou em afastar os olhos. Mas Allie viu piedade em seus olhos.

— Eu sou diferente… e você sabe!

— É muito diferente, sim. Mas esso rosto que fez… Já vi antes, centenas de vezes, neste mesmo quarto.

Allie se sentiu doente.

— Está bem. Teve varias amantes. E todas se apaixonaram por ele. Genial.

— Custa não se convencer de que alguma não se apaixonou, depois de uma noite assim — disse Ceit brandamente— . Mas não seja tão ingênua, minha senhora. Todos os homens se cansam de suas amadas. É a lei da vida. Os homens gostam de novidade. O senhor acabará partindo seu coração.

— Estou apaixonada por ele — disse Allie com firmeza— . O amarei até morrer. E ele também me ama. Estou aqui para ficar.

Ceit sorriu amavelmente, mas parecia preocupada.

— Então, pensa em se casar com ele?

Allie não vacilou.

— Sim, isto é, quando chegar a hora.

— É estrangeira. Inglesa, suponho?

Allie hesitou.

— Um pouco parecido.

— É herdeira?

Allie estava confusa. Estava a ponto de dizer que sim quando lembrou que, naquela época, não tinha nem um centavo.

— Não. Sou pobre como um rato — era estranho dizer isso.

— Se o amo se casar, será com uma grande herdeira. Não precisa de mais terras, nem de mais títulos. Mas todos os homens precisam de mais riqueza — Ceit continuou arrumando a cama.

Allie se aproximou dela, consciente de que Ceit acreditava com convicção no que dizia.

— E o amor?

— O amor? O que tem o amor com o matrimônio? — sacudiu as mantas para dar ênfase a suas palavras— . Quando um homem precisa de poder, riqueza ou filhos, se casa.

Allie ficou desconcertada por um momento. Não podia dizer que sabia muito sobre o mundo medieval: como funcionava, como pensava um homem como Royce, ou o que queria de verdade. Mas o amor era atemporal, não? Por acaso não importava na Idade Média? De verdade, será que Royce podia contemplar o mundo da forma como descrevia Ceit?

— Royce tem filhos? Por que não se casou?

Ceit sacudiu a cabeça.

— Nem um só bastardo, e é muito estranho — logo acrescentou: — Ninguém sabe por que está solteiro. Mas comentam coisas, claro.

Allie mordeu a isca.

— Que tipo de coisas?

— Ouvi dizer que teve uma esposa faz muito tempo, mas isso não explica por que não voltou a se casar.

— Royce foi casado? — Allie sufocou uma exclamação de surpresa.

— Dizem que o casamento não durou — deu de ombros — Inclusive, ouvi dizer que não voltou a se casar, por causa de sua esposa.

— Por que? — perguntou Allie.

— Não sei — sorriu amávelmente— . Mas são falatórios, minha senhora. Pode ser que não sejam verdadeiros.

Allie olhou pra ela com tristeza.

— Onde há fumaça, há fogo.

 

Royce passou o dia todo fora. Allie soube que saiu para inspecionar umas terras pertencentes ao Morvern e que voltaria para jantar, e não se importou. Não pôde esquecer sua conversa dessa manhã com Ceit. A convicção da garota de que ela não era diferente às anteriores a preocupava. Ceit tinha que estar enganada.

Quando o sol começou a se pôr, Allie saiu para o pátio. Usava um vestido estampado e salto alto, e, consciente de que o vestido curto e justo inflamaria Royce, subiu às muralhas para esperar sua volta. Todos os homens com os quais cruzou evitaram olhar pra ela. Allie se sentia ridiculamente a salvo.

Depois da noite anterior, o dia que passou separada de Royce foi tão longo quanto uma semana, ou como um mês. Olhou além das muralhas, para o outro lado do pequeno pátio e das muralhas exteriores, depois do perigoso desfiladeiro. Quando se lançasse em seus braços, quando fizessem amor, esqueceria do desconforto que as palavras de Ceit trouxeram.

Um grupo de cavaleiros se aproximava, e reconheceu o enorme corcel branco que vinha na frente. Seu coração acelerou.

Enquanto o grupo se aproximava, o aura de Royce brilhava ofuscando todas as demais. Allie ficou tensa, dominada pelo desejo. Sua aura estava em vermelho vivo, e ela sabia o que isso significava. Ele a queria.

Ficou um momento mais no muro almenado, enquanto os cavaleiros cruzavam a ponte principal. Royce a olhou fixamente; estava claro que havia sentido sua presença nas muralhas. Allie ficou muito quieta, apesar de querer descer correndo até o pátio e se lançar em seus braços… e arrastá-lo logo pra cama. Não podia esperar.

Ele seguiu olhando-a até que seu cavalo desapareceu por baixo das torres da barbacã.

Allie por fim respirou, molhada até a medula, e desceu com cuidado as escadas de pedra. A emoção fazia se sentir tonta.

Royce já tinha desmontado e estavam levando seu corcel. Não usava armadura, só o casaco preso num cinturão, o manto xadrez e as espadas. Parecia um guerreiro dos Deuses da cabeça aos pés. Sem olhar para ela, caminhou para o grande salão. Allie enrijeceu. Não se virou para olhá-la nenhuma só vez. Mas seus sentidos eram muito apurados, como os dela. Sabia que estava ali.

— Royce! — correu atrás dele.

Ele não diminuiu o passo por um momento. Logo hesitou, mas ao virar chamou um de seus homens.

— Neil!

Allie estava confusa, porque virou para ela mas não a olhava.

Um homem enorme de cabelo vermelho se aproximou.

— Meu senhor?

— Ao amanhecer, escolha cinco homens e saiam em perseguição dos ladrões. Traga-os para mim. Quero olhar nos olhos quem se atreve a desafiar minhas leis.

— Sim, meu senhor.

Allie estava junto de Royce e do gigante, esperando que Royce a notasse. Por que evitava olhar pra ela? Onde estava seu olhar sexy e inteligente e seu sorriso quente? Seu coração pulsava tão forte que doía. O que estava acontecendo?

Neil partiu e ficaram sozinhos. Royce a olhou por fim, mas como se não quisesse vê-la. De fato, seu olhar foi tão breve, tão superficial, que Allie teria apostado que nem sequer sabia que usava um vestido verde e branco que se agarrava a cada uma de suas curvas.

— Boa noite — disse ele, olhando para a porta do grande salão.

Que diabos estava acontecendo?

— Ei, oi — conseguiu dizer, olhando seu perfil. Mas era uma máscara inexpressiva que poderia ter sido esculpida em pedra.

Ele inclinou a cabeça e a olhou rapidamente, esquivando seus olhos.

— Tenho fome. Foi um dia muito longo — mas esperou que ela entrasse.

Allie não entendia nada. Por que não olhava pra ela? O que aconteceu? Sua aura continuava vermelha e incandescente.

— Ei, — tocou seu braço — você está bem? O que? — Alguma coisa terrível tinha acontecido?

Ele virou.

— Vamos jantar — disse, e entrou deixando-a ali sozinha.

Allie tentou manter sua compostura. Não havia razão para que Royce a rejeitasse. Não importava o que havia dito Ceit essa manhã. Sua aura lhe dizia que estava louco por ela. Não podia ter se cansado dela.

Mas se mostrava frio e impessoal, como se a noite anterior não tivesse importância, ou como se não tivesse feito parte dela.

Allie entrou no salão atrás dele. Sentia uma angústia terrível, a qual não estava acostumada. Durante a maior parte de sua vida confrontou as coisas sem dúvida nenhuma; especialmente, quando se tratava de assuntos românticos ou de relações com outros. Só se angustiava pelos estudos. Sentia-se tão estranha… Royce tomaria uma bebida, viraria e lhe sorriria, não?

Royce gritou para Ceit que levasse a comida enquanto se servia de uma caneca de vinho. Logo hesitou, de costas pra ela. «Por fim», pensou Allie, trêmula.

Ceit chegou correndo com Peigi. Deixou uma bandeja de carne e peixe na mesa e Peigi se aproximou de Royce e tirou seu manto. Ao ver que Royce não virava, nem se dirigia a ela, Allie começou a respirar entrecortadamente. Seus olhos ficaram úmidos. Ele a estava rejeitando? Ceit tinha razão?

As duas criadas partiram e voltaram em seguida com pão, queijo e cereais. Royce finalmente se virou, com os ombros tensos.

— Pegue — lhe estendeu a jarra de vinho.

Os últimos vestígios do otimismo e da confiança de Allie se desvaneceram. Se aproximou dele como se caminhasse para a cratera de um vulcão em erupção.

— O que esta acontecendo? Por que não olha pra mim? Que tipo de recepção é essa? Senti tanto a sua falta! — soluçou, tremendo.

Ele a olhou por fim. Ainda oferecendo o vinho, desviou o olhar de seus olhos, fixou em sua boca e então deslizou por seu vestido provocante da cintura até os saltos de camurça verde. Levantou a vista e, antes que baixasse as pestanas, Allie viu brilhar o desejo.

— Quer um pouco de vinho? — perguntou ele com tão pouca emoção que parecia falar com uma desconhecida.

Allie tremeu. Sentia o impulso de quebrar a jarra com um tapa.

— Não. Eu estava pensando mais em um abraço e um beijo.

Ele apurou o vinho e voltou a encher a jarra de costas pra ela.

— Amanhã você vai a Dunroch.

Allie ficou tensa. Tudo estava dando errado. Royce não era o amante com quem dormiu a noite passada; já não sabia quem era.

— Dunroch? — conseguiu dizer. Enxugou outra lágrima. Porque estava fazendo isso com ela?

— Sim. Meu sobrinho Malcolm e sua esposa estão lá.

Com eles estará a salvo.

Allie sufocou um gemido.

— Vai se livrar de mim?

Ele se sentou à mesa e pôs uma porção de carne e salmão em um prato.

— Precisa de proteção. Eu confio em Malcolm. É um Mestre muito poderoso — não a olhou e começou a comer.

Allie estava incrédula.

— Royce… — começou a dizer.

— Sente-se e coma — disse ele enquanto enchia a boca de comida.

Allie percebeu que estava empenhado em ignorá-la. Aproximou-se da mesa e puxou o prato tão bruscamente que o molho sanguento da carne salpicou a mesa e o colo de Royce. Ele a olhou com dureza.

— Ontem à noite fizemos amor. E hoje terminamos?

— Sim.

Allie ficou petrificada.

— Precisa de proteção e Malcolm te protegerá com sua vida — disse Royce.

Aquilo não podia estar acontecendo, pensou Allie.

— Não me usou… Não é possível — conseguiu dizer.

— Sinto muito.

Ele a usou?

Allie começou a ver tudo vermelho. Deu-lhe uma bofetada com toda sua força. E a dor a cegou, enchendo seus olhos de lágrimas. Royce se levantou e agarrou com força sua mão trêmula.

— Sinto muito. Não te fiz nenhuma promessa. Nenhuma — em seguida começou a chamar aos gritos às criadas.

Ela tentou se soltar, mas não pôde.

— Me solte — mas ele não tinha feito nenhuma promessa e tampouco havia dito que a queria… nem nada parecido.

Ele apertou por um momento a mão dela enquanto as criadas entravam correndo. As garotas sufocaram um grito ao ver seu casaco manchado e a comida pelo chão.

— Tragam água do mar para lady Ailios. Machucou a mão. E eu preciso de um casaco.

Quando Ceit e Peigi voltaram a desaparecer, Allie puxou sua mão e ele a soltou.

— Sou uma idiota? — perguntou ela, aturdida ainda.

— Ontem à noite atacaram Carrick. Os Deamhanain a querem e a querem viva — disse Royce rotundamente. Tinha um olhar inquisitivo, mas Allie não podia olhá-lo.

— Passamos uma noite incrível e você quer outra? — perguntou.

Ele respondeu:

— Não sei se Moffat está por trás do ataque. É um dos Deamhanain mais poderosos. Faz três anos, Malcolm e sua esposa derrotaram o conde de Moray. Que dizem possuir o Duaisean, o Livro do Poder, mas eu não acredito.

— Entendi tudo errado? Me equivoquei por completo com o homem por quem me apaixonei em minha época? — soluçou ela, sentindo-se patética.

Royce ficou olhando pra ela. Então ele se virou e se aproximou do fogo.

— Se Moffat não estiver atrás do ataque, isso significa que há outros Deamhanain que andam atrás de você. E que lhe querem viva. Aqui não está a salvo. Malcolm te defenderá com sua vida, e você gostará muito de Claire. É como você. Vem do futuro.

— Ontem à noite foi amor! — gritou Allie.

Royce girou bruscamente.

— Ontem à noite gozamos — seus olhos brilhavam— . Sei que está apaixonada por mim. Quer compartilhar a cama comigo esta noite, sabendo que amanhã irá para Dunroch e que vou te deixar lá?

Ela sufocou outro gemido. Royce pretendia se livrar dela.

— Se supõe que deveria me proteger.

— Sim, te proteger… não me deitar contigo.

— Você esta tentando me machucar de propósito? Só fui amável e bondosa contigo, como com todo mundo. Ontem à noite te curei! E agora me atira essas palavras, como se me atirasse facas. Você quer me destruirr? É isso o que quer?

O rosto de Royce se contraiu.

— Quero que continue viva. Quero que volte para casa, pra sua época, aonde pertence… quando não correr perigo.

Allie ficou ali parada, tremendo convulsivamente. Peigi entrou com um casaco limpo. Ela tinha cometido um terrível engano. Mister Medieval não se parecia absolutamente com o Royce moderno. Era a pessoa mais cruel que tinha conhecido… e a mais indiferente. Nesse momento parecia impossível que algum dia pudesse se converter no homem por quem ela se apaixonou.

Royce tirou o casaco, deixando descoberto seu corpo musculoso e coberto de cicatrizes. Saltava à vista que, apesar de suas palavras, estava preparado para levá-la pra cima, como tinha sugerido. Peigi se corou e lhe deu o casaco limpo. Allie se afastou. Sentia-se doente; doía-lhe o coração. Como podia estar acontecendo aquilo? Por acaso imaginou sua ternura na noite anterior? Saiu cambaleando do salão.

— Partiremos uma hora antes do nascer do sol — gritou Royce atrás dela.

Allie esteve prestes a voltar para dizer que não pretendia ir a parte alguma com ele. Mas estava tão triste que não podia lutar.

Sentou-se nos degraus de fora e se aconchegou ali com o coração partido. Royce a usou cruelmente. Sua parte medieval não a queria absolutamente. Não sentia nada por ela.

Allie não sabia que o desamor pudesse ser tão doloroso. Como podia ter confundido aqueles dois homens? Como podia ter se apaixonado por aquele bárbaro desumano?

Era absurdo, porque o desalmado que estava nesse momento dentro do salão a abraçou como se ela importasse, como se tivesse coração. Mas não tinha. Acabava de deixar isso claro.

Allie deixou as lágrimas caírem. O pior era que, agora que tinha entregue seu coração aquele Royce, suspeitava que não havia volta.

Royce cedeu a sua ira e passou o braço pela mesa, lançando ao chão a bandeja, o vinho e as jarras. Peigi soltou um grito e fugiu.

Em seguida, Royce tocou as têmporas doloridas e se sentou. Apoiou os braços sobre a mesa e segurou a cabeça com as mãos. Tinha perdido o apetite.

Porque ela chorava? Algum dia apagaria esse olhar doído de sua lembrança? Estava fazendo o melhor.

Ailios não ia se converter em outra Brigdhe. E ele sentia agora uma estranha dor no peito por ter lhe causado tanta angústia. Não desejava fazer mal Ela mesma disse: era boa e amável, e não merecia tanta crueldade.

Porque tinha que amá-lo? Ele tinha pedido amor, ou afeto? Ele só queria sexo! Não fez nenhuma promessa. Era homem de palavra e, quando fazia uma promessa, era para sempre.

Essa manhã, ao se levantar da cama, sentiu o estranho impulso de voltar e se deitar a seu lado e abraçá-la, e olhá-la enquanto dormia. Aquilo deu a ele o que pensar.

Nunca conheceu uma mulher tão generosa. Nunca viu tanta coragem: ousada, mas bem intencionada. Ailios desprendia não só luz branca, mas também felicidade. Quando a olhava, não via unicamente sua beleza; via também pureza e alegria. Via esperança. Ela olhava o mundo cinza como se fosse um novo e branco amanhecer.

Era completamente diferente dele.

A confusão que sentia não podia trazer nada de bom. Nunca abraçou outro ser humano, salvo à mulher que estivesse na cama, e só enquanto fornicavam. Era inconcebível ter abraçado como a abraçou essa noite, e agora desejar abraçá-la e dizer que o perdoasse. Fez uma promessa. Devia a Deus e à Inocência. Por fim, na sua vida não havia espaço para o amor por uma mulher. Ficaria fraco, e ela se converteria em alvo de seus inimigos.

Devia se lembrar.

Goatava de Brigdhe. Quando seu pai morreu deixando a grande responsabilidade do Morvern, decidiu se casar e ter filhos. Brogan, seu irmão mais velho, sugeriu Brigdhe. Era bonita, pertencia a uma antiga linhagem e tinha um bom dote. Ele era um homem obediente e ela foi uma boa esposa. Mas ele aprendeu a lição. Brigdhe foi capturada, encarcerada, torturada e estuprada por culpa de seu amor. Ele não pôde protegê-la. E quando por fim conseguiu liberá-la, ela o odiou por seu fracasso. Não iria cometer o mesmo erro.

Uma vez ao ano, no dia do aniversário da morte do Brigdhe, Royce recordava o terrível calvário de sua esposa e seu próprio e vergonhoso fracasso. Ela morreu anciã, rodeada pelo carinho dos filhos e netos que teve em seu segundo matrimônio. Antes de sua morte, sua existência bastava para lhe recordar a lição que não devia esquecer.

Ela morreu na primavera, e agora era outono, mas chegou o momento de recordar. Era hora de lembrar dela e, de não esquecer. Deixou que sua mente se abrisse e junto com as lembranças chegou a culpa, esmagando-o.

Quando a encontrou, ela estava ferida e machucada; tinha o rosto inchado e os lábios partidos. Havia marcas de chicotadas em suas costas, e sêmen demoníaco espalhado por todo quarto.

Logo ela descobriu que a semente de Kael tinha enraizado em seu ventre, e esteve a ponto de se matar para se livrar da semente do demônio.

Royce apoiou a cabeça sobre a mesa e se deixou levar pela dor.

A onda de angústia era tão grande que empurrou Allie contra a parede junto à que estava sentada. Levantou em seguida, com os olhos bem abertos.

Royce…

Atônita, sentiu chegar e romper aquelas ondas furiosas. Sentiu tristeza além de remorso, e uma culpa entristecedora.

Levantou cambaleando. Seu coração pulsava com violência. O que estava acontecendo?

Não deveria se importar, mas não podia ignorar. Carregava nos genes o impulso de ajudar quem sofria. E Royce, a quem amava, embora fosse um canalha desumano, estava sofrendo.

Entrou no salão abrindo espaço entre as quebras de onda de sua dor. Parou bruscamente; Royce estava inclinado sobre a mesa, com a cabeça sobre os braços, tremendo como se chorasse. Mas não estava chorando, ao menos com lágrimas.

Sua aura estava partida em dois. Estava quase toda azul, mas uma linha de cor negra a partia pela metade.

Allie gritou, comovida até a medula. Seu domínio de si mesmo e sua serenidade tinham desaparecido. Não estava olhando para um guerreiro ou um Mestre; estava vendo um homem quebrado.

Sua alma sangrava.

Allie não pôde evitar: levantou as mãos e lançou uma rajada de luz branca. Nunca curou o coração ou a alma de um homem, mas tinha que tentar. A de Royce estava tão esquartejada que era como olhar uma esponja seca no deserto num dia de verão; seu corpo absorveu a luz imediatamente.

Royce deu um pulo.

— O que está fazendo? — rugiu, furioso e incrédulo.

Allie lançou de novo sobre ele uma chuva branca. Ele levantou o braço e jogou uma rajada de energia que enviou a chuva branca de volta para ela. A luz caiu no chão, imprestável, e se dissipou.

— Pretende me curar? — gritou ele.

Mas sua alma foi reparada e ardia, vermelha, laranja e amarela. Não havia nenhuma raia negra que a dividisse.

A mente de Allie trabalhava em alta velocidade. Royce estava sofrendo há séculos. Não se tratava dela. A culpa que acabava de ver era tão imensa que tinha que ser fruto de algo inefável.

Allie compreendeu que se tratava de uma mulher. E isso significava que tinha que ser sua esposa. A ideia doeu terrivelmente, mas ignorou sua dor. Royce precisava dela desesperadamente.

Ele se levantou. Seus olhos ardentes cravaram nos seus.

— Guarde seus poderes de cura para quem precisa.

— Você precisa deles.

Ele esboçou um frio sorriso.

— Eu não preciso de luz branca. Além disso, agora me odeia.

Ela se abraçou.

— Eu não odeio ninguém, e não odeio você — como podia ser tão idiota? Entregou seu coração a ele. Fizesse o que fizesse, por pior que se comportasse, ela nunca poderia recuperá-lo, porque conhecia o homem no qual se converteria algum dia.

O olhar de Royce brilhou.

— Está sofrendo. Eu posso te ajudar. Por que não me deixa?

Ele enrijeceu. Seu sorriso era forçado.

— Não estou sofrendo. É imaginação sua.

— Me seixe te ajudar — suplicou ela, e se aproximou dele tentando pegar suas grandes mãos.

Ele desviou como se ela o queimasse. Allie enviou uma onda de luz branca antes que ele pudesse suspeitar o que faria.

— Basta! — gritou ele. E se afastou.

Se culpava pelo que aconteceu, fosse o que fosse. Allie ficou olhando pra ele. Tinha que saber. Podia ajudá-lo.

Ele virou.

— Não preciso de sua ajuda, Ailios — advertiu— . Não se meta em meus assuntos.

Ela ficou tensa.

— Pode ler o pensamento, verdade?

— Sim — a olhou sem remorsos.

Ela analisaria aquilo depois.

— Se pode ler meu pensamento, sabe o que quero saber. Quem é ela? — perguntou, segura de que ele explodiria.

Royce tinha uma expressão séria.

— Minha esposa.

Allie enrijeceu, apesar de esperar aquela resposta.

— Onde ela está, Royce?

— Morta — respondeu ele sem emoção— . Morta e enterrada há oito séculos.

Allie assentiu com a cabeça, profundamente comovida. Royce estava obcecado com sua esposa morta… fazia oito séculos. Como ela podia competir com isso? O que Royce fez, ou o que acreditava ter feito?

E quando a aura de Royce começou a rachar e emergiu o azul, a cor governada por Urano, o planeta da mudança e da transformação, o astro do destino, tudo se fez claro de repente. Ela amava o Cavaleiro medieval tanto quanto o moderno, e jamais poderia virar as costas a nenhum dos dois. Royce estava rachando durante de seus olhos. Tinha que tentar salvá-lo.

Tremendo, se aproximou dele corajosamente e pôs as mãos sobre seu peito.

— Como morreu, Royce? O que aconteceu?

Ele agarrou suas mãos com força.

— Então acha que vai me seduzir esta noite? Deseja curar minha alma ferida com seu corpinho quente? Muito bem, vamos pra cama.

Ela disse em voz baixa:

— Pode se comportar como um ingenuo. Está perdoado. Te perdoo por tudo que disse hoje e seu desprezível comportamento. Sei o que você pretende. Mas não pode mudar de assunto.

Ele deixou cair as mãos.

— Está falando sério. Me perdoa por me portar como um canalha. Não me odeia. Nunca odiaria a ninguém.

— Não, não posso odiar a ninguém… e não posso odiar você. E Royce… Poderia me pagar cem milhões de dólares, dinheiro suficiente para comprar toda Escócia em minha época, que não me deitaria contigo.

Ele corou.

Allie sorriu docemente.

— A próxima vez que me deitar contigo, será porque me disse que me ama… e falo sério.

O rubor de Royce se desvaneceu. Seus olhares se encontraram. Ele sorriu lentamente.

— Está me desafiando?

— Não — ela se apressou em responder— . Nada disso.

— Então retire o que disse.

Ela umedeceu os lábios. Seu coração pulsava com violência. Aquilo era muito importante, porque queria ouvir algum dia essas palavras.

— Não, não vou retirar o que disse.

Ele assentiu com a cabeça. Disse brandamente:

— Então não vamos gozar juntos, não é? A não ser que você se retrate.

— Pode ser que você queira ver a luz.

Sua expressão ficou tensa.

— Eu jamais pronunciarei essas palavras. Te dou minha palavra — estava tão furioso que sua aura cuspia fogo.

— Não somos rivais — insistiu Allie.

Ele sacudiu a cabeça.

— Então não deveria ter me desafiado — e com essas duras palavras, desapareceu.

Allie deixou escapar um grito. Não tinha nenhuma dúvida de que Royce acabava de saltar no futuro… ou ao passado.

Se deixou cair no chão, terrivelmente preocupada. Royce estava padecendo de um tormento terrível, e ela temia que, nesse estado, fosse vulnerável a seus inimigos. Não quis enfrentar à fera ferida em seu covil. Parecia um milagre ter sobrevivido ao encontro. Abraçou os joelhos e os colou ao peito. Uma coisa estava clara como a água: Royce precisava dela como nenhum outro homem precisou antes. E isso significava que ela não ia a parte alguma.

 

Ano 595 D.C.

Aterrissou tão bruscamente que sentia que a cabeça ia explodir e aceitava bom grado a dor.

Ficou quieto, vendo as estrelas. Não se moveu, nem sequer combateu a dor até que a onda de angústia passou por completo. Estava deitado de costas, olhando através da copa de uma árvore tão frondosa que mal podia ver o céu. Quando começou a respirar normalmente, quando pareceu que tinha recuperado as forças e que poderia se sentar e inclusive se levantar, se concentrou.

Kael…

Aqueles oito séculos tinham aguçado tanto seus sentidos que sentia o aroma de seu inimigo abaixo dele. O vale cheirava a luxúria e a maldade. Concentrou-se mais intensamente e sentiu a dor de Brigdhe. E sentiu também aeu total desamparo.

Brigdhe não acreditava que fosse encontrá-la.

Levantou-se. Seu coração batia lentamente, com a maior calma. Agora era um guerreiro experiente. Não tinha medo, só a certeza do que devia fazer para triunfar sobre um inimigo mortal. Mas, por mais que desejasse batalhar, aquela não era sua guerra. Era a do Ruari.

Cruzou o bosque muito devagar, descendo pela ladeira. E pensava em duas mulheres, não em uma. Porque a lembrança de Ailios penetrou em sua mente, tão cristalina como era turva a do Brigdhe. Que ela o amasse não mudava nada.

Quando chegou no limite das árvores parou e olhou a cerca de de madeira e a casa, consciente de que ele mesmo mais jovem, Ruari, encontraria quando derrubasse aquelas portas e fosse até o salão. Sentiu um nó no estômago. Tentou dominar aquela sensação.

Não devia esquecer o que tinha acontecido com sua esposa, embora a Curandeira quisesse que esquecesse. Embora seus sorrisos e sua felicidade o tentassem a esquecer.

A dor e a impotência de Brigdhe emanavam do vale, colocando ele doente, como esperava que acontecesse. Tentou recordar sua beleza e fracassou. Não tinha uma imagem clara de sua energia. O tempo tinha borrado suas características.

Recordava, entretanto, seu corpo machucado. O tempo não tinha apagado essa imagem, e isso estava bem. Embora fosse um homem racional, um Mestre com séculos de vida em suas costas, o impulso de correr colina abaixo e derrubar as portas para destruir Kael era entristecedor. Olhou a cerca e conseguiu se conter de algum modo. Embora conhecesse os horrores que Brigdhe estava sofrendo, não devia alterar o Código. Era proibido mudar o passado… e o futuro. Ruari devia resgatá-la, derrotar Kael e abençoar a união de Brigdhe com outro homem… e perder os últimos vestígios de sua ingenuidade e esperança.

O Código também dizia claramente que não devia encontrar-se consigo mesmo no passado ou o futuro. Não pensava em fazer isso. Havia voltado para recordar, e já estava recordando os acontecimentos desse dia com terrível clareza.

Olhou a seu redor e viu a si mesmo mais jovem saindo do bosque mais distante. Assombrado, se deu conta de que não teve suficiente cuidado ao escolher o momento do salto. Estava muito furioso. Olhou com enorme interesse e compreendeu que aquele era um modo ainda melhor de reviver aquele dia horrendo.

O jovem descia pela colina, empapado em suor, com o casaco colado ao corpo musculoso e o rosto coberto por uma máscara de ira e determinação. Royce se limitou a observar. Não queria sentir o que estava pensando Ruari.

«Me diga o que quer».

Uma risada suave, seu corpo quente, e uma entrada doce e lenta.

«Você sabe o que quero, Ruari».

Risadas de homem, um intercâmbio de beijos enquanto a penetrava mais e mais profundamente, os primeiros suaves e brincalhões, o último profundo e ansioso.

«Pode gozar para mim agora, Brigdhe?».

«OH, sim, sim!».

Seus suaves gemidos enchiam o quarto, e ele se permitia se unir-se a ela. Era uma mulher apaixonada e isso lhe agradava; tinha escolhido bem. E talvez tivessem concebido um filho. Ele queria um filho varão. E ela se aconchegava em seus braços…

Royce não podia respirar. De onde tinha saído aquela lembrança terrível? Ele já não era esse rapaz: nunca voltaria a ser. Não queria recordar! Nunca teria filhos!

Ruari estava em frente as portas. Estendeu os braços para elas.

Royce tremeu. Queria vê-lo arrancar grosseiramente as portas de suas dobradiças.

Respirava aguadamente.

Ruari arrancou as portas.

Royce sabia que então começaria a chuva de flechas. Sabia que uma flecha transpassaria sua pele e outra um tendão. Ruari não sabia, mas de todos os modos não se deteria por isso.

Royce cedeu à tentação. Quando Ruari jogou as portas para o lado e começaram a chover as flechas, lançou uma rajada de energia em direção aos arqueiros para repelir as flechas de ponta de ferro. As flechas choviam sobre Ruari. Uma delas cravou em seu braço. Ele a arrancou e continuou atravessando entrando na paliçada com a espada erguida, enquanto os gigantes o rodeavam como um enxame.

Atônito, Royce olhou para as mãos. Tinha mandado uma enorme rajada de energia aos arqueiros e não tinha acontecido nada. Nesse instante compreendeu a regra segundo a qual um não devia encontrar-se nunca consigo mesmo no passado ou no futuro.

Olhou para o interior da fortaleza. Ruari estava lutando com os gigantes. Royce lançou um raio de energia à torre vigia mais próxima.

Não aconteceu nada.

A torre deveria ter caído.

Deu a volta, agarrou um ramo alto e não pôde arrancá-lo do pinheiro.

Respirava com dificuldade. Embora fisicamente fosse forte, estando seu próprio eu no mesmo plano físico e temporário não era mais que um homem comum. Agora não tinha poder.

O poder a despertou.

Estava decidida a esperar a volta de Royce e teve um sonho ligeiro e agitado. Sentiu o poder viril de Royce em uma onda extranhamente suave e despertou de repente, aconchegada em uma das grandes poltronas que havia durante da lareira. Deu a volta e olhou por cima do alto respaldo da poltrona.

O fogo seguia aceso; estava claro que as criadas o alimentaram durante a noite. Royce estava em pé não muito longe dali; suo rosto era uma máscara fria e dura, e seus olhos cinza tinham um tom tão apagado que pareciam quase sem vida. Sua aura estava dividida claramente em dois: um lado vermelho e dourado; o outro, azul. No meio havia um abismo negro. Não brilhava, nem ardia. Tudas as cores tinham sumido.

Só brilhava sua dor.

Allie se levantou e tentou esconder sua preocupação.

— Está bem? — perguntou em voz baixa, sabendo que não estava. Sua dor cravava nela como uma faca, fazendo migalhas de carne, sua pele e seus tendões.

Royce não respondeu, e Allie sentiu sua imensa determinação. Ela não se moveu nem uma polegada. Nesse momento, Allie sentiu que abraçava sua angústia e que tentava esconder dela a todo custo.

— Deveria subir a descansar. É tarde e vamos sair dentro de algumas horas.

Allie se aproximou dele com o coração acelerado.

— O que aconteceu? Aonde foi? — tentou acariciar sua bochecha.

Ele se afastou.

— Estou cansado. Se quer ficar acordada a noite toda, é com você — deu meia volta e saiu do salão.

Allie sentiu a presença de outra mulher agarrada a ele assim como pôde sentir seu perfume mesmo depois de sua saída da sala. Não teve que perguntar para conhecer a identidade da mulher com quem Royce acabava de estar. Se abraçou, convencida de que tinha ido ver sua esposa morta.

Vestida com jeans e uma camiseta de alças enfeitada com renda, Allie saiu para o pátio com certa cautela. Estava ainda meio que dormindo; Ceit a despertou com pressa e disse que o senhor desejava partir e que devia andar logo. Seu olhar se encontrou em seguida com o de Royce.

Sua aura voltava a estar inteira e brilhava intensamente, cheia de poder e ardor sexual. Estava junto a um homem que Allie conhecia como seu administrador, embora não soubesse se esse termo se usava ou não naquele tempo. Parecia estar dando instruções a ele. Seu semblante era sério, mas não severo. Seu cavalo branco estava mais à frente, junto a uma grande égua negra.

Estava claro que Royce estava de melhor humor que na noite passada. Tinha enterrado sua dor.

Por fim acabou e virou para ela.

Se me deixasse ajudá-lo… pensou Allie, e sorriu pra ele.

— Bom dia.

Ele percorreu com o olhar seu jeans justo e sua pequena camiseta. Com expressão receosa, fez um gesto e Allie se aproximou.

— Bom dia — falou baixo, sem olhá-la nos olhos— . Vamos para Dunroch.

Allie sabia que aquilo era uma prova. Não tinha intenção de ficar em Dunroch sozinha, mas queria conhecer o sobrinho de Royce e a sua mulher. Queria saber coisas mais íntimas a respeito de Royce, e talvez em Dunroch encontrasse as respostas. Sorriu, radiante. Além disso, não estava brigando com Royce. Com um pouco de sorte, não voltariam a brigar. Ele precisava dela. O que aconteceu na noite passada demonstrava isso.

— Isso é bom. Da última vez que falamos, fiquei com vontade de ver o campo.

Royce revirou os olhos e olhou para ela.

Allie disse muito séria:

— Verdade que te ouvi dizer que a esposa do Malcolm é do futuro?

— Sim.

Allie escondeu um sorriso e se afastou rapidamente. Precisava de uma aliada e uma amiga. Aquilo era um golpe de sorte incrível. Olhou para Royce.

— Os Mestres parecem gostar das mulheres fortes e modernas.

— Claire é muito forte — disse Royce como se estivessem falando do tempo. Logo acrescentou :— Seu irmão também se casou com uma garota moderna.

Allie ficou muito surpresa.

— Há outros Mestres que encontraram sua alma gêmea no futuro? — perguntou com os olhos muito abertos.

— Só eles dois — Royce falou com brutalidade— . Temos um longo dia pela frente — assinalou com a cabeça a enorme égua.

O coração de Allie acelerou. A égua era forte e atlética.

— É para mim?

— Sim. É muito tranquila. Será facil de montar

Desta vez, Allie não tentou dissimular seu sorriso. Quando era menina, passou centenas de horas montando a cavalo sem estribos nem rédeas, e aprendeu a saltar pequenas cercas com os olhos fechados. Ainda montava com frequência, e adorava saltar. Aquela égua, ou qualquer outra, seria moleza.

— Vamos, então.

Royce virou. Um menino lhe deu um objeto branco dobrado e Royce o entregou para Allie.

— Se não se importar, não pode cavalgar por Alvorada vestida assim.

Allie deu uma olhada túnica larga de linho e suspirou.

— Fizemos uma trégua. Uma trégua agradável. Eu gosto de seu estado de ânimo. Você realmente quer começar uma guerra? — logo acrescentou brandamente: — Realmente quer me ver com esse saco?

Royce parecia querer sorrir. Mas não fez.

— É uma vergonha — reconheceu, e desviou o olhar— . Mas pode tirar isso em Dunroch.

Seguia sem olhá-la nos olhos. Allie compreendeu de repente que tinha vergonha do que ela viu (e do que ele tinha revelado) na noite anterior. Mas se incomodava com qualquer tipo de intimidade. Possivelmente pensava que sua angústia era um sinal de fraqueza de sua parte.

Allie tocou seu braço nu. Ele retirou. Ela disse brandamente:

— O único modo de curar um coração partido é exercitá-lo. Recomenda-se falar muito. Não sou psiquiatra, mas…

— Isso é são tolices — ele a interrompeu, tomando as rédeas da égua, partiu.

Naturalmente, não queria falar de sua dor; ao menos, ainda.

Allie olhou para o objeto enorme, pensativa. O fato de Royce ter se aberto com ela, mesmo contrariado, era um primeiro passo para a cura e a purificação de sua alma. Estava há oito séculos atormentado pela dor e pelo remorso. Não podia continuar assim. Tinha um câncer… e teria que curá-lo.

— Só para que saiba, somos amigos — disse Allie com firmeza— . Imagino que um fulano medieval como você acredita que as mulheres só servem para a cama, mas sou sua amiga, aconteça o que acontecer e em qualquer situação. Se alguma vez quiser falar, estou aqui.

Ele a olhou com incredulidade.

— Que homem fala de sua esposa morta com a mulher com que se deita?

— Ah, mas agora somos amigos, não amantes — lembrou Allie.

Royce lançou a ela o olhar mais quente e cheio de promessas que ela já tinha recebido. Em um abrir e fechar de olhos, disse que o assunto deles ainda não tinha acabado.

O desejo atacouou Allie.

— Sabe montar? — perguntou Royce, mudando de tema.

Em lugar de responder, Allie tomou as rédeas da égua, puxou e a conduziu para as escadas que subiam às muralhas. Subiu os degraus, agarrou-se ao estribo, desenhado para um homem alto, e montou na égua. Logo recolheu as rédeas e voltou de trote para junto de Royce.

Ele a olhava surpreso… ou impressionado.

— Claro que sabe. Havia cavalos excelentes na casa de seu pai.

Allie deu de ombros modestamente. Royce ainda não tinha visto nada.

Ele montou em sua cela e fez um gesto a seus homens. Disse:

— Você fica com Neil.

Allie reconheceu o ruivo grandalhão do outro dia enquanto Royce avançava para ficar à frente do pequeno grupo de homens. Não queria violar sua trégua, mas ia desfrutar daquele passeio a cavalo com Royce. Obrigou sua égua a avançar e seguiu trotando a seu lado.

— Suponho que não te assusta cavalgar comigo — disse com inocência.

— Nenhuma mulher me dá medo — replicou ele.

— Sério? Por isso fugiu de mim ontem à noite? — sorriu docemente.

Ele girou os olhos.

— Não fugi de você, Ailios — disse em tom de advertência.

— Pois me pareceu que sim — respondeu ela alegremente.

— Podemos cavalgar, ou pretende que te escute até que amanheça?

— Pretendo falar até te deixar surdo. Me fale da mulher do Malcolm.

Royce se surpreendeu e seus olhos cinza se suavizaram. Allie sabia que não tinha imaginado.

— É filha de um Mestre — disse— . E está há três anos casada com meu sobrinho. Ele a encontrou na nova cidade dos York, em sua época.

Então Claire era de Nova Iorque. Seria genial, pensou Allie emocionada.

— Malcolm estava procurando uma página do Cladich. Claire tinha uma loja de livros estranhos. A busca levou Malcolm até sua esposa.

Allie ficou alerta.

— O Cladich, o Livro da Cura? Já falou dele outras vezes.

Royce contraiu o rosto.

— O Cladich outorga a quem o tem seus poderes curativos. A Irmandade só tem em seu poder uma página. O resto se perdeu. E me preocupa que Moffat tenha algumas páginas.

Allie olhou seu belo rosto.

— Os demônios destroem, não curam.

Royce deixou escapar um grunhido.

— Os exércitos de Moffat não deixaram que crescer nos últimos anos.

Allie estremeceu. De repente sentiu um frio terrível.

— Royce, em minha época os demônios estão fora de controle. Cada ano há mais crimes de prazer. Cada ano há mais demônios.

Não teve que ler seu pensamento para saber o que Royce estava pensande. Ou os verdadeiros demônios tinham encontrado um modo de incrementar radicalmente sua taxa de reprodução, ou não estavam sendo destruídos na mesma medida que antes. Se isto último estivesse certo, possivelmente seria porque um demônio muito poderoso, talvez o próprio Satã, tenha encontrado um modo curar suas hordas diabólicas.

— Não se pode permitir que um demônio tenha tanto poder — disse por fim Allie.

— Não.

E isso significava que, se Moffat ou outro demônio poderoso tinha algumas páginas sagradas, os Mestres deviam recuperá-las.

— Royce, minha mãe usava o Cladich?

— Claro que sim. Faz séculos, quando o livro estava no santuário da Iona, sua mãe o usava constantemente — sorriu um momento— . Era outro mundo, Ailios. Os Antigos tinham muito poder e nós podíamos honrá-los abertamente. De vez em quando caminhavam entre nós… ou nos ajudavam em nossas batalhas contra os Deamhanain.

Allie sorriu, imaginando uma Iona quase paradisíaca.

— Oxalá os Deuses estivessem entre nós agora.

— Nossos sábios asseguram que os homens os abandonaram… e que por isso perderam seus grandes poderes. Dizem que por isso já não vêm à Terra. Mas Claire e Malcolm acreditam que Faola os ajudou a vencer um grande Deamhan, o maior que Alvorada conheceu.

Allie deteve seu cavalo e olhou para Royce. Ele também se deteve.

— Lutaram juntos? Derrotaram juntos um grande demônio?

— Sim, assim foi — a olhou sem vacilar— . Temi pelo Malcolm quando a conheceu. O Código desaprova o matrimônio. Os Mestres têm que viver sozinhos. Mas Claire tinha poderes próprios… e ele é mais forte com ela que sozinho.

— É óbvio que são mais fortes juntos — disse Allie.

Ele deu um olhar estranho e esporeou seu cavalo. Allie pôs seus arreios em trote para alcançá-lo.

— Espere um momento. Se supõe que os Mestres não devem casar?

— Sim.

— Mas Malcolm se casou… e você também! E disse que meu irmão também estava casado.

— Malcolm é uma exceção à regra. Quanto ao Black Macleod, não o conheço muito bem — sua mandíbula enrijeceu— . Meu matrimônio foi um grande erro. Era jovem e tolo. Me casei com Brigdhe antes de ser eleito. E ela pagou o preço — levantou o braço com repentina impaciência— . Se quer falar, faça em Dunroch. Se não, não chegaremos antes que anoiteça — espetou os seus arreios e seus homens o seguiram.

Allie ficou parada um momento, pensando no que acabava de descobrir. A esposa de Royce se chamava Brigdhe. A dor a embargou ao pensar naquela mulher. Nesse instante compreendeu que algo terrível tinha acontecido com ela.

— Ailios! — a voz de Royce transpassou o bosque, afiada como uma lâmina.

Allie voltou bruscamente para o presente. Royce estava empenhado em evitá-la, e por fim começava a compreender porque.

 

Depois de deixar os cavalos nas terras de Morvern, seis homens os levaram de barco até a costa meridional da ilha de Mull. Enquanto subiam a pé por um atalho escarpado, Allie viu Dunroch por cima deles, tão cinza como as rochas sobre as quais se erguia, envolto na densa bruma do Atlântico.

Pouco depois Royce estendeu a mão para ajudá-la a subir o último trecho do atalho. Cruzaram as altas e estreitas paredes de uma barbacã que se usava sobre uma ponte levadiça baixada e atravessaram uma grande torre circular. Allie se encontrou dentro do interior do castelo, com as muralhas à esquerda e um pátio mais baixo à direita. A esplanada interior estava cheia de gente, mas Allie já estava acostumada a ver o ir e vir dos homens e mulheres das Terras Altas, frequentemente acompanhados por seu gado, os homens quase sempre armados. Ao se aproximar de outra porta, saiu um homem alto e moreno.

Royce sorriu.

— Olá Chalium.

O homem sorriu enquanto se aproximava. Era, por mais estranho que pareça, ainda mais musculoso e um pouco mais alto que Royce. Allie teve que olhá-lo duas vezes: era espetacular.

— Ruari — abraçou Royce por um momento.

Allie observou Royce e seu sobrinho, que pareciam unidos por um profundo vínculo de afeto. Royce não estava de todo sozinho neste mundo, inclusive sem ela, e isso a alegrava imensamente.

— Vejo que sua guarda está alerta — disse Royce.

— Sim. Não teria graça vocês terem que esperar que baixassem a ponte — Malcolm fixou seu olhar escuro e curioso nela. — E quem é sua convidada?

Allie se surpreendeu quande Royce a puxou pelo braço com um gesto quase possessivo e a conduziu para frente.

— Apresento lady Ailios, Malcolm. Ailios, meu sobrinho.

Allie estendeu a mão pra ele.

— Olá, sou Allie. Allie Monroe.

Os olhos de Malcolm brilharam, e ele olhou para seus pés. Allie suspeitava que sabia que era do futuro, mas não sabia por que olhava seus pés.

Royce murmurou:

— Está procurando algum sinal. Como seus sapatos enfeitados.

Estava usando suas sandálias do Giuseppe Zanotti, porque eram os únicos sapatos de salto baixo que Aidan trouxe pra ela. Allie sorriu e levantou a saia, e Malcolm riu ao ver suas sandálias e seu jeans.

— Bem-vinda ao Dunroch. Tem que conhecer minha mulher — Virou para Royce, com o olhar cheio de especulação— . Quer conversar a sós?

— Sim. Tenho que te pedir um grande favor.

Allie sabia qual era esse favor e ficou tensa. Royce ia pedir para Malcolm que a protegesse de Moffat, para que ele pudesse voltar para sua vida atormentada e solitária.

— Peça o que quizer. Sabe que não te negarei nada — Malcolm fez um gesto para Allie e ela cruzou a porta junto aos dois e entrou em um pequeno pátio cheio de flores e arbustos. Em seguida compreendeu que o jardim era obra da esposa de Malcolm.

Assim que entrou no grande salão de Dunroch, viu uma mulher alta, de cabelo avermelhado, vestida com jeans. Sentiu-se aliviada e cheia de alegria.

A mulher estava sentada à mesa… com um laptop!

Ao vê-los entrar, fechou a tampa do computador e ficou corada como se tivesse cometido um crime grave.

— Malcolm! Não me disse que tíinhamos visitas — exclamou, ficando em pé.

— Não tema — disse Malcolm brandamente.

Aquela mulher muito bela olhou pra ele e Allie compreendeu que estavam se comunicando em silêncio. Logo os olhos da mulher aumentaram e olhou para Allie com surpresa.

Ela sorriu; o coração acelerado.

— Olá, sou Allie. Você deve ser Claire, a esposa de Malcolm — Se adiantou e estendeu a mão.

Claire a abraçou, abatendo-se sobre ela (media perto de um metro e oitenta), e sorriu com afeto.

— Olá! Que surpresa — olhou para Royce com certa confusão, e de novo pra Allie, desta vez observando seus traços. Então virou para Royce, cheia de curiosidade.

— Olá Chlaire — disse Royce com um sorriso sincero.

Claire lhe devolveu o sorriso.

— Olá Ruari.

— Estamos saindo — disse Malcolm, e saíram ambos.

Allie ficou olhando Royce, que deu uma olha para trás. Acreditou ver pesar em seus olhos, mas ele se limitou a inclinar a cabeça.

Então, Allie se virou, tirou a horrível túnica pela cabeça e a deixou sobre a mesa. Claire deixou escapar um som. Allie viu que estava olhando seu jeans justo e sua camiseta enquanto tentava dissimular um sorriso.

— Bom… isto é muito interessante. Como está Royce… ultimamente?

— Mister Medieval? OH, como sempre: mandão, arrogante, tirânico… Um autêntico casulo — Allie sorriu— . Espero que nos possamos nos dar bem, porque preciso de uma amiga.

Claire riu.

— Royce deve suar vermelho cada vez que entra no quarto.

Allie corou.

— Se sente bastante atraído por mim.

Claire se limitou a olhá-la.

— E está apaixonada?

Allie sentiu que seu sorriso desvanecia.

— Dá pra perceber?

— Não, não é isso, mas Royce é um homem muito bonito e poderoso. Não há homens como ele ou como Malcolm no século XXI; ao menos, abertamente — Claire puxou a mão dela — . Venha se sentar… e me conte tudo.

Allie se sentou com ela e Claire pediu vinho.

— Acreditava que fosse você quem me contaria tudo — disse Allie, repentinamente nervosa.

Claire olhou pra ela surpresa.

Allie cedeu um momento às dúvidas e ao desespero.

— O que está acontecendo? — exclamou— . Em um momento é um encanto no outro fica frio e até cruel. Mas o amo… embora nenhuma mulher em seu juízo perfeito deveria querer um homem medieval.

Claire se levantou na cadeira.

— Quando conheci Malcolm, senti uma atração louca por ele. Mas estudei História Medieval e sabia que nosso relacionamento não podia dar certo. Era como se Malcolm fosse de Marte e eu de Nova Iorque.

Allie sorriu um pouco.

— Mesmo assim, funcionou. Malcolm e eu nos apaixonamos e resolvemos nossas diferenças. Ou continuamos resolvendo, — em seguida acrescentou: — Royce é um dos homens mais difíceis que conheço.

Allie sentiu uma pontada de medo.

— Não estou certa — disse Claire lentamente, — de que seja boa ideia se apaixonar perdidamente por ele.

— Tarde demais — disse Allie.

Claire respirou fundo.

— Quer começar pelo princípio? Vou te ajudar, se puder.

— Me apaixonei por ele em 2010… em vinte e quatro horas. E, em seguida, um demônio o assassinou.

Os olhos de Claire se encheram de compreensão.

— Suponho que se apaixonou por um Royce mais velho… porque agora não está morto.

— Tinha mais de mil e quatrocentos anos — disse Allie— . Daqui a exatos quinhentos e oitenta anos de vida.

Uma criada levou pão, queijo e vinho. Claire agradeceu e a criada inclinou a cabeça e murmurou:

— Minha senhora — Antes de olhar para Allie com curiosidade.

— Parece que assimilou muito bem essa coisa toda dos demônios. Eu demorei algum tempo. Senti pânico quando soube que havia uma raça de seres malignos — disse Claire quando a criada partiu.

Allie sacudiu a cabeça.

— Estou há anos lutando contra os demônios, desde que era uma criança — Claire pareceu surpresa— . Mas, acima de tudo, sou uma Curandeira. Só luto porque me impedem de curar.

— Achei que tivesse sentido seu poder — disse Claire com os olhos bem abertos.

— Curar é meu destino. Posso sarar quase tudo, a qualquer momento — disse Allie, muito séria— . Sou feita para isso.

Pensou logo na jovem a que tinha tentado devolver a vida… e no Royce moderno morrendo em seus braços.

— Mas não posso ressuscitar os mortos.

Houve uma pausa.

— Como acabou aqui?

Allie suspirou.

— Me apaixonei por Royce em minha época. Quando morreu, convenci Aidan a me trazer para o passado, para buscá-lo. É uma coincidência incrível, mas quando conheci Royce, ele procedia de 1430 e Aidan o tinha seguido. Assim, quando Aidan retornou pra sua época, vim com ele — e acrescentou : — Royce se comportou terrivelmente quando cheguei. Mas logo salvamos um menino de uma avalanche de rochas, lutamos juntos contra os demônios e até fizemos amor. Agora não quero voltar para casa. Não posso voltar para um futuro sem Royce. E tampouco posso deixar aqui ao Mister Medieval. Precisa de mim. Os dois precisam de mim.

Claire estava com os olhos totalmente abertos.

— Então, pensa em ficar no século XV?

Allie hesitou.

— Por hora, sim. A única certeza que tenho é de que preciso encontrar uma maneira de derrotar Moffat para que não mate Royce em sete de setembro de 2010.

Claire sufocou uma exclamação de surpresa.

— Moffat matou Royce?

Allie ficou tensa.

— E pode ser que esteja atrás de mim. Como ele é?

— Perverso. Extremamente ambicioso e bem relacionado. Afirma ser parente distante da rainha. E está louco pelo poder. Suponho que os Deamhanain querem te converter… ou possivelmente te obrigar a utilizar seu poder para proveito proprio.

— Não podem me converter — disse Allie, muito séria.

— Allie, não convém que fique cara o rosto com Moffat.

— Não. Mas parece que fala por experiência.

— De certo modo, sim. Malcolm e eu vencemos o conde de Moray contra toda probabilidade. Fazia mil anos que abusava dos Inocentes de Alvorada, mas de algum modo conseguimos vencê-lo juntos. Mas isso foi depois que me fizeram prisioneira. E isso é algo que prefiro esquecer.

— Sinto muito — sussurrou Allie.

Um olhar estranho cruzou o rosto de Claire enquanto tomava uma taça de vinho.

— Quer uma taça de vinho?

— Claro. O que aconteceu? — perguntou Allie com certo alarme — . por que te assusta ainda o nome de Moray?

Claire fez uma careta.

— Às vezes sonho com ele. Faz três anos, nem sequer estava certa de que tivéssemos derrotado ele. Sempre esperava que voltasse. Mas todo mundo dizia que, embora voltasse, deixaria em paz Malcolm e a mim. Somos muito poderosos e evitaria voltar a se enfrentar conosco. Agora somos mais poderosos ainda — acrescentou Claire — . Faz três anos, Malcolm não conhecia bem seus poderes e eu nem sequer sabia se tinha algum poder.

Allie teve um mau pressentimento.

— Não crê que esteja morrido.

Claire vacilou.

— Não é pelo Malcolm ou por mim por quem temo.

— Então, por quem?

— Por Aidan.

Allie se sobressaltou.

— Porque se preocupa com Aidan?

Claire estava surpresa.

— Não te falaram sobre isto? Malcolm e Aidan são filhos da mesma mãe, mas não do mesmo pai. Aidan é filho de Moray.

Allie não podia acreditar que Aidan fosse filho de um demônio.

— É um Mestre.

— Sim, é. Mas, se por acaso não o notou, é um pouco rebelde. Me preocupa. Essa fachada tão encantada esconde um grande conflito interior — disse Claire— . A primeira vista parece um don juán que só pensa em seu próprio prazer, mas sempre acaba oferecendo a vida pelos Deuses, pela Inocência. Está assustado, Allie. Teme o que possa lhe proporcionar o legado de seu pai.

Allie ficou pensando.

— Bom, sua aura não é maligna e, se tinha algum suave tom de maldade, eu não notei — falava com firmeza. Mas o poder de Aidan era distinto: ela sentiu, sem chegar a entender porque. Preferiu esquecer. Não importava: Aidan era seu Cavaleiro de Espadas.

— Se reverência os Deuses, — disse Claire — é por que acredita no destino.

Allie sabia aonde queria chegar.

— Sim. Mas o destino de Royce não é morrer em 2010. Isso foi um engano.

Claire ficou calada. Era evidente que não acreditava em tudo.

— Sei tudo sobre esse Código absurdo — disse Allie — Não sou um Mestre e não tenho intenção de seguir suas normas.

Claire sorriu.

— Eu tampouco sou. Sou apenas filha de um Mestre. No que posso te ajudar?

Allie se inclinou para ela ansiosamente.

— Pense em como podemos vencer Moffat agora para que não possa matar Royce em 2010. Estava vestido com roupa moderna. Ele também devia ser um homem moderno — mas não podia estar do todo certa, porque o Aidan medieval andava por aí de Levi's quando estava a fim.

— Vamos esperar que venha do futuro, — disse Claire calmamente — para que possamos destrui-lo agora e salvar Royce.

 

Allie se sentiu imensamente aliviada por ter uma aliada.

— Odeio te pedir isto, mas acho que não devia contar para o seu marido. Não sei o que acontece quando um Mestre quebra as regras, mas pode ser que não fique do nosso lado.

Claire riu.

— Malcolm sempre está de meu lado, mas não se preocupe, não direi nada até que seja necessário.

Allie vacilou. Foi ao Dunroch em busca de ajuda e conseguiu, mas também precisava de respostas.

— No início Royce temia sua relação com Malcolm.

— Ele te disse isso?

— Sim.

Claire disse:

— Royce é um soldado muito experiente, Allie. Viveu séculos, e viu de tudo.

— Isso é uma advertência?

— Podia ter escolhido alguém mais fácil de amar.

Allie quase sorriu.

— Não me diga — em seguida falou muito séria — Pode ser que, seja tão difícil e tão frio, e esteja tão sozinho, por causa do seu passado com sua esposa.

— Sei que foi casado, mas faz muito tempo, e não conheço os detalhes.

Seus olhares se encontraram.

— Maldita seja — disse Allie— . Sei que aconteceu algo terrível com sua mulher e que continua sofrendo por isso.

Claire disse calmamente:

— Pergunte ao Malcolm.

 

Allie encontrou Malcolm fora, com Royce, nas muralhas que davam para o oceano Atlântico. Parou. Aqueles dois homens, que se erguiam sobre ela com seus casacos e seus mantos xadrez enquanto o sol tentava sair dentre as nuvens, ofereciam uma imagem magnífica. Enquanto olhava Royce, o coração deu vários pulos. Porque não queria que ela o curasse? Se perguntava se sua dor tinha algo que ver com seu desejo de morrer no futuro. Era uma ideia surpreendente e desalentadora.

Ele virou e olhou pra ela.

Allie subiu depressa os degraus de pedra.

— Olá — sorriu— . Interrompo algo?

Malcolm parecia divertido, mas Royce olhou pra ela com desconfiança.

— Já acabamos que falar, lady Allie — segurou Royce no braço— . Acredito que sua mulher deseja falar um momento comigo.

Royce deslizou o olhar pelos jeans e na camiseta de Allie.

— Nem pense seduzi-lo para sua causa. Ama muito sua esposa.

Allie sorriu.

— Minha causa é você. E não quero seduzir nenhum outro homem — acrescentou.

Royce fez uma careta.

— Além disso, gosto muito daqui. E vou levar isso como umas férias. O santuário da Iona está a uns quilômetros daqui. É solo sagrado e Claire já se ofereceu para me levar.

Nem sequer tinham falado disso.

— Assim, se mudar de ideia, não posso voltar para Carrick contigo — mentiu com ligeireza— . Ainda.

Royce pareceu alarmado. Corou.

— Malcolm está de acordo que fique em Dunroch. Não haverá visitas ao santuário.

Allie se surpreendeu. Aquilo era estranho… e interessante. Por que Royce não queria que visitasse Iona? A ilha era sagrada. Sua mãe tinha vivido ali durante séculos.

— Allie fica aqui — Royce disse para Malcolm como se seu sobrinho fosse um soldado de prontidão — . Até que eu diga o contrário.

Desceu de um salto os primeiros degraus e pulou no pátio.

Malcolm começou a rir.

— O que aconteceu? — perguntou Allie, pasmada.

Estremeceu. Fazia muito frio no alto das muralhas, expostas aos ventos do Atlântico.

— Esta com ciúmes. Cheio de ciúmes, na verdade — Malcolm riu outra vez enquanto a levava escada abaixo.

— Com ciúmes de que? De um monte de monges que reverenciam os Antigos?

— Os Mestres passam temporadas na ilha, garota, e acredito que Royce não quer que veja outros homens e goste de algum.

Allie se ergueu, interessada. O Royce moderno não disse que era na Iona onde fez seus votos? E a ilha era, além disso, o santuário perfeito, porque nenhum demônio se atrevia a pisar em solo sagrado. Royce acreditava que podia se interessar por outro homem se não estivesse ali?

Se aproximou de um banco de pedra e se sentou com as pernas cruzadas. Se tinha que provocar Royce indo a Iona, faria.

Malcolm sentou do seu lado.

— Seu homem me pediu que te guarde aqui e te proteja enquanto persegue Moffat.

— Sei — Allie deixou de sorrir— . Mas não vou ficar. Sinto muito! Dunroch é maravilhoso, mas meu lugar está no Carrick, com Royce. Precisa de mim.

Malcolm se limitou a observá-la com olhar escrutinador.

— Tem muito poder, Allie. Sinto-me aliviado e em calma apenas por me sentar do seu lado. Estou de acordo: meu tio precisa de sua luz.

— Então, vai dizer ao Royce que não posso ficar aqui?

Malcolm suspirou.

— Lady Allie, não posso negar nada a Royce. É para mim mais que um pai, mais que um tio. Prometi te proteger. E devo fazer.

Allie desanimou.

— Então terei que convencer Royce. Quanto tempo tenho? Quando vai partir?

— Irá pela manhã. Sim, use suas manhas. Será interessante ver quem é mais forte. Não acredito que Royce possa resistir a você por muito tempo.

Allie se animou. Mas disse:

— Espero que tenha dito pra você por que quer ir em busca de Moffat.

— Sim.

— Falou de sua morte?

— Sim. Não vou mentir pra você, Allie. Estou muito preocupado. Royce é mais poderoso que Moffat, mas o poder não importa, se o destino dispuser o contrário.

Allie abraçou os joelhos contra o peito. Todo mundo parecia pensar que Royce ia morrer em sete de setembro de 2010, acontecesse o que acontecesse. Bom, eles que se danassem com seu pessimismo. Ela era uma otimista e se orgulhava disso. E, o que era mais importante, nunca se dava por vencida. Não ia começar agora. Royce não podia morrer nesse dia, simples assim.

— Vejo que se preocupa com meu tio desgraçado.

— E o amo — disse Allie— . Inclusive quando fica em modo MadMax.

Malcolm pareceu desconcertado.

— E o que é que quer saber?

— Quero saber o que aconteceu com sua esposa, quando foi e por que Royce sente tanta culpa. E se continua apaixonado por um fantasma.

Malcolm levantou.

— Isso você deve perguntar pra ele.

— Royce não quer falar dela — e acrescentou com amargura— : A amava, verdade? Royce amava essa mulher com todo seu coração e sua alma — pesava reconhecer o que temia intimamente.

Malcolm hesitou.

— Royce nunca fala de sua esposa. Partiu faz muito tempo.

Allie mordeu o lábio.

— Sou uma tola por acreditar que algum dia chegue a me querer assim?

Malcolm a agarrou pelo ombro.

— Me escute, garota. Royce era um pirralho de vinte e três anos quando se casou. Agora tem mais de oitocentos anos. Por que se preocupa com o passado?

Allie se afastou e cruzou os braços. Royce era tão jovem…! Ela não tinha pensado nisso.

— Royce me queria no futuro. Talvez não possa me amar agora, mas há um vínculo entre nós, e não me refiro só a sexo — Malcolm corou— . Sou importante pra ele. Demonstrou isso… uma ou duas vezes — enxugou os olhos — . O que aconteceu com sua esposa? Malcolm, por favor.

Malcolm cedeu por fim.

— Uma poderoso Deamhan a sequestrou, torturou e a violou durante dias, talvez semanas, não sei. Royce a resgatou por fim… e a entregou a outro homem, rompendo seu matrimônio. A maioria dos Mestres vivem sozinhos, lady Allie. Há um bom motivo para que o Código exija isso. Royce renunciou a sua esposa para protegê-la.

— Meu Deus — murmurou Allie — . Pobre Royce — sentou bruscamente. Tinha vontade de chorar por ele — . Mas você tem Claire.

— Sim, e a quero muitíssimo. Mas é filha de um grande Professor.

— Eu sou filha de Elasaid! — exclamou Allie.

Malcolm suspirou.

— Garota, eu sou jovem, tenho vinte e oito anos. Para mim foi fácil me entregar para Claire. Não sei se Royce amava Brigdhe ou se apenas se preocupava com ela como deve fazer um bom marido. Mas não acredito que se permita voltar a gostar de uma mulher. Está certa de que no futuro disse que te queria?

Allie levantou os olhos. Estava a ponto de dizer «claro que sim», mas parou. A ideia era espantosa. Royce nunca disse essas palavras, nem sequer com seu último fôlego.

Malcolm a olhou com piedade.

— Não acredito que meu tio seja capaz de amar como você quer, garota. É duro, sim, mas é mais velho ainda. E está cansado.

Mas isso, pensou Allie, explicava por que quis morrer.

 

— Quer entrar? — perguntou Malcolm amavelmente.

Allie esteve a ponto de dizer que não. Queria ficar ali sentada e pensar em Royce e em seu passado… no presente e no futuro. Mas antes que pudesse sequer sorrir pra ele, um terrível pressentimento se apoderou dela.

Poder negro…

Sentou-se, alarmada. Nunca sentiu uma maldade tão grande e próxima.

— Lady Allie?

Allie ficou em pé. Não olhou Malcolm. O mal se aproximava como as nuvens negras que precediam uma terrível tormenta. Mas aquela era uma nuvem mortífera. Não sabia se era um só demônio ou vários, mas possuía enormes reservas de poder. Allie ficou paralisada por um momento.

— O que esta acontecendo? — perguntou Malcolm.

Allie olhou e viu que estava alarmado.

— O mal se aproxima. Me dê um momento.

— Eu não sinto nada — ele disse rapidamente.

Allie se afastou e se concentrou na escuridão que se aproximava, naquela sombra de morte e destruição. Escuras e malignas, firmes e decididas, as sombras partiam como homens terra adentro… do norte. Allie compreendeu o que estava acontecendo e deixou escapar um gemido.

Olhou Malcolm.

— Trinta ou quarenta demônios se aproximam. Mas não estão sozinhos. Malcolm, estou segura de que centenas de humanos vêm com eles. Todos possuídos, todos com poder demoníaco. E também há animais.

Os olhos do Malcolm aumentaram.

— Um exército diabólico ataca Dunroch?

Allie assentiu, arrasada.

— Vêm pelo norte… e se meus sentidos funcionam nesta época como na minha, têm meia hora para se preparar.

Malcolm já tinha virado e começado a gritar ao guarda da pequena torre da barbacã. Começaram a tocar os sinos. O castelo ficou fervilhante. Allie passou toda sua vida enfrentando demônios, mas poucas vezes encontrou um grupo deles… e nessas ocasiões fugiu. Normalmente cometiam sozinhos seus crimes de prazer.

Nas muralhas apareceram homens levando grandes arcos; outros começaram a subir às muralhas, enquanto na esplanada começavam a acender fogueiras. Allie caiu em si: o castelo estava se preparando para o ataque, e ela tinha que ajudar. Correu atrás de Malcolm e entrou no pátio interior.

Os Cavaleiros de Malcolm tinham aparecido; alguns estavam vestidos com cota de malha; outros só com casacos e mantos xadrez, mas todos estavam armados até os dentes. De onde estava, Allie viu que nas paredes e nas torres apareciam mais arqueiros e Cavaleiros. A muralha exterior estava um pouco mais abaixo do lugar em que ela estava, e viu que uma máquina de madeira era colocada junto a um enorme volume de rochas. A máquina catapultaria as rochas por cima das muralhas, para o inimigo.

A escuridão se aproximava rapidamente.

— Ailios!

Allie girou e viu Royce correr para ela seguido por Claire.

— Royce, trinta ou quarenta demônios se aproximam pelo norte… e trazem um exército de humanos possuídos.

Ele a agarrou pelo braço, alarmado.

— Um exército de demônios se prepara para atacar Dunroch? — exclamou Claire— . É incrível!

— Querem Ailios — disse Royce, olhando pra ela.

O coração dela apertou, não por suas palavras, mas sim por seu olhar frio e duro. Mas naquele momento precisavam de Royce em sua pior versão.

— Vão nos cercar, verdade? — disse Claire— . Santo céu, até os humanos podem cruzar o fosso e escalar as muralhas com seu poder demoníaco, não faz diferença atirarmos neles. Mas os demônios superiores podem saltar dentro das muralhas.

Allie compreendeu em seguida que os demônios superiores podiam viajar no tempo. Nesse momento, certamente um grupo deles estava se adiantando trinta minutos para aterrissar dentro dos muros de Dunroch e começar a batalha.

— Tentaram distrair toda a guarnição com um ataque em todas as direções para que um deles possa pegar Ailios — disse Royce rapidamente— . Não podemos defender Dunroch como se isto fosse algo comum. Claire, avise a todos: todos devem vigiar as costas de Ailios. O inimigo penetrará nossas defesas quando começar a batalha.

Claire correu em busca de Malcolm.

Allie se deu conta, atônita, de que estava a ponto de acontecer uma grande batalha com o único propósito de capturá-la. Seu estômago apertou.

— Está certo? Por que tentam de todas as maneiras me pegar, Royce? — exclamou.

— Não tentaram te pegar quase todos os dias desde South Hampton? — disse ele — . Moffat planejou isto desde aquele dia, e o planejamento durou esse tempo todo.

Allie se sentiu doente.

— Será muito difícil?

— Não podemos manter fora do Dunroch os verdadeiros Deamhanain, a não ser que possamos ungir esta terra com água benta e oração. Mas não há tempo. Se os Deamhanain quiserem entrar, entrarão. E logo — acrescentou sobriamente— . Alguém tentará pegar você enquanto lutamos — seus olhos cintilavam.

— Deveria me entregar? — perguntou Allie, atemorizada. Morreria tanta gente por sua culpa…!— . Moffat me quer viva.

— Está louca? — exclamou Royce, ficando branco. Agarrou-a e a sacudiu uma só vez— . Não volte a falar em se entregar a Moffat, Ailios.

Allie umedeceu os lábios ressecados.

— Esperava que dissesse isso.

Ele sacudiu a cabeça.

— Hoje não vai lutar — disse suave e ameaçadoramente, apertando-a com mais força.

Allie estava a ponto de protestar, mas sua voz não saiu. Pensou na morte de Royce nas mãos de Moffat, no futuro, e em como esteve a ponto de morrer noites antes no Carrick, distraído por seus intentos de combater os demônios. Tinha que reconhecer que suas intensões eram um fiasco.

— Não, não vou lutar — disse com voz rouca.

Ele pareceu surpreso.

— Bem. E ficará onde te deixar, até que diga o contrário.

Allie estava perplexa.

— Sou uma Curandeira. Vai ter feridos, é provável que pessoas morram. Tenho que curá-los, Royce. É minha função!

— Como vai se mover pelo Dunroch enquanto chovem rochas e flechas, quando os Deamhanain estiverem dentro do castelo, te procurando? — disse Royce asperamente.

— Não posso esperar até que acabe a batalha para curar os feridos graves — exclamou Allie— . Tomarei cuidado, juro pra você.

— Só desta vez vai me obedecer. Não posso lutar se estiver por aí atendendo os feridos. Será a presa perfeita. Sua generosidade é admirável, Ailios, mas ficará onde eu disser. Curará os feridos quando acabar a batalha.

Allie olhou pra ele com surpresa e sustentou o olhar com determinação.

— Está me dizendo que devo me esconder?

— Não. Ficará perto de mim durante a batalha para que possa te defender se for necessário.

Royce subiu à torre mais próxima da barbacã mais avançada. A muralha norte defendia o fosso e a ponte levadiça. A sul era impenetrável, pois ficava sobre escarpados muito altos cortados de forma pontuda sobre o Atlântico. Allie perguntou se podia subir e ele disse que sim. Estava a seu lado, coberta com um casaco de malha curto, com o quadril apoiado contra a coxa de Royce. Todas as torres e as muralhas estavam ocupadas por arqueiros, Cavaleiros e balesteros que disparavam dardos do tamanho de espadas. Levaram para cima das muralhas barris cheios de líquidos ferventes. Allie olhava para o norte, cheia de angústia.

Tudo aquilo era por causa dela. Porque estava acontecendo isso? Por que, de repente, Moffat foi atrás dela em South Hampton aquela noite?

Olhou para Royce. Ao menos estavam juntos nisto. Por mais invencível que parecesse, sua morte futura demonstrou que era mortal. Se algo acontecesse, ela estaria perto para curá-lo… custasse o que custasse.

Confiava que Royce não queria morrer também no século XV.

Ele olhou diretamente pra ela.

— Não vou morrer hoje.

Allie o pegou pela mão. Seus olhos cinza brilharam, surpresos, mas não se afastou.

— Não, não vai morrer. Claire também tem poderes curativos, verdade?

— Sim, alguns. Avi

 

A vi curar Malcolm com meus próprios olhos quando Moray o feriu mortalmente. Não o curou por completo, Ailios, mas salvou a vida dele detendo a hemorragia.

— Já é alguma coisa. Claire poderá ajudar.

— Seu poder não é nada comparado com o teu, Ailios. E Claire é uma guerreira. Luta com Malcolm, embora não sei como ele pode lutar com sua esposa a seu lado.

Allie estava impressionada. Mas Claire parecia muito forte.

Virou para olhar para o norte. Royce largou suavemente sua mão. A deixou. Se as circunstâncias não tivessem sido tão terríveis, teria se emocionado que ele a segurasse pela mão, embora fosse por pouco tempo.

A ilha de Mull era realmente linda, pensou. Frente a ela, suaves colinas boscosas se elevavam para um céu azul brilhante, salpicado de nuvens como penugens. Viu uma manada de cervos sair da colina mais próxima: três fêmeas e um macho cruzaram correndo o caminho pedregoso onde estava a barbacã. A nuvem negra estava tão perto que arrepiou o pelo de sua nuca.

— Já estão aqui — disse Royce.

Por um momento Allie não se moveu.

O exército diabólico apareceu na borda da floresta. Uma fila de homens gigantescos, vestidos com armadura, com os elmos brilhando ao sol e os arcos nas costas, desceu pela lateral a caminho dos muros de Dunroch. Os que vinham à frente traziam grandes bandeiras pretas e vermelhas.

Allie tentou manter a compostura.

Vinham atrás mais homens, animais de carga e máquinas de guerra: aríetes com cabeça de ferro, catapultas como a que havia no pátio, lá em baixo, cercas de madeira carretas carregadas com escalas.

— Não são cercas — disse Royce amargamente— . São parapeitos para seus arqueiros e para quem tentar escalar as muralhas — olhou a seu redor— . Ainda não há nenhum Deamhanain dentro de Dunroch.

— Porque não saltam dentro quando querem? — perguntou Allie com a boca tão seca que era difícil engolir.

Royce fixou nela um olhar brilhante.

— Alvorada se encontra sumida no caos, mas não na anarquia… ainda. Todos respondemos perante o rei e a rainha. Moffat é um grande senhor e um bispo, Ailios, e não pode declarar guerra a um vassalo do rei, embora deseje. Não pode atacar Malcolm ou a mim conforme sua vontade. De certa forma, há uma trégua entre nós. Se um Deamhan se atrevesse a invadir a casa de um Mestre por sua conta, começaria a anarquia, porque o Mestre teria que se vingar. Isto é o princípio da anarquia em Alvorada — disse com amargura. Allie estremeceu.

— Sim, e é por minha culpa.

Ele a puxou pelo cotovelo.

— Você serve ao bem, à Inocência e à Irmandade. Qualquer Mestre te defenderia com sua vida. Vamos lá pra baixo.

Allie viu aparecer os primeiros cavaleiros depois do exército de gigantes e das máquinas.

Todos os demônios foram a cavalo. Os cavaleiros irradiavam morte. E a aura do exército ardia, vermelha. De repente, o olhar de Allie se voltou para um dos cavaleiros do lado direito, montado sobre um corcel negro. Estava muito longe, mas Allie soube que não usava armadura porque não brilhava no sol. Por um momento não pôde desviar o olhar, e sentiu a terrível e hipnótica atração do demônio.

«Achei Ailios». O Sentiu sorrir. «Venha pra mim, Ailios».

Allie sentiu que seu coração batia com violência… mas não pôde afastar o olhar.

— Ailios — disse Royce firmemente, virando ela pra ele.

Ela sentiu um alívio entristecedor. Não tinha nenhuma dúvida de que esteve olhando para Moffat e de que ele a saudou telepáticamente, tentando hipnotizá-la.

— Vamos — sussurrou com nervosismo.

Moffat quase conseguiu.

— Ele morrerá hoje — disse Royce.

 

Começou a batalha e o mundo tal e como Allie conhecia mudou por completo. Em um só instante, a paz e a calma do dia se fizeram em pedacinhos. Allie estava junto de Royce no pátio interno, entre ambas as barbacãs. As flechas ardentes assobiavam e aterrissavam não só nas muralhas, onde estavam situados quase todos os homens, mas também também na esplanada, não muito longe de onde eles se encontravam. Allie se contraiu enquanto rochas e pedras explodiam a seu redor e seus fragmentos voavam perigosamente junto deles. Alguns homens, alcançados pelas flechas ou pelas pedras, começaram a gritar de dor. Um homem caiu das muralhas envolto em chamas e se estatelou no pátio, justo em frente a Royce e ela. Começaram a ouvir gritos de raiva enquanto os defensores disparavam com suas molas de suspensão flechas e dardos aos sitiadores e jogavam sobre eles líquidos ardentes.

Os feridos, entretanto, aumentavam em número com cada chuva de flechas e projéteis. Royce a agarrou pelo braço com força, como se soubesse que era quase impossível para ela não correr para às escadas e subir para ajudar os feridos. Allie se armou de coragem. Tinha que ficar quieta, por hora. Mas aquilo era o mais difícil que tinha feito alguma vez.

De repente, um dardo do tamanho de uma espada voou por cima das muralhas e transpassou três homens em fila. Caíram no pátio, para uma morte certa.

— Não posso mais — gritou Allie, empurrando Royce— . Posso salvar dois desses homens!

Ele a estreitou entre seus braços e a segurou ali, contra seu peito.

— Fica quieta. Pularam o fosso. Os gigantes estão escalando as muralhas. E são humanos.

Allie ficou imóvel, olhando para ele.

— Como sabe?

— Estou ouvindo Malcolm — disse ele.

Estava lendo a mente de seu sobrinho. Malcolm e Claire estavam lutando contra os invasores na torre maior, a que guardava a ponte levadiça. Allie se concentrou nos três homens e se deu conta de que estavam mortos. Disse a si mesma, que não devia chorar. Ainda não.

Mais tarde, quando aquilo acabasse, rezaria por seu sacrifício e benzeria suas almas, e logo choraria sua morte terrena.

Concentrou-se no castelo, mas não sentiu maldade dentro de seus muros.

— Está esperando o momento certo — disse Royce.

Allie não imaginava quando podia ser. As flechas, os dardos e as rochas continuavam chegando. Ouviu os golpes de um aríete contra o restelo principal. Os homens do Malcolm gritavam ansiosamente nas muralhas. Levantou a vista e viu que dois gigantes subiam as muralhas. Malcolm, Claire e outros dois guerreiros os mataram no ato usando suas espadas e sua energia. Um dos guerreiros era moreno e de pele terrosa; o outro, loiro e bronzeado. Allie se agarrou à manga de Royce. Aqueles homens tinham a aura brilhante que só os Mestres possuíam. Ele seguiu seu olhar.

— Sim, Malcolm pediu ajuda.

Um grupo de gigantes começou a subir pelas muralhas. Malcolm, Claire e os dois Mestres os atiraram para trás com rajadas de energia, mas em seguida apareceram outros. Allie viu que Aidan apareceu a seu lado, espada na mão, vestido como um highlander medieval, com casaco, cota de malha e botas, e as pernas nuas. Viu ele matar ferozmente quatro gigantes. Era, igual a Royce, todo um exterminador. Já não parecia amável.

A madeira rangeu, chiou, explodiu. Allie, rodeada pelos braços de Royce, se encolheu de medo quando as portas cederam e os gigantes entraram no castelo.

— Fique aqui — disse Royce severamente— . Fica contra esta parede — a agarrou pelos ombros.— Moffat vai tentar vir agora que vou lutar, entende? Estarei te vigiando.

Allie assentiu com a cabeça, embora não queria distrai-lo. Tomou seu rosto entre as mãos.

— Não se atreva a me olhar! Não me moverei. Lute com os dois olhos em cima dos demônios, diabos.

Royce deu a ela uma pequena e mortífera adaga, tirou ambas as espadas e antes que Allie pudesse pestanejar se lançou decidido para a horda de inimigos. Entrou na disputa como uma máquina letal, movendo os braços numa velocidade vertiginosa, como movimentos rotatórios, e os gigantes foram caindo um após o outro enquanto abria caminho entre eles.

Toda praça se converteu em um campo de batalha. A curta distância de Allie, Mestres e highlanders lutavam com os gigantes.

A terra ficou manchada de sangue.

Havia corpos por toda parte: homens mortos ou agonizantes. Como podia ficar ali, olhando, sem fazer nada?

Viu que Royce estava em rajada. Parecia invencível. O imenso desejo de curar se apoderou dela e se afastou apenas dois passos da parede. Ali se ajoelhou junto a um rapaz muito jovem com uma ferida de espada do lado. O rapaz estava com os olhos fechados, mas estava vivo.

Allie lançou luz branca curativa. Concentrou-se, o terrível calor da batalha desapareceu e só ficaram ela, o rapaz e sua luz branca. Não se moveu, consciente de que a carne aberta do rapaz começava a cicatrizar e seus músculos a serem curados. Sentiu que seu coração começava a bater com normalidade. Um momento depois, o menino abriu os olhos e olhou para ela surpreso, piscando. Depois sorriu.

— Obrigado, senhora.

Allie olhou para a batalha. Royce estava meio coberto de sangue, mas concentrado e ileso. Todos os gigantes que se dirigiam para ele ou os que atacava caíam sob suas espadas. Apesar de ser horrível a batalha, vê-lo assim a fez se sentir segura e emocionada. Royce era poderoso e valente, e esse dia os Deuses sorriam para ele.

Os gigantes, entretanto, continuvam entrando pela barbacã, apesar dos defensores das muralhas atirarem sobre eles azeite fervendo e flechas em chamas. Um pouco de calor não os deteria, Allie disse para si mesma com acidez. Mas eram humanos, e por fim, se fossem bastante feridos, morreriam.

Olhou para as muralhas; a maior parte da batalha se mudou para o pátio. Estava segura de que não era bom sinal. Mas Claire e Malcolm continuavam no alto, lutando contra os que ainda tentavam escalar as muralhas do castelo.

Allie virou. Outro homem jazia inconsciente a poucos passos de onde estava ajoelhada. Tinha sofrido o golpe de uma rocha catapultada que o alcançou depois das muralhas. Allie se aproximou dele e começou a curá-lo.

— Ailios…

Ficou paralisada ao ouvir aquela voz sedosa, sedutora e mortífera. Levantou lentamente o olhar para Moffat.

Sorriu para ela. Possuía a beleza perfeita de um anjo… mas era o escudeiro da morte. Seus olhos brilhavam com luxúria diabólica, tão sexual que o nervosismo de Allie disparou. Nesse instante compreendeu que a hipnotizaria e a seduziria antes de matá-la… e que não só obteria prazer dela. Tiraria seu poder, convertendo-a em vítima de um crime de prazer.

— Sim — murmurou ele.

Allie sentiu um calafrio… em parte sensual.

— Não poderá resistir a mim, Ailios. Esperarei enquanto acaba de curar esse homem — riu.

Nesse instante, Allie acreditou. Seus poderes de encantamento eram terrivelmente fortes, e ela tinha que levantar de algum modo um escudo de luz branca a seu redor. Sabia que, se ele a pegasse, saltaria com ela para outra época e para outro lugar. Moffat estava somente a meio metro dela, perigosamente perto. Tinha que pôr mais distância entre eles… mas tinha medo de se mexer. Se ela se movesse, estava certa de que ele a apanharia. Nem sequer se atreveu a olhar para Royce.

O suor corria por seu corpo profusamente pelo temor enquanto tentava pensar, agachada junto ao ferido.

— Não quer acabar de curá-lo? — murmurou ele com um brilho nos olhos azuis e ardentes.

Custava pensar quando o senhor do mal e da morte estava olhando fixamente pra ela. Sentia tanto medo que seu peito doía. Sabia que tinha que se mexer. De repente começou a engatinhar pelo chão o mais depressa que pôde, para trás. Os sapatos bicudos de Moffat a seguiram. Antes de que pudesse se levantar, seus saltos se chocaram com a parede. Olhou para cima, horrorizada.

Ele se ajoelhou até ficar quase cara a cara com ela. Suas feições eram perfeitas.

— Se parece tanto com sua mãe… — sussurrou.

Seu fôlego roçou a pele de Allie. Como conhecia sua mãe?

— Que se foda.

Sua resposta divertiu Moffat.

— Não quer vê-la, Ailios?

Seu coração acelerou.

— Está morta.

— É sério? Desde quando? — esboçou um sorriso belo e cruel.

Ela se ouviu ofegar.

— Jamais curarei um demônio.

Moffat riu brandamente.

— Pode ser que sim, pode ser que não. Tenho um imenso poder, querida, e acredito que no final acabará me obedecendo — deslizou o olhar até sua boca e depois mais abaixo, até seu decote e seus seios.

— Prefiro morrer a curar demônios — disse ela, e cuspiu na cara dele— . E terá que me violentar para conseguir que me deite contigo.

Ele limpou o cuspe.

— Assim desfrutarei mais que te seduzindo. Se quer gritar de dor sexual, posso arranjar.

Allie sabia que falava sério. Se deu conta de que estava tremendo e se sentou, ainda de joelhos, com as costas contra a parede. Não tinha onde ir.

Moffat estendeu os braços pra ela.

Mas ela estava esperando aquele movimento.

Apesar de sua atração magnética, cravou a adaga na palma da mão dele. Ele grunhiu, seus olhos aumentaram, cheios de surpresa, e vacilou uma fração de segundo.

Allie agachou a cabeça e rodou sob seu braço estendido. Ele a agarrou pelo cabelo. Allie gritou de dor. Sentiu pânico. Bastaria que ele a segurasse pelo cabelo para que pudesse arrastá-la para outro tempo?

Viu a lâmina pelo canto do olho.

Um redemoinho de luz prateada.

Royce…

A espada cortou seu cabelo e se viu livre. Se afastou num pulo.

Royce olhou Moffat frente a frente e sorriu com frieza.

Lançaram simultaneamente uma explosão de energia, mas ficaram igualados. Moffat empunhou sua espada com a mão ensanguentada e pulou em direção a Royce. Suas espadas travaram. Temendo que o futuro se repetisse no passado, Allie olhava Royce. O casaco empapado em sangue se manchava seu corpo como uma segunda pele, delineando cada músculo. Seu rosto era uma máscara de prazer selvagem. Não tinha medo: gozava daquele violento encontro.

— Por Ailios — disse suavemente.

Recuou e lançou outro ataque, obrigando Moffat a se colar à parede. As folhas das espadas chiaram, o metal vaiou, incandescente, cheio do poder de ambos. De repente, Royce tirou sua espada curta, tão velozmente que Allie pensou que ia ferir de morte seu oponente. Mas Moffat conseguiu tirar a sua e conteve o golpe.

Allie olhou sua adaga, que jazia no chão, não muito longe dos dois homens. Pareciam estar igualados, exceto pela ferida que tinha feito em Moffat na mão direita. Apesar do muito que lutou, Royce não estava ferido, e Allie rezava para que isso lhe desse vantagem.

Se separaram e voltaram a lutar, ambos usando as duas espadas. Allie passou rapidamente junto a eles e agarrou a adaga. Assim que tivesse uma oportunidade, cravaria no coração de Moffat.

Royce e Moffat voltaram a lutar. A força sagrada de um se enfrentava ao poder demoníaco do outro. Allie calculou que estava a dois passos de seu objetivo. Precisava de uma brecha…

— Não — disse Royce duramente.

E embora Royce não tenha olhado pra ela ao falar, Moffat baixou a mão que segurava a espada curta e a levantou grosseiramente. Estava claro que procurava a jugular de Royce. Durante um instante horrível, Allie pensou que ia cortar o pescoço dele. Mas Royce levantou a espada em um abrir e fechar de olhos e, no instante em que as folhas chiaram, Allie se lançou para Moffat. Ele se voltou e tentou deter a adaga com a espada longa, mas a espada de Royce o impedia de se mover e Allie penetrou por baixo.

Em lugar de atravessar o peito, cravou a adaga no flanco até o punho. Moffat ficou branco e deixou cair suas armas. Olhou para ela com os olhos vermelhos de raiva e ódio, e em seguida sumiu. Em seu olhar havia uma horrível promessa.

— Maldita seja — gritou Royce, irado.

Allie se deixou cair contra a parede. Assim que conseguiu acreditar no que fez: esteve a ponto de provocar que matassem Royce outra vez!

Ele embainhou suas espadas e a agarrou pelos braços.

Ela em seguida teve consciência de seu poder, de sua raiva e seu ardor. Ficou tensa e olhou para ele. Os olhos prateados de Royce brilhavam intensamente com uma feroz sede de sangue. Mas disse:

— Está ferida?

— Não. E você?

— Não — umedeceu os lábios, olhou sua boca e Allie sentiu o sangue correr por suas veias. Sentiu seu sexo palpitar violentamente. Sentiu que sua raiva assassina se convertia em um desejo puro e primitivo.

Royce virou bruscamente para ver a batalha, com a mandíbula contraída. Allie seguiu seu olhar: os gigantes estavam fugindo, embora alguns Mestres contiassem lutando com eles nas muralhas e na praça. Sem dúvida, Moffat, seu senhor, tinha ordenado que se retirassem.

Allie se apoiou de novo contra a parede. Sentia o aroma de Royce: um aroma de homem e sexo, de sangue e morte. Ele ficou muito quieto, mas não a soltou. Sua respiração era rápida e entrecortada. Allie recordou com terrível clareza como ele a tomou sobre a mesa depois do último ataque demoníaco. Seu corpo tremeu. Mas nada disso importava. Estavam rodeados de morte e sofrimento.

O impulso de ir para junto dos que precisavam dela consumia Allie.

— Me solte — disse em voz baixa enquanto se concentrava nos feridos.

O mais próximo era um homem com três flechadas, uma das quais tinha perfurado o pulmão. Morreria muito em breve se não o atendesse.

Royce não respondeu. Fixou nela um olhar carregado de promessas. Allie se encolheu por dentro e começou a sentir espasmos. E por um instante pensou que ele se negaria; pensou que a estreitaria entre seus braços e se apoderaria dela. Ele, entretanto, esticou a mandíbula e, com olhar ardente, soltou-a e se afastou.

Allie correu para o arqueiro ferido, se negando a pensar em Royce ou no que acabava de acontecer. Se ajoelhou e banhou o homem com sua luz curativa. Era consciente de que Royce estava atrás dela, protegendo-a de qualquer ataque repentino, embora improvável.

Ela respirava agitadamente. Sim, as coisas tinham que ser assim. Ele estava destinado a guardar suas costas enquanto ela curava; a se manter vigilante e mantê-l num perímetro de segurança. E ela não estava destinada a causar sua morte.

Quando o ferido se sentou e começou a respirar com normalidade, Allie correu para o seguinte soldado, que sangrava profusamente pela cabeça. Gemia e tinha perdido a orelha direita. Allie lançou nele uma suave onda de luz branca para aliviar a dor; Depois, começou a alagá-lo com seu poder para que deixasse de sangrar. Depois virou para Royce.

— Quantos feridos há?

— Talvez uns doze, não mais.

Allie enrijeceu. Poderia curar todos?

— Quantos morreram?

Royce olhou para as muralhas, onde Malcolm estava. Um momento depois disse:

— Pode ser que três vezes esse número. Ailios, não está sozinha. MacNeil tem grandes poderes curativos, e Claire pode ajudar.

Allie chorou intimamente pelos mortos. Não sabia quem era MacNeil, mas aceitaria qualquer ajuda.

— Se quiser que cure alguém primeiro, me diga e se voltou para o homem deitado diante dela e banhou sua cabeça com poder curativo.

O tempo começou a diminuir quande Allie foi para o seguinte ferido… e depois para o outro. Havia muitos queimados, e os projéteis causaram graves feridas na cabeça dos homens, mas as piores eram as das espadas. Allie nunca viu um massacre parecido, e tampouco esteve no meio de um conflito militar. Curou mais quatro homens quando Royce tocou seu ombro.

— Ailios, Malcolm precisa que cure Seamus, um de seus homens de confiança. Claire tentou, mas não pôde fazer nada, e MacNeil está com um Mestre ferido.

Allie ficou sentada por um momento. A batalha tinha acabado por fim e os últimos invasores fugiram. Mas os soluços das mulheres, as conversações sufocadas dos homens e os gemidos dos feridos enchiam a torre de lamentação. Um terrível mortalha pairava sobre os jardins do castelo. O dia escureceu como se os Antigos chorassem, e a morte e a dor se fizeram tangíveis; Allie sentia o pesar dos homens.

Esfregou os olhos e piscou. Se sentia fraca e um pouco tonta, e não estava certa de poder se manter de pé caso se levantasse. Precisava de um momento de descanso. Mas os moribundos não podiam esperar. Respirou fundo e se lembrou que havia mais feridos. Confiava que MacNeil pudesse curar a metade. Estava certa de que suas forças estavam se esgotando.

— Não tem poder suficiente, não é? — perguntou Royce com olhar inquisitivo.

— Agora não posso discutir contigo. Onde está Seamus?

Royce a levou através da praça, pisando com cuidado para evitar os cadáveres. Os feridos a chamavam enquanto avançavam. Ela sorria para todos.

— Volto já — lhes prometia sinceramente.

— Sei que está cansada — exclamou Royce— . Não pode curar todos eles! Os poderes de MacNeil tampouco são infinitos. Terá que escolher apenas alguns.

— Não sou um Deus para decidir quem deve viver e quem morrer — respondeu Allie severamente.

— Sim, hoje é — replicou Royce.

Allie fraquejou. Aquilo não era justo. Jamais dispensaria a vida dessa maneira.

— Não tente impedir que faça o que tenho que fazer — o advertiu brandamente. Não queria perder seu tempo nem suas forças discutindo. Então viu que Claire fazia gestos pra ela, cansada.

Correu para um homem de meia idade, corpulento e de cabelo cinza como o ferro. Estava inconsciente e sangrava pelo abdômen. Pela quantidade de sangue que manchava a terra, temia que morresse a qualquer momento.

— Contive a hemorragia, nada mais — soluçou Claire— . Não posso fazer outra coisa. Está morrendo, posso ver!

Allie se ajoelhou, sentiu que a vida do Seamus brilhava fracamente e extraiu de dentro seu poder branco para lançar sobre ele. Logo o inundou com ele, procurando primeiro sua vida e nutrindo-a com seu poder. Quando aquela chama começou a brilhar com mais força, se concentrou na ferida. Estava suando. Encontrar seu poder e represá-lo se converteu num enorme esforço físico. Se sentiu desfalecer de novo. Tinha o estômago tão revolto que sentia náuseas.

Encontrou forças para sustentar seu poder. No fim, Seamus piscou olhando pra ela.

Allie não pôde sorrir. O chão se aproximou debaixo dela. Se sentou na terra, ofegante. Disse a si mesma que podia fazer… e faria.

Royce ajoelhou a seu lado e a rodeou com o braço.

— Já fez demais por hoje.

— Me dê um momento — disse, confiando que sua voz soasse suave, não fraca.

Royce olhou pra ela. Quando viu que não olhava pra ele, levantou seu queixo para obrigá-la a olhar pra ele.

— Alguma vez tinha curou assim?

— Não sou uma veterana de guerra.

Ele fez uma careta. Não entendeu o que ela quis dizer.

— Pode te fazer mal? te matar?

Allie não tinha nem ideia.

— Claro que não.

Se ajoelhou sobre outro ferido, ignorando a explosão de Royce. Ele a agarrou pelo ombro. Ela disse rapidamente:

— Por favor, não se meta. Posso fazer.

— Acho que não — mas a soltou com o rosto contraído e uma expressão amarga.

Allie tentou encontrar seu poder. Parecia fraco e distante, quase inexistente, como a miragem de um oásis no deserto.

«Merda», pensou. O homem estendido no chão estava consciente e a olhava com olhos cheios de esperança e dor. Ela uniu determinação e força. Encontrou a luz branca que ardia fracamente dentro dela e de algum modo conseguiu se apoderar dela. Parecia tão distante…

Introduziu no ombro, que tinha recebido várias facadas. Ele gemeu quando sua cálida energia curativa caiu sobre ele. Mas Allie não conseguiria curá-lo banhando-o com sua luz. Tinha que alagar aquelas feridas, pensou sombriamente. Tremeu e, agachada, procurou em seu interior mais profundamente que nunca. A luz branca estava lá. Tirá-la de dentro fez com que sentisse muita dor física, como se alguém estivesse arrancando órgãos de seu corpo. O suor a cegava. Gemeu. Reuniu toda sua força e inundou o homem com luz curativa.

Tudo começou girar. O dia se tornou ameaçadoramente cinza. Sentiu as mãos de Royce sobre ela ao cair no chão. Quando a levantou em seus braços, experimentou um imenso alívio e um imenso cansaço… e a escuridão se apoderou dela.

 

Royce olhou à pequena mulher que tinha nos braços e sentiu pavor. Allie estava branca como um lençol. Nem sequer parecia respirar.

— MacNeil…! — gritou, e ouviu desespero em sua voz.

O abade seguia ajoelhado sobre o último dos feridos.

— Leva-a para dentro. Subo em seguida — disse sem olhar pra ele.

Claire tocou seu braço com um olhar cheio de compaixão.

— Me siga.

Royce assentiu. Tinha um nó no estômago. Ailios era a pessoa mais valente que já viu, e não podia morrer. Não podia ter dado sua vida para salvar a dos outros. Aterrorizado, seguiu Claire pelas escadas da torre. Em seus braços, Ailios pesava tão pouco quanto uma menina… e estava tão quieta quanto um cadáver. Claire abriu a porta de um dormitório pequeno e acolhedor e ele colocou Ailios sobre a cama. Ela não se moveu.

Royce sentou do seu lado e segurou suas mãos. Ficou chocado que estivessem tão frias, e aproximou a bochecha a seu nariz, consciente de que seu coração estava acelerado. Seu medo era imenso. A princípio, não sentiu nada, e o medo se converteu em terror. Ailios não podia ter morrido.

Então sentiu um leve fôlego. A alegria tornou impossível falar com clareza.

— Respire, apenas — disse com sua voz grossa. Como aquilo podia estar acontecendo? Tinha levado ela até Dunroch para protegê-la. Acreditava que ali, com Malcolm para defendê-la, estaria a salvo. Mas os Deamhanain os seguiram até ali. Moffat se atreveu a atacar Dunroch e esteve a ponto de capturá-la.

Não deveria tê-la levado para lá; não deveria ter pensado em deixá-la nas mãos de Malcolm. MacNeil escolheu ele para cuidar dela.

— É muito generosa — disse Claire, interrompendo seus torturados pensamentos.

— Sim, nunca pensa em si mesma — tentou curar muitos feridos, mas era o natural nela. Se houvesse outra batalha, não faria diferente. Mas só uma verdadeira Deusa podia curar tantos feridos e moribundos. E Ailios não era uma Deusa. Se não podia controlar seu afã de curar, alguém teria que fazer por ela. Estavam no século XV: as batalhas eram frequentes, havia uma toda semana.

Não podia estar escrito que morreria agora, e assim. Seria seu amante no futuro!

— Como está? — perguntou a Claire sem virar para olhar para ela. Continuava apertando as mãos de Ailios contra seu peito. Estavam tão frias como a água do oceano.

— Sinto sua vida.

Claire achava que era um idiota? Olhou pra ela, furioso.

— Sim, o que resta dela! Quanta vida resta? Ou se matou? — perguntou com aspereza. Seu coração pulsava cheio de agitação.

O que podia fazer por ela? Nunca se sentiu tão impotente.

— Não sei — murmurou Claire, muito pálida— . Está tão fraca…

MacNeil entrou. Seu manto preto e vermelho se agitava sobre suas coxas musculosas.

— Não acreditava que fosse conhecer assim à filha de Elasaid — disse de forma amarga.

Em circunstâncias normais, MacNeil era um homem risonho, sábio e engenhoso. Agora estava mortalmente sério.

Royce se levantou para que o Mestre pudesse se sentar junto a Ailios.

— Morreria para salvar até a vida mais mesquinha — disse asperamente.

MacNeil afastou brandamente o denso e escuro cabelo de Ailios de suas bochechas.

— Uma mulher tão pequena e uma Curandeira tão grande — murmurou— . Sim, como sua mãe, se entrega a outros até morrer.

Royce sentiu vontade de bater nele.

— Não vai morrer. É… é minha.

MacNeil nem se incomodou em olhar pra ele. Continuava olhando Ailios. Tocou sua bochecha. Royce ficou em silêncio; viu que o Mestre enviava para ela uma luz branca . Um momento depois, notou que o peito de Ailios começava a subir e a baixar. Duas pequenas manchas de cor rosada apareceram em suas bochechas. Seus cílios mexeram, mas não abriu os olhos. E pela primeira vez em sua vida Royce se sentiu fraco. A alegria se apoderou dele. Deveria dar graças aos Deuses, pensou.

MacNeil sorriu, deixando ver duas profundas covinhas. Sem olhar para Royce disse:

— Enfim, Ruari, vai ter que me agradecer algum dia — passou um dedo pela maçã do rosto de Ailios e murmurou— : Agora descanse, Allie Monroe.

Royce estava atônito. Agarrou o Mestre pelo ombro e virou. O quarto ficou vermelho de repente. MacNeil se limitou a sorrir.

— Vamos, sei que é sua Inocente, mas também pertence a todos nós. E pode perdoar um Mestre por aproveitar uma oportunidade dessa. Estaria morto se não quisesse tocá-la.

— Não tem o direito de tocar o rosto dela! — gritou Royce, e antes mesmo de acabar a frase seu um soco no queixo de MacNeil.

Como um carvalho antigo, MacNeil não se moveu o mínimo. Nem sequer vibrou. Mas seus olhos verdes se arregalaram com sincero assombro.

Claire correu e se colocou entre eles.

— Basta! — olhava-os frenética— . O que estão fazendo? — gritou.

Royce sorriu amargamente, satisfeito por um instante, confiando que MacNeil morderia a isca, porque merecia uma surra. Mas MacNeil se limitou a esfregar seu queixo.

— O que é isso? — perguntou por fim, espantado— . É absolutamente proibido. Os Mestres não brigam entre si. Somos aliados, não rivais.

— Então deveria ter curado ela sem ceder ao impulso de acariciá-la — espetou Royce.

MacNeil entreabriu os olhos. Levou um momento para responder.

— Venha para Iona — e desapareceu.

Royce ficou tenso, porque MacNeil acabava de lhe dar uma ordem inequívoca. MacNeil era o abade da Iona desde que podia se lembrar. Não havia nenhum Mestre acima dele. Se alguém dava ordens, era ele. Se tivesse que tomar uma decisão, ele tomava. Se dedicava em primeiro lugar à Irmandade e aos Antigos, e só abandonava Iona para lutar contra os Deamhanain superiores, nos momentos mais críticos.

— Vamos descer — Claire pôs a mão sobre seu braço e sorriu— . Ela vai ficar bem, Royce.

O para Ailios, que dormia tranquilamente na cama, tão pequena que parecia uma menina. Era, entretanto, uma mulher encantadora, sedutora e sensual. Só de olhar para ela seu coração apertou.

— Não. Nos deixe — disse.

Pegou uma cadeira de madeira, aproximou-a da cama e se sentou. Ouviu que a porta se fechava.

Enlouqueceu de medo por pensar que ela podia ter morrido.

E ainda não tinha se acalmado.

Nunca quis derrotar ninguém tanto quanto Moffat quando o viu com Ailios, incitando-a com aquele olhar carregado de luxúria.

O que teria dito? Voltaram a se revirar as tripas. Esteve a ponto de destruir o Deamhan. Moffat sobreviveu porque estava escrito que o mataria em 2010?

Faz muito tempo que se deu conta de que não se importava se morresse. Sua vida se tornou insuportável séculos atrás. Faltavam centenas de anos para 2010, quase tantos como os que já viveu. Mas… agora a vida já não o aborrecia. O dever de proteger e defender a pequena mulher deitada naquela cama se tornou obsessivo. Como ia morrer, se ela precisava dele?

Sua medo o aterrorizava!

Recostou na cadeira. Estava cansado. Fazia muito tempo que estava cansado daquela vida. Moray, o Deamhan mais poderoso que pisou em Alvorada, foi derrotado. E Moffat, que existia há séculos, se levantou para ocupar seu lugar. Inclusive era provável que possuísse o Duaisean, o Livro do Poder, o que podia explicar sua influência sobre todos outros senhores das trevas. Moray o teve antes de ser derrotado. O roubou de seu santuário séculos atrás. Os Mestres procuraram depois, mas nenhum conseguiu recuperá-lo.

Quando Moffat fosse derrotado, outro poder escuro se levantaria para presidir a maldade. Assim era o mundo. Os Mestres podiam batalhar incansavelmente contra as trevas, mas as trevas sempre voltariam. Nunca haveria paz e, se houvesse, a Irmandade se extinguiria.

Uma coisa mudou, entretanto. Ailios se converteu em sua Inocente em South Hampton, e continuava sendo agora. Não podia confiá-la ao Malcolm, isso estava claro. E ela devia viver a todo custo, inclusive á custa de sua vida, que de todo modo já não valia muito. Não sabia qual seria o destino de Ailios, mas sabia que seria grande.

Assim estava escrito.

Olhou pra ela e pensou em leva-la pro Carrick. Era um homem, e seu sexo inchou. Mas, por mais que a desejasse devia se manter afastado dela, porque seus inimigos não deviam saber que eram amantes. Isso também ficou claro.

Sentiu que corava. Todo o castelo foi testemunha de sua angústia por ela. Disse para MacNeil que era dele. E Claire presenciou. Podia confiar na discrição de ambos, mas não na de outras pessoas. Tinha que dominar a atração avassaladora que sentia por ela. Mas como faria, se assim que estivessem sozinhos e ela estivesse melhor ia querer montar nela, fazê-la gozar e gozar com ela?

A porta abriu de repente. Royce se levantou com um pulo e tirou sua espada. Guy Macleod o olhou e olhou à mulher deitada na cama.

— Deixa minha irmã em paz — advertiu.

Royce embainhou sua espada.

— Não te ocorreu chamar?

Black Macleod riu. Era um homem grande e musculoso, de cabelo escuro, pele terrosa e surpreendentes olhos azuis. Salvo pela cor dos olhos e a estatura, sua irmã e ele se pareciam muito. Usava um manto vermelho e negro em cima do casaco, e botas negras até a coxa, com enormes esporas de picos.

— Tem sorte por eu não cortar sua cabeça — disse calmamente.

Royce se preparou para uma batalha de vontades.

— Está dormindo. Precisa descansar. Vá embora.

— Sim — Guy Macleod deu uma última olhada em sua irmã e virou. Royce o seguiu ao patamar circular que havia depois da porta do quarto.

Macleod sorriu friamente.

— Sinto que a quer.

Royce devolveu o olhar.

— Sua irmã está a salvo comigo, e nós dois sabemos. Não é uma mulher comum. É uma grande Curandeira. Digna filha de sua mãe.

— Sim — disse Macleod. Seus olhos brilhantes se acenderam— .Vou levá-la para Blayde.

Royce riu sem vontade.

— Ailios fica comigo.

Black Macleod se ergueu.

— Para que possa usá-la? Não, acredito que não. É minha irmã e, a não ser que tenha um marido, tenho todo o direito a levá-la para minha casa. Agora sou seu amo e senhor.

— Sua mãe falou com ela… — disse Royce sem sorrir. Macleod se sobressaltou— . Elasaid lhe apareceu há alguns uns dias e disse que confiasse em mim. MacNeil me escolheu e me mandou até ela. E nós dois sabemos que vê o que os Antigos querem que veja. É meu dever, meu destino, protegê-la — acrescentou— : Hoje a salvei de Moffat. Eu, não você, nem Malcolm, nem MacNeil.

Depois de um breve silêncio, Macleod disse:

— Lady Elasaid está morta.

— Sim, mas voltou do outro mundo para ver Ailios. Pode perguntar pra ela.

Macleod estava muito sério, mas seus olhos brilhavam cheios de compreensão.

— Se te escolheu MacNeil, deve ter algum motivo, embora eu não goste que te tenha escolhido você e não a mim, seu irmão.

— Uma coisa posso te assegurar — disse Royce— . Não vou usar sua irmã. Não quero que meus inimigos pensem que nos amamos. Hoje a salvei de Moffat. E faria outra vez, embora isso significasse minha morte. Não há ninguém em quem pode confiar mais que em mim.

Macleod ficou olhando pra ele intensamente por um momento.

— Nunca duvidei que desse sua vida por ela, Royce — se sobressaltou— . Não posso contradizer MacNeil, nem os Antigos. Mas se tocar nela, se fizer mal, vai me pagar por isso. E ao diabo o Código.

Royce sabia que falava sério. Dois séculos antes, Macleod sitiou uma grande fortaleza para obrigar seu senhor a lhe entregar a sua filha… e a conceder em matrimônio.

— Diga a minha irmã que vim. Voltarei assim que puder. E diga a ela que sempre será bem-vinda em Blayde — Macleod desapareceu antes que Royce pudesse responder.

Royce abriu a porta. Esperava uma confrontação com Macleod, que era ambicioso e briguento. Mas MacNeil escolheu a ele, não a seu meio irmão, para defendê-la, e ninguém podia questionar sua decisão porque o tempo demonstrou a sabedoria do abade.

Entrou e viu que ela dormia profundamente. Quando a cobriu com a manta de pele, se deu conta de que estava quase sorrindo… e de que também havia um sorriso em seu coração.

Não gostou daquela debilidade e franziu a testa. Não tinha motivos para sentir prazer. Afugentou resolutamente aquela demonstração de fraqueza.

Allie despertou em um quarto estranhoa, cheio de sombras e iluminado pelo fogo que dançava na lareira. Royce a olhava fixamente.

Estava sentado em uma cadeira, a pouca distância da cama, com os olhos cinza cravados nela. Ela sorriu, encantada de vê-lo ali.

Ele esboçou um sorriso indeciso.

— Está acordada — disse desnecessariamente.

O sorriso de Allie se apagou. Pensou na terrível batalha desse dia, nos mortos e nos que estiveram a ponto de morrer. Levantou.

— Tenho que rezar. Tenho que ir ao santuário mais próximo.

Ele a agarrou pelo braço.

— Ailios, esteve muito doente. Há uma capela em Dunroch, mas não é necessário que salte da cama como se estivesse em chamas.

Allie se recostou nos travesseiros, consciente de que ele continuava segurando seu pulso. Seu contato a fez estremecer deliciosamente. Royce a soltou e se surpreendeu que ele se inclinasse para colocar outro travesseiro detrás das suas costas. Lembrou dele na batalha, matando inimigos a direita e a esquerda. Aquele homem não era o mesmo que acabava de arrumar seus travesseiros. Isso o fez alguém muito mais suave.

— Tenho que rezar pelos que perdemos, Royce — disse em voz baixa.

— Sei. Mas as rezas podem esperar. Como se sente?

Ela recordou os últimos momentos que passou acordada. Recordou que Royce a tomou em seus braços.

— Desmaiei?

— Perdeu os sentidos — disse ele suavemente — . Se esforçou muito mais do o necessário — virou, colocou água em uma jarra e a ofereceu— . Tem um limite, Ailios. É uma Curandeira muito poderosa, mas também terrivelmente jovem. Pode ser que seu poder aumente com o tempo.

Allie bebeu, agradecida, enquanto pensava no que ele disse.

— Por favor, me diga que o último homem que curei sobreviveu.

— Continua pensando nos outros — mas respondeu a sua pergunta— . Sim, Kirkus está vivo.

— Louvados sejam os Deuses — logo o olhou nos olhos, sacudida por uma ideia atroz— . Devo estar horrível.

Royce sorriu por um momento, deixando ver uma de suas covinhas.

— Você sempre está bem.

O coração dela acelerou. Conhecia aquele olhar. Estavam tendo uma conversa séria, mas sabia o que estava pensando no fundo. Sentia como começava a se agitar sua paixão.

A atmosfera do quarto mudou. Allie pensou nos desejos de Royce e nos seus. Tinha a impressão de que fazia séculos que não ficavam juntos. Passou os dedos pelo cabelo e olhou pra ele.

— Mentiroso — disse suavemente. Sua camiseta estava manchada de sangue seco. Certamente seu jeans estava no mesmo estado.

Ele olhou pra ela com feroz intensidade.

— Você sempre está bem — repetiu, desta vez em tom sedutor.

Estava flertando com ela? Mmm, como gostava daquilo…

— Se é isso que pensa, não vou te contrariar — disse com suavidade. Estendeu a mão pra ele. Se limitou a olhar pra ela— . Não mordo — murmurou ela— . A menos que me peça isso.

Os olhos de Royce brilharam.

Allie se inclinou para frente e pegou sua mão com determinação. Era grande e forte, como ele, uma mão capaz de empunhar uma enorme espada de maneira letal… ou de acariciar um corpo com a suavidade da seda.

— Obrigado — disse. Ele desviou os olhos e olhou a cama.

— Por deixar que segure sua mão como se fosse um menino pequeno?

Ela riu. Royce a olhou bruscamente.

— Por me proteger de Moffat. Por estar a meu lado enquanto curava — disse ela.

Por um instante se olharam. Allie disse com mais suavidade:

— Ficou aqui todo o tempo enquanto estava inconsciente, não é?

Ele tirou a mão.

— Estava doente. Precisava descansar. MacNeil te curou te dando seu grande poder. Não pode voltar a curar tantas pessoas de uma só vez.

Allie sorriu, satisfeita, apesar de Royce não responder. Mister Medieval se importava.

— Sabe o que mais? Não é tão ogro, a final de contas. Um pouco Exterminador, sim, mas não um ogro.

Ele sacudiu a cabeça. Seu rosto estava tenso.

— O que, Royce? O que foi?

— Esta aí, sorrindo e brincando, quando podia ter morrido. Não percebe o quanto isso é sério? Não pode andar por aí como se fosse imortal, Ailios.

— Como você anda? — perguntou ela.

— Ninguém se importa se eu viver ou morrer — respondeu ele com firmeza, se levantando.

— Eu me importo! — respondeu ela. Logo se acalmou— . E você sabe disso.

— Sim, mas não sei por que — a olhou diretamente— . Há muitos homens que poderiam te fazer gozar na cama.

Allie demorou um tempo pra responder.

— Acredita que estou apaixonada por você pelo sexo? — Ela caiu na gargalhada. Ele ficou pasmo.

— Sim, acredito — colocou as mãos nos quadris.

Allie ficou muito quieta. Se concentrou e viu incerteza em sua aura, que irradiava cor em frágeis e entrecortadas ondas.

— Tá… — tirou a manta de pele e colocou as pernas pra fora da cama— . Tudo bem, não há dúvida. Mas te admiro, Royce, imensamente, muito mais do que admirei qualquer pessoa em minha vida.

Ele parecia desconcertado.

— O que é que admira tanto?

— Sua fortaleza, seu poder, sua integridade, sua honestidade, sua lealdade… Quer que continue?

Ele cruzou os braços e seus bíceps se avultaram.

— Sim — disse.

Allie agarrou um travesseiro e o jogou, rindo.

— Seu caráter presunçoso, sua arrogância e sua tirania! — gritou.

Ele agarrou o travesseiro e o lançou brandamente, numa chuva de plumas.

— Admira minha presunção?

— Adivinha — disse Allie, que estava em pé e abraçava o travesseiro. Como era a única coisa entre eles, soltou— . Esqueci de seu heroísmo — murmurou, pondo as mãos sobre seu peito. Sentiu que o coração de Royce acelerava e que seu coração começava a pulsar estrondosamente.

Royce cravou nela seu olhar prateado.

— É um herói — disse Allie com convicção. Pegou sua mão e a colocou sobre o peito.

A palma quente de Royce cobriu sua pele nua. Olhou seus olhos ardentes e viu que olhava sua boca.

O amor a consumia. O desejo, embriagador, alcançou o ponto máximo. Apesar do calvário desse dia, sua carne começou a palpitar com ânsia. Tinha vontade de a ele quanto o amava ou, melhor ainda, de demonstrar na cama, mas talvez não fosse boa ideia, levando em conta que no dia anterior a rejeitou. Além disso, estava esperando duas palavras muito concretas.

— Não sou nenhum herói — Royce afastou a mão e começou a andar pelo quarto como um leão enjaulado.

Allie estava a ponto de dizer que não era só seu herói, mas o de todo mundo, quando ele disse:

— Seu irmão esteve aqui.

Allie se sobressaltou, assombrada.

— Esteve aqui? Enquanto… eu dormia? — perguntou.

— Sim. Pode ser que o tenha visto lutar nas muralhas. É moreno e estava vestido de preto e vermelho — Royce fez uma pausa, olhando pra ela.

Allie recordou de repente que tinha visto dois Mestres nas muralhas.

— Aquele era meu irmão? — perguntou com voz embargada.

— Sim.

Aquele era seu meio irmão.

— Quero conhecê-lo — conseguiu dizer.

— Vai conhecer. Veio para te levar pra sua casa, mas conversamos e esta de acordo em que fique comigo. Depois se foi.

Allie começou a sentir uma enorme desilusão. Sentou-se na beira da cama.

— Porque não ficou até que despertasse?

Royce sacudiu a cabeça.

— É jovem e impetuoso — disse— . Um homem arrogante e impaciente. Não espera ninguém. Mas voltará, e te dará boas-vindas a Blayde, seu lar, quando quiser.

Allie levantou as sobrancelhas. Seu irmão parecia outro homem inteiramente medieval, muito semelhante a Royce. Ficou alarmada.

— Guy não dá a impressão de dar satisfações a ninguém.

— Não raciocina muito, tem razão. Primeiro briga e depois fala, apesar de ter uma boa esposa que o refreia. Se me está perguntando se brigamos, a resposta é não. Eu não brigaria com seu irmão — acrescentou ironicamente— : Mas se acha que eu sou um tirano, a seu lado pareço uma enfermeira sorridente. Não acredito que você goste muito da casa dele.

— Genial — Allie ficou pensando um momento— . Obrigado. De qualquer maneira, não queria me separar de você agora — Royce olhou pra ela. Allie enrijeceu e ficou em pé— . Precisa de mim… e eu de você. Acho que isso ficou claro.

Ele ficou vermelho.

— Não vou negar que preciso de você na cama…

— Chega! Não me referia ao sexo e você sabe.

Royce sacudiu a cabeça, envergonhado.

— É uma idiota se começar a pensar outra vez em como pode curar meu coração.

— Alguma vez respeitará a intimidade dos meus pensamentos?

Ele a olhou com descaramento.

— Você gosta que te invada.

O corpo de Allie reagiu às palavras que escolheu.

— De certo modo, sim. Faz com que a forma de me comunicar contigo se torne muito íntima. Mas se fosse só por isso não estaria tão disposto a ler meu pensamento constantemente.

— Para te proteger, é melhor saber o que pensa.

— Mentiroso — disse ela brandamente— . Não pode evitar. Lê minha mente quando me olha: Deixa meus pensamentos nu, assim como meu corpo com apenas um olhar.

O rosto de Royce endureceu.

— Quer saber por que me chamam Royce o Negro?

Ela hesitou.

— Acho que vai me contar de qualquer maneira.

— Porque meu coração se tornou negro há muito tempo.

— Por causa do que aconteceu com Brigdhe?

Ele ficou pálido. Allie esperava não estar indo longe demais.

— Estive fazendo perguntas. Perguntei ao Malcolm por ela. Não foi sua culpa, Royce.

Ele tinha recuperado a compostura. Seus olhos eram frios.

— Não vou falar contigo sobre minha mulher.

Allie recuou.

— Sinto muito o que aconteceu. E respeito sua intimidade.

Sustentaram o olhar. Então ele assentiu..

— Bem.

Allie se afastou e respirou fundo, aliviada. Devia ir com calma sobre esse assunto. Virou lentamente e se aproximou dele com o esboço de um sorriso, utilizando todo seu poder feminino.

— Me perdoe, por favor — disse suavemente, e colocou a mão sobre seu peito.

— Não há nada que perdoar. Você gosta de falar e você gosta de mim. Por isso falou com Malcolm. Meu passado não é nenhum segredo — deu de ombros com aparente indiferença.

Allie conseguiu não suspirar. Enquanto ele não entregasse seu coração, Royce sempre tentaria virar a mesa. Certamente fazia de forma instintiva.

— Na minha época, a gente fala muito e sobre tudo, sempre, inclusive os homens.

Ele se afastou.

— Disso você gosta.

Ela deu de ombros.

— É um mundo diferente.

— Deve sentir falta de seu lar.

Allie não se lembrava absolutamente de sua casa desde que conheceu Royce. Desde que apareceu em South Hampton, Ficou presa irremediavelmente em sua vida e em seu destino. Agora, entretanto, pensou em seu pai e em Tabby, em Sam e em Brie. Deviam estar preocupadísimos com ela! Em algum momento teria que encontrar um modo de entregar uma mensagem para eles.

— Tenho que aprender a ler seu pensamento — disse— . Não continua pensando em me deixar aqui, não é?

O sorriso de Royce apagou.

— Não — disse— . Hoje precisou de mim. Se tivesse partido ontem, estaria nas mãos de Moffat.

Allie sentiu alívio.

— É verdade que precisei de você hoje — sorriu, radiante, tentando não pensar na luxúria de Moffat e no que queria fazer com ela. Seu estômago revirou. Nenhum outro demônio a assustou tanto. Não queria voltar a ver Moffat.

— Ailios — seu tom brusco fez com que levantasse o olhar para seus olhos duros e implacáveis— . Não se separará de mim até que Moffat morra.

Ela se sentiu ainda mais aliviada.

— Não pegará você — disse Royce com frieza— . Não permitirei.

Allie assentiu com a cabeça.

— Sei.

Enquanto via sua expressão dura, a vaga imagem de outra mulher penetrou em sua mente, seguida pelo sussurro de seu nome. Brigdhe… Sua esposa foi capturada por seu inimigo diabólico. E os demônios queriam capturá-la agora. Nesse momento, Allie compreendeu a verdade. Royce temia por ela pelo que aconteceu com a sua mulher.

Ele passou a seu lado e abriu a porta.

— Vou te levar para a capela — disse, envergonhado.

E ela compreendeu que tinha acertado.

Só na capela, Allie estendeu os braços para os mortos. A confusão, a angústia e a tristeza estavam no ar, denso e carregado. As almas dos mortos, assassinados de forma tão violenta e repentina, permaneciam ali suspensas como uma presença tangível. Não squeriam deixar seus entes queridos para trás; não queriam partir. Allie se ajoelhou, tentando colocar ordem naquele turbilhão de emoções. Queria curar todas e cada uma daquelas almas confusas.

Identificou o primeiro dos mortos, um rapaz muito jovem, recém-casado. Seu nome, Thormond, formou-se em sua mente, assim como que seu rosto pálido e seu cabelo loiro. Sabia que temia deixar a sua esposa, e acendendo uma vela por ele começou a rezar.

Invocou os Antigos um por um, pedindo que a escutassem e a ajudassem a facilitar o trânsito dos mortos para o outro mundo. Quando estava segura de que os velhos Deuses se reuniram e a escutavam, voltou a fixar sua atenção no rapaz morto.

Abençoou ele e sua esposa, o tranquilizou e o incenticou a ir para o além. Sentiu sua juventude, não só em anos físicos, mas também em sua vida espiritual, e soube que em breve voltaria a renascer. Rezou até que sentiu que a confusão e a incerteza regrediam, até que notou que sua energia se suavizava. Um momento depois, sentiu que sua presença se esfumava e desaparecia.

Conseguiu sorrir e enxugou uma lágrima. No dia seguinte iria visitar a esposa do Thormond. Então foi para a alma seguinte, um homem muito mais velho, mas igualmente relutante em deixar a sua família e amigos.

Muitas horas depois levantou, tremendo. A capela estava vazia agora: todas as almas haviam tomado seu caminho.

Terei que deter Moffat. Saiu ao amanhecer, que começava a despontar. Royce estava sentado nas escadas que levavam para às muralhas, esperando-a. Seu coração deu um pulo quando seus olhares se encontraram. Ele levantou.

Allie viu uma pergunta em seus olhos.

— Estou bem. Demorei algum tempo em conseguir que os Deuses me escutassem… e para me despedir de todos.

— Levou a noite toda — disse ele com um olhar inquisitivo— . Você tentou curar todas as almas perdidas?

— Estava me escutando?

— Um pouco.

— Todos precisavam de mim, Royce.

Ele a rodeou com o braço, surpreendendo-a.

— Vai descansar agora?

Allie se recostou em seu magnífico corpo e logo se deu por vencida e virou; rodeou-o com os braços e apoiou a bochecha em seu peito plano e duro. Royce vacilou e logo a estreitou entre seus braços. Allie ficou quieta, respirando seu poder, sua essência, seu aroma. Adorava estar em seus braços.

— Alguém reza por vocêi, Ailios? — ele perguntou suavemente.

Ela esfregou o rosto contra o tecido áspero de seu casaco.

— Quem faria isso?

Ele a abraçou com mais força.

Allie sentiu que seu coração acelerava.

— Não estou aqui para cuidar de mim, Royce. Igual a você, nasci para ajudar os outros.

Ele ficou calado.

Allie pensou na intimidade daquele momento. Estavam sozinhos e se encontrava entre seus braços, no meio de um delicioso amanhecer iluminado pelo sol e a lua cheia, e a preocupação de Royce era evidente.

«Já não estou sozinha», disse para si mesma, e sorriu contra seu peito.

Passaram por muitas coisas em muito pouco tempo. Sobreviveram juntos. Não eram apenas amantes, e eram muito mais que amigos. E independente do humor de Royce, ela sabia que podia contar com ele.

— Me fale do futuro — disse ele com voz rouca.

— O que? — perguntou, surpresa, virando-se para trás para olhar para ele.

Ele a soltou. Cruzou os braços e olhou diretamente pra ela. Allie sentiu que seu coração acelerava.

— Quer saber como foi o tempo que passamos juntos?

O semblante de Royce ameaçava rachar.

— Sim.

Ela estava perplexa e entusiasmada.

— Vamos nos sentar — disse— . Te contarei tudo o que quiser saber.

 

Royce ficou em pé, com os braços cruzados na defensiva.

Allie sentou nos degraus que ele deixou livre.

— O que quer saber?

Seu olhar era intenso.

— Tudo.

Allie compreendeu que queria conhecer cada detalhe do tempo que passaram juntos… inclusive na cama. Deu um salto seu coração e sentiu um terrível vazio dentro do corpo.

— Por onde quer que comece? — perguntou devagar.

— Como te encontrei?

Allie umedeceu os lábios. Royce continuava olhando diretamente pra ela.

— Foi como se soubesse que estava ali, em Carrick. Estava te esperando no salão com uma taça de vinho. Não sabia que era do futuro. Esperava meu guerreiro dourado desta época, o mesmo que tinha aparecido para me ajudar a lutar contra os demônios em South Hampton na noite passada. Entrou no pátio em uma Ferrari e assim que saiu do carro me olhou através da janela… como se pudesse me ver, o que era impossível.

As narinas de Royce incharam.

— Sabia que estava ali. Certamente senti seu poder branco… sua pureza, sua beleza… sua paixão.

Ela respirou fundo, cheia de desejo.

— Sim, sabia que estava ali. Entrou no salão como se voltasse para casa e sua mulher estivesse te esperando.

Royce olhava diretamente pra ela. Seus olhos agora estavam prateados.

— Eu não poderia esquecer esse dia.

Allie estava atônita.

— Te deixei na minha casa em seis de setembro de 2010. Não, não esqueceria jamais esse dia.

Ela se levantou e cruzou os braços, muito séria. Era consciente da tensão que palpitava entre eles.

— Agora entendo, porque quando entrou me comprimentou como se nada tivesse acontecido.

— E se alegrou em me ver?

Ela assentiu com a cabeça e esboçou um sorriso.

— Estava querendo te ver para me assegurar de que foi real e de que ia estar em seus braços, em sua cama — disse com suavidade.

Os olhos de Royce brilharam.

— Não sabia que era eu no futuro?

— Estava confusa, sua aura era a mesma. Estava com o cabelo curto, parecia mais velho, mas sabia que era você.

— E? — perguntou ele ao ver que ela travou.

— Me perguntou se queria jantar. Disse que não. Você disse-lhe para a governanta que podia se retirar. Perguntei pra você se tinha um irmão e disse que não. E depois te perguntei se tinha me salvado na noite anterior.

Ficou tão quieto que parecia uma estátua de mármore. Mas não era feito de pedra. Sua aura brilhava, vermelha de desejo, e seu casaco balançava ao vento, deixando descoberta a prova desse desejo. Ela sussurrou:

— Disse que me salvou, mas não a noite anterior. Que me ajudou fazia mais de quinhentos anos.

Royce não se moveu.

Allie se sentiu úmida entre as pernas.

— Tirou de mim a taça de vinho e disse que falava muito — tremeu— . E que estava a quinhentos e oitenta anos me esperando.

Ele deixou escapar um som áspero.

— E? — perguntou.

— Me pegou em seus braços, me beijou colocando a língua na minha garganta e me colocou contra a parede, levantou minha coxa e rasgou suas calças — conseguiu dizer ela.

Continuavam se olhando.

— Fiz você gozar muito? — perguntou ele por fim.

— Muitíssimo — sussurrou ela— . Mais que qualquer outro homem. Fizemos no salão, ali, contra a parede, e depois me levou pra cama e passamos a noite toda fazendo amor — seu coração batia loucamente— . devo ter gozado uma dúzia de vezes. E você também.

Royce respirava com força.

— E durante a noite — disse ela— , me abraçou, sorriu e falou sobre os Mestres e sobre a Irmandade.

Os olhos de Royce aumentaram.

— Falei com você enquanto estávamos na cama?

Ela assentiu com a cabeça.

— Por um longo tempo.

Ele se afastou, chateado. Allie tentou recuperar a compostura.

— Estava bem falante… comparado ao que está agora. E não tinha medo de sorrir.

Ele olhou pra ela intrigado.

— Está falando sério?

Ela assentiu com a cabeça.

— Sou a primeira mulher com quem conversa na cama, não é?

— A cama é para dormir ou para fornicar, não para fazer discursos.

Allie sentiu seus olhos arregalarem.

— Alguma vez se aninhou com uma mulher na cama e conversou com ela?

— Nunca — respondeu. Logo corou e perguntou— : Também disse que te amava?

Allie ficou calada. E ele compreendeu qual era a resposta. Seu rubor diminuiu.

— Não disse.

Era duro confirmar a terrível verdade.

— Não, não disse, nem sequer quando estava morrendo. Mas não fez falta. Porque vi amor em seus olhos.

Ele sacudiu a cabeça energicamente.

— Não vou me tornar um velho idiota.

Allie não gostou daquilo.

— Pelo amor de Deus, Royce, se apaixonar é maravilhoso, não uma tolice.

— Não, para um homem normal.

Allie demorou um momento para responder.

— Malcolm tem Claire.

— E rezo todos os dias para que ele não tenha que sofrer por ela. Todos os dias rezo para Malcolm não tenha que se lamentar por sua escolha.

Allie sentiu que estava pensando em uma mulher comum e de cabelo avermelhado.

— É por causa de Brigdhe!

Os olhos de Royce brilharam.

— Fiz votos sagrados. Sigo o Código. Em minha vida não há lugar para esse sentimento absurdo.

Allie sacudiu a cabeça.

— Sabia que estava com medo por mim, por causa do que aconteceu com sua esposa. Mas eu não sou ela! Eu sou mais forte! E se for por esse motivo que tenta evitar uma relação…

Ele a cortou em seco.

— Você não é minha vida, nem meu amor, nem nunca será — disse violentamente.

Allie encolheu sobre si mesma, doía até as profundezas de seu ser. Royce amou sua mulher. E embora ela se sentisse péssima por saber o quanto Brigdhe sofreu, não podia suportar que ele a tenha amado… e que agora se negasse a abrir seu coração pra ela.

— Você nunca terá meu coração — disse ele.

Ela tapou com a mão a dor no peito. Ele sabia quão cruel estava sendo?

Royce disse duramente:

— É uma Curandeira, Ailios, e pertence ao mundo, não a um só homem.

Allie tremeu. Inclusive ela sabia que esse era seu destino. Ele deu meia volta e a deixou sozinha no meio do amanhecer.

Iona brilhava ao sol da manhã, suas praias reluzentes e brancas como pérolas.

Allie saiu do barco sem ajuda, tremendo de emoção. Passou as horas do amanhecer dividida entre o desânimo pelo empenho de Royce em evitá-la e sua própria determinação de romper os muros que ergueu em torno de seu coração. Se desesperou ao pensar na intensidade do amor que parecia continuar sentindo por sua esposa morta. Ao que parece, Brigdhe scontinuava sendo uma rival, embora fora apenas um fantasma.

Em seguida, entretanto, se despediram de Claire e Malcolm, subiram em um barco de um só mastro e percorreram por mar os poucos quilômetros que os separavam da pequena ilha. Não estava pensando em Royce quando olhou as colinas verdes, além das praias. Nesse dia até o oceano brilhava como as safiras.

Viu um lugar cercado por muralhas dentro do qual se viam vários edifícios medievais, incluindo uma igreja. Sabia por suas visitas anteriores à ilha que uma vez houve ali uma abadia medieval e um monastério beneditino. Naquele momento, os sinos da capela começaram a tocar enquanto observava o recinto. Sentiu a serena e generosa presença das mulheres, e compreendeu que se achava em frente à abadia.

Virou lentamente. Subindo pelo caminho de terra clara havia outro recinto fortificado, este muito maior. Seus muros irradiavam tanto poder que ficou sem fôlego. O edifício emanava testosterona e força, tanta que parou, consciente de uma nova tensão que aumentava a feminilidade que crescia dentro dela. Ali estavam os Mestres, e ela sentia intensamente sua presença.

Os Antigos também estavam perto. Sentia seu poder e sua majestade acima de todas as coisas.

— Venha, Ailios.

Royce estava no cais, esperando-a. Sorriu pra ela, prendendo-a em outra onda de emoção.

— Me senti atraída por esta ilha tantas vezes…!

Sentia que era sagrada… e sempre pensou poder sentir as passoas daqui e seu poder. Ouvia vozes e logo me ria e pensava que a ilha estava encantada.

Royce olhou em seus olhos.

— Sentia nossa presença em outra época.

— É claro que sim, sim — exclamou ela e, feliz, agarrou-o pela mão— . Vamos. E sorria, não dói.

Ele desviou a mão e sua boca manteve uma linha reta. Allie sentiu que sua alegria diminuia. Royce estava mortalmente sério desde subiram no barco. Sua tensão era enorme, e nada sexual. Sua aura ondulava com uma agitação que beirava a angústia. Allie desejou poder ler o pensamento dele para entender o que o atormentava. Estava quase certa de que tinha algo a ver com sua conversa sobre o futuro. Enquanto andavam pelo caminho, disse:

— Está um dia maravilhoso. O que há com você?

Ele olhou pra ela. Caminhava tão depressa que Allie teve que correr para se manter a seu lado.

— Nada. Tenho assuntos para tratar com MacNeil. Não sei o que quer de mim agora.

— Parece triste.

Deu um olhar sombrio.

— Não tenho tempo para sentimentos. Ficaremos uma hora ou duas e em seguida voltaremos para Carrick.

Royce se afastou. Allie seguiu, consciente de que estava sofrendo. Vacilou e logo cedeu a seus impulsos. Banhou-o com sua luz branca curativa.

Ele girou. Sua aura absorvia a luz branca como uma esponja.

— O que acredita estar fazendo? — perguntou.

— Deixa que tente aliviar sua dor, Royce — disse ela com calma, aproximando-se. Estendeu os braços pra ele.

Ele desviou a mão.

— Pode aliviar minha dor com seu corpo, não com seu poder — disse, furioso— . É entre as pernas onde está doendo, não em outro lugar!

— Claro — disse ela sem convicção— . Eu quero te curar e você me fala de sexo.

Royce se inclinou para ela.

— Não preciso que me cure — disse com dureza— . E se mudar de ideia sobre o amor, pode aliviar minha dor quando quiser — se afastou e abriu a porta tachonada dos grossos muros do monastério. Não estava fechada com chave nem com ferrolho, mas nenhum demônio se atreveria a pisar na ilha. Era muito sagrada.

Allie hesitou, dizendo a si mesma que não devia se sentir ferida. Royce continuava chorando o seu amor perdido, e ainda suportava aquela culpa entristecedora, embora não quisesse reconhecer. Se perguntava que tipo de mulher foi sua esposa. Tinha que ter sido uma espécie da Santa. Estava competindo pelo coração de Royce com um fantasma angélical. Maravilha.

Allie continuou a andar atrás dele, e nesse momento sentiu uma espécie de fúria esmagadora. Dissesse o que dissesse, estava ferido e precisava dela. Lançou um raio de luz curativo, que o atravessou. Ele virou bruscamente, com os olhos cheios de assombro.

— Me diga que não se sente melhor, se é que se atreve — exclamou ela enquanto fechava a porta atrás dela.

Ele respirava agitadamente.

— Faz isso outra vez e te trancarei na torre de Carrick.

— Você não me trataria assim — Allie não tinha dúvida.

Ele corou.

— Não tente voltar a me curar — advertiu.

— Se sente melhor? — perguntou ela.

— Me sinto bem — respondeu— . E seu poder não tem nada que ver com isso.

Allie decidiu não discutir. Mas de repente aquilo deixou de ter importância. Seus olhos se arregalaram quando viu três homens imensos que cruzavam seu caminho, todos eles eram loiros e muito bonitos, vestidos de highlanders. Olhou seus ombros largos, suas coxas nuas e suas feições quase perfeitas. Os Mestres olharam pra ela com surpresa. Sorriram, interessados, e lançaram olhares brilhantes pra ela. Royce deixou escapar um ruído. Allie não teve que olhar para saber que estava zangado. Riu.

— OH, là, là. Vai me apresentar eles.

— Nem sonhando — replicou ele— . Você gosta dos loiros, é?

— Muitíssimo — respondeu ela com outra risada.

Os três Mestres se dirigiram para ela. Allie sabia que estavam olhando pra ela, com seu camiseta rosa e seu jeans super justo. Sorriu pra eles sedutoramente. Royce a agarrou pelo braço e puxou caminho acima.

— Brian não era loiro.

— Brian era apenas um bom garoto.

— Que nunca te fez gozar na cama.

— Certo — virou para dar uma última olhada para aqueles bombons— . Quem são eles?

— Isso não importa. Não voltará a vê-los. Estão partindo.

Allie suspirou, fingindo estar desiludida.

— Está com ciúmes?

— Porque estaria? Não me pertence.

— Claro que não — esticou o pescoço para olhar um homem moreno e muito alto, com o cabelo extremamente curto, que saía de uma casa próxima. Ele olhou pra ela duas vezes e logo saudou Royce com uma inclinação de cabeça— . Quer saber uma coisa? Poderia me deixar aqui, não? Moffat não se atreverá a pisar em solo sagrado — ficou séria.

Royce olhou incrédulo pra ela.

E ela compreendeu por que mudou de opinião em relação a mandá-la para a ilha. Desde que começou a querê-la, não suportava a ideia de deixá-la ali, com tantos homens incríveis e super-sensuais. Allie deu de ombros.

— Eu gosto de muito de Carrick, mas não me importaria de ficar um tempo por aqui, enquanto persegue Moffat — disse com toda a inocência que foi capaz — . Porque poderia passar o dia inteiro rezando – olhou pra ele piscando.

Ele engasgou.

— E em que cama se meteria?

— Em que cama? Não pensa em outra coisa? Quero ficar para rezar. Porque sempre fala de sexo?

Royce parou, e ela também se deteve. Olhava irritado pra ela.

— Tenho o pressentimento de que esta brincando. Quer me excitar, me provocar. Quer me deixar com ciúmes!

Tocou sua mão.

— Sim, e é muito fácil conseguir.

— Eu não sou ciumento.

— Não me diga — dissimulou um sorriso.

Nunca conheceu um homem tão ciumento. Ele fez uma careta.

— Se brincar comigo, vai se arrepender.

— Porque? O que vai fazer comigo? — seu coração acelerou ao imaginar cumprindo a promessa.

— Quer que a tome aqui, agora? E o que tem de sua estúpida necessidade de amor?

Suas palavras deram fim a brincadeira.

— Sei que sou importante pra você. Demonstrou isso várias vezes. E você é importante pra mim. Não me importo em dizer. Me importo tanto que estou disposta a aguentar seu mau humor, suas grosserias, sua natureza medieval. Me importo tanto que estou disposta a ficar aqui indefinidamente… e te ajudar a esquecer o passado.

Royce arregalou os olhos.

— Eu só quero foder.

— Pode ser. Pode ser que seja isso o que quer agora, neste dia de outono de 1430. Mas em minha época queria mais. E, além disso, acredito que pode mudar, Royce. Não a mim, mas você mesmo. Acredito que quer algo mais além de sexo, agora mesmo, em 1430. Acredito que por isso absorve minha luz branca como um faminto devora sua última refeição. Acredito que se importa muitíssimocomigo e que isso te aterroriza.

Ele ficou pálido. Então começou a ficar vermelho de raiva.

— Vou te mostrar o quanto me importo contigo — a agarrou pelo braço e começou a puxa-la pelo caminho.

Allie enrijeceu.

— Se está pensando em mudar de tema e falar de sexo outra vez, esquece.

Ele olhou pra ela. Seu olhar brilhava.

— Quer saber o que sinto, o que quero, com o que me importo? Me importo apenas com seu corpo e seu rosto, nada mais! — gritou— . E nunca haverá nada mais. Pare de me pressionar!

— Onde está o homem que passou a noite sentado a meu lado enquanto dormia? Onde está o homem que passou a noite sentado em frente à capela de Dunroch enquanto eu rezava? Onde está o homem que me perguntou pelo futuro… e que escutou tudo o que lhe disse?

— Não existe! — Royce a afastou, deixando-a junto a uma enorme árvore, sozinha.

Como começaram aquela horrível discussão? Allie se abraçou. Quis provocar seu ciúmes, brincar um pouco com ele, mas o tiro saiu pela culatra.

Viu, de longe, que Royce cumprimentava MacNeil. Não olhou pra ela, mas o abade sim. Ela levantou a mão para cumprimenta-lo. Royce se converteu em uma bomba, pronto para explodir a qualquer momento. O que significava aquilo?

Não queria ter dúvidas sobre eles ou seu futuro. Mas de repente tinha a sensação de que, se continuasse pressionando, o perderia para sempre. Desejava saber o que mudou na noite anterior, para Royce ter ficado tão furioso.

— Pode se acalmar? — perguntou MacNeil.

Tinha a impressão de que não podia respirar. Ela olhava com desejo para todos os Mestres, e embora pretendesse irritá-lo e provocá-lo, sua admiração era sincera. Ele leu seus pensamentos: gostava de seus corpos duros, suas caras bonitas. Gostava muito de… gostava de estar na sua cama e se deixar montar por ele durante o êxtase. Se perguntava, quanto tempo ficaria sem um amante. Era uma mulher com fortes necessidades sexuais.

E mesmo conseguindo fazer com que ficasse zangado e cheio de ciúmes, ele estava ciente de que estava tremendo e magoada, pela primeira vez, tinha dúvidas a respeito dele.

Bem, pensou com selvagem satisfação. Que duvidasse! Assim que devia ser. Ele era um Mestre e jamais seria outra coisa, nem para ela nem para nenhuma outra mulher.

«E durante a noite me abraçou, sorriu e conversamos…».

Não podia imaginar estar na cama abraçado e conversando com ela. Era absurdo!

E ele era um mentiroso, pior, mentia muito mal, porque não havia nada que desejasse mais, nem sequer o prazer que podiam dar o um ao outro. O que estava acontecendo com ele?

Devia saltar de novo no tempo para se lembrar de como Brigdhe sofreu nas mãos de Kael por sua culpa?

Sorriu amargamente para MacNeil, que o olhava atentamente.

— É uma mulher muito irritante e provocadora. Uma desobediente — acrescentou rapidamente. Mantinha sua mente fechada para que MacNeil não pudesse ver seus pensamentos— . Não é fácil protegê-la. Me desafia a cada passo.

MacNeil olhou com ligeira incredulidade.

— Não cometa o engano que cometeu com sua esposa.

Royce ficou rígido.

— Se atreve a ler meu pensamento?

— Não preciso. Olha pra ela como um rapaz apaixonado pela primeira vez. Esta escrito na sua cara. Se entregar seu coração, estará perdido, e pode ser que ela também.

— Não tenho coração — grunhiu Royce— . Me arrancaram isso do peito faz muito tempo — estava tão furioso e impressionado que se afastou tremendo.

«Chegou como se voltasse para casa, com sua esposa».

Bom, se esperou por ela quase seiscentos anos sentindo o mesmo que nesse instante, era lógico que chegasse assim em casa. Mas ela nunca seria sua noiva, nem sua esposa, nem sequer sua amante. Sua companheira de cama, sim, algum dia (no futuro, em sua época), se pudesse esperar tanto tempo. E isso não parecia provável.

Não ficava um instante sem sentir a necessidade de estar com ela, dentro dela; sem que não lembrasse do prazer que estava tão perto… e, entretanto, tão longe.

— Me alegro em saber, porque ela pertence à Irmandade, e será sempre assim — disse MacNeil.— Quero que esteja segura e protegida. Se não puder se manter afastado dela, escolherei outro — falava com recriminação.

Royce o olhou nos olhos.

— Você mesmo disse que qualquer homem a desejaria.

— Deveria ter me dado conta de que ficaria louco por ela. Mas não quero sua morte a pesar sobre sua cabeça, Ruari — disse MacNeil com energia. Nesse momento não havia nele nada de afável, nem de encantador.

— Não permitirei que morra — exclamou Royce, contente de que a conversa tivesse tomado outro caminho onde se sentia mais seguro— . Ontem a salvei.

— Sim, cumpriu com seu dever, e os Antigos estão satisfeitos.

Mais calmo, Royce olhou para Allie e viu que se afastava para o santuário. Estava contente e se sentia mais tranquilo. Sabia quanto significavam seus Deuses para ela. Queria que encontrasse paz e alegria no santuário. Ninguém merecia mais.

— Moffat nos declarou guerra com seus atos — disse MacNeil— . Vou á corte para ver se o rei pode fazê-lo criar juízo.

Royce entrou no refeitório com MacNeil e se sentaram em frente a lareira.

— Falaram sobre o futuro?

MacNeil olhou pra ele com cautela.

— Os Antigos me permitiram ver — disse lentamente.

Royce ficou quieto. MacNeil dizia que seus poderes de videncia não eram deles; que os Antigos o deixavam ver o que queriam. Mas Royce estava convencido de que via o que queria e quando queria, e que usava aquela desculpa para evitar que o tomassem por adivinho. Tinha dificuldade pra respirara. Havia tantas coisas em jogo…

— Então, não falou com Aidan.

MacNeil sacudiu a cabeça.

— Vi o futuro no dia que te chamei até Iona para te falar de Ailios. O dia que te mandei a 2010.

Royce respirou fundo.

— Está dizendo que viu minha morte?

— Sim.

Não deveria estar impressionado. Era velho e estava cansado; fazia tempo que era hora de morrer. Mas se levantou, aniquilado. MacNeil também ficou em pé.

— Sinto muito, Ruari. Mas falta muito tempo para 2010.

Royce virou para que não visse sua expressão. Mas e Ailios? Quem a protegeria quando ele não estivesse vivo? Quem a defenderia enquanto curava? Quem compartilharia sua cama?

Passou séculos pensando na sua morte. Nunca se preocupou. Sabia que estava destinado a morrer algum dia.

Virou-se.

— Tem a certeza de que me viu morrer?

— Sim, nas mãos de Moffat. Estava protegendo Ailios. Aidan estava contigo.

Então estava escrito, pensou enquanto se aproximava do fogo. Ficou olhando as chamas sem vê-las. Ailios o seguiu até o passado para impedir sua morte, mas seu destino estava gravado na pedra.

Mesmo assim, a quem mais isso importava? Ninguém.

«A mim sim!».

A voz de Ailios ressoou tão forte como se estivesse ao seu lado. Ailios choraria por ele. Já tinha chorado sobre seu cadáver… e voltaria a chorar.

Tremeu, inseguro. MacNeil o agarrou pelo ombro.

— Todos morremos cedo ou tarde.

Royce conseguiu sorrir. Ninguém sabia que idade tinha MacNeil, mas falavam que tinha muito mais de mil anos.

— Você não morrerá nunca. Quem dirigiria os Mestres, se morresse? — lhe quebrou a voz.

MacNeil olhava pra ele com compaixão.

— Jure — disse Royce com aspereza— , que quando eu morrer cuidará dela. É o mais poderoso entre nós. Me jure que será sua Inocente.

MacNeil assentiu com a cabeça.

— te dou minha palavra.

Royce se afastou, enojado, porque de repente a imaginou na cama. Era inevitável. MacNeil disse em voz baixa:

— Não deveria dizer, mas te ama profundamente, Ruari. Nunca amará outro homem.

Ele virou.

— Também viu isso?

MacNeil vacilou.

— Não. Não posso ver mais à frente do dia de sua morte.

Royce entrou em sua mente e viu que estava dizendo a verdade. Estava claro que esteve espiando a mente de Ailios. Mas isso importava? No fim, MacNeil a seduziria. Não se privaria desse prazer, uma vez que ele estivesse morto.

Royce se afastou. A cabeça parecia que ia explodir. Tinha que esperar por Ailios quinhentos e oitenta anos? Para que? Para uma única noite?

Uma única noite não seria suficiente.

E se isso fosse a única coisa que podia ter, queria que fosse antes. Queria que fosse agora.

— Ruari, não ceda a essa tentação.

Royce se assustou. Estava tão alterado que esqueceu de bloquear seus pensamentos.

— Moffat a persegue. Não sei o que significa o fato dela estar aqui agora, nesta época… e que você não vai morrer antes de seiscentos anos. É uma batalha muito longa.

Royce entendeu tudo de repente.

Moffat não ia morrer no dia seguinte, nem no outro, nem no outro. Ele tinha que persegui-lo, mas a perseguição duraria quase seiscentos anos. E, no final, o derrotado seria ele.

— Você é forte. Pode protegê-la durante todo esse tempo. Estou certo.

Royce não podia responder.

Pela primeira vez em sua vida entrou numa batalha sabendo qual seria o resultado. Aquilo não era uma guerra: era uma travessia para sua própria morte.

Logo cobrou ânimo e se recuperou. Não tinha escolha. Tinha que fazer aquela viagem, devia lutar aquela guerra, porque foi o escolhido e porque Ailios devia viver.

Allie estava banhada em luz bendita. Já não rezava. Se ajoelhou perante os Deuses, no chão da igreja, durante a cerimônia religiosa que louvava o Cladich, o Livro da Cura. Os Deuses derramaram sobre ela suas bençãos, e chorou, levada por uma onda de êxtase religioso.

Quando a cerimônia chegou ao fim, tomou consciência do que a rodeava. Os Deuses se foram. Grandes e escuras sombras penetravam na capela. Sentou-se no chão, tonta. Entrou na capela essa manhã e começou a rezar. Os Antigos foram se aproximando pouco a pouco, e no final a deixaram banhada em seu poder sagrado e curativo. As lágrimas de êxtase secaram sobre seu rosto e ardiam. Se sentia poderosa e fraca ao mesmo tempo.

levantou, enjoada. Se agarrou num banco e esperou que a capela parasse de girara. Nunca teve uma experiência assim, mas estava certa de que todos os Antigos apareceram para ela. Foi incrível.

Respirou fundo e virou. Sua mente começava a clarear. Pensou em Royce, que disse que deveriam partir da ilha fazia horas. Antes que pudesse calcular de que humor estaria pelo atraso, viu uma mulher em pé no fundo da igreja, como se acabasse de entrar pela porta. Seu coração acelerou.

— Mãe?

Elizabeth estava com um vestido longo e claro, e parecia tão material quanto qualquer um. Mas assim que ela falou começou a desaparecer. Através de seu corpo, Allie via as paredes da capela.

— Mãe! Espera! — gritou, e correu para ela.

Elizabeth não sorriu. Ao se aproximar, Allie viu que tinha uma expressão atormentada. Não, estava assustada. Allie parou diante de sua imagem translúcida, terrivelmente assustada. Elizabeth começou a falar com urgência… mas Allie só ouvia seus sussurros.

— Mamãe! O que está acontecendo? O que foi?

— Perigo… você… Ruari… — ela dizia. Em seguida, bruscamente, desapareceu.

Allie sufocou um gemido de espanto. O que aconteceu? Sua mãe voltou a aparecer. E estava assustada. Estava pedindo sua ajuda? Tentava avisar alguma coisa? O que significava aquilo?

Saiu da capela, tremendo. Olhou ao redor, mas era de noite e o céu estava nublado. Além da capela, os edifícios estavam iluminados por dentro com fogo e tochas, mas não viu ninguém se mover. Apesar de estar em solo sagrado, aguçou seus sentidos. A noite era sempre propícia ao mal.

Um homem emergiu das negras sombras. Caminhava determinado para a capela. Allie soube que não era Royce porque sua silhueta era mais magra, e soube também que era um Mestre porque sua aura estava cheia de poder sagrado. Mas estava também cheia de incerteza, o que a surpreendeu. Era como se aquele homem não se conhecesse si mesmo. Diminuiu o passo ao notar sua presença. Cravou o olhar nela e parou diante da capela. Os monges acenderam tochas e o caminho para o jardim estava iluminado. Allie viu o Mestre loiro e muito jovem. Despiu-a com o olhar e seus olhos adotaram uma expressão satisfeita e presunçosa.

— Você deve ser a Curandeira.

Allie deixou de pensar em Elizabeth.

— Sim, sou Allie. E você? — Teve que sorrir. Aquele homem não tinha mais de vinte e um anos, provavelmente, mas era incrível. Sam lamberia os dedos se o visse.

— Sou Seoc — sorriu e se aproximou— . Diziam que sua beleza não tinha rival, mas não acreditava.

Allie sorriu, divertida.

— Claro que tem rival. Deveria ver minhas duas melhores amigas. Não são apenas lindas, mas também, loiras e altas.

— Não me importo que seja tão baixa — disse ele mostrando suas profundas covinhas.

— Estou com Royce — disse ela suavemente. Ele suspirou.

— Sim, também ouvi isso. E dizem que não suporta que olhe pra outro homem — sorriu— . Mas pra mim dá na mesma. Pode me olhar quando quiser. Está certa de que quer ficar com alguém tão velho?

Allie teve que sorrir.

— Quantos anos tem, Seoc?

— Suficientes para te deixar satisfeita.

— Vinte e um? Vinte e dois?

Ele sacudiu a cabeça.

— Minha idade não importa, garota. E demonstrarei com prazer.

— Royce te arrancaria a cabeça… no mínimo — ela disse tranquilamente.

— Certamente — disse Seoc com simpatia— . Mas estou certo de que valeria a pena.

Allie riu.

— Parecia que ia rezar.

— Acabam de me escolher. Meu irmão mandou fazer um pouco de penitência.

Allie viu então sua semelhança com MacNeil. Seoc tinha os mesmos olhos verdes e vívidos, mas no resto era muito mais bonito.

— É irmão de MacNeil?

— Sim — estendeu a mão pra ela— . Vamos conversar um pouco mais. Vou rezar mais tarde — mas virou para olhar para trás.

Allie já tinha sentido que Royce se aproximava e seu coração deu um pulo. Viu que ele subia pelo caminho e ficou parada. Sua aura estava como o inferno, dourada e vermelha. Não era raiva o que sentia, mas um desejo ardente.

O pulso de Allie explodiu, e seu sangue começou a pulsar em harmonia com o que corria pelas veias de Royce e enchia seu pênis. Royce estava atrás dela… e suas intenções eram inconfundíveis. Allie não sabia o que aconteceu, o que mudou. Mas não se importava. Royce a desejava agora, e ia tomá-la. E de repente ela sentiu o prazer que a esperava. Estava tão próximo… Todo seu corpo amoleceu e começou a arder de desejo.

Royce saiu das sombras e a primeira coisa que Allie viu foi seu olhar prateado. Depois o imenso vulto debaixo de seu casaco. Ficou tonta de tanto desejo. Sua carne começou a palpitar, inchando e procurando a dele.

— Bem, bem — disse Seoc.

Allie nem sequer notou o que acontecia a seu lado e que ele sumia na entrada da capela. Umedeceu os lábios e tentou recuperar o controle de sua mente. Precisava de Royce, quente e duro, dentro de seu corpo pequeno e tenso. Mas também precisava que dissesse aquelas palavras, não?

Ele a agarrou pelos ombros com firmeza. Olhou-a nos olhos e havia tanta paixão neles que Allie estremeceu. Royce se deu conta e contraiu o rosto. Allie sufocou um gemido atordoada de prazer. Ele a puxou para si.

— Não posso dizer que te amo — disse num tom intenso— . Nem agora, nem nunca.

Era uma advertência. Allie ficou nervosa. Tentou respirar, tentou pensar. Mas o agarrou pelos quadris. Seu pulso batia freneticamente.

— O que esta acontecendo? — conseguiu perguntar.

— Pode me curar — ele disse sem afastar o olhar dela— . Agora, aqui, esta noite.

Ela se esforçava desesperadamente para compreender.

— Com sexo?

Royce aproximou sua boca.

— Sim. Pode me curar com seu corpo.

Ela o olhou nos olhos e viu algo mais que luxúria. Viu nervosismo, desespero… e medo. Se assustou e tocou sua mandíbula áspera.

— O que aconteceu? Me diga, por favor.

— Agora é tudo diferente — passou seu braço em torno dela e agarrou sua bunda— . Esqueça — mas a esquadrinhava com o olhar— . Ailios, preciso de você — disse.

Allie estendeu os braços pra ele.

 

Royce a agarrou pela cintura da calça, na altura do botão e cobriu sua boca.

Allie gemeu ao sentir o ataque ansioso de sua boca enquanto seus dedos apertavam contra sua carne, por cima da calça e da calcinha de renda. Royce aprofundou a língua e ela gemeu empurrando o ventre para apertar contra suas mãos. Sentia o pulso ardente de Royce palpitar freneticamente em suas veias.

Seu desejo cresceu junto com o de Royce, e sentiu que a excitação dele aumentava. Ele também sentia cada uma de suas reações. De repente, baixou o jeans e se ajoelhou. Allie ficou paralisada. Ele moveu a boca sobre a renda que cobria sua carne palpitante. Colocou um dedo por baixo da calcinha e desviou para o lado a tira. Sua língua percorreu todo o sexo de Allie, lambendo de cima a baixo sua umidade. Ela gemeu de prazer, se agarrando nele.

Sentiu que o pênis de Royce estava tão duro que alcançou proporções incríveis e o viu pulsar. Sentiu que seu desejo explodia e começou a enlouquecer de prazer. Agarrada a seus ombros, gemeu seu nome.

— Royce… me deixe gozar.

Em resposta, ele a deitou no chão sem afastar a boca de seu sexo. E disse:

— Tenho que provar sua luz.

Allie demorou um tempo pra compreender. Então aconteceu uma coisa muito estranha. Alguma coisa a tocou profundamente… e não era físico. Royce estava parado. E de alguma maneira tocou suas entranhas. O pulso de Royce alterou. Allie sentiu que uma repentina onda de poder expandia suas veias. Sua excitação aumentou. Ela gritou e ele agarrou com mais força seus quadris. A onda de prazer se intensificava dentro dele, e dentro dela.

Royce se conteve interiormente lutando para conter o clímax. Allie queria gritar pra que ele a deixasse gozar, mas ele voltou a tocá-la de forma diferente.

Foi uma carícia entre almas.

Royce nunca esteve tão forte, tão viril; seu poder se tornou imenso. Ele sabia, e ela também. Allie sentiu que ele começava a gozar.

Ela nunca tinha experimentou um clímax semelhante. O poder de seu próprio corpo envolveu  Royce, e ela nunca sentiu uma luxúria tão intensa, uma excitação tão grande que cegava a ambos. Só havia prazer, poder, dor e êxtase. O clímax de Royce se tornou seu.

Royce foi subindo sobre ela e agarrou seu rosto. Allie olhou seus olhos grandes e ardentes, consciente de que estava tão assustado quanto ela. Penetrava profundamente em seu sexo, esticando seu corpo tenso. Rugia de prazer enquanto ela chorava pelo prazer crescente. O clímax aumentou para ambos, juntos. Estavam em algum lugar acima da terra, voaram e explodiram se convertendo em estrelas. Allie sabia que jamais voltaria a tocar o chão.

Ele voltou a penetrar profundamente nela, mas não em seu corpo molhado e quente, mas em seu poder, em sua luz, em sua alma, e Allie o abraçou e se fez em pedacinhos, cheia de alegria e prazer.

Horas depois, quando enfim se acalmaram, Allie abraçou com força o corpo de Royce. Mesmo estando exausta, girava num furacão físico e emocional. Cada vez que se deitava com ele era melhor que a anterior. Mas desta vez Royce fez amor com ela. Estava verta disso. Desta vez houve uma conexão, uma união, que não era física. Sentia como se Royce tivesse entrado em seu interior e amarrado suas almas.

Ele a estreitou entre seus braços.

Allie sorriu contra seu peito escorregadio. Certamente ele não sabia, mas estava abraçando ela. E então se deu conta de como estava esgotada.

Ele a abraçou mais um pouco e então virou, deitando de costas. Allie estava tão cansada que não podia se mexer. Ficaram um bom tempo deitados fora da capela, sobre seu manto xadrez, olhando o amanhecer. Ele disse por fim:

— Te machuquei?

Allie suspirou, tentou se concentrar e virou para acariciar o lado dele. Royce olhou pra ela inquisitivamente. Sorriu pra ele.

— Não. Foi incrível. O que aconteceu?

Ele demorou um tempo pra responder. Incorporou-se.

— Como você e sente?

— Estou moída — se aproximou um pouco mais para se aconchegar a seu lado.

Royce a agarrou pelo ombro.

— Pode se sentar?

Claro que podia. Sentou e Royce a colocou seu braço como se quisesse ssegurá-la. Ela se aconchegou junto a ele.

— Estou com frio — disse.

Ele vacilou, em seguida voltou a deitar, levando ela com ele sem deixar de abraçá-la. Mais uma vitória e Allie sorriu, mas se conteve para não beijar a pele de suas costelas, de seu peito, de seu pescoço. Seu coração explodia de amor.

Ele a cobriu com metade do manto sobre o qual estavam deitados.

— Esta melhor?

— Sim, muito melhor — se aproximou dele— . O que aconteceu, Royce? Nos unimos fora de nossos corpos.

— A Puissance — disse ele bruscamente.

Ela levantou o olhar para ele. Royce não sorria. Allie queria que fosse tão feliz quanto ela.

— O poder?

— Sim — olhou pra ela — . Avisei posso tomar poder de quem quizer. Provei seu poder, Ailios. Foi estupendo.

Ela voltou a se excitar, apesar de estar fraca. E ele também. Fechou os olhos.

— O Código proíbe a Puissance, que é obter poder através do prazer sexual — deu um olhar muito viril pra ela — . Mas o prazer aumenta imensamente o poder… e vice-versa.

— É claro que sim. Quem se importa que seja proibido? — ela exclamou— . Foi incrível.

Ele se sentou de repente e afastou o olhar. Parecia infeliz.

— Os Deuses nos concederam o poder de tirar a vida para que pudéssemos nos defender do mal e nos curar se nos ferissem de morte. Não nos deram esse poder para usar na cama.

— O que eles sabem… — Allie falou, sentando com esforço. Sentindo o frio da manhã, jogou a metade do manto sobre os ombros.

Ele a olhou nos olhos.

— Um Mestre pode perder a cabeça na Puissance. Pode absorver muita vida. E a mulher pode morrer.

— Você não absorveu muito da minha — disse ela acariciando o peito dele — . Não estou morta, só moída.

— Eu me controlo — disse ele— . Não sou jovem, nem ardente.

Allie riu. Não podia imaginar como era quando rapaz «jovem e ardente». Ele deu um olhar estranho e intenso. Estava muito sério quando disse em voz baixa:

— Seu poder é tão puro… Não sabia que podia existir um poder tão bom.

Allie ficou séria. Lembrava como a aura de Royce absorvia sua luz branca nas vezes em que tentou curá-lo.

— É sagrada. Seu poder é sagrado. Não acredito que os Antigos estejam muito felizes comigo — disse Royce sem inflexão.

Não gostou de como soava aquilo.

— Não vão saber.

— Eles sabem tudo. E também MacNeil — acrescentou sombriamente. Parecia muito chateado.

Allie ficou nervosa.

— Royce, o que acontece quando um Mestre viola o Código? É preso? — perguntou.

— Cai… ou algo pior.

— Cai… como os anjos caídos? — começou a se assustar.

— Eu não cairei, mas sim, os Mestres passaram às trevas ao provar esse poder, ao tomar o que não lhes pertence, ao descobrir a Puissance e ansiá-la mais e mais.

«Como um drogado», pensou Allie. E nesse instante o entendeu. Era o outro lado da moeda de um crime de prazer.

— Os demônios tiram a vida de suas vítimas durante o encontro sexual. Está claro que isso os excita.

OH, Meu Deus. Tomar poder… tomar vida durante o ato… também excita os Mestres.

— Quanto maior é o poder, mais intensa é a Puissance — a olhava fixamente— . Quando a gente começa, é terrivelmente difícil resistir. Eu tinha que tocar sua luz. Só queria tocá-la, Ailios. Uma só vez — tomou seu rosto entre as mãos, e Allie se assustou por sua ternura— . E então provei um pouco. Um pouco de seu puro poder branco. Precisava de você, garota.

Allie sentiu de novo o palpitar de seu pulso. Royce estava pensando em seu poder curativo correndo por suas próprias veias. Estava pensando no êxtase violento, mas lindo que compartilharam.

— E foi delicioso sentir meu poder em suas veias — murmurou ela— . Sei porque senti tudo o que você sentia. Te deixou mais forte, mais resistente, mais insaciável. E se estivesse lutando em uma batalha, seria invencível.

— Poderia ter ficado dias dentro de ti. Mas certamente te mataria — se levantou— . É uma sorte que possa controlar essa ânsia. Outros não podem. Não voltarei a tomar seu poder. Pertence a todos os homens, e eu não tenho direito sobre ele — falava ferozmente.

Allie também se levantou. Seu poder pertencia à humanidade, isso era inegável.

— Então, o que pode acontecer agora? O que queria dizer com que podia cair… ou algo pior?

Ele deixou escapar um som.

— Há sofrimento e há morte, Ailios. Todo Mestre paga por seus crimes.

Ela conteve o fôlego ao pensar em sua morte futura… que eles foram desfazer.

— Estou bem. E os Antigos sabem, se estão nos espiando.

— Sim? — colocou o casaco.

Allie se envolveu em seu manto, preocupada que ele pudesse pagar um preço por tomar seu poder.

— Claro que estou bem — mas assim que falou se deu conta de que seus sentidos estavam anestesiados.

Estava em harmonia com Royce. Mas a seu redor a noite parecia estranhamente vazia. Deveria estar sentindo a força vital dos grilos, dos pássaros, das folhas e das árvores, assim como a energia humana nas construções mais à frente. Se esforçou e por fim sentiu o poder que emanava dos Mestres e dos monges do mosteiro, mas abafado. Sentiu angústia quando olhou para Royce.

— O que esta acontecendo? — ele perguntou.

— Sinto os homens do monastério. Não sinto a vida que nos rodeia! — se esforçou de novo e sentiu um leve sussurro de energia procedente dos insetos, das flores e da fauna do bosque.

Royce tirou sua adaga e fez um corte no polegar. Allie viu brotar o sangue.

— Me cure — disse ele.

Ela vacilou; logo fez provisão de sua luz branca. Para sua surpresa e seu desalento, teve que fazer um grande esforço para encontrá-la. E custou ainda mais deter a hemorragia do pequeno corte. Quando a ferida deixou de sangrar, estava suando e sem fôlego. Levantou o olhar lentamente. Como era possível?

— Está proibido com uma mulher comum, mas tomei poder de ti, de uma Curandeira — se inclinou e começou a recolher a roupa de Allie.

Ela o tocou.

— Não diremos a ninguém. Quanto tempo durará?

— Não sei — se ergueu e deu sua roupa— . Não fomos muito discretos, Ailios.

Ela ficou pálida. Royce tinha rugido de prazer uma e outra vez… e ela soluçou freneticamente ao alcançar o êxtase.

— Vista-se — ele disse.

O sol estava se elevando no céu, entre detestáveis nuvens, quando se dirigiram juntos de volta para um dos edifícios maiores, no centro do mosteiro. Royce estava tão sério que Allie começava a se angustiar. E quando passaram junto a vários Mestres que também se dirigiam para o refeitório, nenhum deles olhou para eles.

Allie estava cada vez mais inquieta.

Então viu Seoc no pórtico, com os braços cruzados e os olhos entreabertos mas fixos neles. Allie sentiu sua curiosidade e corou. Seoc deu meia volta e entrou.

— Nos metemos em alguma confusão? — perguntou ela em voz baixa.

Royce não teve tempo de responder. MacNeil saiu do refeitório com o rosto tenso. Baixou os degraus e perguntou para Allie:

— Como está?

Ela forçou um sorriso radiante.

— Muito bem. Perfeitamente, de fato.

Ele proferiu um som.

— Seu poder está em perigo.

Allie enrijeceu.

— Foi minha culpa. Já sabe… Adão e Eva e a perversidade das mulheres…

— Precisa de descanso. Acredito que estará melhor dentro de algumas horas — a agarrou pelo ombro e assinalou para uma casa— . Pode dormir em minha cama.

Allie esperava que Royce fosse às nuvens, mas ele permaneceu impassível, sem dizer uma palavra.

— Foi minha culpa, de verdade, e não penso ir a nenhuma parte sem Royce — se soltou da mão de MacNeil.

O semblante do abade endureceu.

— Sua mãe não era tão difícil.

Allie deu de ombros. MacNeil olhou para Royce.

— A rainha está a caminho de Carrick.

Royce se sobressaltou.

— Tem certeza?

— Seoc chegou ontem à noite. Se encontrou com sua comitiva no caminho.

Allie olhou para os dois.

— A rainha? Da Escócia?

MacNeil a olhou.

— Sim — em seguida disse— : Royce tem que voltar para Carrick. Você ficará aqui.

Allie estava atônita.

— Sim — disse Royce severamente.

— Eu vou contigo! — replicou ela. MacNeil a agarrou com força pelo ombro.

— Não pode voltar a se machucar.

Ela se soltou.

— Ninguém vai me fazer mal. E muito menos Royce!

Royce a olhou com o rosto tão tenso que parecia uma estátua.

— MacNeil tem razão. Coloquei seu poder em perigo. Não tinha direito. Aqui estará mais segura. Seu destino está aqui, Ailios.

Allie estava furiosa. Se aproximou de Royce e olhou para MacNeil.

— Você não manda em mim. Não é meu dono e não pode me dar ordens. Eu irei aonde Royce vá.

— Apenas uma noite e dá as costas aos Deuses e ao destino?

Allie enrijeceu, irada.

— É muito mais que uma noite e você sabe.

— Sim, sei que o ama profundamente. Mas não fez os votos, os mesmos votos que fez sua mãe? Pode dar as costas a qualquer criatura inocente, humana ou animal, se precisar de você? — perguntou MacNeil, muito sério— . Não jurou ajudar a quem sofre? Poderia curar a um pássaro ferido agora mesmo?

Allie não sabia o que podia fazer, e sua falta de poder lhe assustava.

— Nunca dei as costas aos que sofrem e nunca farei — disse por fim.

MacNeil assentiu, satisfeito.

— Então Royce parte e você fica.

— Não! — um medo terrível a embargou— . Você não entende. Preciso ter Royce a meu lado quando curo. Ele pode me proteger, MacNeil. E te juro que não voltaremos a ultrapassar os limites da cama — sentia pânico.

— Há centenas de Mestres para te proteger — respondeu MacNeil duramente— . Mandarei chamar Aidan para que se ocupe disso.

Allie sentiu que o coração de Royce acelerou. Ela olhou par ele desesperada. Mas ele disse:

— Aidan te defenderá. Aprovo a eleição.

Aquilo não podia estar acontecendo, pensou Allie.

— Porque dá razão a ele?

Royce corou.

— Não sei o que poderia acontecer se voltássemos a nos deitar.

— O que quer dizer com isso? — gemeu ela.

— Quer dizer que não sabe o que fará se perder a cabeça — respondeu MacNeil secamente.

Royce não confiava em si mesmo.

— Eu confio em você — ela disse. Se olharam fixamente— . Sempre confiei em você. E sempre o farei.

— Nada de bom pode acontecer com sua presença em minha vida — disse ele lentamente.

Ela gritou.

— Vai me abandonar agora?

O rosto de Royce endureceu, e essa resposta foi suficiente.

O coração de Allie parecia romper. Não esperava aquilo. Sofria tanto que custava pensar com clareza. Royce tentava protegê-la de novo. De certo modo, tinham razão. Royce e ela colocaram em perigo seu destino. Tinha que recuperar seus poderes. Mas assim que os recuperasse poderia se reunir com Royce. Se asseguraria que ele não voltasse a absorver seu poder. Mas uma imagem cintilou em sua cabeça: a terrível lembrança de como absorveu sua luz branca a aura de Royce nas vezes em que tentou curá-lo. Olhou para MacNeil.

— Quanto tempo nos manterá separados? — perguntou.

MacNeil fixou seu intenso olhar em Royce.

— Até que esqueça o que pode lhe trazer seu poder.

Allie soluçou.

— O que significa isso?

Royce se negava a olhá-la nos olhos. Allie sabia que ela jamais esqueceria a paixão dessa noite. Nem tampouco Royce.

— E um corno — espetou— . Isto é temporário. Assim que estiver melhor, assim que recuperar meu poder, vou para Carrick.

— Não pode ter ambas as coisas. Pertence à humanidade ou pertence ao amor. E todos sabemos o que escolhe.

Allie se sentiu tonta. O chão parecia ter afundado sob seus pés. Sempre soube que seu destino era maior e mais transcendente que a possibilidade de encontrar o verdadeiro amor. Nunca imaginou que teria que escolher. Mas secretamente sonhou com alguém como Royce; sonhou encontrar a sua alma gêmea.

— Sinto muito, garota — disse MacNeil— . Tenho que pensar no bem comum, não na paixão ou no amor terrestre. Se despeçam — sorriu severamente e voltou para o refeitório.

Allie não podia se mexer. Seu coração lamentava a gritos. Mas sua mente começou a lhe recordar que as pessoas precisavam dela. O mundo podia ser um lugar horrível sem seus poderes curativos. Royce sorriu pra ela com tristeza.

— Voltaremos a nos ver. Isto é o melhor para todos.

— Não! Não é o melhor! O melhor é ter ambos os mundos, que estejamos juntos e que meus poderes sejam mais fortes que nunca — soluçou ela, agarrando as mãos dele. Temia que, se o soltasse, fosse para sempre— . Quando voltarei a te ver, Royce? Quando?

Apertou as mãos dele com firmeza.

— Alguma vez te disse que sua luz é o que há de mais bonito em você? — perguntou serenamente.

Ela chorava.

— Isso é porque precisa que te cure — murmurou.

— Vivo assim há séculos. Guarda seu poder para quem precisa dele de verdade — disse ele em voz baixa.

Ela sacudiu a cabeça. Royce precisava que o curasse, precisava dela, e ela dele. Mas a humanidade também precisava dela.

— Acabamos de começar, Royce. Isto não pode ser o fim — implorou, subindo as mãos por seu peito— . Por favor, me ajude a lutar contra este absurdo. Me ajude a encontrar uma solução. Porque teve que tomar meu poder?

— Não pretendia fazer isso — disse ele— . Desejava seu corpo, Ailios, e então, não foi suficiente.

Allie se apoiou contra ele e Royce a abraçou.

— Isto não é o fim. É o princípio.

Ele disse contra seu cabelo:

— MacNeil é o mais sábio entre os homens. E tem que pensar nos Deuses, na Irmandade e em Alvorada. Eu não sou um homem comum. Nem você uma mulher comum. Pertence a Alvorada, Ailios — sua voz se tornou estranha e densa.

Ela o olhou e viu que seus olhos brilhavam.

— Vai reconhecer que está triste? Que tenho importância pra você?

Ele tomou seu rosto entre as mãos.

— Sim, é importante pra mim.

Ela respirou fundo e começou a tremer violentamente. Royce a soltou. Um momento depois, Allie o viu sair pelas portas do mosteiro à estrada que o afastaria dela.

Sentada sob uma árvore muito alta, Allie abraçava os joelhos contra o peito. Deixaram que ficasse sozinha essa manhã, o que era uma sorte. Por mais que repetisse para si mesma que Royce e ela voltariam a ficar juntos, que superariam aquele horrível momento, não conseguia que seu otimismo levantasse voo. Seu coração doía. Tinha vontade de chorar. Se sentia insegura e sem esperanças. Não queria que ninguém fosse testemunha de seu abatimento.

Por fim começou a chover.

Se ajeitou debaixo do manto xadrez que usava sobre o jeans e a camiseta. Estava preocupada com Royce, e não só porque pudusse ir atrás de Moffat, o homem que o mataria se não mudassem o futuro. Sentia uma forte inquietação, uma ameaça. Alguma coisa estava errada, pressentia, e tinha a ver com Royce.

Nunca esqueceria seu olhar ao se despedir dela, nem o som de sua voz ao lhe dizer que era importante para ele.

— Allie?

Se levantou ao ouvir a voz de Claire e virou bruscamente. Compreendeu angustiada que seus sentidos continuavam adormecidos. Deveria ter sentido o poder de Claire ao aproximar-se.

Claire sorriu, indecisa.

— Vamos. Faz frio e vai cair um dilúvio.

Allie caminhou com ela para o edifício mais próximo.

— Quando chegou?

— Agora mesmo — Claire entrou no refeitório e Allie a seguiu. Estava vazio— . ouvi que Royce partiu para Carrick.

Allie disse para si que não devia se lamentar abertamente.

— MacNeil decidiu que não pode me proteger e que devíamos nos separar.

— MacNeil está acostumado a ter razão. Como você está?

Allie se sobressaltou.

— Sabe tudo?

Claire assentiu com a cabeça.

— Eu passei pelo mesmo, Allie. Quando conheci Malcom, ele lutava com a tentação… e ambos lutamos por sua alma. Estou certa de que a alma de Royce não está em perigo, mas todos precisamos de seu poder. Esse tipo de sexo é realmente perigoso.

— Então, está do lado deles — disse Allie, zangada.

— Não — Claire tirou uma mecha de cabelo molhado da bochecha— . Não, estou do seu lado. Sou uma romântica. Custo acreditar que fez Royce perder o controle, mas assim foi. E, para mim, isso diz tudo. Acreditava que Royce sempre seria dono de si mesmo.

Allie pensou que Royce se controlou na noite anterior. E então sorriu, pensando em seu ciúmes.

— Como o vê? — perguntou.

— Acredito que está muito apaixonado por você. Royce é frio até não poder mais. Ou era.

— Sou importante, ele mesmo me disse isso — Allie se aproximou de uma cadeira de anea e se sentou junto ao pequeno fogo, tentando esquentar seu corpo gelado. Era impossível — . Acredito que voltei para a normalidade. Meus sentidos estavam anestesiados depois de fazer amor, mas agora são tão sensíveis como sempre.

— Sério? Porque não sentiu quando me aproximei.

Allie corou, apanhada em uma mentira.

— Recuperei meus sentidos… quase por completo.

Claire aproximou outra cadeira.

— Sei que sua mãe foi uma grande Curandeira e Sacerdotisa. Pode ser que seu destino seja maior do que imagina. No início, todo mundo era contra minha relação com Malcolm. Mas juntos somos muito mais fortes. E cada dia ficamos mais. Pode ser que no fim aconteça o mesmo com Royce e você.

Allie fez uma careta.

— Royce precisa se livrar de sua dor, de seu passado. Enquanto não fizer, não deixará que me aproxime o suficiente para fortalecê-lo.

Claire se surpreendeu.

— Royce sofre? por que? De que passado está falando?

Allie fez um gesto para tirar importância ao assunto.

— Esquece. Agora mesmo tenho que sair desta ilha. Ao diabo com MacNeil. Tenho um mau pressentimento a respeito de Royce. Precisa de mim. Pode ser que esteja em perigo — os olhos de Claire aumentaram. Allie se levantou e a olhou fixamente— . O que está escondendo de mim?

Claire corou e ficou em pé.

— A verdade é que Malcolm e eu viemos a Iona por uma razão. Queríamos advertir Royce de que Juana Beaufort estava a caminho de Carrick.

O coração de Allie deu um pulo. Não gostava do tom cauteloso de Claire.

— Esta se referindo à rainha da Escócia? Porque MacNeil disse que ia para lá.

— Sim — disse Claire em voz muito baixa.

— O que acontece? — perguntou Allie.

Claire mordeu o lábio.

— O que está escondendo de mim? — soluçou Allie.

Claire vacilou.

— Allie, viemos advertir Royce. Não quero que pense sequer em enfrentar Juana Beaufort.

Estava acontecendo alguma coisa.

— É a segunda vez que diz que veio pra adverti-lo. A rainha é um demônio? Royce esta em perigo? — enquanto falava, sentiu aumentar sua angústia.

Claire disse:

— Bom, só estará em perigo se a rejeitar. Sei que não está familiarizada com nosso mundo, mas ninguém pode se opor ao rei ou à rainha. Aqui, os reis podem decidir executar alguém sem nenhum motivo. Não há juizes, nem jurado, e muito pouca lei.

Allie respirava entrecortadamente.

Fale de uma vez!

Claire disse:

— Royce foi, e pode ser que continue sendo, amante da rainha.

Allie ficou como pedra. Depois, com muita raiva.

— E um corno!

Royce entrou na praça interior de Carrick. Por fim conseguiu se distanciar um pouco de seu coração. Passava o dia todo entristecido pela sensação de ter perdido algo. E durante todo o dia tentou se defender dessa sensação… e da lembrança de Allie. Agora tinha assuntos muito mais urgentes para se ocupar. Da rainha, por exemplo.

Fazia anos que conhecia Juana Beaufort e que era seu amante, mas em todos esses anos ela nunca visitou Morvern. Quando desejava seus serviços, mandava chamá-lo na corte. Royce ia às vezes, mas quase sempre ignorava suas chamadas. Não porque não gostasse de se deitar com sua senhora (Juana tinha muitos amantes, e era bonita e fogosa), mas sim porque seus votos vinham em primeiro lugar e as chamadas da rainha costumavam chegar em momentos inconvenientes. E embora poucos homens se atreveriam a rejeitá-la, nunca se importou que fosse ficar transtornada. Era consciente de que Juana podia cansar de sua arrogância e ordenar que cravassem sua cabeça numa lança… sem o corpo em baixo. Mas Royce nunca se importou.

E quando estavam juntos era fácil lembrar que valia mais estando vivo. Na cama, Juana era insaciável, perversa e fácil de controlar.

Agora, entretanto, para Royce importava sua cabeça. Não podia deixar este mundo enquanto Moffat perseguisse Ailios. Por desgraça, sua falta de indiferença para seu destino debilitava enormemente sua posição.

Mas Juana não foi para Carrick porque sentia falta de suas façanhas na cama. Royce não tinha nenhuma dúvida de que foi ver com seus próprios olhos se era certo o rumor de que havia ali uma Curandeira com poderes assombrosos.

Embora MacNeil não tivesse ordenado que ele voltasse sozinho para Carrick, ele preferia deixar Ailios por lá. Juana não devia saber quão poderosa era. E estava certo de que Ailios não poderia ocultar suas faculdades por muito tempo, inclusive diante de alguém tão perigoso quanto a rainha. Porque a ambição e a astúcia de Juana não tinham limites.

Donald se aproximou correndo com um amplo sorriso no rosto. Royce desmontou do cavalo e entregou as rédeas pra ele. Ele revolveu o cabelo ao rapaz e olhou para os guardas reais que goardavam sua própria porta. Já tinha visto os pendões reais ondeando em suas torres. Juana Beaufort se instalou no castelo.

— Como está, rapaz? — perguntou.

— A rainha está aqui! — exclamou Donald, maravilhado— . Quando lhe fiz uma reverência, estava tão perto que pude tocar sua saia.

Royce ocultou um sorriso e disse severamente:

— Sua senhora é inglesa, rapaz, não esqueça.

Donald ficou sério.

— Mas o rei é escocês.

— Sim — Royce saudou seus homens com uma inclinação de cabeça enquanto se dirigia para a pesada porta. Os guardas cortaram seu passo com suas lanças.

— Sou o conde de Morvern. Apartem as armas antes de que as arranque — Disse com bastante amabilidade. Mas estava furioso porque Juana colocou guardas diante de sua porta. A rainha queria exibir seu poder para ele… mas seu poder não era absoluto, e ela o recordaria muito em breve, na cama.

Os guardas titubearam.

Royce tirou sua adaga tão rapidamente que não lhes deu tempo de respirar, e com a mesma rapidez desembainhou sua espada. Introduziu-a sob as lanças e as levantou. Aproximou a adaga ao pescoço de um dos soldados.

— Aqui mando eu — disse.

Os guardas baixaram as lanças.

— Saiam — gritou, irado. Não queria absolutamente de se deitar com a rainha. Antigamente desfrutou de suas paixões perversas. Agora, parecia um esforço diverti-la… e se divertir. A mulher com quem desejava se deitar essa noite se encontrava muito longe de Carrick… e agora estava proibida pra ele.

Entrou no salão embainhando a adaga e a espada. Juana estava sentada junto á lareira, de costas para ele. Suas damas a rodeavam e havia outros seis guardas na sala. De média estatura, peitos grandes e cabelo loiro claro, célebre por sua grande beleza,a rainha não virou para saudá-lo.

— Estou extremamente desgostosa, Ruari — seu tom era glacial.

Ele deixou de lado todos seus temores. Se negava a pensar em Ailios.

— Se assim for, peço perdão — disse com firmeza, colocando-se diante dela.

Juana tinha uns chamativos olhos azuis e os traços muito finos. Parecia um anjo, mas não era. O rei Jacobo se apaixonou por ela a primeira vista, enquanto estava prisioneiro na corte da Inglaterra. Continuava a amando… e ignorava sua assombrosa falta de fidelidade.

Royce reparou em que usava um vestido na moda da França, excessivamente apertado no peito e com um grande decote. Se respirasse fundo, podia ver seus mamilos, e Juana era muito consciente disso.

— Pode suplicar meu perdão — disse.

Royce tentou conter sua ira. Fincou um joelho e olhou fixamente para o chão.

— Suplico, se isso agradar a Sua Majestade.

— Me agrada enormemente — replicou ela.

Royce não levantou os olhos:a rainha não tinha dado permissão para fazê-lo. A ira se apoderou dele. Fora da cama, Juana era uma déspota. Se não a usasse na cama, como ia recuperar seu poder sobre ela? Mas estava seguro de que Ailios ficaria furiosa se se deitasse com a rainha.

— Nos deixem a sós imediatamente — disse Juana a suas damas de companhia e aos guardas.

O coração de Royce acelerou. Não queria pensar em Ailios nesse momento. Não eram amantes, nem tinham feito promessas. E apesar de ter sentimentos contraditórios em relação a Juana e ao que aconteceria essa noite, o sangue começou a se amontoar em sua virilha. Claro que a ira podia se confundir facilmente com a luxúria.

— Chegamos ontem e não nos recebeu como é devido — disse Juana— . Suas criadas são idiotas… mas estou certa de que seu verdadeiro propósito nesta casa não é o de uma faxineira. Fodeu com todas? Pode levantar a vista.

Ele elevou a cabeça e se encontrou com seus olhos brilhantes e furiosos.

— Sim.

Ela corou.

— Onde estava, Ruari? — perguntou— . O que há mais importante que eu?

— Estava em Dunroch. Não há nada mais importante que você, Juana — sempre sabia quando chamá-la por seu nome de batismo.

— Passei a noite só — murmurou ela, ardente e doída.

Custava acreditar. Ficou de pé.

— Sinto muito — murmurou, tomando uma das mãos— . Me permita te demonstrar quanto — pensou em Ailios em seus braços, conduzindo-o ao êxtase da Puissance.

Conseguiu separar dele aquela lembrança.

— Não sente. Você nunca sente. Faz o que deseja muito, apesar de que sou sua senhora — se levantou e olhou as abas de seu casaco. Umedeceu os lábios e disse— : Chamei você na corte faz seis meses e nem sequer respondeu.

Royce se aproximou muito dela, enredando-se de propósito em suas saias. Ela conteve o fôlego. Divertido, consciente de que o desejo a reduzia à condição de uma mendiga, Royce murmurou:

— Devia estar raivosa, esperando minha chegada.

Ela levantou lentamente o olhar do que se erguia entre eles.

— Ontem à noite estava raivosa, sim… esperando que viesse para mim.

Ele sorriu.

— Pode ser que esteja cansada de dar tantas ordens. Talvez precise de um homem que mande em você. E pode ser que te convenha esperar, não é? — agarrou-a pela cintura e a separou dele.

Ela soluçou, excitada.

— Isso jamais — sussurrou com aspereza— . Eu